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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CASA DOS CORAÇÕES PERDIDOS / Heinz G. Konsalik
A CASA DOS CORAÇÕES PERDIDOS / Heinz G. Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A CASA DOS CORAÇÕES PERDIDOS

 

                    Abril de 1979

É maravilhoso não fazer nada, uma vez por ano, durante um período de quatro semanas. Estar deitado na areia, envolvido pelo calor do sol, ouvir o ruído do mar, sentir o vento afagar suavemente a pele, experimentar a sensação agradável de ter escapado à monotonia do quotidiano e de poder reflectir acerca da própria existência.

 

À noite, o facho luminoso do farol de Capo San Marco varre a superfície geralmente pouco ondulada do mar. Vêem-se brilhar ao longe as luzes dos barcos e, pela manhã, os pescadores de San Giovanni a regressarem da faina nocturna.

 

O regime de «férias activas», tão recomendado nos nossos dias, sem dúvida uma das formas de repousar mais benéficas para os habitantes das grandes cidades, era pouco apreciado pelo dr. Heinz Volkmar. Preferia procurar praias solitárias, onde instalava a sua grande tenda de campismo de cor azul, toldo amarelo vivo e um avançado de plástico transparente, aí passando quatro semanas felizes, consciente de ter merecido com honestidade esse período de preguiça absoluta.

 

A Sardenha era para ele o lugar ideal de passar férias. De facto, quem já alguma vez conseguiu, numa das múltiplas enseadas, tornar-se parte integrante da sua natureza grandiosa sentirá instalar-se-lhe no coração um intenso desejo de voltar a essa ilha, onde aparentemente só existem pessoas felizes.

 

Como é evidente, tudo isso não passa de uma ilusão. Mas o dr. Volkmar gostava de se deixar enganar - tal como os outros turistas que apenas vêem as palmeiras e o mar, as pequenas tabernas e as casas caiadas de branco, sem repararem na miséria instalada por detrás desses muros, que ofuscam quando o sol neles incide. Tal atitude é fácil de compreender. Raramente o seu dia de trabalho se estendia por um período inferior a dez horas, dando-se já por muito feliz quando trabalhava apenas doze. Começava pela conferência matinal com o chefe e com todos os outros médicos do hospital para discutir a situação dos doentes recém-admitidos, o plano das operações a realizar, a visita aos doentes; a não ser que o dia se iniciasse logo pelo trabalho na sala de operações, por longas horas à mesa operatória, debruçado sobre os corpos retalhados, sentindo na cabeça e na nuca o calor das grandes lâmpadas, o cheiro a sangue, travando um combate sem tréguas contra as complicações, quantas vezes numa corrida contra-relógio entre a vida e a morte. Depois, três chávenas de café forte na sala dos médicos, uma refeição engolida à pressa, o controlo da sala de observações, e, mais tarde, quando no hospital já não se previa que mais acontecimentos dramáticos se desenrolassem, o caminho até ao Centro de Investigação para o Estudo de Transplantações, onde alguns cães, macacos, carneiros e três porcos se encontravam encerrados para, num futuro próximo, morrerem em prol do progresso da humanidade. Finalmente, os serões: o registo das investigações no seu diário privado, a leitura dos jornais, o estudo de alguns trabalhos científicos e, de vez em quando, um telefonema: «Saímos esta noite? Sim, eu sei, já é tarde. Mas podíamos ir jantar ao Yan Yung...» E, nesse caso, comia uma refeição chinesa na companhia da dr.a Angela Bliithgen, assistente do serviço interno da primeira divisão de clínica médica, loura de longos cabelos ondeados a roçarem-lhe pelos ombros e, por vezes, a penderem-lhe por sobre os lindos seios em que ninguém podia deixar de reparar.   Com   trinta anos, encontrava-se já divorciada, após um casamento disparatado com um estudante, consequência de uma atitude de desafio em relação aos pais, que não compreendiam o motivo por que uma rapariga que terminara o ensino secundário e um jovem estudante de direito pretendiam a toda a força viver no mesmo quarto e dormir na mesma cama. Contudo, alguns anos mais tarde, tudo se modificara e nenhum deles era já capaz de perdoar os defeitos do outro. Daí o recuperar da liberdade e, pouco tempo depois, o primeiro encontro com o dr. Heinz Volkmar num congresso de medicina em Bad Reichenhall. Gostavam um do outro, mas não se tratava de amor na acepção romântica da palavra; às vezes dormiam juntos, porque era divertido e porque isso correspondia de certo modo à ética de ir para a cama apenas com uma pessoa e de não ter de andar à procura de companhia. Porém, nunca se pronunciara uma frase do género: «Vamos viver juntos?» ou «Amo-te, Heinz!», bastando-lhes o ritual dos jantares, de um bom vinho, de um pouco de alegria e de desejo que do cérebro se transmitia ao corpo, umas horas de prazer e a constatação um tanto ou quanto prosaica: «Foi bom estar contigo ...» Depois, um novo dia, o hospital, a conferência com o chefe, as operações ...

 

No entanto, uma vez no ano, durante quatro semanas, tudo isto se alterava. O carro era empilhado com o equipamento de campismo, o barco de borracha, o fato de mergulhador, e com um agradável sentimento de antecipação, esfregando as mãos como se toda a felicidade do mundo estivesse ao seu alcance, Volkmar partia, atravessando os Alpes, percorrendo toda a península italiana até Nápoles, tomando aí o barco para Cagliari.

 

A Sardenha! Com as asas dos moinhos enfunadas pelo vento, os jumentos a treparem pelos atalhos, poderia pensar-se, caso não se reparasse nos automóveis estacionados nos parques, que nada se modificara nas ruínas do monte deJarumini de há dois mil anos para cá.

 

Angela Blúthgen nunca lhe fizera companhia nas férias. Quando uma vez ele aludiu a essa possibilidade de forma indirecta, sorrira. «Heinz, isso pode ser mortal!», dissera. «Nós dois, sozinhos durante quatro semanas numa tenda isolada ao pé do mar, contando apenas um com o outro, sem podermos escapar? Seria autoflagelação, Heinz, mas não eram férias com certeza. Somos ambos individualistas. Quando dormimos juntos trata-se de um prazer que proporcionamos a nós próprios - depois separamo-nos e cada um de nós readquire a sua individualidade. É bom que seja assim. Nós dois, juntos durante um período prolongado ... haveria um homicídio de certeza!» Ele perguntara então pela primeira vez:

 

- Não saberás tu o que é o amor, Angi?

 

- Eu temo o amor, eu escondo-me dele e quando começa mesmo a afectar-me, castigo-me. Sou uma mulher que não se deixa dominar pelos homens e é isso que vocês pretendem, afinal, acima de tudo!

 

- Poderias amar-me? - perguntou-lhe, muito impressionado.

 

- Sim! - respondeu com simplicidade. - E isso que é terrível e é por esse motivo que vou partir agora. Não me telefones, por favor, durante as próximas três semanas! Preciso primeiro de me acalmar...

 

Torna-se necessário estar a par destes factos para se compreender o motivo pelo qual, nesse ano de 1967, o dr. Heinz Volkmar se encontrava mais uma vez sozinho na enseada de Capo San Marcç, preguiçosamente deitado na areia. Era um homem de 42 anos de idade, professor agregado de medicina, chefe de serviços num hospital, de altura um pouco acima da média, com 1,79 m para sermos precisos”, involuntariamente esbelto graças às suas 12 a 14 horas de trabalho diário e às perturbações gástricas daí derivadas, embora não magro em demasia, de ombros largos, ancas estreitas, sem ser de modo algum um Adónis. No seu cabelo castanho e espesso começavam a notar-se os primeiros fios brancos nas fontes e nas patilhas. Vestia com uma elegância descuidada e estava consciente do fascínio que exercia sobre as mulheres.

 

«Na verdade, podíamos dispensar os pace-maker e os desfibriladores nos serviços de recuperação», dissera uma vez o seu chefe, professor dr. Hatzport. «Quanto Volkmar visita as nossas pacientes femininas verifica-se uma estabilização natural do aparelho circulatório! Os velhos corações recomeçam a pulsar!»

 

Volkmar aceitava esta troça risonhamente. A linguagem expressa pelos corpos das jovens médicas e enfermeiras que pareciam espreitá-lo, os olhares provocantes que as mulheres em geral lhe lançavam, mesmo na Sardenha, quando se deslocava a Cabras ou a Oristano para fazer compras nos supermercados, nada disso o impressionava, limitando-se a notá-lo como se se tratasse de algum dos dados científicos dos seus registos pessoais. Parecia querer manter-se fiel à dr.a Angela Bliithgen.

 

Encontrava-se, pois, há oito dias na Sardenha. Adquirira um intenso bronzeado e já por três vezes suprira ao próprio sustento arpoando alguns peixes e fritando-os ao lume do pequeno fogão de campismo. Todas as noites se alegrava

pelo facto de a sua pequena enseada ainda não ter sido descoberta pelos outros veraneantes. Escrevendo a Angela, afirmava: «Para isto ser um paraíso apenas lhe falta a presença de Eva ...» Ao pôr a carta no correio em Oristano tinha a certeza de que Angela se riria ao lê-la. «Tens de mim uma ideia errada», diria caso se encontrasse nesse momento à sua frente. «No paraíso eu seria, sem dúvida, a cobra!»

 

Na nona noite da sua estada aconteceu-lhe ouvir um ruído fora da tenda, como se alguém tropeçasse na mesa e nas cadeiras de lona.

 

Ao jantar, Volkmar dera-se ao luxo de beber uma pequena e bojuda garrafa de vinho tinto. Esses momentos tinham sido de uma beleza indescritível. Vira o sol pôr-se no mar como uma gigantesca bola de fogo e a água começar a adquirir, a partir de dentro, um brilho dourado que passava depois a violeta e se fundia com a cor do céu; Tudo isto constituíra uma razão válida para esvaziar uma garrafa de vinho e para se sentir feliz.

 

O barulho na parte avançada da tenda fê-lo acordar. Ergueu-se ainda ensonado e olhou fixamente para a entrada fechada por uma lona provida de um largo fecho de correr.

 

- Está aí alguém? - perguntou em italiano. - Não há nada para roubar.

 

- Signore - respondeu-lhe uma fraca e chorosa voz de rapariga -, poderá ajudar-me, por favor?...

 

Uma jovem a pedir auxílio. Tanto bastou para o dr. Volkmar saltar imediatamente da cama, enfiar umas calças de treino e correr o fecho da entrada, alumiando com a lâmpada de bolso o avançado da tenda. Numa das cadeiras de lona encontrava-se sentada uma jovem de aspecto delicado. Quando o facho de luz incidiu sobre ela os seus olhos brilharam verdes como os de um gato. Tinha o cabelo negro emaranhado, a blusa rasgada num dos ombros e faltava-lhe um sapato no pé esquerdo. Os braços estavam cruzados, encobrindo os seios. Fixava o médico com um olhar onde se misturava um curioso terror animal e uma confiança infantil.

 

- O que lhe fizeram? - perguntou ele, desviando a lâmpada um pouco para o lado de forma a que a luz a não ofuscasse. Ela começou a tremer, baixou a cabeça e fincou as unhas nos braços.

 

- Eles ... eles eram dois - disse em voz baixa. Volkmar nem precisou de perguntar o que esses dois dela pretendiam. A blusa rota era elucidativa. Ficou impressionado pelo facto de uma coisa dessas poder suceder ali, no seu paraíso. Pousou a lâmpada sobre a mesa, entrou na tenda e voltou com uma garrafa de vinho. Ela acenou com a cabeça em sinal de gratidão e, tomando a garrafa nas suas pequenas mãos, levou-a aos lábios. Bebeu sofregamente e voltou a colocá-la sobre a mesa. Ao fazê-lo, o facho de luz desviou-se, incindindo na parte inferior do corpo, no arredondado das ancas e nas coxas que o vestido fino deixava adivinhar, nas pernas bem torneadas e no pé descalço. Volkmar apercebeu-se de tudo isto com um olhar, ao mesmo tempo que constatava que ela apenas envergava o vestido sobre o corpo.

 

- O que faz neste lugar? - perguntou.

 

- Fomos dançar.

 

- Aqui? Onde? À volta do farol?

 

- Em San Giovanni...

 

- Aí há locais para dançar? Julguei que apenas existiam cabanas de pescadores.

 

- E a taberna de Giulmielmo ...

 

- Então você veio a correr de San Giovanni até aqui? Ela olhou-o com os seus grandes olhos selvagens. Agora

 

que deixara pender os braços, podia ver-lhe os bonitos seios volumosos.

 

- Disseram que iam levar-me a casa, a Cabras. Mas, em vez disso, continuaram ao longo da costa. Eu não podia saltar do carro em andamento. Só quando pararam e me arrancaram do seu interior, só quando ... - engoliu em seco e baixou de novo a cabeça - consegui libertar-me e fugi, fugi sempre em frente, ao longo do mar ... e então vi a sua tenda, signore ...

 

- Enrico Volkmar - disse ele. Escolheu a forma italiana do nome, pois Heinz seria uma palavra demasiado bárbara para gente latina.

 

- Eu chamo-me Ana.

 

Ao fixá-lo, puxando para trás os cabelos emaranhados, os seus olhos faiscaram de novo ao brilho da lâmpada num reflexo esverdeado. «A testa é alta e bonita», pensou Volkmar, «mas há aqui algo que não joga certo! Em regra, uma rapariga tão jovem e bela não costuma ir sozinha ao baile, ainda por cima envergando apenas o vestido sobre a pele. Nem sequer traz umas calcinhas ...»

 

_ Pode ajudar-me? - perguntou ela.

 

Mudava curiosamente a voz, passando de uma expressão infantil a um tom desconfiado. Voltara a usar de novo a sua voz de menina, uma vozinha que convidava a afagá-la.

 

- Não lhe fizeram mal, Ana? - perguntou Volkmar.

 

- Não conseguiram o que queriam, Enrico. Mordi e esperneei até poder escapar-me.

 

- O que pretende de mim? - Volkmar apontou para a tenda. - Se quiser cedo-lhe a minha cama de lona. Você descansa, dorme um pouco até se refazer do susto. Eu dou-Ihe um remédio que a fará sonhar com árvores floridas. Quanto a mim, levo um cobertor e deito-me no barco de borracha. A noite está quente.

 

- Eu queria voltar para casa... se fosse possível - disse Ana com voz chorosa.

 

- Para Cabras?

 

- Sim.

 

- Agora? - Volkmar olhou para o relógio de pulso. - Já é uma hora da noite.

 

- Mas você tem carro, Enrico.

 

- Parece-me mais sensato pernoitar aqui. Amanhã, bem cedo, logo que raiar o dia, levo-a a Cabras.

 

- É impossível! Todos vão pensar que dormi consigo! Ergueu as mãos numa atitude de apelo. Tinha um aspect enternecedor mesmo para uma sensibilidade empedernida de cirurgião como era o caso de Volkmar.

 

- Todos me vão desprezar e bater e escorraçar, Enrico. Ninguém acreditará que nós não ...

 

Calou-se e mordeu a mão direita aparentando um ar de desespero.

 

«Ela tem razão, mesmo que esteja a exagerar», pensou Volkmar. Conhecia o código de honra da Sardenha. Uma jovem decente que voltasse de manhã cedo para casa acompanhada por um homem tornava-se suspeita. Sobretudo quando essa rapariga se encontrava nua por baixo do vestido. É muito possível que não chegasse a haver tempo para explicações.

 

- Está bem - disse ele -, partamos. É só o tempo de vestir qualquer coisa.

 

Ficou parado, à entrada da tenda, olhando para o negrume ondulado do mar. O céu estrelado apresentava um aspecto fantástico.

 

- E se os dois malandros estiverem à nossa espera?

 

- Eles partiram. Eu ouvi o ruído do motor.

 

- E porque é que não a perseguiram?

 

- Mordi e arranhei...

 

Olhou para Ana, e o seu olhar pousou-lhe exactamente no regaço. Ela notou, colocando as mãos como que a proteger o baixo ventre.

 

- Que isso a tivesse protegido ... - disse Volkmar em ar de dúvida. - Pois bem, partimos dentro de dez minutos.

 

Voltou a segurar na lâmpada de bolso que colocara sobre a mesa e, deixando Ana na escuridão, entrou na tenda a fim de se vestir. Certificou-se de que tinha consigo os documentos do carro; o cartão verde do seguro ficara junto ao mapa das estradas. Ficou parado, indeciso, mordendo os lábios.

 

«Supúnhamos», pensou, «que os moços ainda se encontram por aqui à espreita. Devem suspeitar que levo Ana no meu carro, pois quem poderia a esta hora da noite dirigir-se da costa para o interior? É natural que me façam parar e exijam que lhes restitua a rapariga. Como é evidente, recusarei ! E depois? E verdade que joguei boxe quando era estudante, mas não serei precisamente aquilo a que se poderia chamar um desportista em plena forma. As minhas mãos, tão sensíveis que lhes é possível saturar vasos sanguíneos, não servem, todavia, para bater em crânios. Seria uma luta desigual, que estaria perdida antes mesmo de ter começado.»

 

Passou rapidamente o pente no cabelo e voltou a sair da tenda. Ana continuava encolhida na cadeira de lona. Sorriu quando ele fez incidir a luz sobre o seu rosto.

 

- Têm com certeza uma faca - disse ele.

 

- Eu?

 

- Os dois rapazes.

 

- Nesta terra qualquer camponês usa faca.

 

- Era o que eu pensava!

 

Volkmar já não via possibilidade de alterar o desenrolar dos factos. Ana saíra debaixo do toldo ... A bonita silhueta do seu corpo destacava-se como uma figura recortada contra o firmamento estrelado. «Assim se entra indefeso, involuntariamente, numa aventura», pensou Volkmar. «Pretendemos refugiar-nos na natureza selvagem e, de súbito, acordamos no hospital com um maxilar fracturado. Que belo deve ter sido o mundo quando não havia homens!»

 

Quando mais tarde, em Munique, relatasse estes acontecimentes ao dr. Hebert Steinhaus, chefe dos serviços de traumatologia, era de prever a sua reacção. «Que homem mais idiota!» exclamaria. «Surge-lhe, pouco depois da meia-noite, uma rapariga seminua na tenda. E o que faz ele? Leva-a a acasa! Sempre é preciso ser-se parvo! Para a cama é que a devias ter levado! Ficaria a respeitar-te! Garanto-te que é a última vez que te deixamos ir para férias sozinho!»

 

- Venha, Ana! - disse ele aproximando-se. Pôs-lhe um braço em redor da cintura e ela não reagiu, o que o tranquilizou e fez sentir de cabeça leve.

 

O carro de Volkmar encontrava-se a cerca de quarenta metros da praia, estacionado em terra firme. Nenhum carro poderia chegar ao local onde montara a tenda a fim de beneficiar do contacto estreito com o mar e com o vento. Ter-se-ia enterrado até aos eixos. Para além da faixa de areia estendia-se, porém, um solo rochoso, onde aqui e além se viam tufos de palmeiras atrofiadas e de oliveiras, pinheiros de larga coroa e cedros bizarros, entremeados de arbustos que o vento vergara ao longo de muitos decénios. Era a natureza no seu estado primitivo, até que uma sociedade de construções a descobrisse e mandasse erigir nessa enseada um hotel ou um aldeamento turístico.

 

- Os seus pais ainda são vivos, Ana? - perguntou, enquanto atravessavam a faixa arenosa como se pisassem um tapete rolante, fazendo o movimento habitual de quem atravessa este tipo de solo, isto é, levantando nuvens de areia fina com os pés. O seu braço mantinha-se à volta das ancas de Ana. Sentia o movimento dos músculos do seu corpo esbelto e o balouçar das nádegas. Estupidamente, lembrou-se dos nomes latinos de todos esses músculos como se estivesse numa aula de anatomia.

 

- O meu pai tem um talho - disse Ana, encostando-lhe a cabeça ao ombro. O vento fez voar o cabelo dela contra o seu rosto. Sentiu cócegas e um cheiro a sal e a flores de camomila.

 

- Somos sete irmãos, o pai, a mãe, a avó, um tio cego e um primo imbecil. Mas somos felizes, Enrico. O pai vai abraçá-lo quando eu lhe contar o que por mim fez. Vai, com certeza, poder escolher tanta carne quanta quiser!

 

Tinham chegado à terra firme, dirigindo-se agora através de uma completa escuridão até a um tufo de pinheiros. Olharam para trás, para o mar, depois Ana parou e disse em voz baixa num tom de criança:

 

- Como isto é bonito, Enrico ...

 

Quando Volkmar se voltou de novo a fim de prosseguir caminho era já tarde de mais. Tornava-se impossível qualquer reacção rápida, que, aliás, de nada lhe teria servido.

 

Dois jovens ergueram-se e as suas sombras recortaram-se contra a luz lívida da noite. Não empunhavam facas, mas sim duas metralhadores de aspecto inconfundível, cujos canos apontavam em sua direcção. Uma voz dura exclamou: «Hands up!» Debaixo dos pinheiros podia agora distinguir-se um jeep com capota de lona.

 

Ana, que até aqui se mantivera atrás do médico, passou para a sua frente, rindo baixo.

 

- Chama-se Enrico - disse -, fala bem italiano e está sozinho.

 

Depois voltou-se para Volkmar, afagou-lhe a face quase carinhosamente, formando com os lábios o trejeito de um beijo.

 

- Estes são os meus irmãos Luigi e Ernesto. São bons rapazes, Enrico. Se lhes obedeceres não te farão mal, mas se reagires terão de disparar. Compreendes, não é assim?

 

- Quem é que não compreende?

 

Volkmar aproximou-se, parando ao pé dos canos das metralhadoras. Podia agora distinguir as feições de Luigi e de Ernesto. Podiam considerar-se duas versões masculinas de Ana, com a única diferença de que a expressão dos seus olhos não era tão suave. Fixando Volkmar com um olhar crítico, os rapazes mantiveram-se na expectativa com os indicadores colocados sobre os gatilhos das metralhadoras.

 

- Quem és tu ? - perguntou Luigi, o mais velho dos dois. És americano, inglês, suíço, alemão?...

 

- Alemão. Bastava terem olhado para a matrícula do meu carro ... Mas isso tem agora alguma importância?

 

- Pois tem! - disse Ernesto. - Alemão, que sorte!

 

- Depende dos gostos. Há bastantes alemães que dariam muito para o não serem.

 

Fez com a cabeça um movimento em direcção a Ana que se dirigira para o jeep no intuito de mudar a blusa rota. Por segundos, pôde ver à pálida luz do céu estrelado os seus lindos seios nus, até serem cobertos por um blusão de ganga.

 

- O vosso engodo é, na verdade, irresistível. Mas, que faremos agora?

 

- Você não se defende?

 

_ Teria algum sentido? Então ...

 

- Levá-lo-emos connosco para os montes. Depois se verá.

 

- Quer dizer que se trata de um rapto bem planeado! disse Volkmar, sorrindo.

 

Reconhecia ter sentido medo até há alguns segundos, um medo racional, pois nem mesmo um herói consegue olhar calmamente para os canos de duas metralhadoras. Porém agora, depois de dominada a primeira sensação de susto, voltava a poder raciocinar claramente. Admirava-se até de achar cómica a situação.

 

- Se vocês não segurassem essas armas idiotas na mão, expressar-vos-ia os meus sentimentos. Acabam de caçar a coisa mais inútil que jamais se encontrou nas costas da Sardenha. Os atractivos da Ana foram, no meu caso, muito mal investidos! Eu explico-me ...

 

- Venha! - disse Luigi, fazendo com a metralhadora um sinal em direcção ao jeep.

 

No banco traseiro já se encontrava Ana que o puxou para o seu lado. Ao sentar-se, as coxas de ambos tocaram-se e o seu cotovelo esbarrou-lhe no seio. Embora estivesse agora consciente da armadilha em que tinha caído, achou agradável este novo contacto.

 

Luigi e Ernesto treparam para o banco da frente. O motor crepitou e o jeep pôs-se em movimento fazendo um ruído ensurdecedor.

 

- Deviam comprar um escape novo - disse Volkmar encostando-se para trás. Depois, à medida que o jeep ia ganhando   velocidade,   balouçando   assustadoramente, agarrou-se à coxa de Ana. Não tinha outra solução. - E esse motor é uma catástrofe! Sente-se o bater de todos os cilindros...

 

- Pois é, mas ele ainda consegue subir estes montes respondeu Ernesto rindo. - Tu é que nos vais comprar um bonito carro novo, Enrico.

 

- Tenho a impressão de que isso não vai passar de um desejo.

 

- Veremos, camarada!

 

- Vou ter de te vendar os olhos - exclamou Ana um pouco mais tarde, após terem atingido a estrada que conduzia a Cabras. Se procurares arrancar a venda ...

 

- Eu sei, eu sei, os teus irmãos disparam. Faz favor! Inclinou a cabeça à volta da qual ela colocou uma pesada venda de tecido de lã, fazendo-o depois voltar a recostar-se no assento. Provavelmente só por acaso sentiu algo tocar-lhe nos lábios. Era quente e macio.

 

- Ana - disse Volkmar, enquanto a sua mão direita procurava no vazio. Ela agarrou-a, e pelo calor que envolveu subitamente os seus dedos sensíveis de cirurgião reconheceu que a colocara no regaço. - Tu és uma ... como é que se diz em italiano ... uma carogna! Uma desavergonhada!

 

- Temos uma bonita casa lá em cima nos montes - disse ela afagando-lhe a mão. - Vais ver como te agrada. Só espero que o Luigi e o Ernesto não pecisem de disparar contra ti.

 

A viagem durou três horas.

 

Atravessaram várias povoações, o que Volkmar reconheceu pelo ruído das rodas sobre o empedrado das ruas. A estrada tornou-se depois mais estreita e acidentada, fazendo supor que se encontravam agora na região montanhosa, onde apenas existem veredas rochosas. O jeep arfava e gemia, os cilindros protestavam arquejantes, o escape enferrujado fazia um barulho terrível, mais parecendo o reactor de um avião.

 

Volkmar tentara repetidas vezes entabular conversa com Ernesto e com Luigi. Queria explicar-lhes que estavam a gastar gasolina inutilmente, pois ele era um refém pouco valioso. Mas os dois irmãos não lhe davam resposta. Por isso limitou-se a falar com Ana.

 

- Todos cometem erros. Ouve, Ana, deixa-me explicar-te...

 

Ela colocou-lhe o dedo indicador sobre os lábios e, quando ele o beijou, fez uma pressão mais forte com a mão que mantinha no regaço.

 

- Não fales! - disse em voz baixa. - Procura dormir um pouco.

 

- Com este barulho e estes solavancos? Ana, é idiota o que vocês estão a fazer!

 

O jeep deteve-se finalmente. A capota foi baixada. Ana puxou pela mão do médico, fazendo-o levantar, e retirou-lhe a venda. À sua volta só se viam rochas, bizarramente alcantiladas, carcomidas pela erosão. Entre elas, como que colada a um pequeno planalto, mais lembrando um ninho de águias, podia ver-se uma casa construída com pedregulhos. À frente, no local onde o solo pudera ser trabalhado, havia um pequeno quintal. Por uma calha de madeira corria um veio de água que brotava da rocha com um ruído surdo.

 

Luigi e Ernesto não prestaram atenção a Volkmar. Levantaram a cobertura do motor, ficando a observá-lo, silenciosos.

 

- É aqui que vivemos - disse Ana.

 

- Sete filhos, pai, mãe, avó ... - completou ele qual aluno aplicado.

 

- Eu menti. Nós vivemos aqui sozinhos. A mãe morreu, o pai foi morto no decorrer de uma vendetta, assim como dois irmãos. Nós fugimos, após o Luigi e o Ernesto terem dizimado a outra família. Mas a polícia, a maldita polícia ...

 

Volkmar olhou em redor. De dia a vista era com certeza maravilhosa. O olhar poderia espraiar-se até ao infinito, o que devia dar uma sensação embriagadora de liberdade. Porém Ana e os irmãos viviam aqui como bandidos. Para eles a natureza constituía apenas um local de refúgio.

 

Os dois rapazes pareciam ter concordado que o jeep já não aguentava outro esforço desta espécie. Fechando a cobertura do motor, olharam para o seu prisioneiro com ar zangado como se a culpa fosse dele. Ernesto acendeu um candeeiro a petróleo que se encontrava colocado sobre um muro baixo e dirigiu-se para a impressionante casa de pedra cujo telhado se compunha de enormes lajes sobrepostas. Tanto eles como o próprio Volkmar sabiam que dali ninguém poderia fugir. Pousaram as metralhadoras e deixaram que Ana se preocupasse com o «hóspede».

 

- Tens fome? - perguntou ela.

 

Segurando-o pela mão, conduziu-o como a um cego até à porta da casa. Luigi tinha acendido, três candeeiros que iluminavam uma sala de paredes caiadas, alguns móveis de construção caseira e um gigantesco fogão de pedra provido de uma placa de ferro. Não faltava igualmente uma grelha. Por todo o lado se viam inúmeras peles de cordeiro: sobre as cadeiras, o longo banco de pedra que ladeava o fogão, nas lajes rugosas do solo. Na lareira ardia ainda uma pequena fogueira que Ernesto ateou por meio de alguns bocados de madeira.

 

- Posso preparar-te uma pizza, Enrico - disse Ana.

 

- Uma pizza é uma boa ideia! - exclamou Luigi, sentado num banco de madeira, com os pés em cima da mesa, a descansar da viagem. - Ou não tens fome, Enrico?

 

- Nenhuma.

 

Volkmar sentou-se no banco recoberto com a pele de cordeiro e pôs-se a observar Ana. Viu-a tirar de um armário embutido num nicho do rochedo um bloco de massa de pizza, já preparada, que atirou para cima duma tábua. Tendo saído por uns momentos, Ernesto voltou com uma garrafa de vinho de dois litros e com quatro horríveis copos de lata pintada, idênticos aqueles que se vendem nas lojas de artesanato aos turistas, como constituindo um trabalho típico da Sardenha.

 

- Talvez ele queira dormir - disse Ernesto. - Estás com sono?

 

- Não muito.

 

Volkmar reparava no modo como Ana controlava o forno do grande fogão de pedra. Aparentemente estava satisfeita com a temperatura obtida.

 

- Temos apenas tomates e queijo - disse -, mas eu sou especialista a temperar. Vais ver como te sabe bem, Enrico!

 

- Com certeza.

 

E, com efeito, sabia optimamente. Volkmar comeu duas pizzas e bebeu tanto vinho que sentiu a cabeça toldar-se-lhe ligeiramente.

 

- Onde posso dormir? - perguntou ele ao notar que os dois irmãos ainda iam prolongar a refeição. Com uma paciência exemplar, Ana continuava a preparar umapizza após a outra. Os cabelos suados colavam-se-lhe ao rosto; cheirava vivamente a queijo.

 

- Em cima do banco! - exclamou Luigi e ergueu o copo. Brindemos pelo sucesso deste trabalho, camarada! És o meu primeiro refém.

 

- Era isso o que eu temia! - respondeu Volkmar estendendo-se sobre a pele de cordeiro. - Na vossa profissão apenas os amadores conseguem ser tão parvos!

 

Em breve iria verificar como estava enganado.

 

Anunciava-se um dia radioso quando Volkmar saiu para fora da casa na manhã seguinte. Espreguiçou-se, inspirou profundamente e só então reparou em Ana, que enchia um balde junto à calha de madeira. Luigi e Ernesto também já se encontravam de pé. Olharam para ele sorridentes, como se se tratasse de um bom amigo, apontando para a mesa colocada numa espécia de terraço. Para lá do corrimão duplo a rocha caía a pique. Quem quisesse tomar aqui o pequeno-almoço não podia ter vertigens.

 

- Pão, queijo, vinho... basta-te? - exclamou Luigi. Esperamos por ti para almoçar, Enrico.

 

- Foram muito amáveis. -Volkmar desceu os degraus até ao terraço. - A vossa hospitalidade enternece-me.

 

- Foi Ana quem nos pediu.

 

Ernesto apertou a mão do médico, Luigi bateu-lhe no ombro e todos se sentaram. Após ter acabado de encher o balde, Ana deitou vinho nos copos de lata e sentou-se ao lado de Volkmar. Luigi sorriu.

 

- Falemos agora de nós - disse, enquanto espetava um cubo de queijo de cabra com a ponta da faca.

 

- Quanto pensas tu que vales?

 

- Nada.

 

- Poder-se-á exigir um milhão pela tua pessoa?

 

- De liras?

 

- De marcos.

 

- É isso o que eu tenho estado a tentar dizer-vos há muito tempo. Se vocês conseguirem obter pela minha pessoa nem que sejam dez mil marcos, garanto-vos que voltarei a acreditar em milagres. Eu não valho nada.

 

- Tu és alemão, és rico.

 

- Nem todos os alemães são ricos. É falsa essa opinião generalizada que os outros povos têm de nós.

 

- Qual é a tua profissão?

 

- Sou médico.

 

- Ernesto - exclamou Ana -, ele é médico. Temos um doutor!

 

Luigi parecia menos entusiasmado. Qualquer outra profissão lhe teria agradado mais. Porque não um rico comerciante, um dono de fábrica, um joalheiro, um alto funcionário ou um director de banco? Mas um médico? Bem sabia que nem todos eram iguais. Porém, se pensasse no velho doutor Francesco Mammole, em Fanni, o centro populacional mais próximo desse local, não podia deixar de sorrir com condescendência.

 

~ Os médicos são ricos! - disse, muito alto.

 

- Eu trabalho num hospital, meu caro.

 

- Num hospital? - Luigi espetou a faca com força no queijo de cabra. - Merda!

 

- Eu já vos tinha dito, mas ninguém me quis ouvir. Bem podíamos ter-nos separado logo na praia.

 

- Mas deve existir uma pessoa qualquer para quem tu sejas valioso! - exclamou Ernesto.

 

- Para quem? - «Para a Angela Blúthgen», pensou Volkmar. «Estaria pronta a dar todas as suas economias, contudo os raptores não se interessam por importâncias dessa ordem. Para o meu chefe, o professor Hatzport? Embora seja milionário, não é de supor que por minha causa venda a sua moradia em Grúnwald, ou a casa que tem em Beaulieu, na Riviera, enviando o produto da venda para a Sardenha. O estado da Baviera, que me emprega? Aí levantar-se-iam insolúveis questões de competência.» - Não há ninguém que esteja disposto a pagar um resgate por mim - disse, por fim.

 

- E a tua família?

 

- Já não tenho família. Vocês exterminam-se uns aos outros com as vendetta, no nosso caso foi a guerra que se ocupou disso. O único sobrevivente foi o meu pai. Chegou aos oitenta e nove anos de idade e morreu há três anos.

 

- O hospital! - gritou Luigi. Começava lentamente a aperceber-se que trouxera mais uma boca para casa, mas não alguém que lhe proporcionasse uma mesa farta durante vários anos. A ideia era deprimente.

 

- Experimentem! Seria um milagre, já o afirmei há bocado!

 

Volkmar esmigalhava o pão com os dedos. Sentia que a disposição dos dois irmãos se ia modificando. «E como a crise que sobrevêm após a operação», pensou. «O corpo reage - estes dois estão a reagir contra o reconhecimento da sua derrota. Isto pode ser catastrófico, sobretudo para quem se encontra tão próximo de um precipício como eu.»

 

- Vou dizer-vos o que possuo - continuou Volkmar: uma habitação de três divisões em Harlaching, que não é própria, mas sim alugada. O carro que vocês já viram, o equipamento de campismo, seis fatos, um smoking preto, outro branco, pois gosto de ir à ópera quando tenho tempo, uma conta bancária com cerca de sete mil marcos, parece-me, um seguro de vida transformável em reforma que me renderá, a partir dos 65 anos, mil e duzentos marcos por mês, o habitual recheio de casa, e pronto! Onde querem vocês ir buscar um milhão de marcos?

 

- Não terás uma amante rica? - perguntou Ana, como por acaso, embora à socapa o fosse observando atentamente.

 

- Não.

 

- Porquê?

 

- E por que razão não tens tu um amante rico? No teu caso não era difícil.

 

- E no teu?

 

- Eu estou casado com o meu hospital. A afirmação é banal, bem sei, mas verdadeira. No mundo devem exisitir outros tipos como eu.

 

- Mesmo assim vamos tentar! - gritou Luigi levantando-se. - Quem me diz que não estás a enganar-nos? Vamos esperar até ver o que escrevem os jornais quando o teu desaparecimento se tornar conhecido. Então saberemos exactamente quem tu és, e o que vales!

 

- Eu próprio estou interessado em sabê-lo - respondeu Volkmar com sinceridade. - É possível que nesse momento todos nos sentemos de novo a esta mesa e nos lamentemos por nenhum de nós ter o valor que imaginava. Sabem o que vai suceder? Em todos os jornais aparecerá a seguinte notícia: «Na Sardenha, desapareceu sem deixar rasto o médico alemão dr. Heinz Volkmar. A sua tenda instalada na praia de Capo San Marco encontrava-se vazia. Admite-se que tenha perecido afogado. O dr. Volkmar não deixa descendentes.» Fim de citação! No dia seguinte já ninguém se lembrará de quem era esse dr. Volkmar. Do ponto de vista jornalístico, não passou de um indivíduo valendo quatro linhas! E pensar que foi um tipo desta espécie que vocês raptaram!

 

Com um riso sonoro, aproximou-se do bordo do ninho de águias e olhou para a vastidão da paisagem. É agora a altura de me empurrarem, pensou, pois não passo para eles de um fardo incómodo.

 

Retesou os músculos ao sentir alguém tocar-lhe. Era Ana, que colocou os braços em redor dos seus ombros, encostando-lhe a cabeça às costas.

 

- Agrada-me - disse - que sejas quase tão pobre como nós...

 

- Vejam só a estúpida da rapariga! - gritou Luigi furioso dirigindo-se a Ernesto. - Oh! Se ao menos ele a abraçasse! poderia então matá-lo ao mesmo tempo que proferia uma oração!

 

Demorou três dias até se notar em Capo San Marco que a bonita tenda azul de toldo amarelo se encontrava vazia. E, mesmo assim, só um acaso o deu a conhecer. Com efeito, uma patrulha de carabinieri viu a tenda montada na praia e desceu a fim de investigar quem era o seu habitante solitário. Na era do turismo de massas tornou-se muito pouco frequente que alguém se decida a brincar aos «Robinson». Quando se encontra um destes indivíduos vale a pena ir cumprimentá-lo e ter com ele uma pequena conversa amigável.

 

De início, os dois homens nem suspeitavam terem dado com um caso sensacional. Só quando, após uma hora de espera, o habitante da tenda não tinha ainda aparecido, é que um dos polícias entrou para o seu interior e viu a cama revolvida, o fato de treino, a lâmpada eléctrica pousada no chão de borracha, a caixa da roupa aberta, da qual parecia ter sido retirado apressadamente algo para vestir.

 

A possibilidade de o estrangeiro se ter dirigido a Cabras para fazer compras foi posta de lado, ao verificarem a existência do carro de matrícula alemã estacionado debaixo dos pinheiros. Este até se encontrava aberto, tendo no banco dianteiro um atlas turístico de dentro do qual caiu a carta verde do seguro quando o carabinieri lhe pegou.

 

«Dr. Heinz Volkmar. Munique - Harlaching.»

 

Através do pequeno emissor montado numa das suas pesadas motos transmitiram o acontecimento para o posto central da polícia, em Oristano, apenas a título informativo.

 

A ordem do comandante foi: «Mantenham-se junto à tenda, vamos enviar um reforço.»

 

A partir desse momento a vida do dr. Volkmar modificou-se radicalmente. Se alguém tivesse então estado disposto a pagar por ele um milhão, não teria sucedido aquilo que mais tarde se transformaria numa realidade monstruosa.

 

Mas, primeiro, foi necessário que o aparelho burocrático começasse a funcionar com a lentidão habitual.

 

Foi feita uma busca minuciosa à tenda, e, depois, uma relação circunstanciada do seu conteúdo. Um jovem guarda foi para ali enviado, permanecendo na tenda três dias e três noites, uma vez que a hipótese de o dr. Volkmar ter ido fazer uma excursão pelo interior da ilha no carro de um conhecido não era destituída de fundamento. Porém, ao cabo de três dias, as autoridades começaram a convencer-se de que fora vítima de um acidente. Por telex chegara, entretanto, através da política de Munique, toda uma série de informações mais pormenorizadas obtidas nos serviços de identificação, na clínica e no prédio onde o médico habitava.

 

- Estas coisas acontecem! - afirmou aos jornalistas na noite do terceiro dia o oficial de serviço dos carabinieri de Oristano.

 

- O nosso mar é azul e calmo e isso tenta os estrangeiros a cometerem imprudências. O que sabem eles das perigosas correntes marítimas? Também este dr. Heinz Volkmar - o inspector tinha dificuldade em pronunciar o nome que o seu ouvido de italiano achava muito pouco musical - deve ter sido vítima da sua negligência. Talvez um dia o seu corpo dê à costa. Só nessa altura teremos a certeza. Por isso, amigos, para já escrevam que um misterioso acidente parece ter vitimado o médico alemão. Misterioso é um bom termo, pois livra-nos de responsabilidades! Se ele voltar a aparecer... pois bem! Digam-me lá, o que podemos nós fazer perante os mistérios?

 

Luigi regressou no quarto dia de Aritzo, aldeia situada no maciço dos Monti del Gennargentu, e estendeu o jornal sobre a mesa. A sua expressão era deveras sombria ao apontar a notícia com o dedo. Sentou-se ao lado do irmão, sobre o banco de madeira. Ana e Volkmar encontravam-se ao pé de uma grande vasilha de madeira, escolhendo alfaces.

 

- Aí está ela! - rosnou, batendo com o punho no jornal. Ernesto, lê em voz alta. Tu sabes ler melhor. O meledetto! Porque não nos limitamos nós a roubar estabelecimentos! Lê!

 

Ernesto pegou no jornal, passou silenciosamente os olhos pelo artigo e fez um largo sorriso na direcção de Volkmar.

 

- E bonito o que escrevem sobre ti - disse. - És um homem famoso, mas pobre. Não foi um bom negócio, Enrico.

 

- Lê! - gritou Luigi.

 

Ernesto encostou-se, como se quisesse recitar uma poesia, aproximando o jornal dos olhos.

 

- Numa enseada situada fora dos percursos turísticos, no Capp San Marco, desapareceu há alguns dias, sem deixar vestígios, o turista alemão dr. Heinz Volkmar. A tenda e o automóvel foram encontrados intactos, não havendo, contudo, quaisquer sinais do ocupante. A polícia presume que o dr. Volkmar se tenha afogado ao tomar banho. Esta ocorrência é tanto mais misteriosa quanto é conhecido ser ele um excelente nadador que visita a Sardenha pela décima vez. Todas as buscas efectuadas até agora foram infrutíferas. O dr. Volkmar era tido por um dos melhores especialistas de cardiocirurgia da Alemanha. Dedicava-se, desde há muitos anos, ao problema de transplantações do coração e da implantação de novos vasos sanguíneos. As pesquisas por ele realizadas fazem acreditar na possibilidade de concretização

- até aqui considerada utópica - da inserção de um « segundo coração».

 

Ernesto deixou tombar o jornal e fixou Volkmar com ar abismado.

 

- És tu? - perguntou, perplexo. Volkmar fez um sinal negativo:

 

- Isso não passa dos habituais exageros dos jornais. «Vejam lá», pensou, «afinal sempre deram o devido valor ao meu trabalho. Até aqui consideravam-se um visionário, um fantasista do escalpelo. Só depois de ter «morrido» é que o mundo está pronto a reconhecer que foram dados os primeiros passos no caminho da implantação de um «segundo coração» e que é preciso continuar. E o professor Hatzport? Visitou por duas vezes o centro de investigação para observar os dois macacos a quem transplantei um coração adicional. ”Resolvido brilhantemente do ponto de vista técnico, meu caro Volkmar! - disse. - Mas a natureza não se deixa enganar e tem armas mais fortes do que as suas. A barreira imunológica, a individualidade biológica de cada ser, o bloqueio genético... nada disso vai poder ser dominado por nós! Ser-nos-á permitido fezer tudo o que quisermos com o escalpelo, mas as proteínas hão-de sempre vencer-nos, sobretudo no caso das transplantações! Você sabe isso tão bem como eu, Volkmar. Aconselho-o a gastar a sua energia em projectos mais acessíveis.”

 

«Os macacos ainda continuavam vivos dois dias depois desta conversa. Mais tarde, três cães conseguiram sobreviver respectivamente nove, doze e catorze dias. Quando tal sucedeu o proferssor Hatzport começou a evidenciar nítidos sinais de inquietação. Porém, quando lhe foi anunciada a morte do último cão, o seu mundo voltou a entrar na ordem.

 

«E agora esta notícia nos jornais: O dr. Volkmar abriu novos caminhos à ciência! Talvez uma pequena homenagem, pois não se deve falar mal dos mortos.»

 

- Tu podes, na verdade, transplantar corações? - perguntou Ana em voz baixa. - Podes colocar em todos nós um coração novo?

 

- Não. Eu apenas tento.

 

- Mas tiras mesmo um coração velho e consegues substituí-lo por um novo? - quis saber Luigi, inclinando a cabeça, curioso.

 

- Mais ou menos.

 

- Disparate! - disse Ernesto batendo com o indicador na testa. - Isso não é possível.

 

- Ainda não! Contudo, os cirurgiões em muitos dos grandes hospitais da América, da França, da Inglaterra e até da África do Sul estão a trabalhar nesse sentido. Na Rússia já foi possível implantar uma segunda cabeça num cão-pastor. O professor Demichov conseguiu manter vivo durante várias semanas esse animal de duas cabeças.

 

- E é um tipo destes que temos aqui! - exclamou Luigi, desesperado. - Um tipo que corta cabeças e extrai corações! Afinal, Ernesto, nós somos uns bandidos muito decentes. Afasta-te dele, Ana, senão amanhã talvez apareças com um terceiro seio implantado nas costas!

 

O seu riso era áspero, e tornando-se subitamente sério fixou o prisioneiro. Este pegara no jornal e começara a ler com os próprios olhos o artigo que sobre ele tinham escrito.

 

- Quer então dizer que estás morto, ha! - continuou elevando a voz. - Tu próprio estás a lê-lo. O que faremos nós agora de ti?

 

- Não lhe toques! - gritou Ana, afastando de si a tijela com a salada. - Ele é nosso hóspede!

 

- Eternamente? - perguntou Luigi. - Quereis ter os carabinieri à perna? Não basta andarem já atrás de nós como cães? E preciso que ele desapareça!

 

- Ele fica aqui! - retorquiu Ana, furiosa.

 

- Tem de se ir embora!

 

~~_ prendo o meu corpo ao dele. O que fazem vocês então, ha? Luigi mata pessoas como se fossem coelhos exclamou dirigindo-se ao médico. - Mas não precisas de ter medo. A ti, não! Ele mata ...

 

- Por vendetta - disse Luigi, como se se tratasse de uma desculpa aceitável. - Muito bem. Esperemos. Mas tens de pagar a estada, camarada, como se estivesses num hotel! Quanto dinheiro trazes contigo?

 

- Exactamente duzentas e noventa mil liras e e setecentos e vinte marcos.

 

- Chega para três meses - disse Ernesto.

 

- Pensem, porém, que a vossa situação piora quantos mais dias eu estiver convosco. Daqui a um mês todo o mundo me considera irremediavelmente perdido e se eu voltar a aparecer será difícil encontrar uma explicação plausível.

 

- Bem o sabemos! - Luigi amarfanhou o jornal e atirou-o para o precipício. - Tu constituis um problema para nós. Em face disso os teus corações retalhados são uma ninharia!

 

O advogado dr. Eugênio Soriano era um homem que gozava de uma excelente reputação. No seu escritório de advogado do Corso Vittorio Emanuela, a magnífica rua principal de Palermo, apinhavam-se os clientes como se ele fosse um médico em voga a prometer a eterna juventude. Na segunda sala de espera decorada como um salão do século XIX, luxuoso, repleto de veludos, um mordomo servia aos clientes ilustres um vinho de Marsala espesso e macio ou um conhaque velho de dez anos. Estes indivíduos eram recebidos pelo próprio dr. Soriano. Quanto às outras pessoas que o consultavam, recebiam-nas três jovens advogados, mas estes faziam-no com tal habilidade que todas elas voltavam para casa convencidas de que, após lhe ter sido exposto o caso, o dr. Soriano iria dedicar-se exclusivamente à sua solução.

 

Quem poderia também criticar um advogado tão famoso como ele de utilizar como habitação citadina um velho palácio, de possuir uma enorme moradia branca junto ao mar, em Capo Zafferano, muito próximo das ruínas de Solunto, de possuir um iate com a dimensão de um pequeno navio de passageiros, um jacto privado com dois turbo-reactores e. ainda de se apresentar em público acompanhado por seis guarda-costas?

 

- Bem - dissera uma vez o juiz do Supremo Tribunal de Palermo -, é certo que Soriano tem o melhor consultório de advogado do país. Mas um aparato destes ... como pode um advogado ganhar o suficiente para mante-lo?

 

- Não devemos preocupar-nos com isso - retorquiu o dr. António Brocca, procurador da República, do qual se afirmava que apenas ditava às secretárias que se apresentassem perante ele de blusa aberta. - Soriano é um homem honrado! Quem melhor do que eu o poderá asseverar? Alguém se torna presidente do clube de golfe se os seus pergaminhos não forem imaculados? Foi ele o fundador de uma creche e de um asilo de velhos e há dois anos mandou iniciar a construção de um centro de convalescença para crianças nos montes de Camporeale. Isto diz tudo! A caridade é a melhor recomendação.

 

Ora foi precisamente o dr. Brocca quem telefonou a Soriano nesse mesmo dia, pedindo para lhe falar pessoalmente.

 

- É urgente - disse -, não importa que esteja a atender alguém.

 

No escritório encontrava-se o senador Alfredo Acate, o qual viera buscar o seu ordenado mensal. Acate presidia à comissão jurídica do Senado romano e Soriano investia uma soma relativamente modesta na obtenção de informações acerca da política judicial do Governo.

 

- Já leu o jornal da manhã, dr. Soriano? - perguntou Brocca. - Ainda não? Então leia, por favor. Na página três. Uma pequena notícia oriunda da Sardenha: «Médico alemão desaparecido misteriosamente». Encontrou? - esperou até Soriano ter lido a notícia. - Então? - continuou - Que me diz?

 

- O que posso eu dizer? Trata-se de um acidente. Morte por afogamento.

 

- Na Sardenha foram raptados no último ano três estrangeiros ricos e libertados apenas depois de recebido um valioso resgate. Os bandidos nunca foram encontrados. Para falar com franqueza, uma vez recebido este, ninguém mais se interessou pelo assunto. Presume-se ter sido obra de bandos refugiados nas montanhas, esperando-se uma eventual confrontação. A estes factos vem juntar-se agora o desaparecimento do médico alemão.

 

- Você julga que ...?

 

- Veremos se eles estipulam condições. Mas muito mais interessante do que isso é para si uma outra coisa, dr. Soriano ...

 

O procurador calou-se. Sabia que Soriano iria ler mais uma vez o artigo.

 

- Tem razão! - exclamou este de repente.

 

rocca, que se preparava nesse momento para acender um cigarro, estremeceu ao ouvir o tom duro da sua voz.

 

- Brocca, os seus raciocínios são perfeitos.

 

- Um cirurgião cardiologista, dr. Soriano! Um especialista conhecido mundialmente pelas transplantações executadas! Não acha que se trata de um maravilhoso golpe de sorte?...

 

- Vou ocupar-me do caso, Brocca. Você detectou algo que precisa de ser ponderado com toda a calma. Estou-lhe muito grato, Brocca.

 

Soriano carregou no botão do intercomunicador e estabeleceu ligação com um homem que, após um compasso de espera em que o telefone tocou repetidas vezes, respondeu pelo nome de «dr. Nardo». Soriano repetiu a pergunta do procurador:

 

- Já leu o jornal da manhã?

 

- Não - respondeu o dr. Nardo. Encontrava-se sentado por detrás de uma escrivaninha branca numa sala de grandes dimensões, protegida por persianas contra a forte luminosidade. As paredes também eram brancas, bem como as prateleiras de livros, o tecto e a própria bata que envergava. Tudo nesta casa era branco, estéril e higiénico: tratava-se do asilo de velhos de Santa Maria di Caltanissetta. O dr. Soriano nascera precisamente há cinquenta anos nesta localidade.

 

- Faça-o mais tarde! - continuou Soriano. - Agora, responda-me apenas a uma pergunta: conhece o dr. Heinz Volkmar?

 

- O perito em transplantações?

 

- Quer dizer que o conhece?

 

- Não pessoalmente, mas no mundo da medicina ele é ...

 

- Obrigado, isso basta-me. - Soriano cortou a palavra ao médico. Este não se ofendeu com isso. Quando o «padrinho» falava, os outros tinham de calar-se. Ouviu o telefone desligar, sentindo-se feliz pelo facto de a conversa ter sido breve e Soriano não ter mais perguntas a pôr-lhe.

