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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ALTERNATIVA DO DIABO / Frederick Forsith
A ALTERNATIVA DO DIABO / Frederick Forsith

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A ALTERNATIVA DO DIABO

Primeira Parte

 

     O náufrago teria morrido antes do nascer do Sol se não fosse pelos olhos aguçados de um marinheiro italiano chamado Mario. Mesmo quando foi avistado, já havia caído na inconsciência, as partes expostas do corpo quase nu com queimaduras de segundo grau provocadas pelo Sol implacável, as partes submersas na água do mar flácidas e brancas, entre as feridas causadas pelo sal do mar, como as pernas de um ganso em decomposição.

     Mario Curcio era o cozinheiro-despenseiro do Garibaldi, uma tranqüila banheira enferrujada que partira de Brindisi, avançando lentamente para leste, na direção do Capo Ince e de Trabzon, na extremidade oriental da costa norte da Turquia. Ia buscar uma carga de amêndoas na Anatólia.

     Mario jamais pôde explicar por que decidiu justamente naquela manhã, nos últimos 10 dias de abril de 1982, esvaziar seu balde de cascas de batatas sobre a amurada de barlavento, ao invés de usar o escoadouro de lixo na popa. Também nunca lhe foi perguntado. Mas talvez tenha sido para poder respirar um pouco do ar fresco do Mar Negro e quebrar a monotonia da cozinha apertada, sempre com um calor escaldante. Ele saiu para o convés, avançou até a amurada de estibordo e lançou o lixo para um oceano indiferente, mas paciente. Virou-se e começou a se afastar, quase que se arrastando de volta a seus deveres. Mas estacou abruptamente depois de dar dois passos, franziu o sobrolho e retornou à amurada, aturdido e indeciso.

     O navio estava seguindo um curso leste-nordeste, a fim de contornar o Cabo Ince. Mario teve de proteger os olhos com as mãos ao olhar a ré, pois o Sol quase a pino incidia sobre seu rosto. Mas tinha certeza de ter visto alguma coisa no meio das ondas verde-azuladas, entre o navio e a costa da Turquia, 20 milhas ao sul. Não conseguindo avistar novamente, seguiu para o convés de ré, subiu na escada externa da ponte de comando e olhou outra vez. E avistou de novo, nitidamente, por uma fração de segundo, entre as colinas de água a se deslocar suavemente. Virou-se para a porta aberta atrás dele, que dava para a casa do leme, e gritou:

     — Capitano!

     O Comandante Vittorio Ingrao levou algum tempo para se deixar persuadir, pois Mario não passava de um rapaz. Mas era marinheiro o bastante para saber que, se um homem podia estar à deriva no mar, tinha a obrigação de virar o navio para vasculhar a área. Além do mais, o radar apresentara um eco. O comandante levou meia hora para dar a volta com o Garibaldi e chegar ao local que Mario apontara. E nesse momento também viu.

     O esquife tinha pouco mais de três metros de comprimento e não era muito largo. Era uma embarcação leve, do tipo que poderia ter sido um escaler de navio. Um pouco além da metade do pequeno bote, havia uma bancada estendendo-se de um lado a outro, com um buraco no meio para a colocação de um mastro. Mas este nunca existira ou então fora mal ajustado e caíra no mar. Com o Garibaldi parado e balançando nas ondas, o Comandante Ingrao debruçou-se na amurada da ponte de comando e ficou observando Mario e o Contramestre Paolo Longhi partirem no bote a motor para buscar o esquife. Do ponto mais elevado em que se encontrava, ele podia olhar o interior do pequeno barco, ao se aproximar, rebocado.

     O homem lá dentro estava deitado de costas, mergulhado em alguns centímetros de água do mar. Estava pálido e esquelético, barbado e inconsciente, a cabeça pendendo para o lado, respirando em ofegos curtos. Gemeu algumas vezes ao ser levado para bordo, as mãos dos marinheiros tocando os ombros e peito esfolados.

     Havia permanentemente uma cabine de reserva no Garibaldi, mantida vazia para funcionar como enfermaria. O náufrago foi levado para lá. Mario, a seu próprio pedido, recebeu uma folga para cuidar do homem, a quem não demorou em encarar como sua propriedade pessoal, como um menino que se desvela em cuidados especiais com um cachorrinho que salvou da morte pessoalmente. Longhi, o contramestre, aplicou uma injeção de morfina no homem, do armarinho de primeiros-socorros a fim de poupar-lhe a dor. Em seguida, ele e Mario começaram a cuidar das queimaduras.

     Sendo calabreses, estavam familiarizados com queimaduras do Sol e prepararam o melhor ungüento do mundo. Mario trouxe da cozinha uma mistura meio a meio de suco de limão e vinagre de vinho, numa bacia. Trouxe também um pedaço de sua fronha de algodão e um balde com cubos de gelo. Ensopando o pano na mistura e envolvendo-a em torno de uma dúzia de cubos de gelo, ele comprimiu gentilmente a chumaço nas áreas piores, em que os raios ultravioleta haviam corroído a carne até quase o osso. Pequenas nuvens de vapor se elevaram do homem inconsciente, enquanto o adstringente gelado extraía o calor da carne causticada. O homem estremeceu.

     — É melhor ficar com febre do que morrer com o choque das queimaduras — disse-lhe Mario, em italiano. O homem não podia ouvir; e mesmo que ouvisse, não teria compreendido.

     Longhi foi juntar-se a seu comandante no convés de ré, para onde o esquife fora içado.

     — Alguma coisa? — perguntou ele.

     O Comandante Ingrao sacudiu a cabeça.

     — Também não havia nada no homem. Nem relógio nem plaqueta de identificação. E a barba parece ter uns dez dias. A cueca não tinha etiqueta.

     — Não encontramos nada no bote — disse Ingrao. — Não tem mastro, não tem vela, não tem remos. Também não tem comida nem um recipiente para água. Nem mesmo tem um nome. Mas pode ter sido apagado.

     — Seria um turista de algum balneário levado para alto-mar? — indagou Longhi.

     Ingrao deu de ombros, murmurando:

     — Poderia ser também um sobrevivente de um pequeno cargueiro. Estaremos em Trabzon dentro de dois dias. As autoridades turcas podem descobrir tudo quando ele voltar a si e falar. Enquanto isso, vamos seguir viagem. E teremos de enviar uma mensagem para o nosso agente lá, contando o que aconteceu. Precisaremos de uma ambulância no cais quando atracarmos.

     Dois dias depois, ainda quase inconsciente e incapaz de falar, o náufrago foi ajeitado entre lençóis brancos numa enfermaria, no pequeno hospital municipal de Trabzon.

     Mario, o marinheiro, acompanhou seu náufrago na ambulância, do cais até o hospital, juntamente com o agente local do navio e o médico do porto, que insistira em examinar o homem delirante, para verificar se não tinha qualquer doença contagiosa. Depois de esperar uma hora ao lado da cama, Mario despediu-se do amigo inconsciente e voltou ao Garibaldi, a fim de preparar o almoço da tripulação. Isso acontecera no dia anterior e o velho vapor italiano zarpara ao final da tarde.

     Agora, havia outro homem ao lado da cama, juntamente com um policial e o médico de jaleco branco. Todos os três eram turcos, mas o homem baixo e corpulento, de terno, falava um inglês razoável.

     — Ele vai ficar bom — disse o médico. — No momento, porém, ainda está muito doente. Teve insolação, queimaduras de segundo grau. E, ao que tudo indica, passou vários dias sem comer. O estado geral é de debilidade.

     — O que é isso? — perguntou o civil, gesticulando para os tubos de soro que penetravam nos dois braços do homem.

     — É glicose concentrada como nutrição e uma solução salina para contrabalançar o choque — explicou o médico. — Os marinheiros provavelmente salvaram a vida dele ao tirarem o calor das queimaduras. Nós o banhamos em colomina para ajudar o processo de recuperação. Agora, está tudo entre ele e Alá.

     Umit Erdal, sócio da empresa de navegação e comércio Erdal & Sermit, era o representante do Lloyds para o porto de Trabzon. O agente do Garibaldi lhe transferira com o maior prazer o problema do náufrago. As pálpebras do homem tremeram no rosto queimado e barbudo. O Sr. Erdal limpou a garganta, inclinou-se sobre a cama e disse, em seu melhor inglês:

     — Qual... é... o seu... nome?

     O homem grunhiu e moveu a cabeça de lado para lado, várias vezes. O representante do Lloyds abaixou a cabeça para conseguir escutar.

     — Zradzhenyi — murmurou o homem. — Zradzhenyi...

     Erdal empertigou-se, dizendo incisivamente:

     — Ele não é turco. Mas parece que se chama Zradzhenyi. De que país poderia ter vindo um homem com um nome desses?

     Seus dois companheiros deram de ombros e Erdal acrescentou:

     — Vou informar ao escritório do Lloyds em Londres. Talvez tenham informações sobre um navio desaparecido em algum lugar do Mar Negro.

    

     A bíblia diária da fraternidade mundial da Marinha Mercante é o Registro do Lloyds, publicado de segunda a sábado, com editoriais, artigos e notícias sobre um único tema: navegação. Seu companheiro cotidiano, o Índice de Navegação do Lloyds, informa os movimentos dos 30.000 navios mercantes do mundo em atividade: o nome do navio, proprietário, bandeira de registro, ano de lançamento, tonelagem, procedência e destino.

     Os dois órgãos são editados num imenso prédio na Sheepen Place, Colchester, no condado inglês de Essex. Foi para esse prédio que Umit Erdal passou o telex informando a entrada e saída do Garibaldi do porto de Trabzon, acrescentando uma pequena nota para o Serviço de Informações Marítimas do Lloyds, que funcionava no mesmo prédio.

     O SIM verificou seus registros de acidentes marítimos, confirmando que não havia qualquer notícia recente de navios desaparecidos, afundados ou simplesmente atrasados no Mar Negro. Assim, encaminhou a informação à redação do Registro. Um subeditor incluiu-a num sumário de notícias na primeira página, dando o nome que o náufrago murmurara como sendo o seu. A notícia foi divulgada na manhã seguinte.

    

     A maioria dos que leram o Registro do Lloyds naquele dia, ao final de abril, não deu maior atenção à notícia sobre o náufrago não-identificado em Trabzon.

     Mas a notícia atraiu e prendeu os olhos atentos e a atenção de um homem de trinta e poucos anos, que trabalhava num cargo importante e de confiança numa firma de corretores de afretamento de navios, sediada em uma pequena rua chamada Crutched Friars, na City de Londres, o distrito financeiro e comercial da capital britânica. Seus colegas na firma conheciam-no como Andrew Drake.

     Depois de absorver devidamente a pequena notícia, Drake deixou a mesa e foi para o salão de operações da companhia, onde consultou um mapa-múndi emoldurado, indicando os ventos prevalentes e a circulação das correntes oceânicas. Os ventos no Mar Negro durante a primavera e verão são predominantemente do norte, e as correntes se movimentam na direção contrária à dos ponteiros do relógio em torno desse pequeno oceano, da costa meridional da Ucrânia, no extremo nordeste do Mar, passando pelas costas da Romênia e Bulgária, depois seguindo para leste, nas rotas de navegação entre Istambul e o Cabo Ince.

     Drake fez alguns cálculos num bloco. Um pequeno esquife, partindo dos pântanos do delta do Rio Dniester, logo ao sul de Odessa, poderia desenvolver quatro ou cinco nós com o vento e correntes a favor, seguindo para o sul além da Romênia e Bulgária, na direção da Turquia. Depois de três dias, no entanto, seria levado na direção leste, para longe do Bósforo e caminho da extremidade leste do Mar Negro.

     A seção de “Meteorologia e Navegação” do Registro do Lloyds confirmou que houvera mau tempo na área nove dias antes. O que poderia fazer com que um esquife nas mãos de um marinheiro inábil emborcasse, perdesse o mastro e todo o seu conteúdo, deixando o ocupante, mesmo que conseguisse embarcar de volta, à mercê do Sol e do vento.

     Duas horas depois, Andrew pediu à direção da companhia uma semana das férias que lhe eram devidas. Ficou acertado que ele poderia gozá-la, mas só a partir da segunda-feira, 3 de maio.

     Estava um pouco excitado enquanto esperava que a semana terminasse. Comprou pessoalmente, numa agência de viagens nas proximidades, uma passagem de avião de ida e volta entre Londres e Istambul. Decidiu comprar a passagem de Istambul a Trabzon na própria capital turca, pagando em dinheiro. Também fez uma indagação para confirmar que um possuidor de passaporte britânico não precisava de visto para entrar na Turquia. Depois do expediente, tratou de providenciar o necessário atestado de vacina contra varíola, no centro médico da British Airways, em Victoria.

     Drake sentia-se excitado porque julgava que havia uma possibilidade de ter encontrado, depois de anos de espera, o homem que estava procurando. Ao contrário dos três homens que se haviam postado ao lado da cama do náufrago dois dias antes, ele sabia de que país era a palavra zradzhenyi. Sabia também que não era o nome do homem. O náufrago no pequeno hospital turco murmurava a palavra “traído” em sua língua nativa, que era o ucraniano. O que podia significar que o homem era um guerrilheiro ucraniano refugiado.

     Andrew Drake, apesar do nome britânico, era também ucraniano... e fanático.

    

     A primeira visita de Drake, ao chegar a Trabzon, foi ao escritório do Sr. Erdal, cujo nome obtivera de um amigo do Lloyds, alegando que iria passar alguns dias de férias na costa da Turquia e talvez precisasse de alguma ajuda, já que não falava uma só palavra de turco. Umit Erdal, vendo a carta de apresentação que Drake lhe entregou, não indagou por que motivo o visitante estava querendo ver o náufrago no hospital local. Escreveu uma carta pessoal de apresentação ao diretor do hospital e, pouco depois do almoço, Drake foi introduzido no pequeno quarto em que estava o homem.

     O agente local do Lloyds já o informara de que o homem, embora novamente consciente, passava a maior parte do tempo dormindo; e durante os períodos em que ficava desperto, até aquele momento não falara absolutamente nada. Quando Drake entrou no quarto, o homem estava deitado de costas, os olhos fechados. Drake puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama. Por algum tempo, ficou olhando em silêncio para o rosto encovado do homem. Depois de vários minutos, as pálpebras do náufrago adejaram, se entreabriram e fecharam outra vez. Drake ficou sem saber se o homem o vira ou não fitando-o atentamente. Mas sabia que o homem estava à beira de despertar. Lentamente, inclinou-se para a frente e disse claramente, no ouvido do náufrago:

     — Shche ne vmerla Ukraina.

     A frase significa, literalmente, “A Ucrânia não está morta”; numa tradução mais livre, significaria “A Ucrânia continua a viver”. São as primeiras palavras do hino nacional ucraniano, proibido pelos russos, podendo ser imediatamente reconhecidas por qualquer pessoa de nacionalidade ucraniana que esteja consciente.

     Os olhos do doente se entreabriram outra vez e fixaram-se no rosto de Drake. Depois de alguns segundos, ele indagou em ucraniano:

     — Quem é você?

     — Um ucraniano, como você — respondeu Drake.

     Os olhos do homem ficaram toldados pela desconfiança.

     — Quisling... — murmurou ele Drake sacudiu a cabeça.

     — Não. Sou de nacionalidade britânica, nascido e criado lá, filho de pai ucraniano e mãe inglesa. No coração, porém, sou tão ucraniano quanto você.

     O homem na cama ficou olhando obstinadamente para o teto.

     — Poderia mostrar-lhe meu passaporte britânico, mas isso nada provaria — acrescentou Drake. — Um chekisti também poderia apresentá-lo com a maior facilidade, para enganá-lo. — Drake usara deliberadamente o termo de gíria para o polícia secreta soviético e membro do KGB.

     — Mas não está mais na Ucrânia e aqui não há nenhum chekisti. Não foi parar nas praias da Criméia, do sul da Rússia ou da Geórgia. Também não foi parar na Romênia ou Bulgária. Foi recolhido por um navio italiano e desembarcado aqui em Trabzon. Está na Turquia. No Ocidente. Conseguiu escapar.

     Os olhos do homem estavam agora atentamente fixados no rosto de Drake, alertas, lúcidos, querendo acreditar.

     — Pode levantar-se? — indagou Drake.

     — Não sei.

     Drake sacudiu a cabeça para a janela no outro lado do quarto, além da qual soavam os ruídos do tráfego.

     — O KGB pode providenciar uma equipe de médicos e enfermeiras para que pareçam turcos. Mas não pode transformar uma cidade inteira, por causa de um só homem, a quem poderiam torturar, se quisessem arrancar uma confissão. Pode chegar até à janela?

     O homem levantou-se com extremo esforço e aproximou-se da janela. Drake informou-o:

     — Os carros são Austins e Morris importados da Inglaterra, Peugeots da França e Volkswagens da Alemanha Ocidental. As palavras nos cartazes são em turco. Aquele anúncio ali é de Coca-Cola.

     O homem comprimiu as costas da mão contra a boca, mordendo as articulações. Piscou diversas vezes, rapidamente.

     — Consegui...

     — Isso mesmo. Conseguiu, num verdadeiro milagre.

     Já de volta à cama, o náufrago disse:

     — Meu nome é Miroslav Kaminsky. Venho de Ternopol. Era o líder de um grupo de sete guerrilheiros ucranianos.

     Ao longo da hora seguinte, toda a história foi contada. Kaminsky e seis outros homens iguais a ele, todos da região de Ternopol, outrora um caldeirão de nacionalismo ucraniano e onde ainda ardiam algumas brasas, haviam decidido reagir ao programa de implacável russificação de sua terra, que se intensificara nos anos 60 e se tornara uma “solução final” nos anos 70 e início dos 80, implicando a liquidação da arte, poesia, literatura, língua e consciência nacional ucraniana. Em seis meses de operações, eles haviam emboscado e matado dois secretários subalternos do Partido, russos que Moscou impusera a Ternopol, e um agente do KGB. E fora então que houvera a traição.

     Quem quer que tivesse falado, também morrera na saraivada de tiros disparada pelas tropas especiais do KGB, que haviam cercado o chalé no campo em que o grupo se reunira para planejar a operação seguinte. Somente Kaminsky escapara, correndo como um animal através do mato, escondendo-se durante o dia nos estábulos e bosques, avançando apenas à noite, seguindo para o sul, na direção da costa, com a vaga esperança de embarcar em algum navio do Ocidente.

     Fora simplesmente impossível aproximar-se do porto de Odessa. Alimentando-se de batatas e nabos encontrados nos campos, Kaminsky fora refugiar-se na região pantanosa do Estuário do Dniester, a sudoeste de Odessa, na direção da fronteira romena. Finalmente, esgueirando-se durante a noite por uma pequena aldeia de pescadores numa enseada, roubara um esquife com um mastro e vela. Nunca antes andara num barco à vela e nada conhecia do mar. Esforçando-se em controlar a vela e o cabo do leme, a muito custo, rezando o tempo todo, deixara que a pequena embarcação fosse impelida pelo vento, na direção do sul, orientando-se pelas estrelas e pelo Sol.

     Por muita sorte, evitara as lanchas que patrulhavam constantemente a costa da União Soviética e as frotas pesqueiras. A pequena casca de madeira que o levava passara também despercebida pela vigia das estações de radar costeiras, até ficar além de seu alcance. E depois ele se perdera, em algum ponto entre a Criméia e a Romênia, seguindo para o sul, mas longe das rotas de navegação mais próximas, as quais de qualquer maneira não conhecia. A tempestade o pegara desprevenido. Sem saber como recolher a vela a tempo, acabara emborcando. Passara a noite gastando suas últimas reservas de energia a se segurar ao casco emborcado. Pela manhã, conseguira endireitar o bote e subira para o interior. As roupas, que tirara para deixar que o vento frio da noite lhe esfriasse a pele, estavam perdidas. Como também havia perdido as poucas batatas cruas que trouxera, a garrafa de limonada com água potável, a vela e o cabo do leme. A dor começara logo depois do nascer do Sol, à medida que aumentava o calor do dia. A inconsciência chegara no terceiro dia depois da tempestade. Ao recuperar os sentidos, estava estendido numa cama, suportando, em silêncio a dor das queimaduras, ouvindo vozes que julgava serem búlgaras. Por seis dias, mantivera os olhos fechados, e sem abrir a boca.

     Andrew Drake ouviu-o com imensa alegria. Encontrara finalmente o homem que há tantos anos esperava.

     — Vou procurar o Cônsul suíço em Istambul e tentar obter documentos provisórios para você poder viajar pela Cruz Vermelha — disse ele, quando Kaminsky começou a apresentar sinais de cansaço. — Se conseguir, provavelmente poderei levá-lo para a Inglaterra, pelo menos com um visto temporário. E depois poderemos tentar o asilo político. Voltarei dentro de alguns dias. — Drake parou na porta e acrescentou: — Já deve saber que não poderá mais voltar. Mas, com sua ajuda, eu posso. É o que sempre quis.

    

     Andrew Drake demorou mais tempo do que esperava em Istambul. Só no dia 16 de maio é que voou de volta a Trabzon, levando os documentos necessários para Kaminsky poder viajar. Prolongara sua licença depois de um longo telefonema para a firma de corretagem de Londres, com uma discussão com um dos sócios. Mas valera a pena. Pois através de Kaminsky ele tinha certeza de poder realizar a única grande ambição de sua vida.

     O império czarista tivera e o império soviético também tinha agora, apesar de sua aparência monolítica exterior, dois calcanhares-de-aquiles. Um deles é o problema de alimentar 250.000.000 de habitantes. O outro é eufemisticamente chamado de “a questão das nacionalidades”. Nas 14 repúblicas dominadas pela República Russa há várias dezenas de nações não-russas identificáveis; a maior e provavelmente a que possui mais consciência nacional é a ucraniana. Em 1982, o Estado da Grande Rússia contava apenas com 120.000.000 de habitantes, no total de 250.000.000 da União Soviética. O Estado mais populoso e mais rico em seguida era a Ucrânia, com seus 70.000.000 de habitantes. Era essa uma das razões pelas quais, sob o regime dos czares e depois do Politburo, a Ucrânia sempre merecera uma atenção especial e fora alvo de programas particularmente implacáveis de russificação. A outra razão estava em sua história.

     A Ucrânia sempre esteve tradicionalmente dividida em duas, o que foi o motivo de sua derrocada. A Ucrânia Ocidental e a Oriental. A Ucrânia Ocidental estende-se de Kiev para oeste, até a fronteira polonesa. A parte oriental é mais russificada, tendo permanecido sob o domínio dos czares por muitos séculos; durante esse período, a Ucrânia Ocidental fizera parte do antigo Império Austro-Húngaro. Sua orientação espiritual e cultural era e continua a ser mais ocidental do que o resto do país, à exceção possivelmente dos três Estados bálticos, que são pequenos demais para resistir. Os ucranianos lêem e escrevem no alfabeto romano e não no alfabeto cirílico; são predominantemente católicos e não cristãos ortodoxos russos. Sua língua, poesia, literatura, artes e tradições são anteriores à ascensão dos conquistadores russos, que vieram do norte.

     Em 1918, com o desmoronamento do Império Austro-Húngaro, os ucranianos ocidentais tentaram desesperadamente instituir uma república separada, em meio às ruínas do império. Mas, ao contrário dos tchecos, eslovacos e magiares, fracassaram e foram anexados em 1919 pela Polônia, como a província da Galícia. Quando Hitler invadiu a Polônia Ocidental em 1939, Stalin veio do leste com o Exército Vermelho e ocupou a Galícia. Os alemães a invadiram em 1941. O que se seguiu foi uma violenta e terrível confusão de esperanças, temores e lealdades. Alguns acalentavam a esperança de concessões de Moscou, se combatessem os alemães; outros erroneamente julgaram que a única possibilidade da Ucrânia Livre estava na derrota de Moscou por Berlim, e por isso ingressaram na Divisão Ucraniana, que lutou contra o Exército Vermelho, em uniforme alemão. Outros ainda, como o pai de Kaminsky, foram para os Montes Cárpatos como guerrilheiros, lutando contra um invasor e depois contra o outro, voltando em seguida a combater o primeiro. Todos perderam. Stalin ganhou e estendeu seu império até o Rio Bug, a nova fronteira da Polônia. A Ucrânia Ocidental ficou sob o domínio dos novos czares, o Politburo, mas os velhos sonhos sobreviveram. À exceção de um breve momento de esperança nos últimos dias de Kruschev, o programa de esmagar os ucranianos de uma vez por todas foi constantemente intensificado.

     Stephen Drach, um estudante de Rovno, foi um dos poucos combatentes ucranianos que teve alguma sorte. Sobreviveu à guerra, sendo capturado pelos britânicos na Áustria, em 1945. Enviado como trabalhador rural para Norfolk, certamente seria mandado de volta para ser executado pela NKVD, em 1946, quando o Foreign Office britânico e o Departamento de Estado americano conspiraram discretamente para devolver os 2.000.000 de “vítimas de Yalta” à misericórdia de Stalin. Mas teve sorte outra vez. Por trás de uma pilha de feno em Norfolk, ele seduziu uma jovem do Exército da Terra, que ficou grávida. O casamento era a solução. Seis meses depois, por uma questão de compaixão, foi-lhe poupada a repatriação e recebeu permissão para ficar na Inglaterra. Livre do trabalho agrícola, aproveitou os conhecimentos adquiridos como operador de rádio para montar uma pequena oficina de consertos em Bradford, um ponto de concentração dos 30.000 ucranianos residentes na Inglaterra. O primeiro filho morreu ainda bebê; um segundo, batizado com o nome de Andriy, nasceu em 1950.

     Andriy aprendeu a falar o ucraniano no colo do pai. Mas isso não foi tudo. Também aprendeu a amar a terra do pai, a sonhar com as vistas amplas e maravilhosas dos Cárpatos e da Rutênia. Absorveu o ódio que o pai sentia contra os russos. Mas o pai morreu num acidente de automóvel quando o menino tinha 12 anos. A mãe, cansada das noites intermináveis do marido ao pé do fogo, conversando com outros exilados, falando sobre o passado numa língua que ela jamais conseguiu entender, mudou o sobrenome da família para Drake e o primeiro nome de Andriy para Andrew. E foi como Andrew Drake que o menino cursou a escola secundária e a universidade; foi também como Andrew Drake que recebeu seu primeiro passaporte.

     O renascimento ocorreu ao final da adolescência, já na universidade. Havia ali outros ucranianos e ele voltou a falar fluentemente a língua do pai. Era o final dos anos 60, e o breve renascimento da literatura e poesia ucranianas, na própria Ucrânia, já havia terminado, com quase todas as suas figuras mais destacadas a esta altura cumprindo penas de trabalhos forçados nos campos de Gulag. Andrew Drake absorveu todos esses acontecimentos com uma visão posterior e pleno conhecimento do que acontecera aos escritores. Lia tudo o que podia encontrar ao amanhecer dos primeiros anos do sétimo decênio do século. Devorou os clássicos de Taras Shevchenko, o filósofo e poeta que surgira no breve período de florescimento durante Lenine e que fora logo depois reprimido e liquidado por Stalin. Leu muitos outros autores ucranianos dessa época. Acima de tudo, porém, apreciava as obras dos autores que eram conhecidos como os “Homens dos 60”, porque haviam florescido durante uns poucos anos da década, até que Brezhnev novamente instituísse um programa de esmagar o orgulho nacional, pelo qual eles tanto haviam clamado. Leu e lamentou por Osdachy, Chornovil, Moroz e Dzyuba; e quando leu os poemas e o diário secreto de Pavel Symonenko, o jovem rebelde que morreu de câncer aos 28 anos, o grande inspirador dos estudantes ucranianos na União Soviética, sentiu o coração se contrair por amor a uma terra que nunca vira.

     E com o amor pela terra do pai morto, surgiu também um ódio equivalente contra aqueles que encarava como seus algozes. Avidamente devorava os panfletos clandestinos que eram contrabandeados para fora da União Soviética pelo movimento de resistência interno. Não perdia um número do Herald ucraniano, com os relatos do que estava acontecendo a centenas de desconhecidos, que não recebiam a publicidade concedida aos grandes julgamentos em Moscou de Daniel, Sinyavsky, Orlov, Scharansky. Eram as tragédias dos pobres coitados, dos esquecidos. A cada novo detalhe, seu ódio ia aumentando. Para Andrew Drake, outrora Andriy Drach, a personificação de todo o mal que existia no mundo era o KGB.

     Possuía senso de realidade suficiente para não se deixar envolver pelo nacionalismo tosco dos exilados mais velhos e suas divisões entre ucranianos ocidentais e orientais. Rejeitava também o anti-semitismo implantado deles, preferindo aceitar as obras de Gluzman, ao mesmo tempo sionista e nacionalista ucraniano, como as palavras de um compatriota. Analisou a comunidade de exilados na Inglaterra e no resto da Europa e chegou à conclusão de que havia quatro categorias: os nacionalistas da língua, para os quais falar e escrever na língua dos seus antepassados era suficiente; os nacionalistas de debates, que ficavam falando interminavelmente, mas não iam além disso; os que se compraziam em slogans, irritando os países que os haviam adotado, mas deixando incólume o monstro soviético; e os ativistas que faziam manifestações por ocasião das visitas de autoridades soviéticas, sendo cuidadosamente fotografados e fichados pelo Serviço Especial e conquistando uma publicidade passageira.

     Drake rejeitava a todos. Permanecia quieto, bem-comportado e afastado dos grupos. Foi para Londres e arrumou um emprego num escritório. Havia muitas pessoas em empregos assim que acalentam uma paixão secreta, ignorada por todos os seus colegas de trabalho, uma paixão que absorve todas as suas economias, tempo vago e férias anuais. Drake era um deles. Reuniu discretamente um pequeno grupo de homens que pensavam como ele; descobriu-os, procurou-os, fez amizade, promoveu um juramento comum, recomendou que fossem pacientes. Andriy Drach tinha um sonho secreto; e, como disse T.E. Lawrence, era perigoso porque “sonhava com os olhos abertos”. Seu sonho era o de desfechar um dia um único golpe contra os homens de Moscou, tão poderoso que os deixaria abalados como nunca antes acontecera. Iria penetrar nas muralhas de seu poder e atacá-los no interior de sua fortaleza.

     Seu sonho estava vivo e um passo mais próximo da realização pela descoberta de Kaminsky. Por isso, era um homem determinado e excitado quando mais uma vez seguiu de avião pelo céu azul na direção de Trabzon.

     Miroslav Kaminsky fitou Drake com uma expressão de indecisão.

     — Não sei, Andriy, simplesmente não sei. Apesar de tudo o que fez, não sei se posso confiar tanto em você. Lamento, mas é assim que tenho vivido, por toda a minha vida.

     — Miroslav, pode manter contato comigo pelos próximos vinte anos e não me conhecer mais do que já conhece. Tudo o que lhe contei a meu respeito é verdade. Se não pode voltar, então deixe-me ir em seu lugar. Mas preciso de contatos lá. Se conhece alguém, uma única pessoa que seja...

     Kaminsky finalmente concordou.

     — Conheço dois homens. Não foram descobertos quando meu grupo foi destruído e ninguém mais sabia deles. Eu os havia conhecido apenas poucos meses antes.

     — Mas são ucranianos e rebeldes? — indagou Drake, ansiosamente.

     — Eles são ucranianos. Mas não é essa a motivação básica deles. O povo deles também tem sofrido. Seus pais, como o meu, passaram dez anos em campos de trabalhos forçados, mas por uma razão diferente: a de serem judeus.

     — Mas eles odeiam Moscou? Estão querendo atacar o Kremlin?

     — Eles odeiam Moscou de verdade. Tanto quanto você ou eu. A inspiração deles parece ser uma coisa chamada Liga de Defesa Judia. Ouviram falar a respeito pelo rádio. E tenho a impressão de que a filosofia deles, como a nossa, é começar a revidar. Não estão mais dispostos a aceitar as perseguições de braços cruzados.

     — Neste caso, deixe-me entrar em contato com eles.

     Na manhã seguinte, Drake voltou de avião para Londres, levando os nomes e endereços em Lvov de dois jovens conspiradores judeus. Duas semanas depois, inscreveu-se numa excursão promovida pela Intourist para início de julho, visitando Kiev, Ternopol e Lvov. Pediu demissão do emprego e transformou em dinheiro todas as economias que fizera até então.

     Sem que ninguém soubesse, Andrew Drake, aliás Andriy Drach, estava indo para sua guerra particular... contra o Kremlin.

    

     Um vento ameno soprava sobre Washington naquele dia de meados de maio, levando às ruas as primeiras pessoas sem casacos e fazendo desabrochar as primeiras rosas vermelhas no jardim diante das janelas francesas do Gabinete Oval da Casa Branca. Mas embora as janelas estivessem abertas e o cheiro agradável de relva e flores penetrasse no santuário particular do mais poderoso governante do mundo, a atenção dos quatro homens ali presentes estava concentrada em outras plantas, num distante país estrangeiro.

     O Presidente William Matthews estava sentado no lugar em que os Presidentes americanos sempre sentavam: de costas para a parede sul da sala, olhando para a clássica lareira de mármore que domina a parede norte, através de uma mesa antiga bastante larga. A cadeira, ao contrário das que haviam sido usadas pela maioria de seus antecessores, os quais preferiam assentos personalizados, feitos por encomenda, era de fabricação em série, encosto alto, giratória, do tipo que qualquer executivo de corporação poderia ter. É que “Bill” Matthews, como insistia em ser chamado em seus cartazes de publicidade, sempre fizera questão de ressaltar, nas sucessivas e bem-sucedidas campanhas eleitorais, suas predileções de homem comum em roupas, comidas e confortos pessoais. Por isso, sua cadeira, que podia ser vista pelas dezenas de delegados partidários que gostava de receber pessoalmente no Gabinete Oval, não era luxuosa. E ele fazia também questão de ressaltar que a mesa era herdada e já se tornara parte da preciosa tradição da Casa Branca. Sua atitude sempre surtia o efeito desejado.

     Mas Bill Matthews ficava por aí. Quando estava em reunião com seus principais assessores, o “Bill” que seu eleitor mais humilde podia chamá-lo estava fora de questão. Também abandonava o tom de voz de bom moço e o sorriso cativante que levara os eleitores a instalarem na Casa Branca o homem comum igual a eles. Ali, porém, não era o homem comum igual aos outros, e seus assessores sabiam disso perfeitamente. Era o homem que estava no topo.

     Sentados em cadeiras de braços, de encosto reto, diante da escrivaninha, estavam os três homens que haviam solicitado uma reunião a sós com o Presidente naquela manhã. O mais chegado a ele, em termos pessoais, era o Presidente do Conselho de Segurança Nacional, seu assessor pessoal em questões de segurança e confidente em relações internacionais. Chamado na Ala Oeste e no Prédio do Executivo como “Doe” ou “aquele maldito polaco”, Stanislaw Poklewski, um homem de aparência austera, podia ser às vezes detestado, mas jamais era subestimado.

     Formavam uma dupla estranha, para serem tão chegados: o louro, branco e anglo-saxão protestante do Sul dos Estados Unidos e o moreno, taciturno e católico romano devoto que imigrara da Cracóvia quando era ainda menino. Mas o que Bill Matthews carecia em compreensão das tortuosas psicologias dos europeus em geral e dos eslavos em particular, podia ser compensado pela máquina calculadora, educada por jesuítas, que sempre merecia sua atenção. Havia duas outras razões pelas quais Poklewski o atraía: a sua lealdade incondicional e o fato de não ter ambições políticas, a não ser à sombra de Bill Matthews. Mas havia também uma restrição. Matthews sempre tinha de compensar a antipatia desconfiada de Poklewski contra os homens de Moscou com as avaliações mais urbanas de seu bostoniano Secretário de Estado.

     O Secretário de Estado não estava presente à reunião daquela manhã, solicitada por Poklewski. Os outros dois homens sentados diante da escrivaninha eram Robert Benson, Diretor da CIA, e Carl Taylor.

     Muitas vezes já se escreveu que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos é o órgão responsável por toda a espionagem eletrônica. A idéia pode ser bastante popular, mas não é verdadeira. A ASN é responsável pela parte da vigilância e espionagem eletrônica realizadas fora dos Estados Unidos e relacionadas com a escuta: interceptação de telefones, microfones ocultos, controle de transmissões de rádio e, acima de tudo, a captação de bilhões de palavras por dia, literalmente, em centenas de dialetos e línguas, para gravação, decifração, tradução e análise. Mas não dos satélites-espiões. A vigilância visual do globo por câmaras montadas em aviões e, mais importante, em satélites espaciais sempre foi uma prerrogativa do Serviço Nacional de Reconhecimento, uma operação conjunta da CIA e da Força Aérea dos Estados Unidos. Carl Taylor era o Diretor do Serviço e um general de duas estrelas do Serviço de Informações da Força Aérea.

     O Presidente reuniu as fotografias bastante definidas que estavam sobre a mesa e devolveu-as a Taylor, que se levantou para pegar e as guardou em sua pasta.

     — Muito bem, senhores — disse o Presidente, lentamente. — Já me mostraram que a colheita de trigo numa pequena região da União Soviética, talvez mesmo apenas nos poucos acres que aparecem nessas fotografias, vai ser deficiente. E o que isso prova?

   Poklewski olhou para Taylor e sacudiu ligeiramente a cabeça. Taylor limpou a garganta.

     — Sr. Presidente, tomei a liberdade de determinar a transmissão para cá do que está sendo captado neste momento por um dos nossos satélites Condores. Gostaria de ver?

     Matthews assentiu e ficou observando Taylor atravessar a sala até um painel de receptores de TV, na parede oeste curva, por baixo das prateleiras de livros, que haviam sido reduzidas especialmente para isso. Quando delegações de civis estavam na sala, os receptores de TV ficaram cobertos por portas corrediças de teca. Taylor ligou o receptor da extrema esquerda e voltou para junto da escrivaninha do Presidente. Tirou um dos seis fones do gancho e discou um número, dizendo simplesmente:

     — Pode ligar.

     O Presidente Matthews conhecia perfeitamente o alcance excepcional dos satélites da linha Condor. Voando mais alto do que qualquer outro anterior, com câmaras tão sofisticadas que podiam mostrar em close a unha de um dedo humano de uma altura de 300 quilômetros, mesmo com nevoeiro, chuva, granizo, neve, nuvens e de noite, os Condores eram os mais modernos e os melhores satélites-espiões que existiam.

     Na década de 1970, a vigilância fotográfica era boa, mas extremamente lenta, principalmente porque cada cartucho não transmitido tinha de ser ejetado do satélite em posições específicas, para uma queda livre até a terra dentro de recipientes especiais, sendo recuperado com a ajuda de um sistema de rastreamento, levado de avião para os laboratórios centrais do SNR, revelado e copiado. Somente quando o satélite estava num arco de vôo que permitia uma transmissão direta para o território americano ou para uma das estações de rastreamento controladas pelos Estados Unidos é que podia haver transmissões de TV simultâneas. Mas quando o satélite passava sobre a União Soviética, a curvatura da superfície da terra impedia a recepção direta; assim, era necessário esperar até que o satélite tornasse a aparecer do outro lado.

     Mas no verão de 1978 os cientistas resolveram o problema, com o Jogo da Parábola. Os computadores determinaram uma cama-de-gato de infinita complexidade para os cursos de vôo de meia dúzia de câmaras espaciais, girando em torno do globo. Qualquer que fosse o espião-celestial que a Casa Branca quisesse acionar, enviava-se um sinal para que começasse a transmitir o que estava vendo. As imagens descreveriam uma parábola até outro satélite, que não estaria à vista. O segundo satélite retransmitia as imagens para um terceiro e assim por diante, como jogadores de basquete lançando a bola das pontas dos dedos para pontas dos dedos, enquanto correm. Quando as imagens desejadas alcançavam um satélite sobre o território americano, podiam ser transmitidas para o quartel-general do SNR e de lá para o Gabinete Oval.

     Os satélites estavam viajando a uma velocidade de 65.000 km/h, em termos terrestres; o globo estava girando no ritmo das horas, inclinando-se com as estações. As computações e transmutações eram astronômicas, mas os computadores resolviam tudo. Por volta de 1980, o Presidente dos Estados Unidos tinha um acesso de 24 horas por dia a cada centímetro quadrado da superfície do mundo, ao simples toque de um botão, através da transmissão simultânea. Havia ocasiões em que isso o incomodava. O que já não acontecia com Poklewski, que fora criado com a noção de revelar todos os seus pensamentos e ações particulares no confessionário. Os Condores eram como confessionários, sendo ele próprio o padre que quase se tornara.

     Enquanto as imagens surgiam na tela, o General Taylor abriu um mapa da União Soviética em cima da escrivaninha do Presidente e apontou com o indicador.

     — O que está vendo, Sr. Presidente, é transmitido pelo Condor Cinco, focalizando este ponto, a nordeste, entre Saratov e Perm, através das Terras Virgens e na área da Terra Negra.

     Matthews olhou para o receptor. Uma grande extensão de terra desfilava pela tela, de alto a baixo, numa faixa de aproximadamente 30 quilômetros de largura. A terra parecia vazia, como acontece no outono, depois da colheita. Taylor murmurou algumas instruções ao telefone. Segundos depois, a paisagem se concentrou, focalizando uma faixa de terra que não deveria ter mais do que oito quilômetros de largura. Um pequeno grupo de cabanas de camponeses, certamente izbas de madeira, perdidas na imensidão da estepe, passou pela esquerda da tela. A linha de uma estrada apareceu na cena, permaneceu no centro por alguns momentos, depois deixou a tela. Taylor tornou a murmurar instruções ao telefone; a imagem se reduziu a uma faixa de terra com apenas 100 metros de largura. A definição da imagem era muito melhor. Um homem puxando um cavalo pela imensa estepe surgiu e se foi.

     — Quero a projeção mais lenta — disse Taylor ao telefone. O chão por baixo das câmaras já não parecia deslocar-se tão depressa. No espaço, o satélite Condor continuava em seu curso, à mesma altura e velocidade; nos laboratórios do SNR, as imagens estavam sendo reduzidas e tinham sua velocidade diminuída. A imagem tornou-se mais próxima, mais lenta. Diante do tronco de uma árvore solitária, um camponês russo desabotoou a braguilha lentamente. O Presidente Matthews não era um técnico e por isso jamais se cansava de ficar impressionado. Lembrou a si mesmo que estava sentado numa sala devidamente aquecida, numa manhã do início do verão, em Washington, observando um homem urinar em algum lugar à sombra dos Montes Urais. O camponês foi saindo do cena lentamente, na direção do fundo da tela. A imagem que estava surgindo era a de um trigal, estendendo-se por muitas centenas de acres.

     — E congele — disse Taylor ao telefone.

     A imagem foi parando de se mover lentamente e ficou imóvel.

     — Mais perto — determinou Taylor.

     A imagem foi chegando mais e mais perto, até que toda a tela de um metro quadrado ficou preenchida por umas 20 hastes de trigo separadas. Todas as hastes do trigo ainda novo pareciam frágeis e raquíticas. Matthews já tinha visto trigo assim nas planícies poeirentas do Centro-Oeste americano, que conhecera na infância, 50 anos antes.

     — Stan — disse o Presidente.

     Poklewski, que pedira a reunião e a projeção, escolheu cuidadosamente as palavras:

     — Sr. Presidente, a União Soviética tem como meta este ano a produção de duzentos e quarenta milhões de toneladas métricas de cereais. Essa meta total se divide em metas específicas de cento e vinte milhões de toneladas de trigo, sessenta milhões de cevada, quatorze milhões de aveia, quatorze milhões de milho, doze milhões de centeio e os restantes vinte milhões de arroz, painço, trigo-mourisco e cereais leguminosos. O trigo e a cevada têm a proporção maior na colheita.

     O assessor levantou-se e contornou a mesa, até o lugar em que ainda estava aberto o mapa da União Soviética. Taylor desligou o receptor de TV e voltou a seu lugar.

     — Cerca de quarenta por cento da colheita anual soviética de cereais, aproximadamente cem milhões de toneladas, provém daqui, da Ucrânia e da região de Kuban, no sul da República Russa — continuou Poklewski, indicando as áreas no mapa. — E é tudo trigo de inverno. Ou seja, é plantado em setembro e outubro. Já alcançou o estágio de hastes jovens em novembro, quando caem as primeiras nevascas. A neve cobre as hastes, protegendo-as das terríveis geadas de dezembro e janeiro.

     Poklewski afastou-se da escrivaninha e foi até as janelas curvas que se estendiam do chão ao teto, por detrás da cadeira do Presidente. Tinha o hábito de ficar andando enquanto falava.

     Um observador na Avenida Pennsylvania não pode ver o Gabinete Oval, nos fundos da pequena Ala Oeste da Casa Branca. Mas como o lado daquelas janelas viradas para o sul podia ser observado do Monumento a Washington, a cerca de 1.000 metros de distância, há muito que se havia instalado ali um vidro grosso, de 15 centímetros de espessura, à prova de balas, para prevenir a possibilidade de um atirador de tocaia no Monumento resolver arriscar um tiro de tão longe. Quando Poklewski chegou às janelas, a claridade que entrava pelo vidro tornou ainda mais pálido seu rosto já pálido.

     Ele se virou e voltou, no momento, em que Matthews já se preparava para girar a cadeira, a fim de continuar a observá-lo.

     — Durante os primeiros dias de dezembro último, toda a Ucrânia e a região de Kuban enfrentaram um degelo inesperado, fora de época. Isso já tinha acontecido antes, mas nunca com tal intensidade. Uma grande massa de ar quente veio do sul, passando pelo Mar Negro e pelo Bósforo e avançando pela Ucrânia e Kuban. Durou uma semana e derreteu a primeira camada de neve, com cerca de quinze centímetros de profundidade, transformando-a em água. Dez dias depois, como para compensar, o mesmo padrão meteorológico anormal assolou toda a área com geadas que iam de quinze a vinte graus centígrados abaixo de zero.

     — O que não deve ter sido nada bom para o trigo — comentou o Presidente.

     — Sr. Presidente — interveio Robert Benson, o Diretor da CIA — nossos melhores especialistas em agricultura calcularam que os soviéticos terão muita sorte se conseguirem salvar cinqüenta por cento da colheita da Ucrânia e Kuban. Os danos foram maciços e irreparáveis.

     — Quer dizer que me estavam mostrando cenas dessa área? — indagou Matthews.

     — Não, senhor — respondeu Poklewski. — Esse é apenas um dos itens da reunião. Os outros sessenta por cento da colheita soviética, em torno de cento e quarenta milhões de toneladas, provêm das grandes extensões das Terras Virgens, que começaram a ser cultivadas no início da década de sessenta, com Kruschev, da região da Terra Negra, que sobe pelos Urais. Uma pequena parcela provém do outro lado das montanhas, na Sibéria. Foi o que lhe mostramos, Sr. Presidente.

     — E o que está acontecendo por lá? — perguntou Matthews.

     — Algo muito estranho, senhor. Não sabemos ao certo o que é, mas algo muito estranho está acontecendo com a colheita soviética de cereais. Esses restantes sessenta por cento são do trigo de primavera, semeado em março e abril, depois do degelo. A esta altura, deveria estar bastante desenvolvido e viçoso. Mas está raquítico, esparso, esporádico, como se tivesse sido atingido por alguma espécie de calamidade.

     — O tempo novamente? — indagou Matthews.

     — Não, senhor. Eles tiveram um inverno e primavera úmidos na região, mas não chegou a ser nada sério. Agora o Sol já surgiu, o tempo está perfeito, quente e seco.

     — E qual a amplitude dessa... dessa calamidade?

     Benson interveio outra vez:

     — Não sabemos, Sr. Presidente. Dispomos provavelmente de cinqüenta amostras de filmes sobre esse problema específico. De um modo geral, como é natural, preferimos concentrar-nos em objetivos militares, como movimentos de tropas, novas bases de foguetes, fábricas de armamentos. Mas o que já dispomos parece indicar que a amplitude é considerável.

     — E o que estão querendo agora?

     — O que gostaríamos, Sr. Presidente — voltou a falar Poklewski — é de sua autorização para nos dedicarmos mais um pouco a esse problema específico, descobrir suas verdadeiras proporções para os soviéticos. Isso significa que tentaremos obter informações através de delegações de empresários e outras. Iríamos desviar uma parte considerável da vigilância espacial de tarefas não-prioritárias. Achamos que é de interesse vital para a América descobrir exatamente o que Moscou terá de enfrentar nesse setor específico.

     Matthews pensou por um momento. Consultou o relógio. Dentro de 10 minutos, uma delegação de ecologistas viria cumprimentá-lo e presenteá-lo com mais uma placa. Depois, teria uma reunião com o Procurador-Geral, antes do almoço, para tratar da nova legislação trabalhista. Levantou-se.

     — Muito bem, senhores, têm a minha autorização. Acho que precisamos saber o que está acontecendo. Mas quero uma resposta dentro de trinta dias.

    

     O General Carl Taylor estava sentado na sala do sétimo andar de Robert Benson, o Diretor da CIA, dez dias depois, olhando para seu próprio relatório, anexado a diversas fotos, sobre a mesa baixa de café a sua frente.

     — É muito estranho, Bob — disse ele. — Não consigo imaginar o que seja.

     Benson desviou-se das imensas janelas panorâmicas, que ocupavam toda uma parede do gabinete do Diretor da CIA em Langley, na direção norte-nordeste, de onde se podiam contemplar as árvores estendendo-se na direção do invisível Rio Potomac. Como seus antecessores, ele adorava aquela vista, especialmente ao final da primavera e início do verão, quando os bosques pareciam um mar de verde viçoso. Foi sentar-se no sofá baixo, em frente a Taylor, no outro lado da mesinha.

     — Meus especialistas em cereais também não conseguem entender, Carl. E não quero consultar o Departamento de Agricultura. O que quer que esteja acontecendo na Rússia, a última coisa de que precisamos é de publicidade. E se eu consultar gente de fora, tenho certeza de que a notícia estará nos jornais uma semana depois. E você conseguiu descobrir alguma coisa?

     — As fotos mostram que a coisa não é pandêmica. Nem mesmo é regional. Esse é o grande enigma. Se a causa fosse climática, haveria fenômenos meteorológicos para explicá-la. Não há nenhum. Se fosse alguma doença da colheita, seria pelo menos regional. Se fosse causada por parasitas, o mesmo se aplica. Mas a incidência é totalmente irregular. Há áreas de trigo forte e saudável crescendo ao lado de acres afetados. O reconhecimento do Condor não indica nenhum padrão lógico. E você, descobriu alguma coisa?

     — Concordo que é realmente ilógico. Pus dois agentes em campo, mas até agora ainda não fizeram qualquer comunicação. A imprensa soviética não fez nenhum comentário a respeito. Meus especialistas em agronomia têm examinado suas fotos até pelo avesso. Tudo o que podem dizer é que deve ser alguma coisa nas sementes ou no solo. Mas não conseguem imaginar qualquer explicação para o padrão irregular. Não se ajusta a nada conhecido. O mais importante, porém, é que tenho de apresentar ao Presidente uma estimativa para a provável colheita total soviética de cereais em setembro/outubro. E terei de fazê-lo muito em breve.

     — Não há a menor possibilidade de eu conseguir fotografar todas as plantações de trigo e cevada na União Soviética, mesmo com o Condor — disse Taylor. — Levaria vários meses. Pode dar-me esse prazo?

     — De jeito nenhum. Preciso de informações sobre os movimentos de tropas ao longo da fronteira da China e o que está acontecendo nas fronteiras com Turquia e Irã. Preciso de uma constante vigilância sobre as posições do Exército Vermelho na Alemanha Oriental e as bases dos novos SS-20 por detrás dos Urais.

     — Neste caso, só posso fornecer uma cifra percentual, baseada no que já fotografamos e extrapolando para toda a União Soviética.

     — A cifra tem de ser acurada — disse Benson. — Não quero uma repetição de 1977.

     Taylor estremeceu ao pensar nisso, embora ainda não fosse o Diretor do SNR naquele ano. Em 1977, toda a máquina de informações americana fora enganada por um gigantesco golpe soviético. Ao longo do verão, os especialistas da CIA e do Departamento de Agricultura haviam informado ao Presidente que a colheita de cereais soviética ficaria em torno de 215.000.000 de toneladas métricas. Delegados agrícolas americanos em visita à Rússia haviam sido levados a campos de um trigo saudável e excepcional; mas, na verdade, esses trigais eram exceções. As análises do reconhecimento fotográfico tinham sido defeituosas. No outono, Leonid Brezhnev anunciara calmamente que a colheita soviética seria de apenas 194.000.000 de toneladas.

     Em conseqüência, o preço da produção excedente de trigo dos Estados Unidos, para as necessidades internas, subira abruptamente, na certeza de que os russos teriam de comprar, no final das contas, em torno de 20.000.000 de toneladas. Mas já era tarde demais. Durante o verão, agindo por intermédio de companhias testas-de-ferro sediadas na França, Moscou já comprara a produção futura de trigo em quantidade suficiente para cobrir o déficit... e ao preço antigo, mais baixo. Chegaram mesmo a fretar espaço em graneleiros através de intermediários, orientando depois os navios já em alto-mar, a caminho da Europa Ocidental, para portos soviéticos. O caso era conhecido em Langley como “Golpe de Mestre”.

     Carl Taylor levantou-se.

     — Está certo, Bob, vou continuar a tirar minhas lindas fotografias.

     — Carl... — A voz do Diretor da CIA deteve o general na porta. — Boas fotos não é o suficiente. A primeiro de julho, quero os Condores de volta à vigilância militar. No final do mês, dê-me as melhores estimativas que puder. Se houver alguma possibilidade de engano, que seja para o lado da cautela. E se seu pessoal avistar qualquer coisa que possa explicar o fenômeno, trate de fotografar até à exaustão. De alguma forma, temos de descobrir que diabo está acontecendo com o trigo soviético.

    

     Os satélites Condores do Presidente Matthews podiam ver a maioria das coisas na União Soviética, mas não podiam observar Harold Lessing, um dos três Primeiros-Secretários da Seção Comercial da Embaixada britânica em Moscou, em sua mesa de trabalho, na manhã seguinte. Provavelmente era até melhor assim, pois Lessing seria o primeiro a concordar que não era uma visão das mais edificantes. Estava extremamente pálido e sentia-se muitíssimo mal.

     O principal prédio da representação britânica na capital soviética é uma mansão antiga, anterior à Revolução, dando para o Dique Maurice Thorez ao norte, de frente para o lado sul das muralhas do Kremlin, no outro lado do Rio Moscou. Nos tempos czaristas, pertencera a um milionário comerciante de açúcar. Logo depois da Revolução, fora adquirida pelos ingleses. Desde essa época o governo soviético vem tentando tirar os ingleses de lá. Stalin detestava o prédio: todas as manhãs, ao levantar, ficava profundamente irritado, ao ver das janelas dos seus aposentos particulares a bandeira inglesa tremulando à brisa matutina.

     Mas a Seção Comercial não tem a sorte de estar instalada nessa elegante mansão creme e dourada. Funciona num complexo austero construído pelos militares logo depois da guerra, a três quilômetros de distância, na Kutuzovsky Prospekt, quase em frente ao Hotel Ucrânia, um prédio que lembra um bolo de noiva. O mesmo complexo, cujo único portão era guardado por vigilantes milicianos, contém alguns prédios de apartamentos, reservados para o pessoal diplomático de mais de 20 embaixadas estrangeiras. É chamado coletivamente de Korpus Diplomatik ou Conjunto dos Diplomatas.

     A sala de Harold Lessing ficava no último andar do bloco de escritórios. Quando ele finalmente desmaiou, às 10:30 daquela manhã de sol de maio, foi o barulho do telefone que derrubou no tapete que alertou sua secretária, na sala vizinha. Discreta e eficientemente, ela avisou ao Conselheiro Comercial, o qual prontamente determinou que dois jovens adidos ajudassem Lessing, a esta altura já novamente consciente, mas inteiramente grogue, a deixar o prédio, atravessar o estacionamento e subir para seu apartamento no sexto andar do Korpus 6, a 100 metros de distância.

     Ao mesmo tempo, o conselheiro telefonou paça o prédio principal da embaixada, comunicando o incidente ao Chefe da Chancelaria e pedindo que o médico da embaixada fosse prontamente enviado. Por volta de meio-dia, depois de examinar Lessing no apartamento dele, o médico foi conversar com o Conselheiro Comercial. Para sua surpresa, o conselheiro interrompeu-o bruscamente e sugeriu que fossem para o prédio principal da embaixada, para terem uma reunião com o Chefe da Chancelaria. Somente depois é que o médico, um clínico-geral inglês com um contrato de três anos, adido à embaixada com o posto de primeiro-secretário, compreendeu por que a providência era necessária. O Chefe da Chancelaria levou-os para uma sala especial, à prova de qualquer sistema de escuta, o que não havia na Seção Comercial.

     — É uma úlcera perfurada — disse o médico aos dois diplomatas. — Aparentemente ele vinha sofrendo do que julgava ser um excesso de indigestão ácida há algumas semanas, talvez meses. Podemos atribuir à tensão. O estado sendo agravado por incontáveis tabletes antiácidos. O que é uma grande tolice. Ele deveria ter-me consultado.

     — O caso exige hospitalização? — indagou o Chefe da Chancelaria, olhando para o teto.

     — Claro que precisa. Creio que posso providenciar sua internação num hospital daqui em poucas horas. Os médicos soviéticos são bastante competentes nesse tipo de tratamento.

     Houve um breve momento de silêncio, enquanto os dois diplomatas trocavam olhares expressivos. O Conselheiro Comercial meneou a cabeça. Os dois homens haviam pensado a mesma coisa; pela posição que ocupavam, ambos sabiam qual era a verdadeira função de Lessing na embaixada. O que já não acontecia com o médico. O conselheiro deixou o problema entregue ao Chefe da Chancelaria, que disse suavemente:

     — Isso não será possível. Não no caso de Lessing. Ele terá de ser levado de avião para Helsinque, no vôo da tarde. Pode dar um jeito para que ele faça a viagem sem maiores riscos?

     — Mas certamente... — O médico parou de falar abruptamente. Estava compreendendo agora por que tinham precisado viajar três quilômetros para ter aquela conversa. Lessing deveria ser o chefe das operações em Moscou do Serviço de Informações Secretas. — É possível — acrescentou ele, depois de algum tempo. — Ele está em estado de choque e provavelmente perdeu meio litro de sangue. Já lhe apliquei cem miligramas de Pethidine, como um tranqüilizante. Posso fazer outra aplicação às três horas da tarde. Se ele for levado de carro com motorista para o aeroporto e receber atenções especiais durante a viagem, pode conseguir chegar a Helsinque. Mas terá de ser internado imediatamente num hospital, assim que chegar. Eu preferiria acompanhá-lo pessoalmente, só para estar certo de que tudo correrá bem. Poderia estar de volta amanhã.

     O Chefe da Chancelaria levantou-se.

     — Esplêndida idéia! Pode ficar dois dias por lá. E já que vai e se não se incomodar, minha esposa tem uma lista de artigos de que está precisando e não se encontram aqui. Pode fazer a gentileza? Muito obrigado. Tomarei todas as providências necessárias.

    

     Há anos que os jornais, revistas e livros habitualmente indicavam o quartel-general do Serviço de Informações Secretas da Inglaterra, SIS ou MI-6, como sendo um determinado prédio comercial de Lambeth, em Londres. É um hábito que provoca sorrisos divertidos no pessoal da “Firma”, pois o endereço de Lambeth é uma fachada diligentemente mantida.

     Outra fachada similar é mantida na Leconfield House, na Rua Curzon, que muita gente ainda supõe ser o quartel-general do ramo de contra-espionagem, o MI-5. A manobra visa simplesmente iludir as indagações desnecessárias. Na verdade, há muitos anos que esses incansáveis caçadores de espiões não estão instalados perto do Playboy Club.

     A verdadeira sede do mais secreto Serviço de Informações Secretas do mundo é um conjunto moderno, de aço e concreto, consignado ao Departamento do Meio Ambiente, perto de uma das principais estações ferroviárias da parte sul da capital e ocupado no início da década de 1970.

     Foi em seu gabinete no último andar do prédio, com suas janelas de vidro fume dando para a torre do Big Ben e as Casas do Parlamento, no outro lado do rio, que o Diretor-Geral do SIS recebeu a notícia da doença de Lessing, logo depois do almoço. O telefonema foi dado pelo Diretor do Pessoal, através de uma das linhas internas. Ele acabara de receber a informação da sala de recepção e transmissão de mensagens em código, que funcionava no porão. Depois de escutar atentamente por algum tempo, o Diretor-Geral indagou:

     — Por quanto tempo ele terá de ficar fora de ação?

     — Vários meses, no mínimo. Terá de passar pelo menos duas semanas no hospital em Helsinque, depois voltará para casa a fim de continuar o tratamento. Provavelmente haverá mais várias semanas de convalescença.

     — É uma pena — comentou o Diretor-Geral. — Vamos ter de substituí-lo imediatamente. — Sua vasta memória recordou-lhe que Lessing estava fazendo contato com dois agentes russos, assessores subalternos no Exército Vermelho e no Ministério do Exterior soviético, respectivamente. Não chegavam a ser excepcionais, mas eram bastante úteis. Ele disse finalmente: — Informe-me assim que Lessing estiver em segurança em Helsinque. E providencie uma pequena lista de possíveis substitutos. Ao final da tarde, por gentileza.

     Sir Nigel Irvine era o terceiro profissional do serviço de informações consecutivo a alcançar o cargo de Diretor-Geral do SIS ou a “Firma”, como era mais coloquialmente conhecido na comunidade de tais organizações.

     A CIA americana, uma organização muito maior, fundada e levada ao auge de seus poderes por Allen Dulles, fora finalmente colocada sob o controle de um homem de fora, o Almirante Stanfield Turner, como conseqüência do abuso no uso de sua força, com uma política de ação independente. Era bastante irônico que exatamente na mesma ocasião o Governo britânico finalmente adotasse uma decisão inversa, rompendo a tradição de colocar a Firma sob a direção de um diplomata veterano do Foreign Office e permitindo que um profissional assumisse o comando.

     O risco dera bons resultados. A Firma pagara uma longa penitência pelos casos de Burgess, MacLean e Philby. Agora, Sir Nigel Irvine estava determinado a fazer com que a tradição de colocar um profissional a frente da Firma continuasse depois dele. Era por isso que tencionava ser tão rigoroso quanto seus antecessores imediatos, para impedir que surgissem agentes independentes, que só gostavam de operar sozinhos.

     — O que fazemos é um serviço e não um número de trapézio — costumava dizer aos novatos em Beaconsfield. — Não estamos aqui para ganhar os aplausos do público.

    

     Já havia anoitecido quando as três fichas chegaram à mesa de Sir Nigel Irvine. Mas ele queria definir logo a escolha e estava disposto a continuar por mais tempo em seu gabinete. Passou uma hora examinando as fichas, embora a escolha parecesse bastante óbvia. Finalmente, telefonou para o Diretor do Pessoal, que ainda estava no prédio, pedindo que fosse vê-lo. A secretária introduziu-o na sala dois minutos depois.

