Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A BUSCA DE CARLOS MAGNO / Steve Berry
A BUSCA DE CARLOS MAGNO / Steve Berry

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A BUSCA DE CARLOS MAGNO

Primeira Parte

 

alarme tocou, e forrest malone ficou alerta.

—            Profundidade? perguntou.

—            Duzentos metros.

—            O que há abaixo de nós?

—            Mais 610 metros de água gelada.

Varreu com o olhar os mostradores, manômetros e termômetros em funcionamento. Na minúscula sala de controle, o timoneiro estava sentado à sua direita, o operador de lemes horizontais espremido à esquerda. Os dois homens seguravam firme as alavancas de controle. A eletricidade ia e voltava.

—            Reduza para dois nós.

O submarino balançou.

O alarme parou. A torre escureceu.

—            Comandante, aviso da sala do reator. Interruptor queimado em uma das alavancas de controle.

Ele sabia o que tinha acontecido. Os mecanismos de segurança ins­talados na máquina temperamental tinham causado o desligamento automático das outras alavancas o reator tivera uma parada de emergência, fora desativado. Só havia uma medida possível.

—            Mudar para baterias.

Luzes de emergência fracas acenderam-se. Seu oficial de engenha­ria, Flanders, um profissional hábil e cauteloso que ganhara sua con­fiança, entrou na sala de controle. Malone disse:

Fale comigo, Tom.

Não sei qual a gravidade do problema, nem quanto tempo será preciso para consertá-lo, mas precisamos aliviar a carga elétrica.

Já haviam ficado sem eletricidade antes, várias vezes, na verdade, e ele sabia que as baterias poderiam fornecer energia temporária por dois dias, desde que tomassem certos cuidados. Sua tripulação tinha recebido treinamento rigoroso para este tipo exato de situação, mas quando o reator se desligava de forma automática, o manual dizia para reiniciá-lo em menos de uma hora. Caso passasse mais tempo, o submarino teria de ser levado ao porto mais próximo.

E esse porto estava a 2.700 quilômetros dali.

Desligue tudo de que não precisamos disse ele.

Comandante, será difícil manter o submarino estável obser­vou o timoneiro.

Ele entendia a lei de Arquimedes. Um objeto que pesasse o mes­mo que um volume de água correspondente ao próprio volume não afundava nem boiava. Em vez disso, permanecia na mesma posição, com poder de flutuação neutro. Todos os submarinos funcionavam de acordo com essa regra básica, sendo mantidos sob a água com motores que os impulsionavam para a frente. Sem energia, não havia motores, nem lemes horizontais, nem impulso. Todos esses proble­mas poderiam ser facilmente minorados levando-se a embarcação à tona, mas acima deles não havia um mar aberto. Estavam presos sob um teto de gelo.

Comandante, a sala de motores informou um pequeno vaza­mento na instalação hidráulica.

Pequeno vazamento? perguntou ele. Agora?

—            Havia sido detectado antes, mas, com a pane elétrica, estão pe­dindo permissão para fechar uma válvula e interromper o vazamento para que uma mangueira seja trocada.

Lógico.

—            Façam isso. E espero que seja o fim das notícias ruins. — Ele se virou na direção do operador do sonar. —Algum contato pela proa?

Todo tripulante de submarino aproveitava o exemplo dos que na­vegaram antes dele, e aqueles que enfrentaram mares congelados pela primeira vez deixaram duas lições. Nunca bata em nada que esteja congelado se houver alternativa e, se isso não for possível, encaixe a proa no gelo, impulsione-a com cuidado e reze.

Proa livre — informou o operador.

Iniciando a inclinação para cima — disse o timoneiro.

Compense. Devagar.

De repente, a proa do submarino inclinou-se para baixo.

—            Mas que diabos...? — murmurou ele.

—            Os lemes horizontais à ré chegaram ao limite de inclinação para baixo — gritou o operador de lemes horizontais, que ficou de pé e pu­xou a alavanca de controle. — Não consigo obter resposta deles.

—            Blount — chamou Malone —, ajude-o.

O homem saiu correndo da estação do sonar para prestar auxílio. O ângulo de descida aumentou. Malone segurou-se na mesa de plotagem, enquanto tudo o que não estava preso tombava numa avalanche violenta.

—            Controle do leme em emergência — gritou.

O ângulo aumentou.

—            Passa de 45 graus — informou o timoneiro. — Ainda no limite de inclinação para baixo. Não está funcionando.

Malone segurou a mesa com mais força, lutando para manter o equilíbrio.

—            Duzentos e setenta metros e ainda caindo.

O mostrador de profundidade mudava tão rápido que os núme­ros se misturavam. A posição era de 914 metros, mas o fundo estava subindo rápido, e a pressão externa da água aumentando muito e rá­pido demais, o que faria com que o casco implodisse. Mas bater no fundo do mar numa descida acelerada também não era uma perspec­tiva positiva.

Restava apenas uma coisa a fazer.

—            Todas as emergências de apoio. Esvaziar todos os tanques de lastro.

A embarcação balançou quando os mecanismos obedeceram ao seu comando. As hélices passaram a girar no sentido contrário, e o ar comprimido ressoou ao entrar nos tanques, forçando a saída da água. O timoneiro permaneceu firme. O operador de lemes horizontais pre­parou-se para o que Malone sabia que ia acontecer.

A inclinação para baixo diminuiu.

A descida ficou mais lenta.

O ângulo da proa elevou-se, depois ficou nivelado.

—            Controlem o fluxo ordenou ele. Mantenham-nos em posi­ção neutra. Não quero subir.

O operador de lemes horizontais respondeu ao seu comando.

Qual a distância até o fundo?

Blount voltou à estação.

Sessenta metros.

Malone olhou o mostrador de profundidade. Setecentos e trinta. O casco gemeu com a pressão, mas aguentou. Ele não tirava a vista dos indicadores de aberturas. As luzes mostravam que todas as válvulas e todos os orifícios estavam fechados. Finalmente, alguma notícia boa.

—            Ponha-nos no chão.

A vantagem daquele submarino sobre todos os outros era sua ca­pacidade de repousar no solo oceânico. Era apenas um dos muitos traços especializados do modelo assim como a potência e o siste­ma de controle exacerbantes, dos quais eles só haviam vivenciado uma demonstração gráfica.

O submarino assentou no fundo do mar.

Todos na sala de controle olharam uns para os outros. Ninguém disse nada. Não precisavam. Malone sabia o que estavam pensando. Essa foi por pouco.

—            Sabemos o que aconteceu? perguntou ele.

—            A sala do motor diz que quando aquela válvula foi fechada para conserto, os sistemas de governo normais e de emergência falha­ram. Isso nunca aconteceu antes.

Eles poderiam me dizer algo que eu não saiba?

A válvula foi reaberta.

Ele sorriu diante do modo de seu engenheiro dizer: "Se eu soubes­se mais, eu lhe contaria."

—            OK, mande-os consertá-la. E quanto ao reator?

Eles certamente tinham usado um exagero de energia das baterias para lutar contra a descida imprevista.

—            Ainda desligado informou o imediato.

Aquela hora de reinício estava passando rápido.

—            Comandante disse Blount da estação do sonar —, contatos na parte externa do casco. Sólidos. Múltiplos. Parece que estamos ani­nhados num campo de rochas.

Ele decidiu arriscar e gastar mais energia.

—            Ligar câmeras e luzes externas. Mas será uma olhada rápida.

Os monitores de vídeo ganharam vida com a imagem da água lím­pida salpicada de pedaços de vida reluzentes. Rochas grandes cercavam o submarino, dispostas em diferentes angulações pelo leito oceânico.

—            É estranho disse um dos homens.

Ele também notou.

—            Não são rochas. São blocos. E grandes. Retângulos e quadra­dos. Coloque o foco em um deles.

Blount operou os controles, e o foco da câmera fixou-se na superfí­cie de um dos blocos.

—            Caramba disse o imediato.

Marcações desfiguravam o bloco. Não eram escritas ou pelo me­nos nada que ele reconhecesse. Um estilo cursivo, arredondado e fluido. Letras individuais pareciam agrupadas, como palavras, mas nenhuma que ele pudesse ler.

—            Tem nos outros blocos também disse Blount, e Malone exa­minou as telas restantes.

Eles estavam recobertos por escombros, partes dos quais assoma­vam como espíritos.

—            Desliguem as câmeras disse ele. No momento, a energia, e não a curiosidade, era sua preocupação principal. Estaremos bem aqui, se ficarmos parados?

—            Descemos numa clareira disse Blount. Estamos bem. Um alarme soou. Ele localizou a fonte. Painéis elétricos.

—            Comandante, precisam de você à frente gritou o imediato acima do ruído do alto-falante.

Ele saiu da sala de controle com cuidado e seguiu apressado na direção da escada que ia dar na vela. Seu engenheiro já estava de pé na base da torre.

O alarme parou.

Ele sentiu calor e dirigiu o olhar para o revestimento. Inclinou-se e tocou o metal de leve. Incrivelmente quente. Nada bom. Cento e cin­quenta baterias de óxido de prata estavam sob o revestimento, num tanque de alumínio. Ele sabia, por amarga experiência própria, que sua composição era muito mais artística que científica. Aquelas bate­rias apresentavam defeito constantemente.

Um ajudante do engenheiro soltou, um a um, os quatro parafusos que seguravam o revestimento. A cobertura foi removida, revelando uma agitação violenta de fumaça de ebulição. Malone entendeu o pro­blema de imediato. O fluido de hidróxido de potássio das baterias ti­nha transbordado. Mais uma vez.

A placa do convés foi recolocada no lugar. Mas, com isso, eles só ganhariam alguns minutos. O sistema de ventilação logo dispersaria os vapores acres por toda a embarcação, e, sem nenhum modo de dar vazão ao ar tóxico, todos estariam mortos.

Ele correu de volta para a sala de controle.

Não queria morrer, mas suas opções estavam diminuindo rapida­mente. Servira em submarinos a diesel e nucleares durante 26 anos. Apenas um a cada cinco recrutas conseguia entrar para a escola de submarinistas, em que exames médicos, avaliações psicológicas e tempos de reação testavam a todos até o limite. Seus golfinhos de pra­ta tinham sido entregues por seu primeiro comandante, e ele concede­ra a honra a muitos desde então.

Portanto, sabia como estava o placar.

Fim de jogo.

Era estranho, mas apenas um pensamento ocupava sua mente quando ele entrou na sala de controle e preparou-se para, pelo menos, agir como se tivessem alguma chance. Seu filho. Dez anos. Que cresce­ria sem pai.

Eu amo você, Cotton.

 

         Garmisch, Alemanha

         Terça-feira, 11 de dezembro, presente

         13h40

 

Cotton Malone odiava ambientes fechados.

Sua inquietação atual era intensificada por um bonde lotado. A maioria dos passageiros estava de férias, usando trajes coloridos, com bastões e esquis nos ombros. Ele notou uma variedade de na­cionalidades. Alguns italianos, uns suíços, um punhado de france­ses, mas a maioria era alemã. Ele tinha sido um dos primeiros a entrar no bonde e, para aliviar seu desconforto, fora para perto de uma das janelas cobertas de gelo. Três mil metros acima — e se apro­ximando —, a silhueta do Zugspitze era marcada contra o fundo azul metálico do céu, o pico cinza e imponente envolto pela neve do fim do outono.

Não fora inteligente concordar com este local.

O bonde continuava a subida vertiginosa, passando por uma das diversas armações de aço que saíam dos rochedos.

Ele estava desanimado, e não simplesmente por causa do entorno superlotado. Fantasmas o aguardavam no alto do pico mais elevado da Alemanha. Malone evitara aquele encontro durante quase quatro décadas. Pessoas como ele, que enterravam o passado de forma tão determinada, não deveriam exumá-lo assim tão de repente.

No entanto, lá estava ele, fazendo exatamente isso.

As vibrações diminuíram à medida que o bonde entrou e depois parou na estação do cume.

Os esquiadores saíram numa torrente em direção a mais um eleva­dor para levá-los até um circo glacial de altitude elevada, onde um chalé e ladeiras os aguardavam. Ele não esquiava, nunca havia esquia­do, nunca tivera vontade.

Ele atravessou a central de informações, identificada por um car­taz amarelo como Müncher Haus. Um restaurante dominava metade do prédio, e o restante abrigava um teatro, uma lanchonete, um miran­te, lojas de suvenires e uma estação meteorológica.

Empurrou grossas portas de vidro e saiu num terraço cercado por parapeitos. O revigorante ar alpino fazia seus lábios arderem. De acor­do com Stephanie Nelle, seu contato deveria estar esperando na plata­forma do mirante. Uma coisa era óbvia: os 3 mil metros nos altos Alpes certamente intensificavam a privacidade do encontro.

O Zugspitze ficava na fronteira. Uma sucessão de penhascos co­bertos de neve começava no sul, na direção da Áustria. Ao norte, es­tendia-se um vale em forma de tigela de sopa, cercado por picos rochosos. Uma cobertura de névoa gelada protegia a aldeia alemã de Garmisch e sua companheira, Partenkirchen. As duas eram meças dos esportes, e a região atendia não apenas os praticantes de esqui mas também os de trenó, patinação e curling.

Outros esportes que ele evitara.

O mirante estava deserto, exceto por um casal de idosos e alguns esquiadores que pareciam estar fazendo uma pausa para apreciar a vista. Ele fora até lá para resolver um mistério que o perturbava desde o dia em que os homens de uniforme foram avisar sua mãe que o ma­rido dela estava morto.

"O contato com o submarino foi perdido há 48 horas. Despachamos para o Atlântico Norte navios de busca e salvamento, que esquadrinharam a últi­ma posição conhecida. Destroços foram encontrados seis horas atrás. Espera­mos para informar as famílias até que tivéssemos certeza de que não havia chance de sobreviventes."

Sua mãe nunca havia chorado. Não era do seu feitio. Mas isso não significava que não estivesse arrasada. Anos se passaram até que as perguntas se formassem em sua mente adolescente. O governo ofere­ceu poucas explicações além do que foi divulgado oficialmente. Assim que entrou para a Marinha, Malone tentou obter acesso ao relatório investigativo do tribunal de inquérito a respeito do naufrágio do sub­marino, mas descobriu que era confidencial. Tentou mais uma vez, depois de se tornar agente do Departamento de Justiça, quando pos­suía grande acesso a áreas de segurança máxima. Sem sorte. Quando Gary, seu filho de 15 anos, foi visitá-lo no verão, encarou novas per­guntas. Gary não conhecera o avô, mas queria saber mais sobre ele e, especialmente, como morrera. A imprensa cobrira o naufrágio do USS Blazek em novembro de 1971, então eles leram na internet muitos dos relatos antigos. Essas conversas tinham reacendido suas próprias dú­vidas o suficiente para que ele finalmente fizesse algo a respeito.

Cotton Malone enfiou os punhos fechados nos bolsos da parca e ficou andando pelo terraço.

O parapeito estava repleto de telescópios. Diante de um deles ha­via uma mulher, o cabelo escuro preso num coque pouco atraente. Com trajes brilhantes, esquis e bastões escorados ao seu lado, ela exa­minava o vale abaixo.

Malone andou até lá, casualmente. Uma regra que aprendera ha­via muito tempo. Nunca tenha pressa. Ela só cria problemas.

Bela paisagem disse ele.

Ela se virou.

Com certeza.

O rosto dela era cor de canela, o que, em combinação com o que ele achou serem traços egípcios na boca, no nariz e nos olhos, sinalizava alguma ascendência do Oriente Médio.

Sou Cotton Malone.

Como soube que era eu a pessoa que veio encontrá-lo?

Ele fez um gesto para o envelope marrom ao lado da base do te­lescópio.

Parece que esta não é uma missão muito estressante. — Ele sor­riu. — Veio trazer um recado?

Por aí. Eu ia vir esquiar. Uma semana de folga, finalmente. Sempre quis fazer isso. Stephanie perguntou se eu poderia trazer — ela apontou para o envelope — aquilo comigo. — Ela se voltou para a paisagem. — Você se incomoda se eu terminar aqui? Custou 1 euro e quero ver o que tem lá embaixo.

Ela girou o telescópio, analisando o vale alemão que se estendia por quilômetros abaixo.

—            Você tem nome? — perguntou ele.

—            Jéssica — disse ela, os olhos ainda na ocular.

Ele estendeu a mão para pegar o envelope.

A bota dela lhe bloqueou o caminho.

—            Ainda não. Stephanie disse para eu me certificar de que você está ciente de que vocês dois estão quites.

No ano anterior, ele ajudara sua ex-chefe na França. Ela dissera então que lhe devia um favor e que ele deveria usá-lo com sabedoria. E ele assim fizera.

—            Concordo. Dívida paga.

Ela se virou do telescópio. O vento deixava suas bochechas ver­melhas.

—            Ouvi falar de você no Setor Magalhães. É meio que uma lenda. Um dos 12 agentes originais.

—            Não sabia que eu era tão famoso.

—            Stephanie disse que era modesto também.

Ele não estava a fim de ouvir elogios. O passado o aguardava.

Posso ficar com o arquivo?

Os olhos dela brilharam.

Claro.

Ele apanhou o envelope. O primeiro pensamento que passou por sua mente foi como algo tão fino poderia responder tantas perguntas.

Isso deve ser importante disse ela.

Outra lição. Ignore o que não quer responder.

Está há muito tempo no Setor?

—            Alguns anos. Ela desceu da base do telescópio. Mas não gosto. Estou pensando em sair. Soube que você também não custou a sair.

Por mais que ela se portasse de forma despreocupada, pedir de­missão parecia uma decisão profissional acertada. Durante seus 12 anos, Malone tirara férias apenas três vezes, durante as quais ficara em estado de alerta constante. A paranóia era um dos muitos riscos ocu­pacionais quando se era um agente, e dois anos de aposentadoria vo­luntária ainda não tinham curado a doença.

—            Aproveite o esqui disse ele.

No dia seguinte, ele voaria para Copenhague. Hoje, visitaria algu­mas livrarias raras da região um risco ocupacional de sua nova pro­fissão. Vendedor de livros.

Ela o encarou firmemente ao pegar os esquis e o bastão.

—            É o que planejo.

Deixaram o terraço e voltaram a atravessar o centro de visitantes quase deserto. Jéssica se encaminhou para o elevador que a levaria para o circo glacial. Ele seguiu para o bonde que o levaria de volta até o nível do solo, 3 mil metros abaixo.

Entrou no bonde vazio, segurando o envelope. Gostou do fato de que não havia ninguém a bordo. Mas pouco antes de fecharem as portas, um homem e uma mulher entraram correndo, de mãos dadas. O atendente bateu as portas do lado de fora, e o bonde foi saindo da estação devagar.

Malone ficou olhando a paisagem pelas janelas da frente.

Lugares fechados eram uma coisa. Lugares fechados e apertados eram outra bem diferente. Ele não era claustrofóbico. Era mais a sensa­ção de liberdade negada. Ele a tolerara no passado estivera em lo­cais subterrâneos mais de uma vez —, mas seu desconforto fora uma das razões pelas quais, anos antes, quando entrara para a Marinha, ao contrário do pai, não optara pelos submarinos.

Sr. Malone. Ele se virou. A mulher estava parada, segurando uma arma. Vou ficar com o envelope.

 

Baltimore, Maryland

9h10

 

O ALMIRANTE LANGFORD C. RAMSEY ADORAVA FALAR PARA MULTIDÕES. Percebera que gostava da experiência ainda na Escola Naval e, ao longo de uma carreira que agora acumulava mais de quarenta anos, sempre buscara formas de satisfazer essa vontade. Estava dando uma palestra hoje para o encontro nacional de membros do Kiwanis — um tanto incomum para o chefe da inteligência naval. Ele habitava um mundo clandestino de fatos, rumores e especulações, e uma ou outra apresen­tação diante do Congresso era o limite de sua presença em público. Mas ultimamente, com a bênção de seus superiores, o almirante havia conseguido estar mais disponível. Sem cobranças, sem gastos, sem restrições para a imprensa. Quanto maior a multidão, melhor.

E muitos quiseram ouvi-lo.

Esta era sua oitava aparição nos últimos trinta dias.

— Vim aqui hoje para lhes contar algo sobre o qual tenho certeza de que vocês sabem pouco. Foi um segredo durante muito tempo. O menor submarino nuclear dos Estados Unidos. — Ele encarou a multidão aten­ta. — Agora, vocês estão dizendo a si mesmos: "Ele está louco? O chefe da inteligência naval vai nos falar sobre um submarino ultrassecreto?"

Ele fez que sim com a cabeça.

É exatamente o que pretendo fazer.

 

Comandante, temos um problema — disse o timoneiro.

Ramsey cochilava e despertava, num sono leve, atrás da cadeira do opera­dor de lemes horizontais. O comandante do submarino, que estava sentado ao lado dele, ergueu-se e concentrou-se nos monitores de vídeo.

Todas as câmeras externas mostravam minas.

—            Jesus, mãe de Deus — murmurou o comandante. — Parem tudo. Não movam esta coisa um centímetro.

O piloto obedeceu a ordem e apertou uma sequência de interruptores. Ramsey podia ser apenas um capitão-tenente, mas sabia que explosivos torna­vam-se ultrassensíveis quando imersos em água salgada por longos períodos. Estavam navegando pelo fundo do mar Mediterrâneo, nas proximidades da costa francesa, cercados por relíquias mortais da Segunda Guerra Mundial. Um mero toque do casco numa daquelas espinhas metálicas, e o NR-1 passa­ria do sigilo total ao esquecimento completo.

A embarcação era a arma mais especializada da Marinha, idéia do almi­rante Hyman Rickover, construída em segredo por inacreditáveis 100 milhões de dólares. Com menos de 45 metros de comprimento, 4 de largura e uma tripulação de 11 homens, o projeto era minúsculo para os padrões de submarinos, mas, ainda assim, engenhoso. Capaz de mergulhar a até 915 metros, a embarcação era movida por um reator nuclear exclusivo. Três portinholas de observação permitiam a inspeção visual externa. A iluminação exterior dava suporte a circuitos de televisão. Uma garra mecânica podia ser usada para a recuperação de objetos. Um braço manipulador continha ferramentas para segurar e cortar. Diferentemente de navios de ataque ou de submarinos balísticos, o NR-1 era adornado com uma brilhante vela laranja, uma superestru­tura plana no convés, uma quilha retangular deselegante e numerosas protuberâncias que incluíam dois pneus de caminhão Goodyear retráteis, cheios de álcool, que permitiam que se movesse pelo solo oceânico.

—            Propulsores descendentes ativados — disse o comandante. Ramsey percebeu o que o comandante estava fazendo. Mantendo o casco firme no fundo. Ótimo. Nas telas de TV havia tantas minas que era impossí­vel contá-las.

—            Preparar para esvaziar lastro principal — disse o comandante. — Que­ro subir direto. Sem oscilações.

A sala de controle estava silenciosa, o que amplificava o gemido das tur­binas, o ruído do deslocamento de ar, o grito do fluido hidráulico e os bipes dos equipamentos eletrônicos que, momentos antes, eram como sedativos para Ramsey.

—            Tranquilo e seguro — disse o comandante. — Mantenha-nos estáveis na subida.

O piloto segurava firme os controles.

O submarino não estava equipado com timão. Em vez disso, quatro ala­vancas de aeronaves de combate tinham sido adaptadas. Típico no NR-1. Em­bora fosse a última palavra em design e potência, a maior parte do equipamento era da Idade da Pedra, não da Era Espacial. A comida era prepa­rada numa imitação barata do forno usado em aviões comerciais. O braço manipulador era sobra de outro projeto da Marinha. O sistema de navegação, adaptado de aviões transatlânticos de passageiros, mal funcionava sob a água. Cabines apertadas para a tripulação, um sanitário que pouco fazia além de entupir e, para comer, apenas refeições congeladas, compradas num supermer­cado local antes de deixar o porto.

Não tivemos nenhum contato de sonar com essas coisas? — pergun­tou o comandante. — Antes de aparecerem?

Zero — disse um dos tripulantes. — Elas simplesmente se materiali­zaram na escuridão diante de nós.

O ar comprimido entrou com força nos tanques de lastro principais, e o submarino subiu. O piloto manteve as duas mãos nos controles, pronto para usar impelidores para ajustar a posição do navio.

Só precisariam subir cerca de 30 metros para estarem livres.

 

—            Como podem ver, conseguimos sair daquele campo minado disse Ramsey à platéia. Isso foi na primavera de 1971. — Ele balançou a cabeça afirmativamente. Isso mesmo, faz muito tempo. Fui um dos felizardos a servir no NR-1.

Ele viu o olhar de espanto nos rostos.

—            Poucas pessoas sabem do submarino. Foi construído em mea­dos da década de 1960, em segredo absoluto, escondido até mesmo da maioria dos almirantes da época. Vinha com uma série desconcertante de equipamentos e era capaz de submergir três vezes mais fundo que qualquer outro. Não tinha nome, armas, torpedos nem tripulação ofi­cial. Suas missões eram sigilosas, e muitas permanecem assim até hoje. O que é ainda mais impressionante é que ainda está por aí: agora é o segundo submersível mais antigo da Marinha ainda em serviço, ativo desde 1969. Não tão secreto como já foi um dia. Hoje, tem aplicações militares e civis. Mas quando olhos e ouvidos humanos são necessá­rios no fundo do oceano, a missão é do NR-1. Vocês se lembram de todas aquelas histórias sobre quando os Estados Unidos grampearam cabos telefônicos transatlânticos e fizeram escutas dos soviéticos? Era o NR-1. Quando um F-14 com míssil Phoenix avançado caiu no oceano em 1976, o NR-1 recuperou-o antes dos soviéticos. Após o desastre da Challenger, foi o NR-1 que localizou o propulsor do foguete com o anel de vedação defeituoso.

Nada prendia mais a atenção de uma multidão do que uma histó­ria, e ele tinha diversas do seu tempo naquele submersível único. Lon­ge de ser uma obra-prima tecnológica, o NR-1 estava infestado de defeitos e, por fim, foi mantido em circulação simplesmente devido à ingenuidade de sua tripulação. Esqueça o manual inovação era o lema. Quase todo oficial que servia no exterior passava a uma função superior de comando, inclusive Ramsey. Ele gostava do fato de agora poder falar do RN-1, parte do plano da Marinha de aumentar o recru­tamento divulgando êxitos. Veteranos como ele podiam contar as his­tórias, e as pessoas, como aquelas que agora ouviam às mesas de café da manhã, repetiriam cada palavra. A imprensa, que ele soube que estaria presente, garantiria uma divulgação ainda maior. O almirante Langford Ramsey, chefe do Gabinete da Inteligência Naval, num discurso para os membros do Kiwanis nos Estados Unidos, disse a platéia que...

A visão que ele tinha do sucesso era simples.

Ter sucesso era dar uma surra no fracasso.

Ele deveria ter se aposentado dois anos antes, mas era o negro de patente mais alta dos Estados Unidos, e o primeiro solteiro a ser pro­movido ao círculo de oficiais-generais. Ele havia planejado por muito tempo, tomando muito cuidado. Manteve a expressão tão firme quan­to a voz, a fisionomia imperturbada, e os olhos sinceros, suaves e im­passíveis. Ele havia projetado toda a sua carreira na Marinha com a precisão de um navegador submarino. Não permitiria que nada interferisse, especialmente quando seu alvo estava à vista.

Então, olhou para as pessoas e usou um tom de voz confiante para lhes contar mais histórias.

Mas um problema pesava em sua mente.

Uma potencial pedra no caminho.

Garmisch.

 

         Garmisch

 

Malone ficou olhando para a arma e manteve a compostura. Tinha sido um pouco duro com Jéssica. Pelo jeito, ele estava com a guarda baixa também. Acenou com o envelope.

—            Você quer isto? São só uns folhetos de Salvem as Montanhas que prometi à minha divisão do Greenpeace que iria colar. Ganhamos créditos extras para ações in loco.

O bonde continuou descendo.

—            Engraçado, você — disse ela.

—            Já pensei em trabalhar como comediante. Acha que seria uma má ideia?

Era precisamente por situações como esta que ele havia se aposen­tado. Um agente do Setor Magalhães recebia, em valor bruto, 72.300 dólares por ano. Ele tirava mais que isso como vendedor de livros, sem nenhum dos riscos.

Pelo menos era o que achava.

Hora de pensar como costumava pensar antes.

E conseguir provocar o erro do adversário.

—            Quem são vocês? — perguntou ele.

Ela era atarracada, o cabelo, uma combinação desfavorável de cas­tanho e vermelho. Talvez 30 e poucos anos. Ela usava um casaco de lã azul e cachecol dourado. O homem usava um casaco escarlate e pare­cia obediente. Ela acenou com a arma e disse ao cúmplice:

—            Pegue.

Casaco Escarlate deu o bote e arrancou o envelope da mão de Malone.

A mulher olhou rapidamente para os penhascos rochosos que pas­savam reluzindo pelas janelas cobertas de umidade. Malone aprovei­tou o instante para estender o braço esquerdo e, com o punho fechado, afastou a mira da arma.

Ela atirou.

O estampido fez doer os ouvidos dele, e a bala explodiu uma das janelas.

O ar gélido invadiu o bonde.

Ele socou o homem, arremessando-o para trás. Segurou o queixo da mulher com a mão enluvada e bateu a cabeça dela contra uma jane­la. O vidro rachou em forma de teia.

Os olhos dela se fecharam, e ele a jogou ao chão.

Casaco Escarlate ficou de pé e atacou. Juntos, foram bater no outro canto do bonde, depois caíram no chão úmido. Malone rolou, na ten­tativa de se livrar de uma chave de braço. Ouviu um murmúrio da mulher e viu que logo teria de lidar com os dois novamente, um deles armado. Abriu as duas mãos e acertou as orelhas do homem. O treina­mento da Marinha o ensinara sobre orelhas. Uma das partes mais sen­síveis do corpo. As luvas eram um problema, mas no terceiro estalo, o homem uivou de dor e abriu as mãos.

Malone afastou o agressor dando um empurrão com as pernas e ficou de pé num pulo. Mas antes que pudesse reagir, Casaco Escarlate mergulhou o braço sobre seu ombro, mais uma vez apertando-lhe fir­memente a garganta, forçando seu rosto contra o vidro, a condensação gelada esfriando sua bochecha.

—            Parado — ordenou o homem.

O braço direito de Malone estava torcido num ângulo difícil. Ele lutou para se soltar, mas Casaco Escarlate era forte.

—            Eu disse parado.

Ele decidiu, por enquanto, obedecer.

—            Panya, você está bem? Casaco Escarlate parecia estar tentan­do chamar a atenção da mulher.

O rosto de Malone permanecia pressionado contra a janela, seus olhos voltados para a frente, para onde o bonde estava descendo.

—            Panya?

Malone espiou uma das armações de aço, a cerca de 50 metros de distância, aproximando-se rápido. Então, percebeu que sua mão direita estava comprimida contra o que ele sentia ser uma maçaneta. Parecia que eles tinham terminado a luta diante da porta.

—            Panya, responda. Você está bem? Encontre a arma.

A pressão em volta de seu pescoço era intensa, assim como o blo­queio de seu braço. Mas Newton estava certo. Para toda ação havia uma reação contrária e equivalente. Os braços magros da armação de aço estavam quase sobre eles. O bonde passaria perto o suficiente para que fosse possível estender o braço e tocá-los.

Então, ele virou a maçaneta para cima e abriu a porta, saindo si­multaneamente para o ar gelado.

Casaco Escarlate, pego de surpresa, foi jogado do bonde, e seu cor­po atingiu a ponta da armação de aço. Malone agarrou-se à maçaneta com o braço. O agressor caiu, esmagado entre o bonde e a armação. Um grito desapareceu rapidamente.

Ele fez a manobra de volta para dentro. Uma pluma de vapor subia a cada respiração. Sua garganta ficou totalmente seca.

A mulher conseguiu se levantar com muito esforço.

Ele a fez voltar ao chão com um chute na mandíbula.

Então, cambaleou para a frente e olhou na direção do solo.

Dois homens com sobretudos escuros estavam parados onde o bonde ia estacionar. Reforços? Ele ainda estava a 300 metros de altura. Abaixo, uma floresta densa estendia-se, subindo timidamente pelas montanhas mais baixas, com ramos de sempre-viva carregados de neve. Ele notou um painel de controle. Cinco luzes brilhavam, três verdes e duas vermelhas. Olhou pela janela e viu outra das elevadas armações aproximando-se. Estendeu o braço na direção do interruptor em que estava escrito anhalten e baixou o pino.

O bonde deu um tranco e reduziu a velocidade, mas não parou completamente. Mais Isaac Newton. No fim, o atrito ia acabar com o embalo que movia o bonde.

Ele pegou o envelope ao lado da mulher e enfiou-o sob o casaco. Encontrou a arma e colocou-a no bolso. Em seguida, foi à porta e espe­rou a armação chegar perto. O bonde estava lento, mas, ainda assim, o salto seria arriscado. Avaliou a velocidade e a distância, avançou e lançou-se na direção de uma das vigas mestras, as mãos enluvadas buscando o aço.

Malone bateu na grade e usou o casaco de couro como amortecedor.

A neve era esmagada entre seus dedos e a viga.

Segurou firme.

O bonde continuou a descida, parando a cerca de 30 metros da ar­mação em que Malone se jogara. Ele respirou algumas vezes e balan­çou o corpo na direção da escada erguida na viga de apoio. A neve seca esvoaçava como talco, enquanto ele prosseguia o percurso com o apoio das mãos. Na escada, plantou as solas de borracha num degrau cheio de neve. Abaixo, viu os dois homens de casacos escuros correrem da estação. Problemas, como ele havia suspeitado.

Desceu a escada e pulou no chão.

Estava a 150 metros de altura, na montanha coberta de árvores.

Caminhando com dificuldade pela mata, encontrou uma estrada de asfalto paralela à base da montanha. Adiante, havia uma construção de telhas marrons cercada de arbustos cobertos de neve. Uma espécie de posto de trabalho. Depois, mais asfalto preto, sem neve. Correu até o portão que dava para o terreno cercado. Uma entrada trancada com cadeado. Ele ouviu um ronco de motor subindo a estrada inclinada. Recuou para trás de um trator estacionado e viu um Peugeot escuro fazer uma curva e reduzir, inspecionando o terreno cercado.

Arma na mão, ele se preparou para a briga.

Mas o carro acelerou e continuou subindo.

Malone avistou outro caminho estreito de asfalto que atravessava as árvores e ia até o nível do solo e da estação.

Correu nessa direção.

No alto, o bonde permanecia parado. Dentro, uma mulher incons­ciente de casaco azul. Um homem morto vestindo um casaco escarlate esperava em algum lugar na neve.

Nenhum dos dois era preocupação sua.

Problema dele?

Quem estava sabendo do assunto entre ele e Stephanie Nelle?

 

           Atlanta, Geórgia

         7h45

 

Stephanie Nelle olhou para o relógio. Tinha trabalhado no escritório desde antes das 7 horas, revisando relatórios de campo. De seus 12 agentes-advogados, oito estavam em missão no momento. Dois encontravam-se na Bélgica, fazendo parte de uma equipe internacional incumbida de sentenciar criminosos de guerra. Outros dois tinham acabado de chegar à Arábia Saudita para uma missão que poderia se tornar perigosa. Os quatro restantes estavam espalhados pela Europa e a Ásia.

Um, no entanto, estava de férias. Na Alemanha.

Por definição, o quadro de funcionários do Setor Magalhães era escasso. Além dos 12 advogados dela, a unidade também contratara cinco assistentes administrativos e três auxiliares. Ela insistira para que o regimento fosse pequeno. Menos olhos e ouvidos significavam menos vazamento de informações, e ao longo dos 14 anos de existên­cia do Setor Magalhães, até onde ela sabia, sua segurança nunca havia sido comprometida.

Ela saiu da frente do computador e empurrou a cadeira para trás. O escritório era simples e compacto. Nada luxuoso não combinaria com o estilo dela. Estava com fome, não tomara café da manhã em casa ao acordar, duas horas antes. As refeições eram algo com que ela se preocupava cada vez menos. Fazia parte de morar sozinha e de odiar cozinhar. Decidiu fazer um lanche no refeitório. Cozinha institu­cional, certamente, mas seu estômago roncava e pedia alguma coisa. Ela poderia se presentear com um almoço fora do escritório frutos do mar grelhados ou algo parecido.

Saiu dos escritórios protegidos e andou na direção dos elevado­res. O quinto andar do prédio acomodava o Departamento de Assun­tos Domésticos, junto com representantes do Departamento de Saúde e Serviços Sociais. O Setor Magalhães havia sido encaixado no meio de propósito, com letras comuns anunciando apenas departamento de justiça, força-tarefa jurídica. Stephanie gostava do anonimato.

O elevador chegou. Quando a porta abriu, um homem alto e desen­gonçado de cabelo grisalho e ralo e olhos azuis tranquilos saiu andando.

Edwin Davis.

Ele deu um sorriso rápido.

—            Stephanie. Exatamente quem eu vim ver.

Os sinais de alerta dela acenderam. Um dos vice-conselheiros de segurança nacional do presidente. Na Geórgia. Sem avisar. Nada que viesse disso poderia ser coisa boa.

—            E é animador não vê-la numa cela de cadeia disse Davis. Ela se lembrou da última vez que Davis aparecera de repente. Estava indo a algum lugar? perguntou.

Ao refeitório.

Importa-se se eu for junto?

Tenho escolha?

Davis sorriu.

Não é tão ruim assim.

Eles desceram ao segundo andar e encontraram uma mesa. Stepha­nie tomou lentamente um suco de laranja, enquanto Davis esvaziava uma garrafa d'água. O apetite de Stephanie havia desaparecido.

—            Quer me contar por que, cinco dias atrás, você acessou o arqui­vo de investigações sobre o naufrágio do USS Blazek?

Ela escondeu a surpresa diante do conhecimento dele.

Eu não sabia que esse ato envolveria a Casa Branca.

Aquele arquivo é confidencial.

Não infringi lei alguma.

—            Você o enviou para a Alemanha. Para Cotton Malone. Você faz alguma ideia do que provocou?

O radar dela passou para alerta total.

Sua rede de informações é boa.

Razão pela qual, todos sobrevivemos.

Cotton tem certificado de segurança.

—            Tinha. Está aposentado.

Agora, ela ficou agitada.

—            Para você, não foi um problema arrastá-lo para toda aquela confusão na Ásia Central. Com certeza, aquilo era altamente confiden­cial. Não foi um problema quando o presidente o envolveu com a Or­dem do Velo de Ouro.

O rosto refinado de Davis enrugou-se de preocupação.

—            Não está a par do que aconteceu há menos de uma hora no Zugspitze, está?

Stephanie balançou a cabeça.

Ele deu início a um relato completo, contando-lhe sobre um homem que caíra de um bonde, outro que pulara do mesmo bonde e fugira por uma das armações de aço, e uma mulher encontrada parcialmente in­consciente quando o bonde por fim foi levado ao solo, com uma das janelas quebrada por um tiro.

Qual desses homens você acha que é Cotton? — perguntou ele.

Espero que seja o que escapou.

Davis fez que sim.

Encontraram o corpo. Não era Malone.

Como sabe de tudo isso?

Mandei inspecionarem a área.

Ela ficou curiosa.

Por quê?

Davis terminou sua água.

Sempre achei estranho o modo como Malone saiu do Setor tão de repente. Doze anos, e então se desligou de vez.

As sete pessoas que morreram na Cidade do México pesaram para ele. E foi o seu chefe, o presidente, que aceitou o pedido de de­missão. Em retribuição a um favor, se bem me lembro.

Davis pareceu refletir.

—            A moeda da política. As pessoas pensam que o dinheiro abaste­ce o sistema. Ele balançou a cabeça. São os favores. O que é dado é retribuído.

Stephanie passou a falar num tom estranho:

—            Eu estava retribuindo um favor a Malone ao dar a ele o arqui­vo. Ele quer saber sobre o pai...

—            Não é você quem decide.

A agitação dela transformou-se em raiva.

—            Achei que fosse.

Stephanie terminou o suco de laranja e tentou afastar a miríade de pensamentos perturbadores que corriam por seu cérebro.

—            Passaram-se 38 anos declarou ela.

Davis tirou a mão do bolso e colocou um pen drive sobre a mesa.

—            Você leu o arquivo?

Ela negou com um movimento de cabeça.

—            Não cheguei a tocá-lo. Pedi para um de meus agentes obtê-lo e enviar uma cópia.

Ele apontou para o pen drive.

—            Você precisa ler.

 

         Veredito do Tribunal de

         Inquérito do USS Blazek

 

AO SE REUNIR NOVAMENTE EM DEZEMBRO DE 1971, AINDA SEM LOCALIZAR vestígio algum do USS Blazek, o tribunal passou a concentrar sua atenção no "e se" e não mais no "o que pode ter ocorrido". Ciente da falta de qual­quer prova física, foi feito um esforço deliberado para evitar que quais­quer noções preconcebidas influenciassem a busca pela causa mais provável da tragédia. Complica a tarefa a natureza altamente sigilosa do submarino, e procurou-se preservar, em todas as instâncias, a natureza confidencial tanto da embarcação quanto de sua última tarefa. O Tribunal, após averiguar todos os fatos conhecidos e circunstâncias relacionadas à perda do Blazek, apresenta as seguintes conclusões:

 

Encontrando os fatos

USS Blazek é uma designação fictícia. O verdadeiro submarino en­volvido neste inquérito é o NR-1A, colocado em serviço em maio de 1969. A embarcação é uma das duas construídas como parte de um programa confidencial para o desenvolvimento de recursos submersíveis avança­dos. Nem o NR-1 nem o NR-1A têm um nome oficial, mas, diante da tragédia e da inevitável atenção pública, atribuiu-se uma designação fictícia. Oficialmente, no entanto, o submarino continua sendo o NR-1A. Para o propósito do debate público, o USS Blazek será descrito como um submer­sível avançado que estava sendo testado no Atlântico Norte para opera­ções de resgate submarinas.

 

O NR-1A estava classificado para 915 metros. Registros indicam uma variedade de problemas mecânicos durante os dois anos de ativida­de. Nenhum deles foi considerado falha de engenharia, apenas desafios de um projeto radical, que estendia os limites da tecnologia submersível. O NR-1 já passou por dificuldades operacionais semelhantes, o que torna este inquérito ainda mais urgente, uma vez que essa embarcação continua ativa e quaisquer defeitos devem ser identificados e corrigidos.

 

Um reator nuclear em miniatura a bordo foi construído somente para os dois submarinos da classe NR. Embora o reator seja revolucioná­rio e problemático, não há nenhuma indicação de vazamento de radiação no local do naufrágio, o que sugeriria que uma falha catastrófica no reator não foi a causa do infortúnio. É claro que tal descoberta não impede a possibilidade de falha elétrica. Ambos os submarinos da classe NR relata­ram problemas recorrentes com suas baterias.

 

Onze homens estavam a bordo do NR-1A no momento do naufrá­gio. Comandante, CF Forrest Malone; imediato, CC Beck Stvan; oficial de navegação, Tom Morris; comunicações, 15-ET Tom Flanders; controles de reator, 15G-ET Gordon Jackson; operações de reator, 15G-ET George Tur­ner; eletricista do navio, 25G-EL Jeff Johnson; comunicações internas, 25G-EL Michael Fender; serviços de alimentação e sonar, 15G-MO Mikey Blount; divisão de motores, 25G-EL Bill Jenkins; laboratório do reator, 25G-MO Doug Vaught; e especialista de campo, Dietz Oberhouser.

Sinais acústicos atribuídos ao NR-1A foram detectados em esta­ções na Argentina e na África do Sul. Sinais acústicos e estações estão re­lacionados nas páginas seguintes sob o título "Tabela de dados de eventos acústicos confirmados". O número do evento acústico foi determinado por especialistas como resultado de uma descarga de alta energia, rica em baixas frequências sem estrutura harmônica discernível. Nenhum espe­cialista foi capaz de afirmar se o evento foi uma explosão ou implosão.

 

O NR-1A estava operando abaixo da bolsa de gelo da Antártida. Seu curso e destino final eram desconhecidos para o comando da frota, uma vez que a missão era altamente confidencial. Para os propósitos des­te inquérito, o Tribunal foi avisado de que as últimas coordenadas conhe­cidas do NR-1A eram 73° S, 15° O, aproximadamente 270 quilômetros ao norte do cabo Norvegia. Estar em águas tão traiçoeiras e relativamente inexploradas complicou a descoberta de qualquer prova física. Até hoje, nenhum vestígio do submarino foi localizado. Além disso, a extensão do monitoramento acústico subaquático na região da Antártida é mínima.

 

Um exame do NR-1, realizado para averiguar se alguma deficiên­cia óbvia de engenharia poderia ser encontrada na embarcação irmã, re­velou que as placas negativas das baterias foram impregnadas de mercúrio para aumentar sua vida útil. O mercúrio foi proibido para uso em submersíveis. Por que essa regra foi desrespeitada com esse projeto não está claro. Mas se as baterias a bordo do NR-1 A pegaram fogo, o que, de acordo com registros de reparos, aconteceu tanto no NR-1 quanto no 1A, os vapores de mercúrio resultantes teriam sido fatais. Não existe, é claro, qualquer evidência de incêndio ou falha na bateria.

 

O USS Holden, comandado pelo CC Zachary Alexander, foi despa­chado no dia 23 de novembro de 1971 até a última posição conhecida do NR-1A. Uma equipe especializada de reconhecimento relatou não ter en­contrado vestígio algum do NR-1A. Extensas varreduras por sonar não revelaram nada. Nenhuma radiação foi detectada. Caso tivesse sido per­mitida, uma operação de busca e salvamento em grande escala poderia ter produzido um resultado diferente, mas a tripulação do NR-1 A assinou uma ordem operacional, antes da partida, confirmando que, em caso de uma catástrofe, não haveria busca e salvamento. A autorização para essa ação extraordinária veio diretamente do chefe de operações navais em uma ordem confidencial, cuja cópia o Tribunal revisou.

 

         Opiniões

O fracasso na busca pelo NR-1A não diminui a obrigação de identifi­car e corrigir qualquer prática, condição ou deficiência sujeita a correção que possa existir, uma vez que o NR-1 continua a navegar. Após avaliação cuidadosa das limitadas evidências, o Tribunal determina que não exis­tem provas da causa ou causas da perda do NR-1A. Claramente, o que quer que tenha acontecido foi catastrófico, mas a localização isolada do submarino e a falta de rastreamento, comunicação e apoio em superfície tornam quaisquer conclusões a que o Tribunal poderia chegar quanto ao que aconteceu puramente especulativas.

 

Recomendações

 

Como parte dos esforços contínuos de se obter informações adicio­nais sobre as causas dessa tragédia, e para impedir que outro incidente ocorra com o NR-1, um exame mecânico mais meticuloso do NR-1 deverá ser conduzido, conforme e quando for praticável, com o uso das últimas técnicas de teste. O propósito de tal teste seria determinar possíveis meca­nismos de dano, avaliar seus efeitos secundários, fornecer dados atual­mente indisponíveis para aperfeiçoamento de projeto e, possivelmente, determinar o que pode ter acontecido com o NR-1A.

 

* * *

 

Malone estava sentado em seu quarto no Post hotel. As janelas do segundo andar, além de Garmisch, emolduravam as montanhas Wetterstein e o proeminente Zugspitze, mas a visão desse pico distante trouxe apenas lembranças do que acontecera duas horas antes.

Ele leu o relatório. Duas vezes.

As regulamentações da Marinha exigiam que um tribunal de inquérito fosse convocado imediatamente após qualquer tragédia marítima, formado por oficiais-generais e encarregado de descobrir a verdade.

Mas esse inquérito fora uma mentira.

Seu pai não estivera em uma missão no Atlântico Norte. O USS Blazek nem sequer existia. Em vez disso, seu pai estivera a bordo de um submarino altamente secreto, na Antártida, fazendo sabe Deus o quê.

Ele se lembrou das consequências.

Navios haviam vasculhado o Atlântico Norte, mas nenhum des­troço fora encontrado. Relatos nos noticiários indicavam que o Blazek, supostamente um submersível nuclear em teste para resgates no fundo do mar, havia implodido. Malone lembrou-se do que o homem de uni­forme não um vice-almirante da força submarina, que Malone viria a descobrir que seria quem normalmente daria a notícia para a esposa de um comandante de navio, mas um capitão de mar e guerra a servi­ço do Pentágono falara para sua mãe: "Eles estavam no Atlântico Norte, a 365 metros de profundidade."

Ou ele havia mentido ou a Marinha mentira para ele. Não admira que o relatório tenha permanecido confidencial.

Submarinos nucleares norte-americanos raramente naufragavam. Apenas três desde 1945. Thresher, por tubulação defeituosa. Scorpion, devido a uma explosão não explicada. Blazek, causa desconhecida. Ou, mais apropriadamente, NR-1A, causa desconhecida.

Todos os relatos da imprensa que ele lera com Gary durante o ve­rão falavam do Atlântico Norte. A falta de vestígios era atribuída à profundidade da água e à configuração acidentada do solo oceânico. Ele sempre se fizera perguntas sobre isso. A profundidade teria rompi­do o casco e inundado o submarino, de modo que os destroços acaba­riam subindo à superfície. A Marinha também vasculhou o oceano em busca de sons. O tribunal de inquérito observou que sinais acústicos tinham sido ouvidos, mas os sons explicavam pouco, e muito poucos estavam ouvindo naquela parte do mundo para se importar.

Droga.

Ele servira à Marinha, alistara-se voluntariamente, fizera juramen­to e o cumprira.

Eles não haviam cumprido.

Em vez disso, quando um submarino naufragara em algum lugar do Círculo Antártico, nenhuma flotilha vasculhara a área, investigan­do as profundezas com um sonar. Não houve páginas de testemunhos, mapas, desenhos, cartas, fotografias ou diretrizes operacionais relacio­nados às causas. Só um navio ridículo, três dias de inquérito e quatro páginas de um relatório inútil.

Sinos ressoaram a distância.

Ele queria dar um soco na parede. Mas de que adiantaria?

Em vez disso, pegou o celular.

 

SEIS

 

O CAPITÃO DE MAR E GUERRA STERLING WILKERSON, DA MARINHA DOS ESTADOS Unidos, olhava através do vidro espelhado e congelado da janela no Post Hotel. Posicionara-se de modo discreto do outro lado da rua, den­tro de um McDonald's movimentado. Do lado de fora, as pessoas pas­savam de um lado para o outro, agasalhadas para protegerem-se da neve que caía gelada e constante.

Garmisch era um emaranhado de ruas engarrafadas e vias exclusi­vas para pedestres. Parecia uma cidade de brinquedo, com chalés alpi­nos pintados e acomodados entre rolos de algodão, polvilhados com muitos flocos de plástico. Os turistas certamente vinham por causa da atmosfera e das colinas cobertas de neve nas proximidades. Wilkerson viera por causa de Cotton Malone e vira o ex-agente do Setor Maga­lhães, agora vendedor de livros em Copenhague, matar um homem e pular do bonde, até chegar ao chão e fugir no carro alugado. O oficial o seguira, e quando Malone foi direto para o Post Hotel, desaparecendo lá dentro, ele assumira posição do outro lado da rua, saboreando uma cerveja enquanto esperava.

Ele sabia tudo sobre Cotton Malone.

Nativo da Geórgia. Quarenta e oito anos. Ex-oficial da Marinha. Formado em direito pela Universidade de Georgetown. Promotor da Justiça Militar. Agente do Departamento de Justiça. Dois anos antes, Malone tinha se envolvido num tiroteio na Cidade do México, no qual tivera o quarto ferimento no cumprimento do dever e, aparentemente, chegara ao seu limite, optando por uma aposentadoria precoce, que fora concedida pelo presidente em pessoa. Deixara, então, seu posto militar e mudara-se para Copenhague, para abrir um sebo.

Tudo isso, Wilkerson podia entender. Duas coisas o deixavam perplexo.

Primeiro, o nome Cotton. O arquivo mencionava que o nome legal de Malone era Harold Earl. Em lugar algum havia explicação para o apelido incomum.

E segundo, qual era a importância do pai de Malone? Ou, mais precisamente, da lembrança de seu pai? O homem tinha morrido 38 anos antes.

Isso ainda importava?

