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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A CASA NEGRA / Peter Straub e Stephen-King
A CASA NEGRA / Peter Straub e Stephen-King

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A CASA NEGRA

 

       Vinte anos se passaram e Jack Sawyer não é mais um menino. Aos 32 anos, não se lembra dos acontecimentos terríveis que o levaram, quando tinha apenas 12, a um estranho universo paralelo - os Territórios. Em busca de um valioso talismã, o pequeno Jack enfrentou inimigos perigosos e situações de grande risco, tudo para salvar a mãe desenganada. Hoje Jack é um detetive de Los Angeles aposentado e mora no vilarejo de Tamarak, Wisconsin. Um estranho acontecimento forçou-o a deixar a polícia há algum tempo, e ele vive tranqüilo, protegido das recordações perigosas. Mas sua tranqüilidade está prestes a acabar. Uma série de assassinatos macabros no oeste de Wisconsin faz com que o chefe de polícia local, amigo de Jack, lhe implore que ajude a polícia inexperiente a encontrar o assassino.

       Em algum ponto do universo parece estar escrito que Jack terá de voltar aos Territórios. Atormentado por mensagens enigmáticas que lhe aparecem como que em sonhos, Jack decide enfrentar o desafio e acertar as contas com seu próprio passado.

       Nesta aguardada seqüência de O Talismã, grande sucesso de Stephen King e Peter Straub, Jack Sawyer precisará encontrar novas forças para entrar numa casa medonha, perdida em uma floresta, e enfrentar os males insanos que a habitam. Jack não se recorda dos tormentos que teve que enfrentar quando menino, mas, de alguma forma, ele sabe que o pior ainda está por vir...

                     

Aqui e agora, como dizia um velho amigo, estamos no presente fluido, onde não basta enxergar bem para se ter uma visão perfeita. Aqui: a uns 60 metros, a altitude de uma águia voando, sobre o extremo oeste de Wisconsin, onde os meandros do rio Mississipi criam uma fronteira natural. Agora: manhã de uma sexta-feira de meados de julho de um ano do início de um século e de um milênio novos, seus cursos imprevisíveis tão ocultos que um cego tem mais chance do que você ou eu de enxergar o que está à frente. Aqui e agora, são seis e pouco da manhã, e o sol está baixo no céu limpo do nascente, uma bola amarelada gorda e confiante, avançando como sempre pela primeira vez em direção ao futuro e deixando em seu rastro o passado que não pára de se acumular e que escurece à medida que recua, deixando-nos todos cegos.

       Lá embaixo, o sol da manhã realça as ondulações amplas e macias do rio com um reflexo líquido. A luz do sol faísca nos trilhos da ferrovia Burlington Northern Santa Fe que corre entre o rio e os fundos das casas pobres de dois andares, ao longo da estrada municipal Oo, conhecida como Alameda Nailhouse, o ponto mais baixo da cidadezinha de aspecto confortável que se estende subindo para leste. Neste momento no Condado de Coulee, a vida parece estar com a respiração em suspenso. O ar parado à nossa volta é de uma pureza e uma doçura tão extraordinárias que é possível imaginar que um homem seria capaz de sentir o cheiro de um rabanete arrancado a quase dois quilômetros dali.

      

      

Voando em direção ao sol, afastamo-nos do rio sobrevoando os trilhos faiscantes, os quintais e telhados da Alameda Nailhouse e uma fila de motocicletas Harley-Davidson estacionadas. Essas casinhas sem graça foram construídas, no início do século recém-terminado, para fundidores, moldadores e caixoteiros empregados da fábrica de Pregos Pederson. Partindo do princípio de que seria improvável que os trabalhadores se queixassem dos defeitos de suas moradias subsidiadas, estas foram construídas da forma mais barata possível. (A Pregos Pederson, que tivera múltiplas hemorragias nos anos 50, acabou esvaindo-se em sangue em 1963.) As Harleys enfileiradas sugerem que os operários da fábrica foram substituídos por uma gangue de motoqueiros. A aparência uniformemente feroz dos proprietários das Harleys, homens desgrenhados, barbudos, barrigudos, usando brincos e jaquetas de couro e ostentando uma dentadura já desfalcada, parece apoiar essa suposição. Como a maioria das suposições, esta encerra uma meia verdade inquietante.

