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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ÁGUIA POUSOU / Jack Higgins
A ÁGUIA POUSOU / Jack Higgins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ÁGUIA POUSOU

 

Precisamente à uma hora da manhã de sábado, 6 de novembro de 1943, Heinrich Himmler, Reichsführer das ss e chefe da Polícia do Estado, recebeu uma mensagem simples: A Águia pousou. Significava isso que uma pequena força de pára-quedistas alemães encontrava-se em segurança na Inglaterra, a postos, para seqüestrar o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, da casa de campo de Norfolk, nas proximidades do mar, onde ele passava um tranqüilo fim de semana. Este livro constitui uma tentativa de recriar os fatos que culminaram nessa espantosa façanha. Pelo menos cinqüenta por cento de seu conteúdo são historicamente documentados. Caberá ao leitor resolver por si mesmo quanto do resto é produto de especulação ou ficção. . .

 

Um homem cavava uma sepultura num canto do cemitério no momento em que passei pelo portão coberto. Lembro-me disso com muita clareza porque me pareceu que esse ato preparou o palco para quase tudo o que aconteceu depois.

Como se fossem trouxas de trapos pretos, cinco ou seis corvos levantaram vôo das faias a oeste da igreja, grasnando irritados uns para os outros, enquanto eu procurava o caminho entre as lápides funerárias e me aproximava da cova, ao mesmo tempo em que erguia a gola da capa para proteger-me da forte chuva.

Quem quer que fosse, aquele homem falava consigo mesmo em voz baixa. Era impossível compreender o que dizia. Dirigi-me para um dos lados do monte de terra, fresca, evitando outra pá de terra, e olhei para dentro do buraco.

— Péssima manhã para trabalhar — disse eu.

Ele ergueu os olhos, apoiando-se na pá. Era um velho, um homem muito idoso, com um boné de pano na cabeça, um terno surrado e manchado de lama, e um saco de farinha lançado sobre os ombros. Tinha bochechas fundas e pálidas, barba por fazer e olhos muito tímidos e inteiramente sem expressão.

Tentei outra vez:

— A chuva — disse.

Uma espécie de compreensão pareceu raiar em seus olhos. Ele ergueu os olhos para o céu enfarruscado e coçou o queixo.

— Em vez de melhorar, acho que vai piorar.

— Este tempo deve, tornar as coisas mais difíceis para o senhor — comentei. Havia pelo menos uns vinte centímetros de água no buraco.

O homem tocou com a pá no lado mais distante da sepultura, que se abriu, como algo podre que se desfaz, desmoronando a terra em volta.

— Poderia ser pior. Enterraram tanta gente aqui neste cemitério durante esses anos todos, que os mortos não são mais plantados na terra. São enterrados sobre restos humanos — Riu, mostrando gengivas lisas, curvou-se, procurou alguma coisa na terra e mostrou-me o osso de um dedo. — Está vendo o que eu queria dizer?

A atração, mesmo para o escritor profissional, que a vida desperta em toda a sua infinita variedade, tem definitivamente, em certas ocasiões, um limite, e achei que era tempo de continuar meu caminho.

— Será que entendi bem? Isto aqui é uma igreja católica?

— Todos aqui são católicos romanos — respondeu

— Sempre foram.

— Neste caso, o senhor talvez me possa ajudar. Estou procurando um túmulo ou talvez mesmo um monumento dentro da igreja. Gascoigne. . . Charles Gascoigne, capitão-de-marinha.

— Nunca ouvi falar dele — retrucou o coveiro. — Sou coveiro aqui há quarenta e um anos. Quando é que ele foi enterrado?

— Mais ou menos em 1685.

A sua expressão não se alterou. Respondeu, calmo:

— Ah, bem, então foi antes de meu tempo. O Padre Vereker. . . Bem, pode ser que ele saiba de alguma coisa.

— Ele está lá dentro?

— Lá dentro, ou no presbitério. Do outro lado das árvores, atrás do muro.

Nesse momento, por alguma razão, a colônia de corvos, nas faias sobre nossas cabeças, explodiu em vida e dezenas de aves começaram a voar em círculos na chuva, enchendo o ar com seu alarido. O velho ergueu os olhos e lançou o osso sobre os ramos. E disse uma coisa muito estranha:

— Calhordas barulhentos! — berrou. — Voltem para Leningrado!

Ia afastar-me, mas parei, intrigado.

— Leningrado? — perguntei. — Por que foi que senhor disse isso?

— Foi de lá que eles vieram. Os estorninhos, também. Foram marcados em Leningrado e apareceram aqui em outubro. Lá, no inverno, é frio demais para eles.

— É mesmo?

Ele se tornara muito animado. Tirou metade de um cigarro detrás da orelha e enfiou.o na boca.

— Lá no inverno faz um frio que daria para congelar os colhões de um macaco de latão. Um bocado de alemães morreu em Leningrado durante a guerra. Não baleados, ou por qualquer outro motivo. Foram simplesmente congelados até a morte.

Nesse momento, eu estava profundamente interessado.

— Quem foi que lhe contou tudo isso?

— Sobre os pássaros? — perguntou e, de súbito, mudou por completo, e a sua face adquiriu uma espécie de ar astuto. — Ora, Werner me contou. Ele sabia de tudo sobre os pássaros.

— E quem era Werner?

— Werner? — Pestanejou várias vezes e a expressão vazia retornou à sua face, embora fosse impossível saber se autêntica ou simulada. — Era um bom rapaz, o Werner. Um bom rapaz. Não deviam ter feito aquilo com ele.

Inclinou-se sobre a pá e voltou. a cavar, ignorando-me por completo. Permaneci ali por um momento mais, porém era óbvio que ele nada mais tinha a dizer. Relutante porque suas palavras me pareceram que poderiam dar talvez uma boa história, dei-lhe as costas e dirigi-me, por entre os túmulos para a entrada principal.

Parei no terraço. Notei um quadro de avisos de madeira preta, pendurado na parede, e um nome em letra dourada e desbotada: Church of St. Mary and All the Saints, Studley Constable, na parte superior, e, embaixo, os horários das missas e confissões. Embaixo, um nome: Padre Philip Vereker, S. J.              

A porta era de carvalho, muito velha, e suas pranchas eram presas por tiras de ferro, cravejadas de pinos. A maçaneta era uma cabeça de leão de bronze, com um grande anel na boca, e precisava ser movida para um lado para se poder abrir a porta, o que consegui depois que ela soltou um leve e sobrenatural rangido.

Esperava encontrar do lado de dentro um ambiente escuro, sombrio, mas, em vez disso, vi-me diante do que era, na verdade, uma catedral medieval em miniatura, inundada de luz e de uma amplidão surpreendente As arcadas da nave eram soberbas, grandes pilastras normandas subiam até um incrível teto de madeira, ricamente esculpido com grande número de figuras, humanas e animais, todas elas em um estado de conservação notável. Uma fileira de janelas redondas de cada lado do clerestório, ao nível do teto, era responsável em grande parte pela luz que tanto me. surpreendera.

Notei uma bela pia batismal de pedra e, na parede ao lado, um quadro pintado com o nome de todos os párocos que ali haviam exercido seu ministério ao longo dos anos, começando com Rafe de Courcey, em 1132 e terminando com Vereker, que assumira o posto em 1943.

Mais além, em um pequeno e escuro santuário, velas bruxuleavam em frente a uma imagem da Virgem Maria, que parecia flutuar à meia-luz. Passei por ela e desci a coxia entre os bancos. Era quase total o sossego ali, interrompido apenas pela luz cor de rubi da lâmpada do santuário, que iluminava um Cristo crucificado do século XV, e pela chuva que tamborilava nas altas janelas.

Ouvi um arrastar de pés nas pedras atrás de mim, e uma voz seca e firme perguntou:

— Posso ser-lhe útil em alguma coisa?

Voltei-me e vi um padre à entrada do altar de Nossa Senhora, um homem alto e encovado, vestido com uma batina preta e desbotada. Usava os cabelos brancos acinzentados bem rentes e tinha olhos profundamente engastados nas órbitas, como se convalescesse de uma doença recente, impressão esta fortalecida pela pele esticada sobre as maçãs do rosto. Era uma face estranha. Soldado ou erudito, esse homem poderia ser uma coisa ou outra, mas isso não me surpreendeu, lembrando.me do quadro de avisos, que o apresentava como jesuíta.. Mas era também uma face que tinha na dor uma companheira constante, se é que eu podia ajuizar dessa coisas. Ao aproximar-se, notei que ele se apoiava com força em uma bengala de abrunheiro e que arrastava o pé esquerdo.

— Padre Vereker?

— Exatamente.

— Estive conversando com o velho, que está lá fora, o coveiro.

— Ah, sim, Laker Armsby.

— Se é esse o seu nome. Ele achou que o senhor talvez me pudesse ajudar. — Estendi a mão. — Meu nome é Higgins, por falar nisso. Jack Higgins. Sou escritor.

Ele hesitou um pouco antes de me apertar a. mão, mas apenas porque teve que mudar a bengala da mão direita para a esquerda. Ainda assim, havia uma clara reserva em seu gesto, ou foi isso o que me pareceu

— E de que modo posso ajudá-lo, Sr. Higgins?

— Estou escrevendo uma série de artigos para uma revista americana — respondi. — Assunto histórico. Ontem, estive na Igreja de St. Margaret, em Cley.

— Uma bela igreja. — O padre sentou-se no banco mais próximo. — Desculpe-me, mas me canso muito nestes dias.

— Há uma lápide lá no adro — continuei. — Talvez o senhor a conheça. De James Greeve. . .

Ele me interrompeu no mesmo instante:.

— . . . que foi auxiliar de Sir Cloudesley Shovel no incêndio ateado nos navios, no porto de Trípoli na Barbaria. Catorze de janeiro de 1676. — Demonstrou nesse momento que era capaz de sorrir. — Mas aquela é uma inscrição famosa por aqui.

— De acordo com minhas, pesquisas, quando Greeve era comandante do Orange Tree, ele teve um companheiro chamado Charles Gascoigne, que mais tarde foi promovido a comandante na Marinha. Faleceu em 1683, em conseqüência de um velho ferimento. E parece que Greeve mandou levá-lo a Cley para ser sepultado.

— Compreendo — disse ele com toda polidez, mas sem demonstrar interesse especial. Na verdade, notei mesmo uma ponta de impaciência em sua voz

— Mas não há sinal dele no pátio da igreja de Cley — continuei —, ou nos assentamentos da paróquia. Tentei também as igrejas de Wiveton, Glandford.e Blakeney, com os mesmos resultados.

— E o senhor acha que ele talvez esteja sepultado aqui?

— Reli minhas anotações e lembrei-me de que ele teve formação católica quando menino; ocorreu-me que talvez houvesse sido sepultado em uma igreja católica. Estando hospedado no Hotel Blakeney, conversei com um dos garçons, que me disse que havia uma igreja católica aqui em Studley Constable. É certamente um lugarzinho bem escondido. Levei quase uma hora para encontrá-lo.

— Mas sem proveito algum, receio. — Ergueu-se com esforço. — Estou servindo aqui em St. Mary há vinte e oito anos e posso garantir-lhe que nunca encontrei a menor menção a esse Charles Gascoigne.

Aquela era, com toda a probabilidade, minha última tentativa e acho que deixei transparecer o desapontamento. Mas, de qualquer modo, insisti:

— O senhor tem absoluta certeza? O que me diz dos assentamentos daquele período? Talvez haja uma anotação no registro de enterros.

— Acontece que a história local desta área constitui um de meus interesses pessoais — disse ele com certo azedume. — Não há documento algum ligado a esta igreja que eu não conheça a fundo e posso garantir-lhe que não há menção alguma a Gascoigne. E agora, se me desculpa, está na hora do meu almoço.

No momento em que se afastava, a bengala deslizou, ele tropeçou e quase caiu Agarrei-lhe o cotovelo e consegui mantê-lo de pé sobre o pé esquerdo. Ele nem mesmo se contorceu.

— Sinto muito. Fui um bocado desajeitado — disse-lhe.

Ele sorriu pela segunda vez.

— Nada de grave. — Bateu no pé com a bengala. — Um incômodo muito aborrecido, mas, como dizem por aí, aprendi a viver com ele.

Era o tipo de observação que não pedia comentário e, obviamente, ele não o esperava. Descemos juntos a coxia, devagar, por causa do pé dele.

— Esta igreja é extraordinariamente bela — disse eu.

De fato, e temos muito orgulho dela. Abriu a porta para mim. — Lamento não ter podido ser mais útil.

— Não tem importância — respondi. — Importa-se se eu der uma olhada pelo adro enquanto estou aqui?

— O senhor é um homem difícil de convencer, pelo que vejo. — Mas não havia malícia na maneira como falou. —Por que não? Temos algumas lápides muito interessantes. Recomendo-lhe em especial a seção da extremidade oeste. É do inicio do século XVIII e obviamente foi feita pelo mesmo pedreiro local que realizou idêntico trabalho em Cley.

Desta vez, foi ele quem estendeu a mão.Quando a apertei, ele disse:                — Sabe, acho que seu nome não me é estranho. O senhor não escreveu um livro no ano passado sobre os distúrbios no Ulster?               

— Exatamente — respondi — Uma situação muito feia

— A guerra sempre é feia, Sr. Higgins — disse ele com uma expressão de tristeza no rosto. — É o homem em sua maior manifestação de crueldade. Bom dia para o senhor.

Fechou a porta e eu passei para o terraço. Um estranho encontro. Acendi um cigarro e mergulhei na chuva. O coveiro desaparecera e, naquele momento, eu tinha o adro inteiramente para mim, com exceção dos corvos, naturalmente. “Os corvos de Leningrado.” As palavras despertaram-me outra vez a curiosidade, mas afastei-as resolutamente do pensamento. Havia trabalho a fazer. Não que eu tivesse grande esperança, após ter falado com o Padre Vereker, de encontrar o túmulo de Charles Gascoigne, mas a verdade era que não havia outro local onde pudesse procurá-lo.

Trabalhei com método, começando na extremidade oeste, examinando, enquanto caminhava, as lápides mencionadas por ele. Eram, sem dúvida, curiosas, esculpidas e gravadas com motivos vívidos embora bem grosseiros, de ossos, crânios, clepsidras aladas e arcanjos. Interessante, mas um período inteiramente errado no que dizia respeito a Gascoine.

Custou-me uma hora e vinte minutos para cobrir toda a área e, ao fim desse tempo, eu sabia que estava derrotado. Pelo menos por uma coisa, ao contrário da maioria dos adros no país atualmente, aquele era mantido em muito boa ordem, com a grama cortada, os arbustos aparados e muito pouca coisa coberta pela vegetação ou parcialmente escondida da vista.

Assim, nada de Charles Gascoigne. Junto à sepultura recém-cavada, acabei por reconhecer a derrota. O velho coveiro cobrira-a com um oleado para impedir a entrada da chuva e uma de suas extremidades caíra dentro do buraco. Agachei-me para endireitá-lo e, quando comecei a me erguer, notei uma coisa estranha.

A um metro ou dois de distância, perto da parede da igreja, à base da torre, vi uma lápide plana sobre um montículo de grama verde Era do início do século XVIII e um exemplo do trabalho do pedreiro local que já mencionei. Exibia um soberbo crânio e ossos cruzados na sua parte superior e era dedicado a um mercador de lã chamado Jeremiah Fuller, esposa e dois filhos. Agachado como me encontrava, porém, notei que havia outra lápide por baixo da primeira.

O celta que há em mim sobe à superfície sem muita provocação e fui tomado por uma súbita e irracional excitação, como se soubesse que me encontrava a ponto de descobrir alguma coisa. Curvei-me sobre. a, lápide e tentei erguê-la, o que me custou um grande esforço. Mas, de súbito, ela começou a mover-se.

— Vamos, Gascoigne — disse eu baixinho. — Apareça.

A lápide deslizou para um lado, inclinando-se sobre o montículo, e tudo se revelou. Acho que foi um dos momentos mas espantosos de minha vida Era uma lápide simples, com uma cruz germânica no alto — ou o que a maioria das pessoas descreveria como uma cruz de ferro. A inscrição embaixo da cruz, em alemão, dizia: Hier, ruhen Oberstleutnant Kurt Steiner und dreizehn Deutsche Fallschimjäger gefallen am 6 November 1943.

Na maior parte das vezes meu alemão é medíocre, principalmente por falta de uso, mas era suficiente para entender aquilo: Aqui jazem o Tenente-Coronel Kurt Steiner e treze pára-quedistas alemães, mortos em combate no dia 6 de novembro de 1943.

Continuei agachado sob a chuva, conferindo com todo o cuidado a tradução, mas não, eu estava certo, e aquilo não fazia o menor sentido. Para começar, acontecia que eu sabia, desde que escrevera um artigo sobre o assunto, que quando o Cemitério Militar Alemão fora inaugurado em Cannock Chase, em Staffordshire no ano de 1967, os restos mortais de quatro mil novecentos e vinte e cinco militares alemães que haviam morrido na Grã-Bretanha durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial haviam sido transferidos para ali.

Mortos em combate, dizia a inscrição. Não, isso era um completo absurdo. Uma refinada brincadeira de alguém. Tinha que ser.

Quaisquer outros pensamentos sobre o assunto, porém, foram banidos por um inesperado e indignado grito:

— Que diabo pensa o senhor que está fazendo?

O Padre Vereker coxeava m minha, direção através das lápides, trazendo um guarda-chuva sobre a cabeça.

— Acho que o senhor julgará isto interessante, padre — respondi, alegre. Acabo de fazer uma descoberta extraordinária.

Enquanto ele se aproximava, dei-me conta de que havia algo de errado. Algo de muito errado, de fato, pois ele tinha a face branca de emoção e tremia de raiva.

— Como foi que o senhor teve a ousadia de afastar essa lápide? Sacrilégio. . . é a única palavra para isso.

— Muito bem — retruquei — Sinto muito, mas olhe só o que encontrei por baixo dela.

— Não dou a mínima importância ao que o senhor encontrou. Recoloque-a imediatamente no lugar.

Mas eu também começava a ficar aborrecido.

— Não seja tolo. Não compreende o que está escrito aqui? Se não compreende alemão, então deixe que eu lhe diga: “Aqui jazem o Tenente-Coronel Kurt Steiner e treze pára-quedistas alemães, mortos em combate no dia 6 de novembro de 1943”. Bem, o senhor não acha isso absolutamente fascinante?           .

— Não, em especial.

— Quer dizer que viu isto antes?

— Não, naturalmente que não — Notei certa perturbação em sua aparência e uma ponta de desespero em sua voz quando acrescentou — Agora, quer fazer o favor de recolocar a primeira lápide no lugar? .

Durante um momento não acreditei no que ouvi. Perguntei:

— Quem era ele, esse Steiner? O que quer dizer tudo isto?

— Eu já lhe disse. Não faço a mínima idéia — respondeu, parecendo ainda mais perturbado.

Lembrei-me, nesse momento, de uma coisa:

— O senhor estava aqui em 1943, não? Foi nessa ocasião que o senhor assumiu a paróquia. É isso o que está escrito no quadro de avisos dentro da igreja.

Como que se rompendo pelas costuras, ele explodiu:

— Pela última vez, quer recolocar a lápide como ela estava?

— Não — retruquei. — Lamento, mas não posso fazer isso.

Nessa altura, e de forma bastante estranha, ele pareceu recuperar um pouco o autocontrole

— Muito bem — disse em voz calma. — Então, faça- me o favor de retirar-se, imediatamente.

Pouco proveito parecia.haver em discutir, considerando-se o seu estado de espírito. Secamente, respondi:

— Muito bem, padre, se é assim que o senhor quer. . .

Eu havia chegado ao caminho entre as lousas, quando ele gritou:

— E não volte. Se voltar, chamarei a polícia local, sem a menor hesitação.

Saí pelo portão coberto do cemitério, tomei meu Peugeot e afastei-me. Suas ameaças não me preocupavam. Eu estava agitado demais para sentir medo, e intrigado demais, também. Tudo ali em Studley Constable mostrava-se misterioso. Era um desses locais que parece haver na zona norte de Norfolk e em nenhuma outra região, o tipo de aldeia que se encontra por acaso um dia e nunca mais se reencontra, e que deixa pessoa a perguntar-se se, para começar, ela existe de fato.

Não que houvesse muita coisa ver, salvo a igreja com o velho presbitério no centro do jardim murado, quinze ou dezesseis chalés de um tipo ou de outro margeando o regato, o velho moinho com sua maciça roda d’água e a estalagem do lado do relvado, a Studley Arms.

Parei no acostamento da estrada, ao lado do regato, acendi um cigarro e pensei calmamente em toda aquela história. O Padre Vereker mentira. Vira antes a lápide e conhecia-lhe a significação, disso eu não tinha dúvida. Pensando bem, a situação era bastante irônica. Chegara por acaso a Studley Constable à procura de Charles Gascoigne. Em vez disso, descobrira algo muito mais curioso, um autêntico mistério. Mas o importante era o que eu ia fazer a esse respeito.

A solução apresentou-se quase no mesmo instante na pessoa de Laker Armsby, o coveiro, que saía de um beco estreito entre dois chalés. Continuava coberto de barro e conservava o velho saco de farinha sobre os ombros. Atravessou a estrada e entrou na Studley Arms. Desci no mesmo instante do Peugeot e fui atrás dele.

De acordo com a placa no alto da porta, o proprietário era um certo George Henry Wilde. Abri a porta e penetrei em um corredor com o chão revestido de pedras e paredes com painéis de madeira. Através de uma porta semi-aberta à esquerda, chegava o murmúrio de vozes e o som de gargalhadas.

No lado de dentro, não havia propriamente um bar. Era apenas uma grande e confortável sala com um fogo na lareira de pedra, diversos bancos de encosto alto e umas duas mesas de madeira. Encontravam-se ali seis ou sete fregueses, nenhum deles jovem. Eu diria que a idade média do grupo era de uns sessenta anos — um padrão tristemente comum hoje em dia nas áreas rurais.

Eram autênticos homens do campo, com faces marcadas pela exposição aos elementos, gorros de tweed e botas de borracha. Três deles jogavam dominó, observados por dois outros. Um velho, junto ao fogo, tocava baixinho uma gaita. Todos ergueram os olhos para me observar, com aquele tipo de grave interesse com que os grupos muito fechados recebem sempre os estrangeiros.

— Boa tarde — cumprimentei.

Dois ou três deles inclinaram a cabeça de modo satisfatoriamente alegre, embora um tipo muito corpulento, de barba preta entremeada de fios brancos, não me parecesse muito cordial. Laker Armsby estava sentado sozinho a uma mesa, enrolando com dificuldade um cigarro entre os dedos, e com um copo de cerveja à frente. Pôs o cigarro na boca. Aproximei-me e ofereci-lhe fogo. Ele ergueu a face sem expressão para mini mas depois reconheceu-me:

— Oh, é o senhor novamente. Então, encontrou o Padre Vereker?

Inclinei a cabeça.

— Bebe outro?’

— Eu não recusaria. Esvaziou o copo em dois goles. Um quarto de cerveja clara desceria muito bem. Georgy!

Virei-me e vi às minhas costas um homem baixo e atarracado, em mangas de camisa, presumivelmente o proprietário, George Wilde. Parecia estar na mesma faixa de idade dos demais e era bem-apessoado, salvo por um aspecto incomum. Em alguma ocasião na vida recebera, no rosto, um tiro disparado de muito perto. Eu vira antes ferimentos a bala e tinha certeza disso. No seu caso, a bala deixara um sulco na bochecha esquerda, levando também um pedaço de osso. Tivera sorte. Ele sorriu de modo agradável:

— E o senhor, cavalheiro?

Pedi-lhe uma vodca dupla e tônica, o que provocou expressões divertidas dos agricultores, ou o que quer que fossem mas isso não me aborreceu em especial, pois é o único tipo de bebida alcoólica que consigo beber com algum prazer. O cigarro feito a mão de Laker Armsby não durou muito e lhe ofereci um dos meus, que ele aceitou alegremente. Chegaram as bebidas e empurrei a cerveja em sua direção.

— Há quanto tempo o senhor é coveiro em St. Mary?

— Quarenta e um anos.

Emborcou a cerveja. Sugeri então:

— Tome outro copo e fale-me a respeito de Steiner.

A gaita parou subitamente nesse instante, e toda conversação morreu. O velho Laker Armsby olhou-me fixamente por cima da borda do copo, retornando à sua face a expressão de astúcia.

— Steiner? — disse. — Ora, Steiner foi. . .

George Wilde interrompeu-o, estendeu a mão para o copo vazio e passou um pano sobre a mesa.

— Hora de fechar, cavalheiros. Por favor.

Olhei para o relógio: duas e meia.

— O senhor está enganado — disse-lhe. — Falta meia hora ainda para fechar.                                                     j

O proprietário ergueu meu copo de vodca e estendeu-o em minha direção.

— Isto aqui é um estabelecimento livre, senhor, e, numa aldeia sossegada como esta, geralmente fazemos o que queremos sem que ninguém fique nervoso por isso. Se eu digo que estou fechando às duas e meia, então são duas e meia. — Sorriu amigavelmente. — Eu tomaria a bebida, se fosse o senhor.

Havia no ar uma tensão que se poderia cortar com uma faca. De seus lugares, todos os circunstantes me fitavam, com fisionomias duras, impassíveis, de olhos como pedras. O gigante de barba preta atravessou a sala até a cabeceira da mesa e inclinou-se sobre ela, olhando-me fixamente.

— O senhor ouviu — disse ele em voz baixa e ameaçadora. — Agora, tome sua bebida como um bom rapaz e vá para casa, onde quer que seja.

Não discuti, pois notei que a atmosfera se anuviava mais a cada momento. Bebi minha vodca com tônica, demorando-me um pouco, embora não tivesse certeza se para provar alguma coisa a eles ou a mim, e saí.

Estranho, mas eu não estava zangado, apenas fascinado por toda aquela incrível situação e, nessa altura, envolvido demais para recuar. Precisava obter algumas respostas e ocorreu-me que havia uma maneira bastante óbvia de fazê-lo.

Entrei no Peugeot, cruzei a ponte e saí da aldeia, passando pela igreja e o presbitério e tomando a estrada para Blakeney. A algumas centenas de metros além da igreja, entrei numa trilha de carroças, deixei o carro e voltei a pé, tirando antes uma pequena câmara Pentax do porta-luvas.

Não sentia medo. Afinal de contas, em certa ocasião famosa, eu fora escoltado do Hotel Europa, em Belfast até o aeroporto por homens que traziam pistolas nos bolsos e que haviam sugerido que eu tomasse o primeiro avião se queria continuar a gozar saúde, e que não voltasse. Mas eu voltara, e em várias ocasiões, tendo mesmo escrito um livro com base nessas aventuras.

Ao retornar ao adro encontrei a lápide de Steiner e seus soldados exatamente como a deixara. Conferi a inscrição mais uma vez para me certificar de que não estava fazendo papel de bobo, tirei várias fotos, de diferentes ângulos, corri até a igreja e entrei.

Notei uma cortina na base da torre e passei para o outro lado. Vi sobrepelizes vermelhas e brancas bem arrumadas, pendentes de cabides, um velho baú com guarnições de ferro, várias cordas de sino descendo da escuridão em cima, e uma placa informando que, no dia 22 de julho de 1936, um repique de cinco mil e cinqüenta e oito badaladas fora feito ali. Notei, interessado, que Laker Armsby constava como um dos seis sineiros envolvidos no caso.

Ainda mais interessante era uma linha de buracos que cortava à placa e que, tempos antes, haviam sido enchidos de massa e pintados. Os orifícios continuavam pela alvenaria, parecendo em tudo com uma rajada de metralhadora, mas isso era, na verdade, absurdo demais.

O que me interessava era o registro dos enterros, mas não havia ali sinal algum de documentos ou livros. Saí, erguendo a cortina, e quase no mesmo instante vi uma pequena porta na parede, ao lado da pia. Abriu-se com grande facilidade quando experimentei a maçaneta e entrei no que era obviamente a sacristia, uma sala pequena com paredes revestidas de carvalho. De um cabide pendiam umas duas batinas, várias sobrepelizes e capas-magnas. Havia ainda um grande armário e uma larga e velha mesa.

Tentei em primeiro lugar o armário e tive sorte logo na primeira tentativa. Empilhavam-se ali todos os tipos de diários, bem arrumados em uma das prateleiras. Eram registros de enterros e o de 1943 era o segundo. Folheei as páginas com rapidez, imediatamente consciente de um sentimento de grande decepção.

Dois óbitos haviam sido registrados em novembro de 1943 e eram ambos de mulheres. Apressado, voltei ao início do ano, o que não me tomou muito tempo, fechei o livro e recoloquei-o no armário. Assim, um caminho bastante óbvio estava fechado. Se Steiner, quem quer que fosse ele, estivesse enterrado ali, devia constar do registro. Tal era a exigência taxativa da lei inglesa. Assim, que diabo significava tudo aquilo?

Saí da sacristia, fechando a porta às costas, e fui recebido por dois dos comensais da estalagem. George Wilde e o indivíduo de barba preta que, preocupado, notei que trazia nas mãos uma espingarda de cano duplo.

Em voz macia, Wilde falou:

Eu lhe avisei que fosse embora, cavalheiro. O senhor tem que reconhecer isso. Por que não foi sensato?

O homem de barba preta interrompeu-o:

Por que, afinal, estamos esperando? Vamos acabar logo com isso.

Moveu-se com uma velocidade espantosa para um homem de sua corpulência e agarrou-me pelas lapelas da capa. No mesmo momento, abriu-se a porta da sacristia e Vereker apareceu. Só Deus sabe de onde viera, mas fiquei muito satisfeito em vê-lo.

O que está acontecendo aqui? perguntou.

Barba Preta respondeu pelos meus agressores:

Deixe isto conosco, padre. Nós resolveremos o caso.

Você não vai resolver coisa alguma, Arthur Seymour disse Vereker. Para trás.

Seymour olhou-o, sem expressão; continuando a agarrar-me pela lapela. Eu poderia, de várias maneiras, tê-lo posto em seu lugar, mas não parecia haver grande proveito nisso.

Seymour! repetiu Vereker e, desta vez, realmente furor em sua voz.

Devagar, Seymour soltou os punhos, enquanto Vereker dizia:

Não volte aqui, Sr. Higgins. Agora, deve ser-lhe óbvio que sua volta não seria de seu melhor interesse.

Um bom argumento.

Eu não esperava, na verdade, qualquer grande comoção pública, não depois da intervenção de Vereker, mas não parecia. muito prudente permanecer ali e, assim, voltei rapidamente para o carro. Um exame mais extenso do misterioso caso poderia aguardar melhor ocasião.

Entrei na trilha de carroças e encontrei Laker Armsby sentado no capo do meu Peugeot, enrolando um cigarro. Ele levantou-se quando me viu.

Ah, é o senhor disse. Conseguiu escapar, então?

Notei na sua face a mesma expressão matreira. Tirei o maço de cigarros e ofereci-lhe um.

Quer saber de uma coisa? perguntei. Acho que você não é tão ingênuo como parece.

Ele sorriu astuciosamente e soprou uma nuvem de fumaça através da chuva.

Quanto?

Compreendi logo onde ele queria chegar, mas, durante um momento, procurei ganhar tempo.

O que é que você quer dizer com esse “quanto”?

Vale a pena, para o senhor. Para saber tudo a respeito de Steiner.

Recostou-sê no carro, fitando-me, à espera. Tirei a carteira e extraí uma nota de cinco libras, que segurei entre os dedos. Os olhos dele brilharam e ele estendeu a mão. Recuei a minha.

Oh, não. Quero algumas respostas em primeiro lugar.

Muito bem, moço. O que é que o senhor quer saber?

Esse Kurt Steiner. . . Quem era ele?

Ele sorriu largamente, os olhos readquiriram a expressão furtiva e o sorriso matreiro voltou-lhe aos lábios.

_Isso é fácil respondeu. Era o rapaz alemão que veio até aqui com seus soldados para matar o Sr. Churchill.

Fiquei tão espantado, que a única coisa que pude fazer foi olhá-lo fixamente. Ele tomou-me a nota da mão, deu-me as costas e partiu correndo, mas sem muita pressa.

Certas coisas na vida produzem impactos tão enormes que são impossíveis de absorver, como, por exemplo, uma voz estranha ao telefone dizendo que alguém que amamos muito acaba de morrer. As palavras perdem o sentido, a mente desliga-se durante algum tempo da realidade, em uma pausa necessária para a respiração, até que o indivíduo possa enfrentar a situação.

Foi esse, mais ou menos, o estado em que me vi depois da espantosa declaração de Laker Armsby. Não apenas que fosse incrível. Se aprendi uma lição na vida, é que tudo aquilo que dizemos que é impossível geralmente acontece na semana seguinte. A verdade era que as implicações, se Armsby houvesse falado a verdade, seriam tão imensas que, durante algum tempo, minha mente não conseguiu apreender a idéia.

Ela estava ali. Eu estava consciente de sua existência, mas não pensei conscientemente nela. Voltei ao Hotel Blakeney, fiz as malas, paguei a conta e tomei o caminho de casa, na primeira etapa de uma jornada que, embora eu não soubesse na ocasião, ia consumir um ano de minha vida. Um ano de exame de centenas de arquivos, dezenas de entrevistas, viagens em volta do mundo. San Francisco, Cingapura, Argentina, Hamburgo, Berlim, Varsóvia e mesmo o irônico de tudo a Falls Road, em Belfast. Em todos esses lugares parecia haver uma pista que, por mais vaga que fosse me levaria à verdade e, em especial porque ele é, de maneira, a figura central em toda a história, a algum conhecimento, a alguma compreensão do enigma que era Steiner.

 

Em certo sentido, um homem chamado Otto Skorzeny deu início a tudo isso no dia 12 de setembro de 1943, ao realizar um dos mais brilhantes e audaciosos golpes de comandos da Segunda Guerra Mundial dessa maneira provando novamente, para inteira satisfação de Adolf Hitler, que ele, como sempre, tivera razão e que o Alto Comando das Forças Armadas errara.

Inesperadamente, certo dia, o próprio Hitler quisera saber por que o Exército alemão não possuía unidades de comando como as inglesas, que vinham operando com tanto sucesso desde o começo da guerra. Para agradá-lo, o Alto Comando resolvera criar uma dessas unidades. Skorzeny, um jovem tenente das ss, encontrava-se em Berlim nessa ocasião, após ter sido dispensado de seu regimento como inválido. Foi promovido a capitão e nomeado chefe das Forças Especiais, nenhuma das duas coisas significando muito, o que na verdade era o que queria o Alto Comando.

Por má sorte do Alto Comando, Skorzeny provou que era um soldado brilhante e dotado de qualidades excepcionais para a tarefa. Os fatos pouco depois lhe dariam oportunidade de provar justamente isso.

No dia 3 de setembro de 1943, com a rendição da Itália, Mussolini, deposto e preso, foi levado para um local desconhecido por ordem do Marechal Badoglio. Hitler insistiu em que seu antigo aliado fosse encontrado e libertado. Parecia uma tarefa impossível e mesmo o grande Erwin Rommel comentou que não via mérito algum na idéia e que esperava não lhe fosse atribuída a sua execução.

Não foi. Hitler deu pessoalmente a missão a Skorzeny, que se lançou à tarefa com grande energia e determinação e logo depois descobriu que Mussolini estava detido no Hotel Sports, a três mil metros de altura, no cume do Gran Sasso, em Abruzzi, guardado por duzentos e cinqüenta soldados.

Acompanhado de cinqüenta pára-quedistas, Skorzeny desembarcou em planadores, tomou de assalto o hotel e libertou Mussolini. O líder italiano foi retirado em um pequeno avião de observação, levado para Roma e dali transportado em um Dornier para o Covil do Lobo, o quartel-general de Hitler frente oriental, situado em Rastenburg, um lugar úmido e densamente arborizado da Prússia Oriental.

A façanha rendeu a Skorzeny um punhado de medalhas, incluindo a Cruz de Cavaleiro, e marcou o início de uma carreira que floresceria em muitos outros ousados feitos e o transformaria em uma figura lendária em sua época. O Alto Comando, desconfiado desses métodos irregulares, como aliás, os oficiais superiores em todo o mundo, não se deixou impressionar.

Mas não o Führer. Sentiu-se ele no sétimo céu, arrebatado de contentamento, e dançou como não dançara desde a queda de Paris. Continuava no mesmo estado de espírito na noite da quarta-feira seguinte, dia da chegada de Mussolini a Rastenburg. Convocou uma conferência para discutir os fatos ocorridos na Itália e o futuro papel do Duce.

A sala de operações era um lugar surpreendentemente agradável, com paredes e teto de pinho. A mesa, redonda em um dos lados e cercada por onze cadeiras, estava ornamentada por um vaso de flores no centro. Na outra extremidade, havia uma longa mesa com mapas. Um pequeno grupo em volta da sala discutia a situação na frente italiana. Incluía o próprio Mussolini, Josef Goebbels, o ministro da Propaganda e Guerra Total do Reich, Heinrich Himmler, Reichführer das ss, chefe da Polícia do Estado e da Polícia Secreta, entre outras coisas, e o Almirante Wilhelm Canaris, chefe do Serviço de Informações Militares, o Abwehr.

No momento em que Hitler entrou, puseram-se todos em posição de sentido. Ele estava alegre, de olhos brilhantes, com um pequeno sorriso fixo nos lábios, e tão encantador como somente ele podia ser em certas ocasiões. Aproximou-se de Mussolini e apertou-lhe calorosamente a mão, segurando-a entre as suas.

O senhor parece mais bem disposto hoje à noite, Duce. Decididamente, melhor.

Para os presentes, o ditador italiano tinha uma horrível aparência. Cansado e nervoso, pouco havia nele da velha energia.

Conseguiu, porém, contrair os lábios num débil sorriso. O Führer bateu palmas.

Muito bem, cavalheiros, qual deve ser nossa próxima ação na Itália? O que nos reserva o futuro? Qual sua opinião, Herr Reichsführer?

Tirando o pince-nez de prata e polindo-lhe as lentes com extremo cuidado, Himmler respondeu:

Vitória total, meu Führer. O que mais? A presença do Duce aqui entre nós constitui irrefutável prova do brilhantismo com que o senhor salvou a situação depois de ter o traidor Badoglio assinado um armistício.

Hitler inclinou a cabeça, sério, e voltou-se para Goebbels:

E você, Josef ?

Os olhos escuros e alucinados de Goebbels faiscaram de entusiasmo:

Concordo, meu Führer. A libertação do Duce causou grande sensação no país e no estrangeiro. Amigos e inimigos estão pasmos. Podemos celebrar uma vitória moral de primeira classe graças à sua inspirada orientação.

E sem nenhum agradecimento aos meus generais. Hitler voltou-se para Canaris, que, com um leve e irônico sorriso nos lábios, examinava os mapas. E o senhor, Almirante? Considera isto também uma vitória moral de primeira classe?

ocasiões em que vale a pena dizer a verdade; em outras não. No que dizia respeito a Hitler, era difícil julgar.

Meu Führer, a frota de combate italiana acha-se ancorada à sombra dos canhões da fortaleza de Malta. Teremos que abandonar a Córsega e a Sardenha e estão chegando notícias de que nossos antigos aliados já estão traçando planos para passar para o outro lado.

Hitler tornou-se mortalmente pálido, seus olhos reluziram e uma leve camada de suor cobriu-lhe a testa. Canaris,porém, continuou:

No tocante à nova República Socialista Italiana, proclamada pelo Duce, nenhum país neutro concordou até agora, nem mesmo a Espanha, em estabelecer relações diplomáticas com ela. Encolheu os ombros. Lamento dizer, meu Führer, que em minha opinião eles não o farão.

Sua opinião? explodiu furioso Hitler. Sua opinião? O senhor é tão inútil como meus generais e, quando lhes escuto as opiniões, o que é que acontece? Fracasso em toda parte. Dirigiu-se para Mussolini, que parecia bastante alarmado, e enlaçou-lhe os ombros. Está o Duce aqui por causa do Alto Comando? Não, está aqui porque insisti em que fosse criada uma unidade de comandos, porque minha intuição me disse que era a coisa certa a fazer.

Goebbels pareceu preocupado, Himmler conservou-se calmo e enigmático como sempre. Canaris, porém, manteve sua oposição.

Não fiz nenhuma crítica implícita à sua pessoa, meu Führer.

Hitler dirigira-se para a janela e olhava para fora, conservando as mãos cruzadas às costas.

Tenho um instinto para essas coisas e sabia que essa operação seria um grande sucesso. Um punhado de bravos, ousando tudo. Voltou-se para encará-los. Sem mim, não teria havido o Gran Sasso porque, sem mim, não teria havido Skorzeny. Disse isso como se citando uma verdade bíblica Não quero ser rude, Herr almirante, mas, afinal de contas o que foi que o senhor e seu pessoal do Abwehr realizaram nos últimos tempos? Acho que tudo que conseguem fazer é descobrir traidores como Dohnanyl.

Hans Von Dohnanyl, antigo membro do Abwehr, fora preso em abril último por traição contra o Estado.

Mais pálido do que nunca, Canaris pisava, nesse momento, terreno traiçoeiro.

Meu Führer disse ele , não houve intenção de minha parte. . .

Hitler ignorou-o e voltou-se para Himmler:

E o senhor, Herr Reichsführer. . . o que é que pensa?

Aceito sua tese sem restrições, meu Führer , respondeu Himmler. Totalmente, mas reconheço que, neste caso, sou um pouco suspeito. Afinal de contas, Skorzeny é oficial das ss. Por outro lado, acho que o caso do Gran Sasso foi exatamente o tipo de operação que se esperava Que os brandenburgueses levassem a cabo.

Referia-se à Divisão Brandenburg, uma unidade de elite, formada no início da guerra para desempenhar missões especiais. Suas atividades eram supostamente dirigidas pelo Segundo Departamento do Abwehr, especializado em sabotagem. A despeito dos esforços de Canaris, essa força de elite fora, na maior parte, desperdiçada em operações de ataques de surpresa por trás das linhas russas, e com muito pouco sucesso.

Exatamente concordou Hitler. O que foi que fizeram seus preciosos brandenburgueses? Coisa alguma que mereça a menor discussão. Estava ficando enfurecido e, como sempre nessas ocasiões, valia-se em grau notável de sua prodigiosa memória. Quando foi formada, essa unidade Brandenburg recebeu o nome de Companhia de Missões Especiais, e lembro-me de ter ouvido dizer que Von Hippel, seu primeiro comandante, disse-lhes, que eles poderiam seqüestrar o Demônio no próprio inferno quando houvesse terminado de treiná-los. Acho isso irônico, Herr almirante, porque, que eu me lembre, não me trouxeram o Duce. Eu mesmo tive que organizar a missão. Sua voz subia cada vez mais, os olhos lançavam fogo e a face reluzia de suor. Nada! guinchou. O senhor nada me trouxe. Ainda assim, tendo à disposição homens como aqueles, com tais meios, o senhor deveria ter sido capaz de seqüestrar Churchill na Inglaterra e trazê-lo aqui.

Houve silêncio total, enquanto Hitler olhava de uma face para outra.

Ou não é assim?

Mussolini dava a impressão de um homem caçado. Goebbels inclinou vivamente a cabeça. Himmler lançou mais lenha na fogueira, dizendo em voz tranqüila:

Por que não, meu Führer? Afinal de contas, tudo é possível, por mais difícil que seja, como o senhor acaba de provar tirando o Duce do Gran Sasso.

Tem toda razão. Hitler estava outra vez calmo. Esta é uma maravilhosa oportunidade para nos demonstrar o de que o Abwehr é capaz, Herr almirante.

Atordoado, Canarís perguntou:

Meu Führer devo entender que o senhor pensa em. . .

Afinal de contas, uma unidade inglesa de comandos atacou o quartel-general de Rommel na África retrucou Hitler. E golpes semelhantes foram assestados contra a costa francesa em numerosas ocasiões. Devo acreditar que os jovens alemães são menos capazes? Deu uma palmadinha no ombro de Canaris e disse, afável: Tenho certeza de que o senhor pensará em alguma coisa. Voltou-se para Himmler: Concorda, Herr Reichsführer?

Decerto disse sem hesitação Himmler. Um estudo de viabilidade, pelo menos. . . Sem dúvida o Abwehr pode fazer isso, não?

Sorriu de teve para Canaris, que permanecia aturdido. Umedecendo os lábios secos, o almirante disse em voz rouca:

Como desejar, meu Führer.

Hitler passou um braço pelos ombros do almirante.

Ótimo. Eu sabia que, como sempre, podia contar com o senhor. Estendeu os braços como se para chamá-los e inclinou-se sobre o mapa. E agora, cavalheiros. . . a situação italiana.

Canaris e Himmler voltariam para Berlim a bordo de um Dornier naquela mesma noite. Partiram de Rastenburg na mesma ocasião, em carros separados, para a viagem de quinze quilômetros até o campo. Atrasado quinze minutos quando subiu por fim a escada do avião, Canaris não estava no melhor dos estados de espírito. Encontrou Himmler na poltrona, já com o cinto. Após um momento de hesitação, dirigiu-se a ele.

Algum problema? perguntou Himmler enquanto o avião deslizava aos solavancos pela pista e virava o nariz para o vento.

Pneu furado explicou Canaris, recostando-se. Muito obrigado, por falar nisso. Você foi de grande ajuda lá na reunião.

Fico sempre satisfeito quando posso prestar um favor a alguém assegurou-lhe Himmler.

O avião levantou vôo e o som dos motores tornou-se mais profundo à medida que ele ganhava altura.

Meu Deus, ele estava realmente em forma hoje à noitecomentou Canaris. Seqüestre Churchill. Você já ouviu na vida uma coisa mais maluca?

Desde que Skorzeny arrancou Mussolini do Gran Sasso, o mundo nunca mais será o mesmo. O Führer acredita agora que milagres podem ser mesmo feitos e isso tornará a vida cada vez mais difícil para você e para mim, almirante.

Mussolini foi uma coisa disse Canaris. Isto sem, de maneira alguma, querer diminuir o magnífico trabalho feito por Skorzeny. Winston Churchill seria uma coisa inteiramente diferente.

Oh, não sei disse Himmler. Vi os noticiários cinematográficos inimigos. . . como você, também. Londres em um dia. . . Manchester ou Leeds, no outro. Ele passeia pelas ruas com aquele estúpido charuto na boca, conversando com o povo. Eu diria que, entre todos os grandes líderes mundiais, ele é provavelmente o menos protegido.

Se acredita nisso, acreditará em qualquer outra coisa retrucou, seco, Canaris. Apesar do que se propala, os ingleses não são tolos. O MI-5 e o 6 empregam um bocado de jovens bem falantes, ex-alunos de Oxford ou Cambridge, que lhe meteriam uma bala na barriga logo que o vissem. De qualquer maneira, veja o caso do próprio velho. Com toda a probabilidade, ele leva uma pistola no bolso do casaco e aposto que ainda é um atirador de primeira.

O ordenança trouxe nesse momento um pouco de café.

Deste modo, você não tenciona dar prosseguimento a essa missão? perguntou Himmler.

Tanto quanto eu, você sabe o que acontecerá replicou Canaris. Hoje é quarta-feira. Na sexta, ele terá esquecido completamente essa idéia maluca.

Himmler inclinou devagar a cabeça e bebericou o café.

Sim, acho que tem razão.

Canaris ergueu-se da poltrona.

De qualquer modo, se me permitir, acho que vou dormir um pouco. Procurou outra poltrona, cobriu-se com um cobertor e acomodou-se com tanto conforto quanto possível para a viagem de três horas.

Do outro lado do corredor, Himmler observou-o com olhos frios, fixos, parados. Não havia expressão em seu rosto. . . nenhuma, absolutamente. Para todos os efeitos, poderia ser um cadáver, não fosse um músculo que tremia sem cessar em sua bochecha direita.

Estava quase amanhecendo no momento em que Canaris chegou à sede do Abwehr, números 74-76, da Tirpitz Ufer, em Berlim. O motorista, que o fora buscar em Tempelhof, levara os dois Dachshunde favoritos do almirante. Quando desceu do carro, os cachorrinhos correram alegres em volta de seus tornozelos enquanto Canaris passava em passos rápidos pelas sentinelas.

Dirigiu-se imediatamente para o gabinete. Desabotoando o grande capote naval, entregou-o ao ordenança que lhe abriu a porta.

Café disse o almirante. Bastante café. O ordenança começou a fechar a porta, mas foi chamado por Canaris. Sabe se o Coronel Radl está?

Acho que ele dormiu em seu gabinete na noite passada, Herr almirante.

Ótimo. Diga-lhe que quero falar com ele.

Fechada a porta, só e inesperadamente cansado, derreou-se na cadeira atrás da escrivaninha. Era modesto o estilo pessoal de trabalho de Canaris. Ocupava um gabinete antigo e relativamente vazio de móveis, com um tapete usado. Da parede, pendia um retrato de Franco, com dedicatória. Na escrivaninha, três macacos de bronze sentavam-se sobre um peso de papéis de mármore, indicando pelos seus gestos que nem ouviam, nem viam, nem falavam.

Isso sou eu disse ele baixinho, dando-lhes uma palmadinha na cabeça.

Respirou profundamente para controlar-se: nesse mundo insano o seu caminho era estreito como o fio de uma navalha. Havia coisas que ele próprio desconfiava que não devia ter sabido, como a tentativa de dois oficiais superiores, no início do ano, de explodir o avião de Hitler no vôo entre Smolensk e Rastenburg, por exemplo, e a ameaça constante do que poderia acontecer se Von Dohnanyl e seus amigos cedessem e falassem.

O ordenança apareceu trazendo uma bandeja, um bule de café, duas xícaras e um pequeno pote de manteiga verdadeira, o que era uma raridade em Berlim naqueles dias.

Deixe-a aí disse Canaris. Eu mesmo me sirvo.

O ordenança retirou-se. No momento em que se servia, Canaris ouviu uma batida à porta. O homem que entrou podia ter saído diretamente de um campo de parada, tão imaculado era seu uniforme. Era um tenente-coronel das tropas alpinas e ostentava a fita da Guerra de Inverno, um distintivo de ferimento em combate e a Cruz de Cavaleiro no peito. Mesmo o tampão que lhe cobria o olho direito parecia coisa oficial, como acontecia com a luva de couro preto que trazia na mão esquerda.

Olá, Max disse Canaris. Tome café comigo e restaure-me a sanidade. Toda vez que volto de Rastenburg, sinto necessidade de um guardião, ou da ajuda de alguém.

Max Radl tinha trinta anos e parecia dez ou quinze anos mais velho, dependendo do dia e do tempo. Perdera o olho direito e a mão esquerda durante a Guerra de Inverno, em 1941, e trabalhava com Canaris desde que fora mandado para casa como inválido.

Era, na ocasião, chefe da Terceira Seção, uma das subdivisões do Departamento Z, o Departamento Central do Abwehr, controlado pessoalmente por Canaris. A Terceira Seção era a unidade encarregada de missões de extrema dificuldade e, como tal, Radl estava autorizado a meter o nariz em todas as demais seções do Abwehr, atividade esta que o tornava bem pouco popular entre os colegas.

Está tudo tão ruim assim?

Pior ainda respondeu Canaris. Mussolini parecia um autômato ambulante, e Goebbels saltava, como sempre, sobre um e outro pé como um escolar de dez anos doido para fazer xixi.

Radl contorceu-se um pouco. Sempre se sentia muito embaraçado quando o almirante se referia daquela maneira a pessoas tão poderosas. Embora os gabinetes fossem examinados diariamente, à procura de microfones, nunca se podia saber. Canaris prosseguiu:

Himmler parecia o habitual ser cadavérico que é, e quanto a Hitler. . .

Radl interrompeu-o vivamente:

Mais café, Herr almirante?

Canaris sentou-se outra vez.

Tudo o que ele fez foi falar sobre o Gran Sasso, que grande milagre fora, e por que o Abwehr não fazia alguma coisa tão espetacular. Levantou-se de um salto, dirigiu-se para a janela e olhou por entre as cortinas para a cinzenta manhã. Sabe o que foi que ele sugeriu que fizéssemos, Max? Que seqüestrássemos Churchill para ele.

Radl teve um violento sobressalto,

Meu Deus, ele não poderia estar falando sério.

Quem é que sabe? Um dia, sim, no outro, não. Na verdade, não especificou se o queria vivo ou morto. Essa história.de Mussolini subiu-lhe à cabeça. Agora, parece que ele pensa que tudo é possível.Tirar o Demônio do inferno, se necessário, foi uma frase que ele citou com grande entusiasmo.

E os outros. . . como foi que receberam a coisa? perguntou Radl.

Goebbels mostrou sua costumeira aparência cordial e o Duce parecia um homem perseguido. Himmler é que criou um caso. Apoiou o Führer em tudo. Disse que o mínimo que poderíamos fazer era examinar o assunto. Um estudo de viabilidade, tal foi a expressão que ele usou.

Compreendo, senhor. Radl hesitou por um momento. O senhor acha que o Führer falava sério?

Naturalmente que não. Canaris dirigiu-se para um catre militar em um canto, puxou os cobertores, sentou-se e começou a desfazer o nó dos sapatos. Ele já deve ter esquecido isso. Sei como ele é quando está naquele estado. Diz toda sorte de bobagens. Meteu-se na cama e cobriu-se com o cobertor. Não, eu diria que Himmler é o único motivo de preocupação. Ele anda atrás de meu couro. Em alguma data futura, ele lembrará ao Führer toda essa miserável história, quando isso lhe for conveniente; se não por outro motivo, para dar a impressão de que não cumpro ordens.

Neste caso, o que é que o senhor quer que eu faça?

Exatamente o que Himmler sugeriu. Um estudo de viabilidade. Um relatório bem-feito, longo, que dê a impressão de que tentamos realmente; Por exemplo, Churchill está atualmente no Canadá, não? Provavelmente, voltará de navio. Podemos sempre dar a impressão de que pensamos seriamente na possibilidade de colocar um submarino no lugar certo, na ocasião certa. Afinal de contas, como o Führer me garantiu pessoalmente, há pouco menos de seis horas, milagres acontecem realmente, mas apenas com a inspiração divina apropriada. Diga a Krogel para me acordar dentro de hora e meia.

Cobriu a cabeça com o cobertor. Radl desligou a luz e saiu. Não se sentia muito feliz ao voltar para seu gabinete, e não por causa da ridícula tarefa que lhe fora confiada. Esse tipo de trabalho era comum. Na verdade, ele, amiúde, chamava a Terceira Seção de “Departamento de Absurdos”.

Não, era a maneira como Canaris falava que o preocupava. E como era um desses indivíduos que gostam de ser escrupulosamente honestos consigo mesmos, era bastante homem para reconhecer que não se preocupava apenas com o almirante. Pensava muito em si mesmo e em sua família.

Tecnicamente, a Gestapo não tinha jurisdição sobre as Forças Armadas. Por outro lado, vira um número grande demais de conhecidos simplesmente desaparecerem da face da Terra para acreditar nisso. O infame Decreto da Noite e do Nevoeiro, de acordo com o qual numerosos infelizes haviam desaparecido na escuridão da noite no mais literal sentido possível, devia ser aplicado apenas aos habitantes dos territórios conquistados, mas, como bem sabia, havia naquele momento mais de cinqüenta mil cidadãos alemães não judeus nos campos de concentração. Desde 1933, quase duzentos mil haviam morrido.

Ao entrar no escritório, o Sargento Hofer, seu secretário, classificava a correspondência noturna recém-chegada. Era um homem sossegado, de uns quarenta e oito anos de idade, estalajadeiro nas montanhas Harz, e esquiador soberbo, que mentira sobre a idade para sentar praça. Servira com Radl na Rússia.

O coronel sentou-se à escrivaninha e olhou melancolicamente para o retrato da esposa e das três filhas, a. salvo nas montanhas da Bavária. Hofer, que conhecia os sinais, ofereceu-lhe um cigarro e serviu-lhe um pequeno cálice do Courvoisier, guardado na gaveta inferior da mesa.

Está tudo tão ruim assim, Herr Oberst?

Tão ruim assim, Karl respondeu Radl. Engoliu o conhaque e lhe contou o pior.

O assunto poderia ter morrido aí, não houvesse acontecido uma extraordinária coincidência. Na manhã do dia 22, exatamente uma semana após a entrevista com Canaris, Radl lutava com uma massa de documentos acumulados durante sua visita de três dias a Paris.

Não se sentia em nada satisfeito e, quando a porta foi aberta e Hofer entrou, ergueu os olhos e disse, impaciente:

Pelo amor de Deus, Karl, eu lhe disse que não queria ser incomodado. O que é agora?

Desculpe, Herr Oberst. Acontece que li um relatório que pode interessá-lo.

De onde veio?

Do Abwehr Um.

Era o departamento encarregado de espionagem no exterior, e Radl observou em si mesmo um leve, ainda que relutante, interesse. Hofer permaneceu à sua frente com a pasta de papel pardo contra o peito. Radl colocou a caneta sobre a mesa.

Muito bem. Diga-me o que há.

Hofer colocou a pasta à frente do seu superior e abriu-a.

Este é o ultimo relatório de um agente nosso na Inglaterra. Nome de código: Starling.

Radl lançou um olhar à página superior do relatório enquanto estendia a mão para a cigarreira.

Sra. Joanna Grey.

Ela está instalada na zona norte de Norfolk, perto da costa, Herr Oberst. Uma aldeia chamada Studley Constable.

Mas, naturalmente disse Radl mostrando súbito entusiasmo. Não é ela a mulher que conseguiu os detalhes da Base Oboé? Virou as primeiras duas ou três páginas e franziu o cenho. Há muita coisa aqui. Como é que consegue fazer isso?

Ela tem um excelente contato na embaixada espanhola, que põe suas mensagens na mala diplomática. É tão eficiente quanto o correio. Geralmente, recebemos o material três dias depois.

Notável disse Radl. Com que freqüência ela se comunica?

Uma vez por mês. Possui também um posto de rádio, raramente usado, embora ela siga os procedimentos usuais e mantenha o canal aberto três vezes por semana durante uma hora, em caso de precisarmos dela. O seu contato aqui é o Capitão Meyer.

Muito bem, Karl disse Radl. Arranje-me um pouco de café e eu lerei o relatório.

Marquei em vermelho um parágrafo interessante, Herr Oberst. O senhor o encontrará na terceira página. Inclui também um mapa britânico em grande escala da área disse Hofer, e saiu.

O relatório era bem organizado, lúcido e cheio de informações valiosas. Havia uma descrição geral das condições da área, a localização de dois novos esquadrões de B-17 americanos, ao sul do Wash, e de um esquadrão de B-24 nas proximidades de Sheringham. Tudo bom, material útil, mas nada de terrivelmente excitante. Mas quando chegou à terceira página e ao curto parágrafo sublinhado em vermelho, seu estômago contraiu-se em um espasmo de excitação nervosa.

Era muito simples. O primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, deveria inspecionar uma base do Comando de Bombardeiros da raf nas proximidades do Wash na manhã de sábado, 6 de novembro. Mais tarde, no mesmo dia, estavam programados uma visita a uma fábrica nas proximidades de King’s Lynn e um curto discurso para os operários.

Em seguida, vinha a parte interessante. Em vez de voltar a Londres, Churchill tencionava passar o fim de semana na casa de Sir Henry Willoughby, em Studley Grange, que ficava a apenas oito quilômetros da aldeia de Studley Cons-table. Decerto, ninguém na aldeia sabia do plano, mas Sir Henry, um oficial da Marinha aposentado, aparentemente não conseguira resistir à tentação de confidenciar o fato a Joanna Grey, que era, ao que parecia, sua amiga íntima.

Radl fitou o relatório durante algum tempo, pensativo. Abriu o mapa trazido por Hofer e examinou-o. Neste momento, a porta foi aberta e Hofer entrou com o café. Colocou a bandeja sobre a mesa, encheu uma xícara e permaneceu à espera, impassível. Radl ergueu os olhos.

Muito bem, diabos o carreguem. Mostre-me onde fica o lugar. Acho que você sabe.

Certamente, Herr Oberst. Hofer colocou um dedo sobre o Wash e desceu para o sul, ao longo da costa. Studley Constable, e aqui ficam BLakeney e Cley, na costa, formando o conjunto um triângulo. Examinei o relatório da Sra. Grey sobre a área, antes da guerra. Uma zona muito isolada. . . e muito rural. Uma costa vazia, com grandes praias e pântanos salgados.

Radl olhou fixamente para o mapa durante algum tempo e tomou uma decisão:

Chame-me Hans Meyer. Gostaria de conversar com ele. Apenas não dê o mínimo palpite sobre o assunto.

Certamente, Herr Oberst. Hofer dirigiu-se para a porta.

E, Karl acrescentou Radl , traga todos os relatórios que ela já enviou. E tudo o que tivermos sobre a área.

A porta foi fechada e pareceu cair um súbito silêncio na sala. Radl estendeu a mão para os cigarros, como sempre russos, metade fumo, metade tubo de papelão. Era uma afetação de alguns militares que haviam servido no Leste. Radl fumava-os porque os apreciava; Eram fortes demais e faziam-no tossir. Mas isso lhe era indiferente: os médicos já lhe haviam prognosticado uma sobrevivência muito curta devido a seus graves ferimentos.

Dirigiu-se à janela, sentindo-se curiosamente vazio. Na verdade, tudo aquilo era uma grande farsa. O Führer, Himmler, Canaris. . . como sombras atrás de um lençol branco em uma peça chinesa. Nada de substancial. Nada de real, essa tola empreitada. . . essa coisa sobre Churchill. Enquanto bons homens morriam aos milhares na frente oriental, ele se entregava a jogos estúpidos como esse, que não poderiam, em hipótese alguma, resultar em nada de útil.

Sentia-se desgostoso e zangado consigo mesmo, sem razão aparente, quando ouviu uma batida à porta. Entrou um homem de estatura mediana, usando um terno de tweed. Tinha cabelos brancos e os óculos de aros de chifre dava-lhe uma aparência curiosamente vaga.

Ah, é você, Meyer. Bondade sua vir até aqui.

Hans Meyer tinha, na ocasião, cinqüenta anos de idade. Durante a Primeira Guerra Mundial fora comandante de submarino, um dos mais jovens da Marinha alemã. De 1922 em diante, trabalhara exclusivamente em espionagem e era considerado mais sabido do que parecia.

Herr Oberst respondeu ele, formal.

Sente-se, homem, sente-se disse Radl indicando-lhe uma cadeira. Andei lendo o último relatório de uma de suas agentes. . . Starling. Absolutamente fascinante.

Ah, sim. Meyer tirou os óculos e poliu-os com um lenço sebento. Joanna Grey. Uma mulher notável

Fale-me a respeito dela.

O que gostaria de saber, Herr Oberst? perguntou Meyer, com uma pequena carranca.

Tudo! disse Radl.

Meyer hesitou durante um momento, evidentemente a ponto de perguntar o porquê daquilo, mas pensou melhor. Recolocou os óculos no nariz e começou.

Joanna Grey nascera com o nome de Joanna van Oosten, em março de 1875, numa pequena cidade chamada Vierskop, no Estado Livre de Orange. Seu pai era fazendeiro e pastor da Igreja Reformada Holandesa. Com a idade de dez anos, participara da Grande Jornada, a migração de uns dez mil fazendeiros bôeres que, entre 1836 e 1838, deixaram a colônia do Cabo em direção às terras ao norte do rio Orange para escapar do domínio britânico.

Casara, aos vinte anos, com um fazendeiro chamado Dirk Jansen. Tivera uma filha, nascida em 1898, um ano antes da irrupção das hostilidades com os britânicos, as quais vieram a ser conhecidas como a Guerra dos Bôeres.

O pai formou um comando montado e foi morto em maio de 1900, nas proximidades de Bloemfontein. A partir desse mês, a guerra virtualmente terminou, embora os dois anos que se seguiram fossem os mais trágicos de todo o conflito porque, como seus concidadãos, Dirk Jansen continuou a travar uma sangrenta guerra de guerrilhas, procurando abrigo e apoio em fazendas remotas.