     Como um bom anfitrião, Sir Nigel serviu um uísque com soda ao Diretor do Pessoal, a mesma coisa que estava bebendo. Não via motivos para abster-se de algumas boas coisas da vida. Seu gabinete era bem decorado e devidamente equipado, talvez para compensar as terríveis condições de combate em 1944 e 1945 e os hotéis imundos de Viena ao final dos anos 40, quando era um agente subalterno na Firma, subornando funcionários soviéticos nas áreas da Áustria ocupadas pela Rússia. Dois dos seus recrutas desse período, “dorminhocos” durante anos, ainda estavam em atividade, pelo que podia dar-se os parabéns.

     Embora o prédio do SIS fosse de estilo moderno, em aço, concreto e cromo, o gabinete do Diretor-Geral no último andar era decorado num estilo mais antigo e elegante. O papel de parede tinha uma repousante cor café-com-leite, o tapete que cobria todo o assoalho tinha a cor de laranja queimada. A escrivaninha, a cadeira alta por trás, as duas cadeiras na frente e o sofá de couro eram antigüidades autênticas.

     No estoque de quadros do Departamento do Meio Ambiente, ao qual mandarins do serviço civil britânico têm acesso para a decoração das paredes de seus gabinetes, Sir Nigel pegara um Dufy, um Vlaminck e um Breughel um tanto suspeito. Ele estava de olho num pequeno mas primoroso Fragonard; infelizmente, porém, um astuto alto funcionário do Tesouro chegara primeiro.

     Ao contrário do Foreign Office, o Ministério do Exterior, e do Departamento da Commonwealth, que cuidava das relações com a Comunidade Britânica, cujas paredes exibiam retratos a óleo de antigos Ministros do Exterior, como Canning e Grey, a Firma sempre evitara os retratos de ancestrais. De qualquer forma, quem podia imaginar que homens tão discretos quanto os sucessivos chefes de espionagem da Inglaterra haveriam de querer que suas imagens ficassem gravadas para a posteridade? Também não havia lugar para retratos de Rainha em trajes de gala, ao contrário do que acontecia na Casa Branca e em Langley, sempre repletas de fotografias autografadas do último presidente.

     — O compromisso de uma pessoa de servir à Rainha e ao país não precisa de qualquer anúncio adicional neste prédio — alguém dissera certa vez a um aturdido visitante da CIA, vindo de Langley. — Se precisasse, nem mesmo estaria trabalhando aqui.

     Sir Nigel afastou-se da janela e da contemplação das luzes do West End projetando-se na água.

     — Não lhe parece que o homem é Munro?

     — Eu diria que sim — respondeu o Diretor do Pessoal.

     — Como é ele? Já li a ficha e o conheço ligeiramente. Mas gostaria que me desse o toque pessoal.

     — É um tanto reservado.

     — O que é ótimo.

     — E um pouco retraído.

     — O que já não é tão bom.

     — A questão principal é o russo que ele fala. Os outros dois têm um russo bom e eficaz. Mas Munro pode passar por russo. Normalmente não o faz. Costuma falar com um sotaque moderado. Mas, quando quer, pode falar sem que qualquer pessoa seja capaz de diferenciá-lo de um russo autêntico. E num prazo tão curto, seria uma vantagem ter alguém que fale russo tão bem para o contato com Mallard e Merganser.

     Mallard, pato selvagem, e Merganser, o merganso, eram os nomes em código de dois agentes de nível subalterno recrutados e dirigidos por Lessing. Os russos a serviço da Firma dentro da União Soviética geralmente recebiam os nomes de pássaros, em ordem alfabética, de acordo com a data de recrutamento. Os dois Ms eram aquisições recentes. Sir Nigel resmungou.

     — Está certo. Munro é o homem. Onde ele está neste momento?

     — No treinamento. Em Beaconsfield. Como instrutor do ofício.

     — Quero que esteja aqui amanhã de tarde. Como Munro não é casado, provavelmente pode partir imediatamente. Não há necessidade de esperar por mais tempo. Providenciarei para que o Foreign Office concorde pela manhã com a designação dele, como substituto de Lessing na Seção Comercial.

    

     Beaconsfield, em Buckinghamshire, fica perto do centro de Londres. Por isso, há anos, era um dos locais prediletos para as elegantes casas de campo dos que desfrutavam de posições privilegiadas e rendosas na capital. No início da década de 1970, a maioria das casas era a sede de seminários, retiros, cursos executivos de administração e marketing, até mesmo de instrução religiosa. Uma das casas alojava a Escola de Russo das Forças Armadas, sobre a qual não se fazia nenhum segredo. Outra casa, bem menor, era a escola de treinamento do SIS, que não era tão aberta assim.

     O curso de Adam Munro em técnicas do ofício era bastante popular, especialmente porque quebrava a cansativa rotina de codificar e decifrar mensagens. Munro contava com o pleno interesse de sua turma e sabia disso.

     — Muito bem, agora vamos tratar de alguns contratempos e a maneira como se livrar deles — disse Munro naquela manhã da última, semana do mês.

     A turma estava numa expectativa silenciosa. Os procedimentos de rotina eram uma coisa, a perspectiva de uma oposição de verdade era outra muito diferente.

     — É preciso pegar um pacote de um contato — continuou Munro. — Mas você está sendo seguido por agentes locais. Tem cobertura diplomática, no caso de uma prisão, mas o mesmo não acontece com o contato. Ele está completamente a descoberto, é um homem do local. Está vindo para um encontro e você não tem como detê-lo. Ele sabe que pode atrair atenção se ficar muito tempo no ponto de encontro. Por isso, só vai esperar dez minutos. O que você faz em tal situação?

     — O recurso é despistar o homem que nos está seguindo — sugeriu alguém.

     Munro sacudiu a cabeça.

     — Não é a solução. Por um lado, você supostamente é um inocente diplomata, não um Houdini. Despiste o seguidor e irá denunciar-se como um agente experiente. Por outro lado, pode não conseguir. Se é o KGB e estiverem usando o primeiro time, não há a menor possibilidade, a não ser voltando para a embaixada. Tentem novamente.

     — O jeito é abortar a missão — disse outro aluno. — Não aparecer. A segurança do contribuinte desprotegido é o mais importante.

     — Está certo — disse Munro. — Mas isso deixa o contato com um pacote que ele não pode conservar por muito tempo e sem alternativa de outro encontro. — Fez uma pausa de vários segundos. — Ou será que... ?

     — Há um procedimento secundário fixado no caso de um malogro da missão — sugeriu um terceiro aluno.

     — Exatamente. Quando podia encontrar-se a sós com o contato, nos bons tempos de antigamente, antes de concentrarem a vigilância de rotina em você, instruiu-o sobre toda uma série de encontros alternativos, no caso de um malogro no primeiro ponto de encontro. Como é chamado esse procedimento?

     — Retirada — arriscou o brilhante aluno que queria livrar-se do seguidor.

     — Primeira retirada — corrigiu Munro. — Estaremos fazendo tudo isso nas ruas de Londres dentro de dois meses. Portanto, tratem de saber tudo certo. — Os alunos escreveram rapidamente por um momento. — Muito bem, vamos em frente. Você tem um segundo ponto de encontro alternativo na cidade, mas continua a ser seguido. Não tem para onde ir. O que acontece no primeiro ponto de encontro?

     O silêncio foi geral. Munro deu-lhes 30 segundos, antes de continuar:

     — Você não aparece por lá. De acordo com as instruções que deu ao contato, o segundo ponto de encontro é sempre um lugar em que ele possa observá-lo a distância. Quando você sabe que ele o está observando, talvez de um terraço, talvez de um café, mas sempre distante, faça-lhe um sinal. Pode ser qualquer coisa, como coçar a orelha, assoar o nariz, largar um jornal no chão e pegá-lo de novo. O que isso significa para o contato?

     — Que você está indo para o terceiro ponto de encontro, de acordo com os procedimentos definidos anteriormente — disse o Brilhante Aluno.

     — Exatamente. Mas você ainda está sendo seguido. Onde ocorre esse terceiro encontro? Em que tipo de lugar?

     Desta vez, ninguém quis arriscar um palpite.

     — Pode ser qualquer prédio, um bar, clube, restaurante, o que preferirem, contanto que tenha a fachada tapada, a fim de que ninguém possa olhar por uma vitrine ou janela de vidro, depois de fechada a porta, para ver o que está acontecendo lá dentro. Por que um lugar assim para o encontro?

     Houve uma batida rápida na porta e no instante seguinte o Chefe do Programa de Cursos enfiou a cara redonda para dentro da sala. Fez um sinal para Munro, que saiu de detrás de sua mesa e foi até a porta. Seu superior levou-o para o corredor.

     — Você foi convocado — disse ele, baixinho. — O Mestre quer vê-lo. No gabinete dele, às três horas. Pode partir na hora do almoço. Bailey o substituirá nas aulas da tarde.

     Munro voltou para a sala. um tanto perplexo. O Mestre era o apelido meio afetuoso e meio respeitoso que se dava ao homem que ocupava o posto de Diretor-Geral da Firma.

     Um dos integrantes da turma tinha uma sugestão a apresentar:

     — Para que você possa ir até a mesa do contato e pegar o pacote sem ser observado.

     Munro novamente sacudiu a cabeça.

     — Não é bem isso. Depois que você deixa o lugar, a oposição pode enviar um homem para interrogar os garçons. Se você se aproximar diretamente do contato, o rosto dele pode ser observado e sua identidade definida, até mesmo com base numa simples descrição. Alguém mais tem uma idéia?

     — Pode usar um drop, um lugar combinado para se deixar uma encomenda, dentro do restaurante — propôs o brilhante aluno.

     Munro sacudiu a cabeça mais uma vez.

     — Não haveria tempo. O seguidor estará entrando no lugar poucos segundos depois de você. Ou talvez o contato, que chegou lá antes, não tenha encontrado desocupado o cubículo do banheiro combinado. Ou a mesa vaga. Há muitas possibilidades de malogro. Assim, o jeito é recorrer à entrega-em-trânsito. Prestem atenção que vou descrever como funciona.

     “Quando o contato recebeu o aviso no segundo ponto de encontro de que você estava sendo seguido, passou a agir de acordo com as normas previstas para tal emergência. Acertou o relógio quase até o segundo com o relógio público de mais confiança nas proximidades. Ou melhor ainda, acertou pelo serviço de hora certa da companhia telefônica. Em outro lugar, você faz a mesma coisa. “Numa hora combinada, ele já está sentado num bar ou qualquer outro lugar acertado. Lá fora, você está se aproximando na hora prevista, com uma exatidão quase que de segundos. Se você estiver adiantado, trate de retardar um pouco, endireitando os cordões dos sapatos, parando na vitrine de uma loja. Não consulte o relógio de uma maneira óbvia.

     “Entre no bar no momento exato que foi combinado, fechando à porta depois de passar. No mesmo instante, o contato está de pé, a conta paga, encaminhando-se para a porta. No mínimo, vão transcorrer pelo menos cinco segundos antes que a porta se abra novamente e o seguidor entre. Você passa roçando pelo contato a meio metro da porta, certificando-se de que está fechada para bloquear a visão. Na passagem, você entrega ou recebe a encomenda. E depois continua até uma mesa vaga ou um banco no bar. A oposição estará entrando segundos depois. O contato passa pelo seguidor e desaparece. Mais tarde, os empregados do bar irão declarar que você não falou com ninguém, não se aproximou de ninguém. Não parou na mesa de ninguém, assim como ninguém parou na sua. Você está com o pacote num bolso interno do casaco, termina de tomar seu drinque e volta para a embaixada. A oposição, esperançosa, irá informar que você não fez contato com ninguém durante todo o passeio.

     “Isso é a entrega-em-trânsito... e isso é a sineta da hora do almoço.

     No meio da tarde, Adam Munro estava fechado na biblioteca de segurança da Firma, no subsolo do prédio do quartel-general, começando a examinar uma pilha de pastas. Dispunha de apenas cinco dias para aprender e gravar na memória informações suficientes que lhe permitissem assumir o lugar de Harold Lessing como “residente legal” da Firma em Moscou.

    

     No dia 31 de maio, Adam Munro voou de Londres para Moscou, a fim de assumir seu novo posto.

    

     Munro passou a primeira semana se instalando. Para todos os funcionários da embaixada, à exceção de uns poucos devidamente informados, era apenas um diplomata profissional e o substituto enviado às pressas para o lugar de Harold Lessing. O Embaixador, o Chefe da Chancelaria, o Chefe da Seção de Mensagens Codificadas e o Conselheiro Comercial sabiam qual era sua verdadeira função. O fato de estar com uma idade relativamente avançada, 46 anos, para ainda ser primeiro-secretário na Seção Comercial era explicado por ter entrado bem tarde no serviço diplomático.

     O Conselheiro Comercial assegurou-lhe que o trabalho de cobertura que lhe seria encaminhado era o mais simples possível, não absorvendo muito tempo. Ele teve um encontro rápido e formal com o Embaixador, no gabinete deste, tomou um drinque mais informal com o Chefe da Chancelaria. Foi apresentado a quase todos os funcionários da embaixada e levado a uma ronda de recepções diplomáticas, a fim de conhecer outros diplomatas das embaixadas ocidentais. Teve também um encontro a sós e mais profissional com seu equivalente na Embaixada americana. “Os negócios”, como lhe disse o homem da CIA, estavam tranqüilos.

     Embora qualquer membro da Embaixada britânica em Moscou ficasse visivelmente deslocado se não falasse russo, Munro manteve o seu uso da língua a uma versão formal e com um sotaque carregado, tanto em contato com seus colegas como ao falar com as autoridades russas, no processo de sua apresentação. Numa recepção, dois funcionários do Ministério do Exterior soviético travaram um diálogo rápido e coloquial em russo, a poucos passos dele. Munro compreendeu tudo; como a conversa tinha algum interesse, transmitiu-a para Londres.

     No seu décimo dia em Moscou, sentou-se num banco no parque amplo diante da Exposição de Realizações Econômicas da União Soviética, num subúrbio ao norte de Moscou. Estava esperando para fazer seu primeiro contato com o agente no Exército Vermelho, junto a quem iria substituir Lessing.

     Munro nascera em 1936, filho de um médico de Edinburgo. Sua infância, durante os anos da guerra, fora convencional, de classe média, tranqüila, feliz. Cursara uma escola local até 13 anos e depois passara cinco anos na Academia Fettes, um dos melhores colégios da Escócia. Foi nessa época que seu professor de línguas estrangeiras percebera nele um ouvido excepcional para aprendê-las.

     Em 1954, com o serviço militar obrigatório, Munro ingressara no Exército. Depois do treinamento básico, conseguira um lugar no antigo regimento de seu pai, o Gordon Highlanders. Transferido para Chipre, ao final do verão estava em operações contra os guerrilheiros da EOKA, nas Montanhas Troodos.

     Sentado no parque em Moscou, ainda podia ver, nos olhos da mente, a pequena casa de fazenda. Os soldados britânicos haviam passado a metade da noite rastejando pelo mato, a fim de cercar a casa, em decorrência do aviso de um informante. Quando a madrugada surgiu, Munro foi postado sozinho no fundo de uma ravina escarpada, por trás da casa no alto da colina. Os demais homens do seu pelotão atacaram a casa pela frente, logo depois do amanhecer, subindo pela encosta mais suave, com o Sol pelas costas.

     Lá em cima, no outro lado da colina, Munro podia ouvir o matraquear das metralhadoras, na manhã amena. Junto com os primeiros raios do Sol, ele avistou dois vultos pulando pelas janelas nos fundos da casa, imersos na sombra. Desceram pela encosta íngreme e um momento depois estavam além da sombra da casa. Os dois seguiram direto para o lugar em que Munro estava, agachado por detrás de uma oliveira caída, na sombra de um bosque. As pernas de ambos se movimentavam grotescamente, no esforço para manter o equilíbrio na difícil descida. Foram chegando mais e mais perto, e Munro pôde ver que um deles tinha na mão direita o que parecia ser um bastão curto e preto. Mesmo que ele tivesse gritado, Munro disse mais tarde a si mesmo, os dois não teriam conseguido conter o impulso. Mas não disse tal coisa a si mesmo na ocasião. O treinamento prevaleceu; simplesmente levantou-se, quando os dois homens estavam a cerca de 15 metros de distância, e disparou duas rajadas curtas e letais.

     O impacto das balas levantou os dois, um depois do outro, conteve o impulso deles e jogou-os contra os arbustos ao pé da encosta. Enquanto uma fumaça azulada de cordite saía pelo cano de sua metralhadora, ele avançou para dar uma olhada nos dois homens. Teve a sensação de que estava prestes a vomitar ou desmaiar. Mas acabou não sentindo nada, apenas uma curiosidade apática. Olhou para os rostos. Não passavam de rapazes, mais moços do que ele, que tinha apenas 18 anos.

     O sargento aproximou-se correndo pelo bosque de oliveiras.

     — Muito bem, rapaz! — gritou ele. — Conseguiu acertá-los!

     Munro contemplou os corpos dos dois rapazes, que jamais casariam nem teriam filhos, nunca mais dançariam o bouzouki nem sentiriam o calor do Sol e do vinho. Um deles ainda estava segurando o bastão preto; era um salsichão. Um pedaço saía pela boca. Os dois estavam comendo quando eles haviam atacado. Munro virou-se para o sargento, gritando:

     — Você não é meu dono! Não manda em mim! Ninguém manda em mim!

     O sargento atribuiu a explosão de Munro ao nervosismo natural de quem matava pela primeira vez e por isso não a incluiu em seu relatório. O que talvez fosse um erro. Porque as autoridades superiores deixaram de perceber que Adam Munro não era totalmente obediente, não era 100% obediente. Nunca mais seria.

     Seis meses depois, disseram-lhe que poderia considerar-se um oficial em potencial e que deveria prolongar sua permanência no Exército para três anos, a fim de poder sair como oficial da reserva. Já cansado de Chipre, Munro aceitou a sugestão e foi transferido para a Inglaterra, a fim de cursar a Escola de Cadetes, em Eaton Hall. Três meses depois era segundo-tenente.

     Enquanto passava o tempo fazendo ordem-unida em Eaton Hall, Munro comentou que falava fluentemente alemão e francês. Certo dia, foi testado nas duas línguas e verificou-se que sua alegação era verdadeira. Pouco depois de terminar o curso de oficial, sugeriram-lhe que poderia candidatar-se ao curso de língua russa das Forças Armadas, que naquele tempo ficava num quartel conhecido como Pequena Rússia, em Bodmin, na Cornualha. A alternativa era um posto regimental num quartel da Escócia, e por isso ele aceitou. Terminara o curso seis meses depois, não apenas fluente em russo, mas também virtualmente capaz de passar por um russo.

     Em 1957, apesar de considerável pressão do regimento para que ficasse, Munro deixou o Exército, pois decidira que queria ser correspondente estrangeiro. Conhecera alguns em Chipre e achava que seria preferível a algum trabalho de escritório. Aos 21 anos, começou a trabalhar em The Scotsman, na sua cidade natal de Edimburgo, como foca. Dois anos depois, foi transferido para Londres, onde logo foi contratado pela Reuter, a agência noticiosa internacional com sede na Rua Fleet, 85. No verão de 1960, seu conhecimento de línguas novamente o ajudou. Estava com 24 anos e foi designado para o escritório da Reuter em Berlim Ocidental, como segundo homem do chefe, o falecido Alfred Kluehs.

     Foi no verão anterior à construção do Muro. Três meses depois, Munro conheceu Valentina, a mulher que sabia agora ser a única que jamais iria amar em sua vida.

     Um homem sentou-se ao lado dele e tossiu. Munro foi arrancado bruscamente de seu devaneio. Ensinando as técnicas do ofício a noviços uma semana, disse ele a si mesmo, e esquecendo as regras básicas 15 dias depois. Nunca se devia afrouxar a atenção antes de um contato.

     O russo fitou-o com uma expressão de quem não estava entendendo, pois Munro usava a gravata de bolinhas combinada. Lentamente, o russo pôs um cigarro na boca, sem desviar os olhos de Munro. É um tanto banal, mas ainda funciona, pensou Munro, tirando o isqueiro do bolso e estendendo a chama para a ponta do cigarro.

     — Ronald desmaiou em sua mesa de trabalho há duas semanas — disse Munro calmamente, falando baixinho. — Um caso de úlcera perfurada. Sou Michael. Vim substituí-lo. E talvez possa até me ajudar. É verdade que a torre de TV de Ostankino é a estrutura mais alta de Moscou?

     O oficial russo à paisana soprou a fumaça e relaxou. As palavras eram exatamente as que haviam sido acertadas com Lessing, a quem ele conhecia como Ronald.

     — É, sim. Tem quinhentos e quarenta metros de altura.

     Ele tinha um jornal dobrado na mão, que pôs no banco entre os dois. A capa dobrada de Munro escorregou dos seus joelhos para o chão. Ele pegou-a, tornou a dobrá-la, colocou-a em cima do jornal. Os dois homens se ignoraram por uns 10 minutos, enquanto o russo fumava. Finalmente o russo se levantou e apagou a ponta do cigarro no chão com a ponta do pé, inclinando-se ao fazê-lo.

     — Dentro de duas semanas, a contar de hoje — murmurou Munro. — O banheiro dos homens, na quadra G do Novo Circo do Estado. Durante o número do palhaço Popov. O espetáculo começa às sete e meia.

     O russo afastou-se, continuando em seu aparente passeio. Munro ficou observando o local calmamente por mais 10 minutos. Ninguém demonstrou qualquer interesse. Ele pegou a capa, o jornal e o envelope pardo que estava dentro e voltou de metrô para a Kuiuzovsky Prospekt. O envelope continha uma relação atualizada da movimentação de oficiais do Exército Vermelho.

    

     Enquanto Adam Munro trocava de trem na Praça da Revolução pouco antes das 11 horas da manhã de 10 de junho, um comboio de uma dúzia de limusines Zil, pretas e lustrosas, estava passando pelo Portão Borovitsky, na muralha do Kremlin, 30 metros acima dele e 400 metros a sudoeste. O Politburo soviético estava prestes a iniciar uma reunião que iria mudar o curso da História.

     O Kremlin é um complexo triangular, com seu ápice, dominado pela Torre Sobakin, apontando para o norte. Em todos os lados, é protegido por uma muralha de 15 metros, com 18 torres e o acesso através de quatro portões.

     Os dois terços meridionais do triângulo é a área turística, por onde desfilam grupos dóceis de turistas, admirando as catedrais e palácios dos czares há muito mortos. Na metade do triângulo, há uma faixa vazia de macadame, constantemente patrulhada por guardas, uma linha divisória invisível que os turistas não podem ultrapassar. Mas o comboio de limusines quase artesanais passou naquela manhã por esse espaço aberto, na direção dos três prédios na parte norte do Kremlin.

     O menor desses três prédios é o Teatro Kremlin, no lado leste. Meio exposto e meio oculto por trás do teatro fica o prédio do Conselho de Ministros, aparentemente a sede do governo, na medida que os ministros ali se encontram. Mas o verdadeiro governo da União Soviética não está no Conselho de Ministros e sim no Politburo, o grupo pequeno e exclusivo que constitui o pináculo do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética.

     O terceiro prédio é o maior. Fica no lado oeste, logo atrás das fortificações da muralha, dando para os Jardins Alexandrovsky. O formato é um retângulo comprido e estreito, virado para o norte. A extremidade sul é o antigo Arsenal, um museu de armas antigas. Mas logo depois do Arsenal, as paredes interiores estão bloqueadas. Para se alcançar a parte superior, é preciso chegar pelo exterior, passando por uma barreira de ferro, que se estende por todo o espaço entre o prédio do Conselho de Ministros e o Arsenal. As limusines que penetraram no Kremlin naquela manhã foram parar ao lado da entrada superior do prédio secreto.

     O formato da parte superior do Arsenal é um retângulo oco; a parte interna é um pátio na direção norte-sul, dividindo o complexo em dois blocos ainda mais estreitos, de apartamentos e escritórios. Há quatro andares, incluindo os sótãos. Na metade do bloco de escritórios a leste, no terceiro andar, dando apenas para o pátio e ao abrigo de olhos curiosos, fica a sala em que o Politburo se reúne todas as manhãs de quita-feira, para decidir o destino de 250.000.000 de cidadãos soviéticos e dezenas de milhões de outras pessoas, que gostam de pensar que vivem além das fronteiras do império russo.

     Porque é de fato um império. Embora em teoria a República Russa seja uma das 15 repúblicas que constituem a União Soviética, na verdade a Rússia dos Czares, antigos ou modernos, domina as outras 14 repúblicas não-russas com mão de ferro. Os três instrumentos que a Rússia usa e precisa para efetivar seu domínio são: o Exército Vermelho, incluindo como sempre a Marinha e a Força Aérea; o Comitê de Segurança do Estado ou KGB, com seus 100.000 agentes, 300.000 soldados e 600.000 informantes; e a Seção de Organizações do Partido, do Secretariado-Geral do Comitê Central, controlando os quadros partidários em todos os locais de trabalho, pensamento, descanso, estudo e lazer, do Ártico às colinas da Pérsia, dos arredores de Brunswick às praias do Mar do Japão. E isso é apenas a parte interior do império.

     A sala em que o Politburo se reúne, no Prédio do Arsenal do Kremlin, tem cerca de 15 metros de comprimento e oito metros de largura, não sendo, portanto, muito grande para o imenso poder que ali se concentra. É decorada no estilo pesado, com muito mármore, preferido pelos donos do Partido, sendo dominada por uma mesa comprida, coberta por baeta verde. A mesa tem o formato de um T.

     Aquela manhã de 1 de junho de 1982 era excepcional, pois os membros do Politburo não haviam recebido qualquer agenda do encontro, apenas a convocação. Os homens que se espalharam em torno da mesa, a fim de ocupar seus lugares, podiam sentir, com seu faro coletivo excepcional para o perigo, o fator que levara todos ao pináculo, que algo da maior importância estava no ar.

    Sentado no ponto central da parte superior do T, em sua cadeira habitual, estava o chefe de todos eles, Maxim Rudin. Ostensivamente, a superioridade dele estava no título de Presidente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Mas nada, à exceção do tempo, é totalmente o que parece, na Rússia. Seu verdadeiro Poder provinha de outro título, o de Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética. Como tal, ele era também Presidente do Comitê Central e Presidente do Politburo.

     Aos 71 anos, era áspero, sorumbático e imensamente astucioso; se não possuísse esse último atributo, jamais teria ocupado a cadeira que outrora sustentara Stalin (que raramente convocava reuniões do Politburo), Malenkov, Kruschev e Brezhnev. À esquerda e à direita, estava ladeado por quatro secretários do seu próprio secretariado pessoal, homens que lhe eram pessoalmente leais, acima de tudo. Por trás dele, nos dois cantos da parede norte da sala, havia uma pequena mesa. Numa delas sentavam-se dois estenógrafos, um homem e uma mulher, com a função de anotar todas as palavras que fossem ditas na reunião. Na outra mesa, como medida de precaução, dois homens estavam sentados, inclinados sobre os carreteis de um gravador a girar lentamente. Havia um gravador de reserva para ser usado nos momentos de troca de carretel.

     O Politburo tinha 13 membros. Os outros 12 estavam postados ao longo da haste da mesa em forma de T, seis de cada lado, tendo a sua frente blocos de anotações, garrafas com água e cinzeiros. Na extremidade daquela parte da mesa havia uma única cadeira. Os homens do Politburo se contaram, para terem certeza de que ninguém estava faltando. Pois o lugar vago era a Cadeira Penal, ocupada apenas por um homem em seu último aparecimento naquela sala, um homem obrigado a ouvir acusações de antigos colegas, um homem enfrentando a desgraça, a ruína e outrora, há não muito tempo, a morte na Muralha Negra de Lubyanka. O costume sempre fora o de retardar a entrada do condenado, para que, ao chegar, encontrasse todos os lugares ocupados e vaga apenas a Cadeira Penal. É só então que ele sabe que caiu em desgraça. Naquela manhã, porém, a Cadeira Penal estava vazia. E todos estavam presentes.

     Rudin recostou-se em sua cadeira e contemplou os 12 homens, através dos olhos semicerrados, a fumaça do inevitável cigarro se elevando diante de seu rosto. Ainda era adepto do velho cigarro russo, metade de tabaco e metade um tubo de papelão fino, com duas aberturas, entre os dedos e a extremidade, para filtrar a fumaça. Os assessores haviam sido instruídos a lhe passar um cigarro depois de outro e os médicos a ficar de boca fechada.

     A sua esquerda, na haste do T, estava Vassili Petrov, de 49 anos, seu protegido e bastante jovem para o cargo que ocupava, de Chefe da Seção de Organizações do Partido, do Secretariado-Geral do Comitê Central. Podia contar com ele na crise que se avizinhava. Ao lado de Petrov estava o veterano Ministro do Exterior, Dmitri Rykov, que ficaria a seu lado, porque não tinha outro lugar para ir. Em seguida estava Yuri Ivanenko, magro e implacável em seus 53 anos, sobressaindo em seu elegante terno feito em Londres, como se ostentasse sua sofisticação para um grupo de homens que odiavam todas as formas de ocidentalização. Escolhido pessoalmente por Rudin para ser o chefe do KGB, Ivanenko também ficaria de seu lado simplesmente porque a oposição viria de setores que odiavam Ivanenko e tudo fariam para destruí-lo.

     No outro lado da mesa estava sentado Yefrem Vishnayev, também jovem para o cargo, como metade do Politburo pós-Brezhnev. Aos 55 anos, era o teórico do Partido, frugal, ascético, desaprovador, o terror dos dissidentes e divergentes, guardião da pureza marxista e consumido por uma aversão patológica ao capitalismo ocidental. Rudin sabia que a oposição viria daquele lado. Ao lado de Vishnayev estava o Marechal Nikolai Kerensky, de 63 anos, Ministro da Defesa e comandante do Exército Vermelho. Ele iria para onde o levassem os interesses do Exército Vermelho.

     Restavam sete homens, inclusive Komarov, o responsável pela agricultura soviética, extremamente pálido, porque sabia, assim como Rudin e Ivanenko, o que estava para acontecer. O chefe do KGB não traía qualquer emoção e os demais não sabiam.

     E começou quando Rudin gesticulou para um dos homens da guarda pretoriana do Kremlin, postado na porta na outra extremidade da sala, para admitir a pessoa que esperava lá fora, trêmula e apavorada.

     — Deixe-me apresentar-lhes o Professar Ivan Ivanovich Yakovlev, Camaradas — disse Rudin, enquanto o homem avançava timidamente até a extremidade da mesa e parava, à espera, as mãos úmidas de suor segurando seu relatório. — O Professor é nosso agrônomo sênior e especialista em cereais do Ministério da Agricultura, além de membro da Academia de Ciências. Tem um relatório que merece nossa atenção. Pode falar, Professor.

     Rudin, que lera o relatório vários dias antes, na privacidade de seu gabinete, recostou-se novamente na cadeira e olhou por cima da cabeça do homem, para o teto distante. Ivanenko acendeu cuidadosamente um cigarro de filtro ocidental. Komarov franziu as sobrancelhas e ficou contemplando as mãos. O professor limpou a garganta.

     — Camaradas... — disse ele, hesitante. Ninguém discordou da classificação. Respirando fundo, o cientista baixou os olhos e concentrou-se em seu relatório. — Em dezembro e janeiro últimos, nossos satélites meteorológicos de previsões a longo prazo calcularam qüe teríamos um inverno, e início de primavera excepcionalmente úmidos. Em decorrência e de acordo com a prática científica habitual, ficou decidido no Ministério da Agricultura que nossas sementes de cereais para o plantio da primavera deveriam ser revestidas por uma cobertura profilática, a fim de impedir as infecções fungosas que provavelmente seriam prevalentes, como resultado da umidade. Isso já tinha sido feito muitas vezes antes.

     “A cobertura escolhida tinha um objetivo duplo, um composto à base de mercúrio para impedir o ataque fungoso sobre as sementes em germinação e ao mesmo tempo de um pesticida e repelente de pássaros, chamado lindano. O comitê científico concordou que a União Soviética, em decorrência dos danos irreparáveis causados pelas geadas à colheita do trigo de inverno, precisaria de pelo menos cento e quarenta milhões de toneladas da colheita de cereais de primavera. Para isso, seria necessário semear seis milhões e duzentos e cinqüenta mil toneladas de sementes.

     Todos os olhos estavam agora concentrados nele, ninguém se mexia. Os membros do Politburo podiam farejar um perigo a um quilômetro de distância. Somente Komarov, o responsável pela Agricultura, continuava a olhar para a mesa, visivelmente desesperado. Diversos olhos fitaram-no rapidamente, pressentindo sangue. O professor engoliu em seco e continuou:

     — A uma média de cinqüenta e cinco gramas do composto de proteção por tonelada de sementes, iríamos precisar de um total de trezentos e cinqüenta toneladas. Dispúnhamos de apenas setenta toneladas em estoque. Foi imediatamente despachada uma ordem para a fábrica do composto em Kuibyshev para iniciar a produção das duzentas e oitenta toneladas necessárias.

     — Só existe uma fábrica? — indagou Petrov.

     — Só uma, Camarada. As tonelagens necessárias não justificam a construção de outras fábricas. A fábrica de Kuibyshev é um grande complexo químico, fabricando muitos inseticidas, herbicidas, fertilizantes e outros produtos. A produção das duzentas e oitenta toneladas do composto químico necessário não levaria mais do que quarenta horas.

     — Continue — ordenou Rudin.

     — Em decorrência de uma confusão nas comunicações, a fábrica estava no período anual de manutenção e o tempo era cada vez mais curto para a distribuição pelos cento e vinte e sete postos espalhados pela União Soviética, tratamento das sementes e remessa para as milhares de fazendas do Estado e coletivas a tempo de fazer o plantio. Assim, um jovem e ativo funcionário do Ministério e membro do Partido foi enviado de Moscou para acelerar a entrada em produção. Ao que parece, ele ordenou que os operários terminassem o que estavam fazendo, pusessem a fábrica em condições de funcionamento e iniciassem imediatamente a produção.

     — E ele não conseguiu com que tudo fosse feito a tempo? — indagou o Marechal Kerensky, asperamente.

     — Não, Camarada Marechal. A fábrica voltou a funcionar, embora os engenheiros de manutenção ainda não tivessem concluído seus trabalhos. Mas algo apresentou um defeito. Uma válvula de funil. O lindano é um composto químico extremamente forte e sua dosagem deve ser rigorosamente regulada. A válvula de funil do lindano, embora registrasse um terço no painel de controle, estava na verdade emperrada e completamente aberta. Todas as duzentas e oitenta toneladas do protetor foram afetadas.

     — E o controle de qualidade não indicou esse problema? — indagou um dos membros do Politburo, que nascera numa fazenda.

     O professor engoliu em seco novamente, desejando poder ir logo para o exílio na Sibéria, deixando aquela tortura para trás.

     — Houve uma combinação de coincidências e erros — confessou ele. — O químico responsável pela análise e controle de qualidade estava de férias em Sochi, durante o período de paralisação da fabrica. Foi chamado de volta por telegrama. Mas por causa do nevoeiro na área de Kuibyshev, seu avião foi pousar em outro local e ele completou a viagem de trem. Quando finalmente chegou, a produção já estava concluída.

     — Quer dizer que o composto protetor não foi testado? — indagou Petrov, com uma expressão de incredulidade.

     O professor parecia mais desesperado do que nunca.

     — O químico insistiu em fazer os testes de controle de qualidade. O jovem funcionário de Moscou queria que toda a produção fosse despachada imediatamente. Houve uma discussão. Ao final, chegou-se a um acordo. O químico queria testar cada décimo de saco composto protetor, num total de vinte e oito. O funcionário insistiu que só poderia ter um. E foi então que ocorreu o terceiro erro.

     “Os novos sacos haviam sido empilhados junto com o estoque de setenta toneladas que sobraram do ano anterior. No depósito, um dos carregadores, recebendo a ordem de levar um único saco para o laboratório, escolheu justamente um dos sacos antigos. Os testes demonstraram que o composto protetor estava perfeitamente em ordem e toda a produção foi imediatamente despachada.

     Ele terminou seu relatório. Não havia mais nada a dizer. Poderia ter tentado explicar que uma combinação de três erros — um defeito mecânico, um erro de julgamento entre dois homens sob pressão e uma negligência de um carregador — havia criado uma verdadeira catástrofe. Mas isso não era função sua e não pretendia apresentar desculpas esfarrapadas para outros homens. O silêncio na sala era opressivo.

     Vishnayev interrompeu num tom extremamente frio, indagando:

     — Qual é exatamente o efeito do excesso de lindano no composto protetor?

     — Camarada, causa um efeito tóxico contra a semente em germinação no solo, ao invés de ter um efeito protetor. As plantas, quando nascem, são raquíticas, esparsas, salpicadas de marrom. Não há praticamente qualquer colheita de grãos das hastes afetadas.

     — E quanto do plantio de primavera foi afetado? — perguntou Vishnayev, sempre friamente.

     — Em torno de quatro-quintos, Camarada. As setenta toneladas em estoque estavam perfeitas. As duzentas e oitenta toneladas do composto produzidas agora foram totalmente afetadas pelo defeito na válvula.

     — E o composto tóxico foi misturado com as sementes que foram plantadas?

     — Isso mesmo, Camarada.

     Dois minutos depois, o professor foi dispensado, de volta a sua privacidade e esquecimento. Vishnayev virou-se para Komarov.

     — Perdoe minha ignorância, Camarada, mas parece-me que deveria ter algum conhecimento anterior desse caso. O que aconteceu com o funcionário que foi responsável por esse... transtorno?

     Na verdade, a palavra que ele usou não foi transtorno, mas sim uma expressão russa vulgar para designar o que os cachorros costumam deixar nas calçadas. Ivanenko interveio:

    — Ele está em nossas mãos. Assim como o químico que abandonou seu posto, o carregador, que tem uma inteligência excepcionalmente inferior, e os engenheiros de manutenção, que alegam terem pedido e recebido instruções por escrito para suspenderem seu trabalho, antes de haverem terminado.

     — E esse funcionário já falou? — perguntou Vishnayev. Ivanenko pensou por um momento no homem todo arrebentado que estava numa cela nos porões de Lubyanka.

     — Falou... e muito.

     — E ele é um sabotador, um agente fascista?

     — Não — respondeu Ivanenko, soltando um suspiro. — É apenas um idiota, um ambicioso querendo demonstrar um zelo excessivo no cumprimento de suas ordens. A esta altura, já conhecemos o crânio do homem até por dentro.

     — Só mais uma pergunta, para que todos possamos estar, certos das dimensões do problema. — Vishnayev virou-se para o aflito Komarov. — Já sabemos que conseguiremos salvar cinqüenta milhões de toneladas dos cem milhões previstos dos cereais de inverno. Quanto iremos conseguir do trigo e cereais de primavera, em outubro próximo?

     Komarov olhou para Rudin, que assentiu imperceptivelmente.

     — Da meta de cento e quarenta milhões de toneladas para o trigo e outros cereais plantados na primavera, não podemos esperar conseguir mais do que cinqüenta milhões de toneladas.

     Todos ficaram em silêncio, num horror atordoado. Petrov finalmente murmurou:

     — Isso significa que teremos apenas um total de cem milhões de toneladas das duas colheitas. Ou seja, um déficit nacional de cento e quarenta milhões de toneladas. Poderíamos absorver um déficit de cinqüenta milhões, até mesmo de setenta milhões. Já o conseguimos antes, suportando a escassez e comprando tudo o que havia disponível no exterior. Mas isso...

     Rudin encerrou abruptamente a reunião:

     — Temos diante de nós um problema maior do que todos os que já enfrentamos, nisso incluindo o imperialismo chinês e americano. Proponho que a reunião seja suspensa e procuremos soluções separadamente. Não é preciso dizer que a notícia não pode passar além dos que estão presentes nesta sala. Nossa próxima reunião será dentro de uma semana, a contar de hoje.

     Enquanto os 13 homens e os quatro assessores no alto da mesa se levantavam, Petrov virou-se para o impassível Ivanenko e murmurou:

     — Isso não representa uma escassez, mas sim a fome em larga escala.

     Os membros do Politburo soviético desceram para suas limusines Zil com motorista, ainda absorvendo a informação de que um mirrado professor de Agronomia acabara de colocar uma bomba-relógio debaixo de uma das duas superpotências do mundo.

    

     Os pensamentos de Adam Munro, uma semana depois, no Teatro Bolshoi, na Karl Marx Prospekt, não estavam na guerra, mas sim no amor... e não era pela excitada secretária da Embaixada que estava sentada a seu lado e o persuadira a levá-la ao balé.

     Munro não era um grande fã de balé, embora admitisse que gostava um pouco da música. Mas a graciosidade dos entrechats e foueties... ou pulos e pinotes, como ele chamava... deixava-o indiferente. No segundo ato de Giselle, que era o espetáculo apresentado naquela noite, os pensamentos dele já tinham voltado a Berlim.

     Fora uma paixão maravilhosa, o tipo de amor que só se encontra uma única vez na vida. Ele tinha 24 anos, beirando os 25, ela estava com 18 anos, era morena e linda. Por causa do emprego dela, tinham de conduzir o caso em segredo, encontrando-se furtivamente em ruas escuras, nas quais ele a pegava em seu carro e levava para seu pequeno apartamento na extremidade oeste de Charlottenburg, sem que ninguém os visse. Eles se amavam e conversavam, ela preparava o jantar e depois se amavam de novo.

     A princípio, a natureza clandestina da ligação, como pessoas casadas que escapavam do mundo e dos respectivos cônjuges, acrescentara um sabor picante à paixão dos dois. Mas no verão de 1961, quando os bosques de Berlim estavam exuberantes de folhas e flores, quando havia barcos nos lagos e se podia nadar nas praias, o amor clandestino se tornara restrito e frustrante. Foi nessa ocasião que Munro propôs que se casassem e ela quase concordou. E poderia ter concordado depois, se não fosse pelo Muro. Foi concluído a 14 de agosto de 1961, mas uma semana antes já era óbvio que seria erguido.

     E foi então que ela tomou uma decisão e se amaram pela última vez. Disse a Munro que não podia abandonar seus pais ao que inevitavelmente lhes aconteceria, a desgraça, a perda do cargo de confiança do pai, o apartamento que a mãe adorava e pelo qual esperara por muitos anos, através dos anos terríveis do pós-guerra. Não podia destruir as possibilidades do irmão caçula de conseguir uma boa educação e ter um futuro; e, por fim, ela não podia suportar a idéia de saber que nunca mais tornaria a ver sua amada pátria.

     E assim ela partiu. Munro ficou observando das sombras, enquanto ela se esgueirava de volta ao Leste, pelo último trecho do Muro que ainda não fora concluído, triste, solitária, desolada... mas muito, muito bonita.

     Ele jamais tornara a vê-la e nunca a mencionara a ninguém, guardando a recordação dela com uma discrição escocesa. Jamais revelara que amara e ainda amava uma jovem russa chamada Valentina, que fora secretária-estenógrafa da delegação soviética à Conferência das Quatro Potências em Berlim. E isso, como Munro perfeitamente sabia, era contrário a todos os regulamentos.

     Depois de Valentina, Berlim se tornara uma cidade totalmente insípida. Um ano depois, a Reuter transferiu-o para Paris. Passou dois anos ali, antes de voltar a Londres, para trabalhar na matriz da agência, na Rua Fleet. E foi lá que um civil que conhecera em Berlim, um homem que trabalhara no quartel-general britânico no antigo estádio olímpico de Hitler, procurou-o para renovar o contato. Houve um jantar, com a presença de um terceiro homem. O conhecido de Berlim pediu licença e se retirou, logo depois do café. O desconhecido era amistoso e cauteloso. Mas no segundo conhaque explicou o motivo de sua presença, com uma timidez que desarmou Munro:

     — Alguns dos meus companheiros na Firma gostariam de saber se nos poderia prestar um pequeno serviço.

     Foi a primeira vez que Munro ouviu falar no termo “a Firma”. Mais tarde, ficaria bastante familiarizado com o jargão. Para os que estavam enfronhados na aliança anglo-americana dos serviços de informações secretas, uma aliança estranha e cautelosa, mas em última análise vital, o SIS era sempre chamado de “a Firma”. Para seus membros, os homens do serviço de contra-espionagem, o MI-5, eram “os Colegas”. A CIA, em Langley, Virgínia, era “a Companhia” e seus membros “os Primos”. No outro lado, funcionava “a Oposição”, cujo quartel-general ficava na Praça Dzerzhinsky, 2, em Moscou, que tinha esse nome em homenagem ao fundador da antiga Cheka, Feliks Dzerzhinsky, o chefe da polícia secreta de Lenine. Esse prédio seria sempre conhecido como “o Centro” e todo o território a leste da Cortina de Ferro como “o Bloco”.

     O encontro no restaurante de Londres foi em dezembro de 1964, e a proposta, confirmada posteriormente num pequeno apartamento em Chelsea, era a de “uma pequena viagem ao Bloco”. Ele fez a viagem na primavera de 1965, ostensivamente para realizar a cobertura da Feira de Leipzig, na Alemanha Oriental. Foi uma missão angustiante.

     Ele partiu de Leipzig na hora certa, seguindo de carro para o ponto de encontro em Dresden, perto do Museu Albertinium. O pacote no bolso interno do casaco parecia pesar tanto quanto cinco Bíblias e tinha a impressão de que todos o olhavam. O oficial do Exército da Alemanha Oriental que sabia onde os russos estavam instalando seus foguetes táticos, nas colinas da Saxônia, apareceu com meia hora de atraso. A esta altura, Munro estava absolutamente convencido de que dois membros da Polícia do Povo o estavam vigiando. A troca de pacotes transcorreu sem maiores problemas, entre as moitas do parque próximo. Munro voltou a seu carro e partiu para sudoeste, na direção da Encruzilhada Gera e do posto na fronteira bávara. Nos arredores de Dresden, um motorista batera em seu carro quase de frente, apesar de ele estar na mão correta. Munro nem mesmo teve tempo de transferir o pacote para o esconderijo entre a mala e o banco traseiro. Ainda estava no bolso interno de seu blazer.

     Passou duas horas terríveis numa delegacia de polícia, a todo instante esperando a ordem:

     — Esvazie os bolsos, por favor, Mein Herr.

     Tinha no bolso o suficiente para valer-lhe 25 anos no campo de trabalhos forçados de Potma. Mas finalmente deram-lhe permissão para ir embora. E nesse momento descobriu que a bateria do carro estava descarregada, e o veículo precisando ser empurrado por quatro guardas da Polícia do Povo para que pegasse.

     Uma das rodas da frente guinchava insuportavelmente, de um mancal partido. Sugeriram que passasse a noite na cidade, para que fosse efetuado o conserto. Munro alegou que o prazo do seu visto terminava à meia-noite, o que era verdade, e tratou de partir. Conseguiu chegar ao posto de fronteira sobre o Rio Saale, entre Plauen, na Alemanha Oriental, e Hof, na Alemanha Ocidental, dez minutos antes da meia-noite, tendo dirigido a 30 Km/h por todo o percurso, povoando o ar da noite com os guinchos da roda dianteira. Ao passar ruidosamente pelos guardas bávaros, no outro lado da fronteira, estava encharcado de suor.

     Deixou a Reuter um ano depois e aceitou uma sugestão de fazer o exame de admissão no Serviço Civil, como um candidato relativamente velho. Na ocasião, estava com 29 anos.

     O exame é inevitável para qualquer pessoa que deseje ingressar no Serviço Civil britânico. Com base nos resultados, o Tesouro tem a primeira opção de escolha, o que lhe permite abarrotar a economia britânica com impecáveis referências acadêmicas. As opções seguintes são do Foreign Office e do Departamento da Commonwealth. Como Munro mereceu uma aprovação de primeira classe, não teve a menor dificuldade em ingressar no serviço diplomático, geralmente a cobertura para os agentes da Firma.

     Naqueles 16 anos, Munro se especializou em questões econômicas e na União Soviética, embora nunca antes tivesse estado lá. Tivera postos no exterior na Turquia, Áustria e México. Casara-se em 1967, ao completar 31 anos. Mas, depois da lua-de-mel, fora uma união cada vez mais sem amor, um equívoco óbvio, até que tudo terminara tranqüilamente seis anos depois. Desde então, ele tivera diversas ligações e eram todas conhecidas da Firma. Mas não voltara a casar-se.

     Houvera apenas uma ligação que jamais revelara à Firma; se por acaso transpirasse sua ocorrência e o fato de tê-la ocultado, seria imediatamente dispensado. Ao ingressar no serviço, como todo mundo era obrigado, escrevera uma história completa de sua vida, submetendo-se em seguida a um interrogatório de um superior.

     O procedimento é repetido a cada cinco anos de serviço. Entre as questões de interesse, estão inevitavelmente os envolvimentos emocionais ou sociais com pessoas por trás da Cortina de Ferro. Ou de qualquer outro lugar, diga-se de passagem.

     Na primeira vez em que fora interrogado, algo dentro dele se rebelara, como se estivesse no bosque de oliveiras em Chipre. Sabia que era leal, que jamais seria subornado pòr causa de Valentina, mesmo que a Oposição soubesse a respeito, o que tinha certeza de não ser o caso. Se alguma vez fizessem uma tentativa de chantageá-lo por causa disso, admitiria o caso e pediria demissão, mas jamais cederia. Simplesmente não queria que outros homens ficassem remexendo um dos acontecimentos mais íntimos de sua vida. Ninguém manda em mim, ninguém é meu dono, a não ser eu mesmo. Por isso ele disse “não” à pergunta, quebrando os regulamentos, e uma vez acuado pela mentira, tinha de se apegar a ela. Repetiu-a três vezes, em 16 anos. Nada jamais acontecera por causa disso, nada jamais iria acontecer. Tinha certeza absoluta. A ligação era um segredo, morto e enterrado. E assim ficaria para sempre.

     Se não estivesse tão imerso em seu devaneio e não estava fascinado pelo bale como a jovem a seu lado, poderia ter percebido algo. De um camarote particular no lado esquerdo do teatro, estava sendo observado. Antes que as luzes se acendessem para o intervalo, a pessoa que o observava havia desaparecido.

    

     Os 13 homens que se reuniram em torno da mesa do Politburo, no dia seguinte, estavam contidos e cautelosos, pressentindo que o relatório do professor de Agronomia poderia desencadear uma luta de facções como nunca houvera desde a queda de Kruschev.

     Rudin, como sempre, observava os outros atentamente, por trás da cortina de fumaça do cigarro. Petrov, da Seção de Organizações do Partido, estava como de hábito sentado à sua esquerda, ao lado de Ivanenko, do KGB. Rykov, do Ministério do Exterior, folheava seus papéis, Vishnayev, o teórico, e Kerensky, do Exército Vermelho, estavam num silêncio impassível. Rudin contemplou, os outros sete homens, procurando imaginar para que lado iriam, se por acaso houvesse uma luta.

     Havia três não-russos ali: Vitautas, o báltico, de Vilnius, Lituânia; Chavadze, o georgiano de Tbilisi; e Mukhamed, o tadjki, um oriental e nascido muçulmano. A presença deles era uma concessão às minorias, mas cada um já pagara seu preço para estar ali. Rudin sabia que todos os três estavam completamente russificados. O preço para estarem ali fora alto, mais alto do que qualquer russo teria de pagar. Haviam sido Secretários do Partido em suas respectivas repúblicas e dois ainda o eram. Haviam promovido Programas de rigorosa repressão contra seus compatriotas, esmagando os dissidentes, nacionalistas, poetas, escritores, artistas, intelectuais em geral e trabalhadores que sequer insinuavam que era um tanto exagerada a aceitação 100% do domínio total da Grande Rússia. Não poderiam voltar a suas terras sem a proteção de Moscou. Por isso mesmo, se houvesse um atrito, iriam apoiar a facção que lhes garantisse a sobrevivência; ou seja, a vitoriosa. Rudin não se sentia atraído pela perspectiva de uma luta de facções, mas considerava a possibilidade desde que lera pela primeira vez o relatório do Professor Yakovlev, na intimidade de seu gabinete.

     Havia mais quatro membros do Politburo, todos russos: Komarov, da Agricultura, que ainda estava visivelmente constrangido; Stepanov, o chefe dos sindicatos; Shushkin, responsável pela ligação com os Partidos Comunistas do resto do mundo; e Petryanov, com responsabilidades especiais sobre o planejamento econômico e industrial.

     — Camaradas — começou Rudin, falando bem devagar — todos já examinaram a fundo o Relatório Yakovlev. Todos já leram também o relatório em separado do Camarada Komarov, indicando que nossa colheita total de cereais em setembro/outubro ficará aquém da meta estabelecida em cerca de cento e quarenta milhões de toneladas. Vamos primeiro analisar o básico. A União Soviética pode sobreviver durante um ano com não mais de cem milhões de toneladas de cereais?

     A discussão se prolongou por uma hora. Foi acirrada, às vezes violenta, mas todos estavam virtualmente de acordo. Tamanho déficit de cereais acarretaria privações que não se conheciam desde a Segunda Guerra Mundial. Se o Estado transferisse até mesmo um mínimo para fazer pão para as cidades, quase nada restaria aos campos. A destruição dos rebanhos, à medida que as neves do inverno cobrissem os pastos deixando-os praticamente sem forragem, privaria a União Soviética de todos os animais de quatro patas. Seria necessário uma geração inteira para se reconstituir os rebanhos. Deixar até mesmo um mínimo de cereais nos campos seria levar as cidades à fome.

     Rudin, finalmente, interrompeu bruscamente a discussão:

     — Muito bem, vamos adiante. Se aceitamos a inevitabilidade da fome, tanto em cereais como também, em conseqüência, de carne, alguns meses depois, qual poderia ser o resultado em termos de disciplina nacional?

     Petrov é que rompeu o silêncio que se seguiu. Admitiu que já havia alguma inquietação entre o povo, comprovada pela eclosão de pequenos tumultos e pedidos de demissão do Partido, informações que lhe haviam chegado no Comitê Central através dos milhões de tentáculos da máquina partidária. No evento de uma fome de verdade, muitos homens do Partido poderiam ficar do lado do proletariado.

     Os não-russos assentiram em concordância. Em suas repúblicas, o controle do centro era sempre provavelmente menor do que dentro da própria Rússia.

     — Poderíamos requisitar toda a produção dos seis satélites europeus — sugeriu Petryanov, sem nem mesmo se incomodar em chamá-los de camaradas fraternais.

     — A Polônia e a Romênia imediatamente iriam rebelar-se — declarou Shushkin, o homem de ligação com o Leste europeu. — provavelmente o mesmo aconteceria com a Hungria.

     — O Exército Vermelho poderia resolver facilmente esse problema — disse o Marechal Kerensky.

     — Não três ao mesmo tempo e atualmente — comentou Rudin.

     — Mesmo assim, estaríamos obtendo apenas um total de dez milhões de toneladas — interveio Komarov. — O que está longe de ser suficiente.

     — O que tem a dizer, Camarada Stepanov? — indagou Rudin. O chefe dos sindicatos controlados pelo Estado escolheu cuidadosamente as palavras:

     — No caso de uma fome generalizada, neste inverno e na próxima primavera, estendendo-se pelo verão, não seria possível garantir a ausência de atos de desordem, talvez em larga escala.

     Ivanenko, sentado em silêncio e contemplando o cigarro de filtro kingsize ocidental entre o polegar e o indicador da mão direita, farejou algo mais além da fumaça. Já sentia muitas vezes o cheiro do medo, durante as prisões, nas salas de interrogatório, nos corredores de seus domínios. Podia senti-lo novamente agora. Ele e os homens a seu redor eram poderosos, privilegiados, protegidos. Conhecia a todos muito bem, pois tinha suas fichas secretas. E ele, que não conhecia o medo pessoalmente, pois o homem sem alma não sente medo, sabia também que todos só temiam uma única coisa acima da própria guerra. Se o proletariado soviético, há tanto tempo sofredor, paciente, estóico em face das privações, algum dia perdesse o controle e...

     Todos os olhos estavam fixados nele. “Atos de desordem” públicos e sua repressão eram a seara de Ivanenko. Ele disse calmamente:

     — Eu poderia lidar com outra Novocherkassk. — Houve exclamações incontidas em torno da mesa. — Poderia lidar com dez ou até vinte. Mas todos os recursos do KGB não poderiam enfrentar cinqüenta situações similares.

     A menção de Novocherkassk trouxe de volta o espectro, como Ivanenko sabia que aconteceria. No dia 2 de junho de 1962, quase que exatamente 20 anos antes, a grande cidade industrial de Novocherkassk explodira em motins operários. Mas a passagem de 20 anos não ofuscara a recordação.

     Tudo começara quando, por uma estúpida coincidência, um ministro aumentara o preço da carne e da manteiga, enquanto outro reduzia os salários em 30% na imensa fábrica de locomotivas NEVZ. Nos motins resultantes, os operários rebelados dominaram a cidade por três dias, um fenômeno sem precedentes na União Soviética. E o que era igualmente sem precedentes, reduziram os líderes locais do Partido a homens trêmulos e acovardados, encerrados em seu quartel-general, sem ousar sair, desacataram um general soviético, atacaram os soldados armados e cobriram os tanques de lama, até que as aberturas ficaram totalmente obstruídas, obrigando-os a parar.

     A reação de Moscou fora maciça e impiedosa. Todos os meios de comunicação e de acesso e saída a Novocherkassk foram prontamente interrompidos. A cidade ficou virtualmente num vácuo, a fim de que não transpirasse qualquer notícia do acontecimento. Duas divisões de tropas especiais do KGB tiveram de ser mobilizadas para acabar com a rebelião e liquidar os amotinados. Houve 86 civis fuzilados nas ruas, mais de 300 ficaram feridos. Nenhum jamais voltou para casa, nenhum foi enterrado na cidade. Não apenas os feridos, mas também todos os membros de cada família de um morto ou ferido, homens, mulheres e crianças, foram deportados para os campos de Gulag, para que não ficassem a indagar pelos parentes, mantendo viva a recordação da rebelião. Todos os vestígios haviam sido eliminados. Mas 20 anos depois, o caso ainda era nitidamente recordado no Kremlin.

     Depois que Ivanenko lançou sua bomba, houve um silêncio profundo na sala, finalmente rompido por Rudin:

     — A conclusão parece inevitável. Teremos de comprar no exterior, como nunca o fizemos antes. Camarada Komarov, qual o mínimo que precisaríamos comprar no exterior para evitar o desastre?

     — Se deixarmos o mínimo indispensável nos campos, Secretário-Geral, e usarmos até os últimos grãos da reserva nacional de trinta milhões de toneladas, ainda assim precisaremos comprar cinqüenta e cinco milhões de toneladas de cereais no exterior. O que representaria todos os excedentes, num ano de colheitas excepcionais, tanto dos Estados Unidos como do Canadá.

     — Eles nunca nos venderiam! — gritou Kerensky.

     — Eles não são tolos, Camarada Marechal — disse Ivanenko, calmamente. — Seus satélites Condores já devem tê-los alertado de que há algo errado com o nosso trigo de primavera. Mas não podem saber exatamente o que e até que ponto. Ou pelo menos ainda não. Até o outono, porém, já deverão ter uma noção bastante aproximada. E são gananciosos, interminavelmente gananciosos por mais dinheiro. Posso aumentar os níveis de produção nas minas de ouro da Sibéria e Kolyma, despachar mais operários para lá dos campos de Mordóvia. Ou seja, podemos levantar os recursos necessários para tal aquisição.

      — Concordo com uma parte do que disse, mas não com outra, Camarada Ivanenko — interveio Rudin. — Eles podem ter o trigo e nós podemos ter o ouro necessário para comprá-lo. Mas existe uma possibilidade, uma pequena possibilidade, de que desta vez eles exijam concessões.

     Ao ouvirem a palavra “concessões”, todos ficaram ainda mais tensos. O Marechal Kerensky indagou, desconfiado:

     — Que espécie de concessões?

     — Nunca se pode saber enquanto não se começa a negociar — respondeu Rudin. — Mas é uma possibilidade para a qual devemos estar preparados. Eles podem exigir concessões em áreas militares...

     — Nunca! — gritou Kerensky, levantando-se bruscamente, o rosto vermelho.

     — Nossas opções são um tanto limitadas — disse Rudin. — Ao que me lembro, concordamos que uma fome ampla, em escala nacional, seria insuportável. Atrasaria o progresso da União Soviética e, em decorrência, o domínio global do marxismo-leninismo em uma década, talvez mais. Precisamos dos cereais; não há mais opções. Se os imperialistas exigirem concessões na área militar, podemos ter de aceitar um recuo estratégico, por dois ou três anos. Mas avançaremos mais depressa para compensar, depois da recuperação.

     Houve um murmúrio geral de assentimento. Rudin estava prestes a dominar a reunião, levando-a para onde desejava. Mas foi nesse momento que Vishnayev atacou. Levantou-se lentamente, enquanto o murmúrio se desvanecia. E começou a falar suavemente, em tom comedido:

     — Os problemas diante de nós, Camaradas, são de proporções gigantescas, com conseqüências incalculáveis. Proponho que se decida que ainda é muito cedo para se chegar a conclusões definitivas. Proponho uma suspensão das discussões, para uma nova reunião dentro de duas semanas, a fim de que todos possamos meditar bem sobre tudo o que foi dito e sugerido.

     O ardil dele deu certo. Conseguiu ganhar algum tempo, como Rudin particularmente temia que pudesse acontecer. Houve uma votação e ficou decidido, por 10 votos contra três, que a reunião seria adiada, sem qualquer resolução.

     Yuri Ivanenko já havia descido para o térreo e se preparava para embarcar em sua limusine quando sentiu alguém tocar-lhe o cotovelo. Parado a seu lado estava um major da Guarda do Kremlin, alto e impecavelmente vestido.

   — O Camarada Secretário-Geral gostaria de falar-lhe em seu gabinete particular, Camarada — disse o major.

     Sem dizer mais nada, o oficial virou-se e foi andando por um corredor, que se afastava da entrada principal do prédio. Ivanenko foi atrás. E enquanto seguia o major, metido numa túnica justa, calça de veludo castanho-clara e botas reluzentes, ocorreu-lhe que, se alguns dos homens do Politburo algum dia sentassem na Cadeira Penal, a prisão subseqüente ficaria a cargo de suas tropas especiais do KGB, conhecidas como Guardas de Fronteira, com seus quepes e ombreiras verdes, a insígnia da espada-e-escudo do KGB por cima da pala.

     Mas se ele, Ivanenko, tivesse de ser preso, a missão não seria confiada ao KGB, como não haviam sido encarregados da prisão de Lavrenti Beria, quase 30 anos antes. O trabalho ficaria a cargo daqueles elegantes e desdenhosos guardas de elite do Kremlin, os pretorianos em torno da sede do poder supremo. Talvez tudo ficasse aos cuidados daquele major tão seguro de si que caminhava à frente dele e que não teria qualquer escrúpulo.

     Chegaram a um elevador particular, subiram novamente para o terceiro andar, e Ivanenko foi introduzido nos aposentos particulares de Maxim Rudin.

