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A BESTA DOS MIL ANOS / Ilmar Penna
A BESTA DOS MIL ANOS / Ilmar Penna

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A BESTA DOS MIL ANOS

 

A maior e a mais impressionante tapeçaria do mundo foi o tema da palestra do curador do Castelo de Angers, na 21a edição do Festival de Jornalismo, promovido anualmente pela prefeitura da histórica capital de Anjou, situada no Vale do Loire, na França, com seus majestosos castelos e delicio­sos roses.

Meus amigos, tenho a honra de estar aqui, no Palá­cio das Artes, para lhes falar da grandiosa tapeçaria inspirada no último livro do Evangelho, ou melhor, no Apocalipse, segundo São João. Uma obra belíssima que transcende os valores feudais e a imaginação, e era somente exibida nas grandes ocasiões festivas da realeza para mostrar o poder e o luxo dos príncipes de Anjou. Também tenho orgulho de lhes falar do Castelo de Angers, essa inexpugnável fortale­za militar, construída por uma mulher guerreira, a regente Blanche de Castille. Atualmente, o castelo abriga a tapeçaria do Apocalipse e o Museu de Armas Medievais, que reúne a mais completa coleção de bestas de guerra da França, esta abençoada terra de François Villon, Pierre de Ronsard e Joachim du Bellay...

A partir daí, inicia-se, na noite de 13 de outubro de 2006, uma longa viagem através do tempo feita pelo renomado historiador e curador Ferdinand Rochemont de Sailly, auxiliado pelo padre Antoine Duvert, ambos palestrantes no auditório do Palácio das Artes. Inicialmente, apresentou-se uma explanação sobre como se deu a anexação da província de Anjou ao reino da França, em 1204, e como a regente Blanche de Castille, que reinou de 1221 a 1244, mãe de dez filhos, mandou construir uma colossal fortaleza, com as de­zessete torres, para resistir às ameaças e ambições do então rei da Inglaterra, Henrique III. O curador teceu loas à be­leza e sabedoria da regente, celebradas em versos e cantigas medievais, pois ela possuía a mesma autoridade e determinação soberana de Catarina II, da Rússia, conhecida como Catarina, a Grande.

Depois, o curador, de blazer e gravata borboleta, resgatou a tumultuosa vida de Luís I de Valois, duque de Anjou e Touraine, rei de Nápoles (Napoli), Itália, e conde de Provença (Provence), França, o segundo filho do rei João II, o Bom, e irmão de Carlos V, o Sábio, ambos reis da França, dinastia de Valois. Contou que durante o período de dominação inglesa e da Guerra dos Cem Anos, Luís I, mesmo residindo pouco tempo no Castelo de Angers, encomendou, em 1373, a fa­mosa tapeçaria do Apocalipse aos ateliês parisienses de Nico­las Bataille, que levaram nove anos para concluí-la. Projetou então diversos textos e fotos para ilustrar a saga do nascimento e da destruição e ressurreição das cinzas da mais famosa tapeçaria medieval francesa. Não se intimidou em censurar o filho de Luís II, Renê, o último duque de Anjou, a morar no castelo, também conhecido como Renato I de Anjou, duque de Lorena (Lorraine), França, e rei de Nápoles, o Bom Rei Renato (Le Bon Roi Renê), que doou a tapeçaria, em tes­tamento, aos dignitários eclesiásticos da Catedral de Angers, dedicada a São Maurício, padroeiro da cidade.

Foi um verdadeiro sacrilégio o que fizeram com a tapeçaria de haute lisse doada à catedral. Em consequência desse gesto impensado, ela foi retalhada e posta à venda.

Após o comentário, em tom emocionado, Ferdinand de Sailly explicou que, durante a Revolução Francesa, os objetos sacros foram destruídos. No caso da tapeçaria, algo extraordinário aconteceu. Em vez de as peças desmembra­das desaparecerem, elas foram milagrosamente reagrupadas e conservadas na Abadia de Saint-Serge.

O curador, percebendo que o padre Antoine não parava de se mexer na cadeira, demonstrando visível impaciência, autorizou-o, com um sinal de cabeça, a ler um documento, datado de 1806, que acabara de retirar de sua pasta e des­crevia o estado deplorável da tapeçaria, jogada "num lugar úmido, onde se esburacava e se rompia ao simples contato das mãos". Mas o padre não se deu por satisfeito com ape­nas a leitura e expressou também sua opinião sobre a vitali­dade cromática da obra religiosa.

É muito importante ressaltar que a tapeçaria conserva nos dias de hoje, no lado do avesso, toda a força de suas co­res originais: vermelhos quentes, azuis profundos, alaranjados dourados e verdes arrebatadores. Essas cores se mesclam nas esplendorosas imagens dos vinte e quatro anciões, nos quatro cavaleiros do Apocalipse, nos anjos trombeteiros da Anunciação, nos adoradores do Anticristo, nas bestas fantásticas de sete cabeças, nos eleitos, nos baldaquinos e nas igrejas góticas.

Tomando novamente a palavra, o curador ressalvou que nem sempre os resultados, sobretudo das mais recentes restaurações, foram bem-sucedidos, porque as modernas tintu­ras químicas, com o passar dos anos, se revelariam impróprias no restauro das obras de arte tecidas por magistrais artesãos medievais, que utilizavam tintas naturais, extraídas das plantas.

Ao término da conferência, seguiu-se uma saraivada de perguntas, algumas descabidas, como a primeira, de uma jovem, provocando risos no público:

Gostaria de saber, senhor curador, se a regente Blan­che passava a tropa em revista como fazia a rainha Catarina?

Foi esta a resposta do curador à pergunta capciosa:

Mademoiselle, como as muralhas do castelo eram es­pessas, surdas e cegas aos amores de seus donos, não há ne­nhum registro sobre o que a regente Blanche, viúva de Luis VIII, morto em 1226, fazia da sua disponibilidade de tempo, após revistar a sua guarda de honra. Curiosamente, sua per­gunta me faz lembrar o famoso episódio, contado pelo me­nestrel de Reims, em que um gesto extravagante dessa rai­nha serviu para silenciar as calúnias do bispo de Beauvais e de outros vassalos. A regente dirigiu-se ao Parlamento, onde tinha assento. Entrou, vestindo um longo casaco, e exigiu silêncio e atenção. Subiu numa mesa central e gritou para o bispo: "Olhem bem e vejam se estou grávida", enquanto deixava cair o casaco até aos pés. Foi girando nua em todas as direções sob os olhares embevecidos da assistência, tudo para provar ser falsa a acusação de estar esperando outro fi­lho. Todos se precipitaram até ela com respeito e admiração, cobriram-na com o casaco e a conduziram aos aposentos reais. Não se sabe até hoje se agiram assim por devoção à sua beleza ou à sua coragem.

Poderia explicar o porquê da venda? indagou uma senhora no fundo do auditório.

O padre Antoine Duvert, que conhece bem essa fase nefasta da tapeçaria, vai responder à senhora.

Bem, após a doação, em 1474, a tapeçaria ficava exposta na nave da catedral, no dia de São Maurício, no Natal, na Páscoa e no domingo de Pentecostes. Por mais que a considerassem "absolutamente magnífica", os padres se queixavam do grande trabalho de suspendê-la na abó­bada e dos gastos para conservá-la intacta. Reclamavam também porque ela abafava os cantos e tornava os ser­mões inaudíveis. Decidiram colocá-la à venda em 1783, às vésperas da Revolução. Ninguém quis comprá-la! Mas o pior estava por vir. Como sua conservação se tornou um estorvo, ela foi recortada e passou a ter as mais inusitadas utilidades. Serviu de proteção em estufas de produtos hortigranjeiros, de cortina, de pelego para selas e até de ca­pacho. Foi uma afronta o que fizeram com essa grandiosa obra de arte sacra.

Poderia nos dizer quando se iniciaram os trabalhos de restauração? — indagou uma jovem, comovida com a descrição.

O cónego Louis-François Joubert, nomeado cus­tódio da catedral, foi quem teve a ideia genial de criar um ateliê para restaurar a tapeçaria. Os trabalhos começaram no dia 1º de fevereiro de 1849 e continuam até hoje. Recuperaram-se as seis peças que contêm 14 quadros cada uma e mais as cenas com os "grandes personagens". Ao todo, tem 103 metros de comprimento por quatro e meio de altura. Não há como não ficarmos impressionados com as quatro figuras gigantescas restauradas, no meio do dossel sustenta­do por colunas, em que somos convidados à contemplação e reflexão sobre as cenas bíblicas.

Os expositores foram submetidos a uma série de per­guntas sobre as cenas desaparecidas.

Bem, senhores — expôs o curador. — Eu tenho muita esperança de recuperar alguns quadros perdidos. É um sonho que acalento com fé religiosa. Conto com a ajuda dos alunos do Liceu Saint-Serge; lançamos um aviso internacional pela internet a todos os centros culturais, his­toriadores, diretores de museus, antiquários e pesquisadores de arte sacra e também às famosas casas de leilões, buscan­do localizar a obra. Esse excelente trabalho foi coordenado pelo nosso querido padre Antoine Duvert da Abadia e do Liceu Saint-Serge. Ele tem me ajudado a desfazer equívo­cos e desmanchar pistas fraudulentas, que sempre ocorrem em relação às obras de arte.

Realmente, sou um fa incondicional da comunica­ção virtual — confirmou o padre Antoine, ainda irrequieto na desconfortável cadeira, após ser elogiado pelo curador. — Tenho desenvolvido um trabalho de rastreamento com um grupo de jovens alunos que praticam a informática no liceu. Os meninos têm me ajudado muito nas pesquisas pelo mundo inteiro.

Obtiveram algum resultado? — perguntou um rapaz barbudo, com ar de estudante universitário e uma tatuagem no pescoço, que estava sentado na segunda fila.

Infelizmente nada de positivo até agora. Há um boato que uma cena da tapeçaria possa estar na Polônia — ressalvou o curador. — A notícia está sendo analisada. Onde houver um indício, usarei de todos os meios ao meu alcance para recuperar pelo menos um dos quadros perdidos. Não vou desistir.

Sem mais perguntas para responder, após passar a mão pela calvície frontal, o curador concluiu a palestra:

— Meus amigos, todos estão convidados a visitar o Castelo de Angers, um dos mais importantes museus do glorioso patrimônio histórico da França. Visitem o Museu de Armas e a tapeçaria reveladora do Apocalipse, que traz esperanças de um mundo sem miséria e violência quando descer do céu a Nova Jerusalém. Encantem-se com a bele­za da maior tapeçaria do mundo, antes do início das obras de reforma da galeria para a instalação da nova iluminação, prevista para o início do verão.

Muito satisfeitos com os aplausos que se habituaram a compartilhar, os dois velhos amigos saíram sorridentes do prédio reformado na Praça Michel Debré, a poucos me­tros da prefeitura. Viram todas as luzes da fachada branca do Palácio das Artes acesas, tal como o prefeito exigira que ficasse durante o 21º Festival de Jornalismo. Queria que o maior evento sociocultural daquele ano de eleição munici­pal fosse intensamente iluminado pelas luzes do saber para uma platéia francesa sempre ávida de conhecer a grandeza de sua história.

O que mais me impressiona no festival é a vontade dessa gente de respirar cultura — exaltou o padre Antoine, sorridente. — Isso é muito bom.

Breve, serão recompensados. A galeria está ficando uma beleza! Resolvi reaproximar mais as telas e acabar com os enormes espaços vazios entre elas. Não haverá mais o im­pacto negativo causado pelas cenas que faltam. Deixei apenas um espaço vazio para o sonho não acabar.

Deixou onde? — perguntou o padre Antoine, curioso.

—Vai descobrir, amigo, quando fizermos juntos a ins­peção final para a reabertura da galeria — provocou o cura­dor Ferdinand, sorrindo e estendo-lhe a mão em sinal de despedida.

— Vou aguardar. Pode deixar que vou descobrir tudo que anda escondendo de mim — disse o padre, como se, por trás do sorriso irônico do curador, desconfiasse de algo demoníaco que o misterioso vazio na parede quisesse ocultar.

O padre Antoine Duvert, de repente, silenciou e fi­cou com o semblante grave, aflito, de quem estava prestes a orar. Reconhecia como legítima e saudável a ambição do curador do castelo em recuperar pelo menos um dos sete quadros perdidos da sequência da Revelação Divina; em especial, a recuperação a qualquer preço da cena desco­nhecida do Diabo enjaulado por mil anos. Na verdade, temia que esse quadro desaparecido significasse que o dragão de sete cabeças estivesse solto e fosse o grande responsável pela atual desordem no mundo. Onde estivesse, estaria semean­do a discórdia, incentivando a aids, a pedofilia, o aborto e a clonagem humana, instigando a violência, a ganância e a corrupção.Tudo indicava que os homens teriam perdido a batalha do bem contra o mal. Essa foi a visão aterrorizante que sua mente teve, pairando sob as imensas torres circula­res do Castelo de Angers. Mais do que nunca acreditou ser fundamental, do ponto de vista religioso ou cultural, encontrar esse quadro perdido da tapeçaria do Apocalipse, cujas telas ilustravam as visões recebidas por São João, de Jesus Cristo, por intermédio de um anjo.

A busca do quadro da Besta deveria ser intensificada em qualquer ponto do mundo. Portanto, mãos à obra, senhor curador.

 

O curador Ferdinand Rochemont de Sailly nunca imagi­nara o que estava por acontecer, ainda mais no Brasil. O curador fora sincero na profissão de fé perante a platéia do auditório do 21º Festival quando disse que faria tudo para recuperar qualquer uma das cenas desaparecidas da tapeça­ria, não fosse a mais famosa delas. Nunca imaginara que ela se entrelaçaria de forma misteriosa e venturosa com o des­tino de Leonardo e de uma astróloga, ilustres desconhecidos do além-mar.

Naquele 13 de outubro de 2006, mesmo dia da palestra do curador Ferdinand de Sailly, Leonardo Marcondes rece­bera, pela manhã, no Rio de Janeiro, a boa notícia do ban­queiro americano. Tudo evoluía como previsto na primeira consulta com a astróloga Lisa.

Parabéns, senhor Leonardo, a diretoria autorizou o aumento de sua linha de crédito. O banco nunca concedeu valores tão altos a um cliente brasileiro.

O telefonema matutino não deixara dúvida do reconhecimento internacional de que Leonardo tinha se torna­do um todo-poderoso membro da privilegiada sociedade financeira internacional, acima da lei dos homens comuns. O acontecimento haveria de merecer uma comemoração quando chegasse em casa.

Dito e feito, já era bem tarde, à noite, quando Leonar­do, deitado na cama do apartamento de Lisa, decidiu se le­vantar, de repente, e convidá-la solenemente, sem nenhum romantismo.

Não havia nada de anormal no convite, já que sempre era ele quem tomava a iniciativa, desde a memorável pri­meira vez.

Lisa continuou fazendo o sudoku, majestática, até con­cluir a sequência certa. Após marcar a página com a caneta Mont Blanc, fechou o livreto e o colocou debaixo do abajur na mesinha de cabeceira. Seus olhos rasgados se fixaram no corpo de Leonardo, que já estava nu. Ela começou a liberar os pequeninos botões das casas da camisola, e o belo colo apareceu com seus seios generosos. Puxou a borda da cami­sola acima da cintura, deixando o umbigo aparecer. Puxou mais ainda. As auréolas salientes dos seios ficaram à mostra em toda a sua sensualidade.

Só que naquela noite não quis se delongar. Após a pri­meira estocada, ouviam-se gemidos, suspiros, palavras obs­cenas, respirações ofegantes, cada vez mais descontroladas. Cinco, sete, doze, sabem-se lá quantos minutos, até Leonar­do perder o controle e deixar a torrente jorrar indomada. Seguiu-se o silêncio restaurador dos que flutuam no nirva­na. Ficaram abraçados até as respirações se acalmarem. Após emitir um profundo suspiro, Leo se ergueu preguiçosamen­te ainda, virou-se de lado e reassumiu o seu lugar à esquerda da cama. Ao lado, na mesinha de cabeceira, repousavam os dois celulares, temporariamente desligados.

— É bom, é muito bom — suspirou Lisa, com os olhos adormecidos por um delicioso langor.

Leonardo gostava de ouvir a sua voz agradecida. Às ve­zes, permanecia estatelado na cama, meio de bruços, fitando as persianas fechadas, por onde, através de duas pequenas frestas da janela, penetrava uma brisa refrescante, propícia à vinda do sono. Porém, naquela noite de comemoração foi diferente. Custou a dormir. Seus pensamentos, turvados por datas, cifras, mortes, contabilizavam angústias e temores. Só voltaram a se aquietar quando foram substituídos por boas lembranças e as emoções da tarde memorável em que conheceu Lisa na sua intimidade com os astros. Acudiram recordações difusas de visões proféticas e da Via Láctea tra­cejada no seu ombro bronzeado. Reconhecia que sua vida mudou após a leitura do seu mapa astrológico, quando fora tomado pelo feitiço do amor.

Leonardo presenciou surpreso, subitamente, se incor­porarem na mulher desconhecida, na quase penumbra da sala, as "entidades" advindas de misteriosa luz cósmica.

Senhor Leonardo, vou falar um pouco de astrologia. Quando o homem começou a olhar para o céu, isto há mais de dez mil anos, ele se deu conta de que estava integrado ao universo. Passou a perceber que a trajetória da vida, os dons e talentos, e até o humor sofrem a influência do movimento dos astros.

Leonardo olhou para os gestos harmoniosos de suas mãos.

Foi quando descobriu que era possível conhecer o seu destino por meio do mapa natal, que é a fotografia do céu na hora exata, no dia e no lugar do nascimento. É a cer­tidão cósmica da pessoa que passa a existir para o universo.

Neste momento, ganidos de cachorros se tornaram mais intensos no cômodo ao lado, mas a astróloga prosseguiu, sem perder a concentração, tendo de elevar o tom de voz:

Vamos começar a leitura do seu mapa pelas doze casas do zodíaco, cada uma representando uma área de sua vida. Aqui, bem no alto da mandala está a casa dez, que é o local da vida profissional. Pelo que me disse quando me telefonou, essa é a sua grande preocupação no momento. Bem, o senhor tem quatro planetas dentro dessa casa: Um stellium formado por Urano, Sol, Plutão e Mercúrio. Com essas energias reunidas, o senhor tem todas as ferramentas para alcançar o sucesso nos seus objetivos.

Completamente hipnotizado pelas palavras, e a beleza de Lisa, Leonardo acompanhava a complexa dança dos de­dos dela sobre o mapa dos planetas.

Está vendo esta grande quadratura aqui no seu mapa. Ela representa os desafios que terá de romper para conse­guir obter o que deseja. Ninguém foge ao seu destino.

A astróloga fez uma pausa. Bebeu um gole de Coca-Cola, olhou fundo nos olhos verdes do consulente e con­tinuou:

Esta sua Lua na casa quatro, em Aquário, indica que o senhor é uma pessoa voltada para as raízes familiares. Mas os muitos aspectos desafiadores do seu mapa indicam que pode ter sido separado delas.

Lisa bebeu outro gole de refrigerante e retomou a lei­tura, em transe com suas divindades:

Eu fiz os trânsitos de trás para a frente do seu mapa, estudei o que aconteceu durante algumas etapas de sua vida. Está tudo aqui: o primeiro baque que teve foi em torno dos seus 25 anos, quando Urano fez uma conjunção exata com seu Sol. Aí houve a perda de uma pessoa muito querida, correto?

Leonardo estremeceu e concordou, balançando a ca­beça de modo positivo. Quis falar alguma coisa, mas ela fez um sinal com a mão que não a interrompesse, lendo o mapa numa voz emocionada:

O mapa mostra que o seu pai não teve uma morte natural. Isso marcou muito você, sobretudo porque foi um fato abrupto e inesperado. O trânsito astral mostra que tudo ruiu em torno de seu pai, e, quando ele partiu desta vida, você foi tomado por uma raiva tremenda contra o mundo. Sua mãe morreu tempos depois. Está aqui na quadratura de Netuno com sua Lua. Foi de uma doença incurável.

Lisa viu os olhos dele se acinzentarem, carregados de dor e sofrimento. Decidiu então dispensar o tratamento cerimonioso.

Para você, seu pai era tudo. Ninguém entendeu sua raiva contra o mundo! Aí você se casou com a moça que estava namorando. Quando houve o primeiro retorno de Saturno, teve um filho. Tem uma Lua na casa quatro. Isto é muito bom. Quer dizer que mesmo com todos os seus afa­zeres, sempre encontrará tempo para cuidar dele. Vocês têm muitas afinidades. Como é o nome dele?

Lucca — respondeu, baixando levemente a cabeça.

Bonito nome. Terá sempre nele um aliado dentro de casa. — Lisa bebeu outro gole de refrigerante e prosse­guiu: — A sua revolução solar mostra que vai estar muito agitado este ano, porque, quando Plutão faz aspectos com os planetas pessoais, ele vem com uma força transformadora incrível. Aquilo que não serve mais é eliminado para dar lu­gar a coisas novas. Plutão está entrando na sua casa doze.Vai levar para fora todas as coisas reprimidas. E como se fosse um terremoto.

Leonardo continuou ouvindo por mais meia hora o re­lato com os olhos fixos nos símbolos coloridos do seu mapa.

Tudo indica que chegou a hora de aprender a lidar com as coisas que andam travando este momento decisivo da sua vida. Você é uma pessoa ambiciosa e saberá usar de todos os meios para atingir os fins. A previsão é que vai conseguir tudo que deseja. E impressionante o poder que vai ter nas mãos, se souber usar a energia transformadora de Plutão, o deus das trevas, para evoluir. Tome muito cuidado com os subterrâneos e o fogo.

Ouvem-se os arranhões e ganidos mais intensos dos cachorros, talvez esfomeados. Lisa não se perturbou e con­tinuou:

Muitas coisas boas e promissoras estão para acon­tecer. Posso estar errada, mas, neste ano de transformações, você tem tudo para se tornar um grande chefe. Já existe até uma determinada época para elas se realizarem. Vai pagar um preço que só você sabe dizer se é alto ou justo. Bem, é tudo que posso ler do seu mapa.

Senhora Lisa, me desculpe, mas sinto que me está escondendo alguma coisa da minha vida atual — protes­tou, percebendo certo constrangimento, após uma hora de consulta, encerrando assim uma sessão que parecia apenas esboçada na astrologia e na sedução.

Eu não escondi nada. A leitura de um mapa não é adivinhação. Por favor, senhor Leonardo, sua consulta terminou.

Após o aviso, ele a viu inclinar o fino pescoço e arque­jarem os seios, que se delinearam na blusa fina, antes de um longo e misterioso suspiro.

Com licença — murmurou a astróloga, levantando-se, como se quisesse burlar o tempo numa pausa estraté­gica. Da porta da cozinha, perguntou: — Aceita um copo-d'água? Uma água tônica?

Não, obrigado. Queria continuar a consulta, por favor.

Lisa não veio logo, mas quando se aproximou, trazia mais refrigerantes na bandeja de prata, sinal que estava disposta em retomar a leitura com mais informações, e foi o que fez por mais meia hora com outras revelações, con­cluindo:

Entenda, senhor Leonardo: eu não tenho como mu­dar o seu mapa. Estará mexendo com coisas muito profun­das de sua interioridade. Se tomar as decisões certas, as coi­sas vão fluir e sua vida vai se transformar para melhor. Viverá momentos muito tensos porque passará por uma fase de muitas mutações.

Prometo que não vou ficar parado.

Aqui está Júpiter, o planeta do otimismo, sinalizando um período de grande expansão. Sua vida vai se transfor­mar. Claro que será testado para se tornar o homem rico que seu pai queria ser.

Ele a encarou, trincando os dentes, à menção do pai.

Não é por acaso que está hoje aqui para repensar sua vida.Vai contar com a ajuda de forças poderosas. Todas essas energias agirão a seu favor. Um ex-presidente do Brasil, num contexto político adverso, as destratou, chamando-as de "forças ocultas". No seu caso, elas vão ajudar o senhor, digo, você, a chegar aonde quer. É somente uma questão de tempo.

Fez uma pausa, olhou fixo para um ponto no mapa da revolução solar como se tivesse descoberto algo surpreendente.

Há uma coisa estranha aparecendo bem aqui.

Como assim? — perguntou Leonardo, com curio­sidade.

E como se fosse uma sombra, alguém com quem vai fazer um pacto. Terá muito dinheiro, muito mais do que imagina. Pode perder tudo, menos o dinheiro. Essa sombra está associada a uma conjuntura de muitas surpresas. Ela o obrigará a viver daqui por diante no fio da navalha. Nunca se esqueça disso!

Um sopro de ar entrou pela janela. Havia algo de mis­terioso, de maligno, na espontaneidade do sopro varrendo os mapas.

—Vou agir, Lisa, prometo — replicou, usando pela pri­meira vez o nome da astróloga com uma surpreendente intimidade.

Naquele exato momento, totalmente seduzido pela aparência dela, ele perguntou algo acerca do seu bronzeado e tateou de leve a pele do ombro desnudo de Lisa, que não reagiu ao seu toque audacioso. Apenas cerrou as pálpebras dos olhos caramelo. As pontas dos dedos de Leonardo então prosseguiram. Alcançaram a nuca. Seu braço enlaçou o seu pescoço para então puxá-lo levemente e beijá-la nos lábios semiabertos, sem batom.

Na descida do elevador, após o final feliz da consulta astrológica, Leonardo estava totalmente convencido:

Estou vivendo no fio da navalha.

O que mais o deixou abismado foram as mirabolantes reviravoltas do destino e das paixões. Eram sempre imprevisíveis .Vieram-lhe à mente as últimas palavras de Lisa. Não se esqueceria dos presságios dos astros e menos ainda do dinheiro farto transbordando pelas beiradas do seu mapa.

Algo estranho levara Lisa a se interessar pelo estudo da­quele mapa, onde fervilhavam mortes e cobiça. Isso só fez aumentar a sua curiosidade. Digitados os dados: dia, mês, ano, hora e lugar de nascimento, viu aparecer na tela do computador o caminho dos seus ciclos planetários. E, mui­to emocionada, viu ser aquele mapa o complemento do seu. Os graus do ascendente eram idênticos, planetariamente gêmeos e afins nas coisas da alma e do corpo. A revelação mais surpreendente viria depois, ao colocar em cima do seu mapa a revolução solar dele. Pôde identificar a chegada de um novo homem, sem nome no seu mapa, prestes a provo­car grandes transformações no seu pacato cotidiano.

Após o toque incendiário de Leonardo e um beijo, Lisa atirou-se em seus braços. Sentiu todo o calor e o cheiro de lavanda do corpo másculo. Deixaram suas línguas se demo­rarem na avidez dos beijos, sem começo nem fim, como se fosse a primeira vez que fossem beijadas. As carícias recí­procas se intensificaram alucinadamente entre a mulher e o homem de conjunção astral perfeita. Não ouviram mais os cachorros ganirem enciumados. Lisa deixou sua blusa cair no chão. A boca daquele homem enlouquecido desceu pe­los seus seios. O tapete da sala se fez presente para não retardar a entrega. Apenas de saia, com a boca beijando a orelha dele, sussurrou-lhe que estava menstruada. O invasor nem pareceu se perturbar com o detalhe. Pelo contrário, aquele homem, tão desconhecido quanto conhecido, se apressou em arrancar a sua calcinha rendada e penetrá-la. E depois da exaltação dos corpos ardentes e da luminosa conjunção dos planetas nunca mais seriam os mesmos.

Passado o terremoto, nada se moveu na terra e no céu. Nenhum sussurro, somente o silêncio dos agraciados. Lisa pensou na força da paixão, no que Ele deveria ter sentido quando criou o homem. Já era tarde. Não tinha como não comunicar que uma consulente, vinda de Petrópolis, che­garia a qualquer momento. Leonardo se solidarizou com a seriedade profissional. Ergueu-se ágil do tapete, e de pé, nu, readquiriu aquele olhar único, que ela não tinha visto em nenhum outro homem. Ele pediu permissão para tomar um banho. Completamente zonza com todo o acontecido, tentou recolocar as coisas nos seus lugares, enquanto ficou sozinha na sala, realinhando o sofá e as cadeiras. Percebeu o quanto era improvável voltar à calmaria de antes com o chei­ro dele impregnado em suas mãos, descendo pelos poros do seu pescoço, seios, braços, mãos, nádegas, pernas, o púbis, por todo o corpo, em deliciosa indolência. Queria enlaçá-lo com suas longas pernas nos lençóis floridos.

Mais tarde, no banho demorado de banheira, relembrou algumas passagens lidas no mapa solar de Leonardo. Algumas passagens trágicas. Reviveu o momento em que estreme­ceu, ao ouvir da boca sensual dele a confissão que chegou a pensar em cometer o mesmo desatino do pai. A revelação a deixou lívida e sem palavras na hora de prosseguir a lei­tura. Achou prudente uma pausa a fim de apelar para as divindades socorrerem-na no aconselhamento do imponde­rável da astrologia.

Na despedida, com um longo beijo na porta do ele­vador, Lisa o fez jurar de mãos juntas que jamais voltaria a pensar na absurda ira do pai, o que a deixou em pânico, como nunca ocorrera antes. E ele, antes de partir, fez com que ela prometesse, acompanhado de um sorriso ardente­mente sedutor, que se encontrariam mais tarde num motel, pois sua mulher e o filho estavam ausentes do Rio, em Itaipava, e só chegariam no dia seguinte. Fazia questão absoluta que fosse num motel. Lisa aceitou a barganha, sem saber onde arranjara tanta coragem para aceitar o grande desafio do destino.

 

Muito antes de conhecer Lisa na primeira consulta, Leo­nardo já optara por viver nas sombras e na duplicidade. Não foi fácil manter uma aparente compostura de honesto con­tador. Quem o conhecia pela aparência discreta, andando apressado pelas ruas, não acreditaria existir por trás daqueles passos um outro homem em que as coisas secretas aconte­ciam na vida clandestina. Mas essa outra identidade, bem encoberta, não surgiu da noite para o dia, nem decorreu do meio em que viveu, no conforto de um lar de classe média alta, uma infância mimada e bons colégios. Ele sem­pre atribuiu às "circunstâncias" o fato de não ter seguido o exemplo politicamente correto do pai um homem de bem que morreu arruinado, pois se suicidou.

Por mais que gostasse da matemática e da magia dos números, o pai o queria advogado. Para não contrariá-lo, Leo ingressou na faculdade de Direito, mas também cursa­va, à noite, a faculdade de Ciências Contábeis. O pai no iní­cio torceu o nariz, depois aceitou a vontade do filho maior de idade de realizar seu sonho de escriturar as entradas e saídas do dinheiro. Nessa época, ele trabalhava insatisfeito, como estagiário num escritório de advocacia de um amigo do velho. Detestava ir ao foro.

Após a morte do pai e ter-se formado contador, resol­veu abrir um escritório de contabilidade no sexto andar de uma galeria comercial perto da Praça Saens Pena. Seus clientes eram alguns condomínios e pequenas lojas na Tijuca. Mas, antes disso, Leonardo já tinha se envolvido em "pequenos delitos" e teve as coisas facilitadas por obra do acaso, do inevitável, que o fez se relacionar com gente da pior espécie. Por intermédio dessa escória, abraçou as opor­tunidades incomuns que o tornaram poderoso e respeitado pela simples razão de ganhar muito dinheiro, apesar de pas­sar a viver no fio da navalha.

Dava seus palpites em proveitosas ajudas nas falcatruas contábeis, e depois foi aceitando "servicinhos" inescrupulosos, bem remunerados, pelo amigo do peito, o chefe de uma facção do tráfico de drogas no Estado do Rio de Ja­neiro. Ele o conheceu num boteco, que encerrava uma sala privativa onde se jogava truco. Logo simpatizaram um com o outro ao levarem a mão no jogo. Quando se deu conta, estava mergulhado até o pescoço na escrituração do livro-caixa do tráfico de drogas. Não foi isso que quis do destino. Sonhava ser um contador corporativo que enchesse o pai de orgulho. As tais "circunstâncias" e as más amizades deram vida ao outro Leo.

Caminhava na rua, vestido, como de costume, de moletom azul, camiseta branca, calça folgada e tênis com seis amortecedores. Ninguém desconfiava do tranquilo estagiá­rio que trancara a matrícula no quarto ano de Direito. Após a morte do pai, Leonardo se tornaria conhecido como "Ca­beção" nos bastidores da quadrilha do vulgo Caveirinha.

Em todos esses anos, nenhuma suspeita recaíra sobre o esforçado e habilidoso contador da quadrilha. E, por inverossímil que pareça, nem a sua família nem a namorada, Ana, sabiam de sua marginalidade e de como se tornou um ami­go tão íntimo de um dos chefões do movimento, cujo aspecto longitudinal e cadavérico do rosto fazia inteiramente justiça ao temido codinome, Caveirinha.

O fato é que Leonardo se tornou o parceiro fixo do truco do chefão, às sextas-feiras. Ao longo dessa convivên­cia na jogatina, conheceu os futuros companheiros: o ma­tador Corredor, bicheiros, traficantes, pistoleiros, policiais "amigos" e militares terceirizados da folha de pagamento, gigolôs, prostitutas. O magrelo Caveirinha, pezão 46, sabia recompensá-lo pelos serviços prestados à contabilidade do tráfico, e, mais regiamente ainda, por executar, com perfei­ção, os subornos a fiscais e autoridades. Verdade seja dita, foi Leonardo, na fase em que ainda não se empanturrava de aspirinas, quem montou as principais "caixinhas" dos subornos e dos "acertos" que explicavam como Caveiri­nha continuava atuando sem ser preso ou desmascarado pelas autoridades policiais, coincidentemente quando se expandiu na cidade a impunidade generalizada e a violên­cia urbana.

Leonardo nunca se esqueceu de como foi selada a ami­zade definitiva entre os dois. Guardou na memória o diá­logo decisivo:

Fazia tempo que estava a fim de alguém como tu, cara.

Peraí, não sou o único no pedaço.Tem uma porrada de caras.

Estava difícil arrumar um branco honesto. Os ma­lucos do movimento não tiveram berço, não frequentaram escola e não aprenderam porra nenhuma na vida. Nasceram com cara de mané.Você tem cabeça, sangue bom. Impõe respeito. Tu já nasceu diferente, pronto para a vida bandida, sacou?

Diferente? Diferente, como assim?

Sabe o que quer da vida, mermão. É o único em que eu posso confiar disse Caveirinha, tragando o cigarro.

Realmente podia confiar no prestativo Leonardo, que não veio das ruas, sempre se recusou a distribuir qualquer tipo de droga e considerava "coisa de maluco" ou de "adoi­dado". Os serviços que aceitou fazer, com certa relutância no início, mas depois os fazia com muito gosto e talento, foram o de ser o contador da quadrilha e o distribuidor oficial das "verdinhas" nas delegacias, repartições públicas e "pros homens de cima", numa época em que o tráfico tomava cada vez mais conta dos morros do Rio e o Brasil entrava definitivamente na rota da droga, como ponto de distribuição para a Europa.

Ana Magalhães Castro, com quem Leonardo namorou, vinha de uma tradicional família de políticos fluminenses. Conquistou-a com o mais infantil dos sorrisos, usado para declarar que só ela existia na sua vida solitária. Ela acreditou tanto nisso que, após um rápido namoro, casou-se, de véu e grinalda, na igreja aonde ia sempre rezar. E, na caminha­da até o altar, o seu pai sussurrou-lhe dizendo ter certeza de que a estava entregando a um "homem de sorte", para fazê-la muito feliz, apesar de ser um "rapaz triste". A jovem tinha 20 anos quando largou os estudos de Letras porque ficou grávida. Nunca mais escreveu seus poemas; trocou-os, durante a gravidez, pelos bordados do enxoval do bebê.

Ana só soube do escritório na Praça Saens Pena no dia do nascimento do filho Lucca. Pensou que Leo fosse ainda um advogado iniciante. O contador justificou que não dis­sera nada porque era uma surpresa. Ninguém soube que se formara em Ciências Contábeis. Nessa época, Leonardo já tinha seus segredos subterrâneos, bem guardados. Tanto que era comum tornar-se taciturno e desabafar durante o jantar, com a esposa, quando o filho, Lucca ainda era bebê:

Preciso de dinheiro, de muito dinheiro para seguir a luta.

Ela nunca desconfiou dessa obsessão, nem suspeitava das "circunstâncias", das amizades malfazejas e muito me­nos das demoníacas "forças ocultas" que enfeitiçavam o ga­nancioso e vingativo Cabeção.

Ana bordava fronhas e toalhas de mesa floridas, delica­das obras de arte com paciência e bom gosto. Habituou-se a ver o marido, ano após ano, ganhando cada vez mais di­nheiro, graças a sua suposta dedicação integral às Ciências Contábeis. O filho Lucca cresceu morando no Andaraí, de­pois no Grajaú, e, já adolescente, morou no Flamengo com vista para o aterro. Agora tinham acabado de se mudar para um apartamento de quatro quartos na Barra. Estranhamen­te, Ana nunca teve a curiosidade de visitar o marido nem no antigo, nem no novo escritório no Shopping Downtown:

Não quero atrapalhar seus compromissos, agora que você só se dá com gente importante — desculpava-se pela sua falta de curiosidade quanto aos afazeres do marido. Confiava nele.

Porém, as coisas foram ficando muito confusas, Ana era a primeira a reconhecer que Leo mudara muito. Vivia sempre tenso. Passara dos limites do marido convencional e se tornara um homem cheio de segredos e de manias. Dava-lhe respostas cada vez mais evasivas sobre o seu co­tidiano fora de casa. Nos dez anos de casamento, aquilo não a perturbou. Ultimamente, as coisas tomaram um rumo conflituoso. Esse novo Leonardo desconhecido a angustiava cada vez mais. Tornaram-se comuns as grosserias diante de vizinhos e estranhos. Isso a deixava desconcertada e triste. Não se conformava também com o fato de o marido, apesar dos três celulares, não responder às suas chamadas e telefo­nar cada vez menos para dar notícias. Os simples "alôs" se evaporavam. Justificava-se, sempre, estar ocupado, a serviço de clientes sanguessugas. Nunca fora assim antes.

Não gostava de se questionar, como vinha fazendo, do por que de Leonardo ter mudado tanto assim e do por que ela tolerava, sem reagir, o comportamento desse homem.

No extenso varandão, as imagens das ondas arrebentan­do na areia e das nuvens alinhavadas por cima dos monolí­ticos prédios da Barra foram sendo encobertas por pensa­mentos sombrios e dolorosas reminiscências. Remontou à época em que alimentava o sentimento maternal e quase misericordioso de consolar a ausência dos seus pais, como a ama de leite que acolhe nos braços a frágil criatura para alimentá-la de vontade de viver. Criara desde as núpcias essa espécie de devoção com extremada compaixão por esse homem sofrido e revoltado que antes de ocorrer a mudança de hábitos, na qual se incluía a tormenta dos celulares à noi­te, aceitava amorosamente as suas ordens e conselhos. Com o tempo, ele mal ouvia suas perguntas e muito menos tinha a cortesia de respondê-las. Essa indiferença a estava matando aos bocadinhos por dentro.

O que acha de deixar os celulares desligados? Jantar em paz pelo menos hoje. E difícil? — perguntou a mulher sentada à mesa, após servir a costumeira sopa de ervilhas.

Leonardo se surpreendeu com a entonação de voz. Ou­via pela primeira vez a mulher reclamar à mesa, diante do filho. Irritadiça assim... devia estar com perturbações menstruais, pensou sem dar importância ao fato.

Pode ser, meu querido? — reiterou a mulher, com um timbre de voz mais irritante ainda, que demonstrava a contrariedade por não ter sido atendida.

Não dá. É a melhor hora para se falar com as pessoas — respondeu Leonardo, após o segundo rápido diálogo telefônico, sem ser audível à mesa, à exceção de um nítido "vai em frente" no final de uma chamada. Isto só foi possí­vel ouvir porque atendeu em pé, ainda na sala de jantar, sem ter pisado no assoalho de mármore do varandão.

Posso saber por quê? — insistiu ela inconformada.

Simplesmente porque as pessoas querem falar comi­go, senão eles fazem as coisas errado e eu vou ter de dar um duro danado para consertar a merda que fizeram. Deu para entender, agora?

Não dá para falar de outro jeito comigo à mesa? Lucca está aqui. Respeite ao menos o menino.

O filho viu o rosto do pai se enrijecer nervosamente, calando-se sem replicar. Os celulares continuaram tocando ininterruptamente durante todo o jantar. Leonardo parava de comer e se levantava da mesa. Atendia a todas as chama­das, sem a mínima hesitação. A mulher e o filho permane­ceram num silêncio quase religioso.

Vamos passear em Itaipava? — perguntou Ana, na tentativa de contemporizar com a desavença, mesmo que tivesse de se esquecer da irritação com os celulares. Faz tanto tempo que não apareço lá no sítio dos meus pais.

Pra quê? perguntou Leonardo, demonstrando logo seu desinteresse pelo convite de passar o fim de sema­na fora do Rio, com a família de Ana, no sítio dos Maga­lhães Castro.

Ana sabia que o "pra quê?" era a sua maneira de dizer "não". Isso a fez pensar mais seriamente. O Leonardo de antigamente era previsível e confiável. Tinha um horário fixo de sair e voltar para casa. Logo que chegava, dava-lhe um beijinho na face e saía para comprar pão. Agora vivia como um nefelibata usava o estranho termo, depois que conferira no dicionário o seu significado e gostara de usá-lo para definir a indiferença do marido em relação ao seu mundo familiar cheio de sol e de amor. Para sua angústia, o marido vivia sempre nas nuvens e, ultimamente, encerra­va-se no seu escritório em casa e pedia tudo por telefone. Tudo sem beijos e sem uma fresta de tempo para conversar. Afinal, ela só queria pouca coisa dele: atenção à família, o carinho dos tempos de namoro e o silêncio dos celulares à mesa. Lembrou das inúmeras vezes que se preocupou com a tosse nervosa dele. Queria que consultasse um especialis­ta. Nunca foi. E Ana tinha ainda de enfrentar, solitária, os prolongados silêncios das palavras não ditas de um mari­do interligado a algum outro ponto do planeta, sem tomar conhecimento do fio terra conectado à sua casa, que vivia invadida por vozes estranhas.

Decidiu tomar a atitude de expulsar os inimigos desconhecidos e deixar tudo em pratos limpos, após tantas mágoas reprimidas e prestes a explodir.

— Sabe que tem um mundo lá fora nos esperando, Leo? — insinuou ela, à sobremesa.

Leonardo ficou em silêncio. Ao invés de olhar para o rosto de sua mulher, mirou o colorido tapete kilim, bem dife­rente dos macios boukaras vermelhos da mansão dos pais dele em Botafogo. Continuou por um bom tempo ainda na sua mudez intocável. Ele não emitiu uma palavra. Apenas des­viou o olhar fixo para a noite escura que emoldurava a janela e o mundo lá fora. Nele não se admitia perder nada, muito menos perder tempo e dinheiro - assim pensou o Cabeção, em família, sentado à cabeceira da mesa da sala de jantar.

Bem, foi a partir desse silêncio soberano que Ana Ma­galhães — ainda jovem para a idade que tinha, de voz man­sa, musical nas sílabas longas, com tênues rugas, avivadas pelo fato de viver ultimamente com o semblante sempre tenso — resolveu se rebelar e saber mais da vida do marido fora de casa. Um arrepio subitamente eletrizou o seu corpo; um medo correu pela espinha dorsal ao pensar no gesto de audácia. Temeu a precipitação causada pela intuição fe­minina. Repensou se daria mais tempo ao marido para se corrigir. Mas preferiu seguir em frente na sua luta: afinal, há sempre uma primeira vez na vida.

 

No mês de maio, às 6 horas da tarde em Angers, o sol ain­da tateia as muralhas de finas camadas de xisto e de blo­cos de calcário da imponente fortaleza. Sua luz brilha e se reflete nas dezessete torres e também nos elmos, escudos, espadas, lanças e bestas do Museu de Armas Medievais. Na longa galeria de 980 metros quadrados, em reforma, tendo os operários e engenheiros abandonado o local, na falta de obras e de vozes, no silêncio da nave de uma igreja vazia, só restavam as luzes acesas em teste para que fosse aprovado o novo sistema de iluminação e o moderno sistema de aeração. Este seria capaz de manter o controle ambiental a uma temperatura constante de vinte graus centígrados.

O padre Antoine Duvert estava, como de hábito, atra­sado, desta vez em quinze minutos. As rugas do curador Ferdinand de Sailly pareciam mais proeminentes por con­ta da inconveniência da impontualidade do rechonchudo amigo clérigo. Ele chegou esbaforido, com as maçãs do ros­to em fogo, envergonhado por ter faltado ao horário num encontro tão importante. Ferdinand sabia que aquela figura rotunda e alegre gostava de papear pelas ruas estreitas, bistrôs e parques floridos, sem se preocupar com o relógio, já adiantado em alguns minutos, para evitar os habituais atra­sos. Bem que padre Antoine Duvert prometera a si mesmo chegar a tempo para o honroso convite de conhecer a nova iluminação de 40 lux previamente à abertura oficial para o público. Seria aquele um privilégio para poucos, o de par­ticipar de uma prévia da reabertura da famosa galeria. Esta fora anunciada com grande estardalhaço pela prefeitura, por meio de outdoors espalhados por toda aTouraine e de anún­cios na internet embora esta fosse tida pelo padre como um "instrumento do diabo", que corrompe os homens.

O padre logo abriu um largo sorriso para saudar o ami­go, de cara fechada, que o aguardava na ponte levadiça do castelo.

Vamos logo que estou morto de curiosidade. Sabe que Deus costuma perdoar os relapsos e castigar os rabu­gentos — desculpou-se Antoine, bem-humorado.

O zelador do castelo, da alta nobreza de Anjou, impecá­vel no blazer e gravata borboleta desceu, seguido pelo padre, suarento, com passos apressados, a escorregadia escadaria de pedra.

Cuidado! Não vá tropeçar e despencar pelas escadas medievais! São muito íngremes, veja bem onde pisa.

Puxa vida! Esses degraus continuam péssimos re­clamou o padre Antoine. Quase caí, com essa sua pressa, como se o mundo fosse acabar.

Afinal cruzaram o portal de calcário, a boutique, a bi­lheteria fechada e após ultrapassarem as duas portas, inter­valadas para manter a aclimatação, adentraram na longa sala iluminada da galeria onde habitava a tapeçaria.

Antoine deu um passo à frente e parou diante do qua­dro do primeiro grande personagem, sentado debaixo de um baldaquim, representando São João na ilha de Patmos. Ficou estarrecido, silente, suspenso na contida reverência admirativa da obra-prima tecida em alto-relevo por mãos mágicas de artesãos maravilhosos. Desviou o olhar para a cena das Sete Igrejas. Sentia-se como se estivesse pisando em nuvens com a nova iluminação. Como se fosse a primei­ra vez que estivesse vendo aquelas cenas bíblicas do livro canónico e os quatro grandes personagens, conclamando o espectador a se deixar enlevar pela contemplação e pelo encantamento da excepcional obra-prima.

Nossa, ficou maravilhoso! Os quadros parecem fa­lar! Esta nova iluminação recupera os valores esquecidos da Idade Média. Os olhos até agradecem por estar aqui disse Antoine, comovido pela deslumbrante visão longitu­dinal da tapeçaria, inteiramente recuperada e com as cores totalmente redivivas, a perder de vista na grande parede. As cenas se sucediam em seis grandes painéis, cada um mais dramático e excepcional do que o outro. Tornara-se difícil para ele escolher qual a mais bela e ilustrativa, umas abstra­tas, outras figurativas.

Foram várias as restaurações nas 77 cenas, depois que a tapeçaria retornou ao castelo, em 1906, por força da Lei de Separação da Igreja e do Estado. Não obstante continuar afe­ta o culto do catolicismo, ela foi proclamada um bem do Es­tado. Voltou ao Castelo de Angers, após uma ausência de seis séculos. Desta vez, para a modernização da galeria, usamos tecnologia de ponta esclareceu o administrador, à medida que penetravam, lentamente, na perfeita semi-obscuridade da sala. Esta era garantida pelas duas mil lâmpadas difusoras, alimentadas por fibra ótica, na sequência de imagens impressionantes que estavam dependuradas por meio de grossas fitas de velcro, evitando o uso de pregos danificadores da tecelagem.

Vocês conseguiram. O visitante se sente abençoado por Deus por estar aqui, no coração da cristandade e da re­novação da fé.

Só falta fazer uns ajustes nas posições dos quadros.

Está muito bom assim. Para que mexer? Deixe assim.

Repare neste quadro do Cristo e o gládio, como os azuis ficaram ressaltados — disse Ferdinand, avançando lentamente.

Antoine passou diante da quinta cena, a de São João, em lágrimas, e pensou no milagre da reprodução das cenas divinas, baseadas nas visões apocalípticas do santo. Apertou as mãos atrás do corpo e se postou diante da sexta cena da incrível visão do mundo, desfigurado pelo terremoto. Foi caminhando em silêncio. Viu as cenas grandiosas dos cam­pos de batalha, do combate terrível do bem contra o mal, a terra devastada pelas sete pragas e pelos quatro cavaleiros do Apocalipse, o assédio das bestas enviadas pelo diabo, a besta da terra, a do mar, os sapos, os gafanhotos. Contemplou a guerra do fogo e o tremor da terra. Deu mais alguns passos e assistiu à queda da Babilônia, e, mais adiante, com olhar santificado viu a Nova Jerusalém suspensa, triunfante, na glória da salvação eterna.

Ninguém imagina o trabalho para manter intacta esta obra-prima na grandiosidade da sua dimensão bíblica — disse Ferdinand, emocionado. — Houve imenso zelo a fim de melhorar cada vez mais as condições de conservação desta obra de arte para que o público pudesse apreciar a profética visão do Apocalipse e entendesse a sua mensagem de esperança.

São pinturas que explicam a luta permanente da humanidade contra o mal. Olhe este quadro, número 52 — disse o padre. — É a cena do Sono dos sete justos, que souberam resistir às palavras do Anticristo. Repousam nos leitos mortuários com as almas salvas, antes de subirem ao céu estrelado, carregados por dois anjos.

Uma beleza! A iluminação canonizou esta imagem de subida ao céu.

Olhe esta cena aqui da Nova Jerusalém — apontou o curador com o dedo indicador. — E uma das minhas preferidas. Pena que não se conseguiu recuperar todas as cenas perdidas da tapeçaria. Fico desconsolado ao ver, à saída da galeria, a frustração estampada na expressão dos visitantes, por causa da ausência das imagens do Sexto grande personagem, do Cavaleiro do cavalo cor de fogo e da guerra, do Terremoto, dos Quatro ventos, da Prostituta condenada, das Bodas do cor­deiro, do Verbo de Deus, dos Pássaros devorando os ímpios e do Julgamento final. Nunca vou me conformar que elas tenham desaparecido, sem deixar vestígios. Não vou perder a espe­rança de que um dia sejam reencontradas todas as cenas e possam vir para cá, completando a Revelação.

Não citou a mais importante perda — ressaltou Antoine.

Qual? Acho que citei todas. Será que faltou alguma?

Faltou a cena do Diabo enjaulado por mil anos.

Tem toda a razão, Antoine. Perdoe-me. Ela é tão ób­via que esqueci! O visitante sai sempre frustrado porque não viu o diabo enjaulado. Sem dúvida, o quadro 75 é a grande ausência da galeria. Talvez a maior de todas pela sua simbologia.

Tem ideia de como era a cena original? — indagou o padre.

Os estudiosos pesquisaram e concluíram, a partir do rigor da alternância de cores em toda a tapeçaria, que esse quadro 75 ausente tinha um fundo vermelho, já que os quadros 74 e 76 têm fundo azul. E o diabo seria represen­tado por um dragão de sete cabeças, a figura clássica usada na representação da Besta do Apocalipse — respondeu o curador.

Para os católicos, não é o quadro em si que é impor­tante, mas a sua mensagem. A cena mostraria a insistência e a sobrevivência da fé. Imaginamos que, se a cena da tapeça­ria anda pelo mundo, com o diabo à solta, explica-se tanta criminalidade, violência, luxúria, perversão e pornografia, e o pior é que não deve deixar de ter seus adoradores por toda a Terra...

O padre Antoine continuou, como se estivesse pregan­do no altar, e se deixou levar inteiramente por sua inspira­ção piedosa e arrebatada, diante do olhar de admiração do curador, que o viu passar do estado de graça artística para o de graça divina:

Satanás então venceria a batalha contra a fé simbolicamente, se a cena ficar solta pelo mundo, e ele também. É por isso que nós, religiosos, pregamos a nossos fiéis que não usem camisinha, porque a função do sexo é a procriação e nunca o prazer e a luxúria. Não entendem isso. A praga da AIDS não é outra coisa que a vitória da luxúria e da degrada­ção! Não querem nos ouvir quando somos contra os abor­tos e as pesquisas com células-tronco de seres humanos que não tiveram o direito de nascer. Não entendem que estão matando os embriões porque existe vida desde a concep­ção, a alma já está presente. Não entendem por que somos contra a clonagem humana, pois só Deus pode dar e tirar a vida. Não querem mais ouvir a voz de Deus na Babilônia de nossos dias. Chega! Não quero me estender mais.

Busquei recriar a iluminação para que os visitantes da galeria voltem a reencontrar a esperança da Nova Jerusa­lém — explicou o curador, enfatizando o seu interesse pela reforma.

Sem dúvida, você o conseguiu. Está de parabéns pelo belo trabalho de renovação da mensagem de fé e de espe­rança no mundo desvairado de hoje. Mas não basta apenas isso. É preciso mostrar o diabo vencido. É preciso prender Satanás por outros mil anos.

O curador não concordou imediatamente. Segurou o padre pelo braço e o conduziu para onde deixara um espa­ço em branco:

Olhe aqui, Antoine. Sabe por que deixei este vazio, entre o quadro 74 e o 76?

O padre ficou calado. Seus olhos fixavam o rio emer­gente do trono de Deus que irriga as colinas de arvores frutíferas.

Há uns seis meses surgiu a notícia de que o quadro do diabo aprisionado foi visto — confidenciou o curador, sussurrando.

Por que só me contou isso agora, amigo-urso?

— O que adiantava falar se o Ministério da Cultura não estava disposto a financiar a sua busca, compra e res­tauração? Agora, sim, posso lhe contar, pois eles aceitaram financiar tudo. Estou muito esperançoso. Minha intuição me diz que, muito em breve, teremos o quadro de volta. Nosso único problema é que não se pode envolver a polícia no caso, enquanto não tivermos a certeza da autenticidade do quadro.

De onde veio essa alvissareira notícia? Posso saber?

Do Brasil — respondeu o curador, elevando o tom de voz.

Meu Deus! De tão longe assim. Sabe que o meu so­brinho Aurèlien esteve por lá no carnaval. Teve o passaporte roubado.

O filho de sua irmã?

É. Gostou tanto de lá que ficou meses. Falou-me que fez boas amizades. Só voltou porque não queria per­der o emprego na Biblioteca dos Monumentos Históricos em Paris. Ele se formou em Saint-Cyr, mas desistiu de ser gendarme.

É o pesquisador?

Isso mesmo. É pesquisador e policial. Lembra do caso do roubo na casa do "Tigre", em Paris? Ele foi contra­tado pelo Museu Clemenceau e desvendou tudo sozinho. Um fanático tinha surrupiado os objetos pessoais e os ma­nuscritos da coleção.

Lembro-me muito bem, é claro. O caso apareceu em todos os jornais.

Ele esteve aqui em outubro. Ficou horas visitando as salas do Museu de Armas. Elogiou muito o perfeito estado de conservação das bestas medievais. Sabe, ele é campeão de tiro de balestra, o que vulgarmente se chama de arco e flecha, e até ganhou muitas medalhas como ar­queiro em campeonatos.

—Você me deu uma ideia. Depois, eu conto. Agora te­nho de sair voando para casa, senão minha mulher me atira no lago de fogo onde o diabo se afogou. Ela convidou o prefeito para jantar — confidenciou Ferdinand, aflito, apres­sando o passo pelos degraus de pedra da saída da galeria na direção do pátio senhorial do castelo.

Não me diga que aquele poltrão vai comer aqueles deliciosos quenelles na sua casa? — alfinetou o padre An­toine, diante da sua exclusão da honraria gastronômica dos Rochemont de Sailly.

Estamos muito empenhados na reeleição do prefei­to. Ele merece.

Merece nada — protestou Antoine, olhando os ponteiros do relógio. — Nossa! Já é tão tarde assim... Os meninos devem estar preocupados com a minha demora. Atrasei-me de novo.

O curador fez uma pausa repentina na caminhada para perguntar ao padre, ainda esbaforido com a subida da escadaria:

Pode me passar o telefone do seu sobrinho em Paris?

Claro, passo-lhe depois, por e-mail — despediu-se o padre afobado.

Alisando as dobras da gravata borboleta, o curador ain­da deu uma última espiadela nas vinte e quatro espécies de roseiras plantadas no jardim defronte da parede externa da galeria. Um vento refrescante fustigou-lhe o rosto ao atra­vessar a ponte levadiça do castelo. No seu silêncio, os lábios sorriam pelo resultado alcançado com a nova iluminação, que acrescentou ao imaginário bíblico o toque do impon­derável, o meio-tom da temporalidade eterna do Apocalip­se, como se a tapeçaria clamasse por uma exegese, deixada suspensa no ar. Ou como se quisesse que os visitantes retor­nassem sempre, como se retorna de alma sofrida às missas nas igrejas ou à prece diante do altar de Deus para Ele nos revigorar a certeza e a beleza da fé. Agora os pensamentos do curador se concentraram no sonho de trazer de volta o quadro 75 para a galeria: nada que uma boa soma em di­nheiro não pudesse realizar riu consigo mesmo.