A patrulha montada britânica que chegou à propriedade dos Jansen no dia 11 de julho de 1901 buscava Dirk Jansen, que, ironicamente, e com desconhecimento da esposa, havia falecido em conseqüência de graves ferimentos em um acampamento nas montanhas, dois meses antes. Os soldados encontraram apenas Joanna, sua mãe e a criança. Ela se recusara a responder às perguntas do cabo, fora levada para o estábulo e submetida a um interrogatório que culminara em dois estupros.

Sua queixa ao comandante local da área fora arquivada e, de qualquer modo, os britânicos tentavam na ocasião combater os guerrilheiros mediante incêndio de fazendas, limpeza de áreas inteiras e confinamento da população, no que logo depois vieram a ser conhecidos como campos de concentração.

Os campos eram muito mal administrados mais uma questão de má direção do que de má vontade deliberada. Surgiram epidemias que, em catorze meses, cobraram um tributo de vinte mil vidas, entre elas as da mãe e da filha de Joanna Jansen. A maior de todas as ironias é que ela teria morrido, não fosse o tratamento devotado de um médico inglês chamado Charles Grey, trazido ap campo numa tentativa de melhorar a situação, após protestos públicos na Grã-Bretanha, ao serem reveladas as condições que ali prevaleciam.

O ódio aos britânicos, nessa ocasião patologicamente intenso, nunca mais a deixou. Ainda assim, casou com Grey quando ele se declarou a ela. Tinha vinte e oito anos de idade e estava arruinada pela vida. Perdera marido e filha, todos os parentes, e não possuía um único tostão.

Não pode haver dúvida de que Grey a amou. Era quinze anos mais velho do que ela, pouco exigia e mostrava-se cortês e bondoso. Com o correr dos anos, ela desenvolveu um pouco de afeto por ele, temperado por aquele tipo de irritação constante e de impaciência ocasionais de um adulto com uma criança indisciplinada.

Ele ingressou na London Bible Society como missionário médico e, durante alguns anos, exerceu uma seqüência de cargos na Rodésia, Quênia e, finalmente, entre os zulus. Ela jamais pôde compreender-lhe a preocupação com o que, para ela, eram meros cafres, mas aceitava-a, da mesma maneira que aceitava a monotonia do ensino que dela se esperava para ajudá-lo no trabalho.

Em março de 1925, Grey faleceu de derrame cerebral. Ao serem liquidados seus negócios, sobrou a Joanna pouco mais de cento e cinqüenta libras para enfrentar a vida, isso na idade de cinqüenta anos. O destino lhe desfechara outro violento golpe. Continuou a.lutar, porém, aceitando um emprego de governanta na casa de um funcionário público inglês, na Cidade do Cabo.

Nessa época, começou a interessar-se pelo nacionalismo bôer, comparecendo a reuniões convocadas regularmente por uma das organizações mais extremistas, empenhada na campanha para tirar a África do Sul do Império Britânico. Em uma dessas reuniões, conheceu um engenheiro civil alemão chamado Hans Meyer, dez anos mais moço do que ela. Ainda assim, um romance floresceu durante algum tempo entre eles, na primeira autêntica atração física que ela sentira por alguém desde o primeiro casamento.

Meyer era, na verdade, agente do serviço de espionagem naval alemão e encontrava-se na Cidade do Cabo para reunir as informações que pudesse sobre as bases navais da África do Sul. Por acaso, o patrão de Joanna Grey trabalhava no Almirantado e ela conseguiu, sem maiores riscos, retirar do cofre de sua casa certos documentos interessantes, que Meyer copiou antes de devolvê-los.

Ela trabalhou feliz porque sentia autêntica paixão por ele, mas havia mais do que isso. Pela primeira ver na vida, desfechava um golpe contra a Inglaterra. Era uma espécie de vingança por tudo que achava que lhe haviam feito.

Meyer voltou à Alemanha, mas continuou a corresponder-se com ela. Em 1929, época em que a maior parte da população do mundo entrava em pânico e a Europa mergulhava na depressão, pela primeira vez Joanna Grey teve realmente sorte na vida.

Recebeu uma carta de um escritório de advocacia de Norwich, informando-lhe que a tia do marido falecera, deixando-lhe um bangalô perto da aldeia de Studley Constable, na zona norte de Norfolk, bem como uma renda de pouco mais de quatro mil libras anuais. Havia apenas uma condição. Movida por um apego sentimental à casa, a velha senhora determinara no testamento que Joanna Grey deveria residir ali.

Morar na Inglaterra. A simples idéia fê-la arrepiar-se, mas que alternativa havia? Continuar na vida atual de escravidão dourada, sendo sua única perspectiva uma velhice paupérrima? Obteve na biblioteca um livro sobre Norfolk e leu-o da primeira à última página, em especial a parte referente à área costeira do norte.

Os nomes deixaram-na confusa. Stiffkey, Morston, Blakeney, Cley-next-the-Sea, pântanos salgados, praias de seixos. Nada disso fazia muito sentido para ela. Em conseqüência, escreveu a Hans Meyer, contando-lhe o problema. Meyer respondeu imediatamente, insistindo em que viajasse e prometendo visitá-la logo que possível.

Foi a melhor coisa que ela fez na vida. O bangalô era, na verdade, uma encantadora casa georgiana de cinco quartos, no centro de meio acre de jardins murados. Norfolk era ainda, na ocasião, a zona mais rural da Inglaterra, pouco mudara desde o século XIX, e em uma aldeia pequena como Studley Constable ela era considerada uma mulher rica e pessoa de certa importância. Outra coisa, mais estranha, aconteceu. Achou fascinantes os pântanos salgados e as praias de seixos, apaixonou-se pelo local e sentiu-se mais feliz do que em qualquer outra ocasião da vida.

Meyer chegou à Inglaterra no outono daquele ano e visitou-a várias vezes. Deram juntos longos passeios a pé. Ela mostrou-lhe tudo, as praias infindáveis que se prolongavam até o infinito, os pântanos salgados, as dunas de Blakeney Point. Nem uma única vez ele se referiu ao período da Cidade do Cabo, quando ela o ajudara a obter informações, e ela tampouco lhe perguntou sobre suas atividades atuais.

Continuaram a corresponder-se e ela visitou-o em Berlim em 1935. Ele lhe mostrou o que o nacional-socialismo fazia pela Alemanha. Ela ficou inebriada com o que viu: enormes comícios, uniformes por toda parte, rapazes bonitões, risonhos, mulheres e crianças felizes. Aceitou aquilo sem reservas, como uma nova ordem. Era assim que devia ser.

Certa ocasião, ao descerem a Unter den Linden após uma noite na ópera, durante a qual ela vira o próprio Führer em seu camarote, Meyer disse-lhe calmamente que pertencia ao Abwehr e perguntou-lhe se queria estudar a possibilidade de trabalhar para ele como agente na Inglaterra.

Ela concordou de imediato, sem precisar sequer pensar na proposta, e seu corpo vibrou com uma excitação que jamais conhecera. Assim, aos sessenta anos, essa senhora inglesa de classe superior, como era considerada, com sua fisionomia agradável, sempre a andar pelo campo vestida de suéter e saia de tweed, acompanhada por um rafeiro preto, tornou-se espiã. A agradável senhora de cabelos brancos possuía um transmissor e receptor de ondas curtas escondido em um cubículo por detrás dos painéis de seu estúdio, e um contato na embaixada espanhola em Londres, que enviava todo material volumoso pela mala diplomática para Madri onde era entregue ao serviço de espionagem alemão.

Os resultados por ela obtidos haviam sido sempre bons. Como membro do Serviço Voluntário Feminino visitava numerosas instalações militares e conseguia transmitir os detalhes relativos à maioria das bases de bombardeiros pesados da raf em Norfolk e grande volume de informações adicionais relevantes. Aplicara seu maior golpe em princípios de 1943, ano em que a raf instalou dois novos dispositivos de bombardeio cego, esperando que eles aumentassem em muito o sucesso da ofensiva de bombardeios noturnos contra a Alemanha.

O mais importante deles, Oboé, funcionava mediante ligação com duas bases terrestres na Inglaterra, uma delas em Dover, conhecida como Camundongo, e a outra em Cromer, na zona norte de Norfolk, com o nome de código Gato.

Era espantoso quantas informações o pessoal da raf dava de bom grado à bondosa senhora que distribuía livros e xícaras de chá. Durante uma meia dúzia de visitas à instalação Oboé, em Cromer, usara com grande proveito suas minicâmaras. Sua missão resumiu-se em um único telefonema ao Señor Lorca, seu contato na embaixada espanhola, uma viagem de trem de um dia a Londres e um encontro em Green Park.

Vinte e quatro horas depois, a informação sobre Oboé deixava a Inglaterra na mala diplomática. Trinta e seis horas mais tarde, um contente Hans Meyer colocava-a sobre a escrivaninha do próprio Canaris no gabinete da Tirpitz Ufer.

Quando Hans Meyer terminou o relato, Radl pôs de lado a caneta com que estivera tomando rápidas notas.

Uma mulher fascinante comentou. Absolutamente notável. Diga-me uma coisa. Que treinamento recebeu ela?

Em grau suficiente, Herr Oberst respondeu Meyer. Passou férias no Reich em 1936 e 1937. Em ambas as ocasiões, recebeu instruções sobre assuntos óbvios. Códigos, uso do rádio, trabalho geral com câmaras fotográficas, técnicas básicas de sabotagem. Reconhecidamente, nada de muito avançado, exceto pelo seu código Morse, que é excelente. Por outro lado, nunca se pretendeu que a função dela fosse especialmente física.

Sim, compreendo. O que me diz do emprego de armas?

Não houve muita necessidade disso. Ela foi criada no veld. Podia acertar no olho de um cervo a cem metros de distância quando tinha dez anos de idade.

Radl inclinou a cabeça e, de cenho franzido, olhou para o espaço à frente. Meyer perguntou, sondando o terreno:

Há alguma coisa especial envolvida nisto, Herr Oberst? Talvez eu pudesse ajudar em algo.

Por enquanto, não respondeu Radl. Mas poderei precisar de você em futuro próximo. Eu o avisarei. No momento, será suficiente enviar-me todas as pastas sobre Joanna Grey e cancelar as comunicações pelo rádio até nova ordem.

Mayer, atônito, não conseguiu controlar-se.

— Por favor, Herr Oberst, se Joanna corre algum perigo...

— Não corre o menor perigo — garantiu-lhe Radl. —Compreendo sua preocupação, acredite-me, mas não lhe posso realmente dizer mais nada no momento. Trata-se de assunto da mais alta segurança, Meyer.

Meyer recuperou-se o suficiente para desculpar-se.

— Naturalmente, Herr Oberst. Desculpe-me. Como velho amigo daquela senhora. . .

Retirou-se. Momentos depois, entrou Hofer. Vinha do vestíbulo e carregava várias pastas e dois mapas enrolados.

— As informações que o senhor deseja, Herr Oberst. Trouxe também dois mapas do Almirantado britânico que cobrem a área costeira. . . de números cento e oito e cento e seis.

— Eu disse a Meyer para lhe passar todas as informações que possui sobre Joanna Grey e que devia cessar as comunicações com ela pelo rádio — explicou-lhe Radl. —Você assume, a partir de agora.

Estendeu a mão para um dos eternos cigarros russos. Hofer acendeu-o com um isqueiro feito com um cartucho russo de 7,62 milímetros.

— Continuamos, então, Herr Oberst?

Radl soprou uma nuvem de fumaça, olhando para o teto.

— Você conhece os trabalhos de Jüng, Kari?

— Herr Oberst sabe que, antes da guerra, a única boa que eu fazia era vender boa cerveja e vinho.

— Jüng fala sobre o que chama de sincronicidade. Os fatos, às vezes, coincidem no tempo e, por causa disso, sentimos uma sensação de que existe uma motivação muito mais profunda.

— Como assim, Herr Oberst? — indagou polidamente Hofer.

— Veja este caso. O Führer, que os céus naturalmente o protejam, tem uma tempestade cerebral e ela produz a cômica e absurda sugestão de que devemos emular a façanha de Skorzeny no Gran Sasso, seqüestrando Churchill, embora não tenha especificado se vivo ou morto. A sincro nicidade ergue então sua carantonha em um relatório rotineiro do Abwehr, ou numa rápida menção de que Churchill passará o fim de semana a uns dez ou doze quilômetros da costa, numa casa de campo situada no local mais sossegado da Inglaterra que se poderia desejar. Está entendendo o que quero dizer? Em qualquer outra ocasião, o relatório da Sra. Grey não teria significado coisa alguma.

— Assim, continuamos a partir daqui, Herr Oberst?

— Parece que o destino interveio, Karl — disse Radl. — Quanto tempo você disse que os relatórios da Sra. Grey demoram para chegar à mala diplomática espanhola?

— Três dias, Herr Oberst, se houver alguém em Madri à espera deles. Não mais de uma semana, mesmo em circunstâncias difíceis.

— E quando é o próximo contato de rádio com ela?

— Esta noite, Herr Oberst.

— Ótimo. . . Envie-lhe esta mensagem. — Radl fitou novamente o teto, fazendo um grande esforço mental e tentando concentrar os pensamentos. — “Muito interessados em seu visitante de 6 de novembro.   Gostaríamos de enviar alguns amigos para encontrá-lo na esperança de que possam convencê-lo a voltar com eles. Esperamos comentários logo que possível pela via habitual, com todas as informações relevantes.”

— Isso é tudo, Herr Oberst?

— Acho que sim.

Era uma quarta-feira e chovia em Berlim, mas, na ma­nhã seguinte, quando o Padre Philip Vereker saiu coxeando pela entrada coberta de St. Mary and All The Saints, em Studley Constable, e se dirigiu para a aldeia, o sol brilhava e havia a mais bela de todas as coisas: um perfeito dia de outono.

Nessa época, Philip Vereker era um jovem alto e esquelético, de trinta anos, com a magreza ainda mais acentuada pela batina preta. Tinha a face tensa e contraída de dor enquanto se arrastava com esforço, apoiado pesadamente na bengala. Recebera alta de um hospital militar quatro meses antes.

Filho mais novo de um cirurgião de Harley Street, fora aluno brilhante em Cambridge, tendo demonstrado todos os indícios de um futuro brilhante. Por essa ocasião, para grande desalento da família, resolvera tomar ordens.. Matriculara-se no Colégio Inglês, em Roma, e ingressara na Companhia de Jesus.

Entrara para o Exército como capelão em 1940, fora designado para um regimento de pára-quedistas e entrara em ação apenas uma vez, em novembro de 1942, na Tunísia, quando saltara com unidades da Primeira Brigada de Pára-Quedistas, que recebera ordens para capturar o campo de aviação de Oudna, a dezesseis quilômetros de Túnis. No fim, a brigada teve de recuar, combatendo, por oitenta quilômetros de terreno descampado, metralhada do ar a cada metro do caminho e sob ataque   constante   de   forças terrestres.

Cento e oitenta soldados haviam retornado em segurança. Duzentos e sessenta, não. Vereker fora um dos felizardos, a despeito de uma bala que lhe atravessara de um lado a outro o calcanhar direito, estilhaçando o osso. Ao chegar ao hospital de sangue, a gangrena já se manifestara. Com o pé esquerdo amputado, recebera baixa do serviço.

Para Vereker era difícil mostrar uma aparência agradável nesses dias. A dor não o deixava, não passava, mas, ainda assim, ele conseguiu sorrir ao aproximar-se de Park Cottage e ao ver Joanna Grey sair, empurrando uma bicicleta, com o rafeiro nos calcanhares.

— Como vai, Philip? — perguntou ela, — Não o vejo há muitos dias. — Usava uma saia de tweed, suéter de pólo sob um casaco impermeável e uma echarpe de seda em volta dos cabelos brancos. Parecia realmente encantadora com aquele seu bronzeado sul-africano, que nunca perdera realmente.

— Oh, estou bem — respondeu Vereker. — Morrendo aos poucos, mais de tédio do que de outra coisa. Mas tenho uma notícia, desde que a vi pela última vez. Sobre minha irmã, Pamela. Lembra-se de que lhe falei sobre ela? É dez anos mais moça do que eu. É cabo no Corpo Auxiliar Feminino.

— Naturalmente que me lembro — retrucou a St Grey. — O que foi que houve?

— Foi transferida para uma base de bombardeiros, a apenas vinte e cinco quilômetros daqui, em Pangbourne. Desta maneira, poderei fazer alguma coisa por ela. Pamela vem visitar-me neste fim de semana. Eu a apresentarei à senhora.                                                 ‘

— Será um prazer. — Joanna Grey subiu na bicicleta.

— Quer jogar xadrez hoje à noite? — perguntou, esperançoso.

— Por que não? Venha por volta das oito, e ceie comigo, também. Mas agora preciso ir.

Afastou-se pedalando ao longo do riacho, seguida por Patch, o perdigueiro, aos pulos. Estava séria nesse momento. A mensagem de rádio da noite anterior fora um choque tremendo. Na realidade, decodificara-a três vezes para se certificar de que não cometera erro algum.

Mal conseguira dormir, e certamente não muito antes das cinco da manhã, e ficara na cama ouvindo o rugido dos Lancasters. tomando o caminho do mar e da Europa e, horas depois, retornando. O estranho era que, depois de ter finalmente dormido, acordara às sete e meia, cheia de vida e vigor.

Era como se, pela primeira vez, tivesse uma tarefa realmente importante para desempenhar. Aquilo. . . aquilo era inacreditável. Seqüestrar Churchill. . . arrancá-lo debaixo do nariz de seus guardas!

Riu alto. Oh, os malditos ingleses não gostariam daquilo! Não gostariam em absoluto daquela pequena façanha, e o mundo inteiro ficaria pasmado.

Deslizando pela colina até a estrada principal, ouviu uma buzina às suas costas e uma pequena limusine passou, desviou-se para o lado da estrada e parou. O homem ao volante possuía um grande e alvo bigode e a compleição rosada dos grandes consumidores diários de uísque. Usava o uniforme de tenente-coronel da Guarda Metropo­litana.                              

— Bom dia, Joanna — gritou ele jovialmente.

O encontro não poderia ter sido mais afortunado. Na realidade, economizou-lhe uma visita a Studley Grange mais tarde, naquele mesmo dia.

— Bom dia, Henry — retribuiu ela, desmontando.

Ele desceu do carro.

— Vamos receber algumas pessoas sábado à noite. Bridge e essas coisas. Ceia depois. Nada de muito especial. Jean pensou que você talvez quisesse vir.

— Foi uma grande bondade dela. Eu adoraria — disse Joanna Grey.— Ela deve estar ocupadíssima, preparando-se para o grande acontecimento.

Sir Henry pareceu preocupado e baixou um pouco a voz:

— Escute, você não falou disso a ninguém, falou?

Joanna Grey conseguiu assumir uma expressão apropriadamente chocada.

— Naturalmente que não. Você me falou confidencialmente, lembra-se?

— Na verdade, eu não devia ter dito aquilo, mas sabia que podia confiar em você, Joanna. — Passou-lhe um braço pela cintura. — Nenhuma palavra no sábado à noite, minha velha; por minha causa, sim? Basta que qualquer um dessa turma saiba o que vai acontecer e a notícia se espalhará por todo o país,

— Farei qualquer coisa por você, e você sabe disso —disse calmamente Joanna.

— Você faria mesmo, Joanna? — A voz dele alterou-se e ela notou que a coxa dele encostava-se à sua, tremendo ligeiramente. Mas ele afastou-se de súbito. — Bem, preciso ir embora. Temos uma reunião do comando da área em Holt

— Você deve estar muito agitado — disse ela — com a perspectiva de hospedar o primeiro-ministro.

— Estou, mesmo. É uma grande honra. — Sir Henry estava radiante. —- Ele espera poder pintar um pouco e você sabe com são belas as paisagens lá no Grange. — Abriu a porta do carro.e subiu: — Para onde é que você vai, por falar nisso?

Ela estivera esperando exatamente aquela pergunta.

— Oh, vou observar um pouco os pássaros, como sempre. Talvez, vá até Cley ou aos pântanos. Não resolvi ainda. Nesta época, há algumas passagens migratórias bem interessantes.

— É bom que tome cuidado. — Ficou sério. — E lembre-se do que eu lhe disse.

Como comandante da Guarda Metropolitana local, tinha acesso a planos que cobriam todos os aspectos da defesa costeira da área, incluindo detalhes de todas as praias minadas e — mais importante — as que apenas se pensava que estivessem minadas. Certa ocasião, cheio de solicitude pela segurança de Joanna, passara duas cuidadosas horas estudando mapas com ela, mostrando-lhe os locais exatos aonde não devia ir em suas expedições de observação de pássaros.

— Sei que a situação muda o tempo todo — disse ela. — Talvez, se pudesse, vir novamente ao bangalô com aqueles seus mapas e me desse outra lição. . .

Os olhos dele ficaram ligeiramente vidrados.

— Você gostaria?

— Naturalmente. Na verdade, estou em casa esta tarde.

— Depois do almoço. Chegarei às duas — disse, soltou. o freio de mão e afastou-se em alta velocidade.

Joanna Grey voltou à bicicleta e começou a descer, pedalando, a colina em direção à estrada principal. Patch corria logo atrás. Pobre Henry. Ela gostava realmente dele. Era como uma criança, e tão fácil de manobrar!

Meia hora depois, deixou a estrada costeira e pedalou ao longo de um dique que cruzava os desolados pântanos conhecidos localmente como Hobs End. Era um estranho e diferente mundo de pequenos braças de mar, poças e grandes e pálidas barreiras de caniços, mais altas que um homem, habitado apenas por aves, maçaricões e gansos que desciam para o sul vindos da Sibéria para invernar ali.

A meio caminho do dique, havia um bangalô que parecia muito pequeno, por trás de um velho e bolorento paredão de ardósia, cercado por alguns esparsos pinheiros. A casa parecia pertencer a gente de posses, com os seus vários anexos e um grande estábulo, mas as janelas estavam fechadas e pairava em volta um ar geral de desolação. Era a casa do vigia do pântano, mas estava desocupada desde 1940.  

Dirigiu-se até uma crista margeada pelos pinheiros, desceu e encostou a bicicleta numa árvore. Havia ali dunas de areia e, mais adiante, uma praia larga e plana que, com a maré baixa, estendia-se por uns quatrocentos metros mar adentro. À distância, via-se o Point, do outro lado do estuário, curvando-se como um grande dedo indicador e abarcando uma área de canais, bancos de areia e baixios que na maré alta eram provavelmente tão perigosos como qualquer outra zona da costa de Norfolk.

Utilizando uma câmara, tirou numerosas fotos, de vários ângulos. Ao terminar, o cão trouxe-lhe um graveto para que ela o atirasse ao longe. Com todo o cuidado depositou-o aos seus pés. Ela agachou-se e acariciou-lhe as orelhas.

— Sim, Patch— disse ela baixinho. — Acho, realmente, que isto servirá muito bem.

Lançou o graveto sobre a cerca de arame farpado que impedia o acesso à praia. Patch passou como uma bala pelo poste de onde pendia um cartaz com o aviso: Cuidado com as minas. Graças a Henry Willoughby, tinha absoluta certeza de que não havia mina alguma naquela praia.

À esquerda, erguia-se uma casamata de concreto e um posto de metralhadora, ambos envoltos por um evidente ar de decadência e, no espaço entre os pinheiros, a armadilha antitanques que se enchera de areia. Três anos antes, após o desastre de Dunquerque, teria havido soldados por ali. Mesmo há um ano, a Guarda Metropolitana, mas não naquele momento.

Em junho de 1940, uma área de até trinta quilômetros terra adentro, do Wash até o Rye, fora declarada área de defesa. Não houvera restrições para as pessoas que nela moravam, mas só um bom motivo permitia aos forasteiros visitá-la. Tudo isso fora alterado e, naquele instante, três anos depois, ninguém se dava virtualmente ao trabalho de observar os regulamentos, pois eles não eram, simplesmente, necessários.

Joanna Grey curvou-se e acariciou novamente as orelhas do cão.

— Sabe por quê, Patch? Os ingleses simplesmente não esperam mais uma invasão.

 

Na terça-feira seguinte, o relatório de Joanna Grey chegou à Tirpitz Ufer. Hofer providenciara seu recolhimento imediato. Levou-o sem demora a Radl, que o abriu e examinou seu conteúdo.

Havia fotos do pântano em Hobs End e dos acessos à praia, com as posições indicadas por uma referência codificada aos mapas. Radl entregou o relatório a Hofer.

— Prioridade máxima. Mande decifrar isso e espere enquanto fazem o trabalho.

O Abwehr começara a usar a nova unidade de codificação Sonlar, que resolvia, em questão de minutos, uma tarefa que antes consumiria horas. O aparelho possuía um teclado comum de máquina de escrever. O operador simplesmente copiava a mensagem, que era automaticamente decifrada e entregue em um carretel selado. Nem mesmo o operador tomava conhecimento da mensagem.

Hofer voltou ao gabinete vinte minutos depois e esperou em silêncio enquanto o coronel lia o relatório. Radl ergueu os olhos com um sorriso e empurrou o relatório por sobre a mesa.

— Leia, Karl, simplesmente leia isso. Excelente. . . realmente excelente. Que mulher!

Acendeu um cigarro e esperou impaciente que Hofer terminasse a leitura. Por fim, o sargento ergueu os olhos.

— Parece muito promissor.

— Promissor? É isso o máximo que você consegue dizer? Bom Deus, homem, isso é uma clara possibilidade. Uma possibilidade muito real.

Havia meses não ficava tão excitado, o que era prejudicial ao seu coração, já tão abalado pelos graves ferimentos. A fossa ocular vazia latejou sob o tampão preto, e a mão de alumínio dentro da luva pareceu ganhar vida, com todos os tendões tensos como uma corda de arco. Sufocando, derreou-se na cadeira.

Imediatamente, Hofer tirou a garrafa de Courvoisier da gaveta inferior, encheu um cálice pela metade e levou-o aos lábios do coronel. Radl engoliu quase todo o líquido, tossiu forte e pareceu recuperar o controle. Sorriu, irônico.

— Não me posso dar ao luxo disso com muita freqüência, não é, Karl? Há apenas duas garrafas. Nestes dias, é como se fosse ouro líquido.

— Herr Oberst não deve excitar-se assim — disse Hofer, e acrescentou sem meias palavras: —- O senhor não agüenta.

Radl bebeu mais um pouco de conhaque.

— Eu sei, Karl, eu sei, mas você não compreende? Antes, era uma piada. . . uma coisa que o Führer disse irri­tado, numa quarta-feira, para ser esquecida na sexta. Um estudo de viabilidade, tal foi à sugestão de Himmler, e apenas porque ele queria pôr o almirante em situação difícil. O almirante disse-me para escrever alguma coisa a esse respeito. Qualquer coisa, desde que mostrássemos que estávamos trabalhando. — Levantou-se e foi até a janela. — Mas, agora, a situação mudou, Karl, Não é mais uma piada. A coisa pode ser feita

Hofer permaneceu impassível do outro lado da escrivaninha, sem dar sinal algum de emoção.

— Sim, Herr Oberst, acho que pode.

— E essa perspectiva não o abala de maneira alguma? — Radl estremeceu. -— Deus, ela me apavora. Traga-me aquelas cartas do Almirantado e os mapas militares.

Espalhados na mesa por Hofer, Radl encontrou Hobs End e examinou o local, comparando-o com as fotos.

— Que mais poderíamos pedir? Uma zona de lançamento perfeita para pára-quedistas. Nesse fim de semana, a maré sobe outra vez ao amanhecer e apaga todos os sinais de atividade.

— Mas mesmo uma força muito pequena teria que ser levada em alguma unidade de transporte ou em um bombardeiro — observou Hofer. — O senhor pode imaginar um Dornier ou um Junkers durante tanto tempo assim sobre a costa de Norfolk nos dias de hoje, com tantas bases de bombardeiros protegidas por patrulhas noturnas rotineiras de aviões de caça?

— É um problema, concordo — disse Radl. — Mas não insolúvel. De acordo com o mapa de alvos da Luftwaffe para a área, não há radar de baixa altitude nessa zona da costa, o que significa que uma aproximação a menos de duzentos metros não seria notada. Mas esse tipo de detalhe é irrelevante no momento. Pode ser resolvido mais tarde. Um estudo de viabilidade, Karl, isto é tudo de que precisamos nesta fase. Você concorda que, em teoria, seria possível descer um grupo de ataque nessa praia?

— Aceito isso como uma proposição — disse Hofer. — Mas como o tiraríamos de lá? De submarino?

Radl olhou para o mapa durante um momento e sacudiu a cabeça:

— Não, não é realmente prático. O grupo de ataque seria grande demais. Sei que poderia, de alguma maneira, ser imprensado a bordo, mas o ponto de encontro precisaria localizar-se a alguma distância ao largo e haveria problemas para levar tanta gente até lá. Precisa ser algo mais simples, mais direto. Um barco-patrulha, talvez. Há muita atividade de barcos-patrulha das rotas de navegação costeira nessa área. Não vejo razão por que não poderíamos insinuar-nos entre a praia e o Point. Isso aconteceria durante a maré alta e, de acordo com o relatório, não há minas nesse canal, o que simplificaria muito as coisas.

— Precisaremos de um parecer da Marinha sobre isso — disse, cauteloso, Hofer. — A Sra. Grey diz em seu relatório que essas águas são perigosas.

— É exatamente para isso que existem bons marinheiros. Há mais alguma coisa que não lhe cause muita alegria?

— Desculpe-me, Herr Oberst, mas acho que o fator tempo poderia ser crucial para o sucesso de toda a operação. E, para ser franco, não sei como poderia ser reconciliado. — Apontou para Studíey Grange no mapa militar. — O alvo fica aqui, a aproximadamente doze quilômetros da zona de lançamento. Considerando o território desconhecido e a escuridão da noite, eu diria que o grupo atacante precisaria de duas horas para chegar lá, e, por mais curta que fosse a visita, necessitaria do mesmo tempo para a viagem de volta. Minha estimativa é um espaço de tempo de ação de seis horas. Se aceitarmos que o lançamento terá que ser feito por volta da meia-noite por questão de segurança, isso significa que o encontro com o barco-patrulha teria lugar ao amanhecer, se não depois, o que seria inteiramente inaceitável. O barco-patrulha precisa de, pelo menos, duas horas de escuridão para cobrir a partida.

Radl estivera recostado na cadeira, com a face voltada para o teto e os olhos fechados.

— Muito lúcidas suas observações, Karl. Você está aprendendo. — Endireitou-se na cadeira. — Você tem toda razão, e é esse o motivo por que o lançamento deve ser feito na noite anterior.

— Como, Herr Oberst? — disse Hofer, com o espanto escrito por toda a sua face. — Não compreendo.

— É muito simples. Churchill chegará a Studley Grar à tarde ou à noite do dia 6 e passará aí a noite. Nosso grupo desce na noite anterior, no dia 5 de novembro.

Hofer franziu o cenho, pensando no caso.

— Percebo   a vantagem   disso,   naturalmente,   Herr Oberst. O tempo adicional lhe daria espaço para manobrar em caso de uma eventualidade inesperada.

— Significa também que não haveria mais problemas com o barco-patrulha —- disse Radl. — O grupo poderia ser recolhido às dez ou onze horas de sábado. — Sorriu e tirou outro cigarro da caixa. — Assim, concorda, também, que isso é viável?

— Haveria um sério problema para. conservar nossa gente oculta no sábado — observou Hofer. — Especialmente se o grupo fosse numeroso.

— Você tem toda a razão. — Radl levantou-se e começou a andar novamente de um lado para outro. — Mas acho que há para isso uma solução bem clara. Deixe-me fazer uma pergunta ao velho mateiro que você é, Karl. Se você quisesse esconder um pinheiro, qual seria o lugar mais seguro na terra?

— Numa floresta de pinheiros, acho.

— Exatamente. Numa área remota e isolada como esas, um estranho. . . qualquer estranho. . . aparece tanto como um dedo machucado, especialmente em tempo de guerra. Os britânicos, como os bons alemães, passam seus feriados em casa para ajudar o esforço de guerra. Mas ainda assim, Karl, segundo o relatório da Sra. Grey, estranhos passam constantemente pelas estradas e pelas aldeias todas as semanas e são aceitos como coisa natural. — Hofer pareceu confuso e Radl continuou: — Soldados, Karl, em manobras, treinando, perseguindo-se através das cercas-vivas. — Apanhou o relatório de Joanna Grey e virou as páginas. — Aqui, na página 3, por exemplo, ela fala desse local, Meltham House, a doze quilômetros de Studley Constable. No ano passado, em quatro ocasiões, foi usado como centro de treinamento de unidades de comandos. Duas vezes por comandos britânicos, uma vez por uma unidade semelhante, composta de poloneses e tchecos, com oficiais britânicos, e uma vez por rangers americanos.

— Eles precisarão apenas de uniformes britânicos para poder andar pelo campo sem dificuldade. Uma unidade de comandos polonesa seria uma solução maravilhosa.

— Ela certamente resolveria o problema da língua —disse Hofer; — Mas a unidade polonesa mencionada pela Sra. Grey tinha oficiais ingleses, e não apenas oficiais que falavam inglês. Se Herr Oberst.me perdoar por dizer isso, há uma grande diferença.

— Exato, você tem razão — reconheceu Radl. — Toda a diferença do mundo. Se o oficial encarregado fosse inglês, ou aparentemente inglês, isso tornaria toda a operação muito mais simples.

Hofer lançou um olhar ao relógio.

— Se me permite, Herr Oberst, a reunião semanal dos chefes de seção deverá começar, no gabinete do almirante, dentro de dez minutos, exatamente.

— Obrigado, Karl. — Radl apertou o cinto e levantou-se. — Assim, parece que nosso estudo de viabilidade está virtualmente completo. Parece que cobrimos todos os ângulos.

— Exceto pelo que é talvez o item mais importante de todos, Herr Oberst.

Radl encontrava-se já a meio caminho da porta. Mas parou e disse:

— Muito bem, Karl, pode fazer-me a sua surpresa.

— O líder dessa aventura, Herr Oberst. Teria que ser um homem de capacidade extraordinária.

— Outro Otto Skorzeny — sugeriu Radl.

— Exatamente — concordou Hofer. — Com mais uma coisa, neste caso. A capacidade de passar por inglês.

Radl sorriu alegremente.

— Encontre-o para mim, Karl. Dou-lhe quarenta e oito horas. — Abriu rapidamente a porta e saiu.

Aconteceu que Radl teve que fazer uma visita inesperada a Munique no dia seguinte e somente depois do almoço de quinta-feira reapareceu no gabinete da Tirpitz Ufer. Estava exausto, tendo dormido muito pouco em Munique na noite anterior. Os bombardeiros Lancaster da raf haviam dedicado à cidade uma atenção muito mais concentrada do que habitual.

Hofer trouxe-lhe logo café e serviu-lhe um conhaque.

— Fez boa viagem, Herr Oberst?

— Mais ou menos — respondeu Radl. — Para dizer a verdade, a coisa mais interessante foi o nosso desembarque ontem. Nosso Junkers foi seguido por um caça Mustang americano. Houve um grande pânico, isso lhe garanto. Depois, vimos que havia uma suástica na empenagem da cauda. Aparentemente, era um avião que fizera um pouso forçado, a Luftwaffe o havia reparado e estava fazendo testes de vôo com ele.

— Extraordinário, Herr Oberst.

— Isso me deu uma idéia, Karl. — Radl inclinou cabeça. — Quero dizer, o pequeno problema que você mencionou sobre Dorniers ou Junkers sobrevoando a costa de Norfolk. — Notou, nesse momento, uma pasta de cartolina verde sobre a mesa. — O que é isso?

— A missão que o senhor me deu, Herr Oberst. O oficial que podia passar por inglês. Tive que fazer um bocado de investigações, e há um relatório sobre uma corte marcial que requisitei. Deve chegar aqui esta tarde.

— Corte marcial? — perguntou Radl. — Não gosto do som dessas palavras. — Abriu a pasta. — Quem, em nome de Deus, é esse homem?

— O nome dele é Steiner. Tenente-Coronel Kurt Steiner — disse Hofer. — Deixa-lo-ei agora para que possa ler tudo o que há sobre ele. É uma história interessante.

Era mais do que interessante. Era fascinante.

Steiner, filho único do Major-General Karl Steiner, na ocasião comandante de área na Bretanha, nascera em 1916 quando o pai era major de artilharia. A mie era americana, filha de um rico comerciante de lã em Boston, que se transferira para Londres por questões de negócios. No mês em que o filho nascera, seu único irmão morrera no Somme como capitão de um regimento de infantaria de Yorkshire.

O garoto fora educado em Londres, passando cinco anos na St. Paul durante o período em que o pai fora adido militar à embaixada alemã. Falava inglês fluentemente. Após a trágica morte da mãe em um desastre de automóvel em 1931, voltara à Alemanha com o pai, mas continuara desde então a visitar os parentes em Yorkshire.

Durante algum tempo estudara arte em Paris, sustentado pelo pai, sob promessa de que, se a tentativa falhasse,. ele ingressaria no Exército. Acontecera exatamente isso. Passara um curto período como segundo-tenente de artilharia e, em 1936, respondera à chamada de voluntários para treinamento em Stendhal, como pára-quedista, isso mais para combater o tédio do que por qualquer outro motivo.

Tornara-se imediatamente claro que ele possuía talento para esse tipo de vida militar cheia de aventuras. Participara de ações terrestres na Polônia e fora lançado de pára-quedas em Narvik durante a campanha norueguesa. Como primeiro -tenente, descera de planador com o grupo que tomara o canal Albert em 1940 durante o grande ataque à Bélgica e fora ferido no braço.

Em seguida, ação na Grécia — o canal de Corinto e, em seguida, um novo tipo de inferno em maio de 1941, já capitão, no grande lançamento em Creta, quando fora gravemente ferido na selvagem luta pelo aeroporto de Maleme.

Mais tarde, a Guerra de Inverno. Radl sentiu um calafrio súbito nos ossos ao ler esse nome. “Deus, será que jamais esqueceremos a Rússia”, perguntou a si mesmo, “nós, os que estivemos lá?”

Como major, liderara um grupo especial de assalta de trezentos voluntários, lançados à noite para entrar em contato e resgatar duas divisões que haviam sido cercadas durante a batalha pela posse de Leningrado. Saíra da luta com uma bala na perna direita, o que lhe provocara uma leve claudicação, uma Cruz de Cavaleiro e a reputação de especialista nesse tipo de operação de salvamento.

Encarregado de mais duas missões de natureza semelhante, recebera a patente de tenente-coronel a tempo de seguir para Stalingrado, onde perdera metade de seus efetivos, mas fora retirado várias semanas antes do fim, quando aviões ainda voavam. Em janeiro, ele e cento e sessenta e sobreviventes do grupo de assalto original foram lançados nas proximidades de Kiev, mais uma vez para entrar em contato e formar a vanguarda no resgate de duas divisões de infantaria cercadas. O resultado final fora uma retirada disputada sangrentamente, de quatrocentos e cinqüenta quilômetros. Na última semana de abril, Kurt Steiner chegara às linhas alemãs, acompanhado de apenas trinta sobreviventes.

Recebera de imediato as Folhas de Carvalho para a sua Cruz de Cavaleiro e fora, juntamente com seus homens enviado no primeiro trem para a Alemanha, passando por Varsóvia na manhã do dia 1º de maio. Partira com seus soldados na mesma noite, sob prisão rigorosa, por ordens de Jurgen Stroop, Brigadeführer das ss e major-general da polícia.

Houvera uma corte marcial na semana seguinte. Faltavam detalhes, e somente o veredicto constava do arquivo. Steiner e seus soldados haviam sido sentenciados a cumprir pena em uma unidade de trabalho forçado, da Operação Peixe-Espada, em Alderney, uma das ilhas do Canal ocupadas pelos alemães. Radl olhou fixamente para a pasta durante um momento, fechou-a e apertou a campainha, chamando Hofer, que entrou no mesmo momento.

— Herr Oberst?

— O que foi que aconteceu em Varsóvia?

— Não tenho certeza, Herr Oberst. Estou esperando que os autos da corte marcial sejam trazidos para aqui esta tarde.

— Muito bem — disse Radl. — O que é que estamos fazendo nas ilhas do Canal?

— Tanto quanto pude descobrir, a Operação Peixe-Espada é uma espécie de unidade suicida, Herr Oberst. Tem como finalidade destruir navios aliados no canal.

— E como é que fazemos isso?

— Aparentemente, eles montam em um torpedo, com carga explosiva retirada, Herr Oberst, no qual foi instalada uma cúpula de vidro para dar certa proteção ao operador. Um torpedo carregado é preso por baixo do primeiro durante o ataque. O operador deve soltá-lo, desviando-se no último momento.

— Deus todo-poderoso — exclamou, horrorizado, Radl. Não é de admirar que transformassem isso em uma unidade penal.

Permaneceram sentados em silêncio durante algum tempo, olhando para a pasta. Hofer tossiu e disse, sonhando:

— O senhor acha que ele poderia ser uma possibilidade?

— Não vejo por que não — respondeu Radl. — Acho que qualquer coisa parecerá melhor do que o que ele faz neste momento. Sabe se o almirante está?

— Vou saber para o senhor, Herr Oberst.

— Se ele estiver, veja se consegue que me receba esta tarde. É tempo de lhe mostrar até onde fomos. Prepare-me um esboço. . . bem-feito e curto. Uma página apenas, e datilografe-a você mesmo. Não quero que pessoa alguma tenha a mínima idéia disso. Nem mesmo no departamento.

Nesse exato momento, o Tenente-coronel Kurt Steiner encontrava-se mergulhado até a cintura nas águas geladas do canal da Mancha, sentindo mais frio do que nunca em sua vida, ainda mais frio do que na Rússia, O frio chegava-lhe até o cérebro enquanto se agachava por trás da cúpula de vidro do torpedo.

Estava precisamente a três quilômetros a nordeste da Brave Harbour, na ilha de Alderney, e ao norte de uma ilha menor ao largo, Burhou, embora estivesse envolvido por um nevoeiro tão espesso que, pelo que se podia ver, bem poderia estar no fim do mundo. Pelo menos, não se encontrava só. Cabos de cânhamo desapareciam no nevoeiro de cada lado, como cordões umbilicais, ligando-o ao Sargento Otto Lemke, à esquerda, e ao Tenente Ritter Neumann, à direita.

Steiner ficara espantado ao ser chamado naquela tarde. Mais espantosa ainda fora a evidência de um contato de radar, indicando a presença de um navio bem perto da terra, pois a rota principal do canal ficava muito mais ao norte. Conforme se soube depois, o navio em questão, o Joseph Johnson, um barco da classe Liberty de oito mil toneladas, saíra de Boston em direção a Plymouth com uma carga de altos explosivos e sofrera avaria no leme em meio a uma forte tempestade três dias antes, nas proximidades do Land’s End. O enguiço no leme e o denso nevoeiro haviam conspirado para desviá-lo do curso.

Ao norte de Burhou, Steiner diminuiu a marcha, dando um puxão nos cabos para alertar os companheiros. Minutos depois, eles vieram deslizando no nevoeiro para seu lado. O rosto de Ritter Neumann parecia azul de frio dentro do capuz do traje.de borracha.

— Estamos perto, Herr Oberst — disse. — Tenho certeza de que o estou ouvindo.

O Sargento Lemke deslizou para o lado deles. A encaracolada barba preta, da qual muito se orgulhava, constituía uma concessão especial de Steiner em vista do fato de o queixo de Lemke ter sido muito deformado por uma bala russa de alta velocidade. Estava emocionado, seus olhos faiscavam e ele evidentemente considerava tudo aquilo como uma grande aventura.

— Eu também, Herr Oberst.

Steiner ergueu a mão, pedindo silêncio, e escutou. Pela pulsação abafada muito próxima via-se que o Joseph Johnson navegava lentamente.

— Esse é bem fácil, Herr Oberst — sorriu largamente Lemke, embora seus dentes chocalhassem de frio. — A melhor presa que tivemos até agora. Nem mesmo saberão o que foi que os atingiu.

— Você fala por si mesmo, Lemke — disse Ritter Neumann. — Se há uma coisa que aprendi em minha curta e infeliz vida é nunca esperar coisa alguma e desconfiar principalmente de tudo aquilo que é servido numa bandeja.

Como se para confirmar-lhe as palavras, uma inesperada lufada de vento abriu um buraco na cortina do nevoeiro. Atrás dele, erguia-se a extensão verde-cinzenta de Alderney, com o velho quebra-mar do Almirantado apontando com um dedo de granito a partir de Braye. A fortificação naval vitoriana de Forte Albert era claramente visível.

Steiner aumentou a velocidade e arremeteu, agachado por trás da cúpula, enquanto ondas se quebravam sobre sua cabeça. Sentia a presença de Ritter Neumann à direita, mais ou menos ombro a ombro. Lemke, porém, havia dado velocidade a seu torpedo e encontrava-se a uns quinze ou vinte metros à frente.

“Esse jovem boboca”, pensou Steiner. “O que é que ele pensa que é isto, a Carga da Brigada Ligeira?”

Dois homens no parapeito do Joseph Johnson portavam fuzis. Um oficial saiu da casa do leme e lá da ponte começou a disparar uma submetralhadora Thompson de tambor. O navio aumentou a velocidade nesse instante, mergulhando na cortina do nevoeiro que se adensava outra vez. Dentro de minutos, teria desaparecido por completo. Os homens no parapeito estavam tendo dificuldade em apontar no tombadilho saltitante e seus tiros batiam muito longe do alvo. A Thompson, não muito precisa nem mesmo nas melhores condições, não conseguia coisa melhor mas fazia um grande barulho.

Lemke alcançou a linha de cinqüenta metros, a uma boa distância à frente dos outros, e continuou seu caminho. Não havia coisa alguma que Steiner pudesse fazer a respeito. Os homens no navio começavam a atirar dentro do alcance de suas armas e uma bala ricocheteou na blindagem do torpedo, em frente à cúpula. Ele virou-se e fez um aceno a Neumann.

— Agora! — exclamou, e disparou o torpedo.

O torpedo onde se encontrava sentado, libertado do peso que viera transportando, saltou para a frente com nova energia e desviou-se rapidamente para a direita, seguindo-o Neu­mann em uma grande curva, destinada a afastá-lo do navio com a máxima rapidez.

Lemke afastava-se também nesse momento, a não mais de vinte e cinco metros do Joseph Johnson, enquanto os homens na balaustrada disparavam com fúria contra ele. Presumivelmente, um deles acertou, embora Steiner nunca pudesse ter certeza disso. A única coisa certa foi que, num momento, Lemke cavalgava o torpedo, afastando-se do perigo. No outro, desaparecera.

Um segundo depois, um dos três torpedos atingiu o navio bem na popa, onde estavam armazenadas centenas de toneladas de bombas de alto poder explosivo, destinadas às Fortalezas Voadoras dos grupos de bombardeio da Primeira Divisão Aérea, da Oitava Força Aérea americana na Europa. Ao ser engolido pelo nevoeiro, o Joseph Johnson explodiu, ecoando e reecoando da ilha o estrondo da explosão. Steiner agachou-se, enquanto passava por cima de sua cabeça a onda de pressão, e desviou-se quando um enorme pedaço de metal retorcido foi lançado ao mar à sua frente.

Escombros começaram a chover em cascata, enchendo o ar. Alguma coisa passou de raspão pela cabeça de Neumann. Ele ergueu as mãos para o alto e foi lançado violentamente ao mar, fugindo o torpedo de seu controle, mergulhando na onda seguinte e desaparecendo.

Quase inconsciente, sangrando de um feio ferimento na testa, conseguiu manter-se flutuando graças à jaqueta inflável. Steiner deslizou para seu lado, passou uma laçada do cabo sob a jaqueta do tenente e continuou a marcha, na direção do quebra-mar de Braye, que já desaparecia no nevoeiro que rolava mais uma vez em direção à ilha.

A maré vazava rapidamente. Steiner sabia que tinha uma chance em mil de voltar a Braye Harbour, enquanto lutava em vão contra a maré que o lançaria finalmente bem dentro do canal e além de qualquer esperança de retorno.

De súbito, compreendeu que Ritter Neumann estava outra vez consciente e que o olhava fixamente.

— Solte-me! — disse ele em voz débil. — Solte-me. O senhor poderá salvar-se sozinho.

No início, Steiner não se deu ao trabalho de responder. Concentrou-se em virar o torpedo para a direita. Burhou ficava em algum lugar à frente, por trás do cobertor impenetrável do nevoeiro. Havia uma possibilidade, vaga, talvez, de que a maré vazante os empurrasse para lá, e isso era melhor do que nada. Em voz calma, perguntou:

— Há quanto tempo estamos juntos, Ritter?

— O senhor sabe muito bem— respondeu Ritter. — A primeira vez que o vi foi sobre Narvik, quando eu tive medo de saltar do avião.

— Lembro-me agora — disse Steiner. — Eu o convenci a fazê-lo.

— Isso é outra maneira de contar a coisa — replicou Ritter. — O senhor me empurrou para fora.

Seus dentes chocalhavam e ele sentiu um grande frio no momento em que Steiner estendeu a mão para testar o cabo._

— Isto mesmo, um ranhoso berlinense de dezoito anos, recém-saído da universidade. Sempre com um livro de poesia no bolso traseiro da calça. O filho do professor que rastejou cinqüenta metros sob fogo para me trazer um estojo de primeiros socorros quando fui ferido no canal Albert.

— Eu devia tê-lo deixado morrer — retrucou Ritter. —Veja o que o senhor me arranjou. Creta, uma patente que eu não desejava, a Rússia, e agora isto. Que pechincha! Fechou os olhos e disse baixinho: — Sinto muito, Kurt, não adianta.

Inesperadamente, foram colhidos por um grande remoinho, que os lançou na direção das rochas de L’Equet, na ponta de Burhou. Havia um navio ali, ou metade de um navio, tudo o que restava de um barco costeiro francês que fora lançado sobre os recifes por uma tempestade em princípios do ano. O que sobrara do tombadilho da popa mergulhava fundo na água. Uma onda lançou-os para lá, com torpedo alto, na crista do vagalhão. Steiner rolou para longe dele, e agarrou-se à amurada do navio com uma mão, enquanto com a outra segurava o cabo que sustentava Neumann.

A onda desceu, levando o torpedo. Steiner levantou-se e subiu para o tombadilho inclinado em direção ao que restava da casa do leme. Insinuou-se com dificuldade pelo umbral amassado e puxou o companheiro. Agacharam-se entre as paredes sem telhado da casa do leme. Começou a garoar.

O que é que vamos fazer agora? — perguntou, em voz débil, Neumann.

Vamos ficar aqui — disse Steiner. — Brandt sairá com um barco de socorro logo que o nevoeiro clarear um pouco.

Eu precisava de cigarro — disse Neumann. Endureceu-se de chofre nesse momento, porém, e apontou para a perna quebrada. — Olhe para aquilo.

Steiner dirigiu-se para o parapeito. A água escorria rápida, à medida que a maré recuava, contorcendo-se e girando entre os recifes e rochas, levando consigo os restos da guerra, um tapete flutuante de destroços, que era tudo o que restava do Joseph Johnson.

— Então, conseguimos destruí-lo — disse Neumann. Fez um esforço para se levantar — Há um homem ali embaixo, Kurt, usando um salva-vidas amarelo. Olhe debaixo da popa.

Steiner deslizou pelo tombadilho até a água e virou-se sob a popa, abrindo caminho através de uma massa de pranchas até alcançar ó homem que flutuava ali, com a cabeça lançada para trás e olhos fechados. Era muito moço e o cabelo louro colava-se a seu crânio. Steiner agarrou-o pelo colete salva-vidas e começou a rebocá-lo para a segurança da arruinada popa. Ele abriu o» olhos e fitou-o. Sacudiu a cabeça, tentando dizer alguma coisa. Steiner flutuou a seu lado durante um momento.

— O que é? — perguntou em inglês.

— Por favor — murmurou o rapaz. — Solte-me.

Fechou os olhos outra vez. Steiner nadou com ele para a popa. Neumann, observando-os da casa do leme, viu quando Steiner começou a puxá-lo pelo tombadilho inclinado. Mas parou por um longo momento e, em seguida, soltou o rapaz na água. Uma corrente levou-o para longe e ocultou-o por trás do recife. Steiner subiu cansadamente ao tombadilho.

— O que foi? — perguntou em voz fraca Neumann.

— Ambas as pernas foram amputadas abaixo do joelho — disse Steiner em voz medida, firmando os pés contra a amurada. — Como era aquele poema de Eliot que você recitava sempre em Stalingrado? Aquele de que eu não gostava?

— “Acho que estamos num buraco de ratos” — disse Neumann. — “Onde os mortos perderam seus ossos.”

— Agora eu o compreendo — disse-lhe Steiner. —Agora compreendo exatamente o que ele queria dizer.

Ficaram sentados ali em silêncio. Fazia mais frio nesse momento, e a chuva, aumentando, afastava rapidamente o nevoeiro. Uns vinte minutos mais tarde, ouviram o som não muito distante de um motor. Steiner tirou a pequena pistola de sinalização de um saco preso à perna direita, carregou-a com um cartucho à prova de água e disparou-a.

Momentos depois, a lancha de socorro saiu do nevoeiro e reduziu a velocidade, deslizando na direção deles. O sargento Brandt, na proa, tinha um cabo pronto para lançar. Era um homem imenso, de mais de um metro e noventa de altura e proporcionalmente largo, absurdamente vestido com uma capa de oleado amarela com as palavras Royal National Lifeboat Institution gravadas nas costas. O resto da tripulação era constituído, sem exceção, de subordinados de Steiner: o Sargento Sturm ao leme, e o Cabo Briegel e o soldado Berg como moços de convés. Brandt saltou para o tombadilho inclinado do navio e prendeu o cabo em torno do parapeito, enquanto Steiner é Neumann deslizavam para baixo a seu encontro.

— Conseguiu acertar em cheio, Herr Oberst. O que foi que aconteceu a Lemke?

— Bancou o herói, como sempre — respondeu Steiner — Desta vez, foi longe demais. Cuidado com o Tenente Neumann. Ele tem um ferimento sério na cabeça.

— O Sargento Altmann está no outro bote, em companhia de Riedel e Meyer. Taívez vejam algum sinal dele. Ele tem a sorte do próprio Demônio, aquele cara. — Brandt, com imensa força, passou Neumann sobre o parapeito. —Ponha-o na cabina.

Neumann, porém, recusou e apoiou-se no tombadilho, com as costas contra o parapeito da popa. Steiner sentou-se á seu lado. Brandt deu-lhe cigarros, enquanto o barco se afastava. Steiner estava cansado. Cansado como há muito tempo não se sentia. Cinco anos de guerra. Às vezes, parecia que lutar não era somente tudo o que havia, mas tudo que jamais houvera.

Fizeram a volta em tomo da ponta do quebra-mar do Almirantado e seguiram-no por uns mil metros até Braye. Havia um número surpreendente de navios no porto, principalmente barcos costeiros franceses, trazendo material de construção do continente para as novas fortificações que estavam sendo erguidas em toda a ilha.

O pequeno ancoradouro fora ampliado. Um barco-patrulha encontrava-se ancorado ali e, quando a lancha passou por trás dele, os marinheiros no tombadilho soltaram vivas. Um jovem tenente barbado, vestindo um grosso suéter e um boné incrustado de sal, tomou uma elegante posição de sentido e bateu continência.

— Belo trabalho, Herr Oberst.

Steiner retribuiu a continência, aproximando-se do parapeito.                                                                                  

— Muito obrigado, Koenig.

Subiu os degraus do cais, seguido por Brandt, que sustentava Neumann com seu forte braço. Ao chegarem ao alto, uma grande limusine preta, um velho Wolsley, aproximou-se do ancoradouro e parou. O motorista saltou e abriu a porta traseira.

O primeiro a emergir do carro foi o homem que, na ocasião, servia como comandante da ilha, Hans Neuhoff, coronel de artilharia. Como Steiner,.era um veterano da Guerra de Inverno; fora ferido no peito em Leningrado e nunca mais recuperara a saúde, pois seus pulmões tinham ficado arruinados, sem qualquer possibilidade de cura, e, em sua face, estampava-se a. expressão resignada de um homem que morre aos poucos, e que sabe disso. A esposa desceu do carro logo depois dele.

Ilse Neuhoff tinha na ocasião vinte e sete anos, era uma loura esbelta, de aparência aristocrática, boca rasgada e generosa e belas bochechas. A maioria das pessoas virava para olhá-la duas vezes, não apenas porque era bela, mas porque geralmente parecia familiar. Antes da guerra, fizera uma brilhante carreira como estrelinha da ufa, em Berlim. Era uma dessas pessoas estranhas, de quem todos gostam, e fora muito requestada na sociedade berlinense. Era amiga de Goebbels. O próprio Führer a admirava.

Casara com Hans Neuhoff inspirada por um genuíno afeto que transcendia de muito o amor sexual, do qual, aliás, ele já não era capaz. Havia tratado dele depois da temporada na frente russa, ajudando-o a cada passo do caminho; usara sua influência para obter-lhe o posto atual e conseguira mesmo, graças à influência de Goebbels, um passe para visitá-lo. Havia um entendimento entre eles — um caloroso e mútuo entendimento —, e foi por causa disso que ela se dirigiu para Steiner e beijou-o na face, à vista de todos.

— Estávamos preocupados com você Kurt.

Neuhoff apertou-lhe a mão, visivelmente satisfeito.

— Um trabalho maravilhoso. Kurt. Mandarei imediatamente um relatório a Berlim.

— Não faca isso, pelo amor de Deus — disse Steiner, com fingido alarma. — Eles poderão resolver mandar-me de volta à Rússia.

Ilse segurou-lhe o braço.

— Isso não estava nas cartas na última vez em que li o Tarot, mas verei esta noite outra vez, se você quiser.

Ouviram um grito vindo do ancoradouro e foram até a borda a tempo de ver a entrada do segundo barco de socorro. Havia um corpo estendido no tombadilho, sob um cobertor. O Sargento Altmann, outro subordinado de Steiner, saiu nesse momento da casa do leme.

— Herr Oberst! — gritou, aguardando ordens.

Steiner inclinou a cabeça e Altmann levantou por um momento o cobertor. Neumann, que se havia aproximado de Steiner, disse amargamente:

— Lemke. Creta, Leningrado, Stalingrado. . .   todos estes anos e é assim que ele termina.

— Quando o nome da pessoa está na bala, é isso o que acontece — disse Brandt.

Steiner virou-se e olhou para a face perturbada de llse Neuhoff.

— Minha pobre Ilse. Será melhor deixar na caixa aquelas suas cartas. Mais algumas tardes como esta e não será mais uma questão de se o pior vai acontecer, mas quando.

Canaris tivera uma reunião com Ribbentrop e Goebbels durante a tarde, e somente às seis pôde recebê-lo. Não havia sinal dos autos da corte marcial de Steiner.

Cinco minutos antes das seis, Hofer bateu à porta e entrou no gabinete de Radl.

— Chegaram? — perguntou vivamente Radl.

— Lamento dizer que não, Herr Oberst.

— Por que não, em nome de Deus? — indagou irritado Radl.

— Parece que, como o incidente original diz respeito a uma queixa das ss, os autos encontram-se na Prinz Albrechtstrasse.

— Preparou o esboço que lhe pedi?

— Herr Oberst. —- Hofer entregou-lhe uma folha de papel, bem datilografada. Radl passou os olhos- por ela..

— Excelente, Hofer. Realmente, excelente. — Sorriu e endireitou o uniforme já imaculado. — Você está de folga agora, não?

— Prefiro esperar até que Herr Oberst volte — respondeu Hofer.

— Muito bem.— Radl sorriu e deu-lhe uma palmadinha no ombro. — Vamos acabar com isso.

O almirante tomava café, servido por um ordenança, no momento em que Radl entrou.

— Ah, é você, Max — disse ele, alegre. — Quer fazer-me companhia?

— Obrigado, Herr almirante.

O ordenança encheu outra xícara, ajustou as cortinas de blackout e saiu. Canaris suspirou e recostou-se na cadeira, estendendo a mão para acariciar a orelha de um de seus Dachshunde. Parecia cansado e havia sinais de tensão em seus olhos e em torno da boca.

— O senhor parece cansado — disse Radl.

— Você ficaria também, se se houvesse fechado com Ribbentrop e Goebbels durante toda a tarde. Esses dois tornam-se mais intoleráveis a cada vez que os vejo. De acordo com Goebbels, nós ainda estamos ganhando a guerra., Max. Já ouviu alguma coisa.mais absurda? — Radl não sabia, na verdade, o que dizer, mas foi salvo pelas palavras do almirante, que continuou: — De qualquer modo, sobre o que queria falar-me?                                      

Radl colocou o esboço de Hofer sobre a mesa. Canaris começou a lê-lo. Após um momento, ergueu os olhos, visivelmente confuso.

— O que é isto, pelo amor de Deus?

— O estudo de viabilidade que o senhor solicitou, Herr almirante. O caso Churchill. O senhor me pediu que pusesse alguma coisa no papel.                       .

— Ah, sim. — Uma luz de compreensão apareceu nos olhos do almirante e ele voltou a examinar o papel Após um momento, sorriu: — Sim, muito bom, Max. Inteiramente absurdo, claro, mas, no papel, tem uma espécie de lógica insana. Conserve-o à mão para o caso de Himmler lembrar ao Führer para perguntar se eu fiz alguma coisa a esse respeito.

— O senhor quer dizer que isto é tudo, Herr almirante? — perguntou Radl. — Não quer mais que eu leve adiante o caso?                                        

Canaris abrira uma pasta. Nesse momento, ergueu os olhos, visivelmente surpreso.

— Meu querido Max, acho que você não entendeu bem a situação. Quanto mais estapafúrdia a idéia sugerida por seus superiores neste jogo, mais extaticamente deve recebê-la, por mais maluca que seja. Ponha todo o seu entusiasmo, fingido, naturalmente, no projeto. Depois de certo tempo, deixe que as dificuldades apareçam, de modo que, aos poucos, seus superiores descubram por si mesmos que o plano não dará certo. E desde que ninguém gosta de meter-se em fracassos, se puder evitá-lo, o projeto é discretamente arquivado. — Riu de leve é bateu no esboço com um dedo. — Preste atenção, o próprio Führer precisaria estar tresloucado para ver possibilidades numa empresa insana como esta.

— Funcionaria, Herr almirante — disse Radl, sem pensar. — Consegui arranjar até ò homem certo para o trabalho.

— Tenho certeza de que conseguiu, Max, se foi tão eficiente como geralmente é. — Sorriu e empurrou o esboço por sobre a mesa. — Vejo que você levou a coisa toda a sério demais, Talvez minhas observações sobre Himmler o tenham preocupado. Mas não há necessidade disso, acredite-me. Posso lidar com ele. Você conseguiu pôr o suficiente no papel para satisfazê-los, caso surja a ocasião. Mas há muitas outras coisas para ocupá-los agora. . . assuntos realmente importantes.

Inclinou a cabeça, dispensando-o, e apanhou a caneta. Obstinado, Radl insistiu:

— Mas, com certeza, Herr almirante, se o Führer deseja. . .

Numa explosão de irritação, Canaris lançou a caneta sobre a mesa:

— Meu Deus, homem, assassinar Churchill, quando já perdemos a guerra? De que maneira pode isso ajudar?

Erguera-se de um salto e inclinara-se sobre a escrivaninha, estendendo os braços sobre o tampo. Radl tomou rígida posição de sentido, olhando com expressão vazia para um espaço a uns trinta centímetros acima da cabeça do almirante. Canaris tornou-se afogueado, consciente de que fora longe demais, que houvera traição implícita em suas irritadas palavras e que era tarde demais para retirá-las.

— À vontade — disse.

Radl tomou posição de descansar.

— Herr almirante.

— Nós nos conhecemos há bastante tempo, Max.

— Sim, senhor.

— Assim, confie em mim agora. Sei o que estou fazendo.