     Stalin costumava viver no isolamento ali no coração do Kremlin, mas Malenkov e Kruschev haviam interrompido a tradição, preferindo instalar-se, assim como à maioria de seus companheiros, em luxuosos apartamentos num indefinido complexo de prédios (para o observador de fora) ao final da Kutuzovsky Prospekt. Porém, quando a esposa de Rudin morrera, dois anos antes, ele voltara a se instalar no Kremlin.

     Era um apartamento relativamente modesto para aquele homem tão poderoso. Tinha seis aposentos, incluindo a cozinha toda equipada, banheiro de mármore, gabinete particular, sala de estar, sala de jantar e quarto. Rudin vivia sozinho, comia frugalmente e era atendido por uma criada idosa e pelo onipresente Misha, um ex-soldado corpulento, mas que podia deslocar-se silenciosamente, que jamais falava mas sempre estava por perto. Ao entrar no gabinete, depois de um gesto silencioso de Misha, Ivanenko descobriu que Maxim Rudin e Vassili Petrov já estavam ali. Rudin apontou para uma cadeira vaga e começou a falar imediatamente, sem qualquer preâmbulo:

     — Pedi para que ambos viessem aqui porque há problemas em fermentação e todos sabemos disso. Estou velho e fumo demais. Há duas semanas, fui visitar os charlatães em Kuntsevo. Fizeram alguns testes. E estão querendo que eu volte.

     Petrov lançou um olhar atento para Ivanenko. O chefe do KGB permaneceu impassível. Sabia da visita à clínica superexclusiva nos bosques a sudoeste de Moscou. Um dos médicos da clínica lhe transmitira a informação.

     — A questão da sucessão paira no ar e todos sabemos disso — continuou Rudin. — Também sabemos ou deveríamos saber que Vishnayev está querendo ocupar o meu lugar. — Rudin virou-se para Ivanenko. — Se ele o conseguir, Yuri Aleksandrovich... e é jovem o bastante para isso... seria o fim para você. Ele jamais aprovou a entrega do KGB a um profissional. Poria em seu lugar um homem dele, provavelmente Krivoi.

     Ivanenko uniu as pontas dos dedos diante do rosto e sustentou o olhar de Rudin. Três anos antes, Rudin rompera uma longa tradição na Rússia soviética, de impor um luminar político do Partido como chefe do KGB. Shelepin, Semichastny, Andropov... todos haviam sido homens do Partido, impostos ao KGB, sem jamais terem pertencido a seus quadros. Somente o profissional Ivan Serov quase conseguira chegar ao topo, através de um banho de sangue. Depois, Rudin selecionara Ivanenko entre os principais assessores de Andropov, designando-o como o novo chefe do serviço.

     Mas não era a única quebra de tradição. Ivanenko era bastante jovem para o cargo de mais poderoso policial e espião do mundo. Além disso, servira como agente em Washington, quase 20 anos antes, o que sempre constituía um motivo de suspeita para os xenófobos do Politburo. Em sua vida particular, tinha um gosto especial pela elegância ocidental. E julgava-se, embora ninguém se atrevesse a mencioná-lo, que tinha certas restrições particulares em relação ao dogma. O que, pelo menos para Vishnayev, era absolutamente imperdoável.

     — Se ele assumir o controle, agora ou no futuro, estará também liquidado, Vassili Alexeivitch — disse Rudin para Petrov.

     Em particular, ele costumava chamar seus dois protegidos pelos nomes patronímicos, o que jamais acontecia em público.

     Petrov assentiu, para indicar que compreendia. Ele e Anatoly Krivoi haviam trabalhado juntos na Seção de Organizações do Partido, da Secretaria-Geral do Comitê Central. Krivoi era mais velho e mais antigo no serviço. Esperava ocupar a chefia. Mas quando o cargo ficara vago, Rudin preferira Petrov. O cargo era bastante ambicionado porque, mais cedo ou mais tarde, levava a um lugar no todo-poderoso Politburo. Krivoi, amargurado, aceitara a corte de Vishnayev e assumira o posto de chefe de gabinete e assessor direto do teórico do Partido. Mas Krivoi ainda queria o cargo de Petrov.

     Nem Ivanenko nem Petrov haviam esquecido que fora o antecessor de Vishnayev como teórico do Partido, Mikhail Suslov, que coordenara a maioria que derrubara Kruschev, em 1963. Rudin fez uma pausa, deixando que suas palavras penetrassem fundo nos outros dois.

     — Yuri, sabe que não pode ser meu sucessor, tendo em vista seus antecedentes. — Ivanenko inclinou ligeiramente a cabeça; não tinha ilusões a respeito. — Mas você e Vassili, juntos, podem manter este país no curso certo, se permanecerem unidos, por trás de mim. Vou ter de sair no ano que vem, de um jeito ou de outro. E quando eu for, quero que Vassili ocupe esta cadeira.

     O silêncio entre os dois homens mais jovens era eletrizante. Nenhum dos dois podia recordar qualquer antecessor de Rudin que tivesse sido tão objetivo e franco. Stalin sofrerá um ataque de coração e fora liquidado por seu próprio Politburo, quando se preparava para liquidar a todos; Beria tentara tomar o poder, fora preso e fuzilado por seus colegas temerosos; Malenkov caíra em desgraça, da mesma forma que Kruschev: Brezhnev mantivera a todos em dúvida, até o último instante.

     Rudin se levantou para indicar que a reunião terminara.

     — Só mais uma coisa — disse ele. — Vishnayev está planejando alguma coisa. Vai tentar desfechar um golpe ao estilo de Suslov em cima de mim, a propósito desse problema do trigo. Se ele conseguir, estaremos todos liquidados, talvez a própria Rússia também. Porque ele é um extremista, um homem impecável na teoria, mas inadmissível na prática. Preciso saber o que ele pretende fazer, o que vai desfechar, quem está tentando recrutar. Descubram para mim. E descubram tudo em quatorze dias.

    

     O quartel-general do KGB, o Centro, é um gigantesco conjunto de prédios de pedra, ocupando todo o lado nordeste da Praça Dzerzhinsky, ao final da Karl Marx Prospekt. O conjunto é na verdade um quadrado oco, a frente e os dois lados ocupados pelo KGB, o bloco dos fundos sendo a prisão e centro de interrogatório de Lubyanka. A proximidade permite aos interrogadores, separados apenas pelo pátio interno, acompanharem de perto seu trabalho.

     O gabinete do chefe do KGB fica no terceiro andar, à esquerda da entrada principal. Mas Ivanenko sempre entrava, em sua limusine com motorista e guarda-costas, por um portão lateral. O gabinete é grande, as paredes revestidas de lambris de mogno e luxuosos tapetes orientais. Uma das paredes tem o indispensável retrato de Lenine, a outra, uma fotografia do próprio Feliks Dzerzhinsky. Através das quatro janelas altas, com cortinas e vidros à prova de bala, pode-se avistar, olhando para a praça; outra representação do fundador da Cheka, com seis metros de altura, em bronze, olhos sem visão virados na outra direção da Karl Marx Prospekt, contemplando a Praça da Revolução.

     Ivanenko detestava o estilo pesado, os móveis estofados em fustão e cheio de brocados, do funcionalismo soviético, mas nada podia fazer para mudar as coisas. Entre todas as peças que herdara do seu antecessor, Andropov, a mesa era a única que ele apreciava. Era imensa e enfeitada por sete telefones. O mais importante era o Kremlevka, ligando-o diretamente com o Kremlin e Rudin. O telefone mais importante a seguir era o Vertushka, no verde do KGB, ligando-o com outros membros do Politburo e do Comitê Central. Outros telefones ligavam-no, através de circuitos de alta-freqüência, aos principais representantes do KGB na União Soviética e nos satélites do Leste europeu. Havia também um telefone direto com o Ministério da Defesa e seu Serviço Secreto, o GRU. E tudo através de centros telefônicos separados. Foi nesse último que Ivanenko recebeu o telefonema pelo qual estava esperando há 10 dias, naquela tarde, três dias antes do final de junho.

     Foi um telefonema rápido, de um homem que se deu o nome de Arkady. Ivanenko determinara ao centro telefônico que lhe encaminhasse imediatamente o telefonema de Arkady. A conversa foi rápida.

     — É melhor pessoalmente — disse Ivanenko, de maneira brusca. — Não agora, não aqui. Esta noite, em minha casa. — E desligou.

     A maioria dos principais líderes soviéticos jamais leva trabalho para casa. Na verdade, quase todos os russos têm duas personalidades distintas, a da vida pública e a da vida particular, nunca misturando as duas, se é possível evitá-lo. E quanto mais alto um russo sobe, maior é a divisão. Como acontece com os dons da Máfia, com os quais os líderes do Politburo se parecem extraordinariamente, esposas e famílias simplesmente não devem ser envolvidas, sequer por escutar conversas de negócios, nos casos meio escusos que constituem a vida pública.

     Ivanenko era diferente, sendo esse o principal motivo pelo qual contava com a desconfiança de muitos membros do Politburo. Pela razão mais antiga do mundo, ele não tinha esposa nem família. Preferiu também não viver perto dos outros, a maioria deles morando lado a lado nos apartamentos na extremidade oeste da Jutuzovsky Prospekt durante a semana e convivendo em villas vizinhas de Zhukovka e Usovo nos fins-de-semana. Os membros da elite soviética jamais gostam de ficar longe uns dos outros.

     Logo depois de assumir o comando do KGB, Yuri Ivanenko descobriu uma excelente casa em Arbat, outrora uma área residencial exclusiva no centro de Moscou, apreciada especialmente, antes da Revolução, pelos comerciantes. Em seis meses, equipes de operários, pintores e decoradores do KGB haviam restaurado inteiramente a casa, uma façanha impossível na Rússia soviética, a não ser para um membro do Politburo.

     Depois de restaurar a antiga elegância da casa, embora equipando-a com os mais modernos sistemas de segurança e alarme, Ivanenko também não tivera a menor dificuldade em mobiliá-la com o símbolo supremo de status na União Soviética: móveis ocidentais. A cozinha era o que havia de mais moderno em termos na Califórnia, tendo sido despachada de avião para Moscou pela Sears Roebuck. A sala de estar e o quarto eram revestidos com lambris de pinho suíço, enviados através da Finlândia, o banheiro era de mármore e ladrilhos modernos. Ivanenko ocupava pessoalmente apenas o andar superior, uma suíte que incluía seu gabinente/sala de música, com um equipamento de som da Phillips estendendo-se por toda uma parede e uma biblioteca de livros estrangeiros e proibidos, em inglês, francês e alemão, línguas que ele falava fluentemente. Havia uma sala de jantar anexa à sala de estar e uma sauna anexa ao quarto.

     Seus empregados pessoais — motorista, guarda-costas e valete — todos homens do KGB, viviam no andar térreo, onde estava também a garagem embutida na casa. Foi para essa casa que Ivanenko voltou depois do expediente e ficou aguardando o visitante.

     Arkady não demorou a chegar. Era um homem corpulento, de rosto vermelho, à paisana, embora se sentisse mais à vontade em seu uniforme habitual de general do Estado-Maior do Exército Vermelho. Era um dos agentes de Ivanenko dentro do Exército. Inclinou-se para frente, sentado na beira da cadeira, enquanto falava, na sala de estar de Ivanenko. O chefe do KGB estava comodamente recostado, fazendo uma ou outra pergunta, de vez em quando tomando uma anotação num blico. Quando o general acabou seu relato, Ivanenko agradeceu e levantou-se para apertar um botão na parede. Segundos depois, a porta se abriu e o valete de Ivanenko apareceu. Era um jovem guarda louro, de uma aparência extraordinária, levando o visitante até o portão no muro externo.

     Ivanenko ficou pensando por muito tempo nas informações que acabara de receber, sentindo-se cada vez mais cansado e deprimido. Então era aquilo que Vishnayev pretendia fazer. Ele contaria tudo a Maxim Rudin pela manhã.

     Tomou um banho demorado, perfumado com um óleo de banho caríssimo vindo de Londres, vestiu um chambre de seda e tomou um conhaque francês. Voltou finalmente para o quarto, apagou todas as luzes, menos um pequeno abajur no canto, antes de esten-Her-se sobre a colcha. Pegou o telefone na mesinha de cabeceira e apertou um dos botões. Foi imediatamente atendido.

     — Valodya — disse ele baixinho, usando o diminutivo afetuoso de Vladimir — suba até aqui, por favor...

    

     O jato da companhia aérea polonesa inclinou uma asa sobre o Rio Dnieper e preparou-se para a descida final no Aeroporto de Borispil, nos arredores de Kiev, capital da Ucrânia. De seu assento na janela, Andrew Drake contemplou ansiosamente a cidade que se estendia lá embaixo. Estava tenso de expectativa.

     Juntamente com os outros cento e tantos turistas da excursão que partira de Londres e fizera escala em Varsóvia, ele ficou quase uma hora na fila do controle de passaporte e alfândega. No controle de imigração, entregou seu passaporte no guichê de vidro e esperou. O homem do outro lado estava de uniforme da Guarda de Fronteira, com a tira verde no quepe e a insígnia da espada-e-escudo do KGB por cima da pala. Olhou para a fotografia no passaporte e depois para Drake.

     — An... Drev... Drak?

     Drake sorriu e inclinou a cabeça, corrigindo delicadamente:

     — Andrew Drake.

     O guarda fitou-o com uma expressão irritada. Examinou o visto, emitido em Londres, arrancou a metade de entrada e prendeu o visto de saída no passaporte com um clipe. E depois devolveu-o. Drake tinha entrado na União Soviética.

     No ônibus da Intourist que os levou do aeroporto ao Hotel Lybid, de 17 andares, ele novamente examinou seus companheiros de viagem. Cerca da metade era constituída por descendentes de ucranianos, visitando a terra dos antepassados, excitados e inocentes. A outra metade era formada por britânicos, simples turistas curiosos. Todos pareciam ter passaportes britânicos. Drake, com seu nome inglês, fazia parte do segundo grupo. Não dera a menor indicação de que falava fluentemente o ucraniano e um russo passável.

     Durante a viagem de ônibus, eles conheceram Ludmila, a guia da Intourist para a excursão. Ela era russa e falava em russo para o motorista, o qual respondia também em russo, apesar de ser ucra: niano. Quando o ônibus deixou o aeroporto, a moça sorriu cordialmente e começou a descrever, num inglês razoável, a excursão que os aguardava.

     Drake examinou o itinerário: dois dias em Kiev, visitando a Catedral de Santa Sofia (“Um exemplo maravilhoso da arquitetura kievo-russa, o local em que está sepultado o Príncipe Yaroslav, o Sábio”, entoou Ludmila lá na frente); o Portão Dourado do século X e a Colina Vladimir, sem falar na Universidade do Estado, a Academia de Ciência e o Jardim Botânico. Por certo, pensou Drake amargamente, não haverá qualquer menção ao incêndio de 1964 na biblioteca da Academia, em que haviam sido destruídos manuscritos, livros e arquivos de valor inestimável, dedicados à literatura, poesia e cultura nacional ucranianas; nem menção à demora dos bombeiros, que levaram três horas para chegar; nem menção ao fato de o incêndio ter sido ateado pelo próprio KGB, como resposta aos escritores nacionalistas.

     Depois de Kiev, haveria uma viagem de um dia até Kaniv, de aerobarco, em seguida um dia em Ternopol, onde certamente não se falaria de um homem chamado Miroslav Kaminsky, e finalmente Lvov. Como já esperava, Drake ouviu apenas russo nas ruas da cidade intensamente russificada de Kiev. Foi somente ao chegar em Kaniv e Ternopol é que ele ouviu o ucraniano sendo falado amplamente. Sentiu uma imensa alegria no coração ao ouvir tantas pessoas falando a língua que amava, lamentando apenas ter que dizer a todos:

     — Desculpe, mas fala inglês?

     Teria de escapar até poder visitar os dois endereços, que decorara tão bem a ponto de poder dizê-los de trás para a frente.

    

     A 8.000 quilômetros de distância, o Presidente dos Estados Unidos estava reunido com seu assessor para questões de segurança, Poklewski, Robert Benson, da CIA, e um terceiro homem, Myron Fletcher, principal analista de problemas soviéticos de cereais do Departamento de Agricultura.

     — Bob, tem certeza, acima de qualquer duvida, de que o reconhecimento pelos Condores do General Taylor e as informações que recebeu do campo apontam mesmo para essas cifras? — indagou ele, os olhos correndo pelas colunas de números a sua frente.

     O relatório que seu chefe de informações lhe havia apresentado, por intermédio de Stanislaw Poklewski, cinco dias antes, baseava-se numa divisão de toda a União Soviética em 100 áreas produtoras de cereais. Em cada área, um quadrado de 15 x 15 quilômetros fora meticulosamente fotografado e seus problemas de produção de cereais analisados. Com base nessas 100 análises separadas, os especialistas haviam elaborado uma previsão da produção em escala nacional.

     — Se há algum erro, Sr. Presidente, é pelo lado da cautela, dando aos soviéticos uma produção de cereais superior ao que se poderia esperar — respondeu Benson.

     O Presidente olhou para o homem do Departamento de Agricultura.

     — Dr. Fletcher, poderia explicar as previsões em termos leigos?

     — Pois não, Sr. Presidente. Para começar, devemos deduzir um mínimo de dez por cento do total da colheita, para se chegar a uma cifra inicial dos cereais aproveitáveis. Há quem ache que a dedução deve ser de vinte por cento. Essa modesta cifra de dez por cento é para cobrir o conteúdo de umidade, matérias estranhas como pedras e saibro, terra e poeira, perdas no transporte e quebras em decorrências de instalações inadequadas de armazenagem, que é um dos grandes problemas deles, como todos sabemos.

     “A partir dessa cifra, temos de deduzir as tonelagens que os soviéticos terão de manter na própria terra, nos próprios campos, antes de haver quaisquer apropriações oficiais para alimentar as massas industriais. Vai encontrar a minha tabela para isso na segunda página do meu relatório em separado.

     O Presidente Matthews folheou as páginas a sua frente e examinou a tabela:

* Sementes. A tonelagem que os soviéticos devem deixar de reserva para o plantio no ano seguinte, tanto para o trigo de inverno como para o trigo semeado na primavera...................... 10 milhões de toneladas

* Alimentação Humana. A tonelagem que deve ser reservada para alimentar as massas que habitam as áreas rurais, as fazendas coletivas e do Estado e todas as comunidades suburbanas, de povoados a aldeias e cidades com população inferior a cinco mil habitantes ................... 28 milhões de toneladas

* Alimentação Animal. A tonelagem que deve ser reservada para a alimentação dos rebanhos através dos meses de inverno, até o degelo da primavera.................. 52 milhões de toneladas

* Total irredutível ................... 90 milhões de toneladas

* Representando uma colheita total, antes da dedução inevitável de 10% para as perdas de..................... 100 milhões de toneladas

    

     — Devo ressaltar, Sr. Presidente — continuou Fletcher — que esses dados não podem ser classificados de generosos. Representam o mínimo absoluto necessário antes de começarem a alimentar as cidades. Se reduzirem as rações humanas, os camponeses vão simplesmente começar a consumir o gado, com ou sem permissão. Se cortarem a alimentação animal, os rebanhos serão dizimados, eles teriam uma abundância de carne no inverno, depois uma escassez de carne por três ou quatro anos.

     — Está certo, Doutor, aceito suas previsões. E o que me diz das reservas deles?

     — Calculamos que os soviéticos dispõem de uma reserva nacional de trinta milhões de toneladas. É um fato sem precedentes utilizar toda a reserva. Mas se eles o fizerem, terão trinta milhões de toneladas extras. E devem ter vinte milhões de toneladas que sobraram da colheita deste ano, disponível para as cidades. Assim, o total para as cidades é de cinqüenta milhões de toneladas.

     O Presidente virou-se para Benson.

     — Bob, o que eles vão precisar obter, através de apropriações do Estado, para alimentar os milhões, urbanos?

     — Sr. Presidente, mil novecentos e setenta e sete foi o pior ano deles por um longo período, o ano em que cometeram o “Golpe de Mestre” em cima de nós. Tiveram uma colheita total de cento e noventa e quatro milhões de toneladas. Compraram sessenta e oito milhões de suas próprias fazendas. E ainda precisaram comprar vinte milhões de nós, através de subterfúgios. Mesmo em mil novecentos e setenta e cinco, pior ano em uma década e meia, precisaram de setenta milhões de toneladas para as cidades. E isso provocou violentos racionamentos. Atualmente, com uma população maior do que naquela ocasião, não podem ter menos de oitenta e cinco milhões de toneladas de aquisições do Estado.

     O Presidente tirou a conclusão:

     — Neste caso, mesmo que eles utilizem o total de sua reserva nacional, ainda vão precisar de trinta a trinta e cinco milhões de toneladas de cereais do exterior, não é mesmo?

     — Exatamente, Sr. Presidente — interveio Poklewski. — Talvez até mais. E nós e os canadenses somos os únicos que vamos dispor de tal tonelagem. Continue por favor, Dr. Fletcher.

     O homem do Departamento de Agricultura assentiu.

     — Ao que tudo indica, a América do Norte vai ter uma colheita excepcional este ano. Talvez cinqüenta milhões de toneladas acima das necessidades internas, somando-se a produção dos Estados Unidos e do Canadá.

     Minutos depois, o Dr. Fletcher retirou-se. Os debates recomeçaram, com Poklewski apresentando seu ponto de vista:

     — Sr. Presidente, desta vez temos de agir. Não podemos deixar de exigir uma compensação.

     — Uma vinculação? — disse o Presidente, desconfiado. — Sei o que pensa em relação a isso, Stan. Na última vez, não deu certo, só serviu para agravar a situação. Não vou querer repetir a Emenda Jackson.

     Todos os três homens recordaram sem muito prazer o destino dessa emenda legislativa. Ao final de 1974, os americanos haviam introduzido a Emenda Jackson, a qual determinava que não haveria créditos comerciais dos Estados Unidos para a aquisição de tecnologia e produtos industrializados, a menos que os soviéticos fizessem concessões na questão da emigração russo-judia para Israel. O Politburo, sob o comando de Brezhnev, rejeitara desdenhosamente a pressão, realizando uma série de julgamentos públicos espetaculares, predominantemente antijudeus, comprando o que precisavam, com créditos comerciais, na Inglaterra, Alemanha e Japão.

     Sir Nigel Irvine, que estivera em Washington em 1975, comentara com Bob Benson:

     — O principal numa pequena chantagem é se ter certeza de que a vítima está precisando desesperadamente de alguma coisa que você possui e não pode obtê-la em nenhum outro lugar.

    Poklewski tomara conhecimento do comentário por intermédio de Benson e o repetiu ao Presidente Matthews, evitando apenas usar a palavra chantagem.

     — Sr. Presidente, desta vez eles não podem obter o trigo em nenhum outro lugar. Nosso excedente de trigo não é mais apenas um fator comercial. Tornou-se uma arma estratégica. Vale dez esquadrilhas de bombardeiros nucleares. E jamais poderíamos vender tecnologia nuclear a Moscou por dinheiro. Recomendo a aplicação da Lei Shannon.

     Na esteira do “Golpe de Mestre” de 1977, a Administração dos Estados Unidos finalmente aprovara, um tanto tardiamente, em 1980, a Lei Shannon. Estipulava simplesmente que, em qualquer ano, o Governo Federal tinha o direito de comprar a opção para toda a produção excedente americana de cereais, aos preços por tonelada vigentes por ocasião do comunicado de Washington de que desejava exercer sua opção.

     Os especuladores dos cereais detestaram a medida, mas os fazendeiros a aprovaram. A lei reduzia consideravelmente as flutuações vertiginosas no mundo das cotações dos cereais. Nos anos de abundância, os fazendeiros tinham um preço baixo demais por seu cereal; nos anos de escassez, os preços eram excepcionalmente altos. A Lei Shannon determinava que, se posta em prática, os fazendeiros receberiam um preço justo, mas os especuladores ficariam fora da operação. A lei também proporcionava à Administração uma arma nova e eficaz para lidar com os países consumidores, tanto os agressivos como os humildes e pobres.

     — Está certo — disse o Presidente Matthews. — Vou aplicar a Lei Shannon. Autorizarei a utilização de recursos federais para comprar os excedentes das colheitas futuras, que estão sendo calculados em cinqüenta milhões de toneladas.

     Poklewski ficou exultante.

     — Não vai arrepender-se, Sr. Presidente. Desta vez, os soviéticos terão de tratar diretamente com a Presidência e não com intermediários. Eles estão de costas para a parede. Não podem fazer mais nada.

    

     Yefrem Vishnayev não pensava assim. Logo no início da reunião do Politburo, ele pediu a palavra e começou a apresentar sua argumentação:

     — Ninguém aqui, Camaradas, nega que a fome que temos pela frente não será aceitável. Ninguém nega que os excedentes de alimentos que precisamos estão no Ocidente capitalista e decadente. Já foi sugerido que a única coisa que podemos fazer é nos humilharmos, talvez aceitarmos possíveis concessões em nosso poderio militar e, por conseguinte, na marcha do marxismo-leninismo, a fim de comprarmos esses excedentes que nos ajudarão a superar o problema.

     “Camaradas, discordo inteiramente e peço que me apóiem na rejeição à aceitação da chantagem do Ocidente, com o que estaremos traindo nosso grande inspirador, Lenine. Há uma outra solução, com a qual poderemos garantir a aceitação por todo o povo soviético de um racionamento rigoroso em níveis mínimos, um fervor nacional de patriotismo e disposição ao sacrifício e a imposição da disciplina indispensável para que possamos atravessar o período de fome inevitável.

     “Há um meio pelo qual poderemos usar a pequena colheita de cereais que conseguirmos, neste outono, esticar as reservas nacionais até a primavera do próximo ano, usar a carne de nossos rebanhos em substituição aos cereais e depois, quando tudo estiver consumido, virarmo-nos para a Europa Ocidental, onde estão verdadeiros lagos de leite, montanhas de carne e manteiga, as reservas nacionais de dez nações ricas.

     — E iríamos comprar tudo? — indagou Rykov, o Ministro do Exterior, ironicamente.

     — Não, Camarada — respondeu Vishnayev, suavemente. — Nós nos iríamos apossar de tudo. Passo a palavra ao Camarada Marechal Kerensky. Ele trouxe um estudo que deseja submeter a nosso exame.

     Doze pastas grossas foram distribuídas em torno da mesa. Kerensky ficou com a sua e começou a ler. Rudin deixou a pasta que lhe fora entregue sobre a mesa a sua frente, sem abri-la, continuando a fumar sem parar. Ivanenko também deixou a sua na mesa, limitando-se a ficar olhando para Kerensky. Ele e Rudin já sabiam há quatro dias o que havia naquelas pastas. Em colaboração com Vishnayev, Kerensky tirara do cofre do Estado-Maior o Plano Boris, o nome escolhido em homenagem a Boris Goudonov, o grande conquistador russo. O plano fora devidamente atualizado para a ocasião.

     E era de fato impressivo, como ficou constatado nas duas horas seguintes, o tempo que Kerensky precisou para lê-lo. No mês de maio seguinte, as manobras de primavera habituais do Exército Vermelho na Alemanha Oriental seriam maiores do que nunca. E haveria uma diferença: desta vez não seriam simples manobras de exercício, mas uma ofensiva de verdade. A uma ordem, todos os 30.000 tanques e outros veículos blindados de transporte de tropas, os canhões móveis e embarcações anfíbias avançariam para o oeste, atravessando o Elba e penetrando pela Alemanha Ocidental, a caminho da França e dos portos do Canal da Mancha.

     À frente deles, 50.000 pára-quedistas seriam lançados em mais de 50 locais, a fim de capturar os principais aeroportos nucleares táticos dos franceses, na França, e dos americanos e britânicos, em território alemão. Outros 100.000 pára-quedistas seriam lançados nos quatro países da Escandinávia, com o objetivo de capturar as capitais e os principais meios de comunicação, com um apoio naval maciço.

     A ofensiva militar evitaria as penínsulas italiana e ibérica, cujos governos, influenciados por eurocomunistas no gabinete, receberiam ordens dos embaixadores soviéticos para permanecerem fora da guerra ou serem destruídos se resistissem. Meia década mais tarde, de qualquer maneira, esses países iriam cair, como ameixas maduras. O mesmo aconteceria com a Grécia, Turquia e Iugoslávia. A Suíça seria evitada e a Áustria usada apenas como uma rota de passagem. Os dois países seriam posteriormente ilhas num mar soviético e não resistiriam por muito tempo.

     A área básica de ataque e ocupação seriam os três países do Benelux, França e Alemanha Ocidental. A Inglaterra, como um prelúdio, seria abalada por greves e tumultuada pela extrema esquerda, que receberia ordens de Moscou para desfechar um clamor pela não-intervenção. Londres seria devidamente informada de que, se o Comando Nuclear fosse usado a leste do Elba, a Grã-Bretanha seria eliminada do mapa.

     Ao longo de toda a operação, a União Soviética estaria exigindo ruidosamente um cessar-fogo imediato, em todas as capitais do mundo e na ONU, afirmando que as hostilidades restritas à Alemanha Ocidental, eram temporárias e causadas exclusivamente por um ataque dos alemães ocidentais a Berlim, uma alegação que a maioria da esquerda européia não-alemã aceitaria.

     — E o que estariam fazendo os Estados Unidos durante todo esse tempo? — indagou Petrov, interrompendo o marechal.

     Kerensky ficou irritado por ser interrompido quando ainda estava em pleno relato do plano, depois de quase duas horas.

     — Não se pode excluir o uso de armas nucleares táticas na Alemanha — disse ele. — Mas a maior parte irá destruir a Alemanha Ocidental, Alemanha Oriental e Polônia, não havendo evidentemente qualquer perda para a União Soviética. Graças à fraqueza de Washington, não há ameaças dos mísseis Cruise e bombas de nêutron. As baixas militares soviéticas são calculadas entre cem e duzentos mil, no máximo. Mas como estarão envolvidos em combate dois milhões de homens, nas três armas, essas porcentagens serão aceitáveis.

     — Duração? — indagou Ivanenko.

     — As unidades de vanguarda dos exércitos mecanizados chegarão aos portos franceses do Canal cem horas depois de atravessar o Elba. A essa altura, devemos deixar que o cessar-fogo passe a vigorar. A operação de limpeza pode ser efetuada sob o cessar-fogo.

     — E o prazo previsto é exeqüível? — perguntou Petryanov. Rudin interveio, dizendo suavemente:

     — É, sim... é perfeitamente exeqüível.

     Vishnayev lançou-lhe um olhar desconfiado.

     — Ainda não tenho uma resposta para a minha pergunta — insistiu Petrov. — E os Estados Unidos? E as forças nucleares deles? E não me refiro às armas nucleares táticas, mas sim às estratégicas, às ogivas de bombas de hidrogênio nos mísseis balísticos intercontinentais, os bombardeiros e os submarinos.

     Todos os olhos se fixaram em Vishnayev, que tornou a se levantar.

     — Logo no início da ofensiva, deve-se oferecer ao Presidente americano três garantias solenes, de forma absolutamente crível. Primeira: a União Soviética jamais será a primeira a usar armas termonucleares. Segunda: se os trezentos mil soldados americanos na Europa Ocidental forem empenhados nos combates, devem assumir os riscos em guerra convencional ou nuclear tática com os nossos soldados. Terceira: no caso de os Estados Unidos recorrerem a mísseis balísticos dirigidos para a União Soviética, as cem maiores cidades americanas deixarão de existir. Podem estar certos, Camaradas, que o Presidente Matthews não vai trocar Nova York pela decadente Paris nem Los Angeles por Frankfurt. Não haverá nenhuma reação termonuclear americana.

     O silêncio foi opressivo, à medida que as perspectivas eram digeridas. As vastas reservas de alimentos, inclusive de cereais, de bens de consumo e tecnologia da Europa Ocidental. A queda como ameixas maduras da Itália, Espanha, Portugal, Áustria, Grécia e Iugoslávia dentro de poucos anos. O fabuloso tesouro em ouro sob as ruas da Suíça. O total isolamento da Inglaterra e Irlanda, ao largo da nova costa soviética. O domínio, sem que se disparasse um único tiro, do mundo árabe e do Terceiro Mundo. Era realmente uma mistura inebriante.

     — É de fato uma perspectiva sensacional — disse Rudin, finalmente. — Mas tudo parece estar baseado numa única suposição: a de que os Estados Unidos não irão despejar suas ogivas nucleares sobre a União Soviética, se prometermos não lançar as nossas sobre eles. Eu ficaria grato se o Camarada Vishnayev apresentasse os fatos que corroboram essa declaração tão confiante. Em suma, é um fato comprovado ou apenas uma esperança otimista?

     — É mais do que uma esperança — retrucou Vishnayev. — É uma previsão realista. Como capitalistas e nacionalistas burgueses, os americanos sempre pensarão primeiro neles. São tigres de papel, fracos e indecisos. Acima de tudo, quando têm de enfrentar a perspectiva de perder suas próprias vidas, não passam de covardes.

     — Serão mesmo? — murmurou Rudin, pensativo. — Permitam-me fazer um resumo da situação, Camaradas. As perspectivas que o Camarada Vishnayev apresentou são realistas em todos os seus aspectos. Mas tudo está baseado em sua esperança... peço desculpas... em sua previsão realista de que os americanos não irão revidar com suas armas termonucleares estratégicas. Se acreditássemos nisso antes, certamente já teríamos concluído o processo de libertação das massas cativas da Europa Ocidental, levando-as do fascismo-capitalismo para o marxismo-leninismo. Pessoalmente, não vejo qualquer elemento novo para justificar a previsão do Camarada Vishnayev. Além do mais, nem ele nem o Camarada Marechal jamais trataram com os americanos e nunca estiveram no Ocidente. O que não é o meu caso e por isso mesmo discordo de sua previsão. Mas vamos ouvir a opinião do Camarada Rykov.

     O veterano e idoso Ministro do Exterior estava extremamente pálido.

     — Tudo isso cheira muito ao krushchevismo, como no caso de Cuba. Tenho trinta anos de experiência nas relações internacionais. Os embaixadores soviéticos no mundo inteiro enviam seus relatórios a mim e não ao Camarada Vishnayev. E nenhum deles, absolutamente nenhum, assim como todos os analistas do Ministério e eu próprio temos a menor dúvida de que o Presidente dos Estados Unidos iria inevitavelmente desfechar um revide termonuclear contra a União Soviética, em tais circunstâncias. Não é uma simples questão de troca de cidades. Ele também é capaz de perceber que o resultado de tal guerra seria o domínio da União Soviética sobre quase todo o mundo. Seria o fim da América como uma superpotência, até mesmo como uma mera potência. Os Estados Unidos passariam a ser mera ficção. Iriam devastar a União Soviética antes de ceder a Europa Ocidental e o mundo em seguida.

     Rudin voltou a falar:

     — Eu gostaria de ressaltar que, se houver uma retaliação dos americanos, ainda não estaremos em condições de impedi-la. Nossos raios laser de partículas de alta energia, disparados dos satélites espaciais, ainda não são plenamente funcionais. Um dia, sem a menor dúvida, poderemos destruir os foguetes atacantes no espaço interior, antes de nos alcançarem. Mas, por enquanto, isso não é possível. As últimas avaliações dos nossos peritos... e são peritos, Camarada Vishnayev, não otimistas como os seus analistas... indicam que uma retaliação anglo-americana ampla exterminaria cem milhões de nossos cidadãos, principalmente grandes-russos, devastando sessenta por cento da União Soviética, da Polônia aos Urais. Mas vamos continuar. Camarada Ivanenko, com a sua experiência do Ocidente, qual a sua opinião?

     — Ao contrário dos Camaradas Vishnayev e Kerensky, controlo centenas de agentes espalhados por todo o Ocidente capitalista. Os relatórios deles são constantes. Também não tenho a menor dúvida de que os americanos iriam reagir.

     — Deixem-me fazer um breve resumo da situação — disse Rudin, bruscamente. Já passara o momento de discutir. — Se negociarmos com os americanos para conseguir trigo, talvez tenhamos que ceder a exigências que nos atrasarão em cinco anos. Se permitirmos que haja a fome, o atraso seria provavelmente de dez anos. Se desfecharmos uma guerra européia, poderemos ser exterminados, no mínimo sofreremos um atraso de vinte a quarenta anos.

     “Não sou o teórico que o Camarada Vishnayev indubitavelmente é. Mas pelo que me recordo, os ensinamentos de Marx e Lenine são muito claros e definidos num ponto: embora a busca do predomínio mundial do marxismo deva ser um objetivo constante, em todos os estágios, por todos os meios, o progresso não deve ser arriscado em decorrência de riscos insensatos. Considero que esse plano está baseado num risco insensato. Portanto, proponho que...

     — Proponho uma votação — interveio Vishnayev, suavemente. Chegara o momento, pensou Rudin. A manobra não era um voto de confiança nele; isso viria depois, se perdesse aquela batalha. A luta de facções era agora declarada. Há muitos anos que não tinha a sensação tão nítida de que estava lutando por sua vida. Se perdesse, não haveria uma aposentadoria tranqüila, não manteria as villas e os privilégios, como acontecera com Mikoyan. Seria a ruína, o exílio, talvez a bala na nuca. Mas ele manteve a compostura. Pôs sua moção em votação primeiro. Uma a uma, as mãos foram-se levantando.

     Rykov. Ivanenko, Petrov, todos votaram a seu favor e da política de negociação. Houve alguma hesitação em torno da mesa. Quem Vishnayev teria persuadido? O que teria prometido?

     Stepanov e Shushkin levantaram a mão. E, por fim, lentamente, foi a vez de Chavadze, o georgiano. Rudin pôs em votação a contramoção, pela guerra na primavera. Vishnayev e Kerensky, obviamente, votaram a favor. Komarov, da Agricultura, juntou-se a eles. Desgraçado, pensou Rudin, foi o seu Ministério que nos meteu nessa confusão. Vishnayev deve tê-lo persuadido de que seria, de qualquer forma, arruinado e por isso nada tinha a perder. Está enganado, meu amigo, pensou Rudin, com uma expressão impassível; vou arrancar-lhe as entranhas por isso. Petryanov levantou a mão. Certamente lhe prometeram o cargo de Primeiro-Ministro, pensou Rudin. Vitautas, o báltico, e Mukhamed, o tadjik, também se colocaram ao lado de Vishnayev, a favor da guerra. O tadjik sabia que, se houvesse uma guerra nuclear, os orientais dominariam sobre as ruínas. O lituano indubitavelmente fora comprado.

     — Seis para cada proposta — disse Rudin, calmamente. — E o meu voto pessoal pela negociação.

     “Mas foi por pouco”, pensou ele, “por muito pouco”.

     O Sol já se havia posto quando a reunião terminou. Todos sabiam que a luta de facções iria agora continuar, até o seu desfecho; ninguém poderia mais recuar, ninguém poderia mais permanecer neutro.

    

     Foi só no quinto dia da excursão que o grupo chegou a Lvov, indo hospedar-se no Hotel Intourist. Até esse momento, Drake participara de todos os passeios guiados previstos no itinerário. Desta vez, porém, alegou que estava com dor de cabeça e preferia ficar no quarto. Assim que o grupo partiu de ônibus para a Igreja de São Nicolau, ele mudou de roupa e saiu discretamente do hotel.

     Kaminsky informara-o da espécie de roupa que não chamaria atenção: meias e sandálias, calça leve não muito elegante, uma camisa aberta no pescoço, do tipo mais ordinário. Orientando-se por um mapa das ruas, Drake partiu a pé para o subúrbio operário pobre e miserável de Levandivka. Não tinha a menor dúvida de que os dois homens que procurava iriam tratá-lo com profunda desconfiança, no instante em que os encontrasse. O que não era de surpreender, levando-se em conta os antecedentes familiares e as circunstâncias que os forjara. Drake recordou o que Miroslav Kaminsky lhe contara em seu leito num hospital turco.

     A 29 de setembro de 1966, perto de Kiev, no Desfiladeiro de Babi Yar, onde mais de 50.000 judeus haviam sido chacinados pela SS na Ucrânia ocupada pelos nazistas, em 1941/42, o maior poeta contemporâneo ucraniano, Ivan Dzyuba, fez um discurso admirável, por ser um católico ucraniano manifestando-se veementemente contra o anti-semitismo.

     O anti-semitismo sempre floresceu na Ucrânia, sendo vigorosamente estimulado pelos sucessivos dominadores do país, czares, stalinistas, nazistas, novamente os stalinistas e seus sucessores.

     O longo discurso de Dzyuba começou como uma súplica aparente para que não se esquecesse jamais dos judeus chacinados em Babi Yar, uma condenação direta ao nazismo e fascismo. Mas, à medida que foi prosseguindo, o tema foi ampliado e passou a abranger todos os despotismos que, apesar de seus triunfos tecnológicos, embrutece e degrada o espírito humano, procurando persuadir as vítimas de que isso é normal.

     — Assim, devemos julgar cada sociedade não por suas conquistas técnicas exteriores, mas pela posição e importância que dá ao homem, pelo valor que atribui à dignidade humana e à consciência humana — declarou Dzyuba.

     A esta altura, o chekisti que estava infiltrado na multidão em silêncio compreendeu que o poeta não estava absolutamente se referindo à Alemanha de Hitler, mas sim falando da União Soviética do Politburo. Dzyuba foi preso pouco depois do discurso.

     Nos porões do quartel local do KGB, o chefe dos interrogadores, o homem que tinha a sua disposição os dois verdugos parados nos cantos da sala, empunhando cassetetes de borracha com um metro de comprimento, era um jovem coronel em rápida ascensão na organização, enviado especialmente de Moscou. Seu nome era Yuri Ivanenko.

     Na reunião em Babi Yar, na primeira fila, de pé ao lado de seus respectivos pais, estavam dois garotos de 10 anos. Não se conheciam na ocasião e só se iriam encontrar e ficar amigos seis anos depois, numa obra. Um deles se chamava Lev Mishkin e o outro era David Lazareff.

     A presença dos pais fora devidamente registrada. Anos depois, quando solicitaram permissão para emigrar para Israel, ambos foram acusados de atividades anti-soviéticas e receberam longas sentenças em campos de trabalhos forçados.

     As famílias perderam os apartamentos; os filhos, qualquer esperança de ingressar na universidade. Embora extraordinariamente inteligentes, estavam ambos condenados a trabalhos subalternos e manuais. Agora, ambos com 26 anos, eram os homens que Drake estava procurando entre as vielas quentes e poeirentas de Levandivka.

     Foi no segundo endereço que ele encontrou David Lazareff, o qual, depois das apresentações, tratou-o com extrema desconfiança. Mas concordou em chamar seu amigo Mishkin para um encontro a três, já que Drake de qualquer maneira conhecia os nomes de ambos.

     Naquela noite ele conheceu Lev Moshkin. Os dois o encararam com algo próximo da hostilidade. Drake contou toda a história da fuga e salvação de Miroslav Kaminsky, falou de seus próprios antecedentes. A única prova que podia apresentar era uma fotografia sua junto com Kaminsky, no quarto de hospital em Trabzon, tirada com uma câmara Polaroid por um enfermeiro. Diante deles, estava a edição do dia do jornal turco local. Drake trouxera o mesmo jornal como forro de sua valise e mostrou aos dois homens como confirmação de sua história.

     — Não se esqueçam de uma coisa — disse ele, finalmente. — Se Miroslav tivesse ido parar em território soviético, se tivesse sido capturado pelo KGB e revelado seus nomes e se eu próprio fosse do KGB, não estaria aqui pedindo a ajuda de vocês.

     Os dois operários judeus concordaram em considerar durante a noite o pedido dele. O que Drake não sabia é que Mishkin e Lazareff há muito partilhavam um ideal parecido com o dele: o de desfechar um único e violento golpe de vingança contra a hierarquia do Kremlin. Mas estavam perto de desistir, desesperados com a inutilidade de tentar alguma coisa sem ajuda externa.

     Impelidos pelo desejo de contar com um aliado além das fronteiras da União Soviética, os dois se apertaram as mãos de madrugada e concordaram em se unir ao anglo-ucraniano. O segundo encontro foi realizado naquela tarde, com Drake se abstendo de participar de outra visita do grupo de turistas. Como medida de segurança, saíram andando por caminhos largos e não pavimentados nos arredores da cidade, falando baixinho em ucraniano. Disseram a Drake que também desejavam desferir um único e poderoso golpe contra Moscou.

     — O problema é só determinar uma coisa: vamos fazer o quê? — disse Drake.

     Lazareff, que era o mais silencioso e mais dominante da dupla, falou nesse momento:

     — Ivanenko. O homem mais odiado na Ucrânia.

     — O que há com ele? — indagou Drake.

     — Poderemos matá-lo.

     Drake estacou abruptamente, olhando para o homem de aspecto veemente. E levou algum tempo para comentar:

     — Seria impossível chegar perto dele.

     — No ano passado fui designado para um trabalho especial aqui em Lvov — disse Lazareff. — Sou um pintor de paredes, entende? Estávamos reformando o apartamento de um figurão do partido. Havia uma velhinha hospedada lá. De Kiev. Depois que ela foi embora, a mulher do homem do Partido mencionou quem ela era. Mais tarde, vi na caixa de correspondência uma carta com o carimbo postal de Kiev. Dei uma olhada. Era da tal velha. E tinha o endereço dela.

     — E quem era ela? — indagou Drake.

     — A mãe de Ivanenko.

     Drake pensou por um momento na informação.

     — Ninguém consegue imaginar que alguém como ele possa ter uma mãe. Mas seria necessário ficar vigiando o apartamento dela por muito tempo, até que Ivanenko decidisse visitá-la.

     Lazareff meneou a cabeça.

     — Ela é a isca. — E expôs seu plano. Drake ficou impressionado com a enormidade da idéia.

     Antes de chegar à Ucrânia, imaginara sob muitas formas o golpe violento que sonhava desfechar contra o poderio do Kremlin. Mas jamais lhe passara algo assim pela cabeça. Assassinar o chefe do KGB seria golpear o próprio núcleo do Politburo, abalar todos os cantos da estrutura do poder.

     — Pode dar resultado — admitiu ele, finalmente.

     Se desse certo, pensou, o caso seria prontamente abafado. Mas se a notícia transpirasse, o efeito sobre a opinião pública, especialmente na Ucrânia, seria traumático.

     — Poderia desencadear o maior levante que já houve por aqui — comentou Drake.

     Lazareff assentiu. A sós com seu amigo Mishkin, sem possibilidade de obter qualquer ajuda externa, era evidente que pensara muito no projeto.

     — Tem razão.

     — E o que seria necessário para a execução do plano?

     Lazareff informou-o. Drake assentiu.

     — Pode ser tudo adquirido no Ocidente — disse ele. — Mas como mandar para cá?

     Mishkin interveio na conversa nesse momento:

     — Através de Odessa. Trabalhei no cais de lá por algum tempo A corrupção é total. O mercado negro está vicejando. Cada navio ocidental traz marinheiros que negociam intensamente com os traficantes locais, vendendo blusões de couro turcos, casacos de camurça e calças de brim. A cidade fica na Ucrânia e não precisaríamos dos passaportes interestaduais.

     Ficou tudo acertado antes de se separarem. Drake iria adquirir o equipamento necessário e o levaria a Odessa pelo mar. Avisaria Mishkin e Lazareff por carta, despachada da União Soviética, bem antes de sua chegada. As palavras na carta seriam inocentes, incapazes de levantar qualquer suspeita. O ponto de encontro em Odessa seria um café que Mishkin conhecera na época em que lá trabalhara, ainda adolescente.

     — Só mais duas coisas — acrescentou Drake. — Depois que estiver feito, é vital a publicidade a respeito, o comunicado ao mundo inteiro do que aconteceu. O que significa que vocês pessoalmente é que devem contar ao mundo. Somente vocês saberão dos detalhes para convencer o mundo da verdade. Portanto terão de fugir para o Ocidente.

     — Nem precisava falar isso — murmurou Lazareff. — Somos ambos refuseniks. Tentamos emigrar para Israel, como nossos pais, mas nos recusaram permissão. Depois que tudo terminar, temos de ir para Israel. É o único lugar em que estaremos seguros, pelo resto da vida. Assim que chegarmos lá revelaremos ao mundo o que fizemos, desacreditando os desgraçados do Kremlin e do KGB aos olhos de sua própria gente.

     — Outro ponto importante — disse Drake. — Quando alcançarem o objetivo devem comunicar-me por carta ou por um cartão-postal, também em código. Para o caso de alguma coisa sair errada com a fuga. Assim poderei tentar obter auxílio, espalhando a notícia.

     Combinaram que um cartão-postal de aparência inocente seria enviado de Lvov para uma caixa postal em Londres. Memorizados os últimos detalhes, eles se separaram, Drake voltando a se integrar ao grupo de turistas.

     Dois dias depois, Drake estava de volta a Londres. Sua primeira providência foi comprar o livro mais amplo do mundo sobre armas pequenas. A segunda foi enviar um telegrama para um amigo no Canadá, um dos nomes da lista particular de elite que elaborara ao longo dos anos, relacionando os emigrados que pensavam como ele e sonhavam em descarregar seu ódio contra o inimigo. A terceira foi iniciar os preparativos para um plano antigo, de levantar os fundos necessários com um assalto a um banco.

    

    

   Ao final da Kutuzovsky Prospekt, nos subúrbios a sudeste de Moscou, o motorista que virar à direita, saindo da via principal e entrando na Estrada Rublevo, vai chegar 20 quilômetros depois à pequena aldeia de Uspenskoye, no coração da região em que estão situadas as villas de fins-de-semana. Entre os grandes bosques de pinheiros e faias ao redor de Uspenskoye, há pequenos povoados como Usovo e Zhukovka, onde se erguem as mansões de campo da elite soviética. Pouco depois da ponte de Uspenskoye sobre o Rio Roscou existe uma praia na qual, durante o verão, os menos privilegiados mas mesmo assim ainda bem situados (pois dispõem de carros próprios) vão banhar-se, vindos de Moscou.

     Os diplomatas ocidentais também freqüentam a praia, que é um dos raros lugares em que um ocidental pode encontrar-se lado a lado com famílias soviéticas comuns. Até mesmo a vigilância de rotina do KGB aos diplomatas ocidentais parece afrouxar-se nas tardes de domingo, durante o verão.

     Adam Munro foi até lá com um grupo de funcionários da Embaixada britânica, numa tarde de domingo, 11 de julho de 1982. Havia casais no grupo, assim como diversos solteiros, mais jovens do que ele. Pouco antes das três horas da tarde, todo o grupo deixou as toalhas e as cestas de piquenique entre as árvores e desceu pela encosta até a faixa de areia, para darem um mergulho. Ao voltar, Munro pegou sua toalha enrolada e começou a se enxugar. Algo caiu da toalha.

     Ele se abaixou para pegar. Era um pequeno cartão, da metade de um cartão-postal, branco nos dois lados. E com as seguintes palavras datilografadas, em russo: “Três quilômetros ao norte daqui no meio do bosque, há uma capela abandonada. Encontre-me ali dentro de 30 minutos. Por favor. É urgente.”

     Ele manteve o sorriso quando uma das secretárias da embaixada se aproximou, rindo, para pedir um cigarro. Enquanto acendia o cigarro para a jovem, Munro estava analisando rapidamente todos os ângulos do inesperado chamado. Seria um dissidente querendo entregar-lhe literatura clandestina? O que seria um tremendo problema. Ou algum grupo religioso querendo asilo na embaixada? Os americanos haviam tido isso em 1978, o que lhes causara inúmeros problemas. Ou seria uma armadilha, preparada pelo KGB, para identificar o homem do SIS na embaixada? Era sempre possível. Nenhum secretário comercial comum aceitaria um convite daqueles, escondido numa toalha enrolada por alguém que evidentemente o seguira e observara dos bosques próximos. Contudo, era uma armadilha tosca demais para o KGB. Eles teriam apresentado um desertor simulado no centro de Moscou com informações a transmitir, tirando fotografias secretamente no ponto de encontro. Quem seria então a pessoa que escrevera aquele bilhete?

     Vestiu-se rapidamente, ainda indeciso.

     Finalmente calçou os sapatos e tomou uma decisão. Se fosse uma armadilha, então ele não recebera qualquer mensagem e estava simplesmente passeando pelos bosques. Para desapontamento de sua esperançosa secretária, Munro partiu sozinho. Parou 100 metros depois, pegou o isqueiro e queimou o cartão, espalhando as cinzas no chão coberto de folhas.

     O Sol e seu relógio indicaram-lhe o norte, para longe da margem do rio, que dava para o sul. Depois de 10 minutos, chegou a uma encosta e avistou o domo em forma de cebola de uma capela, dois quilômetros adiante, no outro lado do pequeno vale. Segundos depois, estava novamente caminhando entre as árvores.

     Os bosques em torno de Moscou tinham dezenas de pequenas capelas como aquela, outrora os locais de culto dos aldeões, agora principalmente ruínas fechadas e abandonadas. A capela para a qual se dirigia ficava numa pequena clareira, cercada por árvores. À beira da clareira, Munro parou e examinou a capela. Não avistou ninguém. Avançou cuidadosamente, saindo em campo aberto. Estava a poucos metros da porta da frente fechada quando avistou o vulto parado nas sombras de uma arcada. Parou no mesmo instante e por minutos a fio os dois ficaram simplesmente se olhando.

     Não havia realmente nada a dizer, por isso Munro limitou-se a murmurar o nome dela:

     — Valentina...

     Ela emergiu das sombras e respondeu:

     — Adam...

     “Vinte e um anos”, pensou Munro, aturdido. “Ela já deve ter passado dos quarenta.” Mas parecia ter no máximo 30 anos, os cabelos continuavam muito pretos, a beleza não desaparecera... nem a aparência inefavelmente triste.

     Sentaram-se num dos túmulos e ficaram conversando sobre os velhos tempos, Valentina contou que deixara Berlim, voltando para Moscou, poucos meses depois da separação deles, continuando a ser estenografa para a máquina do Partido. Aos 23 anos, casara-se com um jovem oficial do Exército com excelentes perspectivas. Depois de sete anos, tiveram um filho. Os três eram muito felizes. A carreira do marido progredira consideravelmente, porque ele tinha um tio nos altos escalões do Exército Vermelho e o pistolão funciona na União Soviética, assim como em qualquer outro lugar do mundo. O menino estava agora com 10 anos.

     Cinco anos antes, o marido, então no posto de coronel, ainda muito jovem, morrera num acidente de helicóptero, quando estava observando os movimentos de tropas chineses ao longo do Rio Usuri, no Extremo Oriente. Para esquecer a dor, ela voltara a trabalhar. O tio do marido usara sua influência para conseguir-lhe um bom lugar, o que lhe proporcionava privilégios, sob a forma de alimentos especiais, restaurantes exclusivos, um apartamento melhor e um carro particular, todas as coisas, em suma, que são concedidas às pessoas altamente situadas na máquina do Partido.

     Finalmente, há dois anos, depois que toda a sua vida fora meticulosamente levantada, ofereceram-lhe uma vaga no grupo pequeno fechado de estenógrafos e datilógrafos da Secretaria-Geral do Comitê Central, mais conhecida como a Secretaria do Politburo.

     Munro respirou fundo. Era um cargo alto, muito alto mesmo, de confiança absoluta.

     — Quem é o tio do seu falecido marido?

     — Kerensky.

     — O Marechal Kerensky?

     Valentina assentiu. Munro deixou o ar escapar dos pulmões lentamente. Kerensky, o ultra-falcão. Quando tornou a fitá-la, descobriu que os olhos dela estavam úmidos. Valentina piscou rapidamente, à beira das lágrimas. Num súbito impulso, Munro passou o braço pelos ombros dela. Valentina aconchegou-se a ele. Munro pôde sentir o cheiro dos cabelos dela, que ainda desprendiam o mesmo odor suave que o fazia sentir-se ao mesmo tempo terno e excitado, duas décadas atrás, em sua juventude.

     — Qual é o problema? — perguntou ele, gentilmente.

     — Oh, Adam, sou tão infeliz...

     — Mas por quê? Afinal, tem tudo o que se poderia desejar em sua sociedade.

     Ela sacudiu a cabeça, lentamente, depois afastou-se dele. Evitou-lhe os olhos, virando a cabeça para contemplar as árvores.

     — Por toda a minha vida, Adam, desde que era muito pequena, sempre acreditei. E acreditei com toda sinceridade. Mesmo naquele tempo em que nos amávamos, eu acreditava na excelência e justiça do socialismo. Mesmo nos tempos difíceis, nos períodos de privações em meu país, quando o Ocidente possuía todas as riquezas de consumo e nós nada tínhamos, acreditava na justiça do ideal comunista que a Rússia um dia estenderia ao mundo inteiro. Era um ideal que proporcionaria a todos um mundo sem fascismo, sem ganância por dinheiro, sem explorações, sem guerras. Foi o que me ensinaram a acreditar com toda sinceridade. Era mais importante do que você, do que nosso amor, do que meu marido e meu filho. Tão importante pelo menos quanto meu país, a Rússia, que é parte da minha alma.

     Munro conhecia o patriotismo dos russos, uma chama tão ardente que os fazia suportar qualquer sofrimento, qualquer privação, qualquer sacrifício; quando manipulado, fazia também com que obedecessem aos senhores do Kremlin sem a menor hesitação.

     — O que aconteceu, Valentina?

     — Eles traíram tudo. E continuam a trair. Meu ideal, meu Povo e meu país.

     — Eles?

     Valentina estava torcendo os dedos, que davam a impressão de que a qualquer momento se poderiam desprender das mãos.

     — Os chefes do Partido — disse ela, amargamente, acrescentando a palavra russa de gíria para designar “os gatos gordos”. — Os Nachalstvo.

     Munro já testemunhara duas vezes um despertar súbito daquele tipo. Quando um verdadeiro crente perde a fé, o fanatismo inverso pode ir a estranhos extremos.

     — Eu os idolatrava, Adam. Respeitava-os. Reverenciava-os. Mas há anos que tenho vivido perto de todos eles. Tenho vivido à sombra deles, aceitado seus presentes, e cumulada com seus privilégios. Pude conhecê-los bem de perto, em particular, ouvindo-os falarem sobre o povo, ao qual desprezam. Eles são podres, Adam, corruptos e cruéis. Tudo em que tocam se transforma em cinzas.

     Munro passou uma perna por cima da sepultura, a fim de poder ficar de frente para ela. Tomou-a nos braços. Ela estava chorando baixinho e murmurou no ombro dele:

     — Não posso continuar, Adam, não posso continuar...

     — Está bem, minha querida. Quer que eu tente dar um jeito para que possa deixar a União Soviética?

     Ele sabia que isso lhe custaria a carreira, mas desta vez não iria deixá-la ir embora. Valeria a pena, nada era tão importante quanto tê-la. Valentina tornou a se afastar dele, as lágrimas escorrendo pelas faces.

     — Não posso, Adam. Não posso ir embora. Tenho de pensar em Sacha.

     Munro tornou a abraçá-la, em silêncio por mais algum tempo, e pensando rapidamente.

     — Como soube que estava em Moscou? — perguntou ele por fim, cuidadosamente.

     Ela não deu o menor sinal de surpresa diante da pergunta. De qualquer forma, era perfeitamente natural que ele perguntasse. Entre os soluços, Valentina respondeu:

     — Foi no último mês. Um colega do escritório levou-me ao bale. Estávamos num camarote. Quando as luzes se apagaram, pensei que me tivesse enganado. Mas quando tornaram a se acender, no intervalo, não tive mais qualquer dúvida de que era mesmo você. Depois disso, não podia mais ficar. Aleguei uma dor de cabeça súbita e fui embora. — Ela enxugou os olhos, já passada a crise de choro. — Você se casou, Adam?

     — Sim. Muito tempo depois de Berlim. Mas não deu certo. Estamos divorciados há anos.

     Ela conseguiu exibir um sorriso tímido.

     — Fico contente por isso... fico contente que não haja mais ninguém em sua vida... O que não é muito lógico, não é mesmo?

     Munro retribuiu o sorriso.

     — Não, não é mesmo. Mas não sabe como é bom ouvi-la dizer isso. Podemos voltar a nos ver? No futuro?

     O sorriso dela se desvaneceu, uma expressão de pessoa acuada surgiu-lhe nos olhos. Ela sacudiu a cabeça.

     — Não, Adam, não nos poderemos encontrar com freqüência. Sou uma alta funcionária no Partido, uma privilegiada. Mas se um estrangeiro aparecesse em meu apartamento, o fato seria notado e devidamente comunicado. O mesmo se aplica a seu apartamento. Os diplomatas são vigiados... e você sabe disso. Os hotéis também são vigiados. E não se consegue alugar um apartamento por aqui sem formalidades. Não é possível, Adam, simplesmente não é possível...

     — Foi você quem promoveu este encontro, Valentina. Tomou a iniciativa. Foi apenas para recordar os velhos tempos? Se não gosta da vida que leva aqui, se não gosta dos homens para os quais trabalha... Mas se não pode partir por causa de Sacha, o que então está querendo?

     Ela recuperou prontamente o controle e ficou pensando por um momento. Quando falou, a voz estava bastante calma:

     — Adam, quero tentar detê-los. Quero tentar impedir o que eles estão fazendo. Creio que há vários anos que sinto esse impulso, mas comecei a pensar mais e mais a respeito depois que o vi no Bolshoi e recordei todas as liberdades que tínhamos em Berlim. Agora, tenho certeza do que devo fazer. Diga-me uma coisa, se puder: existe alguma autoridade de informações em sua embaixada?

     Munro estava abalado. Já manipulara dois desertores-no-lugar, um da Embaixada soviética na Cidade do México, outro em Viena. O primeiro era motivado por uma conversão de respeito a ódio contra seu regime, como acontecia com Valentina; o outro por amargura de não ser promovido. O primeiro fora o mais difícil e complicado para manipular.

     — Acho que sim — respondeu ele, lentamente. — Deve haver...

     Valentina vasculhou na bolsa que estava no chão, junto a seus pés. Tendo tomado sua decisão, aparentemente não tinha mais qualquer hesitação em cometer sua traição. Tirou da bolsa um envelope estofado.

     — Quero que entregue isso a ele, Adam. Prometa que jamais contará como o conseguiu. Por favor, Adam! Estou apavorada pelo que estou fazendo. Não posso .confiar em ninguém, absolutamente ninguém... a não ser em você.

     — Prometo, Valentina. Mas tenho que vê-la novamente. Não posso ficar de braços cruzados observando-a passar pela abertura no muro, como fiz da última vez.

     — Também não posso fazer isso de novo. Mas não tente entrar em contato comigo em meu apartamento. Fica num conjunto murado para altos funcionários, com um único acesso, através de um portão no muro, onde há sempre um guarda de plantão. Também não tente telefonar-me. Todos os telefonemas são controlados. E jamais irei encontrar-me com outra pessoa da sua embaixada nem mesmo com o chefe do serviço de informações.

     — Está certo, Valentina. Mas quando nos poderemos encontrar outra vez?

     Ela pensou por um momento.

     — Nem sempre é fácil para mim escapar sem que ninguém dê qualquer atenção. E Sacha consome a maior parte de meu tempo vago. Mas tenho meu próprio carro e não sou seguida. Vou deixar Moscou amanhã, por duas semanas. Mas nos podemos encontrar de novo aqui, dentro de quatro domingos. — Ela olhou para o relógio. — Tenho de ir agora, Adam. Sóu uma das convidadas numa dacha a poucos quilômetros daqui.