       Os atuais moradores da Alameda Nailhouse, apelidados por nativos desconfiados de os Thunder Five logo após terem tomado as casas ao longo do rio, não podem ser tão facilmente classificados. Eles possuem empregos qualificados na Cervejaria Kingsland, situada ao sul da cidade, um quarteirão a leste do Mississipi. Se olharmos para a direita, podemos ver “a maior embalagem de meia dúzia do mundo”, tanques de armazenamento pintados com gigantescos rótulos de cerveja Kingsland. Os homens que moram na Alameda Nailhouse conheceram-se no campus Urbana-Champaign da Universidade de Illinois, onde todos, exceto um, cursavam inglês ou filosofia. (A exceção era um médico que fazia residência em cirurgia no hospital universitário UC-UI.) Eles têm um prazer irônico em serem chamados de os Thunder Five: parece-lhes um nome simpaticamente caricatural. Eles se chamam é de “a Escória Hegeliana”. Esses cavalheiros constituem um time interessante, e vamos conhecê-los mais tarde. Por ora, só temos tempo de reparar nos cartazes; pintados à mão colados na frente de várias casas, em dois postes, e em alguns prédios abandonados. Os cartazes dizem: PESCADOR, É MELHOR PEDIR AO SEU DEUS FEDIDO PARA A GENTE NÃO PEGAR VOCÊ PRIMEIRO! LEMBRE-SE DE AMY!

      

      

Da Alameda Nailhouse, a Rua Chase sobe íngreme entre prédios inclinados com fachadas decadentes e sem pintura, da cor de nevoeiro: o velho Hotel Nelson, onde alguns moradores empobrecidos estão dormindo, uma taberna inexpressiva, uma sapataria cansada exibindo botas de trabalho Red Wing na vitrine embaçada, alguns outros prédios apagados sem indicação de sua função, estranhamente oníricos e vaporosos. Essas construções parecem ressurreições fracassadas, resgatadas do escuro território a oeste, embora ainda estivessem mortas. De certa forma, isso foi exatamente o que aconteceu com elas. Uma listra horizontal ocre, três metros acima da calçada na fachada do Hotel Nelson e a 60 centímetros do chão, do lado mais alto da rua, nas faces cinzentas dos dois últimos prédios, representa a marca deixada pela água na enchente de 1965, quando o Mississipi transbordou, inundou a linha férrea e a Alameda Nailhouse, e quase chegou ao topo da Rua Chase.

       Acima da marca da enchente, onde a Chase fica plana, ela se alarga e se transforma na rua principal de French Landing, a cidade lá embaixo. O Teatro Agincourt, o Taproom Bar & Grille, o First Farmer State Bank, o estúdio fotográfico Samuel Stutz (especializado em fotos de formatura e casamento, e retratos de crianças) e lojas, não as relíquias fantasmagóricas de lojas, ladeiam suas calçadas toscas: a drogaria Benton’s Rexall, a Ferragens Confiança, o Saturday Night Video, a Roupas Régias, o Empório Schmitt’s, lojas de equipamentos eletrônicos, revistas e cartões de festas, brinquedos e roupas esportivas ostentando os logotipos dos Brewers, dos Twins, dos Packers, dos Vikings e da Universidade de Wisconsin. Algumas quadras depois, o nome da rua muda para Rua Lyall, e os prédios se espaçam e encolhem, tornando-se construções de madeira com letreiros anunciando agências de seguros e de viagem; em seguida, a rua vira uma auto-estrada que segue para leste passando por uma 7-Eleven, pelo Auditório dos Veteranos de Guerra Reinhold T. Grauerhammer, por uma grande revendedora de implementos agrícolas conhecida localmente como Goltz’s, e vai dar numa paisagem de campos planos e contínuos. Subindo mais 30 metros no ar límpido e olhando o que há embaixo e à frente, vemos morainas, barrancos, colinas arredondadas cobertas de pinheiros, vales ricos em terra boa que não se vêem do chão antes que se tope com eles, rios serpeantes, um mosaico quilométrico de campos e cidadezinhas — uma delas, Centralia, não mais que prédios esparsos em volta de um cruzamento de duas rodovias estreitas, a 35 e a 93.

       Bem embaixo de nós, é como se French Landing tivesse sido evacuada no meio da noite. Não se vê vivalma nas calçadas nem se abaixando para enfiar uma chave em um dos cadeados das portas das lojas da Rua Chase. Nas vagas em ângulo em frente às lojas, não há nenhum dos carros e picapes que começarão a aparecer, primeiro um ou dois de cada vez, depois num pequeno fluxo bem-comportado, uma ou duas horas mais tarde. Não há luzes acesas atrás das janelas dos prédios comerciais nem das casas despretensiosas que margeiam as ruas vizinhas. Um quarteirão ao norte da Chase, na Rua Sumner, quatro prédios parecidos de dois andares e tijolos aparentes abrigam, de oeste para leste, a Biblioteca Pública de French Landing; o consultório de Patrick J. Skarda, M.D., o clínico geral local, e o Bell & Holland, um escritório de advocacia agora dirigido por Garland Bell e Julius Holland, os filhos dos fundadores; a Funerária Heartfield & Son, agora filial de um vasto império funerário, cuja matriz fica em St. Louis; e a agência de Correios de French Landing.