— Muito bem, Herr almirante — disse, seco, Radl.

Recuou um passo, bateu os calcanhares, voltou-se e saiu. Canaris permaneceu onde se encontrava, com os braços sobre a escrivaninha, e pareceu subitamente encovado e velho.

— Meu Deus — murmurou. — Por quanto tempo mais?

Ao sentar-se e apanhar a xícara, sua mão tremia tanto que o pires chocalhou.

Quando Radl voltou ao gabinete, Hofer arrumava papéis sobre a escrivaninha. O sargento virou-se animadamente mas notou logo a expressão na face do coronel.

— O almirante não gostou do esboço, Herr Oberst?

— Disse que nele havia uma espécie de lógica insana, Na realidade, parece que o achou muito divertido.

— O que é que vai acontecer agora, Herr Oberst?

— Nada, Karl — respondeu, cansado, Radl, e sentou-se à escrivaninha. — Está no papel o estudo de viabilidade que queriam, que talvez jamais seja utilizado, e isso foi tudo o que fomos solicitados a fazer. Vamos trabalhar em outra coisa. — Estendeu a mão para um dos cigarros russos. Hofer ofereceu-lhe fogo.

— Posso trazer-lhe alguma coisa, Herr Oberst? -— perguntou com simpatia na voz, mas também com cautela.

— Não, obrigado, Karl. Vá para casa agora. Vê-lo-ei pela manhã.

Herr Oberst. — Hofer bateu os calcanhares e hesitou.

— Vá, Karl — disse Radf. — Você é um bom sujeito. Obrigado.

Quando Hofer saiu, Radl passou a mão sobre a face, sentindo queimar a fossa ocular vazia e doer a mão invisível. Às vezes, pensava que haviam errado na costura, quando o recompuseram. Era espantoso como se sentia desapontado. Era uma sensação real de perda, de perda pessoal.

— Talvez isso seja bom — disse ele baixinho. — Eu começava a levar a maldita coisa a sério demais.

Sentou-se, abriu a pasta de Joanna Grey e começou a lê-la. Após um momento, apanhou o mapa militar e começou a desenrolá-lo. Mas parou subitamente. Estava farto desse minúsculo gabinete o dia todo, farto do Abwehr. Tirou a mala de sob a mesa, colocou nela as pastas e o mapa e apanhou o capote no cabide da porta.

Era cedo demais para a raf, e a cidade parecia estranhamente tranqüila quando saiu pela porta da frente do prédio. Resolveu aproveitar a breve calmaria e ir a pé para seu pequeno apartamento, em vez de pedir um carro oficial. De qualquer modo, sentia uma dilacerante dor de cabeça e a leve chuva que caía pareceu-lhe muito refrescante. Desceu os degraus, retribuiu a continência da sentinela e passou sob a luz sombreada da rua embaixo. Um carro começou a descer a Tirpitz Ufer e parou a seu lado.

Era uma limusine Mercedes preta, tão preta como os uniformes dos dois homens da Gestapo que saltaram do assento dianteiro e permaneceram à espera. Ao ver o distintivo na manga do oficial mais próximo, o coração de Radl quase deixou de bater. RFSS. Reichsführer der SS. O distintivo do estado-maior particular de Himmler.

O jovem que desceu do assento traseiro usava um chapéu de feltro mole e casaco de couro preto. Seu sorriso exibia aquela espécie de encanto inexorável possuído apenas pelos autenticamente insinceros.

— Coronel Radl? — perguntou. — Que bom que pudemos encontrá-lo antes de ir embora. O Reichsführer apresenta-lhe seus cumprimentos. Se puder reservar-lhe alguns momentos, ele se sentirá muito grato. — Habilmente, tirou a pasta da mão de Radl. — Deixe que eu leve isso para o senhor.

Radl umedeceu os lábios secos e conseguiu sorrir.

— Mas, naturalmente — disse, sentando-se na traseira do Mercedes.

O jovem entrou em seguida, os demais tomaram o assento dianteiro e o carro partiu. Radl notou que o que não estava guiando trazia sobre os joelhos,uma submetralhadora Erma, tipo policial. Respirou fundo para controlar o medo que surgiu em seu peito.

— Cigarro, Herr Qberst?

— Obrigado:—disse Radl. — Para onde é que estamos indo, por falar nisso?

— Prinz Aíbrechtstrasse. — O jovem ofereceu-lhe fogo e sorriu. — O quartel-general da Gestapo.


Quatro

Ao ser introduzido no gabinete do primeiro andar da Prinz Albrechtstrasse, Radl viu-o logo, sentado atrás de uma grande escrivaninha, tendo à frente uma pilha de pastas. Usava o uniforme de gala de Reichsführer SS, e parecia um demônio em negro, à luz mortiça. Ao erguer a face por trás do pince-nez de prata, sua expressão era fria e impessoal.

O jovem de casaco de couro preto que o trouxera fez a saudação nazista e colocou a pasta sobre a mesa.

— Às suas ordens, Herr Reichsführer.

— Obrigado, Rossman — respondeu Himmler. — Espere do lado de fora. Posso precisar de você mais tarde.

Rossman saiu, e Radl esperou enquanto Himmler afastava com toda a precisão as pastas para um lado, como se limpasse tombadilhos para uma batalha. Puxou a pasta para a frente e examinou-a pensativo. Estranhamente, Radl recuperara parte da coragem, e certo humor negro que fora sua salvação em muitas ocasiões emergiu à superfície nesse instante.

— Até o condenado tem direito a um último cigarro, Herr Reichsführer.

Himmler chegou a sorrir, o que era uma grande coisa, considerando-se que o fumo constituía uma das suas maiores aversões.

— Por que não? — Fez um gesto com a mão. — Soube que o senhor é um homem corajoso, Herr Oberst. Ganhou sua Cruz de Cavaleiro durante a Guerra de Inverno?

— Exatamente, Herr Reichsführer. — Radl tirou a cigarreira com uma das mãos e abriu-a agilmente.

— E vem trabalhando para o Almirante Canaris desde então?

Radl esperou, fumando, tentando fazer com que o cigarro durasse enquanto Himmler olhava outra vez fixamente para sua pasta. A sala era realmente muito agradável àquela luz mortiça. Uma lareira aberta queimava forte e, sobre ela, havia um retrato autografado do Führer em moldura dourada.

— Pouca coisa acontece nestes dias na Tirpitz Ufer que eu não saiba — disse Himmler. — Isso o surpreende? Por exemplo, sei que no dia 20 deste mês foi-lhe mostrado um relatório de rotina de um agente do Abwehr na Inglaterra, a Sra. Joanna Grey, no qual figurava o nome mágico Winston Churchill.

— Herr Reichsführer, não sei o que dizer — respondeu Radl.

— Ainda mais fascinante, o senhor mandou transferir todas as pastas dela do Abwehr Um para seu gabinete, e dispensou o Capitão Meyer, que fora o elemento de ligação com essa senhora durante muitos anos. Sei que ele está muito nervoso. — Himmler pôs as mãos sobre a pasta. —- Vamos, Oberst, nós somos velhos demais para brincadeiras. O sabe sobre o que estou falando. Bem, o que tem a dizer-me?

Max Radl era um realista. Não lhe restava alternativa alguma nessa questão. Disse:

— Na pasta, o Reichsführer encontrará tudo que há para saber, exceto um item.

— Os autos da corte marcial do Tenente-Coronel Steiner, do Regimento de Pára-Quedistas? — Himmler tirou a pasta mais alta da pilha a seu lado e entregou-a a ele. —Uma troca justa. Sugiro que a leia lá fora. — Abriu a pasta de documentos de Radl e começou a extrair-lhe o conteúdo. — Mandarei chamá-lo quando precisar de sua ajuda.

Radl quase estendeu o braço, mas um último e teimoso resto de amor-próprio transformou o gesto em uma continência elegante, embora convencional. Virou sobre os calcanhares, abriu a porta e passou para a ante-sala.

Rossman, refestelado em uma espreguiçadeira, lia um número de Signal, a revista da Wehrmacht Ergueu, surpreso, os olhos.

— Já está de saída?

— Não tive essa sorte — respondeu Radl, pondo a pasta sobre uma mesinha baixa de café e começando a abrir o cinto.— Parece que tenho um pouco de leitura a fazer.

Rossman sorriu afável.

— Vou ver se consigo um pouco de café para nós. Parece-me que talvez o senhor fique conosco durante um bocado de tempo.

Saiu. Radl acendeu outro cigarro, sentou-se e abriu a pasta.                                                                     .

A data escolhida para apagar da face da terra o gueto de Varsóvia foi o dia 19 de abril. O aniversário de Hitler era no dia 20, e Himmler esperava oferecer-lhe, como presente, a boa notícia. Infelizmente, quando o comandante da operação, o Oberführer das ss, Von Sammern-Frankenegg, e seus soldados entraram no gueto, foram repelidos mais uma vez pela Organização Combatente Judaica, sob o comando de Mordechai Anielewicz.

Imediatamente, Himmler substituiu-o pelo Brigadeführer das ss e major-general da polícia Jurgen Stroop, que, auxiliado por uma força mista de ss, poloneses e ucranianos, renegados, lançou-se com todo o vigor à tarefa: não deixar pedra sobre pedra, e nenhum judeu vivo. Isso para comunicar pessoalmente a Himmler: “O gueto de Varsóvia já não existe”. Precisou de vinte e oito dias para realizar o trabalho.

Steiner e seus homens chegaram a Varsóvia na manhã do dia 13, em um trem-hospital que seguia da frente oriental para Berlim. Haveria uma parada de uma ou duas horas, dependendo do tempo que fosse necessário para consertar um enguiço no sistema de refrigeração do motor. Ordens foram transmitidas pelos alto-falantes, dizendo que ninguém poderia deixar a estação. Membros da polícia militar postaram-se nas entradas para que a ordem fosse cumprida.

Embora a maior parte de seus soldados permanecesse no vagão, Steiner saiu para estirar as pernas, no que foi acompanhado por Ritter Neumann. As botas de pára-quedista de Steiner estavam em pedaços, seu casaco de couro vira sem dúvida dias melhores e ele usava um cachenê sujo e um boné de pano, do tipo mais comum entre sargentos do que entre oficiais.

O soldado da polícia militar que guardava a entrada principal ergueu o fuzil com ambas as mãos e disse áspero:

— Você ouviu á. ordem, não? Recue!

— Parece que querem manter-nos escondidos por alguma razão, Herr Oberst — disse Neumann.

Caiu a mandíbula do soldado e ele tomou uma apressada posição de sentido.

— Peço desculpas, Herr Oberst. Eu não percebi.

Passos rápidos estalaram atrás deles e uma voz áspera perguntou:

— Schultz. . . o que está havendo?

Steiner e Neumann a ignoraram e saíram. Um pálio de fumaça preta cobria a cidade, ouvia-se o trovejar de artilharia à distância e o crepitar de armas leves. Uma mão no ombro de Steiner fê-lo girar e ele viu-se frente a frente com um major, vestindo um imaculado uniforme. Em volta de seu pescoço, pendia a lustrosa gargalheira de bronze da polícia militar. Steiner suspirou e puxou a echarpe branca do pescoço, mostrando não apenas o distintivo de seu posto na gola, mas também a Cruz de Cavaleiro, com as Folhas de Carvalho, o que equivalia a uma segunda e idêntica condecoração.

— Steiner — disse. — Regimento de Pára-Quedistas.

O major bateu uma continência polida, mas apenas porque era obrigado a fazê-lo.

— Sinto muito, Herr Oberst, mas ordens são ordens.

— Qual é o seu nome? — perguntou Steiner. Certa tensão na voz do coronel nesse instante, a despeito de seu sorriso indolente, sugeria a possibilidade de algo desagradável.

— Otto Frank, Herr Oberst.

— Bem, agora que verificamos isso, poderia fazer a gentileza de me explicar exatamente o que é que está acontecendo aqui? Eu pensava que o Exército polonês havia se rendido em 1939.

— Eles estão arrasando o gueto de Varsóvia — explicou Frank.

— Eles, quem?

— Uma unidade especial. ss e vários outros grupos, comandados pelo Brigadeführer Jurgen Stroop. São bandidos judeus, Herr Oberst. Estão lutando de casa em casa, de adega em adega, nos esgotos, há catorze dias, até hoje. Assim, estamos expulsando-os a fogo. É a melhor maneira de exterminar a piolheira.

Durante uma licença de convalescença, após ter sido ferido em Leningrado, Steiner visitara o pai na França, e o encontrara muito mudado. Havia já muito tempo, o general tinha duvidas sobre a nova ordem. Seis meses antes, visitara o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia.

— O comandante era um porco chamado Rudolf Hoess, Kurt. Você não acreditaria, mas era um assassino que cumpria prisão perpétua e que foi libertado por uma anistia em 1928. Estava matando judeus aos milhares, em câmaras de gás especialmente construídas, e destruindo-lhes os corpos em grandes fornos de cremação. Isto depois de mandar extrair deles pequenos itens, como dentes de ouro e coisas assim.

O velho general estivera bêbado nessa ocasião, mas, ainda assim, lúcido.

— È por isso que estamos lutando, Kurt? Para proteger suínos como Hoess? O que dirá o resto do mundo quando chegar a ocasião? Que somos realmente culpados? Que a Alemanha é culpada porque nada fizemos? Homens decentes e honrados permaneceram de lado e nada fizeram? Bem, não eu, e Deus sabe disso. Eu não suportaria a mim mesmo.

Ali, na entrada da Estação de Varsóvia, a recordação de tudo isso subiu no íntimo de Kurt Steiner e deu à sua face uma expressão que fez o major recuar alguns passos.

— Assim é melhor — disse Steiner. — E se pudesse colocar-se contra o vento, eu ficaria agradecido.

A expressão de espanto do Major Frank transformou-se em súbita fúria quando Steiner passou por ele, com Neumann a seu lado.

— Calma, Herr Oberst, calma — disse Neumann.

Na plataforma situada no outro lado dos trilhos, um grupo de ss tangia uma fila de esfarrapados e imundos seres humanos contra uma parede. Era virtualmente impossível diferenciá-los quanto ao sexo. Enquanto Steiner olhava, todos eles começaram a tirar as roupas.

Um policial militar, na borda da plataforma, observava a cena.

— O que está acontecendo ali?— perguntou Steiner.

— Judeus, Herr Oberst — respondeu o soldado. — A colheita desta manhã no gueto. Serão enviados para Treblinka, onde serão liquidados ainda hoje. Fazem-nos se despirem assim antes da busca, principalmente por causa das mulheres. Algumas delas foram encontradas com pistolas carregadas dentro das calcinhas.

Ouviu-se uma gargalhada brutal do outro lado dos trilhos e alguém gritou de dor. Steiner voltou-se enojado para Neumann e notou que o tenente olhava para a traseira do trem de tropas. Uma moça de uns catorze ou quinze anos, descabelada e com a face enegrecida de fumaça, usando um casaco curto de homem, agachava-se sob o vagão. Presumivelmente, escapara do grupo era frente e sua intenção era, evidentemente, tentar uma corrida para a liberdade, sob as longarinas, quando o trem partisse.

No mesmo instante, o policial militar à beira da plataforma viu-a e deu o alarma, saltando nos trilhos e estendendo a mão para ela. Ela gritou, soltando-se com uma contorção, subiu atabalhoada para a plataforma e correu para a entrada, caindo nos braços do major de polícia Frank, que no momento deixava o escritório. Agarrando-a pelos cabelos, ele a sacudiu como se ela fosse uma ratazana:

— Sua putinha judia imunda. Eu lhe ensinarei bons modos.

Steiner correu para a frente.

— Não, Herr Oberst! — gritou Neumann, mas era tarde demais.

Steiner segurou firme Frank pela gola, desequilibrando-o e quase lançando-o ao chão, agarrou a moça pela mão e colocou-a às suas costas.

O Major Frank ergueu-se com esforço e com a face contorcida de fúria. Suas mãos desceram para a Walther no coldre. Steiner, porém, sacou de uma Luger de um bolso do casaco de couro e tocou-lhe a testa, entre os olhos.

— Faça isso — disse — e eu lhe arranco a cabeça à bala. Pensando bem, eu faria um favor à humanidade.

Pelo menos uma dúzia de policiais militares correram para a frente, alguns deles armados com pistolas-metra-lhadoras e fuzis, e se detiveram em um semicírculo a quatro metros de distância. Um sargento alto apontou o fuzil. Steiner agarrou Frank pela túnica e puxou-o para si, apertando com força a coronha da Luger.

— Eu não o aconselharia a fazer isso.

Uma locomotiva entrou na estação a uma velocidade de oito ou nove quilômetros horários, puxando uma composição de vagões abertos, carregados de carvão. Sem olhar para a moça, Steiner perguntou-lhe:

— Qual é o seu nome, menina?

— Brana — respondeu ela. — Brana Lezemnikof.

— Bem, Brana — continuou ele —, se você é a moça que eu penso que é, agarre-se a um desses vagões de carvão e continue até sair daqui. É o melhor que posso fazer por você. — Ela desapareceu como um relâmpago e ele ergueu a voz: — Quem quer que atire nela põe também uma bala aqui no major.

A mocinha saltou para um dos vagões, arrastou-se e ergueu-se entre dois deles. O trem deslizou para fora da estação. Caiu um completo silêncio.

— Nós a tiraremos do trem na próxima estação — disse Frank. — Eu mesmo providenciarei isso.

Steiner empurrou-o para um lado e pôs a Luger no bolso. Imediatamente, os policiais fecharam o círculo. Ritter Neu­mann gritou:

— Hoje não, cavalheiros.

Steiner voltou-se e viu que o tenente tinha nas mãos uma pistola-metralhadora MP-40. O restante de seus soldados dava-lhe cobertura, todos eles armados até os dentes.

Nessa ocasião, qualquer coisa poderia ter acontecido, não tivesse ocorrido uma comoção súbita na entrada principal. Um grupo de ss arremeteu, com os fuzis em riste. Tomaram posição em uma formação em V e, momentos depois, o Brigadeführer das ss e o major-general da polícia Jurgen Stroop entrou na estação, ladeado por três ou quatro oficiais das ss de várias patentes, todos eles com pistolas na mão. Usava boné de serviço, com o respectivo uniforme, e parecia um homem surpreendentemente comum.

— O que é que está havendo aqui, Frank?

— Pergunte-lhe, Herr Brigadeführer — respondeu ele com a voz tensa de raiva.— Esse homem, um oficial do Exército alemão, acaba de permitir a fuga de uma terrorista judia.

Stroop examinou Steiner de alto a baixo, observando os distintivos do seu posto, e a Cruz de Cavaleiro com as Folhas de Carvalho.

— Quem é você? — perguntou.

— Kurt Steiner. . . Regimento de Pára-Quedistas — respondeu ele. — E. por acaso, quem é o senhor?

Ninguém jamais vira Jurgen Stroop perder a calma. Tranqüilamente, ele respondeu: — O senhor não me pode falar dessa maneira, Herr Oberst. Eu sou um major-general, como o senhor sabe muito bem.

— O mesmo acontece com meu pai — retrucou Steiner —, e eu não estou especialmente impressionado. Contudo, como tocou no assunto, o senhor é o Brigadeführer Stroop, o homem encarregado do massacre que está sem feito lá fora?

— Estou no comando aqui, sim.

Steiner enrugou o nariz.

— Achei que poderia ser. Sabe o que o senhor me lembra?

— Não, Herr Oberst — replicou Stroop. — Diga-me.

— O tipo de coisa que ocasionalmente se cola a meu sapato em um esgoto — disse Steiner. — Algo muito degradável em um dia quente.

Jurgen Stroop, ainda glacialmente calmo, estendeu a mão. Steiner suspirou, tirou a Luger do bolso e entregou-a. Sobre o ombro, olhou para seus soldados:

— É isto, rapazes, não interfiram. — Voltou-se para Stroop. — Por motivos que desconheço, eles sentem certa lealdade por mim. Há alguma possibilidade de que o senhor possa contentar-se comigo e esquecer a parte deles nessa coisa?

— Não há a mínima — respondeu o Brigadeführer Jurgen Stroop.

— Foi o que pensei — disse Steiner. — Eu me orgulho de reconhecer um safado completo quando o vejo.

Radl conservou a pasta sobre o joelho durante longo tempo depois de ter lido os autos da corte marcial. Steiner tivera sorte em escapar da execução, a influência de seu pai deve ter ajudado, e, afinal de contas, ele e seus homens eram heróis de guerra. Era mau para o moral mandar fuzilar um detentor da Cruz de Cavaleiro, agraciado ainda com as Folhas de Carvalho. E a Operação Peixe-Espada nas ilhas do Canal constituía, a longo prazo, um fim igualmente certo para todos eles. Um golpe de gênio da parte de alguém.

Rossman espichou-se na cadeira em frente, aparentemente adormecido, com o chapéu mole inclinado sobre os olhos, mas quando a luz da porta se acendeu levantou-se mesmo instante. Entrou sem bater e voltou um momento depois.

— Ele quer vê-lo.                                        ,

O Reichsführer continuava sentado à escrivaninha. Nesse momento, tinha o mapa militar estendido à frente. Ergueu os olhos:

— O que é que o senhor acha da pequena escapada do amigo Steiner em Varsóvia?

— Uma história notável — disse Radl, escolhendo as palavras.— Ele é. . . um homem incomum.

— Eu diria que um dos mais bravos que se poderia desejar — respondeu, calmo, Himmler. — Dotado de alta inteligência, corajoso, implacável, um soldado brilhante. . . e um tolo romântico. Acho que isso só pode ser a metade americana dele. — O Reichsführer sacudiu a cabeça. — A Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho. Depois daquele caso na Rússia, o Führer pediu para conhecê-lo pessoalmente. E que é que ele faz? Põe tudo fora, a carreira, o futuro, tudo por causa de uma putinha judia que nunca vira antes na vida.

Olhou para Radl como se esperasse uma resposta. Desajeitado, disse o coronel:

— Extraordinário, Herr Reichsführer.

Himmler inclinou a cabeça e, como se afastasse inteiramente o problema de seus pensamentos, esfregou as mãos e inclinou-se sobre o mapa.

— Os relatórios dessa tal Grey são realmente brilhantes. Uma agente notável. — Inclinou-se mais, com os olhos colados ao mapa. Isso funcionará?

— Acho que sim — respondeu sem hesitação Radl.

— E o almirante? O que é que o almirante pensa?

Radl pensou, febril, enquanto procurava articular uma resposta apropriada:

— Essa pergunta é difícil de responder.

Himmler recostou-se, com as mãos cruzadas: Durante um momento de insensatez, Radl sentiu-se como se usasse ainda calças curtas e estivesse à frente do velho mestre-escola da aldeia.

— O senhor não me precisa dizer. Acho que posso desconfiar. Admiro a lealdade, mas, neste caso, o senhor faria bem em lembrar-se de que a Alemanha, o seu Führer, vem em primeiro lugar.

— Naturalmente, Herr Reichsführer — disse, apressado, Radl.

— Infelizmente, há quem não concorde — prosseguiu Himmler. — Há elementos subversivos em todos os níveis de nossa sociedade. Entre os próprios generais do Alto Comando. Isso o surpreende?

Realmente atônito, Radl replicou:

— Mas, Herr Reichsführer, dificilmente posso acreditar. . .

— Que homens que fizeram juramento de lealdade pessoal ao Führer possam comportar-se de forma tão indigna? — Sacudiu a cabeça, quase com tristeza. — Tenho todos os motivos para acreditar que, em março deste ano, oficiais de alta patente da Wehrmacht colocaram uma bomba no avião do Führer, sincronizada para explodir durante o vôo entre Smolensk e Rastenburg.

— Meu Deus! — exclamou Radl.

— A bomba não explodiu, e foi mais tarde removida pelos indivíduos implicados. Naturalmente, o fato faz-nos compreender ainda mais do que nunca que não podemos fracassar, que precisamos obter a vitória final. Parece óbvio que o Führer foi salvo por alguma intervenção divina. Isso não me surpreende, naturalmente. Sempre acreditei que algum mais alto encontra-se por trás de sua natureza. Não concorda?

— Naturalmente, Herr Reichsführer —   respondeu Radl.

— Sim, se nos recusássemos a reconhecer isso, não seríamos melhores do que os marxistas. Insisto em que todos os membros das ss acreditem em Deus. — Tirou por um momento o pince-nez e acariciou suavemente a ponta do nariz com um dedo. — Assim, há traidores por toda parte. No Exército, e na Marinha, também, até o mais alto nível. —Recolocou o pince-nez e olhou para Radl. — Assim, é como você vê, Radl — continuou. — Tenho as melhores razões para saber com certeza que o Almirante Canaris vetou seu plano.

Radl fitou-o, embotado. O sangue esfriou em suas veias. Em voz suave, Himmler continuou:

— O plano não se ajustaria a seu propósito geral, e esse propósito não é a vitória do Reich alemão nesta guerra, isto lhe garanto.

O chefe do Abwehr trabalha contra o Estado? A idéia era monstruosa. Radl, porém, lembrou-se da língua ferina do almirante, de suas observações depreciativas sobre altos servidores do Estado, ocasionalmente sobre o próprio Führer. “Nós perdemos a guerra.” E isso dos lábios do chefe do Abwehr.                  

Nesse momento, Himmler apertou a campainha e Rossman entrou.

— Preciso fazer uma importante chamada telefônica. Escolte Herr Oberst pelo prédio durante uns dez minutos, e traga-o de volta em seguida. — Voltou-se para Radl. — Já viu nossos porões?

— Não, Herr Reichsführer.

Poderia ter acrescentado que os porões da Gestapo na Prinz Albrechtstrasse eram as últimas coisas que desejaria ver. Mas sabia que iria vê-los, gostasse ou não, e teve certeza, pelo leve sorriso de Rossman, de que tudo aquilo fora combinado.

No térreo, tomaram um corredor que conduzia aos fundos do edifício. Ao fim da passagem, dois soldados da Gestapo, com capacetes de aço e armados com pistolas-metralhadoras, montavam guarda.

— Vocês estão esperando uma guerra ou coisa parecida? — perguntou Radl.

Rossman sorriu, alegre:

— Digamos que isto impressiona os clientes.

Abriram a porta, desceram. A passagem embaixo encontrava-se feericamente iluminada, com as paredes de tijolo pintadas de branco e portas abrindo-se para a direita e para a esquerda. O silêncio era total.

— Acho que podemos começar por aqui — disse Rossman. Abriu a porta mais próxima e acendeu a luz.

Era uma cela de aparência bastante convencional, pintada de branco, salvo pela parede em frente, que fora muito mal revestida de concreto e tinha uma superfície desigual, com profundas marcas. Havia uma viga de um lado a outro, próxima à parede, da qual pendiam correntes com estribos de molas nas extremidades.

— Isso é uma coisa com que tivemos ultimamente muito sucesso. — Rossman tirou um maço de cigarros do bolso e ofereceu um a Radl. — Mas, para mim, é pura perda de tempo. Não vejo muito proveito em levar um homem à loucura quando queremos que ele fale.

— O que é que acontece?

— O suspeito é suspenso por esses estribos e, depois, simplesmente, liga-se a eletricidade. Lançamos baldes de água na parede de concreto para melhorar a condutividade elétrica ou coisa assim. É extraordinário o que isso faz com as pessoas. Se olhar bem, verá o que quero dizer.

Aproximando-se da parede, notou Radl que o que julgara uma superfície mal-acabada era, de fato, uma pátina de impressões palmares no concreto bruto, onde as vítimas haviam-se agarrado em agonia.

— A Inquisição teria sentido orgulho de vocês.

— Não seja amargo, Herr Oberst. Isso não dá certo, não aqui embaixo. Vi generais de joelhos, suplicando. —Rossman sorriu, alegre. — Ainda assim, não adianta, aqui ou em outro lugar. — Dirigiu-se para a porta. — O que posso mostrar em seguida?

— Nada, obrigado — retrucou Radl. — O senhor provou seu argumento. Não era.esse o objetivo do exercício? Pode levar-me de volta agora.

— Como quiser, Herr Oberst. — Rossman encolheu os ombros e apagou a luz.

Ao voltar ao gabinete, Radl encontrou Himmler escrevendo ativamente em uma pasta. Erguendo os olhos, disse em voz calma:

coisas terríveis, que têm de ser feitas. Pessoalmente, isto me enoja. Não tolero a violência, qualquer que seja seu tipo. É a maldição da grandeza, Herr Oberst, que tenhamos que pisar sobre cadáveres para criar nova vida.

— Herr Reichsführer — disse Radl —, o que o senhor quer de mim?

Himmler de fato sorriu; embora de leve, conseguindo parecer ainda mais sinistro.

— Ora, na verdade é muito simples. Esse caso de Churchill. Quero que seja levado a cabo.

— Mas o almirante não quer.

— O senhor tem uma autonomia considerável, não? Dirige seu próprio departamento, não? Viaja muito, não? Munique, Paris, Antuérpia, na última quinzena? — Himmler encolheu os ombros. — Não vejo razão para que o senhor não consiga pô-lo em execução sem que o almirante saiba o que está acontecendo. Grande parte do que precisa feito pode ser realizado juntamente com outros assuntos.

— Mas por que, Herr Reichsführer, por que é tão importante que seja feito dessa maneira?

— Porque, para começar, acho que o almirante erra totalmente neste assunto. Seu plano pode funcionar, se tudo correr bem, como no caso de Skorzeny no Gran Sasso. Se tiver êxito, se Churchill for morto ou seqüestrado. . . e pessoalmente eu preferiria vê-lo morto. . . haverá sensação mundial. Será uma incrível façanha.

— O que, se o almirante pudesse agir como quer, jamais aconteceria — respondeu Radl. — Compreendo, agora. Outro cravo no caixão dele?

— O senhor negaria que ele o teria merecido, nessas circunstâncias?

— O que posso dizer?

— Devemos acaso permitir que tais homens saiam incólumes disso? É isso o que o senhor quer, Radl, como leal oficial alemão?

— Mas Herr Reichsführer deve compreender em que situação intolerável isso me coloca — disse Radl. — Minhas relações com o almirante sempre foram excelentes. — Ocorreu-lhe tarde demais que seria dificilmente esse o argumento a apresentar naquelas circunstâncias e acrescentou apressado: — Naturalmente, minha lealdade pessoal está acima de qualquer dúvida, mas que tipo de autoridade teria eu para levar avante tal projeto?

Himmler tirou um grosso envelope pardo da gaveta. Abriu-o e extraiu uma carta, que estendeu a Radl, sem pronunciar palavra. Estava coroada pela Águia Alemã e uma Cruz de Ferro dourada.

 

               do líder e chanceler do estado

altamente secreto

 

O Coronel Radl age de acordo com minhas ordens diretas e pessoais em assunto da mais alta importância para o Reich. Presta contas exclusivamente a mim. Todo o pessoal, civil e militar, sem distinção de posto, tem ordens de ajudá-lo da maneira como ele julgar mais conveniente.

Adolf Hitler.

Aturdido, Radl releu o mais incrível documento que jamais tivera em mãos. Possuindo tal chave, um homem poderia abrir qualquer porta no país. Nada lhe seria negado. Sentiu um arrepio e uma estranha sensação percorreu-lhe o corpo.

— Como o senhor vê, quem quer que deseje questionar esse documento deve preparar-se para se haver com o próprio Führer. — Himmler esfregou vivamente as mãos. — Assim está resolvido. Está disposto a aceitar a missão que o Führer lhe põe nas mãos?

Nada havia realmente a dizer, salvo o óbvio:

— Naturalmente, Herr Reichsführer.

— Ótimo — disse Himmler, evidentemente satisfeito. — Ao trabalho, então. O senhor tem razão em pensar em Steiner. Ê o homem indicado para a missão. Sugiro que vá procurá-lo sem demora.

— Estou pensando — disse Radl, medindo as palavras — que, em vista de sua recente história, ele talvez não esteja interessado na missão.

— Ele não terá alternativa no assunto — disse Himmler — Há quatro dias o pai dele foi preso sob suspeita de traição contra o Estado.

— O General Steiner? — perguntou, atônito, Radl.

— Sim, o velho tolo, ao que parece, meteu-se com o tipo totalmente errado de gente. Neste momento, está sendo trazido para Berlim.

— Para. . . a Prinz Albrechtstrasse?

— Naturalmente. O senhor poderia sugerir a Steiner que seria de seu melhor interesse servir ao Reich do melhor modo que puder neste momento. Essa prova de lealdade poderá afetar muito o resultado do caso do pai dele. — Verdadeiramente horrorizado, Radl ouviu Himmler continuar: —Agora, alguns fatos. Gostaria que me desse mais detalhes sobre essa questão do disfarce, que menciona no seu esboço. Isso me interessa.

Radl sentiu uma sensação de total irrealidade. Ninguém estava seguro. . . ninguém. Conhecera pessoas, famílias inteiras, que haviam desaparecido após uma visita da Gestapo. Pensou em Trudi, sua esposa, nas três adoradas filhas, e a mesma feroz coragem que o levara até o fim da Guerra de Inverno fluiu pelo seu corpo. “Por elas”, pensou, “preciso sobreviver por causa delas. Farei tudo o que for preciso. . . qualquer coisa.”

Começou a falar e espantou-se com a calma de sua voz:

— Os britânicos possuem numerosos regimentos de comando, como o Reichsführer sem dúvida sabe, mas talvez o mais bem-sucedido tenha sido a unidade formada por um oficial britânico chamado Stirling para operar por trás de nossas linhas na África. O Serviço Aéreo Especial.

— Ah, sim, o homem que chamam de Major Fantasma. Aquele que Rommel tinha em tão alta conta.

— Ele foi capturado em janeiro deste ano, Herr Reichsführer. Acho que está em Colditz neste momento, mas o trabalho que ele iniciou não apenas teve prosseguimento, como também expandiu-se. De acordo com nossas atuais informações, devem retornar à Grã-Bretanha, provavelmente, para se prepararem para uma invasão da Europa, o Primeiro e o Segundo Regimento do Serviço Aéreo Especial e o Terceiro e o Quarto Batalhão de Pára-Quedistas franceses. Eles dispõem também de um Esquadrão Polonês Independente de Pára-Quedistas.

— O que o senhor quer dizer com isso?

— Os ramos mais convencionais do Exército pouco conhecem sobre essas unidades. É fato aceito que suas finalidades são secretas e, por conseguinte, é menos provável que sejam chamados às falas por alguém.

— O senhor faria com que nossos homens passassem por membros poloneses dessa unidade?

— Exatamente, Herr Reichsführer.

— E os uniformes?

— A maior parte dessa gente usa atualmente em ação roupas de camuflagem de forma muito semelhante ao modelo das ss. Usa também a boina vermelha dos pára-quedistas ingleses, mas com um distintivo especial. Uma adaga alada com a inscrição Quem ousa — vence.

— Que coisa dramática — disse, seco, Himmler.

— O Abwehr tem amplo suprimento desses uniformes, retirados dos que foram aprisionados durante operações do sae nas ilhas gregas, Iugoslávia e Albânia.

— E o equipamento?

— Não há problema. A Direção das Operações Especiais Britânicas não compreendeu ainda a profundidade de nossa infiltração no movimento de resistência holandês.

— Movimento terrorista — corrigiu-o Himmler. — Mas continue.

— Quase todas as noites, lançam novas cargas de armas, equipamento de sabotagem, rádios para uso no campo, até mesmo dinheiro. Não compreenderam ainda que todas as mensagens de rádio que recebem são transmitidas pelo Abwehr.

— Meu Deus! — comentou Himmler. — E ainda assim continuamos a perder a guerra. — Ergueu-se, caminhou até a lareira e aqueceu as mãos. -— Essa questão de usar uniformes inimigos é assunto muito delicado e proibido pela Convenção de Genebra. Há só uma pena nesse caso: o pelotão de fuzilamento.

— Exato, Herr Reichsführer.

— Neste caso, parece-me que um meio-termo seria apropriado. O grupo incursor usará uniformes normais por baixo dos trajes camuflados britânicos. Dessa maneira, combaterão como soldados alemães, não como bandidos. Pouco antes do ataque, poderão tirar o disfarce. Concorda?

Pessoalmente, Radl achou que aquela era, com toda a probabilidade, a pior idéia que jamais ouvira, mas compreendeu também a inutilidade da discussão.

— Como o senhor desejar, Herr Reichsführer.

— Muito bem. A questão toda me parece apenas de organização. A Luftwaffe e a Marinha para o transporte. Não haverá problema nesse particular. A carta do Führer lhe abrirá todas as portas. Há algum assunto que queira discutir comigo?

— A respeito do próprio Churchill — explicou Radl. — Deve ser trazido vivo?

— Se possível — retrucou Himmler. — Morto, se não houver outra maneira.

— Compreendo.

— Ótimo. Neste caso, posso deixar o assunto em segurança em suas mãos. Rossman lhe dará à saída um número especial de telefone. Quero ser informado diariamente de seus progressos. — Recolocou os relatórios e o mapa na pasta e empurrou-a pela mesa.         .

— Como desejar, Herr Reichsführer.

Radl dobrou a preciosa carta, recolocou-a no envelope e enfiou-a num bolso interno da túnica. Apanhou a o capote de couro e dirigiu-se para a porta.

Himmler, que recomeçara a escrever, chamou-o:

— Coronel Radl.

Radl voltou-se.

— Herr Reichsführer?

— O seu juramento como oficial alemão a seu Führer e ao Estado. Lembra-se dele?

— Naturalmente, Herr Reichsführer.

Himmler ergueu os olhos e a sua face tornou-se fria e enigmática.

— Repita-o, agora.

— “Tomo Deus por testemunha deste sagrado juramento. Prestarei incondicional obediência ao Führer do Reich e do povo alemão, Adolf Hitler, comandante supremo das Forças Armadas, e, como bravo soldado, empenharei minha vida a qualquer tempo para cumprir este juramento.”

A fossa ocular queimava novamente e a mão inválida lhe doía.

— Excelente, Coronel Radl. E lembre-se de uma coisa: o fracasso é um sinal de fraqueza.

Baixou a cabeça e continuou a escrever. Radl abriu a porta o mais rápido possível e cambaleou para fora.

Resolveu que não voltaria naquela noite para o apartamento. Pediu a Rossman que o deixasse na Tirpitz Ufer, subiu para o gabinete e acomodou-se na pequena cama de campanha. que reservava para tais emergências. Não que conseguisse dormir muito. Todas as vezes que fechava os olhos, via o pince-nez de prata, os olhos frios, a calma, a voz seca pronunciando palavras monstruosas.

Uma coisa era certa, disse a si mesmo quando, às cinco horas, finalmente sucumbiu e estendeu a mão para a garrafa de Courvoisier. Teria que levar aquela missão até o fim, não por si mesmo, mas por Trudi e as crianças. A simples vigilância da Gestapo já era muito má para a maioria das pessoas.

— Quanto a mim — disse ele, apagando outra vez a luz —, terei o próprio Himmler em meus calcanhares.

Dormiu em seguida e foi acordado por Hofer às oito, com café e pãozinho quente. Ergueu-se e foi até a janela mastigando um dos pães. Na manhã cinzenta, a chuva caía forte.

— Foi um mau ataque aéreo, Karl?

— Não muito. Ouvi dizer que oito Lancasters foram abatidos.

— Se examinar o bolso interno de minha túnica, encontrará um envelope — disse Radl. — Quero que leia a carta que se encontra nele.

Esperou, olhando a chuva, e voltou-se após um momento. Hofer fitava, com olhos arregalados, a carta, evidentemente abalado.

— Mas o que significa, Herr Oberst?

— O caso Churchill, Karl. Vai ser levado adiante. O próprio Führer assim deseja. Ouvi isso do próprio Himmler na passada.

— E o almirante, Herr Oberst?

— Não deverá saber de coisa alguma.

Hofer fitou-o em honesta confusão, conservando a carta na mão. Radl tomou-a e ergueu-a no ar:

— Nós somos homens sem importância, você e eu, colhidos em uma grande teia, e temos que pisar com cuidado. Esta carta é tudo de que precisamos. Ordens do próprio Führer. Compreendeu o que estou dizendo?

— Acho que sim.

— E confia em mim?

Hofer tomou posição de sentido.

— Nunca tive dúvidas a seu respeito, Herr Oberst. Nunca.

Radl teve um sentimento de afeição.

— Ótimo, neste caso agiremos como eu disse e em condições do mais estrito sigilo.

— Como o senhor determinar, Herr Oberst.

— Muito bem, Karl. Traga-me tudo o que há. Tudo o que temos, e examinaremos o material outra vez.

Foi até a janela, abriu-a e respirou fundo. Havia um gosto acre de fumaça no ar, conseqüência dos incêndios da noite anterior. Partes da cidade, que via dali, haviam sido transformadas em uma triste ruma. Estranho como se sentiu excitado.

— Ela precisa de um homem, Karl.

— Herr Oberst? — disse Hofer.

Inclinados sobre a mesa, estudavam os relatórios e as cartas abertas.

— A Sra. Grey — explicou Radl. — Ela precisa de um homem.

— Ah, compreendo agora, Herr Oberst — replicou Hofer. — Alguém com ombros largos. Um instrumento rombudo?

— Não. — Radl franziu o cenho e tirou um dos cigarros russos da caixa sobre a mesa. — Cérebro, também. . . Isso é essencial.

Hofer acendeu-lhe o cigarro.

— Uma combinação difícil.

— Sempre é. Quem é que a Seção Um tem agora trabalhando para ela na Inglaterra neste momento e que poderia ajudar? Uma pessoa de absoluta confiança?

— Há talvez sete ou oito agentes que poderiam ser considerados. Gente como Neve Branca, por exemplo. Ele trabalha há dois anos no escritório do Departamento Naval, em Portsmouth. Recebemos dele informações regulares e valiosas sobre comboios no Atlântico Norte.

Radl sacudiu a cabeça, impaciente.

— Não, ninguém como ele. Esse trabalho é importante demais para ser posto em risco de qualquer maneira. Mas, certamente há outros, não?

— Pelo menos cinqüenta. — Hofer encolheu os ombros. — Infelizmente, a seção bia do MI-5 teve um sucesso notável nos últimos dezoito meses.

Radl ergueu-se e foi até a janela, onde ficou, batendo o pé, impaciente, Não estava zangado, mas sobretudo preocupado. Joanna Grey tinha sessenta e oito anos de idade e, por mais dedicada que fosse, por maior confiança que inspirasse, precisava de um homem. Como dissera Hofer, um instrumento rombudo. Sem ele, toda a missão poderia fracassar.

A mão esquerda lhe doía, a mão que não existia mais, num sinal seguro de tensão. Sentia uma dor de cabeça lancinante. O fracasso é um sinal de fraqueza, coronel. Assim falara Himmler, fitando-o com os olhos frios e sombrios. Radl tremeu sem poder controlar-se e o medo quase lhe embrulhou as vísceras ao lembrar-se dos porões da Prinz Albrechtstrasse.

Acanhado, Hofer disse:

— Naturalmente, há sempre a Seção Irlandesa.

— O que foi que você disse?

— A Seção Irlandesa, senhor. O Exército Republicano Irlandês.

— Inteiramente inútil — retrucou Radl. — A conexão ira [1] entrou em colapso há muito tempo, você .sabe disso, depois daquele fiasco com Goertz e os outros agentes. Um fracasso total, a missão inteira.

— Não inteiramente, Herr Oberst.

Abriu um dos arquivos, procurou rapidamente e tirou uma pasta de papel pardo, que colocou sobre a escrivaninha. Radl sentou-se carrancudo e abriu.

— Mas, naturalmente. . . Ele está ainda lá? Na universidade?

— Pelo que eu saiba, está. Faz também um pouco de trabalho de tradução, quando necessário.

— Como é que ele se chama agora?

— Devlin. Liam Devlin.

— Chame-o!

— Agora, Herr Oberst?

— Você me ouviu. Quero-o aqui dentro de uma hora. Não me interessa se você tiver que virar Berlim de cabeça para baixo. Não me importo se você tiver que chamar a própria Gestapo.

Hofer bateu os calcanhares e saiu apressado. Radl acendeu outro cigarro e, com dedos trêmulos, começou a examinar a pasta.

Radl não errara muito em suas observações anteriores, pois todas as tentativas alemãs de chegar a um acordo com o ira, desde o início da guerra, não levaram a nada, e a questão inteira constituía provavelmente a maior história de frustração dos arquivos do Abwehr.

Nenhum dos agentes enviados à Irlanda conseguira coisa alguma de útil. Somente um permanecera à solta durante algum tempo, o Capitão Goertz, que fora lançado de pára-quedas em Meath, em maio de 1940, e permanecera em liberdade durante dezenove inúteis meses.

Descobrira ele que o ira era um grupo insuportável de amadores que se recusava a aceitar o menor conselho. Como comentaria anos depois, eles sabiam como morrer pela Irlanda, mas não como lutar por ela, e assim desvaneceram-se as esperanças alemãs de ataques regulares às instalações militares britânicas no Ulster.

Radl conhecia bem o caso. O que o interessava, de fato, era o homem que a si mesmo se chamava Liam Devlin. Fora lançado de pára-quedas na Irlanda, a serviço do Abwehr, e não apenas sobrevivera, mas conseguira finalmente regressar, o que era uma façanha sem precedentes.

Nascera em Lismore, no condado de Down, na Irlanda do Norte, em julho de 1908, filho de um pequeno meeiro agrícola, que fora executado em 1921 durante a Guerra Anglo-Irlandesa por ter participado de uma das colunas volantes do ira. A mãe fora cuidar da casa do irmão, um padre católico, na área de Falls Road, em Belfast, e conseguira internar o filho em um pensionato jesuíta no sul. Daí Devlin se transferira para o Trinity College, em Dublin, onde se formara com excelentes notas em literatura inglesa.

Publicara algumas poesias, interessara-se por uma carreira no jornalismo e provavelmente teria sido escritor vitorioso não fosse um único acidente que alterou o curso de toda a sua vida. Em 1931, em visita ao lar em Belfast durante um período de graves distúrbios de rua, observara uma multidão orangista saquear a igreja do tio. O velho padre fora severamente espancado e perdera um olho. Daí em diante, Devlin se entregara por completo à causa republicana.

Em um ataque a um banco em Derry, em 1932, para reunir fundos para o movimento, fora ferido em um tiroteio com a polícia e sentenciado a dez anos de prisão. Escapara da prisão de Crumlin Road em 1934 e, foragido, dirigira a defesa das zonas católicas de Belfast nos distúrbios de 1935.

Mais tarde, no mesmo ano, fora enviado a Nova York para executar um informante que a polícia mandara de navio para a América, no intuito de salvar-lhe a vida depois de ter vendido informações que resultaram na prisão e enforcamento de um jovem membro do ira, chamado Michael Reilly. Devlin realizara a missão com uma eficiência que não podia deixar de confirmar uma reputação que já se tornava lendária. Pouco depois, repetiu a façanha, desta feita em Londres, e outra vez na América, embora nesta ocasião a ação tivesse lugar era Boston.

Em 1936, seguira para a Espanha, servindo na Brigada Lincoln Washington. Fora ferido e capturado por tropas italianas, que, em vez de fuzilá-lo, haviam-no conservado vivo esperando trocá-lo por um de seus próprios oficiais. Embora esse plano não desse resultado, ele sobreviveu à guerra, finalmente sentenciado à prisão perpétua pelo governo de Franco.

Fora libertado por influência do Abwehr no outono de 1940 e trazido a Berlim, onde se esperava que fosse útil ao serviço de espionagem alemão. Fora nesse estágio que as coisas haviam tristemente se desencaminhado, pois, segundo os dados disponíveis, Devlin, muito embora pouca simpatia sentisse pela causa comunista, era definitivamente antifascista, fato este sobre o qual não deixou dúvida durante seu interrogatório. Era um mau risco, logo considerado apto somente para pequenos deveres como tradutor e professor de inglês na Universidade de Berlim.

A situação, porém, mudara drasticamente. O Abwehr fizera numerosas tentativas de tirar Goertz da Irlanda. Todas haviam falhado. Em desespero, a Seção Irlandesa chamara Devlin e lhe pedira para saltar de pára-quedas na Irlanda, usando documentos falsos, entrar em contato com Goertz e tirá-lo de lá em um navio português, ou outro navio neutro. Foi lançado sobre o condado de Meath no dia 18 de outubro de 1941, mas, semanas depois, antes de entrar em contato com Goertz, o alemão fora preso pelo Serviço Especial Irlandês.

Devlin passara foragido vários meses angustiosos, traído em cada volta do caminho, pois muitos simpatizantes do ira haviam sido internados em Curragh pelo governo irlandês e havia poucos contatos de confiança. Cercado pela polícia numa casa de fazenda em Kerry, em junho de 1942, ferira dois deles e perdera os sentidos ao ser atingido de raspão na cabeça por uma bala. Escapara do hospital, conseguira chegar a Dun Laoghaire e obter passagem em um navio brasileiro a caminho de Lisboa. Daí, entrara na Espanha através dos canais habituais.e chegara mais uma vez aos escritórios da Tirpitz Ufer.

Daí em diante, a Irlanda fora um beco sem saída no que interessava ao Abwehr, e Liam Devlin fora designado mais uma vez para trabalhos de tradução e, finalmente, como a vida pode ser irônica, para servir mais uma vez como professor na Universidade de Berlim.

Pouco antes do meio-dia, Hofer voltou ao escritório.

— Consegui encontrá-lo, Herr Oberst.

Radl ergueu o olhar e pôs a caneta de lado.

— Devlin? — Levantou-se e foi até a janela, endireitando a túnica, tentando imaginar o que dizer. Aquilo tinha que dar certo, tinha que funcionar. Ainda assim, Devlin precisava ser tratado com cuidado. Era, afinal de contas, um cidadão neutro. A porta, estalou e ele se voltou.

Liam Devlin era mais baixo do que imaginara. Não mais de um metro e sessenta e dois ou sessenta e cinco, moreno, cabelo ondulado, rosto pálido, olhos do azul mais vívido que Radl jamais vira e um sorriso irônico que parecia permanentemente desenhado no canto da boca. Era a expressão de um homem que julgava a vida uma piada ruim e para quem a única coisa a fazer era rir da situação. Usava uma capa preta, com cinto, e a feia cicatriz enrugada do ferimento a bala que levara na última viagem à Irlanda aparecia claramente no lado esquerdo da testa.

— Sr. Devlin. — Radl deu a volta em torno da mesa e estendeu a mão. — Meu nome é Radl. Foi uma gentileza soa vir até aqui.

Isso é ótimo — respondeu Devlin em excelente alemão. — A impressão que tive foi que não havia muita escolha em relação ao assunto. — Adiantou-se, desabotoando a capa, — Então, esta é a Terceira Seção, onde tudo acontece?

— Por favor, Sr. Devlin. — Radl puxou a cadeira e ofereceu-lhe um cigarro.

Devlin inclinou-se para o isqueiro. Tossiu, sufocando, quando o fumo acre do cigarro queimou-lhe o fundo da garganta.

— Santa Maria, coronel. Eu sabia que as coisas iam mal, mas não tão mal assim. O que é que há com esses cigarros, ou não devo fazer perguntas?

— São russos — disse Radl. — Aprendi a gostar deles durante a Guerra de Inverno.

— Não me diga — espantou-se Devlin. — Eles devem ter sido a única coisa que o impediu de cair dormindo sobre a neve.

— Com toda a certeza. — Radl sorriu, simpatizando com o homem. Tirou da gaveta uma garrafa de Courvoisier e dois cálices. — Conhaque?

— Bem, o senhor está sendo um bocado gentil. — Devlin aceitou o cálice, engoliu e fechou os olhos durante um momento. — Não é irlandês, mas serve. Quando é vamos chegar à parte suja? Na última vez em que estive na Tirpitz Ufer, pediram-me que saltasse, no escuro, de um Dornier sobre Meath, a mil e quinhentos metros de altura. E eu tenho um medo horrível de alturas.

— Muito bem, Sr. Devlin —disse Radl. — Temos trabalho para o senhor, se estiver interessado.    

— Eu tenho trabalho.

— Na universidade? Ora, para um homem como o senhor isso deve ser o mesmo que puxar uma carrocinha de leite para um puro-sangue.

Devlin lançou a cabeça para trás e riu alto.

— Ah, coronel, o senhor descobriu logo meu ponto fraco. Vaidade, vaidade. Coce-me um pouco mais e começarei a ronronar como o velho gato de meu tio Sean. Está procurando insinuar, da maneira a mais gentil possível, que quer que eu volte à Irlanda? Porque se está, pode esquecer isso. Eu não teria chance, em tempo algum, da maneira como as coisas estão agora, e não tenho a menor intenção de ser trancafiado em Curragh por cinco anos. Já provei o suficiente de prisões para me encher as medidas por muito tempo.

— A Irlanda ainda é um país neutro. O Sr. Valera deixou muito claro que não vai tomar partido.

— Sim, eu sei — concordou Devlin. — E esse é o motivo por que cem mil irlandeses estão servindo nas forças britânicas. E outra coisa. . . Toda vez que um avião da raf faz um pouso forçado na Irlanda, a tripulação é passada para o outro lado da fronteira em questão de dias. Quantos pilotos alemães eles lhe devolveram nos últimos tempos? — Devlin sorriu largamente. — Preste atenção, com toda aquela linda manteiga, creme de leite e garotas, eles provavelmente pensam que nunca estiveram numa situação tão boa como agora.

— Não, Sr. Devlin, não queremos que volte à Irlanda — disse Radl. — Não da maneira como o senhor está entendendo a coisa.

— Então, que diabo quer o senhor?

— Eu lhe queria fazer antes uma pergunta. O senhor ainda é correligionário do ira?

— Soldado do ira — corrigiu-o Devlin. — Nós temos um ditado lá em casa, coronel. Uma vez dentro, nunca fora.

— Neste caso, seu objetivo total é a vitória contra a Inglaterra?

— Se o senhor quer dizer com isso uma Irlanda unida, livre e sobre os próprios pés, estou de acordo. Mas só acreditarei nisso quando acontecer, não antes.

— Neste caso, por que luta o senhor? — perguntou Radl, mistificado.

— Deus nos perdoe, mas o senhor não é um grande perguntador? — Devlin encolheu os ombros. — É melhor do que briga de soco do lado de fora do Murphy’s Select Bar nas noites de sábado. Ou talvez seja apenas porque eu goste do jogo.

— E que jogo seria esse?

— O senhor quer dizer que está neste ramo de trabalho e não sabe?

Por algum motivo, Radl sentiu-se estranhamente pouco à vontade e disse, apressado:

— Então, as atividades de seus compatriotas em Londres, por exemplo, não se recomendam ao senhor?

— Andar por Bayswater fazendo Paxo nas panelas das donas das pensões onde moram? — perguntou Devlin. — Isso não é minha idéia de diversão.

— Paxo? — Radl pareceu confuso.

— Uma piada. Paxo é um conhecido molho em pacote e é isso que os rapazes chamam aos explosivos que preparam. Clorato de potássio, ácido sulfúrico e outros ingredientes.

— Uma infusão volátil.

— Especialmente quando explode na cara de uma pessoa.

— Essa campanha de lançamento de bombas, que seu pessoal iniciou com um ultimato enviado ao primeiro-ministro, em janeiro de 1939. . .

Devlin soltou uma risada.

— E a Hitler, a Mussolini e a todos aqueles que eles pensaram que poderiam estar interessados, incluindo o Tio Tom Cobley.

— Tio Tom Cobley?

Outra piada — explicou Devlin. — Uma fraqueza minha, já que nunca fui capaz de levar as coisas muito a sério.

— Por quê, Sr. Devlin? Isso me interessa.

— Ora, ora, coronel — disse Devlin. — O mundo é uma piada sem graça, imaginada pelo Todo-Poderoso em um dia de folga. Sempre achei que ele provavelmente estava de ressaca nesse dia. Mas o que o senhor queria dizer ao se referir à campanha de lançamento de bombas?

— O senhor a aprova?

— Não. Não gosto de um alvo tão fácil assim. Mulheres, crianças, transeuntes. Se vamos lutar, se acreditamos em nossa causa, e é uma causa justa, devemos levantar-nos e lutar como homens.

Na face branca e apaixonada, a cicatriz da bala na cabeça brilhou como uma marca de ferro. Inesperadamente, ele se relaxou e riu.

— Lá está o senhor, tirando o que há de melhor de mim. É cedo demais nesta manhã para levar as coisas a sério.

— Então, o senhor é um moralista — comentou Radl. — Os ingleses não concordariam com o senhor. Eles bombardeiam selvagemente o Reich todas as noites.

— O senhor vai me fazer chorar, se continuar assim. Estive na Espanha lutando pelos republicanos, lembra-se? Que diabo pensa o senhor que aqueles Stukas alemães faziam, voando para Franco? Ouviu falar por acaso em Barcelona e Guernica?

— Estranho, Sr. Devlin. O senhor obviamente não gosta de nós e eu pensava que era aos ingleses que odiava.

— Aos ingleses? — Devlin riu. — Certamente, e eles se parecem muito com a sogra da gente. É uma coisa que temos de tolerar. Não, eu não odeio os ingleses. . . É o maldito Império Britânico que odeio.

— Então, quer ver a Irlanda livre?

— Quero. — Devlin serviu-se de outro cigarro russo.

— Então acredita que a melhor maneira de conseguir esse fim seria a vitória alemã nesta guerra?

— Acredito que um porco pode voar um dia desses — disse Devlin —, mas nisto eu não acredito.

— Neste caso, por que permanece aqui em Berlim?

— Eu não sabia que tinha escolha, nesse ponto.

— Mas o senhor tem, Sr. Devlin — disse, tranqüilo, o Coronel Radl. — O senhor poderia ir à Inglaterra fazer um trabalho para mim.

Devlin fitou-o espantado, e, pelo menos uma vez na vida, sem saber o que dizer.

— Deus tenha pena de nós. Esse homem está louco.

— Não, Sr. Devlin, estou em juízo perfeito, garanto-lhe. — Radl empurrou a garrafa de Courvoisier e pôs a seu lado um envelope de papel pardo.

— Tome outro drinque, leia esta pasta e conversaremos depois.

Ergueu-se e saiu da sala.

Passando-se uma boa meia hora sem sinal de Devlin, Radl tomou coragem para abrir a porta e entrar. Devlin, com os pés sobre a escrivaninha, tinha os relatórios de Joanna Grey em uma mão e o cálice de Couvoisier na outra. A garrafa parecia quase vazia. Ergueu os olhos.

— Ah, então é o senhor? Estava começando a me perguntar o que lhe teria acontecido.

— Bem, o que é que o senhor pensa? — perguntou Radl.

— Lembra-me uma história que ouvi quando era menino — retrucou Devlin. — Uma coisa que aconteceu durante a guerra com os ingleses, em 1921. Em maio, acho. Era sobre um homem chamado Emmet Dalton. Aquele que mais tarde foi general no Exército do Estado Livre. Ouviu por acaso falar nele?

— Não, receio que não — disse Radl com mal disfarçada impaciência.

— Ele era o que nós irlandeses chamamos de um homem encantador. Serviu como major no Exército britânico até o fim da guerra, recebeu a Cruz Militar por bravura e, em seguida, ingressou no ira.

— Perdoe-me, Sr. Devlin, mas isso tem alguma relevância para o caso?

Devlin, aparentemente, não o ouviu.

— Havia um homem na prisão de Mountjoy, em Dublin, chamado McEoin, outro homem encantador, mas que, a despeito disso, nada tinha a esperar do futuro senão a forca. — Serviu-se de mais uma dose de Courvoisier. —Emmet Dalton tinha outras idéias. Roubou um carro blindado britânico, vestiu seu uniforme de major, fardou alguns rapazes como Tommies, entrou blefando na prisão e chegou ao gabinete do diretor. O senhor acreditaria nisso?

Por essa altura, Radl estava interessado, a contragosto.

— E salvaram esse tal McEoin?

— Por má sorte, o caso aconteceu na manhã em que seu pedido para falar com o diretor fora recusado.

— E esses homens. . . O que foi que aconteceu com eles?

— Oh, houve um pequeno tiroteio, mas eles conseguiram cair fora. Mas foi um grande estratagema. — Sorriu e ergueu o relatório de Joanna Grey. — Exatamente como isto.

— O senhor acha que poderia dar certo? — perguntou, ansioso, Radl. — Acha que é possível?

— É um bocado impudente. — Devlin lançou o relatório sobre a mesa. — E eu que achava que os irlandeses eram uns verdadeiros birutas. Derrubar o grande Winston Churchill de sua cama no meio da noite e seqüestrá-lo! — Riu alto. — Ora, isso seria um espetáculo digno de ver. Uma coisa que deixaria o mundo inteiro embasbacado.

— E gostaria disso?

— Um grande golpe, sem dúvida alguma. — _Devlin deu um grande sorriso, e sorria ainda quando acrescentou: Naturalmente, é preciso dizer que isso não teria o menor efeito sobre o curso da guerra. Os ingleses simplesmente promoveriam Attlee para ocupar o cargo, os Lancasters ainda continuariam a voar por aqui durante a noite e as Fortalezas Voadoras durante o dia.

— Em outras palavras, é sua abalizada opinião de que ainda assim perderemos a guerra? — perguntou Radl.

— Aposto cinqüenta marcos quando o senhor desejar. — Devlin sorriu. — Por outro lado, eu odiaria perder esta pequena excursão, se o senhor está falando realmente a sério.

— Quer dizer que está disposto a ir? — Radl estava nesse momento inteiramente confuso. — Mas não compreendo. Por quê?

— Eu sei que sou um idiota — disse Devlin. — Olhe só ao que estou renunciando: um bom e seguro emprego na Universidade de Berlim, com os bombardeios da raf durante a noite, os ianques de dia, a comida acabando e a frente oriental desmoronando.

Radl ergueu ambas as mãos, rindo.

— Muito bem, nenhuma pergunta mais. Os irlandeses são mesmo malucos, segundo ouvi dizer, e acredito agora piamente nisso.

— Será a melhor coisa para o senhor e, naturalmente, não devemos esquecer as vinte mil libras que o senhor vai depositar em uma conta numerada, em um banco suíço de minha escolha.

Radl sentiu uma sensação de agudo desapontamento.

— Assim, Sr. Devlin, o senhor tem também um preço, como todos nós?

— O movimento a que sirvo vive sabidamente de caixa baixa — retorquiu, rindo, Devlin. — Vi revoluções começarem com menos de vinte mil libras, coronel.

— Muito bem — concordou Radl. — Providenciarei isso. O senhor receberá confirmação do depósito antes de seguir.

— Ótimo — disse Devlin. — O que faremos, então,?

— Hoje é 1.° de outubro. Isto nos dá exatamente cinco semanas.

— E qual será minha parte?

— A Sra. Grey é uma agente de primeira classe, mas tem sessenta e oito anos de idade. Ela precisa de um homem.

— Alguém para manipular as coisas? Encarregar-se da parte dura?

— Exatamente.

— Como é que vai colocar-me lá? E não me diga que não andou pensando nisso.

Radl sorriu

— Devo admitir que dediquei considerável atenção ao assunto. Vejamos o que o senhor acha disso: é um cidadão irlandês que serviu no Exército britânico. Foi gravemente ferido e desmobilizado por motivos médicos. Essa cicatriz em sua testa ajudará, neste particular.

— E de que modo isso combina com a Sra. Grey?

— É uma velha amiga de família, que lhe arranjou uma espécie de trabalho em Norfolk. Teremos que sugerir isso a ela e veremos o que ela propõe. Inventaremos uma história, fornecer-lhe-emos todos os tipos possíveis de documentos, desde um passaporte irlandês até a sua certidão de baixa do serviço. O que o senhor acha?

— Parece bastante passável — concordou Devlin — Mas como é que chego lá?

— Nós o lançaremos de pára-quedas na Irlanda do Sul, tão perto da fronteira do Ulster quanto possível. Sei que é muito fácil cruzar a fronteira sem passar por um posto de alfândega.

— Quanto a isso, não há problema — disse Devlin. —E depois?                                                                   _

— Barca noturna de Berfast a Heysham, trem para Norfolk, tudo legal e insuspeito.

