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A BIBLIOTECA / Umberto Eco
A BIBLIOTECA / Umberto Eco

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A BIBLIOTECA

 

Santuário da cultura, relicário cioso e protector do pensamento humano, baluarte sacrossanto da civilização, grande cloaca do conhecimento, deve a biblioteca ser uma torre de marfim onde o livro é preservado da passagem dos séculos e das mãos dos homens ou abrir-se como um fruto maduro aos seus olhos, à sua inteligência e à sua cobiça?

O instinto protector e o prazer da descoberta. Os livros que se continuam a fazer e o destino que os espera face à crescente computadorização do mundo actual. O livro como objecto de consumo em confronto com a vertigem das fotocópias. Que iremos nós ler nas próximas décadas? Que função terá a biblioteca no futuro?

Eis algumas das questões sobre as quais Umberto Eco reflecte, deixando-nos o prazer de com ele saborearmos alguns momentos ideais numa biblioteca ideal e também de encontrarmos na sua ironia mordaz muito daquilo que todos nós já alguma vez desejámos criticar nas bibliotecas que conhecemos.

 

Penso que num lugar tão venerado seja oportuno começar, como numa cerimónia religiosa, pela leitura do Livro, não com uma finalidade informativa, pois quando se lê um livro sagrado já toda a gente sabe o que o livro diz, mas com funções litaniais e para predispôr bem o espírito. Ouçamos pois:

«O universo (a que outros chamam a Biblioteca) é constituído por um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação ao centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono vêem-se os pisos superiores e inferiores, interminavelmente. A distribuição dos objectos pelas galerias é invariável. Vinte e cinco estantes, à razão de cinco por cada lado, cobrem todos os lados menos um; a sua altura, que é a mesma de cada piso, não ultrapassa muito a de uma biblioteca normal. O lado livre dá para um corredor estreito que conduz a outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À direita e à esquerda do corredor há dois sanitários minúsculos. Um deles permite dormir em pé; o outro, satisfazer as necessidades fecais.

Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se ergue a perder de vista. No corredor há um espelho, que duplica fielmente as aparências. [...] A cada parede de cada um dos hexágonos correspondem cinco estantes; cada estante contém trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro tem quatrocentas e dez páginas; cada página, quarenta linhas; cada linha, quarenta letras de cor preta. Também há letras na lombada de cada livro; isso não significa, porém, que indiquem ou anunciem o que dirão as páginas.

Sei que antigamente esta incoerência parecia misteriosa. [...] Há quinhentos anos, ao chefe de um hexágono superior deparou-se um livro tão confuso como os demais, mas onde havia quase duas páginas de uma escrita homogénea e verosimilmente legível. Mostrou a sua descoberta a um decifrador ambulante e este disse-lhe que elas estavam escritas em português; outros afirmaram que estavam escritas em iídiche. Finalmente pôde determinar-se, depois de pesquisas que duraram quase um século, que se tratava de um dialecto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico. Também se decifrou o seu conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas com exemplos de variantes de repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de génio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. [...] Afirman do os ímpios que o contra-senso é normal na Biblioteca, e que o ra cional (como acontece também com a humilde e simples coerência) é aí quase uma miraculosa ex cepção. Referem-se (bem sei) à “Biblioteca fe bril, cujos volumes fortuitos correm o risco incessante de se trans formarem noutros, e onde todos eles afirmam, negam e confundem como uma divindade em delírio». Estas palavras, que não só denunciam a desordem, mas também a ilustram, testemunham obviamente o péssimo gosto e a desesperada ignorância de quem as pronuncia. Na realidade, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variações permitidas pelos vinte e cinco símbolos ortográficos, mas nem um só contra-senso absoluto.

[...] Falar é incorrer em tautologias. Esta epístola inútil e prolixa já existe num dos trinta volumes das cinco estantes de um dos inúmeros hexágonos - assim como a sua refutação. (Um número n de línguas possíveis usa o mesmo vocabulário; nalgumas delas o símbolo biblioteca admite a definição correcta de sistema perdurável ubiquitário de galerias hexagonais, mas biblioteca significa nesse caso pão, pirâmide ou qualquer outra coisa, e outras coisas significam também as sete palavras que a definem. Tu, que me lês, estás seguro de entender a minha linguagem?) Amén!»

 

Este excerto, como todos sabem, é de Jorge Luis Borges, num capítulo de A Biblioteca de Babel (1), e pergunto a mim mesmo se muitos de nós, frequentadores de bibliotecas, directores de bibliotecas e funcionários de bibliotecas aqui presentes, ao voltarmos a ouvir e a meditar nestas páginas, não teremos revivido experiências pessoais, da juventude ou da maturidade, de longos corredores e longas salas; ou seja, é caso para reflectir se a biblioteca de Babel, feita à imagem e semelhança do Universo, não existirá também à imagem e semelhança de muitas bibliotecas possíveis. E pergunto-me ainda se será possível falar do presente ou do futuro das bibliotecas existentes, elaborando puros modelos fantásticos. Eu acho que sim.