 

Uma escassa hora mais tarde o avião privado do dr. Soriano sulcava o céu claro da Sicília, rumo à Sardenha. A bordo encontravam-se quatro homens elegantemente vestidos, dois dos quais cheiravam a perfume adocicado. Tinham-se reclinado nos assentos, bebendo o vinho que lhes era servido pelo co-piloto, pouco falando uns com os outros.

 

A missão de que tinham sido incumbidos preocupava-os. Entre eles, era Paolo Gallezzo quem com maior frequência olhava para o jornal, enquanto fazia trejeitos com o lábio inferior. Era relojoeiro de profissão e possuía uma bonita loja em Palermo. A «família» conhecia-o apenas pelo nome de «o executor».

 

Era fácil dizer-se: «tragam-no!»

 

Quem conhecer o planalto da Sardenha e o orgulho dos sardos poderá compreender por que razão Gallezzo e os seus homens se sentiam algo preocupados.

 

Tragam-no!

 

Para que precisava o dr. Soriano de um cirurgião cardiologista?

 

É muito vantajoso estar-se bem relacionado, ter amigos influentes, conhecer «bons endereços», obter recomendações capazes de fazerem abrir-se todas as portas. Também convém conhecer certas fraquezas e certos negócios, penosamente escondidos dessas mesmas pessoas a quem se vão pedir certos serviços.

 

Por esse motivo, Adriano Oreto, comerciante de fruta exótica em Cagliari, não se admirou sobremaneira ao ser interrompido pelo sinal de alarme, furtivamente accionado pela secretária, e ao ver entrar no seu escritório quatro homens elegantemente vestidos que fecharam a porta atrás de si.

 

Adriano abrigara-se atrás da sua pesada mesa de trabalho e o cumprimento que endereçou aos seus distintos visitantes foi o de fazê-los olhar para o cano de uma metralhadora. Entretanto, o sinal de alarme premido pela jovem Lúcia fizera reunir um comando nos armazéns da Companhia de Frutas da Sardenha. Compunha-se de dez rapazes corpulentos, bons atiradores, aptos a chegar ao local indicado em breves minutos.

 

- Seria conveniente manterem-se tranquilos! - exclamou Oreto por detrás da enorme secretária que o protegia como a blindagem de um tanque. - Entrar, entraram, mas já não voltam a sair! Quem os mandou, seus idiotas, até mim?

 

- Seria lamentável, Dom Adriano, se a nossa conversa começasse com um mal-entendido. - Paolo Gallezzo tirou da cabeça o chapéu de feltro branco e macio e sentou-se numa das cadeiras de couro que conferiam ao escritório um ar de seriedade. Os três outros homens colocaram-se à esquerda e a direita da porta, metendo as mãos nos bolsos. Oreto bem sabia que o não faziam por as terem frias. - Trago-lhe cumprimentos de Dom Eugênio - continuou.

 

- De quem? - perguntou Oreto, protegido pela mesa. Lá fora ouvia-se o ruído de muitos pés correndo sobre o chão de mármore. «Funciona», pensou ele satisfeito e orgulhoso. «Até agora ainda não tinha sido preciso, mas continuámos sempre a treinar-nos tal como nos navios, quando se fazem os exercícios de colocação dos coletes de salvação. O mundo é mau. Temos de estar preparados para tudo.»

 

- Dom Eugênio Soriano.

 

- De Palermo? - a cabeça de Oreto emergiu por detrás da secretária. Podia permitir-se esse gesto, mesmo que se tratasse de uma armadilha. Do outro lado da porta estavam os seus homens. Carregou num botão que ligava a um alto-falante situado no gabinete da secretária:

 

- Esperem - disse -, tenho aqui quatro visitas importantes. Querem dar-me algumas explicações. Como estão as coisas, Alfredo?

 

- Bem, Dom Adriano. - O homem chamado Alfredo parecia ainda um pouco ofegante da corrida. - As portas estão guardadas e mantemos as janelas sob observação. Somos vinte ao todo.

 

- Muito bem, Alfredo. - Oreto desligou o alto-falante e apareceu de corpo inteiro por trás da secretária. Era um homem de sessenta anos, desembaraçado, com cabelo branco bem cuidado. Teria dado, por exemplo, um imponente cardeal. Mas nos seus olhos não transparecia, de modo algum, uma brandura clerical. Eles olhavam penetrantes e atentos para cada um dos seus homens.

 

- Será preciso tudo isto? - perguntou Gallezzo, cruzando as pernas. - Estaremos numa região tão selvagem, tão pouco civilizada?

 

- Dom Eugênio não tem... amigos? - retorquiu Oreto. O que tem para me dizer?

 

- Pretendemos uma informação. - Gallezzo atirou o jornal para cima da secretária. Circundara a lápis vermelho o artigo sobre o dr. Volkmar. Adriano lançou-lhe um olhar e abanou a cabeça:

 

- Já o li, signorí. Não temos nada a ver com isso. Os nossos interesses situam-se no sector económico e no domínio das diversões. Para que havíamos de querer um médico alemão? - sabíamos que não entra em negócios desta espécie disse Gallezzo. - Mesmo assim, Dom Eugênio é de opinião que poderá prestar-nos o seu auxílio. Quem raptou o dr. Volkmar? Quem está especializado neste tipo de negócio aqui na região? Cite-nos os nomes de que se lembrar. Todos eles podem ser úteis!

 

- Esse doutor é um homem assim tão importante? - perguntou Oreto, voltando a ler a notícia e encolhendo os ombros. - Madona! Vocês têm em Palermo tanta necessidade de dinheiro que precisem de meter-se em negócios desta espécie? O que é que vos aconteceu lá na Sicília?

 

- Diga os nomes, Dom Adriano! - exclamou Gallezzo. Temos pouco tempo e estamos preocupados.

 

- Com o médico alemão?

 

- Desapareceu há quatro dias e ainda ninguém pediu um resgate.

 

- Talvez tenha, de facto, morrido afogado.

 

- Os nomes!

 

Adriano Oreto sentou-se na sua confortável cadeira, colocou a metralhadora sobre a secretária corno se fosse uma gigantesca faca de abrir correspondência e olhou para o tecto. «Quem poderia ser», pensou com esforço. «Conhecemo-los todos, os queridos ”irmãos e irmãs” que se movem ao sol, mas trabalham na sombra. Todavia, também se pode tratar de indivíduos isolados, de novatos, de cabeças de vento que ainda não compreenderam os benefícios que se podem retirar de uma boa organização. Nestes casos é quase impossível dar uma indicação.»

 

O que Oreto estava a temer em pensamento foi posto em palavras por Gallezzo:

 

- Não foi trabalho de profissionais, Dom Adriano. Eles deixaram, por exemplo, o carro do doutor no local. Em regra, não se deixa escapar um negócio paralelo desse tipo.

 

Nesse caso não há hipóteses, signorí. - Oreto ergueu as mãos como se lamentasse não poder ajudar. - Como posso eu saber quem raptou um médico na Sardenha?

 

~ Alguns nomes talvez pudessem auxiliar-nos, Dom Adriano.

 

Oreto acenou com a cabeça e, em seguida, fez algo de que mais tarde se arrependeria muito. Citou o nome de dez indivíduos que suspeitava dedicarem-se a raptos.

 

Porem, entre eles não conheço nenhum que não levasse um automóvel desse preço para a oficina de pintura mais próxima para lhe mudar a cor - disse ainda. - Todos eles são rapazes espertos, todos...

 

Gallezzo abandonou o gabinete de Dom Adriano depois de alguns agradecimentos de circunstância. Alfredo e seis dos seus companheiros esperavam na sala contígua com as metralhadoras preparadas para disparar. Todas as portas estavam protegidas e à frente da casa encontravam-se outros homens bem treinados.

 

- Nada de excitações, fratello! - disse Gallezzo em tom ameno, enquanto com a mão fazia baixar o cano da metralhadora. - Viemos por engano! Quem dá agora ordem para nos deixarem sair?

 

- Nós acompanhamo-vos! - Alfredo olhava fixamente para o alto-falante à espera de uma ordem de Dom Adriano. Este pareceu senti-lo, pois o aparelho crepitou e a sua voz calma encheu a sala:

 

- Deixem passar os meus amigos da Sicília!

 

- Compreendido, Dom Adriano.

 

Alfredo fez sinal com a metralhadora. Como se estivessem a escoltar prisioneiros, deixaram-nos sair do edifício e aproximar-se do potente carro que Gallezzo pedira emprestado. Por detrás de outras portas e de carros estacionados surgiram várias cabeças.

 

- Estais bem organizados! - disse Gallezzo com ar entendido. - Quantos sois?

 

- Somos em número suficiente para podermos declarar guerra aos carabinieri.

 

Alfredo esperou que os quatro homens entrassem no carro, saudando-os com a mão:

 

- Felicidades!

 

O carro arrancou bruscamente, saindo a toda a velocidade do armazém de frutas.

 

- Alguém me dá um cigarro? - perguntou Alfredo, enquanto punha a metralhadora ao ombro. - Preciso de sentir outro cheiro. Aquele perfume dá-me vómitos!

 

No final desse dia já tinham sido mortas três pessoas. Mas poucos o souberam porque ninguém falava em assuntos desses. Os mortos pertenciam a uma classe social em que morrer constitui um risco diário. É certo que deixavam mulher e filhos, mãe e pai, irmãos e irmãs, que os choravam sentidamente, se desesperavam, arrancando os cabelos e gritanclo _ mas tudo isso se passava atrás de portas e gelosias cerradas, no seio das famílias. As certidões de óbito eram passadas’por médicos amigos, que atestavam terem morrido de colapsos cardíacos. E não se tratava sequer de uma mentira pois quem recebe um tiro na cabeça ou no coração sofre, com certeza, um colapso.

 

O que impressionava eram as circunstâncias que tinham rodeado estas mortes. Apareceram quatro senhores muito distintos, fizeram algumas perguntas e, depois, com um aceno amigável, enviaram o inquirido para o além. Nada se podia fazer para evitá-lo - e mesmo quando se comunicou a Dom Adriano, pois tais métodos assustavam, a resposta foi: «Calem a boca! Por amor de Deus, estejam calados! Não façam alarde! Nós vamos tratar disso ...» É tudo ficou por aí. Dom Adriano apenas fez saber que nada tinha a ver com esses acontecimentos.

 

- Esses patifes perfumados! - exclamou Alfredo quando Oreto reuniu um «pequeno conselho» no seu gabinete para discutir a situação. - Devíamos tê-los liquidado!

 

- Poderemos nós opor-nos a Dom Eugênio? - perguntou Oreto num tom sombrio. - Devemos dar-nos por satisfeitos se dentro de alguns dias voltarmos a viver em paz na Sardenha! Os amigos da Sicília têm a sua própria moral.

 

Gallezzo e os seus companheiros chegaram ao cair da noite à pequena localidade de Sorgono, situada no sopé do maciço de Gennargentu. Uma informação fizera-os deslocar até ali: alguém trocara em liras cem marcos alemães no banco de Oristano, um homem que não possuía liras, quanto mais marcos! Nada se teria sabido se o caixa do banco não fosse conhecido de Dom Adriano. Este «bravo homem» não só dirigia o honesto negócio bancário, como controlava os três bordéis da cidade, não por conta própria, como é evidente! As receitas eram depositadas numa conta bancária em nome de Oreto. O seu nome encontrava-se em quinto lugar na lista de dez que Dom Adriano dera aos visitantes.

 

- Os cem marcos fizeram-me suspeitar - disse o caixa. tie costumava vir, em regra, com Eurocheques «encontrados» que nós pagávamos sem fazer perguntas. Afinal somos amigos! Ele é um pobre-diabo, o Luigi! Toda a família morreu... vendetta, compreende? Se, na realidade, ele raptou o medico alemão... pois trata-se sem dúvida de uma nova forma de trabalhar. Todos procuram modernizar os seus empreendimentos, não é verdade? Mas não me parece. O Luigi ainda tem de aprender a arte.

 

- Trabalha só? - perguntou Gallezzo em tom amável.

 

- Não. São três. Luigi, Ernesto e Ana. São irmãos. Os sobreviventes de...

 

- Bem, bem - interrompeu Gallezzo. - Onde podemos encontrá-los?

 

- Perguntem por Luigi em Sorgono. Eles encontram-se algures nas montanhas.

 

Foi assim que os enviados do dr. Soriano chegaram ao ninho de águias de Sorgono. O facto de o caixa do banco não ter sido morto deveu-o ele apenas à sua profissão. Com efeito, trabalhava por detrás de um vidro à prova de bala e, além disso, o banco encontrava-se cheio de clientes, sendo a porta guardada por um carabinieri. Mas foi mero acaso. No entanto, Gallezzo reconheceu que era impossível fazer desaparecer este rasto.

 

Sorgono tinha um modesto «supermercado». Desde os pregos ao vinho tinto a granel, das limas de aço ao salame bem fumado, tudo o que uma pessoa precisava nesta região solitária se podia encontrar nas suas prateleiras e gavetas cheias de poeira. Ao entrar na loja, o cliente deparava até com uma pilha de bacios de esmalte, uma série de monos, uma má compra de Ferrucio Stracia, o proprietário. A sua clientela não depositava excrementos em bacios de esmalte. Achavam que eram bons de mais para esse fim. Stracia alegrava-se, em contrapartida, com o lucro obtido na venda de vinho. Comprara três pipas e vendia apenas meio litro de cada vez. A clientela podia sentar-se comodamente em dois bancos colocados ao lado de mesas de tampo de plástico, junto às pipas. Este recanto da loja de Stracia substituía a televisão e a rádio. Aqui se trocavam as novidades.

 

Era também aqui que se encontrava Luigi bebendo um copo de vinho. Tinha trocado os cem marcos, comprara toucinho, carne e manteiga, um saco de tomates e duas garrafas grandes de vinho. Ana tinha feito uma lista de tudo quanto precisava, pois o hóspede devia ser bem tratado. Luigi decidiu, porém, beber primeiro um pouco, e pedir depois a Stracia que aviasse o resto das compras. Tinha a certeza de encontrar ali tudo quanto precisava.

 

Pouco passava das oito e meia quando uma pequenita de cerca de sete anos entrou na loja de Stracia e fez sinal a Luigi.

 

- Vem cá fora! - disse, com a sua fina voz infantil. - Tens uma surpresa! .       .

 

Luigi olhou para Stracia com ar inquiridor, Este encolheu

os ombros.

 

_ O que aconteceu? - perguntou em voz alta. A rapaRIguita correu para a porta, rindo envergonhada.

 

- Uma surpresa...

 

- Disparate! - Luigi pousou o copo em cima da mesa, levou a mão ao bolso e estendeu a Stracia a lista de Ana com um ar de grande senhor. - Avia-me estas coisas, Ferrució~- disse. - Que surpresas posso eu ter neste local? Ou será que vocês têm uma puta na aldeia?

 

Stracia riu estrondosamente, passou os olhos pela lista e, exibindo-a nas pontas dos dedos, perguntou:

 

- E quem paga?

 

- Eu, imbecil! - respondeu Luigi a rir. - Não achas que às vezes posso ter sorte?

 

Saiu do «supermercado» e perscrutou a noite, curioso. Uma violenta pancada na nuca fê-lo tombar redondo no chão. Foi arrastado por dois homens até ao jeep desconjuntado, enquanto Gallezzo dava à pequenita uma nota de cem liras. Ela olhou para o dinheiro estupefacta.

 

- Tu não nos vistes - disse-lhe com voz branda.

 

Repugnava-lhe matar crianças. Tinha, como todos os italianos, um fraco por elas, podendo estar horas a fio a brincar com os filhos da irmã do dr. Soriano no parque da vivenda situada ao pé do mar. Quando certa vez não se pôde evitar que perecessem três crianças num fogo posto - tratava-se de um aviso da «organização» a um camarada insubordinado -, Gallezzo passou um dia inteiro a chorar, tendo de ser tratado pelo dr. Nardo.

 

Saíram de Sorgono, levando Luigi dentro do jeep e, parando à beira de um regato de montanha, mergulharam-lhe a cabeça na água fria. O rapaz recuperou rapidamente os sentidos e começou a espernear e a bater com os punhos. Foi porem seguro por três homens, enquanto o quarto tratava-se de Gallezzo - lhe espetava uma faca no braço para o Fazer compreender melhor.

 

- Podiamos tornar-nos amigos se falássemos um com o outro sensatamente - disse ele num tom de terrível indiferença. Isto não constituiu surpresa para Luigi, que não era um novato nestas andanças e gozava até entre os outros marginais de uma boa reputação por nunca ter morto uma pessoa ... excepto em caso de vendetta, bem entendido. Se é certo que aparentava um ar feroz, quem o conhecia tão bem como Ana, sua irmã, sabia que depois do massacre sistemático da sua família e do massacre que se seguiu da família Fardella, sua inimiga, nutria um verdadeiro horror pela violência.

 

- Estou a ouvir! - rosnou Luigi. Pendia dos braços dos três homens como se estivesse preso a uma polé.

 

- O médico alemão, dr. Volkmar, está em tua casa.

 

- Não - disse ele depressa de mais. Gallezzo abanou a cabeça:

 

- Luigi, nós vamos ser amigos. Achas que entre amigos pode haver deslealdade?

 

Pegou de novo na faca afiada e espetou-lha no ombro, não demasiado fundo, apenas o suficiente para lhe provocar dores infernais. Luigi encabritou-se entre as mãos que o seguravam, não mostrando, porém, a sua dor.

 

- Não sejas mau e conduz-nos a tua casa - continuou Gallezzo em tom ameno. -Nós sabemos que tens um irmão e uma irmã e ainda um simpático hóspede oriundo da Alemanha com quem temos uma imperiosa necessidade de falar.

 

- Não conheço alemão nenhum! - gritou Luigi.

 

- E os cem marcos descontados no banco?

 

- Achei-os na praia.

 

- Onde deixaste ficar a tenda e o carro do doutor. Luigi, porque havemos de zangar-nos?

 

Gallezzo fez um gesto rápido com a mão esquerda, e a faca faiscou cortando-lhe a orelha. A face direita ficou inundada de sangue que escorreu igualmente pelo pescoço, pelas costas e pelo peito. O rapaz emitiu um gemido surdo, inclinou a cabeça e orou à Madona para que lhe perdoasse todos os pecados e protegesse Ernesto e Ana.

 

- Vamos - disse Gallezzo com suavidade. - Pelo caminho lembras-te com certeza onde escondeste o Ernesto, a Ana e o dr. Volkmar. Tu não vieste ao mundo para ser retalhado aos bocadinhos.

 

Os homens ergueram Luigi com violência, arrastando-o até ao jeep. Gallezzo sentou-se ao volante e esperou que o rapaz falasse. Tinham-no atirado para o banco de trás, onde dois homens o mantinham agarrado. O terceiro, sentado agora ao lado de Gallezzo, tomara conta da faca. Era um dos que cheiravam intensamente ao perfume adocicado.

 

- Para onde? - perguntou Gallezzo.

 

Luigi manteve-se calado. O homem da faca espetou-a de novo, desta vez no ombro direito.

 

Luigi - continuou Gallezzo em tom de mágoa -, pensa que o teu nariz está a ser um estorvo e que podemos encurtá-LO.

 

- A segunda estrada à direita - disse Luigi através dos dentes cerrados -, mas o jeep não aguenta com cinco homens. O caminho é íngreme.

 

- Veremos...

 

Gallezzo arrancou e, encontrando a bifurcação, começou a praguejar ao sentir os solavancos do carro sobre o chão pedregoso. A luz dos faróis mostrava-lhe que o caminho se tornava extremamente perigoso para quem o não conhecesse, à medida que se ia subindo. À direita situava-se o precipício; à esquerda o atalho era ladeado por enormes penhascos. O percurso seria fácil de fazer utilizando uma mula ou um burro, mas para um carro, mesmo para um jeep, era quase intransitável.

 

- Amigo - disse Gallezzo, falando para Luigi por cima do ombro -,   se pensas conduzir-nos para   o abismo... aconselho-te a desistir. Pensa bem! Na Ásia descobriram um método de tirar a pele às pessoas idêntico ao modo como se esfolam coelhos. Eu tornei-me perito nisso! Portanto, Luigi, meu filho, não procures tornar-te um herói.

 

- É este o caminho - disse Luigi com voz sufocada. Lembrou-se de Ernesto e de Ana e pensou se seria melhor não dizer mais nada e morrer por eles. Mas depois reflectiu que os quatro homens saberiam encontrar o esconderijo da montanha, mesmo sem a sua ajuda, bastando-lhes esperar que Ernesto se dirigisse a Sorgono à sua procura. «Vai ver se o encontras», diria Ana. «O nosso irmão mais velho voltou a entrar nos copos!» E o Ernesto não estava talhado para herói. Falaria, mal lhe dessem o primeiro lanho com a faca. Tinham cometido um erro grave ao raptar o médico alemão. Reconhecia-o agora. Que sossegada fora a vida deles quando se limitavam a roubar e a enganar os estrangeiros!

 

O Heep arfava, abanava, mas ia conseguindo vencer aquilo que nenhum deles julgara possível. O caminho tornou-se, de súbito, um pouco mais largo e menos obstruído com pedregulhos. Aproximavam-se do planalto e da casa.

 

Luigi retesou os músculos, tanto quanto o permitiam as dores lancinantes que sentia. Tudo nele queimava, ardia. Os seus nervos fremiam intensamente.

 

- De facto - exclamou Gallezzo, satisfeito -, lá está a casa. Parece uma fortaleza. É um bom local, Luigi.

 

O rapaz fez um sinal afirmativo com a cabeça, mas inesperadamente levantou-se, abriu a boca e gritou com toda a força de que ainda dispunha:

 

- Ernesto! Ana! Perigo! Perigo!

 

O homem sentado ao lado de Gallezzo abanou a cabeça. Segurando-o pelos cabelos, puxou-o para a frente e espetou-Ihe a faca no peito, por entre as costelas, atingindo exactamente o coração. Luigi tossiu com força e tombou para o lado. Quando Gallezzo desligou a chave da ignição já se encontrava morto.

 

Numa questão de segundos, os quatro homens tinham saltado do carro e corriam, lestos como coelhos, em direcção à casa. Da janela com aspecto de seteira, situada ao lado da grossa porta de pinho, partiu o primeiro tiro. A bala silvou rente à cabeça de Gallezzo. Este atirou-se imediatamente ao chão e começou a rastejar rente ao muro que circundava o quintal.

 

Volkmar encontrava-se junto de Ana, na outra janela, de onde podia observar o que se passava no terraço através de uma fenda nas maciças portadas. Tinham estado todos sentados à volta do fogão quando soou o grito de Luigi. Foi desconcertante a rapidez com que Ernesto, e também Ana, pegaram nas armas e saltaram para junto das janelas. Ernesto disparou imediatamente sobre a sombra que se aproximava correndo para a casa.

 

- Isso foi errado, Ernesto! - disse Volkmar, procurando ver algo na escuridão. - Eles encontraram-me, prenderam Luigi. Não tem sentido lutar contra a polícia.

 

- Não são os carabinieri - berrou Ernesto. - Luigi não gritou polícia, mas sim perigo! É diferente! Querem mas é roubar-te, isso é que é!

 

- Deixa-os vir - retorquiu Ana -, deixa-os vir! Enfiou o cano da espingarda através da fenda da portada, inclinando a cabeça para trás. - O cabelo incomoda-me! Prende-o, Enrico.

 

Volkmar olhou à sua volta sem saber o que fazer.

 

Pega num cordel qualquer, ali, ao pé do fogão...

 

Ele correu para o gigantesco fogão de pedra, pegou num pedaço de corda, agarrou no longo cabelo negro de Ana e atou-o. A rapariga tinha agora a testa livre e podia ver melhor. Ernesto voltou a disparar. À esquerda do canteiro de legumes moveu-se uma sombra.

 

Mas, subitamente, viram algo que lhes fez parar o coração: o jeep, empurrado por um homem, rolou até à frente da casa. Sobre a parte dianteira, numa posição desarticulada, jazia Luigi. O seu rosto era uma mancha branca.

 

- Mataram-no... - gaguejou Ernesto. - Luigi! Luigi! persignou-se, bateu com a testa contra a parede de pedra e pôs-se a soluçar. - Porcos! Diabos! Luigi...

 

- Julguei que a vossa vendetta tinha acabado - disse Volkmar com voz rouca.

 

- São outros! - Ana estremeceu. Um homem saltou para a porta e ela disparou. A sombra pulou para o lado, a fim de se proteger. - É a ti que eles querem, Enrico - disse ofegante num tom desesperado. - É de ti que se trata! Eles obrigaram Luigi a contar-lhes tudo ... - Encostou-se à parede, como se estivesse exausta e não pudesse manter-se de pé, olhando Volkmar com os seus grandes olhos brilhantes. - Vamos morrer, Enrico. É melhor que o saibas. Nada mais nos resta senão morrer. Vê o que sucedeu a Luigi! Quando eu morrer estarás ao pé de mim. Eu amo-te. Vem, temos pouco tempo.

 

Ernesto voltou a disparar. De um lado viram-se duas sombras saltar na noite escura. Caíram juntas e ele ficou sem saber se tinha atingido uma delas.

 

- E se eu sair e disser: aqui têm o que vocês querem?! Volkmar pôs o braço à volta dos ombros de Ana. Ela encostou-se muito ao seu corpo e só então é que ele se apercebeu de como ela tremia. Era corajosa, mas tinha medo de morrer.

 

- Fica aqui! - disse beijando-lhe a mão, segurando-a e acariciando-lhe o braço com o rosto. - Aqui será rápido. Porque queres tu morrer devagar? Sabes o que sonhei? Sonhei que todos lá fora te tinham esquecido, de que ninguém sentira a tua falta, de que para o resto do mundo tu tinhas realmente morrido, afogado, levado pelas águas! E então puderas ficar connosco. O Luigi e o Ernesto tinham cons-

 

TRuido uma outra casinha para nós e éramos felizes. Foi um LIndo sonho!

 

- Um professor agregado em cardiocirurgia transformado num bandido da Sardenha ...

 

- Poderias tratar das pessoas das aldeias da região. Todos se teriam calado. Eu nunca tive um homem, Enrico.

 

- Parem com o raio da conversa! - gritou Ernesto da janela. - Eles aproximam-se! De todos os lados! São quatro homens e puseram-se a coberto atrás do nosso jeep!

 

Disparou, visando propositadamente ao lado para não atingir o cadáver de Luigi. Gallezzo e os amigos empurravam à sua frente o carro com a sinistra figura de proa, que utilizavam como um blindado. Chegaram, assim protegidos, ao primeiro degrau da escada que conduzia à porta da casa.

 

- Luigi - murmurou Ana, agarrando firmemente na espingarda -, o que fizeram a Luigi!

 

Lá fora ouviu-se a voz de Gallezzo.

 

- Ouçam! - gritou por detrás do jeep. - Não temos interesse em liquidar-vos. Luigi foi um idiota. Ainda estaria vivo se tivesse querido conversar connosco como amigo. Na vossa casa está o dr. Volkmar. Não pretendemos mais nada senão falar com ele. C’os diabos, Ernesto, serás tu assim tão imbecil?! É Dom Eugênio quem nos envia. Vocês não nos interessam nada!

 

Ernesto ficou silencioso. Não conhecia nenhum Dom Eugênio, mas sabia o que significava o Dom. Se a «organização» tinha entrado no jogo era inútil prosseguir. Por que razão resistira Luigi? Madona, o que vale um pequeno bandido das montanhas perante a «poderosa organização»?!

 

Colocou a boca na fresta e berrou:

 

- Quem nos garante isso?

 

Gallezzo saiu a descoberto. Muito direito, deu a volta ao jeep. Teria sido facílimo matá-lo agora, mas nem Ana, nem Ernesto levantaram as armas. Ele parou no terceiro degrau da escada e tirou o chapéu.

 

- Aqui estou - disse - à espera!

 

- Eu não deixo ir o Enrico - gritou Ana, aflita. - Nunca! Nunca! Nunca!

 

- Pensa no Dom, Ana! - Ernesto limpou o suor da testa. Nós estamos sós! O que podemos fazer contra a «organização» ?

 

- Deus meu! Estais-vos a referir à Mafia! - O médico olhou estarrecido pela fresta da janela para o jeep sobre o qual jazia o cadáver de Luigi. - É a Mafia que está lá fora?

 

_ É assim que vocês lhe chamam - respondeu Ernesto fazendo rodar a espingarda como um pião. - Existem reis visíveis e invisíveis. Os invisíveis são mais poderosos.

 

_ Vou disparar! - gritou Ana com voz estrídula. - Vou disparar! Não entrego o Enrico! Se fossem os carabinieri... mas a estes, não! A estes, não!

 

- Não tem sentido, Ana - disse Ernesto pousando a arma sobre a mesa -, é preciso ter sempre a noção de que lado está

a força.

 

Dirigiu-se à porta, empurrou para trás três gigantescos ferrolhos e abriu. Ana deu um pulo para a frente de Volkmar e desengatilhou a espingarda.

 

Gallezzo entrou sozinho na casa. O seu olhar passou por Ernesto, deteve-se em Ana com uma expressão quase melancólica. Fez depois uma pequena vénia na frente do dr. Volkmar, cuja altura ultrapassava em uma cabeça a da rapariga.

 

- Dottore - disse com amabilidade. - Sou portador de um convite. Não era intenção do dr. Soriano dramatizar a sua hospitalidade por meio de catástrofes. Lamento profundamente estas circunstâncias desagradáveis, mas os seres humanos são estúpidos e comportam-se em face dos argumentos como surdos a quem se tocasse Puccini. É espantoso! Pegando no seu chapéu de feltro branco, dependurou-o no cano da espingarda de Ana, visivelmente satisfeito com esta graça. - No aeródromo de Gagliari espera-nos o jacto da nossa firma, dottore. Estou incumbido de lhe entregar este bilhete de identidade com o nome de Ettore Lumbardi. A fotografia não apresenta qualquer espécie de parecença com a sua pessoa, é um facto, mas, aliás, o que importa é que possua um documento para o caso de um funcionário demasiado zeloso pretender controlá-lo. De qualquer modo, na Sicília tudo será diferente.

 

- Sicília...-murmurou Ernesto.-Manam/a/ ACentral!

 

- Quer dizer que o senhor pretende tornar o meu rapto perfeito? - disse Volkmar.

 

- Mas dottore] O senhor é hóspede do dr. Soriano. Amanhã, logo pela manhã, os melhores alfaiates de Palermo ocupar-se-ão de si. Antes de mais nada, vai precisar de um smoking branco para as festas ao ar livre.

 

- U que pretende a Mafia de mim? - perguntou o médico elevando a voz. O rosto de Gallezzo contraiu-se como se o tivessem pisado.

 

- Dottore, não profira palavras dessas! Mafia!. ..Mas isso não passa de uma lenda! Quando se esgota a fantasia dos jornalistas eles inventam a Mafia!

 

- E se eu me recusar a acompanhar-vos?

 

- Ele recusa! - gritou Ana num tom selvagem, arremessando o chapéu de Gallezzo para longe. - Ele recusa!

 

Gallezzo manteve-se calmo, denotando até um genuíno espanto.

 

- Dottore, explique-me só a razão por que pretende ofender o dr. Soriano ao recusar o seu convite? Ele preza-o muito, ele admira-o!

 

- A mim? Não estará a confundir-me?

 

- Os seus estudos sobre transplantações de órgãos ...

 

- Esse dr. Soriano será porventura médico? - Volkmar libertou-se da protecção de Ana, mas ela seguiu-o com a arma engatilhada, de tão perto que sentia a pressão dos seus seios contra as costas.

 

- Advogado. Se eu tivesse de enumerar todos os seus títulos e cargos honoríficos acabaria só ao amanhecer. Porém nós pretendemos que” o raiar do dia o encontre em Palermo. O nascer do sol na Sicília é como um manto de seda.

 

Gallezzo olhou para Ana com ar inquiridor. De Ernesto já nada temia, pois ele compreendera a situação. Mas uma fêmea que ama é como uma pantera. Voltou-se para Ana:

 

- Ele aceita o convite.

 

- Tem a certeza? - Volkmar dirigiu-se para a porta e olhou para fora. À frente da escada podia ver-se o jeep com o cadáver de Luigi. Os três homens tinham-se juntado e fumavam tranquilos.

 

- O que pretendem fazer de mim? - perguntou. - Não o senhor, mas a vossa «organização», se é que me exprimi correctamente?

 

- Quase, dottore. - Gallezzo sorriu com benevolência. Com esse mesmo sorriso, cortara a orelha de Luigi. - Passará noites maravilhosas, com música, dança, mulheres elegantes. Terá à sua disposição uma linda casa junto ao mar, rodeada de um grande parque. O dr. Soriano é famoso pela sua hospitalidade e pelas belas festas que dá.

 

- Dom Eugênio?

 

- Assim lhe chamam os seus bons amigos, ao número dos quais passará a pertencer, dottore. Podemos partir?

 

- Com uma condição!

 

- Concedida! - retorquiu Gallezzo, liberal. Haviam-lhe dado plenos poderes.

 

- Não tocarão num cabelo da Ana e do Ernesto! Garanto-lhes que criarei as maiores dificuldades se o caso de Luigi se repetir.

 

- Não vás! - gritou Ana, abraçando-o. - Não vás, Enrico!

 

- Infelizmente não a podemos levar connosco - disse Gallezzo, como se isso lhe causasse tristeza. Depois meteu a mão ao bolso, agarrou num maço de notas que colocou sobre a mesa ao lado da espingarda de Ernesto. Retirou da pasta mais outro maço de notas grandes que colocou igualmente ao pé da arma. - Como prova do reconhecimento de Dom Eugênio - disse, dirigindo-se a Ernesto, que o olhava estupefacto -, exactamente um milhão de liras.

 

- Isso não paga a vida de Luigi! - gritou Ana. - Assassinos! Assassinos! Um milhão pela vida dele! Eu cuspo, eu cuspo sobre esse dinheiro!

 

- Deve ser difícil fazer dela uma dama elegante - disse Gallezzo em tom sombrio. - Venha, dottore, é preciso que assista ao raiar do sol sobre Palermo!

 

Volkmar fez um sinal de assentimento. Voltando-se, tomou com ambas as mãos a cabeça de Ana e beijou-a nos lábios. Ela deixou cair a arma e enlaçou-o com os braços. Só então começou a chorar. Deixando-se cair sobre o banco que ladeava o fogão, tapou a cabeça com uma pele de cordeiro para abafar os soluços. Ernesto aproximou-se dela, pôs-lhe um braço à volta dos ombros e com o outro fez um sinal a Volkmar.

 

- Vai! - disse. - Vai depressa! Ela consegue sobreviver! Precisas de partir para que ela possa raciocinar outra vez claramente.

 

O médico saiu do casebre de pedra. Passou rapidamente pela frente de Gallezzo e desceu a escada. Sentiu-se aliviado ao observar que tinham retirado o cadáver de Luigi. Gallezzo correu atrás dele como um poldro, não deixando transparecer as suas preocupações. A única situação crítica que podia ainda surgir seria no aeródromo de Cagliari, fortemente guardado pela polícia. Contava, porém, que o dr. Volkmar prezasse a sua vida o suficiente para não decidir correr riscos.

 

Quatro horas mais tarde o avião privado, equipado com dois turborreactores, atroava o escuro do céu, descrevia um largo círculo sobre Cagliari, subindo depois até a uma altitude de seis mil metros em direcção à Sicília.

 

Na banda de ondas curtas do rádio de bordo já se podia ouvir Palermo. O piloto ligou o alto-falante de bordo. Ao ouvir o sinal, Gallezzo sorriu de expectativa.

 

- Aqui fala Soriano - disse uma voz um pouco distorcida devido às perturbações atmosféricas. - Meu caro dr. Volkmar, permita que lhe dê as boas-vindas na qualidade de meu hóspede e lhe deseje uma óptima viagem. Álegro-me com a sua presença e desejo que venha a sentir-se feliz na minha casa. Fico a aguardá-lo para o pequeno-almoço.

 

Ouviu-se outro sinal e o alto-falante emudeceu. Sorrindo, Gallezzo acenou repetidas vezes com a cabeça.

 

- É esta a sua maneira de ser - disse, num tom de uma criança que falasse de um pai afectuoso. - Dottore, verá como Palermo lhe agrada!

 

A dr.a Angela Blúthgen, assistente dos hospitais, aterrou no aeroporto de Cagliari, no voo matinal proveniente de Roma.

 

Sucedera aquilo que Volkmar nunca esperaria, aquilo que de acordo com a opinião dela formava não julgaria ser possível: ao tomar conhecimento do acidente ocorrido na Sardenha ficara fortemente perturbada e reservara sem demora uma passagem no primeiro voo para Roma e de Roma para essa ilha.

 

Considerada friamente, tratava-se de uma reacção emocional, pois o que poderia ela fazer depois de se ter concluído que o dr. Volkmar morrera afogado?

 

- Quero conhecer o local! - dissera Angela. - Mesmo que tivesse sucedido na Austrália ou noutro lugar qualquer... tenho de me deslocar até lá! Não, não posso ir buscá-lo ao fundo do mar... mas quero ... Oh! vocês não podem compreender!...

 

A deslocação até às instalações da polícia onde estavam guardados os pertences de Volkmar foi uma tremenda provação. Mais terrível ainda fora estar a olhar para a tenda e para o automóvel e dizer: «Sim, é esta a sua tenda, este o seu carro. Sim, usava este fato de treino. Por vezes fazíamos corridas de resistência ao longo das margens do Isar e ele costumava usá-lo. Fazíamo-lo aos domingos de manhã. É um bom remédio contra a má disposição. Sim, esses são os seus sapatos de treino ...»

 

«As manhãs de domingo», pensava. Na noite anterior tinham ido talvez a um concerto, ou a um teatro. Depois ... o jantar num bom restaurante, a viagem até Harlaching, a meia garrafa de champanhe, a cama, o seu corpo quente e musculoso, o fogo ateado em todos os nervos, em todas as veias e, por fim, a torrente libertadora. Mais tarde, fumando um cigarro, a sua reacção de defesa sempre que lhe falava de amor: Não se devem sobrestimar os fenómenos biológicos ...

 

«Oh! Heinz, Heinz! Se eu pudesse apagar todas essas palavras idiotas! Essa maldita pose, essa emancipação estúpida! O que me trouxe tudo isso? O que sou eu agora? Uma viúva inconfessada ... tal é o modo como me sinto!»

 

Sentara-se na areia, na pequena enseada próxima de Capo San Marco, exactamente no local onde estivera montada a tenda, olhando para a cor cintilante do mar. Na areia via-se ainda uma lata de conservas: ervilhas de quebrar, primeira qualidade, sem fios. Teria sido essa a sua última refeição?

 

Pegou na lata, mirou-a atentamente e comprimiu os lábios sobre esse pedaço de folha amassada. A atitude não lhe pareceu infantil. Começou a chorar, odiando-se pelos seus muitos defeitos.

 

Lá no alto, nas montanhas, Ana e Ernesto acabavam de enterrar o seu irmão Luigi. Que um homem morra, ou seja morto, é um acontecimento que tem de ser aceite. Contudo, quando olharam para Luigi à luz clara da manhã e viram o modo como o tinham matado, quando repararam nas facadas, na orelha cortada, nas provas dos suplícios por que passara, fixaram-se longamente, fizeram as suas orações e enterraram-no debaixo de uma pirâmide de pedregulhos.

 

- Dá-me metade! - disse Ana quando voltaram para casa e se sentaram à mesa. O monte de dinheiro estava colocado entre eles. - Metade pertence-me. Ele também era meu irmão.

 

Ernesto fez um sinal afirmativo. Contou as notas ... uma para a direita, outra para a esquerda. Uma verdadeira partilha, até do ponto de vista óptico.

 

- Quinhentos mil - disse ele, uma vez completados os dois pequenos montes -, toma!

 

- Obrigado, Ernesto.

 

Ana pegou nas notas e meteu-as na sua saca de pôr ao ombro, que fechou.

 

- E agora? - perguntou Ernesto.

 

- Vou para a Sicília! Para Palermo. Vou procurá-lo! Não o posso esquecer!

 

- Enrico?

 

- Também. Mas o outro, o empomadado.

 

- Para isso não chegam quinhentas mil liras.

 

- Hão-de chegar, nem que eu me torne uma mulher da vida!

 

Dirigiu-se para o fogão e colocou a frigideira ao lume. Restavam ainda três ovos e algum toucinho. Um bom pequeno-almoço, um pouco de vinho ... e a vida até pode ser bonita!

 

Ernesto regressou à noite de Sorgono, onde fora buscar as coisas encomendadas por Luigi na loja de Stracia. Nada contou, porém, sobre a terrível morte do irmão, antes dizendo que apanhara uma tal bebedeira que lhe fora impossível vir buscar a encomenda. Quando regressou a casa no velho jeep Ana já lá não se encontrava.

 

Sucedera o que temia, nada mais lhe restando do que sentar-se na escada e ficar a olhar para o céu manchado pelo sol poente.

 

«Deus te acompanhe», pensou «a Aladona te proteja! Eis-me completamente só, sou o último da família. Que a Madona me proteja também a mim!»

 

Palermo à noite, mesmo quando apenas vista do mar, é um espectáculo.

 

O piloto fez baixar o avião e este voou tão rente à cidade, que mais parecia tocar nas torres da catedral iluminadas por projectores, ou na famosa igreja de San Giovanni degli Eremiti.

 

Aliás, era proibido voar tão perto dos telhados, mas no aeroporto sabia-se a quem pertencia o aparelho. Por que razão se haviam de levantar dificuldades, quando se tratava do dr. Soriano? Era tempo perdido, amid ...

 

Sobre a pista de aterragem esperava-os um imponente carro americano. Um motorista de farda cor de vinho tirou o boné, subserviente, abrindo as portas do automóvel. Volkmar e Gallezzo sentaram-se no banco traseiro, enquanto os outros três homens se dirigiam a pé para a aerogare, em cujo parque de estacionamento um «Lancia» de dimensões normais os esperava.

 

Tomaram uma estrada marginal que circundava Palermo.

 

- Nós também temos uma auto-estrada até Catania explicou Gallezzo -, mas auto-estradas conhece o senhor da Alemanha. A estrada marginal é mais bonita, mesmo à noite.

 

Seguiram ao longo do golfo de Palermo, vendo os barcos na baía, as vivendas com os seus jardins de palmeiras e as luzes das instalações portuárias, verdadeiros colares de pérolas luminosas.

 

Depois, começaram a atravessar uma região solitária. Uma estrada estreita conduzia a Capo Zafferano, podendo ver-se as ruínas de Solunto contra o tom lívido do céu. Ao longe, o facho luminoso de um farol perscrutava o mar. À direita a estrada era ladeada por um extenso e alto muro branco.

 

- É o parque! - disse Gallezzo, com orgulho. - O dr. Soriano possui o mais bonito parque de toda a Sicília. Mais de cem colunas de aspersão regam os canteiros de flores e as árvores. Ele mandou até instalar um lago artificial, no qual, porém, não se pode andar de barco. Mandou levar para lá crocoDilos. - Continuou a sorrir com simpatia. - O dr. Soriano gosta muito de animais. Agradar-lhe-ia instalar o seu próprio jardim zoológico. «Já tenho um número suficiente de macacos», diz ele às vezes, referindo-se a nós. Dom Eugênio é uma pessoa com muito espírito ...

 

O carro virou para uma larga estrada de acesso, atravessou os dois batentes de um portão de ferro maravilhosamente trabalhado e deteve-se, silencioso, na frente de uma casa que mais lembrava um palácio mourisco do que uma vivenda normal. De um e do outro lado da vasta entrada envidraçada brilhavam enormes candelabros. Dois mordomos vestidos com fardas alvas de neve esperavam pelo hóspede. De algures, um pouco para o lado, por trás das diversas edificações cúbicas encaixadas umas nas outras, formando pátios, terraços e açoteias ligadas por lanços de escadas, ouviam-se rugidos surdos, sonolentos. Volkmar desceu do carro, detendo-se, perplexo.

 

- São quatro leões, dottore - explicou Gallezzo. - Eu já lhe tinha dito: o dr. Soriano é louco por animais. Temos aqui uma espécie de pátio para os leões onde os animais podem mover-se livremente. Durante a noite são mantidos em jaulas, como é evidente. Se é que se pode chamar jaula ... pois o dr. Soriano mandou-lhes construir uma casa que - perdoe-me, dottore - talvez seja mais bonita do que a sua!

 

- Disso tenho eu a certeza, já que não possuo casa alguma. Parece-me que aqui não há falta de dinheiro.

 

- Com efeito! - Gallezzo fez um grande sorriso. - Naturalmente ele tem de ser ganho, mas é um prazer trabalhar para o dr. Soriano.

 

- Como pode ser permitida uma coisa destas! - disse Volkmar.

 

Os rugidos tinham parado. Enquanto na casa de um simples mortal se ouviam ladrar cães, aqui era-se recebido pelo ruído de feras. «Leões à solta, crocodilos no jardim...»

 

- Quem ousaria proibir algo a Dom Eugênio? - retorquiu Gallezzo.

 

Seguindo à frente, fê-lo entrar num vestíbulo gigantesco, aparentemente climatizado, decorado no estilo oriental, de colunas delicadamente cinzeladas e paredes divisórias esculpidas com motivos artísticos inspirados na arte marroquina. Sobre o chão de mármore branco podiam ver-se tapetes de beleza indescritível. Lâmpadas douradas irradiavam uMa luz suave, benfazeja, de efeitos francamente eróticos. Um mordomo de galões dourados como os de um general dirigiu-se, imponente, ao encontro de Volkmar. Gallezzo riu baixo.

 

- O butler, dottore! Autêntico! Vindo da Inglaterra. Mr. Reginald Worthlow. A única coisa que o incomoda sobremaneira é o uniforme. Dom Eugênio gastou um ano até o desabituar do seu rígido traje britânico. No entanto ele continua a mover-se como se usasse uma jaqueta listrada.

 

Mr. Worthlow inclinou-se com distinção, lançou a Gallezzo um olhar de desprezo e dirigiu-se ao médico em alemão.

 

- Posso mostrar-lhe a sua suite, Herr Doctor? - disse. Queira ter a bondade de me seguir.

 

- Fala alemão, Mr. Worthlow? - perguntou Volkmar satisfeito.

 

- Falo sete idiomas, Sir. Em que língua deseja que lhe fale?

 

- O que prefere, Worthlow?

 

- Os hóspedes é que devem exprimir os seus desejos, não eu - Mr. Worthlow reprimiu um sorriso. - A língua que se fala aqui em casa é italiano, mas podemos adaptar-nos aos gostos de cada hóspede.

 

- Cheguemos então a um acordo, Worthlow - disse Volkmar com cordialidade. - Consigo falarei inglês e com os outros italiano.

 

- É muita bondade sua, Sir.

 

Worthlow seguiu à frente. Subiram uma grande escadaria de mármore, atravessando majestosos corredores ladeados por arcadas que os separavam de lindos pátios interiores, até chegarem a uma grande dependência onde se podiam ver grupos de sofás e um bar. Mr. Worthlow ficou parado e apontou para uma série de portas que também estavam ricamente esculpidas.

 

- A sua suite é esta, Sir. Aqui é o átrio central. A porta situada mais à esquerda conduz à biblioteca, ao lado encontra-se uma espécie de gabinete de trabalho e a seguir um salão equipado com aparelhagem estereofónica e com televisão. A porta que se vê no extremo direito pertence ao quarto de cama. Imediatamente atrás fica a casa de banho. Também está à sua disposição uma pequena piscina privada, tendo anexo um terraço do qual se desfruta uma vista directa para o mar.

 

- Fantástico! E tudo isto para um só hóspede?

 

- No nosso complexo existem quatro casas de hóspedes, Sir. Aliás, esta é a mais bela.

 

- E os leões?

 

- Encontram-se do outro lado. Não queremos que os hóspedes sejam incomodados pelos seus rugidos.

 

Worthlow dirigiu-se a todas as portas abrindo-as e ligando a luz nas várias dependências. Volkmar jamais vira semelhante magnificência, nem mesmo no cinema.

 

- Existem telefones em todos os quartos pelos quais poderá chamar-me ou a qualquer criado, Sir.

 

- Penso que vou precisar de fazê-lo, Worthlow! - o riso de Volkmar era inseguro. - Sozinho serei capaz de me perder e de ir parar aos leões.

 

- Ainda não, Sir - respondeu o mordomo com dignidade. A cabeça do médico virou-se com rapidez para olhá-lo,

 

mas a expressão de Worthlow era impessoal e fria, como convém a um mordomo britânico.

 

- O telefone pertence à rede interna, Sir - acrescentou.

 

- Bem me parecia.

 

- Se desejar telefonar para fora serei eu a fazer a ligação.

 

- Depois de autorizado por Dom Eugênio?

 

- Nós seguimos determinadas regras internas, Sir. Não trouxe bagagem?

 

- Amanhã vão fornecer-me um guarda-roupa, Worthlow.

 

Volkmar passou ao quarto de dormir. Tinha as dimensões de um salão de baile, nele se encontrando uma cama de casal de largura invulgar coberta com uma colcha de pele branca. Via a sua imagem reflectida a toda a volta por espelhos embutidos nos ornatos de estilo mourisco que decoravam as paredes. Por detrás de uma porta de vidro a piscina iluminada por um projector submerso irradiava um brilho suave. No terraço, palmeiras e arbustos floridos ondulavam à brisa marítima. A toda a volta se viam cadeiras confortáveis providas de espessas almofadas. O toldo tinha sido corrido para trás.

 

- Parece um conto de fadas! - disse Volkmar, perplexo. Não sabia que existiam camas com estas dimensões.

 

- Os desejos dos nossos hóspedes no que se refere a divertimentos privados podem ser satisfeitos a qualquer momento, Sir.

 

- Ah! Isso foi dito com uma inimitável elegância britânica, Worthlow. Agradeço antecipadamente.

 

O mordomo fez uma vénia e afastou-se com passos comedidos, fechando silenciosamente a porta que dava para o átrio. Volkmar olhou à sua volta, indeciso. Encontrava-se sozinho. Não sabia se Gallezzo iria aparecer de novo, mas aparentemente parecia preferirem deixá-lo a sós com as suas sensações e pensamentos. Até um homem como ele precisava de algum tempo para se habituar a um ambiente destes.

 

Dirigiu-se ao bar que estava - como poderia ser de outro modo? - muito bem fornecido. Não faltava nada. Carregando num botão, uma máquina de fazer gelo de origem americana deitava para o copo a quantidade de cubos necessária para um cocktail ou para uma outra qualquer bebida. Ao lado, numa máquina automática de café, fervia água.

 

Decidiu, muito prosaicamente,tomar um vodka com bitter e limão, reforçou a dose de vodka e sentou-se depois num dos fundos sofás de brocado bordado com motivos africanos. Saboreou lentamente a bebida e, embora não fosse um bebedor inveterado, sentiu, mesmo assim, como os primeiros goles ajudavam a diluir uma certa contracção interna. Fez o balanço da situação: tinham-no encerrado na prisão mais luxuosa que se poderia imaginar. Um palácio servia-lhe de jaula.

 

Mas porquê? Um homem da espécie do dr. Soriano não tinha necessidade de trocar contra uma soma ridícula um médico alemão que fora raptado. O máximo que se poderia pagar por um dr. Volkmar seria sempre inferior ao preço que custara aquela piscina. Um negócio desses seria indigno do dr. Soriano.

 

Então porquê?

 

Volkmar levantou-se e, fazendo o gelo tilintar no copo, começou a inspeccionar os aposentos. Ao lado da aparelhagem de estereofonia encontrava-se uma caixa esculpida cheia de cassettes de música. Escolheu o «Concerto n.° l para piano», de Beethoven, tocado por Sviatoslav Richter, sentou-se à beira da piscina e procurou pôr os pensamentos em ordem.

 

Que interesse podia ter para a Mafia um médico alemão? Se o dr. Soriano se encontrava doente teria à sua disposição os melhores médicos do mundo. Poderia ir buscá-los aos recantos mais recônditos do universo e com o seu avião a jacto trazê-los para Palermo. Não se tratava de uma questão de honorários. Porque se lembrara, precisamente, de um cirurgião alemão que se dedicava a pesquisas e a experiências mais do que utópicas no domínio das transplantações?

 

Não encontrava resposta para todas estas questões. Renunciando de momento a encontrar soluções, deitou-se na cama, sobre a colcha de pele branca, e procurou dormir.

 

Foi a primeira vez que o concerto para piano de Beethoven teve para ele o efeito de um soporífero.

 

Acordou repousado, nadou várias vezes o comprimento da piscina, olhou para o mar sentado no muro do terraço, percorreu mais uma vez a «sua» casa e, de novo, mais ainda do que na noite anterior, ficou impressionado com a perfeita harmonia da arquitectura e da decoração.

 

Mr. Worthlow surgiu, depois de a porta de entrada para o grande átrio ter feito accionar uma espécie de carrilhão que substituía a campainha.

 

Trazia sobre um tabuleiro um aparelho eléctrico de barbear e todo um sortido de águas-de-colónia francesas, de after-shaves, de cremes e até de pó-de-arroz.

 

- O pequeno-almoço está pronto, Sir - disse, transportando o grande tabuleiro para a casa de banho. - Lembrei-me, entretanto, de que ontem lhe não trouxera os cosméticos. Peço que me perdoe. Nunca tal me aconteceu. Estou desolado, Sir.