Devlin apanhou o mapa militar e examinou-o.

— Muito bem, topo. Quando seguirei?

— Dentro de uma semana, dez dias no máximo. Por ora, o senhor naturalmente deve ficar em total segurança. Precisa pedir exoneração do cargo na universidade e deixar seu atual apartamento. Sair inteiramente de circulação, Hofer lhe providenciará acomodações.

— E depois?

— Vou visitar o homem que provavelmente comandará o grupo de assalto. Amanhã ou depois de amanhã, dependendo da brevidade com que eu conseguir um vôo até as ilhas do Canal. O senhor poderá ir comigo. Vocês vão ter muito em comum. Concorda?

— Por que não, coronel? As mesmas velhas e más estradas no fim não levam todas ao inferno?

Derramou no. cálice o que restava do Courvoisier.

 

Alderney é a mais setentrional das ilhas do Canal e a mais próxima da costa francesa. À época em que o Exército alemão rolava inexorável na direção do oeste, no verão de 1940, os ilhéus resolveram, em votação, evacuar o local. Quando o primeiro avião da Luftwaffe pousou na pequena pista de grama no alto dos penhascos, no dia 2 de Julho de 1940, o local estava deserto e havia um silêncio sobrenatural nas estreitas ruas lajeadas de St. Anne.

No outono de 1942 havia ali uma guarnição mista de talvez três mil homens, composta de efetivos do Exército, Marinha e Aeronáutica, bem como várias equipes Todt, que empregavam trabalho escravo do continente na construção de maciços embasamentos de concreto para os canhões das novas fortificações. Havia também um campo de concentração, guarnecido por pessoal das ss e da Gestapo, e que era o único estabelecimento dessa natureza em solo bri­tânico.

Pouco depois do meio-dia, Radl e Devlin chegaram de Jersey a bordo de um avião de reconhecimento Stork. Era um vôo de apenas meia hora, e como o Stork não conduzia armamento o piloto fez toda a viagem ao nível do mar, subindo para duzentos e cinqüenta metros apenas no último momento.

Ao passar o Stork sobre o enorme molhe, Alderney estendeu-se abaixo como em um mapa em relevo: Braye Bay, o porto, St. Anne, a própria ilha, com cerca de cinco quilômetros de comprimento por dois e meio de largura, luxuriantemente verde, com grandes escarpas de um lado e terra que descia suavemente e se transformava em pequenas baías arenosas e enseadas.

O Stork embicou contra o vento e desceu em uma pistas de grama do aeroporto no alto dos rochedos, um dos menores campos que Radl já vira, mal merecendo esse nome. Havia uma minúscula torre de controle, alguns prédios pré-fabricados espalhados e nenhum hangar.

Um Wolsley esperava-o junto à torre   de controle. Aproximando-se Radl e Devlin, o motorista, um sargento de artilharia, desceu e abriu a porta traseira, batendo continência.

— Coronel Radl? O comandante pede-lhe que aceite seus cumprimentos. Tenho ordens de levá-lo diretamente ao Feldkommandantur.

— Muito bem — disse Radl.

Entraram no carro e logo depois percorriam uma estrada campestre. Estava um belo dia, quente e ensolarado, parecendo mais primavera do que começo do outono.

— Parece um lugar bastante agradável — comentou Radl.

— Para alguns. — Devlin inclinou a cabeça para a esquerda, onde centenas de trabalhadores Todt podiam ser vistos à distância, trabalhando no que pareciam enormes fortificações de concreto.

As casas de St. Anne formavam uma mistura de estilo francês provençal e georgiano inglês, com alamedas calçadas de lajes e jardins com altos muros para protegê-las dos ventos constantes. Não faltavam sinais da guerra: casamatas de concreto, arame farpado, postos de metralhadoras, avarias de bombas no porto bem embaixo, mas era a anglicidade de tudo aquilo que fascinava Radl, a incongruência de ver dois soldados das ss em um carro de campanha estacionado na Connaught Square e um pracinha da Luftwaffe acendendo o cigarro de outros sob uma placa com os dizeres Royal Mail.

O Feldkommandantur 515, a administração civil alemã das ilhas do Canal, ocupava o velho prédio do Lloyds Bank na Victoria Street. Quando o carro se aproximou, o próprio Neuhoff surgiu à entrada.

Aproximou-se, de mão estendida.

— Coronel Radl? Hans Neuhoff, temporariamente em comando aqui. É um prazer conhecê-lo.

— Este cavalheiro é um colega meu — disse Radl.

Nenhuma outra tentativa fez para apresentar Devlin, e certo alarma surgiu no mesmo instante nos olhos de Neu-hoff, pois Devlin, em trajes civis e num capote militar de couro preto que Radl lhe arranjara, constituía uma visível curiosidade, A explicação lógica seria ser ele um membro da Gestapo. Durante a viagem de Berlim à Bretanha e, em seguida, até Guernsey, o irlandês vira a mesma expressão desconfiada em outras faces e tirara do fato certa satisfação maliciosa.

— Herr Oberst — disse ele, sem estender a mão.

Neuhoff, mais desconfiado do que nunca, disse, apressado:

— Por aqui, cavalheiros, por favor.

No lado de dentro, três escriturários trabalhavam em um balcão de mogno. Por trás deles, na parede, pendia um novo cartaz do Ministério da Propaganda, mostrando uma águia segurando uma suástica entre os esporões, erguendo-se orgulhosa sobre a legenda Am ende steht der Sieg! No fim do caminho está a vitória.

— Meus Deus — disse baixinho Devim —, certas pessoas acreditam em tudo.

Um policial militar guardava a porta do que era presumivelmente o gabinete do administrador. Neuhoff tomou a frente do grupo. Poucos móveis, mais uma sala de trabalho do que outra coisa. Puxou duas cadeiras. Radl sentou-se, enquanto Devlin, acendendo um cigarro, dirigiu-se para a janela.

Neuhoff lançou-lhe um olhar hesitante e fez um esforço para sorrir.

— Posso oferecer-lhes uma bebida, cavalheiros? Schnapps, ou um conhaque, talvez?

— Para ser franco, eu gostaria de tratar imediatamente do assunto que nos trouxe aqui — disse Radl.

— Mas, naturalmente, Herr Oberst.

Radl abriu a túnica, tirou do bolso interno um envelope de papel pardo, abriu-o e extraiu uma carta.

— Por favor, leia isto.

Neuhoff apanhou-a, cerrando levemente o cenho, e correu os olhos pela carta.

— O próprio Führer ordena. — Atônito, ergueu os olhos para Radl. — Mas eu não compreendo. O que é que o senhor deseja de mim?

— Sua completa cooperação, Coronel Neuhoff —retrucou Radl. — E nenhuma pergunta. Os senhores têm aqui uma unidade penal, não? Operação Peixe-Espada?

Luziu uma nova espécie de cautela nos olhos de Neuhoff. Devlin observou-a imediatamente. O coronel como que enrijeceu.

— Sim, Herr Oberst, de fato. Sob o comando do coronel Steiner, do Regimento de Pára-Quedistas.

— É o que sei — disse Radl. — O Coronel Steiner, o Tenente Neumann e vinte e nove pára-quedistas.

Neuhoff corrigiu-o:

— O Coronel Steiner, Ritter Neumann e catorze pára-quedistas.

— O que o senhor quer dizer com isso? — Radl fitou-o, surpreso. — Onde estão os outros?

— Mortos, Herr Oberst — respondeu com simplicidade Neuhoff. — Sabe o que é a Operação Peixe-Espada? Sabe o que esses homens fazem? Engancham-se em cima de torpedos e. . .

— Estou ciente disso. — Radl levantou-se, retomou a carta do Führer e colocou-a no envelope. — Há operações planejadas para hoje?

— Isso dependerá de haver contato por radar.

— Não mais — disse Radl. — Isto fica encerrado a partir deste momento. — Mostrou o envelope. — Minha primeira ordem, de acordo com esta carta.

— Ê um prazer imenso cumprir essa ordem — disse Neuhoff, com um largo sorriso.

— Compreendo — disse Radl. — O Coronel Steiner é seu amigo?

— Com muita honra para mim — disse com simplicidade Neuhoff. — Se o conhecesse, saberia por que digo isso. Além disso, uma pessoa com seus extraordinários talentos será mais útil ao Reich viva do que morta.

— Esse é exatamente o motivo por que estou aqui — replicou Radl. — Onde poderei encontrá-lo?

— Pouco antes do porto há uma estalagem. Steiner e seus homens usam-na como quartel. Eu o levarei lá.

— Não há necessidade — recusou-se Radl. — Eu gostaria de vê-lo a sós. É distante?

— Uns quatrocentos metros.

— Ótimo. Neste caso, irei a pé.

Neuhoff ergueu-se.

— O senhor tem alguma idéia de quanto tempo passará aqui?

— Combinei que o Stork virá buscar-nos aqui amanhã bem cedo — explicou Radl. — É essencial estarmos no campo de Jersey até as onze horas. Nosso avião para a Bretanha parte nessa hora.

— Vou providenciar acomodações para o senhor e. . . seu amigo. — Neuhoff lançou um olhar a Devlin. — Além disso, gostariam de jantar comigo esta noite? Minha mulher ficaria muito contente, e talvez o Coronel Steiner possa vir também.

— Uma excelente idéia — anuiu Radl. — Aguardarei a ocasião com prazer.

Descendo a Victoria Street e passando por lojas fechadas e casas vazias, Devlin perguntou:

— Que diabo deu no senhor? Foi muito rude. Não está se sentindo bem hoje?

Radl riu, parecendo um pouco embaraçado.

— Toda vez que tiro aquela maldita carta do bolso, sinto-me estranho. Sou tomado por uma sensação. . . de poder. Como o centurião da Bíblia, que manda fazer uma coisa, e esta é feita, que manda que alguém vá, e alguém vai.

Ao entrarem na Braye Road, passou por eles um carro de reconhecimento, guiado pelo mesmo sargento de artilharia que os havia trazido do aeroporto.

— É o Coronel Neuhoff mandando aviso de nossa chegada — comentou Radl. — Estava me perguntando se ele o faria ou não.

— Acho que ele pensou que eu era da Gestapo — disse Devlin. — Ficou com medo.

— Talvez — concordou Radl. — E o senhor, Herr Devlin? Teve medo alguma vez na vida?

— Não, que me possa lembrar — disse Devlin, rindo, mas sem alegria. — Vou contar-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém. Mesmo nos momentos de perigo máximo, e Deus sabe que passei por um bocado deles, no exato momento em que fito a morte entre os olhos, sinto a mais estranha das sensações. É como se quisesse estender a mão e apertar a mão dela. Agora diga, isto não é a coisa mais engraçada que o senhor já ouviu?

Ritter Neumann, usando um traje de borracha preta de mergulhador, montado em um torpedo preso ao barco de salvamento número 1, mexia no motor do engenho quando o carro de reconhecimento correu ruidoso sobre o molhe e brecou com um chiado. Ao erguer os olhos, protegendo-se contra o sol, reconheceu o Primeiro-Sargento Brandt.

— Que pressa é essa? — gritou Neumann. — A Guerra acabou?

— Problemas, Herr Leutnant — respondeu Brandt. Um oficial do Estado-Maior chegou por via aérea de Jersey. Um tal Coronel Radl. Veio procurar o coronel. Acabamos de receber um aviso de Victoria Street.

— Um oficial do Estado-Maior? — perguntou Neumann, e içou-se pelo parapeito do barco de salvamento, apanhando a toalha que lhe era estendida pelo soldado Riedel. — De onde é ele?

— Berlim! — retrucou sombrio Brandt.— E veio em sua companhia um cara que parece civil, mas não é.

— Gestapo?

— É o que parece. Estão à caminho daqui. . . a pé.

Neumann calçou as botas de pára-quedista e subiu a escada do molhe.

— Os rapazes já sabem?

Brandt inclinou a cabeça com uma expressão selvagem na face.

— E não estão gostando. Se descobrirem que vieram fazer pressão sobre o coronel, é muito provável que o atirem, e a seu colega, ao mar, com trinta quilos de corrente em torno dos calcanhares.

— Certo — disse Neumann. — Volte já para o bar e contenha-os. Eu levarei o carro de reconhecimento e avisarei o coronel Ele foi dar um passeio com Frau Neuhoff pelo quebra-mar.

Steiner e Ilse Neuhoff encontravam-se nesse momento bem na extremidade do quebra-mar. Ela estava sentada sobre o parapeito, com as longas pernas soltas no ar, enquanto o vento vindo do mar enfunava-lhe o cabelo louro e repuxava-lhe a saia. Ria para Steiner. Ele se virou quando o carro de reconhecimento freou com um guincho.

Neumann desceu   apressado.   Steiner lançou-lhe um olhar e sorriu irônico:

— Más notícias, Ritter, e num lindo dia como este.

— Chegou de Berlim um oficial do Estado-Maior à sua procura, um tal Coronel Radl — disse sombrio Neumann. — Dizem que está acompanhado por um homem da Gestapo.

Steiner não demonstrou o menor sinal de preocupação.

— Isso certamente acrescenta certo interesse ao dia. — Estendeu as mãos para ajudar Ilse no momento em que ela saltava para o chão e prendeu-a contra o corpo durante um momento. Ela demonstrava no rosto grande apreensão.

— Pelo amor de Deus, Kurt, será que você não pode levar nada a sério?                                                   .   .

— Ele está provavelmente aqui para fazer uma contagem de cabeças. Todos nós devíamos estar mortos a esta altura. Devem estar muito desconcertados em Prinz Albre-chtstrasse.

A velha estalagem situava-se ao lado da estrada, no ponto de acesso ao porto, nas areias de Braye Bay. Um estranho sossego envolvia o local quando Radl e o irlandês se aproximaram.

— Nunca vi um bar de aparência tão agradável — disse Devlin. — O senhor acha que é possível que ainda sirvam aí uma bebida?

Radl tentou a porta da frente. Ela se abriu, e penetraram num corredor escuro. Uma porta estalou às suas costas.

— Aqui, Herr Oberst — disse uma voz suave e oculta.

O Sargento Hans Altmann encostou-se à porta externa, como se lhes quisesse impedir a saída. Radl notou a fita da Guerra de Inverno, a Cruz de Ferro, primeira e segunda classes, um distintivo de prata que significava pelo menos três ferimentos, o escudo de combate da Força Aérea e a mais cobiçada honraria entre os pára-quedistas, os botões de punho Kreta, um troféu orgulhoso daqueles que haviam sobrevivido como ponta-de-lança da invasão de Creta, em maio de 1941.

— Seu nome? — perguntou, seco, Radl.

Altmann não respondeu. Simplesmente abriu com o pé a porta marcada com as palavras Salão do bar. Radl, sentindo que havia algo no ar, embora não soubesse bem o quê, enfiou o queixo pela abertura e penetrou no aposento.

O salão era de tamanho médio, com um balcão à esquerda, prateleiras vazias por trás, certo número de fotografias emolduradas de velhos destroços marítimos nas paredes, e um piano num canto. O aposento era ocupado por uma dúzia, mais ou menos, de pára-quedistas, todos eles com expressões notavelmente mal-encaradas. Radl examinou-os com frieza e ficou impressionado. Nunca vira um grupo de homens ostentando tal número de condecorações. Não havia ali um único que não portasse a Cruz de Ferro, primeira classe, e distintivos menores, como medalhas de ferimentos. As placas por destruição de tanque poderiam ser contadas às dúzias.

No centro da sala, com a pasta sob o braço, as mãos nos bolsos e a gola do capote ainda levantada, Radl disse suavemente:

— Eu gostaria de observar que homens foram fuzilados antes por esse tipo de conduta.

Explodiu uma gargalhada no salão. O Sargento Sturm, por trás do bar, limpando uma Luger, disse:

— Isso é realmente muito bom, Herr Oberst. Quer ouvir uma coisa engraçada? Quando começamos a operar aqui, há dez semanas, havia trinta e um de nós, incluindo o coronel. Somos quinze agora, a despeito de um bocado de escapadas de sorte. O que podem o senhor e essa merda da Gestapo oferecer que seja melhor do que isso?

— Não me incluam nesta coisa — disse Devlin. Eu sou neutro.

Sturm, que trabalhara nas barcaças de Hamburgo desde os doze anos e cuja tendência era ser um pouco direto nas palavras, continuou:                                                

— Ouçam bem, porque só vou falar uma vez. O coronel não vai para lugar algum. Não com vocês. Nem com ninguém. — Sacudiu a cabeça. — Sei que isso é duro de dizer, Herr Oberst, mas o senhor andou polindo uma cadeira com o traseiro por tanto tempo em Berlim que esqueceu como se sentem os verdadeiros soldados. O senhor veio ao lugar errado se está esperando arranjar um coral para cantar o Horst Wessel.

— Excelente — disse Radl.— Contudo, a sua interpretação inteiramente incorreta da atual situação sugere uma falta de juízo que eu, pelo menos, acho deplorável em alguém de sua graduação.

Lançou a pasta sobre o balcão, abriu os botões do capote com a mão sadia e tirou-o do corpo com uma contorção. Boquiaberto, Sturm viu a Cruz de Cavaleiro e a fita da Guerra de Inverno. Radl passou diretamente ao ataque.

— Sentido! — berrou. — De pé, todos vocês. — Ocorreu uma súbita explosão de atividade e, no mesmo momento, a porta foi aberta e Brandt entrou apressado.

— E o senhor, primeiro-sargento — rosnou Radl.

Caiu um silêncio em que se ouviria a queda de um alfinete enquanto os soldados tomavam posição de sentido. Devlin, apreciando muito o novo rumo dos acontecimentos, içou-se sobre o balcão do bar e acendeu um cigarro.

— Os senhores pensam que são soldados alemães — disse Radl —, o que é um erro natural, considerando os uniformes que usam, mas estão enganados. — Dirigiu-se de um homem para outro, parando em frente de cada um deles, como se lhes quisesse gravar os rostos na memória. — Quer que lhes diga quem são?

E falou em termos simples e diretos fazendo Sturm parecer um recruta. Ao parar para tomar respiração, dois ou três minutos depois, ouviu uma tosse polida à porta, voltou-se e viu Steiner, acompanhado de Ilse Neuhoff.

— Eu mesmo não poderia ter dito isso melhor, Coronel Radl. Posso apenas esperar que esteja disposto a considerar o que aconteceu aqui como um entusiasmo mal orientado, e deixar as coisas assim. Os pés deles não tocarão o chão quando eu acabar com eles, prometo-lhe isso. — Estendeu a mão e sorriu com grande encanto: — Kurt Steiner.

Radl se lembraria sempre desse primeiro encontro. Steiner possuía aquela estranha característica encontrada em tropas pára-quedistas de todos os países, uma espécie de arrogante auto-suficiência nascida dos perigos da especialidade. Usava uma jaqueta de vôo azul-cinzenta com gola amarela, ostentando o laurel e as duas asas estilizadas de seu posto, calças de saltar e o tipo de gorro conhecido como Shiff, e que era uma sofisticação de numerosos veteranos. O resto, no caso de um homem que ganhara todas as possíveis condecorações, era extraordinariamente simples. Os botões Kreta, a fita da Guerra de Inverno e a águia em prata e ouro do distintivo de pára-quedista. A Cruz de Cavaleiro com as Folhas de Carvalho estava oculta por um cachecol de seda, amarrado frouxamente em torno do pescoço.

— Para ser honesto, Coronel Steiner, foi um grande prazer pôr esses patifes em seus lugares.

Ilse Neuhoff soltou uma risadinha, acrescentando:

— Uma excelente representação, Herr Oberst, se me permite.

Steiner fez as necessárias apresentações e Radl beijou a mão da mulher.

— Um grande prazer, Frau Neuhoff. — Franziu o cenho. — Será que nos encontramos antes?

— Sem duvida — disse Steiner e puxou para frente Ritter Neumann, que estivera em segundo plano, ainda usando o traje de borracha. — E este, Herr Oberst, não é, como o senhor poderia pensar, uma foca cativa do Atlântico, mas o Oberleutnant Ritter Neumann.

— Tenente. — Radl lançou um rápido olhar a Ritter Neumann, lembrando-se da recomendação para a Cruz de Cavaleiro que arquivara devido à corte marcial e perguntando-se se ele sabia do fato.

— E esse cavalheiro? — perguntou Steiner voltando-se para Devlin, que saltara do balcão e se aproximava.

— Na verdade, todos aqui parecem pensar que eu sou o cordial vizinho da Gestapo — disse Devlin. — Não tenho certeza se isso é lá muito lisonjeiro. — Estendeu a mão. Devlin, coronel. Liam Devlin.

— Herr Devlin é um colega meu — explicou imediatamente Radl.

— E o senhor? — perguntou cortesmente Steiner.

— Do quartel-general do Abwehr. E agora, se lhe for conveniente, gostaria de falar-lhe sobre um assunto da maior urgência.

Steiner franziu o cenho e, mais uma vez, caiu um silêncio total sobre a sala. Voltou-se para Ilse:

— Ritter leva-la-á para casa.

— Não, prefiro esperar até que terminem seus negócios com o Coronel Radl.

Estava desesperadamente preocupada, e isso era visível em seus olhos. Com grande gentileza, disse Steiner:

— Acho que isso deve demorar muito. Cuide dela, Ritter. — Voltou-se para Radl. — Por aqui, Herr Oberst.

Radl inclinou a cabeça para Devlin e seguiram-no.

— Muito bem, descansar — disse Ritter Neumann. —Seus malditos idiotas.

Houve um afrouxamento geral da tensão. Altmann, sentado ao piano, iniciou uma canção popular que garantia a todos que tudo acabaria bem.

— Frau Neuhoff — gritou ele —, que tal uma canção?

Ilse sentou-se num dos velhos tamboretes do bar.

— Não estou com vontade — disse ela. — Rapazes, querem saber de uma coisa? Estou cheia desta horrível guerra. Tudo o que quero é um bom cigarro e um drinque, mas acho que seria quase um milagre conseguir isto.

— Oh, não sei, Frau Neuhoff. — Brandt saltou sobre o bar sem tocá-lo e voltou-se para ela. — Para a senhora, tudo é possível. Cigarros, por exemplo, e gim de Londres.

Enfiou as mãos sob o balcão e pegou um pacote de Gold Flake e uma garrafa de Beefeater.

— Agora, cante para nós, Frau Neuhoff — gritou Hans Altmann.

Encostados no parapeito, Devlin e Radl olhavam para a água clara e profunda à pálida luz do sol. Sentado num poste de amarração ao fim do molhe, Steiner lia o conteúdo da pasta de Radl. Do outro lado da baía, o Forte Albert erguia-se sobre uma ponta de terra. Abaixo, os penhascos mostravam o visco de aves marinhas que giravam em grandes nuvens de gaivotas e outros pássaros.

— Coronel Radl — chamou Steiner.

Radl dirigiu-se para ele, seguido por Devlin, parando os dois a uns três metros de distância e encostando-se à amurada.

— Terminou? — perguntou Radl.

— Oh, sim. — Steiner recolocou os vários papéis na pasta. — O senhor está falando sério, não?

— Claro.

Steiner estendeu a mão e bateu com o indicador na fita da Guerra de Inverno de Radl.

— Então, tudo o que posso dizer é que um pouco do frio russo deve ter-se insinuado em seu cérebro, meu amigo.

Radl tirou o envelope de papel pardo do bolso interior com as ordens do Führer:

— Acho que seria melhor ler isso.

Steiner leu-a sem sinal de emoção e encolheu os ombros ao devolvê-la.

— E daí?

— Mas, Coronel Steiner — disse Radl —, o senhor é um oficial alemão. Nós prestamos o mesmo juramento. Isto é uma ordem direta do próprio Führer.

— Parece que o senhor esqueceu uma coisa muito importante — disse-lhe Steiner. — Estou engajado em uma unidade penal, sob sentença de morte suspensa, oficialmente desonrado. Na verdade, conservo meu posto apenas em virtude das circunstâncias especiais do trabalho que faço. —Tirou do bolso um maço amassado de cigarros franceses e colocou um na boca. — De qualquer modo, não gosto de Adolf. Ele berra muito e tem mau hálito.

Radl ignorou a observação:

— Precisamos lutar. Não temos alternativa.

— Até o último homem?

— O que mais podemos fazer?

— Nós não podemos vencer.

Radl cerrou a mão boa, tomado de excitação nervosa.

— Mas podemos forçá-los a mudar de idéia se perceberem que alguma espécie de acordo é melhor do que esse morticínio interminável.

— E liquidar Churchill ajudaria? — perguntou Steiner com óbvio ceticismo.

— Mostraria a eles que nós ainda temos dentes. Lembre-se do furor causado por Skorzeny quando tirou Mussolini do Gran Sasso. Foi uma sensação em todo o mundo.

— Segundo ouvi dizer — observou Steiner —, o General Student e alguns pára-quedistas também tomaram parte no golpe.

— Pelo amor de Deus — disse Radl, impaciente. —Imagine só tropas alemãs descendo na Inglaterra, com um objetivo desse tipo. Claro, talvez o senhor ache que não possa ser feito.

— Não vejo por que não — retrucou, calmo, Steiner. — Se esses papéis que li são exatos e se o senhor fez seu trabalho com cuidado, a operação toda poderia funcionar como um relógio suíço. Poderíamos, na verdade, pegar os Tommies com as calças na mão. Chegar e sair antes que eles soubessem o que foi que os atingiu. Mas não é isto que interessa.

— O que é, então? — indagou Radl, tomado de total desespero. — Por causa de sua corte marcial é mais importante para o senhor torcer o nariz para o Führer? Por que o senhor está aqui? Coronel, o senhor e seus homens estarão liquidados se continuarem aqui. Trinta e um de vocês há oito semanas. Quantos sobraram? Quinze? Agarre esta última chance de viver, faça-o por si   mesmo e por seus homens.

— Senão, morrer na Inglaterra.

Radl encolheu os ombros.

— Entrar e sair discretamente, é assim que poderia ser. Como um relógio suíço, como o senhor mesmo disse.

— O terrível nisto tudo é que, se houver um mínimo erro, toda a maldita coisa deixa de funcionar — interrompeu-o Devlin.

— Muito bem colocado — concordou Steiner. — Diga-me uma coisa, Sr. Devlin. Por que vai?

— É simples — replicou Devlin. — Porque sou o último dos grandes aventureiros.

— Excelente. — Steiner riu, deliciado. — Isso eu posso aceitar. Entrar no jogo. O maior de todos os jogos. Mas isso não o ajuda a entender a situação — continuou. — O Coronel Radl diz que devo isso a meus homens porque é uma maneira de escapar da morte certa aqui. Mas, para ser bem franco com o senhor, acho que não devo isso a ninguém.

— Nem a seu pai? — perguntou Radl.

Caiu um silêncio e ouviu-se apenas o som do mar lambendo as rochas embaixo. Steiner empalideceu, a pele estirou-se sobre as maçãs do rosto e seus olhos tornaram-se sombrios.

— Muito bem, pode falar.

— A Gestapo levou-o para a Prinz Albrechtstrasse. Suspeita de traição.

Steiner, lembrando-se da semana que passara no quartel-general da França em 1942, do que o velho dissera, teve certeza no mesmo instante de que aquilo era verdade.

— Ah, compreendo, agora — disse baixinho, — Se eu for um bom rapaz e fizer o que mandarem, isso ajudará o caso dele. — De súbito, sua face mudou, transformando-se na fisionomia de um homem perigoso. Quando estendeu a mão para Radl, fê-lo numa espécie de câmara lenta: — Seu calhorda. Todos vocês, calhordas.

Agarrou-o pela garganta. Devlin interveio e precisou usar de toda sua considerável força para soltá-lo.

— Ele não, seu idiota. Ele está sob a mesma pressão que você. Se quer matar alguém, mate Himmler. Ele é o homem que você quer.

Radl lutou para recuperar o fôlego e encostou-se no parapeito, parecendo muito doente.

— Sinto muito — disse Steiner, colocando uma das mãos no ombro do coronel, muito preocupado. — Eu devia ter desconfiado.

Radl ergueu a mão morta.

— Está vendo isto, Steiner, e o olho? E as outras lesões que não pode ver? Dois anos, se eu tiver sorte, isso é tudo que me dão. Não por minha causa, mas por minha mulher e filhas, porque acordo à noite, suando, com o pensamento no que lhes poderia acontecer. É por isso estou aqui.

— Sim, claro, compreendo. — Steiner inclinou a cabeça devagar. — Estamos todos no mesmo beco escuro, procurando uma saída. — Respirou fundo. — Muito bem, vamos voltar. Falarei com os rapazes.

— Não sobre o alvo — aconselhou-o Radl. — Não nesta fase.

— O destino, então. Eles têm o direito de saber disso. Quanto ao resto. . . no momento, somente o discutirei com Neumann.

Começou a afastar-se, e Radl disse:

— Steiner, preciso ser honesto com você. — Steiner voltou-se. — A despeito de tudo o que eu disse, penso também que esta coisa vale uma tentativa. Muito bem, como diz Devlin, pegar Churchill, vivo ou morto, não nos vai dar a vitória na guerra, mas talvez abale um pouco nossos inimigos e os faça pensar em uma paz negociada.

— Meu caro Radl — replicou Steiner —, se você acredita nisso, acredita em tudo. Eu lhe direi o que este caso, mesmo que tenha êxito, conseguirá com os britânicos. Eles mandarão tudo para o inferno!

Virou-se e desceu o molhe.

Na atmosfera esfumaçada do bar, Hans Altmann tocava piano e o resto da tropa cercava Ilse, que, sentada no bar, com um copo de gim entre os dedos, contava uma história ligeiramente imoral, corrente na alta sociedade, e relevante apenas para a vida amorosa do Reichsmarschall Hermann Goering. Seguido por Radl e Devlin, Steiner entrou, em meio a uma explosão de gargalhadas. Espantado, examinou a cena, especialmente à vista do grande número de garrafas sobre o balcão.

— O que, afinal, está acontecendo aqui?

Os homens afastaram-se do bar, e Ritter Neumann, que estava atrás do balcão, em companhia de Brandt, respondeu:

— Esta manhã, Altmann encontrou, sob o velho capacho do bar, um alçapão com acesso para uma adega que não conhecíamos. Havia dois pacotes de cigarros ainda na embalagem. Cinco mil em cada um deles. — Indicou o balcão com a mão. — Gim Gordon, Beefeater, uísque White Horse, Haig and Haig. —Apanhou uma garrafa e leu o rótulo com dificuldade em inglês: Uísque irlandês Bushmills. Destilado em dornas.

Liam Devlin soltou um uivo de alegria e arrancou-lhe a garrafa da mão.

— Dou um tiro no primeiro homem que tocar numa gota disto — declarou. — Juro que o farei. É todo meu.

Foi uma gargalhada geral. Steiner acalmou-os com a mão direita erguida.                                                 .

— Calma aí, temos de discutir umas coisas. Negócios. — Voltou-se para Ilse Neuhoff. — Sinto muito, meu amor, mas isto é assunto da mais alta segurança.

Ela tinha consciência, como mulher de soldado, que não adiantava discutir.

— Espero do lado de fora. Mas recuso-me a deixar esse gim longe de minha vista. — Saiu com a garrafa de Beefeater numa mão e o copo na outra.

No silêncio que se seguiu no salão do bar, todos se tornaram imediatamente sóbrios, esperando o que Steiner tinha a dizer.

— É simples — disse ele. — Há uma possibilidade de sairmos daqui. Uma missão especial.

— Para fazer o quê, Herr Oberst? — perguntou o Sargento Altmann.

— Sua velha profissão. Aquilo para o qual você foi treinado.

Na reação instantânea e no zumbido de excitação, alguém sussurrou:

— Isso significa que vamos saltar novamente?

— É exatamente isso o que quero dizer — respondeu Steiner. — Mas apenas para voluntários. Uma decisão pessoal de todos aqui.

— Rússia, Herr Oberst? — perguntou Brandt.

Steiner sacudiu a cabeça.

— Um lugar onde nenhum soldado alemão jamais lutou. — Fitando as faces tensas, cheias de curiosidade, expectantes, perguntou em voz baixa: — Quantos de vocês falam inglês?

No atordoado silêncio que caiu, Ritter Neumann esqueceu-se de quem era e disse em voz rouca:

Pelo amor de Deus, Kurt. Você deve estar brincando.

Steiner sacudiu a cabeça.

— Nunca estive mais sério em toda a minha vida. O que vou contar agora é altamente secreto, claro. Para encurtar a história, dentro de umas cinco semanas deveremos fazer um salto noturno numa zona muito isolada da costa inglesa, do outro lado do mar do Norte, em frente à Holanda. Se tudo correr bem, seremos retirados na noite seguinte.                

— E se não correr bem? — perguntou Neumann.

— Morreremos, naturalmente, de modo que isso não importa. — Olhou em volta. — Mais alguma coisa?

— Poderemos saber a finalidade da missão, Oberst? —indagou Altmann.

— O mesmo tipo de coisa que Skorzeny e aqueles rapazes do Batalhão-Escola de Pára-Quedistas fizeram no Gran Sasso. Isso é tudo que posso dizer.

— Bem, isso é suficiente para mim — disse Brandt, olhando feroz em volta da sala. — Se formos, poderemos morrer, se ficarmos aqui, morreremos na certa. Se o senhor for. . . nós iremos.

— Concordo — disse Ritter Neumann, tomando posição de sentido.       .

Todos o imitaram. Steiner permaneceu imóvel durante um longo tempo, olhando para algum local secreto em sua própria mente. Depois, inclinou a cabeça.

— Assim seja. Ouvi alguém falar em uísque White Horse?

O grupo dirigiu-se para o bar, Altmann sentou-se ao piano e começou a tocar We march against England. Alguém lançou-lhe o boné e Sturm gritou:

— Pare com essa velha porcaria. Vamos ouvir uma coisa que mereça ser ouvida.

A porta foi aberta nesse instante e Ilse Neuhoff apareceu:

— Posso entrar agora?

O grupo recebeu-a com um rugido. Dentro de um momento, ela foi erguida para o balcão do bar.

— Uma canção! — pediram em coro.

— Muito bem— disse ela, rindo. — O que vocês querem?

Em voz seca e rápida Steiner falou antes de todos:

— Alles ist verrückt.

Houve um súbito silêncio. Ela fitou-o, pálida.

— Tem certeza?

— É bastante apropriado — replicou ele. — Pode acreditar em mim.

Hans Altmann tocou os acordes iniciais, extraindo o máximo da execução, enquanto Ilse desfilava, devagar de um lado para outro do balcão, com as mãos nos quadris, cantando a estranha e melancólica canção conhecida de todos aqueles que haviam servido na Guerra de Inverno.

O que é que vocês estão fazendo aqui? O que quer dizer isto? Alles ist verrückt. O mundo enlouqueceu. Foi tudo para o inferno.

Lágrimas afloraram a seus olhos. Estendeu bem os braços, como se quisesse abraçar a todos e, logo depois, todos cantavam, em voz baixa e profunda, fitando-a. Steiner, Ritter, todos eles. . .   até Radl.

Devlin olhou atônito de um rosto para outro, voltou-se, abriu a porta e mergulhou na noite:

— Devo estar louco. Ou então, eles é que estão loucos — murmurou.                                 .

Estava escuro no terraço devido ao blackout. Radl e Steiner, porém, saíram para fumar um charuto após o jantar, mais por necessidade de estarem a sós do que por qualquer outra coisa. Através das grossas cortinas que tapavam as janelas envidraçadas, ouviam as vozes de Liam Devlin, de Ilse Neuhoff e do marido, que riam, alegres.

— Ele é um homem encantador — disse Steiner.

— E tem também outras qualidades. — Radl inclinou a cabeça. — Se houvesse muitos mais como ele, os britânicos teriam deixado com prazer a Irlanda há muitos anos. Suponho que tenham tido uma reunião proveitosa para ambos depois que os deixei esta tarde.

— Acho que o senhor poderia dizer que nós nos compreendemos — retrucou Steiner. — Examinamos o mapa com toda a atenção. Será uma grande ajuda tê-lo como grupo avançado, pode acreditar.

— Mais alguma coisa que eu deva saber?

— Sim, o jovem Werner Briegel já esteve naquela área.

— Briegel? — perguntou Radl. — Quem é ele?

— Cabo. Vinte e um anos. Três anos de serviço. É de um lugar chamado Barth, no Báltico. Diz que parte daquela costa é muito parecida com Norfolk. Enormes praias vazias, dunas de areia e um bocado de aves.

— Aves? — indagou Radl.

Steiner sorriu na escuridão.

— Devo esclarecer que as aves constituem a paixão do jovem Werner, Certa vez, perto de Leningrado, fomos salvos de uma emboscada de partisans porque eles espantaram um bando de estorninhos. Werner e eu fomos temporariamente surpreendidos em campo aberto, sob fogo cruzado e de cara na lama. Ele encheu o tempo dando-me uma aula completa, dizendo que os estorninhos estavam provavelmente emigrando para a Inglaterra, onde passariam o inverno.

— Fascinante — comentou, irônico, Radl.

— Oh, o senhor pode rir, mas, com isso, aquela horrível meia hora passou logo para nós. Aliás, foi isso que o levou, acompanhado do pai, ao norte de Norfolk em 1937. As aves. Aparentemente, essa costa é famosa por delas.

— Ah, bem. Cada um com seu gosto. E essa questão sobre quem fala inglês? Descobriu isso?

— O Tenente Neumann, o Sargento Altmann e o jovem Briegel falam todos bom inglês, com sotaque, naturalmente. Não há esperança de que passem por nativos. Entre os demais, Brandt e Klugl falam um inglês arrevesado. O suficiente para passar. Por falar nisso, Brandt trabalhou, quando jovem, em navios cargueiros, na linha de Hamburgo a Hull.

— Poderia ser pior. — Radl inclinou a cabeça. — Diga-me uma coisa: Neuhoff interrogou-o?

— Não, mas está obviamente muito curioso. E a pobre Ilse está transtornada de preocupação. Preciso providenciar para que ela não leve a coisa toda ao conhecimento de Ribbentrop, em uma mal-avisada tentativa de salvar-me daquilo que não sabe o que é.

— Ótimo — concordou Radl. — Conserve-se calado e espere. O senhor receberá ordens de partida dentro de uma semana ou dez dias, tudo dependendo da rapidez com que eu puder encontrar uma base conveniente na Holanda. Devlin, como o senhor sabe, deverá provavelmente partir dentro de uma semana. Acho que seria melhor entrarmos agora.

— E meu pai? — perguntou Steiner, segurando-lhe o braço.

— Eu seria desonesto — disse Radl —, se o levasse a pensar que tenho a menor influência no caso. Himmler é pessoalmente responsável. Tudo que posso fazer, e certamente farei. . . é não lhe deixar dúvida de como o senhor está sendo cooperativo.

— O senhor pensa honestamente que isso será suficiente?

— E o senhor? — perguntou Radl.

Não houve alegria alguma no riso de Steiner.

— Ele não tem senso de honra.

A observação pareceu curiosamente antiga, e Radl ficou intrigado.

— E o senhor? — disse. — O senhor tem?

— Talvez não. Talvez seja uma palavra preciosa demais para o que eu tenho em mente, coisas simples como dar a palavra, e mantê-la, ficar ao lado dos amigos, aconteça o que acontecer. A soma dessas coisas totaliza honra?

— Não sei, meu amigo — respondeu Radl. — Tudo o que posso afirmar com certeza é o fato indiscutível de que o senhor é bom demais para o mundo do Reichsführer. — Pôs um braço em volta do ombro de Steiner. — É agora, seria realmente melhor entrarmos.

Ilse, o Coronel Neuhoff e Devlin encontravam-se sentados em torno de uma mesinha redonda, junto à lareira. Ela dispunha um círculo céltico com um baralho de tarot nas mãos.

— Vamos, surpreenda-me — dizia Devlin.

— O senhor quer dizer que não acredita, Sr. Devlin? — perguntou ela.

— Um decente rapaz católico como eu? Orgulhoso produto do melhor que os jesuítas podem oferecer, Frau Neuhoff? — Sorriu largamente. — Bem, o que você acha?

— Que é um homem deveras supersticioso, Sr. Devlin — Seu sorriso esmaeceu um pouco. — Sabe — continuou — eu sou o que é conhecido como uma sensitiva. As cartas não são importantes. Constituem apenas instrumentos.

— Continue, então.

— Muito bem, seu futuro está numa carta, Sr. Devlin. A sétima que eu tirar.

Contou-as rapidamente e virou a sétima. Era um esqueleto com uma foice. A carta estava de cabeça para baixo.

— Ele não é alegre? — observou Devlin, tentam parecer indiferente, mas fracassando.

— Sim, a morte — disse ela. — Mas de cabeça para baixo não significa o que o senhor pensa. — Olhou fixamente para a carta durante meio minuto, e disse em seguida: — O senhor viverá muito, Sr. Devlin. Dentro em breve começará para o senhor um longo período de inércia, de estagnação, e depois, nos últimos anos de sua vida, de revolução e talvez assassinato. — Ergueu, calma, os olhos: — Isso o satisfaz?

— A parte da longa vida, sim — respondeu, Devlin. —Quanto ao resto, eu me arriscarei.

— Posso tomar parte, Frau Neuhoff? — perguntou Radl.

— Se quiser.

Ela contou as cartas. Desta vez saiu uma estrela, de cabeça para baixo. Ela fitou-a outra vez, durante longo tempo.

— A sua saúde não é boa, Herr Oberst.

— Isso é verdade — anuiu Radl.

Ela levantou os olhos e disse com simplicidade:

— Acho que sabe o que está aqui, não?

— Obrigado, acho que sim — disse ele, sorrindo tranqüilo.

A atmosfera tornou-se desagradável, como se um frio súbito houvesse caído, e Steiner disse:

— Muito bem, Ilse. E eu?

Ela estendeu as mãos para as cartas, como se fosse reuni-las.

— Não, agora não, Kurt. Acho que já tivemos o suficiente para uma única noite.

— Tolice — disse ele. — Eu insisto. — Apanhou o baralho. — Entrego-lhe o baralho com a mão esquerda, não?

Com grande hesitação ela pegou as cartas, fitou-as com um apelo mudo e iniciou a contagem. Virou rapidamente a sétima carta, o suficiente para vê-la, e recolocou-a no alto do baralho.

— Sorte também nas cartas, ao que parece, Kurt. Você tirou a carta da força. Muita sorte, triunfo na adversidade, sucesso inesperado. — Sorriu alegre. — E agora, se os cavalheiros me desculparem, vou providenciar o café. — E saiu da sala.

Steiner estendeu a mão e virou a carta. Era o Enforcado. Soltou um profundo suspiro.

— As mulheres — disse — podem ser muito tolas, às vezes. Não é mesmo, cavalheiros?

Houve nevoeiro pela manhã,.Neuhoff mandou acordar Radl pouco antes do amanhecer e, ao café, deu-lhe a má notícia.

— É um problema comum aqui, lamento dizer — explicou. — Mas é assim, e a previsão geral é péssima. Nenhuma esperança de partida de um avião antes da noite. Pode esperar esse tempo todo?

Radl sacudiu a cabeça.

— Tenho que estar em Paris esta noite, e para isso é essencial que eu apanhe o transporte que deixa Jersey às onze para fazer a necessária conexão na Bretanha. O que mais pode o senhor oferecer?

— Eu poderia arranjar passagem num barco-patrulha — explicou Neuhoff. — Será uma excitante experiência, garanto, e bastante perigosa. Nesta área temos mais problemas com a Marinha Real do que com a raf. Mas seria essencial partir sem demora para chegar a tempo a St. Helier.

— Excelente — concordou Radl. — Por favor, tome logo as providências necessárias. Vou acordar Devlin.

Pouco depois das sete, Neuhoff levou-os pessoalmente ao porto em seu carro oficial. Devlin, aconchegado no assento traseiro, mostrava todos os sinais de uma gigantes ressaca. O barco esperava amarrado no molhe mais baixo. Ao descerem os degraus, encontraram Steiner, calçado de botas impermeáveis e jaqueta de oleado, inclinado sobre o parapeito, conversando com um tenente de Marinha barbado, vestido com um grosso suéter e usando um quepe incrustado de sal. Ele se voltou para cumprimentá-los.

— Uma bela manhã para viajar. Fui justamente certificar-me de que Koenig sabe que vai transportar carga preciosa.

O tenente bateu continência.

— Herr Oberst.

Devlin, a própria imagem do sofrimento, permaneceu com as mãos enterradas no bolso.

— Não se está sentindo muito bem esta manhã, não é, Sr. Devlin? — inquiriu Steiner.

— O vinho é um zombeteiro — gemeu Devlin. — A bebida forte, uma calamidade.

— Então não vai querer isto? — Mostrou uma garrafa. — Brandt descobriu outro Bushmills.

Devlin aliviou-o logo da garrafa.

— Eu não sonharia em permitir que ela fizesse com outra pessoa o que fez comigo. — Apertou-lhe a mão. — Esperemos que, quando descer, eu esteja de cabeça erguida —disse, saltou sobre o parapeito e sentou-se na popa.

Radl apertou a mão de Neuhoff e voltou-se para Steiner:

— O senhor terá notícias minhas dentro em breve. Quanto ao outro assunto, farei o que puder.

Steiner permaneceu calado. Nem mesmo tentou apertar-lhe a mão. Radl hesitou e passou sobre a amurada. Koenig deu uma ordem seca, estirando a cabeça pela janela aberta da casa do leme. Os cabos foram largados e o barco penetrou no nevoeiro do porto.

Fizeram a volta em torno da extremidade do quebra-mar e ganharam velocidade. Radl olhou interessado em volta. A tripulação tinha aparência rude, metade usava barba e estavam todos vestidos com guernseys ou grossos suéteres de pescadores, calças de algodão resistentes e botas de borracha. De fato, pouco havia de marinheiros neles e a própria embarcação, afestoada de estranhas antenas, diferia de todos os barcos de reconhecimento que vira antes.

Ao chegar à ponte, encontrou Koenig, debruçado sobre uma mesa de mapas, e um alto marinheiro de barba preta, vestido com uma jaqueta de oleado e usando o distintivo de contramestre. Um charuto projetava-se de seus dentes, algo que, pensou Radl, tampouco parecia muito naval.

Koenig fez uma continência bastante aceitável.

— Ah, então é o senhor, Herr Oberst. Tudo bem?

— Espero que sim. — Radl inclinou-se sobre o mapa. — Qual a distância?

— Umas oitenta milhas.

— O senhor nos levará até lá a tempo?

Koenig lançou um olhar ao relógio.

— Calculo que chegaremos a St. Helier pouco antes das dez, Herr Oberst, desde que a Marinha Real não interfira.

Radl olhou pela janela.

— A sua tripulação, tenente, veste-se sempre como pescadores? Eu pensava que os barcos-patrulha fossem o orgulho da Marinha.

Koenig sorriu.

— Mas isto não é um barco-patrulha, Herr Oberst. Estamos apenas classificados como tal.

— Então? que diabo é? — perguntou, confuso, Radl.

— Na verdade, não temos muita certeza, não é, Müller? O suboficial sorriu e Koenig continuou: — Uma canhoneira a motor, como pode ver, Herr Oberst, construída na Grã-Bretanha para os turcos e confiscada pela Marinha Real.

— Qual é a história por trás disso?

— Encalhou num banco de areia, em maré baixa, perto de Morlaix, na Bretanha. O comandante não pôde afundá-la e assim colocou uma carga de demolição antes de abandoná-la.

— E. . .?

— A carga não explodiu e, antes que ele pudesse voltar a bordo para corrigir o erro, um barco-patrulha apareceu e capturou-o, juntamente com sua tripulação.

— Pobre-diabo! — disse Radl. — Sinto quase pena dele.

— Mas o melhor está ainda por vir, Herr Oberst — disse-lhe Koenig. — Como a ultima mensagem do capitão foi que estava abandonando o barco e que ia explodi-lo, o Almirantado britânico naturalmente supôs que ele havia tido êxito.

— O que lhe deixa liberdade de navegar entre as ilhas numa embarcação que, para todos os meios e fins, é um barco da Marinha Real. Compreendo, agora.

— Exatamente. O senhor esteve examinando antes o mastro da bandeira e sem dúvida ficou espantado ao descobrir que é o pavilhão branco da Marinha Real que conservamos pronto para içar.

— E salvou-o ocasionalmente?

— Muitas vezes. Içamos o pavilhão branco, enviamos uma mensagem de cortesia e continuamos nosso caminho. Nenhum problema, em absoluto.

Radl sentiu, mais uma vez, o dedo frio da excitação mexendo-se dentro dele.

— Fale-me do barco — disse. — Que velocidade desenvolve?

— A velocidade máxima era originariamente de vinte e cinco nós, mas o estaleiro da Marinha em Brest trabalhou nele o bastante para aumentá-la para trinta. Ainda não se equipara a um barco-patrulha, naturalmente, mas é dos piores. Trinta e nove metros de comprimento e, quanto ao armamento, um canhão de seis libras, um de duas libras, duas metralhadoras geminadas de dois ponto cinco e um canhão antiaéreo duplo de vinte milímetros.

— Ótimo — interrompeu Radl. — Uma canhoneira sem dúvida. O que me diz do alcance?

— Mil milhas a vinte e um nós. Naturalmente, com os silenciadores ligados o barco consome mais combustível.

— E o que me diz daquilo? — perguntou Radl, apontando para as antenas que cobriam o barco como guirlandas.

— De navegação, algumas delas. O restante é composto de antenas de telefone. Trata-se de um aparelho de micro-ondas para transmissão-recepção auditiva entre um navio em movimento e um agente em terra. Muito melhor do que tudo que possuímos. Obviamente usado com agentes para dar-lhes permissão de desembarcar. Já cansei de ouvir os elogios que lhe fazem no quartel-general naval em Jersey. Ninguém mostra o menor interesse. Não é de admirar que. . .

Interrompeu-se justamente a tempo. Radl lançou-lhe um olhar e perguntou em voz tranqüila:

— Até que alcance funciona esse notável aparelho?

— Até quinze milhas num dia bom. Por medida de segurança, eu diria que apenas metade dessa distância, mas nessa distância é tão boa como uma chamada telefônica.

Radl permaneceu ali durante longo tempo, pensando em tudo aquilo. Depois, baixou abruptamente a cabeça.

— Obrigado, Koenig — disse, e saiu.

Encontrou Devlin no camarote de Koenig, deitado de costas, olhos fechados, e com as mãos fechadas em torno da garrafa de Bushmiüs. Radl franziu o cenho, sentindo aborrecimento e mesmo certo medo, mas notou depois que o selo da garrafa estava intacto.

— Está tudo bem, querido coronel — disse Devlin, sem aparentemente abrir os olhos. — O Demônio não me agarrou ainda pelo dedão do pé.

— Trouxe minha pasta com você?

Devlin contorceu-se para tirá-la de debaixo do corpo.

— Estava guardando-a com minha vida.

— Ótimo. — Radl dirigiu-se para a porta. — Há um aparelho de rádio na casa do leme que eu gostaria que você examinasse antes de desembarcarmos.

— Rádio? — grunhiu Devlin.

— Isso não importa — retrucou Radl. — Explico depois.

Ao voltar à ponte, encontrou Koenig sentado numa cadeira giratória à mesa das cartas náuticas, tomando café numa caneca de lata. Müller continuava a guarnecer o timão.

Koenig levantou-se, obviamente surpreso de vê-lo.

— Qual é o nome do oficial que comanda as forças navais em Jersey? — perguntou Radl.

— Kapitän zur See Hans Olbricht.

— Compreendo. . . Pode levar-nos a St. Helier uma meia hora antes do seu tempo estimado de chegada?

Koenig lançou um olhar de dúvida a Müller.

— Não tenho certeza, Herr Oberst. Mas podemos tentar. É essencial?

— Absolutamente. Preciso de tempo para visitar Olbricht e solicitar sua transferência.

Koenig fitou-o, tomado de espanto.

— Transferência, Herr Oberst? Para qual comando?

— Meu comando. — Radl tirou o envelope pardo do bolso e mostrou a carta do Führer.

— Leia isso. — Virou-se impaciente e acendeu um cigarro. — Ao voltar-se outra vez, Koenig tinha os olhos esbugalhados.

— Meu Deus! — sussurrou ele.

— Dificilmente posso pensar que Ele entre neste assunto. — Radl tomou-lhe a carta e recolocou-a no envelope. Inclinou a cabeça na direção de Müller.

— Podemos ter confiança neste touro?

— Até a morte, Herr Oberst.

— Ótimo — comentou Radl. — Durante um dia ou dois o senhor ficará em Jersey até que as ordens sejam preparadas. Em seguida, quero que vá pela costa até Bolonha, onde aguardará minhas instruções. Algum problema para chegar lá?

— Nenhum que eu saiba. — Koenig sacudiu a cabeça. — É uma viagem muito fácil para um barco como este, se ficarmos perto da costa. — Hesitou. — E depois, Herr Oberst?

— Oh, para algum lugar na costa norte holandesa, perto de Den Helder. Não encontrei ainda um local conveniente. Conhece-a?

Müller pigarreou nesse instante:

— Peço-lhe perdão, Herr Oberst, mas, conheço aquela costa como a palma de minha mão. Fui imediato de um rebocador de salvamento holandês matriculado em Rotterdam.

— Excelente. Excelente.

Deixou-os, dirigiu-se para a proa e fumou um cigarro ao lado do canhão de seis libras.

— O plano caminha — disse baixinho. — O plano caminha. — E sentiu um vazio de ansiedade no estômago.

 

Pouco antes do meio-dia do dia 6 de outubro, Joanna Grey recebeu um grande envelope, escondido dentro de um exemplar do Times, deixado em certo banco em Green Park pelo seu habitual contato na Embaixada espanhola.

De posse do embrulho, voltou direto para a Estação de Kings Cross e tomou o primeiro expresso para o norte, fazendo baldeação em Peterborough para um trem local com destino a King’s Lynn, onde deixara o carro, aproveitando a economia da cota de gasolina que recebera por seus deveres no Serviço Voluntário Feminino.

Ao entrar pelos fundos do quintal de Park Cottage, o relógio marcava seis horas e ela estava extenuada. Entrou pela cozinha, onde foi recebida com entusiasmo por Patch. O cão seguiu-a de perto quando ela se dirigiu para a sala de estar e serviu-se de uma grande dose de uísque, do qual, graças a Sir Henry Willoughby, possuía suprimento abundante. Subiu em seguida para o pequeno estúdio contíguo a seu quarto.

O painel era da época de Jaime I e a porta invisível no canto não fora feita depois, mas fazia parte do original, coisa comum na época, destinada a parecer uma seção da parede. Tirou uma chave de uma corrente no pescoço e abriu a porta. Uma pequena escada de madeira dava acesso a um cubículo sob o telhado. Aí, conservava o transmissor-receptor. Sentou-se à velha mesa, abriu uma gaveta, empurrou uma Luger carregada para um lado, procurou um lápis, apanhou os livros de código e começou a trabalhar.

Ao recostar-se na cadeira, uma hora depois, tinha a face contraída de excitação.

— Meu Deus! — disse para si mesma em africâner. Eles estão falando sério. . . estão falando realmente sério.

Respirou profundamente, controlou-se e desceu. Patch, em paciente espera à porta, seguiu-a de perto até a sala de estar, onde ela apanhou o telefone e discou o número de Studley Grange. A chamada foi atendida pelo próprio Sir Henry Willoughby.

— Henry. . . — disse. — Aqui é Joanna Grey.

A voz dele aqueceu-se no mesmo instante.

— Alô, minha, querida. Espero que não esteja telefonando para dizer que não virá jogar bridge, ou coisa parecida. Você não esqueceu, não é? Oito e meia?

Ela esquecera, mas isso não importava. Respondeu:

— Naturalmente que não, Henry. Acontece apenas que quero lhe pedir um pequeno favor e desejava falar-lhe sobre ele em particular.

A voz dele aprofundou-se:

— Diga logo, minha velha. Tudo o que eu puder fazer.

—Bem, recebi notícias de alguns amigos irlandeses do meu falecido marido, que me pediram para arranjar alguma coisa para um sobrinho. Para dizer a verdade, já o mandaram para aqui. Ele deve chegar dentro de alguns dias.

— O que é que ele faz, exatamente?

— O nome dele é Devlin. . . Liam Devlin, e o caso é, Henry, que o pobre homem foi gravemente ferido quando servia no Exército britânico na França. Recebeu baixa por motivo de saúde e está convalescendo há quase um ano. Mas está muito bem agora e pronto para trabalhar, mas precisa ser ao ar livre.

— E você achou que eu talvez pudesse ajudá-lo? —perguntou, jovial, Sir Henry. — Não há problema algum, minha velha. Você sabe como é difícil conseguir qualquer tipo de empregado para a propriedade nestes dias.

— Ele não poderia fazer muita coisa logo no princípio — explicou ela. — Para falar a verdade, eu estava pensando no lugar de guarda do pântano em Hobs End. Está vago desde que o jovem Tom King foi para o Exército há dois anos, e a casa está vazia. Seria bom ter alguém lá. Ela está se arruinando depressa.

— Eu lhe digo o que vou fazer, Joanna. Acho que é uma boa idéia. Vamos examinar toda esta questão em profundidade. Não adianta discutir o assunto durante o jogo de bridge, com outras pessoas presentes. Você estará livre amanhã à tarde?

— Naturalmente — respondeu ela. — É tão gentil de sua parte ajudar-me desta maneira, Henry. Parece que eu vivo incomodando-o nestes últimos tempos com meus problemas.

— Tolice — replicou ele, severo. — É para isso que estou aqui. Uma mulher precisa de um homem para amaciar as coisas para ela. — A voz dele tremia.

— É melhor eu desligar agora — disse ela. — Vê-lo-ei logo.

Colocou o telefone no gancho e acariciou Patch na cabeça. O cão seguiu-a quando ela voltou a subir as escadas. Sentou-se ao transmissor e emitiu o mais breve dos sinais, na freqüência do radiofarol holandês, para retransmissão a Berlim. Avisava que as instruções haviam sido recebidas em segurança e enviava uma palavra-código dizendo que a questão do emprego de Devlin fora arranjada.

Chovia em Berlim. Uma chuva escura e fria lavava a cidade, impulsionada por um vento tão violento que devia ter vindo dos Urais. Na ante-sala do gabinete de Himmler, na Prinz Albrechtstrasse, Max Radl e Devlin esperavam, havia mais de uma hora, um diante do outro.

— O que está acontecendo? — perguntou Devlin. —Ele quer falar conosco, ou não?

— Por que você não bate à porta e pergunta? — sugeriu Radl.

Nesse momento, abriu-se a porta externa e Rossman entrou, batendo a chuva do chapéu mole enquanto a água lhe escorria do casaco. Sorriu, alegre:

— Ainda aqui, vocês dois?

— Ele tem um grande senso de humor, esse aí, não?

Rossman bateu à porta e entrou. Não se importou em fechá-la:

— Consegui encontrá-lo, Herr Reichsführer.

— Ótimo — ouviram Himmler dizer. — Receberei agora Radl e esse moço irlandês.

— Que diabo é isso? — murmurou Devlin. — Uma representação real?

— Cuidado com a língua — avisou-o Radl. — deixe que eu fale.

Entrou à frente, com Devlin nos calcanhares. Rossman fechou a porta às suas costas. Tudo parecia exatamente como na primeira noite, a sala em semi-escuridão, a lareira crepitando, Himmler sentado atrás da escrivaninha.

— Você trabalhou bem, Radl — disse o Reichsführer — Estou mais do que satisfeito com a maneira como as coisas estão se desenvolvendo. E esse cavalheiro é Herr Devlin?

— Como sempre fui — respondeu, alegre, Devlin. —Apenas um pobre e velho camponês irlandês, saído diretamente das turfeiras, é isso o que sou, excelência.

Espantado, Himmler franziu o cenho:

— Do que, afinal, esse homem está falando? — perguntou a Radl.

— Os irlandeses, Herr Reichsführer, não se assemelham a povo algum — disse debilmente Radl.

— É a chuva — disse Devlin.

Himmler fitou-o atônito e voltou-se para Radl:

— Tem certeza de que ele é o homem indicado para isto?

— É perfeito para a missão.

— Quando ele parte?

— No domingo.

— E suas outras providências? Estão prosseguindo satisfatoriamente?

— Até agora, sim. Combinei minha viagem a Alderney com negócios do Abwehr em Paris e tenho razões inteiramente válidas para visitar Amsterdam na próxima semana. O almirante de nada sabe. Tem andado preocupado com outros assuntos.

— Ótimo. — Himmler olhou para o espaço vazio, obviamente pensando em alguma coisa.

— Mais alguma coisa, Herr Reichsführer? — perguntou Radl, enquanto Devlin se mexia inquieto.

— Sim, trouxe-os aqui hoje à noite por dois motivos. Em primeiro lugar, queria conhecer Herr Devlin. Em segundo, há a questão da composição do grupo de assalto de Steiner.

— Talvez seja melhor eu sair — sugeriu Devlin.

— Tolice —- disse, brusco, Himmler. — Eu ficaria grato se o senhor ficasse simplesmente sentado num canto e escutasse. Ou são os irlandeses incapazes de tal façanha?

— Bem, isto também acontece — confessou Devlin —, mas não é freqüente.

Afastou-se, sentou-se junto ao fogo, tirou um cigarro e acendeu-o. Himmler olhou-o furioso, pareceu que ia dizer alguma coisa, mas mudou de idéia. Voltou-se para Radl.

— O senhor dizia, Herr Reichsführer. . .?

— Sim, acho que há uma fraqueza na composição do grupo de Steiner. Quatro ou cinco de seus homens falam um pouco de inglês, mas apenas Steiner pode passar como nativo. Isso não é suficiente. Na minha opinião, ele precisa do apoio de alguém com habilidade semelhante.

— Mas gente com esse tipo de capacidade é muito rara.

— Acho que tenho uma solução para o senhor — disse Himmler. — Há um homem chamado Amery. . . John Amery. Filho de um famoso político inglês. Contrabandeou areias para Franco. Odeia os bolchevistas. Está trabalhando para nós há algum tempo.

— Ele será de alguma utilidade?

— Duvido, mas ele teve a idéia de fundar o que chamou de Legião Britânica de São Jorge, A idéia era recrutar ingleses nos campos de prisioneiros de guerra. Principalmente para lutar na frente oriental.

— Ele conseguiu algum voluntário?

— Alguns. . . não muitos, e a maioria constituída de patifes. Amery nada tem a ver com isso agora. Durante algum tempo a Wehrmacht foi responsável pela unidade, mas as ss assumiram-lhe agora a direção,

— Esses voluntários. . . são muitos?

— Cinqüenta ou sessenta, pela última vez em que ouvi falar no caso. Agora, adoram chamar-se de Corpo Livre Britânico. — Himmler abriu uma pasta e tirou uma ficha. — Ocasionalmente, essa gente tem utilidade. Este homem, por exemplo, Harvey Preston. Ao ser capturado na Bélgica, usava o uniforme de capitão dos Coldstream Guards. Tendo, ao que fui informado, a voz e os maneirismos de um aristocrata inglês, ninguém suspeitou dele durante algum tempo.

— E não era o que parecia?

— Julgue por si mesmo.

Radl examinou a ficha. Harvey Preston nascera em Harogate, Yorkshire, em 1916, filho de um carregador de estrada de ferro. Fugira de casa aos catorze anos para trabalhar como ajudante num teatro de variedades. Aos dezoito representava em um teatro de variedades em Southport. Em 1937, fora condenado a dois anos de prisão em Winchester sob acusação de fraude.

Solto em janeiro de 1939, fora preso um mês depois e condenado a mais nove meses sob acusação de se fazer passar por oficial da raf e obter dinheiro sob falsas alegações. O juiz suspendera a sentença sob a condição de que ele entrasse nas Forças Armadas. Fora para a França como amanuense de uma companhia de transporte das rasc e, quando capturado, tinha o posto de cabo.

