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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A ARMADILHA / Allison Brennan
A ARMADILHA / Allison Brennan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Após receber a notícia de que o assassino de sua irmã está livre da prisão, Olivia St. Martin, agente do FBI, cai em desespero. Mas O DNA não mente: o homem foi preso era inocente, e isso significa que o sádico que estuprou e assassinou a sua irmã trinta anos atrás, quando ela não era nada mais do que uma menina, segue livre e pode voltar a matar novamente. O aparecimento de vários cadáveres de meninas loiras em Seattle faz Olivia, sem qualquer autorização de seus superiores, se apresente na cena do crime para ajudar a polícia local.

Travis Zack, policial responsável pelo inquérito policial, se sente imediatamente atraído por aquela estranha agente federal, atraente e reservada, que parece estar muito mais envolvida no caso do que ela admite. Mas Olivia está disposta a passar por cima dos seus sentimentos e de sua própria carreira, se necessário, para parar o homem que ela mais odeia no mundo. Um criminoso que continua a espreita, esperando ansiosamente a sua próxima vítima, pronto para matar novamente.

 

 

 

 

Livie levantou a cabeça para o céu do crepúsculo e franziu cenho, apertando o estômago com os braços.

—Missy, por favor. Quero voltar para casa. Vai chover.

—Só quer ir para casa porque vai chover — replicou Missy sem levantar os olhos do livro.

Só porque estava no quarto ano e tinha recebido quatro condecorações e estava no quadro de honra, Missy sempre lhe corrigia as expressões. Livie odiava quando ela fazia isso, mas, afinal, sua irmã seria professora e precisava praticar.

Soprou uma rajada de vento que acabou se transformando em uma leve brisa fria.

—Missy, eu estou com frio.

Sua irmã apertou os olhos e exalou aquele suspiro tão sonoro que estava acostumada a soltar quando Livie a estava chateando. Significava que Livie era como a peste.

—Dez minutos, de acordo? Quero terminar este capítulo.

—Bom — disse Livie fazendo uma careta.

Voltou a pegar sua toalha e começou a brincar com a areia com ar ausente, escavando e observando a lenta queda dos grãos de areia sobre o chão. Adorava brincar no parque, mas não quando eram as únicas crianças que permaneciam nele.

Os balanços eram sua distração predileta. Livie se esforçava permanentemente em lançar suas pernas cada vez mais depressa e com mais força para ver se conseguia dar a volta completa no alto, embora ainda não tivesse conseguido. Seu pai dizia que ela era imprudente; Missy afirmava que era uma idiota; e sua mãe lhe advertia que um dia quebraria uma perna e que assim aprenderia a lição.

Era a véspera do Halloween. Livie não era medrosa, mas na semana anterior tinha visto um filme de fantasmas e não queria estar fora de casa depois que escurecesse. A norma é que tinham que estar em casa cinco minutos depois de que se acendesse a iluminação pública, mas Livie queria ir para casa «imediatamente». O sol já tinha se escondido atrás da casa de dois pisos dos Patterson, deixando aquela preciosa cor rosada.

—Vamos, Missy — suplicou Livie.

Sua irmã a ignorou, e Livie tirou sua toalha. Então, levantou-se e se dirigiu para os balanços, situados no lado mais afastado da área de recreação. Nesse dia não queria voar, assim se impulsionou para frente e para trás sem esforço, enquanto a fúria das rajadas de ar deixava seus braços arrepiados. Folhas de cor vermelha, laranja e marrom revoavam pelo chão daqui para lá, impulsionadas pelo vento.

Livie preferia a primavera, quando tudo era verde, alegre e luminoso; quando a névoa não umedecia todas as manhãs, persistindo às vezes até na hora de comer. Mas faltavam seis meses completos até a primavera. Livie faria seis anos na primavera seguinte. Recitou mentalmente os meses: maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro… tinha cinco anos e meio! Completados no dia anterior!

Saltou do balanço, e deu a volta para retornar correndo para junto de Missy e lhe contar o cálculo que acabava de realizar. Deteve-se de repente.

Missy não estava sozinha.

Um homem estava falando com ela. Era realmente alto, embora não tanto como papai, nem tão velho. Estava sem casaco. Será que não sabia que se podia pegar uma tosse de morte, se saísse sem casaco com esse tempo? Ele tinha algo pintado no braço em azul.

Assustada, Livie começou a caminhar na direção deles com um aperto no estômago que lhe avisou de que algo não estava bem. Missy não parecia assustada, embora «ela» não tivesse visto o filme de fantasmas na semana anterior. Livie mordeu o lábio. Não queria comportar-se como uma chorona, mas queria ir para casa imediatamente. E se tinha que começar a chorar para conseguir isso, pois bem, faria isso. Quando começava a chorar, Missy cedia.

—Missy! —chamou.

O homem se voltou e a olhou, e seus olhos fizeram algo estranho, como se ficasse vesgo. Então, pegou Missy pelo braço.

—Vamos!

—Não! — gritou Missy, e tentou escapar.

Livie pôs-se a correr para eles.

—Solte a minha irmã! Solte-a!

O homem levantou Missy no momento em que Livie os alcançava. Não sabia o que ia fazer, mas sabia que os estranhos nem sempre eram amáveis, e aquele homem de pássaro azul no braço tinha Missy presa em seu ombro.

Antes que Livie pudesse pegar Missy, o homem a golpeou. Livie caiu no chão sem respiração. A boca tinha um gosto estranho, como quando tinha perdido seu primeiro dente no verão passado; tentou gritar, mas sua saliva estava grossa.

Deu um tropeção ao se levantar, com as lágrimas nublando a visão. O homem tinha agarrado Missy e atravessava a grama às pressas em direção à rua.

—Papai! —gritou Livie entre soluços—. Socorro! Socorro!

O homem mal abriu a porta de uma caminhonete preta e atirou Missy para dentro. Quando ela tentou sair, ele a golpeou com algo parecido a um pau grande; em seguida, correu para o lado do motorista e se afastou com o veículo.

Missy não fez nenhuma outra tentativa de se libertar.

Livie se dirigiu correndo para sua casa sem deixar de gritar.

—Papai! Papai!

Seu pai abriu a porta com um puxão com uma expressão no rosto de absoluta preocupação.

—Olivia! O que aconteceu? Onde está Melissa?

—Um homem a levou!

Mamãe deu um grito; papai pegou Livie pelo braço e a meteu para dentro de casa. Antes de sair correndo pela porta, empurrou-a para sua mãe.

—Chame à polícia! —gritou papai, enquanto Livie se afundava na segurança dos braços de sua mãe.

O efêmero abraço chegou a fim.

Foi a última vez que sua mãe voltaria a abraçá-la.

 

O dia em que a vida de Olivia St. Martin mudou por completo começou como qualquer outro.

Introduziu duas amostras na lâmina de vidro do microscópio e se inclinou sobre a lente, ajustando o aumento até que os diminutos fios de tapete adquiriram nitidez. Reconheceu o padrão imediatamente, mas analisou todos os pontos de semelhança para seu relatório e foi anotando em sua folha de análise. Quando terminou, utilizou a câmera incorporada no microscópio para fotografar o padrão, extraiu a prova com as mãos cobertas com umas luvas de látex e a introduziu em uma caixa selada para evitar a contaminação.

Depois de assinar o relatório, revisou o processo para assegurar-se de que sua equipe tinha terminado de processar todas as provas do assassinato de Camero. Tudo parecia em ordem, embora ainda faltasse o relatório de DNA. Havia se encontrado uma penugem alheia na vítima e havia sido remetida à unidade CODIS (sistema mistura de indexação de DNA do FBI) para fosse analisada e introduzida na base de dados. Ao contrário do que se deixava entrever nas séries populares de televisão, a analise do DNA era um processo lento e árduo, que dependia em boa parte do pessoal e dos recursos disponíveis.

Olivia adorava seu trabalho e já tinha obtido sua recompensa por isso: um ano antes havia sido promovida a diretora de análise de provas indiciarias e materiais do laboratório do FBI da Virginia.

A porta se abriu, e Olivia levantou os olhos quando o doutor Greg Van Buren entrou. A expressão séria de seu ex-marido lhe surpreendeu: Greg estava acostumado a estar sempre risonho ou pensativo, muito raramente mostrava-se deprimido.

Ela levantou uma sobrancelha enquanto fechava a pasta do processo.

—Olivia — Greg limpou a garganta. Sob seus óculos de aros metálicos, seus limpos olhos azuis se entrecerraram com preocupação. Moveu-se com inquietação e baixou o olhar. Estava acontecendo algo.

Olivia sentiu uma opressão no peito.

—Do que se trata?

—Vamos dar um passeio, Olivia

Quando ficou de pé, as pernas lhe fraquejaram um pouco, mas Olivia manteve a cabeça erguida enquanto avançava pelo corredor com Greg. Estavam no último andar do edifício de três andares, mas optaram ir pelas escadas em lugar do elevador para descer ao andar inferior.

Lá fora, sentiu-se envolvida por uma rajada de ar quente e úmido. Olivia contraiu o nariz. O forro de algodão de sua saia grudou imediatamente nas pernas, ela venceu o impulso de se arrumar. Nunca se acostumaria a aqueles verões pegajosos da costa leste. Tinha pensado que uma vez que passasse o Dia do Trabalho (a primeira segunda-feira de setembro) o tempo refrescaria; não tinha tido tanta sorte. Nunca tinha imaginado que sentiria falta das manhãs cinza da península de São Francisco, mas qualquer dia mudaria a umidade pela névoa.

Estudou o comportamento e a atitude de Greg; acontecia algo muito ruim. Sentiu o estômago se contrair. Estava impaciente para que ele falasse, embora pudesse tratar-se de algo que ela não queria saber.

Passaram junto ao distintivo de pedra situada diante do laboratório do FBI erguida no dia em que se inauguraram as novas instalações no ano de 2003.

    

«Atrás de cada caso há uma vítima — um homem, uma mulher ou uma criança — e as pessoas que a amam. Dedicamos nossos esforços e este novo edifício do laboratório do FBI a essas vítimas.»

    

Olivia nunca permitia que suas emoções aflorassem, em público ou em particular, mas aquela inscrição sempre conseguia comovê-la, ao se recordar que, atrás de cada crime, sempre havia mais de uma vítima; que a morte deixava para trás as pessoas amadas. Família, amigos e, freqüentemente, comunidades inteiras que choravam a perda, com tanta intensidade às vezes, que se assemelhavam a uma concha vazia, arrasada em seu interior. A única coisa que ficava aos sobreviventes era a esperança de que o culpado fosse castigado por seus crimes.

—Liv, não sei como te dizer isto.

Greg parou de caminhar, e os dois pararam à sombra do edifício. Poucos metros mais à frente, alguns fumantes folgavam na área destinada a fumantes. Um débil rasto da fumaça viciada dos cigarros flutuava na quietude do ar.

—Não entendo por que não afastam um pouco mais a área de fumantes — disse Olivia demorando a conversa.

Greg franziu o cenho.

—Olivia, isto é algo importante.

O tom de sua voz fez que todo o corpo dela se crispasse. Voltou-se e cravou o olhar no aristocrático perfil dele. O rosto largo, o nariz cinzelado, os olhos afundados… Greg Van Buren — parente longínquo do ex-presidente — tinha a calma aparência de um bom menino. Era um homem amigável, tranqüilizador.

—Muito bem, então me conte. —Ela se esforçou em esconder sua tensão sob um ar de desinteresse.

A dor nublou o olhar dele. Também a preocupação.

—Hoje fui chamado por Hamilton Craig.

—E para que demônios ele te chamou? —Olivia tinha visto o promotor do distrito há três meses exatamente, quando o assassino da irmã dela tinha pedido a condicional, que tinha sido negada legitimamente.

Craig estava ficando velho e tinha anunciado que se aposentaria no final do mandato em curso.

—Algo está errado? Você está bem? —perguntou Olivia.

—Sim, sim, estou muito bem — disse Greg—. Trata-se de Hall.

Ela fechou os olhos. Era incapaz de pensar em Brian Harrison Hall sem sentir emoções desencontradas: dor, lástima, vitória, vazio… E satisfação porque Hall estava preso, no lugar a que pertencia. E cólera porque não tinha sido condenado à morte. Sua irmã tinha morrido por culpa dele; deveria ter tido a mesma sorte. Mas o Supremo Tribunal da Califórnia aboliu a pena de morte pouco depois de sua condenação, assim por períodos de três a cinco anos se examinava sua liberdade condicional.

Olivia não havia perdido nem sequer uma das seis vistas celebradas para examinar a liberdade condicional de Hall. Faria o que fosse para mantê-lo atrás das grades.

—O que? —Por fora, estava tranqüila. Serena e profissional. Por dentro, seus nervos vibraram até um extremo insuportável.

—Seu advogado pediu uma prova de DNA. A polícia tinha conservado as provas, incluindo as amostras do pêlo púbico. Assim havia algo com o que comparar o DNA de Hall. O tribunal lhe concedeu a petição no mês passado. E o laboratório do estado da Califórnia apresentou seu relatório esta manhã. —Fez uma pausa e passou a mão pelo cabelo cortado muito curto —. Não sei como dizer isto sem rodeios. Não coincidem.

Olivia estava segura de que não tinha ouvido bem.

—Não entendo — disse com lentidão—. O que é o que não coincide?

—O DNA de Hall não coincide com a amostra de pêlo púbico encontrado no corpo de sua irmã.

—Não acredito.

O tom de voz de Olívia foi moderado, não suas palavras, que a traiam sem cuidados. Tinha que ser um engano.

«As provas não mentem.»

—Hall será posto em liberdade amanhã.

—Não. Não — disse Olivia negando com a cabeça—. Não pode ser. Ele matou Missy. Ele a matou. Eu o vi.

Disse com total naturalidade. Ela o «tinha visto». Recordava a caminhonete preta. A tatuagem de águia azul; a tatuagem que continuava conservando no braço. Seu cabelo loiro. A caminhonete era dele… As provas o tinham demonstrado.

Olivia não tinha tido conhecimento de nada sobre a investigação, quando aconteceu a trinta e quatro anos antes. Mas tinha lido os relatórios em várias ocasiões após. Os tinha decorado. Ela conhecia todos e cada um dos truculentos detalhes a respeito do que Brian Harrison Hall tinha feito a sua irmã. Encontraram fibras das palhinhas do chão da caminhonete no corpo de Missy; e o sangue dela tinha aparecido no banco da frente.

Bastardo assassino.

—Hamilton me enviou o relatório por fax. Eu o li com atenção. Liguei para o laboratório criminal do estado da Califórnia e falei com o técnico que realizou a coleta. Não há nenhum engano, Liv.

—Não. NÃO!

Seu grito assustou a ambos. Ela nunca gritava, nunca levantava a voz. Greg baixou a mão para lhe acariciar o braço.

—Olivia, me deixe ajudar…

Ela se afastou com brutalidade.

—Quero ver o relatório.

Antes que Greg pudesse dissuadi-la, Olivia se dirigiu como um vendaval para as portas laterais e bateu o cartão de identificação contra o painel eletrônico para voltar a entrar no edifício. Ouviu os passos dele atrás dela quando abriu a porta de acesso às escadas e enquanto subia a toda velocidade os degraus até o terceiro andar.

Tinha que haver um engano. O novo advogado de Hall tinha mudado as provas. Haviam sido alteraradas. Não eram suficientes para realizar uma prova comparativa. As amostras se degeneram com o tempo. Tinha que haver uma «razão» para aquela mentira; sempre havia. Hall era culpado. Tinha matado Missy. A havia matado, mas que inferno!

A cada degrau que subia o medo e a ira iam crescendo em seu interior. Ira porque não se fazia justiça; porque Hall iria sair por um tecnicismo em lugar de apodrecer na prisão; porque ria do sistema, e seu miserável advogado tentaria firmar uma reputação como defensor de assassinos.

Então apareceu o medo. Um medo intenso e paralisante que remexeu algo no mais profundo de Olivia; o medo de que Hall fosse inocente. E que o assassino de Missy andasse solto. E que continuasse matando meninas, e destroçando famílias, e quebrando corações.

E tudo seria culpa dela.

Cambaleou, interrompendo seu passo enérgico e resolvido, e estendeu o braço em busca de apoio. Quando tocou a parede, a mão tremia.

Greg a alcançou no corredor externo do laboratório de DNA.

—Olivia, pare.

Ela se sentia incapaz de olhá-lo, temerosa de que seus olhos traíssem a violência de seus sentimentos.

—Estou bem.

—Não, não está.

—Só preciso ver as provas. —Pronunciou cada palavra com cuidado, claramente, com as mandíbulas apertadas.

—Está tremendo.

—Me mostre o maldito relatório!

Olivia respirou profundamente e mordeu a parte interna da bochecha para controlar suas emoções. Recuperou a compostura recorrendo a toda sua força de vontade e virou o pálido rosto para seu ex-marido.

—Sinto muito —disse —. Estive pensando. Não deveria descarregar minha frustração em você.

Não perderia o controle diante dele; Olivia St. Martin não perdia o controle diante de ninguém.

Nem sequer de si mesma.

Greg abriu a boca para dizer algo, e Olivia se armou para defender sua postura profissionalmente. Depois de tudo, era uma profissional capaz de analisar objetivamente as provas; de ver a verdade contida nos fatos, e de apresentá-los com clareza e concisão a seus colegas ou em frente aos tribunais.

E poderia fazer isso nesse momento.

Greg fechou a boca e utilizou a chave mestra para abrir a porta do laboratório.

—O relatório está em minha mesa.

 

O detetive Zack Travis apertou a ponta do nariz como se reprimisse as lágrimas. Mas os que o conheciam se puseram de lado. O intenso pulso de seu pescoço mal traía uma fúria contida, uma ira que fervia a fogo lento sob a superfície, uma força tangível que irradiava do corpo flexível dele.

Não havia nada pior que o assassinato de uma criança.

O cenário do crime tinha sido isolado antes de sua chegada. Olhou em todas as partes, exceto o chão e a brilhante lona azul impermeabilizada com o pequeno vulto embaixo.

O corpo havia sido jogado em uma área industrial de atividade escassa e cheia de desperdícios ao norte da Interestadual 90, perto de Quest Field, onde, negros e imponentes, alguns edifícios de aço e alguns blocos de concreto danificados pelo clima montavam guarda de noite. De dia, sua deterioração e abandono eram um triste aviso de que aquela área da cidade não ia se recuperar em um futuro próximo, não obstante os tópicos e promessas dos políticos locais e os recursos para a reurbanização destinados pela prefeitura da cidade. Com os modernos parques empresariais que surgiam em qualquer parte nos bairros de recente desenvolvimento, as áreas ruinosas se viam impotentes para atrair novos negócios. A metade das fachadas dos armazéns que Zack tinha à vista mostrava placas de « ALUGA-SE.»

A parca iluminação de segurança das portas dianteiras deixava a névoa de um amarelo doentio. Nessa noite a névoa flutuava a pouca altura devido à proximidade da água, e o resplendor das lanternas criava um efeito de gelo seco no amplo beco.

Durante os três anos que Zack esteve trabalhando na brigada contra o vício, faziam várias batidas naqueles armazéns. As vadias quando estavam desesperadas eram capazes de ir bobamente até ali, um lugar tão afastado das ruas relativamente seguras do norte; durante o primeiro mês como detetive da homicídios, tinha encontrado duas prostitutas mortas por overdose a pouca distância de onde se encontrava a vítima desse momento.

Respirou profundamente e se colocou de cócoras sabendo que não havia nenhuma maneira de preparar-se realmente para o que estava a ponto de ver. Afastou a lona.

Nenhuma criança deveria morrer, sobretudo em um sórdido beco de uma zona depauperada da cidade. Mas Zack determinou imediatamente que a pequena Jenny Benedict, de nove anos, não tinha sido assassinada ali. Havia pouco sangue, e pelo número de punhaladas teria que haver muito.

     Não se demorou em olhar. Voltaria a ver a vítima durante a autópsia, mas nesse momento tinha que se centrar em encontrar o filho da puta que a tinha assassinado.

—E o legista? —perguntou para seu companheiro.

—Está a caminho — respondeu Nelson Boyd.

Zack suspirou e esfregou a nuca. Boyd era um novato que estava sob sua responsabilidade, algo que Zack não gostava nem um pouco. Nunca tinha querido ser oficial de treinamento, mas quando Rucker se aposentou, tinha tido que agüentar Boyd.

O rapaz estava todo verde, inclusive seus brilhantes olhos azuis, só de olhar a criança. Zack havia ficado surpreso em saber que ele se barbeava todos os dias. Mas Boyd havia passado cinco anos de uniforme em uma tranqüila zona residencial dos subúrbios da cidade, e uma vez conseguido seu diploma havia sido transferido para a cidade grande. O chefe lhe havia responsabilizado por Boyd, sem dúvida como vingança porque sua ex-namorada tinha tentado se atirar em cima de Zack na partida de beisebol entre detetives e bombeiros. O chefe sabia muito bem o quanto odiava ser oficial de treinamento.

—O que vem em seguida, senhor?

—Para já com o senhor — resmungou Zack.

Boyd fazia ele se sentir velho e lhe recordava que seu quadragésimo aniversário tinha passado há apenas alguns meses. Não é que lhe importasse o número, mas seu corpo estava começando a se queixar dos enérgicos exercícios de ginástica matutinos.

Deixou de um lado sua frustração e perguntou:

—Onde está a maldita polícia científica?

—Está a caminho — disse Boyd.

Sim, correndo sobre os calcanhares. O desassossego do rapaz o deixava zonzo, e só estavam trabalhando juntos há duas semanas. Como demônios iria agüentar seis meses?

—Onde está o cara que a encontrou?

—O agente Paul o conserva na empresa de eletrônica na porta contígua.

Zack arqueou uma sobrancelha. Conserva?

—Quero falar com ele. Fique aqui e mantenha os curiosos afastados até que cheguem os policiais da científica. — Franziu o cenho.

A névoa e a deficiente iluminação fariam quase impossível a busca de provas, embora trouxessem abajures industriais de alta voltagem. Teriam que permanecer no cenário do crime até bem depois do amanhecer. Mas se, tal e como suspeitava Zack, o corpo tinha sido jogado ali, haveria pouco o que procurar.

A testemunha, um cara jovem fraco e de rosto alongado, estava sentado em uma mesa de secretária dentro do insosso edifício. Zack deu uma olhada a seu redor. Aquele podia ser qualquer negócio comum, as mesmas cadeiras sujas, o carpete de qualidade industrial cheio de manchas, as desmanteladas mesas metálicas, piores até que a que Zack tinha na delegacia de polícia. Mas os computadores das cabines que cobriam uma das paredes pareciam ser último modelo, e Zack se fixou em um sistema de segurança de alta tecnologia instalado junto à porta.

—Travis — saudou o agente Tim Paul, e atravessou a sala até a porta para que a testemunha não pudesse ouvir.

—Quem é?

—Reggie Richman, vinte anos, empregado da Eletrônica Swanson e Clark. Diz que veio verificar as cópias de segurança dos computadores, o que faz duas vezes ao mês depois do horário comercial. Faz uma verificação. Liguei para o chefe dele e comprovei o emprego e sua história. Está há dois anos na empresa e estuda na escola universitária municipal de Seattle em período parcial.

Zack assentiu com a cabeça observando Reggie Richman, que olhava o que parecia uma das mãos em constante movimento. Tamborilava com os dedos, dava batidinhas com o lápis e folheava os papéis sem lê-los. Estava nervoso ou com culpa?

—O que declarou?

—Que quase passou por cima da menina com sua bicicleta.

—Uma motocicleta?

—Não, das que tem que pedalar. —Paul sorriu e em seguida voltou a ficar sério —. Vive em um edifício sem elevador a um quilômetro e meio de distância, a meio caminho entre aqui e a universidade. Não tem carteira de motorista, embora tenha um cartão de identidade do estado de Washington. Diz que foi a escola depois do trabalho, comeu um hambúrguer e voltou para cá, provavelmente por volta de 21h30min. Não viu a vítima até que estivesse a poucos centímetros diante dele. Entrou no edifício e chamou o 911. A chamada foi registrada às 09h40min. Urbanski e eu chegamos ao cenário do crime às 09h55min. Cortamos os acessos e isolamos o cenário.

Zack olhou seu relógio. Às dez e meia.

—Obrigado. Começarei aqui, mas te agradeceria se cobrisse a porta.

—Mas claro.

Reggie levantou os olhos quando Zack se aproximou.

—Posso ir?

—Ainda não. — Zack se sentou na cadeira de pernas metálicas que havia diante da mesa. A cadeira rangeu, delatando sua idade, e Zack confiou em que o agüentasse; não estava gordo, mas era um cara grande. Inclinou-se para frente, mais para distribuir o peso na fraca cadeira que para intimidar o garoto, mas lhe agradou o efeito secundário. Conseguiria a verdade.

—Reggie, não é mesmo?

—Sim. — O garoto quebrou um lápis pela metade e ficou olhando as duas partes de ponta a ponta com os olhos arregalados; então, deixou-os cair como se queimassem.

Aquele garoto não parecia um assassino, mas Zack não tinha muita fé nas aparências.

—Sou o detetive Zack Travis, da homicídios. Os agentes me disseram que você encontrou o corpo e que o comunicou por telefone.

—S-Sim. Isso mesmo.

—Poderia repassar o ocorrido? Quando chegou aqui, o que viu, quando ligou…

—Isto… claro. Já contei tudo. — O garoto fez um gesto para o agente Paul, que estava parado junto à porta a uns quatro metros de distância.

—Preciso ouvir você contar como encontrou o corpo.

—Ah. De acordo. — Reggie respirou profundamente e começou a brincar com uma caixa de clipes . — Sabia que estava morta, assim não quis, isto, tocá-la. Supunha-se que não tinha que fazer isso, não é verdade? E eu acreditei que não tinha que fazer o boca a boca, não é certo?

—Agiu acertadamente. Diz que sabia que estava morta.

—Sim. Tinha os olhos abertos e não pareciam… já sabe, como se estivessem vivos.

—Sei o que quer dizer.

—Eu, isto, estava na minha bicicleta e…

—Talvez fosse mais fácil se começasse pelo momento em que saiu do trabalho hoje. Qual é o seu horário? Por que voltou esta noite?

—Parti as quatro horas, como sempre. Na segunda-feira, na quarta-feira e na sexta-feira tenho aula: Engenharia da Informática às cinco da tarde, e Programação Avançada de Base de Dados às sete e quinze. Esta acaba às oito e quinze. Depois fui ao Mcdonalds.

—O que comeu?

—Isto, dois Big Mac e uma vitamina de chocolate. — Reggie deu a volta.

Aquele garoto não era um assassino. Zack soube de maneira instintiva. Aliviou-se dos restos da comida de Mcdonalds ao se dirigir ao edifício. A visão do corpo o fez vomitar. Zack se alegrou de que tivesse conseguido se afastar do cenário do crime antes de estragar a cena.

—Para onde foi depois? Para casa?

—Não, vim para cá. A névoa estava ficando mais densa por momentos, e queria terminar a cópia de segurança e voltar para casa antes que os carros nem sequer pudessem ver minha luz. Os motoristas não se preocupam muito com as bicicletas que circulam pela estrada. Já me bateram duas vezes.

Zack assentiu com a cabeça.

—Entendo. —A maioria dos motoristas tampouco respeitava às motos.

—Bom, o caso é que vinha pedalando pelo beco e ali estava ela, bem no meio. Se não tivesse virado bruscamente, a teria golpeado. Dei a volta, olhei e… bom, foi então quando soube que estava morta. Entrei aqui e liguei para o 911. E esse agente veio à porta e o deixei entrar. Eu… isto, a tinha fechado com chave porque não sabia o que estava acontecendo, você sabe?

—Fez o correto, Reggie. Hoje saiu daqui às quatro horas. Quando as pessoas saem normalmente?

—Hoje é sexta-feira, e todos terminam antes, embora o chefe esteja acostumado a ficar até as seis horas. Se quiser, pode comprovar; o último que sai liga o alarme.

—Estava conectado quando entrou?

—Sim. Posso imprimir um relatório.

Zack sabia que estava entrando em um terreno em que talvez necessitasse de uma ordem judicial, mas o garoto tinha dado as informações… Tim Paul estava ali para confirmar isso, assim decidiu deixar ele o fazer.

—Fantástico, me consiga o relatório.

O garoto suspirou claramente relaxado, e seus dedos deslizaram como uma bala pelo teclado. Alguns minutos depois, o relatório começou a ser impresso, Reggie se girou, pegando a folha com um puxão quando saiu.

E explicou a Zack.

—Isto indica que o empregado 109 (isto é, Marge, que é a que se senta nesta mesa), entrou e desconectou o alarme às 07h04min desta manhã. E aqui… vê? O senhor Swanson pôs o alarme às 16h45min, mas não saiu.

—Como pode saber?

—Só conectou as portas exteriores. O alarme completo se compõe de sensores tanto internos como externos. Partiu às 18h10min e então ligou todos os alarmes. E este sou eu, o empregado 116, que entrou às 21h40min desta noite.

—A que se destina a empresa? —Zack deu uma olhada em volta sem poder ver o nome da empresa.

—Restaura impressoras. As compramos baratas em grandes lotes de órgãos oficiais, colégios ou a quem seja; depois, as limpamos, substituímos os componentes quebrados ou desgastados e as vendemos a um atacadista.

—E seu trabalho?

—Eu sou do departamento de tecnologia da informação. Asseguro-me de que os computadores funcionem, da rede, de executar os relatórios e coisas parecidas.

Tudo o que Reggie dizia tinha sentido. Só era o cara desafortunado que havia se encontrado com um cadáver.

—Viu alguém? A pé ou de carro? Viu algum veículo tanto circulando como estacionado?

Reggie negou com a cabeça.

—Este lugar fica morto de noite. — ficou avermelhado —. Isto… não queria dizer algo assim.

—Sei. — Mas que droga! O corpo não podia estar ali mais do que algumas horas.

Havia muito trabalho a fazer. Era sexta-feira; haveria pouca gente trabalhando no dia seguinte. Teriam que localizar os proprietários durante o fim de semana e ver o que podiam averiguar sobre os horários e as pessoas que tivessem trabalhado depois das seis horas da tarde. Seria muito melhor interrogar às pessoas no dia seguinte, mas não havia forma de que pudessem localizar os centos e tantos empregados que trabalhavam nessa parte do polígono industrial durante o fim de semana. Qualquer pista que um deles pudesse ter estaria fria na segunda-feira.

Embora Swanson, o chefe de Reggie, seria o primeiro. Depois, seguiriam pelos edifícios mais próximos do lugar onde o corpo fora jogado.

—Obrigado por seu tempo, Reggie. Vou ter que te pedir que fique por aqui um momento mais. Pode ser que a polícia científica precise te fazer alguma pergunta depois que inspecionem a área.

—Sim, senhor.

Por que todos os menores de trinta anos o chamavam de senhor?

—Obrigado por sua ajuda.

O cenário do crime, a uns doze metros da porta principal da empresa de restauração de impressoras, brilhava nesse momento sob a luz, e a névoa produzia um resplendor fantasmagórico. Os policiais da científica tinham chegado. Zack viu que Doug Cohn, o chefe da unidade, tinha ido pessoalmente.

Aproximou-se de Cohn enquanto o especialista dirigia prioritariamente a sua equipe de três pessoas na comprovação do perímetro das luzes. Cinqüentão e quase completamente calvo, Cohn tinha uma fisionomia jovem e um temperamento tranqüilo.

—Obrigado por se encarregar pessoalmente.

Cohn deu de ombros.

—Se dá muita importância ao sono. — Fez uma pausa —. Ouvi que se trata da menina desaparecida.

—Não há uma identificação positiva no momento, mas sim, é ela. — Zack tragou saliva com dificuldade.

Jenny Benedict tinha desaparecido há três dias, seqüestrada na última hora da tarde da quinta-feira enquanto brincava com seus amigos em um parque de seu bairro.

Zack sabia para onde ia quando partisse do cenário do crime. Era uma parada que não queria fazer, mas que não podia evitar.

—Testemunhas?

—Um técnico de informática quase se encontrou literalmente de bruços com o corpo quando circulava em sua bicicleta.

—De noite?

—Realiza cópias de segurança ou algo assim.

—O que pensa?

—Da testemunha? Não tem nada a ver com isto. Mas o tenho retido aqui. Jura que não a tocou, mas pensei que talvez devessem verificar.

—Farei isso assim que acabar com ela. — Cohn enrugou a sobrancelha enquanto colocava as luvas, ajoelhava-se junto à lona e a levantava —. Deus bendito!

Sob a iluminação, a pele da menina aparecia mais branca do que deveria, e as profundas punhaladas vermelhas declaravam sua morte. O ajudante de Cohn fez algumas fotos antes que este inspecionasse o corpo.

—Esta morta a pelo menos doze horas, talvez mais. Talvez umas vinte. Provavelmente possamos precisar mais a hora a partir da autópsia. Diria que sangrou até morrer; parece que uma das punhaladas lhe alcançou alguma cavidade do coração. Gil poderá te dar uma relação exata das feridas. — Gil Sparks era o médico legista.

Cohn levantou a saia do cadáver. A menina não usava calcinhas.

—Prova externa de agressão sexual.

Inclinou a cabeça para um lado.

—O que é isto? — disse Cohn quase para si.

—O que? — Contra sua vontade, Zack se aproximou um pouco mais.

—Parece que lhe cortaram uma parte do cabelo. Uns bons dois centímetros e meio, até o próprio couro cabeludo, e com tesoura.

—Levou seu cabelo? — Zack sentiu que lhe fechava a boca do estômago. Um doente filho de puta. E os doentes filhos de uma puta não se detinham com uma vítima.

—Assim parece, a menos que seus pais tenham algo mais a dizer a respeito. Pode ser que ela mesma tivesse cortado, ou talvez uma amiga… - A voz de Cohn foi se apagando pouco a pouco. Não acreditava no que estava dizendo mais do que Zack acreditava.

—Merda! — disse Zack esfregando o rosto com uma mão. Estava a ponto de fazer outra pergunta, quando Cohn balbuciou:

—O que é isto?

—O que? — perguntou Zack agradecendo que Cohn tivesse fechado os olhos da menina. «Descanse em paz.»

—Vê essas marcas?

Cohn estava assinalando o antebraço da menina. A princípio, Zack não pôde ver nada; depois, alguns pontos pequenos com formas estranhas que se fizeram evidentes sob a luz.

—Não tenho nem idéia do que pôde causar essas marcas — disse Cohn —. Falarei disso com Gil. Há ao menos uma dúzia de alfinetadas pequenas, mas sem dúvida foram feitos pós morte. Talvez com o que foi utilizado para transportá-la, mas é só uma hipótese.

Ao menos, era algo que podia relacionar o assassino com a vítima.

—Algo mais que possa me dizer antes que eu vá ver seus pais?

—Só o que está pensando.

«Assassino em série. » Uma vítima, e Zack já temia o pior. Mas foi a maneira de preparar tudo, as facadas e o cabelo desaparecido que lhe disse que o assassino voltaria a atacar.

—Espero que nos equivoquemos.

—Não nos equivocamos.

Zack se afastou do cenário do crime, deixando à vítima nas mãos competentes e sensíveis de Doug Cohn.

A menina de nove anos Jenny Benedict tinha desaparecido há três dias, e sua mãe tinha temido que fosse obra de seu ex-marido. Na véspera tinham localizado Paul Benedict em uma empresa de laminação de aço da Pensilvânia, onde trabalhava; o homem ignorava inclusive que sua filha tivesse desaparecido. Se não tinha respondido às chamadas telefônicas de sua esposa era porque estava atrasado com a pensão alimentícia.

Zack ligou para um psicólogo para que se reunisse com ele na casa dos Benedict. Uma menina tinha morrido. Pensava que as coisas não podiam piorar.

Equivocava-se.

Três semanas depois, desapareceu outra menina loira, e Zack soube com certeza que tinha um assassino em serie nas mãos.

 

Liberdade. Finalmente. O imbecil de seu advogado, Miles Bledsoe fez realmente o que disse que ia fazer, e nesse momento Brian era um homem livre.

Brian Harrison Hall… Merda! Odiava seu segundo nome, mas era o que os jornalistas repetiam em todos os artigos que escreviam sobre ele. Assim como o juiz em sua sentença.

«Brian Harrison Hall, foi considerado culpado por um júri integrado por seus compatriotas e foi condenado a morrer na cadeira elétrica de conformidade com… »… Alguma estúpida lei.

Pensava que jamais voltaria a sentir-se tão bem como três meses após ter sido preso. Porque foi depois dos três meses de entrar na prisão que o Tribunal Supremo da Califórnia declarou inconstitucional a pena de morte. A merda com «o castigo excepcional e cruel»! Pois claro que sim! Sobre tudo porque era inocente.

Inocente, droga!

Mas ninguém tinha acreditado nele. Todos tinham acreditado naquela pequena vadia, naquela menina que disse que o tinha visto.

E naquele policial fascista, que tinha assistido a todas as vistas para sua liberdade condicional e que havia voltado uma e outra vez sobre como tinha «encontrado» as provas em sua caminhonete. Babaquice! O policial não podia ter encontrado nada em sua caminhonete, a menos que ele mesmo o pusesse ali. Brian não tinha matado aquela menina.

Brian tinha estado em sua casa quando a menina fora assassinada. Não tinha nada a ver com aquilo. E nesse momento, tinha ficado demonstrado os hipócritas e mentirosos de merda que eram a vadia que tanto gritava e o policial que mentiu.

Ele se sentia muito bem em poder respirar em liberdade.

Então, por que lhe pulsava o coração com tanta força? Por que lhe tremiam as mãos? Estava enjoado, e isso não lhe agradava nem um pouco. Algo não estava bem.

—Miles, não estou me sentindo muito bem.

Estavam parados no exterior da prisão de Folsom. Miles Bledsoe, o último de uma longa lista de advogados defensores públicos, tinha estado falando sem parar de alguma estupidez a qual Brian não tinha prestado atenção. Ele tinha o hábito de fazer isso. Tinha tentado não ligar para os estúpidos prisioneiros de sua galeria que não paravam nem um momento de tagarelar e dos putos que se agrediam uns aos outros na escuridão. Afugentar da mente as coisas sem importância se transformou em sua segunda natureza.

Miles o olhou com preocupação.

—Você está pálido. Mas provavelmente não é mais que o alívio de se ver fora da prisão depois de trinta e quatro anos. Eu estava dizendo que o estado alugou um apartamento para você durante seis meses. É tempo suficiente para que se recomponha e encontre um trabalho. O reembolso habitual por um encarceramento indevido é de cem dólares diários, o que, segundo meus cálculos, faz que o montante total suba a pouco mais de um milhão e duzentos mil dólares. A reclamação demorará de seis a oito meses em trâmite, e depois a assembléia legislativa tem que aprová-la antes que possam prover os recursos.

—Fale de um jeito que eu entenda, colega. —Brian sacudiu a cabeça tentando clarear a incômoda sensação que havia se apoderado dele. Tudo era muito brilhante, quase como se tivesse sido separado de seu corpo e observasse a mudança com seu advogado. Não estava doente. Era… outra coisa.

—Receberá um milhão e duzentos mil dólares, embora possa demorar algum tempo — disse o advogado.

—Maravilha! — um milhão de dólares? Tinha a vida arrumada para o resto da vida.

—O único problema — prosseguiu Miles—, é que mentiu à polícia quando o prenderam, e sua caminhonete…

—A quem importa isso? Não matei aquela menina.

—Mas o promotor do distrito ainda pode apresentar uma queixa.

—Olhe, Miles, limite-se a fazer seu trabalho e deixe que eu faça o meu. O promotor não apresentará nenhuma denúncia, porque sou inocente. Não matei aquela menina; não matei ninguém. Onde está minha caderneta?

Miles piscou e lhe entregou o caderno que tinha na mão.

Brian o atirou ao chão.

—Merda, Miles. Minha caderneta. Meu chão.

—Ah! — O advogado voltou a piscar, e Brian sentiu vontade de estrangulá-lo. Mas nada fez, claro; Miles era seu passaporte para um milhão de dólares.

Um milhão de dólares que lhe arrumariam a vida para sempre e lhe ajudariam a encontrar a vadia que o tinha metido ali.

E ao policial.

E aquele velho promotor de merda que o tinha mantido com tanto desprezo na sala do tribunal. «Este homem seqüestrou e assassinou uma menina.» Besteiras. Ele não queria saber nada de crianças. Só os doentes e asquerosos pervertidos obtinham prazer com as crianças.

Reparação. Um milhão de dólares contribuía de boa maneira à reparação.

Mas, sem saber bem por que, não lhe parecia ressarcimento suficiente por trinta e quatro anos de sua vida.

 

A PROVA DO DNA PÕE EM LIBERDADE UM ASSASSINO SENTENCIADO

Brian Harrison Hall que enfrentou um dia a pena de morte agora é declarado inocente.

    

Incrível. Harry estava fora da prisão.

Leu o artigo duas vezes para assegurar-se de que a informação era correta. Para falar a verdade, tinha ficado surpreso ao saber que Harry tinha sido condenado. No melhor dos casos, as provas tinham sido circunstanciais. Mas Harry — sendo um bobo estúpido como era — tinha mentido para a polícia. O fanfarrão tinha merecido. Em seus cinqüenta e cinco anos, poucas vezes tinha conhecido um fanfarrão tão estúpido e burro como Brian Harry Hall.

—Hei cara, vêem comigo até Bay Área e “molharemos”. — Por «molhar» tinha querido dizer que encontrariam algumas tias que sentiriam prazer em estar com veteranos do Vietnam; que os consolassem e lhes fizessem todos os boquetes que eles desejassem.

Harry não compreendia absolutamente às mulheres. Assim como não tinha entendido a disciplina. Nem a limpeza. Nem a ordem.

Mas Harry tinha um trabalho em vista e tinha prometido uma colocação para ele. Então havia se reunido a ele na Califórnia.

Dobrou o jornal pelas dobras com esmero e o colocou na mesinha com superfície de vidro da cabana que tinha alugado na ilha de Vashon um ano antes. Não precisou olhar o relógio para saber que era hora de partir. O sol tinha alcançado seu pico sobre o estreito, uma visão prazerosa e intensa da qual nunca se cansava.

Poderia aposentar-se ali.

Mas não faria isso. Estabelecer-se seria uma idiotice; mover-se era a única maneira de apagar realmente seus rastros. E não demoraria a voltar a se mover. No momento, tinha um trabalho para fazer. A cabana não tinha lava-louça, mas não importava. Limpou cuidadosamente a jarra do café, o prato, os talheres e a única frigideira em que havia preparado o bacon e os ovos. Secou tudo e guardou cada coisa em seu lugar. Dobrou o pano de cozinha molhado e o pendurou com precisão na grade que tinha colocado na parede al lado da pia. Coloco a cadeira em seu lugar com precisão, sacudiu cuidadosamente os farelos de pão depositados na toalha na sacola de lixo; em seguida colocou a sacola, que só estava cheia até uma quarta parte de sua capacidade, no cubo que havia junto à lateral da casa.

A mera idéia de deixar o lixo todo o dia apodrecendo dentro de sua casa o deixava doente.

Outra rápida olhada no jornal o levou a pensar de novo em Harry enquanto fechava com chave a porta da cabana e se dirigia para seu trabalho no restaurante da praia.

Roubar a caminhonete de Harry naquela longínqua noite tinha sido um ato espontâneo. Não tinha sabido com exatidão o que é o que estava fazendo, só tinha uma idéia vaga. Então, “a”viu e soube. Ela tinha sido enviada para substituir seu anjo perdido. Traçou um plano depressa, e quase tinha saído perfeito. Enrugou a testa ao pensar na pequena pirralha corajosa que tinha tentado detê-lo. Depois, havia devolvido a caminhonete antes que Harry percebesse sua ausência.

O que não tinha esperado é que a polícia encontrasse a caminhonete, embora tal descoberta tenha sido uma bênção do céu.

Tinha extraído muitas e muito importantes lições depois que Harry havia sido condenado à morte.

Seja cuidadoso; não deixe nenhuma prova em nenhuma parte.

Desconfie constantemente. Seja paciente. Não se precipite. Deixe que as doces expectativas aumentem, mas as controle; não permita que a necessidade te controle. Esteja o mais preparado possível. Aprenda a escolher o momento de continuar.

Tudo era uma questão de disciplina. Algo que ele tinha aprendido bem.

Mas um equívoco chato lhe tinha amargurado o dia. Harry tinha sido libertado por causa da prova de DNA, o que significava que as autoridades tinham «seu» DNA.

No futuro, teria que ser duplamente cuidadoso.

 

Olivia pegou o papel quando a impressora laser o projetou na bandeja e o leu atentamente procurando a informação; seu coração pulsou descontrolado ao ver que sua teoria adquiria solidez.

Os padrões.

O assassino de Missy tinha abandonado Redwood City depois da morte dela, a causa, provavelmente, que Brian Hall tivesse sido detido e pagasse o pato pela morte de Missy. Tinha deixado de agir durante alguns anos, antes de ressurgir em Nova Iorque, onde tinha seqüestrado e assassinado quatro meninas loiras nos arredores de Albany, depois do qual desapareceu.

Depois, duas em Lawrence, Kansas. Um conhecido delinqüente sexual tinha sido detido, julgado e condenado, e nesse momento esperava no corredor da morte para pagar por aqueles assassinatos. Mas Olivia tinha noventa e nove por cento de certeza de que o homem era inocente daqueles crimes em concreto.

Mais quatro meninas foram assassinadas em Atlanta.

Quatro em Nashville.

A lista continuava. Os crimes foram cometidos com intervalos de anos, mas Olivia tinha descoberto vinte e nove assassinatos em trinta e quatro anos que encaixavam no mesmo padrão.

Meninas loiras com idades compreendidas entre nove e doze anos.

Agredidas sexualmente. Despidas de suas calcinhas.

Atiradas de barriga para baixo em um lugar relativamente público, geralmente uma área de serviço de alguma estrada pouco movimentada ou em um polígono industrial à noite.

As informações que tinha tido acesso eram escassas. Quem dera que pudesse ver as informações das autópsias e as notas de laboratório, mas a maioria não estava informatizado. Quanto mais antigos fossem os crimes, menos informação dispunha. Mas o traço comum, o fator que tinha convencido Olivia de ter encontrado o elo, era a mecha de cabelo arrancada. O assassino havia levado «lembranças» de suas vítimas, uma parte delas que pudesse ver ou tocar para reviver seus crimes.

—O que está fazendo?

Olivia deu um pulo e levou a mão ao peito.

—Greg! Você me assustou.

—Estava muito concentrada em seus pensamentos. Tanto, que perdeu a reunião do comando.

Olivia olhou o relógio. Já era meio-dia? Como era possível que o tempo tivesse passado dessa maneira?

—Sinto muito, estava trabalhando em… — mordeu a bochecha. Era incapaz de inventar uma mentira convincente, ainda mais assim rapidamente.

Greg franziu o sobrecenho e lhe tirou o documento que tinha na mão. O cenho se acentuou quando abriu a pasta que Olivia tinha sobre a mesa e percebeu o que ela estava fazendo durante as duas últimas semanas.

—Posso explicar — começou Olivia, embora não tinha idéia do que ia dizer.

—Não tem que me explicar isso, Olivia. Entendo que precise averiguar quem matou sua irmã. Mas por que não começou por me contar isso.

—Não sei. É algo pessoal. — Mais que pessoal; sentia a culpa como um peso morto sobre os ombros. Seu testemunho contra Brian Hall tinha permitido que um assassino diabólico ficasse livre.

—Pessoal? — Greg se sentou em frente a ela e passou as mãos pelo cabelo —. Estivemos casados por três anos, temos sido amigos durante dez mais, e não podia compartilhar isto comigo?

Ferir Greg era a última coisa que ela desejava.

—No princípio, só estudei o caso de Missy. As provas, informação do DNA, os interrogatórios. Pensava… bem, não sei o que pensava, exceto talvez pudesse encontrar algo que colocasse Brian Hall novamente na prisão. — riu, e sua risada soou triste e vazia.

Prosseguiu.

—Então, me ocorreu uma possibilidade. E se Hall tivesse tido um cúmplice? Nunca houve o menor indício de que agisse com alguém, mas ele não é tão inteligente… e se tivesse tido um cúmplice, o mais provável é que o tivesse acusado para livrar-se da pena de morte. Mas e se tivesse tido um comparsa que estivesse protegendo por algum motivo? Sabemos que não seqüestrou Missy, mas isso não significa que não estivesse comprometido de uma ou outra forma. Mas então pensei: E se Hall é realmente inocente?

—Então começou a investigar crimes semelhantes — disse Greg sustentando o papel que tinha lhe tirado das mãos.

—Sim. E, ora, as coisas começaram a ter rosto e olhos. Quando não tenho o apoio concludente da ciência me desequilibro, mas agora… Acredito realmente que encontrei algo. Você quer dar uma olhada e me dizer se tiver suficiente para mostrar a Rick?

Rick Stockton era o chefe de ambos, o diretor dos Serviços de Laboratório do FBI. E também era um amigo, e Olivia não tinha nenhum receio em tirar vantagem de tal amizade, se isso significava encontrar o assassino de Missy.

Greg pegou a pasta, e Olivia suspirou aliviada. Descobriu-se retorcendo as mãos, tentando não olhá-lo fixamente enquanto Greg lia os documentos que ela tinha reunido.

—Não o entendo; em Kansas e Kentucky se condenou alguém pelos assassinatos. Em Kansas, o cara era um conhecido delinqüente sexual. Não vejo onde encaixam eles em seu padrão.

—No cabelo — disse Olivia—. Olhe as informações das autópsias.

—Isso já vi, mas…

—Em separado, não significam nada — lhe interrompeu Olivia antecipando-se às objeções dele —, mas associadas a todas as demais semelhanças, minha teoria tem lógica. Esse cara matou mais de duas dúzias de meninas. É capaz de esperar anos entre agressão e agressão, embora tenha matado duas, três ou quatro meninas em um período breve de tempo antes de abandonar a área. Por quê? Não sei. Talvez fique satisfeito durante uma temporada; demonstra ter um controle e uma disciplina excelente. Ou pode ser que a polícia se aproxime muito para que se ache cômodo. Ou em alguns casos, detêm outro homem e nosso cara parte tranqüilamente. Como no caso de Hall.

—Entendo sua colocação. — Greg ficou olhando o teto de ponta aponta, como se estivesse lendo nos azulejos, mas sua expressão resultou familiar a Olivia. O entusiasmo se apoderou dela… Greg estava considerando seriamente sua teoria; a estava estudando de todos os ângulos. Ela conteve a respiração. Ter Greg como aliado lhe ajudaria com Rick; Greg e Rick não eram somente amigos, mas também Greg era o diretor anexo do CODIS, um dos maiores departamentos do laboratório do FBI, e era uma figura muito respeitada no edifício.

Finalmente, olhou-a.

—O que Rick pode fazer?

Olivia lhe entregou um relatório.

—Em Seattle, morreram duas meninas que encaixam com o perfil, e uma foi descoberta justamente esta manhã. Temos que conseguir que o escritório de Seattle tome parte; fazer que a polícia local tenha acesso a nossa informação. E elaborar o perfil desse cara: é disciplinado, metódico e paciente. Mas o que mais? No que trabalha? E sua vida familiar? Se formos capazes de seguir os passos dele desde Redwood City, há trinta e quatro anos até agora, poderemos descobrir sua identidade e detê-lo antes que outra menina morra.

—Tudo isto é circunstancial, Olivia — começou Greg.

—Mas…

Ele levantou a mão.

—Mas transmitirei o que diz a Rick. Acredito que vale a pena seguir adiante.

    

—Olivia, Greg, entrem.

Rick Stockton olhou seu luxuoso relógio, abriu a porta escancaradamente e lhes fez um gesto para que entrassem.

—Tenho um almoço de trabalho dentro de vinte minutos, mas posso me atrasar um pouco.

—Obrigado. — Olivia olhou para Greg, que assentiu com a cabeça.

Era uma ajuda tê-lo a seu lado, por mais que não estivesse completamente convencido.

Rick fechou a porta atrás deles, dirigiu-se a sua mesa e, em lugar de se sentar nela, sentou-se na quina. Sorriu abertamente, e a calidez fez com que seus olhos reluzissem. Rick Stockton era o motivo da fofoca da maioria das mulheres do edifício: charmoso, atraente e inteligente. Olivia não participava dos falatórios — tinha coisas mais importantes a fazer que comer os homens com os olhos —, mas tinha que admitir que suas colegas femininas tinham razão sobre a atração sexual de Rick.

— Sentem-se - disse Rick, e Olivia obedeceu agarrando a pasta como se fosse um salva-vidas. Greg permaneceu atrás dela, com as mãos apoiadas no encosto de sua cadeira —. O que posso fazer por vocês?

Olivia mordeu o interior da bochecha. Ela e Greg tinham falado da maneira de enfocar o assunto com Rick, mas todos seus melhores planos desapareceram, e disse:

—Acredito que o assassino de minha irmã está em Seattle neste preciso momento. Houve dois crimes iguais nas três últimas semanas.

A sobrancelha esquerda de Rick se levantou quando olhou para Greg, mas essa foi sua única reação.

—E como chegou a essa conclusão?

—Rastreei as provas. As poucas que há — admitiu Olivia—. Quando Brian Harrison Hall foi posto em liberdade há duas semanas, em meu tempo livre comecei a procurar crimes semelhantes cometidos em todo o país. Encontrei um total de vinte e nove assassinatos em dez estados, incluído o de Missy. Acredito que ela pode ser a primeira.

Rick franziu o sobrecenho.

—Em dez estados? E ninguém se deu conta da existência de um padrão?

—O sujeito é surpreendentemente paciente entre agressão e outra; em um dos casos chegou a deixar passar até seis anos. Escolhe uma comunidade, geralmente alguma zona residencial de uma grande cidade, e assassina até quatro meninas loiras antes de desaparecer. A única vez que mata menos de quatro vezes é quando alguém é detido pelo delito. — Olivia se interrompeu e lhe entregou a pasta —. Está tudo aqui.

Rick pegou a pasta e folheou o interior.

—Você foi conscienciosa. Mas, o que acontece com as provas comuns? E o DNA? E as declarações das testemunhas?

—Em dois dos casos houve uma testemunha que mencionou que o seqüestrador tinha uma tatuagem. Em Nashville e, mais recentemente, em Seattle. Em nenhum dos casos foi introduzido o DNA no CODIS, salvo os novos resultados do laboratório de Califórnia sobre o caso de Missy. Mas confiava em que pudéssemos oferecer ajuda para os casos arquivados mais antigos.

—Com que fim?

Olivia piscou mais depressa.

—Para deter o assassino, claro.

Rick folheou o relatório em silêncio.

—Aqui tem três casos nos quais se produziu uma condenação. Detiveram o assassino.

—Acredito que foram condenados por equívoco. A liberação de Hall o demonstra nesse caso.

—E quer que chame os fiscais do distrito desses estados e lhes diga que colocaram na prisão um homem inocente? Um desses caras está no corredor da morte. — Rick sacudiu a cabeça—. Imagino as manchetes. Já temos bastante má fama com as policias locais, para não precisar criticar o funcionamento de seus sistemas penais.

—Nunca teria pensado que você fosse dos que desistem ante uma dificuldade. —Olivia mordeu o lábio; não podia acreditar que houvesse dito isso —. Não queria dizer isso… Sinto muito.

O olhar de Rick brilhou primeiro por causa da ira, e logo depois de compaixão.

—Olivia, sei que a liberdade de Hall foi algo difícil para você.

—Isto não tem nada a ver com Hall.

—Ah, não? — Rick levantou a pasta —. Reunir isto deve ter levado uma centena de horas. Encontrou alguns pontos interessantes, mas são circunstanciais, e estes casos são antigos. Temos um atraso considerável de trabalho, e tenho certeza de que as autoridades locais não quererão investigar casos arquivados. Não temos jurisdição e não temos autoridade para nos colocar e nos fazer ouvir. Não há nada que possamos fazer a respeito.

—Sim, claro que podemos! — falou Olívia —. Você pode ligar para o chefe do escritório de Seattle e fazer com que se encarregue do caso. Ou que trabalhe com os detetives locais. — Esperava não parecer tão desesperada como se sentia.

—De Seattle?

Ela assentiu com a cabeça. Rick estava interessado; podia perceber isso. Olivia se inclinou para frente na cadeira.

—Assassinaram duas meninas lá. Faz três semanas Jennifer Benedict, e esta manhã encontraram o corpo de Michelle Davidson. Foi a menina Benedict que me indicou que se trata do mesmo assassino. Uma testemunha identificou uma tatuagem no braço de seu seqüestrador.

—Temos duas meninas — prosseguiu—. Se seguir seu padrão, matará mais duas antes de mudar de residência. É nossa oportunidade para apanhá-lo.

—Olivia. — Rick se levantou, caminhou até trás da mesa e olhou através da janela —. Eu gostaria de te ajudar a esquecer do assassino de sua irmã, mas esta não é a maneira. Não posso dizer a Seattle que assuma uma investigação local. Neste momento temos um pessoal tão escasso, que mal podemos nos ocupar de nossos casos urgentes.

—Mas é o mesmo cara!

Rick se voltou para ela com uma expressão maliciosa no rosto.

—Dou-me conta de que está sendo muito veemente com isto, mas nesta pasta não há nenhuma prova convincente. Ainda que a informação superficial vincula os crimes e poderia ser útil quando a polícia encontrar um suspeito, não há nada que aponte a um indivíduo concreto. O que há aqui não chega nem a circunstancial. Tem minha permissão para controlar o que acontecer em Seattle; se encontrarem um suspeito entrarei em contato com o escritório local e lhes darei o que temos. Mas, agora mesmo, não dispomos nem do tempo nem do dinheiro para reativar casos arquivados.

—Mas se utilizarmos nossos recursos para analisar as provas, para examinar as fibras dos sapatos… olhe aqui. — Olivia se levantou e com as mãos tremendo folheou a pasta e a abriu no meio —. Em quase todas as vítimas foram encontradas fibras de capachos de diferentes caminhonetes. Acredito que as rouba, ou talvez trabalhe em um local onde tem acesso a diferentes veículos. Não tive tempo de me ocupar das informações sobre os roubos de carros, e como não estão introduzidos em uma base de dados federal, não tenho acesso direto. Mas posso fazer um relatório para que as autoridades locais comparem as informações dos roubos com os veículos utilizados pelo assassino, e então poderemos…

—Pare.

Olivia piscou. A voz de Rick era tranqüila, mas autoritária.

Aproximou-se dela e pegou sua mão. Olivia continuava tremendo; reprimiu o impulso de se afastar.

—Por favor, Rick — disse Olívia —. Sei que aqui há algo pelo pouco que nos aprofundamos.

—Não podemos fazer nada até que as autoridades locais nos peçam que intervenhamos.

—Mas…

Rick lhe apertou a mão.

—Sua busca é um bom começo, mas não nos contribui em nada a encontrar a esse cara. Sinto muito, mas carecemos dos recursos para uma investigação desta magnitude sem que nos peçam. Assim de repente. — Fez uma pausa —. Preciso de você aqui, em minha equipe, trabalhando para vítimas que são tão importantes como essas duas pobres meninas de Seattle. Sabe que me importam. Em um mundo perfeito teríamos o dinheiro e o pessoal suficiente para continuar com todas as investigações, arquivadas ou não. Mas não temos o tempo, os recursos nem o pessoal para tentar resolver isto. Avisarei Seattle; se nos necessitarem, se nos quiserem, pedirão.

Olivia abaixou o olhar, temerosa de encontrar-se com o dele. Havia dito não.

—Entendo. — E profissionalmente entendia. Mas seu coração insistia para que fizesse algo, o que fosse para encontrar aquele sujeito.

—Obrigado por nos ouvir — disse Greg—. Agradeço por isso.

—Manterei as orelhas bem abertas. Se ouvir algo procedente de Seattle, farei o impossível por ajudá-los — disse Rick—. Mas até então… - Levantou as mãos.

—Compreendo — repetiu Olivia levantando-se —. Obrigado.

—Olivia, quer pegar uma pequena licença? Uma semana, sair de férias. Faz anos que não tira férias.

—Acabo de voltar de Montana.

—Assistiu ao casamento de seus amigos no caminho da vista da condicional de Hall há meses. Não me parece que isso seja férias.

—Não posso. Tenho que trabalhar. — Trabalhar lhe ajudava a concentrar-se na busca da justiça fazendo o que podia pelas vítimas dos crimes. Ou ao menos assim costuma ser; nesse momento, não tinha certeza. Não podia deixar de pensar nas duas meninas de Seattle. Tinha seguido os dois casos pela imprensa; tinha visto suas fotos. Olivia as tinha olhado nos olhos.

—Obrigado de novo, Rick — disse Greg enquanto saíam.

Estavam em plena hora do almoço, e o edifício se encontrava em silêncio. Olivia fechou a porta de seu escritório e desabou na poltrona, enterrando o rosto em seus braços.

Como podia viver consigo mesma? O assassino de Missy tinha perambulado com inteira liberdade durante trinta e quatro anos porque Olivia tinha ajudado a condenar o homem errado. Nesse momento, tinha encontrado as provas que relacionavam vinte e nove assassinatos — vinte e nove! — e não podia fazer nada a respeito.

O assassino de Missy estava em Seattle. Estava tão certa disso como de que o sol sairia no dia seguinte… e de que ele voltaria a matar.

O que podia fazer para detê-lo? Ela não era agente de campo, ao menos agora não. Era uma cientista. Precisava de mais informação; falar com o detetive de Seattle que cuidava do caso e averiguar se havia alguma amostra de DNA. Tinha que acelerar a análise; averiguar como e quando o assassino roubava as caminhonetes, de maneira que pudessem centrar-se nos roubos de automóveis e talvez apanhá-lo por esse meio.

Não podia fazer nada mais de sua mesa a quase cinco mil quilômetros de distância da cena do crime.

—Olivia, ficará bem?

Greg estava parado na entrada. Não se encontrava nada bem, mas não podia dizer-lhe.

—Estarei bem.

«Férias.»

E a idéia cresceu em seu cérebro. Não era o ideal, mas sim o único modo que pôde pensar que talvez funcionasse.

Mas necessitava que Greg lhe ajudasse.

—Greg, quero ir a Seattle.

—O que?

Olivia levantou a mão com a palma para fora.

—Me escute, por favor.

Greg se sentou na cadeira do outro lado da mesa e cruzou os braços em silêncio com uma expressão indecifrável no rosto.

—Muito bem. — Olivia respirou profundamente —. Você está de acordo em que a informação que eu reuni é consistente, não é?

Ele encolheu os ombros.

—Prometedora.

—Greg, por favor.

—São umas boas provas circunstanciais, mas sem reabrir esses casos, não podemos obter a informação que necessitamos.

—Exato. Entendo isso. E sem essa informação, não poderemos reabrir os casos.

—É o peixe que morde o rabo.

—Mas se for a Seattle, com minha experiência, com minhas possibilidades de acesso e minhas informações, posso ajudar a concentrar a investigação. Não sei o que estão fazendo (todo o correto para seguir o rastro de um assassino convencional), mas quando eles se inteirarem da conexão, o assassino já terá ido. Precisam ter uma visão geral, e eu posso lhes proporcionar essa vantagem.

—Rick já disse para que se mantenha à margem disto.

—Sei, mas…

—Olivia. — Greg tirou os óculos e esfregou os olhos.

—Extra oficialmente. Tirarei uma semana de férias. Irei a Seattle e oferecerei minha ajuda… extra oficialmente — repetiu—, e partiremos dali.