Parecia que sim, uma vez que Malone matara para proteger o que Stephanie Nelle havia enviado. Deu um gole na cerveja.

Um redemoinho passou do lado de fora e intensificou a dança dos flocos de neve. Apareceu um trenó colorido, puxado por dois corcéis saltitantes, com os passageiros enfiados debaixo de cobertores xadrez e o condutor segurando as rédeas com força.

Ele entendia homens como Cotton Malone.

Era muito parecido com ele.

Servira na Marinha por 31 anos. Poucos chegavam a capitão de mar e guerra, menos ainda passavam para o almirantado. Recebera funções na inteligência naval durante 11 anos, os últimos seis no exte­rior, chegando a chefe do escritório de Berlim. Seu registro de serviços era repleto de viagens bem-sucedidas com missões árduas. Em verda­de que nunca pulara de um bonde a 300 metros do chão, mas havia enfrentado perigo.

Olhou para o relógio: 16h20.

A vida era boa.

O divórcio da esposa número dois, no ano anterior, não tinha sido caro. Ela até o deixara sem muito estardalhaço. Depois, ele perdera 9 quilos e deixara o cabelo loiro um pouco mais avermelhado, o que o fez parecer uma década mais novo que os seus 53 anos. Os olhos estavam mais vivos, graças a um cirurgião plástico francês que esticara suas ru­gas. Um outro especialista eliminara a necessidade de óculos, enquanto uma amiga nutricionista o havia ensinado a manter-se mais disposto com uma dieta vegetariana. O nariz forte, o rosto firme e a testa pro­nunciada seriam trunfos quando ele enfim chegasse a oficial-general.

Almirante.

Esse era o objetivo.

Duas vezes tinha sido preterido. Geralmente, essas eram todas as chances oferecidas pela Marinha. Mas Langford Ramsey havia prome­tido uma terceira.

Seu celular vibrou.

—            A esta altura, Malone já leu aquele arquivo disse a voz quan­do ele atendeu.

Cada palavra, tenho certeza.

Tire-o de lá.

Homens como ele não podem ser apressados disse ele.

Mas podem ser direcionados.

Ele teve de dizer:

Isso esperou 1.200 anos para ser encontrado.

Então, não vamos deixar que espere mais.

 

STEPHANIE SENTOU-SE A SUA MESA E TERMINOU A LEITURA DO RELATÓRIO DO tribunal de inquérito.

—            Isso tudo é falso?

Davis confirmou.

—            Aquele submarino não estava nem sequer perto do Atlântico Norte.

—            Qual era a razão?

—            Rickover construiu dois NR. Eram seus filhos. Ele conseguiu uma fortuna em verbas para essas embarcações no auge da Guerra Fria, e ninguém pensou duas vezes antes de gastar 200 milhões de dólares para ficar na frente dos soviéticos. Mas ele fez economias. A segurança não era a preocupação principal, os resultados é que impor­tavam. Caramba, quase ninguém sequer sabia que os submarinos exis­tiam. Mas o naufrágio do NR-1 A gerou problemas em muitos níveis. o próprio submarino em si. A missão. Muitas perguntas embaraçosas. Então, a Marinha escondeu-se atrás da segurança nacional e forjou uma matéria para os jornais.

—            Enviaram apenas um navio para procurar sobreviventes? Ele assentiu.

—            Concordo com você, Stephanie. Malone tem o direito de ler isso. A questão é: deveria?

Stephanie nunca teve dúvida quanto à resposta.

—            Com toda certeza.

Ela lembrou-se da própria dor diante das questões não resolvidas sobre o suicídio do marido e a morte do filho. Malone ajudara a resol­ver os dois sofrimentos, e esse era precisamente o motivo pelo qual ela ficara devendo a ele.

Seu telefone tocou, e um de seus funcionários disse que Cotton Malone estava na linha, pedindo para falar com ela.

Ela e Davis trocaram olhares intrigados.

—            Não olhe para mim disse Davis. Não fui eu quem deu aquele arquivo para ele.

Ela atendeu com o handset.

Davis apontou para o alto-falante do aparelho. Ela não gostou, mas ativou o viva-voz para que ele pudesse ouvir.

—            Stephanie, permita-me dizer que, no momento, não estou a fim de conversa fiada.

Olá para você também.

Você leu o arquivo antes de me enviar?

Não. O que era verdade.

—            Somos amigos há muito tempo. Fico grato por você ter feito isso. Mas preciso de mais uma coisa e não preciso que sejam feitas perguntas.

—            Achei que estivéssemos quites tentou ela.

—            Coloque essa na minha conta.

Ela já sabia o que ele queria.

Um navio da Marinha disse ele. Holden. Em novembro de 1971, ele foi despachado para a Antártida. Quero saber se o coman­dante ainda está vivo, um homem chamado Zachary Alexander. Se estiver, onde? Se não estiver respirando, ainda é possível encontrar algum de seus oficiais?

Acho que você não vai me contar o porquê.

Agora você já leu o arquivo? perguntou ele.

Por que pergunta?

Posso sentir na sua voz. Então, você sabe por que quero saber.

Fiquei sabendo há pouco sobre o Zugspitze. Foi quando decidi ler o arquivo.

Você tinha pessoas lá? No solo?

Não eram minhas.

Se você leu esse relatório, sabe que os babacas mentiram. Deixa­ram aquele submarino lá. Meu pai e aqueles outros dez homens podem ter ficado parados no fundo, esperando que alguém fosse salvá-los. E ninguém foi. Quero saber por que a Marinha fez isso.

Ele estava claramente irritado. Ela também.

—            Quero falar com um ou mais desses oficiais do Holden disse ele. — Encontre-os para mim.

Você vem para cá?

Assim que você os encontrar.

Davis acenou com a cabeça, indicando seu consentimento.

—            Tudo bem. Vou localizá-los.

Ela estava se cansando da charada. Edwin Davis estava lá por um motivo. Malone obviamente tinha sido manipulado. Ela tam­bém, por sinal.

—            Outra coisa — disse ele —> já que você está sabendo do bonde. A mulher que estava lá... eu dei uma pancada forte na cabeça dela, mas preciso encontrá-la. Ela foi presa? Solta? O quê?

Davis disse só com movimento labial: Você liga para ele depois.

Chega. Malone era amigo dela. Estivera ao seu lado quando ela realmente precisara, então, era hora de dizer a ele o que realmente es­tava acontecendo... Edwin Davis que se danasse.

Esqueça — disse Malone.

Como assim?

- Acabei de encontrá-la.

 

         Garmisch

 

Malone estava de pé diante da janela do segundo andar e olhou para o outro lado da rua movimentada. A mulher do bonde, Panya, andava calmamente na direção de um estacionamento coberto de neve de frente para um McDonald's. A lanchonete ficava dentro de um prédio de estilo bávaro, anunciada apenas por uma placa discreta com os ar­cos dourados e algumas decorações na janela.

Ele soltou as cortinas de renda. O que ela estava fazendo lá? Talvez tivesse fugido? Ou a polícia simplesmente a soltara?

Pegou a jaqueta de couro e as luvas e enfiou no bolso a arma que pegara dela. Saiu do quarto do hotel e desceu ao térreo, cuidadoso com os movimentos, mas andando casualmente.

Fora do hotel, o ar era como o interior de um freezer. O carro alu­gado estava estacionado a alguns metros da porta. Do outro lado da rua, ele viu o Peugeot escuro para o qual a mulher caminhara prestes a sair da vaga, a seta da direita piscando.

Malone entrou em seu carro e seguiu.

Wilkerson virou o resto da cerveja. Tinha visto cortinas se abrirem na janela do segundo andar quando a mulher do bonde passou em frente à lanchonete.

Sincronia realmente era tudo.

Ele pensara que Malone não poderia ser direcionado.

Mas se enganara.

 

Stephanie estava irritada.

—            Eu não vou fazer parte disso disse a Edwin Davis. Vou ligar para Cotton. Pode me demitir, não estou nem aí.

—            Minha vinda aqui não é oficial.

Ela o examinou com um olhar desconfiado.

O presidente não está sabendo?

Ele balançou a cabeça.

Esta é pessoal.

Você precisa me dizer por quê.

Ela havia lidado diretamente com Davis apenas uma vez, e ele não tinha sido muito franco, chegando a colocar a vida dela em peri­go. Mas, no fim, ela percebera que aquele homem não era nenhum idiota. Tinha dois doutorados um em história norte-americana, outro em relações internacionais além de magníficas habilidades organizacionais. Sempre cortês. Simples. Parecido com o próprio presidente Daniels. Ela vira como as pessoas tendiam a subestimá-lo, inclusive ela. Três secretários de Estado o haviam usado para colocar seus departamentos moribundos na linha. Agora, ele trabalhava para a Casa Branca, auxiliando a administração nos três últimos anos do seu período final.

Ainda assim, aquele burocrata de carreira estava agora quebrando as regras abertamente.

—            Achei que eu fosse a única dissidente aqui disse ela.

Você não deveria ter deixado aquele arquivo chegar a Malone. Mas assim que fiquei sabendo, concluí que eu precisava de ajuda.

Para quê?

Uma dívida minha.

—            E agora está em condições de pagá-la? Com seu poder e suas credenciais da Casa Branca.

Algo assim.

Ela suspirou.

O que quer que eu faça?

—            Malone está certo. Precisamos descobrir a respeito do Holden e seus oficiais. Se alguns deles ainda estiverem por aí, têm de ser localizados.

 

Malone seguiu o Peugeot. Montanhas denteadas, pintadas por faixas de neve, subiam ao céu dos dois lados da auto-estrada. Ele dirigia rumo ao norte, saindo de Garmisch, numa rota em zigue-zague ascendente. Árvores altas, de tronco negro, formavam um corredor imponente, uma cena pitoresca que Baedeker claramente teria adorado descrever. O inverno no extremo norte trazia a escuridão cedo — nem 5 horas da tarde, e a luz do dia já enfraquecia.

Ele pegou um mapa da região no banco do passageiro e notou que adiante ficava o vale alpino de Ammergebirge, que se estendia por quilômetros a partir da base do Ettaler Mandl, um pico respeitável de mais de 1.500 metros de altura. Uma pequena aldeia aparecia no mapa, perto do Ettaler Mandl, e ele reduziu a velocidade quando ele e o Peu­geot entraram nas proximidades.

Ele viu sua presa fazer uma curva abrupta e estacionar em uma vaga diante de um prédio de dois andares, um bloco maciço de facha­da branca, dominado pela simetria, povoado de janelas góticas. Um domo imponente erguia-se no centro, ladeado por duas torres meno­res, todos cobertos de cobre escurecido e inundados de luz.

Uma placa de bronze anunciava: mosteiro de ettal.

A mulher saiu do carro e desapareceu ao entrar num portal em forma de arco.

Ele estacionou e a seguiu.

O ar estava notavelmente mais frio que em Garmisch, confirman­do a elevação de altitude. Ele deveria ter levado um casaco mais pesa­do, mas odiava esse tipo de coisa. A imagem estereotipada do espião com gabardine era ridícula. Limitava demais os movimentos. Enfiou as mãos enluvadas nos bolsos da jaqueta e envolveu a arma com os dedos da direita. Pisoteando a neve, seguiu por uma calçada de con­creto, na direção de um claustro do tamanho de um campo de futebol, cercado por outras construções barrocas. A mulher subia apressada uma rampa que ia dar nas portas de uma igreja.

Pessoas entravam e saíam.

Ele correu um pouco para não perdê-la de vista, disparando em meio a um silêncio perturbado apenas por solas de sapato batendo no pavimento congelado e pelo pio distante de um cuco.

Entrou na igreja por um portal gótico com um elaborado tímpano no alto, mostrando cenas bíblicas. Seus olhos foram atraídos de ime­diato pelos afrescos no domo que pareciam retratar o céu. As paredes internas estavam repletas de estátuas de estuque, querubins e padrões complexos, todos em tons vivos de dourado, rosa, cinza e verde, que bruxuleavam como se estivessem em constante movimento. Ele já ti­nha visto igrejas em estilo rococó, a maioria tão sobrecarregada que o edifício se perdia, mas ali era diferente. A decoração parecia se subor­dinar à arquitetura.

As pessoas circulavam por ali. Algumas estavam sentadas em ban­cos. A mulher que ele seguia andava uns 15 metros à direita dele, de­pois do púlpito, na direção de outro tímpano esculpido.

Ela passou por uma pesada porta de madeira, fechando-a em seguida.

Malone parou para considerar suas opções.

Nenhuma alternativa.

Foi até a porta e segurou a maçaneta de ferro. Os dedos da mão direita continuaram apertados em volta da arma guardada no bolso.

Virou o trinco e abriu a porta com cuidado.

A sala à sua frente era pequena, com um teto abobadado sustenta­do por colunas brancas delgadas. Mais ornamentos rococós brotavam das paredes, mas não eram tão ousados. Talvez aquilo fosse uma sa­cristia. Alguns armários elevados e duas mesas eram os únicos mó­veis. De pé, ao lado de uma das mesas, estavam duas mulheres — a do bonde e uma outra.

— Bem-vindo, Herr Malone — disse a nova mulher. — Eu estava à espera.

 

         Maryland, 12h15

 

A casa estava deserta, o bosque ao redor não ocultava ninguém, mas ainda assim o vento sussurrava seu nome.

Ramsey.

Ele parou de andar. Não era bem uma voz, mais um murmúrio levado pelo vento do inverno. Ele entrou na casa pela porta dos fun­dos, que estava aberta, e ficou parado na espaçosa sala, onde toda a mobília estava envolta em panos marrons imundos. Na parede mais afastada, as janelas emolduravam a vista de um prado amplo. Perma­neceu imóvel, os ouvidos atentos. Disse a si mesmo que seu nome não tinha sido pronunciado.

Langford Ramsey.

Aquilo fora mesmo uma voz ou só a sua imaginação infiltrando-se no ambiente meio assombrado?

Depois de seu pronunciamento aos membros do Kiwanis, dirigira sozinho até chegar à região rural de Maryland. Estava sem uniforme. Seu emprego de chefe da inteligência naval exigia uma aparência mais discreta, motivo pelo qual se abstinha tanto da vestimenta oficial quan­to de um motorista do governo. Lá fora, nada na terra fria sugeria que alguém tivesse feito visitas recentemente, e a cerca de arame farpado enferrujara muito tempo antes. A casa era uma estrutura desconexa, evidentemente formada por acréscimos posteriores, muitas janelas quebradas, um buraco escancarado no telhado sem sinais de conserto. Século XIX, ele achava, decerto o que fora uma propriedade elegante no campo, agora rapidamente transformando-se em ruína.

O vento continuava a soprar. As previsões do tempo indicavam que a neve finalmente estava se dirigindo para o leste. Olhou para o piso de madeira, tentando ver se a fuligem tinha sido perturbada, mas viu apenas suas próprias pegadas.

Algo se quebrou do outro lado da casa. Vidro sendo estilhaçado? Metal tinindo? Difícil saber.

Chega dessa bobagem.

Desabotoou o sobretudo e retirou uma Walther automática. Andou lentamente para a esquerda. O corredor adiante estava mergulhado em sombras densas, e um arrepio involuntário percorreu seu corpo. Seguiu aos poucos até o fim da passagem.

Ouviu um som novamente. Algo raspando. A sua direita. Depois, outro som. Metal sobre metal. Dos fundos da casa.

Aparentemente, havia dois do lado de dentro.

Ele seguiu devagar pelo corredor e decidiu que um ataque repen­tino poderia lhe dar uma vantagem, especialmente depois que quem quer que fosse continuava a anunciar sua presença com um tat-tat-tat constante.

Ramsey respirou fundo, preparou a arma e disparou para dentro da cozinha. Sobre uma das bancadas, a 3 metros, um cachorro olhoupara ele. Era de raça mestiça, grande, orelhas arredondadas, pelos amarelados, mais claros por baixo, com a mandíbula inferior e o pescoço brancos.

Um rosnado saiu da boca do animal. Caninos afiados apareceram, patas traseiras enrijeceram-se.

Um latido veio da frente da casa.

Dois cachorros?

O que estava sobre a bancada pulou para o chão e correu para fora pela porta da cozinha.

Ele voltou rapidamente para a frente da casa exatamente quando o outro cão passava por uma janela aberta.

Expirou.

Ramsey.

Parecia que a brisa tinha formado vogais e consoantes, depois fala­do. Não alto nem claro. Apenas presente. Ou será que não?

Ele forçou o cérebro a ignorar a ideia risível e saiu do salão da fren­te, seguindo por um corredor, passando por outros quartos com mó­veis cobertos e papel de parede inflado pela umidade. Um piano velho estava descoberto. Quadros emitiam um vazio fantasmagórico com suas capas de pano. Ficou curioso quanto às pinturas e parou para examinar algumas... reproduções da Guerra Civil em tons sépia. Uma delas retratava Monticello; outra, Mount Vernon.

Na sala de jantar, Ramsey hesitou e imaginou grupos de homens brancos dois séculos antes fartando-se com bifes e bolos frescos. Em seguida, talvez, drinques com uísque servidos no salão. Uma partida de bridge talvez tivesse sido disputada enquanto um braseiro aquecia o ar com aroma de eucalipto. É claro que os ancestrais de Ramsey es­tariam do lado de fora, congelando nas senzalas.

Ele olhou para um longo corredor. Um quarto no fim o fez seguir para a frente. Verificou o chão, mas apenas poeira cobria as tábuas.

Parou no final do corredor, diante da entrada.

Outra vista do prado vazio assomava numa janela suja. A mobília, como nos outros cômodos, estava coberta, com exceção de uma escri­vaninha. Madeira de ébano, envelhecida e desgastada, o tampo mar­chetado coberto de poeira cinza-azulada. Chifres de veado prendiam-se às paredes pardas, e lençóis marrons protegiam o que pareciam ser estantes de livros. Ácaros rodopiavam pelo ar.

Ramsey.

Mas não vinha do vento.

Ele localizou a fonte, avançou na direção de uma cadeira coberta e arrancou o lençol, gerando mais uma nuvem de poeira. Havia um gra­vador sobre a tapeçaria deteriorada, a fita cassete passando da metade.

A mão que apertava a arma enrijeceu.

—            Estou vendo que encontrou meu fantasma — disse uma voz.

Ele se virou e viu um homem parado à porta. Baixo, 40 e poucos anos, rosto redondo, pele tão pálida quanto a neve que caía. O cabelo fino e preto, penteado para a frente, cintilava com flocos de prata. E estava sorrindo. Como sempre.

Para que esse teatro, Charlie? — perguntou Ramsey, guardan­do a arma.

Muito mais divertido que só dizer oi, e adorei os cachorros. Parecem gostar daqui.

Eles haviam trabalhado juntos por 15 anos, e ele nem sabia o nome verdadeiro do homem. Conhecia-o apenas como Charles C. Smith Jr., com ênfase no Júnior. Uma vez, perguntara sobre o Smith pai e recebe­ra como resposta trinta minutos de história da família, que certamente era toda inventada.

De quem é esta casa? — perguntou Ramsey.

Minha, agora. Comprei há um mês. Achei que um retiro no in­terior seria um investimento inteligente. Estou pensando em reformar e alugar. Vou chamá-la de Bailey Mill.

Não lhe pago o suficiente?

É preciso diversificar, almirante. Não se pode contar só com um contracheque para viver. Bolsa de valores, imóveis, é assim que a gen­te se prepara para a velhice.

Vai custar uma fortuna reformar tudo isto.

O que me faz lembrar uma nota informativa. Devido a aumen­tos imprevistos no custo do combustível, tarifas de viagem mais altas que o esperado e um aumento geral de despesas indiretas e gastos gerais, passaremos por um leve incremento de valor. Apesar de nos esforçarmos para manter os custos reduzidos enquanto oferecemos excelentes serviços aos clientes, nossos acionistas exigem que uma margem de lucro aceitável seja mantida.

—            Que conversa fiada, Charlie.

—            Além do mais, este lugar me custou uma fortuna, e preciso de mais dinheiro.

No papel, Smith era um ativo contratado que realizava serviços especializados de vigilância no exterior, onde as leis sobre grampos telefônicos eram mais relaxadas, especialmente na Ásia Central e no Oriente Médio. Portanto, Ramsey não dava a mínima para quanto Smith cobrava.

—            Mande a conta para mim. Agora, ouça. Está na hora de agir.

Ele estava contente que todo o trabalho de preparação tivesse sido feito durante o ano anterior. Arquivos prontos. Planos determinados. Ele sabia que uma oportunidade acabaria surgindo não quando ou como, somente que surgiria. E assim foi.

—            Comece com o alvo principal, conforme discutimos. Depois, vá para o sul para os dois seguintes.

Smith fez uma continência de brincadeira.

—            Sim, sim, capitão Sparrow. Zarparemos para o sul e encontrare­mos o vento mais favorável.

Ele ignorou o idiota.

Nenhum contato entre nós até que tenha dado um jeito em to­dos. Faça um trabalho limpo, Charlie. Muito limpo.

Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. A satisfação do cliente é nossa maior preocupação.

Havia pessoas que faziam músicas, escreviam romances, pinta­vam, esculpiam ou desenhavam. Smith matava... e com um talento inigualável. E não fosse pelo fato de Charlie Smith ser o melhor assas­sino que ele já conhecera, Ramsey já teria atirado no idiota irritante muito tempo antes.

Ainda assim, ele decidiu deixar perfeitamente clara a gravidade da situação.

Assim, armou o cão da Walther e forçou o cano contra o rosto de Smith. Então Ramsey, uns bons 20 centímetros mais alto, olhou para baixo e disse:

—            Não faça besteira. Eu ouço o que sai da sua boca e o deixo pa­paguear, mas não ...faça ...besteira.

Smith ergueu as mãos num gesto zombeteiro de rendição.

—            Por favor, dona Scarlett, não me bata. Por favor, não me bata... — A voz era aguda e coloquial, uma imitação tosca de Butterfly McQueen.

Ele não apreciava humor racial, então manteve a arma apontada.

Smith começou a rir.

—            Ah, almirante, relaxa.

Ele se perguntou o que era necessário para desconcertar aquele homem. Guardou a arma debaixo do casaco.

—            Mas eu tenho uma pergunta disse Smith. É importante. Algo que eu realmente preciso saber.

Ele esperou.

—            Samba-canção ou cueca comum?

Era o bastante. Ele virou as costas e saiu do quarto. Smith começou a rir de novo.

—            Ah, vai, almirante, samba-canção ou cueca comum? Ou você é daqueles que andam livre e solto? A CNN diz que dez por cento de nós não usam nenhuma roupa íntima. Eu sou assim... livre e solto.

Ramsey continuou se encaminhando à porta.

—            Que a Força esteja com você, almirante gritou Smith. Um cavaleiro Jedi nunca falha. E não se preocupe, estarão todos mortos antes do que você imagina.

 

O OLHAR DE MALONE VARREU A SALA. CADA DETALHE TORNOU-SE CRÍTICO. UMA porta aberta à direita acionou seu alarme, especialmente a escuridão inexplorada que vinha depois.

—            Somos só nós — disse sua anfitriã. O inglês dela era bom, com­binado com um leve sotaque alemão.

Ela fez um sinal, e a mulher do bonde desfilou na direção dele. Quando ela se aproximou, ele a viu passar a mão no hematoma no rosto, onde recebera o chute.

Talvez eu tenha a chance de retribuir o favor algum dia — dis­se-lhe ela.

Acho que já retribuiu. Parece que fui enganado.

Ela sorriu com satisfação evidente, depois saiu, fechando a porta com um ruído metálico.

Ele examinou a mulher que restara. Era alta e curvilínea, com cabe­lo loiro-acinzentado cortado rente à nuca de um pescoço delgado. Nada perturbava o tom cremoso de sua pele rosada. Os olhos eram da cor de café com creme, um tom que ele nunca vira antes, e irradiavam uma fascinação que ele achou difícil ignorar. Usava suéter, calça jeans e blazer de lã de ovelha.

Tudo nela indicava privilégios e problemas.

Ela era linda e sabia disso.

Quem é você? — perguntou ele, sacando a arma.

Garanto a você que não sou uma ameaça. Tive muito trabalho para encontrá-lo.

—            Se não se importa, a arma me faz sentir melhor. Ela deu de ombros.

Como quiser. Para responder à sua pergunta, sou Dorothea Lindauer. Moro perto daqui. Minha família é bávara, com vínculos com os Wittelsbach. Somos Oberbayer. Bávaros do norte. Ligados às montanhas. Também temos ligações profundas com este mosteiro. Tanto que os beneditinos nos dão liberdades.

Como matar um homem e depois levar o assassino à sua sacristia?

Lindauer franziu o cenho.

Entre outras coisas. Mas essa é, tem de concordar, uma liberda­de enorme.

Como soube que eu estaria na montanha hoje?

Tenho amigos que me mantêm informada.

Preciso de uma resposta melhor.

O assunto USS Blazek me interessa. Eu também quero saber o que aconteceu de verdade. Presumo que, a esta altura, tenha lido o arquivo. Diga-me, foi informativo?

Vou embora. — Ele se virou para a porta.

Você e eu temos algo em comum — disse ela. Ele continuou andando.

O meu pai também estava a bordo daquele submarino.

 

STEPHANIE APERTOU UMA TECLA DO TELEFONE. AINDA ESTAVA EM SEU ESCRITÓRIO com Edwin Davis.

—            É da Casa Branca — informou seu assistente pelo alto-falante.

Davis permaneceu em silêncio. Ela ativou a linha de imediato.

—            Parece que voltamos a ter trabalho disse a voz estrondosa pelo fone que ela segurava e pelo alto-falante por onde Davis ouvia.

O presidente Danny Daniels.

E o que foi que eu fiz desta vez? perguntou ela.

Stephanie, seria mais fácil se fôssemos direto ao assunto. Outra voz. Feminina. Diane McCoy. Outra vice-conselheira de se­gurança nacional. Colega de Edwin Davis e nem um pouco amiga de Stephanie.

Qual é o assunto, Diane?

Vinte minutos atrás, você baixou um arquivo sobre o comandante Zachary Alexander. Marinha americana, reformado. O que queremos saber é por que a inteligência naval já está questio­nando o seu interesse e por que, dias atrás, você aparentemente autorizou a cópia de um arquivo confidencial sobre um submarino perdido há 38 anos.

Parece que tem uma pergunta melhor disse ela. Por que a inteligência naval se importa com isso? Isso é história antiga.

Quanto a isso disse Daniels —, concordamos. Eu também queria uma resposta a essa pergunta. Examinei o mesmo arquivo da tripulação que você acabou de obter, e não há nada lá. Alexan­der era um oficial satisfatório, que serviu por vinte anos e se aposentou.

Senhor presidente, por que o senhor está envolvido nisso?

Porque Diane entrou no meu gabinete e me disse que precisá­vamos ligar para você.

Mentira. Ninguém dizia a Danny Daniels o que fazer. Ele tinha sido governador por três mandatos e senador por um, e conseguira ser eleito presidente dos Estados Unidos duas vezes. Não era um tolo, ainda que alguns achassem que sim.

—            Desculpe, senhor, mas por tudo o que já vi, o senhor faz exata­mente o que quer fazer.

—            Privilégio do meu trabalho. Em todo caso, como não quer responder à pergunta de Diane, aqui vai a minha: sabe onde Edwin está?

Davis acenou com a mão, indicando que não.

—            Ele está perdido?

Daniels riu.

Você pegou pesado com aquele babaca do Brent Green e pro­vavelmente salvou a minha pele no processo. Colhões. É o que você tem, Stephanie. Mas, neste caso, temos um problema. Edwin está numa aventura. Ele tem algum envolvimento pessoal aqui. Pegou al­guns dias de licença e foi embora ontem. Diane acha que ele foi se encontrar com você.

Eu nem gosto dele. Quase me fez morrer em Veneza.

O registro de segurança do térreo disse Diane indica que ele está no seu prédio neste momento.

Stephanie disse Daniels —, quando eu era garoto, um amigo disse à nossa professora que ele e o pai foram pescar e pegaram um robalo de 30 quilos em uma hora. A professora não era nenhuma idio­ta e disse que aquilo era impossível. Para dar uma lição ao meu colega sobre mentiras, ela contou-lhe que um urso saiu da floresta e a atacou, mas foi contido por um cachorrinho que espantou o urso com apenas um latido. "Acreditou nisso?", perguntou a professora. "Claro", disse meu amigo, "esse cachorro era meu."

Stephanie sorriu.

—            Edwin é meu cachorro, Stephanie. O que ele faz vem direto para mim. E, neste exato momento, ele está se metendo em confusão. Você pode me ajudar nessa? Por que está interessada no comandante Zachary Alexander?

Chega. Ela tinha ido longe demais, pensando que estava apenas ajudando... primeiro, Malone; depois, Davis. Então, contou a verdade a Daniels:

—            Porque Edwin disse que eu deveria estar.

O rosto de Davis foi tomado pela expressão de derrota.

—            Deixe-me falar com ele disse Daniels.

E ela lhe passou o telefone.

 

MALONE ENCAROU DOROTHEA LINDAUER E ESPEROU QUE ELA EXPLICASSE.

—            Meu pai, Dietz Oberhauser, estava a bordo do Blazek quando ele desapareceu.

Ele notou sua referência contínua ao submarino pelo nome falso. Ela não parecia saber muita coisa, ou então o estava enganando. Uma coisa que ela disse, no entanto, conferia. O relatório do tribunal de in­quérito citava o nome de um especialista de campo. Dietz Oberhauser.

—            O que seu pai estava fazendo lá? — perguntou Malone.

O rosto surpreendente suavizou-se, mas os olhos de basilisco con­tinuaram a atrair a atenção dele. Ela o lembrava Cassiopeia Vitt, outra mulher que dominara seu interesse.

Meu pai estava lá para descobrir o início da civilização.

Só isso? Achei que fosse algo importante.

Entendo, Herr Malone, que o humor é um instrumento que pode ser usado para desarmar. Mas o assunto do meu pai, como tenho certeza de que é o caso com você, não é motivo de piada para mim.

Ele não se impressionou.

—            Precisa responder à minha pergunta. O que ele estava fazendo lá?

Um acesso de raiva fez o rosto dela corar, depois sumiu rapidamente.

—            Estou falando muito sério. Ele foi encontrar o início da civiliza­ção. É um enigma que ele passou a vida tentando desvendar.

Não gosto de ser enganado. Matei um homem hoje por sua causa.

Culpa dele. Foi diligente demais. Ou talvez tenha subestimado você. Mas o modo como você se portou confirma tudo o que me disse­ram a seu respeito.

Matar parece ser algo que você encara com tranquilidade. Eu, não.

Mas pelo que me disseram, não é algo novo para você.

Mais informações que aqueles amigos lhe deram?

—            Eles são bem informados. Dorothea apontou para a mesa. Malone já havia notado um tomo antigo sobre o carvalho rugo-so. Você é vendedor de livros. Dê uma olhada neste.

Ele se aproximou e colocou a arma no bolso da jaqueta. Decidiu que, se aquela mulher o quisesse morto, ele já estaria.

O livro tinha, talvez, 16 por 23 centímetros e 5 de lombada. Sua men­te analítica decifrou a procedência. Capa marrom de couro de bezerro. Estampa cega sem ouro nem cor. Contracapa sem adornos, o que indi­cava sua idade: os livros produzidos antes da Idade Média eram arma­zenados na horizontal, não de pé, então a parte de baixo era simples.

Abriu a capa com cuidado e espiou os pedaços puídos de páginas de pergaminho escurecido. Examinou-os e notou estranhos desenhos nas margens e um texto indecifrável numa língua que ele não reconheceu.

—            O que é isso?

—            Deixe-me responder contando a você o que aconteceu ao norte daqui, em Aachen, num domingo de maio, mil anos depois de Cristo.

 

Otto III assistiu à destruição dos últimos empecilhos ao seu destino imperial. Estava dentro do vestíbulo da capela do palácio, uma construção sagrada erigida duzentos anos antes pelo homem em cuja sepultura ele estava prestes a entrar.

— Está feito, Majestade — declarou Von Lomello.

O conde era um homem irritante, que garantia a devida manutenção do palatinado real na ausência do imperador. O que, no caso de Otto, parecia ser a maior parte do tempo. Enquanto imperador, ele nunca se preocupara com as florestas alemãs, nem com as fontes termais, os invernos glaciais ou a total falta de civilidade de Aachen. Preferia o calor e a cultura de Roma.

Trabalhadores carregavam as últimas pedras do piso despedaçado.

Não tinham sabido exatamente onde escavar. A cripta fora lacrada muito tempo antes, sem nada que indicasse o local preciso. A ideia havia sido escon­der seu ocupante das invasões vikings que se aproximavam, e a manobra fun­cionara. Quando os normandos saquearam a capela em 881, não encontraram nada. Mas Von Lomello havia montado uma missão exploratória antes da chegada de Otto e conseguira isolar uma localização promissora.

Por sorte, o conde estava certo.

Otto não tinha tempo para erros. Afinal, era um ano apocalíptico, o pri­meiro de um novo milênio, quando muitos acreditavam que Cristo viria para o julgamento.

Os trabalhadores estavam atarefados. Dois bispos observavam em silên­cio. O túmulo em que estavam prestes a entrar não era aberto desde 29 de ja­neiro de 814, dia em que o Mais Sereno Augusto Coroado por Deus, o Grande Imperador Pacífico, Governante do Império Romano, Rei dos Francos e Lom­bardos pela Misericórdia Divina, morreu. Naquele dia, ele já era mais sábio que os mortais, inspirador de milagres, o protetor de Jerusalém, vidente, ho­mem de ferro, bispo dos bispos. Um poeta proclamou que ninguém estaria mais próximo dos 12 apóstolos que ele. Em vida, ele se chamara Carolus. Magnus foi vinculado ao nome em referência à sua estatura elevada, mas passou a indicar magnificência. Sua denominação francesa, no entanto, era a mais usada na época, uma fusão entre Carolus e Magnus para a formação de um nome que logo seria pronunciado com cabeça e voz baixas, como se a pes­soa estivesse faland de Deus.

Charlemagne — ou Carlos Magno.

Os trabalhadores retiraram-se da abertura negra no chão, e Von Lomello inspecionou o resultado do esforço deles. Um estranho odor invadiu lenta­mente o vestíbulo — doce, bolorento, enjoativo. Otto conhecera o fedor de car­ne estragada, leite azedo e resíduos humanos. Esta lufada era diferente. Tinha cheiro de muito tempo atrás. Ar que montara guarda para coisas que os ho­mens não deveriam ver.

 

Uma tocha foi acesa, e um dos trabalhadores estendeu o braço para dentro do buraco. Quando o homem acenou com a cabeça, uma escada de madeira foi trazida do lado de fora.

Era a celebração de Pentecostes, e a capela estivera repleta de adoradores horas antes. Otto estava em peregrinação. Tinha acabado de voltar do túmulo do velho amigo Adalberto, bispo de Praga, enterrado em Gnesen, ocasião em que, como imperador, elevara a cidade à dignidade de um arcebispado. Agora, ele viera olhar os restos mortais de Carlos Magno.

— Eu vou primeiro — disse-lhes Otto.

Tinha meros 20 anos, um homem de estatura imponente, filho de um rei alemão e de mãe grega. Coroado sacro imperador romano aos 3 anos, reinara sob a tutela da mãe durante os primeiros oito anos e da avó por mais três. Nos últimos seis, governara sozinho. Seu objetivo era restabele­cer um Renovatio ImperiL um Império Romano Cristão, com teutões, latinos e eslavos, todos, como no tempo de Carlos Magno, sob o poder do imperador e do papa. O que jazia abaixo do solo poderia ajudar a elevar esse sonho à realidade.

Ele pôs o pé na escada, e Von Lomello entregou-lhe uma tocha. Oito de­graus passaram diante de seus olhos até seus pés tocarem a terra. O ar estava ameno e tépido, como o de uma caverna, o estranho cheiro quase opressor, mas ele disse a si mesmo que aquilo não era nada além do perfume do poder.

A tocha revelou uma câmara coberta de mármore e argamassa, de tama­nho semelhante ao do vestíbulo acima. Von Lomello e os dois bispos desceram a escada.

Então eles viram.

Abaixo de um caramanchão, Carlos Magno aguardava sobre um trono de mármore.

O corpo estava envolto em um manto púrpura, e ele segurava um cetro com a mão esquerda enluvada. O rei estava sentado como uma pes­soa viva, um ombro apoiado no trono, a cabeça erguida por uma corrente dourada presa ao diadema. O rosto estava coberto por um pano translú­cido. A deterioração era evidente, mas nenhum membro havia caído, ex­ceto a ponta do nariz.

Otto ficou de joelhos em reverência. Os outros se juntaram a ele ra­pidamente. Ele estava extasiado. Nunca esperara tal visão. Ouvira his­tórias, mas nunca dera muita atenção a elas. Os imperadores precisavam de lendas.

— Diz-se que um pedaço da cruz foi colocado no diadema — sussurrou Von Lomello.

Otto tinha ouvido o mesmo. O trono estava sobre uma laje de mármore esculpida, os três lados visíveis repletos de baixos-relevos. Homens. Cavalos. Uma carruagem. Um cérbero de duas cabeças. Mulheres segurando cestas de flores. Tudo romano. Otto tinha visto outros exemplos de tal magnificência na Itália. Interpretou sua presença ali, num túmulo cristão, como um sinal de que o que ele idealizava para o seu império estava certo.

Um escudo e uma espada repousavam de um lado. Ele conhecia o escudo. O próprio papa Leão o consagrara no dia em que Carlos Magno fora coroado imperador, duzentos anos antes, e o objeto estava ornado com o brasão real. Otto vira o símbolo em documentos da biblioteca imperial.

 

Otto ficou de pé.

Uma das razões pelas quais ele havia ido até ali era obter o cetro e a coroa, esperando ser recebido por nada além de ossos.

Mas as coisas haviam mudado.

Notou lençóis amarrados no colo do imperador. Com cuidado, aproximou-se do estrado e reconheceu um pergaminho com iluminuras, com a escrita e as ilustrações desbotadas, mas ainda legíveis. Perguntou:

—            Algum de vocês sabe ler latim?

Um dos bispos fez que sim, e Otto acenou para que se aproximasse. Dois dedos da mão esquerda enluvada do cadáver apontavam para um trecho da página.

O bispo ergueu a cabeça e examinou.

É o Evangelho de Marcos.

Leia.

—            Pois de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a pró­pria alma?

Otto encarou fixamente o cadáver. O papa dissera-lhe que os símbolos de Carolus Magnus seriam instrumentos ideais para o restabelecimento do esplendor no Sacro Império Romano. Nada revestia o poder de maior mistério do que o passado, e ele estava olhando diretamente para um pas­sado glorioso. Eginhardo descrevera aquele homem como alto, atlético, de ombros imensos, peito amplo como o de um corcel, olhos azuis, cabelo ful­vo, semblante corado, vivacidade incomum, incapaz de sentir cansaço, com um espírito de energia e controle que, mesmo quando em repouso, como agora, dominava os tímidos e os apáticos. Ele finalmente entendeu a verdade daquelas palavras.

O outro propósito da visita surgiu em sua mente.

Olhou ao redor da sepultura.

Sua avó, que morrera meses antes, contou-lhe a história que o avô dele, Otto I, lhe contara. Algo que só os imperadores sabiam. Sobre o fato de que Carolus Magnus ordenara que certas coisas fossem para o túmulo com ele.

Muitos sabiam da espada, do escudo e do pedaço da Cruz Verdadeira. O trecho de Marcos, no entanto, era uma surpresa.

Então, ele viu. O que realmente estava procurando. Sobre uma mesa de mármore.

Aproximou-se, entregou a tocha a Von Lomello e olhou para um pequeno volume coberto de poeira. Na capa, estava impresso um símbolo, o qual sua avó havia descrito.

 

Com cuidado, ergueu a capa. Nas páginas, viu símbolos, estranhos dese­nhos e uma escrita indecifrável.

—            O que é isso, Majestade? — perguntou Von Lomello. — Que língua é essa?

Normalmente, ele não teria permitido tal questionamento. Imperadores não aceitavam perguntas. Mas a alegria de encontrar o que sua avó lhe disse­ra existir encheu-o de alívio incomensurável. O papa achava que coroas e ce­tros transmitiam poder, mas se sua avó era digna de crédito, aqueles estranhos símbolos e palavras eram ainda mais poderosos. Então, respondeu ao conde do mesmo modo que ela lhe respondera.

—            É a língua dos céus.

 

Malone ouvia com ceticismo.

—            Dizem que Otto arrancou as unhas do cadáver, removeu um dente, mandou completarem a ponta do nariz com ouro, depois lacrou a tumba,

—            Você parece não acreditar na história — disse-lhe ele.

—            Aquela época não foi denominada Idade das Trevas sem moti­vo. Quem sabe?

Na última página do livro, ele notou o mesmo desenho que ela descrevera ao falar do escudo na tumba: uma curiosa combinação das letras K, R, L, S, mas com mais traços. Ele perguntou sobre o símbolo.

—            É a assinatura completa de Carlos Magno disse ela. O A de Karl encontra-se no centro da cruz. Um clérigo acrescentaria as pa­lavras à esquerda e à direita. Signum Caroli gloriosissimi regis. A marca do mais glorioso rei Carlos.

—            Este é o livro do túmulo dele?

- É.

 

         Atlanta, Geórgia

 

Stephanie viu Edwin Davis se contorcer na cadeira, claramente desconfortável.

—            Fale comigo, Edwin disse Daniels pelo alto-falante do telefo­ne. O que está havendo?

—            É complicado.

—            Fui à faculdade. Prestei serviço militar. Fui governador e senador dos Estados Unidos. Acho que consigo lidar com isso.

—            Preciso fazer isso sozinho.

—            Se dependesse de mim, Edwin, com certeza eu diria para você ir em frente. Mas Diane está tendo um ataque. O pessoal da inteligên­cia naval está fazendo perguntas que não sabemos responder. Normal­mente, eu deixaria as crianças no tanque de areia resolverem a briga entre elas, mas agora que me arrastaram até o quintal, quero saber. Do que se trata?

Na limitada experiência de Stephanie com o vice-conselheiro de segurança nacional, ele pareceu ser um homem que sempre exibia um exterior calmo, plácido. Não agora. E Diane McCoy poderia ter adora­do testemunhar a ansiedade daquele homem, mas Stephanie não esta­va gostando da visão.

Operação Salto em Altura disse Davis. O que sabe sobre ela?

OK, você me pegou disse o presidente. O primeiro round é seu.

Davis ficou em silêncio.

—            Estou esperando disse Daniels.

 

O ano de 1946 foi de vitória e recuperação. A Segunda Guerra Mundial havia acabado, e o mundo nunca mais seria o mesmo. Antigos inimigos torna­ram-se amigos. Antigos amigos tornaram-se oponentes. Os Estados Unidos estavam sobrecarregados com uma nova responsabilidade, tendo se tornado um líder global da noite para o dia. A agressão soviética dominava os eventos políticos, e a Guerra Fria havia começado. Na área militar, porém, a Marinha norte-americana estava sendo desmontada pouco a pouco. Nas grandes bases em Norfolk, San Diego, Pearl Harbor, Yokosuka e Quonset Point, tudo ia de mal a pior. Destróieres, encouraçados e porta-aviões recolhiam-se em águas calmas de portos remotos. A Marinha dos Estados Unidos estava rapidamen­te se tornando uma sombra do que tinha sido apenas um ano antes.

Em meio a essa desordem, o chefe de operações navais assinou um conjun­to espantoso de medidas para o estabelecimento do Projeto de Desenvolvimen­tos da Antártida, a ser conduzido no verão da Antártida, de dezembro de 1946 a março de 1947. Batizada com o código de Salto em Altura, a operação de­mandava 12 navios e milhares de homens para seguirem até as margens da Antártida para treinar pessoal e testar materiais em zonas glaciais, consolidar e ampliar a soberania norte-americana sobre a maior área utilizável do conti­nente antártico e determinar a viabilidade de estabelecimento e manutenção de bases na Antártida e investigar possíveis locais, desenvolver técnicas para o estabelecimento e a manutenção de bases aéreas no gelo, com atenção parti­cular para a aplicabilidade de tais técnicas para operações na Groenlândia, onde, afirmava-se, as condições físicas e climáticas assemelhavam-se às da Antártida, e ampliar o conhecimento existente de condições hidrográficas, geográficas, geológicas, meteorológicas e eletromagnéticas.

Os contra-almirantes Richard H. Cruzen e Richard Byrd, o célebre ex­plorador conhecido como o almirante da Antártida, foram nomeados co­mandantes da missão. A expedição seria dividida em três seções. O Grupo Central incluía três navios cargueiros, um submarino, um quebra-gelo — o navio capitânia da expedição — e um porta-aviões com Byrd a bordo. Eles iriam fundar a Little America IV na plataforma de gelo da baía das Baleias. Dos dois lados, estavam os grupos Oriental e Ocidental. O Grupo Orien­tal, construído em torno de um navio petroleiro, um destróier e um tênder de hidroaviões, partiria em direção a longitude de grau zero. O Grupo Oci­dental teria uma composição semelhante, seguindo na direção das ilhas Balleny, para depois prosseguir num curso rumo oeste pela Antártida até juntar-se ao Grupo Oriental. Se tudo corresse de acordo com o planejado, a Antártida seria circundada. Em algumas semanas, seria possível saber mais a respeito daquela grande área desconhecida do que o alcançado em mais de um século de explorações.

Quatro mil e setecentos homens deixaram o porto em agosto de 1946. No fim, a expedição mapeou 8.690 quilômetros de costa, 2.250 dos quais eram totalmente desconhecidos. Descobriu 22 cadeias de montanhas desco­nhecidas, 26 ilhas, nove baías, vinte geleiras e cinco cabos e produziu 70 mil fotografias aéreas.

Máquinas foram testadas até o limite.

Quatro homens morreram.

 

—            A coisa toda trouxe uma renovação à Marinha — disse Davis. — Foi realmente um sucesso.

—            E daí, quem se importa? — perguntou Daniels.

—            Sabia que voltamos à Antártida em 1948? Operação Moinho de Vento. Supostamente, as 70 mil fotos tiradas durante o Salto em Altura foram inúteis porque ninguém pensou em colocar marcas de referên­cia no solo para interpretar as imagens. Eram como folhas de papel em branco. Então, voltaram para estabelecer as marcas de referência.

Edwin disse Diane McCoy —, aonde quer chegar? Isso não faz sentido.

Gastamos milhões de dólares mandando navios e homens para a Antártida para tirar fotografias, um lugar que sabemos ser coberto de gelo, e não colocamos marcas de referências para as ima­gens enquanto estamos lá? Nem sequer prevemos que isso poderia ser um problema?

Quer dizer que a Moinho de Vento tinha uma finalidade alter­nativa? perguntou Daniels.

As duas operações tinham. Uma força pequena, apenas seis ho­mens, fazia parte de cada expedição. Especialmente treinados e infor­mados. Foram para o interior do continente diversas vezes. O que fizeram é o motivo pelo qual o navio do comandante Zachary Alexan­der foi enviado para a Antártida em 1971.

Os arquivos pessoais dele não contêm nada sobre essa missão disse Daniels. Apenas que foi nomeado comandante do Holden por dois anos.

Alexander foi enviado para a Antártida para procurar um sub­marino perdido.

Mais silêncio do outro lado.

O submarino de 38 anos atrás? perguntou Daniels. O re­latório do tribunal de inquérito que Stephanie acessou.

Sim, senhor. No fim dos anos 1960, construímos dois submarinos altamente secretos, NR-1 e IA. O NR-1 ainda está em atividade, mas o IA foi perdido na Antártida em 1971. Ninguém foi informado sobre seu fracasso. Isso foi ocultado. Somente o Holden foi procurar. Senhor, o NR-1A era comandado pelo capitão de fragata Forrest Malone.

O pai de Cotton?

E o seu interesse nisso? perguntou Diane, sem nenhuma emoção.

Fazia parte da tripulação um homem chamado William Davis. Meu irmão mais velho. Eu disse a mim mesmo que, se algum dia esti­vesse numa posição que me possibilitasse descobrir o que aconteceu com ele, eu o faria. Davis fez uma pausa. Finalmente, estou nes­sa posição.

Por que a inteligência naval está tão interessada? perguntou Diane.

Não é óbvio? O naufrágio foi encoberto por desinformação. Eles simplesmente deixaram o submarino se perder. Apenas o Holden foi atrás. Imagine o que o 60 Minutes faria com isso.

OK, Edwin disse Daniels. Você ligou os pontos direitinho. O segundo round é seu. Siga em frente. Mas fique longe de problemas e volte daqui a dois dias.

Obrigado, senhor. Agradeço a liberdade de ação.

Um conselho disse o presidente. É verdade que Deus aju­da a quem cedo madruga, mas quem é apressado come cru.

A ligação foi encerrada.

Imagino que Diane esteja furiosa disse Stephanie. Ficou claro que ela está totalmente por fora.

Não gosto de burocratas ambiciosos murmurou Davis.

Há quem diga que você se encaixa nessa categoria.

Quem disse isso está errado.

Parece que você está sozinho nessa. Eu diria que o almirante Ramsey, da inteligência naval, parece estar no modo de controle de danos, protegendo a Marinha e tal. Por falar em burocratas ambicio­sos... ele é a definição em pessoa.

Davis levantou-se.

—            Tem razão quanto a Diane. Não vai demorar para ela entrar na roda, e a inteligência naval não estará muito atrás. Ele apontou para as cópias impressas do arquivo que haviam baixado. É por isso que nós temos de ir para Jacksonville, na Flórida.

Ela havia lido o arquivo, portanto sabia que era lá que Zachary Alexander morava. Mas queria saber:

Por que nós?

Porque Scot Harvath me disse não.

Ela abriu um sorriso.

Isso é que é um Cavaleiro Solitário.

—            Stephanie, preciso da sua ajuda. Lembra-se daqueles favores? Vou ficar lhe devendo um.

Ela se levantou.

—            Está de bom tamanho para mim.

Mas essa não foi a razão por que concordou de imediato, e seu compatriota certamente sabia disso. O relatório do tribunal de inqué­rito. Ela o lera, diante da insistência dele.

Não havia registro de nenhum William Davis na lista dos tripulan­tes do NR-1A.

 

         Mosteiro de Ettal

 

Malone admirava o livro que estava sobre a mesa.

Isto veio do túmulo de Carlos Magno? Tem 1.200 anos? Se tiver, está em condições extraordinárias.

É uma história complicada, Herr Malone. Que se estende por todos esses 1.200 anos.

Aquela mulher gostava de evitar perguntas.

Vamos ver.

Ela apontou.

Reconhece essa escrita?

Ele examinou uma das páginas, cheias de uma escrita estranha e mulheres nuas brincando em banheiras conectadas por um encana­mento intricado que mais parecia anatômico que hidráulico.

Examinou outras páginas e notou o que pareciam ser mapas com objetos astronômicos, como se estivessem sendo vistos por um teles­cópio. Células vivas, como apareceriam diante de um microscópio. Vegetações, todas com intrincadas estruturas de raiz. Um estranho calendário de signos do zodíaco, repleto de minúsculas pessoas nuas no que pareciam ser latas de lixo. Tantas ilustrações. A escrita ininte­ligível parecia quase uma contribuição posterior.

É como Otto III observou disse ela. A língua dos céus.

Eu não sabia que os céus precisavam de uma língua própria. Ela sorriu.

—            No tempo de Carlos Magno, o conceito de céu era muito diferente.

Ele passou o dedo sobre o símbolo gravado em relevo na capa.

O que é isso? perguntou ele.

Não faço idéia.

 

Ele logo se deu conta do que não estava no livro. Nenhum sangue, monstros ou feras míticas. Nenhum conflito ou tendência destrutiva. Nenhum símbolo religioso, nem ornamentos de poder secular. Na ver­dade, nada que indicasse qualquer estilo de vida reconhecível ne­nhuma ferramenta, móveis ou meios de transporte que pudessem ser identificados. Em vez disso, as páginas transmitiam um sentido de algo de outro mundo e atemporal.

—            Tem mais uma coisa que eu gostaria de lhe mostrar disse ela.

Malone hesitou.

—            Vamos, você é um homem que está acostumado a situações como esta.

—            Eu vendo livros.

A mulher indicou a porta aberta do outro lado da sala pouco iluminada.