Sua ficha no campo de prisioneiros era boa ou má, dependendo de que lado estivesse o observador, pois denunciara nada menos do que cinco tentativas de fuga. Na última ocasião, o fato fora descoberto pelos camaradas e, se não houvesse se alistado como voluntário no Corpo Livre, teria que ser transferido de qualquer maneira por questão de segurança pessoal.

Radl dirigiu-se até Devlin e entregou-lhe o cartão. Voltou em seguida para junto de Himmler:

— E o senhor quer que Steiner aceite esse. . . esse. . .

— Patife? — perguntou Himmler. — Ele é inteiramente descartável, mas quem poderia passar tão bem por um aristocrata inglês? Ele realmente tem presença, Radl. É o tipo de homem para quem o guarda faria continência no momento em que ele abrisse a boca. Sempre soube que as classes trabalhadoras inglesas reconhecem um oficial e um cavalheiro quando o vêem e Preston deve sair-se muito bem.

— Mas Steiner e seus homens, Herr Reichsführer, são soldados. . . verdadeiros soldados. O senhor conhece as fichas deles. Pode imaginar esse homem enquadrando-se com eles? Recebendo ordens?

— Ele fará o que for ordenado — assegurou-lhe Himmler. — Quanto a isso, não há dúvida. Vamos pedir-lhe que entre, sim?

Apertou um botão e, um momento depois, Rossman assomou à porta.

— Receberei Preston agora.

Rossman saiu, deixando a porta aberta. Instantes depois, Preston entrou na sala, fechou a porta e fez a saudação do Partido Nazista.

Tinha nessa ocasião vinte e sete anos de idade e era um indivíduo alto e bonitão. Usava um uniforme de campanha belamente talhado. Foi o uniforme que, em especial, fascinou Radl. Tinha o distintivo da caveira no quepe pontudo e, na gola, os três leopardos. Sob a águia na manga esquerda havia um escudo com a bandeira britânica e uma inscrição preta e prateada em gótico. Britisches Freikorps.

— Muito lindo — disse Devlin, mas tão baixo que somente Radl o ouviu.

Himmler fez as apresentações:

— Untersturmführer Preston. . . o Coronel Radl, do Abwehr, e Herr Devlin. O senhor deve conhecer o papel de cada um desses cavalheiros na missão pelo documento que lhe dei para estudar hoje cedo.

Preston virou-se parcialmente para Radl, inclinou a cabeça e bateu os calcanhares. Tudo muito formal, muito militar, e muito parecido ao desempenho de um oficial prussiano numa peça teatral.

— Bem — disse Himmler —, o senhor teve ampla oportunidade de estudar o assunto. Compreende o que queremos do senhor?

Medindo as palavras, Preston perguntou:

— Devo entender que o Coronel Radl está procurando voluntários para essa missão? — O alemão era bom, embora o sotaque pudesse ser melhorado.

Himmler tirou o pince-nez, acariciou a ponta do nariz suavemente com o dedo indicador e recolocou-o no lugar com grande cuidado. De alguma forma, foi um gesto absolutamente sinistro. Sua voz, quando ele falou, lembrava folhas secas acariciadas pelo vento:

— O que é, exatamente, que o senhor está querendo dizer, Untersturmführer?

— Apenas que me encontro numa grande dificuldade. Como sabe o Reichsführer, os membros do Corpo Livre Britânico receberam garantias de que em nenhuma ocasião teriam que fazer guerra ou tomar parte em qualquer ação armada contra a Grã-Bretanha ou a coroa, ou dar seu apoio a qualquer ação prejudicial aos interesses do povo britânico.

— Talvez esse cavalheiro ficasse mais feliz se fosse servir na frente oriental, Herr Reichsführer — disse Radl. No Grupo de Exército do Sul, sob o comando do Marechal von Manstein. Há por lá um bocado de lugares quentes para os que querem verdadeira ação.

Preston, compreendendo que cometera um sério erro, procurou, às pressas, fazer uma correção:

— Posso assegurar-lhe, Herr Reichsführer, que. . .

Himmler lançou-lhe um rápido olhar:

— O senhor fala em apresentar-se como voluntário, quando eu vejo apenas um ato de dever sagrado, uma oportunidade de servir ao Führer e ao Reich.

Preston tomou posição de sentido. Era uma representação excelente e Devlin pelo menos divertia-se a valer.

— Naturalmente, Herr Reichsführer. Esse é o meu objetivo total.

— Estou certo, não, em supor que o senhor fez um juramento nesse sentido? Um juramento sagrado?.

— Sim, Herr Reichsführer.

— Neste caso, não é preciso dizer mais nada. A partir deste momento, considere-se sob as ordens do Coronel Radl, aqui presente.

— Como o senhor quiser, Herr Reichsführer.

— Coronel Radl, eu gostaria de uma palavra com o senhor, em particular. — Himmler lançou um olhar a Devlin. — Herr Devlin, poderia fazer a gentileza de esperar na ante-sala com o Untersturmführer Preston?

Preston fez-lhe uma elegante saudação hitlerista, girou sobre os calcanhares com uma precisão que teria causado inveja a um granadeiro da guarda e saiu. Devlin seguiu-o, fechando a porta.

Não havia sinal de Rossman. Preston deu um violento pontapé ao lado de uma cadeira e lançou o quepe sobre a mesa. Estava branco de raiva e, quando tirou a cigarreira de prata do bolso e pegou um cigarro, suas mãos tremeram um pouco.

Devlin aproximou-se e serviu-se de um cigarro antes que Preston pudesse fechar a cigarreira. Sorriu, alegre:

— Meus Deus, a velha barata lhe encheu os colhões.

Falara em inglês e Preston, olhando-o furioso, respondeu na mesma língua:

— Que diabo quer o senhor dizer?

— Ora, vamos, filho — disse Devlin. — Ouvi Himmler contar sua pequena história. Legião de São Jorge, Corpo Livre Britânico. Como foi que eles o compraram? Bebida sem limites e tantas mulheres quantas você pudesse dar conta, se não fosse muito exigente? Agora, tudo isso tem que ser pago.

Do alto de seu metro e noventa de altura, Preston olhou para baixo com certo desprezo para o irlandês. Sua narina esquerda enrugou-se.

— Meus Deus, que gente temos que aturar. . . e saído diretamente das turfeiras, pelo cheiro. Agora, caía fora e vá bancar o irlandesinho brigão em outra freguesia, como um bom rapaz, ou terei que castigá-lo.

Devlin, exatamente no momento em que levava o fósforo ao cigarro, chutou Preston com grande precisão exatamente embaixo da rótula direita.

No gabinete, Radl chegava ao fim do relatório sobre o progresso da missão.

— Excelente — disse Himmler. — O irlandês parte domingo?

— A bordo de um Dornier, de uma base da Luftwaffe nas proximidades de Brest. . . Laville. Um curso norte-oeste, a partir de lá, vai levá-lo à Irlanda sem necessidade de passar por cima de solo britânico. A oito mil metros, ele não deverá ter problemas a maior parte do tempo.

— E a Força Aérea Irlandesa?

— Que Força Aérea, Herr Reichsführer?

— Nada. — Himmler fechou a pasta. — Assim, as coisas parecem estar finalmente se movendo. Estou muito satisfeito com você, Radl. Continue a manter-me informado.

Apanhou a caneta em um gesto de despedida e Radl disse:

— Mas há outro assunto.

— O quê? — perguntou Himmler, erguendo o olhar.

— O Major-General Steiner.

Himmler pôs a caneta de lado.

— O que tem ele?

Radl não sábia como abordar a questão, mas, de alguma maneira, tinha que apresentar seu argumento. Devia isso a Steiner. Na verdade, considerando as circunstâncias, a intensidade com que queria cumprir a promessa surpreendeu-o:

— Foi o próprio Reichsführer quem sugeriu que deixasse claro ao Coronel Steiner que sua conduta no caso teria grande influência sobre o caso de seu pai.

— Exatamente — disse, calmo, Himmler. — Mas qual é o problema?

— Prometi ao Coronel Steiner, Herr Reichsführer. — disse sem jeito Radl —, dei-lhe a garantia de que. . . de que. . .

— O senhor não tinha autoridade para dar qualquer garantia — replicou Himmler. — Contudo, nas circunstâncias atuais, pode dá-la a Steiner, em meu nome. — Apanhou outra vez a caneta. — Pode sair agora e dizer a Preston que fique? Quero conversar um pouco mais com ele. Mandarei que ele se apresente amanhã ao senhor.

Ao penetrar no vestíbulo, Radl encontrou Devlin à janela, olhando por uma fresta entre as cortinas, e Preston sentado em uma das poltronas.

— Está chovendo torrencialmente lá fora — disse Devlin, alegre. — Mas, para variar, isso pode conservar a raf em casa. Vamos?

Radl inclinou a cabeça e disse a Preston:

— Você fica. Ele quer falar com você. E não venha ao quartel-general do Abwehr amanhã. Entrarei em contato com você.

Preston ergueu-se, mais uma vez em uma atitude tipicamente militar, de braço estendido:

— Muito bem, Herr Oberst; Heil Hitler!

Radl e Devlin dirigiram-se para a porta e, quando saíam, o irlandês ergueu um polegar e disse amigavelmente:

— Viva a República, filho!

Preston baixou o braço e soltou um palavrão. Devlin fechou a porta e desceu a escada atrás de Radl.

— Onde diabo o encontraram? Himmler deve ter perdido inteiramente o juízo.

— Só Deus sabe — disse Radl, parando com Devlin junto aos guardas das ss de serviço, na entrada principal, para erguerem a gola de seus capotes. — Há algum mérito na idéia de outro oficial obviamente inglês, mas esse Preston! — Sacudiu a cabeça. — Um homem cheio de graves defeitos. Ator de segunda classe, criminoso vulgar, um homem que passou a maior parte de sua vida vivendo uma espécie de fantasia particular.

— E estamos entalados com ele — disse Devlin. — Gostaria de saber o que Steiner vai achar disso.

Correram pela chuva até o carro de Radl e acomodaram-se no banco traseiro.

— Steiner dará um jeito — disse Radl. — Homens como Steiner sempre dão. Mas, agora, aos negócios. Voaremos para Paris amanhã à tarde.

— E depois?

— Tenho assuntos importantes para tratar na Holanda. Como lhe disse, toda a operação será baseada em Landsvoort; que é o tipo certo de lugar, fora deste mundo. Durante o período operacional, eu estarei lá, e assim, meu amigo, se você fizer uma transmissão, saberá quem está do outro lado. Como eu estava dizendo, deixa-lo-ei em Paris quando voar para Amsterdam. Você, por seu lado, será levado para o aeroporto de Laville, nas proximidades de Brest. O avião decola às dez horas da noite de domingo.

— O senhor estará lá? — perguntou Devlin.

— Tentarei, mas talvez não seja possível.

Chegaram à Tirpitz Ufer logo depois e correram pela chuva até a entrada, no exato momento em que Hofer, de quepe e capote, saía do prédio. Ele prestou continência, e Radl perguntou:

— Entrando de folga, Karl? Alguma coisa para mim?

— Sim, Herr Oberst, uma mensagem da Sra. Grey.

Radl ficou agitado.

— O que foi, homem, o que ela diz?

— Mensagem recebida e compreendida, Herr Oberst, e a questão do emprego para Herr Devlin já foi resolvida.

Radl virou-se triunfante para Devlin, enquanto a chuva escorria pela pala de seu quepe.

— O que tem a dizer a esse respeito, meu amigo?

— Viva a República! — disse, sombrio, Devlin. —Viva, mesmo! Isso é suficientemente patriótico para o senhor? Se for, posso entrar agora e tomar um drinque?

Ao ser aberta a porta, Preston, sentado a um canto, lia a edição em inglês do Signal. Ao ver Himmler, levantou-se de um salto.

— Perdão, Herr Rekhsführer.

— Por quê? — perguntou Himmler. — Venha comigo. Quero mostrar-lhe uma coisa.

Confuso e também um pouco assustado, Preston acompanhou-o escada abaixo, até o térreo. Percorrendo o corredor chegaram à porta de ferro guardada por dois homens da Gestapo. Um deles abriu a porta, e os dois tomaram posição de sentido. Himmler inclinou à cabeça e começou a descer a escada.

O corredor pintado de branco parecia muito sossegado. Preston, porém, ouviu um som surdo e rítmico de batidas, estranhamente remotas, como se viessem de grande distância. Himmler parou do lado de fora da porta de uma cela e abriu um portão de metal, com uma janela de vidro blindado.

Um homem de cabelos brancos, de uns sessenta anos, usando uma camisa esfarrapada e culotes militares, encontrava-se estendido num banco, enquanto dois ss entroncados espancavam-no sistematicamente nas costas e nas nádegas com cassetetes de borracha. Rossman permanecia de lado, observando, fumando um cigarro, com as mangas da camisa arregaçadas.

— Detesto esse tipo de violência insana — disse Himmler. — O mesmo não lhe acontece, Herr Untersturmführer?

A boca de Preston secara e seu estômago se revolvia.

— Sim, Herr Reichsführer. Ê terrível.

— Se ao menos esses idiotas quisessem ouvir a voz da razão. . . É um negocio sujo, mas de que outra maneira podemos combater a traição contra o Estado? O Reich e o Führer exigem absoluta e cega lealdade e os que dão menos do que isso têm que arrostar com as conseqüências, compreendeu o que eu disse?

Preston compreendera. . . perfeitamente. Quando o Reichsführer se virou e voltou a subir a escada, cambaleou atrás dele, com um lenço na boca, fazendo força para não vomitar.

Na escuridão da cela embaixo, o major-general de artilharia Karl Steiner rastejou para um canto e agachou-se ali com os braços cruzados no peito, como para evitar cair em pedaços.

— Não disse uma única palavra — falou, baixinho, através dos lábios inchados. — Não disse nem uma única palavra. . . juro.

Precisamente às duas e vinte da manhã de sábado, 9 de outubro, o Capitão Peter Gericke, do Sétimo Grupo de Caça Noturna, operando com base em Grandjeim, na costa holandesa, teve a confirmação de sua trigésima vitória. Pilotava um Junkers 88 em meio a uma espessa nuvem, um daqueles aparentemente desajeitados bimotores pretos, equipados com estranhas antenas de radar e que se haviam revelado tão devastadores em seus ataques contra as esquadrilhas de bombardeio da raf, lançadas em. ataques noturnos sobre a Europa.

Não que Gericke tivesse tido sorte mais cedo naquela noite. Um entupimento do injetor de combustível retivera-o em terra durante trinta minutos, enquanto o resto da esquadrilha decolava para atacar uma grande força de bombardeiros britânicos que voltava pela costa holandesa de um ataque a Hanover.

Ao chegar à área, a maioria dos seus colegas havia regressado. Ainda assim, havia sempre aviões que se extraviavam, e resolveu permanecer em patrulha por um pouco mais.

Gericke contava vinte e três anos de idade. Era um jovem bonitão e sombrio, cujos olhos pareciam transbordar de impaciência, como se a vida fosse lenta demais para ele. Naquele momento, assobiava baixinho o primeiro movimento da Sinfonia pastoral.

Às suas costas, Haupt, o operador de radar, curvado sobre o aparelho Lichtenstein, soltou uma excitada exclamação.

— Peguei um.

No mesmo momento, a base assumiu suavemente a direção da operação e a voz do Major Hans Berger, controlador de terra do GCN-7, crepitou nos fones de Gericke:

— Viandante Quatro, aqui é o Cavaleiro Negro. Tenho um Kurier para você. Está me ouvindo?

— Alto e claro — confirmou Gericke.

— Rumo zero-oito-sete graus. Distância do alvo: dez quilômetros.

O Junkers saiu da camada de nuvens segundos depois e Bohmler, a observador, tocou o braço de Gericke. Imediatamente, Gericke viu a presa, um bombardeiro Lancaster que se arrastava de volta para casa à clara luz do luar, com uma esteira de fumaça desprendendo-se do motor externo direito.

— Cavaleiro Negro, aqui é o Viandante Quatro — disse Gericke. — Fiz contato visual e não preciso mais de ajuda.

Voltou às nuvens, desceu cento e cinqüenta metros e guinou em ângulo apertado para a direita, emergindo a uns trezentos metros à retaguarda e abaixo do Lancaster ferido. Era um patinho, voando acima deles como um fantasma cinzento, a desprender uma leve esteira de fumaça.

No segundo semestre de 1943, numerosos caças noturnos alemães começaram a operar com uma arma secreta, conhecida como Schraege Musik, que era um par de canhões de vinte milímetros, montado na fuselagem e disposto para atirar verticalmente em ângulo entre dez e vinte graus. A arma permitia que os caças noturnos atacassem por baixo, posição na qual o bombardeiro constituía um alvo enorme e virtualmente cego. Como não eram usadas balas traçadoras, dezenas de bombardeiros haviam sido abatidos sem que suas tripulações soubessem o que as havia atingido.

O mesmo .aconteceu nessa ocasião. Durante uma fração de segundo, Gericke mirou o alvo. Quando virou para a direita, o Lancaster guinou fortemente e mergulhou na direção do mar, a mil metros abaixo. Surgiu nos céus um pára-quedas e, depois, outro. Um momento depois, o avião explodiu em uma viva bola de fogo alaranjado. A fuselagem caiu em direção do mar e um dos pára-quedas pegou fogo e brilhou por um momento.

— Meu Deus! — disse, horrorizado, Bohmler.

— Que Deus? — perguntou selvagemente Gericke —Envie à base uma mensagem sobre a localização daquele veado, para que alguém possa pegá-lo, e vamos voltar;

Quando se apresentou com seus dois tripulantes à sala de informações, em Operações, encontrou-a deserta, salvo pela presença do Major Adler, o chefe de informações, um jovial indivíduo de cinqüenta anos que tinha a face ligeiramente imobilizada pelas muitas queimaduras. Ele voara, na verdade, na Primeira Guerra Mundial, na esquadrilha de Von Richtofen, e usava a Blue Max em volta do pescoço.

— Ah, é você, Peter — disse. — Antes tarde do que nunca. Sua vitória foi confirmada pelo rádio por um barco-patrulha que se encontrava na área.

— E o homem que conseguiu saltar? — perguntou Gericke. — Encontraram-no?

— Ainda não, mas continuam procurando. Há também na área uma lancha de salvamento.

Empurrou pela mesa uma caixa de madeira de sândalo. Continha longos e finos charutos holandeses. Gericke serviu-se de um.

— Você parece preocupado, Peter — disse Adler. — Nunca pensei que fosse um humanista.

— Não sou — disse, rude, Gericke ao acender o charuto. — Mas amanhã à noite isso pode acontecer comigo. Eu gostaria de pensar que aqueles safados do salvamento andam alerta.

No momento em que se voltava para sair, Adler avisou-o:

— Prager quer falar com você.

O Tenente-Coronel Otto Prager era o Gruppenkommandeur de Grandjeim, responsável por três esquadrilhas, incluindo a de Gericke. Era um rigoroso disciplinador e ardente nacional-socialista, qualidades essas que Gericke não achava especialmente interessantes. Compensava essas pequenas irritações por ser também um piloto de escol, totalmente dedicado ao bem-estar das suas tripulações.

— O que ele quer?

Adler encolheu os ombros.

— Não sei, mas quando telefonou disse que você devia procurá-lo logo que chegasse.

— Eu sei — disse Bohmler—Era Goering ao telefone, convidando-o para passar o fim de semana em Karinhall e condecorá-lo.

Era fato bem conhecido que, quando um piloto da Luftwaffe recebia a Cruz de Cavaleiro, o Reichsmarschall, como velho aviador, gostava de entregá-la pessoalmente.

— Estou esperando por esse dia — disse, mal-humorado, Gericke. O fato era que homens com menos méritos do que ele haviam recebido a cobiçada honraria. Aquilo doía, mesmo.

— Não tem importância, Peter — disse Adler, quando o rapaz saía. — Seu dia chegará.

— Se eu viver até lá — disse Gericke a Bohmler ao pararem por um momento nos degraus da entrada principal do prédio de Operações. — Quer um drinque?

— Não, obrigado — respondeu Bohmler.— Só preciso de um banho quente e de oito horas de sono. Não gosto de beber cedo assim pela manhã, como você sabe, mesmo que estejamos vivendo às avessas.

Haupt já bocejava e Gericke disse, sombrio:

— Maldito luterano. Muito bem, seus dois veados.

Quando ele se afastava,.Bohmler gritou:

— Não se esqueça de que Prager quer vê-lo.

— Mais tarde — disse Gericke. — Irei vê-lo mais tarde.

— Ele está mesmo é procurando encrenca — observou Haupt, enquanto o observavam afastar-se. — O que foi que deu nele ultimamente?

— Como nós, ele pousa e decola demais — retrucou Bohmler.

Cansado, Gericke dirigiu-se para a cantina dos oficiais arrastando as botas de vôo pelo concreto. Sentia-se deprimido sem saber por quê; gasto, como se estivesse no fim. Era estranho que não conseguisse esquecer aquele Tommi, o sobrevivente do Lancaster. Precisava de um drinque; uma xícara de café bem quente, e um grande Schnapps ou, quem sabe, um Steinhäger.

Entrou no vestíbulo e a primeira pessoa que viu foi o Coronel Prager, sentado em uma poltrona num canto distante, em companhia de outro oficial. Conversavam em voz baixa. Gericke hesitou, perguntou-se se não devia dar meia-volta, pois o Gruppenkommandeur era muito rigoroso na questão de uso de roupa de vôo na cantina. Prager ergueu os olhos e viu-o.

— Ah, é você, Peter. Venha fazer-nos companhia..

Estalou os dedos para o garçom que andava por perto e pediu café enquanto Gericke se aproximava. Ele não aprovava o álcool em relação a pilotos.

— Bom dia, Herr Oberst — disse alegre Gericke, intrigado pelo segundo oficial, um tenente-coronel das Tropas Alpinas, com um tampão preto sobre um olho e a Cruz de Cavaleiro em volta do pescoço.

— Parabéns — disse Prager. — Ouvi dizer que você teve outra vitória confirmada.

— De fato, um Lancaster. Um deles conseguiu salvar-se. Vi o pára-quedas abrir-se. Estão procurando-o agora.

— O Coronel Radl — disse Prager.

Radl estendeu a mão perfeita.e Gericke apertou-a por um momento.

— Herr Oberst.

Prager parecia mais contido do que nunca. De fato, estava obviamente sob alguma espécie de tensão e procurava acomodar-se na poltrona, em agudo desconforto físico, quando o garçom trouxe outro bule de café e três xícaras.

— Deixe-o aí, homem, deixe-o aí! — ordenou, seco.

Caiu um silêncio pesado após a partida do garçom. Em seguida, o Gruppenkommandeur disse abruptamente:

— Herr Oberst aqui presente é do Abwehr. Tem novas ordens para você.

— Novas ordens, Herr Oberst?

Prager levantou-se.

— O Coronel Radl pode dar-lhe mais informações que eu, porém, obviamente, você está recebendo uma extraordinária oportunidade de servir ao Reich. — Gericke ergueu-se, Prager hesitou e estendeu-lhe a mão: — Você se conduzia bem aqui, Peter. Estou orgulhoso de você. Quanto ao outro assunto. . . recomendei-o três vezes e agora ele está fora de minhas mãos.

— Eu sei, Herr Oberst — disse calorosamente Gericke —, e estou grato.

Prager afastou-se, enquanto Gericke se sentava. Radl tomou a palavra:                                                           .

— Esse Lancaster totaliza trinta e oito vitórias confirmadas, não?

— Parece muito bem informado, Herr Oberst — disse Gericke. — Acompanha-me em um drinque?

— Por que não? Um conhaque, acho.

Gericke chamou o garçom e fez o pedido.

— Trinta e oito vitórias confirmadas e nada da Cruz de Cavaleiro — comentou Radl. — Não é estranho?

Gericke mexeu-se, contrafeito.

— Às vezes, isso acontece.

— Eu sei — concordou Radl. — Mas é preciso também levar em consideração o fato de que, no verão de 1940, quando o senhor pilotava um ME-109, destacado numa base nas proximidades de Calais, disse ao Reichsmarschall Goreing que estava inspecionando o seu grupo, que, em sua opinião, o Spitfire era um avião melhor. — Sorriu bondosamente. — Gente dessa importância não esquece oficiais subalternos que fazem observações como essa.

— Com o devido respeito — disse Gericke —, quero observar a Herr Oberst que em meu tipo de trabalho eu só posso confiar no dia de hoje, porque amanhã posso estar morto; por isso, gostaria que me desse uma idéia sobre o que o senhor deseja.

— É muito simples — respondeu Radl. — Preciso de um piloto para uma operação muito especial.

— O senhor precisa?

— Muito bem, o Reich — retrucou Radl. — Isso lhe parece melhor?

— Não, em especial — disse Gericke esvaziando o cálice de Schnapps e fazendo um sinal ao garçom para enchê-lo de novo. — Acontece que me sinto perfeitamente feliz onde estou.

— Um homem que consome Schnapps em tal quantidade às quatro da manhã? Duvido. De qualquer modo, o senhor não tem escolha no assunto.

— Ah, então é assim? — perguntou, zangado, Gericke.

— O senhor tem perfeita liberdade para confirmar esse fato com o Gruppenkommandeur — aconselhou-o Radl.

O garçom trouxe-lhe um segundo cálice, e Gericke tomou-o de um gole, fazendo uma careta.

— Deus, como odeio isso.

— Então, por que o toma? — perguntou Radl.

— Não sei. Talvez porque tenha passado tempo demais no escuro ou voado demais. — Sorriu irônico. — Ou eu talvez simplesmente precise de uma mudança, Herr Oberst.

— Acho que lhe posso dizer, sem exagero, que certamente estou em condições de oferecer-lhe isso.

— Ótimo. — Gericke tomou de um trago o resto do café. — O que vem agora?

— Tenho um encontro em Amsterdam às nove horas. Depois disso, nosso destino fica a uns trinta quilômetros da cidade, no caminho para Den Helder.— Lançou um olhar ao relógio.— Precisamos sair daqui até sete e meia, no mais tardar.

— Isso me dá tempo para tomar café e um banho — disse Gericke. — Poderei dormir um pouco no carro, se o senhor não se incomodar.

No momento em que se levantava, a porta foi aberta e entrou um ordenança. Bateu continência e entregou ao jovem capitão uma mensagem em papel de seda. Gericke leu-a e sorriu.

— Algo importante? — perguntou Radl.

— É sobre o Tommi que saltou de pára-quedas do Lancaster que abati hoje cedo. Foi recolhido. É um oficial navegador.

— Ele teve sorte — comentou Radl.

— Um bom augúrio — disse Gericke. — Esperemos que o meu também seja bom.

Landsvoort era um pequeno local deserto, a uns trinta quilômetros ao norte de Amsterdam, situado entre Schagen e o mar. Gericke dormiu a sono solto durante toda a viagem, acordando somente quando Radl lhe sacudiu o braço.

Havia ali uma velha casa de fazenda e um estábulo, dois hangares cobertos por telhas enferrujadas, e uma única pista de concreto, caindo aos pedaços, com o mato crescendo entre as rachaduras. O perímetro de arame farpado não tinha nada de especial e o portão de aço e arame, que parecia novo, estava guardado por um sargento que trazia no pescoço a gargantilha da Polícia Militar. Estava armado com uma pistola-metralhadora Schmeisser e segurava por uma corrente um cão alsaciano de aparência selvagem.

Ele examinou impassível os documentos de identificação enquanto o cão rosnava grosso, cheio de ameaça. Radl passou pelo portão e parou em frente a um dos hangares.

— Bem, é aqui.

A paisagem era incrivelmente plana, estendendo-se para as distantes dunas de areia e o mar do Norte mais além. No momento em que Gericke abriu a porta e saltou, a chuva com gosto de sal vindo do mar caiu em um fino borrifo. Dirigiu-se até a borda da pista em ruínas e deu pontapés no chão até que um pedaço de concreto se soltou.

— Ela foi construída por um magnata da navegação de Rotterdam, há dez ou doze anos, para seu uso particular — explicou Radl, saltando do carro e indo fazer-lhe companhia — O que o senhor acha?

— Agora, só precisamos dos irmãos Wright — disse Gericke, olhando para o mar, estremecendo e enfiando as mãos dentro do casaco de couro. — Que chiqueiro. . . O último lugar na lista de Deus, acho.

— Por isso. mesmo, exatamente o que precisamos —observou Radl — Agora, vamos tratar de negócios.

Dirigindo-se ao primeiro hangar, tomou a dianteira, guardado também por um oficial militar e pelo respectivo cão alsaciano. Radl inclinou a cabeça e o homem puxou das portas corrediças.

No frio e úmido interior, a chuva pingava de um buraco no telhado. O bimotor que se encontrava ali parecia solitário, abandonado e, definitivamente, muito longe de casa. Gericke orgulhava-se de, há muito tempo, ter deixado de surpreender-se com alguma coisa, mas não naquela.manhã.

O avião era um Douglas DC-3, o famoso Dakota, com toda probabilidade, um dos melhores aviões de transporte jamais construídos, a besta de carga das forças aliadas, da mesma maneira que o Junkers 52 o era do Exército alemão. O interessante nele era que trazia a insígnia da Luftwaffe nas asas e uma suástica na cauda.

Peter Gericke amava aviões como alguns homens amam cavalos, com uma profunda e inextinguível paixão. Esticou a mão, tocou a asa ternamente e disse em voz doce:

— Olá, beleza.

— Conhece esse avião? — perguntou Radl.

— Melhor do que a qualquer mulher.

— Seis meses na Companhia Aérea Landros, no Brasil, de junho a novembro de 1938. Novecentas e trinta horas de vôo. Um bocado para quem só tinha dezenove anos. Isso deve ter sido trabalho duro.

— Então foi por isso que fui escolhido?

— Tudo isso está em sua ficha.

— Onde foi que conseguiu esse avião?

— Era do Comando de Transporte da raf que lançava suprimentos para a Resistência holandesa há quatro meses. Um de seus amigos da caça noturna abateu-o. Apenas danos superficiais nos motores. Alguma coisa na bomba de combustível. O observador estava ferido demais para saltar e, assim, o piloto conseguiu aterrar em um campo cultivado. Por falta de sorte dele, bem perto de um quartel das ss. Quando conseguiu tirar o amigo, era tarde demais para explodir o avião.

A porta estava aberta e Gericke içou-se para dentro. Na cabina, sentou-se por trás dos controles e, durante um momento, voltou ao Brasil, à selva verde embaixo, e viu o Amazonas contorcendo-se através dela como uma grande serpente prateada a caminho do mar.

Radl tomou o outro assento. Tirou uma cigarreira de prata do bolso e ofereceu a Gericke um dos seus cigarros russos.

— Você, então, poderia pilotar este avião?

— Para onde?

— Não muito longe. Atravessar o mar do Norte até Norfolk. Ir e voltar, sem escala.

— Para fazer o quê?

— Lançar dezesseis pára-quedistas.

Em seu espanto, Gericke tragou demais e quase sufocou quando o forte fumo mordeu-lhe o fundo da garganta. Riu feito um louco.

— A Operação Leão do Mar, finalmente. Mas o senhor não acha que é um pouco tarde para invadir a Inglaterra?

— A seção da costa que temos em vista não possui cobertura de radar de baixo nível — disse, calmo, Radl. — Não haverá dificuldade alguma, se você voar a menos de duzentos metros. Naturalmente, mandarei limpar o avião e recolocar o distintivo da raf nas asas. Se alguém o vir, será um avião da raf, presumivelmente em vôo legal.

— Mas por quê? — perguntou Gericke. — O que, afinal, eles vão fazer logo que chegarem lá?

— Isso não é de sua conta — retrucou firme Radl. — Você será apenas um motorista de ônibus, meu amigo. — Levantou-se e desceu, seguido por Gericke.

— Agora, escute, acho que o senhor poderia dizer algo mais do que isso.

Radl dirigiu-se para o Mercedes sem responder. Olhou para o mar, do outro lado do campo de pouso. — É difícil demais para você?

— Não seja estúpido — respondeu, zangado, Gericke. — Eu simplesmente gostaria de saber no que estou me metendo, só isso.

Radl abriu o capote e desabotoou a túnica. Do bolso tirou o grosso envelope de papel pardo que guardava a preciosa carta e entregou-a a Gericke.

— Leia isso — disse secamente.

Ao erguer os olhos, a face de Gericke tornara-se triste.

— Tão importante assim? Agora entendo por que Prager estava tão nervoso.

— Exatamente.

— Muito bem. Quanto tempo temos?

— Aproximadamente quatro semanas.

— Precisarei de Bohmler, meu observador, para voar comigo. Ele é o melhor navegador que jamais conheci.

— Você terá tudo de que necessitar. Basta pedir. A missão toda é altamente secreta, naturalmente. Posso arranjar-lhe uma semana de licença, se quiser. Depois disso, você fica na fazenda em clima de absoluta segurança.

— Posso experimentar o avião em vôo?

— Se for preciso, mas apenas à noite e preferivelmente apenas uma vez. Mandarei para cá um grupo dos melhores mecânicos de avião que a Luftwaffe puder fornecer. Você terá tudo o que quiser. Ficará encarregado dessa parte. Não quero que, por qualquer falha mecânica, os motores enguicem quando você estiver a cento e cinqüenta metros sobre os pântanos de Norfolk. Voltaremos agora a Amsterdam.

Precisamente às duas e quarenta e cinco da manhã seguinte, Seumas.O’Broin, criador de carneiros em Conroy, condado de Monaghan, procurava chegar a casa atravessando um trecho de charneca. E estava tendo dificuldade.

Isso era bastante compreensível porque, quando um indivíduo tem setenta e seis anos, os seus amigos têm uma tendência para desaparecer com uma monótona regularidade, e Seumas O’Broin voltava para casa do velório de um deles, que acabava de partir — um velório que durara dezessete horas.

Ele não havia apenas, como dizem de modo tão encantador os irlandeses, tomado uma bebida. Consumira uma quantidade tão grande que não tinha certeza se estava ainda neste mundo ou no outro; de modo que, quando o que considerou um grande e alvo pássaro saiu da escuridão sobre a sua cabeça, sem emitir um único som, e mergulhou no campo do outro lado da cerca mais próxima, não sentiu absolutamente medo, apenas uma leve curiosidade.

Devlin fez um excelente pouso. A bolsa de suprimentos, pendurada de um cabo de sete metros preso a seu cinto, atingiu o chão em primeiro lugar, avisando-lhe que se preparasse. Ele a seguiu, uma fração de segundo depois, rolando na elástica turfa irlandesa, levantando-se no mesmo instante e soltando os tirantes do pára-quedas.

As nuvens se abriram nesse momento, mostrando um quarto de lua que lhe deu justamente a quantidade necessária de luz para fazer o que precisava ser feito. Abriu a bolsa de suprimentos, tirou uma pequena pá de trincheira, a capa preta, um boné de tweed, um par de sapatos e uma grande mala Gladstone de couro.

Numa cerca de espinheiro próxima, com uma valeta ao lado, abriu rapidamente um buraco com a pá. Desceu o fecho do macacão de vôo. Por baixo, usava um terno de tweed. Transferiu a Walther que carregava no cinto para o bolso direito. Calçou os sapatos, colocou o macacão, o pára-quedas e as botas de salto na bolsa, enfiando-a rapidamente no buraco e cobrindo-a com areia. Ciscou um pouco de folhas secas e galhos por cima da escavação para dar um toque final às coisas, e atirou a pá num riacho próximo.

Vestiu a capa, apanhou a mala Gladstone, voltou-se e viu Seumas O’Broin encostado na cerca, observando. Devlin moveu-se com grande rapidez, apertando a coronha da Wal­ther. Mas, nessa ocasião, o aroma de bom uísque irlandês e a voz pastosa disse-lhe tudo o que precisava saber.

— O que você é, homem ou diabo? — indagou o velho fazendeiro, pronunciando lenta e separadamente cada palavra. — Deste mundo ou do outro?

— Deus tenha pena de nós, meu velho, mas, pelo seu bafo, se um de nós acendesse agora um fósforo iríamos juntos para o inferno. Quanto à sua pergunta, sou um pouco das duas coisas. Um simples rapaz irlandês tentando uma nova maneira de voltar para casa depois de anos no estrangeiro.

— Isso é verdade? — perguntou O’Broin.

— Não lhe estou dizendo?

O velho riu, contente.

— Cead mile failte sa bhaile romhat — disse em irlandês. — Cem mil boas-vindas para você.

Devlin sorriu, alegre.

— Go raibh maith agat — disse. — Obrigado.

Apanhou a mala Gladstone, saltou sobre a cerca e partiu em passos ágeis pelo prado, assobiando baixinho. Era bom voltar para casa, por mais curta que fosse a visita.

A fronteira do Ulster estava nessa época, como agora, escancarada para todos aqueles que conheciam a área. Duas horas e meia de caminhada rápida por estradas campestres e trilhas no campo, e Devlin estava no condado de Armagh, pisando território britânico. Uma carona em um caminhão de leite, e chegou à própria Armagh às seis horas. Meia hora depois, subia em um vagão de terceira classe de um trem matutino para Belfast.

 

Na quarta-feira choveu durante todo o dia e, à tarde, um nevoeiro soprou do mar do Norte e desceu pelos pântanos de Cley, Hobs End e Blakeney.

Apesar do mau tempo, Joanna Grey desceu para o jardim depois do almoço. Estava trabalhando, na horta, ao lado do pomar, arrancando batatas, quando ouviu o rangido do portão. Subitamente Patch soltou um latido e partiu como um relâmpago. Ao voltar-se, Joanna viu um homem de pequena estatura, pálido, mas com ombros razoavelmente fortes, usando uma capa de chuva preta com cinto, e um boné de tweed. Trazia na mão esquerda uma mala Gladstone e possuía os olhos do azul mais vivo que ela jamais vira.

— Sra. Grey? — perguntou ele em macia voz irlandesa. — Sra. Joanna Grey?

— Ela mesma. — O seu estômago apertou-se de excitação. Durante um curto momento, mal pôde respirar.

Ele sorriu.

— Acenderei, no coração, uma vela que não se apagará.

— Magna est veritas et praevalet.

— Grande é a verdade e suprema sobre todas as coisas — disse, sorrindo, Liam Devlin. — Eu aceitaria uma xícara de chá, Sra. Grey. Foi uma viagem danada de difícil.

Devlin não conseguira passagem para a travessia noturna de Belfast e Heysham na segunda-feira e a situação tampouco melhorara na rota de Glasgow. Mas o conselho de um bilheteiro gentil levara-o a Larne, onde tivera melhor sorte, obtendo uma passagem na barca matutina da terça-feira para a curta viagem até Stranraer, na Escócia.

As dificuldades das viagens em tempo de guerra haviam-no obrigado a fazer uma jornada aparentemente interminável de Stranraer a Carlisle, com baldeação para Leeds. Nesta cidade, foi obrigado a uma longa espera até a manhã de quarta-feira, antes de poder conseguir uma conexão conveniente para Peterborough, onde fizera a baldeação final em um trem local até Kings Lynn.

Grande parte de tudo isso passou por sua mente quando Joanna Grey voltou-se do fogão, onde preparava o chá, e perguntou:

— Bem, como foi?

— Não muito mal — respondeu ele. —Surpreendente, em alguns aspectos.

— O que você quer dizer com isso?

— Oh, o povo, o estado geral das coisas. Não exatamente como eu esperava.

Pensava em especial no restaurante da estação de Leeds, congestionado durante toda a noite com viajantes de todos os tipos, todos esperançosos de pegar um trem para algum lugar, e no cartaz na parede que dizia com uma ironia especial em seu caso: Mais do que nunca é de vital importância fazer a si mesmo esta pergunta: minha viagem é realmente necessária? Lembrou-se do bom humor rude, da animação geral, e comparou-a com a atmosfera não tão favorável que observara na sua última visita à estação principal de Berlim.

— Eles parecem estar bem certos de que vão ganhar a guerra — disse, quando ela pôs na mesa a bandeja com o chá.

— Isto aqui é um paraíso de loucos — disse ela, calmamente. — Eles nunca aprendem. Nunca tiveram a organização, a disciplina que o Führer deu à Alemanha.

Lembrando-se da chancelaria avariada pelas bombas, como a vira pela última vez, e das grandes zonas de Berlim que eram simples montes de escombros após a ofensiva aliada de bombardeio, Devlin sentiu-se quase constrangido a observar que as coisas haviam mudado muito desde os velhos e bons tempos. Por outro lado, teve a nítida impressão de que tal observação não seria bem recebida.

Assim, bebeu o chá e seguiu-a com os olhos quando ela foi até um armário, abriu-o e tirou uma garrafa de uísque escocês, maravilhando-se com o fato de essa mulher de aspecto agradável, cabelos brancos, vestida com uma elegante saia de tweed e botas Wellington, poder ser o que era.

Ela serviu generosas doses em dois copos e ergueu o seu numa espécie de brinde:

— À aventura inglesa — disse, com olhos brilhantes.

Devlin poderia ter-lhe dito que a armada espanhola fora assim descrita, mas, lembrando-se do que acontecera àquela azarada aventura, resolveu mais uma vez conservar-se calado.

— À aventura inglesa — disse, solene.

— Ótimo. — Ela pôs de lado o copo. — Agora, deixe-me ver seus documentos. Preciso certificar-me de que você tem tudo de que precisa.

Ele lhe entregou o passaporte, a baixa do Exército, uma carta de recomendação, supostamente de seu antigo comandante, outra carta do pároco de sua aldeia e vários documentos á respeito do seu estado de saúde.

— Excelente — disse ela. — São. realmente muito bons. A situação é a seguinte. Arranjei-lhe um emprego com o proprietário do lugar, Sír Henry Willoughby. Ele quer conhecê-lo logo que você chegar, de modo que arranjaremos isso ainda hoje. Amanhã de manhã, leva-lo-ei de carro até Fakenham, uma cidade-mercado, a uns quinze quilômetros daqui.

— E o que é que eu vou fazer lá?

— Apresentar-se à delegacia de polícia local. Eles lhe darão um formulário de registro de estrangeiro, que todos os cidadãos irlandeses têm de preencher, e você terá que fornecer também uma foto de passaporte, mas poderemos arranjar isso sem problema. Depois, precisará de cartões de seguro social, uma cédula de identidade, um talão de racionamento e cupons para a compra de roupas.

Enumerou os itens nos dedos da mão. Devlin sorriu, alegre.

— Ei, pare aí. Parece que isso vai me dar um bocado de trabalho. São apenas três semanas a partir de sábado. Depois irei embora com tanta rapidez que eles pensarão que nunca estive aqui.

— Todas essas coisas são essenciais — disse ela. — Todo mundo as possui, de modo que você precisa delas, também. Basta que um funcionariozinho em Fakenham ou Kings Lynn note que você não os requereu e faça uma investigação, e o que lhe acontece?                 .

Alegre, respondeu Devim:

— Muito bem, a senhora é a chefe. E agora, a respeito do meu trabalho?

— Guarda dos pântanos em Hobs End. Não poderia haver lugar mais isolado. O emprego dá direito a um bangalô. Não é grande coisa, mas servirá.

— E o que é que deverei fazer?

— Trabalho de guarda de caça, principalmente, e também um sistema de eclusas que precisa ser inspecionado regularmente. Há dois anos que o local está sem guarda, desde que o último foi para a guerra. E terá também de fazer alguma coisa contra os predadores. As raposas fazem uma devastação medonha entre as aves silvestres.

— O que devo fazer? Jogo pedras nelas?

— Não. Sir Henry lhe fornecerá um rifle.

— Que bondade dele. O que me diz do transporte.

— Fiz o melhor que pude. Consegui convencer Sir Henry a lhe ceder uma das motocicletas da propriedade. Como trabalhador agrícola, é legal que você a use. Os ônibus praticamente deixaram de existir, de modo que a maioria das pessoas recebe uma pequena ração mensal para ajudá-los a vir ocasionalmente à cidade, quando há absoluta necessidade.

Nesse momento, uma buzina estrugiu do.lado de fora. Ela foi e voltou da sala de visitas em um instante.

— É Sir Henry. Deixe que eu fale. Simplesmente conduza-se com o devido servilismo e fale apenas quando ele lhe dirigir a palavra. Ele gostará disso. Vou trazê-lo aqui.

Saiu e Devlin ficou à espera. Ouviu a porta da frente ser aberta e o som da fingida surpresa da voz da Sra. Grey.                          

— Estou a caminho de outra reunião do comando em Holt, Joanna — disse Sir Henry. — Gostaria de saber se há alguma coisa que lhe possa trazer.

Ela respondeu em voz muito mais baixa e Devlin pôde ouvir o que ela disse. Sir Henry, por seu lado, baixou o tom da voz, seguiu-se um murmúrio de conversação e ambos entraram logo depois na cozinha..

Sir Henry usava o uniforme de tenente-coronel da Guarda Metropolitana, e fitas de medalhas da Primeira Guerra Mundial e da Índia formavam uma explosão de cores em cima do bolso superior esquerdo da túnica. Olhou atentamente para Devlin, com uma das mãos nas costas e a outra alisando o grande bigode.

— Então, você é o tal Devlin?

Devlin levantou-se de um salto e ficou à frente dele, torcendo e retorcendo o boné nas mãos.

— Eu gostaria de lhe agradecer, senhor — disse, forçando consideravelmente o sotaque irlandês. — A Sra. Grey me contou o quanto o senhor fez por mim. Foi mais do que bondoso.

— Bobagem, homem — disse, brusco, Sir Henry, embora se empertigasse todo e afastasse um pouco mais os pés. — Você fez o que pôde pelo velho país, não? Pegou uma bala na França, pelo que ouvi dizer?

Devlin baixou vivamente a cabeça. Sir Henry inclinou-se para a frente e examinou a cicatriz aberta no lado esquerdo da testa pela bala de um detetive da Divisão Especial irlandesa.

— Meu Deus— disse ele, baixinho. — Se quer saber, você teve uma sorte danada.

— Eu estava pensando em providenciar a instalação dele por aqui, para lhe poupar o trabalho — disse Joanna Grey. — Posso fazer isso, Henry? Sei que você é um homem muito ocupado.

— Você faria isso, minha velha?, — Lançou um olhar ao relógio. —: Preciso estar em Holt em meia hora.

— Não precisa dizer mais nada. Eu o levarei até o bangalô, mostrarei os pântanos, e tudo mais.

— Falando nisso, você provavelmente sabe mais sobre o que acontece em Hobs End do que eu. — Esqueceu-se de si mesmo por um momento, passou um braço pela cintura dela, mas tirou-o apressado e disse a Devlin: — Não se esqueça de apresentar-se sem demora à polícia em Fakenham. Sabe por quê?

— Sim, senhor.

— Há alguma coisa que queira saber?.

— O rifle, senhor — disse Devlin. — Pelo que soube, o senhor quer que eu dê uns tirinhos.

— Ah, sim. Não há problema. Vá a Grange amanhã à tarde e eu lhe darei a arma. Pode apanhar a motocicleta amanhã à tarde, também. A Sra, Grey lhe falou a esse respeito não? Somente treze litros de gasolina par mês, preste atenção, mas terá que esticá-los como puder. Todos nós temos que fazer sacrifícios. — Alisou mais uma vez o bigode. — Só um Lancaster; Devlin, gasta dois mil litros de gasolina para chegar ao Ruhr. Você sabia disso?

— Não, senhor.

— Então, é isto. Todos nós temos que estar preparados para fazer o que pudermos.

Joanna Grey tomou-lhe o braço.

— Henry, você vai atrasar-se.

— Sim, naturalmente, minha querida. — Inclinou a cabeça para o irlandês. — Muito bem, Devlin. Até amanhã.

Devlin fez-lhe uma verdadeira mesura e esperou até que ambos saíssem.pela porta principal antes de passar para a sala de visitas. Observou Sir Henry afastar-se, e acendia um cigarro no momento em que Joanna Grey voltou.

— Eu gostaria de saber uma coisa — disse Devlin. — Ele e Churchill são realmente amigos?

— Pelo que sei, nunca se encontraram. Studley Grange, porém, é famosa pelos seus jardins elisabetanos. Parece que o primeiro-ministro gostou da idéia de um fim de semana tranqüilo e de dedicar-se um pouco à pintura antes de voltar a Londres.

— E Sir Henry está naturalmente se desdobrando para lhe ser agradável. Oh, sim, posso compreender isso.

Ela sacudiu a cabeça.

— Pensei que você ia dizer “Begorrah”[2] a qualquer minuto. É um homem mau, Sr. Devlin.

— Liam — disse ele. — Chame-me Liam. Soará melhor, especialmente se ainda vou chamá-la de Sra. Grey. Quer dizer, então, que ele está caído pela senhora, mesmo nessa idade?

— Romances de outono não são coisas inteiramente desconhecidas.

— Acho que parece mais inverno. Por outro lado, isso pode ser muito útil.

— Mais do que isso. . . essencial — respondeu ela. — De qualquer maneira, apanhe sua mala. Vou buscar o carro e levá-lo a Hobs End.

A chuva empurrada pelo vento que soprava do mar estava fria e um nevoeiro envolvia o pântano. Quando Joanna Grey parou no quintal do bangalô, Devlin saltou e olhou pensativo em volta. Era um local estranho, misterioso, do tipo que faz os cabelos se arrepiarem na nuca. Braços de mar, trechos de lama, pálidos caniços fundindo-se com o nevoeiro e, em algum lugar longínquo, o pio ocasional de uma ave e um invisível bater de asas.

— Compreendo ò que a senhora queria dizer quando disse que o lugar era isolado.

Ela apanhou uma chave embaixo de uma pedra chata junto à porta e abriu-a. Ambos penetraram em um corredor calçado com lajes. Estava úmido.ali e a pintura a cal da parede soltava-se. À esquerda, uma porta dava para uma grande cozinha, conjugada com sala de visitas. Mais uma vez, o chão era de lajes, porém havia uma grande lareira aberta e tapetes de junco. Na outra extremidade, Devlin viu um fogão e uma pia branca lascada, com uma única torneira. Uma grande mesa de pinho flanqueada por dois bancos e uma velha cadeira de balanço junto à lareira constituíam, toda a mobília.

— Tenho novidades para a senhora — disse Devim. — Fui criado em um bangalô exatamente igual a este, em County Down, na Irlanda do Norte. Tudo de que precisamos é um bom fogo para secar o local.

— E ele tem uma grande vantagem. . . isolamento —disse ela. — Você provavelmente não verá ninguém durante todo o tempo em que estiver aqui.

Devlin abriu a mala Gladstone e tirou alguns objetos de uso pessoal e uns três ou quatro livros. Em seguida, passou um dedo pelo forro e removeu o fundo falso. Na cavidade que apareceu, encontrava-se uma Walther calibre 38, uma metralhadora Sten, com silenciador, desmontada em três partes, e um transmissor-receptor para uso em terra, desses que cabem no bolso. Havia também mil libras em notas de uma libra e outras mil em notas de cinco. E também alguma coisa embrulhada em pano branco, que ele não se deu ao trabalho de abrir.

— Operação dinheiro — disse ele.

— Para obter os veículos.

— Exatamente. Tenho os endereços do tipo certo de pessoas.

— Como os conseguiu?

— São o tipo de coisas que temos arquivadas no quartel-general do Abwehr.

— Onde?

— Birmingham. Pensei em dar um pulo lá neste fim de semana. O que mais preciso saber?

Ela se sentou à beirada da mesa, observando-o enquanto ele atarraxava o cano da Sten no corpo da arma e encaixava a coronha:

— É um bocado longe — disse ela. — Digamos, quatrocentos e cinqüenta quilômetros, ida e volta.

— Obviamente, meus treze litros de gasolina não vão me levar muito longe. O que se pode fazer para resolver isto?

— Há gasolina à vontade no mercado negro, a três vezes o preço normal, quando a pessoa conhece as garagens certas. A variedade comercial é tingida de vermelho para que a polícia possa descobrir logo seu uso ilegal, mas você pode livrar-se do corante filtrando a gasolina numa máscara contra gás comum.

Devlin pôs o pente na Sten, examinou a arma, desmontou-a outra vez e recolocou-a no fundo da mala.

— É uma coisa maravilhosa a tecnologia — observou. — Esse troço pode ser disparado de bem perto e o único som que se ouve é o estalido do gatilho. Ê inglesa, por falar nisso. Outro item que o soe gosta de pensar que está introduzindo no movimento subterrâneo holandês. — Tirou um cigarro do bolso e colocou-o entre os lábios. — O que mais preciso saber quando fizer essa viagem? Quais são os riscos?

— Muito poucos — replicou ela. — Os faróis da moto terão os acessórios regulamentares de blackout, de modo que por esse lado não haverá problema. As estradas, em especial nas áreas rurais, estão virtualmente sem tráfego. Listras brancas foram pintadas na maioria delas. Isso ajuda.

— E a polícia e as forças de segurança?

Ela o fitou com expressão vazia.

— Não há com que se preocupar. Os militares o deteriam apenas se você tentasse entrar numa zona proibida. Tecnicamente, isto aqui ainda é uma área de defesa, mas nestes dias ninguém dá bola para os regulamentos. Quanto à polícia, pode mandá-lo parar e pedir sua carteira de identidade, ou deter o veículo para inspeção numa estrada principal, devido à campanha contra o desperdício de gasolina.

Falava em tom quase indignado e, lembrando-se do que deixara no lugar de onde viera, Devlin teve que combater uma compulsão quase irresistível de lhe abrir um pouco os olhos. Mas, em vez disso, perguntou:

— Isso é tudo?

— Acho que sim. Há um limite de velocidade de trinta quilômetros horários em áreas densamente povoadas e, naturalmente, você não encontrará sinalização em parte alguma, mas no começo do verão começaram a recolocar os nomes de cidades e povoados em muitos locais.

— Assim, há uma boa probabilidade de que eu não tenha problema algum?

— Ninguém me deteve em parte alguma. Ninguém se incomoda, atualmente. —Encolheu os ombros. — Não há problema. No centro, local do Serviço Voluntário Feminino temos todos os tipos de formulários oficiais, dos velhos dias da área de defesa. Havia um que permitia a uma pessoa visitar parentes em um hospital. Preparei um para você, sobre um irmão internado em um hospital em Birmingham. Isto e aquele atestado de baixa do Exército devem ser suficientes para convencer qualquer pessoa. Nestes dias, todo mundo tem uma queda especial pelos heróis.

Devlin sorriu largamente.

— Sabe de uma coisa, Sra. Grey? Acho que vamos nos dar muito bem. — Foi até a pia, procurou alguma coisa no armário embaixo e voltou com um martelo enferrujado e um prego. — Exatamente o que eu queria.

— Para quê?

Ele entrou na lareira e enfiou metade do prego por trás da viga enegrecida de fumaça que sustentava a frente da chaminé. Nele, pendurou a Walther pela guarda do gatilho.

— Isso é o que eu chamo de meu trunfo oculto. Gosto de ter uma delas por perto, para o caso de uma eventualidade. Agora, mostre-me o resto do local.

Havia vários anexos, a maior parte em ruínas: um está-bulo em condições bastante razoáveis e, atrás dele, outro, junto à própria borda do pântano, um edifício decrépito, muito velho, com paredes de pedra esverdeadas pelo mofo. Devlin abriu com dificuldade a grande porta. O interior era frio e úmido e obviamente não fora usado durante anos.

— Isso servirá perfeitamente — disse ele.— Mesmo que o velho Sir Willoughby apareça para xeretar, acho que não chegará até aqui.

— Ele.é um homem muito ocupado — disse ela. — Negócios do condado, magistrado, comandante da Guarda Metropolitana local. Leva tudo isso muito a sério. Na verdade, não tem muito tempo para qualquer outra coisa.

— Fora a senhora —- disse ele. — O velho sátiro ainda tem bastante tempo para a senhora.

— Sim, receio que isso seja uma grande verdade. — Segurou-lhe o braço, sorrindo. — Agora, vou mostrar-lhe a zona de salto.

Penetraram no pântano pela estrada do dique. Chovia muito nessa ocasião e o vento trazia o cheiro úmido e bolorento da vegetação que apodrecia. Alguns gansos saíram voando do nevoeiro, como se fossem uma formação de bombardeiros a caminho do alvo e desapareceram na cortina cinzenta.

Chegaram aos pinheiros, às casamatas, à armadilha anti-tanque cheia de areia e ao aviso Cuidado com as minas, tão familiar a Devlin pelas fotografias que vira. Joanna Grey lançou uma pedra bem longe na areia e Patch correu aos saltos para ir buscá-la.

— A senhora tem certeza? — perguntou Devlin.

— Absoluta.

— Eu sou católico, lembre-se, se as coisas saírem erradas — disse ele, com um sorriso irônico.

— Por aqui, todos eles são. Providenciarei para que você seja devidamente enterrado.

Ele pisou nas bobinas de arame farpado, parou à beira da areia e, em. seguida, caminhou para a frente. Parou uma vez, e, subitamente, começou a correr, deixando pegada na areia, pois a maré baixara pouco tempo antes. Voltou-se correu de volta e mais uma vez cruzou o trecho de arame. Muito alegre, passou um braço em volta dos ombros dela.

— A senhora tinha razão. . . desde o começo. Vai funcionar, esta coisa vai. A senhora verá. — Olhou para o mar distante, do outro lado dos riachos e bancos de areia, na direção do enevoado Point. —Belo. O pensamento de deixar tudo isto deve quebrar-lhe o coração.

— Deixar? — Ela fitou-o com uma expressão vazia. — O que você quer dizer com isso?

Mas a senhora não pode ficar aqui — disse ele. — Não depois. A senhora certamente compreende isso, não é?

Ela olhou para o Point como se fosse pela última vez. Estranho, mas nunca lhe ocorrera que teria que partir. Estremeceu quando o vento trouxe do mar uma forte pancada de chuva.

Às vinte para as oito, naquele mesmo dia, Max Radl, em seu gabinete na Tirpitz Ufer, resolveu que era tempo de parar. Não se sentia bem desde a volta da Bretanha e seu médico ficara horrorizado com seu estado.

— Se continuar a trabalhar dessa maneira, Herr Oberst, o senhor vai se suicidar — dissera o médico, firme. — Acho que posso garantir-lhe isso.

Radl pagara a consulta e tomara os comprimidos — de três tipos —, que, com alguma sorte, poderiam conservá-lo em atividade. Enquanto pudesse permanecer longe das mãos dos médicos do Exército, tinha uma chance, mas bastaria outro exame com aquela turma e estaria liquidado. Metê-lo-iam num terno civil antes que ele soubesse o que lhe havia acontecido.

Abriu a gaveta, tirou um dos frascos de comprimidos e engoliu dois deles. Eram supostamente analgésicos, mas, para garantir o efeito, encheu meio cálice de Courvoisier para ajudá-los a descer. Uma batida à porta, e Hofer entrou. Na sua face, normalmente impassível, transparecia emoção e seus olhos brilhavam.

— O que foi, Karl, o que aconteceu? — perguntou Radl.

Hofer pôs sobre a mesa uma mensagem em papel de seda.

— Acaba de chegar, Herr Oberst. De Starling. . . a Sra. Grey. Ele chegou em segurança. Está com ela agora.

Radl olhou para o papel com uma espécie de reverência.

— Meu Deus, Devlin — disse baixinho. — Você conseguiu. O plano funcionou.

Foi envolvido por uma sensação de libertação física. Enfiou a mão na gaveta de baixo e tirou outro cálice.

— Karl, isto exige, definitivamente, um drinque.

Levantou-se, muito alegre, sabendo que não se sentira assim em anos, não desde aquela incrível euforia em que correra para a costa francesa à frente de seus soldados no verão de 1940. Ergueu o cálice e disse a Hofer:

— Faço um brinde, Karl. À Liam Devlin e “Viva a República”.

Como,oficial de estado-maior da Brigada Lincoln Washington na Espanha, Devlin descobrira que a motocicleta era o mais útil dos veículos para manter contato com as unidades de seu comando espalhadas em terreno montanhoso difícil. Era muito diferente ali em Norfolk, mas teve a mesma sensação, de liberdade, de estar solto da corrente, quando saiu de Studley Grange pelas tranqüilas estradas rurais em direção à aldeia.

Obtivera naquela manhã uma licença de motorista em Holt, juntamente com os demais documentos, e nisso tudo não encontrara a menor dificuldade. Em toda parte, da delegacia de polícia à câmara de trabalho local, a sua história de ex-soldado de infantaria desmobilizado por causa de ferimentos obrara milagres. Os vários funcionários haviam, na verdade, se excedido para lhe facilitar as coisas. Era verdade o que diziam. Em tempo de guerra, todos amam o soldado e, ainda mais, o herói ferido.

A moto era de antes da guerra, naturalmente, e vira melhores dias. Tratava-se de uma bsa de trezentas e cinqüenta cilindradas, mas quando ele se arriscou a apertar o acelerador na primeira reta, o velocímetro marcou cem sem problema algum. Reduziu a velocidade logo que descobriu que, se precisasse, o motor puxaria bem. Não fazia sentido criar casos. Não havia policial em Studley Constable, ma Joanna Grey avisara que, eventualmente, poderia aparecer algum de moto, vindo de Holt.                               .

Desceu a íngreme colina, entrando na aldeia, passou pelo velho moinho cuja roda d’água parecia não estar girando, e diminuiu a marcha para dar passagem a uma moça que dirigia uma carroça com três latões de leite. Ela usava uma boina azul e uma capa muito velha, da Primeira Guerra Mundial, pelo menos duas vezes maior do que ela. Tinha as maçãs do rosto salientes, uma boca rasgada demais e três de seus dedos apareciam pelos buracos nas luvas de lã.

— Bom dia para você, collen[3] — disse ele alegre, enquanto esperava que ela cruzasse seu caminho e chegasse à ponte. — Deus abençoe o bom trabalho.                           .

Os olhos dela se arregalaram numa espécie de espanto e ela abriu ligeiramente a boca. Parecia muda, mas estalou a língua, incitando o pônei a transpor a ponte, e continuou a trote logo que começou a subir a colina além da igreja.

— Uma encantadora camponesinha feia — recitou ele — que me virou a cabeça não uma, mas duas vezes. — Sorriu, alegre. — Oh, não, Liam, meu velho amor. Isso, não. Agora, não.

Virou a moto para a Studley Arms e notou que um homem à janela olhava-o zangado. Era um tipo enorme, de uns trinta anos, por trás de uma emaranhada barba preta. Usava boné de tweed e um velho casado de oleado.

“Que diabo foi que lhe fiz, filho?”, perguntou Devlin a si mesmo. O olhar do homem seguiu a mocinha e a carroça, que nesse momento chegavam ao alto da colina junto à igreja, e voltou. Era o suficiente. Devlin empurrou o pedal de apoio da bsa, soltou o rifle da bainha de lona que pendia de seu pescoço, enfiou-o na curva do braço e entrou.

Não havia bar, mas apenas uma grande e confortável sala com um baixo teto de vigas, vários bancos de encosto alto, e umas duas mesas de madeira. Um fogo de madeira queimava vivamente numa lareira aberta.

Viu apenas três pessoas na sala: um homem sentado junto ao fogo, tocando uma gaita, o de barba preta que estivera à janela e um homem entroncado, em mangas de camisa, que parecia estar no fim da casa dos vinte.

— Deus abençoe   todos os presentes — anunciou Devlin, representando com todos os detalhes o irlandês das turfeiras.

Pôs o rifle em sua bainha de lona, sobre a mesa. O homem em mangas de camisa sorriu e estendeu a mão.

— Eu sou George Wilde, o taverneiro daqui, e você deve ser o novo guarda de Sir Henry lá nos pântanos. Todos nós ouvimos falar a seu respeito.

— O quê, já? — perguntou Devlin.

— Você sabe como é no interior.

— E será que ele sabe? — perguntou em tom áspero o homem alto à janela.

— Oh, eu mesmo sou um rapaz de fazenda lá em minha terra — explicou Devlin.

Wilde pareceu perturbado, mas tentou a apresentação óbvia.

— Arthur Seyrnour, e o velho bode junto ao fogo é Laker Armsby.

Como descobriu Devlin mais tarde, Laker tinha quase cinqüenta anos, mas parecia mais velho. Estava incrivelmente maltrapilho, com o boné de tweed rasgado, o casaco amarrado com barbante e as calças e os sapatos endurecidos de barro.