—Eles não gostarão nem um pouco. A maioria dos policiais locais preferiria beber ácido antes de chamar os federais. Irão rir de você assim que sair da delegacia de polícia.

—Não subestime minha capacidade para convencê-los.

Greg enrugou o sobrecenho e voltou a colocar os óculos.

—Não, quando põe sua cabeça em algo, geralmente ganha.

—Isto não é um jogo.

—Eu sei.

—E então

Greg suspirou, e Olivia soube que o havia derrotado, ao menos um pouco.

—O que quer que eu faça?

—Que seja meu chefe.

—Seu chefe?

—Ligue primeiro para Seattle e lhes avise que estou a caminho.

—Não compreendo… Ah, não! — Greg se levantou e começou a dar voltas —. Não, não vou permitir que arrisque seu emprego para seguir uma teoria. Já não é uma agente; você desistiu disso há nove anos para trabalhar aqui. E eu tampouco sou agente, assim não posso te atribuir um caso. Não.

—Isto é importante, Greg. Pode ser que eu não seja uma agente, mas sei como fazer o trabalho e, o que é mais importante, conheço as provas. Conheço este caso melhor que ninguém.

Olivia se aproximou dele e apoiou a mão no braço dele com um olhar de súplica nos olhos.

—Por favor, Greg. Tomarei cuidado. Mas tenho que fazer tudo o que puder para parar esse assassino. Por favor.

Greg ficou olhando de ponta aponta a mão dela. Ela mesma tinha se surpreendido com seu gesto; não lhe agradava tocar nas pessoas. Esse tinha sido um dos aspectos dolorosos do casamento de ambos. Com freqüência, Olivia se assustava quando Greg esticava a mão para tocá-la.

Ela o amava em muitos aspectos. Era um homem inteligente, muito inteligente. E era um homem atraente, com cabelos castanho claro e com alguns fios cinza e olhos azuis inteligentes. Fisicamente estava em forma, embora fosse quase dez anos mais velho que ela. Compartilhavam a paixão pela ciência e a fé nos fatos. Os dois eram viciados no trabalho, a ambos entusiasmava resolver problemas e as longas jornadas de trabalho. Seu mútuo amor pela ciência tinha mantido intacto o casamento durante um tempo.

Mas ele queria mais do que ela podia dar.

De inicio, o que a tinha movido a se casar com ele? Isso era algo que Olivia se perguntava freqüentemente. Greg era uma garantia. Nunca se intrometia, nunca a questionava, nunca desconfiava de seus extravagantes costumes.

Mas ela se aborrecia por renunciar a seu espaço privado; não gostava de compartilhar uma casa com alguém. O sexo tinha sido bom, mas não tinha podido entregar-se completamente a ele. Não somente seu corpo, mas sua mente. Seus sonhos.

E seus pesadelos.

Quando Greg lhe disse que queria ter filhos, Olivia não quis nem pensar no assunto. Como ela poderia trazer outro ser humano a um mundo tão violento? Como poderia sequer confiar em proteger seu filho do mal?

Nunca correria esse risco. Jamais iria gerar nenhuma preciosa criança que pudesse morrer com facilidade de uma morte brutal e dolorosa.

Deixou cair a mão e se afastou. Tinha pensado que convenceria a Greg para que lhe ajudasse, mas talvez estivesse realmente sozinha.

—Muito bem — sussurrou Greg —. O que é exatamente que quer que eu faça?

O coração de Olivia começou a pulsar a uma velocidade de vertigem. Ele ia ajudar.

—Ligue para o chefe de polícia de Seattle e lhe diga que tem alguém familiarizado com o caso e está disposto a ir até lá extra oficialmente com certa informação que poderia ajudá-los a apanhar o assassino — disse Olivia com rapidez, antes que ele pudesse mudar de idéia —. É possível que hesitem, mas aceitarão a ajuda; também têm problemas de pessoal. Se acontecer de o FBI lhes oferecer ajuda e a recusarem, seriam culpados do próximo assassinato.

Greg não ocultou a expressão de surpresa em seu rosto.

—Isso é muito… maquiavélico — disse.

—Estou disposta a fazer o que for necessário para deter este assassino.

Greg tirou os óculos e esfregou os olhos. Suspirando, se voltou e disse:

—Farei isso. Mas não faça que me arrependa.

 

Zack Travis bateu o telefone de sua mesa com tanta violência que quebrou o microfone. Ficou olhando fixamente a parte de plástico e piscou. Por que permitia que Vince Kirby o tirasse do sério?

Sabia por que, embora não gostasse de pensar nisso.

Levantou o olhar e viu alguns caras que o olhavam fixamente.

—Kirby — disse Zack, e várias cabeças balançaram em sinal de entendimento. Soltou um suspiro silencioso de alivio por não ter que dar mais explicações. Sim, todos odiavam o jornalista que havia descrito o departamento como incompetente e muito bem pago (bem, isso sim que era uma boa piada). Mas as razões de Zack eram mais pessoais que as derivadas da animosidade dos jornais com o Departamento de Polícia de Seattle.

Maldito Kirby. Só em ouvir sua voz lhe trazia lembranças perturbadoras. Fúria e uma profunda tristeza. Porque cada vez que falava com Kirby, Zack se lembrava de sua irmã morta. Ter o informado daquele caso ia abrir velhas feridas, mas Zack estava decidido a não deixar que Kirby o exasperasse mais do que já fazia.

—O que está tramando? — perguntou Boyd lhe tirando de repente de seus pensamentos.

Zack retirou o plástico quebrado de sua abarrotada mesa e o atirou ao cesto de papéis.

—Kirby segue adiante com a maldita teoria de assassino em série.

—Bom. — Boyd enrugou o sobrecenho e abaixou o olhar para o lápis que estava fazendo girar entre os dedos.

—O que?

—Pode ser que tenha razão — disse Boyd.

—Merda! Já sei que ele tem razão, mas a última coisa que precisamos são piquetes de mães em frente a delegacia de polícia ou que um pervertido plagiador comece a seqüestrar meninas na rua. Com um assassino maluco é suficiente.

Duas meninas seqüestradas, violadas e mortas a punhaladas. Uma tinha nove anos, e a outra, onze. As duas tinham o cabelo loiro. As duas estavam brincando com seus amigos e se afastaram um pouco do grupo. Queria poder imaginar elas ainda vivas, brincando e rindo. Pelo contrário, só podia imaginá-las sob o bisturi do perito.

A primeira, Jenny Benedict, estava em um parque com seus amigos do bairro. Em um momento, foi procurar água na fonte, e duas meninas a viram afastar-se de bom grado com «certo cara».

Quando Zack ficou sabendo que o pai só tinha direito a visitas vigiadas a sua filha por causa de uma amarga e prolongada batalha judicial pela custódia, desejou que o homem fosse culpado. Tentou de tudo para lhe arrancar uma confissão, mas em definitivo, Paul Benedict não era um assassino. Era um pai digno de pena, tão aniquilado pela notícia do assassinato de sua filha como podia estar um homem inocente. Talvez mais.

«Deveria ter estado lá. Protegendo-a.» As palavras de Benedict perseguiam Zack; aproximavam-se muito ao sentimento que tinha Zack pela morte de sua irmã Amy.

«Deveria ter estado lá.»

Mas o que ele poderia ter feito? Amy não era uma menina pequena, e com absoluta certeza que ela não teria querido saber nada relacionado com seu irmão, o policial.

A segunda menina, Michelle Davidson, andava em uma bicicleta quando ficou na frente de seus amigos na corrida para ver quem chegava primeiro em casa. Sua bicicleta foi encontrada no pátio do vizinho do lado. Ela apareceu morta três dias depois.

Isso tinha ocorrido nas primeiras horas da manhã do dia anterior, fazia umas trinta e seis horas. E já tinha toda a imprensa em cima dele. Não lhes importava o sofrimento dos pais; nem que ele não tivesse dormido mais de quatro horas cada noite desde que a primeira vítima fora assassinada há três semanas atrás; nem que a tarde da véspera Zack tivesse passado duas horas assistindo à autópsia de alguém muito jovem para morrer.

—Você pesquisou o modus operandi do assassino no computador? —perguntou a Boyd. A única coisa boa do jovem novato era sua habilidade com tudo o que tivesse a ver com a eletrônica, em particular os computadores. Zack teria gasto inúmeras horas para levantar a informação com seu antiquado sistema, para depois, provavelmente, ter que refazer tudo por causa dos erros. Mas Boyd era da nova geração. Era um mago daquela maldita coisa e tinha assumido aquele aspecto do trabalho.

Boyd assentiu com a cabeça.

—Imprimi o relatório. Há vários casos não resolvidos. Há sete anos, em Austin, Texas, foram seqüestradas quatro meninas loiras em um período de seis meses. Nem suspeitos nem testemunhas. Os corpos foram abandonados da mesma maneira.

—Completamente vestidas, sem calcinhas e o cabelo cortado — disse entre Zack entre dentes.

—Há dez anos, em Nashville, quatro meninas foram assassinadas de uma maneira que coincide com o modus operandi. Uma testemunha ocular proporcionou uma descrição, mas não levou a nenhuma parte.

—Tem a ficha ai?

—Nashville a está desenterrando; disseram-me que a enviariam por fax no final do dia. Mas não há informação suficiente para um retrato falado.

—Ao menos é algo. — E um como era algo! Zack consultou seu relógio. Já eram cinco horas; era impossível que Nashville lhes enviasse algo nessa noite —. O que há sobre a tatuagem?

O seqüestrador de Jenny Benedict tinha uma espécie de tatuagem no braço esquerdo. As duas meninas que viram Jenny partir não puderam precisar do que se tratava, mas uma tatuagem era melhor que nada.

—A testemunha de Nashville também mencionou uma tatuagem, mas não o descreve no relatório. Pedi-lhes que o comprovassem.

—Dois casos?

—Você me disse que reportasse até dez anos atrás. Isso é tudo o que encontrei.

O instinto gritava a Zack que aquele cara tinha deixado um rastro muito maior que oito meninas mortas antes de atacar em Seattle. Era condenadamente escorregadio; tinha que ter prática. E como Zack suspeitava que levava muito tempo nisso, talvez o assassino tivesse deixado algo mais de si mesmo nos inícios de sua orgia criminal.

Os assassinos em série se esforçavam em aperfeiçoar seus crimes. Faziam mal aos humanos pelo prazer doentio que isso lhes proporcionava. Embora freqüentemente tinham um aspecto normal, e um comportamento normal —inclusive eram encantadores, como Ted Bundy, ou atraentes, como Paul Bernardo — sob a superfície não sentiam nenhum remorso nem se identificavam afetivamente com seus semelhantes humanos. Eram ardilosos, e se esforçavam continuamente em cometer o crime perfeito.

Nesse mesmo momento, Zack não tinha muito com o que pudesse trabalhar. As provas iniciais que tinham reunido nas duas cenas do crime ainda estavam sendo analisadas. O melhor que tinham nesse ponto eram as fibras do capacho recolhidas nas roupas das vítimas. Por desgraça, as amostras eram de dois veículos diferentes, o que para ele não fazia sentido. Um era um Ford Expedition último modelo, e o outro um Dodge RAM, também último modelo. Duas caminhonetes muito populares, que podiam pertencer a qualquer um dos milhares de homens que havia somente em Seattle. Essa manhã tinha revisado os registros das placas de ambos os veículos. Nesse momento, estavam verificando manualmente as listas para ver se alguma dos endereços tinha os dois tipos registrados de veículo. Zack não acreditava em obter resultados até o dia seguinte. Havia se sentido frustrado porque com toda a tecnologia que dispunham, e a capacidade para revisar os registros de placas de maneira instantânea, fora impossível realizar um estudo devido ao fato de o programa não trabalhava dessa maneira, conforme lhe haviam dito. Que sentido tinha a tecnologia, se não podia fazer o que ele necessitava?

Nessa manhã, o perito tinha enviado uma amostra de DNA ao laboratório estatal. Embora Doug Cohn tinha pedido ao laboratório que tivessem pressa com a análise, este ainda poderia demorar semanas, quando não meses. Uma vez terminado, Cohn introduziria a informação no registro nacional de DNA, o CODIS, e comprovaria se havia alguma coincidência. Por desgraça, com a escassez orçamentária reinante em todo o país, as forças da ordem introduziam acima de tudo a informação genética somente de casos abertos. Dez anos atrás, essa não era uma prática comum, e vinte anos antes… melhor esquecê-lo. Todos os casos arquivados tinham que introduzir-se manualmente, e a menos que tivesse pressuposto para isso, o trabalho se fazia ao acaso, se é que era feito.

Mas o DNA só servia se houvesse um suspeito com o qual associá-lo. Zack esperava que o que quer que fosse que Doug Cohn conservara do corpo de Michelle Davidson coincidisse com o de um agressor registrado, embora não esperava nenhum milagre.

Além disso, haviam as estranhas marcas encontradas nos antebraços das vítimas. Tanto Jenny como Michelle tinham doze pequenas punções quase uniformes realizadas com uma espécie de objeto extremamente estreito e afiado. Poderia tratar-se de uma faca com a ponta muito fina, como um estilete. As marcas não tinham sido realizadas com a mesma faca que as tinha matado, mas o perito assegurava que eram idênticas.

—Acredita que…? — começou a dizer Boyd antes que o grito do chefe Princeton o interrompesse.

Princeton não era realmente seu nome, mas se pavoneava em frente as mulheres como se fosse um presente do céu, provido nada menos que com uma mestria obtida em alguma das melhores universidades do país. Uma noite, já tarde, Zack estava bebendo com um punhado de gente em um bar que havia na mesma rua da delegacia de polícia. De madrugada, o chefe tinha estado politicando com o prefeito, e os tinham ouvido falar sobre suas respectivas universidades. Zack não sabia quem tinha dado o apelido de Princeton para o chefe Lance Pierson, mas ele, aliás, tinha tomado posse como se fosse natural.

Durante os dois anos que o chefe Princeton estava no cargo Zack tinha aprendido a respeitá-lo. Ele se dava muito bem com o chefe, embora o conluio com os políticos, algo que tinha que fazer e que aborrecia Zack, e Princeton apoiava os jovens de uniformes cento e dez por cento. Isso contava muito para Zack, embora o chefe estivesse acostumado a fingir que seus anos de universidade e algum e outro prêmio acadêmico o fazia mais inteligente que seus homens. Tinham conseguido uma boa relação de trabalho, e quando o chefe se inteirou do apelido, o levou na brincadeira.

—Detetive Travis. Em meu escritório — ordenou Pierson.

Boyd se levantou de um salto ao ouvir a chamada do chefe.

—Sim, senhor — disse.

—Sente-se, Boyd — disse Pierson. – Isso é somente para o oficial de treinamento.

—Vai correndo ao laboratório a veja se conseguiram algo sobre as caminhonetes — disse Travis a Boyd. Teria preferido fazer ele mesmo.

Zack atravessou as filas de mesas.

—O que acontece?

—Tem alguém a que quer te conhecer — disse Pierson.

—Não irá me convocar a outro beija-mão com o prefeito. — O chefe não retrocedia em seu empenho de que Zack se dedicasse a política.

—Se trata de seu caso de homicídio.

Embora Zack tivesse vários casos de homicídio ativos em sua lista, só aquele absorvia sua atenção nesse momento.

—O que? — Zack não gostava que o pegassem de surpresa.

—Alguém que talvez possa ser de ajuda.

Pierson não lhe diria nada mais, e Zack seguiu para seu escritório, curioso, mas apreensivo.

Através do vidro Zack viu uma delgada beleza de cabelo dourado sentada na cadeira do outro lado da mesa de Pierson. O perfil era clássico e elegante, tinha feições perfeitamente esculpidas e uns lábios vermelhos e cativantes. O detetive piscou quando se deu conta de que a mulher só usava brilho nos lábios e não batom vermelho; ou se era batom, era da cor mais natural que ele tinha visto. E havia visto muitos. Demônios, tinha beijado muitos lábios.

À medida que os homens se aproximavam da porta, a mulher se voltou completamente para ficar de frente para eles, como se não gostasse de dar às costas a ninguém. «Uma policial.» Zack sabia bem; ele tampouco se sentava de costas para as portas.

Mas aquela figura miúda se vestia muito bem para ser uma policial, e vestia nada menos que um terninho cinza claro de aspecto caro e uma blusa de seda azul. E eram pérolas o que brilhava ao redor do pescoço? Não se parecia em nada às garotas chamativas com que o chefe Princeton saia. Muito clássica. E parecia inteligente.

Pierson entrou no escritório sorrindo com solenidade à mulher; Zack se apoiou contra o batente da porta, não querendo entrar até que soubesse o que estava acontecendo.

—Agente St. Martin, eu gostaria que conhecesse o detetive encarregado do caso em que está interessada. O detetive Zack Travis é, com toda sinceridade, nosso melhor policial. Sem dúvida, poderá ajudá-la.

Zack ouviu vagamente o elogio. Enfureceu-se assim que ouviu a primeira palavra: agente.

—Do que se trata isto? — perguntou Zack com os dentes apertados —. Traz os federais sem falar comigo?

Não tinha nada pessoal contra o FBI; mas em todos os casos nos quais havia trabalhado e os federais interferiram, estes tinham causado mais problemas que o que valia sua presença. Isso, para não falar que se apropriavam das provas, que mantinham os policiais locais na mais absoluta escuridão e que, geralmente, comportavam-se como se fossem superiores.

—Detetive — disse Pierson em um tom que fez Zack prestar atenção.

Os dois homens se olharam fixamente nos olhos, e Zack soube que seu chefe não tinha propiciado aquela situação. Isso lhe fez sentir um pouco melhor, mas se os federais revoavam ao redor de sua delegacia de polícia, era porque algo estava acontecendo.

Pierson continuou:

—A agente St. Martin está aqui por causa da coincidência de seu caso com um que ela investigou, e acredita que sua informação pode nos ajudar a encontrar o assassino. Falei ontem com seu chefe, e ele me assegurou que não iriam enviar ninguém de maneira oficial. Depois de ouvir a informação que tinham, aceitei que enviassem alguém extra oficialmente.

—Ontem? — repetiu Zack. Por que seu chefe não o tinha avisado?

—Não é necessário que lhe recorde a gravidade do assunto - prosseguiu Pierson ignorando ou não caindo na conta da pergunta implícita de Zack —. Aceitei a oferta do FBI, mas você continuará tendo o controle absoluto sobre a investigação. A agente St. Martin está aqui simplesmente para ajudar. Considere-a como… — se interrompeu já visivelmente incômodo — companheira.

Aquilo não caiu bem a Zack, mas queria conseguir toda a informação que pudesse lhe ajudar a encontrar ao bastardo que tinha assassinado aquelas duas meninas. Entretanto, podia confiar que aquela federal estivesse à altura das circunstâncias?

—Já sabe como atuam, chefe. No começo, são todos amigáveis com falsas promessas de compartilhar a informação, e depois… zás! Tiram um coelho da cartola no último minuto e descobrimos que esteve guardando suas cartas todo o tempo. Nós fazemos o trabalho, pegamos aos maus e eles levam o mérito por cooperar. — Já lhe tinha acontecido duas vezes ao longo de sua carreira, uma delas com resultados quase fatais. Não ia permitir que ocorresse de novo.

—Não acredito que deva importar quem leve o mérito enquanto se faça justiça — disse a agente St. Martin com uma voz tão suave como um uísque escocês de vinte anos.

Zack lhe deu um olhar, e a frieza e serenidade da mulher fez que se sentisse exaltado. Desde criança havia aprendido a controlar seu temperamento, sobre tudo quando alguém era objeto de uma injustiça. «Zack» estava acostumado a dizer sua avó, «sua apaixonada defesa daqueles que não podem fazer isso por si mesmos é admirável, e te levará longe, sempre que no caminho não se transforme em um valentão.»

Esforçava-se ao máximo para controlar seu caráter, ao qual tinha dominado a maioria das vezes, mas essa noite vinha a sua memória o sabor ruim na boca que lhe deixaram os federais na última vez que tinham trabalhado juntos.

Estava a ponto de explicar seu comentário, quando a mulher disse:

—Tudo o que tenho lhe pertence, detetive.

A mulher arqueou as sobrancelhas e o olhou fixamente nos olhos com as mãos cruzadas no colo em um claro intento de que afastasse o olhar. Quase o desafiando, provocando-o…

Zack afastou o olhar, surpreso de que uma mulher tão pequena tivesse a ousadia de tentar que afastasse o olhar. E, entretanto, o tinha feito. A primeira reação de Zack foi voltar a cabeça sentindo um indesejado arrebatamento de admiração.

—Muito bem — disse Zack —. Mas — continuou, olhando primeiro a Pierson e em seguida para a agente St. Martin —, se averiguar que age com dupla intenção, que guarda provas ou que engana o departamento, acabou-se.

—Não ajo com nenhuma dupla intenção, detetive — disse a agente St. Martin.

Olivia soube que pisava em um terreno movediço. Se o detetive Travis pressionava a fundo, acabaria descobrindo a verdade. E a ameaça de ser descoberta lhe aterrorizava, mas também lhe dava a coragem para manter-se forte, e se armou de coragem mentalmente para um enfrentamento.

Travis a olhou dos pés a cabeça, e seus olhos escuros captaram todos os detalhes de seu aspecto em um ato de apreciação que roçou a grosseria. Ela venceu o impulso de erguer a coluna. O detetive recordava a um jogador de futebol americano, um cara que fazia exercício e que gostava de fazê-lo. Olivia se sentiu até menor do que lhe permitia seu diminuto metro e sessenta e cinco. Sem dúvida, estar sentada não ajudava.

Mas Olivia não se deixaria intimidar.

—Sempre e quando nos entendermos, agente St. Martin — disse Zack —. Pronta para compartilhar? — O detetive fez um amplo gesto com o braço para a porta.

Olivia exalou um suspiro contido; lentamente, para que nem o chefe Pierson nem o detetive Travis pudessem perceber seu alívio.

—Absolutamente — disse Olivia enquanto se levantava segurando sua maleta. Despediu-se do chefe com a cabeça e seguiu o detetive para fora do escritório.

—Tenho uma das salas de reuniões dedicada ao caso — disse Travis —. Vamos até lá.

—Não vim para causar problemas — disse Olivia com a necessidade peremptória de que o detetive a aceitasse.

—Tenho certeza que não.

Sarcástico.

—Não gosta do FBI?

—No passado, minhas relações com seus agentes nunca foram o que alguém chamaria de positivas.

Olivia franziu o cenho. Conhecia algumas histórias de desacordo entre as policias locais e o FBI, mas ela estava um tanto distanciada da investigação. Todas as pessoas com que trabalhava pareciam gente amistosa. Para falar a verdade, sua experiência estava freqüentemente em um laboratório criminal a milhares de quilômetros de distância, ainda que pensasse que teria tirado proveito das hostilidades.

O detetive Travis a conduziu por um labirinto de mesas. Uma dúzia de homens e mulheres os observava ao passar; seus olhares curiosos fizeram que se sentisse cada vez mais nervosa enquanto atravessava o espaço generosamente iluminado. Decidida a que nenhuma daquelas pessoas lhe afetasse, manteve a expressão do rosto impassível. Já estava jogando um jogo perigoso; arriscar sua carreira era só o início. Mas se sairia bem; tinha que fazer isso.

Encontraria o assassino de Missy e o faria pagar. Faria justiça… ou morreria na tentativa.

Tal pensamento não a assustou… e isso lhe preocupou. Deveria estar assustada, aterrorizada pelo assassino que — por sua culpa — tinha seqüestrado e assassinado a não menos de vinte e nove meninas em trinta e quatro anos. Trinta contando a morte de Michelle Davidson.

Mas tinha chegado até ali, e já não havia como voltar atrás.

Zack se deteve de repente e se meteu em uma sala de reuniões fechando a porta atrás deles.

—Sente-se. Temos muito trabalho a fazer.

Olivia deixou a maleta no chão e se sentou em uma cadeira.

—Eu disse que compartilharia tudo o que tenho. Não me parece justo que me julgue sem me dar sequer a oportunidade de demonstrar que não tenho outra finalidade a não ser a de apanhar esse assassino. — Uma comichão de culpa revoou por sua coluna vertebral; embora não tivesse relação com o caso, estava ocultando informação do detetive Travis.

Zack pegou uma cadeira, sentou-se com força e aproximou de si um montão de processos. Olhou fixamente à mulher dando a impressão de estar pesando as palavras desta. Seu exame fez com que Olivia se sentisse incômoda, mas se manteve firme. Zack Travis era o tipo de policial que manjaria imediatamente o pouco que ela se propunha em baixar a guarda.

—Alegra-me que possamos chegar a um acordo — disse finalmente ele, sem responder diretamente a seu comentário —. Nosso departamento deseja encontrar esse cara tão desesperadamente como sua agência.

Olivia assentiu com a cabeça. «Não, não desejam tanto. Ninguém quer apanhar esse cara mais do que eu.»

Zack percebeu a estranha expressão que cruzou o rosto da agente St. Martin, algo que reconheceu, mas que não pôde identificar. Olivia ergueu as costas, o que não fez muito por sua estatura mediana. Era uma mulher pequena e esbelta, como a figura de um relógio de areia sob um traje caro.

Enquanto a olhava fixamente, Olivia apertou a mandíbula. Quase sentiu falta de morder o interior da bochecha, e durante um instante fugaz pareceu angustiada. Mas o detetive piscou, e fosse o que fosse que ele acreditava ter visto desapareceu, e a mulher simplesmente lhe pareceu alguém acostumado a mandar.

—Tem nome ou devo me limitar a chamá-la de super agente? — disse Zack.

Ele gostava da maneira que ela teve de irritar-se; teria sido divertido provocá-la, se não tivessem tido um assunto tão grave entre eles.

—Olivia — respondeu.

—As pessoas a chamam Liv, não é assim?

Olivia se encolheu de ombros.

—Alguns.

Zack fez um gesto com a mão para os processos dos assassinatos colocados contra a parede oposta. Tinha observado que a agente os tinha percorrido rapidamente com o olhar, claramente impaciente por começar.

—O que sabe de meus casos?

Olivia meteu o cabelo atrás da orelha, mas ele voltou a cair para frente quase imediatamente.

—No princípio, li os artigos da imprensa, e depois fiz com que me enviassem as informações do laboratório para poder repassar as provas. Mas o único que tenho é o do assassinato de Benedict. Não tive tempo de revisar o caso de Davidson. Dou por certo que se trata do mesmo assassino, não é mesmo?

—Sim.

—Sem dúvida nenhuma?

—Não para mim. O diretor do laboratório criminal cuida do caso pessoalmente. Doug Cohn. Ele está de acordo: a mesma faca, o mesmo modus operandi e… — Fez uma pausa antes de dizer —: Sabe sobre o cabelo?

—O assassino corta uma parte de uns dois centímetros de diâmetro do cabelo da vítima.

Zack assentiu com a cabeça.

—Alguma diferença entre os dois casos?

Zack sacudiu a cabeça.

—Nada substancial. Jenny tinha nove anos; Michelle, onze. Jenny era filha única e seus pais estão divorciados; Michelle tinha dois irmãos e os pais seguem casados. As duas foram seqüestradas pela tarde, assassinadas dentro das quarenta e oito horas seguintes e seus corpos foram jogados em áreas pouco concorridas, e descobertos pouco antes das vinte e quatro horas.

—Ainda que alguém encontrou o corpo de Jenny Benedict em seguida — disse Olívia —. Seu relatório diz que talvez antes das duas horas, não?

—Localizamos a todos os empregados que trabalham nesse polígono industrial. O proprietário de Eletrônica Swanson e Clark partiu pouco depois das seis da tarde da sexta-feira já faz três semanas. Jura que passou bem ao lado do lugar onde foi encontrado o cadáver da menina e que este não estava ali. O último empregado a partir — Zack consultou suas notas — foi Ann Wells. Trabalha em um armazém de fornecimento de pinturas industriais no final do beco. Não viu nem ouviu nada fora do normal; seu marido a recolheu às sete da noite.

—E sua testemunha chegou às 21h30min, verdade? — observou Olivia.

Zack assentiu com a cabeça.

—O sol se pos oficialmente às 18h57min, mas provavelmente não escureceu totalmente até depois de 21h30min. Imagino que, por precaução, o assassino esperou que a escuridão fosse total para jogar o corpo.

—Está considerando um intervalo de duas horas?

—O que acredito é que o assassino não esperava que alguém descobrisse o corpo até no sábado pela manhã pelo menos, e talvez que tal coisa não ocorresse até na segunda-feira. Nenhuma das empresas abre durante o fim de semana.

—Li algo sobre a tatuagem. — O coração de Olivia acelerou, era isso o que ela realmente queria ouvir falar, mas não desejava mostrar-se muito ansiosa a respeito —. Nenhum detalhe?

—Uma das meninas que viu Jenny se afastar com o assassino viu uma tatuagem. Foi uma impressão vaga, e não nos deu nada mais. Meu companheiro está investigando crimes parecidos. Até o momento localizamos dois, quatro meninas mortas em Austin, Texas, e quatro em Nashville, Tennessee. Estamos esperando as informações de Nashville. — Zack a olhou fixamente e se recostou na cadeira —. Trabalha em algum desses casos?

Era evidente que era a hora de ela compartilhar sua informação.

Olivia abriu a maleta e tirou a grossa pasta que continha as informações que ela tinha reunido.

—Por desgraça, acredito que o homem que estamos procurando assassinou trinta meninas, incluindo Michelle Davidson.

—Trinta? E ninguém tem se dado conta de que temos um assassino em série de âmbito nacional? — Zack pareceu tão furioso como realmente se sentia.

—É um cara prudente, metódico e paciente. Deixa passar anos de inatividade entre os assassinatos. Em três dos casos (Califórnia, Kansas e Kentucky) deteve-se e outras pessoas foram julgadas pelos crimes. Não há um padrão claramente definido, e como entre um assassinato e o seguinte transcorrem semanas antes que pare por algum tempo, os casos se esfriam rapidamente. —Olivia lhe mostrou uma cópia de seu relatório.

—Como relacionou estes casos com o meu?

—Como lhe disse, na Califórnia alguém foi condenado por um delito que acredito que o responsável é seu assassino de Seattle. O modus operandi é semelhante. O homem condenado acaba de ser posto em liberdade graças a uma prova de DNA. Foi condenado sobre a base de provas circunstanciais, mas que convenceram o juiz e os jurados. Mas ele não seqüestrou Meli… à vítima.

—Pode ter estado envolvido.

—É possível. Já pensei nisso, mas o promotor disse que, dado o tempo transcorrido, as provas eram muito débeis para garantir uma condenação. E com toda essa propaganda sobre os erros judiciais a nível nacional… Bom, acredito simplesmente que não quis arriscar-se a levar adiante um caso difícil. —Tinha falado do assunto com Hamilton Craig a causa da liberdade de Hall duas semanas atrás. O promotor estava disposto a voltar a julgar Hall, mas não acreditava que pudessem ganhar. Não havia nenhuma prova que sugerisse que houvesse duas pessoas envolvidas. Isso não queria dizer que não estivesse, mas sim seria complicado demonstrar. E trinta e quatro anos depois? Virtualmente impossível.

—E você em que acredita? Pensa que meu assassino agiu com outro?

O que ele estava pedindo era uma opinião que qualquer outro policial, ou agente do FBI, poderia dar. Ela não sabia.

—Não tenho nenhuma prova que sugira tal extremo…

—O que é o que você pensa? O que é o que lhe diz seu instinto? Ou a vocês, os do FBI, não são permitidos a escutar o seu instinto?

Instinto? Olivia não sabia como escutar seu instinto; ela precisava ter os fatos diante de si. Números, estatísticas, probabilidades… Podia comparar fios microscópicos e dizer com absoluta certeza se coincidiam ou não. Mas seu palpite a respeito de se o assassino de Missy tinha um cúmplice? Aquele era um território desconhecido e potencialmente perigoso, e uma área em cuja exploração não se encontrava cômoda.

—Bom — disse tentando ganhar tempo.

—Você tem uma opinião. Diga. Não vou ironizar, se estiver equivocada.

Olivia tragou saliva e meteu o cabelo atrás da orelha.

—De acordo, acredito que o assassino trabalha sozinho. Seu delito é muito pessoal, muito íntimo para compartilhá-lo com outra pessoal. Mas… o assassinato da Califórnia parece ser o primeiro que cometeu, e pode ser que ainda estivesse refinando seu estilo de matar. As provas fundamentais que condenaram Hall se encontraram em sua caminhonete; as provas achadas na caminhonete demonstraram que a vítima tinha estado ali. — ela se interrompeu quando se deu conta de que tinha pronunciado o nome de Hall em voz alta. Não tinha intenção de fazer isso e retomou depressa sua linha de raciocínio confiando que Zack não tivesse reparado em seu deslize —. É possível que o assassino tivesse levado o carro? Talvez tenha lhe emprestado a caminhonete? Mas não sou capaz de compreender por que razão alguém ia ficar em silêncio e ir para a prisão para proteger outro.

—Estou de acordo.

Olivia se surpreendeu.

—De verdade?

—Os crimes são muito pessoais; não o imagino com um cúmplice. Ainda que pode ser que no princípio recebesse ajuda. — Zack encolheu os ombros —. Não saberemos até que o encontremos.

—Têm alguma amostra de DNA ou algo parecido? — perguntou Olivia.

—Temos uma extraída do corpo de Michelle Davidson, mas parece que é pequena. — Zack sacudiu a cabeça —. Não estou perito em provas de DNA, assim deixo isso por conta de Cohn. Ele é bom. Mas ainda demoraremos semanas em conseguir algo. Cohn está tentando pressionar o laboratório criminal do estado para que se apressem com a prova, mas primeiro têm que realizar as provas ordenadas pelos juízes. — passou a mão pela escura barba de dois dias e em seguida esfregou o pescoço.

—Eu… — Como ela poderia conseguir essa mostra sem que Zack pensasse que estava tentando assumir o caso? Tinha que agir com cuidado —. Sabe? Talvez pudesse acelerar a análise da amostra no laboratório do FBI.

Zack a olhou com expressão perdida, e só o tic de seu pescoço advertiu a Olivia de que suspeitava de suas motivações.

—E? — disse induzindo-a a seguir.

—Ali contamos com o equipamento mais avançado, e se pode dizer que conheço o diretor anexo do CODIS. Ele dará prioridade, se eu pedir.

—Ah, sim?

Olivia teve a sensação de estar sentada na cadeira elétrica.

—É meu ex-marido.

—Seu ex-marido trabalha no laboratório? — Zack sorriu —. Nossa, eu seria incapaz de conseguir que minha ex-mulher me fizesse um favor.

Seu humor fez com que Olivia relaxasse um pouco.

—Bom, ele sim fará por mim. Separamo-nos amigavelmente.

—Não é fácil conservar um casamento com um trabalho como o nosso — disse Zack, quase para si.

Olivia voltou a sentir a pontada de culpa. Em seu caso não tinha sido o trabalho, mas conhecia muitos agentes e policiais para saber que as relações não eram fáceis para eles. Por mais irônico que parecesse, o trabalho tinha sido a única coisa que os tinha unido e que mantinha sua amizade.

—De acordo — disse Zack levantando-se de repente —. Se pudermos conseguir mais depressa as respostas utilizando seu ex, nada que objetar de minha parte. Vamos ao laboratório, e você e Cohn poderão falar de todas essas questões técnicas. Provavelmente terá adquirido um montão de conhecimentos por estar casada com um desses tipos de laboratório.

Não sabe da missa a metade, pensou Olivia.

 

Brian desceu com passo firme os três lances de escadas até o beco onde estava estacionada sua desmantelada caminhonete. Enquanto seu advogado não pudesse conseguir parte do dinheiro do maldito governo, estava mais duro que um pau. Qualquer um pensaria que podiam ter lhe entregado um cheque assim que saiu pela porta; era inocente, ele lhes havia dito que era inocente, e ninguém tinha acreditado porque aquele estúpido policial de merda tinha mentido sobre as provas. Provas colocadas para culpá-lo. Não era isso o que tinha acontecido com o O. J. Simpson? Os policiais tinham colocado as provas para acusá-lo.

É obvio que Brian não acreditava nem por um momento que O. J. não tivesse liquidado sua esposa, mas eles, os policiais, agiram como sempre, de maneira que provavelmente forjaram as provas contra O. J. para ficar como Deus, igual tinham colocado as provas em sua caminhonete.

Abriu com um puxão a delgada porta da pequena caminhonete tendo saudades seu grande Dodge, mas o tinham requisitado «como prova». Merda! Isso não era justo. A essa altura seria um clássico, e valeria seu dinheiro.

Custou-lhe três tentativas enquanto pisava na embreagem e tentava conseguir que a máquina oxidada arrancasse. Tinha querido ver sua mãe e lhe demonstrar que estava bem, mais que muito bem, melhor que nunca. Queria ir para casa, e comer comida de verdade, e dormir em uma cama de verdade e não voltar a ver nunca mais uma barata.

Tinha ligado para sua mãe da prisão na semana anterior, a noite antes que o pusessem em liberdade.

—Mama, sou eu, Brian.

Ela não havia dito nada durante quase um minuto, e Brian pensou que tinham cortado a ligação, uma espécie de brincadeira dos carcereiros.

—Brian — havia dito finalmente sua mãe com voz apática e cansada, infeliz.

A ira e uma estranha dor lhe fizeram um nó na garganta. Tinha tragado saliva com dificuldade antes de dizer:

—Mami, vou sair. Eu não fiz nada.

Outra longa pausa.

—Não entendo o que me diz. Onde está?

—Estou na prisão, mas amanhã vão deixar que vá para casa. Têm novas provas que demonstram que não matei ninguém.

—Casa? Você vai vir para casa?

Ela tinha parecido assustada. É que não tinha ouvido o que acabava de lhe dizer? Que era inocente? Que aqueles imbecis policiais de merda tinham cometido um erro?

—Sim. Sou inocente — disse silabando para lhe dar maior ênfase —. Já disse isso antes.

Tinha sido doloroso que sua mãe não tivesse ido lhe visitar; isso lhe tinha feito sofrer. O certo é que não sabia o que sua mãe pensava, nem sequer que aspecto tinha agora, nem como estava depois da morte de seu pai.

Brian estava surpreso do quanto tudo isso lhe incomodava.

—Eu… Brian, não sei o que dizer.

—Diga que posso ir para casa.

—Não sei. Não sei.

A mão dele se fechou com tanta força ao redor do fone que os dedos ficaram brancos. «Puta imbecil! Eu disse que não fiz!»

Viu-se invadido por um sentimento de culpa que lhe era familiar e se odiou por pensar aquelas coisas de sua mãe. Merda, aquilo não era bom! E tinha que demonstrar-lhe.

—Mamãe, não tem problema. — Tinha respirado profundamente —. O Tribunal me conseguiu um apartamento e me proporciona um pouco de dinheiro, já que fui preso por engano vão dar mais de um milhão de dólares. Assim voltarei a ligar na semana que vem; assim terá um pouco mais de tempo.

—Obrigado, Brian. Nunca deixei de rezar por você. Nem um dia. Espero que agora que você saiu da prisão, faça algo bom com sua vida.

—Claro, mamãe. — Brian tinha desligado temendo que pudesse começar a gritar. «Algo bom com sua vida?» O que é o que pensava ela que tinha feito, matado alguém? Não tinha assassinado aquela menina, jamais mataria uma criança. Somente na guerra havia matado, e aquilo tinha sido um acidente. E o Vietcong era o inimigo. Ele não tinha assassinado ninguém, a sangue frio, queria dizer. Não era justo, tinha sido uma injustiça de merda que o tivessem metido na prisão durante trinta e quatro anos porque aqueles estúpidos policiais escangalharam a investigação.

Uma injustiça de merda!

Brian limpou o suor da testa enquanto um vento quente soprava pelos vidros abertos de sua lamentável caminhonete. Não era exatamente o tempo que havia fazia; era aquela estranha sensação que não lhe abandonava desde que tinha saído da prisão e se convertido em um homem livre. Sentia-se como fora de seu corpo, desorientado. Desde sua saída da prisão tinha visto televisão sem descanso. Tinha gasto quase a metade do magro auxílio que tinham lhe dado na prisão — por volta de mil e quinhentos dólares e um apartamento grátis, acreditava-se que deveria durar três meses, até que chegasse o milhão de dólares — e comprou uma estupenda televisão de trinta e seis polegadas. Não é que na prisão tivesse estado vivendo isolado do mundo; tinha visto as notícias e alguns programas e filmes estúpidos e coisas parecidas, mas até então não havia percebido o quanto tinha sentido falta de tudo.

Sua mãe vivia em Menlo Park, um antigo bairro de classe média situado na península de São Francisco. Estava somente a dez minutos de seu apartamento de merda nos bairros baixos de Redwood City, onde era o único branco do edifício. Mas não podia ir a nenhum lugar até que conseguisse o dinheiro do governo. Que vida tão difícil!

Quando entrou no bairro de sua mãe, o desespero se apropriou completamente de sua pessoa. Para começar, não tinha pensado no muito que o bairro tinha crescido nos últimos trinta anos. Quase tinha lhe dado um enfarte na rodovia pela quantidade de carros e grandes caminhões que circulavam por ela. Nossa! Onde vivia toda aquela gente? A península que conectava São Francisco com São José não era tão grande.

Muitas das casas do bairro de sua mãe eram grandes e opulentas e estavam bem conservadas. Tinha estilo, pensou Brian. Algumas eram pequenas casas transformadas em grandes mansões mediante construções acrescentadas; aquele não era o bairro de classe média do qual ele tinha saído para partir para o Vietnã. Aquela gente tinha dinheiro. As árvores eram maiores… e muito mais altas. Mas as ruas tinham um leve ar de familiaridade, e ainda existia o parque onde ele tinha brincado quando criança.

As lágrimas lhe arderam nos olhos, e beliscou a ponta do nariz. Como tinha chegado a ficar tolo daquela maneira? Costumava caminhar nessa mesma rua com os moços, Pete e Barry, e Tom. Chutando pedras e tagarelando sem parar; esculpindo madeira como seu pai tinha lhe ensinado. Onde estavam os rapazes nesse momento? Pete tinha ido para o Vietnã, como ele, mas Barry e Tom, não, ao menos que ele soubesse. Barry tinha cérebro; foi para alguma universidade grande. Provavelmente teria feito muito dinheiro, e teria se casado, e teria filhos, e feito todas aquelas coisas nas quais não tinham pensado sendo crianças, mas que imaginavam alcançariam cedo ou tarde.

E Tom? Que droga, pelo que Brian sabia, bem poderia ter acabado na prisão. Sempre tinha mostrado aquela inclinação, como na vez que tinha roubado a sorveteria Old Man Duncan, no Caminho Real; ou quando surrupiou a bolsa de Debbie Palmer e descobriu que usava pílulas anticoncepcionais no moedeiro. Debbie Palmer não era virgem? Tom havia devolvido a bolsa sem que ela soubesse, com cinco dólares a menos, e tentou ligar para ela na noite seguinte, depois de uma partida de beisebol, Tom a havia metido na parte de trás do carro de seu pai e haviam se deitado juntos, agindo como dois coelhos.

Brian parou a caminhonete diante da casa de sua mãe; a danada caloteou antes de se apagar. Brian ficou olhando a casa pequena que tinha um jardim. A mesma, embora diferente.

A mesma casa de telhado coberta de calhas vermelhas. A varanda continuava tendo um balanço, embora não fosse o que Brian recordava; este era de madeira e tinha uma almofada de flores vermelhas e brancas. O caminho estava repleto de flores. Petúnias, as favoritas de sua mãe.

—Crescem como a erva daninha, mas são tão cheias de cor que não posso evitar adorá-las — Ela havia dito muitas vezes quando as plantava no primeiro sopro da primavera.

Que fazia plantando petúnias a essas alturas? Tinha oitenta anos; não deveria ajoelhar-se sobre a terra.

Como ocorria com tantas outras casas da vizinhança, a garagem ficava na parte detrás. Entretanto, no caminho de acesso descansava um Ford novo. Brian não lembrava nenhuma só vez em que sua mãe não tivesse guardado o carro na garagem. Esperava que ela estivesse bem.

Ele sentia falta dela.

Saiu da caminhonete e percorreu lentamente o caminho de ladrilho esticando suas calças Dockers. Vinte e quatro dólares. Não podia acreditar que uma estúpida calça custasse tanto; e a camisa, ele tinha conseguido a metade de preço e mesmo assim havia lhe custado quinze dólares! Mas queria ter um bom aspecto para sua mãe. A porta se abriu antes que ele batesse com os dedos. Não era mamãe.

Era o tio Glen? Parecia-se com ele. A cabeça coberta com uma juba de cabelo cinza claro, olhos azuis chorosos e um nariz chato, muito grande para estar no rosto flácido daquele cara pequeno.

Brian entrecerrou os olhos. Não podia ser o tio Glen, o irmão de sua mãe; a essa altura seria um velho. E mamãe não havia lhe escrito há alguns anos dizendo que ele havia morrido?

—Toby? —Brian voltou a entrecerrar os olhos e a boca se abriu de repente. Seu primo Toby parecia tão velho. Mas era seis anos mais jovem que Brian, e…

… E o velho era ele; tinha cinqüenta e quatro anos. Era um cinqüentão de merda.

Sua vida havia terminado. Acabada. Roubada.

—Brian. — Toby não fez gesto de abrir a trava de segurança. Quando sua mãe a tinha instalado?

—O que faz aqui? — Não era sua intenção parecer que estava tão na defensiva. Antigamente se dava bem com seu primo menor. Mas isso fazia três décadas, antes de tudo se acabar.

—A tia Vi me chamou e disse que tinham posto você em liberdade. Vim para ajudar.

—Ajudar em que?

Toby encolheu de ombros.

—Me deixe entrar. Quero ver minha mãe.

—Não vai causar problemas, certo, Brian?

Brian começou a se irritar, e sentiu vontade de tirar com um soco aquela expressão de santo do asqueroso rosto de Toby.

—Não — disse refreando sua ira —. Puseram-me em liberdade. Minha condenação foi anulada. Eu não fiz nada. Sempre disse que não tinha feito; e agora há provas.

Toby assentiu com a cabeça.

—Sim, isso foi o que tia Vi me disse que você havia lhe dito. Pediu-me que o comprovasse.

Sua própria mãe não acreditava nele; não acreditava que o tivessem declarado inocente. Não acreditava em sua palavra… e tinha chamado o asqueroso de seu primo para que fizesse averiguações sobre ele.

Mas maior que a dor de que sua mãe estivesse convencida de sua culpa, foi a fúria que lhe produziu, para começar, sua mãe havia se submetido a aquela farsa.

Não tinha matado aquela menina! O queixo lhe tremeu enquanto controlava sua fúria.

—Então sabe que eu disse a verdade. — Era quase impossível falar. Sentia vontade de esmurrar a idiota e estúpida expressão de deleite de Toby. Maldito, que entrava em sua casa e punha a sua própria mãe contra ele!

Toby assentiu com a cabeça.

—Até certo ponto. Mas mesmo assim pôde ter estado envolvido.

—Como pode dizer algo assim?

Toby se estremeceu, e Brian ouviu uma exclamação procedente de algum lugar da sala, atrás dele. Sua mãe. Porra! Passou uma mão pelo rosto e recuperou o controle.

—Sua mãe tem oitenta anos, Brian. Não está bem do coração. Se te deixo entrar, tem que me prometer que não se alterará. Ou terei que fazer com que o prendam.

Brian sentiu vontade de ir embora e não voltar a olhar para trás. Todos aqueles anos na prisão por um crime que não tinha cometido, e agora sua própria mãe não acreditava que ele não tivesse nada a ver com isso.

Mas sentia falta dela. Tinha que vê-la; era a única coisa que lhe restava.

Baixou o olhar debatendo-se, mas arrependido.

—De acordo.

Toby abriu a porta mosqueteira, e Brian deu um passo para dentro com indecisão. Quando seus olhos se acostumaram à penumbra interior, pôde pelo menos perceber que tudo tinha mudado. Embora a casa em si não, os móveis eram novos e mais modernos. De couro. Mas o relógio do avô continuava no armário. Não podia vê-lo, mas ouviu seu compassado tic tac, um som intimamente familiar que o tranqüilizou enquanto se recordava de escutá-lo desde que era criança quando não podia dormir.

Tic, tac, tic, tac, tic, tac. Lento e reconfortante.

Mais tranqüilo, tentou encontrar sua mãe.

Estava sentava em uma poltrona reclinável; junto a ela havia um andador. Parecia tão… pequena; tão velha; tão murcha. Três décadas envelhecem a qualquer um, e o Pai Tempo agarrava uma mulher de meia idade e a transformava em uma anciã. Seu cabelo, que tinha tido tingido de loiro até onde Brian podia recordar, era já branco como a neve. Estava fraca e enrugada. Sua mãe se aborrecia com as rugas e sempre tinha utilizado todo tipo de loções e cremes contra o sol para evitá-las.

Brian supôs que eles não tinham dado resultado.

Mas seus olhos… eram azuis e limpos. Não tinha perdido a razão. Quando voltou aquele olhar penetrante para Brian, este sentiu sua desaprovação e sua tristeza. Desejou se deixar cair de joelhos e lhe suplicar que o perdoasse.

Entretanto, ele não tinha feito nada pelo que tivesse que ser perdoado. Era inocente!

—Mamãe. — Sua voz não soou bem. Limpou a garganta —. Mamãe, quanto me alegro de te ver.

A anciã assentiu lentamente com a cabeça olhando-o de cima a baixo, e os olhos se encheram de lágrimas. Brian sentiu um nó na garganta, e os olhos lhe embaçaram. Sua mãe levantou os braços.

—Brian.

Dando alguns tropeções, caiu de joelhos entre os braços esqueléticos de sua mãe.

—Mamãe, sinto muito. Sinto muito. Nunca quis te fazer mal… nunca fiz nada para te ferir.

—Eu sei, filho.

Brian começou a soluçar no colo de sua mãe querendo apagar os anos e lutar por sua vida; desejando não ter se apresentado como voluntário para ir ao Vietnã, e ao mesmo tempo, desejando nunca ter deixado o exército.

Tinha querido ser um herói; como tinha sido papai.

Já não era nada.

 

Doug Cohn não era uma pessoa fácil, a despeito do que Zack observou como a agente St. Martin o ganhava tranqüilamente. Em menos de dez minutos, estavam falando em uma linguagem estranha para Zack sobre amostras de DNA, procedimentos de análise e a forma em que transportariam a prova encontrada no corpo de Michelle Davidson ao laboratório do FBI na Virginia.

Então, ouviu que Olivia mencionava sua teoria a respeito de que o assassino roubava as caminhonetes.

—Não tenho os registros dos veículos de outras jurisdições - disse Olívia —, mas acredito que o assassino rouba uma caminhonete no dia do seqüestro, e depois devolve o veículo ou o deixa jogado por aí.

—Repassamos as relações de roubos — disse Cohn —. Na véspera do seqüestro de Benedict foi denunciado o roubo de um Expedition do ano que estamos procurando, mas ainda não foi recuperado.

—Por que os roubaria? — perguntou Zack, quase para si.

—Por conveniência — disse Olivia—. O tiram do cenário do crime… e se não for seu veículo, há menos probabilidades de que possa lhe seguir o rastro. Utilizaram-se dois veículos diferentes para duas vítimas. Não tem sentido que um assassino muito inteligente para se mudar de um estado a outro para evitar ser descoberto, utilizasse seu próprio veículo para transportar a vítima.

Zack enrugou o sobrecenho dando-se conta de que Olivia provavelmente estava certa.

—Não tínhamos nem idéia de que havia se estabelecido um modus operandi. A pouca informação que recebemos que Austin e Nashville incide mais no perfil da vítima.

Deve ter parecido que estava na defensiva, porque Olivia disse:

—Não quis dizer nada com isso. Eu teria feito exatamente o mesmo que vocês com a informação que tinham.

Cohn assentiu com a cabeça.

—A mim parece razoável. Travis seguirei adiante e revistarei as relações diárias de roubos, e ver se aparece o Dodge ou qualquer outra perua ou caminhonete. Haverá dúzias por dia.

—Direi ao chefe que alerte às patrulhas para que estejam atentos às caminhonetes de nossa lista - disse Zack —. Provavelmente não nos leve a nenhum lugar, mas talvez tenhamos sorte.

—Estamos procurando um homem branco de uns cinqüenta anos - disse Olívia —. Talvez pudesse acrescentar isso ao examinar a lista.

—Um homem branco de uns cinqüenta anos que conduz uma caminhonete em Seattle? — Cohn riu —. Isso bate com a metade da população, incluído eu.

Olivia sorriu com um sorriso maravilhosamente sincero que lhe iluminou o rosto, mas que não alcançou os olhos. Zack pensou que era até mais formosa quando sorria. «Puxe o freio, Travis. Não somente é sua companheira, mas também é uma federal.»

—Certo. Pensava só em relação aos carros roubados.

—Por volta dos cinqüenta? — perguntou Zack —. Nunca teria pensado que fosse tão velho.

—O primeiro caso suspeito, o da Califórnia que já mencionei, produziu-se há uns trinta anos. Se o assassino contava dezoito anos quando cometeu o crime, hoje teria cinqüenta e dois.

—Pervertido — disse Cohn entre dentes.

O celular de Zack tocou. Quando viu o número, enrugou o sobrecenho. Era do escritório do chefe de polícia do condado. Abriu o telefone com um golpe seco.

—Travis.

—Detetive, aqui é Jim Rodgers. Estão trabalhando em dois homicídios, não é certo? De duas meninas loiras.

—Sim. — Todos os músculos do corpo de Travis se eriçaram. O chefe de polícia do condado só o chamaria diretamente para lhe dar más notícias.

—Acredito que temos outro.

—Um seqüestro?

—Um cadáver. Jillian Reynolds, de nove anos. Desapareceu faz quase três meses. E pelo que parece, está morta todo esse tempo.

—Por que acredita que está relacionado com minha investigação?

—Era loira, e conforme parece a mataram a punhaladas. O corpo não está em muito bom estado devido à decomposição, mas parece que lhe cortaram uma parte de cabelo.

Zack sentiu um nó no estômago.

—Onde foi?

—Na ilha de Vashon.

—Estarei lá em… - Olhou seu relógio; se andasse depressa poderia pegar o ferry. Talvez — quarenta e cinco minutos.

—Farei que um de meus ajudantes o aguarde no ancoradouro.

Zack fechou o telefone com violência.

—Necessita de alguma coisa? — perguntou Cohn, consciente, sem dúvida, pelo final da conversa de Zack, que deveria ter acontecido um crime.

Zack sacudiu a cabeça.

—O pessoal do xerife do condado está lá. Mas parece coisa do mesmo tipo, assim farei que enviem tudo ao nosso laboratório. — Geralmente, a polícia do condado enviava as provas ao laboratório do estado, mas Seattle tinha umas instalações de primeira e podia acelerar o trabalho de laboratório. Sempre que era possível, o condado utilizava o laboratório local.

Cohn assentiu com a cabeça e passou a mão pela cabeça quase sem cabelo.

—O pessoal de Rodgers sabe cooperar. Não teremos problemas de jurisdição.

Olivia passeou o olhar de Cohn a Zack, perplexa.

—O que ocorreu? Outro seqüestro? — perguntou.

Zack lhe deu um olhar e durante uma fração de segundos acreditou ver cólera em seus olhos. Cólera cheia de medo. Logo em seguida, já não estava, como se uma tela impenetrável se baixasse. Olivia recolheu sua maleta da mesa de Cohn, toda eficiência, frieza e indiferença.

—Faz três meses — lhe respondeu Zack —. Acabam de encontrar o cadáver. —Conduziu Olivia do laboratório à garagem.

—Três meses… — Olivia acelerou o passo e tropeçou. Quando Zack a segurou pelo cotovelo para ampará-la, ela se esticou ante o contato —. Obrigado — balbuciou Olivia, mas se separou dele —. Três meses – repetiu —. Isso significa que Michelle Davidson foi sua terceira vítima de Seattle.

—Zack, acredito que não assinalei ao revisar os casos, mas ele só mata quatro meninas em cada cidade em que ataca. Se não o apanharmos já, iremos perdê-lo.

    

Vince Kirby passou a mão por seu cabelo muito curto antes de cravar em cima de «ENVIAR» sobre o e-mail dirigido ao diretor de seu jornal.

Bom, já não podia voltar atrás.

O Aniquilador de Seattle? Mau. E isso não encaixava com Kirby. E depois estavam essas meninas que tinham sido assassinadas; não se sentia confortável dando um tratamento sensacionalista para suas mortes.

Bom, se Bristow queria despedi-lo, pois estupendo, mas Kirby não consentiria que se fizessem as grandes mudanças editoriais com sua assinatura. Já não.

O principal problema era Zack Travis. Quando lesse o jornal na manhã seguinte e visse a segunda manchete: A torpe investigação do Departamento de Polícia de Seattle, sem dúvida alguma culparia Kirby.

Por que preocupar-se? Tinha tentado explicar a Travis meia dúzia de vezes que nem todos os artigos saíam da rotativa tal e como ele os tinha escrito.

Mas Travis tinha sido importante para Amy, e isso o fazia importante para Kirby.

Estendeu a mão, pegou a única foto que havia em sua abarrotada mesa e ficou contemplando o sorriso hermético de Amy. Os lábios juntos, torcidos ligeiramente para cima, os olhos escuros iluminados com um brilho humorístico e um ar travesso.

Deus a tinha amado de verdade.

A porta de Bristow se abriu de repente.

—Kirby! — gritou o diretor.

Bom, talvez enviar pelo e-mail não tinha sido o mais inteligente, mas mudar o artigo no último minuto, quando tinha estado cobrindo a seção de sucessos durante oito anos… era uma baixeza, inclusive para seu diretor.

Kirby se levantou.

—Já vou — anunciou.

Mas Bristow já estava atravessando a sala. A maioria do pessoal tinha terminado sua jornada, mas Kirby tinha a sensação de que o diretor vivia no edifício. Não havia vez, que fosse de dia ou de noite, em que Kirby estivesse ali, que Bristol não estivesse também.

—Vá até à ilha de Vashon sem perda de tempo. Parece que há certa atividade policial, tudo super secreto, mas um de meus contatos me disse que o chefe da polícia do condado chamou o detetive Travis. Meu instinto me diz que se trata do Aniquilador.

Kirby se encolheu ante a menção do assassino.

—Senhor Bristow, acredito que tenho que ir com muita cautela neste caso. Eu…

O diretor agitou a mão enquanto acendia um cigarro. Não podia fumar no edifício, mas Bristow entendia aquilo como uma proibição só vigente durante as horas de trabalho. Logo, fumava em seu escritório.

—Vi seu e-mail. É um pouco estranho. Cobre a exclusiva, que já edito seu artigo. Agora, vá antes que você perca o maldito ferry .

Kirby colocou sua câmara e seu bloco de papel na mochila e a pendurou no ombro.

Tinha que encontrar outro jornal para trabalhar. Após a morte de Amy, nada o retinha em Seattle. Exceto uma promessa.

    

Estava orgulhoso de sua disciplina.

Tinha planejado cada operação com precisão, do roubo do veículo ao bairro escolhido, passando pela escolha da menina. Paciência. Planejamento. Disciplina.

Duas ou três vezes tinha agido por impulso. A primeira vez é obvio, mas havia resolvido com assombrosa eficácia. Depois de tudo, roubar a caminhonete de Hall tinha desviado a atenção sobre outro. Foi depois disso que decidiu que roubaria as caminhonetes em cada operação. Aquilo implicava encontrar um veículo com muito poucas probabilidades de que o roubo fosse denunciado, o que era surpreendentemente fácil. Geralmente escolhia as pessoas que estavam de férias; na maioria das vezes, pegavam um táxi ou algum transporte público até o aeroporto. Forçar as fechaduras era uma brincadeira de crianças; quase todo mundo tinha um jogo reserva das chaves do carro em casa. Tinha que utilizar a caminhonete durante vários dias, para que ninguém denunciasse seu roubo.

Preferia as caminhonetes ou as peruas de fabricação nacional porque eram grandes, conhecia sua mecânica e eram comuns. Se escolhesse um furgão, a carroceria devia ser coberta, a fim de preservar a intimidade; as perua tinham que ser com os vidros escuros e os assentos traseiros removíveis. Os carros eram todos muitos pequenos, e seus porta-malas costumavam estar cheios de cacarecos do proprietário, e as caminhonetes de transporte nem as incluía – estacioná-las em um bairro residencial em seguida despertaria suspeitas.

Às vezes, cometia enganos. Como aquela vez no Texas, quando a filha voltou da universidade para cuidar da casa. Salvou-se por pouco, mas teve que usar uma boa dose de lábia para sair do apuro.

Se aquela putinha tivesse sabido que só alguns minutos a tinham livrado da morte! Teve vontade de lhe rodear o pescoço com as mãos e apertar; apertar até que se quebrasse.

Mas as ações precipitadas como aquela podiam ter atraído a atenção sobre ele, e tinha operações mais importantes a planejar.

Seus doces anjos o esperavam para que ele libertasse suas almas.

Mas há três meses havia voltado a agir impulsivamente. Tinha visto aquele anjinho brincando de correr pela beira da água, resplandecente, irradiando luminosidade só para ele. E soube sem nenhuma dúvida que ela havia sido enviada para ele.

Já fazia um ano que vivia na ilha confundindo-se com os habitantes enquanto elaborava seus planos. Já tinha selecionado um bairro fora da ilha e estava procurando a caminhonete adequada, quando aquele anjo apareceu correndo pela praia enquanto sua alma o chamava cantando.

A tinha levado à cabana. Outro erro.

Não tinha tido nenhum outro lugar para levá-la; não podia tirar ela da ilha por culpa das câmaras de vigilância dos barcos. E as autoridades tinham começado a busca imediatamente, inclusive antes que a tivesse posto em segurança dentro de sua casa.

Manteve-a sã e salva, escondida, até que interromperam a busca bem depois do pôr-do-sol.

Todos pensaram que ela tinha se afogado.

Então, libertou-a, e seu doce anjinho se transformou em um espírito puro e brilhante.

Mas aquilo tinha sido um erro, uma decisão impulsiva da que ele já estava arrependido. A polícia se movia de um lado para o outro por toda a ilha. Acabariam falando com ele? Talvez. Não tinham nada contra ele, não podiam entrar na cabana nem tinham motivos para suspeitar dele. Estava na ilha o tempo suficiente para dissipar as suspeitas, e o fato de que continuasse ali, contava a seu favor.

Ninguém o tinha visto com ela; do contrário, ao não encontrá-la, não teriam suposto que havia se afogado. Alguns dias depois, tinha colocado o corpo inerte da menina no meio da ilha, onde os bosques eram densos e haveria menos probabilidades de que a encontrassem. Em seguida tinha descartado a idéia de enterrá-la; não seria aceitável. Seu corpo não era nada; seu espírito era livre. Enterrá-lo implicaria que sua vida tinha algum valor, algo que valia a pena conservar.

De acordo com o planejado, a essa altura já teria que ter ido, mas um de seus anjinhos estava sendo esquivo. Não era algo que ocorresse com freqüência. Ele observava, esperava, planejava; seguia as regras. Sempre havia regras. Mas às vezes, ocorria algo que modificava repentinamente o programa, e tinha estado esperando durante o último mês, e ela não tinha aparecido. Assim andava atrás.

Não durante muito tempo.

Inclusive os contratempos como as mudanças de programa tinham que se prever, e ele dispunha de mais de uma medida para prever as contingências.