     Ele beijou-a, nos lábios, da maneira como costumava fazer antigamente. E foi tão maravilhoso quanto antes. Valentina se levantou e afastou-se pela clareira. Quando ela já estava à beira das árvores, Munro indagou:

     — Valentina, o que é isso?

     Ele estava levantando o envelope. Ela parou e virou-se.

     — Meu trabalho é preparar as transcrições literais das reuniões do Politburo, uma para cada membro. Com base nas gravações. O que tem aí é uma cópia da gravação da reunião de dez de junho.

     E no instante seguinte ela desapareceu entre as árvores. Munro continuou sentado na sepultura, olhando para o envelope. E murmurou :

     — Essa não!

    

     Adam Munro estava sentado numa sala trancada no prédio principal da Embaixada britânica, no Dique Maurice Thorez, escutando as últimas palavras da fita rodando no gravador a sua frente. A sala estava a salvo de qualquer possibilidade de vigilância eletrônica pelos russos e fora justamente por isso que a pedira emprestada ao Chefe da Chancelaria, por algumas horas.

     “... e não é preciso dizer que essas notícias não devem chegar ao conhecimento de ninguém mais fora desta sala. Nossa próxima reunião será dentro de uma semana.”

     A voz de Maxim Rudin silenciou e a fita ficou zunindo no gravador, até parar. Munro desligou o aparelho. Recostou-se na cadeira e deixou escapar um assovio longo e baixo.

     Se era verdade, então era muito maior do que tudo o que Oleg Penkovsky entregara, 20 anos antes. A história de Penkovsky já virará folclore no SIS, na CIA, e acima de tudo, nas mais amargas recordações do KGB. Ele era um general do GRU, com acesso às informações mais secretas. Desencantado com a hierarquia do Kremlin, procurara primeiro os americanos e depois os ingleses, oferecendo-se para fornecer informações.

     Os americanos haviam-no repelido, desconfiando de uma armadilha. Os ingleses aceitaram a oferta e por dois anos e meio “dirigiram” Penkovsky, até que ele fora descoberto pelo KGB, denunciado, julgado e fuzilado. Durante aqueles dois anos e meio, proporcionara uma verdadeira colheita de ouro em informações secretas, sendo especialmente útil por ocasião da crise dos mísseis cubanos, em outubro de 1962. Naquele mês, o mundo aplaudira a habilidade excepcional demonstrada pelo Presidente Kennedy na confrontação com Nikita Kruschev, sobre a questão da instalação de mísseis soviéticos em Cuba. O que o mundo não soubera era que os americanos já tinham pleno conhecimento de todas as forças e fraquezas do líder russo, graças a Penkovsky.

     Ao final, os misses soviéticos foram retirados de Cuba, Krusrchev humilhado e Kennedy transformado em herói, enquanto Penkovsky se tornava suspeito. Ele fora preso em novembro. Dentro de um ano, depois de um julgamento espetacular, estava morto. Também dentro de um ano, Kruschev caíra, derrubado por seus próprios pares, ostensivamente por causa do fracasso de sua política de cereais, mas na verdade porque seu aventureirismo deixara apavorados os outros membros do Politburo. E naquele inverno de 1963 Kennedy também morrera, apenas 13 meses depois do seu triunfo. O democrata, o déspota e o espião haviam deixado os palcos. Mas nem mesmo Penkovsky jamais conseguira penetrar no Politburo.

     Munro tirou o carretel da máquina e guardou-o cuidadosamente. A voz do Professor Yakovlev, evidentemente, era-lhe desconhecida; e a maior parte do gravador era constituída pela voz dele, lendo seu relatório. Mas na discussão que se seguira à leitura do relatório pelo professor, havia 10 vozes e pelo menos três podiam ser facilmente identificadas. O resmungo baixo de Rudin era bastante conhecido. Munro já ouvira antes a voz meio estridente de Vishnayev, assistindo a discursos dele em congressos do Partido transmitidos pela televisão. E o rosnado do Marechal Kerensky ele já ouvira em comemorações do 1.° de Maio, tanto em filmes como em gravações.

     O problema que tinha, ao levar a gravação para Londres para uma análise de impressões das vozes, como sabia que não poderia deixar de fazer, era como ocultar sua fonte. Não tinha a menor dúvida de que, se contasse o encontro secreto no bosque, depois de achar o bilhete datilografado na toalha, inevitavelmente lhe iriam perguntar:

     — Por que você, Munro? Como ela o conhecia?

     Seria impossível evitar a pergunta e igualmente impossível responder. A única solução era inventar uma fonte alternativa, que tivesse credibilidade e fosse impossível verificar.

     Estava em Moscou há apenas seis semanas, mas seu domínio do russo, até mesmo de gíria, de que ninguém suspeitava, já dera dividendos. Numa recepção diplomática na Embaixada tcheca, duas semanas antes, ele estava conversando com um adido indiano quando ouvira dois russos falando baixo às suas costas. Um deles murmurara:

     — Ele é um filho da mãe amargurado. Acha que deveria ter ficado com o bolo maior.

     Munro examinara discretamente os dois russos e constatara que ambos estavam observando e presumivelmente falando de um russo no outro lado da sala. A lista de convidados informara-o posteriormente que o homem era Anatoly Krivoi, assessor pessoal e braço direito do teórico do Partido, Vishnayev. Mas por que ele seria amargurado? Munro dera uma olhada em seus arquivos e descobrira a história de Krivoi. Ele trabalhara na Seção de Organizações do Partido, do Comitê. Pouco depois da indicação de Petrov para a chefia da seção, Krivoi ingressara no staff de Vishnayev. Teria mudado por desgosto? Um conflito de personalidade com Petrov?

     Teria ficado amargurado por ser preterido? Tudo era possível e tudo era muito interessante para um chefe de informações numa capital estrangeira.

     Krivoi... Era possível, pensou Munro. Talvez fosse a solução. Ele também teria acesso, pelo menos à cópia da transcrição de Vishnayev, talvez mesmo à gravação. E provavelmente estava em Moscou; seu chefe certamente estava. Vishnayev estava presente quando o premier da Alemanha Oriental chegara à capital soviética, uma semana antes.

     — Desculpe, Anatoly, mas você acaba de mudar de lado — disse Munro consigo mesmo, metendo o envelope no bolso interno do paletó e subindo a escada para falar com o Chefe da Chancelaria.

     — Terei de voltar para Londres com o malote de quarta-feira — disse ele ao diplomata. — É inevitável e não pode esperar.

     O Chefe da Chancelaria não fez perguntas. Sabia qual era o verdadeiro trabalho de Munro e prometeu que tomaria todas as providências necessárias. O malote diplomático, que é realmente um malote ou pelo menos diversos sacos de lona, segue de Moscou para Londres toda quarta-feira e sempre num vôo da British Airways, nunca na Aeroflot. Um Mensageiro da Rainha, um dos homens que voam ao redor do mundo, partindo de Londres, para buscar malotes diplomáticos, protegidos pela insígnia da coroa e do galgo, chegava a Moscou especialmente para recolher todas as mensagens a serem despachadas pela embaixada. Os despachos mais secretos são levados numa pequena caixa, presa por uma corrente ao pulso esquerdo do homem; as mensagens mais rotineiras seguem nos malotes de lona, que são colocados no compartimento de carga do avião sob a inspeção pessoal do Mensageiro. A partir do momento em que entram no avião, os malotes estão em território britânico. No caso específico de Moscou, o Mensageiro é sempre acompanhado por um funcionário da embaixada.

     A missão de escolta é bastante procurada, já que permite uma rápida viagem a Londres, a perspectiva de fazer compras e a oportunidade de uma boa noite de folga. O segundo-secretário que perdeu seu lugar naquela semana ficou aborrecido, mas não fez perguntas.

     Na quarta-feira seguinte, o avião da British Airways decolou do novo Aeroporto de Sheremeyevo, construído para as Olimpíadas de 1980, e logo seguiu na direção de Londres. Sentado ao lado de Munro, o Mensageiro, um ex-major do Exército, baixo e vigoroso, mergulhou prontamente em seu hobby, preparando um problema de palavras cruzadas para um grande jornal.

     — É preciso encontrar alguma coisa para distrair-se durante essas intermináveis viagens de avião — disse ele a Munro. — Todos nós temos os nossos hobbies de vôo.

     Munro limitou-se a grunhir e olhou para trás, por cima da ponta da asa do avião, para a cidade de Moscou, que ia rapidamente ficando para trás. Em algum lugar lá embaixo, nas ruas banhadas pelo Sol, a mulher a quem ele amava estava trabalhando e andando entre pessoas que iria trair. Ela estava sozinha, por sua própria conta e risco, exposta a todos os perigos.

    

     O território da Noruega, visto isolado do país vizinho a leste, a Suécia, parece uma mão humana, imensa, pré-histórica, fossilizada, estendida para baixo, a partir do Ártico, na direção da Dinamarca e da Grã-Bretanha. É uma mão direita, a palma virada para o oceano, o polegar grosso apontando para leste, encostado no indicador. Na fenda entre o polegar e o indicador fica Oslo, a capital da Noruega.

     Para o norte, os ossos fraturados do antebraço estendem-se até Tromso e Hammerfest, no Ártico, uma região tão estreita que em determinados pontos tem apenas 60 quilômetros do mar à fronteira sueca. Num mapa em relevo, a mão parece ter sido esmagada por algum gigantesco martelo dos deuses, rachando ossos e artelhos em milhares de partículas. Em nenhum lugar a quebra é mais acentuada do que ao longo da costa ocidental, onde seria a chamada quina da mão.

     A terra está ali fragmentada em mil pedaços, o mar penetrando entre os cacos para formar 1.000 enseadas, barrancas, baías e gargantas, com desfiladeiros estreitos e sinuosos, onde as montanhas caem verticalmente até as águas cintilantes. São os fjords, de onde saiu, há 1.500 anos, uma raça de homens que foram os melhores marinheiros que já singraram os mares. Antes de sua era chegar ao fim, eles já tinham alcançado a Groenlândia e a América, conquistado a Irlanda, povoado a Grã-Bretanha e a Normandia, saqueado até a Espanha e Marrocos, navegado do Mediterrâneo à Islândia. Eram os vikings, cujos descendentes ainda vivem e pescam ao longo dos fjords da Noruega.

     Um deles era Thor Larsen, capitão do mar e comandante de navio, que numa tarde de meados de julho passou a pé pelo palácio real, na capital sueca, Estocolmo, saindo da matriz de sua companhia e voltando para o hotel em que estava hospedado. As pessoas normalmente se afastavam para dar-lhe passagem, pois era um homem com l,90m de altura, largo como as calçadas da parte velha da cidade, barbado, de olhos azuis. Estando em terra, vestia-se à paisana. Mas estava feliz, porque tinha motivos para pensar, depois de visitar a matriz da Linha Nordia, que em breve poderia ter um novo comando.

     Depois de seis meses fazendo um curso à custa da companhia, sobre as complexidades do radar, navegação por computador e tecnologia de superpetroleiro, ele estava morrendo de vontade de voltar ao mar. O chamado à matriz fora para receber um convite, por intermédio da secretária particular, para jantar naquela noite com o proprietário, presidente e diretor-executivo da Linha Nordia. O convite também incluía a esposa de Larsen, que fora avisada pelo telefone e estava vindo da Noruega de avião, com a passagem paga pela companhia. O Velho estava esbanjando cortesia, pensou Larsen. Deveria haver alguma coisa no ar.

     Ele pegou seu carro alugado no estacionamento do hotel, do outro lado da ponte sobre o Nybroviken, e percorreu os 37 quilômetros até o aeroporto. Quando Lisa Larsen chegou ao terminal, ele a saudou com a delicadeza de um São Bernardo excitado, levantando-a do chão como se fosse uma garotinha. E ela era de fato pequena, o chamado tipo mignon, os olhos pretos muito brilhantes, os cabelos castanhos encaracolados e um corpo esguio, que desmentia seus 38 anos. E ele a adorava. Vinte anos antes, quando era um desengonçado segundo-imediato de 25 anos, Larsen a conhecera num dia gelado de inverno em Oslo. Ela escorregara no gelo, ele a pegara como se fosse uma boneca e a pusera de pé.

     Ela estava usando um capuz revestido de pele que quase lhe ocultava o rosto. E quando agradecera, Larsen pudera ver apenas os olhos, espiando através da massa de pele e neve, tão brilhantes quanto os olhos do rato-de-neve nas florestas de inverno. Desde então, ao longo do namoro e casamento, ele sempre a chamara de ratinha-da-neve.

     Voltaram no carro para o centro de Estocolmo. Durante todo o percurso, ele foi fazendo perguntas sobre a casa deles em Alesund, na costa ocidental da Noruega, e sobre os progressos dos dois filhos adolescentes. Mais ao sul, um avião da British Airways passava pelo espaço aéreo da Suécia, em sua rota de Moscou para Londres. Thor Larsen não sabia disso. Nem se importava.

     O jantar daquela noite seria no famoso Porão da Aurora, um restaurante construído abaixo do solo, nas despensas subterrâneas de um antigo palácio, na zona medieval da cidade. Quando Thor e Lisa Larsen chegaram, descendo a escada estreita para o porão, encontraram lá embaixo, à espera, o proprietário, Leonard.

     — O Sr. Wennerstrom já está aqui — disse ele, levando-os a uma sala particular, pequena e íntima, em arcada, os tijolos de 500 anos, com uma mesa antiga de madeira de lei, iluminada por velas presas em castiçais de ferro batido. No momento em que eles entraram, o patrão de Werner, Harald Wennerstrom, levantou-se prontamente, abraçou Lisa e apertou a mão de Thor.

     Harald “Harry” Wennerstrom era quase uma lenda viva entre os homens do mar da Escandinávia. Estava agora com 75 anos, grisalho e brusco, as sobrancelhas eriçadas. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, voltando à sua cidade natal, Estocolmo, herdara do pai meia dúzia de pequenos navios cargueiros. Em 35 anos, conseguira a maior frota de petroleiros independente fora das mãos dos gregos e dos chineses de Hong-Kong. A Linha Nordia era sua criação, diversificando dos cargueiros secos para petroleiros, em meados da década de 1950, com imensos investimentos, construindo navios para o boom do petróleo na década de 1960, sempre confiando em seu próprio julgamento, muitas vezes contrário a todas as outras opiniões.

      Sentaram-se e comeram. Wennerstrom limitiu-se a uma conversa superficial, indagando como iam os filhos deles. O seu casamento de 40 anos terminara com a morte da esposa, há quatro anos. Não tiveram filhos. Mas, se por acaso tivessem, ele gostaria que fosse como o imenso norueguês sentado a sua frente, um marinheiro filho de marinheiro. E ele gostava muito de Lisa.

     O salmão, curtido em salmoura e endro, ao estilo escandinavo, estava delicioso, o pato dos pântanos salgados de Estocolmo estava excelente. Foi somente depois que terminaram de comer e estavam acabando o vinho — Wennerstrom bebendo água com uma cara de infeliz, “tudo o que os malditos médicos me permitem atualmente”, é que ele se pôs a tratar de negócios.

     — Há três anos, Thor, em 1979, fiz três previsões. A primeira foi de que, em 1982, a solidariedade da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP, estaria liquidada. A segunda foi de que a política do Presidente americano de reduzir o consumo de petróleo dos Estados Unidos teria fracassado. A terceira foi de que a União Soviética passaria de exportadora de petróleo para importadora. Disseram que eu estava doido, mas os fatos comprovaram meu acerto.

     Thor Larsen assentiu. A formação da OPEP e a quadruplicação dos preços do petróleo, no inverno de 1973, provocaram um colapso mundial, que quase destruíra a economia do mundo ocidental. Também provocara um declínio de sete anos nas atividades dos petroleiros, com milhões de toneladas de espaço em navios sem aproveitamento, inúteis, antieconômicos, dando prejuízos. Só um espírito arrojado poderia ter previsto, com três anos de antecedência, os acontecimentos que iriam surgir entre 1979 e 1982: o colapso da OPEP, à medida que o mundo árabe se dividia em facções em luta; a revolução no Irã; a desintegração da Nigéria; a precipitação das nações produtoras de petróleo em vender a qualquer preço, para financiar a aquisição de armamentos; o aumento vertiginoso do consumo de petróleo nos Estados Unidos, baseado na convicção do americano comum de que tinha o direito, concedido por Deus, de saquear os recursos do globo para atender a seus confortos pessoais: e a queda da produção petrolífera soviética, em decorrência de uma tecnologia deficiente, obrigando a Rússia a tornar-se outra vez um país importador. Todos esses fatores haviam-se combinado para produzir um novo boom dos petroleiros, que continuava a crescer, no verão de 1982.

     — Como já sabe — continuou Wennerstrom — em setembro último assinei um contrato com os japoneses para a construção de um novo superpetroleiro. No mercado, todos disseram que eu estava louco, já que metade da minha frota estava ancorada no Estreito de Stromstad, e eu encomendava um novo navio. Mas acontece que não estou louco. Conhece a história da East Shore Company?

     Larsen tornou a assentir. Uma pequena companhia petrolífera americana há 10 anos sediada na Louisiana passara o controle do dinâmico Clint Blake. Em 10 anos, crescera e se expandira consideravelmente, até ficar prestes a ingressar no clube das Sete Irmãs, as mastodontes dos cartéis do petróleo.

     — No verão do próximo ano, 1983, Clint Blake tenciona invadir a Europa. É um mercado difícil e já muito disputado, mas ele está convencido de que pode conquistar uma fatia. Está instalando milhares de postos pelas estradas da Europa, a fim de vender sua própria marca de gasolina e óleo. Vai precisar de tonelagem em petroleiros. E é justamente o que disponho. Um contrato de sete anos para transportar petróleo bruto do Oriente Médio para a Europa Ocidental. Blake já está construindo sua própria refinaria, em Rotterdam, perto da Esso, Mobil e Chevron. É para isso que encomendei o novo superpetroleiro. É muito grande, ultramoderno e dispendioso, mas vai pagar-se. Fazendo cinco ou seis viagens por ano do Golfo Pérsico a Rotterdam, o investimento estará amortizado em cinco anos. Mas não é esse o motivo principal pelo qual o mandei construir. O novo superpetroleiro vai ser o maior e o melhor, minha nave capitania, meu monumento. E você vai ser o comandante.

     Thor Larsen permaneceu em silêncio. A mão de Lisa deslizou pela mesa e foi pousar por cima da mão dele, apertando-a gentilmente. Larsen sabia perfeitamente que há dois anos jamais poderia comandar um navio de bandeira sueca, por ser norueguês. Mas desde o Acordo de Gothenburg, acertado no ano anterior, com a ajuda decisiva de Wennerstrom, um armador sueco podia solicitar a cidadania honorária da Suécia para qualquer escandinavo excepcional, mas não sueco, que estivesse a seu serviço, a fim de poder oferecer-lhe o comando de um navio. E ele pedira e conseguira a cidadania honorária para Larsen.

     O café foi servido e eles o tomaram lentamente.

     — O superpetroleiro está sendo construído no estaleiro da Ishikawajima Harima, no Japão — disse Wennerstrom. — É o único estaleiro do mundo que tem condições para construí-lo. Eles possuem o dique seco.

     Os dois homens sabiam que há muito já passara o tempo em que os navios eram construídos em rampas de lançamento e depois deslizavam para a água. Os fatores de tamanho e peso eram agora grandes demais. Os navios gigantescos eram agora construídos em diques secos; quando ficavam prontos, o mar entrava no dique através de comportas e os navios simplesmente flutuavam na água.

     — Os trabalhos começaram em 4 de novembro último — disse Wennerstrom. — A quilha ficou pronta a 30 de janeiro. O navio está agora tomando forma. Vai flutuar em primeiro de novembro próximo. Depois de três meses de ajustamentos no ancoradouro e testes em alto-mar, estará pronto para entrar em atividades a dois de fevereiro. E você estará no comando, Thor.

     — Obrigado — murmurou Larsen. — Já escolheu o nome?

     — Já, sim. Pensei bastante nisso. Está lembrado das Sagas? Vamos dar-lhe um nome para agradar Niorn, o deus do mar — disse Wennerstrom. Ele estava segurando o copo com água e olhando para a chama da vela no castiçal de ferro batido a sua frente. — Niorn controla o fogo e a água, os grandes inimigos de um comandante de petroleiro: a explosão e o próprio mar.

     A água no copo e a chama da vela refletiam-se nos olhos do velho armador, como outrora o fogo e o mar haviam-se refletido em seus olhos, quando estava sentado, impotente, num escaler, no meio do Atlântico, em 1942, a quatro amarras do seu petroleiro em chamas, seu primeiro comando, observando a tripulação morrer queimada no mar ao redor.

     Thor Larsen ficou olhando para o patrão, duvidando de que o velho acreditasse realmente naquela mitologia. Lisa, sendo mulher, sabia que Wennerstrom estava falando absolutamente sério. O sueco finalmente recostou-se na cadeira, empurrou o copo para o lado com um gesto impaciente e encheu o outro copo a sua frente com vinho tinto.

     — Vamos dar o nome da filha de Niorn, Freya, a mais linda de todas as deusas. O novo superpetroleiro vai chamar-se Freya. — Levantou o copo com vinho. — A Freya.

     Todos beberam.

     — Quando Freya zarpar — acrescentou Wennerstrom — o mundo jamais terá visto algo igual. E depois que se for, o mundo nunca mais verá outro navio igual.

     Larsen sabia que os dois maiores petroleiros do mundo eram o Beliamya e o Batillus, da Shell francesa, ambos um pouco acima de meio milhão de toneladas.

     — Qual será a tonelagem de Freya? — indagou ele. — Quanto petróleo bruto poderá transportar?

     — Ah, eu tinha esquecido de mencionar — murmurou o velho armador, maliciosamente. — Poderá transportar um milhão de toneladas de petróleo bruto.

     Thor Larsen pôde ouvir a exclamação de espanto da esposa, a seu lado.

     — É grande, muito grande... — murmurou ele, finalmente.

     — O maior que o mundo já conheceu — disse Wennerstrom.

    

     Dois dias depois, um Jumbo pousou no Aeroporto de Heathorw, em Londres, procedente de Toronto. Entre os passageiros, havia um certo Azamat Krim, nascido no Canadá, filho de um emigrado, o qual também inglesara seu nome, como Andrew Drake, passando a chamar-se Arthur Crimmins. Era um dos homens que Drake descobrira anos antes, como alguém que partilhava integralmente suas crenças.

     Drake estava a sua espera, assim que ele passou pela alfândega. Seguiram de carro para o apartamento de Drake, na Estrada Bayswater.

     Azamat Krim era um tártaro da Criméia, baixo, moreno, rijo. O pai dele, ao contrário do pai de Drake, lutara na Segunda Guerra Mundial com o Exército Vermelho e não contra. Mas sua lealdade à Rússia de nada lhe adiantara. Capturado pelos alemães em combate, ele e toda sua raça haviam sido acusados por Stalin de colaboração com os alemães, uma acusação totalmente infundada, mas suficiente para permitir ao déspota russo deportar toda a nação tártara para as regiões selvagens do oriente. Dezenas de milhares de tártaros da Criméia haviam morrido nos vagões de gado sem aquecimento, outros milhares pereceram nas vastidões geladas do Kazaquistão e da Sibéria, sem alimentos nem roupas apropriadas.

     Num campo de trabalhos forçados alemão, Chingris Krim tomara conhecimento da morte de toda sua família. Libertado pelos canadenses em 1946, tivera a sorte de não ser devolvido a Stalin, para execução nos campos de trabalhos forçados soviéticos. Fizera amizade com um oficial canadense, antigo cavaleiro de rodeio de Calgary, que um dia, numa fazenda de criação de cavalos austríacos, admirara a maestria com que o soldado tártaro sabia montar. O canadense obtivera a autorização necessária para que Krim emigrasse para o Canadá, onde ele se casara e tivera um filho. Azamat era esse filho e estava agora com 30 anos. Assim como Drake, acalentava um ódio amargurado contra o Kremlin, por causa do sofrimento imposto ao povo de seu pai.

     No pequeno apartamento em Bayswater, Andrew Drake explicou seu plano e o tártaro concordou em colaborar. Juntos, deram os retoques finais no esquema para obter os recursos necessários, assaltando um banco no norte da Inglaterra.

    

     O homem a quem Adam Munro se apresentou no quartel-general do SIS era o seu controlador, Barry Ferndale, o Chefe da Seção Soviética. Anos antes, Ferndale tivera sua atividade de campo, ajudando inclusive nos interrogatórios exaustivos de Oleg Penkovsky, nas ocasiões em que o desertor russo estivera na Inglaterra, acompanhando delegações comerciais soviéticas.

     Ele era baixo e gordo, o rosto rosado, sempre jovial. Ocultava o cérebro aguçado e um profundo conhecimento dos problemas soviéticos por trás de maneirismos alegres e de uma aparente ingenuidade.

     Em sua sala no quarto andar do quartel-general da Firma, ele escutou atentamente a gravação de Moscou até o fim. Quando acabou, começou a polir vigorosamente as lentes dos óculos, no maior excitamento.

     — Ah, mas que coisa, meu caro amigo! Ah, meu caro Adam! Que coisa extraordinária! Isso é realmente inestimável!

     — Se for genuína — disse Munro, cautelosamente. Ferndale estremeceu, como se a possibilidade ainda não lhe tivesse ocorrido.

     — Ah, sim, claro, claro... Se for genuína. E agora você deve contar-me como obteve essa gravação.

     Munro contou a história com todo cuidado. Era verdadeira em todos os detalhes, só que afirmou que a fonte da gravação tinha sido Anatoly Krivoi.

     — Krivoi... claro que o conheço! Agora, tenho de providenciar a tradução de tudo para o inglês e levar ao Mestre. Pode ser algo muito grande. E já deve saber que não poderá voltar para Moscou amanhã. Tem algum lugar para ficar? O seu clube? Ótimo! De primeira classe. Pode ir agora. Tenha um jantar excelente e fique descansando em seu clube por uns dois dias.

     Ferndale telefonou para a esposa, informando que não iria naquele dia para a modesta casa em que moravam em Piner, pois teria de passar a noite na cidade. Ela conhecia o trabalho do marido e já estava acostumada àquelas ausências.

     Ele passou a noite trabalhando na tradução da gravação, sozinho em sua sala. Era fluente em russo, embora não possuísse o ouvido ultra-sensível de Munro para o tom e as nuanças, que são as características do verdadeiro bilíngüe. Mas era bastante bom em russo. Não perdeu coisa alguma do relatório de Yakovlev, nem da breve mas aturdida reação que se seguiu entre os 13 membros do Politburo.

     Às 10 horas da manhã seguinte, sem dormir, mas barbeado e de café tomado, parecendo tão rosado e desperto quanto sempre, Ferndale ligou para a secretária de Sir Nigel Irvine pela linha particular e pediu para falar-lhe. Dez minutos depois ele estava reunido com o Diretor-Geral.

     Sir Nigel Irvine leu a transcrição em silêncio, largou-a ao terminar e olhou para a fita que estava na mesa à sua frente.

     — É genuína? — indagou ele.

     Barry Ferndale abandonara sua jovialidade habitual. Conhecia Nigel Irvine há anos como colega e a promoção do amigo ao posto supremo e ao título de cavaleiro nada mudara entre os dois.

     — Não sei — respondeu ele, pensativo. — Vai precisar de muita verificação para se determinar. Mas é possível que seja autêntica. Adam contou-me que se encontrou rapidamente com esse Krivoi numa recepção na Embaixada tcheca, há pouco mais de duas semanas. Se Krivoi estava pensando em dar o passo, teria sido a sua oportunidade. Penkovsky agiu exatamente dessa forma. Encontrou um diplomata em território neutro e marcou um encontro secreto posterior. É claro que foi encarado com extrema suspeita, até que suas informações fossem confirmadas. É o que estou querendo fazer neste caso.

     — Explique — disse Sir Nigel.

     Ferndale começou a polir novamente os óculos. A velocidade dos movimentos circulares com o lenço sobre as lentes, segundo o folclore, estava na proporção direta do ritmo de seu pensamento... e naquele momento ele estava polindo furiosamente.

     — Em primeiro lugar, devemos pensar em Munro — disse ele. — Como pode ser uma armadilha e o segundo encontro servir para fazê-lo cair nela, eu gostaria que ele ficasse de licença aqui, até terminarmos de verificar a gravação. É possível que a Oposição esteja tentando criar um incidente entre governos.

     — Ele tem férias em atraso? — indagou Sir Nigel.

     — Para dizer a verdade, tem, sim. Foi transferido tão às pressas para Moscou, no final de maio, que não pôde gozar as duas semanas de férias do verão.

     — Ele pode tirar essas duas semanas de férias agora. Mas deve permanecer em contato conosco. E não deve sair da Inglaterra. Barry, nada de ficar passeando pelo exterior, enquanto não estiver tudo definido.

     — Depois, temos de cuidar da gravação propriamente dita — continuou Ferndale. — Pode-se fazer uma divisão em duas partes: o relatório de Yakovlev e as vozes do Politburo. Até onde eu sei, nunca antes ouvimos Yakovlev falar. Assim, não será possível efetuar testes de impressão de voz com ele. Mas o relatório é altamente técnico. Eu gostaria de verificar os detalhes com alguns especialistas em proteção química de sementes de cereais. Há uma excelente seção no Ministério da Agricultura que cuida desses problemas. Não há qualquer necessidade de alguém saber por que nós estamos querendo informar sobre esse problema específico. Mas tenho de ficar convencido de que é possível o acidente descrito com a válvula do lindano.

     — Está lembrado daquela pasta que os Primos nos emprestaram há cerca de um mês? — perguntou Sir Nigel. — Com as fotos tiradas pelos satélites Condores?

     — Claro que estou.

     — Verifique os sintomas de acordo com a aparente explicação, o que mais poderia ser?

     — A segunda parte permite uma análise de impressão de vozes — retomou Ferndale. — Eu gostaria de fragmentar essa parte em pedaços, a fim de que ninguém possa tomar conhecimento do que se está falando. O laboratório de linguagem em Beaconsfield pode examinar a fraseologia, sintaxe, expressões vernaculares, dialetos regionais e assim por diante. Mas o fator decisivo será a comparação de impressões de voz.

     Sir Nigel assentiu. Ambos sabiam que as vozes humanas, reduzidas a uma série de bips e impulsos registrados eletronicamente, são tão individuais quanto as impressões digitais. Não existem duas que sejam exatamente iguais.

     — Está certo, Barry. Mas insisto em duas coisas. No momento, além de você, Munro e eu, ninguém mais sabe disso. Se é uma falsificação, não devemos levantar falsas esperanças. Se for algo autêntico, é altamente explosivo. Ninguém da parte técnica deve tomar conhecimento do todo. Em segundo lugar, não quero ouvir novamente o nome de Anatoly Krivoi. Crie um nome de cobertura e passe a usá-lo daqui por diante.

     Duas horas depois, Barry Ferndale telefonou para Munro, que estava almoçando em seu clube. Como a linha telefônica era aberta, utilizaram a linguagem comercial habitual:

     — O diretor-executivo ficou imensamente feliz com o relatório de vendas — disse Ferndale a Munro. — Está querendo que você tire duas semanas de licença para podermos definir tudo e determinar o que faremos daqui por diante. Tem alguma idéia do lugar onde gostaria de passar a licença?

     Munro não tinha, mas tomou imediatamente uma decisão. Sabia que não era um simples pedido, mas uma ordem.

     — Eu gostaria de voltar à Escócia por algum tempo. Sempre quis andar durante o verão de Lochaber até a costa de Sutherland.

     Ferndale ficou extasiado.

     — As Terras Altas, os deslumbrantes vales da bela Escócia! Deve estar uma verdadeira maravilha nesta época do ano. Pessoalmente, jamais pude suportar os exercícios físicos, mas tenho certeza de que vai gostar. Mas preciso que mantenha contato comigo, de dois em dois dias. Tem o telefone da minha casa, não é mesmo?

    

     Uma semana depois, Miroslav Kaminsky chegou à Inglaterra, com os documentos de viagem fornecidos pela Cruz Vermelha. Atravessara a Europa de trem, a passagem paga por Drake, que estava quase no fim de seus recursos financeiros.

     Kaminsky e Krim foram apresentados. E Kaminsky prontamente recebeu suas ordens.

     — Tem de aprender inglês — disse-lhe Drake. — Vai estudar de manhã, de tarde e de noite. Vai aprender através de livros e discos, mais depressa do que já aprendeu qualquer outra coisa antes. Enquanto isso, vou providenciar-lhe outros documentos. Não poderá viajar com os documentos da Cruz Vermelha para sempre. Enquanto eu não tiver obtido os novos documentos e enquanto você não souber falar inglês, não deve deixar o apartamento.

    

     Adam Munro caminhara por 10 dias, pelas terras altas de Inverness, Ross e Cromarty, até o Condado de Sutherland. Chegara à cidadezinha de Lochinver, no ponto em que as águas do North Minch se estendem para oeste até a Ilha de Lewis, quando deu o sexto telefonema para a casa de Barry Ferndale, nos subúrbios de Londres.

     — Foi bom ter ligado — disse Ferndale. — Pode voltar ao escritório? O diretor-executivo está querendo falar-lhe.

     Munro prometeu partir dentro de uma hora e pegar o trem para Inverness, de onde poderia seguir de avião para Londres.

    

   Em sua casa nos arredores de Sheffield, a grande cidade siderúrgica de Yorkshire, o Sr. Norman Pickering deu um beijo de despedida na esposa e na filha, naquela manhã de sol de fim de julho, seguindo de carro para o banco de que era gerente.

     Vinte minutos depois, um pequeno furgão com o nome de uma companhia de aparelhos eletrodomésticos parou diante da casa. Dois homens de casaco branco saltaram. Um deles levou uma caixa de papelão grande até a porta da frente, precedido por seu companheiro, que segurava uma prancheta. A Sra. Pickering abriu a porta e os dois homens entraram. Nenhum dos vizinhos prestou qualquer atenção.

     O homem com a prancheta saiu 10 minutos depois e foi embora. Seu companheiro aparentemente ficou na casa para instalar e testar o aparelho que fora entregue.

     Trinta minutos depois, o furgão estava estacionado a dois quarteirões do banco. O motorista, sem o casaco branco e usando um terno cinza, levando não a prancheta mas uma pasta de executivo, entrou no banco. Estendeu um envelope a uma das funcionárias, que deu uma olhada e verificou que estava endereçado pessoalmente ao Sr. Pickering. Levou-o para o gerente. O homem ficou esperando pacientemente.

     Dois minutos depois, o gerente abriu a porta de sua sala e olhou para fora. Avistou o homem à espera.

     — Sr. Partington? Entre, por favor.

     Andrew Drake não disse nada até a porta ser fechada. Quando falou, a voz não tinha qualquer vestígio do sotaque típico do Yorkshire, onde ele nascera. O tom era gutural, como se tivesse nascido no Continente. Os cabelos estavam vermelhos, cor de cenoura, óculos escuros ocultavam parcialmente os olhos.

     — Eu gostaria de abrir uma conta e fazer uma retirada em dinheiro.

     Pickering ficou perplexo. Aquela transação poderia ter sido resolvida por um dos seus assistentes.

     — Uma conta grande e uma transação grande — acrescentou Drake. Empurrou um cheque por cima da mesa. Era um cheque avulso, do tipo que se pode conseguir no balcão. Era da sucursal do próprio banco de Pickering em Holborn, Londres, no valor de 30.000 libras.

     — Estou entendendo — disse Pickering. Aquela quantia era decididamente da competência do gerente. — E a retirada?

     — Vinte mil libras em dinheiro.

     — Vinte mil libras em dinheiro? — repetiu Pickering, estendendo a mão para o telefone. — É claro que, nessas circunstâncias, não posso deixar de telefonar para a sucursal de Holborn e...

     — Não creio que seja necessário.

     Drake empurrou por cima da mesa um exemplar do Times de Londres daquela manhã. Pickering ficou aturdido. E o que Drake entregou-lhe em seguida deixou-o ainda mais aturdido. Era uma fotografia, tirada com uma câmara Polaroid. Ele reconheceu prontamente a esposa, a quem deixara 90 minutos antes, sentada ao lado da lareira, os olhos arregalados de medo. Podia ver uma parte de sua sala de estar. A esposa abraçava a filha com um dos braços. Sobre seus joelhos estava o mesmo exemplar do Times de Londres.

     — Foi tirada há sessenta minutos — disse Drake.

     O estômago de Pickering se contraiu. O instantâneo não ganharia prêmios pela qualidade fotográfica, mas os contornos do ombro do homem em primeiro plano e da espingarda de cano serrado apontando para a família dele eram inconfundíveis.

     — Se der o alarme, a polícia virá para cá e não para sua casa — acrescentou Drake. — Antes de a polícia entrar nesta sala, você já estará morto. Exatamente dentro de sessenta minutos, a menos que eu dê um telefonema para dizer que já parti em segurança com o dinheiro, esse homem vai puxar o gatilho. Por favor, não pense que estamos brincando. Estamos dispostos até a morrer, se for necessário. Somos da Facção do Exército Vermelho.

     Pickering engoliu em seco. Debaixo da mesa, a um palmo de seu joelho, havia um botão ligado a um sistema de alarme silencioso. Ele olhou novamente para a fotografia e afastou o joelho do botão.

     — Ligue para seu assistente e determine que abra a conta, credite o cheque e providencie a retirada de vinte mil libras em dinheiro. Diga que já telefonou para Londres e está tudo em ordem. Se ele manifestar surpresa, diga que a quantia é para uma grande campanha de promoção comercial, na qual os prêmios serão dados em dinheiro vivo. Procure controlar-se e seja convincente.

     O assistente ficou de fato surpreso, mas o gerente parecia bastante calmo. Estava talvez um pouco deprimido; afora isso, porém, estava normal. E o homem de terno cinza parecia relaxado e amistoso. Havia até mesmo um copo de sherry do gerente diante de cada um. É verdade que o cliente estava de luvas, o que era um tanto estranho naquele tempo quente. Trinta minutos depois, o assistente do gerente retirou o dinheiro do cofre, deixou-o na mesa do gerente e se retirou.

     Drake guardou-o calmamente na pasta de executivo.

     — Restam trinta minutos — disse ele a Pickering. — Darei o telefonema dentro de vinte e cinco minutos. Meu colega deixará sua esposa e filha ilesas. Se der o alarme antes disso, ele vai atirar primeiro e depois correr o risco com a polícia.

     Depois que ele se foi, o Sr. Pickering continuou sentado, totalmente imóvel, por meia hora. Na verdade, Drake telefonou para a casa cinco minutos depois, de uma cabine telefônica. Krim atendeu, sorriu rapidamente para a mulher estendida no chão, as mãos e tornozelos presos com fita isolante, e depois foi embora. Nenhum dos dois usou o furgão, que havia sido roubado no dia anterior. Krim usou uma motocicleta estacionada na mesma rua, um pouco mais adiante. Drake pegou um capacete de motociclista no furgão, para esconder os cabelos vermelhos, e usou a segunda motocicleta, estacionada por perto. As duas tinham placas de Sheffield, que ficava a 30 minutos de distância. Abandonaram as motocicletas no norte de Londres e voltaram a se encontrar no apartamento de Drake, onde ele lavou a tintura vermelha dos cabelos e quebrou os óculos em fragmentos.

    

     Munro tomou o café da manhã no avião, ao sul de Aberdeen. Depois que as bandejas de plástico foram tiradas, a aeromoça ofereceu os jornais londrinos daquela manhã. Estando no fundo do avião, Munro perdeu o Times e o Telegraph, mas conseguiu um exemplar do Daily Express. A manchete era a história de dois homens não-identificados, que se supunha serem alemães da Facção do Exército Vermelho, que haviam roubado 20 mil libras de um banco de Sheffield.

     — Filhos da mãe! — disse o técnico de petróleo inglês que trabalhava nos poços marítimos do Mar do Norte e estava sentado ao lado de Munro, batendo na manchete do Daily Express. — Malditos comunistas! Eu enforcaria todos eles!

     Munro admitiu que o enforcamento era certamente uma providência que teria de ser considerada em futuro próximo.

     Em Heathrow, ele pegou um táxi quase até o escritório. Foi levado imediatamente à sala de Barry Ferndale.

     — Adam, meu caro, está olhando para um novo homem! — Fez Munro sentar-se e estendeu-lhe uma xícara de café. — E vamos à gravação. Deve estar morrendo de curiosidade. A verdade, meu caro, é que se trata de uma gravação genuína. Não resta a menor dúvida. Tudo confere. Houve uma tremenda confusão no Ministério da Agricultura soviético. Seis ou sete altos funcionários foram demitidos, inclusive um que julgamos ser o pobre coitado em Lubyanka.

     “Isso ajuda a confirmar a história. De qualquer maneira, as vozes são genuínas. Segundo o pessoal do laboratório, não há a menor dúvida quanto a isso. Mas vamos à grande confirmação. Um dos nossos agentes, baseado em Leningrado, conseguiu sair de carro da cidade. Não há muito trigo sendo cultivado lá pelo norte mas sempre se encontra um pouco. Ele parou o carro para dar urna mijada e conseguiu pegar uma haste de trigo afetado. Nós recebemos pelo malote há três dias. Recebi o relatório do laboratório ontem à noite. Confirma que há um excesso desse tal lindano na raiz. Eis o ponto em que estamos. Você encontrou o que nossos primos americanos chamam encantadoramente de uma verdadeira mina de ouro. E é ouro de vinte e quatro quilates. Por falar nisso, o Mestre está querendo vê-lo. Você vai voltar para Moscou esta noite.

     O encontro de Munro com Sir Nigel Irvine foi cordial, mas rápido.

     — Bom trabalho — disse o Mestre. — Pelo que soube, seu próximo encontro será dentro de duas semanas.

     Munro assentiu.

     — Esta pode ser uma operação prolongada — acrescentou Sir Nigel. — Por isso, é ótimo que você seja novo em Moscou. Ninguém vai estranhar se permanecer uns dois anos. Mas como o homem pode mudar de idéia, quero que o pressione por mais informações, tudo o que pudermos arrancar. Vai precisar de alguma ajuda, de algum apoio?

     — Não, obrigado. Agora que tomou a decisão, ele insiste em só falar comigo. Não creio que seja bom assustá-lo a esta altura, envolvendo outros no contato. E creio também que ele não pode viajar, como fazia Penkovsky. Vishnayev jamais viaja. Assim, não há motivo para Krivoi viajar também. Terei de cuidar de tudo sozinho.

     — Está certo — assentiu Sir Nigel. — Poderá fazer como achar melhor.

     Depois que Munro se retirou, Sir Nigel deu uma olhada na ficha pessoal dele, que estava sobre a mesa. Tinha suas apreensões. O homem era um solitário, sentia-se pouco à vontade trabalhando em equipe. Era um indivíduo que andava sozinho pelas montanhas da Escócia quando queria relaxar um pouco.

     Havia um adágio na Firma: há agentes antigos e há agentes audazes, mas não existem agentes antigos e audazes. Sir Nigel era um agente antigo, um velho agente, e apreciava devidamente a cautela. Aquele caso surgira do nada, inesperadamente, uma surpresa total. Mas, no final das contas, a gravação era genuína. Assim como era também o comunicado em cima da mesa, para se encontrar com a Primeira-Ministra ao final da tarde, na Downing Street. Como não podia deixar de fazer, ele avisara ao Secretário do Exterior assim que ficara comprovada a autenticidade da gravação.

     E o resultado era o chamado para uma reunião com a Primeira-Ministra.

     A porta preta da Downing Street, 10, residência do Primeiro-Ministro britânico, é provavelmente uma das portas mais conhecidas do mundo. Fica à direita, a dois terços de um pequeno beco sem saída, em Whitehall, espremido entre os prédios imponentes do Gabinete e do Foreign Office.

     Diante dessa porta, com o número 10 em branco e a aldraba de latão, vigiada por um único guarda, desarmado, os turistas se reúnem para tirar fotografias e observar as idas e vindas de mensageiros e personalidades famosas.

     Na verdade, são os homens que apreciam a publicidade que gostam de entrar pela porta da frente, enquanto os homens de influência preferem usar a porta lateral. A casa chamada de Número Dez forma um ângulo reto com o prédio do Gabinete, os cantos quase se tocando, encerrando um pequeno gramado, por trás de grades pretas. No ponto em que os cantos quase se encontram, há um caminho que leva a uma pequena porta lateral. E foi por essa porta, ao final daquela última tarde de julho, que passaram o Diretor-Geral do SIS e o Secretário do Gabinete, Sir Julian Flannery. Os dois foram levados diretamente ao segundo andar, passando pela Sala do Gabinete, para o escritório particular da Primeira-Ministra.

     A Primeira-Ministra lera a transcrição da gravação da reunião do Politburo, que lhe fora entregue pelo Secretário do Exterior.

     — Os americanos já foram informados? — perguntou ela, abruptamente.

     — Ainda não, Madame — respondeu Sir Nigel. — A confirmação final da autenticidade só tem três dias.

     — Eu gostaria de fazer a comunicação pessoalmente — declarou a Primeira-Ministra. Sir Nigel inclinou a cabeça. — As perspectivas políticas dessa iminente escassez de trigo na União Soviética são incomensuráveis. Como os maiores produtores de excedentes de trigo do mundo, os Estados Unidos devem ser envolvidos no caso desde o início.

     — Eu não gostaria que os Primos interferissem com o trabalho do nosso agente — declarou Sir Nigel. — O controle do contato pode ser extremamente delicado. Acho que devemos cuidar do caso sozinhos.

     — E eles tentarão participar? — indagou a Primeira-Ministra.

     — É possível, Madame, é bem possível. Operamos Penkovsky em conjunto, embora nós o tivéssemos recrutado. Mas havia razões para isso. Desta vez, porém, acho que devemos operar sozinhos.

     A Primeira-Ministra percebeu prontamente o valor, em termos políticos, de controlar um agente que tinha acesso às transcrições das reuniões do Politburo.

     — Se houver qualquer pressão, avise-me de imediato e falarei pessoalmente com o Presidente Matthews a respeito — disse ela. — Enquanto isso, poderia seguir de avião para Washington amanhã e apresentar-lhes a gravação ou pelo menos uma transcrição integral. De qualquer forma, tenciono falar com o Presidente Matthews esta noite.

     Sir Nigel e Sir Julian levantaram-se para sair.

     — Só mais uma coisa — disse a Primeira-Ministra. — Compreendo perfeitamente que não devo ser informada da identidade desse agente russo que está trabalhando para nós. Mas pode dizer-me se vai informar quem é a Robert Benson?

     — Claro que não, Madame.

     O Diretor-Geral do SIS não apenas se recusaria a informar a sua própria Primeira-Ministra e ao Secretário do Exterior a identidade do russo, como também jamais lhes falaria de Munro, que estava dirigindo a operação. Os americanos saberiam quem era Munro, mas jamais tomariam conhecimento de quem ele estava operando. Além disso, Sir Nigel providenciaria para que os Primos não seguissem Munro em Moscou.

     — Mas presumo que esse russo tenha um nome em código. Posso saber qual é? — indagou a Primeira-Ministra.

     — Claro, Madame. Ele é agora conhecido em todas as fichas simplesmente como Nightingale (Rouxinol).

     Nightingale era simplesmente o primeiro pássaro canoro da letra N da lista, em inglês, de pássaros usados como nomes de código para os agentes soviéticos. Mas a Primeira-Ministra não sabia disso. Ela sorriu pela primeira vez e comentou:

     — Um nome dos mais apropriados...

    

     Pouco depois das 10 horas da manhã de um úmido e chuvoso 1.° de agosto, um antigo mas confortável jato VC-10, do Comando de Ataque da RAF, decolou da base de Lyneham, em Wiltshire, seguindo para oeste, na direção da Irlanda e do Atlântico. Levava apenas dois passageiros: um marechal-do-ar que fora informado na noite anterior de que aquele, entre todos os dias, era o melhor para visitar o Pentágono, em Washington, a fim de discutir os iminentes exercícios táticos de bombardeiros da RAF e Força Aérea dos Estados Unidos, e um civil numa capa surrada.

     O marechal-do-ar apresentou-se ao civil que tinha como companhia inesperada. Soube, em resposta, que seu companheiro era o Sr. Barrett, do Foreign Office, que tinha negócios a tratar na Embaixada britânica, na Avenida Massachusetts, e recebera instruções para aproveitar o vôo do VC-10, a fim de poupar o contribuinte do custo de uma passagem aérea de ida-e-volta. O oficial superior da RAF jamais soube que o propósito do vôo era na verdade levar o civil a Washington.

     Em outra rota, mais ao sul, um Boeing Jumbo da Britsh Airways decolou de Heathrow, a caminho de Nova York. Entre os seus 300 e tantos passageiros estava Azamat Krim, aliás Arthur Crimmins, cidadão canadense, seguindo para oeste com o bolso repleto de dinheiro, numa missão de compra.

     Oito horas depois, o VC-10 aterrou na Base Aérea de Andrew, em Maryland, 15 quilômetros a sudeste de Washington. No momento em que os motores foram desligados, um carro oficial do Pentágono avançou até a escada e descarregou um general de duas estrelas da Força Aérea dos Estados Unidos. Dois guardas da Força Aérea ficaram em posição de sentido, enquanto o marechal-do-ar descia os degraus ao encontro do comitê de recepção. Cinco minutos depois, estava tudo acabado: a limusine do Pentágono já se afastara a caminho de Washington, os guardas tinham ido embora e os ociosos e curiosos da Base Aérea haviam voltado a seus afazeres.

     Ninguém prestou qualquer atenção ao sedan modesto, de placa particular, que se aproximou do VC-10 estacionado 10 minutos depois. Um observador mais atento poderia ter notado a antena de formato estranho no teto, que denunciava estar ali um carro da CIA. Ninguém também prestou qualquer atenção ao civil amarfanhado que desceu a escada e entrou direto no carro, que prontamente se afastou.

     O homem da Companhia na Embaixada dos Estados Unidos em Grosvenor Square, Londres, fora avisado na noite anterior, despachando imediatamente uma mensagem codificada para Langley. O carro fora prontamente providenciado. O motorista, à paisana, era um funcionário subalterno, mas o homem no banco traseiro que recebeu o visitante de Londres era o chefe da Divisão da Europa Ocidental, subordinado diretamente ao Diretor Assistente de Operações. Fora escolhido para receber o inglês porque já o conhecia pessoalmente, tendo outrora chefiado as operações da CIA em Londres. Ninguém gosta de substitutos.

     — É um prazer vê-lo novamente, Nigel — disse ele, depois de confirmar que o recém-chegado era de fato o homem que estavam esperando.

     — Foi muita gentileza sua vir receber-me, Lance — disse Sir Nigel Irvine, sabendo perfeitamente que não se tratava absolutamente de uma gentileza, mas de uma obrigação.

     A conversa no carro foi sobre Londres, família, o tempo. Não houve a pergunta “o que o trouxe até aqui”. O carro atravessou a Ponte Woodrow Wilson, sobre o Rio Potomac e seguiu para oeste, pela Virgínia.

     Nos arredores de Alexandria, o motorista virou à direita, no Parkway George Washington, que se estende pela margem oeste do rio. Ao passarem pelo Aeroporto Nacional e pelo Cemitério de Arlington, Sir Nigel Irvine contemplou os contornos dos edifícios de Washington, a distância, onde anos antes fora o homem de ligação do SIS com a CIA, baseado na Embaixada britânica. Haviam sido dias difíceis, na esteira do caso Philby, quando até mesmo a previsão do tempo era considerada informação confidencial, para os ingleses. Pensou no que estava levando em sua pasta e permitiu-se um pequeno sorriso.

     Depois de 30 minutos de viagem, o carro deixou a estrada principal, deu a volta para passar por cima dela e depois embrenhou-se na floresta. Sir Nigel recordou-se da pequena placa dizendo simplesmente BPR-CIA e mais uma vez se perguntou por que a teriam colocado. Ou se sabia onde era ou não se sabia... e quem não sabia não era mesmo convidado.

     No portão de segurança, na cerca de ferro de dois metros e meio de altura, em torno de Langley, o carro parou e Lance apresentou seu passe. Depois, seguiram adiante e logo viraram à esquerda, passando pelo pavoroso centro de conferência conhecido como o Iglu, porque é justamente com isso que parece.

     O quartel-general da Companhia consiste de cinco blocos, um no centro e os outros em cada quina do central, como uma tosca cruz de Santo André. O Iglu está grudado no bloco de quina mais próximo do portão principal. Passando pelo bloco central recuado, Sir Nigel observou a imponente entrada principal e o imenso selo dos Estados Unidos feito em terrazza na frente. Ele sabia que aquela entrada era para deputados, senadores e outros indesejáveis. O carro seguiu adiante, passando pelo complexo, depois virou à direita e deu a volta pelos fundos.

     Há ali uma rampa curta, protegida por uma grade levadiça de aço, descendo um andar, para o primeiro nível do portão. No fundo, há um estacionamento privativo, para apenas 10 carros. O sedan preto parou ali e o homem chamado Lance entregou Sir Nigel a seu superior, Charles “Chip” Allen, o Diretor-Assistente de Operações. Eles se conheciam muito bem.

     Na parede dos fundos do estacionamento há um pequeno elevador, protegido por portas de aço e permanentemente guardado por dois homens armados. Chip Allen identificou o visitante, fez-lhe um sinal e usou um cartão de plástico para abrir as portas do elevador. O elevador zumbiu baixinho enquanto subia sete andares até o gabinete do Diretor. Outro cartão plástico magnetizado abriu as portas do elevador e os dois saíram para um vestfbulo em que havia três portas. Chip Allen bateu na porta do meio. E foi o próprio Bob Benson, devidamente alertado, quem abriu a porta do seu gabinete para o visitante britânico.

     Benson o levou além da mesa grande até a lareira de mármore bege. No inverno, Benson gostava de um fogo aceso ali, a lenha crepitando. Mas Washington em agosto não é lugar para um fogo aceso e o ar-condicionado estava ligado. Benson puxou a tela que separava a área de estar do escritório e sentou-se diante do visitante. Foi pedido café. Quando ficaram a sós, Benson finalmente perguntou:

     — O que o traz a Langley, Nigel?

     Sir Nigel tomou um gole do café e recostou-se na poltrona, dizendo calmamente:

     — Conseguimos obter os serviços de um novo agente russo.

     Ele falou por quase 10 minutos, antes que o Diretor da CIA o interrompesse:

     — Dentro do Politburo? Está querendo dizer que é alguém lá de dentro?

     — Digamos que se trata apenas de alguém que tem acesso às transcrições das reuniões do Politburo.

     — Iria importar-se se eu chamasse Chip Allen e Ben Kahn para participarem da reunião?

     — Absolutamente, Bob. De qualquer forma, eles teriam mesmo de saber de tudo. E a presença deles agora evita a repetição.

     Bob Benson se levantou, foi até um telefone numa mesinha de café e falou com sua secretária. Ao terminar, olhou pela janela imensa para a floresta verdejante lá fora e murmurou:

     — Jesus Cristo!

     Sir Nigel Irvine não ficou absolutamente insatisfeito pela presença de seus dois antigos contatos da CIA na reunião. Todas as agências puras de informações, em oposição aos órgãos de informações/polícia secreta, como o KGB, possuem duas divisões principais. A primeira é Operações, abrangendo todas as atividades de obtenção de informações; a outra é a de Informações, abrangendo todas as atividades de cotejar, verificar, interpretar e analisar a grande massa de dados brutos, acumulada diariamente.

     Ambas devem ser ótimas. Se a informação é falha, a melhor análise do mundo só poderá concluir absurdos; se a análise é inepta, todos os esforços para adquirir informações são desperdiçados. Os estadistas precisam saber o que outras nações, amigas ou inimigas em potencial, estão fazendo e, se possível, o que tencionam fazer. O que estão fazendo no momento pode ser freqüentemente constatado; o que já não acontece com o que tencionam fazer. É por isso que nem todas as câmeras espaciais do mundo jamais poderão suplantar um analista brilhante trabalhando com o material de reuniões secretas.

     Na CIA, os dois homens que ficam logo abaixo do Diretor da Agência, que pode ser uma escolha política, são o Diretor-Assistente de Operações e o Diretor-Assistente de Informações. É a parte de Operações que inspira os autores de histórias de espionagem; a parte de Informações é a sala dos fundos, o trabalho tedioso, lento, metódico, mas sempre extremamente valioso.

     Como Tweedledum e Tweedledee (os dois personagens de Alice no País das Maravilhas), o DAO e o DAI têm de trabalhar de mãos dadas, não podem deixar de confiar um no outro. Benson, uma escolha política, tinha muita sorte. Seu DAO era Chip Allen, WASP (white — branco, anglo-saxão e protestante, a nata da sociedade branca americana tradicional) e; antigo jogador de futebol americano. O DAI era Ben Kahn, judeu e antigo mestre de xadrez. Os dois se ajustavam como um par de luvas. Cinco minutos depois, ambos estavam sentados junto com Benson e Irvine, na área de estar. O café foi esquecido.

     O chefe do Serviço de Informações da Inglaterra falou durante quase uma hora. Não foi interrompido. Depois, os três americanos leram a transcrição de Nightingale e ficaram olhando para o carretel da gravação no saco de polietileno com uma expressão de imensa ansiedade. Quando Irvine terminou de falar, houve um breve silêncio, logo quebrado por Chip Allen:

     — É muito maior que Penkovsky.

     — Sei que vão querer verificar tudo — disse Sir Nigel, calmamente. Ninguém discordou. Amigos são amigos, mas... — Levamos dez dias para fazê-lo, mas não encontramos qualquer falha. Todas as impressões das vozes conferem perfeitamente. Já trocamos mensagens a respeito das demissões no Ministério da Agricultura soviético. E vocês têm as fotografias dos satélites Condores. Ah, sim, só mais uma coisa... — Tirou da pasta outro saco de polietileno com um pequeno rebento de trigo. — Um dos nossos homens pegou essa amostra numa plantação nos arredores de Leningrado.

     — Vou mandar que nosso Departamento de Agricultura verifique também — disse Benson. — Mais alguma coisa, Nigel?

     — A rigor, não tenho mais nada... Isto é, talvez ainda devamos falar de dois pequenos problemas...

     — Pode falar.

     Sir Nigel respirou fundo.

     — O primeiro é a concentração russa no Afeganistão. Achamos que eles podem estar preparando uma ofensiva sobre a Índia e o Paquistão, através dos desfiladeiros. Consideramos que isso é nossa seara, mas se os satélites Condores pudessem dar uma olhada...

     — Pode contar com isso — declarou Benson, sem a menor hesitação.

     — E há também o problema daquele desertor russo que vocês trouxeram de Genebra há duas semanas. Ele parece saber muita coisa sobre os agentes soviéticos infiltrados em nosso movimento sindical.

     — Já lhes mandamos transcrições disso — apressou-se Allen em dizer.

     — Gostaríamos de ter um acesso direto.

     Allen olhou para Kahn, que deu de ombros.

     — Está certo — disse Benson. — Podemos também ter acesso a Nightingale?

     — Lamento, mas não será possível. O caso é diferente. Nightingale é um contato por demais delicado, está no frio. Não quero perturbar o peixe por enquanto, para não correr o risco de uma mudança de ânimo. Vão receber tudo o que conseguirmos, no momento em que conseguirmos. Mas não há possibilidade de uma participação direta. Estou tentando acelerar a entrega e aumentar o volume, mas vai levar tempo. E temos de tomar muito cuidado.

     — Para quando está prevista a próxima entrega? — perguntou Allen.

     — Dentro de uma semana, a contar de hoje. Ou pelo menos é a data marcada para o novo encontro. Espero que haja alguma entrega.

     Sir Nigel Irvine passou a noite numa das casas vigiadas da CIA nos campos da Virgínia. No dia seguinte, o “Sr. Barrett” voou de volta à Inglaterra, em companhia do marechal-do-ar.

    

     Foi só três dias depois que Azamat Krim partiu do cais 49 do Porto de Nova York, a bordo do já velho Queen Elizabeth II, a caminho de Southampton. Decidira voltar de navio ao invés de avião, achando que assim haveria uma possibilidade maior de sua bagagem principal escapar às verificações por raios X.

     Ele comprara tudo o que fora procurar. Uma das peças de sua bagagem era uma dessas caixas de alumínio que se penduram no ombro, do tipo que os fotógrafos profissionais costumam usar para proteger câmaras e lentes. Não podia ser radiografada e por isso teria de ser examinada manualmente. A esponja plástica que impedia as câmaras e lentes de se baterem estava grudada no fundo da caixa, mas terminava a cinco centímetros do verdadeiro fundo. Nessa cavidade, estavam duas armas pequenas, com pentes de munição.

     Outra peça da bagagem, no fundo de uma pequena arca cheia de roupas, era um tubo de alumínio, com uma tampa de atarraxar, contendo o que parecia uma lente fotográfica comprida e cilíndrica, com cerca de 10 centímetros de diâmetro. Krim calculava que, se o tubo fosse examinado, passaria aos olhos de todos, a não ser do inspetor alfandegário mais desconfiado do mundo, como uma espécie de teleobjetiva, do tipo usado pelos maníacos por fotografia. Para confirmar essa explicação, havia na arca, ao lado da lente, uma coleção de livros de fotografias de pássaros e de vida selvagem.

     Na verdade, a lente era um intensificador de imagem, mais conhecida como visor noturno, do tipo que podia ser comprado comercialmente, sem qualquer permissão especial, nos Estados Unidos, mas não na Inglaterra.

     Naquele domingo, 8 de agosto, fazia muito calor em Moscou. Os que não podiam ir para as praias, amontoavam-se nas numerosas piscinas da cidade, especialmente no novo complexo construído para as Olimpíadas de 1980. Mas o pessoal da Embaixada britânica, juntamente com funcionários de uma dúzia de outras representações diplomáticas, estava na praia à margem do Rio Moscou, acima da Ponte de Uspenskoye. Adam Munro também estava ali.

     Ele tentava parecer tão despreocupado quanto os outros, mas era bastante difícil. Consultou o relógio vezes demais e finalmente se vestiu.

     — Oh, Adam, já vai voltar? — gritou uma das secretárias. — Ainda restam séculos de Sol!

     Ele forçou um sorriso pesaroso.

     — O dever me chama. Ou melhor, os planos para a visita da Câmara de Comércio de Manchester.

     Ele atravessou o bosque até seu carro e guardou os petrechos de banho. Olhou discretamente ao redor, para verificar se alguém estava interessado. Trancou o carro. Havia muitos homens de sandálias, calça esporte e camisa aberta no pescoço para que mais um chamasse alguma atenção. Ele agradeceu aos céus pelo fato de os homens do KGB aparentemente jamais tirarem o paletó. Não havia por perto ninguém que parecesse sequer remotamente com um agente da Oposição. Ele se embrenhou entre as árvores, seguindo para o norte.