— Os senhores, cavalheiros, gostariam de tomar um drinque comigo? — sugeriu Devlin.

— Eu não recusaria — disse Laker Armsby. — Gostaria muito de um quarto de cerveja clara.

Seymour emborcou sua caneca e bateu com ela na mesa.

— Eu mesmo pago minha bebida. — Apanhou o rifle e sopesou-o. — O fidalgo está realmente cuidando de você, não? Isto, e a moto. Agora, eu gostaria de saber por que você merece isso, um recém-chegado, quando há entre nós homens que trabalharam na propriedade durante anos e, ainda assim, têm que contentar-se com menos.

— Só posso atribuir isso aos meus belos olhos — disse-lhe Devlin.                        

A loucura faiscou nos olhos de Seymour e o demônio olhou para fora, arrasante e selvagem. Agarrou Devlin pela aba do paletó e puxou-o para si.

— Não faça graça comigo, baixote. Nunca faça isso ou pisarei em você como piso num caracol.

Wilde agarrou-lhe o braço.

— Ora, o que é isso, Arthur?. . . — Seymour, porém, empurrou-o para longe.

— Pise com cuidado por aqui, conserve-se em seu lugar e poderemos nos dar bem. Compreendeu?

Devlin sorriu, nervoso.

— Claro, e se o insultei de alguma maneira, peço-lhe desculpa.

— Assim é melhor. — Seymour soltou-o e deu-lhe uma palmadinha no rosto. — Assim é bem melhor. Só que, no futuro, lembre-se de uma coisa: quando eu entrar aqui, você sai.

Deixou a sala, batendo com força a porta. Laker Arms­by riu, insanamente.

— Esse Arthur é um calhorda perverso.

George Wilde desapareceu nos fundos da sala e voltou momentos depois com uma garrafa de uísque escocês e alguns copos.

— Este troço é difícil de encontrar no momento, mas acho que mereceu um por conta da casa, Sr. Devlin.

— Liam — disse Devlin. — Chamem-me de Liam. — Aceitou o copo. — Ele é sempre assim?

— Desde que o conheço.

— Havia uma moça lá fora em uma carroça quando eu entrei. Ele tem algum interesse especial por ela?

— Ele acha que tem — cacarejou Laker Armsby. — Só que ela não quer nada com: ele.

— O nome dela é Molly Prior — explicou Wilde. — Ela e a mãe possuem uma fazenda a uns três quilômetros do lado de cá de Hobs End. Cuidam do lugar desde que o pai morreu, no ano passado. Laker ajuda-as durante algumas horas quando não está ocupado na igreja.

— Seymour também as ajuda, Faz parte do trabalho pesado.

— E acha que é o dono do lugar, não? Por que ele não está no Exército?

— Essa é outra questão dolorosa com ele. Foi recusado porque tem um tímpano perfurado.

— O que considerou um insulto à sua grande masculinidade, não? — perguntou Devlin.

Como se achasse que uma explicação era necessária, Wilde disse, meio sem jeito:

— Eu mesmo servi na Artilharia Real em Narvik, em abril de 1940. Perdi a rótula direita e, assim, a guerra foi curta para mim. Você ganhou seu ferimento na França, não?

— Isso mesmo — respondeu, calmo, Devlin. — Perto de Arras. Passei por Dunquerque numa padiola e nunca soube coisa alguma sobre a retirada.

— E passou mais de um ano em hospitais, segundo me disse a Sra. Grey.

— Ela é uma grande mulher. — Devlin inclinou a cabeça. — Estou muito grato a ela. O marido dela conheceu meu pessoal há alguns anos. Se não fosse por ela, eu não teria esse emprego.

— Uma dama — concordou Wilde. — Uma verdadeira dama. É a pessoa mais apreciada por aqui.

— Quanto a mim — disse Laker Armsby —, servi pela primeira vez no Somme, em 1916. Nos Guardas Galeses.

— Oh, não. — Devlin tirou um xelim do bolso, bateu na mesa com a moeda e piscou para Wilde: — Dê-lhe um quarto de cerveja, mas eu vou embora. Tenho de trabalhar.

Ao chegar à estrada da costa, Devlin tomou o primeiro caminho do dique rumo à extremidade norte de Hobs End, de onde prosseguiu na direção do bosque de pinheiros. Fazia uma espécie de dia outonal, seco, frio, mas revigorante, e nuvens brancas perseguiam-se umas às outras pelo céu azul. Acelerou a máquina e percorreu com um rugido o estreito caminho do dique. Era um grande perigo, pois bastava uma manobra errada e cairia no pântano. Estúpido, realmente, mas aquele era o estado de espírito em que se encontrava, e a sensação de liberdade era divertida.

Reduziu a marcha, freando para tomar outro caminho pela rede de diques em direção à costa, quando, inesperadamente, um cavalo e respectivo cavaleiro apareceram entre os caniços a uns trinta ou quarenta metros à direita e subiram para o dique. Era a moça que vira numa carroça na aldeia, Molly Prior. Enquanto ele reduzia a marcha, ela inclinou-se sobre o cavalo e estugou-o para um galope, fazendo-o correr em um curso paralelo.

Devlin reagiu no mesmo instante, acelerando, partindo numa explosão de velocidade e lançando um grande borrifo de areia no pântano às suas costas. A moça tinha vantagem porque o dique onde se encontrava corria em linha reta para os pinheiros, ao passo que Devlin era obrigado a abrir caminho por um labirinto, passando de uma trilha para outra.

A moça se encontrava perto das árvores nesse momento e, quando ele saiu de um caminho e finalmente encontrou pista livre, ela lançou a montaria na água e na lama do pântano, incitando-a através dos caniços por um atalho final. O cavalo reagiu bem e, um momento depois, saiu da água e desapareceu entre os pinheiros.

Devlin deixou em alta velocidade o dique, subiu como uma bala a. vertente da primeira duna, percorreu uma pequena distância no ar e desceu pela areia mole e branca, caindo sobre um joelho em uma longa derrapagem.

Molly Prior, sentada ao pé de um pinheiro, olhava para o mar com o queixo sobre os joelhos. Vestia-se exatamente como Devlin a vira pela última vez, exceto pela boina, que tirara, revelando um cabelo louro escuro, cortado curto. O cavalo pastava em uma moita que conseguira abrir caminho pela areia.

Devlin pôs a moto sobre o apoio e lançou-se ao chão ao lado dela.

— Um belo dia, Deus seja louvado.

Ela voltou-se e disse com voz clara:

— Por que se demorou?

Devlin tirou o boné para limpar a testa e fitou-a, espantado:

— Por que me demorei? Ora, sua pequena. . .

Ela sorriu. Mais do que isso, lançou a cabeça para trás e riu. Devlin riu também.

— Meu Deus, eu me lembrarei de você até o dia do Juízo Final, quanto a isso não há dúvida.

— E o que isso significa? — Ela falava com o forte e claro sotaque de Norfolk, tão novo para ele,

— Ah, é um ditado lá da minha terra. — Tirou um maço de cigarros do bolso e serviu-se de um. — Fuma?

— Não.

— O que é bom. Os cigarros não deixariam você crescer, você com tantos anos jovens ainda à sua frente.

— Eu tenho dezessete anos, quero que saiba disso — disse ela. — Vou fazer dezoito em fevereiro.

Devlin acendeu o cigarro e estirou-se no chão, apoiando a cabeça nas mãos e puxando a pala do boné sobre os olhos.

— Que dia de fevereiro?

— Vinte e dois.

— Ah, um pequeno peixe, não? Pisces. Devemos dar-nos bem, sendo eu de Escorpião. Você não deve casar-se nunca com um homem do signo de Virgem, por falar nisso. Não há possibilidade de ele e alguém de Peixes se darem bem. Veja o caso de Arthur. Tenho um palpite terrível de que ele é de Virgem. Eu teria cuidado com isso, se fosse você.

— Arthur? — perguntou ela. — Você se refere a Arthur Seymour? Está louco?                               ^S

— Não, mas acho que ele está — respondeu Devlin, e continuou: — Pura, angelical, virtuosa, e não muito ardente, o que é uma grande pena para mim.

Ela voltou-se para fitá-lo e o velho casaco abriu-se. Os seus seios eram cheios e firmes e mal cabiam na blusa de algodão.

— Oh, querida moça, você vai ter um problema muito sério com o peso dentro de um ano ou dois, se não cuidar de sua dieta.

Seus olhos relampejaram, e ela olhou para baixo, fechando instintivamente o casaco.

— Seu ordinário — conseguiu ela dizer, mas notou que os lábios dele tremiam e inclinou-se para olhá-lo sob o boné, — Ora, você está rindo de mim. — Puxou o boné e lançou-o longe.

— E o que mais faria eu com você, Molly Prior? — Estendeu defensivamente uma das mãos. — Não, não responda isso.

Ela se recostou na árvore, pondo as mãos nos bolsos.

— Como é que você sabe meu nome?

— George Wilde me disse lá no bar.

— Oh, compreendo agora. E Arthur. . . Ele estava lá?

— Estava. Fiquei com a impressão de que ele a considera como propriedade pessoal.

— Então, ele pode ir para o inferno — disse ela, subitamente feroz. — Não pertenço a homem algum.

Ele a fitou, deitado ainda, com o cigarro no canto da boca, e sorriu.

— Você tem nariz arrebitado. Alguém já lhe disse isso? E quando você fica zangada, sua boca desce nos cantos.

Devlin fora longe demais, tocando em alguma fonte de mágoa secreta. Enrubescendo, ela disse, amarga:

— Oh, eu sou muito feia, Sr. Devlin..Passei noites inteiras em bailes, em Holt, sem que ninguém me tirasse para dançar. O suficiente para que eu conhecesse meu lugar. Você faria amor comigo em uma noite chuvosa de sábado. Mas todos os homens são assim. Qualquer coisa é melhor do que nada.

Começou a levantar-se. Devlin segurou-a pelo tornozelo e puxou-a para o chão, prendendo-a com um forte braço enquanto ela se debatia.

— Você sabe meu nome. Como foi isso?

— Não fique vaidoso. Todo mundo sabe tudo a respeito de você.

— Tenho novidades para você — disse ele, apoiando-se em um cotovelo e inclinando-se sobre ela. — Você não sabe nada sobre mim, porque, se soubesse, saberia que eu prefiro belas tardes de outono sob pinheiros, a uma noite chuvosa de sábado. Por outro lado, a areia tem um terrível jeito para se meter onde não deve. — Ela ficou absolutamente imóvel. Ele lhe deu um beijo rápido na boca e rolou para longe. — Agora, caia fora daqui antes que minha louca paixão me leve a cometer uma besteira.

Ela agarrou a boina, levantou-se de um salto e estendeu a mão para a rédea do cavalo, Quando se voltou para fitá-lo, tinha o rosto sério. Mas depois de subir na sela è girar o cavalo para olhá-lo outra vez, sorriu.

— Disseram-me que todos os irlandeses são doidos. Agora, acredito. Vou à missa na noite de domingo. Você vai?

— Tenho a aparência de quem vai?

O cavalo pisoteava o chão e corcoveava em semicírculos, mas ela o continha bem.

— Acho que vai — disse ela, soltando o cavalo, que galopou para longe.

— Oh, Liam, seu idiota — disse baixinho Devlin, tirando a moto do pedal de apoio e empurrando-a pela duna, através das árvores, até o caminho. — Será que você nunca aprende?

Voltou pelo dique principal, em marcha lenta dessa vez, e guardou a moto no estábulo. Encontrou a chave onde a deixara, sob uma pedra junto à porta, e entrou. Pendurou o rifle no cabide e entrou na cozinha, desabotoando a capa. Parou. Havia uma jarra de leite sobre a mesa e uma dúzia de ovos de casca escura em uma tigela.

— Santa Maria! — disse ele baixinho. — Quem é que pensaria nisso?

Tocou suavemente na tigela com um dedo, mas quando finalmente se virou para tirar o paletó, tinha a face sem expressão.

 

Em Birmingham, um vento frio varria a cidade, lançando chuva contra a vidraça da janela do apartamento de Ben Garvald, no alto da garagem, em Saltley. Vestido com um robe de seda e um cachecol em volta do pescoço, com o cabelo escuro e ondulado penteado com apuro, ele era uma figura imponente e o nariz quebrado lhe acrescentava uma espécie de rústica grandeza. Um exame mais atento, porém, não era tão lisonjeiro, e os frutos de uma vida dissoluta apareciam claramente na face carnuda e arrogante.

Naquela manhã, porém, ele enfrentava algo mais: um grande aborrecimento com o mundo em geral. Às onze e trinta da noite anterior, um de seus negócios, um pequeno e ilegal clube de jogatina em uma casa numa rua aparentemente respeitável em Aston, fora invadido pela policia da cidade de Birmingham. Não que Garvald corresse o menor risco de ser preso. Era para isso que pagava um testa-de-ferro, e o caso dele seria resolvido. Muito mais sério fora o confisco pela polícia de três mil e quinhentas libras que se encontravam nas mesas de jogo.

A porta da cozinha abriu-se nesse momento e entrou uma moça de uns dezessete ou dezoito anos. Usava um robe de renda cor-de-rosa, tinha o cabelo desgrenhado, a face manchada e olhos inchados de choro:

— Precisa de mais alguma coisa, Sr. Garvald? — perguntou ela em voz baixa.

— Se preciso? — disse ele. — Essa é boa. Essa é muito boa, considerando que você não me deu coisa alguma ainda.

Falou sem se voltar. Sua atenção fora despertada por um homem montado numa motocicleta que acabara de entrar no pátio embaixo e estacionara ao lado de um dos caminhões.

A moça, que fora incapaz de satisfazer algumas das exigências mais bizarras de Garvald na noite anterior, disse, chorosa:

— Sinto muito, Sr. Garvald.

O homem embaixo atravessou o pátio e desapareceu. Garvald virou-se e disse à moça:

— Vamos, vista-se e caia fora.

Apavorada até a morte, tremendo de medo, ela o fitava, como que hipnotizada. Uma deliciosa sensação de poder, de intensidade quase sexual, inundou-o. Agarrou-a pelos cabelos e torceu-os cruelmente.

— E aprenda a fazer o que lhe mandam, compreendeu?

No momento em que a moça fugiu, abriu-se a porta externa e entrou Reuben Garvald, o irmão mais moço de Ben. Era baixo, de aparência doentia, tinha um ombro ligeiramente mais alto do que o outro, mas seus olhos pretos na face pálida moviam-se sem parar, sem perder nada. Com ar de desaprovação, seguiu com os olhos a moça que desaparecia no quarto.

— Gostaria que você não andasse com ela, Ben. Uma vaca como aquela. Você pode apanhar uma doença.

— Foi para isso que inventaram a penicilina — disse Garvald. — De qualquer modo, o que você quer?

— Há um cara aí querendo falar com você. Acaba de chegar numa moto.

— Eu vi. Ó que ele quer?

— Não quer dizer. Ê um irlandesinho descarado, com um bocado de grana. — Reuben exibiu a metade de uma nota de cinco libras. — Disse-me para lhe dar isto. Disse­ que você pode ganhar a outra metade, se o receber.           .

Garvald riu, com grande espontaneidade, e arrancou a nota rasgada da mão do irmão.         .

— Gosto, disso. Sim, gosto mesmo. — Levou a nota até a janela e examinou-a. — Parece boa, também. — Voltou-se, sorrindo. — Será que ele tem mais disto, Reuben? Vamos ver.

Enquanto Reuben saía, Garvald dirigiu-se para um armário ao lado, muito bem-humorado, e serviu-se de uma dose de uísque. Afinal de contas, a manhã talvez não estivesse totalmente perdida. Poderia ser mesmo bem divertida. Sentou-se numa poltrona ao lado da janela.

A porta foi aberta e Reuben introduziu Devlin na sala. Ele estava ensopado e tinha a capa encharcada. Tirou o boné de tweed e espremeu-o sobre um vaso de porcelana chinesa cheio de bulbos.

— Quer olhar para isso agora?

— Muito bem — disse Garvald. — Sei que vocês todos, irlandeses, são birutas. Mas não precisa me provocar. Qual é o seu nome?

— Murphy, Sr. Garvald — respondeu Devlin.

— Eu acredito muito nisso — disse Garvald. — Tire essa capa, pelo amor de Deus. Você vai estragar o maldito tapete. É um autêntico Axminster. Custa uma fortuna arranjar um deles nestes dias.

Devlin tirou a capa gotejante e entregou-a a Reuben, que pareceu furioso, mas levou-a assim mesmo e estendeu-a sobre uma cadeira junto à janela.                               ..

— Muito bem, meu caro — disse Garvald. — Meu tempo é curto e, assim, vamos logo ao assunto.

Devlin secou as mãos no paletó e tirou do bolso um maço de cigarros.

— Eu soube que o senhor tem um negócio de transporte — disse. — Entre outras coisas.

— Quem foi que lhe disse isso?

— Ouvi por aí.

— E então?

— Preciso de um caminhão. Um Bedford de três toneladas. Do tipo militar.

— Só isso? — Garvald sorria ainda, mas havia cautela nos seus olhos.

— Não, quero também um jipe, um compressor com equipamento de spray e uns dois galões de tinta verde. E quero que ambos os veículos tenham placa de serviço.

Garvald riu alto.

— O que você vai fazer? Abrir uma segunda frente por conta própria, ou coisa parecida?

Devlin tirou um grande envelope do bolso interno e estendeu-o.

— Há aqui quinhentas libras por conta, simplesmente para o senhor saber que não estou desperdiçando seu tempo.

Garvald inclinou a cabeça para o irmão, que tomou o envelope, abriu-o e contou o dinheiro.

— Ele tem razão, Ben. Em notas novas de cinco libras, também.

Empurrou o dinheiro pela mesa. Garvald sopesou o maço e depositou-o na mesa de café à frente. Recostou-se.

— Muito bem, vamos conversar. Para quem é que você está trabalhando?

— Para mim — respondeu Devlin.

Garvald não acreditou em absoluto, demonstrou-o, mas não discutiu.

— Deve ter alguma coisa boa em vista para se dar a todo esse trabalho. Talvez você queira uma pequena ajuda.

— Já lhe disse o que preciso, Sr. Garvald — interrompeu-o Devlin. —Um Bedford de três toneladas, um jipe, um compressor e uns dois galões de tinta verde. Mas se o senhor acha que não pode ajudar, poderei tentar em outra freguesia.

Irritado, Reuben falou:

— Quem diabo pensa você que é? Entrar aqui é uma coisa. Sair nem sempre é tão fácil.

A face de Devlin ficou muito pálida e, quando ele se voltou para olhar para Reuben, seus olhos azuis pareciam fixos em algum ponto distante, frio e remoto.

— O senhor está falando sério?

Estendeu a mão direita para o maço de notas, conservando a esquerda no bolso, em volta da coronha da Walther. Garvald bateu forte com a mão no maço de notas.

— Isso lhe custará — disse em voz suave — uma bela, linda soma. Digamos, duas mil libras.

Sustentou o olhar de Devlin numa espécie de desafio. Caiu uma longa pausa. Devlin, em seguida, sorriu:

— Aposto que o senhor tinha uma esquerda pesada nos seus bons tempos.

— Ainda tenho, rapaz — disse Garvald, cerrando o punho. — A melhor deste ramo de negócio.

— Muito bem — concordou Devlin. — Inclua duzentos e vinte litros de gasolina em latas do Exército e o negócio está feito.

Garvald estendeu a mão.

— Feito. Vamos tomar um drinque para comemorar. O que prefere?

— Uísque irlandês, se tiver. Bushmills é o preferido.

— Eu tenho tudo, rapaz. Tudo e mais tudo. — Estalou os dedos. — Reuben, que tal um pouco daquele Bushmills para o nosso amigo?

Reuben hesitou, zangado, de cara amarrada. Em voz baixa e perigosa, Garvald repetiu:

— O Bushmills, Reuben.

O irmão dirigiu-se para o armário e abriu-o, revelando dezenas de garrafas.

— O senhor se trata bem — observou Devlin.

— É a única maneira. — Garvald tirou um charuto de uma caixa na mesa ao lado. — Quer que a entrega seja feita em Birmingham ou em outro lugar?

— Perto de Peterborough. No Al, seria ótimo — disse Devlin.

Reuben entregou-lhe um copo,

— Você é um bocado exigente, não?

Garvald interrompeu-o:

— Não, está bem. Conhece Norman Cross? Fica no Al, a uns oito quilômetros de Peterborough. Há uma garagem, chamada Fogarty, a uns três quilômetros à margem da estrada. Está fechada no momento.

— Eu a encontrarei — disse Devlin.

— Quando quer que seja feita a entrega? .

— Quinta-feira, 28, e sexta-feira, 29. Levarei o caminhão, o compressor e as latas de gasolina na primeira noite, e o jipe na segunda.

Garvald franziu levemente o cenho.

— Você quer dizer que está fazendo todo isso sozinho?

— Exatamente.

— Muito bem. Que hora acha melhor?

— À noite. Digamos de nove a nove e trinta.

— E o dinheiro?

— Pode ficar com esses quinhentos, por conta. Setecentos e cinqüenta quando eu receber o caminhão, o mesmo com o jipe, e quero as licenças de entrega de cada um deles.

— Quanto a isso, não há problema — disse Garvald. — Mas da licença precisam constar a finalidade e o destino.

— Eu mesmo preencherei isso quando as receber.

Garvald inclinou devagar a cabeça, pensativo.

— Isso me parece bem. Certo, está feito. Que tal outro trago?

— Não, obrigado — retrucou Devlin. — Tenho que ir a outros lugares.

Apanhou a capa molhada e abotoou-a rapidamente. Garvald levantou-se, dirigiu-se ao armário e voltou com a garrafa recém-aberta de Bushmills.

— Aceite isso. Simplesmente para mostrar que não há rancor.

— Isso seria a última coisa em que eu pensaria — disse-lhe Devlin. — Mas, de qualquer maneira, obrigado. Também tenho um pequeno presente, em retribuição. — Tirou do bolso interno do paletó a outra metade da nota de cinco libras. — É sua, acho.

Garvald aceitou-a e sorriu.

— Você tem a coragem do próprio demônio, sabia disso, Murphy?

— Já me disseram isso antes.

— Muito bem. Nós o encontraremos em Norman Cross no dia 28. Leve-o até a porta, Reuben. E cuidado com suas maneiras.

Reuben dirigiu-se mal-humorado para a porta, abriu-a e saiu. Devlin seguiu-o, mas virou-se enquanto Garvald voltava para a poltrona.

— Mais uma coisa, Sr. Garvald.

— O quê?

— Eu cumpro minha palavra.

— É bom saber disso.

— Ê bom que cumpra a sua, também. — Não sorria nesse momento e sustentou o olhar de Garvald antes de sair.

Garvald levantou-se, dirigiu-se ao armário, serviu-se de outro uísque, voltou à janela e olhou para o pátio embaixo. Devlin tirou a moto do descanso e deu partida ao motor. A porta foi aberta nesse momento e Reuben entrou. Estava realmente enfurecido.

— O que foi que deu em você, Ben? Não compreendo. Deixou esse irlandesinho, ainda fedendo a turfeiras, pisar em você. Você agüentou mais dele do que já o vi agüentar de qualquer pessoa.

Garvald observou Devlin entrar na estrada principal e mergulhar no aguaceiro.

— Ele tem alguma coisa em mente, Reuben, meu rapaz — disse suavemente. — Alguma coisa boa e rendosa.

— Mas por que os veículos do Exército?

— Há nisso um bocado de possibilidades. Poderia ser quase qualquer coisa. Lembra-se daquele caso em Shropshire na outra semana? Uns caras vestidos de soldados, em caminhões do Exército, entraram em um grande depósito da naafi e saíram com uísque no valor de trinta mil libras. Imagine só o que vale isso no câmbio negro.

— Acha que ele está pretendendo fazer algo parecido?

— Tem que estar— disse Garvald. — E o que quer que seja, eu estou no negócio, goste ele ou não. — Sacudiu a cabeça numa espécie de espanto. — Sabe de uma coisa? Ele me ameaçou. A mim! Nós não podemos tolerar isso, não é?

Embora a tarde ainda estivesse pela metade, a luz começava a desaparecer no momento em que Koenig embicou o barco-patrulha para a baixa costa. Mais além, nuvens de tempestade alteavam-se no céu, pretas, inchadas, com contornos rosados.

Müller, curvado sobre a mesa de jogo, observou:

— Dentro de pouco tempo, vai cair uma tempestade feia, Herr Leutnant. — Koenig olhou pela vigia.

— Ela demora ainda quinze minutos. Por essa ocasião, estaremos lá.

O trovão ribombou agourento, o céu escureceu e a tripulação, à espera no tombadilho pela primeira visão de seu destino, permaneceu estranhamente quieta.

— Eu não os censuro — disse Koenig. — Que lugar mais horrível, depois de St. Helier.

Por trás da linha de dunas, a terra era plana e despojada, varrida pelo vento constante. À distância, viu a casa da fazenda e os negros hangares na pista, contra o pálido horizonte. O vento roçou a água e Koenig reduziu a velocidade ao aproximar-se da ilhota.

— Leve-a para dentro, Erich.

Müller tomou o leme. Koenig vestiu um velho casaco de piloto, saiu para o tombadilho e acendeu um cigarro, encostado à amurada. Sentia-se estranhamente deprimido. A viagem fora péssima, mas, em certo sentido, seus problemas apenas começavam. O pessoal com quem ia trabalhar, por exemplo. Isso era de crucial importância. No passado, tivera algumas experiências infelizes em situações semelhantes.

Pareceu nesse momento que o céu era fendido de alto a baixo, e a chuva começou a cair em torrentes. Quando deslizavam para o cais de concreto, um carro apareceu no caminho entre as dunas. Müller parou os motores e inclinou-se na vigia, berrando ordens. Enquanto a tripulação se atarefaya para ancorar o barco, o carro de reconhecimento aproximou-se do cais e freou. Steiner e Ritter Neumann desceram e caminharam até a beira da água.

— Olá, Koenig. Então, você conseguiu — disse, alegre, Steiner. — Bem-vindo a Landsvoort.

Koenig, a meio caminho na escada, ficou tão espantado que errou o pé e quase caiu na água.

— O senhor, Herr Oberst!. . . — Mas, quando começou a compreender as implicações, prorrompeu numa gargalhada. — E eu estava me preocupando como o diabo com as pessoas com quem ia trabalhar.

Subiu atabalhoado a escada e agarrou a mão de Steiner.

Às quatro e meia, Devlin passou pela aldeia e pela Studley Arms. Ao cruzar a ponte, ouviu um som de órgão e notou luzes mortiças nas janelas da igreja, pois não era noite ainda. Joanna Grey lhe dissera que a missa da noite era realizada à tarde para evitar o blackout. Subindo a colina, lembrou-se da observação de Molly Prior. Sorrindo, parou ao lado da igreja. Sabia que ela estava ali, pois viu o cavalo pacientemente à espera entre os varais da carroça, com a cabeça enfiada em um embornal de ração. Viu também dois carros, uma camioneta e várias bicicletas.

Quando abriu a porta, o Padre Vereker descia a coxia, acompanhado de três coroinhas,vestidos com batinas escarlates e sobrepelizes brancas, um deles carregando um balde de água benta, que. Vereker aspergia sobre as cabeças dos fiéis, purificando-os do pecado. “Asperges me”, entoava ele. Devlin tomou uma passagem à direita e sentou-se em um banco.

Não havia mais de dezessete ou dezoito fiéis na igreja. Viu Sir Henry, uma mulher que era presumivelmente sua esposa e uma moça de cabelos escuros, de uns vinte anos, vestida com o uniforme do Corpo Auxiliar Feminino da Força Aérea, que lhes fazia companhia e que era obviamente Pamela Vereker. George Wilde encontrava-se presente com a esposa. Laker Armsby estava ao lado deles, muito escovado em um duro colarinho branco e um antigo, terno preto.

Molly Prior, do outro lado da coxia, estava sentada ao lado da mãe, uma mulher de meia-idade, aparência agradável e face bondosa. Molly usava um chapéu de palha enfeitado com flores artificiais, com a pala inclinada sobre um olho, e um vestido florido de algodão, com um corpinho bem apertado e saia bastante curta. Ao lado, o casaco bem dobrado sobre o banco.

“Aposto que ela usa aquele vestido há pelo menos três anos”, pensou Devlin. A moça virou-se de súbito e viu-o. Não sorriu. Simplesmente fitou-o por um segundo e desviou os olhos.

Vereker, em suas desbotadas vestes sacerdotais, de mãos postas, iniciava a missa. “Confesso a Deus todo-poderoso, e a vós, irmãos e irmãs, que pequei por minha própria culpa.”

Bateu no peito e Devlin, consciente de que os olhos de Molly Prior haviam girado sob a pala do chapéu para observá-lo, por brincadeira entrou na coisa, pedindo à Santíssima Virgem Maria, a todos os anjos, santos e ao resto dos fiéis que rogassem por ele a Deus todo-poderoso.

Quando Molly se ajoelhou, pareceu a Devlin que descia em câmara lenta, erguendo a saia talvez uns quinze centímetros. Foi obrigado a prender o riso ante a afetação daquele gesto. Mas ficou logo sério quando viu os olhos alucinados de Arthur Seymour brilhando nas sombras ao lado de uma pilastra distante.

Terminada a missa, Devlin procurou ser o primeiro a sair. Já estava montado na moto e pronto para partir quando a ouviu.

— Sr. Devim, espere só um minuto.— Voltou-se enquanto ela corria para ele, com uma sombrinha sobre a cabeça, acompanhada a alguns passos pela mãe. — Não tenha tanta pressa em ir embora — disse Molly. — Está envergonhado por algum motivo?

— Estou muito satisfeito por ter vindo — garantiu-lhe Devlin.

Se ela corou ou não, ele não soube, porque a luz era má. De qualquer modo, a mãe da moça chegou nesse momento.

— Esta é minha mãe — disse Molly. — E este é o Sr. Devlin.

— Sei de tudo a seu respeito — disse a Sra. Prior. — Se precisar de alguma coisa, basta pedir. Ê difícil para um homem morar sozinho.

— Nós pensamos que talvez o senhor quisesse ir tomar chá conosco — sugeriu Molly.

Atrás delas, Devlin viu Arthur Seymour ao lado do portão coberto, olhando-o furioso.

— É muita bondade sua, mas, para ser honesto, eu não estou em condições.

A Sra. Prior estendeu a mão para tocá-lo.

— Deus nos ajude, rapaz, mas você está encharcado. Vá para casa e meta-se logo num banho quente. Pode apanhar uma doença grave.

— Ela tem razão — disse, feroz, Molly. — Vá logo e faça como ela disse.

Devlin acionou o pedal de partida.

— Deus me defenda desse monstruoso regimento de mulheres — disse, e partiu.

Um banho era impossível. Seria preciso muito tempo para esquentar a água na cozinha dos fundos. Escolheu um meio-termo e acendeu um imenso fogo de achas de lenha na lareira de pedra. Tirou a roupa, esfregou-se vivamente com uma toalha e vestiu uma camisa azul-marinho e calças de lã escuras.

Estava com fome, mas também cansado demais para fazer alguma coisa a esse respeito. Em vista disso, apanhou um copo e a garrafa de Bushmills que Garvald lhe dera, escolheu um livro, sentou-se na velha cadeira de balanço, estendeu os pés para a lareira e começou a ler à luz do fogo. Aproximadamente meia hora depois, sentiu um vento frio na nuca. Não ouvira o som do ferrolho, mas sabia que ela estava ali.

— Por que demorou? — perguntou ele, sem se voltar.

— Muito inteligente. Acho que poderia ter dito outra coisa depois de eu ter andado uns dois quilômetros por esses campos molhados, na escuridão, para lhe trazer a ceia.

Aproximou-se do fogo. Usava a velha capa, as botas Wellington, um pano na cabeça e trazia uma cesta na mão.

— Bolo de carne e batata, mas acho que você já jantou, não?

— Não continue. — Ele gemeu alto. — Simplesmente, ponha-o logo no fogo.

Ela pôs a cesta no chão, tirou as botas e abriu a capa. Por baixo, usava o vestido com motivos florais. Tirou o cachecol e sacudiu ã cabeça.

— Isso é melhor. O que você está lendo?

Ele entregou-lhe o livro.

— Poesia — disse. — De um irlandês cego, chamado Raftery, que viveu há muito tempo.

Ela examinou a página à luz do fogo.

— Mas não consigo entender — disse. — Está em língua estrangeira.

— Irlandês — disse ele. — A língua dos reis. — Tomou-lhe o livro e leu:

Anois.teacht an Earraigh,beidh an la dul chun sineadh,

is tar feile Bride, ardochaidt me mo sheol. . .

(. . .Agora, na primavera, encompridam-se os dias.

Na festa de Bridget, minha vela içarei.

Decidida minha jornada, mais firme será meu passo,

Até que, mais uma vez, eu pise as planícies de Mayo. . .)

— Isso é belo — disse ela. — Realmente belo. — Sentou-se no tapete de palha ao lado dele, encostou-se à cadeira e tocou-lhe o braço com a mão.                             .

— É desse lugar que você vem? Mayo?

— Não — respondeu ele, conservando com alguma dificuldade a voz firme. — Sou de um lugar muito mais ao norte, mas Raftery teve a idéia certa.

— Liam — disse ela. — O nome é irlandês, também?

— Sim, madame.

— O que é que significa?

— William.

— Não, acho que prefiro Liam. — Ela franziu o cenho. — Quer dizer, William é tão comum.

Devlin conservou o livro na mão esquerda e segurou o cabelo dela, por trás, com a direita.

— Jesus, José e Maria, ajudem-me.

— O que você quer dizer com isto? — perguntou ela, toda inocência.

— Significa, minha querida, que, se não tirar aquele bolo do fogo e colocá-lo num prato neste exato momento, eu não serei responsável por mim mesmo.

Ela riu de súbito, profundamente, um riso gutural, e inclinou por um momento a cabeça sobre o joelho.

— Oh, gosto mesmo de, você — disse. — Sabia disso? Desde o primeiro momento em que o vi, Sr. Devlin, sentado na moto, do lado de fora do bar, gostei de você.

Ele gemeu, fechando os olhos. Ela se ergueu, puxou a saia sobre os quadris e tirou o bolo do fogo.

Ao acompanhá-la pelos campos até em casa, deixara de chover, as nuvens haviam sido tangidas pelo vento e o céu tremeluzia de estrelas. O vento frio açoitava as árvores sobre suas cabeças e os cobria de pequenos galhos. Devlin levava o rifle ao ombro. Ela se pendurava no seu braço esquerdo.

Não haviam conversado muito após a refeição. Ela pedira que ele lesse mais poesia, encostada nele, com um joelho erguido. Fora infinitamente pior do que ele poderia ter imaginado. Aquilo não estava absolutamente em seu esquema. Dispunha de três semanas, só isso, tinha muita coisa a fazer e não havia tempo para distrações.

Chegaram à cerca da fazenda e pararam junto ao portão.

— Eu estava pensando. Na quarta-feira à tarde, se você não tiver o que fazer, poderia ajudar-me um pouco no está-bulo. Parte da maquinaria precisa ser guardada por causa do inverno. Ê um pouco pesada para mamãe e para mim. Você poderia jantar conosco.

Teria sido grosseiro recusar.

— Por que não? —disse ele.

Ela estendeu a mão, segurando-lhe a nuca, puxou-lhe a face e beijou-o com uma urgência feroz, apaixonada, inexperiente, incrivelmente comovente. Usava alguma lavanda, muito suave, com certeza a melhor que podia comprar. Ele se lembraria disso durante o resto da vida.

Encostou-se nele e Devlin disse-lhe suavemente ao ouvido:

— Você tem dezessete anos e eu sou um velho de trinta e cinco. Você já pensou nisso?

Ela ergueu olhos cegos para ele.

— Oh, você é encantador — disse. — Tão encantador!

Palavras tolas, banais, ridículas em outras circunstâncias, mas não naquele momento. Nunca mais. Beijou-a novamente, bem de leve, nos lábios.

— Entre!

Ela foi embora sem fazer nada para protestar, acordando apenas as galinhas quando atravessou o pátio da fazenda. Em algum local, no outro lado da casa, um cão latiu e uma porta bateu. Devlin deu a volta e iniciou a marcha para casa.

Começou a chover outra vez quando costeou o último prado ao norte da estrada principal. Cruzou para o caminho do dique em frente, onde havia um velho cartaz de madeira, Hobs End Farm, que ninguém julgara valer a pena retirar. Continuou a difícil caminhada, com a cabeça baixa para se defender da chuva. Inesperadamente, ouviu um farfalhar nos caniços à direita e uma figura saltou à sua frente.

A despeito da. chuva, o banco de nuvens era fino e, à luz da lua em quarto minguante, reconheceu Arthur Seymour, agachado no caminho.

— Eu lhe disse — rugiu ele. — Eu lhe avisei, mas você não quis ouvir. Agora, vai ter que aprender da maneira dura.

Devlin tirou o rifle do ombro em um segundo. Não estava carregado, mas isso não importava. Puxou os cães do gatilho para trás com um claro e audível estalido duplo e enfiou o cano sob o queixo de Seymour.

— Agora, tenha cuidado — disse ele—, porque eu tenho licença de atirar em animais por aqui, licença dada pelo próprio fidalgo, e você está na propriedade dele.

Seymour saltou para trás.

— Pegarei você, pode ter certeza. E aquela putinha suja. Vocês dois vão me pagar.

Voltou-se e mergulhou na noite. Devlin pôs outra vez o rifle no ombro e dirigiu-se para o bangalô, cabeça baixa contra a chuva, que aumentara de intensidade. Seymour era louco — bem, não inteiramente; apenas irresponsável. Não se importava em absoluto com as ameaças, mas pensou em Molly, e seu estômago contraiu-se.

— Meu Deus — disse baixinho —, se ele lhe fizer mal, eu mato o safado. Mato o safado.

 

A carabina-metralhadora Sten foi, com toda a probabilidade, a arma produzida em maior quantidade na Segunda Guerra Mundial e constituiu o equipamento de confiança da maior parte da infantaria britânica. Pode ter parecido desengonçada e grosseira, mas suportava tratamento mais rude do que qualquer outra arma de seu tipo. Era desmontada em segundos e podia ser colocada numa bolsa ou nos bolsos de um sobretudo — fato esse que a tornou de valor inestimável para vários grupos europeus de resistência, para os quais era enviada de pára-quedas pelos britânicos. Podia cair na lama e ser pisada, mas, ainda assim, matava com a mesma eficiência da metralhadora Thompson, muito mais cara.

A versão mk iis foi especialmente desenvolvida para ser empregada por unidades de comando e era equipada com um silenciador que absorvia em espantoso grau o som das detonações. O único som, quando disparada, era o recuo do percussor e ele mal podia ser ouvido além de uns vinte metros.

A arma que o Primeiro-Sargento Willi Scheid tinha nas mãos no improvisado estande de tiro nas dunas de areia de Landsvoort na manhã de quarta-feira, 20 de outubro, era um modelo de série. No fim do estande havia uma fileira de alvos, réplicas em tamanho natural de Tommis atacantes. Ele esvaziou o pente nos primeiros cinco, atirando da esquerda para a direita. Constituía uma estranha experiência ver as balas estraçalharem o alvo e ouvir apenas o estalido do percussor. Steiner e o resto da pequena força de assalto, em semicírculo atrás do sargento, ficaram devidamente impressionados.

— Excelente! — exclamou Steiner estendendo a mão, na direção em que Scheid depositara a arma. — Realmente excelente! — Examinou-a e passou-a a Neumann. Este soltou uma inesperada imprecação.

— Diabo, o cano está quente.

— Isso mesmo, Herr Oberleutnant — disse Scheid. — É preciso ter cuidado e segurar apenas a bainha isolante de lona. Os tubos silenciadores aquecem-se rapidamente quando a arma é disparada em pleno automático.

Scheid, do Deposito de Material Bélico de Hamburgo, era um homem pequeno, bem insignificante, de óculos de aro de aço, e usava o uniforme mais surrado que Steiner jamais vira na vida. Aproximou-se de um cobertor, sobre o qual estavam depositadas várias armas.

— A submetralhadora Sten, tanto na versão silenciosa como na normal, será a pistola-metralhadora que os senhores usarão. Quanto à metralhadora leve, será a Bren. Não é uma arma para finalidade geral tão boa como a nossa MG-42, mas é uma excelente arma para uma seção de metralhadoras. Dispara tiros isolados ou rajadas de quatro ou cinco e, assim, é muito econômica e precisa.

— O que me diz dos fuzis? — perguntou Steiner.

Mas antes que Scheid pudesse responder, Neumann deu-­lhe uma pancadinha no ombro e o coronel voltou-se a tempo de ver o Stork aparecer voando baixo, vindo na direção de Ijsellmeer, e fazer a volta para a primeira passagem sobre a pista.

— Vou assumir o comando por um momento, sargento. — Virou-se para seus homens. — De agora em diante, o que o Primeiro-Sargento Scheid disser, vale. Vocês têm duas semanas e, quando ele houver terminado de trabalhar com vocês, espero que possam desmontar essas armas, e montá-las, de olhos fechados. — Lançou um olhar a Brandt. — Qualquer ajuda que ele precisar, providencie para que a receba, sim?

Brandt tomou posição de sentido.

— Herr Oberst.

— Ótimo. — O olhar de Steiner pareceu abarcar individualmente cada homem. — Durante a maior parte do tempo, o Oberleutnant Neumann e eu estaremos com vocês. E não se preocupem. Saberão dentro em breve qual a missão, isso eu lhes prometo.

Brandt ordenou posição de sentido. Steiner retribuiu a continência e dirigiu-se apressado para o carro de reconhecimento, estacionado próximo, acompanhado por Neumann. Tomou o assento do passageiro. Neumann sentou-se ao volante e deu a partida. Ao se aproximarem da entrada principal do campo, o policial militar de serviço fez uma continência desajeitada, segurando o cão de guarda, que rosnava, com a outra mão.

— Um desses dias, esse bruto vai soltar-se e, para ser franco, acho que ele não sabe de que lado está — disse Neumann.

O Stork baixou e fez um excelente pouso. Quatro ou cinco soldados da Luftwaffe correram em um pequeno caminhão para recebê-lo. Neumann seguiu no carro de reconhecimento e parou a alguns metros do Stork. Steiner acendeu um cigarro enquanto esperava o desembarque de Radl.

— Ele trouxe alguém com ele — disse Neumann.

Steiner ergueu os olhos com o cenho franzido, quando Max Radl aproximou-se com um alegre sorriso nos lábios. _      

— Kurt, como vai a coisa? — perguntou, com a mão estendida.

Steiner, porém, estava mais interessado em seu companheiro, o alto e elegante jovem com o distintivo da caveira no quepe.

— Quem é este seu amigo, Max? — perguntou, baixinho.

Radl sorriu, desajeitado, ao fazer a necessária apresentação:

— Coronel Kurt Steiner. . . o Untersturmführer Harvey Preston, do Corpo Livre Britânico.

Steiner convertera a velha sala de estar da fazenda no centro nervoso de toda a operação. Mandara instalar numa extremidade dois beliches militares para ele e Neumann, e duas grandes mesas no centro, que estavam nesse momento cobertas de mapas e fotos de Hobs End e da área geral de Studley Constable. Havia ainda uma maqueta tridimensional, de belo acabamento, mas ainda apenas pela metade. Radl curvou-se interessado sobre ela, com um cálice de conhaque na mão. Ritter Neumann encontrava-se do outro lado da mesa e Steiner passava de um lado para outro em frente à janela, fumando como uma chaminé.

— Esse modelo é realmente soberbo —; disse Radl. — Quem o está fazendo?

— O soldado Klugl — informou-lhe Neumann. — Acho que ele era artista antes da guerra.

Steiner voltou-se, impaciente.

— Vamos continuar tratando do assunto em pauta, Max. Você espera seriamente que eu leve. . . aquele objeto para lá?

— É idéia do Reichsführer, não minha — disse mansamente Radl. — Em assuntos como esse, meu querido Kurt, eu cumpro ordens. Não as dou.

— Mas ele deve estar louco.

Radl inclinou a cabeça e dirigiu-se para o aparador, onde se serviu de mais conhaque.

— Acho que isso foi sugerido antes.

— Muito bem — disse Steiner. — Vamos examinar o caso de um ângulo inteiramente prático. Para que tenha êxito, a missão precisará de um conjunto altamente disciplinado de homens que possam mover-se como uma unidade, pensar como uma unidade, agir como uma unidade, e é exatamente isso o que temos. Esses meus rapazes foram até o inferno e voltaram. Creta, Leningrado, Stalingrado, e alguns lugares nos intervalos, e estive com eles durante todo o tempo. Max, há ocasiões em que eu nem preciso dar uma ordem em voz alta.

— Aceito isso sem ressalvas.

— Neste caso, como diabo espera você que eles trabalhem com um estranho nesta fase, especialmente um homem como Preston? — Apanhou o arquivo que Radl lhe dera e sacudiu-o. — Um criminoso ordinário, um poseur que age assim desde o dia em que nasceu, mesmo para si mesmo. — Lançou a pasta sobre a mesa, enojado. — Ele nem mesmo sabe o que é vida militar.

— O que é mais pertinente no momento, ou assim me parece — interrompeu-o Ritter Neumann —, é que ele nunca saltou de um avião em sua vida.

Radl tirou um de seus cigarros russos e Neumann acendeu-o para ele,                                       .

— Estou pensando, Kurt, se por acaso você não está deixando que suas emoções o dominem neste assunto.

— Muito bem — disse Steiner. — Então, minha metade americana odeia esse cara porque ele é um traidor e um vira-casaca e minha metade alemã tampouco o aprecia. — Em desespera, sacudia a cabeça. — Escute, Max, você tem alguma idéia do que é o treinamento para o salto? — Voltou-se para Neumann: — Diga-lhe, Ritter.

— São necessários seis saltos para que o candidato ganhe o distintivo de pára-quedista e, depois disso, nada menos de seis por ano se quer conservá-lo — explicou Neumann. — E isso aplica-se a todos, do soldado ao general. A gratificação de salto é de sessenta e cinco a cento e vinte Reichsmarks por mês, de acordo com, a patente.

— E daí? — perguntou Radl.

— Para ganhá-lo, o homem tem que treinar em terra durante dois meses e fazer o primeiro salto-solo de uma altura de duzentos metros. Depois disso, cinco saltos em grupos, em condições variáveis de luz, inclusive à noite, reduzindo-se sempre a altitude e, então, o grande final. Nove aviões cheios, lançando a tropa em formação de batalha de uma altura de cento e trinta metros.

— Deveras impressionante — comentou Radl. — Por outro lado, Preston tem que saltar apenas uma vez, reconhecidamente à noite, mas numa praia grande e isolada. Uma zona de lançamento perfeita, como vocês mesmos o reconheceram. Acho que não é totalmente impossível que o treinem o suficiente para essa única ocasião.

Em desespero, Neumann voltou-se para Steiner:

— O que mais posso dizer?

— Nada — disse Radl —, porque ele vai. Vai porque o Reichsführer pensa que é uma boa idéia.

— Pelo amor de Deus—disse Steiner. — É impossível, Max. Você não pode compreender isso?

— Vou voltar a Berlim amanhã — respondeu Radl. — Venha comigo e diga-lhe isso você mesmo, se é assim que pensa. Ou prefere não ir?

Steiner empalidecera.

— Diabos o levem, Max, você sabe que não posso, e por quê. — Durante um momento pareceu ter dificuldade em falar. — Meu pai. . . Ele está bem? Viu-o?

— Não — replicou Radl. — Mas o Reichsführer deu-me ordens para dizer-lhe que você tem a garantia pessoal dele nesse assunto.

— E que diabo isso significa? — Steiner aspirou profundamente e sorriu, irônico. — Mas eu sei de uma coisa. Se pudermos seqüestrar Churchill. . . que agora posso muito bem lhe dizer que é homem que sempre admirei pessoalmente, e não apenas porque nós dois tivemos uma mãe americana. . . poderemos saltar também sobre o quartel-general da Gestapo em Prinz Albrechtstrasse e agarrar aquele merda no momento que quisermos. Por falar nisso, é uma boa idéia. — Sorriu alegre para Neumann. — O que você acha, Ritter?

— Então, vai levá-lo? — perguntou, ansioso, Radl. — Preston, quero dizer?

— Oh, vou levá-lo, sim — retrucou Steiner. — Só que, quando eu terminar, ele vai desejar nunca ter nascido. — Voltou-se para Neumann. — Muito bem, Ritter, traga-o e vou dar-lhe uma ligeira idéia sobre o que é o inferno.

À época em que trabalhava numa companhia teatral, Harvey Preston havia certa vez desempenhado o papel de um jovem e bravo oficial britânico nas trincheiras, durante a Primeira Guerra Mundial, naquela grande peça, Journe’s end. Era um jovem veterano, cansado da guerra, mais velho do que seus anos de vida e capaz de enfrentar a morte com um sorriso irônico e um copo erguido, pelo menos simbolicamente, na mão direita. Quando o telhado do abrigo finalmente desmoronava e a cortina caía, o cara simplesmente se levantava e voltava ao camarim para enxugar o sangue.

Mas não agora. Isto estava realmente acontecendo, apavorante em suas implicações, e, de súbito, ele se sentiu doente de medo. Não que houvesse perdido a fé na capacidade da Alemanha de vencer a guerra. Acreditava nisso sem reservas. Apenas preferia estar vivo para presenciar o glorioso dia.

No frio do jardim, andava nervoso de um lado para outro, fumando e esperando impaciente por algum sinal de vida vindo da casa da fazenda. Tinha os nervos abalados. Steiner apareceu à porta da cozinha.

— Preston — chamou ele em inglês. — Venha aqui.

Voltou-se sem outra palavra. Ao entrar na sala de estar, Preston encontrou Steiner, Radl e Ritter Neumann em volta da mesa de mapas.

— Herr Oberst — começou ele.

— Cale-se! — disse-lhe, friamente, Steiner. Inclinou a cabeça para Radl. — Dê-lhe as ordens.

Em tom formal, Radl começou:

— Untersturmführer Harvey Preston, do Corpo Livre Britânico, a partir deste momento deve considerar-se sob o total e absoluto comando do Tenente-Coronel Steiner, do Regimento de Pára-Quedistas. Isto por ordem direta do Reichsführer Heinrich Himmler. Compreendeu?

No que se referiu a Preston, Radl bem que podia estar usando o capuz preto do carrasco, pois suas palavras foram como uma sentença de morte. Apareceu suor em sua testa quando se voltou, para Steiner e gaguejou:

— Mas, Herr Oberst, eu nunca saltei de pára-quedas.

— Esta é a menor de suas deficiências — disse-lhe, sombrio, Steiner. — Mas cuidaremos de todas elas, pode ficar certo disso.

— Herr Oberst, eu tenho que protestar. . . — começou Preston, mas Steiner interrompeu-o, como um machado que caía.

— Cale a boca e bata os calcanhares. No futuro, fale apenas quando lhe falarem, e não antes. — Deu a volta por trás de Preston, que nesse momento se encontrava em rigorosa posição de sentido. — Tudo o que você é, no momento, é excesso de bagagem. Você não é nem mesmo soldado, é apenas um uniforme bonito. Teremos que ver se podemos mudar isso, não? — Caiu um silêncio e ele repetiu a pergunta baixinho no ouvido de Preston: — Não?

Conseguiu dar à voz um tom de infinita ameaça, e Preston respondeu, apressado:

— Sim, Herr Oberst.

— Ótimo, Assim, agora nos entendemos. — Steiner deu a volta e postou-se outra vez à frente dele. — Ponto número um: no momento, as únicas pessoas em Landsvoort que conhecem a finalidade desta missão somos nós quatro nesta sala. Se alguém, por uma palavra descuidada de sua parte, descobrir isto, eu o matarei pessoalmente. Compreendido?

— Sim, Herr Oberst.

— No tocante ao posto, você no momento deixa de tê-lo. O Tenente Neumann providenciará para que você receba um macacão de pára-quedista e equipamento de salto. Você, por conseguinte, não se distinguira do resto de seus camaradas, com quem fará o treinamento. Naturalmente, no seu caso, haverá certo trabalho adicional, mas chegaremos a esse ponto mais tarde. Alguma pergunta?

Os olhos de Preston ardiam e ele mal podia respirar, tão grande era sua raiva. Suavemente, disse-lhe Radl:

— Naturalmente, Herr Untersturmführer, o senhor poderá sempre voltar comigo para Berlim, se insatisfeito, e tratar pessoalmente do assunto.com o Reichsführer.

Em um murmúrio sufocado, respondeu Preston:

— Nenhuma pergunta.

— Ótimo. — Steiner voltou-se para Ritter Neumann. — Mande equipá-lo e, em seguida, entregue-o a Brandt. Eu lhe falarei mais tarde sobre seu programa de treinamento. — Inclinou a cabeça para Preston: — Muito bem. Está dispensado.

Preston não fez a saudação do Partido Nazista porque, de súbito, lhe ocorreu que o gesto não seria certamente apreciado. Em vez disso, prestou continência e cambaleou para fora. Ritter Neumann sorriu alegre e seguiu-o.

No momento em que a porta foi fechada, disse Steiner:

— Depois disso, eu preciso mesmo de um drinque. — E dirigiu-se para o aparador, onde se serviu de um conhaque.

— Isso dará certo, Kurt? — perguntou Radl.

— Quem sabe? — Steiner sorriu feroz. — Com sorte, ele pode quebrar uma perna durante o treinamento. — Tomou um pouco do conhaque. — De qualquer maneira, passemos a coisas mais importantes. Como está indo Devlin no momento? Alguma notícia?

No seu pequeno quarto na casa de fazenda ao norte do pântano; em Hobs End, Molly Prior procurava tornar-se apresentável para Devlin, que devia chegar a qualquer momento para, o prometido jantar. Despiu-se apressada e, de calcinha e sutiã, examinou-se criticamente durante um momento em frente ao espelho. A roupa de baixo era elegante e limpa, mas mostrava sinais de numerosos consertos. Bem, isso não tinha nada de mais e acontecia com todo mundo. Nunca havia cupons suficientes para a compra de roupas. O que importava era o que estava dentro e isso não era tão mau assim. Seios bonitos, e firmes, quadris torneados e boas coxas.

Colocou a mão no ventre, pensou em Devlin tocando-a daquela maneira e seu estômago contraiu-se. Abriu a gaveta superior da cômoda, tirou o seu único par de meias de seda, de antes da guerra, cerzidas numerosas vezes, e desenrolou-as com todo o cuidado. Apanhou em seguida no guarda-roupa o vestido de algodão que usara no sábado.

Enfiando-o pela cabeça, ouviu o som de uma buzina de carro. Espiou pela janela a tempo de ver um velho Morris penetrar no pátio, dirigido pelo Padre Vereker. Molly praguejou em voz baixa, puxou o vestido pela cabeça, rompendo uma costura na axila, e calçou os sapatos de domingo, com saltos de seis centímetros.

Descendo a escada, passou um pente no cabelo, fazendo uma careta quando ele se prendeu nos pontos emaranhados. Na cozinha, em companhia da mãe dela, Vereker voltou-se e cumprimentou-a com o que para ele era um sorriso surpreendentemente caloroso.

— Olá, Molly, como está você?

— Apressada e cansada, padre.— Amarrou um avental em volta da cintura e perguntou à mãe: — Aquele bolo de carne. . . Está pronto? Ele chegará a qualquer minuto.

— Ah, vocês estão esperando visita. — Vereker levantou-se, apoiado na bengala. — Estou atrapalhando. Má ocasião para vir aqui.

— Em absoluto, padre — respondeu a Sra. Prior. — É apenas o Sr. Devlin, o novo guarda de Hobs End. Ele vem jantar aqui, e depois nos ajudará no trabalho. Há alguma coisa de especial?

Vereker voltou-se e olhou especulativamente para Molly, notando o vestido e os sapatos. Uma carranca apareceu em seu rosto, como se ele desaprovasse o que via. Molly irritou-se. Pôs a mão esquerda no quadril e encarou-o, zangada.

— Era comigo que o senhor queria falar, padre? — perguntou em voz perigosamente calma.

— Não, era com Arthur que eu queria falar. Arthur Seymour. Ele ajuda na fazenda nas terças e quartas, não?

Ele mentia, e a moça sentiu isso no mesmo instante.

— Arthur Seymour não trabalha mais aqui, padre. Eu pensei que o senhor soubesse disso. Ou será que ele não lhe disse que o mandei embora?

Vereker tornou-se muito pálido. Não admitiria o fato, mas não estava disposto a mentir para ela, pessoalmente. Em vez disso, perguntou:

— Por que fez isso, Molly?

— Porque eu não o queria mais por aqui.

O padre voltou-se com ar interrogativo para a Sra. Prior. Ela pareceu desajeitada, mas encolheu os ombros:

— Ele não é boa companhia nem para gente nem para animal.

O padre cometeu um sério erro nesse momento, pois disse a Molly:       .

— A opinião na aldeia é de que ele foi tratado muito injustamente, que você devia ter um motivo para isso mais forte do que a simples preferência por um estranho. É duro para um homem que deu tanto de seu tempo e ajuda quando podia, Molly.

— Homem? — disse ela. — É isso o que ele é, padre? Nunca pensei que fosse. Pode dizer-lhe que eu falei que ele vivia enfiando a mão por baixo de minha saia e tentando apalpar-me. — Vereker empalideceu muito, mas ela continuou, impiedosa. — Naturalmente, o pessoal na aldeia pode pensar que isso está certo, pois ele sempre agiu assim com as mulheres desde que tinha doze anos e ninguém fez nada a respeito. E o senhor não parece estar sendo melhor do que eles.

— Molly! — exclamou a mãe, apavorada.

— Compreendo — disse Molly. — Não devemos insultar um padre dizendo-lhe a verdade. É isso que a senhora está tentando falar? — Havia desprezo em sua face quando ela olhou para Vereker. — Não me diga que não sabe como ele é. Ele nunca perde a missa aos domingos e, assim, o senhor deve ter-lhe ouvido a confissão com grande freqüência.

Ela desviou o olhar da fúria que luziu nos olhos do padre ao ouvir uma batida à porta. Alisou o vestido sobre os quadris enquanto ia apressada atender. No entanto, quando abriu a porta, não era Devlin, mas Laker Armsby, enrolando um cigarro ao lado do trator com que havia rebocado um trailer carregado de nabos. Ele sorriu, alegre.

— Onde é que você quer que ponha esta carga, Molly?

— Diabos o levem, Laker, você escolhe cada momento, não? No estábulo. Ê melhor que eu mesma lhe mostre, porque com certeza você vai fazer besteira.

Começou a atravessar o pátio, escolhendo o caminho com cuidado na lama, por causa dos sapatos. Laker seguiu-a.

— Você está danada de bem-arrumada para o jantar de hoje. Por que isso, Molly?

— Cuide de sua vida, Laker Armsby — respondeu ela —, e abra essa porta.

Laker inclinou para um lado a tranca e começou a abrir uma das grandes portas do estábulo. Viram Arthur Seymour do lado de dentro, com o boné descido sobre os olhos insanos e os maciços ombros forçando as costuras do velho casaco de oleado.

— Bem, o que há, Arthur? — disse, cauteloso, Laker.

Seymour empurrou-o para um lado e agarrou Molly pelo punho esquerdo, puxando-a para si.

— Entre aqui, sua puta. Quero falar com você.

Inutilmente, Laker segurou-lhe o braço.

— Ouça aqui, Arthur — disse. — Isso não é maneira de se comportar.

Seymour atingiu-o com as costas da mão, fazendo o sangue jorrar de seu nariz.

— Caia fora! — disse ele, e empurrou Laker, que se estatelou na lama.

— Solte-me! — gritou Molly, esperneando furiosamente.

— Oh, não — disse. Empurrou a porta e fechou-a com o ferrolho. — Nunca mais, Molly. — Agarrou-lhe os cabelos com a mão esquerda. — Agora, seja boazinha e eu não lhe farei mal. Não, enquanto você me der o que está dando àquele irlandês safado. — Os seus dedos procuravam-lhe a barra da saia.

— Você fede — disse ela. — Sabia disso? Como uma velha vaca que andou chafurdando na sujeira.

Abaixou-se e mordeu-lhe selvagemente o pulso. Ele gritou de dor, soltando a empunhadura, mas agarrou-a com a outra mão quando ela se voltou, rompendo o seu vestido. Ela correu para a escada do palheiro.

Devlin, atravessando o campo, vindo de Hobs End, chegou à crista do prado a tempo de ver Molly e Laker Armsby cruzando o pátio em direção ao estábulo. Um momento depois, Laker foi lançado para fora do estábulo, caiu de costas na lama e a porta foi fechada. Devlin lançou para o lado o cigarro e desceu correndo a colina.

No momento em que transpunha com um salto a cerca, o Padre Vereker e a Sra. Prior encontravam-se já à porta do estábulo. O padre batia na porta com a bengala.

— Arthur? — berrou ele. — Abra a porta. . . Acabe com essa loucura.

A única resposta foi um grito de Molly.

— O que está acontecendo?.— perguntou Devlin.

— É Seymour — disse Laker, apertando um lenço sangrento contra o nariz. — Prendeu Molly ali e fechou a porta.

Devlin lançou o ombro contra a porta, mas compreendeu logo que estava perdendo tempo. Olhou em desespero em volta ao ouvir outro grito de Molly e seus olhos pousaram no trator que estava onde Laker o deixara, com o motor ligado. Atravessou o pátio como um raio, subiu para o assento alto atrás do volante, engrenou a marcha com violência, acelerando de modo tão selvagem que o trator saltou para a frente, levando o trailer aos trambolhões e espalhando nabos pelo pátio como se fossem balas de canhão. Vereker, a Sra. Prior e Laker afastaram-se justamente um segundo antes de o trator colidir com a porta, estraçalhando-a e rolando irresistivelmente para a frente.

Devlin freou. Molly encontrava-se no palheiro. Seymour, embaixo, tentava recolocar a escada que ela havia obviamente empurrado para o lado. Devlin desligou o motor. Seymour voltou-se e fitou-o com uma estranha e aturdida expressão nos olhos.

— Agora, você vai pagar, seu canalha — disse Devlin.

Vereker entrou, coxeando:

— Não, Devlin, deixe isto comigo! — gritou e voltou-se pata Seymour: — Arthur, isso não está certo, está?

Seymour não deu a menor atenção a nenhum deles. Era como se não existissem. Voltou-se e começou a subir a escada. Devlin saltou do trator e, com um pontapé, deslocou a escada. Seymour caiu pesadamente ao chão. Ficou ali por um momento, sacudindo a cabeça. Em seguida, seus olhos clarearam.

No momento em que Seymour levantou-se, o Padre Vereker mergulhou para a frente.

— Bem, Arthur, eu lhe disse. . . — Foi tudo o que disse, porque Seymour lançou-o com tal violência para um lado que ele caiu.

— Vou matá-lo, Devlin!

Soltando um grito de raiva atacou, com as grandes mãos estendidas para destruir. Devlin desviou-se para um lado e o peso do movimento de Seymour levou-o até o trator. Devlin desfechou-lhe uma esquerda e uma direita nos rins e afastou-se gingando, enquanto Seymour gritava de dor.

Voltou com um rugido. Devlin fez uma finta para a direita e enfiou o punho esquerdo na feia boca, partindo-lhe os lábios e tirando sangue. Continuou com uma direita sob as costelas, que explodiu como um machado mordendo madeira.

Abaixou-se, evitando o soco seguinte de Seymour, e atingiu-o outra vez nas costelas.

— Jogo de pés, escolha do momento azado e ataque, esse é o segredo. Nós o chamávamos de A Santíssima Trindade, padre. Aprenda isso e herdará a terra com tanta certeza como os humildes. Vez por outra, um joguinho sujo também ajuda, naturalmente.

