Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ACHA / Guy de Maupassant
A ACHA / Guy de Maupassant

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ACHA

 

Era um pequeno salão, todo forrado de reposteiros espessos, e discretamente perfumado. Um fogo vivo flamejava numa grande lareira, a cujo canto, uma só lâmpada derramava uma luz branda, suavizada por um abajur de renda antiga, sobre duas pessoas que conversavam.

Ela, a dona da casa, uma velhota de cabelos brancos, era uma dessas velhas adoráveis, de pele sem rugas, fina como papel de seda e perfumada, toda impregnada de perfumes, penetrada até à carne das essências finas, uma dessas velhas que exalavam, quando se lhes beija a mão, o mesmo odor suave que nos salta ao olfato quando abrimos uma caixa de pó de íris florentino.

Ele, era um velho amigo que ficara solteiro, um amigo de todas as semanas, um companheiro na viagem da existência. Só isso, aliás.

Haviam parado de conversar fazia um minuto pouco mais ou menos, e ambos olhavam o fogo, sonhando qualquer coisa vaga, num desses silêncios amigos da gente que não sente a necessidade de estar sempre falando para se lamentar mutuamente.

E, de súbito, uma grossa acha, um tronco eriçado de raízes inflamadas, ruiu. Pulou por cima das grelhas e, arrojado no salão, rolou pelo tapete, espalhando faíscas de fogo.

A velha deu um gritinho e levantou-se como para fugir, enquanto ele, com a ponta do pé, lançava outra vez na lareira o enorme pedaço de madeira, avivando a sola dos sapatos todos os carvões em brasa que o rodearam.

Evitando o desastre, sentiu-se um forte cheiro a chamusco. O homem sentou-se novamente diante de sua amiga e, olhando, sorrindo para ela, disse, apontando a acha, posta novamente no fogão: "Eis porque nunca me casei."

Ela observou-o, assombrada, com esse olhar curioso que têm as mulheres quando querem saber alguma coisa, esse olhar das mulheres já entradas em anos, de uma curiosidade refletida, complicada, às vezes maliciosa. E perguntou-lhe:

Como assim?

- Ohh, é toda uma história, prosseguiu, uma história triste e feia.

Meus antigos camaradas mais de uma vez estranharam a frieza surgida de repente entre mim e um dos meus melhores amigos, Julien. Não compreendiam como dois íntimos, dois inseparáveis como nós, pudessem transformar-se de um dia para outro em duas pessoas quase estranhas. Eis o segredo de nosso afastamento.

Morávamos juntos. Nunca nos separávamos; e a amizade que nos ligava parecia tão forte que nada era capaz de quebrá-la.

Uma noite, ao entrar, anunciou-me seu casamento.

Senti um golpe no peito, como se me tivessem roubado ou traído. Quando um amigo se casa, é um amigo perdido, e para sempre. A afeição ciumenta de uma mulher, essa afeição desconfiada, inquieta e carnal, não tolera o apego vigoroso e franco, este apego de espírito, de coração e de confiança que existe entre dois homens.

Acredite, qualquer que seja o amor que os solde um ao outro, o homem e a mulher são sempre estranhos de alma, de inteligência; permanecem beligerantes; são de raças diferentes; deve haver sempre um domador e um domado, um senhor e um escravo; seja um ou outro; nunca os dois são iguais. Estreitam as mãos e as mãos estremecem de ardor; contudo, jamais as apertam numa larga e forte pressão leal, dessa pressão que parece abrir os corações, desnudá-los, num arranque de sincera, forte e viril afeição. Manda a sabedoria que, ao invés da gente se casar e procurar, como consolação, para os dias da velhice, filhos que nos abandonem, procuremos um bom e sólido amigo, e envelheçamos com ele nessa comunhão de pensamentos que não pode existir senão entre dois homens.

Enfim, meu amigo Julien casou. Sua mulher era bonita, encantadora, uma pequenina loura frisada, viva, rechonchudinha, que parecia adorá-lo.

A princípio ia pouco a casa deles, receando estorvar sua ternura, ao aparecer demasiado; e algumas vezes, quando regressava à casa de noite, cogitava em seguir seu exemplo, decidindo-me por uma mulher, tão triste e vazia me parecia a casa.

Parecia que se amavam; não se separavam nunca. Certa noite Julien escreveu-me, pedindo-me que fosse jantar com eles. Fui. "Meu velho, disse ele, levantando-se da mesa, tenho que me ausentar para tratar dum negócio. Não estarei de volta antes das onze; mas, às onze em ponto, estarei aqui. Conto com você para que faça companhia a Berthe."

A jovem esposa sorriu: "Fui eu, aliás, disse, quem teve a idéia de mandar chamá-lo."

Apertei-lhe a mão: "Você é muitíssimo amável." e senti em meus dedos uma longa e amigável pressão. Não dei importância ao caso. Sentamo-nos à mesa; e, às oito horas, Julien partiu.