Com o descobrimento dos restos mortais do anjo e a presença policial na ilha, tinha considerado a possibilidade de partir. Mas desaparecer nesse momento poderia despertar as suspeitas sobre ele. Um garçom que não comparece ao restaurante justo depois de que a polícia encontrasse um cadáver na ilha? Não, isso não seria conveniente. Tinha que apresentar-se para trabalhar; e responder às perguntas, se as fizessem; e mostrar uma surpresa moderada; e a tristeza habitual. Ocupar-se de seus assuntos, vamos.

Partiria uma vez tivesse liberado o próximo espírito; depois, estaria em paz durante algum tempo. Não compreendia muito bem por que a paz acabava e renascia a necessidade de encontrar mais anjos, mas sempre sabia quando agir e quando parar. Seu relógio interno o protegia.

E acreditava que sempre o faria.

Dirigiu-se ao pequeno dormitório da cabana e fechou a porta. Trancou a porta. Atravessou a sala até o armário embutido e tirou sua maleta especial. Tinha uma fechadura com combinação. Fez girar os números e respirou profundamente.

Aberta.

As mãos tremeram quando as estendeu para pegar uma mecha de cabelo; uns compridos e formosos cachos dourados. Ele levou com veneração aos lábios.

—Está livre, anjo. Está livre.

Tocou todas e cada uma das trinta e duas mechas por vez; deixou o mais antigo por último. Os cachos tinham perdido seu brilho e se tornaram crespos e secos. Ele não o percebeu.

—Angel, até que voltemos a nos encontrar.

Voltou a colocar meigamente a mecha na maleta, mas não a fechou. Não, reviveu cada morte e cada renascimento. Recordava a todos e cada um de seus anjos.

Sobre tudo o primeiro.

As lembranças lhe fizeram sofrer, e seu rígido pênis se esticou contra suas calças. Abaixou a mão e o pegou; e não deixou de olhar fixamente sua coleção até que terminou de se aliviar.

Mais tranqüilo, fechou sua maleta especial e voltou a colocar na prateleira do armário. Abriu o ferrolho da porta do quarto e olhou fixamente através da janela da cozinha a negrume da ilha.

Nunca tinha fracassado em uma operação.

E não fracassaria em libertar a seu último anjo de Seattle. Depois, partiria.

 

Na quarta-feira de noite, o ferry da ilha de Vashon transportava menos da metade de sua capacidade. Zack mostrou seu distintivo e introduziu o carro na parte de trás do ferry só uns minutos antes da hora de saída prevista. O último a entrar, e o primeiro a sair. Apagou o motor.

—Vamos esticar as pernas - disse Zack.

O turismo proporcionado pela polícia era reduzido e transmitia sensação de confinamento. Ele gostava muito mais de sua Harley, mas não teria ficado muito bem se levasse em sua moto a agente St. Martin a cena do crime.

Subiram as escadas que conduziam à cobertura. Olivia levantou o rosto para o céu; Zack a imitou. As estrelas se multiplicavam sobre a água, mais brilhantes e mais próximas, e a longínqua ilha de Vashon recortada sobre o horizonte recordou a Zack por que gostava do estreito. Fazia uma noite clara; a névoa não havia se propagado ainda.

Olivia esfregou os braços por cima do fino tecido do terninho. Zack tirou sua jaqueta de motoqueiro de couro e tentou colocar sobre os ombros dela.

Olivia se afastou de um salto de uns bons cinco centímetros.

—Calma super agente! Você vai congelar o traseiro. Pensei que talvez quisesse uma jaqueta. Se quiser, podemos subir à cabine; acredito que tem calefação. — Não estava muito certo disso. Não recordava de já ter subido à parte coberta.

—Bom, sim. Obrigado, mas estou bem.

Irritável, mas havia algo… diferente. Não era medo, mas sim algo que ele não foi capaz de precisar. Era evidente que algo a distraía. Zack se perguntou se seria de índole pessoal — tinha ligado para seu ex-marido por causa da análise de DNA enquanto se dirigiam ao porto — ou profissional.

—Bom super agente, alguma teoria?

Olivia não disse nada durante vários minutos. O zumbido do ferry, as portas dos carros que se abriam e fechavam na cobertura inferior, enquanto passageiros subiam, os avisos dos membros da tripulação… Familiares, os sons adormeceram Zack. O ar frio e salubre, misturado com os gases dos motores diesel do ferry, levou-o de volta à realidade.

Deu um olhar em Olivia. A brisa lhe agitava a cabeleira dourada por seu elegante rosto, e ela não parava de meter-lo com impaciência atrás da orelha, embora o gesto contribuísse pouco para deter a dança dos cabelos errantes.

Observou-a com atenção. Grande erro.

Por baixo de uma vontade férrea, Olivia St. Martin era toda feminilidade. E embaixo daquele cabelo reluzente, havia um cérebro que trabalhava. Mente aguda e corpo quente. Ainda que todas e cada uma das fibras de seu corpo gritavam: «Não me toque.»

Se havia algo que Zack Travis conhecia eram as mulheres: quando tocar, onde tocar, como tocar. Se gostassem dos beijos suaves no pescoço ou que lhes devorassem os lábios; as carícias suaves ou o tato urgente. Com um simples roçar exploratório, ele sabia com exatidão onde se encontravam suas zonas erógenas; não as evidentes, a não ser as partes delicadas e ocultas. Um sussurro na orelha, um beijo no pescoço, um rastro de calor do joelho até o dedo mindinho do pé.

Viu Olivia como uma grande zona erógena. Todo seu corpo suplicava ser abraçado, embora ao mesmo tempo exigisse que todo mundo se mantivesse a distância, que ninguém se aproximasse muito. Deduzia-se pela forma que tinha de abraçar a si mesma, e pela forma em que seus olhos se escureciam quando alguém se aproximava muito.

Embaixo daquele exterior gélido, havia uma mulher ardente. De repente, de maneira espontânea, Zack desejou romper aquela máscara e observá-la se derreter.

Por que não lhe agradava que a tocassem? Tinha-lhe ocorrido algo? No trabalho… ou antes? Qual era a razão de tanta contenção e autocontrole?

Viu nela algo excepcional, especial. E desejou saber mais sobre ela.

Ele mudou de postura, incômodo pelo rumo que tomavam seus pensamentos, e voltou a centrar-se na água. Um apito anunciou aos passageiros que faltavam dois minutos para zarpar. O motor do ferry retumbou enquanto o capitão se preparava para a partida.

Como se a mudança experimentada pelo ferry sob seus pés a incitasse a falar, Olivia disse:

—Nas dez cidades onde sabemos que o assassino esteve ele demorou até seis meses entre o primeiro e o último assassinato.

Embora suas palavras fossem realistas, e empregasse um tom de voz tranqüilo, tinha todos os nervos do corpo a flor da pele.

Se ela fosse qualquer outra mulher, ele teria eliminado a tensão dos ombros com uma massagem. Mas não se atreveu a por a mão nela.

Em seu lugar, disse:

—Se Jillian Reynolds for de fato sua primeira vítima em Seattle, por que a terá mantido oculta durante três meses?

—Não sei — respondeu ela. Sua pele parecia pálida sob a luz artificial.

—Me conte tudo o que sabe. Não tivemos ocasião de falar de todos os casos antes de sair. — Zack já sabia que teria que passar toda a noite revisando os processos dela para ficar ciente de tudo.

—Muito bem, se por acaso tivesse atacado aqui primeiro — disse Olívia —. Faz três meses. Que dia Jillian Reynolds desapareceu?

—Em treze de junho.

—Junho…Depois, seqüestra Jennifer Benedict na primeira semana de setembro. São umas nove ou dez semanas. E Michelle Davidson umas três semanas depois.

—Teremos que determinar o padrão de todos outros casos — prosseguiu Olívia —, mas lembro bem de minhas anotações, à medida que se aproxima da quarta vítima, ataca cada vez mais depressa, e depois desaparece. —Enrugou o sobrecenho —. Mas nem sempre. Não tem um plano claro. No Colorado assassinou quatro meninas em um período de seis semanas. Esperou quase cinco semanas desde a primeira, e logo assassinou três mais em dez dias. É como se tivesse um sexto sentido que lhe indicasse quando assassinar, quando parar e quando partir.

—Os assassinos em série têm um instinto de sobrevivência muito aguçado - comentou Zack.

Olivia lhe lançou um olhar.

—Você tem razão. Talvez devesse lhe perguntar pelas questões relativas ao perfil.

—Aprendi muito sobre os assassinos em série quando o assassino de Green River andava solto.

—Lembro desse caso. Trabalhei nele - Olivia se deteve.

—Esteve aqui? Fez parte do grupo de operações? — perguntou Zack.

Olivia sacudiu a cabeça.

—Só atuei como assessora. Isso ocorreu faz muito tempo, e minha intervenção foi pequena. Nunca vim aqui.

Zack ficou na defensiva; havia algo estranho na voz dela. O estridente assobio a sobressaltou, e deu um salto. Em seguida, quando ele falou, sentiu-se como uma idiota.

—O ferry está zarpando. O trajeto dura vinte minutos.

Olivia ser recuperou. Tinha estado a ponto de por tudo a perder e só estava trabalhando com o detetive Travis algumas poucas horas. Tinha estado a um triz de lhe dizer que tinha processado as provas indiciarias da investigação de Green River. Se quisesse continuar no caso, teria de ser mais cuidadosa.

Ficou olhando fixamente a água, abraçando-se. Quem dera não tivesse recusado o oferecimento da jaqueta dele, mas não teria sido prudente aceitar; teria se sentido até menor do que era. O detetive Travis tinha um corpo impressionante; era uns bons trinta centímetros mais alto que ela e era largo. Não gordo só grande; igual a um lenhador, todo peito e músculos de aço. E a maneira em que a olhava, como se pudesse ver sob suas roupas além de sob sua pele, incomodava-lhe até o infinito. Ninguém a tinha estudado com tanto apuro; nem com tanto desejo. Era como se ele estivesse tentando imaginar o que era exatamente o que ela estava pensando, o que tinha feito no passado e o que provavelmente iria fazer no futuro. Em uma palavra: estava avaliando-a.

E seu exame minucioso a deixava nervosa.

Somente queria deter o assassino que tinha deixado livre sem querer quando acusou Brian Harrison Hall pelo assassinato de Missy. Não era tão ingênua para acreditar que era a única responsável pela condenação de Hall — tinha havido muitas provas circunstanciais que a justificaram, mas tinha lido as informações, e sabia que a identificação que ela tinha feito havia contribuído à decisão. E por culpa daquela, um assassino brutal vagava por todo o país livremente.

Tinha atravessado as fronteiras estatais à vontade sem chamar a atenção das autoridades. Nas diferentes investigações, quatro homens tinham resultado suspeitos, e três tinham sido condenados. O último tinha sido posto em liberdade por falta de provas, mas depois de examinar cada caso, Olivia sabia que todos eram inocentes. Era ele, o assassino de Missy, que zombava do sistema. O assassino de Missy era inteligente; sabia o que fazia. Planejava tudo, e se deleitava com isso. E não se deteria até que estivesse na prisão. Ou morto.

—Um centavo por seus pensamentos.

Olivia levou um susto; quase tinha se esquecido onde estava. Em Seattle; a bordo de um ferry; com um detetive sagaz que não deixava de estudá-la. Não sabia se ficava irritada, adulada ou preocupada. Pigarreou e esfregou os braços tentando ser discreta. Não queria que o detetive Travis soubesse o que realmente estava pensando.

—Estava pensando em algo que esteve me preocupando desde que comecei a reconstruir estes casos — admitiu Olívia —. Ora, você sabe tão bem como eu que a maioria dos assassinos em série não quer ser apanhada. Vivem para a caça, desfrutam da morte e farão qualquer coisa para evitar que os peguem. Mas estava pensando no assassino BTK de Kansas. Deu um fora e o apanharam. Seus crimes se prolongaram ao longo dos anos, ainda que, não obstante, só assassinou dez pessoas. Quando mencionou o assassino de Green River, pensei em como tinha confessado os quarenta e oito assassinatos, a maioria cometidos quase vinte e oito anos antes que fosse detido.

—A maioria dos policiais que intervieram no caso pensou que tivesse matado muitos mais — disse Zack.

—Como eu — disse Olívia —. Mas a questão é que, pos tudo a perder. E o que conduziu à detenção foi seu sêmen… um DNA com décadas de antigüidade. Temos o DNA deste assassino… mas não coincide com nada. Nunca foi detido por um delito sexual; não deu nenhum fora. Não deve ter cometido nenhum desses enganos que poderiam nos pôr no caminho de sua detenção. Durante trinta e quatro anos, assassinou com impunidade ocultando o padrão e passando despercebido, de maneira que possa seguir assassinando essas meninas.

Olivia entrecerrou os olhos. Não tinha sido sua intenção dizer tanto; respirou profundamente. Zack a estava olhando de forma estranha. Tinha revelado tudo? Geralmente, não estava acostumada a se mostrar tão apaixonada sobre… bom, sobre nada. Mas estar ali, tão perto do assassino de Missy, estava lhe afetando de algum jeito. Não era capaz de pensar com clareza e estava deixando que tanto as circunstâncias como o intenso exame dele a tirassem do normal. Mas manter a coerência das mentiras estava sendo bem mais difícil do que havia imaginado.

—Por que você está aqui?

—Não entendo.

—Olivia. — A voz dele era grave, profunda e imperiosa —. Por que você? Por que você está aqui extra oficialmente e não outra pessoa?

Olivia engoliu saliva e rezou para que Zack não se desse conta de sua contração repentina. Durante as últimas semanas tinha vivido um inferno, e tinha sido cada vez mais difícil controlar suas emoções. O que podia dizer sem correr nenhum risco? Era uma mentirosa ruim. Era capaz de beirar a verdade — o chefe Pierson não tinha lhe feito nenhuma pergunta comprometedora, porque Greg tinha aplainado o caminho na véspera com uma chamada telefônica —, mas mentir era quase impossível para ela.

Se tivesse sido capaz de mentir a respeito de seus sentimentos, provavelmente continuaria casada com Greg.

—Faz anos me vi envolvida em um caso do qual este assassino se livrou - disse Olivia com prudência, escolhendo as palavras —. Um homem inocente foi para a prisão. Quero apanhar este cara, o verdadeiro assassino. Acabar com seu reinado de terror.

Zack a olhou de cima a baixo. Olivia lhe devolveu o olhar, decidida a não afastar os olhos. Mantêm o queixo erguido; não retroceda nunca; não demonstre debilidade jamais.

—Culpa.

Olivia entrecerrou os olhos. Como ele podia se aproximar tanto de seus verdadeiros sentimentos quando ela os mantinha tão profundamente enterrados? A inspeção dele sobre suas motivações lhe crispou os nervos.

—Bom, nem tanto.

—Não tente livrar-se dela, Olivia. Não é algo ruim, necessariamente. A culpa pode ser uma motivação potente. Também tem a força para lhe destruir. Enviou um cara inocente para a prisão; e agora quer que se faça justiça porque se sente culpada.

Muito perto; demasiado. Olivia não soube o que dizer.

—Está ficando gelada - disse Zack.

Uma vez mais, Zack a desconcertou. Ele havia tirado muitos sentimentos à tona, e então deixava o tema com tanta rapidez que ela ficou sem saber o que dizer.

Olivia começou a protestar, mas ele a olhou fixamente nos olhos e se limitou a sacudir a cabeça com um meio sorriso nos lábios.

Sem perguntar, colocou sua jaqueta puída de couro sobre seus ombros. A peça era muito grande; em Olivia chegava até o quadril e lhe pendurava pelas mãos. Sentia-se como se um urso a tivesse abraçado, e o calor residual dele a acariciou. Seu aroma de sabão barato e a pele impregnaram os sentidos dela. Quente, íntimo… muito íntimo.

Olivia afastou o olhar dos olhos dele; mordeu o lábio inferior e olhou para a água. A ilha era muito maior do que parecia de West Seattle. Centrou-se nela e não em Zack, embora seguisse imaginando seus olhos escuros, inteligentes e sagazes.

—Por que ingressou no FBI? — perguntou Zack após vários segundos de silêncio.

Ela o olhou. Engano. Zack a olhava de cima a baixo. Se mentisse, ele saberia com toda certeza.

—Conheci alguém que foi assassinado — disse Olivia afastando o olhar —. Quando um recrutador do FBI visitou o campus de minha universidade, senti-me obrigada a solicitar a entrada depois de me licenciar. — Pronto! A verdade… ou algo assim.

—Quem foi assassinado?

Por que tinha dito algo? Estava o convidando para que lhe fizessem perguntas que não queria responder.

—Minha irmã — disse em voz baixa olhando as mãos, que se agarravam a grade enquanto as mangas da jaqueta dele lhe cobriam os dedos. Só pensar em Missy lhe fez um nó no estômago.

—Sinto muito. — Pareceu sincero —. Eu também tinha uma irmã.

Olivia se voltou para ele, surpreendida.

—O que aconteceu?

Zack fez uma pausa.

—Juntou-se com a pessoa errada. Acabou conseguindo que a matassem.

—É espantoso. Era jovem?

—Vinte e dois anos. Estava na universidade.

—Vinte e dois anos. E na universidade.

A voz dela continha tanta amargura como dor. Não pôde fazer menos que perguntar-se que outras coisas se juntavam na história. Mas não ia perguntar. Zack poderia começar com suas próprias perguntas, perguntas mais difíceis que ela não poderia evitar.

—Os jovens se acreditam invencíveis — disse Olivia após um instante —. Indestrutíveis. Nada os pode ferir. — Ela tinha acreditado nisso durante os primeiros cinco anos de vida. E por sua experiência após, sabia que a maioria das crianças se faziam adultos antes de se darem conta de que não eram super-homens.

Com muita freqüência, enfrentavam à morte antes de chegar a essa conclusão. Os desafortunados não conseguiam uma segunda oportunidade na vida.

Estavam se aproximando da ilha. No princípio, não tinha parecido que houvesse algo ali, só uma espécie de débil resplendor no horizonte. Mas à medida que foram se aproximando, o resplendor se transformou em luzes nítidas, e a ilha tomou forma contra o céu negro.

Olivia voltou a cabeça para ver o leste de Seattle, recortado contra o horizonte.

—Não é esplêndida? — disse Zack em voz baixa e cheia de respeito reverencial —. Como diamantes contra o céu noturno. Esta é minha vista preferida da cidade.

«Diamantes contra o céu noturno.» Que formoso! Entretanto, a beleza que se sobrepunha ao cenário da morte que os esperava impressionou tão vivamente Olivia que fechou os olhos.

Não queria ver o corpo da menina. E tampouco queria estar na ilha enganando a ninguém com suas credenciais; sobretudo a um policial entregue a seu trabalho como Zack Travis. Mas não havia outra saída, e se repreendeu para superar seus remorsos.

Faria o que fosse necessário para apanhar o assassino de Missy. Possivelmente dessa vez o assassino tivesse dado um fora; talvez essa vítima lhes proporcionasse as provas que necessitavam para encontrar seu agressor.

Olivia confiou e rezou para que aparecesse algo — o que fosse — que conduzisse até o assassino.

Antes que morresse outra menina.

 

Quando Olivia e Zack chegaram à ilha de Vashon, o corpo da menina já tinha sido transferido ao depósito de cadáveres. Na manhã seguinte, o legista faria a autópsia o quanto antes possível, com a esperança de confirmar ou rechaçar que se tratava do mesmo assassino que tinha matado Jenny Benedict e Michelle Davidson.

De aproximadamente dezenove quilômetros de comprimento e quase treze em seu ponto mais largo, a ilha de Vashon era um lugar popular de férias tanto para a população local como para os turistas. Quilômetros de estradas rurais ladeadas de pinheiros, praias imaculadas e um farol histórico conferiam à ilha um sabor antigo. Os artesãos e artistas compareciam em bom número ao lugar atraídos por exposições mensais de arte, um grupo local de teatro e numerosas galerias de arte.

A ilha era um lugar de diversão. A partir desse momento, Zack já não seria capaz de pôr um pé ali sem pensar na menina morta.

Jillian Reynolds tinha sido jogada em uma densa zona no centro da ilha. Zack deu um olhar para Olivia. Esta fazia o que podia para caminhar com seus sapatos de salto; sem dúvida, não tinham sido feitos para escalar rochas nem caminhar pela areia. Embora por outro lado, nenhum dos dois tinha pensado que iria a uma cena do crime na ilha em plena noite.

Os três — Rodgers, o chefe da polícia do condado, Zack e Olívia — estavam justo no outro lado da fita que selava a cena do crime e que rodeava as árvores em uma área de aproximadamente nove metros quadrados. Haviam siso instaladas luzes de construção de alta voltagem, e aquele resplendor artificial conferia uma especial dureza à paisagem. Os detalhes pareciam muito nítidos, e os rostos, quase descoloridos.

Olivia agradeceu que fizesse calor sob as luzes. Estava fazendo tudo o que podia para evitar que os dentes tremessem. Havia devolvido a jaqueta a Zack sem trocar palavra; usar sua roupa em uma cena do crime não teria sido profissional. O fato de não ter levado um casaco grosso era de sua exclusiva responsabilidade; em seus precipitados preparativos antes de sair da Virginia, que na ocasião desfrutava de um veranico de San Miguel, não havia lhe ocorrido comprovar o tempo que fazia em Seattle antes de fazer as malas. Para falar a verdade, nas últimas semanas, desde que Brian Harrison Hall tinha sido solto, não tinha pensado muito em nada que não fosse o assassinato de Missy, mas seu descuido na hora de pegar a roupa adequada lhe irritava.

De pé sob o calor das potentes luzes, Olivia observava aos peritos da polícia científica terminar de recolher as provas potenciais, e morria de impaciência para unir-se a eles. Seguia todos seus movimentos com olho de lince. Aquela mulher ia se esquecer de recolher uma amostra do terreno? Bom! Pensou ao ver o brilho de uma proveta. E o que acontecia com os ramos das árvores? Talvez o assassino tivesse enganchado o cabelo ou deixado um pouco de pele em um ramo saliente. Bom! Um dos técnicos estava examinando a folhagem. Mas tinha passado três meses desde o assassinato; qualquer prova biológica teria desaparecido. Olivia tentou não desanimar, mas o tempo e os elementos eram inimigos das provas.

—Meu pessoal sabe o que está fazendo — disse o chefe Rodgers.

Olivia levantou o olhar para o policial ao detectar certo tom de ressentimento na voz. Que Zack a tivesse apresentado como « agente St. Martin do FBI», não tinha sido uma ajuda. Tinha percebido a irritação do policial e como havia se empertigado. Não era tão alto como Zack, mas comparado com ela era enorme.

—Parecem mais que competentes. — Olivia lhe dedicou um sorriso.

Ela não era a má ali, mas tinha que ir com cuidado. Aquele era um território que desconhecia, e não podia permitir-se nenhum deslize.

—Notificaram a família? — perguntou Zack.

—Estamos nisso — disse Rodgers —. A menina não era da localidade. Sua família estava passando o fim de semana na ilha, quando desapareceu. Lembro-me do caso. Revistamos a ilha, acreditando que ela havia se perdido. Ao não encontrá-la, incluímo-la na lista de pessoas desaparecidas, mas sua mãe disse que a menina não sabia nadar e que a última vez que a tinha visto estava perto da água. Todos pensaram… Bom, as correntes são fortes na parte ocidental da ilha. — passou a mão pela barba de dois dias, dando a sensação de sentir-se cansado e derrotado. Tinha sido uma noite longa.

—Como a identificaram? — perguntou Olívia —. Com três meses à intempérie, devia estar em um estado de decomposição avançado.

—Continuava usando um bracelete sanitário como alérgica à penicilina em que estava inscrito seu nome. — O chefe de polícia respirou profundamente —. Você tem razão, não havia muito mais que fosse identificável.

Olivia tinha visto corpos em decomposição de semanas, meses e inclusive anos depois da morte. Era difícil trabalhar com eles, emocionalmente falando. Ver o que a morte fazia ao corpo humano fazia alguém pensar em sua própria mortalidade. Ou, como era o caso, na mortalidade dos seres queridos.

—Pus-me em contato com o chefe da polícia do condado de Bellevue — continuou o chefe Rodgers —, e ele me disse que iria ver a família esta noite. O legista confirmará a identidade do cadáver; contamos já com registros dentais como parte dos casos de pessoas desaparecidas.

—Ninguém viu nada? — perguntou Zack —. Quando desapareceu, refiro-me.

Rodgers sacudiu a cabeça.

—A menina passeava na beira da água; tinha prometido que não entraria, e era uma tranqüila manhã de domingo.

—Sozinha? — perguntou Olivia com incredulidade.

—A ilha é segura, agente St. Martin. Recebemos muitas famílias durante os fins de semana. Poucos problemas, e nenhum como este.

«Nenhum lugar está a salvo daqueles que vão atrás das crianças.»

—Segura. — Olivia pronunciou a palavra com brutalidade. Uma tensão familiar bulia sob sua pele enquanto tentava refrear suas emoções.

Quem estava a salvo? Sem dúvida, não as inocentes crianças, os seres mais vulneráveis da sociedade, aqueles que deveríamos proteger. Ninguém pensa que sob o rosto amável desse homem de aspecto comum que passeia pela praia se esconda um assassino. Todos esperam que o mal seja evidente a primeira vista.

Será que não sabem que o mal tem o mesmo aspecto que eles? E que o doente pervertido não leva «assassino de crianças» escrito no rosto? E que os assassinos não têm tatuada a palavra «assassino» na testa?

—Olivia?

Era Zack, que lhe murmurava junto ao pescoço. Por que se aproximava tanto quando ela estava a ponto de explodir? Olivia se afastou um passo dele, um passo pequeno, mas percebeu que Zack mudava de atitude. Desde que tinha se informado de que o assassino de Missy andava solto, suas emoções se negavam a permanecer contidas. Lutavam para se libertarem da caixa de aço em que ela as tinha encerrado há anos, esmurrando-a até que o tamborilar se tornava quase insuportável.

—Liv? — A voz de Zack era baixa. O chefe de polícia lhes tinha dado as costas e dava instruções a um ajudante —. Você está bem?

Ela cometeu o erro de olhá-lo nos olhos. Estes a estavam avaliando, escrutinando, tentando ultrapassar as camadas de controle que ela tinha construído conscientemente ao longo dos anos. Zack transmitia uma sensação de força, e seu corpo parecia sempre a ponto de mover-se, inclusive quando permanecia quieto. Seu anguloso queixo coberto por uma barba de dois dias e a dureza de seus traços lhe fazia parecer bem mais imponente que seus olhos escuros, que a observavam preocupados e quentes.

—Estou bem — balbuciou Olivia afastando-se do olhar constante do detetive. Avaliando o cenário do crime, deixou que suas emoções se diluíssem e voltou a estabelecer o controle com firmeza.

O sabido ritual da reunião das provas a devolveu à realidade. Respirou profundamente, reuniu as forças e tentou esquecer que Zack continuava observando-a. Podia sentir seu olhar na nuca.

Olivia observou como uma mulher, não muito mais alta que ela, ficava de cócoras para fotografar as possíveis prova. O brilho do flash a tranqüilizou; era algo familiar. Ainda que nesse momento trabalhasse principalmente no laboratório, no princípio de sua carreira, quando era agente de campo, tinha estado destinada à equipe de recolhimento de provas do escritório de campo de São Francisco. Tinha trabalhado em alguns casos importantes; o maior, o de um assassino em que intervinham várias jurisdições.

Mas aquilo era história passada. Tinha entrado para trabalhar no laboratório do Quântico há nove anos, deixando o FBI e o trabalho de campo só um ano depois. Às vezes, sentia falta dele, como nesse momento, ao observar os profissionais capacitados fazerem seu trabalho. Desejava unir-se a eles.

«Bom!» Não trabalhava bem em equipe, essa era a razão do porque tinha entrado no laboratório. De certa forma, isso podia se considerar uma ascensão, e de todas as maneiras, com seu doutorado e sua experiência científica, o laboratório era onde melhor se encaixava. Mas se tivesse funcionado melhor em grupo, nunca teria abandonado o FBI. Era muito difícil se abrir com os outros, e quando se trabalhava estreitamente com as mesmas oito ou dez pessoas em uma operação de grande tensão, era necessário poder relaxar, desafogar e conversar animadamente. Mas Olivia não; nunca. E a tensão de manter-se sempre em guarda quase a tinha acabado destroçando.

Quântico era melhor. Um trabalho solitário, só ela e as provas. Nisso era onde se saia melhor: em depender de si mesma para conseguir fazer o trabalho. Nada de depender de outro.

Olivia se deu conta de que Zack e o chefe de polícia tinham estado falando entre si nos últimos minutos. Concentrou-se na conversa.

—Já que o legista está na cidade, quer que me encarregue da autópsia? —estava perguntando Zack ao chefe de polícia.

—Muito bem — conveio Rodgers —. Enviarei a minha equipe científica ao laboratório de Seattle com as provas, em lugar do laboratório do estado. Tudo o que é meu é seu.

—O mesmo digo eu.

Os dois homens se deram a mão em sinal de acordo.

—E qual é o interesse dos federais em tudo isto? — perguntou Rodgers a Olivia, embora olhasse para Zack.

—Suspeitamos que este assassino esteve agindo em vários outros estados durante muitos anos — explicou Olívia —. Demorou algum tempo para ligar os pontos, sobre tudo porque em alguns dos crimes havia suspeitos.

—E você…? — começou Rodgers, mas fechou a boca enquanto fazia um gesto para a parte baixa da ladeira ao ver Vince Kirby se aproximar. Zack se voltou na mesma direção.

—Oh, merda! — resmungou —. Como ele soube disto tão cedo?

—Não por minha unidade — disse Rodgers indignado —. Mas não se surpreenderia se tivesse um espião dentro de qualquer parte.

Zack pensou que o chefe de polícia provavelmente tinha razão. O jornalista tinha publicado muita informação interna em seu jornaleco para que fora somente uma questão de sorte. Tinha gente dentro, provavelmente mais de um. Filho da mãe.

Kirby lhes deu um sorriso olhando mais tempo para Olivia, que estava tiritando, saltitando sobre os saltos, parada perigosamente perto dos refletores. Para manter-se quente, sem dúvida. Zack desejava lhe dar de novo sua jaqueta, mas teve a impressão de que ela se mostraria receosa de aceitar o oferecimento.

—Esta é a cena de um crime, Kirby — disse Zack.

Kirby se deteve justo no outro lado da brilhante fita amarela da polícia e sorriu como um gato de Chesire. Suas feições pareciam escurecidas e tristes sob a fileira de das lâmpadas de iluminação.

—Parece bastante evidente.

—O que está fazendo aqui? — Zack colocou os punhos nos bolsos, mais para evitar agredir Kirby com um soco. Cada vez que aquele imbecil condescendente se aproximava, Zack sentia uma vontade incontrolável de lhe apagar o sorriso de seu rosto longo e estreito com um soco certeiro.

Mas cada vez que desejava golpear Kirby, perguntava-se se a razão não seria que o culpava pela morte de Amy ou se culpava a si mesmo.

—Diria que isso também parece evidente. — Kirby olhou além deles, para onde a polícia científica estava terminando sua tarefa —. O mesmo cara?

—Sem comentários — disse o chefe Rodgers —. Farei um comunicado público pela manhã. Pode passar pela delegacia de polícia por volta das onze com toda certeza.

—Mmm. — Kirby tirou sua caderneta e seu lápis —. Vejamos… o detetive Zack Travis está fora de sua jurisdição. E foi encontrado o corpo de uma menina loira. Ou isso ao menos é o que me disseram minhas fontes. — Olhou para Olivia e sorriu abertamente —. Ora, Travis, vejo que trouxe a paquera ao local do crime. Não sabia que isso estivesse no regulamento. Embora seja evidente que subiste de categoria; esta logo se vê que é capaz de ler algo mais que a primeira cartilha.

Zack tirou as mãos dos bolsos e deu um passo para frente.

—Fora daqui, Kirby.

—Necessito de uma declaração.

—O que vou dar… — Zack respirou profundamente quando sentiu que uma mão lhe agarrava com firmeza do antebraço. Quase com a mesma rapidez com que havia lhe tocado, Olivia retirou a mão, mas a força silenciosa de sua pressão deteve o impulso dele o suficiente para que se desse conta de que Kirby estava preparando uma armadilha.

Não podia permitir que Kirby lhe afetasse. O passado era o passado; não podia ser que visse o rosto de Amy cada vez que olhasse seu noivo. Embora às vezes, parecia condenadamente difícil esquecer e deixar o passado em paz, sobretudo quando o fazia sofrer. O chefe de polícia se interpôs entre ele e Kirby.

—Farei uma declaração longe da cena do crime — disse o chefe Rodgers.

—Mas acreditava que…

—Você me causa problemas, Kirby. Não tolerarei que se contaminem minhas provas tendo-o por aqui. É pegar ou largar.

Kirby olhou Zack e depois para Olivia. Lhe deu uma piscada.

—Quando acabar com o detetive Travis, passe no jornal para me ver, e ensinarei como um homem de verdade trata uma dama.

Zack se moveu nervosamente e deu um olhar a Olivia. Só não desejava que divulgasse na primeira página do jornal era que os federais estavam metidos na investigação. E Kirby não se deteria ali; arremeteria contra o Departamento de Polícia, a polícia do condado e todos os que ficassem na linha de tiro.

Olivia não disse uma palavra. Levantou uma sobrancelha para Kirby com uma expressão fria e distante de desaprovação. Então foi Kirby quem se moveu com inquietação ante a recriminação visual dela, e Zack não pôde ficar menos impressionado ante o poder que exercia ela com um simples olhar. Kirby pigarreou.

—Passarei pela delegacia de polícia amanhã, Travis. Ainda está no turno da tarde?

—Fala com o chefe, Kirby. Eu não tenho nada para falar com você.

—De acordo. — Deu uma piscada para Olívia —. Estava só brincando, sabe? O latido de Travis é bem pior que sua dentada. O seu poderia ser muito pior que o dele.

Que demônios se supunha que queria dizer? Perguntou-se Zack. Kirby estava sendo amável?

—Vamos. — O chefe Rodgers conduziu Kirby sobre o terreno rochoso até a esplanada onde havia estacionado, situada mais abaixo.

—Obrigado por não dizer nada — disse Zack a Olivia, embora continuasse tentando resolver se Kirby tinha alguma espécie de jogo nas mãos ou que ele ignorasse as regras.

—Não tenho nada para dizer a nenhum jornalista. — Parecia irritada.

—Aconteceu algo?

Olivia levantou o olhar para ele com o rosto impassível.

—Confie um pouco em mim, detetive. A última coisa que desejo é que a imprensa se centre em minha presença, em lugar do que é importante.

—E o importante agora é encontrar este assassino antes que morra outra menina.

    

Brian Hall observou seu reflexo no espelho imundo e desengonçado de seu patético apartamento. As vadias da porta ao lado tinham voltado a carga e gritavam uma à outra utilizando um vocabulário que Brian só tinha aprendido depois de entrar no prisão. A vadia número um, a tia que parecia um sapatão, tinha perdido seu trabalho de ajudante — ou ajudanta? — de garçom, e a vadia número dois, desempregada, queria dinheiro para um pico. O espelho tremeu quando algo metálico golpeou a parede que separava os dois apartamentos, e Brian sentiu vontade de ir até lá e dar uma surra nas duas vadias até que se calassem.

Como poderia pensar? Como ia poder fazer planos com aquelas duas gritando todo o tempo? Ao menos, na prisão havia silêncio. Algo por cima de uma conversa normal podia te levar para outro mundo. Sim, claro, uma e outra vez ocorriam brigas, mas de noite — como nesse momento — costumava ter silêncio. Tranqüilidade.

Brian pôs as mãos sobre o cambaleante aparador e observou o rosto com mais cuidado. Era um velho; sua vida estava acabava. Tinha rosto de cansado, e seus olhos azuis estavam pálidos. E também estavam vermelhos, porque não dormia bem. Passou a mão pelo cabelo cortado muito curto. Tinha descido e pago dez dólares — dez dólares! — ao cabeleireiro pelo corte. Tinha tido que fazer. O nascimento do cabelo estava retrocedendo, e quanto mais curto usasse o cabelo, menos se percebia o pouco que tinha. Na prisão não havia se preocupado com isso.

Sua boca tinha adotado uma careta de desagrado perpétuo. Tentou sorrir para seu reflexo, mas não conseguiu mais que um olhar de desdém. Não tinha vida. Ninguém o contrataria, exceto como ajudante de garçom de algum gordurento restaurante onde a porcaria pela qual realmente as pessoas pagavam era pior que a comida da prisão.

Todo mundo lhe desprezava. Não importava que tivesse provado sua inocência. Havia estado enterrado três décadas; ninguém acreditava realmente que fosse inocente.

Fechou os olhos, e quando os abriu, cravou o olhar na parte superior do abarrotado aparador. O aço azulado e fosco da trinta e oito lhe enviou um brilho ao incidir nela a luz artificial. Tinha comprado na rua, atrás daquele antro espantoso que era seu apartamento. Estava surpreso de como tinha sido fácil.

Pegou o revólver com mãos trêmulas e ficou olhando o cano de ponta a ponta.

—Minha vida está acabada — disse com voz oca e metálica. Colocou o revólver na boca, e o gosto metálico o fez se encolher. As lágrimas lhe escorregaram pelo rosto, e todo seu corpo tremeu quando rodeou o revólver com a mão direita para introduzir o dedo no gatilho. Era difícil. Complicado.

Mas começou a apertar o gatilho pouco a pouco. Sentiu retroceder o percussor quando o gatilho chegou à metade do percurso. O gatilho resistia, como se o próprio revólver lhe dissesse que esperasse, que não o fizesse, e então… Clique.

O revólver estava vazio; não o havia carregado. Deixando se cair no chão, começou a soluçar.

Sua mãe tinha medo dele, ainda que ele culpasse seu primo Toby por isso. Não tinha casa nem amigos; nada era como tinha sido antes de ir para a prisão.

Furioso, limpou as lágrimas do rosto. Olhe no que lhe converteram essas vadias! Em um velho queixoso e chorão.

«Estúpida filha da puta, matarei você!» Outro celular golpeou a parede do apartamento do lado, enquanto as vadias continuavam a quebrar o pau.

Patético. Ele era patético, ali sentado no puído tapete que já fora bege, mas já marrom pelo uso de anos que dele tinham feito outros patéticos perdedores como ele que tinham vivido naquele patético apartamento.

Castigo. Tinha que fazer algo às pessoas que tinham destruído sua vida. Mas o que? O que ele podia fazer para ressarcir-se da vida que tinham lhe roubado?

Levantou-se lentamente e caminhou arrastando os pés até a mesa de fórmica, localizada no espaço que ele utilizava às vezes como cozinha, e onde se localizava uma cansada geladeira incapaz de manter gelada as cervejas e um fogão elétrico de duas bocas. Sobre a mesa havia um jornal e um caderno de espiral de noventa e nove centavos que tinha comprado no supermercado. Noventa e nove centavos por aquele pequeno caderno de merda de quarenta folhas.

Sentou-se na solitária cadeira e colocou o revólver com cuidado na frente dele. Passou a folha e olhou com atenção os nomes das pessoas que tinham lhe estendido a armadilha para incriminá-lo.

Hamilton Craig. Maldito promotor. Não somente conseguiu que o condenassem, como também recorreu seis vezes sua liberdade condicional. Brian não era capaz de encontrar seu domicílio, mas tinha se informado de que o canalha era o promotor do distrito do condado. Brian sabia com exatidão onde trabalhava, e nunca tinha esquecido o aspecto daquele filho de puta.

Gary Porter. O policial estava aposentado, e Brian tampouco podia encontrar seu endereço, mas tinha uma idéia: primeiro, ocupar-se de Hamilton Craig; em seguida, seguir o policial até seu funeral. E se tivesse sorte, aquela vadia também estaria lá.

A vadia que tinha sido a causadora de tudo: Olivia St. Martin.

Para começar, se não tivesse sido por ela, nunca teria ido para a prisão. Ela tinha mentido aos policiais, havia dito que o viu levar sua irmã, o que era uma estupidez porque ele não tinha feito isso. Importava-lhe uma merda que a vitima tivesse sido uma menina pequena; tinha mentindo, e isso era tudo. Teria que pagar caro, essa vadia frígida. Pelas acusações cada vez que tinha ido opor-se a sua liberdade condicional; como se tivesse sido culpa dele que sua estúpida mãe tivesse se suicidado. Até chegou a dizer em uma ocasião que ele deveria ter sido executado.

«Se tivesse sido feito a justiça realmente, este homem não estaria sentado hoje aqui. Estaria enterrado na fria terra, depois de ter recebido uma injeção letal.»

Oh, sim, ele tinha planos para a senhora St. Martin.

Primeiro se encarregaria do maldito promotor, e depois do policial.

Deixaria o melhor para o final. Olivia St. Martin lamentaria ter mentido alguma vez sobre ele.

Ela pagaria por seus crimes.

 

Olivia se aborrecia com as autópsias, mas nas poucas que tinha presenciado sempre tinha conseguido seguir em frente. A pura força de vontade para controlar suas emoções lhe permitia manter uma aparência de tranqüilidade enquanto observava o legista desmontar e voltar a juntar um cadáver humano.

Nunca tinha presenciado a autópsia de uma criança, mas não perderia a profissionalidade. Era uma cientista. Podia fazer aquilo por Jillian Reynolds e Missy, e por todas as vítimas de quem já era denominado pela imprensa como o Aniquilador de Seattle.

Respirou fundo e deu um olhar em Zack. Este tinha o olhar fixo à frente, em direção à porta pela qual apareceria o legista. Seu rosto anguloso era todo um poema de rigidez e dureza, como se ele também estivesse liberando uma batalha interior.

Se um homem tão experiente e forte como Zack Travis estava demonstrando sofrimento naquele lugar, como podia ela esperar em observar e conservar a imparcialidade?

As portas se abriram, e um pequeno ancião de olhos asiáticos entrou empurrando uma maca de aço inoxidável com rodas. Foi seguido por uma mulher atraente, alta e com o cabelo negro recolhido para trás por uma fita. A mulher fez um gesto com a cabeça para Zack e lhe deu um meio sorriso. Para Olivia foi mais fácil observar aquela troca de saudações e perguntar-se se eles se conheciam que olhar para o lençol branco colocado sobre o pequeno corpo.

A mulher começou a dispor os instrumentos enquanto o homem escrevia em um caderno. As portas voltaram a se abrir, e um homem rechonchudo e grisalho, que a Olivia recordou um papai Noel baixinho, entrou de supetão, saudando com a cabeça a seu pessoal enquanto atravessava a sala até onde estavam ela e Zack.

—Detetive Zack. — Os dois homens se deram as mãos. Inclusive sem sorrir, o legista parecia um cara jovial.

—Doutor Sparks, esta é a agente St. Martin, do FBI.

O doutor Sparks pegou a pequena mão de Olivia entre as suas.

—Começaremos daqui a um pouco. — Deslizou o olhar de Olivia para Zack —. Isto não vai parecer agradável de ver. O corpo foi limpo da melhor forma que foi possível (e enviamos o que reunimos a Doug, no laboratório), mas a vítima está em um avançado estado de decomposição.

—Poderemos com isso — disse Zack.

Olivia queria ficar; queria ver o que aquele filho da puta tinha feito a Jillian Reynolds. Mas logo que o doutor Sparks retirou o lençol, teve que partir.

—Sinto muito — disse entre dentes na direção de Zack, e saiu correndo pela porta.

Estava quase fora do edifício quando Zack a alcançou.

—Olivia.

Não podia olhá-lo. O que devia estar pensando dela? Que carecia absolutamente de profissionalismo. Mas se tivesse ficado, não teria podido controlar sua reação, e isso era simplesmente inaceitável.

—Sinto muito — repetiu Olivia.

Zack a pegou pelos ombros a obrigando a ficar testa a testa com ele. Olivia pensou que veria em seus olhos frustração ou aborrecimento ou algo que demonstrasse que sabia ser ela uma fraude. Em vez disso, só viu uma profunda compaixão.

—Liv — disse Zack com doçura utilizando seu diminutivo familiar —. Não foi nada. Eu entendo. Dê um passeio. Encontrarei com você aqui mesmo dentro de uma hora.

Olivia assentiu com a cabeça temendo que se falasse lhe falhasse a voz.

Saiu do edifício e caminhou com energia pela rua abarrotada pelo tráfego do meio-dia. Queria apenas se afastar do edifício, fugir da morte.

«Não pense nisso. Não pense no aspecto que Jillian tem agora.»

Durante um instante fugaz se perguntou se a imagem do corpo a perseguiria durante o resto de sua vida. Como podia ser cientista (testemunha de infinidade de autópsias, cadáveres e horríveis fotos de cenas de crimes) e uma vítima a desconcertava?

«Quem eu sou? No que me transformei?»

No fim de alguns minutos diminuiu o passo não sabendo a distância que tinha percorrido. Parou perto de uma fonte, no exterior de um edifício que supôs fosse a Prefeitura. Os trabalhadores que saíam para almoçar, embelezados com camisas e tênis, caminhavam com energia a seu redor em pares ou trios, conversando enquanto queimavam calorias. Fazia um maravilhoso dia de outono. Perfeito, quente, com uma leve brisa e um limpo céu azul.

Um dia perfeito? Não precisamente. Uma menina de nove anos jazia em uma fria sala de autópsia no final da manhã. Uma menina que nunca voltaria a aproveitar um dia de outono.

Sentou-se em um banco diante da fonte e observou fixamente a água que se movia com rapidez.

Tinha cinco anos quando Missy tinha sido assassinada, e recordava seus sentimentos de medo e impotência mais que qualquer outro detalhe do seqüestro real.

A tatuagem. Jamais a tinha esquecido. A águia azul continuava lhe produzindo pesadelos, aquela maneira de ondular-se sob os músculos de Hall, a maneira de avultar-se, como se estivesse a ponto de levantar o vôo…

Hall, não; outra pessoa. Outro assassino. Teria conhecido Hall? Parecia uma coincidência excessiva que a caminhonete de Hall tivesse sido a utilizada, e que ele tivesse a mesma tatuagem que o assassino de Missy. Uma águia azul não era uma tatuagem incomum, mas não obstante… Dois homens jovens na mesma cidade relacionados pela caminhonete de Hall? Não estava convencida de que Hall não tivesse estado envolvido; era sua caminhonete, essa prova era segura. Havia voltado a ler várias vezes o relatório da polícia sobre o assassinato de Missy desde a soltura de Hall. Não havia nenhuma dúvida de que havia sido encontrado sangue de Missy na caminhonete. E as fibras do capacho do veículo estavam na roupa de sua irmã.

Missy tinha estado ali. Mas Hall tinha tomado parte em seu seqüestro? Ou era vítima das circunstâncias?

A melodia de seu celular a sobressaltou, e remexeu na bolsa para pegar o telefone. Era Greg.

—Olá. Vai tudo bem? — perguntou Olivia.

—Chegou a amostra de DNA. Obrigado por enviá-la de avião; isso nos dá outro dia. Começarei com as provas esta noite. Levará alguns dias, mas farei chegar os pareceres o quanto antes.

A maioria das pessoas que via televisão pensava que entendia sobre análise de DNA, mas o certo é que se tratava de um processo complicado e lento. As partes mais amplas do DNA de uma pessoa são, na realidade, iguais às do DNA de todas as demais pessoas, simplesmente porque todos são seres humanos. Mas cada indivíduo possui fragmentos exclusivos de DNA, e são estes os que os cientistas necessitam para elaborar um perfil genético único.

Mas, embora importante, o perfil genético era só um pequeno passo. Ainda necessitavam de um suspeito com quem comparar o perfil.

—Confronta com todos os perfis de DNA daqueles casos antigos — disse Olivia.

Quando o conseguiram, duas semanas antes, tinham confrontado o perfil de DNA do caso de Missy com o dos agressores conhecidos incluídos no CODIS, mas não tinha havido coincidências. O cara nunca tinha sido introduzido no sistema. Mas enquanto Olivia estava em Seattle, Greg estava pondo a trabalhar seus contatos para ver se havia algum outro perfil elaborado a nível local que, por uma ou outra razão, não tivesse sido introduzido no CODIS.

—Já tinha previsto.

—Será uma confirmação mais quando por fim o encontrarmos. Não quero que escape.

—Conheço meu trabalho, Olivia.

Greg parecia irritado.

—Desculpa — disse Olivia sentindo-se terrivelmente culpada uma vez mais por tê-lo posto naquela situação.

Greg suspirou.

—Tome cuidado, Liv, certo? Estou preocupado com você.

—Sei que está, mas no momento estou bem. O chefe Pierson nem se alterou quando cheguei ontem à delegacia de polícia. Estou trabalhando diretamente com o detetive que assumiu o caso. Foi encontrado outro cadáver, este de três meses atrás. — Fez um sucinto resumo sobre o desaparecimento e descobrimento de Jillian Reynolds —. Provavelmente se trata do mesmo cara. O detetive Travis assiste à autópsia neste preciso instante.

—Que tal é o laboratório dai? São competentes?

—Muito. Há um laboratório criminal do estado, mas Seattle também tem o seu próprio, e deram prioridade a este caso. Comprovei isso ontem, e pelo que pude ver, não descuidaram nada. — O telefone dela emitiu um assobio; olhou a tela de identificação de chamadas, mas não reconheceu o número, embora percebesse que o código era da área de Seattle. Zack teria terminado já com a autópsia? —. Tenho que desligar, Greg. Ligarei para você quando tiver notícias.

—Tome cuidado — repetiu ele, e desligou.

—Olivia St. Martin — respondeu Olivia.

—Liv! Sou eu Miranda.

O coração dela se acelerou. Por que Miranda ligaria para ela? Sabia que estava em Seattle?

—Miranda… que surpresa.

—Quinn e eu acabamos de voltar de nossa tardia lua de mel, e me inteirei que Hall tinha sido posto em liberdade. Não sabe quanto sinto por isso.

A mente de Olivia processou a informação. Isso era verdade; sua lua de mel havia sido interrompida quando a presença de Quinn havia sido requerida para uma investigação muito importante. Olivia tinha analisado para ele no laboratório algumas das provas de sangue de uma sucessão de assassinatos ocorridos em vários estados.

Olivia ficou tensa. Quinn Peterson estava lotado no escritório do FBI em Seattle, ainda que fosse absolutamente impossível que soubesse que ela estava ali. Ou não era tão impossível? O chefe Pierson teria ligado para comprovar suas credencias com o escritório de campo local, em lugar de confiar na chamada telefônica e a informação de contato de Greg? Olivia acreditou que não; Pierson tinha se mostrado cordial e pareceu acreditar em tudo o que ela havia dito.

—Liv? Está aí?

Olivia sacudiu a cabeça para clarear as idéias.

—Sim, me desculpe, é que me pegou em meio de algo. — Mentirosa. E com sua melhor amiga. Seu estômago vazio sentiu náusea. Uma coisa era pedir a Greg que infringisse as normas por ela, e outra muito distinta pôr Quinn Peterson na situação de ter que mentir a seu chefe.

—Sinto te incomodar. Estou certa de que está ocupada, mas tinha te ligar e me assegurar de que você estava bem. Quinn me contou que o advogado de Hall questionou a prova do DNA e demonstrou que Hall não havia… feito isto… - A voz de Miranda foi se apagando.

—Não, ele não violou Missy.

Olivia sentiu uma vontade enorme de contar a Miranda onde estava e o que estava fazendo. A situação se excedia. Apaixonadamente leal Miranda lhe guardaria o segredo.

—De verdade que sinto — repetiu Miranda —. A polícia tem alguma pista? O que o FBI está fazendo?

Era de se esperar as perguntas de Miranda, mas Olivia não sabia o que responder.

—Isto… não sei.

—O que é que o FBI está fazendo? — ouviu Quinn dizer ao fundo.

Ele estava ali. Não havia maneira de que Olivia pudesse falar de suas atividades nesse momento. E não era justo pedir a Miranda que ocultasse semelhante segredo de seu marido, um agente do FBI. Não, isso a poria em uma situação comprometedora, e a última coisa que Olivia desejava era meter-se entre o Quinn e Miranda. Esta já tinha passado por muitas adversidades em sua vida, e merecia ser feliz com um homem que era evidente que a amava.

—Obrigado por ligar — disse Olívia —. Agradeço sua preocupação. Mas estou bem. De verdade.

—Você falou com a polícia da Califórnia? Têm alguma outra pista?

—Falei com Hamilton Craig, o promotor que levou a acusação contra Hall. Como é natural, foi reaberto o caso. Ainda que ele seja indiferente, e não acredito que tenham recursos para prosseguir com ele. —Mudou o peso de seu corpo para o outro pé, aliviada porque Miranda não pudesse vê-la; teria sabido que não estava dizendo toda a verdade.

—Pergunte sobre… - atravessou a voz de Quinn ao fundo.

—Quinn quer saber se, agora que foi reaberto o caso, o DNA do caso de Missy foi introduzido no CODIS, e se pode fazer algo…! Deixa que lhe passe o telefone e assim poderão falar das coisas de trabalho.

—Não, de verdade — se apressou a dizer Olívia —. Tenho que voltar para o trabalho. Confio no pessoal que cuida do caso, mas está frio, e tenho que aceitar isso.

—Mas…

—Ligarei para você logo, quando houver menos agitação.

—Vai… — disse lentamente Miranda —.Cuide-se. E Liv…

—O que?

—Gosto muito de você....

    

A sala estava muito fria. Um intenso silêncio impregnava a atmosfera, como se o próprio edifício estivesse contendo a respiração, e só fosse interrompido pelo entrechocar dos instrumentos metálicos sobre a maca metálica.

Durante a autópsia de Jillian Reynolds, Zack tinha passado do mal-estar à fúria de maneira alternada. Observou tudo sem fazer nenhum comentário, com a mandíbula apertada. Tinha assistido a muitas autópsias; nunca se sentia completamente cômodo, mas aquilo era uma parte de seu trabalho e a cumpria sem se queixar. Jamais tinha se acostumado com o aroma, mas geralmente brincava com o legista e fingia interessar-se no que o velho excêntrico fazia.

Mas nesse dia não. Não com aquela pequena ali. Ninguém falou nem Zack nem o doutor Sparks nem seus ajudantes.

O tempo tinha discorrido lentamente, mas só transcorreram setenta minutos desde o começo até o final, e Zack conseguiu tudo o que necessitava. Causa da morte: múltiplas punhaladas no peito e abdômen. Agradeceu a Deus, porque a morte tinha sido rápida, mas não foi antes da agressão sexual.

Zack nunca tinha tido tanto desejo de apanhar um assassino como aquele.

Tinham uma boa notícia: uma possível amostra de DNA. Não se tratava de sêmen, mas sim de três cabelos do pêlo púbico com bulbos. Não havia maneira de saber se tinham se degradado até o ponto de que seu DNA fosse irreconhecível, mas ao menos era algo com o que trabalhar. Disse a Sparks que Doug Cohn enviaria alguém para recolhê-los assim que os tivessem preparado para serem transportados.

Esperava que o ex-marido de Olivia fosse o cara bom que ela parecia acreditar e que não se negasse a acelerar outra prova. Não pôde menos que se perguntar o que tinha ocorrido para que se transformasse em ex-marido.

—Doutor Sparks, havia alguma marca no antebraço direito, como nos casos de Benedict e Davidson?

—Não restou suficiente pele nem massa muscular para afirmar isso. As agressões dos outros casos eram superficiais, e não há maneira de saber se o assassino deixou as mesmas marcas nesta vítima. Mas sim lhe confirmo que lhe cortaram o cabelo. Porei tudo no relatório.

—Obrigado.

Quando o doutor Sparks terminou de se lavar, Zack saiu da sala de autópsia. Não encontrou Olivia no vestíbulo. Passou a mão pelo rosto áspero e se deu conta de que nessa manhã tinha esquecido de se barbear, algo que lhe ocorria com freqüência, sobre tudo quando trabalhava em um caso difícil.

Desejou poder ter dito algo mais a Olivia que lhe fizesse saber que não aconteceria nada porque ela havia partido. Antes que ela tivesse recuperado a integridade, a dor que tinha aparecido em seu olhar tinha sido inconfundível. De maneira nenhuma podia culpá-la por sua reação; entretanto, Olivia tinha um caráter tão forte, que lhe surpreendeu que não se mantivesse até o fim somente para lhe demonstrar que era uma policial dura.

Somente isso lhe intrigava. Sem dúvida alguma, Olivia St. Martin era algo mais que um rosto bonito e uma aguda inteligência.

«Pare Zack.» Era uma insensatez pretender entender a super agente. Tinha deixado perfeitamente claro com sua linguagem corporal que não queria que ninguém se aproximasse. Embora tivesse que admitir que estava começando a gostar dela; havia tanta energia contida naquele pequeno corpo. Olivia se movia sob seu influxo. Zack duvidava que ela se desse conta sequer da maneira que tinha de meter constantemente o cabelo atrás da orelha, de segurar os lóbulos das orelhas ou de brincar com o único anel de sua mão direita.

Onde estava Olivia? Estava um pouco preocupado. Não que ela não pudesse cuidar de si mesma. Zack consultou seu relógio. Daria-lhe cinco minutos e depois tentaria encontrá-la. Poderia ser que estivesse no banheiro.

Um movimento diante do edifício atraiu sua atenção, e olhou para a dupla porta de vidro que conduzia ao exterior. Olivia St. Martin abriu uma das folhas e entrou; uma vez dentro, entrecerrou os olhos para adaptar-se à luz artificial. Tinha a pele pálida; muito pálida. Sua mão roçou a orelha para colocar o cabelo atrás, embora em seguida uns quantos cabelos caíram para frente. Quando viu Zack do outro lado do vestíbulo, ergueu-se e endureceu a mandíbula, e seu rosto perdeu a expressão de debilidade com a qual tinha entrado.

—Devo me desculpar por meu comportamento tão pouco profissional - disse Olivia ao chegar até ele —. Não deveria ter partido.

Os sentimentos que surgiam sob a fria aparência dela quase podiam ser tocados, mas ela se esforçou em impedir que Zack visse algo. Por que sentia essa necessidade de manter um controle tão férreo sobre suas emoções? Se ele não desse rédea solta a sua frustração cada manhã na academia, estaria de um humor de cão todo o dia. O trabalho exigia muito; cada um se desafogava como podia.

—Já disse que compreendia. Não tem que fingir para mim que é uma garota dura. — interrompeu-se, sentindo-se violento —. Conheci homens muito fortes que se derrubaram ante a visão de uma criança em cima dessa mesa.

Olivia suspirou e tentou sorrir, mas evitou o comentário dele por completo quando perguntou:

—Apareceu algo útil no exame?

—Pêlo púbico. O doutor Sparks o está preparando para o seu envio. Acredita que seu ex-marido daria prioridade a outra amostra? — Zack tentou não dar importância ao tema, mas Olivia não estava de bom humor.

Deu as costas a ele e começou a dirigir-se à porta.

—Ligarei para Greg e direi o que quero. Faça que Doug o envie ao mesmo local. Temos tempo até manhã, porque embora voltássemos a enviar de avião, não chegaria lá até bem tarde da noite —. Fez uma pausa e olhou Zack —. Mas se trata do mesmo cara. — Não era uma pergunta.

—Sem dúvida. — Zack franziu o sobrecenho e saiu à rua atrás dela. Tecnicamente, ele não entrava em serviço até as quatro horas, mas já tinha trabalhado dúzias de horas extras, a metade das quais não as tinha contado.

Alcançou Olivia em três passadas.

—O que ocorreu no caso em que trabalhou? Onde foi encarcerado o cara equivocado?

Olivia deu um pulo quase imperceptível, mas Zack a estava observando com muita atenção. Sem dúvida, aquele era um ponto doloroso para ela.

—A polícia encontrou rastros de sangue em sua caminhonete que o relacionavam com o assassinato da menina — disse Olivia com rapidez —. Mentiu sobre seu álibi; disse que tinha estado em um bar, mas quando aquilo não se confirmou, mudou sua história pela de que tinha estado em casa sozinho, dormindo depois de um dia de bebedeira. Foi condenado sobre a base de provas circunstanciais, mas as provas encaixavam com as mentiras que contou à polícia. Não foi difícil as utilizar para motivar os jurados. — Olivia virou a esquina em direção de onde Zack tinha estacionado depois de recolhê-la no hotel.

—E então?

—Conseguiu um advogado que se inteirou de que havia uma amostra de DNA do assassino e a fez comparar, e ficou demonstrado que ele não havia… - Deixou de falar, mas se negou a olhar para Zack enquanto avançava pela calçada a grandes passadas. Limpou a garganta —. Ele não violou a vítima.

—E o soltaram? Assim sem mais?

—O promotor do distrito se deu conta de que sua acusação ficava invalidada com as novas provas. Pode ser que o cara estivesse envolvido de alguma maneira, mas as provas restantes eram circunstâncias. Não havia nada que «demonstrasse» que a havia matado.

—E por que não se comparou antes o DNA?

—É um caso antigo.

Um caso antigo? Como antigo? Durante pelo menos os dez últimos anos, alguns mais em muitos lugares, a prova do DNA tinha sido de uso comum. Zack lançou um olhar a Olivia enquanto cruzavam a rua onde ele havia estacionado. A primeira vista, Olivia parecia jovem; Zack tinha calculado por volta dos trinta a primeira vez que a viu. Pele suave e delicada, cabelo brilhante, uma figura esbelta e torneada. Mas nesse momento viu algumas finas rugas em torno de seus olhos e uma leve expressão de cansaço no rosto. A maneira que tinha de controlar-se revelava certa maturidade que a maioria das mulheres nunca adquiria. Devia ser mais velha do que ele pensava. Trinta e cinco? Mais? Talvez aquele tivesse sido o primeiro caso em que ela tinha trabalhado. Teria se envolvido, o tinha tomado como uma questão pessoal e andava em busca de vingança…

—Você não vai misturar as evidências, não é mesmo? E tentar emendar qualquer erro que pense ter cometido com as provas desse velho caso? Porque não vou ficar de braços cruzados e deixar que os federais estraguem a investigação. Quero esse cara. É um mal sujeito; mas o quero pegar com a lei na mão. Não vou permitir que o filho de puta escape por culpa, de uma investigação contaminada.

Olivia deixou de caminhar bruscamente e se voltou para ele com os punhos fechados. Todo seu corpo vibrava com uma fúria contida.

—Esse assassino evitou a justiça durante mais de trinta anos; não farei nada que ponha em perigo sua condenação. Ninguém tem mais vontade de apanhar esse assassino que eu, detetive Travis. Lamento que tenha um problema com o FBI, mas não o desconte em mim!

Dito o qual, afastou-se feita uma fúria, detendo-se só quando chegou ao carro.

Ora, ora! Definitivamente, algo acontecia. E como seu nome era Zack averiguaria do que se tratava.

Olivia não sabia que mosca a tinha picado. Nunca se deixava levar pela cólera, mas sentia como se todo seu corpo fosse uma mola esticado ao máximo que estivesse a ponto de se soltar, esparramando suas emoções em todas as direções.

Aquilo tinha que ver com ter visto Jillian Reynolds sobre a maca. Tinha sido só um instante, mas a havia deixado nervosa. Tinha pensado — durante uma fração de segundo — que quem estava deitada ali era Missy. A ponto de ser aberta pelo legista.

E depois tinha falado com Miranda — e ter mentido para sua melhor amiga — e saber que ela e Quinn estavam na cidade. Por que o assassino tinha que ter atacado em Seattle? O único lugar onde tinha amigos de verdade. Não lhe surpreenderia que Miranda não tivesse acreditado nela quando lhe havia dito que estava bem. Afinal, era a pior mentirosa do mundo. Inclusive por telefone. Odiava o engano. Queria contar a verdade a Zack; mas se o fizesse, não haveria maneira dele permitisse que ela tomasse parte na investigação. Inclusive cabia a possibilidade de que chamasse Rick Stockton e fizesse que a despedissem. Zack teria todo o direito do mundo de fazer isso. Apresentou-se com credenciais falsas, e tinha modificado suas funções, e se aquele precário castelo de cartas desmoronasse antes que encontrassem o assassino… Não. Não podia pensar em semelhante possibilidade. O encontrariam. Tinham que fazer isso.