 

Mesmo sabendo que o mundo dá muitas voltas e o destino une pessoas de outros continentes, o curador Ferdinand ja­mais podia imaginar que além de Leonardo, um ilustre desconhecido, e de Aurèlien, o sobrinho do padre Antoine, a história contemporânea da tapeçaria contaria também com a participação de Júlia, filha de Baudoin, nascida em Viscon­de de Mauá, cidade localizada a mil e duzentos metros de altitude, na Serra da Mantiqueira, uma região formada por vilas e vales, cachoeiras e trilhas.

A palavra "Mantiqueira", em tupi-guarani, significa "onde nascem as águas". Definição perfeita para uma re­gião exuberante em riqueza e beleza hídrica, que encantou o pai de Júlia, um turista belga de nome pomposo: Baudoin Fontenoy Werhofen. Ele era botânico e decidira tirar férias no país que era legendariamente famoso por ser "o país do futuro"; mas além de deslumbrar-se com suas matas e pás­saros, também se encantou com as mulheres brasileiras; um turista em visita ao Brasil, um botânico em férias no país le­gendariamente do futuro, deslumbrado por matas, pássaros e mulheres brasileiras.

Já na subida da serra, o belga ficou impressionado com o gavião-real que acompanhou o carro no trajeto esburaca­do até Mauá. Supersticioso, acreditou ser um aviso benigno para um passeio de fim de semana. Só que apreciou tanto a natureza virgem, os rios cristalinos, sem poluição, que re­solveu prolongar os dias de sua estada, transformando-os em meses, em anos e em toda a vida. Passados alguns meses depois de conhecer a sensual Maria Tereza, com quem se banhou na Cachoeira do Escorrega, casaram-se em ceri­mônia ecológica na Cachoeira Véu da Noiva, na presença de amigos brasileiros e belgas.

Apaixonado por Maria Tereza e pela natureza, é fácil entender o que levou esse homem de pose altiva e de quei­xo levemente anguloso, a vender sua loja de ferragens na Bélgica e os seus pertences mobiliários, para construir uma pousada na Serra da Mantiqueira e optar definitivamente pelo prazer de levar uma vida saudável e amorosa no meio do mato. Passou a conhecer palmo a palmo a geografia e a história da região e se descobriu um guia autodidata por força da sábia decisão de vir morar em Mauá, onde consti­tuiu sua pequena família.

— Parei de tomar remédios e não procurei mais os médi­cos. A região é milagrosa — costumava dizer para os visitan­tes, lembrando-se de quando recorria a descongestionantes para respirar.

Da união da apimentada Maria Tereza Gusmão com o aventuroso viajante valão de alma francófila, mais conhe­cido na região pelo apelido de "Baldo", nasceu a adorável Júlia, que se tornaria fã de fotos e livros de aventuras. E, uma vez bem estabelecido com sua pousada, batizada de "Anjo Azul", nome sugerido por Maria Tereza em homenagem ao marido, não tardou Baudoin em perceber que, com seu conhecimento de línguas e das matas, poderia registrar num livro as percepções e emoções de um aprendiz de botânico europeu apaixonado por matas. Assim nasceu a obra Conhe­ça a região turística de Visconde de Mauá e sua história.

— Foi a decisão mais acertada da minha vida vir mo­rar aqui. As pessoas e a natureza me deram a maior força para ficar em Mauá. Nunca mais quero voltar para Bruxelas — dizia a todos o belga feliz e apaixonado pelas coisas do Brasil.

A pequena Júlia se criou no meio da natureza e de muita leitura. Ao completar 15 anos, Baudoin presenteou a filha com uma máquina fotográfica e um novo par de ócu­los com lentes e aros mais finos. Viu a filha enfurnar-se na mata por entre pinheiros nativos, quaresmeiras e ipês, para fotografar bromélias e orquídeas. Gostava de vê-la subindo nas árvores para flagrar o sol batendo no rio ou a lumi­nosidade dos raios espalhados na água translúcida provoca­da pelas quedas-d'água. As fotos adquiriram o formato de cartões-postais, encontrados à venda nas lojas de artesanato e restaurantes de Mauá. Viu a filha, já mais crescida e expe­riente, cobrir os eventos locais com reportagens ou textos jornalísticos para revistas com cadernos de turismo, publi­cados semanalmente no Rio e em São Paulo e na revista mensal Natureza.

Do pai adorado, Júlia herdara os olhos azuis e a curio­sidade por mistérios. Apesar da hipermetropia, já na ado­lescência os olhinhos água-marinha buscavam descobrir na mata o paradeiro da suçuarana ou do tatu-canastra. Essa curiosidade instintiva se aguçou com a leitura dos álbuns de Tintin, na versão original. Sabia de cor o nome de todos os personagens, os países visitados, os apelidos dos bandidos e os esquisitos palavrões do Capitão Haddock.

No começo, o pai traduzia os balões das ilustrações com timidez e com a escassez das palavras conhecidas da língua portuguesa, mas depois aprendeu a se desembaraçar com frases cada vez mais ousadas, até soltar a língua de vez. Inventava vocábulos engraçados que provocavam risos na filha. O fato é que, no jogo linguístico de cabra-cega de busca de palavras escondidas, Júlia estudou o francês como uma segunda língua, à medida que o pai aprendeu o por­tuguês como um divertimento de grande utilidade e de muitas risadas.

Para Júlia, nascida no pequeno mundo em que o pai se reinventou, não havia nada mais afetivo do que dividir com ele a linguagem simples e direta das histórias em quadri­nhos. Para Baldo, as tiras possibilitavam à filha assimilar uma gama infinita de informações sobre ambientes culturais, sociais e políticos conhecidos, sem precisar sair de Mauá. Contou-lhe que "Bruxelas respirava a atmosfera dos álbuns, espalhados em todas as livrarias", a mesma paixão que Jú­lia conhecera em Mauá, sempre se revelando entusiasmada com as viagens e aventuras do repórter Tintin (pronuncia-se "tantan"), que faziam a sua cabeça.

Júlia ouvia atenta o pai Baudoin explicar o tremendo poder de influência dos quadrinhos que "abriam as mentes à imaginação" e ia muito além da simples diversão. Ela nun­ca esqueceu a lição.

Sabe, pai, o que mais quero na vida é ser repórter. Você deixa eu ir para o Rio. Já fiz 18 anos?

Sua vida é aqui, minha filha. Tem tudo que precisa aqui. A cidade lá embaixo não precisa da sua sensibilidade.

A violência urbana despreza suas belas fotos da natureza, cheias de flores e de amor. Você pertence a Mauá, Júlia.

E se um dia eu fugir?

Terei uma tristeza infinita, filha. Vai me magoar profundamente porque me convencerá de que tudo que lhe ensinei foi um monte de besteira. Não serviu para fazê-la feliz.

Feliz, sem eu escolher a minha própria vida? Por que não posso ser igual ao Tintin, por mil raios e trovões? — questionou Júlia, usando a mesma expressão do Capitão Haddock, o famoso personagem dos álbuns, do qual o pai tanto gostava e ria.

Filha, Tintin nunca teve uma família. Só por isso.

Hervé, o criador de Tintin, viveu esse conflito quan­do morava numa cidade em que não se sentia mais livre. De repente, todos os seus sonhos e desenhos ficaram brancos. Desenhou o álbum do Tibé sem cores. Consultou até um famoso psicanalista na Suíça. Você me disse isso, pai. Lem­bra? Só conseguiu exorcizar seu demônio branco quando fugiu de Bruxelas. Eu preciso sair de Mauá, senão, começo a sonhar tudo branco. Deixe, pai, deixe...

Quanto mais aumentava a clientela da pousada escondida na serra, mais lindos ficavam os jardins floridos e mais aumentava o número das acomodações, e mais a cozinha se modernizava. Júlia via sua mãe, nos fins de semana e feria­dos prolongados, amarrar o seu avental na cintura e o lenço branco na cabeça e assumir o status de chefe de cozinha. Não perdia a marcação do tempo na preparação dos pratos, cada um mais saboroso do que o outro. Entre as especiali­dades da casa, a mais simples eram batatas fritas sequinhas e crocantes, um segredo belga repassado pelo marido: as ba­tatas eram cortadas e colocadas alguns minutinhos em água fervendo; em seguida, em água com gelo; após escorridas, eram fritas em bastante óleo e desengorduradas em papel-toalha.

Júlia sabia também que o café da manhã era imbatível, com o requinte da realeza belga, saborosamente amanteiga­do pelo sorriso feliz e matinal do dono da pousada. Quem conhecia a Anjo Azul não se arrependia de ter ido, nem se esquecia de voltar.

Desde criança, Júlia se interessava pelos serviços administrativos e comerciais da pousada e em ajudar o pai nos passeios ecológicos. Fugia da cozinha como o demônio foge da cruz. Nunca descascou uma batata nem fez um ca­fezinho ou refogou o arroz. Mas o que lhe faltava no ma­nuseio das panelas, sobrava-lhe em capacidade de organizar papéis e lidar com a correspondência. Gostava também de conversar com os hóspedes na recepção. Tinha muito jeito em convencer hóspedes indecisos pela internet, era a garan­tia de uma estada de repouso absoluto e de muitos prazeres, que somente a sua hotelaria familiar e o bom clima e os encantos da serra poderiam oferecer.

Júlia sempre teve curiosidade em conhecer a vida dos casais maduros, de recém-casados, amantes, homossexuais masculinos e femininos, cada vez mais assumidos e frequentes. Nesses encontros, falava pouco, mas ouvia muito sobre as crônicas da cidade grande. Só ficava tagarela quando os hóspedes falavam francês. Era a oportunidade de praticar a língua estrangeira e auferir os progressos que tinha feito com os ensinamentos do pai, que, quando não havia hóspedes por perto, e sempre que podia, se comunicava com ela na língua materna. O seu rosto irradiava uma felicidade inoüie se os estrangeiros a felicitavam pelo desembaraço na língua de Baudelaire, seu poeta preferido. O que era conta­do sobre a vida cotidiana do Rio pelos hóspedes se adensa­va em pensamentos imaginosos, iam preguiçosamente pe­rambulando pelo teto amarelo do quarto. Era o seu jeito de sonhar de olhos abertos com a cidade grande.

Mãe, a revista que publicou o guia do pai pediu para escrever sobre vocês. Os editores querem saber como ele veio parar aqui e como vocês se conheceram. Acham que as diferenças de origem e cultura dão uma matéria muito interessante.

Agora não, filha. Estou muito ocupada.

Por favor. Os encontros de amor marcados pelo des­tino dão bons textos. Me ajuda, vai.Você podia contar pelo menos como meu pai veio parar em Mauá? insistiu Júlia, franzindo a testa.

Sabe, filha, acho que as diferenças se atraem no amor. Foi assim com a gente explicou a mãe, segurando a co­lher de pau. Até hoje eu nunca consegui saber direito como tudo aconteceu. Só sei que foi um furacão que pas­sou pela minha vida.

Dá para entender. Você era jovem, estava num lugar como Mauá, e alguém de fora vem e lhe diz ao ouvido que o amor supera as diferenças; não havia como não se apai­xonar. Me fala um pouco dele, mãe insistiu Júlia, curiosa em saber mais do forasteiro.

Na primeira vez que o vi em pé na praça, com a mo­chila nas costas, tive um troço. Era um homem lindo sorrindo para mim com seus olhos azuis e não querendo mais voltar para a terra dele por minha causa. Olha só como fico toda arrepiada até hoje — disse a mãe, com um doce sorriso.

Maria Tereza ficou calada, com o olhar etéreo, enquan­to lidava com as panelas. Um sorriso enigmático deu vazão a um sorriso triunfante.

Só lhe digo uma coisa, filha: ele ia ficar um fim de se­mana e ficou um mês.Teve de voltar para a Bélgica, mas não demorou nem dois meses lá. Largou a mulher, largou tudo e voltou para ficar comigo.Veio morar aqui definitivamente, e um ano depois nascia a minha chatinha na pousada.

—Você sabia que ele ia voltar? Tinha certeza, não é?

Filha, rezava todas as noites para Santa Terezinha do Menino Jesus. Na despedida, no seu melhor "brasileiro", me disse: — Vou voltar, vou proteger nosso amor, porque descobri no "caxoeira" que as almas somente são gêmeas se elas têm o mesmo "corason". Sabe, filha, amo meu rei belga como no primeiro dia.

Rei? De onde tirou essa agora!? — exclamou Júlia.

Mãe e filha riram e então se abraçaram emocionadas.

Só espero que encontre alguém que te faça rainha.

Neste fim de mundo, mãe? Nem por milagre!

Não é o lugar que importa. É o traço do destino que está escrito nas mãos e nas estrelas.Você vai acabar achando, onde ele estiver, minha filha. Tenha fé nisso.

Me ajude, então, mãe, para não ter de sair fugida daqui.

Nem pense nisso.Você ainda é minha menina.

Menina, mãe? Já completei 20 anos. Chegou a hora de morar no Rio — argumentou, agitando as hastes dos óculos com a ponta dos dedos. — Não aguento mais ficar em Mauá.

—Você não está feliz aqui com a gente, hein?

Claro que estou feliz, e muito. Mas, aqui, não tenho futuro, mãe. Quero fazer faculdade. Trabalhar num jornal. Ter minha vida de mulher. Fale com ele, mãe. Não aguento mais ouvir as histórias dos outros. Quero escrever a minha história.

—Vou tentar, filha. As coisas não são assim tão simples. Ninguém consegue derreter a cabeça dura do seu pai. Vou armar, filha, vou pegar o belga no aniversário pela boca. Vai ver só.

Maria Tereza não ria mais. A filha podia ir embora a qualquer momento, sem autorização. Sabia que a ausência da filha na pousada abriria uma chaga dolorosa no coração do pai. Mas não podia decepcionar Júlia. Chegara a hora de não frustrar o seu sonho de ser jornalista no Rio de Janeiro e de encontrar o amor. Entristecida e resignada, perguntou- se: Como podia Júlia seguir o seu destino se não desse um empur­rãozinho, hein?

Marraviloso! Marraviloso! — repetiam os amigos do rei.

Maria Tereza preparou um jantar, digno da Ordre des Agathopédes, famosa confraria gastronômica belga. Na arte e no prazer da boa mesa, esmerou-se na quiche royale, acompanhada de saladas verdes e de fruits rouges, como entrada; no assado de javali com marrons-glacês e batatas gratinadas; e na sobremesa, nunca antes servida. Não faltou o saboroso queijo bleu de Bresse[1], que o marido amava e agora também era produzido em Minas Gerais, onde as noites e manhãs costumavam ser frias e os pastos ricos em nutrientes, à semelhança da região do Rhône-Alpes, onde fica o Bresse.

Quando as luzes da sala se apagaram e foi soprar as velinhas do bolo, o aniversariante chorou copiosamente. E não era para menos. O bolo tinha as cores da bandeira valã, vermelha e amarela em volta do vulcão iluminado, cuja lava era de bleu incandescente e derretido. Baldo não se culpou de ter aceitado várias fatias do bolo. A chef Maria deixou que repetisse à vontade a deliciosa sobremesa com os ami­gos da colônia belga do Rio. Na manhã seguinte, solene, a exemplo do rei Leopoldo III, que teve de abdicar do trono, em 1951 em favor do filho Balduíno, o pai Baldo, ainda que emburrado e contrariado, afinal consentiu que a filha viajasse, em busca do seu destino.

O vigoroso montanhês resistiu mal às comemorações e, pela primeira vez em muitos e muitos anos, adoeceu. Tal­vez fosse emoção em demasia para um belga pacato, ou tão somente para um pai inconsolado com o acontecimento apavorante de a filha amada pela primeira vez deixar a Pou­sada Anjo Azul.

Vai filha, leva a medalhinha de Santa Terezinha do Menino Jesus. Eu pedi para teu pai trazer uma se resolvesse vir morar aqui. Guarde, filhinha, para iluminar o teu cami­nho disse Maria Tereza, muito emocionada, chorando no adeus ao colocá-la num ônibus e pôr uma medalhinha no pescoço da filha.

O pai estava tão emocionado que mal conseguia falar:

Lembra-se das primeiras palavras que lhe ensinei em francês? Do primeiro balão do álbum País dos Soviéticos?

Claro que me lembro, pai. Foi bon voyage.Você me fazia repetir mil vezes a palavra voyage, até acertar a pronúncia.

Então, lhe desejo bon voyage, minha filha, e fuja da violência sussurrou o pai, com o semblante abatido, maldormido, como se tivessem arrancado, de um só golpe, um pedaço do seu coração.

Não foi fácil para Júlia partir de Mauá. Deixar para trás a infância de bonecas de pano, de bichos e matos, a adolescência de muitos livros, recordações de fases risonhas, fe­lizes, saltitantes no jardim florido da pousada. Deixar de contar com a companhia do pai que a incentivou a conhe­cer o mundo. Quem sabe se não tivesse lido tantas histórias e conversas noite adentro com tantos hóspedes não estaria com essa irresistível vontade de aventurar-se numa cidade grande e de ser repórter igual ao destemido Tintin.

O que foi que disse a ele, mãe, para me deixar partir?

A mãe contou a discussão terrível. Ele não queria dei­xar de jeito nenhum que ela saísse de Mauá. Chegou a gritar. Só baixou a voz quando ela o desafiou a responder mais ou menos isso:

Não entende, seu turrão, que Mauá ficou pequena demais pra ela. Quer que sua filha seja infeliz para o resto da vida? Quer que sua filha envelheça sem encontrar o destino de felicidade e de mulher que ela merece? Não vai se per­doar nunca dessa maldade. Olhe que quando eu o conheci, recém-chegado da Bélgica, para ser feliz aqui, não era assim tão egoísta.

 

Aurèlien Kleber, filho de um militar francês, durante toda a sua infância e adolescência teve de seguir os passos do pai em todos os deslocamentos no território francês. Por mais que a todo momento o petit reinventasse o amor pela alma e pela cultura francesa, essas viagens seguidas, em que conhe­cia gente e cidades, ao longo do tempo, se tornaram um far­do pela grande frequência com que eram realizadas.Teve de trocar diversas vezes de escola. A cada retorno, Aurèlien se queixava, por não guardar as recordações dos lugares e das pessoas. Ia ganhando experiência de vida, mas as imagens e as lembranças, de tão passageiras, tinham se desvanecido numa câmara invisível.

E uma simples questão de adaptação resumia o pai François para justificar as mudanças de moradias, cida­des e temperaturas.

Os avôs maternos sempre protestavam inconformados:

Por que diabos o menino não pode ter um lar per­manente, amigos e uma educação normal em Estrasburgo?

Não e não! vociferava o pai, zeloso e, mais do que isso, teimoso em dar continuidade à tradição militar de sua família.

De nada adiantava a preocupação do avô Jean-Philippe, apelidado de Jojo, pela caraça bonachona de buldogue, e da avó Michelle, uma maratonista sexagenária:

—Vocês não entendem. E o petit que nos preocupa.

O que ele tem? — perguntava a mãe, Dominique.

—Vai ter de ir para outra escola? Coitado do menino!

— angustiava-se a avó, desolada nos lamentos distantes do neto.

Ora, mamãe, ele já está bem crescidinho para saber que tem de ser assim. Leve a coisa para o lado positivo. Ele deve estar adorando conhecer novos amiguinhos e mudar de ares.Ter aventuras para contar! — exaltava a mãe, ainda jovem e feliz com a vida nômade, sem perceber o quanto as viagens e mudanças de escola incomodavam o petit. Ele não parava de bufar de mau humor e revolta a cada trans­ferência.

Somente após a visita ao avô, general de divisão apo­sentado, morando em Marselha, que as coisas se ajeita­ram. O tenente-coronel recebeu uma longa carta em que foram transmitidas as aflições quanto à falta de vocação militar do neto. Uma carta eivada de preocupações sobre o futuro do cadete Aurèlien.

O pai levou a sério a carta alarmista do avô, mas não sabia como reverter a situação. Por sorte, tudo se resolveu depois do telefonema do Alto Comando, que comunicou a François sua transferência para Nancy, a menos de cem quilômetros de Estrasburgo. Ao determinar que o filho se mudasse para a casa dos avôs maternos, o pai preocupa­va-se tão somente com que Aurèlien recebesse a melhor preparação curricular possível para conseguir ingressar na

Escola Militar de Saint-Cyr ou na École des Officiers de la Gendarmerie, conhecida como EOGN a famosa academia de segurança pública.

Após viajar por tantas cidades, Aurèlien já tinha deixa­do de acreditar que um dia pudesse voltar a se fixar numa única cidade. Para ele, foi um motivo de grande felicidade conseguir retornar para Estrasburgo, a cidade em que nas­cera. Além disso, por ter sido designada uma das capitais europeias com sede do Parlamento, a capital da Alsácia pas­sou a dispor ao contrário de Nancy, nos Vosges de um primoroso sistema educacional. Tornara-se o lugar ideal para alguém que, segundo o desejo paterno, ingressaria nas rigorosas escolas militares francesas.

O pai solicitara o empenho do vovô Jojo para fiscali­zar os estudos do filho, de modo a não haver empecilhos no ingresso da grande École militar, onde se formavam os "oficiais de ação e reflexão, para em posição de comando ser capazes de agir em situações difíceis de manutenção da ordem pública". O pedido do pai era uma ordem militar, embora Jojo tivesse outros planos educacionais para o petit.

Ao chegar a Estrasburgo, Aurèlien já trazia na bagagem um sólido conhecimento de informática, a prática do bu­dismo de Nitiren Daishonin e uma grande curiosidade por documentos e monumentos históricos. Não saberia dizer desde quando conseguiu se interessar por universos e coisas tão diferentes ao mesmo tempo. Não trazia nenhum sen­timento especial de afeto, a não ser pelo computador. Para onde quer que o pai fosse transferido, carregava o fiel com­panheiro, inclusive para a nova morada. No entanto, apesar do pouco tempo em que viveu lá, o grand Aurèlien acrescentou algo de conteúdo humano ao seu mundo cibernéti­co. Em Estrasburgo, sem abandonar a internet e os contatos de sua comunidade virtual, ligou-se afetivamente aos donos da casa, em particular ao irrequieto avô, um político apo­sentado, ex-membro da Resistência, que tinha a literatura como passatempo favorito.

Assim, além da dedicação aos estudos para ingressar na EOGN foi motivado e incentivado pelo avô a pesquisar livros raros, em especial os de monumentos históricos, de arquitetura gótica, de antigas fortificações, bem como ma­nuscritos famosos. Leu os originais das cartas de amor de Napoleão a Josefina de Beauharnais. Igualmente, na dileta companhia de Jojo, o neto rendeu homenagem, nas horas de lazer, aos grandes clássicos, residentes permanentes da casa. Eram leituras comentadas das obras de Stendhal, Flau­bert, Balzac, Proust, Anatole France, Romain Rolland, lidas com a emoção do arrebatamento celestial que somente a leitura concede aos privilegiados amantes da literatura. Na galeria dos clássicos, o avô também colecionava as comé­dias de Aristófanes. Riam muito com as leituras de Pluto. Nada mais contemporâneo para retratar cenas da política e da corrupção francesa, dominadas pelo perverso poder do dinheiro, o vil metal corruptor, em todos os tempos, desde a Grécia antiga até o mundo globalizado de hoje.

Os textos que Aurèlien lia fluíam suaves aos seus ouvi­dos, à semelhança da corrente das águas do Rio III, afluente do Rio Reno, que banhava com seus cinco braços o cen­tro da cidade de Estrasburgo — paisagem sempre evocada quando os dois viajantes do imaginário, neto e avô, divaga­vam e degustavam as deliciosas bolachas amanteigadas, pre­paradas com carinho pela avó Michelle, e assim se sentiam enlevados na paz de espírito que sucedia a boa leitura no­turna, após o jantar.

Aurèlien passou a viver sempre de bom humor, tinha até parado de bufar. Infelizmente, retomou o vício ao se alistar no centro de recrutamento número 17 D da Rua Molsheim. Após as entrevistas de praxe, ingressou, afinal, na academia militar de EOGN, tudo como mandavam os regulamentos e ordenara a teimosia do pai. Realizou todos os exercícios operacionais, carregando suas frustrações na mochila e armas na cintura através do território francês. Ainda bem que a França não se envolvera na guerra do Iraque, senão, por vontade do pai, estaria montado num ca­melo no deserto.

O período militar só fez aumentar a angústia existen­cial na busca de sua verdadeira vocação e das suas escolhas pessoais. Adquiriu, então, o hábito de praticar o tiro de besta

uma arma semelhante ao arco e flecha, igual a usada pelo lendário suíço Guilherme Teil. Gostava particularmente do nome da arma, que fazia alusão à antiga proibição papal de usá-la contra outro cristão, embora fosse permitido o seu tiro contra os infiéis e os vampiros. O "arqueiro Aurèlien"

como passou a ser conhecido na escola — ganhou vários campeonatos de tiro, e se filiou à Royale Arbalète Brainoise.

No entanto, desta vez o destino quis contrariar a antiga tradição militar da família e pregar um grande susto no arqueiro. Estando no segundo ano da escola militar, durante um treinamento em Saint-Astier, algo espantoso aconte­ceu. De uma hora para outra, apareceu nas feições de Aurè­lien uma rigidez e palidez de cera, que não restou a menor dúvida em todos que o cercaram de que o cadete havia falecido repentinamente. O sisudo chefe do batalhão, Lucien Beauchamp, responsável pelo comando, afirmou sem sombra de dúvida que ele estava clinicamente "morto", e entrou em pânico. Somente no hospital, momentos antes de ser chamada a funerária, foi que o médico plantonista descobriu que Aurèlien sofria de grave transtorno neuroló­gico, que causava a perda temporária das funções orgânicas, devido à contração voluntária dos músculos. Diagnosticou- -se então o mal como um raro caso de uma etiologia des­conhecida, variante da síndrome de Gélineau. Depois do grave incidente, a escola EOGN permitiu que Aurèlien se formasse como policial, mas logo o reformou precocemen­te da gendarmerie em virtude de seu estado de saúde "pou­co confiável" diante de suas obrigações funcionais, em que teria de enfrentar as "situações difíceis de manutenção da ordem pública".

Aurèlien aceitou com alívio o adeus às armas e se con­formou com a medicação diária pelo resto dos dias para não adoecer de novo, e quiçá, cair num sono profundo sem volta. Decidiu se inscrever no concurso público de biblio­tecário. Os exames foram prestados em Estrasburgo. Os candidatos aprovados seriam distribuídos pelas bibliotecas e centros midiáticos do território francês. Pretendia viajar doravante somente por prazer para as grandes capitais ou lugares exóticos. E, afinal, realizar o sonho de ser um biblio­tecário qualificado, e não apenas um diletante pesquisador.

Depois do almoço com toda a família em que comuni­cou ter passado nos exames de bibliotecário, Aurèlien viu o pai pela última vez na estação. Achou-o acabrunhado, febril. Percebeu que a causa não devia ser exclusivamente a decep­ção proveniente do fato do petit não ter seguido a carreira militar e estar de partida para Paris. Aurèlien tornara-se budista praticante, que orava o Nam-Myoho-Rengue-Kyo todas as manhãs; e naquela visita a Estrasburgo, acreditou que o pai estivesse passando pelos seis maus caminhos, que são estados de vida em que as pessoas são arrastadas pelas influências externas negativas. Ficou perplexo ao ser per­guntado quando o pai, recém-promovido a coronel, se in­teressou por sua opinião, pela primeira vez na sua vida:

— Como vai o seu budismo, filho? Tem praticado?

No entanto o pai, sem sair dos seus hábitos, não esperou a resposta. Desculpou-se de ter recebido ordens superiores para voltar imediatamente para Nancy; deu um beijo fur­tivo no rosto do petit e partiu, correndo, sem esperar que o trem partisse.

Afinal, qual teria sido a intenção do pai em estabelecer um elo com a sua fé budista? O que havia de tão estranho nisso? — questionava-se Aurèlien. Pressentiu que a silen­ciosa despedida enraizava algo pessoal, que, infelizmente, permaneceu inconfesso.

Na partida do trem, sem a presença do pai, só restaram os adeuses afetuosos dos avôs e da mãe, que ficou chorosa, triste, de lenço na mão na plataforma da estação de Estras­burgo, cheia de esperas, embarques e desembarques, po­voados de vozes aflitas. No meio delas, sobressaíram-se suas últimas palavras:

—Vá e viva a vida, mon petit.

Na viagem de trem rápido, o rosto inquieto e pálido do pai ficou detido por um bom tempo no pensamento e projetado no vidro da janela, na viagem em alta velocidade. De repente, a saudosa imagem tornou-se fluida, cedeu lugar à paisagem esplendorosa dos campos floridos e das planícies produtivas do nordeste da França. Sinal evidente de que se libertara do passado como a rolha prensada do champanhe percutindo o teto e brotava a esperança de uma vida ventu­rosa e feliz de pesquisador em Paris.

Aurèlien Kleber tirou o primeiro lugar no concurso público de bibliotecário em Paris, graças a seus conheci­mentos de informática e de livros históricos. Foi designado para uma "médiathèque" do Ministério da Cultura e da Co­municação, nas proximidades da Place desVosges. Assim, na Cidade Luz, além de se tornar um influente mediador en­tre os leitores e as obras, poderia escolher entre flanar pela beira do Rio Sena ou ir até a Catedral de Notre-Dame ou a Sainte-Chapelle e ouvir os seus magníficos concertos de órgão. Possibilidades que se abririam para ele em Paris, dis­tantes apenas de uma boa caminhada do seu novo local de trabalho. Aurèlien ganhava aos poucos, em seu íntimo, uma crescente consciência de que a vida é uma viagem cheia de mistérios e surpresas, ligados à grande aventura de estar no mundo, que marcava a evolução do homem sobre a Terra.

 

Amelinha, a amiga querida de Ana, mulher de Leonardo, costumava incentivá-la a se consultar com uma astróloga conhecida dela, para conhecer os presságios do seu destino: "Vá lá, Ana. Ela é maravilhosa! Sabe restituir a esperança no meio das desilusões!". Mas Ana foi adiando, adiando e aca­bou desistindo da ida até a astróloga, Lisa. Quem terminou indo à astróloga, sem nada dizer a respeito à mulher, foi Leo­nardo, porque se sentia atormentado com as dúvidas sobre seu envolvimento com o tráfico de drogas.

Após a morte do pai, sentindo-se menos controlado na sua vida, Leo se permitiu largar o escritório de advocacia, que lhe era imposto pelo pai, e se dedicar exclusivamente ao oficio de contador e negociador dos subornos ligados ao tráfico de drogas. Continuou expandindo seus serviços pro­fissionais para o crime organizado, sem que ninguém jamais descobrisse que, por trás daquele homem cordial, discreto, queixoso da violência urbana, escondia-se um Leo calculis­ta, sedento de vingança, no fundo do coração. Nunca subiu um morro para levar recados nem manuseou uma arma ou cuidou da venda de drogas. Contentava-se em se camuflar na retaguarda, no papel secundário de coadjuvante, agra­ciado com o privilégio de ser o homem de confiança e o protegido do bandido Caveirinha. Mas esperava muito mais do destino e das misteriosas "forças ocultas".

Todos reconheciam a sua competência e a cabeça mate­mática. Daí o apelido de Cabeção — como era conhecido no submundo do crime. Fez amizade e prestou pequenos serviços a todos os integrantes da quadrilha. E, como para comprovar que as diferenças se atraem, seu maior amigo era o "braço armado" do chefe, o temido exterminador Cor­redor, batizado com esse simpático apelido esportivo pelo hábito de entrar nas favelas correndo e atirando para matar.

Ficou satisfeito em ser recebido e tratado por senhor Leonardo. Pensou que aquela astróloga se recusaria a abrir a porta se soubesse que tinha diante de si o "Cabeção", se bem que nunca tivesse se envolvido diretamente com as drogas, crimes de estelionatos, de latrocínios e de assassi­natos em série, típicos das grandes concentrações urbanas.

Detestaria ser barrado na festa dos astros ou ter o seu mapa natal lido assim: "Entendeu, senhor ajudante de criminosos, que vai se estrepar se continuar na vida dupla de bandido?" Riu da dificuldade que as pessoas têm de entender que nem todo contraventor é um bandido. Para a astróloga o importante é que — fosse quem fosse — não permitiria que perturbasse a complicada leitura de sua progressão solar.

— Não me interrompa, por favor, senão não consigo ler. Tem tudo favorável.Vai ter frieza de raciocínio para con­seguir realizar seus objetivos, mas vai precisar antes romper os elos do passado. Tem aqui uma vingança. Ela é uma faca de dois gumes. Cuidado para não por tudo a perder e es­tragar sua vida!

Valeu estar prevenido e não perder a cabeça com tudo de bom que estava por vir ainda disse para si, após a consulta, em que a mulher dos astros pinçou no passado as mortes dos seus pais, criticou e chamou sua atenção para que não mi­masse seu filho demais. E ainda falou na prorrogação da consulta umas tantas verdades sobre o seu casamento de mais de quinze anos com Ana. Porém, o que mais o deixou muito triste e abalado foi recordar a morte do pai.

Sua cabeça latejou forte ao voltar à cena do passado. Era como se, de repente, tivesse ouvido o estampido da­quele tiro fatal no escritório. Não se esqueceu daquele ano maldito. O tiro foi disparado na biblioteca de mogno. Os sofás almofadados, os quadros valiosos, a luxuosa coleção de livros secretos da Inquisição, as belas porcelanas, as ver­dejantes samambaias, tudo foi sacudido pelo ensurdecedor estrondo. Ali a morte se fez inevitável na companhia de livros e de tantas reminiscências —, desassossegando o lugar aconchegante em que os amigos do pai costumavam con­versar ou bebericar um puro uísque de doze anos, com as tradicionais cinco pedrinhas de gelo.

Quando a mãe abriu a porta, ficou desesperada com a cena com que deparou, sem conseguir acreditar na cena clássica de suicídio em sua frente: a cabeça do pai tombada em cima do mata-borrão, o sangue ainda se derramando na mesa e pingando pelas bordas. Uma mancha escura se alastrando pelo sedoso tapete persa. A mãe caíra num choro convulsivo, apoiando-se no espaldar da poltrona de couro e logo começou a gritar histericamente. Só silenciou ao ser arrancada à força da biblioteca. Leonardo nunca mais se esqueceu dos olhos petrificados da mãe e seu derradeiro olhar de infinita ternura em direção à cabeça dilacerada do pai. Sua mãe lhe dera o nome de Leonardo por ser muito devota de São Leonardo de Murialdo, um santo que nin­guém conhecia, mas que ela ouvira o papa Paulo VI pon­tificar sendo "excelente no ordinário". Ela jamais se refez do suicídio. Padeceu ainda do abandono dos amigos e da má companhia das paredes brancas na casa de saúde, onde morreu, meses depois, vitimada por um câncer incurável.

"Tudo bem, filhoco?", era sempre assim que o pai o saudava ao chegar ao casarão ajardinado da Rua São Cle­mente.

Tinha informado à astróloga, ao marcar a entrevista por telefone, que nascera no dia 25 de agosto de 1961, às 11 horas. Justo no dia da renúncia do presidente Jânio Qua­dros. Foi um dia tumultuado para o país.

Tudo bem, filhoco?, ecoava a voz da nostalgia.

A ditadura findara, e tudo prometia ir politicamente bem, enquanto, economicamente, tudo parecia ir mal. O primeiro governo civil eleito, após vinte anos de chum­bo, herdara os problemas do modelo de desenvolvimento econômico praticado pelo regime militar e agravado pelas sucessivas crises internacionais. No dia 28 de fevereiro de 1986, o governo decretou o Plano Cruzado, cujo fracassado congelamento geral de preços e adoção do "gatilho sala­rial" só contribuiu para instaurar um ambiente de recessão econômica, desenfreada especulação financeira e ameaça de hiperinflação. Rapidamente exauriram-se as reservas cam­biais e falhou a confiança no país democrata. O Brasil faliu.

Tudo bem, filhoco?, ecoava a voz da tragédia.

Naquele maldito ano de 1986, o mundo familiar de Leonardo desmoronou. Até seu último resquício de vida, o pai escondeu de todos o acúmulo de dívidas impagáveis, com bancos e agiotas, deixando muito amargor no seio da família desunida. Depois de amarguradas reuniões com os tios e com a irmã mais velha do pai, com quem pouco se relacionavam, eles foram morar em São Paulo, envergonha­dos com a falência do parente, antes tão risonho e despre­ocupado, cuja fotografia ainda permaneceu assim, durante algum tempo, sobre o piano de cauda da sala. Leonardo foi o único que permaneceu no Rio e presenciou a decretação da falência. Viu os retratos do pai desaparecerem de cima do piano, assim como da memória dos parentes e amigos. Acompanhou, sozinho, o mato cobrir o jardim, a poeira se acumular nos móveis, as pratas sumirem da mansão vendida em leilão. Teve a certeza de que a mais importante referên­cia de sua vida, o seu pai, se fora para sempre.

Só você acredita neste governo corrupto! — avisara o amigo.

Temos de investir na democratização — replicava o pai cheio de entusiasmo cívico.

Leonardo lembrou que nessa época em que o pai ope­rava na Bolsa, estava estagiando no escritório de advocacia. Os amigos do pai se enriqueciam beneficiados pelos bons tempos de obras públicas milionárias e da Bolsa sempre em alta. E o pai insistia com o investidor indeciso e ganancioso:

Não me diga que vai querer limitar os lucros? Você não entende que se não comprar as ações agora não vai poder dobrar o capital!

Foi com a venda das belas propriedades herdadas que o pai comprou a corretora. Os primeiros anos foram maravi­lhosos e de grandes amizades. Mas tudo não passou de uma montanha-russa! Passada a temporada de euforia, ele acor­dou no meio da noite sem amigos, atracado com o pesadelo das dívidas resultantes dos juros escorchantes dos bancos. Bum! Um tiro certeiro na têmpora, numa frieza inacreditá­vel. Perdeu a cabeça junto com a fortuna da família.

A buzina de um carro na rua fez o pensamento de Leo­nardo migrar para a casa de Lisa, a astróloga. Lembrou que, numa de suas idas à cozinha, durante a primeira consulta, ela apagara o fogão, mas um cheirinho gostoso de feijão-branco passou pela porta e pelas suas narinas. Curiosamente, foi tomado pela gostosa recordação do requinte culinário do pai: a sofisticada feijoada francesa, de nome muito co­nhecido: cassoulet.

Depois relembrou da primeira vez que fizera amor, aos 16 anos. O pai programara toda a farra sem a mãe saber. Financiara o encontro do filho com uma experiente mulher, madura, de origem estrangeira.Tornou-se um habitue, como soletrava, fazendo beicinho para a cafetina. Conheceu as melhores profissionais e os mais modernos motéis na Barra, tudo patrocinado pelo orgulhoso pai. Tornou-se exigente, e com a experiência adquirida passou a preferir mulheres mais maduras, mais enigmáticas, que sabiam dar tudo de si e ficavam gratas por terem transado com uma besta insaciável.

Tudo bem, filhoco?, ecoava sempre a voz longínqua.

Depois da morte do pai, quanto mais lia os jornais, mais se indignava com os casos de corrupção. Mais se lembrava do paizão que acreditou até o fim na vitalidade do merca­do de ações, como uma indispensável alavancagem para o crescimento das empresas nacionais. Acreditou na pureza das boas intenções do governo de civilistas, saídos dos cala­bouços e das cassações da ditadura. Aquilo o enchia de raiva, pior, de ódio vingativo.

Coitado, pensou. O pai sempre foi um babaca naciona­lista. Nunca cogitou em abrir uma conta num paraíso fiscal. Se tivesse feito como os amigos espertos, que se tornaram ricos, estaria são e salvo, ele e a sua honrada família. Dia­logava com os fantasmas do passado: é coisa de maluco a saudade de quem a gente ama de verdade. É que gostou do velho, desde criancinha, nas manhãs preguiçosas dos do­mingos, quando ia para a cama do pai, antes do café na varanda. Era bom sentir-se protegido, amado, sob o olhar ciumento da mãe, que preferia a companhia da irmã com­portada ao molecote rebelde. Puta que pariu! O dinheiro, sempre o dinheiro! explodiu raivoso, Leonardo. O pai perdeu tudo. Morreu dizendo que, antigamente, ser pobre era uma infelicidade, e hoje em dia, ser pobre é uma injusti­ça social. Seu maior sonho era um dia recomprar a mansão do pai para morar.

Foi Lisa, a astróloga, como numa oração murmurada, que ressuscitou a dor dessas feridas ao evocar Urano em conjunção exata com seu Sol. Foi sofrimento demais passar pelo que passou aos 25 anos de idade. Porque ele não podia contar com um passado de pobreza, para vencer, mas logo viu que não precisava do diploma de bacharel em Direito para ser rico. Bastava confiar em si próprio como repen­sou astrologicamente convencido do quanto os astros dão voltas no céu e pregam peças nas pessoas, como a de se apaixonar por Lisa, que o fez ter fé no futuro e no amor. Nunca se esqueceu da frase que ouviu antes de marcar a consulta, como um freio de mão que usaria para não pôr tudo a perder na vida.

Seja paciente, senhor Leonardo. Tudo tem seu tempo.

Ana, mulher de Leonardo, já decidira saciar a curiosi­dade de saber o que o marido aprontava fora de casa. Lem­brou-se do que sua amiga Amelinha lhe lera, à saída da aca­demia de ginástica, num texto introdutório da consciência semanal cabalista: "Nada está gravado em pedra, você sem­pre pode mudar seu destino". Então Amelinha a obrigara a passar com o dedo pela página, percorrendo-a da esquerda para a direita, até se deter num número. Era o sétimo dos setenta e dois nomes de Deus, o DNA da Alma. Era essa a mensagem ali contida: "Recebo o impacto total das forças da Criação. Devolvo sentido a vidas que parecem sem sen­tido e propósito para um mundo que muitas vezes parece sem resolução. A ordem retorna. A estrutura emerge. Tudo se arruma".

Bastou o marido entrar no banheiro para Ana não he­sitar em ir até ao seu escritório e mexer nos três celulares em cima da mesa. Foi conferir se o marido estava ainda debaixo do chuveiro. Estava. Fez então as ligações automá­ticas dos celulares para os últimos números, sem temer que fosse identificada a hora das chamadas. Tremia de medo do desconhecido mundo de Leo.

Fala, chefe — respondeu uma voz grossa e vulgar.

Quem fala? — disse Ana, timidamente.

Está querendo falar com quem, sua vadia?

Ligou para outros números. Todos desligaram brutal­mente, sem se identificar. Todas as vozes eram de pessoas grosseiras, que a maltrataram com palavrões antes de sumi­rem dos celulares.

Como não era possível identificar a chamada, soltavam o verbo. Nenhuma voz civilizada respondeu a suas chamadas.

No sexto ou sétimo número listado achou curioso o que ouviu.

Os brinquedos chegaram ontem, cara. Tudo de pri­meira — falou a voz aflita. — Está tudinho no depósito. A chefia ainda não viu. — E, depois, sem resposta, a voz gri­tou: — Quem está aí, porra?

Antes de recolocar os três celulares de Leonardo nos respectivos lugares, a mulher anulou todas as chamadas para não deixar vestígios, deletando os registros. Voltou para a cozinha pensando na vida do marido fora de casa. Se con­tador era aturar esse tipo de gentalha, tinha de ter mais pena do marido agora do que tivera logo depois que seus pais morreram — raciocinou. Porém, ao mesmo tempo, tudo lhe pareceu muito suspeito e incomum. A começar, pela repetição de um certo número discado, aparentemente re­sidencial, que não lhe soou totalmente estranho. Não quis correr nenhum risco. Anotou o número e decidiu chamar depois de um orelhão.

Naquela noite, à mesa do jantar, tentou saber mais para pôr ordem nas coisas e se concentrar no que era preciso descobrir para fazer "sentido e propósito" cabalisticamente.

Passe-me a faca de pão, por favor — solicitou Leo­nardo, para cortar o pão fresco da padaria, agora entregue em casa.

Como foi o dia, querido? — perguntou Ana, dócil, tateando o terreno movediço de chamadas e números des­conhecidos.

Normal — respondeu Leonardo, secamente.

Alguma novidade? — provocou a mulher, com o olhar fixo.

Tudo normal. Os mesmos problemas de sempre.

Os celulares começaram a pipocar, urgente. Leonardo se levantava e atendia no ato, imediatamente, após conferir a procedência da chamada. Um informante da polícia o avisara que estavam montando uma operação para prender o Caveirinha. Da distância em que Ana e o filho estavam sentados suas palavras não podiam ser ouvidas. Às vezes, e somente quando ocorria que elevava a voz, ouviam-se uns palavrões, unicamente eles, audíveis.

Não sei por que homem usa tanto palavrão — disse Ana, provocativa, à espera da reação do marido.

Leonardo ficou calado, apenas preocupado em cortar uma fatia menor de mortadela para caber no pequeno pe­daço de pão. Ela detestava mortadela, mas Leonardo e o filho se empanturravam.

Esta aqui veio direto de Bolonha, filho. Foi um amigo italiano que trouxe. É diferente. Está bem picante. Vai gostar.

O filho assentiu com a cabeça e com um olhar de apro­vação. Leonardo então sorriu todo carinhoso, generoso, oferecendo o pedaço de pão recheado de mortadela que havia preparado.

Prove! — comandou Leonardo, como se fosse um general.

A mulher assistia atenta à cena amorosa, como outras tantas que sempre aconteciam na relação brincalhona entre pai e filho.

Está gostando, filho? -— perguntou Leonardo, vendo o filho mastigar gulosamente o pão com a boca cheia.

Todos os seus clientes dizem palavrão. É comum isso?

Leonardo riu, num riso cínico e provocador:

Está querendo o quê, querida? Que na era da infor­mática os homens digam bonjour? — respondeu Leonardo fazendo beicinho com a boca amiudada, provocando o riso do filho, que logo começou a imitá-lo. Riram bastante e Ana não teve outro jeito senão entrar na brincadeira e des­fazer o mau humor com que viera para a mesa, causado pela desconfiança em relação aos celulares do marido.

Já decidiu se o seu filho vai servir o Exército? — perguntou a mulher, mudando de assunto, após os sorrisos forçados.

—Vai, sim. Na época do alistamento, ele se inscreve.

Acho bom. Vai aprender a ter disciplina e obedecer à mãe.

Ué, ele não lhe obedece? — perguntou Leonardo, surpreso.

Não chegou a ouvir a reposta da mulher, porque o ce­lular tocou e logo saiu da mesa para atender a chamada insistente.

Chefe, o Pé-d'Água rastreou a chamada particular que recebeu e identificou que é daí o número. Não tem erro, não.

Que porra é essa! Eu não liguei para ele!

Opa! O celular está grampeado, chefe!

Leonardo ficou pensativo, alisando a barriga mais insi­nuante neste último ano de muita agitação e preocupações fora de casa. O outro celular tocou. Conferiu o número e atendeu:

Tranquilo, cara? A bateria pifou e não atendi na hora.

Eu não liguei. Bem, não tem importância. Confere aí a hora da chamada? — perguntou o Cabeção, em voz baixa.

Após fechar apressadamente a tampa do último celular, o sorriso do rosto de Leonardo desaparecera por comple­to. Seu semblante agora era de pura tensão, algo que fazia os sulcos da testa ficar salientes. Leonardo não voltou mais para a mesa. Foi direto até o quarto procurar uma aspirina na mesinha de cabeceira, antes que as pontadas na cabeça o matassem de dor. Tinha de ter paciência, como dissera Lisa.

— Fala major...

O celular tocara, bem tarde depois do jantar. Foi a últi­ma chamada que Leonardo atendeu. Era o major, trazendo novidades.

 

À primeira vista, um dos principais motivos para o crime organizado ter nascido, se expandido e atingido o atual estágio de violência, seria bastante simples: o crescimento incontrolável das cidades. Nelas, surgem bairros marginais, favelas, territórios fora da lei, e, de dentro dos presídios, facções que continuam comandando e perpetrando crimes. Em face da pobreza e da má educação das minorias econômicas, fervilha a contratação de mão de obra para o crime. E as organizações criminosas germinam, porque ganham muito dinheiro com o negócio. Essa riqueza ilícita deu ori­gem à convicção bastante difundida no Brasil de que o cri­me compensa, por ser impune e por trazer muito, muito dinheiro. E isso acabou criando, com o tempo, um efeito cascata, estimulando cada vez mais outras redes criminosas, como a do tráfico de armas.

Numa determinada noite, a exemplo do Zé do Bigo­de, um dos fundadores do Comando Vermelho, nasceu uma facção criminosa no "Caldeirão do Diabo", na Ilha Grande, e segundo a lenda, lutou contra quatrocentos policiais, o bandido Caveirinha também resistiu bravamente por horas contra todas as investidas de capturá-lo vivo. Matou e feriu vários policiais. Porém, com os reforços das cinco unida­des da Polícia Militar; ao contrário do Zé do Bigode, que morreu, ele se rendeu afinal, bastante ferido. Do hospital foi mandado para um presídio federal de segurança máxima, ainda numa ambulância, acompanhada por um comboio de carros da polícia.

Quando um líder morre ou é preso, surge um vazio de poder nos morros, enquanto se sucedem os naturais acertos, ou seja, guerras entre facções. Os moradores da favela têm de conviver com essa realidade, sobrevivendo como podem às trágicas histórias de assassinatos de mulheres, velhos e inocentes e aos intensos tiroteios que envolvem até crianças com armas nas mãos. Toda essa realidade, por mais chocan­te que possa parecer, é aceita como fato comum e normal pelos favelados, que são forçados a suportar esse destino em silêncio, vítimas de uma sociedade omissa e de governos quase sempre despreparados e impotentes para lidar com o tráfico.

Vai começar tudo outra vez lamentou a dona de casa ao ouvir pipocar os primeiros tiros na entrada do Mor­ro Dona Marta, localizado às margens da Rua São Clemen­te e que possui uma posição estratégica para a venda de entorpecentes na Zona Sul.

Mas desta vez não eram somente tiros comuns. O ce­nário era o de uma guerra de proporções nunca vista antes entre bandos rivais. O inusitado do tiroteio é que as ações foram marcadas pela extrema barbárie dos invasores para tomar de assalto os territórios do Caveirinha, que se esten­diam desde o Morro Dona Marta, até a Ladeira dos Tabajaras e a Favela da Rocinha, por mais distantes que fossem esses redutos entre si.

O Morro Dona Marta não difere das outras favelas, construídas em morros no Rio, que são independentes en­tre si. São cheias de labirintos e em geral, com poucos e difíceis acessos íngremes. Cada morro tem a sua realidade e o seu dono, por força dos confrontos armados. São lo­cais ideais como base para a venda de drogas e de defesa dos territórios, pois oferecem a proteção natural do espaço físico contra grupos rivais e a polícia. E os moradores, co­agidos pelos códigos da coabitação e pela pouca presença do poder legal da sociedade, terminam por colaborar com os traficantes, fornecendo-lhes ajuda e esconderijo contra as invasões dos "estranhos", ou seja, quaisquer elementos de fora daquele meio são tidos como inimigo.

Depois de muitas mortes, a gangue rival se apossou do Morro Dona Marta. A dominação ficou visível pelas pichações de exaltação aos vitoriosos nos muros da favela. Os moradores reverenciaram a nova liderança que tinha muitos planos para o império do pó se expandir no circuito da pobreza e da miséria humana. Com o cessar-fogo, as "bocas de fumo" voltaram a operar e o tráfico formiguinha — o transporte de quantidades pequenas de drogas e de armas — foi substituído pelos "bondes", como são chamados os grandes carregamentos. Como sempre acontecia no morro, as vozes se calaram com o dinheiro das drogas circulando novamente pelas ruelas e becos.

Caveirinha, que começara lá debaixo na carreira de tra­ficante, achou que poderia mandar no movimento de dentro da prisão, por meio dos celulares, porque o maior poder do crime no Rio de Janeiro não está na rua, mas reside no interior do sistema penitenciário. Porém, o novo dono do Morro Dona Marta veio para ficar. Veio de fora da co­munidade e do Rio de Janeiro. Era sobrinho do bandido de alcunha "Marcola", ex-ladrão de bancos que se tornou o líder da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo. Escolhera o Dona Marta por que achara que este não resistiria ao ataque com as novas armas, importadas do Paraguai. A invasão do sobrinho de Marcola no morro profetizava que o PCC aceitara o desa­fio do confronto direto com uma das três facções crimino­sas que dominavam os pontos de venda de drogas no Estado do Rio de Janeiro. O tio Marcola se orgulhava de ter lido trezentos livros, sendo os seus preferidos A arte da guerra, de Sun Tzu, e O príncipe, de Maquiavel. A invasão foi um ensinamento prático.

O novo dono do morro, Alcides Pinto da Silva, ou simplesmente o vulgo Pimpão, já demonstrara vocação para o crime desde adolescente, assaltando lojas e postos de gaso­lina. Foi preso e fugiu várias vezes, até rapidamente "mudar de ramo". Optou pelo tráfico de drogas, por ser muito mais lucrativo e somente exigir destreza no uso de uma Kalashnikov AK-47. Nas primeiras ações armadas revelou-se um líder nato: ambicioso, pragmático e de grande crueldade, re­quisitos básicos que o levaram a conquistar o Morro Dona Marta e a ocupar os demais territórios do Caveirinha.

O celular de Leonardo emudeceu. Raras foram as cha­madas recebidas durante a invasão. Ele já tinha pensado em fugir se as coisas ficassem pretas. Mas o celular tocou, insistentemente, depois do jantar. Não podia deixar de atender.

Fala, major.

Está tudo beleza. Pode crer, amigão.

Está mesmo, Corredor? — indagou Leonardo, em­bora a voz tranquilizadora e de mando do ex-capitão da tropa de choque do Caveirinha não deixasse dúvida de que o amigo se bandeara e não haveria nenhuma surpresa se já não fosse o novo gerente geral.

Querem falar contigo — disse, num tom autoritário.

Está doido, vou morrer. Sei demais, cara. Vou me mandar.

Está jóia, Cabeção. Pode vir numa boa. Eu garanto o papo tranquilo. Estou te esperando no bar do Antônio.

Nunca subi morro, Corredor. Nem sei onde é.

Se vira, cara. A chefia não gosta de esperar — acon­selhou o amigo, passando o recado como quem acaricia a arma no coldre.

No terraço do barracão, depois da matança, os sobre­viventes do bando, com as mãos amarradas atrás das costas, eram vigiados pelo olhar inquisitivo e o pescoço espichado de Pimpão. Os vitoriosos contabilizavam os ganhos. Após os relatos e o sorriso de aprovação do novo dono, o gerente do preto (maconha), o do branco (cocaína), o dos soldados e os da boca se retiraram. O único a permanecer foi Corredor, que durante a guerra entre as facções foi cercado pelos sol­dados rivais e obrigado a se bater numa luta de sabre contra o gerente geral. Foi poupado após matar o inimigo com um golpe de sabre, num duelo na frente do novo dono. A cabeça decepada do rival que rolou no chão aterrorizou a todos. O novo chefe ficou impressionado com o feito e foi direto na contratação do outro:

Morreu como um frouxo. Você vai ser o meu major. Tá ligado?

Nunca vi um major de Exército na minha vida, chefe.

Mas agora vai ver. Estamos conversados? — sinteti­zou Pimpão, arrogante, seguro no comando do morro, tal como o tio Marcola, que comandava tudo da prisão, atuando como "atacadista", comprando a cocaína no exterior, refi­nando a droga em São Paulo e depois distribuindo para os centros urbanos.

Arrasou com as armas, chefe — confirmou o major, omitindo a participação dos soldados-crianças, treinados por policiais militares, que, ao trocarem de lado, fizeram a diferença na guerra entre bandidos.

Agora, vamos pensar grande, major -— reagiu Pim­pão ao elogio, satisfeito com a traição das crianças e por ter usado um armamento mais moderno do que o das forças oficiais.

Pra que mudar, chefe. Está tudo tão bom assim!

Não está! — contestou Pimpão. Vou aumentar pra caramba as vendas e as entregas pelos motoboys. Cadê o contador?

Leonardo se encontrou com o major na rua Francisco de Moura e de lá subiram ao QG. Logo percebeu pelas per­guntas do novo chefe que ele não era de muita conversa, ao contrário de Caveirinha. Estava mais interessado no dinhei­ro que arrecadaria do morro do que em se vangloriar das trágicas baixas dos companheiros e inocentes, consideradas "naturais". Deixou subentendido que comandaria o Morro Dona Marta com pouco assistencialismo e aterrorizando a população. Ia se concentrar na estratégia que garantisse a oferta constante de drogas e na defesa das bocas de fumo contra as invasões das gangues rivais e batidas policiais, ao mesmo tempo em que treinaria e armaria os soldados para invadir os territórios de outras facções. Deixou claro que daria prioridade à rentabilidade do negócio.

Pimpão explicou que ia tomar de assalto outros morros com avançadas técnicas de guerrilha e queria ver o dinhei­ro arrecadado crescer. Usaria a violência como um grande balcão de negócios. Ouviu atentamente Cabeção explicar como funcionava a "caixinha". Muita empresa de primei­ra linha não tinha esse fundo de reserva. Essa caixinha era uma espécie de fundo de emergência da contabilidade ge­ral, capitalizada com o recolhimento de aproximadamente 5% do faturamento de cada boca de fumo da quadrilha. Foi uma enxurrada de números. Ouviu as muitas ideias e os planos de Leonardo e de como pretendia aumentar a ren­tabilidade dos ganhos, desde que pudesse contar com mais dois auxiliares, informatizar a contabilidade e contratar um especialista em finanças e lavagem de dinheiro, coisas que o Caveirinha sempre se recusara a fazer.

Deu para perceber que o novo dono ficou impressio­nado com o contador. Apesar de estar tudo anotado, escri­turado, sabia todos os números de cabeça. Tudo que quis saber além da escrituração do livro-caixa, ele sabia de cor e salteado. Foi explicativo e preciso, sem ser cansativo. Não teve mais dúvidas. Ao lado do major, que comandava como ninguém os soldados e os gerentes, Cabeção era a outra peça indispensável. Ia fortalecer o poder financeiro do trá­fico, evitando as perdas e aumentando os ganhos. E tinha grandes idéias. O seu tio, lá na prisão, também gostaria de ter um cara desses ao seu lado raciocinou Pimpão, antes de fazer os últimos acertos.