Por exemplo, um exercício que fiz várias vezes para explicar como funciona um código, dizia respeito a um código muito elementar, de quatro elementos, com uma classificação de livros segundo a qual o primeiro elemento indica a sala, o segundo elemento indica a parede, o terceiro elemento indica a estante dessa parede e o quarto elemento indica a posição do livro na estante, pelo que uma cota do tipo 3-4-8-6 significa: terceira sala a partir da entrada, quarta parede à esquerda, oitava estante, sexto volume. Depois dei-me conta de que mesmo com um código tão elementar (não é o de Dewey) se podem fazer combinações interessantes. Podemos escrever por exemplo 3335.33335.33335.33335 e logo temos a imagem de uma biblioteca com um número imenso de salas: cada sala tem uma forma poligonal, mais ou menos como os olhos de uma abelha, onde podem existir, portanto, 3.000 ou 33.000 paredes, de resto não sujeitas à força da gravidade, pelo que as estantes podem situar-se também nas paredes superiores, e estas paredes, que são mais de 33.000 são enormes, pois podem albergar 33.000 estantes e estas estantes são enormíssimas, pois cada uma delas pode conter 33.000 livros ou mais.

Será esta biblioteca possível ou pertencerá apenas a um universo de fantasia? No entanto, mesmo um código elaborado para uma biblioteca em nossa casa consente estas variantes, estas projecções, e permite-nos mesmo pensar em bibliotecas poligonais.

Lanço esta premissa porque, obrigado pelo amável convite que recebi a reflectir sobre o que se poderá dizer a respeito de uma biblioteca, procurei estabelecer quais serão as suas finalidades certas ou incertas. Fiz uma breve inspecção apenas nas bibliotecas a que tinha acesso, por estarem abertas também a horas nocturnas, a de Assurbanípal em Ninive, a de Polícrates em Samos, a de Pisístrato em Atenas, a de Alexandria, que no século III a.C. tinha já 400.000 volumes e que mais tarde, no século I a.C, em conjunto com a do Serapeu (2), incluía 700.000 volumes, e depois também a biblioteca de Pérgamo e a de Augusto (na época de Constantino existiam 28 bibliotecas em Roma). Depois tenho uma certa familiaridade com algumas bibliotecas beneditinas, e comecei a reflectir sobre qual será a função de uma biblioteca. No início, no tempo de Assurbanípal ou de Polícrates, talvez fosse uma função de recolha, para não deixar dispersos os rolos ou volumes. Mais tarde, creio que a sua função tenha sido de entesourar: eram valiosos, os rolos. Depois, na época beneditina, de transcrever: a biblioteca quase como uma zona de passagem, o livro chega, é transcrito e o original ou a cópia voltam a partir. Penso que em determinada época, talvez já entre Augusto e Constantino, a função de uma biblioteca seria também a de fazer com que as pessoas lessem, e portanto, mais ou menos, de respeitar as deliberações da Unesco que pude encontrar no volume que chegou hoje às minhas mãos, e onde se diz que uma das finalidades da biblioteca consiste em permitir que o público leia os livros. Mas depois creio que nasceram bibliotecas cuja função era de não deixar ler, de esconder, de ocultar o livro. É claro que essas bibliotecas também eram feitas para permitir que se encontrasse. Surpreende-nos sempre a habilidade dos humanistas do século XV em encontrarem manuscritos perdidos. Onde é que os encontram? Encontram-nos na biblioteca. Em bibliotecas que em parte serviam para esconder, mas que também serviam para se achar.

Perante esta pluralidade de objectivos de uma biblioteca, permito-me agora elaborar um modelo negativo, em dezanove pontos, de uma má biblioteca. Trata-se, naturalmente, de um modelo tão fictício como o da biblioteca poligonal. Mas à semelhança de todos os modelos fictícios que, tal como as caricaturas, nascem da junção de cabeças equinas a corpos humanos com caudas de sereia e escamas de serpente, penso que cada um de nós poderá encontrar neste modelo negativo as recordações distantes das suas aventuras nas mais remotas bibliotecas, tanto no nosso país como noutros países. Uma boa biblioteca, no sentido de uma má biblioteca (isto é, de um bom exemplo do modelo negativo que procuro reconstituir), deve ser antes de mais nada um imenso cauchemar, deve ser completamente angustiante e, neste sentido, já se aplica a descrição de Borges.