Os sentimentos de responsabilidade e remorso a atormentaram até o ponto de quase lhe impedir de respirar. Se não tivesse sido por seu testemunho de trinta e quatro anos atrás, a polícia não teria fechado o caso. E talvez, só talvez, o verdadeiro assassino teria sido detido.

 

Zack não perguntou a Olivia pelo arrebatamento que havia tido ao sair da sala do legista e que tinha parecido muito apaixonado para tratar-se de um sermão sobre a justiça. Era algo pessoal. Zack se perguntou até que ponto aquele caso era pessoal para ela.

Quando voltaram para a delegacia de polícia, Zack já tinha outras coisas na cabeça. Foi procurar Boyd para averiguar como ia as informações sobre as caminhonetes, enquanto que Olivia se desculpou e entrou na sala de reuniões.

Boyd continuava coletando a relação de proprietários das Expedition com os de Dodge, mas estava fazendo progressos.

—Se detectar alguma coincidência, leve Jan O’ Neal com você para interrogá-los - disse Zack.

—Quer que eu os investigue?

Por que ele parecia tão assombrado? Era por essa razão que Zack não considerasse a si mesmo um bom oficial de treinamento; talvez não estivesse dando a Boyd o suficiente reforço positivo. Até esse momento, o jovem tinha feito um bom trabalho, e Zack considerava que prometia… sempre que deixasse de adiantar-se a si mesmo e perdesse aquela atitude de cachorrinho muito impaciente.

—Sim — disse Zack —. Mas não sozinho. Já sabe o que tem que procurar, e O’ Neal é uma boa policial. — Uma das mais meticulosas da corporação. Boyd poderia aprender com ela.

Zack deu um olhar ao relógio da parede.

—A agente St. Martin e eu vamos falar com as duas testemunhas do seqüestro de Benedict, e ver se recordam algo mais sobre o cara que viram, embora eu não tenha muitas esperanças.

—Porque as crianças gostam de inventar coisas, não? — disse Boyd.

—Exato. Mas a primeira vez que falamos com elas havia muita emoção. Pode ser que o tempo transcorrido ajude neste caso.

—Está tudo bem com a agente? — perguntou Boyd.

—Melhor do que eu esperava. Vamos revisar todos os casos que trouxe com ela, e ver se podemos localizar algum padrão adicional. Passe pela sala de reuniões; terei algum trabalho de seguimento que exigirá contatar com outras jurisdições para o qual necessitarei de sua ajuda.

A próxima parada de Zack foi o laboratório de Doug Cohn. O diretor do laboratório estava inclinado sobre um microscópio. Zack esperou com impaciência, embora sem querer lhe colocar pressa. Ao final, aproximou-se dele.

Sem levantar o olhar do aparelho, Cohn disse:

—Não tenho nada novo, mas já enviei o pêlo púbico ao contato da agente St. Martin no laboratório do FBI. Em circunstâncias normais, nunca pensaria que fariam nada mais rápido que nós, mas parecia absolutamente convencida de que colocariam mãos à obra imediatamente.

—Obrigado. Olhe, sei que está lotado de trabalho, mas me faça um favor.

—Se for sobre seu caso, o que quiser. — Cohn levantou o olhar do microscópio.

Zack entregou a lista de cidades que Olivia lhe tinha dado antes.

—Pode te pôr em contato com estes departamentos e ver se pode conseguir alguma informação sobre as marcas nos antebraços?

—Também estiveram lhe incomodando essas marcas? Pôde obter algo no corpo da menina Reynolds?

Zack sacudiu a cabeça.

—Não restava suficiente massa muscular.

—Verei o que posso fazer. Algo mais que queira que eu averigúe?

—Lógico, o nome e o domicílio do assassino.

—Ah sim! Olhe, consultarei os laboratórios e verei o que têm.

—Bem, estarei na sala de reuniões. Vou ligar para Nashville para averiguar por que razão não enviaram a informação sobre a tatuagem. Em seguida, começarei a revisar a lista e falarei com os detetives encarregados e que me enviem cópias de todos os casos.

—Talvez — disse Zack por cima do ombro enquanto saía do laboratório — consigamos que melhore nossa sorte.

Ao abrir a porta da sala de reuniões começou a dizer:

—Liv, coloquei Cohn a trabalhar nas…

Olivia se erguia nas pontas dos pés sobre uma cadeira com os pés descalços somente de meias, enquanto escrevia algo na parte superior da pasta branca. Ao ouvir a voz de Zack, sobressaltou-se e a cadeira se moveu embaixo dela. Aterrissou sem nenhuma cerimônia sobre seu traseiro.

Zack se aproximou até ela com grande rapidez e a ajudou a levantar-se. No princípio, Olivia pareceu indignada, mas acabou sorrindo timidamente.

—Suponho que ficar de pé em cima de uma cadeira não é a forma mais inteligente de fazer isso, mas as pessoas baixinhas fazem o que podem para compensar a desproporção.

Separou-se dele, e Zack contemplou o que ela tinha escrito na parte superior.

—Datas? — disse.

Relacionadas sob o ano em curso em letras de forma escritas com esmero apareciam as três vítimas de Seattle: Jillian, Jennifer e Michelle. Junto ao nome de cada uma das meninas se indicava sua idade, data do seqüestro, hora provável da morte e data do encontro do cadáver. Conforme parecia, Olivia havia feito o mesmo com todas as vítimas dos outros nove estados, mas faltava uma informação: à hora concreta da morte. Tinha cotado o que ela supunha com um marca texto de outra cor.

Olivia tinha tirado o mapa e as fotografias das vítimas do quadro de cortiça e o tinha colado tudo com fita adesiva no quadro branco, de maneira que toda a informação sobre o caso se podia ver imediatamente.

Zack tirou a jaqueta esportiva com um movimento de ombros e a jogou sobre uma cadeira. Alguns detetives usavam gravata; ele não era desses. As calças Dockers e a camisetas pretas eram seu uniforme preferido. Quando usava colete era, fundamentalmente, para ocultar a pistola de ombro.

—Parece que você tinha razão — disse Zack —. Suas últimas três vítimas estão concentradas, enquanto que a primeira as precede ao menos em um mês.

Olivia franziu o cenho.

—O que acontece? — quis saber Zack.

—Bom, tenho a sensação de que há algo a respeito destas primeiras vítimas que é diferente das outras. Mas não consigo ver o que é.

Zack estudou as datas da parede.

—Analisemos isto a fundo. O cara se muda de um estado a outro. Por quê? Para evitar que o descubram. E como? É economicamente independente? Ou trabalha em algo que lhe faz viajar muito? Talvez seja um vendedor?

Olivia negou com a cabeça.

—Estou de acordo com o porquê, mas não com o como. Parece-me que não necessita de muito dinheiro para viver. É solteiro. E disciplinado. Provavelmente, não se permita muitos luxos.

—Mas não vive na rua.

—Não. É uma pessoa limpa. O mais seguro é que tenha um aspecto asseado. E tem rosto de honrado. Essa é a razão de que Jenny Benedict fosse com ele. Tem pinta de não matar uma mosca.

—Pode ser que trabalhe em algum tipo de loja? Em um centro comercial? Muitas crianças freqüentam os centros comerciais, vão às compras com seus pais. É um terreno abonado para a caça.

Olivia escreveu algo na pasta. «Ocupação: Loja? Possivelmente em um centro comercial. »

—Se daria bem com as pessoas, em especial as mulheres. É familiar. Provavelmente pareça educado e pode falar sobre um sem-fim de temas. E é um manipulador, embora não aparente.

—Se ele se mudar de estado a cada dois anos, o mais provável é que não tenha uma profissão em que necessite de uma clientela fixa, como seria o caso de um advogado ou um médico. Que tal algo relacionado com crianças, como um professor?

—Um professor. Talvez. — Olivia escreveu no quadro depois de «Ocupação» —. Salvo que… — Se interrompeu. Ela não tinha nenhum fato que respaldasse suas opiniões. Talvez estivesse falando muito; levando Zack pelo caminho errado. E se cometesse algum engano? O que aconteceria se eles se concentrassem em uma parte da investigação que não lhes reportasse nenhuma pista? E se perdiam um tempo precioso por culpa de suas opiniões?

—Olivia? — disse Zack insistindo a seguir.

—O professor é uma boa idéia. Kansas é o último lugar que temos certeza de que esteve. Podemos nos pôr em contato com todos os colégios de Seattle para ver se alguém foi transferido de Kansas.

—Não é má idéia, exceto que você não acredita que seja professor.

—Mas pode ser que seja. Não podemos ignorar seu instinto.

—Porei Boyd nisso, mas quero saber o que é que está pensando.

Olivia mordeu o interior da bochecha.

—Não sou uma especialista em perfis. Não sei nada com segurança…

—Bobagem, Olivia! Eu tampouco sou um especialista em perfis. — passou a mão pelo cabelo e ficou olhando o teto fixamente. Era evidente que ela havia dito algo inadequado, mas o que?

—Olhe, deixe de se questionar — disse Zack —. Se limite a dizer. Se for uma idéia estúpida, esquecerei que a disse, certo? Pensei que já tínhamos tido esta conversa.

Olivia recriminou a si mesma mentalmente. Tinha que começar a agir como agente do FBI experiente que tinha feito ele acreditar que era.

—Não, não acredito que seja professor — disse com convicção.

—Por quê?

—Porque não acredito que fosse capaz de evitar tocar às meninas, se estivesse rodeado delas todo o dia.

Zack assentiu com a cabeça.

—Bom argumento.

—Embora acredite que deveríamos investigar isso.

—Farei isso.

Olivia olhou o quadro de ponta a ponta. A essa altura, parecia evidente que em cada cidade a primeira vítima tinha sido assassinada muito antes que as restantes, mas por quê?

—Pode ser que tenha encontrado algo — disse Zack no fim de um instante.

—Com o que?

—A razão de que não trabalhe com crianças. Disse que era porque seria incapaz de não lhes pôr as mãos em cima das meninas. Descobririam em seguida. Assim parte de sua disciplina consiste em permanecer afastado da tentação.

—Parece razoável.

—A primeira vítima de cada cidade está separada no tempo… E se seu primeiro assassinato fosse espontâneo? Em seguida, assusta-se porque acredita que cometeu um erro e se esconde. Espera, assegura-se de que a polícia não sabe o suficiente para encontrá-lo. Também, olhe aqui… — Zack se levantou e tirou o marca texto da mão dela. Debaixo de cada grupo de vítimas realizou uma operação matemática. Quando chegou a Texas, Olivia viu o que ele tinha observado —. Os corpos das primeiras vítimas demoram mais em ser encontrados.

—Todas as demais vítimas tinham sido descobertas no fim de uns dias; as primeiras, depois de várias semanas.

—Não é que as escondesse propriamente dito, mas deve ter jogado os corpos em áreas pouco transitadas — disse Zack.

—Há alguma maneira de obter informação das demais cidades? Alguns destes casos são tão antigos…

—Conseguirei. — Zack consultou seu relógio —. Não tinha me dado conta de que era tão tarde. Tenho que ligar para Nashville sobre a tatuagem; supunha-se que nos tinham que enviar o relatório por fax. — Pegou o telefone.

—Pode conseguir que lhe enviem todo o processo?

—Pedirei, mas poderia demorar alguns dias. Ocorreu há dez anos.

Enquanto Zack falava com os policiais de Nashville, Olivia estudou o mapa. O corpo de Jillian Reynolds tinha sido descoberto a menos de cinco quilômetros de onde foi vista pela última vez. Segundo o chefe Rodgers, sua mãe e a polícia tinham acreditado que a menina tinha se afogado, e tinham centrado sua atenção nas áreas costeiras, procurando no resto da ilha só de maneira residual. Examinaram os vídeos dos ferrys com a idéia de que a menina poderia ter escapado, ou que, desejando simplesmente subir no navio, talvez tivesse se perdido, ou que, se tinha sido um ato delitivo, a veriam com um estranho.

Nada daquilo deu seus frutos, mas no dia seguinte concluíram que a menina provavelmente havia se afogado. A ressaca era forte naquela parte da ilha e, por conseguinte, poderia ter sido arrastada mar dentro, e o corpo seguiria a corrente até que fosse lançado à margem a quilômetros de distância, ou ficasse preso em alguma rede de pesca.

Mas o assassino era metódico. Não a tinha tirado da ilha. Tinha sabido que os ferrys e os molhes estavam sendo vigiados por câmaras de vídeo; e levar em uma embarcação particular teria sido perigoso. Sobre tudo, tendo em conta que a tinha seqüestrado pela manhã.

—Zack — disse.

—Desculpe-me um momento — resmungou Zack ao telefone —. O que?

Olivia negou com a cabeça.

—Eu tinha me esquecido que estava falando ao telefone.

—O que? — repetiu ele.

—Jillian foi seqüestrada na ilha e encontrada na ilha. Isso nos faz pensar que foi assassinada na ilha. E esta não é muito grande. Temos que averiguar se ela foi assassinada a punhaladas no bosque. Do contrário…

—O assassino tinha um lugar para ocultá-la.

Olivia assentiu com a cabeça.

Zack terminou de falar com Nashville e desligou o telefone.

—Continuam reunindo toda a documentação. Enviarão por fax os documentos e nos remeterão uma cópia de todo o processo. Agora, permita que eu ligue para Doug Cohn para lhe dizer que trabalhe com a análise das amostras de terra o quanto antes. Quando este caso estiver resolvido, vou ter que dar uma medalha a ele.

    

Jenny Benedict tinha vivido em Sahalee, um bairro de classe média alta. Dez anos atrás, a zona não era mais que um descampado com uns poucos imóveis de temporada; a essa altura, as famílias jovens que procuravam segurança para seus filhos e um lugar tranqüilo, tinham construído dúzias de zonas residenciais.

Olivia observou a sucessão interminável de jardins de grama perfeita, todos igualmente retangulares, todos igualmente verdes. As magníficas casas de dois andares pareciam impossíveis de se distinguir, salvo pelas frentes alternadas de tijolo, pedra ou madeira. As crianças andavam de bicicletas, embora Olivia percebesse que os pais não os perdiam de vista. Uma menina desse mesmo bairro que deveria ter estado a salvo tinha sido seqüestrada e assassinada. Os pais estavam mais atentos; ao menos, durante um tempo.

Mas algo era certo: naquele bairro um estranho chamaria a atenção. Esse assassino não chamava a atenção; seu aspecto era o de qualquer um deles. E vigiava em busca da oportunidade perfeita para levar a prática suas doentias fantasias. E esperava à oportunidade perfeita para assassinar.

—Encontra-se bem? — perguntou Zack.

Olivia o olhou. Não parecia cômodo, mas ela não soube se isso se devia ao fato de ser muito grande para estar cômodo em um carro médio ou porque tinha que enfrentar-se aos amigos e pais de Jenny Benedict.

—Olivia? — voltou a perguntar.

—Estou bem — disse ela.

—Já vejo. — Zack olhou de maneira significativa as mãos de Olivia e voltou a centrar-se na estrada.

Olivia separou as mãos rapidamente, as tinha tido apertadas enquanto interioriza a raiva pelo o que tinha ocorrido a Jenny Benedict. Alisou a saia e cravou o olhar em frente, recordando-se, conscientemente, de manter as mãos separadas.

Zack estacionou diante de uma das casas maiores do quarteirão; a moradia tinha uma fachada de gesso e tijolo parecida com as demais casas.

—Pedi que as duas testemunhas se reunissem aqui para ficar mais fácil para as meninas — disse —. Já tomei uma declaração delas em separado, mas quero comprovar se recordam de algo mais. As duas estavam muito afetadas no momento. Depois, tenho que passar e ver os pais de Michelle Davidson. Os chamaram para que passem pela delegacia de polícia para atualizar os dados. — passou a mão pela barba espessa e preta do rosto —. Não sei o que lhes dizer. Estamos seguindo todas as pistas que pudemos encontrar, mas todas são muito fracas.

Olivia soltou a mão e lhe tocou levemente no braço com as pontas dos dedos. O gesto pareceu torpe; nunca tinha sido hábil em consolar a alguém.

—Está fazendo tudo o que pode. O verão em seus olhos.

Os olhos escuros dele sustentaram seu olhar, e Olivia sentiu crescer em seu estômago uma sensação estranha e inusitada; uma palpitação. Tragou saliva involuntariamente quando se deu conta de que se sentia atraída por ele. Não havia lhe custado muito em colocar o idílio e o sexo no final de sua lista de prioridades. No final? Sequer estavam na lista? Depois do divórcio amigável com Greg, não havia voltado a se preocupar. O divórcio tinha sido um alívio.

Todavia reconhecia aquela estranha sensação; era algo mais profundo que uma mera atração física. Ao conhecê-lo, deu-se conta de que, em seu estilo de policial arrogante e moreno, Zack Travis era muito atraente. Enchia qualquer quarto com a força de sua personalidade, com sua mera presença, o que tinha pouco a ver com sua compleição e sim muito com sua atração selvagem.

Mas a verdadeira atração estava em sua profunda compaixão pelas vítimas e em seu obstinado convencimento de que um bom trabalho policial acabaria com os maus; de que ele estava fazendo todo o possível para proporcionar justiça aos sobreviventes. Observá-lo pensar, e fazer perguntas, e preocupar-se, tocava a fibra sensível de Olivia.

Olivia se afastou. Nervosa, estendeu a mão para a tranca da porta para sair do carro repentinamente pequeno, quando Zack a pegou pelo braço. Ela ficou paralisada. Quis afastar-se com um puxão e lhe dizer que não gostava que a tocassem, mas algo a deteve. Zack a segurava com firmeza, mas logo, como se sentisse o medo dela, afrouxou a pressão.

Os dedos dele lhe acariciaram o braço nu com um toque surpreendentemente suave, sensível e íntimo. Uma contradição absoluta com a brutalidade de seu comportamento. Olivia resistiu ao impulso de se abandonar ao toque dele, e estremeceu.

Não se atrevia a olhá-lo; suas emoções estavam quase à flor da pele. Ele teria dado conta de quão confusa estava, de sua necessidade; de até que ponto lhe embrulhava os pensamentos e os sentimentos e a confundia.

—Olhe para mim — disse Zack.

Olivia negou com a cabeça de maneira tão imperceptível como tragou saliva, enquanto reunia até o último átomo do controle que ele a fazia perder com tanta facilidade.

—Olivia.

Respirou profundamente ao mesmo tempo em que se voltava na direção dele. Perdida sua dureza habitual, a expressão dele se relaxou de algum jeito. Ela só pôde pensar em enterrar a rosto em seu peito largo e deixar que a abraçasse. Sua presença era tão poderosa, tão absolutamente monopolizadora, que durante um instante fugaz Olivia acreditou que poderia protegê-la, não só de seus pesadelos, mas também da maldade do mundo.

Impossível. Mas o lábio lhe tremeu ansiando prová-lo, e o mordeu. Em que demônios estava pensando?

—O que é o que a move?

Olivia abriu os olhos lentamente. A que vinha essa pergunta? O que é o que queria saber? E por quê?

—A justiça — sussurrou ela, e pigarreou. Volta para o trabalho. Tinha que livrar-se daqueles pensamentos inconvenientes sobre Zack Travis. Ele era um policial que investigava um assassinato. Isso era tudo.

Zack moveu a cabeça para frente e para trás de maneira quase imperceptível mantendo o olhar em Olivia. Os olhos do detetive eram insondáveis, profundos, sagazes.

—Não acredito.

Olivia interrompeu o contato visual, inquieta pela troca de olhares e libertou o braço que ele segurava. Abriu a porta do carro.

—Conduz sem cuidado acredite — lhe espetou. Saiu de um salto e fechou dando uma portada, desesperada para pôr distância entre eles e recuperar o controle.

Zack a observou dirigir-se a grandes passadas até a porta e deter-se. Não o estava olhando, mas era absolutamente evidente que estava pensando nele. E Zack estava pensando nela. Tinha estado tão perto de beijá-la. Beijá-la? A teria devorado. Na maneira em que ela o tinha olhado não havia só desejo. Embaixo daquela pose controlada, havia uma complexidade de sentimentos soterrados. Zack queria abri-la e averiguar por que estava tão tensa, por que não compartilhava nada sobre si mesma, por que não gostava que a tocassem. Desejava abraçá-la e derreter seu gelo. A frieza de sua personalidade não era mais que uma fachada; tinha a visto lutar com suas emoções. E ele tinha a sensação de que Olivia fervia por dentro, mas que mantinha seus sentimentos fechados embaixo de sete chaves.

Perguntou-se o que ocorreria se ele encontrasse a chave.

Saiu do carro e fechou a porta com um chute. Olivia St. Martin escondia algo, e embora ele a achasse absolutamente excitante, sua preocupação número um era a investigação. O que podia ser isso que ela ocultava? Tinha parecido tão acessível no laboratório, no trabalho em comum e com as provas, e com aquelas anotações metódicas que tinha escrito no quadro branca… Nada a ver com a mulher que acabava de sair do carro.

Ao ver a super agente pela primeira vez, na véspera no escritório de Pierson, pensava que a tinha examinado por completo. Nesse momento, teve que admitir que não sabia o que acontecia com ela. Lembrou-se da reação dela ao sair do escritório do legista. Naquele momento tinha pensado que era uma questão pessoal, ainda que quando tinham estado trabalhando juntos na sala de reuniões tivesse se comportado como uma absoluta profissional.

Estava escondendo algo… mas era pessoal ou profissional? Ou ambas as coisas?

Reuniu-se com ela junto ao portão, no começo do caminho que conduzia à casa.

—Se está ocultando algo a respeito da investigação, averiguarei — disse Zack em voz baixa —. Não deixarei que ninguém jogue sujo com meus casos, especialmente neste. Pode levar toda a glória; pouco me importa uma droga de imprensa, o reconhecimento ou o mérito. Mas não estrague o caso.

As bochechas dela se avermelharam de raiva.

—Glória, você diz? — Sua voz era um puro sussurro —. Acredita que me importa a glória? Bastardo.

Olivia passou a seu lado roçando-o, com as mandíbulas apertadas.

Tinha feito ela se enfurecer, e Zack se perguntou que segredos ela acabaria cuspindo se a provocasse de verdade. Segredos; sim, tinha segredos. E ele estava absolutamente decidido a averiguar quais eram.

Caminharam até a porta em um tenso silêncio.

A casa pertencia a Will e Dina Adams; sua filha, Laura, tinha sido a melhor amiga de Jenny e uma das testemunhas do seqüestro.

O senhor Adams abriu a porta antes que Zack pudesse bater com os dedos.

—Detetive Travis — disse com solenidade enquanto lhes abria a porta para que entrassem.

Zack apresentou Olivia, e Adams os conduziu através de um corredor amplo e ladrilhado até a sala de estar, situada na parte posterior da casa.

Laura Adams era uma menina preciosa de dez anos, com uma cabeleira loira e grandes olhos azuis que nesse momento apareciam embaçados de lágrimas. A menina sorriu e piscou.

—Olá — disse timidamente.

—Olá, Laura — disse Zack. Em seguida, sorriu também à outra menina, que estava sentada com as costas reta e as mãos agarradas com força entre os joelhos —. Olá, Tanya. Vocês estão bem?

—Sim — disse Laura enquanto Tanya encolhia de ombros.

A mãe de Tanya estava sentada no outro extremo da sala, junto à Dina Adams.

—Quanto tempo vai durar isto? Minha filha já não teve o bastante? Por que têm que falar com ela outra vez?

—Senhora Burgess, não é mesmo? — perguntou Olivia.

—Quem é você? — disse a senhora Burgess retorcendo as mãos.

—Sou Olivia Sr. Martin, do FBI. Sei que isto é difícil para você e para sua filha, e lhe prometo que acabaremos o mais breve possível.

A voz de Olivia foi tão profissional como tranqüilizadora, com a cadência de um psicólogo. Sentou-se ao lado de Tanya e sorria para Laura, que estava sentada no outro lado de sua amiga.

—Podem me chamar de Olivia — disse às meninas.

Zack teria perguntado às meninas, mas um olhar de Olivia lhe informou que queria tentar algo nessa ocasião. Sentindo curiosidade, deu-lhe a oportunidade. A fúria que tinha mostrado para ele tinha desaparecido ou tinha sido enterrada; a disposição e atitude pareciam terem se adoçado, embora não faltasse segurança.

A rápida mudança de humor de Olivia intrigou Zack.

—O detetive Travis me disse que viram o homem que levou Jenny - disse Olivia com voz pausada —. Deve parecer difícil para voc6es pensarem nisso.

—Nunca o esquecerei - disse Laura com seus grandes olhos chorosos —. Não deixo de pensar que voltará.

Olivia conhecia muito bem essa sensação. Tinha temido exatamente o mesmo durante anos: que o miserável homem da tatuagem subisse pela grade de rosas que havia fora da janela de seu dormitório e a usasse, igual tinha feito com Missy.

Olivia tinha quebrado a grade durante o Halloween, três anos após Missy ser assassinada. Seu pai pensou que tinham sido alguns adolescentes que viviam na mesma rua e que eram famosos por cometer pequenos atos de vandalismo. Nunca tinha lhe confessado a verdade.

—Não deixarei que ninguém lhe faça mal — disse o pai de Laura com a voz rouca pela emoção. Olivia se deu conta de que todos a olhavam. Quanto tempo tinha estado pensando no passado?

Limpou a garganta.

—É normal ter medo — disse às meninas —. Ninguém lhes reprova que tenham medo pelo que aconteceu a Jenny. Mas têm pais que lhes amam e que farão tudo o que estiver em suas mãos para lhes proteger.

O senhor Adams se sentou no braço do sofá situado ao lado de sua filha, e lhe apertou a mão com a boca firme e os olhos úmidos.

—Laura, Tanya, sei que as duas já disseram ao detetive Travis e a outros policiais o que viram. Mas às vezes, as pessoas podem se lembrar de pequenos detalhes que não parecem importantes no momento ou que esqueceram pelo horrível que era o que estava acontecendo. Se acreditarem que podem, eu gostaria que me contassem o que aconteceu. Com suas palavras. E algo que recordem, por mais insignificante que seja, mínima ou tola que pensem que é, por favor, contem.

Laura assentiu com a cabeça, quase impaciente por contar sua história, mas sem deixar de olhar a seu pai em busca de apoio. A menina tinha percebido o desconforto de seu pai porque teria que recitar de novo a tragédia. Provavelmente, Adams pensasse que poderia ter sido perfeitamente sua filha… e estava tão aliviado porque não tivesse sido assim. Então, junto com o alívio, chegava à culpa.

Olivia compreendia aqueles sentimentos perfeitamente.

—Estávamos brincando no parque Brown, que está à volta da esquina. Estamos acostumados a ir de bicicleta, mas a minha tinha uma roda murcha e não queria tirar a bomba e me sujar, então fomos caminhando. Sempre vamos até lá.

—O bairro era tão seguro — disse a senhora Adams —. Sempre pensei que era seguro.

Que sua mãe perdesse o controle não faria nenhum bem a Laura, pensou Olivia.

—Este é um bairro maravilhoso. É natural que sentisse que era seguro. —Olivia se voltou de novo para Laura antes que pudesse cercar uma conversa —. Então foram caminhando. Quanto tempo se demora?

A menina se encolheu de ombros.

—Não tenho idéia. Poucos minutos. Não tenho relógio, e não temos pressa para chegar lá. Só vamos até lá porque é algo que se pode fazer, sabe?

—O que fizeram quando chegaram lá? Havia outras crianças?

—Havia algumas crianças maiores sentados junto ao lago, fumando. Não nos aproximamos de lá, embora tivéssemos levado pão para os patos. Mas minha mamãe sempre me diz que não me aproxime dos maiores.

Laura olhou para sua mãe, e Olivia soube imediatamente que estava mentindo; o coração se acelerou.

—Conheciam essas crianças maiores? — perguntou com prudência.

Laura voltou a se encolher de ombros.

—Não.

—Alguma vez os tinham visto no parque?

—Bom, sim, estão sempre por lá. Vivem no bairro.

—Falaram alguma vez com eles?

—Não; o que quero dizer é que talvez disséssemos «olá» ou algo assim, mas falar, falar, não.

Olivia levantou a sobrancelha e olhou para Laura diretamente nos olhos.

Foi Tanya que começou a chorar.

—É minha culpa! — disse chorando.

Olivia estendeu a mão e apertou a da menina.

—Nada é sua culpa — disse com firmeza —. Me conte o que ocorreu.

—Je… Jenny disse que não fôssemos junto deles, mas Laura e eu… nós… nós… nós só queríamos experimentar. Já sabe um cigarro. E… e… nos tinham oferecido antes, e dissemos que não, mas tínhamos falado disso, e Jenny não queria, mas Laura e eu sim, então lhe dissemos que esperasse junto à fonte, que voltávamos em seguida. Mas… mas…

O corpo pequeno de Tanya se moveu convulsivamente no ritmo dos soluços. Olivia sentiu desejo de agarrá-la em seus braços e lhe dizer que tudo ficaria bem, mas tinha que saber o resto da história. Apertou a mão da menina um pouco mais para atrair sua atenção, e Tanya a olhou finalmente nos olhos, com o rosto arrasado em lágrimas.

—Ninguém está zangado com você, Tanya. Ninguém. Por favor, me diga o que ocorreu a seguir.

O lábio inferior de Tanya tremia.

—Nós… isto… nos aproximamos deles e lhes pedimos um cigarro. Eu dei uma tragada e comecei a tossir. Tinha gosto ruim. Não era como tinha pensado. Laura não quis provar depois disso, e os jovens começaram a rir de nós, então nos afastamos correndo, de volta à fonte. — mordeu-se o lábio.

Olivia se voltou para Laura, que parecia angustiada.

—Laura?

A menina assentiu com a cabeça.

—Mas Jenny não estava lá. Tanya estava bebendo água porque a língua parecia asquerosa, e eu olhei ao redor, e foi então quando vi Jenny falando com aquele cara. Tinha o cabelo muito, muito curto. E usava uma camiseta. Não podia ver o rosto de Jenny, mas ela foi com ele. Gritei-lhe e lhe fiz gestos com os braços para que pudesse correr, mas não sei se me viu. E se meteu em sua caminhonete.

—Que aspecto tinha essa caminhonete?

Laura deu um olhar a Travis e depois voltou a olhar para Olivia. Outra mentira florescendo?

—Era grande e preta, mas não sei de que tipo.

Era isso o que havia dito com antecedência, e conforme as informações, descreveu o que a polícia decidiu que era uma Dodge RAM, devido ao símbolo da marca em uma lateral.

—Alguma outra coisa?

A menina negou com a cabeça.

Olivia se voltou para Tanya.

—Disse que viu uma tatuagem no braço do homem.

—Pensei que era isso.

—Que tipo de tatuagem?

—Não sei. Só uma mancha azul. Estava muito longe. — limpou as lágrimas do rosto e se encolheu junto a sua mãe, que tinha cruzado a sala para estar com ela.

Olivia suspirou.

—O que sabem sobre os jovens de que falaram? Como se chamam?

—Não sei.

—Eu conheço um deles — disse Laura —. Sean Miller. É o irmão mais velho de Betsy. Ela está no terceiro grau. — Disse de maneira que pareceu que Betsy fosse uma menina pequena, sendo que só estava em um curso anterior ao de Laura e suas amigas.

—E onde mora?

—Em frente ao parque. Não sei o endereço, mas têm umas margaridas pintadas no portão. Não se pode errar.

—Bom trabalho — disse Zack enquanto parava o carro diante do portão cinza pintado com chamativas margaridas amarelas.

Ficou tão surpreso como os pais quando Tanya confessou que tinham estado fumando com os adolescentes. Sua história inicial — que Jenny tinha ido pegar água na fonte e que foi então quando a viram desaparecer com o estranho — parecia verossímil. Ele não tinha ido com a idéia de pressioná-las.

—Isso não muda nada, mas talvez Miller recorde de ter visto algo. Ou algum de seus amigos.

Ainda que as palavras de Olivia fossem sinceras, parecia frustrada, enquanto que a ele aquilo tinha lhe dado energia. Qualquer informação nova era uma vantagem, e como qualquer detetive sabia quantas testemunhas mais, maiores eram as possibilidades de obter informação valiosa para a investigação.

—Vejamos o que tem a dizer o jovem Miller.

Caminharam até a porta principal da magnífica casa que dava ao parque onde tinha sido seqüestrada Jenny Benedict. Da parte dianteira da casa se podia divisar todo o parque. Zack se perguntou quanto tempo teria esperado ali o assassino de Jenny. Tinha estado dando voltas de carro pelo bairro? Esperou que surgisse a oportunidade perfeita? Ou foi tudo um encontro casual, um seqüestro espontâneo?

Tinham perguntado por todo o bairro depois do desaparecimento de Jenny, inclusive tinham ido a aquela casa, mas ninguém tinha informado de ter visto algo.

Mas não tinham falado com Sean Miller. Ninguém havia dito a Zack que sabiam que tinha estado no parque naquele dia.

Uma menina de uns oito anos abriu a porta. Zack lhe entregou um cartão de visita.

—Me faria o favor de avisar sua mãe ou seu pai?

A menina olhou o cartão e enrugou o sobrecenho.

—Eles não estão aqui, embora meu irmão, sim. — Fechou a porta antes que Zack pudesse dizer algo.

Zack pesou os prós e os contra de falar com o jovem na ausência de seus pais. Poderiam ter algum problema, já que Sean Miller era menor de idade, mas como não era suspeito, Zack se preocuparia de qualquer problema potencial, se surgisse algum. Era de esperar que ninguém levasse a mal que interrogasse o jovem.

Olhou seu relógio e passou a mão pelo cabelo. Porque será que o jovem estava demorando? Levantou a mão para voltar a bater na porta, e Olivia disse:

—Impaciente?

Zack deixou cair a mão e se mostrou preocupado. Já estava a ponto de fazer uma piada, quando a porta se abriu.

Sean Miller apenas parecia o bastante velho para barbear-se, embora seus olhos castanhos olhassem com a desafiante cautela dos adolescentes que têm algo a ocultar dos policiais. Desde algo tão insignificante como ter fumado um baseado uma vez no jardim detrás, até algo importante como ter pegado o Jaguar novo para dar uma volta pelo bairro e deixá-lo abandonado.

—Não podem entrar — disse, com o queixo para fora —. Minha mãe não está aqui, e não é permitido que ninguém entre na casa.

—Não temos necessidade de entrar. Sean? — Zack deu um passo assustando o esquálido adolescente.

—Sim?

—Temos que falar.

—Não fiz nada.

—Por acaso eu disse que você tenha feito algo? — Estranho! Qual o motivo da atitude do jovem? Zack não teve opção que reconhecer em Miller parte da própria má atitude de quando tinha sido um jovem vândalo.

—Então, por que estão aqui?

—Por que não disse à polícia que esteve aqui na semana passada que você esteve no parque Brown quando seqüestraram Jenny Benedict?

O jovem encolheu os ombros.

—Isso não é uma resposta.

—Não tenho nada a dizer.

—Talvez na delegacia de polícia tenhas algo a dizer.

—Não pode me obrigar a ir. Não fiz nada. — Mas o jovem cruzou os braços e deu um passo para trás, com o medo lhe escurecendo o olhar.

—Ocultar informação à polícia é um delito.

—Não fiz nada — disse passeando o olhar de Zack a Olivia.

Olivia olhou Zack e fez um gesto com a cabeça para Sean. Em seguida, voltou-se para o garoto e disse:

—Sean, sou Olivia St. Martin, do FBI. — Sua voz era pausada e tranqüilizadora. Zack teria podido escutá-la durante horas, e se perguntou como seria quando interrogava os suspeitos. Teria apostado que seria capaz de fazê-los confessar sem levantar a voz.

—Tenho certeza de que não fez nada de errado — disse Olívia —. De fato, acredito que está tão assustado como sua irmã Betsy.

—Eu não estou assustado — disse o garoto em um tom que não expressava nada absolutamente.

—Talvez não — disse Olívia —, mas Betsy, sim, não é mesmo?

Sean não disse nada, e Olivia insistiu.

—Na terça-feira pela tarde, mais ou menos a esta hora, levaram Jenny Benedict do parque. Sua mãe trabalha. Onde estava sua irmã enquanto você estava no parque?

—Eu não disse que estive no parque.

—Não disse que não esteve.

—Eu… — se interrompeu e olhou para Zack. Zack o estava observando com rosto de poucos amigos. Claramente, Olivia estava fazendo o papel do policial bom; Zack não se importava em ser o policial mau naquela situação —. Sim, estive ali — admitiu o jovem.

—O que é que viu?

—Nada — disse rapidamente; muito rapidamente.

Zack estava a ponto de lhe saltar ao pescoço, quando Olivia disse:

—Se supõe que não tinha que ir ao parque sem Betsy, não é mesmo?

—Ela queria ver esse estúpido programa, o mesmo programa de crianças tolas de todas as tardes. E se trouxesse a turma, deduraria o fato de fumar. O parque está no outro lado da rua; posso ver a porta de casa do lago. E só estive fora trinta minutos; ela nem sequer se deu conta. — O jovem estava falando mais depressa —. E quando ouvi uma das meninas gritar a respeito de não sei o que, saímos correndo dali. Não vi ninguém levando Jenny. Juro.

—Ouviu uma menina gritar e você correu? —A atitude de policial bom da Olivia se apagou, e deu a sensação de que queria esbofetear o garoto. Zack não a culpou, mas tampouco queria perder a cooperação dele.

—Eu… — Sean abaixou o olhar e começou a mover os pés.

—O que viu antes que Jenny fosse seqüestrada? — perguntou Zack.

Zack fez uma pausa.

—Não sei. Nada importante.

—Nos diga.

O jovem voltou a hesitar, e Olivia disse:

—Sean o homem que matou Jenny matará outra menina, se não o detivermos. Se tivesse sido sua irmã, não iria querer ajudar?

O medo e a preocupação cruzaram pelo rosto dele.

—Eu… ah, queria poder! — Soprou, e então disse de supetão —: Naquela manhã vi um cara. Não era alguém conhecido, e meus amigos e eu estamos sempre no parque, já sabe, aqui não há nada a fazer e nenhum tem carteira de motorista. O sujeito não tinha estado por aqui antes, e era velho, sabe? Não é que parecesse tão velho na realidade, mas se notava no rosto, sabe o que estou dizendo? Pensei que teria a idade de meu pai, ao redor de quarenta anos, mas pode ser que seja até mais velho, como cinqüenta anos.

—Viu-o bem? — perguntou Zack.

Sean negou com a cabeça.

—Não, na realidade foi só uma impressão.

—Acredita que poderia trabalhar com um desenhista da polícia?

—Não, de verdade que não o vi tão bem.

—Onde estava quando o viu? — perguntou Zack mudando a orientação da conversa.

—Meu amigo Kyle e eu estávamos sentados no lago dando de comer aos patos e de papo, já sabe. Era cedo; minha mãe não tinha ido trabalhar ainda, e eu só queria alguns minutos de paz antes de me fazer de babá o resto do dia. E ali estava esse cara, caminhando pelo parque.

—Por que você o notou?

Sean pensou durante um longo minuto.

—Não sei, exatamente. Acredito que foi pela tatuagem.

Zack sentiu que Olivia ficava tensa e se inclinava para frente, mas não disse nada.

—Uma tatuagem? — perguntou Zack.

—Sim. As pessoas por aqui não usam, ao menos não esses grandes desenhos azuis como Popeye.

—A tatuagem era do Popeye?

Sean sacudiu a cabeça.

—Não, isso foi justo o que pensei quando o vi. Popeye, o marinheiro. Popeye leva uma âncora, acredito; que aquela tatuagem era uma águia.

—Deve ter estado bastante perto para se dar conta que era uma águia.

—O cara passou bem ao lado do lago, mas não parou nem nada parecido. Kyle e eu levantamos a vista e seguimos dando de comer aos peixes.

—Cabelo?

—Curto. Realmente muito curto. Talvez foi por isso que pensei no Popeye.

—Olhos?

—Usava óculos de sol.

—Camisa?

—Branca.

—Calças?

—Jeans.

—Sapatos?

Sean fez uma pausa.

—Essa é a razão pela qual acredito que o notei. No bairro há muitos caminhantes, mas ele usava botas grandes para trilhas.

—Se tivesse que calcular sua estatura, o que diria?

—Que era mais alto que meu pai, mas isso não quer dizer muito. Meu pai é mais baixo que eu.

—Necessitaremos o sobrenome e o endereço de Kyle — disse Zack quando se deu conta de que não poderia conseguir mais detalhes do jovem —. E enviarei um desenhista da polícia. Acredito que recordará muito mais coisas do que acredita.

 

Kyle Bolks não teve nada novo a acrescentar à informação proporcionada por Sean; de fato, nem sequer recordava que dia tinha sido seqüestrada Jenny. Olivia escutou Zack enquanto este falava por telefone com seu companheiro para que acompanhasse o desenhista a casa dos Miller. A mãe de Sean teria que dar seu consentimento, mas Olivia não acreditava que isso fosse um problema. A maioria das pessoas desejava ajudar.

Durante o trajeto pela reluzente área residencial dos Benedict até o bairro dos Davidson, situado a vários quilômetros e uma ponte de distância, Olivia se dedicou a olhar fixamente através da janela enquanto Zack dirigia. Grandes casas se alinhavam nas calçadas, e os portões dos meio-fios estavam decorados com elegantes números. Caminhos longos e estreitos conduziam a casas antigas, pitorescas e bem conservadas que a Olivia recordaram mais Vermont que a costa oeste.

Zack esteve calado durante os quinze minutos que demoraram a atravessar a cidade, embora Olivia não se importasse; continuava incômoda pela conversa que haviam mantido antes de sua reunião com Laura e Tanya. Mas o que realmente a deixou nervosa havia sido a expressão do rosto de Sean Miller quando se deu conta de que o homem que tinha visto no parque nas primeiras horas da manhã do dia em que seqüestraram Jenny era provavelmente o assassino da menina; e que poderia ter se tratado de sua irmã pequena, de que poderia ter se tratado de alguém a quem ele gostasse.

Olivia imaginou a tatuagem da águia e não pôde evitar um estremecimento. Não tinha nenhuma dúvida de que o homem que Sean tinha visto não só tinha assassinado Jenny Benedict, mas também a sua irmã, Missy. Ele estava em Seattle. Preparando-se para fazer outra vítima. Esperando o momento oportuno para receber a presa.

«Para!» Tinha que deixar de lado seus sentimentos. Zack Travis já havia se revelado como um homem muito perspicaz. Se chegasse a imaginar sequer que ela tinha outro motivo para estar em Seattle, a mandaria fazer as malas. E ligaria para o seu chefe, e a despediriam. Sem seu trabalho não era ninguém. Tinha edificado toda sua vida de adulta em torno da ajuda a outros da melhor maneira que sabia: com a ciência. E se lhe faltasse, o que poderia fazer? A quem ajudaria? Sem seu trabalho, já não poderia seguir lutando pelos direitos das vítimas nem para que se fizesse justiça para os que ficavam para trás. Mas Olivia estava disposta a arriscar tudo que tinha, tudo o que era a fim de deter aquele assassino. E se, por isso, Zack se inteirasse da verdade, ela assumiria as conseqüências. Até então, tinha que andar com muito tato e deixar de sentir-se culpada. Já haveria tempo suficiente depois para a culpa.

Zack parou o carro diante de uma casa de dois andares de estilo vitoriano com um alpendre que se estendia pelas laterais e com um balanço pendente. Não fez nenhum gesto de sair.

— Odeio isso.

Olivia lhe lançou um olhar. Zack olhava fixamente para frente e através do pára-brisa com a mandíbula apertada.

—Eles se dão conta de sua preocupação — disse Olivia em voz baixa, repreendendo-se por estar preocupada com sua difícil situação, quando o que estava em jogo era algo mais que seu futuro —. Às vezes, não se pode fazer outra coisa.

Zack a olhou, e Olivia se surpreendeu que um homem com semelhante força física e emocional permitisse que a dor de uma investigação perturbadora escurecesse sua expressão. Se ela permitisse que a dor e a fúria aflorassem, jamais seria capaz de colocá-las de lado.

Tragou saliva, decidida a não permitir que Zack visse outra coisa que uma profissional que se sentava a seu lado. Por dentro, seu ânimo decaía sob o peso do engano. Que direito tinha de fazer perguntas a Laura Adams? Ou a Sean Miller? Ou a estar ali, no exterior de uma casa atingida pela dor?

Zack saiu do carro de repente, antes sequer de que Olivia pudesse pensar em expressar seu conflito. Menos mal. «se concentre, Olivia, se concentre. Mantenha a mente fixa no objetivo: detenha o assassino de Missy antes que roube outra vida.»

A assumiria as conseqüências — internas e externas — depois. Qualquer um que entrasse no lar dos Davidson o primeiro que pensaria seria na palavra «família». As fotos dos três filhos — duas meninas e um menino — enchiam toda a superfície disponível e muitas das paredes. Sapatos de diferentes números se amontoavam contra a parede no outro lado da porta de entrada. No corredor, junto a um aparador que separava o vestíbulo da cozinha, havia um armário para as bebidas, cabides para os casacos e um painel de cortiça para os recados.

Olivia ficou olhando o painel das mensagens de Michelle. «Amamos-lhe, Michelle.»

Ter ido ali não tinha sido uma boa idéia. Deveria ter ficado na delegacia de polícia revisando os diários das provas. Concentrar-se nos fatos, na ciência; isso é o que acabaria com aquele caso, e não falar com as testemunhas infantis, e sem dúvida, não fazer frente aos pais de uma das vítimas.

«Está se metendo em camisa de força, Liv.»

—Gostariam de um café? — Alta e magra Brenda Davidson caminhava como se cada passo lhe lançasse uma flecha dolorosa para a coluna vertebral.

Zack recusou o convite em nome de ambos, e a senhora Davidson assentiu com a cabeça como se o esforço a esgotasse. Círculos negros rodeavam seus grandes olhos azuis, olhos brilhantes com uma dor mal dissimulada.

Conduziu-os através do corredor e de uma grande cozinha aberta até a sala de estar. Uma vez mais, a palavra chave era «família»: os vídeos das crianças abarrotavam as estantes de ambos os lados de uma televisão com uma grande tela. Os jogos de mesa enchiam outra estante embutida. E fotos; havia fotos por toda parte.

Olivia pegou um porta retrato de prata e observou uma menina que poderia ter sido Missy. O mesmo cabelo loiro e encaracolado; os mesmos olhos cinza. Tremeu-lhe o lábio. Que tipo de filho da puta podia fazer mal a uma criatura tão doce e inocente?

—Essa é do ano passado, quando Michelle completou dez anos.

Olivia deu um pulo e quase deixou cair a foto. Voltou a colocá-la com cuidado na estante e se voltou para a senhora Davidson.

—É linda — disse movendo os pés. Apertou a sua bolsa com as duas mãos.

Os olhos inchados da senhora Davidson se encheram de lágrimas, e a dor se gravou em cada parte de sua pele.

—Encontraram-no?

Quem respondeu foi Zack. Olivia quase tinha esquecido que ele estava ali.

—Seguimos todas as pistas, senhora. Temos muita gente capacitada trabalhando no caso.

Pistas. O que tinham? Um adolescente que tinha visto a tatuagem de uma águia e um homem de uns cinqüenta anos com óculos de sol. Poderia ser que daquilo saísse algo, mas antes que fosse assassinada outra menina? Antes que o depredador se escapulisse?

Zack olhou ao redor.

—O senhor Davidson está em casa?

—Está dormindo. — Embora a voz da senhora Davidson tinha um tom monótono, Olivia detectou um traço de ira em seus olhos.

Zack lançou um olhar a Olivia antes de voltar a falar.

—Não era nossa intenção incomodá-la, mas nos seria útil se pudesse repassar o dia em que Michelle foi seqüestrada e ver se recorda algo sobre a caminhonete que seu vizinho viu. Se viu algo na vizinhança. Algo poderia ser útil.

A senhora Davidson se deixou cair no sofá de módulos e ficou a manusear um xale grande de tricô.

—Revivi uma e outra vez cada minuto e cada segundo daquele dia. E nada. Nada. Jamais o esquecerei.

—Não é sua culpa, senhora Davidson — disse Zack.

—Ensinei Michelle a desconfiar dos estranhos — continuou a senhora Davidson como se Zack não tivesse falado —. Eu lhe disse o que tinha que fazer se um homem estranho se aproximasse. O que tinha que fazer se alguém tentava lhe fazer algum mal e… e… — Reprimiu um soluço.

Olivia viu mover-se algo pela extremidade do olho. Voltou a cabeça ligeiramente; uma garotinha loira de uns seis ou sete anos estava de pé dentro da cozinha. A menina se mantinha afastada, fora do campo visual de sua mãe.

—Minha vida, meu pequeno anjo maravilhoso — balbuciou a senhora Davidson entre as mãos.

«Mami?» A voz da menina foi um som agudo e penetrante; Brenda Davidson não pareceu perceber sua presença na soleira, mas Olivia não podia afastar o olhar dela. Em seu interior, ela voltava a ter cinco anos e observava a sua mãe desmoronar-se…

—Michelle era bailarina, sabem? — disse a senhora Davidson —. Uma formosa bailarina. Teve o papel de protagonista no recital da primavera. Voltaria a ter o papel de protagonista neste outono… — Sua voz foi se apagando enquanto cravava o olhar em outra foto da parede.

«Mami?»

«Mami? Missy não vai voltar?» Olivia ouviu sua própria voz infantil na cabeça, e a lembrança de sua mãe se fez mais nítida que nunca. Sua mãe não tinha lhe respondido à pergunta. Quando olhava para Olivia, não a via; quando Olivia falava, não a ouvia.

«Mami?» sussurrou a menina, e seus grandes olhos redondos tão parecidos com os de sua irmã maior, piscaram com rapidez, como se fizesse um esforço em não chorar. Olivia recordava aquele sentimento muito bem, seu intento de controlar suas lágrimas porque seus pais não queriam as ver, e ela não queria machucá-los.

—Me digam que sabem quem é. — A voz da senhora Davidson se tornou repentinamente dura —. Que o encontrarão. Que farão que o executem pelo que fez a minha menina!

—Trabalhamos dia e noite para conseguir levá-lo perante a justiça, senhora Davidson — disse Zack. Colocou um de seus cartões de visita em um canto da mesa —. Se recordar de algo, embora não pareça importante, por favor, não hesite em me chamar, de dia ou de noite. — Parecia frustrado.

Tão frustrado como a garotinha, que retrocedeu um passo para o interior da cozinha com o lábio inferior lhe tremendo. «Amanda.» Olivia recordou o nome da menina, lido nas informações. Enquanto Olivia observava, Amanda abriu a porta de um armário e se meteu lá dentro gatinhando. Desapareceu. Olivia cravou o olhar no armário, e se recordou escondendo-se em seu santuário, o armário embutido de seu dormitório. Ficou dormindo ali muitas noites. Seus pais nunca souberam; jamais a vigiaram.

«Melissa era tão boa, tão perfeita. Não merecia morrer. »

A voz de sua mãe de novo, falando como se estivesse na sala. Olivia estremeceu como se um fantasma lhe tivesse roçado a pele. Olivia amava a sua irmã, mas quando morreu, esta tinha se transformado em uma santa aos olhos de sua mãe. Perfeita. Um anjo.

E Olivia… não era.

—Senhora Davidson — disse Olivia com firmeza —. Onde estão seus outros filhos?

A penalizada mãe piscou.

—O que importa isso agora?

—Sabe onde estão?

—É obvio que sei. Estão lá em cima.

—Está certa disso?

—Agente St. Martin acredito… — Zack tentou interromper, mas Olivia o ignorou.

—Importa-lhe acaso onde estão? Está tão imersa em sua dor que não pode ver que há duas crianças que seguem necessitando da senhora?

—Garanto-lhe, senhorita St. Martin, que a única coisa em que pensamos é na Michelle. Neste momento, quem importa é Michelle. Deveria estar procurando seu assassino, em lugar de me acusar de ser uma mãe má!

—Deixe que nos preocupemos de encontrar seu assassino. Você tem dois filhos que necessitam que você seja uma mãe, e não que se encerre em sua dor. Lamento muitíssimo o que ocorreu a Michelle, mas Amanda e Peter seguem vivos e a necessitam mais que nunca.

—Como se atreve!

—Nos desculpe senhora Davidson. — Zack pegou Olivia pelo braço.

Ela estava tremendo. Tinha ido muito longe. Sabia, mas não podia parar.

Se pudesse evitar que uma menina fosse desatendida, teria valida a pena. Olivia deveria ter encontrado uma maneira mais profissional, mais diplomática, do que fosse! Mas a única coisa que era capaz de ver era a pequena Amanda Davidson metendo-se no armário da cozinha. Foi como ver a si mesma.

Zack a levou para fora da casa.

—Que bicho lhe mordeu? — Não esperou que Olivia respondesse o que foi um alívio, porque ela não tinha nenhuma resposta a dar. Não sabia o que a tinha impulsionado a saltar no pescoço daquela mulher. A maneira em que esta havia falado de Michelle? Ou como recordava a sua própria mãe falando de Missy?

—Meta-se no maldito carro e me espere. Terá sorte se conservar seu distintivo quando acabar esta investigação.

Zack voltou a entrar na casa, furioso.

Olivia parou junto à porta do carona e apoiou a testa no teto do carro. Não podia controlar os tremores, assim concentrou toda a energia de seu corpo só para conseguir parar. Pouco a pouco, recuperou o domínio de si mesma e fez uma longa e entrecortada inspiração.

Brenda Davidson não era sua mãe. O que tinha feito? Como demônios podia ter perdido o controle daquela maneira?

O pior é que não se arrependia. Tornou-se tão insensível em sua própria dor que era incapaz de considerar a angústia dos outros?

Seu trabalho já estava por um fio, e era possível que acabasse de cavar sua sepultura como profissional. Quase tinha estado a ponto soltar uma gargalhada ao ouvir o comentário de Zack sobre conservar seu distintivo. Que distintivo?

Valeria a pena perder tudo o tinha, tudo o que era, se pudesse evitar que a irmã menor de Michelle crescesse como ela havia crescido.

    

Zack não sabia se estava mais furioso com Olivia porque esta tivesse atacado uma mãe transpassada de dor, ou consigo mesmo por ter se limitado a contemplar o desenvolvimento do ataque sem tê-la detido antes que passasse dos limites. Não conhecia Olivia a muito tempo, mas o último que tinha esperado dela é que se dedicasse a chatear às vítimas.

Não foi capaz de falar, nem sequer de olhá-la, quando saiu do bairro dos Davidson a toda velocidade em direção a um lago próximo que freqüentava quando era adolescente. Não soube por que se dirigiu para lá, exceto que aquele tinha sido o lugar onde estava acostumado a ir para refletir quando se debatia entre voltar para o lar, a uma casa vazia, ou meter-se em problemas com seus amigos.

Freou assim que entrou no estacionamento de cascalho e desejou ter sua bicicleta; necessitava de uma boa sessão de desafogo a cem por hora. Zack pôs a alavanca do cambio automático em ponto morto com a mão direita e com a esquerda golpeou o volante.

— De onde veio tudo isso?

Olivia não o olhou, e isso o enfureceu ainda mais. Ela manteve o olhar fixo à frente, com as mãos agarradas com força no colo como uma bibliotecária. O único sinal de que estava ligeiramente alterada era o leve estremecimento de seu corpo, como se estivesse tremendo e se esforçasse ao máximo para parar.

—Lamento muito — disse Olivia em voz baixa. Com muita tranqüilidade. Muito serena —. Se quiser apresentar uma queixa a meu superior, eu estarei…

—Oh, a merda com isso!

Zack abriu a porta com brutalidade, fechou-a com uma batida e se dirigiu à margem o mais depressa que pôde.

Uma vez ali, ficou contemplando ao solitário pescador que estava sentado em um bote na outra margem do pequeno lago. O sol começava a descer; Zack tinha perdido a noção do tempo.

Respirou profundamente várias vezes sem afastar a vista das águas imóveis e foi recuperando a calma.

Olivia St. Martin tinha algo. Tudo o que tinha visto desde que ela tinha chegado na tarde anterior lhe dizia que era uma profissional sem sombra de duvida. Tinha sido sincera a respeito da informação que tinha e que não tinha; tinha compartilhado mais do que ele esperava. Zack estava muito impressionado pela forma em que ela tinha dirigido as entrevistas com Laura Adams, Tanya Burgess e Sean Miller. Todas, até aquele discurso injurioso dirigido à senhora Davidson.

Repassou mentalmente a cena, recordando o que pudesse tê-la feito explodir. Havia algo, embora Zack fosse incapaz de determiná-lo. Tinha sido quando a pequena tinha entrado na sala? Mas… não estava ali quando Olivia soltou o sermão. Onde tinha ido?

«Sabe onde estão seus filhos?»

«É obvio que sei. Estão lá em cima.»

Mas a garotinha não estava lá em cima; Amanda Davidson tinha descido. E algo relacionado com sua aparição tinha irritado Olivia.

Zack estava decidido a averiguar do que se tratava, mas primeiro tinha que controlar sua raiva.

Respirou fundo e se lembrou da primeira vez que tinha perdido o controle no trabalho. Era um novato na profissão, nem sequer tinham transcorrido seis meses desde que abandonara a Academia, um policial de bairro. Tinham lhes avisado, a ele e a seu companheiro, um velho e sábio policial negro chamado Kip Granger, para que fossem ao deprimente Distrito Central para um caso de violência doméstica. O cara tinha dado uma surra selvagem em sua mulher ante o olhar de doze transeuntes pasmos.

Zack reagiu instintivamente e se equilibrou sobre o cara. O marido tinha uma faca, e Zack esteve a ponto de que o matasse.

Esfregou o braço onde ainda havia uma cicatriz daquela noite. Tinha aprendido por mal a não deixar que o caráter controlasse seus atos.

Zack percebeu a presença de Olivia antes de ouvir seus passos. Seu aborrecimento era só uma parte das complexas emoções que o incomodavam. Embora não acabasse de compreender Olivia totalmente e o que lhe tinha ocorrido na casa dos Davidson, estava quase convencido de que algo muito concreto a tinha tirado de sério.

O que Olivia lhe disse foi bastante pior do que tinha imaginado.

—Ontem à noite lhe disse que minha irmã tinha sido assassinada.

Olivia falou em voz baixa, mas sua voz tinha perdido o caráter tranqüilizador que tinha mostrado anteriormente, quando tinha falado com as meninas. Nesse momento, Olivia parecia frustrada e assustada.

Zack ficou em silêncio e não se voltou para ela por temor de que Olivia não dissesse nada mais, mas seu coração começou a acelerar à medida que sua fúria abrandava e despertava sua compaixão.

—Eu tinha cinco anos; Missy, nove. Estava presente quando a seqüestraram. Não pude impedir. Ele… a pegou nos braços sem mais… e eu me pus a correr para minha casa.

A voz dela se quebrou, e então Zack se voltou para olhá-la. E pela primeira vez viu uma dor nua nos olhos da agente, como se uma tela invisível se evaporasse para deixar descoberta sua alma. A dor não expressa o enfureceu, comovendo-o de uma maneira que só pôde perceber de maneira muito sutil. Algum desconhecido filho da puta tinha assassinado sua irmã, e aquilo tinha afetado tão profundamente Olivia que ainda continuava atormentando-a. Teria enterrado a dor durante todo aquele tempo e só a investigação a tinha tirado ao exterior? Ou eram os sentimentos que sempre buliam sob a superfície dela, desconhecidos para qualquer observador graças a sua perícia para manter aquela tela protetora?

—Meus pais nunca o superaram.

Esperou que ela dissesse algo mais, mas não o fez. O silêncio dela não o enganou; Zack pensou que ali havia algo mais. Muitíssimo mais. Podia ver no tremor de seu queixo, na palidez de sua tez, nas lágrimas de seus olhos. Lágrimas. Não acreditou que Olivia chorasse muito. E ao não derramarem-se, formavam um leve brilho que lhe iluminavam o olhar.

—E? — insistiu-a a prosseguir Zack.

—Esqueceram-se de mim.

Sua voz foi tão débil, que Olivia quase pareceu uma menina.

—Olivia — sussurrou ele enquanto passava uma mão pelo cabelo. Deu um passo na direção dela, impulsionado pelo desejo veemente de abraçá-la para protegê-la de seus demônios pessoais. Mas… estacou! Ela tinha transpassado a linha, e por maior que fosse sua capacidade de compreensão ou de compaixão, não podia esquecer o que tinha ocorrido na casa dos Davidson.

—Sinto muitíssimo. Mas porque seus pais não pudessem superar a dor não significa que os pais de Michelle descuidem de seus filhos. Não pode tratar às vítimas dessa maneira.

Zack percebeu um leve traço de aceitação e culpa no olhar dela.

—Mas quem se ocupa de Amanda? — disse ela, e uma lágrima solitária deslizou por sua bochecha.

Zack viu como a pequena gota chegava até o queixo dela, tremia e caía. Olivia não se deu conta, e nenhuma outra lágrima seguiu aquela.

—Você a viu? — perguntou Olivia em tom urgente —. A olhou realmente? Fez tudo o que pôde para passar despercebida, e sua mãe nem sequer se deu conta. Nem sequer tem levado em conta que a menina estava na sala quando dizia que seu «anjo maravilhoso» se foi. O que acredita que Amanda sentiu ao ouvir isso? Que ela não é maravilhosa? Ou que aquilo deveria ter ocorrido a ela? Ou que era ela que deveria ter morrido em lugar de sua «maravilhosa» irmã? Nenhuma vez se dirigiu a Amanda. Nenhuma. Nenhuma só vez a abraçou ou lhe disse que a amava.

—Você não sabe isso…

—Pode-se ver em sua forma de falar. — Olivia apertou as mandíbulas, e a raiva crescente esmagou a profunda tristeza —. A casa cheira a angústia. A dor faz que Brenda Davidson seja incapaz de ver os filhos. Sinto muito! Sinto ter ultrapassado meus limites, mas se pode poupar a Amanda Davidson uma vida de abandono e culpa, estarei encantada de ter falado! Se tão somente uma pessoa houvesse dito a meus pais…

Olivia se interrompeu de repente, cobriu a boca com as mãos e abriu os olhos desmesuradamente, emocionada.

—Eu não… Eu…

—O que? — Zack queria saber tudo. Aproximou-se um passo, pegou-a pelos braços e a sacudiu uma vez. Em voz baixa, disse —: É por essa razão que está aqui? Por causa de sua família? De sua irmã? Está muito implicada nisto?

Zack observou os olhos cheios de vida dela, sua cútis suave, sua boca vermelha. Havia tanto naquele pequeno pacote, tanta profundidade e inteligência, e tanta necessidade; Olivia era uma solitária que necessitava de alguém. Mas, parou! Não estava disposto a pôr em perigo o caso porque ela estava muito implicada emocionalmente.

—Eu prometo. Irei me controlar. Não… não sei por que… Nunca faço coisas assim.

Zack acreditou. Ela não parecia ter por hábito agir assim porque reprimia seus sentimentos. E tinha sido necessário que Amanda Davidson aparecesse, de seis anos, para deixá-los vir à tona. Não, nem todos. Havia mais, e ele ia averiguar exatamente o que estava ocorrendo.

Olivia não estava contando tudo. Zack se aproximou um passo mais, colocou-lhe as mãos nos ombros e lhe levantou a cabeça para que o olhasse.