Vamos aumentar pra caramba o dinheiro do movi­mento.

Com certeza vai ter um rio de dinheiro — respon­deu Leonardo, animando bastante o novo chefe para pedir o que tanto necessitava. —Vou precisar de gente qualifica­da. Pode ser?

—Te devolvi a vida, Cabeção. Deixou de ir pra vala pra trabalhar pra mim. Vai ser o que eu mandar. Vamos modernizar tudo. O movimento vai ser uma empresa de primeiro mundo, igual à Petrobras. Pode contratar. Tranquilo, agora?

Sim.Vai ter uma fábrica de fazer dinheiro igual a pão quente numa padaria. Pode acreditar nisso!

Sem a presença do major, o chefe ficou pensativo, antes de surpreender Leonardo, selando a confiança que ali nascera espontânea, como fora a do Caveirinha no jogo do truco.

—Você vai ser meu Ministro da Fazenda.

Como assim? — perguntou Leonardo, meio pálido.

É isso mesmo que ouviu. Você vai ser o meu mi­nistro da Fazenda e do Arrego (propina). Estamos conver­sados? — sentenciou, convencido de que não poderia se privar do homem que sabia tudo e fazia os acertos com a polícia e o "pessoal de cima".

Leonardo não pensou duas vezes. Não adiantava dis­cutir. O homem tinha essa mania infantil de dar títulos aos homens de sua confiança. Primeiro foi com o major Cor­redor e, agora com ele, nomeando-o ministro da Fazen­da. Que idéia mais besta!, pensou, repetindo, em gargarejos e deboche, o posto a plenos pulmões. Melhor ser ministro plenipotenciário do que a vala.

Leonardo viu o sorriso estampado no rosto do chefe com os planos expostos para aumentar os lucros a partir da carta-branca outorgada. Se sentiu o próprio Joseph Fouché do livro de Stefan Zweig, que tanto gostou de ler. O pleni­potenciário ministro francês conhecido como o "servidor dos vitoriosos". Todos lhe deviam favores e não dispensa­vam seus serviços secretos e escusos. Serviu a Robespierre, a Napoleão Bonaparte e a Luís XVIII, com a mesma eficiên­cia e astúcia, tendo traído a todos, não sem antes se enrique­cer e ser cruel a seu modo. Quando o enviaram para "lim­par" a região, de Nantes a Lyon, dos contra-revolucionários, Fouché ficou conhecido como o "metralhador de Lyon", por ter ordenado mil,novecentas e seis execuções. Além de ser bom no que fazia com mestria: pagar subornos e montar uma eficiente rede de informantes. Controlava muitas pes­soas por meio da arma do suborno e da corrupção.

Leonardo leu que Joseph Fouché nunca pegou numa arma de fogo. Ele — que não veio das ruas —, também não precisaria pegar numa, pois usaria o que tinha de melhor — a cabeça — confiante em que o consumo de drogas seria a ponta do iceberg de grandiosos negócios, numa escala jamais imaginada, se conseguisse modernizar as finanças do movimento. Sendo o novo dono do morro o mais capitalista e mais brutal dos traficantes que conheceu, tinha tudo para transformar o tráfico numa empresa rentável e produtiva. E faria fortuna controlando as contas do tráfico, já que acerta­ra de ganhar um generoso percentual sobre os lucros e ter a ajuda do major. Não podia mais recuar, agora que as "forças ocultas" estavam a seu favor.

Antes de se despedir de Leonardo, Pimpão mandou cha­mar o major Corredor e fez uma estranha pergunta aos dois:

-—Vou mandar tatuar um yin-yang em preto e bran­co na molecada — disse o chefe, ocultando que era uma sugestão do tio, cujo diagrama representava "a maneira de equilibrar o bem e o mal com sabedoria". O que acham? e mostrou o desenho.

Enquanto o major se limitou a opinar com um "le­gal", bem convencional, Leonardo se sentiu suficientemen­te prestigiado para ousar a emitir uma opinião sincera. Era como se as "forças do mal", na versão de Lisa, tivessem so­prado a dica.

No Japão, tá legal. Mas aqui, ninguém vai entender.

Está certo. Gostei.Tem alguma sugestão, ministro?Que tal tatuar um satanás .Vai mostrar que ele está do nosso lado para infernizar a vida dos nossos inimigos.

Boa, major! Vamos tatuar um satanás no braço e um 666 na testa. Quero ver toda a rapaziada tatuada.Toda!

Deixa comigo, chefe disse o major Corredor, logo apontando o lugar no braço onde ficaria a tatuagem obrigatória.

Pimpão riu. Depois seu olhar ficou carregado, ao lem­brar o que disse para o tio, antes de optar pela "única via" para ser alguém na vida e de sonhar em ser dono de um morro no Rio: Pô, tem criança que, porra, passa fome... eu não vou passar fome... não vou ficar lá na rua pedindo comida para os outros, porra, prefiro meter a mão na arma, estar numa comunidade dando tiro, vendendo droga todo dia a passar fome com minha mãe.

Foram semanas de muitas emoções. Os celulares não paravam de tocar interrompendo a todo instante o jantar em casa. Ana estava furiosa. O que podia fazer? — pergun­tava-se Leonardo. Não tinha como lhe revelar que agora era o ministro da Fazenda do Pimpão do PCC e que durante a noite os canais privativos da corrupção eram mais acessíveis e comunicativos.

Leonardo viu o filho chegar hesitante para a despedida.

Tudo bem, filhoco? perguntou Leonardo, sor­ridente.

Lucca vigiava por trás do seu ombro para se certificar se a mãe não seguiu seus passos. Aproximou-se do rosto do pai, como se fosse dar um beijo, e murmurou ao pé do ouvido:

Está sabendo, pai? A mãe anda atrás das suas coisas.

Não tenho nada para esconder, filho. Confie em mim.

Sei lá, pai.Vi a mãe mexendo nos seus celulares.

Obrigado pela dica, filhão disse Leonardo, abrin­do a porta do elevador, não sem antes beijá-lo na testa e abraçá-lo. Na semana que vem, vou começar a te deixar no colégio de carro.

À medida que o elevador descia em condominial lerdeza, Leonardo foi acuado pela lembrança do seu protesto no final da leitura do seu mapa para que a astróloga con­cedesse mais meia hora de consulta. Foi aí que veio à tona o seu casamento. Lembrou da pausa que Lisa fez, ingerido em goles lentos o refrigerante para dosar as constrangedoras revelações:

Bem, aí peguei o mapa de sua mulher, uma pes­soa muito inteligente, eu diria esperta, além disso, sedutora, porque tem Vénus na casa um. Ah! Você sentiu uma grande atração física, desde o primeiro encontro, não é verdade?

Lisa mudou até o tom de voz antes de prosseguir:

Teve medo de decidir errado, mas acabou casando no retorno de Saturno. No início foi tudo uma maravilha. Ela foi muito protetora, prestativa, incentivou você a subir na vida. Mas agora que vai ganhar muito dinheiro, quer interferir nos seus interesses. Vou dizer agora coisas que não vai gostar de ouvir.

Fale — disse Leonardo, contendo uma disfarçada irritação.

Sua mulher não se conforma com seu modo de pros­perar no caminho da ambição. Ela pensa diferente de você. Com a Lua na casa quatro, ela vai usar de chantagem emo­cional, vai fazer de tudo para modificar o seu modo de pensar e de agir. Não estou entrando no mérito se ela ama ou não ama você, se tem razão ou não tem. Estou apenas lendo o mapa, correto?

Sim. Acha mesmo que isso não possa ser resolvido?

Depende. Não vejo problema. Mas olhe isto aqui: o planeta Plutão está entrando na casa sete dela. É a casa do casamento. Esse aspecto me preocupa. Nunca se esqueça do poder de transformação de Plutão.

Leonardo fez um sinal de concordância com a cabeça.

Aí eu fiquei estudando até 2 horas da manhã o seu mapa e comparei com o dela. Fiz a sinastria e tudo se en­caixou. Preste muita atenção ao que vou perguntar: acha que sua mulher seria capaz de prejudicar a sua vida num mar de ira?

Não sei, sinceramente. Nunca pensei nisso. Eu acho que...

Se acha ou não acha, tome muito cuidado, pois es­tou impressionada com o mapa de vocês. Eles mostram uma história intensa e trágica em outras vidas. O curioso é que vocês nesta encarnação tiveram a oportunidade de fazer o resgate cármico e se perdoar um ao outro, desvencilhando-se dessa ligação de incompatibilidade. Mas não o fizeram.

Agora não há mais como evitar o confronto. O seu Sol em conjunção com Plutão forma o aspecto do homem pode­roso que deseja atingir seus objetivos, a qualquer custo e tendo de enfrentar as raivas alheias. Eu redobraria a atenção sobre ela já a partir do seu aniversário. Não! Melhor seria a partir de hoje. Correto?

Acha mesmo que o confronto é inevitável?

Plutão não descansa. Cuidado! Use sua frieza ma­temática para calcular o melhor caminho e siga em frente.

Leonardo ainda estava com o aviso do filho em mente quando pisou no acelerador e saiu da garagem. Só relaxou quando recordou o momento mágico em que seu olhar se fixou na marquinha de sol de Lisa e sentiu se avolumar a necessidade de sexo. Algo inadiável para quem seguiria o seu destino de ministro plenipotenciário, prestes a receber a famosa "Relíquia" das mãos de um pai de santo baiano. Ainda bem que podia contar com a ajuda do major mata­dor para apressar a entrega e poder pendurá-la em breve na parede do escritório no Shopping Downtown.

 

Não ouvindo mais o ruído contínuo da água do chuveiro do banho do marido, Ana correu para colocar os celulares em fila na ordem certa, da maneira como Leonardo os ha­via deixado, sem vestígios de seu uso e foi se refugiar na cozinha.

Para que a empregada não percebesse seu nervosismo, começou a fazer um bolo. Enquanto derretia o chocolate em barra, seus pensamentos permaneciam ausentes da tige­la besuntada de manteiga. Acudiu-lhe, num primeiro mo­mento, um sentimento de compaixão ao imaginar o Leo tendo de enfrentar a gentalha dos celulares e guerrear todo s santo dia como um leão para manter a família e lhe dar um lar com o conforto que reconhecia usufruírem. Depois, surgiram-lhe muitas dúvidas e dilemas sobre o que ela de­veria fazer.

Nunca ouvira vozes tão iradas nem tamanha avalanche de palavrões. Da lista, só não discou para um número de telefone, chamado pelo marido, porque aparentemente era residencial e não de celular. Para esse teria tempo de sobra para ligar depois, de um orelhão, sem correr nenhum risco.

Deveria ser um número muito importante, muito especial, talvez do manda-chuva.

Ana terminou de preparar o bolo e chamou o marido e o filho para o jantar. E, enquanto os celulares do marido os deixaram em paz, seus olhos desconfiados observaram algo estranho estar acontecendo à mesa. Durante o jantar, ela percebeu, silenciosa, a mudança de conduta do marido em relação ao filho. A começar pelo beijo dado no cocuruto da cabeça do filho, antes de ele se sentar à cabeceira da mesa. Nunca fizera o gesto amoroso antes. Uma ponta de ciúme surgiu na mãe do Lucca e na mulher que tinha preparado o bolo de chocolate para os homens da casa.

Por estarem pacíficos os celulares naquela noite, em comparação com os dias anteriores, Ana observou o quanto era comovente ver esse pai, há pouco tempo desalmado, brincar com o filho que retribuía a atenção, com risos, salpicados de gírias. Isso fazia parte das brincadeiras masculinas em que ela se resignava por não poder participar. Onde está o Leonardo que conheci? era o que gostaria de saber, pois no último ano o marido a surpreendia a cada dia. Mu­dara radicalmente.

Estava disposta a descobrir o que estava acontecendo, a qualquer custo. Pretendia consultar a melhor amiga, por não possuir vocação para detetive. Mas, depois, pensando melhor, desistiu de pedir socorro. A amiga pegara o marido dela metido com uma sirigaita. O pulador de cerca foi perdoado e todos esqueceram o "incidente de percurso", permanecendo a família unida até hoje. Não era o seu caso, que reconhecia ser bem mais simples por não existir "outra" mulher.

Como católica apostólica romana, queria apenas que o marido e o casamento voltassem à normalidade sossegada de antes, sem celulares, quando o marido raramente recebia telefonemas à noite e não ficava tão irrequieto e irascível à mesa.

Foi num desses raros telefonemas, fazia um certo tempo, que ouviu a palavra Caveirinha, pronunciada por Leonardo. Imaginou ter ouvido errado ou ser uma dessas brincadeiras masculinas de mau gosto. Foi a partir dessa misteriosa chamada que tudo se tumultuou na vida do marido. Os celulares começaram a tocar e não pararam mais de persegui-lo. Uma vez ligaram no meio da noite. Leo atendeu no quarto e depois se trancou no escritório.

Quem era? — perguntou a mulher, muito preo­cupada.

Um cliente.

Já passou da meia-noite. Que coisa mais louca!

Foi um cliente que atropelou um cara em São Con­rado. Ele só queria saber a quem devia procurar na delegacia.

E você conhecia alguém? — perguntou Ana.

Claro. Todo bom contador tem de ter bons contatos. Bem, agora vamos dormir — ordenou Leonardo, secamente.

Pela primeira vez, Ana ouviu uma pista esclarecedora so­bre o trabalho de contador. O marido conhecia pessoas nas delegacias, a ponto de alguém no meio da noite lembrar-se dele para saber a quem deveria procurar. Foi reconfortante saber que o marido era bem relacionado e conhecia os homens da lei — pensou, aliviada com a descoberta, antes de cair no sono e sonhar com os anjos e bichos de estimação.

Sempre ia à missa do bairro aos domingos. Podia pare­cer pecado bisbilhotar assim a vida do marido e investigar sozinha o telefone especial. Mas a sedução do mistério de tirar tudo a limpo já a beliscava por dentro. Sentia-se atraída pela aventura proibida de seguir o marido depois que dei­xava o filho no colégio um hábito recentemente incor­porado nessa fase em que os celulares se tornaram insupor­táveis à noite. Mas hesitava ainda da audácia.

Ligo ou espero mais um pouco? — perguntou-se na saída da missa. Indecisa, só ligou na segunda-feira para o número misterioso, mudando a voz de propósito.

É da farmácia?

Não. Qual foi o número que discou? disse a mulher.

Ana se surpreendeu com a educada voz feminina. Ela não desligou logo. Pôde ouvir a sua respiração ofegante.

Quem fala? Quem fala? — fez-se uma curta pausa. É você, amor? sussurrou a voz antes de desligar o telefone.

Ligou novamente do orelhão, mas ninguém atendeu.

Não eram mais os palavrões que a preocupavam agora, o que inquietava Ana era esse telefone residencial da lista de chamadas do celular do marido. Era uma voz muito especial.

Na manhã seguinte, não teve dúvidas. Seguiu de táxi o carro do marido. Viu-o deixar o filho no colégio e depois rumar pela Avenida das Américas até o número 500. Seguiu o carro do marido pelas vias de circulação do Shopping Downtown, na Barra.Viu de longe o carro do marido esta­cionar numa área privativa, presumivelmente devia ser per­to do escritório que ela nunca visitara. Despachou o táxi e ficou à espreita dentro de uma loja em frente ao prédio comercial de poucos andares. Esperou mais de uma hora num barzínho e se cansou. Resolveu repetir a vigília no dia seguinte. Viu o marido, antes de subir para o escritório, passar pela varanda de uma pizzaria vazia. Logo se formou uma roda, em volta do marido. Foi muito cumprimentado. Nenhum tapinha nas costas dele, mas muitos palavrões — assim deduziu vendo a sem-cerimônia da linguagem e dos ostensivos gestos debochados das pessoas. Algumas subiram com ele no elevador.

Só que neste dia não demorou muito tempo no escri­tório. Saiu de lá em alta velocidade e estacionou o carro na Lagoa, na calçada da Avenida Epitácio Pessoa. Entrou num prédio imponente, com fachada de mármore branco. Esperou aproximadamente duas horas, lendo uma revista debaixo de uma árvore do outro lado da avenida, até o ma­rido sair de lá sorridente e retornar para a Barra. Nos dias seguintes não precisava da perseguição, pois já conhecia os endereços fixos. Ia direto. Bastava ver o carro do marido estacionado no Shopping Downtown ou na Lagoa. Numa tarde, esperou tanto que viu um lindo céu azul de começo de tarde se transformar, até que as nuvens se adensaram por trás do Morro dos Dois Irmãos, e caiu uma chuva torrencial na Avenida Epitácio Pessoa. Neste dia, ela chegou muito depois de Leonardo em casa, na Barra, pois o tráfego estava terrível. Este, ocupado com as vozes dos celulares, nem no­tou a extravagância da esposa, que sempre o esperava senta­da no sofá da sala, vendo novela na televisão.

No jantar, Ana não se conteve e lançou as perguntas:

Seu escritório fica mesmo onde no Shopping Downtown?

No Bloco 6, em frente ao Banco do Brasil. Posso sa­ber por que a pergunta? — indagou Leonardo, sem disfarçar a preocupação.

Me deu vontade de ir lá visitá-lo. Teve muitos clien­tes chatos lá, hoje?

Um monte. Me avisa antes, para eu poder arrumar a bagunça.

Todos os seus clientes são atendidos no Shopping Downtown?

Os clientes que não moram na Barra não querem ir até lá. É muito longe. É complicado. Tenho de ir à cidade ou na casa deles. Por quê? Algum problema? — perguntou Leonardo, demonstrando irritação.

—Teve hoje um assalto terrível num banco na cidade — mentiu Ana. — Pensei que estivesse por perto naquela hora.

É comum haver tiroteio na cidade. A que horas foi isso?

Foi à tarde. Não me diga que estava lá?

Estava, claro. Mas que diferença isso faz se estou aqui, vivinho da silva? — perguntou Leonardo, rindo e piscando o olho para Lucca: — E aí, filhão, como é que vai ser o jogo hoje?

-— O Mengão ganha de goleada, pai. Quer apostar?

Sei não, sei não...

Ana ficou silenciosa, mas feliz por ver os dois rindo e se divertindo. O marido tinha mentido. O "vivinho da silva" não tinha ido à cidade. Passou a tarde na Lagoa. Foi teste­munha ocular. Sua cabeça policialesca se pôs a raciocinar: agora, mais do que nunca, ia precisar de ajuda para descobrir quem era o marido. Ficou com um gosto amargo na boca.

Durante a primeira leitura de sua revolução solar, Leo­nardo prometeu que nunca mais pensaria em suicídio, a exemplo da trágica morte do pai. Em troca e por ter-se deixado seduzir muito além de sua normal intimidade com os astros, Lisa cumpriu a promessa de ir ao motel, ciente de que a mulher de Leo estava em Itaipava com o filho e só retornaria na manhã seguinte.

Saiu do motel naquela noite saciada, mas confusa, que­rendo esquecer o que Leo havia dito sobre ser um homem bem casado, ter um casamento sólido, e, de algum modo, estar arrependido com o acontecido ao término da consul­ta. Temia que ele não a procurasse mais para consultas nem para outras coisas melhores. Mas, mesmo que isso pareces­se verdade, não estava totalmente convencida da confissão, pois as revoluções solares não mentem e Leonardo sabia manipular as palavras a seu bel-prazer para resguardar os seus verdadeiros sentimentos.

Passaram-se três dias desde a primeira consulta e da úl­tima noite no motel, quando Lisa acordou naquela manhã ouvindo o canto alegre dos passarinhos nas árvores. Abriu lentamente os olhos e pôde acompanhar o trajeto dos raios de sol se alojando nas pernas e nos travesseiros em desa­linho. E logo lhe acudiu a dúvida absurda: e se as leituras e o encaixe dos mapas astrais não estivessem certos? Tudo ainda permanecia vivo, lúcido. A cuidadosa preparação do mapa de Leonardo, o temor de sua pessoa, a sua provocante marquinha no ombro, a explosão dos desejos no tapete e no motel, e, finalmente, o apaziguamento do sexo saciado. Sabia que isso só aconteceu porque os mapas natais e os nodos lunares eram complementares. Além disso, não é preciso ser astróloga para saber que é impossível deter o ritmo dos planetas e o rumo do destino.

Lisa ouviu os cachorros latirem. Era o porteiro deixan­do a correspondência debaixo da porta. O corpo estendido na cama não se moveu. O telefone, de repente, tocou. Era Leonardo. Num primeiro momento foi extremamente for­mal e confuso. Ouviu uma patética fala para afinal lhe per­guntar se podia agendar uma consulta para o próximo mês. Não conseguiu justificar por que tanta antecedência. Lisa se lembrou de ter sorrido do virginiano perturbado pela natureza mutável do ascendente em gêmeos.

Passados menos de dez minutos, Leonardo ligou de novo. Era o Leonardo imprevisível pelo qual se apaixonou:

Amanhã, pode ser? Estou com muitas dúvidas ainda sobre o que me falou do dinheiro.

Por que não pode ser aqui? cortou Lisa para tirar a dúvida se era a leitura do mapa ou a marquinha que Leo desejava.

Por mais que tentasse demovê-lo, Leo não arredou pé da ideia do motel. Lisa não esquecera o mau gosto do quar­to em que foi parar em comparação com seu quarto de len­çóis floridos. É meu carma reclamou ao subir os degraus da escada do motel. Mas o corpo desejava ser subjugado. Não se importava mais com o leito rangente onde homens e mulheres anônimos haviam se amado ou se odiado para sempre naquele antro, escolhido por Leonardo. Ele a pe­netrava não apenas no corpo, mas no mais fundo do seu coração. Desinibida, ansiosa, se resignou diante do animal tomado pela fúria de possuir outro animal pelo cheiro, pela atração desmedida. Fazia parte de sua nova vida aceitar o homem do seu destino, como o conheceu.

Passaram-se semanas, depois da noite do segundo en­contro. Leo tentava recordar qual era a cor das paredes do quarto do motel e saber da sua vida e do seu passado. Lisa sempre se mostrou esquiva, enigmática, se negando a deci­frar os seus segredos:

Não sei a cor. Só me lembro da cor de felicidade do seu rosto me deixando naquele estado de loucura e cum­plicidade.

Acho que as paredes eram verdes — insistia Leonar­do, sorrindo. — Me fale agora da sua vida, amor.

Azul, verde, vermelho, cinza, qualquer cor, o que importa agora é que nenhum homem tão curioso me fez tão feliz.

A partir daquele dia, em que os mapas astrais se encaixa­ram pela segunda vez, Leonardo podia ligar a qualquer hora, tirar qualquer dúvida sobre sua revolução solar ou percorrer a marquinha branca do ombro. Lisa não tinha mais agenda fixa. Enlouquecia os clientes fiéis desmarcando os agenda­mentos prévios. O telefone tocava. Era ele, agora, a qualquer hora do dia ou da noite. E quando o telefone não tocava o silêncio a torturava e se desesperava. Queria ouvir sua voz, sempre. Não conseguia mais viver sem sua presença no quarto e nos lençóis floridos onde faziam amor. Esquecia-se de tudo, sem pensar nas últimas consequências e nas "forças ocultas".

 

Após três horas e meia de viagem de carro, o curador Ferdinand Rochemont de Sailly e o padre Antoine Duvert entraram na Porte d'Italie.

Por dispor de certos privilégios concedidos aos mem­bros da Associação Geral dos Curadores das Coleções Pú­blicas, o bem-nascido Ferdinand Rochemont de Sailly, curador do Museu do Château d'Angers, requisitou, sem burocracia e com antecedência, uma sala para tratar de um assunto da maior relevância. Razões de bom gosto e de vai­dade o fizeram escolher o Museu d'Orsay. Jamais perderia a preciosa oportunidade de cultuar os quadros famosos que o fascinavam desde a adolescência. Além disso, as janelas da sala no terceiro andar se debruçavam sobre o Jardim das Tulherias, o Pont Royal e os bateau-mouches[2] em circulação frenética pelo Rio Sena. Era sua sala preferida. Impossível melhor escolha para essa importante reunião em Paris.

Almoçaram no restaurante do museu. Na sobremesa, o padre Antoine não resistiu à gula e se empanturrou de crème brulée. Após visitarem o quadro Os romanos da decadência, de Thomas Couture, o curador Ferdinand de Sailly foi ao encontro de Aurèlien Kleber, o sobrinho do seu amigo, que chegou pontualmente, de metrô, e os aguardava diante da estátua do rinoceronte de bronze.

O pesquisador e campeão de arco e flecha se sentiu muito honrado com o convite. Desconhecia os detalhes do pedido de ajuda. Como prometido, por telefone, eles seriam explicados pessoalmente naquela tarde de muito movimen­to na antiga estação de trem, transformada num portentoso museu em frente ao Louvre.

Em resumo, é isso concluiu o curador, depois de expor durante meia hora a importância da sua missão na­quela sala silenciosa à margem do burburinho dos visitantes.

Acreditamos assim, que você possa nos ser muito útil no Rio de Janeiro.

Tenho certeza de que o resgate será bem-sucedido

completou o padre Antoine com um sorriso cúmplice no canto dos lábios.

Se não se importam, gostaria de saber alguns deta­lhes sobre a descoberta. Não sei se estou inteiramente ca­pacitado para recuperar essa valiosa peça do patrimônio da França. Acho que eu...

Diga logo o quer saber, senhor Aurèlien Kleber cortou o curador Ferdinand, resolvido a dirimir todas as dúvidas.

Qual é o grau de confiabilidade da informação?

Sabe que certeza é impossível. Tudo leva a crer que a informação é fidedigna, porque o informante viu a imagem.

Só isso? — questionou o pesquisador, com os olhos negros vigilantes, o nariz saliente e o cotoco de cavanhaque, semelhante a um arqueiro medieval segurando um arco em posição de ataque.

E claro que não — rebateu Ferdinand. — Fizemos pesquisas nos esboços originais de Nicolas Bataille e nos manuscritos de 1473, arquivados no Hotel de Croisilles para nos certificar de que a cena vista pelo informante coincide com a descrição do suposto original do quadro 76.Vou lhe passar o dossiê da pesquisa. Acredite, quase não restam dú­vidas sobre a autenticidade do quadro.

Setenta e cinco! — corrigiu o padre empinando o indicador em protesto.

Mas, por que cargas-d'água esse quadro 75 foi parar no Brasil? — perguntou Aurèlien, provocando o riso dos anfitriões.

Se pudesse responder a sua pergunta, é possível que ele já estivesse aqui conosco — ironizou Ferdinand, fechan­do os pequeninos olhos e apertando os lábios úmidos. — É ainda um mistério para todos nós. Ninguém sabe explicar como isso aconteceu. Só alguém indo até lá é que se saberá por que e quando a tapeçaria atravessou o Oceano Atlânti­co e foi parar no Brasil.

Posso então perguntar por que se lembrou de mim?

Pelo seu perfil e pelas circunstâncias determinantes — respondeu o historiador Ferdinand de maneira carte­siana. — Primeiro, porque tem experiência neste tipo de affaire e plena consciência do que a recuperação do quadro representa para Angers. Segundo, porque não podemos en­volver a polícia, antes de termos certeza do achado.Terceiro, porque você conhece a cidade do Rio de Janeiro e tem alguns conhecimentos lá. Seu tio diz que eles podem ser úteis para nós.

De fato, vivi uns meses no Rio. Conheço um pou­co da cidade e arranho um razoável portugaulês. Apenas, não sei se meus amigos brasileiros estarão dispostos a co­laborar.

Conte a ele, Aurèlien, sobre o promotor brasileiro que veio visitá-lo em Paris — interrompeu o padre Antoi­ne, enquanto se afastava da janela, não sem antes dar uma última olhadela em direção ao barco-restaurante estaciona­do no Quai d'Orsay em frente ao museu.

O promotor de Justiça do Rio de Janeiro e sua mu­lher ficaram uma semana hospedados em minha casa. Te­mos uma boa amizade.

Isso é muito bom de saber. Ele veio a Paris a trabalho?

Meio a meio. Estava de férias em visita à França, mas fez questão de conhecer uns ex-colegas meus da Gendar­merie, que agora estão servindo numa unidade do DAT do Ministério da Justiça, aqui em Paris.

Hum... Pode ser um bom começo para nos ajudar a confirmar as informações — resumiu o curador, satisfeito em saber da existência do promotor brasileiro, mas desin­teressado em decifrar a citada sigla do citado órgão policial francês.

Meu amigo Aurèlien, entenda bem, não estou aqui pelo interesse de ajudar alguém da família — ponderou o padre Antoine num ar solene, aprumando-se na cadeira. — Existe algo muito importante que está em perigo. Há uma justificativa cristã para que o quadro desaparecido seja recuperado e não caia em mãos inescrupulosas.

Como assim, tio? — perguntou Aurèlien, alisando carinhosamente o tufo cerrado do cavanhaque com a ponta dos dedos.

Ninguém sabe o verdadeiro significado do livro do Apocalipse — respondeu o padre Antoine, relembrando seus pensamentos soturnos e preocupações na saída da pa­lestra no Palácio das Artes, durante o 21º Festival do Jornalismo. — E um livro de interpretação e de linguagem simbólica e profética complexas, contendo visões celestiais que excedem o domínio da imaginação humana. O desapa­recimento de um quadro dessa magnitude, que simboliza a vitória final do bem sobre o mal, infelizmente dá margem a muita crendice e especulações.

Está certíssimo na colocação do valor do quadro — disse o curador. — É essencial recuperar o quadro do diabo para o castelo e para a fé religiosa. Não se trata do conceito puramente físico de preencher um vazio na parede ou do valor monetário da obra em si. É a mensagem da salvação e do início do milênio que está essencialmente em jogo.

O quadro é muito importante biblicamente, Au­rèlien — prosseguiu o padre, empolgado com a pregação. -— A sua ausência pode representar a desesperança. Muita gente desiludida imagina que o mundo será destruído em breve pelas forças do mal.

Em breve? — perguntou o pesquisador, arregalan­do as sobrancelhas com o apocalíptico presságio do fim do mundo.

É aí que reside a grande questão religiosa e o gran­de desafio da recuperação do valioso quadro que agora está no Brasil.

O padre Antoine se levantou da cadeira, esfregou as mãos nas bochechas coradas, atravessou a sala de um lado para o outro e se delongou numa explicação do versícu­lo: "Coisas que em breve devem acontecer” (1:1; 22:6). Expôs, sôfrego, que esse limite de tempo é colocado no começo e no fim do Apocalipse de modo a facilitar a interpreta­ção dos capítulos intermediários. Ressaltou, agitado, que a expressão "em breve" é usada em outros trechos do Novo Testamento para demonstrar que Deus não falou de even­tos que acontecerão no futuro distante. Citou versículos do Quinto Selo, em que cristãos perseguidos, especialmente aqueles que sacrificaram a vida a serviço do Senhor, esta­vam clamando por justiça. E foram suas mortes em vão? Foi o que indagou e ao mesmo tempo respondeu Antoine, ges­ticulando muito com as mãos de dedos gordos e excitados. Explicou que eles haviam morrido na confiança que Deus era justo e Ele lhes assegurou que responderia com punição aos malfeitores, mas que a perseguição viria antes de que Ele exercesse sua vingança. O quadro 75 da tapeçaria tem tudo a ver com isso, com a derrota de Satanás, antes de ser jogado no lago de fogo.

Bravo! E isso mesmo! Queremos ouvir a sétima trombeta da vitória — exclamou o curador, congratulando-se com o emocionado discurso do padre em defesa da recuperação do quadro.

Não vamos nos esquecer que antes da salvação fo­ram ouvidas as trombetas da catástrofe — enfatizou o padre, entrando em novo transe bíblico. — Os sons de um mundo onde os homens foram corrompidos e atingidos pelo fogo da maldição e pelos gafanhotos que se empilharam nas cidades.

Onde a peste e a violência progrediram sem limites até a morte, as ameaças cresceram e as guerras urbanas se multiplicaram nos bairros, como tumores. Foi a vitória da espada grande do Cavalo Vermelho semeando as guerras sangrentas para tirar da terra a paz e precipitar o fim do mundo.

Essa lição histórica está pulsante nos fios de alto-relevo das cenas da tapeçaria — comentou com orgulho o curador, empolgado com a arrebatadora interpretação figu­rativa da revelação.

E o padre continuou com o mesmo entusiasmo e tom discursivo:

Um mundo de calamidades em que a servidão se intensificou, os fracos foram oprimidos, os pobres foram renegados, as crianças foram manipuladas e os velhos abandonados. Tudo está magnificamente representado nas cenas das florestas desaparecendo, dos cursos d'água se putrefa­zendo, das doenças se proliferando, dos valores da existência jogados por terra e dos jovens se desesperando e se suici­dando. Dá para se imaginar nações destruídas por bandidos com armas demoníacas.

Foi neste momento que padre Antoine, bem mais cal­mo, relatou, mudando o tom de voz para um tom de confessionário:

Tive uma experiência muito interessante outro dia com um grupo de adolescentes. Ao final da visita à galeria, quis saber do grupo quem realmente simbolizava o mal nos dias atuais.Todos responderam que continuava sendo o dia­bo, mas para minha surpresa um menino de nove anos me respondeu sem titubear que era o dinheiro.

Corretíssimo. O dinheiro encarado como fonte de desgraça do homem — interveio o curador. — É o distante e o imaginário da crueldade do Império Romano, como insinuado na tapeçaria, que está presente no mundo glo­balizado e capitalista de hoje. É a violenta necessidade de poder e de supremacia dos homens que pensam que quem possui dinheiro tem tudo na vida.

O menino acertou — confirmou o padre Antoine.

O dinheiro é a grande mentira do universo, a serviço de Satanás e seus adoradores. O diabo está livre dos mil anos de condenação e solto no mundo que ergue o dinheiro ao céu como um Deus.

Numa recaída bíblica, o tio Antoine cuidou de explicar o que representava o reino de mil anos do capítulo vinte do Apocalipse: "Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o pren­deu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e o selou para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos". Citara a passagem para argumentar que o Sa­tanás da tapeçaria não pode ficar solto. Era preciso trazê-lo de volta ao castelo. E não havia dinheiro no mundo que pagasse isso!

E aí que mora o perigo — alertou o curador ajus­tando o desalinho do nó da gravata borboleta. — Os adora­dores do diabo tentam convencer a humanidade que o valor absoluto de qualquer bem não é a vida, mas sim o dinheiro que corrompe tudo!

—Vendem a alma ao diabo. Tudo é permitido — confir­mou o padre Antoine, levantando de novo o dedo indicador.

Esses adoradores são capazes de matar por dinheiro. Eles se opõem direta e inconfundivelmente à palavra de Deus.

Estão querendo dizer que a figura do diabo solto teria tudo a ver com a atual violência e ganância? in­dagou Aurèlien, perplexo, aproximando-se de onde estava sentado o tio.

Perfeitamente confirmou Antoine. Esses ado­radores se aproveitam para pregar que Satanás não pode ser preso por uma corrente física ou trancafiado num abismo físico. Espalham que só o dinheiro pode salvar a humanidade.

Vou mais longe ainda. Estamos vivendo numa era em que só temos enganadores completou Ferdinand, desconsolado.

Verdade retomou o padre Antoine. Há os que apostam que as coisas preditas nos versículos acontecerão e se aproveitam para se enriquecer com receitas radiofônicas e dízimos. Outros apontam Jesus como um falso profeta e se arvoram em anticristos, pregando que o cristianismo é um delírio nocivo do qual a sociedade precisa ser curada como drogas e luxúria. Acredite Aurèlien, estamos à beira do Apocalipse!

Todos então baixaram a cabeça e permaneceram em si­lêncio meditando sobre os atuais tempos monetários e vio­lentos tão bem retratados nas cenas da tapeçaria do Castelo de Angers. O padre Antoine aproveitou a repentina pausa na sala de reunião para pressionar o sobrinho a se manifestar favorável e capacitado para a aventurosa viagem ao Brasil.

Qualquer meio é valido para recuperar o quadro desaparecido. Sua missão vai oferecer esperança aos fiéis da vitória de Deus e do seu exército. Demonstrará que Satanás não pode derrotar Jesus. Nem vencer aqueles que permanecem fiéis ao Senhor.

Pode me dizer quando o quadro foi visto pela úl­tima vez no Rio? — indagou Aurèlien, dando finalmente mostras de aceitar a missão.

Num lugar chamado Roziná. Não sei se é assim que se pronuncia. Foi lá que o nosso amigo francês da ONG viu o quadro.

Pode ser mais preciso — pediu o sobrinho, de olho no tio.

Ouvi dizer que é numa comunidade pobre num morro — respondeu o padre. — Não se preocupe com isso, Ferdinand vai dar as indicações de onde está localizada a ONG na...

Rocinha! — antecipou-se Aurèlien, lembrando-se do céu azul cortado por asas-deltas lançadas da Pedra da Gávea.

Roziná! — repetiu o curador, com dificuldade para soletrar a difícil palavra. — Essas pronúncias matam a gente. Conhece o lugar?

Pelo que sei da Rocinha não é apenas a pronúncia que mata — respondeu Aurèlien, num sorriso sarcástico, sem que os angevinos pudessem alcançar o significado de suas palavras para uma área urbana carente em cima de um "morro" na Zona Sul.

Dias depois, o curador Ferdinand Rochemont de Sailly se reuniu numa sala ampla em Bercy. Estavam presentes à reunião os representantes dos Ministérios da Cultura e Comunicação, Justiça, Interior e Economia. Durante a longa sessão, o curador respondeu às diversas perguntas sobre a validade e o custo da missão, bem como fez grandiloqüen­tes apelos para convencer os participantes da necessidade de autorizarem a viagem de Aurèlien Kléber ao Rio, alçada como a "última esperança de recuperar uma das mais signi­ficativas preciosidades do patrimônio da cultura francesa e do tesouro da religiosidade universal".

Aurèlien ficou sentado num banco do longo corredor em frente à sala de reunião, lendo um livro sobre o Brasil. Estranhou não estar presente na sessão, mas admitiu serem "segredos de Estado" com seus ritos. No final, ao se abrirem as portas da sala, entrou solene, com passos firmes e milita­res, como convinha. Foi cumprimentado pelas autoridades presentes, apressadas em voltar para seus afazeres. Apenas lhe disseram: "Boa sorte". O padre Antoine também participou da reunião. Nenhuma autoridade indagou sobre a Roziná, aparentemente considerada de fácil acesso, que o pesquisa­dor não teria dificuldade de encontrar com as indicações precisas que lhe seriam dadas e as facilidades em razão das suas experiências anteriores e amizades locais.

O curador Ferdinand ressaltou que Aurèlien seria auto­rizado a viajar imediatamente, sob o maior sigilo, e a ordem era de não pedir ajuda às autoridades locais nem se envolver com atos de violência. Também deu detalhes de sua remu­neração. Receberia as passagens, acrescidas de uma ajuda de custo de transporte, além de diárias adiantadas pelos dez dias previstos da missão. Se voltasse com a tapeçaria, rece­beria um bônus, não claramente especificado o seu valor.

Na despedida do sobrinho, antes de partir para Angers, o padre Antoine enfatizou o conteúdo religioso da missão:

— Já disse a você que Deus usou a imagem das visões espirituais para revelar sua mensagem por intermédio de João, na Ilha de Patmos, no Mar Egeu. A mensagem con­tinua viva na tapeçaria do Apocalipse. Os visitantes não percebem que faltam algumas cenas. Mas o que mais se frustram é com a ausência da cena do Diabo enjaulado por mil anos. Eles só entendem e dão valor ao significado incon­fundível da mensagem global da fé, da justiça, do poder e da absoluta vitória de Deus se trouxermos de volta para Angers a cena perdida da tapeçaria. Contamos com você, Aurèlien. Use todo o seu talento no resgate do quadro.

 

Naquela manhã, quando Leonardo saiu de casa, a promessa feita ao chefao de o "movimento ser uma fábrica de fa­zer dinheiro" explodiu como uma granada na sua cabeça. Havia conseguido cumprir num prazo menor o que havia prometido. A expansão do tráfico assumira proporções fi­nanceiras gigantescas. As mesinhas do escritório no Shop­ping Downtown na Barra não conseguiam mais escriturar no livro-caixa tanto dinheiro contábil entrando e saindo ao mesmo tempo. Tornou-se urgente informatizar a estrutura financeira com gente competente para poder gerenciar os prodigiosos lucros do negócio de drogas e de armas. Não tinha mais como arcar com tamanha responsabilidade sozi­nho nas novas salas alugadas.

Ainda está procurando um cara da pesada no finan­ceiro? perguntou o espanhol naturalizado, dono de uma rede de restaurantes e boates e líder do comércio de drogas na área de entretenimento no Rio.

Tem alguém?

Tenho. O cara é fera. Trabalhou em todos os gover­nos e adora uma verdinha. Já me quebrou um galhão no passado.

Quem não gosta, não é? — ironizou Cabeção, sor­rindo. — Preciso de umas dicas para me arrumar com o pessoal que está chegando.

Se esses economistas fossem bons, o país não estava nesta merda federal. Não sabem nada! Estou com o celular dele, quer? — perguntou o espanhol, passando o lenço no rosto suado.

Dá — respondeu Leonardo, dirigindo-se ao balcão do bar.

—Vou avisar que vai telefonar — disse, puxando do bol­so da calça o caderno inflacionado de registros da clientela.

Enquanto esperava, Leonardo pediu um copo d'água para ingerir uma aspirina. A dor de cabeça aumentara mui­to, ultimamente.

Naquela noite no confortável apartamento na Barra, o palco estava montado para desmascarar a traição, com­provada com a ajuda de um detetive particular contratado. Ana suportara a dor em silêncio e não comentara com nin­guém a humilhação sofrida. Agora que o filho estava com os amigos no Maracanã e os celulares pareciam ter serenado, chegara o momento de enfrentar a tempestade para tirar o marido da encrenca em que se metera, pondo em perigo o seu casamento. Tinha ouvido, chorosa, tudo que o deteti­ve apurou, e ficou de pensar sobre o seu conselho prático: "Madame, melhor ficar quietinha em casa, vendo novela e deixar a onda passar. Isso passa".

Antes de se decidir pelo confronto, o olhar melancóli­co ficou entretido com as fotografias de família num diá­logo sem vozes. Todas eram em preto e branco. A história de sua vida estava ali resumida nas fotos numa quantidade tão abundante que o branco das paredes se apequenava na sala avarandada, nos corredores e nos quartos. A mulher fi­cou mais triste quando o olhar vagou pelas imagens dos tempos idos. Eram flagrantes da mãe e do pai em Brasília, numa solenidade -— o pai, todo engravatado e garboso, sem a atual bengala. Essas fotos do casal traziam boas lembranças. Retratava uma ponta do passado do seu pai, um político influente, em condições de arranjar um bom emprego. Mas Leo nunca aceitou esse tipo de ajuda. Havia fotos suas e as do casamento na igreja e da luxuosa recepção; e também as do Lucca, desde bebê até a fase adulta, e a sua preferida, ela abraçada ao filho, à beira da piscina.

Um retrato em cima da mesa do escritório do Leo a deixou com lágrimas nos olhos. Era a foto tirada na ma­ternidade com o Luquinha no colo e ele, ao seu lado, feliz da vida. Foi quando lhe contou que abriu um escritório de contabilidade na Praça Saens Pena e lhe deu um bracelete de ouro e brilhantes. Leo disse que pertencera a sua falecida mãe. A valiosa jóia fora arrematada num leilão. Nessa épo­ca, ele almoçava em casa e contava sempre algo engraçado dos clientes chatos que atendia. Mas depois que se mudou para o escritório no Shopping Downtown na Barra e co­meçaram as viagens a Brasília, parou de almoçar em casa e de falar do trabalho. Transformara-se no homem das som­bras que atendia as vozes noturnas dos celulares, tornando o convívio familiar insuportável. Desse homem, não havia fotos nas paredes brancas.

Como mãe, estava contente de ver que as fotos de Leo com o filho, sempre divertidas, alegres e felizes retratavam o bom relacionamento de um pai amoroso e presente, irreprochável, dignos das molduras de prata na sala. Como esposa, com tantas fotos sorridentes na parede, estava furiosa e chocada por Leonardo aprontar essa burrada. Para piorar, ainda suportou a afronta de não ter relações sexuais por mais de um mês com o marido. Não fosse o detetive parti­cular, nunca teria descoberto que a súbita impotência dele estava ligada à existência dessa "outra mulher".

Assim, furibunda, não quis dar ouvidos aos conselhos dados. Pelo contrário, decidiu que chegara a hora de pôr um basta na infidelidade do marido. Decidiu partir para o confronto. Claro que Leonardo, no início, negaria, brigaria, mas, finalmente, se reconciliaria com ela. Voltaria atrás para ser o "rapaz triste e carente" do velório do pai. E se por infelicidade não fosse bem-sucedida, prometia, aí sim, sair gritando, como uma louca assumindo o papel da mulher irracional. Pena que não consultou os astros. Saberia que Plutão estava sacudindo as fundações da casa sete, a do seu casamento, e que nem sempre os gritos impedem de acontecer o pior.

Naquela noite, muito emocionada, Ana exigiu no quarto do casal satisfações do marido infiel. No início ficou decepcionada porque a discussão não engrenava. Ficou perplexa e desarmada diante de um indigesto monólogo, de um Leo apenas ouvinte, cabisbaixo, sem esboçar nenhuma reação. Ia entrar em pânico, eis que, de repente, ele rebateu o acusatório de forma clássica:

Eu não tenho ninguém. Nunca fui disso.Você sabe.

Contra a hipocrisia do marido, ela apelou para Jesus misericordioso, e como era devota de Santo Antonio, ape­lou para que os dois a ajudassem a salvar o seu casamento. Em sua cabeça, a vida só tinha sentido se mantivesse a fa­mília unida das fotos. Imaginou, depois dos seus gritos, re­encontrar o Leo que conhecia, o do namoro e da vigília da morte do pai. Um marido profundamente arrependido, que a abraçaria e a beijaria como nas novelas que assistia à tarde. Todavia, ao invés de tentar contornar a situação, agindo de forma pacificadora, ressentida pela falta de sexo, descontro­lou-se e partiu para a agressão.

Mentira! Eu sei de tudo. E não faz essa cara de cí­nico que eu odeio. Não sei como conseguiu o telefone da astróloga. Eu não fui, porque tenho certeza de que joguei fora o papel que Aninha me deu com o número do telefone dela. Nunca podia imaginar que era ela a sua amante.

Leonardo ficou em silêncio. Lembrou que pegou o pa­pel com o número do telefone de Lisa na lixeira e, sem que sua mulher soubesse, anotou e depois o registrou no seu celular.

O que eu fiz para merecer isso? Responde! Precisava passar por isso? Me trair com uma vigarista que só quer o teu dinheiro? —- gritou, em pé, escandalosa, como nunca fora antes.

Leonardo ameaçou se levantar da cama, mas desistiu. Ana estava furiosa demais para sair do quarto. Poderia agra­var a discussão, ainda sem rumo definido. Teve paciência e autocontrole.

Eu fiquei todos esses anos ao teu lado, te protegen­do, te apoiando e agora vem essa mulher e quer tirar você de mim! Não passa de um ingrato, um miserável, um ban­dido. Devia estar morto.

Porra! Que história é essa de bandido. Você se es­quece que foi esse seu contador aqui que te deu essa boa vida todos esses anos? reagiu Leonardo, ao ser pronun­ciada a palavra "bandido", ensejando uma possível associação com o movimento e a descoberta da alcunha de "Ca­beção". Levantou o indicador em riste para o rosto de Ana. Depois apontou para seu peito e o afundou na cavidade do seu ombro, empurrando-a de leve para trás.

— Que é isso? Quer me bater? Não toque em mim. Eu chamo a polícia — berrou Ana, dirigindo-se para a por­ta do quarto.

-— Eu não uso de violência com ninguém, imagina se vou bater em você. Deixa de ser ridícula e criança! Pare com isso!

—Você me empurrou! Agressão é crime. Não tem ver­gonha?

Crime? Olha quem fala! A santinha de Jesus! Crimes que eu sei foram as matanças dos católicos nos seiscentos anos da Inquisição — soltou Leonardo em voz alta. Fez uma careta, como se ele próprio se surpreendesse com sua esta­pafúrdia defesa, questionando os pecados da Igreja Católica.

O que tem a ver a história da Igreja com a história do meu marido ter uma amante? — protestou a mulher, raivosamente aturdida e confusa com o desvio da conversa.

Arruinou-me a minha infância com a ameaça do in­ferno. Os crimes da Santa Madre Igreja não têm desculpas. Vocês, católicos, têm de ficar de bico calado porque nunca houve tantos crimes, tanta gente morta, torturada, queima­da viva nos caldeirões de azeite em praça pública do que na época da Inquisição. Vergonha foram séculos de crimes he­diondos cometidos pela Igreja. Em nome de Deus, milhares de cristãos morreram rezando e milhares de livros foram queimados em praça pública. Agora, está aí você, botando banca de moralista, querendo falar de crime. Desde quando o católico tem vergonha na cara? Fale!

Um silêncio tenebroso desceu sobre os lençóis brancos da cama de casal, ao se evocar a temporalidade religiosa e suas crueldades, mantidas em segredo no Vaticano.

Como sabe disso? — perguntou a mulher, como que­rendo mudar o rumo da discussão para um possível perdão.

Foi meu pai. Ele me indicou alguns livros da biblio­teca que precisava ler e li muita coisa boa. Podia ter lido mais, mas faltou tempo — disse Leonardo, com certo orgu­lho. O seu rosto assumiu o olhar triste e carente de quando o conheceu.

Ana não se conteve e acabou revelando que contou com a ajuda de um profissional para decifrar o mistério dos celulares.

O detetive me contou que a vida de sua amante daria para escrever um livro de aventuras. Foi casada três vezes e enterrou dois.Viveu um bom tempo fora do Brasil. Deve ter dado para meio mundo e agora está de caso com o meu marido. Eu mereço isso, meu Jesus? — perguntou Ana, chorosa.

Chega! Não quero saber nada da vida dos outros. O que me interessa agora é resolver a minha vida com você. É isso que importa — argumentou Leonardo, tentando por fim à discussão e propiciar uma negociação. — Eu já tive uma grande perda na minha vida e não quero ter outra. Vamos conversar, meu bem.

Acontece que eu não tenho mais nada para conver­sar. Tudo acabou. Quero tirar você da minha vida — disse a mulher, ainda cheia de ódio, desprezando mais uma vez o conselho do detetive.

Calma, amor. Eu sei que errei. Eu me arrependo de tudo que fiz. De verdade. Nunca quis te magoar. Te amo.

Então, me diz uma coisa, só uma coisinha bar­ganhou a mulher, retomando o diálogo familiar, após acal­mar-se com a tardia declaração de amor e a esperança do casamento salvo.

O quê? perguntou Leonardo, já prevendo a re­viravolta.

Me promete que não vai mais ver a vagabunda. Pro­mete?

Juro, meu bem. Juro! respondeu Leonardo, segu­rando o celular com a mão no bolso da calça, que tremia, por alguém estar chamando desesperadamente.

Tem mais. Promete não usar os celulares na hora do jantar. Isso está me matando! Promete? insistiu Ana.

Me dá um tempo. Não posso, de repente, deixar meus clientes na mão.

Não, não. Nada disso protestou a mulher, balan­çando o indicador de um lado para o outro. Se não parar agora, eu juro que eu expulso você daqui e conto para o meu pai e para o Lucca. Eles vão saber de tudo que está acontecendo. Será que ainda não deu para entender que o que fez me deixou arrasada?

Está me ameaçando? Está ameaçando o homem que te sustenta, te deu um fdho maravilhoso e quer viver em paz com você? É isso?

Eu só não subo agora para Itaipava, porque o ve­lho teria um enfarte! desabafou, cada vez mais chorosa, sentada na cama grande, vendo nas paredes brancas as fotos alegres da família. Um passado que queria que voltasse.

Faria isso? indagou Leonardo, atemorizado.

Duvida? respondeu Ana, em prantos.

Mas como pelo milagre das lágrimas, o desespero se aquietou com a lembrança do pai, de mãos dadas com a mãe na varanda do sítio, sentado na cadeira de balanço com a manta quadriculada cobrindo os joelhos e os pés. Fazia meses que não via os pais, desde aquela semana que deixou Leo sozinho no Rio.

Prometo que não vou mais. Não acredita em mim, amor?

Vou te vigiar. Ai de você se souber que continua com ela. Não te dou mais de uma semana para ser o Leo­nardo que conheci.

Tudo bem.Vou te fazer feliz, vai ver só. Prometo!

Fez-se um silêncio no quarto. Ana nada contou ao ma­rido das "revelações terríveis" que o detetive ficou de contar, mas unicamente as revelaria se fosse num lugar seguro. Ela logo pensou no sítio do pai em Itaipava, onde, além de absolutamente segura, caso precisasse, chamaria o pai para tam­bém ouvir tudo que ele havia apurado de terrível contra Leo.

Te amo, meu amor. Confie em mim — disse Leo­nardo.

Quer que eu acredite nisso?

É a pura verdade. Eu nunca deixei de te amar.

Também não quero te perder por nada neste mundo — confessou Ana, olhando para o retrato dos dois abraçados.

Prometo que as coisas vão mudar. Acredite nisso, amor.

Seguiram-se os choros convulsivos, muitas lágrimas e afinal os beijos apaixonados à beira da cama. A voz sus­surrante e teatralmente comovida de Leonardo ecoou pelo quarto como se recitasse uma prece de paz, incrivelmen­te propícia à retomada do sexo no apartamento da Barra, como era antigamente.

Perdão, amor, perdão, amor... Me perdoa, minha paixão...

Amor, amor da minha vida — respondeu Ana.

E assim, tudo aparentava voltar aos tempos de namo­ro, quando Caveirinha e Lisa não faziam parte da vida do Leo.

Após o perdão cristão, fizeram amor, como há muito tempo não faziam. A mulher sentiu, como na primeira vez, aquela lâmina penetrante com a qual perdera a virgindade. Sentiu-se de novo a mulher feliz que se casara com Leonar­do de véu e grinalda, sob as bênçãos da Igreja Católica. Nas juras de amor, a mulher se esquecera que o diabo é bastante paciente e se disfarça de Cabeção do bem na nostalgia do passado para armar as desventuras do futuro.

Passava da meia-noite quando o celular tocou no escri­tório. Tinha prometido a Ana não atender. Tocou uma vez, tocou duas, tocou três vezes. Leonardo não se conteve. Pu­lou da cama e foi até o escritório. Atendeu imediatamente ao identificar quem o estava chamando àquela hora e com tanta insistência.

Quebrou o pacto de paz feito naquela noite com a sua mulher, que o tinha avisado que visitaria os pais em breve.

Fala, major.

Pô, tem um XP fuçando tudo aqui. O cara de pau. Está metendo bronca em tudo.

- Daí? — perguntou Cabeção, inteirando-se da gra­vidade.

Agora está pegando fundo no pé pra saber de quem eu recebo ordens. Quer fazer o quê? E pra sacudir ou pra apagar?

O Leonardo, que Ana não conhecia, entra em cena. Sussurra algo incompreensível no celular revestido de uma capa de couro. O celular mais privativo do Cabeção, de onde partiam as ordens, em casos de emergência, para as coisas acontecerem. Depois deleta o número da chamada e volta tranquilamente para o quarto.

Por sua vez, Ana, de olhos fechados, respirava baixinho. Fingia que estava dormindo, após tomar a decisão de subir para Itaipava, sem dizer a ninguém. Somente avisaria aos pais quando estivesse na estrada. Queria fazer-lhes uma sur­presa.

 

As tevês promoviam mesas-redondas para debater a guerra das gangues. Sem propostas concretas, os participantes insuflavam a indignação contra a onda de homicídios e balas perdidas. A população se mantinha silenciosa, acovardada, omissa como sempre. "Não sei de nada" dizia Leonardo. Não se sentia culpado pelo mercado ilegal de varejo de drogas e pela corrupção em todos os níveis. Gostava de re­petir o pensamento do amigo Caveirinha:"Se um bandidão some, vem um pior como eu e concluía, rindo: Vem o Ronaldão, o Satanás em pessoa" e ria.

Para Leonardo a história se repetia. Nesses anos todos de guerras fratricidas nos morros, em que as pessoas sobre­viviam no meio daquela situação de mortes, prisões, balas perdidas, a Besta da Terra com suas sete cabeças andava solta. O poder do dinheiro continuava movendo a imensa má­quina dos negócios ilícitos.

Autorizado por Pimpão, Leonardo foi visitar o famo­so professor Carlos Alberto Guimarães, numa quinta-feira à noite. O bambambã das finanças tinha trabalhado em todos os governos, antes de os militares voltarem à caserna e depois que os civis foram empossados como presidentes da República. Era uma reconhecida autoridade monetária, de grande experiência nas finanças públicas e na familiaridade com o dinossauro estatal. E, como ninguém é imaculado, dispunha-se a prestar serviços de consultoria para burlar a fiscalização do Banco Central e do fisco.

Foi agendado no mesmo dia o encontro com o profes­sor, como o economista gostava de ser chamado. Leonardo não usou o nome do dono do restaurante para se apresentar, mas o do falecido pai. No meio financeiro, o nome do pai ainda era uma prestigiosa referência, respeitada por cons­trangedores silêncios. Naquele fim de tarde de pouco calor e um belo entardecer, avistava-se das janelas do escritório a pista do Aeroporto Santos Dumont. Os aviões subiam e desciam sem perturbar aquele encontro histórico, que se transformou numa conversa entre dois velhos amigos com muitas afinidades, ali reunidos para trocarem confidências e organizarem planos para o futuro. Após os uísques, do legítimo escocês, as incertezas começaram a se desanuviarem à proporção que a voz do professor e sua papada iam explicando como funcionava o mercado financeiro e quais eram os prognósticos para o próximo ano.

— A primeira questão é saber o que fazer com o di­nheiro. Passa a ser uma batata quente queimando nas mãos. Deixar o dinheiro parado, aplicar na poupança ou em tí­tulos de renda fixa, cujos rendimentos são baixos e apenas acompanham a inflação, ou aplicar em investimentos de al­tos rendimentos, mas que oferecem altos riscos. A segunda questão é como fazer o dinheiro render mais, multiplicar como o pão de Jesus. Tudo isso evitando que o governo morda boa parte dos seus ganhos. Entende o que quero di­zer? A escolha é inteiramente sua, senhor Leonardo.