a) Os catálogos devem estar divididos ao máximo: deve proceder-se com muito cuidado à separação do catálogo dos livros do catálogo das revistas, e à deste em relação àquele por temas, assim como à separação dos livros de aquisição recente dos livros de aquisição mais antiga. Se possível, a ortografia, nos dois catálogos (aquisições recentes e antigas) deve ser diferente; por exemplo, nas aquisições recentes, retórica deve ser escrita com um e e nas antigas com ei (3); Chaj-kovskij nas aquisições recentes deverá escrever-se com Ch, ao passo que nas aquisições antigas se escreverá à maneira francesa, com Tsch.

b) Os temas devem ser decididos pelo bibliotecário. Os livros não devem incluir no cólofon (4) nenhuma indicação referente aos temas nos quais devem ser catalogados.

c) As cotas devem ser intranscritíveis, e se possível em grande quantidade, de modo a que o leitor que preencher a ficha nunca tenha espaço para escrever a última denominação e a considere irrelevante, para que em seguida o funcionário lhe possa devolver a ficha para a preencher novamente.

d) O espaço de tempo decorrido entre o pedido e a entrega do livro deve ser muito longo.

e) Não se deve dar mais do que um livro de cada vez.

f) Os livros entregues pelo funcionário por terem sido previamente requisitados, não podem ser levados para a sala de consulta, isto é, há que dividir a própria vida em dois aspectos fundamentais, um para a leitura e o outro para a consulta. A biblioteca deve desencorajar a leitura cruzada de vários livros porque provoca estrabismo.

g) Deve existir, de preferência, uma ausência total de máquinas fotocopiadoras; no entanto, se houver alguma, o acesso a ela deve ser muito demorado e cansativo, os preços superiores aos da livraria e os limites de cópias reduzidos a não mais de duas ou três páginas.

h) O bibliotecário deve considerar o leitor como um inimigo, um vadio (senão estaria a trabalhar), um ladrão potencial.

i) Quase todo o pessoal deve ser afectado por limitações de ordem física. Trata-se de uma questão muito delicada, em relação à qual não pretendo criar nenhuma ironia. É um dever da sociedade dar possibilidades e saídas profissionais a todos os cidadãos, mesmo àqueles que não estiverem na força da idade ou no auge das suas condições físicas. Contudo, a sociedade admite que, no caso dos bombeiros, por exemplo, se torna necessário proceder a uma selecção especial. Há certas bibliotecas de campus (5) americanos onde a máxima atenção é dispensada aos utentes deficientes: planos inclinados, casas de banho especializadas, ao ponto de tornarem perigosa a vida aos outros, que escorregam nos planos inclinados.

Há, no entanto, certos trabalhos dentro da biblioteca que exigem força e destreza: trepar, carregar grandes pesos, etc., existindo também outros tipos de trabalhos que podem ser propostos a todos os cidadãos que pretendam desempenhar uma actividade laboral, apesar de eventuais limitações devidas à idade ou a outros factores. Ponho, portanto, o problema do pessoal da biblioteca como algo muito mais semelhante a um corpo de bombeiros do que ao quadro dos empregados de um banco, e isto é muito importante, como veremos mais adiante.

j) O departamento consultivo deve ser inatingível.

l) O empréstimo de livros deve ser desencorajado.

m) O empréstimo de livros entre bibliotecas deve ser impossível e, em todo o caso, levar meses. O melhor, no entanto, é garantir a impossibilidade de conhecer aquilo que há nas outras bibliotecas.

n) Em consequência de tudo isto, os furtos devem ser facílimos.

o) Os horários devem coincidir absolutamente com os horários de trabalho, devendo ser preventivamente discutidos com os sindicatos: encerramento total aos Sábados, aos Domingos, à noite e à hora das refeições. O maior inimigo da biblioteca é o estudante-trabalhador; o seu melhor amigo é Don Ferrante, alguém que tem a sua biblioteca pessoal, que não precisa, portanto, de ir à biblioteca e que, quando morre, a deixa em herança.

p) Não deve ser possível restaurar as forças dentro da biblioteca, de maneira nenhuma e, seja como for, também não deve ser possível restaurá-las fora da biblioteca sem primeiro se terem depositado todos os livros requisitados, a fim de terem de ser novamente requisitados depois de se ter tomado um café.

q) Não deve ser possível voltar a encontrar o mesmo livro no dia seguinte.

r) Não deve ser possível saber quem levou emprestado o livro que falta.

s) De preferência, nada de sanitários.

E para terminar, coloquei também um requisito z): o ideal seria que o utente não pudesse entrar na biblioteca; admitindo que entre, no usufruto caprichoso e antipático de um direito que lhe foi concedido com base nos princípios de oitenta e nove (6) mas que, todavia, não foi ainda assimilado pela sensibilidade colectiva, em todo o caso não deve, nem deverá nunca, à excepção das rápidas travessias da sala de leitura, ter acesso aos penetrais das estantes.