—            Então, traga o livro e me siga. Malone não ia ser tão submisso.

—            Que tal você levar o livro e eu levar a arma? Ele sacou a pis­tola novamente.

Ela fez que sim.

—            Se isso o faz sentir-se melhor...

Ela pegou o livro da mesa, e ele a seguiu pela porta. Do lado de dentro, uma escadaria de pedra descia para mais escuridão, e, no fun­do, aguardando, havia outra passagem preenchida por luz ambiente.

Eles desceram.

Abaixo, um corredor se estendia por 15 metros. Havia portas de madeira lisa dos dois lados, e uma esperava.

—            Uma cripta? perguntou ele.

Ela balançou a cabeça.

Os monges enterram seus mortos no claustro acima. Esta é parte da antiga abadia, da Idade Média. Usada agora para armazena­gem. Meu avô passou muito tempo aqui durante a Segunda Guerra Mundial.

Escondido?

Por assim dizer.

Ela percorreu o corredor, iluminado por lâmpadas incandescentes grosseiras. Do outro lado da porta fechada, no fim do caminho, encon­trava-se uma sala configurada como um museu, com curiosos artefa­tos de pedra e esculturas de madeira. Talvez quarenta ou cinquenta peças. Tudo estava exposto em poças brilhantes de luz de sódio. Havia mesas enfileiradas do outro lado da sala, também recebendo ilumina­ção do alto. Alguns armários de madeira pintados no estilo bávaro estavam encostados nas paredes.

Ela apontou para as esculturas em madeira, uma variedade de arabescos, crescentes, cruzes, trevos, estrelas, corações, diamantes e coroas.

—            Essas saíram das cumeeiras de sítios holandeses. Algumas pes soas chamam isso de artesanato. Meu avô achava que eram muito mais, tendo seu significado sido perdido ao longo do tempo; então, ele as colecionava.

—            Depois que acabou a Wehrmacht?

Ele notou a perturbação momentânea dela.

Meu avô era cientista, não nazista.

Quantos já tentaram essa frase antes? Ela pareceu ignorar a provocação.

O que você sabe sobre os arianos?

O suficiente para saber que a noção não começou com os nazistas.

Mais da sua memória eidética?

Você é uma fonte inesgotável de informações sobre mim.

—            Como tenho certeza de que você vai juntar informações sobre mim, se decidir que vale a pena gastar o seu tempo.

De fato.

O conceito dos arianos — disse ela —, uma raça de pessoas al­tas, esbeltas e musculosas, com cabelos dourados e olhos azuis, tem origem no século XVIII. Isso foi quando as similaridades entre várias línguas antigas foram notadas por, e você deveria admirar isso, um advogado britânico que trabalhava na Suprema Corte da índia. Ele estudou sánscrito e viu como esse idioma lembrava o grego e o latim. Cunhou uma palavra, arya, do sánscrito, que significa "nobre", para descrever aqueles dialetos indianos. Outros pesquisadores, que come­çaram a notar as semelhanças entre o sânscrito e outras línguas, come­çaram a usar ariano para descrever esse agrupamento de línguas.

Você é linguista?

Longe disso, mas meu avô sabia dessas coisas. — Ela apontou para uma das placas de pedra. Arte parietal. Uma figura humana com esquis. — Isso veio da Noruega. Talvez 4 mil anos de idade. Os outros exemplares que você vê são da Suécia. Círculos, rodas e discos escul­pidos. Para meu avô, essa era a língua dos arianos.

Isso é absurdo.

—            Verdade. Mas piora ainda mais.

Ela lhe contou sobre uma nação brilhante de guerreiros que um dia viveram sossegados num vale do Himalaia. Algum aconteci­mento, havia muito perdido na história, convenceu-os a abandonar seus modos pacíficos e adotar um espírito belicoso. Alguns partiram para o sul e conquistaram a Índia. Outros lançaram-se para o oeste, encontrando as florestas frias e chuvosas do norte da Europa. Pelo caminho, as línguas de populações nativas foram assimiladas ao seu próprio idioma, o que explicava semelhanças posteriores. Esses invasores himalaios não tinham nome. Um crítico literário alemão fi­nalmente lhes deu um em 1808. Arianos. Depois, outro escritor alemão, sem nenhuma qualificação de historiador ou linguista, rela­cionou os arianos aos nórdicos, concluindo que eram o mesmo povo. Ele escreveu uma série de livros que se tornaram best sellers ale­mães na década de 1920.

—            Absurdo total disse ela. Nada baseado em fatos. Então, os arianos são, em essência, um povo mítico, com uma história fictícia e um nome emprestado. Mas nos anos 1930, os nacionalistas apodera­ram-se dessa noção romântica. As palavras ariano, nórdico e alemão pas­saram a ser usadas como sinônimos. Ainda são hoje em dia. A visão dos arianos conquistadores de cabelo louro sensibilizou os alemães, foi um apelo à sua vaidade. Assim, o que começou como uma investi­gação linguística inofensiva tornou-se um instrumento racial mortal que custou milhões de vidas e motivou os alemães a fazerem coisas que, em outras circunstâncias, jamais teriam feito.

História antiga disse ele.

Vou lhe mostrar algo que não é.

Ela o guiou por entre os objetos expostos até um pedestal que sus­tentava quatro pedaços de pedra quebrados. Sobre eles havia profun­das marcas esculpidas. Ele se inclinou e examinou as letras.

—            São como o manuscrito disse. Mesma escrita.

Exatamente a mesma — disse ela. Ele se levantou.

Mais runas escandinavas?

Essas pedras vieram da Antártida.

O livro. As pedras. A escrita desconhecida. O pai dele. O pai dela. NR-1A. Antártida.

—            O que você quer?

—            Meu avô encontrou essas pedras lá e as trouxe. Meu pai passou a vida tentando decifrá-las e — ela mostrou o livro — estas palavras. Os dois homens foram sonhadores incorrigíveis. Mas para que eu entenda pelo que morreram... para que você saiba por que seu pai morreu... pre­cisamos decifrar o que meu avô chamava de Karl der Große Verfolgung.

Ele traduziu em silêncio. A busca de Carlos Magno.

Como sabe que essas coisas estão ligadas àquele submarino?

Meu pai não estava lá por acaso. Fazia parte do que estava acontecendo. Na verdade, era a razão pela qual aquilo estava aconte­cendo. Tenho tentado obter o relatório confidencial sobre o Blazek há décadas, sem sucesso. Mas agora você o tem.

E você ainda não me contou como sabia disso.

Tenho fontes dentro da Marinha. Disseram-me que sua ex-che­fe, Stephanie Nelle, obteve o relatório e ia enviá-lo a você.

Ainda não explica como sabia que eu estaria naquela monta­nha hoje.

Que tal deixarmos esse mistério de lado por enquanto?

—            Você enviou aqueles dois para roubarem o relatório?

Ela assentiu.

Malone não gostava da atitude dela, mas, droga, estava intriga­do. Estava embaixo de uma abadia bávara, cercado por uma coleção de pedras antigas com marcações estranhas, olhando para um livro, supostamente de Carlos Magno, que não podia ser lido. Se o que Dorothea Lindauer dizia era verdade, poderia muito bem haver uma relação com a morte do pai dele.

Mas lidar com aquela mulher era loucura. Malone não precisa­va dela.

Se não se importa, eu passo. Ele se virou para sair.

Concordo disse ela, enquanto ele ia na direção da porta. Você e eu jamais poderíamos trabalhar juntos.

Ele parou, virou-se e deixou claro:

Não apronte comigo de novo.

Guten abend, Herr Malone.

 

         Füssen, Alemanha

         20h30

 

Wilkerson estava sob os galhos carregados de neve de uma faia, observando a livraria. Ficava dentro de uma galeria de butiques pitorescas, em frente a um calçadão, não muito longe de um tumultuado mercado natalino, onde corpos espremidos e uma iluminação quente de holofotes introduziam um elemento caloroso nas rajadas de vento gelado da noi­te. O aroma de canela, bolo de gengibre e amêndoas açucaradas pairava no ar seco, junto com o perfume de schnitzes e salsichas quentes. No alto de uma igreja, melodias de Bach partiam de um conjunto de sopro.

Luzes fracas iluminavam a vitrine da livraria e sinalizavam que o proprietário aguardava atenciosamente. A vida de Wilkerson estava prestes a mudar. Seu atual comandante da Marinha, Langford Ramsey, lhe havia prometido que voltaria da Europa com uma estrela de ouro.

Mas ele desconfiava de Ramsey.

Esse era o problema dos negros. Não se podia confiar neles. Ainda se lembrava de quando tinha 9 anos, morando numa cidade pequena no sul do Tennessee, onde homens como seu pai tiravam o sustento fabricando tapetes. Onde negros e brancos um dia viveram separados, e uma mudança na lei e nas atitudes começara a forçar as raças a se juntarem. Numa noite de verão, ele estava enrolado num tapete, brin­cando. A cozinha ao lado estava cheia de vizinhos, ao que ele fora se arrastando até a porta e ouvira as pessoas que conhecia debaterem sobre o futuro delas. Fora difícil entender por que estavam aflitas; en­tão, na tarde seguinte, quando ele e o pai estavam no quintal, ele inda­gara sobre o motivo.

Eles acabam com o bairro, filho. Os pretos não têm nada que morar aqui.

Ele criou coragem e perguntou:

Não fomos nós que trouxemos eles da África?

—            E daí? Isso significa que devemos algo a eles? São eles que fazem isso, filho. Lá na tecelagem, nem um só deles é capaz de se manter no emprego. Nada importa, a não ser o que os brancos lhes dão. Gente como eu, e como o resto do pessoal desta rua, trabalha a vida inteira, e eles simplesmente chegam e destroem tudo.

Ele se lembrou da noite, anterior e do que ouvira.

Você e os vizinhos vão comprar a casa no fim da rua para demolir e impedir que eles morem por aqui?

Parece a coisa mais inteligente a se fazer.

Vão comprar todas as casas da rua para demolir?

Se for necessário.

Seu pai estava certo. Não dá para confiar em nenhum deles. Especial­mente naquele que chegara a se tornar almirante da Marinha dos Es­tados Unidos e chefe do Gabinete da Inteligência Naval. Mas que opção ele tinha? Seu caminho para o almirantado passava direto por Langford Ramsey.

Olhou para o relógio. Um Toyota de duas portas desceu a rua de­vagar e estacionou dois estabelecimentos depois da livraria. Uma jane­la do carro baixou, e o motorista fez um sinal.

Wilkerson vestiu luvas de couro e se aproximou da porta da livra­ria. Uma batida de leve, e o proprietário destrancou a porta. O tinido de um sino anunciou sua presença quando ele entrou.

—            Guten abend, Martin disse ele a um homem atarracado e obe­so de bigode preto e cheio.

—            Bom vê-lo novamente disse o homem em alemão.

O proprietário usava a mesma gravata-borboleta e os mesmos sus­pensórios de pano que usara semanas antes, quando se conheceram. A loja era uma mistura eclética de velho e novo, com ênfase no oculto, e ele tinha a reputação de ser um comerciante discreto.

Imagino que tenha tido um bom dia de trabalho disse Wilkerson.

Na verdade, o movimento foi pequeno. Poucos clientes, mas com a neve e o mercado natalino hoje à noite, as pessoas não estão pensando em livros. Martin fechou a porta e virou a fechadura.

Então, talvez eu possa mudar a sua sorte. Hora de concluir nos­so negócio.

Nos últimos três meses, aquele alemão havia atuado como um ca­nal, adquirindo uma variedade de livros e documentos raros em dife­rentes fontes, todos sobre o mesmo assunto e, esperava-se, sem que ninguém notasse.

Ele seguiu o homem, atravessando uma cortina esfarrapada até os fundos da loja. Durante a primeira visita, ficara sabendo que no início do século XX o prédio havia sido um banco. Um cofre fora deixado ali, e Wilkerson viu o alemão girar o disco, liberar as franqueias e abrir aos poucos a pesada porta de ferro.

Martin entrou e puxou a corrente da lâmpada descoberta.

—            Fiquei trabalhando nisso quase o dia todo.

Caixas estavam empilhadas no centro. Wilkerson examinou o con­teúdo da que estava no alto. Cópias do Germanien, uma publicação mensal sobre arqueologia e antropologia editada pelos nazistas na dé­cada de 1930. Outra caixa tinha volumes com encadernação de couro, intitulados A pesquisa e a sociedade educacional, Ahnenerbe: evolução, es­sência, efeito.

—            Esses foram presenteados a Adolf Hitler por Heinrich Himmler no aniversário de 50 anos do Führer disse Martin. Um golpe de sorte tê-los conseguido. E relativamente baratos também.

As demais caixas continham mais periódicos, correspondências, tratados e documentos de antes, durante e depois da guerra.

—            Tive sorte de encontrar vendedores que queriam dinheiro. Es­tão cada vez mais difíceis de achar. O que me faz lembrar do meu pagamento.

Wilkerson retirou um envelope de dentro do casaco e entregou-o ao homem.

—            Dez mil euros, conforme o combinado.

O alemão contou as notas, visivelmente satisfeito.

Saíram do cofre e voltaram para a parte da frente da livraria. Martin chegou à cortina primeiro e virou-se de repente, uma arma apontada direto para Wilkerson.

—            Não sou amador. Mas seu chefe, seja lá quem for, deve achar que sou.

Wilkerson tentou se livrar da expressão de confusão que tinha no rosto.

Aqueles homens lá fora. Por que estão aqui?

Para me ajudar.

Fiz conforme pediu, comprei o que você queria e não deixei nenhum vestígio que levasse a você.

Então, não tem nada com que se preocupar. Vim apenas pegar as caixas.

Martin agitou o envelope.

É o dinheiro?

Ele deu de ombros.

Eu diria que não.

—            Diga a quem quer que esteja financiando esta compra que eles deveriam me deixar em paz.

—            Como sabe que não sou eu quem a está financiando? Martin examinou-o.

Alguém está usando você. Ou, pior, você está se vendendo. Tem sorte por eu não atirar em você.

Por que não atira?

Não há necessidade de desperdiçar uma bala. Você não é amea­ça. Mas diga ao seu protetor para me deixar em paz. Agora, pegue as suas caixas e vá.

—            Vou precisar de ajuda. Martin balançou a cabeça.

—            Aqueles dois vão ficar no carro. Leve as caixas sozinho. Mas saiba: um truque, e eu mato você.

 

         Mosteiro de Ettal

 

Dorothea Lindauer olhava para as brilhantes pedras cinza-azuladas supostamente transportadas da Antártida até lá por seu avô. Ao longo dos anos, ela raramente visitara a abadia. Essas obsessões sempre sig­nificaram pouco para ela. E, enquanto acariciava a superfície áspera, passando os dedos pelas letras estranhas que o avô e o pai haviam lutado para entender, agora ela tinha certeza.

Imbecis. Os dois.

Especialmente o avô.

Hermann Oberhauser nascera numa família aristocrática de políticos reacionários, ferrenhos em suas crenças, incompetentes para fazer algo quanto a elas. Apegara-se ao movimento antipolonês que tomou conta da Alemanha no início da década de 1930, levantando fundos para combater a odiada República de Weimar. Quando Hitler subiu ao poder, Hermann adquiriu uma firma de propaganda, vendeu espaço editorial para os na­cional-socialistas por pechinchas e auxiliou a ascensão dos camisas-par­das de terroristas a líderes. Depois, abriu uma cadeia de jornais e chefiou o Partido Popular Nacional Alemão, que acabou aliando-se aos nazistas. Também teve três filhos. Dois não chegaram a ver o fim da guerra, tendo um morrido na Rússia e o outro, na França. O pai de Dorothea sobreviveu apenas porque era jovem demais para lutar. Depois da paz, o avô tornou-se uma das incontáveis almas desapontadas que tinham feito Hitler ser o que foi e sobreviveram para aguentar a vergonha. Ele perdeu os jornais, mas, por sorte, manteve as fábricas de papel, a refinaria de petróleo e ou­tros negocios, que foram usados pelos Aliados, de modo que seus peca­dos, se não foram perdoados, foram convenientemente esquecidos.

Seu avô também proclamava um orgulho irracional de sua heran­ça teutónica. Estava encantado com o nacionalismo alemão, concluin­do que a civilização ocidental se encontrava à beira do colapso e que sua única esperança residia na recuperação de verdades havia muito perdidas. Como ela havia contado a Malone, no fim dos anos 1930 ele notara estranhos símbolos na cumeeira de sítios holandeses e passara a acreditar que eram, junto com a arte parietal da Suécia e da Noruega, e as pedras da Antártida, um tipo de hieróglifo ariano.

A mãe de todas as escritas.

A língua dos céus.

Absurdo total, mas os nazistas adoravam ideias românticas assim. Em 1931, 10 mil homens faziam parte da SS, que Himmler acabou transformando numa elite racial de jovens arianos. Seu Departamento de Raça e Colonização determinava de forma meticulosa se um candi­dato era geneticamente apto para tornar-se membro. Depois, em 1935, Himmler deu um passo adiante e criou um grupo de especialistas de­dicado à reconstrução de um passado de ouro ariano.

A missão do grupo era dividida em duas partes: descobrir evidên­cias de ancestrais alemães até a Idade da Pedra Lascada e transmitir as descobertas para o povo alemão.

Um longo rótulo forneceu credibilidade à suposta importância do projeto. Deutsches Ahnenerbe: Studiengesellschaft für Geistesurgeschichte. Ou Herança ancestral alemã: a sociedade para o estudo da história das ideias primevas. Ou, mais simplesmente, a Ahnenerbe. Algo herdado dos antepassados. Centro e trinta e sete acadêmicos e cientistas, mais 82 cineastas, fotógrafos, artistas, escultores, bibliotecários, técnicos, contadores e secretários.

Chefiados por Hermann Oberhauser.

E enquanto seu avô se dedicava à ficção, os alemães morriam aos milhões. Hitler acabou demitindo-o da Ahnenerbe e o humilhando publicamente, assim como toda a família Oberhauser. Foi quando se refugiou aqui, na abadia, seguro atrás dos muros protegidos pela reli­gião, e tentou se reabilitar.

Mas nunca conseguiu.

Dorothea se lembrava do dia em que ele morreu.

— Papa. — Ela se ajoelhou ao lado da cama e apertou a mão frágil.

O velho abriu os olhos, mas não disse nada. Havia perdido toda a lembrança dela muito tempo antes.

— Nunca é hora de desistir — disse ela.

— Deixe-me desembarcar. — As palavras saíam junto com a respiração, e ela precisava se esforçar para escutá-lo.

— Papa, o que está dizendo?

Os olhos dele estavam vidrados, e o olhar incerto era desconcertante. Ele balançou a cabeça devagar.

— Você quer morrer? — perguntou ela.

— Preciso desembarcar. Diga ao comandante.

— Como assim?

Ele balançou a cabeça novamente.

— O mundo deles. Acabou. Tenho de desembarcar.

Ela começou a falar, para reconfortá-lo, mas a mão dele relaxou e seu peito estremeceu. Em seguida, ele abriu a boca lentamente e disse:

— Heil... Hitler.

Ela sentia um arrepio na espinha toda vez que pensava nessas pa­lavras finais. Por que ele se sentira impelido, em seu último alento, a proclamar uma aliança com o mal?

Infelizmente, ela nunca saberia.

A porta do recinto subterrâneo se abriu, e a mulher do bonde retor­nou. Dorothea a viu caminhar confiante entre os objetos expostos. Como as coisas haviam chegado a esse ponto? O avô morrera sendo nazista, o pai perdera-se como um sonhador.

Agora, ela estava prestes a repetir tudo isso.

Malone se foi disse a mulher. Saiu de carro. Preciso do meu dinheiro.

O que aconteceu na montanha hoje? Seu parceiro não deveria ter sido morto.

—            As coisas saíram do controle.

Vocês chamaram muita atenção para algo que não era para ser notado.

Deu certo. Malone veio, e vocês conseguiram ter a conversa que você queria.

—            Você pode ter colocado tudo em risco.

—            Fiz o que me pediu e quero receber. E quero a parte de Erik. Ele definitivamente fez por merecer.

A morte dele não significa nada para você?

Ele exagerou e pagou o preço.

Dorothea havia parado de fumar dez anos antes, mas recomeçara recentemente. A nicotina parecia acalmar seus nervos constantemente à flor da pele. Foi até um dos armários pintados, achou um maço e ofereceu um para a convidada.

—            Danke disse a mulher, aceitando.

Ela sabia, desde o primeiro encontro, que a mulher fumava. Esco­lheu um cigarro para si, encontrou fósforos e acendeu os dois. A mulher deu duas tragadas profundas.

Meu dinheiro, por favor.

Claro.

Ela viu os olhos mudarem primeiro. Um olhar fixo e pensativo foi substituído por medo repentino, dor e, então, desespero. Os músculos do rosto da mulher enrijeceram, indicando sofrimento. Dedos e lábios soltaram o cigarro, e as mãos seguraram a garganta. A língua apareceu fora da boca, enquanto ela engasgava, buscando ar e não encontrando nenhum.

Sua boca espumou.

Conseguiu uma última respiração, tossiu, tentou falar, então o pes­coço relaxou, e o corpo desabou.

Na lufada do último ar que exalou, havia um toque de amêndoa amarga.

Cianureto. Habilidosamente adicionado ao tabaco.

Interessante como a mulher morta trabalhara para pessoas de quem nada sabia. Nunca fizera uma única pergunta. Dorothea não co­metera o mesmo erro. Verificara tudo sobre seus aliados. A mulher morta era simples o dinheiro a motivava, mas Dorothea não po­deria correr o risco de ter uma língua solta.

Cotton Malone? Ele poderia ser outra história.

Pois algo lhe dizia que seu assunto com ele não havia acabado.

 

         Washington, D.C.

             15h20

 

Ramsey retornou ao centro nacional de inteligência marítima, que abrigava a inteligência naval. Foi cumprimentado dentro do escritório particular por seu chefe de gabinete, um ambicioso capitão de mar e guerra chamado Hovey.

O que aconteceu na Alemanha? — perguntou Ramsey de ime­diato.

O arquivo do NR-1A foi passado para Malone no Zugspitze, como planejado, mas depois criou-se um caos na descida do bonde.

Ele ouviu a explicação de Hovey sobre o que acontecera, então per­guntou:

—            Onde está Malone?

—            O GPS do carro que alugou mostra que ele foi para todo canto. Ficou no hotel por um tempo, depois saiu para um lugar chamado Mos­teiro de Ettal, que fica a cerca de 14 quilômetros ao norte de Garmisch. O último relatório dizia que ele estava na estrada de volta para Garmisch.

Eles haviam sido precavidos e marcado o carro de Malone, o que lhes permitia o luxo da monitoração via satélite. Ramsey se sentou atrás da escrivaninha.

—            E Wilkerson?

—            O babaca acha que é muito esperto disse Hovey. Perse­guiu Malone sem muito cuidado, esperou um pouco em Garmisch, depois foi de carro até Füssen e encontrou um dono de livraria. Tinha dois ajudantes esperando num carro. Levaram caixas.

—            Ele incomoda você, não?

Dá muito mais trabalho do que vale. Precisamos liberá-lo. Ramsey havia sentido certo desagrado antes.

Onde vocês dois se cruzaram antes?

—            Sede da OTAN. Ele quase me custou a patente. Por sorte, meu comandante também odiava o babaca puxa-saco.

O almirante não tinha tempo para picuinhas e ciúmes.

—            Sabemos o que Wilkerson está fazendo agora?

—            Provavelmente, decidindo quem poderá ajudá-lo mais: nós ou eles.

Quando soube que Stephanie Nelle havia adquirido o relatório de inquérito do NR-lAe seu destino pretendido, ele imediatamente enviara freelancers para o Zugspitze, sem informar Wilkerson sobre a presença deles. O chefe da estação de Berlim achava que ele era o único ativo na área e havia sido instruído a ficar de olho em Malone e mandar notícia.

Wilkerson ligou?

Hovey balançou a cabeça.

Nem uma única palavra.

O interfone tocou, e Ramsey ouviu a secretária dizer que a Casa Branca estava na linha. Dispensou Hovey e atendeu o telefone.

Temos um problema disse Diane McCoy.

Como nós podemos ter um problema?

Edwin Davis está agindo por conta própria.

O presidente não pode refreá-lo?

Não se não quiser.

Você percebeu isso?

—            Consegui fazer com que Daniels conversasse com ele, mas tudo o que fez foi ouvir uma lenga-lenga sobre a Antártida e depois dizer "tenha um bom dia" e desligar o telefone.

Ramsey pediu detalhes, e ela explicou o que havia acontecido. En­tão ele perguntou:

—            Nosso inquérito sobre o arquivo de Zachary Alexander não sig­nificou nada para o presidente?

—            Parece que não.

—            Talvez precisemos aumentar a pressão. O que era precisa­mente o motivo pelo qual despachara Charlie Smith.

Davis está apostando todas as fichas em Stephanie Nelle.

Ela é peso-leve.

O Setor Magalhães gostava de se pensar como parte ativa no jogo da espionagem internacional. Estava longe de ser. Doze advogados? De jeito nenhum. Nenhum deles valia nada. Cotton Malone? Ele era diferente. Mas estava aposentado, preocupado apenas com o pai. Na verdade, devia estar louco da vida naquele exato momento, e nada obscurecia mais a razão do que a raiva.

—            Nelle não será um empecilho.

Davis foi direto para Atlanta. Ele não é impulsivo. Verdade, mas, ainda assim:

Ele não conhece o jogo, as regras nem as apostas.

Percebe que ele provavelmente está indo até Zachary Alexander?

Mais alguma coisa?

Não vá estragar tudo.

Ela podia ser a conselheira de segurança nacional, mas ele não era nenhum subalterno para receber ordens.

—            Vou tentar.

—            A corda também está no seu pescoço. Tenha um bom dia, almirante.

E ela desligou.

A coisa estava ficando arriscada. Quantos balões ele ia conseguir segurar debaixo d'água ao mesmo tempo? Conferiu as horas.

Pelo menos um balão estava prestes a estourar.

Olhou para o New York Times do dia anterior na escrivaninha, e uma matéria na seção nacional relativa a David Sylvian, um almirante de qua­tro estrelas e vice-presidente dos chefes do Estado-Maior Conjunto. Trinta e sete anos de serviço militar. Cinquenta e nove anos de idade. No momen­to, hospitalizado devido a um acidente de motocicleta uma semana antes, graças ao gelo negro em uma autoestrada em Virgínia. Esperava-se a recu­peração dele, mas o estado indicado era grave. Havia uma citação da Casa Branca desejando melhoras ao almirante. Sylvian era campeão em cortar gastos e havia reformulado totalmente o orçamento e os procedimentos de aquisições do Pentágono. Submarinista. Benquisto. Respeitado.

Um obstáculo.

Ramsey não sabia quando sua hora ia chegar, mas agora que che­gara, ele estava pronto. Durante a semana anterior, tudo se encaixara. Charlie Smith cuidaria das coisas ali.

Hora de ir para a Europa.

Pegou o telefone e discou um número internacional.

A outra linha foi atendida após o quarto toque. Ele perguntou:

Como está o tempo aí?

Nublado, frio e deprimente.

Resposta correta. Estava falando com a pessoa certa.

—            Aquelas remessas de Natal que encomendei, quero que sejam cuidadosamente embrulhadas e entregues.

De um dia para o outro ou postagem normal?

De um dia para o outro. Os feriados estão chegando.

Podemos resolver isso dentro de uma hora.

—            Maravilha.

Ele desligou.

Sterling Wilkerson e Cotton Malone logo estariam mortos.

 

         White Oak, Virgínia

             17h15

 

Charlie Smith olhou de relance para os minúsculos ponteiros fluorescentes de seu relógio de colecionador de Indiana Jones, depois olhou pelo pára-brisa do Hyundai estacionado. Ele ficara contente com a chegada da primavera e a mudança do tempo. Tinha uma espécie de reação psicológica no inverno. Isso havia começado quando ele era adolescente, mas piorara quando morava na Europa. Charlie viu uma matéria sobre o distúrbio no Inside Edition. Noites longas, pouco sol, temperaturas gélidas.

Deprimente até não poder mais.

A entrada principal do hospital podia ser vista a 30 metros de dis­tância. O retângulo coberto de estuque cinza tinha três andares. O ar­quivo no assento do passageiro estava aberto, pronto para consultas, mas a atenção de Smith voltou-se para o iPhone e um episódio de Jor­nada nas Estrelas que ele havia baixado. Kirk e um alienígena que pare­cia um lagarto lutavam num asteróide desabitado. Ele tinha visto cada um dos 79 episódios originais tantas vezes que geralmente sabia a fala seguinte do diálogo. E por falar em gatinhas, Uhura era gostosa mes­mo. Ele viu o lagarto alienígena encurralar Kirk, mas tirou os olhos da tela quando duas pessoas empurraram as portas da frente e andaram até um Ford híbrido cor de café.

Comparou o número da placa com o arquivo.

O veículo pertencia à filha e ao marido dela.

Outro homem saiu do hospital — 30 e poucos anos, cabelo meio ruivo e seguiu para um utilitário da Toyota cor de zinco.

Verificou a placa. O filho.

Uma mulher mais velha veio atrás. A esposa. Seu rosto batia com o da foto em preto e branco do arquivo. Que alegria estar preparado.

Kirk correu do lagarto como um doido, mas Smith sabia que ele não iria muito longe. O tudo ou nada estava prestes a acontecer.

O mesmo aqui. O quarto 245 deveria estar vazio agora.

Ele sabia que o hospital era uma instalação regional, com as duas salas de operação sendo utilizadas dia e noite, e o pronto-socorro acomodando unidades de emergência de pelo menos quatro países diferentes. Muita atividade, o que permitiria a Smith, vestido de en­fermeiro, deslocar-se lá dentro com facilidade.

Ele saiu do carro e foi até a entrada principal. O balcão da recepção estava vazio. Ele sabia que o funcionário saía às 17 horas e só voltava às 7 horas do dia seguinte. Alguns visitantes caminhavam na direção do esta­cionamento. O horário de visitas acabava às 17 horas, mas o arquivo o havia lembrado que a maioria das pessoas não saía até quase 18 horas.

Passou pelos elevadores, seguiu pelo lustroso piso em mosaico até o outro lado do piso térreo e parou na lavanderia. Cinco minutos de­pois, saía do elevador no segundo andar pisando com firmeza, as solas de borracha dos sapatos de enfermeiro silenciosas sobre o chão bri­lhante. Os corredores à esquerda e à direita estavam sossegados, com as portas dos quartos ocupados fechadas. O posto de enfermagem logo à frente estava ocupado por duas mulheres mais velhas, sentadas e trabalhando com arquivos.

Ele carregava uma pilha de lençóis cuidadosamente dobrados. Na lavanderia do andar de baixo, ficara sabendo que os quartos 248 e 250, os mais próximos do 245, estavam precisando de lençóis novos.

As únicas decisões difíceis que enfrentara o dia todo haviam sur­gido quando ele tivera de decidir o que colocar no iPhone e a que método de morte recorreria. Por sorte, o computador principal do hospital fornecera acesso conveniente aos registros médicos dos pa­cientes. Embora houvesse trauma interno suficiente para justificar pa­rada cardíaca ou falência hepática dois de seus mecanismos favoritos —, pressão baixa parecia ser a preocupação atual dos médi­cos. O medicamento para contornar o problema já havia sido prescri­to, mas uma observação indicava que eles estavam esperando a manhã para administrar a dosagem, para dar tempo ao paciente de recuperar as forças.

Perfeito.

Ele já havia verificado a lei da Virgínia a respeito de necropsias. A menos que a morte resultasse de um ato de violência, por meio de suicídio, de forma repentina apesar de um bom estado de saúde, não atendida por um médico, ou de qualquer maneira incomum ou sus­peita, não haveria necropsia.

Ele adorava quando as regras funcionavam a seu favor.

Entrou no quarto 248 e jogou os lençóis sobre o colchão vazio. Fez a cama rapidamente, puxando firme nos cantos. Em seguida, voltou a atenção para o outro lado do corredor. Uma olhada para os dois lados confirmou que tudo estava tranquilo.

Com três passos, entrou no quarto 245.

Um arranjo de baixa voltagem lançava luz fria e branca sobre a parede revestida com papel. O monitor cardíaco emitia bipes. O apa­relho para respiração sussurrava. O posto de enfermagem monitorava ambos constantemente, de modo que ele tomou cuidado para não al­terar nenhum dos dois.

O paciente estava na cama crânio, rosto, braços e pernas total­mente enfaixados. De acordo com os registros, quando levado ao hos­pital pela ambulância e encaminhado direto para a emergência, havia traumatismo craniano, lesões intestinais e lacerações. Milagrosamen­te, no entanto, a medula espinhal não tinha sido afetada. A cirurgia levara três horas, principalmente para tratar dos ferimentos internos e suturar as lacerações. A perda de sangue tinha sido significativa, e por algumas horas a situação esteve crítica. Mas a esperança acabou se concretizando, e o estado oficial passou de grave a estável.

Ainda assim, aquele homem tinha de morrer.

Por quê? Smith não fazia idéia. Nem se importava.

Colocou luvas de látex e encontrou a seringa no bolso. O computa­dor do hospital também fornecera dados relevantes, de modo que a seringa hipodérmica pudera ser previamente carregada com a quanti­dade adequada de nitroglicerina.

Após alguns esguichos, inseriu a agulha chanfrada no injetor em Y suspenso ao lado da cama. Não havia perigo de detecção, uma vez que a nitroglicerina seria metabolizada no corpo quando o homem morres­se, sem deixar vestígios.

Uma morte instantânea, ainda que preferível, desencadearia sinais nos monitores e traria as enfermeiras. Smith precisava de tempo para sair e sabia que a morte do almirante de esquadra David Sylvian acon­teceria em cerca de meia hora. Seria impossível descobrirem algo so­bre sua presença então, uma vez que ele estaria longe, sem uniforme, a caminho do compromisso seguinte.

 

         Garmisch 22h

 

Malone entrou novamente no Posthotel. Deixara o mosteiro e dirigira direto para Garmisch, com um nó na garganta. Não conseguia parar de visualizar os tripulantes do NR-1A, presos no fundo de um oceano congelado, com a esperança de que alguém os salvasse. Mas ninguém os salvou.

Stephanie não voltara a ligar, e ele estava tentado a entrar em con­tato, mas sabia que ela ligaria quando tivesse algo a dizer.

A mulher, Dorothea Lindauer, era um problema. Seria possível que seu pai realmente estivesse a bordo do NR-1A? Caso contrário, como ela saberia o nome do homem no relatório? Embora o mani­festo sobre a tripulação tivesse feito parte de um pronunciamento oficial divulgado após o naufrágio, Malone não se lembrava de ne­nhuma menção a Dietz Oberhauser. Tudo indicava que a presença do alemão no submarino não deveria chegar ao conhecimento pú­blico, independentemente das outras inúmeras mentiras que ti­nham sido veiculadas.

O que estava acontecendo ali? Nada daquela estada na Baviera pa­recia ser bom.

Exausto, subiu com esforço a escadaria de madeira. Um descanso seria bem-vindo. No dia seguinte, resolveria as coisas. Olhou para o corredor. Aporta de seu quarto estava entreaberta. As chances de qual­quer folga desapareceram.

Segurou firme a arma que estava no bolso e seguiu devagar pela passadeira colorida que cobria o piso de madeira, tentando minimizar os rangidos que não paravam de anunciar sua presença.

A geografia do quarto surgiu em sua mente. A porta abria para um nicho que ia dar num banheiro espaçoso. À direita ficava a seção prin­cipal, que acomodava uma cama de casal, uma escrivaninha, algumas mesinhas, uma televisão e duas cadeiras.

Talvez os donos da hospedaria tivessem simplesmente esquecido de fechar a porta. Era possível, mas depois do que acontecera hoje ele não se arriscaria mais. Parou e, com a arma, empurrou a porta para dentro, notando que as luzes estavam acesas.

—            Está tudo bem, Sr. Malone disse uma voz feminina.

Ele espiou pelo batente da porta.

Uma mulher alta e bem-proporcionada, com cabelo loiro-acinzentado nos ombros, estava do outro lado da cama. Pele suave como manteiga revestia as feições delicadas de um rosto liso, esculpido quase à perfeição.

Ele já a havia visto antes.

Dorothea Lindauer?

Não.

Não exatamente.

—            Sou Christl Falk disse ela.

 

Stephanie estava no assento da janela, e Edwin Davis, ao lado dela, no do corredor, quando o voo da Delta, partindo de Atlanta, começou a se aproximar do Aeroporto Internacional de Jacksonville. Abaixo, es­tendia-se o limite leste da Reserva Nacional de Vida Selvagem de Okefenokee, a vegetação do pântano de águas negras encoberta por um folheado marrom de inverno. Ela havia deixado Davis sozinho com seus pensamentos durante o vôo de cinquenta minutos, mas tudo tinha limite.

—            Edwin, por que não me diz a verdade?

A cabeça dele estava apoiada no encosto, seus olhos, fechados.

Eu sei. Meu irmão não estava naquele submarino.

Por que mentiu para Daniels? Davis se ergueu.

Tive de mentir.

Não é do seu feitio.

Ele a encarou.

É mesmo? Mal nos conhecemos.

Então, por que estou aqui?

—            Porque é honesta. Ingênua pra caramba às vezes. Teimosa. Mas sempre honesta. Isso é digno de nota.

Stephanie ficou pensando no cinismo dele.

—            O sistema é corrupto, Stephanie. Até a medula. Para todo lugar que você olha, o governo está contaminado.

Ela estava confusa sobre aonde o assunto ia chegar.

O que você sabe sobre Langford Ramsey? — perguntou ele.

Não gosto dele. Acha que todo mundo é idiota e que o serviço de inteligência não sobreviveria sem ele.

Ele é chefe da inteligência naval há nove anos. Isso é inédito. Mas quando chega a hora de mudar o turno, eles permitem que fique.

Isso é um problema?

Com certeza. Ramsey tem ambições.

Parece que você o conhece.

Mais do que eu gostaria.

—            Edwin, pare — disse Millicent.

Ele estava segurando o telefone, discando o número da polícia. Ela puxou o fone de sua mão e colocou-o no gancho.

—            Deixe quieto — disse ela.

Davis olhou fixamente nos olhos escuros dela. Seu lindo cabelo longo e castanho estava despenteado. O rosto parecia delicado como sempre, mas per­turbado. Eles eram parecidos sob muitos aspectos. Inteligentes, dedicados, leais. Só eram diferentes na raça — ela, um belo exemplo de genes africanos, ele, o puro protestante anglo-saxão branco. Ele se sentira atraído por ela nos primeiros dias após sua nomeação para oficial de ligação do Departamento de Estado do capitão de mar e guerra Langford Ramsey, trabalhando na sede da Otan em Bruxelas.

Ele acariciou suavemente o hematoma recente na coxa dela.

—            Ele bateu em você. — Foi difícil dizer as palavras seguintes: — De novo.

—            É o jeito dele.

Ela era capitã-tenente, nascida numa família da Marinha, quarta gera­ção, e assistente de Langford Ramsey havia dois anos. Amante de Ramsey durante um.

—            Ele vale isso? — perguntou.

Ela se afastou do telefone, apertando o robe com força. Havia ligado meia hora antes, pedindo para que ele fosse ao seu apartamento. Ramsey acabara de sair. Davis não sabia por que sempre ia quando ela chamava.

—            Ele não faz por mal — disse ela. — Não consegue vencer seu tempe­ramento. Não gosta de ser rejeitado.

Davis sentiu uma dor ao pensar nos dois juntos, mas ouviu, sabendo que ela precisava aliviar-se da falsa culpa.

—            Ele precisa ser denunciado.

—            Não adiantaria nada. É um homem em ascensão, Edwin. Tem amigos. Ninguém se importaria com o que eu tenho a dizer.

—            Eu me importo.

Millicent o examinou com um olhar ansioso.

Ele me disse que nunca mais faria isso.

Ele disse isso da última vez.

A culpa foi minha. Eu o empurrei. Não deveria, mas empurrei.

Ela se sentou no sofá e fez um gesto para que ele se sentasse ao seu lado. Quando ele se sentou, ela apoiou a cabeça no seu ombro e, alguns minutos depois, adormeceu.

 

—            Ela morreu seis meses depois disse Davis, com uma voz dis­tante.

Stephanie permaneceu em silêncio.

—            Teve uma parada cardíaca. As autoridades de Bruxelas disseram que provavelmente era genético. Davis fez uma pau­sa. Ramsey havia batido nela mais uma vez, três dias antes. Sem deixar marcas. Só alguns socos bem posicionados. Ficou quie­to. Pedi para ser transferido depois disso.

—            Ramsey sabia o que você sentia por ela? Davis deu de ombros.

Eu não sei bem o que eu sentia. Mas duvido que ele se impor­tasse. Eu tinha 38 anos, trabalhava para crescer no Departamento de Estado. O serviço diplomático é muito parecido com o militar. Você executa as tarefas que recebe. Mas, como eu disse antes a respeito do falso irmão, eu prometi a mim mesmo que se algum dia estivesse em posição de foder com Ramsey, eu o faria.

O que Ramsey tem a ver com isto?

Davis recostou a cabeça no encosto da poltrona. O avião manobrou em preparação para o pouso.

—            Tudo.

 

         Baviera 22h30

 

wllkerson reduziu a marcha e a velocidade do volvo. a rodovia descia por um vale alpino, entre mais cadeias de montanhas altíssimas. A neve aparecia na escuridão e era afastada pelos limpadores de pára-­brisa. Estava 14 quilômetros ao norte de Füssen, nas florestas negras da Baviera, não muito longe de Linderhof, um dos castelos de contos de fadas do rei louco Luís II.

Chegou a um cruzamento na estrada e entrou numa travessa esbu­racada que passava entre as árvores, cercado por uma quietude oníri­ca. A casa grande surgiu no campo de visão. Típica da região. Telhado com cumeeira, cores vivas, paredes de pedra, argamassa e madeira. As venezianas verdes das janelas do térreo estavam fechadas, assim como ele as deixara mais cedo naquele dia.

Estacionou e saiu do carro. Foi até a porta da frente, a neve rangendo sob a sola de seus sapatos. Lá dentro, acendeu algumas luzes e atiçou as brasas que ele deixara na lareira. Em seguida, voltou ao carro e carregou as caixas de Füssen para dentro, guardando-as num armário da cozinha.

Essa tarefa agora estava completa.

Foi até a porta da frente e ficou olhando para a noite e a neve.

Teria de informar Ramsey em breve. Haviam dito a ele que, em iam mês, ele seria transferido para Washington, passaria a ficar dentro da sede da inteligência naval, em um alto nível administrativo. Seu nome seria enviado na próxima leva de oficiais desejosos de chegar ao almi-rantado, e Ramsey prometera que, então, ele estaria em posição de garantir um resultado auspicioso.

Mas seria esse o caso?

Não tinha escolha senão ter esperança. Parecia que, ultimamente, toda a sua vida dependia dos outros. E nada quanto a isso parecia bom.

As brasas que queimavam na lareira estavam chiando. Ele precisa­va pegar lenha nova na pilha ao lado da casa. Um fogo forte seria ne­cessário mais tarde.

Abriu a porta da frente.

Uma explosão perturbou a noite.

Instintivamente, protegeu o rosto de um clarão súbito de luz inten­sa e uma rápida erupção de calor abrasador. Wilkerson ergueu a cabe­ça e viu o Volvo em chamas, pouco restando além do chassi queimando, as chamas devorando o metal.

Percebeu um movimento na escuridão. Duas formas. Indo na dire­ção dele. Com armas.

Ele bateu a porta.

O vidro de uma das janelas foi estilhaçado e algo bateu com um baque surdo no assoalho de madeira. Seu olhar fixou-se no objeto. Uma granada. Configuração soviética. Correu para o quarto ao lado exatamente quando a peça explodiu. As paredes do chalé pareciam ser bem construídas a divisória entre os quartos neutralizou a explo­são —, mas ele ouviu o vento rodopiando dentro do que antes era um recanto aconchegante. A detonação certamente havia aniquilado uma parede externa.

Ele conseguiu se equilibrar e ficou agachado.

Era possível ouvir vozes. Do lado de fora. Dois homens. Um de cada lado da casa.

—            Procure o corpo um deles disse em alemão.

Wilkerson ouviu alguém perambulando pelo cascalho negro, e um facho de lanterna cortou a escuridão. Os agressores não faziam ne­nhum esforço para encobrir sua presença. O oficial firmou o corpo contra a parede.

Alguma coisa? perguntou um dos homens.

Nein.

Avance mais.

Wilkerson se preparou.

Um raio de luz estreito passou pela porta. Em seguida, a lanterna entrou no quarto, seguida por uma arma. Ele esperou o homem entrar e agarrou a arma, enfiando o punho em sua mandíbula e arrancando-lhe a arma.

O sujeito cambaleou para a frente, a lanterna ainda na mão. Wil­kerson não perdeu tempo. Enquanto seu agressor tentava retomar o equilíbrio, o oficial atirou uma vez no peito do homem e apontou a arma quando outro facho de luz foi esquadrinhando em sua direção.

Um objeto preto zuniu pelo ar e bateu no chão.

Mais uma granada.

Ele mergulhou por cima de um divã e rolou o móvel por cima de si no momento em que a bomba explodiu e os escombros desabaram. Mais janelas e uma parede foram estouradas, e o frio implacável da noite invadiu. O triângulo formado pelo divã derrubado protegeu-o da detonação, e Wilkerson achou que tinha escapado do pior, quando ouviu um estalo e uma das vigas do teto desabou sobre ele.

Por sorte, não o prendeu.

O homem com a lanterna se aproximou, vacilante. No ataque, Wilkerson perdera a arma, então procurou pela escuri­dão. Ao avistá-la, saiu empurrando os escombros e rastejando.

O agressor entrou no quarto, desviando dos entulhos.

Uma bala ricocheteou no chão bem na frente de Wilkerson.

Ele correu para trás de mais fragmentos enquanto outra bala tenta­va encontrá-lo. Estava ficando sem opção. A arma estava longe demais. O vento frio fustigava seu rosto. O facho da lanterna o encontrou.

Droga. Xingou a si mesmo, depois Langford Ramsey.

Um barulho de tiro estourou.

O facho da lanterna sacudiu, depois os raios de luz se espalharam para todos os lados.

Um corpo bateu no chão. Depois, silêncio.

Ele se ergueu e avistou uma silhueta obscurecida alta, formo­sa, feminina na entrada da cozinha, o contorno de uma escopeta nos braços.

Você está bem? perguntou Dorothea Lindauer.

Belo tiro.

Vi que estava tendo problemas.

Ele foi até Lindauer e fitou-a em meio à escuridão.

—            Acho que isso tira todas as dúvidas que você poderia ter sobre seu almirante Ramsey e as intenções dele disse ela.

Ele assentiu e respondeu:

—            De agora em diante, faremos as coisas do seu jeito.

 

Malone balançou a cabeça. Gêmeas? Fechou a porta.

—            Acabei de conhecer sua irmã. Eu me perguntei por que ela me dei­xou ir embora tão facilmente. Vocês duas não podiam falar comigo juntas?

Christl Falk balançou a cabeça.

Não nos falamos muito. Agora ele estava confuso.

Mas estão trabalhando juntas.

Não, não estamos. — O inglês dela, diferentemente do da irmã, não tinha nenhum traço de alemão.

Então, o que você está fazendo aqui?

Ela o atraiu hoje. Você pegou a isca. Eu me perguntei por quê. Planejei encontrá-lo quando você voltasse da montanha, mas pensei melhor depois do que aconteceu.

Você viu?

Christl assentiu.

Depois, eu o segui até aqui.

Em que diabos ele havia se metido?

Não tive nada a ver com o que aconteceu —- esclareceu ela.

A não ser pelo fato de que sabia o que aconteceria com antecedência.

Só sabia que você estaria lá. Nada mais.

Malone decidiu ir direto ao assunto:

Quer saber sobre seu pai também?

Quero.

Ele se sentou na cama e deixou o olhar correr até o outro extremo do quarto e o banco de madeira embutido abaixo das janelas, de onde estivera falando com Stephanie quando avistara a mulher do bonde. O relatório sobre o Blazek ainda estava onde ele o havia deixado. Será que a visitante tinha dado uma olhada?

Christl Falk acomodara-se em uma das cadeiras. Usava uma cami­sa jeans de mangas longas e calça caqui plissada, as quais valorizavam suas curvas evidentes. Aquelas duas belas mulheres, de fisionomias quase idênticas, exceto pelo estilo de cabelo diferente o desta ia até os ombros, era bem penteado e estava solto —, pareciam ter persona­lidades bastante distintas. Enquanto Dorothea Lindauer transmitia orgulho e status, Christl Falk revelava conflito.

Dorothea lhe contou sobre nosso avô?

Recebi uma sinopse.

—            Ele realmente trabalhou para os nazistas, como chefe da Ahnenerbe.

—            Um empenho muito nobre.

Ela pareceu notar o sarcasmo.

—            Concordo. Não era nada além de um instituto de pesquisas para a fabricação de evidências arqueológicas para fins políticos. Himmler acreditava que os ancestrais da Alemanha haviam se desen­volvido em algum lugar remoto, onde tinham sido um tipo de raça superior. Então, esse suposto sangue ariano migrou para diversas par­tes do mundo. Por isso ele criou a Ahnenerbe, uma mistura de aventu­reiros, místicos e acadêmicos, e partiu para encontrar os tais arianos, enquanto exterminava quem não o fosse.

—            Qual deles era seu avô?

Ela pareceu confusa.

Aventureiro, místico ou acadêmico?

Os três, na verdade.

Mas parece que era político também. Chefiava a coisa, então certamente conhecia a verdadeira missão da Ahnenerbe.

É aí que você se engana. Meu avô só acreditava no conceito de uma raça ariana mítica. Himmler manipulou a obsessão dele e a trans­formou em um instrumento para a limpeza étnica.

Essa racionalização foi usada nos tribunais de Nuremberg, após a guerra, sem sucesso.

Acredite no que quiser; isso não é importante em relação ao motivo pelo qual estou aqui.

O qual estou esperando... pacientemente, devo acrescentar... que você explique.

Ela cruzou as pernas, mantendo um joelho sobre o outro.

—            O estudo de manuscritos e símbolos era o maior interesse da Ahnenerbe, na procura de mensagens arianas antigas. Mas no final de 1935 meu avô de fato encontrou algo. Ela apontou para seu próprio casaco, que estava na cama ao lado dele. No bolso.

Ele pôs a mão no bolso e retirou um livro coberto por um saco plásti­co. No tamanho, formato e estado de conservação, parecia com o que ele tinha visto antes, exceto pela ausência do símbolo em relevo na capa.

Sabe algo sobre Eginhardo? perguntou ela.

Li A vida de Carlos Magno.

Eginhardo era da parte oriental do reino franco, a porção que era distintamente alemã. Estudou em Fuda, que era um dos centros de aprendizado mais impressionantes do território franco. Foi aceito na corte de Carlos Magno por volta de 791. Carlos Magno era único no seu tempo. Construtor, administrador político, propagandista religioso, re­formista, patrono das artes e da ciência. Gostava de se ver cercado por estudiosos, e Eginhardo tornou-se seu conselheiro mais confiável. Quando Carlos Magno morreu, em 814, seu filho, Luís, o Piedoso, fez de Eginhardo seu secretário particular também. Mas 16 anos depois Eginhardo se retirou da corte, quando Luís e os filhos começaram a brigar. Morreu em 840 e foi enterrado em Seligenstadt.

Você é uma fonte inesgotável de informações.

Tenho três diplomas em história medieval.

Nenhum dos quais explica que diabos está fazendo aqui.

—            A Ahnenerbe buscou esses arianos em muitos lugares. Túmu­los foram abertos por toda a Alemanha. Ela apontou. Dentro da sepultura de Eginhardo, meu avô encontrou esse livro que você está segurando.

—            Achei que este tivesse saído do túmulo de Carlos Magno. Ela sorriu.

—            Estou vendo que Dorothea mostrou o volume dela à você. Aquele veio do túmulo de Carlos Magno. Este é diferente.

Ele não resistiu. Retirou o livro antigo do saco e o abriu com cuida­do. O latim preenchia as páginas, junto com exemplos da mesma escri­ta estranha e da arte e dos símbolos esquisitos que ele vira antes.