     Valentina o estava esperando, à sombra das árvores. Munro sentia um bolo de tensão no estômago, apesar de todo o prazer que experimentava por tornar a vê-la. Valentina não tinha a menor noção de como reconhecer alguém em seu rastro e poderia ter sido seguida. Se isso tivesse acontecido, a cobertura diplomática dele poderia salvá-lo de algo pior do que a expulsão, mas as repercussões seriam tremendas. Contudo, não era isso o que o preocupava, mas sim o que fariam com Valentina, se a pegassem. Quaisquer que fossem os motivos, o que ela estava fazendo era de fato alta traição.

     Munro abraçou-a e beijou-a. Ela retribuiu o beijo, tremendo entre os braços dele.

     — Está com medo, querida?

     — Um pouco. Ouviu a gravação?

     — Ouvi, sim. Antes de entregar. Não deveria ter ouvido, mas não pude resistir.

     — Então já sabe que estamos prestes a enfrentar uma fome de grandes proporções. Quando eu era pequena, Adam, vi a fome neste país, logo depois da guerra. Foi terrível, mas tinha sido causada pelos alemães. Podíamos suportar. Os líderes estavam do nosso lado, fariam com que as coisas melhorassem.

     — Talvez possam também dar um jeito agora — disse Munro, inconvincentemente.

     Valentina sacudiu a cabeça, furiosa.

     — Eles nem mesmo estão tentando! Fico sentada no escritório ouvindo as vozes deles, datilografando as transcrições. E sei que eles se limitam a discutir, cada um querendo salvar apenas a própria pele.

     — E seu tio, o Marechal Kerensky?

     — Ele é tão miserável quanto os outros. Quando me casei, Tio Nikolai compareceu. Achei-o extremamente jovial e bondoso. Mas é claro que isso só acontece em sua vida particular. Agora, posso escutá-lo como é realmente na vida pública. E ele é como todos os outros, impiedoso e cínico. Eles ficam brigando por vantagens e poder, e o povo que se dane. Eu deveria ser como eles, mas não posso. Não agora... nem nunca mais!

     Munro olhou pela clareira para os pinheiros do outro lado, mas viu oliveiras e um rapaz de uniforme gritando: “Você não manda em mim!” Era estranho, pensou ele, como os sistemas de poder, com toda sua força, de vez em quando iam longe demais e acabavam perdendo o controle sobre as pessoas que sujeitavam. Nem sempre, não freqüentemente, mas algumas vezes.

     — Eu poderia tirá-la daqui, Valentina. Eu teria que deixar o Corpo Diplomático, mas não seria a primeira vez que acontece. Sacha ainda é jovem o bastante para ser criado em outro lugar.

     — Não, Adam, não! É tentador, mas não posso. O que quer que possa acontecer, sou parte da Rússia e tenho de ficar. Talvez um dia... mas não sei...

     Ficaram sentados em silêncio por algum tempo, de mãos dadas. Valentina finalmente voltou a falar:

     — O seu... chefe do serviço secreto mandou a gravação para Londres?

     — Acho que sim. Entreguei-a ao homem que creio ser o representante do serviço secreto na embaixada. Ele me perguntou se haveria outra.

     Valentina virou a cabeça para sua bolsa.

     — É apenas a transcrição. Não posso mais conseguir as gravações. São trancadas num cofre, depois de feitas as transcrições. Não tenho a chave. Os papéis que trouxe hoje são da reunião seguinte do Politburo.

     — Como conseguiu obtê-los, Valentina?

     — Depois das reuniões, as fitas e as anotações taquigráficas são levadas, sob guarda, para o prédio do Comitê Central. Há ali um departamento trancado em que trabalhamos, eu e cinco outras mulheres, sob a chefia de um homem. Depois que as transcrições ficam prontas, as fitas são guardadas no cofre.

     — E como foi então que conseguiu a primeira?

     Ela deu de ombros.

     — O homem na chefia é novo no cargo, tendo começado há um mês. O anterior era mais negligente. Há um estúdio de gravação ao lado, onde as fitas são copiadas uma vez, antes de serem trancadas no cofre. Fiquei sozinha na sala no mês passado, pelo tempo suficiente para roubar a segunda fita e substituí-la por outra sem nada.

     — Mas eles vão descobrir quando tocarem as fitas!

     — É improvável que isso venha a acontecer. As transcrições é que constituem os arquivos, depois de serem cotejadas com as gravações, para se verificar se estão acuradas. Tive sorte com aquela fita. Levei-a numa sacola de compras, debaixo das mercadorias que havia comprado no reembolsável do Comitê Central.

     — E não é revistada?

     — Dificilmente. Não se esqueça de que somos de confiança, Adam, a elite da Nova Rússia. E é bem mais fácil levar os papéis. No trabalho, costumo usar uma cinta antiquada. Copiei a última reunião de junho na máquina, fazendo uma cópia extra. Depois, voltei o número de controle para trás. Meti a cópia extra dentro da cinta. Não faz qualquer volume que dê para se perceber.

     Munro sentiu um calafrio no estômago ao pensar no risco que ela estava correndo.

     — E sobre o que eles falaram nessa reunião? — perguntou ele, apontando para a bolsa.

     — Sobre as conseqüências. O que irá acontecer quando a fome se tornar uma realidade. O que o povo da Rússia fará com eles. Mas houve outra reunião depois, Adam. No início de julho. Não pude copiá-la, pois estava de licença. Não podia recusar a licença, pois isso atrairia muita atenção. Mas quando voltei, conversei com uma das moças que trabalharam na transcrição. Ela estava extremamente pálida e não me quis contar o que havia ocorrido na reunião.

     — Pode arrumar uma cópia da transcrição dessa reunião?

     — Posso tentar. Terei de esperar até que o escritório fique vazio para poder usar a máquina copiadora. Posso depois dar um jeito na máquina para que ninguém perceba que foi usada. Mas isso só será possível no início do mês que vem, quando estarei no último turno e terei uma oportunidade de trabalhar sozinha.

     — Não devemos voltar a nos encontrar aqui, Valentina. Os padrões são sempre perigosos.

     Munro passou a hora seguinte descrevendo os métodos que ela precisaria conhecer para que pudessem continuar a se encontrar. Finalmente, ele lhe entregou algumas folhas de papel datilografadas que metera por baixo do cinto, sob a camisa solta.

     — Está tudo aí, minha querida. Decore e depois queime. Jogue as cinzas no vaso e dê a descarga.

     Cinco minutos depois, Valentina entregou-lhe um maço de folhas de papel fino, cobertas pela escrita cirílica datilografada. Afastou-se em seguida pelo bosque, voltando para seu carro, que estava parado num caminho de terra, a quase um quilômetro de distância.

     Munro foi para a escuridão da arcada principal, por cima da porta recuada da capela. Tirou do bolso um rolo de fita adesiva, abaixou a calça até os joelhos e prendeu os papéis na coxa. Com a calça novamente levantada e o cinto no lugar podia sentir o volume em sua coxa enquanto andava. Mas sob a calça de fabricação russa, bem larga, não dava para se perceber nada.

     Por volta de meia-noite, no silêncio de seu apartamento, ele já tinha lido todas as páginas uma dúzia de vezes. Na quarta-feira seguinte, a transcrição seguiu para Londres na caixa presa por uma corrente ao pulso do Mensageiro, dentro de um envelope lacrado, codificado para somente ser entregue ao homem de ligação do SIS, no Foreign Office.

    

     As portas de vidro que davam para o jardim das rosas estavam fechadas e somente o zumbido do ar-condicionado quebrava o silêncio no Gabinete Oval da Casa Branca. Os dias amenos de junho há muito que já tinham passado e o calor intenso de um agosto em Washington impedia que se abrissem portas e janelas.

     No outro lado do prédio, na fachada que dava para a Avenida Pennsylvania, os turistas, suados e calorentos, admiravam o aspecto familiar da entrada principal da Casa Branca, com suas pilastras, bandeira e entrada de carro descrevendo uma curva; ou entravam na fila para visita com guia ao grande santuário dos santuários americanos. Nenhum deles poderia penetrar até a pequena Ala Oeste, onde o Presidente Matthews estava em reunião com seus assessores.

     Diante da escrivaninha do Presidente estavam sentados Stanislaw Poklewski e Robert Benson. Ali estava também o Secretário de Estado, David Lawrence, advogado de Boston e pilar do estabilishment da Costa Leste.

     O Presidente Matthews folheou rapidamente a pasta a sua frente. Há muito que já lera a primeira transcrição do Politburo, traduzida para o inglês. O que acabara de ler agora era a avaliação de seus experts.

     — Bob, você estava extraordinariamente perto com sua estimativa de um déficit de trinta milhões de toneladas. Pelo que está aqui, eles vão precisar de cinqüenta a cinqüenta e cinco milhões de toneladas neste outono. Tem certeza de que a transcrição do Politburo é mesmo autêntica?

     — Sr. Presidente, já verificamos por todos os meios possíveis. As vozes são autênticas. Os vestígios de excesso de lindano na amostra de trigo são autênticos. As demissões em massa no Ministério da Agricultura soviético são autênticas. Não acreditamos que haja margem para qualquer dúvida substantiva de que a gravação foi mesmo de uma reunião do Politburo.

     — Temos de cuidar disso direito — comentou o Presidente.

     — Não pode haver qualquer erro de cálculo. Afinal, nunca houve uma oportunidade igual.

    — Sr. Presidente — disse Poklewski — isso significa que os soviéticos não estão simplesmente enfrentando uma grave escassez, como imaginávamos quando invocou a Lei Shannon, no mês passado. Eles estão diante da perspectiva de uma fome em larga escala.

      Sem saber, Poklewski estava repetindo as palavras de Petrov no Kremlin, dois meses antes, em sua conversa com Ivanenko, que não constava da gravação. O Presidente Matthews assentiu lentamente.

     — Não podemos discordar disso, Stan. Mas o problema é outro: o que devemos fazer?

     — Vamos deixar que eles sofram a fome — disse Poklewski.

     — Esse é o maior erro que eles já cometeram desde que Stalin se recusou a acreditar nos avisos ocidentais sobre os preparativos de Hitler em sua fronteira, na primavera de 1941. Só que desta vez o inimigo é interno. Portanto, vamos deixar que eles resolvam o problema a sua maneira.

     — David? — disse o Presidente para seu Secretário de Estado.

     O Secretário Lawrence sacudiu a cabeça. As diferenças de opinião entre o arquifalcão Poklewski e o cauteloso bostoniano eram famosas.

     — Discordo, Sr. Presidente. Em primeiro lugar, não creio que tenhamos examinado a fundo as transformações que poderiam ocorrer, se a União Soviética mergulhasse no caos na próxima primavera. Pelo que penso, é mais do que uma simples questão de deixar que os soviéticos se arrumem sozinhos. Há implicações maciças, numa escala mundial, em decorrência de um fenômeno assim.

     — Bob? — indagou o Presidente Matthews.

     O Diretor da CIA estava imerso em pensamentos e levou algum tempo para responder:

     — Dispomos de algum tempo, Sr. Presidente. Eles sabem que invocou a Lei Shannon no mês passado. Sabem que, se quiserem os cereais, terão de procurá-lo. Como argumenta o Secretário Lawrence, devemos realmente examinar as perspectivas decorrentes de uma fome disseminada na União Soviética. E devemos fazê-lo agora. Mais cedo ou mais tarde, o Kremlin terá de tomar uma iniciativa. E quando isso acontecer, devemos estar com todos os trunfos nas mãos. Sabemos como a situação deles é grave, mas eles ignoram que sabemos. Temos o trigo, temos os Condores, temos Nightingale e temos o tempo para esperar. Estamos com todos os trunfos desta vez Não há necessidade de decidirmos por enquanto o que devemos fazer.

     Lawrence assentiu, olhando para Benson com um novo respeito. Poklewski deu de ombros. O Presidente Matthews tomou uma decisão.

     — Stan, quero que forme um grupo especial específico dentro do Conselho de Segurança Nacional. Deve ser pequeno e absolutamente secreto. Você, Bob e David. O Chefe do Estado Maior Conjunto, os Secretários da Defesa, Agricultura e Tesouro. Quero saber o que poderá acontecer, em escala mundial, se houver fome na União Soviética. E preciso saber o mais depressa possível.

     Um dos telefones na mesa tocou. Era a linha direta do Departamento de Estado. O Presidente Matthews olhou inquisitivamente para David Lawrence e perguntou, com um sorriso:

     — Está me telefonando, David?

     O Secretário de Estado se levantou e foi atender ao telefone. Ficou escutando por vários minutos, antes de pôr o fone no gancho.

     — Sr. Presidente, as coisas estão se acelerando. Há duas horas em Moscou, o Ministro do Exterior Rykov convocou o Embaixador Donaldson para uma reunião. Em nome do Governo soviético, ele propôs a venda pelos Estados Unidos, na próxima primavera, de cinqüenta e cinco milhões de toneladas à União Soviética.

     Por vários momentos, o único barulho que se podia ouvir no Gabinete Oval era do relógio de carrilhão por cima da lareira.

     — E o que o Embaixador Donaldson respondeu? — perguntou, finalmente, o Presidente.

     — Claro que respondeu que a solicitação seria encaminhada a Washington para estudos — disse Lawrence. — E falou também que a resposta seria apresentada no momento oportuno.

     — Senhores — disse o Presidente — preciso ser informado o mais depressa possível. Posso protelar a resposta por quatro semanas. Mas a quinze de setembro, o mais tardar, terei de dá-la e quando o fizer, quero saber de tudo o que pode acontecer. De todas as possibilidades.

     — Sr. Presidente, dentro de poucos dias talvez estejamos recebendo novas informações de Nightingale. Isso nos poderá proporcionar uma indicação do ângulo pelo qual o Kremlin encara o problema.

     O Presidente Matthews assentiu.

     — Bob, se e quando chegarem novas informações, gostaria que fossem traduzidas para o inglês e colocadas em minha mesa o mais depressa possível.

    

     Quando a reunião presidencial terminou, no crepúsculo de Washington, há muito que já estava escuro em Londres. Os registros da polícia mostraram mais tarde que dezenas de roubos e assaltos ocorreram na noite de 11 para 12 de agosto. Mas o roubo que mais perturbou a polícia do Condado de Somerset foi o de uma loja de armas de caça, na aprazível cidadezinha rural de Taunton.

     Os ladrões obviamente haviam visitado a loja durante o dia, no dia anterior ou no outro, pois o sistema de alarme fora impecavelmente desligado por alguém que vira onde o fio passava. Com o sistema de alarme fora de ação, os ladrões haviam usado poderosos alicates na janela gradeada no beco nos fundos da loja.

     Esta não fora saqueada e as armas que geralmente desapareciam, espingardas para assaltar bancos, não haviam sido levadas. O que estava faltando, confirmou o proprietário, era um único rifle de caça, uma das melhores armas que ele possuía, um Sako Hornet 22, de fabricação finlandesa, de alta precisão. Também haviam desaparecido duas caixas de balas para o rifle, Remingtons de ponta oca, capazes de alta velocidade, grande penetração e considerável distorção no impacto.

    

     Em seu apartamento em Bayswater, Andrew Drake estava sentado com Miroslav Kaminsky e Azamat Krim, contemplando as armas sobre a mesa da sala de estar: duas pistolas, cada uma com dois pentes carregados, o rifle com duas caixas de balas e o intensificador de imagem.

     Há dois tipos básicos de visor noturno, o infravermelho e o intensificador de imagem. Os homens que costumam atirar à noite preferem o segundo. Krim, com a experiência de caçador na região ocidental do Canadá e de três anos com os para-quedistas canadenses, soubera escolher.

     O visor infravermelho é baseado no princípio de enviar um facho de luz infravermelha pela linha de fogo para iluminar o alvo, aparece no visor com os contornos esverdeados. Mas como emite luz mesmo sendo uma luz invisível a olho nu, o visor infravermelho vê uma fonte de energia. O intensificador de imagem opera com base no princípio de reunir todos os minúsculos elementos de luz que estão presentes num ambiente escuro e concentrá-los, como uma retina de coruja pode concentrar a pouca luz existente num celeiro e avistar um rato se mexendo, onde o olho humano nada pode perceber. E não precisa de fonte de energia.

     Originalmente desenvolvido com objetivos militares, o intensificador de imagem, ao final da década de 1970, passou a interessar à vasta indústria de segurança americana, começando a ser usado por guardas de fábrica e outros. Não havia demorado muito para que estivesse sendo vendido no comércio. No princípio da década de 1980, versões maiores do intensificador de imagem, podendo ser ajustadas aos canos de rifles e espingardas, começaram a ser vendidas nas lojas de armas dos Estados Unidos. Fora um desses que Azamat Krim comprara.

     O rifle já tinha os sulcos na parte superior do cano para se ajustar o visor telescópico. Trabalhando com uma lima e um torno, preso na beira da mesa da cozinha, Krim começara a adaptar o intensificador de imagem para se ajustar aos sulcos no cano do rifle.

   Enquanto Krim trabalhava, a menos de dois quilômetros dali, Barry Ferndale fazia uma visita à Embaixada dos Estados Unidos. Por prévia combinação, estava visitando o chefe das operações da CIA em Londres, que era aparentemente um diplomata adido à embaixada de seu país.

     O encontro foi breve e cordial. Ferndale tirou de sua pasta um maço de papéis e entregou ao homem da CIA.

     — Acaba de sair do forno — disse ele ao americano. — Lamento que seja tão volumoso. Não acha que esses russos têm uma tendência para falar demais? De qualquer forma, desejo-lhe boa sorte.

     Os papéis eram a segunda entrega de Nightingale e já estavam traduzidos para o inglês. O americano sabia que teria de codificar tudo pessoalmente, antes de despachar. Agradeceu a Ferndale e preparou-se para uma longa noite de trabalho árduo.

     Ele não foi o único homçm que pouco dormiu naquela noite. Muito longe de Londres, na cidade de Ternopol, na Ucrânia, um agente à paisana do KGB deixou o clube dos oficiais ao lado do quartel do KGB e começou a voltar para casa. Não tinha um posto bom o bastante para que tivesse direito a um carro oficial e deixara seu carro particular estacionado em frente a sua casa. Mas não se importava com isso. Era uma noite quente e agradável e passara horas bastante alegres com os companheiros, no clube.

     Foi provavelmente por isso que não percebeu os dois vultos no portal do outro lado da rua, que pareciam estar observando a entrada do clube e assentiram um para o outro quando ele saiu.

     Já passava da meia-noite, e Ternopol, mesmo numa noite quente de agosto, há muito que estava dormindo. O percurso do polícia secreta levou-o para longe das ruas principais e pelo Parque Shevchenko, onde as árvores copadas cobriam quase que totalmente os caminhos estreitos. Foi o atalho mais longo que ele tomou. No meio do parque, ouviu o barulho de pés às suas costas. Virou-se a meio e recebeu o golpe do cassetete, dirigido por trás de sua cabeça, em plena têmpora, caindo no mesmo instante.

     Já estava quase amanhecendo quando ele recuperou os sentidos. Tinha sido arrastado para o meio de algumas moitas e lhe haviam roubado a carteira, dinheiro, chaves, cartão de racionamento e cartão de identidade. As investigações da polícia e do KGB prolongaram-se por várias semanas, mas não foi possível descobrir os culpados pelo assalto surpreendente. Na verdade, os culpados haviam deixado Ternopol no primeiro trem da manhã, voltando para suas casas em Lvov.

    

     O Presidente Matthews presidiu pessoalmente a reunião do comitê especial que analisou a segunda entrega de Nightingale. Foi uma reunião moderada.

     — Meus analistas já chegaram à definição de algumas possibilidades decorrentes de uma fome disseminada na União Soviética no inverno e primavera — disse Benson aos oito homens sentados no Gabinete Oval. — Mas nenhum deles se atreveu a ir tão longe quanto o próprio Politburo, que previu um colapso pandêmico da lei e da ordem. É algo sem precedentes na União Soviética.

     — A mesma coisa aconteceu com os meus especialistas — informou David Lawrence, do Departamento de Estado. — Eles estão falando aqui que o KGB não conseguirá manter o controle. Estou convencido de que não poderemos ir muito longe em nossos prognósticos.

     — Neste caso, que resposta devo dar ao pedido de Maxim Rudin para a aquisição de cinqüenta e cinco milhões de toneladas de cereais? — indagou o Presidente.

     — Responda “Não”, Sr. Presidente — recomendou Poklewski. — Temos uma oportunidade como nunca ocorreu antes e que pode jamais tornar a ocorrer. Está com Maxim Rudin e todo o Politburo na palma da mão. Por duas décadas, sucessivas administrações dos Estados Unidos têm ajudado os soviéticos cada vez que eles se metem em problemas com sua economia.

     “A cada vez, eles voltam mais agressivos do que nunca. A cada vez, eles reagem aumentando ainda mais seu envolvimento na África, Ásia e América Latina. A cada vez, o Terceiro Mundo tem sido estimulado a acreditar que os soviéticos se recuperaram dos contratempos através de seus próprios esforços, que o sistema econômico marxista funciona perfeitamente.

     “Desta vez, podemos mostrar ao mundo, sem a menor sombra de dúvida, que o sistema econômico marxista não funciona e jamais funcionará. Desta vez, recomendo que faça o máximo de pressão. Pode exigir uma concessão para cada tonelada de trigo. Pode exigir-lhes que saiam da Ásia, da África e da América. E se Rudin não concordar, pode derrubá-lo.

     — Será que isto... — O Presidente Matthews bateu de leve no relatório de Nightingale a sua frente — ...poderia provocar a queda de Rudin?

     Foi David Lawrence quem respondeu, sem que ninguém discordasse:

     — Se o que está descrito aqui pelos próprios membros do Politburo realmente aconteceu na União Soviética, então Rudin pode perfeitamente cair em desgraça, como aconteceu com Kruschev.

     — Use o poder de que dispõe, Sr. Presidente — insistiu Poklewski. — Não deixe de usá-lo em hipótese alguma. Rudin está sem opções. Não tem alternativa senão concordar com nossos termos. E se ele não concordar, derrube-o.

     — E o sucessor... — começou a dizer o Presidente.

     — Terá visto o que aconteceu com Rudin e aprenderá a lição. Qualquer sucessor terá de concordar com os termos que impusermos.

     O Presidente Matthews pediu as opiniões dos outros homens presentes à reunião. À exceção de Lawrence e Benson, todos concordavam com Poklewski. O Presidente Matthews tomou sua decisão. Os gaviões haviam vencido.

    

     O Ministério do Exterior soviético é um de sete prédios quase idênticos, no estilo arquitetônico bolo-de-noiva que Stalin tanto apreciava, o neogótico através da visão de um patissier louco, em arenito marrom, no Bulevar Smolensky, esquina da Arbat.

     No penúltimo dia do mês, o Cadillac Fleetwood Brougham do Embaixador americano em Moscou parou diante da entrada principal do Ministério. O Sr. Myron Donaldson foi levado ao luxuoso gabinete no quarto andar de Dmitri Rykov, o veterano Ministro do Exterior soviético. Eles se conheciam bastante bem. Antes de ir para Moscou, o Embaixador Donaldson servira por algum tempo na ONU, onde Dmitri Rykov era uma figura das mais conhecidas. Haviam muitas vezes bebido juntos amistosamente, tanto na ONU como ali em Moscou. Mas o encontro daquele dia foi formal. Donaldson estava acompanhado por seu Chefe de Chancelaria e Rykov por cinco altas autoridades do Ministério.

     Donaldson leu sua mensagem, cuidadosamente, demorando-se em cada palavra, no inglês original. Rykov compreendia e falava inglês perfeitamente, mas um assessor fez uma rápida tradução em seu ouvido.

     A mensagem do Presidente Matthews não fazia qualquer referência ao conhecimento do desastre que se abatera sobre a colheita de trigo soviética. Também não manifestava qualquer surpresa pelo pedido soviético, formulado no início do mês, para a aquisição da quantidade espetacular de cinqüenta milhões de toneladas de cereais. Em termos formais, lamentava que os Estados Unidos da América não estivessem em condições de vender a tonelagem solicitada de trigo à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

     Quase que sem fazer qualquer pausa, o Embaixador Donaldson leu a segunda parte da mensagem, aparentemente sem qualquer relação com a primeira, embora a seguisse sem nenhuma interrupção; lamentava a ausência de sucesso nas Conversações de Limitação das Armas Estratégicas, a Salt 3, encerradas no inverno de 1980, num período de redução da tensão mundial. Expressava também a esperança de que Salt 4, cujas discussões preliminares começariam no outono e inverno próximos, pudessem realizar mais e permitir ao mundo dar passos autênticos pela estrada para uma paz justa e duradoura. E isso era tudo.

     O Embaixador Donaldson deixou o texto integral da mensagem em cima da mesa de Rykov, recebeu os agradecimentos formais e impassíveis do veterano e grisalho Ministro do Exterior e depois se retirou.

    

     Andrew Drake passou a maior parte do dia estudando livros. Sabia que Azamat Krim estava em algum lugar das colinas de Gales, testando o rifle de caça com o novo visor montado no cano. Miroslav Kaminsky ainda estava trabalhando para melhorar seu inglês. Para Drake, todos os problemas estavam agora concentrados no porto de Odessa, no sul da Ucrânia.

     Sua primeira obra de referência foi o Registro de Cargas do Loyds, um guia semanal dos navios sendo carregados em portos europeus, com destino para as mais diversas partes do mundo. Por ali, descobriu que não havia qualquer linha regular do norte da Europa para Odessa, mas havia um serviço pequeno e independente, mediterrâneo, que também fazia escala em diversos portos do Mar Negro. Era a Linha Salonika e contava com dois navios.

     Drake consultou em seguida o Índice de Embarcações do Loyds, percorrendo as colunas até encontrar os navios em questão, não pôde conter um sorriso. Os supostos proprietários dos navios que operavam na Linha Salonika eram companhias de um só navio registradas no Panamá, o que significava, sem a menor sombra de dúvida, que a “companhia” não passava de uma placa na parede do escritório de algum advogado da Cidade do Panamá e mais nada.

     Na terceira obra de referência, um livro de capa marrom chamado Catálogo dos Armadores Gregos, ele verificou que os agentes estavam relacionados como uma firma grega, com escritório no Pireu, o porto de Atenas. Drake sabia o que isso significava. Em 99 em cada 100 casos, quando se fala com agentes de um navio de bandeira grega e eles são gregos, pode-se ter certeza de que se está falando com os proprietários do navio. Eles se disfarçam como “agentes apenas”, a fim de tirar proveito do fato de que os agentes não podem ser legalmente responsabilizados pelas transgressões de seus empregadores. Algumas dessas transgressões incluem pagamento inferior e condições precárias para a tripulação, navios em péssimo estado e padrões de segurança indefinidos, embora as avaliações do seguro de “perda total” sejam muito bem definidas, e ocasionalmente hábitos por demais negligentes com o derramamento de petróleo bruto.

     Apesar de tudo, Drake começou a gostar da Linha Salonika, por uma única razão: um navio de registro grego inevitavelmente só contratava oficiais gregos, mas a tripulação podia ser cosmopolita e o único documento de identificação necessário era o passaporte. Além disso, os navios da Linha Salonika visitavam Odessa regularmente.

    

     Maxim Rudin inclinou-se para a frente, largou na mesa a tradução russa da mensagem negativa do Presidente Matthews, entregue pelo Embaixador Donaldson, e olhou para os três homens sentados a sua frente. Estava escuro lá fora e ele gostava de manter pouca luz em seu gabinete particular, na extremidade norte do Prédio do Arsenal, no Kremlin.

     — Chantagem! — exclamou Petrov, furioso. — Uma chantagem miserável!

     — Claro — disse Rudin. — O que estava esperando? Simpatia?

     — Aquele maldito Poklewski é que está por trás de tudo isso — disse Rykov. — Mas essa não pode ser a resposta final de Matthews. Seus Condores e a nossa proposta de comprar cinqüenta e cinco milhões de toneladas de cereais lhes devem ter revelado qual a nossa verdadeira situação.

     — Será que eles vão acabar concordando em negociar? — indagou Ivanenko.

     — Claro que vão — afirmou Rykov. — Mas vão protelar o máximo que puderem, esticar a coisa, esperar até que a fome comece a apertar, e depois trocarão o trigo por concessões humilhantes.

     — Espero que não sejam humilhantes demais — murmurou Ivanenko. — Temos uma maioria de apenas sete contra seis no Politburo e eu pessoalmente gostaria de mantê-la.

     — É justamente esse o problema — resmungou Rudin. — Mais cedo ou mais tarde, tenho de mandar Dmitri Rykov para a mesa de negociações a fim de lutar por nós e não disponho de uma única arma para lhe dar.

    

     No último dia do mês, Andrew Drake voou de Londres para Atenas, a fim de iniciar a busca de um navio a caminho de Odessa.

     No mesmo dia, um pequeno furgão, convertido numa casa móvel com dois beliches, como os que os estudantes gostam de usar para excursões sem roteiro fixo pela Europa Continental durante as férias, partiu de Londres para Dover, na costa do Canal da Mancha, e de lá para a França e Atenas, pela estrada. Escondidas por baixo do assoalho estavam as armas, munições e o intensificador de imagem. Felizmente, a maioria dos carregamentos de entorpecentes fazia a rota inversa, dos Bálcãs para a França e Inglaterra. As inspeções alfandegárias foram superficiais, tanto em Dover como em Calais.

     Ao volante estava Azamat Krim, com seu passaporte canadense e a carteira internacional de motorista. A seu lado, com novos documentos britânicos, embora não muito regulares, estava Miroslav Kaminsky.

    

     Perto da ponte sobre o Rio Moscou, em Uspenskoye, existe um restaurante chamado Isbá Russa. É construído no estilo das cabanas de madeira em que moram os camponeses russos, as isbás. Tanto o interior como o exterior são de troncos de pinheiro cortados, pregados em pranchas verticais. Os intervalos são tradicionalmente preenchidos com argila de rio, não sendo muito diferentes das típicas cabanas de troncos do Canadá.

     Essas isbás podem parecer primitivas e do ponto de vista sanitário freqüentemente o são, mas a verdade é que são mais quentes do que as estruturas de tijolos ou concreto nos inclementes invernos russos. O restaurante Isbá é confortável e quente por dentro, dividido em uma dúzia de pequenas salas de jantar particulares, muitas das quais só têm espaço para grupos pequenos. Ao contrário dos restaurantes do centro de Moscou, ali é permitido um lucro de incentivo, vinculado ao pagamento dos empregados. Em conseqüência e num contraste gritante com as típicas casas de pasto russas, a comida é saborosa e o serviço rápido e solícito.

     Foi ali que Adam Munro havia marcado seu encontro seguinte com Valentina, para o dia 4 de setembro, um sábado. Ela articulara um jantar com um amigo e persuadira-o a levá-la àquele restaurante em particular. Munro convidara uma das secretárias da embaixada para jantar e reservara a mesa em nome dela e não no seu. Assim, o registro das reservas não indicaria a presença no restaurante, naquela noite, nem de Munro nem de Valentina.

     Jantaram em salas separadas. Às nove horas em ponto, ambos pretextaram ir ao banheiro e deixaram a mesa. Encontraram-se no estacionamento. Munro, cujo carro chamava muita atenção com suas placas do corpo diplomático, seguiu Valentina até o carro dela, um Zhiguli. Ela estava visivelmente abalada e fumava nervosamente.

     Munro já manipulara dois russos desertores no lugar e conhecia a tensão incessante que começa a corroer os nervos depois de algumas semanas de subterfúgios e reticências.

     — Tive a oportunidade que esperava — disse Valentina, finalmente. — Há três dias. A reunião de princípio de julho. Mas quase fui apanhada.

     Munro ficou tenso. O que quer que ela pudesse pensar a respeito da confiança de que desfruta na máquina do Partido, ninguém, absolutamente ninguém, jamais pode contar com uma confiança total na política de Moscou. Ela estava andando numa corda bamba. Ou melhor, ambos estavam. A diferença era que ele tinha uma rede por baixo, sua posição de diplomata.

     — O que aconteceu, Valentina?

     — Alguém entrou. Um guarda. Eu tinha acabado de desligar a máquina copiadora e voltava para a minha máquina de escrever. Ele se mostrou amistoso. Mas encostou-se na máquina, que ainda estava quente. Acho que não percebeu nada. Mas fiquei apavorada E não foi a única coisa que me deixou apavorada. Só pude ler a transcrição depois que cheguei em casa. No escritório, estava ocupada demais colocando-a na copiadora. É terrível, Adam!

     Pegou as chaves do carro, abriu o porta-luva e entregou um envelope estofado a Munro. O momento da entrega é geralmente o instante em que os observadores atacam, se é que estão por perto, o instante em que soam passos correndo, as portas são violentamente abertas, os ocupantes bruscamente agarrados. Mas nada aconteceu.

     Munro olhou para o relógio. Quase 10 minutos. Tempo demais. Ele guardou o envelope no bolso interno do paletó.

     — Vou tentar obter permissão para tirá-la daqui — disse ele. — Não pode continuar assim para sempre, nem mesmo por muito mais tempo. Como também não pode simplesmente voltar a sua vida antiga, depois de tudo o que aconteceu, depois de tomar conhecimento de tanta coisa. Também não posso continuar assim, sabendo que você está em perigo, sabendo que ainda nos amamos. Vou ter uma licença no próximo mês. Irei a Londres e pedirei permissão para tirá-la daqui.

     Desta vez Valentina não fez objeções, um indício certo de que seus nervos estavam começando a entrar em colapso.

     — Está bem — disse ela.

     Segundos depois, Valentina desapareceu na escuridão do estacionamento. Munro ficou observando-a passar pela claridade diante da porta e entrar no restaurante. Ele esperou mais dois minutos e depois também voltou para o restaurante, indo juntar-se à secretária, que já estava impaciente.

     Já eram três horas da madrugada quando Munro terminou de ler o Plano Boris, o esquema do Marechal Nikolai Kerensky para conquista da Europa Ocidental. Serviu-se de uma dose de conhaque, voltou a sentar-se na poltrona, olhando para os papéis na mesinha da sala de estar. O Tio Nikolai jovial e bondoso de Valentina, pensou ele, certamente previra tudo. O inglês passou duas horas examinando um mapa da Europa. Ao nascer do Sol, estava tão convencido quanto o próprio Kerensky de que, em termos de guerra convencional, o plano daria certo. Estava também convencido, como Rykov, de que a guerra termonuclear seria inevitável. E em terceiro lugar, estava igualmente convencido de que não havia a menor possibilidade de convencer disso os membros dissidentes do Politburo, a não ser a própria ocorrência do holocausto.

     Levantou-se e foi até a janela. O dia estava rompendo a leste, por cima das torres do Kremlin. Um domingo comum estava começando para os cidadãos de Moscou, assim como começaria dentro de duas horas para os londrinos e cinco horas depois para os nova-iorquinos.

     Durante toda a sua vida, a garantia de que os domingos de verão permaneceriam apenas domingos comuns de verão sempre estivera dependente de uma balança precária, um equilíbrio na convicção do poderio e determinação da superpotência oponente, um equilíbrio de credibilidade, um equilíbrio de medo... mas mesmo assim um equilíbrio, apesar de tudo. Ele estremeceu, em parte do frio da manhã, mais pela certeza de que os papéis atrás dele comprovavam que o velho pesadelo finalmente estava emergindo das sombras, que o equilíbrio estava-se rompendo.

    

     O amanhecer de domingo encontrou Andrew Drake com um ânimo muito melhor, pois a noite de sábado lhe trouxera informações de uma espécie diferente.

     Cada área do conhecimento humano, por menor que seja, por mais misteriosa, possui os seus experts e devotados. E cada grupo deles parece ter um lugar em que se reúne para conversar, discutir, trocar informações e transmitir as últimas novidades.

     Os movimentos de navios na parte oriental do Mediterrâneo não chega a ser um assunto em que se possa ganhar diplomas, mas de grande interesse para os marinheiros desempregados naquela área, como Andrew Drake estava fingindo ser. O centro de informações sobre tais movimentos é um pequeno hotel chamado Cavo d'Oro, acima de um ancoradouro de iates, no porto do Pireu.

     Drake já observara os escritórios dos agentes e prováveis proprietários da Linha Salonika, mas sabia que a última coisa que deveria fazer era visitá-los.

     Em vez disso, hospedou-se no hotel Cavo d'Oro, passando o tempo no bar, onde comandantes, imediatos, contramestres, agentes, turma do cais e homens à procura de trabalho sentavam-se diante de drinques, para trocar as informações de que dispunham. Na noite de sábado, Drake encontrou o homem que estava procurando, um contramestre que já havia trabalhado para a Linha Salonika. Foi preciso meia garrafa de retsina, para arrancar-lhe a informação.

     — O que visita Odessa mais freqüentemente é o Sanadria, uma banheira velha. O comandante é Nikos Thanos. Acho que está no porto neste momento.

     O navio estava mesmo no porto e Drake encontrou-o na metade da manhã. Era um cargueiro mediterrâneo de 500 toneladas, vão entre as cobertas, enferrujado e não muito limpo. Mas se estava seguindo para o Mar Negro e faria escala em Odessa na próxima viagem, Drake não se importaria, mesmo que estivesse cheio de buracos.

     Ao pôr-do-sol, Drake encontrou o comandante, tendo descoberto que Thanos e todos os seus oficiais eram da ilha grega de Chios. A maioria desses cargueiros gregos é quase um negócio de família, o comandante e seus principais oficiais vindo da mesma ilha, muitas vezes sendo aparentados. Drake não falava grego, mas felizmente o inglês era a língua corrente da comunidade marítima internacional, mesmo no Pireu. E foi pouco antes de o Sol mergulhar no horizonte que ele encontrou o Comandante Thanos.

     Os norte-europeus, ao terminar o trabalho, seguem para sua casa, esposa e família. Os mediterrâneos orientais seguem para o café, os amigos e a conversa. A Meca da comunidade dos cafés no Pireu é uma rua paralela ao cais, chamada Akti Miaouli, na qual não existe praticamente mais nada além de escritórios de navegação e cafés.

     Cada um possui o seu café predileto e todos estão sempre apinhados. O Comandante Thanos fazia ponto, quando estava em terra, num café aberto chamado Miki. Foi ali que Drake o encontrou, sentado diante do inevitável café muito forte, copo de água gelada e ouzo. Era um homem baixo, largo, a pele morena, cabelos pretos encaracolados, e uma barba de vários dias.

     — Comandante Thanos? — indagou Drake.

     O homem levantou a cabeça, fitando o inglês com um olhar desconfiado e assentindo.

     — Nikos Thanos, do Sanadria?

     O marujo assentiu novamente. Seus três companheiros estavam em silêncio, observando. Drake sorriu.

     — Meu nome é Andrew Drake. Posso oferecer-lhe um drinque?

     O Comandante Thanos usou o indicador para mostrar o seu próprio copo e os de seus companheiros. Drake, ainda de pé, chamou um garçom e pediu cinco drinques. Thanos sacudiu a cabeça para uma cadeira vazia, o convite para se juntar a eles. Drake sabia que poderia ser demorado, arrastar-se por vários dias. Mas não ia apressar-se. Encontrara o seu navio.

    

     A reunião no Gabinete Oval, cinco dias depois, foi muito menos relaxada. Todos os sete membros do comitê especial do Conselho de Segurança Nacional estavam presentes, com o Presidente Matthews presidindo. Todos haviam passado metade da noite lendo a transcrição da reunião do Politburo em que o Marechal Kerensky apresentara seu plano para a guerra e Vishnayev fizera seu movimento para conquistar o poder. Todos os oito homens estavam abalados. As atenções se concentravam no Chefe do Estado-Maior Conjunto, General Martin Craig.

     — A questão primordial é uma só, General Craig — disse o Presidente Matthews. — O plano é exeqüível?

     — Em termos de. uma guerra convencional na Europa Ocidental, da Cortina de Ferro até os portos do Canal da Mancha, mesmo envolvendo o uso de bombas e foguetes nucleares táticos, é, sim, Sr. Presidente, é perfeitamente exeqüível.

     — Antes da próxima primavera, o Ocidente pode aumentar suas defesas a ponto de tornar o plano completamente inexeqüível?

     — Seria muito difícil, Sr. Presidente. Os Estados Unidos poderiam certamente embarcar mais homens e armamentos para a Europa. O que daria aos soviéticos amplos pretextos para aumentar seus próprios níveis, se é que eles precisam de algum pretexto. Mas nossos aliados europeus não dispõem das reservas que temos. Há mais de uma década que eles vêm mantendo em níveis mínimos os recursos humanos e bélicos, a tal ponto que o desequilíbrio entre as forças da OTAN e as forças do Pacto de Varsóvia, em termos de guerra convencional, se encontra num estágio que não pode ser compensado em apenas nove meses. O treinamento que os homens precisariam, mesmo que convocados às pressas agora, assim como a produção de novos armamentos com a necessária sofisticação não poderiam ser alcançados em apenas nove meses.

     — Ou seja, eles estão de volta a 1939 — comentou o Secretario do Tesouro, sombriamente.

     — E o que nos diz da opção nuclear? — indagou o Presidente Matthews.

     O General Craig deu de ombros.

     — Se os soviéticos atacarem com força total, será inevitável. Prevenido poderia ser armado de antemão, mas atualmente os programas de treinamento e armamentos são inevitavelmente prolongados. Prevenidos como estamos, podemos retardar o avanço soviético para oeste, frustrar a previsão de cem horas de Kerensky. Mas determinar se poderíamos detê-lo completamente, deter todo o Exército, Marinha e Força Aérea da União Soviética, é algo muito diferente. De qualquer maneira, provavelmente já seria tarde demais quando descobríssemos a resposta. O que torna inevitável o nosso uso da opção nuclear. A menos, é claro, Sr. Presidente, que se decida abandonar a Europa e os nossos trezentos mil homens que lá estão.

     — David? — disse o Presidente.

     O Secretário de Estado David Lawrence bateu de leve na pasta a sua frente.

     — Praticamente pela primeira vez na vida, tenho de concordar com Dmitri Rykov. Não se trata apenas da Europa Ocidental. Se a Europa cair, os Estados balcânicos, o Mediterrâneo oriental, Turquia, Irã e países árabes não poderão resistir. Há dez anos, cinco por cento do nosso petróleo era importado; há cinco anos, passou para cinqüenta por cento. Agora, está em sessenta e dois por cento e continua subindo. Mesmo toda a América continental, Norte e Sul, não poderia atender a mais de cinqüenta e cinco por cento de nossas necessidades, num regime de produção máxima. Precisamos do petróleo árabe, sem o qual estaremos tão acabados quanto a Europa... e sem que haja necessidade de disparar um tiro sequer.

     — Sugestões, senhores? — pediu o Presidente.

     — Nightingale é valioso, mas não indispensável... não agora — disse Stanislaw Poklewski. — Por que não promover um encontro com Rudin e expor tudo? Conhecemos agora o Plano Boris, conhecemos as intenções. E tomaremos as providências necessárias para impedir que essas intenções se concretizem, para evitar que o plano seja exeqüível. Quando ele informar o Politburo disso, todos compreenderão que o elemento de surpresa está perdido, que a opção de guerra não vai mais funcionar. Será o fim de Nightingale, mas será também o fim do Plano Boris.

     Bob Benson, da CIA, sacudiu a cabeça vigorosamente.

     — Não creio que seja tão simples assim, Sr. Presidente. Pelo que posso entender, não se trata de uma mera questão de convencer Rudin ou Rykov. Como sabemos, há uma implacável luta de facções se desenvolvendo neste momento dentro do Politburo. O que está em jogo é a sucessão de Rudin. E a ameaça de fome paira sobre todos eles.

     — Vishnayev e Kerensky propuseram uma guerra limitada, como um meio de, ao mesmo tempo, obter os excedentes de aumentos da Europa Ocidental e de impor a disciplina de guerra aos povos soviéticos. Revelar o que sabemos a Rudin não vai mudar nada. Pode até mesmo provocar a queda dele. Vishnayev e seu grupo assumiriam. Eles são completamente ignorantes do Ocidente e da maneira como nós, americanos, reagimos aos ataques. Mesmo tendo perdido o elemento de surpresa, mas diante da ameaça da escassez de cereais, eles ainda poderiam tentar a opção da guerra.

     — Concordo com Bob — disse David Lawrence. — Há aqui um paralelo com a posição japonesa há quarenta anos. O embargo do petróleo provocou a queda da facção moderada de Konoya. Em seu lugar, tivemos o General Tojo, o que levou a Pearl Harbour. Se Maxim Rudin for derrubado agora, podemos ter Yefrem Vishnayev em seu lugar. E com base nestes documentos, isso poderia levar à guerra.

     — Então Maxim Rudin não deve cair — disse o Presidente Matthews.

     — Protesto, Sr. Presidente! — disse Poklewski, veemente. — Devo entender que os esforços dos Estados Unidos serão agora empenhados em salvar a pele de Maxim Rudin? Será que já esquecemos o que ele fez, as pessoas que liquidou sob seu regime, para que pudesse alcançar o pináculo do poder na Rússia soviética?

     — Sinto muito, Stan — disse o Presidente Matthews, incisivamente. — No último mês, autorizei a recusa dos Estados Unidos em fornecer os cereais de que a União Soviética precisa para evitar uma fonte disseminada. Na ocasião, eu não sabia quais seriam as perspectivas dessa fome. Não posso mais persistir na política de rejeição, porque sabemos agora o que isso poderia acarretar.

     “Senhores, vou preparar esta noite uma carta pessoal para o Presidente Rudin, propondo que David Lawrence e Dmitri Rykov se encontrem para uma conferência, em território neutro. E deverão conferir sobre o novo Salt Quatro, que vai discutir o tratado de limitação de armamentos, e quaisquer outras questões de interesse.

    

     Quando Andrew Drake voltou ao Cavo d'Oro, depois de seu segundo encontro com o Comandante Thanos, encontrou uma mensagem a sua espera. Era de Azamat Krim, informando que ele e Kaminsky tinham acabado de se hospedar no hotel previamente combinado.

     Uma hora depois, Drake estava reunido com os dois. O furgão chegara a Atenas incólume. Durante a noite, Drake providenciou a transferência das armas e munições para seu próprio quarto, no Cavo d'Oro, em visitas separadas de Kaminsky e Krim. Depois que tudo estava guardado em segurança, Drake levou os outros dois para jantar. Na manhã seguinte, Krim voltou de avião para Londres, a fim de viver no apartamento de Drake, aguardando um telefonema dele. Kaminsky ficou numa pequena pensão nas ruas secundárias do Pireu. Não era lá muito confortável, mas era anônima.

    

     Enquanto eles jantavam, o Secretário de Estado americano estava em conferência confidencial com o Embaixador da Irlanda em Washington.

     — Para que a reunião com o Ministro do Exterior Rykov seja bem-sucedida, precisamos de toda privacidade — disse David Lawrence. — A discrição deve ser absoluta. Reykjavik, na Islândia, é um lugar óbvio demais. Nossa base ali, em Keflavik, é como se fosse território dos Estados Unidos. A reunião não pode deixar de ser em território neutro. Genebra está cheia de olhos atentos, o mesmo acontecendo com Estocolmo e Viena. Helsinque como a Islândia seria óbvia demais. A Irlanda fica na metade do caminho entre Moscou e Washington e vocês ainda cultivam a privacidade.

     Naquela noite, mensagens em código foram transmitidas entre Washington e Dublin. Em 24 horas, o governo de Dublin concordou em sediar a reunião, propondo planos de vôo para as duas partes. Horas depois, a carta particular e pessoal do Presidente Matthews para o Presidente Rudin estava a caminho do Embaixador Donaldson, em Moscou.

    

     Na terceira tentativa, Andrew Drake conseguiu ter uma conversa pessoal com o Comandante Nikos Thanos. A esta altura, não havia mais qualquer dúvida na mente do velho grego de que o jovem inglês estava querendo alguma coisa dele, mas não deixou transparecer o menor vestígio de curiosidade. Como sempre, Drake pagou o café e o ouzo.

     — Estou com um problema, Comandante — disse ele — e acho que pode ajudar-me a resolvê-lo.

     Thanos levantou uma sobrancelha, mas continuou a olhar para seu café.

     — No final do mês, o Sanadria vai zarpar do Pireu, a caminho de Istambul e do Mar Negro. Pelo que sei, vai fazer escala em Odessa.

     Thanos assentiu.

     — Devemos partir no dia trinta e de fato levaremos uma carga para Odessa.

     — Quero ir para Odessa, Comandante. Tenho de chegar a Odessa de qualquer maneira.

     — Você é inglês. Há excursões turísticas para Odessa. Pode ir de avião. E há navios de passageiros soviéticos que fazem escala em Odessa. Pode embarcar num deles.

     Drake sacudiu a cabeça.

     — Não é tão fácil assim. Eu não receberia um visto para Odessa, Comandante Thanos. O pedido seria examinado em Moscou e não me atenderiam.

     — E por que está querendo tanto ir a Odessa? — indagou Thanos, desconfiado.

     — Tenho uma garota em Odessa. Minha noiva. E preciso tirá-la da Rússia de qualquer maneira.

     O Comandante Thanos sacudiu a cabeça, vigorosamente. Ele e seus ancestrais de Chios vinham contrabandeando as mais estranhas cargas pelo leste do Mediterrâneo desde que Homero estava aprendendo a falar. Sabia perfeitamente que havia um florescente comércio de contrabando entrando e saindo de Odessa, assim como sabia também que sua própria tripulação ganhava um bom dinheiro extra levando artigos de nylon, perfumes e casacos de couro para o mercado negro do porto ucraniano. Mas contrabandear pessoas era muito diferente e ele não tinha a menor intenção de se envolver nisso.

     — Acho que não compreendeu — disse Drake. — Não estou querendo que a traga no Sanadria. Deixe-me explicar.

     Ele exibiu uma fotografia sua ao lado de uma jovem extraordinariamente bonita, na Escadaria Potemkin, que liga a cidade com o porto. O interesse de Thanos prontamente renasceu, pois a jovem era daquelas que valia a pena contemplar.

     — Sou aluno do curso de estudos russos da Universidade de Bradford — disse Drake. — No ano passado, dentro de um programa de intercâmbio de estudantes, passei seis meses na Universidade de Odessa. Foi ali que conheci Larissa. Nós nos apaixonamos. E queríamos casar.

     Como a maioria dos gregos, Nikos Thanos se orgulhava de sua natureza romântica. Drake estava falando a sua língua.

     — E por que não se casaram?

     — As autoridades soviéticas não permitiram. É claro que eu queria levar Larissa para a Inglaterra, onde iríamos viver. Ela pediu permissão para deixar a União Soviética, mas recusaram. Pedi também permissão em nome dela, de Londres. Mas não tive sorte. Em julho último, fiz exatamente o que sugeriu: participei de uma excursão turística pela Ucrânia, através de Kiev, Ternopol e Lvov.

     Ele tirou do bolso o passaporte e mostrou a Thanos o carimbo datado do aeroporto de Kiev.

     — Ela foi para Kiev a fim de se encontrar comigo. E nos amamos. Agora, ela me escreveu para dizer que vamos ter um filho. Mais do que nunca, temos de nos casar de qualquer maneira.

     O Comandante Thanos também conhecia as regras. Aplicavam-se a sua sociedade desde o princípio dos tempos. Olhou novamente para a fotografia. Jamais saberia que a jovem era londrina e que posara num estúdio não muito longe da estação de King's Cross, assim como também jamais saberia que a Escadaria Potemkin era a ampliação de um cartaz turístico, obtido no escritório de Londres na Intourist.

     — E como pretende tirá-la da União Soviética?

     — No próximo mês, um navio de passageiros soviético, o Lilva, vai partir de Odessa com um grupo grande do movimento Juventude Soviética, o Komsomol, para uma excursão cultural pelo Mediterrâneo.

     Thanos assentiu; já conhecia o Litva.

     — Porque gritei muito por causa de Larissa, as autoridades soviéticas jamais me permitiriam voltar. Normalmente, Larissa jamais teria permissão para participar de uma excursão dessas. Mas há uma autoridade da seção local do Ministério do Interior que gosta de viver muito acima do que ganha. Ele dará um jeito para incluí-la na excursão, com todos os documentos em ordem. Quando o navio chegar a Veneza, estarei à espera de Larissa. A tal autoridade está querendo dez mil dólares americanos. Já disponho do dinheiro, mas preciso dar um jeito de entregá-lo a Larissa.

     Fazia sentido para o Comandante Thanos. Ele conhecia a corrupção burocrática, que era endêmica no sul da Ucrânia, Criméia e Geórgia, com ou sem comunismo. Era perfeitamente normal que uma autoridade estivesse disposta a “arrumar” alguns documentos, em troca de dinheiro ocidental que pudesse melhorar consideravelmente seu padrão de vida.

     O negócio estava concluído uma hora depois. Por 5.000 dólares, Thanos levaria Drake como um marinheiro de convés, durante a duração daquela viagem.

     — Vamos partir no dia trinta, e devemos chegar a Odessa no dia nove ou dez — disse ele. — Esteja no cais em que o Sanadria está atracado às seis horas da tarde do dia trinta. Espere até que o agente do porto tenha ido embora e depois embarque, antes do pessoal da imigração.

     Quatro horas depois, no apartamento londrino de Bayswater, Azamat Krim recebeu um telefonema de Drake do Pireu, comunicando a data que Mishkin e Lazareff precisavam saber.

    

     Foi no dia vinte que o Presidente Matthews recebeu a resposta de Maxim Rudin. Era uma carta pessoal, como fora a sua mensagem para o líder soviético. Rudin concordava com a reunião secreta entre David Lawrence e Dmitri Rykov na Irlanda, marcada para o dia 24.

     O Presidente Matthews estendeu a carta para Lawrence, por cima da mesa, comentando:

     — Ele não está perdendo tempo.

     — Nem tem tempo para perder — falou o Secretário de Estado. — Tudo já está sendo providenciado. Tenho dois homens em Dublin neste momento, cuidando de todos os detalhes. Nosso Embaixador em Dublin vai encontrar-se amanhã com o Embaixador soviético, em decorrência desta carta, a fim de ultimarem os preparativos.

     — Você sabe o que fazer, David — disse o Presidente dos Estados Unidos.

    

     O problema de Azamat Krim era despachar uma carta ou cartão-postal para Mishkin do interior da União Soviética, com selos e carimbos russos e escrita em russo, sem a demora necessária da espera de um visto a ser concedido pelo consulado soviético em Londres, o que poderia levar até quatro semanas. Com a ajuda de Drake, ele conseguira resolver o problema de uma maneira relativamente simples.

     Antes de 1980, o principal aeroporto de Moscou, o Sheremetyevo, era pequeno, acanhado e inadequado. Para as Olimpíadas, no entanto, o Governo soviético providenciara a construção de um novo terminal, a respeito do qual Drake fizera algumas pesquisas.

     As instalações do novo terminal, que recebia todos os vôos de longa distância sobre Moscou, eram excelentes. Por todo o aeroporto, havia numerosas placas louvando as grandes realizações da tecnologia soviética. Chamando a atenção por sua ausência, não havia qualquer menção de que uma empresa da Alemanha Ocidental é que fora contratada para construir o terminal, já que nenhuma firma construtora soviética tinha condições para atender aos padrões e prazos exigidos. Os alemães ocidentais haviam sido muito bem pagos, em moeda, conversível. O contrato, no entanto, tinha cláusulas rigorosas de multas em caso de não-conclusão por ocasião do início das Olimpíadas de 1980. Por esse motivo, os alemães tinham usado apenas dois ingredientes locais russos: terra e água. Tudo o mais fora remetido de caminhão da Alemanha Ocidental, a fim de se ter certeza de que a entrega seria feita a tempo.

     Nos grandes salões de passageiros em trânsito e de partida havia caixas postais, para receber a correspondência dos que haviam esquecido de despachar seus últimos cartões-postais de Moscou antes de partir. O KGB censura todas as cartas, cartões-postais, telegramas e telefonemas entre o exterior e a União Soviética. A tarefa pode ser gigantesca, mas é realizada. Os novos salões de espera do Sheremetyevo eram usados tanto para os vôos internacionais como para os vôos domésticos de longa distância.

     Krim adquiriu o cartão-postal nos escritórios da Aeroflot em Londres. Selos soviéticos modernos, em quantidade suficiente para o cartão-postal pelas tarifas postais internas, foram comprados abertamente no grande empório filatélico londrino, Stanley Gibbons. No cartão, que mostrava uma fotografia do Tupolev 144, o grande jato supersônico de passageiros soviético, estava escrita em russo a seguinte mensagem: “Estou de partida com o grupo do Partido da fábrica para a excursão a Khabarovsk. O excitamento é muito grande. Quase esqueci de lhe escrever. Muitas felicidades pelo seu aniversário no dia 10. Seu primo, Ivan.”

     Como Khabarovsk fica no extremo oriente da Sibéria, perto do Mar do Japão, um grupo viajando pela Aeroflot para a cidade partiria do mesmo terminal que um vôo para o Japão. O cartão-postal foi endereçado para Lev Mishkin, em Lvov.

     Azamat Krim pegou o vôo da Aeroflot de Londres para Moscou, ali mudando de avião, para o vôo da Aeroflot de Moscou para o Aeroporto de Narita, em Tóquio. A data de retorno estava em aberto. Ele teve também uma espera de duas horas no salão dos passageiros em trânsito, em Moscou. Ali, deixou o cartão numa caixa postal e depois seguiu para Tóquio. Na capital japonesa, comprou uma passagem na Japan Air Lines e voltou para Londres.

     O cartão foi devidamente examinado pela equipe de correspondência do KGB no aeroporto de Moscou, presumindo-se que se tratava de uma simples correspondência de um russo para um primo ucraniano, ambos vivendo e trabalhando dentro da União Soviética.

     O cartão-postal foi despachado sem maiores problemas e chegou a Lvov três dias depois.

    

     Enquanto o exausto tártaro da Criméia voava de volta do Japão, um pequeno jato da empresa aérea doméstica norueguesa Braethens-Safe aproximava-se da pequena cidade pesqueira de Alesund e começava a descer, para o aeroporto municipal, na ilha plana que havia na baía. Por uma das janelas, Thor Larsen contemplou com a emoção que sempre experimentava a pequena comunidade em que fora criado e que para sempre seria o seu lar.

     Chegara ao mundo em 1935, numa cabana de pescador no velho bairro de Buholmen, posteriormente demolido para dar lugar a uma nova estrada. Antes da guerra, Buholmen era o bairro dos pescadores, um labirinto de cabanas de madeira em cores cinza, azul e ocre. Do alpendre dos fundos da cabana de seu pai saía um molhe que se estendia até a água, como acontecia em todas as habitações à beira do estreito. Era nesses frágeis molhes de madeira que os pescadores independentes, como seu pai, atracavam suas pequenas embarcações, quando voltavam do mar. Ali, os cheiros da infância de Thor haviam sido de alcatrão, resina, tinta, mar e peixe.

     Quando menino, ficava sentado no molhe do pai contemplando os grandes navios que passavam lentamente, saindo do ancoradouro de Storneskaia, sonhando com os lugares que deveriam visitar, muito além do oceano a oeste. Aos sete anos, Thor já era capaz de navegar em seu próprio bote, bem pequeno, afastando-se várias centenas de metros de Buholmen, até o ponto em que a velha montanha Sula projetava sua sombra pelo fjord, sobre as águas faiscantes.

     — Ele vai ser um marinheiro — dizia o pai, observando-o com extrema satisfação do molhe. — Não um pescador ficando perto da costa, mas um marinheiro de verdade.

     Thor tinha cinco anos quando os alemães chegaram a Alesund, homens imensos, de capotes cinzentos, que andavam de um lado para outro com suas botas grossas. Mas só viu a guerra quando estava com sete anos. Era verão e o pai deixava-o ir junto nas viagens de pesca, durante as férias na Escola Norvoy. Com o resto da frota pesqueira de Alesund, o barco do pai saía para mar aberto sob a guarda de uma lancha torpedeira alemã. Uma noite, Thor acordou com os movimentos de homens no barco. A oeste, podia avistar luzes faiscando, nos mastros da frota das Orkneys.

     Um pequeno bote a remo balançava ao lado do barco de seu pai e a tripulação estava tirando caixas de arenque do lugar. E frente ao olhar atônito do menino, um jovem pálido e exausto emergiu de debaixo das caixas no porão e passou para o bote a remo. Minutos depois, ele desaparecia na escuridão, a caminho dos homens das Orkneys. Era mais um operador de rádio da Resistência seguindo para treinamento na Inglaterra. O pai fê-lo prometer que jamais falaria do jovem a quem quer que fosse. Uma semana depois, em Alesund, houvera numa noite um matraquear de tiros de rifle, a mãe lhe dissera mais tarde que deveria fazer suas preces naquela noite com um fervor extra, porque o mestre-escola estava morto.

     No início da adolescência, quando estava crescendo tão depressa que as roupas ficavam pequenas mais rapidamente do que a mãe podia fazê-las, Thor também se tornara obcecado por rádio e em dois anos construíra seu próprio transmissor-receptor. O pai ficava olhando para o aparelho com uma expressão aturdida; estava muito além da compreensão dele. Thor estava com 16 anos, quando, no dia seguinte ao Natal de 1951, captara uma mensagem de SOS de um navio em perigo no meio do Atlântico. Era o Flying Enterprise, cuja carga se soltara e estava adernando terrivelmente em alto-mar.

     Por 16 dias, o mundo e um adolescente norueguês ficaram observando e escutando, com a respiração em suspenso, enquanto o comandante Kurt Carlsen, um americano nascido na Dinamarca, se recusava a abandonar o navio em perigo e levava-o com extrema dificuldade na direção leste, através da tempestade, a caminho do sul da Inglaterra. Sentado no sótão de sua casa, hora após hora, com os fones nos ouvidos, olhando pela janela para o mar bravio além da entrada do fjord, Thor Larsen ficara torcendo para que o cargueiro chegasse ao porto. A 10 de janeiro de 1951 o Flying Enterprise finalmente afundara, a apenas 57 milhas a leste do porto de Falmouth.

     Larsen ouvira o navio afundar, escutara seus estertores de morte e depois o resgate do intrépido comandante. Tirara os fones dos ouvidos e descera para falar com os pais, que estavam sentados à mesa. E declarara solenemente:

     — Já decidi o que vou ser: um capitão do mar.

     Um mês depois, ele ingressou na Marinha Mercante.

     O avião pousou e deslizou até parar diante do terminal, pequeno mas impecável, com seu lago de cisnes ao lado do estacionamento. A esposa Lisa, o estava esperando com o carro, juntamente com Kristina, a filha de 16 anos, e Kurt, o filho de 14. Os dois jovens ficaram falando sem parar durante a curta viagem através da ilha até a barca, enquanto faziam a travessia do estreito até Alesund e por todo o percurso até a casa confortável da família, em estilo de casa de fazenda, no subúrbio afastado de Bogneset.

     Era bom estar em casa, pensou Thor. Sairia para pescar com Kurt pelo Fjord Borgund, assim como seu próprio pai muitas vezes acompanhara, durante sua juventude. Nos últimos dias do verão, foram a piqueniques nas ilhas verdejantes que pontilhavam o estreito, viajando na pequena lancha de cruzeiro. Ele tinha três semanas de licença. Depois, partiria para o Japão e, em fevereiro, assumiria o comando do maior navio que o mundo já conhecera. Era uma longa estância percorrida, desde uma pequena casa de madeira em Buholhien. Mas Alesund ainda era o seu lar e para aquele descendente dos vikings não havia outro lugar igual no mundo inteiro.