Será que ainda existem bibliotecas assim?

Quanto a isso, deixo que sejais vós a decidir, até porque devo confessar que, obcecado por recordações muito ternas (a tese de licenciatura na Biblioteca Nacional de Roma, quando ela ainda existia, com candeeiros verdes em cima das mesas, ou as tardes de grande tensão erótica na Sainte Geneviève ou na Biblioteca da Sorbonne), acompanhado por estas doces recordações da minha adolescência, na idade adulta frequento muito pouco as bibliotecas, não por razões polémicas, mas porque quando estou na Universidade o trabalho é demasiado intenso, e na orientação de um seminário se pede ao aluno que vá ele procurar o livro e o fotocopie; quando estou em Milão, e vou lá muito pouco, vou sozinho à Sormani porque há lá um ficheiro unificado; e depois frequento muito as bibliotecas no estrangeiro, porque quando estou no estrangeiro o meu trabalho é ser uma pessoa no estrangeiro, e por isso tenho tempo à minha disposição, tenho as noites livres e à noite, em muitos países, pode ir-se à biblioteca. Assim, em vez de vos apresentar a utopia de uma biblioteca perfeita, que não sei até que ponto e de que maneira pode ser realizável, vou contar-vos a história de duas bibliotecas feitas por medida, duas bibliotecas de que gosto muito e que, sempre que posso, procuro frequentar. Não quero dizer com isso que elas sejam as melhores do mundo ou que não haja outras: são aquelas que no último ano, por exemplo, frequentei com uma certa regularidade, uma delas durante um mês, e a outra durante três meses: trata-se da Sterling Library de Yale e da nova biblioteca da Universidade de Toronto.

Muito diferentes entre si, pelo menos tanto quanto o arranha-céus Pirelli pode diferir de Santo Ambrósio (7), em termos de arquitectura: a Sterling é um mosteiro neo-gótico, a de Toronto é uma obra-prima da arquitectura contemporânea; há diversas variantes, mas será melhor tentar fazer uma fusão das duas para dizer por que razão estas duas bibliotecas me agradam.

Estão abertas até à meia noite, e também ao Domingo (a Sterling não abre ao Domingo de manhã, mas depois está aberta desde o meio-dia até à meia-noite, à sexta-feira). Bons índices em Toronto, que tem também uma série de visores e de ficheiros computorizados, de fácil funcionamento. Por outro lado, na Sterling, os índices são ainda mais à maneira antiga, mas há a unificação do autor e do tema, o que significa que sobre um determinado assunto não constam apenas as obras de Hobbes, mas também as obras sobre Hobbes. Além disso, esta biblioteca contém igualmente a indicação daquilo que se encontra nas outras bibliotecas da zona. Mas a melhor coisa destas duas bibliotecas é que, pelo menos para uma certa categoria de leitores, é permitido o acesso aos stacks (8), isto é, não se requisita o livro, passa-se diante de um cérebro electrónico com um cartãozinho, após o que se utilizam os elevadores e se entra nos penetrais. Nem sempre se sai de lá vivo; nos stacks da Sterling é facílimo, por exemplo, cometer um crime e esconder o cadáver debaixo de algumas estantes de mapas geográficos, o qual só será encontrado dezenas de anos depois. Há, por exemplo, uma astuta confusão entre o primeiro andar e a sobreloja de modo que uma pessoa nunca sabe se está no primeiro andar ou na sobreloja e portanto já não consegue encontrar o elevador; as luzes só se acendem por vontade do visitante e por isso, se uma pessoa não dá com a luz certa, pode deambular muito tempo na escuridão; diferente neste ponto a biblioteca de Toronto, onde tudo está iluminadíssimo. Contudo, o investigador vai andando e olhando para os livros que estão nas estantes, após o que os retira das estantes e pode, em Toronto, ir para salas com óptimos maples onde se senta a ler, em Yale um pouco menos, mas mesmo assim pode circular com eles dentro da biblioteca, para tirar fotocópias. As máquinas de fotocópias são imensas e em Toronto existe uma secção que troca as notas de um dólar canadiano em moedinhas, permitindo que cada pessoa se aproxime da sua máquina de fotocópias com quilos de moedinhas e possa copiar até livros de setecentas ou oitocentas páginas; a paciência dos outros utentes é infinita, ficam à espera que a pessoa que ocupa a máquina chegue à septingentésima página.