Deu um pontapé na rótula direita de Seymour e, quando o homenzarrão se dobrou em dois de dor, enfiou um joelho na face que descia, lançando-o pela porta na lama do pátio. Seymour levantou-se devagar e ficou ali como um touro atordoado no centro da arena, com a face coberta de sangue.

Devlin dançou à sua frente,

— Você não sabe quando cair, não é, Arthur? Isso mal surpreende num cara que tem um cérebro do tamanho de uma ervilha.

Mandou à frente o pé direito, escorregou na lama e caiu sobre um joelho. Seymour desfechou-lhe um atordoante murro na testa que o fez cair de costas. Molly gritou e correu, unhando a face de Seymour. Ele a empurrou para um lado e ergueu um pé para esmagar Devlin. O irlandês, porém, agarrou-o e virou-o, lançando-o- numa cambalhota outra vez para a porta do estábulo.

Quando ele se voltou, Devlin vinha a seu encontro, não mais sorrindo, mas, nesse momento, com a lívida expressão de assassino na face.

— Muito bem, Arthur. Vamos acabar com isso. Eu estou com fome.

Seymour tentou atacá-lo novamente e Devlin descreveu círculos, empurrando-o pelo pátio, não lhe dando pausa nem quartel, evitando-lhe os grandes golpes em arco e enfiando sem parar os nós dos dedos na face do adversário, até que ela se transformou numa máscara sangrenta.

Havia um velho cocho de zinco perto da porta dos fundos da casa e Devlin empurrou-o, impiedoso, para ele.

— Agora, quer-me ouvir, seu safado? — perguntou. —Toque naquela moça outra vez, faça-lhe qualquer mal, e eu mesmo o castrarei. Compreendeu o que eu disse? — Esmurrou-o outra vez sob as costelas e Seymour gemeu, deixando cair as mãos. — E no futuro, se estiver numa sala quando eu entrar, você se levanta e sai. Compreendeu isso, também?                                                        

Seu punho direito bateu duas vezes no queixo desprotegido e Seymour caiu sobre o cocho e rolou de costas.

Devlin ajoelhou-se e enfiou o rosto na água de chuva do cocho. Ergueu a cabeça e viu Molly, ajoelhada, ao lado, enquanto o Padre Vereker curvava-se sobre Seymour.

— Meu Deus, Devlin, você poderia tê-lo matado — disse o padre,

— Não esse cara — disse Devlin. — Infelizmente.

Como se quisesse provar que ele tinha razão, Seymour gemeu e tentou sentar-se. No mesmo momento, a Sra. Prior saiu da casa com uma espingarda de dois canos nas mãos.

— Leve-o daqui — disse ela a Vereker.— E diga-lhe, de minha parte, quando ele recuperar o juízo, que, se vier incomodar minha filha novamente, eu o matarei como a um cão, aconteça o que acontecer. . .

Laker Armsby mergulhou um velho balde esmaltado no cocho e esvaziou-o sobre Seymour.

— Aí tem, Arthur — disse, alegre. — O seu primeiro banho desde a Festa de São Miguel.

Seymour gemeu e agarrou-se ao cocho para se levantar.

— Ajude-me, Laker — disse o Padre Vereker e, juntos, levaram-no pelo pátio até o Morris.

Inesperadamente, a terra moveu-se sob os pés de Devlin, como o mar em vagalhões. Fechou os olhos, ouviu o grito de medo de Molly e sentiu seu forte e jovem ombro sob o braço e, logo depois, a presença da mãe dela do outro lado, levando-o para casa.

Recuperou os sentidos numa cadeira de cozinha junto ao fogo, com a face mais uma vez nos seios de Molly, enquanto ela lhe passava um pano úmido na testa.

— Pode parar agora — disse ele. — Estou bem.

Ela fitou-o, nervosa.

— Deus, eu pensei que ele ia quebrar seu crânio com aquele murro.

— É uma fraqueza minha — disse Devlin, notando-lhe a preocupação e tornando-se momentaneamente sério. — Depois de um período de forte tensão, eu às vezes perco os sentidos, apago como uma luz. Deve ser alguma coisa psicológica.

— O que é isso? —perguntou ela, confusa.

— Não tem importância — disse ele. — Simplesmente, deixe eu botar a cabeça num lugar onde eu possa ver o bico de seu seio direito.

Ela levou a mão à blusa rasgada e enrubesceu.

— Seu demônio.

— Como vê — comentou ele —, não há muita diferença entre Arthur e mim quando se trata disso.

Ela tocou com grande suavidade um local entre os olhos de Devlin.

— Nunca ouvi tamanha besteira de um homem feito em toda a minha vida.

A mãe entrou apressada na cozinha amarrando um avental limpo em torno da cintura.

— Meu Deus, rapaz, você deve estar com uma fome enorme depois daquela briguinha. Está pronto agora para seu bolo de carne e batata?

Devlin ergueu os olhos para Molly e sorriu.

— Muito obrigado, madame. Para dizer a verdade, acho que poderia dizer, com alguma dose de verdade, que estou pronto para tudo.

A moça abafou o riso, sacudiu um punho fechado sob o nariz de Devlin, e foi ajudar a mãe.

Era tarde da noite quando Devlin voltou a Hobs End. O pântano estava tranqüilo e em silêncio, como se houvesse uma ameaça de chuva e, no céu escuro, o trovão ribombava no horizonte distante. Fez uma longa volta para verificar as eclusas que controlavam a entrada da água na rede de canais e quando, finalmente, entrou no pátio, viu o carro de Joanna Grey estacionado junto à porta do bangalô. Ela usava o uniforme do Serviço Voluntário Feminino, e, encostada no muro, olhava pata o mar, enquanto o perdigueiro esperava, paciente, ao lado. Voltou-se para olhá-lo quando ele chegou. Notou a grande contusão na testa de Devlin, no local onde havia descido o punho de Seymour.

— Ferimento feio — comentou. — Tentou se suicidar?

— A senhora devia ter visto o outro cara — disse com um sorriso.

— Eu vi. — Ela sacudiu a cabeça. — Isso precisa acabar, Liam.

Ele acendeu um cigarro, abrigando a chama nas mãos fechadas.

— O que tem que acabar?

— Molly Prior. Você não está aqui para isso. Você tem um trabalho a fazer.

— Acabe com isso — disse ele. — Não tenho nada a fazer antes do meu encontro com Garvald no dia 28.

— Não seja tolo. Pessoas em lugares como este são as mesmas em todo o mundo, como você sabe. Desconfiam dos estranhos e cuidam de sua gente. Não gostaram do que você fez com Arthur Seymour.

— E eu não gostei do que ele tentou fazer com Molly. — Um tanto espantado, Devlin riu um pouco. — Que Deus tenha pena de vocês, mulheres, se metade do que Laker Armsby me contou esta tarde sobre Seymour é verdade. Deviam tê-lo trancafiado há anos e jogado a chave fora. Um numero grande demais de ataques sexuais, de um tipo ou de outro, e ele já aleijou pelo menos dois homens.

— Ninguém chama a polícia num lugar como este. Eles mesmos resolvem seus casos. — Sacudiu impaciente a cabeça. — Mas isso não nos está levando a parte alguma. Não podemos dar-nos ao luxo de alienar pessoas e, assim, deixe Molly em paz.

— Isso é uma ordem, madame?

— Não seja idiota. Estou fazendo um apelo ao seu bom senso, só isso. — Dirigiu-se até o carro, colocou o cão no assento traseiro e tomou o volante.

— Alguma notícia de Sir Henry? — perguntou Devlin quando ela ligou o motor.

Joanna Grey sorriu.

— Eu o manterei aquecido, não se preocupe. Falarei outra vez com Radl pelo rádio na sexta-feira à noite. Contar-lhe-ei o que houver de novo.

Afastou-se. Devlin abriu a porta e entrou. No lado de dentro, hesitou durante um longo momento, correu depois o ferrolho e entrou na sala de estar. Fechou a cortina, acendeu um pequeno fogo e sentou-se com um copo do Bushmills que Garvald lhe dera.

Era uma vergonha, uma vergonha danada, mas talvez Joanna Grey tivesse razão. Seria tolice procurar encrencas. Pensou em Molly durante um breve momento e, em seguida, resoluto, tirou do pequeno estoque de livros um exemplar do Midnight court, em irlandês, e obrigou-se a concentrar-se na leitura.

Começou a chover; e a chuva passou a açoitar os vidros da janela. Mais ou menos às sete e meia, a maçaneta da porta da frente girou, sem abrir. Depois de um momento, ouviu uma batida na janela do outro lado da cortina e ela lhe chamou o nome em voz baixa. Ele continuou a ler, obrigando-se a seguir as palavras à luz sempre menor do pequeno fogo. Após algum tempo, ela foi embora.

Devlin praguejou em voz baixa, furioso, e lançou o livro contra a parede, resistindo com todas as fibras do seu ser ao impulso de ir até à porta, abri-la e correr atrás dela. Serviu-se de outra grande dose de uísque e permaneceu à janela, sentindo-se de súbito mais solitário do que em qualquer outra ocasião, enquanto a chuva caía com inesperada fúria sobre o pântano.

Em Landsvoort um temporal viera do mar trazendo aquela chuva torrencial que corta o osso como um bisturi de cirurgião. Harvey Preston, de sentinela no portão do jardim da velha casa de fazenda, colou-se à parede, amaldiçoando Steiner, amaldiçoando Radl, amaldiçoando Himmler e tudo o mais que se havia combinado para reduzi-lo àquilo, ao nível mais baixo e miserável de toda a sus vida.

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, o pára-quedista alemão diferia de seu colega inglês em um aspecto muito importante: o tipo de pára-quedas que usava.

A versão alemã, diferente da que era fornecida aos pilotos da Luftwaffe, não possuía tirantes, conhecidos também como rede de sustentação, onde se prendiam as cordas do pára-quedas. Em vez disso, as cordas eram ligadas diretamente à própria mochila. O fato tornava o salto inteiramente diferente e, por esse motivo, na manhã de domingo, Steiner preparou uma demonstração do pára-quedas britânico padronizado no velho estábulo situado nos fundos da casa de fazenda.

Os homens formaram um semicírculo, com Harvey Pres­ton no centro, vestido como os demais com botas de salto e macacão. Steiner postou-se de frente para o grupo, tendo Neumann e Brandt à direita e à esquerda.

— Todo o objetivo desta operação, como já expliquei — disse Steiner —, é passarmos por uma unidade polonesa do Serviço Aéreo Especial. Por causa disso, não apenas todo o equipamento de vocês será britânico, mas também vocês saltarão usando o pára-quedas-padrão das forças aerotransportadas britânicas. — Voltou-se para Ritter Neumann: — Assuma o comando.

Brandt apanhou no chão um conjunto de pára-quedas e ergueu-o no ar. Neumann começou:

— Esse é o pára-quedas tipo X, usado pelas forcas aero-transportadas britânicas. Pesa por volta de doze quilos e, como disse Herr Oberst, é muito diferente do nosso.

Brandt puxou a corda è o conjunto abriu, vomitando o pára-quedas de cor cáqui. Neumann prosseguiu:

— Notem a maneira como as cordas do pára-quedas são presas aos tirantes, por correias nos ombros, exatamente como na Luftwaffe.

— O importante é que — interrompeu-o Steiner — vocês podem dirigir o pára-quedas, mudar de direção, e ter o tipo de controle sobre seu destino que não têm com os que estão acostumados.

— Outra coisa — disse Ritter.—. Em nosso pára-quedas o centro de gravidade é alto, o que significa que ficarão presos nas cordas a menos que saltem parcialmente de cabeça para baixo, como sabem. Com o tipo X, vocês podem saltar em pé e é isso que vamos treinar agora.

Inclinou a cabeça na direção de Brandt, que disse:

— Muito bem, venham todos para aqui.

Havia um palheiro de uns cinco metros na extremidade mais distante do estábulo. Uma corda fora passada sobre a viga em cima e presa a uma das pontas do tirante de um pára-quedas do tipo X.

— Um bocado primitivo — disse jovialmente Brandt —, mas o suficiente. Vocês saltam do palheiro e haverá meia dúzia de nós embaixo para que não atinjam o chão com muito força. Quem será o primeiro?

— Será melhor eu reivindicar essa honra — disse Steiner —, principalmente porque tenho outras coisas a fazer.

Ritter ajudou-o a colocar os tirantes. Brandt e quatro outros agarraram a outra extremidade da corda e içaram-no até o palheiro. Steiner parou à borda durante um momento, Ritter deu o sinal e o coronel saltou no espaço. A outra extremidade da corda subiu, levando com ela três homens, mas Brandt e o Sargento Sturm agarraram-na, soltando um palavrão. Stçiner chegou ao chão, rolou numa queda perfeita e levantou-se com um salto.

— Muito bem — disse ele a Ritter. — A formação habitual em fila. Tenho tempo para ver todo mundo saltar, pelo menos uma vez. Depois, terei que ir.

Dirigiu-se para a retaguarda do grupo e acendeu um cigarro enquanto Neumann vestia os tirantes. Dos fundos do estábulo a operação pareceu bem arriscada no momento em que o Oberleutnant foi içado até o palheiro, mas o grupo explodiu num gargalhada quando Ritter atrapalhou-se todo e desceu de costas no chão.

— Está vendo? — perguntou o soldado Klugl a Werner Briegel. — É isso o que escalar aqueles malditos torpedos faz com a gente. Herr Leutnant esqueceu tudo que sabia.

Brandt foi o seguinte. Steiner observava atento Preston. O inglês estava muito pálido, com o rosto alagado de suor, e obviamente apavorado. O grupo efetuou o exercício com variável grau de sucesso, cometendo os homens à ponta da corda o engano de confundir o sinal, soltando-a no momento errado, de modo que o soldado Hagl desceu os cinco metros inteiros com todo o peso e toda, a graça de um saco de batatas. Mas levantou-se da experiência sem maiores danos.

Finalmente, chegou a vez de Preston. O bom humor desapareceu abruptamente. Steiner inclinou a cabeça na direção de Brandt.

— Suba-o.

Os cinco homens à ponta da corda puxaram com vontade e Preston disparou para cima, batendo no palheiro e parando somente debaixo do telhado. Baixaram-no até que ele chegou à beira. Ele olhou-os, alucinado.

— Muito bem, inglês — gritou Brandt. — Lembre-se do que eu lhe disse. Salte quando eu der o sinal.

Voltou-se para dar instruções aos homens à corda, mas, nesse momento, ouviu um grito de alarma de Briegel, pois Preston simplesmente caía. Ritter Neumann saltou para segurar a corda e Preston parou a apenas sessenta centímetros do chão, oscilando como um pêndulo, com os braços pendentes e a cabeça baixa. Brandt ergueu o queixo e olhou a face do inglês.

— Ele desmaiou — disse.

— É o que parece — comentou Steiner.

— O que faremos com ele, Herr Oberst? — perguntou Ritter Neumann.

— Faça-o recuperar os sentidos — disse, calmo, Steiner. — Em seguida, levante-o outra vez. Tantas vezes quantas for necessário até que ele possa fazê-lo satisfatoriamente. . . ou quebre uma perna.— Fez um gesto com a mão. — Continue, por favor — disse. Depois, deu as costas ao grupo e afastou-se.              

Havia pelo menos uma dúzia de pessoas na sala de Stu-dley Arms quando Devlin entrou. Laker Armsby ocupava seu lugar habitual junto à lareira, com a gaita, e o resto jogava dominó em torno das duas grandes mesas. Arthut Seymour olhava pela janela, com uma caneca na mão.

— Que Deus abençoe todos os presentes! — cumprimentou-os, alegre, Devlin. Fez-se um completo silêncio e todas as faces na sala se voltaram para ele, com exceção de Seymour. — Deus o abençoe era a resposta a esse cumprimento — disse Devlin. — Ah, bem.

Ouviu passos às suas costas, voltou-se e viu George Wilde, emergindo de uma sala aos fundos e enxugando as mãos em um avental de açougueiro. Tinha o rosto grave e firme e nele não transparecia emoção alguma.

— Eu ia justamente fechar, Sr. Devlin — disse ele, polidamente.

— Mas há tempo ainda para uma caneca, certamente.

— Receio que não. O senhor tem que sair.

Reinava profundo silêncio na sala. Devlin enfiou as mãos nos bolsos e curvou os ombros, de cabeça baixa. Quando ergueu os olhos, Wilde deu um involuntário passo para trás, pois a face do irlandês se tornara muito pálida, a pele estava estirada sobre as maçãs do rosto e os olhos faiscavam.

— Há um homem aqui que vai sair — disse calmo Devlin —, e não sou eu.

Seymour deixou a janela. Um de seus olhos estava ainda inteiramente fechado e ele tinha os lábios cobertos de crostas de cicatrizes, inchados. O rosto parecia fora de prumo, coberto de manchas púrpuras e esverdeadas. Ele olhou embotado para Devlin, pôs a caneca meio terminada sobre a mesa e saiu arrastando os pés. Devlin voltou-se para Wilde:

— Tomarei aquele drinque agora, Sr. Wiide. Uma gota de uísque escocês, desde que o irlandês é algo de que vocês nunca ouviram falar à beira deste pequeno mundo. E não tente dizer que não tem uma garrafa ou duas sob o balcão, reservadas para seus fregueses prediletos.

Wilde abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas obviamente mudou de idéia. Foi até os fundos e voltou com uma garrafa de White Horse e um copo pequeno. Serviu uma única dose e colocou-o numa prateleira, junto à cabeça de Devlin. O irlandês tirou dinheiro trocado do bolso.

— Um xelim e seis pence — disse alegre, contando o dinheiro na mesa mais próxima. — O preço corrente de uma dose. Estou acreditando, naturalmente, que um distinto e respeitável pilar da igreja como você não vende bebida no câmbio negro.                  

Wilde não respondeu. A sala inteira ficou à espera. Devlin ergueu o copo, examinou-o contra a luz e esvaziou-lhe o conteúdo dourado no chão. Com todo o cuidado, colocou o copo na mesa.

— Lindo — disse. — Gostei disso.

Laker Armsby prorrompeu num louco cacarejar. Devlin sorriu largamente.

— Obrigado; Laker, meu filho. Eu também o amo — disse, e saiu.

Chovia forte em Landsvoort quando Steiner cruzou a pista no carro de reconhecimento. Parou em frente ao primeiro hangar e correu à procura de abrigo. Peter Gericke, vestido com um velho macacão e coberto de graxa até os cotovelos, trabalhava com um sargento da Luftwaffe e três mecânicos no motor direito exposto do Dakota.

— Peter — chamou Steiner —, pode reservar-me um minuto? Eu gostaria de um relatório sobre o progresso do trabalho.

— Oh, as coisas estão indo muito bem.

— Nenhum problema com os motores?

— Nenhum, absolutamente. São motores Wright Cyclones, de novecentos cavalos. Realmente de primeira classe, pelo que eu vejo. E têm muito pouco tempo de uso. Nós os estamos desmontando apenas por precaução.

— Você geralmente revisa seus próprios motores?

— Todas as vezes que posso — disse sorrindo Gericke. — Quando voei nesses aviões na América do Sul, tínhamos que fazer a manutenção de nossos motores porque não havia ninguém capaz de fazê-lo.

— Nenhum problema?

— Nenhum, pelo que posso ver. O avião deve ser pintado na próxima semana. Não há pressa, e Bohmler está instalando um aparelho Lichtenstein para que tenhamos boa cobertura de radar. Será um vôo de rotina. Uma hora através do mar do Norte e uma hora de volta. Nada de mais nisso.

— Em um avião cuja velocidade máxima é a metade da velocidade da maioria dos caças da raf e da Luftwaffe?

Gericke encolheu os ombros.

— A coisa toda depende da maneira como os pilotamos, não da velocidade que eles desenvolvem.

— Você vai querer testá-lo em vôo, não?

— Exato.

— Estive pensando — especulou Steiner. — Seria uma boa idéia combinar o vôo de teste com um salto de treinamento. Preferivelmente à noite, quando a maré está bem baixa. Poderíamos usar a praia ao norte do molhe de areia. Isso dará aos rapazes oportunidade de experimentar aqueles pára-quedas britânicos.

— Em que altitude está você pensando?

— Provavelmente, cento e trinta metros. Quero que desçam logo e, dessa altura, isso leva apenas quinze segundos.

— Antes eles do que eu. Pulei de pára-quedas apenas três vezes em minha carreira e foi de muito mais alto do que isso. — O vento uivou pela pista, empurrando a chuva, e ele estremeceu. — Que lugar mais horrendo.

— Mas serve à sua finalidade.

— E qual é ela?

Steiner sorriu, alegre.

— Você me pergunta isso pelo menos cinco vezes por dia. Não desiste nunca?

— Eu gostaria de saber o que vamos fazer, só isso.

— Talvez você saiba, algum dia. Isso cabe a Radl, mas, no momento, estamos aqui porque estamos aqui.

— E Preston? — perguntou Gericke. — Qual será o motivo dele? O que leva um homem a fazer o que ele fez? .

— Todo o tipo de coisas — respondeu Steiner. — No caso, ele tem um belo uniforme, e status de oficial. Ele é alguém pela primeira vez na vida e isso significa um bocado quando o cara jamais foi coisa alguma. Quanto ao resto. . . ele está aqui como resultado de uma ordem direta do próprio Himmler.

— E você? — perguntou Gericke, — Para o maior bem do Terceiro Reich? Uma vida para o Führer?

— Só Deus sabe. — Steiner sorriu. — A guerra é apenas uma questão de perspectiva. Afinal de contas, se meu pai tivesse sido americano e minha mãe alemã, eu estaria do outro lado. Quanto ao Regimento de Pára-Quedistas. . . ingressei nele porque, na ocasião, me pareceu uma boa idéia. Depois de algum tempo, naturalmente, a coisa se transforma numa segunda natureza.    

— Estou aqui porque gosto mais de voar do que de qualquer outra coisa — confessou Gericke. — E acho que acontece a mesma coisa com a maioria daqueles rapazes da raf, do outro lado do mar do Norte. Mas você. . . — Sacudiu a cabeça. — Não compreendo, realmente. Trata-se de um jogo, no seu caso, apenas isso, e nada mais?

— Eu sabia antes, mas não estou mais certo — retrucou Steiner, cansadamente. — Meu pai era um soldado da velha guarda. Prussiano puro. Um bocado de sangue e ferro, mas honra, também.

— E quanto a essa missão que lhe deram. . . — disse Gericke. — Esse. . . esse negócio inglês, o que quer que seja. Você não tem dúvidas?

— Nenhuma, absolutamente. É uma aventura militar inteiramente apropriada, pode acreditar. Em princípio, o próprio Churchill não poderia encontrar falha nela. — Gericke tentou sorrir, não conseguiu, e Steiner colocou uma das mãos em seu ombro. — Mas eu sei que há dias em que sinto vontade de chorar. . . por todos nós — disse, e saiu andando pela chuva.

No gabinete particular do Reichsführer, Radl permanecia em frente à escrivaninha do grande homem, enquanto Himmler lia seu relatório.

— Excelente, Herr Oberst — disse ele por fim.— Realmente excelente. — Pôs o relatório sobre a mesa. — Parece que as coisas estão se desenvolvendo de modo mais do que satisfatório. Teve notícias daquele irlandês?

— Não, apenas da Sra. Grey, conforme a combinação. Devlin possui um excelente aparelho de radiotelefone. Trata-se de algo que capturamos entre os suprimentos lançados pelo soe britânico e que o manterá em .contato com o barco-patrulha quando de sua aproximação. Esta é a parte da operação que ele dirigirá no tocante às comunicações.   .

— O almirante ficou desconfiado de alguma coisa? Será que ele não tem pista alguma do que está acontecendo? Tem certeza disso?

— Certeza absoluta, Herr Reichsführer. Consegui vincular minhas visitas à França e à Holanda a assuntos do Abwehr em Paris, Antuérpia e Rotterdam. Como sabe o senhor, Reichsführer, o almirante sempre me deu grande liberdade no tocante à minha seção.

— Quando irá o senhor novamente a Landsvoort?

— No próximo fim de semana. Por um feliz acaso, o almirante segue para a Itália no dia 1.° ou no dia 2 de novembro. Isso significa que poderei ficar em Landsvoort durante os cruciais dias finais da operação e, na verdade, durante todo o desenrolar da missão.

— Não é coincidência a visita do almirante à Itália, isso posso assegurar-lhe. — Himmler sorriu de leve. — Sugeri isso ao Führer no momento exato. Em cinco minutos, resolveu que fora ele quem pessoalmente pensara nisso — Apanhou a caneta. — Bem, a operação está em andamento, Radl. Duas semanas a partir de hoje, e estará tudo acabado. Mantenha-me informado.

Curvou-se sobre o trabalho, e Radl passou a língua sobre os lábios secos, mas, ainda assim, a pergunta teria que ser feita:

— Herr Reichsführer?

— Estou realmente muito ocupado, Radl. — Himmler soltou um profundo suspiro. — O que é agora?

— O General Steiner, Herr Reichsführer. Ele está. . . bem?

— Naturalmente — respondeu, tranqüilo, Himmler. Por que pergunta?

— O Coronel Steiner — explicou Radl, sentindo o estômago embrulhado, — Naturalmente, ele está muito preocupado. . .

— Não é preciso preocupar-se — respondeu, grave, Himmler. — Eu lhe dei minha garantia pessoal, não?

— Naturalmente. — Radl recuou para a porta. — Muito obrigado, mais uma vez. —- Voltou-se e saiu da sala com toda a rapidez possível.

Himmler sacudiu a cabeça, suspirou numa espécie de exasperação e voltou ao trabalho.

Quando Devlin entrou na igreja, a missa praticamente terminara. Tomou um corredor à direita e sentou-se em um banco. Molly encontrava-se de joelhos junto à mãe, no mesmo lugar onde a vira no domingo anterior. O vestido não apresentava sinais do rude tratamento que recebera de Arthur Seymour. Ele estava ha igreja, também, na mesma posição que usualmente ocupava, e viu Devlin no mesmo instante. Não demonstrou em absoluto a menor emoção. Apenas levantou-se, desceu a coxia e saiu.

Devlin esperou, observando Molly em suas orações, toda inocência, ajoelhada à luz das velas. Depois de algum tempo, ela abriu os olhos, virou-se muito devagar, como se fisicamente consciente de sua presença. Seus olhos se arregalaram, ela o fitou durante longo tempo e em seguida desviou o olhar.

Devlin saiu pouco antes do fim da missa. Ao aparecerem os primeiros fiéis, já se encontrava montado na moto. Chovia um pouco. Virou para cima a gola da capa e, sentado na moto, esperou. Quando Molly finalmente desceu o caminho em companhia da mãe, ela o ignorou por completo. Subiram na carroça, a mãe tomou as rédeas e se afastaram.

— Ah, muito bem — disse baixinho Devlin a si mesmo. — Quem a poderia culpar?

Deu partida ao motor, ouviu alguém chamar seu nome e notou que Joanna Grey se aproximava. Em voz baixa, disse ela:

— Philip Vereker esteve duas horas comigo esta tarde. Ele queria queixar-se de você a Sir Henry.

— Não o censuro por isso.

— Você não pode ficar sério por mais de cinco minutos em qualquer ocasião?

— É um esforço grande demais — disse ele, e ela não pôde continuar porque, nesse momento, aproximavam-se os Willoughbys. Sir Henry estava de uniforme.

— Então, Deviin, como é que estão indo as coisas?

— Muito bem, senhor — respondeu Devlin com seu sotaque irlandês. — Não lhe posso agradecer o suficiente pela maravilhosa oportunidade que o senhor me deu de levar as coisas a bom cabo.

Sentiu a presença de Joanna Grey às suas costas, de lábios cerrados, mas Sir Henry apreciou-lhe bastante as palavras.

— Bom trabalho, Devlin. Estou recebendo excelentes relatórios sobre seu trabalho. Excelente. Continue.

Voltou-se para falar com Joanna Grey. Devlin, aproveitando a oportunidade, afastou-se.

Chovia forte quando chegou ao bangalô. Em vista disso pôs a moto no primeiro celeiro, calçou galochas, vestiu um casaco de oleado e, com o rifle no ombro, saiu para o pântano. As eclusas do dique precisavam ser inspecionadas quando havia chuva forte, como aquela. Fazer a ronda nessas condições constituía uma espécie de ocupação negativa, que tirava seus pensamentos de outras coisas.

Não funcionou. Não conseguiu afastar Molly Prior de sua mente. Sem parar, voltava-lhe a imagem dela, ajoelhando-se em oração numa espécie de câmara lenta rio domingo anterior, a saia subindo-lhe pelas coxas. A recordação não queria desaparecer.

— Virgem Maria e todos os santos — disse baixinho. — Se isso é o que o amor representa, Liam, meu rapaz,.você custou um bocado para aprender.

Voltando pelo dique principal para o bangalô, sentiu no ar o cheiro forte de madeira queimada. Havia luz na janela, uma mera fresta no local onde as cortinas de blackout haviam se afastado um pouco. Ao abrir a porta, sentiu o cheiro de comida que estava sendo preparada. Pôs o rifle num canto, pendurou o casacão de oleado para secar e entrou na cozinha.

Ajoelhada em frente à lareira, ela colocava outra acha no fogo. Gravemente, voltou-se para olhá-lo.

— Você está encharcado.

— Meia hora em frente a esse fogo, umas duas doses de uísque no estômago e ficarei em plena forma.

Ela se dirigiu ao armário e tirou a garrafa de Bushmills e um copo.

— Não o derrame no chão — disse. — Procure bebê-lo, desta vez.

— Então você soube daquele caso?

— Não é muita coisa o que se perde num lugar como este. Estou fazendo um ensopadinho irlandês. Gosta?

— Ótimo.

— Vai demorar ainda meia hora, acho. —Dirigiu-se para a pia e estendeu a mão para um prato de vidro. — O que foi que houve, Liam? Por que anda se escondendo de mim?

Ele sentou-se na velha cadeira de balanço, estendeu as pernas para o fogo e o vapor começou a subir de suas calças.

— No princípio, pensei que era a melhor coisa a fazer

— Porquê?

— Eu tinha minhas razões.

— E o que foi que andou errado hoje?

— É domingo, um maldito domingo. Você sabe como é.

— Diabos o carreguem! — Atravessou a sala, secando as mãos no avental, e olhou para o vapor que subia das calças de Devlin. — Você vai pegar um resfriado feio, se não mudar essas calças. Pelo menos, reumatismo.

— Não vale a pena — respondeu ele. — Vou dormir logo. Estou cansado.

Ela estirou uma mão hesitante e tocou-lhe o cabelo. Ele segurou-lhe a mão e beijou-a.

— Amo-a. Sabia disso?

Foi como se uma lâmpada se acendesse dentro dela. Ela luziu, pareceu expandir-se e adquirir uma dimensão inteiramente nova.

— Bem, dou graças a Deus por isso. Pelo menos significa que agora posso ir para a cama com você de consciência limpa.

— Não sirvo para você, garota querida. Não há nenhum futuro nisso. Nenhum futuro, repito. Deveria haver um aviso na porta do quarto: Abandonai todas as esperanças, vós que aqui entrais.

— Veremos — disse ela. — Vou buscar o seu ensopado. — E voltou para o fogão.

Mais tarde, deitado na velha cama de bronze, com o braço em volta dela, observando as sombras lançadas no teto pelo fogo, ele se sentiu contente, em paz consigo, como há muitos anos não se sentia.

Havia um rádio na mesinha-de-cabeceira ao lado dela. Ela o ligou, virou-se sobre o estômago contra a coxa dele e suspirou de olhos fechados.

— Oh, aquilo foi lindo. Poderemos fazer outra vez, algum dia?

— Você não dá a um cara tempo de recuperar o fôlego?

Ela sorriu e passou a mão pelo ventre de Devlin.

— O pobre velho. Olhem só o que ele está dizendo.

O rádio tocava uma música:

Quando aquele homem estiver morto e acabado...

Algum belo dia, todos ouvirão a notícia:

Satã, com seu pequenino bigode,

Dorme debaixo da sepultura.

— Eu ficarei contente quando isso acontecer — disse ela, sonolenta.

— O quê? — perguntou ele.

— Satã, com seu pequenino bigode, dormindo debaixo da sepultura. Hitler, quero dizer, e tudo terá acabado, não? — Encostou-se mais a ele. — O que nos vai acontecer, Liam, quando a guerra acabar?

— Só Deus sabe.

Permaneceu ali, olhando para o fogo, Momentos depois a respiração de Molly regularizou-se e ela adormeceu. Depois que a guerra acabar. Que guerra? De uma maneira ou de outra, estava nas barricadas há doze anos. De que modo poderia dizer-lhe isso? Era também pequenina e bem agradável a fazenda, e elas precisavam de um homem. Deus, que pena! Apertou-a contra seu corpo enquanto o vento gemia em volta da casa, sacudindo as janelas.

Em Berlim, na Prinz Albrechtstrasse, Himmler continuava à escrivaninha, estudando metodicamente dezenas de relatórios e estatísticas, sobretudo os relativos aos esquadrões de extermínio, que, nas terras ocupadas da Europa oriental e Rússia, liquidavam judeus, ciganos, os mentais e fisicamente deficientes e todos os demais que não se enquadravam no plano do Reichsführer para a Grande Europa.

Uma polida batida na porta e Karl Rossmán entrou. Himmler ergueu os olhos.

— Como é que se saiu?

— Sinto muito, Herr Reichsführer, ele não fala e nós praticamente tentamos tudo. Estou começando a pensar que ele, afinal de contas, pode ser inocente.

— Não é possível. — Himmler mostrou-lhe uma folha de papel. —Recebi este documento hoje, no começo da tarde. É a confissão assinada de um sargento de artilharia, que foi ordenança dele por dois anos e que, durante esse tempo, participou de atividades nocivas à segurança do Estado por ordens diretas do Major-General Karl Steiner.

— Nesse caso, que faremos agora, Herr Reichsführer?

— Eu ainda preferiria uma confissão assinada pelo próprio General Steiner. Tornaria as coisas muito mais completas. Himmler franziu ligeiramente o cenho. — Tentemos mais um pouco de psicologia. Mande dar-lhe um banho, chame um médico das ss, dê-lhe alimentos à vontade. Você conhece a rotina. A coisa toda foi um erro chocante cometido por alguém. É uma pena que você ainda tenha que conservá-lo detido, pois um ou dois pontos precisam ser ainda esclarecidos.

— E depois?

— Depois de dez dias desse tratamento, volte a trabalhar nele. Inesperadamente. Sem aviso. O choque pode dar resultado.

— Farei como o senhor sugere, Herr Reichsführer — disse Rossman.

 

Às quatro horas da tarde de quinta-feira, dia 28 de outubro, Joanna Grey dirigiu-se de carro até o pátio do bangalô em Hobs End e encontrou Devlin no estábulo, trabalhando na motocicleta.

— Tentei falar com você a semana inteira — disse ela. — Por onde andou?

— Por aí — respondeu ele, alegre, limpando a graxa das mãos num velho trapo. — Simplesmente por aí. Eu lhe disse que não tinha coisa alguma a fazer até meu encontro com Garvald e, assim, andei conhecendo os arredores.

— É o que ouvi dizer — respondeu ela, sombria. —Andando por aí de moto com Molly Prior na garupa. Vocês foram vistos num baile em Holt na noite de terça-feira.

— Por uma causa muito nobre — disse ele. — Asas para a Vitória. Na verdade, seu amigo Vereker apareceu e fez um inflamado discurso sobre a maneira como Deus vai nos ajudar a esmagar o odiado huno. Achei isso irônico em vista do fato de que, em toda parte aonde ia na Alemanha, eu via cartazes dizendo que Deus está conosco. . .

— Eu lhe disse para deixá-la em paz.

— Tentei, mas não deu certo. De qualquer maneira, o que a senhora quer? Estou ocupado. Está havendo algum problema com o magneto da moto e quero que ela esteja em perfeitas condições para minha ida a Peterborough hoje à noite.

— Chegaram tropas a Meltham House — disse ela. — Na terça-feira à noite.

Ele fez uma carranca;

— Meltham House. . . Não é o local onde treinam as unidades da Força Especial?

— Exatamente. Fica a uns doze quilômetros costa acima a partir de Studley Constable.

— Quem são?

— Rangers americanos.

— Compreendo. A presença deles lá fará alguma diferença?

— Não, na verdade. Geralmente ficam por lá as unidades que usam as instalações. Trata-se de uma área densamente arborizada, e há um pântano salgado e uma boa praia. É um fator a ser considerado, só isso.

— Bastante justo. — Devlin inclinou a cabeça. — Comunique isso a Radl na sua próxima transmissão e seu dever estará cumprido. Agora, preciso continuar o trabalho.

Ela se voltou na direção do carro e hesitou.

— Eu não gosto do som desse nome, Garvald.

— Nem eu. Mas não se preocupe, meu bem. Se ele vai fazer sujeira, não será hoje à noite. Será amanhã.

Ela tomou o carro, afastou-se, e ele voltou ao trabalho na moto. Vinte minutos mais tarde, Molly saiu do pântano, trazendo uma cesta presa à sela da montaria. Escorregou para o chão e amarrou o cavalo em uma argola na parede, em cima do cocho.

— Trouxe-lhe um bolo de pastor.

— Feito por você ou por sua mãe? — Ela lhe lançou um graveto e ele se abaixou. — Isso terá que esperar. Tenho que sair hoje à noite. Ponha-o no fogão e eu o esquentarei quando voltar.

— Posso ir com você?

— Não há possibilidade alguma. Longe demais. E além disso, trata-se de negócios. — Deu-lhe uma palmada nas nádegas.— Uma xícara de chá é tudo o que desejo, minha dona-de-casa, ou talvez duas. Assim, caia fora e ponha a chaleira no fogo.

Estendeu a mão para ela outra vez. Molly evitou-o, agarrou a cesta e correu para a casa. Devlin deixou-a ir. Ela entrou na sala de visitas e colocou a cesta em cima da mesa. A mala Gladstone encontrava-se na outra extremidade, e, quando se virou para ir para o fogão, esbarrou nela com o braço esquerdo, derrubando-a no chão. A mala caiu aberta, vomitando um maço de notas e partes da pistola-metralha-dora Sten.

Ela se ajoelhou, atordoada durante um momento, sentindo-se subitamente gelada, como se consciente, graças a alguma espécie de pressentimento, de que as coisas jamais seriam as mesmas outra vez.

Nesse momento, ouviu um som de passos à porta, e Devlin, falando em voz tranqüila:

— Quer colocar tudo isso de novo na mala, como uma boa moça?

Ela ergueu os olhos, pálida, mas falou em voz feroz:

— O que é isso? O que significa isso?

— Nada para mocinhas — disse ele.

— Mas todo esse dinheiro!.

Mostrou-lhe um maço de notas de cinco libras. Devlin tomou-lhe a mala da mão, guardou as notas e as partes da arma e fechou o fundo falso. Em seguida, abriu o armário sob a janela, tirou um grande envelope e lançou-o na direção dela.

— Tamanho dez. Certo?

Ela abriu o envelope, olhou para o interior e uma imediata expressão de respeito surgiu em seu rosto.

— Meias de seda. Seda verdadeira, e dois pares. Onde foi que as conseguiu?

— Oh, comprei-as de um homem que conheci em um bar em Fakenham. Pode-se conseguir quase tudo o que se deseja quando se sabe onde procurar.

— O contrabando — exclamou ela. — É nisso que você está metido, não? — Surgiu uma espécie de alívio nos olhos dela. Ele sorriu.

— É a cor certa para mim. Agora, por favor, quer preparar logo o chá? Preciso sair às seis e dar ainda uma olhada na moto.

Ela hesitou, apertando as meias na mão, e aproximou-se dele.

— Liam, está tudo bem, não?

— E por que não estaria? — Deu-lhe um rápido beijo, virou-se e saiu, amaldiçoando a própria estupidez.

Ainda assim, dirigindo-se para o estábulo, teve certeza, no fundo do coração, de que havia na situação mais do que isso. Pela primeira vez compreendera o que estava fazendo com aquela moça. Em pouco mais de uma semana, todo o mundo dela seria virado de cabeça para baixo. Isso era absolutamente inevitável e coisa alguma poderia fazer, exceto deixá-la, como teria que fazer, para suportar sozinha a dor da situação.

De súbito, sentiu-se fisicamente enojado e deu um selvagem pontapé em um caixote.

— Oh, seu canalha — disse. — Liam, seu canalha sujo.

Reuben Garvald abriu a porta falsa do portão da oficina da garagem de Fogarty e olhou para fora. A chuva varria o concreto rachado do pátio em frente, onde se erguiam, abandonadas, duas bombas de gasolina enferrujadas. Fechou apressado a porta e voltou para o interior.

A oficina era um antigo estábulo e parecia surpreendentemente espaçosa. Uma escada de degraus de madeira conduzia a um palheiro, mas, a despeito da limusine amassada em um canto, havia ainda lugar bastante para o caminhão Bedford de três toneladas e a camioneta de toldo na qual Garvald e o irmão haviam chegado de Birmingham. Ben Garvald andava impaciente de um lado para o outro, vez por outra batendo os braços, A despeito do seu pesado sobretudo e cachecol, sentia um grande frio.

— Cristo, que chiqueiro! — disse. — Algum sinal daquele veado irlandês?

— São apenas quinze para as nove, Ben — disse-lhe Reuben.

— Não quero saber que horas são.

Garvald voltou-se para um jovem e gordo rapaz, vestido: com uma jaqueta de aviador, que, encostado no caminhão, lia um jornal.

— Arranje um pouco de aquecimento amanhã à noite, Sammy, meu rapaz, ou lhe arranco os colhões. Compreendeu?

Sammy, com suas longas costeletas pretas, rosto frio e de aparência perigosa, pareceu inteiramente.indiferente.

— Muito bem, Sr. Garvald. Darei um jeito nisso.

— Será melhor, meu querido, ou eu o mandarei de volta para o Exército. — Garvald deu-lhe uma palmadinha no rosto.— E você não gostaria disso, não é?

Tirou um maço de Gold Flake do bolso e escolheu um cigarro, aceso por Sammy, que conservou durante todo o tempo um sorriso imóvel nos lábios.

— O senhor é um número, Sr. Garvald. Um verdadeiro número.

Reuben chamou da porta, com urgência:

— Ele está chegando.

Garvald deu um puxão no braço de Sammy.

— Abra a porta e deixe o safado entrar.

Devlin entrou numa rajada de chuva e vento. Usava perneiras de oleado, a capa habitual, um velho capacete de couro de aviador e óculos, que comprara em uma loja de artigos de segunda mão em Fakenham. Tinha a face imunda e quando desligou a máquina e empurrou para cima os óculos, grandes círculos brancos apareceram em volta de seus olhos.

— Uma péssima noite para nosso negócio, Sr. Garvald — disse ele, pondo a bsa sobre o pedal de apoio.

— É sempre assim, filho — respondeu alegre Garvald. — É um prazer vê-lo. — Apertou-lhe, caloroso, a mão. — Reuben você já conhece e este aqui é Sammy Jackson, um de meus rapazes. Ele trouxe o Bedford para você.

Havia nas suas palavras a implicação de que Jackson lhe fizera, de alguma forma, um grande favor pessoal. Devlin reagiu da maneira habitual, forçando o sotaque irlandês:

— Certo, e estou muito agradecido. Foi muita bondade sua — disse, apertando a mão de Sammy.

Jackson examinou-o desdenhoso de alto a baixo, mas conseguiu sorrir. Garvald falou:

— Muito bem, então. Tenho negócios em outra parte e acho que você não quer demorar-se muito por aqui. Aqui está seu caminhão. O que acha?

O Bedford vira definitivamente dias melhores, a pintura estava muito desbotada e riscada, mas os pneus pareciam razoáveis e a cobertura de lona era quase nova. Devlin içou-se pela traseira e viu as latas de gasolina do Exército, o compressor e o tambor de tinta.

— Está tudo aí, exatamente como pediu. — Garvald ofereceu-lhe um cigarro. —Verifique a gasolina, se quiser.

— Não há necessidade. Acredito em sua palavra.

Garvald não teria feito bobagem com a gasolina, disso tinha certeza. Afinal de contas, queria que ele voltasse na noite seguinte. Devlin deu a volta ao carro e levantou o capô. O motor parecia bom.

— Experimente-o — convidou Garvald.

Devlin deu a partida e pisou no acelerador. O motor reagiu com um rugido bastante sadio, como esperava. Garvald estaria interessado demais em descobrir exatamente o que ele pretendia para, nesse estágio, estragar as coisas tentando empurrar-lhe mercadoria de segunda classe.

Devlin saltou e olhou outra vez para o caminhão, notando o registro militar.

— Tudo certinho? — perguntou Garvald.

— Acho que sim. — Devlin inclinou devagar a cabeça. — Pelo estado, parece que o caminhão passou por maus bocados em Tobruk ou algum outro lugar.

— Com toda certeza, filho — disse Garvald, dando um pontapé em um pneu. — Mas esses troços são fabricados para agüentar pancada.

— Trouxe a licença de entrega que pedi?

— Certamente. — Garvald estalou um dedo. — Dê-me aquele formulário, Reuben.

O irmão tirou-o da carteira e disse mal-humorado:

— Quando é que vamos ver a cor do dinheiro dele?,

— Não seja assim, Reuben. O Sr. Murphy é inteiramente honesto.

— Não, ele tem razão. É uma boa troca. — Tirou um grosso envelope de papel pardo do bolso e entregou-o a Reuben. — Você encontrará aí setecentas e cinqüenta libras em notas de cinco, conforme o combinado.

Pôs no bolso o formulário que Reuben lhe dera, depois de lhe lançar um rápido olhar.

— Não vai preencher o espaço em branco? — perguntou Ben Garvald.

Devlin deu uma pancadinha no nariz, tentando assumir uma expressão de astúcia.

— E deixar que o senhor veja para onde estou indo? De jeito nenhum, Sr. Garvald.

Garvald sorriu, deliciado. Pôs um braço em volta do ombro de Devlin.

— Se alguém me der uma ajuda para pôr a moto na traseira, vou logo embora.— disse o irlandês.

Garvald inclinou a cabeça para Jackson, que baixou a tampa traseira do Bedford.e trouxe uma prancha velha. Ele e Devlin empurraram a bsa para cima do caminhão e puseram-na de lado, no chão. Devlin repôs a tampa no lugar e voltou-se para Garvald.

Feito, então, Sr. Garvald. Amanhã, à mesma hora.

— É um prazer fazer negócio com você, filho — disse-lhe Garvald, apertando-lhe mais uma vez a mão. — Abra a porta, Sammy.

Devlin subiu ao volante e deu a partida no motor. Enfiou a cabeça pela janela.

— Uma coisa, Sr. Garvald. Não é provável que a Polícia Militar venha no meu encalço, é?

— Eu faria uma coisa dessas com você, filho? — disse, radiante, Garvald. — É o que lhe pergunto. — Deu uma palmada no lado do caminhão com a mão aberta. — Até amanhã à noite. A mesma peça, a mesma hora, o mesmo lugar, e eu lhe trarei outra garrafa de Bushmills.

Devlin mergulhou na noite, enquanto Sammy Jackson e Reuben fechavam as portas. Desapareceu o sorriso de Garvald.

— Agora a coisa fica com Freddy.

— E se ele perder a pista? — perguntou Reuben.

— Nesse caso, teremos amanhã à noite. — Garvald deu-lhe uma palmadinha no rosto. — Onde é que está aquela meia garrafa de conhaque que você trouxe?

— Perdê-lo? — exclamou Jackson. — Aquele merdinha? — Riu áspero. — Cristo, ele não encontraria nem mesmo a porta da latrina, se alguém não lhe mostrasse.

Devlin, a uns quatrocentos metros na estrada, notou luzes mortiças à retaguarda, indicando a presença do veículo que saíra de um beco um minuto depois de ele passar, exatamente como esperara.

À esquerda, apareceu um velho e arrumado cata-vento e um trecho de terra descampada. Subitamente, apagou todas as luzes, virou a direção, entrou na área aberta, e freou. O outro veículo passou sem parar, aumentando a velocidade. Devlin saltou para o chão, dirigiu-se para a traseira do Bedford, e tirou a lâmpada da sinalização. Voltou ao caminhão, virou-o em círculo na estrada e somente ligou as luzes quando começou a voltar para Norman Cross.        

Quatrocentos metros antes de Fogarty, virou à direita para uma estrada lateral, a B-660, passando por Holme e parando quinze minutos depois fora de Doddington para recolocar a lâmpada no lugar. Ao voltar à boléia, tirou do bolso a licença de entrega e preencheu-a à luz de uma lanterna de bolso. A licença continha o carimbo oficial, do Corpo de Intendência de uma unidade próxima a Birmingham e a assinatura de seu comandante, um certo Major Thrush. Garvald pensara em tudo. Bem, não exatamente em tudo. Devlin sorriu largamente e preencheu como seu destino a estação de radar da raf em Sheringham, a quinze quilômetros ao longo da estrada da costa, a partir de Hobs End.

Tomou o volante e reiniciou a viagem. Swaffham, em primeiro lugar e, em seguida, Fakenham. Estudara o percurso com todo o cuidado no mapa. Recostou-se e guiou com cuidado, porque os visores de blackout dos faróis não lhe forneciam muita luz. Não que isso importasse. Dispunha de todo o tempo do mundo. Acendeu um cigarro e perguntou-se como estaria indo Garvald.

Pouco depois da meia-noite entrou no pátio em frente ao bangalô de Hobs End. A viagem fora inteiramente tranqüila e, a despeito do fato de ter ousadamente usado as estradas principais durante a maior parte do caminho, não passara por mais de meia dúzia de veículos durante todo o tempo. Fez a volta até o velho estábulo, situado na própria beira do pântano, saltou sob chuva forte, abriu o cadeado, empurrou as portas para os lados e entrou com o caminhão.

No estábulo, havia apenas duas janelas redondas no palheiro e não houvera dificuldade em pintá-las de preto. Preparou dois candeeiros Tilly, bombeou-os até obter luz suficiente, saiu para verificar se aparecia alguma luz, voltou e tirou o casaco.

Em meia hora descarregara o caminhão, descendo a bsa por cima de uma velha prancha e fazendo o mesmo com o compressor. Empilhou as latas de gasolina em um canto, cobrindo-as com uma velha lona. Em seguida, lavou o caminhão. Quando se convenceu de que estava tão limpo quanto possível, trouxe jornais e a fita colante que pusera antes ali e começou a cobrir as janelas. Fez tudo isso de modo metódico, concentrando-se durante todo o tempo. Ao terminar, voltou ao bangalô, comeu um pouco do bolo de carne trazido por Molly e tomou um copo de leite.

Chovia muito ainda quando correu de volta para o estábulo. A chuva batia furiosa nas águas do pântano, enchendo a noite de sons. As condições eram, na realidade, perfeitas. Encheu o compressor, preparou a bomba e ligou o motor. Apanhou o equipamento com spray e misturou um pouco de tinta. Começou pela tampa traseira, sem pressa, mas a máquina funcionava realmente bem e, cinco minutos depois, havia-a coberto com uma nova e brilhante camada de tinta esverdeada.

— Deus me abençoe — disse, baixinho, para si mesmo. — É bom que eu não tenha uma mente criminosa, pois poderia estar ganhando a vida fazendo este tipo de coisa. E isso é verdade.

Dirigiu-se para a esquerda e começou a pintar os papéis laterais.

Após o almoço na sexta-feira, retocava os números do caminhão com tinta branca quando ouviu o som de um carro que se aproximava. Enxugou as mãos e saiu rapidamente do estábulo, mas, quando chegou à esquina da casa, viu que era apenas Joanna Grey. Tentava abrir a porta do bangalô e parecia uma figura elegante e surpreendentemente jovem no uniforme verde do Serviço Voluntário Feminino.

— A senhora fica sempre no seu melhor aspecto nesse uniforme — disse ele. — Aposto que faz o velho Sir Henry subir pelas paredes.

— Você está em forma, de qualquer maneira. — Ela sorriu. — As coisas devem ter corrido bem.

— Veja por si mesma.

Abriu a porta do estábulo e deixou Joanna entrar. O Bedford, com sua nova pintura esverdeada, tinha de fato um bom aspecto.

— Pelo que sei, veículos da Força Especial geralmente não levam escudos e insígnias de patentes. É isso mesmo?

— Exato — concordou ela. — Às unidades que vi operando em Meltham House no passado nunca anunciaram o que eram. — Estava obviamente muito impressionada. — Isso está realmente bom, Liam. Teve algum problema?

— Ele mandou alguém me seguir, mas logo consegui livrar-me do cara. A grande confrontação será hoje à noite.

— Você pode dar conta da coisa?

— Isto pode. — Apanhou um embrulho de pano sobre um caixote ao lado dos pincéis e latas de tinta, abriu-o e tirou uma Mauser com um cano estranhamente grosso. — Já viu uma destas antes?

— Não posso dizer que tenha visto. — Sopesou-a mão esquerda com um interesse profissional e fez pontaria.

— É usada por alguns agentes de segurança das ss — disse ele. — Mas não há um número suficiente delas. É o único revólver realmente eficiente com silenciador que jamais conheci.

— Mas você estará sozinho — advertiu Joanna.

— Já estive sozinho antes. — Embrulhou novamente a Mauser no pano e acompanhou-a até a porta. — Se tudo correr de acordo com o plano, devo voltar com o jipe por volta da meia-noite. A primeira coisa que farei pela manhã será dar-lhe notícias.

— Acho que não poderei esperar esse tempo todo.

Tinha a face tensa e preocupada. Estendeu a mão, impulsiva, e ele a agarrou.

— Não se preocupe. Tudo vai dar certo. Tive um aviso, como dizia minha velha avó. Sei como são essas coisas.

— Seu patife — disse ela. Inclinou-se para a frente e beijou-o no rosto com genuína afeição. — Às vezes, eu me pergunto como você sobreviveu por tanto tempo.

— Isso é fácil de explicar — disse ele. — Porque nunca me preocupei especialmente se sobreviveria ou não.

— Você está falando sério?

— Amanhã. — Ele sorriu suavemente.— Será a primeira coisa pela manhã. A senhora verá.

Observou-a enquanto ela se afastava, fechou a porta do estábulo com o pé e acendeu um cigarro.

— Você pode sair agora — gritou.

Um momento de demora e Molly emergiu em seguida das moitas na extremidade mais distante do pátio. Ela estivera longe demais para ouvir a menor coisa e fora por isso que ele deixara a situação assim. Fechou o cadeado e dirigiu-se para ela. Parou a um metro de distância, com as mãos no bolso.

— Molly, minha doçura — disse, meigamente, — Eu a amo muito, mas não faça mais brincadeiras como essa ou lhe darei a maior surra que você já recebeu em sua jovem vida.

Ela lançou os braços em volta de seu pescoço.

— Isso é uma promessa?

— Você não tem nenhuma vergonha.

Ela o fitou, pendurada ainda no seu pescoço.

— Posso vir hoje à noite?

— Não pode — disse ele —, porque não estarei aqui. — E acrescentou uma meia verdade: —Vou a Peterborough a negócios particulares e somente voltarei pela madrugada. — Bateu na ponta do nariz de Molly com um dedo. — E isto fica entre nós. Nada de andar falando por aí.

— Mais meias de seda? — perguntou ela. — Ou é uísque escocês desta vez?

— Ouvi dizer que os americanos pagam cinco libras pela garrafa.

— Gostaria que você não fizesse isso. — O rosto dela estava agitado. — Por que você não pode ser bonzinho e normal como todas as pessoas?

— Quer que eu morra tão cedo assim? — Virou-a sobre os calcanhares. — Ponha a chaleira no fogo e, se for boazinha, deixarei que você me faça o jantar. . . ou outra coisa.

Ela sorriu de leve sobre o ombro, parecendo de súbito encantadora, e correu para o bangalô. Devlin pôs o cigarro outra vez na boca, mas não se preocupou em acendê-lo. O trovão ribombava no horizonte distante, anunciando mais chuva. “Outra viagem molhada.” Suspirou e seguiu-a pelo pátio.

Na oficina da garagem Fogarty fazia ainda mais frio do que na noite anterior, não obstante os esforços de Sammy Jackson para aquecer o ambiente. Ele abrira um buraco em um velho tambor de óleo e acendera um fogo de coque. A fumaça que ele desprendia era muito desagradável.

Ben Garvald, de pé ao lado, com uma meia garrafa de conhaque na mão e uma xícara de plástico na outra, recuou apressado.

— Que diabo está tentando fazer? Envenenar-me?

Jackson, sentado em um caixote do outro lado do fogo, com uma carabina de dois canos cerrados em cima dos joelhos, pôs a arma no chão é levantou-se.

— Sinto muito, Sr. Garvald. é o coque. . . Aí é que está o problema. Está molhado demais.

Reuben, que se encontrava de guarda na porta falsa, disse subitamente:                               

— Ei, acho quê é ele que está vindo.

— Esconda essa coisa — disse rapidamente Garvald. — E lembre-se de não fazer coisa alguma até que eu mande. — Serviu um pouco mais de conhaque na xícara de plástico e sorriu: — Quero apreciar isto, Sammy, filho. Não me estrague o prazer.

Sammy colocou a espingarda sob um saco, ao lado do caixote, e acendeu, apressado, um cigarro. Esperaram enquanto aumentava o som do motor que se aproximava, mas que passou por eles e morreu na noite.

— Pelo amor de Deus! — disse, irritado, Garvald. — Não era ele. Que horas são?

Reuben olhou o relógio.

— Exatamente nove horas. Ele deve chegar a qualquer momento.

Não sabiam, mas Devlin já estava de fato ali, sob a chuva, olhando pela janela quebrada dos fundos, que fora fechada com tábuas. A sua visão pela fresta era limitada, mas pelo menos abrangia Garvald e Jackson ao lado do fogo. E ouvira todas as palavras pronunciadas nos últimos cinco minutos.

— Ei, você bem que pode fazer alguma coisa de útil enquanto espera, Sammy — disse Garvald. — Encha o tanque do jipe com umas duas dessas latas para aprontar-se para a volta a Brum.

Devlin recuou, atravessou o pátio, andando com cautela entre os restos de vários carros, voltou à estrada principal e correu para o beco, a uns quatrocentos metros, onde deixara a bsa.

Desabotoou o bolso da frente da capa, tirou a Mauser e examinou-a à luz dos faróis. Satisfeito, recolocou-a no bolso, que deixou aberto, e montou na moto. Não sentia medo nenhum, em absoluto. Talvez estivesse um pouco excitado, certo, mas apenas o suficiente para animá-lo. Deu partida e voltou à estrada.

No interior da oficina, Jackson acabava justamente de encher o tanque do jipe quando Reuben virou-se, nervoso, na porta falsa:

— É ele. Desta vez não há dúvida. Acaba de virar para o pátio.

— Muito bem, abra as portas e deixe-o entrar — disse Garvald.                                     ,

O vento soprava tão forte que provocou uma violenta corrente de ar, quando Devlin entrou e fez o fogo de coque estalar como madeira seca: Devlin desligou e pôs a moto no pedal de apoio. Tinha a face em pior estado ainda do que na noite anterior, coberta de lama. Mas quando empurrou os óculos para a testa, sorriu alegre.

— Olá, Sr. Garvald.

— Aqui estamos, novamente — disse Garvald, e passou-lhe a meia garrafa de conhaque. — Parece que um gole lhe faria bem.

— Lembrou-se do meu Bushmills?

— Claro que me lembrei. Tire do caminhão essas duas garrafas de uísque para o Sr. Murphy, Reuben.

Devlin tomou um rápido gole na garrafa de conhaque, enquanto Reuben ia até o caminhão e voltava com as duas garrafas de Bushmills. O irmão tirou-as de suas mãos.

— Aqui, estão, rapaz, exatamente como lhe prometi. — Foi até o jipe e colocou as garrafas em cima do assento do passageiro. — Tudo correu bem na noite passada?

— Não tive problema algum — garantiu-lhe Devlin. Aproximou-se do jipe. Como o Bedford, a carroçaria precisava com urgência de uma nova mão de tinta, mas, fora isso, estava perfeito. Tinha capota de lona com os lados abertos e um suporte para metralhadora. A placa, em contraste com o resto do veículo, fora pintada recentemente. Examinando-a de perto, Devlin notou sinais de um registro anterior por baixo.

Mas uma coisa, Sr. Garvald disse ele. — Alguma base aérea ianque não vai dar por falta desse jipe?

— Ei, escute aqui — interrompeu-o, zangado, Reuben.

Devlin, por sua vez, interrompeu-o:

— Por falar nisso, Sr. Garvald, houve um momento na noite passada em que pensei que havia alguém tentando seguir-me. Nervosismo, acho. A coisa deu em nada.

Deu as costas ao jipe e tomou outro rápido gole na garrafa. A raiva de Garvald, contida com grande dificuldade, transbordou nesse momento:

— Sabe do que você precisa?

— O quê? — perguntou suavemente Devlin. Virou-se, conservando a garrafa de conhaque na mão esquerda e segurando a aba do bolso com a mão direita.

— De uma lição de boas maneiras, meu querido — disse Garvald. — Você precisa ser posto em seu lugar e eu sou justamente o homem para fazer isso. — Sacudiu a cabeça. — Você devia ter ficado lá nas turfeiras.

Começou à desabotoar o sobretudo e Devlin perguntou:

— É mesmo? Bem, antes de começarmos, eu gostaria de perguntar a Sammy se aquela carabina que ele guardou debaixo do saco está armada ou não, porque, se não está, ele vai meter-se numa encrenca.

Nesse único e gelado momento, Ben Garvald soube, além de qualquer dúvida, que cometera o maior erro de sua vida.

— Pegue-o, Sammy! — gritou.

Jackson já se movera antes de lhe ouvir as palavras, tirando a carabina de baixo do saco, porém tarde demais. Enquanto, freneticamente, puxava para trás os percussores, a mão de Devlin entrou e saiu da capa. A Mauser tossiu uma vez, atingiu o braço esquerdo de Jackson e fê-lo girar em um círculo. O segundo tiro despedaçou-lhe a espinha, lançando-o de cabeça contra um carro amassado num canto. Na agonia, seus dedos apertaram convulsamente os gatilhos, disparando ambos os canos no chão.

Os irmãos Garvald recuaram devagar em direção à porta. Reuben tremia de medo. Garvald parecia atento, esperando a primeira oportunidade para atacar.

— Só até aí — disse Devlin.

A despeito de sua pequena altura, do velho capacete de aviador, da capa encharcada, ele parecia uma figura infinitamente ameaçadora, olhando-os do outro lado do fogo, tendo na mão a Mauser com o grosso silenciador.

— Muito bem, cometi um erro—disse Garvald.

— Pior do que isso; você quebrou sua palavra — retrucou Devlin. — E do lugar de onde venho, nós temos um excelente corretivo para pessoas que nos traem.

— Pelo amor de Deus, Murphy. . .

Não disse mais coisa alguma, porque houve um som surdo quando Devlin atirou outra vez. A bala despedaçou a rótula direita de Garvald. Ele chocou-se contra a porta com um grito abafado e caiu no chão.. Rolou, apertando o joelho com as mãos, e o sangue escorrendo entre os dedos.

Reuben agachou-se erguendo as mãos em um inútil gesto de proteção, de cabeça baixa. Passou um dos piores momentos de sua vida nessa posição e, quando finalmente teve coragem de erguer os olhos, descobriu que Devlin punha uma velha prancha num dos lados do jipe. Enquanto Reuben observava, o irlandês subiu a bsa para a traseira do veículo.

Adiantou-se e abriu uma folha das portas da garagem. Em seguida, estalou os dedos na direção de Reuben.

— A licença de entrega.

Reuben tirou-a da carteira com dedos trêmulos e entregou-a. Devlin examinou-a ligeiramente, tirou um envelope do bolso e lançou-o aos pés de Garvald.

— Setecentas e cinqüenta libras, para liquidar a conta. Eu lhe disse que sou um homem de palavra. Você deve procurar ser a mesma coisa, na primeira oportunidade. — Entrou no jipe, apertou o botão de ignição e mergulhou na noite.