    

     Na noite de 23 de setembro, um Grumman Gulfstream com o logotipo de uma conhecida corporação comercial decolou da base da Força Aérea em Andrews e seguiu para leste, através do Atlântico, os tanques cheios de combustível para alcançar o aeroporto irlandês de Shannon. Foi classificado na rede de controle de tráfego aéreo irlandesa como um vôo particular fretado. Ao pousar em Shannon, foi levado na escuridão para o outro lado da pista, distante do terminal internacional, sendo cercado por cinco limusines pretas, com cortinas nas janelas.

     O Secretário de Estado David Lawrence e seu grupo de seis assessores foram recebidos pelo Embaixador e pelo Chefe da Chancelaria da representação diplomática americana. Todas as cinco limusines deixaram o perímetro cercado do aeroporto através de um portão lateral. Seguiram para nordeste, através dos campos adormecidos, na direção do Condado de Meath.

     Nessa mesma noite, um Tupolev 134 da Aeroflot, fez escala para reabastecimento no Aeroporto Schoenefeld, em Berlim Oriental, seguindo depois para oeste, sobre a Alemanha e Países-Baixos, na direção da Inglaterra e Irlanda. Estava descrito como um vôo especial da Aeroflot, levando uma delegação comercial para Dublin. Como tal, foi registrado pelos controladores de tráfego aéreo britânicos, que o entregaram aos cuidados de seus colegas irlandeses, no momento em que deixou a costa galesa. A rede de tráfego aéreo militar irlandesa assumiu o controle. Duas horas antes do amanhecer, o avião pousou na base do Corpo Aéreo Irlandês, em Baldonnel, nos arredores de Dublin.

     Ali, o Tupolev foi estacionar entre dois hangares, fora do campo de visão dos prédios principais do aeroporto. Os passageiros foram recebidos pelo Embaixador soviético, o Vice-Ministro do Exterior irlandês e seis limusines. O Ministro do Exterior soviético Rykov e seus assessores embarcaram nas limusines, com as cortinas internas fechadas, e deixaram a base aérea.

     Às margens do Rio Boyne, num cenário de uma beleza natural excepcional, não muito longe da cidade-mercado de Slane-no-Meath fica o Castelo de Slane, lar ancestral da família Conyngham, Condes de Mount Charles. O jovem conde fora discretamente convidado pelo Governo irlandês a aceitar uma semana de férias num luxuoso hotel no oeste, com sua linda condessa, emprestando o castelo por alguns dias. Ele concordara. O restaurante anexo ao castelo fora fechado por alguns dias, para reformas, todos os empregados recebendo uma semana de licença. Os fornecedores oficiais do governo foram convocados para providenciar tudo o que era necessário e a polícia irlandesa, à paisana, discretamente ocupou todos os pontos em torno do castelo. Depois que os dois grupos de limusines entraram na propriedade, os portões principais foram fechados. Se os habitantes locais notaram alguma coisa, foram corteses o bastante para não fazer qualquer menção.

     No salão de jantar particular, em estilo georgiano, diante da lareira de mármore, os dois estadistas se encontraram para um reforçado café da manhã.

     — Dmitri! É um prazer vê-lo novamente! — disse David Lawrence, estendendo a mão.

     Rykov apertou-a calorosamente. Olhou ao redor, para os presentes de prata de George IV e para os retratos dos Conynghams nas paredes, comentando:

     — Então é assim que os capitalistas burgueses decadentes vivem...

     Lawrence não pôde conter uma risada.

     — Eu gostaria que fosse, Dmitri, eu gostaria muito que fosse...

     Às 11 horas da manhã, cercados por seus assessores, na magnífica biblioteca circular em estilo gótico, os dois homens se sentaram para iniciar as negociações. Agora, já não havia margem para gracejos.

     — Sr. Ministro do Exterior — disse Lawrence — parece que ambos estamos com problemas. O nosso envolve a continuação da corrida armamentista entre nossas duas nações, que nada parece ser capaz de deter ou sequer atenuar, o que nos preocupa profundamente. O de vocês parece estar relacionado com a próxima colheita de cereais da União Soviética. Espero que possamos encontrar meios de atenuar os problemas mútuos.

     — É o que também espero, Sr. Secretário de Estado — disse Rykov, cautelosamente. — O que têm em mente?

    

     Há apenas um vôo direto por semana entre Atenas e Istambul, de conexão na terça-feira da Sabena, partindo do Aeroporto Hellinikon, de Atenas, às 14 horas e pousando em Istambul às 16:45. Na terça-feira, 28 de setembro, Miroslav Kaminsky estava nesse vôo com instruções de providenciar para Andrew Drake um carregamento de casacos de pele de carneiro e de camurça para serem negociados em Odessa.

     Nessa mesma tarde, o Secretário de Estado Lawrence apresentou seu relatório ao comitê especial do Conselho de Segurança Nacional, no Gabinete Oval.

     — Sr. Presidente, senhores, acho que conseguimos. Isto é, desde que Maxim Rudin possa manter o controle sobre o Politburo e garantir a aprovação do acordo. A proposta é que tanto nós como os soviéticos enviemos duas delegações para o reinicio da conferência sobre a limitação de armas estratégicas. O local sugerido é novamente a Irlanda. O Governo irlandês já concordou e vai providenciar um salão de conferências apropriado, assim como as acomodações necessárias, no momento em que nós e os soviéticos dermos assentimento.

     “As delegações irão discutir uma ampla gama de limitações de armamentos. Isso é o mais importante. Consegui arrancar de Dmitri Rykov a concessão de que o âmbito das conversações não deve necessariamente excluir as armas termonucleares, armas estratégicas, espaço interior, inspeção internacional, armas nucleares táticas, armas convencionais e níveis de efetivos ou a ruptura de contato de forças ao longo da linha da Cortina de Ferro.

     Houve um murmúrio de aprovação e surpresa dos outros sete homens presentes. Nenhuma conferência americano-soviética sobre armamentos anterior jamais tivera termos de referência tão amplos. Se em todas as áreas houvesse um avanço genuíno em direção a uma détente controlada, poderia resultar num tratado de paz.

     — Essas conversações serão supostamente tudo o que a conferência tratará, pelo que possa interessar ao resto do mundo — acrescentou o Secretário Lawrence. — Evidentemente, serão distribuídos os necessários boletins para a imprensa. Longe da atenção pública, as outras duas delegações, formadas por técnicos, irão negociar a venda pelos Estados Unidos aos soviéticos, e custos financeiros a serem ainda definidos, mas provavelmente inferiores aos preços internacionais, de até cinqüenta e cinco milhões de toneladas de cereais, tecnologia de produtos de consumo, computadores e tecnologia de extração de petróleo.

     “Em todos os estágios, haverá uma ligação permanente entre os negociadores da conferência pública e da conferência particular, nos dois lados. Eles fazem uma concessão sobre o desarmamento, nós fazemos uma concessão nos custos da mercadoria.

     — E qual a data prevista para o início das conferências? — indagou Poklewski.

     — É esse o elemento surpresa — disse Lawrence. — Normalmente os russos gostam de trabalhar lentamente. Agora, porém, parece que estão com pressa. Querem começar dentro de duas semanas,

     — Santo Deus! — exclamou o Secretário de Defesa, cujo Departamento estava intimamente envolvido nas negociações. — Não nos podemos preparar em apenas duas semanas!

     — Mas temos que estar prontos de qualquer maneira — declarou o Presidente Matthews. — Nunca mais haverá outra oportunidade igual. Além disso, nossa delegação para Salt já está preparada e devidamente instruída. Há meses que está pronta. Temos agora de preparar o pessoal dos Departamentos de Agricultura, Comércio e Tecnologia o mais depressa possível. Temos de formar a delegação que poderá conduzir as negociações no outro lado do acordo, cuidando da parte de comércio e tecnologia. Senhores, providenciem por favor tudo o que for necessário. Imediatamente.

    

     Não foi assim que Maxim Rudin apresentou a questão ao Politburo no dia seguinte. Sentado em sua cadeira na cabeceira da mesa em T, ele disse:

     — Eles morderam a isca. Quando fizeram concessão sobre trigo ou tecnologia numa das salas de conferência, fazemos a concessão mínima absoluta na outra. Vamos conseguir os cereais de que precisamos, Camaradas. Alimentaremos nosso povo, evitando a fome a um custo mínimo. Os americanos, no final das contas, jamais foram capazes de superar os russos nas negociações.

     Houve um murmúrio geral de assentimento.

     — Mas quais serão as concessões? — indagou Vishnayev, rispidamente. — O quanto todas essas concessões vão atrasar a União Soviética e o triunfo mundial do marxismo-leninismo?

     — Quanto a sua primeira pergunta, não poderemos saber enquanto não negociarmos — respondeu Rykov. — Quanto à segunda a resposta é de que será consideravelmente menos do que uma fome disseminada nos iria atrasar.

     — Há duas questões que devem ser esclarecidas antes de decidirmos se devemos ou não aceitar as negociações — interveio Rudin. — Uma é que o Politburo será mantido plenamente informado em todos os estágios das negociações. Assim, se chegar o momento em que o preço for alto demais, este Conselho terá o direito de abortar a conferência e me submeterei à posição do Camarada Vishnayev e seu plano para a guerra na primavera. A segunda é de que nenhuma concessão que possamos fazer para obter o trigo precisa necessariamente ser respeitada depois que as entregas forem efetuadas.

     Vários sorrisos se esboçaram em torno da mesa. Esse era o tipo de política realista a que o Politburo estava muito mais acostumado, como haviam demonstrado ao transformarem o antigo acordo de Helsinque sobre a détente numa verdadeira farsa.

     — Está certo — disse Vishnayev, finalmente. — Mas acho que devemos fixar os parâmetros exatos da autoridade de nossos representantes nas negociações para aceitar concessões.

     — Não tenho a menor objeção a isso — disse Rudin.

     A reunião passou a discutir esse problema por mais uma hora e meia. Rudin conseguiu aprovação para sua proposta pela mesma margem anterior, sete votos contra seis.

    

     No último dia do mês, Andrew. Drake estava parado à sombra de um guindaste, observando o Sanadria a efetuar os últimos preparativos para zarpar. No convés, podiam-se ver diversos Vacuvators para Odessa, poderosas máquinas de sucção, como aspiradores de pó, para sugar o trigo do porão de um navio e levá-lo diretamente para um silo. A União Soviética deveria estar querendo melhorar em muito sua capacidade de descarregar cereais, pensou Drake, embora não soubesse por quê. Por baixo do convés corrido, havia tratores de forcado para Istambul, equipamentos agrícolas para Varna, na Bulgária, parte de uma carga de transbordo que viera da América até o Pireu.

     Ele ficou observando o agente do porto deixar o navio, apertando mais uma vez a mão do Comandante Thanos. Depois que o agente desembarcou, Thanos correu os olhos pelo cais e avistou Drake encaminhando-se apressadamente para o navio, uma mochila pendurada num ombro e a outra mão segurando uma valise.

     Na cabine do comandante, Drake entregou-lhe seu passaporte e os atestados de vacina. Assinou a convenção do navio e tornou-se um membro da tripulação. Enquanto Drake estava nos alojamentos lá embaixo, guardando suas coisas, o Comandante Thanos registrou seu nome na lista dos tripulantes, pouco antes de o agente de reação grego subir a bordo. Os dois homens tomaram o drinque habitual.

     — Há um homem extra na tripulação — comentou Thanos, em tom de indiferença.

     O agente de imigração examinou a lista de tripulantes e a pilha de documentos e passaportes a sua frente. Quase todos os homens eram gregos; apenas seis tripulantes não o eram. O passaporte britânico de Drake sobressaía. O agente de imigração pegou-o e folheou-o rapidamente. Uma nota de 50 dólares caiu do passaporte.

     — É um desempregado — comentou Thanos. — Está tentando chegar à Turquia e de lá seguir para o Oriente. Achei que ficaria contente em se livrar dele.

     Cinco minutos depois, os documentos de identidade dos tripulantes já estavam de volta a sua caixa de madeira e os documentos do navio devidamente carimbados para que pudesse deixar o porto. A luz do dia já se estava desvanecendo quando as amarras foram recolhidas e o Sanadria afastou-se lentamente do atracadouro, seguindo para o sul, antes de virar para nordeste, na direção dos Dardanelos.

     Lá embaixo, a tripulação encontrava-se reunida no sujo refeitório. Um dos homens estava rezando para que ninguém decidisse dar uma olhada por baixo de seu colchão, onde estava guardado o rifle Sako Hornet. Em Moscou, seu alvo estava sentado diante de um excelente jantar.

    

     Enquanto altas autoridades se lançavam a um frenesi de atividade em Washington e Moscou, o velho Sanadria avançava impassivelmente para nordeste, na direção dos Dardanelos e Istambul.

     No segundo dia, Drake contemplou as colinas áridas de Gallipoli se abrirem e o mar dividir a Turquia Européia e a Turquia Asiática, alargando-se no Mar de Marmara. O Comandante Thanos, que conhecia aquelas águas como o quintal dos fundos de sua casa em Chios, estava pessoalmente pilotando o navio.

     Dois cruzadores soviéticos passaram pelo Sanadria, seguindo de Sebastopol para o Mediterrâneo, a fim de acompanhar as manobras da Sexta Esquadra dos Estados Unidos. Pouco depois do pôr-do-sol, avistaram as luzes faiscantes de Istambul e da Ponte Galatea, atravessando o Bósforo. O Sanadria lançou âncora para passar a noite e na manhã seguinte entrou no porto de Istambul.

     Enquanto os tratores eram desembarcados, Andrew Drake pegou seu passaporte com o Comandante Thanos e deixou o navio. Encontrou-se com Miroslav Kaminsky num local previamente combinado no centro de Istambul e pegou o fardo grande de casacos de pele de carneiro e camurça. Ao voltar para o navio, o Comandante Thanos franziu as sobrancelhas, indagando:

     — Tudo isso é para esquentar sua namorada? Drake sacudiu a cabeça e sorriu.

     — A tripulação me disse que metade dos^ marinheiros sempre desembarca com essas coisas em Odessa. Achei que era a melhor maneira de levar a minha carga secreta sem chamar atenção.

     O comandante grego não ficou surpreso. Sabia que pelo menos meia dúzia de seus próprios marinheiros levaria bagagens assim para bordo, a fim de vender os casacos em moda e jeans por cinco vezes o que haviam pago aos traficantes do mercado negro de Odessa.

     Trinta horas depois, o Sanadria deixou o Bósforo, avançando lentamente para o norte, a caminho da Bulgária, levando sua carga de equipamentos agrícolas.

    

     A oeste de Dublin fica o Condado de Kildare, onde está o grande centro de cavalos de corridas da Irlanda, em Curragh, e a sonolenta cidade-mercado de Celbndge. Nos arredores desta fica a maior e melhor mansão da região, Castletown House. Com a concordância dos Embaixadores americanos e soviético, o Governo irlandês propusera Castletown como o local para a conferência de desarmamento.

     Durante uma semana, equipes de pintores, rebocadores, eletricistas e jardineiros trabalharam ativamente, dia e noite, dando os últimos retoques aos dois salões em que seriam realizadas as conferências paralelas. Ninguém sabia para que seria a segunda conferência.

     Somente a fachada da casa principal da propriedade tem mais de 40 metros de largura. Nas duas extremidades, corredores cobertos levam a outras alas. Uma dessas alas laterais contém as cozinhas e os aposentos de empregados e seria ali que a força de segurança americana ficaria instalada. A outra ala continha os estábulos, com aposentos por cima; a força de segurança soviética ficaria ali.

     A casa principal serviria tanto de centro de conferências como de residência para os diplomatas subalternos, que ficariam nos numerosos quartos e suítes do andar superior. Somente os dois principais negociadores e seus assessores imediatos voltariam todas as noites para as respectivas embaixadas, que dispunham de todas as instalações necessárias para a troca de mensagens em código para Washington e Moscou.

     Desta vez, não haveria sigilo no encontro, a não ser na questão da conferência secundária. Na presença da imprensa mundial, os dois Ministros do Exterior, David Lawrence e Dmitri Rykov, chegaram a Dublin, sendo recebidos pelo Presidente e pelo Primeiro-Ministro da Irlanda. Depois do aperto de mão e do brinde habituais, transmitidos pela televisão para o mundo inteiro, eles partiram em comboios separados para Castletown.

     Ao meio-dia de 8 de outubro, os dois estadistas e seus 20 assessores entraram no imenso Salão Maior, decorado com base no azul, tendo mais de 40 metros de comprimento. Quase todo o centro do salão estava ocupado pela reluzente mesa em estilo georgiano, ao longo da qual se sentaram os membros das duas delegações. Flanqueando cada Ministro, havia especialistas em defesa, sistemas de armamentos, tecnologia nuclear, espaço interior e guerra blindada.

     Os dois estadistas sabiam que a presença deles era apenas formal, para a abertura da conferência. Depois dessa solenidade e da definição da agenda, ambos voltariam a seus países, deixando as conversações nas mãos dos líderes das respectivas delegações, Professor Ivan I. Sokolov, pelos soviéticos, e o antigo Secretário-Assistente da Defesa, Edwin J. Campbell, pelos americanos.

     Os restantes aposentos do andar foram reservados para estenógrafos, datilógrafos e pesquisadores.

     Um andar abaixo, ao nível do chão, no grande salão de jantar de Castletown, com as cortinas fechadas para impedir a entrada do sol de outono que batia sobre a fachada sudeste da mansão, os membros da conferência secundária ocuparam calmamente seus lugares. Eram principalmente técnicos, especialistas em cereais, petróleo, computadores e planejamento industrial.

     Lá em cima, Dmitri Rykov e David Lawrence fizeram curtos discursos de boas-vindas à delegação oposta e manifestaram sua esperança e confiança de que a conferência conseguiria atenuar os problemas de um mundo sitiado e amedrontado. Depois, a conferência foi suspensa para o almoço.

     Depois do almoço, o Professor Sokolov teve uma reunião particular com Rykov, antes da partida do Ministro do Exterior para Moscou.

     — Conhece a nossa posição, Camarada Professor — disse Rykov. — Para ser franco, não é das melhores. Os americanos vão querer tudo o que puderem conseguir. Seu trabalho é lutar a cada passo para reduzir nossas concessões. Mas precisamos obter os cereais de qualquer maneira. Não obstante, todas as concessões sobre níveis de armamentos e posições de tropas na Europa Oriental devem ser encaminhadas a Moscou, antes de qualquer decisão. O Politburo insiste em dar a palavra final na aprovação ou rejeição em todas as áreas mais sensíveis.

     Ele não explicou que as áreas sensíveis eram aquelas que poderiam impedir um futuro ataque soviético contra a Europa Ocidental ou que a carreira política de Maxim Rudin estava suspensa por um fio.

     Em outra sala, no lado oposto de Castletown, a qual também fora examinada pelos técnicos à procura de possíveis aparelhos de escuta, como a de Rykov, David Lawrence estava reunido com Edwin Campbell.

     — O caso é todo seu, Ed. Desta vez, não vai ser como em Genebra. Os problemas soviéticos não vão permitir protelações intermináveis, adiamentos e respostas de Moscou por semanas a fio. Calculo que eles terão de chegar a um acordo conosco dentro de seis meses, no máximo. Ou isso ou não conseguem os cereais que estão desesperadamente precisando.

     “No outro lado, Sokolov vai lutar passo a passo do caminho. Sabemos perfeitamente que cada concessão sobre armamentos terá de ser encaminhada a Moscou para aprovação. Mas Moscou terá de decidir rapidamente, de um jeito ou de outro, para que o tempo não se escoe antes de se chegar a uma solução.

     “Só mais uma coisa. Sabemos que Maxim Rudin não pode ser pressionado excessivamente. Se isso acontecer, ele pode cair. Mas se não conseguir o trigo, ele pode também cair. O jeito é encontrar uma posição de equilíbrio, obtendo o máximo de concessões sem provocar uma revolta no Politburo.

     Campbell tirou os óculos e apertou a ponta do nariz. Passara quatro anos viajando entre Washington e Genebra, nas conversações SALT, malogradas até aquele momento, e por isso conhecia bem todos os problemas de negociar com os russos.

     — Dito assim, David, parece muito fácil. Mas sabe muito bem como os russos se empenham em não deixar transparecer sua verdadeira posição. Seria da maior importância saber até onde eles podem ser pressionados e onde começa a linha que não devemos transpor.

     David Lawrence abriu a pasta e tirou um maço de papéis. Entregou a Campbell.

     — O que é isso? — indagou Campbell. Lawrence escolheu suas palavras cuidadosamente:

     — Há onze dias, em Moscou, o Politburo autorizou Maxim Rudin e Dmitri Rykov a iniciarem as negociações. Mas apenas por um voto de diferença, sete contra seis. Há uma facção dissidente no Politburo que deseja fazer fracassar as conversações e derrubar Rudin. Depois da aprovação, o Politburo fixou os parâmetros exatos do que o Professor Sokolov pode ou não aceitar, o que Rudin deve ou não aceitar, o que Rudin deve ou não conceder. Se formos além desses parâmetros, Rudin poderia ser derrubado. E se isso acontecesse, teríamos pela frente problemas terríveis.

     — E o que são estes documentos? — indagou Campbell, segurando o maço de papéis.

     — Vieram de Londres ontem à noite — disse Lawrence. — Aí está a transcrição literal da reunião do Politburo.

     Campbell ficou totalmente aturdido e balbuciou:

     — Santo Deus! Podemos ditar nossos termos?

     — Não é bem assim. Podemos exigir o máximo que a facção moderada do Politburo tem condições de conceder. Se insistirmos em mais, as conseqüências poderão ser desastrosas.

    

     A visita da Primeira-Ministra britânica e de seu Secretário do Exterior a Washington, dois dias depois, foi descrita pela imprensa como sendo informal. Ostensivamente, a primeira mulher a se tornar Primeira-Ministra da Inglaterra deveria discursar numa reunião de representantes de todos os países de língua inglesa e aproveitar a oportunidade para fazer uma visita de cortesia ao Presidente dos Estados Unidos.

     Mas o verdadeiro objetivo da visita foi uma reunião realizada no Gabinete Oval, em que o Presidente Bill Matthews, ladeado por seu assessor para questões de segurança, Stanislaw Poklewski, e pelo Secretário de Estado, David Lawrence, fez um relato completo para os visitantes britânicos do esperançoso início da conferência de Castletown. A agenda, disse o Presidente Matthews, havia sido acertada com uma rapidez excepcional. Pelo menos três áreas principais para discussão futura haviam sido definidas entre as duas delegações, com um mínimo das habituais objeções soviéticas a cada ponto e vírgula.

     O Presidente Matthews manifestou a esperança de que, depois de três anos de frustrações, pudesse sair de Castletown um acordo amplo de limitação de níveis de armamentos e presença de tropas ao longo da Cortina de Ferro, do Mar Báltico ao Mar Egeu. Em seguida, acrescentou:

     — Consideramos que é vital, Madame, que as informações internas que temos recebido, sem as quais a conferência poderia fracassar, continuem a chegar.

    — Está se referindo a Nightingale — disse a Primeira-Ministra, firmemente.

     — Isso mesmo, Madame. Consideramos indispensável que Nightingale continue a operar.

     — Compreendo perfeitamente sua posição, Sr. Presidente — respondeu ela, calmamente. — Mas creio que os níveis de risco de tal operação são bastante elevados. Não determino a Sir Nigel Irvine o que deve ou não fazer na direção de seu serviço. Tenho um profundo respeito pelo julgamento dele para fazer isso. Mas farei tudo o que for possível.

     Foi só depois da cerimônia tradicional diante da fachada principal da Casa Branca, com o Presidente Matthews acompanhando os visitantes britânicos a suas limusines e sorrindo para as câmaras, que Stanislaw Poklewski pôde dar vazão a seus sentimentos.

     — Não há risco algum para qualquer agente russo no mundo que se compare com o sucesso ou fracasso das conversações de Castletown.

     — Concordo plenamente — disse Bill Matthews. — Mas Bob Benson afirma que o risco está na denúncia de Nightingale a esta altura dos acontecimentos. Se isso ocorresse e ele fosse capturado, o Politburo saberia o que nos transmitiu. E os russos iriam imediatamente fechar-se em Castletown. Assim, Nightingale deve ser silenciado ou tirado do país, mas só depois de um tratado ter sido elaborado e assinado. O que ainda pode demorar seis meses.

    

     Nesse mesmo dia, enquanto o Sol ainda brilhava sobre Washington, mas já se estava pondo sobre o porto de Odessa, o Sanadria lançou âncora à entrada do porto. Depois que cessou o clangor do cabo da âncora, o silêncio caiu sobre o velho cargueiro, quebrado apenas pelo zumbido baixo dos geradores na casa de máquinas e no silvo do vapor escapando. Andrew Drake debruçou-se na amurada do castelo de proa, observando as luzes do porto e da cidade se acenderem.

     A oeste do navio, na extremidade norte do porto, ficavam as instalações para descarga de petróleo e a refinaria, por detrás de uma cerca de ferro. Ao sul, o porto era limitado por um extenso molhe protetor. Cerca de 15 quilômetros além do molhe o Rio Dniester se despejava no mar, correndo através da região pantanosa na qual cinco meses antes, Miroslav Kaminsky roubara um esquife e fizera seu esforço desesperado para conquistar a liberdade. Agora, graças a ele, Andrew Drake, aliás Andriy Drach, podia voltar à terra de seus ancestrais. E desta vez vinha armado.

     Naquela noite, o Comandante Thanos foi informado de que seu navio entraria no porto e seria atracado na manhã seguinte. Autoridades sanitárias do porto e inspetores alfandegários visitaram o Sanadria, mas passaram uma hora trancados na cabine do Comandante Thanos, provando o uísque escocês de primeira categoria que era guardado para essas ocasiões especiais. Observando a lancha se afastar do navio, Drake perguntou-se se Thanos não o teria traído. Teria sido bastante fácil. Drake seria preso ao desembarcar, e Thanos partiria com os 5.000 dólares dele.

     Tudo dependia, pensou Drake, de Thanos ter ou não aceitado sua história de que estava levando dinheiro para a noiva poder deixar a União Soviética. Se tivesse aceitado, não haveria motivo para traí-lo, pois o crime a ser cometido era bastante rotineiro. Afinal, os próprios marinheiros de Thanos levavam artigos de contrabando para Odessa em cada viagem, e notas de dólar não passavam, no fundo, de outra forma de contrabando. E se o rifle e as pistolas tivessem sido descobertos, o mais simples teria sido jogar tudo no mar e se livrar de Drake assim que o navio voltasse para o Pireu. Mesmo assim, Drake não conseguiu comer nem dormir naquela noite.

     O piloto subiu a bordo pouco depois do amanhecer. O Sanadria içou âncora, foi preso a um rebocador e avançou lentamente entre os quebra-mares, a caminho do atracadouro. Drake fora informado de que muitas vezes havia longas esperas para um navio atracar naquele que era o mais movimentado de todos os portos meridionais da União Soviética. A presteza agora significava que eles estavam precisando desesperadamente dos Vacuvators. Drake não sabia o quão desesperada era tal necessidade. Assim que os guindastes do porto começaram a descarregar o navio, os tripulantes receberam permissão para desembarcar.

     Durante a viagem, Drake fizera amizade com o carpinteiro do Sanadria, um marinheiro grego de meia-idade que estivera em Liverpool e estava sempre ansioso em mostrar as 20 palavras de inglês que aprendera. Repetira-as invariavelmente, durante a viagem, sempre que se encontrava com Drake, experimentando a maior satisfação nisso. Drake sempre assentia, em encorajamento e aprovação. Explicara a Constantine, em inglês e por sinais, que tinha uma namorada em Odessa e estava lhe levando presentes. Constantine aprovara. Juntamente com uma dúzia de outros tripulantes, eles desceram pela prancha de desembarque e encaminharam-se para os portões do cais. Drake estava usando um dos seus melhores casacos de camurça, embora o dia estivesse relativamente quente. Constantine levava uma mochila com duas garrafas de uísque escocês.

     Toda a área do porto de Odessa é isolada do resto da cidade e de seus habitantes por uma cerca alta, com arame farpado em cima e holofotes para iluminá-la à noite. Os portões principais do cais normalmente ficam abertos durante o dia, a entrada sendo bloqueada apenas por uma balisa levadiça, pintada em listras vermelhas e brancas. É por ali que passam os caminhões e outros veículos, sob a vigilância de um inspetor alfandegário e dois milicianos armados.

     Ao lado desses portões, há um galpão estreito e comprido, com uma porta na área do porto e outra fora. Os homens do Sanadria entraram pela primeira porta, com Constantine no comando. Lá dentro, havia um balcão comprido, no qual estava um inspetor alfandegário, com uma mesa de passaportes mais adiante, guarnecida por um agente de imigração e um miliciano. Todos os três pareciam desmazelados e excepcionalmente indiferentes. Constantine aproximou-se do inspetor alfandegário e pôs a mochila em cima do balcão. O inspetor abriu-a e tirou uma garrafa de uísque. Constantine gesticulou que era um presente. O inspetor sacudiu a cabeça amistosamente e colocou a garrafa debaixo do balcão.

     Constantine passou o braço musculoso pelos ombros de Drake e apontou-o, dizendo com um sorriso radiante:

     — Droog.

     O inspetor alfandegário acenou com a cabeça para indicar que havia compreendido que o novato era amigo do carpinteiro grego e deveria ser reconhecido como tal. Drake também sorriu. Deu um passo para trás, contemplando o inspetor como um negociante olha para um freguês. Depois tomou a avançar, tirando o casaco e estendendo-o, indicando que ele e o inspetor alfandegário eram praticamente do mesmo tamanho. O homem não se deu ao trabalho de experimentar; era um casaco de primeira, valia pelo menos um mês de salário. Sorriu em agradecimento, guardou o casaco debaixo do balcão e fez sinal para que todo o grupo seguisse adiante.

     O agente de imigração e o miliciano não demonstraram qualquer surpresa. A segunda garrafa de uísque era para eles. Os tripulantes do Sanadría entregaram seus documentos — no caso de Drake era o passaporte — ao agente de imigração, recebendo em troca um passe de permanência em terra, tirados da sacola de couro que estava pendurada no ombro do russo. Poucos minutos depois, os homens do Sanadría saíram do galpão para o Sol forte lá fora

     O encontro de Drake era num pequeno café na área do porto, de ruas antigas, calçadas com pedras, não muito longe do monumento a Pushkin, na área em que as ruas sobem das docas para a parte principal da cidade. Ele encontrou o café depois de 30 minutos a vaguear pelas ruas, tendo-se separado do grupo do Sanadría sob a alegação de que iria ver sua namorada imaginária. Constantine não fez qualquer objeção. Tinha de fazer contato com seus amigos do mercado negro, a fim de entregar a mochila cheia de jeans.

     Foi Lev Mishkin quem apareceu no café, pouco depois do meio-dia. Ele estava bastante cauteloso e sentou-se sozinho, sem deixar transparecer qualquer sinal de reconhecimento. Depois de tomar seu café, levantou-se e saiu. Drake foi atrás. Somente quando chegaram ao Bulevar Primorsky, bastante largo, à beira do mar, é que ele deixou que Drake o alcançasse. E foram falando enquanto andavam.

     Drake combinou que faria a primeira viagem com as armas no início daquela noite, levando as pistolas na cintura e o intensificador de imagem numa sacola de lona, com duas garrafas de uísque por cima. Muitos tripulantes de navios ocidentais costumavam desembarcar àquela hora, para uma noitada nos bares da área do porto. Ele estaria usando um casaco de pele de carneiro para esconder as armas na cintura e o ar frio da noite justificaria que o mantivesse todo abotoado. Mishkin e seu amigo Lazareff iriam esperar Drake perto do monumento a Pushkin, num local escuro, a fim de receberem o carregamento.

     Pouco depois das oito horas, Drake deixou o navio com o primeiro carregamento. Cumprimentou jovialmente o inspetor alfandegário, que lhe fez sinal para que passasse e gritou alguma coisa para seu colega na mesa de passaporte. O agente de imigração entregou-lhe um passe, em troca do seu passaporte, sacudindo a cabeça na direção da porta aberta para a cidade de Odessa. Drake havia passado sem qualquer problema. Estava quase ao pé do monumento a Pushkin, vendo a cabeça do escritor erguida contra as estrelas lá em cima, quando dois vultos emergiram da escuridão e se juntaram a ele, entre os plátanos que povoam todos os espaços abertos de Odessa.

     — Algum problema? — perguntou Lazareff.

     — Nenhum — respondeu Drake.

     — Vamos acabar logo com isso — disse Mishkin.

     Os dois estavam carregando as pastas que todos os homens parecem usar na União Soviética. Só que essas pastas não servem para carregar documentos, sendo a versão masculina das sacolas de corda que as mulheres sempre levam e que são conhecidas como “sacolas do talvez”. O nome deriva da esperança de cada soviético de encontrar à venda um artigo de consumo que valha a pena comprar, conseguindo adquiri-lo antes de ser vendido ou se formar uma fila. Mishkin pegou o intensificador de imagem e meteu-o em sua pasta, que era maior. Lazareff pegou as duas pistolas, os pentes de munição sobressalentes e a caixa de balas do rifle, guardando tudo em sua pasta.

     — Vamos partir amanhã, ao final da tarde — informou Drake. — Terei de trazer o rifle pela manhã.

     — Mas que diabo! — exclamou Mishkin. — Não vai ser nada fácil durante o dia. David, você conhece melhor a área do porto. Qual é o melhor lugar?

     Lazareff pensou por um momento, antes de responder:

     — Há uma viela apropriada, entre duas oficinas de manutenção de guindastes.

     Ele descreveu as oficinas, que não ficavam muito longe das docas.

     — É uma viela curta e estreita. Um lado dá para o mar e o outro para um muro. Entre na viela pelo lado do mar às onze horas em ponto. Entrarei pelo outro lado. Se houver mais alguém na viela, continue andando, dê a volta ao quarteirão e tente novamente. Se a viela estiver vazia, faremos a entrega.

     — Como estará levando a carga? — perguntou Mishkin.

     — Envolta em casacos de pele de carneiro, dentro de uma mochila, com cerca de um metro de comprimento.

     — Vamo-nos separar — disse Lazareff, bruscamente. — Alguém está se aproximando.

     Ao voltar para o Sanadría, Drake descobriu que houvera uma mudança de turno e era outro o inspetor alfandegário que estava de serviço. Foi revistado, mas estava limpo. Na manhã seguinte pediu ao Comandante Thanos que lhe desse uma licença extra, pois desejava passar o máximo de tempo possível com sua noiva. Thanos liberou-o das obrigações a bordo e deixou-o desembarcar. No galpão, houve um momento terrível, quando o inspetor alfandegário pediu a Drake que mostrasse o que tinha nos bolsos. Pondo a mochila no chão, ele obedeceu, exibindo quatro notas de 10 dólares. O homem parecia estar com um péssimo humor naquele dia. Sacudiu um dedo em censura a Drake e confiscou os dólares. Mas ignorou a mochila. Ao que parecia, casacos de pele de carneiro eram um contrabando respeitável, o que já não acontecia com dólares.

     A viela estava vazia, exceto por Mishkin e Lazareff, avançando por um lado, e Drake, vindo pelo outro. Mishkin estava olhando além de Drake, na direção da entrada da viela que dava para o mar. Ao ficarem na mesma linha, ele disse:

     — Agora!

     Rapidamente, Drake passou a mochila para o ombro de Lazareff. E seguiu adiante, dizendo baixinho:

     — Boa sorte. Encontro-os em Israel.

    

   Sir Nigel Irvine era sócio de três clubes na zona oeste de Londres, mas escolheu o Brook's para seu jantar com Barry Ferndale e Adam Munro. Por tradição, os negócios sérios da noite esperaram até que terminassem o jantar. Os três retiraram-se para uma sala de estar, onde foram servidos o café, vinho do Porto e charutos.

     Sir Nigel pedira ao mordomo do clube que lhe reservasse seu canto predileto, perto das janelas que davam para a Rua St. James. Quando os três chegaram, quatro confortáveis poltronas de couro estavam devidamente à espera. Munro escolheu conhaque e água, Ferndale e Sir Nigel pediram uma garrafa do vinho do Porto do clube, ficando tudo na mesinha entre as poltronas. Houve silêncio enquanto os charutos eram acesos e o café tomado. Das paredes, os Diletantes, um grupo de homens do século XVIII, os contemplavam.

     — Agora, meu caro Adam, qual é o problema? — indagou Sir Nigel, finalmente.

     Munro olhou para uma mesa próxima, onde dois altos servidores civis conversavam. Para ouvidos atentos, eles estavam próximos o bastante para que os escutassem. Sir Nigel percebeu o olhar e disse calmamente:

     — A menos que gritemos, ninguém nos vai ouvir. Cavalheiros não escutam as conversas de outros cavalheiros.

     Munro pensou por um momento e comentou:

     — Nós escutamos.

     — Isso é diferente — disse Ferndale. — É o nosso trabalho.

     — Está certo — murmurou Munro. — O problema é que estou querendo tirar Nightingale de lá.

     Sir Nigel examinou a ponta do charuto.

     — Entendo... Alguma razão em particular?

     — Em parte é a tensão — explicou Munro. — A gravação original em julho teve de ser roubada e substituída por uma fita virgem. Isso pode ser descoberto e está afligindo a mente de Nightingale. Em segundo lugar, há a possibilidade de descoberta. Cada retirada das minutas do Politburo aumena a possibilidade. Sabemos agora como Maxim Rudin está lutando por sua vida política e pela sucessão, quando ele se for. Se Nightingale for descuidado ou tiver um pouco de azar, pode ser apanhado.

     — Adam, esse é um dos riscos da defecção — disse Ferndale. — É inerente ao trabalho. Penkovsky foi apanhado.

     — É justamente esse o ponto. Penkovsky já tinha fornecido tudo o que podia. A crise dos mísseis cubanos estava terminada. Os russos nada mais podiam fazer para reparar os danos que Penkovsky havia causado.

     — Eu pensaria que essa é uma boa razão para manter Nightingale no lugar — comentou Sir Nigel. — Ele ainda pode fazer muitas coisas para nós.

     — O contrário também pode acontecer — disse Munro. — Se Nightingale sair, o Kremlin jamais poderá saber com certeza o que foi transmitido. Se ele for apanhado, será obrigado a falar. O que pode falar agora será suficiente para derrubar Rudin. E acho que este é o momento em que é melhor para o Ocidente que Rudin permaneça no poder.

     — Tem razão — concordou Sir Nigel. — Aceito seu argumento. Mas é uma questão de equilíbrio de chances. Se tirarmos Nightingale, o KGB irá investigar por muitos meses antes. A fita desaparecida presumivelmente será descoberta e a suposição será de que mais informações foram passadas antes de ele partir. Se ele for apanhado, a situação será ainda pior. Certamente vão arrancar-lhe um registro completo de tudo o que foi transmitido. Rudin pode perfeitamente cair em conseqüência. Mesmo que Vishnayev do mesmo modo caísse em desgraça, o que também é possível, as conversações de Castletown iriam fracassar. A terceira opção é mantermos Nightingale no lugar até que a conferência de Castletown tenha terminado e o acordo de limitação de armamentos seja assinado. A esta altura, a facção a favor da guerra no Politburo já não poderia fazer mais nada. É realmente uma decisão difícil.

     — Eu gostaria de tirá-lo de lá — insistiu Munro. — Se isso não for possível, vamos deixá-lo quieto, interrompendo suas transmissões.

     Sir Nigel refletiu sobre os argumentos alternativos.

     — Passei a tarde com a Primeira-Ministra — disse ele, finalmente. — Ela me fez um pedido, um pedido bem forte, em seu nome e do Presidente dos Estados Unidos. Não posso neste momento rejeitar esse pedido, a menos que fique comprovado que Nightingale está prestes a ser descoberto. Os americanos consideram vital para o sucesso de seus esforços em obter um tratado amplo em Castletown que Nightingale continue a manter-nos informados da posição soviética em relação às negociações. Pelo menos até o Ano Novo.

     “Assim, vou explicar o que farei. Barry, prepare um plano para trazer Nightingale. Algo que possa ser ativado a curto prazo. Adam, se o pavio começar a arder atrás de Nightingale, nós o traremos para cá. O mais depressa possível. No momento, porém, as conversações de Castletown e a frustração da facção de Vishnayev devem ter prioridade. Mais três ou quatro transmissões e as conversações de Castletown estarão em seus estágios finais. Os soviéticos não podem retardar o acordo do trigo além de fevereiro ou março, no máximo. Depois disso, Adam, Nightingale pode vir para o Ocidente. E tenho certeza de que os americanos demonstrarão sua gratidão à maneira habitual.

    

     O jantar na suíte particular de Maxim Rudin, no santuário interior do Kremlin, foi muito mais privado do que a conversa no clube Brook's, em Londres. Nenhuma confiança na integridade de cavalheiros em relação às conversas de outros cavalheiros jamais se imiscuiu na cautela intensa dos homens do Kremlin. Não havia mais ninguém perto o bastante para poder ouvir, a não ser o silencioso Misha, quando Rudin ocupou sua cadeira predileta no gabinete e fez sinal para que Ivanenko e Petrov se sentassem.

     — O que achou da reunião de hoje? — perguntou Rudin a Petrov, sem qualquer preâmbulo.

     O controlador das Organizações do Partido deu de ombros.

     — Nós nos saímos bem. O relatório de Rykov foi magistral. Mas ainda teremos de fazer vastas concessões, se quisermos conseguir o trigo. E Vishnayev ainda está querendo sua guerra.

     Rudin grunhiu, dizendo bruscamente:

     — Vishnayev está querendo é o meu cargo. É a sua grande ambição. Kerensky é que está querendo a guerra. Quer usar suas Forças Armadas antes de ficar velho demais.

     — O que, no final das contas, é a mesma coisa — disse Ivanenko. — Se Vishnayev conseguir derrubá-lo, ficará tão devedor de Kerensky que não poderá nem vai querer particularmente se opor à receita militar para a solução de todos os problemas da União Soviética. Ele vai deixar que Kerensky desfeche sua guerra na primavera ou início do verão. Os dois irão devastar tudo que levou duas gerações para se conquistar.

     — Quais são as notícias que recebeu ontem? — perguntou Rudin.

     Ele sabia que Ivanenko convocara dois dos seus principais homens do Terceiro Mundo para consultas pessoais. O primeiro era o controlador de todas as operações subversivas na África e o outro, o seu equivalente no Oriente Médio.

     — As perspectivas são otimistas. Os capitalistas impuseram por tanto tempo suas políticas desastrosas à África que agora a posição deles é praticamente irrecuperável. Os liberais ainda predominam em Washington e Londres, pelo menos nas questões internacionais. Mas estão tão totalmente absorvidos com a África do Sul que parecem ignorar inteiramente a Nigéria e o Quênia. Ambos estão agora prestes a cair para o nosso lado. Já os franceses no Senegal estão sendo mais difíceis. No Oriente Médio, creio que podemos prever que a Arábia Saudita irá cair em três anos. Eles estão quase que cercados.

     — Previsão de tempo? — disse Rudin.

     — Dentro de alguns anos, por volta de 1990, estaremos efetivamente controlando o petróleo e as rotas marítimas. A campanha de euforia em Washington e Londres está sendo aumentada e apresentando resultados positivos.

     Rudin soprou a fumaça e apagou o cigarro num cinzeiro estendido por Misha.

     — Não vou ver isso acontecer — disse ele. — Mas vocês dois verão. Dentro de uma década, o Ocidente irá morrer de desnutrição, sem que precisemos disparar um único tiro. É por isso mesmo que Vishnayev deve ser detido a qualquer custo, enquanto ainda há tempo.

    

     Quatro quilômetros a sudoeste do Kremlin, numa curva do Rio Moscou e não muito longe do Estádio Lenine, fica o antigo mosteiro de Novodevichi. A entrada principal se situa bem de frente à maior das lojas Beriozka, onde os ricos e privilegiados — ou os estrangeiros — podem comprar produtos de luxo que estão além do alcance do homem comum.

     O terreno do mosteiro contém três lagos e um cemitério. O acesso ao cemitério é permitido aos pedestres. O porteiro raramente se dá ao trabalho de deter os que estão levando flores.

     Adam Munro deixou o carro no estacionamento da Beriozka entre os outros cujas placas revelavam ser dos privilegiados.

     — Onde se esconde uma árvore? — como seu instrutor costumava perguntar. — Numa floresta. E onde se esconde um seixo? Numa praia de cascalho. Deve-se sempre manter a coisa o mais natural possível.

     Munro atravessou a rua e seguiu para o cemitério, levando um ramo de cravos. Encontrou Valentina à espera, ao lado de um dos lagos menores. O final de outubro trouxera os primeiros ventos frios das estepes ao leste e nuvens cinzentas desfilavam rapidamente pelo céu. A superfície do lago estava ondulante, agitada pelo vento.

     — Falei com os homens em Londres — disse ele, gentilmente. — Acham que é arriscado demais neste momento. A resposta deles é de que sua saída agora iria revelar a gravação desaparecida e, em decorrência, o fato de as transcrições terem sido passadas. Estão convencidos de que, se isso acontecesse, o Politburo iria retirar-se das conversações na Irlanda e reverteria ao plano de Vishnayev.

     Valentina estremeceu ligeiramente. Munro não podia saber se era de frio à beira do lago ou de medo do que lhe poderia acontecer. Passou o braço pelos ombros dela, aconchegando-a a si.

     — Talvez estejam certos — disse ela. — Pelo menos o Politburo está agora negociando por alimentos e paz, e não preparando a guerra.

     — Rudin e seu grupo parecem estar sendo sinceros nisso — sugeriu Munro.

     Valentina soltou uma exclamação desdenhosa.

     — Eles são tão ruins quanto os outros. Sem a pressão, não estariam agora negociando.

     — Seja como for, a pressão existe. Os cereais virão. Eles conhecem agora as alternativas. Acho que o mundo finalmente terá o seu tratado de paz.

     — Se isso acontecer, tudo o que fiz terá valido a pena — declarou Valentina. — Não quero que Sacha cresça entre os escombros, como aconteceu comigo. Nem que viva com uma arma na mão. É isso o que os homens do Kremlin estão querendo.

     — Isso não vai acontecer com ele. Pode estar certa, minha querida, que ele crescerá em liberdade, no Ocidente, tendo você como mãe e eu como padrasto. Meus superiores concordaram em tirá-la daqui na primavera.

     Valentina fitou-o com a esperança brilhando nos olhos.

     — Na primavera? Oh, Adam, em que momento da primavera?

     — As conversações na Irlanda não podem prolongar-se indefinidamente. O Kremlin precisa dos cereais até abril, o mais tardar. A esta altura, todos os suprimentos deste ano e mais as reservas já se terão esgotado. Depois que o tratado for assinado, talvez antes mesmo de ser assinado, você e Sasha serão levados para o Ocidente. Enquanto isso, quero que você reduza os riscos que está assumindo. Traga apenas o material mais vital, relativo às conversações de paz em Castletown.

     — Pois eu trouxe algo mais — disse ela, cutucando a sacola no ombro. — É de dez dias atrás. A maior parte é tão técnica que não entendo. Refere-se às reduções aceitáveis de SS-20 móveis.

     Munro assentiu, sombriamente.

     — São foguetes táticos com ogivas nucleares, altamente acurados e altamente móveis, transportados em veículos e estacionados em bosques e sob a cobertura de redes por toda a Europa Oriental.

     Menos de 24 horas depois, a transcrição estava a caminho de Londres.

    

     Três dias antes do final do mês, uma velha senhora estava caminhando pela Rua Sverdlov, no centro de Kiev, em direção do edifício em que morava. Embora tivesse direito a um carro com motorista, nascera e fora criada no campo, de família camponesa. Mesmo com 70 e tantos anos, preferia andar a ir de carro, quando tinha de percorrer pequenas distâncias. Naquela noite, tinha ido visitar uma amiga que morava a dois quarteirões de distância e por isso dispensara o carro. Passava um pouco das 10 horas quando atravessou a rua, diante do seu prédio.

     Não viu o carro, que se aproximava velozmente. Num instante estava no meio da rua, sem ninguém por perto, a não ser dois pedestres a 100 metros de distância, no instante seguinte o carro estava em cima dela, os faróis acesos, os pneus rangendo. Ela ficou paralisada. O motorista pareceu dar uma guinada para cima dela, antes de tentar desviar-se. O pára-lama bateu em seu quadril, jogando-a na sarjeta. O carro não parou, acelerando na direção do Bulevar Kreshchatik, ao final da Sverdlov. Ela ouviu vagamente o barulho de pés correndo em sua direção, de transeuntes se aproximando para socorrê-la.

    

     Naquela noite, Edwin J. Campbell, o principal negociador dos Estados Unidos nas conversações de Castletown, voltou cansado e frustrado para a residência do Embaixador americano, em Phoenix Park. Era uma mansão elegante que a América proporcionava a seu representante em Dublin, plenamente modernizada, com suítes para hóspedes, a melhor das quais estava ocupada por Edwin Camp. bell. Ele ansiava por um banho quente demorado e uma boa noite de repouso.

     Assim que tirou o casaco e respondeu à saudação do anfitrião, um dos mensageiros da embaixada entregou-lhe um grosso envelope pardo. Como resultado, seu sono foi consideravelmente reduzido naquela noite. Mas valeu a pena.

     No dia seguinte, ele ocupou calmamente seu lugar na mesa de conferência em Castletown, olhando impassivelmente para o Professor Ivan I. Sokolov, no outro lado da mesa.

     “Muito bem, Professor”, pensou ele, “sei o que pode aceitar e o que não pode. Portanto, vamos logo começar.”

     Foram necessárias 48 horas para que o delegado soviético concordasse em reduzir pela metade a presença de foguetes nucleares táticos móveis na Europa Oriental. Seis horas depois, no salão de jantar, foi acertado um protocolo pelo qual os Estados Unidos venderiam à União Soviética 200.000.000 de dólares em tecnologia de perfuração e extração de petróleo, a preços abaixo do mercado.

    

     A velha senhora estava inconsciente quando a ambulância levou-a para o hospital-geral de Kiev, o Hospital de Outubro, na Rua Karl Liebknecht, 39. Permaneceu sem sentidos até a manhã seguinte. Quando finalmente pôde revelar quem era, autoridades em pânico rapidamente levaram-na da enfermaria para um quarto particular, que imediatamente se encheu de flores. Naquele mesmo dia, o melhor cirurgião-ortopedista de Kiev operou-a, para consertar o fêmur fraturado.

     Em Moscou, Ivanenko recebeu um telefonema de seu assessor pessoal, escutando atentamente.

     — Informe às autoridades que partirei imediatamente — disse ele, sem a menor hesitação. — Como? Neste caso, irei assim que passar o efeito da anestesia. Amanhã à noite? Está certo. Darei urn jeito de estar presente.

     Fazia um frio intenso no início das últimas noites de outubro. Não havia ninguém na Rua Rosa de Luxemburgo, para a qual dão os fundos do Hospital de Outubro. As duas limusines pretas esta-vam paradas junto ao meio-fio, sem que ninguém as observasse. O Chefe do KGB preferira usar a entrada dos fundos, ao invés do grande pórtico na frente.

     Toda a área fica num terreno ligeiramente inclinado, entre árvores. Um pouco mais abaixo, na mesma rua, um anexo do hospital estava sendo construído, os andares superiores inacabados erguendo-se acima das copas das árvores. Os observadores que estavam entre os sacos de cimento esfregaram as mãos para manter a circulação, olhando para os dois carros estacionados diante da entrada dos fundos do hospital, a cena iluminada por uma única lâmpada por cima da porta.

     Ao descer os degraus, o homem com sete segundos para viver estava usando um sobretudo comprido, de gola de pele, com luvas grossas, para se proteger do frio pela curta caminhada através da calçada até o calor do carro à espera. Passara duas horas com a mãe, confortando-a e assegurando-lhe que os culpados seriam encontrados, assim como fora encontrado o carro abandonado.

     Ele foi precedido por um assessor, que correu na frente e apagou a luz na entrada dos fundos do hospital. A porta e a calçada ficaram mergulhadas na escuridão. Somente então é que Ivanenko encaminhou-se para a porta, que um dos seus seis guarda-costas segurava, atravessando-a. Outros quatro guarda-costas postados na calçada se dividiram para dar passagem a Ivanenko, meramente uma sombra entre sombras.

     Ele avançou rapidamente para o Zil, com o motor ligado, no outro lado da calçada. Parou por um segundo, quando a porta de trás foi aberta... e morreu, a bala do rifle de caça penetrando através da testa, estilhaçando o osso parietal e saindo por trás do crânio, para ir alojar-se no ombro do assessor.

     O estampido do rifle, o barulho do impacto da bala e o primeiro grito do Coronel Yevgeni Kukushkin, o chefe dos guarda-costas, sucederam-se em menos de um segundo. Antes que o homem baleado caísse na calçada, o coronel à paisana já o segurara por baixo das axilas, arrastando-o fisicamente para o refúgio do banco traseiro do Zil. E antes mesmo de a porta ser fechada, o coronel já estava gritando para o aturdido motorista:

     — Vamos sair daqui! Vamos sair daqui! O Coronel Kukushkin ajeitou a cabeça ensangüentada em seu colo, enquanto o Zil se afastava do meio-fio com um ranger de pneus. Ele pensou rapidamente. Não era apenas uma questão de ir para um hospital, mas sim de qual hospital serviria para um homem como aquele. Enquanto o Zil deixava a Rua Rosa de Luxemburgo, o coronel acendeu a luz do interior. O que viu — e já tinha visto muita coisa em sua carreira — era suficiente para esclarecer que seu chefe não estava mais precisando de hospitais. A segunda reação estava programada em sua mente e trabalho: ninguém deveria saber. O inconcebível acontecera e ninguém deveria saber, exceto aqueles que tinham o direito de tomar conhecimento. Ele garantira suas promoções e seu trabalho pela presença de espírito e raciocínios rápidos. Observando a segunda limusine, a que trazia os guarda-costas, sair também da Rua Rosa de Luxemburgo, ordenou ao motorista que procurasse uma rua sossegada e escura, a não mais de três quilômetros de distância, e ali estacionasse.

     Deixando o Zil com as cortinas abaixadas e fechado, junto ao meio-fio, os guarda-costas espalhados ao redor, o coronel tirou o casaco ensopado de sangue e afastou-se, a pé. Finalmente deu seu telefonema de um quartel das milícias, onde seus documentos de identidade e seu posto asseguraram um acesso instantâneo ao gabinete particular e ao telefone do comandante. E também lhe garantiram uma linha direta. A ligação foi completada em 15 minutos.

     — Preciso falar com o Camarada Secretário-Geral Rudin com urgência — disse ele à telefonista do Kremlin.

     A mulher sabia, pela linha que estava sendo utilizada na ligação, que não se tratava de uma brincadeira nem de alguma impertinência. Transferiu a ligação para um assessor no Prédio do Arsenal, que a reteve por um momento enquanto falava com Maxim Rudin pelo telefone interno. Rudin autorizou a ligação.

     — Pois não — grunhiu ele ao telefone. — Rudin falando.

     O Coronel Kukushkin nunca antes falara com Rudin, embora já o tivesse ouvido e visto de perto muitas vezes. Sabia assim que era Rudin. Engoliu em seco, respirou fundo e falou.

     No outro lado, Rudin escutou atentamente, fez duas perguntas rápidas, deu uma série de ordens e depois desligou. Virou-se para Vassili Petrov, que estava reunido com ele, inclinado para a frente, alerta e preocupado.

     — Ele está morto — disse Rudin, num tom de incredulidade. — E não foi um ataque cardíaco. Yuri Ivanenko. Levou um tiro. Alguém assassinou o chefe do KGB.

     Além das janelas, o relógio na torre por cima do Portão do Salvador assinalou meia-noite, enquanto um mundo adormecido começava a avançar lentamente para a guerra.

    

     O KGB sempre foi ostensivamente subordinado ao Conselho de Ministros soviéticos. Na prática, porém, quem o comanda é o Politburo.

     O trabalho cotidiano do KGB, a designação de cada dirigente, cada promoção e a doutrinação rigorosa dos agentes, tudo é supervisionado pelo Politburo, através da Seção de Organizações do Partido do Comitê Central. Em todos os estágios de sua carreira, cada homem do KGB é vigiado, e sobre ele são feitos informes; até mesmo os cães de guarda da União Soviética jamais estão livres de vigilância. Assim, é improvável que essa máquina de controle vasta e poderosa possa algum dia escapar ao controle.

     Na esteira do assassinato de Yuri Ivanenko foi Vassili Petrov quem assumiu o comando da operação de cobertura, ordenada direta e pessoalmente por Maxim Rudin.

     Pelo telefone, Rudin ordenara ao Coronel Kukushkin que os dois carros voltassem diretamente para Moscou pela estrada, não parando para comer, beber ou dormir, andando pela noite afora, reabastecendo o Zil em que estava o cadáver de Ivanenko com bujões de gasolina levados ao carro pelos guarda-costas, sempre longe das vistas de quem pudesse passar.

     Chegando aos arredores de Moscou, os dois carros foram diretos para a clínica particular do Politburo, em Kuntsevo, onde o cadáver com a cabeça destroçada foi enterrado discretamente no bosque de pinheiros no perímetro da clínica, numa sepultura sem qualquer indicação. Só os guarda-costas de Ivanenko é que assistiram ao enterro. Depois, todos foram postos sob prisão domiciliar, numa das villas do Kremlin, no bosque. Os homens encarregados de vigiar os agentes não eram também do KGB, mas sim da guarda palaciana do Kremlin.

     Somente o Coronel Kukushkin não ficou incomunicável. Foi convocado ao gabinete particular de Petrov, no prédio do Comitê Central.

     O coronel era um homem assustado ao chegar. Deixando o gabinete de Petrov, não estava muito menos assustado. Petrov deu-lhe uma oportunidade de salvar sua carreira e sua vida; ele foi posto no comando da operação de cobertura.

     Na clínica de Kuntsevo, ele organizou o isolamento de toda uma ala e trouxe novos homens do KGB, da Praça Dzerzhinsky para montar guarda. Dois médicos do KGB foram transferidos para Kuntsevo para cuidar do paciente na ala isolada, um paciente que era na verdade uma cama vazia. Ninguém mais podia entrar na ala, a não ser os dois médicos, os quais, sabendo apenas o suficiente para ficarem terrivelmente assustados, levaram todos os equipamentos e medicamentos necessários para o tratamento de um ataque cardíaco. Em 24 horas, exceto para a ala isolada na clínica secreta do lado da estrada de Moscou para Minsk, Yuri Ivanenko começou a deixar de existir.

     A essa altura dos acontecimentos, apenas um outro homem tomou conhecimento do segredo. Entre os seis assessores diretos de Ivanenko, todos com gabinetes próximos do dele no terceiro andar do Centro do KGB, um deles era o seu substituto eventual no comando da organização. Petrov convocou a seu gabinete o General Konstanti Abrassov e informou-o do que realmente acontecera. A revelação deixou o general tão abalado como nenhuma outra coisa o conseguira, em seus 30 anos de carreira na polícia secreta. Inevitavelmente, concordou em prosseguir na encenação.

     No Hospital de Outubro, em Kiev, a mãe do morto foi cercada por agentes locais do KGB, continuando a receber diariamente mensagens de conforto do filho.

     Os três operários do anexo do Hospital de Outubro que haviam descoberto um rifle de caça e um visor noturno, ao chegarem para o trabalho na manhã seguinte ao atentado, foram transferidos com suas famílias para um dos campos de Mordóvia. Dois detetives criminais seguiram de avião de Moscou para investigar um suposto atentado sem maiores conseqüências. O Coronel Kukushkin acompanhou-os. A história contada foi de que o tiro havia sido disparado contra o carro em movimento de uma autoridade local do Partido; passara pelo pára-brisa e fora alojar-se no estofamento. A verdadeira bala, retirada do ombro do guarda do KGB e devidamente lavada, foi entregue aos detetives. Determinaram que investigassem o caso e identificassem os autores do atentado, no mais absoluto sigilo. Um tanto perplexos e bastante frustrados, eles se empenharam na descoberta. O trabalho no anexo foi paralisado, o prédio inacabado foi isolado, os dois detetives receberam todo o equipamento que pediram. A única coisa que não conseguiram foi uma explicação verdadeira.

     Quando a última peça do quebra-cabeças de embuste estava no lugar, Petrov comunicou-o pessoalmente a Rudin. Ao velho líder cabia a pior tarefa, a de informar ao Politburo o que realmente acontecera.

    

     O relatório confidencial que o Dr. Myron Fletcher, do Departamento de Agricultura, apresentou ao Presidente William Matthews dois dias depois era tudo e mais alguma coisa que esperava o comitê especial, formado por determinação direta do Presidente americano. Não apenas o tempo favorável proporcionara uma colheita de cereais excepcional na América do Norte, como também todos os recordes de produção haviam sido quebrados. Mesmo depois de atendida a provável demanda do consumo interno, e mantendo-se os atuais níveis de ajuda aos países pobres do mundo, o excedente ainda alcançaria 60.000.000 de toneladas, para a colheita conjunta de Estados Unidos e Canadá.

     — Conseguiu, Sr. Presidente — comentou Stanislaw Poklewski — Pode comprar o excedente a qualquer momento que desejar, pelos preços de julho. E levando em consideração os progressos das conversações de Castletown, o Comitê de Apropriações da Câmara certamente não vai criar dificuldades.

     — Espero que não — disse o Presidente Matthews. — Se tivermos sucesso em Castletown, as reduções nos gastos de defesa mais do que compensarão as perdas comerciais nos cereais. E como foi a colheita soviética?

    — Estamos trabalhando nisso — respondeu Bob Benson. — Os Condores continuam esquadrinhando toda a União Soviética e nossos analistas estão determinando as quantidades de cereais colhidos em cada região. Devo ter um relatório para apresentar dentro de uma semana. Podemos relacionar as cifras assim obtidas com as informações dos nossos agentes no campo, chegando a um resultado bastante acurado, com uma margem de erro, a mais ou a menos, de apenas cinco por cento.

     — Apresse o relatório o mais possível — determinou o Presidente Matthews. — Preciso conhecer a posição exata dos soviéticos em cada área. Isso inclui a reação do Politburo a sua própria colheita de cereais. Preciso conhecer as forças e fraquezas deles. Por favor, Bob, providencie todas as informações.

    

     Naquele inverno, ninguém na Ucrânia iria provavelmente esquecer as investidas do KGB e das milícias contra aqueles que eram suspeitos de ter sequer um ligeiro sentimento nacionalista.

     Enquanto os dois detetives do Coronel Kukushkin interrogavam exaustivamente as pessoas que estavam na Rua Sverdlov na noite em que a mãe de Ivanenko fora atropelada, desmontavam meticulosamente o carro roubado que a atropelara e examinavam o rifle, o intensificador de imagem e os arredores do anexo do hospital em construção, o General Abrassov cuidava dos nacionalistas.