É claro que também se pode levar o livro emprestado, sendo as modalidades de empréstimo de uma rapidez infinita: depois de se ter circulado livremente pelos oito, quinze ou dezoito andares de stacks e de se terem retirado os livros que se desejam, escreve-se numa folhinha o título do livro que se retirou, entrega-se num balcão e sai-se. Quem pode entrar lá dentro? Quem tiver um cartão, por sua vez também facílimo de obter no espaço de uma hora ou duas e cuja credencial se consegue por vezes mesmo telefonicamente. Em Yale, por exemplo, não têm acesso aos stacks os estudantes, mas apenas os investigadores; há, no entanto, uma outra biblioteca para estudantes, que não contém livros antiquíssimos, mas que tem o mesmo número suficiente de volumes, e onde os estudantes têm as mesmas possibilidades que os investigadores de ir buscar e pôr livros. Tudo isso se pode fazer em Yale usando um capital de oito milhões de volumes. Naturalmente, os manuscritos raros encontram-se noutra biblioteca e são um bocadinho menos acessíveis.

Ora, o que é que há de importante no problema do acesso às estantes? É que um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o facto de se pensar que se vai à biblioteca pedir um livro cujo título se conhece. Na verdade acontece muitas vezes ir-se à biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca da minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós. É certo que essa descoberta pode ter lugar desfolhando o catálogo, mas não há nada mais revelador e apaixonante do que explorar as estantes que reúnem possivelmente todos os livros sobre um determinado tema - coisa que, entretanto, não se poderia descobrir no catálogo por autores - e encontrar ao lado do livro que se tinha ido procurar, um outro livro, que não se tinha ido procurar, mas que se revela fundamental. Ou seja, a função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes.

Isso faz com que numa biblioteca à medida do homem a sala menos frequentada seja afinal a sala de leitura. A este nível já não são sequer necessárias muitas salas de leitura, pois a facilidade dos empréstimos, das fotocópias e do levantamento dos livros, elimina em grande parte a permanência nas salas de leitura. Ou então funcionam como salas de leitura (por exemplo em Yale) a zona onde se recobram as forças, o bar, o espaço com as maquinetas que também aquecem as salsichas, para onde se pode ir levando os livros recolhidos na biblioteca, e continuando assim a trabalhar diante de uma mesa com um café e um brioche, fumando mesmo, examinando os livros e decidindo se se há-de voltar a pô-los nas estantes ou requisitá-los, sem qualquer espécie de controlo. Em Yale o controlo é feito à saída por um funcionário que, com um ar bastante distraído, olha para dentro da pasta que se leva para o exterior; em Toronto há a magnetização total das lombadas dos livros e o jovem estudante que regista o livro requisitado, fá-lo passar por uma maquineta que lhe retira a magnetização, em seguida passa-se por uma porta electrónica tipo aeroporto e se alguém escondeu no bolso o volume 108 da Patrologia Latina, começa a tocar uma campainha e descobre-se o roubo.

É claro que, numa biblioteca deste género, há oproblema da extrema mobilidade dos volumes e, portanto, da dificuldade em se encontrar o volume que se procura ou que foi consultado no dia anterior. Em vez das salas de leitura, existem boxes. O investigador pede uma box onde guarda os seus livros e para onde vai trabalhar quando quer. No entanto, nalgumas destas bibliotecas, quando não se encontra o volume que se quer, pode saber-se no espaço de poucos minutos quem foi que o requisitou, e localizá-lo telefonicamente. O que faz com que este tipo de biblioteca tenha pouquíssimos vigilantes e muitíssimos empregados, com um tipo de funcionário que se situa a meio termo entre o bibliotecário especializado e o contínuo (em geral são estudantes a tempo inteiro ou em part-time). Numa biblioteca em que toda a gente circula e retira os livros do seu lugar, há livros que estão constantemente em circulação e que nunca mais voltam para o seu lugar nas estantes, e por isso esses estudantes andam de um lado para o outro com enormes carrinhos de mão para voltarem a pôr tudo nos seus lugares, verificando se as cotas estão mais ou menos em ordem (nunca estão, o que aumenta ainda mais a aventura da pesquisa). Aconteceu em Toronto não conseguir encontrar quase todos os volumes da Patrologia de Migne; esta destruição da noção de consulta faria enlouquecer um bibliotecário sensato, mas é mesmo assim.

Este tipo de biblioteca foi feito à minha medida, posso decidir passar lá um dia inteiro em santa delícia: leio os jornais, desço até ao bar com alguns livros, depois vou à procura de outros, faço descobertas, entrara ali para me ocupar, suponhamos, de empirismo inglês e em vez disso começo a seguir o rasto dos comentadores de Aristóteles, engano-me no andar, entro numa zona em que não suspeitava que pudesse vir a entrar, de medicina, mas de repente encontro algumas obras sobre Galeno, portanto com referências filosóficas. A biblioteca converte-se, neste sentido, numa aventura.