— A porta — disse Garvald ao irmão entre dentes cerrados. — Feche essa maldita porta Ou todos os policiais em quilômetros em volta virão até aqui para saber o que significa essa luz.

Reuben fez o que ele mandava e voltou-se em seguida para examinar a cena. No ar, pairava uma leve fumaça azul e cheiro de cordite.

— Quem era aquele safado, Ben? — perguntou Reuben com um estremecimento.

— Não sei e não quero realmente saber. — Garvald tirou o cachecol de seda branca que usava em volta do pescoço. — Use isso para amarrar este maldito joelho.

Em fascinado horror, Reuben examinou o ferimento. A bala de 7.63 mm havia entrado por um lado e saído pelo outro. A rótula estava despedaçada e estilhaços de osso branco projetavam-se da carne e do sangue.

— Cristo, é um ferimento feio, Ben. Você precisa de um hospital.

— Para o diabo. Você me leva a um hospital de acidentados neste país, com um ferimento de bala, e eles chamam logo a polícia. — O suor lhe cobria o rosto. — Vamos, amarre o ferimento, pelo amor de Deus.

Reuben começou a enrolar o cachecol em volta do joelho despedaçado. Estava praticamente em lágrimas.

— E Sammy, Ben?

— Deixe-o onde está. Por ora, cubra-o simplesmente com uma dessas lonas. Amanhã, você pode vir aqui com alguns dos rapazes para dar sumiço ao corpo. — Soltou um palavrão quando Reuben apertou o cachecol. — Depressa, vamos cair fora daqui.

— Para onde, Ben?

— Vamos direto para Birmingham. Depois, você me leva para aquela clínica em Aston. Àquela dirigida pelo médico indiano. Qual é o nome dele?

— Está-se referindo a Das? — Reuben sacudiu a cabeça. — A especialidade dele é aborto, Ben. Não serve para você.

— Ele é médico, não? — disse Ben. — Agora, ajude-me e vamos cair fora.

Devlin penetrou no pátio de Hobs End meia hora depois da meia-noite. Fazia uma noite pavorosa, com ventos tempestuosos e uma chuva torrencial, quando abriu as portas do estábulo e entrou. Teve que fazer uma força imensa para fechá-las outra vez.

Acendeu os candeeiros Tilly e tirou a bsa da traseira do jipe. Sentia frio e estava cansado, mas não o suficiente para dormir. Acendeu um cigarro e andou de um lado para outro, estranhamente inquieto.

Na tranqüilidade do estábulo, ouviam-se apenas a chuva tamborilando no teto e o silvo baixo dos candeeiros Tilly. Nesse momento, a porta se abriu com uma lufada de vento e Molly entrou, fechando-a às suas costas. Usava a velha capa e o xale e estava tão molhada que tremia de frio, mas isso não parecia importar. Ela foi até o jipe com uma expressão confusa na face. Olhou, embotada, para Devlin.

— Liam? — disse.

— Você me prometeu — disse ele. — Nada de espionagem. É bom saber manter a palavra dada.

— Sinto muito, mas eu estava com tanto medo! E depois, tudo isto. — Fez um, gesto na direção dos veículos —O que isso significa?

— Não é da sua conta — respondeu ele, brutalmente. — No que me interessa, você pode cair fora, agora. Se quiser denunciar-me à polícia. . . Bem, faça o que achar melhor.

Ela o fitou, de olhos esbugalhados, a boca movendo-se sem poder falar.

— Vamos! — disse ele. — Se é isso o que você quer. Diga!

Ela correu para seus braços, debulhando-se em lágrimas.

— Oh, não, Liam, não me mande embora. Não faço mais perguntas, prometo, e de hoje em diante só tratarei de minha vida, mas não me mande embora.

Ele desceu nesse momento ao ponto mais baixo em sua vida, e o desprezo por si mesmo enquanto a abraçava foi de intensidade quase física. Mas funcionara. Ela não lhe causaria mais problemas, disso tinha certeza. Beijou-a na testa.

— Você está gelada. Vá para casa e acenda o fogo. Irei para lá dentro de alguns minutos.

Molly ergueu os olhos interrogativamente, virou-se e saiu. Devlin suspirou, foi até o jipe e apanhou uma das garrafas de Bushmüls. Tirou a rolha e tomou um grande gole.

— À sua saúde, Liam, meu filho — disse, com infinita tristeza.

Na minúscula sala de operações da clínica de Aston, Ben Garvald, estirado na mesa acolchoada, tinha os olhos fechados. Reuben encontrava-se a seu lado, enquanto Das, um alto e cadavérico indiano vestido com um imaculado jaleco branco, cortava-lhe a perna da calça com uma tesoura cirúrgica.

— É grave? — perguntou Reuben em voz trêmula.

— Sim, muito grave — respondeu, calmo, Das. — Para não ficar aleijado, ele precisa de um cirurgião de primeira classe. Há também a questão da assepsia.

— Escute aqui, seu salafrário—- disse Ben Garvald, abrindo os olhos. — Aquela placa bonitinha de bronze junto à porta diz que você é médico e cirurgião, não?

— É verdade, Sr. Garvald — respondeu, tranqüilo, Das. — Tenho diploma das universidades de Bombaim e Londres, mas o problema não é este. Nesse caso, o senhor precisa da assistência de um especialista.

Garvald levantou-se com esforço sobre um cotovelo. Sofria fortes dores e o suor escorria-lhe pela testa.

— Ouça, e é bom que o faça com todo o cuidado. Uma moça morreu aqui há três meses. Vítima do que a lei chamaria de uma operação ilegal. Sei de tudo isso e de muito mais. O suficiente para mandá-lo para a cadeia por, pelo menos, sete anos. Assim, se não quer a polícia por aqui, comece a trabalhar nesta perna.

Das permaneceu absolutamente tranqüilo.

— Muito bem, Sr. Garvald, mas a responsabilidade será toda sua, Terei que lhe dar um anestésico. Compreende isso?!

— Dê-me tudo o que quiser, mas comece a trabalhar.

Fechou os olhos. Das abriu um armário, tirou uma máscara de gase e um vidro de clorofórmio. Voltou-se para Reuben.

— O senhor terá que ajudar. Ponha clorofórmio no chumaço quando eu lhe disser, gota a gota. Pode fazei isso?

Reuben inclinou a cabeça, apavorado demais para falar!

 

Chovia ainda na manhã seguinte quando Devlin foi até a casa de Joanna Grey, Estacionou a moto junto à garagem e entrou pela porta dos fundos. Ela abriu no mesmo instante a porta e puxou-o para dentro. Vestia ainda camisola e tinha a face tensa e ansiosa.

— Graças a Deus, Liam. — Segurou-lhe o rosto entre as mãos e sacudiu-o. — Eu mal consegui pregar os olhos. Estou acordada desde as cinco da manhã, bebendo alternadamente chá e uísque. Uma mistura danada a esta hora da manhã. — Beijou-o ternamente. — Seu patife, é bom vê-lo de novo.

O perdigueiro sacudiu as ancas freneticamente, ansioso para ser incluído. Joanna Grey ocupou-se no fogão enquanto Devlin permanecia de pé em frente ao fogo.

— Como foi a coisa?-— perguntou ela.

— Tudo bem.

Falou de maneira deliberadamente superficial, pois era provável que ela não gostasse muito da maneira como ele havia lidado com a situação. Ela voltou-se com a surpresa estampada na face. — Não tentaram fazer alguma coisa?

— Oh, sim — respondeu ele: — Mas eu os convenci do contrário.

— Houve algum tiroteio?

— Não houve necessidade — respondeu ele, calmo. — . Um simples olhar para aquela minha Mauser foi suficiente. Eles não estão acostumados a armas, esses ingleses do sindicato do crime. Eles usam mais é navalhas.

Ela trouxe os utensílios do chá numa bandeja até a mesa.

— Deus, os ingleses. As vezes, me causam desespero.

— Eu faria um brinde a isso, a despeito da hora. Onde é que está o uísque?

Ela saiu e voltou com uma garrafa e dois copos.

— Isto é uma vergonha, a esta hora do dia, mas vou beber também. O que vamos fazer agora?

— Esperar — replicou ele. — Preciso ajeitar o jipe, mas isso é tudo. Você precisa apertar o velho Sir Henry até o último momento, mas, fora isso, tudo o que podemos fazer é roer as unhas durante os próximos seis dias.

— Oh, eu não sei — disse ela. —: Podemos sempre desejar-nos boa sorte. — Ergueu o copo. — Deus o abençoe, Liam, e lhe dê uma longa vida.

— E a você também, minha querida.

Ela ergueu o copo e bebeu. Inesperadamente, algo se moveu dentro de Liam, como uma faca em suas entranhas. Naquele momento teve certeza, sem qualquer sombra de dúvida, de que toda a maldita operação ia sair tão errada quanto possível.

Pamela Vereker tinha uma licença de trinta e seis horas naquele fim de semana. Deixara o serviço às sete da manhã. O irmão fora até Pangbourne para buscá-la. Uma vez no presbitério, mal pôde esperar pára tirar o uniforme e vestir calças compridas e suéter.

A despeito desse dar de costas simbólico, ainda que temporário, aos duros fatos da vida diária em uma estação de bombardeiros pesados, continuava se sentindo nervosa e extremamente cansada. Após o almoço, pedalou dez quilômetros ao longo da estrada da costa até a Fazenda Meltham Vale, onde o arrendatário, um paroquiano de Vereker, possuía um garanhão de três anos que precisava urgentemente de exercício.

Uma vez nas dunas, depois de atravessar a fazenda, deu rédea solta ao cavalo e galopou ao longo da trilha serpenteante, através dos tufos emaranhados, subindo para a crista arborizada. Era uma experiência excitante, com a chuva açoitando-lhe a face e, durante algum tempo, sentiu-se de volta a outro lugar, mais seguro, ao mundo de sua infância, que terminara às quatro e quarenta e cinco da manhã de 1º de setembro de 1939, quando o Grupo de Exército Sul, do General Gerd von Rundsted, invadira a Polônia.

Penetrou no bosque, seguindo a velha trilha da comissão florestal. O cavalo diminuiu a velocidade ao aproximar-se da crista da colina. Havia um pinheiro no meio do caminho, a um metro ou dois. Era uma árvore derrubada. Não tinha mais do que uns noventa centímetros de altura, e o cavalo saltou sobre ela sem dificuldade. Ao chegar ao outro lado, uma figura levantou-se das moitas à direita. O cavalo corcoveou para um lado. Pamela Vereker perdeu os estribos e foi lançada ao chão. Uma moita de rododentros amaciou-Ihe a queda, porém, durante um momento, perdeu o fôlego; consciente de vozes em volta, procurou restabelecer a respiração.

— Krukowski, seu estúpido calhorda — disse alguém —, o que estava querendo fazer? Matá-la?

As vozes eram americanas. Abriu os olhos e viu um círculo de soldados em uniforme de combate e capacetes de aço, rodeando-a por todos os lados, com os rostos borrados com tinta de camuflagem, todos fortemente armados. Ajoelhado a seu lado, estava um negro imenso, com os galões de primeiro-sargento no braço.

— Está bem, senhorita? — perguntou ele, preocupado. Ela cerrou o cenho, sacudiu a cabeça e, inesperadamen­te, sentiu-se melhor.

— Quem são vocês?

Ele tocou o capacete em uma espécie de continência:

— Meu nome é Garvey, primeiro-sargento. Vigésima Primeira Força de Assalto Especial. Estamos aquartelados na Meltham House, onde passaremos umas duas semanas em manobras.

Um jipe chegou nesse momento, parando. com uma derrapagem na lama. O motorista era um oficial, notou ela, embora não soubesse ao certo qual o seu posto, pois tivera pouco contato com as forças americanas em seu tempo de serviço. Ele usava boné de campanha e uniforme comum e, certamente, não estava vestido para manobras.

— Que diabo está acontecendo aqui? .— perguntou ele.

— Esta senhora foi lançada do. cavalo, major, — respondeu Garvey. — Krukowski saltou da moita no momento errado.

“Major”, pensou ela, surpresa com a juventude dele. Levantou-se com alguma dificuldade.

— Eu estou bem, realmente bem: — Cambaleou um pouco e o major segurou-lhe o braço.

— Eu não penso assim. Mora longe daqui,

— Em Studley Constable. Meu irmão é o pároco de lá.

Segurando-a firmemente com uma das mãos, ele levou-a até o jipe.

— Acho que seria melhor vir comigo. Temos um médico em Meltham House. Gostaria que ele a examinasse.

Ela notou o escudo no seu braço com a palavra Rangers e lembrou-se de ter lido em algum lugar que eles eram o equivalente dos comandos britânicos.

— Meltham House?

— Sinto muito. Devia ter-me apresentado. Sou o Major Harry Kane, adido à Vigésima Primeira Força de Assalto Especial, sob o comando do Coronel Robert E. Shafto. Estamos aqui para treinamento.

— Oh, sim — anuiu ela. — Meu irmão me contou que Meltham House está sendo usada nestes dias para esse fim. — Fechou os olhos. — Sinto muito, mas estou um pouco tonta.

— Relaxe-se, simplesmente. Levo-a para lá em um minuto.

Era uma voz muito agradável. Quanto a isso não havia dúvida. Por alguma absurda razão, a voz fê-la ficar inteiramente sem fôlego. Recostou-se e fez exatamente o que ele mandou.

Os cinco acres da Meltham House eram cercados por um típico muro de ardósia de Norfolk, de uns dois metros e quarenta de altura. Por questão de segurança extra, fora instalado arame farpado na parte superior. Meltham em si era uma casa de tamanho modesto, uma pequena mansão que datava de inícios do século XVII. Como no muro, grande volume de lascas de ardósia fora usado, e a construção do edifício, em especial o desenho das cumeeiras, mostrava a influência holandesa típica do período.

Harry Kane e Pamela percorreram o caminho margeado de moitas em direção à casa. Ele passara uma boa hora mostrando-lhe a propriedade e ela apreciara cada minuto do passeio.

— Quantos são vocês aqui?

— No momento, cerca de noventa. A maior parte dos soldados está acampada em barracas, naturalmente, na área que lhe mostrei, do outro lado. da capoeira.

— Por que não me levou até lá? Treinamento secreto ou coisa parecida?

— Bom Deus, não. — Ele soltou uma risadinha. — Você é apenas bonita demais, só isso.

Um jovem soldado desceu correndo as escadas do terraço e aproximou-se deles. Fez uma elegante continência.

— O coronel voltou, senhor. O Primeiro-Sargento Garvey está com ele agora.

— Muito bem, Appleby.

O rapaz retribuiu a continência áe Kane, deu meia-volta e afastou-se.

— Pensei que os americanos levassem as coisas numa grande simplicidade — observou Pamela.

— Você não conhece Shafto. —-Kane sorriu. — Acho que cunharam a palavra “disciplinador” especialmente para ele.

No momento em que subiam os degraus do terraço, um. oficial saiu pelas portas altas. Ficou a observá-los, batendo com um rebenque no joelho, numa espécie de inquieta vitalidade animal. Pamela não precisava que alguém lhe dissesse quem era ele. Kane bateu continência.

— Coronel Shafto, permita que lhe apresente a Srta. Vereker.

Robert Shafto tinha nessa ocasião quarenta e quatro anos de idade e era um homem bonitão e de aparência arrogante, uma figura vistosa, de botas bem engraxadas e culotes. Usava um boné de campanha, inclinado sobre o olho esquerdo, e as duas fileiras de fitas de metal sobre o bolso esquerdo combinavam-se em uma brilhante explosão de cores. Talvez a coisa mais extraordinária nele fosse o Colt 45 com cabo de madrepérola que trazia em um coldre aberto no quadril esquerdo. Levando o rebenque ao boné, disse em tom grave:

— Fiquei muito pesaroso em saber de seu acidente, Srta. Vereker. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para compensar a falta de jeito de meus soldados. . .

— È uma grande bondade sua — respondeu ela. — Contudo, o Major Kane ofereceu-se muito gentilmente para me levar até Studley Constable, isto é, se o senhor puder dispensá-lo. Meu irmão é o pároco local.

— Isso é o mínimo que podemos fazer.

Ela queria ver Kane outra vez e aparentemente havia apenas uma maneira de consegui-lo.

— Vamos dar uma pequena festa no presbitério amanhã à noite — disse ela. — Nada de muito especial. Apenas alguns amigos, com drinques e sanduíches. Será que o senhor e o Major Kane gostariam de ir?

Shafto hesitou. Parecia óbvio que ele ia dar uma desculpa e, assim, ela continuou, apressada:

— Sir Henry Willoughby irá, também. Ele é o fidalgo local. Já o conhece?

— Não, ainda não tive esse prazer — disse Shafto, com os olhos brilhando.

— O irmão da Srta. Vereker foi capelão da Primei Brigada de Pára-Quedistas — explicou Kane.— Saltou com eles em Oudna, na Tunísia, no ano passado. Lembra-se daquela ação, coronel?

— Decerto que me lembro — respondeu Shafto. — Foi uma luta dos diabos. O seu irmão deve ser um homem e tanto para ter sobrevivido àquilo, moça.

— Ele recebeu a Cruz Militar — disse ela. — Tenho um grande orgulho dele.

— E deve ter mesmo. Terei prazer em comparecer à sua pequena soirée amanhã à noite e em conhecê-lo. Faça os preparativos necessários, Harry. — Fez outra continência com o rebenque. — E agora, se me desculpar, tenho coisas a fazer.

— Ficou impressionada? — perguntou-lhe Kane ao levá-la de volta no jipe pela estrada da costa.

— Não sei bem— respondeu ela. — Mas tenho que admitir que ele é uma figura bem vistosa.

— Este é um eufemismo hoje e sempre — comentou ele. — Shafto é aquilo conhecido em nosso ramo de atividade como um soldado combatente. O tipo de homem que costumava galgar uma trincheira na Flandres à frente das tropas, nos velhos dias, levando na mão apenas um rebenque. Como aquele general francês disse em Balaclava: magnífico, mas isso não é guerra.

— Em outras palavras, ele não usa a cabeça?

— Bem, ele tem uma falha danada, do ponto de vista do Exército. Ele não consegue obedecer ordens. . . de ninguém. O valente Bobby Shafto, o orgulho da infantaria. Conseguiu escapulir de Bataan em abril do ano passado, quando os japoneses tomaram a praça. O único problema foi que deixou atrás o regimento de infantaria. Isso não foi muito bem recebido no Pentágono. Ninguém o queria e, assim, mandaram-no para Londres para servir no Estado-Maior das Operações Combinadas.

— Trabalho esse do qual ele não gostou?

— Naturalmente. Usou-o como trampolim para alcançar maior glória. Descobriu que os britânicos tinham uma força de assalto em pequena escala que atravessava à noite a Mancha para brincar de escoteiro, e resolveu que o Exército americano deveria ter coisa igual. Infelizmente, algum imbecil nas Operações Combinadas achou que isso era uma boa idéia.

— Você não acha? — perguntou ela.

Aparentemente, ele contornou a pergunta:

— Nos últimos nove meses, soldados do Vigésimo Primeiro fizeram cerca de catorze incursões até o outro lado do canal.

— Mas isso é incrível!

— Que incluíram — continuou ele — a destruição de um farol abandonado na Normandia e diversos desembarques em ilhas francesas desabitadas.

— Você não tem muito respeito por ele, ao que parece.

— O grande público americano certamente tem. Há três meses, um correspondente de guerra em Londres, precisando de uma notícia, ouviu contar que Shafto havia capturado a tripulação de um navio-farol ao largo da costa da Bélgica. Havia seis deles, e, como eram soldados alemães, a reportagem pareceu muito boa, especialmente as fotos da lancha de desembarque chegando a Dover numa manhã cinzenta. Shafto e seus rapazes, ele com uma das correias do capacete caindo para um lado, e os prisioneiros apropriadamente acovardados. Um verdadeiro cenário dez da mgm. — Sacudiu a cabeça. — Você precisava ver como o pessoal nos Estados Unidos adorou aquilo. Os Guerrilheiros de Shafto. Life, Colliers, Saturday, Evening Post. Pode dizer o nome da publicação, e ele estava nela, em algum lugar. O herói do povo. Duas dscs, Estrela de Prata com Folhas de Carvalho. Tudo, menos a Medalha de Honra do Congresso, e ele a ganhará antes que isto acabe, mesmo que tenha que matar um bocado de nós pára consegui-la.

— Por que o senhor ingressou nessa unidade, Major Kane? — perguntou Pamela, com voz seca.

— Eu estava ancorado atrás de uma escrivaninha — explicou ele. — Isso resume mais ou menos os meus motivos Acho que teria feito praticamente tudo para sair daquela situação. . . e fiz.

— Participou de alguma das incursões que mencionou?

— Não, madame.

— Neste caso, sugiro que no futuro pense duas vezes antes de falar com tanta leviandade das ações de um homem valente, especialmente do ponto de vista vantajoso de uma escrivaninha.

Ele virou o jipe para um dos lados da estrada e freou. Voltou-se para ela, sorrindo alegre:

— Ei, eu gostei disso. Importa-se se eu anotar a frase para usá-la no grande romance que nós jornalistas estamos sempre para escrever?

— Vá para o inferno, Harry Kane.

Ergueu a mão como se fosse dar-lhe uma bofetada. Ele tirou um maço de Camel do bolso e sacudiu-o para soltar o cigarro.

— Em vez disso, aceite um cigarro. Acalma os nervos.

Ela o aceitou, e o fogo que se seguiu, e deu uma profunda tragada.

— Sinto muito. Acho que minha reação foi excessiva, mas esta guerra tornou-se muito pessoal para mim.

— Por causa de seu irmão?

— Não apenas por isso. Quando eu estava de serviço na tarde de ontem, captei o chamado de um piloto de caça no rt. Havia sido muito atingido em um combate sobre o mar do Norte. O seu Hurricane estava em chamas e ele não podia sair da cabina. Gritou durante toda a queda.

— Parecia ser um belo dia — disse Kane. — Subitamente deixou de ser. — Estendeu a mão para o volante e ela a cobriu com a sua, impulsivamente.

— Sinto muito. . . sinto realmente.

— Não tem importância.

A expressão de Pamela transformou-se e adquiriu um ar de perplexidade quando ergueu a mão dele.

— O que há com seus dedos? Diversos deles são tortos. Suas unhas. . . meu Deus, Harry, o que foi que aconteceu com suas unhas?

— Oh, isso? — disse ele. — Alguém as arrancou para mim.

Ela fitou-o, tomada de horror.

— Foram. . . foram os alemães, Harry? — perguntou baixinho.

— Não. — Ele ligou o motor. — Para dizer a verdade, eram franceses, mas trabalhavam para o outro lado, naturalmente. Uma das mais penosas descobertas de minha vida, ou pelo menos foi assim que pensei, foi que definitivamente é preciso gente de todos os tipos para fazer o mundo.

Sorriu ironicamente e reiniciou a marcha.

Na noite do mesmo dia, num quarto particular na clínica de Aston, o estado de Ben Garvald agravou-se muito. Perdeu a consciência às seis horas. Isso só foi descoberto uma hora depois. Somente às oito horas apareceu o Dr. Das, chamado às pressas ao telefone pela enfermeira, e finalmente às dez Reuben chegou e tomou conhecimento da situação.

Voltara a Fogarty, de acordo com as instruções de Ben, levando carro fúnebre e caixão, obtidos na empresa funerária que era outro dos muitos negócios dos irmãos Garvald. O infeliz Jackson fora recolhido e levado para um crematório privado local, no qual os irmãos tinham também interesses. E não fora em absoluto a primeira vez que se haviam livrado dessa maneira de um cadáver incômodo.

Com a face banhada de suor, Ben gemia e debatia-se na cama de um lado para outro. No ar, havia um leve e desagradável cheiro, lembrando carne podre. Reuben observou rapidamente o joelho quando Das tirou a atadura. Desviou os olhos e o medo subiu à sua boca como se fosse bile.

— Ben? — chamou ele.

Garvald abriu os olhos. Durante um momento, pareceu. que não reconhecera o irmão. Em seguida, sorriu:

— Conseguiu resolver aquilo, Reuben, meu rapaz? Livrou-se dele?

— Tu és pó e em pó te tornarás, Ben.

Garvald fechou os olhos e Reuben voltou-se para Das:

— Qual é a gravidade do caso?

— Muito grande. Há possibilidade de gangrena. Eu avisei a ele.

— Ó, meu Deus! — exclamou Reuben. — Eu sabia que ele devia ter procurado um hospital.

Ben Garvald abriu os olhos e fitou-o com uma raiva febril. Estendeu a mão para o punho do irmão.

— Nada de hospital, ouviu? O que está pretendendo fazer? Dar àqueles malditos policiais a oportunidade que eles vêm procurando há anos? — Caiu outra vez na cama, fechando novamente os olhos.

— Há uma possibilidade — disse Das. — Existe um medicamento chamado penicilina. Ouviu falar nele?

— Claro que ouvi. Dizem que cura tudo. Tá uma forturna no mercado negro.

— Exato, tem apresentado resultados milagrosos em casos como este. Pode arranjar um pouco dela? Agora, hoje à noite?

— Se houver em Birmingham, você a terá dentro de uma hora. — Reuben dirigiu-se para a porta e voltou-se no meio do caminho. — Mas, se ele morrer, você vai com ele, filho. Isto é uma promessa.

Saiu, fechando a porta às suas costas.

Na mesma ocasião, em Landsvoort, o Dakota decolou e virou para o mar. Gericke não perdeu tempo. Levou o avião até trezentos metros de altura, guinou para a direita e desceu em direção à costa. No interior do aparelho, Steiner e seus homens se prepararam. Usavam o equipamento dos pára-quedistas britânicos e todas as armas e o material estavam guardados em bolsas de suspensão, segundo o costume britânico.

— Muito bem — disse Steiner.

Ergueram-se todos e prenderam as linhas estáticas ao cabo de ancoragem, cada homem inspecionando o camarada da frente, cabendo a Steiner inspecionar Preston, que era o último da fila. O inglês tremia, o que Steiner percebeu ao apertar-lhe as correias.

— Quinze segundos — disse. — Assim, você não tem muito tempo para. . . Compreendeu? E entendam bem isto, todos vocês. Se vão quebrar tona perna, façam-no aqui. Não em Norfolk.

Explodiu uma gargalhada geral. Dirigiu-se para a frente da fila, onde Ritter Neumann inspecionou-lhe as correias. Steiner empurrou a porta para o lado quando a luz vermelha piscou em cima de sua cabeça e, subitamente, ouviu-se o rugido do vento.

Na cabina, Gericke reduziu a velocidade e baixou. A maré descera e a úmida e solitária praia, pálida à luz do luar, estendia-se até o infinito. Bohmler, a seu lado, concentrava-se no altímetro.

— Agora! — gritou Gericke, e Bohmler estava pronto para ele.

A luz verde piscou em cima da cabeça de Steiner e ele deu uma palmada no ombro de Ritter. O jovem Oberleutnant saltou, seguido rapidamente por toda a fileira, que terminava com Brandt. Quanto a Preston, ficou ali, de boca aberta, olhando fixamente para a noite.

— Vamos! — gritou Steiner, e agarrou-lhe o ombro. Preston recuou, segurando-se numa longarina de aço. Sacudiu a cabeça, movendo a boca.

— Não posso! — conseguiu, finalmente, dizer. — Não posso fazer isso!

Steiner esbofeteou-o com as costas da mão, agarrou-o pelo braço direito e empurrou-o para a porta aberta. Preston agarrou-se ao umbral com ambas as mãos. Steiner levantou o pé até o seu traseiro e empurrou-o para fora. Em seguida prendeu-se ao cabo de ancoragem e saltou atrás dele.

Quando alguém salta de uma altura de cento e trinta metros não tem realmente tempo de sentir medo. Preston teve consciência de uma cambalhota, sentiu uma puxada súbita, a pancada do pára-quedas que se enchia de ar e, logo depois, flutuava sob o escuro guarda-chuva caqui.

Era fantástico, a pálida lua no horizonte, as planas e úmidas areias, a linha cremosa da arrebentação das ondas. Viu com grande clareza o barco-patrulha ancorado no molhe, gente olhando e, mais distante na praia, uma linha de pára-quedas fechados, que eram apanhados pelos soldados. Ergueu os olhos e vislumbrou Steiner em um nível mais alto e à esquerda, e então lhe pareceu que estava descendo com grande rapidez.

A bolsa de suprimentos, balançando-se sete metros abaixo, ao fim da linha presa à sua cintura, atingiu a areia com um baque surdo, avisando-o para se preparar. Ele desceu com força, com força demais, ou assim lhe pareceu, rolou e milagrosamente, levantou-se, enquanto o pára-quedas enfunava-se como uma pálida flor à luz do luar.

Moveu-se rapidamente para esvaziá-lo, como lhe haviam ensinado, e, de súbito, parou sobre as mãos e os joelhos, tomado por uma sensação de alegria sufocante, de um tipo de poder pessoal que jamais conhecera antes na vida.

— Consegui! — gritou. — Mostrei a esses safados! Consegui! Consegui! Consegui!

Na cama da clínica, em Aston, Ben Garvald estava absolutamente imóvel. Reuben, num canto do quarto, esperava enquanto o Dr. Das auscultava-lhe o coração com um estetoscópio.

— Como está ele? — perguntou Reuben.

— Ainda vivo, mas por pouco.

Reuben tomou uma decisão: agarrou o Dr. Das pelos ombros e empurrou-o para a porta.

— Arranje uma ambulância com a maior urgência possível. Vou levá-lo para um hospital.

— Mas isso significará a presença da polícia, Sr. Garvald — observou Das.

— E eu quero lá saber disso? — disse em voz rouca Reuben. — Eu o quero vivo, compreendeu? Ele é meu irmão. Agora, mexa-se!

Abriu a porta e empurrou-o para fora. Quando se voltou para a cama, havia lágrimas em seus olhos.

— Prometo-lhe uma coisa, Ben — disse em voz alquebrada. — Farei aquele safadinhó irlandês pagar por isso, mesmo que seja a última coisa que eu faça na vida.

 

Aos quarenta e cinco anos, Jack Rogan era policial há quase um quarto de século, tempo demais para trabalhar num sistema de três turnos e ser antipatizado pelos vizinhos. Mas esse era o destino dos policiais, como freqüentemente observava à esposa.

Às nove e trinta de terça-feira, 2 de novembro, entrou em seu gabinete na Scotland Yard. Por direito, não devia absolutamente estar ali. Passara uma longa noite em Muswell Hill interrogando membros de um clube irlandês e merecia algumas horas de sono, mas precisava primeiro liquidar um trabalho burocrático.

Mal havia sentado quando ouviu uma batida à porta e seu assistente, o Detetive-Inspetor Fergus Grant, entrou. Este era filho mais moço de um coronel aposentado do Exército indiano, educado em Winchester e na Academia de Polícia de Hendon. Um dos novos homens, supunha-se, que deviam revolucionar a polícia. A despeito disso, ele e Rogan davam-se bem. Rogan ergueu a mão num gesto defensivo.

— Fergus, tudo o que eu quero fazer é assinar umas cartas, tomar uma xícara de chá e ir para casa dormir. A noite passada foi um verdadeiro inferno.

— Eu sei, senhor — disse Grant.— .Acontece que recebemos um relatório bem estranho da polícia da cidade de Birmingham. Pensei que pudesse interessá-lo.

— Você quer dizer a mim ou à Seção Irlandesa?

— A ambos.

— Muito bem. — Rogan empurrou a cadeira para trás e começou a encher o cachimbo em uma velha bolsa de couro. — Não estou com vontade de ler coisa alguma, por isso, conte-me o que há.

— Já ouviu falar em um homem chamado Garvald, senhor?

Rogan interrompeu o que estava fazendo.

— Refere-se a Ben Garvald? Ele é um mau-caráter há anos. O pior patife das Middlands.

— Morreu hoje de manhã. Gangrena, em conseqüência de um ferimento à bala. Chegou tarde demais ao hospital.

Rogan riscou um fósforo.

— Para algumas pessoas que conheço essa é a melhor notícia que podiam esperar, mas de que modo isso nos afeta?

— Ele foi baleado na rótula direita por um irlandês.

— Isso é interessante. — Rogan fitou-o. — O castigo estatutário do ira quando alguém tenta trair um de seus membros. — Soltou um palavrão, pois o fósforo queimara até a ponta de seus dedos e caíra. — Qual era o nome dele, do irlandês?

— Murphy, senhor.

— Tinha que ser. Mais alguma coisa?

— Pode ter certeza que sim — respondeu Grant. Garvald tem um irmão que ficou tão abalado com a morte dele que está cantando como um passarinho. Ele quer o amigo Murphy pregado numa porta.

— Teremos que ver se lhe podemos fazer esse favor — disse Rogan, inclinando a cabeça. — O que foi que ele disse?

Grant contou tudo com detalhes, e quando terminou, Rogan tinha o cenho franzido.

— Um caminhão do Exército, um jipe e tinta esverdeada? Para que queria ele isso?

— Talvez esteja querendo fazer uma incursão a algum acampamento do Exército, senhor.

Rogan levantou-se e foi até a janela.

— Não, não posso aceitar isso, não sem uma boa prova. Eles simplesmente não estão suficientemente ativos neste momento. Não são capazes desse tipo de estratagema, como você sabe muito bem. — Voltou à escrivaninha. — Quebramos a espinha deles em Curragh. — Sacudiu a cabeça. — Não faria sentido esse tipo de operação neste estágio. O que o irmão de Garvald acha?

— Parece que ele pensa que Murphy está organizando uma incursão a algum deposito do naafi, ou coisa parecida. O senhor sabe como é a coisa. Entram vestidos de soldados em um caminhão do Exército. . .

— E saem com uísque escocês e cigarros no valor de cinqüenta mil libras. Isso foi feito antes — disse Rogan.

— Então, Murphy é apenas outro ladrão tentando um golpe? É esse o seu palpite?

— Eu aceitaria isso, se não fosse a bala na rótula. Isso é puro ira. Não, minha orelha esquerda está coçando com essa história, Fergus. Acho que poderemos estar na pista de alguma coisa importante.

— Muito bem, senhor. Qual é a próxima medida?

Rogan voltou à janela, pensativo. Do lado de fora, fazia um típico tempo de inverno, e o nevoeiro, vindo do Tâmisa, deslizava sobre os telhados enquanto a chuva pingava dos sicômoros. Voltou-se para Fergus:

— Uma coisa eu sei. Não vou deixar que Birmingham meta os pés pelas mãos. Cuide disso, pessoalmente. Requisite um carro na garagem e vá lá ainda hoje. Leve os arquivos com você, fotografias, tudo. Todo o pessoal do ira que não está na prisão. Talvez Garvald possa identificá-lo para nós.

— E em caso contrário, senhor?

— Então, começaremos a fazer perguntas aqui no nosso lado. Todos os canais habituais. A Divisão Especial em Dublin dará toda a ajuda que puder. O seu pessoal odeia o ira mais do que nunca desde que mataram o Sargento-Dete-tive O’Brien no ano passado. Nós nos sentimos sempre assim quando isso acontece a um dos nossos.

— Certo, senhor — anuiu Grant. — Vou começar a trabalhar.

Às oito, naquela noite, o General Karl Steiner terminou a refeição que lhe fora servida na sua cela no segundo andar da Prinz Albrechtstrasse: coxa de galinha, batatas fritas em óleo, exatamente como gostava; um pouco de salada e meia garrafa de Riesling, servido bem gelado. Absolutamente incrível. E café verdadeiro depois.

As coisas haviam certamente mudado após a terrível noite em que havia desmaiado depois de receber o tratamento de choques elétricos. Na manhã seguinte, acordara e descobrira que estava.deitado numa cama confortável, sobre lençóis limpos. Nenhum sinal daquele safado Rossman e seus latagões da Gestapo. Apenas um Obersturmbannführer chamado Zeidler, um tipo absolutamente decente, mesmo que fosse das ss. Um cavalheiro.

Ele fora pródigo em desculpas. Um terrível erro havia sido cometido. Informações falsas haviam sido fornecidas com intenções maldosas. O próprio Reichsführer ordenara que se fizesse o mais rigoroso inquérito possível. Os responsáveis seriam identificados e punidos. Entrementes, ele lamentava que Herr general tivesse que continuar preso, mas isso seria por apenas alguns dias. Tinha certeza de que ele compreenderia a situação.

Steiner compreendia perfeitamente. Tudo o que havia contra ele eram insinuações, nada de concreto. E ele nada dissera, a despeito de tudo o que Rossman fizera, de modo que tudo aquilo ia parecer um engano terrível da parte de alguém. Detinham-no ainda para terem a certeza de que ele apresentaria boa aparência quando o soltassem. As contusões já haviam quase desaparecido. Exceto pelas olheiras, parecia estar bem. Haviam-lhe mesmo dado um uniforme novo.

O café era, na verdade, excelente. Começava justamente a servir-se de outra xícara quando uma chave estalou na fechadura e a porta foi aberta às suas costas. No estranho silêncio, sentiu os cabelos se eriçarem em sua nuca.

Voltou-se devagar e viu Karl Rossman de pé no umbral da porta. Usava o chapéu de feltro mole, a capa de couro, e trazia um cigarro no canto da boca. Estava ladeado por dois homens da Gestapo com uniforme completo.

— Olá, Herr general — disse Rossman. — O senhor pensou que o havíamos esquecido?

Algo como que se partiu dentro de Steiner. A situação inteira tornou-se apavorantemente clara.

— Seu canalha! — disse, e lançou a xícara de café contra a cabeça de Rossman.

— Muito malfeito — disse Rossman. — O senhor não devia ter feito isso.

Um dos homens da Gestapo moveu-se rapidamente e enfiou a extremidade de seu cassetete na virilha de Steiner. O general caiu de joelhos, soltando um grito de dor. Outro golpe no lado da cabeça fê-lo perder inteiramente os sentidos.

— Aos porões — disse, com simplicidade, Rossman, e saiu.

Os dois homens da Gestapo agarraram o general pelos tornozelos e saíram puxando-o pelo chão, com a face arrastando pelo assoalho, mantendo o passo com uma precisão militar que não se alterou nem mesmo quando chegaram à escada.

Max Radl bateu à porta do gabinete do Reichsführer e entrou. Em frente à lareira, Himmler bebia café. Pôs de lado a xícara e voltou à escrivaninha.

— Eu tinha esperanças de que vocês já estivessem a caminho a esta altura.

— Eu viajo no vôo noturno para Paris — respondeu Radl. — Como sabe, Herr Reichsführer, o Almirante Canaris partiu para a Itália esta manhã.

— Uma pena —comentou Himmler. — Ainda assim, deve haver bastante tempo. — Tirou o pince-nez e poliu-o com o cuidado habitual. — Li o relatório que o senhor entregou a Rossman esta manhã. O que me diz desses rangers americanos que apareceram na área? Mostre-me onde estão.

Desenrolou um mapa militar e Radl apontou a Meltham House.

— Como pode ver, Herr Reichsführer, Meltham Hottse fica a doze quilômetros ao norte, ao longo da costa, em relação a Studley Constable. A uns vinte ou vinte e três em relação a Hobs End. A Sra. Grey não espera problema algum dessa direção, segundo sua última mensagem de rádio.

Himmler inclinou a cabeça.

— O irlandês parece ter merecido o salário que ganha. O resto caberá a Steiner.

— Não acredito que ele nos decepcione.

— Sim, eu estava esquecendo — disse, seco, Himmler. — Ele tem, afinal de contas, um interesse pessoal nesta missão.

— Posso perguntar como vai o estado de saúde do Major-General Steiner?

— Vi-o pela última vez ontem à noite — respondeu Himmler, dizendo a absoluta verdade —-, embora deva confessar que ele não me viu. Nessa ocasião ele fazia uma refeição de batatas assadas, salada de verduras e um bife bastante alentado. — Suspirou. —- Se ao menos esses carnívoros compreendessem o efeito de tal dieta sobre o organismo! O senhor come carne, Herr Oberst?

— Lamento dizer que sim.

— E fuma de sessenta ou setenta desses vis cigarros russos por dia? E bebe? Qual é o seu consumo de álcool atualmente? — Sacudiu a cabeça enquanto mexia numa pilha de papéis bem-arrumada sobre a mesa. — Ah, bem, no seu caso não importa, realmente.

“Há alguma coisa que esse suíno não saiba?”, pensou Radl.

— Não, Herr Reichsführer — disse ele.

— A que horas os homens partem na sexta-feira?

— Pouco antes da meia-noite. Uma hora de vôo, se o tempo o permitir.

Himmler ergueu imediatamente os olhos, e eles estavam frios.

— Coronel Radl, quero deixar uma coisa perfeitamente clara. Steiner e seus homens partirão, conforme o planejado, qualquer que seja a condição do tempo. Isto não é algo que possa ser adiado até outra noite. É uma oportunidade que surge uma única vez na vida. Haverá uma linha aberta com este quartel-general o tempo todo. A partir da sexta-feira de manhã, o senhor se comunicará comigo de hora em hora e continuará a fazê-lo até que a operação esteja concluída com êxito.

— Muito bem, Herr Reichsführer.

Radl virou-se para sair, mas Himmler prosseguiu:

— Mais uma coisa. Por muitas razões, não mantive o Führer informado de nossos progressos nesta missão. Estamos passando por tempos difíceis, Radl, e o destino da Alemanha repousa nos ombros dele. Eu gostaria que isto. . . como poderei dizer?. . . fosse uma pequena surpresa para ele.

Durante um momento, Radl pensou que Himmler devia ter enlouquecido. Compreendeu, porém, que falava sério.

— É essencial que não o decepcionemos — continuou Himmler. — Todos nós estamos agora nas mãos de Steiner. Por favor, faça com que ele compreenda isso.

— Eu o farei, Herr Reichsführer. — Radl abafou um insano desejo de rir.

Himmler ergueu o braço direito em uma negligente saudação nazista.

— Heil Hitler!

Radl, no que mais tarde jurou à esposa ter sido o gesto mais corajoso de toda a sua vida, retribuiu com uma formal continência militar, virou-se para a porta e saiu com toda a rapidez possível.

No momento em que Radl chegou ao gabinete da Tirpitz Ufer, Hofer preparava-lhe uma maleta de viagem. Radl tirou o Courvoisier da gaveta e serviu-se de uma grande dose.

— Herr Oberst está bem? — perguntou, ansioso, Hofer.

— Sabe o que o nosso estimado Reichsführer acaba de deixar escapar, Karl? Não disse nada ao Führer sobre nossa missão. Quer fazer-lhe uma surpresa. Isto não é uma lindeza?

— Herr Oberst, pelo amor de Deus.

Radl ergueu o copo.

— Aos nossos admiráveis camaradas, Karl. Aos trezentos e dez do regimento que morreram na Guerra de Inverno. Não sei bem para quê. Se descobrir, conte-me, — Hofer olhou-o fixamente e Radl sorriu. — Muito bem, Karl, serei bonzinho. Verificou a hora da partida de meu vôo para Paris?

— Dez e trinta em Tempelhof. Pedi o carro para nove e quinze. O senhor terá bastante tempo.

— E a conexão para Amsterdam?

— Amanhã pela manhã. Provavelmente onze horas, mas não é certo.

— Que beleza! Só falta fazer mau tempo e não chegarei a Landsvoort até quinta-feira. Qual é a previsão do tempo?

— Não é boa. Uma frente fria vinda da Rússia.

— Sempre é da Rússia — disse Radl com expressão vazia. Abriu a escrivaninha e tirou um envelope fechado. — Isto é para minha mulher. Providencie para que ela o receba. Sinto muito que você não possa vir comigo, mas precisa garantir o forte por aqui, compreendeu?

Hofer olhou para a carta e surgiu uma expressão de medo em seus olhos.

— Certamente, Herr Oberst não pensa. . .

— Meu bom e querido Karl — respondeu Radl. — Não penso em coisa alguma. Simplesmente, preparo-me para uma eventualidade desagradável. Se esta missão falhar, acho que os que estiveram ligados a ela talvez não sejam considera­dos. . . como direi?. . . persona grata na corte. Nessa eventualidade, sua linha de ação deve ser a de negar a menor ligação com a missão. Tudo o que fiz, fiz sozinho.

— Herr Oberst, por favor — disse Hofer em voz rouca. Havia lágrimas em seus olhos.

Radl apanhou outro copo, encheu-o e entregou-o a

— Vamos, agora um brinde. A que beberemos?

— Só Deus sabe, Herr Oberst.

— Neste caso, eu lhe direi. À vida, Karl, ao amor, à amizade e à esperança. — Sorriu irônico. — Sabe de uma coisa? Acaba de me ocorrer que o Reichsführer provavelmente não sabe de coisa alguma a respeito desses sentimentos. Ah, bem. . .

jogou a cabeça para trás e esvaziou o copo de um só gole.

Como a maioria dos servidores graduados da Scotland Yard, Jack Rogan conservava no gabinete uma pequena cama de campanha que usava nas ocasiões em que os ataques aéreos tornavam um problema a volta para casa. Ao regressar da reunião semanal de coordenação do comissário-assistente da Divisão Especial com os chefes de seção, na manhã de quarta-feira, pouco antes do meio-dia, encontrou Granti ali deitado e de olhos fechados.

Rogan enfiou a cabeça pela porta e disse ao guarda de serviço que preparasse um pouco de chá. Em seguida, deu um cordial pontapé em Grant e foi até a janela, enchendo o cachimbo. O nevoeiro estava pior do que nunca. Uma autêntica Londres particular, como a descrevera Dickens certa vez.

Grant levantou-se, ajeitando a gravata. O terno estava amassado e ele precisava fazer a barba.

— A viagem de volta foi o fim. O nevoeiro estava uma coisa.

— Conseguiu alguma coisa?

Grant abriu a pasta, tirou um envelope e extraiu um cartão que colocou sobre a mesa de Rogan. Tinha preso a ele uma foto de Liam Devlin. Estranhamente, ele parecia mais velho. Por baixo da foto estavam datilografados vários nomes diferentes.

— Este é Murphy, senhor.

Rogan assobiou baixinho.

— Ele? Tem certeza?

— Reuben Garvald tem.

— Mas isto não faz sentido — disse Rogan. — A última notícia que tive dele foi de que estava tendo problemas na Espanha, por lutar do lado errado. Estaria cumprindo pena de prisão perpétua numa penitenciária agrícola.

— Evidentemente, isso não é verdade, senhor.

Rogan levantou-se de um salto e foi até a janela. Com as mãos no bolso, permaneceu ali durante um momento.

— Sabe, ele é um dos poucos figurões do movimento que eu não conheço. Sempre o homem do mistério. Todos esses nomes falsos para uma única coisa.

— Freqüentou o Trinity College, de acordo com o arquivo, o que não é comum para um católico — disse Grant.

— Boas notas em literatura inglesa. Que ironia, considerando-se que ele pertence ao ira.

— Por aí você vê como são esses malditos irlandeses — retrucou Rogan, apontando a cabeça. — Malucos de nascença. Inteiramente às avessas. Quero dizer, o tio é sacerdote, ele tem um diploma universitário, e o que ele é? O carrasco mais frio do movimento desde Collins e seu Esquadrão da Morte.

— Muito bem, senhor — concordou Grant. — O que vamos fazer?

— Em primeiro lugar, entre em contato com a Divisão Especial, em Dublin. Verifique o que descobriram.

— E em seguida?

— Se ele está aqui legalmente, deve ter-se registrado numa delegacia local, onde quer que seja. Registro de estrangeiro e fotografia.

— Que são em seguida transmitidos para a sede da polícia interessada?

— Exatamente. — Rogan deu um pontapé na mesa. — Venho argumentando há dois anos que deveríamos tê-los num arquivo central, mas, com setecentos e cinqüenta mil irlandeses trabalhando aqui, ninguém quer saber disso.

— Isso significa enviar cópias desta foto a todas as forças policiais de cidades e condados e pedir a alguém que verifique os arquivos. -— Grant apanhou a foto. — Isso vai levar tempo.

— O que mais podemos Jazer? Publicá-la no jornal e perguntar: “Alguém viu este homem?” Quero saber o que ele pretende fazer, Fergus. Quero prendê-lo, não afugentá-lo.

— Naturalmente, senhor.

— Então comece. Prioridade máxima. Classifique como Segurança Nacional Vermelha. Isso fará com que o pessoal se mexa.

Grant saiu. Rogan apanhou o arquivo de Devlin, recostou-se na cadeira e começou a ler.

Em Paris, nenhum avião foi autorizado a decolar. O nevoeiro era tão espesso que quando Radl deixou a estação de passageiros em Orly não conseguiu ver a sua mão à frente do rosto. Voltou para o interior da estação e falou com o oficial de serviço:

— O que o senhor acha?

— Sinto muito, Herr Oberst, mas, à vista do último boletim meteorológico, nada antes da manhã. Para ser honesto com o senhor, poderá haver ainda mais atrasos, mesmo nessa ocasião. Parece que eles acham que este nevoeiro pode durar dias. — Sorriu cordialmente. — De qualquer modo conserva os Tommis em casa.

Radl tomou uma decisão e estendeu a mão para a mala.

— É absolutamente essencial que eu chegue a Rotterdam até amanhã à tarde. Onde fica a garagem?

Dez minutos depois, enfiava sob o nariz de um capitão de transportes de meia-idade a carta do Führer, e, vinte minutos mais tarde, saía pelo portão principal do Aeroporto de Orly numa grande limusine Citroen preta.

No mesmo momento, na sala de visitas do bangalô de Joanna Grey em Studley Constable, Sir Henry Willoughby jogava besigue com o Padre Vereker e a dona da casa. Bebera mais do que lhe permitia a saúde e estava bem alegre.

— Deixe-me ver agora, eu tinha um casamento real. . . quarenta pontos, e agora uma seqüência de trunfos.

— Isso chega a quanto? — perguntou Vereker.

— Duzentos e cinqüenta — explicou Joanna Grey — Dois noventa com o casamento real.

— Espere um momento — disse Vereker. — Ele tirou um dez depois da rainha.

— Mas eu expliquei antes — disse Joanna Grey. Em besigue, o dez vem antes da rainha.

Philip Vereker sacudiu, aborrecido, a cabeça.

— Não dá. Nunca aprenderei este maldito jogo.

Sir Henry riu, contente.

— É um jogo de cavalheiros, meu rapaz. O aristocrata dos jogos de carta. — Levantou-se com um salto, derrubou a cadeira e endireitou-a. — Posso servir-me, Joanna?

— Naturalmente, meu querido — disse ela, alegre.

— O senhor parece muito satisfeito consigo mesmo esta noite — observou Vereker.

Sir Henry, aquecendo as costas em frente à lareira, sorriu largamente.

— Eu estou, Philip, estou, e tenho bons motivos para isso. — Numa súbita explosão, contou tudo. — Não sei por que não lhe deveria contar. De qualquer maneira, vocês vão saber logo.

“Meu Deus, o velho tolo!”, pensou Joanna Grey. Estava realmente alarmada quando disse, apressadamente:

— Henry, você acha que deve?

— Por que não? — perguntou ele. — Se eu não posso confiar em. você e em Philip, em quem poderia confiar? — Virou-se para Vereker: — O fato é que o primeiro-ministro chega sábado para passar o fim de semana comigo.

— Meu Deus! Naturalmente, ouvi dizer que ele ia falar em Kings Lynn. — Vereker estava atônito. — Para ser honesto, não sabia que o senhor conhecia o Sr. Churchill.

— Não conheço — reconheceu Sir Henry. — O fato é que ele gostaria de passar um tranqüilo fim de semana aqui e de pintar um pouco antes de voltar à cidade. Naturalmente, ele ouviu falar nos jardins de Studley. Quero dizer, quem não ouviu? Construídos no ano da Armada. Quando Downing Street entrou em contato comigo e me perguntou se ele podia passar o fim de semana aqui, fiquei contentíssimo.

— Agora, vocês não podem contar isso a ninguém — disse Sir Henry. — Os moradores da aldeia hão podem saber até que ele vá embora. Insistiram muito nisso. Segurança, como vocês sabem. Todo cuidado é pouco. — Estava bêbado nessa ocasião, engrolando as palavras.

— Acho que ele virá com uma forte guarda — disse Vereker.

— Em absoluto — explicou Sir Henry. — Quer o menor aparato possível. Será acompanhado por apenas três ou quatro pessoas. Providenciei para que um pelotão de minha Guarda Metropolitana proteja o perímetro de Grange, enquanto ele estiver aqui. Nem mesmo eles sabem o motivo disso. Pensam que é um exercício.

— Então é assim? — perguntou Joanna.

— Sim. Devo ir a Kings Lynn no sábado para rec Voltaremos de carro. — Arrotou e pôs o copo de lado. Poderia desculpar-me? Não me sinto bem.

— Naturalmente — disse Joanna Grey.

Ele dirigiu-se até a porta e levou um dedo ao nariz.

— Agora, silêncio.

Depois da saída do coronel, Vereker comentou:

— Por essa é que eu não esperava.

— Ele é realmente muito levado — disse Joanna. — Não devia dizer uma única palavra sobre isso, mas me contou em circunstâncias exatamente semelhantes, num dia em que bebeu demais. Naturalmente, senti-me na obrigação de conservar segredo.

— Claro que a senhora tinha de fazê-lo — concordou o padre. — A senhora tem toda a razão. — Levantou-se estendendo a mão para a bengala. — Será melhor que eu o leve para casa. Ele não está em condições de guiar.

— Tolice, — Tomou-lhe o braço e levou-o até a porta. — Isso significaria que você teria que ir a pé até o presbitério para apanhar o carro. Não há necessidade. Eu o levarei. — Ajudou-o a vestir o sobretudo.

— Tem certeza?   .                         .

— Naturalmente. — Ela beijou-lhe o rosto. — Estou doida para ver Pamela no sábado.

Coxeando, ele mergulhou na noite, À porta, ela ficou escutando o som dos passos que se afastavam. O sossego e o silêncio eram quase tão completos quanto no veldt nos seus tempos de mocinha. Estranho, mas há anos não pensava nisto. Voltou para o interior da casa e fechou a porta.

Sir Henry reapareceu, vindo do banheiro no térreo, e serpenteou até sua cadeira junto ao fogo.

— Preciso ir, minha velha.

— Tolice — disse ela. — Há sempre tempo para mais um. — Serviu-lhe dois dedos de uísque e sentou-se sobre um braço da cadeira, acariciando-lhe suavemente o pescoço. — Sabe, Henry, eu adoraria conhecer o primeiro-ministro. Acho que gostaria mais disso do que qualquer coisa no mundo.

— Qualquer coisa, minha velha? — perguntou ele, erguendo tolamente os olhos para ela. Joanna sorriu e, carinhosamente, passou os lábios pela testa do coronel.

— Bem, quase. . .

Reinava silêncio nos porões da Prinz Albrechtstrasse no momento em que Himmler desceu as escadas. Rossman esperava-o embaixo. Tinha as mangas arregaçadas até os cotovelos e estava muito pálido.

— Bem? — perguntou Himmler.

— Ele morreu, lamento dizer, Herr Reichsführer.

Himmler ficou visivelmente aborrecido.

— Tal fato parece um singular descuido de sua parte, Rossman. Eu lhe disse para tomar cuidado.       . .     :

— Com o devido respeito, Herr Reichsführer, foi o coração dele que não agüentou. O Dr. Prager confirmará isso. Mandei chamá-lo imediatamente. Ele ainda está lá.

Abriu a porta mais próxima. De um lado, estavam os dois assistentes da Gestapo usando ainda luvas de borracha e aventais. Um homem pequenino e de aparência buliçosa, vestido com um terno de tweed, inclinava-se sobre o corpo estirado no catre de ferro em um canto è auscultava-o com um estetoscópio. Voltou-se no momento em que Himmler entrou e fez a saudação do partido.

— Herr Reichsführer.

Himmler olhou para Steiner durante algum tempo. O general estava nu da cintura para cima e descalço. Os olhos, parcialmente abertos, duros, fitavam a eternidade.

— Bem? — perguntou Himmler.

— Foi o coração, Herr Reichsführer. Não há dúvida a respeito.

Himmler tirou o pince-nez e suavemente cocou a região entre os olhos. Tivera dor de cabeça durante toda a tarde e ela simplesmente não queria passar.

— Muito bem, Rossman — disse. — Ele era culpado de traição contra o Estado, de conspirar contra a vida do próprio Führer. Como você sabe, o Führer decretou um castigo oficial para esse crime e o Major-General Steiner não pode ser poupado, mesmo morto.

— Naturalmente, Herr Reichsführer.

— Providencie para que a sentença seja executada. Não comparecerei, fui chamado a Rastenburg, mas tire fotografias e livre-se do corpo da maneira habitual.

Os presentes bateram os calcanhares na saudação do partido, e ele saiu.

— Ele foi preso onde? — perguntou, atônito, Rogan, pouco antes das cinco horas. Já estava suficientemente escuro para que fossem corridas as cortinas de blackout.

— Em uma fazenda perto de Caragh Lake, em Kerry, em junho do ano passado, depois de um tiroteio em que baleou dois policiais e foi ferido. Escapou do hospital local no dia seguinte e desapareceu.

— Meu Deus, e eles chamam a si mesmos de policiais — comentou, em desespero, Rogan.

— O caso é que a Divisão Especial, em Dublin, não esteve envolvida nisso, senhor. Apenas identificou-o mais tarde pelas impressões deixadas no revólver. A prisão foi feita por uma patrulha da guarda local, que procurava uma destilaria ilegal. Outro assunto, senhor. Dublin disse que se informou com o Ministério das Relações Exteriores da Espanha, onde nosso amigo estava supostamente preso. No princípio relutaram em colaborar. O senhor sabe como eles podem criar dificuldades a respeito dessas coisas. Finalmente, os espanhóis admitiram que ele escapara de uma penitenciária agrícola em Granada, no outono de 1940. A informação que tinham era que chegara a Lisboa e seguira para os Estados Unidos.

— E agora voltou — disse Rogan. — Mas para quê? Eis a questão. Teve alguma notícia das forças provinciais?

— De sete, senhor. . . Todas negativas, lamento

— Não há nada que possamos fazer no momento, a não ser esperar. No momento em que souber de alguma coisa, entre em contato comigo imediatamente. A qualquer hora do dia ou da noite, não importa onde eu estiver.

— Muito bem, senhor.

 

Eram precisamente onze e quinze da manhã de sexta-feira em Meltham Grange, quando Harry Kane, que supervisionava o exercício de um pelotão na pista de obstáculos, recebeu uma chamada urgente para se apresentar sem demora a Shafto. Ao chegar na ante-sala do comandante, encontrou uma grande agitação. Os escriturários pareciam amedrontados enquanto o Primeiro-Sargento Garvey andava de um lado para outro, fumando, nervoso, um cigarro.

— O que aconteceu? — perguntou Kane.

— Só Deus sabe, major. Tudo o que sei é que ele explodiu há quinze minutos, depois de receber um despacho urgente do quartel-general. Botou o jovem Jones para fora do gabinete a pontapés. Pontapés mesmo.

Kane bateu à porta e entrou. Encontrou Shafto à janela com o rebenque numa mão e um copo na outra. Ele se voltou zangado, mas sua expressão mudou:

— Oh, é você, Harry.

— O que aconteceu, senhor?

— É simples. Aqueles calhordas das Operações Combinadas, que vinham tentando tirar-me do caminho, finalmente o conseguiram. Quando terminarmos aqui no próximo fim de semana, deverei passar o comando a Sam Williams.

— E o senhor?

— Volto para os Estados Unidos. Instrutor-chefe de manobras em Fort Benning. — Com um pontapé, enviou uma cesta de papel voando até o outro lado da sala.

— Não há nada que o senhor possa fazer a esse respeito — perguntou Kane.

Shafto voltou-se para ele como um louco.

— Fazer? — Apanhou a ordem e enfiou-a na cara de Kane. — Está vendo a assinatura aí? Do próprio Eisenhower. — Amassou-a, transformou-a numa bola de papel e lançou-a longe. — E quer saber de uma coisa, Kane? Ele nunca esteve em ação. Nem uma vez em toda a sua carreira.

Em Hobs End, deitado na cama, Devlin escrevia em uma caderneta. Chovia a cântaros e do lado de fora o nevoeiro cobria o pântano com uma mortalha fria e pegajosa. A porta foi empurrada nesse momento e Molly entrou. Usava a capa de chuva de Devlin e trazia uma bandeja, que pôs ao lado da cama numa mesinha.

— Aí está, ó meu amo e senhor. Chá e torradas, dois ovos quentes, cozidos durante quatro minutos e meio, como sugeriu, e sanduíches de queijo.

Devlin parou de escrever e olhou com ar de aprovação para a bandeja.

— Mantenha esse padrão e ficarei tentado a conservá-la em caráter permanente.

Ela tirou a capa. Por baixo, usava apenas calcinha e sutiã. Apanhou o suéter ao pé da cama e enfiou-o cabeça.

— Preciso ir embora. Prometi a mamãe que voltaria para o jantar.

Devlin serviu-se de uma xícara de chá e ela apanhou a caderneta.

— O que é isso? — Abriu-a. — Poesia?

— Isso é uma questão aberta em alguns círculos — respondeu ele, comum sorriso.

— Sua? — perguntou, e havia autêntico espanto em seu rosto. — Abriu-a na página onde ele estivera escrevendo naquela manhã. — "Não há conhecimento certo de minha passagem, onde pisei no bosque após o escurecer." — Ergueu os olhos. — Ora, isto é lindo, Liam.

— Eu sei — concordou ele. — Como você continua a dizer, eu sou um rapaz encantador.

— Só sei de uma coisa: eu poderia comê-lo, Lançou-se sobre ele e beijou-o ferozmente. — Sabe que dia é hoje? Cinco de novembro. Não podemos ter uma fogueira só por causa daquele velho decrépito do Adolf.

— Que vergonha! — zombou ele.

— Não tem importância. — Ela se contorceu e arranjou uma posição confortável, abraçando-o com as pernas. — Virei hoje à noite, prepararei sua ceia e faremos uma linda fogueira só para nós dois.

— Não, você não virá — disse ele. — Porque não estarei aqui.

— Negócios? — perguntou Molly, triste. Ele a beijou de leve.

— Bem, você lembra que me prometeu.

— Muito bem — disse ela. — Serei boazinha. Vê-lo-ei pela manhã.

— Não, provavelmente só voltarei amanhã à tarde. Será melhor que eu a procure. . . Certo?

— Se você quer assim. . . — disse ela, inclinando, relutante, a cabeça.

— Quero.

Ele a beijou e, nesse momento, ouviu uma buzina do lado de fora. Molly correu até a janela e voltou às pressas, estendendo as mãos para a calça de algodão grosso.

— Meu Deus, é a Sra. Grey.

— Isso é o que se chama ser surpreendido com as calças as mãos -— disse, rindo, Devlin.

Vestiu um suéter. Molly apanhou o casaco.

— Vou embora. Até amanhã, meu lindo. Posso levar isso? Eu gostaria de ler as outras. — Mostrou a caderneta onde ele escrevia as poesias.

— Meu Deus, você deve gostar de castigar-se — disse.

Ela o beijou com força e ele a seguiu, abrindo-lhe a porta dos fundos e observando-a enquanto corria pelos caniços até o dique, sabendo perfeitamente que aquele poderia ser o fim.

— Ah, bem — disse baixinho. — Será melhor para ela.

Voltou-se e foi abrir a porta da frente, onde Joanna Grey batia insistentemente. Examinou-o, sombria, enquanto ele enfiava a camisa nas calças.

— Vi, rapidamente, Molly no caminho do dique há um segundo. — Passou por ele. —Você devia ter vergonha de si mesmo.

— Eu sei — corcordou ele, seguindo-a até a sala de estar. — Sou um terrível mau-caráter. Bem, o grande dia. Acho que isso justifica um pequeno gole. Quer me fazer companhia?

— Um dedo no fundo do copo, e nada mais — respondeu ela, severa.

Devlin trouxe a garrafa de Bushmills e dois copos, servindo os drinques.

— Viva a República! — disse. — Tanto a irlandesa, como as variedades sul-africanas. Bem, quais são