     Centenas foram detidos em Kiev, Ternopol, Lvov, Kanev, Rovno, Znitomir e Vinnitsa. As seções locais do KGB, com a ajuda de equipes vindas de Moscou, encarregaram-se dos interrogatórios ostensivamente relacionados com atos esporádicos de rebeldia, como o assalto a um agente à paisana do KGB em agosto, em Ternopol. Alguns dos principais interrogadores foram informados de que as investigações estavam também relacionadas com um tiro disparado em Kiev ao final de outubro, mas não mais do que isso.

     No miserável distrito operário de Levandivka, em Lvov, naquele mês de novembro, David Lazareff e Lev Mishkin saíram andando pelas ruas cobertas de neve, num dos seus raros encontros. Como os pais de ambos haviam sido levados para os campos de trabalhos forçados, eles sabiam que mais cedo ou mais tarde seriam também apanhados. A palavra “judeu” estava carimbada em seus documentos de identidade, assim como nos documentos de todos os 3.000.000 de judeus da União Soviética. Era inevitável que a atenção do KGB se acabasse desviando dos nacionalistas para os judeus. Nada jamais muda muito na União Soviética.

     — Despachei ontem o cartão para Andriy Drach confirmando .o sucesso do primeiro objetivo — disse Mishkin. — Como estão as coisas com você?

     — Até agora, tudo bem — respondeu Lazareff. — Talvez a situação afrouxe dentro em breve.

     — Receio que desta vez isso não vai acontecer. Temos de fazer a nossa tentativa muito em breve, se desejarmos conseguir. Os portos estão excluídos. Tem de ser pelo ar. No mesmo lugar, na próxima semana. Verei o que posso descobrir a respeito do aeroporto.

     Longe dali, ao norte, um Jumbo da SAS voava por sua rota polar de Estocolmo para Tóquio. Entre os passageiros na primeira classe estava o Comandante Thor Larsen, a caminho do seu novo comando.

    

     O relatório de Maxim Rudin ao Politburo foi apresentado em sua voz meio rouca, sem qualquer inflexão de emoção. Mas nenhuma histrionice no mundo poderia manter uma audiência mais atenta nem provocar uma reação mais aturdida. Desde que um oficial do Exército descarregara uma pistola contra a limusine de Leonid Brezhnev, no momento em que ele passava pelo Portão Borovitsky, do Kremlim, uma década antes, o espectro de um homem solitário arnado, penetrando nas muralhas de segurança que cercavam os altos dirigentes soviéticos, assustava a todos. Agora, deixara de ser uma mera conjetura, uma simples possibilidade, para se tornar algo concreto, que acontecera e poderia acontecer novamente.

     Desta vez, não havia secretárias na sala, não havia gravadores ligoados na mesa do canto. Não estavam presentes nem assessores nem estenógrafos. Ao terminar de apresentar seu relatório, Rudin passou a palavra a Petrov, que descreveu as providências meticulosas para ocultar o atentado, as medidas secretas que estavam em andamento para identificar e eliminar os assassinos, depois que revelassem todos os seus cúmplices.

     — Quer dizer que ainda não foram descobertos? — indagou Stepanov.

     — Só se passaram cinco dias desde o atentado — disse Petrov, calmamente. — Eles ainda não foram capturados. Mas serão, não há a menor dúvida. Não podem escapar, quem quer que sejam. E quando forem apanhados, revelarão os nomes de todos aqueles que os ajudaram, direta ou indiretamente. O General Abrassov cuidará para que isso aconteça. E, depois, todas as pessoas que sabem o que aconteceu naquela noite na Rua Rosa de Luxemburgo serão eliminadas, onde quer que estejam escondidas. Não restará qualquer vestígio do atentado.

     — E até lá? — indagou Komarov.

     Foi Rudin quem respondeu:

     — Até lá, devemos sustentar firmemente que o Camarada Yuri Ivanenko sofreu um violento ataque cardíaco e está sob tratamento intensivo. Devemos deixar uma coisa bem clara: a União Soviética não pode e não vai tolerar a humilhação pública mundial por deixar transparecer o que aconteceu na Rua Rosa de Luxemburgo. Não existe nenhum Lee Harvey Oswald na Rússia e jamais existirá.

     Houve um murmúrio de assentimento. Ninguém estava preparado para discordar da avaliação de Rudin.

     — Com todo respeito, Sr. Secretário-Geral — disse Petrov — embora não se deva subestimar a catástrofe de uma notícia dessas transpirando no exterior, há outro aspecto igualmente sério. Se a notícia transpirasse, começariam rumores entre a nossa própria população. Não passaria muito tempo para que se tornassem algo mais do que rumores. Deixo à imaginação de cada um quais seriam os efeitos internamente.

     Todos sabiam o quanto a manutenção da ordem pública estava vinculada à crença na invencibilidade do KGB.

     — Se a notícia transpirasse — disse Chavadze, o georgiario lentamente — e muito mais, se os culpados escapassem, o efeito seria tão terrível quanto a escassez de cereais.

     — Eles não podem escapar — disse Petrov, bruscamente. — Não devem escapar. Não vão escapar.

     — Mas quem são eles? — indagou Kerensky.

     — Ainda não sabemos, Camarada Marechal — respondeu Petrov. — Mas pode estar certo de que descobriremos.

     — Mas não foi uma arma ocidental? — disse Shushkin. — O Ocidente não poderia estar por trás do atentado?

     — Creio que é praticamente impossível — declarou Rykov, o Ministro do Exterior. — Nenhum governo do Ocidente ou do Terceiro Mundo seria louco o bastante para apoiar algo assim, da mesma forma que nada tivemos a ver com o assassinato de Kennedy. É possível que haja emigrados por trás disso. Ou anti-soviéticos fanáticos. Mas não governos.

     — Os grupos de emigrados no exterior estão sendo também investigados — informou Petrov. — Mas discretamente. Penetramos na maioria desses grupos. Até agora, nada descobrimos. O rifle, munição e visor noturno são de fabricação ocidental. Podem ser comercialmente comprados no Ocidente. Não resta a menor dúvida de que foram contrabandeados para cá. O que significa que os autores do atentado os trouxeram para cá ou tiveram ajuda do exterior. O General Abrassov concorda que o objetivo primário é descobrir os autores do atentado, os quais revelarão depois quem foram seus fornecedores. O Departamento V assumirá a partir desse momento

     Yefrem Vishnayev observava as discussões com grande interesse, mas praticamente não estava participando delas. Foi Kerensky quem manifestou a insatisfação do grupo dissidente. Nenhum dos dois pediu uma nova votação entre as conversações em Castletown e a guerra em 1983. Ambos sabiam que, no caso de empate, o voto de Rudin prevaleceria. Rudin estava um passo mais próximo de sua queda, mas ainda não estava liquidado.

     Os membros do Politburo concordaram que deveria ser feito um comunicado, apenas para o alto comando do KGB e nos escalões superiores da máquina do Partido, de que Yuri Ivanenko sofrerá um ataque cardíaco e estava internado no hospital. Depois que os assassinos fossem identificados e eliminados, juntamente com seus cúmplices, Yuri Ivanenko morreria discretamente do ataque cardíaco.

     Rudin já ia convocar os secretários e assessores para o reinicio da reunião de rotina do Politburo, quando Stepanov, que origínalmente votara pelas negociações com os Estados Unidos, levantou a mão.

     — Camaradas, considero que seria uma grande derrota para nosso país se os assassinos de Yuri Ivanenko escapassem e divulgassem seu ato ao mundo. Caso isso acontecesse, eu não poderia continuar a apoiar a política de negociações e concessões adicionais na questão dos nossos níveis de armamentos, em troca dos cereais americanos. Passaria então a apoiar a proposta do Teórico do Partido, Vishnayev.

     Houve um silêncio opressivo, finalmente rompido por Shushkin:

     — Eu também faria a mesma coisa.

     “Oito contra quatro”, pensou Rudin, correndo os olhos pela mesa, impassivelmente. “Oito contra quatro, se esses dois merdas mudarem de lado agora.”

     — Entendo a posição que assumiram, Camaradas — disse Rudin, sem deixar transparecer qualquer emoção. — Não haverá qualquer divulgação do que aconteceu. Absolutamente nenhuma.

     Dez minutos depois, a reunião rotineira foi reiniciada, com um voto de pesar unânime pela doença do Camarada Ivanenko. Passaram a discutir as cifras que haviam acabado de receber sobre as colheitas de cereais.

    A limusine Zil de Yefrem Vishnayev saiu pelo Portão Borovitsky, no lado sudoeste do Kremlin, atravessando a Praça Manege. O guarda de serviço na praça, devidamente avisado de que o comboio do Politburo estava deixando o Kremlin, paralisara todo o tráfego. Segundos depois, os carros pretos e compridos, de fabricação quase artesanal, estavam subindo pela Rua Frunze, passando pelo Ministério da Defesa e seguindo para as residências dos privilegiados, na Kutusovsky Prospekt.

     O Marechal Kerensky estava sentado ao lado de Vishnayev, no carro deste, tendo aceitado o convite para seguirem juntos. A divisória entre o compartimento de trás e o assento do motorista estava fechada. Era completamente à prova de som. As cortinas corridas impediam o acesso da curiosidade dos transeuntes.

     — Ele está quase caindo — grunhiu Kerensky.

     — Não — disse Vishnayev. — Ele está um passo mais próximo e consideravelmente mais fraco sem Ivanenko, mas ainda não está quase caindo. Não subestime Maxim Rudin. Ele vai lutar como um urso acuado na taiga antes de cair. Mas inevitavelmente vai cair, porque deve cair.

     — Não há muito tempo de sobra — comentou Kerensky.

     — Menos do que você imagina. Houve distúrbios por causa da escassez de alimentos em Vilnius, na semana passada. Nosso amigo Vitautas, que votou a favor da nossa proposta em julho está ficando nervoso. Estava prestes a trocar de lado, apesar da villa atraente que lhe ofereci ao lado da minha, em Sochi. Mas agora está de volta ao nosso grupo. E é possível que Shushkin e Stepanov também se passem para nosso lado.

     — Mas apenas se os assassinos escaparem ou a verdade for divulgada no exterior.

     — Exatamente. E é isso o que deve acontecer.

     Kerensky virou-se no assento, o rosto rosado ficando intensamente vermelho por baixo dos cabelos brancos.

     — Revelar a verdade? Ao mundo inteiro? Mas não podemos fazer uma coisa dessas!

     — Tem razão, não podemos. Há bem poucas pessoas que conhecem a verdade e meros rumores de nada adiantariam. Podem ser descartados com muita facilidade. Um ator parecido com Ivanenko pode ser encontrado, ensaiado e apresentado em público. Assim, outros devem encarregar-se de divulgar a verdade por nós. Os guardas que estavam presentes naquela noite estão sob a vigilância dos homens de elite do Kremlin. Assim, só restam os próprios assassinos.

     — Mas nós não os temos — disse Kerensky. — E provavelmente não conseguiremos agarrá-los. O KGB chegará primeiro.

     — Provavelmente, mas mesmo assim temos de tentar. Não podemos esquecer de uma coisa, Nikolai. Não estamos mais lutando apenas pelo controle da União Soviética. Estamos lutando por nossas vidas, assim como Rudin e Petrov. Primeiro o trigo, agora Ivanenko. Mais um escândalo, Nikolai, só mais um, quem quer que seja o responsável, e Rudin cairá. Tem de haver mais um escândalo. Precisamos dar um jeito para que haja.

    

     Thor Larsen, metido num macacão e usando um capacete de segurança, estava de pé num guindaste para pessoas, muito acima do dique seco no centro do estaleiro da Ishikawajima-Harima, contemplando o imenso navio em construção que um dia seria o Freya.

     Mesmo três dias depois de tê-lo visto pela primeira vez, o tamanho do navio ainda o deixava impressionado. Nos seus tempos de aprendizado, os petroleiros nunca iam além de 30.000 toneladas.

     Foi somente em 1956 que o primeiro navio do mundo com uma tonelagem superior saiu para o mar. Tiveram de criar uma nova classificação para esses navios e chamaram-nos de superpetroleiros Quando alguém passou além do limite de 50.000 toneladas, foi criada outra classe, a VLCC (very large crude carrier, transportador de petróleo muito grande). Quando a barreira das 200.000 toneladas foi ultrapassada, ao final da década de 1960, surgiu uma nova classe, a ULCC (ultra-large crude carrier, transportador de petróleo ultragrande).

     Certa ocasião, em pleno mar, Larsen avistou um dos leviatãs franceses, com 550.000 toneladas. Sua tripulação se reuniu no convés para contemplar o imenso navio. Pois o que estava agora abaixo dele era duas vezes maior. Como Wennerstrom dissera, o mundo nunca vira outro igual e jamais tornaria a ver.

     Tinha 515 metros de comprimento, o equivalente a 10 quarteirões de uma cidade. A largura era de 90 metros e a superestrutura se erguia cinco andares para o ar, acima do convés. Muito abaixo do que podia avistar do convés, a quilha mergulhava 36 metros para o fundo do dique seco. Cada um dos 60 porões era maior do que um cinema de bairro. Lá no fundo, abaixo da superestrutura, já estavam instaladas as quatro turbinas, com 90.000 cavalos-de-força, prontas para acionar as hélices de bronze, com 15 metros de diâmetro, que se podiam ver vagamente, faiscando abaixo da popa.

     De um extremo a outro, o navio estava povoado por figuras que pareciam formigas, os operários que se preparavam para deixá-lo temporariamente, enquanto o dique se enchia de água. Por 12 meses, eles haviam cortado e soldado, aparafusado, serrado, cravado com rebites, martelado, reunindo os componentes do casco. Grandes módulos de aço dúctil haviam sido baixados por guindastes para lugares predeterminados, dando forma ao navio. Os homens foram removendo as correntes, cordas e cabos que cobriam o navio, até deixá-lo finalmente exposto, o costado sem qualquer empecilho, com 20 camadas de tinta à prova de ferrugem, à espera da água.

     Ao final, restaram apenas os imensos blocos que sustentavam o casco. Os homens que haviam construído aquele dique seco, o maior do mundo, em Chita, perto de Nagoya, na Baía de Ise, jamais haviam imaginado que seria usado daquela forma. Era o único dique seco do mundo que poderia abrigar um navio de 1.000.000 de toneladas e aquele seria o primeiro e o último que iria ver. Alguns dos veteranos tinham vindo participar da cerimônia.

     A cerimônia religiosa levou meia hora, com o sacerdote xintoísta pedindo as bênçãos dos divinos para os que haviam trabalhado na construção do navio, para os que ainda iriam trabalhar em sua conclusão e para os que um dia iriam navegá-lo, a fim de que pudessem desfrutar de uma navegação segura, de um trabalho frutífero, Thor Larsen assistiu à cerimônia, descalço, ao lado de seu primeiro oficial e do chefe de máquinas, além do supervisor do proprietário um arquiteto marítimo que ali estava desde os inícios do trabalho e do arquiteto do estaleiro. Eram esses dois homens que haviam realmente projetado e dirigido a construção do imenso petroleiro.

     Pouco antes do meio-dia, as comportas foram abertas e as águas do Pacífico fluíram ruidosamente para o interior do dique.

     Houve um almoço formal nos escritórios do estaleiro. Mas assim que terminou, Thor Larsen voltou para o dique, em companhia de seu primeiro-oficial, Stig Lundquist, e de seu chefe de máquinas, Bjorn Erikson, ambos suecos.

     — É um navio espetacular — comentou Lundquist, enquanto a água subia pelo costado.

     Pouco antes do pôr-do-sol, o Freya grunhiu como um gigante a despertar, mexeu-se um centímetro, grunhiu novamente e depois libertou-se ds suportes lá no fundo, flutuando na água. Em torno do dique, 4.000 operários japoneses romperam seu silêncio de expectativa, prorrompendo em aclamações. Dezenas de capacetes brancos foram lançados para o ar. Os europeus da Escandinávia que ali estavam, apenas uma meia dúzia, também participaram do delírio de alegria, apertando-se as mãos, dando-se tapas nas costas. Lá embaixo, o gigantesco navio esperava pacientemente, como se estivesse consciente de que sua vez chegaria.

     No dia seguinte, o navio foi rebocado para fora do dique até um cais, no qual por três meses abrigaria milhares de pequenos vultos apressados, trabalhando ativamente a fim de prepará-lo para o mar além da baía.

    

     Sir Nigel Irvine leu as últimas linhas da transcrição enviada por Nightingale, fechou a pasta e recostou-se na cadeira.

     — E então, Barry, o que acha?

     Barry Ferndale passara a maior parte de sua vida de trabalho estudando a União Soviética, seus dirigentes e estrutura de poder. Soprou mais uma vez as lentes dos óculos e deu um polimento final.

     — É mais um golpe a que Maxim Rudin terá de sobreviver — disse ele. — Ivanenko era um de seus partidários mais leais. Com ele no hospital, Rudin perdeu um conselheiro dos mais capazes.

     — Ivanenko vai manter seu voto no Politburo?

     — É possível que ele possa votar por procuração, caso haja outra votação. Mesmo que haja um empate de seis a seis numa grande questão política no nível do Politburo, o voto do Presidente é o decisivo. O perigo é a possibilidade de um ou dois hesitantes mudarem de lado. Ivanenko em atividade inspirou muito medo, mesmo em escalões tão altos. Ivanenko numa tenda de oxigênio talvez não inspire tanto.

     Sir Nigel estendeu a pasta para Ferndale, por cima da mesa.

     — Barry, quero que vá a Washington levando essa transcrição. Apenas uma visita de cortesia, é claro. Mas articule um jantar em particular com Ben Kahn e compare essas informações. Essa operação está ficando cada vez mais difícil e perigosa.

    

     — Em nossa opinião, Ben — disse Ferndale, dois dias depois, ao terminar o jantar na casa de Kahn, em Georgetown — Maxim Rudin está resistindo por um fio, diante de um Politburo cinqüenta por cento hostil. E o pior é que esse fio está-se tornando cada vez mais esgarçado.

     O Diretor-Assistente de Informações da CIA estendeu os pés para o fogo na lareira de tijolos vermelhos e olhou para o conhaque que girava em seu copo.

     — Concordo com essa opinião, Barry — disse, cautelosamente.

     — Estamos também convencidos de que Rudin poderá cair, se não persuadir o Politburo a continuar a admitir as concessões que estão sendo feitas em Castletown. Com isso, haveria uma luta pela sucessão, a ser decidida pelo Comitê Central pleno. No qual, infelizmente, Yefrem Vishnayev tem muita influência e inúmeros amigos.

     — Tem razão. Mas o mesmo acontece com Vassili Petrov. Provavelmente mais do que Vishnayev.

     — Não resta a menor dúvida. Petrov provavelmente conseguiria vencer a disputa pela sucessão... se contasse com o apoio de um Rudin a se aposentar no momento por ele escolhido e em seus próprios termos e se tivesse também o apoio de Ivanenko, cuja máquina do KGB contrabalançaria a influência do Marechal Kerensky através do Exército Vermelho.

     Kahn sorriu para o visitante.

     — Está adiantando uma porção de peões, Barry. Qual é o seu gambito?

     — Quero apenas comparar informações.

     — Está certo, você quer apenas comparar informações. Para ser franco, nossas opiniões em Langley coincidem com as de vocês, de um modo geral. David Lawrence, no Departamento de Estado, também concorda. Já Stan Poklewski deseja pressionar os soviéticos ao máximo em Castletown. O Presidente está numa posição intermediária... como sempre.

     — Castletown é muito importante para ele, não é mesmo? — sugeriu Ferndale.

     — É, sim. O próximo ano é o último que ele passará no cargo. Dentro de treze meses, haverá um novo Presidente dos Estados Unidos. Bill Matthews gostaria de deixar o cargo em grande estilo oferecendo à nação um amplo tratado de limitação de armamentos.

     — Estávamos pensando...

     — Ah, creio que chegou o momento em que você está pensando em adiantar o seu cavalo.

     Ferndale sorriu diante da referência indireta a seu cavaleiro, Sir Nigel Irvine, Diretor-Geral do SIS.

     — ... que Castletown certamente iria fracassar, se Rudin perdesse o controle a esta altura dos acontecimentos. Ele poderia tirar algum proveito de Castletown, com a ajuda de vocês, para convencer os hesitantes em sua facção de que está conseguindo grandes coisas e que é o homem que deve ser apoiado.

     — Concessões? Recebemos na semana passada a análise final da colheita soviética de cereais. Eles estão em cima de um barril de pólvora. Pelo menos foi essa a expressão que Stan Poklewski usou.

     — Ele está certo. E esse barril de pólvora pode explodir a qualquer momento. O Camarada Vishnayev só está esperando por isso, com seu plano de guerra. E todos sabemos o que isso poderia acarretar.

     — Aceito esse ponto de vista — disse Kahn. — Para dizer a verdade, minha interpretação das informações de Nightingale é similar. Estou neste momento preparando um relatório para o Presidente. Ele o receberá na próxima semana, quando se reunir com Benson, Lawrence e Poklewski.

    

     — Esses dados representam a soma total da colheita de cereais que a União Soviética encerrou no mês passado? — indagou o Presidente Matthews.

     Olhou para os quatro homens sentados diante de sua escrivaninha. Na outra extremidade da sala, a lenha crepitava na lareira de mármore, acrescentando um toque de calor visual à temperatura já alta, assegurada pelo sistema de aquecimento central. Além das janelas à prova de bala do lado sul, os gramados extensos exibiam a primeira geada da manhã do mês de novembro. Sendo do Sul, William Matthews gostava do calor.

     Robert Bensen e o Dr. Myron Fletcher assentiram ao mesmo tempo. David Lawrence e Stanislaw Poklewski estavam estudando os dados.

     — Todas as nossas fontes de informações foram utilizadas para se chegar a esses dados, Sr. Presidente — disse Robert Benson.

     — E todas as informações foram meticulosamente relacionadas e verificadas. Se houver alguma margem de erro, para mais ou para menos, é de apenas cinco por cento, não mais do que isso.

     — E segundo Nightingale, até mesmo o Politburo concorda conosco — comentou o Secretário de Estado.

     — Um total de cem milhões de toneladas... — murmurou o presidente, pensativo. — Pode durar no máximo até o final de março, apertando-se o cinto.

     — Eles vão começar a abater o gado em janeiro — disse Poklewski. — Terão de começar a fazer grandes concessões em Castletown no próximo mês, se quiserem sobreviver.

     O Presidente largou o relatório sobre, a colheita soviética de cereais e pegou o relatório preparado por Ben Kahn e apresentado pelo Diretor da CIA. Já fora lido pelos cinco homens que estavam na sala. Benson e Lawrence concordavam, a opinião do Dr. Fletcher não fora pedida e Poklewski, o falcão, discordara.

     — Nós sabemos e eles também sabem que estão numa situação desesperadora — disse Matthews. — O problema é determinar até que ponto podemos pressioná-los.

     — Como falou há algumas semanas, Sr. Presidente, — disse Lawrence — se não os pressionarmos o bastante não conseguiremos arrancar o melhor acordo para a América e o mundo livre. Mas se pressionarmos demais, podemos levar Rudin a suspender as negociações, a fim de salvar-se de seus próprios falcões. É uma questão de equilíbrio. A esta altura dos acontecimentos, acho que devemos oferecer alguma coisa.

     — Trigo?

     — Forragem animal para ajudá-los a manter viva uma parte de seus rebanhos — sugeriu Benson.

     — Dr. Fletcher? — disse o Presidente. O homem do Departamento de Agricultura deu de ombros.

     — Temos a disponibilidade, Sr. Presidente. Uma parcela considerável da frota mercante soviética, a Sovfracht, está inativa, pronta para zarpar. Por causa das taxas de frete subsidiadas, esses navios poderiam estar ocupados. Mas não estão. Pelo que sabemos, estão estacionados nos portos de águas quentes do Mar Negro e na costa soviética do Pacífico. Poderiam zarpar prontamente para os Estados Unidos, se recebessem as ordens necessárias de Moscou.

     — Qual é o último prazo de que dispomos para dar uma resposta sobre isso? — perguntou o Presidente Matthews.

     — O dia de Ano Novo — respondeu Benson. — Se eles souberem que haverá um adiamento da crise, poderão suspender o abate dos rebanhos, pelo menos temporariamente.

     — Recomendo que não lhes dê tréguas! — suplicou Poklewski, — Se esperarmos até março, eles estarão totalmente desesperados.

     — Desesperados o bastante para aceitarem um nível de desarmamento que garanta a paz pelo menos por uma década ou desesperados o bastante para irem à guerra? — perguntou Matthews, empoladamente. — Senhores, terão a minha decisão no dia de Natal. Ao contrário de vocês, preciso persuadir os presidentes de cinco subcomitês do Senado, Defesa, Agricultura, Relações Exteriores e Apropriações, a concordarem com a medida a ser tomada. E não lhes posso falar de Nightingale, não é mesmo, Bob?

     O Diretor da CIA sacudiu a cabeça.

     — Não, Sr. Presidente, não pode falar de Nightingale. Os senadores têm muitos assessores, a coisa poderia transpirar. E se transpirasse o que realmente sabemos, a esta altura dos acontecimentos, o efeito poderia ser desastroso.

     — Está certo. Terão a minha resposta no dia de Natal.

    

     No dia 15 de dezembro, o Professor Ivan Sokolov levantou-se na sala de conferência em Castletown e começou a ler um documento previamente preparado. A União Soviética, disse ele, sempre fiel às suas tradições de país devotado à procura constante da paz mundial e de acordo com seu empenho tantas vezes reiterado por uma coexistência pacífica...

     Edwin J. Campbell, sentado do outro lado da mesa, contemplava seu colega soviético com um sentimento de companheirismo. Ao longo de mais de dois meses, trabalhando até que a fadiga dominasse a ambos, desenvolvera um relacionamento cordial e afetuoso com o homem de Moscou, na medida que era permitido por suas posições e deveres.

     Nos intervalos entre as sessões, cada um visitara o outro na sala de descanso da delegação oposta. Na sala de descanso soviética, com a delegação toda presente e o complemento inevitável de agentes do KGB, a conversa fora bastante cordial, mas formal. Na sala americana, onde Sokolov chegara sozinho, o delegado soviético pudera relaxar, o ponto de mostrar a Campbell fotografias de seus netos em férias na costa do Mar Negro. Como um membro eminente da Academia de Ciências, o Professor fora recompensado por sua lealdade ao Partido e à causa com uma limusine, motorista, apartamento na cidade, dacha no campo, chalé à beira-mar e acesso ao reembolsável da Academia. Campbell não tinha ilusões de que Sokolov era bem pago por sua lealdade, por sua capacidade de devotar talentos que possuía a serviço de um regime que internava dezenas de milhares de pessoas nos campos de trabalhos forçados da Mordóvia. Não havia a menor dúvida de que ele era um dos gatos gordos, os nachalstvo. Mas até mesmo um nachalstvo tem netos.

     Ficou escutando o discurso do russo com crescente surpresa, e pensou: “Ah, meu pobre velho, quanto isso deve estar-lhe custando!”

     Quando a peroração terminou, Edwin Campbell levantou e agradeceu ao professor soviético por sua declaração, que escutara com extremo cuidado e atenção, em nome dos Estados Unidos da América. Propôs um adiamento, enquanto o Governo americano estudava sua posição. Uma hora depois, Campbell estava na Embaixada americana em Dublin, a fim de começar a transmitir o extraordinário discurso de Sokolov para David Lawrence.

     Poucas horas depois, no Departamento de Estado, em Washington, David Lawrence pegou um dos telefones em sua mesa e ligou para o Presidente Matthews pela linha direta.

     — Eu tinha de informá-lo imediatamente, Sr. Presidente, que há seis horas, na Irlanda, a União Soviética fez seis concessões de grande monta. Estão relacionadas com os números totais de mísseis balísticos intercontinentais com ogivas de bombas de hidrogênio, até os blindados convencionais, para ruptura de contato de forças ao longo do Rio Elba.

     — Obrigado, David — disse Matthews. — É uma grande notícia. Você estava certo. Acho que devemos dar-lhes alguma coisa em troca.

    

     A região coberta por bosques de bétulas a sudoeste de Moscou, onde a elite soviética tem suas dachas no campo, cobre pouco mais de 250 quilômetros quadrados. Os homens da elite soviética gostam de ficar agrupados. Ás estradas na região são margeadas, quilômetro após quilômetro, por cercas de aço pintadas de verde, protegendo as propriedades dos que, estão no topo. As cercas e os portões parecem em grande parte abandonados, mas qualquer pessoa que tente escalar as primeiras ou passar de carro pelos segundos vai ser interceptada, momentos depois, por guardas que se materializam abruptamente do meio das árvores.

     Além da Ponte de Uspenskoye, fica um pequeno povoado Zhukovka, geralmente conhecido como Aldeia Zhukovka. É para diferenciar de duas outras localidades próximas e mais novas: a Sovmin Zhukovka, onde os altos escalões do Partido têm suas villas de fim-de-semana, e a Akademik Zhukovka, reservada a escritores artistas, músicos e cientistas que desfrutam dos favores do Partido,'

     Mas do outro lado do rio é que fica o supremo e ainda mais exclusivo povoado de Usovo. Ê para ali perto que se retira para descansar o Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética, o Presidente do Presidium do Soviete Supremo, o Politburo ocupando uma suntuosa mansão, no meio de centenas de acres de bosques meticulosamente guardados.

     Ali, na noite anterior ao Natal, uma festa que ele não admitia há 50 anos, Maxim Rudin estava sentado em sua poltrona de couro predileta, os pés estendidos na direção da imensa lareira de blocos de granito toscos, na qual crepitavam achas de pinheiro de um metro de comprimento. Era a mesma lareira que aquecera Nikita Kruschev e Leonid Brezhnev.

     O clarão amarelado das chamas faiscava nas paredes revestidas de lambris do gabinete e iluminava o rosto de Vassili Petrov, que fitava Rudin do outro lado do fogo. Ao lado da poltrona de Rudin havia uma mesinha, com um cinzeiro e uma garrafa pequena de conhaque armênio, a qual Petrov olhou com uma expressão preocupada. Sabia que seu protetor já idoso não devia beber. Entre os dedos de Rudin, estava seu inevitável cigarro.

     — Quais são as notícias da investigação? — indagou Rudin.

     — Está muito lenta — respondeu Petrov. — Não resta a menor dúvida de que houve ajuda externa. Sabemos agora que o visor noturno foi comprado comercialmente em Nova York. O rifle finlandês fazia parte de uma encomenda exportada de Helsinque para a Inglaterra. Não sabemos de que loja veio, mas a ordem de exportação era para rifles de caça. Assim, foi uma encomenda comercial e não oficial. As pegadas no prédio em construção foram comparadas com as botas de todos os operários que trabalham ali. Não foi possível descobrir a quem pertenciam dois conjuntos de pegadas. Havia bastante umidade naquela noite e muito pó de cimento espalhado pelo local. Por isso, as pegadas são bastante nítidas. Estamos quase que totalmente convencidos de que foram dois homens.

     — Dissidentes? — indagou Rudin.

     — Quase que certamente. E totalmente loucos.

     — Não diga isso, Vassili. Guarde esse comentário para as reuniões do Partido. Loucos atiram à queima-roupa ou se sacrificam. Este caso foi planejado por alguém durante muitos meses. E alguém que ainda está solto, dentro ou fora da União Soviética, alguém que precisa ser silenciado, de uma vez por todas, antes de revelar seu segredo. Em quem está se concentrando?

     — Nos ucranianos. Penetramos completamente em todos os grupos de emigrados na Alemanha, Inglaterra e América. Ninguém sequer ouviu um rumor de um plano desses. Pessoalmente, creio que eles ainda estão na Ucrânia. É inegável que a mãe de Ivanenko foi usada como uma isca. Quem poderia saber que ela era a mãe de Ivanenko? Nenhum ativista inconseqüente de Nova York poderia sabê-lo. Nem algum nacionalista de poltrona de Frankfurt. Nem algum panfletário de Londres. Foi alguém local, com contatos no exterior. Estamo-nos concentrando em Kiev. Várias centenas de antigos detidos, que foram soltos e voltaram a Kiev, estão sendo interrogados.

     — Trate de descobri-los, Vassili... e de silenciá-los, o mais depressa possível. — Maxim Rudin mudou de assunto, como tinha o hábito de fazer, sem alterar o tom de voz. — Alguma notícia da Irlanda?

     — Os americanos retomaram as negociações, mas ainda não responderam a nossa iniciativa.

     Rudin grunhiu.

     — Esse Matthews é um tolo. Até que ponto ele pensa que podemos ir antes de sermos obrigados a recuar?

     — Ele tem de enfrentar aqueles senadores que odeiam os soviéticos — disse Petrov. — Além de sofrer a influência do fascista católico Poklewski. E é claro que não pode saber como a situação está crítica para nós no Politburo.

     — Se ele não nos oferecer alguma coisa até o Ano Novo, não conseguiremos controlar o Politburo na primeira semana de janeiro... — Tomou um gole de conhaque e depois soltou um suspiro de satisfação.

     — Tem certeza de que pode beber? — indagou Petrov. — Os médicos o proibiram há cinco anos.

     — Os médicos que se danem — resmungou Rudin. — Para dizer a verdade, foi para isso que o chamei até aqui. Posso informá-lo com toda a segurança de que não vou morrer de alcoolismo nem de cirrose.

     — Fico contente em saber disso.

     — E tem mais: vou aposentar-me no dia trinta de abril. Isso o surpreende?

     Petrov ficou totalmente imóvel, alerta. Por duas vezes, já vira os chefes supremos caírem: Kruschev em chamas, expulso e em desgraça, para tornar-se um homem anônimo, enquanto Brezhnev saía em seus próprios termos. Já sentira bem de perto os raios e trovões que se sucediam quando o tirano mais poderoso do mundo dava lugar a outro. Mas nunca de tão perto. E desta vez iria vestir o manto do poder supremo. Isto é, desde que outros não lhe arrebatassem.

     — Surpreende e muito — murmurou ele, cautelosamente.

     — Em abril, vou convocar uma reunião plena do Comitê Central. Para anunciar a decisão de me retirar a trinta de abril. No dia primeiro de maio haverá um novo líder presidindo as comemorações do Dia do Trabalho. Quero que seja você. Em junho, o plenário do Congresso do Partido deve reunir-se. O líder vai orientar nossa política desse momento em diante. Quero que seja você. O que, aliás, já lhe tinha falado há algumas semanas.

     Petrov sabia que era a escolha de Rudin desde a reunião nos aposentos particulares do velho líder no Kremlin, na qual o falecido Ivanenko também estivera presente, céptico e vigilante como sempre. Mas ele não pensara que fosse tão depressa.

     — Não vou conseguir fazer com que o Comitê. Central aceite sua indicação, a menos que possa dar o que eles estão querendo: os cereais. Todos sabem qual é a situação no momento. Se houver um fracasso em Castletown, Vishnayev contará com o apoio de todos.

     — Mas por que tão depressa? — indagou Petrov.

     Rudin levantou o copo. O silencioso Misha emergiu das sombras e serviu mais conhaque.

     — Recebi ontem os resultados dos exames que fiz em Kuntsevo. Há meses que eles vêm trabalhando nesses exames. E agora estão certos. Meu problema não é o conhaque armênio nem os cigarros, mas leucemia. Tenho de seis a doze meses de vida. Vamos dizer que não verei um Natal depois deste. E se tivermos uma guerra nuclear, você também não verá. Nos próximos cem dias, teremos de arrancar um acordo para obtenção dos cereais dos americanos e acabar de uma vez por todas com o problema Ivanenko. A areia está se escoando inexoravelmente e depressa demais. As cartas estão na mesa, abertas, e não há mais nenhum ás para se jogar.

    

     A 28 de dezembro, os Estados Unidos formalmente ofereceram à União Soviética a venda, para entrega imediata e a taxas comerciais, de 10.000.000 de toneladas de cereais para alimentação animal, a ser considerada como algo por fora de quaisquer condições que ainda estavam sendo negociadas em Castletown.

     Na véspera de Ano Novo, um Tupolev 134 da Aeroflot decolou do aeroporto de Lvov, com destino a Minsk, num vôo doméstico. Um pouco ao norte da fronteira entre a Ucrânia e a Rússia Branca, acima dos Pântanos Pripet, um rapaz de aparência nervosa se levantou e encaminhou-se para a aeromoça, que estava várias filas além da porta de aço que dava para a cabine de comando do avião, falando com um passageiro.

     Sabendo que os banheiros ficavam no outro lado, ela se empertigou ao ver o rapaz se aproximar. Ao fazê-lo, o rapaz obrigou-a a se virar, comprimindo o antebraço esquerdo contra sua garganta e comprimindo uma pistola em suas costelas. A aeromoça gritou. Houve um coro de gritos entre os passageiros. O seqüestrador começou a arrastar a aeromoça na direção da porta fechada da cabine de comando. Na antepara ao lado da porta ficava o aparelho de comunicação interna, pelo qual a aeromoça podia comunicar-se com a tripulação. O comandante do avião tinha ordens expressas para se recusar a abrir a porta, no caso de um seqüestro.

     No meio do avião, um dos passageiros se levantou, uma automática na mão. Agachou-se no corredor, segurando a arma com as duas mãos, apontando para a aeromoça e o seqüestrador atrás dela.

     — Pare aí! — gritou ele. — Sou do KGB! Fique onde está!

     — Mande-os abrirem a porta! — gritou o seqüestrador.

     — De jeito nenhum! — respondeu o agente do KGB, que era o guarda armado designado para o vôo.

     — Se não abrirem a porta vou matar a moça! — gritou o seqüestrador.

     A aeromoça tinha muita coragem. Desferiu um golpe para trás com o calcanhar, acertando na canela do seqüestrador, ao mesmo tempo em que se desvencilhava e corria na direção do agente do KGB. O seqüestrador foi atrás dela, passando por três filas de passageiros. Foi seu erro. De um assento no corredor, um passageiro se levantou rapidamente e acertou um golpe violento na nuca do seqüestrador, que caiu para a frente. Antes que ele tivesse tempo de esboçar qualquer reação, o atacante arrancou-lhe a arma, apontando-a para ele. O seqüestrador virou-se, sentou-se no chão do avião, olhou para a arma, pôs o rosto entre as mãos e começou a gemer baixinho.

     Dos fundos do aparelho, o agente do KGB adiantou-se rapidamente, passando pela aeromoça, a arma ainda pronta para entrar em ação. Aproximou-se do salvador.

     — Quem é você? — perguntou ele.

     Como resposta, o homem meteu a mão no bolso interno do casaco, tirou uma carteira e abriu-a. O agente viu uma identidade do KGB e comentou:

     — Mas você não é de Lvov.

     — Sou de Ternopol. Estou indo para casa, em Minsk, de licença e por isso não estava armado. Mas tenho um bom punho.

     Ele sorriu. O agente de Lvov assentiu.

     — Obrigado, Camarada. Mantenha-o sob sua mira.

     Ele foi até o aparelho de intercomunicação e falou rapidamente. Relatou o que acontecera e pediu que a polícia fosse devidamente avisada, para ficar à espera em Minsk.

     — Já é seguro dar uma olhada? — indagou uma voz metálica, do outro lado da porta.

     — Claro — respondeu o agente do KGB. — Ele já está sob controle.

     Houve um estalido por trás da porta, que no instante seguinte foi aberta, deixando à mostra a cabeça do engenheiro de vôo, um tanto assustado e bastante curioso.

     Nesse momento, o agente de Ternopol agiu de maneira muito estranha. Afastou-se do homem sentado no chão, desferiu um golpe com o revólver na base do crânio do seu colega de Lvov e enfiou o pé no espaço entre a porta e o batente, antes que o surpreso engenheiro de vôo tivesse tempo de fechá-la. Um segundo depois ele havia passado pela porta, empurrando para trás o engenheiro de vôo. O seqüestrador sentado no chão levantou-se rapidamente, pegou a automática do guarda de vôo, uma Tokarev 9 mm do KGB, passou também pela porta de aço e empurrou-a violentamente. A porta ficou automaticamente trancada.

     Dois minutos depois, sob a ameaça das armas de David Lazareff e Lev Mishkin, o Tupolev virou para oeste, na direção de Varsóvia e Berlim; a segunda cidade, o limite máximo de seu suprimento de combustível. Nos controles estava sentado o Comandante Rudenko, o rosto branco de raiva; a seu lado, o co-piloto Vatutin respondeu lentamente aos frenéticos pedidos da torre de controle de Minsk para que fosse explicada a mudança no curso.

     Quando o avião cruzou a fronteira e entrou no espaço aéreo polonês, a torre de Minsk e quatro aviões de passageiros, operando na mesma faixa de rádio, já sabiam que o Tupolev estava nas mãos de seqüestradores. Quando o avião passou pelo centro da zona de controle de tráfego aéreo de Varsóvia, Moscou também já sabia. A cerca de 150 quilômetros a oeste de Varsóvia, uma esquadrilha de seis caças soviéticos Mig-23, baseada em território polonês, aproximou-se de estibordo e começou a acompanhar o Tupolev. O líder da esquadrilha falava rapidamente dentro da máscara de vôo.

     Em sua mesa no Ministério da Defesa, na Rua Frunze, em Moscou, o Marechal Nikolai Kerensky recebeu um telefonema urgente pela linha que o ligava diretamente com o quartel-general da Força Aérea soviética.

     — Onde? — berrou ele.

     — Passando por Poznan — foi a resposta. — A trezentos quilômetros de Berlim. Tempo de vôo de cinqüenta minutos.

     O Marechal pensou cuidadosamente. Aquele podia ser o escândalo que Vishnayev tanto desejava. Não restava a menor dúvida sobre o que deveria ser feito. Era preciso derrubar o Tupolev, com todos os seus passageiros e tripulantes. Mais tarde, poderia ser apresentada a versão de que os seqüestradores haviam disparado contra a fuselagem, acertando num tanque de combustível e provocando uma explosão. Já acontecera duas vezes nos últimos 10 anos.

     Ele deu as ordens. A 100 metros da ponta da asa do Tupolev, o líder da esquadrilha de Migs escutou-as atentamente, cinco minutos depois.

     — Se é assim que diz, Camarada Coronel, assim será feito — disse ele ao comandante de sua base.

     Vinte minutos depois, o Tupolev passou pela linha do Oder-Neisse e iniciou sua longa descida na direção de Berlim. Nesse momento, os Migs se afastaram graciosamente, iniciando o retorno à base.

     — Tenho de informar a Berlim que estamos chegando — disse o Comandante Rudenko a Mishkin. — Se houver um avião na pista, vamos acabar explodindo.

     Mishkin contemplou as nuvens cinzentas do inverno à frente. Nunca antes viajara de avião, mas o que o comandante estava dizendo fazia sentido.

     — Está certo — respondeu ele. — Pode romper o silêncio e informar a Tempelhof que estamos descendo. Nada de pedidos, apenas uma declaração objetiva.

     O Comandante Rudenko estava jogando seu último trunfo. Inclinou-se para a frente, ajustou o controle do rádio e começou a falar .

     “Tempelhof, Berlim Ocidental. Tempelhof, Berlim Ocidental. Aqui é o Vôo 351 da Aeroflot...”

     Ele estava falando em inglês, a língua internacional do controle de tráfego aéreo. Mishkin e Lazareff não sabiam quase nada de inglês, apenas as poucas palavras que eram ditas ocasionalmente nas transmissões especiais em ucraniano do Ocidente. Mishkin encostou o cano da arma no pescoço de Rudenko e disse em ucraniano:

     — Nada de truques.

     Na torre de controle do Aeroporto de Schoenefeid, em Berlim Oriental, os dois controladores se entreolharam, aturdidos. Estavam sendo chamados em sua própria freqüência, mas o comandante do avião falava como se fosse Tempelhof. Nenhum avião da Aeroflot jamais pensaria em pousar em Berlim Ocidental. Além do mais Tempelhof não era o aeroporto civil de Berlim Ocidental há 10 anos. Fora convertido em base da Força Aérea dos Estados Unidos quando Tegel entrara em operação, como aeroporto civil. Um dos alemães orientais, mais rápido do que o outro, pegou prontamente o microfone.

     — Tempelhof para Aeroflot 351. Pode descer.

     No avião, o Comandante Rudenko engoliu em seco e baixou os flaps e o trem de aterrissagem. O Tupolev começou a descer rapidamente para o principal aeroporto da Alemanha Oriental. Deixaram a camada de nuvens a 300 metros de altitude e avistaram as luzes do aeroporto à frente. A 150 metros de altitude, Mishkin olhou desconfiado pelo vidro da cabine. Já ouvira falar de Berlim Ocidental, as luzes feéricas, as ruas apinhadas, multidões fazendo compras na Kurfurstendam e o Aeroporto de Tempelhof bem no centro de tudo isso. Mas aquele aeroporto ficava em meio a campos...

     — É um truque! — gritou ele, abruptamente, para Lazareff. — É Berlim Oriental! — Comprimiu a arma no pescoço do Comandante Rudenko. — Suba ou eu atiro.

     O comandante ucraniano rangeu os dentes e manteve o curso para os últimos 100 metros da descida. Mishkin esticou-se por cima do ombro dele e tentou puxar a alavanca de comando. Os dois estrondos, quando ocorreram, foram tão juntos que era impossível dizer qual o primeiro. Mishkin afirmou que o impacto das rodas batendo na pista é que fez a arma disparar; o co-piloto Vatutin sustentou que Mishkin havia disparado antes. Tudo foi confuso demais para que se pudesse depois determinar uma versão definitiva e sem sombras de dúvidas sobre os acontecimentos.

     A bala abriu um imenso buraco no pescoço do Comandante Rudenko, matando-o instantaneamente. Surgiu uma fumaça azulada na cabine de comando, enquanto Vatutin puxava a alavanca de comando e gritava para que o engenheiro de vôo desse mais força ao aparelho. Os motores a jato gritaram apenas um pouco mais alto do que os passageiros, enquanto o Tupolev, pesado como pão molhado, quicava mais duas vezes na pista e depois se elevava no ar, esforçando-se desesperadamente por alçar vôo. Vatutin manteve o aparelho com o nariz para cima, tremendo todo, rezando por mais potência, enquanto os subúrbios exteriores de Berlim Oriental iam ficando para trás e logo surgia o Muro de Berlim.

     Ao entrar no perímetro de Tempelhof, o Tupolev não bateu as casas mais próximas por apenas dois metros.

     Extremamente pálido, o jovem co-piloto pousou o avião na pista principal, com a arma de Lazareff em suas costas. Mishkin ficou segurando o corpo ensangüentado do Comandante Rudenko, para impedir que caísse sobre a alavanca de controle. O Tupolev finalmente parou a um quarto do final da pista, ainda equilibrado sobre todas as rodas.

      O Sargento Leroy Coker era um patriota. Estava sentado, todo encolhido para se defender do frio, ao volante de seu jipe da Polícia da Força Aérea, o gorro de pele do casaco envolvendo seu rosto. Pensava no Alabama, sentindo uma saudade imensa, lembrando-se do calor de sua terra. Mas estava em serviço de guarda naquela noite e levava sua missão muito a sério.

     Quando o avião apareceu de repente logo acima das casas além da cerca do perímetro, os motores rugindo, o trem de aterrissagem baixado, ele gritou:

     — Mas que merda!

     Empertigou-se prontamente. Nunca antes estivera na Rússia nem sequer atravessara a fronteira para algum país do Leste europeu, mas já tinha lido tudo o que precisava ser lido sobre o pessoal que vivia por lá. Não conhecia muita coisa sobre a Guerra Fria, mas sabia perfeitamente que havia sempre a possibilidade iminente de um ataque dos comunistas, a menos que homens como Leroy Coker estivessem sempre vigilantes. Ele também sabia reconhecer uma estrela vermelha e a insígnia da foice e do martelo.

     Assim que o avião parou, ele tirou a carabina do ombro, mirou e explodiu os pneus do aparelho.

     Mishkin e Lazareff renderam-se três horas depois. A intenção deles era a de manter os tripulantes como reféns, trocar os passageiros por três autoridades de Berlim Ocidental e depois seguir viagem para Tel Aviv. Mas não havia a menor possibilidade de se conseguir um novo trem de aterrissagem para o Tupolev; os russos jamais o forneceriam. E quando a notícia da morte de Rudenko chegou ao conhecimento do comandante da base aérea americana, este se recusou a colocar à disposição um de seus aviões. O Tupolev foi cercado por homens armados. Não havia a menor possibilidade de dois homens poderem levar vários outros, mesmo sob a ameaça de armas, a um avião alternativo. Seriam facilmente liquidados pelos atiradores exímios postados nas proximidades. Depois de uma hora de conversações com o comandante da base, os dois deixaram o Tupolev, de mãos levantadas.

     Naquela noite, foram formalmente entregues às autoridades de Berlim Ocidental, para prisão e julgamento.

    

     O Embaixador soviético em Washington estava dominado por uma raiva fria quando se encontrou com David Lawrence, no Departamento de Estado, no dia 2 de janeiro.

    O Secretário de Estado americano o estava recebendo a pedido do Governo soviético; isto é, a palavra insistência seria mais apropriada.

     O embaixador leu o protesto formal num tom monótono. Ao terminar, deixou o texto na mesa do americano. Lawrence, que já sabia de antemão exatamente o que seria, tinha uma resposta pronta, preparada por seus assessores jurídicos, três dos quais o estavam flanqueando, por trás de sua cadeira.

     Reconheceu que Berlim Ocidental não era realmente território soberano, mas uma cidade sob a ocupação das Quatro Potências. Não obstante, os Aliados Ocidentais há muito que haviam admitido que, em questões de jurisdição, as autoridades de Berlim Ocidental deveriam cuidar de todas as transgressões criminais e civis, excetuando as que se situavam no âmbito das leis puramente militares dos Aliados Ocidentais. O seqüestro do avião, embora um crime terrível, não fora cometido por cidadãos dos Estados Unidos contra cidadãos dos Estados Unidos ou no interior da base aérea dos Estados Unidos em Tempelhof. Portanto, era um caso na jurisdição das autoridades de Berlim Ocidental. Em conseqüência, o Governo dos Estados Unidos mantinha seu ponto de vista, de que não podia legalmente entregar cidadãos de outra nacionalidade ou provas materiais de outro país, que estavam dentro do território de Berlim Ocidental, muito embora o avião tivesse pousado numa base aérea dos Estados Unidos.

     Assim sendo, não lhe cabia outro recurso senão rejeitar o protesto soviético.

     O embaixador ouviu-o em silêncio impassível. Ao final, declarou que não podia aceitar a explicação americana e a rejeitava. Entraria em contato com seu governo. E com isso ele se retirou, voltando à embaixada a fim de encaminhar seu relatório a Moscou.

    

     Num pequeno apartamento em Bayswater, Londres, três homens estavam sentados nesse mesmo dia, olhando para a confusão de jornais espalhados pelo chão.

     — Um desastre, um tremendo desastre! — exclamou Andrew Drake, irritado. — A esta altura, eles deveriam estar em Israel Seriam soltos dentro de um mês e poderiam dar sua entrevista coletiva. Por que, diabo, eles tinham que atirar no comandante?

     — Se ele aterrissasse em Schoenefeld e se recusasse a levantar vôo para Berlim Ocidental, eles estariam de qualquer forma liquidados — comentou Azamat Krim.

     — Poderiam tê-lo deixado desacordado com um golpe forte! — insistiu Drake.

     — É o calor do momento — disse Kaminsky. — O que vamos fazer agora?

     — Podem descobrir de onde vieram as armas? — perguntou Drake a Krim.

     O pequeno tártaro meneou a cabeça.

     — Podem chegar até a loja que vendeu, mas não a mim. Não precisei identificar-me para fazer a compra.

     Drake começou a andar pelo tapete, imerso em seus pensamentos. E demorou algum tempo para dizer:

     — Não creio que eles sejam extraditados. Os soviéticos estão querendo os dois neste momento por seqüestro do avião, a morte de Rudenko, a agressão ao agente do KGB a bordo e ao outro do qual tiraram os documentos de identidade. O caso mais sério é a morte do comandante. Mesmo assim, não creio que algum governo da Alemanha Ocidental mande dois judeus de volta à União Soviética para serem executados. Mas, por outro lado, eles serão julgados e condenados. Provavelmente à prisão perpétua. Miroslav, há alguma possibilidade de eles revelarem o que aconteceu com Ivanenko?

     O refugiado ucraniano sacudiu a cabeça.

     — Não, se tiverem um mínimo de bom senso. Não no coração de Berlim Ocidental. Os alemães podem ser obrigados a mudar de idéia e os entregar aos russos. Se acreditassem neles, o que não iria acontecer, porque Moscou negaria que Ivanenko sequer estivesse morto, apresentando um sósia como prova. Mas Moscou acreditaria e daria um jeito de liquidá-los. Os alemães, por não acreditarem, não providenciariam qualquer proteção especial. Eles não teriam a menor chance. Por isso mesmo é que vão ficar calados.

     — Isso de nada nos adianta — ressaltou Krim. — Todo o objetivo do plano, todos os nossos esforços e os perigos que enfrentamos visavam a desfechar um golpe único e maciço contra o aparelho soviético, uma humilhação mundial. Nós não podemos dar a entrevista coletiva. Não conhecemos os pequenos detalhes que convenceriam o mundo. Só Mishkin e Lazareff é que podem fazê-lo.

     — Neste caso, eles precisam ser tirados de Berlim Ocidental — disse Drake, determinado. — Temos de montar uma segunda operação para levá-los a Tel Aviv, com garantias de vida e liberdade. Caso contrário, de nada adiantará tudo o que fizemos.

     — O que vamos fazer agora? — repetiu Kaminsky.

     — Vamos pensar — declarou Drake. — Vamos pensar, elaborar um plano e executá-lo. Eles não vão ficar sentados de braços cruzados em Berlim, apodrecendo pelo resto de suas vidas, tendo conhecimento de um segredo desses. E não temos muito tempo. Moscou não vai levar uma vida inteira para somar dois e dois. Os soviéticos têm agora uma pista e não vão demorar a descobrir quem fez o trabalho em Kiev. Depois, começarão a planejar a vingança. Temos de chegar antes deles.

    

     A raiva do Embaixador soviético em Washington foi insignificante em comparação com a fúria ultrajada de seu colega em Bonn, ao se encontrar com o Ministro do Exterior da Alemanha Ocidental, dois dias depois. A recusa do Governo da Alemanha Federal em entregar os dois seqüestradores e assassinos às autoridades soviéticas ou alemãs orientais, insistiu ele, era um flagrante rompimento das relações até então amistosas entre os dois países e só poderia ser interpretada como um ato de hostilidade.

     O Ministro do Exterior da Alemanha Ocidental estava tremendamente constrangido. Particularmente, teria preferido que o Tupolev permanecesse no aeroporto de Berlim Oriental. Absteve-se de comentar que, como os russos sempre haviam insistido, Berlim Ocidental não era parte da Alemanha Oriental; assim sendo, eles deveriam dirigir-se ao Senado de Berlim Ocidental.

     O embaixador repetiu sua argumentação pela terceira vez: os criminosos eram cidadãos soviéticos, as vítimas eram cidadãos soviéticos, o avião era território soviético, o seqüestro fora cometido no espaço aéreo soviético e o assassinato sobre ou alguns metros acima da pista do principal aeroporto da Alemanha Oriental. Portanto, o crime deveria ser julgado pelos soviéticos ou, na pior das hipóteses, pelas autoridades alemãs orientais.

     O Ministro do Exterior ressaltou, tão cortesmente quanto podia, que todos os precedentes indicavam que os seqüestradores aéreos podiam ser julgados pelas leis da terra em que pousavam, se o referido país desejasse exercer esse direito. Isso não constituía absolutamente qualquer insinuação contra a imparcialidade do sistema judiciário soviético...

     Na verdade, é justamente o contrário, pensou ele. Ninguém na Alemanha Ocidental, do governo à imprensa e ao público, tinha a menor dúvida de que a devolução de Mishkin e Lazareff representaria o interrogatório do KGB, um julgamento encenado e o pelotão de fuzilamento. E eles eram judeus, o que representava outro problema.

     Os primeiros dias de janeiro estavam sendo pouco movimentados em termos de notícias e por isso, a imprensa da Alemanha Ocidental estava dando a maior cobertura ao caso. Os jornais conservadores e influentes de Axel Springer estavam insistindo que, não importava o que tivessem feito, os dois seqüestradores mereciam receber um julgamento justo e imparcial, o que só poderia ser garantido na Alemanha Ocidental. O partido bávaro CSU, do qual dependia a coalizão governamental, estava adotando a mesma posição. Determinados setores estavam transmitindo à imprensa informações precisas e detalhes terríveis da última repressão do KGB na região de Lvov, de onde vinham os seqüestradores, sugerindo que a fuga ao terror era uma reação que se podia justificar, embora fosse deplorável o meio de consegui-la. Além disso, a recente denúncia de mais um agente comunista infiltrado nos altos escalões do governo não aumentaria a popularidade de um governo que adotasse uma linha de conciliação com Moscou. E com as eleições provinciais iminentes...

     O Ministro do Exterior tinha ordens expressas do Chanceler. Mishkin e Lazareff, disse ele ao embaixador, seriam julgados em Berlim Ocidental o mais breve possível; e se, ou melhor, quando fossem condenados, receberiam sentenças exemplares.

    

     A reunião do Politburo, ao final da semana, foi tempestuosa. Mais uma vez, os gravadores estavam desligados e assessores e estenógrafos, ausentes.

     — É um ultraje! — gritou Vishnayev. — É mais um escândalo que diminui o prestígio da União Soviética aos olhos do mundo! Jamais poderia ter acontecido!

     O que ele estava insinuando era que só acontecera por causa da liderança cada vez mais débil de Maxim Rudin.

     — Não teria acontecido se os caças do Camarada Marechal tivessem derrubado o avião sobre a Polônia, como é o costume — retrucou Petrov.

     — Houve uma falha na comunicação entre o controle de terra e o líder da esquadrilha de caças — explicou Kerensky. — Uma chance em mil.

     — Embora fortuita — começou Rykov, friamente. Ele sabia que Mishkin e Lazareff teriam um julgamento público e revelariam como haviam primeiro atacado um agente do KGB num parque, para roubar seus documentos de identidade, apresentando-se como tal para conseguir entrar na cabine de comando do avião.

     — Há alguma possibilidade desses dois homens serem os mesmos que mataram Ivanenko? — perguntou Petryanov, um dos partidários de Vishnayev.

     A atmosfera era elétrica.

     — Absolutamente nenhuma — respondeu Petrov, firmemente. — Sabemos que esses dois eram de Lvov e não de Kiev. Eram judeus aos quais foi recusada permissão para emigrarem. É claro que estamos investigando, mas até agora ainda não surgiu qualquer ligação.

     — Se for descoberta alguma ligação, seremos imediatamente informados? — perguntou Vishnayev.

     — Eis algo que nem precisava perguntar, Camarada — resmungou Rudin.

     Os estenógrafos foram chamados e a reunião passou a discutir as conversações em Castletown e a compra de 10.000.000 de toneladas de cereais para alimentação animal. Vishnayev não fez muita pressão no caso. Rykov esforçou-se em demonstrar que a União Soviética estava prestes a conseguir o trigo de que precisava para sobreviver ao inverno e à primavera com concessões mínimas nos níveis de armamentos, um argumento que o Marechal Kerensky contestou. Mas Komarov foi forçado a admitir que a chegada iminente de 10.000.000 de toneladas de forragem animal para o inverno lhe permitiria liberar imediatamente a mesma quantidade dos estoques acumulados, evitando assim que houvesse um abate em larga escala dos rebanhos. A facção de Maxim Rudin conseguiu manter intacta sua supremacia, embora persistisse o empate na votação.

     Assim que a reunião foi encerrada, o velho líder soviético convocou Vassili Petrov para um, encontro em particular.

     — Há alguma ligação entre os dois judeus e a morte de Ivanenko? — perguntou.

     — Pode haver — admitiu Petrov. — Sabemos que foram eles que assaltaram o homem do KGB em Ternopol e roubaram seus documentos. O que indica, evidentemente, que estavam dispostos a viajar para fora de Lvov a fim de preparar sua fuga. Temos as impressões digitais que deixaram no avião, e combinam com as que encontramos em seus aposentos em Lvov. Não descobrimos sapatos que combinem com as pegadas no local do crime em Kiev, mas ainda estamos procurando. Mais uma coisa, temos uma impressão palmar encontrada no carro que atropelou a mãe de Ivanenko. Estamos tentando obter as impressões palmares de ambos na prisão de Berlim. Se por acaso conferirem...

     — Prepare um plano, um plano de emergência, um estudo de exeqüibilidade. Para que ambos sejam liquidados dentro da prisão em Berlim Ocidental. Temos de estar preparados para qualquer eventualidade. Outra coisa: se ficar comprovado que eles são os assassinos de Ivanenko, diga a mim e não ao Politburo. Vamos eliminá-los primeiro e depois informar nossos camaradas.

     Petrov engoliu em seco. Enganar o Politburo era o maior perigo que podia haver na União Soviética. Bastava uma escorregadela e não haveria por baixo uma rede de segurança. Recordou-se do que Rudin lhe dissera diante do fogo, em Usovo, há duas semanas. Com o Politburo empatado em seis a seis, Ivanenko morto e dois homens do lado deles prestes a mudar de posição, não restava mais nenhum trunfo.

     — Está certo — murmurou Petrov.

    

     O Chanceler da Alemanha Ocidental, Dietrich Busch, recebeu seu Ministro da Justiça no gabinete particular no prédio da Chancelaria, próximo do antigo Palácio Schaumberg, pouco depois da metade do mês. O Chefe do Governo da Alemanha Ocidental estava de pé diante da moderna janela panorâmica, contemplando a neve lá fora.

     No interior do novo e moderno quartel-general do governo, dando para a Praça da Chancelaria Federal, a temperatura era quente o bastante para se ficar em mangas de camisa. Nada do janeiro inclemente e gelado da cidade à beira do rio penetrava na sala.

     — Como está indo esse caso de Mishkin e Lazareff? — perguntou Busch.

     — É um caso muito estranho — comentou o Ministro da Justiça, Ludwig Fischer. — Eles estão se mostrando mais cooperativos do que se poderia esperar. Parecem ansiosos em terem um julgamento rápido, sem qualquer protelação.

     — Acho ótimo — disse o Chanceler. — É exatamente o que estamos querendo. Que o caso seja resolvido rapidamente. Quanto mais depressa o problema estiver liquidado, melhor será. De que maneira eles estão cooperando?

     — Ofereceram aos dois um advogado de renome, da extrema direita. Pago com fundos de contribuições, possivelmente alemãs, talvez da Liga de Defesa Judia da América. Mas eles recusaram. O advogado queria transformar o julgamento num grande espetáculo, com amplos detalhes sobre o terror do KGB contra os judeus na Ucrânia.

     — Um advogado de extrema direita estava querendo isso?

     — É o velho esquema do tudo que cai na rede é peixe. Abaixo os russos, etc, etc. Seja como for, Mishkin e Lazareff querem fazer uma confissão de culpa e alegar circunstâncias atenuantes. Insistem nisso. Se o fizerem e alegarem que a arma disparou por acidente, quando o avião bateu na pista em Schoenefeld, terão uma defesa parcial. O novo advogado deles está pedindo para que a acusação de homicídio em primeiro grau seja reduzida para homicídio culposo, em troca da admissão de culpa.