 

- Ora, Worthlow! Isso não constitui nenhum crime! Volkmar barbeou-se rapidamente, escolheu uma água-

 

-de-colónia fresca, cheirando a limão, ao mesmo tempo que olhava para as caixas de pó-de-arroz e abanava a cabeça.

 

- Também existe disto, Worthlow? Para homens?

 

- A beleza e a estética não estão ligadas apenas a um sexo. Existem cavalheiros para quem uma borbulha no rosto constitui um verdadeiro tormento.

 

Enquanto falava passava rapidamente uma pequena escova pelo fato amarrotado de Volkmar. Com esse gesto simpático pretendia demonstrar que, em qualquer situação, um gentleman continua sempre a ser um gentleman.

 

Depois de terem percorrido as longas arcadas que ladeavam maravilhosos jardins interiores onde brotava água de inúmeras fontes de estilo mourisco, chegaram ao terraço por cuja escada se descia para o parque. Debaixo de um toldo de seda cor de laranja encontrava-se posta uma mesa redonda. A baixela de prata brilhava ao sol. À esquerda e à direita da porta que conduzia para o interior da casa principal perfilavam-se os dois criados de uniforme branco.

 

Quando Volkmar chegou ao terraço um homem elegante, de estatura média, levantou-se de uma das cadeiras. O tom branco do seu cabelo ondeado brilhava como os glaciares ao nascer do sol. À parte esta característica, nada havia nele que desse nas vistas. Envergava uma simples calça branca, sapatos brancos de couro, uma camisa da mesma cor com listras largas de um vermelho baço. As mangas estavam enroladas até aos cotovelos e abertos os últimos três botões. Sobre a penugem do peito, que começava já a branquear, via-se, seguro por um fio de ouro, um medalhão com rubis encastoados. Ao contrário da maioria dos italianos com fortuna, não usava anéis de brilhantes nos dedos, nem qualquer pulseira de ouro. Em termos de países meridionais, podia afirmar-se que tinha as mãos nuas. Apresentava-se como um modelo de discrição e de modéstia ... no meio da magnificência que o rodeava.

 

Era assim o dr. Eugênio Soriano.

 

Aproximou-se do dr. Volkmar com um passo elástico, estendendo os braços como se quisesse acolher um irmão regressado de muito longe.

 

- Seja bem-vindo! - exclamou, num tom que parecia sincero. - Desculpe não o acolher em alemão mas sim na minha língua materna. O meu alemão soaria pessimamente aos seus ouvidos. Eu sei, porém, que fala muito bem italiano

- cumprimentou Volkmar agarrando-lhe ambas as mãos. O meu nome é Soriano.

 

- Assim me queria parecer - disse Volkmar olhando para o enorme parque. Por cima dos muros viam-se as ruínas de Solunto. O céu parecia seda. Na verdade, Gallezzo não mentira. A única coisa que o perturbava eram os crocodilos e os leões.

 

- Isto aqui é um verdadeiro paraíso! - continuou, seguindo Soriano até à mesa onde Worthlow começava a servir o café. - A que devo esta distinção?

 

- Vou explicar-lho de seguida. Sou um homem sincero. Volkmar constatou espantado que não falava com sarcasmo.

 

- Mas primeiro alimentemo-nos! Mandei preparar para si um pequeno-almoço abundante com ovos, presunto, carne assada, queijo. Eu próprio prefiro comer pouco: um pouco de queijo, um pouco de pão, muita fruta, às vezes um tomate, acompanhados de uma chávena de café expresso. Mas o senhor não deve renunciar a uma refeição à alemã, caro dr. Volkmar.

 

Após se terem sentado, os dois criados que guardavam a porta desapareceram. Worthlow servia à mesa; calado, discreto, mal se dava por ele. Soriano encostou-se ao espaldar da cadeira mordiscando um pedaço de queijo. Volkmar, sentindo de súbito um imenso apetite, colocou uma espessa fatia de carne assada sobre a torrada. Isto pareceu agradar a Soriano.

 

- Dentro de uma hora virá o alfaiate - disse. - Duas casas de moda masculina vão trazer-lhe as peças necessárias, desde os sapatos até à roupa interior. Com efeito, você perdeu tudo, coitado!

 

- As minhas coisas estão na Sardenha, na minha tenda instalada em Capo San Marco. Basta-me ir buscá-las.

 

- Mas, bem sabe que morreu afogado! A notícia veio em todos os jornais. Um cadáver não pode ressuscitar de um momento para o outro!

 

- Podia desfazer-se o equívoco.

 

- Mas porquê, meu querido doutor?! Que complicação isso não traria!

 

Volkmar voltou a pousar a torrada no prato. Passara a ter um sabor amargo. Nesse preciso momento surgira no seu espírito uma ideia terrível. Para exprimi-la teria de dominar o que sentia.

 

- Quer então dizer que eu morri para sempre?

 

- Acha que devemos provocar conflitos no mundo em que até aqui viveu?

 

- Pretende que eu fique até ao fim da minha vida a viver em sua casa?

 

- Não lhe agrada o ambiente? O que lhe falta? Diga ... o seu desejo será imediatamente realizado!

 

- A liberdade!

 

- Mas você tem-na! - Soriano sorriu benevolamente enquanto sorvia o seu café expresso. Os seus movimentos eram elegantes, delicados até. - O espaço que lhe ofereço para viver não será suficiente para uma só pessoa? Quem, lá fora, poderá dispor de uma área tão grande e de tanto luxo? Quem poderá ver todos os seus desejos realizados? Você pode, meu caro! Liberdade! O que é a liberdade? Não existe noção mais relativa do que essa liberdade. Uns precisam apenas de um pequeno quarto mobilado, outros de todo um estado!

 

Mr. Worthlow voltou a servir café, mas Volkmar já não tinha vontade de beber.

 

- O que pretende de mim, Dom Eugênio? - perguntou. Soriano pareceu achar graça por Volkmar empregar o

Dom. Cruzou as pernas uma sobre a outra.

 

- Irá conhecer algumas das mais notáveis personalidades da Sicília - disse. - Entre elas encontra-se até um procurador da República.

 

- Então está tudo em ordem! - respondeu Volkmar secamente.

 

Soriano acenou com a cabeça, satisfeito; agradava-lhe o humor negro.

 

- Ao almoço irá conhecer um colega: o dr. Pietro Nardo. Também é cirurgião. Desempenha o cargo oficial de director do asilo de velhos por mim fundado. No entanto, o trabalho a que sobretudo se dedica juntamente com uma equipa médica é o da transplantação de órgãos, em particular a transplantação de corações.

 

- Até que enfim que o ouvi! - disse Volkmar, sombrio. Então é por isso ...

 

- É.

 

- Então porquê este caminho tortuoso? Com o dinheiro de que dispõe poderia construir um enorme centro de investigação!

 

- Terá esses meios à sua disposição, dr. Volkmar. - Soriano levantou a chávena e Mr. Worthlow encheu-a de novo de café. - O motivo dos métodos empregados ser-lhe-ão explicados após o almoço. Às 15 horas reúne-se o Conselho Magno.

 

- Já li algo sobre isso. -Volkmar engoliu, pois sentia um nó na garganta. O parlamento da Mafia, pensou ele. Os chefes de todas as «famílias». Um grémio cujas decisões podiam, por estranho que parecesse, influir nas decisões dos órgãos do Estado.

 

- Leu! - disse o dr. Soriano. - O que é isso! Você vai conhecê-los todos pessoalmente. São cavalheiros muito interessantes com uma visão cosmopolítica. Garanto-lhe que se irá sentir bem na nossa roda de amigos.

 

Volkmar não respondeu. Uma aparição, perfeitamente a carácter com este paraíso, fê-lo emudecer.

 

Uma jovem aproximava-se deles através das arcadas. O seu longo vestido branco salpicado de grandes flores vermelhas que a brisa marítima fazia esvoaçar desvendava o biquini cor de ouro que envergava sobre o seu corpo belíssimo. O cabelo que brilhava preto como azeviche chegava-lhe até às ancas e ondulava com cada passo. O rosto era dominado por um par de olhos castanho esverdeados em forma de amêndoa. Os lábios carnudos pareciam duas pétalas cor-de-rosa.

 

- A minha filha - disse Soriano -, a minha filha Loretta. Devem desculpar-se as atitudes desastradas num homem a quem uma mulher tanto fascina. Quando Volkmar se levantou entornou a cafeteira de prata. Mr. Worthlow apressou-se a colocar um guardanapo sobre a grande mancha escura.

 

Loretta ficou parada na frente do médico e estendeu-lhe a sua mão delgada. Usava apenas um anel, um belo rubi do tamanho de uma unha que reflectia os raios do sol.

 

- Este é o dr. Volkmar - disse Soriano, ao mesmo tempo que escolhia um pedaço de queijo pastor do tabuleiro.

 

- Meu pai já me falou de si. Eu estava com enorme curiosidade. - Sorriu, quando Volkmar, de novo muito acanhado, lhe beijou a mão.

 

- Gosta de Beethoven, dottore? Ele sentiu-se enrubescer.

 

- Fiz muito barulho ontem à noite? - disse, retendo involuntariamente a mão de Loretta, que a não retirou. Do cabelo e das pregas do seu amplo vestido emanava um perfume agridoce.

 

- Deixou aberta a porta do terraço. Os meus aposentos são ao lado dos seus e também eu gosto de dormir de janela aberta.

 

Worthlow segurou-lhe na cadeira e só agora, ao vê-la procurar sentar-se, é que Volkmar notou que continuava a prender-lhe a mão. Indeciso sobre se devia ou não pedir-lhe desculpa, apenas conseguiu sorrir, apatetado. Esperou que Loretta se sentasse e, segurando o cabelo com ambas as mãos, o atirasse para trás dos ombros. Só então retomou o seu lugar.

 

- Quer dizer que a acordei? - perguntou. Continuava a servir-se de Beethoven para tema de conversa. Procurava em vão   outros   temas   interessantes.   Os   olhos   de   Loretta irritavam-no e aumentavam uma timidez que nunca sentira na vida, sobretudo em relação a mulheres. Ela continuava a olhá-lo com à-vontade e com visível interesse.

 

- Gosto de Beethoven - disse -, não era Ritcher que tocava? Reconheço logo o seu estilo.

 

- Loretta foi educada num convento, nas Irmãs do Sagrado Coração de Maria. - O dr. Soriano voltou a estender a sua chávena a Worthlow. - Elas maltratavam as pobres raparigas com doses maciças de cultura. É curioso que não se tenham esquecido de Beethoven. O homem era colérico e sabia dizer «merda» de forma muito refrescante...

 

- Papá! - disse Loretta, a quem o sol da manhã pareceu fazer subitamente calor. Abriu o vestido transparente, descobrindo os ombros. O biquini dourado brilhou sobre o seu belo corpo bronzeado.

 

- Ela acha-me ordinário! - disse Soriano. - E, contudo, sou presidente da Associação Cultural de Palermo e mecenas dos festivais de ópera. A vida desgasta-nos, dottore. Quem o sente mais são os advogados. Por todo o lado se vê injustiça, por todo o lado criminalidade, e tem-se a tentação de dizer: não há pessoa alguma que não esteja atolada em imundície!

 

Até Loretta fez as suas maldades: roubou fruta no convento!

 

- Tinha fome!

 

- Era época de jejum!

 

- Era Richter! - disse Volkmar. Soriano olhou-o confuso.

 

- Como?

 

- Sviatoslav Richter, o pianista. A sua filha queria saber.

 

- Ah! Ainda estava a pensar nisso? - lançou um olhar a Worthlow. O mordomo tirou do bolso o relógio preso a uma corrente de prata.

 

- Ainda faltam dez minutos, Sir.

 

Soriano levantou-se. Comeu mais um pedacinho de queijo e mergulhou depois os dedos numa taça contendo água e rodelas de limão. Worthlow estendeu-lhe uma toalha para limpar as mãos.

 

- Vem, dr. Volkmar? - perguntou a seguir. - Vão dar comida aos leões e aos crocodilos. Já o presenciou alguma vez? É um espectáculo grandioso!

 

- Eu preferia não deixar só a signorina Loretta. Volkmar bem sabia como era idiota esta sua frase. Ele

encontrava-se, todavia, num estado de confusão absoluta. E ridículo, pensou. Com quarenta e dois anos e ainda por cima médico, aqui estou eu como um adolescente que vê pela primeira vez um corpo seminu de mulher e fica a sonhar com o momento de poder acariciá-lo. Tentando acalmar-se, pensou na dr.a Angela Blúthgen, mas a ideia de nada lhe serviu. Tudo nela era tão pouco complicado! Podia-se prever o decorrer dos acontecimentos até à manhã seguinte. Ó mesmo sucedera com as suas outras aventuras: um pouco de ternura, depois a posse e as promessas em que nenhum deles acreditava e que eram rapidamente esquecidas.

 

Com Loretta tudo era agora diferente. Os seus olhos castanho esverdeados, em forma de amêndoa, olhavam para ele como se conseguissem ler-lhe o pensamento. A brisa marítima, morna e cheirando a sal, brincava com os seus cabelos.

 

- Eu também vou - disse com voz macia. Levantou-se, ajeitou o amplo vestido nos ombros e, ao ver Volkmar levantar-se de um salto, colocou-lhe a mão no braço. Pareceu-lhe que os dedos faziam uma ligeira pressão sobre a sua pele. Estava com certeza enganado, mas nesse preciso momento Volkmar estava preparado para acreditar naquilo que noutros momentos consideraria como não passando de uma parvoíce de adolescente. A presença de Loretta paralisava-o. «Sim, é esta a expressão correcta», pensava. «Está certo em termos médicos: o meu cérebro está entorpecido, paralítico! Deixei de poder pensar ... apenas olho e só a vejo a ela. O que à sua volta respira, fala, anda, é irrelevante, não existe. Trata-se, de facto, de um estado de demência total. E, o que é mais grave, estou consciente disso e nada faço para o obviar!»

 

O dr. Soriano seguiu à frente. Mr. Worthlow ficou a fiscalizar o levantar da mesa do pequeno almoço.

 

- Primeiro vamos aos crocodilos - disse Soriano. - A maioria das pessoas considera-os uns animais horrorosos.

 

- Eu pertenço a esse número - retorquiu Loretta. Volkmar estremeceu ao senti-la enfiar o braço no seu.

 

Caminhavam muito juntos. Os ombros tocavam-se. Ao olhar para o lado, podia ver a curva dos seus seios contidos pelo biquini dourado, as linhas esguias do tronco, o pequeno triângulo de tecido também dourado, as pernas longas que mal pareciam tocar no solo. «Ela flutua», pensou Volkmar. «Estou tão louco que até isso me parece possível!» Mas, de facto, ela não fazia qualquer barulho. Não se ouvia o martelar dos sapatos de salto alto bordados a ouro. «Deve pesar pouco mais de 50 quilos. Os médicos têm olho para calcular o peso. Como podem 50 quilos mover-se tão silenciosamente?»

 

Foi olhando para o parque maravilhoso que os rodeava, mas quando atingiram o grande lago e viu aqueles gigantes recobertos de escamas córneas saírem da sua ilha, atirarem-se com grande estrépito à água e nadarem em sua direcção, conseguiu finalmente libertar-se do fascínio que Loretta exercia sobre ele.

 

Dois homens equipados com aventais de borracha empurravam um grande carro contendo pedaços de carne. O sangue escorria-lhes pelas botas, enquanto com uma forquilha de três pontas empurravam a carne para a água. Viam-se, entre ondas de espuma, os enormes corpos a saltar, a precipitarem-se sobre a comida, abrindo as terríveis mandíbulas providas de filas de dentes pontiagudos, que retalhavam num segundo os grandes nacos de carne. Os ossos rangiam, as carapaças dos répteis embatiam com fragor umas nas outras, nos seus olhos salientes brilhava uma fúria assassina. Sangue... sangue... sangue...

 

- Gastamos dois bois por dia - disse Soriano. – Primeiro utilizávamos carne de cavalo, mas desde que Loretta se tornou uma amazona estusiasta e passou a adorar esses animais, mudámos de carne. Esta não a incomoda, pois ela própria gosta muito de bifes!

 

Riu com benevolência. Entretanto, dois grandes crocodilos lutavam por um pedaço de carne. Embora aparentemente parecesse um jogo, os dois animais travavam um combate de morte.

 

- Terá de habituar-se ao sarcasmo do meu pai, dottore exclamou Loretta, apertando o braço de Volkmar. - Eu também detesto estes animais. Odeio-os!

 

Soriano observava a luta dos crocodilos como se se tratasse de uma competição desportiva. Quando os via precipitarem-se sobre os bocados sangrentos e afastarem-se uns aos outros brandindo com violência as duas caudas esbicadas, quando os via abrir as terríveis bocarras e dilacerar a carne, levantava e baixava as sobrancelhas, inclinando a cabeça para o lado, examinando-os com ar de aprovação. Volkmar preparava-se para dizer que já tinha visto o suficiente de tal espectáculo quando descobriu algo em que de momento não podia ou não queria acreditar. O seu raciocínio de médico rebelava-se contra todas as ideias tranquilizadoras: «Não pode ser verdade! Enganaste-te! Vira a cabeça! Não viste nada, estás confundido!»

 

- E agora, os leões! - ouviu dizer a Soriano.

 

- Será necessário? - perguntou Volkmar. - A sua casa oferece aspectos mais agradáveis.

 

- Já observou atentamente uma fera, dottore ? Essa força, esse instinto primitivo, essa inclemência, a maravilhosa certeza de se ser forte, mais forte do que os outros, e de dominar em virtude dessa mesma força? Mas será como desejar! O senhor é meu hóspede, quero que se sinta bem. A Loretta também não gosta de leões. É curioso como um pai e uma filha podem ser tão diferentes. Eu costumava, já em criança, brincar com gatos bravios na parte velha da cidade de Palermo e nunca fui mordido por nenhum. Então, o que propõe, dottore’

 

- E se fôssemos nadar? - perguntou Loretta, enfiando de novo o braço no de Volkmar. - O meu pai não pode perseguir-nos na água. Ele nunca nada e, contudo, possui o iate mais sumptuoso da Sicília. O que sucederá se um dia cair ao mar?

 

- Salvá-lo-ão! - respondeu Volkmar olhando de novo para o local que tanto o tinha perturbado. - No Mediterrâneo não existem crocodilos...

 

Sorrindo, lançou-lhe um olhar rápido. O seu rosto endureceu por uns escassos segundos, mas voltou em breve a sorrir com afabilidade.

 

- Pois bem ... vá nadar com Loretta. Eu ficarei a vê-los. Passou à frente, conduzindo-os até ao terraço onde se encontravam agora vários bancos acolchoados. Um bar portátil tinha sido colocado debaixo do toldo e, à sua beira, via-se Mr. Worthlow a preparar três bebidas. Ele bem sabia do que precisavam aqueles que vinham de olhar para os crocodilos.

 

- Vou mudar de roupa - disse Loretta, deixando o braço do médico.

 

- Mas você traz um biquini encantador! - retorquiu este, ajudando-a a enfiar o longo vestido.

 

- A piscina é de água salgada e estraga o tecido dourado.

 

- É uma rapariga poupada! - riu Soriano quando Loretta desapareceu como se se tivesse evaporado, no sentido literal da palavra. Pegou no copo com o cocktail que Worthlow lhe estendia e passou-o a Volkmar. - Herdou essa qualidade da mãe. Elena Maria, minha mulher - que Deus a tenha à Sua Santa Guarda! -, descendia de uma antiga família burguesa de Trapani. Durante dez anos seguidos usou sempre o mesmo véu para ir à missa de domingo, mesmo depois de eu já ter construído esta casa. Morreu há três anos, vítima de leucemia. Mandei fazer-lhe um féretro dourado, idêntico ao de um faraó, e à volta dele fiz construir um mausoléu de mármore de Carrara. Amava-a muito. Considerava-a uma santa. Loretta herdou algo de sua mãe.

 

- Esperemos que tenha herdado quase tudo dela - disse Volkmar com duplo sentido.

 

Soriano levantou as sobrancelhas.

 

- Tenho a impressão, e isso preocupa-me, de que não se sente bem em minha casa, dottore. O que posso fazer por si ?

 

- À beira do lago dos crocodilos estavam dois ossos - o médico inspirou profundamente engolindo o seu cocktail de um trago -, um úmero humano e um pedaço de omoplata.

 

- Realmente? - disse Soriano impassível.

 

- Penso que acredita nos meus conhecimentos de anatomia.

 

- Quem duvidaria deles, dottore ? É natural que um cirurgião reconheça úmeros e omoplatas. Oh! aí vem Loretta. A mãe também era extremamente bela, apenas um pouco mais cheia, até ter sido atingida pela leucemia.

 

- Estou à espera da sua explicação, Dom Eugênio.

 

- Worthlow vai trazer-lhe um calção de banho.

 

- Não é necessário. Trago um vestido. Quando me raptaram estava a dormir com ele.

 

Envergando um minúsculo biquini branco, Loretta apoximou-se do bordo de mármore da piscina, acenando com ambos os braços.

 

- Tenho algo mais a anunciar-lhe - disse Dom Eugênio com voz calma: - Loretta irá casar-se com um homem rico e respeitável, terá um bando de filhos e tornar-se-á uma boa dona de casa italiana. É a minha única filha.

 

- Compreendo, Dom Eugênio.

 

- Eu bem sei que o senhor é um homem muito inteligente, dottore. E agora salte para a água. Dentro de meia hora virão o alfaiate e mais dois cavalheiros. Transformá-lo-ão num homem elegante.

 

O Conselho Magno encontrava-se reunido às 15 horas na sala de jantar.

 

Dois homens teriam ficado contentes por poderem presenciá-lo: o editor do anuário de personalidades famosas denominado Who’s who in Italy e o juiz do Supremo Tribunal de Justiça de Roma. Seria raro encontrar reunidos tantos nomes conhecidos, famosos até, e que eram ao mesmo tempo candidatos a penas capitais. Este Conselho só se ocupava de problemas muito especiais e delicados, como, por exemplo, quando os Estados Unidos enviavam um Dow, para que este se escondesse durante algum tempo na querida terra natal, ou quando se tratava da coordenação do tráfico da droga e da abertura de novos mercados. A última vez que o Conselho Magno se reunira na casa do dr. Soriano fora para discutir o ingresso num negócio aparentemente prometedor: a venda de armas para guerra bacteriológica. Ele não chegou, todavia, a ter seguimento. Com a excepção de dois membros, todos tinham sido unânimes em concordar que as fronteiras para a actuação da «digna organização» se encontravam precisamente na iminência do perigo de auto-aniquilamento.

 

Em vez disso, decidiram comprar uma fábrica de produtos farmacêuticos situada em França, por intermédio, evidentemente, de uma sociedade anónima francesa, a qual se dedicava em especial à produção de um fortíssimo analgésico, quer líquido, quer sob a forma de comprimidos, com total inobservância da severa lei vigente sobre medicamentos desta espécie. Os lucros foram enormes e a clientela afluía em catadupas. Ninguém mencionara, no entanto, os danos futuros que o medicamento iria provocar no fígado.

 

Era pois raro que o Conselho Magno se reunisse. Desta vez apenas se dedicaria a considerar o caso do dr. Heinz Volkmar. No espaço de uma hora, os alfaiates tinham feito dele um homem cuja imagem poderia ilustrar a capa de uma revista de modas masculinas. O fato branco de finíssimas listras negras assentava-lhe perfeitamente; exibia uma camisa preta e gravata branca de seda, peúgas e sapatos de couro brancos tão leves e macios que mais lhe parecia andar descalço. Tinham-lhe trazido igualmente dois smokings, um cinzento prateado cujo tecido apresentava um efeito de brocado e, como não podia deixar de ser, o obrigatório smoking branco. As calças negras eram de um tecido leve da melhor qualidade, os sapatos, de verniz, de uma elegância extrema. Depois de os dois homens e o alfaiate terem partido, Volkmar mirou-se no grande espelho da casa de banho lançando um olhar crítico sobre a sua pessoa. Atrás dele estava Worthlow, ocupado a meter o velho fato numa caixa de cartão, a fim de ser queimado, pois o seu aspecto ofendia a beleza do ambiente.

 

- Worthlow - disse o médico em tom pensativo. - Diga-me francamente: não lhe parece que tenho o aspecto de um gangster?

 

- O seu corpo suporta todos os trajes elegantes, Sir respondeu o mordomo. - Se me é permitida a observação, eu não gostaria de estar no lugar da mulher que o encontrar.

 

- O que é que se passa nesta casa, Worthlow? - Sir, restam-nos apenas dez minutos.                           - Sabe o que se passa nesta casa? Sabe onde está?    

 

- Sim, Sir.

 

- Eu fiz uma observação ...

 

- Nesta casa, a inteligência e os sentimentos deverão ser como um cofre em que encerramos as nossas observaçoes. Sobretudo quando nos encontramos já integrados...

 

- Eu não estou integrado!

 

O que quereria isto significar? Volkmar saiu para o grande átrio privado. Worthlow seguiu-o com a caixa debaixo do braço.

 

- E não penso deixar-me integrar futuramente, como você diz, subornado quer com fatos elegantes, quer com dinheiro, quer através da linda Loretta! Diga-me, Worthlow, como pode uma jovem como Loretta colaborar numa coisa destas?!

 

- Miss Loretta não faz ideia do que se passa.

 

- Mas ela não é cega!

 

- Desde que nasceu tem sido tratada como um anjo. O seu mundo sempre foi belo, limpo, feliz. Apenas uma vez se apercebeu que poderia ser miserável e infame. Isso aconteceu durante a sua estada no convento: uma colega disse-lhe a certa altura: «Vai-te embora, bastarda mafiosa!» O dr. Soriano manteve-se calmo. Exigiu somente que o pai da rapariga apresentasse desculpas em nome da filha. O pai, proprietário de uma fábrica de conservas, recusou-se. Escreveu uma carta em que dizia: «Estou satisfeito por a minha filha ter evidenciado amor à verdade. Acha que a verdade se deve recusar?»

 

- E depois? - inquiriu Volkmar, quase advinhando a resposta.

 

- A fábrica de conservas ardeu. Completamente. Não houve danos pessoais, pois o fogo eclodiu de noite. Os peritos concluíram que se tratara de um curto-circuito. Uns meses mais tarde, o pai da rapariga veio até junto do dr. Soriano apresentar desculpas. Com efeito, não conseguia obter dinheiro ou crédito em lado algum para reconstruir a sua fábrica. O dr. Soriano comprou-a por pura generosidade. Radiante, o pai da rapariga, chorando, beijou-lhe as mãos.

 

- E é isso que esperam de mim? - Volkmar abanou energicamente a cabeça. - Eu vou resistir, Worthlow!

 

- Eu não me comprometeria, Sir - Worthlow olhou para o seu pesado relógio de bolso -, temos de ir, Sir.

 

- Mais uma pergunta, Worthlow: qual é o seu cargo? Mordomo ou carcereiro?

 

- Se me permite, Sir: um seu amigo.

 

- Eu tenho uma outra concepção de amizade.

 

- O senhor também só cá está há um dia, Sir. - Worthlow abriu a porta esculpida. - Os outros cavalheiros esperam-no impacientemente, Sir.

 

Impaciência não seria talvez a expressão adequada. Em abono da verdade, deveria dizer-se que o Conselho Magno sentia uma enorme curiosidade. Ao enviar os seus convites que, por princípio, não eram feitos por via escrita nem telefónica, mas sim através de emissários especiais, o dr. Soriano apenas fizera uma vaga menção ao assunto. Esse facto dera precisamente aso às mais fantasiosas especulações.

 

Os ânimos acalmaram-se um pouco quando meia hora antes da comparência de Volkmar o dr. Pietro Nardo lhes expôs o problema em termos genéricos. Renunciando à utilização de termos técnicos e de pormenores da especialidade que, aliás, só poucos dentre eles entenderiam, limitou-se a explicar a forma de proceder. Isso era algo que todos eles compreendiam.

 

- Eugênio, tu enlouqueceste! - exclamou o anafado Dom Giacomo de Catania. - Estás completamente doido! Não me admiraria se tivesses dito: «Vamos montar um bordel no meio da Praça de S. Pedro!» Mas isto! Caros amigos, eu sou um leigo neste capítulo, mas se tal for possível, prometo que volto a dormir com a minha velha! Raça do diabo! Prefiro lidar com limões a lidar com utopias!

 

- Eu acredito no êxito, porque o desejo intensamente! disse Soriano com voz forte. - O meu hóspede é o melhor cardiocirurgião do mundo ... Sucede apenas que ele ainda o não sabe! Até agora os meios de que dispunha eram limitados. Abrir-lhe-ei novas perspectivas no domínio da medicina!

 

- Será este o primeiro negócio que vamos estabelecer sobre uma base instável - disse Dom Franco de Messina, que tivera o cuidado de anotar algumas frases proferidas pelo dr. Nardo, pelas quais passava agora os olhos. - Tudo isso são hipóteses! Teorias! Tudo fantasias! Contos de fadas à mesa de operações!

 

- Tu tens coração, Franco? - perguntou Soriano com voz glacial.

 

- Sim, e depois? - exclamou o homem de Messina.

 

- Quanto pagarias tu se esse coração estivesse prestes a deixar de funcionar e um médico te dissesse: «Acabou-se, Dom Franco. Está irremediavelmente perdido. Faça as suas orações, meu amigo. Se possível, mande construir uma igreja», e se de súbito chegasse alguém ao pé de ti e te dissesse: «Perdido porquê? O seu coração está gasto, Dom Franco? Isso não constitui nenhum problema. Eu substituo-lho por um coração novo, fresco, saudável, jovem!»... Quanto darias tu por isso?

 

Dom Franco ficou a olhar para Soriano com o queixo tremente. Tornara-se lívido, de tal modo o impressionara o que acabava de lhe ser sugerido.

 

- Tudo quanto possuo - respondeu com voz rouca. Madona! Daria tudo! Tudo, se pudesse continuar a viver. Mas não é possível! - bateu com o punho sobre a mesa e ergueu-se. - Não é possível! - emocionado, ia batendo ininterruptamente sobre o tampo de madeira. - Ninguém pode fazê-lo! Não acredito! A medicina nada pode fazer nesses casos!

 

- Pelo contrário. A medicina moderna começa exactamente aí-disse Soriano, recostando-se na confortável cadeira. - Bertoldo, de que morreu a tua mãe?

 

Dom Bertoldo de Siracusa passou a mão pelo rosto largo.

- De uma apendicite.

 

- Tu contaste nessa altura que o médico falou de destino. Hoje em dia uma operação desse tipo é uma ninharia e o tratamento pós-operatório faz-se à base de antibióticos. As revoluções no campo da medicina são mais eficazes do que as revoluções políticas.

 

- Porém, quando se trata do coração não há nada a fazer!

- disse o anafado Dom Franco. - Além disso, não me parece que seja bom negócio.

 

Chegara-se ao ponto crítico. Nesta «digna assembleia» apenas contava o lucro. O modo como ele era obtido não passava de uma questão secundária. Quando se metiam num empreendimento só o faziam se sabiam desde o início que o risco e o lucro estavam equilibrados. Certas aventuras comerciais, como aquelas em que por vezes os amigos americanos se envolviam, não eram vistas com bons olhos na Sicília. A segurança era fundamental e, sobretudo, a certeza de que manteriam intacta a consideração com que os distinguia a sociedade e imaculado o bom nome. Deveriam poder comungar todos os domingos sem terem de se envergonhar.

 

Soriano olhou para o dr. Nardo e fez-lhe um sinal com os olhos. O médico levantou-se.

 

- É incalculável o número de pessoas que morreram devido a afecções cardíacas inoperáveis - disse. - Também ninguém sabe quantas delas vivem com um coração em mau estado, futuras vítimas de «inesperados» colapsos cardíacos. Não me é possível enumerar ou até explicar a imensidade de doenças cardíacas fatais, pois a reunião transformar-se-ia num simpósio médico. Sabe-se, no entanto, que nos círculos que pretendemos contactar existem cerca de cem doentes nessas condições, os quais poderemos salvar quando a nova técnica estiver pronta para ser utilizada. Suponho que uma operação deste tipo vale entre 500 000 a 1 milhão de dólares, conforme a situação financeira do paciente. Cem casos renderiam 100 milhões de dólares!

 

- Que idiotice! - exclamou Dom Bertoldo. - Esse modo de calcular parece de analfabetos. Como se pode atribuir alguma rentabilidade a uma utopia?! Eugênio, o que se passa contigo? Há quanto tempo te dedicas a vender quimeras?

 

- Perguntemos ao dr. Volkmar! - disse Soriano carregando num botão situado sob a mesa. Um miniemissor enviou de imediato um impulso e no bolso do uniforme de Worthlow ouviu-se um breve apito. O mordomo conduziu Volkmar à sala de jantar, abrindo a larga porta de acesso.

 

- Felicidades - disse em voz baixa -, e não se esqueça, Sir, faça do seu coração um cofre.

 

O Conselho Magno ergueu-se das cadeiras como se alguém lhes tivesse dado uma voz de comando. Vinte e oito pares de olhos dirigiram-se a Volkmar. O silêncio que o recebeu parecia uma parede em que iria embater. Ô dr. Soriano deu a volta à mesa e cumprimentou-o como se o não visse há muito tempo.

 

- O seu aspecto é magnífico! - disse baixando a voz. Não será exagero afirmar que só os alfaiates italianos sabem fazer um homem de um ser do sexo masculino! - e depois mais alto: - Permite-me que lhe apresente os meus amigos, que certamente serão em breve também seus? Este é o Dr. Nardo, um seu colega.

 

Volkmar estendeu a mão ao médico. «Tem todas as características de um italiano do Sul», pensou. «Esbelto, quase grácil, cabelos negros mais parecendo envernizados, muito vivo, com olhos castanho-escuros. O ideal que buscam as mulheres do Norte da Europa quando viajam nos países meridionais.»

 

- Muito prazer - disse o dr. Nardo com uma certa reserva. - Espero que a nossa cooperação possa ser frutuosa, caro colega.

 

Volkmar decidiu não retorquir que essa cooperação jamais deveria ter lugar. Voltou-se para a mesa em forma de ferradura e observou com genuíno interesse os famosos senhores da Sicília. As palavras de Worthlow continuavam vivas na sua mente. Quando o Conselho Magno se reunia concentrava-se mais poder numa só sala do que em muitas conferências de nível internacional. A influência destes homens ultrapassava o âmbito dos ministérios.

 

Os cavalheiros voltaram a sentar-se, como se já tivesse passado o minuto de silêncio em memória de algo. Dom Franco pigarreou; Dom Bertoldo passou o lenço pelo rosto luzidio; na sua impaciência, e antes mesmo que o dr. Soriano abordasse o tema, Dom Giacomo interrompeu o silêncio dizendo:

 

- Você é então o homem que transplanta corações?!

 

- Não! - Volkmar sentiu uma grande satisfação em pronunciar este não claro e duro.

 

- Ah! - exclamou Dom Franco. - Que histórias nos estiveram então a contar?

 

Soriano não pareceu nada afectado com esta troca de palavras. Voltou para o lugar e sentou-se. Volkmar encontrou-se, portanto, sozinho sob os olhares do Conselho Magno, como se estivesse perante um tribunal. O dr. Nardo dirigira-se, por sua vez, para o fundo da sala e sentara-se ao lado de um écran de cinema. Faltava ainda exibir as imagens colhidas no hospital experimental conhecido em Palermo por «Centro Social para a Terceira Idade».

 

- Não dificultemos o início da nossa amizade, dottore disse Soriano com benevolência. - Somos uma grande família e o senhor, na qualidade de novo membro, deve ser apresentado. É cirurgião, não é verdade?

 

- Sim - respondeu Volkmar.

 

- No decorrer das suas pesquisas dedicou-se à transplantação de corações, sendo considerado um perito nesse domínio.

 

- Não sou a pessoa indicada para emitir juízos.

 

- Eu sei, dottore. Eu sei que conseguiu fazer viver durante várias semanas macacos e cães com corações alheios. Daqui a o mais tardar uma semana receberemos fotocópias de todos os seus trabalhos científicos. Os meus colaboradores já estão a tratar disso. Um telegrama de Munique recebido há uma hora informa-nos do comentário do director do seu hospital. Diz ele: «Com o trágico acidente que vitimou o professor agregado dr. Volkmar a investigação no domínio da transplantação de órgãos sofreu uma perda de valor incalculável. Temo que os trabalhos em curso sofram um atraso de pelo menos um ano. O dr. Volkmar estava a trabalhar na criação de métodos operatórios completamente novos e na pesquisa serogenética, que se pensa reduzirão substancialmente os riscos, sobretudo nas transplantações cardiológicas...»

 

Volkmar abanou a cabeça sorrindo.

 

- O professor Hatzport enviou isso para a imprensa? É incrível! Há três semanas a sua opinião era bem diferente..

 

- A fama dos mortos é o trono dos vivos! - disse Soriano voltando a pousar o telegrama sobre a mesa. - É verdade o que acabei de ler, dottore? É verdade ter descoberto novos caminhos?

 

- Talvez. Mas ainda estamos muito no início.

 

- Está, contudo, firmemente convencido que se podem transplantar corações?

 

- Sim. Do ponto de vista técnico o problema está quase resolvido. Apenas o não está do ponto de vista imunobiológico. Em mil ou mesmo duas mil pessoas existem talvez duas cujas proteínas se harmonizem, para me exprimir numa linguagem de leigos. Os mecanismos de rejeição do organismo são formados por muitas componentes, a maioria das quais ainda desconhecemos ou que, mesmo que já sejam conhecidas, ainda não dominamos.

 

- Obrigado, dottore. - Soriano estava satisfeito. Volkmar tinha dito mais do que esperara. Contava com uma resistência muda, com um silêncio glacial. Mas agora já podia avançar com a sua proposta:

 

- Pedimos-lhe para ser nosso hóspede porque queríamos fazer-lhe uma surpresa. Irá ter ao seu -dispor todos os meios financeiros e técnicos para prosseguir com as suas investigações. Salas de operações, laboratórios, animais para as suas experiências. Odr. Nardo trabalha há j á dois anos no mesmo problema com resultados variáveis. Nas montanhas de Camporeale estão a ser concluídos neste momento uma grande clínica e um lar para crianças. Uma ala lateral irá abrigar uma clínica de cardiologia equipada segundo as mais modernas técnicas. Encontrará aí condições de trabalho como as não possui nenhum outro cirurgião no mundo. Será o senhor, dr. Volkmar, quem irá dirigir essa clínica. É um prazer para nós podermos anunciar-lho. A construção e a instalação estarão completas dentro de meio ano. - Soriano exibia um ar orgulhoso e quase paternal. - Não acha que é uma surpresa, dottore?

 

- Com efeito - disse Volkmar olhando para a assistência -, mas eu recuso!

 

- Já o esperava. - Soriano levantou a mão quando viu que Dom Bertoldo e Dom Franco queriam fazer perguntas. Voltaremos a falar sobre o caso. Temos a vantagem de não nos encontrarmos pressionados pelo tempo. Ao perscrutar a sua consciência de médico não concluirá que lhe proporcionamos meios de fazer algo pela humanidade e recusa? Estará certo? Quem até agora lhe ofereceu estas oportunidades? Ninguém! Estando connosco, as suas experiências não se limitarão apenas a ratos, coelhos, cães e macacos... poderá fazê-las também com pessoas...

 

Sem proferir uma palavra, Volkmar voltou-se e saiu da sala. Correu para o terraço, deixou-se cair numa cadeira estofada, cobrindo o rosto com as mãos. Estremeceu ao sentir um ruído atrás de si.

 

- Whisky ou uma bebida mais forte, Sir? - perguntou Worthlow.

 

- Apetecia-me um «cianeto de potássio»! - Volkmar encostou a cabeça às costas da cadeira enquanto o mordomo preparava uma bebida de cor esverdeada. - Isto é pavoroso, Worthlow! - exclamou com voz rouca. - Eles querem fazer negócio com corações. São todos doidos! Doidos! Só a dificuldade de arranjar dadores...

 

- Esse é um problema menor, Sir - respondeu Worthlow, enquanto lhe dava o copo com a bebida forte que preparara.

- Para Dom Eugênio tudo é possível, seja um dador ou vários.

 

Volkmar agarrou o copo, encolheu-se todo e fechou os olhos. Subitamente, sentia frio sob o ardor do sol siciliano.

 

Não tornou a ver Loretta durante a tarde. Worthlow informou que ela partira para Palermo, a fim de fazer compras. Mas o dr. Soriano voltou a fazer-lhe companhia, DEMOSTRando a melhor das disposições. O Conselho Magno tinha regressado às suas casas. Volkmar ouvira o barulho de vários carros a partir.

 

- Eles colaboram - disse Soriano, deixando que Worthlow lhe trouxesse um grande copo de leite frio. - Consegui convencê-los. O dr. Nardo ainda esteve a mostrar-lhes imagens que os deixaram muito impressionados. Nos próximos dias teremos de fazer um cálculo para sabermos o capital de que iremos necessitar na fase de arranque.

 

- Não acontecerá nada disso, Dom Eugênio! - respondeu Volkmar, evitando olhá-lo. - Recuso-me! O que poderá o senhor fazer?

 

«Que homem é este», pensou ele, lembrando-se do lago dos crocodilos. «Só via duas hipóteses: ou o dr. Soriano sabia que o espectáculo ia ser presenciado e mandara colocar na margem os dois ossos humanos de tal forma que não pudessem deixar de ser notados, sendo então um sádico; ou mandava mesmo alimentar os crocodilos com pedaços de seres humanos e ficara desagradavelmente surpreendido com a presença desses vestígios, e então era um demónio com figura humana.»

 

Poderia um monstro destes ser o pai de Loretta?

 

- Estou a tornar-me um problema para si, Dom Eugênio disse com voz áspera. Estava admirado com a sua própria calma. - Não me pode atirar aos crocodilos... pois nesse caso todo o seu plano ruiria. Precisa de mim, do cirurgião! Vivo! Por outro lado, não pode obrigar-me a fazer o que pretende, nem utilizando meios de coacção física, nem psíquica. Mais uma vez iria prejudicar o médico de cuja inteligência e perícia manual necessita. Como pretende sair deste dilema?

 

- Convencendo-o.

 

- Impossível! Eu não quero! Retém-me aqui como um prisioneiro de luxo, pretende que lhe monte uma clínica cardiológica, que faça transplantações de corações, que viva uma vida inteira nesta jaula dourada como um robot cirúrgico, um homem cuja personalidade pretende extinguir com o fascínio de um ambiente sumptuoso!

 

- E com as mais belas mulheres da Sicília, se assim o pretender! Não o esqueça - Soriano bebeu o seu leite frio com prazer. - Dottore, a minha vantagem relativamente a si é esta: eu mantenho-o aqui e o senhor não tem qualquer possibilidade de escapar. O doutor não é médico vulgar, é um médico por vocação. Está apaixonado pela sua profissão e pelas suas pesquisas. Mesmo que continuasse a recusar-se, acabaria por morrer de aborrecimento. Não conseguiria resistir sabendo que a uma distância aérea de sete quilómetros daqui está uma clínica à sua espera e que o dr. Nardo tem uma equipa de cinco médicos às suas ordens.

 

- Uma equipa de transplantações cardíacas pode englobar cerca de dezassete médicos e enfermeiras. Médicos especializados!

 

- Arranjar-lhe-ei cinquenta se o exigir! Para mim não há limites!

 

- Já o compreendi - disse Volkmar secamente. - Por isso repito: não! E agora Dom Eugênio?

 

- Está uma bela tarde! - o dr. Soriano estendeu os braços e espreguiçou-se. Worthlow segurou no copo vazio de leite. O que quer fazer, dottore?

 

- Talvez dar de comer aos leões?

 

- 1-0 a seu favor! - Soriano riu com vontade. - Na parte inferior do parque mandei construir uma pequena linha férrea, puxada por uma imitação de locomotiva a vapor. Vamos dar uma pequena volta?

 

- Não. Faça-me conduzir ao aeroporto de Palermo e regressar à Alemanha.

 

- Impossível! O senhor morreu!

 

- Os equívocos podem ser esclarecidos. Prometo-lhe que nunca mencionarei a minha estada nesta casa.

 

- Já não pode ser, dottore - Soriano ergueu os braços como se o lamentasse. - Depois de amanhã vai ser encontrado o seu cadáver na costa do Cabo Mapu. O local foi calculado cientificamente de acordo com a orientação das correntes.

 

Volkmar foi percorrido por um calafrio. Sentia-se possuído pelo terror. Ficou a olhar para a água brilhante da piscina, ouvindo o coração bater-lhe descompassadamente no peito. Estes homens matam e mencionam-no como se falassem da próxima bebida.

 

- É um erro! - disse por fim com voz contraída.

 

- O quê?

 

- Fazer aparecer o meu cadáver! A ficha existente no meu dentista bastará para denunciar o logro.

 

- Toma-nos por diletantes, dottore? Ontem à noite, enquanto dormia profundamente (eu tinha feito servir-lhe uma bebida forte), abrimos-lhe a boca e fotografámos os seus maxilares. O cadáver que vai amanhã dar à costa terá os mesmos dentes obturados e os mesmos sinais de tratamentos dentários. A dentadura será, aliás, o único elemento capaz de permitir que o reconheçam. Enquanto permaneceu no mar o seu cadáver deve ter colidido com a hélice de um barco ... Soriano bateu no braço do médico. - Como vê, dottore, está definitivamente morto! Mesmo que eu quisesse e pudesse ... era impossível fazê-lo ressuscitar. Decide colaborar?

 

- Não!

 

- Mas pelo menos janta?

 

- Talvez.

 

- Em família. Loretta, o senhor e eu.

 

- E que diria se eu contasse tudo a Loretta? Volkmar esperava que Soriano se levantasse furioso, pois, segundo a informação de Worthlow, para ele apenas existia uma coisa sagrada sobre a Terra: a sua filha! Seria ele vulnerável apenas em relação a Loretta? Mas Soriano manteve-se sentado. Juntou as mãos, apoiou o queixo nas pontas dos dedos, olhou para Volkmar pensativo.

 

- De que lhe serviria isso? - perguntou com voz calma.

 

- Magoá-lo-ia profundamente.

 

- Seria uma vingança absurda. O senhor morreu para o mundo, mas nesse caso morreria de facto. Quem lucraria com isso? O senhor? A medicina? As pesquisas sobre transplantações cardiológicas? Eu? É um completo disparate. Tudo quanto fazemos deve ter uma probabilidade de êxito, até a vingança. O senhor não tem qualquer probabilidade, dottore, para além de, embora desconhecido, se poder tornar através de mim o maior cirurgião do mundo! Já tive ocasião de lho dizer. É curioso, todos os alemães manifestam o profundo desejo de se tornarem heróis pelo menos uma vez na vida! Deixe-se disso, Volkmar! Não lhe valerá de nada!

 

- Pelo contrário! Não perderei a consideração por mim próprio! - Volkmar cerrou os punhos. - Pode dizer o que quiser: eu não opero! E agora faça de mim o que entender. Considere-me aquilo que estou: morto!

 

Levantou-se e aproximou-se da piscina. Tinha a consciência de que o tom paciente do dr. Soriano se devia apenas à convicção de que ele ainda não tinha sabido avaliar bem a sua situação. Volkmar pensava, porém: «Ele não me pode obrigar a nada! Será uma luta sem sentido. Nada neste mundo me poderá forçar a abrir um tórax numa mesa de operações sob as ordens de Soriano. Quer se trate de um cão ou de um macaco... e muito menos de um ser humano.» Mas Volkmar enganava-se redondamente.

 

Ana conseguira arranjar em Cagliari um barco com destino a Nápoles que precisava de uma ajudante de cozinha. Tendo sido aceite, deram-lhe uma cabine minúscula num dos decks inferiores, mesmo por cima da casa das máquinas, e mandaram-na apresentar-se ao chefe de cozinha. Com o seu vestido de aldeã, fazia pouca vista, tal como tinha calculado. Queria fazer a viagem sem ter de lutar COM homens excitados pela sua figura e, por isso, cortara também o cabelo antes de deixar as montanhas. O seu aspecto era agora um pouco desgrenhado, sujo e estúpido. Enfiara as quinhentas mil liras num pequeno saco preso por um cordel que metera entre os seios. Este lugar parecera-lhe o mais seguro.

 

Deram-lhe um avental branco e uma pequena touca. A primeira ajudante de cozinha mandou-a ir para junto da esteira rolante anexa à máquina de lavar louça. Um criado que trazia uma pilha de pratos sujos para a copa beliscou-a nas nádegas. Ela escouceou como um cavalo, atingindo o homem numa coxa, bem próximo do local que deixa qualquer macho a torcer-se de dor.

 

- Estupor! - disse o criado segurando-se à máquina de lavar louça. - Estás à espera de que um oficial te leve para a cama?

 

- Deixa-me em paz! - Ana arrumou os pratos sujos sobre a esteira rolante. - Escolhe outra!

 

- Se calhar deitas todas as noites incenso entre as pernas, não? - O criado continuou a mancar até à porta. - Não penses que és assim tão bonita!

 

O facto divulgou-se. Todos ficaram a saber que a nova era brava. Deixaram-na em paz e, à noite, sentada na sua cama estreita e dura que estremecia com o trabalhar das máquinas, sofrendo com o calor da pequena cabine onde não havia, como é evidente, ar condicionado, Ana despia-se, deitava-se nua sobre a coberta áspera, e afagava os seus lindos seios, o ventre e o tufo de penugem negra e crespa entre as coxas.

 

«Hei-de encontrar-te, Enrico», pensava. «Deixa-me chegar a Palermo! E também a ti, animal vestido com um fato feito por medida. Assassinaste Luigi! Onde quer que estejas, não me escaparás! Quero ouvir-te gritar. Gritar! Gritar! E depois teremos todo o tempo que quisermos, Enrico. Levar-te-ei como presente a minha virgindade.»

 

Em Cagliari, a uma hora já tardia, a dr.a Angela Blúthgen recebia a visita do comissário que se ocupava do «caso Volkmar». Ele achara mais correcto procurá-la no hotel a convocá-la para o posto de polícia. Os carabinieri de Cabras que a tinham observado informaram num relato telefónico que a signorina alemã ficara mais de quatro horas sentada, imóvel, no local onde havia estado montada a tenda. Depois erguera-se e regressara cabisbaixa ao carro alugado.

 

- Eu vim - disse o comissário - para lhe perguntar o que devemos fazer aos pertences do dr. Volkmar. - Falava, tal como Angela, num francês um pouco titubeante. Tinham concordado em falar esta língua para se poderem entender. Deseja levar tudo consigo? Passar-lhe-emos um certificado policial para o caso de lhe levantarem algures dificuldades.

 

- Ficarei aqui! - disse Angela Blúthgen. - O senhor acredita, de facto, num acidente?

 

- Não vejo outra possibilidade, Madame.

 

- Já olhou alguma vez para o mar, senhor comissário?

 

- Sendo sardo, conheço bem o nosso mar, Madame....

 

- É calmo, liso, sem grandes correntes. Durante o dia em questão não houve nenhuma tempestade, nenhuma perturbação meteorológica. Heinz era um excelente nadador. Não me parece possível ter-se afogado.

 

- E se ele tiver nadado para longe e tiver sentindo uma cãibra? É assim que ocorre a maioria dos acidentes no mar, mesmo no caso de óptimos nadadores.

 

- Na sua qualidade de médico saberia o que fazer.

 

- No mar? Madame, em presença de cãibras todos reagem igualmente.

 

- Não consigo, de modo algum, acreditar - Angela levantou os braços e deixou-os cair de novo. - Não sei explicá-lo! É uma intuição... Sinto que vai acontecer algo ligado à pessoa de Heinz se eu aqui permanecer. O senhor não pode compreender...

 

- Compreeendo a sua dor, Madame. - O comissário achou por bem interromper a conversa. Para ele os sentimentos não contavam, apenas existia o facto de o dr. Volkmar ter perecido num acidente. - Deixemos, pois, todas as coisas na garagem.

- Sim, por favor.

 

- Poderá utilizar o carro, se o desejar.

 

- Obrigada.

 

Inclinou a cabeça quando o comissário se despediu, deixando rapidamente o quarto. O desgosto de uma mulher bonita também é capaz de afectar o ânimo de um polícia.

 

«Onde ficou o meu tão apregoado raciocínio lógico?», perguntou a si própria. Enroscou-se no sofá. O rádio do hotel transmitia uma música adocicada, um fundo musical, que não a incomodava, antes lhe dava uma certa calma. A inteligência dizia-lhe: está morto! Mas o coração esperava, esperava enquanto não tivessem encontrado o corpo. «Talvez nunca cheguem a encontrá-lo e eu terei então de viver com um mistério insolúvel».

 

Umas centenas de metros mais adiante o comerciante de fruta Oreto via-se na obrigação de desempenhar uma tarefa ingrata. Apenas o fazia por daí retirar cinco milhões de liras e, igualmente, porque surgira a ameaça da Sicília de ser possível fazer ir ao ar todo o comércio de frutas da região. Oreto era não só inteligente, como também tipicamente italiano. Tanto bastava para tomar muito a sério a ordem que recebera.