Quais são, no entanto, os inconvenientes deste tipo de biblioteca? São os roubos e os estragos, evidentemente: por mais controlos electrónicos que haja, é muito mais fácil, creio eu, roubar livros neste tipo de biblioteca do que no nosso. Embora ainda no outro dia um vereador municipal me contasse que numa insigne biblioteca italiana descobriram recentemente um indivíduo que há vinte e cinco anos levava para casa os mais belos incunábulos, pois ele tinha volumes com carimbos de bibliotecas remotas, entrava lá dentro com eles, esvaziava-os, retirava a capa encadernada do volume que queria roubar e colocava as respectivas folhas dentro da encadernação velha, depois saía, e em vinte e cinco anos parece ter formado uma biblioteca maravilhosa. É evidente que os roubos são possíveis em todo o lado, mas acho que o critério de uma biblioteca, chamemos-lhe aberta, de livre circulação, é que o roubo se repara comprando outra cópia desse livro, ainda que ela se encontre no mundo dos antiquários. É um critério milionário, mas não deixa de ser um critério. Uma vez que a opção consiste em permitir que se leiam os livros ou não, quando um livro é roubado ou danificado, terá de comprar-se outro. Obviamente os Manuzios ficarão na secção dos manuscritos e estarão assim melhor defendidos.

O outro inconveniente deste tipo de biblioteca é o facto dela permitir pôr em movimento e encorajar a xerocivilização. A xerocivilização, que é a civilização das fotocópias, arrasta consigo, paralelamente a todas as comodidades que as fotocopias comportam, uma série de graves inconvenientes para o mundo editorial, mesmo do ponto de vista legal. A xerocivilização implica desde logo a derrocada do conceito de direitos de autor. Também é verdade que nestas bibliotecas, onde existem dezenas e dezenas de máquinas de fotocópias, se alguém se dirigir à secção correspondente, onde se gasta menos, e pedir para lhe fotocopiarem um livro inteiro, o bibliotecário dir-lhe-á que isso não é possível por ser contra a lei dos direitos de autor. Mas se tivermos um número suficiente de moedas e fotocopiarmos o livro sozinhos, ninguém nos diz nada. Além disso, podemos também pedir o livro emprestado e levá-lo no exterior a certas cooperativas de estudantes que fazem fotocópias em papel com três orifícios, de modo a podermos inseri-lo em seguida em dossiers.

Mesmo nestas cooperativas nos dizem por vezes que não podem fotocopiar um livro inteiro: já tive este problema com alguns dos meus alunos. «Precisamos de mandar tirar trinta fotocópias deste livro - diz-me um - mas eles recusam-se» (é o que acontece em geral, mas às vezes fazem-nas, depende da desenvoltura da cooperativa). «Eles recusam-se a fotocopiá-lo porque está escrito que o livro está sujeito aos direitos de autor».

«Muito bem - digo eu - mandem fazer uma fotocópia, devolvam o livro à biblioteca e depois peçam para llhes tirarem vinte e nove cópias de uma fotocópia: uma fotocópia não está sujeita aos direitos de autor».

«Não tínhamos pensado nisso». De facto, qualquer pessoa tira vinte e nove cópias de uma fotocópia.

De resto tudo isso teve já repercussão ao nível da política das editoras. Todas as editoras de tipo científico publicam os livros sabendo de antemão que irão ser fotocopiados. Assim, os livros são publicados em não mais de mil ou dois mil exemplares, custam cento e cinquenta dólares e destinam-se a ser comprados pelas bibliotecas, após o que serão fotocopiados. As grandes editoras holandesas de linguística, filosofia ou física nuclear publicam actualmente um livro de cento e cinquenta páginas que custa cinquenta ou sessenta dólares, um livro de trezentas páginas já poderá custar uns duzentos dólares, é vendido ao círculo das grandes bibliotecas, após o que o editor tem a certeza de que todos os estudantes e investigadores irão trabalhar apenas com fotocópias. Por isso, ai do investigador que quisesse ter o livro para si, pois não poderia suportar o seu custo. Temos portanto um enorme aumento dos preços e uma diminuição da difusão. Que garantias tem um editor de que o seu livro no futuro irá ser comprado e não fotocopiado? É preciso que o preço do livro seja inferior ao da fotocópia. Como se podem fotocopiar em tamanho reduzido duas páginas na mesma folha e como, fotocopiando em folhas com três orifícios, se pode ficar imediatamente com o livro encadernado, o problema do editor consiste, portanto, em imprimir como susceptíveis de serem vendidos, não só às bibliotecas mas ao público em geral, livros de muito baixo custo, em papel necessariamente muito mau que, segundo os estudos feitos nos últimos anos, está destinado a esboroar-se e a dissolver-se após algumas dezenas de anos (o que aliás já começou: os gallimards dos anos cinquenta já se desfazem quando os desfolhamos hoje, parecem pão ázimo). O que nos põe perante outro problema: o problema de uma rigorosa selecção feita pelas altas instâncias entre aqueles que hão-de sobreviver e os que acabarão no esquecimento, isto é, aqueles que publicarem as suas obras através das grandes editoras internacionais que têm como objectivo unicamente o circuito das bibliotecas e que custam duzentos ou trezentos dólares, verão as suas obras impressas num papel que tem possibilidades de sobreviver no interior das bibliotecas e de se multiplicarem em fotocópias; os que as publicam em editoras que se limitam a vender ao grande público, tendendo deste modo para uma edição económica, estão destinados a desaparecer da memória das gerações vindouras. Não estamos muito certos se isso será um bem ou um mal, tanto mais que, frequentemente, publicações feitas a trezentos dólares pelas grandes editoras para o circuito das bibliotecas são publicações custeadas pelo próprio autor, pelo investigador ou pela fundação que o apoia, o que não é muitas vezes garantia da dignidade e do valor daquele que a publica. Assim, e através da xerocivilização, aproximamonos cada vez mais de um futuro em que os editores passarão a publicar quase exclusivamente para as bibliotecas, o que constitui um facto a considerar.