—Olivia — disse com voz suave, mas firme —. Acredito. Mas há algo mais do que está me contando. Me diga a verdade, agora mesmo. Por que…?

O telefone de Zack soou.

—Não acabamos com esta conversa — disse abrindo o telefone com uma sacudida e afastando-se dela —. Travis.

—É Doug Cohn. Acredito que tenho algo.

—O que?

—Não é grande coisa, mas falei com os diretores de dois laboratórios que se lembram das garotas loiras. Um de Austin, Texas, e o outro, do Colorado. Os dois se lembram das marcas nos antebraços. Enviaram-me as fotografias dos processos por e-mail. Acredito que você teria que vê-las.

—Por quê?

—Porque são idênticas. Pensava que talvez tivessem sido feitas com algo que o assassino utilizasse para transportar às vítimas, alguma coisa com beiradas pontiagudas. E inclusive quando Gil disse que era um objeto agudo, pensei que era algo que estivesse fixo. Não parecia haver uma pressão diferente em cada um dos cortes, como seria o caso se alguém tivesse marcado às meninas de maneira intencionada. Mas agora… acredito que é sua assinatura.

—Assina com seu nome?

—Não com seu nome, mas talvez seja sua marca. Como o «R» de Raposa. Havia doze marcas; tinham que significar algo. Quando falei com Massachusetts, o diretor do laboratório me disse que duas das garotas tinham sido marcadas, mas que não puderam observar nenhum detalhe, porque os corpos não estavam em boas condições.

—Estarei aí em um instante. — Zack desligou e se voltou para Olivia, mas não teve que repetir a conversa. Ela tinha ouvido o suficiente.

—Está marcando suas vítimas — disse Olivia, e sua voz deixou transparecer horror e incredulidade.

    

Havia policiais por todo o bosque, mas não estavam batendo nas portas.

Ainda não.

Era prudente por natureza, o que tinha lhe servido muito durante anos. Parecia ter um sexto sentido que lhe indicava quando se retirar; e quando partir.

A estranha sensação começava como uma comichão na nuca; como um leve roçar que, quando esfregava a cabeça, desaparecia.

Não podia partir. Já tinha visto o próximo anjo que tinha que libertar.

Estava esperando por ele.

Mas, primeiro, tinha trabalho a fazer. Ainda não tinha localizado uma caminhonete, mas isso era só questão de tempo. Se a polícia batesse a sua porta, seria só para lhe fazer perguntas sobre o dia em que havia desaparecido a menina. Diria que se recordava ter visto as notícias sobre o assunto, mas que não tinha nenhuma lembrança concreta do que tinha ocorrido naquele dia. E que desejava que pudesse lhes ser de mais ajuda, mas já haviam passado três meses. E ele? Bom, trabalhava em um restaurante local; tinha chegado ali pelo trabalho fazia mais de um ano. Conhecia a maioria das pessoas que vivia na ilha. E gostava de estar ali.

Não fale muito, se mostre familiar, mas um pouco sério. Já o tinha feito antes, e ninguém tinha suspeitado de nada. Não, não podia ir. Ainda, não. Tinha um anjo mais que libertar, e depois estaria em paz durante um tempo.

Preparou-se para se deitar. Era cedo, nem sequer nove horas, mas na manhã seguinte era o seu turno dos cafés da manhã. Não seria conveniente que faltasse a um turno programado. Chegar tarde — porque ele nunca chegava tarde — podia chamar a atenção. Mas não seria porque dormisse demais; seu relógio interno despertava cada manhã às cinco horas.

Seu ritual na hora de deitar-se era sempre o mesmo. Tomava banho; a mera idéia de meter-se dentro dos lençóis com a imundície do dia sobre a pele o espantava.

Sempre revisava as portas e as janelas, embora recordasse de tê-las fechado. Apagava as luzes, mas não o abajur nem a do banheiro. As persianas abaixadas. Tinha substituído as finas cortinas do dormitório da cabana por persianas que obstruíam a passagem de toda luz.

Dormia de cueca e deixava os sapatos junto à cama. Poderia calçar-se imediatamente se fosse necessário; um vestígio de seus anos no exército.

Podia dormir às escuras. Às vezes.

E às vezes, como nessa noite, sua mente não encontrava repouso. Às vezes, como essa noite, pensava “nela”. No Angel. A dor que sentia em seu coração se estendeu até fazer-se quase insuportável. Abraçava-a tanto: a respiração dela em seu rosto; seu sorriso. Sentia falta da maneira como ela sorria «só para ele».

E como sempre, quando pensava em Angel antes de dormir, recordava bem mais do que queria.

Se mudavam para Los Angeles; a sétima vez que se mudavam em onze anos. Mas dessa vez era diferente.

Dessa vez partiram sem sua mãe. Estava morta.

—Para já de choramingar, garoto. E deixa de te comportar como um maricas.

Bruce não era seu pai, mas ele não se lembrava de seu pai. Sua mãe não havia se casado com ele, como tampouco havia se casado com Bruce. Mas, exceto por certos sentimentos isolados que o inquietavam ou reconfortavam alternativamente, não era capaz de recordar um momento em que Bruce não tivesse estado em casa. Queria que Bruce partisse. Queria que voltasse o tempo em que não tinha que compartilhar a sua mãe com ninguém; no que ela deixava que ele dormisse a seu lado em sua cama cálida e suave.

Sentia falta da sua mãe. Embora continuasse tendo Angel.

Era tão linda. Seu cabelo loiro, tão branco como a neve quando era pequena, havia se escurecido até tornar-se de uma reluzente cor dourada, alguns reflexos brancos e naturais que brilhavam ao sol.

Ela era sua menina pequena, tanto como era de sua mãe e de Bruce. Ele a amava mais, e a cuidava mais. Bruce e sua mãe discutiam e depois faziam coisas um ao outro que fazia que os lençóis de sua mãe cheirassem estranhos. Quando ela ia trabalhar, e Bruce partia ao bar da esquina, estava acostumado a deitar no lado da cama de sua mãe e recordar como era a sensação dela o abraçando. Então se envolvia nas mantas e nos travesseiros de sua mãe.

Mas não cheiravam igual. Cheiravam a pecado e a sujo, e mais a Bruce que a sua mãe.

Agora, sua mãe havia ido. Primeiro seu aroma, e agora seu corpo.

Naquele carro comprido, comprido, a caminho de Los Angeles, Angel passou o braço por cima e lhe tocou a mão. Os grandes olhos verdes de Angel se encheram de lágrimas; ela também sentia falta da sua mãe.

Ou será que já tinha medo de seu pai?

Ele se inclinou sobre ela e lhe sussurrou ao ouvido:

—Prometo que cuidarei de você. Não permitirei que te faça mal.

Ela lhe apertou a mão; seu rosto era muito maior para seus sete anos.

—É muito tarde.

Três anos e nove meses depois, ela também estava morta.

 

Era mais de meia-noite, e todos os presentes na sala de reuniões estavam esgotados. Zack, Olivia, Boyd, Cohn e a detetive Jan O’Neal haviam revisado todas as informações que Cohn tinha recebido dos laboratórios dos outros estados, além das folhas que Nashville tinha enviado por fax enquanto Zack e Olivia estavam falando com a senhora Davidson.

—Muito bem, todos nós precisamos dormir um pouco — disse Zack —, mas repassemos uma vez mais o que temos e esclareçamos o que vamos fazer amanhã.

—Ficam por revisar umas quantas páginas mais, mas encontramos seis endereços nos quais têm os dois tipos de caminhonetes — disse Boyd —. O primeiro que faremos pela manhã, Jan e eu, será ir comprovar em pessoa.

—Bom trabalho.

—Tenho que ligar para os outros laboratórios — disse Cohn —. Farei isso amanhã na primeira hora. E vou colocar um par dos técnicos de meu laboratório para investigar as marcas. Pode ser que o doze signifique algo, como na mitologia.

—Deveríamos nos pôr em contato com o FBI, para ver se tem alguma informação sobre as marcas — disse Olivia em voz baixa olhando para Zack.

—Com quem? Como podemos acelerá-lo?

Olivia tragou saliva. Estava-se pondo a descoberto; não havia outra saída.

—Deveriam entrar em contato com o chefe do escritório de Seattle e lhe pedir que a unidade de investigação analise as marcas, além disso, o número «doze», se por acaso significar algo.

—Peça a seu pessoal que intervenha. Oficialmente. — Zack passou a mão pelo rosto —. Tem razão. Esta poderia ser a oportunidade que necessitamos. O primeiro que farei pela manhã será falar com o chefe Pierson.

Olivia assentiu com a cabeça. Era o mais inteligente que se podia fazer. Aterrorizava-lhe sair de Seattle. Queria estar ali quando apanhassem aquele cara. Tinha que vê-lo, olhá-lo no rosto. Enfrentar-se a ele.

Mas seu objetivo primitivo era detê-lo. Se pôr a descoberto seu engano significava aproximar-se do descobrimento do assassino de Missy, então se descobriria.

—Acredito que estamos nos aproximando — disse Zack, como se lhe tivesse lido os pensamentos —. Esta noite não podemos fazer nada mais; é quase uma hora. Vamos para casa, durmamos um pouco e voltemos aqui às oito horas.

    

O Urso Crespo tinha que ir. E Bessie, a vaca de pelúcia que a tia Grace lhe dera no ano anterior por ocasião de seu aniversário. Um pulôver, porque esfriava pelas noites. E uma muda de roupa intima e meias três-quartos, se por acaso aquilo durasse alguns dias. Ah! E não se esqueça do dinheiro. Tinha oitenta e seis dólares em seu cofre da Cinderela. Tinha chegado a ter cento e onze dólares, mas no mês anterior tinha comprado um presente de aniversário para Michelle com seu dinheiro; uma maleta de pintura, porque Michelle queria ser artista quando fosse maior.

Amanda tragou para desfazer o nó que tinha na garganta, decidida a não chorar. Se fizesse, sua mãe poderia ouvi-la, e nunca poderia encontrar Michelle.

Embora na noite anterior, quando tinha chorado, sua mãe não tinha aparecido. Talvez Mami não se desse conta, fizesse o que fizesse Amanda. Amanda mordeu o interior da bochecha e sugou o lábio inferior. Papai tinha chorado. Nenhuma só vez em sua vida tinha visto papai chorar, mas tinha chorado três vezes desde que Michelle havia ido para o Céu.

Ela não sabia onde ficava exatamente o Céu. Sempre que Mami falava dele, dizia que o Céu estava no firmamento. Quando iam à igreja na Semana Santa e no Natal, aquele pastor vestido com um vestido comprido dizia que Jesus estava ali em cima, no Céu.

Amanda não tinha nascido ainda quando o vulcão Monte Santa Elena entrou em erupção, mas tinha visto um programa com papai sobre aquilo uma noite, há muito tempo. Amanda tinha se assustado, e tinha se metido engatinhando na cama com Michelle.

—E se uma montanha arrebenta e nos enterra? — tinha perguntado enquanto se amassava com força no precioso edredom rosa de Michelle.

—Isso não ocorrerá.

—Mas o cara do programa disse que poderia ocorrer.

—Só se Deus quiser.

—Deus? E por que teria que querer nos enterrar?

—Tola, quando um vulcão entra em erupção é um ato de Deus. Isso é o que Mami diz. Assim, se ocorrer, ocorre. Não se pode fazer nada a respeito.

Amanda tinha que encontrar o Céu e levar Michelle para casa. Se o fizesse, Mami deixaria de chorar e voltaria a abraçá-la. Amanda tinha medo de que Deus tivesse levado Michelle porque discutiam por tudo, como quando Michelle pegava a parte maior de pizza, ou quando tomava emprestada a bicicleta nova de Amanda, que tinham lhe dado no seu sexto aniversário, e a bateu contra a roseira da senhora Hendrick, estragando-a.

Michelle poderia pegar sua bicicleta e ter a maior parte de pizza até o fim dos tempos. Se Amanda dizia que lamentava ter gritado com sua irmã, talvez Deus a deixasse voltar do Céu.

Só tinha que encontrar o Céu primeiro. E a única maneira que lhe ocorria de chegar ao Céu era começar pelo lugar onde Deus disse ao mundo que estava furioso. O vulcão Monte Santa Elena.

Confiava em que oitenta e seis dólares fossem suficientes para chegar até lá.

 

Brenda Davidson quase não tinha deixado de chorar desde que tinham encontrado sua filha morta.

Quando Michelle desapareceu, não tinha chorado. Voltaria para casa sã e salva, sem dúvida. As coisas más ocorriam a outras crianças; aos seus, não. Não a sua neném.

Assou o nariz em uma profunda inspiração que acabou em um soluço.

Aquela mulher da véspera… Brenda deveria tê-la atacado. Como se atrevia a acusar de não dar atenção a seus filhos! Quem era ela para julgá-la? Michelle estava com suas amigas; não era culpa sua que a tivessem levado. Como não era que a tivessem assassinado.

Mas no fundo, no mais fundo de seu coração, só culpava a si mesma.

«Tem seus dois outros filhos, senhora Davidson. Já lhes disse que os ama?»

Não parava de dizer a cada momento a seus filhos que os amava. Ela fazia bolos para eles, e levava as meninas às Girl Scouts cada semana, e Peter aos treinamentos da equipe de futebol; e tinha se apresentado como voluntária no colégio das crianças para ajudar na noite da pizza todas as sextas-feiras. Não parava de «lhes demonstrar» seu amor.

Brenda bateu uma frigideira sobre o fogão. Olhe, estou fazendo panquecas para eles! Tinha perdido sua filha e estava cozinhando na maldita cozinha. Encarregava-se; sempre se encarregava sozinha.

Colocou a mão em uma gaveta e tirou um molde metálico. Ficou olhando de ponta a ponta durante um longo momento, e as lágrimas lhe correram pelo rosto torcido. Michelle adorava as panquecas com forma do Mickey Mouse; estava acostumado a comer uma pilha de quatro com geléia de morango. E nas ocasiões especiais, Brenda deixava que as crianças pusessem creme por cima.

Brenda deslizou até o chão enquanto os soluços lhe sacudiam o corpo. «Tudo é minha culpa. » Não tinha sido bastante zelosa; não tinha vigiado Michelle com a suficiente atenção; não tinha pensado que alguma vez pudesse lhe ocorrer algo ruim a sua neném…

—Mamãe?

Assou o nariz com a respiração entrecortada; sentia o corpo pesado, e seus movimentos eram torpes. Piscou e levantou o olhar para seu filho.

—O que? — Sua voz era pastosa, um mero sussurro.

—Não encontro Amanda.

—O que estará tramando agora? — Brenda se levantou apoiando-se no suporte para suportar seu peso —. Onde está seu pai?

—Dormindo — disse Peter em voz baixa.

Andy passava os dias dormindo desde a morte de Michelle. Como tinha a desfaçatez de dormir! Ela não era capaz de dormir mais que alguns poucos minutos cada vez, porque cada vez que fechava os olhos, via Michelle. Não era justo que tivesse que suportar aquela carga sozinha. Não era justo que lhe tivessem tirado sua neném.

—Não é justo! — gritou Brenda.

Pela extremidade do olho viu que Peter estremecia e se recolhia sobre si mesmo, encolhendo os ombros como se quisesse se fazer menor.

«Você tem outros dois filhos, senhora Davidson. Agora, necessitam-na mais que nunca.»

O que estava fazendo? O que estava fazendo a seus próprios filhos?

—Peter… — Esticou a mão para pegar seu filho, deu um tropeção e o levantou nos braços —. Eu sinto muito. Sinto muito. Sinto muito. — Abraçou-o com mais força —. Te amo, Peter. E sinto, sinto muitíssimo tudo isto. Por favor, me perdoe, por favor.

—Eu amo você, mamãe. Sei que sente falta de Michelle. Eu também sinto.

—Sinto muitíssimo. — Brenda nunca se livraria da mancha preta que tinha no coração —. Mas vocês precisam de mim, e não estive aqui para lhes cuidar.

—Eu entendo, mamãe. — correriam lágrimas pelo rosto de Peter. Tinha chorado? Sem dúvida, também estava sentido. Adorava a suas irmãs. E embora tivesse treze anos, brincava com elas e lhes permitia que o seguissem pelo bairro sem queixar-se muito —. Mas, mamãe… estou muito preocupado com Amanda. Não sei onde está.

O coração de Brenda deu um tombo. Não, não estava acontecendo nada ruim com Amanda. Era uma boa menina.

—Tenho certeza de que andará por aí. Deve estar em sua casa de brinquedo. Olhe lá em cima; eu irei ao pátio de trás.

Mas quando Brenda chegou a grande casa de plástico colocada na metade do pátio, viu que Amanda não estava dentro. Sentindo um pânico crescente, procurou por todo o pátio, pronunciando seu nome.

—Amanda! Amanda!

Não respondeu. Não estava lá fora.

Não estava lá dentro.

Tinha desaparecido.

—Andy! Mas que inferno, Andy! — Brenda entrou como um raio no dormitório que compartilhava com seu marido até o desaparecimento de Michelle —. Andy, Amanda desapareceu!

Andy se levantou e, pela primeira vez, Brenda percebeu o esgotamento e a dor gravada no rosto de seu marido. Talvez não estivesse dormindo; talvez estivesse quebrando a cabeça, assim como ela. Na solidão.

—Chama o 911. E o detetive Travis. — Andy saltou da cama e vestiu uma camiseta que estava enrolada como uma bola sobre o chão —. Farei que os vizinhos comecem a procurar. A encontraremos. A encontraremos!

—Não posso perder outra filha — disse Brenda em um soluço.

Andy e Brenda viram o recado sobre a penteadeira ao mesmo tempo. As claras letras de forma estavam escritas conscienciosamente com lápis roxo.

«Para Mami e Papai.»

—Meu Deus, Andy! Obriguei-a a partir? Onde diabos terá ido?

    

O estridente toque do celular tirou Olivia do sono. Procurou o pequeno aparelho e esquadrinhou a escuridão com os olhos entrecerrados para ler os dígitos vermelhos do despertador do hotel. 6h34min. Gemeu. Depois de dar voltas e mais voltas durante a maior parte da noite, tinha conseguido dormir só três horas.

—Olá — disse antes que soasse o quarto toque.

—Liv? Sou eu, Greg.

Olivia esfregou os olhos.

—Sinto muito. Estou meio adormecida.

—Provavelmente não dormiu muito — disse Greg com uma voz cheia de preocupação —. Como você está?

—Estou bem. Estamos avançando.

—Queria que soubesse que terminei a análise do DNA da amostra enviada de Seattle, e que coincide em noventa e nove vírgula noventa e nove por cento com a amostra de Missy.

O corpo da Olivia ficou tenso, e ela reprimiu um soluço. Seu instinto lhe havia dito que tinha razão, que o assassino de Missy estava em Seattle; sua experiência lhe dizia que tinha razão, mas ouvir a confirmação da prova definitiva…

—Obrigado, Greg.

«Obrigado» parecia absolutamente inapropriado. Greg estava arriscando-se a receber uma reprimenda, quando não algo pior, tanto por ajudá-la a enganar o Departamento de Polícia de Seattle para que a deixassem ter pleno acesso ao caso, como por utilizar os recursos do estado sem autorização.

—Recebi as amostras de pêlo púbico esta manhã. Vou trabalhar com elas hoje mesmo e deverei ter uma resposta até manhã. — Fez uma pausa —. Rick me perguntou por você esta manhã.

—Ah, sim?

—Eu disse que você estava bem.

—Sinto muito te pôr na situação de ter que mentir a seu chefe.

—Fui eu quem me pus nesta situação, Olivia. Você não descansaria jamais, se não fizesse tudo o que estivesse em suas mãos para ajudar. Mas sigo preocupado contigo. O que vai fazer, se apanharem esse cara?

Olivia passava dias pensando o mesmo. O que faria? O enfrentaria? O esbofetearia? Desejaria que apodrecesse no inferno? Nada disso parecia adequado. Nada do que ela pudesse fazer emendaria tudo de ruim que aquele sujeito havia feito. Nada do que Olivia dissesse faria desaparecer a dor e a consciência de que, durante trinta e quatro anos, um violento depredador tivesse andado solto pelas ruas.

—Não sei, Greg — disse.

—Quanto tudo isto acabar, Liv, sabe que continuarei te esperando.

—Sei. — Sua voz foi um puro sussurro.

Sim, sabia. Greg continuava a amando. Ela tinha sido uma esposa horrível; não tinha sido capaz de lhe dar o afeto que ele merecia. Distante, incapaz de compartilhar seus temores, tinha preferido a solidão à companhia. Mas ele continuava a seu lado, e ela nunca o esqueceria.

—Avisarei quando souber os resultados do exame do pêlo pubiano quando tiver acabado, mas também entrarei em contato com o diretor do laboratório de Seattle, Doug Cohn, e lhe enviarei um relatório por escrito. Necessitarão para o tribunal mais adiante.

—Obrigado, Greg.

Despediu-se dele e desligou o telefone, sentando-se na beira do colchão do hotel, e de repente o quarto lhe pareceu muito insosso. Como tinha acabado ali, a quase cinco mil quilômetros de seu trabalho, de seus amigos e de seu lar?

Amigos? Que amigos? Sua melhor amiga estava realmente ali, em Seattle, e nem sequer havia dito ainda a Miranda o perto que estava. E Rowan, sua outra companheira da Academia do FBI, estava relaxando no Colorado, em paz pela primeira vez em sua vida. Seu ex-marido, Greg, era seu único outro amigo íntimo, e ela tinha a sensação de que o estava utilizando.

Sua casa da Virginia não era um lar. Embora decorada com mais gosto que aquele quarto de hotel em que estava sentada nesse momento, era apenas mais íntima. Passava todo o tempo trabalhando; não havia nada especial esperando-a em casa.

De repente, sentiu-se velha. Faltavam-lhe alguns meses para completar os quarenta, e ali estava ela, mentindo e manipulando às pessoas pela primeira vez em sua vida. Não era supersticiosa nem acreditava nos maus augúrios nem em nenhuma dessas tolices, mas não pôde menos que pensar que sua traição e seu engano estavam contribuindo à maldade do mundo.

Dirigiu-se lentamente ao banho e abriu a torneira da água quente ao máximo. A pressão da água era lastimosa, mas ao menos a temperatura era correta. Despiu-se e se situou sob o jato agudo, decidida a que a ducha lhe proporcionasse a energia que necessitava para manter as aparências nesse dia.

Depois de fechar a torneira, ouviu que estavam esmurrando a porta. Saiu da banheira com um salto e pegou a toalha, mas não cobria o suficiente. Não tinha chamado o serviço de quarto. Gotejando, correu até a cama e vestiu o roupão de algodão branco que tinha levado de casa; aquele não era um hotel de cinco estrelas que desse de presente roupão felpudo e cremes corporais.

Os golpes continuaram, e Olivia ouviu uma voz surda que pronunciava seu nome, mas a porta era muito grossa para identificá-la. Olhou através do olho mágico. Era Zack Travis.

Olivia tirou as trancas torpemente e abriu a porta.

—O que…?

Travis entrou imediatamente, e Olivia deu um passo para trás.

—Droga! Pensei que tinha ocorrido algo. Você deve dormir como um morto. Estou chamando a dez… — Zack a examinou de cima a baixo, lentamente —. Oh! — disse sem afastar os olhos, que se obscureceram, tornando-se quase negros, enquanto reparava no cabelo molhado e no roupão dela, e seu olhar baixava até o seio e voltava a subir até o rosto.

O corpo dela reagiu ante o persistente e admirado olhar dele. Sentiu uma comichão nos seios e como lhe endureciam os mamilos, e uma repentina opressão na garganta. Tragou saliva e retrocedeu outro passo para deixá-lo entrar; em seguida, fechou a porta agradecida porque ele já não a olhasse, embora seu corpo continuasse traindo seu desejo.

—Não tinha levado em conta de que tinha ligar para você para lhe pedir permissão para tomar banho. — Olivia tentou aparentar um ar profissional e duro, como não se desse conta da maneira em que Zack tinha lhe inspecionado o corpo com o olhar. Longe disso, saiu-lhe uma voz rouca e surda.

Zack se voltou para olhá-la de novo, lhe sustentando, impassível, o olhar. Olivia se sentiu presa contra a porta, incapaz de mover-se para o interior do quarto sem tocá-lo. A idéia lhe produziu um calafrio, ao qual não pôde lhe tirar a importância atribuindo-o ao fato de que ela tivesse pegado frio depois da ducha. A sensação persistiu, e Olivia teve consciência de que o fino roupão de algodão havia se colado demasiado a seu corpo molhado.

Assim era Zack.

Ele avançou na direção de Olivia, que cometeu o engano de olhá-lo nos lábios; Zack os separou e passou a língua por eles.

A expectativa fez que o coração dela se acelerasse. A mão dele subiu e lhe rodeou a nuca. Um calafrio involuntário percorreu o corpo dela.

Quis lhe dizer que se afastasse, mas não conseguiu reunir as palavras. Em seu lugar, abaixou as pálpebras e separou os lábios ansiando saborear os dele.

Olivia tinha esperado calor quando lhe roçasse a boca com a sua; o que não tinha esperado era um relâmpago que a atravessasse e lhe queimasse as pontas dos pés.

O beijo foi breve, mas intenso. Zack retrocedeu, e ela abriu os olhos. Pela expressão de seu rosto, ele havia sentido as mesmas chispas elétricas entre os dois.

Olivia não quis dedicar nem um instante a pensar no erro que acabavam de cometer.

—Desculpe-me — balbucio Olivia.

Passou a seu lado roçando-o, pegou a roupa do armário embutido e se meteu no banheiro, fechando a porta com firmeza e apoiando-se nela. O que havia em Zack Travis que a deixava tão nervosa? Ela não era uma jovem que andasse à caça de policiais quentes. Era uma mulher madura, responsável e profissional. Tinha coisas mais importantes a fazer que olhar a um homem com olhos de cordeiro degolado.

Tinha deixado que a beijasse; tinha querido que a beijasse. Queria que voltasse a beijá-la.

Mas isso estava fora de lugar.

O estridente toque do celular a sobressaltou. Mas era o do telefone dele, não o seu. Vestiu a saia e a blusa de seda com toda pressa, enquanto ouvia Zack dizer seu nome ao telefone.

Depois, silêncio. Quem tinha ligado para ele? Tinha a ver com o caso? Alguém do FBI havia ligado para ele para comprovar as credencias de Olivia? Zack já teria se posto em contato com o chefe do escritório de Seattle e havia lhe falado dela? Olivia não tinha tido tempo para preparar-se. O que ia dizer a Zack?

Talvez Zack compreendesse, mas a afastariam da investigação e a enviariam de volta a Virginia. Jamais se veria cara a cara com o assassino de sua irmã nem conseguiria que no final se fizesse justiça.

A informação que tinha reunido durante as últimas semanas na Virginia lhes havia contribuído com novas pistas. Tinham muito mais que na véspera, e na véspera muito mais que no dia que Jennifer Benedict tinha sido assassinada.

Olivia tinha ajudado, embora tivesse infringido as normas ao fazê-lo. E a tudo isto, quais eram aquelas malditas normas?

Não queria enganar o detetive Zack, mas estaria metida naquilo até o final… fosse esse mesmo dia, no seguinte ou no fim de uma semana.

Respirou fundo e ficou a espera, aplicou um pouco de maquiagem nas sombras pretas abaixo dos olhos, assumiu uma expressão profissional e passou rapidamente uma escova pelo cabelo úmido. Não tinha tempo de se preocupar com seu aspecto.

Abriu a porta e viu Zack reclinado contra a parede com a cabeça encurvada, os olhos fechados e o celular — já fechado — apoiado contra a testa.

—O que ocorreu?

Zack a olhou nos olhos com uma expressão de dor no rosto.

—Era Brenda Davidson. Sua filha Amanda desapareceu.

O coração de Olivia deu um tombo.

—Temos que encontrá-la.

 

Olivia fez todo o trajeto até casa dos Davidson com os nervos à flor da pele. O assassino de Michelle havia levado Amanda? Era uma vingança pessoal contra a família Davidson?

Em nenhum dos casos que tinha examinado o assassino havia levado uma menina de sua própria casa. Isso tinha ocorrido com outros assassinos, sem dúvida, mas não com este. A menos que Olivia tivesse passado por alto de algo. Teria lhe escapado alguma conexão importante?

Não, não em um assunto como aquele, mas a semente da dúvida a mantinha em brasas.

Brenda Davidson lhes entregou a carta quando entraram na casa.

    

Queridos Mami e Papai:

Fui ao Céu para procurar Michelle. Vou dizer a Deus o que sinto. Trarei Michelle de volta para casa já não chorarão mais.

Sua outra filha

manda Lynne Davidson.

    

Olivia e Zack leram a carta ao uníssono, e ela o olhou nos olhos, Era culpa dela? Tinha dado uma idéia equivocada a Amanda? Era ela tão culpada como seus pais? Ou mais até?

«Meu Deus se estiver aí, por favor, protege-a!», rezou mentalmente Olivia.

—Saiu todo mundo para procurá-la — disse Andy Davidson —. Todos os lugares aos quais pudesse ter ido. Mas onde está? Por quê?

—Sinto muito — disse Olivia pensando nas duras palavras que tinha dirigido a Brenda Davidson.

—Você tinha razão.

Brenda falou em voz tão baixa, que Olivia quase não se deu conta.

—Perdão? — disse Zack.

Brenda olhou para Olivia diretamente nos olhos; seus brilhantes olhos azuis estavam inchados e vermelhos.

—Você.

—Ontem passei da conta… — começou a dizer Olivia.

Brenda levantou a mão e sacudiu a cabeça, com os lábios trêmulos.

—N-Não. Tinha razão. Não me dava conta do que estava fazendo a meus outros filhos. Realmente não os via; só percebia o buraco que ficou em nossa família. Só… Michelle. — Tremeu a voz, mas tragou saliva e virou o queixo, atraindo junto a ela seu filho, ao qual abraçou com força enquanto lhe beijava a cabeça. Pegou com firmeza as mãos de seu marido, e este rodeou a sua família com um abraço.

—Não posso perder também a Amanda.

—A encontraremos — se encontrou dizendo Olivia. Sabia melhor que ninguém que não devia que dar falsas esperanças; mas com absoluta segurança o destino, ou Deus, ou qualquer que fosse a maldita força que houvesse ali fora, não afastaria Amanda de sua família —. Podemos ver seu quarto?

—A polícia já o revistou — disse o senhor Davidson.

—Desejaria ver. É só um minuto.

Olivia sabia o que Amanda devia ter sentido. E se Amanda era como ela, teria deixado pistas com a esperança de que sua mãe ou seu pai a encontrassem. Embora Olivia nunca tivesse fugido, havia estado perdida toda sua vida.

Brenda a conduziu ao andar de cima, deixando que Zack falasse com os agentes uniformizados que estavam coordenando o registro da ampla cozinha dos Davidson. Olivia não sabia o que dizer à mulher. Antes de entrar, deteve-se na porta do quarto de Amanda.

—Senhora Davidson, lamento de verdade sobre ontem.

—Se a tivesse escutado, talvez Amanda não tivesse escapado. Descuidei-me dela. — Lhe fez um nó na garganta, e sua mão revoou até seus lábios —. A amo tanto.

—Minha irmã foi assassinada quando éramos meninas — se encontrou dizendo Olívia —. M-mi… minha mãe… — se interrompeu, surpreendida de ter expressado seus sentimentos em voz alta.

Brenda estendeu as mãos e pegou as suas. Pela primeira vez, que ela pudesse recordar Olivia não estremeceu; melhor, agradeceu o contato.

—Ela se comportou como eu — disse Brenda apertando as mãos de Olívia —. Agora me dou conta de no que eu estava me transformando. Se não houvesse dito o que disse, acredito que eu não teria percebido o que estava fazendo a minha família. Obrigado.

—Você os ama.

—Mas claro. E tenho certeza de que sua mãe também a amava. O que ocorre é que, às vezes, a dor te devora.

Olivia sacudiu a cabeça.

—Não, minha mãe foi incapaz de amar a alguém mais depois que Missy… desapareceu. Se suicidou em um dos aniversários de seu assassinato. — Cinco anos de convivência com uma mulher que a tinha parido, mas que não a via, não a tocava e não a reconhecia. Olivia tinha querido desaparecer, tinha desejado estar em qualquer parte exceto em sua casa.

Brenda abriu a boca e atraiu Olivia para ela, abraçando-a com força. Olivia se sentiu incômoda no abraço e não o devolveu, mas Brenda não pareceu perceber.

—Pobre menina. — Menina? Olivia se aproximava a toda velocidade dos quarenta; com toda certeza, Brenda era mais jovem que ela. Não pôde recordar ninguém que a tivesse chamado de «menina». Mas se voltasse a ser menina, desejaria que uma mulher como Brenda Davidson fosse sua mãe.

Brenda se afastou e a olhou fixamente nos olhos com a resolução escrita em seu rosto.

—Encontraremos a Amanda e a traremos para casa. E lhe prometo que ela não voltará a duvidar jamais de que a amo com todo meu coração. Sobreviveremos.

Olivia acreditou.

Não viram nada útil no dormitório de Amanda. Brenda voltou a recitar as coisas que faltavam: dois animais de pelúcia, um pouco de roupa e dinheiro, uns cem dólares que calculavam haveria no cofre. Sua bicicleta também tinha desaparecido da garagem.

Quando saíam do quarto, Olivia reparou em um computador colocado em um canto no alto da escada. As estantes de ambos os lados estavam abarrotadas de papéis e livros infantis.

—Este não é o escritório de seu marido.

—Não, é para as crianças. Para que façam os deveres e joguem no computador.

—Amanda sabe utilizar o computador?

Brenda sorriu com tristeza.

—E que criança de hoje em dia não sabe?

Olivia se sentou diante da tela, e quando estava a ponto de acender o computador, deu-se conta de que já estava conectado. Moveu o mouse e a tela preta foi substituída por um papel de parede com a foto das crianças Davidson — os três — vestidos para Halloween.

Brenda respirou tristonha.

—Deus, quanto falta sinto dela.

—Nunca deixará de sentir — disse Olivia em voz baixa. Abriu o navegador de Internet e estudou o histórico.

Alguém tinha acessado ao Mapquest, um programa de cartografia grátis da Internet, às 03h35min da madrugada. Desse dia. O coração de Olivia se acelerou; abriu o último mapa consultado.

—Amanda teria alguma razão para ir ao vulcão Monte Santa Elena? —perguntou Olivia.

—A Santa Elena? Ai, Deus, não! — Brenda se inclinou sobre o ombro de Olívia —. Ai, Meu Deus! Os vulcões lhe dão um medo terrível. Não tinha nascido quando Santa Elena entrou em erupção, mas estivemos falando do tema. Ela dizia que quando Deus se enfurece, faz que as montanhas explodam. — incorporou-se de repente —. Isso é longe! Minha pobre garotinha! — Brenda desceu as escadas correndo, chamando seu marido.

Olivia imprimiu o mapa que Amanda levava consigo e tentou raciocinar como uma menina de seis anos.

A Interestadual 5, que conduzia ao Monte Santa Elena, estava a uns três quilômetros da área residencial onde viviam os Davidson, ainda que não houvesse forma que de que a pequena Amanda pudesse acessar com sua bicicleta à rodovia sem ser detectada. A essa altura, a patrulha das estradas já teria localizado à menina. E embora fosse tão decidida como parecia, a rodovia era um lugar muito aterrador. Não, Amanda se manteria nas estradas secundárias todo o tempo que pudesse.

Olivia se concentrou no mapa e escolheu o trajeto mais reto longe da rodovia. Muito bem, uma menina de seis anos em uma bicicleta. Começaria pedalando depressa, mas se cansaria e diminuiria a marcha. Faria, talvez, em média de algo mais de três quilômetros por hora? Isso a situaria bem ao norte de Kent.

—Olivia? — Zack subiu correndo as escadas e olhou por cima do ombro dela —. A mãe diz que a menina foi ao Monte Santa Elena. O que está acontecendo?

Olivia lhe pôs à par do que tinha descoberto enquanto eles estavam lá embaixo.

—Acredito que agora estará por aqui — disse assinalando a área que rodeava Kent.

Zack assentiu com a cabeça.

—Vamos.

—Vou com vocês — disse Brenda.

—Deveriam permanecer em casa se por acaso ligar — lhe disse Zack.

O senhor Davidson sacudiu a cabeça.

—Não, eu que ficarei. Vá você, Brenda. E traz Amanda para casa.

    

Amanda estava sentada sob uma grande árvore e chorava. Doíam-lhe as pernas, e tinha comido toda a comida que tinha levado e continuava tendo fome. Em algum lugar, talvez quando se deteve no campo para observar, tinha perdido Bessie. O sol queimava, mas não se atrevia a tirar a jaqueta porque havia se esquecido do protetor solar e se queimava com facilidade.

Ia decepcionar a sua mamãe. Jamais conseguiria chegar ao vulcão e levar Michelle de volta. Parecia tão perto no computador, mas nem sequer podia ver ainda a montanha. Nunca poderia arrumar as coisas e fazer que Mami voltasse a amá-la de novo. Mas não podia voltar para casa.

Talvez mamãe não se desse conta de que havia partido; talvez continuasse chorando, e Amanda pudesse voltar às escondidas nessa noite.

Respirou entrecortadamente e limpava as lágrimas. Iria para casa e se esconderia na garagem até que todos fossem dormir, e então entraria. Ninguém sentiria falta dela.

—Amanda!

Levantou o olhar. Mami?

—Mami! — levantou-se com um salto e pôs-se a correr com pressa que lhe permitiram suas cansadas pernas —. Mami!

—Oh, minha menina! — Sua mãe a levantou nos braços, e a abraçou com tanta força que Amanda não pôde respirar, mas não disse nada porque nunca havia se sentido tão bem em sua vida. Começou a chorar de maneira incontrolável.

—Mami, tentava levar Michelle de volta. Tentei, mas o Céu está muito longe e não pude encontrá-lo. — As lágrimas de sua mãe se mesclaram com as suas —. Continuas chorando, Mami. Sinto muito.

—Não, minha menina, não. Choro de alegria.

—Mas…

—Amo você. Amo muito. E me deu um grande susto, Amanda. Não sabia onde estava nem por que tinha ido.

—Pensava que não se daria conta de que eu tinha ido.

O corpo de sua mãe ficou rígido. Então, Brenda se sentou no chão, colocou Amanda no colo e começou a beijá-la por toda parte.

—Neném, eu te amo. Sou eu quem sente muito.

—Sente falta de Michelle.

—Sim. Sim, sinto falta de Michelle.

—Eu também sinto.

—Eu sei. — Brenda a abraçou com força contra seu peito, subindo e descendo a mão pelas costas de sua filha, ao mesmo tempo em que desejava poder afugentar a dor e a tristeza que tinham preenchido suas vidas desde a morte de Michelle.

Nunca esqueceria Michelle; ela teria um lugar privado em seu coração. Mas o mais importante é que não voltaria a descuidar do resto de sua família nunca mais.

Eles precisavam dela. E o que não tinha percebido até esse momento era de que ela precisava deles.

 

Zack e Olivia não falaram muito durante o trajeto para a casa dos Davidson. Já era mais do meio-dia quando levaram Amanda e Brenda de volta a seu lar. De lá, foram para à delegacia de polícia, onde a desenhista mostrou seu trabalho, embora fosse muito vago para ser utilizado pelos telejornais. O homem poderia ter sido qualquer um, e a desenhista não tinha certeza de que Sean tivesse recordado suficientes detalhes.

O único detalhe que Sean descreveu bem foi a tatuagem. Quando Olivia viu o desenho, soube sem nenhuma dúvida que era a mesma tatuagem do homem que havia matado Missy.

Brian Harrison Hall tinha uma idêntica em seu braço.

—O homem da Califórnia que acaba de ser solto tinha uma tatuagem igual a esta — disse Olívia —. Uma testemunha o identificou por sua tatuagem.

Zack estudou sua cópia do desenho.

—Uma águia azul. Califórnia… — Deu um olhar no quadro - foi a trinta e quatro anos. A primeira vítima. — Fez uma pausa e olhou para Olívia —. Falamos a respeito de que este assassino provavelmente não trabalhe com um companheiro, mas e se ele e esse outro cara…? Como disse que se chamava? Hall?

Olivia assentiu com a cabeça sem surpreender-se de que Zack se lembrasse.

O detetive deu uns golpezinhos sobre o desenho da tatuagem.

—Bom, consideremos isto atentamente. Suponhamos que Hall fosse inocente… e acredito que fosse. Se tivesse suspeitado de nosso cara, teria dito algo a respeito, certo?

—De acordo.

—Então Hall é inocente, mas é muita casualidade que dois homens de mais ou menos a mesma idade e compleição, com tatuagens iguais, que viviam na mesma cidade e com acesso à mesma caminhonete não se conhecessem.

—Quer dizer que poderiam ter se conhecido, embora Hall não tivesse nada que ver com o assassinato? — Olivia se deu conta. Aquilo tinha sentido.

—Exato. — Zack se levantou e começou a dar voltas pela sala —. Suponhamos por caso, devido à tatuagem, que serviram juntos no Vietnã. Quando Hall foi licenciado? — Zack pegou uma pasta e começou a folheá-la.

—Em 10 de abril de 1972 — disse Olivia lhe tirando a pasta.

Não queria que Zack visse todos os detalhes que ela continha. Ela tinha escrito só os primeiros nomes das vítimas na pasta. Se ele investigasse muito, veria que a primeira vítima compartilhava sobrenome com ela.

Zack a olhou assombrado.

—Boa memória.

Olivia não fez nenhum comentário; aprendeu de cor o processo do caso de Missy.

—Apostaria o que fosse que nosso assassino serviu com Hall no Vietnã. Talvez foram licenciados ao mesmo tempo. E pode ser que não se dessem bem entre eles.

—Está sugerindo que nosso assassino pregou uma armadilha a Hall?

—Tudo é possível neste ponto. Mas acredito que devemos seguir com a hipótese de que se conheciam, e isso nos dá algo com o qual seguir. — Pegou o telefone e marcou uma extensão —. Não vai ser fácil conseguir os registros militares, mas acredito que sua gente provavelmente possa consegui-los mais depressa.

Ao telefone, Zack disse:

—Chefe? Aqui Travis. Olhe, acredito que precisamos nos pôr em contato com o escritório de Seattle. Tinha intenção de lhe ligar esta manhã, mas com a busca de Amanda Davidson… Sim, bom… Duas coisas. A primeira, é que a agente St. Martin e eu temos a teoria de que nosso assassino serviu no Vietnã e que deve ter se licenciado por volta de abril de 1972… Ficamos entre finais de 1971 e outubro de 1972. Segundo, se lembra das marcas nos braços das vítimas? Doug Cohn falou ontem à noite com vários laboratórios, e em suas vítimas apareciam as mesmas marcas. Doze espetadas. Necessitamos que algum perito nos ajude a descobrir o que poderiam significar.

Zack escutou um momento antes de continuar.

—De acordo, chame e arrume; depois, faça que entrem em contato comigo e com a agente St. Martin, e lhes informaremos o que temos descoberto até o momento. — Desligou.

—Sabe uma coisa? — disse Zack—. Depois que o chefe apresentar o pedido a Seattle, talvez você devesse trabalhar em conjunto com seu pessoal. Não tenho nenhum problema a respeito. Conheci muitos federais que enganaram este Departamento, mas você esteve fantástica. Não teria nem a metade do que tenho, se você não tivesse contribuído.

—Eu… — O que poderia lhe dizer sobre isso? Respirou fundo —. Zack, acho que deveria explicar…

—Esqueça isso… Tenho uma idéia.

—Qual?

—Fazer que Hall colabore.

Olivia entrecerrou os olhos.

—Não entendo.

—O cara que acaba de ser solto. Acredito que sabe perfeitamente a quem estamos procurando. Embora não tenha pensado nisso, provavelmente dará um nome, se lhe fizermos as perguntas adequadas… Tais como: conhecia alguém que tivesse servido no Vietnã que estivesse em Redwood City com você? Muitos desses caras saíam juntos. Então o ambiente não era favorável ao exército. Creio que o conheceu ou pode nos dar alguns nomes de caras com uma tatuagem parecida.

Olivia não soube o que dizer. Sim, a idéia era brilhante. Era quase certo que Hall teria nomes. Mas a mera idéia de vê-lo depois de ter testemunhado contra ele, então e em cada uma das vistas de sua liberdade condicional, aterrorizava-lhe.

Mas teria que fazê-lo. Era a melhor pista que tinham.

—Ligarei para o escritório do promotor do distrito e lhes pedirei que entrem em contato com o advogado de Hall — disse Olivia.

—Enquanto você faz isso, irei falar com Doug Cohn para ver o que está ocorrendo com os processos dos laboratórios sobre essas doze marcas.

Zack passou a seu lado e lhe deu um apertão no ombro. O gesto se tornou íntimo quando seus dedos lhe massagearam o pescoço.

—Estamos perto, posso sentir. Ânimo! E quando apanharmos esse bastardo a convido para jantar em um restaurante com vista para o lago Union.

E tendo dito isso, partiu.

Olivia deixou que ele partisse. Podia tê-lo detido e ter contado a verdadeira razão de sua presença ali, mas não o fez. Só estava ganhando tempo.

Procurou em sua agenda o número do escritório do promotor do distrito do condado de São Mateo, da que Hamilton Craig era o titular. Passaram-na de um escritório para outro até que, no final, alguém lhe disse que o promotor não poderia atender e se ofereceu a ajudá-la.

Olivia não queria falar com ninguém que não conhecesse, assim desligou e encontrou o número do celular de Gary Porter.

Gary era o policial, já aposentado, que tinha investigado o caso de Missy, e ido a todas as vistas da condicional para opor-se à saída de Brian Hall. Não só tinha apoiado Olivia todas as vezes que esta tinha testemunhado contra a concessão da condicional a Hall, mas também tinha sido a figura paterna de que ela havia precisado durante o julgamento inicial. Seus pais estavam tão consternados e turvados pela dor, que quase não estavam conscientes de que Olivia estivesse na mesma sala. Isso para não falar do que tinha tido que passar contando aos advogados e ao juiz o ocorrido no dia em que Missy havia desaparecido.

Independentemente do que ocorresse com aquele caso, embora perdesse seu trabalho ou a seus amigos ou o respeito de Zack, jamais lamentaria sua decisão, se tinha evitado a Amanda Davidson dor emocional que ela tinha sofrido de menina.

Gary respondeu ao terceiro toque.

—Gary, sou eu Olivia St. Martin. Como você está?

—Poderia estar melhor.

—O que aconteceu?

O policial fez uma pausa.

—Não recebeu minha mensagem? Deixei uma no telefone de sua casa e outro no de seu escritório há dois dias.

—Não. Não o recebi. Não… não estou na Virginia neste momento.

—Hamilton Craig foi assassinado a tiros. A polícia acredita que surpreendeu um ladrão em sua casa.

—Hamilton? Está morto?

Olivia apoiou a testa na mão, e sentiu a pele repentinamente úmida pelo suor. Não podia imaginar o animado promotor do distrito, que para ela tinha sido mais importante que a própria vida quando era menina… morto. Essa era a causa de que a tivessem evitado no escritório do promotor do distrito.

—O funeral é esta noite.

—Quanto lamento.

—Se não era por causa de Hamilton, para que está ligando?

—Poderia ter uma pista no assassinato de Missy.

Houve um longo silêncio.

—Ah, sim?

—De uma maneira um tanto extra-oficial estive ajudando em outro caso que guarda uma assombrosa semelhança com o caso de Missy. Pensamos que talvez Hall conheça o assassino de Missy. — Olivia lhe explicou sobre as tatuagens, o que a testemunha de Seattle tinha visto e a teoria de Zack de que o assassino tinha lutado no Vietnã com Hall, e de que talvez tinha lhe preparado uma armadilha ou ao menos o conhecia quando lhe roubou a caminhonete.

Gary não disse nada durante um bom momento.

—Gary?

—Está em Seattle agora?

—Sim.

—Não sabia que tivesse conservado sua condição de agente de campo.

Olivia não respondeu.

—Não tem nada a dizer. O que quer que eu faça?

—No escritório do promotor do distrito estiveram me enrolando (não me disseram nada sobre Hamilton), e não conheço ninguém mais lá. Necessito que alguém entre em contato com o advogado de Hall para ver se podemos interrogá-lo.

—Quem? Você?

—Ou o detetive com quem estou trabalhando ou alguém dali. Eu não, não, pessoalmente. Sei que não devo estar perto. Embora acredite que Hall colaborará não acha? Acaso não gostaria de saber que alguém lhe preparou uma armadilha para enviá-lo para a prisão?

—Tem razão, Hall gostará. Vai vir também?

—Duvido. — Queria ir, mas assim que o FBI local entrasse em ação, me ordenaria que voltasse para a Virginia —. Mas vou tentar. Simplesmente, não assistirei ao interrogatório.

—Entrarei em contato com o escritório de Hamilton e passarei a informação. Tenho certeza de que colaborarão. Como posso me pôr em contato com você?

—Ligue no meu celular. Ou melhor, ainda, diga que liguem ao detetive Zack Travis, do Departamento de Polícia de Seattle. — Deu-lhe o número de Zack, despediu-se e desligou.

Olivia ocultou o rosto em seus braços e respirou fundo. Sua vida estava entrando em uma espiral de descontrole, mas estavam muito mais perto de encontrar o assassino de Missy. E isso valia algo. Embora Zack a enviasse de volta a Virginia ou Rick Stockton a despedisse, ela não poderia deixar de avaliar o que tinha contribuído à investigação. Tinha que centrar-se nisso.

O telefone da mesa da sala de reuniões soou.

—Alô — respondeu.

—Liv, sou eu, Zack. Venha ao laboratório. O gênio Doug Cohn acaba de averiguar o que significam as marcas; não vai acreditar.

 

Oito pessoas se meteram como puderam na sala de reuniões do laboratório, que era a metade da que Zack tinha requisitado para a investigação do Aniquilador. Olivia detestava o apelido que a imprensa tinha posto no assassino, mas, aliás, parecia ser uma carteira de nacionalização, e já tinha ouvido mais de um policial utilizar o termo.

Doug Cohn estava parado diante de todos, envergonhado pela audiência enquanto brincava com os óculos que não parava de colocar e tirar. Além de Doug, Zack e Olivia, na sala estavam Nelson Boyd e Jan O’Neal, dois membros da equipe de Doug apresentados como Randy e Deb, e o próprio chefe de polícia, Lance Pierson.

Embora Olivia pensasse que estaria nervosa, a familiaridade dos murais e informação sobre questões cientificas e legistas que cobriam a parede lhe proporcionaram segurança e tranqüilidade.

Doug pigarreou.

—Obrigado por vir. Serei o mais breve que puder, embora acredite que é importante que todos compreendam como cheguei a esta conclusão - disse.

Zack intercedeu.

—Para pôr todos à par o mais depressa possível, concentremos-nos primeiro nas caminhonetes que sabemos se que foram utilizadas para transportar à vítima. Boyd?

O jovem detetive se ergueu.

—A detetive O’Neal e eu visitamos seis casas de King County que tinham registrado tanto um Ford Expedition como um Dodge RAM. Todos os proprietários se mostraram colaboradores, permitiram-nos inspecionar os veículos e nos deram conta do paradeiro de cada veículo nos dias em questão.

—O que há sobre Expedition cujo roubo foi denunciado na véspera do seqüestro da menina Benedict? — perguntou Zack.

—Nem rastro dele. Alertamos a todos os estados próximos para que estejam de olho aberto.

—Da minha parte, inclino-me a aceitar a teoria da agente St. Martin, de que o suspeito rouba um veículo quando lhe convém — disse Zack — e o restitui antes que alguém se de conta de seu desaparecimento.

—Isso implicaria que o assassino tem acesso a esses carros até durante três dias, durante os quais ninguém perceberia seu desaparecimento, ou durante os quais é livre para utilizar diferentes veículos sem que ninguém o considerasse estranho — disse o chefe Peterson.

Ninguém disse nada durante alguns segundos.

—Temos que falar com todas as agências de aluguel de carros, concessionárias e com os encarregados dos estacionamentos prolongados dos aeroportos — disse Zack.

—Boyd e eu podemos nos encarregar disso — disse Jan O’Neal tomando nota.

—Ativei um controle na base de dados de roubos de veículos — interveio Doug —, de maneira que se uma perua ou uma caminhonete coberta é roubada em King County, me notifiquem. Durante os dois últimos dias denunciaram vinte e três roubos, e o detetive Travis alertou às patrulhas para que os ponham em sua lista de prioridades.

—O assassino os utiliza fundamentalmente para transportar; não mata suas vítimas no veículo — disse Olívia —. Uma quantidade assim de sangue seria impossível de eliminar por completo.

—Mas nunca encontramos a cena do crime — disse Zack —. Os corpos são jogados em outras partes.

Os presentes se olharam uns aos outros.

—E o lugar em que vive? — interveio Doug —. Necessitará de intimidade. Talvez nos arredores. Algum lugar que tenha pouco ou nenhum tráfego e poucos vizinhos.

—Viveria em uma casa, não em um apartamento — disse Olivia.

Doug assentiu com a cabeça.

—Um lugar onde ninguém pudesse vê-lo conduzindo um corpo do carro à casa e vice versa.

—Tem que ter uma garagem junto à casa ou um quintal de pelo menos um hectare.

—Ou talvez leva a vítima para um lugar afastado para matá-la e depois joga o corpo na cidade — disse Zack.

—Em qualquer caso, o que procuramos é uma zona discreta — concordou Pierson.

—E por que joga o corpo na cidade? Poderia abandoná-lo nas montanhas, onde é difícil encontrá-lo. — Olivia pensou na investigação do Açougueiro de Bozeman, que havia durado anos. Ainda não se havia recuperado todas as vítimas conhecidas, e provavelmente nunca se conseguiria.

—Exceto pelo que se refere às primeiras vítimas — recordou Zack a Olivia.

O detetive explicou aos presentes o que ele e Olivia tinham falado sobre a possível espontaneidade dos primeiros assassinatos e o abandono do corpo em um lugar mais afastado para fazer mais improvável um descobrimento rápido da vítima.

Ninguém teve uma resposta satisfatória ao fato de que o assassino jogasse os cadáveres posteriores na cidade.

—Graças à informação proporcionada pela agente St. Martin pedi a Doug que trabalhasse com os laboratórios das demais jurisdições onde ocorreram crimes parecidos. Tanto Doug como a nos intrigava as marcas nos antebraços das vítimas. Nem o legista e nem uma busca superficial na base de dados criminal produziu detalhe algum que se aproximasse da solução — disse Zack.

—As marcas foram realizadas post mortem - disse Doug —. Doze espetadas nos antebraços das vítimas, aparentemente uniformes.

—Significa algo o número doze? É uma recontagem de suas vítimas?

—Consideramos essa possibilidade, exceto todas suas vítimas tinham as doze mesmas espetadas. O doze pode significar qualquer coisa: doze são os apóstolos do Novo Testamento, doze é uma dúzia, poderia ser que fosse a idade que o assassino acredita que têm suas vítimas… Poderia ser quase qualquer coisa — disse Doug.

—Essa foi a razão pela qual lhe pedi que entrasse em contato com o escritório de Seattle — disse Zack a Pierson —. A agente St. Martin diz que seu departamento de investigação pode investigar para ver se conseguem algum significado.

—Mas já não precisamos nos consultar com eles — disse Doug —, porque o resolvemos. Ao menos, acredito que sim.

—E você o conseguiu — garantiu Zack.

Doug se separou de um mural de cortiça onde estavam colados três jogos de duas fotos. Olivia se deu conta imediatamente de que a segunda foto fora tirada com a câmara de um microscópio. Os cortes, que na superfície pareciam espetadas — quase como gomos — eram na realidade duas marcas diferentes.

—As fotos superiores foram obtidas do corpo de Michelle Davidson, as do meio de Jennifer Benedict, e as de debaixo de uma vítima de Massachusetts. Como podem ver, as marcas de ambas as vítimas são virtualmente idênticas. Claramente, esta «assinatura», a falta de uma palavra melhor, vincula nosso assassino com o de Massachusetts. E os outros laboratórios com os quais falei têm uma documentação parecida, ainda que muita esteja armazenada, já que os casos ocorreram há vinte ou trinta anos.

—Doug fez um trabalho fantástico ao conseguir esta informação — disse Zack —. Pedimos a todas as demais jurisdições que se ponham a trabalhar nisto conosco. Seguimos recebendo informação por fax e por e-mail, e as caixas com as provas estão a caminho. Mas, devido ao delicado da situação que entranha tratar com Kansas e Kentucky, porque ali condenaram alguém por estes delitos, decidimos não nos pôr em contato com eles até que não tenhamos detido um suspeito. Depois, compartilharemos nossa informação com esses departamentos de polícia, e então poderão decidir o que fazer com os condenados. Pode haver informação adicional da que não tenhamos conhecimento.

—Se pudermos manter à imprensa à margem enquanto seguimos este cara, tanto melhor — disse Pierson —. Não quero que estraguem as coisas.

Olivia estava olhado fixamente as marcas dos antebraços. Tinham o aspecto de pontos e linhas pequenos. Ponto, linha, linha, ponto, linha, linha, ponto. Depois, o desenho mudava, se é que era um desenho.

—Há duas marcas características — disse —. São como pontos e linhas, mas não formam um desenho.

—Muito bem. — Doug acompanhou sua expressão de aprovação com um movimento de cabeça e pegou um marcador metálico —. Na realidade foi sua informação que me deu a pista.

—Minha informação?

—Você contou ao detetive Travis o erro judicial da Califórnia. O cara tinha uma tatuagem, parecida ao identificado por nossa testemunha, Sean Miller, e tinha combatido no Vietnã. Assim liguei para o meu pai. Tem oitenta e cinco anos e lutou na Segunda Guerra Mundial, e sabe tudo sobre o exército. É sua obsessão. Estivemos falando sobre a tatuagem, e me disse que a águia era uma tatuagem freqüente entre os soldados. Continuando, perguntei-lhe pelas marcas que tanto me inquietavam; disse-lhe que não se pareciam com um desenho e que, embora uniforme, assemelhavam-se a alguns pontos e algumas linhas. Então, pediu-me que lhe desse por ordem os pontos e as linhas… tal e como aparecem aqui. «Pode as ler para mim?», perguntou. E fiz isso. «Isso é código Morse», disse-me.

—Código Morse? — perguntou Olivia boquiaberta —. Marca suas vítimas com uma mensagem de Morse?

—O código Morse é um sistema de pontos e linhas que se usava para as transmissões telegráficas, mas que foi perdendo vigência desde 1979. Hoje em dia está obsoleto.

—Mas no Vietnã era utilizado habitualmente — disse Pierson —. Encaixa perfeitamente.

—No código Morse, cada letra tem alguns pontos atribuídos e algumas linhas. Por exemplo, a letra «A» é ponto, linha, a «B», linha ponto, ponto, ponto, etcétera. Já que não há nenhuma pausa nem interrupção entre as marcas de nossas vítimas, meu pai demorou alguns quantos minutos para resolvê-lo, mas temos uma palavra.

Doug fez uma pausa.

—Angel.

«Angel?» Olivia pronunciou a palavra. O coração lhe golpeava o peito quando perguntou:

—E o que significa isso? Está assinando os corpos? O «Angel» se refere a ele? Ou está dizendo que sua vítima é um anjo? Ou outra coisa completamente diferente?

—Bingo — disse Zack – Essa é a pergunta do milhão de dólares. Chefe já ligou para o FBI de Seattle?

—O chefe do escritório estava no tribunal, mas lhe deixei todos meus números. Responderá a minha chamada; trabalhei com ele anteriormente.

—Temos que averiguar o que significa o «Angel» — disse Zack —. Se for sua assinatura, a maneira em que vê a si mesmo ou se fizer referência à vítima. Também temos que conseguir o registro de todos os licenciamentos militares, honrosos e desonrosos, até o primeiro assassinato. Olivia, o que aconteceu com sua conversa sobre aquele velho caso?

—O promotor do distrito morreu recentemente, mas falei com o detetive encarregado da investigação original, e vai localizar o advogado de Hall para ver quando você pode falar com ele — disse Olívia —. Eu lhe dei seus números de contato e lhe disse que era fundamental que falássemos com Hall o quanto antes possível.

Zack pôs à par ao resto da equipe sobre a possível conexão entre aquele erro judicial e o assassino.

—Não resta muito tempo — disse Zack dirigindo-se a todos —. Se mantiver seu padrão, matará uma vez mais e depois desaparecerá. Se não o pegarmos agora, pode ser que demore anos para reaparecer.

    

Tinha desempenhado uma diversidade de trabalhos com diferentes nomes ao longo dos anos, mas sua melhor fonte de informação procedia do trabalho nos restaurantes.

Quando vivia em Atlanta, seu nome era Tom Ullman e trabalhava de barman. Trabalhar em um bar lhe fornecia a melhor informação pessoal, e lhe permitia encontrar a caminhonete adequada com absoluta facilidade. Mas também tinha que escutar muitas baboseiras, e todo mundo queria conversar.

Ele não queria falar; só lhe interessava escutar.

No Colorado e em Kentucky não tinha trabalhado em nenhum restaurante nem bar, mas quando atacou em Massachusetts, chamava-se Andrew Richardson e tinha encontrado trabalho em um restaurante grande e agradável situado no setor de classe média de Boston. E como era um homem paciente, foi capaz de esperar até conseguir a informação necessária.

O trabalho nos restaurantes também lhe permitia observar facilmente e com discrição o estacionamento. Quando conseguia o que precisava saber, observava a partida dos clientes. Se eles tinham o tipo adequado de veículo, era um presságio de que era o momento adequado para entrar em ação.

Nesse momento respondia pelo nome de Steve Williams.

Tudo estava saindo à perfeição, como se estivesse destinado. Já tinha encontrado o anjo; nessa noite encontraria a caminhonete.

Estava em Vashon bem mais de um ano e não só tinha chegado a reconhecer os clientes habituais, mas também conhecia seus veículos e horários. Kart e Flo Burgess estavam aposentados e viviam em West Seattle. Iam a Vashon para almoçar pelo menos uma vez por semana, e geralmente eles se sentavam na área que ele atendia, porque não tinham que lhe recordar que à senhora Burgess gostava de seu Martini com vodca com quatro azeitonas.

Tinham um Ford150 com ar condicionado como ele gostava.

Colocou a bandeja com o troco do casal sobre a mesa.

—Obrigado por vir. Até na semana que vem.

Estava a ponto de se afastar, quando a senhora Burgess disse:

—Amanhã vamos visitar nossa filha. Não voltaremos até dentro de algumas semanas.

O coração dele se acelerou, e sorriu.

—Tomem cuidado na estrada.

Karl Burgess negou com a cabeça.

—Este ano não me sinto com forças de dirigir até Phoenix.

—Suas costas — disse a senhora Burgess em um meio sussurro —. Está ficando velho. — Ele sorriu e deu um tapinha na mão de sua esposa.

—Então os verei quando voltarem — disse ele, e se afastou.

Estava tão impaciente para terminar seu plano, que quase não se sentiu capaz de acabar seu turno, mas se obrigou a ser paciente. Tudo estava saindo à perfeição. No dia seguinte era sexta-feira; sabia onde se encontraria exatamente seu anjo.

Escutou às escondidas a conversa dos Burgess, enquanto estes terminavam seus cafés. Seu vôo saía cedo, e iriam de carro até o aeroporto. Isso significava um estacionamento de longa duração.

Tinha entrado e saído do estacionamento de longa duração em Atlanta, Kansas City e Austin. Seattle seria muito fácil.