O que sugere, professor? perguntou o contador.

É aí que se chega à grande questão. Quem cuidará do dinheiro? Se forem os banqueiros, é preciso saber que eles vão lucrar muito se aplicarem bem e repassarão as per­das se aplicarem mal. Quando se administra por conta pró­pria, corre-se os riscos sozinho, mas em compensação se ga­nha sozinho, sem repartir com ninguém. A escolha é sempre sua, senhor Leonardo.

O que sugere, professor? perguntou outra vez, vendo as primeiras luzes brilharem do outro lado da Baía da Guanabara e a ponte se iluminar cruzando as translúcidas sombras do mar.

Bem, a crise internacional é hoje agravada pela beli­gerância do governo Bush. Os circuitos estão conectados na economia global e vive-se atualmente um clima de euforia financeira. Tem uma bolha crescendo no ar, mas ninguém sabe como e quando explodirá. Nunca foi tão grande o apetite do investidor por riscos. Ele passou a ganhar muito dinheiro e olha que foram várias as crises internacionais, mas nem por isso a Rússia se evaporou do mapa e nem o insustentável crescimento dos Tigres Asiáticos arruinou os investidores estrangeiros. Pelo contrário, os riscos são cada vez maiores e os lucros também.

Um minutinho, por favor solicitou Leonardo, desligando os celulares. Pronto, assim não seremos in­terrompidos.

Como ia dizendo retomou o consultor, ajeitando os óculos de lentes grossas —, os investidores não se intimi­daram com as perdas e inflamaram os preços das matérias-primas, levando às alturas as cotações da soja, do açúcar, cobre e minério de ferro.

E no Brasil, o que vai acontecer? perguntou Leo­nardo, deixando de pestanejar, hipnotizado pelo pêndulo do dinheiro oscilando a sua frente, cada vez mais rápido.

Boa pergunta respondeu o professor, beliscando e puxando a papada, satisfeito com o interesse do interlo­cutor em abreviar a introdução. Como nossa economia não tem bases sólidas, as eleições tiveram grande influência na alta especulativa do dólar. Posso garantir que tão logo o processo eleitoral termine, o novo governo vai sinalizar políticas que vão acalmar as cotações do dólar e reverter a tendência de baixa da Bolsa. É isso que vai acontecer, ine­vitavelmente.

Está na hora de agir? É o que sugere, professor?

Exatamente. A economia é feito a própria vida, cheia de altos e baixos. É hora de se apostar todas as fichas e nos antecipar aos fatos, antes que o novo governo consiga blindar a economia, quitar a dívida externa com o FMI e aumentar as reservas internacionais. São essas as atuais in­certezas que criam as condições ideais para excelentes alter­nativas de lucros no futuro.

Leonardo ouviu tudo em estado de graça, sem se mexer na confortável cadeira de couro preto. Ouviu o professor proferir a aula magna em outra cadeira de respaldar alto, va­lendo-se continuamente de gráficos, indicadores, estatísticas e impressos. Admirou a habilidade do gordo e esperto ma­labar ista em esbanjar conhecimento de quem está inteirado dos negócios bilionários para investidores endinheirados, sem ter questionado, em nenhum momento, a procedência ou o cheiro do dinheiro.

O professor, logo no primeiro uísque, percebeu que Leonardo era um preposto inteligente, calculista, muito am­bicioso e de muito lastro. Tinha bom faro para o cheiro do dinheiro vivo a léguas de distância, igual ao cheiro de um bom café expresso. Ele gostava de comparar o mercado financeiro ao café que se transforma em bebida quando a água entra em ebulição. Ao chegar a água no ponto máxi­mo de sua fervura, ela extrai o máximo do sabor e aroma do café. Ora, quando a instabilidade do mercado chega ao máximo da sua quentura, é hora de extrair o máximo das oportunidades. A sabedoria reside em saber onde está esse ponto máximo da sua quentura para não derramar a água ou perder o ponto de degustação.

Foi um fim de tarde de muita informação, de muitos sonhos esboçados. O sorridente consultor, alisando nervo­samente a orelha direita, deu o seu recado final para tran­quilizar o cliente.

Tudo é feito no maior sigilo, operacionalidade e efi­ciência. Alguma dúvida, senhor Leonardo?

Por enquanto, nenhuma — respondeu o ministro da Fazenda.

No ano que vem, o Brasil vai enfrentar a maior crise de credibilidade internacional de todos os tempos. Com a gangorra do dólar e da especulação do mercado acionário, muitos ganharão rios de dinheiro e muitos se afundarão. A hora de agir é essa — profetizou o consultor. — O senhor vai deixar passar o trem pagador do futuro? Vai, senhor Leonardo? Vai pensar?

Não tenho muito que pensar. Vou me reunir com o meu pessoal e telefono para agendar uma reunião e discu­tirmos os valores. Trarei uma planilha da próxima vez.

Posso programar a carteira de investimentos? per­guntou o professor, massageando freneticamente as pontas dos dedos da mão direita com o polegar, como um Tio Patinhas, angustiado pelo comichão da ganância. A papada ficou mais inchada ainda na expectativa da resposta positiva de Leonardo.

Sim, pode programar uma carteira que não seja conservadora.Tem importância se os valores forem em dinheiro vivo?

Nenhum problema. Vai apreciar a nossa lavanderia. Quer ser dono de pizzarias e de boates? perguntou o professor.

Nunca pensei nisso. Parece uma boa idéia res­pondeu rindo, se imaginando comendo uma pizza de mussarela ou dançando com verdinhas nos bolsos.

Pense nisso, senhor Leonardo. Cuidaremos de tudo.

Leonardo reconheceu que o professor foi feliz no pai­nel da economia mundial, em que o dinheiro dos investi­dores estrangeiros é aplicado em qualquer lugar do planeta que prometa bons retornos. Só não percebeu o quanto o professor fora pouco didático e omisso na informação de como a informatização on-line, o dinheiro que entra fácil e rápido nas contas fora do país, também sai com a mesma facilidade e rapidez com que entrou, nem sempre trazendo surpresas agradáveis ao titular das contas secretas, denomi­nadas de offshore.

O professor previu a euforia cívica da vida democrática em 2003 se os falsos profetas com suas sete trombetas do caos vencessem as eleições e assumissem seus lugares no banquete do poder. Chegara a hora dos acertos, de mon­tar na garupa dos quatros cavalos do Apocalipse, que aqui são a corrupção, a impunidade, o sexo e a guerra, e ga­lopar num trote alucinante, avassalador para ganhar muito dinheiro. Chegara a hora, agora que possuía a "Relíquia", da contagem regressiva da vingança, porque a morte do pai o ensinou que neste mundo violento ninguém é inocente, ninguém está isento de culpas e de perdão no Juízo Final.

Após se despedir do professor, Leonardo foi cuidar da Relíquia, como carinhosamente apelidou o famoso quadro, sem nome, procurado na França, que tinha se apossado de­pois que concluiu todos os "acertos" com o pai de santo, graças à prestimosa ajuda do major. Com a mudança de comando no Morro Dona Marta e as exigências do novo patrão ainda não tinha tido tempo de pendurar na parede o quadro do diabo.

Tudo começou com a dica do "mané" de 15 anos da Instituição Dois Irmãos, pertencentes a dois franceses. O garoto roubava os donos da ONG para comprar drogas. Ele contou a um informante que há uns seis meses os donos, junto com um pai de santo baiano, estavam negociando com os "franceses de lá" a compra de um valioso tapete por "coisa de mião". Deu todos os detalhes das negociações.

Como não era algo vinculado ao tráfico, Leonardo não precisou da permissão do Pimpão para o major Corredor sequestrar o baiano antes de ele visitar a ONG. Depois que o pai de santo abriu o bico sobre o valor do quadro e o interesse do governo em ter a tela de volta, ele deu sumiço nele no "micro-ondas" (gruta no morro onde os corpos são queimados e tornados irreconhecíveis). Com esse serviço do amigão major, Leonardo se apossou definitivamente do tapete milionário. Não foi difícil substituir o defunto baia­no nas negociações com os donos da ONG e o governo francês, que ficou de mandar um emissário para compro­var a autenticidade da obra e pagar o alto valor do resgate. Só que o "mané", totalmente drogado, surtou e informou que os donos da ONG já estavam com o dinheiro na sede, trazido da França, prontos para comprarem o quadro. Da tremenda "bobeira" resultou que o major, a seu pedido, foi lá conferir, torturou os infelizes e ateou fogo no barraco, de maldade.

Na manhã seguinte da consulta ao professor, Leonardo ficou apreciando a aterrorizante imagem do Satanás de sete cabeças, como nomeou o quadro, finalmente dependurado e na parede do escritório no Shopping Downtown. Uma imagem apocalíptica inspiradora para agir na marginalidade, porque o diabo pregava que tudo pode ser feito na terra dos homens venais. O importante era esperar o movimen­to arrecadar cada vez mais dinheiro para irrigar os grandes negócios e as contas offshore.

Quem resiste à corrupção e ao suborno hoje em dia,perguntou- se Leonardo, com a impunidade acontecendo?

Com cada vez mais dinheiro arrecadado e bem aplicado graças à competência do professor, Leonardo teria a oportu­nidade de enriquecer como ocorreu com Joseph Fouché, o plenipotenciário francês que obteve poderes especiais para espionar e roubar as riquezas dos reis de França. Ele teria o dinheiro que tanto necessitava para acertar as contas com a vida e a parceria com a Besta da Relíquia. E mais ainda, com o dinheiro roubado do Pimpão, reformaria a mansão do pai em Botafogo para ir morar lá definitivamente. Era tudo o que sonhou na vida e apenas uma questão de tempo pelas suas contas.

 

Antes de o gigantesco 775 pousar no Aeroporto Antonio Carlos Jobim, o avião sobrevoou a Cidade Maravilhosa. Não era a primeira viagem de Aurèlien ao Brasil. Avistou de longe o Maracanã, o Cristo Redentor e as praias que nun­ca esqueceu. Tinha certeza de não existir cidade mais bela no mundo, contemplada da pequena escotilha da nave. Era como uma benção divina para quem na monótona labuta passava o dia conferindo documentos poeirentos e manus­critos desgastados pela pátina dos anos.

— Roziná, conhece? ecoou a voz autoritária do curador.

Aurèlien fez um intenso curso de português. Não trou­xe nenhum sonho radioso na bagagem. Apaixonado pelo Rio, sentia-se bem na cidade "sem saber por que", deixan­do para trás Paris e a atual companheira que se instalava toda sexta-feira no seu apartamento com um cabide de roupas, sacolas de supermercado e pior ainda rolos de papel higiênico. Já na portaria do prédio, ela reclamava dos lances de escada, das estações sujas do metrô, da família. E ainda se dava ao luxo de deixar migalhas de croissants e copos vazios com marcas de batom por todo o studio, de um só cômodo, coisa comuníssima em Paris. Não sabia como aguentava aquilo!

Só de pensar que a rotina parisiense estava tempora­riamente arquivada, esboçou um largo sorriso na cabine. Durante o voo, com os olhos semifechados e com tempo para reflexão, convenceu-se de que a companheira que fica­ra para trás era uma chata, bagunceira, de braços gordos. O que mais queria agora era esquecer o céu cinzento de Paris e curtir o sol das praias e o andar gingado das cariocas com o dinheiro das diárias recheando os bolsos.

Logo que se instalou em Botafogo, com a ajuda do amigo promotor, Aurèlien telefonou para o francês, dono da ONG, confirmando sua ida imediata à Rocinha. Mas, como já era tarde, o interlocutor preferiu recebê-lo no dia seguinte bem cedo. Descreveu o local do encontro de uma maneira descontraída: "Qualquer morador sabe informar onde fica a sede da Dois Irmãos". A única coisa que o dei­xou bastante intrigado foi a insistência para que levasse o "dinheiro vivo". Advertiu por duas vezes que não deixasse de levar. Que dinheiro? — perguntava-se Aurèlien. Nem o curador nem seu tio lhe falaram algo a respeito de qualquer soma de dinheiro.

Vou amanhã à Rocinha avisou para o amigo.

Fazer o quê? Posso saber? perguntou o promotor.

A prefeitura de Paris viu na internet o trabalho de uma instituição de franceses de ajuda a crianças abandona­das e ficou muito impressionada mentiu Aurèlien. E agora está interessada no modelo para criar algo parecido. Vou fazer uma visita e emitir um laudo técnico. Tudo será feito no maior sigilo.

Entendo.Você tem ideia de onde está se metendo?

Aurèlien preferiu despistar a missão e omitir que tinha lido a reportagem do Liberation, fornecendo-lhe uma primeira impressão desfavorável sobre a favela, onde belas pai­sagens se associavam à mais crua violência urbana de uma grande cidade.

Pela sua cara de espanto, já vi que entrei numa "furada".

Você vai se meter na maior e na mais famosa favela do Brasil, que faz jus à sua fama de violência. A Rocinha é dominada por uma gangue de traficantes. Ela impõe suas leis de coabitação a cidadãos que levam uma vida pacata, honesta e trabalhadora.Vai pianinho, amigo. Bem pianinho, para não desaparecer.

Merde, aíors! exclamou em francês. Imaginava uma missão tranquila. Vou cobrar uma taxa de alta pericu­losidade.

Aurèlien se lembrou do enfático aviso do curador Ferdinand de ficar bem longe da polícia. Por excesso de prudência e faro de gendarme, julgou prematuro expor sua missão ao amigo promotor, sem antes saber a extensão dos perigos envolvidos. Na periferia da cidade de Paris, houve violentas manifestações incendiárias como parte do coti­diano da rebeldia e da insatisfação humana. A Rocinha não devia ser diferente. Acreditava ser a mídia que tornava sen­sacionalista a violência daquela favela.

O que me sugere? indagou o visitante.

O melhor é pegar um desses jipes de transporte de turismo que vão te deixar dentro da favela com toda a pro­teção. Qual é mesmo a instituição que vai visitar?

Dois Irmãos.

Escolheu bem. Os franceses que tomam conta do instituto são conhecidos. É gente séria. Nunca se envolve­ram com os traficantes nem com a milícia. Pelo amor de Deus, vê se anda, desta vez, sem passaporte. Faça-me esse favor.

Não vou repetir "o besteirá" da última vez — dis­se Aurèlien, reconhecendo o descuido com o passaporte, cujo sumiço deixou o amigo e o consulado francês muito "malucos" e teve de adiar sua volta a Paris. O que não lhe pareceu de todo mal, no final das curtas férias.

Para Júlia não foi fácil mudar seus hábitos, adaptar-se ao corre-corre urbano, longe da pasmaceira serrana, re­construir uma rotina, acordando cedo, pegando condução, lanchando às pressas na rua, cursando a Aliança Francesa, prestando vestibular para a faculdade e sair em campo à procura de emprego.

Apesar de pensar diferente do que se via no espelho, Júlia era uma mulher sensual, esguia, olhos azuis buliçosos e longos cabelos negros, bem cuidados. Mesmo de óculos, chamava a atenção. Porém carregava o complexo de ter bra­ços esqueléticos. Nunca se conformou nem contou isso à mãe, que jamais entenderia por que a filha tinha vergonha dos seus braços normais.

Conheceu Letícia Boker em Mauá. Era uma vestibulanda. A garota tinha ido passar um fim de semana com uma amiga na pousada. Letícia era uma gaúcha, cujos pais moravam em Porto Alegre e lhe pagavam o cursinho pré-vestibular, a moradia e davam uma boa mesada. De volta ao Rio, Letícia foi repassando todas as aulas do cursinho e dicas para Júlia via sedex e e-mail. As duas passaram no vestibular de comunicação. Mesmo antes, ela já convidara Júlia para vir morar em seu apartamento no Leme. A mãe de Júlia cismara com o jeito mandão da menina desde o início. Mas não interferiu na decisão da filha. Sugeriu apenas sutilmente que a moradia fosse "provisória" até achar um lugar melhor.

No começo, era ótima a relação de amizade com a co­lega de faculdade. Riam e dividiam o quarto, cozinha e banheiro e as muitas saudades dos pais. Divertiam-se juntas nas noitadas, nas choperias, no meio da algazarra anônima de pessoas alegres e falantes. Até acontecer o "incidente". Por conta dele, Júlia só acordou no dia seguinte na hora do almoço. Foi obrigada a comunicar à redação que amanhe­ceu gripada com muita dor de cabeça e no corpo, além de uma tremenda sede. Ingeriu a garrafa de um litro de água em minutos. Naquele dia, a amiga só chegou em casa bem depois do jantar.

Pensei que tu tivesses gostado — disse Letícia, sar­cástica.

Pensou errado, muito errado. Não acredito — con­testou Júlia, levantando os finos braços com os punhos fe­chados de raiva para o ar.

Tá... tá bom — cortou a garota, tentando acalmá-la.

O que você pôs no meu chope? — reagiu Júlia, inconformada com a traição.

Fala! — ainda com os braços levantados.

Se queres saber: eu faria tudo de novo.Valeu a pena dar uma sacolejada na bebida para te ter toda nua, toda minha.

Tinha você como minha irmã. Nunca desconfiei de nada.

Fiz de tudo, mas tu não chegaste lá. Quer saber por quê?

—Agora, cala esta boca! Chega! — gritou Júlia, furiosa.

Vais ouvir, sim! Porque a tua loucura é a porra do trabalho. Só pensas nele 24 horas por dia. Não queres nada de sexo. Só escrever te basta na vida. Nunca vi coisa mais pobre e idiota!

Continuaram discutindo e se ofendendo até altas horas. Após as duas se calarem, cansadas, Júlia foi dormir no sofá da sala. Reconhecia ter bebido além da conta, deixando a amiga tirar a roupa e a meia-calça. Fora de si, nua, ficou à mercê da amiga, que se aproveitou e "fez de tudo". Mas apesar de drogada e seduzida, não foi pela obsessão ao tra­balho que não se entregou aos orgasmos sensoriais. Para Jú­lia, o "território desconhecido" da alma feminina, tão bem estudada por Freud e Guy de Maupassant, só se entrega totalmente por um "ato de amor".

Aconteceu, ponto-final — refletiu Júlia, ao acordar no dia seguinte. Por mais que o assédio sexual seja algo que nunca alguém esquece, admitiu ter havido as circunstâncias atenuantes, como estarem vulneráveis, com suas famílias longe, carentes de afeto num momento único e desespera­do de abandono. Conciliatória, se dispôs então a esquecer o incidente. Foi assim que, com os ânimos apaziguados, após uma noite insone, Júlia e Letícia conversaram no café da manhã na cozinha, como pessoas civilizadas e modernas.

A amiga chorou, chorou muito. Júlia se comoveu. Acre­ditou na amizade e no fato de ela estar arrependida. No entanto, com o passar do tempo, os olhares apaixonados da gaúcha insinuavam que novas "intimidades" não tardariam a acontecer.

Foi nesta época que entrou em cena Amélia Azevedo, a senhora que tinha passado no ano anterior um prolonga­do fim de semana na pousada Anjo Azul para relaxar. Em decorrência de um encontro casual no supermercado, se desencadeou para Júlia a mudança de casa e um novo sopro existencial na sua vida na grande cidade de muitas surpresas e infelizmente sem nenhum grande amor, embora tivesse a esperança de encontrá-lo, não fosse para desmascarar a maldosa insinuação que, como o herói Tintin, não "queria nada de sexo".

Pelas auspiciosas mãos do acaso, acabou indo morar com a senhora Amélia, carinhosamente tratada de tia, que era a diretora de um famoso instituto de pesquisa. Foi um golpe de sorte do destino não só pelo favorecimento dos contatos da tia com a mídia como principalmente pelo vínculo de afeto que se criou entre as duas na relação de mãe e filha postiças.

Curiosamente, todas as vezes que via a repórter Júlia com um novo vestido ou penteado diferente, tia Amélia se emocionava:

Sabe de uma coisa, Júlia. Cada dia você se parece mais com a minha filha. A saia ficou uma graça em você, criatura. Todo dia rezo agradecendo por ter você aqui comigo.

Eu também rezo pela senhora. Olha aqui a medalhinha da Santa Terezinha do Menino Jesus que minha mãe me deu para me proteger - dizia Júlia, alçando a santinha pendurada no pescoço desde o dia em que desceu da serra para vir para o Rio.

Tia Amélia, essa senhora da idade da mãe de Júlia, de ca­belos esbranquiçados, foi abandonada pelo marido no sétimo ano de casamento. Perdeu a filha única numa noite de vio­lência urbana, quando regressava com o namorado de uma festa na Ilha do Governador. Na Linha Vermelha depararam com um tiroteio entre traficantes e a polícia. A menina foi atingida por uma bala perdida no coração. A mãe conservou o quarto da filha tal qual ela o deixara. E Júlia somente o ocupou por insistência da senhora. Sua presença alegre rea­cendia as saudades da filha.

Ao abrigo desse novo lar, Júlia terminou a faculdade e iniciou como estagiária numa revista, depois num jor­naleco e, finalmente, foi admitida num jornal de grande circulação.Tia Amélia a ajudou muito nas diversas coloca­ções de emprego.

Queria que seus pais viessem um dia conhecer nossa casa.

Nem pense nisso! Nem por milagre meu pai sai de Mauá.

O pai pagava a faculdade, a Aliança e o módico aluguel, quase simbólico. Por sua vez, a mãe, às escondidas, mandava-lhe uma mesada — sempre bem-vinda —, que dava para os gastos e ainda sobravam uns trocados para futilidades e a academia. Quando não dava plantão no jornal e podia dispor de um fim de semana subia a serra na sexta-feira no ônibus no fim da tarde, e era recebida com festa como uma moradora ilustre que à cidade torna.

Contava para a mãe somente as histórias que ela queria ouvir, aquelas que não a deixassem preocupada. O pai es­cutava em silêncio as duas tagarelarem e perderem o sono e, de repente, sem cerimônia, tombava com a cabeça de lado na cadeira e roncava alto, sem nenhum pudor na Serra da Mantiqueira.

— Cadê esse "amor" da minha vida? — perguntava-se Júlia, debruçada na janela do seu quarto com vista para as vidraças da vizinhança, sem que a tia Amélia e a mãe distante soubessem de suas lamúrias. Felizmente, os maus momentos da primeira moradia já eram águas passadas. Gostou da sensação de alívio, antes de fechar os olhinhos azuis no travesseiro e rememorar algumas aventuras de Tintin — principal inspiração para sua vinda ao Rio e para se tornar, aos poucos, uma jornalista conhecida pelas reporta­gens impecáveis na forma e extraordinariamente vigorosas no conteúdo.

Porém, na intimidade da solidão, Júlia cultuava o desejo de participar de verdade de pelo menos uma aventurosa história em quadrinho, e que — se isso fosse acontecer — torcia para que a vivenciasse de maneira inoubliable (ines­quecível) e em grande estilo.

Júlia reconhecia que uma coisa a gaúcha não exagerou: a sua "loucura" em se entregar de corpo e alma à sua pro­fissão. Aprofundara-se nas pesquisas sobre as relações entre a arte sequencial das tiras e as reportagens jornalísticas. Acessou a primeira entrevista brasileira em história em quadri­nhos da repórter Patrícia Villalba. Interessou-se pelas HQs de investigação de grandes casos, como o sequestro político de Aldo Moro, nos anos 1970; a corrupção na Rússia com a série dos novos czares; e o suspense narrativo do atentado de 11 de setembro de 2001. Pesquisou os obscuros con­flitos de bastidores em escala mundial, narrados de forma distanciada pelo noticiário, mas bem registrados como re­portagens em HQs, a exemplo da invasão americana e das torturas nas prisões de Abu Ghraib, no Iraque. Viu o quanto era possível tirar proveito desses trabalhos gráficos para a sua profissão e ser um Tintin, mesmo sem ser a protagonista dos fatos.

Para Júlia, agora o importante era viver o dia a dia com seus braços finos e a nova franjinha cobrindo a testa, o que não a impediam nem de sonhar com um futuro cheio de surpresas nem de ouvir o pedido do chefe de redação na reunião de pauta:

Júlia, escalei você para a Rocinha. Os leitores que­rem uma reportagem sobre as relações dos moradores com os traficantes. O grau de violência, de medo e de proteção social praticado. OK?

—Tem algum fato novo que eu não saiba? Alguma dica?

A polícia está montando uma megaoperação na Ro­cinha. Não consegui saber o dia. Passaram-me que será no começo do mês. Eu lhe dou uma página inteira no domin­go. Fechado?

Fechado — respondeu Júlia, sabendo que a busca da notícia requer persistência, paciência e dedicação. — Deixe comigo.

—Vai fundo nas suas fontes. Mas tome cuidado. Não se exponha demais. Não quero um Tim Lopes de saia por aí. Entendido?

Pode deixar que eu sei me cuidar. Estou viva ainda, não estou?

Júlia sabia que uma reportagem é sempre uma surpresa, ainda mais na Rocinha, a maior favela do Brasil.

 

Com os olhos fixos no teto branco do quarto de Lisa, Leonardo fez a retrospectiva de sua nova vida. Como tudo começou. Lembrou de sua insistência inicial de levar Lisa para um motel por imaginar que vivia uma aventura ex­traconjugal e o local era o mais apropriado e excitante para encontros clandestinos, sem as consequências de um envolvimento amoroso. Mas tudo não passou de pura teoria. Na prática, ele tinha sido enfeitiçado por Lisa e não precisava de nenhum motel. Bastava visitá-la naquele quarto em que estava de persianas arriadas e luzes de vela para reencontrá-la calorosa, sensual, à sua espera na cama de lençóis floridos. Sentir no fugaz momento carnal que, qualquer que fosse o seu passado e os seus homens, não havia coisa melhor no mundo do que se assenhorear dos seus desejos.

Reconhecia ter se deixado envolver demasiadamente rápido. Mas nunca na sua vida e estava sendo sincero nisso —, tivera momentos tão felizes, ainda que estivesse vivendo no fio da navalha.

Agora, no seu escritório no Shopping Downtown, diante do quadro 75 na parede da sala de reunião, ainda não removido para a mansão em Botafogo, por estar em final de obras, Leonardo se preocupou em agendar uma consulta astral para Lucca, depois de ter sido avisado que "a mãe an­dava muito esquisita" ultimamente.

Ao voltarem de uma partida de futebol do Flamengo, com parada obrigatória num barzinho de torcedores, onde costumavam ir, foi que Leonardo puxou o assunto da visita à astróloga. Insinuou, habilidoso, que era tempo de Lucca buscar uma "orientação vocacional". Acrescentou, timidamente, o vocábulo "astrológico". Como esperado, Lucca reagiu à "ideia maluca", crivando-o de perguntas e se recusando a ir por lhe parecer desnecessário.

Leonardo explicou tudo, ou quase tudo. Insistiu que che­gara a hora de o filho ouvir alguém confiável sobre seu futu­ro. Falou do seu encantamento pela astrologia. Citou, dentre outros, o fato de Lisa o prevenir sobre o resultado negativo de uma licitação que tinha interesse em ganhar. E efetivamen­te perdeu. Foi persuadido a não desanimar, pois surgiriam outras oportunidades de ganhar muito dinheiro. E como ela tinha previsto, passou a ganhar muitas concorrências reali­zadas pelo governo federal. O filho acreditou e foi conferir. Comprometeu-se a não falar da "ideia" para a mãe.

Lucca chegou dez minutos adiantado no amplo apar­tamento na Lagoa. Como o pai não mencionara nada da aparência de Lisa, só elogiara as aptidões proféticas, ele ima­ginara, na sua santa inocência, uma gordona indigesta, espa­lhafatosa, com um rubi no centro do turbante, unhas pintadas de violeta e a voz cavernosa — um estereótipo de filmes de terror. Quando a porta se abriu: Uau!, disse Lucca para si, ao se deparar com uma mulher bonitona, alta, falsa magra, de voz mansa e muito educada, que o recebeu de braços abertos e com o mapa pronto. O pai já havia fornecido os dados pessoais do filho.

Lisa fez a leitura do mapa natal, dos aspectos que os planetas fazem entre si, dos trânsitos e finalmente da re­volução solar. Lucca ficou fascinado com a explicação dos termos astrológicos e dos misteriosos símbolos cósmicos unidos pelo pontilhado das linhas vermelhas, verdes e azuis. Aprendeu que no mapa natal o Sol e a Lua representam respectivamente o pai e a mãe.

—Vou falar primeiro de sua mãe. Pode me interromper se quiser perguntar alguma coisa que não entendeu, Lucca.

Minha mãe é um livro aberto, completamente pre­visível.

—Vamos ver isso agora. Nossa vida é influenciada pelos aspectos positivos e negativos da mãe. No seu mapa, a Lua está na casa quatro, mostrando uma mãe protetora e emoti­va ao extremo. A Lua faz uma quadratura com Plutão, o que mostra ser uma pessoa dominadora. Sua vontade prevalece sempre.

Está certíssima — concordou Lucca com a síntese. — Quando eu era criança, tudo que eu gostava de comer ela proibia. Tudo fazia mal à saúde. Não podia nem beber coca-cola.

Para ela, ter esses cuidados com você é te amar, Lucca.

Chama isso de amor? É uma obsessão ficar atrás de mim o dia todo para saber onde estou! — queixou-se para a astróloga.

Acrescentou que estava cansado de ouvir ordens: "Coma legumes e frutas". Rindo, confessou ter devora­do, escondido, todos os hambúrgueres e pizzas com batatas fritas, a que tinha direito, e bebido todos os refrigerantes proibidos. Reclamou que ela nunca se interessou pelos seus sonhos.Tinha decidido, sem sequer consultá-lo, que deveria servir o Exército. Ele não queria.

Lisa ouviu tudo em silêncio antes de tentar rebater e amenizar as críticas à mãe mandona, enfatizando os aspec­tos positivos do mapa e do seu jeito de ser uma boa mãe.

Por volta de seus 11 anos, quando Netuno fez uma quadratura com seu Mercúrio natal você perdeu o ano na escola.

Como adivinhou?

Embora, não entendesse a explicação dos aspectos da quadratura de "Mercúrio com Netuno", Lucca aceitou a interpretação astral para justificar o seu mau desempenho no colégio. Mas aquilo era uma página virada, explicou Lisa, porque, à medida que o aspecto foi se desfazendo, ele voltou a ser o bom aluno de sempre. Tornou claro que as quadraturas eram apenas desafios a serem vencidos e não podiam ser considerados intransponíveis. Foi nesta hora que passou o importante recado que não deixasse de batalhar e sonhar, mesmo se acontecesse de se sentir sozinho e aban­donado num futuro mais próximo. Franziu a testa de má vontade ao ouvi-la dizer: "Todo homem precisa da convic­ção da fé para crescer espiritualmente". Estava dizendo as mesmas palavras que a mãe.

Satisfeita sua curiosidade sobre suas desventuras amo­rosas, Lucca quis saber das angústias do pai, a ponto de ter vindo consultar os astros. É verdade que ele sempre simpa­tizou com o ocultismo e o candomblé. Ousou perguntar como poderia ajudá-lo para se entender melhor corri a mãe.

Lisa respondeu com o seu mais educado sorriso:

Seu pai não precisa da sua ajuda, mas apenas do seu apoio. É uma pessoa angustiada que busca se conhecer me­lhor neste momento muito tenso e de muito trabalho. É bom saber que, apesar de todos os seus afazeres, ele nunca deixou de se preocupar com o seu bem-estar e o seu futu­ro. Essa é a maneira de ele te amar. Imagina se ela falaria dos problemas do pai, pensou Lucca. Deduziu que o segredo da leitura tinha tudo a ver com o sacramento da confissão. Foi aí que confidenciou a Lisa, constrangido por tratá-la pelo nome pela primeira vez, conforme ela tanto insistira:

Amo meu pai de verdade, do jeito que ele é, Lisa. Não sei como ele aguenta aqueles celulares tocando o dia todo e a minha mãe reclamando o tempo todo deles. É um inferno à noite em casa.

Ao final de uma hora e meia de consulta Lucca se deu conta de que ela conhecia todos os seus segredos. Até o movimento dos intestinos a "bruxa" adivinhara que fun­cionavam mal se ficasse nervoso durante as provas ou em consequência de uma desilusão amorosa. No final, preten­dia protestar contra a receita de "ter fé para crescer espi­ritualmente", mas acabou desistindo e baixando a cabeça para ouvir muito compenetrado as palavras de esperança, deixadas de propósito por Lisa para o final da consulta.

Muito em breve, Lucca, você vai realizar seu sonho de estudar no estrangeiro concluiu, profética. Tenha fé nisso.

Olhe que acredito disse o filho de Leonardo, sorrindo, feliz.

Pois acredite — reforçou Lisa, esclarecendo-o que Júpiter estava bem posicionado no seu mapa natal, o que fa­vorece a concretização dos sonhos se tivesse mais confiança em si próprio. Aconselhou-o a pôr as caravelas no mar e desenvolver todo o seu potencial, pois tinha talento.

Lucca arregalou os olhos, surpreso, quando ela aventou que teria o apoio de pessoas influentes e estranhas ao pro­jeto universitário de estudar no exterior.

Ela dá força pra caramba pra gente. Valeu mesmo, pai.

Apesar de Lucca ter agradecido entusiasmado, a consul­ta ao pai, reclamou, tempos depois, que a astróloga "foi mal" nos aspectos da Lua. Nada antecipou sobre aquela manhã, em que a mãe viajou sozinha para Itaipava, sem que nin­guém soubesse.

Num telefonema na véspera, Ana confirmara o encon­tro com o detetive no sítio dos pais. Leonardo soube por­que mandara grampear o telefone de casa, a conselho do major, depois de ameaçado pela mulher. Ana não gostava de correr. Sentia-se mais segura sem pressa de chegar. A estrada estava deserta, por não ser fim de semana. Mal percebeu a aproximação do caminhão sem carga, vindo embalado atrás, liberou prudentemente a ultrapassagem. Ocorreu então um fato estranho: ao invés de o F-350 aumentar a velocidade, ele bruscamente diminuiu. Não lhe restou outra alternativa senão tentar ultrapassá-lo. Nem viu adiante, à esquerda, a curva perigosa, à beira do precipício. Após ultrapassar mais da metade do caminhão, subitamente mais veloz, o seu car­ro foi abalroado por violentas batidas na lateral, o que a fez perder o controle da direção e sair da estrada úmida de poucos buracos. O carro cavalgou o acostamento, resvalou e despencou. Deu cambalhotas no ar antes de bater no chão pedregoso do abismo num trágico "acidente", noticiado sem destaque pelos jornais.

Do seda cinza sobrou a carcaça amassada, deformada, e os vidros estilhaçados. Não pegou fogo. Mas o corpo de Ana ficou prensado e ensanguentado entre as ferragens. No depoimento, a única testemunha que viu a queda do veí­culo disse para o delegado que deve ter sido um buraco naquele trecho da curva perigosa a mais provável causa do acidente. A vítima deve ter tentado evitar e não foi bem-sucedida seria o que constaria dos autos.

Lucca definia assim o profundo sentimento de luto aos amigos presentes no enterro da mãe:

Cara, a saudade é uma merda.

Seu pai parecia arrasado. Porém manteve-se sereno com o acontecido. O velho já havia passado por outra tragé­dia antes. Os celulares dele ficaram mudos. Esse silêncio fez com que Lucca se lembrasse das cobranças da mãe e da sua inquietação com seu bem-estar. Por mais que lhe dissessem que a vida continuava, sentia-se abandonado e se questio­nava o que mudaria agora na sua rotina, estando o pai cada vez mais absorvido no seu trabalho.

Lucca gostava da sensação refrescante da espuma, ba­nhando os pés cansados após correr no longo calçadão da Avenida Sernambetiba. Na ida encontrou com turmas de jovens risonhos, velhos de cabelos brancos com seus shorts desbotados e felizes atletas, bebedores de água de coco ge­lado ou de chope. E ecléticos e ecologicamente alegres com o sol da vida.

Voltava pela beira do mar em geral com o tênis pen­durado em redor do pescoço, com a cabeça inquieta. Vi­via angustiado com as perguntas para as quais não tinha respostas. Havia todo um burburinho de porquês do qual tomava parte, perguntando o que sua mãe, tão previsível, fazia sozinha naquela estrada deserta no meio da semana, sem que ninguém tivesse sido avisado de sua inesperada ida a Itaipava. Os pais dela foram avisados em cima da hora da visita e mesmo assim ela não deu certeza. Por que essa últi­ma viagem, tão repentina assim?

Ninguém sabia responder: nem ele, nem o pai, e muito menos a voz serena da astróloga Lisa sobre o eclipse da Lua. Por quê?

 

Foi o advogado de Leonardo quem comunicou que o de­legado arquivou o processo da morte da mulher por falta de "elemento convincente para prosseguir no feito" e que tinha "acertado" o silêncio do detetive particular.

Lucca esperava que fosse apurado algo mais do que o imaginário buraco fatal no "acidente de estrada". Não se conformou com o resultado do inquérito. A sua vontade era largar tudo, sair da casa onde estava morando e viajar. Mas a sua ira foi passageira. Isolou-se de todos e passou a estudar inglês e informática como um obstinado. Era a sua maneira de se consolar no luto e buscar o seu caminho.

A partir do arquivamento do processo, a vida de Cabe­ção se normalizou no seu novo endereço residencial, onde os sentimentos e a atração sexual por Lisa se intensifica­ram, comprovando o acerto harmonioso e feliz dos mapas complementares. Quanto a Lucca, decorrido algum tempo depois da consulta de "orientação vocacional" e do trágico acidente, Leonardo considerou que o filho enfrentou com serenidade o sofrimento da morte da mãe.

Não era a primeira vez que Lucca trocava de casa. De pequeno, mudara da Tijuca para o Grajaú e depois para o Flamengo. Mas agora era diferente. Nunca se esqueceu daquela noite em que o pai o chamou no canto do varandão do apartamento na Barra e, bastante emocionado, revelou estar apaixonado pela astróloga. Confessou sem divagações que pretendia morar com ela. No primeiro momento, ele ficou desnorteado. Não aceitou bem a revelação nem a proposta residencial. Mas depois se deu conta de que não tinha outro jeito, sabendo o quanto o pai era teimoso e agora um teimoso apaixonado.

Sem opções, Lucca mudou-se da Barra, onde ainda sentia a presença da mãe ajustando os retratos nas paredes brancas e mexendo nas louças da cozinha, para morar no apartamento de Lisa. Numa atitude sensata e madura, as­sumiu que não podia faltar com apoio ao pai nessa fase de perda e de muito trabalho, agora que as musiquetas dos ce­lulares de Cabeção voltaram nervosas em ação. Aos poucos Lucca foi aceitando a realidade dos fatos e foi "humanizan­do" a relação de amizade com a astróloga.

A partir do momento em que Lucca soube lidar com a presença de Lisa no coração enlutado de Leonardo, seria beneficiado pela vara de condão da "bruxa". Tanto assim que bastou um telefonema de Leonardo, que ela incentivara a fazê-lo, para um militar de alta patente de suas relações comerciais e foi dispensado de servir à "Pátria amada".

— Imagina só se eu ia deixar o menino perder tempo em marcha unida e aprender a atirar, tendo tanta coisa para aprender?

Não foi só a dispensa que Lisa cuidou a favor do "me­nino" — como Lucca era carinhosamente tratado por ela.

Também insistiu para que o filhoco ganhasse um PC de úl­tima geração. A única coisa que ela não abria mão era o uso de drogas. Não admitia esse tipo de perdição para o filho do seu amado que completaria em breve 18 anos. Assim, com bastante moral dentro de casa, não teve dificuldade em convencer o "velho" que Lucca tinha condições de estu­dar no exterior, pois era seu grande sonho. Mesmo porque ela ambicionava outros projetos de vida com Leonardo do que cuidar de um órfão, ainda mais sendo filho da "outra". Assim buzinou nos ouvidos de Leonardo a necessidade de realizar o grande sonho do filho, sugerindo que recorresse a um banqueiro americano para dar uma ajudazinha. A oportunidade de ouro para o pedido haveria de surgir durante a reunião semestral, já agendada no Rio.

Só uma coisa deixava Lucca intrigado. O pai falava em próxima visita à "Relíquia", sem saber o que era afinal.

Pai, não dá para saber o que é essa Relíquia da qual você tanto fala para Lisa insistiu Lucca, olhando com ternura para ela, em busca de apoio numa resposta convin­cente do pai.

Espere até visitar a casa do teu avô em Botafogo e você vai saber o que é. Lisa também não viu e está impa­ciente em conhecer, não é?

Tudo veio à cabeça de Leonardo naquela manhã de sol. Aos poucos, foi recapitulando o que ocorreu naquele me­morável 13 de janeiro de 2006, quando recebeu de manhã a boa notícia do banqueiro nova-iorquino e à noite não só comemorou o sucesso profissional como reviveu em deta­lhes a primeira consulta astrológica com Lisa, que marcou a sua vida e o fez passar a viver no fio da navalha.

Parabéns, senhor Leonardo, a diretoria autorizou o aumento de sua linha de crédito. O banco nunca concedeu valores tão altos a um cliente brasileiro.

Cabeção tinha consciência de que teve de fazer vários "acertos", após a primeira leitura de seu mapa, para po­der estar ali, ao lado de Lisa, morando no seu apartamen­to, onde não se ouviam mais os latidos dos cachorros. De comum acordo, eles foram doados a amigos, antes de se decidir a morar com ela. Tinham-se passado vários meses e os banqueiros estavam agora no Brasil. Ia encontrá-los no escritório do professor. Não podia mais ficar de preguiça na cama. Era hora de zarpar, de terno e gravata, para presidir a importante reunião com os "gringos", agendada depois daquele auspicioso telefonema matutino.

O professor nada sabia do modus operandi do narcotrá­fico, pois desde o começo ele se limitou apenas a carimbar o destino sem questionar a origem dos pacotes empilhados que chegavam todo fim de tarde pelo elevador de serviço e iam direto para o caixa-forte do escritório. Obviamente, não conhecia o chefe Pimpão. Este nunca pisou na "Consultoria de Projetos Especiais", com sua bem aparelhada rede de computadores, scanners, faxes e ampla sala de reunião, em que o professor gostava de atender.

Depois que Caveirinha foi preso e o Pimpão assumiu, dando carta-branca ao seu ministro da Fazenda para orga­nizar o sistema financeiro, eram agendados, todo trimestre, dois encontros de trabalho no Rio. No primeiro, reuniam-se os banqueiros, cuja pauta era o financiamento e investi­mento do dinheiro lavado. Logo em seguida, realizava-se o encontro entre os chefões do narcotráfico, cuja pauta era a importação da matéria-prima vinda da Colômbia e do Equador e sua comercialização, após a refinação. No pri­meiro encontro as reuniões eram presididas por Leonardo no escritório do professor. No segundo encontro as reu­niões eram comandadas por Pimpão no escritório de Ca­beção no shopping Downtown. Cada encontro cuidava dos interesses específicos da ampliação dos lucrativos negócios do movimento.

Por enquanto, nenhum encontro social tinha sido pro­gramado por Leonardo na mansão em Botafogo, ainda em obras. A antiga residência do pai de Leonardo foi recom­prada de um incorporador que foi convencido pelo major a "desistir" de construir um edifício de doze andares. Lá, sem fazer segredo a Lisa e ao filho, a famosa Relíquia 666 ficaria em lugar de destaque.

Na reunião trimestral de banqueiros, orquestrada por Leonardo, e coordenada pelo consultor financeiro, obviamente sem a presença de Pimpão, os financiadores estran­geiros puderam constatar que Cabeção acatara os conselhos do professor de não dar crédito aos catastróficos prognósti­cos sobre o futuro do país. E só teve a se beneficiar por ter acreditado nas promessas de palanque de banir a moratória, de valorizar o real e o mercado de ações. E principalmente por ter apostado na corrupção e na impunidade. Em pouco tempo o movimento adquiriu o status e o poder financeiro de uma grande empresa e a fortuna pessoal de Leonardo só fez crescer vertiginosamente no período.

Alguma dúvida, senhores? indagou Leonardo na cabeceira da mesa, após duas horas de reunião.

Tinham sido concluídas as explicações após terem sido apresentados os relatórios contábeis. Os participantes, nem que fosse para justificar suas presenças no Rio, conferiram os números, analisaram os gráficos, trocaram opiniões e po­sições, e, levados pelo instinto da ganância de investirem e ganharem mais dinheiro, muito mais ainda com os próspe­ros "negócios de fachada da organização", resolveram sabatinar o "ministro da Fazenda" sobre o seu dever de casa.

Os números finais de lucratividade são comparáveis aos da China e da índia, não é? — perguntou o banqueiro.

Esses lucros só foram possíveis, senhores, porque conseguimos diversificar bastante nossas atividades. Montamos fachadas importantes. Hoje operamos uma rede bem-sucedida de pizzarias, boates, bingos. Expandimos algumas lojas comerciais e a agência de publicidade — resumiu Leonardo, entusiasmado.

Diante do alto volume diário do fluxo de caixa, não havia como se operar sem dispor de uma grande infra-estrutura de apoio. Tudo foi montado em tempo recorde — as­segurou o professor, didático, em reforço às explicações do ministro da Fazenda.

A rede de pizzaria é um estrondoso sucesso — ava­lizou o baixote gorducho, ex-dono de cinco restaurantes e hoje gerente geral e o maior "laranja" da companhia limi­tada de comestíveis, congregando uma vasta rede de restau­rantes, inclusive algumas choperias e boates. Temos muitos "laranjas" operando.

— A nossa agência de publicidade assinou contratos milionários com as estatais — assegurou o consultor, ra­diante.

Parabéns, senhor Leonardo — elogiou o sisudo ban­queiro de Manhattan, de óculos com finos aros dourados, satisfeito com os resultados e agradecido pela garota de programa, providenciada para não se sentir sozinho durante a sua curta estada no Rio.

Ah! Também estamos operando com êxito nas prin­cipais concorrências públicas disse Leonardo, com a voz transbordante de confiante satisfação. É impressionante como se pode comprar a corrupção hoje em dia.

Para não suscitar inveja e cobiça, Cabeção omitiu a intensificação de suas idas a Brasília, incentivadas por Lisa, onde esbanjava cada vez mais intimidade com as testas coroadas. Tinha cadastrado as empresas do grupo em todas as estatais e se familiarizado com os editais para vender armas ao Ministério da Defesa, serviços de limpeza e de pronta entrega aos Correios, livros e cadernos para escolas públi­cas, ambulâncias superfaturadas para a área da Saúde. Os palavrões se tornaram cada vez mais úteis e contagiantes nas conversas ao pé do ouvido, garantindo a identificação fraternal e mútua confiabilidade em defesa do interesse pú­blico e social do país entre partícipes do loteamento do dinheiro público.Tinha livre trânsito nos gabinetes mais in­fluentes da gestão pública.

E os facilitadores? perguntou o banqueiro do principado de Liechtenstein, que apreciava a companhia noturna de garotões.

Um dolarduto bombeia as contas das figuras mais proeminentes do governo e de seus aliados. Isso nos tem permitido acessar a malha da burocracia estatal e vencer por antecipação as mais disputadas e lucrativas concorrências.

E os riscos de vazamento disso para a opinião pública?

Boa pergunta respondeu Leonardo. Risco sempre há. Cada vez o risco é menor porque nossos contatos são ainda mais confiáveis no governo e no Congresso. A tendência é aumentar cada vez mais os nossos lucros e sermos generosos.

O senhor Leonardo está certíssimo. O brasileiro é excessivamente tolerante com a transgressão. Não reage. O governo sabe disso. Tem sido o primeiro a nos defender, porque sabe que tudo é feito com a ajuda de gente graúda dos ministérios e dos donos dos partidos da base aliada do governo. Sem isso a máquina emperra — ironizou o profes­sor, deslizando a mão pela rala cabeleira grisalha até a borda do colarinho branco.

Leonardo balançou a cabeça em concordância e olhou mais uma vez para os ponteiros do relógio antes de pros­seguir:

Lucros! Lucros só foram possíveis, senhores, porque conseguimos proteger nossos interesses. Os senhores não imaginam como tem sido difícil nossa luta contra o fisco. O governo aumentou a carga tributária de uma maneira impressionante e ninguém protesta com medo de ser fiscalizado na malha fina. E pior ainda são as mordidas dos fiscais e da polícia — revelou Leonardo para os banqueiros convencidos a aumentar as linhas de crédito para as atividades do movimento.

— É uma desgraça ter de lidar com esses filhos da mãe — reagiu o banqueiro de Miami, emitindo densas baforadas de charuto aspiradas pelo respiradouro do ar-condicionado.

-— Foi-se o tempo em que eles se satisfaziam com merreca — disse o professor, tamborilando nervosamente os dedos na mesa.

-— Bem, isso não é um problema exclusivo de vocês. Nós também sofremos as mesmas extorsões da polícia e dos políticos — comentou o banqueiro americano de Los Angeles.

Nem me fale dos políticos. Só que aqui, eles estão cada vez mais gulosos e impunes — protestou Leonardo, cerrando os lábios.

Como eles têm imunidade parlamentar, ninguém é punido. Estão cada vez mais de goela aberta. São insaciáveis. Não se fazem mais políticos como antigamente — analisou o consultor, deixando escapar um longo suspiro.

Imagino! Mas é o povo que vota. Aceita isso.

Se existem culpados, nós também o somos. Quere­mos que tudo fique assim. Quanto mais corrupção melhor para os negócios — acrescentou outro banqueiro. — Não é verdade?

— Não pensem que nos Estados Unidos é diferente. Temos as caixinhas partidárias. Ai de quem não contribuir! Eles nos matam de fome e de desespero — disse o vice-presidente de um grande banco americano, rindo e batucando na mesa com seu ostensivo anel de rubis.

A diferença é que no Brasil se alguém é pego na transgressão não vai para a cadeia, mas responde ao processo em liberdade, levando uma vida normal. Todos nós sabemos como funciona o Poder Judiciário aqui — sentenciou o professor.

Leonardo olhou mais uma vez o relógio e interveio para não delongar as conversas paralelas que se formavam, descontroladas:

Senhores, por favor, não estamos aqui para filosofar. —Vou programar as remessas e os financiamentos de acor­do com os valores das planilhas elaboradas pelo professor. Estão de acordo?

Todos permaneceram em silêncio em sinal de concor­dância.

Após as amistosas despedidas, todos se dirigiram para a porta de saída do escritório. Leonardo puxou pelo bra­ço o vice-presidente do banco americano num canto da sala. Com a tarimba de ministro plenipotenciário, soube solicitar um "empurrãozinho" para o fdho estudar numa universidade americana. O banqueiro de Manhattan, empe­nhado num bom relacionamento com um cliente do cacife de Cabeção e considerando o porte dos negócios, todos legalizados, respondeu bancariamente no ato: "Se estiver com a documentação escolar em dia, ajudarei. No problem". Prontificou-se, inclusive, a entrevistar Lucca, pessoalmente, caso fosse a Nova York, e orientá-lo antes de fornecer as indispensáveis cartas de recomendação, que, com certeza, abririam as portas universitárias. Melhor era impossível.

O aporte financeiro do capital estrangeiro, sem questio­nar a origem do dinheiro, era importante para o movimen­to. Isso permitiria a Pimpão comprar mais matéria-prima e comercializar mais cocaína, lucrando cada vez mais. Assim, Leonardo, com a ajuda das "forças ocultas", ia se tornando cada vez mais rico e poderoso, tudo que a vingança de mor­te aos algozes do pai precisava para concretizar o diabólico acerto de contas final.

Léo estava com muita pressa de chegar em casa. Não era mais o mundo financeiro que o deixava nervoso, mas a angústia de querer contar tudo para Lisa, de como foi o desfecho do pedido de emprego para o Lucca e se jogar nos seus braços. Não eram mais os lucros das operações que o interessavam, mas os contornos e as escavações do seu corpo.

Queria respirar o cheiro adocicado de fêmea nas dobras dos lençóis floridos.

Admitia o perigo de estar brincando com o fogo de Marte ou de outro planeta, apegando-se passionalmente àquela mulher e se emocionando com a ventura de ela fa­zer parte de seus sonhos no feliz simbolismo dos mapas complementares. Sem que percebesse, ficou sozinho na sala de reunião, sonhando com o destino. Pôs-se então a sorrir, feliz, agradecido, como que ouvindo uma harpa de sons sua­ves e róseos, vindos do jardim da mansão do pai, chegando devagarzinho e deixando seu rastro musical pelo caminho do coração.

 

Na manhã seguinte ao telefonema de Aurèlien ao francês da ONG, a Polícia Civil efetuou uma megaoperação na Rocinha. Cerca de trezentos agentes de doze delegacias es­pecializadas, dois helicópteros Águia, um blindado da Core, foram mobilizados para vasculhar a favela com o objetivo de cumprir mandados de prisão, recuperar carros roubados e apreender armas e drogas.

Cada delegacia tem um interesse particular nesta operação disse o delegado, esbaforido, antes de caminhar em passos apressados pela Via Ápia, logo no início da ocu­pação. Por isso, unimos todas as ações em uma só. Sua voz era captada pelo microgravador da repórter Júlia, no meio de uma pletora de microfones e de muitos encontrões dos colegas.

Vão prender os traficantes? questionou Júlia, se­guindo os passos rápidos do delegado pelas ruelas estreitas da favela, enquanto, do outro lado da rua, se formava um tumulto.

Positivo respondeu o delegado. Mobilizamos muitos homens para intimidar os criminosos e evitar que inocentes sejam feridos. Vai ter muitas prisões e muita droga e armamento apreendidos. De repente, interrompeu a entrevista para gritar alto para o policial do outro lado da rua: Amarra o meliante no poste, aí mesmo, que depois o recolheremos na saída do morro.

Uma moradora tomava seu café da manhã num copo plástico. Com o berro do delegado ela se assustou e derra­mou o café com leite. Acabou sujando a roupa das crianças e respingando na manga da blusa de Júlia, que reclamou da desatenção.

Vai ser brabeira, minha gente! alertou o policial militar, sem fôlego, tentando acompanhar o avanço dos agentes. A Rocinha está grande demais. A comunidade anda apavorada com tanta boca de fumo e armas. Só tem um jeito de tranquilizar os moradores, é mandar ver com um efetivo cada vez mais poderoso.

O CIEP Ayrton Senna suspendeu as aulas para evitar que seus alunos saíssem de casa. Contudo, somente quando prenderam o Pavãozinho R9 é que os criminosos efetua­ram os primeiros disparos de fuzis. Houve troca de tiros. No entanto, ninguém ficou ferido. Ao avançarem pelas ruelas, os policiais descobriram que a casa incendiada à noite era a sede de uma ONG. Dois corpos foram encontrados carbo­nizados. A perícia foi logo chamada.

Do começo da operação às 5 horas até o momento que terminou às 13, foram apreendidas vinte e seis motos roubadas, dez quilos de maconha, cinquenta papelotes de cocaína, trinta pedras de crack, além de uma submetralhadora, uma pistola, um revólver e quatro granadas. Num barraco foram retirados diversos radiotransmissores e PCs utilizados numa central clandestina de TV a cabo. Três pessoas foram detidas por estarem operando a central, mas seriam libera­das e deveriam responder em liberdade, como informou o policial de metralhadora em punho, vigiando o barraco.

Uma trabalheira do cacete pra nada. É foda! Outra vez as informações vazaram e prejudicaram toda a nossa operação. Isto não vai ficar assim, não, lamentou o delegado, tapando com a mão o microfone do minigravador de Júlia e desencadeando uma série de muxoxos pelo fracasso da planejada ação policial.

Esperavam o que, exatamente? — perguntou uma repórter.

Uma refinaria de cocaína e o arsenal dos traficantes com armas recém-chegadas do Paraguai. O Serviço de In­teligência fez o serviço. Estávamos em cima do lance. Infe­lizmente, sumiu tudo. Graças a Deus, nenhum morador ou policial ficou ferido.

Júlia viu o delegado fugir do assédio dos jornalistas. Também fugiu dali, porque tinha muita coisa para investi­gar, a começar pela estranha destruição durante a madru­gada de um único barraco. Foi buscar junto aos vizinhos informações sobre o incêndio e sobre as pessoas carboni­zadas. Apurou que não era um barraco, mas sim a sede de uma ONG conhecida, pertencente aos dois franceses mor­tos. Esse fato em si daria manchete de primeira página nos principais jornais do mundo.

Não era a primeira vez que um vazamento ocorria. Ainda recentemente, os informantes de Leonardo o avisa­ram que agentes de duas delegacias fariam incursões na La­deira dos Tabajaras. Tudo foi repassado para o Pimpão, que por meio dos celulares, ordenou que "limpassem a área". Nada foi encontrado e a mídia divulgou a fracassada inva­são de policiais truculentos contra uma pacífica favela de Copacabana, tumultuando a vida de pacatos moradores. A supremacia do crime organizado foi comemorada pelo ma­jor Corredor à noite, noutra favela, dominada com tiros de fuzil 7.62. E aproveitou o embalo dos festejos para executar um serviço, a mando do amigo Cabeção. Jamais o faltaria com a palavra.

Nessa noite de comemoração com tiros raiando a noite enluarada na Rocinha, Leonardo pulou da cama várias vezes para atender o celular, pois não parava de tocar. Lisa nunca tinha visto Leonardo tão agitado. Perguntou se precisava de alguma ajuda. Tenso, ao sair do quarto, ele respondia que não. De volta do escritório, ao fim de tantas idas e vindas, deu-lhe um sonoro beijo às 5 horas da manhã, dizendo-lhe ao pé do ouvido:

— Não se preocupe. Está tudo sob controle. Durma em paz, meu amor.

Outro vazamento aconteceu no dia da megaoperação em que a repórter Júlia e Aurèlien estavam na Rocinha. Avisados com antecedência, Leonardo e Pimpão tramaram tudo para demonstrar que as operações de guerra da polícia em favelas populosas constituíam um perigoso equívoco de trágicas consequências. A mídia exibiria fotos de moradores aterrorizados e policiais violentos, despreparados para lidar com o crime cada vez mais organizado. Relatariam as humilhações das quais as comunidades pobres, ocupadas pela força militar, eram vítimas. E como elas eram relegadas de­pois ao abandono pelo poder público, menosprezadas, sem investimentos sociais, ficando à mercê do assistencialismo do tráfico, que inclusive custeava os funerais.