Na década de 1930, meu avô achou esse livro, junto com o últi­mo testamento de Eginhardo. Na época de Carlos Magno, homens de posses deixavam testamentos por escrito. No de Eginhardo, meu avô descobriu um mistério.

E como você sabe que não se trata de mais fantasia? Sua irmã não foi muito gentil ao falar de seu avô.

Outra razão para nos detestarmos.

E por que você gosta tanto dele?

Porque ele também encontrou provas.

 

Dorothea beijou suavemente os lábios de Wilkerson. Notou que ele ainda estava tremendo. Estavam entre as ruínas do chalé, vendo o carro queimar.

—            Estamos nessa juntos agora disse ela.

Ele certamente percebeu isso. E mais uma coisa. Nada de almirantado para ele. Ela lhe dissera que Ramsey era uma cobra, mas ele se recusara a acreditar.

Agora, não tinha como ele se enganar.

—            Uma vida de luxo e privilégios pode ser um bom substitu­to disse ela.

—            Você tem um marido.

—            Só no nome. Ela viu que ele precisava ser tranquilizado. A maioria dos homens precisava. Você se saiu bem dentro da casa.

Ele limpou o suor da testa.

—            Até consegui matar um deles. Um tiro no peito.

—            O que mostra que é capaz de resolver as coisas quando neces­sário. Eu os vi aproximando-se do chalé quando estava chegando de carro. Estacionei na floresta e me aproximei com cuidado, enquanto eles faziam o ataque inicial. Esperava que você pudesse contê-los até eu encontrar uma das escopetas.

O vale, estendendo-se por quilômetros em todas as direções, per­tencia à família dela. Não havia vizinhos nas proximidades.

—            E os cigarros que você me deu funcionaram disse ela. Esta­va certo quanto àquela mulher. Problema que precisava ser eliminado.

Os elogios estavam funcionando. Ele estava se acalmando.

—            Fico feliz que você tenha encontrado aquela arma disse ele.

O calor do incêndio no carro aquecia o ar gelado. Ela ainda estava com a escopeta na mão, recarregada e pronta, mas duvidava que hou­vesse outros visitantes naquela noite.

Precisamos daquelas caixas que eu trouxe ele disse. Esta­vam no armário da cozinha.

Eu as vi.

Interessante como o perigo estimulava o desejo. Aquele homem, um capitão de mar e guerra da Marinha, de boa aparência, inteligência modesta e pouca coragem, exercia uma atração sobre ela. Por que os homens fracos eram tão desejáveis? Seu marido era um nada que a deixava fazer o que quisesse. A maioria de seus amantes era assim.

Ela apoiou a escopeta numa árvore.

E beijou Wilkerson mais uma vez.

 

— Que tipo de prova? — perguntou Malone.

Você parece cansado — disse Christl.

Estou; e com fome.

Então vamos comer alguma coisa.

Ele estava farto de mulheres querendo provocá-lo, e, se não fosse pelo fato de a história ter a ver com seu pai, teria dito a Christl, como a Dorothea, para não encher o saco. Mas, na verdade, ele queria saber mais.

—            Está bem. Mas você paga.

Saíram do hotel e andaram na neve até um café a algumas qua­dras, em um dos calçadões de Garmisch. Lá dentro, ele pediu uma bisteca com fritas. Christl Falk pediu sopa e pão.

—            Já ouviu falar da Deutsche Antarktische Expedition? — pergun­tou ela.

A Expedição Alemã na Antártida.

Saiu de Hamburgo em dezembro de 1938 — disse ela. — O ob­jetivo público era garantir um local na Antártida para uma estação alemã para a pesca de baleias, como parte de um plano para aumentar a produção de gordura da Alemanha. Dá para imaginar? As pessoas acreditaram mesmo nessa história.

Na verdade, eu consigo imaginar. Na época, o óleo de baleia era a matéria-prima mais importante para a fabricação de margarina e sabão. A Alemanha era uma grande importadora de óleo de baleia no­rueguês. Prestes a entrar em guerra e dependente de fontes estrangei­ras para algo tão importante assim? Poderia ter sido um problema.

Vejo que é bem informado.

Li sobre os nazistas na Antártida. O Schwabenland, um carguei­ro capaz de catapultar aeronaves, partiu com o quê... sessenta pes­soas? A Noruega havia acabado de reivindicar um pedaço da Antártida que chamavam de Terra da Rainha Mau d, mas os nazistas mapearam a mesma região e mudaram o nome para Neuschwabenland. Eles tiraram muitas fotos e lançaram do ar bandeiras alemãs de arame farpado por toda parte. Deve ter sido uma visão e tanto. Pe­quenas suásticas na neve.

Meu avô estava nessa expedição de 1938. Embora um quinto da Antártida estivesse mapeado, o propósito real era ver se o que Egi­nhardo havia escrito no livro que lhe mostrei era verdade.

Ele se lembrou das pedras na abadia.

E trouxe pedras com os mesmos símbolos do livro.

Você foi à abadia?

À convite de sua irmã. Mas por que tenho a sensação de que você já sabia disso? — Ela não respondeu; então, Malone pergun­tou: — E qual é o veredito? O que seu avô encontrou?

Esse é o problema. Não sabemos. Depois da guerra, os docu­mentos da Ahnenerbe foram confiscados pelos Aliados ou destruídos. Meu avô tinha sido criticado por Hitler num comício do partido em 1939. Hitler não concordava com algumas de suas opiniões, especial­mente suas inclinações feministas, que defendiam que a sociedade ariana antiga devia ter sido governada por sacerdotisas e profetisas.

Muito distante das máquinas de fazer bebê que Hitler acredita­va que as mulheres eram.

Ela assentiu.

Portanto, Hermann Oberhauser foi calado, e suas ideias, con­denadas. Foi proibido de publicar ou dar palestras. Dez anos depois, sua mente começou a falhar, e ele viveu senil os últimos anos.

Incrível que Hitler não o tenha simplesmente matado.

Hitler precisava de nossas fábricas, refinarias de petróleo e jor­nais. Manter meu avô vivo era um meio de ter controle legítimo sobre tudo isso. E, infelizmente, tudo o que ele sempre quis foi agradar Adolf Hitler; por isso, disponibilizou tudo por vontade própria. — Ela reti­rou o livro do bolso do casaco e removeu o saco plástico. — Este texto levanta muitas perguntas. Questões que fui incapaz de responder. Eu estava pensando se você me ajudaria a desvendar o enigma.

A busca de Carlos Magno?

Vejo que você e Dorothea tiveram mesmo uma longa conversa. Ja. Da Karl der Große Verfolgung.

Ela lhe entregou o livro. O latim dele era razoável, de modo que po­deria decifrar mais ou menos as palavras, mas ela notou sua indecisão.

Posso? — perguntou ela.

Ele hesitou.

Pode ser que você ache interessante. Eu achei.

 

         Jacksonville, Flórida

       17h30

 

Stephanie examinou o homem mais velho que abriu a porta da modesta casa de tijolos da região sul da cidade. Era baixo e obeso, com um nariz bulboso, cor de fogo, que a lembrava Rudolf, a rena do nariz verme­lho. De acordo com sua ficha, Zachary Alexander devia estar chegan­do perto dos 70 anos — e era o que aparentava. Ela ouviu Edwin Davis explicar quem eles eram e por que estavam lá.

—            O que acham que posso lhes contar? — perguntou Alexan­der. — Estou fora da Marinha há quase trinta anos.

Vinte e seis, na verdade — disse Davis. Alexander apontou um dedo rechonchudo para eles.

Não gosto de perder tempo.

Ela ouviu uma televisão ligada em outro cômodo. Algum progra­ma de auditório. E notou que a casa estava impecável, o interior chei­rando a antisséptico.

—            Só precisamos de alguns minutos — disse Davis. —Afinal, eu sou da Casa Branca.

Stephanie se perguntou o porquê da mentira, mas não disse nada.

—            Eu nem votei no Daniels.

Ela sorriu.

—            Muitos de nós estamos nessa categoria, mas poderia nos conce­der apenas alguns minutos?

Alexander finalmente cedeu e os levou até um pequeno escritório, onde desligou a televisão e ofereceu lugares para que se sentassem.

—            Servi na Marinha durante muito tempo — disse Alexander. — Mas tenho de dizer a vocês: não guardo boas lembranças.

Ela havia lido a ficha dele. Alexander chegara a capitão de fragata, mas a promoção à patente seguinte fora preterida duas vezes. Acabara optando por sair e fora reformado com todos os benefícios.

—            Acharam que eu não era bom o suficiente para eles.

Foi bom o suficiente para comandar o Holden. Olhos enrugados estreitaram-se.

Ele e alguns outros navios.

—            Nós viemos — disse Davis — por causa da missão que o Holden completou na Antártida.

Alexander não disse nada. Stephanie perguntou-se se o silêncio era calculado ou cauteloso.

—            Fiquei realmente animado com aqueles encargos — disse Ale­xander finalmente. — Eu queria ver o gelo. Mas depois, sempre achei que aquela viagem teve algo a ver com o fato de eu ter sido deixado para trás.

Davis inclinou-se para a frente.

Precisamos ouvir sobre isso.

Para quê? — Alexander não se conteve. — A coisa toda é confi­dencial. Ainda deve ser. Me mandaram ficar de boca fechada.

Sou vice-conselheiro de segurança nacional. Ela é chefe de uma agência de inteligência do governo. Podemos ouvir o que você tem a dizer.

Papo furado.

Existe alguma razão para você ser tão hostil? — perguntou ela.

—            Além do fato de eu odiar a Marinha? — perguntou ele. — Ou além do fato de que vocês dois estão pescando, e eu não quero ser a isca?

Alexander relaxou na cadeira reclinável. Ela imaginou que ele se sentara ali durante anos, pensando no que estava se passando em sua mente naquele momento.                

—            Fiz o que me ordenaram, e fiz bem. Sempre segui ordens. Mas muito tempo se passou; então, o que querem saber?

Ela disse:

—            Sabemos que o Holden foi enviado para a Antártida em novem­bro de 1971. Vocês foram em busca de um submarino.

Um olhar confuso surgiu no rosto de Alexander.

De que diabos você está falando?

Lemos o relatório do tribunal de inquérito sobre o naufrágio do Blazek, ou NR-1A, como queira chamar a coisa. Menciona especifica­mente que você e o Holden saíram na busca.

Alexander encarou-os com uma mistura de curiosidade e aversão.

—            As ordens que recebi foram de seguir para o mar de Weddell, fazer registros sonares e ficar alerta para anormalidades. Eu tinha três passageiros a bordo e deveria suprir suas necessidades, sem questio­nar. Foi o que fiz.

Nenhum submarino? — perguntou ela.

Ele balançou a cabeça.

Nada do tipo.

O que encontraram? — perguntou Davis.

Porcaria nenhuma. Passei duas semanas com o rabo congelado. Havia um cilindro de oxigênio ao lado da cadeira de Alexander.

Stephanie perguntou-se sobre a existência daquilo ali, junto com uma variedade de tratados médicos enfileirados numa estante de um canto ao outro do escritório. Alexander não dava a impressão de estar em más condições de saúde, e sua respiração parecia normal.

—            Não sei nada sobre submarino algum repetiu. Lembro, na época, que um afundou no Atlântico Norte. E era o Blazek, isso mesmo. Eu lembro. Mas minha missão não tinha nada a ver com isso. Estávamos na­vegando pelo Pacifico Sul, redirecionamos a rota para a América do Sul, onde pegamos esses três passageiros. Depois, seguimos direto para o sul.

—            Como estava o gelo? perguntou Davis.

—            Embora fosse quase verão, o lugar era difícil de navegar. Frio como uma geladeira, icebergs por todo lado. Mas um local bonito, isso eu posso dizer.

—            Não descobriu nada enquanto estava lá? perguntou ela.

—            Não é a mim que você deve perguntar isso. Sua expressão estava mais calma, como se tivesse concluído que eles poderiam não ser o inimigo. Esses relatórios que vocês leram não mencionavam três passageiros?

Davis balançou a cabeça.

—            Nem uma só palavra. Apenas você.

—            Típico da maldita Marinha. Seu rosto perdeu a expressão impassível. As ordens que recebi foram de levar esses três aonde quer que quisessem ir. Eles desembarcaram várias vezes, mas quando voltavam, não diziam nada.

—            Levavam algum equipamento? Alexander fez que sim.

—            Trajes de mergulho em água fria e tanques. Depois da quarta vez que desembarcaram, disseram que podíamos voltar.

—            Nenhum dos seus homens ia com eles? Alexander balançou a cabeça.

—            De jeito nenhum. Não tinham permissão. Esses três capitães-tenentes faziam tudo. Fosse lá o que fosse.

Stephanie pensou no quanto aquilo era esquisito, mas no mundo militar coisas estranhas ocorriam todos os dias. Ainda assim, precisa­va fazer a pergunta de 1 milhão de dólares:

—            Quem eram eles?

Ela viu o velho ser tomado por temor.

Sabe, nunca falei sobre isso antes. — Ele parecia incapaz de su­perar a depressão. — Eu queria ser capitão de mar e guerra. Eu mere­cia, mas a Marinha não concordava.

Muito tempo se passou — disse Davis. — Não há muito o que possamos fazer para consertar o passado.

Ela se perguntou se Davis se referia à situação de Alexander ou à sua própria.

Isso deve ser importante — disse o velho.

O bastante para termos vindo até aqui hoje.

Um era um cara chamado Nick Sayers. Outro, Herbert Rowland. Ambos arrogantes, como a maioria dos capitães-tenentes.

Ela concordou em silêncio.

E o terceiro? — perguntou Davis.

O mais arrogante de todos. Eu odiava aquele imbecil. O pro­blema é que ele seguiu em frente e ganhou as platinas de capitão de mar e guerra. E depois, as estrelas de ouro. O nome dele era Ramsey. Langford Ramsey.

 

As nuvens me convidam e uma névoa concentra-se. O curso das es­trelas me acelera, e os ventos me fazem voar, erguendo-me para os céus. Aproximo-me de uma parede feita de cristal e sou cercado por línguas de gelo. Aproximo-me de um templo de pedra, e as paredes são como um chão enxadrezado feito de pedra. O teto é como o caminho das estrelas. Calor é gerado pelas paredes, sou encoberto pelo medo, e um tremor me domina. Vou ao chão, prostrado, e vejo um trono imponente, de aparência tão cristalina quanto um sol brilhante. O Alto Conselheiro está sentado e seu traje brilha mais claro que o sol e é mais branco que qualquer neve. O Alto Conselheiro me diz: "Eginhardo, tu, escriba honrado, vem para per­to e ouve minha voz." Ele me fala na minha língua, o que é surpreenden­te. "Assim como Ele criou e deu ao homem o poder de compreensão da palavra da sabedoria, Ele também me criou. Bem-vindo à nossa terra. Disseram-me que és um homem de erudição. Se for assim, então podes ver os segredos dos ventos, como são divididos para soprar sobre a terra, e os segredos das nuvens e do orvalho. Podemos ensinar-te sobre o sol e a lua, de onde derivam e para onde vão novamente, sobre seu glorioso re­torno, e como um é superior ao outro, e sobre sua órbita majestosa, e como os astros não deixam sua órbita, não acrescentam nada a ela e dela nada retiram, e mantêm a fé um no outro, de acordo com o juramento pelo qual estão unidos."

Malone ouviu Christl traduzir o texto em latim, depois perguntou:

Isso foi escrito quando?

Entre 814, quando Carlos Magno morreu, e 840, quando Egi­nhardo morreu.

É impossível. Fala das órbitas do sol e da lua e de como estão ligadas uma à outra. Esses conceitos astronômicos ainda não tinham sido desenvolvidos. Teriam sido heresias nessa época.

Concordo, no que diz respeito aos que viviam na Europa Oci­dental. Mas para quem vivia em qualquer outra parte deste planeta, que não estava sob o jugo da Igreja, a situação era outra.

Ele ainda estava cético.

—            Deixe-me colocar isso num contexto histórico disse ela. Os dois filhos mais velhos de Carlos Magno morreram antes dele. O ter­ceiro filho, Luís, o Piedoso, herdou o império carolíngio. Os filhos de Luís brigaram com o pai e entre si. Eginhardo serviu a Luís fielmente, como havia servido a Carlos Magno, mas estava tão farto das brigas internas que se retirou da corte e passou o resto de seus dias numa abadia que Carlos Magno lhe dera. Foi durante esse tempo que escre­veu sua biografia de Carlos Magno e ela ergueu o tomo anti­go este livro.

Recontando uma grande jornada? perguntou ele. Ela fez que sim.

Quem pode dizer se isso é real? Parece fantasia pura.

Ela balançou a cabeça.

—            A vida de Carlos Magno é um dos trabalhos mais reconhecidos de todos os tempos. Ainda está sendo publicado hoje. Eginhardo não era conhecido por criar ficção e passou por muitos problemas para esconder essas palavras.

Malone ainda não estava convencido.

—            Sabemos muito sobre os feitos de Carlos Magno disse ela —, mas pouco sobre suas crenças íntimas. Nada confiável que as descre­vesse sobreviveu. O que sabemos é que ele adorava histórias antigas e epopeias. Antes do seu tempo, os mitos eram preservados oralmente. Ele foi o primeiro a ordenar que fossem escritos. Sabemos que Egi­nhardo supervisionou essa realização. Mas Luís, depois de herdar o trono, destruiu todos esses textos devido ao seu conteúdo pagão. A destruição desses escritos teria causado desgosto em Eginhardo; en­tão, ele fez o que pôde para que este livro sobrevivesse.

—            Escrevendo-o, parcialmente, numa língua que ninguém iria en­tender?

—            Mais ou menos isso.

—            Li relatos que dizem que Eginhardo talvez nem tenha escrito a biografia de Carlos Magno. Ninguém sabe nada com certeza.

—            Sr. Malone...

—            Por que não me chama de Cotton? Está fazendo com que eu me sinta um velho.

—            Nome interessante.

—            Eu gosto.

Christl sorriu.

—            Posso explicar tudo isso com muito mais detalhes. Meu avô e meu pai passaram anos pesquisando. Há coisas que preciso lhe mos­trar, coisas que preciso explicar. Uma vez que as vir e ouvir, acho que vai concordar que nossos pais não morreram em vão.

Ainda que seu olhar sugerisse uma prontidão para confrontar to­dos os argumentos dele, ela estava usando seu trunfo, e ambos sabiam disso.

—            Meu pai era o comandante de um submarino — disse ele. — Seu pai era um passageiro desse submarino. Admito, não faço ideia do que os dois estavam fazendo na Antártida, mas, ainda assim, morreram em vão.

E ninguém deu a mínima, completou ele em silêncio.

Ela afastou a sopa.

Você vai nos ajudar?

Ajudar quem?

A mim. Meu pai. O seu.

Malone sentiu cheiro de rebelião, mas precisava de tempo para ou­vir isso de Stephanie.

—            Que tal fazermos o seguinte: deixe eu digerir isso, e amanhã você pode me mostrar o que quiser.

O olhar dela suavizou-se.

—            É justo. Está ficando tarde.

 

Eles deixaram o café e seguiram pela calçada coberta de neve até o Posthotel. Faltavam duas semanas para o Natal, e Garmisch parecia pronta. Esse feriado, para ele, era uma bênção mista. Tinha passado os dois últimos com Henrik Thorvaldsen em Christiangade, e este ano provavelmente seria a mesma coisa. Pensou em quais seriam as tradi­ções natalinas de Christl Falk. Um estado de melancolia parecia tomar conta dela, que não fazia muito esforço para disfarçá-lo. Parecia inteli­gente e determinada não tão diferente da irmã —, mas as duas mu­lheres eram desconhecidas que exigiam cautela.

Atravessaram a rua. Muitas das janelas no Posthotel, decorado com afrescos alegres, estavam acesas para receber a noite. O quarto dele, no segundo andar, acima do restaurante e do saguão, tinha qua­tro janelas de um lado e outras três na fachada da frente. Ele deixara um dos abajures acesos, e um movimento atrás de uma das janelas chamou sua atenção.

Ele parou.

Havia alguém lá. Christl também viu. Cortinas foram puxadas de volta.

Um rosto de homem pôde ser visto, e seu olhar fixou-se no de Malone. Então, o homem olhou de relance para a direita, na direção da rua, e abandonou a janela. Sua sombra revelou uma saída apressada.

Malone avistou um carro com três homens dentro, estacionado do outro lado da rua.

— Venha — disse ele.

Ele sabia que precisavam sair dali, e rápido. Ainda bem que estava com as chaves do carro alugado. Correram até o veículo e entraram.

Malone ligou o motor e saiu da vaga em disparada. Engatou a marcha e saiu do hotel com um estrondo, os pneus girando no asfalto congelado. Baixou a janela, entrou no bulevar e viu um homem no seu retrovisor, saindo do hotel.

Ele pegou a arma no casaco, reduziu ao se aproximar do carro es­tacionado e atirou em um dos pneus traseiros, o que fez os três vultos lá dentro se abaixarem.

Depois, saiu acelerando.

 

         Quarta-feira, 12 de dezembro

         0h40

 

Malone saiu de Garmisch serpenteando, aproveitando a seu favor o labirinto de ruas estreitas e sem iluminação e sua vantagem inicial so­bre os homens que estavam esperando no Posthotel. Não tinha como saber se tinham um segundo veículo à mão. Satisfeito por não estarem sendo perseguidos, encontrou a rodovia que levava ao norte que usara antes e, seguindo as instruções de Christl, percebeu aonde estavam indo.

—            Aquelas coisas que você precisa me mostrar estão no mosteiro de Ettal? — perguntou ele.

Ela fez que sim.

—            Não faz sentido esperar até amanhã.

Ele concordou.

—            Tenho certeza de que quando você conversou com Dorothea lá, ficou sabendo apenas o que ela queria que você soubesse.

E você é diferente?

Ela o encarou.

Totalmente.

Malone não tinha tanta certeza.

—            Aqueles homens no hotel? Seus? Ou dela?

—            Você não acreditaria em mim, não importa o que eu dissesse. Ele reduziu a marcha quando a rodovia começou a descer na dire­ção da abadia.

—            Quer um conselho? Você realmente precisa se explicar. Minha paciência está indo embora.

Christl hesitou, e ele esperou.

—            Cinquenta mil anos atrás, uma civilização surgiu neste planeta e conseguiu progredir mais rápido que o resto da humanidade. Lide­rando o caminho, pode-se dizer. Era tecnologicamente desenvolvida? Na verdade, não, mas era altamente avançada. Matemática, arquitetu­ra, química, biologia, geologia, meteorologia, astronomia. Eram as áre­as nas quais ela se sobressaía.

Ele estava ouvindo.

—            Nosso conceito de história antiga foi fortemente influenciado pela Bíblia. Mas seus textos a respeito da antiguidade foram escritos a partir de um ponto de vista estreito. Distorceram culturas antigas e negligenciaram completamente algumas culturas importantes, como os minoicos. A cultura à qual me refiro não é bíblica. Era uma socieda­de desbravadora de oceanos, que tinha comércio espalhado pelo mun­do e possuía barcos aptos e habilidades de navegação avançadas. Culturas posteriores, como os polinésios, os fenícios, os vikings e, fi­nalmente, os europeus, viriam todas a desenvolver essas técnicas, mas a Primeira Civilização as dominou primeiro.

Ele havia lido sobre essas teorias. A maioria dos cientistas, hoje, rejeitava a ideia do desenvolvimento linear de uma sociedade da Ida­de da Pedra Lascada até a Idade da Pedra Polida, a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. Em vez disso, os estudiosos acreditavam que os hu­manos se desenvolviam independentemente uns dos outros. Provas disso existiam até hoje, em todos os continentes, onde culturas primi­tivas ainda coexistiam com sociedades avançadas.

Então você está dizendo que, em tempos antigos, enquanto os povos do Paleolítico ocupavam a Europa, culturas mais avançadas po­dem ter existido em outro lugar. Ele se lembrou do que Dorothea Lindauer lhe dissera. Arianos também?

Dificilmente. Eles são um mito. Mas esse mito pode ter uma base na realidade. Veja Creta e Tróia. Foram consideradas fictícias por muito tempo, mas hoje sabemos que existiram de fato.

Então, o que aconteceu com essa primeira civilização?

Infelizmente, toda cultura contém as sementes de sua própria destruição. O progresso e a decadência coexistem. A história mostrou que todas as sociedades acabam desenvolvendo os meios para sua própria queda. Veja Babilônia, Grécia, Roma, mongóis, hunos, turcos e tantas incontáveis sociedades monárquicas. Elas sempre destroem a si mesmas. A Civilização Um não foi exceção.

O que ela disse fazia sentido. A humanidade realmente parecia destruir tanto quanto construir.

Meu avô e meu pai eram obcecados por essa civilização perdi­da. Devo confessar que também me sinto atraída pela ideia.

Minha livraria está cheia de material da Nova Era sobre Atlân­tida e uma dúzia de outras supostas civilizações perdidas, das quais não se encontrou um vestígio sequer. Isso é fantasia.

As guerras e conquistas cobraram seu preço na história da humanidade. É um processo cíclico. Progresso, guerra, devastação, e depois um novo despertar. Existe um truísmo sociológico. Quanto mais avançada a cultura, mais facilmente será destruída, e menos vestígios dela restarão. Em termos mais simplistas, encontramos o que procuramos.

Ele reduziu a velocidade do carro.

—            Não, não encontramos. Na maioria das vezes, tropeçamos nas coisas.

Ela balançou a cabeça.

Todas as maiores revelações humanas começaram com uma teo­ria simples. Veja a evolução. Foi apenas depois que Darwin formulou seus conceitos que começamos a notar as coisas que fortaleciam a teo­ria. Copérnico propôs um modo novo e radical de ver o sistema solar, e quando finalmente olhamos, descobrimos que ele estava certo. Antes dos últimos cinquenta anos, ninguém acreditava seriamente que uma civilização avançada poderia ter nos precedido. Isso era considerado um absurdo. Então, a prova simplesmente tem sido negligenciada.

Que prova?

Ela retirou o livro de Eginhardo do bolso.

—            Esta.

 

Março, 800. Carlos Magno cavalga de Aachen para o norte. Nunca antes se aventurou pelo mar da Gália nesta época do ano, quando os ventos gelados do norte castigam a praia e a pesca é fraca. Mas ele in­siste nessa jornada. Três soldados e eu o acompanhamos, e a viagem leva a melhor parte do dia. Uma vez lá, o acampamento é montado no local de costume, além das dunas, o que oferece pouca proteção de uma forte ventania. Três dias após a chegada, avistamos velas e pensamos serem os barcos dos dinamarqueses ou parte da frota dos sarracenos que, do norte e do sul, ameaçam o império. Mas, enfim, o rei grita de alegria e aguarda na praia enquanto os navios erguem seus remos e barcos menores se dirigem a terra, trazendo os Vigilantes. Uriel, que reina em Tártaro, é quem lidera. Com ele estão Arakiba, que está acima do espírito dos homens, Raguel, que se vinga do mundo dos luminares, Danei, que está acima da melhor parte da humanidade e do caos, e Saraqael, que está acima dos espíritos. Vestem mantos grossos e calças e botas de pele. Seus cabelos claros estão aparados e penteados com es­mero. Carlos Magno dá um abraço firme em cada um. O rei faz muitas perguntas, e Uriel responde. O rei recebe permissão para entrar nos navios, cada um feito de madeira resistente e calafetado com alcatrão, e ele fica admirado com a robustez. Somos informados de que eles foram construídos longe de sua terra, onde as árvores crescem em abundân­cia. Seu povo ama o mar e entende suas peculiaridades melhor do que nós. Danei mostra ao rei mapas de lugares que não sabemos existir e nos diz como seus navios encontram o caminho. Danei nos mostra um pedaço de ferro afiado, apoiado sobre uma faixa de madeira, flutuando numa concha de água, que aponta o caminho pelo mar. O rei quer saber como isso é possível, e Danei explica que o metal é atraído em uma di­reção específica e faz um gesto para o norte. Não importa como esteja a concha, a ponta de ferro sempre encontra aquela direção. A visita deles dura três dias, e Uriel e o rei conversam longamente. Faço amizade com Arakiba, que atua como um conselheiro para Uriel, como eu faço para o rei. Arakiba me fala de sua terra, onde o fogo e o gelo convivem, e digo-lhe que gostaria de conhecer esse lugar.

 

Os Vigilantes é como Eginhardo chama os membros da Civili­zação Um disse ela. Os Sagrados é outro termo que ele usa. Ele e Carlos Magno pensavam que eles vinham dos céus.

Quem disse que eles não eram uma cultura cuja existência já conhecemos?

Sabe de alguma sociedade que usava um alfabeto ou língua como a que viu no livro de Dorothea?

Isso não é uma prova conclusiva.

Havia uma sociedade marítima no século IX? Só os vikings, mas esses não eram vikings.

Você não sabe quem eram.

Não, não sei. Mas sei que Carlos Magno ordenou que o livro que Dorothea lhe mostrou fosse enterrado com ele. Parece que era im­portante o suficiente para que ele o quisesse manter fora do alcance de todos, exceto dos imperadores. Eginhardo teve muito trabalho para esconder este livro. Basta dizer que há mais aqui que explica por que os nazistas foram para a Antártida em 1938 e por que nossos pais vol­taram lá em 1971.

A abadia já podia ser vista, ainda iluminada sobre o fundo sem li­mites na noite.

—            Estacione ali disse ela, ao que ele entrou e parou. Ainda não havia ninguém os seguindo.

Ela abriu a porta.

—            Deixe-me mostrar o que, tenho certeza, Dorothea não lhe mostrou.

 

         Washington, D.C.

         20h20

 

Ramsey adorava a noite. Todos os dias, por volta das 18 horas, ele se sentia reanimado; seus melhores pensamentos e suas ações mais deci­sivas sempre se formavam depois de escurecer. Dormir era necessário, ainda que nunca mais de quatro ou cinco horas — apenas o suficiente para descansar o cérebro, mas não para desperdiçar tempo. A noite também proporcionava privacidade, uma vez que era muito mais fácil saber se alguém estava interessado em seu negócio às 2 horas do que às 14 horas. Por isso ele só se encontrava com Diane McCoy à noite.

Ele morava numa casa alugada de um antigo amigo que gostava de ter um almirante de quatro estrelas como inquilino. Ramsey fazia uma varredura eletrônica nos dois andares em busca de aparelhos de monitoramento pelo menos uma vez por dia — especialmente antes de uma visita de Diane.

Ele tivera sorte de que Daniels a tivesse escolhido como conselhei­ra de segurança nacional. Ela certamente era qualificada, com diplo­mas em relações internacionais e economia global, além de ter contatos tanto na esquerda quanto na direita. Ela tinha vindo do Departamento de Estado como parte das mudanças repentinas no ano anterior, quan­do a carreira de Larry Daley terminara abruptamente. Ele gostava de Daley uma alma negociável —, mas Diane era melhor. Inteligente, ambiciosa e determinada a permanecer em cena por mais tempo do que os três anos restantes do último mandato de Daniels.

Felizmente, Ramsey podia oferecer essa chance a ela.

E ela sabia disso.

—            As coisas estão começando disse ele.

Estavam à vontade no escritório do apartamento dele, o fogo quei­mando na lareira de tijolos. Lá fora, a temperatura havia caído para uns 5 graus negativos. Sem neve ainda, mas estava a caminho.

—            Como sei pouco sobre o que são essas coisas disse Diane —, só posso presumir que são boas.

Ele sorriu.

—            E do seu lado? Pode fazer o encontro acontecer?

O almirante Sylvian não se foi ainda. Está estropiado por causa do acidente de moto, mas espera-se que se recupere.

Conheço David. Vai ficar afastado por meses. Não vai querer seu trabalho negligenciado durante esse tempo. Vai renunciar ao car­go. Fez uma pausa. Se não sucumbir antes.

Diane sorriu. Era uma loira serena com ar de competência e olhar que transmitia confiança. Ele gostava disso nela. Atitude modesta. Simples. Tranquila. No entanto, perigosa como uma cobra. Estava sen­tada, as costas retas na cadeira, saboreando um uísque com soda.

—            Quase chego a acreditar que você pode fazer a morte de Sylvian acontecer —- disse ela.

—            E se eu puder?

—            Então, você seria um homem digno de respeito. Ele riu.

—            O jogo em que estamos prestes a entrar não tem regras e o ob­jetivo é só um: ganhar. Portanto, quero saber sobre Daniels. Ele vai cooperar?

—            Isso vai depender de você. Você sabe que ele não é seu fã, mas sabe também que você está, sim, qualificado para o cargo. Presumindo-se, claro, que exista uma vaga a ser preenchida.

Ele notou a desconfiança dela. O plano inicial era simples: eliminar David Sylvian, assegurar a vaga dele entre os chefes do Estado-Maior Conjunto, servir por três anos, para depois começar a fase dois. Mas ele precisava saber:

Daniels vai seguir seu conselho?

Ela deu mais um gole.

Você não gosta de não estar no controle, não é?

Quem gosta?

- Daniels é o presidente. Pode fazer o que bem entender. Mas acho que o que ele fará, neste caso, depende de Edwin Davis. Ele não queria ouvir isso.

Como ele poderia ter influência nisso? É um vice-conselheiro.

Como eu?

Ele notou a indignação.

—            Sabe o que quero dizer, Diane. Como Davis poderia ser um problema?

Esse é o seu defeito, Langford. A tendência a subestimar o inimigo.

Por que Davis seria meu inimigo?

—            Eu li o relatório sobre o Blazek. Ninguém chamado Davis mor­reu naquele submarino. Ele mentiu para Daniels. Nenhum irmão mais velho foi morto.

Daniels sabe disso?

Ela balançou a cabeça.

Ele não leu o relatório do inquérito. Mandou que eu o lesse.

Você não pode controlar Davis?

—            Como você notou muito sabiamente, estamos no mesmo nível. Ele tem tanto acesso a Daniels quanto eu, mediante a ordem do presi­dente. É a Casa Branca, Langford. Eu não crio as regras.

E quanto ao conselheiro de segurança nacional? Alguma ajuda por ali?

Encontra-se na Europa e não está por dentro do assunto.

Acha que Daniels está trabalhando diretamente com Davis?

Como é que eu vou saber? Só sei que Danny Daniels não tem nem um pouco de burrice, que ele quer que todos acreditem que tem.

Ele olhou para o relógio sobre a lareira. Logo, as ondas aéreas esta­riam carregadas de notícias sobre a morte prematura do almirante de esquadra David Sylvian, atribuída a ferimentos sofridos num acidente trágico de motocicleta. Amanhã, mais uma morte em Jacksonville, Fló­rida, talvez fosse a notícia local. Muito estava acontecendo, e o que Diane dizia estava deixando-o aflito.

Envolver Cotton Malone nisso também poderia ser problemáti­co disse ela.

Como? O homem é reformado. Só quer saber sobre o pai.

Aquele relatório não deveria ter sido dado a ele.

Ele concordava, mas isso não deveria importar. Wilkerson e Malo­ne muito provavelmente estavam mortos.

Só usamos essa insensatez em nosso proveito.

Não faço idéia de como isso foi para o nosso proveito.

Apenas saiba que foi.

Langford, eu vou lamentar isso?

Esteja à vontade para ficar até o fim do mandato de Daniels e depois trabalhar para algum grupo de pesquisa, escrevendo relatórios que ninguém lê. Ex-funcionários da Casa Branca são muito bem-vistos nos cabeçalhos, e ouvi dizer que ganham bem. Talvez uma das redes a contrate para gravações de áudio de dez segundos sobre o que os ou­tros estão fazendo para mudar o mundo. Pagam bem também, mesmo que você pareça uma idiota na maior parte do tempo.

Como eu disse. Vou lamentar isso?

Diane, o poder tem de ser tomado. Não há outra maneira de adquiri-lo. Tem algo que você não me respondeu. Daniels vai cooperar e me nomear?

Li o relatório do Blazek disse ela. Também verifiquei algu­mas coisas. Você estava no Holden quando ele foi para a Antártida em busca daquele submarino. Você e outros dois. O alto escalão enviou sua equipe sob ordens confidenciais. Na verdade, essa missão ainda é confidencial. Não consigo descobrir nada sobre ela. Descobri, porém, que vocês desembarcaram e fizeram um relatório sobre o que encontraram, que foi entregue pessoalmente, por você, ao chefe de opera­ções navais. O que ele fez com a informação, ninguém sabe.

Não encontramos nada.

—            Você mente.

Ele analisou o ataque dela. Aquela mulher era formidável um animal político com excelentes instintos. Poderia ajudar e poderia pio­rar as coisas. Então, ele mudou de direção:

Tem razão. Estou mentindo. Mas, acredite em mim, não vai querer saber o que aconteceu de fato.

Não, não quero. Mas, o que quer que seja, poderá voltar para assombrá-lo.

Ele havia pensado a mesma coisa 38 anos antes.

—            Não se eu puder evitar.

Ela parecia estar contendo uma explosão de raiva ao vê-lo esqui­var-se das perguntas.

—            Sei por experiência, Langford, que o passado sempre encontra um meio de retornar. Os que não aprendem ou não conseguem lem­brar estão condenados a repeti-lo. Agora, você tem um ex-agente en­volvido... um ex-agente muito bom no que faz, devo acrescentar... que tem um envolvimento pessoal nessa confusão. E Edwin Davis está à solta. Não faço idéia do que ele esteja fazendo...

Ramsey ouvira o suficiente.

—            Você consegue cuidar de Daniels?

Ela hesitou, absorvendo a repreensão, e então disse, devagar:

—            Eu diria que tudo depende dos seus amigos no Capitólio. Da­niels precisa da ajuda deles em uma porção de coisas. Está fazendo o que todo presidente faz no final. Pensando no legado. Ele tem uma agenda legislativa; portanto, se os membros certos do Congresso qui­serem você entre os chefes do Estado-Maior Conjunto, ele vai conce­der isso a eles; em troca, é claro, de votos. As perguntas são fáceis. Haverá uma vaga a ser preenchida, e você consegue cuidar dos inte­grantes certos?

Ele dissera o suficiente. Havia coisas a fazer antes de ir dormir. Então, terminou a reunião com um recado que Diane McCoy não de­veria esquecer:

—            Os integrantes certos não só apoiarão minha candidatura como também insistirão nela.

 

         Mosteiro de Ettal

         1h05

 

Malone viu Christl Falk abrir a fechadura da porta da igreja da abadia. Era evidente que a família Oberhauser tinha influência considerável entre os monges. Era madrugada, e eles estavam circulando por onde bem entendessem.

A exuberante igreja permanecia pouco iluminada. Passaram pelo piso escuro de mármore, apenas com o som dos saltos de couro ecoando pelo interior aquecido. Os sentidos dele estavam alertas. Havia aprendido que, à noite, as igrejas europeias vazias costumavam ser um problema.

Entraram na sacristia, e Christl seguiu direto para o portal que le­vava às entranhas da abadia. No fim da descida da escada, a porta no final do corredor estava entreaberta.

Ele segurou-a pelo braço e balançou a cabeça, indicando que deve­riam seguir com cuidado. Pegou a arma do bonde e manteve-se próxi­mo à parede. Ao fim do corredor, espiou dentro da sala.

Estava tudo revirado.

— Será que os monges estão bravos? — disse ele.

As pedras e esculturas de madeira estavam espalhadas no chão; os mostruários, todos desarrumados. As mesas do outro lado estavam tombadas. Os dois armários tinham sido pilhados.

Então ele viu o corpo.

A mulher do bonde. Nenhum ferimento ou sangue visível, mas ele sentiu um odor familiar no ar parado.

Cianureto.

Ela foi envenenada?

Olhe para ela. Engasgou-se com a própria língua.

Malone viu que Christl não queria olhar para o corpo.

Não suporto isso — disse ela. — Cadáveres.

A mulher estava ficando perturbada, então ele perguntou:

—            Viemos para ver o quê?

Ela pareceu controlar as emoções e correu os olhos pelos escombros.

Não estão mais aqui. As pedras da Antártida que meu avô encontrou. Não estão aqui.

Malone também não as viu.

São importantes?

Têm as mesmas inscrições que o livro.

Diga algo que eu não saiba.

Isso não está certo — murmurou ela.

—            Pode-se dizer isso. Os monges vão ficar um pouco chateados, apesar da proteção da sua família.

Christl estava nitidamente perturbada.

Só viemos ver as pedras? — perguntou ele. Ela balançou a cabeça.

Não. Você está certo. Tem mais.

Ela se aproximou de um dos armários com adornos vistosos, as portas e gavetas abertas, e olhou dentro.

—            Minha nossa.

Malone se aproximou por trás dela e viu que um furo havia sido talhado no painel do fundo, a abertura estilhaçada grande o suficiente para uma mão passar.

—            Meu avô e meu pai guardavam os documentos aqui.

O que parece ter sido do conhecimento de alguém.

Christl pôs o braço.

Vazio.

Então, ela correu para a porta.

Aonde está indo? — perguntou ele.

Temos de correr. Só espero que não seja tarde.

 

Ramsey apagou as luzes do térreo e subiu para o quarto. Diane McCoy tinha ido embora. Diversas vezes ele pensara em ampliar a colabora­ção dos dois. Ela era atraente de corpo e mente. Mas decidira que não era uma boa idéia. Quantos homens de poder tinham sido arruinados por uma bunda? Tantos que nem dava para lembrar, e ele não preten­dia entrar para essa lista.

Era evidente que Diane estava preocupada com Edwin Davis. Ele conhecia Davis. Seus caminhos haviam se cruzado anos antes em Bruxelas, com Millicent, uma mulher com quem ele se divertira muitas vezes. Ela também era inteligente, jovem e impetuosa. Mas também...

Grávida — disse Millicent.

Ele tinha escutado da primeira vez.

O que quer que eu faça a respeito?

Casar-se comigo seria bom.

Mas eu não a amo.

Ela riu.

Você me ama, sim. Só não quer admitir.

—            Não, na verdade não amo. Gosto de dormir com você. Gosto de ouvi-la contar o que acontece no escritório. Gosto de provocar seu cérebro. Mas não quero me casar com você.

Ela se aconchegou, chegando mais perto.

—            Você sentiria minha falta se eu fosse embora.

Ele ficava impressionado com o modo como as mulheres aparentemen­te inteligentes podiam se importar tão pouco com seu amor-próprio. Ele havia batido naquela mulher mais vezes do que podia contar, e, no entan­to, ela nunca sumia, quase como se gostasse. Merecesse. Quisesse. Al­guns socos naquele exato momento fariam bem para os dois, mas ele decidiu que a paciência seria o melhor para ele. Então, abraçou-a com força e disse suavemente:

— Você tem razão. Eu sentiria sua falta.

Menos de um mês depois, ela estava morta.

Em uma semana, Edwin Davis também se fora.

Millicent contara-lhe que Davis sempre ia quando ela chamava e a ajudava a lidar com a rejeição constante. Por que ela confessava essas coisas, ele só podia imaginar. Era como se o fato de ele saber pudesse evitar que a machucasse novamente. Mas ele nunca para­va, e ela sempre o perdoava. Davis nunca disse uma palavra, mas Ramsey muitas vezes viu ódio no olhar do homem mais jovem, jun­to com a frustração que vinha de sua incapacidade de fazer qual­quer coisa a respeito. Davis era então um funcionário subalterno no Departamento de Estado em uma de suas primeiras missões estran­geiras, sendo seu trabalho resolver problemas, não criá-los — ficar de boca fechada e ouvidos abertos. Mas agora Edwin Davis era um dos vice-conselheiros de segurança nacional do presidente dos Es­tados Unidos. Outros tempos, outras regras. Ele tem tanto acesso a Daniels quanto eu, mediante a ordem do presidente. Era isso que Diane dissera. Ela estava certa. O que quer que Davis estivesse fazendo tinha a ver com Ramsey. Não havia provas para tal conclusão, apenas uma sensação, daquelas que ele aprendera havia muito tempo a não ignorar.

Portanto, Edwin Davis talvez tivesse de ser eliminado.

Assim como Millicent.

 

WILKERSON CAMINHOU COM DIFICULDADE PELA NEVE ATÉ ONDE DOROTHEA Lindauer havia estacionado o carro. O dele ainda estava em brasas. Dorothea parecia despreocupada com a destruição do chalé, embora, como dissera a ele semanas antes, a casa tivesse pertencido a sua famí­lia desde meados do século XIX.

Eles haviam deixado os corpos no meio do entulho. Vamos cuidar deles depois, falara Dorothea. Outras questões exigiam a atenção ime­diata dos dois.

Ele carregou a última caixa comprada em Füssen e a colocou no porta-malas. Estava cansado do frio e da neve. Gostava do sol e do calor. Teria sido muito melhor como romano do que como viking.

Abriu a porta do carro e colocou os membros cansados para den­tro, atrás do volante. Dorothea já estava no banco do passageiro.

—            Agora disse ela.

Ele olhou para o relógio luminoso e calculou a diferença de horá­rios. Não queria fazer a ligação.

Depois.

Não. Ele precisa saber.

Por quê?

—            Homens como ele têm de ser mantidos fora de equilíbrio. As­sim, cometerá erros.

Ele estava dividido entre a confusão e o medo.

—            Acabei de escapar de um assassinato. Não estou no clima para isso.

Ela tocou o braço dele.

—            Sterling, me ouça. Isso está em andamento. Não há como parar. Diga a ele.

Ele mal enxergava o rosto dela no escuro, mas, mentalmente, visua­lizava sua beleza intensa com facilidade. Era uma das mulheres mais deslumbrantes que conhecera. Inteligente também. Havia acertado na previsão de que Langford Ramsey era uma cobra.

E também acabara de salvar sua vida.

Então, ele pegou o celular e discou o número. Forneceu seu código de segurança e a senha do dia para a telefonista do outro lado da linha. Em seguida, disse o que queria.

Dois minutos depois, Langford Ramsey estava na linha.

—            É muito tarde aí onde você está — disse o almirante, num tom amigável.

—            Seu cretino patético. Você é um mentiroso de merda.

Um momento de silêncio, e depois:

—            Imagino que haja um motivo para falar com um oficial superior dessa forma.

Eu sobrevivi.

Sobreviveu a quê?

O tom de pilhéria o confundiu. Mas por que Ramsey não iria mentir?

—            Você mandou um grupo para me apagar.

Garanto-lhe, comandante, que se eu o quisesse morto, você já estaria. Você deveria estar mais preocupado com quem parece estar querendo matá-lo. Talvez Frau Lindauer? Eu o enviei para fazer con­tato, para conhecê-la, descobrir o que eu precisava saber.

—            E fiz exatamente o que me instruiu. Eu queria a maldita estrela.

—            E terá, conforme prometido. Mas conseguiu alguma coisa? No silêncio do carro, Dorothea escutara Ramsey. Pegou o telefone e disse:

Você é um mentiroso, almirante. É você quem quer que ele morra. E eu diria que ele conseguiu muita coisa.

Frau Lindauer, é tão bom finalmente falar com você — ele ou­viu Ramsey dizer.

Diga, almirante, por que se interessa por mim?

Não por você. Por sua família.

Sabe sobre meu pai, não sabe?

Estou a par da situação.

—            Sabe por que ele estava naquele submarino.

—            A pergunta é: por que você está tão interessada? Sua família tem buscado fontes dentro da Marinha por anos. Achou que eu não soubesse disso? Eu simplesmente lhe enviei uma.

Nós sabíamos que havia mais — disse ela.

Infelizmente, Frau Lindauer, nunca saberá a resposta.

Não tenha certeza disso.

Que ameaça. Estou ansioso para ver se vai cumprir esse voto.

Que tal responder a uma pergunta? Ramsey deu uma risadinha.

OK, uma pergunta.

Há alguma coisa a ser encontrada lá?

Wilkerson ficou confuso com a pergunta. Alguma coisa a ser en­contrada onde?

—            Você não pode imaginar — disse Ramsey.

E a ligação foi interrompida.

Ela entregou o telefone a ele, que perguntou:

—            O que você quis dizer? Alguma coisa a ser encontrada lá.

Ela se recostou no assento. A neve cobria a parte externa do carro.

Eu estava com medo disso — murmurou ela. — Infelizmente, todas as respostas estão na Antártida.

O que está procurando?

Preciso ler o que está no porta-malas para poder lhe dizer isso. Ainda não tenho certeza.

Dorothea, estou jogando no lixo toda a minha carreira, toda a minha vida, por isso. Você ouviu Ramsey. Ele pode não estar atrás de mim.

Ela ficou rígida, sem fazer um movimento.

Você estaria morto agora se não fosse por mim. — Ela virou a cabeça para ele. — Sua vida está presa à minha.

E vou dizer mais uma vez. Você tem um marido.

—            Werner e eu acabamos. Terminamos há muito tempo. Agora, somos eu e você.

Ela tinha razão, e ele sabia disso. O que, ao mesmo tempo, o inco­modava e excitava.

O que vai fazer? perguntou ele.

Algo muito importante para nós dois, espero.

 

         Baviera

 

Malone examinou o castelo pelo para-brisa, uma construção imponente agarrada a uma encosta muito íngreme. Lucarnas, janelas com mainel e graciosas sacadas envidraçadas brilhavam na noite. Lâmpadas em arco conferiam uma suave beleza medieval aos mu­ros. Algo que Lutero dissera certa vez sobre outra cidadela alemã lhe veio à mente. Fortaleza poderosa é nosso Deus, um baluarte que nunca cede.

Ele dirigia o carro alugado, com Christl Falk no banco do passa­geiro. Eles haviam saído do mosteiro de Ettal às pressas e penetrado os bosques bávaros congelados, seguindo uma rodovia abandonada, livre de trânsito. Finalmente, após um percurso de quarenta minu­tos, o castelo surgiu, e ele entrou com o carro, estacionando no pátio. No alto, espalhada por um céu azul-escuro, cintilava a luminosidade de estrelas faiscantes.

—            Esta é a nossa casa disse Christl, enquanto saíam. A pro­priedade dos Oberhauser. Reichshoffen.

—            Esperança e império traduziu ele. Nome interessante.

—            O lema da nossa família. Ocupamos o topo desta colina há mais de setecentos anos.

Ele examinou o cenário de ordem, meticuloso nas combinações e neutro nas cores, rompida apenas por manchas de neve que escorriam pelas pedras antigas.

Ela se virou para o outro lado, e ele a segurou pelo pulso. Mulheres bonitas eram difíceis, e essa desconhecida realmente era linda. Pior ainda, estava manipulando-o, e ele sabia disso.

—            Por que seu nome é Falk e não Oberhauser? perguntou, ten­tando desconcertá-la.

Ela olhou para o próprio braço. Ele a soltou.

Um casamento que foi um erro.

Sua irmã. Lindauer. Ainda casada?

—            Sim, embora eu não possa dizer que seja exatamente um casa­mento. Werner gosta do dinheiro dela, e ela gosta de estar casada. Dá a ela uma desculpa para que seus amantes jamais passem desse status.

Vai me contar por que vocês não se dão?

Ela sorriu, o que só aumentava seu magnetismo.

Depende de se você concorda em ajudar.

Sabe por que estou aqui.

Seu pai. É por isso que estou aqui também.

Ele duvidava disso, mas decidiu parar de enrolar.

Então, vamos ver o que é tão importante.

Entraram pelo portal em arco. A atenção dele foi atraída para uma tapeçaria imensa que cobria a parede ao fundo. Mais um desenho es­quisito, este bordado em ouro sobre um fundo castanho e marinho.

Ela notou o interesse dele.

—            O timbre de nossa família.

Ele examinou a imagem. Uma coroa posicionada acima de um de­senho icônico de um animal talvez um cachorro ou um gato, difícil saber segurando na boca o que parecia ser um roedor.

—            O que significa?

—            Nunca me deram uma boa explicação. Mas um de nossos an­cestrais gostava, então mandou fazerem a tapeçaria e pendurarem ali.

Ele ouviu o ronco abafado de um motor lá fora, acelerando no pá­tio. Pela porta aberta, viu um homem sair de um Mercedes de duas portas com uma arma automática.

Malone reconheceu o rosto.

O mesmo que estivera em seu quarto, mais cedo, no Posthotel.

Mas que diabos?

O homem apontou a arma.