     — Acho que podemos concordar com isso — disse o Chanceler. — Qual a pena que eles pegariam?

     — Com o seqüestro, eles devem pegar de quinze a vinte anos. Ê claro que podem ser libertados condicionalmente depois de um terço da pena. São jovens, ambos têm vinte e poucos anos. Poderiam estar livres com seus trinta anos.

     — Isso é um problema para daqui a cinco anos — resmungou Busch. — O que me está preocupando são os próximos cinco meses. O mundo tem a memória fraca. Dentro de cinco anos, eles estarão esquecidos, completamente arquivados.

     — Pois eles estão dispostos a admitir tudo, insistindo apenas que a arma disparou por acidente. Afirmam que queriam apenas chegar a Israel da única maneira que conheciam. Vão declarar-se culpados no julgamento, desde que a acusação seja de homicídio culposo.

     — Pois então vamos aceitar o acordo — decidiu o Chanceler. — Os russos não vão gostar, mas isso não vai fazer muita diferença. Eles pegariam prisão perpétua por homicídio em primeiro grau, mas essa pena atualmente não vai além de vinte anos.

     — Há outro problema. Depois do julgamento, eles querem ser transferidos para uma prisão na Alemanha Ocidental.

     — Por quê?

     — Parecem estar aterrorizados com a vingança do KGB. Acham que estarão mais seguros na Alemanha Ocidental do que em Berlim Ocidental.

     — Isso é bobagem — declarou Busch. — Eles serão julgados e ficarão presos em Berlim Ocidental. Os russos não sonhariam em acertar as contas dentro de uma prisão de Berlim. Jamais se atreveriam. Mesmo assim, podemos providenciar uma transferência administrativa dentro de um ano mais ou menos. Mas não por enquanto. Cuide de tudo, Ludwig. Providencie para que o caso seja resolvido de maneira rápida e satisfatória, se eles quiserem cooperar. O importante é tirar a imprensa de cima de mim antes das eleições... e também o Embaixador russo.

    

     Em Chita, o sol da manhã faiscava no convés do Freya, há dois meses e meio parado junto ao cais de aprestamento. Nesses 75 dias, o navio fora consideravelmente transformado. Dia e noite, ficara dócil, enquanto as minúsculas criaturas que o haviam construído enxameavam por todos os seus cantos. Centenas de quilômetros de fios haviam sido estendidos por todo o comprimento e largura, assim como cabos, tubos, condutos. As redes elétricas labirínticas haviam sido instaladas, ligadas e testadas, o sistema de bombas incrivelmente complexo fora completado e devidamente experimentado.

     Os instrumentos ligados a computadores, que iriam encher e esvaziar os porões, impelir o navio para a frente ou fazê-lo parar, mantê-lo em qualquer direção da bússola por semanas a fio, sem que qualquer mão humana segurasse o leme, e observar as estrelas acima e o mar abaixo foram também instalados e testados.

     As despensas e os frigoríficos, com capacidade de armazenar alimentos para sustentar a tripulação por muitos meses, ficaram prontos. E estavam também instalados os móveis, maçanetas das portas, lâmpadas, banheiros, fogões da cozinha, sistema de aquecimento central, ar-condicionado, cinema, sauna, três bares, dois refeitórios, camas, beliches, tapetes e cabides para roupas.

     A superestrutura de cinco andares fora transformada de um buraco vazio num hotel de luxo; a ponte de comando, sala de rádio e sala de computadores passaram de imensas galerias vazias para um complexo a zumbir de bancos de dados, calculadoras e sistemas de controle.

     Quando o último operário finalmente pegou suas ferramentas e deixou o navio, o que havia era o máximo que a tecnologia humana já fizera flutuar sobre as águas, em termos de tamanho, potência, capacidade, luxo e refinamento técnico.

     O resto da tripulação chegara de avião 14 dias antes, a fim de se familiarizar com o navio. A tripulação era formada pelo comandante, Thor Larsen, um primeiro-oficial, segundo-imediato e terceiro-imediato; o engenheiro-chefe, que comandava a casa de máquinas, primeiro-maquinista, segundo-maquinista e engenheiro-elétrico. O operador de rádio e o comissário também eram oficiais. Outros 20 homens completavam a tripulação: primeiro-cozinheiro, quatro taifeiros, três bombeiros-mecânicos da casa de máquinas, um eletricista-mecânico da casa de máquinas, 10 marinheiros de primeira classe de convés e um operador das bombas.

     Duas semanas antes da data marcada para o navio zarpar, os rebocadores levaram-no do cais de aprestamento para o meio da Baía de Ise. Ali, os dois grandes hélices entraram em movimento, impulsionando o imenso petroleiro para testes no Pacífico. Para os oficiais e tripulação, assim como para a dúzia de técnicos japoneses que foram junto, aquelas duas semanas seriam de trabalho árduo e extenuante, testando-se todos os sistemas em cada situação conhecida ou possível.

     Mais de 170.000.000 de dólares americanos estavam saindo da baía naquela manhã e os navios menores, ao largo de Nagoya, ficaram observando o gigante passar, impressionados.

    

     Vinte quilômetros além de Moscou fica a aldeia turística de Archangelskoye, contando até com museu e restaurante gastronômico, famoso pelos autênticos bifes de urso. Na última semana daquele gelado mês de janeiro, Adam Munro reservara ali uma mesa para si e para uma secretária da Embaixada britânica.

     Ele sempre variava as secretárias que levava para jantar, a fim de que nenhuma delas reparasse em algo que não devia. E se a jovem esperançosa de uma noite maravilhosa não entendia por que ele decidia guiar grandes distâncias por estradas congeladas, em temperaturas de até 15°C abaixo de zero, não fazia qualquer comentário.

     O restaurante, de qualquer forma, era quente e aconchegante. Quando Munro pediu licença para ir buscar o cigarro que deixara no carro, a jovem daquela noite não desconfiou de nada. No estacionamento, ele estremeceu quando o vento gelado o envolveu, encaminhando-se apressadamente para o lugar em que faróis brilharam rapidamente na escuridão.

     Ele entrou no carro, sentou-se ao lado de Valentina, abraçou-a e beijou-a.

     — Detesto pensar que você está lá dentro com outra mulher, Adam — sussurrou ela, aconchegando-se a ele.

     — Ela nada representa para mim, não tem a menor importância. Não passa de um pretexto para que eu possa vir jantar aqui sem que ninguém desconfie de nada. Tenho notícias para você.

     — Sobre nós?

     — Exatamente. Perguntei a meus superiores se ajudariam você a deixar a União Soviética. Eles concordaram. Já há inclusive um plano. Conhece o porto de Constantza, na costa romena?

     Valentina sacudiu a cabeça.

     — Já ouvi falar, mas nunca estive lá. Sempre passo as férias na costa soviética do Mar Negro.

     — Poderia tirar umas férias em Constantza, junto com Sacha?

     — Acho que sim. De um modo geral, posso passar as férias onde quiser. A Romênia pertence ao bloco socialista. Não deve haver problemas.

     — Quando serão suspensas as aulas de Sacha para as férias da primavera?

     — Acho que nos últimos dias de março. Isso é muito importante?

     — Tem de ser em meados de abril. O plano é recolhê-la num cargueiro ao largo de Constantza. Iriam buscá-la na praia numa lancha. Pode dar um jeito de tirar as férias da primavera com Sacha em Constantza ou nas proximidades da praia de Mamaia?

     — Tentarei, Adam, pode estar certo de que farei tudo o que for possível. Em meados de abril. Oh, Adam parece tão perto!

     — E está mesmo perto, meu amor. Faltam menos de noventa dias. Tenha mais um pouco de paciência, como tenho tido, e conseguiremos. Vamos começar vida nova.

     Cinco minutos depois, Valentina entregou-lhe a transcrição da reunião do Politburo no início de janeiro e depois partiu em seu carro pela noite escura. Munro ajeitou os papéis na cintura, por baixo da camisa e do casaco, voltando para o calor do restaurante de Archangelskoye.

     Desta vez, prometeu a si mesmo, enquanto conversava polidamente com a secretária, que não haveria erros, não haveria obstáculos não a deixaria partir, como acontecera em 1961. Desta vez, os dois ficariam juntos para sempre.

    

     Edwin Campbell recostou-se na cadeira, diante da mesa georgiana na grande sala de conferência em Castletown House, e olhou para o Professor Sokolov. O último ponto da agenda fora discutido, a última concessão arrancada. Do salão de jantar lá embaixo, um mensageiro viera informar que a conferência secundária correspondera às concessões no andar superior com barganhas comercias dos Estados Unidos para a União Soviética.

     — Acho que terminamos, amigo Ivan — disse Campbell. — não creio que possamos fazer mais nada neste estágio.

     O russo levantou os olhos dos papéis à sua frente, suas próprias anotações, em caracteres cirílicos. Por mais de 100 dias, ele lutara com unhas e dentes para garantir a seu país as tonelagens de cereais que poderiam salvá-lo do desastre, ao mesmo tempo em que mantinha o máximo nos níveis de armamentos, do Espaço Interior à Europa Oriental. Ele sabia que tivera de fazer concessões que seriam inadmissíveis quatro anos antes, em Genebra. Mas fizera o melhor possível, dentro do prazo exíguo de que dispunha para as negociações.

     — Acho que tem razão, Edwin. Vamos preparar o esboço do tratado de redução de armamentos para nossos respectivos governos

     — E vamos, também, preparar o protocolo comercial — disse Campbell. — Creio que eles também vão querê-lo.

     Sokolov permitiu-se um sorriso.

     — Tenho certeza de que também vão querer isso... e muito.

    

     No decorrer da semana seguinte, as duas delegações de intérpretes e estenógrafos elaboraram os esboços do tratado e do protocolo comercial. Ocasionalmente, os dois principais negociadores eram chamados para esclarecer algum ponto específico. De um modo geral porém, a transcrição e tradução ficaram aos cuidados dos assessores. Quando os dois volumosos documentos, ambos em duplicata, finalmente ficaram prontos, os dois chefes das delegações partiram para suas respectivas capitais, a fim de apresentá-los a seus superiores.

    

     Andrew Drake largou a revista e recostou-se na poltrona.

     — Fico pensando...

     — Em quê? — indagou Krim, entrando na pequena sala de estar com três canecas cheias de café.

     Drake pegou a revista e estendeu-a para o tártaro, dizendo:

     — Leia o primeiro artigo.

     Krim leu em silêncio, enquanto Drake tomava lentamente café. Kaminsky olhava de um para outro, curioso.

     — Acho que ficou doido — disse Krim, finalmente.

     — Não, não fiquei. Com alguma audácia, pode dar certo. O julgamento de Mishkin e Lazareff vai começar dentro de quinze dias. O resultado é perfeitamente previsível. Podemos seguramente começar a planejar desde agora. Sabemos que vamos ter de fazer alguma coisa de qualquer maneira, se quisermos tirá-los da cadeia. Portanto, vamos logo começar a planejar. Azamat, você não foi pára-quedista no Canadá?

     — Fui, sim. Durante cinco anos.

     — Fez algum curso sobre explosivos?

     — Claro. Demolição e sabotagem. Passei três meses com o corpo de demolições.

     — E há alguns anos eu tinha paixão por eletrônica e rádio — disse Drake. — Provavelmente porque meu pai tinha uma oficina de consertos de rádio, antes de morrer. Pode dar certo. Vamos precisar de ajuda, mas podemos conseguir.

     — Quantos homens mais? — perguntou Krim.

     — Vamos precisar de um homem do lado de fora, só para reconhecer Mishkin e Lazareff quando eles forem libertados. Só pode ser Miroslav Kaminsky. Para o trabalho propriamente dito, nós dois e mais cinco homens para ficarem de guarda.

     — Uma coisa dessas nunca foi realizada antes — comentou o tártaro, ainda em dúvida.

     — É por isso mesmo é que será totalmente inesperada. E eles estarão despreparados.

     — Podemos ser apanhados.

     — Não necessariamente. De qualquer forma, não podemos esquecer que o julgamento talvez se transforme na grande sensação da década. E com Mishkin e Lazareff livres em Israel, metade do mundo ocidental iria aplaudir. O problema de uma Ucrânia livre seria levantado em todos os jornais e revistas fora do bloco soviético.

     — Conhece mais cinco homens que poderiam participar?

     — Há anos que venho colecionando nomes — disse Drake.

     — Homens que já estão cansados de apenas falar. Se soubessem o que já fizemos, tenho certeza de que iriam aderir sem a menor hesitação. Posso arrumar os cinco homens de que precisamos antes do final do mês.

     — Está certo — disse Krim. — Se começamos, vamos agora até o fim. Para onde quer que eu vá?

     — Para a Bélgica. Quero um apartamento grande em Bruxelas. Reuniremos os homens lá e transformaremos o apartamento em base de operações.

     Enquanto Drake falava, no outro lado do mundo o Sol se erguia sobre China e o estaleiro da Ishikawajima-Harima. O Freya estava parado ao lado do cais de aprestamento, as máquinas pulsando.

     No dia anterior, houvera uma longa reunião no gabinete do presidente da Ishikawajima-Harima, com a presença dos superintendentes das duas companhias, os respectivos diretores financeiros, Harry Wennerstrom e Thor Larsen. Os dois técnicos concordaram que todos os sistemas do gigantesco petroleiro estavam em perfeitas condições de funcionamento. Wennerstrom assinara o primeiro documento de liberação, reconhecendo que o Freya era tudo por que pagara.

     Na verdade, ele pagara 5% no ato da assinatura do contrato de construção, 5% por ocasião da cerimônia de conclusão da quilha, 5% quando o navio flutuara e 5% na entrega oficial. Os restantes 80% mais os juros seriam pagos ao longo dos oito anos subseqüentes. Mas para todos os efeitos e propósitos, o navio já lhe pertencia. A bandeira do estaleiro fora formalmente baixada e o emblema da Linha Nordia, um capacete viking prateado sobre fundo azul, tremulava agora no mastro principal, enfunado pela brisa da manhã.

     Na ponte de comando, muito acima da vasta extensão do convés, Harry Wennerstrom puxou Thor Larsen pelo braço, levando-o para a sala de rádio e fechando a porta. Com a porta fechada, a sala era inteiramente à prova de som.

     — Ele é todo seu, Thor — disse Wennerstrom. — Por falar nisso, houve uma pequena alteração no plano para sua chegada à Europa. Não vou descarregá-lo ao largo. Não na viagem inaugural. Só desta vez, vai entrar com o navio no Europort, em Rotterdam, plenamente carregado.

     Larsen ficou olhando para o patrão, em silêncio, aturdido e incrédulo. Ele sabia perfeitamente que os ULCCs plenamente carregados jamais entravam nos portos. Ficavam ao largo e descarregavam pelo menos metade de sua carga para outros petroleiros menores, a fim de reduzir o calado em águas rasas. Ou então atracavam em “ilhas marítimas”, redes de tubulações com uma base em alto-mar, de onde o petróleo podia ser bombeado para a praia. A idéia de uma namorada em cada porto era uma piada de mau gosto para os tripulantes dos superpetroleiros; muitas vezes, eles não atracavam perto de cidade nenhuma ano após ano e os tripulantes eram retirados de helicóptero para suas licenças periódicas. Era por isso que os alojamentos da tripulação tinham de oferecer o que havia de melhor.

     — As autoridades do Canal da Mancha não vão permitir nossa passagem — comentou Larsen.

      — Você não vai passar pelo Canal. Vai seguir pelo oeste da Irlanda, oeste das Hébridas, norte de Pentland, entre as Orkneys e as Shetlands, depois para o sul, pelo Mar do Norte, seguindo o curso de vinte braças, àté o ancoradouro de águas profundas que ali existe, de onde os pilotos o levarão pelo canal principal na direção do Estuário do Maas. Os rebocadores completarão o percurso até Europort.

     — O Canal Interior da Bóia K. I. até o Maas não será suficiente para recebê-lo plenamente carregado — protestou Larsen.

     — Será, sim — disse Wennerstrom, calmamente. — Dragaram esse canal até trinta e oito metros, durante os últimos quatro anos. Você estará com um calado de trinta e três metros. Thor, se me pedissem para indicar qualquer marujo do mundo que pudesse levar um petroleiro de um milhão de toneladas ao Europort, eu daria seu nome. Não será nada fácil, mas deixe-me ter esse último triunfo. Quero que o mundo todo veja o meu Freya, Thor. Todos estarão à espera. O Governo holandês, a imprensa mundial. Serão meus convidados e ficarão devidamente impressionados. Se não for assim, ninguém irá vê-lo. Freya passará toda a sua vida longe dos olhos de quem estiver em terra.

     — Está certo — disse Larsen, lentamente. — Só desta vez. Tenho certeza de que estarei dez anos mais velho quando terminar essa viagem.

     Wennerstrom sorriu como um garotinho.

     — Não consigo esperar o momento em que todos o verão! A primeiro de abril. Até Rotterdam, Thor Larsen.

     Dez minutos depois, ele já havia partido. Ao meio-dia, com os operários japoneses agrupados no cais para saudar a partida, o gigantesco Freya afastou-se da praia e seguiu para a entrada da baía. Às duas horas da tarde do dia 2 de fevereiro saiu de novo para o Pacífico e virou a proa para o sul, na direção das Filipinas, Bornéu e Sumatra, no princípio de sua viagem inaugural.

    

     No dia 10 de fevereiro, o Politburo reuniu-se em Moscou para analisar, aprovar ou rejeitar o esboço do tratado e o protocolo comercial negociados em Castletown. Rudin e seus partidários sabiam que, se ele conseguisse aprovar os termos do tratado naquela reunião, poderia depois fazer com que fosse ratificado e assinado, sem maiores dificuldades, a menos que surgissem problemas inesperados. Yefren Vishnayev e sua facção de falcões também sabiam disso. A reunião foi prolongada e com discussões excepcionalmente veementes.

     Pressupõe-se freqüentemente que os estadistas mundiais, mesmo em reuniões particulares, usam uma linguagem moderada e se dirigem cortesmente a seus colegas e conselheiros. Mas não se pode dizer tal coisa de diversos recentes Presidentes dos Estados unidos e é totalmente inverídico em relação às reuniões secretas do Politburo. Os palavrões correram à solta. Somente o meticuloso Vishnayev manteve a linguagem comedida, embora seu tom fosse ácido, na medida em que combatia, juntamente com seus aliados, todas as concessões.

     Foi o Ministro do Exterior Dmitri Rykov quem terminou de persuadir os membros da facção moderada, ao declarar:

     — O que conseguimos ganhar é a venda assegurada, aos preços razoáveis de julho do ano passado, de cinqüenta e cinco milhões de toneladas de cereais. Sem isso, estaremos enfrentando o desastre, em escala nacional. E ainda conseguimos obter a aquisição, no valor de três bilhões de dólares, da mais moderna tecnologia em indústrias de bens de consumo, computadores e produção de petróleo. Assim, podemos superar todos os problemas que nos atormentam há duas décadas e alcançar perfeitas condições de operação dentro de cinco anos.

     “Em troca, temos de fazer determinadas concessões mínimas em níveis de armamentos e estados de prontidão, as quais deve-se ressaltar, não irão absolutamente atrapalhar ou retardar nossa capacidade de dominar o Terceiro Mundo e seus recursos de matérias-primas, dentro dos mesmos cinco anos. Do desastre que enfrentávamos em maio último, emergimos triunfantes, graças à liderança inspirada do Camarada Maxim Rudin. Rejeitar o tratado agora nos iria levar de volta à situação de maio, só que bem pior, pois o que resta de nossa colheita de cereais de 1982 estará esgotado dentro de sessenta dias.

     Quando o Politburo votou os termos do tratado, o que era na verdade uma votação sobre a liderança de Maxim Rudin, o empate de seis a seis permaneceu inalterável. Assim, o voto do Presidente prevaleceu.

    

     — Só há agora uma coisa que pode derrubá-lo — disse Vishnayev incisivamente ao Marechal Kerensky, no carro, quando voltavam para suas casas naquela noite. — A única alternativa agora é algum acontecimento de grandes proporções que consiga afastar um ou dois homens da facção dele, antes de o tratado ser ratificado. Se isso não acontecer, o Comitê Central vai aprovar o tratado por recomendação do Politburo e o assunto estará encerrado. Se ao menos pudesse ser provado que aqueles dois malditos judeus de Berlim mataram Ivanenko...

     Kerensky não estava tão efusivo e confiante como de hábito, Particularmente, começava a se perguntar se não teria escolhido o lado errado. Três meses antes, tudo indicava que Rudin seria pressionado demais e muito depressa pelos americanos e perderia assim o apoio crucial nas reuniões do Politburo. Agora, porém, Kerensky estava irrevogavelmente comprometido com Vishnayev. Não mais haveria maciças manobras soviéticas na Alemanha Oriental dentro de dois meses e ele nada poderia fazer para mudar isso.

     — Só mais uma coisa — disse Vishnayev. — Se tivesse aparecido seis meses antes, a luta pelo poder estaria agora terminada. Acabei de ser informado por um contato na clínica de Kuntsevo. Maxim Rudin está morrendo.

     — Morrendo? — repetiu o Ministro da Defesa. — Quando?

     — Infelizmente, não será cedo o bastante — respondeu o teórico do Partido. — Ele viverá para ratificar e assinar esse tratado, meu amigo. O tempo está se esgotando para nós e não há nada que possamos fazer. Isto é, a menos que o caso de Ivanenko ainda exploda na cara de Rudin.

     Enquanto Vishnayev conversava com Kerensky, o Freya passava pelo Estreito de Sunda. A bombordo, ficava o Promontório de Java e a estibordo a massa imensa do Vulcão Krakatoa, erguendo-se muito alto para o céu noturno. Na cabine de comando às escuras, uma bateria de instrumentos debilmente iluminados informava a Thor Larsen e ao oficial de quarto tudo o que precisavam saber. Três sistemas de navegação separados correlacionavam suas verificações no computador, instalado na pequena sala atrás da cabine de comando. Essas verificações eram totalmente acuradas. Leituras constantes da bússola, com uma exatidão a toda prova, eram comparadas com as posições das estrelas lá em cima, inalteráveis e imutáveis. As estrelas artificiais do homem, os satélites meteorológicos, eram também controlados e as informações fornecidas ao computador. Os bancos de memória dispunham de dados sobre marés, ventos, correntezas, níveis de temperatura e umidade. Do computador, mensagens intermináveis eram automaticamente transmitidas para o gigantesco leme, o qual, muito abaixo do gio da popa, reagia com a sensibilidade de um rabo de sardinha.

     Acima da cabine de comando, as duas antenas de radar giravam incessantemente, captando sinais de costas, montanhas, navios e bóias, fornecendo tudo ao computador, o qual também processava tais informações, pronto para acionar o mecanismo de alarme, ao primeiro sinal de perigo. Abaixo da superfície, os sonares transmitiam um mapa tridimensional do leito do mar. Na proa, a antena de sonar dianteira esquadrinhava as águas escuras para frente e para baixo, por uma distância de cinco quilômetros. O Freya precisaria de 30 minutos para passar de toda a velocidade a frente a uma parada repentina, percorrendo nesse período três a quatro quilômetros. Era tão grande que não podia ser parado de um momento para outro.

     Antes do amanhecer, o Freya deixou para trás o Estreito de Sunda e os computadores viraram-no para noroeste, ao longo de um curso de 100 braças, passando ao sul do Ceilão para chegar ao Mar da Arábia.

    

     Dois dias depois, a 12 de fevereiro, oito homens se reuniram no apartamento que Azamat Krim alugara num subúrbio de Bruxelas. Os cinco novos membros do grupo haviam sido convocados por Drake, que há muito tempo os descobrira, encontrara e conversara com eles pela noite afora, antes de chegar à conclusão de que também partilhavam seu sonho de desfechar um golpe poderoso contra Moscou. Dois dos cinco eram ucranianos nascidos na Alemanha, membros da grande comunidade ucraniana na República Federal. Outro era americano, de Nova York, também filho de pai ucraniano. Os outros dois eram ucranianos nascidos na Inglaterra.

     Depois que souberam o que Mishkin e Lazareff haviam feito com o chefe do KGB, houve uma profusão de comentários excitados. Ninguém discordou quando Drake declarou que a operação não estaria completa enquanto os dois judeus ucranianos não fossem libertados. Conversaram pela noite afora. Ao amanhecer, haviam-se dividido em quatro grupos de dois homens cada.

     Drake e Kaminsky voltariam para a Inglaterra e comprariam o equipamento eletrônico necessário que Drake calculava que iria precisar. Um dos alemães partiria com um dos ingleses para a Alemanha, a fim de obterem os explosivos de que iriam necessitar. O outro alemão, que tinha contatos em Paris, seguiria para lá com o outro inglês, a fim de encontrarem e comprarem ou roubarem as armas necessárias. Azamat Krim e o americano iriam procurar uma lancha. O americano, que trabalhara num estaleiro de lanchas e iates no Estado de Nova York, era um profundo conhecedor do assunto.

    

     Oito dias depois, no tribunal fortemente guardado junto à Penitenciária de Moabit, em Berlim Ocidental, começou o julgamento de Mishkin e Lazareff. Os dois homens estavam silenciosos e abatidos no banco dos réus, escutando as acusações, cercados por muralhas concêntricas de segurança, começando pelos emaranhados de arame farpado no alto dos muros do perímetro e prolongando-se até os guardas armados espalhados por toda a sala do tribunal. As acusações foram lidas em 10 minutos. Houve um murmúrio de espanto nas bancadas apinhadas da imprensa quando os dois se declararam culpados de todas as acusações. O promotor público se levantou para começar seu relato dos acontecimentos trágicos da véspera do Ano Novo. Quando terminou, os juízes suspenderam a sessão para discutir a sentença.

    

     O Freya deslocava-se lenta e serenamente pelo Estreito de Hormuz, entrando no Golfo Pérsico. A brisa amena se transformou, com o nascer do Sol, no terrível vento shamal, soprando de nordeste, carregado de areia, tornando o horizonte indistinto e vago. A tripulação conhecia aquela paisagem bastante bem, tendo passado muitas vezes por ali, indo buscar petróleo bruto no Golfo. Eram todos veteranos tripulantes de petroleiros.

     Num dos lados do Freya as Ilhas Quoin, áridas e estéreis, pelas quais passou a apenas 350 metros de distância; no outro lado, os oficiais na ponte de comando puderam divisar a desolada paisagem lunar da Península de Musandam, com suas montanhas rochosas. O Freya estava com um calado pequeno e a profundidade do canal não apresentava problemas. Na volta, carregado de petróleo bruto, seria diferente.

     Estaria com o calado mais fundo, avançando lentamente, os olhos dos oficiais fixados no sonar de profundidade, observando o mapa do leito do mar passar poucos metros abaixo da parte inferior da quilha.

     O navio ainda estava navegando com lastro, como vinha fazendo desde a partida de Chita. Possuía 60 tanques ou porões gigantescos, em linhas de três, num total de 20, da proa à popa. Um deles era o tanque de despejos, sendo usado somente para isso. Outros nove eram tanques permanentes de lastro, sendo usados apenas para conter água do mar, proporporcionando estabilidade ao navio quando não estivesse levando carga alguma.

     Mas os demais 50 tanques destinados a transportar petróleo bruto eram suficientes. Cada um tinha capacidade para 20.000 toneladas de petróleo bruto. E foi com uma confiança absoluta em sua invulnerabilidade aos acidentes da poluição e petróleo que o Freya encaminhou-se para Abu Dhabi, a fim de receber sua primeira carga.

     Há um bar modesto na Rua Miollin, em Paris, no qual se costuma reunir a arraia-miúda do mundo dos mercenários e traficantes de armas, para tomar um drinque e trocar informações. Foi para lá que o germano-ucraniano e seu colega inglês foram levados pelo contato francês do primeiro.

     Houve várias horas de negociações em voz baixa entre o francês e um amigo seu, também francês. Finalmente, o contato foi falar com os dois ucranianos.

     — Meu amigo diz que é possível — informou ele ao ucraniano da Alemanha. — Quinhentos dólares cada. Dólares americanos. Dinheiro vivo. Está incluído um pente de balas para cada unidade.

     — Aceitaremos, se ele acrescentar uma pistola com um pente de balas — disse o homem da Alemanha.

     Três horas depois, na garagem de uma casa particular perto de Neuilly, seis submetralhadoras e uma automática MAB de 9 mm foram envoltas em mantas e guardadas na mala do carro dos ucranianos. O dinheiro trocou de mãos. Em 12 horas, pouco antes da meia-noite de 24 de fevereiro, os dois homens chegaram ao apartamento em Bruxelas e guardaram as armas no fundo do armário.

    

     Enquanto o Sol subia pelo céu, a 25 de fevereiro, o Freya passava de volta pelo Estreito de Hormuz. Na ponte de comando, houve um suspiro de alívio quando os oficiais, olhando para o sonar de profundidade, viram o leito do mar baixar bruscamente à frente, para as profundezas do oceano. No mostrador digital, os números passaram rapidamente de 20 para 100 braças. O Freya voltou rapidamente a sua velocidade de carga cheia de 15 nós, enquanto seguia para sudeste, retornando ao Golfo de Omã.

     Estava agora carregado, fazendo aquilo para o qual fora projetado e construído: transportar 1.000.000 de toneladas de petróleo bruto para as sedentas refinarias da Europa e os milhões de carros particulares que iriam bebê-lo. O calado estava agora com os 33 metros previstos e os mecanismos de alarme haviam absorvido a informação e sabiam perfeitamente o que fazer, se por acaso o leito do mar alguma vez se aproximasse perto demais.

     Os nove tanques de lastro estavam agora vazios, servindo como tanques de flutuação. Na proa, a primeira fileira de três tanques continha um tanque repleto de petróleo a bombordo e estibordo com o tanque único de despejos no meio. A fileira seguinte era de três tanques vazios de lastro. A segunda fileira de três tanques de lastro ficava no meio do navio e a terceira estava na base da superestrutura de cinco andares. Lá no alto, o Comandante Thor Larsen entregou o Freya ao oficial de quarto e desceu para seu luxuoso camarote, a fim de comer alguma coisa e depois dormir um pouco.

    

     Na manhã de 26 de fevereiro, depois de um adiamento de vários dias, o juiz presidindo o julgamento no tribunal da penitenciária de alta segurança de Moabit, em Berlim Ocidental, começou a ler suas próprias conclusões e as de seus dois colegas. Levou várias horas para terminar.

     No banco dos réus, Mishkin e Lazareff ficaram ouvindo impassivelmente. De vez em quando, tomavam um gole de água, dos copos colocados nas mesas à frente de ambos. Estavam sendo atentamente observados pelos representantes da imprensa internacional, o mesmo acontecendo com os juízes. Mas um jornalista, representante de uma revista mensal alemã de esquerda, parecia mais interessado nos copos de que eles bebiam do que nos réus propriamente ditos.

     O tribunal suspendeu a sessão para o almoço. Quando os trabalhos recomeçaram, o jornalista não se encontrava em seu lugar. Estava telefonando de uma das cabines no lado de fora da sala do tribunal. Pouco depois das três horas da tarde, o juiz presidindo o julgamento chegou ao final da leitura do relatório e preparou-se para apresentar a sentença. Os réus receberam ordens de ficar de pé e ouviram em silêncio a condenação a 15 anos de prisão.

     Foram levados da sala do tribunal, para começar a cumprir a pena na Penitenciária de Tegel, na parte norte da cidade. Minutos depois, a sala do tribunal estava vazia. As faxineiras entraram em ação, esvaziando as cestas cheias de papéis, recolhendo garrafas e copos. Uma faxineira de meia-idade incumbiu-se de limpar o recinto em que tinham ficado os dois condenados. Sem que suas colegas percebessem, ela pegou os dois copos usados pelos prisioneiros e envolveu-os com flanelas, guardando-os em sua sacola, por baixo dos invólucros vazios de sanduíches. Ninguém percebeu nem se importou.

    

     No último dia do mês, Vassili Petrov solicitou e conseguiu uma audiência particular com Maxim Rudin, nos aposentos do último no Kremlin.

     — Mishkin e Lazareff — ele foi logo dizendo, sem qualquer preâmbulo.

     — O que há com eles? Foram condenados a quinze anos de prisão. Deveriam ter enfrentado o pelotão de fuzilamento.

     — Uma de nossas agentes em Berlim Ocidental conseguiu pegar os copos que eles usaram para beber água durante o julgamento. A impressão palmar de um deles confere com a impressão que foi encontrada no carro usado para o atropelamento em Kiev em outubro.

     — Então foram mesmo eles — murmurou Rudin, sombriamente. — Mas que diabo! Tem de acabar com eles, Vassili. Liquide-os, o mais depressa que puder. Entregue o problema a Casos Molhados.

     O KGB, vasto e complexo em suas atribuições e organização, consiste basicamente de quatro Diretorias Principais, sete Diretorias Independentes e seis Departamentos Independentes.

     As quatro Diretorias Principais abrangem o grosso das atividades do KGB. Uma delas, a Primeira, cuida exclusivamente das atividades clandestinas fora da União Soviética.

     No fundo dessa Diretoria, há uma seção conhecida simplesmente como Departamento V ou Departamento de Ação Executiva. É a seção que o KGB mais gostaria de manter oculta do resto do mundo, dentro e fora da União Soviética. Pois suas tarefas incluem sabotagem, extorsão, seqüestro e assassinato. Dentro do jargão do próprio KGB, geralmente é conhecida por outro nome: o departamento de mokrie dyela ou “casos molhados”, assim chamada porque suas operações, não tão raramente como se poderia pensar, envolvem a possibilidade de alguém ficar todo molhado de sangue. Foi a esse Departamento V da Primeira Diretoria Principal do KGB que Maxim Rudin determinou que Vassili Petrov entregasse a missão de eliminar Mishkin e Lazareff.

     — Já pensei nisso — disse Petrov. — Minha idéia é entregar o problema ao Coronel Kukushkin, o chefe de segurança de Ivanenko. Ele tem uma razão pessoal para ter êxito na missão: salvar a própria pele, além de vingar Ivanenko e sua própria humilhação. Já serviu algum tempo em Casos Molhados, há dez anos. E inevitavelmente está a par do segredo do que aconteceu na Rua Rosa de Luxemburgo, pois estava presente. E fala alemão. Ele se reportaria apenas ao General, Abrassov ou a mim.

     Rudin assentiu, com uma expressão sombria.

     — Está certo. Pode encarregá-lo da missão. Ele pode escolher os homens que desejar. Abrassov lhe dará todos os recursos de que precisar. A razão ostensiva será a vingança da morte do Comandante Rudenko. E é bom ele ter êxito logo na primeira tentativa, Vassili. Se tentar e fracassar, Mishkin e Lazareff podem revelar o que sabem. Depois de uma tentativa malograda de matá-los alguém pode acreditar neles. Vishnayev certamente acreditaria e você sabe perfeitamente o que isso significaria.

     — Claro que sei — murmurou Petrov. — Mas ele não vai fracassar. E se encarregará da eliminação pessoalmente.

    

     — É o melhor que vamos conseguir, Sr. Presidente — disse o Secretário de Estado David Lawrence. — Pessoalmente, creio que Edwin Campbell se saiu muito bem em Castletown.

     Sentados diante da mesa do Presidente dos Estados Unidos, no Gabinete Oval, estavam ainda os Secretários da Defesa e do Tesouro, Stanislaw Poklewski, e Robert Benson, da CIA. Além das janelas francesas, o jardim das rosas estava sendo fustigado por um vento frio. A neve já tinha acabado, mas aquele 19 de março estava desolado e sombrio.

     O Presidente William Matthews pôs a mão sobre a pasta volumosa a sua frente, o esboço de acordo arrancado das conversações de Castletown.

     — Uma parte considerável é técnica demais para mim — confessou ele. — Mas o sumário do Departamento de Defesa me impressiona. Para mim, a situação é a seguinte: se rejeitarmos agora, depois que o Politburo soviético já aceitou, não haverá renegociação. Além do mais, a questão da entrega de cereais se tornará acadêmica para a Rússia dentro de três meses. A essa altura, eles já estarão passando fome e Rudin terá caído. Yefrem Vishnayev terá a sua guerra. Certo?

     — É o que parece ser a conclusão inevitável — disse David Lawrence.

     — E o que me diz do outro lado, as concessões que fizemos? — indagou o Presidente.

     — O protocolo comercial secreto, no documento em separado — disse o Secretário do Tesouro — exige que entreguemos cinqüenta e cinco milhões de toneladas de cereais diversos aos custos de produção, e tecnologia de petróleo, indústrias de bens de consumo e computadores, bastante subsidiados, no valor de quase três bilhões de dólares. Mas, por outro lado, as consideráveis reduções de armamentos devem permitir-nos recuperar isso e muito mais, pela redução dos gastos com a defesa.

     — Se os soviéticos cumprirem suas promessas — apressou-se em dizer o Secretário da Defesa.

     Lawrence reagiu prontamente:

     — Mas se cumprirem e temos de acreditar que o farão, pelos cálculos dos seus próprios experts não poderiam desfechar uma guerra bem-sucedida na Europa, convencional ou nuclear tática, pelo menos por cinco anos.

     O Presidente Matthews sabia que as eleições presidenciais de novembro próximo não veriam sua candidatura. Mas se pudesse retirar-se do cargo, em janeiro seguinte deixando a paz, mesmo que fosse por meia década, e suspensa a onerosa corrida armamentista dos anos 70, teria seu lugar entre os grandes Presidentes dos Estados Unidos. E queria isso mais do que qualquer outra coisa naquela primavera de 1983.

     — Senhores, temos de aprovar este tratado como está — declarou ele. — David, comunique a Moscou que também concordamos com os termos e proponha que nossos negociadores voltem a se reunir em Castletown, a fim de elaborar o tratado formal que vai ser assinado. Enquanto isso, permitiremos que sejam carregados os navios de cereais, ficando prontos para zarpar no dia da assinatura do acordo. Isso é tudo.

    

     No dia 3 de março, Azamat Krim e seu colaborador ucraniano-americano fecharam o negócio que lhes valeu a aquisição de uma lancha resistente e de grande potência. Era o tipo de embarcação bastante apreciada pelos pescadores de alto-mar das costas britânicas e européias do Mar do Norte, com casco de aço, 40 pés de comprimento, resistente e de segunda mão. O registro era belga e eles a encontraram perto de Ostend.

     Na frente, tinha uma cabine cujo teto se estendia por um terço do comprimento. Uma escada levava para uma pequena área de repouso lá embaixo, com quatro apertados beliches, um banheiro minúsculo e um fogão com bujão de gás. Além da antepara posterior da cabine, a lancha era aberta à ação dos elementos. Abaixo do convés, havia um poderoso motor, capaz de levar e trazer a lancha pelo revolto Mar do Norte até os bons pesqueiros da região.

     Krim e seu companheiro levaram-na de Ostend para Blankenberge, mais ao norte da costa belga. Depois de atracada no ancoradouro de embarcações particulares, a lancha não atraía qualquer atenção. A primavera sempre trazia os ousados pescadores de alto-mar para as costas, com seus barcos e apetrechos de pesca. O americano decidiu ficar a bordo, enquanto trabalhava no motor. Krim voltou para Bruxelas, descobrindo que Andrew Drake transformara a mesa da cozinha em bancada de trabalho e estava totalmente absorvido em seus preparativos.

    

     Pela terceira vez em sua viagem inaugural, o Freya atravessou a linha do Equador e a 7 de março entrou no Canal de Moçambique, no curso sul-sudoeste, a caminho do Cabo da Boa Esperança. Ainda estava seguindo um curso de 100 braças, deixando uma margem de 200 metros de oceano abaixo da quilha. Tal curso afastava o navio para alto-mar, longe das principais rotas de navegação. Desde a saída do Golfo de Omã que a tripulação não avistava terra. Mas na tarde do dia 7 passaram perto das Ilhas Comoro, ao norte do Canal de Moçambique. A tripulação, aproveitando os ventos e ondas moderados para passear pelo convés de proa, com mais de 400 metros de comprimento, ou para descansar junto à piscina no convés “C”, pôde avistar a estibordo a Ilha Grande Comoro, o pico da montanha coberta de mata a se esconder nas nuvens, a fumaça do mato ardendo nos flancos pairando sobre as águas esverdeadas. Ao cair da noite, o céu estava nublado e soprava um vento de tempestade. À frente do Freya, estava o mar revolto do Cabo da Boa Esperança e a etapa final da viagem inaugural, para o norte, até a Europa e uma recepção festiva.

    

     No dia seguinte, Moscou respondeu formalmente à proposta do Presidente dos Estados Unidos, acolhendo com satisfação a aceitação dos termos do esboço do tratado e concordando que os principais negociadores de Castletown voltassem a se reunir, para elaborar a redação definitiva do tratado, em contato permanente com os respectivos governos.

     A maior parte da frota mercante soviética, a Sovfracht, juntamente com inúmeros outros navios fretados pela União Soviética, já partira para os portos da Costa Leste da América do Norte, a convite do Governo americano, a fim de receber suas cargas de cereais. Em Moscou, estavam surgindo as primeiras informações de quantidades excessivas de carne aparecendo nos mercados rurais, indicando que o abate dos rebanhos já começara, mesmo nas fazendas do Estado e coletivas, onde estava proibido. As últimas reservas de cereais para alimentação animal e humana estavam acabando.

     Em mensagem particular ao Presidente Matthews, Maxim Rudin lamentou que, por motivos de saúde, não poderia assinar pessoalmente o tratado, em nome da União Soviética, a menos que a cerimônia fosse realizada em Moscou. Assim, ele propôs uma assinatura formal pelos respectivos Ministros do Exterior, em Dublin, a 10 de abril.

    

     Os ventos do Cabo da Boa Esperança estavam infernais. O verão sul-africano terminara e os ventos de tempestade sopravam do Antártico e iam açoitar Table Mountain. A 12 de março, o Freya estava bem no meio das Correntes Agulhas, avançou para oeste pelo revolto mar verde, aparando as ventanias de sudoeste no costado de bombordo.

     Fazia um frio terrível no convés, mas não havia ninguém lá fora. O Comandante Thor Larsen estava na cabine de comando, com seus dois oficiais de quarto, o timoneiro, o oficial de rádio e mais dois homens, todos em mangas de camisa. Aquecidos, seguros, resguardados pela aura envolvente da invencível tecnologia do navio, eles olhavam para a frente, e podiam ver que ondas de 15 metros de altura, impelidas pelo vendaval que soprava de sudoeste, erguiam-se acima do costado de bombordo do Freya, pairavam por um momento e depois desabavam violentamente sobre o gigantesco convés, ocultando por um momento os incontáveis canos e válvulas num turbilhão de espuma branca. Enquanto as ondas desabavam, só dava para se divisar o castelo de proa, lá na frente, parecendo uma entidade separada. Quando a espuma recuava, derrotada, deslizando pelos embornais, o Freya sacudia-se todo e arremetia bravamente contra outra montanha de água. Trinta metros abaixo dos homens na cabine de comando, máquinas de 90.000 cavalos de força impeliam 1.000.000 de toneladas de petróleo bruto por mais alguns metros na direção de Rotterdam. Lá em cima, os albatrozes do Cabo da Boa Esperança sobrevoavam o navio, seus gritos não penetrando pelo plexiglass da cabine de comando. Um dos taifeiros estava servindo café.

    

     Dois dias depois, na segunda-feira, 14 de março, Adam Munro saiu de carro do pátio da Seção Comercial da Embaixada britânica e virou à direita, na Kutuzovsky Prospekt, a caminho do centro da cidade. Seu destino era o prédio principal da embaixada, atendendo a uma convocação do Chefe da Chancelaria. O telefonema, certamente escutado pelo KGB, aludira ao esclarecimento de pequenos detalhes sobre a visita de uma delegação comercial que estava para chegar de Londres. Na verdade, significava que havia uma mensagem à espera de Munro na sala de códigos.

     A sala de códigos no prédio da embaixada no Dique Maurice Thorez fica no porão, sendo regularmente visitada por “varredores”. que não estão preocupados em tirar a poeira, mas sim em procurar quaisquer artefatos de escuta. Os homens que ali trabalham são diplomatas, submetidos a constantes verificações de segurança de alto nível. Mesmo assim, há mensagens que chegam com um código especial, indicando que não serão e não podem ser decifradas pelas máquinas normais de decifração. Há uma indicação nessas mensagens para que sejam encaminhadas a um homem em particular, um homem que tem o direito de saber o que contém, pois precisa saber, de vez em quando, como naquele dia, chegava uma mensagem assim para Adam Munro. O homem da sala de códigos a quem foi encaminhada essa mensagem conhecia a verdadeira função de Munro, porque precisava saber; quanto menos não fosse, para protegê-lo dos que não sabiam.

     Munro entrou na sala de códigos e o funcionário específico avistou-o imediatamente. Os dois se retiraram para um pequeno anexo, onde o funcionário, um homem preciso e metódico, usando óculos bifocais, tirou uma chave presa no cinto para abrir uma máquina de decifração especial. Ele passou a mensagem de Londres pela máquina, obtendo a tradução. Ele nem a olhou, desviando o rosto enquanto Munro se afastava alguns passos.

     Munro leu a mensagem e sorriu. Decorou-a em poucos segundos e colocou-a numa máquina especial, que reduziu o papel fino a fragmentos não muito maiores do que partículas de poeira. Agradeceu ao funcionário e foi embora, dominado por uma alegria intensa. Barry Ferndale informara-o de que, com o tratado russo-americano prestes a ser assinado, Nigthingale poderia ser retirado da União Soviética, para uma recepção discreta mas extremamente generosa, sendo recolhido na costa da Romênia, perto de Constantza, na semana de 16 a 23 de abril. Havia detalhes adicionais sobre o plano exato do recolhimento. Ferndale pedia-lhe que consultasse Nightingale e confirmasse a aceitação e concordância.

    

     Depois de receber a mensagem pessoal de Maxim Rudin o Presidente Matthews comentou com David Lawrence:

     — Como se trata de algo mais do que um mero acordo de limitação de armamentos, creio que podemos chamá-lo de tratado. E como parece fadado a ser assinado em Dublin, não resta a menor dúvida de que a história irá chamá-lo de Tratado de Dublin.

     Lawrence consultou o Governo da República da Irlanda, que declarou, com uma satisfação mal disfarçada, que teria o maior prazer em ser o anfitrião da cerimônia de assinatura formal do tratado, entre David Lawrence, pelos Estados Unidos, e Dmitri Rykov, Pela União Soviética, no Salão de St. Patrick, no Castelo de Dublin, a 10 de abril.

     A 16 de março, o Presidente Matthews respondeu à mensagem de Maxim Rudin, concordando com o local e a data.

    

     Há duas pedreiras bem grandes nas montanhas próximas de Ingolstadt, na Baviera. Na noite de 18 de março, o vigia de uma delas foi atacado e amarrado por quatro homens mascarados, pelo menos um deles armado com uma pistola, conforme contou mais tarde à polícia. Os homens, que pareciam saber exatamente o que estavam procurando, abriram o depósito de dinamite, usando as chaves do vigia noturno, e roubaram 250 quilos de TNT para explodir rochas, além de diversos detonadores elétricos. Eles partiram muito antes do amanhecer. Como o dia seguinte era sábado, 19 de março, já era quase meio-dia quando o vigia noturno todo amarrado foi encontrado e o roubo descoberto. As investigações policiais subseqüentes foram intensas. Como os ladrões pareciam ter um amplo conhecimento da pedreira, as investigações concentraram-se em antigos empregados. Só que a polícia estava pensando em ativistas da extrema esquerda. O nome de Klimchuk, que trabalhara na pedreira três anos antes, não atraiu qualquer atenção em particular, pressupondo-se que fosse de origem polonesa. Na verdade, trata-se de um nome ucraniano. Ao cair da noite daquele sábado, os dois carros levando os explosivos haviam voltado a Bruxelas, cruzando a fronteira germano-belga na auto-estrada Aachen/Liege. Os carros não foram detidos, pois o tráfego de fim-de-semana era especialmente intenso.

    

     Ao anoitecer do dia 20, o Freya já havia passado pelo Senegal, fazendo um bom tempo desde o Cabo da Boa Esperança, com a ajuda de ventos alísios de sudeste e uma correnteza favorável. Embora ainda fosse cedo para a temporada, já havia europeus em férias nas praias das Ilhas Canárias.

     O Freya estava muito a oeste das ilhas, mas pouco depois do amanhecer do dia 21, os oficiais na cabine de comando puderam avistar o pico vulcânico do Monte Teide, em Tenerife, a primeira terra que viam desde a costa escarpada do Cabo Province. As montanhas das Canárias logo ficaram para trás. Eles sabiam que, dali por diante, a não ser por uma chance remota de avistarem o cume da Ilha da Madeira, só iriam ver em seguida as luzes de advertência para ficarem ao largo das costas perigosas de Mayo e Donegal, na Irlanda.

    

     Adam Munro teve de esperar impacientemente por uma semana para se encontrar com a mulher a quem amava. Mas não havia a menor possibilidade de entrar em contato com Valentina antes do encontro que haviam previamente combinado, na segunda-feira, dia 21. O local acertado era a Exposição de Realizações Econômicas, cujos 238 hectares de parques misturavam-se com o Jardim Botânico da Academia de Ciência da União Soviética. Ali, num arboreto cercado ao ar livre, Munro encontrou-a a sua espera, pouco antes do meio-dia. Como havia o risco de algum transeunte ver, ele não pôde beijá-la, como sentia vontade de fazer.

   Em vez disso, com um excitamento controlado, contou a notícia que recebera de Londres. Valentina ficou exultante.

     — Também tenho uma notícia boa para você, Adam. Uma delegação fraternal do Comitê Central vai comparecer ao Congresso do Partido Romeno, na primeira metade de abril. Convidaram-me a acompanhá-la. As aulas de Sacha terminam no dia 29 e partiremos para Bucareste no dia 5 de abril. Depois de 10 dias trabalhando, será perfeitamente normal que eu leve um menino entediado para passar uma semana na praia.

     — Neste caso, vou marcar a coisa para a noite de 18 de abril, uma segunda-feira. Isso lhe dará alguns dias em Constantza para conhecer a área. Deve alugar ou tomar emprestado um carro e comprar uma lanterna potente. E agora, Valentina meu amor, vou explicar-lhe os detalhes. Trate de decorar tudo, pois não poderá haver erros.

     “Ao norte de Constantza, fica o balneário de Mamaia, que costuma ser freqüentado por turistas ocidentais. Saia de carro de Constantza na noite do dia dezoito, seguindo para o norte e passando por Mamaia. Exatamente dez quilômetros ao norte de Mamaia, há um caminho de terra que leva da estrada litorânea até a praia. No promontório que existe ali, vai encontrar uma pequena torre de pedra, com a metade inferior pintada de branco. É um ponto de referência na costa para os pescadores. Deixe o carro longe da estrada e desça pelo penhasco até a praia. Às duas horas da madrugada, verá uma luz no mar. Três traços longos e três curtos. Pegue a sua lanterna, com o facho reduzido por um tubo de papelão, e aponte diretamente para o lugar em que avistou a luz. Mande o sinal inverso, três traços curtos e três longos. A lancha virá do mar para buscar você e Sacha.

     “Na lancha, haverá dois fuzileiros e um homem que fala russo. Identifique-se com a frase “Nightingale canta na Berkeley Square.” Entendido?

     — Entendido. Onde fica Berkeley Square, Adam?

     — Em Londres. É uma praça linda... como você. Tem muitas árvores.

     — E os rouxinóis cantam ali?

     — Segundo a letra da canção, um rouxinol costumava cantar. Parece tão pouco tempo, querida! Quatro semanas, a contar de hoje. Assim que chegarmos a Londres, vou levá-la à Berkeley Square.

     — Gostaria que me dissesse uma coisa, Adam. Acha que traí minha gente, o povo russo?

     — Não, não traiu — respondeu ele, incisivamente. — Os líderes é que quase traíram. Se não tivesse feito o que fez, Vishnayev e seu tio poderiam ter desfechado a guerra que estavam querendo. E se houvesse a guerra, a Rússia seria destruída, assim como a maior parte da América, meu país e a Europa Ocidental. Pode estar certa de que não traiu o povo de seu país.

     — Mas eles jamais compreenderiam, jamais me perdoariam. — Havia uma ameaça de lágrimas nos olhos pretos de Valentina. — Vão chamar-me de traidora. Serei uma exilada.

     — Talvez um dia toda essa loucura termine. Talvez um dia você possa voltar. Não podemos continuar juntos por mais tempo, meu amor. É muito arriscado. Só tenho mais uma coisa a falar. Preciso do seu telefone particular. Sei que combinamos que eu nunca lhe telefonaria. Mas não tornaremos a nos encontrar até você estar a salvo no Ocidente. Se por um acaso remoto houver alguma mudança no plano ou na data, posso precisar entrar em contato com você. Só o farei numa emergência. Se isso acontecer, fingirei ser um amigo chamado Gregor, ligando para dizer que não poderei comparecer a seu jantar. Neste caso, saia de casa imediatamente e vá encontrar-se comigo no estacionamento do Hotel Mojarsky, na Kutuzovsky Prospekt.

    Valentina assentiu docemente e deu seu telefone. Munro beijou-a no rosto.

     — Eu a verei em Londres, minha querida.

     No instante seguinte, ele desapareceu entre as árvores. Sabia que teria de pedir demissão do serviço e suportar a ira intensa de Sir Nigel Irvine, quando ficasse patente que Nightingale não era Anatoly Krivoi mas sim uma mulher, sua futura esposa. A esta altura, porém, já seria tarde demais para que o serviço pudesse fazer alguma coisa.

    

     Ludwig Jahn olhava aturdido, com um medo crescente, para os dois homens que ocupavam as poltronas de seu impecável apartamento de solteiro em Wedding, o bairro operário de Berlim Ocidental. Ambos apresentavam todos os sinais de homens que ele outrora conhecera, há muito tempo, e que esperara nunca mais encontrar.

     O que estava falando era certamente alemão. Ele não tinha a menor dúvida quanto a isso. O que não sabia era que o homem se chamava Major Schulz, da polícia secreta da Alemanha Oriental, a temida Staatssicherheitsdienst, conhecida simplesmente como SSD. Jamais saberia o nome, mas podia facilmente imaginar a ocupação

     Podia também adivinhar que a SSD dispunha de fichas amplas de todos os alemães orientais que haviam escapado para o Ocidente. Era o caso dele. Trinta anos antes, quando tinha 18 anos, Jahn participara dos motins operários em Berlim Oriental, que tinham crescido de proporção até se transformar no levante dos alemães orientais. Ele tivera sorte. Embora houvesse sido detido numa das batidas da polícia russa e de seus acólitos alemães orientais, não ficara preso. Mas recordava-se nitidamente do cheiro das celas e dos sinais característicos dos homens que ali dominavam. Eram assim seus visitantes naquele dia 22 de março, três décadas depois.

     Ele se mantivera retraído durante oito anos, depois dos motins de 1953. Em 1961, antes de o Muro ser concluído, passara sem maiores dificuldades para Berlim Ocidental. Há 15 anos que tinha um bom emprego público em Berlim Ocidental, começando como simples carcereiro e depois sendo promovido até Oberwachmeister, Chefe da Guarda do Bloco Dois da Penitenciária de Tegel.

     O outro homem que estava em seu apartamento manteve-se em silêncio. Jahn jamais saberia que ele era um Coronel soviético chamado Kukushkin, ali presente em missão do departamento de “casos molhados” do KGB.

     Jahn olhou horrorizado para as fotografias que o alemão tirou de um envelope grande e colocou a sua frente lentamente, uma a uma. Mostravam sua mãe viúva, numa cela, apavorada, em seus quase 80 anos, olhando obedientemente a câmara, na esperança de ser libertada. Lá estavam seus dois irmãos mais moços, com algemas nos pulsos, em celas diferentes, a alvenaria das paredes aparecendo com toda nitidez.

     — Há também suas cunhadas e suas três deliciosas sobrinhas. Sabemos tudo a respeito dos presentes de Natal. Como é mesmo que o chamam? Tio Ludo? Mas que encantador! Diga-me uma coisa: por acaso já tinha visto alguma vez lugares assim?

     Havia mais fotografias, de cenas que fizeram Jahn, confortavelmente gordo de uma vida tranqüila, fechar os olhos por vários segundos. Eram vultos estranhos, parecendo zumbis, vestidos em trapos, os crânios raspados, os olhos mortiços voltados para a câmera.

     Estavam encolhidos, os pés mirrados envoltos por trapos, para se proteger do frio ártico. Eram encarquilhados, subumanos. Ali estavam alguns dos habitantes dos campos de trabalhos forçados do complexo de Kolyma, na extremidade leste do norte da Sibéria, na Península de Kamchatka, onde o ouro é extraído, muito além do Círculo Ártico.

     — Sentenças de prisão perpétua nesses... retiros... são reservadas apenas para os piores inimigos do Estado, Herr Jahn. Mas meu colega aqui presente pode providenciar penas de prisão perpétua para toda a sua família. Isso mesmo, até para a sua velha e querida mãe. Basta apenas dar um telefonema. E agora me responda uma pergunta: vai querer que ele dê esse telefonema?

     Jahn fitou os olhos do homem que não havia falado coisa alguma. Os olhos eram tão sinistros quanto os campos de Kolyma.

     — Nein — balbuciou ele. — Não, por favor. O que está querendo que eu faça?

     Foi o alemão quem respondeu:

     — Há dois seqüestradores aéreos na Penitenciária de Tegel, Mishkin e Lazareff. Conhece-os?

     Jahn assentiu, completamente atordoado.

     — Conheço, sim. Eles chegaram há quatro semanas. Houve muita publicidade.

     — Onde exatamente eles estão?

     — No Bloco Dois. Andar superior, ala leste. Estão numa solitária, isolados, a pedido deles. Temem os outros prisioneiros. Ou pelo menos é o que dizem. Mas não há razão. Para os estupradores de crianças pode haver razão para medo, mas não no caso desses dois. Mesmo assim, eles insistem no isolamento.

     — Mas pode visitá-los, Herr Jahn? Tem acesso aos dois?

     Jahn ficou calado. Já começava a temer o que os dois visitantes estavam querendo com os seqüestradores. Vinham do Leste; os seqüestradores tinham escapado de lá. Não podiam estar querendo entregar presentes de aniversário.

     — Dê outra olhada nas fotos, Jahn. Dê uma boa olhada, antes de começar a pensar em nos criar dificuldades.

     — Posso realmente visitá-los. Nas minhas rondas. Mas somente à noite. Durante o turno do dia, há três carcereiros no corredor. Se eu quisesse visitar os prisioneiros, seria inevitavelmente acompanhado por um ou dois. Além disso, não haveria razão para que eu os visitasse no turno do dia. Já no turno da noite posso alegar que preciso verificar como eles estão.

     — E neste momento está no turno da noite?

     — Não. Estou no turno do dia.

     — Qual é o horário do turno da noite?

     — De meia-noite às oito horas da manhã. As luzes são apagadas às dez horas da noite. A mudança de turno é a meia-noite. A nova turma chega às oito horas da manhã. Durante o turno da noite, eu patrulho o bloco três vezes, acompanhado pelo homem de plantão em cada andar.

     O alemão sem nome pensou por um momento.

     — Meu amigo aqui presente deseja visitar os dois. Quando vai voltar ao turno da noite?

     — Na segunda-feira, quatro de abril.

     — Muito bem, eis o que terá de fazer — disse o alemão oriental. Jahn recebeu instruções para tirar do armário de um colega em férias o uniforme e o passe necessários. Às duas horas da madrugada de segunda-feira, 4 de abril, ele desceria ao térreo e abriria a porta lateral destinada aos funcionários da penitenciária para que o russo entrasse. Iria acompanhá-lo até o último andar e o esconderia na sala do pessoal do turno do dia, da qual providenciaria uma chave. Daria um jeito para que o homem no plantão noturno no último andar se ausentasse, encarregando-o de uma missão qualquer, ficando no lugar dele. Durante a ausência do homem, ele deixaria que o russo entrasse no corredor das celas de confinamento, emprestando-lhe sua chave-mestra. Depois que o russo “visitasse” Mishkin e Lazareff, o processo seria invertido. O russo se esconderia novamente, até que o outro homem retornasse a seu posto. Depois, Jahn acompanharia o russo de volta à entrada dos funcionários, deixando-o sair.

     — Não vai dar certo — murmurou Jahn, sabendo que provavelmente daria.

     O russo finalmente falou, em alemão:

     — É melhor dar certo. Se não der, vou providenciar pessoalmente para que toda a sua família inicie um regime em Kolyma que vai fazer com que o regime “ultra-rigoroso” até agora existente pareça uma lua-de-mel na suíte nupcial do Hotel Kempinski.

    Jahn teve a sensação de que havia gelo líquido correndo por suas veias. Nenhum dos homens duros na ala especial podia comparar-se com aquele homem. Engoliu em seco, balbuciando:

     — Está bem...

     — Meu amigo voltará a este apartamento às seis horas da tarde de domingo, três de abril — disse o alemão oriental. — Por gentileza, não convoque nenhum comitê de recepção da polícia. De nada adiantaria. Ambos temos passaportes diplomáticos, com nomes falsos. Negaríamos tudo e iríamos embora em liberdade. Limite-se a providenciar o uniforme e o passe para o meu amigo.

     Os dois haviam partido um minuto depois. Levaram as fotografias, não deixando qualquer prova. Mas não fez muita diferença. Jahn pôde ver todos os detalhes em seus pesadelos.

    

     A 23 de março, mais de 250 navios, a primeira leva da frota mercante soviética, estavam atracados em 30 portos da Costa Leste da América do Norte, do Estuário do St. Lawrence, no Canadá, até o sul da Carolina, nos Estados Unidos. Havia ainda gelo no St. Lawrence, mas foi rompido em 1.000 fragmentos pelos navios quebra-gelos, para permitir que os graneleiros encostassem nos silos.

     Uma parcela considerável desses navios era da Sovfracht, mas havia muitos de bandeira americana, pois uma das condições da venda fora a de que cargueiros dos Estados Unidos fossem fretados para o transporte dos cereais.

     Dentro de 10 dias, os navios começariam a se deslocar para leste, a caminho de Archangel e Murmansk, no Ártico soviético, Leningrado, na extremidade do Báltico, e dos portos de água quente de Odessa, Simferopol e Novorossisk, no Mar Negro. Bandeiras de 10 outras nações misturavam-se com as soviéticas e americanas, na maior operação de transporte de carga seca desde a Segunda Guerra Mundial. De uma centena de silos, de Winnipeg a Charleston, as bombas despejaram uma torrente dourada de trigo, cevada, aveia, centeio e milho nos porões dos navios, tudo destinado a alimentar milhões de russos famintos, dentro de um mês.

 

No dia 26, Andrew Drake levantou-se de seu trabalho na mesa da cozinha de um apartamento nos subúrbios de Bruxelas e declarou que já estava pronto.

     Os explosivos haviam sido acomodados em 10 valises de fibra, as submetralhadoras envoltas por toalhas e...

 

                                                                                CONTINUA  

 

                      

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