Tudo tranquilo, cara garantiu o gerente-geral do Pimpão pelo celular no seu esconderijo, no alto do morro, avisando na sua décima chamada para Leonardo que as for­ças policiais estavam saindo da Rocinha.

Já ouvi tudo na CBN. É hora de pôr as ONGs na rua pro grito. Pimpão quer que o protesto saia agora para estar hoje nas tevês e amanhã nos jornais. Tá ligado, Cor­redor.

Passara do meio-dia. O matador Corredor saiu corren­do para reunir a moçada e fazer um tumulto do caramba, de modo a desmoralizar a megaoperação. Colocou nas ruelas as ruidosas manifestações da ONG de Defesa dos Direitos Humanos, financiada pelo tráfico, que saíram gritando e empunhando cartazes de protesto contra a invasão policial, polarizando assim os noticiários.

O major voltou do protesto, como se diz na gíria dos viciados: "zero bala", e logo "esticou" as carreiras de co­caína, recém-refinada no barraco-laboratório, que não foi descoberto, situado bem em frente à central clandestina de tevê. Ao aspirar a primeira "linha" o bandido lembrou-se da noite anterior em que os dois gringos foram amarrados na cadeira e torturados. Não tendo obtido as informações so­licitadas por Cabeção sobre a maleta de "dinheiro", decidiu, por conta própria, atear fogo à ONG. Foi aí que o major Corredor para comemorar "mandou" a última carreira, en­trou no paraíso e sorriu de felicidade.

Aurèlien acordou cedo naquela manhã, sôfrego para conhecer logo a ONG dos franceses na Rocinha. Lembrou do temor na voz aflita do interlocutor ao telefone ao se referir à "tapeçaria" e ao "dinheiro", como se receasse de algum perigo iminente.

Desistiu do jipe de turistas, preferiu ir de táxi. O trân­sito estava muito congestionado na Lagoa em direção à Barra. Preocupou-se porque chegaria muito atrasado ao encontro marcado. O engarrafamento era consequência da megaoperação e de uma blitz da Polícia Militar no Túnel Zuzu Angel. Carros e motos só passavam em direção a São Conrado se fossem vistoriados. Os moradores eram revista­dos no acesso à favela. Era um caos.

Um policial o barrou na entrada. Ao dizer que era um turista que ia visitar o amigo francês da ONG, o policial fez uma careta.

Tá mal, cara. Chegou tarde demais — avisou.

Por que tarde? — perguntou Aurèlien, surpreso.

Teve um incêndio na ONG esta noite e os donos morreram.

Que coisa terrível! Como foi que aconteceu?

Só a perícia para dizer como foi. Pode passar. Sobe até aquela casa verde no final, depois vira à direita.

Aurèlien aceitara, nostalgicamente, a versão folclórica de o nome "Rocinha" ser decorrente do fato de antiga­mente ali existir uma grande plantação com aipim, abóbora, agrião, bananeira, couve, repolho, abastecendo os residentes ou vendidos por adolescentes junto à estrada. A Rocinha foi se povoando, foi crescendo, até se tornar uma cidade. Um morador lhe explicou isso na caminhada em aclive:

Hoje, tem tudo de bom que as outras favelas não têm: açougues, farmácias, locadoras, praças, empresa de ôni­bus e vários supermercados. De mal, só tem os traficantes e as mortes. Mas, as outras também têm.

Lá no alto, perto da casa verde, Aurèlien contemplou aquela vista fantástica, aquela obra construída naturalmente, agregando valores naturais, mar, praia e encostas, que faziam da Rocinha um cenário idílico para um estrangeiro, apesar da violência humana. Ao se aproximar da ONG incendiada, viu a área isolada por um cordão e os jornalistas em ação. Ninguém chamou os bombeiros. Imperou a lei do silêncio.

Mais adiante, bem perto do cerco à casa incendiada, Aurèlien viu uma jovem jornalista de óculos de aros ver­melhos, segurando um gravador, ouvindo a dramática des­crição de uma vizinha:

Tinha deixado a janela um pouquinho aberta, e por ali dava para ver as marcas amarelas das balas no céu. Depois da meia-noite, cortaram a luz. Nessa hora o coração dispa­rou. Quando é assim, a gente sabe que o bicho vai pegar. Ouvimos muitos gritos e depois um clarão. Aí começou o fogo. Coitados, que morte horrível!

A perícia tinha recolhido amostras e coberto o que res­tou das vítimas com plásticos negros. Muitos repórteres e fotógrafos já tinham deixado o local. Aproximou-se da re­pórter de óculos e constatou ser ela mais charmosa de perto do que de quando a avistou de longe. Ainda assim, Aurèlien não ouvia o que dizia um velho morador da favela sendo entrevistado por Júlia.

Fui moleque de rua, mas moleque de rua honesta­mente, sem querer "ganhar" o que era dos outros. Pedia co­mida às madames do asfalto e elas me davam. Me criei sozi­nho. Minha primeira profissão foi de entregador de marmitas nas obras. Trabalhei de servente de obras e pedreiro e depois virei sorveteiro. Foi idéia da mulher do francês. Lembro do dia que ela comprou uma caixa de isopor pra mim e eu saí vendendo picolé pela favela. Agora tenho um roteiro fixo. Outra coisa que o francês fez foi me ensinar a ler.

Eles vieram de onde e o que fizeram pela comuni­dade? perguntou Júlia, levantado os óculos com a mão esquerda e olhando em volta para se certificar se seus co­legas tinham ido entrevistar outros moradores em outras bandas da favela.

Só sei, dona, que os franceses fizeram trabalhos de caridade na Bósnia e no México, e aqui criaram essa ONG para ajudar a resgatar jovens brasileiros de uma vida de cri­me e pobreza respondeu o morador, com o semblante carregado de tristeza.

Júlia desconfiou que o velhinho de cabelos brancos tinha mais coisas para dizer, mas estava com medo de falar. Usou de artimanha e esperteza, apelando para a vaidade do favelado.

Pelo jeito, eles gostavam muito do senhor, não é? Os leitores vão adorar saber disso. Não quer contar um pouco para a gente?

O morador se emocionou com as lembranças guarda­das na memória. Ia se calar, mas o coração não resistiu e falou numa voz emocionada:

Estou muito triste, moça. Arrasado com o que acon­teceu. Lembro da felicidade deles vendo as meninas com as bonecas e os meninos com as bolas de gude. Na minha infanda, eu nunca tive disso. Comecei a trabalhar cedo. Os franceses diziam que as crianças precisam brincar porque a vida é uma eterna brincadeira. Não foi o que aconteceu com eles, não é? Era gente muito boa, pode crer. Prometeram-me um chaveirinho com a Torre Eiffel. Queria tanto. Não deu tempo. Ficaram me devendo, moça.

Virando seus olhos para trás, Júlia notou pela primeira vez um homem de braços cruzados, impassível, com um feioso cavanhaque a vigiando a pouca distância. Tinha a pele branquíssima, indício revelador que não devia ser um carioca da gema, o que não era uma razão plausível para estar ali de intrometido. Riu do raciocínio infantil. O estra­nho não aparentava ser um correspondente, nem policial, e muito menos um bandido. Desconfiou ser um estrangeiro curioso e metido, feito o pai.

Acha que o incêndio foi criminoso? — arriscou Jú­lia, atrevida, sem se preocupar com o estranho. Era algo que precisava saber do sorveteiro, pois ele seria capaz de satisfa­zer a sua curiosidade.

Eu acredito que sim. Houve muita maldade, dona.

Contou isso para a polícia ou para alguém?

Deus me livre. Quero a polícia longe daqui!

Por que tem tanta certeza assim? — insistiu a repór­ter Júlia, fingindo-se ingênua.

Eles foram torturados até morrer. É muita ruindade! A francesa desconfiava de um garoto que roubava. Eu acho que não é por aí, dona. Estava acontecendo umas coisas muito estranhas nesse último mês na ONG. Nem gosto de falar disso.

O que, por exemplo? — pressionou Júlia. — Pode dizer?

Nada, bobagem minha. Não quero encrenca pro meu lado — esquivou-se o velho, coçando a cabeça nervo­samente.

Conta só pra mim. Juro que ninguém vai saber.

Prefiro deixar pra outro dia. Hoje, não dá. Estou muito triste.

Só queria saber a verdade. Só vou publicar, se quiser.

Tá bom. Vou tirar o peso da consciência. O francês andava apavorado com um tapete que um cara da Bahia queria vender. Acho que a mulher morreu sem saber disso.

Um tapete? perguntou Júlia, atônita. — Tem certeza?

Dizia que era coisa de muito valor. Era coisa do Satanás. Sei lá se entendi direito a história.Vinha alguém da França pra comprar. Com o dinheiro que ia receber, ia via­jar e reformar a sede da Dois Irmãos e a ONG. Contou que quem ficava com o tapete, morria. Me arrepio todo quando me lembro disso. Estou com medo, dona.

De repente, o velhinho parou de falar, assustado. Júlia olhou para trás e viu o estranho bem próximo dela, ali xeretando. Deve ter ouvido as últimas palavras do morador. Não gostou do olhar perturbador do intrometido, mas con­tinuou o seu trabalho.

Chegou a ver o tapete? perguntou nervosa.

Cruzes! Não vi nem quero ver. Desconfio que o francês morreu porque viu demais. Por favor, tenho de ir sussurrou o velho se afastando, cismado com a presença daquele intruso. Não diga a ninguém o que eu contei. Vão achar que estou maluco, dona.

Quando ia deixar o local do crime, Júlia sentiu a mão forte do desconhecido puxar delicadamente o seu fino braço:

Poderia me conceder alguns minutos, por favor?

Júlia recolocou os óculos e cravou seu olhar investigativo naquele rosto grave e provocativo. Ficou curiosa com a educada abordagem, com o sotaque carregado do desconhecido e principalmente com seu insistente interesse pela entrevista.

Posso saber por quê? — perguntou Júlia, irritada.

Por que tenho coisas importantes que precisa saber. Peço que não publique nada sobre o tapete antes de me ouvir.

Não está pedindo demais? — protestou Júlia, ar­redia, sem esconder a sua contrariedade com a ousadia do pedido que lhe pareceu uma brincadeira ou uma cantada de mau gosto.

Eu posso explicar — disse Aurèlien. — O tapete que sumiu da ONG na noite do incêndio faz parte da maior tapeçaria do mundo.

—Verdade? — perguntou Júlia, com uma ponta de ironia.

Acredite em mim! O tapete faz parte da maior his­tória em quadrinhos do mundo, a saga do Apocalipse. O governo francês está empenhado em recuperar essa peça desaparecida do Castelo de Angers.

Júlia recuou. Acreditou no estranho. Não devia estar mentindo ao falar do castelo e se identificar como um pesquisador francês em missão não oficial. Pontos positivos. Concordou com a proposta de excluir o "tapete" da reportagem que escreveria sobre o incêndio, mas só até ouvir a história completa do Apocalipse e as "coisas importantes" às quais teria acesso. Entenderam-se melhor em francês. Sorriram e combinaram jantar naquela noite.

A pauta do incêndio da ONG fervilhava na cabeça de Júlia. Seu faro jornalístico logo detectou que o "tapete" de inestimável valor histórico era assunto quentíssimo. Não havia por que duvidar do "pesquisador" para descobrir a verdadeira causa das bárbaras execuções dos dois franceses na Rocinha. Concordou em segurar a notícia. Sabia que ali havia um sensacional furo de reportagem, com informações de fontes fidedignas e capazes de darem sensacionais man­chetes em todos os jornais do planeta. Realmente, a noite prometia muitas revelações e surpresas.

Júlia não encontrou na Rocinha somente uma história inédita de Tintin. Quis o destino que encontrasse a história de sua vida.

 

Leonardo programara algo apoteótico para Lisa jamais esquecer aquele dia de sua primeira visita à mansão na qual morou com o seu saudoso pai. Foi buscá-la de limusine branca, alugada, e foram passear pela orla da Zona Sul, bebericando um Perrier Jouet rosé, gelado, em taças de cristal. Uma limusine igual às que circulam ao entardecer em Manhattan com seus vidros negros indevassáveis. Mas se alguém pudesse enxergar, não entenderia por que Lisa se mantinha encolhida no banco de trás, longe das mãos e dos beijos apaixonados do Léo. Por experiência, ela sabia que se deixasse as coisas acontecerem, o jogo de sedução a levaria a cenas luxuriantes e chegaria nua à "cerimônia".

Entraram numa rua de pouco movimento em Botafo­go e, afinal, chegaram ao local tão presente do passado de Léo. Como aguardava com muita curiosidade a visita, tudo era surpresa para Lisa, até a vizinhança de prédios luxuosos que não agradava a Leonardo, em especial um recém-construído de doze andares ao lado do casarão. Soube que tinha uma garagem subterrânea, cuja barulhenta saída dos carros pela rampa de subida era ouvida no interior da mansão. Há poucas ruas dali, estava o Morro Dona Marta, iluminado à noite, à semelhança de uma árvore de Natal.

No interior da mansão, Lisa, usando um vestido novo, se surpreendeu com o esplendor reerguido sob vestígios de reminiscências e glórias dos bons tempos. Tudo foi reconstituído como na época do pai: os quadros, as pratarias, as porcelanas compradas dos leiloeiros e antiquários. Nem sempre as mesmas preciosidades, mas quase idênticas. Viu Leonardo se emocionar com a mesa de jacarandá da sala de jantar e as cadeiras dom José, onde outrora a família se reunia para as refeições e conversar amenidades. O sonho de morar na mansão estava prestes a se realizar. Só faltava ela concordar com a idéia.

Com todas as luzes acesas e os cristais dos lustres relu­zindo nos tetos e nas paredes nunca vazias, percorreram a mansão em passos morosos pelos longos corredores, salas mobiliadas, toaletes, copa, cozinha. Visitaram, no andar de cima, os amplos quartos vazios de pé-direto alto e os suntuo­sos banheiros espelhados. Depois desceram pelas escadarias de mármore rosa pela qual tinham subido e afinal entraram na biblioteca e, silenciosos, contemplaram os livros de todos os gêneros enfileirados nas estantes.

Vendo os livros, Leonardo se lembrou do filho, que podia estar presente. Mas tinha decidido que ele visitaria a mansão depois. Aquele dia era dedicado a Lisa, que ganhou um bracelete de ouro e de brilhantes. Emocionou-se ao di­zer que a jóia pertenceu à sua falecida mãe e ela ficaria con­tente de vê-la usando-a. Lisa ficou muito comovida com a homenagem. Como Leonardo não queria que chorasse, apontou para desviar sua atenção para a estante com a fileira de livros sobre a Inquisição, o grande orgulho bibliófilo do seu pai, e, sem que ela notasse, aproximou-se da lareira.

Ali, em pé, num dos lados da lareira guarnecida por co­lunas de mármore, Leonardo puxou uma grande alavanca para baixo. Ouviu-se um ruidoso mecanismo que fez a larei­ra desaparecer. Surgiu um sombrio corredor e no final dele uma estreita escadaria de granito em caracol. Após descerem calmamente os degraus íngremes, atingiram os subterrâneos da casa. Cruzaram então uma porta de ferro, semelhante aos de um cemitério. Uma sala espaçosa os acolhia, onde convidados os aguardavam para iniciar a solenidade.

Os olhos verdes de Leonardo brilharam na penumbra quando seus pés pisaram no pentagrama invertido na entra­da do "templo". Lisa viu todos os filhos de santo paramen­tados com seus axós, ali aglomerados, se afastar imediata­mente do centro da sala e se enfileirar, lado a lado, abrindo uma clareira para a passagem soberana do dono da mansão e de sua acompanhante, que seguiram até o final do corredor humano, onde um homem alto os aguardava em pé com a pompa e a roupagem fluídica dos exus.Vestia uma longa bata preta com capuz e duas vistosas linhas vermelhas no centro. No fundo, na parede central do recinto, resplandecia magnífico, o quadro 75 do Apocalipse.

Neste ambiente sombrio, denso, característico das tre­vas, sentindo no ar as pesadas irradiações magnéticas, perturbadoras, um nó na garganta sufocou Lisa, mesmo estando ao lado do seu amado, imperturbável às mórbidas sensações emanadas dos subterrâneos. Deu uma vista circular de olhos na sala repleta de sombras flutuantes, movendo-se em lentas e ondeantes evoluções naquele recinto lúgubre, iluminado por longas tochas a querosene. Olhou para o lado direito e viu um trono unicamente iluminado por velas, uma verme­lha e outra preta, em cima de duas caveiras.

O babalorixá, após recebê-los, em pé e solene, deu iní­cio ao toque de abertura, pedindo paz, saúde e prosperidade a todos os presentes e a todos os filhos de santo, que, em silêncio, se ajoelharam, ao som do adjá (uma espécie de sino metálico de três bocas), saudando todos os orixás, de Bará a Oxalá.

Depois, os filhos de santo responderam com a saudação específica de cada orixá. Os alabês puxaram os erês para que os presentes respondessem. Neste momento, o babalo­rixá caminhou até o trono onde se incorporava o "seu Tatá Caveira". Como fulminado por raios do céu, com o cor­po tremendo em transe, ocorreu a manifestação. Foi logo chegando e pedindo as suas oferendas, no que foi atendido pelas ekedes. Bebeu o conhaque numa taça em forma de caveira e fumou o charuto. Começou logo a cantar e a dan­çar. Em seguida, chamou o grande Leonardo para conversar.

Laróyè Exu, Laróyè Exu — saudou Leonardo, batendo palmas. — Moju mojubá, Exu Oba Baba awon Esu! Iba se, o!

O exu seu Tatá Caveira se sacudiu todo em estado de euforia. Invocando os espíritos da natureza, aspirou com vigor o charuto besuntado de saliva para expelir densas nu­vens de fumaça. E depois declamou no mais absoluto super­lativo egocêntrico:

Eu sou a energia, a força primitiva da natureza in­corporada. Eu sou o grande agente mágico do equilíbrio universal, porque sou o maior executor da lei cármica. Eu sou o exu que nunca perde o combate. Tu que és o dono desta casa, tu tens na mão as chaves dos portais, encruzi­lhadas e caminhos, a obrigação de pensar em ti se queres saciar tua sede de justiça. Tu que hoje trancas, destrancas e movimentas dinheiros e superaste as queixas e gemidos dos espíritos trevosos na hora do sofrimento.

Ouviu-se então o som dos tambores. O exu desvia o olhar do foco de luz que ilumina a imagem atemorizante do diabo na parede central para o rosto de Leonardo e pros­segue em voz alta:

Não é só tu que tens sede. Os campos estão secos. As rãs choram de tanta sede e os rios estão cobertos de fo­lhas mortas, caídas das árvores agonizantes. Tens de cumprir agora os desígnios da Lei Cármica. Vingar-te do mal fazen­do a coisa certa com o "olho por olho, dente por dente". Tu não estarás contra a lei, se a justiça não se consumar. Assim, não tens de temer se a lei da ação e reação possa vir a se voltar contra ti mais tarde. Os campos se tornarão verdes e as rãs pularão de novo felizes nos pantanais, e tu, grande Leonardo, saciarás a tua sede de vingança e de dinheiro. Tu serás o vencedor das trevas.

Lisa, ainda em estado de estupefação diante da terrifi­cante Relíquia, que via pela primeira vez, resolveu se juntar a Leonardo, quando o exu, vendo-a se aproximar do trono dourado, ordenou:

Vem cá, sá dona, vem aqui, que alguém quer falar contigo. O exu seu Tatá Caveira desceu do trono e deu passagem a Ogum, o filho mais velho de Oduduà. Leonar­do sussurrou as palavras de saudação que Lisa deve pronun­ciar, reconhecendo o poder de quem "vive à noite", e para suplicar-lhe que a "livre das emboscadas".

Ogum Onirê, meu pai, Ogum Onirê — saudou Lisa.

Sou um dos executores da lei. Sou o mensageiro dos orixás que combatem o veneno com o próprio veneno.

Hipnotizada, Lisa ouve de Ogum a voz de causar ar­repios:

Estou aqui para te ajudar a livrar teu "perna de calça" dos maus pensamentos e atitudes dos espíritos en­carnados. Auxiliar o amado filho de Deus a se libertar dos sentimentos baixos, dos ódios, da vingança, da sensualidade desenfreada, dos vícios de toda estirpe, que alimentam a sua alma gananciosa e amorosa. Só tu poderás ajudá-lo a dar um basta ao derrame de sangue, a que se sente atraído e se julga cada vez mais poderoso, às mortes de inocentes e aos choros das mães infelizes que perderam, por causa da violência, os maridos e os filhos.

Enquanto ouvia, atemorizada, confusa, Lisa repassou o olhar pela parede cinza atrás do trono. Avistou uma de­zena de pequenas plaquetas, sem identificar o significado das letras maiúsculas com datas gravadas, parecendo os ex-votos nas igrejas em comemoração e agradecimento pelos milagres. Ouviu as batidas dos atabaques aumentarem, pois Ogum se enfurece se for tocado baixinho, tido como um ato ofensivo à entidade. Ouviu o deus da guerra prosseguir na pregação como um sermão encomendado:

Hás de tentar de todas as maneiras, pela fé e pelo trabalho espiritual, e, sobretudo, pelo grande amor que tens pelo grande chefe atraí-lo para os caminhos da luz. Cada passo que der nessa direção aumentará sua capacidade de discernimento, aumentando consequentemente a sua luz. Somente assim ele terá condições de evoluir e ser feliz.

Enquanto Lisa conversava com Ogum, Leo tinha os olhos atraídos pela magnificente figura de Satanás, domina­dora no centro do terreiro. Só poderia congratular-se com sua radiosa presença, que lhe trouxe fortuna, poder e amor.

Graças à proteção satânica atingira o estágio mais evoluído e próspero do "ministro da Fazenda", tendo incorporado ao movimento o que havia de mais moderno em gestão financeira. Nada que lembrasse os tempos do Caveirinha.

O tráfico de drogas e de armas vivia o seu auge, tendo a contabilidade computadorizada dos ganhos. Cabeção ti­nha tudo do império da cocaína contabilizado, inclusive os números das pessoas da barbárie. Os cinquenta e dois "ex- votos", há pouco avistados por Lisa, celebravam o ritual dos "devotos inimigos" que supostamente Leonardo conside­rava que tinham levado o pai ao suicídio. O major Corre­dor não poupara ninguém do "caderno negro" do Cabeção. Todas as mortes mereceram um "ex-voto" com as iniciais em maiúsculas dos sepultos e com as respectivas datas das execuções. Havia também as iniciais dos inocentes mortos que lhe garantiram a posse da Relíquia. Segundo a planilha excel, Leonardo não economizara dinheiro nos "acertos de contas" para consumar a sua vingança sanguinária. A morte de um empresário que xingara na Bolsa o pai morto custara 38.798,00.

A contabilidade era a tal ponto meticulosa que registra­va todos os dispêndios com a corrupção em todas as áreas em que Leonardo tinha interesse em atuar, do Exército à Justiça, da polícia a jornalistas, passando por políticos e fajutas organizações de direitos humanos. Tudo era religiosa­mente discriminado em seus exatos valores. Todos os pa­gamentos aos informantes e até o salário a um engenheiro da telefônica para manter um eficiente sistema anti-grampo estavam registrados. Um caixa impressionante de capital de giro. Poucas empresas rivalizavam com a movimentação monetária do império do pó e da barbárie.

As coisas tendiam a "evoluir" com Satanás na mansão. Pela primeira vez, o faturamento do movimento atingiu a casa dos cinquenta milhões de dólares por mês, compatível com o envio de toneladas e toneladas de cocaína para os Estados Unidos e Europa. Juntos, Pimpão e o tio Marcola se tornaram poderosos barões do narcotráfico. À sombra deles fez-se a meteórica prosperidade do Cabeção. Isso só se tornava explicável pelo fato de Pimpão detestar memo­rizar números e fazer contas, delegando tais "serviços" ao ministro da Fazenda, que plenipotenciariamente passou a controlar todas as entradas e as saídas de dinheiro, o fluxo de caixa, os financiamentos e as milionárias aplicações externas do movimento. Controlava também os "laranjas" e as contas fantasmas, aqui e nos paraísos fiscais. O grande Leonardo tinha a chave do cofre do narcotráfico nas mãos. Seus pensamentos se dissiparam ao ouvir Ogum advertir Lisa:

Filha, vejo a lealdade nos teus olhos e não vejo o ódio que leva à traição. Eu vim aqui para te dar um recado. Você está com o encosto de um egum muito perigoso.

Lisa estremeceu ao ouvir tudo que não queria ouvir:

Tu tens de trabalhar tua paz, tens de pegar, tens de seduzir este espírito que está te obsediando. Para que tu possas resgatar o "espírito caído" das trevas, que se aproxi­mou de ti com a alma maculada pela vingança e pela ga­nância, e querendo te impor males e feitiços, tu vais precisar fazer uma obrigação. Ordeno a obrigação para despachar este egum, que precisa ser afastado para que a tua vida possa progredir em paz! Se não fizer, não tens salvação, tu matarás teu amado no fogo e no fogo tu morrerás também, se não agires com inteligência e astúcia.

Dito isso, com a garantia de que somente com a imo­lação de animais, ela estaria para sempre protegida, Ogum empunha sua espada e a enterra no chão. Era como se a terra se abrisse e desaparecesse aos olhos de Lisa, comple­tamente atônita, pois o bori de quatro patas já estava pron­to para a oferenda. Para o sacrifício da obrigação, mataram também quatro galos brancos, colocados cada qual nas qua­tro patas do bode, um alguidar com farofa, dendê, cebola, pimenta, limão e semente de mamona. Em volta, sete ve­las pretas e sete vermelhas, todas acesas. Tudo foi preparado com antecedência pelos filhos de santo num pano preto em cima do pentagrama perto da porta de saída. O "reforço de cabeça" foi feito com o intuito de melhorar as condições gerais de "sá dona". Os participantes colocaram-se lado a lado, formando uma roda de mãos dadas em volta de Lisa e dançando ao ritmo do tambor, que ia aumentando cada vez mais de intensidade.

Terminada a obrigação, Ogum deu, novamente, pas­sagem ao exu que voltou a beber seu conhaque, fumou o charuto e "subiu" abruptamente, sem esperar sequer que cantassem o ponto de subida. Neste momento, Leonardo e Lisa se retiraram do recinto, deixando que os filhos de santo encerrassem a sessão.

Venha morar aqui, Lisa. Prometo que será a minha deusa.

Pensei que já fosse — ironizou Lisa, sorrindo.

Por favor, Lisa, falo sério. Pense nisso. Não saberia viver sem você. Venha morar aqui. Só lamento que meu pai não a conheceu.

Estou muito mexida pelas entidades para responder agora.

Por favor, não negue essa esperança de luz na minha vida. Diga "sim".

Tenho de consultar os astros, amor. Esta mansão car­rega energias cármicas muito negativas. Preciso de um tem­po para me acostumar com a idéia.

Para não descontentar Leonardo, entusiasmado com a cerimônia de inauguração do templo e da consagração da Relíquia nos subterrâneos da mansão, procurou ganhar mais tempo. Lisa não quis comunicar-lhe a decisão já tomada de não viver naquele santuário assombrado por fantasmas e infortúnios. O bracelete de ouro e brilhantes, balançando em seu pulso, tornou-se o sinete que a fazia lembrar as palavras de Ogum: "Se não fizer, não tens salvação, tu matarás teu amado no fogo e no fogo tu morrerás também". Mas por mais que seu rosto se crispasse de angústia, por enquanto, ainda não quebraria a promessa feita a si mesma que consul­taria as efemérides para prever os trâmites de sua vida. Não o fazia talvez por temer que elas confirmassem a entrada de Plutão na casa doze do seu mapa natal, significando o início de um ciclo de morte e de renascimento em sua vida. Tinha certeza de que o deus das trevas estava por perto...

 

Júlia fez a escolha certa, prevendo que, no varandão do restaurante na Lagoa, o pesquisador se sentiria mais à vontade para cochichar os segredos do diabólico tapete. O trânsito fluía muito lentamente na Epitácio Pessoa. Quando ia começar a falar, Aurèlien Kleber avistou uma limusine bran­ca passando. Os vidros indevassáveis não deixavam ver os ocupantes. Apontou a limusine para Júlia, que também se surpreendeu com aquela extravagância, incomum nas ruas congestionadas do Rio.

Aurèlien primeiro mostrou as fotos da tapeçaria no Castelo de Angers, enfatizando a importância da recupera­ção do quadro perdido para o patrimônio da França e a fé religiosa. Depois reproduziu o aflito e enigmático telefone­ma do francês da sede da ONG na Rocinha.

Só isso que tem para me dizer? perguntou Júlia, desanimada, depois de ouvi-lo atentamente. Nem sabe se a cena trazida da Bahia é autêntica. Não tem nenhuma pista concreta.

É verdade. Mas eu sei que tudo é uma questão de tempo e de persistência para achar o mapa do tesouro. Não acredita nisso?

Nenhum conhecedor de arte viu o tapete e nin­guém sabe onde ele está. Como vai conseguir? — questio­nou Júlia, pessimista.

Não acha que essas respostas só vão depender de nós?

Júlia não replicou. Ficou pensativa. Passou a língua pe­los lábios para umedecê-los, sem tirar os olhos do rosto do "francesinho", como tia Amélia o definiria se o conheces­se. Impressionara-se com aquele rosto incomum. No topo havia um topete atrevido, saindo do meio da testa, e no queixo anguloso, um inusitado cavanhaque. Tinha também olhos penetrantes, com pestanas que não paravam de se me­xer. Uma composição estranha, mas simpática. Júlia pesou os prós e os contras e chegou à conclusão de que nada tinha a perder com a proposta de trabalharem juntos. Afinal, era algo puramente profissional que os movia nas sombras do Apocalipse, atraídos pelo fascínio e pelos mistérios da gran­de causa e da cruzada religiosa.

Combinaram dividir as tarefas de buscas. Aurèlien pes­quisaria a vinda da tapeçaria para o Brasil e sua autenticida­de, e ela procuraria as pistas do paradeiro do quadro 75. Pelo sim, pelo não, nenhuma notícia seria publicada, até alguma comprovação das buscas.

Aurèlien ficou satisfeito com o encontro profissional, pois Júlia lhe pareceu confiável. Tinha a sagacidade da re­pórter tinhosa. Notou na água-marinha dos seus olhos uma certa ansiedade que nada tinha de jornalística. Mas não quis se delongar em meras elucubrações psicológicas. Estava an­sioso em relatar ao curador os últimos acontecimentos e re­ceber instruções sobre o seu destino depois do desencontro na Roziná.

Dias depois, foi convocado pelo cônsul francês e desig­nado o procurador da família dos franceses da ONG. Foi encarregado de repatriar os corpos das vítimas para a França e arrolar os pertences. Foi a astuciosa maneira de prolongar a sua estada e assim dar tempo para superar os imprevis­tos da missão. Com a nomeação pôde abrir o jogo para o promotor, que se precisasse faria a conexão com a polícia, sem se expor, e de certa forma contaria com um parceiro. Lembrou-se do velhinho de cabelos brancos da favela e da cobrança da miniatura da Torre Eiffel que os franceses mor­tos lhe ficaram devendo.

Voltou à Rocinha, e a pretexto de arrolar os poucos bens da ONG não danificados, foi ao encalço do sorveteiro no seu "roteiro fixo". Não foi difícil encontrá-lo, nem fazê-lo falar. Bastou Aurèlien doar o seu próprio chaveiro da miniatura da Torre Eiffel, fingindo ter achado o souvenir prometido nos escombros, para o velhinho, emocionado, tornar-se loquaz e cooperativo, bem como risonho.

Lembra se o francês ficou com o tapete ou devolveu para quem o trouxe? — perguntou Aurèlien, depois de se inteirar de tudo.

Não estou lembrado se o baiano levou de volta o tapete. Acho que sim.

Pense bem — insistiu Aurèlien. — Isso é muito im­portante.

Desculpe, dotô, minha memória está mal. Está fa­lhando.

Quem mais viu o tapete? — perguntou Aurèlien.

O Tinhão, eu sei que viu. O francês pediu para ele examinar o tapete. O cara disse que valia muito dinheiro.

— Sabe onde posso encontrá-lo? — perguntou Au­rèlien, ansioso e também surpreso com o apelido, que lhe parecia soar como um palavrão.

Era professor na ONG. E gente boa. Vai gostar dele.

Na Rocinha, soube que os franceses foram barbara­mente espancados e torturados pelos bandidos com um sabre, antes de morrerem queimados, e as suspeitas da po­lícia recaíam no menor que foi criado pelos franceses e os roubava para comprar drogas. Mas, os moradores achavam que devia haver "gente graúda" por trás disso, envolvida no incêndio criminoso.

Obtida a preciosa informação, Aurèlien se preocupou em chegar ao endereço indicado pelo sorveteiro.Telefonou para saber quando Tinhão dava aula na Casa de Capacita­ção Profissional. Não marcou nada pelo celular. Ainda ti­nha na cabeça a lembrança da trágica experiência telefônica em que o francês da ONG adiara o encontro para o dia seguinte e morreu. Tivesse-o recebido imediatamente na Dois Irmãos, quiçá estaria vivo. Assim, não perdeu tempo em se encontrar logo com o Tinhão, que o recebeu como um velho amigo do francês.

Alguma dúvida da autenticidade? — insistiu Aurè­lien, após as apresentações e ao se simpatizarem por meio da confiança mútua que a situação exigia.

Nenhuma. Eu fui bolsista do curso no Centro de Formação Têxtil em Quebec, no Canadá. Deu logo para ver que era uma antiga e autêntica tapeçaria em alto-relevo pelo bordado dos fios de lã e pelas cores vivas. Nas tintas usaram plantas floríferas. As resedáceas para as nuances do amarelo, as rubiáceas para os vermelhos e o tom pastel para os azuis.

Estava muito danificada? perguntou Aurèlien, em tom ansioso.

Era uma obra de arte muita linda. Só tinha um pe­queno furinho no canto de cima. Bem pequeno. Não passava o meu dedo mindinho. Deve valer uma baba no mercado.

Sabe quem trouxe a tapeçaria para a ONG?

Foi um pai de santo de Salvador. Conheci o cara.

Pai de santo? O que é isso, agora?

Deixa pra lá, amigo. O cara só veio para o Rio para mostrar o tapete ao francês. Disse que a França ia pagar mi­lhões de euros se fosse autêntico. E ele sabia que era.

Lembra da cena do tapete? indagou Aurèlien, demonstrando desinteresse pelo valor monetário e apenas preocupação com a autenticidade. Mesmo porque se tivesse algum dinheiro envolvido além de suas diárias, o curador e o tio o teriam avisado desde o início da missão.

Claro! Não dá para esquecer a figura do diabo en­jaulado e os cadeados grandes. Uma imagem impressionante.

Não dá para reproduzir a imagem? Eu pago o tra­balho.

Nem fale isso! reagiu o artista, constrangido e ofendido. O que há? O francês era meu amigão. Pó! Pas­sa aqui amanhã, que você leva o desenho na amizade.

Não pode ser hoje? pressionou Aurèlien, que­rendo obter imediatamente um indício seguro de que o quadro estava no Brasil e era autêntico.

À noite, o policial, campeão de arco e flecha, telefonou para Júlia. Combinaram um novo encontro. Depois narrou tudo para o promotor, inclusive o jantar com a repórter. O promotor quis ver a imagem e saber mais sobre Júlia. Mos­trou o desenho do artista, mas omitiu a descrição física da parceira, seus lábios úmidos, os seios redondos e a silhueta ágil da jovem repórter. Referiu-se apenas a uma jornalista "legal", com muitos elogios à sua competência profissional. O promotor ouviu tudo e resumiu a história da descoberta e da repórter assim:

—- Sei, sei... uma jornalista legal de olhos azuis. Te cuida, amigo. Aurèlien entendeu o recado que não devia deixar a notícia do quadro vazar para a imprensa, mes­mo que tivesse de calar a boca sensual da repórter com um bom esparadrapo francês ou na falta dele com os seus próprios lábios carnudos para manter o diabólico segredo bem guardado.

As manchetes dos noticiários das tevês noturnas e dos jornais na manhã seguinte comentaram o assassinato dos fran­ceses da ONG na Rocinha e as tumultuosas manifestações da comunidade contra a invasão policial. Nenhum noticiário fez menção ao tapete desaparecido do Castelo de Angers.

Júlia ficou satisfeita com o encontro profissional, por­que Aurèlien lhe parecia confiável. Tinha a obsessão do pesquisador sagaz. De perto, reparou ter os olhos tristes de um homem mal-amado. Bem, não tinha tempo a perder com elucubrações psicológicas. Tinha de mergulhar no plantão das delegacias em busca de informações sobre quem pode­ria estar com o tapete tão procurado.

Ouvira a explicação de Aurèlien de que o quadro per­dido representava uma figura diabólica aprisionada. Havia uma grande curiosidade a respeito, porque ninguém jamais vira a imagem autêntica do Satanás enjaulado. Estava per­plexa: segurava uma bomba de treze kton de TNT na mão, mas não tinha o detonador para explodir a notícia na pri­meira página. Quem teria roubado a peça? Avaliou que se conseguisse essa resposta, obteria o furo do ano por divulgar a causa do incêndio criminoso da ONG.

Júlia falou rapidamente com Aurèlien pelo celular, que a avisou ter boas notícias, sem adiantar quais eram. Ficou preocupada por não ter ainda descoberto nenhum fato novo.

Estava saindo da delegacia, quando cruzou no corredor com um suspeito liberado e seu respectivo advogado. O rosto não lhe pareceu totalmente estranho. Ao remexer casualmen­te no punho da manga da blusa, veio-lhe a lembrança do que aconteceu na Rocinha. Estava entrevistando o delega­do quando deu ordem para o mulato musculoso ser preso e algemado num poste. O traficante não parava de xingar os policiais. Gravou a cena dos gritos na sua memória.

Quem é o elemento ali, liberado? — perguntou Jú­lia, a um detetive, seu conhecido, antes que o apontado de­saparecesse de vista.

Aquele meliante ali? — quis certificar-se o policial.

É! Tem uma tatuagem na testa e outra no braço direito.

Estava na central clandestina de tevê na Rocinha. Está tudo no registro de ocorrência. Vai lá, antes de o R. O. cair no cemitério das almas perdidas — disse o policial, rin­do e piscando o olho.

Júlia tinha visto pequenos números tatuados na testa do "elemento".Tinha certeza de que um dos números era seis. Não viu os outros números. Também enxergou uma tatua­gem média na mão direita. Não saberia descrever o que viu apenas de relance, mas reconheceria a estranha imagem se a visse novamente.

Ao procurar noutra sala da delegacia o velho amigo escrevente, também oriundo de Mauá, o batimento acelerado da têmpora de Júlia indicava que sua intuição estava na pista certa. Ao avistá-la de longe, ele já abrira o largo sorriso de amizade. Os colares de ouro balançaram muito no afetuoso abraço e na troca de beijinhos entre os dois.

—Viu aquele cara da estação clandestina da Rocinha?

Está no R. O. Quer ver? — perguntou o funcionário.

Não. Quero saber se viu as tatuagens?

—Vi, sim. O traficante tinha na testa um número 666. Três seis miudinhos — respondeu o amigo, mostrando o tamanho com a ponta dos dedos. — Mas o que me chamou a atenção foi a do braço. Não dá pra esquecer.

O que era assim de tão diferente?

Um monstro de sete cabeças. Dizem que ele dá azar.

De volta à redação, bastaram as "coisas importantes" re­veladas e descobertas para deixar seus neurônios fervilhando. Ficara impressionada com o que Aurèlien contou da leitura das Sagradas Escrituras feita pelo tio, o padre Antoine, um estudioso da Bíblia e do Apocalipse. Estava escrito que um líder governaria o mundo por sete anos. Revolucionaria a economia e influenciaria os homens. Todos os seguidores seriam marcados com o número 666. A justificativa para o número 666 era simples: 6 é o número do homem, porque foi criado no sexto dia por Deus; 3 é o número de Deus, porque Ele é uma trindade (Pai, Filho e Espírito Santo, a Santíssima Trindade). Assim, o número 666 é o homem (o 6 repetido três vezes), que se declara um deus, (representado pelo número 6). No livro do Apocalipse, o homem é cha­mado de Anticristo, e assim o número teria conexão com a marca da Besta, personificando o dragão de sete cabeças que fez descer o fogo do céu sobre a Terra. Lembrou tam­bém da outra historinha contada pelo pesquisador:

Dizem que a pirâmide do Louvre, que dá acesso ao museu, ia ser construída com exatas 666 placas de vidro. Por solicitação pessoal de François Mitterrand, presiden­te da República, junto ao arquiteto sino-americano Ieoh Ming Pei, a pirâmide passou a ter seiscentos e três losangos e setenta meios-losangos, num total de seiscentas e setenta e três placas. Essa versão nunca foi oficialmente desmentida.

Segundo o arqueiro, o sinal ou a marca da Besta sempre foi alvo de interpretações, levando em conta a supremacia do mal. Por influência do tio, Aurèlien acreditava ser o nú­mero 666 o sinal do demônio gravado na mão direita e na testa dos adoradores de Satanás. Sua expressão "é o número do homem", notório a todos, inclusive para as pessoas ile­tradas que reconhecem e aceitam os números satânicos com facilidade e adoração.

À noite, Júlia telefonou para Aurèlien e contou tudo da delegacia. Depois contou para tia Amélia como foi o jantar com o pesquisador e as últimas descobertas. Muito assustada com o relato jornalístico, a tia quis saber se não estava com medo e se pretendia conhecer um pouco mais o "francesinho". Júlia a tranquilizou e despistou os deta­lhes físicos, rotulando o pesquisador de apenas um "cara legal". No seu jeito maternal, a tia resumiu a história do tapete suspeito e o primeiro encontro com Aurèlien assim:

Aí tem coisa minha filha. Cuidado com esse diabo solto, zanzando por aí!

 

O tempo só fez confirmar as previsões astrológicas, coincidentemente depois que a Relíquia apareceu na vida de Cabeção. Ele passou a viver no fio da navalha, cada vez mais rico e poderoso com a participação nos lucros do tráfico, das fraudulentas concorrências públicas e das empresas de fachada que organizou com a ajuda do professor Carlos Al­berto Guimarães. A única coisa que não conseguira ainda foi convencer Lisa a morar na mansão, surgindo as primeiras rusgas do casal, mesmo depois de ela ter ganhado a pulseira de sua mãe, ter participado da gira e ouvido o conselho de Ogum. No entanto, como adotara a divisa favorita de Lisa: tudo tem seu tempo, estava confiante. Sabia que se a levasse para visitar Nova York em lua de mel e Lucca para estudar nos Estados Unidos, ela mudaria de idéia.

O fato é que as giras do candomblé se revelaram um sucesso. Mas o dono do terreiro optou por manter a ceri­mônia de culto ao diabo com a Relíquia restrita aos pra­ticantes, com raras exceções. O público e as autoridades desconheciam os rituais entre quatro paredes. O que acir­rou a curiosidade da comunidade satanista, interligada por secretos canais de comunicação, a ponto de um dia Leo­nardo receber um telefonema do grão-mestre Pierre, o lí­der da poderosa seita religiosa secreta francesa, sediada nos arredores de Avignon. Manteve contatos telefônicos e troca de e-mails, até se interessar em conversar com um emissário.

Assim, Leonardo não pôde viajar para Nova York. Compromissos inadiáveis, como receber o desconhecido "religioso" francês, vindo do sul da França, o retiveram no Rio.

Depois das saudações protocolares, Leonardo e o emis­sário se dirigiram até o subsolo da casa. Pisaram no penta­grama invertido rodeado pelas duas fileiras de colunas de grande diâmetro de sustentação dos dois andares da mansão. O anfitrião observou como os olhos penetrantes do visi­tante percorreram as paredes lisas do recinto até se fixarem no fundo do subterrâneo, onde se engrandecia a figura dominante do diabo ocupando o muro central. Leonardo viu a figura soturna do religioso, vestido todo de preto na sua assustadora magreza e alisando a pontiaguda barba grisalha, dar dois passos à frente, inclinar a cabeça, saudando com reverência a imagem proeminente, e ali ficar, por minutos, de boca aberta como se estivesse à espera de ser agraciado com uma hóstia.

É magnífica a imagem da Besta. Valeu a viagem.

O visitante também viu um trono dourado no centro de uma das paredes laterais, circundado por duas séries de pequenas placas brancas de mármore, como se fossem mor­tuárias.

Leonardo logo indagou ao visitante francês como ele soube que estava de posse da Relíquia. O enviado respon­deu que não havia segredos para a Ordem do Diabo. Dei­xou insinuado com um malicioso sorriso que as entidades da magia negra eram falastronas e as notícias se espalhavam pela internet rapidamente. A conversa com o desconhecido sobre o satanismo e a Inquisição o fez recordar a figura do pai, que lhe contara como o inquisidor na Idade Média agia para distinguir os católicos dos hereges nos tribunais: "Ma­tem a todos. Deus cuidará dos seus".

A visão da Besta é impressionante — confirmou Leonardo, sorrindo, conhecedor da procedência da peça bíblica e do seu valor. O pai de santo baiano dera, antes de morrer, sob tortura, todas as indicações do interesse do governo francês, inclusive admitindo a vinda de alguém ao Rio para comprar o quadro.

É pedir muito, senhor Leonardo, querer examinar o quadro de perto? — indagou, com o olhar fixo nos olhos da Besta.

Claro que não. Examine o tempo que quiser.

Uma profunda emoção, como que proveniente de uma comunicação secreta, tomou conta do satanista, em êxtase, diante da contemplação de cada detalhe da imagem.

O senhor não imagina como o ódio acumulado nes­ses séculos se aquieta diante dessa visão iluminadora para a Ordem do Diabo. Acredite, ela faz parte integrante da nossa história, desde a fundação da ordem em 1314, por Abbé Chevalier, após a morte do grão-mestre Jacques de Molay e dos cavaleiros templários. Eles foram perseguidos por toda a França por agentes do rei Felipe IV com o apoio do papa Clemente VI. Foram torturados e condenados à fogueira, acusados de heresias. Nossa ordem se fundou sob o símbolo da maldição templária. Foi a primeira organização religiosa de credo satânico do mundo.

Meu pai também morreu injustiçado. Sei o que é isso.

A Igreja Católica acusou os templários de adorarem o diabo, cuspirem na cruz e praticarem o homossexualismo. O diabo se tornou o bode expiatório da condenação e da matança de todos os templários na fogueira. O grão-mestre morreu queimado, desafiando o papa e o rei diante de Deus e gritando que a maldição do diabo ia pegar a todos em sua vingança.

O emissário alisou a longa barba e discorreu sobre a Bíblia Satânica e a "denúncia infernal", que faziam parte do culto. Enfatizou que Satã sempre foi o melhor amigo que a Igreja já teve, porque sem ele sua existência por todos esses anos não teria sido possível. Para a seita, é obrigação de todo satanista "fazer com que o novo homem ascenda ao sucesso material como a sua razão de viver". Fez uma ligeira digressão sobre o ritual realizado por um mestre sa­tânico, que consiste em derramar o sangue de uma criança posto em um cálice de prata sobre o corpo de uma mulher nua. E suas últimas palavras evidenciavam que a ordem ti­nha cada vez mais seguidores, dispostos a qualquer sacrifício para engrandecê-la.

Usaremos todos os meios para impedir que a cena da Besta, que está no Brasil, volte para a tapeçaria do Apo­calipse, no Castelo de Angers.Todos que estiverem no nosso alcance.

Como assim? — indagou Leonardo, curioso com a ameaça.

Conhece a passagem bíblica sobre o diabo enjaulado?

Nã... Não... — gaguejou Leonardo, constrangido por desconhecê-la.

Permita-me então recitá-la: "E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande corrente na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos. E lançou-o no abismo, e ali o fechou, e o selou, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem". Entende por que os peregrinos católicos glorificarão a cena do diabo se ela voltar para o Apocalipse? Vão execrá-lo no abismo do mal. E essa a principal razão para nós, os representantes do ver­dadeiro satanismo, nos insurgirmos contra essa prisão por mil anos no Castelo de Angers. Queremos libertá-lo e viver em comunhão com o diabo. O senhor entendeu agora por que usaremos de todos os meios para impedir que ele seja encarcerado? Pela ameaça que sua prisão representa para nossa seita. Tememos que haja uma perda de poder e de dinheiro.

Subitamente, no subsolo onde estavam, ouviu-se o ruído da freada de um carro na garagem do condomínio vizinho, seguido de um ligeiro tremor atrás do trono dou­rado, ornado por duas caveiras.

Não se assuste. Tive de sacrificar a parede lateral para ter mais espaço para o trono. Ela está encostada à parede do subsolo do prédio ao lado. Às vezes, ouvimos uma cantada de pneu. Só isso.

Senhor Leonardo, o grão-mestre Pierre me incum­biu de lhe fazer a proposta de compra da tapeçaria. Agora que sabe a importância e o seu significado para a ordem, faça o seu preço.

O senhor sabe que não é apenas uma questão de preço.

Não se iluda, senhor Leonardo, o governo francês tem o dinheiro disponível, mas duvido que eles paguem. Ainda não sabem que o senhor tem o quadro. Estão procu­rando. Por enquanto, só nós, os satanistas, sabemos da Relí­quia, e a ordem está disposta a pagar um preço justo. Tome cuidado que eles não brincam em serviço. Faça, por favor, a sua oferta, antes que seja tarde demais.

Não é o preço que está dificultando a venda. A Re­líquia me trouxe muito dinheiro e sorte, muito mais do que eu podia imaginar. As reuniões do batuque às quintas-feiras são feitas aqui. Ela agora faz parte da gira e da mansão do meu pai. Não sei se quero vender.

Não imagino o senhor recusar uma quantia consi­derável.

E preciso ver além das pessoas. São as crenças que movem os homens. O dinheiro vem depois — disse Leo­nardo, com um ar petulante de quem não pretende se des­fazer facilmente da Relíquia.

Também pensamos assim. A ordem jamais permitirá que a imagem do diabo retorne a Angers, nem que para isso tenhamos de mandar o castelo pelos ares. E o faremos, se voltar. Nós, em Avignon, acreditamos que a tapeçaria nos pertence desde o dia em que foi tecida em Paris em 1378. Mas, se ficar no Brasil, estará em boas mãos. Respeitamos as suas crenças, senhor Leonardo.

Está bem. Diga ao grão-mestre Pierre que o senhor me sensibilizou e se decidir vender o quadro, ele será da ordem.

Não vai se arrepender. Se o senhor seu pai fosse vivo, tenho certeza de que aprovaria a sua sábia decisão — justificou o emissário, ao se despedir cerimoniosamente do anfitrião, fingindo-se de agradecido com o acerto final. — Até breve!

O satanista soube disfarçar a missão da qual fora in­cumbido no Brasil. Ele devia atestar a autenticidade da obra e arregimentar bons profissionais locais para invadirem a mansão e roubarem a valiosa Relíquia, sem gastar um tostão na compra. Tudo devia ser feito antes de o governo francês pagar o resgate.

Por sua vez, Leonardo, após o encontro com o "reli­gioso", de volta ao subsolo da mansão, perto das primeiras colunas do templo, sem a ressonância dos ruídos de freadas e do som do adjá, amadurecia o plano B. Precisava dar um jeito de receber os milhões do governo francês, sem ter de entregar a tapeçaria, e de vender à ordem, sem remorso pela nobre causa, isto, claro, somente se decidisse passá-la adiante, coisa que lhe parecia improvável pelo apego cada vez maior ao diabo solto.

O que mais Leonardo gostou na conversa do satanista foi descobrir as últimas palavras do grão-mestre Molay an­tes de morrer na fogueira: "Deixe estar, que logo a maldição do diabo cuidará dos que nos condenaram". Ele explicou que meses depois o papa Clemente VI morreu e o rei Feli­pe IV foi assassinado. Assim, onde quer que a tela do diabo "morasse", na mansão ou em Avignon, Satanás estaria livre para ajudar os seus seguidores na vitória da vingança.

Enquanto isso, na Praça General Tibúrcio, na Urca, Jú­lia se encontrava novamente com Aurèlien. Era um bairro da Zona Sul onde a criminalidade era praticamente nula e, portanto, muito valorizado por ser um dos poucos da ci­dade que não possuía nenhuma favela. Um lugar aprazível e sossegado para conversar, debaixo dos bondinhos do Pão de Açúcar, transformados em mensageiros que levavam e traziam notícias alvissareiras das alturas. Conversando, tro­cando ideias, se conhecendo melhor e com ajuda celestial, haveriam de destrinchar os enigmas.

Tanto Aurèlien quanto Júlia tinham visto, na véspera, na televisão, as cenas da invasão policial na Favela da Ro­cinha, as manifestações de protesto e os comoventes relatos sobre o brutal assassinato dos franceses na Sexta-Feira da Paixão, dramatizados pelas vozes consternadas dos morado­res nas ladeiras e becos da maior favela da América Latina. As mortes violentas ainda repercutiam na imprensa local e mundial, enquanto as autoridades voltaram a comentar a sempre adiada intervenção das Forças Armadas para com­bater o crime organizado.

—Você me disse que a peça foi entregue a um padre em Salvador — disse Júlia, como se duvidasse da informação.

Não fui eu. Quem disse foram os alunos do padre Antoine, que se confundiram e traduziram pai de santo por santo padre.

Nossa! Pai de santo é o dono do terreiro no candom­blé. Não tem nada a ver com catolicismo — explicou Júlia, rindo do engano. — Pode ser uma boa pista para começar.

Entre o vaivém dos bondinhos, sentados num banqui­nho da praça, Júlia relatou a descoberta da tatuagem com três números seis e a do estranho monstro, vistos rapida­mente na testa e no braço de um bandido na delegacia visi­tada no dia seguinte ao jantar na Lagoa. Saberia identificá-los se os visse de novo? Aurèlien mostrou-lhe o desenho do professor da ONG, Tinhão. Ela ficou fascinada pela imagem do diabo. Revirou o desenho de todos os ângulos e não se conteve:

Minha nossa! Que coincidência! O monstro de sete cabeças da tatuagem é muito parecido com o diabo do desenho.

Do que suspeita, Júlia? — perguntou o policial Aurèlien.

Não custa dar uma checada nas delegacias e des­cobrir em que favela a bandidagem tatuada de 666 bate o ponto. Acho que pode haver uma conexão entre as duas pistas, pais de santo e tatuados. Sabe qual é a sensação que estou tendo agora? — indagou Júlia, retirando os óculos de grau para limpá-los.

Diga — insistiu Aurèlien, apostando no faro da re­pórter.

Lembra da brincadeira chicote-queimado? Um objeto era escondido e depois procurado pelas crianças. E cada vez que se aproximavam do lugar onde o objeto esta­va escondido, a criança que o tinha escondido dizia: "Está quente!" e quando se afastavam dizia: "Está frio". Eu acho que a coisa está fervendo. Estamos muito perto da boca do inferno. — E logo perguntou: — Está com o laptop aí?

Ele nunca me abandona depois que nos apaixonamos — respondeu, rindo e mostrando o laptop numa mochila.

Então vamos fazer uma lista de nomes de terreiros e de endereços de tatuadores na cidade e sair a campo. Topa?

Ali mesmo no banquinho da praça, debaixo de uma ár­vore, entre a estátua de Chopin e o mar, os dois começaram a montar a lista de terreiros e tatuadores. Ao se sentarem próximos, Aurèlien pôde respirar a fragrância da colônia de flores serranas. Era como se Júlia exalasse a sua deliciosa essência feminina, envolvente, que o deixou nostálgico por instantes. Lembrou do tempo em que o regimento escalou um flanco do Mont Blanc e ele sentiu o perfume das edelweiss. Era igual ao da pele de Júlia.

Vou dar um pulo nas delegacias para pesquisar.

Posso acompanhá-la, se quiser — ofereceu-se Au­rèlien. Alguém tem de protegê-la. Satanás costuma ser perigoso.

Pode ser respondeu Júlia, com um sorriso maro­to, segurando a medalhinha de Santa Terezinha.

Naquela manhã ensolarada, havia algo diferente no ar. Não eram os bondinhos que, como bolhas de sabão, habi­tualmente levavam sonhos e traziam esperanças. Eram as promessas das alturas. O Pão de Açúcar, outrora chamado de Pain de Sucre pelos franceses invasores, testemunha o amor nascente no horizonte do mar bravio da Praia Vermelha, ou, simplesmente, segreda a Iemanjá que o diabo estava prestes a ser enjaulado por mil anos.

O curador Ferdinand podia comemorar as boas notí­cias da semana. Recebeu o e-mail do policial Aurèlien com o caprichado desenho de Tinhão. Pela primeira vez, a Associação Geral dos Curadores de Coleções Públicas tinha uma pista confiável da recuperação da cena desaparecida do Apocalipse. Além disso, concomitantemente, conseguira tracejar no mapa-múndi — com a ajuda dos garotos internautas do padre Antoine a longa peregrinação do quadro 75 pelo Velho Continente até aportar na hospitaleira Baía de Todos os Santos, no Estado da Bahia.

— Nem Jasão foi tão aventureiro no resgate do Velo de Ouro — disse o curador para Antoine, brindando a desco­berta com um Saumur, aos aromas de petits fruits rouges.

Juntos, embasbacados, apreciaram o desenho recebido. E, com olhos sonhadores, se imaginaram percorrendo o su­posto trajeto da tapeçaria, reconstituído pelos internautas, a partir do Vale do Loire, na França, à voivodia de Cracóvia, na Polônia, acreditando-se que o quadro tenha saído das mãos do monsenhor Angebault para as do judeu Ladislau Zalsupin por volta de 1845. Apurou-se que, no seio da fa­mília Zalsupin, havia desavenças a respeito do quadro nunca exibido em público, por conta da suspeita que fora empres­tado, sem nunca ter sido devolvido — ou pior — roubado. Temendo o escândalo e a polícia, e por se tratar da figura da Besta de Sete Cabeças, foi conservada no sótão das casas por décadas pelos patriarcas como um tesouro maldito. Descon­fiados de que o quadro pudesse carregar uma maldição pelo número cada vez maior de mortes na família e receando o seu extermínio, tanto mais que os nazistas haviam invadido a Polônia, o patriarca da última geração dos Zalsupins re­solveu, no Natal de 1939, doar o quadro ao castelo. Coin­cidentemente a cidade francesa abrigava na época a sede do governo polonês, que se transferiu da Polônia para se instalar no Castelo de Pignerolles, em Angers.