 

Num canto do armazém n.o 3 encontrava-se um cadáver deitado sobre uma velha coberta. Manobrando uma broca portátil, um médico trabalhava na dentadura do morto. Abrira-lhe a boca com uma tenaz apropriada. A sua volta encontravam-se espalhados brocas, ferros, massa de obturar, enfim, tudo quanto um dentista necessita. Oreto estava sentado numa velha cadeira e lia-lhe alto o que o dr. Soriano lhe ordenara telefonicamente.

 

- Sétimo dente em cima, à esquerda. Amálgama de cádmio e chumbo.

 

- É uma sorte ele não ter nenhum dente de ouro - disse o velho dentista, começando a brocar o sétimo dente superior esquerdo com um ruído que penetrava até aos ossos e que Oreto detestava. Ele não temia nada, mas na cadeira de um dentista era capaz de desfalecer. Olhava fixamente a velha broca, um modelo proveniente do tempo dos pioneiros da arte dentária, que ainda se movia a pedal, mas que era a única capaz de poder ser transportada para este local. Além disso, para o paciente era indiferente o aparelho empregado. - Um dente de ouro, ou uma prótese, por exemplo uma ponte não poderia ser feita neste espaço de tempo. Mas estes chumbos não causam problemas. Tinha bons dentes, o homem.

 

A broca rangia abrindo o dente. Pairava um cheiro a chamusco. As pálpebras do morto entreabriram-se e o olhar vazio atingiu Oreto.

 

- Isto até faz acordar os cadáveres - disse com voz rouca, pegando num pedaço de saco com que lhe cobriu os olhos.

 

O dr. Volkmar não compareceu àquilo que Soriano denominara um jantar em família.

 

De nada valeram os argumentos de Worthlow. Embora Volkmar tivesse vestido o smoking branco e o mordomo lhe tivesse apertado o laço preto, uma vez vestido, o médico sentara-se obstinadamente numa cadeira do terraço e exclamara:

 

- Não! Só se me arrastarem! Worthlow, por favor, sirva-me o jantar aqui! Faço greve!

 

- Isso de nada lhe servirá, Sir - disse Worthlow, sempre no mesmo tom simpático mas frio.

 

- Quero provocá-lo! O que é que me poderá acontecer? Deixei de ter medo!

 

- Transmitirei a sua decisão, Sir - Worthlow dirigiu-se ao telefone e levantou o auscultador. - Não muda de opinião?

 

- Não! - gritou Volkmar do terraço.

 

Worthlow carregou num botão do aparelho e, alterando imperceptivelmente a voz, anunciou:

 

- O dr. Volkmar acaba de me pedir para lhe servir o jantar no terraço.

 

- Isso é mentira, Worthlow! - Volkmar ergueu-se de um salto e entrou no quarto arrancando o auscultador da mão do mordomo. - Está a ouvir-me, Dom Eugênio? Eu não pedi! Eu recuso-me a jantar consigo! Quando penso em si não consigo engolir! Asfixiaria se ainda por cima tivesse de olhá-lo!

 

- Estou a compreender! - a voz de Soriano soava com um tom verdadeiramente preocupado. - Não sou psicológico, o senhor percebe disso mais do que eu... mas começa agora a manifestar-se em si a reacção à percepção dos factos. Cuide bem da sua obstinação, dottore. Quando se libertar desse sentimento ficará surpreendido! Passe-me, por favor, o Worthlow.

 

Volkmar estendeu o auscultador ao mordomo e voltou para o terraço, encostando-se ao muro e olhando para o mar. A escuridão era rasgada pelo brilho vacilante das lanternas dos pequenos barcos de pesca.

 

Voltou-se de súbito ao sentir Worthlow empurrar para o terraço uma mesa redonda requintadamente posta.

 

- O quer dizer isto? - exclamou apontando para ela. Dois lugares? Eu quero jantar sozinho.

 

- Manda-me embora? - perguntou uma voz suave. Volkmar encolheu os ombros e voltou-se devagar. Na ombreira da porta encontrava-se Loretta. O seu longo cabelo estendia-se como uma estola sobre o vestido justo e muito decotado de jersey cor-de-rosa que deixava a descoberto a parte superior dos seios.

 

- Posso entrar? - perguntou, ao ver que Volkmar não respondia.

 

Ele inclinou a cabeça e, dirigindo-se ao seu encontro, beijou-lhe a mão.

 

«Neste capítulo sou vulnerável», pensou. «E, no entanto, Dom Eugênio, não colaboro!»

 

- O meu pai ficou triste - disse ela, com uma voz de criança ofendida. Deixou-se conduzir a uma das cadeiras fundas do terraço e sentou-se. Worthlow manobrou o mecanismo da mesa que permitia que esta se baixasse ou elevasse. Loretta cruzou as pernas. O seu longo vestido apresentava uma racha lateral até meio das coxas. - Muito triste! - repetiu.

 

- Tem toda a razão para isso! - respondeu Volkmar. Tomou das mãos de Worthlow a garrafa de xerez amarelo dourado, que serviu, enchendo até meio dois copos de cristal preciosamente lapidados. Ela segurou num dos copos que fez rodar entre os seus dedos esguios, quase transparentes. Nessa noite também usava apenas um anel, desta vez uma grande e clara esmeralda, simplesmente encastoada em ouro. Brilhava como uma mancha esverdeada sobre a sua pele morena.

 

- O meu pai gosta verdadeiramente de si - continuou.

 

- À sua maneira, talvez.

 

- Ele não o considera apenas como um hóspede bem-vindo... gostaria também de tornar-se seu amigo.

 

- Isso é um desejo bastante anormal em presença de crocodilos e de leões - disse Volkmar, sombrio.

 

- Também não gosto dos bichos,   mas o meu pai considera-os o seu hobby. Não faça caso!

 

«Como é possível não fazer caso ao ver-se na margem do lago um úmero humano e um pedaço de omoplata?», pensou Volkmar. «Mas Loretta ignora-o. Worthlow tem razão. Ela atravessou o mundo como um anjo o paraíso. Apenas vê a beleza, a beleza indescritível do seu mundo, mas não calcula que este paraíso é adubado com sangue. Com mil raios! Deveria ser avisada!»

 

Worthlow parecia saber ler os pensamentos. Volkmar já o notara antes.

 

- Não faça isso, Sir! - disse em voz baixa, ao colocar sobre a mesa o primeiro prato: uma deliciosa sopa de mexilhão preparada com vinho. Inclinando-se sobre o ombro do médico, murmurou-lhe ao ouvido: - Ela nunca acreditará em si e o senhor não ganha nada com isso.

 

- Que   segredos   são   esses?   - perguntou   Loretta. Aproximara-se da balaustrada do terraço e ficara a observar os pontos luminosos dos barcos de pesca sobre o mar. Voltou para a mesa segurando ainda o copo na mão. Era uma criatura de sonho nesta noite quente e estrelada, envolvida pela luz suave das lâmpadas de estilo mourisco que iluminavam o terraço.

 

- Eu sei o que Worthlow lhe está a contar, dottore: o pai dá às vezes aos crocodilos animais vivos, sobretudo coelhos. Eles existem aos milhares na propriedade, causando grandes danos. Escavam a terra toda fazendo perigar as ruínas. No entanto ... eu não o aprovo. - Sentou-se de novo. Volkmar pegou no copo de xerez e colocou-o sobre o tabuleiro que Worthlow segurava.

 

- Worthlow apenas me perguntou se queríamos peixe ou lagosta como segundo prato. - Mentia com grande segurança. O mordomo olhou para ele reconhecido.

 

- Eu prefiro lagosta.

 

- Já calculava - Volkmar sorriu forçado. - Eu vou querer tainha «à Ia Bocuse». Imagine que o Worthlow não se admira. Já li não sei onde o modo de preparar estes bocados de peixe. Não há muitas pessoas que conheçam a nova cozinha francesa de Bocuse. Mas para o dr. Soriano parece que nada é impossível.

 

- Nada, Sir! - observou Worthlow, friamente.

 

«Isto é de enlouquecer», pensou Volkmar torturado. «Aqui estamos nós a falar da nova cozinha francesa como se estivéssemos numa fútil reunião de esposas de homens de negócios, enquanto à nossa volta paira invisível o terror. Um grupo de homens decidiu levar por diante uma ideia louca e pretende ganhar milhões com a transplantação de corações sem atender a que tudo isto se encontra ainda na fase experimental e que talvez nunca seja possível ultrapassar a barreira imunológica. Conhecem-se mais de cem tipos de tecidos diferentes que se rejeitam uns aos outros de tal modo que podem ser considerados inimigos, reagindo até ao aniquilamento total no decorrer de certas transplantações. Entre todos estes grupos nós, médicos e bioquímicos, apenas conhecemos uma mão-cheia deles e, mesmo com estes, é frequente verificarem-se reacções dramáticas após as operações. Mas que importância tem isso para um Soriano e para o seu Conselho Magno? Se for possível após uma transplantação de um coração fazer viver nem que seja apenas u m doente condenado à morte mais meio ano do que se previa, o empreendimento do dr. Soriano ter-se-á transformado num filão de ouro. Mas sem a minha colaboração! Sem Heinz Volkmar!»

 

- O que lhe desagrada no meu pai? - perguntou Loretta enquanto Worthlow encomendava o jantar pelo telefone interno.

 

- Que ele tenha uma filha como você, Loretta.

 

- Será isso um elogio à alemã ou uma defesa, Enrico?

 

O sorriso enquadrado pelos maravilhosos cabelos, a expressão dos olhos e dos lábios, o suave arfar dos seios que nada mais além do vestido justo de jersey de seda recobria, tornavam qualquer resposta num verdadeiro esforço de concentração.

 

- É a pura verdade, Loretta.

 

Tratava-a pelo nome próprio porque lhe era impossível usar a expressão convencional de «signorina Soriano». Ela aceitava-o e vingava-se tratando-o por Enrico. O facto de isso não significar antipatia agradava a Volkmar, tornando-o quase feliz. Uma mulher de sonho como Loretta não estava destinada para ele, o pequeno cirurgião alemão. De qualquer modo, nada o impedia de admirá-la. O seu amor calmo por Angela Blúthgen, só raramente expresso em palavras, parecia-lhe agora um pouco anormal, pois sabia que embora Angela pensasse e sentisse como uma mulher e desse largas a esses sentimentos durante uma noite, ou talvez duas - o chamado «fim-de-semana livre» -, ele não podia imaginá-la ao pé de um fogão ou com o aspirador na mão. Contudo, tentara repetidas vezes libertá-la daquilo que denominava o seu «síndroma de interno dos hospitais» e de a fazer pegar em lugar do estetoscópio, por assim dizer, na colher de pau. Rindo, chamara a essa sua atitute a «minha pequena perversão». E agora Loretta! A encarnação do luxo! Um ser inconcebível, secreto como as sílfides das lendas.

 

Loretta encostara-se na cadeira confortável. As rachas laterais do vestido justo deixavam ver as longas pernas. «Ela não usa nada por baixo», imaginou ele. «O papá certamente ignora-o. Mas isto também se aprende num convento.»

 

Worthlow estava ocupado no fundo do terraço. Abrira um armário por trás de cujas portas trabalhadas se encontrava o elevador que trazia a comida. Volkmar ficou parado junto da cadeira de Loretta enquanto esvaziava o seu copo de xerez. Envergando o smoking branco talhado por medida, as calças de fino pano preto com galões, os sapatos de verniz, a camisa branca com discretos folhos no peitilho e um estreito laço negro, deixara de ter o aspecto do honesto cientista alemão. Até ali vestira sempre fatos de confecção de qualidade média e nada o fazia sobressair a não ser o seu aspecto másculo e o espesso cabelo escuro que começava a embranquecer nas fontes. Nunca tivera tempo disponível para pôr em evidência os seus predicados masculinos, como talvez muitas mulheres julgassem.

 

Agora seria difícil alguém reconhecê-lo.

 

- Gostaria muito de a ter conhecido num outro ambiente, Loretta. Na praia, num café, num bar, na frente de uma montra, enquanto fazia compras. No que me diz respeito, até podia ser sobre uma mesa de operações...

 

- Que pena, ainda conservo o meu apêndice. Teria sido uma oportunidade! - sorriu como um anjo de Boticelli. Terei de arranjar uma doença para você ser mais simpático comigo?

 

- Estou a ser um chato para si, Loretta?

 

- Digamos que não é o que poderia ser! Tenho ou não razão?

 

Worthlow, generosamente, evitou que Volkmar tivesse de dar uma resposta. Surgia sempre no momento preciso.

 

- A lagosta e o peixe - disse, indicando as travessas de prata cinzelada. - Está bem assim, Sir? A acompanhar um vinho branco, muito seco, do Loire.

 

- Confio totalmente em si, Worthlow - respondeu Volkmar sentando-se.

 

Loretta curvou-se um pouco para a frente, enquanto os seios se comprimiam contra o tecido fino. O longo cabelo comprido voltava a tapar-lhe os ombros.

 

- Vai visitar a clínica amanhã, Enrico? - perguntou ao mesmo tempo que retalhava a lagosta com perícia. Esta fora preparada de tal modo na cozinha que quase se desfazia na boca. Os bocados de tainha tinham um sabor deliciOso.

 

- Temos três cozinheiros chineses - disse Worthlow. Não existe qualquer desejo no domínio culinário que não possamos realizar, Sir.

 

- Acredito - disse Volkmar e, depois, virando-se de novo para Loretta. - É preciso que me compreenda, Loretta. Eu estou na Itália na qualidade de turista, não de cirurgião. Não penso visitar a clínica de seu pai. É uma questão de princípio. É bom que saiba que eu posso ser muito obstinado.

 

- Não sabe o que vai perder, Enrico.

 

- Estou pronto a acreditar em si. - Loretta não notou a expressão com que o proferiu.

 

- O segundo prato é «fillet Wellington» com um molho especial de truTas frescas trazidas hoje de manhã de França, por avião. - Worthlow tentava desviar a conversa, mas Volkmar não estava disposto a entrar no jogo.

 

- Conhece a clínica, Loretta?

 

- Fui eu quem a inaugurou. Aqueles simpáticos velhinhos cheios de gratidão...

 

Não tinha sentido confrontá-la com a verdade. Mais valeria então atirá-la logo aos crocodilos.

 

- Preferia   ir   passear   consigo   em   Palermo.   Quer mostrar-me a cidade?

 

- Não. Só através da « Noite Siciliana» deVerdi. A grande ária do baixo: «Oh tu, Palermo». Aliás esta ópera é um espectáculo bastante sangrento.

 

Worthlow pigarreou discretamente. Volkmar sorriu. É espantoso como um homem perde depressa o medo.

 

- Palermo! - disse Loretta mergulhando os dedos na taça contendo água e rodelas de limão. - Os sicilianos são pessoas simpáticas e pacíficas. Será um prazer mostrar-lhe Palermo, Enrico.

 

Depois da sobremesa composta por gelado e enormes framboesas com molho flambé, decidiram dançar no terraço, estreitamente enlaçados, mudos, atendendo apenas ao ritmo da música suave e aos movimentos dos seus corpos que se afagavam sem no entanto tomarem liberdades desmedidas. Worthlow levantou a mesa do jantar e, depois de colocar sobre ela champanhe, sumo de laranja e um prato com petits fours, retirou-se discretamente para a sala, colocando-se na ombreira da porta para o átio como um anjo de bronze guardando a entrada do paraíso.

 

- Você dança muito bem, Enrico - disse Loretta quando voltaram a sentar-se, após terem dançado cinco músicas.

 

- É uma surpresa para mim.

 

Deitou champanhe nos copos e olhou para o céu estrelado. «Amanhã vai ser um dia difícil», pensou. «Talvez mortal. Sinto que o período de defesa acabou. Loretta nunca terá oportunidade de me mostrar Palermo. Esta noite não passa de uma parte do plano perverso imaginado por Soriano. Resignemo-nos, pois.»

 

- Cheerio!, Loretta, foi maravilhoso estar consigo - disse em voz alta.

 

- Você é um cirurgião famoso, dança lindamente, que outros predicados tem? - perguntou ela enquanto misturava sumo de laranja com champanhe.

 

- Sou bom nadador, jogo ténis, interesso-me - sentado à frente da televisão - por futebol. Quando era estudante gostava de jogar boxe. Obtive uma vez o título de campeão regional de meios-pesados. A certa altura desejei intensamente participar em rallies e tirar o brevet de aviador. Mas nunca me foi possível! Falta de tempo, Loretta. Por vezes chegava a estar trinta e oito horas seguidas no hospital correndo entre as salas de operações e de observações e mantinha-me de pé à custa de café bem forte.

 

- Quer dizer que é um furioso da sua profissão?

 

- Pode chamar-lhe assim. E, contudo, tem-se um sentimento de felicidade indescritível quando se pode ajudar o semelhante. Eu sou um médico à moda antiga, Loretta. Não olho para o paciente a pensar na sua conta bancária, mas sim a pensar na pessoa que é e na sua doença. É por isso que sou o que na minha terra se chama «um pobre-diabo». Mas, com todos os raios!, sinto-me muito bem assim!

 

Eram quase três horas da manhã quando o jantar «à maneira de Loretta» terminou e se despediram. Volkmar acompanhou-a até à porta do seu átrio privado e beijou-lhe a mão. Ela tomou-lhe a cabeça entre os seus longos dedos delicados e pousou-lhe um beijo sobre cada pálpebra. Foi como se a partir daquele momento ficasse cego.

 

- Gosto de si, Enrico - disse sem timidez, mas também sem intonação especial. - Você não se aproveitou da situação e houve alguns que... Obrigada, Enrico!

 

Ela partiu com passos ligeiros. Worthlow fechou a porta atrás dela, tal como se corre a cortina depois do último acto. O jogo chegara ao fim.

 

- As minhas felicitações, Sir - disse no seu estilo rígido de mordomo. - Associo-me à signorina. Teve a sorte de ver Miss Loretta em condições que nenhum homem tivera a sorte de ver até aqui, mas foi muito inteligente, Sir.

 

- Estou furioso, Worthlow, é tudo! - exclamou Volkmar.

- E agora fique a saber que me vou embebedar! Nesta casa as vítimas são atiradas aos leões e aos crocodilos mortas ou vivas?

 

Worthlow não deu resposta. Inclinou-se com correcção e saiu da suite de estilo mourisco.

 

Pouco depois - Volkmar tinha-se entretanto sentado no bar do átrio e preparava-se para beber até cair redondo no chão - tocou o telefone. Ele estava convencido de que isso iria suceder.

 

- Ainda quis fazer ouvir a sua voz, Dom Eugênio! exclamou. - De outro modo a noite não estaria terminada. E, no entanto, foi uma noite maravilhosa!

 

- A minha filha está fascinada com o senhor, dottore. - A voz de Soriano deixava transparecer um orgulho paternal. O senhor é o primeiro homem que a faz sair da sua natural reserva. Até aqui ela considerava os homens caçadores de dotes. Foi assim que a eduquei. Quando um dia casar há-de ser apenas por amor. É espantoso que o veja precisamente a si com outros olhos!

 

- Soriano, deixe-se de malabarismos! Nem utilizando a sua filha conseque que eu mude de opinião!

 

- Isso não será nunca a minha intenção! Dr. Volkmar, já lho afirmei uma vez: se o senhor e minha filha...

 

Deixou a frase inacabada.

 

- Quando me faz voltar para a Sardenha para que eu possa aparecer de novo com decência?

 

- Amanhã vamos visitar a clínica para pessoas idosas.

 

- Gostaria de saber como vai conseguir isso? Utilizando um narcótico para, ao acordar, me encontrar lá? Será assim?

 

- Dottore, preocupa-me o facto de me considerar tão primitivo. Temos de facto de ter uma longa conversa para tudo ficar bem claro entre nós. Boa noite! Durma bem!

 

- Vou mas é embebedar-me! - gritou Volkmar para dentro do telefone.

 

- Worthlow levar-lhe-á de manhã um bom e forte café turco.

 

Volkmar cumpriu o que prometera. Mas, apesar do consumo excessivo de álcool, ainda lhe foi possível despir-se e meter-se na cama como uma pessoa decente, envergando um pijama de seda marroquino.

 

Dois homens vieram buscá-lo às onze da manhã. Um deles não era seu conhecido. Tratava-se de um homem baixo, magro, com uma cara de rato e muito amável. Cumprimentou o segundo com um sorriso irónico: era Paolo Gallezzo, o relojoeiro de Palermo, denominado «o executor».

 

- Ah! - exclamou Volkmar com voz tensa. - Isto agora vai começar, não é verdade, Gallezzo? Qual vai ser o método empregado: um murro nos queixos para me pôr K. O., um revólver ou um pedaço de algodão embebido em clorofórmio? O que vocês podem obrigar é o meu corpo. Mas é do meu cérebro que precisam e esse não o podem atingir.

 

- O senhor está a ver tudo de um ângulo cinematográfico, dottorel - disse Gallezzo, sempre amável. - Não estamos a rodar nenhum desses filmes idiotas de Hollywood! Neles tudo se consegue pela violência! O dr. Soriano, ou melhor, o dr. Nardo pretende expor-lhe um problema: no asilo de velhos   uma   das   mulheres   adoeceu   gravemente   e   ele considera-a perdida pois não sabe o que fazer. Talvez o senhor saiba...

 

- Isso é um truque de baixa qualidade! - disse Volkmar com dureza. - E estúpido, ainda por cima!

 

- E verdade, dottore. Pela luz dos olhos da minha mãe! E a minha mãe ainda está viva!

 

Volkmar olhou desconcertado para Gallezzo. Não lhe parecia um truque, um argumento persuasivo. O semblante de Gallezzo era grave, as suas palavras tinham um tom de súplica. Volkmar abanou a cabeça. Se agora se deixasse apanhar nunca mais se libertaria. A sua obrigação como médico era ajudar, sem ajuizar de quem dele precisava. Só uma coisa importava: um ser humano necessitava de auxílio!

 

- O dr. Nardo é um bom cirurgião! - disse, ofegante.

 

- Já fez tudo, dottorel

 

- Existem em Palermo muitos médicos notáveis.

 

- Não ousam resolver o problema da velha mulher.

 

- Isso é uma parvoíce! Nenhum especialista teme os problemas que surjem dentro da sua especialidade!

 

- Então examine o caso, dottorel

 

Gallezzo fez um sinal. O homenzinho com cara de rato tirou da pasta um desses típicos envelopes cremes em que costumam ser guardaDAs as radiografias. Volkmar mordeu o lábio inferior. Começava a desencadear-se dentro dele o grave conflito interno: recusando-se, e tratando-se de facto de um caso raro, teria de viver toda a vida com esse peso na consciência. Se olhasse para as radiografias, Soriano teria ganho a primeira partida: o dr. Volkmar estava a trabalhar para Mafia!

 

- Vocês são verdadeiros demónios! - disse com voz rouca.

 

- Nós cuidamos de pessoas idosas e doentes, dottore. O homem de cara de rato mostrou-lhe as radiografias.

 

Volkmar reconheceu logo que se tratava de imagens tiradas ao tórax. Pegando numa das chapas, dirigiu-se ao terraço e observou-a contra o sol.

 

A imagem era muito nítida. Os serviços de radiologia do asilo de velhos deviam utilizar aparelhos da melhor qualidade. As outras imagens - Volkmar já o sabia de antemão tinham sido tiradas a vários níveis. E, no entanto, bastava observar esta primeira radiografia para constatar que Gallezzo não mentira. Não, não se tratava de um truque grosseiro destinado a atraí-lo à clínica. O que a imagem mostrava era um padecimento muito grave. Volkmar podia compreender o motivo pelo qual, ao observá-la, até os melhores cirurgiões italianos sentiam um secreto mal-estar.

 

O diagnóstico era tão claro como as radiografias.

 

- Trata-se de uma pericardite calculosa - disse ele, deixando que lhe mostrassem as outras imagens. Ao observá-las igualmente contra o sol, concluiu que essa mulher idosa estaria condenada à morte se não fosse urgentemente socorrida. Mas o auxílio teria de ser rápido, corajoso. Seria necessário arriscar. Ser tão frio e lúcido como o deve ser um cirurgião que joga tudo por tudo.

 

- Uma forte infiltração de cálcio permitiu que se chegasse ao estádio agudo de pericardite constritiva. É preciso operar imediatamente. Compreende?

 

- Não! - respondeu Gallezzo com franqueza. - Para mim as suas palavras são chinês.

 

- Esta mulher tem o que se denomina vulgarmente uma «couraça» à volta do coração. Isto é, houve um depósito de sais de cálcio que endureceram a membrana envolvente. O abastecimento de sangue ao coração e a subsequente bombagem quase se encontravam suprimidos. É evidente que me estou a exprimir numa linguagem de leigos.

 

- Isso pode suceder a qualquer pessoa? - perguntou o cara de rato impressionado.

 

- E o senhor pode ajudar? - quis saber Gallezzo, igualmente abalado.

 

- Só num hospital muito bem equipado.

 

- O nosso, por exemplo.

 

- Não me digam que o asilo de velhos tem essas condições!

 

- Vai ficar admirado, dottore.

 

- Um momento.

 

Volkmar dirigiu-se ao quarto de cama e pegou no telefone. Ouviu a voz de alguém que se identificou como o secretário do dr. Soriano.

 

- Desejava falar-lhe pessoalmente - disse o médico. - Se o dr. Soriano não estiver presente esperarei até que chegue.

 

- E só um segundo, signore dottore.

 

Ouviu-se um ruído e depois a voz de Dom Eugênio ao aparelho.

 

- Já sei, dottore, que tem as radiografias na sua mão e que o seu diagnóstico é preciso - disse. - Eu nada percebo desses assuntos, apenas sei o que o dr. Nardo me explicou. Trata-se de uma pobre mulher de setenta e dois anos. Deu à luz dezassete filhos, dezassete dottore l Desses só restam dois que vivem na América. Não acha que esta mulher merece viver mais uns anos?

 

- Eu não sou mágico, Dom Eugênio!

 

- Mas é um especialista em cardiologia, graças a Deus.

 

- Céus! Como poderá o senhor falar em Deus?

 

- Acredito piamente na sua existência. O homem só é responsável por aquilo que faz sobre a Terra, e, nesse caso, não deve pedir a opinião a ninguém. Está disposto a operar?

 

- Só numa clínica que...

 

- Venha até aqui! Eu já me encontro no asilo. A equipa operatória está à sua espera. A idosa senhora já está preparada. Só falta o senhor - o operador!

 

- E se eu recusar?

 

- O senhor não pode fazer isso! Não pode, se olhar para essas radiografias.

 

Volkmar desligou com estrondo, meteu as radiografias debaixo do braço e fez sinal aos dois homens.

 

- Quanto tempo precisamos para chegar ao asilo? - perguntou a Gallezzo.

 

- Meia hora. As estradas estarão livres. Utilizaremos uma ambulância com luz intermitente e sirene.

 

O asilo de velhos de que não só o dr. Soriano, como toda a cidade de Palermo e até mesmo toda a Sicília se orgulhavam, situava-se num planalto do qual se desfrutava uma vista maravilhosa sobre a cidade e o mar. Era uma construção gigantesca composta de vários pavilhões separados uns dos outros por jardins e parques em que crescia uma vegetação tropical exuberante. Do complexo faziam igualmente parte um pequeno teatro ao ar livre, construído no estilo de um anfiteatro, campos de jogos, duas grandes piscinas, um pequeno pinhal onde se podia passear tranquilamente e descansar em inúmeros bancos pintados de branco. Esta obra social fundada pelo dr. Soriano valera-lhe uma alta condecoração. A sua importância era tal que, uma vez realizada, ninguém mais perguntara qual era a origem do dinheiro necessário para tal.

 

O dr. Volkmar ficou impressionado com a aparência exterior do edifício quando, precedida pelo silvo da sirene, a ambulância subiu a larga rampa de acesso e se deteve na porta de entrada onde o esperavam cinco enfermeiras todas vestidas de branco. Olharam para ele como para um animal exótico enquanto o escoltavam até ao elevador. Mas apenas Gallezzo o acompanhou. No segundo andar era aguardado pelo dr. Soriano, que o puxou por um braço, o abraçou e o beijou na face direita. Ele não reagiu. O desejo de salvar a mulher doente era mais forte do que a repulsa que lhe causava Soriano.

 

- Não acha as instalações formidáveis? - perguntou este.

 

- Onde é o bloco operatório? - retorquiu.

 

- No pavilhão três. Dirigimo-nos imediatamente para lá. As distâncias são de tal ordem que fizemos construir transportadores não só verticais como horizontais. Deslocamo-nos numa cabine de bloco para bloco. Faça favor!

 

Dirigiram-se a uma outra porta, sentaram-se no banco de uma cabine e mal Soriano premiu um botão começaram a deslocar-se a toda a velocidade através de um tubo (que mais parecia uma gigantesca versão do sistema pneumático dos correios) até se deterem suavemente. Quando a porta se abriu, receberam-nos o dr. Nardo e dois outros médicos, já equipados com as suas batas de operadores. Encontravam-se mesmo no centro do bloco operatório, entre paredes de azulejos brancos, pavimentos de mosaico brilhante, um forte cheiro a desinfectante, portas almofadadas, sinalizadas todas elas com lâmpadas vermelhas de alarme. Uma assepsia total. Mesmo ao lado do «tubo pneumático» encontrava-se uma porta para a qual Volkmar e Soriano foram encaminhados. Gallezzo utilizou a cabine para regressar ao local de onde partira.

 

Volkmar despiu-se nesse compartimento. Deram-lhe o equipamento clássico do cirurgião: um par de calças, uma camisa sem mangas, sapatos, todos eles de cor verde-tília. Soriano desejou-lhe, em seguida, boa sorte e o dr. Nardo conduziu-o para a câmara asséptica, deixando o outro homem para trás.

 

Aqui esperavam-nos quatro médicos que cumprimentaram Volkmar de cabeça. Uma enfermeira atou-lhe o avental, uma outra colocou-lhe a touca e a terceira a máscara. Dirigiu-se então para o grande lavatório, onde começou a ensaboar e a escovar braços e mãos, que mergulhou depois numa solução desinfectante. Por fim, deixou que lhe enfiassem as finas luvas de borracha de cirurgião. Por sobre a sua cabeça, num quadro luminoso, podiam ver-se as radiografias do coração doente.

 

Volkmar via através da parede de vidro que separava a antecâmara da sala de operações propriamente dita a mulher idosa deitada sobre a mesa operatória. Dois internos postados na frente de um oscilógrafo controlavam a circulação

 

periférica. A linha esbicada do electrocardiograma tinha um aspecto crítico. Outros três médicos vigiavam o pulmão artificial e dois anestesistas ocupavam-se da narcose. Uma equipa de três cirurgiões abrira já o tórax e preparava-se para ligar o sistema circulatório da doente ao pulmão artificial. Via-se uma quantidade impressionante de pinças, tubos, suportes, ligaduras, compressas. Volkmar voltou-se para o dr. Nardo, visivelmente orgulhoso dos seus preparativos.

 

- Começámos logo com os preliminares quando fomos avisados pela rádio de que se encontrava a caminho - disse este.

 

- Muito bem! - Volkmar voltou a olhar para a mesa operatória. - Quer dizer que iniciaram a pericardectomia sem saberem como eu iria proceder. Fizeram uma toracotomia transesternal. E se eu pretendesse fazer uma transpleural à esquerda? Quem é que afinal vai operar?

 

- Uma incisão transesternal permite-lhe uma melhor visão e um campo de actuação mais vasto, caro colega disse o dr. Nardo, visivelmente ofendido. - Para remover a couraça calcária precisará de grande liberdade de movimentos.

 

- Agradeço a lição! - Volkmar atravessou as portas de vidro automáticas e entrou na sala de operações. Esta tinha sido, sem dúvida, montada segundo as mais modernas concepções da medicina. Nada faltava ali. Na gigantesca lâmpada que iluminava a mesa operatória fora montada uma câmara de televisão. Volkmar olhou para ela e sorriu.

 

- Nós filmamos todas as intervenções cardiológicas explicou atrás dele o dr. Nardo.

 

- Ah! Nesse caso praticam toracotomias com frequência ? - perguntou Volkmar.

 

- Temos aqui muitas pessoas idosas sofrendo do coração. Volkmar sentiu um calafrio percorrer-lhe as costas. «Isto é

 

a ideia de Soriano», pensou e teve de respirar profundamente. «Não lhe faltam cobaias para as experiências. Para isso construiu um asilo de luxo, recebendo condecorações e títulos. Ele é um grande filantropo, um espírito humanitário. Quem o notará se, entre trezentas pessoas idosas, vinte, trinta ou cinquenta, consideradas doentes cardíacos incuráveis forem parar à mesa de operações? Quem se preocupará com isso? Quem se interessará pela razão do óbito de uma pessoa idosa num asilo de velhos? É suficientemente longa a lista de espera para se considerarem felizes aqueles que obtêm uma vaga.»

 

Estava concluída a ligação ao pulmão artificial. Os anestesistas e os médicos auxiliares fizeram as leituras dos valores obtidos a meia voz, monotonamente. Volkmar notou logo que se tratava de uma equipa muitíssimo bem treinada.

 

- Qual é a extensão dos danos secundários? - perguntou ao dr. Nardo. - Mostraram-me as radiografias mas não conheço a história clínica da doente, nem os antecedentes. Como está o miocárdio? Qual é a situação do fígado e dos pulmões? A julgar pela leitura do oscilógrafo, há um forte accretio pericardii partialis. É certo estarmos perante aderências ao mediastino! E é isto que vocês pespegam à minha frente, pensando: «Deixem-no lá! Também ele vai falhar!»

 

Aproximou-se mais da mesa de operações, colocou-se na posição do operador-chefe e observou o que se fizera até ao momento. Não havia nada a criticar, tinha de confessá-lo honestamente. O coração, envolto na sua couraça, apresentava uma imagem desoladora: era uma grande massa cinzenta esbranquiçada perfurada por veias e artérias, mais lembrando uma bomba inútil. Podia bater-se-lhe com um martelo como se se tratasse de uma pedra.

 

- Pois bem! - disse Volkmar, curvando-se sobre o tórax aberto. - Ponhamos a funcionar a circulação. Estão correctos todos os valores relativos ao sangue?

 

- Para quê? - perguntou do lado o dr. Nardo.

 

- Para quê? -Volkmar cravou os olhos nele e, subitamente, deu um berro que ressoou nas paredes de azulejo. Porque quero salvar este coração! Porque este ser humano tem de salvar-se! Porque não se trata de um pedaço de carne que retalhemos a nosso bel-prazer! Esta mulher vai poder passear no parque dentro de um mês! Compreendeu, senhor Nardo?

 

- Não, colega!

 

- Então vou ser mais claro: se eu descobrir nos preliminares operatórios qualquer erro ou omissão nunca mais o deixarei em paz. Compreendeu agora?

 

- Não! Não admito que me diga isso! - gritou o dr. Nardo, exaltado.

 

- Cale-se! - disse de súbito uma voz áspera e gelada proveniente de um alto-falante oculto. - Pietro, o dr. Volkmar é quem manda!

 

- Ah! Está a ouvir Dom Eugênio?! - exclamou Volkmar.

 

- Eu ouço e vejo tudo através da câmara de televisão. - A voz do dr. Soriano tinha voltado a ser calma. - Na sala de operações só você dá ordens! Nesse local você é rei... ou Deus! Ao seu gosto!

 

Os valores que foram rapidamente transmitidos ao dr. Volkmar estavam certos. Nada fora esquecido. Podia iniciar-se a operação propriamente dita: a remoção da couraça cardíaca. A circulação fazia-se através do aparelho coração-pulmão. Embora não o sentisse, a idosa senhora voltava a ter uma circulação normal como a não tinha de há muito tempo para cá.

 

Volkmar precisou de três horas para conseguir remover as acumulações calcárias, permitindo assim que o coração voltasse de novo a poder expandir-se. Porém, o miocárdio, isto é, o conjunto de músculos cardíacos e de tecido fibroso, tinha sido tão afectado pela pericardite que a operação podia ser considerada como constituindo apenas um alívio passageiro.

 

Chegara-se ao momento pelo qual o dr. Nardo (e o dr. Soriano frente à câmara de televisão) tanto tinham esperado: a questão que se punha agora era saber se a medicina se detinha aqui ou se a cardiocirurgia podia descobrir um novo mundo. Esse coração velho, cansado e doente recomeçou a bater lenta e penosamente após o sangue ter sido impelido de novo e obrigado a circular normalmente através de um impulso eléctrico. O ser humano deitado sobre a mesa operatória vivia, mas vivia apenas para sofrer torturas em cada novo dia que passasse.

 

- Bravo! - disse a voz do dr. Soriano através do alto-falante. - Foi um trabalho magistral! A demonstração de que tem mãos de ouro, dr. Volkmar, e além disso, a coragem de um tiranossauro!

 

Volkmar afastou-se da mesa de operações e deixou que o dr. Nardo e a sua equipa voltassem a fechar o tórax.

 

- Sinto-me cansado! - disse alto, olhando para a câmara de televisão. - Estive a beber a noite inteira! A mulher vai continuar a viver, talvez dure mais meio ano.

 

- Se ela fosse mais nova, digamos com quarenta e tal, talvez aguentasse um novo coração ...

 

- Por favor, Dom Eugênio! - disse Volkmar com voz dura. - Esse é um assunto que me recuso a falar consigo! Cumpri o meu dever. Agora deixe-me em paz!

 

Deixou a sala de operações através da porta automática de vidro; na antecâmara arrancou a touca, a máscara, as luvas e o avental como se estivessem infectados e passou para o compartimento onde deixara o fato. Mãos solícitas tinham-no desinfectado e passado a ferro.

 

Nesta sala encontrava-se também o dr. Soriano, sentado à frente da televisão. Aplaudiu-o quando o viu entrar. Num canto, encolhida numa cadeira branca, encontrava-se Loretta com o rosto desviado do monitor. Estava muito pálida, muito impressionada e aparentemente parecia excitada.

 

- Loretta quis assistir! - disse Soriano levantando-se e apertando ambas as mãos de Volkmar. - Mas não conseguiu olhar nem uma única vez para o écran. Quando a operação terminou disse, porém: «Como pode uma pessoa realizar milagres destes?!» Tenho de lhe dar razão.

 

- Não há milagres, Loretta - disse Volkmar, fazendo-a levantar da cadeira.

 

Como se fossem um par de namorados, sozinhos, na clareira de um bosque, ela passou-lhe um braço à volta da cintura.

 

- Foi a minha quadragésima terceira operação ao pericárdio ... isso faz-me ter uma certa prática.

 

- Mesmo assim - retorquiu ela -, é incrível! Diz-se que o homem mais solitário do mundo é o pugilista quando se encontra no ringue. Eu penso que um cirurgião perante um corpo retalhado ainda se encontra mais só.

 

Soriano olhou para a filha. Aquela meiguice parecia não lhe agradar.

 

- Vamos! - disse.

 

- Eu ainda queria visitar as salas de observação e de cuidados intensivos!

 

- Com muito prazer!

 

Abandonaram a sala, entraram de novo na cabine pneumática e partiram.

 

- Loretta não deve estar interessada - disse Soriano quando pararam. - Proponho que nos encontremos dentro de duas horas no Palermo Palace, onde jantaremos. Deseja algo de especial, dottore?

 

- Sim. Uma suculenta sopa de carne e um pé de porco grelhado.

 

- Combinado. Loretta, será melhor encomendá-lo no Pallace. Eles têm lá um cozinheiro austríaco que deve saber preparar este prato!

 

Esperaram até que Loretta descesse no elevador e voltaram a deslocar-se rapidamente na cabine. Depois desceram noutro elevador até à cave, que se encontrava a uma profundidade de dois andares.

 

- E aqui a sala de cuidados intensivos?

 

- Não. Encontramo-nos numa parte do edifício que só alguns médicos conhecem. Como sabe, eu estou a construir nas montanhas, próximo de Camporeale, uma grande clínica e um sanatório para crianças. Mas isso é de certo modo apenas a fachada. Na realidade, ali irá ser instalada a maior clínica cardiológica do mundo. Porém, o que ali for realizado será preparado aqui. O que lhe vou mostrar tê-lo-á visto já mil vezes em Munique: ratos, cobaias, coelhos, cães, macacos, porcos, carneiros... um jardim zoológico completo, necessário para nele se aprender a dar saúde aos seres humanos.

 

- Quer dizer que me enganou, Dom Eugênio! - Volkmar encostou-se à parede da cave. Era revestida a azulejos brancos, tal como o bloco operatório, e brilhava de limpeza. «Comparadas com estas, as nossas salas de vivissecção não passam de chiqueiros», pensou. «E os nossos laboratórios na velha clínica? Melhor será nem pensar neles.»

 

- O dr. Nardo não consegue avançar - disse Soriano. - O maior período de tempo que conseguiu fazer sobreviver um cão foi de cinco dias. Até cantou, tão feliz se sentia! Na maioria dos casos morrem com infecções pulmonares.

 

Abriram uma porta pesada de ferro, à prova de som, e ao entrarem na cave foram recebidos por inúmeras vozes de animais. Dominava a gritaria dos macacos. Os cães quase não ladravam, apenas ganiam ao aperceber-se da presença de pessoas.

 

O dr. Nardo aproximou-se deles vindo do outro lado da enorme sala. Estava acompanhado de dois tratadores que fixaram Volkmar com o mesmo espanto evidenciado pelas enfermeiras. Era como se tivesse caído de uma estrela longínqua.

 

- Está tudo em ordem - disse, antes de Volkmar poder fazer qualquer pergunta. - A paciente entra para a sala de cuidados intensivos dentro de dez minutos.

 

- É isso a única coisa que me interessa - respondeu Volkmar, agressivo.

 

Aproximou-se de uma jaula onde, sobre uma espécie de esteira, se encontrava deitado um chimpanzé. O tronco estava envolvido em ligaduras. O animal fixava as pessoas com os seus grandes olhos tristes, esforçando-se por respirar. Sempre que inspirava ouvia-se um ruído parecido com o rolar de bolas de chumbo sobre a pele de um tambor.

 

- Foi operado anteontem - explicou o dr. Nardo. Transplantação da aurícula direita, da veia cava e da parte inferior da artéria pulmonar.

 

- Dê-lhe um soporífero! - disse Volkmar, desviando o olhar.

 

O sofrimento dos animais chocava-o sempre, embora há muitos anos trabalhasse com eles e soubesse que muitos dos progressos da medicina não teriam sido possíveis sem esse sacrifício. Com efeito, o ser humano deve a sua actual longevidade às experiências feitas com animais. Trata-se de uma verdade terrível, mas que outro caminho se pode seguir?

 

Passaram depois a um compartimento com o aspecto de uma sala de cinema, equipada com um écran e uma cabine para os aparelhos de projecção. Um tratador ocupava-se, entretanto, em aliviar o sofrimento do chimpanzé com o meio coração alheio.

 

- O dr. Nardo vai mostrar-nos agora a sua série de experiências - disse o dr. Soriano. - Os seus métodos, os seus êxitos, os seus insucessos.

 

Apagou-se a luz. Sentaram-se nas confortáveis cadeiras, ouvindo atrás de si o ruído do projector. Foi então exibido um filme colorido, mostrando imagens claras e nítidas colhidas com uma teleobjectiva directamente sobre a mesa de operações.

 

Volkmar observou, sem se manifestar, o modo como o dr. Nardo e os seus assistentes retiravam a quase totalidade do coração de um cão e transplantavam outro em seu lugar Tratava-se de um acto unicamente técnico. A projecção era entrecortada com tabelas referentes a experiências com soros, à composição proteica, à análise de tecidos, a valores hematológicos. Depois de um lapso de dois dias, via-se o mesmo cão sobre a mesa de autópsias. Reconhecia-se nitidamente o modo como o coração implantado e todos os mecanismos de defesa do organismo se encontravam destruídos, não passando de pedaços de carne sem vida.

 

Assim se passaram duas horas vendo filme após filme...

 

Para o dr. Nardo, tratava-se de uma terrível provação: era a sua capitulação que estava a ser exibida!

 

- O que é que está errado? - perguntou Soriano quando as luzes se acenderam de novo.

 

- Nada... e ao mesmo tempo tudo!

 

- Que quer dizer com isso?

 

Recostou-se na cadeira. O dr. Nardo regressou da cabina de projecção e sentou-se ao lado de Volkmar. Soriano ofereceu-lhes cigarros. Volkmar tinha vontade de tomar um conhaque duplo, mas ali não havia nada para beber.

 

- Vocês operam tal como nós, tal como todos aqueles que fazem transplantações de corações. À parte algumas variantes, os métodos são idênticos, bem como as pesquisas biológicas, os preliminares e os cuidados pós-operatórios. Também são idênticos os insucessos! Na América, sobretudo em Houston, no Texas, crê-se firmemente no futuro sucesso da implantação de corações artificiais de plástico. Em Paris prefere-se utilizar métodos naturais: os corações humanos são substituídos por outros corações humanos, sendo em contrapartida aplicada uma intensa neutralização dos mecanismos de defesa do organismo. Isso é possível, naturalmente... No entanto, sucede que uma simples constipação pode ser fatal e quem tossir pode logo encomendar o caixão. Um coração novo não pode viver com estas condicionantes.

 

- Mas isto é o início, Enrico! - exclamou Soriano.

 

- Há sempre um início. O problema consiste em saber o tempo que ele dura! No Antigo Egipto os médicos já faziam transplantações de crânios, e tanto o cancro nos ossos como o carcinoma do intestino grosso eram já conhecidos! Tudo isto foram inícios... E entretanto o que avançámos nós em quinhentos anos de medicina no que respeita ao problema do cancro? A detecção precoce? Muito bem! A intervenção, as radiações, a quimioterapia. Mas sejamos honestos - o que para nós médicos é muito difícil! -, a que chegámos? Quando detectamos metástases limitamo-nos a falar delas com palavras bonitas.

 

Apagou o cigarro num cinzeiro embutido nas costas da cadeira da frente.

 

- Nas transplantações do coração ainda somos crianças de mama, mas os seios que nos nutrem são renitentes!

 

- E o senhor, dottore?

 

- Eu, como? -    

 

- Por que razão os animais das suas experiências duram mais tempo do que os dos outros cirurgiões? Não me venha agora dizer que se trata de acasos! Estes animais que aqui viu eram cães alemães e macacos também, por assim dizer, alemães, alimentados com bolos de carne e mão de porco! Mandei vir tudo o que o senhor publicou e tudo quanto sobre a sua pessoa se escreveu na Alemanha. É evidente que o senhor tem sobre estes problemas uma visão totalmente diversa da dos outros médicos.

 

- Tecem-se sempre lendas à volta dos mortos. Lembre-se que estou oficialmente morto!

 

- Depois de amanhã, sem dúvida alguma. Já lhe disse, dottore, que o seu cadáver irá dar à costa. - Soriano juntou as mãos. - O senhor vai ser o primeiro médico capaz de transplantar um coração. Estou certo disso!

 

- Existem muitos médicos que o sabem fazer.

 

- Corações que não são rejeitados?

- Não! Ainda não...

 

- Aí está! - Soriano levantou-se, excitado. - É «isso» o futuro, por «isso» teremos de tratá-lo como um deus vivo! Quando diz «ainda não» eu tenho a certeza de que um dia dirá: «conseguimos!» Tanto eu como o senhor temos todo o tempo necessário para esperarmos.

 

Necesssário será também reconhecer que as autoridades da Sardenha se tornaram dignas de louvor: com efeito, após terem notificado a dr.a Angela Bliithgen de que não havia qualquer hipótese no que se referia ao reaparecimento do dr. Volkrnar, não se limitaram a deixá-la sozinha no seu quarto de hotel em Cagliari, mas deixaram que o comissário policial responsável pelo caso se ocupasse dela com simpatia. Embora Angela não gozasse dos direitos de uma viúva nem as esporádicas relações amorosas com Volkmar justificassem um tão grande desgosto, deu-se no seu íntimo uma marcada transformação.

 

Enquanto no início se tratava apenas de sentimentos de culpa - acusava-se de não ter amado Heinz tanto quanto ele o merecia -, agora deixava-se invadir pelo arrependimento de ter estragado as mais belas horas das suas relações apenas para ser fiel aos seus rígidos ideais de emancipação: uma mulher não se submete a um homem, nem mesmo na cama; também aí ela se deve sentir superior. Assim como se diz: «muito obrigada pela bebida!» também se pode dizer: «foi agradável estar contigo na cama, adeus!» Desta forma, dá-se a entender ao homem que ele não é assim tão importante’ para a mulher como poderia julgar.

 

Essas horas de ternura demasiado benevolente, de felicidade por demais reprimida, de entrega física condicionada, já não podiam ser alteradas. Além disso, reconhecia agora ter amado Heinz profundamente. Estando já com trinta anos, seria difícil voltar a encontrar um homem a quem se sentisse tão ligada como a Volkmar.

 

Como é evidente, estes factos não eram conhecidos do comissário da polícia de Cagliari, nem lhe diziam respeito. Porém, quando Angela Bliithgen manifestou o desejo de passar algumas semanas nas proximidades do local do acidente, mandou fazer uma série de telefonemas e conseguiu descobrir uma pequena casa de pescador para morar, embora não fosse este o lugar próprio para albergar uma «madame» alemã. Aí vivia o pescador Giovanni Responatore - o nome sonoro era a única característica da sua pessoa - com as suas redes e o seu velho barco, duas cabras, um porco, um burro e a mulher, podendo a ordem da enumeração dar-nos uma ideia da sua concepção de valores. Quando os carabinieri o informaram de que teria de hospedar umasignorina eram ordens de Cagliari -, para ele foi como se uma tempestade tivesse subitamente rebentado. Aos berros, obrigou a mulher, Recha, a trabalhar ainda mais, mandou-a limpar a casa e, metendo-se no barco, foi buscar uma grande lagosta ao viveiro, resignando-se a sacrifICar algum arroz para a preparação de um suculento risotto.

 

- Ela vai fazer-te ganhar muitas liras! - disse-lhe o carabinieri depois de Giovanni se ter lamentado durante cerca de uma hora. - Além disso, é um pouco louca. Espera por um morto que nunca mais vai aparecer.

 

- Ah! - disse Giovanni. - Então ela é uma dessas! Mas porque tinha de vir para minha casa?

 

- Porque o homem se afogou nas proximidades deste local.

 

- O alemão da tenda? ::

 

- Esse mesmo.

 

- Ela é a viúva?

 

- Parece que sim. De OUTRO MODO estaria A À espera de um cadáver? Vai ficar admirada com o seu aspecto quando der à praia.

 

Assim, não sendo possível evitá-lo, Angela Bliithgen hospedou-se em casa de Giovanni Responatore, comeu o risotto e os deliciosos bocados de lagosta, bebeu meio litro de vinho tinto da região e foi dar um passeio ao longo da praia.

 

Giovanni observava-a por detrás das redes estendidas sempre a precisarem de ser remendadas. «Pobre mulher», pensava ele. «Tão nova, tão bonita, com a vida à sua frente! E o que faz? Passeia à beira-mar intimando-o a restituir-lhe um homem morto.»

 

Nessa mesma noite, em que deitada no saco de palha colocado sobre um estrado de madeira Angela dizia de si para consigo: «Se permaneceres aqui mais de duas semanas começarás a espalhar cinza sobre os cabelos e ficarás completamente doida!» - um barco a motor da Companhia de Frutas de Adriano Oreto contornava a porta mais meridional da Sardenha, aproximando-se, de luzes apagadas de Capo San Marco. O facho de luz do farol passou por cima dele. Os motores foram desligados e os seus tripulantes estudaram mais uma vez nas cartas marítimas as correntes nelas indicadas.

 

- Duas milhas mais para norte! - disse o que comandava.

- Não se pode, porém, ter a certeza absoluta!

 

- Cumprimos o desejo de Dom Eugênio, que mais pode ele querer?

 

Não sendo, por natureza, uma pessoa que costumasse ter problemas de consciência, Oreto sentia-se, no entanto, invulgarmente pouco à vontade. Ao pé de um tabique que o esparava do leme, encontrava-se o cadáver, envergando o calção de banho de Volkmar, e que o velho dentista garantira possuir agora” a mesma dentadura do médico, não lhe faltando uma única obturação. Apenas diferia ligeiramente o ângulo em que os dentes estavam implantados na maxila, o qual difere bastante de pessoa para pessoa, mas pensava-se que ninguém iria reparar neste promenor. O estado do cadáver não o permitiria decerto. Antes de ser posto a bordo, fora passado através das hélices de um barco e o seu aspecto só pessoas com nervos fortes suportavam. Embora Oreto se gabasse de os ter, o pequeno-almoço viera-lhe à boca ao olhá-lo.

 

A sudeste de Putzu Idu atiraram o corpo ao mar e ficaram a observá-lo enquanto flutuava durante uns breves segundos, afundando-se depois. Inverteram a marcha do barco, desta vez rumo ao sul, tendo concordado que a ocorrência merecia ser esquecida com vinho.

 

- Deve ter sido um homem importante - filosofou Oreto mais tarde, sentado na cabina. - Não aquele que nós atirámos ao mar mas o outro. O que se pretende fazer crer que está morto! Esqueçamos tudo, amigos ... Eu quero continuar a ter a confiança de Dom Eugênio.