A par disso, ao nível pessoal, nascerá a nevrose das fotocópias. As fotocópias são, de resto, um instrumento de extrema utilidade mas constituem, muitas vezes também, um alibi intelectual: isto é, ao sair de uma biblioteca com um maço de fotocópias, uma pessoa tem a certeza de que, em termos gerais, nunca poderá vir a lê-las todas, de que não poderá sequer encontrá-las porque começam a confundir-se umas com as outras, mas tem a sensação de se ter apoderado do conteúdo desses livros. Antes da xerocivilização, essa mesma pessoa escrevia longas fichas à mão nessas enormes salas de leitura e alguma coisa lhe ficava na cabeça. Com a nevrose das fotocópias há o risco de se perderem dias e dias nas bibliotecas a fotocopiar livros que depois não serão lidos.

Estou a mostrar neste momento os efeitos negativos dessa biblioteca à medida do homem, na qual todavia me sinto satisfeito por viver quando me é possível, mas o pior háde acontecer quando a civilização dos visores e das microfichas suplantar totalmente a do livro consultável: talvez venhamos ainda a ter saudades das bibliotecas defendidas por cérebros que nutriam um grande desprezo pelo utente e que procuravam não lhe dar o livro, mas onde pelo menos uma vez por dia se podia ter nas nossas mãos o objecto encadernado. Devemos pois considerar também este cenário apocalíptico para conseguirmos pesar os prós e os contras de uma possível biblioteca à medida do homem.

Penso que a biblioteca se irá dimensionando pouco a pouco à medida do homem, mas para ficar à medida do homem terá de dimensionar-se também à medida da máquina, desde a fotocopiadora até ao visor, com o que aumentará o dever da escola, das entidades municipais, etc., de educarem os jovens e os adultos para o uso da biblioteca.

Usar a biblioteca é uma arte por vezes subtil, não basta o professor dizer na escola: “Como estão a fazer este trabalho de investigação, vão à biblioteca buscar o livro». É preciso ensinar aos jovens como se usa a biblioteca, como se usa um visor para microfichas, como se usa um catálogo, como se discute com os responsáveis pela biblioteca se não cumprem o seu dever, como se colabora com os responsáveis pela biblioteca. Num caso extremo, quero dizer, se a biblioteca não devesse ser potencialmente aberta a toda a gente, haveria que se instituir cursos, tal como sucede em relação à carta de condução, cursos de aprendizagem do respeito pelo livro, e da maneira de consultar o livro. Uma arte muito subtil, mas para a qual haverá que vincular precisamente a escola e quem está à frente da educação permanente dos adultos, porque, e estamos bem cientes disso, a biblioteca é um problema da escola, do município, do Estado. É um problema de civilização e nós não nos apercebemos até que ponto o instrumento biblioteca continua ainda a ser uma coisa desconhecida para a maioria das pessoas. Quem vive na universidade de massas, onde podem conviver jovens investigadores dotados de mil astúcias e capacidades com outros jovens que afloram pela primeira vez o mundo da cultura, pode presenciar episódios incríveis. Cito como exemplo a história de um aluno que me disse:

«Não posso consultar este livro na biblioteca de Bolonha, porque vivo em Modena». «Bem», respondi-lhe eu, «mas em Modena também há bibliotecas». «Não», disse ele, «não há». Nunca tinha ouvido falar da sua existência.

Uma aluna finalista veio dizer-me: «Não consegui encontrar as Investigações lógicas de Husserl, nas bibliotecas não existem».