       Separado desses edifícios pela larga rua que dá acesso a um grande estacionamento nos fundos, o prédio no fim do quarteirão, onde a Sumner cruza com a Rua Três, é também de tijolos aparentes e de dois andares, porém mais comprido que seus vizinhos imediatos. Barras de ferro por pintar protegem as janelas dos fundos do segundo andar, e dois dos quatro veículos no estacionamento são viaturas com barras de luzes no teto e as letras DPFL nas laterais. A presença de viaturas da polícia e de janelas gradeadas parece fora de contexto neste reduto rural — que tipo de crime pode acontecer aqui? Nada sério, por certo; por certo, nada mais grave que um pequeno furto, dirigir embriagado ou uma eventual briga de bar.

       Como se para provar a paz e a regularidade da vida numa cidade pequena, uma caminhonete vermelha com as palavras LA RIVIERE HERALD nas laterais desce lentamente a Rua Três, parando em quase todas as caixas de correio para seu motorista enfiar exemplares do jornal do dia, envolvidos num saco plástico azul, em cilindros de metal cinza ostentando as mesmas palavras. Quando a caminhonete vira na Sumner, onde os prédios têm fendas de correio em vez de caixas, o homem simplesmente atira os jornais ensacados na porta das casas. Pacotes azuis batem nas portas da delegacia, da funerária e dos prédios de escritórios. A agência de Correios não recebe jornal.

      

      

O que você sabe: as luzes estão acesas no primeiro andar da delegacia. A porta se abre. Um jovem de cabelos escuros com uma camisa de uniforme azul-clara de mangas curtas, cinturão Sam Browne e calça marinho sai à rua. O cinturão e o distintivo dourado no peito de Bobby Dulac brilham na luz da manhã, e tudo o que ele está usando, inclusive a pistola 9mm presa à sua ilharga, parece tão novo quanto o próprio Bobby Dulac. Ele olha a caminhonete vermelha virar à esquerda na Rua Dois e franze o cenho para o jornal enrolado. Empurra-o com a ponta de um sapato preto muito lustroso, inclinando-se sobre ele o suficiente para sugerir que está tentando ler as manchetes através do plástico. Ainda de cenho franzido, Bobby se abaixa e pega o jornal com uma delicadeza inesperada, como uma gata pega um filhote que precisa ser levado para outro lugar. Segurando-o a uma certa distância do corpo, ele dá uma olhada rápida para os dois lados da Rua Sumner, dá meia-volta com elegância e torna a entrar na delegacia. Nós, que, curiosos, andávamos sempre descendo em direção ao interessante espetáculo apresentado pelo oficial Dulac, entramos atrás dele.

       Um corredor cinzento, passando por uma porta sem indicação e um quadro de avisos com muito pouca coisa afixada, leva a duas escadas de ferro, uma que desce para um pequeno vestiário, os chuveiros e um estande de tiro, outra que sobe para uma sala de instruções e duas fileiras de celas uma em frente à outra, nenhuma delas ocupada no momento. Perto, um rádio sintonizado num programa de entrevistas está num volume que parece alto demais para uma manhã pacata.

       Bobby Dulac abre a porta sem letreiro e entra, com a gente em seus calcanhares lustrosos, na sala de instruções de onde ele acabou de sair. Uma fileira de arquivos ergue-se contra a parede à nossa direita, tendo ao lado uma mesa de madeira surrada sobre a qual há pilhas organizadas de pastas de papéis e um rádio transistorizado, fonte do barulho desagradável. Do estúdio próximo da KDCU-AM, Seu Locutor no Condado de Coulee, o teatralmente raivoso George Rathbun deu início à Barragem dos bichos da terra, seu popular programa matinal. O bom e velho George parece falar alto demais para a ocasião, por mais baixo que você regule o volume; o cara é simplesmente esporrento — isso é parte de sua atração.

       No meio da parede à nossa frente há uma porta fechada com uma janela de vidro fosco onde foi pintado DALE GILBERTSON, CHEFE DE POLÍCIA. Dale não estará ali antes de mais ou menos meia hora.