Mal ele saiu, uma espécie de singular mal-estar surgiu bruscamente entre mim e a sua mulher. Nunca nos tínhamos visto sozinhos e, apesar de nossa intimidade, que crescia dia a dia, o tête-à-tête colocava-nos numa nova situação. Comecei por falar de coisas vagas, dessas coisas insignificantes com que se enchem os silêncios embaraçosos. Ela não me respondia nada e permanecia diante de mim, do outro lado da lareira, de cabeça baixa, o olhar indeciso, um pé estendido para o fogo, como que perdida numa difícil meditação. Quando esgotei todas as minhas idéias banais, calei-me.

É curioso como às vezes é difícil achar coisas que dizer. Pois bem; eu sentia que havia qualquer coisa de novo no ar, algo invisível, um não sei quê impossível de expressar, essa advertência misteriosa que nos previne das intenções secretas, boas ou más, de outra pessoa a nosso respeito.

Esse silêncio penoso durou algum tempo. Depois, Berthe disse-me: "Bote uma acha ao fogo, meu amigo; está-se apagando". Fui ao cesto da lenha, colocado justamente como o seu, e peguei uma acha, a mais grossa de todas, dispondo-a em pirâmide sobre os outros pedaços de madeira, quase inteiramente consumidos.

E fez-se novamente silêncio.

Passados alguns minutos, a acha ardia de tal modo que nos crestava o rosto. A jovem levantou os olhos para mim, dois olhos que me pareceram estranhos. "Faz muito calor aqui, disse; vamos para ali, para o canapé."

E eis-nos a caminho do canapé:

Depois, de repente, cravou-me os olhos no rosto: "Que faria você se uma mulher dissesse que o ama?"

Respondi, muito embaraçado: "Francamente, não considerei o caso, mas... mas, dependeria da mulher."

Então, ela começou a rir, com um riso seco, nervoso, agitado, um desses falsos risos que se diriam capazes de partir vidros finos e acrescentou:

"Os homens nunca são audazes nem maliciosos." Calou-se, para prosseguir pouco depois: "Você nunca esteve apaixonado, Paul?" confessei-lhe que sim, já havia estado apaixonado. "Conte-me isso", pediu ela.

Contei-lhe uma história qualquer. Ela ouvia-me atentamente, com sinais freqüentes de reprovação e desprezo; e de súbito: "Não, não, você não entende nada disso. Para que o amor seja bom é preciso, penso eu, que nos perturbe o coração, torça os nervos, assole a cabeça, que seja - como diria? - perigoso, mesmo terrível, quase criminoso, quase sacrílego; que seja uma espécie de traição; quero dizer que deve romper os obstáculos sagrados, as leis, os laços fraternais; um amor tranqüilo, fácil, sem perigos, legal, será, realmente, amor?"

Não sabia que responder, e fazia para mim mesmo esta reflexão filosófica: Ó! Cérebro feminino, aí estás tu, em toda a tua nudez!

Tomara, ao falar, um ar indiferente, quase cínico; e, apoiada nos coxins, alongou e deitou a cabeça no meu ombro, o vestido um pouco levantado, deixando ver uma meia de seda vermelha que os lampejos do fogo inflamavam de quando em quando.

Passado um minuto, disse: "Tem medo de mim?" Protestei. Apoiou-se abertamente no meu peito e, sem olhar-me, continuou: "E se eu lhe dissesse, eu, que o amo, que faria você?" não me deu tempo para encontrar uma resposta; lançou-me os braços ao pescoço, e, atraindo-me bruscamente a cabeça, seus lábios juntaram-se aos meus.

Ah, minha querida amiga, acredite que aquilo não era nada divertido! Enganar Julien, eu, tornar-me o amante dessa pequena louca perversa e astuta, horrivelmente sensual, que decerto não se contentava com o marido? Trair constantemente, enganar sempre, brincar de amor pela simples atração do fruto proibido, do desafio ao perigo, da amizade traída! Não, isso não era para mim. Mas, que fazer? Imitar José? Papel estúpido e, além disso, muito difícil, porque ela estava ensandecida em sua perfídia, inflamada de audácia, palpitante e obstinada. Oh! Que quem nunca sentiu na boca o beijo profundo duma mulher disposta a entregar-se me lance a primeira pedra...

Enfim, um minuto mais... Você compreende, não é? Um minuto mais e eu era... não, ela era... perdão, ele é quem era!... ou melhor teria sido, quando um terrível ruído nos fez dar um salto.

A acha, sim, a acha amiga saltava para o salão, derrubando a pá, o guarda-fogo, rolando como um furacão de chama, pegando fogo ao tapete e caindo numa poltrona que ia infalivelmente incendiar.

Precipitei-me como um louco, e, ao lançar para a lareira o tição salvador, a porta abriu-se bruscamente! Julien entrou, todo jovial, gritando: "Já estou livre, o negócio terminou duas horas mais cedo!"

Sim, minha amiga, se não fosse a acha, eu teria sido apanhado em flagrante delito. E já imagina as conseqüências!

Conduzi-me daí para o futuro de modo a não me voltar a ver em situação semelhante, jamais, jamais, jamais! Apercebi-me, então, que Julien estava frio comigo. Sua mulher, evidentemente, solapara nossa amizade; e, pouco a pouco, afastou-me de sua casa; e deixamos de ver-nos.

E não me casei. Compreende, agora?

 

                                                                                Guy de Maupassant  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

           Voltar à Página do Autor