Acostumou-se a ficar alguns minutos no local depois de acabar o turno, porque a maioria dos garçons assim o fazia. Não queria se destacar. Sabia o que as pessoas pensavam dele: um cara agradável e que gostava de seu ofício e que se esforçava em promover seus dotes artísticos. Tinha certo talento, e se preocupava em levar algum desenho para mostrá-lo ao pessoal. Isso lhe proporcionava a desculpa necessária para que ninguém pensasse muito nele.

Havia dito que era divorciado, e que havia se mudado e estabelecido na ilha de Vashon em busca de uma mudança aprazível. Também havia dito que tinha uma filha maior na universidade, assim, se alguma vez chegava tarde ou tinha que desaparecer durante alguns dias, dizia que tinha ido visitar sua filha no Oregón. Era bem perto para uma viagem de fim de semana, mas não tão perto para que alguém esperasse que ela o visitasse.

O êxito radicava nos detalhes. Planejava tudo com cuidado, de maneira que as pessoas acreditassem no que ele queria que acreditassem. E dado que a história era parecida em todos os estados, nunca perdia o fio de quem fingia ser.

Mas nessa noite, disse que estava cansado, e partiu do restaurante assim que havia terminado; caminhou até sua cabana, distante uns oitocentos metros, e foi diretamente ao dormitório. Tirou o mapa e o bloco de papel e planejou cada passo para o dia seguinte.

O dia seguinte seria o último. O pensamento tinha um gosto agridoce. Gostava da costa ocidental do Pacífico; em especial gostava de viver junto ao mar. Recordava-lhe sua primeira infância, antes de tudo mudar; quando só eram ele e sua mãe, e viviam, inseparáveis, na costa de um estado que quase não recordava. Antes que Bruce Carmichael aparecesse em suas vidas e lhes roubasse sua inocência e a vida de sua mãe. Antes de Angel.

Encontrou-se sentado na pequena varanda da cabana contemplando a acariciante cor do céu. O sol já se ocultara, mas não era o pôr-do-sol que lhe atraía, a não ser os diferentes tipos de cores do céu. O azul celeste, o arroxeado e o verde esmeralda. Entreteve-se contemplando a forma de cada cor se degradar até se converter em outra cada vez mais escura, enquanto a linha do horizonte de Seattle adquiria vida.

Angel teria se encantado em estar ali.

—Me tire daqui, por favor.

Ele e Angel estavam sentados na estreita sacada de um edifício de três andares sem elevador, apertados porque a sacada era apenas grande para conter um vaso de barro de flores. A velha do apartamento do lado tinha seis vasos que se desequilibravam na borda de uma grade de ferro; nos três meses que estavam vivendo ali, já haviam se quebrado dois vasos, fazendo-se pedacinhos contra a calçada de cimento de baixo.

—E aonde podemos ir? — perguntou ele.

Estava assustado. Aborrecia estar assustado, mas o medo o devorava até o ponto de lhe impedir de pensar. Não era o medo ao desconhecido, nem o temor a morrer de fome, nem a que o matassem.

Era o medo de parecer-se com Bruce mais do que ele queria.

—A qualquer parte — sussurrou ela abraçando os joelhos, com o formoso cabelo loiro balançando, resplandecente para ele, cintilando inclusive ali, naquela encardida sacada acima de uma rua transbordante de lixo. Ele esticou a mão e o tocou. Era tão suave —. Sinto-me mal quando me toca. Sinto-me muito mal. Às vezes, posso escapar, e invento histórias para poder pensar em outras coisas. Mas às vezes não posso, e então é pior.

Angel tinha completado nove anos na semana anterior. E algo que tinha acontecido naquela noite a tinha mudado.

Bruce havia feito mal a Angel na cama desta durante dois anos, desde que sua mãe morrera e Bruce os tinha com ele. Mas na semana anterior tinha sido pior.

—Ele vai me matar — sussurrou ela —. Igual à mamãe.

—Não deixarei que lhe mate.

—Não pode detê-lo.

A ira ferveu dentro dele. Ela pensava que não poderia protegê-la, que não seria capaz de defendê-la. Não sabia o muito que a amava?

—Vou escapar — disse ela —. Se não me ajudar, irei sozinha. — Tratou de não chorar ao dizer isso.

—Não pode me abandonar.

—Não quero fazer isso. Estou assustada. — Ela se recostou contra ele e deixou que a abraçasse. A ira tinha desaparecido, mas o medo era maior que nunca.

—Encontrarei a maneira. Encontrarei a maneira de afastar ele de você para sempre.

 

Depois de assistir ao funeral de Hamilton Craig, Gary Porter entrou em sua casa vazia. Sentia saudades de sua esposa, Janet, mas considerando todos os sacrifícios que ela tinha feito ao longo da carreira profissional de Porter, nesse momento não podia lhe impedir que realizasse seus sonhos, embora ambos fossem uns sessentões. Janet era licenciada em História, e nessa época trabalhava como guia de uma importante agência de viagens. Nesse momento, dirigia uma excursão turística para a terceira idade pela França. Sempre lhe pedia que a acompanhasse, mas Gary não tinha nenhuma vontade de viajar. Gostava de estar em casa, ter uma rotina; para ele, viajar era igual a estresse.

Embora sentisse saudades de Janet, quando ela estava em casa a relação de ambos era melhor e mais forte. Gostava de ouvi-la falar sobre seu trabalho e os lugares de interesse, e adorava que lhe projetasse os preparativos de cada viagem.

Nessa noite, entretanto, Gary se sentia velho e teria dado qualquer coisa para ter Janet com ele. Era o funeral de Hamilton, é obvio que o fazia sentir-se mortal; que lhe recordava que a vida era injusta e que um ato aleatório de violência podia segar a vida de um bom homem.

Foi acendendo as luzes distraidamente a caminho do escritório, enquanto seus passos ressonavam sobre o chão de madeira nobre. Uma rápida olhada no relógio do vestíbulo lhe indicou que já era muito tarde para ligar para Janet em Paris. Um abajur de chão em um canto, junto a sua poltrona de leitura - uma velha poltrona reclinável de couro que tinha há uns vinte anos — e um abajur de mesa proporcionava a única luz do cômodo. Deixou-se cair na amaciada cadeira do escritório e ligou o computador. Enquanto esperava, abriu a gaveta inferior e tirou uma garrafa de Glenlivit. Não bebia quando Janet estava em casa, mas se havia aficionado a beber alguns goles ou dois copos quando ela estava fora. Sentia saudades.

E sentia falta do trabalho.

Passou a mão pelo rosto tocando o bigode, já predominantemente cinza. O funeral de Hamilton era o quarto ao que assistia esse ano. Duas das mortes tinham sido devido a ataques cardíacos; outra tinha sido a de um policial morto em serviço. À medida que seus colegas iam ficando mais velhos e se aposentavam os funerais cada vez se deviam mais a causas naturais.

Serviu-se de uma boa dose de uísque escocês e começou a dar goles enquanto acessava a sua conta de e-mail.

Ao menos continuava sendo capaz de ajudar. Pôs-se em contato com Ned Palmer, um dos ajudantes do promotor do distrito que estava familiarizado com a investigação do assassinato de Melissa St. Martin, e Ned tinham lhe prometido que se colocaria imediatamente a tentar conseguir um encontro com Brian Hall. Gary tinha lhe dado os números de contato de Seattle, preocupado com Olivia.

Conheceu-a quando era uma criança assustada de cinco anos que, não obstante, guardava tudo dentro de si. Seus pais, perdidos em sua dor, tinham-na descuidado, e tanto ele como Hamilton a tinham acolhido sob suas asas protetoras. Asseguraram-se de que ela não tivesse que testemunhar no julgamento e só tivesse que contar ao juiz o que tinha visto. Não tinha havido turno de reperguntas. Nada que pudesse aterrorizar a menina.

Ao ficar mais velha havia se transformado em uma mulher linda e brilhante, mas Gary sabia que o assassinato de sua irmã tinha mudado o curso de sua vida para sempre. Era algo que ao longo de sua carreira ele havia visto muitas vezes. Uma morte violenta destruía mais de uma vida.

O quarto ficou às escuras.

—Merda! — resmungou enquanto fuçava na escrivaninha em busca da lanterna de bolso que sempre tinha à mão. Provavelmente tinha queimado um fusível. Fazia tempo que não ocorria algo assim.

Sem poder encontrar a lanterna, levantou-se, e tateando, dirigiu-se até a porta e avançou pelo corredor. Na cozinha, junto à parede, em cima de um alimentador de baterias, havia uma lanterna, porque Janet sempre estava preocupada com os terremotos. Quando se acabava a eletricidade, a luz se acendia e se podia ver o caminho na escuridão. Gary distinguiu as sombras que jogava a luz à medida que se ia aproximando da cozinha.

No mesmo instante em que cruzou a soleira, a porta traseira se abriu. Gary colocou a mão na pistola por costume, mas já não a usava.

—Quem…?

Antes de terminar a frase, reconheceu Brian Harrison Hall. O homem levantou o braço, exibindo uma pequena semi-automática. Assim que deu a volta para se pôr a correr, ouviu a detonação da arma e sentiu que o fogo se estendia por seu peito. O som se repetiu, mas a dor não aumentou.

Soube que ia morrer.

Gary caiu ao chão, tentou levantar-se, andou a tropicões alguns passos pelo corredor e desabou.

Não podia respirar. Sentiu que Hall parava junto a ele.

—Filho de uma cadela — balbuciou Gary com ira. Sua voz soou longínqua, como se falasse do fundo de um longo túnel.

—Você me transformou em assassino — disse Hall.

Gary ouviu outro ruído, mas seu último pensamento foi para Janet e seus formosos e risonhos olhos castanhos.

    

Zack, Olivia e Doug Cohn estavam trabalhando na sala de reuniões principal, elaborando um esquema dos seqüestros e as provas a partir do crescente monte de informações que as demais jurisdições tinham lhes enviado. Procurava algo, alguma conexão, que lhes proporcionasse outra pista. Talvez algo que se relacionasse com o código Morse ou a palavra «anjo».

O chefe Pierson apareceu às nove horas da noite e disse:

—Estou saindo, mas acabo de falar com o escritório de Seattle. Vão se colocar imediatamente com a conexão «anjo», e também revisarão os processos de todos os veteranos do Vietnã licenciados entre outubro de 1971 e outubro de 1972 e que estiveram domiciliados na Califórnia. Vai ser uma lista enorme, mas está tudo na base de dados. Pode ser que nos enviem isso amanhã pela tarde.

—Vão atribuir o caso a um de seus melhores agentes imediatamente, e provavelmente entre em contato com você.

—Quem? — Olívia ouviu-se perguntar.

—Quincy Peterson. Conhece?

Olivia assentiu com a cabeça. Quinn; o marido de Miranda e, além disso, um bom amigo.

De todos os agentes que ela conhecia, não podia ter pedido ninguém melhor.

Mas ia ter que admitir ante seus melhores amigos que esteve mentindo.

—É alguém bom? — perguntou-lhe Zack depois que Pierson saiu da sala.

—O melhor — disse ela.

O telefone soou, e Olivia deu um pulo quando Zack atendeu. Ela precisava comer e dormir; precisava sair dali. Tinha os nervos destroçados. Devia ligar para Quinn nessa noite e explicar-lhe tudo? Sim, tinha que lhe contar com exatidão os motivos de que tivesse feito o que tinha feito. Quinn merecia.

Quinn se atinha ao regulamento, mas sabia quando precisava saltar as normas. Só que Olivia não sabia se ele estava disposto a infringi-las.

—Estaremos lá. — Zack deixou cair o fone sobre o suporte enquanto riscava algo em uma caderneta.

—É, super agente, temos que sair correndo para a Califórnia. Era o ajudante do distrito do condado de São Mateo. Localizou o advogado de Hall, e amanhã às dez da manhã temos uma reunião. — Pegou o telefone antes que Olivia pudesse responder —. Hei Joe, poderia ligar para o aeroporto e pedir duas passagens para São Francisco? Para mim e para a agente St. Martin. O chefe lhe autorizará isso, prometo. Acredito que esta é nossa oportunidade.

Zack voltou a desligar.

—Joe diz que teremos que voar esta noite. Está arrumando tudo. Passaremos pela minha casa e pelo seu hotel e pegaremos uma bolsa de viagem.

—Não posso ir — disse Olivia.

Olhou para Doug Cohn e se perguntou como ia sair daquilo. O dia em que Zack ia estar fora ganharia tempo para falar com Quinn.

—Por quê?

—Eu… olhe, não posso pedir a Doug que ele faça todo este trabalho. Terá que revisar muitos processos; sozinho, levará toda a noite. E provavelmente também todo o dia de amanhã.

—Boyd e O’Neal podem nos substituir. Isto é importante, Olivia. Tem que vir; sabe mais que eu sobre os casos antigos. Venha, falaremos disso no caminho.

Zack tinha a habilidade de jogar por terra todos os argumentos de Olivia, e esta não soube o que dizer. Queria ter tempo para falar com Quinn antes que este aparecesse, mas voar para Califórnia desbaratava a idéia.

Seguiu Zack para fora da sala e tentou pensar na forma de lhe contar a verdade sobre o assassinato de sua irmã.

 

Zack dirigiu primeiro até sua casa, porque o hotel dela estava mais perto do aeroporto.

—Sinta-se como em sua casa — disse Zack enquanto abria a porta lateral e acendia as luzes —. Demorarei só um minuto.

A porta lateral dava acesso a uma copa envidraçada, uma peça que prometia ser ensolarada e acolhedora pelas manhãs. A mesa era do mais puro estilo anos cinqüenta, com um tampo de fórmica vermelha e pés sólidos, o tipo de móvel de vinte anos atrás que ficou defasado, mas que nesse momento estava na moda. Alguns vasos pequenos com ervas e flores enchiam um suporte de vasos da janela.

Algumas fotos emolduradas de etiquetas de caixas de fruta cobriam uma das paredes, e quando Olivia entrou na cozinha encontrou a pitoresca arte que ocupava todo o espaço disponível. Olivia saiu despreocupadamente da cozinha — que, à exceção feita dos eletrodomésticos modernos, combinava com a mesa do canto — e entrou em uma sala de jantar formal.

Os móveis eram velhos, claramente antigos, embora bem conservados. Algumas toalhas rendadas, que não combinavam em nada com a personalidade de Zack, aderiam-se nas superfícies do aparador e da mesa. Saiu da sala e entrou na sala, e soube que era ali onde Zack passava o tempo quando estava em casa.

Os móveis, estofados em couro escuro, eram macios e suaves. As paredes estavam cobertas com fotos da costa ocidental do Pacífico e cenas marinhas. Luzes ressaltavam vários quadros antigos. Os livros abarrotavam em fileira dupla o espaço das estantes que iam do chão ao teto em ambos os lados da lareira de tijolo. Nos cantos se amontoavam pilhas de livros, a maioria de mistério, êxitos de vendas e biografias. Mas o que mais surpreendeu Olivia foram as plantas: havia um monte delas. Algumas estavam penduradas no teto; havia também dois grandes vasos no chão, e diversas plantas pequenas de todo tipo em cima das mesas, todas viçosas. Nunca teria imaginado que Zack Travis tivesse tão boa mão para as plantas.

A sala estava lotada de coisas, mas não dava a impressão de desordem. Era acolhedora.

Olivia caminhou até uma mesa redonda que havia em um canto. Misturadas com as plantas, havia algumas fotografias emolduradas em porta retratos antigos de prata. Reconheceu o jovem Zack imediatamente; seus olhos eram tão escuros e penetrantes como quando era criança.

A princípio, Olivia pensou que a idosa das fotografias seria a mãe dele, mas quando os viu juntos se deu conta de que a idosa era sua avó.

Olivia se perguntou por que Zack não teria na casa fotos de sua mãe.

Uma garota, talvez uns dez anos mais jovem que Zack, aparecia em várias das fotos. Não havia dúvida de que eram irmãos; ele a tinha a chamado de Amy. E estava morta.

Olivia se sentiu intrigada pelo que tinha ocorrido à garota. Tinha sido uma menina linda e uma jovem encantadora.

Ouviu os passos de Zack sobre o chão de madeira nobre e se voltou para que ele não achasse que estava bisbilhotando.

—Eu gosto de sua casa — lhe disse.

—Obrigado. Era de minha avó.

—Morreu?

—Faz dezesseis anos.

—Sinto muito.

Zack deu um olhar a uma das fotos da mesa e sorriu com saudade.

—Chamava-a Mae diminutivo de Margaret. Não queria que a chamassem de vó nem nada parecido. Era para se desmanchar de dar risada com ela; nenhuma mulher poderia me ter criado melhor.

—O que ocorreu a seus pais? — perguntou Olivia, e levou a mão à boca —. Eu sinto muito, estou me intrometendo.

Zack rechaçou sua desculpa com um gesto da mão.

—Minha mãe não quis se encarregar dos filhos. Assim me deixou aqui quando fiz nove anos. Suponho que era muito peralta. Mae me acolheu; não tinha me visto desde que era um bebê. Minha mãe e ela não se davam muito bem. Mas Mae nunca descontou em mim. Depois, no fim de três anos, minha mãe voltou a passar por aqui, grávida, sem dinheiro e com o coração destroçado. Mudou-se para cá, e ela e Mae não paravam de discutir, por mais que elas se esforçassem em tentar que desse certo. Então, teve Amy, e no fim de quatro semanas se foi com algum cara que tinha conhecido na noite anterior. Nunca mais tive notícias dela.

—Oh, Zack, isso é horrível. — Olivia não soube o que era pior, se ser abandonado fisicamente pela própria mãe, como no caso dele, ou emocionalmente, como tinha ocorrido a ela depois da morte de Missy.

—Aos dezoito anos tentei encontrar ela. Mais por Amy que por mim. Amy não parava de perguntar por ela, de querer saber quando ia visitá-la. Acredito que para ela foi difícil ter uma senhora idosa como mãe, e um adolescente por irmão. Assim fiz algumas averiguações, consultei alguns registros públicos e acredito que acabei por esclarecer o que ocorreu.

—E o que foi? — Olivia não pôde evitar a pergunta.

—Morreu em um acidente de tráfego quando dirigia bêbada. — riu, embora não havia humor em seu tom —. Dirigia bêbada, e matou duas pessoas inocentes no choque.

Zack usava uma bolsa no ombro. Olivia percebeu que havia tomado banho e se barbeado — ainda estava com o cabelo molhado — e um perfume fresco de sabão o envolvia.

—A polícia nunca entrou em contato conosco porque não sabia quem era. Encontrei-a em uma base de dados de pessoas desconhecidas com a ajuda de um policial de Seattle. Ajudaram-me muito… Eu não era uma criança fácil de tratar. Parecia muito com a nossa testemunha, Sean Miller. Já sabe ressentido e tudo isso. Foi averiguando sobre minha mãe que decidi que queria ser policial. Despedi-me das más influências, matriculei-me em uma universidade pública e o resto é história.

—O que aconteceu com Amy?

A dor e as emoções encontradas escureceram o rosto dele, mas deu a impressão de querer contar, Olivia conteve a respiração, embora não soubesse a razão de fazer isso. Teve o palpite de que aquilo era importante para ele, e ter a sensação de que ele queria compartilhar com ela a comoveu. Era como se ambos tivessem dado um passo emocional para algo que ela não era capaz de reconhecer nem definir, embora fosse algo que ela desejava. Confiança? Compreensão? Não sabia.

—Meteu-se em uma confusão e acabou morta.

Tinha escolhido as palavras com cuidado. Havia mais do que ele tinha contado, mas Olivia não insistiu.

Em lugar de entrar em detalhes, Zack mudou de assunto.

—Seria melhor que nos mexêssemos. Nosso vôo sai dentro de noventa minutos.

O momento de intimidade se interrompeu, mas não o vínculo. Olivia perguntou a si mesma se Zack havia se dado conta de que algo tinha mudado entre eles ou se era somente produto de sua imaginação.

A caminho do hotel para que ela pegasse o indispensável para passar a noite, Olivia repassou todas as maneiras imagináveis de explicar a Zack a razão de que não poderia ir com ele para a Califórnia. Tinha que fazer isso. Não podia seguir mais fazendo malabarismos com as mentiras.

Zack parou o carro no estacionamento e desligou o motor. Estava a ponto de abrir sua porta, quando Olivia lhe tocou o braço.

—Espere.

Voltou-se para ela.

—O que acontece?

—Não posso ir com você.

Zack a observou durante um longo minuto com uma expressão difícil de interpretar.

—Isso é o que disse na delegacia de polícia. O que está acontecendo?

Olivia tragou saliva. « Tira isto de cima de você. »

—Disse a você que minha irmã foi assassinada, e que essa foi a razão para que eu entrasse no FBI. Mas não lhe contei toda a história.

Ele ficou tenso, mas não disse nada.

Olivia respirou fundo.

—Missy tinha nove anos, e eu, cinco. Estávamos no parque, e estava tarde. Eu queria ir para casa, mas Missy estava lendo; sempre se envolvia na leitura. —Tentou sorrir, mas só conseguiu fazer uma careta. —Afastei-me para ir até os balanços. Estava furiosa com ela, porque estava assustava, mas se eu fosse sozinha para casa, me teria metido em problemas. Tínhamos que permanecer juntas; essa era a norma. —Então, olhei para onde Missy estava e vi que um homem estava falando com ela. Gritei e comecei a correr na direção deles, mas ele me golpeou e pegou Missy. Essa foi a última vez que a vi com vida.

—Oh, meu Deus, Liv. Não sabe o que sinto. Não me surpreende que este caso seja tão importante para você. — Zack lhe tocou a bochecha, mas o roçar acabou convertendo-se em carícia. Olivia levantou a mão e tentou afastar a de Zack, mas ele a pegou entre as suas e a apertou com força —. Levou este caso surpreendentemente bem, mesmo que lhe tocasse tão de perto. Às vezes, nossos temores dirigem nossos objetivos. Não acontece nada.

—Não, não. Deixe-me terminar. — Em lugar de fazer que a conversa fosse mais fácil, a compreensão de Zack a estava angustiando —. Por favor.

Ele assentiu com a cabeça sem lhe soltar a mão.

—Não posso interrogar a Brian Harrison Hall. Eu testemunhei contra ele e ajudei a colocá-lo na prisão. Foi condenado pelo assassinato de minha irmã.

Zack piscou uma vez, duas, como se estivesse assimilando o que ela acabava de lhe dizer. Não podia ter ouvido bem.

—O que?

—Asseguro-lhe que estou sendo objetiva. Não vou estragar este caso.

—Mentiu para mim. — por que não o surpreendia? Não havia dito há apenas alguns dias que os federais sempre guardavam a informação importante para eles?

Zack retirou a mão das de Olivia com um puxão e a passou pelo cabelo.

—Não é assombroso? Por que não confiou em mim?

—Não é que não confiasse em você. Não o conhecia quando cheguei aqui. Não sabia onde estava me metendo na realidade. Realizei toda a investigação, conectei todos os pontos por causa desse erro judicial. Se não tivesse sido por mim, Jillian, e Jenny, e Michelle, poderiam continuar vivas hoje. Acusei Hall porque vi sua tatuagem; testemunhei contra ele. Se tivesse feito outra coisa, talvez nada disto tivesse ocorrido, e a polícia teria mantido aberta a investigação. Faria algo!

Durante o apaixonado relato dela, Zack a esteve observado. Viu a dor refletida em seu rosto, viu a angústia e o ardor. Ela não tinha mostrado abertamente suas emoções, e salvo pelo arrebatamento no lago depois de falar com Brenda Davidson, manteve-se emocionalmente distante. Porque estava muito implicada no caso. Dar-se conta de que ela se culpava por algo que claramente estava fora de seu controle, aplacou um pouco a fúria de Zack.

—Desejava que houvesse me dito isso no princípio.

—Sei, sinto muito. Queria fazer isso, mas pensei que você e todos os outros pensariam que estava muito implicada no caso.

—Me escute. Deveria ter dito isso, porque isto explica muitas coisas. Como seu arrebatamento na casa dos Davidson. Se as coisas tivessem ocorrido de outra maneira, poderíamos ter tido muitos problemas com eles. Mas você foi uma parte essencial desta investigação, e a verdade é que posso dizer que não estaríamos tão perto sem você. — Os casos que ela tinha levado com ela; sua forma de interrogar às amigas de Jenny e que os havia conduzido à testemunha, Sean Miller. E Zack tinha avançado quando tinha adotado as idéias e teorias dela. Ela era uma fantástica caixa de ressonância. Exceto quando duvidava de si mesma.

—Então tudo se tratava disso… Cada vez que lhe pedia que me desse sua opinião, você hesitava. Não queria expressar sua opinião por causa do que tinha ocorrido com a investigação sobre sua irmã. Absurdo! Olivia, você era uma menina! Viu o que viu. Corresponde aos adultos decifrar a informação e entender o que significa. A esta altura, deveria saber disso.

—E sei. — O tom de sua voz foi débil, e não deveria ter ocultado dele —. Racionalmente, sei que não seria a única culpada do que ocorreu na época. Havia provas circunstanciais, e um promotor, e um policial… mas em meu foro interno, não deixo de pensar que poderia ter feito ou dito outra coisa. Todas essas meninas… mortas. Igual a Missy.

As palavras de Olívia o desconcertaram. Desejou lhe garantir que tudo sairia bem, que apanhariam o assassino de sua irmã; que poderia esquecer aquela dor sabendo que tinha feito algo importante para corrigir os erros dos que, para começar, ela não era absolutamente responsável.

Esticou a mão para ela e lhe acariciou a bochecha suave e delicada com o dorso da mão. Quando a tinha conhecido, tinha pensado que era uma mulher pequena com uma vontade férrea. Rígida, profissional, todo eficácia e seriedade. Pela primeira vez, o termo «frágil» atravessou seus pensamentos. Zack colocou o cabelo dela atrás da orelha e lhe levantou o queixo, obrigando-a a olhá-lo.

A omissão de Olivia continuava incomodando-o em um nível distinto, embora não podia zangar-se com ela.

—Liv — disse com doçura —. Não posso lhe tirar os anos de sofrimento, nem o sentimento de culpa desde que se inteirou de que esse tal Hall é inocente. Mas posso lhe dizer que é você bastante incrível. Você tinha cinco anos, e seu mundo veio abaixo. Não posso nem imaginar o que se deve sentir em um caso assim.

—Compreenda que não posso interrogar Hall. Testemunhei contra ele nas vistas pela liberdade condicional. Não quererá me ajudar; não depois de ter ficado trinta e quatro anos na prisão.

Zack assentiu com a cabeça.

—Entendo. Mas continuo precisando de você lá. Ele pode nos dar algo para seguir investigando. Dois são melhor que um, e temos que voltar aqui o quanto antes possível. E você conhece o caso melhor que ninguém. Observará o interrogatório?

Olivia hesitou, e assentiu com a cabeça.

—Bom. — Zack olhou seu relógio.

—Mas…

—Nada de mas. Deveria subir correndo e pegar sua escova de dente, ou teremos que compartilhar a minha.

Ao dizer isso, Zack se deu conta de que não se importaria de compartilhar com Olivia muito mais que uma simples escova de dente.

    

Brian dava voltas pela toca que era seu apartamento a altas horas da madrugada. Não queria reunir-se com seu advogado e um policial de Seattle pela manhã.

Não depois do que tinha feito, especialmente.

Eles não sabiam; não podiam saber. Não tinha deixado rastros digitais, ninguém o tinha visto, não havia nada que o relacionasse com os assassinatos. Mas a pele lhe picava, e não podia evitar a sensação de levar os crimes escritos por todo o rosto.

Seu advogado o havia convencido para que comparecesse à reunião.

—Olhe Brian — havia dito Miles depois que Brian havia feito corpo mole, entre pigarros e interjeições, sobre ir à delegacia de polícia —. Entendo o que sente. Consegui que o escritório do promotor do distrito te conceda imunidade. Nada do que diga será utilizado contra você. E se os ajudar a apanhar esse assassino, você será um herói.

—Mas eu não sei nada! Não estava lá. Não conhecia a menina. Já lhe disse que não tive nada que ver com isso.

—Acredito em você, Brian. Mas os policiais acreditam que alguém que você conhecia pode ter te preparado uma armadilha para te incriminar. Roubou sua caminhonete e a utilizou no crime. Não quer saber quem é o responsável por sua prisão?

—Foram os policiais — balbuciou. Mas no final, tinha aceitado com a condição de que não tivesse que ir à delegacia de polícia. Miles conseguiu que se reunissem nas dependências que o defensor público tinha no tribunal.

Brian não podia dormir porque não podia tirar da cabeça que alguém que ele conhecia o tinha enviado para a prisão. Quem lhe odiava tanto? Quando voltou do Vietnã não lhe restavam muitos amigos na cidade. Os que não tinham ido à guerra partiram para à universidade ou mudaram de cidade ou o menosprezaram. Ele já não tinha andado com as mesmas pessoas. Tratava-se de alguém que havia trabalhado no armazém? Alguém do grupo de veteranos que tivesse conhecido no clube no qual tanto havia bebido naquele fatídico dia?

Antes que tivesse dormido, a alvorada despontou sobre a baía. Uma sensação angustiosa lhe tinha carcomido durante toda a noite.

Tinha matado duas pessoas por nada?

 

Zack dirigiu do hotel em que se hospedaram, situado na área do aeroporto de São Francisco, durante trinta minutos em direção sul até Redwood City. Olivia comentou a mudança espetacular que tinha sofrido a área desde a última vez que a tinha visitado, embora não parecesse inclinada a falar de sua infância. Zack decidiu que era hora de que se conhecerem.

—Quando foi a última vez que esteve aqui?

—Faz doze anos, quando me licenciei em Stanford.

—Em Stanford? Ora! No que se licenciou?

—Direito Processual Penitenciário, Psicologia e Biologia.

—Três licenciaturas? Caramba! Assim isso faz que tenha… quantos?Trinta e quatro anos? Não… deve andar pelos trinta e nove. — Olivia tinha cinco anos quando sua irmã foi assassinada.

—Não é de boa educação falar da idade de uma senhora.

—Foi tarde à universidade?

—Algo assim.

Zack deixou de insistir. Tinha esperado que ela se abrisse e lhe contasse o que era que a estava preocupando, mas talvez só lhe custasse voltar para a área onde sua irmã tinha sido assassinada; que não desejasse recordar seus pais; recordar que sua mãe havia se suicidado.

—Seu pai continua aqui?

Olivia negou com a cabeça.

—Vendeu a casa e se mudou assim que fui para à universidade.

—Isso deve ter sido duro.

—Mais duro foi viver na casa depois do assassinato de Missy.

—Não quer falar disso, não é mesmo?

Zack sentiu que Olivia o olhava, e com uma rápida olhada captou o cansaço em seus olhos e a palidez de sua pele antes de voltar a se concentrar na estrada.

Depois de um momento, Olivia falou.

—Minha mãe nunca se sobrepôs à morte de Missy. Não permitiu que nos mudássemos; não permitiu que ninguém tocasse nada do dormitório de Missy. Eu andava nas pontas dos pés pela casa para que não me visse, porque quando me olhava, via o ódio em seus olhos.

—Ela não te odiava.

     Olivia não disse nada, e Zack esticou o braço e lhe apertou a mão. Ela estremeceu, mas não a retirou.

—Por que você não gosta que lhe toquem?

—Não sei — disse com rapidez. Com muita rapidez —. Suponho… bom, depois da morte de Missy, transformei-me em uma espécie de desaparecida. Para minha mãe e para meu pai; assim era mais fácil para eles.

—Mas você só tinha cinco anos! — Zack não pôde menos que sentir hostilidade para aqueles pais que não haviam dado atenção a sua filha viva por causa da dor que sentiam pela morta.

—Quando minha mãe se suicidou, perguntei a meu pai se nós iríamos nos mudar. Limitou-se a encolher os ombros. Acredito que se eu tivesse idade suficiente teria posto a casa à venda, ele não teria se importado.

Olivia fez uma pausa e abaixou o olhar para a mão de Zack que cobria a sua. Do corpo do detetive irradiava uma força que a encorajou. Nunca tinha contado a ninguém o ocorrido no dia que sua mãe havia se suicidado.

—Fui eu quem encontrou seu corpo.

—Quantos anos você tinha?

—Seis. — Olivia fechou os olhos e reviveu mentalmente o cadáver ensangüentado de sua mãe. Esta tinha ingerido soníferos misturados com uma bebida de baixa proporção de álcool que continha vodca, mas deve ter sobrevivido a isso. Para assegurar-se de conseguir seu propósito, colocou uma pistola na boca e apertou o gatilho.

—Atirou em si mesma. O fez no dormitório de Missy, no dia do aniversário de sua morte. Ouvi o disparo. Meu pai estava trabalhando, e eu acabava de chegar do colégio. Havia muito sangue. Na parede, atrás da linda cama branca de Missy… espalhado por todas suas bonecas e brinquedos… por toda parte.

—Oh, Deus, Liv!

Zack saiu de repente da rodovia. Olivia abriu os olhos e se surpreendeu quando Zack subiu a rampa e entrou no estacionamento de uma empresa. Desligou o motor.

—Sinto muito, não deveria ter tocado no assunto — começou a dizer Olivia.

Zack a pegou pelo queixo e a obrigou a olhá-lo. No princípio, Olivia pensou que estava zangado com ela, e talvez estivesse, mas não pela razão que ela pensava.

—Deixa já de se desculpar. — A voz de Zack era baixa e rouca, cheia de emoção contida.

Olivia se viu arrastada para ele, e os olhos negros de Zack procuraram seu olhar, como se ele estivesse compartilhando sua vitalidade e sua força.

—Liv, esteve se culpando por algo que simplesmente não é a responsável.

—Não me culpo.

—De verdade que não?

O que ela pensava realmente?

—Não sei.

—Quem, então? O que é o que te corrói por dentro? Seu pai? Sua mãe?

Olivia deixou escapar uma lágrima, e a desconhecida umidade se deslizou por sua bochecha.

—Culpo o assassino de Missy por levar-la, e antes de alguém, a Deus, por criá-lo. Culpo-me por não o ter impedido. Culpo Missy por não sair do parque quando eu disse. E a meu pai, por vagar pela casa como um fantasma. E a minha mãe por… por me olhar como se tivesse sido eu que tinha que ter morrido!

Zack a rodeou com seus braços enquanto ela chorava em silêncio, o corpo convulso, mas sem emitir som algum, como se ela se esforçasse em reprimir cada lágrima. Deus! Zack queria libertar ela daquela dor. Se tivesse podido, de boa vontade teria jogado aquela angústia sobre os ombros.

Sua mãe tinha se desfeito dele; o havia abandonado porque lhe convinha. Tinha abandonado Amy porque lhe convinha. Zack tinha passado muito mal quando se deu conta de que sua mãe amava mais sua liberdade que a seus filhos. Havia se sentido abandonado por sua mãe, mas Mae nunca o havia feito se sentir uma carga nem que não fosse querido.

Zack viu tudo se esclarecer: a reação de Olivia ante Brenda Davidson e a pequena Amanda; sua obsessão com o caso; e antes de tudo, a razão pela qual ela havia entrado no FBI. A justiça era uma motivação poderosa, e embora ela tivesse acreditado até a pouco tempo que o assassino de sua irmã estava atrás das grades, lutava pelas vítimas vivas além de pelas mortas.

Passou a vida lutando pelas vítimas como ela.

Zack lhe acariciou o cabelo e aspirou ao frescor que emanava dele. Beijou-a na têmpora. Em seguida, na bochecha. Levantou-lhe o queixo para que pudesse olhá-lo nos olhos. O lábio de Olivia tremeu, e suas bochechas brilharam de emoção.

—Olivia, quando isto acabar vou levar você a algum lugar longínquo. Quero passar algum tempo a sós com você. Sem este caso pendurado sobre nossas cabeças, onde possamos falar de verdade.

Olivia abriu a boca para protestar. Zack lhe pôs o dedo nos lábios.

—Chist. Merecemos isso, Liv. Tenho que saber tudo sobre você. Sobre como se transformou na incrível mulher que está sentada agora mesmo aqui. É inteligente e sensual, e estou encantado de que você tenha vindo a Seattle, e não só pela investigação.

Inclinou-se e lhe roçou os lábios com os seus, recordando o acontecido na véspera, quando a tinha beijado espontaneamente no quarto do hotel. Tinha estado tão tentadora, com aquela roupa fina que se amoldava a seus seios voluptuosos, mostrando tudo ao mesmo tempo em que escondia.

Aquela imagem tinha permanecido em sua memória durante as últimas vinte e quatro horas. E pensar na sedutora que havia se mostrado então, na formosa que estava sentada ao seu lado nesse momento, fez que desejasse desaparecer com ela. Os dois juntos. Sozinhos. Na cama.

Tentou que o beijo fosse leve, doce, carinhoso; Olivia necessitava de afeto, não de paixão. Mas saboreá-la uma vez não era suficiente. Ela havia despertado sua paixão, um desejo veemente e intenso que fazia muito, muito tempo que Zack não sentia. Uma necessidade intensa de se conectar com ela em todos os níveis que pudesse; de conhecer sua mente, seu corpo e sua alma.

Zack intensificou o beijo; os lábios de Olivia estavam salgados pelas lágrimas.

Olivia gemeu nos lábios dele, um som breve, mas intenso que denotava desejo. Ele engoliu a necessidade dela tornando o beijo mais profundo, rodeou-lhe o delicado pescoço com as mãos, e o cabelo sedoso de Olivia se enredou em suas mãos. Esfregou-lhe os ombros e arrastou a mão até a curva de seu busto redondo.

Os dois se afastaram ao mesmo tempo. Zack tragou saliva com o coração lhe golpeando no peito. Os olhos cor avelã de Olivia resplandeceram, cobertos de emoção e desejo; sua boca estava vermelha, exuberante, inchada pela fúria do beijo.

Zack a soltou a contra gosto.

—Definitivamente, quero passar mais tempo com você.

—Quando tivermos apanhado este cara. — A voz de Olivia soou áspera, mas já tinha recuperado a força que Zack tinha vislumbrado nela no dia em que eles haviam se conhecido no escritório de Pierson.

Então tinha pensado que queria apanhar ao assassino desesperadamente.

Nesse momento, desejou até mais.

    

Olivia observou o interrogatório de uma sala com espelho unidirecional continua à sala de reuniões do defensor público. Teria desejado que Gary Porter tivesse comparecido, não só porque havia sido ele quem tinha posto tudo em marcha, mas também porque sempre tinha estado a seu lado quando ela tinha tido que enfrentar-se a Brian Hall. Em seu lugar, um jovem policial de expressão perdida permanecia de guarda a seu lado.

É obvio, Hall era inocente, e ela não devia ter medo dele. Entretanto, temia-o, uma sensação irracional e muito real que fazia que o coração lhe pulsasse com força e ela retorcesse as mãos.

Não podia acreditar que tivesse chorado nos braços de Zack. Sentia-se idiota, embora consolada ao mesmo tempo. E o beijo… Levou as mãos aos lábios. Aquele beijo.

Tinha que deixar isso de lado, pensaria nisso mais tarde. Quando tinha sido a última vez que havia chorado? Poderia ter sido no dia do desaparecimento de Missy. Havia chorado para si, sozinha, até conseguir dormir a altas horas da madrugada. Aproximou-se lentamente da cama de sua mãe com a intenção de meter-se nela, mas seu pai lhe havia dito que fosse embora, que sua mãe estava dormindo no quarto de Missy até que sua irmã voltasse para casa.

Missy nunca voltou para casa.

«Para. Deixa já de pensar nisso. »

Até esse dia, não havia percebido quanta ira interior que continuava guardando contra seus pais. E contra Missy, ainda que a frustração com sua irmã se devesse mais porque ela tinha morrido, e isso não era culpa dela. Olivia sabia que nada daquilo era racional, mas aí estava exposto para que o examinasse com cuidado.

Tinha parecido fácil odiar Brian Hall quando era o vilão, o homem que não só tinha roubado a vida de sua irmã, mas também a sua família e sua segurança. Sua soltura trazia de volta outros sentimentos que ela tinha reprimido durante muitos anos, como a ira por sua família, em especial por sua mãe. Deveria ter visto, sobre tudo depois de seu enfrentamento com Brenda Davidson, mas não percebeu até que Zack houvesse perguntado pela manhã cedo que Olivia «soube» que nunca tinha perdoado sua mãe por tratá-la como um estorvo.

Olivia tinha perguntado a si mesma, durante anos se sua mãe teria sentido o mesmo por Missy, se os papeis tivesse se invertido; se tivesse sido Olivia que tivesse morrido, e Missy a sobrevivente. Sua mãe teria ignorado Missy? Teria chorado tanto a morte de Olivia que já não teria podido seguir vivendo?

Quando menina, Olivia tinha acreditado que sua mãe teria preferido que fosse ela a morrer, e Missy a sobreviver. Quando mais velha, sabia que as coisas não eram assim tão simples. Era como se alguém estivesse em um edifício em chamas e só pudesse salvar a vida de um de seus dois filhos: a quem pegar? Independentemente de quem se escolhesse, ele acabaria afligido pela culpa por ter causado a morte do que se foi. Olharia ao sobrevivente e se perguntaria se devia ter sido outra a escolha. A amargura, a pena, e a dor, o paralisariam até que já não pudesse olhar seu filho sem lamentar.

Depois de anos de estudos de psicologia e ciências, Olivia sabia que sua mãe era uma psicótica e, portanto, mentalmente instável. Por acaso a morte de Missy havia desencadeado a enfermidade, ou podia ser que ela sempre tivesse tido um transtorno limite da personalidade. De maneira intuitiva, Olivia sabia que não devia culpar sua mãe por tudo o que havia dito e feito… nem pelo que não havia dito ou feito. Em tal caso, era seu pai que deveria ter assumido a responsabilidade e ter feito algo para conseguir que alguém ajudasse sua mãe; assumir o papel de ambos os pais, já que sua mãe estava incapacitada.

Mas a menina que estava dentro de si só queria ser amada completamente, sem reservas e sê-lo por quem era interiormente.

Olivia não sabia se restava algo dentro que valesse a pena amar.

Culpar os outros não a levaria a nenhuma parte; a culpa a estivera comendo viva. Zack tinha razão: desculpava-se por tudo, tivesse culpa ou não. Tinha que parar.

Olhou através do espelho falso e viu Brian Harrison Hall entrar na sala. O familiar «bum-bum-bum» do coração lhe ressonou surdamente no peito, aumentando o ritmo. Até sabendo que ele não tinha matado Missy — e já não acreditava sequer que estivesse comprometido — continuava provocando um medo intenso e entristecedor dentro dela.

Olivia respirou fundo e se concentrou em Zack. Estava em frente a ela, olhando pelo espelho como se pudesse vê-la. Seu rosto a tranqüilizou e lhe deu forças.

Bom, tinha chegado a hora.

    

Zack percebeu a tensão de Olivia no outro lado do espelho e rechaçou sua sensação por ser ridícula. Mostrou-se inquieta ao chegar, então era natural que ele pensasse que continuava nervosa por todo o assunto. Voltar para sua cidade natal; enfrentar o homem ao qual durante trinta e quatro anos tinha considerado o assassino de sua irmã; enfrentar seus medos.

—Estão entrando — disse o ajudante do promotor do distrito a Zack, Ross Perdue, depois de fechar seu celular.

Zack havia estado tão fechado em seus pensamentos sobre Olivia e o que esta tinha passado que quase havia se esquecido do homem que estava com ele na sala. Perdue era um advogado jovem de uns trinta anos e aspecto afetado que vestia um traje caro e usava um Rolex. Zack se perguntou se seria de família rica, porque sem dúvida alguma os funcionários não eram tão bem pagos.

—Como lhe disse pelo telefone, concedemos imunidade a Hall por algo que diga que possa incriminá-lo. Em nossa opinião, o homem cumpriu trinta e quatro anos de prisão. Se for culpado de cumplicidade ou de obstrução à justiça, já teria cumprido sua condenação.

Zack não estava muito feliz com o acordo, mas como Perdue tinha lhe explicado anteriormente, no princípio Hall havia se negou à entrevista. Teria exigido dias e uma ordem judicial para obrigá-lo a falar e, então, o assassino poderia ter voltado a atacar. Nesse momento, não podiam se permitir o luxo de enfrentar Hall. Necessitavam da informação «já».

Quando Hall entrou pausadamente na sala acompanhado de seu advogado, Zack sentiu uma aversão imediata por ele. No princípio, foi a atitude com que se apresentou, balançando o corpo como se fosse ele quem mandasse; mas seus olhos mostravam medo e receio e não deixavam de olhar rapidamente de um lado para outro, como os de um roedor.

Hall era culpado de algo. Zack sentiu. Mas se recordou que não estava naquela sala para averiguar o que ele havia tramado nas semanas transcorridas desde que tinha sido posto em liberdade. Estava ali para averiguar a quem Hall conhecia há trinta e quatro anos.

—Obrigado por vir, senhor Hall — disse Zack com o tom de voz mais cordial de que foi capaz. Esticou a mão —. Sou o detetive Zack Travis, do Departamento de Polícia de Seattle. — Claramente surpreso, Hall lhe estreitou a mão.

Depois das apresentações de todos os pressente, sentaram-se e Zack começou a falar.

—Não lhe entreterei muito, senhor Hall. Seu advogado lhe informou do motivo pelo qual necessitamos de sua ajuda.

—Vocês acreditam que alguém armou uma armadilha para me incriminar no assassinato daquela menina.

Zack assentiu com a cabeça.

—Exato.

—Não sei de quem se trata, mas espero que o apanhem e que apodreça na prisão como eu quase apodreci. — Hall olhou para Perdue.

—Tenho algumas pergunta que talvez lhe ajudem a recordar.

—Em frente. Essa é a razão pela qual eu vim. — Voltou a olhar para Perdue —. E nada do que diga pode ser utilizado para me prejudicar, não é assim?

—Já me assegurei disso — interveio Bledsoe, o advogado de Hall —. Mostrei-te os documentos quando estávamos a caminho.

—Só quero o ouvir dizer.

—Está certo — disse Perdue —. O que dizer aqui não se admitirá em julgamento. Tem imunidade absoluta.

Hall cruzou os braços com ar de presunção.

—Quando o licenciaram do Vietnã? — perguntou Zack.

—Em 10 de abril de 1972. Aí também me sacanearam com o tempo. Só firmei por um ano, mas me tiveram ali por dezesseis longos meses.

—E voltou para Califórnia. Onde nasceu, em Redwood City?

Hall se encolheu de ombros.

—Em Palo Alto. Minha mãe tinha uma casa em Menlo Park. Ali me criei.

—Isso fica a uns dez minutos ao sul — explicou Perdue.

—Então, em essência, voltou para casa — insistiu Zack.

—Sim. Ainda tinha um emprego. Em um armazém. Trabalhava como carregador de armazém.

—Retornou com você algum colega do Exército? Algum amigo?

Hall voltou a encolher os ombros.

—Nem idéia.

—Conhecia alguém dos que trabalhavam com você que também tivesse estado no Vietnã? Pode ser que não servissem com você, mas que estiveram lá mais ou menos ao mesmo tempo.

—Maldição! Conheci um punhado de veteranos depois de voltar para casa. À maioria conheci depois de me licenciar. Com honra — particularizou, e soltou um grunhido —. Para o que me serviu em julgamento, quando seus jovens me condenaram injustamente por assassinar aquela menina. Não sou um pervertido. Não me excitam as meninas pequenas.

Zack apertou o punho debaixo da mesa para evitar estrangular a Hall por seu tom chulo.

—Se lembra de algum dos veteranos com os quais trabalhava ou com os quais andava, talvez um companheiro de quarto ou algum colega de farras? —perguntou Zack —. Alguém que tivesse uma tatuagem no braço esquerdo parecido com a sua?

Hall enrugou o sobrecenho e contemplou seu braço esquerdo; aquilo era sinal de que estava tentando realmente recordar algo.

—No Vietnã havia muitos que fizeram tatuagem. Eu só fiz esta em minha primeira licença. Alguns caras cobriram todo o corpo com eles. — Sacudiu a cabeça —. Muitos de nós fizemos águias. Já sabe o pássaro norte-americano e toda essa merda.

—Algum dos caras que conheceu quando voltou para Califórnia?

—No armazém havia dois sujeitos que tinham tatuagens iguais a minha.

—Se lembra de seus nomes?

—Mmm, um era o encarregado. Não tinha estado no Vietnã, mas tinha vivido algum tempo no estrangeiro no início dos anos sessenta. George alguma coisa. Não me recordo do sobrenome. O chamávamos de George. Já estava ali quando comecei a trabalhar, e continuava ali quando parti.

Zack tomou nota dos dados. A informação sobre o emprego de Hall estava nos processos. Lembrava-se do nome do encarregado: George Levin. Sem dúvida, valia a pena investigá-lo.

—Algo mais do que se lembre?

—Havia alguns outros, mas não sei seus nomes. Os policiais não deveriam ter investigado tudo isto há malditos trinta anos?

Talvez, pensou Zack, mas as provas contra Hall tinham parecido consistentes em seu momento. Gostou de pensar que ele teria seguido as linhas de investigação adicionais, mas sabia que quando se tratava de enfrentar um assassinato violento como o de Melissa St. Martin, as provas circunstanciais costumavam servir.

Já tinha investigado o armazém onde Hall havia trabalhado todos esses anos. Não só estava fechado, mas também tinha sido desmantelado. Em seu lugar havia sido construído um centro comercial há mais de dez anos.

—Você disse que havia bebido em um bar no dia em que foi seqüestrada Melissa St. Martin.

—Sim.

—Quem esteve lá com você? É possível que alguém percebesse que você estava bebendo muito? Alguém que soubesse o tipo de caminhonete que você dirigia?

—Não, só estavam os jovens, já sabe. Muitos dos que rondavam pelo clube eram veteranos, da Coréia, do Vietnã ou da Segunda Guerra Mundial. Aqueles caras eram muito velhos. Eu…

Interrompeu-se e deu um murro sobre a mesa.

—Esse filho de puta! Esse bastardo pervertido e psicopata! Foi ele quem preparou a armadilha!

A repentina explosão de raiva e a expressão de compreensão que passou por seu rosto convenceram Zack de que sua reação era autêntica.

—Quem? — perguntou.

—O merda do Chris Driscoll. Deveria ter sabido, o filho da puta. Consegui um maldito trabalho e um estúdio no edifício em que vivia. Eu lhe dizia: «Amigo, vamos pegar algumas garotas por ai», mas nunca vinha quando saíamos. Sempre estava ocupado. Exceto naquele dia. Veio ao bar e tomou uma cerveja conosco. Agora sei por que. Ele pôde me preparar a armadilha. Ele me roubou a caminhonete. Era um porco pervertido de merda.

Os cabelos da nuca de Zack se arrepiaram. Ali estava; sentia. Quando voltou a falar, fez com muito mais tranqüilidade do que sentia.

—O que sabe de Driscoll? De onde era? Serviu com você?

—Estivemos na mesma unidade durante seis meses. Era uma máquina, um obsessivo por ordem. Nem te ocorresse tocar em seus pertences. Por isso me preparou a armadilha. Porque toquei em suas preciosas coisas. Disse-me que se voltasse a tocá-las, me mataria. Não acreditei. Lá na selva todo mundo se fazia de galo de briga, já sabe; fala muito, e faz pouco. Exceto quando entrávamos em combate; então todos agiam.

—Acredita que tinha raiva de você porque tocou seus pertences?

—O cara estava nos nervos, mas ali todos se arrumavam como podiam, sabe o que quero dizer? Mas é ele. Partiu de lá quatro semanas depois que eu. Disse que fosse me visitar, que poderíamos compartilhar uma casa e que lhe arrumaria um emprego no armazém. Veio para me ver, mas não quis ficar em minha casa. Encontrei um estúdio em meu edifício. Tentava que se alegrasse. Tinha estado três anos no Vietnã, e acredito que isso lhe desarrumou a cabeça. Mas um cara que conheci lá, meu sargento, dizia que Driscoll sempre tinha sido assim. A maior parte do tempo estava tranqüilo, e de repente, zás! Algo o fazia explodir e era capaz de te matar por qualquer coisa.

—Por que acredita que se trata dele e não de outra pessoa? — Embora Zack já não tivesse nenhuma dúvida de que algo tinha desencadeado a lembrança de Driscoll e seu convencimento de que este tinha armado uma armadilha para incriminá-lo.

—Porque eu não tinha relação com nenhum dos outros caras. Um bom punhado morreu, alguns voltaram a se alistar e a maioria voltou para casa. Driscoll não tinha nenhuma casa para onde ir.

—Por quê?

—Porque tinha crescido sob tutela judicial ou algo assim. Já sabe, em lares de acolhida. Sua mãe foi morta por um cara com quem vivia.

O sujeito estava no sistema. Zack tinha que conseguir seus antecedentes, mas não era fácil acessar os registros juvenis e não os conseguiriam com rapidez.

—De onde era?

Hall se encolheu de ombros.

—De todas as partes, dizia. Aquele tal Bruce era um tarado filho da puta. Provavelmente daí viesse Driscoll.

—Bruce?

Hall fez uma pausa.

—Não parava de falar de Bruce e de como ia matar ele quando deixasse o Exército e que ninguém saberia. Em uma ocasião, um dos rapazes lhe perguntou quem era o tal de Bruce, sabe? Se tinha lhe roubado a garota ou algo assim. Disse-lhe que Bruce estava na prisão por matar a sua mãe.

—Se recorda de algo mais sobre Bruce? Onde pudessem ter vivido? Ou onde a mãe de Driscoll foi assassinada?

Hall negou com a cabeça às três perguntas.

—Quisera te ajudar, mas não sei. Driscoll ficava muito nervoso sempre que falava disso, assim não insistíamos, sabe? Exceto uma vez Driscoll disse que Bruce estava em São Quintín. Sim, em São Quintín.

Hall não tinha mais informação a respeito de Bruce nem das atividades de Driscoll. Não tinha tido nenhuma notícia deste enquanto estava na prisão nem desde que o haviam soltado.

Quando Hall se preparava para partir, Zack lhe fez uma última pergunta.

—A palavra «anjo» lhe diz alguma coisa?

—Angel? Refere-se à irmã de Driscoll? Droga, cara, não falávamos dela, simplesmente. Quando um dos rapazes da unidade encontrou uma foto sob seu travesseiro, todos nós pensamos que era muito estranho. A menina parecia ter uns nove ou dez anos, sabe? Driscoll falava e não parava sobre si. Angel isso ou Angel aquilo, e supomos que era sua irmã. Quando lhe perguntamos o que tinha ocorrido, disse que estava morta e nos mandou tomar no cú. — Hall pôs os olhos em branco.

—E tinha uma tatuagem como a sua, correto?

—Exatamente como a minha. Deveria ter sabido… Levou-me ao mesmo local em que fez a sua em Saigón.

Chris Driscoll era o Aniquilador; Zack não tinha nenhuma dúvida.

—Quando o viu pela última vez?

Hall fez uma pausa para pensar.

—Aquele dia no bar. Entrou, bebeu uma cerveja conosco e partiu. Depois disso, não voltei a lhe ver. — Hall olhou para Zack de cima a baixo —. Vai encontrar ele, não é mesmo? E irá para a prisão por me preparar uma armadilha, não é assim?

—Irá para prisão por matar trinta meninas — disse Zack com uma voz surpreendentemente tranqüila.

—De acordo. — Hall assentiu com a cabeça —. Já entendo.

 

Zack utilizou o escritório de Perdue para ligar para o chefe Pierson e lhe contar tudo do que se inteirou.

—Temos que emitir uma ordem de detenção contra Chris Driscoll. Necessitamos de seu histórico militar, seu último endereço conhecido e qualquer parente vivo. Talvez os federais possam nos ajudar a conseguir seus antecedentes juvenis. Penso na Califórnia. Seu padrasto está na prisão na Califórnia por assassinato; Hall acredita que matou à mãe de Driscoll. E preciso interrogar seu padrasto, Bruce, cara a cara. Seu sobrenome poderia ser Driscoll, mas não podemos ter certeza a esse respeito. Provavelmente foi detido nos finais dos anos sessenta.

—Verei o que posso fazer — disse Pierson —. Pode ter morrido; a esta altura provavelmente ronde os setenta anos. Vai ficar aí esta noite?

—Não, se puder evitar. Tenho a intuição de que Driscoll vai agir. Pelos padrões que Doug, Olivia e eu identificamos, está acostumado a se mover com rapidez no final de cada orgia criminal. — Zack consultou seu relógio —. São onze horas. São Quintín está a apenas uma hora mais ou menos ao norte de São Francisco. Irei até lá de carro e depois me dirigirei de volta ao aeroporto. Nosso vôo sai às três e quinze. Deverei estar de volta duas horas mais tarde.

—Ligarei para a prisão e lhe conseguirei uma visita.

—Se o cara estiver morto, quero falar com alguém que o conheceu; o diretor, qualquer guarda com o qual pudesse ter falado, um recluso que fosse amigo dele…

—Ligarei dentro de uma hora.

Zack desligou e procurou Olivia com o olhar. Estavam no exterior do tribunal do condado de São Mateo, em Redwood City. Olivia estava parada em baixo de um carvalho e olhava fixamente uma fileira de roseiras que cresciam perto de uma das laterais da escadaria principal. Zack pensou que não estava olhando para nada; parecia perdida em seus pensamentos. Não tinha tido oportunidade de falar com ela depois de interrogar Hall. Aproximou-se e a tocou nos ombros.

—Liv, como você está?

—Estou bem.

Zack não duvidava de que estivesse, mas aquela experiência continuava lhe parecendo dolorosa.

—Estou esperando que Pierson me ligue para ver se podemos entrar em São Quintín e falar com o padrasto de Driscoll. Pode ser que tenham tido algum contato ao longo dos anos.

Quando Olivia não disse nada, Zack continuou:

—Emitimos uma ordem de detenção contra Driscoll, e Pierson vai tentar que os federais se ocupem de averiguar se o cara tem algum rendimento do exército. É provável que receba uma pensão ou, no mínimo, que tenha algum tipo de cobertura médica. Até os assassinos necessitam de um médico de vez em quando.

—Não acredito que se preocupe com isso. É muito metódico para deixar-se apanhar pelo sistema. Provavelmente, não utilize seu próprio nome. E sabe tão bem como eu como é fácil criar uma nova identidade, se souber o que está se fazendo.

—Pierson tenta conseguir uma foto. Será antiga, mas podemos fazer que um artista forense faça uma dedução de seu provável aspecto atual.

—Bom. Quero ver as fotos. Antes e depois.

—Tem certeza?

Olivia se voltou para olhá-lo, e embora seu rosto fosse uma máscara, em sua voz havia um toque de emoção.

—Mas é claro que tenho. Tenho que vê-la. Acredita que não poderei suportá-lo? Não vou desmoronar agora.

—Não acreditava que fosse fazer isso. Só queria lhe economizar isso.           Olivia parecia querer discutir com ele; seu queixo se moveu espasmodicamente, e fechou os olhos.

—Tenho que ver esse rosto — sussurrou —. Talvez tenha sido a primeira coisa que me impulsionou a ir a Seattle. Durante trinta e quatro anos imaginei Brian Hall como o homem que destruiu minha família. Quero ver quem é o verdadeiro responsável.

Atraiu-a para ele e a estreitou entre seus braços. No princípio, Olivia ficou tensa, mas terminou relaxando no abraço dele. Alguma vez chegaria a sentir-se cômoda com o toque dele? Então, rodeou-lhe as costas com os braços e o abraçou com força; naquele pequeno gesto havia uma boa dose de confiança. Não era algo que ela fizesse sempre, Zack percebeu, enquanto lhe beijava a parte superior da cabeça.

Então, Olivia se afastou.

—Obrigado, Zack. Por compreender. E por me deixar fazer o que tenho que fazer.

    

Enfurecido, Brian saiu do tribunal como um vendaval. Seu maldito advogado lhe havia dito que passaria “pelo menos” outro mês antes que recebesse sua indenização. Provavelmente, três. Ainda que, «com toda certeza, para janeiro.»

Janeiro! Não tinha dinheiro, o que lhe pagavam no trabalho e nada era o mesmo, e tinha que sair da cidade. A não ser que alguém descobrisse que ele havia assassinado o policial e o promotor.

Brian tinha pensado que se comparecesse nesse dia, e cumpria com seu ridículo «dever cívico», eles lhe dariam ao menos uma recompensa.

Chris Driscoll tinha lhe preparado uma armadilha. Aquele bode de merda tinha deixado que apodrecesse na prisão enquanto ele ficava na boa.

Era culpa dos policiais. Deveriam ter feito aquelas perguntas antes; ninguém nunca tinha lhe perguntado por alguém que tivesse um motivo para lhe preparar uma armadilha. Não, tinham dado por certo que era culpado, e só quiseram saber onde tinha estado e com quem, e não acreditaram que ele estivera dormindo depois de uma farra. A quem importava se havia mentido a respeito de onde tinha estado? Todo mundo «sabe» que os policiais são uns preguiçosos filhos da puta que não se importam que alguém seja inocente.

Ao sair do tribunal, viu seu carro meio desmantelado diante do edifício. Uma multa de cor amarela se agitava presa em seu limpador de pára-brisas.

Mas que droga!

Arrancou a multa com um puxão e a rasgou em duas. Não ia pagar de maneira nenhuma.

Foi então que a viu.

Estava parada sob uma árvore, vestida impecavelmente, e o policial que lhe havia perguntado por Driscoll a pegava pelos ombros. Ele estava olhando para ela. Então, inclinou-se e a beijou, rodeou-a com seus braços e se afastaram a caminho do estacionamento do outro lado da rua.

Ali estava ela. Hall não levava sua pistola; não tinha se atrevido a levá-la ao tribunal. Poderia ter levado um tiro ali mesmo, nesse mesmo instante.

Seattle. Ela estava em Seattle com o policial? Brian coçou a cabeça. Tinha revistado o escritório do policial, e tinha encontrado um endereço de Olivia St. Martin em Fairfax, Virginia. Tinha planejado dirigir-se para Virginia, apanhá-la e talvez subir até o Canadá e ficar por lá sem chamar a atenção durante algum tempo. Talvez, tê-la visto fosse um sinal. Ela não estava na Virginia; estava trabalhando com o policial de Seattle.

Talvez devesse ir a Seattle; não demoraria mais que dois dias de carro. Passaria pela toca que era o seu apartamento, pegaria suas coisas e partiria. Tinha dinheiro suficiente para gasolina.

Mas, a encontraria ela em Seattle? Tinha o endereço de sua casa. Cedo ou tarde, teria que voltar para casa, não é mesmo? E ele poderia estar esperando. E lhe estourar os miolos assim que entrasse pela porta.

Mas Seattle estava mais perto. Pinto, Pinto, colorido, vende as vacas a vinte e cinco…

Virginia? Ou Seattle?

    

—Onde se criou? — perguntou Zack quando estiveram de novo no carro e se dirigiam para a rodovia.

Olivia fez um gesto vago com a mão para o oeste.

—Não longe daqui.

—Sua irmã foi seqüestrada no parque de seu bairro?

—Sim.

—Quer voltar lá?

Olivia havia pensado precisamente nisso. Perguntou-se se ir ao parque lhe ajudaria a desenterrar parte da dor que continuava sentindo em seu interior. Depois do assassinato de Missy, nunca mais havia voltado a atravessar o parque. Pelas manhãs, tinha que fazer o longo trajeto até o colégio. Aborrecia-se em caminhar sozinha, assim tentava misturar-se com algumas das garotas maiores da vizinhança; esperava atrás da porta principal até que as garotas passavam em frente a sua casa, e então punha-se a correr e as alcançava. Elas a ignoravam, mas não importava. Sentia-se mais segura por sua mera presença.

—Temos tempo?