 

O cadáver foi lentamente empurrado pela corrente para Capo Manu, tal como fora calculado em Palermo. Contando com as marés, ele deveria dar à costa dentro de dois dias.

 

A partir de então, a morte do dr. Volkmar seria definitivamente confirmada.

 

Ana chegou a Nápoles ao amanhecer.

 

Lavou ainda a louça do pequeno-almoço dos passageiros. Depois pendurou a bata e o avental num prego da copa, e prescindindo do salário desse dia, abandonou o navio quebrando assim o contrato de trabalho por ela assinado. Ninguém deu por ela no tumulto da descarga da bagagem, mercadorias e automóveis. Assim, pondo ao ombro a sua saca de lona, conseguiu chegar aos escritórios da companhia de navegação e perguntar quais eram as carreiras que seguiam para a Sicília.

 

Havia maneiras mais simples e mais rápidas para chegar a Palermo, como, por exemplo, o avião, mas isso teria engolido o montante de liras que ela e Ernesto tinham recebido pela morte de Luigi. Ana sabia fazer contas e, na sua existência de vinte anos, aprendera a viver com um mínimo. Só tocaria nas quinhentas mil liras que trazia ao pescoço quando não lhe fosse possível continuar a manter-se pelos seus próprios meios. Era habilidosa, forte, estava habituada a trabalhar duramente, quer no clima frio da montanha, quer no ambiente quente e abafado de um estábulo durante mais de doze horas, e sem se lamentar. Iria conseguir chegar a Palermo sem mexer no dinheiro. Às vezes falava com as notas, chamando-lhes «Luigi, meu irmão...». Constituíam para ela uma espécie de augúrio de que encontraria o homem que assassinara Luigi.

 

Depois, entregaria o dinheiro a um asilo para órfãos.

 

Jurara-o, quando chegara à encruzilhada onde se encontrava a capela de Nossa Senhora de Atzara, após ter percorrido o caminho que a trouxera das montanhas de Gennargentu. Passaria então a ser dinheiro limpo, pois o sangue lava-se com sangue. É assim que se pensa nas montanhas da Sardenha.

 

Ana ficou sentada no porto de Nápoles até cerca do meio-dia, cuspindo nos homens que a abordavam com propostas duvidosas e decidindo-se, depois de ter dado uma volta pelas agências de emprego, a aceitar um lugar como mulher de limpeza num paquete de luxo que partia de Nápoles e fazia escala em Palermo. O navio era o segundo a partir, devendo chegar a Palermo dentro de dois dias, depois de ter parado nas ilhas Stromboli e Lipari, o que permitiria aos americanos e aos alemães prestarem mais atenção às máquinas fotográficas do que às suas companheiras.

 

Palermo! Dom Eugênio! E o homem que assassinara Luigi. Como se chamava ele? Ganazzo ou qualquer coisa idêntica. Havia de encontrá-lo! Quem já caçou lobos nas montanhas também deve ser capaz de encontrar um homem.

 

«Em seguida, Enrico... Que admirado vai ficar quando Ana se apresentar na sua frente e disser: Aqui estou! Este mundo não pode ser assim tão grande que não me seja possível encontrar-te. Am o-te! Sei que és um homem importante e famoso, mas que importa se eu te amo? Sei que sou bonita. Os meus seios são belos e firmes, o meu corpo esguio, as pernas longas e bem feitas, o regaço cheio de penugem negra encaracolada. O que importa se, por seres assim tão famoso, te não quiseres mostrar comigo? Manter-me-ei invisível, ficarei num canto escuro até me chamares. Ficarei ao pé de ti sem que ninguém me veja ... mas estarei contigo. É essa a vida que pretendo. Nada mais desejo, Enrico. Apenas estar contigo quando disseres: Ana, vem cá!’ Deixa-me ficar contigo, Enrico.»

 

Deram-lhe uma pequena cabina situada mesmo acima da linha de flutuação. Era mais limpa do que a do navio de cabotagem, o pessoal era mais bem educado e, por isso mesmo, mais habituado a ter êxito nas suas propostas. Aqui já não era possível dar um pontapé numa canela ou no baixo ventre. O primeiro criado que a abordou perguntando-lhe se o não deixava admirar aquilo que escondia dentro da blusa recebeu a seguinte resposta:

 

- Eu venho da Sardenha, sua besta! Vá mas é para as suas turistas suecas!

 

- Olha que isso pode fazer-te ganhar dinheiro! - disse ele com firmeza. - Nós levamos, pelo menos, setenta carcaças a bordo que te pagariam cerca de cem dólares ou mais. Se nos juntássemos poderíamos comprar uma casa ao cabo de seis viagens.

 

- Eu tenho outros projectos! - respondeu Ana. - Coisas mais importantes.

 

- Talvez um bordel em Messina ou em Palermo? Ganharás mais dinheiro e de uma forma mais fácil neste navio, Ana. Pensa bem!

 

Ela nem se deu ao trabalho de pensar. O seu espírito estava cheio de desejo de vingança e de Enrico Volkmar. Quando o navio deixou o porto de Nápoles acompanhado do apito das sirenes e da música da orquestra de bordo, Ana encontrava-se na parte reservada do deck inferior, junto aos rolos de cabos e aos grandes contentores e, encostada à amurada, olhava para o mar em direcção à Sicília.

 

Mais dois dias! Apenas dois dias e duas noites. Depois, compraria em Palermo uma faca afiada de dois gumes e uma segunda faca com um punho tão bem calibrado que, ao ser atirada, nunca falhasse o alvo. Fora Luigi quem lho ensinara. Era necessário ter uma certa sensibilidade na palma da mão, habituar-se ao peso do cabo e da lamina e, com o tempo, saberia com cada nervo do seu corpo se era essa a faca adequada para um lançamento perfeito.

 

No grande salão de baile do paquete de luxo tinham-se reunido, entretanto, os primeiros passageiros envergando smokings e vestidos compridos. Os braços, os dedos, as orelhas e os pescoços brilhavam de jóias. A orquestra tocava blues. Imponente, com os seus alamares de ouro, o chefe das criadas corria de um lado para o outro a ver se tudo estava em ordem e mandava decorar a mesa do comandante com grandes ramos de flores.

 

Ana saiu da amurada, invisível como uma sombra, e desceu a estreita escada de ferro que conduzia ao ventre metálico do navio. «Os que estão lá em cima têm dinheiro, muito dinheiro. Mas eu tenho o meu desejo de vingança e Enrico Volkmar. Sou mais feliz do que eles».

 

Tal como Soriano prometera, o jantar no Palermo Palace foi excelente. O cozinheiro austríaco veio até à mesa informar-se se a sopa de carne e o pé de porco grelhado tinham agradado ao cliente. Porém, apesar de toda essa perfeição, a refeição foi silenciosa. O dr. Soriano levantava-se de vez em quando para responder a chamadas telefónicas, dizendo que «a benemerência exige esforço!» e Loretta evitava mencionar a operação.

 

- Amanhã tomarei um avião para o continente - disse, quando o pai voltou a sair da mesa. - Irei a Salermo. Uma tia minha adoeceu.

 

- Então não poderá mostrar-me Palermo?

 

- Mais tarde, Enrico.

 

- Se eu ainda estiver aqui.

 

- Estará com certeza! - afirmou, olhando-o com aqueles olhos luminosos que lhe tolhiam o raciocínio. - Peço-lhe! Será necessário voltar assim tão depressa para a Alemanha?

 

Ele não respondeu. Como dizer-lhe: «Eu nunca mais posso voltar. Morri! O meu cadáver dará à costa amanhã ou depois de amanhã e será identificado pela dentadura. O teu pai, querida Loretta, fez um trabalho perfeito! Quando eu deixar Palermo será uma fuga, uma corrida para salvar a vida, pois o dr. Soriano vai-me perseguir como jamais algum animal feroz foi perseguido. Ambos estamos cientes que o meu reaparecimento seria o seu fim. Só tu o ignoras, minha Loretta angelical.»

 

- Ainda posso demorar-me alguns dias - disse por fim, ao sentir a mão dela sobre a sua, como que a pedir-lhe que respondesse através de uma leve pressão. - Quanto tempo se demorará em Salermo?

 

- Talvez uma semana.

 

«Nesta semana travar-se-á a luta decisiva», pensou Volkmar. «Soriano afasta a filha para poder lutar comigo num ringue invisível. Até aqui, ainda não perdeu nenhum combate: eu operei, eu vi as experiências feitas no domínio das transplantações, deixei-me encadernar como um chulo, fui integrado no seu círculo familiar... e apaixonei-me por Loretta, o que é de tudo o mais grave, porque não tem solução. O meu amor por Loretta torna-me um seu cúmplice.»

 

- Posso esperar uma semana - disse com esforço.

 

- Obrigada, Enrico! - voltou a apertar-lhe a mão. Ele não ousou olhá-la. - Vou ficar a contar os dias.

 

- Eu também!

 

O sentido com que o disse era diverso do de Loretta, mas antes de poderem continuar o diálogo Soriano regressou à mesa, alegre e bem disposto, afagando o cabelo negro de Loretta com orgulho paternal.

 

Paolo Gallezzo comunicara-lhe terem recolhido na região de Calascibetta um jovem moço de lavoura que se dirigia a Catania para se empregar numa fábrica de conservas. Chamava-se Leone Bisenti, tinha vinte e cinco anos, era forte e saudável. Na estrada que conduzia de Racalmuto para Canicatti dera-se entretanto um acidente, no qual um automobilista conduzindo um velho «Fiat» se esbarrara contra um monte de pedras que, não havia ainda um quarto de hora, se encontrava na estrada. A vítima era Arrigo Melata, de 54 anos de idade, mecânico de profissão. Embora não ficasse ferido e só tivesse sofrido um forte choque, fora mesmo assim levado pelos homens de Gallezzo para destino desconhecido. Antes de a polícia de trânsito ter acorrido e procurado encontrar o rasto de Bisenti e Melata todos os vestígios tinham desaparecido. De Arrigo apenas restava a carcaça do seu velho automóvel, de Leone não se via sinal algum. Dirigia-se a Catania pedindo boleias. Quem poderia descobrir o seu paradeiro?

 

- Está tudo preparado, Dom Engénio! - dissera Gallezzo.

- Pode-se começar.

 

- Dentro de alguns dias! - respondera Soriano. - Quando se pretende que uma planta cresça é necessário regá-la. A fixação da raiz é o mais difícil, os frutos vêm naturalmente.

 

Quatro dias após a partida de Loretta para Salermo encontrava-se Volkmar de novo a nadar na grande piscina da vivenda de Solunto quando Soriano se aproximou do bordo, agachando-se. O médico tinha passado os dias a jogar ténis e a nadar. Também visitara por duas vezes a paciente recém-operada. A saúde da idosa senhora era razoável e, como se tratava de um organismo resistente, já recomeçava a beber vinho tinto com ovo batido.

 

- Uma chamada da clínica! - disse Soriano quando Volkmar se aproximou da beira da piscina. - Dois casos recém-chegados.

 

- Eu, não! - retorquiu este em tom de recusa. - O dr. Nardo!

 

- Dois casos típicos, dottore. Um recebeu uma facada no coração, já não pode ser salvo... o outro recebeu um tiro na cabeça e não vai conseguir sobreviver. Mas o coração está óptimo. Tem vinte e cinco anos! Ambos foram vítimas de umavendetta. Em teoria, podia salvar-se uma dessas vidas se o coração golpeado fosse substituído pelo coração bom...

 

Volkmar afastou-se da beira, nadando até ao centro da piscina.

 

- Não! - disse, esperneando na água - Não e não! As probabilidades são de 99 para cem.

 

- Um por cento conta assim tão pouco em termos médicos? Julgava que em medicina uma esperança, por mais ténue que fosse, constituía uma obrigação profissional!

 

- Nunca se fez a transplantação do coração de um ser humano para outro! As experiências foram realizadas apenas com animais. Quando se utilizaram pessoas, tratava-se de experimentar técnicas operatórias que, nesse caso, foram levadas a cabo em cadáveres.

 

- Eu sei, Enrico! - Soriano mantinha-se no bordo da piscina e fez um gesto com a mão convidando Volkmar a sair. - Será você o primeiro a fazê-lo num ser vivo.

 

- Serei a última pessoa que o senhor poderá convencer! Volkmar manteve-se no meio da piscina, flutuando.

 

Apoderara-se dele uma suspeita terrível que não ousava exprimir.

 

- Dom Eugênio, sei perfeitamente o motivo por que enviou Loretta para Salermo. Pode sempre encontrar-se uma tia doente. Exilou-a temporariamente!

 

- Exacto! - Soriano sentou-se sobre o bloco de betão em que tinha sido montada a prancha de saltos. - Eu desejava estar sozinho consigo para tudo aquilo quanto está para vir, Enrico. A operação que você fez já impressionou Loretta fortemente... De facto, ela é um anjo, como você deve ter notado. E embora o tenha admirado e no seu entusiasmo infantil ...

 

- Loretta... criança? O senhor não tem olhos, Dom Eugênio? Será que também no seu caso se confirma o dito que «em relação a uma filha o pai é como um cego entre pessoas que vêem» ?

 

- Saia cá para fora, dr. Volkmar! - exclamou Soriano.

 

- Não! Quando nado não o faço durante menos de uma hora. É por isso que o seu plano de me fazer dar à costa afogado é perfeitamente idiota. Quem me conhecer...

 

- O homem com a facada no coração e o outro com o tiro na cabeça têm já poucas hipóteses. O dr. Nardo mantém-nos vivos artificialmente.

 

- O do tiro na cabeça... enfim... não sei a sua localização. Quanto à facada, pode ser suturada. Até o dr. Nardo sabe fazer isso.

 

- Ele diz que não.

 

- Então posso continuar a nadar.

 

- E o senhor ainda se considera médico?! A grande, a secreta esperança da cardiocirurgia? O possesso, como lhe chamavam em Munique? O cirurgião das mãos de ouro? Sabe que há dois homens a morrer e continua a nadar? Está disposto a tomar a responsabilidade?

 

- Soriano! Não me fale o senhor em responsabilidade! Volkmar voltou a nadar até à beira e segurou-se ao bordo da prancha de saltos. - Por que razão é que esses feridos vieram parar a um «asilo de velhos» e não ao serviço de cirurgia do hospital de Palermo?!

 

- Foram pessoas amigas que os trouxeram, porque sabem que temos uma espécie de clínica experimental...

 

- Há aí algo de suspeito, Dom Eugênio! Ou será que as vinganças sangrentas da Sicília vêm todas parar ao seu escritório de advogado?!

 

- Com efeito, algumas delas, Enrico - Soriano sorriu maliciosamente. - Eu sou muito estimado.

 

- Já me tinha apercebido.

 

- As preocupações de certas famílias são também as minhas. Nós, italianos, temos um forte sentido de unidade. A Sicília constitui um exemplo típico, pois os sicilianos de todo o mundo consideram-se irmãos.

 

- Excepto nos Estados Unidos, onde as famílias pertencentes à «Cosa-Nostra» se cumprimentam umas às outras com rajadas de metralhadora.

 

- Não falemos agora de conflitos familiares, Enrico! - o dr. Soriano inclinou-se, batendo com a mão na prancha. Está disposto a ajudar, ou não?

 

-. Irei apenas ver os doentes!

 

- Maria seja louvada! Isso já é um progresso! Volkmar saiu da piscina e pôs um roupão branco de banho

 

pelos ombros. Tapou a cabeça com o capuz, ficando com o aspecto de um monge.

 

- Meu Deus, como pode o senhor invocar Maria?! O senhor, entre todas as pessoas!

 

- O que tem a ver a religião com o negócio? - disse Soriano, impassível. - Eu sou uma pessoa crente.

 

- Nunca compreenderei a moral por que se rege. Volkmar secou-se com uma toalha turca e com o próprio

 

roupão, despiu o calção de banho e correu para casa. Worthlow esperava-o no terraço com um outro roupão seco. O dr. Soriano acompanhou-o na corrida; era extraordinário como ainda tinha resistência para tal.

 

- Tem um belo corpo, Enrico - disse.

 

- Se é o senhor quem o diz, na sua qualidade de homem ...

- respondeu Volkmar, enfiando o roupão.

 

- Que pena não o podermos manter com todo esse vigor masculino durante um período de mais de duzentos anos.

 

- Talvez os meus colegas da bioquímica consigam um dia uma proeza dessas. Para já, a mais pequena das células do nosso corpo ... para não falarmos já das células do cérebro ... ultrapassa de longe a nossa capacidade de criação.

 

- O carro espera-o, Sir! - anunciou Worthlow, muito hirto. - A sua roupa está no salão. Pode mudar-se imediatamente se quiser.

 

- Admiro a sua organização, Dom Eugênio. Volkmar entrou na sala e vestiu-se, no que foi ajudado não

só por Worthlow, como também por Soriano, que lhe estendeu as peúgas e a gravata. Como é sabido, nos países do Sul um homem de uma certa posição social não se apresenta sem gravata mesmo em dias de enorme calor. Os turistas e as pessoas de baixa condição reconhecem-se pelos calções curtos e pelas camisas abertas até ao umbigo.

 

- Quando volta Loretta? - perguntou Volkmar, subitamente.

 

- Está à espera do meu telefonema.

 

- Ah! Quer dizer que sem operação não há Loretta? Volkmar sorriu com esforço. - E se eu lhe disser, Soriano, que a sua filha me não interessa?!

 

- Eu teria de responder-lhe que as mentiras não são o seu forte.

 

- Mas eu pensava que ela iria casar com um italiano rico e tornar-se uma boa mãe de família ...

 

- Sim! - foi a resposta lacónica.

 

O mordomo atou a gravata de Volkmar de tal maneira, que o nó no estilo do duque de Windsor se apresentava sem qualquer ruga, mais parecendo ter sido pintado.

 

- O senhor ama a minha filha? - continuou.

 

- Isso não teria sentido.

 

- Como nós nos entendemos bem, Enrico. - O dr. Soriano sorriu com benevolência. - Podemos partir?

 

- Podemos - disse Volkmar, enfiando um casaco de listras azuis, igual aos que se usam quando se está num iate. O seu aspecto era magnífico.

 

- A minha única desvantagem é ter jurado, como médico, que estaria sempre pronto a ajudar todos em todo o lado. Mesmo quando é o senhor a chamar-me, Dom Eugênio.

 

Já estavam à sua espera nos serviços de cirurgia, bloco III, do asilo de velhos, serviços esses que eram conhecidos apenas dos iniciados e debaixo dos quais se tinham instalado os laboratórios de pesquisa e a secção de animais. Tal como acontecera anteriormente para a operação ao coração da mulher, tudo se encontrava a postos: parecia um pequeno exército de batas verdes à espera do general. Porém, desta vez, estavam duas salas operatórias contíguas em funcionamento. Numa delas, sob uma tenda de oxigénio, encontrava-se Arrigo Melato, o homem da facada no coração, ligado por uma confusão de tubos aos aparelhos que o mantinham em vida; na outra, também ligado a um sistema de circulação artificial, jazia o jovem Leone Bisenti, considerado já clinicamente morto.

 

Volkmar encontrou na antecâmara o dr. Nardo e a sua equipa n.° 1. A equipa n.° 2 estava pronta a actuar à cabeceira do jovem. Tinham suspenso as radiografias dos dois feridos num quadro luminoso: numa via-se um ferimento profundo no coração; na outra, a destruição de uma parte do cérebro. De acordo com as regras comuns da medicina, nem deveria ser necessário desinfectar os braços e as mãos e calçar as luvas de borracha. Estava-se perante dois óbitos para o certificado dos quais apenas faltava chamar o delegado do Ministério Público.

 

- Então - perguntou Dom Eugênio, que ficara na sala adjacente e, mais uma vez, observava tudo através da televisão. - O que diz, Enrico?

 

- Mande chamar a polícia!

 

- Que espirituoso! O que pode fazer a polícia perante um caso de vendetta?

 

Volkmar não respondeu. Dirigiu-se à segunda sala de operações e constatou no electroencefalograma e num moderno aparelho electrónico para a medida dos impulsos cerebrais a morte clínica do jovem Bisenti. Parara toda a actividade cerebral, as finíssimas linhas traçadas pelo ponteiro já não se mostravam esbicadas, antes se apresentavam direitas, trémulas apenas pelo facto de o sangue estar a ser artificialmente introduzido no corpo. Isto era mais uma vez comprovado pelo oscilógrafo: o coração do jovem batia, não com regularidade, é certo, mas descompassadamente. Porém, batia, e parecia estar são. Antes de os impulsos cerebrais terem parado, fora-lhe feito um electrocardiograma (o dr. Nardo demonstrara uma perfídia absoluta) para provar agora ao dr. Volkmar que esse coração juvenil estava organicamente intacto. Era um coração vigoroso de vinte e cinco anos, o coração de um rapaz saudável da aldeia que ainda há algumas horas deixara a sua terra natal de Calascibetta na esperança de ganhar mais dinheiro na fábrica de conservas de Catania, para se poder manter, bem como à mãe, à avó, a três irmãos menores e a um tio. Todo o clã dos Bisentis lhe dera a sua bênção antes de partir. Mas a medalha esmaltada que trazia ao peito com a imagem da Madona não pudera protegê-lo: Gallezzo, «o executor», alojara-lhe uma bala no cérebro com tanta perícia que ele vivera o tempo suficiente para que o dr. Nardo ainda lhe pudesse fazer o electrocardiograma.

 

- Quais são os resultados laboratoriais? - perguntou Volkmar.

 

- Para quê? - retorquiu espantado o dr. Nardo.

 

- O senhor é ou não médico? - gritou Volkmar. Deixando a segunda sala de operações, dirigiu-se através das portas automáticas de vidro à primeira. Nem sequer olhou para o pobre homem, quase exangue, nem para a transfusão contínua de sangue que lhe estava a ser feita. Em vez disso, fixou a câmara de televisão colocada no meio da grande lâmpada da sala.

 

- Soriano - disse com voz dura -, o meu diagnóstico é que os dois feridos já não podem ser tratados clinicamente! Os aparelhos devem ser desligados. Já não tem qualquer sentido!. . .

 

A voz de Soriano soou através do alto-falante:

 

- É bom que também você o tenha constatado! Se começar agora a actuar estará a trabalhar com cadáveres, o que me parece que não vai contra a sua ética?! Estes dois seres apenas se mantêm com vida artificialmente. Por isso, comece! Tem à sua frente um coração destruído e um outro saudável. Tanto um como outro dos homens irá morrer de qualquer forma. Não é assim? Mas você será o primeiro e único médico no mundo a ter a possibilidade de transplantar um coração humano vivo. Um músculo. Um motor. Você será o mecânico que substituirá um motor por outro!

 

- O senhor é a encarnação do demónio! - disse Volkmar, chocado. - Recuso-me!

 

- Então será o dr. Nardo a fazê-lo.

 

- Tal como no chimpanzé?

 

- Sim.

 

- Mas ele praticou erros técnicos grosseiros ... :

 

- Faça você melhor, Enrico!

 

- Não!

 

- Dr. Nardo, comece a operar! - a voz de Soriano soava dura e fria. - Sem experiências não pode haver progresso!

 

Volkmar ficou sentado, com a cabeça apoiada nas costas da cadeira, de olhos fechados. Ouviu como a operação se iniciava na primeira sala de operações. Estava a ser levada a cabo a mais terrível experiência da história da medicina e ele sabia que o dr. Nardo não se encontrava à altura da tarefa, se é que se podia chamar assim. Na segunda sala de operações a outra equipa procedia de forma idêntica abrindo o tórax do jovem Bisenti. Aqui era possível actuar-se com maior negligência uma vez que Leone estava clinicamente morto, apenas trabalhando o aparelho de circulação artificial. Por detrás das suas pálpebras fechadas, Volkmar estava consciente de todas as etapas da operação, ouvindo as ordens dadas em voz abafada pelo operador da sala l - o dr. Nardo -, o tinir dos instrumentos, o ruído da bomba de sucção do sangue, o trabalhar rítmico do aparelho coração-pulmões; sentia o cheiro a sangue e, de súbito, o terrível odor a carne chamuscada.

 

Foi mais forte do que ele: estremeceu e deu um salto da cadeira.

 

- Quem está a fazer uma coagulação ?! - gritou - Qual é o idiota que está a trabalhar com o bisturi eléctrico?

 

- Faça você melhor, Enrico! - disse a voz calma do dr. Soriano.

 

Volkmar precipitou-se para a mesa operatória, arrancou o bisturi da mão do dr. Nardo e atirou-o para longe. A instrumentista desligou imediatamente a corrente do aparelho. O dr. Nardo deu alguns passos em redor da mesa e tomou o lugar do primeiro assistente. Por detrás da máscara não se podia ver o seu sorriso. Já esperava a reacção do dr. Volkmar e provocara-a cometendo conscientemente um erro. Nenhum médico teria podido manter-se calmo e impassível como se o facto lhe não dissesse respeito.

 

Volkmar mordeu o lábio inferior. Via-se perfeitamente que a equipa operatória estava muito bem treinada. Isso saltara-lhe à vista na primeira operação. O tórax fora aberto com uma notável rapidez e estava quase terminada a ligação ao aparelho coração-pulmões. Da segunda sala operatória veio através do alto-falante a primeira pergunta:

 

- Quando estão prontos? Aqui está tudo preparado para o transporte.

 

Volkmar olhou para cima, para a lente brilhante da câmara da televisão.

 

- O que eu estou aqui a fazer é um crime, Dom Eugênio! gritou com terrível desespero. - Vai-se transplantar um coração sem um mínimo de testes bioquímicos, sem nenhumas análises prévias, sem qualquer...

 

Calou-se. Embargara-se-lhe a voz.

 

Voltou a debruçar-se sobre o tórax aberto. O coração de Arrigo Melato, que um dos «ajudantes» de Gallezzo ferira com uma faca de tal modo romba e esbicada que se tornava totalmente impossível fazer uma sutura normal, ainda fremia por acção dos impulsos mecânicos que lhe eram imprimidos. O gráfico dos impulsos cerebrais no electroencefalograma era, porém, quase normal. O neurologista que controlava o aparelho ia fazendo as leituras com voz indiferente.

 

- Cortar a ligação! - comandou Nardo, friamente. Isto significava que o coração de Melata se tornara inútil. Ele vivia agora apenas através da máquina.

 

Nas duas salas operatórias reinou a partir desse momento uma tremenda expectativa. Na segunda sala também se podia ver através da televisão o que se passava na primeira.

 

Como procederia o dr. Volkmar? O que faria agora? Que ordens daria? Em circunstâncias normais, tudo isso teria sido longamente discutido com as equipas médicas e cada passo da intervenção decidido, com uma precisão de segundos, à maneira de uma reunião de estado-maior. Aqui estava, no entanto, o dr. Volkmar perante uma situação em que apenas se anteviam duas alternativas: ou actuar com a coragem de um génio, ou com a audácia de um jogador de poker.

 

A terrível facada destruíra todo o ventrículo esquerdo. Iria ele substituí-lo pelo ventrículo do jovem Bisenti? Tratava-se de uma operação que tinha sido experimentada vezes sem conta em animais: a transplantação parcial.

 

Volkmar inspirou várias vezes profundamente. Uma enfermeira limpou com um pano embebido numa solução desinfectante as gotas de suor que lhe escorriam da testa e dos olhos. Sentiu uma forte odor a álcool puro através do nariz. Só então voltou a ter voz.

 

- O coração! - disse com esforço.

 

- Como? - perguntaram da segunda sala de operações.

- Todo o coração! - repetiu, elevando a voz. E depois gritou como possesso: - O coração completo!

 

O dr. Nardo e todos os médicos que se encontravam à volta da primeira mesa operatória olharam-no como se fosse um fantasma. Também os assistentes, os anestesistas, os neurologistas o fixaram como se tivesse enlouquecido subitamente. Todo o coração? O homem delira...

 

- Todo o coração... - respondeu uma voz rouca da segunda sala operatória. - Como quiser, chefe...

 

Chefe! Esta palavra soava pela primeira vez. Volkmar estremeceu.

 

Chefe! Chefe duma clínica da Mafia! Chefe de uma equipa de médicos em que cada intervenção constituía um crime. Chefe de uma transplantação de coração que de nada servia a não ser de crua experiência com seres humanos.

 

Inclinou-se sobre o tórax aberto de Arrigo Melata e inciou a operação tal como nunca fora realizada, como nunca fora descrita em parte alguma, como ninguém antes de Volkmar a ousara fazer porque, do ponto de vista clínico, se tratava de uma loucura evidente.

 

Volkmar extraiu o coração da Melata. O órgão completo! Cortou todos os grandes vasos que a ele conduziam abaixo das ramificações ligadas ao aparelho coração-pulmões. Por outra palavras: retirou o coração da caixa torácica e colocou-o nas mãos de um dr. Nardo consternado.

 

- Leve-o a Dom Eugênio! - exclamou. Ao lado, o dr. Soriano ouvia todas as suas palavras. - Um coração cortado aos bocadinhos com um molho picante deve saber bem! A acompanhar salada e batatas cozidas. Um petisco.

 

Através da porta de vidro automática um médico trouxe, correndo, o coração de Bisenti imerso num vaso de vidro amornado contendo uma solução esterilizada. Este coração fora extraído na segunda mesa operatória tal como o de Melato. Faltava agora voltar a ligar os grandes vasos sanguíneos. Apenas algumas suturas.

 

Apenas!...

 

O dr. Nardo deixou cair o coração de Melato numa tijela de esmalte colocada sob a mesa operatória. Na sala estremeceu-se de horror

 

- Isto... isto é uma loucura! - gaguejou. - Não vai poder fixá-lo no lugar. Rasgará por todos os lados. Um coração pesa...

 

- Eu tive muito boas notas em anatomia! - respondeu Volkmar com voz cava. - Também estou ao par do peso do coração e da capacidade de resistência das suturas. Tem aqui próteses para vasos sanguíneos em teflon?

 

- Não! - disse o dr. Nardo.

 

- E é a isto que chama uma clínica moderna? - gritou Volkmar para o microfone incluído na lâmpada. - Dom Eugênio! De que se sente afinal tão orgulhoso? Os aparelhos cromados não são a prova de que se está actualizado! São mais valiosos uns pedaços de teflon do que os milhões que enterrou nesta casa!

 

Tomou o coração do jovem Bisenti e começou a uni-lo aos vasos sanguíneos do coração de Melata. Um silêncio angustiado acompanhou-o enquanto ia fazendo as finíssimas costuras nos vasos. Vários pares de olhos injectados pela excitação seguiam o processo de ligação do velho sistema circulatório com a sua nova bomba, esse músculo cor-de-rosa denominado coração que constitui um dos últimos segredos do corpo humano.

 

O trabalho durou duas horas, após o que o dr. Nardo se endireitou, sentindo dores nas costas, e suspirou fundo.

 

- Pode passar-se à normal? - perguntou. Queria com isso dizer se era possível fazer circular o sangue através do novo coração. Chegara-se ao momento máximo jamais vivido na medicina: conseguiria um coração totalmente transplantado

pulsar de novo? Não seria uma utopia? Não rebentariam imediatamente as suturas dos vasos sanguíneos mal a sucção do novo coração fizesse força sobre as costuras? Transformar-se-ia esse tórax aberto numa fonte de que jorraria uma torrente de sangue?

 

- Idiota! - respondeu-lhe Volkmar, exausto. - Quererá provocar-lhe uma embolia? Primeiro temos de extrair o ar dos vasos sanguíneos.

 

Prendeu-os com pinças hemostáticas e olhou para a equipa operatória. O que se propunha fazer era, na verdade, como um jogo de azar. A extracção do ar da aorta ou de uma grande veia cava não constituía problema. Tratava-se de uma prática corrente da cirurgia. Mas fazê-lo simultaneamente em todos os vasos que conduziam ao (e saíam do) coração nunca fora executado por ninguém. Volkmar experimentara-o na sua clínica de Munique, ajudado por uma equipa de sete jovens médicos, em macacos, em cães e em porcos... As mortes desses animais tinham-se dado por razões de natureza puramente imunológica.

 

- Cada um de vós ficará responsável por um vaso sanguíneo! - disse, com voz dura. - Como médicos, isto pode parecer-vos estúpido, mas vamos passar a agir por comandos. Estamos a travar uma batalha. Atenção!

 

O aparelho coração-pulmão enviou a circulação para o novo órgão. As pinças foram soltas por breves segundos, o sangue espirrou, mas com o seu fluxo saiu também o ar dos locais de sutura. Volkmar deu em seguida os últimos pontos, vaso após vaso, tendo finalmente ligado o novo coração. No mesmo momento em que se fizera a extracção do ar um dos médicos assistentes tinha fornecido o valor do impulso eléctrico. No oscilógrafo, cuja linha luminosa se mantivera imóvel, começou a ver-se agora um palpitar e um tremeluzir. O novo coração começava, com efeito, a bater. O rosto de Melata tomou um tom cor-de-rosa enquanto o anestesista lia os primeiros valores das pulsações. No écran, a linha fosforescente da sua frequência estabilizou-se, tornando-se mais regular e esbicada. A respiração, até aí muito fraca, intensificou-se.

 

- Podem fechar! E rezar... - disse Volkmar, com voz quase inaudível. Observou de novo as suturas dos vasos sanguíneos, consciente do que mais tarde ou mais cedo sucederia.

 

Afastou-se da mesa operatória, atirou com as luvas e abandonou a sala através da porta de vidro automática.

 

Não é costume ouvirem-se aplausos numa sala de operações, mas os olhares que acompanharam Volkmar reflectiam uma admiração apavorada.

 

O dr. Soriano esperava Volkmar na sala contígua, muito pálido, com as mãos postas no regaço. Este encontrava-se exausto, a ponto de desfalecer. Quando o viu sentar-se mudo num sofá e fechar os olhos, Dom Eugênio não se moveu.

 

- Você é um génio - disse com um tom de voz que nunca ninguém lhe ouvira. - Não, não é um génio ... é um instrumento de Deus! Consigo iniciou-se hoje uma nova era!

 

- O homem vai morrer! - Volkmar tapou o rosto com as mãos. - Ele não tem qualquer possibilidade de sobrevivência.

 

- Com certeza que vai morrer!

 

- E tem dois assassinos: o senhor e eu!

 

- Os dois já estavam mortos. Nem que Melata viva apenas uma hora você realizou um feito extraordinário, Enrico. Meu Deus, faltam-me as palavras.

 

Soriano olhou para o écran de televisão. Nele se podia ver a equipa do dr. Nardo a fechar de novo o tórax. O jovem corpo sem coração de Leone Bisonte tinha sido há muito retirado da sala de operações e desaparecera sem deixar rasto. Melata iria ter o mesmo destino.

 

- Dr. Volkmar - disse Soriano, passado algum tempo. - A nova e moderna clínica cardiológica em Camporeale só ficará pronta dentro de meio ano. Mas mandarei vir imediatamente aquilo que aqui falta agora. Todos os aparelhos necessários, esse teflon de que falou, montar-lhe-ei novos laboratórios, tudo. Diga-me só aquilo que deseja.

 

Volkmar não respondeu.

 

Dormia. Tinha os braços pendidos. As pontas dos dedos, que estremeciam violentamente, quase tocavam o chão de mármore. Devia estar a sonhar coisas terríveis.

 

Arrigo Melata sobreviveu exactamente dezassete horas. Fora colocado num ambiente asséptico, onde não estivera nem um minuto sem ser vigiado. Quem quis aproximar-se dele teve de passar por três antecâmaras interligadas por uma espécie de comportas, sendo esterilizado três vezes. Quatro horas após a operação até recobrou a consciência, admirando-se de se encontrar ali. A última coisa de que se lembrava era do acidente. Esse maldito monte de pedras, mesmo a meio da estrada e logo a seguir a uma curva em que entrara à máxima velocidade que lhe permitia o seu velho «Fiat». Encontrava-se agora numa cama toda branca, ligado a uma série de tubos, vigiado por uni médico e uma simpática enfermeira, que lhe disse:

 

- Esteja muito quieto, signore Melata. Não se mexa. Está muito doente, mas vai salvar-se desta!

 

O médico sorriu sem dizer palavra.

 

Volkmar permaneceu no «asilo de velhos» para controlar o que se iria passar. Era perfeitamente incrível só o facto de Melata ter sobrevivido a primeira hora, ter acordado, estar consciente, ter até falado, infringindo a rigorosa proibição. «Ninguém me dá um pouco de vinho», dissera. Verificava-se, pois, que a circulação funcionava, que o cérebro era abastecido do oxigénio suficiente, que não ocorrera a tão temida morte das células cerebrais. Isto não significava, porém, que Melata tivesse a mínima hipótese de sobreviver. Tratava-se apenas de uma questão de tempo e era isso o que o dr. Volkmar não podia suportar. A ideia de ter operado dois homens clinicamente já mortos acalmara-o um pouco; quanto ao transporte de um coração para um outro corpo, assemelhara-se a urna autópsia, a um exercício, à primeira aplicação de um novo método operatório. O facto de Melata continuar a viver, de voltar a ser uma pessoa completa (pelo menos durante algumas horas) e, no entanto, de estar condenado à morte, pois vivia com um coração que só pulsava no seu organismo experimentalmente, não constituía para Volkmar um feito extraordinário da medicina, mas sim um crime a prazo.

 

Pálido, exausto com o trabalho das últimas horas, mas denotando uma notável tenacidade, o dr. Nardo vigiava a sala de observações, ajudado por dois assistentes e um anestesista. Nem a eles nem aos aparelhos electrónicos de medida escapava nenhum estremecimento do corpo de Melata. Cada minuto a mais que o homem vivia era um milagre.

 

Volkmar entrou quatro vezes na primeira antecâmara para ser informado. Visitou também a velhota que operara. Ela beijou-lhe as mãos quando a informaram que fora ele o médico que a salvara, pediu à Madona que lhe desse muita vida e saúde e chorou de gratidão. Não se lembrava de o ter feito logo após terem passado os efeitos da anestesia. Mas agora, que já podia bever vinho e comer carneiro guisado (como nunca o tivera em casa porque a carne era cara de mais) voltava a acreditar na vida. Ela, a nonna, ainda era necessária, mesmo vivendo num asilo de velhos. Decorridas seis horas, o dr. Nardo anunciou:

 

- O paciente está com febre!

 

- É o fim! - disse Volkmar. - Soriano, também quer presenciar este espectáculo?

 

- Claro que fico ao pé de si, Enrico.

 

- Neste momento deixou de se preocupar com o seu escritório de advogado?

 

- Tenho quatro óptimos jovens assistentes.

 

- E o seu nome só serve de fachada?

 

- Ocupo-me apenas dos grandes casos.

 

- Os casos internacionais. Os casos invisíveis. A famosa «Cosa Nostra»!

 

- Eu fundei um asilo de velhos, um asilo modelo! Estou a construir um hospital para crianças e um orfanato em moldes até aqui inéditos. Também estou a erigir, embora o grande público ainda o desconheça, a melhor clínica de cardiologia do mundo. O dinheiro tem de vir de qualquer lado, dottore.

 

- Ainda não se inventou um nome para a sua dupla moral

- disse Volkmar, estremecendo como se sentisse frio. - Venha, Dom Eugênio, os dois assassinos devem sentar-se à cabeceira da sua vítima.

 

Percorreram as três câmaras assépticas e entraram no quarto onde Melata quase desaparecia debaixo dos inúmeros tubos e fios que o ligavam aos aparelhos. À volta do leito encontravam-se o dr. Nardo, um outro médico e duas enfermeiras, todos de máscara.

 

- 39,6! - disse o dr. Nardo.

 

Volkmar aproximou-se de Melata e inclinou-se sobre o seu corpo. O homem com o coração novo olhou receoso para o médico estranho. Não tinha dores, apenas sentia alternadamente frio e calor.

 

- Ele moveu-se? - perguntou Volkmar por cima do ombro.

 

- Como poderia, com todos estes fios?

 

- Soriano, faça compreender aos seus médicos que eu não tolero estas respostas estúpidas. E evidente que uma pessoa se pode mover apesar dos fios.

 

Auscultou as pulsações do novo coração. Verificava-se um ligeiro tremular. Mediu a tensão arterial, o pulso, observou a cor das mucosas na cavidade bucal e nas pálpebras. A sua cor era rosa pálido.

 

- Goteja! - disse muito baixo.

 

- Como?

 

- A costura de um dos vasos sanguíneos está a dar de si. Endireitou-se e afastou-se da cama. Melata de nada se apercebera. Apenas não compreendia por que razão lhe não davam de beber se sentia tanta sede.

 

Volkmar chegou-se à janela e ficou a olhar para o parque magnífico que rodeava o «asilo de velhos». Os médicos e o dr. Soriano estavam mesmo atrás dele.

 

- Voltamos a abrir? - perguntou o dr. Nardo em voz baixa.

 

- Para quê? A reacção imunológica começa a verificar-se. Vocês têm o que pretendiam: transplantou-se o coração na sua totalidade. Como viram, era possível tecnicamente. Se agora se pudesse transpor a barreira imunológica e encontrar uma forma de as suturas que rodeiam o coração aguentarem, poderia afirmar-se que o coração humano se degradou até à categoria de uma peça substituível.

 

- O senhor há-de consegui-lo, dottore! - exclamou Soriano.

 

- Não!

 

Era uma resposta clara, mas ninguém a tomou como tal. Consideraram-na uma forma de reacção.

 

- E agora? - perguntou Soriano.

 

- Se começarmos a notar que as hemorragias internas aumentam e abrem as suturas de novos vasos sanguíneos, se simultaneamente se processar a reacção imunológica, então, Dom Eugênio, devemos ser uns assassinos caridosos!

 

Volkmar voltou-se bruscamente. O seu aspecto assustava. Estava pálido, sucumbido, envelhecido de vários anos. Perdera-se uma vida humana!

 

- Este dia, dr. Soriano, é o meu fim! Neste dia terminou a carreira do cirurgião alemão dr. Volkmar! Já compreendeu isso?

 

- Era o que eu desejava, dottore. - O dr. Soriano olhou-o francamente e sem o mínimo sinal de crueldade. - O que o espera não pode estar ligado ao passado. O senhor já não existe, dottore, mas existirá um médico como não haverá outro neste mundo.

 

O declínio de Arrigo Melata começou a acelerar-se segundo as leis do plano inclinado. Em cada hora que passava piorava a sua situação.

 

Na décima hora após a operação perdeu a consciência. Perdeu-a sorrindo feliz, pois como já nada havia a perder, Volkmar permitiu-lhe que bebesse um copo de vinho. Ele fê-lo com uma sede sôfrega, depois espreguiçou-se satisfeito e ficou inconsciente. O pulso, a tensão arterial e a frequência cardíaca mostravam indubitavelmente estar-se em presença de hemorragias internas. A princípio, ainda era ligeiras, provenientes de pequenas zonas menos cerradas das costuras, mas à pressão sanguínea as fendas alargar-se-iam e o fluxo de sangue inundaria a caixa torácica. Começaram também a verificar-se fenómenos de rejeição. A temperatura subiu para os 41,3 graus. De facto é rápida e violenta a reacção de um organismo que sente um corpo estranho dentro de si. Dá-se como uma mobilização geral: todas as suas defesas marcham, qual exército unido, contra o invasor.

 

Melata já nada sentia. Embora por vezes possa ser muito cruel, a natureza é nestes casos extraordinariamente misericordiosa. O dr. Nardo mandou suspender a aplicação de soros e transfusões. O paciente apenas se encontrava ligado a aparelhos de medição. Não passava de um corpo que fornecia dados e valores de certas funções, nada mais. Eis o que restava de Melata, um homem de 54 anos, mecânico, pai de três crianças.

 

Decorridas dezassete horas, quando as imagens electrónicas demonstraram que o coração de Melata já não era abastecido de sangue e quando também o electroencefalograma deixou de registar o que quer que fosse, Volkmar mandou desligar tudo. Abandonou o quarto e esperou na primeira antecâmara que o dr. Soriano o seguisse.

 

- O dr. Nardo fará a autópsia. Deseja estar presente? perguntou este.

 

- Para quê? Os dados são claros.

 

- Então sugiro que me acompanhe num excelente jantar, dottore.

 

- Comer! Agora?! - Volkmar encostou-se aos azulejos brancos da parede. - Eu cuspir-lhe-ia tudo para a cara, Dom Eugênio!

 

- Aposto que não o fará! - Soriano sorriu abertamente. Worthlow pôs a mesa no seu terraço para um jantar de festa. A própria Loretta vigia a confecção dos pratos...

 

- Loretta?! - Volkmar fixou em Soriano os seus olhos avermelhados e turvos. A sua infelicidade era tal que sentia os joelhos tremerem-lhe e só a parede o amparava.

 

- Aterrou em Palermo há duas horas. Quando a operação terminou telegrafei-lhe: «Querida, volta para casa, o Enrico já não consegue comer sem a tua presença!» E ela tomou o primeiro voo com rumo a Palermo! - Soriano abriu a porta.

- Apostamos que me não vai atirar pedaços de faisão à cabeça?

 

- Aceito a aposta! - Volkmar endireitou-se e gritou: Mas duma maneira diferente, Dom Eugênio! Levarei Loretta para a cama! E então? O que responde o senhor pai? Mate-me se quiser! Os seus crocodilos e os seus leões têm fome! Porque não fala? Porque não actua? Porque se limita a ficar parado? Repito-lhe bem alto: levarei a Loretta para a cama!!

 

- Está exausto, dottore - retorquiu Soriano com voz calma. O tom era bondoso, paternal. - Sobreexcitado. Os seus nervos chegaram ao limite. Quem se poderá admirar? Aqueles que viveram estas horas... Tem todo o direito de se sentir histérico.

 

- Deitá-la-ei na minha cama! Ainda hoje! - gritou Volkmar. - O senhor destruiu-me! Isso destruí-lo-á a si!

 

- Engana-se! - Soriano indicou-lhe a porta. - Mesmo que eu tivesse outros planos para Loretta... poderia mudá-los. Ganharei um genro que é um génio! Que irá montar a minha clínica cardiológica! Um genro para quem uma transplantação de um coração é tão simples como operar uma apendicite. O que poderá um pai desejar mais? Venha, Enrico! A Loretta espera-nos! Espera-o ansiosamente! C’os diabos, tenho de confessar-lhe como pai: ela ama-o verdadeiramente!

 

Saiu da sala seguido por Volkmar, que vacilava como que embriagado.

 

Ana passou toda a viagem até Palermo no interior do navio, esfregando corredores e cabinas, cozinhas, salas, escadas, defendendo-se dos marinheiros, dos oficiais, dos maquinistas e até dos passageiros que descobriam um corpo robusto e bem feito por baixo das suas roupas simples. Isso era particularmente visível quando tinha de se baixar para fazer as limpezas. Um passageiro da l.a classe procurou aliciá-la com vinte mil liras; um outro mais velho, da segunda, pôs-se à sua espera num recanto, com a braguilha aberta.

 

Foi uma tentativa ridícula. Embora se diga que o ar do mar tem uma acção estimulante sobre pessoas à beira da impotência que se sentem rejuvenescidas devio ao seu teor em sal e em iodo... Para Ana apenas existia Enrico, o desejo de ser abraçada pelo belo dottore e de poder vingar a morte de Luigi. De acordo com o velho costume da sua terra, queria poder mostrar o lençol manchado de sangue: prova da sua virgindade. Mas só Enrico o poderia ver. Depois enrolá-lo-ia e mantê-lo-ia para todo o sempre, até morrer, guardado como uma relíquia.

 

Por isso foi cruel: ao homem das vinte mil liras deu uma bofetada, ao velho libidinoso de braguilha aberta bateu sobre o último flamejar da sua lascívia. O mesmo fez a um oficial, a um cozinheiro e a um maquinista que dela se aproximaram em atitude faunesca. Fechou-se na sua cabina minúscula, mesmo por cima da casa das máquinas, juntou as mãos no regaço e, no escuro, falou para Enrico: «Vem, vem depressa... Faz de mim o que quiseres! Rasga-me toda! Eu pertenço-te. Mas primeiro, meu amor, deixa-me matar o homem que assassinou Luigi. Devo fazê-lo em nome de todos nós.»

 

Depois adormeceu, com as mãos entre as coxas, percorrida por um calor que fazia estremecer o seu corpo agradavelmente.

 

Nunca lhe passara pela cabeça que Enrico podia ser inacessível. E porque o seria? Era bela, voluntariosa, honesta, fiel, caseira, sabia trabalhar e sofrer, amar e odiar, ser alegre e humilde...

 

Que mais poderia um homem querer?

 

No terraço da vivenda de Solunto, o mordomo Worthlow, vestido com o seu uniforme branco, trouxe para a mesa festivamente decorada o primeiro prato: pedaços de melão gelado e camarões regados com um delicado molho de vinho da Madeira.

 

O toldo fora corrido, as lanternas brilhavam, ouvia-se o ruído surdo do mar. Soriano e Volkmar envergavam smokings brancos. À sua volta resplandecia toda a magnificência do terraço: a água da piscina reflectia a luz dos projectores submersos, do parque vinha o cantar das cigarras e, lá ao longe, de um pátio afastado, o rugido surdo dos leões.

 

Loretta sentara-se ao lado de Volkmar e segurava agora a sua mão. O véu formado pelos seus longos e sedosos cabelos negros pousava-lhe num dos ombros, tão perto do seu se encontrava o lindo corpo encerrado num justo vestido que apenas parecia feito de flores coloridas. Era inconcebível que um ser humano pudesse ser tão belo.

 

- Ergo o meu copo para saudar um génio! - disse Soriano. Worthlow enchera os copos com um vinho de cor dourada.

 

- Ele é o único, Loretta, contudo ainda o não sabe.

 

- Mas eu sei - e, pegando no copo, tirou uma rosa do cabelo deixando-a cair no vinho. Estendeu o copo a Volkmar. Qualquer outra palavra sua teria sido de mais.

 

Ele bebeu, a rosa ficou presa aos seus lábios e pareceu-lhe que, através dela, beijava a boca de Loretta. O seu olhar pousou no rosto de Soriano, cuja expressão era impassível como a de uma máscara.

 

Quando entre o prato principal e a sobremesa Dom Eugênio se levantou para ir atender o telefone, encontraram-se enfim sozinhos. Apenas Worthlow se encontrava no fundo do terraço guarnecendo a sobremesa.

 

- Amo-te - disse Volkmar, em voz baixa.

 

- Eu também te amo, Enrico - respondeu ela no mesmo tom.

 

- Sabes o que hoje aconteceu?

 

- Worthlow contou-me.

 

- Pode confiar-se em Worthlow?

 

- Ele é o único aqui que não se pode subornar. Mas ninguém sabe.

 

- Amas-me muito? - disse beijando-lhe a mão. - Eu sei que é uma pergunta estúpida, de mau gosto, mas preciso de saber.

 

- Amo-te como nunca pensei que se poderia amar alguém.

 

Apertou-lhe a mão esguia, sentindo as suas unhas longas enterrarem-se-lhe na carne.

 

- Loretta, eu tenho de sair daqui! Tenho de fugir desta jaula dourada. O que se está a planear é a coisa mais terrível que jamais foi imaginada! Eu ainda não tenho provas, apenas suspeitas! Loretta, ajuda-me! Eu preciso de sair daqui!

 

- Eu ajudo-te! - retorquiu beijando-lhe a mão. Do quarto ao lado vinha a voz de Soriano. Pelo tom da sua fala percebia-se que dava ordens.

 

- Eu preparo tudo - murmurou Loretta.

 

- Queres vir comigo? - perguntou, com a garganta apertada.

 

- Para onde fores - disse ela - irei também, mesmo que nos leve ao abismo ...

 

Soriano regressou à mesa. Worthlow serviu a sobremesa, um magnífico gelado em forma de coração. O dono da casa parecia gostar de graças macabras.

 

O pescador Giovanni Responatore passara maus momentos e, embora o não soubesse, ainda tinha piores para passar. A razão para tal era a dr.a Angela Blúthgen, que o comissário da polícia o obrigara a receber na sua casa. Não era a sua presença que transtornava a tranquilidade doméstica, pois ela passava quase todo o tempo a passear na praia, mas sim Recha, precisamente Recha, a mulher de Giovanni, que parecia nada mais saber fazer para além de escamar e de assar peixe e, de súbito, após trinta e cinco anos de matrimónio, descobrira em si o sentimento primário do ciúme.

 

Como é evidente, a dr.a Blúthgen não lhe dera qualquer pretexto - e para pôr definitivamente de lado uma hipótese tão louca bastaria olhar para Giovanni Responatore -, mas este, que^de «encantos» apenas conhecia os da mulher, desde que viu Angela de fato de banho à beira-mar sentiu-se vítima de uma inexplicável revolução hormonal.

 

Passou a remendar as suas redes com uma paixão até aí desconhecida, a colocar sobre a mesa trôpega uma toalha de papel (comprara cem folhas com o dinheiro do primeiro aluguer), a limpar até os copos de vinho com uma escova presa a um cabo de plástico (comprada também no armazém de Cabras) e chamava porca à mulher quando ela, ferida no seu orgulho de dona de casa, perguntava por que razão era preciso ser-se mais limpo do que no hospital de Oristano onde, há trinta e três anos, fisera um aborto.

 

- Temos em casa uma senhora! - gritou o pescador. Uma médica alemã. Ela não bebe leite das tetas da cabra!