Ele empurrou Christl para trás, enquanto descargas de alta veloci­dade zuniam pela porta e destruíam uma mesa encostada na parede ao fundo do salão. Ao lado, o vidro de um relógio de chão adjacente foi estilhaçado. Eles correram, Christl na frente. Mais balas bombardea­ram a parede atrás de Malone.

Ele pegou a arma do bonde, enquanto eles viravam para a entrada de um corredor curto que terminava em um salão grandioso.

Malone examinou rapidamente o local e viu uma sala quadrangular, adornada com colunatas que subiam dos quatro lados, formando lon­gas galerias acima e abaixo. Do outro lado, iluminado por arranjos-incandescentes fracos, estava o símbolo do antigo Império Alemão um estandarte preto, vermelho e dourado, ornado com uma águia. Abaixo, a abertura negra de uma lareira de pedra, grande o suficiente para con­ter várias pessoas de pé em seu interior.

—            Vamos nos separar disse ela. Suba.

Antes que ele pudesse contestar, ela se precipitou na escuridão.

Ele viu uma escada que ia dar na galeria do segundo andar e se­guiu com cuidado na direção do primeiro degrau. A escuridão entor­peceu seus olhos. Havia nichos por toda parte, lacunas escuras onde, ele ficou preocupado, mais algum empregado mal-intencionado pode­ria estar à espera.

Subiu as escadas e entrou na galeria superior, sendo envolvido pela escuridão, vagando a alguns metros da balaustrada. Um vulto entrou no salão abaixo, iluminado por trás pela luz enviesada do cor­redor. Dezoito cadeiras cercavam uma mesa de jantar maciça. Seus encostos, dourados e rígidos, pareciam soldados enfileirados, exceto por duas, sob as quais Christl parecia ter se escondido, uma vez que não podia ser vista.

Uma risada permeou o silêncio.

—            Você está morto, Malone. Fascinante.

O homem sabia seu nome.

—            Venha me pegar — gritou ele, sabendo que o salão geraria um eco e tornaria impossível sua localização.

Ele viu o homem esquadrinhar a escuridão, vistoriando os arcos, notando uma fornalha de azulejo num canto, a mesa maciça e um can­delabro de bronze que pairava acima de tudo.

Malone atirou para baixo.

Abala não acertou o alvo.

Passos aceleraram na direção da escadaria.

Malone correu para a frente, contornou uma parede e diminuiu a velocidade ao encontrar a galeria oposta. Não ouviu nenhum passo vindo de trás, mas o atirador certamente estava lá.

Olhou para a mesa abaixo. Duas cadeiras permaneciam fora do lugar. Uma outra tombou para trás e bateu no chão, fazendo o baque surdo ressoar pelo salão.

Uma saraivada de balas, vinda do outro lado da galeria superior, despencou sobre o tampo da mesa, destruindo-o. Por sorte, a madeira espessa da base aguentou a investida. Malone atirou para o outro lado da galeria, onde os flashes da boca da arma tinham aparecido. Os dispa­ros agora vieram na direção dele, ricocheteando nas pedras atrás de si.

Seus olhos vasculhavam a escuridão, tentando ver onde o agres­sor poderia estar. Ele havia tentado desviar a atenção, chamando-o, mas Christl Falk, de propósito ou não, arruinara o esforço. Atrás dele, havia mais nichos negros pela parede. A frente estava igual­mente deserta. Notou um movimento do outro lado — uma forma indo em sua direção. Ele se agarrou à escuridão, agachando-se e avançando lentamente, virando à esquerda para atravessar o lado mais curto do salão.

O que estava acontecendo? Aquele homem tinha ido até ali atrás dele.

De repente Christl apareceu lá embaixo, no centro do salão, parada na fraca luminosidade.

Malone não se mostrou. Em vez disso, entrou nas sombras, abra­çou um dos arcos e espiou por trás.

—            Apareça — gritou Christl. Nenhuma resposta.

Malone abandonou sua posição e moveu-se mais rápido, tentando voltar por trás do atirador.

—            Olhe, estou indo embora. Se quiser me parar, sabe o que terá de fazer.

—            Isso não é nada inteligente — disse um homem.

Malone parou atrás de outra quina. À frente, no meio da galeria, estava o agressor, olhando para o outro lado. Malone olhou rapida­mente para baixo e viu que Christl ainda estava lá.

Uma excitação fria estabilizou seus nervos.

A sombra diante dele ergueu a arma.

— Onde ele está? — perguntou o homem. Mas ela não respon­deu. — Malone, apareça, ou ela está morta.

Malone apareceu aos poucos, a arma apontada, e disse:

—            Estou bem aqui.

A arma do homem permaneceu apontada para baixo.

Ainda posso matar Frau Lindauer disse ele calmamente. Malone percebeu o erro, mas deixou claro:

Atiro em você muito antes de conseguir puxar esse gatilho.

O homem pareceu pensar no dilema e virou-se lentamente na dire­ção de Malone. Em seguida, seus movimentos se aceleraram, enquan­to ele tentava virar o fuzil, apertando o gatilho ao mesmo tempo. Balas silvaram pelo salão. Malone estava prestes a atirar, quando outra res­posta mais rápida bateu nas paredes com um estrondo.

A cabeça do homem foi jogada violentamente para trás, e ele parou de atirar.

Seu corpo voou para longe do corrimão. Pernas oscilaram, sem equilíbrio.

Um grito, curto e assustado, foi sufocado até silenciar, quando o atirador desabou no chão. Malone baixou a arma. O topo do crânio do homem fora arrancado. Ele se aproximou do corrimão.

Lá embaixo, ao lado de Christl Falk, estava um homem alto e ma­gro, com um fuzil apontado para cima. Do outro lado, uma senhora, que disse a ele:

Ficamos gratos por tê-lo distraído, Herr Malone.

—            Não era necessário atirar.

A mulher mais velha fez um sinal, e o homem baixou o fuzil.

—            Achei que fosse disse ela.

 

Malone desceu a escada até o térreo. O outro homem e a senhora ainda estavam com Christl Falk.

—            Este é Ulrich Henn disse Christl. Trabalha para a nossa família.

E o que ele faz?

Cuida deste castelo disse a senhora. É o camarista-chefe.

E quem é você? perguntou ele.

Ela ergueu as sobrancelhas, parecendo divertir-se, e deu-lhe um sorriso meio desdentado. Tinha uma magreza anormal, quase pare­cendo um pássaro, com cabelo brilhante, meio dourado, meio grisa­lho. Veias bifurcadas marcavam seus braços delgados, e manchas senis cobriam-lhe os pulsos.

—            Sou Isabel Oberhauser.

Embora os lábios parecessem receptivos, seu olhar era mais incerto.

—            Devo ficar impressionado?

Sou a matriarca desta família. Ele apontou para Ulrich Henn.

Você e seu empregado acabaram de matar um homem.

—            Que entrou em minha casa ilegalmente, com uma arma, tentan­do matar você e minha filha.

—            E vocês, por acaso, tinham um fuzil à mão, além de uma pessoa capaz de estourar a cabeça de um homem a 15 metros de distância num salão mal iluminado.

—            Ulrich é um excelente atirador.

Henn não disse nada. Parecia saber qual era o seu lugar.

—            Eu não sabia que eles estavam aqui — disse Christl. — Tinha a impressão de que minha mãe estava fora. Mas quando a vi entrar no salão com Ulrich, sinalizei para ele ficar pronto, enquanto atraía a atenção do atirador.

Burrice.

Parece que funcionou.

E também fez com que ele descobrisse algo sobre aquela mulher. Manter-se firme diante de armas exigia coragem. Mas ele não sabia se ela era inteligente, corajosa ou idiota.

—            Não conheço muitos acadêmicos que fariam o que você fez. — Ele encarou a Oberhauser mais velha. — Precisávamos daquele ati­rador vivo. Ele sabia meu nome.

—            Também notei isso.

Preciso de respostas, não de mais enigmas, e o que fizeram complicou uma situação já atrapalhada.

Mostre a ele — Isabel disse à filha. — Depois, Herr Malone, você e eu podemos ter uma conversa em particular.

Ele seguiu Christl de volta ao salão principal, depois para o andar de cima, para dentro de um dos quartos onde, num canto distante, uma fornalha colossal de azulejo marcada com a data de 1651 esten­dia-se até o teto.

—            Este foi o quarto de meu pai e de meu avô.

Ela entrou num nicho em que um banco decorativo projetava-se sob uma janela com mainel.

— Meus ancestrais, que construíram Reichshoffen no século XIII, ti­nham obsessão pela ideia de ficarem presos. Então, todos os quartos ti­nham pelo menos duas saídas, e este não era exceção. Na verdade, foi equipado com o que era considerado o máximo em segurança na época.

Ela aplicou pressão num dos rejuntes de argamassa, e uma seção da parede se abriu, revelando uma escada em espiral que descia em sentido anti-horário. Quando apertou um interruptor, uma série de lâmpadas de baixa voltagem iluminou a escuridão.

Ele a seguiu na descida. No fim da escada, ela ligou outro interruptor.

Ele reparou no ar. Seco, quente, climatizado. O piso era de ardósia cinza, modelada por linhas finas de reboco preto. As paredes de pedra áspera rebocadas, também pintadas de cinza, mostravam evidências de que tinham sido talhadas no leito de rocha séculos antes.

A câmara fazia um caminho sinuoso, em que um cômodo dissol­via-se no outro, formando um pano de fundo para alguns objetos incomuns. Havia bandeiras alemãs, estandartes nazistas, até uma réplica de um altar da SS, totalmente preparado para as cerimônias de batis­mo de crianças que ele sabia serem comuns nos anos 1930. Incontáveis estatuetas, um conjunto de soldados de brinquedo disposto sobre um mapa colorido da Europa do início do século XX, capacetes nazistas, espadas, adagas, uniformes, boinas, jaquetas, pistolas, fuzis, gorjais, bandoleiras, anéis, jóias, manoplas e fotografias.

Foi assim que meu avô passou o tempo depois da guerra: acu­mulando essas coisas.

Parece um museu nazista.

O descrédito de Hitler o magoou profundamente. Ele serviu muito bem ao desgraçado, mas nunca conseguiu entender que não sig­nificava nada para os socialistas. Durante seis anos, até a guerra acabar, tentou de todas as formas que pôde voltar a agradá-los. Até perder a sanidade totalmente nos anos 1950, ficou colecionando tudo isso.

Isso não explica por que a família manteve essas coisas.

Meu pai respeitava o pai. Mas poucas vezes estivemos aqui embaixo.

Ela o levou até uma mesa de mostruário com tampa de vidro. No interior, Christl apontou para um anel de prata, com runas da SS re­presentadas de um jeito que ele nunca havia visto. Em letras cursivas, quase em itálico.

—            Estão na verdadeira forma alemã, como nos escudos nórdicos antigos. Apropriado, porque esses anéis só eram usados pela Ahnenerbe. Ela chamou a atenção de Malone para outro item na cai­xa. O distintivo com a runa de Odal e a suástica de hastes curtas também era só para a Ahnenerbe. Meu avô as desenhou. O alfinete de gravata é bastante especial, uma representação da sagrada Irminsul, ou Árvore da Vida dos saxões. Imaginava-se que ficava no alto do Externsteine, em Detmold, e que foi destruída por Carlos Magno em pessoa, o que deu início às grandes guerras entre saxões e francos.

Você fala dessas relíquias quase com reverência.

Falo? Ela pareceu perplexa.

—            Como se significassem algo para você. Ela deu de ombros.

—            São simplesmente lembranças do passado. Meu avô fundou a Ahnenerbe por razões puramente culturais, mas ela evoluiu para algo totalmente diferente. Seu Instituto para Pesquisas Científicas Militares conduziu experimentos impensáveis com prisioneiros de campos de concentração. Câmaras de vácuo, hipotermia, testes de coagulação de sangue. Coisas horríveis. Seus Estudos Aplicados da Natureza cria­ram uma coleção de ossos de judeus, homens e mulheres assassinados cujos corpos eram expostos a um método de putrefação para produzir esqueletos limpos. Vários dos membros da Ahnenerbe acabaram en­forcados por crimes de guerra. Muitos outros foram presos. Tornou-se algo abominável.

Ele a observou atentamente.  

Meu avô não participou de nenhum deles disse ela, lendo o pensamento dele. Tudo isso aconteceu depois que ele foi demitido e humilhado em público. Ela hesitou. Muito depois que ele im­pôs a si mesmo este lugar e a abadia, onde trabalhava sozinho.

Pendurada ao lado do estandarte da Ahnenerbe, havia uma tape­çaria que tinha a mesma Árvore da Vida do alfinete de gravata. Uma escrita na parte de baixo chamou sua atenção. Nenhum povo vive além da documentação de sua cultura.

Ela viu seu interesse.

Meu avô acreditava nessa afirmação.

E você?

Ela fez que sim.

—            Acredito.

Malone ainda não entendia por que a família Oberhauser havia preservado aquela coleção numa sala climatizada, sem um sinal de poeira em lugar algum. Mas podia entender um dos motivos declara­dos por ela. Ele também respeitava o pai. Embora o homem tivesse fi­cado ausente por boa parte da infância de Malone, ele se lembrava dos momentos que haviam passado juntos, jogando bola, nadando ou fa­zendo tarefas da casa. Ficara furioso durante anos depois que o pai morrera, por ter sido privado de algo que os amigos, que tinham pai e mãe, consideravam elementar. Sua mãe nunca o deixou esquecer o pai, mas, à medida que ele cresceu, percebeu que sua memória talvez tivesse saturado. Ser esposa de um oficial da Marinha era uma atribui­ção difícil, assim como ser esposa de um agente do Setor Magalhães acabara sendo árduo demais para sua ex.

Christl guiou o caminho pelas peças em exibição. Cada curva reve­lava mais da paixão de Hermann Oberhauser. Ela parou diante de mais um armário de madeira com pintura vistosa, semelhante à da abadia. De dentro de uma das gavetas, ela retirou uma única página revestida por uma capa plástica grossa.

—            Este é o testamento original de Eginhardo, encontrado por meu avô. Havia uma cópia na abadia.

Ele examinou o que parecia ser um pergaminho, a escrita compri­mida em latim, a tinta desbotada para um cinza pálido.

— No verso está a tradução para o alemão — disse ela. — O últi­mo parágrafo é o importante.

 

Em vida, meu juramento foi dado ao mais piedoso soberano Carlos, imperador e augusto, o que exigiu que eu evitasse qualquer menção ao Tártaro. Um relato completo do que sei foi colocado com reverência jun­to ao soberano Carlos no dia em que ele morreu. Se algum dia aquele túmulo sagrado for aberto, as páginas não deverão ser divididas nem separadas, mas saibam que o soberano Carlos as teria concedido ao imperador sagrado que então possuísse a coroa. Ler tais verdades seria revelador demais, e, após considerações posteriores de piedade e pru­dência, especialmente desde que testemunhei a profunda desconsidera­ção que o soberano Luís demonstrou pelos grandiosos esforços de seu pai, condicionei a leitura dessas palavras ao conhecimento de duas ou­tras verdades. À primeira concedo por meio desta ao meu filho, que é orientado a salvaguardá-la para seu filho, e ao filho de seu filho, em se­guida, até a eternidade. Guarde-a com afeto, pois foi escrita na língua da Igreja e é de fácil compreensão, mas sua mensagem não está completa. A segunda, que concederia uma compreensão plena da sabedoria dos céus que se encontra com o soberano Carlos, começa na nova Jerusalém. As revelações lá serão esclarecidas uma vez que o segredo daquele local extraordinário seja decifrado. Esclareça esta busca por meio do emprego da perfeição do anjo à santificação do soberano. Mas apenas os que apreciam o trono de Salomão e a frivolidade romana encontrarão o ca­minho para os céus. Esteja prevenido, pois nem eu nem os Sagrados te­mos paciência com a ignorância.

— É disso que lhe falei — disse ela. — Karl der Große Verfolgung. A busca de Carlos Magno. É o que temos de decifrar. É o que Otto III e todos os soberanos do Sacro Império Romano que o seguiram não con­seguiram descobrir. Resolver esse enigma nos levará ao que nossos pais estavam buscando na Antártida. Ele balançou a cabeça.

Você disse que seu avô foi e trouxe coisas de lá. Obviamente, ele decifrou o enigma. Não deixou a resposta?

Não deixou nada registrado sobre como ou o que descobriu. Como eu disse, cedeu à senilidade e tornou-se inútil depois disso.

—            E por que isso se tornou tão importante agora? Ela hesitou antes de responder:

Nem meu avô nem meu pai ligavam muito para negócios. O mundo era o que lhes interessava. Infelizmente, meu avô viveu num tempo em que idéias controversas eram banidas. Então, ele foi forçado a trabalhar sozinho. Meu pai era um sonhador incorrigível sem capa­cidade de realizar nada.

Aparentemente, ele conseguiu chegar à Antártida a bordo de um submarino norte-americano.

—            O que suscita uma questão.

—            Por que o governo norte-americano estava tão interessado, a ponto de colocá-lo naquele submarino?

Ele sabia que parte disso poderia ser explicada pela época. Os Es­tados Unidos nas décadas de 1950, 1960 e 1970 realizavam uma série de investigações pouco convencionais. Coisas como paranormalidade, percepção extrassensorial, controle da mente, ovnis. Todos os ângulos eram explorados na esperança de encontrar uma vantagem sobre os soviéticos. Teria isso sido mais uma dessas tentativas?

—            Eu tinha esperança disse ela de que você pudesse me ex­plicar isso.

Mas ele ainda estava esperando uma resposta para a sua indaga­ção. Então, perguntou novamente:

Por que tudo isso é importante agora?

—            Poderia significar muito. Na verdade, poderia literalmente mu­dar o nosso mundo.

Atrás de Christl, apareceu a mãe. A mulher idosa andou lenta­mente até onde eles estavam, sem emitir som algum com seus passos cautelosos.

—            Deixe-nos a sós ordenou ela à filha. Christl saiu, sem dizer uma palavra.

Malone ficou parado, segurando o testamento de Eginhardo. Isabel endireitou as costas.

—            Você e eu temos coisas a discutir.

 

         JACKSONVILLE, FLÓRIDA

         1H20

 

CHARLIE SMITH AGUARDAVA DO OUTRO LADO DA RUA. UM ÚLTIMO COMPROMISSO antes de terminar sua noite de trabalho.

O capitão de fragata Zachary Alexander, reformado da Marinha dos Estados Unidos, passara os últimos trinta anos sem fazer nada além de reclamar. O coração. O baço. O fígado. Os ossos. Nenhuma parte do corpo escapara aos exames minuciosos. Doze anos antes, ele se convencera de que precisava extrair o apêndice, até um médico lembrá-lo de que seu apêndice já tinha sido removido havia dez anos. Tendo sido fumante de um maço por dia no passado, tivera certeza, três anos antes, de que estava com câncer de pulmão. Mas testes seguidos não revelaram nada. Recentemente, o câncer de próstata se transformara em mais uma de suas aflições obsessivas, e ele havia passado semanas ten¬tando convencer os especialistas de que tinha sido acometido.

Esta noite, no entanto, todas as preocupações médicas de Zachary Alexander acabariam.

Decidir como realizar essa tarefa da melhor maneira tinha sido difícil. Uma vez que praticamente todas as partes do corpo de Alexander tinham sido exaustivamente examinadas, era quase certo que uma morte médica levantaria suspeitas. Violência estava fora de questão, por sempre chamar a atenção. Mas o arquivo sobre Alexander indicava:

 

Mora sozinho. Cansada das reclamações incessantes, a esposa divorciou-se dele anos atrás. Os filhos raramente o visitam, perdem a paciência também. Nunca recebe visita de mulheres. Considera sexo desagradável e infeccioso. Declara que parou de fumar há anos, mas quase toda noite, geralmente na cama, gosta de um charuto. De uma marca forte, importada, encomendada especialmente por uma tabacaria em Jacksonville (endereço ao final). Fuma pelo menos um por dia.

 

Esse bocado tinha sido suficiente para despertar a imaginação de Smith, e, ligado a alguns outros pedacinhos do arquivo, ele finalmente delineara o meio para a morte de Zachary Alexander.

Smith partira de avião de Washington, D.C., para Jacksonville num vôo noturno, depois seguira as indicações do arquivo e estacionara a cerca de 400 metros da casa de Alexander. Vestira um colete jeans, pegara uma sacola de lona do banco de trás do carro alugado e caminhara pela via.

Havia apenas algumas casas na rua calma.

No arquivo, estava escrito que Alexander tinha sono pesado e roncava, uma anotação que informava a Smith que um estrondo poderia ser ouvido mesmo de fora da casa.

Entrou no quintal.

Um barulhento compressor de ar central rugia de um lado da casa, aquecendo o interior. A noite estava fria, mas sensivelmente menos gelada que na Virgínia.

Aproximou-se com cuidado de uma das janelas laterais e hesitou até ouvir o ronco rítmico de Alexander. Um par de luvas de látex novo já lhe cobria as mãos. Colocou a sacola de lona no chão devagar. Tirou de dentro dela uma pequena mangueira de borracha com uma ponta de metal oca. Com cuidado, examinou a janela. Exatamente como o arquivo havia indicado, um isolamento de silicone selava os dois lados, num remendo feito de qualquer jeito.

Perfurou a selagem com a ponta de metal, depois retirou da sacola um pequeno cilindro de pressão. O gás era uma mistura nociva que muito tempo antes ele descobrira que conferia um estado de inconsciência profunda, sem nenhum efeito residual no sangue ou nos pulmões. Conectou a mangueira ao orifício de escape, abriu a válvula e deixou as substâncias químicas invadirem a casa em silêncio.

Dez minutos depois, o ronco diminuiu.

Ele fechou a válvula, soltou o tubo e colocou tudo de volta na sacola. Embora tivesse ficado um pequeno buraco no silicone, não se preocupou. A minúscula evidência condenatória logo desapareceria.

Foi andando até o quintal dos fundos.

No meio do caminho, largou a sacola de lona, puxou uma porta num bloco de cimento no chão e desceu. Um conjunto de fios elétricos espalhava-se pelo subsolo. O arquivo mostrava que Alexander, um hipocondríaco inveterado, também era sovina. Alguns anos antes, pagara alguns dólares a um vizinho para adicionar uma tomada no quarto, além de instalar uma linha direta do disjuntor até o compressor de ar externo.

Nada havia sido feito conforme as normas.

Smith encontrou a caixa de disjuntores mencionada no arquivo e desparafusou a placa da tampa. Em seguida, desatou a rede de 220 volts, interrompendo a conexão e silenciando o compressor. Hesitou ansioso por alguns segundos, apurando os ouvidos, caso Alexander tivesse escapado dos efeitos do gás. Mas nada perturbava a noite.

De outro bolso do colete, tirou uma faca e descascou a fita isolante que protegia os fios elétricos que entravam e saíam do disjuntor. Quem quer que tivesse realizado o trabalho não havia revestido os fios — sua desintegração seria facilmente atribuída à falta de conduíte —, então ele teve o cuidado de não cortar demais.

Guardou a faca.

De outro bolso do colete, retirou um saco plástico. Dentro havia um material semelhante a argila e um conector de cerâmica. Fixou o conector nos parafusos dentro da caixa de disjuntores. Antes de religar o circuito, vedou a caixa com a massa, grudando as bolas de argila ao longo dos fios expostos. Na sua forma atual, o material era inofensivo, mas, uma vez aquecido à temperatura necessária pelo tempo necessário, evaporaria e derreteria a fita isolante que restava. O calor requerido para causar a explosão sairia do conector de cerâmica. Alguns minutos seriam necessários para que a corrente aquecesse o conector até a temperatura certa, mas assim estava ótimo.

Ele precisava de tempo para sair.

Apertou os parafusos.

O compressor ganhou vida.

Deliberadamente, não recolocou a tampa da caixa, enfiando-a num dos bolsos do colete.

Examinou seu trabalho. Tudo parecia estar em ordem. Como acontece com o papel flash dos mágicos, uma vez que o conector e a argila pegassem fogo, ambos se tornariam um gás abrasador, produzindo calor intenso. Eram materiais engenhosos, usados por colegas que se especializaram mais em incêndios comerciais do que em assassinato, embora algumas vezes, como nesta noite, os dois pudessem ser a mesma coisa.

Ele saiu de debaixo da casa, colocou a porta de volta no lugar e pegou a sacola de lona. Verificou o chão para se certificar de que não restara nada que pudesse trair sua presença e voltou à janela lateral.

Usando a lanterna de bolso, espiou dentro do quarto através de uma tela encardida. Havia um cinzeiro e um charuto na mesa de cabeceira de Alexander. Perfeito. Se "curto-circuito" não fosse suficiente, "fumar na cama" certamente poderia ser usado por qualquer investi¬gador do incêndio para arquivar o caso.

Ele retornou à rua. No mostrador luminoso de seu relógio de pulso era 1h35.

Ele passava muito tempo fora à noite. Anos antes, comprara um guia dos planetas e estrelas e aprendera sobre o céu. Era bom ter hobbies. Nessa noite, reconheceu Júpiter brilhando forte no céu ocidental.

Cinco minutos se passaram. Um clarão vazou de debaixo da casa quando o conector e, depois, o explosivo de argila foram incinerados. Ele imaginou a cena dos fios descascados unindo-se à conspiração, a corrente elétrica agora alimentando o fogo. A casa com estrutura de madeira tinha bem mais de 30 anos, e, como gravetos sob toras secas, o fogo espalhou-se rapidamente. Em minutos, toda a estrutura estava encoberta pelas chamas.

Zachary Alexander, no entanto, nunca saberia o que aconteceu.

Seu sono forçado não seria interrompido. Seria asfixiado antes que as chamas carbonizassem seu corpo.

 

         BAVIERA

 

MALONE OUVIA ISABEL OBERHAUSER.

—            Eu me casei com meu marido há muito tempo. Mas, como pode ver, ele e o pai guardavam segredos.

—            Seu marido também era nazista?

Ela balançou a cabeça.

—            Simplesmente acreditava que a Alemanha nunca mais foi a mesma depois da guerra. Ouso dizer que estava certo.

Não responder a perguntas parecia ser de família. Isabel o examinou com um olhar calculista, e ele notou um tremor no olho direito da mulher. A respiração dela produzia um chiado leve, e apenas o tique-taque de um relógio em algum lugar próximo perturbava a tranquilidade inebriante.

—            Herr Malone, infelizmente, minhas filhas não têm sido honestas com você.

—            É a primeira coisa que ouço hoje com que concordo.

—            Desde que meu marido morreu, supervisiono os bens da família. É uma tarefa enorme. Nossas extensas propriedades são de posse exclusiva da família. Infelizmente, não há mais Oberhausers. Minha sogra era uma incompetente incorrigível que, por misericórdia, morreu alguns anos depois de Hermann. Todos os outros parentes próximos pereceram na guerra ou morreram nos anos seguintes. Meu marido controlava a família quando estava vivo. Era o último filho de Hermann. O próprio Hermann perdeu completamente a sanidade em meados da década de 1950. Hoje, chamamos de Alzheimer, mas na época era apenas senilidade. Toda família briga por seus direitos de herança, e chegou a hora de minhas filhas tomarem o controle desta família. Os bens dos Oberhauser nunca foram divididos. Sempre havia filhos. Mas meu marido e eu tivemos filhas. Duas mulheres fortes, diferentes uma da outra. Para provarem seu valor, para forçá-las a aceitar a realidade, elas estão envolvidas numa busca.

—            Isto é um jogo?

Isabel franziu as sobrancelhas.

—            De modo algum. É uma busca pela verdade. Meu marido, embora eu o amasse muito, foi, como o pai, consumido pela insensatez. Hitler rejeitou Hermann em público, e essa rejeição, acredito, contribuiu para sua decadência mental. Meu marido foi igualmente fraco. Tinha dificuldade em tomar decisões. É triste, mas a vida toda mi-nhas filhas brigaram uma com a outra. Nunca foram amigas. O pai delas era uma fonte desses atritos. Dorothea manipulava as fraquezas dele, usava-as. Christl ficava magoada com eles e se rebelava. Tinham apenas 10 anos quando ele morreu, mas as diferenças no relacionamento com o pai parecem a melhor maneira de defini-las agora. Dorothea é prática, tem os pés no chão, encara a realidade e busca um homem complacente. Christl é sonhadora, tem fé e busca os fortes. Agora estão empenhadas numa busca que nenhuma das duas compreende totalmente...

—            Graças a você, presumo.

Ela assentiu.

—            Confesso manter certo elemento de controle. Mas muito está em jogo aqui. Literalmente tudo.

—            O que é tudo?

—            Esta família possui muitas fábricas, uma refinaria de petróleo, diversos bancos, ações pelo mundo. Bilhões de euros.

—            Duas pessoas morreram hoje como parte desse jogo.

—            Estou ciente disso, mas Dorothea queria o arquivo sobre o Blazek. É parte da realidade que ela deseja. Mas parece que ela decidiu que você não era um caminho para o sucesso dela e abandonou os esforços. Eu suspeitava de que seria o caso. Então, certifiquei-me de que Christl tivesse a oportunidade de falar com você.

—            Você enviou Christl para o Zugspitze?

Ela assentiu.

—            Ulrich estava lá para cuidar dela.

—            E se eu não quiser fazer parte disso?

Os olhos úmidos da mulher transmitiram uma expressão de aborrecimento.

—            Ora, Herr Malone, não vamos enganar um ao outro. Estou sendo franca. Poderia pedir o mesmo de você? Deseja saber, tanto quanto eu, o que aconteceu 38 anos atrás. Meu marido e seu pai morreram juntos. A diferença entre nós dois é que eu sabia que ele estava indo para a Antártida. Eu só não sabia que nunca mais o veria.

Ele ficou atordoado. Aquela mulher sabia de muita coisa em primeira mão.

—            Ele estava em busca dos Vigilantes — disse ela. — Os Sagrados.

—            Não pode acreditar realmente que tais pessoas existiram.

—            Eginhardo acreditava. São mencionadas no testamento que está segurando. Hermann acreditava. Dietz deu a vida pela crença. Na verdade, eles foram chamados de modos diversos por diferentes culturas. Os astecas denominaram-nos Serpentes Emplumadas, supostamente grandes homens brancos com barbas vermelhas. A Bíblia, no Gênesis, chama-os de Elohim. Os sumários identificavam-nos como Anunnaki. Os egípcios, como Akhu, Osíris e os Shemsu Hor.

Tanto o hinduísmo quanto o budismo os descrevem. Ja, Herr Malone, nisso Christl e eu concordamos, eles são reais. Influenciaram até o próprio Carlos Magno.

Ela estava falando bobagem.

—            Frau Oberhauser, estamos falando de coisas que aconteceram milhares de anos atrás...

—            Meu marido estava completamente convencido de que os Vigilantes ainda existem.

Ele se deu conta de que o mundo era um lugar diferente em 1971. Sem mídia global, sistemas de rastreamento por GPS, satélites geossincronizados ou internet. Manter-se escondido era possível então. Hoje, não mais.

—            Isso é ridículo.

—            Nesse caso, por que os norte-americanos concordaram em levá-lo para lá?

Ele viu que ela sabia a resposta para a própria pergunta.

—            Porque também haviam buscado. Depois da guerra, eles foram à Antártida numa excursão militar gigantesca chamada Salto em Altura. Meu marido falou dela muitas vezes. Foram em busca do que Hermann encontrou em 1938. Dietz sempre acreditou que os norte-americanos descobriram algo durante a Salto em Altura. Muitos anos se passaram. Então, seis meses antes de sua partida para a Antártida, alguns de seus militares vieram aqui para se encontrar com Dietz. Falaram sobre a Salto em Altura e estavam a par da pesquisa de Hermann. Parece que alguns de seus livros e documentos estavam entre os papéis que eles haviam confiscado após a guerra.

Ele lembrou o que Christl acabara de lhe dizer. Poderia significar muito. Na verdade, poderia literalmente mudar o nosso mundo. Normalmente, ele consideraria tudo isso loucura, mas o governo dos Estados Unidos tinha enviado um de seus submarinos mais avançados para investigar e em seguida ocultara totalmente o naufrágio.

—            Dietz foi sábio ao escolher os norte-americanos em vez dos soviéticos. Eles também vieram aqui, querendo sua ajuda, mas ele odiava comunistas.

—            Você faz alguma ideia do que está na Antártida?

Ela balançou a cabeça.

—            Eu me perguntei isso por muito tempo. Sabia do testamento de Eginhardo, dos Sagrados e dos dois livros que estão com Dorothea e Christl. Quis realmente saber o que há lá. Então, minhas filhas estão desvendando o enigma, e, no processo, espero que aprendam que podem, de fato, precisar uma da outra.

—            Isso pode ser impossível. Elas parecem desprezar uma à outra. Ela olhou para o chão.

—            Não deve haver duas irmãs que se odeiem mais. Mas minha vida logo acabará, e preciso saber que a família será preservada.

—            E eliminar suas próprias dúvidas?

Ela consentiu.

—            Exatamente. Precisa entender, Herr Malone, que encontramos o que procuramos.

—            Foi o que Christl disse.

—            O pai dela disse isso muitas vezes e, a esse respeito, estava certo.

—            Por que estou envolvido?

—            Dorothea tomou essa decisão no início. Ela o viu como um meio de descobrir coisas sobre o submarino. Desconfio que o tenha rejeitado devido à sua força. Isso é algo que a assustaria de verdade. Eu o escolhi porque Christl pode se beneficiar com sua força. Mas você também é uma pessoa que pode deixar as coisas em pé de igualdade para ela.

Como se ele se importasse. Mas já estava prevendo.

—            E ao nos ajudar, você poderá ser capaz de resolver seu próprio dilema.

—            Sempre trabalhei sozinho.

—            Sabemos coisas que você não sabe. Isso, ele não podia negar.

—            Tem notícias de Dorothea? Tem um cadáver na abadia.

—            Christl me contou — disse ela. — Ulrich cuidará disso, como fará com o daqui. Estou preocupada com quem mais está envolvido neste assunto, mas acredito que você seja a pessoa mais qualificada para resolver essa complicação.

A descarga de adrenalina que ele sentira na galeria superior estava rapidamente sendo substituída pela fadiga.

—            O atirador veio para cá atrás de mim e de Dorothea. Não disse nada sobre Christl.

—            Eu o ouvi. Christl explicou a você sobre Eginhardo e Carlos Magno. O documento que está segurando claramente contém um desafio, uma busca. Você viu o livro, escrito pelo punho de Eginhardo. E o do túmulo de Carlos Magno, o qual somente um imperador do Sacro Império Romano estava autorizado a receber. Isso é real, Herr Malone. Imagine, por um momento, se de fato houve uma primeira civilização. Pense nas ramificações para a história da humanidade.

Ele não conseguia decidir se a velha era uma manipuladora, uma parasita ou uma aproveitadora. Provavelmente os três.

—            Frau Oberhauser, não estou nem um pouco preocupado com isso. Francamente, acho que vocês são todas loucas. Quero apenas saber onde, como e por que meu pai morreu. — Ele fez uma pausa, torcendo para não se arrepender do que estava prestes a dizer: — Se ajudá-las vai me trazer a resposta, esse é um incentivo suficiente para mim.

—            Então, já decidiu?

—            Não.

—            Eu poderia lhe oferecer uma cama por esta noite, e você pode fazer sua escolha amanhã?

Ele sentia uma dor nos ossos e não queria dirigir de volta ao Posthotel — que talvez não fosse mesmo o abrigo mais seguro, con¬siderando o número de visitas indesejadas nas últimas horas. Pelo menos Ulrich estava ali. Era estranho, mas isso o fazia sentir-se melhor.

— OK, não vou contestar a sugestão.

 

         WASHINGTON, D.C.

         4H30

 

RAMSEY VESTIU O ROUPÃO. HORA DE COMEÇAR MAIS UM DIA. NA VERDADE, ESTE poderia muito bem se tornar o dia mais importante de sua vida, o primeiro passo de uma jornada decisiva.

Sonhara com Millicent, Edwin Davis e com o NR-1A. Uma estranha combinação que os entrelaçava em imagens perturbadoras. Mas ele não ia permitir que fantasias estragassem a realidade. Percorrera um longo caminho — e dentro de algumas horas reivindicaria o próximo prêmio. Diane McCoy estava certa. Era duvidoso que ele fosse a primeira opção do presidente para ficar no lugar de David Sylvian. Ele sabia de pelo menos dois outros que Daniels certamente indicaria antes dele — supondo que a decisão fosse apenas da Casa Branca. Ainda bem que a livre escolha era uma raridade na política de Washington.

Ele desceu ao térreo e entrou no escritório, exatamente quando seu celular tocou. Ramsey estava sempre com o aparelho. O visor indicava uma transferência do exterior. Ótimo. Desde que falara com Wilkerson, horas antes, esperava para saber se a falha aparente tinha sido revertida.

— Aqueles pacotes de Natal que você encomendou — disse a voz. — Lamentamos informar que podem não chegar a tempo.

Ele reprimiu a raiva renovada:

—            E o motivo do atraso?

—            Achamos que tivesse um estoque em nossos depósitos, mas descobrimos que não havia nenhum disponível.

—            Seus problemas de estoque não me interessam. Paguei com semanas de antecedência, esperando entrega imediata.

—            Estamos cientes disso e planejamos garantir que a entrega ocorra a tempo. Queríamos apenas informá-lo de um pequeno atraso.

—            Se for necessária uma remessa prioritária, adicione os custos. Não me importa. Faça as entregas.

—            Estamos rastreando os pacotes agora e devemos ser capazes de verificar a entrega em breve.

—            Não deixe de fazê-lo — disse ele, e depois desligou.

Agora, estava agitado. O que estava acontecendo na Alemanha? Wilkerson ainda estava vivo? E Malone? Duas pontas soltas que ele não tinha condições de permitir. Mas não havia nada que pudesse fazer. Precisava confiar nos informantes em terra. Tinham se saído bem antes, e ele esperava que fosse assim desta vez.

Acendeu a luminária da escrivaninha.

Uma das coisas que o atraíram naquela casa, além da localização, do tamanho e da atmosfera, foi o cofre que o proprietário havia instalado com discrição. De modo algum era impecável, mas oferecia proteção suficiente para arquivos trazidos para casa apenas para passar a noite, bem como para algumas pastas que ele mantinha em segredo.

Ramsey abriu o painel de madeira oculto e digitou um código numérico.

Seis pastas encontravam-se em posição vertical. Ele retirou a primeira à esquerda.

Charlie Smith não apenas era um excelente assassino, mas também recolhia informações com o zelo de um esquilo localizando nozes para o inverno. Parecia adorar descobrir segredos que as pessoas esforçavam-se arduamente para esconder. Smith passara os últimos dois anos coletando fatos. Alguns deles estavam sendo usados naquele exato momento, e o restante entraria em jogo nos próximos dias, conforme a necessidade.

Abriu a pasta e revisou os detalhes.

Impressionante como a imagem pública podia ser tão diferente da pessoa no âmbito privado. Ramsey se perguntou como os políticos mantinham as aparências. Devia ser difícil. ímpetos e desejos apontavam para uma única direção — a carreira e a imagem puxavam para outra.

O senador Aatos Kane era um exemplo perfeito. Cinquenta e seis anos. Cumprindo o quarto mandato por Michigan, casado, três filhos. Na carreira política desde os 20 e poucos anos, primeiro em nível estadual, depois no Senado norte-americano. Daniels havia cogitado seu nome para vice-presidente quando a vaga ficara disponível no ano anterior, mas Kane recusara, dizendo que agradecia a confiança da Casa Branca, mas acreditava poder servir melhor ao presidente como senador. Michigan respirara aliviado. Kane foi avaliado por diversos grupos de pressão política como um dos mais eficientes fomentadores do fisiologismo no Congresso. Vinte e dois anos no Capitólio ensinaram a Aatos Kane todas as lições certas.

E o mais importante? Todos os políticos eram regionais. Ramsey sorriu. Amava almas negociáveis.

A pergunta de Dorothea Lindauer ainda ressoava em seu ouvido. Há alguma coisa a ser encontrada lá? Não pensava naquela viagem à Antártida havia anos.

Quantas vezes tinham desembarcado? Quatro?

O comandante do navio — Zachary Alexander — era do tipo inquisidor, mas, conforme as ordens recebidas, Ramsey mantivera a missão em segredo. Apenas o receptor de rádio que sua equipe levara a bordo estava sintonizado ao transponder de emergência do NR-1 A. Nenhum sinal chegara a ser ouvido pelas estações de monitoramento no hemisfério Sul, o que facilitara a definitiva ocultação dos fatos. Nenhuma radiação fora detectada. Pensava-se que um sinal e radiação seriam mais discernfveis conforme a maior proximidade em relação à fonte. Naquele tempo, o gelo tinha a tendência de bagunçar aparelhos eletrônicos sensíveis. Então, eles escutaram e monitoraram a água por dois dias, enquanto o Holden rondava o mar de Weddell, um lugar de ventos uivantes, nuvens roxas luminosas e halos espectrais ao redor de um sol fraco.

Nada.

Depois, eles haviam desembarcado com o equipamento.

—            O que você captou? — perguntou ele ao capitão-tenente Herbert Rowland.

O homem estava animado.

—            Um sinal a 240 graus.

Ele olhou para a extensão do continente deserto, envolto no manto de gelo de mais de um quilômetro de espessura. Vinte e dois graus abaixo de zero, e quase verão. Um sinal? Ali? Sem chances. Estavam a 550 metros da costa, onde tinham desembarcado, o terreno tão plano e amplo quanto o mar. Era impossível saber se era água ou terra o que estava por baixo. Para a direita e adiante, montanhas surgiam como dentes acima da tundra branca e cintilante.

—            Sinal definitivo a 240 graus — repetiu Rowland.

—            Sayers! — bradou, chamando o terceiro membro da equipe.

O outro capitão-tenente estava 50 metros à frente, procurando rachaduras no gelo. A percepção era um problema constante. Neve branca, céu branco, até o ar ficava branco com o vapor constante da respiração. Aquele era um lugar de um vazio mumificado, ao qual o olho humano ajustava-se pouco melhor que ao breu.

—            É o maldito do submarino — disse Rowland, ainda com a atenção voltada para o receptor.

Ramsey ainda era capaz de sentir o frio absoluto que o envolvera naquela terra sem sombras, onde mortalhas de névoa verde-acinzentadas materializavam-se num instante. Eles tinham sido perturbados pelo mau tempo, por tetos baixos, nuvens densas e vento constante. A cada inverno do hemisfério Norte por que Ramsey passava desde então, comparava sua ferocidade com a intensidade de um dia comum na Antártida. Ele havia passado quatro dias lá, quatro dias que nunca esquecera.

Você não pode imaginar, dissera a Dorothea Lindauer em resposta à pergunta dela.

Olhou para dentro do cofre.

Ao lado das pastas, havia um diário.

Trinta e oito anos antes, os regulamentos da Marinha exigiam que os comandantes de todas as embarcações de alto-mar tivessem um.

Pegou o livro devagar.

 

         ATLANTA, 7H22

 

STEPHANIE ACORDOU EDWIN DAVIS DE UM SONO PROFUNDO. ELE DESPERTOU com um sobressalto, desorientado, até perceber onde estava.

—            Você ronca — disse ela.

Mesmo através de uma porta fechada e em outro quarto, ela o ouvira durante a noite.

—            É o que dizem. Acontece quando estou muito cansado.

—            E quem lhe diz?

Ele esfregou os olhos para afastar o sono. Estava deitado na cama completamente vestido, o celular ao lado. Tinham chegado a Atlanta pouco antes da meia-noite no último vôo de Jacksonville. Davis sugerira um hotel, mas Stephanie insistira para que ele ficasse em seu quarto de hóspedes.

—            Não sou um monge — declarou ele.

Ela sabia pouco sobre sua vida pessoal. Solteiro, isso ela sabia. Mas já tinha sido casado? Filhos? Aquele, no entanto, não era o momento para intromissões.

—            Precisa fazer a barba.

Ele esfregou o queixo.

—            Muito bom que você tenha me avisado.

Ela se dirigiu à porta.

—            No banheiro do corredor, tem toalha e lâminas de barbear... só que de mulher.

Ela já havia tomado banho e se vestido, pronta para o que quer que o dia pudesse ter reservado.

—            Sim senhora — disse ele, levantando-se. — Você não brinca em serviço.

Ela o deixou e entrou na cozinha, ligando a televisão da bancada. Ela raramente tomava um café da manhã que fosse além de um bolinho ou algum cereal, e detestava café. Chá verde geralmente era a sua opção de bebida quente. Precisava ver como estava o escritório. Ter uma equipe de funcionários quase inexistente ajudava na segurança, mas era um inferno na hora de delegar.

—            ...será interessante — dizia um repórter da CNN. — O presidente Daniels recentemente expressou muito descontentamento com os chefes do Estado-Maior Conjunto. Num discurso, duas semanas atrás, questionou indiretamente a necessidade de toda essa estrutura hierárquica.

Atela passou para a imagem de Daniels diante de um palanque azul.

—            Não comandam nada — disse ele, com sua voz característica de barítono. — São conselheiros. Políticos. Repetem políticas, não as criam. Não me entendam mal. Tenho um grande respeito por esses homens. É com a instituição que tenho problemas. Não há dúvidas de que os talentos dos oficiais que agora estão entre os chefes do Estado-Maior Conjunto poderiam ser mais bem aproveitados em outras funções.

De volta à repórter, uma morena enérgica:

—            Tudo isso nos faz pensar se, ou como, ele preencherá a vaga deixada pela morte precoce do almirante de esquadra David Sylvian.

Davis entrou na cozinha, o olhar fixo na televisão. Ela notou o interesse.

—            O que foi?

Ele ficou em silêncio, taciturno, preocupado. Finalmente, disse:

—            Sylvian é o homem da Marinha no Estado-Maior Conjunto.

Ela não entendeu. Tinha lido sobre o acidente de motocicleta e os ferimentos de Sylvian.

—            É uma pena que ele tenha morrido, Edwin, mas qual o problema? Ele pôs a mão no bolso e encontrou o celular. Digitou alguns nú¬meros e disse:

—            Preciso saber como o almirante Sylvian morreu. A causa exata, e rápido.

Ele encerrou a ligação.

—            Vai explicar? — perguntou ela.

—            Stephanie, Langford Ramsey está envolvido em mais coisas. Cerca de seis meses atrás, o presidente recebeu uma carta da viúva de um capitão-tenente da Marinha...

O celular fez um tinido curto. Davis examinou o visor e atendeu, escutou por alguns segundos e desligou.

—            Esse capitão-tenente trabalhava no escritório de contabilidade geral da Marinha. Notou irregularidades. Alguns milhões de dólares desviados de banco em banco, e depois o dinheiro simplesmente desaparecia. As contas estavam todas ligadas à inteligência naval, ao escritório do diretor.

—            O negócio de inteligência funciona com fundos de fachada — disse ela. — Tenho diversas contas secretas que uso para pagamentos externos, contratos temporários, esse tipo de coisa.

—            Esse oficial morreu dois dias antes da reunião marcada para passar um relatório aos seus superiores. A viúva sabia parte do que ele havia descoberto e não confiava em ninguém entre os militares. Ela escreveu um apelo pessoal ao presidente, e a carta foi direcionada a mim.

—            E quando você viu o Gabinete da Inteligência Naval, sua mente entrou em estado de alerta. Então, o que encontrou ao examinar essas contas?

—            Não foram encontradas.

Ela havia passado por uma frustração semelhante. Bancos em diversas partes do mundo tinham fama de apagar contas — desde que, é claro, as taxas necessárias fossem pagas pelo correntista.

—            Então, qual a sua irritação no momento?

—            O capitão-tenente caiu morto em casa, vendo televisão. A esposa foi ao mercado e, quando voltou, ele estava morto.

—            Acontece, Edwin.

—            A pressão sanguínea dele despencou. O homem tinha sopro no coração, recebera tratamento, e, você está certa, coisas assim acontecem. A necropsia não acusou nada. Com o histórico dele e nenhuma evidência de crime, a causa da morte parecia óbvia.

Ela esperou.

—            Acabo de ser informado de que o almirante de esquadra David Sylvian morreu por queda de pressão.

A expressão dele era um misto de aversão, raiva e frustração.

—            Coincidência demais para você? — perguntou ela. Ele assentiu.

—            Você e eu sabemos que Ramsey controlava as contas que aquele oficial encontrou. E agora há uma vaga no Estado-Maior Conjunto?

—            Você está se precipitando, Edwin.

—            Estou? — Seu tom era carregado de desdém. — O pessoal do meu escritório disse que eles estavam prestes a entrar em contato comigo. Ontem à noite, antes de dormir, ordenei que enviassem dois agentes do Serviço Secreto para Jacksonville. Queria que ficassem de olho em Zachary Alexander. Chegaram há uma hora. A casa dele foi destruída por um incêndio na noite passada, com ele dentro.

Ela ficou chocada.

—            Há indícios de um curto-circuito nos fios sob a casa.

Ela disse a si mesma para nunca jogar pôquer com Edwin Davis. Ele havia recebido as duas notícias com cara de paisagem.

—            Temos de encontrar aqueles dois oficiais que estavam na Antártida com Ramsey.

—            Nick Sayers está morto — disse ele. — Faz anos. Herbert Rowland ainda está vivo. Mora nos arredores de Charlotte. Pedi que verificassem isso ontem à noite também.

Serviço Secreto? Cooperação do pessoal da Casa Branca?

—            Você está me enrolando, Edwin. Não está nessa sozinho. Está numa missão.

Ele pestanejou.

—            Depende. Se der certo, vou ficar bem. Se eu falhar, é o fim da minha carreira.

— Pôs sua carreira em jogo por isso?

—            Eu devo isso a Millicent.

—            Por que estou aqui?

—            É como eu lhe disse, Scot Harvath se recusou. Mas me disse que ninguém se vira sozinho melhor que você.

A racionalização não era necessariamente reconfortante. Mas, que diabos, ela já havia cruzado a linha.

—            Vamos para Charlotte.

 

           AACHEN, ALEMANHA

           11H

 

MALONE SENTIU O TREM REDUZIR A VELOCIDADE AO ENTRAR NAS PROXIMIDADES de Aachen. Ainda que suas preocupações da noite anterior tivessem diminuído para uma proporção mais aceitável, ele se perguntava o que estava fazendo ali. Christl Falk estava sentada ao seu lado, mas a viagem de Garmisch para o norte levara umas três horas, e eles pouco haviam se falado.

Suas roupas e seus artigos de higiene pessoal que estavam no Posthotel aguardavam por ele quando acordou em Reichshoffen. Um bilhete explicava que Ulrich Henn os havia buscado durante a noite. Malone dormira em lençóis que cheiravam a cravo, depois tomara banho, fizera a barba e se trocara. É claro que havia trazido poucas camisas e calças da Dinamarca, planejando uma estada de um ou dois dias. Agora, não tinha tanta certeza.

Isabel estava esperando por ele no andar de baixo, e ele informara à matriarca dos Oberhauser que tinha decidido ajudar. Que escolha tinha? Queria saber sobre o pai e queria saber quem estava tentando matá-lo. Ir embora não levaria a nada. E a velha deixara algo bem claro: Elas sabiam de coisas que ele não sabia.

—            Mil e duzentos anos atrás — disse Christl —, este era o centro do mundo secular. A capital do recém-concebido Império do Norte. O que passamos a chamar, 1.200 anos depois, de Sacro Império Romano.

Malone sorriu.

—            Que não era nem sacro, nem romano, nem um império. Ela assentiu.

—            Verdade. Mas Carlos Magno era bastante progressista. Um homem de imensa energia, fundou universidades, gerou princípios jurídicos que acabaram entrando para o direito comum, organizou o governo e deu início a um nacionalismo que inspirou a criação da Europa. Eu o estudei durante anos. Parecia tomar todas as decisões cor-retas. Governou por 47 anos e viveu até os 74, num tempo em que os reis mal duravam cinco anos no poder e aos 30 estavam mortos.

—            E você acha que isso aconteceu porque ele recebeu ajuda?

—            Ele comia com moderação e bebia com cuidado, e olha que a glutonia e a bebedeira corriam soltas na corte. Cavalgava, caçava e nadava diariamente. Uma das razões pelas quais escolheu Aachen para sua capital foi a existência de fontes termais, que ele usava religiosamente.

—            Então os Sagrados o ensinaram sobre dieta, higiene e exercícios? Ele viu que Christl notou o sarcasmo.