       Há duas mesas de aço colocadas em L no canto à nossa esquerda, e, da que está à nossa frente, Tom Lund, um policial louro mais ou menos da idade de seu parceiro, mas sem o aspecto deste de quem acaba de ser produzido há cinco minutos, olha para o saco que Bobby Dulac segura com a ponta de dois dedos da mão direita.

       — Certo — disse Lund. — Certo. O último capítulo.

       — Você achou que talvez os Thunder Five estivessem nos fazendo outra visita social? Aqui. Não quero ler o raio dessa matéria.

       Sem se dignar olhar para o jornal, Bobby, com um movimento atlético do pulso, faz um arremesso de três metros em arco sobre o chão encerado com o exemplar do dia de La Riviere Herald, gira para a direita, dá um passo largo e coloca-se em frente à mesa de madeira um segundo antes de Tom Lund pegar seu lançamento. Bobby olha ferozmente para os dois nomes e os vários detalhes rabiscados no comprido quadro-negro pendurado na parede ao lado da mesa. Bobby Dulac não está satisfeito; olha como se fosse explodir de raiva.

       Gordo e feliz no estúdio da KDCU, George Rathbun grita:

       — Ouvinte, dê um tempo, sim, e mande aviar sua receita. Estamos falando do mesmo jogo aqui? Ouvinte...

       — Vai ver que Wendell tomou juízo e resolveu se licenciar — diz Tom Lund.

       — Wendell— diz Bobby.

       Porque Lund só pode ver a parte de trás lisa de sua cabeça, o pequeno trejeito de desdém que ele faz com o lábio é um desperdício, mas assim mesmo ele o faz.

       — Ouvinte, deixe eu lhe perguntar só uma coisa, e com toda a sinceridade, quero que seja honesto comigo. Você viu mesmo o jogo de ontem à noite?

       — Eu não sabia que Wendell era muito amigo seu — diz Bobby. — Eu não sabia que você já tinha descido até La Riviere. Eu estava aqui pensando que sua idéia de uma grande noitada era uma caneca de cerveja e tentar fazer 100 pontos no Boliche Arden, e agora descubro que você anda com repórteres em cidades universitárias. Provavelmente farreia com o Rato de Wisconsin também, aquele cara da KWLA. Você pega muitas garotas punk assim?

       O ouvinte diz que perdeu o primeiro tempo porque teve que pegar o filho depois de uma sessão de aconselhamento especial na Mount Hebron, mas, depois disso, viu tudo.

       — Eu disse que Wendell Green era meu amigo? — pergunta Tom Lund. Por cima do ombro esquerdo de Bobby ele pode ver o primeiro dos nomes no quadro-negro. Não consegue tirar os olhos dali. — E que eu o conheci depois do caso Kinderling, e ele não parecia tão ruim. Na verdade, até gostei dele. Na verdade, acabei tendo pena dele. Ele queria entrevistar Hollywood, e Hollywood o mandou às favas.

       Bem, naturalmente ele viu os tempos extras, diz o infeliz ouvinte, é assim que ele sabe que Pokey Reese estava seguro.

       — E quanto ao Rato de Wisconsin, eu não o reconheceria se o visse, e acho que aquela pseudomúsica que ele toca é a maior merda que já ouvi na vida. Para começar, como é que aquele chato magro e branqueio ganhou um programa de rádio? Na emissora da universidade? O que isso lhe diz sobre nossa maravilhosa UW-La Riviere, Bobby? O que isso nos diz sobre nossa sociedade toda? Ah, eu esqueci, você gosta dessa merda.

       — Não, eu gosto de 311 e Korn, e você está tão por fora que não sabe a diferença entre Jonathan Davis e Dee Dee Ramone, mas esqueça isso, sim? — Devagar, Bobby Dulac se vira e sorri para o parceiro. — Deixe de fugir do assunto. — Seu sorriso não é nada agradável.

       — Estou fugindo do assunto? — Tom Lund arregala os olhos numa paródia de inocência ferida. — Nossa, fui eu quem atirou o jornal pela sala? Não, acho que não.

       — Se você nunca viu o Rato de Wisconsin, como sabe como ele é?

       — Assim como sei que ele tem cabelo de uma cor engraçada e piercing no nariz. Assim como sei que ele usa uma jaqueta preta de couro detonada entra dia, sai dia, chova ou faça sol.

       Bobby esperou.

       — Pelo modo de falar dele. A voz das pessoas é cheia de informações. Um cara diz: Parece que vai ser um dia bonito, e conta a história dele toda. Quer saber mais uma coisa sobre o Rato? Ele não vai ao dentista há uns seis ou sete anos. Os dentes dele estão um lixo.