—Dispomos de alguns minutos. E já que estamos aqui… se quer ir…

Olivia assentiu com a cabeça e indicou a ele que seguisse para o oeste, em lugar de dobrar para o norte para pegar a rodovia.

Ficou surpresa ao ver como as coisas tinham mudado, e até que ponto continuavam iguais. Tudo parecia «mais»: mais casa, mais lojas, mais negócios… Mas as ruas eram as mesmas, e não teve dúvidas para encontrar o caminho de volta ao lar.

«O lar.» Nunca tinha pensado em sua casa como em um lar, não ao menos depois da morte de sua irmã.

Depois de algumas voltas, Olivia disse:

—Pare.

Zack deteve o veículo e deu um olhar às casas de ambos os lados da rua.

—Foram construídas sobre o parque ou algo assim?

Olivia sacudiu a cabeça; sentia uma opressão no peito, e em sua cabeça pugnavam emoções contrapostas. Mostrou uma casa que havia bem no outro lado da rua. A fachada de tijolo era senhorial, embora a casa não fosse grande; as portinhas brancas estavam recém pintadas e tinha as cortinas abertas para deixar entrar a luz.

Depois da morte de Missy, sua mãe não havia voltado a abrir as cortinas.

—Era ali que vivíamos.

Para ela, a casa tinha sido insignificante, grande e intimidadora, carente de calor e de luz, além de amor.

Olivia ficou olhando de ponta aponta a modesta construção de dois andares da Eucalyptus Street. A magnólia que crescia na parte da frente, apenas uma árvore jovem na juventude dela, tinha amadurecido, e ela já não poderia abraçar o tronco com os braços. As folhas escuras e grossas e as enormes flores brancas se arqueavam com rigidez sobre a grama recém aparada. Um grupo de três bétulas brancas se agrupava no canto mais meridional da casa, protegendo parcialmente uma clematite que tinha subido até o mais alto de uma grade de quase dois metros e meio. Roseiras meticulosamente arrumadas, que abrangiam todas as tonalidades do branco ao vermelho intenso passando pelo laranja, cobriam as duas entradas laterais da propriedade. O pai dela havia investido ao menos três horas por dia no cuidado de seu jardim.

Os novos proprietários deviam ter apreciado o esforço, porque o mantinham florido.

Olivia sentia pulsar o coração com tanta força, que podia ouvir o vibrante «bum-bum» nos ouvidos. Sua visão foi se estreitando até que o precioso jardim desapareceu e só viu o rosto hostil da casa de sua infância. As janelas do andar de cima a olharam com ferocidade, acusando-a; a porta fechada se assemelhava a lábios franzidos. A ira de sua mãe e a dor que lhe rasgava as vísceras. Olivia se aborreceu ter voltado para lá.

Era a casa em si a que a aterrorizava. Continuava ouvindo os soluços de sua mãe, como se as paredes tivessem gravado cinco anos de agonia maternal para reproduzir todo aquele pranto angustiante para ela. Olivia estendeu uma mão trêmula para a fechadura da porta.

—Vamos caminhar um pouco — disse ela.

Zack saiu do carro e lhe abriu a porta estendendo a mão para lhe oferecer apóio e consolo. Olivia se sentia tremendamente inválida, como um obstáculo. Via a casa como se mantinha em sua lembrança, não como era nesse momento.

Mas ali parada, olhando-a fixamente, viu que algumas coisas tinham mudado sim.

No caminho de acesso havia um pequeno balanço.

E um triciclo na varanda da frente.

A risada de algumas crianças revoou através das janelas abertas.

Enquanto observava tudo isso, a porta se abriu e duas crianças pequenas, possivelmente de quatro e cinco anos, saíram correndo da casa. Riam bobamente, e o som de suas risadas deslizou pelos ouvidos de Olivia como um oásis em um deserto.

As risadas lhe trouxeram lembranças de «Antes». De antes que sua irmã morresse e o mundo mudasse; de quando corriam pela rua a caminho do parque, rindo e fazendo-se cair mutuamente; de quando preparavam a festa de aniversário de papai ou surpreendiam a sua mãe com flores; de quando brincavam com as bonecas e as casinhas.

A mãe, uma mulher atraente de quadris largos e sorriso permanente, saiu rapidamente atrás de seus filhos.

—Esperem! — gritava-lhes enquanto fechava a porta.

As crianças, uma menina e um menino, pararam logo.

—Por favor, podemos tomar um sorvete?

—Se comportarem-se bem na loja — disse a mãe.

—Seremos bons! Prometemos isso!

A mãe sorriu com vontade, tirou uma grande bolsa do ombro e abriu a porta do automóvel. As crianças entraram apressadamente no carro, e ela lhes colocou os cintos de segurança. Instantes depois se afastaram no carro.

—Liv? — disse Zack com doçura, utilizando o polegar para lhe limpar as lágrimas que Olivia ignorava.

—Alegra-me que a casa tenha encontrado uma família. — Olivia lhe apertou a mão —. Vamos caminhar. O parque está ali na esquina.

Dobraram a esquina e se encontraram em frente ao parque, e a lembrança do seqüestro de Missy foi tão vívido, que Olivia pôde sentir a marca que a agressão de Driscoll havia lhe deixado no rosto. A marca havia se curado antes que tivessem sabido com certeza que Missy estava morta.

Olivia caminhou até a placa comemorativa que a prefeitura tinha colocado um ano depois do assassinato de Missy, e passou os dedos pelas letras em baixo-relevo.

«Este parque é dedicado à memória de Melissa Anne St. Martin.»

Observou que a estrutura de barras metálicas para brincadeiras infantis tinha sido substituída várias vezes ao longo dos anos. A estrutura de jogos que havia nesse momento, grafite amarelo e vermelho intenso, tinha três tobogãs, uma ponte e uma barra de descida. Quatro cavalos separados estavam presos com cimento aos alicerces por baixo do tijolo para que as crianças pudessem galopar no local.

As árvores tinham aumentado três vezes seu tamanho, tanto em altura como em largura.

O tijolo tinha substituído à areia.

Os balanços já não estavam mais.

Quantas famílias que desfrutavam daquele parque sabiam a quem era dedicado? Quantas pessoas recordavam que uma menina pequena tinha sido seqüestrada naquele lugar?

—Vamos nos sentar — a animou Zack insistindo para que ela sentasse em um banco situado no meio do parque.

A presença dele era reconfortante, como estar envolvida em um edredom de plumas em pleno inverno enquanto a neve cai ao redor. Olivia havia sentido sempre tanto frio, tanta solidão… Mas com Zack não se sentia desgraçada, e sua solidão começava a desvanecer-se.

—Tiraram os balanços — disse Olívia —. Eu adorava os balanços. Sempre queria subir mais.

—A minha irmã também adorava os balanços. Quando menina — disse Zack.

—Como ela morreu?

Zack não disse nada, e durante um instante Olivia se perguntou se não teria ultrapassado uma barreira invisível entre eles.

—Morreu em um ataque da rede antidrogas — disse Zack de repente.

—Também era polícia?

—Não. Era uma drogada em reabilitação.

—Oh, sinto muito.

Zack nunca falava dela com ninguém; era muito doloroso. Mas Olivia confiara nele, e lhe pareceu justo contar-lhe tudo.

—Mae morreu quando Amy tinha quatorze anos. Então eu era um policial novato e voltei a viver de novo na casa de Mae na qualidade de tutor de Amy. Amy tinha muita raiva contida. Eu tinha partido de casa aos dezoito anos, feito um valentão que se movia no limite da legalidade. Andava com os caras errados, não queria ir à universidade nem conseguir um trabalho, na realidade não queria fazer nada que não fosse correr em minha bicicleta e andar por aí com os amigos. Quando averigüei sobre minha mãe, fiz um bom exame de consciência e soube que não queria acabar como ela, me preocupando só comigo. Sentia-me impotente para devolver a vida às duas pessoas que tinha matado. O alcoolismo é uma enfermidade, mas, tem cura! Tinha a sensação que ela tinha que ter se controlado um pouco mais.

Zack olhou para as crianças que estavam brincando, crianças pequenas, porque era dia letivo, e a mãe os vigiava. Nem ele nem Olivia tinham tido uma infância «normal», mas o que era «normal» nesses dias? Talvez fosse um sentimento, a sensação de ser amado e estar bem cuidado, mais que um lar estruturado. O tinham amado e o tinham cuidado bem, até sem sua mãe.

Olivia, não.

E em muitos aspectos, tampouco Amy.

—Mae e Amy brigavam permanentemente. Mae não queria que Amy acabasse sendo como sua mãe, e Amy tinha a nossa mãe em um pedestal. Cometi um grande equívoco desde o começo; nunca contei a Amy o que tinha acontecido realmente com nossa mãe. Não queria feri-la. Pergunto-me se, se tivesse sido sincero desde o começo, as coisas teriam sido de outra maneira.

—Um panorama hipotético. — Olivia lhe apertou a mão —. O conheço muito bem.

—No final eu lhe disse, quando já havia se viciado nas drogas. Ela tinha então quinze anos, e eu não soube manejar a situação absolutamente. Não parava de lhe fazer advertências das mais torpes, do tipo: «Endireita sua vida, ou acabará morta ou na prisão». — Zack meneou a cabeça sentindo uma opressão na garganta.

—Você era muito jovem.

—Não era mais que um policial arrogante, atemorizado pela possibilidade de perder a vida de minha irmã por não ter a menor idéia do que era ser pai. Assim interpretava o papel do policial mau. Impus algumas normas e horas de voltar para casa muito restritas. Mae era restrita, mas também compreendia algo que eu não fui capaz de entender, compreendia o valor da confiança e do amor. E eu só via na Amy uma garota desafiante que, se não fosse duro com ela, logo, acabaria se transformando em uma das mendigas que eu via diariamente, atiradas no chão sem conhecimento de nada, nos bairros baixos.

Viu mentalmente Amy parada em frente a ele tal e como era aos quinze anos. Camiseta sem mangas de alças finas, jeans puídos e sempre cheirando a maconha. Em menos de um ano, tinha passado de ser uma boa garota que se destacava em todas as disciplinas a transformar-se em uma drogada que não queira saber de estudar.

—Bom isso durou alguns anos. Fugia três por quatro, encontrava-a, impunha-lhe normas mais duras, vigiava-a… Acabou me odiando, e pensei que devido a minha condição de policial, Amy acabaria por não confiar na polícia. Que foi o que acabou matando-a.

—O que aconteceu?

O que tinha acontecido? Nem sequer Zack tinha completamente certeza de compreender Amy nem todos os acontecimentos que conduziram a seu assassinato.

—Ao terminar o colégio, um de seus melhores amigos morreu de overdose. Isso a impressionou de verdade. Nessa época, estava vivendo com alguns jovens universitários, e me pediu para voltar para casa. Disse-lhe que sim, sempre que vivesse de acordo com minhas normas. Ela tinha dezenove anos, e acreditei, por sua forma de se comportar, que queria realmente sair da vida que tinha escolhido. Durante um tempo, as coisas entre nós andaram bem. Consegui que começasse uma terapia para melhorar, e pareceu que estava dando certo. Amy não queria falar comigo sobre nada, mas dava a sensação de ter perdido parte da raiva e da hostilidade, assim não a pressionava para que falasse. Então, começou a assistir às aulas na universidade municipal. Foi ali onde conheceu o Kirby.

O jornalista?

Zack assentiu com a cabeça, e recordou o dia em que Amy levou Kirby para jantar em casa, aparentemente com a intenção de apresentar-lo. Zack já conhecia Kirby, um jornalista galo de briga que aparecia como um sabujo em todas as cenas de crimes delicados desde que assumiu o cargo da seção seis meses antes. Na época, Kirby não conhecia limites, e tampouco os tinha aprendido após.

—O que Amy viu nele… ignoro.

Talvez não soubesse. Kirby era atento, e dava a sensação de que escutava Amy de verdade. Compreendia-a em questões que Zack não a tinha compreendido jamais. Talvez a pouca diferença de idade que os unia; ou talvez, por que Zack continuava bravo pelas escolhas vitais que ela havia feito. Havia-se sentido orgulhoso dela por ter conseguido limpar-se das drogas; teria sentido o mesmo se ela tivesse seguido drogando-se? Continuaria a querendo por perto?

—Saíram durante muito tempo. Alguns anos. Eu já era bem adulto para aceitar Kirby como parte da família, suponho. Eu sabia, que se Amy estava em casa, Kirby também estava. Eu não parava muito em casa e fazia horas extras sempre que podia. Tínhamos recebido a casa de Mae, mas não dinheiro, assim tinha que devolver os empréstimos que custearam meus estudos, custear a carreira de Amy e pagar as contas.

—Então, tudo mudou. — Tinha mudado? Foi algo repentino ou gradual? Zack ignorava; não recordava muitas coisas daquela época, à exceção do trabalho.

—Ouvi algo sobre uma operação antidrogas secreta na faculdade de Amy. Estava preocupado por ela, porque ela parecia preocupada, e temi que continuasse tendo amigos naquele mundo.

Zack nunca tinha esquecido do que se inteirou naquele dia. Quando começou a perguntar pelo assunto, o chefe Lewiston o chamou a seu escritório, onde lhe disse sem nenhuma ambigüidade que se mantivesse à margem. O golpe era uma operação conjunta da polícia estatal e os federais para colocar atrás das grades alguns traficantes importantes. Se tivessem êxito, poderiam eliminar a metade dos canais de distribuição de drogas na cidade da noite para o dia.

«Até que ponto minha irmã está envolvida?» tinha perguntado Zack.

Lewiston não tinha querido dizer, mas afinal, Zack se inteirou de que Amy estava agindo como infiltrada para a polícia.

—Amy conhecia todos os que se moviam no mundo das drogas. Confiavam nela. Não podíamos introduzir nenhum dos jovens, assim quando um dos agentes da narcóticos que tínhamos no campus se aproximou dela, Amy aceitou ajudar.

—E não lhe disse isso?

Zack meneou a cabeça.

—Não confiava em mim.

—Estava assustada.

—Deve ter estado. Estava brincando um jogo muito perigoso. Se eu tivesse sabido, teria impedido. Ou protegido. Tal e como as coisas aconteceram, eu não pude fazer nada.

—Morreu durante a operação?

Zack respirou fundo ao mesmo tempo em que negava com a cabeça.

—A operação saiu perfeitamente. Pegaram todos os que queriam e interromperam as principais vias de distribuição da costa ocidental do Pacífico. Mataram Amy a tiros na manhã seguinte de dentro de um veículo em marcha.

Olivia esticou a mão para agarrá-lo.

—Oh, Zack! Isso é terrível!

—Sabe qual foi o problema? Que Kirby sabia de tudo desde o começo; sabia e não me disse nada. Dizia que a amava, mas não fez nada para protegê-la. De fato, escreveu todos os artigos posteriores sobre a operação e o assassinato de Amy. Não posso olhá-lo sem pensar que ele deveria ter feito algo diferente; que eu deveria ter feito algo diferente. E não só quanto a sua atuação como infiltrada, mas também no que diz respeito a sua educação.

Olivia apoiou a cabeça no ombro dele.

—Não posso imaginar o que deve ser pai. Ser responsável pela saúde e segurança de outro ser humano.

—Não quer ter filhos?

—Não. Jamais. Embora entre Greg e eu houvesse muitos pequenos problemas, a causa de nosso divórcio foi que ele queria filhos, e eu, não. Negava-me a trazer um filho ao mundo; um filho que pudesse ser violado ou assassinado ou ferido. Vi muito dor, muita angústia. Minha mãe se suicidou porque perdeu uma filha; Brenda Davidson caiu em uma profunda depressão. Não culpo nenhuma das duas, na verdade. Como pode sobreviver uma mãe, quando perdeu parte de si mesma? E como uma mãe pode proteger seu filho a cada instante de todos os dias?

—Pode ser que nosso trabalho faça com que nos bastemos — disse Zack —. E sua infância não ajuda. Mas aí fora há coisas boas; coisas para desfrutar e celebrar. Cresci em Seattle e não me ocorre um lugar mais lindo para viver. Toda a costa ocidental do Pacífico é incrível. A visão das montanhas o primeiro dia limpo depois de uma tempestade de neve; atravessar o estreito de Puget em um veleiro; subir até uma das centenas de lagos e pescar durante horas. — Fez uma pausa e passou a mão pelo cabelo —. Não sei. O mundo é perigoso, mas há muito pelo que viver.

—Sim, suponho que há.

Permaneceram sentados em silêncio observando as crianças brincarem.

O celular dele soou uns minutos mais tarde, e ele olhou o número.

—O chefe Pierson — disse a Olivia antes de atender à chamada. Desligou no fim de um minuto.

—Bruce Carmichael é o homem que procuramos. Morreu de câncer de próstata há três anos, mas o diretor consente em nos deixar ver seus arquivos e falar com alguns dos guardas que o conheceram. Espera-nos à uma hora. É melhor irmos.

 

Zack e Olivia passaram sua primeira hora em São Quintín revisando o processo carcerário de Bruce Carmichael.

Em 1960, Bruce assassinou sua esposa de fato, Miriam Driscoll, uma garçonete de cassino de Nova York, depois do qual desapareceu com seus dois filhos menores, Christopher Adam Driscoll, de onze anos, filho do casamento anterior de Miriam, e Angel Lee Carmichael, de seis, e sua filha.

Conseguiu evitar que o detivessem durante quase três anos, até que Chris Driscoll ligou à polícia de uma morada social de Los Angeles, dizendo que seu padrasto tinha matado sua irmã e assegurando que ele tinha matado seu padrasto. Quando a polícia de Los Angeles compareceu ao local, descobriu tanto Carmichael como Driscoll cobertos de sangue. Carmichael tinha recebido um golpe que o havia deixado sem sentidos, mas não estava morto. A menina de nove anos tinha sido apunhalada até morrer. A autópsia revelou que havia sido agredida sexualmente reiteradamente. Concluída a investigação legista, as provas demonstraram que fora seu próprio pai quem tinha abusado sexualmente dela.

O jovem Driscoll, de quatorze anos, disse à polícia que tinha ouvido sua irmã gritar e que chamou à polícia antes de entrar no dormitório, onde viu Carmichael apunhalando sua irmã. Tentou detê-lo, mas Carmichael o ameaçou com a faca. Depois de uma resistência, a arma caiu debaixo da cama. Então, Driscoll golpeou Carmichael na cabeça com um abajur, e este caiu ao chão inconsciente. Uma análise de sangue realizado no hospital confirmou que Carmichael havia bebido, e que tinha um nível de álcool no sangue de 0,25%.

Driscoll disse à polícia que ele e sua irmã planejavam escapar por causa dos maus tratos, mas que Carmichael tinha descoberto seus planos, e assassinado Angel.

Carmichael contou uma história completamente diferente. Afirmava que, ao entrar no apartamento, tinha visto Driscoll sentado na beirada da cama de Angel; ele segurava uma faca, e Angel estava morta. Segundo ele, tinha lutado com seu enteado para lhe tirar a faca, mas, devido a seu estado de embriaguez, tinha escorregado, o que Driscoll tinha aproveitado para deixá-lo sem sentidos com um abajur. O momento da morte podia ter apoiado ambas as versões, mas o promotor acreditou em Driscoll. Não somente Angel havia sido agredida sexualmente por seu pai, mas também Carmichael havia apunhalado até a morte Miriam Driscoll com a mesma faca.

O adolescente estava consternado por não ter sido capaz de proteger sua irmã, e foi ingressado sob vigilância, para evitar que se suicidasse no hospital do condado durante a maior parte do julgamento contra Carmichael. Aos jurados pareceu indiferente a afirmação de Carmichael de que seu enteado tinha assassinado Angel. Ele foi condenado a prisão perpétua e mais tarde extraditado para Nova York para ser julgado pelo assassinato de Miriam Driscoll, embora tenha se declarado culpado para evitar a pena de morte.

Se não tivesse morrido de câncer, no ano seguinte ele teria sido enviado a Nova York para cumprir sua segunda condenação a prisão perpétua.

—Filho de uma puta! — disse Zack passando as páginas rapidamente —. Uma vez ouvi, não recordo onde, que os monstros se fazem. Chris Driscoll é o fruto de sua educação. Isso não o faz menos culpado, mas, droga! Não suporto que o ciclo continue.

—Pode ser que explodisse quando seu pai assassinou a sua irmã — disse Olívia —. Assim como minha mãe quando Missy morreu. Provavelmente culpasse a si mesmo e pensasse que era fraco porque não tinha podido protegê-la. Para sobreviver, absorveu a força da personalidade de seu padrasto, e acabou sendo exatamente igual a ele. Mas bem pior. É mais metódico e mais disciplinado. Teve anos para aperfeiçoar seus crimes. Ainda no inicio da vida, de pouca idade aprendeu a mover-se de um estado a outro, a criar identidades falsas, a passar despercebido… E tudo porque seu padrasto o fazia para evitar ser detido.

—Sua biografia poderia explicar a razão de que o primeiro assassinato que comete em cada estado pareça espontâneo e diferente dos outros - disse Zack —. Pode ser que não planeje, ou ao menos não com tanta meticulosidade como os outros, mas vê uma vítima que recorda a sua irmã e a leva. Você lembra-se de Jillian Reynolds. Depois de ser seqüestrada, foi jogada a somente uns três quilômetros de distância.

—E em um lugar isolado — acrescentou Olívia —. Talvez para que seu corpo não fosse encontrado com tanta rapidez?

—Poderia ser. — Zack reuniu os documentos e fez um gesto para o guarda que tinha permanecido com eles na sala —. Agente, tenho que falar com o diretor para que envie uma cópia deste inquérito a Seattle.

—Eu os acompanharei até seu escritório.

Zack se inclinou para Olivia.

—Façamos que foto copiem o importante e o enviem tudo por fax ao departamento. E ver se serve de ajuda para o seu pessoal fazer um perfil de onde podemos encontrar este cara antes que volte a agir.

    

Chris Driscoll entrou com sua pequena perua urbana no estacionamento de longa duração do aeroporto internacional de Seattle, extraiu o ticket da máquina e o guardou com meticulosidade em sua carteira. Lentamente, percorreu os corredores de cabo a rabo procurando a grande caminhonete branca de Karl e Flo Burgess.

Encontrou-a na décima fileira.

Deteve o veículo no corredor sem desligar o motor e pegou o jogo de chaves de reposição que tinha roubado da gaveta da cozinha dos Burgess. Depois de tirar a caminhonete e deixá-la com o motor ligado, colocou seu carro no lugar. Dessa maneira devolveria a caminhonete no lugar exato onde a tinha encontrado.

Ao sair, entregou ao encarregado o ticket que acabava de tirar.

—Esqueci minha medicação — disse com acanhamento, no caso de o encarregado notar que tivesse entrado no estacionamento só vinte minutos antes.

—Ora, costuma ocorrer — disse o cara sem olhá-lo realmente —, mas tenho que lhe cobrar um dólar.

—Entendo. — Deu-lhe o dólar e partiu.

Trinta minutos depois estava estacionado na rua da casa do anjo. estava um pouco atrasado; ela ia de bicicleta de casa para o colégio todas as tardes, e dobrava a esquina entre 16h45min e 16h55min. Já eram pouco mais de 16h30min. Não queria perdê-la; não podia perdê-la.

Driscoll fechou os olhos durante um instante, só um instante, para fortalecer sua resolução. Angel lhe apareceu de repente. Uma lembrança, um pesadelo.

Ela tinha planejado trai-lo.

«Vou falar com a senhora Thompson amanhã.»

Voltavam a estar sentados na sacada, duas semanas depois do aniversário de Angel, e Chris tinha pensado a respeito de para onde poderiam escapar e em como se arrumaria para pagar a comida e o aluguel; em como poderia cuidar de Angel.

Também tinha planejado a melhor maneira de matar Bruce. Porque a única maneira segura de que pudessem escapar de Bruce era se assegurar de que estava morto.

«O que? — Sem dúvida, não a tinha entendido bem. Estava absorto em seus pensamentos —. Falar com ela do que?»

«Do que papai me faz. Ela é muito carinhosa. Irá me ajudar; sei que fará isso. E pode vir comigo.»

«Não, não. Disse que encontraria uma maneira.»

Angel sacudiu a cabeça. Seus grandes olhos verdes eram muito adultos para sua idade, muito tristes para uma menina.

«Não posso esperar; não posso esperar mais. Sempre está me fazendo mal. E não quero me sentir assim nunca mais. Não quero continuar assustada.»

«Não.»

Chris abriu os olhos, sobressaltado. Tinham passado dez minutos; eram quase 16h45min. Tinha que toma posição.

Já tinha posto as luvas. Reuniu seu equipamento e saiu da caminhonete sem fazer ruído. Havia uma caixa de correio de pedra e que os arbustos cobriam parcialmente. Tinha comprovado já o itinerário dela, e sabia que aquele era o melhor lugar para agarrá-la. Se ele se mantinha no lado mais afastado da caixa de correio, ninguém o veria, a menos que caminhasse em linha reta na sua direção. Esperaria que chegasse seu anjo. Esperaria, e ela iria parar diretamente em seus braços.

Simulou que jogava uma carta na caixa de correio, para o caso de que passasse alguém, e se escondeu.

E esperou.

Ouviu o flap-flap-flap das rodas decoradas antes de vê-la.

Contou até três, saiu do esconderijo e lhe cortou a passagem.

 

Assim que Zack saiu do estacionamento do aeroporto, seu celular soou.

—Travis.

—É Pierson. Ele tem a outra. Nina Markow, de nove anos.

—Quando?

—Faz quarenta e cinco minutos, dentro do condado. Assim que os primeiros agentes chegaram ao local e se deram conta de que a vítima encaixava em nosso perfil, me ligaram.

—Onde? Já estou no carro.

—Retorna à delegacia de polícia. Temos duas testemunhas, e os pus a trabalhar com desenhistas distintos. E temos parte de uma placa da caminhonete que já está sendo processada. Deveremos ter uma relação dentro de uma hora.

—Estarei aí em vinte minutos. — Desligou.

—Outra?

—Faz quarenta e cinco minutos.

Olivia fechou os olhos.

—Tinha acreditado que teríamos mais tempo.

—Eu também. Mas agora temos um nome, e há duas testemunhas. E parte da placa da caminhonete. Todos estão trabalhando nisto.

—Mas podemos encontrá-lo antes que a mate? Antes que desapareça?

—Não vou deixar que mate a menina, Olivia. Nós iremos encontrá-la.

«Temos que fazer isso.»

    

Quando Olivia e Zack entraram na delegacia de polícia, ela teve a fugaz sensação de que o mundo tinha deixado de girar sobre seu eixo, de que o tempo tinha parado.

O agente especial do FBI Quinn Peterson estava sentado na mesa de Zack falando com um senhor idoso, enquanto o desenhista trabalhava junto a eles.

Quinn levantou o olhar e olhou Olivia nos olhos. Não pareceu surpreso de vê-la, mas tampouco contente. Disse algo ao homem, levantou-se e se aproximou deles. Como sempre, estava vestido de maneira impecável.

—Você deve ser o detetive Travis — disse Quinn, e estendeu a mão —. Sou o agente especial Quincy Peterson, do FBI de Seattle.

Estreitaram-se as mãos.

—Zack Travis. Meu chefe lhe pôs à par do caso?

Quinn assentiu com a cabeça.

—Falei com ele ontem à noite, e de novo esta manhã quando cheguei. Está ao telefone, ocupando-se dos políticos. A imprensa não sabe nada ainda, assim no momento nos livramos dessa fauna. Fiz que um desenhista do escritório começasse a trabalhar com Henry Jorge, vizinho de Nina, que presenciou o seqüestro e conseguiu ver parcialmente a placa da caminhonete. Seu desenhista está esperando em uma sala de reuniões que chegue a amiga de Nina com seus pais. Devem estar a ponto de chegar.

—O que ocorreu?

—Nina Markow se dirigia para sua casa de bicicleta após ter saído do colégio. Treina todos os dias depois do colégio. Entrou em sua rua e, segundo o senhor Jorge, um homem saiu de entre os arbustos e se plantou justamente diante da bicicleta. A menina girou bruscamente o guidão e caiu ao chão. O homem a ajudou a se levantar e a levou arrastada até uma caminhonete branca parada a meia quadra de distância. O homem lhe tapou a boca com a mão, e a menina não pôde gritar. O senhor Jorge pôs-se a correr atrás deles, mas tem oitenta e três anos. Não pôde alcançá-los antes que a caminhonete arrancasse, embora sua vista fosse muito boa para reter parcialmente o número da placa traseira. Já a estamos processando.

—Pierson lhe disse que identificamos o assassino? Chama-se Christopher Driscoll.

Quinn assentiu com a cabeça.

—Nosso pessoal está puxando todos os fios para conseguir seu histórico militar, mas não é fácil. Consegui a foto original de sua identificação militar, e pode ser que o desenhista tire partido junto com as descrições do senhor Jorge e de Abby Vail, a amiga de Nina que também presenciou o seqüestro e facilitou um bom retrato falado de qual é o aspecto do homem. Trouxemos dois agentes para que ajudem a sua equipe a cobrir as concessionárias de carros, as empresas de aluguel, os aeroportos e qualquer outro lugar em que esse cara pudesse conseguir o veículo sem levantar suspeita.

—Onde estão os pais da vítima?

—Só tem mãe, é viúva. Trabalha fora da cidade, dentro do condado e uma… —Quinn deu uma olhada em sua caderneta — e a detetive Jan O’Neal foi falar com ela e trazê-la até aqui. Mas com o tráfego dos que saem do trabalho agora, não acredito que estejam aqui antes de uma meia hora ou mais.

Quinn deu um olhar para Olivia e disse:

—Detetive, você se importa se eu falar um momento com a agente St. Martin? Não será por muito tempo.

—Utilizem a sala de reuniões. Tenho que me apresentar ao chefe, e me reunirei com vocês quando a testemunha chegar. E me chame de Zack.

Quinn assentiu com a cabeça.

—Obrigado. Eu sou Quinn.

Peterson, pois a mão levemente sobre o braço de Olívia enquanto a conduzia à sala de reuniões, onde fechou a porta atrás deles.

—Que demônios você está fazendo? — disse Quinn, tentando claramente diluir a raiva que estava a muito tempo segurando —. Perdeu o juízo?

—Posso explicar.

—Pois deveria começar a falar. Quando cheguei aqui esta manhã e me inteirei de que a «agente» St. Martin tinha sido uma parte essencial desta investigação, não podia acreditar que fosse você. «Olivia St. Martin?», perguntei. O chefe Pierson me cantou seus louvores e me disse que estava em Redwood City interrogando Brian Hall!

—Não fui eu que fiz ... Contei a Zack sobre Missy. Disse-lhe que não podia estar na sala com Hall, que provavelmente não aceitaria muito bem minha presença e que não queria arruinar o caso.

—Arruinar o caso! Como, Olivia, você não é agente! Já arruinou o caso!

—Não arruinei! — Olivia tragou saliva, surpreendida por seu arroubo —. Quinn — disse tentando conservar a calma, embora sua frustração e sua ira estivessem mais perto da superfície do que acreditava —, fui aos canais adequados. Pedi a Rick Stockton e lhe mostrei tudo o que tinha reunido sobre estes casos. Sim, sabia que eram provas circunstanciais, mas havia muitas! Não podia ficar de braços cruzados! E quando Rick disse que tinha as mãos atadas, que não havia nada que eu pudesse fazer e que ele não poderia enviar uma equipe para ajudar, não me deixou escolha.

—Você sempre teve uma escolha. Poderia ter me chamado. Sabe que teria me esforçado ao máximo para te ajudar. Em qualquer momento e em qualquer lugar.

Olivia respirou fundo sentindo o coração em um punho.

—Sei. Sei que teria feito. Mas não entende? Meu testemunho deixou um inocente atrás das grades.

—Não sabe se Hall esteve envolvido.

—Não, não sei, mas acredito que não. Zack e eu falamos sobre isso, e em nenhum momento pensamos que Driscoll tenha um cúmplice. Os ataques são muito pessoais, muito íntimos. — Fez uma pausa —. E Hall é muito imbecil.

—Olivia…

—Não, me escute. Tinha que fazer algo; tinha que pôr a informação sobre a orgia de assassinatos de Driscoll nas mãos adequadas. Tinha que falar com alguém que estivesse no caso e lhe mostrar uma a uma as provas. Não teriam me escutado; sou uma cientista de laboratório!

—Isto é grave, Olivia. Poderiam te despedir.

—Acha que não sei que é grave? Acredita que me importa que me despeçam? —Olivia pegou as mãos com força para que deixassem de tremer —. Coloquei um homem inocente na prisão e deixei livre um assassino para pegasse algumas meninas pequenas. Matou pelo menos trinta meninas. Por minha culpa. Pela minha culpa! Era impossível que ficasse sentada sem fazer algo. Conheço-o; sei como age. Passei semanas estudando todos os crimes semelhantes cometidos no país. Agora mesmo, há dois homens sentados na prisão, que acredito são inocentes, porque Driscoll lhes preparou uma armadilha para que fossem considerados culpados de seus crimes. Este cara é inteligente, ardiloso, metódico, disciplinado… — Respirou fundo —. A maior parte do tempo se controla — continuou Olívia —. Captura à vítima inocente; e espera para estar sozinho para matá-la. E quando as coisas ficam muito quentes, quando a polícia começa a se aproximar, prepara uma armadilha a outro ou parte sem mais. Abandona a jurisdição. Controla seus impulsos doentios o tempo suficiente para estabelecer um lugar de residência em qualquer outro lugar. E então, começa de novo.

—Liv isto não é tua culpa. Tinha cinco anos quando Missy morreu - disse Quinn.

—Não se trata de Missy; trata-se de todas as demais meninas. Trata-se de Chris Driscoll e das famílias que destruiu. Não tem problema que me despeçam, com tanto que o apanhemos. Acha que me importa tanto meu trabalho? — Negou com a cabeça.

—Mas que droga, Olivia! — Quinn passou uma mão pelo cabelo e começou a dar voltas pela sala de reuniões. Então, ficou olhando fixamente a pasta branca, reconhecendo as pequenas e perfeitas letras de forma de Olivia. Leu a cronologia dos assassinatos, estudou as fotos, viu o tempo e o esforço, e a dedicação que ela tinha posto no caso —. Quem sabe a verdade?

—Ninguém. Aqui, ninguém. Greg sim sabe.

—Greg — repetiu Quinn sacudindo a cabeça.

—Quinn, por favor. Por favor, deixa que eu fique. Tenho que acabar isto.

A porta se abriu, e Zack Travis entrou.

—Abby Vail está aqui com seus pais. Preparados?

Olivia olhou para Quinn.

—Eu sim — disse Olivia.

—Vamos — disse Quinn fugindo do olhar tenaz de Olivia.

No momento, não havia problema.

«Obrigado, Quinn.»

    

Olivia, Quinn e Zack entraram em outra sala de reuniões para falar com Abby Vail, a vizinha e amiga de dez anos de Nina, «a vítima».

O que ia acontecer a Abby, se Nina morresse? Irá se culpar durante o resto de sua vida? Culpada por não ter feito nada, por não ter podido fazer nada, para impedir que o homem mal levasse sua amiga? A lembrança de Nina no momento de ser seqüestrada a perseguiria para sempre?

Abby Vail era pequena para ser uma menina de dez anos, cabelo loiro curto, grandes olhos castanhos e umas covinhas que se marcavam ao falar.

—Encontraram Nina? — perguntou a menina assim que entraram pela porta.

—Todos a estão procurando — disse Zack. Saudou os pais com a cabeça —. Obrigado por trazer Abby. Sou o detetive Travis, este é o agente especial Quinn Peterson e Olivia St. Martin, do FBI.

A mãe, uma versão de Abby adulta, saudou com a cabeça; tinha os olhos vermelhos e inchados.

—Algo que possamos fazer… Poderia ter sido… — Não terminou a frase, mas olhou para seu marido por cima da cabeça de Abby com o queixo trêmulo. O marido esticou o braço por trás das costas de Abby e apertou o ombro de sua esposa, enquanto que com a mão livre pegou o da filha.

Zack começou a falar.

—Abby, sei que já falou com o agente de polícia que foi a sua casa, mas se não se importa, eu gostaria que começasse desde o começo e contasse tudo o que viu e ouviu.

Abby assentiu com a cabeça e fez uma profunda inspiração.

—Nina vive na mesma rua que eu, e estava esperando que ela chegasse em casa. — Fez uma pausa.

—Iam juntas brincar? — sugeriu Zack.

Abby pareceu envergonhar-se.

—Não exatamente. Ontem discutimos, e continuávamos zangadas. Bom, eu já não estava, mas não queria ser a primeira em me desculpar. Pensava que talvez, se saísse quando ela chegasse, poderíamos, bom, eu não sei, nos esquecer da briga.

Olivia não percebeu que estava assentindo com a cabeça até que Abby a olhou e se encolheu de ombros.

—Parece tolo, mas sempre dá certo — disse Abby —. Assim eu a estava esperando e a vi dobrar a esquina na bicicleta. Então, saí à rua.

—Abby, onde estava exatamente quando viu Nina pela primeira vez? —perguntou Quinn.

—Estava olhando através da janela da cozinha.

—Viu a caminhonete branca.

Abby enrugou o nariz.

—Não a vi. Não a vi até que o homem jogou Nina dentro dela.

—Senhora Vail — disse Zack, e sua voz, serena e afável, estava em absoluta contradição com a dureza de seu aspecto —. Não se culpe. Quando viu pela primeira vez a caminhonete?

—Quando saí para ir fazer compras na loja, por volta das quatro e meia ou um pouco mais tarde. A caminhonete estava ali, mas não havia ninguém dentro. Se tivesse visto alguém sentado no interior, eu teria dado conta. — Fez uma pausa —. Ao menos acredito que teria dado conta.

—Provavelmente o aspecto da caminhonete fazia supor que era de alguém do bairro — sugeriu Quinn —. Estava limpa? Era nova?

A senhora Vail assentiu com a cabeça.

—Tinha bom aspecto. Simplesmente, não pensei nisso.

O lábio de Abby tremeu.

—A briga foi uma verdadeira tolice. O senhor Benjamin escolheu Nina para que formasse parte da equipe das melhores. E eu tive inveja. Na realidade, eu queria estar na equipe avançada, e sou tão boa como Nina, mas ela é tão boa nas paralelas, tão boa de verdade, e… — De repente, as lágrimas começaram a lhe correr pelo rosto —. Eu sou a próxima da lista, mas assim não quero. Não quero entrar na equipe desta maneira. — voltou-se e enterrou o rosto no peito de seu pai.

Olivia respirou agitadamente, e Zack a olhou nos olhos. Ficou olhando-a fixamente, compartilhando uma vez mais sua força, enquanto o pai de Abby sussurrava palavras tranqüilizadoras sobre o cabelo de sua filha.

Olivia assentiu com a cabeça, incapaz de sorrir, mas querendo que Zack soubesse que sua presença a consolava e lhe dava coragem em partes iguais. Ainda não tinha pensado no que faria quando apanhassem Chris Driscoll; provavelmente perderia seu emprego, e Greg também, e seus amigos poderiam perfeitamente deixar de falar com ela para sempre. Mas pela primeira vez, acreditou possuir resistência para levar aquela investigação a bom termo.

«Por favor, Deus, me escute uma vez. Protege a Nina. Faz que encontremos o seqüestrador e permita que se faça justiça de uma vez por todas.»

Afastou o olhar de Zack e apoiou as mãos na mesa na frente da pequena. Seu gesto atraiu o olhar de Abby, e a menina a olhou fungando com o nariz.

—Olá, Abby. Pode me chamar de Olivia, ok? Acha que pode terminar de nos contar o que viu? Se necessitar de mais tempo, não há problema, mas sabe que é realmente importante que saibamos de tudo, se queremos encontrar Nina, certo?

Abby moveu a cabeça em sinal de assentimento e tragou saliva com o queixo ainda lhe tremendo.

—Lamento.

Olivia sacudiu a cabeça.

—Não tem por que se desculpar. Nada do ocorrido é sua culpa. Certo? Esse homem mau anda fazendo mal a meninas há muito tempo, e você não tem nada a ver com isso. Ele é o único responsável.

Abby assentiu com a cabeça e secou o rosto com o dorso da mão. Seu pai entregou um lenço de papel enrugado que tirou do bolso; a menina o pegou, rompendo-o entre seus dedos.

—Saiu de sua casa para se encontrar com Nina quando ela entrou em sua rua montada na bicicleta. O que ocorreu então?

—Ela estava ainda na metade da quadra. Sentei-me no alpendre dianteiro com um livro para que não pensasse que a estava esperando, mas não estava lendo. Então, um homem ficou diante dela, Nina virou bruscamente para evitar atropelá-lo, e caiu em cima dos arbustos.

—Onde estava o homem antes de parar diante da bicicleta de Nina?

Abby enrugou o sobrecenho.

—Realmente não sei - disse enquanto fechava os olhos. Olivia lhe deu tempo —. Não estava na rua - disse Abby —. A caixa de correio. Atrás da caixa de correio! — Abriu os olhos — É isso! Estava junto a caixa de correio e então ficou diante de Nina. Ela virou o guidão e foi parar nos arbustos atrás da caixa de correio.

—O que aconteceu então? — animou-a Olivia.

—Ele se inclinou para ajudá-la a se levantar. Ao menos foi isso o que pensei. Mas Nina não lhe pegou na mão, mas sim se apoiou na bicicleta como pôde para se levantar. E então, comecei a me aproximar para ver se tinha se machucado.

—Meu Deus! — disse a senhora Vail reprimindo um soluço.

Abby se mordeu o lábio.

—Não… não pensei que fosse ocorrer nada ruim, na verdade. Bom, em nossa rua nunca ocorre nada errado.

—Está bem, Abby. O que aconteceu a seguir?

—O homem a levantou nos braços, e Nina começou a espernear e a gritar que a soltasse. Acredito que também pediu socorro. Eu… acho que não tenho certeza.

O senhor Vail lhe apertou a mão.

—Querida, fez o correto. Eu estava trabalhando no escritório de casa quando ouvi Abby pedir auxílio aos gritos. Saí de casa correndo e vi que o vizinho da casa contínua a de Nina, Henry Jorge, corria pela rua. Não soube o que pensar, exceto talvez que o adolescente que vive na mesma rua e que acaba de tirar a carteira de motorista, tivesse atropelado alguma das crianças pequenas. Tinha falado com sua mãe duas vezes a respeito de quão depressa conduz. — O senhor Vail sacudiu a cabeça —. Eu sinto muito.

—Não foi nada — disse Olivia, muito familiarizada com a necessidade de pensar e agir como se tudo fosse normal.

—Abby, o que recorda do homem que levou Nina? — perguntou Quinn.

—Já disse à polícia que veio até a minha casa.

—Sei, mas eu gostaria que nos contasse isso também.

—Era alto.

—Mais que seu pai?

Abby negou com a cabeça.

—Não.

—Quanto mede, senhor Vail?

—Um metro oitenta e oito.

—Que mais viu? — insistiu Quinn.

—Era bem velho.

—Como velho?

Abby encolheu os ombros. Para as crianças todos os adultos pareciam velhos.

—O que foi concretamente que te fez pensar que era velho?

—Tinha pouco cabelo.

—Era calvo?

A menina sacudiu a cabeça e esfregou o nariz com as costas da mão.

—Tinha o cabelo curto, como se tivesse cortado muito, mas tinha uma área brilhante na parte de trás. O avô corta o cabelo muito curto porque cai, e isso faz que não pareça tão velho.

—Poderia dizer de que cor era o cabelo?

Abby voltou a encolher os ombros.

—A verdade é que não sei, porque não havia muito cabelo. Embora não fosse escuro, como preto ou castanho.

—Como estava vestido?

A menina pensou.

—Jeans. E uma camiseta branca.

A Olivia pulsou com força o coração.

—Viu alguma outra coisa que te chamasse a atenção?

Abby sacudiu a cabeça.

—E seus braços? Tinha-os descobertos?

—Sim, mas usava - se interrompeu —. Não, não era uma camisa. Mas usava uma coisa azul muito estranha no braço.

—Uma tatuagem? — perguntou Olivia, que se recriminou interiormente por orientar à menina, embora fosse incapaz de conter-se.

—Sim, poderia ser, mas estava como rabiscado.

—As tatuagens velhas podem ter esse aspecto.

Olivia sentiu as mãos tremerem, e as pôs no colo. Não havia nenhuma dúvida de que Chris Driscoll era o seqüestrador de Nina.

—Sabem quem é esse homem? — perguntou o senhor Vail.

Zack e Quinn trocaram olhares. Quem falou foi Quinn.

—Temos algumas boas pistas.

—O que significa isso?

—Senhor Vail, eu gostaria de lhe contar tudo o que sabemos — disse Quinn —, mas em razão da segurança, não posso fazer isso. Só lhe direi que temos um suspeito, e que entre o FBI e o Departamento de Polícia de Seattle estamos fazendo todo o humanamente possível para localizá-lo.

—Abby, seria capaz de descrever a um desenhista o que viu? — perguntou Zack —. É alguém que fará um desenho do que você lhe disser, assim pode nos ajudar a nos fazer uma boa idéia do aspecto desse homem.

—Não me lembro de muito.

—Mas o senhor Jorge recorda um pouco, e você recorda outro pouco. Com a ajuda dos dois, acredito que conseguiremos ter uma boa idéia do aspecto desse homem.

—Tentarei.

—Obrigado, Abby.

Zack se levantou.

—O desenhista virá a qualquer momento. Gostaria de um copo de água? Um refresco?

Os Vail negaram com a cabeça ao uníssono.

—Encontrem Nina. O mundo de Lydia gira em torno dela.

    

Um aroma fedido a despertou.

Nina tossiu, e sua voz soou longínqua. Aspirou uma mescla de fumaça de carro e sujeira. Envolvia-a um zumbido tênue e constante, ninando-a entre o sono e a realidade, mas um repentino tin-tin procedente de debaixo dela a despertou de repente.

Algo não estava bem. Tinha a cabeça pesada, como quando sua mãe a tinha despertado no meio da noite, no ano anterior, para lhe dizer que a avó tinha morrido. Mas aquilo era diferente. Doía-lhe. O frio lhe fez estremecer, e a pele ficou arrepiada.

«Durma. Você está sonhando.»

Não, não era um sonho. Nina tentou fechar os olhos, mas algo os mantinha fechados. Como uma venda. Tentou tocar o doloroso galo que tinha na parte detrás da cabeça, mas não pôde mover os braços. Retorceu-se. Tinha as mãos atadas nas costas e estava deitada de lado.

Então, se recordou.

Tinha gravada na memória o rosto do homem que parou diante de sua bicicleta, fazendo que ela caísse.

Estava dobrando a esquina da Terceira com a Harrison Drive, sua rua, quando um homem apareceu repentinamente diante dela. Tinha virado bruscamente para não golpeá-lo, indo parar contra os arbustos e caindo da bicicleta.

—Sinto muito, querida — lhe havia dito o sujeito lançando-se sobre ela.

—Estou bem. — Tinha tentado se levantar, mas o tornozelo tinha ficado preso entre o pedal e a armação da bicicleta, e tinha tropeçado.

Ele a tinha pego, e Nina tinha tomado ar enquanto olhava fixamente aqueles olhos tão claros, uns olhos que quase não pareciam reais. Não mostravam nenhum sentimento e não pareciam lamentar.

Havia algo mau naquele homem e na maneira que tinha de olhá-la. Como se a conhecesse. Então, Nina tinha tomado ar para gritar, mas a mão esquerda do homem havia lhe tapado a boca, enquanto lhe dava a volta para poder imobilizá-la contra seu corpo com o braço direito.

Tudo tinha ocorrido muito depressa. Em um instante havia caído da bicicleta, e no seguinte o homem avançava pela calçada com ela até uma grande caminhonete em que Nina não tinha reparado até esse momento.

—Nina!

Tinha sido sua amiga Abby, que vivia na mesma rua.

Nina tinha mordido a mão do homem, que lhe soltou uma palavra feia ao ouvido, mas não a soltou. Ela tinha jogado uma perna para trás com a intenção de lhe dar nas partes íntimas, as quais, conforme lhe havia dito sua mãe, doíam muito.

«Se alguém tenta te tocar, grita e lhe dê um chute nas partes íntimas. Irá soltar você, e então corra muito depressa.»

Mas ela não tinha podido lhe alcançar com o pé; e de repente, seus pés tinham deixado de tocar o chão quando ele a levantou, meio transportando-a, meio empurrando-a, para a grande caminhonete branca. Tinha os braços imobilizados ao corpo e esperneava furiosamente no ar.

—Solte-a! Socorro! Que alguém me ajude! Socorro! — Abby tinha começado a gritar, e Nina rezou para que houvesse alguém perto, quem quer que fosse.

O homem a empurrou para o interior da caminhonete, e ela bateu a cabeça contra o chão. A intensa ardência fez que as lágrimas corressem por seu rosto, mas seguiu lutando para soltar-se.

—Pare! —Tinha sido a voz de um homem e soava muito longe —. Você! Pare! Já chamei à polícia!

Nina tinha reconhecido o homem; era o senhor Jorge, o vizinho da casa do lado, que não parava de queixar-se de que Scrappy, o gato listrado cor laranja de Nina, pusesse-se a dormir em seus canteiros de margaridas. Ele ia ajudar!

Então, algo lhe golpeou com força na cabeça e já não recordava nada até esse momento, quando o horrível aroma de fumaça de carro a tinha despertado.

Quanto tempo estava dormindo? Onde estava? Não podia ver. Retorceu-se e descobriu que podia mover-se um pouco. Embora tivesse as mãos atadas, seus pés estavam livres. Depois de retorcer-se de um lado para outro, deu-se conta de que podia se sentar.

O horrível fedor do escapamento… o ruído continuado… o surdo zumbido do motor… Estava na parte traseira de uma caminhonete. O homem de olhos claros a tinha pego, e o senhor Jorge e Abby não tinham podido detê-lo. Ia-lhe fazer algo de mau; sua mãe dizia que se um homem a agarrava faria mal a ela, e que, portanto tinha que pôr-se a correr. Mas ela não tinha saído correndo, não tinha podido fazê-lo, e nada do que haviam lhe ensinado tinha dado certo.

Segurou as lágrimas; cada vez que uma pedra produzia um som metálico contra o chassi, seu medo aumentava. O tinido era cada vez mais freqüente. Onde estava? O que aquele homem ia fazer? Ele iria matá-la, como a aquelas outras meninas das que tinha ouvido sua mãe falar com a senhora Vail?

Aquilo tinha bom aspecto. Nesse momento, toda a coisa que sua mãe havia lhe dito, que lhe haviam dito seu professores, desejava muito ter dado mais importância. Sua mãe sempre estava preocupada.

«Sim, mamãe» lhe dizia depois de escutar outro sermão sobre ser prudente e desconfiar dos estranhos.

E havia dado um encontrão de bicicleta logo com um.

Reprimiu um grito; queria tanto sua mãe nesse momento. Mas não queria que o homem a ouvisse. Tinha que encontrar a maneira de sair. Ela era tudo o que sua mamãe tinha depois da morte de papai. Nina nem sequer se recordava dele; só tinha dois anos na época. Sua mãe era sua única família.

Sua mamãe fazia tudo por ela. Não eram ricas; de fato, sempre estavam sem um centavo e não podia fazer as coisas que a família de Abby fazia, como ir ao cinema ou sair de férias todos os verões na Disney World ou algum outro lugar divertido. Às vezes, sentia inveja de que a família de Abby tivesse dinheiro para fazer coisas, e sua mãe, não, mas Nina sabia que sua mãe trabalhava muito para ter uma poupança para a universidade, e ela tinha aulas de ginástica, que custavam muito dinheiro. Nina adorava ginástica e sabia que era boa. Sua mãe dizia que adorava vê-la, e seu treinador dizia que poderia apresentar-se para os testes para a equipe estatal no ano seguinte.

A equipe estatal era um degrau mais para a equipe olímpica. Nina ansiava isso mais que tudo no mundo.

Bom, nesse momento havia algo que desejava até mais. Tinha que encontrar a maneira de escapar.

Reprimiu um soluço. Lutou com as cordas que lhe atavam as mãos; estavam apertadas, e seus dedos haviam adormecido. Como…? Um momento. Talvez pudesse… Sim! Aquilo era igual aos aros.

Ainda que machucasse tanto nos punhos que lhe correram as lágrimas pelo rosto, Nina se impulsionou para cima com as palmas das mãos e jogou o corpo para trás, para passá-lo pelo buraco que formavam seus braços. Desceu com cuidado, porque não queria fazer ruído, e passou os braços por debaixo das pernas até que apareceram na frente dela.

Sim!

Levantou as mãos, arrancou a venda e piscou. Não via nada. Do exterior não chegava nenhuma luz; tampouco da cabine da caminhonete. Estava encerrada em um cubículo, longe de sua mamãe, longe de qualquer ajuda. O coração lhe pulsou com força. Como conseguiria chegar a sua casa? E embora conseguisse escapar daquele homem, onde estava? Para onde iria?

«Deixa-o já, Nina!» Não podia pensar assim. Tratava-se de escapar, sem mais. Escapar. Já resolveria todo o resto depois. Só escapar.

Utilizou os dentes para afrouxar as cordas que a prendiam pelos punhos, e a dureza da fibra fez que deixasse os lábios e as gengivas em carne viva. Mas estava dando certo; estavam-se afrouxando.

De repente, a caminhonete começou a subir uma ladeira pronunciada e Nina caiu, sem poder evitar um grito quando sua dolorida cabeça se chocou contra a porta traseira. Incorporou-se e procurou algo em que se segurar. Não pôde encontrar nenhuma; estava presa.

Continuava tentando afrouxar as cordas quando a caminhonete diminuiu a marcha, fazendo um giro pronunciado. O ar começou a fazer-se consideravelmente mais quente.

Tinha que sair. Assim que o homem abrisse a porta, tinha que sair correndo. O mais depressa que podia.

E sem olhar para trás.

    

Na sexta-feira de noite, o ajudante do promotor do distrito Ross Perdue ficou a trabalhar até tarde. Não tinha esposa nem filhos, e vivia para seu trabalho. No tribunal todos achavam que seria o designado para substituir Hamilton Craig como promotor do distrito para o resto do mandato, e era perfeitamente possível que acabasse sendo eleito o promotor de distrito mais jovem da história do condado, se ganhasse nas próximas eleições.

A maioria das pessoas pensava que Ross era ambicioso, mas quem o conhecia bem — que não eram muitos — sabiam que o que o motivava era bem mais que um simples cargo. Fazia oito anos, quando ainda era estudante de Direito, sua jovem esposa grávida tinha sido baleada no dia de seu primeiro aniversário de casamento.

No seguinte semestre, Ross tinha mudado seu objetivo de se transformar em advogado mercantilista por advogado criminalista, e não havia voltado a olhar para trás.

Havia algo no caráter da morte de Hamilton Craig que lhe preocupava, mas não era capaz de averiguar o que. Talvez fosse o infeliz fato, que tanto se parecia com o de Becky. Não parecia ter uma «motivação», e a violência aleatória lhe parecida tremendamente injusta, assim como um tornado que caísse do céu e arrasasse só uma casa entre milhares.

Quando bateram na sua porta eram mais das seis horas, muito depois que a maioria dos fiscais tivesse partido para o fim de semana.

Era o chefe de polícia de Redwood City, Bill Tuttle. Ross se levantou e estendeu a mão.

—Chefe. No que posso lhe servir?

O policial não se sentou.

—Gary Porter foi assassinado em sua casa em algum momento ontem de noite.

—Gary Porter? Eu o conhecia?

—Provavelmente, não. Tinha sido detetive, e estava a vários anos aposentado.

—E? — Ross o animou a seguir.

—Inspecionamos sua casa esta manhã quando sua esposa lhe ligou de Paris e disse que não podia entrar em contato com ele. Faz alguns poucos anos tomava uma medicação para o coração, assim que a mulher estava preocupada com ele. E o encontramos na cozinha, morto a tiros. Pelo que podemos saber, Gary voltou para casa depois do funeral de Hamilton Craig. Acendeu as luzes, dirigiu-se a seu escritório e se serviu de um uísque. Bebeu aproximadamente a metade antes que a luz se apagasse. Então, dirigiu-se à cozinha, (provavelmente para pegar uma lanterna para examinar a caixa dos fusíveis), e alguém lhe disparou no peito. Quem foi, voltou a disparar de perto quando já estava no chão.

—Droga! — As mãos de Ross se estiraram —. Tem algum suspeito? Necessita de uma ordem?

Tuttle fez uma pausa.

—Liguei para o pessoal do laboratório criminal para que fizesse horas extras e analisassem a bala. Acabam de me entregar o relatório. O projétil coincide com a arma que matou Hamilton Craig.

—Não é uma casualidade. Acredita que possivelmente trabalharam juntos em algum caso? Assassinatos por vingança? Posso comprovar os prisioneiros soltos e ver se coincidem…

—Há um ao qual quero investigar imediatamente.

—De quem se trata?

—Brian Harrison Hall.

—Hall? Estive reunido com ele nesta mesma manhã. Proporcionou ao Departamento de Polícia de Seattle uma valiosa informação sobre alguns assassinatos cometidos lá. Por que demônio mataria Hamilton e um policial aposentado?

—Talvez por que ele ficou preso por trinta e quatro? — Tuttle se inclinou sobre a mesa de Ross —. Ross me permita que não me ande com rodeios. Meus vinte anos de experiência me dizem que não é nenhuma casualidade que Hall fosse posto em liberdade há menos de um mês, e que agora Hamilton e Gary estejam mortos. Hall vive na cidade, e tem um motivo. Só quero falar com ele. Mas necessito de uma ordem para revistar seu apartamento.

—Oh, merda! — Ross examinou os prós e os contra. Se Hall era inocente, iam passar mal com a imprensa. Desde a revisão da condenação de Hall, tinham tido muitos problemas de relações públicas.

Mas se fosse culpado…

—Pensa que pode ir atrás de alguém mais?

—Que me crucifiquem se o sei. O juiz? Foi Clive Dunn e morreu faz anos. Assim como o companheiro de Porter. Possivelmente os membros da junta da condicional? Os agentes que o detiveram? A garota que testemunhou contra ele? Não sei.

—Não sei se temos fundamentos legais — resmungou Ross —. Mas… — Consultou o registro para ver que juiz estava de guarda nessa noite —. Muito bem. A sorte está de nosso lado. Faith Hayes é a encarregada da lista de casos. Ela nos dará a ordem. Quase certo, restringida, mas nos permitirá entrar no apartamento de Hall. Certo?

—Certo.

 

Uma hora depois, os dois desenhistas tinham terminado seu trabalho conjunto de realizar um desenho realista de Chris Driscoll apoiando-se na foto do exército e nas descrições de Henry Jorge e Abby Vail.

—Farei que se difunda isto pelos canais federais — disse Quinn pegando uma cópia.

—O damos à imprensa? — perguntou Zack, quase para si.

—Eu acredito que sim — respondeu Quinn —. Este cara esteve em Seattle vários meses, talvez mais tempo. Alguém o terá visto. Se podemos colocá-lo nos noticiários… — Quinn olhou seu relógio — podemos conseguir que saia nos noticiários das dez horas e das onze horas. Podemos estabelecer aqui uma linha aberta para receber ligações?

—É obvio — disse Zack.

—Temos que fazer cópias e distribuir o desenho entre todas as empresas de aluguel de carros, concessionários e qualquer outro lugar onde possa conseguir um carro com facilidade — disse Olívia —. E acredito que deveríamos cobrir a ilha de Vashon.

—Vashon?

—A primeira vítima foi seqüestrada e assassinada em Vashon. Acreditamos que o crime pôde ter sido espontâneo. — Olivia se dirigiu ao mapa —. Você nota em como tanto Michelle como Jennifer foram jogadas em mais de trinta quilômetros de onde foram seqüestradas? Não como Jillian, que foi jogada em três quilômetros. Elaboramos um esquema de outros crimes; a primeira vítima se sempre foi encontrada em uma área solitária a menos de oito quilômetros de onde foi vista pela última vez. Outros corpos foram jogados entre dezesseis e oitenta quilômetros de distância, e em lugares muito mais freqüentados.

—O assassino poderia viver ou trabalhar na ilha — disse Zack.

—Exato.

—Vamos dividir o trabalho — disse Zack —. Quinn se ocupe dos canais federais. Direi a meu chefe que se encarregue dos meios de comunicação. Boyd e O’Neal podem se ocupar das concessionárias. Liv, você e eu iremos a Vashon assim que tenhamos falado com a senhora Markow. — Consultou seu relógio —. Já deveria estar aqui.

—Farei isso. — Quinn riscou alguns números e os entregou a Zack —. São meus números de contato. Pode me chamar tanto de dia como de noite. Os teus eu já tenho.

—Obrigado.

Quinn olhou para Olivia.

—Lembranças de parte de Miranda. Deveria ligar para ela.

Olivia sentiu que lhe caia a alma aos pés.

—Eu ligarei para ela. Já pensava em fazer isso.

Quinn não disse nada e partiu.

—De quem estavam falando?

—A esposa de Quinn é uma grande amiga minha. Estivemos juntas na Academia. Quando cheguei à cidade não liguei para ela, e deveria ter feito isto.

—Não tivemos muito tempo desde que você chegou. Ela entenderá.

—Sim. Estou certa disso. — Salvo que havia mentido por telefone a Miranda no outro dia. «Espero que Miranda entenda. De verdade que sim.»

Zack saiu da sala para conseguir cópias suficientes do desenho e envia-las para as diferentes partes da cidade. Olivia permaneceu absorta no minucioso desenho que tinha diante de si.

Chris Driscoll parecia tão normal, que quase parecia amável. Talvez fosse porque nenhuma das testemunhas tinha visto seus olhos. Estes tinham uma expressão insignificante, quase ausente; eram impassíveis e estavam vazios. Tinha um rosto magro, com linhas ligeiramente marcadas e um queixo ligeiramente fendido.

Olivia comparou o desenho com a foto do exército de Driscoll, tirada quando ele havia se alistado aos dezenove anos. Exceto pelo mesmo aspecto geral — cabelo muito curto, olhos azuis claros e a altura — realmente ele não se parecia em nada com Hall. Aos cinco anos, aquilo tinha sido tudo que ela tinha tido: o aspecto geral da pessoa. O que ressaltava era a tatuagem, e tinha sido a tatuagem o que era idêntico.

Então, o que é que ela recordava realmente? Após, tinha visto Hall tal e como este aparecia quando se enfrentava a ele nas vistas para a liberdade condicional. Fotografias de jornal. Não como o jovem que tinha assassinado Missy.

Chris Driscoll tinha tido uma infância desgraçada. Sua mãe fora assassinada, e o assassino os havia levado a ele e a sua meio irmã por todo o país para evitar que o detivessem. Olivia podia ter sentido certa simpatia pela criança; era capaz de apreciar a causa de sua loucura.

Embora não fosse capaz de entender como aquele homem podia machucar e matar a tantas meninas inocentes. Nem todas as crianças criadas por pais violentos se transformavam em máquinas de matar. Olivia supôs que devia ser algo relacionado com o caráter intrínseco, algo que o tinha transformado em um assassino ao se expor à fúria de outro.

Fosse o que fosse ou fora quem fosse que tinha criado aquele monstro, teria que pará-lo. Antes que Nina Markow morresse.

Uma batida na porta precedeu à aparição da cabeça de Jan O’Neal, que, ao vê-la, entrou na sala.

—Tenho aqui Lydia Markow — disse a policial em voz baixa —. Eu a coloquei em outra sala de reuniões e lhe dei um pouco de água. Onde está Travis?

—Com o chefe Pierson. Se quiser se reunir com Travis, já me sentarei com ela.