—            Ele tinha as características de um guerreiro — disse ela. — Todo o seu reino foi marcado por conquistas. Mas sua abordagem da guerra era baseada na disciplina. Planejava uma campanha por pelo menos um ano, estudando o adversário. Também dirigia as batalhas, em vez de participar delas.

—            Também era extremamente brutal. Em Verden, ordenou a decapitação de 4.500 prisioneiros saxões.

—            Não se tem certeza — disse ela. — Nunca foi encontrada nenhuma prova arqueológica do suposto massacre. A fonte original da história pode ter usado erroneamente a palavra decollabat, decapitar, onde deveria constar delocabat, exilar.

—            Você sabe muita história. E latim.

—            Nada disso saiu da minha cabeça. Eginhardo foi o cronista. Foi ele quem fez essas observações.

—            Supondo-se, é claro, que seus escritos sejam autênticos. O trem reduziu ainda mais a velocidade.

Malone ainda estava pensando sobre o dia anterior e o que repousava sob Reichshoffen.

—            Sua irmã se sente do mesmo jeito que você em relação aos nazistas e ao que eles fizeram ao seu avô?

— Dorothea não está nem aí. Família e história não são importantes para ela.

—O que é?

—            Ela mesma.

—            Estranho como gêmeos são tão ressentidos uns com os outros.

—            Não há regra que diga que temos de ser ligadas uma à outra. Aprendi, quando criança, que Dorothea era um problema.

Ele precisava explorar essas diferenças:

—            Sua mãe parece ter uma favorita.

—            Eu não diria isso.

—            Ela enviou você para mim.

—            Verdade. Mas auxiliou Dorothea no começo.

O trem parou.

—            Vai explicar essa?

—            Foi ela quem deu a Dorothea o livro do túmulo de Carlos Magno.

 

DOROTHEA TERMINOU A INSPEÇÃO DAS CAIXAS QUE WILKERSON RETIRARA DE Füssen. O livreiro tinha feito um bom trabalho. Muitos dos registros da Ahnenerbe haviam sido confiscados pelos Aliados depois da guerra, de modo que ela ficou impressionada que tanto material tivesse sido localizado. Porém, mesmo tendo passado as últimas horas lendo, a Ahnenerbe permanecia um enigma para ela. Apenas nos anos mais recentes é que a existência da organização finalmente fora estudada por historiadores, e os poucos livros escritos sobre o assunto tratavam principalmente de seus fracassos. Aquelas caixas falavam de sucesso.

Houvera expedições para a Suécia, para reaver petróglifos, e para o Oriente Médio, onde se estudaram as disputas internas pelo poder no Império Romano — as quais, para a Ahnenerbe, haviam sido travadas entre os povos nórdicos e semíticos. O próprio Göring financiara essa viagem. Em Damasco, os sírios os receberam como aliados para combater uma população crescente de judeus. No Irã, seus pesquisadores visitaram ruínas persas, assim como a Babilônia, maravilhados com uma possível conexão com os arianos. Na Finlândia, estudaram canções pagãs antigas. A Baviera revelou pinturas rupestres e evidência dos Cro-Magnon, que, para a Ahnenerbe, com certeza eram arianos. Outras pinturas rupestres foram analisadas na França, onde, conforme observou um comentarista: "Himmler e tantos outros nazistas sonhavam com a idéia de se encontrarem envoltos pela misteriosa aura dos ancestrais."

Mas a Ásia tornou-se uma verdadeira fascinação.

A Ahnenerbe acreditava que os primeiros arianos conquistaram grande parte da China e do Japão e que o próprio Buda era descendente dos arianos. Uma grande expedição ao Tibete rendeu milhares de fotografias, moldes de cabeças e medidas de corpos, além de exemplares de animais e plantas exóticos, todos reunidos na esperança de provar a ancestralidade. Mais viagens para Bolívia, Ucrânia, Irã, Islândia e Ilhas Canárias nunca se concretizaram, embora os planejamentos elaborados para cada jornada estivessem detalhados.

Os registros também descreviam como, à medida que a guerra avançava, o papel da Ahnenerbe era expandido. Depois de Himmler ordenar a arianização da recém-conquistada Crimeia, a Ahnenerbe ficou encarregada de duplicar as florestas alemãs e cultivar novas plantações para o Reich. A Ahnenerbe também supervisionava a realocação de alemães étnicos para a região, junto com a deportação de milhares de ucranianos.

Contudo, à medida que o grupo de pesquisa crescia, mais financiamentos eram necessários. Portanto, foi criada uma fundação para receber doações.

Entre os contribuintes estavam o Deutsche Bank, a BMW e a Daimler-Benz, empresas que recebiam agradecimentos constantes em correspondência oficial. Sempre inovador, Himmler ficou sabendo de um maquinista alemão que patenteava uns painéis refletores para bicicletas. Formou uma empresa conjunta com o inventor e garantiu a aprovação de uma lei que exigia que os pedais de todas as bicicletas incluíssem os refletores, o que rendeu dezenas de milhares de marcos alemães anualmente para a Ahnenerbe.

Tanto esforço tinha sido aplicado para inventar tanta ficção.

Mas entre os aspectos ridículos da busca pelos arianos perdidos e as tragédias da participação do grupo nos assassinatos organizados, seu avô tinha, de fato, se deparado com um tesouro.

Ela olhou para o livro antigo sobre a mesa.

Tinha mesmo saído do túmulo de Carlos Magno?

Nada em nenhum dos materiais que Dorothea havia lido falava dele, embora, pelo que a mãe lhe dissera, o volume tivesse sido encon¬trado em 1935, entre os arquivos da República de Weimar, descoberto junto com uma mensagem escrita por algum escrivão desconhecido que atestava sua remoção do túmulo em Aachen em 19 de maio do ano 1000, pelo imperador Otto III. Como o livro conseguira sobreviver até o século XX permanecia um mistério. O que isso significava? Por que era tão importante?

Sua irmã, Christl, acreditava que a resposta residia em alguma apelação mística.

E Ramsey não aliviara os receios de Dorothea com aquela resposta enigmática.

Você não pode imaginar.

Mas nada daquilo poderia ser a resposta.

Ou poderia?

 

MALONE E CHRISTL SAÍRAM DA ESTAÇÃO DE TREM. O AR FRIO E ÚMIDO O FEZ lembrar o inverno da Nova Inglaterra. Os táxis estavam enfileirados no meio-fio. As pessoas iam e vinham em um fluxo constante.

—            Minha mãe — disse Christl — quer que eu tenha êxito.

Ele não conseguia decidir se ela estava tentando convencê-lo ou a si mesma.

—            Sua mãe está manipulando vocês duas.

Ela o encarou.

—            Sr. Malone...

—            Meu nome é Cotton.

Ela pareceu conter uma onda de irritação.

—            Como você já me lembrou ontem à noite. Como conseguiu esse nome estranho?

—            História para depois. Você estava prestes a me repreender, antes de eu desconcertá-la.

O rosto dela relaxou com um sorriso.

—            Você é um problema.

—            Pelo que sua mãe disse, Dorothea também achou. Mas decidi encarar isso como um elogio. — Ele esfregou as mãos enluvadas e olhou à sua volta. — Precisamos fazer uma parada. Ceroulas cairiam bem. Este não é aquele ar bávaro seco. E você? Frio?

—            Eu cresci neste clima.

—            Eu, não. Na Geórgia, onde nasci e cresci, é quente e úmido nove meses por ano. — Ele continuou a olhar à sua volta com um ar de desinteresse, simulando desconforto. — Também preciso de uma muda de roupa. Não trouxe bagagem para uma viagem longa.

—            Tem um centro comercial perto da capela.

—            Suponho que em algum momento você vai explicar sobre sua mãe e por que estamos aqui, certo?

Christl fez sinal para um táxi, que se aproximou. Ela abriu a porta e entrou, seguida por Malone, e disse ao motorista aonde queriam ir.

—            Ja — disse ela —, vou explicar.

Enquanto saíam da estação, Malone olhou de relance pela janela de trás. O mesmo homem que ele vira três horas antes na estação de Garmisch — alto, com o rosto magro, de feições acentuadas e marcado por rugas — acenou para um táxi.

Não levava bagagens e parecia concentrado em apenas uma coisa.

Seguir.

 

DOROTHEA TINHA APOSTADO NA AQUISIÇÃO DOS REGISTROS DA AHNENERBE. Arriscara-se ao entrar em contato com Cotton Malone, mas provara a si mesma que ele era de pouca utilidade. Ainda assim, ela não estava certa de que o caminho para o sucesso fosse mais pragmático. Uma coisa parecia clara: expor sua família a mais humilhação não era uma opção. De vez em quando, um pesquisador ou historiador entrava em contato com Reichshoffen, querendo inspecionar os documentos do avô dela ou falar com a família sobre a Ahnenerbe. Tais pedidos eram sempre recusados, e por uma boa razão. O passado devia ficar no passado.

Ficou olhando para a cama e para um Sterling Wilkerson adormecido.

Eles tinham ido para o norte de carro na noite anterior e se hospedaram em Munique. A mãe dela ficaria sabendo da destruição do chalé antes do fim do dia. O corpo na abadia certamente já havia sido encontrado. Ou os monges ou Henn se encarregariam do problema. Era mais provável que fosse Ulrich.

Ela sabia que se sua mãe a ajudara, fornecendo-lhe o livro do túmulo de Carlos Magno, com certeza dera algo também a Christl. Fora a mãe quem insistira para que ela falasse com Cotton Malone. Por isso, ela e Wilkerson tinham usado a mulher e encaminhado o homem para a abadia. Sua mãe pouco se importava com Wilkerson. "Mais uma alma fraca", era como se referia a ele. "E, filha, não temos tempo para fraquezas." Mas a matriarca estava chegando perto dos 80 anos, e Dorothea estava no auge da vida. Homens bonitos e aventureiros, como Wilkerson, eram bons para muitas coisas.

Como na noite anterior.

Ela se aproximou da cama e o acordou.

Ele despertou e sorriu.

—            É quase meio-dia — disse ela.

—            Eu estava cansado.

—            Precisamos ir embora.

Ele notou o conteúdo das caixas espalhado pelo chão.

—            Aonde vamos?

—            Espero que dar um passo à frente de Christl.

 

         WASHINGTON, D.C.

         8H10

 

RAMSEY ESTAVA ENERGIZADO. PROCURARA NA INTERNET NOTÍCIAS SOBRE Jacksonville, Flórida, e ficara satisfeito ao ver uma reportagem sobre um incêndio fatal na casa de Zachary Alexander, um capitão de fragata reformado da Marinha. Nada incomum em relação ao fogo, e relatórios preliminares identificaram a causa num curto-circuito devido a fiações defeituosas. Charlie Smith claramente produzira duas obras-primas no dia anterior. Ramsey esperava que hoje fosse igualmente produtivo.

Era uma manhã fresca e ensolarada típica daquela época do ano. Ramsey passeava pelo National Mali, perto da sede do Instituto Smithsonian, e com o Capitólio, branco e cintilante, assomando claramente em sua colina. Ele adorava dias gelados de inverno. Com o Natal dali a apenas 13 dias e o Congresso em recesso, a atividade do governo estava reduzida, tudo esperando pelo novo ano e o começo de mais uma temporada legislativa.

Uma época com poucas novidades, o que provavelmente explicava a ampla cobertura que a mídia estava dando à morte do almirante Sylvian. As críticas recentes de Daniels aos chefes do Estado-Maior Conjunto haviam tornado oportuna a morte prematura. Ramsey tinha se divertido ao ouvir os comentários do presidente, sabendo que ninguém insistiria na mudança daquele comando. Era verdade que o Estado-Maior Conjunto mandava pouco, mas quando eles falavam, as pessoas escutavam. O que provavelmente explicava, mais do que qualquer ou¬tra coisa, o ressentimento da Casa Branca. Especialmente Daniels, que não fora reeleito, cambaleando rumo ao clímax de sua carreira política.

Adiante, avistou um homem baixo e garboso, vestindo um sobretudo de caxemira bem-talhado, o rosto pálido e angelical avermelhado com o frio. Bem barbeado, tinha cabelos escuros arrepiados cortados à escovinha. Estava batendo o pé com força na calçada, num aparente esforço para se livrar do frio. Ramsey olhou para o relógio e calculou que o enviado estivera esperando por pelo menos 15 minutos.

Ramsey se aproximou.

—            Almirante, tem ideia do maldito frio que está aqui?

—            Dois graus negativos.

—            E você não podia chegar no horário combinado?

—            Se eu precisasse ser pontual, teria sido.

—            Não estou no clima para abusos hierárquicos. Nem um pouco mesmo.

Interessante como ser o chefe de gabinete de um senador dos Estados Unidos conferia tal coragem. Ramsey se perguntou se Aatos Kane teria dito ao discípulo para agir como um babaca ou se aquilo era improvisação.

—            Estou aqui porque o senador disse que você tinha algo a dizer.

—            Ele ainda quer ser presidente? — Todos os contatos anteriores entre Ramsey e Kane tinham acontecido por intermédio desse enviado.

—            Quer. E será.

—            Dito com a confiança de um funcionário que não larga a barra da saia do chefe.

—            Todo tubarão tem a sua rêmora.

Ramsey sorriu.

—            Tem mesmo.

—            O que você quer, almirante?

Ele não gostou da arrogância do jovem. Hora de colocar esse homem no devido lugar.

—            Quero que cale a boca e escute.

O almirante notou que o assessor o examinou com o olhar calculista de um político profissional.

—            Quando Kane estava em apuros, pediu ajuda, e eu lhe dei o que ele queria. Sem perguntas, o problema foi resolvido.

Esperou um momento antes de voltar a falar, enquanto três homens passavam correndo.

—            Devo acrescentar que violei um monte de leis, algo para que, tenho certeza, você não está nem aí.

Seu interlocutor não era um homem de idade, sabedoria ou riqueza. Mas era ambicioso e entendia o valor dos favores políticos.

—            O senador está ciente do que você fez, almirante. Mas, como sabe, não estávamos a par de toda a extensão de seus planos.

—            Nem rejeitaram os benefícios posteriores.

—            Verdade. O que quer agora?

—            Quero que Kane diga ao presidente que eu devo ser indicado para os chefes do Estado-Maior Conjunto. Para a vaga de Sylvian.

—            E acha que o presidente não pode dizer não ao senador?

—            Não sem consequências severas.

O rosto agitado que olhava para Ramsey animou-se com um sorriso passageiro.

—            Não vai acontecer. Ele tinha ouvido bem?

—            O senador supôs que era isso o que queria. O corpo de Sylvian provavelmente nem tinha esfriado quando você fez aquela ligação hoje. — O jovem hesitou. — O que nos faz pensar.

O almirante vislumbrou desconfiança nos olhos observadores do homem.

—            Afinal, como diz, você já realizou um serviço antes para nós, sem vestígios.

Ramsey ignorou as insinuações e perguntou:

—            O que quer dizer com não vai acontecer?

—            Você é controverso demais. Um para-raio. Tem gente demais na Marinha que ou não gosta de você ou não confia em você. Defender sua indicação teria efei tos adversos. E, como mencionei, vamos entrar na disputa pela Casa Branca, que começa cedo no ano que vem.

Ramsey percebeu que o clássico tango de Washington havia começado. Uma dança famosa, na qual políticos como Aatos Kane eram especialistas. Todos os analistas concordavam. A candidatura de Kane parecia plausível. Na verdade, ele era a liderança em seu partido, com pouca concorrência. Ramsey sabia que discretamente o senador vinha acumulando contribuições que agora chegavam aos milhões. Kane era um homem bem-apessoado, simpático, confortável diante da multidão e das câmeras. Não era nem um conservador nem um liberal de verdade, mas uma mistura que a imprensa adorava rotular como meio da estrada. Estava casado com a mesma mulher havia trinta anos sem o mais leve sinal de escândalo. Era quase perfeito demais. Exceto, é claro, pelo favor do qual um dia havia precisado.

—            Bela maneira de agradecer aos amigos — disse Ramsey.

—            Quem disse que você era nosso amigo?

Um aborrecimento formou uma ruga em sua testa, mas Ramsey disfarçou rapidamente. Devia ter previsto. Arrogância. O mal mais comum entre políticos experientes.

—            Não, você está certo. Foi presunção da minha parte. O rosto do homem perdeu o ar impassível.

—            Entenda de uma vez, almirante. O senador Kane agradece a você pelo que fez. Teríamos preferido que fosse de outra forma, mas, ainda assim, ele está grato. Ele retribuiu seu favor, no entanto, ao impedir que a Marinha o transferisse. Não uma, mas duas vezes. Enviamos um ataque completo para a linha de defesa nessa questão. Era o que você queria, e foi o que fizemos. Você não manda em Aatos Kane. Nem agora. Nem nunca. O que está pedindo é impossível. Em menos de sessenta dias, o senador será anunciado como candidato à Casa Branca. Você é um almirante que deveria se aposentar. Faça isso. Aproveite o descanso merecido.

Ele encobriu qualquer reação defensiva e simplesmente acenou com a cabeça um gesto de compreensão.

—            E mais uma coisa. O senador não gostou da sua ligação hoje de manhã, exigindo este encontro. Ele me enviou para dizer-lhe que esse relacionamento acabou. Nada de visitas, nada de telefonemas. E agora preciso ir.

—            Claro. Não quero ocupar seu tempo.

—            Olhe, almirante, sei que está irritado. Mas não fará parte do Estado-Maior Conjunto. Aposente-se. Torne-se um analista de TV da Fox e diga ao mundo que somos um bando de idiotas. Aproveite a vida.

Ramsey não disse nada, apenas ficou vendo o insolente sair desfilando, certamente orgulhoso de sua atuação brilhante, ansioso para contar como colocara o chefe da inteligência naval no devido lugar.

Foi, então, até um banco vazio e sentou-se. O frio vazava entre as ripas do banco e penetrava o sobretudo.

O senador Aatos Kane não fazia idéia. Nem seu chefe de gabinete. Mas os dois estavam prestes a descobrir.

 

         MUNIQUE, ALEMANHA

         13H

 

WILKERSON HAVIA DORMIDO BEM, SATISFEITO TANTO COM O MODO COMO SE SAÍRA no chalé quanto com Dorothea depois. Ter acesso a dinheiro, poucas responsabilidades e uma bela mulher não eram substitutos ruins para deixar de se tornar um almirante.

Desde que, é claro, pudesse continuar vivo.

Em preparação para a sua tarefa, ele havia apurado tudo sobre a família Oberhauser. Bens na casa dos bilhões, e não era dinheiro velho — dinheiro antigo que atravessara séculos de reviravoltas políticas. Oportunistas? Certamente. O timbre da família parecia explicar tudo. Um cachorro segurando um rato com a boca, preso num caldeirão coroado. Incontáveis contradições. Muito semelhantes à própria família. Mas de que outro modo teriam sobrevivido?

O tempo, no entanto, cobrara seu preço.

Dorothea e a irmã eram tudo o que restava aos Oberhauser.

Duas criaturas lindas e nervosas. Chegando aos 50 anos. Idênticas na aparência, ainda que cada uma se esforçasse muito para ser diferente. Dorothea se havia dedicado a uma formação administra¬tiva, trabalhando ativamente com a mãe nos negócios da família.

Casara-se aos 20 e poucos anos e tivera um filho, mas ele morrera havia cinco anos, uma semana depois de seu aniversário de 20 anos, num acidente de carro. Todos os relatórios indicavam que ela mudara depois disso. Endurecera. Tornara-se escrava de ansiedades profundas e mudanças de temperamento imprevisíveis. Ter atirado em um homem com uma escopeta, como fizera na noite anterior, e depois ter feito amor com uma intensidade desprendida, era uma prova dessa dicotomia.

Os negócios nunca haviam interessado a Christl, nem casamento ou filhos. Ele a encontrara apenas uma vez, numa festa social à qual Dorothea fora com o marido, quando Wilkerson fez o primeiro contato. Ela era despretensiosa. Acadêmica, como o pai e o avô, estudava temas excêntricos, refletindo sobre as infinitas possibilidades de lendas e mitos. Suas duas dissertações de mestrado tinham sido sobre conexões obscuras entre civilizações míticas antigas — como a Atlântida, ele descobrira depois de ler ambas — e culturas em desenvolvimento. Tudo fantasia. Mas os homens dos Oberhauser tinham sido fascinados por tais assuntos ridículos, e Christl parecia ter herdado a curiosidade deles. Seus dias de fertilidade tinham passado, então Wilkerson se perguntava o que aconteceria depois que Isabel Oberhauser morresse. Duas mulheres que não se gostavam — nenhuma das duas em condições de ter descendentes consanguíneos — herdariam tudo.

Um cenário fascinante com possibilidades infinitas.

Ele estava do lado de fora, no frio, não muito longe do hotel, um estabelecimento grandioso que satisfaria os caprichos de qualquer rei. Dorothea ligara do carro na noite anterior para falar com o recepcionista, e uma suíte os aguardava quando chegaram.

A Marienplatz ensolarada, por onde ele agora passeava, estava lo¬tada de turistas. Um estranho silêncio pairava sobre a praça, interrompido apenas pelo som de passos arrastados e um murmúrio de vozes. Era possível ver lojas de departamento, bares, o mercado central, um palácio real e igrejas. O enorme edifício da prefeitura dominava um perímetro, a fachada alegre marcada pelos efeitos escurecidos dos séculos. Ele evitou intencionalmente a área dos museus e seguiu na direção de uma das várias padarias bastante movimentadas de clientes. Estava com fome, e algum doce de chocolate cairia muito bem.

Barracas decoradas com ramos de pinheiro perfumados espalhavam-se pela praça, parte do mercado de Natal da cidade, que se estendia para além do alcance da visão ao longo da agitada via principal da antiga cidade. Wilkerson tinha ouvido falar dos milhões que iam lá todo ano para as festividades, mas duvidava que ele e Dorothea tivessem tempo de comparecer. Ela estava numa missão. Ele também, o que o fez pensar em trabalho. Precisava ligar para Berlim e marcar presença pelo bem de seus empregados. Então, pegou o celu¬lar e discou.

—            Comandante Wilkerson — disse seu secretário ao atender. — Fui orientado a transferir qualquer ligação sua diretamente para o comandante Bishop.

Antes que ele pudesse perguntar por quê, a voz de seu imediato entrou na linha.

—            Comandante, tenho de perguntar onde o senhor está.

Seu radar entrou em estado de alerta total. Bryan Bishop nunca o chamava de comandante, a menos que outras pessoas estivessem ouvindo.

—            Qual o problema? — perguntou ele.

—            Senhor, esta ligação está sendo gravada. O senhor foi liberado de todos os deveres e declarado risco de segurança nível três. Nossas ordens são para localizá-lo e prendê-lo.

Wilkerson controlou as emoções.

—            Quem deu essas ordens?

—            Vieram do escritório do diretor. Emitidas pelo comandante Hovey, assinadas pelo almirante Ramsey.

Havia sido o próprio Wilkerson quem recomendara a promoção de Bishop para capitão de fragata. Ele era um oficial submisso que cumpria ordens com zelo e sem questionar. Ótimo antes, péssimo agora.

— Estou sendo procurado? — perguntou, e em seguida a consciência do fato bateu. Desligou o telefone antes de ouvir a resposta.

Olhou para o aparelho. Vinha com um localizador de GPS embutido para rastreamentos de emergência. Droga. Tinha sido assim que o haviam encontrado na noite anterior. Ele não tinha raciocinado. Claro, antes do ataque não fazia idéia de que era um alvo. Depois, fora chacoalhado, e Ramsey — o safado — embalara seu sono, ganhando tempo para despachar outra equipe.

Seu pai estava certo. Não dá para confiar em nenhum deles.

De repente, a cidade de 310 quilômetros quadrados, com milhões de habitantes, passou de refúgio para prisão. Ele olhou para as pessoas à sua volta, todas encapotadas com casacos pesados, andando rápido em todas as direções.

E não queria mais nenhum doce.

 

RAMSEY SAIU DO NATIONAL MALL E SEGUIU DE CARRO PARA O CENTRO DE Washington, perto de Dupont Circle. Normalmente, usava Charles Smith para essas tarefas especiais, mas no momento era impossível. Por sorte, ele tinha uma lista com vários ativos — todos capazes à sua própria maneira. A reputação de Ramsey de pagar bem e logo o ajudava quando era preciso que as coisas fossem feitas rapidamente.

Ele não era o único almirante de olho no posto de David Sylvian. Sabia de pelo menos outros cinco que certamente haviam pulado ao telefone com membros do Congresso assim que souberam da morte de Sylvian. Prestar as devidas homenagens e enterrar o homem viria dias depois — mas o sucessor de Sylvian seria escolhido nas próximas horas, uma vez que vagas tão altas na cadeia alimentar militar não ficavam desocupadas por muito tempo.

Ele devia ter previsto que Aatos Kane seria um problema. O senador estava no cenário havia muito tempo. Conhecia o terreno. Mas com a experiência, vinham as responsabilidades. Homens como Kane contavam com o fato de que seus adversários não tinham a coragem ou os meios para se beneficiarem dessas responsabilidades.

Ramsey não sofria de nenhuma das duas deficiências.

Ele entrou numa vaga ao longo do meio-fio no momento em que outro carro saía. Pelo menos uma coisa tinha dado certo hoje. Colocou 75 centavos no parquímetro e atravessou o clima frio até encontrar a Capitol Maps.

Loja interessante.

Nada além de mapas de todos os cantos do globo, incluindo uma coleção de guias de viagem impressionante. Ele não fora até ali movido por interesses cartográficos. Na verdade, precisava falar com a dona.

Entrou e a viu falando com um cliente.

Ela olhou de relance, mas nada em seu semblante indicou qualquer reconhecimento. Ramsey presumiu que os pagamentos consideráveis que ele lhe fizera ao longo dos anos de serviços prestados tinham ajudado a custear as despesas da loja, mas nunca tinham discutido o assunto. Uma de suas regras. Ativos eram ferramentas, a serem tratados como um martelo, um serrote ou uma chave de fenda. Usados. Para depois serem guardados. A maioria das pessoas que ele empregava entendia essa regra. As que não entendiam não eram chamadas nunca mais.

A dona da loja terminou a conversa com o cliente e se aproximou casualmente.

— Procurando algum mapa específico? Temos uma grande variedade.

Ele olhou ao redor.

— Têm mesmo. O que é ótimo, porque preciso de muita ajuda hoje.

 

WILKERSON PERCEBEU QUE ESTAVA SENDO SEGUIDO. UM HOMEM E UMA MULHER espreitavam a 300 metros dele, muito provavelmente alertados pelo contato que ele fizera com Berlim. Não haviam tomado nenhuma iniciativa para prendê-lo, o que significava uma de duas coisas: ou queriam Dorothea e estavam esperando que ele os levasse a ela ou ele estava sendo levado a algum lugar.

Nenhuma das perspectivas era agradável.

Ele abriu caminho por uma aglomeração de compradores muni-quenses, sem fazer ideia de quantos adversários havia adiante. Risco de segurança nível três? Isso significava que tentariam detê-lo com a força que fosse necessária — inclusive mortal. Pior, tinham tido horas para se preparar. Ele sabia que a operação Oberhauser era importante — mais pessoal que profissional —, e Ramsey tinha a consciência de um carrasco. Se ameaçado, reagiria. No momento, certamente parecia estar sendo ameaçado.

Wilkerson apertou o passo. Devia ligar para Dorothea e alertá-la, mas estava ressentido com a intervenção dela na ligação para Ramsey. Aquilo era problema seu, e ele era capaz de cuidar do assunto. Pelo menos ela não o repreendera sobre ter se enganado quanto a Ramsey. Em vez disso, levara-o a um hotel luxuoso e agradara os dois. Ligar para ela também significava ter de explicar como tinham sido localizados, uma conversa que ele gostaria de evitar.

Cinquenta metros adiante, o amontoado de pessoas da área da cidade antiga que era exclusiva para pedestres terminava numa larga avenida cheia de carros, entre fileiras de prédios com fachadas amarelas que projetavam uma sensação mediterrânea.

Ele olhou para trás.

Os dois que o seguiam diminuíram a distância.

Wilkerson virou para a esquerda, para a direita e depois para além da agitação. Uma fila de táxis estendia-se ao longo da outra calçada da avenida, os motoristas escorados do lado de fora, aguardando passageiros. Seis pistas de caos separavam-no de seu objetivo, o nível de ruído tão alto quanto a batida de seu coração. Os carros começaram a parar à medida que os sinais de trânsito à sua esquerda saíam do verde.

Um ônibus aproximou-se pela sua direita, na pista do meio.

As pistas internas e externas ficavam mais lentas.

A ansiedade deu lugar ao medo. Ele não tinha escolha. Ramsey o queria morto. E como sabia o que os dois perseguidores atrás dele tinham a oferecer, ele se arriscaria na avenida.

Saiu correndo, ao que o motorista pareceu vê-lo e freou.

Wilkerson calculou o passo seguinte com perfeição e saltou para o outro lado da pista do meio assim que os sinais de trânsito mudaram para vermelho e o ônibus começou a parar no cruzamento. Ele pulou a pista externa, que, por sorte, estava sem carros por alguns momentos, e encontrou o gramado do canteiro central.

O ônibus parou com um rangido e bloqueou todo o campo de visão a partir da calçada. Buzinas e freadas, feito gansos e corujas discutindo entre si, indicaram a oportunidade. Wilkerson tinha ganhado alguns segundos preciosos, então decidiu não desperdiçar nenhum. Atravessou as três pistas correndo, vazias graças ao sinal vermelho, e pulou para dentro do primeiro táxi da fila, ordenando ao motorista em alemão:

— Vá.

O homem foi para trás do volante, e Wilkerson abaixou-se quando o carro acelerou. Olhou pela janela.

O sinal ficou verde, ao que uma falange de veículos seguiu adiante. O homem e a mulher atravessaram a metade livre da avenida, mas foram impedidos de completar a passagem graças à torrente de trânsito na avenida.

Seus dois perseguidores procuraram por todos os lados.

Ele sorriu.

—            Para onde? — perguntou o taxista em alemão.

Decidiu fazer outra jogada inteligente:

—            Só algumas quadras, depois pare.

Quando o táxi se aproximou do meio-fio, Wilkerson jogou 10 euros para o motorista e saltou. Tinha visto uma placa indicando o metrô e desceu a escada correndo, comprou uma passagem e foi até a plataforma.

O trem subterrâneo chegou, e ele entrou num vagão quase lotado. Sentou-se e ativou o celular, que possuía um recurso especial. Digitou um código numérico, e apareceu na tela: DELETAR TODOS OS DADOS? Clicou em SIM. Assim como a segunda esposa, que nunca escutava de primeira o que ele dizia, o aparelho perguntou: TEM CERTEZA? Ele apertou SIM de novo.

A memória estava vazia agora.

Inclinou-se, aparentando a intenção de esticar as meias, e pôs o telefone debaixo do assento.

O trem partiu para a estação seguinte.

Ele saltou. Mas o celular continuou o trajeto.

Isso deveria deixar Ramsey ocupado.

Subiu para sair da estação, satisfeito com a fuga. Precisava entrar em contato com Dorothea, mas tinha de fazê-lo com cautela. Se ele estava sendo vigiado, ela também estava.

Saiu na tarde ensolarada e se localizou. Não estava longe do rio, perto do museu Deutsches. Mais uma rua movimentada e uma calçada lotada estendiam-se diante dele.

Um homem parou ao seu lado de repente.

—            Bitte, Herr Wilkerson — disse o homem em alemão. — Para aquele carro, logo ali, no meio-fio.

Wilkerson ficou paralisado.

O homem usava um longo casaco de lã e estava com as duas mãos nos bolsos.

—            Não quero — disse o estranho —, mas vou atirar em você aqui, se necessário.

O olhar de Wilkerson foi até o bolso do casaco do homem.

Uma sensação de náusea invadiu seu estômago. Não tinha como o pessoal de Ramsey tê-lo seguido até ali. Mas estava tão concentrado neles que não notara qualquer outra pessoa.

—            Você não é de Berlim, é? — perguntou.

—            Nein. Sou de um lugar totalmente diferente.

 

           AACHEN, ALEMANHA

           13H20

 

MALONE ADMIRAVA UM DOS ÚLTIMOS VESTÍGIOS DO IMPÉRIO CAROLÍNGIO, UMA OBRA conhecida então como a igreja de Nossa Senhora, e agora como a capela de Carlos Magno. A construção parecia ser formada por três seções distintas. Uma torre gótica, que parecia estar à parte. Uma seção intermediária redonda, mas angular, ligada à torre por uma ponte coberta e coroada por um domo pregueado pouco comum. E um prédio alto e alongado que parecia todo composto de telhado e vitrais. A mistura heterogênea tinha sido erigida entre o fim do século VIII e o XV, e era impressionante que tivesse sobrevivido, especialmente aos últimos cem anos, quando, Malone sabia, Aachen fora bombardeada impiedosamente.

A capela ficava na parte baixa de uma ladeira e antigamente era ligada às dependências do palácio por uma linha baixa de estruturas de madeira que abrigavam um solário, uma guarnição militar, tribunais e alojamentos para o rei e sua família.

O palatinado de Carlos Magno.

Restavam somente um pátio, a capela e os alicerces do palácio sobre os quais homens do século XIV construíram a prefeitura de Aachen. O resto havia desaparecido séculos antes.

Eles entraram na capela pelas portas laterais, o antigo portal isolado da rua. Três degraus levavam a um alpendre de estilo barroco, com paredes caiadas e sem ornamentos.

—            Esses degraus são importantes — disse Christl. — O nível do solo no lado de fora subiu desde o tempo de Carlos Magno.

Ele lembrou a história de Dorothea sobre Otto III.

—            Foi debaixo daqui que encontraram o túmulo de Carlos Magno? E o livro que está com Dorothea?

Ela assentiu.

—            Alguns dizem que Otto III cavou por este pavimento e encontrou o rei sentado com as costas retas, os dedos apontando para o Evangelho de Marcos. Pois de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma?

Ele percebeu o cinismo.

—            Outros dizem que o imperador Barbarossa encontrou o local da sepultura aqui em 1165, e o corpo jazia num caixão de mármore. Esse sarcófago romano está exposto na sala de tesouros ao lado. Supõe-se que Barbarossa tenha substituído um baú dourado, que agora está — ela apontou para a frente, no interior da capela — ali, no coro.

Atrás do altar, Malone avistou um relicário dourado exposto dentro de uma caixa de vidro iluminada. Eles saíram do alpendre e entraram na capela. Uma passagem circular estendia-se para a esquerda e para a direita, mas Malone parecia atraído para o centro do octógono interno. A luz, como uma névoa, era filtrada pelas janelas no alto do domo.

—            Um hexadecágono envolvendo um octógono — disse ele.

Oito pilares enormes dobravam-se um por cima do outro, formando pilares duplos que sustentavam o alto domo. Arcos arredondados subiam até as galerias superiores, onde colunas delgadas, pontes de mármore e grades de treliça conectavam tudo.

—            Durante três séculos, depois de sua conclusão, este foi o edifício mais alto ao norte dos Alpes — disse Christl. — Pedras eram usadas no sul para a construção de templos, arenas, palácios e, depois, igrejas, mas este tipo de edifício era desconhecido entre as tribos germânicas. Esta foi a primeira tentativa, fora do Mediterrâneo, de se erigir uma abóbada de pedra.

Malone olhou para a galeria altíssima.

—            Pouco do que você está vendo é do tempo de Carlos Magno—disse ela.—A estrutura em si, obviamente. As 36 colunas de mármore, lá, no segundo nível. Algumas delas são originais, trazidas da Itália, roubadas por Napoleão, mas que acabaram sendo devolvidas. As oito treliças de bronze entre os arcos também são originais. Todo o restante veio depois. Os carolíngios caiavam suas igrejas e pintavam o interior. Mais tarde, os cristãos adicionaram elegância. Esta restou, no entanto, como a única igreja da Alemanha construída por ordem de Carlos Magno que ainda está de pé.

Malone tinha de curvar as costas para trás a fim de observar o interior do domo. Os mosaicos dourados representavam 24 anciões, vestidos de branco, em pé diante do trono, ofertando coroas de ouro em adoração ao Cordeiro de Deus. Do apocalipse, se Malone não estava enganado. Mais mosaicos decoravam o tambor da coluna sob o domo. Maria, João Batista, Cristo, o arcanjo Miguel, Gabriel e até o próprio Carlos Magno.

Suspenso por uma corrente de ferro forjado, cujos elos engrossavam à medida que subiam, havia um sólido candelabro em forma de roda, repleto de intricada ourivesaria.

—            O imperador Barbarossa deu esse lustre de presente no século XII — disse ela —, depois de sua coroação. É um símbolo da Jerusalém celeste, a cidade das luzes, que descerá dos céus como a coroa de um vencedor, conforme foi prometido aos cristãos.

Apocalipse, mais uma vez. Ele pensou em outra catedral, a de São Marcos em Veneza.

—            Este lugar tem uma aparência e uma atmosfera bizantinas.

—            Reflete o amor de Carlos Magno pela riqueza bizantina, em oposição à austeridade romana.

—            Quem o projetou? Ela encolheu os ombros.

—            Ninguém sabe. Um mestre Odo é mencionado em alguns dos textos, mas não se sabe nada sobre ele, exceto que, aparentemente, conhecia a arquitetura do sul. Eginhardo com certeza participou, assim como o próprio Carlos Magno.

O interior não impressionava pelo tamanho. Na realidade, a ilusão era mais íntima, os olhos eram impelidos a se voltarem para o alto, na direção do céu.

A entrada para a capela era gratuita, mas alguns grupos de excursões pagas passavam de um lado para o outro, com guias explicando os destaques. A pessoa que estivera seguindo Malone e Christl desde a estação de trem também havia entrado, usando um dos grupos como disfarce. Em seguida, parecendo satisfeita com o fato de que só havia uma entrada, voltara para fora.

Malone tinha acertado. O carro que alugara estava sendo rastreado. De que outro modo o atirador os teria encontrado na noite anterior? Com certeza, não foram seguidos. Hoje, haviam usado o mesmo carro de Reichshoffen a Garmisch para pegar o trem, onde ele avistara o Cara de Machado pela primeira vez.

Não havia modo melhor de saber se uma pessoa os estava seguindo do que guiá-la.

Christl apontou para a galeria do segundo piso.

—            Aquela área era reservada exclusivamente para o monarca. Trinta sacros imperadores romanos foram coroados aqui. Ao se sentarem no trono e seguirem o exemplo de Carlos Magno, recebiam simbolicamente a posse do império. Nenhum imperador era considerado legítimo até subir ao trono que está ali.

O octógono estava cheio de cadeiras para os adoradores e, ele viu, para os turistas. Sentou-se num canto e perguntou:

—            OK, por que estamos aqui?

—            Matemática e arquitetura eram parte do amor de Eginhardo. Ele notou o que ela não declarou.

—            Ensinadas a eles pelos Sagrados?

—            Veja este local. Uma obra e tanto para o século IX. Muito pioneirismo aqui. A abóboda de pedra lá no alto? Foi revolucionária. Quem quer que a tenha projetado e construído sabia o que estava fazendo.

—            Mas o que esta capela tem a ver com o testamento de Eginhardo?

—            No testamento, Eginhardo escreveu que uma compreensão da sabedoria dos céus começa na nova Jerusalém.

—            Esta é a nova Jerusalém?

—            É exatamente como Carlos Magno se referia a esta capela. Ele lembrou o restante:

—            "As revelações lá serão esclarecidas uma vez que o segredo daquele local extraordinário seja decifrado. Esclareça esta busca por meio do emprego da perfeição do anjo à santificação do soberano. Mas apenas os que apreciam o trono de Salomão e a frivolidade romana encontrarão o caminho para os céus."

—            Tem boa memória.

—            Se você soubesse.

—            Enigmas não são meu forte, e já quebrei a cabeça com esse.

—            Quem disse que sou bom nisso?

—            Minha mãe disse que você tem uma fama e tanto.

—            Bom saber que passei no teste da mamãe. Como eu disse a ela e a você, ela parece ter escolhido um lado.

—            Ela está tentando fazer com que Dorothea e eu trabalhemos juntas. Em algum momento, pode ser necessário. Mas meus planos são de evitar isso o máximo possível.

—            Na abadia, quando você viu que aquele armário tinha sido vandalizado, achou que Dorothea era a culpada, não?

—            Ela sabia que meu pai guardava documentos ali. Mas eu nunca disse a ela como abrir o armário. Ela nunca se interessou, até recentemente. Ficou claro que ela não queria que eu ficasse com os papéis.

—            Mas queria que você ficasse comigo?

—            Isso é incompreensível.

—            Talvez ela tenha achado que eu seria inútil?

—            Não consigo imaginar por quê.

—            Bajulação? Você tenta de tudo.

Christl sorriu.

Ele queria saber:

—            Por que Dorothea roubaria os documentos da abadia e deixaria os originais de pelo menos um deles no castelo?

—            Dorothea raramente visitava o subsolo de Reichshoffen. Ela sabe pouco do que existe lá.

—            Então, quem matou a mulher do bonde?

O rosto de Christl endureceu.

—            Dorothea.

—            Porquê?

Ela deu de ombros.

—            Deve saber que minha irmã tem pouca ou nenhuma consciência.

—            Vocês são as gêmeas mais estranhas que já conheci.

—            Embora tenhamos nascido na mesma hora, isso não nos torna a mesma pessoa. Sempre mantivemos entre nós uma distância que ambas apreciamos.

—            Então, o que vai acontecer quando herdarem tudo isso?

—            Acho que minha mãe tem esperança de que esta busca acabe com nossas diferenças.

Malone notou sua reserva.

—            Não vai acontecer?

—            Nós duas prometemos tentar.

—            Vocês têm um jeito estranho de tentar.

Ele olhou para a capela à sua volta. A alguns metros, no polígono externo, ficava o altar principal.

Christl notou o interesse.

—            Dizem que o painel da frente foi feito com o ouro encontrado por Otto III no túmulo de Carlos Magno.

—            Já sei o que vai dizer. Mas ninguém tem certeza.

As explicações dela, até o momento, tinham sido específicas, mas isso não significava que estivessem certas. Malone olhou para o relógio de pulso e levantou-se.

—            Precisamos comer alguma coisa. Christl olhou para ele, confusa.

—            Não deveríamos tratar disto primeiro?

—            Se eu soubesse como, trataria.

Antes de entrar na capela, tinham passado pela loja de suvenires e visto que o interior ficava aberto até as 19 horas, com a última visita guiada começando às 18 horas. Malone também notara uma variedade de guias de viagem e materiais históricos, alguns em inglês, a maioria em alemão. Por sorte, sua fluência era razoável.

—            Precisamos fazer uma pausa, depois encontrar um lugar para comer.

—            O Marktplatz não fica longe.

Ele fez um gesto na direção das portas principais.

—            Vá na frente.

 

           CHARLOTTE, CAROLINA DO NORTE

           11H

 

CHARLIE SMITH USAVA CALÇA JEANS CLARA, BLUSA DE TRICÔ ESCURA E BOTAS COM bico de aço, todas compradas algumas horas antes num Wal-Mart. Imaginou-se como um dos Gatões, no condado de Hazzard, logo depois de pular para fora do assento do motorista do general Lee. O trânsito leve na rodovia de duas pistas ao norte de Charlotte permitira um ritmo tranquilo, e agora ele estava entre as árvores, tremendo de frio, olhando para a casa de uns 110 metros quadrados sob um telhado único.

Ele conhecia sua história.

Herbert Rowland tinha comprado o terreno aos 30 e poucos anos, terminando de quitá-lo aos 40, depois construíra a casa aos 50 e tantos. Duas semanas depois de se aposentar da Marinha, Rowland e a esposa encheram uma van com a mudança e dirigiram 30 quilômetros em direção ao norte de Charlotte. Tinham passado os últimos dez anos vivendo no sossego às margens do lago.

No voo partindo de Jacksonville, Smith estudara o arquivo. Rowland possuía duas preocupações médicas genuínas. A primeira era o diabetes que o acompanhava desde longa data. Tipo 1, dependente de insulina.

Controlável, desde que ele mantivesse as injeções de insulina diárias. A segunda era um amor pelo álcool, sendo o uísque sua preferência. Quase um connoisseur, gastava uma parte da pensão da Marinha com marcas de alta qualidade numa loja de bebidas cara de Charlotte. Sempre bebia em casa, à noite, junto com a esposa.

As anotações que Smith fizera no ano anterior sugeriam uma morte relacionada ao diabetes. Mas imaginar um método para alcançar esse resultado de forma a não levantar nenhuma suspeita tinha exigido bastante raciocínio.

A porta da frente abriu e Herbert Rowland saiu calmamente para a claridade do sol. O homem mais velho foi direto para um Ford Tundra sujo e saiu dirigindo. Um segundo veículo, que pertencia à esposa de Rowland, não estava à vista. Smith esperou na moita por dez minutos, depois decidiu arriscar.

Foi até a porta da frente e bateu.

Nenhuma resposta.

Mais uma vez.

Levou menos de um minuto para arrombar a fechadura. Sabia que não havia sistema de alarme. Rowland gostava de dizer às pessoas que considerava isso um desperdício de dinheiro.

Abriu a porta com cuidado, entrou e encontrou a secretária eletrônica. Verificou as mensagens salvas. A sexta, da esposa de Rowland, indicando data e horário de algumas horas antes, deixou-o satisfeito. Ela, que estava na casa da irmã e havia ligado para ver se ele estava bem, terminara a ligação mencionando que estaria de volta dali a dois dias.

Os planos dele mudaram de imediato.

Dois dias sozinho era uma oportunidade excelente.

Passou por uma prateleira de espingardas. Rowland era um caçador ávido. Verificou algumas das armas. Smith também gostava de caçar, só que seu alvo andava ereto sobre duas pernas.

Entrou na cozinha e abriu a geladeira. Alinhadas na prateleira da porta, exatamente onde o arquivo indicava, estavam quatro ampolas de insulina. Com dedos enluvados, examinou cada uma. Todas cheias, os lacres de plástico intatos, exceto pelo da que estava sendo usada no momento.

Smith levou o frasco até a pia, depois tirou do bolso uma seringa vazia. Perfurando o lacre de borracha com a agulha, manejou o êmbolo e sugou o conteúdo da ampola, descartando-o em seguida no ralo da pia. Repetiu o processo mais duas vezes até esvaziar o frasco. Em outro bolso, encontrou uma garrafinha de soro fisiológico. Encheu a seringa e injetou o conteúdo, repetindo o processo até encher o frasco com a mesma quantidade de líquido que tinha antes.

Enxaguou a pia e recolocou a ampola adulterada na geladeira. Dali a oito horas, quando Herbert Rowland tomasse a injeção, pouco notaria. Mas álcool e diabetes não combinavam. Álcool em excesso e diabetes não tratado eram absolutamente fatais. Em algumas horas, Rowland deveria estar em choque e, pela manhã, morto.

Tudo o que Smith teria de fazer era manter a vigília.

Ouviu um motor do lado de fora e correu para a janela.

Um homem e uma mulher saíam de um Chrysler compacto.

 

DOROTHEA ESTAVA PREOCUPADA. WILKERSON TINHA SAÍDO HAVIA MUITO TEMPO. Dissera que ia encontrar uma padaria e trazer alguns doces, mas isso tinha sido quase duas horas antes.

O telefone do quarto tocou e a assustou. Ninguém sabia que ela estava ali, exceto...

Pegou o fone.

—            Dorothea — disse Wilkerson. — Ouça. Fui seguido, mas consegui despistá-los.

—            Como nos encontraram?

—            Não faço idéia, mas voltei para o hotel e vi homens na frente. Não use o celular. Pode estar sendo monitorado. Fazemos isso o tempo todo.

—            Tem certeza de que os despistou?

— Usei o metrô. É em você que estão se concentrando agora, uma vez que pensam que você os levará a mim.

A mente dela começou a maquinar.

—            Espere algumas horas, depois pegue o metrô até a Haupt-bahnhof. Aguarde perto do centro de informações turísticas. Estarei lá às 6 horas.

—            Como vai sair do hotel? — ele perguntou.

—            Com tantos negócios da minha família aqui, o recepcionista deve ser capaz de resolver qualquer coisa que eu peça.

 

STEPHANIE DESCEU DO CARRO, E EDWIN DAVIS SARJ PELO LADO DO PASSAGEIRO. Tinham dirigido de Atlanta a Charlotte, cerca de 380 quilômetros, só pela rodovia interestadual, uma viagem de pouco menos de três horas. Davis descobrira o endereço físico de Herbert Rowland, capitão de corveta, reformado, nos registros da Marinha, e o Google fornecera o mapa de como chegar lá.

A casa ficava ao norte de Charlotte, às margens do lago Eagles, o qual, pelo tamanho e pela forma irregular, parecia artificial. Suas margens eram íngremes, arborizadas e rochosas. Havia poucos terrenos residenciais. A casa de Rowland, com paredes de madeira e telhado com arestas, ficava a 400 metros da estrada, entre faias desfolhadas e álamos verdes, com uma ótima vista.

Stephanie não estava certa do que estavam fazendo e expressara suas preocupações durante a viagem, sugerindo que a polícia deveria ser contatada.

Mas Davis rejeitara a idéia.

—            Ainda acho uma idéia ruim — disse-lhe ela.

—            Stephanie, se eu fosse ao FBI ou ao delegado local e contasse a minha suspeita, diriam que estava louco. E quem vai saber? Talvez eu esteja.

—            A morte de Zachary Alexander ontem à noite não é fantasia.

—            Mas também não é um assassinato comprovado.

Eles haviam ficado sabendo por intermédio do Serviço Secreto, em Jacksonville. Não fora detectada evidência alguma de crime. Ela notou que não havia carros estacionados diante da casa.

—            Parece que não tem ninguém em casa.

Davis bateu a porta do carro.

—            Só tem um jeito de saber.

Ela o seguiu até a varanda, onde ele bateu à porta. Sem resposta. Bateu mais uma vez. Mais alguns segundos de silêncio, e Davis testou a maçaneta.

A porta se abriu.

—            Edwin... — começou ela, mas ele já havia entrado.

Ela ficou na varanda.

—            Isto é crime.

Ele se virou.

—            Então, fique aí no frio. Não estou lhe pedindo para violar a lei.

Stephanie sabia que alguém pensando com clareza era necessário; então, entrou.

—            Devo estar louca para me meter nisso.

Davis sorriu.

—            Malone me contou que disse a mesma coisa a você ano passado, na França.

Ela não fazia idéia.

—            Mesmo? O que mais Cotton disse?

Ele não respondeu, apenas seguiu em frente para investigar. A decoração a fez pensar nas lojas da Pottery Barn. Cadeiras com encosto ripado, sofá em módulos, tapetes de juta sobre pisos de madeira alvejados. Tudo estava arrumado e organizado. Fotos emolduradas dominavam as paredes e mesas. Era óbvio que Rowland era esportista. Espécimes espalhados pelas paredes misturavam-se a mais retratos do que pareciam ser filhos e netos. Um sofá em módulos ficava de frente para um deque de madeira. Dava para ver a margem do outro lado do lago. A casa parecia estar no canto de uma angra.

Davis permanecia concentrado em olhar para todos os lados, abrindo gavetas e armários.

—            O que está fazendo? — perguntou ela.

Ele passou para a cozinha.

—            Só tentando entender as coisas.

Ela o ouviu abrir a geladeira.

—            Pode-se descobrir muito sobre uma pessoa analisando a sua geladeira — disse ele.

—            Sério? O que descobriu na minha?

Ele havia se aventurado na dela antes de saírem, para pegar algo para beber.

—            Que você não cozinha. Ela me fez lembrar a faculdade. Não tem muita coisa lá.

Stephanie abriu um sorriso.

—            E o que você descobriu aqui?

Ele apontou.

—            Herbert Rowland é diabético.

Ela viu frascos com o nome de Rowland marcados como INSULINA.

—            Essa não foi tão difícil.

—            E ele gosta de uísque gelado. Maker's Mark. Coisa boa.

Havia três garrafas na prateleira de cima.

—            Você bebe? — perguntou ela.

Ele fechou a porta da geladeira.

—            Gosto de tomar uma dose de Macallan envelhecido sessenta anos de vez em quando.

—            Precisamos sair daqui — disse ela.