- Mas as tetas dela estão a tornar-te maluco, velho bode, não é verdade? - retorquiu Recha os berros. - Quando ela se passeia na praia a abanar o eu e a balouçar os seios tu ficas pespegado a olhar por trás das tuas redes, preso nas malhas, não é?

 

Não há dúvida que era uma mulher ordinária, essa Recha Responatore. O seu lindo nome não condizia com ela. Mas Giovanni suportava tudo com grande força interior e ia pescando lindos polvos numa pequena cavidade da rocha, explicando à dr.a Blúthgen que os seus tentáculos também se podiam chupar crus (do que ela não gostava nada) ou grandes quantidades de ouriços do mar, que fritos em muita gordura sabiam a batatas-palha. O melhor, porém, eram as lagostas e um peixe cujo nome Angela nunca compreendeu, um peixe longo e estreito, de escamas prateadas, parecido com a tainha, um peixe voraz, quase sem espinhas e de carne muito branca, de sabor idêntico ao da vitela. Este peixe cozido e servido com um molho simpes de manteiga temperado de ervas acompanhado de pão quente cozido pela própria Recha num velhíssimo forno situado por detrás da choupana... constituía uma refeição deliciosa, juntamente com um copo do bom vinho da terra.

 

Giovanni olhava entusiasmado para a dr.a Blúthgen enquanto a via comer. Que cultura! Como ela segurava a faca e o garfo, como levava a colher aos lábios pintados, como sabia partir com as suas lindas mãos o pão ainda fumegante era um prazer ficar a vê-la! Recha mascava, arrotava, coçava os peitos (que mais lembravam duas abóboras maduras) entre duas grafadas e sentava-se à mesa de pernas abertas, como se a comida que emborcava devesse sair logo por baixo. Quem se poderia, pois, admirar que quando Angela ia passear à praia se levantasse sempre um barulho dos demónios em casa dos Responatore e Recha mimoseasse o pobre Giovanni com os piores nomes.

 

Tudo se alterou, contudo, quando dois carabinieri apareceram em casa do pescador montados nas suas pesadas e barulhentas motos e entraram, tirando os capacetes. Recha estava precisamente a limpar as velhas lajes sobre as quais Giovanni já não cuspia há dois dias, embora o tivesse feito ao longo de trinta e sete anos. A dr.a Blúthgen fora de novo passear para a praia. Nesse momento estava sentada na areia, protegida do sol por um chapéu de palha de abas largas, envergando apenas um biquini colorido. Ao olhar para ela, Giovanni suspirara fundo.

- Encontrámo-lo - disse um dos carabinieri sentando-se. Ficou agradecido por Recha reagir com mais rapidez do que o marido, indo buscar uma garrafa de vinho e quatro canecas de estanho. Tanto ele como o colega esvaziaram-nas de um trago. Com efeito, era para esquecer o aspecto do cadáver, desfeito não só pela água salgada como também pela hélice de um barco. Não é um espectáculo que se veja todos os dias e não faz parte do programa de treinos de um polícia.

 

- Quem? - perguntou Giovanni, apalermado. Depois compreendeu, segurou com força a sua caneca e ficou a olhar para a janela, de onde apenas se via o grande chapéu de palha à borda de água.

 

- Madona! - gaguejou. - Onde?

 

- Estava preso a uns rochedos em Capo Manu, numa enseada situada a norte. A última maré fê-lo dar à costa. - O polícia voltou a encher a caneca de vinho e bebeu como se tivesse chegado do deserto. - O comissário já estava à espera disso. Tinha estudado as correntes. Se ele tivesse de dar à costa seria por aquelas bandas. E, assim foi... Pode-se confiar no mar.

 

- Vocês têm a certeza de que é ele? - perguntou Giovanni com esforço.

 

- Ainda tem vestido o calção de banho. O comissário diz que, de acordo com a descrição da peça, não restam quaisquer dúvidas.

 

- Então o caso encontra-se resolvido? - disse Recha.

 

- Penso que sim.

 

- Ela agora já pode partir! - continuou a mulher prosaicamente.

 

- Vejam como é maldosa! - gritou Giovanni. - Um verdadeiro coração de pedra! Pobre de mim! Vivi trinta e cinco anos com um penedo!

 

- Quem lho vai dizer? - perguntou o outro polícia fortalecendo-se com um golo de vinho.

 

- Pois é... - Giovanni voltou a olhar para o chapéu de palha junto do mar. - Ela está à espera. Mas quando chega o• momento, ninguém sabe como o há-de dizer. Não podemos chegar ao pé dela e informá-la: «Signora, o seu noivo está preso entre duas rochas de Capo Manu, mas só o poderá reconhecer pelo calção de banho.» Não pode ser assim! Tem que se lho dizer com jeito! - olhou para os polícias. - Isso não diz respeito às autoridades?

 

- Foi por isso que viemos - o primeiro polícia começou a transpirar. - Dizer-lho, ainda vá! Mas a confrontação! A identificação! Eu olhei para ele e tive logo de vomitar. Quando alguém é apanhado por uma hélice ...

 

Calou-se, abalado. Um carabinieri não é superior a um homem.

 

- Como se comporta ela? - perguntou o outro.

 

- Como uma daquelas dos filmes! - resmungou Recha. Anda para aí a abanar-se o dia todo. Ontem até tomou banho nua.

 

- Tomou o quê? - berrou Giovanni. - Quando?

 

- À noite, quando estava escuro. Tu já dormias há muito, Deus seja louvado! A andar nua pela praia e a mergulhar nas ondas como se quisesse deixar-se montar por um exército de homens! Depois pôs-se a correr de um lado para o outro na areia até ficar seca! Como vêem, é uma dessas!

 

- E além disso?

 

- Acham que não basta? - rosnou Recha. - Acham que isto é estar de luto?

 

- Querias que ela se rolasse na cinza? - gritou Giovanni.

 

- Talvez ela o faça quando o vir.

 

Os polícias levantaram-se, puseram os capacetes e acabaram de beber o vinho.

 

- Ela é rija! -exclamou Recha, zangada. - Oh! se é! Não vai gritar, nem desmaiar, nem vomitar como vocês, seus poltrões! Ela tem agora o que desejava: já pode levá-lo com ela para a Alemanha!

 

Angela levantou-se ao ver os dois polícias aproximarem-se lentamente. Enfiou o chapéu com mais força na cabeça e foi até ao seu encontro. Era mulher perante a qual qualquer italiano teria de assobiar baixinho.

 

- Encontraram-no, não é verdade? - perguntou antes de os carabinieri terem podido abrir a boca.

 

- Sim.

 

O seu rosto permaneceu impassível, embora algo se quebrasse no seu íntimo. Mantivera até aí um mínimo de esperança, a ideia louca de que Heinz pudesse ter sido arrastado pela corrente e recolhido mais tarde por um barco. Até chegar a notícia podiam passar alguns dias. Mas este era apenas o último argumento desesperado de que Angela se podia lembrar. Agora tinham-no encontrado. Findara um capítulo da sua vida, um longo e belo capítulo. O que restava era o vazio, que Angela ainda não sabia como iria preencher. Seria com o trabalho no hospital, com homens que apenas serviriam para apagar a recordação de Heinz Volkmar? Não ia ser possível! Poder-se-ia entorpecer a alma apenas com gozo físico?

 

- Onde? - perguntou.

 

- A norte, no Capu Manu. Há duas horas. Encontrou-o uma mulher que recolhia caranguejos. Ao vê-lo desmaiou ...

 

Fora exprimido com tacto. Qualquer pessoa inteligente poderia deduzir dessas palavras o aspecto do cadáver. Angela também compreendeu perfeitamente o pobre polícia e o esforço que fizera ao dizê-lo.

 

- Onde se encontra agora? - perguntou em voz baixa.

 

- Na ... na cave do comissariado, signora. - O carabinieri tirou o capacete e limpou o suor da testa. - Se pudesse acompanhar-nos para a identificação ... Como sabe, é necessário. De outro modo, ele será um desconhecido ... um cadáver desconhecido.

 

- O carro dele está lá em cima, no pinhal.

 

- Nós sabemos. Vamos à frente. Poderá guiar? Quer dizer ... depois desta notícia?...

 

- Claro que sim! Tenho de vê-lo.

 

Deixando os polícias, dirigiu-se à choupana de Giovanni. A sua maneira de andar (de que não tinha culpa, era tal como Recha a descrevera), balançando as ancas, estimulava a fantasia de qualquer homem.

 

Vestiu-se, fez as malas, colocou em cima da mesa um monte de Jiras que não contou e disse:

 

- Adeus, Giovanni! Felicidades, Recha! Provavelmente, nunca mais nos tornaremos a ver!

 

Em seguida, deixou a casa dos Responatore e, curiosamente, Recha começou a chorar, acompanhando a dr.a Blúthgen até ao automóvel e ficando a dizer-lhe adeus até o carro desaparecer no horizonte.

 

- Endoideceste? - gritou Giovanni quando ela voltou.

 

- Era boa rapariga!

 

- Agora?!

 

- Foi-se embora para sempre! Era boa rapariga.

 

É mais simples remendar as redes rasgadas pelos peixes do que penetrar no íntimo da alma de uma mulher, concluiu Giovanni.

 

No comissariado de Cabras, uma casa velhíssima pintada de amarelo com persianas verdes e cambadas, onde cheirava sempre a mofo e cujas celas situadas na cave eram temidas por todos porque o bolor subia pelas paredes acima, receberam Angela como se fosse a rainha da Tailândia. O comissário beijou-lhe a mão, um outro oficial superior serviu conhaque, um terceiro funcionário civil (tratava-se do representante do presidente da câmara) trouxe um prato com biscoitos típicos da Sardenha... Com o característico encanto meridional, tudo se fez para acalmá-la, dar-lhe um certo conforto, pô-la até bem disposta.

 

Depois, não foi possível protelar por mais tempo; os três funcionários afivelaram uma expresão triste e o comissário cumpriu a sua obrigação, lendo primeiro o protocolo do achado. Ao fazê-lo continuou a proceder com muito tacto, pois omitiu a descrição do cadáver. Muito por alto, de certo modo para prepará-la para a identificação, mencionou que esta talvez apenas pudesse ser feita através da dentadura do morto. Haveria na Alemanha um dentista que tivesse tratado o dr. Volkmar com frequência?

 

- Sim - respondeu Angela, abalada. - O dr. Weissner, em Munique. Heinz era muito cuidadoso com os dentes. Fazia uma revisão todos os três meses.

 

- É louvável! - o comissário levantou-se. - Isso pode ajudar-nos. Mesmo assim deseja ver o dr. Volkmar?

 

- Sim.

 

Endireitou a cabeça. «Deus, dai-me força», pensou. «Eu gostaria de lhe dizer, àquilo que dele resta, o muito que o amei. Fui a mulher apaixonada mais estúpida que jamais existiu. Nada disto teria sucedido se eu tivesse agido de outra forma. Teríamos vindo juntos passar férias na Sardenha. Ele nunca se teria afogado. É isso que eu não compreendo: um homem que sabia nadar como Volkmar afogar-se num mar tão tranquilo ... É algo que nunca se poderá explicar.»

 

- Por favor! - O comissário olhou para os outros homens. O representante do presidente da câmara desistiu de os acompanhar até à cave. O médico afirmara-lhe que tinha

230 pulsações e que a emoção provocada por cenas desta ordem lhe podiam fazer mal.

 

- Eu queria dizer-lhe ainda, signora ...

 

- Eu sou médica, senhor comissário!

 

- Mesmo assim ... ?

 

- Trabalhei nos serviços de urgência dos hospitais até me especializar noutro ramo.

 

- Mas o caso presente ...

 

- Também fiz autópsias, senhor comissário. Por favor! O comissário encolheu os ombros sem saber o que dizer e

 

começou a descer a escada da cave. Tinham escolhido uma dependência particularmente fresca onde se sentia um penetrante cheiro a mofo. A velha fechadura enferrujada chiou quando deu volta à chave, a porta rangeu nos gonzos de ferro fundido, um bom trabalho artesanal do século passado.

 

O cadáver encontrava-se sobre um estrado de madeira, todo coberto com um lençol branco. Apenas se viam os pés descalços como que carcomidos pela água salgada. O polícia que os acompanhara colocou-se num dos topos e ficou a olhar para a linda signora. O comissário encontrava-se logo atrás para a poder amparar quando desmaiasse. Tinha uma longa prática de segurar nos seus braços muitos dos familiares que se viam forçados a reconhecer cadáveres.

 

- Por favor - disse Angela em voz baixa -, só a cabeça ...

 

- Signora! - o comissário engoliu em seco. - É exactamente a cabeça... eu ... eu omiti uma parte do protocolo, o dr. Volkmar deve ter sido apanhado pela hélice de um motor...

 

- Por favor!

 

Angela cerrou os dentes e lembrou-se dos cadáveres que vira nas aulas de Anatomia, parcialmente autopsiados pelos outros estudantes, retalhados, faltando-lhe certos pedaços do corpo, deitados em mesas de mármore e em bacias de zinco. Mas ali encontrava-se Heinz Volkmar e não um morto desconhecido, um corpo congelado ou retirado de uma solução de formol. Ali estava o amor que sempre reprimira, que reduzira ao nível de um acto biológico.

 

- Por favor! - disse de novo de forma quase inaudível.

 

O polícia retirou o lençol branco da cabeça do morto. Tornou-se branco como a cal, mas aguentou.

 

A dr.a Angela Blúthgen aproximou-se do cadáver e olhou muda para a cabeça cujo aspecto já nem merecia esse nome. Os ombros e toda a zona do tórax estavam também mutilados. Com efeito, este ser humano só poderia ser reconhecido pelos dentes.

 

- Ele ainda tem mão esquerda? - perguntou, estarrecida.

 

- Signora?

 

- A mão esquerda!

 

- Sim.

 

O polícia cobriu rapidamente a cabeça e levantou o lençol do lado esquerdo. No anelar dessa mão via-se um fino anel de ouro com uma cornalina.

 

Angela tapou ela mesma o corpo e afastou-se do estrado.

 

- E o meu anel - disse com voz surda -, ofereci-o a Heinz pelo Natal. O morto é o dr. Heinz Volkmar.

 

Em seguida fez algo que levou o comissário e o polícia a pensarem durante o resto da sua vida que, nos casos extremos, uma mulher consegue ter mais coragem do que um homem. Inclinou-se sobre a cabeça tapada e disse com voz calma:

 

- Amo-te... Heinz!

 

Afastou-se com um movimento brusco e quase correu até à porá da cave.

 

- Poderei levá-lo comigo? - perguntou ao subir a escada.

- Gostaria que fossse enterrado na Alemanha.

 

- Trataremos do assunto o mais depressa possível e com o mínimo de burocracia, signora. Porém, o exame aos dentes é necessário como deve compreender.

 

Ela fez um sinal afirmativo e deixou-se conduzir para o gabinete do comissário. Só aí se foi abaixo e, deixando-se cair numa cadeira chorou, desesperadamente.

 

Deixaram-na sozinha com o vinho, o conhaque e os biscoitos. Ficou-lhes imensamente agradecida, pois nesse momento apenas suportava estar só. Ver pessoas e ter de as ouvir seria superior às suas forças.

 

No quarto ao lado, o comissário começou a preencher os formulários para a entrega do cadáver e sua repatriação para a Alemanha. Faltava apenas a assinatura do delegado do Ministério Público.

 

Nome: Volkmar, Heinz. Doutor em medicina. Munique. Causa do óbito: afogamento. Identificado sem reservas pela sua noiva, dr.a A. Blúthgen, através do calção de banho, anel no dedo anelar esquerdo e dentadura. Ficava livre o espaço para a fotografia do corpo, mas isso era apenas uma questão de pormenor.

 

Foi encomendado o caixão de chumbo.

 

O homem nele colocado chamava-se Sérgio Rappallo, tinha 33 anos, era estivador no porto de Catania e não tinha parentes próximos. Ninguém deu pela sua falta.

 

Ana estava há exactamente doze horas no navio quando este deu entrada no porto de Palermo, com atraso sobre o horário estabelecido, mas isso não a preocupava tanto como aos passageiros a quem os oficiais haviam explicado que se avariara um aparelho electrónico de comando. O dano fora reparado durante a viagem, sem que ninguém o notasse, pois nos vários decks continuara-se a jogar, a nadar, a dançar, havendo também nas camas das cabinas uma intensa actividade. Parece que entre Nápoles e Palermo o ar marítimo contém um elevado teor em iodo...

 

De qualquer modo, perdera-se uma hora em relação à previsão para estas excursões. O lindo paquete branco de luxo era um cruzeiro que percorria o Mediterrâneo, fazendo escala em muitos portos para mostrar aos turistas as várias culturas da Antiguidade e... o terrível progresso que nestes 2500 anos fizera o negócio das «lembranças folclóricas» de aspecto kitsch. Na opinião dos muitos americanos que se encontravam a bordo, para quem o significado de uma viagem à Europa se resumia à recolha de «recordações» o mais coloridas possível, o cruzeiro fora até agora um sucesso. Conformando-se com o facto de terem perdido uma hora, os passageiros desistiram da visita às ruínas de Erice, perto de Trapani, que, aliás, para a grande maioria, se pareciam exactamente umas com as outras. Restos de colunas, alicerces de templos, balneários - aqui chamados termas -, paredes mestras de casas, mosaicos com mulheres nuas e, pelo meio, quiosques de «lembranças».

 

Ana deu conta de ter chegado a Palermo pelo trabalhar mais lento dos motores e pela inversão de marcha das potentes hélices do barco quando este atracou ao cais. Ouviu o choque surdo contra os pesados sacos de areia e toros de madeira, depois a colocação das escadas e a marcha alegre tocada pela orquestra de bordo.

 

Embalara já os seus magros haveres e, sentada na cama estreita, esperou até os passageiros abandonarem o navio e entrarem nos autocarros que os aguardavam no cais. Depois, subiu as escadas de ferro. Deslumbrada pela luz do sol, olhou à sua volta. Nada há mais solitário do que um grande navio quando os passageiros e uma parte da tripulação o abandonam. Alguns criados acabavam de arrumar as cadeiras de descanso, na torre de comando o oficial de serviço aborrecia-se e aos marinheiros do deck inferior não ocorreu perguntar-lhe o motivo pelo qual descia para terra carregada com um saco de viagem e uma pequena bolsa à volta do pescoço.

 

Quando se encontrou sobre o cais e olhou para o letreiro afixado no topo do edifício dos serviços portuários sobre o qual se podia ler a palavra «Palermo», quando se sentiu rodeada pelo intenso barulho do porto, apoderou-se dela um intenso sentimento de felicidade.

 

O que lhe dissera Ernesto, o irmão que lhe restava? «Nunca te dirijas a pessoas mais importantes do que tu. Procura sempre os teus iguais. Os ricos só te sabem enganar! Para eles não passas de um percevejo! Porém, qualquer peixeira de Palermo te compreenderá.»

 

Ana seguiu à risca este conselho, aprendendo à sua custa o que significa pedir informações acerca de pessoas que se pretende encontrar, mas cujos nomes é preferível não mencionar em voz alta.

 

No cais perguntou a uma mulher que vendia rebuçados e chupa-chupas se conhecia e onde morava Dom Eugênio. A reacção surpreendeu-a. A vendedeira, uma matrona gorda, de aspecto pacífico, fez um trejeito como se quisesse cuspir nela, dizendo desabridamente:

 

- Vai-te embora! Anda! Vai inscrever-te na Clínica de Santa Bárbara. Eles têm lá alguns quartos para doidos.

 

- Tenho de encontrá-lo, nonna - disse Ana, com calma -, vim de propósito a Palermo para isso.

 

- De onde?

 

- Da Sardenha. Das montanhas. Dom Eugênio é um homem importante nesta cidade, não é verdade? Onde mora?

 

- O que lhe queres?

 

- Quero trabalhar para ele.

 

- Doida! Tu és doida! - a boa mulher gorda que vendia rebuçados riu asperamente. -Totalmente doida! Se todas as raparigas da Sardenha viessem para Palermo trabalhar em casa do dr. Soriano... Que loucura!

 

- Obrigado, nonna.

 

Ana despediu-se, dirigindo-se em seguida para o centro da cidade. Aprendera algo mais. Dom Eugênio chamava-se dr. Soriano. Ficou parada na grande piazza, próximo do porto e estendeu os braços como se quisesse com eles abraçar Palermo. Nunca estivera numa cidade tão grande, com casas tão altas, parques tão belos, tantos carros, tantas pessoas bem vestidas. Â vida podia ser, de facto, maravilhosa se não existissem homens como aquele que retalhara Luigi com uma faca.

 

Perguntou pelo dr. Soriano a um polícia que, num cruzamento, olhava enfadado para a confusão do trânsito sem que isso parecesse incomodá-lo.

 

- O advogado? - retorquiu.

 

- Sim - disse Ana. Disse sim porque supunha que um homem tão importante e poderoso também devia ter uma profissão distinta.

 

- Corso Vittorio Emanuele. - O polícia fez um sinal com o polegar. - Não sei o número da porta, mas todos o conhecem. Pergunta lá no local.

 

Ana agradeceu, com a mão apertou mais a pequena bolsa contra o peito, agarrou de novo no saco de viagem e começou a andar no sentido indicado. Sentiu-se invadida por uma onda de boa disposição, que lhe chegou até aos pés; dir-se-ia que saltava e dançava sobre o asfalto, guiada por secreta melodia.

 

Sobre as notas de lira colocara a faca comprida de dois gumes. Junto dela uma caixa barata de folha contendo um estojo de pó-de-arroz, a sombra e lápis para os olhos e bases de maquilhagem. Comprara a caixinha numa boutique da terceira classe do barco. Quando encontrasse Enrico queria ter o aspecto de uma senhora fina, bem maquilhada, com um penteado moderno, as unhas dos pés e das mãos pintadas de vermelho e as pálpebras de azul-esverdeado. Tinha experimentado todos os produtos no pequeno espelho da cabina e ficara admirada.

 

- Sou tão bonita como elas! - dissera para consigo. - Sou até mais bonita do que elas! Enrico vai ver como é verdade!

 

No Corso Vittotrio Emanuele todos conheciam os escritórios do dr. Soriano, que mais se assemelhavam a um palácio. Ana teve de se defrontar com duas secretárias que lhe lançaram olhares esquisitos pois os clientes de Dom Eugênio tinham, em regra, outro aspecto. No entanto, era sempre possível enganarem-se, sobretudo com gente da aldeia. Apareciam às vezes pessoas com um aspecto boçal, capazes no entanto de comprar metade da cidade de Palermo.

 

Ana foi finalmente recebida por um jovem advogado que lhe indicou uma cadeira de couro e sorriu com simpatia.

 

- Em que a podemos ajudar? - perguntou, olhando também ele a visitante com um espanto reprimido e pensando que se tratava provavelmente de problemas matrimoniais ou de dificuldades monetárias. Bagatelas, afinal, que depois de ouvidas podiam ser passadas para o chefe do escritório ou para outro qualquer funcionário, uma vez que se tratava de trabalho de rotina.

 

- Eu cheguei! - disse Ana, com voz calma. Tinha pensado maduramente na forma de actuar e parece que acertara. O advogado olhou-a estupefacto. Não havia argumentos contra a constatação da sua presença.

 

- É um facto! - respondeu. - E então?

 

- Dom Eugênio não está?

 

- Não.

 

- Mas eu cheguei pontualmente.

 

- Ele interessou-se pelo seu caso? Quer dizer... pessoalmente? Como é o seu nome, signorina?

 

- Ana Talana! - Olhou o jovem advogado com ar cândido. - Talana, da Sardenha.

 

- Sardenha? - disse ele, convicto mais uma vez de que os casos importantes se apresentam com frequência com um aspecto discreto. - Vou mandar buscar imediatamente o seu processo...

 

Estendeu a mão para o telefone, mas Ana fez um sinal negativo.

 

- Não existe nenhum processo, signore dottore.

 

- Então temos de começar a prepará-lo, naturalmente. Chegou hoje?

 

- Há cerca de uma hora, de barco. Pontualmente.

 

- Ninguém o duvida! Infelizmente, o dr. Soriano ... como sabe ele tem uma intensa actividade política ... está ocupado com reuniões importantes. Quando ele voltar... não sabemos até se ele virá hoje ao escritório ...

 

- Então posso ir a sua casa.

 

- Privadamente?

 

- Porque não?

 

- Conhece o dr. Soriano assim tão bem? Desculpe, signorina mas é muito raro que o dr. Soriano receba clientes na sua própria casa. A não ser ...

 

- É isso mesmo! - disse Ana, cortando a palavra ao jovem e confuso advogado. - O dr. Soriano espera-me. Eu sou a nova ajudante da criada de quarto.

 

- É o quê? - perguntou o advogado estarrecido. - A ... criada de quartos? E ousa entrar aqui no escritório e fazer-nos perder tempo? Que ideia foi essa?

 

- Onde é que eu devo então dirigir-me? Ao ser contratada, um homem grande e forte disse-me somente: dirige-te ao dr. Soriano! E aqui estou. Não sei bem o que fazer.

 

- Tens de ir para Solunto! - o advogado achou que já não era preciso tratá-la por você. - Sabes onde fica Solunto?

 

- Não.

 

- Em Capo Zafferano.

 

- Onde é Zafferano?

 

- Qualquer motorista de táxi to indicará. Tens dinheiro para o táxi?

 

- Sim.

 

- Então vai! - O advogado fez um gesto como se quisesse enxotar uma mosca maçadora. - Estás a fazer perder tempo a quem precisa de ganhar a vida.

 

Ana saiu do escritório, tomou um táxi e, segurando o saco de viagem entre as pernas, disse:

 

- Para a vivenda do dr. Soriano, em Solunto.

 

- Pagamento adiantado! - respondeu-lhe o motorista, olhando pelo espelho retrovisor. - A viagem é cara.

 

- Eu sou a nova criada de quarto de Dom Eugênio.

 

- Mesmo assim. Passa para cá mil liras. É esse o preço para dar volta à chave da ignição.

 

Ela tirou uma nota de 1000 liras da saquinha e atirou-lha para o banco dianteiro. O motorista pegou-lhe, pôs o carro em movimento e dirigiu-se para Solunto.

 

«Será que vejo logo o Enrico?» pensou Ana. «O que dirá ele? Como se comportará? Tudo depende de quem estiver ao pé. Claro que vai ter de se reprimir nesse meio elegante, mas vou com certeza ter a oportunidade de lhe dizer onde é o meu quarto e que a porta não ficará fechada.»

 

Encostou-se no assento, sem paciência para olhar a beleza de Palermo, imaginando apenas como iria ser quando as mãos dele lhe acariciassem pela primeira vez o corpo.

 

Como é evidente, a comemoração feita no terraço não terminou, como Volkmar ameaçara, com Loretta a passar a noite junto ao seu apaixonado. Disso se encarregou o dr. Soriano, o qual cerca da uma hora da manhã se levantou da cadeira, bebeu o último golo de champanhe louvando mais uma vez o génio cirúrgico de Volkmar e dizendo depois firmemente para a filha:

 

- Enrico está fatigado. Também não admira, depois de um dia destes. Não devemos esperar até que caia do sofá abaixo. Dottore, esta data será um dia cunhado a ouro.

 

- Acredito, Dom Eugênio. Talvez no seu átrio de entrada. Sugiro a parede da direita e que tome a forma de lápide ...

 

Volkmar também se levantou. Loretta encostou-se ostensivamente a ele, a fim de mostrar ao pai quais eram os seus sentimentos. Era a revolta de uma filha submissa. A revolução contra o patriarca. A quebra da tradição a que obedece qualquer mulher italiana.

 

O dr. Soriano ignorou a provocação. Sorriu calmamente. As crianças agarram-se aos brinquedos, pensou. Loretta e o amor não tinham lugar nos planos que elaborara para o dr. Volkmar. Se, de facto, não houvesse outra saída, aceitá-lo-ia. Um genro nunca ousará destruir o sogro e, com ele, a mulher amada. De qualquer modo, o «sanatório para crianças» cuja construção estava a ser concluída nos montes de Camporeale, a 430 metros de altura, numa atmosfera saudável, já tinha o seu director! Volkmar poderia dedicar-se à investigação mais meio ano. Depois inaugurar-se-ia a clínica cardiológica, até aí secreta, com uma transplantação segundo o método Volkmar.

 

A verdadeira cirurgia «homoplástica» volkmariana!

 

Tornar-se-ia um novo conceito no mundo da medicina. Ninguém a conheceria, apenas a pequena equipa de um «hospital de crianças» nos montes de Camporeale.

 

- Foi muito agradável - disse Loretta, com o braço metido no de Volkmar enquanto atravessavam o átrio. Worthlow apressava-se à sua frente e atrás seguia o dr. Soriano, a fim de os ter a todos debaixo de olho. - Devíamos jantar todas as noites assim.

 

- É uma boa ideia, mas apenas uma ideia.

 

Soriano meteu-se entre a filha e Volkmar, forçando-a a retirar a mão do braço deste.

 

- Nem sequer tive tempo de lhe explicar a nossa agenda, dottore. Estamos, como costuma dizer-se, tomados durante dezassete dias. Para jantar, naturalmente. Teremos visitas todas as noites, a quem irá ser apresentado.

 

Volkmar parou, surpreendido.

 

- Presumo que à sua «organização» ? Julgava que a minha presença era uma espécie de «top secret»?

 

- Os génios não podem manter-se ocultos, Enrico. Claro que o seu nome alemão é um quebra-cabeças para nós, italianos. Passará a chamar-se, na sua nova existência, dr. Ettore Monteleone. Não acha que escolhi um belo nome? Monteleone! Soa como o de uma figura da. Força do Destino de Verdi.

 

Volkmar esboçou um sorriso.

 

- Vou esforçar-me por estar à altura do seu sarcasmo - e, virando-se para Loretta, que acabava de pôr sobre os seus lindos cabelos, um lenço de seda lindo -, acabou-se, pois, o Enrico!...

 

- Ettore também é uni nome bonito.

 

- Já estava ao par?

 

- Ouvi-o agora, como você, pela primeira vez.

 

O sorriso dos seus lábios rubros era tão insondável como o olhar com que acariciou Volkmar. Agora já não eram apenas apaixonados, mas sim conspiradores, cúmplices.

 

- O meu pai gosta destas graças. Um leão, por exemplo, chama-se Jimmy, outro, Al Sacco. Serão eles nomes para leões ?! Mas o papá gosta. Porque não se chamará você Ettore Monteleone na nossa casa? Não deixa por isso de ser a mesma pessoa, não é verdade?

 

- Com certeza!

 

Nesta pergunta havia muito daquilo que não podiam dizer um ao outro na frente de outras pessoas. Só eles, compreendiam. Contudo, Soriano, percebeu a diferença do tom de voz. Não podia acreditar que a sua única filha, a coisa mais preciosa que tinha no mundo, se estava a afastar dele.

 

Depois de Loretta e o pai terem partido, Worthlow regressou ao terraço para o arrumar. Volkmar sentara-se no bordo da piscina, tomando um último conhaque, e olhava fixamente os projectores submersos. Aquela piscina era cheia todos os dias com água do mar passada através de um filtro, sujeita a radiações de ozono e simultaneamente aquecida a uma temperatura de 28 graus.

 

- Sabe quem era Jimmy, Sir? - perguntou Worthlow, esvaziando os cinzeiros numa taça prateada.

 

- O leão?

- Jimmy Delaggio, de Boston. Chegou à Sicília incumbido pela «família» de Boston de liquidar Dom Eugênio. Falhou, e o leão que mais tarde o comeu chama-se agora Jimmy.

 

Volkmar baixou a cabeça. Lá o longe, num dos pátios interiores da imensa vivenda, ouvia-se o rosnar dos leões sonoleíitos. Numa noite calma como esta, todos os ruídos dobravam de intensidade.

 

- Então Al Sacco também serviu de ... ração? - perguntou com voz rouca.

 

- Al Sacco era oriundo da região onde Dom Eugênio nasceu. Nunca conseguiu impor-se nos Estados Unidos e pensou que poderia vender as informações que tinha por bom dinheiro. E uma loucura julgar que se pode atacar Dom Eugênio ou obrigá-lo a fazer algo. A partir daí, o leão passou a chamar-se Al Sacco.

 

- Quando haverá um leão denominado Ettore Monteleone ou Heinz Volkmar?

 

- Nunca, Sir - Worthlow tirou o copo vazio da mão de Volkmar, como se fosse um brinquedo delicado. - Dom Eugênio escalona o direito à vida de acordo com a importância das pessoas. O senhor ertcontra-se nos píncaros!

 

- Maior será a queda - Volkmar retirou o copo da mão de Worthlow e encheu-o de novo. - E Loretta não sabe nada disto?! Mesmo nada?

 

- Quando se deram os casos de Jimmy, Al Sacco e... chamemos-lhe assim ... outras «limpezas», estava como interna num colégio de freiras. Quando vinha de férias nada sucedia nesta casa que ela não pudesse ver.

 

- Mas agora, Worthlow (eu sei que posso confiar em si pois a própria Loretta mo disse), agora as coisas são diferentes. Ela apenas continua a representar o papel de menina de ouro! Sabe exactamente onde vive! E como compreende tudo, o sol não a aquece, tal como a mim! - Tomou o conhaque de um trago. - Pode imaginar, Worthlow, o que sucederá quando o dr. Soriano descobrir que a filha está a par de tudo?

 

- Não, Sir. Não posso imaginar.

 

- Como pode um homem com o grau de inteligência do dr. Soriano ser ingénuo ao ponto de acreditar que a filha permanecerá eternamente o bebé envolvido em algodão em rama! É incompreensível do ponto de vista psicológico!

 

- Isso acontece a muitos pais, Sir. Como médico, deve sabê-lo. Por que razão criarão certos homens dinâmicos verdadeiros impérios industriais, ignorando, no entanto, o que se passa na própria casa?

 

- Porque supõem erradamente que são o centro sagrado da família, a quem apenas se deve respeito e admiração. O exemplo típico é o da Roma Antiga.

 

- Eis a explicação, Sir.

 

- Mas o dr. Soriano é realista no verdadeiro sentido da palavra: um realista feroz!

 

- Isso não exclui a cegueira parcial, Sir.

 

Worthlow pegou, ele também, num copo de conhaque, esquiçou uma vénia e disse:

 

- Reconheça, Sir! - esvaziando o copo.

 

Tinham chegado assim a uma relação de confiança que Volkmar considerou benfazeja e encorajante.

 

- Antes de entrar ao serviço de Dom Eugênio, fui durante três anos mordomo na embaixada britânica em Moscovo continuou, com o seu ar impassível. -Depois veio a guerra e, de certo modo, tornei-me um desenraizado. Mas na Rússia aprendi um ditado que vem agora a propósito: «Mata o pai através da filha.» Sabedoria do tempo de guerra, Sir.

 

- Nunca a esquecerei, Worthlow. Que me aconselha?

 

- Esperar e ter calma, Sir.

 

- E operar numa clínica da Mafia! Fazer pesquisa para um dos planos mais demoníacos que jamais um cérebro humano engendrou. Como pode Dom Eugênio não temer apresentar-me aos seus muitos amigos como o dr. Monteleone.

 

- Porque todos o temem a ele.

 

- E se eu disser a verdade durante um desses jantares?

 

- Ninguém o ouvirá. Ninguém falará nunca sobre o assunto. Cada um de nós está desesperadamente agarrado à vida, mesmo que faça como se o não estivesse e não lhe custasse sacrificar-se como um herói. A mais louca das ilusões é estar-se convencido que não se teme a morte. Desde há milhares de anos a aspiração da humanidade tem sido a de prolongar a vida, usando pós, pílulas, sumos, injecções, dietas, horrnonas, células vivas. Viver mais! Se fosse possível, tornarmo-nos imortais! Que significado poderá ter o grito de um homem que afirma não se chamar Monteleone, mas sim Volkmar e ser prisioneiro da Mafia que o obriga a transplantar corações?! Será logo esquecido! Ninguém ouviu falar nele! Não, Sir, tem de ocorrer-nos outra coisa.

 

- Nos,, Worthlow? - disse Volkmar, tocando com o seu copo no dele. - Você, a sombra fiel do seu senhor?

 

- Eu ajudei a criar Miss Loretta - Worthlow esvaziou o copo e arrumou-o disciplinadamente sobre um tabuleiro de prata. - O senhor ama Loretta. Loretta, o ser humano, não a filha de Dom Eugênio! Como eu nutro por ela uma secreta afeição paternal, permita-me, Sir, que o englobe nesse sentimento.

 

Pela segunda vez nessa noite Volkmar sentiu começar a tomar forma no seu íntimo a coragem de resistir a tudo o que estava ainda para acontecer.

 

O caixão com os restos mortais do estivador Sérgio Rappallo, para todos os efeitos oficiais denominado dr. Heinz Volkmar, foi trazido num camião para Cagliari. O único carro mortuário de Cabras estava nesse dia ocupado com o corpo de uma viúva, e o de Oristano, a segunda cidade mais próxima, tinha partido um eixo e encontrava-se na oficina. Felizmente, ninguém morrera entretanto na cidade.

 

Por esse motivo, foi necessário fretar um camião, destinado em regra a transportar sacos de cimento. Ao morto, no seu caixão de chumbo, isso já nada afectava. A dr.a Angela Blúthgen é que achou esta forma de transporte degradante, dizendo textualmente: «Isto é uma porcaria!»

 

O comissário deu-lhe razão, mas nada podia fazer. Além disso, os sacos de cimento sempre eram mais bonitos do que o conteúdo do caixão. A sua boa educação meridional não lhe permitiu, porém, exprimir este argumento perante uma pobre signora de luto.

 

Entretanto, o delegado do Ministério Público pedira para Munique, ao dentista dr. Weissner, uma fotografia e a descrição completa da dentadura do dr. Volkmar. O cadáver do Sérgio Rappallo ficaria assim à espera o tempo necessário, embora na capital da Sardenha lhe destinassem um lugar mais digno do que em Cabras. O caixão foi colocado numa das dependências da igreja de Santa Michaela, para o que foi necessário obter uma autorização especial das autoridades, pois enquanto a identidade de um morto não é totalmente confirmada ele deve ser guardado, de acordo com a lei, no Instituto de Medicina Legal. Contudo, ninguém desejava fazer passar a linda dr.a Blíithgen por mais esta provação, depois do rude golpe que sofrera.

 

Junto ao cadáver do dr. Volkmar (o nome encontrava-se inscrito na parte inferior do caixão) foram colocados pequenos loureiros em caixas pintadas de verde e, à cabeceira, de um lado e do outro, dois candelabros de ferro forjado com sete velas^cada um. O sacristão acendia-os não só em presença de Angela, mas também quando vinha o delegado ou a polícia. Os funcionários achavam esta atitude exagerada. No entanto, reservavam para si os comentários ao serem informados que a dr.a Blúthgen fizera à igreja um donativo de montante elevado para que o corpo do dr. Volkmar fosse guardado com dignidade.

 

O que não agradava às autoridades era a sua repetida afirmação de não poder acreditar que a morte de Volkmar se tivesse dado por afogamento. Os resultados eram concludentes: o morto fora recolhido trazendo vestido o calção de banho, usava um anel no dedo e a dentadura também ia estar conforme, disso tinham a certeza. Que provas se poderiam exigir mais? Não existiam impressões digitais do morto, visto que nunca tivera qualquer incidente com a polícia. Além disso, as pontas dos dedos tinham ficado destruídas pela água salgada e pela hélice. Mas para que serviam todas estas indicações? O corpo do dr. Volkmar fora encontrado na área de jurisdição da polícia de Cagliari. Isso era extremamente aborrecido, dava origem a um acréscimo de trabalho inútil e levava os responsáveis a pensar como haveriam de convencer a dr.a Angela Blúthgen que ninguém, mas mesmo ninguém, poderia ter querido afogar o prezado turista alemão. Todos os crimes têm um motivo, nem que seja a vingança do dono de um cão atropelado, como sucedera num famoso caso passado em Cagliari! Porém, o dr. Volkmar nem tinha cão, nem fora vítima de roubo, pois todo o seu dinheiro fora encontrado na tenda.

 

O resultado da autópsia era bem claro: morte por afogamento. Os pulmões estavam cheios de água. Do ponto de vista clínico, não podia restar qualquer dúvida.

 

Mas Angela Blúthgen não se deixava convencer. Não tendo nunca sido uma boa nadadora, não podendo a sua preparação comparar-se à de Volkmar, fora mesmo assim tomar banho no presumível local do afogamento. Era praticamente impossível que ele tivesse ocorrido!

 

- Um colapso! - dissera o delegado do Ministério Público, que se vira forçado a ocupar-se do caso.

 

- Isso não podia acontecer ao dr. Volkmar! - retorquiu Angela, com obstinação.

 

- Qualquer pessoa pode ter um colapso, mesmo um homem saudável como o dottore. Ou teria um coração de aço?

 

- Não, não tinha... - disse ela, muito baixo -, efectivamente não tinha!

 

- Também não devia ter uma circulação como a de um radiador. Talvez tivesse comido peixe, polvo, amêijoas, lagostins... eu sei lá... e, de súbito, sentiu-se mal enquanto nadava!

 

- E o conteúdo do estômago?

 

- Signora, bem sabe que o corpo ... - o delegado escolhia as palavras para a fazer compreender que a hélice do barco o dilacerara de tal modo que ficara sem vísceras.

 

A médica fez um sinal afirmativo.

 

- Eu sei...

 

- Além disso, se o dr. Volkmar tivesse sido assassinado, deixe que lho diga brutalmente, teríamos o trabalho de encontrar o assassino, mas ele continuaria morto! Isso é irreversível! A causa da morte é secundária.

 

- Para mim, não. Eu quero saber quem o matou!

 

- De que lhe serve?

 

- Não sei.

 

Sentada numa cadeira dura, do outro lado da secretária do delegado, ficou a olhar para o vazio. «Sim, de que me vale? Olharei para um ou para vários homens e ficarei a saber que mataram Heinz. Depois, regressarei a Munique e terei de me conformar, tal como milhões de outras viúvas, pois por muito absurdo que pareça, atendendo às nossas relações ’meramente biológicas’, é como viúva que eu me sinto. Comigo, como com todas as famílias dos falecidos, ficará o enigma: porque teria de ser assim? Nunca se encontrará uma resposta satisfatória. Como médica, fora obrigada a responder centenas de vezes a estas perguntas. Porém, quando dizia: O seu marido morreu de cancro! ou Não foi possível salvar a sua mulher, a uremia progrediu com rapidez... ouvia sempre a mesma frase: Mas porquê eles? Na sua idade?! Sempre foram pessoas tão alegres...’»

 

É a eterna questão do morrer ou viver. A terrível angústia que se instala mal se nasce.

 

Enquanto em Cagliari se esperava pela imagem da dentadura, os repórteres mais relacionados com a polícia não ficaram inactivos. Uma agência divulgava a notícia de ter sido encontrado o cadáver, um jornal ilustrado italiano publicara uma entrevista com a dr.a Blúthgen, obtida no quarto do hotel. O jornalista actuara de un modo subtil. Fazendo-se passar por funcionário da empresa proprietária do hotel, viera apresentar pêsames e oferecer um ramo de rosas, conseguindo espremer da conversa havida com Angela o suficiente para redigir um bonito artigo com o título: «A morte de um génio da Medicina».

 

Vinte e quatro jornais e revistas aproveitaram este artigo, entre eles dois periódicos alemães, o que provocou uma onda de interesse pela figura do dr. Heinz Volkmar. Com efeito, não morrem génios todos os dias, muito menos afogados.

 

O professor dr. Hatzport deu uma entrevista muito comedida, muito paternal, muito técnica. Na qualidade de antigo chefe do falecido, louvou o seu trabalho de pesquisa, descreveu as experiências com transplantações, qualificando o dr. Volkmar como umas das grandes esperanças da medicina, agora infelizmente aniquilada. Todos se empenharam em tecer-lhe louvores que nunca teriam exprimido se fosse vivo, em virtude das rivalidades existentes no meio clínico. O professor Hatzport muito em particular, visto as transplantações constituírem na sua opinião uma completa parvoíce, uma moda disparatada, uma brincadeira utópica.

 

No entanto, falou-se do dr. Volkmar durante algum tempo. As utopias são um tema interessante.

 

Após quatro dias de espera, desvaneceram-se as dúvidas em Cagliari. Tendo chegado a fotografia da dentadura, dois dentistas procederam à comparação com a da cabeça mutilada em presença do delegado. Pôde enfim chumbar-se definitivamente o caixão: os dentes do morto coincidiam em todos os pormenores com a imagem e a descrição chegadas de Munique.

 

- Tem mais alguma reclamação a fazer, signora? - perguntou o delegado, depois desta formalidade. Angela abanou a cabeça.

 

- Não. É de facto o dr. Volkmar. Quando poderemos partir?

 

- Já não existe qualquer obstáculo.

 

- Então tomaremos o primeiro voo. Desejo afastar-me da Sardenha o mais depressa possível e nunca mais cá voltar.

 

Era compreensível, embora um tanto ou quanto ofensivo para o orgulho nacional. Que culpa tinha a Sardenha de alguém se ter afogado na sua costa?!

 

A dr.a Angela Blúthgen e, num canto do compartimento de carga, o que restava do «dr. Volkmar», regressaram à Alemanha num voo da Alitalia.

 

Na gigantesca vivenda situada próximo das ruínas de Solunto, começou então um período tranquilo para o dr. Volkmar. O dr. Soriano deixou-o em paz, apenas o convidando para as actividades sociais de que lhe falara. Volkmar foi apresentado como o dr. Ettore Monteleone e as atitudes de Loretta davam azo a que ninguém se admirasse de ouvir em breve a notícia de um noivado.

 

À parte essa noite que decorrera de forma bastante teatral, ele tinha agora muito tempo livre. Soriano não o chamou para a clínica e também o dr. Nardo se manteve calado. Quase todos os dias nadava com Loretta na gigantesca piscina, jogava ténis com ela ou com um Gallezzo ofegante e, finalmente, ia visitar os leões que andavam à solta num pátio interior construído à semelhança dos recintos árabes. Ao vê-los, não se podia esquecer que um comera Jimmy e o outro Al Sacco. Os restantes leões não tinham nomes suspeitos. Chamavam-se Kibu e Simbaze. O dr. Soriano explicara-lhe que os nomes provinham de um dialecto africano que ele próprio não conhecia e que já os traziam da origem.

 

Volkmar nunca mais visitou os crocodilos. Bastara-lhe o espectáculo dos ossos humanos na margem lamacenta do lago artificial. O dr. Soriano também nunca mais o convidou a assistir à refeição dos animais.

 

Seis dias após a transplantação do coração, chegou radiante ao apartamento de Volkmar depositando-lhe um monte de jornais sobre a mesa do pequeno-almoço. Eram periódicos de todo o mundo, de Los Angeles a Hamburgo, contendo todos eles o artigo «A morte de um génio da Medicina». Os jornais e as revistas alemãs inseriam igualmente a entrevista com o professor Hatzport.

 

Volkmar deu uma vista de olhos a um dos artigos e empurrou depois a pilha para o lado, fazendo-a cair sobre o chão de mármore.

 

- É uma vitória para si, Dom Eugênio! - disse com dureza. - Completa! Simplesmente perfeita! Deixei de existir. O caso tornar-se-á muito complicado se algum dia conseguir escapar.

 

- Pretende deixar Loretta, Enrico? - disse Soriano, sentando-se na sua frente. Worthlow foi buscar outro talher. Aparentemente, o patrão manifestava a intenção de almoçar com Volkmar. Loretta continuava a nadar na grande piscina. Era seu hábito fazê-lo antes do petit dejeuner. Depois, com os seus longos cabelos a brilhar de água, sentava-se à mesa de Volkmar, envergando em regra um biquini ou um curto vestido de praia que só parcialmente interrompia as linhas sedutoras do seu corpo. Esse corpo fora criado para andar nu e para se deixar dourar pelo sol. Soriano suportava em silêncio estes encontros matinais. Sabia que, até agora, a paixão entre Loretta e o médico se limitara à troca de olhares e ao eventual acariciar das mãos. Mas quanto tempo se manteria assim?

 

- Não devia deitar fora essas notícias, dottore! - disse, enquanto Worthlow começava a servir o pequeno-almoço e lhe trazia um copo de leite fresco. - Elas não se referem apenas à sua morte e à completa identificação do cadáver, ou aos louvores dos seus colegas, libertos agora do peso da sua superioridade e jubilando no íntimo. Não, elas contêm uma série de informações que me entusiasmaram, e algo que me deixou muito pensativo.

 

Acabou de tomar o leite e olhou satisfeito a fatia de pão branco com queijo de cabra que Worthlow lhe servia. Com excepção das festas que dava, Soriano vivia com maior frugalidade do que um aldeão chinês. No entanto, partir meio tomate sobre um prato de velha prata veneziana e polvilhá-lo de sal e pimenta constituía, não haja dúvidas, um sinal de snobismo.

 

- Por onde hei-de começar? - perguntou.

 

- Não comece. Quero almoçar em paz! - respondeu Volkmar, indelicadamente.

 

- Como os médicos não sabem o que é o nojo e são capazes de comer bolos olhando para uma ferida infectada, sobretudo os cirurgiões ... então falemos da clínica. A autópsia de Melata veio provar que, com efeito, três costuras dos grandes vasos não tinham resistido e se dera uma hemorragia interna, tal como previra. O dr. Nardo já elaborou o relatório.

 

- Que o pendure na retrete! - disse Volkmar, com grosseria.

 

- O senhor escondeu-me algo, dottore, que talvez confira à questão um aspecto totalmente diverso: a sua invenção de uma máquina de fazer suturas nos vasos sanguíneos.

 

- Não!

 

- Sim! Uma máquina que permite não coser os vasos, mas sim agrafá-los, tal como os agrafadores de papéis dos escritórios, para nos exprimirmos numa linguagem de leigos.

 

- Essa invenção foi feita na Rússia, na clínica do professor Demichov, e não por mim.

 

- Mas o senhor aperfeiçoou-a, melhorou-a, de tal modo que se torna possível unir com segurança as mais finas costuras.

 

- Em cirurgia nada é seguro! Pode morrer-se com um banal panarício.

 

- Está a desviar a conversa, Enrico! O senhor aperfeiçoou a máquina. Vem escrito em quatro jornais alemães. O professor Hatzport também o afirmou na entrevista. - Soriano comeu a metade do tomate com gestos delicados. Era um prazer estético vê-lo comer. Mesmo que se tratasse apenas de um pedaço de pão, os seus gestos eram elegantes.

 

- Iremos desenvolver esse aparelho até à perfeição, dottore Não está em causa o dinheiro, como sabe! Com ele e com as próteses de teflon ser-lhe-á possível a transplantação do coração numa operação segura logo desde o início. Há ainda a barreira imunológica ... eu sei. Mas isso também vai ser resolvido por si!

 

- Só um homem com o seu dinheiro pode permitir-se ser tão optimista!

 

Worthlow serviu-lhe uma metade de toranja com açúcar e um pouco de vinho do Porto.

 

- Se tivesse aqui o seu aparelho de coser vasos sanguíneos Melata também teria morrido?

 

- Também.

 

- Eis uma resposta clara - disse Soriano, olhando de novo para o prato de queijos. Worthlow apresentou-lho imediatamente. - Não quererá operar amanhã um chimpazé? Temos teflon em todas as medidas!

 

- Muito bem. O dr. Nardo ocupar-se-á disso. Passemos a outro tema.

 

Soriano olhou à sua volta, mas Loretta ainda não vinha e ele preferia que assim fosse.

 

- Quem é a dr.a Angela Blúthgen?

 

Volkmar pousou a colher com que comia o fruto e olhou para Soriano, estupefacto.

 

- Dom Eugênio - disse com voz insegura -, por favor, deixe Angela em paz!

 

- Ela apenas me interessa intimamente. Como pai de uma filha que o ama. Quem é Angela Blúthgen?

 

- Uma médica, interna dos hospitais. Conhecemo-nos do tempo de estudos.

 

- Dormia com ela?

 

- Isso não é da sua conta!

 

- Quer dizer que sim, que dormia! Ama Angela Blúthgen?

 

- Queria casar com ela.

 

- E porque não o fez?

 

- Ela recusou. Prezava muito a sua independência.

 

- Então enganava-se a si própria. Angela Blúthgen ama-o, Enrico. Veio à Sardenha buscar os seus restos mortais. Fez a vida negra à polícia de Cabras e de Cagliari. - Soriano apontou para o monte de jornais caídos no chão de mármore. - Não quererá ler a sua entrevista? Aquilo que disse, a maneira como se comportou... só pode vir de uma mulher que o ama para além da morte.

 

- Não o sabia. Nunca suspeitei sequer - disse Volkmar, muito baixo. - Dom Eugênio, mande destruir esses jornais. Não quero ler nada sobre o meu caso.

 

Worthlow serviu o café quente e forte em pequenas chávenas de interior dourado.

 

«Angela ... ela veio até à Sardenha, levou para a Alemanha aquilo que julga ser o meu cadáver. Mandará inumar o corpo do estranho e colocar flores na campa. Talvez por vezes se dirija ao cemitério para renová-las e se recorde das nossas noites de fim-de-semana e das minhas palavras: Porque não casamos? Meu Deus, mas nós gostamos um do outro! E a resposta: Nós fazemos amor esporadicamente, o que é muito diferente!’»