Augusto, o único solteiro dos tetranetos, partiu de Cra­cóvia, com a tela maldita. Ao chegar ao Vale do Loire, en­frentou a seguinte situação: o governo polonês, em exílio, em Angers, já tinha abandonado a cidade, por ter se tornado o centro regional da Gestapo em junho de 1940. Temen­do ser deportado ou morrer num campo de concentração, atravessou os Pireneus e fugiu para Portugal.

O tetraneto polonês permaneceu até o fim da guerra em Lisboa com o tapete escondido debaixo da cama. Veio morar em Salvador ao se apaixonar pela bela mulata baiana, aeromoça de um avião Constellation, da Panair do Brasil. Como diretor de uma companhia de seguros prosperou e ficou conhecido na Bahia como um apreciador de vodca e de samba. Na literatura de cordel, descobriu-se uma xi­logravura que ilustra o homem da Cracóvia com o suposto "tapete" enrolado debaixo do pé e um copo de Wiborowa na mão. Foi também achada a última carta do securitário a sua irmã em Varsóvia — a única sobrevivente de Auschwitz. Nela contou que abandonou a tapeçaria num terreiro. Um "santo padre local" o convencera a fazê-lo, senão morreria pela maldição do diabo solto desde a morte dos templários. Depois da expedição desta carta, Augusto morreu de um enfarte fulminante nas escadarias da Igreja do Bonfim.

Nas transcrições e registros posteriores, os "meninos" do padre Antoine traduziram erradamente "pai de santo" por "santo padre". O que não invalidou o indício que o dono francês da ONG forneceu ao curador Ferdinand de Sailly, ao transcrever sua conversa com o orixá baiano na Rocinha. O pai de santo teria lhe dito que numa noite em que consultou os dezesseis búzios, foi revelado o interesse de entidades francesas de adquirir o tapete, a bom preço. Programou então sua ida ao Rio para visitar os donos es­trangeiros da Instituição Dois Irmãos. Foi essa pista, sem precedentes, que apressaria o interesse do curador de man­dar logo alguém para apurar a autenticidade do quadro.

Depois o curador perdeu o fio da meada. O orixá baia­no foi raptado na saída da instituição na Rocinha e confes­saria, sob tortura, a Leonardo, que pouquíssimas pessoas ti­nham visto o quadro na Bahia, pois o dependurava em cima do seu leito no quarto como uma "Relíquia". Assim nasceu o venerado nome do quadro 75 no Brasil. E na sequência dos fatos, enquanto Aurèlien chegava ao Rio, Leonardo era informado pelo garoto drogado que trabalhava na ONG que seus donos estavam com dinheiro chegado da França. O resultado foi o incêndio da ONG.

A maioria dos registros, aparentemente rocambolescos, foi obtida por meio de citações bibliográficas, buscadores de internet e as mensagens dos franceses mortos. Ferdinand relia a pesquisa documental sem tirar os olhos embeveci­dos da tosca reprodução. Divagava sobre a longevidade da "maldição dos Céus", à luz de conhecidos obituários, com destaque para os compatriotas mortos da ONG. Será que o pesquisador estava correndo perigo? — preocupou-se Fer­dinand na silenciosa sala do escritório instalada dentro do castelo, com vista para a ponte levadiça. Havia antecipado com resmungos para o padre Antoine seus temores sobre o rumo da missão de Aurèlien, após o incêndio na Rocinha, e o recebimento do comemorado desenho em cores.

 

Aurèlien e Júlia percorreram as delegacias especializadas. Na de Combate às Drogas (DCOD), obtiveram as informações que os bandidos tatuados com o dragão de sete cabeças pertenciam ao bando de Pimpão, que assumiu o Morro Dona Marta, depois da prisão de Caveirinha. Os bandidos são identificados pelas alcunhas que ocultam os verdadeiros nomes e passam a ser o "nome de batismo" no submundo e nos prontuários. Tião Maluco, Capitão Gancho, Chacal, Bamba, Furica, são alguns dos apelidos mais conhecidos.

Na DCOD ouviram que Cabeção tinha sido morto na guerra entre as facções rivais e agora o gerente geral do bando de Pimpão era o major Corredor. Júlia confirmou nos arquivos da redação a fama de matador sanguinário de Corredor. Inclusive, tinha sido preso várias vezes e, em todas elas, solto por falta de provas ou testemunhas.

Com relação aos tatuadores, a tarefa foi mais complexa pela enorme quantidade de bibocas espalhadas pela cidade. Nunca poderiam imaginar tamanha procura. Num mesmo prédio comercial no Centro, três estúdios atendiam a uma clientela das mais diversas idades e faixas sociais.Júlia pesquisou os tatoos e as especialidades artísticas. Selecionaram al­gumas, que visitariam. Todos mostraram seus catálogos com os vários tipos psicodélicos de Satanás. Nenhum admitia a autoria do desenho demoníaco mostrado pelo casal, mas se prontificavam a produzir um igual "rapidinho", em caso de interesse. Disseram que pelas características artesanais aquilo era "trabalho de peão", provavelmente feito numa "maloca" de uma favela das centenas existentes no Rio.

Foram inúmeros contatos telefônicos e várias visitas aos terreiros, antes de Júlia e Aurèlien concentrarem suas pesquisas num local em Botafogo. Após muita insistência, fica­ram sabendo que as reuniões se realizavam às quintas-feiras. A atendente lhe perguntou:

— Quem indicou o terreiro? — Júlia respondeu ter sido uma amiga. Usou de todos os argumentos para convencê-la a permitir que ela e um amigo estrangeiro parti­cipassem do culto naquela noite. A mulher não autorizou e avisou que seria inútil eles se deslocarem até Botafogo porque não permitiria a entrada. Foi a vez de Aurèlien in­sistir num português carregado para que fosse condescen­dente. Ao ouvir a voz de Aurèlien, a atendente consultou o seu chefe e, magicamente, foram autorizados a entrar como "visitantes", mediante um pagamento. Alertou que não se­riam permitidas fotos.

Chegaram na hora do culto ao portão da casa, vigiado por seguranças. Mesmo com as luzes apagadas, o casarão os impressionou pela aparência palaciana. Um segurança conferiu se os seus nomes constavam da lista de visitantes. Em seguida, Júlia e Aurèlien foram conduzidos até uma casinhola no fundo da mansão, próxima a uma espaçosa gara­gem. O guiché funcionava neste local. Após pagarem a con­sulta e, estranhamente, terem xerocopiado os documentos de identidade, foram conduzidos até uma escada íngreme. Desceram os degraus e se depararam com uma porta de ferro, que, ao ser aberta, dava acesso pelo subsolo da mansão.

As câmeras de segurança haviam registrado e gravado as imagens da entrada de Júlia e Aurèlien. Imediatamente, Leonardo foi informado dos esperados intrusos. Avisado anteriormente pelo satanista, suspeitou ser o enviado do governo francês, espionando e se certificando da autenticidade da Relíquia. O cara devia saber onde estava o dinheiro para a compra do quadro e como seria feito o pagamento. Os seguranças receberam instruções precisas de como agir, sem causar tumulto na reunião. Aurèlien teria de ser rendido e Júlia, propositadamente, deixada entretida na consulta.

Logo que os visitantes entraram no recinto subterrâneo, onde a gira acontecia, ao som envolvente dos atabaques e dos ogãs, chamando as divindades, eles viram as mulheres com suas saias rodadas e coloridas já organizadas em cír­culos e os homens de bata e turbante batendo palmas e entoando cantos de evocação, à espera da "descida" das en­tidades. A iluminação bruxuleante das tochas embelezava o ambiente e propiciava uma sobrenatural ligação do templo com as trevas.

Passada a emoção de estarem ali, não tardou em que avistassem a Relíquia de longe no fundo da parede central. Prenderam a respiração ao se defrontarem com a descober­ta do quadro 75 em perfeito estado, causando um grande impacto visual aos desavisados. Ficaram fascinados com a imagem, mas tiveram de se conter para não demonstrar um espanto excessivo, apenas a surpresa normal de alguém que nunca estivera num terreiro de candomblé.

No recinto souberam que cada orixá representa um dos quatro elementos da natureza e quando invocados, se in­corporam nos médiuns. Assim, entenderam por que, depois dos cantos e dos passos de dança, próprios de cada entida­de, eram lhes presenteadas as oferendas, como cigarrilhas, rosas-vermelhas, cachaça. O chefe dos tocadores de ataba­ques iniciou os toques para saudar a chegada da Pombagira rainha das sete encruzilhadas. De vermelho e negro... Vestida na noite... Que o mistério traz... Ela é moça bonita... Oi, girando, girando, girando lá...

Não demorou muito para que a Pombagira, circundan­do o trono dourado, apontasse para Júlia, chamando-a para a consulta. Hesitou antes de dar um passo. Pelo ineditismo do encontro religioso, estava nervosa como uma noiva caminhando para o altar.

Vem cá, sá dona.Vem saber da tua vida e do teu amor.

Júlia ficou surpresa por ter sido a primeira, e receosa que os seus segredos amorosos fossem revelados em público, ao ouvir ser chamada, como foi em voz alta. Porém, ao ver Júlia se dirigir em direção ao trono, Aurèlien saiu de onde estava, no local reservado a consulentes e visitantes, e avan­çou discretamente por trás dos filhos de santo. Sem levantar suspeitas, aproximou-se da parede central do recinto para ver de perto a valiosa tapeçaria e fotografá-la com a câmera do celular. Estava bem próximo do ângulo ideal, no mo­mento em que a Pombagira, com as mãos na cintura numa voz somente audível para Júlia, começou a vaticinar:

Sá dona, tu sabes que quase todos os orixás tiveram uma curta passagem por este mundo, passaram por fatos heróicos ou divinos, se encantaram e retornaram ao orum, deixando aqui na Terra muitos ensinamentos que encur­tam a ligação do material com o espiritual. Aqui, nesta casa, nós preservamos e usamos essa ligação pra todas as pessoas que nos procuram. Tu, sá dona, que vieste até aqui, tens luz iluminando o teu coração. O amor está florescendo forte dentro de ti, como a flor que brota no jardim da vida. Está vindo como a claridade da lua. Ele é de boa linhagem. Vai purificar tua alma e teu corpo. Tu vais alcançar as profun­dezas do sentimento do amor e do prazer da cama fogosa.

Júlia, nunca imaginara que Pombagira incorporada no seu cavalo, fumando cachimbo, falando bem baixinho, pu­desse, na sua vidência, transmitir algum conselho para os apaixonados ou os carentes de amor. Nessa hora, Júlia quis se esconder num canto escuro, atrás da coluna à sua es­querda, tomada de pudor ou de pânico. Não sabia no que acreditar. Quer por estar mergulhada nas trevas ouvindo vozes alucinantes ou flutuando no paraíso ouvindo cânticos divinos. O coração batia mais forte. As veias também pul­savam mais forte, cheia de curiosidade. Sem saber de onde arrancara tanta coragem, conseguiu gaguejar o pedido:

Por favor, podes me dizer mais.

Tu vais sofrer junto, não por desilusão ou desencan­to. Vais precisar de muita perseverança e compaixão para apaziguar a dor do amado sofredor. Mas tens a luz do orum iluminando teus passos e teus sonhos de mulher. Ele virá de rastro apaixonado. Vais encontrar em breve a paixão e retribuirás em cantos de amor, protegendo o amado das ruindades do mundo.

Enquanto Júlia ouvia as palavras de Pombagira, Aurè­lien fotografava o quadro, sem ser notado. Depois, enfiou o fino celular na meia de cano longo e caminhou de volta ao encontro de Júlia. De repente, seus passos foram atropela­dos e direcionados para outro rumo. Nem teve tempo de raciocinar. Tudo mudou absurdamente para o irreal e peri­goso. Num passe de mágica, os seguranças o imobilizaram e o amordaçaram, arrastando-o para fora do subterrâneo. Tudo muito profissional. Ninguém percebeu nada no in­tenso burburinho que ressoava no templo à repentina saída do "correspondente francês". Na casinhola nos fundos da mansão, Aurèlien era amarrado numa cadeira tosca.

O homem tatuado com o círculo do demo no braço direito desligou o celular e a sua voz gritada foi ouvida.

-— O chefe está vindo.

Recebera instruções do chefe para aguardar sua che­gada. Pouco depois, Leonardo chegou nervoso, e o crioulo Ventania, especializado em bolachadas de mão aberta, usada em Guantânamo, a base naval americana na ilha de Cuba, deu início ao interrogatório. Primeiro, maltrataram bastante a mãe da "bicha" francesa, amarrada, sem capuz. Depois, Aurèlien recebeu muitos socos no corpo e no rosto, que o fez lembrar, sem saudades, do treinamento de guerra suja do tempo de Saint-Cyr. Era o mesmo clima de terror.

—Vai falar onde está o dinheiro para comprar o quadro?

Não sei nada... não sei... — balbuciou Aurèlien com dificuldade, com a boca e os lábios ensanguentados, respondendo ao chefão, que estava ali à sua frente, gritando, raivoso:

Mentira! Onde estão os euros que trouxe, seu veado?

Aurèlien apanhou mais. Foi chutado. Decidiu então responder a primeira coisa que lhe veio à cabeça para so­breviver.

O dinheiro está no consulado.

Que merda é essa, porra? Está guardado na casa do cônsul?

Não, não; está no consulado. Eu sei como "trazer" aqui — disse Aurèlien, numa voz cada vez menos audível. — Eu prometer...

Por ter falado baixo demais ou não ouvirem a infor­mação ou não acreditarem no que ele estivesse dizendo, o fato é que Ventania, encolerizado, a mando de Leonar­do, aplicou-lhe uma bolachada que fez a cadeira balançar e quase a derrubou no chão.

Zonzo, Aurèlien se pôs a recitar o mantra budista, pe­dindo proteção ao universo Daimoku. Entoou o Nam-Myoho-Rengue-Kyo, como o fazia todas as manhãs, e o seu corpo começou a se estremecer todo numa convul­são assustadora. E sem mais nem menos, subitamente ficou completamente imóvel. Fazia anos que não tinha um ata­que cataléptico. O último foi sob o estresse das manobras militares em Saint-Astier.

A impressão era tétrica. Uma paralisia total tomou con­ta de si. No início, ouviu um coro de vozes em sons qua­se mântricos ao seu redor. A sensação era de flutuação ou de sair do próprio corpo. Visualizava as pessoas, sem poder exercer nenhum movimento.

Mas Aurèlien manteve o uso perfeito das faculdades, da inteligência e da percepção.Vegetativamente estava vivo. Porém, apresentava todos os sintomas de um estado de morte aparente: o coração inaudível, não respirava, nem se movia mais e estava insensível à dor. Era o rigor mortis nos estritos termos legistas. Graças à experiência anterior da doença, acalmou-se aos poucos no estado de consciência imóvel, ouvindo as vozes e vendo o que estava sucedendo em torno de sua falsa morte.

Aurèlien ouviu perfeitamente o "soldado" dizer: "Pe­gou mal, o cara empacotou, chefe". Como sua cadeira es­tava bem perto de Leonardo ouvia tudo que ele falava para o seu bando. Ouviu-o esbravejar sua raiva numa série de palavras que ressoavam como palavrões. De repente, ouviu um celular tocar e a voz nervosa de Leonardo atender e di­zer rindo ao interlocutor que ele não ia mais "precisar man­dar o castelo pelos ares". Escutou o Cabeção pronunciar a palavra "Agê" e repetir que "ia vender". Presumiu uma discussão de preço, ao ouvir várias vezes a palavra "euro". Ouviu, pelo menos duas vezes, o nome "Pierre", precedido de "grão-mestre". Ao desligar o celular, viu que a expres­são do rosto do chefão se transfigurara. Saiu a apreensão, e entrou um sorriso aliviado. Do outro lado da ligação te­lefônica, sem que Aurèlien pudesse ouvir e muito menos adivinhar quem era, estava o satanista de Avignon, insistindo na compra do quadro e Leonardo estabelecendo um preço justo para se desfazer da Relíquia.

Após uma confusão de vozes, fez-se uma pausa e veio a ordem do chefao:

Leva ele pro Aterro. Dá duas canivetadas de pivetes nele. Só duas.

E não demorou muito, um furgão preto encostou à porta da garagem, perto da casinhola. Aurèlien foi jogado no porta-malas, sem capuz e sem mordaça. O furgão cru­zou o portão e desapareceu nas ruas da cidade, carregando o falso turista, falsamente morto por falsos pivetes.

Júlia nunca imaginara que fosse se sentir tão atordoada com as revelações sussurradas por Pombagira, embora ne­las não existisse desejo ilegítimo, aspiração inalcançável ou fantasia reprovável, que merecessem uma censura. Nunca imaginara que fosse ficar perplexa vendo os pés de Pombagira bater no solo, evocando a mãe-terra, e ela penetrar na alma das pessoas, desvendando um mundo oculto, pessoal, que a gira só faz enaltecer com mensagens de felicidade e de esperança. Algo inteiramente contrastante com o mundo materialista que se vive fora da mansão. Restou-lhe ouvir a voz profética de Pombagira, voltada para as suas angústias:

Dispensa o ódio para que haja alegria, o medo para que surja a coragem. Aumenta a tua fé, para que possas doar esperanças. Faz com que tua caridade cresça sempre para poder doar paz. Multiplica a fraternidade para que possas doar amor. E, ao sair daqui, seja interligada pela luz onde brilham as estrelas, ainda que distantes umas das outras. Nu­vens de chumbos estão vindo, sá dona, mas é neste céu que vais encontrar a estrela brilhante, que veio de longe, bem longe, de outro planeta e aqui chegou, pousou em terra firme para trazer luz pros teus olhos azuis e coração. Vais conhecer breve o que é sentir o amor verdadeiro que vai te fazer muito feliz.

E mais Pombagira não disse. Virou o rosto e apontou com o dedo para a próxima consulente, que se apressou em se achegar.

Ao voltar para o seu lugar, Júlia não encontrou Aurèlien. Veio um segurança, muito polidamente, dar-lhe o recado de que ele tinha sido chamado com urgência pelo consulado francês e que ela não o aguardasse. Júlia estranhou o recado e ficou bastante preocupada com o seu desaparecimento. Foi gentilmente conduzida até a porta de saída. Ao cruzar as altas grades e o imponente portão de ferro da mansão, ligou imediatamente para o celular dele. Mas estava fora de área. Ficou mais preocupada ainda.

Já caminhando na rua, telefonou para o cônsul fran­cês. Naquele mau humor gaulês, o interlocutor disse não ter notícias de Aurèlien há dias. Reclamou do inoportu­no telefonema noturno e do fato de o pesquisador não ter apresentado a documentação do arrolamento dos bens dos franceses mortos, como prometera fazer com urgência. Terminou a ligação insinuando para que ela resolvesse suas de­savenças sentimentais fora do consulado.

Júlia ligou em seguida para o promotor que também não sabia onde o arqueiro poderia estar. Surpreendeu-se de ele não estar em sua companhia, já que entraram jun­tos no terreiro. Começou a sentir um desconforto visual e uma ligeira dor de cabeça, sinais de cansaço e que abusara ultimamente de ler sem os óculos de grau. Não eram mais as palavras esperançosas de Pombagira que passaram a tur- bilhonar na cabeça dolorida, mas o clamor da voz interior: Cadê Aurèlien Kleber? O que jazer, agora?, perguntava-se Júlia no silêncio da noite que calara as vozes da cidade, sem aba­far o seu grito de desespero pelo "francesinho".

 

Tudo contribuiu para Lisa ter uma noite de insónia, entrecortada por pesadelos, após a sua visita à mansão do pai de Leonardo. Ficara muito "mexida", como alegou a ele ao chegar ao seu apartamento na Lagoa. Não fora apenas o luxuriante passeio, o valioso bracelete presenteado na biblioteca ou o fato de ter participado da gira e ter ouvido as perturbadoras profecias do exu, ficara muito abalada com os eflúvios que emanavam dos subterrâneos do templo do diabo. Ficara atordoada por pensamentos sombrios e por dúvidas sobre o que adviria depois daquele dia inesquecível.

Achara a Relíquia esplendorosa na simbologia e na for­ça aterrorizadora. Mas temia pela maldição, caso estivesse certo o vaticínio do grão-mestre Molay, morto na fogueira. Reconhecia que a demoníaca presença na mansão trouxera riqueza e poder a Leonardo na culminância de suas ambi­ções vingativas. Contudo, sua crença era que a famosa cena carregava uma condenação inexorável por ter se desgarrado da tapeçaria-mãe em Angers. O que fazia sentido, mesmo sem ter conhecimento que a influente família Zalsupin, que fez fortuna em Cracóvia, fora dizimada pelos nazistas, e todas as pessoas que tiveram a posse provisória do "tapete 75" morreram misteriosamente. Adivinhava, na sua intui­ção, que somente quando o demônio estivesse aprisionado nos grilhões da tapeçaria do Apocalipse é que cessariam os efeitos malignos da Relíquia.

Na realidade, Lisa temia o pior no dia seguinte da vi­sita, como se tivesse prenunciado um aviso apocalíptico, após ter visto o que viu e ter ouvido o que ouviu nas profundezas da mansão. Temia os "obsessores dos ex-vo- tos", que ela desconfiava terem vinculação com as mortes vingadas. Temia pela verdade da única placa, em mármore preto, sem iniciais, mas com a data fatídica do acidente em Itaipava. Além disso, na noite da visita à mansão, foi aco­metida do pesadelo terrível do fantasma cego de um olho, perseguindo e brandindo a foice da morte para Leonardo. Temia o confronto final do guerreiro do mau sonho com o homem pelo qual se apaixonara e a fazia feliz nos len­çóis floridos e no cotidiano.

Lisa tomara a decisão de não morar em Botafogo. Leo­nardo insistia em demovê-la da teimosia num período con­turbado em que estava muito envolvido com as complexas negociações financeiras do maior carregamento de cocaína de todos os tempos e se comprometera em receber um satanista francês obcecado em ver a Relíquia. Leo não tinha como se ausentar do Rio. Quem afmal acompanhou Lucca a Nova York para ajudá-lo a se matricular numa universida­de americana foi Lisa, feliz da vida de viajar para o exterior.

Por mais que Lisa sempre telefonasse, era o filho quem dava as notícias de lá. Foi Lucca que relatou a dedicação de Lisa na semana em que estiveram juntos em Manhattan e a efetiva colaboração do banqueiro, descrito como um"figuraço", viúvo, com um enorme anel de rubi no dedo médio.

Foi ele, o banqueiro, quem mandou o pessoal do RH do banco ajudá-lo e fazer o follow-up do processo da matrícula nas universidades das quais o banco era sponsor. Elas já ha­viam sido contatadas por ele antes de eles chegarem a Nova York. Apenas numa manhã e numa tarde, ao que soube, Lisa ficou sozinha para poder comprar as novidades em maquilagem e produtos de beleza.

— Tadinha, pai — lamentou Lucca. Contou para o pai como foram as teleconferências e a alegre comemoração dos três no Four Seasons. — Foi tudo de bom, pai! — con­cluiu esfuziante o filho a caminho do campus de uma renomada universidade que o aceitara na condição de "aluno visitante", enquanto se concluía a tramitação do processo da matrícula. No jantar de despedida, Lisa estava de ves­tido novo, bem decotado, detalhe que Lucca se esqueceu de mencionar ao pai e a pergunta que fez ao banqueiro na sobremesa: qual o ano, dia, hora e local em que nascera.

Logo que Lisa chegou de viagem, Leonardo contou-lhe que durante sua ausência recebeu o "religioso francês" e ficara impressionado com a seita. Por sua vez, a astrólo­ga lhe transmitiu que Lucca estava muito feliz no campus da universidade em Boston. Foi nessa ocasião, depois de uma noitada de muito sexo, que assinou uns formulários em inglês, trazidos da viagem. Ela disse que eram exigências do Serviço de Imigração para regularizar a permanência do filho nos Estados Unidos. Leonardo nem cogitou de soli­citar ao professor o exame da papelada, impressa em letras de bula de remédio, miudinhas. Confiou na sua mulher, cegamente. Eram coisas de família. Só diziam respeito a ele, a ela e a Lucca, a mais ninguém.

Au secours...Julie... disse Aurèlien, após ter feito um grande esforço do braço e da mão para acionar o ce­lular carregado.

Júlia ouviu a voz longínqua, sussurrada, como se fosse vinda de uma tumba, porém, de inconfundível pronúncia francesa:

— Julie...

Reconheceu imediatamente a voz de Aurèlien Kléber.

Por Deus! Aonde você se meteu? perguntou Jú­lia, nervosa ao celular, e ouviu um sussurro mais débil ainda:

Aterro...

Em que lugar do Aterro? perguntou Júlia, com a voz cada vez mais angustiada e nervosa em descobrir de onde a chamava.

Frente... Pain Sucre... Statuá... e a voz sumiu de vez no celular, que comprovadamente não estava danificado.

Júlia não tardou a chegar ao local deserto e achar sem maiores dificuldades o corpo de Aurèlien, jogado atrás da mureta do mirante, à sombra da estátua de dom Henrique, erguida do local, e, como ele corretamente indicara, defron­te ao Pão de Açúcar. Não conseguiu evitar tapar a boca com os cinco dedos, num gesto de espanto e horror pelo seu deplorável estado físico, com a cabeça inchada e as roupas ensopadas de sangue.

Ligou pelo celular para o promotor que indicou uma clínica confiável que prestava serviços ao Programa Federal de Assistência a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas. Chegan­do lá, o amigo de Aurèlien já providenciara o atendimento de emergência.

Na silenciosa sala de espera, o promotor e Júlia conver­saram muito sobre os últimos episódios. Ela relatou em de­talhes a ida ao terreiro e o desaparecimento do pesquisador durante a gira. Não haveria registro da ocorrência do "tu­rista vitimado por pivetes" na delegacia, nem publicação de nenhuma notícia no jornal, sem antes saberem do estado fí­sico de Aurèlien. Aguardariam para decidirem juntos o que fazer. Finalmente, o médico veio tranquilizá-los informan­do que o procedimento cirúrgico foi muito bem-sucedido.

Ele está bem. Teve muita sorte de ter uma narcolepsia que o salvou do pior. Deve ter sofrido um estresse violento que deflagrou a paralisia. O lado esquerdo do rosto foi bastante lesionado.

Passados os efeitos da anestesia, o médico permitiu que entrassem no quarto e deu a última informação clínica:

Felizmente as duas canivetadas não foram profun­das. De grave só mesmo a hemorragia na artéria retiniana posterior.

Qual foi a consequência, doutor? Pode explicar, por favor — perguntou Júlia, leiga e preocupada com a exten­são das lesões.

Infelizmente perdeu a vista esquerda.

Ao ouvir falar que não recuperou a visão esquerda, pe­quenas lágrimas deslizaram por trás dos óculos de Júlia. Por mais que tivesse enxugado o rosto com a palma da mão e fingisse estar sorridente, ao entrar no quarto Aurèlien logo percebeu que a chorona já tinha sido informada da sua lesão ocular irreversível.

Tintin, Tintin, não foi dessa vez que eles me pega­ram. Por mil trovões, não chore — balbuciou Aurèlien, com alguma dificuldade, mas muito descontraído, talvez por se sentir ressuscitado pela segunda vez. Fixou o olhar em Júlia e constatou que sem os seus óculos de aros vermelhos, os marejados olhos azuis da jornalista estavam mais bonitos ainda do que de costume.

Por Deus, o que fizeram com o meu Capitão Ha- ddock. Parece uma berinjela replicou Júlia, mantendo o espírito brincalhão do colega, ao ver o rosto completa­mente violáceo, em virtude dos hematomas, ã exceção do tampão branco de esparadrapo, protegendo o olho esquer­do. Também viu as suturas num dos cantos da boca. Havia gazes em volta do tórax, encobrindo as duas canivetadas. Ficou impressionada como ele resistiu bem à "surra de criar bicho", na antiga expressão que a mãe usava.

Me aguardem. Amanhã, vou estar em plena forma. Pronto para a cruzada contra os hereges disse Aurèlien, em voz baixa, com algum esforço para falar, apesar de que os ditos jocosos pareciam aliviá-lo das dores na cabeça e do susto.

Como quer falar, fale devagar e conte tudo que aconteceu? pressionou o promotor, em pé, de braços cruzados.

Autorizado pelos médicos a falar apesar de o maxilar e o pescoço estarem ainda doloridos, ele contou, pausada­mente, sem risos, como salvou o celular com as fotos, como foi espancado e resumiu o misterioso telefonema recebido pelo chefao quando estava amarrado e paralisado na cadeira. Aurèlien apontou para o celular e pediu para verificar se as fotos tinham sobrevivido à hecatombe. Júlia abriu a tampa e confirmou estarem perfeitas. Não havia mais nenhuma dúvida de que a Relíquia existia e a Besta de Sete Cabeças estava com seus dias contados para ser definitivamente en­clausurada no majestoso Castelo de Angers.

Discutiram muito o que deveriam fazer. Prevaleceu a tese do amigo promotor de encenar "o desaparecimento do tu­rista esfaqueado por pivetes". A ocultação do "cadáver" era a melhor solução para se ganhar tempo, inclusive para se pensar numa maneira de recuperar o bendito quadro "na marra". O promotor, com base em experiências atuais, confirmou que os bandidos fariam de tudo para matá-lo e que dispunham de uma vasta rede de informantes em hospitais públicos e hotéis para localizá-lo. Também seria impossível ele voltar para seu endereço residencial, que, a esta altura, devia estar supervigiado. Todos se preocuparam com onde esconder o ressuscitado.

O fundamental era os bandidos acreditarem que o fran­cês estava fora de circulação. Deixá-los supondo que ele caiu no mar e foi carregado para o fundo da enseada da Baía da Guanabara, nos braços de Iemanjá. Ficariam calados. Ele não informaria à polícia e nem Júlia ao jornal, de modo a deixar os bandidos inativos e perplexos com o simulado esfaqueamento e morte de Aurèlien. Teriam assim tempo suficiente para providenciar uma contra-ofensiva para resga­tar o valioso patrimônio histórico francês. Foi quando Júlia estalou os dedos e, como que infantilmente, gritou:

Achei. Achei o lugar. Pode deixar.Vai dar tudo certo.

Onde? os dois perguntaram quase ao mesmo tempo.

Em Mauá, na casa de meus pais. Ninguém vai achar nossa berinjela escondida lá. Ele ficará completamente fora do circuito da bandidagem e poderá se recuperar o tempo que quiser num clima de montanha.Tem coisa melhor para ele, me digam?

Ótima ideia parabenizou o promotor. Está decidido.

Mauá? — perguntou Aurèlien, ainda inconformado que as grossas sobrancelhas e o bizarro cavanhaque tinham sido raspados.

Agora Júlia só tinha de convencer dona Maria Tereza, sua querida mãe, de hospedar o "francesinho".

Afinal, não foi ela quem no passado "derreteu" o coração do "rei valão" e, não fazia tanto tempo assim, foi quem deu o "empurrãozinho" decisivo para que encon­trasse o seu rei? Então? Apenas não precisava o seu nobre europeu estar tão machucadinho — lamentou Júlia para si.

Nenhuma ocorrência. Nenhuma notícia. Nenhum vestígio.

Leonardo tomou a terceira aspirina do dia. Não gostava do tenebroso silêncio. Lidava bem com celulares, gritos, números, mas o vácuo o perturbava. O mistério do silêncio do morto bulia com o seu frio raciocínio matemático.

Tem certeza de que deixou o filho da puta morto no Aterro?

O major Corredor e todos os cabras-machos atestaram que a desova tinha sido "tranquila", o "indivíduo estava mor­tinho da silva" e nem sentiu as duas canivetadas que levou.

Aquele vazio sem cadáver e sem rastros era insuportável para Cabeção. Mandou os capangas sondarem no Institu­to Médico Legal. Checar se havia um BO nas delegacias, relatando o fato banal de um turista ter sido assaltado por pivetes, de preferência com a descrição física do francês. Acionou a rede de informantes e de "infiltrados" nos hos­pitais públicos, pagos para informar quais os baleados ou moribundos que baixavam para a emergência e corriam perigo de cair na mão de policiais achacadores. Leu e releu todos os jornais de pequena e grande circulação. Estranhou não existir uma linha sequer sobre o desaparecimento. Apu­rou-se na redação do jornal que a repórter que solicitara a consulta da gira tinha viajado para Brasília para cobrir um caso de desvio de verbas, por coincidência na área de saúde, onde ele atuava na venda de ambulâncias superfaturadas.

Leonardo teve a boa ideia de entregar a fotocópia do passaporte do francês, obtida quando ele visitou a mansão, para o escritório de advocacia apurar a ficha do desaparecido junto ao Ministério da Justiça, responsável pelo controle da entrada de estrangeiros no país. Graças às propinas distribuídas, não tardou em ser informado que o "morto" nunca foi jornalista e muito menos de uma revista famosa como a Paris Match. Mas podia ser um enviado cultural do governo da França ou simplesmente um turista em férias no Brasil com endereço conhecido. Não era a primeira vez que o intrujão vinha pas­sear no Rio. Ou ainda, na pior hipótese, podia ser um agente da Gendarmerie uma corporação francesa equivalente ao BOPE, em missão secreta. Na dúvida, Leo mandou dar uma limpa no endereço do falecido, na esperança de encontrar algum documento esclarecedor. E, por precaução, mandou vigiarem dia e noite a entrada do prédio.

Leonardo raciocinou rápido. Se fosse um burocrata ou um turista, o falecido era inofensivo, mas caso fosse um agente numa missão secreta, o fantasma se tornava um ele­mento perigoso. Detestou saber que o sumiço do francês poderia provocar represálias. Para se prevenir contra even­tuais forças externas, reforçou a vigilância e a rede eletrôni­ca de segurança dos detectores de presença no Castelo do Diabo. O merda do francês, mesmo morto, estava dando trabalho, resmungou Leonardo para si, omitindo para Lisa o episódio do "mortinho da silva" no Aterro, como o bando comanda­do pelo major Corredor se referira a ele.

Para o velho Baldo, não podia ter acontecido coisa me­lhor nestes anos bem vividos em Mauá do que a chegada do valente Aurèlien Kléber. Ele desembarcou, à noite, na pousada, num veículo preto, alugado, de porte médio, para não chamar a atenção dos vizinhos. Enfrentara com galhardia o sacolejo da estrada esburacada, que não deu trégua ao corpo dolorido. E mesmo fazendo caretas, por causa das dores no pescoço e lombares, a sua simpatia conquistou a todos. A mãe de Júlia, a princípio, quis se mostrar cerimoniosa no afeto. Mas logo se rendeu à evidência dos fatos e da felicida­de da filha estampada no rosto alegre de só sorrisos e olhos para o francesinho de Paris. Deixou as chamas do fogão à lenha da cozinha arderem, de onde sairiam saborosos quitu­tes para o hóspede muito especial da pousada.

Os dois estrangeiros, depois do jantar no canto da la­reira acesa, contavam histórias bruxelenses e mais algumas estrasburguesas, riam do passado europeu e relembravam nostalgicamente que a vida é cheia de encontros e desencontros. Na espreguiçadeira da mãe, Júlia sorria, ouvindo tudo, como a criança que lia pela primeira vez as aventuras de Tintin.

Aurèlien contou para Baldo que considerou uma tra­gédia pessoal a perda da visão esquerda. Pior que quando as enfermeiras retiraram o tampão, ninguém percebia que ele enxergava só com um olho. É que, na aparência, os globos oculares estavam idênticos. Podia ter demorado uma eternidade para absorver essa perda irreparável, não fosse, porém, algo de transcendental que aconteceu, fazendo com que a sua recuperação superasse qualquer diagnóstico oftalmoló­gico mais otimista do mundo. Não poupou loas ao inacre­ditável poder de cura do amor. Foi quando revelou emocio­nado para Baldo sua paixão por Júlia, desde o primeiro dia em que a viu entrevistando o velhinho da Rocinha. Não tinha como ser diferente ao sentir o seu coração disparar.

Aurèlien confessou ter usado toda a sua astúcia na clí­nica. Aproveitou que estavam a sós no quarto e que Júlia se aproximou dele para ver de perto os ferimentos do seu ros­to para seduzi-la e se declarar. Foi o que contou para o pai de Júlia. Nada mais do que isso. Omitiu que ela ficou bem próxima do olho tamponado e do seu rosto violáceo de sobrancelhas e cavanhaque raspados. O seu olho direito viu o brilho dos olhos azuis, a boca e o rosto sensual da repórter. Valeu-se daquele momento mágico para que o seu olhar único, cheio de desejos e promessas, penetrasse no coração vazio de Júlia. Viu-a cerrar, com calma, os olhos inquietos, conter a respiração e deixar que vagarosamente "as profundezas do sentimento do amor e do prazer da cama fogosa" tomassem conta dos seus pensamentos, como Pombagira previra que ia acontecer. Claro que omitiu para o pai de Jú­lia os detalhes de como foi o primeiro beijo, pianíssimo, nos lábios, e os outros tantos, mais prolongados. Quando depois se recuperou dos ferimentos na boca, e aí não tinha como não deixar florescer o jardim do amor, certamente não do tamanho da Serra da Mantiqueira ou do Mont Blanc, mas do seu mundo interior em paz consigo mesmo, não tinham mais como negar: estavam apaixonados pela força do desti­no e unidos pela aventura de viver.

Na famosa pousada, é fácil entender por que com tan­tos cuidados dos donos, tantos quitutes servidos à mesa e tanto amor recebido de uma mulher apaixonada, Aurèlien se recuperou tão rapidamente dos ferimentos e se adaptou resignado à perda definitiva da vista esquerda. Conheceu de mãos dadas com Júlia o Parque das Cachoeiras da Sau­dade com dois quilômetros de trilhas, passando por doze cachoeiras e várias quedas, conheceu a decantada Cacho­eira da Prata, onde se beijaram muito e onde os planos de cumplicidade brotaram ouvindo os passarinhos trinar nas árvores verdejantes.

Júlia pela primeira vez pedira uma curta licença do jor­nal para fazer exames de saúde e alguns dias de férias a que tinha direito. Ela jamais imaginou as longas noites de amor em Mauá, menos ainda na Pousada Anjo Azul.

O amor é um mistério muito lindo quando as di­ferenças unem as pessoas repetia Júlia na cozinha para uma mãe feliz, de avental salpicado de sauce béarnaise. Maria Tereza reservara o melhor quarto para os apaixonados e voltara a falar o francês das receitas. Assim, na tranquilidade dos pomares, das cachoeiras, das quedas de águas cristalinas, cercadas de mata e dos bosques de araucárias, Júlia escreveu a sua história de amor. E o rei gaulês, ouvindo em silêncio os sussurros do vento e das ondas encapeladas do Rio Preto, encontrou o merecido repouso serrano e a doçura do amor. Conheceu os beija-flores que sugam o néctar das flores para sobreviverem aos desafios do cotidiano e ao sol luminoso de um país tropical.

Agora, Aurèlien sabia perfeitamente por que gostava tan­to de estar no Brasil, sem, contudo, esquecer a violência do Rio, cidade que decide quem deve sobreviver ou morrer.

 

Aurèlien dissera ao curador, no Quai d'Orsay, e repetiu para Júlia no encontro na Urca: só raramente se desgrudava do laptop. Felizmente, porém, como uma exceção à regra, dei­xara o PC portátil na casa do promotor antes de ir ao cul­to religioso. Assim, pôde usar o pombo-correio eletrônico, transmitindo de Mauá o pequeno relatório que o curador leu no castelo.

O pesquisador sintetizou o episódio da descoberta do quadro 75, sem detalhar a violência da qual foi vítima na mansão. Aurèlien se concentrou nas duas fotos do celular da imagem desaparecida da tapeçaria, que nunca ninguém tinha visto na museografia da França. Para não embaralhar a cabeça do curador Ferdinand, não usou a palavra "candom­blé" na mensagem. Transmitiu sua preocupação com que o chefão falou para uma pessoa desconhecida, que devia ser importante, a julgar pelo estranho diálogo. Reproduziu os nomes ouvidos da boca daquele que o havia mandado sequestrar e espancar. Citou "grão-mestre Pierre", "Angers", "castelo", "euros". Não comentou a perda da visão esquer­da, cuja aceitação mental do infortúnio o incomodava mui­to mais do que a dor no nervo óptico, nem sua milagrosa recuperação física em Mauá.

Tendo de responder a Aurèlien no Brasil, que lhe soli­citara instruções urgentes, o curador Ferdinand de Sally e o padre Antoine Duvert se reuniram com as altas autoridades do Ministério da Cultura e do Interior, estando presente o comandante da Direção Geral da Segurança Externa, a fa­mosa DGSE. Da reunião, a portas fechadas, em Paris, e por pressão da Associação Geral dos Curadores, foi autorizada a vinda imediata ao Rio de agentes especiais com a missão de trazer de volta a Angers o quadro 75, tido, para todos os efeitos legais, como roubado dos franceses da ONG. O Quai d'Orsay acionou diplomaticamente o Itamaraty, que por sua vez informou o Ministério da Justiça no Brasil. Foi a maneira encontrada de deixá-los de sobreaviso, evitan­do futuros problemas, no caso de haver percalços na re­cuperação de uma preciosidade surrupiada do patrimônio histórico francês. Antecipava-se o secular desfecho em solo brasileiro da luta terrível do bem contra o mal, glorificada nas soberbas cenas da tapeçaria do Apocalipse.

Durante a espera da resposta do curador, Aurèlien con­seguiu se comunicar com a mãe. Ouviu dela a notícia sem rodeios: "Ele vai nos deixar em breve". Com a voz suspirosa, a mãe relatou que seu pai estava muito doente. Estava com leucemia linfóide aguda, cujos sintomas ele escondeu até quando não pôde mais dissimulá-los. Desesperada, tentou interná-lo num hospital em Estrasburgo. Em soluços con­fessou que o coronel François preferiu passar os últimos dias em casa. Após um constrangedor silêncio, Aurèlien jus­tificou as razões de não poder se ausentar do Brasil. Prome­teu visitá-los assim que chegasse a Paris e apresentar a noiva brasileira.

Ao desligar o telefone, o mosaico de lembranças esti­lhaçadas logo se recompôs, peça por peça. Das sombras alsacianas, emergiu a imagem patética da despedida do pai na estação de trem. Ele não tinha tido a coragem de confessar no adeus que estava se mudando para uma moradia defini­tiva. Um militar de alta patente e posição não se permitia revelar aos íntimos a doença incurável e postou-se no dever do silêncio, a fim de não afligir a família.Teve saudades dos pais, e foi dar uma espiada nas fotos arquivadas no laptop. De repente, o quarto da pousada foi invadido pelo verão ameno em Trouville com os pais felizes em férias em suas vidas itinerantes. Sentiu uma infinita tristeza na claridade dourada da manhã que se desenhava longe no horizonte da Serra da Bocaina.

Mesmo com o calor infernal daquele fim de tarde, Lisa não dispensou o banho morno com sais perfumados. Gos­tava de esperar por Leonardo de pele aveludada e cheirosa. Ao sair do banho, demorava-se em cuidar da pele de pêsse­go com produtos importados a preços exorbitantes. Era seu único e grande luxo consumista. Colecionava potes visto­sos, em volta da banheira, com rótulos chamativos e dize­res dourados, com promessas de rejuvenescimento. Nessas horas, costumava olhar-se sem pressa no espelho e se sentir ainda jovem da cabeça aos pés. Não tinha por que duvidar, pois aparentava menos idade que tinha e menos rugas do que os anos poderiam ter esculpido. Gostava de ser notada, não fosse para Leonardo a enlaçar por trás, beijar-lhe a nuca e sussurrar nos ouvidos: "Você está um tesão, amor".

O sonho acabou? — perguntou-se Lisa, curiosa, ao sair do banheiro. Qual sonho? O de Leonardo, de ela morar na mansão em Botafogo, ou o seu, de continuar morando na Lagoa? Para responder, quebrou a promessa feita a si mes­ma que não faria mais a leitura do seu mapa natal. Sentiu um frêmito de medo quando consultou as efemérides e viu Urano perigosamente rondando os mapas complementa­res, criando aspectos preocupantes com os planetas pessoais, gerando instabilidade na vida conjugal. Não se assustou ao ver uma pessoa entrando em sua vida sentimental. Tentou saber mais dos astros com relação a esse novo amor, mas não obteve nenhuma pista. Tudo era passível de acontecer, com o céu relampejando, sob a regência de Urano — pensou Lisa, sentada na cabeceira da grande mesa da sala, acostuma­da aos oráculos e aos sonhos, que levam algum tempo para se tornarem realidade. Foi tomada pelas recordações de sua viagem a Nova York.

Após a reunião, a portas fechadas, em Paris, o diretor da Direção Geral da Segurança Externa (DGSE) recebeu o informe 0655-72 do Gabinete do ministro do Interior. Nele havia um breve histórico das medidas em curso para recuperar o desaparecido quadro 75 no Brasil, ressaltando a maneira violenta de como foram obtidas as informações no Rio de Janeiro, numa sessão de tortura comandada por bandidos. Inclusive suspeitava-se de que eles fossem os assassinos dos franceses donos da ONG de ajuda humanitária, na Rocinha. O comunicado deixava claro que não se podia ainda fazer um juízo de valores das informações, embora reconhecesse que a simples referência ao grão-mestre Pierre, correlacionada com a cidade de Angers, fosse motivo de uma investigação.

O diretor geral e seus treinados homens da Divisão de Ação, habituados às mais imprevisíveis coincidências, consi­deraram que a informação merecia realmente crédito e não parecia tão surpreendente assim, na medida em que o pri­meiro nome referenciado era de um chefe de uma poderosa seita religiosa, e assim, de fato, poderia existir uma ameaça à cidade de Angers e mais precisamente a algo que estivesse dentro do castelo. Tudo era possível em matéria de violência religiosa, porque tinham ocorrido recentemente atentados e destruições de mesquitas e igrejas. Além disso, os satanistas eram perigosos.

Como a chamada recebida na mansão em Botafogo fora de celular, as pesquisas se concentraram nas interceptações da rede de comunicações França-Brasil via telefonia mó­vel. Recorreu-se ao sistema de rastreamento das "grandes orelhas" do Frenchelon, no Périgord, e a base secreta militar de Domme entrou em ação. Era um dos maiores centros de escuta do mundo, com suas imensas torres parabólicas, espionando dia e noite as comunicações internacionais, captadas por satélite.

Prontamente, o diretor da DGSE enviou um memo­rando ao chefe do Departamento Antiterrorista (DAT). Seu titular, um experiente coronel, não teve nenhuma dúvida de classificar o telefonema do grão-mestre Pierre Flaubert como uma ameaça ao inexpugnável castelo e à cidade de Angers. Sem perda de tempo telefonou para o curador Fer­dinand de Sailly que só de ouvir a identificação do departa­mento ficou de mau humor e bufou irritado ao solicitarem uma cópia da planta-baixa do castelo, do sistema de segu­rança e a lista dos seus funcionários.

O chefe da DAT nada antecipara ao curador sobre algo suspeito no ar angevino. Disse-lhe apenas ser uma opera­ção de rotina. Não lhe revelou tampouco a sua convicção: podia-se esperar de tudo da temida seita Ordem do Diabo, caso estivesse envolvida, considerando o histórico das ações violentas atribuídas a ela, sem que se tenha conseguido pro­var a participação autoral do grão-mestre Pierre Flaubert e do seu bando de fanáticos.

No íntimo, o coronel gostou da novidade de cunho terrorista. Esse caso extraterritorial era a oportunidade de ouro que necessitava para demonstrar a real utilidade do seu departamento e justificar as verbas secretas obtidas. O vitorioso desmonte das células bascas já não empolgava mais a opinião pública francesa nem o ministro do Interior. Che­gou em boa hora a ameaça à honra da França, demandando uma grande mobilização da força de segurança nacional, por colocar em risco a preservação de um grandioso pa­trimônio histórico e cultural da humanidade sediado em Angers. O Coronel respirou satisfeito com a novidade.

 

Afinal o "Dia J", como os franceses designam o dia em que uma operação do combate deve ser iniciada, chegara para Júlia e Aurèlien.

Na pousada, antes de viajarem, Júlia viu pela internet a notícia que "o perigoso bandido Caveirinha e dois com­parsas fugiram de madrugada da prisão federal por um tú­nel de setenta metros de comprimento". Não era nenhuma novidade. Todo mês presos fugiam das penitenciarias, geral­mente nos feriados.

Chegando ao Rio, Júlia teve uma reunião com o chefe de redação do jornal, que se entusiasmou com a descoberta da tapeçaria, sem que revelasse onde a tinha encontrado. Prometeu a primeira página, apostando alto na repercussão internacional da notícia.

Por sua vez, Aurèlien se reuniu com o cônsul da Fran­ça e os dois agentes franceses do temido Grupo de Inter­venção da Gendarmeria Nacional (GIGN), provenientes de Paris. Haviam mapeado o local, sem entrar no templo, e já tinham um plano de ação, sem precisar recorrer à polícia local, pois o Ministério do Interior proibira envolver poli­ciais brasileiros no resgate da tapeçaria. Estavam satisfeitos porque tinham descoberto um ponto fraco na mansão do inimigo, viabilizando inteiramente a operação paramilitar secreta.

O cônsul se queixou confidencialmente para Aurèlien da demora da entrega do arrolamento de bens da ONG, do qual foi incumbido, pois precisava despachá-lo para a Fran­ça com urgência, as "autoridades superiores" precisavam do documento para a juntada dos recibos. Ele procurou saber o que eram os tais "recibos". Mas o cônsul desconversou e insistiu no recebimento da listagem.

Só pode ser coisa da burocracia francesa bufou Aurèlien, aborrecido com a cobrança.

Nos últimos meses, Leonardo vinha recebendo amea­ças de morte do Caveirinha pelo celular, na prisão federal: "Vou pegar você, seu merda. Tu sempre foi um motoboy de recados". O ex-chefão não desistiu de retomar o império do pó, muito mais próspero agora do que antigamente.

Foi Pimpão quem primeiro o informou da fuga do Ca­veirinha. Para acalmar o incontrolável nervosismo, Leonar­do disparou ordens pelos três celulares e conversou diversas vezes com o major Corredor. Ambos sabiam da violenta represália que sofreriam, pois o ex-patrão nunca perdoara a traição dos seus dois braços-direitos.

Caveirinha amanhecera no Rio de Janeiro e, contando com o apoio do Comando Vermelho, não perdeu tempo. Partiu para a invasão do Morro Dona Marta. Não tardou a sua voz grossa ecoar nas sombras do morro: "É pra arre­bentar, Zé. Quero a vala cheia de manés". Os favelados re­viviam outra vez o filme de terror. As rádios e tevês não pa­raram de noticiar os tiroteios e as matanças na guerra pelo controle dos morros. A polícia preferiu assistir ao confronto de longe, sem se intrometer. Acertaria depois as contas com o bando rival que saísse vencedor ou simplesmente cruzaria os braços.

No fim de uma semana de guerra, o major se queixou:

Eles vieram com tudo pra cima de nós, Cabeção.

Já distribuiu todas as armas que o Pimpão comprou? E não resolveu? cobrou Leonardo, em desespero de causa.

Porra! Pimpão fugiu pra São Paulo e os meninos, quando viram que iam perder, passaram para o lado deles. Os putos já tomaram os principais acessos do morro e na Rocinha a rapaziada se uniu à ADA. Tô sozinho, caralho.

Cai fora daí, Corredor, enquanto é tempo.

Os putos tão dizendo que Caveirinha vai descer so­zinho pra te matar na mansão. Te cuida, cara!

Que venha! Vamos armar para ele aqui.Vem pra cá.

Leonardo acreditava que na mansão venceria a batalha.

Imaginava as câmaras de luz infravermelhas controlando tudo e localizando o inimigo nas sombras, os seguranças o exterminariam, sem que tivesse posto os pés no interior do casarão. Não precisava matar o ex-chefe, apenas feri-lo e trazê-lo pelo cangote para ter a cabeça decepada com um golpe de sabre pelo major nos subterrâneos.

Uma obrigação! exclamou Leo, imaginando a cena da cabeça do ex-patrão servindo de oferenda para o diabo da Relíquia.

Mas Leonardo, apesar de saber que um drogado se pres­ta a qualquer loucura para saciar seu vício: rouba, mata, trai, tudo para conseguir o papelote da droga, avaliara mal o fascínio que o suborno exerce no ser humano. Sem que ele desconfiasse, Caveirinha tinha um homem infiltrado dentro da mansão que lhe repassou as informações sobre a gira no "templo" e a sua vida pessoal, inclusive de como chegar ao professor. Além disso, o medo cegara Cabeção, a ponto de não perceber que as invasões somente foram vitoriosas nos morros porque foram planejadas com bastante antecedência e minuciosamente, à maneira bandida de Caveirinha, que aprendeu desde criancinha que ninguém se torna rei se não rolar muito "mel" (sangue) e droga nos morros.

Cabeção não previra as surpresas que seu ex-chefe pre­parou para ele com todo o esmero vingativo. Só tomou consciência delas quando, de repente, as luzes da mansão se apagaram. As imagens das telas que controlavam todas as câmeras sumiram simultaneamente, e a casa, por dentro e por fora, ficou na escuridão. Assim, os seguranças não puderam dar sequer uns tiros para impedir a entrada dos invasores na mansão.

Com efeito, o elemento infiltrado executou a sabota­gem com precisão cronométrica. Desativou na hora certa os disjuntores do quadro de distribuição de energia da casa, provocando o apagão. Isso possibilitou a Caveirinha, com a ajuda do seu gerente geral, pular o portão, entrar na mansão, e depois se esconder perto da porta principal da casa. Assim, aos poucos, na penumbra, ele foi degolando, com uma faca de ponta, um por um, os seguranças que faziam a ronda na parte externa da fortaleza, tendo o seu novo gerente geral ficado do lado de fora, para vigiar a entrada do casarão.

O comparsa já o aguardava no lugar marcado para conduzi-lo pelo interior da casa até a biblioteca. E chegando lá, bastou a Caveirinha puxar a grande alavanca na parede para que a frente da lareira se movesse para dentro e surgisse a passagem rochosa que os levariam ao subsolo. Foram des­cendo cautelosamente os degraus. Tudo fora planejado com antecedência na prisão federal.

Mal se refez da repentina falta de energia, eis que Leo­nardo ouve o barulho do mecanismo da lareira sendo acio­nado. Sem as câmeras, sem os sensores e com a porta secreta de acesso ao subsolo invadida, só coube a Cabeção, nervo­samente, aguardar para fazer as honras à chegada estrepitosa do seu inimigo mor nas catacumbas, iluminadas por longas tochas. Nunca imaginara que aquele cenário diabólico seria o do acerto final de contas, sob o domínio do ódio.

Os dois seguranças da casa e o major Corredor deram os primeiros tiros nos subterrâneos da mansão. Logo foram respondidos assim que se definiram as posições dos cam­pos adversos por trás das colunas. Felizmente o local do tiroteio se restringiu àquele espaço da mansão, sem que os incontroláveis efeitos malignos da Relíquia se propusessem a destruir a decoração da casa e os seus valiosos objetos de arte, e, principalmente, a preciosa coleção de livros raros, conservada intacta na biblioteca.

Algumas balas ricocheteavam nas paredes do templo. Os cartuchos vazios se amontoaram no chão por trás das colunas. Aos poucos, os tiros se tornaram mais intervalados. As balas zuniam cada vez menos. De repente, fez-se um curto silêncio e uma voz inconfundível e arrogante ecoou no recinto:

— Tua hora chegou, seu Judas, de pagar o que roubou de mim — disse a figura retalhada por sombras ampliadas no piso atrás da primeira coluna da entrada do recinto, per­to do pentagrama.

Saiu da prisão pra vir morrer aqui. Vou cuidar de você — respondeu Cabeção, escondido atrás de outra co­luna perto da parede central. —Vou te enterrar na casa do meu pai.

Tu está sozinho e fodido. Vai morrer que nem um filhinho de papai — falou Caveirinha, soltando uma garga­lhada sonora.

Mostra tua cara, vem — disse Leonardo, avançando, fora de si, em direção ao rival e segurando a pistola com a mão trêmula.

Vou acabar com tua raça — disse o bandidão, gar­galhando.

Cabeção deu uma piscadela para Corredor, que nem teve tempo de obedecer à ordem dada de atirar, pois, ao sair de trás da coluna, recebeu um balaço no meio da testa da Sig-Sauer de Caveirinha. O major Corredor tombou nos pés de Leonardo, que, nervoso, puxou o gatilho da pistola. As balas passaram bem longe do rosto barbudo do adversá­rio, que já conhecia de longa data a inaptidão daquele que era bom de dicas contábeis e de lero-leros, mas um "bosta" no manuseio das armas de fogo.

O ex-chefão deu uma risada ao acertar o primeiro tiro no tornozelo esquerdo de Cabeção, que respondeu com dois tiros a esmo, que se alojaram no teto. O anfitrião se pôs a gritar de dor. O novo rei deu outra risada. Nem precisou dar um passo à frente para disparar o segundo tiro certei­ro no tornozelo direito. Leonardo tombou, ajoelhado com dores lancinantes, e depois se acotovelando no chão diante do rival, que esboçou um sorriso sádico nos lábios.

De repente, ouviu-se um estrondo atrás do trono, que logo se desintegrou em pedacinhos dourados e brilhosos no chão. As duas caveiras rolaram até estacionarem com o crânio voltado para baixo, anunciando a invasão dos agentes franceses. Graças ao porteiro do prédio vizinho, bem re­compensado, eles souberam dos desentendimentos do dono da mansão com o condomínio por causa das paredes finas subterrâneas do prédio. O que viabilizou a operação de res­gate do GIGN que é o único grupo antiterrorista que se vangloria da precisão das armas dos seus integrantes, treina­dos para incapacitar (ferir) e não para matar.