—            Isto é para o bem de Rowland. Alguém vai matá-lo, da maneira que ele menos espera. Temos de verificar os outros cômodos.

Ela ainda não estava convencida e voltou para a sala. Três portas davam para fora do grande cômodo. Abaixo de uma delas, Stephanie notou algo. Alteração nas luzes, sombras, como se alguém tivesse acabado de passar do outro lado.

Sinais de alarme tocaram em seu cérebro.

Ela retirou uma Beretta do Setor Magalhães de sob o casaco.

Davis viu a arma.

—            Veio armada?

Ela ergueu o dedo indicador, sinalizando para que ele ficasse em silêncio, e apontou para a porta.

Temos companhia, ele leu nos lábios dela.

 

CHARLIE SMITH ESTIVERA TENTANDO ESCUTAR. OS DOIS INVASORES TINHAM entrado na casa com atrevimento, forçando-o a ir para o quarto, onde ele fechara a porta e permanecera perto dela. Quando o homem dissera que pretendia checar os outros cômodos, Smith soube que estava encrencado. Não tinha levado armas. Só carregava uma quando absolutamente necessário, e como tinha ido de avião da Virgínia à Flórida, levar armas teria sido impossível. Além disso, armas eram um péssimo modo de matar alguém sem levantar suspeitas. Chamava muita atenção, deixava provas e propiciava perguntas.

Não deveria ter ninguém lá. O arquivo deixara claro que Herbert Rowland trabalhava como voluntário na biblioteca local todas as quartas-feiras até as 17 horas. Demoraria horas para voltar. A esposa, claro, não estava. Ele pegara fragmentos da conversa, que parecia mais pessoal que profissional, e a mulher estava claramente tensa. Mas, então, ouvira: Veio armada?

Ele precisava sair, mas não tinha para onde ir. Havia quatro janelas nas paredes externas do quarto, mas não forneciam nenhuma saída imediata.

Havia um banheiro e dois closets no quarto. Ele precisava fazer algo rápido.

 

STEPHANIE ABRIU A PORTA DO QUARTO. A CAMA DA SUÍTE PRINCIPAL ESTAVA feita, tudo arrumado, como o restante da casa. A porta do banheiro estava aberta, e a luz do dia que entrava pelas quatro janelas lançava um brilho intenso sobre o carpete berber do quarto. Do lado de fora, árvores empurradas pela brisa balançavam e sombras escuras dançavam pelo chão.

—            Nada de fantasmas? — disse Davis.

Ela apontou para baixo.

—            Alarme falso.

Então, ela avistou algo.

Um dos closets tinha portas de correr e parecia ser da Sra. Rowland, com roupas de mulher penduradas de modo aleatório. Um segundo closet era menor, com uma porta de dobradiças. Ela não via dentro, uma vez que a porta estava aberta em ângulo reto para ela, que se encontrava no pequeno corredor que dava para o banheiro. De onde ela estava, era possível ver o interior do banheiro. Um cabide de plástico na maçaneta de dentro balançava, muito de leve, de um lado para o outro.

Não era muito, mas o suficiente.

—            O que foi? — perguntou Davis.

—            Você tem razão — disse ela. — Nada aqui. É só o nervosismo de cometer uma invasão de domicilio.

Ela pôde ver que Davis não havia notado, ou, se notara, estava disfarçando.

—            Podemos sair daqui agora? — perguntou ela.

—            Claro. Acho que vimos o suficiente.

 

WILKERSON ESTAVA ATERRORIZADO.

Tinha sido forçado, sob a mira de uma arma, a ligar para Dorothea, com o homem da calçada dizendo-lhe exatamente o que falar. O cano de uma pistola automática de 9mm ficara perto de sua têmpora esquerda, e ele fora avisado que qualquer variação no roteiro resultaria no aperto do gatilho.

Mas ele havia feito exatamente o que fora instruído a fazer.

Depois, fora levado para o outro extremo de Munique na parte de trás de um Mercedes de duas portas, as mãos algemadas nas costas, o sequestrador ao volante. Ficaram parados por um tempo, quando o capor o deixou sozinho no carro, enquanto falava ao celular do lado de fora.

Várias horas se passaram. Dorothea logo chegaria à estação de trem, mas eles não estavam perto de lá. Na verdade, estavam saindo do centro, seguindo para o sul, longe da cidade, na direção de Garmisch e dos Alpes, a mais de 90 quilômetros de distância.

—            Posso pedir uma coisa? — perguntou ele ao motorista.

O homem não disse nada.

—            Já que não vai me dizer para quem trabalha, e quanto ao seu nome? Segredo, também?

Tinham lhe ensinado que conversar com o sequestrador era o primeiro passo para conhecê-lo. O Mercedes virou para a direita, numa rampa de acesso, e acelerou, entrando na auto-estrada.

—            Meu nome é Ulrich Herm — disse o homem finalmente.

 

           Aachen, 17h

 

Malone se viu apreciando a refeição. Ele e Christl haviam andado de volta para a Marktplatz triangular e encontraram um restaurante de frente para o prédio da prefeitura. No caminho, pararam na loja de suvenires da capela e compraram meia dúzia de guias de viagem. Seu roteiro os levara por um labirinto de travessas apertadas de paralelepí­pedos, com fileiras de sobrados burgueses que criavam uma atmosfera medieval, embora a maioria tivesse apenas cerca de cinquenta anos, uma vez que Aachen havia sido fortemente bombardeada nos anos 1940. O frio da tarde não tinha diminuído o movimento de compras. As pessoas lotavam as lojas decoradas, em preparação para o Natal.

Cara de Machado ainda os estava seguindo e tinha entrado num café do outro lado da rua, na diagonal de onde ele e Christl estavam sentados. Malone pedira e recebera uma mesa perto da janela, de onde podia ficar de olho no que acontecia do lado de fora.

Perguntava-se sobre o perseguidor deles. O fato de ser só um sig­nificava que estavam lidando com amadores ou pessoas mesquinhas demais para contratar ajuda suficiente. Talvez Cara de Machado se achasse tão bom que ninguém jamais o notaria. Ele conhecera muitos detetives com egos parecidos.

Já havia folheado três dos guias de viagem. Exatamente como Christl dissera, Carlos Magno considerava a capela sua "nova Jerusa­lém". Séculos depois, Barbarossa confirmou essa declaração ao doar o candelabro de cobre e ouro. Antes, Malone notara uma inscrição em latim nos aros do candelabro, e uma tradução aparecia em um dos guias. A primeira frase era: "Aqui tu apareces no quadro, Ó, Jerusa­lém, Sião celestial, Tabernáculo de paz para nós e esperança de aben­çoado descanso."

Notker, um historiador do século IX, era citado como tendo dito que Carlos Magno ordenara a construção da capela "de acordo com uma concepção própria", e o comprimento, a largura e a altura pos­suíam uma relação simbólica. Os trabalhos haviam começado em al­gum ponto entre 790 e 800 d.C., e o edifício fora consagrado em 6 de janeiro de 805 pelo papa Leão III, na presença do imperador.

Ele pegou outro guia.

—            Suponho que você tenha estudado a história do tempo de Carlos Magno em detalhes, não?

Ela saboreava uma taça de vinho.

É a minha área. Para a civilização ocidental, o período carolíngio foi uma transição. Antes de Carlos Magno, a Europa era uma cal­deira em ebulição de raças em conflito, ignorância incomparável e caos político pesado. Carlos Magno criou o primeiro governo centralizado ao norte dos Alpes.

No entanto, tudo o que ele conseguiu extinguiu-se após sua mor­te. Seu império desagregou-se. Seu filho e seus netos destruíram tudo.

Mas aquilo em que ele acreditava criou raízes. Ele achava que o primeiro objetivo do governo tinha de ser o bem-estar do povo. Os camponeses eram, para ele, seres humanos nos quais valia a pena pensar. Não governou para a sua glória, mas para o bem comum. Disse muitas vezes que sua missão não era expandir seu império, mas mantê-lo.

Ainda assim, ele conquistou novos territórios.

Minimamente. Territórios aqui e ali para propósitos específi­cos. Foi um revolucionário sob quase todos os aspectos. Governantes da sua época reuniam homens de força muscular, arqueiros, guerrei­ros, mas ele convocava estudiosos e professores.

Ainda assim, tudo isso desapareceu, e a Europa permaneceu doente por mais quatrocentos anos antes que houvesse uma verdadei­ra mudança.

Christl assentiu.

—            Esse parece ser o destino da maioria dos grandes soberanos. Os herdeiros de Carlos Magno não eram tão sábios. Ele se casou muitas vezes e teve muitos filhos. Ninguém sabe quantos. Seu primogênito, Pepino, o Corcunda, não teve chances de reinar.

A menção da deformidade fez Malone pensar na coluna torta de HenrikThorvaldsen. Perguntou-se o que o amigo dinamarquês estaria fazendo. Thorvaldsen certamente conhecia ou tinha ouvido falar em Isabel Oberhauser. Alguma informação sobre essa personalidade seria útil. Mas se Malone lhe telefonasse, Thorvaldsen ia querer saber por que ele ainda estava na Alemanha. Uma vez que nem ele mesmo sabia a resposta a essa pergunta, não fazia sentido provocá-la.

Pepino acabou sendo deserdado disse ela quando Carlos Magno teve filhos saudáveis, sem deformidades, com outras esposas. Ele tornou-se um inimigo mordaz do pai, mas morreu antes de Carlos Magno. Luís, no final das contas, foi o único filho a sobreviver. Era dócil, profundamente religioso e culto, mas recuava diante da batalha e faltava-lhe perseverança. Foi forçado a abdicar em favor de seus três filhos, que, até 841, dilaceraram o império. Ele só veio a ser reunificado no século X, por Otto I.

Ele também recebeu ajuda? Dos Sagrados?

Ninguém sabe. O único registro direto do envolvimento de­les com a cultura europeia são os contatos com Carlos Magno, que estão apenas no diário que está comigo, aquele que Eginhardo dei­xou no túmulo.

E como foi que tudo isso permaneceu em segredo?

Meu avô contou apenas ao meu pai. Mas devido à sua mente di­vagante, era difícil saber o que era real ou imaginado. Meu pai envolveu os Estados Unidos. Nem meu pai nem os norte-americanos puderam ler o livro do túmulo de Carlos Magno, que é o que está com Dorothea e que deve ser o relato completo. Assim, o segredo permaneceu.

Como ela estava falando, Malone perguntou:

Então, como seu avô conseguiu encontrar alguma coisa na An­tártida?

Não sei. Só sei que encontrou. Você viu as pedras.

E quem está com elas agora?

Dorothea, aposto. Ela certamente não queria que eu ficasse com elas.

Então, ela destruiu aqueles mostruários? Os que seu avô montou?

Minha irmã nunca se importou com as crenças de nosso avô. E ela é capaz de qualquer coisa.

Ele notou mais frieza no tom e decidiu não pressionar mais. Em vez disso, olhou um dos guias e examinou um esboço da capela, dos pátios ao redor e dos edifícios adjacentes.

O complexo da capela parecia ter um formato quase fálico, circular numa das extremidades, com uma extensão projetada para a frente e uma extremidade arredondada do outro lado. Era ligado ao que um dia fora um refeitório e agora era a sala do tesouro por uma porta in­terna. Apenas um grupo de portas externas era mostrado: a entrada principal que eles haviam utilizado, chamada Portas do Lobo.

—            Em que está pensando? — perguntou Christl.

A pergunta chamou a atenção de Malone de volta para ela.

—            No livro que está com você, do túmulo de Eginhardo. Você tem uma tradução completa do latim?

Ela assentiu.

Salva no meu computador em Reichshoffen. Mas não ajuda muito. Ele fala dos Sagrados e de algumas visitas deles com Carlos Magno. A informação importante deve estar no livro de Dorothea. O que Eginhardo chamou de "compreensão plena".

Mas parece que seu avô alcançou essa compreensão.

Parece que sim, embora não tenhamos certeza.

Afinal, o que vai acontecer quando terminarmos esta busca? Não temos o livro que está com Dorothea.

É quando minha mãe espera que comecemos a trabalhar jun­tas. Cada uma tem uma parte, e somos obrigadas a cooperar uma com a outra.

Mas as duas estão tentando como loucas obter todas as partes para não precisarem uma da outra.

Como ele tinha conseguido se envolver numa confusão daquelas?

—            A busca de Carlos Magno é, para mim, a única maneira de se descobrir alguma coisa. Dorothea acha que a solução pode estar com a Ahnenerbe e o que quer que aquela instituição tenha buscado. Mas não acredito que seja este o caso.

Ele ficou curioso.

Você sabe muito sobre o que ela pensa.

Meu futuro está em risco. Por que não saberia tudo que posso?

Aquela mulher elegante nunca hesitava diante de um substanti­vo, procurava o tempo correto dos verbos e não deixava de usar a expressão certa. Apesar de bonita, inteligente e intrigante, algo em Christl Falk não soava bem. Semelhante ao que ele pensara ao conhe­cer Cassiopeia Vitt, na França, no ano anterior.

Atração misturada com cautela. Mas essa negativa aparentemente nunca o deteve. O que as mulheres fortes com contradições profundas tinham que o atraía? Pam, sua ex-esposa, era difícil. Todas as mulheres que conhecera depois do divórcio tinham dado trabalho, inclusive Cas­siopeia. E agora, aquela herdeira alemã que combinava beleza, cére­bro e ousadia.

Ele olhou pela janela para o prédio neogótico da prefeitura, os te­lhados das torres dos dois lados, uma delas com um relógio que mar­cava 17h30.

Christl notou seu interesse na construção.

— Tem uma história. A capela fica atrás da prefeitura. Carlos Magno mandou que fossem ligadas a um pátio, cercado pela área de seu palácio. No século XIV, quando Aachen erigiu essa prefeitura, mudaram a entrada do lado norte, de frente para o pátio, para o sul, voltada para cá. Isso representa uma independência cívica nova. As pessoas tornaram-se convencidas da própria importância e, simboli­camente, voltaram as costas para a Igreja. Ela apontou para a fonte da Marktplatz. Aquela estátua no alto é Carlos Magno. Veja que ele não está virado para a igreja. Uma reafirmação do século XVII.

 

Malone aproveitou o convite dela a olhar para fora como uma oportunidade de examinar o restaurante em que Cara de Machado refugiara-se — um prédio de tabique que lembrava um pub inglês. Fi­cou escutando a babel de línguas misturadas ao tinido de pratos e ta­lheres ao seu redor. Notou que não estava mais fazendo objeções, em silêncio ou abertamente, não buscava mais explicações para o motivo de estar ali. Em vez disso, sua mente jogava com uma ideia. O peso frio da arma do dia anterior no bolso da jaqueta o reconfortou. Mas só restavam cinco balas.

Nós vamos conseguir disse ela.

Ele a encarou.

Nós vamos?

É importante que nós consigamos. Os olhos dela brilhavam de ansiedade. Mas Malone ficou pensando.

 

           Charlotte

 

Charlie Smith esperava no closet. Tinha corrido para dentro, sem pensar, ficou aliviado ao ver que o espaço era fundo e estava bagunçado e posicionou-se atrás das roupas penduradas, deixando a porta aberta, na esperança de que isso evitasse que alguém olhasse lá dentro. Ouviu a porta do quarto se abrir e os dois visitantes entrarem mas parecia que seu artifício tinha funcionado. Eles decidiram ir embora, e ele ou­viu a porta da casa abrir e fechar.

Isso foi o mais próximo que ele já estivera de ser descoberto. Não esperava nenhuma interrupção. Quem eram eles? Ramsey devia ser informado? Não, o almirante deixara claro que não deveria haver ne­nhum contato até que os três serviços estivessem concluídos.

Smith arrastou-se até a janela e viu o carro que tinha sido estaciona­do na frente desaparecer pela alameda de cascalhos, na direção da estra­da, com dois passageiros dentro. Orgulhou-se da preparação meticulosa. Seus arquivos eram uma fonte de informações valiosas. As pessoas cos­tumavam ser criaturas de hábitos. Até as que insistiam em dizer que não tinham hábitos praticavam a previsibilidade. Herbert Rowland era um homem simples, que aproveitava a aposentadoria com a esposa às mar­gens de um lago, cuidando da própria vida, seguindo a rotina diária.

Voltaria para casa mais tarde, provavelmente com alguma comida com­prada em um restaurante, tomaria a injeção, apreciaria o jantar e beberia até dormir, sem saber que aquele seria seu último dia na Terra.

Smith balançou a cabeça quando o medo passou. Estranho modo de ganhar a vida, mas alguém tinha de fazer aquilo.

Precisava se manter ocupado pelas horas seguintes, então decidiu voltar à cidade e ir ao cinema. Talvez saborear um bife no jantar. Ele sabia que em Charlotte havia alguns restaurantes que ele adorava.

Mais tarde, retornaria.

 

STEPHANIE estava em silêncio no carro, enquanto Davis dirigia por um caminho cheio de folhas e cascalhos, voltando para a rodovia. Ela olhou para trás e viu que a casa não se encontrava mais à vista. Eles estavam cercados por um bosque cerrado. Stephanie tinha dado as chaves a Davis, pedindo que dirigisse. Por sorte, ele não questionara, apenas fora para trás do volante.

—            Pare disse ela.

Os pneus foram freando, esmagando o cascalho do chão.

—            Qual o número do seu celular?

Stephanie digitou em seu aparelho o número que Davis lhe infor­mou e levou a mão à maçaneta do carro.

—            Volte para a rodovia e siga por alguns quilômetros. Pare em algum lugar em que não possa ser visto e aguarde a minha chamada.

O que vai fazer?

Seguir uma intuição.

 

Malone caminhava com Christl para o outro lado da Marktplatz. Eram quase 18 horas, e o sol estava baixo num céu marcado por nuvens de tem­pestade. O tempo havia piorado, e ele sentiu um vento gelado e cortante.

Ela os levou na direção da capela pelo antigo pátio do palácio, uma praça retangular cujo comprimento era o dobro da largura, pavimen­tada com paralelepípedos e preenchida por fileiras de árvores desfo­lhadas e cobertas de neve. Os prédios ao redor bloqueavam o vento, mas não o frio. Crianças corriam, gritando e falando numa confusão alegre. O mercado natalino de Aachen ocupava o pátio. Parecia que toda cidade alemã tinha um. Ele se perguntou o que seu filho, Gary, estaria fazendo — agora sem aulas por causa do feriado. Malone pre­cisava telefonar. Ligava pelo menos a cada dois dias.

Viu as crianças correrem na direção de um novo divertimento. Um homem de expressão abatida exibindo um manto de pelo roxo e um longo chapéu afilado que o fez lembrar a figura de um ceifador.

São Nicolau — disse Christl. — Nosso Papai Noel.

Bem diferente.

Ele usou o tumulto animado para confirmar que Cara de Machado os havia seguido, permanecendo atrás, examinando casualmente as barracas perto de um alto abeto azul com velas elétricas e luzes minús­culas equilibradas em galhos agitados. Malone sentiu o cheiro de vina­gre fervente glühwein. A alguns metros dali, havia uma barraca que vendia o fermentado quente, com clientes enluvados segurando canecas marrons fumegantes.

Ele apontou para outro mercador vendendo algo que parecia um biscoito.

O que é aquilo?

Uma iguaria local. Aachener printen. Bolo de gengibre condi­mentado.

Vamos comer um.

Christl o encarou com um olhar inquisidor.

—            O que foi? — disse ele. — Eu gosto de doce.

Eles foram até lá, e Malone comprou dois dos biscoitos chatos e duros.

Ele experimentou.

— Nada mau.

Achara que o gesto ajudaria Cara de Machado a relaxar e ficou satis­feito em ver que deu certo. O homem permaneceu casual e confiante.

A escuridão logo chegaria. Ele havia comprado entradas para a visita guiada das 18 horas na capela quando pararam para comprar os guias de viagem. Malone ia precisar improvisar. Ficara sabendo pelas leituras que a capela fora reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade. Roubar ou causar danos ali seria uma ofensa grave. Mas depois do mosteiro em Portugal e da basílica de São Mar­cos em Veneza, o que importava?

Ele parecia estar se especializando em vandalizar tesouros mundiais.

 

Dorothea entrou na estação de trem de Munique. A Hauptbahnhof ti­nha uma localização conveniente no centro da cidade, a cerca de 2 quilômetros da Marienplatz. Trens de toda a Europa chegavam e par­tiam de hora em hora, além das conexões locais com as linhas do me­trô, dos bondes e dos ônibus. A estação não era uma obra-prima histórica — era mais uma combinação moderna de aço, vidro e concre­to. Relógios por todo o interior indicavam que passava das 18 horas. O que estava acontecendo?

Parecia que o almirante Langford Ramsey queria Wilkerson morto, mas ela precisava de Wilkerson. Na verdade, Dorothea gostava dele.

Ela olhou ao redor e viu o centro de informações turísticas. Uma rápida vista dos bancos não mostrou sinal de Wilkerson, mas, entre a multidão, ela avistou um homem.

O corpo alto vestia um terno príncipe de gales de três botões, sapa­tos oxford de couro e um casaco de lã. Tinha um cachecol escuro Burberry enrolado no pescoço. O rosto era bonito, com feições de criança, embora a idade claramente tivesse adicionado marcas de ex­pressão. Os olhos cinza-aço, emoldurados por óculos de aro de metal, exibiam um olhar penetrante.

Seu marido. Werner Lindauer.

Ele se aproximou.

—         Gutten abend, Dorothea.

Ela não sabia o que dizer. Seu casamento estava entrando no 23° ano, uma união que, no começo, tinha sido produtiva. Mas, durante a última década, ela passara a não gostar dos choramingos perpé­tuos dele, além da falta de consideração por qualquer coisa que esti­vesse além de seu próprio interesse. Seu único aspecto positivo tinha sido a devoção a Georg, o filho do casal. Mas a morte do rapaz, cinco anos antes, tinha aberto uma grande lacuna entre eles dois. Ambos ficaram arrasados, mas lidaram com a perda de formas diferentes. Ela se isolara. Ele ficara indignado. Desde então, ela simplesmente seguiu a vida, permitindo que ele seguisse a dele, um sem respon­der ao outro.

O que está fazendo aqui? — perguntou ela.

Vim atrás de você.

Ela não estava no clima para gracinhas. Vez ou outra, ele tentara ser homem, mas eram mais caprichos passageiros do que alguma mu­dança fundamental.

Ela queria saber:

Como soube que eu estaria aqui?

O comandante Sterling Wilkerson me contou. O choque dela transformou-se em pavor.

—            Homem interessante — disse ele. — Com uma arma na cabeça, simplesmente não consegue parar de falar.

O que você fez? — perguntou ela, sem esconder a perplexidade.

Werner concentrou o olhar nela.

Muita coisa, Dorothea. Temos um trem a pegar.

Não vou a lugar algum com você.

Ele pareceu conter uma onda de irritação. Talvez não tivesse cogi­tado essa reação. Mas seus lábios relaxaram num sorriso reconfortante que, na verdade, a assustou.

—            Então, você vai perder o desafio de sua mãe para a irmã queri­da. Isso não importa?

Ela não fazia idéia de que ele soubesse o que estava acontecendo. Não lhe contara nada. Estava claro, porém, que o marido estava bem informado.

Finalmente, ela perguntou:

Aonde vamos?

Ver nosso filho.

 

Stephanie viu Edwin Davis sair com o carro. Em seguida, mudou o celular para o modo silencioso, abotoou o casaco e entrou na floresta. Havia pi­nheiros antigos e faias desfolhadas, muitas com trepadeiras de viscos, espalhados sobre os galhos. O inverno havia afinado apenas minimamente a vegetação rasteira. Ela avançou devagar pelos 100 metros até a casa, com uma grossa camada de folhas de pinho abafando seus passos.

Tinha visto o cabide balançando. Sem dúvida. Mas fora um erro dela ou da pessoa cuja presença ela percebera?

Sempre repetia a seus agentes para acreditarem nos próprios ins­tintos. Nada funcionava melhor que o bom-senso. Cotton Malone ti­nha sido um mestre nisso. Ela se perguntou o que ele estaria fazendo naquele momento. Não tinha voltado a ligar a respeito da informação sobre Zachary Alexander ou dos outros oficiais do Holden.

Será que ele encontrara problemas também?

A casa apareceu, sua silhueta marcada pelas muitas árvores que ficavam no caminho. Ela se agachou atrás de um dos troncos.

Todas as pessoas, não importa quão talentosas sejam, acabam fa­zendo besteira. O truque era estar lá quando a coisa acontecesse. Se o que Davis dissera era verdade, Zachary Alexander e David Sylvian tinham sido assassinados por alguém especialista em disfarçar as mor­tes. E ainda que Davis não tivesse expressado suas reservas, Stephanie as detectara quando ele lhe contara como Millicent morrera.

Teve uma parada cardíaca.

Davis também estava seguindo a intuição.

O cabide tinha balançado.

E, sabiamente, ela não revelara o que vira no quarto. Decidira ver se Herbert Rowland era, de fato, o próximo.

A porta da casa se abriu e um homem baixo e magro, de jeans e botas. saiu. Ele hesitou, depois caminhou depressa e desapareceu na floresta. O coração dela disparou. Filho da puta. O que ele tinha feito lá dentro?

Ela pegou o celular e digitou o número de Davis, que respondeu depois de um toque.

Você estava certo — disse ela.

Sobre o quê?

O que disse sobre Langford Ramsey. Tudo. Absolutamente tudo.

 

           Aachen,

           18h15

 

Malone seguiu o grupo de turistas até o octógono central da capela de Carlos Magno. O interior estava quase trinta graus mais quente que ao ar livre, e ele estava grato por não estar no frio. A guia falava inglês. Cerca de vinte pessoas tinham comprado entradas, e Cara de Machado era uma delas. Por algum motivo, o perseguidor deles ti­nha decidido esperar do lado de fora. Talvez o espaço fechado tives­se indicado necessidade de cautela. A falta de uma multidão também podia ter influenciado a escolha. As cadeiras sob o domo estavam vazias, e apenas o grupo de turistas e cerca de dez outros visitantes perambulavam ali.

Um flash fez as paredes brilharem, quando alguém tirou uma foto. Um dos atendentes correu na direção da mulher que estava com a câmera.

—            Há uma taxa sussurrou Christl para se tirar fotos.

Ele viu a visitante desembolsar alguns euros e o homem fornecer-lhe uma pulseira.

Agora ela está dentro da lei? Christl abriu um sorriso.

Manter este lugar custa dinheiro

Malone ouviu a guia explicar sobre a capela, sendo que a maior parte da informação era uma regurgitação do que ele lera nos guias de viagem. Ele quisera acompanhar o grupo porque apenas as visitas guiadas tinham acesso a certas partes, especialmente o piso superior, onde ficava o trono imperial.

Malone e Christl caminharam com os visitantes até o interior de uma das sete capelas laterais que se projetavam do núcleo carolíngio. Esta era a de São Miguel recentemente reformada, explicou a guia. Havia bancos de madeira voltados para um altar de mármore. Várias pessoas do grupo pararam para acender velas. Malone notou uma porta no que ele concluiu que era a parede oeste e lembrou que devia ser a outra saída que descobrira ao ler os guias. A porta pesa­da de madeira encontrava-se fechada. Ele andou casualmente pelo interior pouco iluminado, enquanto a guia seguia em seu monólogo sobre a história. Diante da porta, ele parou e testou rapidamente o trinco. Trancada.

O que está fazendo? perguntou Christl.

Resolvendo o seu problema.

Seguiram o grupo, passando pelo altar principal, na direção do coro gótico, outra área aberta apenas para excursões guiadas. Ele pa­rou dentro do octógono e examinou uma inscrição em mosaico que circundava os arcos inferiores. Letras latinas pretas sobre um fundo dourado. Christl carregava a bolsa de plástico com os guias de viagem. Ele rapidamente encontrou o que queria, um livreto fino com o título adequado Pequeno guia da catedral de Aachen, e observou que o latim no texto impresso batia com o do mosaico.

 

CUM LAPIDES VIVI PACIS CONPAGE LIGANTUR INQUE

PARES NÚMEROS OMNIA CONVENIUNT CLARET OPUS

DOMINI TOTAM QUI CONSTRUIT AULAM

EFFECTUSQUE PUS DAT STUDIIS HOMINUM QUORUM

PERPETUI DECORIS STRUCTURA MANEBIT SI PERFECTA

AUCTOR PROTEGAT ATQUE REGAT SIC DEUS HOC

TUTUM STABILI FUNDAMINE TEMPLUM QUOD

KAROLUS PRINCEPS CONDIDIT ESSE VELIT

 

Christl notou o interesse dele.

É a consagração da capela. Originalmente, foi escrita na pedra. Os mosaicos são um acréscimo mais recente.

Mas as palavras são as mesmas do tempo de Carlos Magno? perguntou ele. Na mesma localização?

Ela assentiu.

—            Até onde se sabe.

Malone deu um sorriso.

—            A história deste lugar é como o meu casamento. Ninguém pare­ce saber de nada.

—            E o que aconteceu com Frau Malone?

Ele percebeu o interesse no tom de voz de Christl.

Ela decidiu que Herr Malone era um pé no saco.

Talvez ela esteja certa.

—            Acredite, Pam sempre estava certa sobre tudo. Mas ele acrescentou em silêncio uma restrição que só passou a entender anos depois do divórcio. Quase. Em relação ao filho deles, ela esta­va errada. Mas Malone não ia discutir a paternidade de Gary com essa desconhecida.

Examinou a inscrição mais uma vez. Os mosaicos, o piso de már­more e as paredes revestidas de mármore tinham todos menos de du­zentos anos. Na época de Carlos Magno, que era a época de Eginhardo, a pedra que o cercava seria grosseira e pintada. Fazer, naquele mo­mento, o que Eginhardo instruíra começar na nova Jerusalém seria desanimador, uma vez que não existia quase nada de 1.200 anos de idade. Mas Hermann Oberhauser havia solucionado o enigma. De que outro modo teria encontrado alguma coisa? Então, em algum lugar dentro daquela estrutura estava a resposta.

—            Precisamos alcançar o grupo disse Malone.

Eles se apressaram e chegaram ao coro exatamente quando a guia estava prestes a pendurar de volta a corda que bloqueava a entrada. Logo adiante, o grupo estava reunido em torno de um relicário doura­do, dentro de uma caixa de vidro sobre um pedestal que parecia uma mesa, com pouco mais de 1 metro do chão.

—            O relicário de Carlos Magno sussurrou Christl. Do século XIII. Contém os ossos do imperador. Noventa e dois. Outros quatro estão na sala do tesouro, e o restante se perdeu.

—            As pessoas contam os ossos?

—            Dentro do relicário tem um registro de todas as vezes, desde 1215, em que a tampa foi aberta. Ah, sim, elas contam.

Ela envolveu o braço de Malone com delicadeza e o levou até um es­paço diante do relicário. O grupo de turistas havia recuado para trás do pedestal, enquanto a guia explicava como o coro fora consagrado em 1414. Christl apontou para uma placa de homenagem embutida no chão.

—- Abaixo daqui é onde Otto III foi enterrado. Supõe-se que outros 15 imperadores também estejam enterrados à nossa volta.

A guia respondia às perguntas sobre Carlos Magno, enquanto o grupo tirava fotos. Malone examinou o coro, um design gótico ousa­do, no qual paredes de pedra pareciam se confundir com elevadas se­ções de vidro. Ele observou que o coro e o núcleo carolíngio uniam-se, de modo que as partes mais altas preenchiam o octógono e nenhuma das duas estruturas perdia a própria eficácia.

Examinou os limites superiores do coro, concentrando-se na gale­ria do segundo piso, que circundava o octógono central. Quando Ma­lone estudara os esboços nos guias de viagem, havia pensado que um ponto de vantagem ali, no octógono, forneceria uma visão clara do que ele precisava ver.

E estava certo.

Tudo no segundo piso parecia interligado. Até agora, tudo bem.

O grupo foi levado de volta à entrada principal da capela, onde subiram o que a guia chamou de escadaria do imperador, um caminho circular que levava até a galeria superior, no qual cada degrau de pe­dra havia sido trabalhado para formar uma curva inclinada. A guia abriu um portão de ferro e explicou a todos que apenas os sacro impe­radores romanos tinham permissão para subir ali.

A escadaria conduziu a uma galeria espaçosa com vista para o oc­tógono aberto. A guia chamou a atenção de todos para uma mistura grosseira de pedras que formavam degraus, um ataúde, um assento e um altar que se projetava da parte de trás da plataforma elevada. O edifício de aparência esquisita era circundado por uma corrente deco­rativa de ferro forjado que mantinha os visitantes a distância.

—            Este é o trono de Carlos Magno — disse a guia. — Está aqui no piso superior e elevado dessa maneira para ser semelhante aos tronos das cortes bizantinas. E, assim como aqueles, está localizado no eixo da igreja, do lado oposto ao do altar principal, e voltado para o leste.

Malone ouviu a guia descrever como quatro placas de mármore de Paros tinham sido unidas com simples grampos de latão para formar o assento imperial. Os seis espelhos de pedra dos degraus foram cor­tados de uma coluna romana antiga.

—            Seis foram escolhidos — disse a guia — para corresponder ao trono de Salomão, conforme detalhado no Antigo Testamento. Salomão foi o primeiro a ordenar a construção de um templo, o primeiro a esta­belecer um reino de paz e o primeiro a se sentar num trono. Tudo seme­lhante ao que Carlos Magno havia conseguido no norte da Europa.

Parte do que Eginhardo escrevera veio à mente de Malone. Mas apenas os que apreciam o trono de Salomão e a frivolidade romana encontra­rão o caminho para os céus.

—            Ninguém sabe ao certo quando este trono foi instalado pros­seguiu a guia. Alguns dizem que é do tempo de Carlos Magno. Ou­tros argumentam que veio depois, no século X, com Otto I.

—            É tão simples disse um dos turistas. Quase feio.

—            Pela espessura das quatro placas de mármore que formam a cadeira, que, como pode ver, varia, fica claro que eram pedras de piso. Definitivamente romanas. Devem ter sido recuperadas de algum lu­gar especial. Parece que eram tão importantes que sua aparência não importava. Nesta simples cadeira de mármore, com assento de madei­ra, o sacro imperador romano era coroado e depois recebia o preito de seus príncipes.

A guia apontou para baixo do trono, para uma pequena passagem que ia de um lado ao outro.

—            Peregrinos, com as costas curvadas, passavam por baixo do tro­no, prestando sua própria homenagem. Durante séculos, este local foi venerado.

Ela levou o grupo até o outro lado.

—            Agora, olhem aqui. A mulher apontou. Vejam as gravuras.

Malone estava lá por isso. Imagens tinham sido incluídas nos

guias de viagem, junto com várias explicações, mas ele queria ver pessoalmente.

Linhas desbotadas eram visíveis na superfície áspera de mármo­re. Um quadrado que cercava outro quadrado, que cercava um tercei­ro. Na metade dos lados do quadrado maior, uma linha projetava-se para dentro, dividindo a segunda forma em duas partes e parando na linha do quadrado interno. Nem todas as linhas tinham sobrevivido, mas o que ainda havia foi suficiente para que ele formasse a imagem mental completa.

—            Isto é prova disse a guia de que as placas de mármore eram originariamente piso romano. Este era o tabuleiro usado para o Moinho, uma combinação de damas, xadrez e gamão. Era um jogo simples que os romanos adoravam. Eles gravavam os quadrados em uma pedra e se entretinham continuamente. O jogo também era popu­lar no tempo de Carlos Magno e ainda é praticado hoje.

O que isso está fazendo num trono real? — perguntou alguém.

A guia balançou a cabeça.

Ninguém sabe. Mas você não diria que é um aspecto interessante?

 

Malone fez um movimento para que Christl se afastasse. A guia

continuou discursando sobre a galeria superior, e mais flashes foram disparados. O trono parecia dar uma boa foto e, felizmente, todos es­tavam usando a pulseira oficial.

Ele e Christl passaram em volta de um dos arcos superiores, agora fora do alcance da visão do grupo guiado.

Malone varreu a semiescuridão com o olhar. Do coro abaixo, ele havia suposto que o trono ficava na galeria oeste. Em algum lugar ali em cima, ele esperava, haveria um lugar para se esconderem.

Levou Christl até um nicho escuro na parede externa, entrou na penumbra e fez sinal de silêncio. Eles ouviram o grupo sair da galeria superior e descer para o piso térreo.

Malone olhou para o relógio: 19 horas. Hora de fechar.

 

         Garmisch, 20h30

 

DOROTHEA ESTAVA NUM DILEMA. O marido parecia saber tudo sobre Sterling Wilkerson, o que a surpreendia. Mas também sabia da busca com Christl, e isso a preocupava além do fato de que Werner parecia estar mantendo Wilkerson como prisioneiro. Que diabos estava acontecendo?

Tinham embarcado em um trem das 18h40, saindo de Munique e partindo para Garmisch, no sul. Durante a viagem de oitenta minu­tos, Werner não dissera nada; simplesmente permanecera sentado, lendo calmamente um jornal de Munique. Ela sempre achara irritante o modo como ele devorava cada palavra, lendo até mesmo o obituá­rio e os anúncios, comentando aqui e ali os itens que lhe interessavam. Ela queria saber o que ele quisera dizer com ver nosso filho, mas decidiu não perguntar. Pela primeira vez em 23 anos, aquele homem demonstrara determinação, então ela decidiu ficar quieta e ver aonde as coisas iam dar.

Agora, estavam seguindo para o norte, dirigindo por uma estrada escura e se distanciando de Garmisch, do mosteiro de Ettal e de Reichshoffen. Um carro estivera esperando diante da estação, com as chaves sob o tapete da frente. Ela então percebeu para onde estavam indo, um local que ela evitara nos últimos três anos.

—            Não sou burro, Dorothea — disse Werner finalmente. — Você pensa que sou, mas não sou.

Ela decidiu não satisfazê-Io.

—            Na verdade, Werner, eu nem penso em você.

Ele ignorou o golpe e seguiu dirigindo pelo frio. Por sorte, não es­tava nevando. Viajar por aquela estrada trazia lembranças que Doro­thea lutara muito para apagar. De cinco anos antes. Quando o carro de Georg derrapou para fora de uma rodovia sem grade de proteção nos Alpes tiroleses. Ele estava lá esquiando e tinha ligado pouco antes do acidente para dizer à mãe que ficaria na mesma pousada de sempre. Conversaram por alguns minutos, simples, breve e casual, mãe e filho, o tipo de conversa à toa que acontecia o tempo todo.

Mas foi a última vez que ela falou com Georg.

Quando voltou a ver seu único filho, ele estava deitado em um caixão, vestindo um terno cinza, pronto para o enterro.

O lote da família Oberhauser no cemitério ficava ao lado de uma igreja bávara antiga, alguns quilômetros a oeste de Reichshoffen. Após o funeral, a família havia doado uma capela ali, em nome de Georg, e nos dois primeiros anos Dorothea fizera visitas regulares e acendera uma vela a cada vez.

Mas nos últimos três anos ela se mantivera longe.

Ela avistou a igreja adiante, com uma iluminação tênue passando pelas janelas de vitral. Werner estacionou em frente.

Por que temos de estar aqui? — perguntou Dorothea.

Acredite, se não fosse importante, não estaríamos.

Werner saiu do carro para a escuridão. Ela o seguiu igreja adentro. Não havia ninguém lá, mas o portão de ferro para a capela de Georg estava aberto.

—            Faz tempo que você não vem aqui — disse ele.

Isso é da minha conta.

—            Eu venho com frequência.

Isso não a surpreendeu.

Dorothea se aproximou do portão. Havia um genuflexório de már­more diante de um pequeno altar. Acima, São Jorge, montando num cavalo prateado, estava esculpido na pedra. Ela raramente rezava e não sabia se de fato tinha alguma fé. O pai havia sido um ateu convic­to; a mãe, uma católica não praticante. Se existia um Deus, Dorothea não sentia nada além de raiva dele por ter-lhe tirado a única pessoa que ela amara incondicionalmente.

Para mim chega, Werner. O que você quer? Esta é a sepultura de Georg. Ele merece nosso respeito. Não é o local para expormos nos­sas diferenças.

E você o respeita ao me desrespeitar?

Eu não me preocupo com você, Werner. Você tem a sua vida, e eu, a minha.

Acabou, Dorothea.

Concordo. Nosso casamento acabou há muito tempo.

Não foi o que quis dizer. Chega de homens. Sou seu marido, e você é minha esposa.

Ela riu.

Você só pode estar brincando.

Na verdade, estou falando muito sério.

E o que fez com que você evoluísse de repente e se transformas­se em um homem?

Ele recuou para a parede.

Há um momento em que os vivos têm de deixar que os mortos partam. Cheguei a esse ponto.

Você me trouxe aqui para dizer isso?

O relacionamento deles havia começado por intermédio dos pais de cada um. Não fora um casamento arranjado no sentido for­mal, mas, ainda assim, fora planejado. Felizmente, uma atração floresceu, e os primeiros anos foram felizes. O nascimento de Georg trouxe grande alegria para ambos. Os anos da infância e adoles­cência do filho também tinham sido maravilhosos. Mas sua morte criou diferenças irreconciliáveis. Parecia haver uma necessidade de determinar culpa, e cada um direcionou as frustrações para o outro.

Eu a trouxe aqui porque tinha de trazer.

Eu não cheguei ao ponto que você parece ter chegado.

—            É uma pena disse ele, sem parecer ter ouvido. Ele teria sido um grande homem.

Dorothea concordou.

—            O garoto tinha sonhos, ambições, e nós podíamos alimentar cada desejo dele. Ele teria tido o melhor de nós dois. Ele se virou e a encarou. O que será que ele pensaria de nós agora?

Ela achou a pergunta estranha.

—            Como assim?

Nenhum de nós tem tratado bem o outro.

A mulher precisava saber:

Werner, o que você está fazendo?

Talvez ele esteja ouvindo e queira saber o que você pensa. Ela não gostou de ser pressionada.

Meu filho teria aprovado tudo o que eu fiz.

—            Teria? Teria aprovado o que você fez ontem? Você matou duas pessoas.

E como você sabe disso?

Ulrich Henn limpou a sua bagunça.

Dorothea estava confusa e preocupada, mas não ia discutir o as­sunto ali, naquele lugar sagrado. Saiu andando na direção do portão, mas ele bloqueou seu caminho e disse:

—            Não vai poder fugir desta vez.

Uma onda de mal-estar tomou conta de Dorothea. Ela o odiou por violar o santuário de Georg.

Saia.

Tem alguma idéia do que está fazendo?

Vá para o inferno, Werner.

Você não tem noção da realidade.

A expressão dele não era a de um homem nervoso ou amedronta­do; então, ela ficou curiosa.

—            Você quer que eu perca para Christl?

A expressão dele suavizou-se.

—            Eu não sabia que era uma competição. Achei que fosse mais um desafio. Mas é por isso que estou aqui... para ajudá-la.

Ela precisava saber o que ele sabia e como, mas só conseguiu dizer:

—            Um filho morto não constrói um casamento. — O olhar dela encontrou o dele. — Não preciso da sua ajuda. Não mais.

Está enganada.

Quero sair — disse ela. — Vai me deixar passar?

O marido permaneceu imóvel, e por um instante ela chegou a ter medo. Werner sempre se agarrara às emoções como um homem afogando-se agarra um salva-vidas. Bom para começar brigas, péssimo para terminá-las. Então, quando ele saiu da frente, Dorothea não ficou surpresa e passou adiante.

—            Há algo que você precisa ver — disse Werner.

Ela parou, virou-se e viu mais uma coisa que não percebia naquele homem havia muito tempo. Confiança. O medo tomou conta dela mais uma vez.

Werner saiu da igreja e foi até o carro, e Dorothea o seguiu. Ele pegou uma chave e abriu o porta-malas. Lá dentro, uma luz fraca re­velou o rosto contorcido, morto, de Sterling Wilkerson, um buraco de sangue no meio da testa.

Ela ficou sem ar.

Isto é muito sério, Dorothea.

Por quê? perguntou ela. Por que você fez isso? Ele deu de ombros.

—            Você o estava usando, assim como ele a usava. Esta é a questão: ele está morto; eu, não.

 

           Washington, D.C.

           14h40

 

Ramsey foi levado até a sala de estar do almirante de esquadra da marinha dos Estados Unidos Raymond Dyals Jr., reformado. O missouriano de 94 anos servira na Segunda Guerra Mundial, na Coreia e no Vietnã, depois se aposentara no início dos anos 1980. Em 1971, quando o NR-1A foi perdido, Dyals era chefe de operações navais, o homem que assinara a ordem sigilosa para que não fosse iniciada nenhuma busca de resgate pelo submarino desaparecido. Ramsey era então capitão-tenente, o escolhido por Dyals para a missão, relatando pessoalmente ao almirante sobre a visita secreta do Holden a Antártida. Tinha sido rapidamente promovido a capitão de fragata e indicado para a equipe pessoal de Dyals. Dali em diante, os passos da escalada tinham sido rápidos e fáceis.

Ele devia tudo àquele velho. E sabia que Dyals ainda exercia influência.

Era o oficial-general mais velho ainda vivo. Os presidentes o con­sultavam, inclusive o atual. Seu juízo era considerado sólido e signifi­cativo. A imprensa tratava-o com grande consideração, e senadores faziam peregrinações rotineiras à sala para onde Ramsey agora se en­caminhava, diante de um fogo intenso, um cobertor de lã estendido sobre as pernas delgadas do velho, um gato peludo aninhado no colo de Dyals. O veterano até ganhara um apelido — Falcão de Inverno —, que Ramsey sabia que ele apreciava.

Os olhos enrugados brilharam quando Dyals o viu entrar.

—            Sempre gosto quando você vem.

Ramsey permaneceu de pé respeitosamente diante do mentor até ser convidado a se sentar.

—            Achei que teria notícias suas — disse Dyals. — Fiquei sabendo de Sylvian hoje de manhã. Ele foi da minha equipe certa vez. Um bom auxiliar, mas rígido demais. Mas parece ter-se saído bem. Apenas rela­tos honrosos sobre sua vida o dia todo.

Ramsey decidiu ir ao ponto.

—            Quero o emprego dele.

As pupilas melancólicas do almirante iluminaram-se com aprovação.

—            Membro, chefe do Estado-Maior Conjunto. Nunca cheguei tão longe.

Poderia ter chegado.

O velho balançou a cabeça.

—            Reagan e eu não nos dávamos bem. Ele tinha os seus favoritos, ou pelo menos seus assistentes tinham favoritos, e eu não estava na lista. Além disso, estava na hora de eu sair.

—            E quanto a você e Daniels? Você está na lista de favoritos dele? Ele sentiu algo inflexível e severo na expressão de Dyals.

Langford — disse Dyals —, você sabe que o presidente não é nosso amigo. Tem sido duro com os militares. Orçamentos foram re­duzidos; programas, restringidos. Ele acha que nem precisamos de Estado-Maior Conjunto.

Ele está enganado.

Talvez. Mas ele é o presidente, e é benquisto. Como Reagan foi, só que com uma filosofia diferente.

—            Certamente há oficiais militares que ele respeita. Homens que você conhece. O apoio deles à minha candidatura faria a diferença.

Dyals acariciou de leve o gato.

—            Muitos deles iriam querer o cargo para si mesmos.

Ramsey não disse nada.

Não acha toda essa questão repulsiva? perguntou Dyals. Implorar favores. Contar com políticos corruptos para fazer carreira. Foi um dos motivos pelos quais optei por sair.

É como o nosso mundo funciona. Não criamos as regras, só agimos de acordo com as que existem.

Ele sabia que muitos oficiais-generais e um bom número de "polí­ticos corruptos" podiam agradecer a Ray Dyals o cargo que tinham. O Falcão de Inverno tinha muitos amigos, e sabia como usá-los.

—            Nunca esqueci o que você fez murmurou Dyals calmamen­te. Costumo pensar no NR-1A. Aqueles homens. Conte mais uma vez, Langford, como foi?

 

Um brilho azulado e melancólico penetrava o gelo da superfície, a cor in­tensificando-se com a profundidade, evoluindo, por fim, para uma escuridão anil. Ramsey usava um volumoso traje de mergulho da Marinha, com lacres apertados e camadas duplas, nada exposto a não ser uma estreita faixa de pele em torno dos lábios, que queimara quando ele entrara na água, mas agora es­tava dormente. Luvas pesadas faziam suas mãos parecerem inúteis. Felizmen­te, a água dissipava todo o peso, e, boiando na vastidão clara como o ar, ele sentiu como se estivesse voando e não nadando.

O sinal do transponder que Herbert Rowland havia detectado os guiou pela neve até uma baía estreita, onde o oceano glacial batia na praia congelada, um local em que focas e aves estavam reunidas para o verão. A intensidade do sinal exigia uma inspeção em primeira mão. Por isso ele vestira o traje, e Sayers e Rowland ajudaram-no a instalar o equipamento. Suas ordens eram claras. Somente ele entrou na água.

Verificou a profundidade: 12 metros.

Impossível saber a que distancia estava do fundo, mas ele esperava poder ao menos avistar algo, o suficiente para confirmar o destino do submarino. Rowland dissera que a fonte estava mais para o interior, na direção das mon­tanhas que se encontravam perto da costa.

Ramsey batia as pernas na água.

Uma parede de rocha vulcânica salpicada por uma formação de anémonas alaranjadas, esponjas, chifres-de-veado rosa e moluscos verde-amarelados se erguia à sua esquerda. Exceto pelo fato de a água estar a dois graus negativos, ele poderia estar num recife de corais. A luz acima ficava cada vez mais fraca no teto congelado, e o que pouco antes aparecia como um céu nublado, em tons variados de azul, enegreceu de modo uniforme.

O gelo acima parecia ter sido substituído por rochas.

Ramsey desprendeu uma lanterna do cinto e a ligou. Pequenos plânctons boiavam ao seu redor. Ele não viu sedimentos. Apontou a luz, e o facho parecia invisível, uma vez que não havia nada para a difusão retrógrada dosfótons. Eles simplesmente pairavam na água, revelando-se apenas quando encontravam algo.

Como uma foca, que passou rapidamente, quase sem flexionar um músculo.

Mais focas apareceram.

Ramsey ouviu seus gritos trêmulos e até sentiu-os no corpo, como se esti­vesse sendo localizado por um sonar. Que missão. Uma oportunidade de mos­trar serviço a homens que poderiam literalmente fazer a carreira dele. Por isso se apresentara como voluntário assim que soubera da missão. Também esco­lhera Sayers e Rowland pessoalmente, dois homens que sabia serem confiá­veis. Rowland dissera que a fonte do sinal talvez estivesse 200 metros ao sul. Não mais. Ramsey estimou que nadara pelo menos por essa distância. Vascu­lhou as profundezas com uma luz que alcançava, talvez, 15 metros. Esperava ver a vila laranja do NR-1A surgindo no fundo.

Parecia estar flutuando numa enorme caverna subaquática que se abria diretamente no continente antártico, com as rochas vulcânicas que agora o circundavam.

Seu olhar buscou. Nada. Apenas água e escuridão.

No entanto, o sinal estava lá.

Decidiu explorar mais 100 metros.

Mais uma foca passou rapidamente. Diante de Ramsey, o balé delas era hipnótico. Ele as observava deslizar sem esforço. Uma delas girou numa am­pla cambalhota, depois fez uma retirada rápida para cima.

Ele a seguiu com sua luz.

O animal desapareceu.

Uma segunda foca bateu as nadadeiras e subiu.

Ela também atravessou a superfície.

Como isso era possível?

Só deveria haver rochas acima dele.

 

—            Incrível — disse Dyals. Que aventura. Ramsey concordava.

—            Quando subi à superfície, a sensação em meus lábios era como se eu estivesse beijando metal congelado.

O almirante deu uma risadinha.

Eu teria adorado fazer o que você fez.

A aventura não acabou, almirante.

Suas palavras eram entremeadas de pavor, e o velho entendeu que a visita continha um duplo propósito.

—            Conte.

Ramsey relatou a violação do arquivo de investigação do NR-1A pelo Setor Magalhães. O envolvimento de Cotton Malone. O esforço bem-sucedido dele de obter o arquivo. E o acesso da Casa Branca à fi­cha pessoal de Zachary Alexander, Herbert Rowland e Nick Sayers. Omitiu apenas o que Charlie Smith estava fazendo.

—            Alguém está investigando disse ele.