 

«Provava-se agora que mentia. Amara com toda a capacidade de que pode dar provas uma mulher, mas não quisera reconhecê-lo. E agora, no último acto deste estranho amor, era a ela que mentiam: chorava e levava consigo um morto que não era o dr. Volkmar. Mandaria enterrar um homem cujo nome talvez só Dom Eugênio conhecesse, ou talvez nem ele, pois não se ocupava com ninharias.»

 

O dr. Soriano tinha comido um pequeno queijo branco de cabra e molhava as pontas dos dedos numa taça de cristal contendo água com rodelas de limão. Worthlow estendeu-lhe uma toalha perfumada.

 

- Reminiscências? - perguntou. - Acho que devia falar de Angela a Loretta.

 

- De que lhe serviria isso.

 

- Ficará a saber que terá de lutar contra uma sombra.

 

- Ficaria a saber também que o seu pai fez dar à costa um estranho com dentes idênticos aos meus, o meu calção de banho e o meu anel no dedo. Parece-me que ela faria então perguntas difíceis de responder.

 

- Tem razão, Joííore! - Soriano fez um gesto de gratidão.

- Pensei somente como pai. Foi um erro, admito. Nunca devemos esquecer o importante objectivo que temos em vista.

 

- Que o senhor tem em vista, Dom Eugênio!

 

- É tanto meu como seu, doífore. Vestimos ambos o mesmo fato. Quem quiser sair dele ficará nu!

 

No átrio, por detrás deles, bateu uma porta. Worthlow, o mordomo perfeito, trouxe um terceiro talher para a mesa.

 

- Ah! Aí vem Loretta! - disse Soriano, lançando a Volkmar um olhar interrogativo. - Ama a minha filha mais do que essa Angela?

 

- Não lhe darei nenhuma resposta.

 

- Se assim não for, matá-lo-ei, apesar de todos os meus planos. Posso jurar-lhe - disse, levantando-se.

 

Dirigiu-se então a Loretta, de braços estendidos, e disse com ternura paternal:

 

- Bom dia, meu anjo! O dia só agora começou paramim! Ela voltava a usar o seu biquini dourado, sobre o qual o cabelo negro se estendia como uma estola. Era de uma beleza irresistível.

 

Ana chegou de táxi à península de Zafferano e ficou muda de espanto diante do gigantesco conjunto, pois julgara tratar-se de uma vivenda habitada por um único indivíduo.

 

- Chegámos! - disse o motorista do táxi. - Quem paga, eles lá dentro ou tu?

 

- Eu.

 

Foi buscar à saquinha as notas de lira necessárias e estendeu-as ao homem. Contudo, fez as contas certas e não lhe deu gorjeta. Ele também não a esperava, pelo que no preço incluíra já a percentagem.

 

Ana saiu do carro, colocou o saco de viagem no chão e a saquinha do dinheiro de novo à volta do pescoço. O táxi deu meia volta, regressando a Palermo. Criadas de quarto que se apresentavam pela primeira vez eram uma clientela pouco desejada.

 

Quando olhou para o enorme portão de ferro forjado, para o muro longo e alto e o seu olhar se estendeu também às ruínas próximas, ao mar e à praia, levou ambas as mãos à saca do dinheiro, ficando mais tranquila ao sentir o volume da faca. Depois carregou no botão da campainha e estremeceu ao ouvir uma voz muito próxima, saída do muro. O que sabia ela de instalações sonoras?

- O que deseja? - perguntou uma voz de homem. Pensando que ele também a podia ver utilizando não sabia que artes mágicas, fez uma pequena vénia. A sua suposição não era assim tão descabida, pois não só a entrada da vivenda, como certos locais do muro, eram vigiados por câmaras de televisão.

 

- Eu sou a nova criada de quarto - disse, olhando fixamente para a grelha de metal de onde provinha o som. Disseram-me para me apresentar hoje.

 

O homem invisível pareceu reflectir ou ficar simplesmente indeciso. Não ouvira falar da admissão de uma nova criada. Por outro lado, sabia-se que Dom Eugênio tomava por vezes decisões que era preciso acatar sem fazer perguntas. A vinda de uma rapariga com bagagem, e ainda por cima de uma rapariga da aldeia, como era possível deduzir do seu falar, afirmando ser a nova empregada era um facto pouco comum. Devia, portanto, ser verdade. Talvez Worthlow o soubesse informar, já que todos os «assuntos domésticos» (como ele dizia) passavam pela sua pessoa.

 

Ouviu-se um zumbido no portão e Ana calculou que era agora possível empurrá-lo e entrar nesse reino misterioso. Segurou no seu saco e disse para a grelha instalada no muro:

- Obrigada, signore.

 

Começou depois a subir o largo caminho que levava ao edifício principal. Via-o brilhar ao longe entre arbustos floridos, tufos de palmeira, pinheiros e ciprestes finos e altos como colunas.

 

Quando o pesado portão se fechou atrás dela estremeceu, apossando-se do seu espírito uma angústia inexplicável.

 

«É então aqui que vive agora ojinrico», pensou. «Como um rei! E eu apareço-lhe como uma guardadora de porcos. Além, naquele palácio, vive também o homem que assassinou Luigi! Não sei se tornarei a sair daqui...»

 

Benzeu-se e continuou a percorrer o caminho que conduzia ao pórtico sustentado por colunas atrás do qual se situava o grande átrio.

 

Característico do estilo de vida do dr. Soriano foi o facto de ninguém perguntar a Ana o que ela realmente pretendia. A governanta que superintendia ao pessoal feminino da casa reagiu do mesmo modo que o guarda-portão, pressupondo ter ela sido contratada através do escritório do advogado em Palermo. A conversa entre as duas foi breve.

 

- De onde vens?

 

- Da Sardenha, signora - disse Ana, submissa, com os olhos pousados no chão.

 

- Quem te contratou?

 

- Um homem. Não sei o seu nome. Disse-me que Dom Eugênio procurava uma rapariga competente.

 

- Na Sardenha?

 

- Também me admirei, signora, mas ele deu-me o dinheiro para a viagem, a morada e a data exacta em que devia apresentar-me. Hoje devo começar a trabalhar e por isso aqui estou.

 

Foi o bastante. Em primeiro lugar, o nome de Dom Eugênio. Se o homem empregara esse e não o de dr. Soriano, isso era, de certo modo, uma espécie de legitimação. Depois, o dinheiro, a morada, a data... Worthlow devia saber mais pormenores.

 

Indicaram a Ana o seu quarto, que lhe pareceu um palácio em comparação com o casebre de pedra dos montes de Gennargentu. Apenas o rugido dos leões a incomodava. A casa da criadagem estava dividida por um muro do pátio dos leões e embora não houvesse janelas para esse lado os rugidos ouviam-se através da parede. Recebeu uma farda, uma espécie de uniforme de saia curta e plissada e blusa azul.

 

A saia era branca. Para Ana, este tipo de vestuário sempre fora considerado roupa de festa e não de trabalho.

 

- De princípio serás a terceira criada de quarto da signorina - disse a governanta, depois de Ana ter tomado banho e se ter fardado. Ficara muito bonita. Os seus seios redondos estiravam a blusa, as pernas esguias e as nádegas cheias e firmes que a saia plissada cobria demonstravam que também nos montes selvagens da Sardenha existiam lindas raparigas.

 

A governanta achou por isso necessário aconselhá-la:

 

- Esta é uma casa de respeito, Ana! - disse. - Uma casa piedosa, onde até o bispo vem jantar. Tu és uma rapariga bonita, mas se te puseres para aí a doidejar vais logo para a rua!

 

- Claro que não o farei, signora... - respondeu Ana, envergonhada. Sabia representar muito bem.

 

- Diz-me imediatamente se algum dos rapazes tentar apalpar-te!

 

- Imediatamente, signora.

 

- Tens um amante?

 

- Eu sou virgem, signora.

 

A governanta não fez comentários. «Aparentemente, isto só sucede ainda nos montes da Sardenha» - pensou. «Uma virgem nesta casa! Foi uma boa ideia colocá-la como terceira criada da signorina Loretta. Aí estará mais resguardada!» Worthlow viu Ana pela primeira vez à noite mas não lhe prestou atenção. Reparou, de facto, que se tratava de uma rapariga nova, mas o pessoal feminino era apenas da competência da governanta. Loretta também não fez comentários quando Ana se apresentou e ficou a admirar a beleza da signorina como se duma aparição celeste se tratasse. Quando, mais tarde, Loretta se dirigiu à grande sala de jantar para receber convidados, Ana sentou-se no enorme quarto de vestir, abriu todos os armários e ficou a olhar deslumbrada para a infinidade de vestidos de dia e de noite. Como era possível ser-se tão rico? Como se podia viver com tanto luxo? Como conseguia um homem ganhar tanto dinheiro?

 

Lembrou-se dos camponeses da Sardenha, dos pastores, dos modestos operários, dos pequenos comerciantes e dos jornaleiros. Recordou o mundo em que nascera e que nunca teria abandonado se um homem não tivesse aparecido e retalhado o corpo de Luigi. O homem!

 

Saiu furtivamente dos aposentos de Loretta e procurou espreitar para a grande sala de jantar. Ouviam-se risos. Criados fardados entravam e saíam carregando tabuleiros de prata. Worthlow comandava o seu «exército» como se fosse um general, e ao reparar em Ana olhou-a com estranheza. Ela fugiu para o jardim, ficando do lado de fora a espiar com o rosto colado a uma das grandes portas de vidro.

 

Na sala viam-se jóias a brilhar, vestidos de noite, costas nuas, seios semi-encobertos, smokings brancos, até alguns fraques. Cintilavam os candelabros venezianos, as tapeçarias preciosas, os revestimentos de mármore, os mosaicos do chão embutidos no estilo da velha Roma. Um longo bufete encontrava-se decorado artisticamente com alimentos que Ana nunca vira.

 

Foi então que reconheceu Enrico ...

 

Estava ao pé da signorina Loretta, vestido com um smoking branco, segurava uma taça de champanhe e ria. Estava muito bronzeado. A sua beleza máscula fez acelerar a respiração de Ana.

 

«Ele está aqui - pensou Ana. - Vim dar ao lugar certo. Se Enrico está aqui, também aqui está o homem que matou Luigi. Alegra-te, irmão! Abençoada seja a tua sepultura atrás do nosso casebre. Vou poder vingar-te.»

 

Nos dias que se seguiram Ana executou o seu trabalho muito calada, discreta, com aplicação e humildade. Loretta estava satisfeita com ela, quase não notando a sua presença, tão silenciosa era.

 

Mas sempre que a patroa não precisava dos seus serviços, a rapariga procurava aproveitar todos os ensejos para ver o dr. Volkmar ou eventualmente encontrá-lo. Dois dias após a sua chegada, descobrira ser possível ver de um dos terraços da ala do edifício onde se encontrava o salão uma grande parte do parque, a piscina e o campo de ténis. Para aí corria em todos os momentos livres e, escondida atrás de grandes caixas de flores ou de estatuetas de pedra, com um lenço a tapar-lhe a cabeça por causa do sol, observava Enrico, vendo-o nadar, jogar ténis com Loretta, discutir com o dr. Soriano sobre o terraço, falar com os visitantes que o procuravam ou dançar com a signorina ao som de música estereofónica. Era tudo muito belo mas Ana sentia um aperto no coração.

 

Cerrava os dentes com força ao vê-los dançar estreitamente enlaçados, mordia os punhos quando, após um jogo de ténis, ele a puxava para si e beijava.

 

«Claro que ela o ama», pensava Ana. «Ela tem de amá-lo. Quem poderia não amar Enrico? E bela como é... não se pode levar a mal que Enrico não se afaste. Mas tudo se vai modificar quando ele me vir! Foi a mim que beijou pela primeira vez no nosso casebre de Gennargentu. Eu também sou bonita, mesmo que não dês por isso,signorina Loretta!»

 

Começou a fazer experiências com a sua caixa de maquilhagem, aplicando sombra nas pálpebras, circundando os olhos com um traço para lhes dar uma forma de amêndoa, sublinhando o contorno dos lábios com um lápis próprio e esfregando um pouco de base sobre o rosto, a fim de o tornar menos brilhante e adquirir um aspecto acetinado, como o da signorina.

 

Loretta reparou nos seus esforços ao quinto dia.

 

- Estás apaixonada? - perguntou de passagem, enquanto Ana lhe escovava os cabelos.

 

- Sim, signorina.

 

- Que bom! - Loretta sorriu, pensando em Volkmar. Não achas que nos sentimos logo diferentes?

 

- Acho, sim, signorina.

 

- É pena teres pouco tempo livre, não é?

 

- Chega, signorina. Eu gosto muito do meu trabalho.

 

- Se quiseres mais algum dia de folga diz-me francamente, Ana.

 

- Obrigada, signorina. Sinto-me feliz por poder estar aqui.

 

E voltava a esconder-se no terraço, espiando Volkmar enquanto nadava. Certa manhã, muito cedo, viu-o até sair da água nu e correr várias vezes à volta da piscina. Em casa tudo dormia ainda.

 

A partir de então passou a sonhar com essa imagem: a de um corpo nu que ao correr punha em movimento todos os músculos e deixava transparecer um enorme vigor.

 

Apenas não conseguia descobrir o homem que matara Luigi.

 

Com efeito, Paolo Gallezzo encontrava-se no continente, encarregado de comprar toda a uma série de equipamento delicado com o qual se pudesse construir um aparelho para suturar vasos sanguíneos.

 

Na secção de animais da ala III do «asilo de velhos» continuavam a realizar-se experiências com transplantações. Macacos, porcos, cães, gatos e ratos eram deitados em mesas de mármore, a fim de receberem corações transplantados.

 

O dr. Nardo e a sua equipa trabalhava agora segundo o método do dr. Volkmar, mas era evidente que a tarefa não estava à sua altura. Dispunham das condições técnicas necessárias, tinham estudado o novo sistema em todos os pormenores, lido vezes sem conta os artigos de Volkmar, mas para que servia a melhor das teorias se um perito a não pusesse em prática?

 

Entre todos os animais, os ratos e os coelhos eram os que sobreviviam mais tempo. Tinham corações suficientemente leves para poderem ficar suspensos das veias e das artérias até estas também se romperem após algum tempo e darem origem a hemorragias internas, como no caso do paciente Melata. Nem sequer se chegava a verificar fenómenos de rejeição, pois as paredes dos vasos capitulavam primeiro.

 

Ao cabo de nove dias, o dr. Nardo dirigiu-se ao escritório citadino do dr. Soriano apresentando os seus relatórios, bem como notas diárias, filmes, fotos, radiografias e bandas gravadas em que se tinham registado todas as observações orais feitas sobre as experiências.

 

- Não é possível! - afirmou, após ter feito um relato ao dr. Soriano. - Apesar do teflon e de outras próteses auxiliares! Os detractores do dr. Volkmar têm razão: não é esta a forma de transplantar corações! As paredes dos vasos sanguíneos acabam sempre por dar de si. Apenas existe a possibilidade que, no campo experimental, mais progrediu: a transplantação parcial! Neste caso, as costuras aguentam-se por serem realizadas em tecido muscular e o único limite que nos é imposto é a reacção imunológica. Não se trata, no entanto, de um problema cirúrgico, mas sim de um problema bioquímico. Em termos de cirurgia, podemos efectuar transplantações do coração que assentam como próteses dentárias! Trata-se unicamente de um problema técnico, Dom Eugênio. Teremos de esperar pelo homem que consiga evitar a necrose da coagulação! O sonho do dr. Volkmar permanecerá sempre um sonho!

 

- Isto é para si, Pietro! - disse Soriano, colocando ambas as mãos sobre um monte de relatórios. - Tenho fé no dr. Volkmar e penso que não me engano. Até agora nunca me enganei, por muito petulante que isso possa soar.

 

- Ponha o dr. Volkmar à frente da mesa de operações, Dom Eugênio. Terá então de aceitar também os seus insucessos. No caso Melata...

 

- Tratava-se desde o início de um caso perdido. Todos nós sabemos isso! Queríamos apenas ver como o dr. Volkmar reagia perante um problema dessa espécie! Ele foi tomado de surpresa e mostrou-nos como pode ser corajoso com um escalpelo na mão!

 

- Volkmar atingiu as fronteiras naturais. Para além delas é-lhe impossível prosseguir!

 

- Fronteiras! Quem imaginaria há alguns anos atrás ser possível colocar satélites em órbita? Quem pensaria poder utilizar feixes de raios luminosos como os laser capazes de derreterem placas metálicas? Perante estes factos deveremos nós capitular frente ao nosso próprio coração? Trata-se apenas de uma questão de tempo.

 

- E o senhor tem tempo, Dom Eugênio?

 

- Sim, tenho - exclamou Soriano -, e o dr. Volkmar também. No Natal inauguraremos o hospital para crianças em Camporeale. Um cardeal virá trazer a bênção do Santo Padre. Em Janeiro o dr. Volkmar poderá começar a transplantar corações. Não em animais, mas de uma pessoa para outra.

 

- Ele já sabe disso?

- Não.

 

- Recusar-se-á a fazê-lo.

 

O dr. Soriano abanou lentamente a cabeça.

 

- Fá-lo-á! Até lá ainda faltam cinco meses. Não me acha capaz, dr. Nardo, de em cinco meses modificar a opinião de um homem que ama a minha filha?

 

Duas semanas após o malogro da operação feita a Arrigo Melata o dr. Volkmar recusou-se a tomar o pequeno-almoço.

 

Worthlow pusera a mesa, como sempre, no terraço fronteiro ao átrio das colunas, agora recoberto por uma espécie de toldo de tecido cor de laranja. O sol de Agosto brilhava num céu azul-pálido, sem nuvens, e nem a proximidade do mar proporcionava a mínima frescura. No pino do Verão a Sicília assemelha-se a uma frigideira. Isso levava Volkmar a andar quase sempre de calção de banho e com uma leve camisa, a passar o dia na piscina ou debaixo do duche frio e a beber (contrariando todos os preceitos médicos) constantemente água mineral gelada, misturada por vezes com um pouco de vinho.

 

Nos armários do seu quarto de vestir pendiam inúmeros fatos feitos por medida pelos melhores alfaiates de Palermo, smokings brancos, casacos de seda e, no que se referia a sapatos, os fornecedores do seu guarda-roupa tinham-nos feito harmonizar com o resto do vestuário graças a subtis diferenças de cor. Quando, à noite, Volkmar se metia num desses fatos, com a ajuda silenciosa de Worthlow na escolha das camisas e gravatas, era sem dúvida um dos homens mais elegantes que jamais se vira. Era essa também a opinião de Loretta.

 

- Apetecia-me estar sempre aqui sentada a olhar para ti dizia.

 

- Mas nada disto me pertence - respondia ele.

 

O dr. Soriano já se encontrava sentado debaixo do toldo. Levantou-se ao ver Volkmar chegar ao terraço, mas este fez um sinal com a mão a Worthlow, que acorria trazendo o café para a mesa. Encostou-se a uma das colunas de mármore e exclamou:

 

- Hoje não como nem bebo nada!

 

O dr. Soriano ergueu as sobrancelhas ao mesmo tempo que fazia um sinal a Worthlow. O mordomo voltou a pegar na cafeteira e retirou-se.

 

- Faz greve? - perguntou com benevolência.

 

- Chame-lhe o que quiser.

 

- Ou é uma reacção de desafio? Meu caro dottore, nós já não somos rapazes obstinados! O que é que lhe desagrada?

 

- Tudo!

 

- É curioso. E, no entanto, nesta casa tudo gira em torno de si.

 

- Acha que não fazer nada, nadar na piscina, assistir a festas e ver o tempo passar é a minha missão na vida?

 

- Existe um grande número de pessoas que nada mais faz para além de cultivar a ociosidade - o dr. Soriano fez um gesto   impedindo   Volkmar   de   o   interromper.   -   Eu compreendo-o muito bem, dottore. Também não me incluo naquela categoria de homens que reduz o conteúdo da sua vida a um sorriso encantador e a conversas mais ou menos espirituosas. Trabalho como um cavalo, quer no meu escritório de advogado, quer nos meus outros interesses. Sentir-me-ia infeliz se me visse forçado a passar um só dia sem trabalhar.

 

- Mas o que é que o senhor exige de mim?

 

- Exijo! Mas, Enrico ... você é que não quer! Tudo está à sua disposição: salas de operações, laboratórios, equipas médicas, animais para as suas experiências, cadáveres... Soriano fez um gesto largo com o braço como a mostrar que para ele não havia limites. - Poderá continuar com as suas pesquisas até lhe estoirar a cabeça. Você é que não quer?

 

- Não nas condições que me são impostas!

 

- Não são elas ideais? Poderá   um hospital escolar oferecer-lhe o que eu lhe ofereço?

 

- Do ponto de vista material, não!

 

- Julguei sempre que qualquer investigador se sentiria feliz por poder ser materialmente independente, por poder levar avante as suas pesquisas, livre de problemas económicos. Acha que me enganei?

 

- Dom Eugênio, porque estamos nós a representar uma commedia deli’ arte? Seremos arlequins com máscaras no rosto? Eu estou oficialmente morto, fui encontrado na costa da Sardenha, identificado pelo meu dentista e enterrado em Munique. Nunca mais poderei ter uma vida livre. Pertenço-lhe. Sou o dr. Ettore Monteleone, que toda a gente inveja por poder dançar com a linda Loretta.

 

- Esqueçamos agora a minha filha! - respondeu Soriano.

- Ela vive à margem dos nossos problemas.

 

- E o que o senhor julga ...

 

- Se assim fosse afastá-la-ia imediatamente para Palermo.

 

- Isso é um aviso?

 

- Apenas uma constatação, dottore. Por favor, falemos das realizações futuras excluindo Loretta ...

 

- Vivo aqui como um prisioneiro!

 

- Como meu muito caro hóspede!

 

- O senhor quer-me obrigar a transplantar corações, não para proveito da ciência médica e, com ela, de toda a humanidade (uma vez que tudo se realizará no anonimato), mas sim para fazer dessas operações um negócio secreto. Entrarão milhões nas caixas da «digna organização» que passará a negociar com corações! É esse o seu objectivo, Dom Eugênio!

 

- Não será legítimo fazer um negócio, seja qual for a possibilidade que se apresente? Simplesmente, o senhor está a deturpar tudo, dottore. Se acabar por fazer uma transplantação perfeita (e eu não duvido que o conseguirá) terá feito avançar a ciência médica de centenas de anos.

 

- Mas quem o ficará a saber? - gritou Volkmar. - A quem aproveitará? Apenas ao senhor!

 

- E aos doentes que se submeterem à operação.

 

- Corações a valerem milhões...

 

- Exactamente.

 

- Eu faço pesquisas e trabalho não para um clube de milionários mas para todos os doentes! Contudo, isso ficou-me vedado pelo facto de me consideraram morto! Meu Deus, o que se passa no seu cérebro para poder imaginar uma coisa destas?! O senhor pretende transformar-me numa máquina de operar a trabalhar só para si!

 

- Porque deturpa sempre tudo, Enrico?! - o dr. Soriano apontou para a mesa do pequeno-almoço. - Vamos tomar qualquer coisa?

 

- Não!

 

- Muito bem. Como quiser, dottore.

 

Soriano dirigiu-se para uma das cadeiras estofadas de verga e pegou no habitual copo de leite que tomava de manhã.

 

- Tenho fome e sou suficientemente indelicado para começar a comer apesar da sua recusa. Enrico, eu bem sei que sente como se o mundo tivesse desabado e que de nada lhe vale ver-se rodeado de luxo. Basta uma palavra e à sua disposição estará um carro que em meia hora o levará a uma clínica cirúrgica de que poderá dispor a seu bel-prazer. Bem sabe como estamos bem equipados. Não, não sabe. Nos últimos quinze dias mandámos vir tudo o que nos faltava. Do ponto de vista técnico somos agora imbatíveis. Apenas nos falta o génio que saberá fazer milagres com toda essa técnica. Está a mortificar-se a si próprio, sabendo que esse protesto cairá no vácuo.

 

- Onde está Loretta? - perguntou Volkmar, com voz rouca.

 

- Partiu muito cedo para Palermo. Penso que o quer surpreender com um presente. Por favor, não lhe diga que falei, mas de outro modo não me teria acreditado. Enrico, não me olhe com essa expressão assassina! Você é médico e está destinado a salvar vidas.

 

- O seu cinismo é insuperável, dr. Soriano!

 

- Devia ler os relatórios do dr. Nardo, dottore. Uma verdadeira catástrofe! Apesar da aplicação do teflon. Porém, desde há três dias estamos de posse de um aparelho de suturar veias «à Ia Demichov».

 

- Como conseguiu obtê-lo? - perguntou Volkmar, desanimado.

 

Soriano sorriu com indulgência. O muro atrás do qual se refugiara o seu hóspede começava a desmoronar-se.

 

- Porque não acredita que para mim nada é impossível? Venha cá, Enrico! Venha tomar o pequeno-almoço! Worthlow arranjou mel de jasmim. E uma delícia, acredite! Um aroma ... - Soriano bateu com a colher contra um pequeno boião. - O dr. Nardo está desde há dois dias a experimentar o aparelho em cadáveres, em cães e em gatos. Na câmara frigorífica estão neste momento dez cadáveres à sua disposição ...

 

Volkmar sentiu como se lhe tivessem deixado escorregar um pedaço de gelo pelas costas. Teve de engolir em seco antes de falar.

 

- Cadáveres? Onde arranjou os cadáveres?

 

- Comprei-os - respondeu Soriano, com naturalidade.

 

- O quê?

 

- Enrico, procure raciocinar à maneira siciliana. A Sicília é uma terra belíssima, mas também extremamente pobre. Quanto mais avançar para o seu interior e observar as aldeias minúsculas, tanto mais evidente é a situação de miséria. O nascimento e a morte são para todos fenómenos naturais. Ambos custam dinheiro. Se tiver morrido um homem ou uma mulher e alguém se aproximar da família enlutada dizendo: «Se amanhã enterrardes o vosso querido morto ele desaparece e vós com nada ficareis. Porém se eu o levar ele desaparece também mas deixar-vos-ei 250 000 liras sobre a mesa. Além disso, recebereis o dinheiro do caixão e ser-vos-á servido um bom almoço numa taberna.» Qual julga, que será a reacção desses pobres camponeses? Pedirão ao padre para benzer o morto antes de fechar a tampa e substituirão o cadáver por pedras. Não se me ponha agora a falar de piedade, Enrico! O facto de comprarmos um morto ou de ele ser fornecido (como sucede nos hospitais escolares da sua terra, cuja matéria-prima são os vadios, os desconhecidos, as pessoas sem família) às aulas de anatomia... diga-me onde está a diferença? Pelo contrário, nós até beneficiamos a família enlutada! Ela costuma abraçar os meus compradores como aos tios ricos da América. - Soriano deitou sobre a sua torrada um fio de mel dourado com laivos violeta. As narinas fremiram. - Só queria com isto dizer-lhe, Enrico, que aqui nunca sentiremos falta de cadáveres como vocês na Alemanha.

 

- Isso é terrivelmente consolador ... - disse Volkmar com voz rouca. - Porém, continuo na minha: não opero!

 

- Pelo que começa desde já a fazer greve de fome?

 

- Sim.

 

- Você é um homem feliz. Com os seus quarenta e dois anos conseguiu manter muitas características da juventude.

 

- O seu sarcasmo não me afecta! - gritou Volkmar. - Não me afecta nada! Investiu milhões na minha pessoa... é dinheiro perdido! A partir de agora passarei a recusar tudo. Gostaria de saber como vai poder obrigar-me!

 

Deu meia volta e correu para a ala dos hóspedes.

 

Soriano ficou a observá-lo abanando a cabeça. Worthlow voltou para servir a Dom Eugênio o café muito forte e a escaldar.

 

- Cancele todos os convites, Worthlow - disse pensativo -, anule todas as festas até ao fim de Setembro!

 

- Muito bem, Sir. - Worthlow estendeu uma toalha embebida em água morna para Soriano poder limpar os vestígios de mel dos cantos da boca. - Também a festa de aniversário de Miss Loretta?

 

- Também essa!

 

- Isso vai dar origem a grandes discussões, Sir!

 

- Diga à minha filha para se dirigir ao dr. Volkmar. Ele vai entrar em greve de fome.

 

Soriano recostou-se na cadeira. Penetrando através do tecido cor de laranja do toldo, os raios de sol conferiam a todos os objectos um tom avermelhado. «É de facto impossível coagi-lo», pensou. «Não podemos utilizar meios físicos, pois cada nervo do seu corpo nos é precioso. Volkmar está perfeitamente consciente disso, pelo que, para já, é ele quem se encontra em melhor posição. Pode fazer-me desesperar durante semanas, meses, impedindo-me de utilizar outra arma que não seja a bondade para o levar até à mesa de operações. Enganá-lo, como no caso de Melata, apenas resultou uma vez e mesmo que ele estivesse preparado para operar e para trabalhar para a clínica, poderia destruir todos os meus planos falhando as operações. Dois ou três insucessos ... isso daria logo brado em certos círculos que nos interessam. As camas ficariam vazias e a «organização» exigirr -me-ia que prestasse esclarecimentos. É tão simples como isso, teoricamente. Quem por suas próprias mãos domina a morte e a vida é sempre o mais forte. Ninguém melhor o sabe do que eu! E, neste caso, perante a mesa de operações, Volkmar é sem dúvida o mais forte.»

 

- Qual é a sua opinião, Worthlow? - perguntou Soriano.

 

- Acha que Enrico seria capaz de cometer erros deliberados a operar para prejudicar-me?

 

- Não, Sir. Nunca! - respondeu o mordomo, quase que indignado. - O dr. Volkmar é médico!

 

- O que significa isso? Há imensos médicos corruptos. Porque não existirão também aqueles que utilizam os seus clientes como armas?

 

- E isso o que pensa do dr. Volkmar, Sir?

 

- Não! Mas se imaginarmos o que ele poderia fazer ...

 

- Se o dr.   Volkmar tiver um doente à sua frente considerá-lo-á um ser humano que necessita de ajuda ... mais nada. Uma pessoa que precisa de ser salva. Tudo o resto ficará em segundo plano.

 

- É essa a minha esperança, Worthlow. - Soriano fechou os olhos, parecendo subitamente ter mais de cinquenta anos. A luz filtrada pelo toldo fazia sombras nos vincos da sua pele.

 

- Ele não será capaz de fugir perante o espectáculo terrível da doença se ela lhe for apresentada de forma convincente. Mas ninguém, ninguém Worthlow, o pode obrigar a transplantar corações se ele achar que é indefensável do ponto de vista clínico. A sua ética pode dar-nos cabo de tudo.

 

- Sir, com certeza já tinha pensado nisso antes - disse Worthlow rigidamente. Dele não se esperavam tomadas de posição, embora na sua função de mordomo também servisse às vezes para ouvir as lamentações do patrão. Podiam gritar-lhe, ele ouvia, engolia e nunca respondia. Era benéfico para quem se queixava. - Quanto à festa de aniversário de Miss Loretta.

 

- Anulada, Worthlow. Mantenho a minha opinião. Apenas me resta atacar com pequenas alfinetadas.

 

O dr. Soriano levantou-se e regressou aos seus aposentos. Worthlow levantou a mesa deixando que os outros criados levassem a louça para dentro. Ele próprio dirigiu-se pausadamente para a ala dos aposentos dos hóspedes, verificou no átrio central se os aparelhos de escuta estavam desligados e saiu para o terraço. Volkmar estava sentado debaixo do toldo num sofá balouçante, lendo o jornal alemão que Soriano mandava buscar todos os dias ao aeroporto de Palermo. Embora o recebesse com um dia de atraso, para Volkmar o tempo não tinha neste momento qualquer significado. Tornara-se tão pouco importante ler notícias actuais acerca da política ou sobre pessoas. Dantes, gostava de ficar especado à frente da televisão à espera do noticiário. Ao tomar o café matinal a primeira coisa que fazia era olhar para os jornais. O’que teria sucedido no mundo? As notícias eram como uma droga necessária para viver e se poder avançar firmemente.

 

Como tudo isso se tornara banal e pouco importante! Ao lê-las pareciam-lhe notícias de um outro planeta.

 

- Ordenaram-lhe que me alimentasse à força, Worthlow?

- perguntou quando viu o uniforme branco do mordomo à sua frente.

 

- Nada me foi dito nesse sentido, Sir. Aliás, uma dieta far-lhe-á bem. Tem mais cinco quilos do que o peso ideal, Sir.

 

O mordomo dirigiu-se ao pequeno bar do qual retirou água mineral e gelo.

 

- Isto também não, Sir?

 

- Não.

 

Volkmar endireitou-se na cadeira de balouço.

 

- Worthlow, eu fico doido se continuar aqui sem fazer nada. Não imediatamente, mas daqui a dois ou três meses! Nunca mais conseguirei sair daqui!

 

- Desta forma, não, Sir! - respondeu Worthlow, com característica frieza britânica.

 

- O que quer dizer com isso?

 

- Terá mais probabilidades se trabalhar na sua profissão.

 

- Para a «digna organização»?! Como médico da Mafia, Worthlow?

 

- Não estou informado, Sir, que a filiação na Mafia garanta uma protecção total contra a doença. No seu lugar, ocupar-me-ia das pessoas doentes, Sir. O asilo de velhos coloca os médicos constantemente perante problemas difíceis ... a julgar pelo que diz o dr. Nardo. Só cancerosos estão lá internados trinta e nove ...

 

- E são todos tratados na clínica?

 

- Não. As operações são realizadas em Nápoles. Os casos inoperáveis ou que necessitam de tratamento são relegados para outra ala da instalação, chamada simplesmente a ala da morte. Aí tratam-se os velhos com especial carinho. O asilo tem o seu próprio padre, uma capela e um cemitério para os que não têm família. Se um cirurgião como o senhor, Sir ...

 

- Não diga mais, Worthlow! - Volkmar levantou-se e dirigiu-se para o muro do terraço. O azul profundo do mar parecia ao alcance da sua mão. Toda a sua superfície cintilava, parecendo que o sol queria absorver a água até ao infinito. - As suas palavras estão a tomar um carácter bíblico: a tentação no deserto...

 

- Sir, está a esquecer que nem eu sou Satanás nem o senhor é Jesus Cristo, mas apenas um médico.

 

Volkmar sentiu atrás de si o gelo a tilintar no copo. Worthlow sempre lhe preparara uma bebida. Contudo, não se voltou.

 

- Seria uma capitulação! - disse em voz baixa.

 

- Mas uma bênção para os dontes, Sir. Não será indiferente o lugar onde podem ser tratados?

 

- A consciência de estar a trabalhar para um homem que...

 

- O dr. Volkmar morreu, Sir! - respondeu Worthlow, muito hirto. - Um morto já não deve ter sentimentos.

 

Foi numa sexta-feira à tarde que Ana viu o homem que assassinara Luigi.

 

Paolo Gallezzo chegara do continente tendo cumprido a preceito as instruções do Dom. Através de uma empresa recém-fundada especializada em importações de material cirúrgico entrara em contacto com os mais importantes fornecedores e fábricas deste ramo, obtendo também a colaboração de um jovem comerciante da maneira mais simples que se possa imaginar. Oferecera-lhe o dobro do ordenado e contratara-lhe uma secretária com o aspecto de uma bonequinha de luxo, perfeitamente disposta, ao que parecia, a trabalhar na posição horizontal. «Para não te aborreceres, meu caro!», dissera-lhe Gallezzo. «Não irás ouvir-nos muitas vezes, mas quando isso suceder, terás de ser mais rápido do que o som! Compreendeste?»

 

Nos dias que se seguiram fiscalizou a escolha e o arquivo dos prospectos e das propostas enviadas, regressando depois de novo à Sicília, com uma pasta volumosa cheia de catálogos. Em Roma ficaram os dois jovens um pouco confusos, a receber um belíssimo ordenado para recolherem prospectos, atenderem as firmas interessadas e dormirem pelo menos uma vez por dia um com o outro.

 

- Muito bem - disse o dr. Soriano quando Gallezzo esvaziou a sua pasta. Nem sequer olhou para os prospectos, pois destinavam-se a ajudar a entreter o dr. Volkmar. Os arquitectos ocupados dia e noite em mandar construir o grande hospital para crianças nos montes de Camporeale há muito se tinham posto em contacto com os fornecedores de material cirúrgico e mandado equipar o bloco subterrâneo de cirurgia de acordo com os pareceres dos peritos, sobretudo as câmaras assépticas entre as salas operatórias e as enfermarias, a secção de radiologia e as instalações de esterilização. Em suma: a assepccia total exigida por Volkmar nos seus artigos da especialidade fora atingida! O que Gallezzo trouxera de Roma era apenas de natureza visual e, ao mesmo tempo, um anzol psicológico tendente a prender Volkmar. Quando ele começasse a trabalhar deveria ter a sensação de que a clínica fora obra sua. A posição de Soriano ver-se-ia também reforçada se um desejo de Volkmar pudesse ser logo satisfeito. De um modo geral, eram necessárias várias semanas de espera. Ficaria assim demonstrada a sua força, ninguém precisando de saber que o material se encontrava há muito armazenado nas caves. Nem mesmo o dr. Nardo.

 

Foi pois numa tarde de sexta-feira que, ao começar a arrumar o quarto de Loretta, Ana chegou à varanda que dava para o parque. À sua frente estendia-se a parte da propriedade em que Soriano mandara instalar um campo de golfe de nove buracos. Embora pouco utilizado, encontrava-se muito bem cuidado. Um tapete de relva viçosa estendia-se até ao pequeno lago artificial e sobre ela passeava, satisfeito, em mangas de camisa, arrastando atrás de si um carrinho para os sticks, Paolo Gallezzo. Trazia um boné redondo e macio, com uma longa pala plástica, ficando parado no início do percurso a observar os obstáculos e a sua localização. Escolheu depois o stick que lhe pareceu mais apropriado.

 

Ana agarrou com força o parapeito de ferro forjado da varanda e ficou a olhar para o parque. Reconheceu sem hesitar o homem que matara Luigi. Um homem daqueles não se esquece.

 

- Chegou a altura - disse baixinho. - Nossa Senhora, ajudai-me!

 

Voltou a entrar para a grande sala de estar de Loretta e olhou em redor. Das paredes pendiam três Madonas pintadas por Tintoretto e por outros pintores famosos. Escolheu aquela que tinha um ar mais bondoso, mais maternal, mais compreensivo, persignou-se e ajoelhou. Orou silenciosamente, de cabeça baixa, e confessou-se de tudo aquilo que, na opinião do padre de Sorgono, era digno de ser confessado. Estavam incluídos os pensamentos pecaminosos dirigidos a Enrico, a ânsia de pertencer-lhe, a almofada que por vezes, à noite, apertava entre as coxas quando o desejo era forte de mais, os momentos que passava a espiar durante os seus tempos livres para poder vê-lo nem que fosse, um segundo ... Tudo isso confessou, sentindo-se em seguida tão leve e ao mesmo tempo tão diferente, que foi levada a olhar para um espelho, a fim de ver se ainda era a mesma Ana Talana.

 

Regressou ao quarto situado na zona mais quente da casa. Depois de remexer algum tempo no colchão, retirou lá de dentro a faca de dois gumes que escondeu na blusa. O frio do aço sobre os seios provocou-lhe um arrepio de prazer que se transmitiu a todo o corpo, tornando rijos os mamilos, fazendo vibrar a face interna das coxas e sentir uma impressão esquisita na parte inferior do ventre. Teve de apoiar-se à parede e respirar profundamente. Era como se tivesse saído dos braços de Enrico e gozado a ternura sensual da sua virilidade.

 

Paolo Gallezzo ficou espantado a olhar para o obstáculo inesperado, que nada tinha a ver com o campo de golfe. Depois inspirou fundo, perguntando a si próprio se deveria continuar a jogar ou adaptar-se à nova situação que se lhe deparava: à sua frente, ao pé de uma sebe de cedros, circundando um roseiral, viam-se brilhar ao sol umas nádegas de rapariga e umas pernas esguias de coxas roliças entre as quais se adivinhava um tufo de penugem preta. Ela parecia ignorar que estava a ser observada. Continuava dobrada para a frente, colhendo as flores selvagens que tinham crescido por entre os arbustos.

 

Gallezzo sentiu arrepanhar-se-lhe a pele do crânio. Atirou com o stick para o lado e, lambendo os beiços, saiu do campo de golfe, dirigindo-se ao roseiral. Nesse preciso momento a rapariga ergueu-se. Balouçando as nádegas, passou pela abertura existente na sebe, a qual tinha cerca de dois metros de altura. O que sucedesse por detrás dessa sebe apenas seria presenciado pelo sol e pelas nuvens.

 

- Não te mexas! - gritou Gallezzo, começando a correr. Sentia o sangue latejar-lhe nas fontes e, como sempre que dirigia os pensamentos para determinados objectivos, arreliava-se com o corte demasiado justo das calças. - Um momento...

 

A rapariga não se voltou, apenas abanou a cabeça e desapareceu por trás da sebe. «Que putinha mais sensual», pensou Gallezzo. «Ela sabe perfeitamente que não se encontra só! Estendeu-me o traseiro como se fosse um cartão de visita! Eu aceito, minha gatinha preta! Ficarás satisfeita até mais não.»

 

Continuando a correr, arrancou o boné da cabeça e foi desabotoando a camisa. Ao chegar à sebe, ouviu-a rir-se, do outro lado. Isso veio aumentar a sua excitação e fê-lo perder a sensatez. Quase se atirando para a frente, viu-a de blusa aberta, com os seios nus e provocantes, mas ao reparar nos seus olhos negros, frios, de expressão animal... reconheceu-a.

 

A facada atingiu-o nesse preciso momento. A lâmina longa e afiada penetrou-lhe no pescoço, por baixo da laringe, cortando qualquer som, qualquer reacção, aniquilando-lhe a resistência. Ficou parado um segundo, enquanto Ana lha arrancava da garganta, e depois os joelhos dobraram-se-lhe e caiu para trás, sobre o corredor de relva que dividia a sebe do canteiro de rosas. Inundou-o um jorro de sangue, o corpo começou a ser percorrido por violentos espasmos, mas não morreu imediatamente. De olhos esgazeados, ainda viu Ana debruçar-se sobre o seu corpo e olhá-lo como se fosse um gigantesco insecto que acabasse de esmagar.

 

- Passou-se assim com Luigi? - perguntou, com voz calma. - Nós lavámos o cadáver e contámos as feridas. Dezenove facadas! Dezanove! Ainda te devo dezoito! Mas parece-me que que não as vais poder contar. - Ajoelhou-se ao pé de Gallezzo, abotoando a blusa. - Dezanove facadas! Estás a morrer lentamente, mas não te podes queixar. Luigi ainda morreu mais devagar!

 

Segurou com ambas as mãos o cabo da lâmina, que espetou com toda a força no peito de Gallezzo, retalhando-lhe o coração. Morreu antes de sentir o terrível ardor do golpe desferido.

 

Ana meteu-se debaixo do duche ao chegar a casa deixando correr sobre o corpo primeiro água quente e depois gelada. Arrumou a roupa que despira e voltou a vestir o uniforme, dirigindo-se à sala de estar onde se ajoelhou e benzeu mais uma vez perante a pintura da Madona. Depois continuou a arrumar o quarto de cama de Loretta.

 

Volkmar pôde nesse dia aperceber-se do que significava soar o sinal de alarme na casa de Soriano.

 

O silvo agudo soou apenas uma vez. Foi, contudo, o suficiente para transformar a casa numa fortaleza. Do seu terraço observou estupefacto o modo como um bando de homens de metralhadora desengatilhada passava o grande parque a pente fino, enquanto pelo lado de fora do muro outros homens armados trazendo cães à trela cercavam toda a propriedade.

 

Volkmar correu para dentro de casa e tentou chamar Worthlow pelo telefone interno. Ninguém apareceu, porém. Ao procurar sair do seu apartamento notou que a porta se encontrava aferrolhada. Abanou o fecho, experimentou forçar a grossa madeira esculpida e voltou a correr para o terraço.

 

Permaneceu fechado durante mais de uma hora até o próprio dr. Soriano surgir na sala de entrada deixando-se cair numa das poltronas.

 

- Vai ficar admirado - disse.

 

- Com efeito!

 

- Como dono da casa, devo, antes de mais nada, pedir que me desculpe tê-lo incomodado com todo este barulho e tê-lo feito encerrar. Tratou-se de uma medida de segurança. Soriano olhou para as suas mãos bonitas e esguias. - Gallezzo foi assassinado!

 

- Assassinado? - exclamou Volkmar, admirado. - Aqui em casa?

 

- No roseiral. Por trás da sebe. Com dois golpes terríveis: um no pescoço, outro directamente no coração. Poderá vê-lo daqui a pouco e dizer-me a raiva que um assassino deve ter para matar com tanta força um touro como Gallezzo. Aqui em casa, entre o meu pessoal, entre a gente que me serve, não existe um único homem que o pudesse ter levado a cabo.

 

Nenhum! Já compreendeu o que isto significa?

 

- Alguém de fora? Impossível! Com todo este sistema de segurança...

 

- Deve haver uma falha qualquer. Quando observar Gallezzo dar-me-á razão. Mandei afastar imediatamente Loretta e a sua criada de quarto para um local só conhecido de mim e do meu motorista. - Juntou as mãos apoiando o queixo sobre elas. - Tudo isto ainda é um enigma e você, Enrico, é o primeiro a ver-me assim perplexo. Um dos meus jardineiros encontrou Gallezzo. Já devia estar morto há duas ou três horas. Você vai poder constatá-lo, Enrico. Qualquer médico da polícia é capaz de o fazer.

 

- Eu ia exactamente sugerir que se chamasse um desses meus colegas.

 

- Não estou com muita disposição para graças, dottore, creia que não. - Soriano recostou-se na cadeira comprimindo as mãos sobre o peito. - Estou preocupado. Quem quereria avisar-me por meio desta morte?

 

- Os seus inimigos.

 

- Eu não tenho inimigos. Sou amado, admirado ou temido. Mas inimigos não tenho! É isso que não compreendo. Ao assassinarem Gallezzo têm-me a mim em mente!

 

- Isso é uma suposição sua.

 

- Encontra outra explicação?

 

- Ao pensar em Gallezzo lembro-me de muitas coisas. Se havia um homem sem caridade nem escrúpulos, esse homem era ele!

 

- Era a sua profissão!

 

- Por isso devem ser inúmeros os seus inimigos.

 

- Lá fora, talvez. Mas não dentro da minha casa! Gallezzo estava a jogar golfe quando foi assassinado.

 

- Julguei que o tinham encontrado no roseiral.

 

- O roseiral limita um dos raios do campo de golfe.

 

- O que faz um jogador de golfe num lugar desses se está a meio de um jogo? Ou era Gallezzo um jogador tão mau que lançava a bola de qualquer maneira e tinha de a ir procurar no meio das roseiras?

 

- Enrico! As suas palavras fizeram luz no meu espírito! Com efeito! Como pode um jogador da craveira de Gallezzo aparecer no meio do roseiral? - Soriano levantou-se de um salto. - Deve ter sido atraído a esse local!

 

- Nesse caso, sempre se trata de um assassino vindo de fora! - Volkmar agarrou na camisa que deixara sobre as costas de uma cadeira e vestiu-a. - Vou ver Gallezzo.

 

- Ficar-lhe-ei muito grato.

 

- Só me preocupa por causa de Loretta! O senhor sempre tem inimigos, Dom Eugênio.

 

Foi buscar ao sofá do terraço os seus jeans brancos e vestiu-os, enquanto Soriano passeava inquieto de um lado para o outro do átrio de entrada.

 

- Como vê, nem tudo é tão seguro como pensa! A sua casa nem por sombras se assemelha ao Fort Knox! Onde está Loretta?

 

- Já lho disse, num local secreto. Você também não precisa de conhecê-lo. A criada de quarto, uma simpática rapariga da aldeia, honesta e dedicada, está com ela. Loretta gosta muito dessa Ana.

 

O dr. Volkmar ouviu o nome sem fazer qualquer associação de ideias. Seria absurdo e impensável ligar um nome tão corrente à rapariga dos montes de Gennargentu na Sardenha.

 

O corpo de Paolo Gallezzo tinha sido levado para a cave e deitado sobre uma velha e puída mesa de bilhar. Depois de lavado, o seu aspecto já não era tão horrível como há uma hora, quando o jardineiro o encontrara ao pé da sebe. Sobre a pele, que mesmo depois da morte mantinha o seu tom bronzeado, saltavam logo à vista os ferimentos ... duas fendas incrustadas de sangue, dois golpes perfeitos. O dr. Soriano aproximou-se do morto e cobriu-lhe o rosto com um lenço. Incomodava-o o branco dos olhos transparecendo por detrás das pálpebras semicerradas. Soriano era um esteta ...

 

- Era uma faca de dois gumes - disse para Volkmar, que se debruçara sobre os golpes. - Em linguagem de leigos: uma faca de profissional com uma lâmina de seis centímetros de largura.

 

Volkmar pegou num braço de Gallezzo. O estado de rigidez cadavérica que há muito se instalara não passava de uma indicação grosseira.

 

- Está morto há pelo menos quatro horas - disse. - Para ser mais preciso teria de o autopsiar.

 

Olhou para o golpe do pescoço e para o ferimento exactamente sobre o coração e abanou a cabeça. Soriano observou-o com ar de expectativa.

 

- O que foi que lhe saltou à vista, Enrico?

 

- A facada no coração deu-lhe morte instantânea. A autópsia servirá para confirmá-lo. Porquê então o golpe no pescoço?

 

- E se tiver sido ao contrário?

 

- Se o golpearam primeiro no pescoço, o que, de acordo com uma análise grosseira, lhe teria provocado a morte por hemorragia, o senhor estará perante um inimigo impiedoso, cruel, com um incrível sangue-frio, Dom Eugênio. Um profissional, como muito bem disse.

 

Volkmar afastou-se da mesa de bilhar. Um criado cobriu com um lençol o corpo nu do morto. Lá fora, do enorme parque, ouvia-se através das grades das janelas o ladrar dos cães. O rasto que tinham encontrado terminava num pequeno lago próximo do campo de golfe. O assassino tivera uma atitude inteligente: correndo através da água destruíra o seu próprio cheiro. Os cães farejavam e ganiam em redor do lago sem saber para onde ir.

 

- Vamos - disse Soriano. - Mandarei levar Gallezzo para o asilo de velhos. Seguiremos logo atrás.

 

Voltaram a subir para o grande átrio central rodeado de colunas mouriscas, onde encontraram Worthlow, que os esperava segurando um tabuleiro com copos de conhaque. Os dois homens esvaziaram cada um o seu e suspiraram fundo.

 

- Os cadáveres fazem-me sempre uma tremenda impressão, não é curioso? - disse Soriano. - Nunca serei capaz de me habituar a esse espectáculo, qualquer que seja a pessoa de que se trate. Já lhe contei que amava muito a minha mulher, mas quando morreu e a vi no caixão senti-me tomado de terríveis calafrios. - Ficou parado e tirou do tabuleiro que Worthlow continuava a segurar um segundo conhaque depois do qual pareceu ficar mais calmo. - Não é estranho, Enrico, que eu só consiga levá-lo até à mesa de operações quando tudo já está perdido?

 

- Vai recomeçar a falar do mesmo assunto?

 

Tinham chegado ao terraço e Volkmar retirara a camisa, dependurando-a no braço. O calor era quase insuportável. Não soprava sequer a brisa ligeira que sempre se fazia sentir, vinda do mar. A Sicília parecia arder ao sol.

 

- Não quer então chamar a polícia?

 

- Não.

 

- E Gallezzo?

 

- Será enterrado num recanto do parque. Ocupar-nos-emos da família.

 

- Ele tinha família?

 

- Tinha mulher e três filhos. Não passarão dificuldades.

 

- E se derem com a língua nos dentes? Soriano sorriu com uma expressão cansada.

 

- Existe um código oral que é seguido com mais rigor do que os escritos. Gallezzo está morto. Para quê falar?

 

Duas horas mais tarde, Volkmar encontrava-se na cave do asilo de velhos autopsiando o corpo de Gallezzo. O cadáver fora colocado na mesa onde, em regra, se deitavam os cães e os macacos utilizados nas experiências do dr. Nardo. Uma derradeira etapa com a qual Gallezzo nunca sonhara.

 

Na viagem de regresso, só ao fim de algum tempo é que Volkmar notou não se estarem a dirigir a Palermo, mas sim para o interior da ilha. O carro seguia por estradas esburacadas, por vezes por caminhos vicinais, subindo sempre. Levantavam-se à sua volta nuvens de poeira, a terra parecia queimada, as aldeias que atravessavam pareciam mortas. A temperatura do grande carro americano de Soriano era agradavelmente fresca, prova de que o sistema de condicionamento de ar funcionava com perfeição.

 

- O que pretende? - perguntou Volkmar. - Para onde vamos?

 

- É surpresa, dottore.

 

- Ver Loretta?

 

- Claro que não. Quero mostrar-lhe uma coisa.

 

- Aqui? Nestes montes selvagens?