Foram ouvidos estampidos rasteiros. Clarões atordoantes cintilaram. A fumaça tóxica das granadas de gás lacrimo­géneo encobriu a quase totalidade do subsolo, deixando os olhos ardendo e as gargantas sufocadas. Todos que se con­frontavam no subsolo começaram a tossir. Ninguém podia enxergar. Muito menos atirar em direção às sombras que se moviam por cima do que restou do trono. Todos estavam surpresos, tossindo muito. Não conseguiam mais ficar em pé sem escorar o corpo nas colunas. Caveirinha inicialmen­te cogitou que fossem reforços do Cabeção para reverter a situação adversa, mas depois percebeu que eram extrater­restres engajados numa guerra particular.

Aurèlien e Júlia aguardaram o efeito paralisante do gás para entrarem em ação com suas máscaras protetoras. Os dois agentes do GIGN deram alguns tiros de advertência, garantindo-lhes a completa cobertura. Os dois, beirando as conhecidas paredes, chegaram ao vão central onde resplandecia a Relíquia. Em minutos, retiraram e enrolaram o ta­pete. Nenhum outro tiro de advertência, somente granadas de gás para assegurar a fuga dos quatro invasores pelo bura­co da parede explodida.

Antes que todos no subsolo, refeitos do susto, lenta­mente passassem a enxergar, foi ouvido um estridente ran­gido de pneus de um carro partindo da garagem do prédio vizinho. Com os olhos ainda avermelhados, mas respiran­do melhor, Caveirinha se dirigiu para o centro do recinto onde a fumaça se desfazia num fino véu, já inofensivo. Mais uns passos e avistou à sua frente Cabeção se arrastando en­sanguentado, ainda com uma arma na mão. Gargalhou da figura patética do ex-amigo, procurando fugir da morte. Aproximou-se do inimigo em agonia, trincando os dentes:

Tá na hora, camaradinha. Papai já está esperando no inferno. Leonardo agonizava e respirava com dificuldade nas fundações da morada dos pais, assolada pela tragédia. Não conseguia mais mover as pernas. Pensou na irmã que nunca procurou; na mulher morta no despenhadeiro; no filho, longe dos seus olhos e da maldição; e na louca paixão por Lisa.Tudo foi se distanciando cada vez mais depois que Urano armou uma terrível conspiração para desencadear a cólera dos céus e destruí-lo. Era tarde demais para arrepen­dimentos e sonhos. Num derradeiro esforço com o braço direito, segurando com muita dor a pistola na mão com apenas uma bala na agulha, ele conseguiu erguer o cano à têmpora e disparar, como fez o pai antes de perder a mansão e a vida.

Caveirinha deu a última risada e protestou:

O motoboy morreu que nem um frouxo.

Antes de sair, o novo dono do Morro Dona Marta ma­tou os feridos e ordenou que o comparsa arremessasse uma tocha em direção à parede central vazia. O querosene se alastrou rapidamente e as chamas começaram a arder, apro­ximando-se das pernas e dos sapatos encharcados de sangue de Leonardo. Caveirinha se deliciou com a visão da cena antes de subir de tocha na mão pelos degraus da escada de pedra que desembocava na imponente biblioteca. Com rai­va olhou ao redor e perguntou:

— Para que servem essas merdas de livros? — Nem esperou a resposta do comparsa. Com a tocha na mão, co­mandou o incêndio pela casa toda. As labaredas foram se apossando dos tapetes, livros e móveis de madeira antiga.

Para melhor se regozijar da vingança, o novo dono do morro permaneceu um bom tempo do outro lado da rua, acompanhando a voracidade do fogo devorando a mansão. Viu um vulto desesperado, fugindo dali num táxi em disparada, enquanto os primeiros curiosos se amontoavam na rua diante do espetáculo das chamas em fúria e das nuvens negras se esfumaçando sob os jatos de água das primeiras mangueiras dos ágeis bombeiros.

Caveirinha nunca poderia imaginar que a cena da mor­te de Leonardo se assemelhava a do quadro 68 da tapeçaria do Apocalipse. Na imagem catalogada desse quadro desapa­recido em pleno século XX, misteriosamente roubado, so­bressaía a prostituta condenada, cercada por quatro animais que a observavam arder em chamas ad aeternum...

Enquanto a mansão ardia, um furgão preto com três homens armados ingressava na garagem de um prédio no centro da cidade. A vigilância já se acostumara com a che­gada do conhecido veículo naquele horário noturno. A en­trada da viatura foi liberada, como sempre, sem nenhum problema.

No escritório de consultoria, todos estavam aguardan­do a chegada dos malotes. O segurança reconheceu as três batidinhas na porta e abriu. Recebeu um tiro do revólver com silencioso no meio dos olhos. Sem explicações, dois bandidos entraram atirando e matando os três funcionários. Eram ruídos de pipoca estourando na panela. O terceiro bandido entrou direto na sala de reunião e rendeu o profes­sor, lívido, diante da pistola apontada para sua cabeça.

Estamos aqui com o Gordo — avisou um dos ge­rentes do Caveirinha pelo celular. Fez-se uma pausa: — Tranquilo, chefe.

O novo dono do Morro Dona Marta chegou ao escri­tório sem precisar se identificar na portaria. Entrou na sala de reunião, onde o professor era mantido refém, sentado na cadeira presidencial, sob a mira de uma pistola. Ao seu sinal, o famigerado Ventania deu a primeira bolachada no anfitrião. Era o aviso que, na falta de colaboração, seria pre­miado com outras gentilezas.

Entra agora nas contas privadas do morto, seu babaca.

Foi assim que o professor soube da morte do seu patrão.

—Vai teclar ou quer mais, veado — gritou Ventania.

O professor abriu de imediato pela internet a conta de Leonardo em Nova York, mantida no anonimato. Apareceu na tela o surpreendente saldo de US$ 6,66. Alguém tinha sacado da conta privativa de Leonardo e deixado a enigmá­tica cifra. Abriu as contas secretas em Liechtenstein e nos paraísos fiscais. Todas tinham sido zeradas e estavam blo­queadas. O professor se mostrou indignado com o saldo do banco americano e os demais saques, jurou que não tinha sido ele quem sacou os valores das contas.

Quem foi, porra? — perguntou Caveirinha, gritan­do. — Quem sabia das senhas? — perguntou, agora sem os sorrisos triunfais da sua chegada ao luxuoso escritório.

Somente o Leonardo e eu. Mais ninguém.

Cadê o dinheiro? reclamou com um olhar fu­rioso.

Juro que não sei. Não entendo o que está havendo.

Outra bolachada, mais branda, para evitar desmaios.

Juro. Acredite em mim repetia o consultor aos prantos.

Os urros de dor, o choro convulsivo e a urinada nas calças foram bastante convincentes. O gordo papudo não estava mentindo. O rei o obrigou a conferir na tela o dia das movimentações das contas secretas europeias. Ficou prova­do que as retiradas nos bancos europeus ocorreram antes de Leonardo se imolar em churrasco, com exceção da conta americana, cuja última movimentação ocorreu minutos de­pois do incêndio. Caveirinha não se deu por satisfeito.

Quem foi então que limpou a conta nos Estados Unidos?

Mais gritos de dor até o professor conseguir balbuciar:

Juro que não sei. Deve ter sido o gerente da conta. Alguém avisou a ele que o titular da conta estava morto.

E os US$ 6,66? Leonardo passou a senha para alguém?

Não. Ele não confiava em ninguém garantiu o professor. Nem no idiota do filho nem na astróloga ma­luca, que era a sua companheira. Estavam brigados. Ela não queria morar na mansão.

Sugere o quê, porra? perguntou o chefao, reto­mando o sorriso sanguinário e cerrando os punhos em sinal de nervosismo.

No momento, não posso fazer nada, mas posso aju­dar a recuperar o dinheiro.

O rei não acreditou na boa-fé do gordo safado, esquecendo-se do tempo precioso perdido na calçada em frente à mansão, quando ficou apreciando a coreografia dos bom­beiros em ação, enquanto alguém agia e movimentava as contas.

Deu uns murros na mesa e maltratou o professor. Man­dou o Zé Martelo executar o seu serviço antes de zarpar raivoso pela garagem do edifício comercial, levando todas as caixas dos computadores com os registros arquivados do fluxo de caixa.

— Prega! — ordenou o Calígula do Morro Dona Mar­ta, ao sair da sala. Assim o professor teve os pés e as mãos pregadas na mesa da sala de reunião. Ficou igual a Cristo na cruz ao se erguer e se travar a cabeceira da mesa no parapei­to da janela, tendo ao fundo a Baía da Guanabara com seu deslumbrante colar de pérolas noturnas.

Zé Martelo devia tá inspirado, pensou Caveirinha, riso­nho, dentro do furgão, dando uma coçada nervosa na ligeira protuberância que se esboçava na superfície da calça aper­tada. Imaginara a cena dramática: o sangue escorrendo pela mesa de madeira, pingando no carpete de luxo, e os olhos esbugalhados de pavor do professor com o esparadrapo co­lado na boca gulosa.

O cônsul francês insistiu: "Não queremos problemas com o governo brasileiro". Júlia resistiu em acatar o "ape­lo" de mudar a verdadeira versão dos fatos. Solicitar isso a uma jornalista, uma intrépida guerreira da verdade, era pedir para cometer um suicídio. Porém, por "razões de Es­tado", invocadas para evitar outra "guerra da lagosta" entre o Brasil e a França, forjou-se uma convincente fantasiosa "versão oficial" em que se omitiu a invasão ilegal ã mansão para recuperar o quadro 75. Alguns jornais noticiaram, sem grande destaque, o incêndio criminoso de ladrões na man­são do colecionador de objetos de arte, filho do ex-corretor da Bolsa de Valores. Havia elogios ao "gênio das finanças". Nenhuma notícia sobre o vulgo Cabeção, nem a respeito do seu sucessor no submundo do crime.

Todas as manchetes das primeiras páginas dos jornais se concentraram na Relíquia. Os jornais internacionais reproduziram a foto da Agência Reuters do cônsul da França no Rio, exibindo a famosa tapeçaria. Todos publicaram a "versão oficial" dos fatos.

Muitas laudas foram escritas sobre a tragédia dos "már­tires franceses", a partir da versão surrealista da escavação ocorrida na sede da ONG. Falsearam a verdade dos fatos com a sensacionalista notícia que os franceses morreram sem dizer que "tinham cavado um buraco debaixo da cama, onde esconderam o valioso tapete, que somente foi desco­berto graças ao faro policial e à bem-sucedida escavação empreendida no local pelo pesquisador Aurèlien Kléber".

Assim, num mundo em que as emoções valem mais do que a história verdadeira o grande público acreditou no fim trágico dos franceses que foram torturados e assassinados protegendo o valioso segredo religioso. Júlia explicou na TV5 que acompanhou de perto o laborioso trabalho "ar­queológico" na favela. Nada disse sobre a invasão da man­são. E ao seu lado, Aurèlien engoliu os elogios do cônsul "pelo incomparável feito histórico num país democrático". Assim, o pai do gendarme, caso estivesse vivo em Estrasburgo, ficaria orgulhoso de o petit ter achado o famoso quadro, desaparecido desde 1863.

Enquanto a mídia internacional dava cobertura à notí­cia da sensacional recuperação, a polícia do Rio procurava identificar quem incendiou a casa do empresário e quem assassinou o professor no escritório no centro da cidade. No Morro Dona Marta e na Rocinha os muros eram pichados e aconteciam as queimas de fogos para anunciar a volta do grande Caveirinha. Festejavam também a chegada de um carregamento de armas e de cocaína de puríssima qualida­de, vindo do Paraguai para movimentar o crime organizado e abastecer a Cidade Maravilhosa.

 

Em Avignon, pela internet, o grão-mestre ficou sabendo da morte de Leonardo e do resgate do quadro. Um profissional contratado, de codinome "Gorila", recebeu ordens para vi­sitar imediatamente o Castelo de Angers, antes que a galeria fosse interditada com as obras de construção de uma prisão para enjaular o dragão de sete cabeças. Não fazia tanto tem­po assim que a galeria ficara fechada para a instalação do mais moderno sistema de iluminação da atualidade.

Gorila fez uma visita demorada como um turista fas­cinado pela fortaleza. Em companhia de uma jovem da re­gião, que conheceu num bar da Place de la Republique, fotografou o futuro palco das operações de guerra. Desceu as escadarias de pedra que o levaram à imponente galeria, onde apreciou a tecnologia da nova iluminação. Fingiu- se interessado na cena do quadro 74: As bestas jogadas no lago de fogo, que antecedia o espaço em branco deixado na parede. Ali avaliou o teto duplo e a fixação vertical da tapeçaria, sem que a sua curiosidade despertasse suspeitas.

Na superfície do castelo, passeou com a namoradinha de mãos dadas pela passagem estreita no alto das torres quatorze a dezessete das muralhas. Elas protegiam a tapeçaria, em frente ao Boulevard Général de Gaulle, que cruzava o Quai de Ligny e a auto-estrada Ali para Paris. Constatou que só existia uma entrada na fortaleza. Guardou de cabeça os lugares vulneráveis das muralhas que protegiam a tape­çaria. Tudo o que pesquisou nessa primeira visita foi devi­damente registrado no seu bloco de notas. Na livraria da galeria, onde comprou uns folhetos, adquiriu também uma planta do castelo, talvez inócua para um turista comum, mas utilíssima para um turista apaixonado por fortificações.

Antes de voltar a Paris, ainda visitou a pequena cidade de Saumur, conhecida pelo seu castelo, localizada a menos de meia hora de carro de Angers. O lugar mereceu um minu­cioso levantamento. Foi escolhida para a contingência de ha­ver um plano B nas operações ofensivas ou de eventual fuga.

Com a visita, Gorila obteve todas as informações para montar um plano de ação. Ia começar a agir para pôr o cas­telo pelos ares. Foi o que confidenciou para o grão-mestre Pierre.

Para os jornais locais, os grandes destaques foram a guerra nos morros dos traficantes rivais e o incêndio no casarão em Botafogo. Poucas linhas foram dedicadas ã cru­cificação do professor no escritório no centro da cidade. Para o mundo, nada de mais sensacionalista do que a no­tícia da descoberta do valioso quadro do Apocalipse. Foi manchete nos jornais estrangeiros e a grande matéria nas primeiras páginas dos jornais franceses. Nada que pudesse explicar por que a recuperação da cena de uma tapeçaria, nem tão conhecida assim, fosse ganhar tamanha repercussão. E a pequena cidade de Angers caiu nas boas graças da mídia, sendo alçada, até com certo exagero, como a capital do Vale do Loire.

A história do Castelo de Angers e da tapeçaria do Apo­calipse foi contada em prosa e verso mundo afora. Podia-se figurar a regente Blanche de Castille ressurgindo audacio­sa em sua beleza e guerreando de armadura no alto das dezessete torres rendilhadas de ameias. As narrativas eram apaixonantes sobre a impudicícia da bela guerreira regente que ficou nua perante os membros do Parlamento. A lenda atravessou milênios e até hoje ainda instiga a imaginação contemporânea, à semelhança do que fez Frineia no Areó­pago, cuja beleza na Grécia antiga foi imortalizada nas artes e nas letras. Também não foram poucas as laudas dedicadas para enaltecer a região do Vale do Loire, palco da pacifica­ção do poder real na França depois das batalhas de Roche-aux-Moines e de Bouvines.

A repercussão na mídia provocou acalorados debates na sala de reunião no Escritório de Turismo, no número dois da sugestiva promenade du Bout du Monde. O prefeito de Angers, o curador, o diretor do Centro dos Monumentos Nacionais, a diretoria do Sindicato de Jornalismo, o chefe do oficio, todos estavam empolgados em prestigiar Angers como uma atração turística de primeira grandeza da França, ao lado de Paris e do Mont Saint Michel.

Com tantos planos mirabolantes turbilhonando na ca­beça. O alcaide repetia para si: "Os castelos do Vale do Loire vão tremer!", entusiasmado em querer transformar a pri­meira exibição do quadro 75 no castelo no mais notável acontecimento cultural da região. Contando com as verbas e o apoio discreto do ministro da Cultura e da Comuni­cação, para não suscitar ciumeira das outras localidades, a prefeitura se preparava para promover a grande festa. Foi lançado o sugestivo slogan: "Venham para Angers enjaular o diabo por mil anos". Um apelo publicitário cheio de char­me e religiosidade para manter a cidade angevina na mídia e um excelente pretexto para retomar o fio da história, dos mais de seiscentos anos da tecelagem da tapeçaria do Apo­calipse nos ateliês parisienses. Além disso, o prefeito sabia que contaria com algo bastante convidativo: a boa mesa e os excelentes vinhos da região do Vale do Loire.

Aurèlien Kléber e Júlia viajaram para Paris, ele como o responsável pelo transporte aéreo do quadro 75 e ela como convidada de honra da prefeitura de Angers. No desembar­que no Aeroporto Charles de Gaulle, foram recepcionados pelo prefeito, o curador, o padre Antoine, os dignos repre­sentantes do Ministério da Cultura e do Interior, além do chefe do DAT com seus agentes e funcionários da prefei­tura e do castelo. Todos sorridentes e felizes com a chegada triunfal do demônio num engradado.

A imprensa quis acompanhar o quadro sendo desem­balado na alfandega. Mas foi proibida de entrar. Todas as honras deveriam ser reservadas para a solenidade da apre­sentação da Besta acorrentada na galeria. Frustrada, a im­prensa culpou o conselho de curadores por tê-la impedido de testemunhar a chegada ao solo francês de "uma das mais valiosas peças do patrimônio histórico da França".

Do próprio aeroporto, Aurèlien e Júlia partiram de trem para Estrasburgo. Lá ficariam uns poucos dias e depois regressariam a Paris, onde permaneceriam uns dez dias até viajarem para a solenidade de exibição do quadro em An­gers, ainda sem data marcada na agenda do prefeito.

Também do aeroporto, partiu um séquito de carros para o castelo, com o diabo viajando num furgão, enrolado em espesso plástico bolha no engradado de madeira, à se­melhança de um caixão. O curador resmungou durante o tempo todo da viagem, pois tinha pressa em se reunir logo com os organizadores, interditar a galeria para serem ulti­mados os preparativos de emoldurar o bienvenu no espaço vazio e despachar com a devida antecedência os convites da solenidade, a se realizar, provavelmente, nos próximos quin­ze dias.

A súbita partida de Aurèlien para Estrasburgo decorreu do telefonema da mãe, na noite do incêndio na mansão em Botafogo, comunicando-lhe, desesperada, que seu pai falecera. Eis a razão de eles deixarem provisoriamente Pa­ris para se alojarem na casa dos avós, na capital da Alsácia. Aurèlien ficou a maior parte do tempo em companhia da mãe. Júlia se entendeu muito bem com ela, ainda abalada e sem estar recuperada da depressão pela morte do marido. Na noite em que os familiares ficaram conversando na sala de jantar, num canto as mulheres, e noutro Aurèlien e os homens, Júlia se aproveitou de um momento em que ficou a sós com Dominique numa saleta para presenteá-la com uma pérola de gentileza, conquistando para sempre a cho­rosa mãe do seu noivo.

Sabe que eu já a conhecia há muito tempo.

Como? indagou a mãe, erguendo as sobrancelhas.

Bem, é muito simples respondeu Júlia num fran­cês perfeito. Seu filho tem todos os seus retratos no laptop. A foto que mais gostei foi a que tirou emTrouville com o seu marido. Sinceramente, a senhora não mudou nada.

Você é uma gracinha. Meu filho soube escolher.

Na remanescente atmosfera de luto, a alegre espon­taneidade e simpatia da brasileira, jubilosa em demonstrar seus conhecimentos da cultura francesa, foram conquis­tando todos os familiares, mesmo os mais sisudos. Todos se ocuparam da noiva com carinho, como da família. Ela ficou maravilhada com a biblioteca, com os grandes clássicos das estantes. O vovô Jojo não se fez de rogado em brindá-la com leituras selecionadas em grande estilo para a solene ocasião da visita da jornalista internacional e xodó do petit Aurèlien. Jojo caprichou na escolhas dos textos, inclusive leu uma passagem da Fisiologia do casamento, em que Balzac recomendava aos homens darem atenção ao prazer das mulheres durante o ato sexual. Júlia adorou os conselhos balzaquianos da "teoria do leito" e sorriu do recado dado em voz alta ao petit-fils, recolhido em sua tristeza pela morte do pai num canto da sala.

Mesmo com pouco tempo disponível, o casal visitou a catedral, passeou pelo Rio III que banha a planície da Alsácia, namorou na Petite France e na bela Ponte dos Mer­cadores. Os dois somente não conseguiram conhecer o Par­lamento europeu por dentro. Só de longe. No domingo à noite, embarcaram na estação de TGV, na mesma estação em que Aurèlien se despediu do pai militar no silêncio de sua dor inconfessa.

Foi assim, com sincera emoção, que a mãe sofrida der­ramou muitas lágrimas na estação ao se despedir do filho com a mulher amada. No fundo do coração enlutado, ficou muito contente com a visita do seu herói e da mocinha.

— Cada um tem a sua dor íntima do silêncio — pen­sou Júlia ao se distanciar melancolicamente de Estrasburgo e se aproximar amorosamente da Cidade Luz. Iria finalmente conhecê-la por intermédio do olhar apaixonado de Aurèlien, à beira dos poéticos cais do Rio Sena e das ruelas da Ilha de Saint-Louis. A sensação era única, indescritível, enquanto o trem misterioso da aventura ia aumentando sua velocidade por trilhos dourados para tornar o sonho de pi­sar na plataforma da Gare de Lyon uma realidade.

Os "meninos terríveis", como o curador Ferdinand denominava espirituosamente os jovens internautas ligados ao padre Antoine, tinham descoberto a empresa Bel France Montgolfière, especializada em promoções e voos turísticos de balões. Foi o padre quem convenceu o curador a come­morar o "aprisionamento do diabo por mil anos" nas alturas angevinas. O curador endossou a ideia do padre e apresen­tou a sugestão do balonismo ao prefeito, como se fosse uma ideia sua. A secretária entrou em contato com o diretor da empresa, responsável por vários passeios de balões pelos majestosos castelos do Vale do Loire e marcou a entrevista na prefeitura para tratar de "assunto de interesses mútuos".

Dias depois, o curador e o diretor da empresa estavam sentados nas poltronas do gabinete do prefeito. A mesa do alcaide estava entulhada de papéis, canetas, remédios e folhetos turísticos. Fazia parte do perfil do político tradicional com um eleitorado cativo, conquistado graças a sua simpa­tia e obras de efeito. Logo se interessou pela proposta, que rotulou de "genial" para o dia da festa, de pintar o céu de Angers com feéricos balões.

— Merveilleux! merveilleux! — repetia o prefeito entusiasmado.

O diretor explicou em detalhes como funcionaria o esquema financeiro do evento promocional. Aventara a hi­pótese de haver um custo zero para os cofres municipais, se conseguisse congregar muitos balões e shapes de propagan­da de grandes marcas.

Apesar do pouco tempo que temos pela frente, acre­dito que possamos reunir uns doze balões. Amanhã mes­mo despacharei os folhetos para nossos clientes cadastrados e vou acionar a mala direta. Tenho certeza de que haverá muito interesse pela nossa fórmula VIP, que oferece pas­seios de balões num roteiro que inclui hospedagem e jan­tares gastronômicos na requintada rede de hotéis Relais & Châteaux. Sempre há uma grande procura.

O alegre encontro contou com muitos risos e muitas histórias. Antes de apresentar a proposta de balonismo, o diretor, nascido em Marselha, fez questão de saber como o quadro fora parar no Brasil, país pelo qual possuía uma secreta paixão por sua música e seu futebol. Citou o sam­ba Orfeu do Carnaval e vários famosos jogadores brasileiros. Coube ao curador narrar as peripécias da descoberta do quadro. As exclamações do diretor eram de total espanto:

Não pode ser verdade!

Depois, o empresário levantou uma polêmica ao afir­mar que era falso considerar Etienne e Joseph Montgolfier como os inventores do balão de ar quente. Segundo ele, foi um padre jesuíta português, nascido no Brasil-Colônia, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, conhecido como Padre Voador, que criou o balão, observando uma bolha de sabão subir no ar. Mas concluiu que considerava os irmãos fran­ceses os pioneiros da primeira viagem aeronáutica.

Vive la France! — concluiu o prefeito, entusiasmado com a ideia dos voos dos balões mágicos cruzarem os céus de Angers.

Os balões serão um outdoor flutuante com trinta me­tros de altura. Quando sobrevoarem os arredores de Angers, eles poderão ser vistos a quilômetros de distância. Não existe melhor publicidade para divulgar o grande evento — propagou o diretor, muito entusiasmado com a boa receptividade dos seus serviços.

Foram ajustados todos os detalhes. A duração do vôo em cima das dezessete torres não excederia doze minutos. Escolheram o roteiro turístico dos balões provenientes de Saumur. Haveria pelo menos três balões com o chamativo slogan da captura por mil anos do diabo, convidando as pessoas a visitar a cidade e o Castelo de Angers nos dias e horários da visitação pública.

Visualmente os senhores não têm noção como o efeito é espetacular com todos os balões coloridos nas altu­ras. Não vão se arrepender. Sinceramente, não existe nada melhor para avisar que o diabo, agora, vai ficar enjaulado por mil anos no porão do castelo. Todos vão saber disso olhando para o céu do Vale do Loire.

Todos riram da exagerada imagem do diretor marselhês.

Só preciso saber, senhor prefeito, a data exata do evento e a hora para eu poder confirmar o dia que o vôo vai poder se realizar.

Como assim? — perguntou o chefe do Executivo, surpreso e fazendo bico com a boca. — Pensei que tivésse­mos acertado tudo.

Infelizmente trabalhamos assim. Só sabemos se será possível realizar os vôos a poucas horas da subida. Não te­mos como saber na véspera se o vento e as condições de tempo vão permitir os balões de voarem sem problemas. Não dá para ser diferente.

Que merda! Isso vai tumultuar todos os preparativos. Vou ter de repensar — reclamou a autoridade, bufando à francesa.

Faça uma surpresa a si mesmo e aos seus convidados. Ninguém precisa saber da vinda dos balões. É um segredo do céu.

Tudo bem — consentiu o prefeito, convencido que a visão colorida nas alturas abrilhantaria o evento, e Angers daria uma lição ao mundo de como reviver a história com arte e engenho.

É assim que funciona o mundo dos balões — jus­tificou o diretor em sua fala mais convincente. — A magia só acontece se o vento soprar acima de 20 quilômetros por hora. Deus sabe disso!

Em Paris, as tentativas de identificar os interlocutores na suspeita ligação França-Brasil agitou a semana do Departamento Antiterrorista, depois das boas notícias vindas do Brasil. A polícia do Rio achou o celular, bastante danificado, do dono da mansão incendiada, e recuperou o número de série, milagrosamente salvo por estar protegido debaixo da fivela de aço do cinto. Assim a operadora local identificou todas as chamadas recebidas por Leonardo.

A Interpol no Rio repassou as informações para a po­lícia francesa. Não foi possível identificar quem realmente fez a chamada para o Brasil, pois o celular que foi usado era clonado. Mas foi a partir das interconexões dos números discados pelo celular clonado que o Frenchelon processou a transmissão de dois minutos e dezenove segundos recebida por Leonardo. Já o sofisticadíssimo sistema de decodificação bidirecional de voz confirmou o uso das palavras: mestre Pierre, Castelo, Angers e milhões de euros na curta ligação para o Brasil. Chegaram à conclusão de que alguém, presumivelmente um seguidor da Ordem do Diabo, ligara para o dono da mansão em Botafogo na hora em que Aurèlien estava sendo torturado. O chefe do DAT foi quem estabele­ceu a suspeita e perigosa relação de interesses comuns entre Leonardo e um satanista.

E uma vez estabelecida a conexão Rio-Angers, imedia­tamente os agentes do DAT partiram de Paris para Angers para fazer o mapeamento da região e de todas as entradas e as saídas rodoviárias da cidade. Foi graças ao envio dos agentes e do levantamento preliminar que o chefe da DAT soube da festança programada para comemorar a chegada da famosa tela do Apocalipse.

No seu dever de ofício, o coronel entrou em contato com os seus superiores no Ministério do Interior para de­saconselhar o evento. Porém, no íntimo e no interesse do DAT, torcia para que a solenidade fosse mantida. Os colegas do ministério acharam ridículas as ameaças da seita religio­sa terrorista, embora admitissem que com o diabo não se brinca. Não se sabe se isso era dito em tom de pilhéria ou seriamente, em termos de segurança nacional.

Após as devidas consultas às instâncias da burocracia governamental, o Ministério da Cultura e da Comunicação manteve a prioridade do evento que enaltecia a "grandeza histórica e museológica da França". Por sua vez, o gabine­te do Ministro do Interior comunicou que a programada solenidade não seria cancelada e todos contavam com a efi­ciência do departamento nas providências e ações cabíveis para proteger Angers e o castelo.

O coronel, chefe do DAT, só teve de agradecer à sábia decisão, que atendia ao interesse de prestigiar e preservar a verba secreta do departamento. A etapa seguinte foi con­versar com o prefeito de Angers. Geralmente os políticos odeiam os aparatos policiais. Consideram um abuso serem importunados e, pior ainda, serem espionados. Previa uma reação negativa e um clima tenso, com muitos bufos de indignação da autoridade local, ao ser informado de uma hipotética ameaça terrorista.

O Ministério da Cultura solicitara o seu empenho em usar muita cordialidade no trato, de modo que o prefeito aceitasse as ações do DAT. Aboliu o uso do chavão militar "segurança nacional".

Infelizmente, nosso departamento terá de efetuar uma operação de rotina que exige algumas ações preventivas.

E daí? — perguntou o prefeito, sem esconder o seu pesar.

Temos de tomar algumas medidas de absoluta prio­ridade.

Que absurdo! Só pode ser praga da oposição! — reagiu o prefeito indignado. — Espero que não me criem problemas políticos.

Cuidarei pessoalmente para que Angers tenha a se­gurança preventiva que o evento requer. Não haverá trans­tornos. Prometo.

Era só o que me faltava, ora essa. Olhe lá, estarei de olho.

O senhor já sabe quando será o evento?

Provavelmente daqui uns quinze dias. O secretário de Turismo ainda não concluiu os estudos. O senhor vai receber tudo com prioridade. Será um dia inesquecível, general.

Mas o exigente coronel não ficou satisfeito nem com o título honorífico de general agraciado pelo prefeito, nem com a promessa da remessa tardia da programação e muito menos com o mapeamento da cidade. Mergulhou no site do Atlas do Patrimônio na internet e noutras cartas geo­gráficas. Porém, quanto mais pesquisava, mais suas suspeitas aumentavam, o que dificultava uma avaliação estratégica se­gura da suposta ameaça ao castelo e à histórica capital da antiga província de Anjou na Idade Média.

Havia um insondável mistério no ar a desafiar sua in­teligência e os mais sofisticados códigos vermelhos de se­gurança. Até então tudo lhe parecia muito vago, muito aleatório, pouco provável de acontecer em termos de um atentado à fortaleza com suas dezessete torres, construídas no século XIII para "se prevenir contra o fim do mundo". Tinha dificuldade de antever e mais ainda de imaginar um carro-bomba triunfante, pondo abaixo uma montanha de pedra e destruindo a galeria.

Só havia um jeito de pôr fim a tantas dúvidas e incer­tezas: ir visitar o castelo pessoalmente e tirar as suas próprias conclusões. Passaria por lá como um francês numa missão secreta: incógnito, travestido na pele de um turista comum, um apreciador das armas bélicas e artes medievais. Mesmo porque não podia ser diferente. Ninguém poderia conhe­cer o rosto do chefe do DAT por razões de segurança do governo. Daí nasceu o misterioso codinome de "o Vulto", a temida sombra do serviço secreto antiterrorista francês, com grandes feitos enriquecendo o seu currículo.

 

O grão-mestre Pierre sempre enfatizou que o quadro de­veria pertencer à Ordem do Diabo. Como não foi possível surrupiá-lo ou comprá-lo no Brasil, os satanistas tiveram de contratar um profissional para impedir que a cena do diabo enjaulado se juntasse às demais cenas do Apocalipse, e estavam dispostos ao extremo de "explodir o castelo pelos ares", se fosse necessário.

Segundo o Gorila, o método tradicional do carro-bomba para implodir a galeria no interior do castelo era de alto risco e ineficaz devido à altura e à espessura das muralhas. Mesmo com um carro-bomba com mais de seis toneladas de ANFO, algo difícil de carregar, sem alarde, ain­da assim, teria poucas probabilidades de causar danos à ta­peçaria. Aventou a hipótese de fazer um reide marítimo. Uma alternativa que nenhum terrorista cogitaria, por não ser usual nos atentados praticados com êxito, haja vista, os de Madri e Alger. Além disso, demandaria o manuseio de armas de longo alcance, de difícil obtenção, em redes clan­destinas ou depósitos militares, num prazo tão exíguo. A opção aérea das duas torres também foi descartada, por ser complexa e exigir uma longa preparação. A conclusão do levantamento foi desanimadora e definitiva: não haveria a menor possibilidade de se destruir a galeria.

A reviravolta ocorreu por uma dessas demoníacas coincidências, trazendo a solução criativa que faltava. Bastou um informante da seita religiosa, que trabalhava numa agência de turismo, avisar ao grão-mestre Pierre do festival de ba­lões programado para a solenidade de exposição do quadro, para reacender a chama explosiva do atentado terrorista contra o castelo, sabendo-se que a responsável pelo evento era a empresa Bel France Montgolfière.

O telefonema do Gorila, com falsa identidade, para a diretora de marketing da empresa, prestimosa em satisfazer o novo cliente, foi suficiente para que obtivesse as infor­mações necessárias: formato dos balões, o ponto de partida e a hora estimada do vôo. A diretora ressalvou que seria confirmada no dia do evento a hora exata, por causa da meteorologia ou, como insinuou com ironia:

Não depende de nós, mas Dele, lá no céu.

Os grandes balões eram de 2500 metros cúbicos com 28 e 23 metros de altura. O profissional só admitiu a solução balonista após rever as anotações e visualizar as fotografias das muralhas das torres quatorze a dezessete, que muravam boa parte da galeria e guarneciam as calçadas do Boulevard Général de Gaulle. Só lhe restou estudar a direção dos ven­tos para definir o melhor ponto para o ataque ao castelo. A princípio, tudo se encaixava logisticamente.

O Gorila retornou à cidade vizinha de Saumur. Mapeou o itinerário previsto dos balões da Montgolfière até Angers. Alugou dois grandes balões, um de 28 metros de al­tura e o outro de 23 metros. Tu do estava rigorosamente pre­visto nos pesos e nas medidas para carregar duzentos quilos de explosivos de grande poder incendiário e de deflagração. Sabia, porém, que a decisão final do voo dependia de fatores externos fora do seu controle e alcance. Tinha fé nas preces dos satanistas para que os ventos no dia da festa fossem favoráveis e não ultrapassassem os proibitivos 20 km/h.

Após esquematizar a operação e providenciar a contra­tação dos balões e dos pilotos, o Gorila comunicou ao grão-mestre, em mensagem radiofônica, de poucos segundos, que o dia estava agendado e, de agora em diante, era bom ficar de olho na meteorologia e rezar, no que o mestre Pierre e seus seguidores se puseram a fazer com toda devoção:

Que a força obscura, iluminada pelas chamas do in­ferno, guie o nosso guerreiro da lua na luta final contra os blasfemadores. Louvado seja o poderoso Satã que pôs a mi­nha vida sob a sombra de sua lança para que eu guerreie e vença os apoiadores do Deus. Oro em devoção a Satã ado­rado, que representa a sabedoria pura, em vez da autoilusão hipócrita do cristianismo. Chegou a hora de Ele impor sua vingança, em vez de dar a outra face.

O chefe do DAT não ficou satisfeito com o dossiê pre­parado pelos auxiliares. Foi pessoalmente visitar Angers.Ti­rou fotos de quinze megapixels. Na margem direita do Rio Maine, fez um passeio pelos cais, de Tabarly a Monge e pelo porto de Angers, e na margem esquerda, pelos cais, de Ligny e Gambetta, estes a pouca distância das torres um e dezessete. Examinou a única entrada do castelo pelo portão da ponte levadiça no meio das duas torres geminadas. Exa­minou as espessuras uniformes das muralhas que obedeciam às determinantes góticas em de xisto e calcário. Visitou as dezessete torres encimadas por merlões chanfrados e caminhou pelos adarves, bem como pelos fossos da fortaleza, outrora alagados. Entrou nas salas e interiores vazios. Tudo, sem chamar a atenção.

Ao final, no alto da Torre do Louco, de número dezes­sete, defronte à ponte Basse Chaîne, concluiu ser impossível que um atentado a carro-bomba fosse bem-sucedido, como os acontecidos em outros países. Mesmo que a bólide con­seguisse furar o bloqueio rodoviário, a explosão não causa­ria danos de grandes proporções ao castelo.

O terraço no alto da Torre do Louco oferecia uma bela visão panorâmica completa de toda a cidade e extensão do navegável Rio Maine, formado pela confluência do Rios Mayenne e Sarthe, ao norte de Angers. A principal rodo­via que margeava o rio até a chegada ao castelo estava in­terligada à auto-estrada A-11. O coronel Lucien Jouvet não precisou de binóculo nem fotos da grande lente angular para decidir o que era preciso em termos de segurança má­xima. Descartou o ataque pela entrada principal da ponte levadiça, por estar muito distante da galeria. As preocupa­ções se concentraram nas espessas muralhas que ladeavam o Boulevard Charles de Gaulle e serviam de parede interna da galeria, onde estavam dependuradas e expostas as belas cenas do Apocalipse. Todas as atenções se voltaram para esse flanco do castelo.

Na volta a Paris, revendo o Plan de Masse (planta bai­xa) do castelo e as fotos plotadas em 90x60, concluiu que do ponto de vista fluvial, bastaria interditar previamente o acesso nas margens próximas ao castelo, esvaziando os cais visitados e impedindo o ancoradouro ou a navegação de qualquer tipo de embarcação até cinco quilômetros de cada lado da fortaleza. Pela sua experiência em balística seria im­possível alguém acertar um alvo de tão longa distância, a não ser que tivesse um armamento muito sofisticado, po­rém de difícil transporte e que seria logo interceptado.

Do ponto de vista rodoviário, bastaria montar um efi­caz bloqueio na entrada de Angers e nas ruas próximas ao castelo. A auto-estrada A11 seria interditada e haveria um bloqueio parcial da Avenida do Atlântico e total do Bou­levard Charles de Gaulle, desde as pontes Basse-Chaîne e Verdun. Todas as ruas vicinais de acesso ao castelo seriam interditadas. Tudo seria operacionalizado durante a noite e à surdina.

O elemento-surpresa também foi considerado pelo co­ronel, pois não é só num ataque terrorista que é impor­tante e funciona. A polícia também tem de surpreender o inimigo com medidas preventivas de segurança pública, de preferência tomada em cima da hora. Assim, todo o planeja­mento seria executado na madrugada anterior à solenidade, sem prévio conhecimento do prefeito para evitar protestos e problemas com a municipalidade.

A DGSE mandou instalar e estava operando há dias o moderno sistema de radar e de escuta para detectar qual­quer equipamento de artilharia móvel e rastrear qualquer tipo de comunicação suspeita no amplo raio de ação de toda a periferia de Angers.

Algo suspeito foi captado pela Direção de Vigilância do Território (DST, serviços de contra-espionagem) em Domme. Uma espécie de "aviso" de um radioamador, não iden­tificado, de Paris, para um receptor móvel da Ordem do Diabo no sul da França. Contudo, nem a DST conseguiu reconstruir todo o diálogo interceptado, nem o coronel de­cifrou o significado dos trechos da gravação que esclarece­riam o envolvimento da ordem na história.

O que podia conter a mensagem? — perguntava-se o diretor do DAT, relendo os confusos dizeres, com destaque para as palavras: castelo, RDX, "menos de vinte" e rezar. Não se impressionou com a sigla RDX da nitroamina explosiva. Que diabo era essa maluquice de redutor numérico? — questionava-se o Vulto, mordendo os lábios e crispando os punhos, antes de batê-los com força na mesa de trabalho. Logo depois de acariciar a mão dolorida, decidiu solicitar aos superiores o nível de alerta vermelho, o alerta máximo para a periferia de Angers, e acrescentar às ações em curso um plano eficaz de evacuação emergencial da galeria.

Agora só lhe restava aguardar. Confiava na decisão po­sitiva do ministro do Interior de autorizar o alerta verme­lho. Não faltariam homens, armas, nem verbas para evitar o Apocalipse raciocinou o coronel, atormentado pelos enigmas que circundavam as muralhas intransponíveis do castelo.

Ah! Paris! Que cidade prodigiosa!

Podia soar como um lugar comum, mas essa foi a pri­meira impressão que Júlia teve, ao sair da Gare de Lyon e passear pela cidade. Só a conhecia por fotografias, filmes e pelas histórias do pai. No início tudo eram flores, chei­ros, passarinhos, verdes diferentes, maravilhosos, a misteriosa elegância que preenchiam de encantamento os olhos e os sentidos. Não conseguia achar defeitos nos cartões-postais do Arco do Triunfo, da Torre Eiffel e da Pirâmide do Louvre nem na arquitetura haussmaniana da cidade.

Olhava fascinada tudo que via a sua volta. Tinha mui­ta curiosidade em descobrir o fabuloso mundo dos seus sonhos. Paris se tornava uma cidade caleidoscópica, cada dia com um bairro novo, uma esquina, uma rua diferente. Compreendeu as pausas sonhadoras do pai, que abandonava discretamente as leituras dos balões dos álbuns de Tintin e deslizava fora das margens em branco das páginas ilustradas para ir vagar indolente em pensamento pelos jardins de Lu­xemburgo, na Place des Vosges, nas aléias do Museu Rodin, ou juntar-se à boemia de Montmartre ou ao formigueiro do Quartier Latin. Sua memória fotográfica redescobria o que a vida urbana europeia lhe oferecia de deslumbramento e reminiscências.

Com intraduzível emoção conheceu a Paris prodigiosa dos enigmas, sem precisar dos passos de Aurèlien para guiá-la, nem do olhar vivido do pai, que nos bons idos abando­nou os hábitos e os dias nublados do continente europeu, tudo harmoniosamente histórico, milenar, resistente à pátina do tempo, para jubilar-se com o amor de Maria Te­reza e encontrar a paz interior na arte de viver num lugar distante do passado, numa serra ecologicamente incrustada nas montanhas, cujas maravilhas ensolaradas as contou de coração apaixonado.

Porém, por trás dos óculos com fmos aros vermelhos, o olhar amoroso por uma Paris de sonhos e enigmas reencon­trou o seu melhor senso crítico, de alguém que deixou para trás recordações saudosas do Brasil e foi coabitar por alguns dias com um parisiense. Os olhinhos água-marinha foram gradualmente captando uma gama infinita de contrastes, desde o refinamento ao estranhamento de certas coisas, da raridade do céu azul à monotonia do céu cinza, da vanguarda do mundo civilizado ao primitivismo de hábitos ances­trais ou de moradias trogloditas, ainda presentes e espalhadas por toda a França.

Após se deslumbrar, vieram as primeiras decepções. Jú­lia se deparou com a crua realidade habitacional parisiense, bem diversa dos translúcidos folhetos turísticos. A começar pelo grande estúdio, pronunciado com um "o" aberto de horror. Um cubículo de 28 metros quadrados alugado por Aurèlien, orgulhoso em dizer que era igual ao dos seus vi­zinhos. Verdade inquestionável num charmoso bairro que abrigava em abundância esses estúdios liliputianos. Porém, o trágico nisso era o mal-afamado item banheiro. O chuveiro era localizado na cozinha e o vaso sanitário, longe dali, num canto entre paredes, por onde passava o encanamento de esgoto do prédio.

Ridículo! — bufava Júlia, aderindo ao vício gaulês de protesto. — Onde posso lavar a roupa? — perguntava constrangida.

Na cozinha — respondia sorrindo um Aurèlien gentil. O parisiense sabia que era a única resposta cabível.

A adaptação foi difícil para uma "indígena" com ma­nia de tomar dois banhos por dia, mesmo em baixas tem­peraturas. Em Estrasburgo estranhara a falta de chuveiro. No casarão só existia uma banheira — símbolo máximo do conforto doméstico francês. Teve saudades do cantinho de tia Amélia com o amplo banheiro e área de serviço, peças estas inexistentes em residências metropolitanas, pequenas ou grandes, ricas ou pobres. Talvez isso explique, em parte, por que os parisienses fazem da rua a extensão do seu habi­tat. Porque vivem tanto tempo nos cafés, durante o tempo que quiserem, delongando-se na leitura dos jornais ou no papo. Flanando pelas ruas, grandes magazines e jardins ou revisitando os magníficos museus. Quiçá essa paixão contagiante do francês pelos bistrôs, pelos restaurantes, salas de espetáculos, jardins, seja sua forma de esquecer o desconfor­to da privacidade caseira. Deduzia que o parisiense típico aprendeu, em gerações, a levar uma vida social ativa fora de casa e fazer disso uma saudável alegria de viver.

Mas, como havia contado nas cartas à mãe, a "coisa an­dou feia". As pessoas imaginam um friozinho gostoso, quiçá uma tímida neve, mas não imaginam uma Paris calorenta. Nem os próprios franceses. A cidade não está preparada para dias de verão fora da estação, nem faz o seu perfil turís­tico. A exceção dos grandes magazines e alguns lugares que mantêm o ar refrigerado ligado, os parisienses, por econo­mia ou descaso, não parecem se incomodar com o descon­forto calorífico e nem bufam se estão suarentos. Ainda bem que foram só dois dias de calor e de sol, logo substituídos pelos de chuva fina.

Pior ainda era estar no metrô. Nele, Júlia foi obrigada a suportar uma mixórdia odorífica insuportável nos vagões superlotados, bem como certos espaços públicos ou am­bientes fechados, apesar de a população estar cercada por majestosos monumentos, obras de arte, belas praças e pon­tes. O que também não condiz com os reclamos do mau humor agressivo, em voz alta, seguido de grosseiros mu­xoxos, que teve de ouvir por andar a pé por toda a cidade. O velho Baudoin Werhofen lhe recomendou soltar os ca­chorros contra os poucos amáveis energúmenos. Era tiro e queda! Logo se acovardavam e se convertiam em comuns e respeitosos cidadãos urbanos.

Bem, fazia parte da paisagem parisiense a convivência cotidiana com o pecadilho olfativo e as brisas de mau hu­mor, por certo desagradava, mas de modo algum impediti­vas de deixá-la sempre de queixo caído diante do fabuloso cenário dos tempos grandiosos de civilização, onde se ho­menageia e honorifica o triunfo nas batalhas, reverencia-se a realeza guilhotinada e se monumentaliza o apogeu impe­rial, sem abdicar dos princípios pétreos de liberdade, igual­dade e fraternidade.

Júlia foi compreendendo, no convívio com Aurèlien e no cotidiano com a cidadania francesa, que, por mais tropi­cais e higiênicas que fossem suas ressalvas, elas eram contes­tadas, senão compensadas, em larga escala, pelas vantagens de estar numa metrópole cosmopolita, emocionando-se com os concertos de órgão na Sainte-Chapelle, o passeio de bateau-mouche pelo Rio Sena, viciando-se no passeio pelos "bouquinistas" e no hábito de conversar, ao pé do ouvido, em busca do tempo perdido no Les Deux Magots ou extasiando-se com o visual dos grandes boulevards e das avenidas. Era como se as quimeras que antes a faziam sentir- se uma estranha tivessem de repente desaparecido peran­te tantas coisas prodigiosas de se memorizar. E assim, Júlia, agora na pele de uma parisiense, retardava-se cada vez mais nas ruas iluminadas antes de voltar para o cubículo.

Escreveu para o pai contando que se tivesse de esco­lher a mais funda emoção causada pela hegemonia cultural francesa, ela teria muita dificuldade de pinçar e personali­zar uma dentre tantas, sem cometer graves injustiças. Mas acreditava que duas percepções íntimas, mantidas vivas na sua memória, se sobressaiam das demais: o amadurecimento do povo francês, sempre inquieto e pronto pelas luzes da razão a se indignar e se unir contra a lentidão das mudanças sociais; e o senso de delicadeza na homenagem às coisas simples do cotidiano. Não sabia explicar por que tais itens tocaram mais o seu coração. Admitia que nada a deixava mais comovida do que se aproximar das vitrines para admi­rar o laborioso ordenamento da loja de queijo, de vinho, do açougue, da peixaria, da confeitaria, do hortifrutigranjeiro, em que o refinamento da apresentação condizia com o tri­buto reverenciai a um estado de espírito de quem sabe estar de bem e em harmonia com a vida.

No último dia, Júlia, reclinada sobre o corpo relaxado de Aurèlien à beira do Rio Sena, vendo os barcos trafegar sob a sombra da Notre-Dame, se emocionava ouvindo o amado falar sobre a notável capacidade do povo francês de aglutinar homens e ideias em torno de melhorias existen­ciais e de brigar por elas em protestos, passeatas, comícios e nas mudanças de leis, quase sempre bem-sucedidas e im­portantes. Lutar pelos valores nacionais de uma herança não apenas legada por reis e homens de Estado, por generais, filósofos, escritores, poetas, mas, principalmente, por milha­res de pessoas anônimas, ao longo dos séculos da história da França. Merci pela lição de grandeza, comovia-se Júlia, se abstraindo de julgar o povo brasileiro que se acovarda na sua indignação patética, preferindo não reagir, não cerrar fileiras contra a violência, a corrupção, a impunidade, retar­dando as mudanças dos avanços civilizatórios.

Nisso seu pai e Aurèlien tinham toda razão. Paris era única e pródiga em oferecer tantos atrativos aos visitan­tes que amavam a França, ou melhor, que a compreendiam na sua dimensão secular, suas glórias e seus conflitos, seus castelos e suas favelas, suas contradições e acertos na cons­trução da sabedoria do seu povo, essencialmente universa­lista. Ali na Cidade Luz se podia levar uma vida estruturada, culturalmente rica, de informalidade no trato, em paz com uma polícia intimidativa, como deve ser para se combater e reprimir a violência insana do nosso tempo.

Sua estada na França lhe permitiu acompanhar a com­pleta recuperação do grand Aurèlien. Admirar como ainda manuseava com mestria a besta. Às vésperas de partir para Angers, ele a levou para conhecer o US Tir Gouvieux, um clube de tiro na cidade do mesmo nome, a quarenta quilômetros de Paris. Desde a perda de sua visão, ele estava ansio­so para conferir a pontaria na sua balestra de campeonato, guardada a sete chaves no armário do clube. Júlia viu como foi festejado pelos amigos desportistas pelos belos tiros pra­ticados. Era impressionante ver como conseguia acertar na mosca alvos a dezenas de metros de distância. Saiu de lá sob aplausos. Também aplausos merecidos nas noites em que o arqueiro do amor se superava para fazê-la sentir-se feliz na estreita cama do estúdio, conforme recomendado no livro de Balzac, cujas páginas vovô Jojo lera para os dois. Não tinha como Júlia não se curar definitivamente do comple­xo dos braços finos e não agradecer todos os dias por estar respirando o ar de Paris.

Porém, nessa visão existencial, pairando por cima dos sentimentos autóctones e das chaminés dos telhados acinzentados, levitava uma pergunta que Júlia não conseguia responder: moraria para sempre em Paris?

 

Os convidados do curador ficaram hospedados, na véspe­ra da solenidade de apresentação do quadro 75, no Hotel Marguerite d'Anjou, localizado bem em frente ao portão do castelo.

Entrava-se no hotel pelo simpático restaurante, cujo alto balcão do bar era também da portaria, onde se apanha­va a chave e os recados.

Da sacada do terceiro andar tinha-se a visão frontal de onze das dezessete torres circulares das muralhas. Ao acor­dar às 6 horas, um hábito militar que mantinha até então, Aurèlien pôde assim acompanhar da janela, no lusco-fusco do amanhecer, a grande mobilização militar nas áreas circundantes do castelo.

Após aparar no espelho do banheiro as extremidades do cavanhaque, retornou à janela indiscreta para ver uma extensa área em volta do castelo interditada e soldados se movendo nos estreitos corredores entre as torres. O estacio­namento de carros em frente às torres sete, oito e nove, fora inteiramente esvaziado. Quando o sol clareou, toda a exten­são do Boulevard Charles de Gaulle estava vazia. Avistou, do outro lado da Ponte Basse-Chaîne, dois blindados AMX-10 RC com seus canhões apontados para o céu. Viu também as concertinas com espirais de aço galvanizado impedindo o acesso ao castelo. Dois policiais do GIGN vigiavam o cais de Ligny. Os preparativos eram do código vermelho de segurança. A mente e o olho do ex-policial ficaram em alerta máximo. Seu radar intuitivo prevenia-o de que algo surpreendente aconteceria naquela manhã de ventos fracos.

Após o café da manhã, a pouca distância do hotel, Aurè­lien e Lisa pisaram na longa passarela vermelha que ornava toda a passagem da ponte levadiça até a entrada do grande pátio ajardinado em direção a capela. A festiva solenidade havia apenas começado. Caminharam de mãos dadas, em direção ao pátio que os levaria até a entrada da galeria, con­tornando os muros da capela, situada na parte central do castelo. O burburinho no ar contagiava a solenidade, que parecia a festa de entrega do Oscar, merecendo o curador e Aurèlien uma estatueta, pela captura do dragão de sete cabeças. A imprensa em peso estava presente ao aconteci­mento histórico, garantindo assim uma grande repercussão e divulgação na mídia.

Recepcionistas em trajes típicos medievais conduziam os convidados ao longo de uma aléia de tílias que terminava no portal do châtelet. Ao cruzá-lo, penetrava-se no pátio, de onde, do alto da balaustrada de pedra, via-se o jardim de ro­sas que embelezava o acesso à galeria do Apocalipse. Nesse pátio acolhedor, ao ar livre, oferecia-se um vin d'honneur. Os mais deliciosos vinhos rosés produzidos no Vale do Loi­re eram servidos por ágeis garçons, também em costumes medievais. Todos os presentes se confraternizavam à espera da solenidade, prevista para às 11h30min. Os poucos convi­tes distribuídos com uma discreta tarja vermelha no canto esquerdo incluíam um almoço pós-solenidade, reservado às autoridades e convidados especiais.

Mas a festa tinha uma grande falha, criticada por todos, embora perdoada pelos convidados ao chegarem ao pátio do castelo. Tudo causado pelo ostensivo código vermelho de segurança pública, que, a menos de dois quilômetros, não permitia o acesso à fortaleza. Os convidados eram transportados por ônibus fretados até a ponte levadiça. Nenhum veículo podia circular pelas vias de acesso ou ruas próximas ao castelo, a não ser esses ônibus disponibilizados e razoa­velmente confortáveis.

Além disso, todos os participantes do evento, sem ex­ceções, foram submetidos, com muita má vontade, à revista por aparelhos detectores de metais. Os agentes apenas cum­priam o código vermelho, comandado, discretamente, de longe pelo chefe do DAT. Algo assustador, como há muito não se via em eventos oficiais, e desmentia a promessa feita à autoridade local que somente usaria um modesto aparato militar.

O prefeito praguejou, os convidados protestaram, os jornalistas reclamaram. Só o curador não achou de todo ruim essa propaganda negativa. Parodiando Sarah Bernhardt falem mal, mas falem de mim ele aceitava de bom grado que as pessoas falassem mal do policiamento exces­sivo e constrangedor, mas que também extravasassem as emoções de encantamento quanto à beleza da tapeçaria do Apocalipse. Agora, então, com a inclusão da famosa tela, tão bem protegida pelas muralhas do castelo.

Num determinado momento, quando a grande maioria dos convidados já se encontrava presente, o curador resol­veu brindá-los com o vôo planado de um mocho real, de grandes proporções, amestrado no próprio castelo. Era um pássaro belíssimo. Seu pescoço girava quase trezentos graus, como para compensar a fixidez dos seus enormes olhos dourados. Ele sobrevoou as dezessete torres para pousar em grande estilo com suas asas gigantescas no braço esticado, envolto por um protetor de couro, da jovem e loura domadora. O número de entretenimento foi muito aplaudido.

O prefeito esboçou um sorriso irônico para a platéia só em pensar que o voo era apenas uma pequena amostra aérea, um hors d'oeuvre do que viria depois para comemorar a triunfal prisão de Satanás no Castelo de Angers. Com um olhar eleitoreiro foi contabilizando as presenças no even­to. Um sucesso absoluto: todos tinham comparecido, com exceção do padre Antoine, que devia, como sempre, estar atrasado.

— Eles estão chegando — avisou, discretamente, o di­retor da Bel France Montgolfière, para o prefeito, que cir­culava pelo pátio sem parar, cumprimentando os convida­dos, em plena campanha eleitoral, distribuindo sorrisos para todos. Em casos de maior amizade ou de garantido retorno político, ele não se escusava de aplicar um discreto beijo na face do convidado numa intimidade tipicamente francesa em reencontros solenes.

O prefeito olhou de relance para o céu e não viu nada.

Naquele momento de expectativa, da torre um, na la­teral à esquerda do portão da entrada, podia-se ver que não havia sinal de embarcações passando ou ancoradas nas águas do Rio Maine nem vivalma nos cais a quilômetros de distância da fortaleza. Do alto das duas torres gêmeas, logo na entrada do portão da ponte levadiça, podia-se ver que o único acesso direto ao castelo distava a dois quilômetros dali, onde fora erguida uma barreira de soldados fortemente armados e de blindados fazendo a identificação dos con­vidados. No fundo dos fossos, outrora cheios de água em volta das muralhas, posicionavam-se soldados com fuzis de assalto. Apesar da inexistência de passagem subterrânea, os soldados guarneciam esses fossos, dando a aparência assus­tadora de fortaleza medieval bem-protegida contra as pro­clamadas "forças do mal". A segurança máxima estava na ordem do dia no Castelo de Angers.