—            Era só uma questão de tempo sussurrou Dyals. Parece muito difícil guardar segredos hoje.

Posso impedir declarou ele.

O velho estreitou os olhos.

Então, deve.

—            Tomei medidas. Mas você mandou, há muito tempo, que ele fosse deixado em paz.

Não era necessário usar nomes. O ele era conhecido entre eles.

Então, você veio ver se a ordem ainda se mantém?

Ele assentiu.

Para ser completo, ele também tem de ser incluído.

Não posso mais dar ordens a você.

—            Você é o único homem que obedeço de boa vontade. Quando nos afastamos, 38 anos atrás, você deu a ordem. Deixe-o em paz.

—            Ainda está vivo? perguntou Dyals. Ele assentiu.

—            Sessenta e oito anos. Mora no Tennessee. Dá aula numa fa­culdade.

Ainda declamando as mesmas bobagens?

Nada mudou.

E os outros dois capitães-tenentes que estavam lá com você? Ramsey não disse nada. Não precisava.

Você tem estado ocupado disse o almirante.

Fui bem treinado.

Dyals continuou a acariciar o gato.

Arriscamos em 1971. É verdade que a tripulação de Malone concordou com as condições antes de partir, mas não precisávamos ter levado isso a cabo. Poderíamos ter procurado por eles. Sempre me per­gunto se fiz a coisa certa.

Fez.

Como pode ter tanta certeza?

Os tempos eram outros. O submarino era nossa arma mais se­creta. Não poderíamos revelar sua existência de jeito nenhum, muito menos o fato de que tinha naufragado. Quanto tempo ia demorar para que os soviéticos encontrassem os destroços? E tinha a questão do NR-1. Estava em missões então, e ainda está em operação hoje. Sem dúvida, você fez a coisa certa.

—            Acha que o presidente está tentando descobrir o que aconteceu?

Não. Está alguns degraus abaixo na escada, mas o homem tem a atenção de Daniels.

E você acredita que tudo isso pode destruir suas chances de indicação?

—            Sem dúvida.

Não havia necessidade de acrescentar o óbvio. Além de destruir sua reputação.

—            Então, retiro a ordem. Faça o que achar adequado.

 

         Aachen, 21h50

 

Malone estava sentado no chão de um cômodo vazio e apertado que era acessível pela galeria superior. Ele e Christl haviam se refugiado lá dentro depois de se apartarem do grupo de turistas. Ele observara por um espaço de 2 centímetros abaixo da porta e vira as luzes de dentro da capela diminuírem e as portas serem fechadas para a noite. Isso ti­nha sido duas horas antes, e eles não tinham ouvido nenhum som des­de então, exceto o murmúrio abafado do mercado natalino entrando pela única janela do cômodo e um leve zunido do vento que castigava as paredes do lado de fora.

É estranho aqui dentro disse Christl. Tão silencioso.

Precisamos de tempo para examinar o local sem interrupções. — Malone também esperava que seu desaparecimento confun­disse Caia de Machado.

Quanto tempo vamos esperar? perguntou ela.

As coisas precisam se acalmar lá fora. Nunca se sabe, ainda pode haver visitantes aqui dentro antes do fim da noite. Decidiu tirar vantagem da solidão deles. Preciso saber algumas coisas.

A luz esverdeada dos holofotes externos, ele viu a expressão dela se animar.

Estava imaginando quando você iria perguntar.

Os Sagrados. O que a faz pensar que são reais?

Christl pareceu surpresa com a indagação, como se estivesse espe­rando outra coisa. Mais pessoal. Mas manteve a compostura e disse:

—            Já ouviu falar do mapa de Piri Reis?

Malone ouvira. Supostamente criado por um pirata turco e datado de 1513.

—            Foi encontrado em 1929 — disse ela. — Apenas um fragmento do original, mas mostra a América do Sul e o oeste da África em longi­tudes corretas. Os navegadores do século XVI não tinham como con­firmar a longitude; o conceito só seria aperfeiçoado no século XVIII. Gerardus Mercator tinha 1 ano quando esse mapa foi desenhado, en­tão era anterior ao método dele de projetar a Terra sobre uma superfí­cie plana, marcando tudo com latitude e longitude. Mas o mapa faz exatamente isso. Também detalha a costa norte da Antártida. O conti­nente nem tinha sido descoberto antes de 1818. Foi só em 1949 que os primeiros exames com sonares foram feitos sob o gelo. Desde então, radares terrestres mais sofisticados fizeram o mesmo. Há uma equipa­ração quase perfeita entre o mapa de Piri Reis e o contorno real da costa da Antártida, abaixo do gelo.

"Há também uma observação no mapa que indica que o cartógra­fo usou informações do tempo de Alexandre, o Grande, como fonte de pesquisa. Alexandre viveu no começo do século IV antes de Cristo. Na época, a Antártida era coberta por quilômetros de gelo. Portanto, aquelas fontes de pesquisa mostrando o contorno da costa original teriam de ser datadas de algum ponto por volta de mais de 10 mil anos antes de Cristo, quando havia muito menos gelo, até cerca de 50 mil anos antes de Cristo. Além disso, lembre-se de que um mapa é inútil sem observações que indiquem o que está ali. Imagine um mapa da Europa sem nada escrito. Não diria muita coisa. Em geral, aceita-se que a própria escrita data dos sumérios, cerca de 3.500 anos antes de Cristo. Se Reis usou mapas de referência, que teriam de ter muito mais de 3.500 anos, isso significa que a arte da escrita é muito mais antiga do que pensamos."

Muitos saltos de lógica nesse argumento.

Você é sempre tão cético?

Concluí que é algo saudável quando o meu está na reta.

Como parte da minha dissertação de mestrado, estudei mapas medievais e descobri uma dicotomia interessante. Os mapas terrestres da época eram grosseiros: a Itália ficava unida à Espanha, a Inglaterra parecia deformada, montanhas estavam no lugar errado, rios eram de­senhados sem precisão. Mas os mapas náuticos eram outra história. Eram chamados de portulanos, que significa "de porto em porto". E eram incrivelmente precisos.

E você acha que os cartógrafos desses mapas receberam ajuda.

Estudei muitos portulanos. A carta Dulcert Galway de 1339 re­presenta a Rússia com grande precisão. Um mapa turco de 1559 mostra o mundo por outra perspectiva, como se o observador pairasse acima do polo Norte. Como isso foi possível? Um mapa da Antártida publica­do em 1737 mostrava o continente dividido em duas ilhas, o que agora sabemos ser verdade. Um mapa de 1531 que examinei mostrava a Antártida sem gelo, com rios e até montanhas que hoje sabemos que estão enterradas pelo gelo. Nenhuma dessas informações estava disponível quando esses mapas foram criados. Mas eles têm uma precisão notável, com meio grau de margem de erro na longitude. É incrível, consideran­do-se que os cartógrafos sequer conheciam o conceito.

Mas os Sagrados conheciam longitude?

Para navegarem pelos oceanos do mundo, eles precisariam en­tender de orientação pelas estrelas ou de latitude e longitude. Na mi­nha pesquisa, notei semelhanças entre os portulanos. Demais para serem mera coincidência. Então, se uma sociedade navegadora existiu há muito tempo e conduziu explorações pelo planeta inteiro séculos antes das grandes catástrofes geológicas e meteorológicas que devas­taram a Terra cerca de 10 mil anos antes de Cristo, é lógico que a infor­mação foi transmitida... e sobreviveu até chegar a esses mapas.

Malone ainda estava cético, mas após a breve visita pela capela, pen­sando no testamento de Eginhardo, começava a reavaliar as coisas.

Ele rastejou até a porta e espiou por baixo. Silencioso ainda. Esco­rou-se na folha de madeira.

—            Tem mais uma coisa disse Christl. Ele estava ouvindo.

—            O meridiano de origem. Quase todo país que chegou a navegar pelos mares desenvolveu algum. Tinha de haver um ponto de partida longitudinal. Finalmente, em 1884, as maiores nações do mundo reu­niram-se em Washington, D.C., e escolheram uma linha que passava por Greenwich como sendo a longitude de grau zero. Uma constante mundial, que desde então tem sido usada. Mas os portulanos contam uma história diferente. Por incrível que pareça, todos pareciam usar como linha inicial um ponto a 31 graus e oito minutos a oeste.

Malone não compreendeu a implicação daquelas coordenadas, além do fato de ficarem a leste de Greenwich, em algum lugar depois da Grécia.

—            Essa linha atravessa a Grande Pirâmide de Gizé disse ela. Na mesma conferência de 1884 em Washington, um argumento foi apresentado para que a linha inicial passasse por esse ponto, mas foi rejeitado.

Ele não entendeu qual era a questão.

—            Todos os portulanos que encontrei utilizavam o conceito de longitude. Não me entenda mal, esses mapas antigos não continham linhas de latitude e longitude como conhecemos hoje. Usavam um mé­todo mais simples, escolhendo um ponto central, depois desenhando um círculo ao seu redor e dividindo-o. Prosseguiam fazendo isso para fora, gerando uma forma rudimentar de medida. Cada um dos portu­lanos que mencionei usava o mesmo centro. Um ponto no Egito, perto do que hoje é o Cairo, onde fica a pirâmide de Gizé.

Um amontoado de coincidências, Malone tinha de admitir.

—            Ao sul, aquela linha de longitude através de Gizé passa pela Antártida, exatamente onde os nazistas exploraram em 1938, sua Neuschwabenland. — Christl fez uma pausa, então continuou: — Meu avô e meu pai sabiam disso. Esses conceitos me foram apresentados na leitura das anotações deles.

—            Achei que seu avô fosse senil.

—            Ele deixou algumas anotações históricas. Não muitas. Meu pai também. Eu só gostaria que tivessem falado mais sobre essa busca.

—            Isso é loucura — disse Malone.

—            Quantas realidades científicas de hoje começaram da mesma maneira? Não é loucura. É real. Tem algo aí, esperando para ser encon­trado.

Algo que o pai dele pode ter morrido buscando. Malone olhou para o relógio.

—            Provavelmente podemos descer. Preciso verificar algumas coisas.

Ele ficou apoiado em um joelho e se ergueu do chão. Mas Christl o deteve, a mão na perna da calça dele. Ele ouvira as explicações e con­cluiu que ela não era uma doida.

—            Fico grata pelo que está fazendo — disse ela, mantendo a voz baixa.

Não fiz nada.

Está aqui.

—            Como você deixou claro, o que aconteceu com meu pai está relacionado a isto.

Ela se inclinou e o beijou, demorando o suficiente para Malone perceber que ela estava gostando.

Você sempre beija no primeiro encontro? — perguntou ele.

Só homens de quem gosto.

 

             Baviera

 

Dorothea permaneceu em choque, com os olhos de Sterling Wilkerson voltados para ela.

—            Você o matou? — perguntou ela ao marido.

Werner balançou a cabeça.

— Eu não. Mas eu estava lá quando aconteceu.

Ele fechou o porta-malas.

—            Não conheci seu pai, mas me disseram que eu e ele somos mui­to parecidos. Permitimos que nossas esposas façam o que quiserem, desde que possamos nos dar ao mesmo luxo.

A mente dela se encheu de pensamentos confusos.

—            Como sabe alguma coisa sobre meu pai? — Eu contei — disse uma nova voz. Dorothea se virou.

Sua mãe estava na entrada da igreja. Atrás dela, como sempre, apa­recia o vulto de Ulrich Henn. Agora, ela entendeu.

—            Ulrich matou Sterling — disse Dorothea para a noite. Werner passou por ela.

—            De fato. E ouso dizer que ele talvez mate todos nós, se não nos comportarmos.

 

Malone saiu na frente, deixando o esconderijo e voltando à galeria superior do octógono. Parou diante do corrimão de bronze — carolíngio, original do tempo de Carlos Magno, segundo a observação de Christl — e olhou para baixo. Viu um punhado de candeeiros acesos durante a noite. O vento continuava castigando as paredes externas, e o mercado natalino parecia estar perdendo o entusiasmo. Malone olhou para o outro extremo do espaço aberto, onde estava o trono, com janelas com pinázios ao fundo espalhando um brilho claro sobre a cadeira alta. Examinou o mosaico latino que envolvia o octógono abaixo. O desafio de Eginhardo não era tão desafiador assim.

Ainda bem que existem guias de viagem e mulheres inteligentes. Malone encarou Christl.

Existe um púlpito, certo?

Ela assentiu.

No coro. O ambo. Bem antigo. Século XI.

Ele sorriu.

Sempre uma aula de história. Christl deu de ombros.

É o que eu sei.

Ele circulou a galeria superior, passou pelo trono e seguiu de volta para a escada circular. Era interessante que o portão de ferro fosse dei­xado aberto à noite. No primeiro piso, Malone atravessou o octógono e entrou novamente no coro. Um púlpito de ouro e cobre salpicado de ornamentos singulares estava posicionado contra a parede sul, acima de uma entrada para outra capela adjacente. Uma escada curta dava acesso para cima. Ele pulou uma corda de veludo e subiu pelos degraus de madeira. Felizmente, o que ele procurava estava lá. Uma Bíblia.

Colocou o livro sobre o apoio dourado e abriu no Apocalipse. Ca­pítulo 21.

Christl ficou embaixo e olhou para Malone, enquanto ele lia em voz alta:

—         "E levou-me em espírito a um alto e grande monte, e mostrou-me a santa cidade de Jerusalém que descia do céu da parte de Deus, e tinha um grande e alto muro com 12 portas, e nas portas 12 anjos, e nomes es­critos sobre elas, que são os nomes das 12 tribos dos filhos de Israel. O muro da cidade tinha 12 fundamentos, e neles estavam os nomes dos 12 apóstolos do Cordeiro. E aquele que falava comigo tinha por medida uma cana de ouro, para medir a cidade, as suas portas e o seu muro. A cidade era quadrangular; e o seu comprimento era igual à sua largura. E mediu a cidade com a cana e tinha ela 12 mil estádios; e o seu comprimento, largura e altura eram iguais. Também mediu o seu muro, e era de 144 cavados, segundo a medida de homem, isto é, de anjo. Os fundamentos do muro da cidade estavam adornados com 12 tipos de pedras preciosas. As 12 portas eram 12 pérolas."

"O Livro do Apocalipse é crucial para este lugar. O candelabro que o imperador Barbarossa doou cita passagens dele. O mosaico na cúpu­la é baseado nele. Carlos Magno chamou isto especificamente de "nova Jerusalém". E essa relação não é segredo; li sobre ela em todos os guias de viagem. Um pé carolíngio equivale a cerca de um terço de metro, o que é pouco mais de um pé atual. O polígono externo de 16 lados tem 36 pés carolíngios de comprimento. Isso representa 144 pés atuais. O perímetro externo do octógono mede o mesmo, 36 pés carolíngios, o que equivale a 144 pés atuais. A altura também é precisa. Originalmen­te, 84 pés atuais, sem o domo em forma de elmo, que veio séculos de­pois. A capela inteira é fator de sete e 12, a largura e a altura são iguais. — Malone apontou para a Bíblia. — Eles simplesmente trans­puseram as dimensões da cidade celestial do Apocalipse, da 'nova Jerusalém', para este edifício."

Isso tem sido estudado há séculos — disse ela. — Qual a rela­ção com o que estamos fazendo?

Lembre-se do que Eginhardo escreveu. "As revelações lá serão esclarecidas uma vez que o segredo daquele local extraordinário seja decifrado." Ele usou essa palavra engenhosamente. Não apenas a revelação do Apocalipse está esclarecida. Ele apontou para a Bíblia. — Mas outras revelações também foram esclarecidas.

 

Pela primeira vez em anos, Dorothea sentia-se fora de controle. Não esperava nada daquilo. E agora, recuando para dentro da igreja, enca­rando a mãe e o marido, com Ulrich Henn obediente, afastado, ela lu­tava para manter a compostura habitual.

—            Não lamente a morte daquele americano — disse Isabel. — Ele era um oportunista.

Dorothea encarou Werner.

E você não é?

Sou seu marido.

Só no nome.

Isso é escolha sua — disse Isabel, erguendo a voz e depois fa­zendo uma pausa. — Entendo a questão de Georg. — O olhar da ve­lha correu na direção da capela adjacente. — Também sinto saudades dele. Mas ele se foi, e não há nada que qualquer um de nós possa fazer a respeito.

Dorothea sempre desprezou o modo como a mãe rejeitava o luto. Não se lembrava de ter visto uma lágrima derramada por Isabel quan­do o pai desapareceu. Nada parecia perturbá-la. Mas Dorothea não conseguia se desligar do olhar sem vida de Wilkerson. Era verdade que ele era um oportunista. Mas ela achava que seu relacionamento poderia ter vindo a se tornar algo mais consistente.

Por que o matou? — perguntou ela à mãe.

Ele teria causado problemas imensuráveis a esta família. E os americanos acabariam matando-o, de qualquer jeito.

Foi você quem os envolveu. Queria o arquivo sobre o sub­marino. Você me mandou conseguir isso por intermédio de Wilkerson.

Quis que eu obtivesse o material, entrasse em contato com Malone e o desencorajasse a seguir adiante. Quis que eu roubasse os docu­mentos do meu pai e as pedras do mosteiro. Fiz exatamente o que você pediu.

—            E eu lhe pedi para matar a mulher? Não. Isso foi idéia do seu amante. Cigarros envenenados. Ridículo. E o nosso chalé? Agora, em ruínas. Dois homens mortos lá dentro. Homens que foram enviados pelos norte-americanos. Qual dos dois você matou, Dorothea?

—            Era necessário.

A mãe caminhou pelo chão de mármore.

—            Sempre tão prática. Era necessário. Isso mesmo, por causa do seu norte-americano. Se ele ainda estivesse envolvido, haveria consequên­cias devastadoras. Isto não era da conta de Sterling; então, acabei com a participação dele. A mãe aproximou-se, ficando a centímetros de distância. Eles o enviaram para nos espiar. Eu simplesmente a enco­rajei a jogar com as fraquezas dele. Mas você foi longe demais. Devo dizer, no entanto, que subestimei o interesse deles em nossa família.

Dorothea apontou para Werner.

Por que o envolveu?

Você precisa de auxílio. Ele o providenciará.

Não preciso de nada dele. Ela hesitou. Nem de você, velha.

A mãe ergueu o braço e deu um tapa no rosto de Dorothea.

—            Não vai se dirigir a mim dessa maneira. Nem agora. Nem nunca.

Ela não se moveu, sabendo que, embora pudesse ser capaz de do­minar a mãe idosa, Ulrich Henn seria outra questão. Passou a língua no lado de dentro da bochecha.

Sua têmpora pulsava.

—            Vim aqui esta noite disse Isabel para deixar as coisas cla­ras. Werner agora faz parte disto. Eu o envolvi. Esta busca é uma esco­lha minha. Se não quiser aceitar essas regras, ela pode acabar agora, e sua irmã receberá o controle de tudo.

Um olhar penetrante estudava Dorothea. Ela viu que a mãe não havia lançado uma ameaça vazia.

—            Você quer isso, Dorothea. Sei que quer. É muito mais parecida comigo. Eu observei. Trabalhou muito nos negócios da família, é boa no que faz. Atirou naquele homem no chalé. Tem coragem, o que às vezes falta à sua irmã. Ela tem perspicácia, o que você às vezes ignora. Uma pena que o melhor de vocês duas não pudesse ter sido reunido em uma única pessoa. De algum modo, dentro de mim há muito tempo tudo se misturou, e, infelizmente, vocês duas sofreram.

Dorothea encarou Werner. Ela podia não o amar mais, mas, droga, às vezes precisava dele de um modo que só quem passava pela morte de um filho poderia entender. A afinidade dos dois era determinada pelo luto. A dor entorpecente da morte de Georg erguera barreiras que ambos haviam aprendido a respeitar. Ainda assim, ao mesmo tempo que o casamento vacilava, a vida dela fora da relação prospe­rava. A mãe estava certa. Os negócios eram sua paixão. A ambição é uma droga poderosa, que obscurecia tudo, inclusive as preocupações com o outro.

Werner estava ereto, com os braços para trás, como um guerreiro.

Talvez, antes de morrermos, devêssemos aproveitar a vida que ainda nos resta.

Nunca soube que você tinha desejo de morrer. É bastante sau­dável e poderia viver muitos anos.

Não, Dorothea. Posso respirar por muitos anos. Viver é uma questão totalmente diferente.

O que você quer, Werner?

Ele baixou a cabeça e aproximou-se de uma das janelas escurecidas.

Dorothea, estamos numa encruzilhada. O auge de toda a sua vida talvez aconteça nos próximos dias.

Talvez aconteça? Quanta confiança.

Os cantos da boca dele viraram para baixo.

—            Não é falta de respeito da minha parte. Ainda que discordemos em muitas questões, não sou seu inimigo.

—            Quem é, Werner?

O olhar dele endureceu como ferro.

—            Na verdade, você não precisa de nenhum. Você é o seu próprio inimigo.

 

Malone desceu do púlpito.

—            O Livro do Apocalipse é o último do Novo Testamento. Nele João descreve sua visão de um novo céu, uma nova terra, uma nova realidade. — Ele apontou para o octógono. — Esse prédio simboliza­va aquela visão. Eles serão Seu povo, e Ele viverá entre eles. É o que diz o Apocalipse. Carlos Magno construiu isto e viveu aqui, entre seu povo. Duas coisas, no entanto, foram decisivas. O comprimento, a altura e a largura tinham de ser os mesmos, e as paredes deveriam medir 144 cubitos. Doze vezes 12.

—            Você é muito bom nisso — disse ela.

—            Oito também era um número importante. O mundo foi criado em seis dias, e Deus descansou no sétimo. O oitavo dia, em que tudo estava completo, representava Jesus, Sua ressurreição, o começo do glorioso arremate do trabalho. Por isso há um octógono cercado por um polígono de 16 lados. Depois os homens que projetaram esta cape­la foram mais longe.

"'Esclareça esta busca por meio do emprego da perfeição do anjo à santifi­cação do soberano.' Foi isso que Eginhardo escreveu. O Apocalipse diz respeito aos anjos e ao que fizeram na formação da 'nova Jerusalém'. Doze portões, 12 anjos, 12 tribos dos filhos de Israel, 12 fundamentos, 12 apóstolos, 12 mil oitavos de milha, 12 pedras preciosas, 12 portões eram 12 pérolas. — Ele fez uma pausa. — O número 12, considerado a perfeição pelos anjos."

Malone deixou o coro e entrou novamente no octógono. Apontou para a faixa de mosaico circundante.

—            Pode traduzi-lo? Meu latim é bom, mas o seu é melhor.

Um baque surdo ecoou nas paredes. Como se algo estivesse sendo forçado.

Mais uma vez.

Ele identificou a direção. Vinha de uma das capelas secundárias: São Miguel. Onde ficava a outra porta de saída.

Ele correu para dentro e contornou os bancos vazios, na direção da sólida porta de madeira fechada por um trinco de ferro. Ouviu um estalo do outro lado.

Estão forçando a porta.

Quem são eles? — perguntou Christl. Ele pegou a arma.

Mais problemas.

 

Dorothea precisava ir embora, mas não havia como escapar. Estava à mercê da mãe e do marido. Sem mencionar Ulrich. Henn trabalhava para a família havia mais de uma década, supostamente certificando­-se da manutenção de Reichshoffen, mas Dorothea sempre suspeitara que ele realizasse uma variedade maior de serviços. Agora, ela sabia. Aquele homem matava.

—            Dorothea disse sua mãe. Seu marido quer compensar da­nos. Quer que vocês dois voltem a ser o que eram. É óbvio que existem sentimentos, ou você teria se divorciado dele há muito tempo.

Fiquei por nosso filho.

Seu filho está morto.

A lembrança dele não está.

—            Não, não está. Mas você está empenhada numa batalha pela sua herança. Pense. Aceite o que está sendo oferecido.

Ela queria saber:

—            Por que você se importa? Isabel balançou a cabeça.

Sua irmã busca glória, reconhecimento para nossa família. Mas isso envolveria muita exposição pública. Você e eu nunca busca­mos isso. É seu dever evitar tal coisa.

Como isso se tornou meu dever?

A mãe pareceu ofendida.

—            Vocês duas são tão parecidas com seu pai... Não nada meu dentro de vocês? Ouça o que estou dizendo, menina. O caminho que está seguindo é inútil. Estou simplesmente tentando ajudar.

Ela não gostou da falta de confiança e da condescendência.

—            Descobri muita coisa ao ler aqueles periódicos e memorandos da Ahnenerbe. Meu avô escreveu um relato do que viram na Antártida.

—            Hermann era um sonhador, um homem fixado em fantasias.

Ele falou de áreas em que a neve dava lugar à rocha. Onde ha­via lagos líquidos num lugar onde não deveria haver nenhum. Falou de montanhas ocas e cavernas de gelo.

E o que nós temos para mostrar de todas essas fantasias? Diga, Dorothea. Estamos mais perto de encontrar qualquer coisa?

Temos um homem morto no porta-malas do carro lá fora. A mãe deu um longo suspiro.

Você é um caso perdido.

Mas a paciência de Dorothea também estava acabando.

Você estabeleceu as regras deste desafio. Queria saber o que aconteceu com meu pai. Queria que Christl e eu trabalhássemos jun­tas. Deu uma parte do quebra-cabeça a cada uma de nós. Se você é tão esperta assim, por que é que nós estamos fazendo tudo isso?

Deixe-me dizer uma coisa. O que seu pai me contou há muito tempo.

 

Carlos Magno ouvia maravilhado, enquanto Eginhardo falava. Estavam seguros dentro da capela do palácio, na sala que ele mantinha dentro da galeria superior do octógono. A noite de verão finalmente chegara, as janelas externas estavam escuras; a capela, toda calma. Eginhardo voltara no dia anterior de sua longa viagem. O rei o admirava. Um homem pequeno, porém, como a abe­lha que faz ótimo mel ou a formiga operária, capaz de grandes coisas. Ele o chamava de Bezalell, do Êxodo, uma referência a sua grande habilidade manual.

Não teria enviado nenhuma outra pessoa, e agora ouvia Eginhardo contar-lhe sobre uma árdua viagem marítima a um lugar com muros de neve tão luminosos que o sol refletia a extensão deles em tons de azul e verde-jade. Em uma das paredes, formou-se uma cascata, seu fluxo como a prata, e Carlos Magno reme­morou as montanhas denteadas do sul e do leste. Frio inacreditável, disse Egi­nhardo, e uma de suas mãos tremeu com a lembrança. O vento soprava com tanta força que nem a capela em torno deles teria sobrevivido. Carlos Magno duvidou dessa afirmação, mas não o desafiou. As pessoas aqui vivem em caba­nas de barro, disse Eginhardo, sem janelas, só com um buraco no telhado para deixar a fumaça escapar. Camas são usadas apenas pelos privilegiados, as rou­pas são de couro sem forro. Lá, é muito diferente. As casas são todas de pedra, mobiliadas e aquecidas. As roupas são grossas e quentes. Sem classes sociais, sem riqueza ou pobreza. Uma terra de iguais, em que a noite chega sem fim e a água permanece imóvel como a morte, mas muito bela.

 

—            Isso foi o que Eginhardo escreveu disse Isabel. Seu pai me contou, conforme o pai dele lhe contara. Está no livro que dei a você, aquele do túmulo de Carlos Magno. Hermann aprendeu a lê-lo. Agora, também precisamos aprender. Foi por isso que preparei esse desafio. Quero que você e sua irmã descubram as respostas de que necessitamos.

Mas o livro que a mãe lhe dera estava escrito numa linguagem in­compreensível, cheia de imagens fantásticas de coisas irreconhecíveis.

—            Lembre-se das palavras do testamento de Eginhardo disse Isabel. Uma compreensão plena da sabedoria dos céus que se encontra com o soberano Carlos começa na nova Jerusalém. Sua irmã está lá, neste exato momento, na nova Jerusalém, muitos passos na sua frente.

Ela não podia acreditar no que estava ouvindo.

—            Isto não é ficção, Dorothea. O passado não é todo ficção. A pa­lavra céu na época de Carlos Magno tinha um significado muito dife­rente do de hoje. Os carolíngios chamavam-no ha shemin. Significa "terras altas". Não estamos falando de religião ou de Deus, estamos falando de um povo que existiu muito longe, numa terra montanhosa de neve e gelo e noites eternas. Um lugar que Eginhardo visitou. O lugar em que seu pai morreu. Não quer saber por quê?

Ela queria. Droga, ela queria.

—            Seu marido está aqui para ajudar — disse a mãe. — Eliminei um problema em potencial com Herr Wilkerson. Agora, esta busca pode prosseguir sem interferências. Vou me certificar de que os norte-americanos encontrem o corpo dele.

—            Não era necessário matá-lo — declarou ela mais uma vez.

—            Não era? Ontem, um homem invadiu nossa casa e tentou matar Herr Malone. Ele confundiu você com sua irmã e tentou matá-la. Ulrich evitou que isso acontecesse. Os norte-americanos pouco se importam com você, Dorothea.

O olhar dela procurou e encordxou Henri, que acenou cem a cabe­ça, indicando que o que a mãe dissera era verdade.

—            Eu entendi então que algo precisava ser feito. Como você é uma criatura de hábitos, encontrei-a em Munique, onde sabia que você es­taria. Imagine, se eu pude encontrá-la com tanta facilidade, quanto tempo os norte-americanos teriam levado?

Ela lembrou o pânico de Wilkerson ao telefone.

—            Eu fiz o que precisava ser feito. Agora, menina, faça o mesmo.

Mas ela estava perdida.

—            O que eu devo fazer? Você disse que eu estava perdendo meu tempo com o que obtive.

A mãe balançou a cabeça.

—            Tenho certeza de que o conhecimento que adquiriu sobre a Ahnenerbe será útil. O material está em Munique?

Ela assentiu.

—            Pedirei a Ulrich que o recupere. Sua irmã logo seguirá o ca­minho correto, e é imperativo que você se junte a ela. Ela terá de agir com moderação. Nossos segredos de família devem permane cer na família.

Onde está Christl? — perguntou ela mais uma vez.

Experimentando o que você tentava fazer. Dorothea esperou.

Confiando num norte-americano.

 

           Aachen

 

Malone pegou Christl e fugiu da capela de São Miguel, correndo de volta para o polígono externo. Voltou-se, então, para o pórtico e a en­trada principal.

Mais estalos vieram da capela.

Ele localizou as portas da entrada principal, que ele tinha esperan­ça de que abrissem por dentro, e ouviu um barulho. Alguém estava forçando os trincos de fora. Aparentemente, Cara de Machado não tra­balhava sozinho.

—            O que está acontecendo? perguntou Christl.

—            Nossos amigos de ontem à noite nos encontraram. Tinham pas­sado o dia todo nos seguindo.

—            E você só está mencionando isso agora?

Ele saiu da entrada e voltou ao octógono. Seus olhos vasculhavam o interior pouco iluminado.

Imaginei que você não queria se incomodar com detalhes.

Detalhes?

Ele ouviu a porta dentro da capela de São Miguel ceder. Atrás dele, o rangido de dobradiças antigas confirmou que as portas principais tinham sido abertas. Malone examinou a escada e cor­reu com Christl pelos degraus circulares, toda cautela sendo prete­rida pela pressa.

Ouviu vozes vindas de baixo e fez sinal de silêncio.

Precisava que Christl ficasse em algum lugar seguro, de modo que, com toda a certeza, não podiam ficar desfilando pela galeria superior. O trono imperial estava diante dele. Sob a cadeira tosca de mármore ficava uma passagem escura por onde os peregrinos um dia atravessaram, conforme a guia explicara: um espaço oco sob o ataúde e seis degraus de pedra. Embaixo do altar que se projetava da parte de trás havia outra abertura, esta protegida por uma porta de madeira com ganchos de ferro. Malone sinalizou para que Christl se arrastasse para baixo do trono. Ela respondeu com um olhar confuso. Ele não estava disposto a discutir; assim, empurrou-a na direção da corrente de ferro e apontou para que ela passasse por baixo.

Fique quieta, ordenou ele com gestos.

Ouviram passos vindos da escada circular. Eles só teriam mais al­guns segundos. Ela pareceu perceber o apuro em que se encontravam e cedeu, desaparecendo sob o trono.

Malone precisava atraí-los para longe dali. Um pouco antes, ao examinar a galeria superior, notara uma borda estreita com um contor­no que passava acima dos arcos inferiores, marcando a linha divisória entre os pisos, e de largura suficiente para ficar de pé sobre ela.

Passou engatinhando pelo trono, deu a volta no ataúde e pulou a grade de bronze. Equilibrou-se na cornija, com a coluna firmemente apoiada nos pilares superiores que sustentavam os oito arcos do octó­gono interno. Por sorte, os pilares ficavam em pares unidos, com cerca de 60 centímetros de largura, o que significava que ele tinha mais de 1 metro de mármore servindo de proteção.

Ouviu solas de borracha percorrerem o piso da galeria superior.

Começou a repensar o que estava fazendo, sustentando-se sobre uma borda de 25 centímetros de largura, segurando uma arma com apenas cinco balas, a uma altura de uns bons 6 metros. Arriscou espiar e viu duas silhuetas do outro lado do trono. Um dos homens armados avançou por trás no ataúde, e o segundo assumiu posição no fun­do um sondando, o outro dando cobertura. A tática inteligente revelava preparação.

Malone pressionou a cabeça para trás, contra o mármore, e olhou para o outro lado do octógono. As luzes que vinham das janelas atrás do trono lançavam um brilho nos pilares lustrosos do lado mais afas­tado, e a sombra indistinta da cadeira imperial estava claramente visí­vel. Ele viu outra sombra circular o trono, agora do lado mais próximo de onde estava.

Ele precisava atrair o agressor para mais perto.

Com cuidado, sua mão esquerda buscou no bolso da jaqueta e en­controu uma moeda de euro do restaurante. Ele a retirou, deixou a mão cair para o lado e jogou a moeda suavemente na frente da grade de bronze, atingindo a borda a 3 metros dali, onde se elevava o próxi­mo par de pilares. A moeda tilintou, depois caiu no piso de mármore abaixo, com um tinido que ecoou no silêncio. Malone esperava que os atiradores percebessem que ele era a fonte e se aproximassem, olhan­do para a esquerda, quando ele daria o golpe pela direita.

Mas isso não levava em consideração o que o outro homem arma­do faria.

A sombra do seu lado do trono cresceu.

Malone teria de sincronizar o movimento com perfeição. Passou a arma da mão direita para a esquerda.

A sombra aproximou-se da grade. Uma arma apareceu.

Malone girou, agarrou o homem pelo casaco e o arremessou por cima do parapeito. O corpo voou para dentro do octógono.

Malone girou por cima do parapeito quando ouviu um tiro, e uma bala do outro atirador estalou no mármore. Ouviu o corpo bater no piso 6 metros abaixo e cadeiras caírem com estrondo. Deu um tiro para o outro lado do trono, depois usou o impulso do movimento para ficar rapidamente de pé e encontrar refúgio atrás do pilar de mármore, só que desta vez na galeria, do lado oposto da borda.

Mas seu pé esquerdo deslizou e o joelho bateu com tudo no chão. Sua coluna estremeceu com a dor. Ele suprimiu a sensação e tentou retomar o equilíbrio, mas tinha perdido qualquer vantagem.

Nein, Herr Malone — disse um homem. Malone estava de quatro, segurando a arma.

De pé — ordenou o homem.

Ele se levantou devagar.

Cara de Machado havia passado em volta do trono e agora estava do lado mais próximo de Malone.

Largue a arma — ordenou.

Ele não ia se render tão fácil.

Para quem você trabalha?

Largue a arma.

Malone precisava ganhar tempo, mas duvidava que aquele sujeito fosse permitir muitas perguntas. Atrás de Cara de Machado, perto do piso, algo se moveu. Ele avistou duas solas, os dedos do pé para cima, na escuridão abaixo do trono. As pernas de Christl emergiram do es­conderijo de repente e bateram com força nos joelhos de Cara de Ma­chado.

O atirador, pego de surpresa, dobrou o corpo para trás.

Malone aproveitou o momento para atirar, e a bala bateu com um som surdo no peito do homem. Cara de Machado gritou de dor, mas pareceu recuperar os sentidos de imediato e ergueu a arma. Malone atirou de novo, ao que o homem foi ao chão e não se mexeu mais.

Christl saiu de debaixo do ataúde.

É uma moça corajosa — disse ele.

Você precisava de ajuda.

O joelho dele doeu.

—            Precisava mesmo.

Ele verificou o braço do homem e não sentiu pulsação. Depois, foi até o parapeito e olhou para baixo. O corpo do outro atirador estava contorcido entre cadeiras entulhadas, o sangue escorrendo pelo chão de mármore.

Christl aproximou-se. Para uma mulher que não quisera ver o ca­dáver do mosteiro, parecia não estar tendo problemas com esses.

—            O que foi agora? perguntou ela. Malone apontou para baixo.

—            Como eu lhe pedi antes de sermos interrompidos, preciso que você traduza aquela inscrição em latim.

 

           Virgínia, 17h30

 

Ramsey mostrou as credenciais e entrou com o carro no forte Lee. A viagem para o sul, partindo de Washington, tinha levado pouco mais de duas horas. A base era um dos 16 acantonamentos construídos no início da Primeira Guerra Mundial e recebera o nome do filho favorito da Virgínia, Robert E. Lee. Demolido nos anos 1920 e convertido num santuário estadual de vida selvagem, o local foi reativado em 1940 e tornou-se um centro movimentado de atividades bélicas. Durante os últimos vinte anos, graças à sua proximidade de Washington, suas ins­talações tinham sido expandidas e modernizadas.

Ramsey seguiu um caminho por um labirinto de instalações de treino e comando que atendiam a uma variedade de necessidades do Exército, principalmente de apoio logístico e administrativo. A Marinha alugava três armazéns num canto afastado no meio de uma fileira de unidades de armazenamento militares. O acesso a eles era restrito por cadeados numé­ricos e verificação digital. Dois dos armazéns eram administrados pelo comando central da Marinha, e o terceiro, pela inteligência naval.

Ele estacionou e saiu do carro, apertando o casaco sobre os om­bros. Entrou em uma varanda de metal e digitou um código, depois passou o polegar no scanner digital.

A porta abriu com um clique.

Ele entrou numa pequena antessala cujas luzes do teto foram ati­vadas por sua presença. Foi até uma fileira de interruptores e iluminou o espaço cavernoso adiante, visível através de um vidro espelhado.

Quando tinha feito a última visita? Seis anos antes?

Não, mais para oito ou nove.

Mas a primeira visita tinha sido 38 anos antes. Notou que as coisas lá dentro não estavam muito diferentes, além da segurança moderni­zada. O almirante Dyals o trouxera naquela primeira vez. Outro dia tempestuoso de inverno. Fevereiro. Cerca de dois meses após seu re­torno da Antártida.

 

—            Estamos aqui por um motivo — disse Dyals.

Ramsey estivera pensando sobre a viagem. Tinha passado muito tempo dentro do armazém no mês anterior, mas tudo aquilo terminou deforma re­pentina alguns dias antes, quando a missão foi cancelada. Rowland e Sayers haviam retornado para suas unidades, o próprio armazém tinha sido lacrado, e ele, transferido para o Pentágono. Na viagem para o sul de Washington, o almirante falara pouco. Dyals era assim. Muitos temiam aquele homem — não pelo temperamento, que ele raramente demonstrava, nem por abuso verbal, que ele evitava por considerar desrespeitoso. Mais pelos olhos fixos e indife­rentes que pareciam não piscar.

—            Estudou o arquivo sobre a operação Salto em Altura? — perguntou Dyals. — O que eu forneci.

Em detalhes.

Eo que observou?

—            Que o local onde eu estava na Antártida correspondia exatamente ao local que a equipe da Salto em Altura explorou.

Três dias antes, Dyals lhe havia entregado um arquivo marcado como altamente confidencial. A informação contida ali não fazia parte dos regis­tros oficiais que os almirantes Cruzen e Byrd arquivaram depois da missão na

Antártida. Na verdade, o relatório era de uma equipe de especialistas do Exér­cito que tinham sido incluídos entre os 4.700 homens designados para a Salto em Altura. O próprio Byrd os comandara num reconhecimento especial da costa norte. Seus relatórios tinham sido fornecidos apenas a Byrd, que passara as informações pessoalmente para o então chefe de operações navais. O que Ramsey lera o impressionou.

—            Antes da Salto em Altura — disse Dyals —, estávamos convencidos de que os alemães tinham construído bases navais na Antártida nos anos 1940. Eles tinham submarinos por todo o Atlântico Sul durante e pouco de­pois da guerra. Os alemães montaram urna grande missão exploratória lá em 1938. Tinham planos de retornar. Na ocasião, achamos que retornaram e não contaram a ninguém. Mas era tudo bobagem, Langford. Bobagem pura. Os nazistas não foram a Antártida para estabelecer bases.

Ele esperou.

—            Foram encontrar seu passado.

Dyals entrou no armazém e seguiu um caminho por entre caixotes de ma­deira e prateleiras de metal. Parou e apontou para uma fileira de prateleiras carregadas de pedras cobertas por uma mistura curiosa de espirais e arabescos.

—            Nosso pessoal da Salto em Altura localizou parte do que os nazistas encontraram em 1938. Os alemães estavam seguindo informações que tinham descoberto e que datavam do tempo de Carlos Magno. Um deles, Hermann Oberhauser, encontrou-as.

Ele reconheceu o sobrenome; da tripulação do NR-1A. Dietz Oberhauser, especialista de campo.

—            Abordamos Dietz Oberhauser há cerca de um ano — disse Dyals. — Parte do nosso pessoal de Pesquisa e Desenvolvimento estava estudando re­gistros alemães capturados na guerra. Os alemães achavam que poderia haver coisas a serem descobertas na Antártida. Hermann Oberhauser estava con­vencido de que uma cultura avançada, que antecedia a nossa, vivera ali. Ele achava que fossem arianos havia muito perdidos, e Hitler e Himmler queriam saber se ele estava certo. Também achavam que, se a civilização fosse mais avançada, poderiam descobrir coisas úteis. Naqueles tempos, todo mundo queria uma chance para se destacar. O que não havia mudado.

—            Mas Oberhauser caiu em desgraça. Irritou Hitler. Então, foi silencia­do e execrado. Suas ideias foram abandonadas.

Ramsey apontou para as pedras.

Parece que ele estava certo. Havia algo a ser encontrado.

Você leu o arquivo. Você esteve lá. Diga, em que acredita?

Não encontramos nada assim.

—            No entanto, os Estados Unidos gastaram milhões de dólares para en­viar quase 5 mil homens a Antártida. Quatro homens morreram durante o empreendimento. Agora, outros 11 estão mortos, e perdemos um submarino de 100 milhões de dólares. Vamos lá, Ramsey. Pense.

Ele não queria decepcionar aquele homem que demonstrara tanta confian­ça em suas habilidades.

Imagine uma cultura — disse Dyals — que se desenvolveu dezenas de milhares de anos antes de tudo o que conhecemos. Antes dos sumérios, dos chineses, dos egípcios. Observações e medidas astronômicas, pesos, volumes, uma concepção realista da Terra, de cartografia avançada, geometria esférica, habilidades de navegação, matemática. Digamos que dominaram tudo isso séculos antes de nós. E capaz de imaginar o que podem ter descoberto? Dietz Oberhauser nos disse que seu pai foi à Antártida em 1938. Viu coisas, descobriu coisas. Os nazistas eram totalmente idiotas — pedantes, tacanhos, arro­gantes —, então não souberam estimar o que tudo aquilo significava.

Mas parece, almirante, que nós também sofremos de ignorância. Li o arquivo. As conclusões da Salto em Altura foram que essas pedras, aqui no armazém, eram de uma espécie de raça antiga, talvez uma raça ariana. Todos pareciam preocupados com isso. Parece que acreditamos no mito que os nazis­tas formularam para si mesmos.

—            Acreditamos, foi nosso erro. Mas isso foi numa época diferente. O pes­soal de Truman achou a coisa toda política demais para ser tratada publicamen­te. Não queriam nada que desse qualquer crédito a Hitler ou aos alemães. Então, marcaram toda a missão Salto em Altura como altamente secreta e lacraram tudo. Mas prestamos um grande desserviço a nós mesmos.

Dyals apontou adiante, para uma porta de aço fechada.

—            Deixe-me mostrar o que você não chegou a ver enquanto estava lá.

 

Ramsey estava agora diante da mesma porta. Um compartimento refrigerado, no qual ele entrara 38 anos antes pela primeira e única vez. Naquele dia, o almirante Dyals lhe dera uma ordem, que Ramsey seguira desde então: deixe-o em paz. Essa ordem agora havia sido re­vogada, mas, antes de agir, Ramsey fora certificar-se de que ainda estavam lá.

Segurou o trinco.

 

           Aachen

 

Malone e Christl desceram ao piso térreo. A sacola com os guias de viagem estava sobre uma cadeira ilesa de madeira. Ele pegou um dos livros e localizou uma tradução do mosaico em latim.

 

SE AS PEDRAS VIVAS SE ENCAIXAREM COM HARMONIA SE OS NÚMEROS E DIMENSÕES CORRESPONDEREM O TRABALHO DO SENHOR QUE CONSTRUIU ESTE GRANDE SALÃO RESPLANDECERÁ E TRARÁ SUCESSO AOS EMPENHOS VIRTUOSOS DO HOMEM CUJOS TRABALHOS SEMPRE PERMANECEM COMO UM ORNAMENTO ETERNO SE O CONSELHEIRO TODO-PODEROSO PROTEGÊ-LO E GUARDÁ-LO

QUE DEUS PERMITA TAMBÉM QUE ESTE TEMPLO TODO EXISTA NO FIRME FUNDAMENTO PREPARADO PELO IMPERADOR CARLOS

 

Malone entregou o livreto a Christl.

Está certo?

Ele havia notado no restaurante que alguns dos outros guias continham traduções, cada uma com pequenas diferenças em relação às outras.

Ela analisou o texto, depois examinou o mosaico, comparando par­te por parte. O corpo estava a poucos metros dali, os membros contor­cidos em ângulos estranhos, sangue no chão, e o casal parecia fingir que aquilo não estava lá. Malone estava pensando nos tiros, mas duvi­dava que, com a espessura das paredes e o vento lá fora, alguém tives­se escutado. Pelo menos, ninguém tinha ido investigar até então.

Está correto — disse ela. Algumas variações pouco impor­tantes, mas nada que mude o significado.

Você me disse antes que a inscrição é original, só que é um mo­saico em vez de pintura. A consagração da capela, que é outra palavra para "santificação": Esclareça esta busca por meio do emprego da perfeição do anjo à santificação do soberano. O número 12 é a perfeição angelical, de acordo com o Apocalipse. Esse octógono era um símbolo dessa perfei­ção. Ele apontou para o mosaico. Poderia ser a cada 12 letras, mas meu palpite é contar a cada 12 palavras.

Uma cruz indicava onde a inscrição começava e terminava. Malo­ne observou Christl contar.

Claret disse ela, ao chegar a 12. Depois, ela encontrou mais duas palavras nas posições 24 e 36. Quorum. Deus. Acabou. A últi­ma palavra, velit, é a número 11.

Interessante, não acha? Três palavras, a última parando em 11 para que não haja mais nenhuma.

Claret quorum deus. Claridade de Deus.

Parabéns disse ele. Você acaba de esclarecer a busca.

—            Você já sabia, não?

Ele deu de ombros.

Tentei no restaurante com uma das traduções e encontrei as mesmas três palavras.

Poderia ter comentado isso comigo, bem como que estávamos sendo seguidos.

Eu poderia, mas você poderia ter comentado algo também.

Ela lhe lançou um olhar perplexo, mas Malone não ficou convenci­do, então ele perguntou:

—            Por que você está me manipulando?

 

dorothea encarou a mãe.

Sabe onde Christl está? Isabel assentiu.

Cuido das minhas duas filhas.

Dorothea tentou manter a expressão plácida, mas uma raiva cres­cente dificultou a tentativa.

-— Sua irmã se juntou a Herr Malone. As palavras doeram.

Você me disse para mandá-lo embora. Disse que ele era problema.

E ainda é, mas sua irmã o contatou depois que você falou com ele. Um sentimento de preocupação transformou-se em impetuosidade:

Você providenciou isso?

A mãe assentiu.

Você teve Herr Wilkerson. Dei Malone a ela. Dorothea sentiu o corpo entorpecido e a mente paralisada.

—            Sua irmã está em Aachen, na capela de Carlos Magno, fazendo o que precisa ser feito. Agora, você tem de fazer o mesmo.

O rosto da mãe permaneceu impassível. Enquanto o pai tinha sido um homem despreocupado, amoroso, afetuoso, a mãe sempre foi dis­ciplinada, distante, reservada. Ela e Christl tinham sido criadas por babás e sempre desejaram a atenção da mãe, competindo pelo pouco afeto que havia para ser aproveitado. Dorothea sempre acreditou que esta era a principal causa da animosidade entre ela e a irmã: o anseio de cada uma de ser especial, o que era complicado pelo fato de as me­ninas serem idênticas.

—            Isso é só um jogo para você? perguntou ela.

É muito mais do que isso. É hora de minhas filhas crescerem.

Eu desprezo você.

—            Finalmente, raiva. Se isso a impedir de fazer coisas estúpidas, então, por Deus, me odeie.

Dorothea havia chegado ao seu limite e avançou na direção da mãe, mas Ulrich colocou-se entre as duas. Isabel ergueu a mão, mandando-o parar, como teria feito com um animal adestrado, e Herm afastou-se.

O que você faria? perguntou a mãe. Você me atacaria?

Se eu pudesse.

E isso a ajudaria a obter o que quer?

A pergunta fez com que ela se contivesse. As emoções negativas se foram, deixando apenas culpa. Como sempre.

Um sorriso formou-se aos poucos nos lábios da mãe:

—            Você precisa me escutar, Dorothea. Eu realmente vim para ajudar.

Werner assistia com uma reserva moderada. Dorothea apontou na direção dele.

Você matou Wilkerson e agora me deu ele. Christl vai ficar com o americano dela?

Isso não seria justo. Embora Werner seja seu marido, não é um ex-agente norte-americano. Tratarei disso amanhã.

—            E como sabe onde ele estará amanhã?

—            Essa é a questão, menina. Sei exatamente onde ele vai estar amanhã e estou prestes a lhe contar.

 

Você tem dois mestrados e, ainda assim, o testamento de Eginhardo foi um problema para você? perguntou Malone a Christl. Fala sério. Você já sabia tudo isso. Não vou negar isso.

—            Não sou um idiota para ficar no meio desse desastre. Já matei três pessoas nas últimas 24 horas por causa da sua família.

Ela se sentou em uma das cadeiras.

—            Fui capaz de decifrar a busca até este ponto. Você está certo. Foi relativamente fácil. Mas para alguém vivendo na Idade das Trevas, provavelmente era algo intransponível. Muito poucas pessoas eram alfabetizadas na época. Devo dizer que estava curiosa para saber se você era bom mesmo.

Eu passei?

Muito bem.

Aliás apenas os que apreciam o trono de Salomão e a frivolidade roma­na encontrarão o caminho para os céus. Essa é a próxima; então, para onde vamos agora?

Acredite você ou não, não sei a resposta. Parei neste ponto três dias atrás e retornei para a Baviera...

—            Para me aguardar?

—            Minha mãe me chamou para ir para casa e me disse o que Do­rothea estava planejando.

Ele precisava esclarecer uma coisa:

—            Estou aqui somente por causa do meu pai. Permaneci porque alguém ficou chateado por eu ter dado uma olhada naquele arquivo, e isso está diretamente relacionado a Washington.

Eu não fui de modo algum um fator para a sua decisão?

Um beijo não significa que haja um relacionamento.

E eu achei que você tivesse gostado. Hora de jogar um balde de água fria:

—            Uma vez que sabemos o mesmo sobre a busca, podemos resol­ver o restante separadamente.

Ele foi na direção da saída, mas parou diante do cadáver. Quantas pessoas ele tinha matado ao longo dos anos? Gente demais. Mas sem­pre por uma razão. Deus e o país. Dever e honra.

E desta vez?

Sem resposta.

Olhou para trás, para Christl Falk, que estava indiferente.

E saiu.

 

                                                                                 CONTINUA  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

           Voltar à Página do Autor