—Obrigado. Não quero deixá-la só muito tempo. Parece que está passando bem, mas nunca se sabe.

Jan lhe entregou uma foto.

—Demos uma volta pela casa para pegar uma foto recente da vítima.

Nina Markow era uma menina linda de aspecto delicado e ossos pequenos que tinha um amplo e encantador sorriso. Prendia o cabelo loiro platinado em um coque que descansava, no alto de sua cabeça, e que reluzia como se refletisse toda a luz do quarto. Era uma foto de corpo inteiro de Nina, que, vestida com um body vermelho, branco e azul, posava, descalça, em uma pose complicada. Era tanta a vida e a energia que irradiava daquela foto, que Olivia se surpreendeu esfregando os olhos, como se desejasse que Nina entrasse na sala nesse mesmo instante.

—Levarei a foto para que façam cópias e sejam distribuídas — disse Jan. A agente olhou o desenho que Olivia tinha diante de si —. Esse é Driscoll?

Olivia assentiu com a cabeça.

—O maldito filho da puta.

Jan acompanhou Olivia até onde a mãe da Nina estava esperando. Olivia olhou através do vidro da porta. Lydia Markow era igual a sua filha e tinha o mesmo cabelo loiro recolhido atrás; era uma mulher atraente, vestida com um singelo e barato terninho. Estava brincando com dois finos anéis dourados que usava na mão esquerda.

Olivia respirou fundo e se fiou que Zack se apressasse em aparecer. Não sabia o que dizer à mãe, ainda que soubesse que, se estivesse na pele de Lydia Markow, iria querer simplesmente que alguém estivesse ali com ela.

Quando entrou na sala, Lydia levantou o olhar. Tinha os olhos avermelhados, embora secos. Sorriu para Olivia de maneira forçada.

—Encontraram-na?

Olivia negou com a cabeça e se sentou. Lydia fechou os olhos e se benzeu.

—Estamos fazendo todo o possível.

—Sabem quem o fez?

Olivia hesitou; não sabia o que lhe dizer.

—Temos um suspeito — disse por fim. Não ia mentir para aquela mulher.

—É o mesmo homem que matou às outras meninas, não é mesmo?

Olivia não respondeu. Talvez não devesse ter dito nada. Nunca tinha trabalhado com sobreviventes anteriormente. O que se supunha que tinha que dizer? Quanto se supunha que devia revelar?

—Pensava que sim. — Lágrimas silenciosas escorregaram pelas bochechas de Lydia —. Não posso perdê-la. Meu marido… morreu quando Nina tinha dois anos. Ela era a menina de seus olhos; e também a dos meus. Não sei como… Não, Deus não me tirará ela. A protegerá.

Lydia puxou um pingente enterrado sob sua blusa; era um pequeno crucifico de ouro. Os lábios da mulher se moveram em silêncio ao rezar, e o abatimento se apoderou de seus olhos.

Zack entrou na sala, e Olivia se voltou para ele com lágrimas nos olhos. Ele lhe pôs uma mão no ombro e lhe deu um apertão.

—Senhora Markow, quero que saiba que estamos fazendo tudo o que podemos para encontrar Nina. Tudo. Todos os agentes de Seattle a estão procurando. Temos um retrato do homem que a levou. Se importaria de olhá-lo?

A mulher esticou a mão para pegar o papel.

Contemplou a foto fixamente durante um longo minuto.

—Nunca o vi — disse —. Eu sinto muito.

—Isso não é nenhum problema. Tanto Abby Vail como Henry Jorge nos proporcionaram boas descrições. Temos várias pistas.

Zack lhe contou o que acreditavam o que tinha ocorrido nessa tarde.

—Deseja fazer alguma pergunta?

—Quanto… quanto tempo…? Bom, tenho lido no jornal que ele não as mata em seguida. Assim temos tempo, não é mesmo? Temos tempo para encontrá-la, não é assim?

Zack tragou saliva, e Olivia percebeu a frustração e a tensão que irradiava do corpo do detetive.

—Acreditam que contamos com algum tempo. Também possuímos muita mais informação que antes. Temos parte de um número de placa do carro, e neste momento há 12 agentes repassando a lista e falando com os vinte e dois proprietários de King County com caminhonetes brancas, último modelo com esse número parcial. Ampliaremos a busca aos condados circundantes. Além disso, temos um retrato falado do suspeito que estamos distribuindo por localidades chaves, e os meios de comunicação aceitaram emitir a foto nos jornais. Montamos uma operação de alerta sobre o seqüestro, e o FBI se envolveu. Prometo-lhe que faremos tudo o que estiver em nossas mãos para encontrar Nina e a levar de volta para casa sã e salva.

Lydia fechou os olhos com força; saltaram-lhe algumas lágrimas.

—Obrigado — conseguiu dizer com muita dificuldade.

—Seu vizinho, o senhor Jorge, ainda está por aqui. Quis esperá-la se por acaso necessitava que a levassem para casa — disse Zack.

—Henry é um homem muito amável. Pedirei que me leve à igreja. Se souberem de algo, estarei em São Esteban.

    

Geralmente, Zack gostava da viagem de ferry partindo de Flauteroy para a ilha de Vashon. Nessa noite, a viagem de vinte minutos lhe pareceu dez vezes mais longa e não parou de dar voltas pela cobertura de observação enquanto ele e Olivia programavam seu tempo.

—Suponhamos que vive ou trabalha aqui; isso significa que provavelmente faça as compras na ilha? Que coma nos restaurantes? Que encha o tanque do carro? — Zack foi propondo as idéias.

—Comecemos por aqui. Perguntaremos aos empregados do ferry se o reconhecem. — Olivia esticou a mão para impedir que Zack seguisse dando voltas —. Se encarregue da tripulação de baixo; eu me encarregarei da cobertura de observação, e nos reunimos no carro quando atracarmos.

—Tem razão. Deveria ter pensado nisso. — passou uma mão pelo cabelo, terrivelmente frustrado porque Driscoll havia levado outra menina quando estavam tão perto de encontrá-lo.

Separaram-se, e Zack desceu até a cobertura dos carros dos passageiros. A maior parte das pessoas tinha subido à cobertura de observação; algumas poucas pessoas circulavam pelo exterior, cobertas com seus casacos. O ar era notavelmente mais frio no mar que em terra, e com o outono já bem avançado, as temperaturas seguiriam descendo.

Zack começou com a tripulação de segurança. Perguntou aos quatro da cobertura dos carros, e nenhum reconheceu Driscoll. Dois apenas olharam o desenho. Que tipo de segurança eram eles se nem sequer viam alguma coisa?

Dez minutos depois, quando soou o primeiro toque da sirene, Zack estava decidido a ir à autoridade responsável pelos transportes para denunciar os idiotas que eles haviam contratados.

Até que se encontrou com Stan Macker.

Stan Macker estava a ponto de se aposentar. Era calvo e tinha o rosto curtido de um homem que tinha trabalhado ao ar livre a maior parte de sua vida. Dava a impressão de que preferiria morrer em pleno trajeto e ser enterrado no mar. Seu posto estava na porta de embarque.

Zack se aproximou dele sem nenhuma esperança.

—Detetive — disse o ancião com um movimento de cabeça.

—Como sabe que sou policial?

—Meu nome é Stan Macker. Estou trabalhando nos transportadores há quarenta anos. Estive lhe observando desde que subiu a bordo. A você e a essa linda parceira. Vi que pediu aos guardas de segurança e a metade de minha tripulação que olhem uma foto. Suspeito que quer que eu olhe a foto.

Zack lhe entregou o desenho.

Stan o olhou de ponta aponta assentindo com a cabeça e o devolveu.

—Um Ford Ranger verde escuro. Modelo do final dos anos noventa. Hoje esteve aqui.

—Quando?

—Pegou o da uma hora e dez em Flauteroy. Não retornou.

—Por que se recorda dele? Deve ver milhares de pessoas e carros por dia.

—Estou aqui tanto tempo, que me recordo dos carros. E das pessoas. Há uma mulher que vive em Vashon que pega o transportador todos os fins de semana há dezesseis anos. Só faltou um dia. Aquilo me surpreendeu, então liguei para a subestação de Vashon, descrevi a ela e o seu carro e lhes disse que não tinha estado doente nem um dia em dezesseis anos, e que talvez tivesse lhe ocorrido algo. E algo lhe ocorreu. Naquela manhã havia tido um ataque. Os médicos conseguiram lhe salvar a vida. — encolheu-se de ombros —. Simplesmente, lembro das coisas.

—E o que é que faz este homem digno de que o recorde? Vai e vem do trabalho todos os dias?

Stan negou com a cabeça.

—É muito irregular. Mas fica em sua caminhonete. Sempre. Não põe música. Nem sai do carro para esticar as pernas. Nem lê… Temos muitas pessoas que lêem um livro ou o jornal enquanto permanecem sentados em seus carros. Este, não. Fica com o olhar fixo à frente. Por isso chama a atenção.

—Têm fitas de segurança? Tenho que ver essa caminhonete e pegar o número da placa.

—Fale com o chefe de segurança. Ele pode as conseguir.

—Viu-o alguma vez em outro veículo? Talvez uma caminhonete grande ou uma perua urbana? — Zack não queria condicioná-lo, mas tinha que saber se Driscoll levava suas vítimas à ilha.

—Não. Só o Ranger. Mas não estou de serviço nas vinte e quatro horas do dia, sete dias da semana.

—Obrigado por sua ajuda. Falarei com o chefe de segurança. Como se chama?

—Ned Jergens.

—Esse foi policial. — Zack não havia chegado a conhecê-lo bem, mas reconheceu o nome.

—Verdade. É um bom cara. Está designado em Flauteroy, mas aqui tem seu número direto. Dão-nos isso se por acaso temos algum problema.

—Muitíssimo obrigado, Stan. Realmente agradeço.

—Esse cara é um indesejável, não é mesmo?

—Da pior espécie. Se o vir, chame Jergens imediatamente. E a mim também. —Zack lhe entregou seu cartão.

Assim que Zack e Olivia desembarcaram, ligaram para o chefe Pierson e lhe contaram o que Stan Macker havia dito. Pierson entraria em contato com a Autoridade Portuária de Seattle e com Ned Jergens e conseguiria todas as fitas de segurança desde o seqüestro de Jennifer Benedict no mês anterior.

O bairro comercial de Vashon estava muito animado de noite, e Zack e Olivia se dividiram na rua. Trinta minutos mais tarde, Olivia entrava em um restaurante situado no final do cais. O aroma e a boa comida fizeram que lhe o estomago roncasse; seu único alimento nesse dia tinha sido um sanduíche no aeroporto de São Francisco.

Perguntou pelo encarregado, e vinte minutos mais tarde uma jovem asiática de uns vinte e poucos anos saiu dando pulos da cozinha.

—Olá! Sou Denise Tam. Posso ajudá-la?

Olivia se apresentou e mostrou sua identificação do FBI.

—Estamos procurando um homem que acreditamos vive na ilha. Conduz um Ford Ranger verde escuro. — Entregou o desenho a Denise —. O viu? É possível que tenha vindo comer aqui?

—Oh, meu Deus! — disse a encarregada levando a mão à boca —. É Steve.

Olivia sentiu o coração dar um salto até a garganta.

—Steve? Sabe como se chama?

—Steve Williams. Está trabalhando aqui há quase dois anos. Oh, meu Deus! O que aconteceu? Não terá se metido em nenhuma confusão?

Olivia deu uma olhada pelo restaurante tentando localizar Driscoll.

—Está trabalhando esta noite?

A garota negou com a cabeça.

—Não, trocou de turno. Tem uma filha na universidade, no Oregón, e foi visitá-la.

Filha? Nos antecedentes de Driscoll não havia nada que indicasse que tivesse alguma filha ou que tivesse sido casado alguma vez. Podia ser verdade ou um estratagema.

—Sabe como se chama sua filha?

—Angel.

Olivia ficou sem fôlego, mas se recuperou em seguida.

—Tenho que ver os históricos trabalhistas de seus trabalhadores agora mesmo.

—Não… não sei se supõe que eu deva fazer isso.

—Posso conseguir uma ordem e voltar dentro de uma hora, mas, durante o tempo que demorar em voltar, alguém pode morrer. Quer ter isso na sua consciência?

Denise a olhou como se estivesse a ponto de começar a chorar.

—Sinto muito. Sinto muito. Passe para o escritório.

—Um segundo. — Olivia abriu o celular com uma sacudida e discou o número de Zack —. Bingo. Em um restaurante do cais… A Choça do Caranguejo. Estarei no escritório com a gerente.

    

Trinta minutos depois, Zack e quatro ajudantes do chefe de polícia do condado da ilha de Vashon tinham cercada a cabana alugada por Steve Williams, conhecido também como Chris Driscoll.

A pequena casa se levantava na margem do bosque onde, a menos de um quilômetro e meio, tinha sido encontrado o corpo de Jillian Reynolds. A propriedade parecia vazia, mas Zack não ia correr nenhum risco. Havia feito que os ajudantes do xerife inspecionassem o perímetro completamente, e depois havia batido na porta. Ao não ter resposta, eles entraram na casa.

Chris Driscoll tinha vivido na ilha de Vashon bem mais de um ano, mas a pequena cabana não refletia nada pessoal: nem fotografias nem quadros nas paredes. Quando Zack ligou para o proprietário da moradia, inteirou-se de que tinha sido alugada parcialmente mobiliada. Driscoll pagava o aluguel em dinheiro, e havia dito ao dono que era o dinheiro das gorjetas. Nunca se atrasava no pagamento.

A casa era insossa, estava imaculada e carecia de personalidade.

O balde do lixo estava vazio. Não havia pratos nem no suporte da cozinha nem na pia; não havia planta nas jardineiras das janelas. A mesa de superfície cristalina tinha duas cadeiras perfeitamente alinhadas.

O dormitório não parecia ter sido utilizado, salvo pelo fato de que a cama tinha lençóis brancos e duas mantas muito bem dobradas ao estilo militar. Zack temeu que Driscoll já tivesse escapado, que não tivesse intenção de voltar depois de Nina Markow.

Comprovou as gavetas e se sentiu aliviado ao encontrar roupa. Três jogos de uniformes para o restaurante — calças esportivas e camisas pólo pretas — apareciam rigidamente dobrados. Não havia roupa suja no cesto; tampouco havia na máquina de lavar roupa nem na secadora.

Dado que a quarto carecia de qualquer objeto pessoal, a solitária foto se destacava como um farol.

Zack, com as luvas postas, a pegou.

A criança era Driscoll, aos nove ou dez anos. Usava o cabelo loiro muito curto, em um estilo que tinha estado muito na moda nos anos cinqüenta e princípios dos anos sessenta. A menina tinha quatro ou cinco anos, e era uma garotinha linda. Uma garotinha que aos nove anos teria se parecido notavelmente a Michelle Davidson ou a Nina Markow. Entre os dois, ajoelhada, havia uma mulher que rodeava os ombros das crianças com os braços. Sorria para a câmara.

Zack a virou.

«Mamãe e Angel. 10 de fevereiro de 1960.»

A foto tinha sido feita seis meses antes que Bruce Carmichael matasse Miriam Driscoll.

Sentindo um estranho mal-estar, Zack voltou a deixar a foto em seu lugar e se dirigiu ao armário embutido. Dentro havia algo assim como uma maleta que se parecia mais a uma grande caixa preta que poderia ser utilizada por um viajante de comércio.

Estava trancada.

Cabia a possibilidade de que Driscoll tivesse montado algum tipo de explosivo na casa? Zack não tinha os equipamentos para desativá-lo, e os artífices demorariam quinze minutos no mínimo para chegar à ilha, e isso utilizando a guarda costeira para seu translado.

Ligou para Doug Cohn.

—Doug, eu preciso que venha com sua equipe a Vashon o mais rápido possível. Traga George Franz com você.

—Uma bomba?

—Provavelmente não, mas não quero correr o risco de não ver seu horrível rosto pela manhã.

—Entendo.

Zack lhe deu as indicações, e em seguida ordenou aos ajudantes do chefe da polícia do condado que estabelecessem um cordão de segurança ao redor da casa de campo e que não deixassem ninguém entrar até que chegasse a polícia científica. Depois, procurou Olivia com o olhar.

Onde demônios ela estava?

Teria visto algo? Não era louca… não lhe ocorreria ir atrás de Driscoll sozinha! Ou sim? Era possível que Zack a tivesse julgado mal desde o começo? O coração e a mente de Olivia estavam tão implicados naquele caso, entre seus pais, e sua irmã, e tudo o que tinha ocorrido com a família Davidson…

Não. Acima de tudo, era uma profissional.

Mas o coração começou a lhe pulsar rapidamente, e Zack tirou sua pistola, segurando-a junto ao corpo enquanto rodeava a cabana.

Viu-a sob a luz da lua, ajoelhada na terra no limite do bosque. Zack sentiu uma onda de alívio por todo o corpo enquanto voltava a embainhar sua arma.

Ajoelhada no chão, com as pernas incapazes de sujeitá-la por mais tempo, o feixe da lanterna dançava sobre a pedra cinza que tinha diante de si.

Parecia uma lápide.

Os pontos e linhas com os quais já estavam familiarizados tinham sido esculpidos na pedra profundamente, como se um trabalhador de pedreira tivesse passado horas e horas trabalhando de modo gentil a pedra até deixá-la como um canto redondo.

—Olivia!

Ouviu a voz dele, mas lhe pareceu que vinha de longe. Em seu lugar, ouviu a voz de Missy, alta e clara:

—Deixa que termine este capítulo nada mais.

Os nomes e os rostos de trinta vítimas parecidas apareceram fugazmente por sua cabeça, até que começou a sentir náuseas. Vidas enviesadas, umas meninas que não tiveram a oportunidade de crescer, de aprender, de amar, e de ser amadas.

E Olivia tampouco tinha conhecido o verdadeiro amor jamais. Nunca tinha aceitado o amor de ninguém porque tinha estado presa no passado, em seu coração morto.

Já não permitiria por mais tempo que o assassinato de Missy seguisse lhe impedindo de viver; já não seguiria sendo prisioneira de sua dor nem de sua culpa.

Zack se ajoelhou no chão a seu lado.

—Liv o que está acontecendo?

Parecia preocupada. Olivia mostrou a pedra.

—Parece uma lápide, mas a terra não está removida. — Iluminou com sua luz o jardim que os rodeava. À luz do dia, a área seria uma explosão de cor.

—É um altar — disse Olívia —, dedicado a sua irmã morta.

Zack assentiu com a cabeça.

—Chamei o pessoal de Doug Cohn. Não demorarão em chegar. Direi que vejam isto.

—Permiti que o passado me controlasse durante muito tempo. As escolhas profissionais que fiz, as amizades que escolhi, minhas relações com as pessoas… — Olhou fixamente a Zack nos olhos, lhe implorando que a compreendesse. Não sabia como expressar a revelação que tinha tido olhando a triste rocha meio enterrada na terra —. A indiferença de meu pai, a dor de minha mãe, meus próprios sentimentos de culpa. Farei quarenta anos no ano que vem, e tenho a sensação de não ter dirigido minha vida.

Levantou-se e abaixou o olhar para Zack, que continuava ajoelhado junto à lápide.

—Isso acabou. Minhas decisões são somente minhas. Meus sentimentos são somente meus. — Olivia lhe tocou a cabeça, e com os dedos, roçou-lhe a orelha e o queixo áspero, deslizando-lhe pelos lábios. Zack lhe beijou o polegar, pegou-lhe a mão e se levantou.

—Sabe o que penso? — disse Zack em uma voz baixa e suave que fez que um calafrio lhe percorresse. Pegou as mãos de Olivia entre as suas e lhe acariciou as palmas com os polegares —. Acredito que todas as escolhas que tem feito ao longo de sua carreira a conduziram a este lugar e a este momento. E a conduziram a mim. Não pode pensar no passado, no que poderia ter sido. O que é, é. O que tem feito, feito está. Há tantas coisas que saem do nosso controle, Liv; tantas coisas. Mas as escolhas que temos feito, as de estar no lado correto da justiça, equilibram a balança.

Beijou-a levemente e também com muita brevidade.

—Vamos nos reunir com Cohn no porto. Não suporto estar esperando por aqui, mas até que tenhamos mais informação, não podemos fazer nada mais.

Afastaram-se do altar do jardim.

—Obrigado, Zack.

—Por quê?

—Por me ajudar a encontrar a mim mesma.

Ele negou com a cabeça.

—Você nunca esteve perdida.

 

Chris parou a caminhonete a meio caminho da subida das montanhas das Cascatas, a noventa minutos de carro ao leste de Seattle. A temperatura já tinha descido aos cinco graus, e tinha que levantar o acampamento. Tinha examinado a área muitas vezes, e nunca tinha visto excursionistas nem campistas por ali. Tinha inspecionado a área circundante, percorrendo acima e abaixo a estrada, tanto de carro como a pé, e nunca tinha visto rastros recentes de pneus nem rastro de gente. Supunha que o caminho seria utilizado fundamentalmente pelos guardas florestais, e os ouviria chegar muito antes que chegassem até ele.

Sua estadia no exército tinha servido de muito; anos de treinamento e de planejamento faziam que levantar um acampamento fosse algo suportável e fácil. Não tinha deixado nada de si atrás dele. E qualquer rastro que ficasse quando libertasse o anjo, em poucos meses estaria enterrado sob a neve. O solo absorveria a vida dela, e ele se desfaria de seu invólucro. Ela seria livre e viveria sem dor nem tristeza.

Sentou-se no chão e fechou os olhos. Estava preparado.

Tudo tinha começado quando morreu sua mãe. Chris não sabia como ela havia morrido, na época não, porque Bruce os tinha tirado, a ele e a Angel do colégio e se foram de Nova Jersey.

«Sua mãe morreu em um acidente. Tenho que encontrar um trabalho.»

Não voltaram para casa; nunca recolheram sua coleção de insetos nem seus livros nem seus brinquedos. Angel começou a chorar por seu urso de pelúcia, até que Bruce lhe deu uma torta.

Primeiro foram ao Texas, uma viagem muita comprida. Demoraram dias e dias para chegar.

Eles haviam ficado em um apartamento de um só quarto no qual Chris podia ouvir as brigas das pessoas que vivia no apartamento contíguo. Bruce dormia na cama com Angel. Chris dormia no chão. E Angel chorava todas as noites.

Bruce a maltratava.

Chris não demorou muito tempo em inteirar-se do que Bruce estava fazendo a Angel, mas não fez nada para impedir-lo. Era baixo para seus onze anos. Sua mãe havia lhe dito que quando crescesse seria grande e forte, mas não tinha sido assim. E Bruce era tão grande e tão mesquinho, que Chris não queria que fizesse também mal a ele. Mas quando Bruce se ia, cuidava de Angel. Arrumava-a, e a abraçava, e também lhe comprou um novo urso de pelúcia com o dinheiro que tinha roubado da carteira de Bruce.

A tinha amado, e tinha cuidado dela durante três anos, e então ela também quis abandoná-lo.

Não podia permitir-lo, estaria perdido sem ela.

Angel nunca poderia partir.

Chris se levantou de onde estava e atravessou a estrada na direção da caminhonete. Abriu a parte traseira e esticou a mão em busca de seu anjo.

Um movimento brusco e repentino junto a seu peito o sobressaltou. Tateou com a mão na escuridão e seus dedos roçaram cabelo, mas esteve a ponto de cair de bruços.

Subiu de um salto sem perda de tempo, sentindo, mais que vendo que seu anjo saltava da parte traseira da caminhonete e punha-se a correr.

A ira lhe ardeu nas veias com violência. Ela tentava escapar, abandoná-lo.

Jamais consentiria.

    

Zack e Olivia se reuniram com a guarda costeira no porto. Doug Cohn e sua equipe desembarcaram, e Zack o pôs a par do que tinham descoberto, depois do qual atravessaram de novo o estreito com a guarda costeira.

—Detetive Travis? Tem uma chamada por rádio — disse um dos oficiais, e lhe entregou um transmissor-receptor portátil.

—Aqui é Travis.

—Sou eu, Quinn Peterson. Recebemos uma chamada pelo dispositivo de alerta. A caminhonete em questão foi vista duas vezes na Auto-estrada 90, dirigindo-se ao leste em direção às montanhas das Cascatas. Um cara jura que viu uma caminhonete branca pegando a Estrada 56, que cruza o afluente setentrional médio do rio Anchor.

—As Cascatas têm uma extensão enorme, e a Estrada 56 é virtualmente intransitável em algumas paragens.

—Isso deveria nos facilitar a encontrá-lo. Liguei para os guardas florestais para que aumentem as patrulhas, e temos um helicóptero em estado de alerta. O chefe de polícia do condado já chamou todo o pessoal de licença para iniciar a busca sem perda de tempo.

—Demoraremos duas horas para chegar lá — disse Zack, desanimado. Duas horas podiam significar a diferença entre uma Nina viva ou morta.

—Trinta minutos no máximo. Tenho um helicóptero lhes esperando na delegacia de polícia da guarda costeira com um especialista em busca e salvamento a bordo.

—De quem se trata?

—De minha esposa, Miranda. Se lhe ocorrer algo, farei você pessoalmente responsável.

    

Nina correu como nunca tinha corrido até esse momento. Embora estivesse esgotada e pensava que não poderia dar um passo mais, seguiu avançando; ou dando tropeções. Às vezes, avançava lentamente, mas estava muito aterrorizada para deixar de mover-se.

Estava nas montanhas, era o que sabia, assim se concentrou em correr para baixo, sempre para baixo, e permanecer afastada da estrada. Não podia arriscar-se a que ele a visse, a que a ouvisse. O certo é que a escuridão ali era considerável, excessiva.

E Nina não gostava da escuridão.

Eram muitos os ruídos que competiam com sua respiração agitada e seus gritos ocasionais: corujas que ululavam, roedores que corriam, grandes animais que emitiam seus chamados, o ruído da água, um rio…

Nenhum era tão aterrador como o homem que tinha visto.

Parecia normal. Mas um simples olhar a seus olhos odiosos disse a aquela pequena que, se não conseguisse forças para correr, lhe faria muito dano.

Quanto tempo estava correndo? Continuava perseguindo-a? Acabaria por apanhá-la? Poderia ouvi-la?

Nina não sabia onde estava, mas não se deteve. Não queria deter-se para tentar ouvi-lo. Rogou e suplicou à Deus que a ajudasse. A lua se metia e saía por detrás das nuvens, guiando-a e ocultando-a alternativamente.

Ainda antes de ouvir o ruído de um corpo ao mover-se entre as árvores, viu o movimento pela extremidade do olho; o coração lhe pulsou com tanta força que lhe doeu.

Um feixe de lua se refletiu em dois olhos.

Ele estava ali; ali mesmo. A alguns metros de distância.

Ele a mataria.

Nina conteve um grito, e o corpo — coberto de pelo — passou correndo a seu lado tão perto, que ela percebeu o terror do animal. Ou foi seu próprio medo?

Era um cervo. Um cervo, não um homem.

Nina se deixou cair na terra úmida e chorou. Ninguém a encontraria. Não sabia onde estava nem a que distância estava de Seattle, isso se estava no estado de Washington.

« Se levante, Nina.»

«Não. Não quero. Estou cansada.»

Mas a voz insistiu. « Se levante, se mova. Siga correndo. Se levante, Nina. Marque seu caminho.»

Encontrou um galho grosso no chão e começou a marcar as árvores, quebrando um galho pequeno ou arranhando o tronco com o ramo que segurava na mão. Não sabia se aquilo lhe serviria de algo, mas fazer «algo» a tranqüilizou de verdade.

Não ouvia que ele a perseguisse; não ouvia nada que não fossem os predadores de quatro patas. Mas eles a aterravam bem menos que aquele homem mau. Assim como o cervo, eles tinham mais medo dela, que ela deles.

O que era isso?

Deteve-se. Escutou. Um ruído fraco, longínquo, um motor. As luzes atravessaram o bosque de repente; em seguida, cadenciado ao ruído continuado do carro, a luz subiu e baixou.

Teria chegado a ajuda?

Nina escutou, e seu medo cresceu. Não, não era a ajuda. Aquilo soava igual à caminhonete que conduzia o homem mau. Era ele.

Nina se agachou.

Um chiado e um grito desumano.

Zás. Crac.

Silêncio. Um silêncio mortal.

Nina pôs-se a correr. Correu com toda a pressa que pôde por um atalho estreito, e então, de repente, encontrou-se caindo…

 

Zack havia dito a Olivia que Miranda ia acompanhá-los na busca de helicóptero, embora vê-la fosse uma surpresa agradável. Miranda lhe deu um enorme abraço e perguntou:

—Como está? — em seguida, olhou para Zack, que estava falando com o piloto —. Quinn me contou tudo. — Miranda sussurrou — Seu segredo está salvo comigo.

Olivia relaxou.

—Obrigado. Estamos tão perto. Não quero por tudo a perder agora e não estar aqui quando o encontrarmos.

—Eu sei, Liv. Sei perfeitamente como se sente.

Miranda a entendia como ninguém. Ter sua amiga ali, não só para encontrar Nina, mas também como apoio, a fortalecia.

—Sinto não ter dito que estava em Seattle quando me ligou no outro dia.

—Falaremos disso mais tarde. Bom — Miranda deu uma olhada a Zack —, suponho que esse é o detetive Travis, não?

—Sim.

—É…, isto, bom, tão atraente como Viggo Mortensen em O Senhor dos Anéis.

Olivia se ruborizou. Miranda sabia que Olivia adorava a trilogia de Tolkien.

—Miranda! Não tinha me dado conta. —É obvio que sim, assim que o viu.

—Então, é por que está cega. — Miranda levantou o olhar ao céu —. Temos que nos pôr à caminho; a névoa está se formando.

Zack se aproximou.

—Miranda Peterson?

—Sim. — Lhe estreitou a mão —. Vamos embora, e irei contando meu plano durante o caminho —. Miranda entregou a Zack e a Olivia caminhos e copias do mapa da seção central e ocidental das montanhas das Cascatas.

—Acabo de falar com meu companheiro — disse Zack enquanto colocava os fones de ouvido e ajustava o equipamento na parte dianteira do helicóptero para encaixar suas longas pernas —. Encontraram o proprietário da caminhonete. Está registrada em nome de Karl Burgess. Ele e sua esposa saíram de férias esta manhã cedo. Seu vizinho diz que foram ao aeroporto em seu próprio carro. Boyd vai para lá procurar o veículo de Driscoll. Temos uma ordem e o rebocaremos até o laboratório. Além disso, montaremos uma operação de vigilância de vinte e quatro horas no aeroporto, se por acaso Driscoll voltar para por seu carro.

—Espero que não volte — disse Olivia.

Miranda e Zack a olharam com cepticismo.

—Se retornar, é porque Nina está morta.

    

Zack coordenou a operação com a polícia do condado do helicóptero e escutou Miranda expor seu plano. Falaram através dos microfones incorporados que tinham posto, esforçando-se para que suas vozes fossem ouvidas por cima do ruído do helicóptero.

—Enquanto a polícia do condado não diga outra coisa, vamos supor que a testemunha que diz ter visto a caminhonete branca tomar a Estrada 56 é confiável. Isso nos situa… aqui. — Miranda assinalou o acesso à Estrada 56 da auto-estrada —. Aqui existem algumas casa e cabanas espalhadas. A um quilômetro e meio mais ou menos, a montanha começa a subir de maneira considerável. Aqui está o afluente setentrional médio do rio Anchor; pode-se ver como a 56 o cruza aqui e… aqui.

—A estrada chega ao topo da montanha — disse Zack —. Estive ali. No verão é lindo, mas no inverno é intransitável.

—Além deste campo que há junto à saída, há outros dois locais onde podemos aterrissar. Podemos subir uns cinco quilômetros, até um hotel de montanha que tem uma pradaria lisa e ampla. Já falei com eles e nos deram permissão; se necessitarmos, aí está. Ou podemos aterrissar aqui. — Assinalou um ponto a um quilômetro e meio montanha acima —. É um acampamento dos Boy Scouts.

—Ele não irá a nenhum lugar onde o possam ver ou ouvir.

—Estou de acordo. Quer intimidade, mas também acessibilidade. Parece-me que já vigiou algum local.

—Não necessita muito para sobreviver — acrescentou Olívia —. Sua cabana tinha o básico; não havia nada supérfluo. Não precisará acender nenhum fogo. Assim talvez tenha previsto levar um saco de dormir e uma manta térmica, água e provisões.

—Estou de acordo — disse Miranda —. Esteve no exército, então sabe como viver com o mínimo. Mas também vai necessitar de uma via de escape; não vai se isolar tanto, que fique preso.

—Mas leva anos assassinando. Não vai pensar que lhe seguimos o rastro — disse Olívia —. Até esta manhã não tínhamos descoberto sua identidade.

Essa manhã? Olivia se deu conta de que tinha sido um dia comprido. Esfregou as têmporas, sentindo-se repentinamente cansada, e se surpreendeu quando Zack esticou a mão até ela e lhe massageou o pescoço.

Olivia o olhou nos olhos.

—Isto quase acabou, Liv — disse Zack, como se ela fosse a única que estivesse no helicóptero —. Vamos pega-lo. Esta noite.

Miranda passou o olhar de Olivia até Zack e limpou a garganta.

—Bom, marquei as coordenadas no mapa. A polícia do condado está inspecionando todos os caminhos que saem da Estrada 56, para ver se encontram rastros do rodado de uma caminhonete. Vão a cavalo, em carro e a pé. Estabelecemos postos aqui — no hotel onde podiam aterrissar —, neste posto da guarda florestal e aqui, na subcomissária da polícia do condado na base da montanha.

—E o que acontece se ele perceber a atividade e a mata imediatamente? — perguntou Olivia.

—E que outra coisa podemos fazer? — disse Zack —. Se não fizermos nada, matará a menina sem nenhuma dúvida. Mas suponho, Miranda, que tem um plano para minimizar nossa atividade.

Miranda assentiu com a cabeça.

—As transmissões por rádio foram suspensas. Todas as conversas se fazem através de freqüências de segurança. Se o assassino está controlando a televisão e os rádios comerciais, então saberá que o identificamos. Temos seu retrato falado saindo em todas as cadeias da parte ocidental de Washington, e o dispositivo de alerta está ativado, o qual situa seu rosto e descrição em milhares de paginas da Web do país. Não tem escapatória. A única coisa que temos que fazer é encontrá-lo antes que mate Nina.

Zack estudou o mapa.

—Seu marido me disse que é uma especialista em busca e salvamento. Liv, pensei que me havia dito que foram juntas à Academia do FBI.

—E assim foi — disse Miranda—, mas abandonei antes da graduação. É uma longa história. — Olhou para Olivia, e esta se sentiu mal porque sua amiga a estivesse protegendo —. Era a diretora de Busca e Salvamento de Montana, antes que Quinn e eu nos casássemos em junho passado.

—Ah. — O rosto de Zack se escureceu ao se recordar —. Ah! O Açougueiro de Bozeman.

—Sim, bom, isso terminou. — Uma sombra obscureceu o rosto de Miranda, e Olivia esticou a mão na direção dela.

—Não pretendia trazer o tema — disse Zack.

—Não tem problema. Agora temos o Aniquilador de Seattle em nossas mãos.

—Tenho uma transmissão do agente especial, Quincy Peterson — disse o piloto.

—A passe — disse Zack.

Todos ouviram a voz de Quinn através dos fones.

—A polícia do condado encontrou a caminhonete a dois quilômetros e meio da Estrada 56, passando o acampamento dos Boy Scouts. Irão encontrar vocês no acampamento e lhes levarão até lá.

—E Nina? — perguntou Olivia se lançando para frente.

—Não há rastro de Nina nem de Driscoll. A caminhonete teve um acidente… atropelou um cervo. Os airbag saltaram, mas há um pouco de sangue na cabine. Não na parte traseira. Qual é seu tempo estimado de chegada?

—Quatro minutos até o acampamento — disse o piloto.

—Eu estou a uns cinqüenta minutos. Doug Cohn e seu ajudante estão comigo, e tenho dois agentes que me seguem. E Travis, seu companheiro Boyd encontrou o carro de Driscoll no estacionamento de longa duração do aeroporto de Seattle - Tacoma. Se encontrarem algo de interesse na cabine, nos avisará.

—Obrigado, Peterson. Desligo.

    

Zack observou atentamente a caminhonete caída em uma vala; tinha um dos pneus enfiado em uma valeta tão profunda, que a roda traseira nem sequer tocava o chão. Um cervo jazia morto no meio da estrada. Ao animal apenas lhe restava um resto de vida quando os primeiros ajudantes do chefe de polícia do condado chegaram ao cenário. Tinham avisado um guarda-florestal, que sacrificou o animal pouco antes que Zack, Miranda e Olivia chegassem. Zack nem sequer teve que olhar os rastros da derrapagem para entender o que tinha ocorrido.

O cervo havia cruzado a estrada, a caminhonete o atropelou, e o impacto tinha tirado o veículo do caminho e o tinha enfiado dentro da valeta e contra a árvore.

—Por que não podia estar o bastardo morto atrás do volante? — resmungou Zack entre dentes.

O ajudante do xerife lhe dirigiu um meio sorriso.

—Isso seria muito fácil.

Zack não queria alterar nenhuma prova, mas necessitava de tanta informação quanta pudesse obter para esclarecer o ocorrido. Por que Nina não estava na caminhonete, e aonde Driscoll tinha ido? Continuava tendo Nina? Estava viva? A polícia do condado ia levar mais iluminação, mas tudo o que tinham nesse momento era algumas poucas lanternas de trabalho.

O airbag havia saltado e tinha restos de sangue, como se Driscoll tivesse se ferido ou o impacto lhe tivesse produzido uma hemorragia nasal. Quando Doug Cohn chegasse, analisaria todo o veículo.

Com as mãos enluvadas para evitar contaminar as provas, Zack examinou a cabine. Encontrou vários mapas, a documentação do carro em nome de Karl Burgess, alguns áudiolivros e duas entradas de cinema. Tudo parecia antigo e aparentemente deixado ali pelos proprietários da caminhonete.

Na traseira, Zack encontrou algumas cordas. Ainda tinham os laços feitos, e as levantou perguntando-se o que tinha acontecido.

Driscoll a tinha desamarrado? Nina teria se libertado por seus próprios meios? Ele teria ouvido as notícias e a tinha jogado nas montanhas — viva ou morta — para poder escapar? Aonde tinha ido Driscoll?

Zack rodeou a parte dianteira da caminhonete e pôs a mão no capô. Quase não se notava o calor; provavelmente, o acidente tinha ocorrido uma hora ou hora e meia antes.

Deu a volta lentamente no veículo, movendo a lanterna para frente e para trás. Na terceira volta algo chamou sua atenção.

Ficou em cócoras e os joelhos rangeram; recolheu uma cápsula. Era recente? A caça não era permitida naquela parte das montanhas das Cascatas, mas isso não significava que os caçadores não tivessem transpassado os limites não sinalizados.

Voltou a deixar onde a tinha encontrado, assinalando o lugar com uma bandeirola de sinalização de provas que tinha pegado da equipe da polícia do condado.

Levantou-se, e olhou ao redor iluminando com a lanterna. Então o viu. A terra estava removida e havia rastros de pegadas. A via de fuga de Driscoll.

—Hei, agente. — Zack esperou que o jovem policial chegasse até ele —. Isto parece uma espécie de atalho. Para onde conduz?

O ajudante consultou um detalhado mapa da área.

—Bom… os Boy Scouts utilizam muito esta área, mas principalmente no verão. O tempo é muito imprevisível no outono. O acampamento principal fica onde vocês aterrissaram… Aqui, a uns três quilômetros de distância. Os exploradores assinalam os atalhos todo o ano como parte de suas atividades. Este atalho parece um dos seus… mas não está no mapa.

—Então, não sabe para onde conduz?

—O programa dos Boy Scouts faz que as crianças percorram os atalhos com o objetivo de chegar ao acampamento principal. Há muitos requisitos; passou muito tempo desde que estive nos exploradores. Mas… a menos de oitocentos metros daqui, há um afluente do rio Anchor. Este cara poderia seguir todo o curso do rio montanha abaixo. Há muita vegetação na qual se esconder. Os abetos são muito frondosos em toda esta região.

—Certo, suponhamos que não está ferido. A pé, ainda demorará horas em descer a montanha. Necessitamos que uma equipe de rastreadores se dirija à parte mais baixa do rio e comece a subir; outra, que comece daqui e tente lhe seguir o rastro. Talvez possamos lhe fechar o caminho. Ele só pode seguir o rio ou voltar a subir por este atalho. Se não recordar mal o mapa, pela parte ocidental do rio há um enorme desnível.

—Com efeito. Até onde têm que descer?

—Miranda! Miranda! — chamou Zack.

A esposa de Quinn parecia ter uma compreensão intuitiva do terreno, embora conforme parecia só estava vivendo em Seattle alguns meses. Talvez tivesse alguma boa idéia de até onde Driscoll podia descer com o tempo que dispunha.

Miranda não respondeu, e Zack tirou seu radio transmissor.

—Aqui é Travis. Estou tentando localizar Miranda Peterson e Olivia St. Martin.

Chiado.

—Travis? Aqui é Miranda. Liv e eu estamos inspecionando um pouco mais acima no caminho. Parece que houve uma caçada por aqui, existem algumas pegadas.  

O que foi? Como! Zack não gostava da idéia de que duas mulheres — mesmo sendo bem preparadas, se afastassem no meio da noite, quando um assassino andava solto.

—Onde estão?

—A quase um quilômetro, subindo pelo atalho em que você está.

—Vou me encontrar com vocês ai. Fiquem à vista.

—Entendido.

Zack se voltou para o ajudante.

—Proteja a área. Vou subir pelo atalho para ver o que descobriram. Mantenha aberta a comunicação, e se surgir algum problema, me avise.  

Com todos os homens no bosque, Zack não acreditava que Driscoll andasse pelos arredores. O mais provável é que estivesse descendo a pé a montanha o mais depressa possível, confiando em poder chegar à estrada principal e desaparecer antes que o alcançassem.

Seu celular não tinha cobertura ali, então utilizou o rádio com a freqüência de segurança para chamar a subcomissária da polícia do condado e transmitir a informação do que tinha recolhido na cena do crime. Antes que cortasse a comunicação, doze homens, entre guardas florestais e ajudantes, puseram-se a caminho para a saída da montanha para subir pelo afluente setentrional médio do rio Anchor com a esperança de deter Driscoll quando descesse. Outros seis estavam se dirigindo ao acampamento dos Boy Scouts, onde já havia se estabelecido um comando provisório.

Zack acreditava em não equivocar-se a respeito da fuga de Driscoll, mas teve o mau pressentimento de que no final de tudo não estava tão perto.

    

«Por favor, meu Deus, se me escutar, faz que ela se encontre bem.»

Com cuidado de não comprometer a prova, Olivia repassou a cena em sua cabeça.

Alguém tinha levantado um pequeno acampamento. Não havia fogo, mas um saco de dormir, uma mochila com provisões e água e uma brilhante lona impermeável.

Olivia suspeitou que Driscoll utilizava a lona para levar os corpos de volta à cidade e desfazer-se deles. Intrigava-lhe que não os deixasse na natureza; isso atrasaria grandemente sua localização. Mas aquilo era uma questão para os psicólogos de comportamento do FBI. Se tivesse que aventurar uma hipótese, ou Driscoll queria que os corpos fossem encontrados para que recebessem sepultura ou que acontecesse o duelo ou tinha o desejo inconsciente de ser detido.

Ou talvez um pouco menos profundo; possivelmente tão somente se tratasse de seu desejo de demonstrar que era mais inteligente que todos, que era capaz de ir sossegado depois de ter cometido o crime «perfeito».

Os rastros das pegadas eram excelentes; ela e Miranda tinham colocado várias bandeirolas ali onde acreditavam que se poderiam obter uns bons moldes.

O conjunto de rastros menores se dirigia montanha abaixo, mas com a névoa que ia se espessando e a insuficiente iluminação que proporcionava sua lanterna, não podia assegurar que pertencessem a Nina.

—Miranda, vêem aqui — chamou Olivia desejando a opinião perita de sua amiga.

—Acabo de falar por radio com seu detetive. Vem para cá.

—Ele não é «meu» detetive — disse Olivia.

—Mmm.

—O que se supõe que significa isso? — Olivia meneou a cabeça —. Poupe-me. Olhe isto. — Iluminou com a lanterna um rastro claro que se dirigia monte abaixo.

—Alguém esteve correndo, mas o chão está úmido e escorregou aqui… e aí — disse Miranda.

—Parecem pequenas.

—Pequenas para um homem.

—Acredito que Nina escapou — disse Olivia, transbordando confiança —. E se conseguiu escapar como foi? E se correu e correu, e escapou dele? Temos que ir atrás dela.

—Estou de acordo, mas tem que aceitar que poderia estar morta.

—Não. Por quê? Por que tenho que aceitar isso? Pela mesma regra de três, pode estar viva. Não posso chegar muito tarde.

—Não é tudo sua responsabilidade, Liv.

Olivia negou com a cabeça.

—Você não entende.

Fez-se um silêncio.

—Sinto muito — disse Olívia —. Não queria dizer isso. Você entende melhor que ninguém.

—Não se preocupe Liv, mas só quero que esteja preparada para o pior ao mesmo tempo em que você espera o melhor. Olhe aqui… — Miranda separou dois gravetos e marcou alguns rastros mais profundos na terra —. Ele saiu em sua perseguição. Pode ser que a tenha alcançado.

—Ou pode ter fugido — disse Olivia com firmeza.

—Sim, pode ter fugido. Ou tenha se posto a correr, e ele a tenha apanhado e matado. Ou que Driscoll pensasse que seria mais fácil encontrá-la de caminhonete. Ou que ele tenha preferido escapar. — Os olhos de Miranda estavam cheios de compaixão —. Liv se prepare, de certo?

Olivia fechou os olhos e imaginou Nina morta. O rosto de Nina se transformou então na de Michelle Davidson, e depois no de Missy.

—Não. Está viva. Tenho esse pressentimento.

—Olivia!

A voz de Zack atravessou a névoa.

—Aqui! — gritou Olivia, e observou como a sombra dele surgia por entre a névoa.

O brilho das lanternas ao ricochetear na névoa conferia à luz uma natureza surrealista.

—O que encontrou?

Olivia mostrou as provas a Zack uma por uma.

—Zack, acredito que ela tenha escapado. E é provável que esteja morta de medo, aterrorizada, e gelada. Temos que ir atrás dela. Miranda tem uma grande experiência como rastreadora. — Olhou para sua amiga com a esperança de que ela não negasse. Olivia sabia que estava pondo ela em um apuro, mas nesse preciso instante o mais importante era encontrar Nina.

A menina «tinha» que estar viva.

—De acordo — disse Zack.

Olivia estava a ponto de protestar, quando se deu conta de que Zack estava do seu lado.

—Iremos os três; não se percam de vista nem um instante. Vou chamar para informar de nossa situação.

Quando falou com o ajudante, inteirou-se de que Quinn Peterson e Doug Cohn demorariam só quinze minutos para chegar.

Resultou surpreendentemente fácil seguir o rastro, inclusive na escuridão. As lanternas faziam que os rastros se ressaltassem, e os três avançaram a um passo constante. No princípio, o terreno caía abruptamente, e Olivia temeu que Nina tivesse subido e caído pela ladeira pondo em perigo sua vida; havia vários rastros largos que indicavam que tinha escorregado. Mas a somente trinta metros ladeira abaixo o terreno se nivelava. Em meio da úmida neblina, o aroma de vegetação, pinheiros e a terra molhada anulavam todos outros aromas.

Nina tinha que ter se sentido aterrorizada. Para ter saído correndo de noite, fugindo de um homem que a queria matar sem um motivo que sua mentalidade de dez anos pudesse compreender. Mas o que impressionou Olivia acima de tudo foi que, de entrada, Nina tivesse encontrado a maneira de escapar. Era uma menina assombrosa, e embora Olivia não a conhecesse, sentia-se tremendamente orgulhosa dela.

Nina tinha descido a ladeira em ziguezague durante várias centenas de metros. Embora usasse um colete tipo pluma em cima do pulôver, Olivia estava gelada. Nina não usava nenhum casaco e congelaria.

Um brilho amarelo à esquerda de Olivia fez que ela parasse. Miranda dirigia o grupo, concentrada no terreno, enquanto que Olivia ocupava o centro, e Zack a retaguarda.

—Alto! — gritou Olivia.

—O que você viu?

—Olhem. — Olivia mostrou para um ponto amarelo brilhante no chão. O coração lhe deu um salto.

A última vez que a tinha visto Nina usava uma capa de chuva amarelo brilhante.

—Fique aqui — ordenou Zack.

Desceu de lado com prudência pela ladeira até onde estava o objeto. Uma vez ali, ajoelhou-se, levantou-se com a jaqueta e voltou com ela.

Estava feita em farrapos, e por seu aspecto, se diria que havia sido por uma faca afiada.

Miranda estendeu um saco para as provas, e Zack colocou a capa de chuva dentro, depois marcou o lugar com uma bandeirola vermelha.

—Oh, não, Oh, não. Tinha razão, Miranda — começou a dizer Olivia, com as mãos tremendo.

—Ela não está aqui.

—Mas…

—E não há sangue no objeto.

Olivia entrecerrou os olhos, estudando o tecido feito em farrapos através da bolsa transparente.

—Não entendo. O que pode ter acontecido?

Os três ficaram em silêncio durante um instante, depois, com certa vacilação a princípio, Olivia disse o que pensava.

—E se ela tirou a capa de chuva? Porque se deu conta de que a cor atrairia Driscoll na escuridão?

—E a colocou em um lugar bem visível. E em seguida se foi em direção contrária - disse Miranda assentindo com a cabeça —. Acredito que está certo.

—E por que parecem farrapos? — perguntou Olivia.

—Driscoll estava furioso - disse Zack —. A menina estava sendo mais hábil que ele. Isso explicaria que não prestasse atenção à estrada. As marcas no atalho indicam que estava dirigindo muito depressa para um terreno tão acidentado. Quando viu o cervo, deu uma freada, chocou-se com ele e foi bater contra a árvore.

—Me parece razoável — disse Miranda —. Vamos nos separar para ver se descobrirmos em que direção ela foi.

Dez minutos depois, Zack chamou Miranda e Olivia para que fossem até onde ele se encontrava.

—Olhem. — Mostrou uma marca em uma árvore.

«N. M.»

Era tênue, estava na parte inferior da árvore e parecia como se tivesse sido feita por uma unha ou um galho pequeno.

—Pode ser que estivesse marcando seu caminho com a esperança de voltar sobre seus passos à luz do dia — disse Zack.

—Talvez esteja escondida, escondida até que se sinta segura - acrescentou Miranda.

—Nina! —gritou Olivia.

Zack e Miranda se uniram a ela.

—Nina!

Suas vozes soaram estranhamente ocas na névoa. Toda a montanha pareceu conter a respiração, esperando.

Quando uma luz intensa abriu caminho entre as árvores, Olivia reprimiu um grito. Com grande rapidez, Zack ficou diante dela com a pistola desembainhada.

—É o atalho pelo qual viemos de carro — sussurrou Miranda.

Um jipe passou lentamente a uns três metros deles enquanto se escondiam entre as árvores. O veículo parou.

Zack levantou o dedo indicador para lhes indicar que ficassem em silêncio e avançou ao longo da margem das árvores para o veículo parado mais adiante. Começaram a ouvir vozes.

—Esse é Quinn! — disse Miranda, e saiu do bosque.

A menos de seis metros a caminhonete branca continuava trancada na árvore.

Olivia ficou para trás, observando Quinn, Doug Cohn e os outros três saírem do jipe e começarem a falar. Quinn deu um rápido abraço em Miranda, e Zack passou a explicar o que tinham descoberto e o que acreditavam que tinha ocorrido a Nina.

—Você encontrou algo útil na casa? — perguntou Zack a Cohn.

—Mais que suficiente para uma condenação — disse Cohn —. Lembra da mala que encontrou? Dentro, estavam guardadas, entre outras coisas tanto a roupa íntima como as mechas de cabelo. Também havia mapas, cadernetas velhas em que estavam detalhados seus planos e identificações falsas com dúzias de nomes.

—O que tem sobre a pedra do jardim? A que tem a palavra «anjo», gravada em código Morse na parte superior.

Cohn apertou os dentes.

—Enterradas a uns setenta centímetros debaixo da pedra, havia uma lona impermeável e um lençol, ambas ensopadas de sangue. Se levarmos em conta a localização, apostaria que descobrimos que coincide com a de Jillian Reynolds. Também utilizamos Luminol no dormitório, e descobrimos rastros de sangue debaixo da cama dele.

Olivia levou a mão à boca e se afastou. Embora a polícia tivesse feito um registro básico da ilha, não tinham entrado nas casas porque acreditavam que sabiam o que tinha ocorrido a Jillian. Não sabia nadar, assim decidiram que devia ter se afogado. Driscoll a tinha seqüestrado, escondendo-a até que a busca fosse suspensa. Logo depois, a matou e jogou seu corpo longe, no interior do bosque, para que não pudessem encontrá-la durante muito tempo.

Olivia seguiu a margem do atalho a certa distância.

Então, viu ele.

—Zack — gritou.

Zack, Quinn e Miranda se aproximaram correndo pelo atalho.

—O que aconteceu? — perguntou Zack —. Você está bem?

—Estou bem. Olhem.

Pequenos rastros de pegadas continuavam na beira do atalho e depois desapareciam ladeira abaixo, pelo lado contrário pelo qual tinham saído quando tinham visto o carro de Quinn.

—Devemos ter passado junto a Nina quando subimos de carro. Mas ela não sabia se estava a salvo para sair. Está escondida por aqui, em algum lugar. Temos que encontrá-la.

Os quatro voltaram a descer andando rápido pelo atalho e chamando por Nina.

—Nina! A polícia está aqui. Estamos por toda a montanha. Por favor, saia. Sua mãe está esperando.

Assim uma e outra vez; Olivia gritou até enrouquecer.

Fizeram uma pausa para beber a água que Miranda tinha levado em sua bolsa.

«Socorro!»

Olivia levantou a mão para impedir que falassem. Era sua imaginação? Ou realmente tinha ouvido um grito pedindo ajuda?

«Socorro! Socorro! Por favor!»

—Nina? — chamou-a Olivia.

—Estou presa! Por favor, me ajudem!

—Já vamos! — gritou Zack, e começou a dirigir-se na direção da voz.

Nina tinha escorregado fora do atalho, caindo por uma ladeira empinada. Todos iluminaram com suas lanternas para baixo, para ver onde estava.

—Obrigado! Obrigado! — Todos a ouviram, mas não podiam vê-la.

—Onde está? Nina?

—Tenho a perna presa. Fiquei presa neste buraco, e não posso sair. Por favor, me ajudem.

—Tenho uma corda — disse Miranda, e abriu sua mochila.

—Não podemos descer desta maneira. Acabaremos caindo também pela ladeira.

O abrupto desnível aparecia evidente sob a luz, mas Nina não poderia ter visto correndo na escuridão. Estava presa em uma gruta. Olivia olhou com atenção e viu aparecer a cabeça da menina.

—Vamos atirar uma corda - gritou Miranda à menina —. Tem um laço feito na ponta. Passe pela cabeça e rodeie-a debaixo dos braços. Depois, segure a corda com as mãos.

—Mas minha perna… Não posso movê-la.

—Descerei e lhe soltarei a perna - disse Zack.

—É muito grande - disse Quinn —. Eu sou menos corpulento.

—Os dois são muito grandes - disse Olívia —. Olhem a gruta; é muito estreita para qualquer um dos dois. Irei eu.

—Olivia - começou a dizer Miranda, depois do que se interrompeu e assentiu com a cabeça —. De acordo. Mas temos que encontrar outra via de descida.

Disseram a Nina que não se movesse que alguém ia descer para ajudá-la. Olivia desceu com Miranda vários metros pelo atalho, até que encontraram um lugar seguro para descer de rappel pela ladeira.

—Isto é o que faremos - disse Olívia —. Libertará a perna, e nós a subiremos. Em seguida, voltarei a atirar a corda. Amarre-a por debaixo dos braços, tal e como disse a Nina, e a subiremos.

—Por que não posso voltar por este caminho? Não é tão íngreme.

—Este terreno não é estável, e a gruta… não confio nela. Acredito que é mais profunda do que parece daqui. Tem que pisar com cuidado. Eu estou acostumada e poderia ceder em qualquer parte, e te encontraria caindo por uma rampa de pedra. Todas as montanhas das Cascatas são muito instáveis. Não se esqueça que o Monte Santa Elena forma parte delas.

—Não estará dizendo que estamos sentados em cima de um vulcão? — Olivia tentava fazer uma brincadeira, mas viu que Miranda estava muito séria.

—Se está se referindo ao fato de que a montanha irá saltar pelos ares esta noite, não. Mas há uma atividade sísmica permanente que é muito sutil para que a sintamos. Os constantes e imperceptíveis movimentos subterrâneos afrouxam as rochas e a terra, provocando que um próprio chão se torne perigoso em zonas abruptas como esta. A gruta em que Nina está presa é na realidade uma ruptura da montanha provocada pelos reiterados movimentos da terra.

—Miranda, eu tenho um doutorado e quase não te entendo.

—Certo, é mais do que precisa saber. Mas tem que ir com cuidado. Assim que vi o terreno, soube que tínhamos um problema, mas não queria assustar Nina, e duvido que Quinn ou Zack permitissem que fizesse isto. Falando sério, o terreno não teria suportado o peso de nenhum deles. Você é bastante levinha; acredito que tudo irá bem. Mas por favor, por favor, eu peço, tome cuidado. Sobre tudo até que tenha a corda amarrada ao corpo.

—Prometo isso.

Miranda lhe explicou a melhor maneira de mover-se pela ladeira e de se aproximar da gruta. O terreno era muito mais rochoso ali, e Olivia falseou o pé várias vezes, provocando que descendesse escorregando em parte, até que firmou o corpo o suficiente à terra para descer com toda pressa como um caranguejo. Finalmente, conseguiu chegar à gruta rochosa e voltou a descer lentamente pela estreita abertura até alcançar Nina.

Miranda tinha razão; o espaço era profundo. Olivia não podia tocar o fundo e teve que utilizar as laterais da gruta para equilibrar-se e avançar.

—Obrigado, obrigado, obrigado! — gritou Nina quando viu Olívia —. Tinha muito medo. Primeiro dele, e depois… Pensava que morreria presa aqui, que ninguém me encontraria.

Olivia a abraçou, tanto para tranqüilizar a si mesma como para acalmar a menina.

—Estou orgulhosa de você, Nina. Você o derrotou.

—O pegaram, não é mesmo? Vi como bateu a caminhonete. Não se movia, mas não quis voltar lá.

—Fez o correto.

—Está… está morto?

Olivia não estava disposta a mentir.

—Não está na caminhonete.

Nina sacudiu a cabeça.

—Não! Não! Vi a batida. Eu… Oh, meu Deus, virá atrás de mim!

—Não, não permitirei…

Nina começou a agitar as extremidades e a mexer sua perna; umas pedras começaram a cair do alto da ladeira.

—Nina, pare de se mover — ordenou Olivia.

—O que está acontecendo aí abaixo? — gritou Zack lá de cima.

—Está tudo está! — gritou Olivia. E dirigindo-se a Nina, disse — Há dúzias de policiais por toda a montanha. Não vai pegar você; eu prometo. Tem que ficar quieta e deixar que liberte sua perna. Este terreno não é estável, por isso temos que ir com cuidado.

Nina assentiu com a cabeça enquanto todo seu corpo tremia, não só por causa do frio, mas também pelo medo.

Olivia se ajoelhou na gruta e se apoiou contra os laterais sentindo o ar frio que subia debaixo dela. Afligida pela vertigem, deteve-se e respirou fundo várias vezes para orientar-se.

Tateou às cegas a fenda até encontrar o pé de Nina; tinha o tornozelo preso entre as rochas. Utilizando os dedos, Olivia tentou afastar a terra e afrouxar assim uma das rochas, mas a terra estava condensada. Então, começou a mover o pé de Nina para frente e para trás uma e outra vez até que conseguiu movê-lo para um lado e para cima e o tirou do buraco. Nina choramingou, mas continuou chorando em silêncio.

—Dói — disse por fim a menina quando Olivia se levantou.

—Poderia estar quebrado ou ter uma torsão. — Olivia pegou as bochechas da Nina entre suas mãos —. Preparada? Se agarre à corda com força, mas deixe que a subam. Procura se mover o menos possível. Será um trabalho lento, mas você consegue. Certo?

—Certo. Eu consigo.

—Sei que pode. — Olivia gritou para os que estavam lá em cima — Já está preparada!

Na parte superior da ladeira se ouviu muito mais ruído e portas de carros que se fechavam com uma batida. Deviam ter chegado mais policiais. Luzes vermelhas cintilantes se abriram através da mata. Uma ambulância. Já tinham uma preparada no hotel, se por acaso precisassem. Olivia se escorou na gruta e esperou que chegasse sua vez.

Zack não tinha gostado que Olivia descesse pela ladeira, mas Miranda tinha razão: tendo em conta o terreno, era a que tinha o físico mais adequado. Zack estava apreensivo, e sabia que não estaria tranqüilo até que Olivia estivesse de novo no alto da montanha. Sã e salva.

Ele e Quinn receberam breves instruções de Miranda enquanto se preparavam para subir Nina.

—Vamos utilizar essa árvore como apoio — disse Miranda enquanto envolvia a corda ao redor do corpo —. Coloque essas luvas, Quinn. Essa corda te fará bolhas horríveis, se escorregar em sua mão.

—Sim, senhora.

—Pare já!

Embora a brincadeira parecesse descontraída, o rosto de Miranda mostrava tensão e preocupação.

—O que está acontecendo? — perguntou Zack.

—Nada — respondeu Miranda —. Só estamos tentando subir duas pessoas por uma ladeira íngreme à uma da manhã, com um assassino passeando pelo bosque. O que mais poderia estar acontecendo?

—Miranda — disse Quinn —, está escondendo algo. Olivia está bem?

—Perfeitamente — disse Miranda.

—O que ela está escondendo — interveio Doug Cohn —, é que esta ladeira é instável. Essa é a razão de que há alguns minutos tenha deslizado essa pequena rocha.

—Instável? A que se refere?

Doug explicou como essa parte da montanha sofria contínuos deslizamentos de rochas, e que a atividade sísmica permanente fazia perigoso qualquer passeio fora dos atalhos marcados.

—Então, para começar, por que deixamos que ela descesse até lá? — perguntou Zack em tom exigente —. Deveríamos ter esperado que chegasse uma equipe.

—Porque uma menina de dez anos está presa nessa gruta — disse Miranda —, e porque nem você nem eu nem Olivia teríamos querido que esperasse horas até que a resgatassem depois do que passou.

Zack soltou um suspiro.

—Tem razão.

—Já temos as luzes? — perguntou Quinn. A polícia do condado tinha subido uma luz de construção de alta voltagem até o local.

—Já chegaram — gritou alguém. Alguns minutos depois, a potente luz não só iluminava a ladeira da montanha, mas também proporcionava calor.

—Muito bem, vamos tirar Nina daí — disse Miranda —. Comecem a puxar a corda. Eu irei controlar a subida. Atentos as minhas ordens.

—Em todo momento — disse Quinn.

Miranda pôs os olhos em branco, mas esboçou meio sorriso.

Zack apreciou algo no casal de recém casados que não recordou ter tido alguma vez com sua ex-esposa nem com qualquer outra mulher com que tivesse saído. Um respeito profundo, uma vontade de brincar e um carinho intenso. Desde os olhares calados ao roçar discreto, era evidente que havia algo especial entre Quinn e Miranda.