Eles estão chegando. Olhe à esquerda — repetiu o diretor da empresa balonista, desta vez num sussurro no ou­vido do prefeito, que mirou de relance para cima das torres do castelo, mas não viu nenhum balão.

Merci pelo convite — saudou o prefeito de Paris.

E uma honra para nós tê-lo em Angers — retribuiu o prefeito, agradecido, esbanjando um largo sorriso.

O curador, bastante envaidecido com a presença do mi­nistro da Cultura e da Comunicação, subiu às nuvens, após ser agraciado com um generoso elogio:

É um grande dia para o nosso patrimônio nacional. Todos nós, senhor curador, nos orgulhamos da sua vitória.

Só cumpri o meu dever, senhor ministro — res­pondeu o curador, todo aprumado, como um militar em posição de sentido.

De repente, os agradecimentos e as homenagens fo­ram abafados pelos "Ohs!", exclamados de todos os cantos do pátio. Eles prenunciavam a chegada lenta e feérica dos balões em suas diversas formas. Ainda estavam distantes das dezessete torres. Os convidados não podiam ver, ainda, que os menores continham dizeres específicos sobre a solenida­de, sendo que três deles ostentavam o famoso slogan: "Venha a Angers enjaular o diabo por mil anos". Os balões maiores faziam a festa da propaganda das grandes empresas como a Michelin e a Coca-Cola.

O diretor Montgolfière estava eufórico com o magnífico espetáculo visual que sua empresa proporcionara no céu azul. O evento promocional revelou-se um grande sucesso financeiro. O prefeito ia ficar muito contente em saber que o cus­to do balonismo para os cofres municipais se reduzia a zero.

Todos estavam sorridentes e os "Ohs!" continuavam a pipocar pelo pátio à medida que o simpático gordinho dos pneus e a garrafa em tamanho gigante do refrigerante se aproximavam do castelo. Só quem não gostou nada de ver o céu pintado de pontinhos coloridos foi o chefe do DAT, perguntando-se, a todo instante, no íntimo do seu profissio­nalismo: Que porra é essa agora? Estava inteiramente absorto nas suas apreensões, quando teve ainda de ouvir os comen­tários da senhora idosa, ao seu lado, proprietária da mais famosa padaria local:

— Que beleza! O senhor já tinha visto algo assim tão bonito em Angers? Os balões com animais são maravilho­sos. Só não sei por que os dois menores não são coloridos.

A raiva assomou na face pálida do Vulto, obrigado a ouvir as observações da mulher do padeiro. Pôs-se tenso, a morder os lábios. Os punhos cerrados demonstravam que sentiu no ar a gravidade da surpresa aérea. Mas logo que se refez do imprevisto, afastou-se da multidão que lotava o pátio e disparou uma série de ordens pelo rádio. Mandou o sargento-chefe do pelotão ficar em alerta máximo para a evacuação de emergência. Ao seu sinal com o braço ergui­do, fazendo círculos concêntricos com o dedo indicador, foram surgindo policias com fuzis pesados em cada uma das dezessete torres, vigiando os certeiros em paramentadas posturas de combate. Embora tais figurações sempre trans­mitissem uma impressão visual de proteção para o grande público, na prática, não tinham nenhum poder contra-ofensivo. Eram apenas ensaiadas encenações teatrais.

E agora, o que vou fazer? — perguntava-se, per­plexo, o Vulto, com o microfone bluetooth cortando o rosto, cônscio da terrível ameaça terrorista que pairava no céu sem nuvens e da impossibilidade de conseguir reagir a tem­po para vencer o demônio de asas negras.

No Rio de Janeiro, as manchetes dos jornais sensaciona­listas perguntavam: Suicídio ou Assassinato? A trágica mor­te do contador, cujo corpo fora encontrado parcialmente carbonizado na luxuosa mansão de Botafogo, continuava rendendo matérias. A polícia prometia se empenhar numa rigorosa investigação, embora o normal da rotina de averiguação fosse a de cair no esquecimento. Curiosamente, a morte do professor saíra por completo do noticiário. Como sempre acontecia, outros crimes surgiam e ocupavam as manchetes. E a violência urbana, aqui como mundo afora, continuaria sendo uma doença perigosamente contagiosa.

Lucca soube da morte do pai pelo delegado de polícia do Rio. Tentou ligar para Lisa, mas o telefone não atendia. Fez diversas chamadas sem ouvir nenhuma voz do outro lado. Coitada!, pensou, desconsolado. Ela podia estar cuidando do enterro do seu pai. Imaginava-a às voltas com a burocracia do Instituto Médico Legal para liberar o corpo. O pai não deixara nenhum documento ou objeto de valor no apar­tamento dela. Levara tudo para a mansão da Relíquia. Não devia estar sobrando dinheiro porque estava tudo concen­trado nas mãos do professor, que detinha a chave do cofre e controlava as entradas e saídas contábeis. O pai quis que fosse assim, o que fazer?

Achou que a brutal morte do pai não mudaria sua vida nos Estados Unidos. Ledo engano, pois ela teve várias consequências e decepções. A primeira veio com a convocação do diretor-administrativo da universidade que lhe comuni­cou que sua matrícula fora suspensa por falta de pagamento, pois recebera um aviso do banco que cancelara o débito direto. Para continuar na faculdade teria de pagar nas pró­ximas 48 horas a dispendiosa matrícula semestral. Curiosamente, os professores e os colegas, antes tão cordiais, de repente se tornaram hostis, como se ele fosse o filho do Bin Laden, um imigrante indesejável — um caso de expatriação imediata.

Procurou desesperadamente o amigo banqueiro do pai. A amável secretária do texano informava que ele estava em reunião. Perdeu a conta de quantas vezes repetiu o palavrão Fuck you! após tentar entrar em vão em contato com mister John Dalton no banco.

Mesclava-se à dor da perda do pai a interrupção do sonho de estudar no exterior e de se tornar alguém fora do Brasil. Será que o sonho acabara esvaindo-se pelo ralo de uma esquina em Boston? Não! Não!, protestou para si. Lembrou de usar o cartão magnético do banco suíço que o pai o presenteara na véspera da sua viagem para Nova York, no escritório do professor, sem que ninguém soubesse, in­clusive Lisa.

Sacaria o dinheiro depositado na conta secreta do pai e pagaria a universidade, além de outros gastos. Imaginava-se desfrutando do prazer lúdico de contar com os dedos a montoeira de notas de cem dólares sacadas do banco. Ad­mitia já ter sonhado sair gastando sem limites os milhões acumulados, pois achava que o pai não aproveitava a vida, não viajava nunca, a não ser para Brasília. Nunca se inte­ressou em conhecer outras cidades e outros povos. Ele só pensava naquela maldita mansão em Botafogo, como se ela fosse o centro da Terra.

Por quinze minutos sentiu-se um todo-poderoso, um deus. Como tinha 48 horas de prazo, a universidade podia esperar. Podia pagar depois. Entrou numa grande magazine e escolheu os tênis e as camisetas de grife mais caras. Resol­veu também comprar um blazer. Tinha uma tremenda von­tade de vestir um. Foi até o caixa e entregou o cartão ban­cário e teve a decepção do pagamento das compras não ser autorizado. Não se deixou abater. Decidiu comprar o mais sofisticado laptop anunciado na INFO. O vendedor explica­ra a configuração e as vantagens do novo lançamento. No caixa, por mais que o empregado repetisse a operação de digitação da numeração do cartão, o pagamento também não foi autorizado. Correu então para o banco e aí consta­tou a "insuficiência de fundos". Levou um tremendo susto: dos onze algarismos anteriores, que o fez ficar boquiaberto no escritório, quando o pai lhe mostrou o saldo milionário da conta secreta, atualmente só restavam três míseros alga­rismos: US$ 6,66.

Logo raciocinou:

Que merda! Foi o gordinho safado que me deixou na mão com esse saldo ridículo — acusou Lucca, ainda desconhecendo a sanguinolenta morte do professor. Ficou imaginando que o professor não perdera tempo no assalto eletrônico à conta secreta do pai. Praguejou, revoltado de volta ao campus da universidade:

—Vou recuperar o que me roubaram!

Sabia o que significava ter de ir atrás do dinheiro de­saparecido e dar a volta por cima, tal como fez o seu pai, após o suicídio do avô. Esse lendário personagem que ele só conhecia pelas histórias que o pai contava nos botecos, na volta dos jogos no Maracanã. Bons tempos que não volta­riam nunca mais.

Não dá para entender como meu pai pôde confiar todo o seu dinheiro a um ladrão desses! O filho da puta merece morrer! — raciocinava Lucca, na longa fila de em­barque para o Brasil.

Pena que o filho de Leonardo não conheceu aquele menino de nove anos que, após visitar com os colegas a ta­peçaria do Apocalipse, disse confiante para o padre Antoine que a maior Besta do mundo era o dinheiro. Estava certís­simo, o Satanás era o dinheiro que seduz para a violência e a maldade.

 

O que é isso?, foi o que Aurèlien pensou, surpreso, ao ver os balões se movendo no céu e se aproximando do castelo. Num piscar d'olhos, associou a cena aos preparativos mili­tares vistos no alvorecer da sacada do hotel. Logo percebeu que o esquema de segurança estava falho. Instantaneamente, veio-lhe a imagem das duas torres gêmeas destruídas em Nova York.

Estava plenamente justificado o estado de pânico em que o coronel das Ecoles de Saint-Cyr ficou ao avistar a chegada aparentemente pacífica dos quatorze balões colo­ridos em direção às inexpugnáveis muralhas da fortaleza. Possivelmente foi neste preciso momento que o arqueiro acionou mentalmente o gatilho da besta, como o elemento-surpresa para vencer a guerra de armas modernas.

Coronel, venha comigo, por favor.

Eu? indagou o Vulto, sentindo-se afrontado com o convite feito por um civil, naquela difícil situação. O che­fe do DAT não reconheceu de imediato o ex-comandado, quiçá por causa da extravagante novidade do cavanhaque pós-escola e da pele bronzeada. Mas o inconfundível topete no meio da testa e o inusitado gesto de solidariedade não deixaram dúvidas sobre o cadete Aurèlien. Certamente, o pai militar do petit ficaria muito orgulhoso com a corajosa iniciativa de combate do filho.

Não saia daqui — ordenou Aurèlien, dirigindo-se a Júlia, que contemplava extasiada a chegada dos balões.

Nem tiveram tempo de se confraternizar com uma accolade, o abraço efusivo que os militares costumam dar entre si. Aurèlien, segurando respeitosamente o braço do Vulto, foi conduzindo-o até o local em que o prefeito conversava alegremente com possíveis eleitores, todo ri­sonho e falante.

Desculpe-me, o senhor sabe quem é o responsável pelos balões? — perguntou Aurèlien, sem mesuras e perda de tempo.

É o de gravata de bolinha, ali — respondeu o pre­feito, surpreso com a descortês intromissão na frente dos convidados.

Aurèlien e o coronel não esperaram e nem agradece­ram a resposta. Marcharam, a passos rápidos, em direção ao diretor da empresa balonista, para inquiri-lo, sem mesmo se apresentarem.

O senhor é o responsável pelos balões?

Sim. Eu sou o diretor comercial da empresa que...

O homem mal terminou de falar, o coronel já o intima­va com um pedido urgente, num tom militar em crescente irritação:

Precisamos da lista completa das pessoas que estão nos balões. Precisamos agora! E só saia daqui quando eu o liberar.

Claro, claro. Aqui está, senhor balbuciou o dire­tor, meio aparvalhado, retirando atabalhoadamente do bolso do paletó a lista.

De repente, o diretor exclamou preocupadíssimo:

Meus Deus! Acabei de contar os balões. Não é pos­sível. Estão no ar quatorze balões. Dois não são da minha empresa.

Pelo olhar fuzilante do coronel, o diretor anteviu algo catastrófico no céu, sobretudo, ao se ver cercado de soldados.

Por iniciativa de Aurèlien, que sabia de cor o caminho, o coronel, seguido por ajudantes de ordens e soldados, su­biram apressados a escadaria de pedra que os levou ao Mu­seu de Armas Medievais. O chefe do DAT foi erguendo a insígnia de policial e foram passando às pressas pelo guarda e pelo porteiro do museu, atônitos com a invasão dos tru­culentos visitantes.

Vamos! Vamos! esbravejava o Vulto, ofegante.

Não obstante a correria e o tumulto, durante o trajeto o arqueiro conseguiu confidenciar, em linhas gerais, o seu plano de ação, antes de entrarem na principal sala das armas:

Vou escolher as balestras e as flechas para atirar. É a única maneira de se deter essa ameaça terrorista pelo ar. Al­guma dúvida, meu coronel? perguntou, ainda esbaforido.

Nenhuma. Pode contar comigo, tenente Aurèlien.

Vou precisar de um dos seus homens para me ajudar a carregar a besta? Pode ser?

Positivo. Está indo para a torre dezesseis? — pergun­tou o Vulto, nervoso, enquanto indicava um soldado para auxiliar o arqueiro. Não. Vou me posicionar na torre quinze. Lá, vou ter um ângulo melhor para atirar com as flechas. Estou com um palpite de que eles vão atacar pela torre quatorze. É onde fica mais fácil o ataque para eles. Acho que vai dar certo, meu coronel.

De repente, os confusos dizeres da última mensagem interceptada pelos serviços de contraespionagem, que o Vulto não conseguiu decifrar, ficaram claros. Era como se tivesse despertado de um pesadelo. Imediatamente prague­jou contra si mesmo, culpando-se pelo fato de não ter sido capaz de decifrar a mensagem numérica do vento e a nitroamina explosiva que os balões deviam estar carregando, que seria detonado, em qualquer circunstância e sem a menor hesitação, se fossem fanáticos terroristas suicidas. Infelizmente, não tenho uma bola de cristal na minha mesa de trabalho, amargurou-se o coronel para então explodir de raiva:

Filhos da puta!

Ao se despedir de Aurèlien, o chefe do DAT entregou um aparelho do sistema de integração e monitoramento via rádio digital, e imediatamente ajustou o seu microfone bluetooth no rosto.

Estarei no terraço da torre dezessete. Lá terei a me­lhor visão do campo de operações e poderei coordenar melhor todas as ações de apoio. Acho que vai dar certo, te­nente disse o coronel, apressando-se com passos militares para a Torre do Louco, onde ajudantes e o encarregado da inteligência o aguardavam. Ao chegar lá, foi confirmado que os dois balões negros não constavam na lista da Montgolfière. Aconteceu, lamentavelmente, o que mais o coronel temia à meia hora da abertura da galeria: os ocupantes de dois balões eram terroristas e deviam estar carregando explosivos. Teria de evitar usar armas de fogo, a não ser em último caso.

Aurèlien falou pela primeira vez no rádio digital:

Coronel, vou precisar de dois helicópteros na reta­guarda para emboscar estes filhos da mãe e distraí-los, en­quanto me posiciono e vou carregando os arcos.

Vou providenciar. Todos nós aqui confiamos em sua habilidade de arqueiro campeão, do tempo que era da nossa escola. Você é a nossa grande esperança, Aurèlien.

Que é isso, coronel! Esses caras tiveram muita sorte de pegar ventos de menos de 20 km/h nesta época do ano. Mas vão sofrer um bocado conosco! Saberemos dar-lhes as boas-vindas.

A surpresa das flechas os espera concordou o Vul­to, pela primeira vez, com um perverso sorriso nos lábios.

O coronel, por intermédio do seu ajudante, solicitou para que o diretor da Montgolfière desse a ordem de meia-volta volver a todos os seus balões. O primeiro balão a obe­decer foi o da mulher nua de costas das calcinhas Sloggi. Aos poucos todos eles foram se redirecionando para o Sul e lentamente se distanciaram do castelo. Apenas os dois balões negros continuaram suas trajetórias.

Muito a contragosto, o Vulto ordenou a imediata eva­cuação das pessoas do festivo pátio. A manobra militar revelou-se um espetáculo impressionante de velocidade e eficiência para atender a uma emergência de segurança pú­blica. Soldados advindos de todos os cantos e buracos do castelo, como formigas ordeiras, conduziram, sem tumulto e encontrões, os amedrontados convidados para confortá­veis abrigos dentro da fortaleza. Eram verdadeiros bunkers antiaéreos debaixo da capela, distantes da galeria e em local subterrâneo, absolutamente seguro. Tais abrigos datavam da Segunda Guerra Mundial, quando eles serviram de arsenal do comando da Gestapo, no Vale do Loire. Mesmo assim, o coronel se comunicou com a base aérea e solicitou que dois helicópteros Cougars permanecessem de sobreaviso em terra, em caráter preventivo, caso houvesse necessidade de uma rápida evacuação de feridos do castelo.

Nos minutos seguintes só restaram os dois balões ne­gros no céu, direcionados para o pátio de acesso à galeria, já completamente vazia. Dois helicópteros também estavam no ar. Um Tiger voava em círculos fora do perímetro das muralhas do castelo para distrair e atemorizar os ocupantes dos balões. Esse helicóptero tinha um canhão automático e de mísseis Trigat. Em nenhuma hipótese poderia dispará-los, para não provocar explosões. Mais próximo dos balões, um Cougar rodeava as torres nove e dez do castelo. Den­tro dele um atirador de elite armado com um fuzil FR-F2 aguardava a ordem de atirar. Enquanto os objetos voadores se posicionavam no espaço aéreo, o arqueiro Aurèlien se ajeitava na torre quinze, situada no meio da segunda meta­de da galeria. Estava sendo auxiliado por um soldado que segurava uma outra besta e tentava carregá-la, desajeitado.

À medida que os balões foram se aproximando da ga­leria, o chefe do DAT coordenou o contraataque pelo mi­crofone bluetooth.

Ao perderem os balões altitude, o coronel solicitou aos tripulantes do helicóptero, munidos de binóculos de longo alcance, que descobrisse qual dos dois homens dentro da cesta do balão menor era o condutor. Deu então a ordem para o piloto do helicóptero se aproximar do balão, de sorte que o atirador de elite pudesse atirar e acertar na cabeça do condutor identificado.

— Fogo! — ordenou o Vulto para o atirador de elite.

O helicóptero fez um voo rasante e se aproximou ameaçadoramente do balão. O suficiente para o atirador acertar o tiro na cabeça do condutor. A partir daí a cesta do balão começou a balançar e a cair, distanciando-se do balão maior e se aproximando perigosamente da fortaleza. Cabia agora ao arqueiro atingi-lo e rasgar o seu tecido rip-stop com as flechas, de modo a desviá-lo e evitar uma colisão no alto das muralhas, podendo as explosões de RDX atingir e danificar a galeria do Apocalipse.

— Fogo! — ordenou Aurèlien para si. O arqueiro ati­rou a primeira flecha. Ela passou bem perto do balão me­nor. Enquanto mirava com outra besta, veio do balão uma rajada de tiros, em sua direção. Teve de se proteger das balas e esperar.

Desta vez, ao disparar o outro tiro da besta, o arqueiro direcionou a balestra num ângulo de setenta graus e acertou a flechada no envelope do balão menor. Ele estagnou no ar e depois despencou abruptamente nas águas, à beira do cais de Ligny. Não houve explosões porque o helicóptero se aproximara e o especialista em tiros de longa distância acertara o segundo ocupante, impedindo-o de ele detonar as bombas e facilitando o trabalho de assalto dos soldados ao balão murcho, parte dele estirada na auto-estrada. Não foi preciso os bombeiros intervirem porque não houve explo­sões e o homem não era um terrorista, mas um mercenário que, ofegante, preservava a vida.

Depois dos tiros do atirador de elite, os ocupantes do segundo balão se esconderam dentro da cesta. O atirador do helicóptero não podia mais disparar, sem pôr em risco a detonação das bombas incendiárias de fósforo branco, substância semelhante ao napalm. O arqueiro entrou em ação e disparou outro tiro da besta, que passou raspando no envelope do balão. Seus ocupantes abriram fogo. Uma bala por pouco não atinge o arqueiro e outra não perfura o capacete com visor blindado do ajudante. Mas uma bala atingiu a coxa do soldado, que ficou imóvel, rente à parede. Um filete de sangue foi se alastrando pelo piso da torre quinze.

Aurèlien respirou fundo para conter o seu nervosismo e mirar com o olho bom. Deu o mais certeiro tiro de sua vida. Rasgou o coração do dirigível. A gôndola parou antes de perder altitude, saindo da rota em direção à galeria. Viu o condutor do balão ainda tentar uma manobra desesperada de se livrar dos cilindros de gás, que funcionam como o tanque do automóvel, na tentativa de redirecionar o balão para que caísse em cima da torre quinze. Mas a gôndola caiu desgovernada no meio das águas pacíficas do Rio Mai­ne, perto da Ponte da Basse-Chaîne milagrosamente sem que a nitroamina explosiva e o fósforo branco explodis­sem. Ficou comprovado que os ocupantes não detonaram as bombas porque eram apenas mercenários sem nenhuma vocação suicida. Soldados mergulhadores invadiram a cesta de vime do balão e algemaram os bandidos, a menos de duzentos metros das muralhas do castelo. Toda a operação militar durou onze minutos cravados no relógio do coronel.

Ao abater o segundo balão terrorista, Aurèlien se sentiu o próprio cavaleiro do cavalo branco do Apocalipse, a fera da terra, cuja arma característica era o arco, o terror do mundo romano no século I. Se o padre Antoine estivesse com ele na torre teria recitado: "E olhei, e eis um cavalo branco, e o que estava montado sobre ele tinha um arco, e lhe foi dada uma coroa, e saiu vitorioso para vencer" (cf. 6.2).

— Por aqui, por aqui, por favor -— repetiam os solda­dos, escancarando as portas dos abrigos para os convidados voltarem a respirar o tranquilo ar angevino naquela tumultuada manhã.

Aos poucos, os convidados já estavam novamente cir­culando pelo grande pátio, sem perigo.Todos muito falantes e extremamente curiosos em saber o que havia aconteci­do. Com os esclarecimentos, e ainda abismados, cruzaram o portal de pedra da entrada da galeria para afinal ver de perto o famoso quadro 75, que nunca deveria ter-se desgarrado do conjunto da celebrada obra de arte sacra. A aventura terminara em tarde de gala.

Afinal a Besta estava aprisionada no Castelo de Angers. Ninguém podia ver de dentro da galeria, inteiramente mu­rada, lá fora os vestígios dos balões murchos nas margens do Rio Maine, tendo sido capturados os mercenários feridos pelos tiros certeiros dos policiais do GIGN e recolhidas as cargas inativas dos explosivos. Foram os dois agentes antiter­roristas do GIGN, especializados em capturar reféns vivos, que incapacitaram os balonistas de uma última reação antes de pousarem no rio. Cabia agora aos jornalistas pesquisar os fatos pertinentes ao ataque terrorista e à contra-reação medieval e transmitir seus detalhes aos seus leitores.

Mais uma vez a cidade de Angers foi manchete em to­dos os jornais do mundo, e ganhou a primeira página dos vespertinos e revistas francesas. O prefeito, o curador, Au­rèlien e o diretor da empresa balonista nunca poderiam ter imaginado tanta repercussão na mídia. O Vulto podia agora pensar em se aposentar, depois que todos conheceram seu rosto sorridente ao ver o diabo enjaulado por mil anos, rodeado por muralhas e torres seculares, que resistiram à vio­lência na sua face mais diabólica.

A solenidade começara gloriosa. Após alisar com a mão os ralos cabelos grisalhos, o curador iniciou o discurso:

Meus amigos, as minhas primeiras palavras são de exaltação a essa magnífica fortaleza militar desejada e cons­truída por uma guerreira, que já foi uma luxuosa residên­cia monárquica consagrada à pintura e à poesia, foi uma casa de reclusão e entreposto militar nazista, e atualmente se engrandece como um museu nacional de reputação in­ternacional. E mais, muito mais. Hoje abriga uma das mais completas e importantes coleções da iconografia religiosa, consagrando o triunfo do bem sobre o mal.

Arrancava muitos aplausos ao citar a famosa cena do Dragão de sete cabeças, enfim recuperada. Chegando ao final do discurso, apresentou uma versão mais atualizada e mais confiante no seu fecho de ouro preferido, o mesmo que usara para encerrar a palestra da 21a edição do Festival de Jornalismo:

Nunca poderíamos imaginar que a batalha da re­cuperação da tela do Diabo enjaulado por mil anos pudesse mostrar a face satânica da violência nos tempos modernos. Mas as forças do mal foram vencidas e a proclamação da mensagem de esperança continua cada vez mais viva nesta galeria iluminada pela luz de Deus. Vamos juntos admirar a magistral sequência das visões e símbolos da mensagem de salvação anunciada pelo apóstolo evangelista São João. Amigos da arte e da beleza, convido-os agora a se entusias­mar com a inigualável tapeçaria do Apocalipse, segundo São João, em exposição permanente no Castelo de Angers.

 

Ao se aplicar o código vermelho, as comunas de Angers ficaram submetidas a um rigoroso cerco de interceptação dos meios de comunicação. Tudo foi rastreado. Qualquer conversa ou mensagem, suspeita ou não, particular ou em­presarial, era interceptada e gravada numa escandalosa vio­lação dos diretos individuais. Com pretexto de combate ao terrorismo, a invasão da privacidade se tornou a regra geral em todos os países do mundo, depois dos atentados de 11 de setembro em Nova York.

Muitas coisas suspeitas e insuspeitas vieram à tona, sem que as pessoas soubessem que estavam sendo espionadas. Nin­guém poderia supor que numa pacata cidade do Vale do Loire, e, por mero acaso, sem nenhuma denúncia, como acontece geralmente nesses casos escabrosos, uma rede de pedofilia e pornografia infantil pudesse cair na malha fina. Foi uma surpresa estarrecedora a descoberta dessa rede com sede na Ingla­terra, comandada por um pedófilo, sob o pseudônimo de Son of God, e com ramificações na Holanda e na França.

Todos supunham que o padre Antoine chegaria como de costume atrasado na solenidade. Mas acabou sendo o grande ausente e ninguém soube a causa do seu desapare­cimento. O padre foi convocado para depor no mesmo dia e horário da festividade do castelo e do momento que deu entrada na Delegacia de Costumes ficou detido e mantido incomunicável.

Tudo começou quando foram interceptadas as primei­ras fotos chocantes de crianças nuas pela internet. Apesar do uso de modernas técnicas de codificação informática e de acesso restrito, os agentes policiais com o apoio do Child Exploitation & Online Protection Centre (CEOP) de Lon­dres, descobriram que muitas das imagens provinham de uma igreja em Angers, onde, uma vez localizada, apreende­ram os suspeitos computadores.

Agentes infiltrados e disfarçados de pedófilos do novo Serviço Técnico de Pesquisas Judiciárias e de Documen­tação (STPJD) apuraram que as crianças eram levadas da escola em uma caminhonete preta de luxo para casas com piscina e banheiras de hidromassagem, onde eram fotogra­fadas, filmadas e possivelmente molestadas. Nessas casas, vas­culhadas pela polícia, eram produzidas as principais imagens de crianças violentadas. Nelas foram retirados cerca de mil CDs gravados.

A polícia, ao descobrir a rede, rastreou as contas ban­cárias da paróquia e descobriu uma conta "laranja". Os advogados do padre tentaram liberar os arquivos pessoais apreendidos, alegando que a inviolabilidade da casa de Deus fora desrespeitada. Argumentaram ainda que o fundo ban­cário fora criado tão somente para arrecadar recursos para a paróquia. Justificaram a criação do fundo por causa do corte na subvenção municipal, e que o dinheiro arrecadado estava destinado à reconstrução do teto da igreja, seriamente danificado. Arguiram que não havia nada de errado nisso. Ape­nas omitiram o fato fundamental que a polícia descobrira: a maioria dos depósitos provinham de suspeitíssima origem, pois na lista dos doadores figuravam os mais famosos pedófilos fichados da Europa.

Não tenho nada a ver com isso. Eu juro. Acreditem em mim protestou Antoine, gesticulando nervosamente com as mãos, mais suarentas do que de costume e sem os habituais sorrisos de contagiante jovialidade no rosto re­chonchudo.

Após ouvir o longo depoimento do padre Antoine, acompanhado de advogados, o delegado mandou que fi­casse detido até ser concluída a completa averiguação dos fatos envolvendo a rede de pedofilia, que há muito tempo a polícia internacional procurava desmantelar.

Esses bandidos precisam saber que pedofilia é crime e que serão denunciados à Justiça.

O padre ouviu cabisbaixo a ameaça do delegado e re­trucou:

Tudo não passa de uma calúnia. Essa turminha in­fernal da internet vive me metendo em encrencas e apron­tando todas as maldades do jeito que o diabo gosta. Eu sou inocente.

Passava do meio-dia, no outro continente, longe de Angers. Um porteiro uniformizado aguardava a chegada de uma pessoa importante na calçada do imponente prédio, em frente ao Central Park. Mais parecia um general da ban­da da Disney, com seus galões nos ombros e cordões dourados cruzando o paletó. Ele abriu a porta da limusine para a mulher, sorridente, sair, deslizando suas longas pernas até alcançarem à calçada.

Senhora Lisa — disse o porteiro, mostrando a denta­dura perfeita no seu melhor sorriso cordial —, Mister John Dalton a aguarda.Vou avisar que a senhora chegou. Por fa­vor, me acompanhe.

Tudo normal. O texano a informara com antecedência ser impossível recebê-la de manhã cedo no Aeroporto J. F. Kennedy por ter uma reunião de diretoria. Mandou o motorista buscá-la.

É na cobertura, no oitavo andar — indicou o porteiro.

Mister John Dalton, que chegara do banco havia pouco, a aguardava com um buquê de pequenas rosas, formando um coração, na porta do elevador. Abraçaram-se ali mesmo e depois Lisa entrou no estonteante apartamento, pisando no lustroso chão de mármore preto e branco em retângulos. Ele avançou uns passos e aplicou-lhe um prolongado bei­jo na boca. Lisa mal se refez do impetuoso beijo, lá estava o texano a assediando de novo, incontrolável nas efusivas boas-vindas e nas ousadas apalpadelas.

De quem são? — perguntou John, brincalhão, segu­rando despudoradamente as nádegas de Lisa com as mãos firmes.

Agora que estou aqui, com certeza são suas, John — respondeu Lisa, relaxada, sorrindo e fingindo-se cons­trangida.

De verdade? — insistiu o banqueiro grisalho, e sem o menor pudor apalpou os seios de Lisa, como um bebê esfomeado.

Sem vestígios de batom, Lisa se aproximou da borda da ampla janela e admirou o esplendoroso dia de sol resplande­cendo no Central Park, o grande gramado a grande pelouse verde, os diversos lagos artificiais e as trilhas sombreadas para as caminhadas.

Fez boa viagem? — perguntou John, abraçando-a por trás.

Seu agente de viagem foi perfeito. Agradeço-lhe muito.

Está tudo bem?

Lisa fez uma pausa antes de responder. Olhou ainda para a paisagem daquele oásis verde no meio da cidade fervilhante e, de repente, como que diabolicamente, por efei­tos especiais, começou a ver projetado no horizonte no­va-iorquino o thriller de suspense e sedução do qual fora a principal protagonista. Passou a primeira cena: a sua entrada no banco, acompanhada de Lucca. O banqueiro estava sen­tado atrás da espalhafatosa mesa de mogno com a tela do computador aberta. Em cima da mesa, somente o teclado, um bloco de notas e a caneta de ouro. Viu o seu olhar de raio X cravado nos dois desconhecidos à sua frente, como acontece com a bagagem de mão nos aeroportos. Notou sua indiscreta olhada, após ela descruzar as pernas, para a leve marquinha de sol no seu ombro esquerdo, ao tirar o casaco de linho branco. O efeito foi estonteante, igual ao de um foguete da NASA. Por um momento, seus olhinhos dei­xaram de parecer os de um bem-sucedido banqueiro sênior para assumirem os de um viúvo carente, ainda sonhador com seus bons vividos 65 anos, disposto a viver a aventura da vida, cheia de surpresas e reviravoltas, como acontece nos filmes e histórias em quadrinhos.

A segunda cena foi a do dia em que Lucca ficara reti­do no departamento de RH do banco e ela estava morta de fome. Talvez mister John Dalton tivesse planejado tudo. Convidou-a para almoçar num elegante restaurante nova-iorquino, próximo à Quinta avenida. Conversaram sobre a profissão do marido e Lisa insinuou que o seu sucesso se devia em grande parte à ajuda das "forças ocultas". Enfati­zou a vertiginosa ascensão do contador Cabeção depois que a conheceu. O banqueiro devia conhecer isso em detalhes, porque ninguém atinge o topo do banco impunemente, apenas por cuidar dos interesses dos cucarachas, sem sujar as mãos. Deixou para o final do almoço suas queixas. Confes­sou que ultimamente vivia muito insegura e desprotegida, pois Leonardo queria que ela morasse numa mansão assom­brada e a estava ameaçando. O assunto dos riscos e medos que ela corria gerou confidências bancárias e, naturalmente, uma intimidade.

— Imagine a vida sem peripécias? O que seria dela? — perguntara rindo, e aproveitando-se do seu sorriso be­névolo, ousara segurar a sua mão durante a sobremesa. Ela deixou, sem esboçar uma reação, enquanto a calda de cho­colate gelado derretia.

A terceira cena foi dentro da limusine, já envolvidos numa atração irresistível. Ele acionou um minúsculo botão. Um vidro escuro se alteou, isolando o respaldar do banco do motorista. Beijaram-se. John foi mais longe. Abriu sua blusa e se atreveu a beijar o bico saliente do seio esquer­do. Ela deixou, mas em seguida o impediu de prosseguir. Beijaram-se de novo e marcaram um novo encontro. Fica­ram de mãos dadas, até a limusine parar na porta do banco, onde Lucca a aguardava. Nunca ninguém tinha beijado seu seio de maneira tão alucinante. Estava firmado um pacto de amor e um proveitoso contrato de risco.

A quarta cena foi no dia seguinte, na visita matutina que fez sozinha ao banco, como ele havia pedido. Na sua sala no vigésimo sétimo andar, ele se declarou perdidamente apaixonado. A sua maior prova de amor foi instruí-la em como ela poderia movimentar a conta secreta de Leonardo, do qual era o gerente, e como formalizar o processo de sucessão bancária nos fundos de investimentos, em caso da morte dele. Entregou-lhe os formulários, que ela deveria remeter imediata­mente a ele, depois de assinados por Cabeção, com a data e os valores em branco. Logo em seguida ele providenciou os papéis para abrir sua conta secreta no banco.

A quinta cena foi a do jantar de despedida, às vésperas do universitário partir para Boston e de ela viajar para o Brasil. Na presença feliz de Lucca, ela, de vestido novo, de um ombro só, com a marquinha do sol timidamente visí­vel, não deixou transparecer nenhuma emoção de agrade­cimento ou remorso.

— Me conta como foi tudo? — perguntou o banquei­ro após a longa pausa de Lisa, fascinada pela paisagem e pelo thriller que a fez relembrar como mister John Dalton cruzou o seu destino.

Contou-lhe mais. Omitiu o episódio de Pombagira e os trânsitos dos mapas natais em que previra com uma certa antecedência a hora fatídica de Leonardo, anunciada por Plutão.

Iniciou com a notícia da fuga da prisão federal do Caveirinha. Leonardo tinha acabado de se mudar para a man­são. Ela se recusou a ir. No dia do incêndio foi de táxi até o portão do casarão para se certificar da leitura dos mapas. Ficou na calçada aguardando o desfecho do acerto de contas. Viu uma van preta sair em disparada do prédio vizinho antes de as chamas destruírem o casarão. Com a saída de dois desconhecidos rindo pelo portão, teve então a certeza de que Leo estava morto na mansão do pai.

E depois? perguntou o texano, cada vez mais curioso.

Voltei de táxi para casa e telefonei imediatamente para você, avisando para que agisse como tínhamos com­binado.

Foi maravilhosa e eficientíssima. Sabe que se tivesse esperado mais dez minutos, tudo estaria perdido. Fez tudo certo.

O banqueiro se referia aos formulários que Lisa con­vencera Leonardo a assinar em confiança, sendo as garantias exigidas pela imigração americana para o filho se matricu­lar na universidade. Dias depois do retorno da astróloga ao Rio, ele recebia os documentos assinados por Cabeção: o bankfax da conta corrente pessoal com os valores em branco e sua indicação como sucessora dos fundos de investimen­tos. Nem precisou envolver a Central de Atendimento ao Cliente, que só libera a transferência de valores acima de US$ 50.000,00, quando o cliente confirma por telefone o fax enviado. Ele próprio, como gerente da conta, não só confirmou o recebimento do bankfax, como fez a trans­ferência dos valores para a conta pessoal de Lisa. Além de ter tido o cuidado de deixar, a pedido de Lisa, os simbó­licos US$ 6,66 na conta de Leo, para enfezar o professor, que, sem razão aparente, nunca simpatizara muito com ela. Ironicamente, ele tomou conhecimento do ridículo saldo, pouco antes de ser crucificado.

Quanto aos fundos vinculados à conta secreta, como seus valores não podiam ser sacados de imediato, por se­rem de investimentos, eles foram bloqueados, impedindo o acesso do professor. Seriam liberados com a apresentação da certidão de óbito de Leonardo, que estava em poder de Lisa, em sua bolsa de viagem.

O professor morreu sem saber que Leonardo, quan­do soube da fuga de Caveirinha, deu ordens aos gerentes das contas na Europa para que transferissem imediatamente todos os valores para a conta secreta e os fundos adminis­trados pelo seu gerente em Nova York, mister John Dalton. Resolvera favorecê-lo, por seu grande empenho em ajudar o seu filho a estudar nos Estados Unidos. Não conseguiu avisar o professor porque a morte chegara antes do tempo na mansão.

Tive de sacrificar o menino. Era muito perigoso mantê-lo na universidade. Dei um jeito para ele voltar imediata­mente ao Brasil. Você entende como são essas coisas, não é?

Lucca tentou falar comigo. Como não atendi, deve ter pensado que morri com o pai. É bom que pense assim. O sonho dele acabou. Todos nós sabíamos disso na noite do incêndio. Não é mesmo, John? Só ele ainda não se deu conta do seu destino. Sabe, houve um momento em que tive muito medo, quando Leo hesitou em assinar os do­cumentos. Se desconfiasse de algo, eu estaria morta. Jamais estaria aqui, vivinha, em Nova York.

Também tive. Bem, o importante é que deu tudo certo.

O texano a beijou apaixonadamente e, ao se soltar de seus braços, avisou-a da reserva que fizera de um cruzeiro pelo Caribe.

Quando partimos? perguntou Lisa, radiante com a notícia.

Depois da amanhã. Gostou da surpresa?

Adorei, querido. Ainda terei tempo para comprar umas maquiagens e uns vestidos e ficar bem bonita para você.

O natural me basta plenamente, meu tesouro.

Com o bracelete de ouro e brilhantes da mãe de Leo­nardo sacolejante no pulso e um libriano com ascendente em gêmeos a tiracolo, teria tempo para pensar o que fazer da vida com tantos milhões repousando na sua conta pessoal e um banqueiro, nascido às 22 horas do dia 17 de outubro, astrologicamente, bom de sexo e emocionalmente carente, como foram todos os homens de sua vida, sempre predis­postos a satisfazê-la em todos os seus desejos e caprichos.

Mas John guardara um segredo. O saldo total da conta secreta de Lisa era muito maior do que ela poderia sonhar ao reunir a soma dos valores das contas europeias e dos fundos do banco. Da noite para o dia, ela se tornara uma bilionária. Mas até quando?, refletia mister John Dalton, com um certo sorriso macabro nos lábios.

Quanto a Lisa, ela estava ansiosa para entrar no Galaxy e zarpar no enorme transatlântico rumo ao Caribe. Deixar, como sempre fez, o destino acontecer com a sapeca marquinha do sol em conjunção com Vénus na sua casa sete, bem à mostra, no seu ombro, sem se esquecer de rogar: Ogum Onirê, me proteja sempre...

 

Por que desconfiou dos balões e agiu tão rápido? perguntou Júlia, ainda curiosa, na manhã seguinte à solenidade.

Eu vi da janela do hotel o aparato militar para a festa e não desconfiei de nada. Mas quando o mocho real sobrevoou o castelo, pressenti que algo de ruim poderia acontecer. Fiquei em alerta.

Vendo-o dirigir em alta velocidade pela autoestrada na saída de Angers, Júlia reconhecia que Aurèlien superara a sua deficiência visual. A melhor prova foram as flechadas certeiras nos balões. Sua única dificuldade continuava sendo não conseguir se servir à mesa, sem derramar água ou vinho em volta do copo.

Os jornais do dia destacavam a habilidade e a coragem do arqueiro campeão. Ganhou foto na primeira página do Le Parisien.

Suas fas de tiro de Gouvieux vão amar esta foto.

Ciúmes? perguntou Aurèlien, provocador.

Não é isso. Apenas não dou, não empresto e não faço leasing do que é meu respondeu rindo.

Desde quando? continuou o arqueiro, no volante.

Desde o dia em que flechou o meu coração na Ro­cinha.

Antes de chegar a Paris, Aurèlien quis mostrar a Jú­lia a beleza renascentista do Château de Villandry, o último dos grandes châteaux construídos às margens do Rio Loi­re. Deixá-la deslumbrada com os maravilhosos jardins e os canteiros com as mais famosas verduras e legumes da região, à venda. Tinham tempo para flanar de mãos dadas pelo jar­dim ornamental com suas belíssimas flores, cheio de roseiras perfumadas e de colorações inigualáveis, reunidas em forma de bordado e rodeadas de passarinhos; o jardim de água, com suas suaves cascatas e os jardins do amor. Após o pas­seio pela refinada horta, subiram para o terraço, no segun­do andar. Na balaustrada de pedra do belvedere, com vista panorâmica para a esplendorosa paisagem, Júlia desabafou:

Sabe qual foi a pior situação nessa história toda?

Não disse Aurèlien, com os olhos nas quedas-d'água.

Foi quando tive de aceitar aquela ridícula versão da descoberta do tapete na Rocinha. Nunca me senti tão mal na minha vida.

Eu imagino. Mas, Júlia, o governo não teve culpa, não teve outra saída. Os bandidos armaram para pegar o dinheiro do resgate.

Como assim? perguntou Júlia, veemente, con­testando a justificativa de Aurèlien, em defesa ao governo francês.

Somente ontem descobri toda a trama. Estava há muito tempo desconfiado que éramos parte de uma no­jenta maquinação. Sim, fomos usados e traídos nesse resgate histórico. Rolou muito dinheiro e eu não sabia de nada até ontem à tarde. Pensei que estivesse numa missão do governo, séria, sem falcatruas, ou numa aventura român­tica em busca do Santo Graal. Tudo mentira! E tem mais: arriscamos nossa vida por somas vultosas de dinheiro que não sabia de nada.

— Está me dizendo isto só agora? — protestou Júlia, indignada.

Aurèlien relatou o que descobriu. Na reunião, no Mi­nistério da Justiça, em Paris, as autoridades partiram da pre­missa de que o francês da ONG não mentia e o quadro 75, localizado no Rio de Janeiro, era autêntico. O curador usou de toda a sua retórica para convencer seus pares e os altos funcionários fazendários que, caso o governo não assumisse a dianteira, correria o risco de perder a oportunidade úni­ca de comprá-lo. Exagerou no prejuízo patrimonial, caso outros compradores individuais ou empresarias adquiris­sem a valiosa tela. Citou museus americanos. Mencionou a Sothebys, que faria o preço subir às alturas. Foi após a longa reunião, a portas fechadas, na qual ficou horas esperando no corredor, que o governo francês disponibilizou os 10 milhões de euros e decidiu que seria ele a pessoa indicada para trazer o quadro para a França. Nada lhe disseram sobre o alto custo do resgate, pois o assunto era secreto.

Contou, em poucas palavras, para Júlia por que o francês da ONG estava tão aflito em se encontrar com ele: queria saber se o dinheiro da compra já estava no Brasil. Recebe­ria uma polpuda comissão, prometida pelo curador. A esta altura, Leonardo já estava à par de tudo, sem que o governo francês soubesse que Cabeção tinha se apropriado do tapete do pai de santo baiano, tinha-o matado no micro-ondas, e estava ansioso para receber a grande soma de dinheiro, e, se possível, sem ter de entregar a Relíquia.

Aurèlien admitiu que, no início, pensara que o dinheiro do qual o francês da ONG se referia era relativo a um pe­dido oficial de ajuda financeira à instituição. Só começou a suspeitar da conexão com o quadro quando Tinhão confir­mou a história do pai de santo negociando uma "baba" pelo resgate da tapeçaria.

Foram recontados os sucessivos imprevistos, a partir do tresloucado incêndio na Rocinha. Com a morte dos donos da ONG, Leonardo usou a tapeçaria nas giras, imaginando que o dinheiro disponibilizado pelos franceses já dormitava em algum banco e seria seu com a chegada do negociador vindo da França. Rememorou que foi espancado e quase morreu só porque Cabeção cismara que ele sabia onde es­tavam os euros do governo francês.

Quando ele ressuscitou do espancamento e mandou a foto da Relíquia para o curador, as autoridades francesas atestaram a autenticidade da descoberta e automaticamente desbloquearam o pagamento. O justo valor de compra da Relíquia fora negociado pelos franceses donos da ONG ainda em vida. Quando o dinheiro foi criminosa e eletro­nicamente sacado, sem deixar pistas, o governo francês não teve alternativa senão mandar para o Brasil os dois agentes especiais da GIGN invadirem a mansão e trazerem de vol­ta o quadro 75 para França, sem serem pegos. Uma trama diabólica muito bem urdida por criminosos de colarinho branco que se apropriaram dos milhões de euros do gover­no francês, sem deixar vestígios.

Fora montado todo o quebra-cabeça para a jornalista.

É inacreditável! Desconfia de alguém em particular? - perguntou Júlia, estarrecida com a verdade, impublicável dos fatos.

Com exceção do cônsul, por ter cumprido "ordens superiores", desconfio de todos. Penso sempre no meu tio no Museu d'Orsay, quando se referiu ao Apocalipse e com­parou o diabo ao dinheiro: "E a grande mentira do universo a serviço de aproveitadores e de Satanás". Não dá para es­quecer a parábola.

Tem razão. Agora estou entendendo por que o go­verno francês não teve saída na história. O cônsul agiu cor­retamente — concordou Júlia, ainda assim inconformada.

Evitaram um escândalo internacional de grande repercussão e a melhor solução foi acobertar o resgate criminoso e providenciar a imediata abertura de investigação bancária. É mais uma grande perda neste momento terrível de crise financeira internacional. É tudo uma loucura!

Todos nós tivemos de engolir a versão oficial, sem reclamar — completou Aurèlien indignado. — Fomos obrigados a aceitar a fajuta descoberta da tapeçaria na sede da Dois Irmãos na Rocinha, a mentirada que os franceses da ONG a esconderam debaixo da cama, os bandidos levaram o dinheiro e voltaram para torturá-los e roubá-la. Os tais "recibos" forjados comprovam o pagamento contabilizado. Os franceses mortos se transformaram nos grandes mártires da saga da recuperação da tapeçaria. Essa foi a versão que a imprensa publicou, sem menção ao dinheiro desaparecido. Ela convinha a todos. Tudo muito bem tramado por mãos maquiavélicas

Quem foi que a ajudou ajuntar todas as peças?

Juntei tudo no almoço vip de ontem após a sole­nidade. Sentei-me ao lado do representante do Ministério da Economia. Ele me confirmou que os milhões de euros foram sacados e o governo estava investigando o roubo. Na sobremesa, não fosse para me elogiar, disse que nunca ninguém desconfiou de mim. Imagine como me senti ao ouvir isso! Eu que fui manipulado desde o começo nessa aventura bíblica de Tintin! Ah! Ainda me disse que ia receber uma medalha por bravura e uma promoção na minha carreira de bibliotecário. Um prêmio de consolação!

Realmente, fomos dois idiotas confirmou Júlia.

Aurèlien apontou para os "jardins do amor", próxi­mos à balaustrada do belvedere, divididos em quatro qua­drados iguais de canteiros ornamentados com buxos. O primeiro levava o nome de "Amor ternura". Os arbustos podados tinham a forma de corações, de chamas de amor e de máscaras sussurrantes. O segundo era dedicado ao "Amor passional", composto de corações entrelaçados. Simbolizava a paixão indomada. O terceiro era o "Amor volátil", com quatro leques com ângulos ocos em for­ma de cornos, representando o efêmero amor. O último quadrado era o "Amor trágico", formado de lâminas de punhais e espadas.

Aurèlien ficou sério. Pressentiu que chegara o inadiável momento de por tudo a limpo:

Posso te fazer um pedido?

Se é para recuperar o dinheiro, não conte comigo. Chega!

É um pedido de amor. Quero que venha morar comigo.

Júlia o encarou, com um olhar grave, pálida de emoção. Penetrou no fundo dos seus olhos agitados e afinal conse­guiu segredar:

Me deixa pensar mais. Só te peço isso...

Júlia assumiu um semblante de tristeza e acariciou com infinita ternura o rosto subitamente enrijecido do arqueiro medieval.

Pensar mais? reagiu Aurèlien, atônito, o olhar irado sob as grossas sobrancelhas, não acreditando no que ouvira, após o longo passeio romântico pelos jardins do en­cantamento.

Júlia, ao receber o convite de morar na Cidade Luz, temia tomar a grande decisão de sua vida.Teria a oportuni­dade única de ser uma parisiense. Mergulhar na banheira da cultura universal do saber e das artes. Mas teria de romper com o passado serrano e com a inigualável carioquice. Dei­xar para trás as raízes da infância, os apegos da adolescência e o convívio da família.

Após um longo silêncio, Júlia acrescentou:

Por que você não vem morar comigo no Brasil?

É a sua resposta? perguntou Aurèlien, mostrando-se desapontado, porém compreendendo a sua momen­tânea indecisão.

Não é isso. É apenas um convite de amor respondeu-lhe com o beijo furtivo dado nos seus lábios cerrados.

Um convite difícil de recusar, o de viver na Cidade Maravilhosa. A oportunidade de ouro tão sonhada de se tornar um carioca, viver com o sol iluminando as manhãs, pular no carnaval, tomar banho de mar nas praias lindas e ir ao Maracanã. Mas ter de romper com o passado da Petite

France, os livros poeirentos das bibliotecas, a cultura milenar e os companheiros do clube de besta. Ter de deixar para trás as luzes, as pontes e o ar de Paris.

Vou pensar, Júlia — disse Aurèlien, com um meio sorriso.

Naquele instante, como por uma estranha associação de ideias, Júlia se recordou da entrevista da mãe em Mauá para uma revista de São Paulo. A voz dela ecoando baixinho, por entre os jardins do amor e pelas aléias das roseiras: Sabe, filha, acho que as diferenças se atraem no amor. De repente, viu o "francesinho" passando como um furacão pela sua vida e percebeu os mundos tão diferentes que os uniam. Não po­deria jamais protelar a sua decisão de viver na França, num lugar encantado como Villandry e com o homem de sua vida se declarando perdidamente apaixonado por ela.

Houve um longo silêncio. Com certa tristeza nos olhos, os dois amantes contemplaram na linha do horizonte o jar­dim do labirinto, cheio de obstáculos e atalhos. Lágrimas começaram a rolar dos olhinhos água-marinha.

Eu queria... — murmurou Aurèlien ao seu ouvido, subitamente interrompido pelo prolongado beijo passio­nal de Júlia, testemunhado pelos quatro jardins enfeitados a seus pés.

Uma brisa suave acariciou a aléia de árvores e os dois enamorados. Somente as folhas caídas no chão arenoso saberiam contar o resto da frase e o fim dessa história de amor em quadrinhos.

 

Era uma sexta-feira ensolarada. Na véspera, o castelo foi palco de uma guerra milenar no céu, que fez o Vale do Loire tremer. Agora chegara o grandioso dia de a galeria ser aberta ao grande público.

O curador do castelo, Ferdinand Rochemont de Sailly, podia se sentir ricamente feliz e realizado no seu escritório, instalado no segundo andar do castelo. A maior tapeçaria do mundo, que ficara mais de quatro séculos fora de sua sede original, contava agora com a famosa cena do diabo aprisionado por mil anos, nunca dantes exibida publicamente.

O curador Ferdinand aprendera desde criança que ver é muito difícil. Toda a formação escolar está voltada para a escrita e a leitura. Não se cuida do olhar. Os educadores ainda insistem que para se "entender" uma obra de arte é preciso devorar uma estante de livros. Esquecem que de nada adianta ver uma obra de arte, se o olhar curioso não faz uma pausa para meditar, analisar e buscar compreen­der por si só. Ao contrário dos colegas curadores, Ferdinand dava um grande valor ao olhar, evitando usar longos textos explicativos nas paredes da galeria. Sabia que se os usasse, uma roda de pessoas se formaria diante das telas, passan­do bem mais tempo para deglutir aqueles dados do que tentando ver, apenas ver. Sem textos, no total silêncio da semi-escuridão, as pessoas olhavam fascinadas, apenas vendo as cenas da extraordinária tapeçaria secular.

Por se constituir numa das mais importantes cenas bí­blicas do livro sagrado do Apocalipse, estava prevista uma jornada de grande visitação, em grande parte devido à pro­moção da mídia e à curiosidade que a tapeçaria despertava nas crianças, jovens e adultos, a partir da primeira imagem em que São João é incumbido por Jesus Cristo de escrever a sua mensagem às Sete Igrejas da Ásia Menor sobre as coisas que em breve devem acontecer.

O dia prometia muitas emoções aos visitantes pela oportunidade única de admirarem de perto essa extra­ordinária "história em quadrinhos", que ajudava a com­preender a profética e difícil interpretação da Revelação, contendo os segredos divinos da luta e da vitória do Cris­to contra o Grande Dragão ou a Antiga Serpente, me­ras transfigurações de Satanás, conhecido como o gran­de sedutor do universo. E nesse fabuloso universo bíblico sobressaía a aterrorizante imagem do quadro 75, recém- recuperado no Brasil. O que foi possível graças aos des­temidos Aurèlien e Júlia — autênticos protagonistas do álbum ainda inédito de Tintin.

Os visitantes chegaram cedo e, ansiosos, já aguardavam impacientes na fila para entrar no castelo e ter acesso aos 103 metros da tapeçaria do Apocalipse. Eles contavam os minutos para se encantar com o realismo e a riqueza de detalhes da arte flamenga, em perfeita harmonia com as concepções de ordenamento, clareza e simplicidade da arte francesa do século XIII. Um espetáculo inesquecível de to­dos os tempos para os olhos e a alma.

Desde cedo, se formara uma grande fila no portão do castelo que se estendia pela ponte levadiça e se alongava pela Promenade du Bout du Monde. Os guardas conferiam a todo instante os relógios. Faltavam apenas dez minutos para a abertura às 10 horas dos guichês de venda dos bilhe­tes, majorados em um euro.

Na sua maioria os visitantes eram turistas. Os demais eram da própria cidade de Angers. Tinham lido as empol­gantes reportagens da mídia que enalteceram o significado bíblico da recuperação do quadro do Dragão de sete cabeças, finalmente enjaulado.

Era também uma viagem ao passado, como diziam os prospectos distribuídos, pois a tapeçaria, ao lado da pintura, era a mais expressiva forma de arte medieval numa época em que a Igreja incentivava os reis a difundir essa arte para ensinar os princípios da religião católica. E nisso a valiosa herança iconográfica do Apocalipse superava, em interesse, todos os temas bíblicos pelas suas magníficas ilustrações e profecias sobre o fim dos tempos.

Uma leve neblina encobria as dezessete majestosas tor­res do castelo e o jardim florido defronte à galeria. Ouvia-se o suave sussurro de uma brisa matinal acariciando as folhas das árvores ao longo da aleia principal até o pórtico da capela.Tudo fluía normalmente naquela manhã para a retomada da visitação pública.

De repente, ouve-se a voz angustiada do velho guarda manco, quase ao término de sua ronda dentro da galeria.

Meu santo Deus! Meu santo Deus!

Ressoaram os passos acelerados e arrastados de botas martelando o solo de pedra para alcançar o primeiro te­lefone à vista, e em seguida foram ouvidas as angustiadas palavras do vigia:

Chamem a polícia! Interditem o castelo. Avisem ao curador para vir com urgência à galeria. Rápido, rápido...

O que foi? O que foi? repetia a bilheteira agoniada.

Aconteceu uma tragédia, minha filha!

O telefone foi bruscamente desligado e houve um cor­re-corre de todos os funcionários na direção da entrada da galeria.

Os guardas na frente do portão não se conformavam com a ordem da bilheteira de proibir a entrada da pequena multidão.

O curador Ferdinand, bastante ofegante, foi um dos primeiros a chegar. Todos se acotovelaram na porta dupla e depois, entrando na sala iluminada, aceleravam os passos até onde estava o guarda que minutos antes havia telefonado e agora estava parado diante das cenas dos quadros 74 e 76 de fundo azul do Apocalipse.

É inacreditável. O quadro sumiu! disse o velho vi­gia com a voz trêmula, cercado pelo silêncio dos incrédulos.

Meu Deus! exclamou o curador, com os olhos pasmos.

Todos se postaram com a respiração presa na garganta diante do imenso vazio da parede recém-reformada e pin­tada. A funcionária mais idosa do castelo, vestida de preto, estupefata, tapou a boca escancarada com a mão, conten­do o assombro dos seus olhos miudinhos. Ninguém queria acreditar no que não podia mais ver.

A Besta dos mil anos estava solta de novo, com seu tridente de ouro voltado para o céu, rindo em al­gum lugar da terra.

 

[1] Um tipo de queijo azul, produzido na região do Bresse, na França (N. R.)

[2] Bateau-mouches — Embarcação desenhada para servir como plataforma de visita turística. Marca registrada da Compagnie des Bateaux Mouches, a principal operadora deste tipo de embarcação. Fonte: wikipedia. (N. E.)

 

                                                                                Ilmar Penna  

 

                      

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