Digo eu: «Que bibliotecas?» Responde ela: “Procurei aqui, em Bolonha, e também na minha cidade, mas não há nada de Husserl». Digo-lhe eu: «Acho muito estranho que não existam na biblioteca as traduções italianas de Husserl». Responde ela: «Talvez existam mas estejam todas requisitadas». De repente toda a gente lê avidamente Husserl. Haverá que tomar providências. Talvez seja útil ter - de Husserl - pelo menos três cópias. Algo vai mal no reino da Dinamarca se esta pessoa não encontra Husserl e nunca lhe explicaram que poderá talvez dirigir-se a alguém dentro da biblioteca para lhe perguntar a razão dessa ausência. Há uma distonia, uma falta de entendimento entre o cidadão e a biblioteca.

E para terminar, o problema final; é preciso decidir se queremos proteger os livros ou dálos a ler. Não estou a dizer que é preciso optar por dá-los a ler sem os proteger, mas também não se deve optar por protegê-los sem os dar a ler. E também não pretendo dizer que é preciso encontrar uma solução intermédia. O que é preciso, sim, é que um desses ideais prevaleça, depois logo se procurará fazer as contas com a realidade de modo a defender o ideal secundário. Se o ideal é fazer com que o livro seja lido, há que tentar protegê-lo o mais possível, embora sabendo os riscos que se correm. Se o ideal é protegê-lo, dever-se-á também tentar deixar que o leiam, embora sabendo os riscos que se correm. Neste sentido o problema de uma biblioteca não é muito diferente do de uma livraria. Há aliás, dois tipos de livrarias. Há as livrarias muito sérias, ainda com estantes de madeira, onde, mal entramos, logo somos abordados por um senhor que nos diz: «Que deseja?», após o que nos sentimos intimidados e saímos: nestas livrarias roubam-se poucos livros. Mas compram-se ainda menos. E há também as livrarias tipo supermercado, com estantes de plástico, onde, principalmente os jovens, circulam, olham, se informam acerca do que vai sendo editado, e aqui roubam-se imensos livros, apesar dos sistemas de detecção electrónica. Podemos surpreender um estudante a dizer: «Ah, este livro é interessante, amanhã venho roubá-lo». E depois vão passando informações entre si, por exemplo: «Olha que na livraria Feltrinelli, se te apanham, levas». «Ah, bom, então vou roubar à Marzocco onde abriram agora um novo supermercado». No entanto, quem organiza as redes de livrarias sabe que, a dada altura, uma livraria com um alto índice de roubos é também aquela que mais vende. Roubam-se muito mais coisas num supermercado do que numa drogaria, mas o supermercado faz parte de uma grande cadeia capitalista, ao passo que a drogaria é um pequeno estabelecimento com uma declaração de rendimentos muito reduzida.

Ora, se convertermos estes problemas de rendimento económico em problemas de rendimento cultural, de custos e de vantagens sociais, a mesma questão se põe também em relação às bibliotecas: correr maiores riscos no que respeita à preservação dos livros, mas ter todas as vantagens sociais de uma circulação mais ampla. Ou seja, se a biblioteca é, como pretende Borges, um modelo do Universo, tentemos transformá-lo num universo à medida do homem e, volto a recordar, à medida do homem quer também dizer alegre, com a possibilidade de se tomar um café, com a possibilidade de dois estudantes numa tarde se sentarem num maple e, não digo de se entregarem a um amplexo indecente, mas de consumarem parte do seu flirt na biblioteca, enquanto retiram ou voltam a pôr nas estantes alguns livros de interesse científico, isto é, uma biblioteca onde nos apeteça ir, e que se vá transformando gradualmente numa grande máquina de tempos livres, como é o Museum of Modern Art, onde se vai ao cinema, se passeia no jardim, se vêem as esculturas e se toma uma refeição completa.

Sei que a Unesco concorda comigo: «A biblioteca deve ser de fácil acesso e as suas portas devem estar abertas a todos os membros da comunidade, que poderão usá-la livremente, sem distinções de raça, de cor, de nacionalidade, de idade, de sexo, de religião, de língua, de estado civil ou de nível cultural». Uma ideia revolucionária. E a referência ao nível cultural pressupõe igualmente uma acção de educação, de apoio e de preparação. E mais: «O edifício onde está situada a biblioteca pública deve ser central, de fácil acesso mesmo para os inválidos e estar aberto a horas viáveis para toda a gente. Tanto o edifício em si como o seu mobiliário devem ser de aspecto agradável, confortáveis e acolhedores; e é essencial que os leitores possam ter acesso directo às estantes».

Será que vamos conseguir transformar esta utopia em realidade?

 

                                                                                            Umberto Eco

 

                      

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