 

- Entraremos em breve numa região civilizada. Este é apenas o caminho mais curto. - Das costas do banco dianteiro puxou uma tampa em forma de tabuleiro por detrás da qual se encontravam uma garrafa e dois copos. - Bebe um trago, Enrico?

 

- Não, obrigado, Dom Eugênio.

 

- Já lhe tinha falado do sanatório infantil que fundei e se encontra em construção?

 

- Já. De passagem. Será abençoado por um cardeal portador de uma mensagem do Santo Padre.

 

- Exactamente! - retorquiu Soriano, com um largo sorriso. - Disse-lhe também que nesse mesmo local estava a construir para si a melhor clínica cardiológica do mundo.

 

- Tomei essa afirmação por um dos seus gracejos cínicos.

 

- O hospital de crianças é apenas a fachada, o álibi. É evidente que durante todo o ano teremos aí trezentas crianças a convalescer, cada uma por um período de quatro semanas. Será um verdadeiro paraíso infantil, com piscina, ginásio, campo de jogos, terraços e relvados para repousarem, varandas envidraçadas para o Inverno. Serão aqui utilizadas as mais modernas técnicas da convalescença activa. Mas...

 

- Estava à espera desse seu mas - disse Volkmar, com voz rouca.

 

- Em paralelo está também a ser construída uma moderna clínica cirúrgica desconhecida do grande público. Em três andares subterrâneos ficará instalado um centro cardiológico como não há outro no mundo. Durante a inauguração do sanatório não será possível penetrar nessa zona, porque as entradas estarão ainda emparedadas. Mas logo após as festividades começará o trabalho nessa parte desconhecida do edifício. Para os pacientes livres de perigo imediatamente foram instalados numa ala lateral dez quartos muito agradáveis com varanda e o serviço de um hotel de luxo.

 

- Será a clínica da Mafia?

 

- Não deveria empregar essas expressões, dottore. Soriano encheu os copos com vinho. O potente carro

 

deixara os caminhos acidentados e rolava agora silenciosamente sobre uma estrada de asfalto. Encontravam-se num planalto semeado de oliveiras e pinhais. Parecia haver aqui água em abundância. À sua frente emergia um edifício de sete andares já acabado, pintado de amarelo vivo e dividido em diversas alas, que se dispunham em forma de estrela à volta de um corpo central. Contra o céu tórrido, perfilavam-se os braços dos gigantescos guindastes; um pequeno exército de terraplanadores e de camiões trabalhava na alteração da paisagem.

 

Soriano tocou no ombro do motorista. O carro deteve-se.

 

- A sua clínica, dottore! - disse, fazendo um gesto largo com a mão. - Não a acha magnífica?

 

- O conjunto de construções lembra-me uma casa de correcção - disse Volkmar, em tom surdo. - Uma parte central circular de que irradiam os pavilhões das celas. Foi o seu trauma que o inspirou, Dom Eugênio?

 

- Não há dúvida que você tem fantasia - Soriano esboçou um riso forçado. Só agora, ao ouvir as palavras de Volkmar, se apercebia da semelhança com as prisões tradicionais. Até agora vira a construção de forma diversa: como uma estrela, como um símbolo de que aqui existia um mundo diferente e mais belo. Era nesse sentido que pretendia fazer o discurso no acto de inauguração. O texto pareceu-lhe de súbito extremamente estúpido. - Modificá-la-ei com o decorrer do tempo.

 

- Não vai poder empurrar os edifícios para aqui e para acolá.

 

- Poderei ligá-los por terraços envidraçados, tornando o ambiente mais agradável através de jardins suspensos, como os de Semiramis, na Babilónia.

 

- A forma básica permanecerá: uma prisão de luxo! O seu subsconsciente trabalhou de forma perfeita na escolha dos projectos, Dom Eugênio.

 

Percorrido o espaçoso caminho de acesso, detiveram-se na entrada principal. As janelas do edifício já tinham vidros, tendo-se iniciado os acabamentos interiores. Um dos mestres de obra precipitou-se para o carro de Soriano e abriu a porta.

 

Este agradeceu com um gesto, esperou até Volkmar ter também saído e, dando a volta ao carro, aproximou-se dele.

 

- Não está interessado em visitar a sua clínica? -perguntou, - Nunca trabalharei aqui! - Volkmar abrangeu com o olhar a gigantesca construção. Ao procurar avaliar os custos, começou a fazer uma ideia sobre o preço da obtenção de um novo coração na clínica de Soriano e acerca das pessoas a poderem permitir-se tal luxo. Tratava-se, aliás, de uma conta que nunca seria divulgada e muito menos o custo da construção. Soriano pareceu adivinhar os seus pensamentos.

 

- O sanatório infantil é uma fundação - disse. - Além disso, por cada pessoa admitida recebemos uma ajuda do Estado. Far-se-á ainda uma subscrição pública sob o lema de «Protectores do Sanatório Infantil de Camporeale». Esses títulos estarão livres de impostos. Segundo as primeiras estimativas, o empreendimento poderá funcionar pelos seus próprios meios. No caso de haver lucros, eles serão de novo aplicados na organização.

 

- E as receitas da clínica cardiológica secreta pertencerão na sua totalidade à «digna organização».

 

- É como diz, Enrico. Reconheça que se trata de um sistema único!

 

- Se conseguir funcionar!

 

- Funcionará se o tiver como médico-chefe.

 

- Por que razão está tão seguro disso?

 

- Porque sei que não trabalhará para rnim mas para os doentes, dottore. A si se dirigirão os condenados à morte a suplicar ajuda. Gostaria de conhecer o médico que lhes dissesse um frio: não! O senhor nunca seria capaz!

 

- Já sabia que lidava com um demónio! - exclamou Volkmar.

 

- Pense apenas como médico! Pense nos doentes! Tudo o resto não pertence ao seu mundo! Há quanto tempo faz greve de fome?

 

- Estou no terceiro dia.

 

- Desista, Enrico! Recupere a sensatez! Só porque a organização é propriedade de um «conselho administrativo de Palermo» e não de uma ordem religiosa como o Sagrado Coração de Maria ou de um organismo camarário ou estatal está disposto a condenar à morte um grande número de pessoas gravemente enfermas? A sua consciência não poderá aceitar isso. Tenho a certeza!

 

Volkmar não respondeu, mas encaminhou-se para a entrada. Soriano expirou ruidosamente pelo nariz. «Está ganho», pensou. «Ele vai entrar no edifício. Vai visitar as instalações. Está ganho ... ganho ...»

 

Ao voltar à sua prisão dourada, Volkmar encontrou em cima da secretária do gabinete de trabalho a pilha de projectos de firmas especializadas em material cirúrgico.

 

Worthlow esperava-o com uma grande taça de salada, uma especialidade preparada com molho de ervas aromáticas. Há já três dias que procurava convencer Volkmar a comer.

 

- Obrigado - disse este, lançando um olhar aos prospectos. - O que é isto, Worthlow?

 

- Não achou a nova clínica uma construção imponente, Sir? Deverá ser equipada de acordo com as suas ideias...

 

- Deus do céu! Eu não tenhos ideias nenhumas! Dirigiu-se para o terraço seguido do mordomo, que continuava com a taça de salada nas mãos.

 

- Sou cirurgião, nunca me preocupei com a técnica, apenas me servi dela! Sei do que necessito na sala de operações, sei qual o equipamento de um laboratório. Mas instalar uma clínica? Existem para isso firmas especializadas.

 

- As ofertas dessas casas estão sobre a sua secretária, Sir. Estamos à espera de mais algumas remessas da América. Já se apresentaram   inúmeros   representantes   comerciais. Quando as encomendas englobam milhões todos ficam muito activos. Deseja salada, Sir?

 

- Não!

 

- A clínica corresponde àquilo que imaginara, Sir?

 

- O dr. Soriano planeou tudo quanto, de um ponto de vista puramente teórico, se requer para uma transplantação do coração. Quem lhe terá fornecido a ideia das câmaras assépticas?

 

- O senhor, Sir! Há cinco meses escreveu um artigo sobre esse assunto na revista A Cardiocirurgia Actual. Qualquer das ideias por si expostas, mesmo as mais simples, serão concretizadas pelo dr. Soriano. O que poderá um médico desejar mais?

 

À noite todos deixaram Volkmar tranquilo. Até Worthlow se retirou, pedindo para chamá-lo se fosse necessário. Sentou-se na sala de trabalho, por trás da secretária, olhando fixamente para o monte de prospectos. «Isto não passa de uma loucura», pensou. «É assim que o caloiro pensa que se instala um hospital. O bom, o rico tio doutor sabe tudo, faz tudo, pode tudo. E um deus de bata branca!» Que um homem com a inteligência de Soriano demonstrasse uma concepção tão simples das coisas chegava a decepcioná-lo um pouco.

 

Folheou os prospectos, observou as imagens de um oscilógrafo moderno e voltou a atirar os papéis para cima da mesa.

 

O dr. Soriano veio visitá-lo cerca das onze horas da noite. Trazia um fato com um casaco bastante largo. Quando, ao sentar-se numa das fundas cadeiras do terraço, ele se abriu um pouco, pôde ver com nitidez as tiras que seguravam o coldre de uma pistola de cano longo. Soriano também não se deu ao trabalho de a esconder.

 

- Fui ver Loretta. Está bem - disse. - Manda cumprimentos e um beijo. O senhor beija a minha filha?

 

- Até agora só no rosto, Dom Eugênio.

 

- Porque mente, Enrico? Qualquer pessoa, por mais míope que seja, sabe o que se passa consigo quando está ao pé dela. Há menos de uma hora a própria Loretta me disse: «Amo-o!» Queria voltar para casa sem falta, para ao pé de si.

 

- E o que é que respondeu?

 

- Primeiro não, no que respeita ao seu regresso. E depois: «Se amas Enrico de verdade, também tens de amar o dr. Ettore Monteleone! Teremos de perguntar ao próprio Monteleone se isso é possível!» Pergunto-lhe, por isso, Enrico: quer adoptar para sempre a nova identidade?

 

- Querer? O senhor tem um estranho sentido do humor, Dom Eugênio. Eu SOM obrigado a isso!

 

- Reflicta sobre o que acabou de dizer, dottore. - Soriano estava muito sério. A voz deixara de ter um tom paternal. Falava agora como um advogado a defender uma causa. Trata-se de Loretta! Sabe bem o que ela significa para mim! Disse-me uma vez: «Destruí-lo-ei através da sua filha!» e eu respondi: «Nunca conseguirá fazê-lo! Seria capaz de o sacrificar e a toda a minha fortuna para tornar Loretta feliz!» Lembra-se desta conversa?

 

- Como se fosse hoje, dr. Soriano.

 

- E agora? Conseguiu que Loretta se apaixonasse por si. Ela ama-o! Será o senhor suficientemente canalha para utilizar esse amor como vingança contra mim?

 

- Estamos numa situação curiosa. - O dr. Volkmar encostou-se a uma das finas colunas que segurava o dossel do terraço. Olhou para o coldre que Soriano trazia dependurado ao ombro e ficou aterrado com a incongruência do seu destino. - Tenho à minha frente, o pai da rapariga que amo com toda a sinceridade, traz uma pistola debaixo do braço esquerdo, penso que é o maior e o mais perigoso gangster de toda a Europa, chama-me canalha, mantém-me prisioneiro, fez crer que estava morto, pelo que me encontro enterrado num cemitério de Munique, quer-me obrigar a transplantar corações na sua clínica clandestina (se disser um milhão de dólares por cada um parece que não me engano?) ... O senhor é o maior criminoso que se pode imaginar... e, no entanto, o pai da mulher mais bela que jamais vi. Da mulher que amo! Como é possível dizer tudo isto a esse pai e aceitá-lo ao mesmo tempo? Não acha que é um problema insolúvel?!

 

- Disse tudo o que era necessário, Enrico. Agora sou eu a dizer-lhe uma coisa: se eu permitir, como pai, que a minha filha ligue a si o seu destino, então espero que opere na minha clínica.

 

- Loretta é então considerada um objecto de troca! Será necessário dizer-lho!

 

- Diga-lho! Ela está à espera no átrio.

 

Volkmar ia pôr-se a correr, mas Soriano foi mais rápido e segurou-o pelo ombro antes de chegar à porta.

 

- Enrico - disse com voz surda. - Deixarei ruir tudo, inclusive a minha pessoa, se você tornar Loretta infeliz. Compreende o que isso significa?

 

- Se me toma por um idiota dessa espécie, porque me nomeia chefe da sua amaldiçoada clínica?

 

Soriano fez um sinal de assentimento e deixou-lhe o caminho livre. Volkmar atavessou os seus aposentos a correr e precipitou-se para o átrio de entrada. Aí se encontrava Loretta vestida com um simples fato de viagem. Tinha posto a mesa num canto da sala. Sobre ela encontrava-se a grande taça de salada de Worthlow acompanhada de uma travessa de carnes frias. Nos copos brilhava um vinho de tom vermelho-escuro.

 

- Loretta! - exclamou Volkmar,   com voz rouca. Abraçou-a, puxou-a contra si e, quando ela comprimiu a cabeça contra o seu ombro e o beijou no pescoço, quando sentiu a pressão dos seus seios e o desejo do seu corpo, teve a certeza de que o tinham vencido.

 

Não ouviram Soriano passar silenciosamente por eles e abandonar os aposentos. Era como se o calor dos seus corpos os tivesse fundido um ao outro.

 

Loretta passou com ele a noite. Nenhum pediu ao outro para fazê-lo. Dirigiram-se naturalmente para o quarto de dormir. Ofereceu-lhe a sua virgindade e ele possuiu-a com ternura e cuidado, até que mais tarde ela descobriu o vulcão que existia em si própria e o tornou feliz com a sua paixão.

 

Depois chorou um pouco, encolhendo-se como uma criança contra o seu corpo. Ardia-lhe o regaço, mas era uma dor abençoada e enquanto o afagava as suas unhas penetravam-lhe na pele sem, no entanto, o magoarem.

 

- Ainda nos encontramos sobre a Terra ? - disse baixinho.

- Ou já estamos no paraíso, Enrico?

 

- Ettore - respondeu Volkmar. Sentiu um aperto na garganta. - Temos de nos habituar ao facto de eu ser Ettore Monteleone...

 

O dr. Ettore Monteleone ... O chefe da clínica da Mafia!

 

Puxou Loretta para si, beijou-a e possuiu-a como um homem vigoroso deve possuir uma mulher apaixonada.

 

Volkmar retomou dois dias depois as pesquisas sobre transplantações.

 

A clínica do asilo de velhice, até aí dirigida pelo dr. Nardo, estava mais bem equipada do que os laboratórios de pesquisa em Munique. Sobretudo não havia ali nenhum superior do género do dr. Hatzport, que duas vezes por semana lhe dizia: «Meu caro, você insiste em derrubar um muro com metros de espessura! Do ponto de vista puramente teórico, uma transplantação do coração não constitui, como é evidente, qualquer problema. Mas não vai conseguir vencer a barreira imunológica! Neste campo a natureza deixa de colaborar e nunca o fará! É essa a tragédia da medicina! Vemo-nos forçados a capitular perante um simples obstáculo! Neste caso são as proteínas! Ridículo, mas verdadeiro!»

 

O laboratório imunobiológico era muito completo. Um serologista, um bioquímico e dez preparadores encontravam-se envolvidos numa série de experiências sobre bloqueadores imunológicos. As suas pesquisas concentravam-se, sobretudo, nos corticoesteróides, cuja acção prometia reduzir as reacções imunológicas do organismo contra as transplantações. Uma série de macacos tinha sido também submetida ao efeito dos raios X sobre todo o corpo, mas após três dias começavam a verificar-se os primeiros fenómenos de rejeição do organismo, que a partir daí se tornavam incontroláveis.

 

O dr. Volkmar ocupou-se nos primeiros dias apenas de um aperfeiçoamento das técnicas operatórias. Em Munique, há muito pusera de lado a opinião ainda prevalecente no mundo da medicina de ser possível, em determinadas circunstâncias, efectuar-se uma transplantação parcial do coração. O seu objectivo era a transplantação total. Substituir um coração velho por um coração novo, e não apenas uma parte.

 

O dr. Nardo e toda a equipa médica posta à disposição de Volkmar ficou a saber pela primeira vez o que significava trabalhar com um homem totalmente possuído por uma ideia. Deixou de haver tempo fixo de trabalho, horas, relógio ... Fizeram-se experiências com macacos, cães, gatos, porcos e carneiros. Volkmar utilizou também pela primeira vez o aparelho de suturar vasos sanguíneos criado por Demichov, num cadáver guardado na câmara frigorífica, o qual, segundo Soriano, fora comprado à família enlutada. A experiência veio provar que se tratava de um aparelho ousado e funcional, mas ainda não perfeito. Fora exactamente isso o que ele previra, motivo pelo qual pretendia inventar a sua própria máquina de suturas.

 

- O que lhe falta? - perguntou Soriano quando Volkmar se lhe dirigiu seis dias mais tarde.

 

- Preciso de um engenheiro especializado em mecânica de precisão. Eu sei o modo como a máquina deve funcionar, mas não sou técnico e não posso construí-la.

 

- Arranjarei o melhor mecânico de precisão existente na Itália - respondeu Soriano.

 

Estavam os três sentados no terraço de Volkmar: ele, Dom Eugênio e Loretta, sem suspeitar do que nesse momento se estava a passar em Palermo.

 

Ana tivera o seu primeiro dia livre, a sua primeira folga desde que estava ao serviço de Loretta. Talvez até nunca a tivesse aproveitado não fora a noite decisiva em que Loretta ficara com Volkmar.

 

Toda a noite soluçou, encolhida na cama, batendo com as almofadas, rasgando o lençol e, por vezes, levantando-se e correndo de um lado para o outro no pequeno quarto, da porta para a janela, e desta para a porta, arrancando os cabelos. Por fim, dirigiu-se aos aposentos de Loretta e ajoelhou-se orando na frente das Madonas da sala. Assim ficou à espera até ao amanhecer. No seu espírito desenrolava-se a imagem do que estava a acontecer, dessa maravilhosa união de dois corpos com que sempre sonhara. Esse sonho fora-lhe agora roubado por Loretta.

 

Na manhã seguinte ninguém notou pelo seu semblante no muito que sofrera. Contudo, a felicidade que a patroa irradiava transformou o seu desejo em ódio. Sabia agora que Enrico estava perdido para ela. Mas sabia também que o dr. Enrico Volkmar não vivia naquela casa de livre vontade, mesmo que muito se viesse a modificar a partir da noite em questão. Ele viera para aqui como prisioneiro. Para lá dos muros de Solunto consideravam-no morto e assim ficaria mesmo que Loretta passasse a dormir na sua cama.

 

Nessa tarde comprou em Palermo um pequeno gravador e três cassettes. Como escrevia mal, a sua caligrafia desajeitada e infantil tê-la-ia denunciado. Mas sabia falar. Pediu que lhe explicassem o funcionamento do aparelho, dirigindo-se depois ao Jardim Botânico, onde se sentou junto de um tufo de arbustos que se encontravam à margem dos caminhos mais frequentados. Aí gravou as três bandas, segurando ao falar um lenço na frente da boca e baixando a voz tanto quando podia para imitar a de um homem.

 

Depois passou as fitas, porá verificar a gravação e, satisfeita com o resultado, voltou para a cidade. Enfiou as cassettes nas caixas do correio dos três jornais de Palermo, após o que foi comer uma porção de lasagne num pequeno restaurante, acompanhada de meia garrafa de vinho.

 

Um jovem que estivera todo o tempo a observá-la sorriu-Ihe e ela sorriu também. Sentiu uma dor no coração quando ele se aproximou da mesa e se sentou.

 

- Tu és uma rapariga encantadora! - disse-lhe com franqueza. - Queres fazer amor comigo? Eu sou pintor. Pintor de arte! Sou perito em corpos! Tu darias um modelo maravilhoso! Queres vir? Habito uma mansarda mesmo por baixo do telhado. Sabes, estou no início da carreira, mas sinto que me podes trazer sorte. Queres vir dormir comigo?

 

Ela acenou afirmativamente e acompanhou-o. E enquanto percorriam de braço dado as ruas de Palermo ela pensava no dr. Volkmar e despedia-se dele e do seu amor oculto. O que ia fazer agora era uma entrega consciente do seu corpo para matar nela tudo quanto pudesse recordar ou sentir pelo dr. Volkmar.

 

Entretanto, nas redacções dos jornais ia o maior alvoroço. Os redactores da noite não se cansavam de ouvir as bandas gravadas e eram unânines em afirmar que o seu efeito se podia comparar ao de uma bomba.

 

Uma voz de homem disfarçada, como era fácil de reconhecer, dizendo:

 

«O dr. Heinz Volkmar que aparentemente se afogou na Sardenha está vivo. Foi raptado. Se quiserem saber tudo sobre o caso perguntem ao dr. Eugênio Soriano. O morto que foi enterrado na Alemanha é um estranho, um homem desconhecido. Perguntem ao dr. Soriano ...»

 

Às vezes é proveitoso escutar às portas e andar escondido atrás dos muros, sobretudo quando se tem tanta dificuldade em ler o jornal como Ana Talana...

 

A ligação entre o nome do dr. Volkmar e o do dr. Soriano era tão sensacional que se achou necessário alarmar os chefes de redação dos três jornais. Só um deles se propôs telefonar para casa de Soriano. Tratava-se de um amigo do procurador da Justiça, o dr. Brocca, o qual - toda a gente o sabia também era amigo do dr. Soriano.

 

Dom Eugênio recebeu a chamada com semblante carregado. Apenas se lhe notou um ligeiro estremecer das comissuras dos lábios.

 

- Disparate! - disse, quando o chefe de redacção lhe leu o texto das cassettes. - E com certeza um louco! Não lhe parece? Foi um doido que lhe enviou essa gravação!

 

O seu olhar pousou por um momento sobre a parede tendida de seda.

 

«Primeiro Gallezzo, depois esta porcaria! Onde estará o inimigo? Quem pretende destruir-me? As outras «famílias» da Sicília? Mas porquê? Porquê? Fi-las enriquecer! Apenas vivem devido a mim! Ninguém faz secar a fonte que lhe dá vida! Quem serão os meus inimigos?»

 

Dirigiu-se aos aposentos dos hóspedes e tocou à porta. Passou bastante tempo até Volkmar vir finalmente abrir. Parecia um pouco embaraçado. Soriano fez um sinal com a mão e sentou-se numa poltrona do átrio.

 

- Eu sei que a minha filha está consigo - disse. - Não precisa de corar. Eu não venho buscá-la nem causar qualquer escândalo, apenas anunciar-lhe que precisa de abandonar esta casa ainda hoje. Instalar-se no asilo de velhos ... - Soriano passou subitamente as duas mãos pelo rosto. Parecia exausto. - A imprensa foi informada de que o mantenho preso aqui. Sou obrigado a abrir a minha casa para provar o contrário. Compreende? Alguém enviou gravações para os jornais. Quem sabe que o senhor se encontra aqui e ainda está vivo? - Levantou-se e lançou um olhar para a porta fechada do quarto. - Worthlow ajuda-lo-á a fazer as malas. E diga a Loretta que não precisa de ter medo do pai. Mesmo assim, apetecia-me dar-lhe um bom par de bofetadas, dottore, por ter levado a minha filha a deitar-se consigo.»

 

Uma hora mais tarde, um pequeno carro de desporto tendo Loretta ao volante dirigia-se a toda a velocidade para o asilo. Sentado ao seu lado, Volkmar voltou-se várias vezes para trás no intuito de ver as luzes do carro que os seguia. Lá dentro iam seis homems armados de pistolas metralhadoras. Eram os guarda-costas do dr. Soriano.

 

Nessa mesma noite começaram a ser elaboradas listas das pessoas consideradas pouco seguras, instáveis, venais ou drogadas. Pessoas que viviam no mesmo ambiente do dr. Soriano e que tinham sido colocadas perante determinados segredos.

 

Uma das pessoas menos seguras que nelas se encontrava era o dr. Pietro Nardo.

 

Em Palermo, o dia seguinte foi recheado de acontecimentos.

 

Para os habitantes e até para os estrangeiros e turistas que gozavam despreocupados o belo sol de Verão e visitavam a maravilhosa cidade, ou se encontravam estendidos nas praias, as notícias publicadas pelos jornais, transmitidas pela rádio ou de boca em boca eram a confirmação de que estavam a viver numa terra plena de aventura. Todavia, para os iniciados, este dia constituiu um aviso e também a prova que Dom Eugênio era mais do que um advogado de renome e presidente da «digna organização»: no espaço de poucas horas, morreram por acidente, suicídio, tiro com arma de fogo, enforcamento, afogamento ou queda dos rochedos situados à beira-mar dezanove homens mais ou menos conceituados. Como ninguém sabia se o seu nome se encontrava na lista era difícil tomarem-se precauções. A fuga tornava-se completamente impossível: o facto de a Sicília ser uma ilha, muito embora o continente fosse visível da sua costa, comprovava-o agora mais uma vez. Antes de se poder chegar a um aeródromo ou a um porto já Soriano o tinha sob o controle dos seus homens. Qualquer esconderijo no seu interior seria também inútil, pois ninguém pode desaparecer sem ser visto, havendo sempre um par de olhos a presenciar o facto e esses olhos eram comprados por Dom Eugênio por quantias que um pobre camponês não conseguia ganhar durante uma vida inteira.

 

A primeira pessoa a visitar Soriano, quando cerca das sete horas da manhã recebeu a notícia do primeiro morto foi, como não podia deixar de ser, o procurador público, dr. Brocca. Ainda não se suspeitava, ou previa, a extensão da «acção» em curso, mas a maneira como esse homem, um exportador abastado, encontrara a morte era tão típica que Brocca se dirigiu sem hesitar ao endereço certo. Vicente Lamotta, o exportador, fora com efeito encontrado estrangulado na cama com um pedaço de arame. Como não estava a dormir sozinho, liquidara-se também a sua amante, um jovem modelo fotográfico, asfixiando-a com uma almofada.

- O que aconteceu? - perguntou o dr. Brocca, corn voz rouca. - Podias ter-me avisado, Eugênio ...

 

- Dou-te um bom conselho: parte para férias, por um período de duas semanas. - O dr. Soriano pigarreou. Do asilo chegara a notícia de que tudo se encontrava em ordem. O dr. Volkmar estava instalado em três quartos situados na «zona fechada», nessa secção do asilo de velhos onde se encerravam os doentes psíquicos, os que sofriam de esclerose cerebral, ou de loucura senil. As paredes eram grossas, as janelas providas de grades, as portas não tinham puxadores pela parte de dentro. Eram jaulas para se passarem os últimos tempos de vida. - Será melhor não estares aqui, António.

 

- Agora? Impossível! O que é que vai ainda suceder?

 

- Muita coisa. Dá simplesmente parte de doente!

 

- Nesse caso, o procurador-geral da República ocupar-se-á do inquérito. Conheces Casarto ... e a sua ambição de se tornar presidente do Supremo Tribunal. É melhor eu não ficar doente.

 

- Como quiseres - respondeu Soriano, num tom gelado. Terás de executar um trabalho que não te vai trazer qualquer proveito...

 

E assim foi. Após a notícia do nono acidente (sendo apenas três deles classificados de crimes e os outros de desastres ocorridos, aliás, em circunstâncias muito duvidosas), Brocca suspirou e conformou-se com o destino. Nomeou uma comissão especial, convocou uma conferência de imprensa, na qual deu (com o assentimento de Soriano, como é óbvio) o seguinte esclarecimento: «Minhas senhoras e meus senhores, os acontecimentos das últimas horas fazem-nos supor encontrarmo-nos em presença de dois bandos rivais que lutam para se aniquilarem um ao outro. A polícia terá de descobrir ainda quem são os actores do drama. Temos boas perspectivas que assim seja. Não lhes posso divulgar mais nada, a fim de não prejudicar a investigação.»

 

Tudo ficou por aí. Aliás nada mais se esperava. A caça aos «executores» mergulhou em operações de rotina. Em contrapartida, o caso das três cassettes que as redacções dos jornais tinham entregado à Procuradoria da República passou a ocupar muito mais a atenção das autoridades. O dr. Brocca fê-las passar vezes sem conta. À sua volta, um certo número de peritos e o dr. Soriano, na qualidade de pessoa atingida, escutavam a voz que falava.

 

Era o mesmo texto e o mesmo tom de voz, sem dúvida alguma gravada com um lenço colocado na frente da boca. O dr. Brocca limpou o rosto transpirado.

 

- Tem alguma ideia de quem se poderia esconder por detrás disto, dr. Soriano? - perguntou.

 

- Não! Apenas sei que eu nada tenho a esconder. - Soriano levantou-se abruptamente. A voz das fitas gravadas irritava-o mais do que queria admitir. - Convido a Procuradoria da República e a imprensa a percorrer a minha casa da cave até ao sótão. Podem falar a sós com qualquer um dos meus empregados. Dou-lhes carta branca. Façam o que entenderem que é necessário!

 

- Mas dr. Soriano! - disse o dr. Brocca, sorrindo contra-vontade. - Nós estamos convencidos de que estas fitas só podem ter sido enviadas por um louco. Aliás, conhece porventura esse alemão, esse dr. Volkmar?

 

- Não! Lembro-me vagamente de ter lido algo sobre ele nos jornais. Porque haveria de me interessar por um médico? Eu sou jurista...

 

- Isto é, sem dúvida, a explicação de um homem honrado!

- acrescentou Brocca, rapidamente. - Meus senhores, esqueçamos as gravações. Elas ficarão à guarda da Procuradoria da República.

 

Mais tarde, porém, quando Brocca e Soriano se encontravam sozinhos, o procurador não conseguiu reprimir a sua preocupação.

 

- Quem será que te quer mal? - perguntou. - Primeiro Gallezzo, e agora tu próprio! Como estão os teus contactos com os Estados Unidos?

 

- Normais. Entre nós existe a enorme extensão de água. O mercado está dividido equitativamente! Não há dificuldades.

 

- E se um dos grandes precisar de demitir-se e decidir transformar a Sicília na sua nova pátria? Nesse caso só tu lhe impedes o caminho!

 

- Já tinha pensado nisso. - Soriano olhou pensativamente para os painéis de madeira que recobriam as paredes do luxuoso escritório. - Consideremos os acontecimentos do dia de hoje também sob o seguinte aspecto: é preciso saber lançar um aviso! E isto constitui um aviso para todos aqueles que tiverem ilusões no que diz respeito à Sicília.

 

Nessa tarde (Soriano persisitira na sua ideia, apesar de todos os protestos de amizade) a vivenda de Solunto foi visitada por todos os homens importantes de Palermo. Worthlow instalara um enorme bufete frio, assim como um grande bar e até umgn’// no jardim. Sobre um lume de carvão de choça, girava no espeto um leitão inteiro.

 

Aos leões e aos crocodilos fora dada pouco tempo antes uma ração dupla. Por isso os felinos estiraram-se moles e sonolentos nas suas jaulas, enquanto os grandes répteis dormitavam ao sol na sua ilha de lama situada a meio do lago artificial. A imagem era a de um pacífico e reduzido jardim zoológico privado, fantasias de um homem rico que ama os animais e já não sabe mais como gastar o seu dinheiro.

 

Era a primeira vez que alguns dos visitantes penetravam no recinto, tendo ficado deslumbrados com a beleza da propriedade. Atravessaram as salas orientais, admiraram o parque, provocaram com apupos e assobios os leões bem alimentados, pediram que lhes explicassem os hábitos dos crocodilos e, no final da visita, confirmaram que as gravações só poderiam ter sido feitas por graça, aliás uma graça de mau gosto. Em seguida, comeram, beberam, regressando a Palermo com a certeza de terem passado uma tarde extremamente agradável.

 

Prevalecera assim a ideia do dr. Soriano. Apenas um dos chefes de redacção comentou com o dr. Brocca:

 

- Um escritório de advogado dá assim tanto dinheiro?

 

- O dinheiro pode ser aplicado de muitas formas - respondeu este com frieza. - Especulação com títulos, juros favoráveis, negócios de Bolsa ... Sabe como é! Não há dúvida que o dr. Soriano tem boa mão para o negócio!

 

E tinha mesmo! Ao fim da tarde, quando os últimos visitantes abandonaram a vivenda de Solunto, o décimo nono homem da lista de Soriano «sofria um acidente». O comboio rápido entre Palermo e Messina separava-lhe a cabeça do tronco. Ninguém perguntaria o modo como o homem fora parar à linha, muito menos o dr. Brocca. Com efeito, na Sicília dão-se acontecimentos curiosos, como por exemplo, o do industrial Fabrício Frosolone se deitar a dormir nos carris do caminho de ferro.

 

Vestido com o seu uniforme de gala branco, Worthlow começou a desmontar o bufete, depois de ter partido o último visitante, ajudado por seis criados de smoking. Soriano permanecia pensativo à beira da piscina, perguntando-se pela centésima vez por que razão a paz da Sicília fora tão subitamente transtornada. Estivera até ao meio-dia a receber os telefonemas das outras «famílias»: quer se tratasse de Messina ou de Catânia, de Siracusa ou de Ragusa, de Trapani ou de Caltanisetta, todos os chefes reiteraram a sua fidelidade, afirmando nada saberem a respeito de infiltrações vindas da América e prometendo ficar atentos e vigilantes. Nada mais se podia fazer. Todo o clã siciliano se encontrava em estado de alerta.

 

Worthlow teve nessa mesma noite uma breve conversa com Ana, a bonita criada de quarto de Loretta.

 

Depois de ter gozado o seu dia de folga, regressou pontualmente a Solunto, cansada, de olhos baços, manifestamente perturbada. Voltou a tomar um duche quente e depois frio, mas era impossível apagar os traços do que lhe sucedera. Sentia ainda no corpo as mãos do desconhecido, os seus lábios a percorrerem-lhe o corpo nu até às partes mais íntimas e o ardor entre as coxas parecia-lhe inextinguível. Quando o jovem pintor, murmurando palavras desconexas e beijando-lhe os seios a penetrou, soltou um grito e depois ficou a olhar fixamente para o tecto do quarto pensando apenas: «Enrico! Enrico!»

 

Mais tarde, sentada nua na pequena mansarda, bebeu vinho tinto barato, mordiscando umas bolachas. «A estas horas já devem ter encontrado as cassettes, pensou e sorriu um pouco enquanto o pintor brincava com os seus seios opulentos. Ele tomou esse sorriso por um convite, pelo que ajoelhou à sua frente e pousou o rosto no seu regaço quente e húmido.

 

«Amanhã já estarás livre, Enrico», pensou. «Mas eu não estarei aqui. Cheguei demasiado tarde para me oferecer a ti. Agora já não valho nada. Nunca mais poderei pendurar o lençol manchado de sangue à janela para que todos o vejam e se alegrem com a nossa felicidade. Adeus, Enrico ...»

 

Encontrava-se agora na frente de Worthlow, envergando ainda o uniforme, e olhava-o perturbada.

 

- Não poderei informar a signorina porque ela se foi subitamente embora - disse envergonhada -, mas tenho de despedir-me. Sou obrigada a voltar para a minha aldeia. A nonna está muito doente e precisa de mim. Talvez morra até em breve e eu quero estar ao pé dela. Gostava muito de estar aqui. O trabalho era muito agradável, mas quando a nonna ...

 

Worthlow vivia há tempo suficiente na Itália para saber que existem para um italiano três coisas sagradas: a Virgem Maria, a nonna e os bambini. Se uma delas estiver em perigo ninguém o pode deter.

 

- Quando queres partir? - perguntou em tom lacónico. As suas preocupações não lhe permitiam ocupar-se com a avó de Ana.

 

- Hoje ainda, se for possível.

 

Ana começou a soluçar, não com pena da avó mas sim por ter de se afastar de Enrico. Ele partira com Loretta, fora posto em lugar seguro. Tudo aquilo que fizera pensando restituir-lhe a liberdade fora um erro. O dr. Soriano era mais forte do que a pequena Ana Talana. Era impossível aniquilá-lo com uma gravação. Reconheceu-o, ao ver durante o dia os visitantes a percorrerem a casa e os criados de Soriano a mostrarem-lhe tudo, desde a cave até ao telhado, passando pelos aposentos em que o dr. Volkmar morara. Os móveis preciosos e os sofás tinham sido recobertos com capas de pano cru, a piscina do terraço esvaziada, o bar arrumado... Um apartamento de hóspedes que há muito não era utilizado.

 

- Participarei à signorina Loretta - disse Worthlow. - A nonna! De facto, é uma desgraça. Vai ter com o administrador e diz que te pague três meses de ordenado. Voltarás quando a nonna ...

 

- Não sei, signore.

 

Ana ficou a olhar para o chão brilhante de mármore. «Vou morar na casebre de pedra, nas montanhas», pensou. E quando tiver gasto tudo, Ernesto voltará a roubar os turistas e talvez eu lhes venda o meu corpo. Com isso ganham-se liras, muitas liras ... Nesta casa aprendi o poder do dinheiro.»

 

- Está bem - disse Worthlow, distraído. - Boa viagem, Ana.

 

- Obrigado, signore Worthlow. - Fez uma vénia e juntou as mãos sobre o peito. - Tenho muita pena...

 

Depois desatou a correr e Worthlow ouviu-a chorar alto.

 

«Trabalhar em casa do dr. Soriano deve ser uma felicidade» , pensou amargamente, «quando se tem a simplicidade de uma rapariga da aldeia.»

 

Worthlow partiu com o dr. Soriano ao cair da noite em direcção ao asilo de velhos. O dr. Volkmar recebeu-os furioso e com espírito combativo. Loretta estava sentada numa cadeira e olhava para o céu escuro através das grades da janela. Não se voltou para cumprimentar o pai. Ignorou-o. Ao recebê-lo, o dr. Nardo já tinha prevenido que a ideia de os levar para a zona de isolamento não fora boa.

 

- Eu já sei o que vai dizer, dottore - exclamou Soriano mal entrou. - Grades, portas sem puxadores, quartos mal equipados! Mas eu tinha de actuar rapidamente e este era o local melhor e o mais seguro.

 

Olhou para a filha que se mantinha de costas, e aproximou-se lentamente dela.

 

- Loretta...

 

Ela voltou-se como uma gata assanhada e encarou-o. Os seus olhos estavam dilatados de raiva.

 

- O que sucedeu aqui, papá? - gritou. - Porque tratas o Enrico como um prisioneiro?

 

Soriano olhou para Volkmar.

 

- Ainda não lhe disse nada? - perguntou admirado.

 

- Não.

 

- Obrigado.

 

- Com isso não consegue satisfazer Loretta, Dom Eugênio. Ela quer explicações. Penso que chegou o momento de lhas dar!

 

- O Enrico vai dirigir a nova clínica de Camporeale.

 

- Já sei isso! - sibilou Loretta. - Ou julgas porventura que criaste uma bonequinha desmiolada?!

 

- Aí está a sua influência, dottore.

 

- Infelizmente não é assim, dr. Soriano. Está a passar-se consigo o que sucede a muitos pais: o de terem uma imagem completamente errada da sua filha.

 

- Acha que tenho?

 

- Sim! - exclamou Loretta. - Eu sei tudo! O morto desconhecido a substituir Enrico, o plano para ganhar dinheiro com transplantações do coração, a verdadeira fonte da nossa riqueza que não provém do teu escritório de advogado! Dom Eugênio, o chefe máximo da ...

 

- Basta! - interrompeu-a Soriano com voz dura. Sentou-se na cama branca de ferro e fitou os olhos furiosos da filha. «Meu Deus», pensou, «sempre temi este momento. Orei para que ele não chegasse e contudo sabia que não poderia fugir. Terá chegado a hora de prestar contas? A tua mãe, minha querida, sabia tudo e calou-se. Era uma esposa encantadora, uma mãe exemplar, crente, humilde, caseira, cheia de admiração pelo seu marido. Era uma figura decorativa nas festas e nas recepções, trazia jóias no valor de milhões mas nunca perguntava como fora ganho o dinheiro. Para ela eu era apenas o homem que amava e a quem dera uma filha... tu, Loretta. Ignorava tudo o resto. Por que razão terás tu de fazer perguntas? Afinal, um dia tudo isto será teu...»

 

- Nós vivemos segundo regras rígidas - disse num tom um pouco contraído. Quando Volkmar riu sarcasticamente lançou-lhe um olhar de desprezo.

 

- Só um fora-de-lei poderia dizer isso! - exclamou este.

 

- As leis da «família» são duras. Espero que nunca tenha de senti-las, dottore! Pode amar-se uma mulher, o pai, a mãe, um filho, uma filha, um amigo, mas se for necessário é-se obrigado a esquecer tudo isso. Ter-me-ei exprimido com clareza?

 

- Não - respondeu Volkmar, fixando o dr. Soriano. «Será possível»’, pensou, «que este pai para quem a filha

 

única é uma coisa sagrada a possa destruir se a Mafia assim lho ditar? É inconcebível. Incompreensível!»

 

- O senhor pertence agora à família, dottore - disse Soriano. - Já não pode evitá-lo, mesmo que tivesse um dia a possibilidade de escapar. Apenas provocaria um terrível sofrimento a Loretta e a mim! Sei que no meu caso o deseja. Mas não podemos afastar Loretta. É esse o segredo da nossa disciplina: a certeza de sermos todos uma grande família e de tudo termos de suportar em conjunto.

 

- Na realidade trata-se de uma ameaça desumana!

 

- Do seu ponto de vista, Enrico.

 

Soriano levantou-se da cama de ferro e aproximou-se de Loretta. Ela encolheu-se como se do corpo do seu pai soprasse uma aragem gelada. Apertou ligeiramente os olhos.

 

- Amo-o! - exclamou. - Tudo o que lhe fizerem fá-lo-ão também a mim!

 

- Assim é!

 

Soriano passou pela frente da filha e pôs-se a olhar pelas grades da janela. Por baixo estendia-se o jardim do asilo de velhos fracamente iluminado por alguns lampiões. Percorriam-no largos caminhos entre canteiros de flores, havia bancos ao longo das sebes, um grande relvado, um pavilhão de música, um pequeno teatro ao ar livre. Tinham-Ihe garantido que era o mais belo asilo de toda a Europa. Nunca ninguém fizera tanto pela velhice como ele qui em Palermo. O mesmo se diria em breve do novo sanatório infantil em Camporeale. Seria um verdadeiro paraíso. O que sucedesse nas caves ficava no segredo da «grande família»

 

- Amanhã voltareis para Solunto - disse. - Poderá movimentar-se livremente, dottore.

 

- Assim de repente?

 

- Tudo quanto fizer poderá beneficiar ou prejudicar Loretta.

 

- E se eu o ajudar a fazer tudo o que ele pretende? retorquiu ela com voz estrídula.

 

- Seria estúpido. - Soriano voltou-se fixando longamente o olhar sobre a sua filha furiosa. Nos seus olhos havia algo de infinitamente triste, de desesperado até. - Seria muito estúpido e terrível ...

 

Loretta e o dr. Volkmar regressaram no dia seguinte para a vivenda ao pé do mar. Eram acompanhados por dois carros com homens fortemente armados, um dos quais seguia à frente e o outro logo atrás. Uma escolta incapaz de se deixar surpreender. Quem se quisesse vingar atacando Loretta ou o dr. Volkmar não teria qualquer hipótese.

 

Os aposentos dos hóspedes encontravam-se tal como anteriormente. Worthlow esperava-os com uma bebida refrescante. O apartamento lembrava uma loja de flores, pois por todo o lado se viam grandes vasos cheios de ramos. Numa pesada moldura de prata fora colocada a ampliação de uma fotografia. Volkmar não podia ver de quem se tratava.

 

- Ele começa hoje a ser construído, Sir! - disse Worthlow com as suas rígidas maneiras britânicas.

 

- Nunca vi um aparelho coração-pulmão que se assemelhasse a este! - exclamou Volkmar, olhando espantado para a fotografia.

 

- É o último modelo chegado dos Estados Unidos, Sir. Especialmente para si. Os instrumentos electrónicos de medida, os aparelhos de medicina nuclear também vêm da América. Hoje de manhã seis médicos da sua equipa voaram para o Texas a fim de se familiarizarem e aprenderem a trabalhar com os novos instrumentos. Voltarão no primeiro dia de Dezembro para a inauguração do sanatório infantil.

- A data está então definitivamente fixada?

 

- Agora está.

 

- Restam-nos apenas três meses - disse Volkmar mais tarde a Loretta. - É um período relativamente longo para prepararmos tudo. Só poderemos tentar a fuga uma vez. Se ela falhar nunca mais teremos uma outra oportunidade!

 

Mas nem agora lhes davam qualquer oportunidade.

 

Volkmar era escoltado todos os dias para o asilo de velhos e a mesma escolta o acompanhava no regresso quando informava ter terminado o trabalho.

 

O seu trabalho? Transplantação de corações em cães e em porcos, experiências constantes com corticoesteróides, ACTH e anti-histamínicos numa tentativa de combater a reação imunológica. Uma equipa laboratorial iniciara uma série de testes com citostáticos, isto é, com preparados químicos destinados ao combate das formações cancerosas e à destruição dos tumores. Um terceiro grupo trabalhava com antimetabolitos, ligações químicas capazes de bloquear ou de alterar o metabolismo.

 

Os êxitos começaram a manifestar-se dois meses depois: conseguiu-se pela primeira vez que um cão sobrevivesse com um coração estranho mais do que dois meses. E, mesmo assim, não morreu devido a uma reacção imunológica, mas a um acidente. O chimpanzé Boco, utilizado apenas para experiências medicamentosas, visitou durante a noite o cão operado e, ao brincar com ele, apertou-lhe com tanta força a caixa torácica que as costuras interiores deram de si fazendo-o morrer de hemorragia. A culpa foi de um dos tratadores que se esqueceu de aferrolhar a jaula de Boco, tendo-a apenas deixado no trinco. Para esse bicho inteligente tinha sido uma alegria poder abrir a porta e passear livremente pela secção dos animais.

 

O sanatório de crianças nos montes de Camporeale estava terminado. A clínica subterrânea também se encontrava equipada até aos mais ínfimos pormenores e pronta a funcionar. Volkmar visitou várias vezes o «local dos crimes», como lhe chamava, sempre acompanhado por quatro homens armados ou pelo próprio dr. Soriano. O dr. Nardo também aparecia ou então era esperado por outros medicos nas três salas operatórias, nos laboratórios, na secção técnica ou nos quartos dos doentes que mais tarde seriam completamente assépticos.

 

O dr. Volkmar nada tinha a criticar. Pelo contrário. Estava aqui a ser construída em total clandestinidade a mais completa e moderna clínica que jamais vira. Poder trabalhar nessas condições constituía o desejo de qualquer cirurgião. Era a concretização de sonhos impossíveis, sobretudo na Alemanha, onde os hospitais estavam velhos e a transbordar, onde os doentes eram deitados nos corredores, os laboratórios se montavam nos cantos das caves e as macas dos moribundos continuavam a ser empurradas para as casas de banho até que eles exalassem o último suspiro. Aqui estava, no entanto, a edificar-se, uma clínica em que as verbas despendidas não tinham significado. Para dez camas (um número superior era considerado irrealista pelo dr. Soriano) gastara-se o mesmo que com uma clínica cirúrgica de um hospital escolar! E, mais do que isso: elaborara-se um sistema integrado perfeito, estendendo-se dos exames iniciais aos cuidados intensivos após a intervenção cirúrgica, necessários a uma transplantação do coração bem sucedida.

 

Era, de certo modo, a aplicação de novos corações como numa cadeia de montagem!... Uma visão de loucos que o dr. Soriano tornara realidade.

 

O dia 1.o de Dezembro de 1967 foi um dia suave e soalheiro, de céu azul-pálido, um desses céus sicilianos que o dr. Soriano classificava como sendo de cetim.

 

Na aldeia de Camporeale pendiam bandeiras, colchas e colgaduras de todas as janelas, como por ocasião da festa do Corpo de Deus. Nos peitoris, nas portas e nas ruas viam-se imagens da Madona, crucifixos e figuras coloridas de santos de barro com semblante solene. A única estrada pavimentada que levava da entrada da aldeia à igreja fora recoberta com um tapete de flores. Dom Caesare, o pároco de Camporeale, corria de um lado para o outro como um grande pássaro espantado, experimentava o toque dos sinos, ensaiava mais uma vez o coral infantil e obrigava o coro misto a repetir de novo o hino que iria ser cantado em honra desse dia e das altas individualidades que os visitavam. Pois, para Camporeale, muito mais importante do que a inauguração do novo e gigantesco sanatório infantil que brilhava na colina situada a três quilómetros da aldeia, qual castelo branco, supermoderno, igualmente rodeado por uma floresta de bandeiras desfraldadas, era a visita do cardeal da Sicília à sua pequena igreja e a missa que aí iria celebrar. Um acontecimento desses apenas se dá uma vez em cada século e talvez nunca mais volte a acontecer. Aliás, quem conhecer Camporeale poderá comprender o pouco entusiasmo dos cardeais em visitar esses lugares, mesmo que os crentes sejam aqui mais crentes do que em outros lados.

 

Para além do cardeal portador da bênção do Santo Padre, chegariam de Roma um secretário de Estado e sete deputados parlamentares. Naturalmente viriam também todos quantos na Sicília ocupavam uma posição de relevo, a fim de admirar a nova maravilha fundada pelo dr. Soriano. O presidente da «Fundação Camporeale» decorava há já três dias o seu longo discurso, pois iria ter o prazer de lhe entregar

220 000 000 de liras, resultado dos donativos e dos peditórios feitos a favor deste sanatório de crianças verdadeiramente único. Tratava-se de uma soma de que se poderiam orgulhar, e contudo insignificante, tendo em conta o que custara a clínica secreta construída por detrás de portas, agora de novo tapetadas, que esperava o dr. Volkmar e a sua equipa.

 

Eram dez horas da manhã quando o cardeal percorreu as ruas de Camporeale num carro aberto, espalhando bênçãos para todo o lado e proporcionando com elas uma enorme alegria. De Palermo chegara uma força da polícia composta por cem homens que encerrara todos os acessos. Apenas tinham autorização para passar as pessoas munidas de convite e mesmo essas eram rigorosamente revistadas. O procurador da República, dr. Brocca, fizera saber que se temia um atentado à bomba. Tratava-se, como é evidente, de uma mentira, mas ela servia de pretexto para preservar o edifício de visitas indesejadas.

 

As festividades prolongaram-se até às quatro horas da tarde. O cardeal percorreu todas as salas com o turíbulo e a caldeira da água benta, consagrando-as, bem como à imagem de Nossa Senhora colocada na capela privada. Depois, sentado à mesa de banquete colocada no grande refeitório, deliciou-se com uma dose dupla de faisão acompanhado de puré de castanhas.

 

- Esta obra abrir-lhe-á as portas do céu, dr. Soriano - disse o cardeal ao despedir-se, enquanto fazia o sinal da cruz por sobre a cabeça inclinada do advogado.

 

- Gostaria que assim fosse, Eminência - respondeu Soriano com humildade.

 

- O senhor tem uma filha, não é verdade?

 

- Assim é, Eminência.

 

- Ela não está presente, neste dia de festa?

 

- Loretta ficou noiva há pouco tempo, Eminência. - Soriano levantou a cabeça. Uma mentira atirada à cara de um cardeal tinha de ser acompanhada, pelo menos, de um olhar sincero, sobretudo quando se era tão bom cristão como o dr. Soriano. Isto era o seu lado humano. A faceta comercial nada tinha a ver com esta. - Encontra-se de momento em Roma.

 

- Então teremos em breve um casamento?

 

- Assim o espero... se Deus o permitir.

 

- Permiti-lo-á - disse o cardeal sorrindo com brandura. Seria um prazer para mim casar a sua filha.

 

Soriano inclinou-se e beijou o anel do cardeal. Ficou sinceramente comovido, embora soubesse que o desejo do cardeal nunca poderia realizar-se.

 

O prelado não tomou parte na grande festa que Soriano deu nessa noite no salão de festas. Após a missa especial celebrada na pequena igreja de Camporeale voltou a partir, muito impressionado com a consciência cívica do dr. Soriano. Na sala decorada com grinaldas de flores fez-se ouvir o coro infantil, tendo muitos representantes da província, da cidade e do mundo científico feito os seus discursos laudatórios. Finalmente houve baile, o qual se prolongou pela noite fora. Colocada no vasto átrio de entrada, visível por todos aqueles que entrassem no edifício, encontrava-se o texto da bênção papal, dentro de uma pesada moldura dourada.

 

Ainda os visitantes dançavam e se deliciavam com o enorme bufete frio, e já na cave II se abriam de novo as portas seladas que comunicavam com a clínica cardiológica. Não se tratava de um trabalho difícil, pois os acessos tinham sido encobertos com placas de madeira e estas pintadas da cor das paredes. Uma vez retiradas, ficava secretamente inaugurada a clínica da Mafia. O dr. Soriano permaneceu durante cerca de meia hora na cave, trazendo consigo uma garrafa de champanhe. Volkmar e Loretta estavam sentados no luxuoso gabinete do médico-chefe, servidos (e vigiados) pelo fiel Worthlow.

 

Aqui reinava um silêncio sepulcral. O ruído lá em cima, os risos, a dança, a música e a presença de mais de trezentas pessoas não conseguiam penetrar neste mundo subterrâneo e estéril de implacável higiene.