       De dentro da feia estrutura de blocos de cimento da KDCU, perto da cervejaria na Península Drive, do rádio que Dale Gilbertson doou para a delegacia muito antes de Tom Lund ou Bobby Dulac começarem a usar seus uniformes, chega o afável grito de ultraje, marca registrada do velho e bom George Rathbun, uma gritaria apaixonada, contagiante, que num raio de 160 quilômetros arranca sorrisos de fazendeiros que tomam o café da manhã sentados na frente de suas mulheres e gargalhadas dos caminhoneiros que passam.

       — Eu juro, ouvinte, e isso vai para meu ultimíssimo ouvinte, também, e cada um de vocês aí, porque adoro vocês, essa é a verdade verdadeira, adoro vocês como minha mãe adorava o canteiro de nabos dela, mas às vezes vocês ME LEVAM À LOUCURA! Ah, garoto. Fim do décimo primeiro tempo, dois fora! Seis-sete, Brewers! Homens na segunda e terceira. O rebatedor alinha para o armador, Reese sai da terceira, bom arremesso para a base do rebatedor, jogada limpa, jogada limpa. UM CEGO PODERIA TER MARCADO ISSO!

       — Ei, achei que a jogada foi boa, e só ouvi o jogo no rádio — diz Tom Lund.

       Ambos estão fugindo do assunto, e sabem disso.

       — Na verdade — grita o sem dúvida mais popular locutor do Condado de Coulee —, deixem eu assumir uma posição perigosa aqui, meninos e meninas, deixem eu fazer a seguinte recomendação, sim? Vamos substituir cada árbitro do Miller Park, ei, cada árbitro da Liga Nacional, por CEGOS! Sabem de uma coisa, meus amigos? Garanto que as marcações deles serão de 60 a 70 por cento mais precisas. DÊ O TRABABALHO A QUEM TEM COMPETÊNCIA PARA FAZÊ-LO: OS CEGOS!

       A alegria se irradia pela cara sem graça de Lund. Aquele George Rathbun é uma peça, cara. Bobby diz:

       — Vamos, sim?

       Sorrindo, Lund tira o jornal dobrado do saco e abre-o em cima de sua mesa. Seu rosto endurece; sem alterar a linha, seu sorriso fica glacial.

       — Ah, não. Ah, diabo.

       — O quê?

       Lund emite um gemido disforme e balança a cabeça.

       — Nossa. Eu nem quero saber. — Bobby enfia as mãos nos bolsos, depois se levanta todo espigado, puxa a mão direita do bolso e tapa os olhos com ela. — Sou cego, certo? Faça com que eu seja um árbitro, não quero mais ser tira.

       Lund não diz nada.

       — É uma manchete? A manchete principal? É muito ruim? — Bobby destapa os olhos e fica com a mão no ar.

       — Bem — Lund lhe diz —, parece que Wendell não tomou juízo, afinal de contas, e, com certeza, não decidiu se licenciar. Não posso acreditar que eu tenha dito que gostava daquele merda.

       — Acorde — diz Bobby. — Ninguém nunca lhe disse que policiais e jornalistas estão de lados opostos da cerca?

       O amplo torso de Tom Lund inclina-se sobre sua mesa. Um grosso vinco lateral como uma cicatriz divide sua testa, e suas faces impassíveis enrubescem. Ele aponta um dedo para Bobby Dulac.

       — Isso é uma coisa que realmente me irrita em você, Bobby. Há quanto tempo está aqui? Cinco, seis meses? Dale me contratou há quatro anos, e quando ele e Hollywood puseram as algemas no Sr. Thornberg Kinderling, que foi o maior caso deste condado talvez em 30 anos, não posso reclamar o crédito, mas pelo menos fiz a minha parte. Ajudei a juntar algumas das peças.

       — Uma das peças — diz Bobby.

       — Lembrei Dale da barwoman do Taproom, e Dale contou a Hollywood, e Hollywood falou com a garota, e isso foi uma senhora peça. Ajudou a pegá-lo. Portanto, não fale assim comigo.

       Bobby Dulac assume uma expressão de contrição completamente hipotética.

       — Desculpe, Tom. Acho que estou irritado e ao mesmo tempo exaurido.

       O que ele pensa é: Então você tem uns anos de vantagem sobre mim e uma vez você deu a Dale essa informaçãozinha de merda, e daí?, sou melhor tira do que você jamais vai ser. Quão heróico você foi ontem a noite, afinal de contas?

       Às 11h15 da noite anterior, Armand “Beezer” St. Pierre e seus colegas de viagem dos Thunder Five saíram roncando da Alameda Nailhouse e irromperam delegacia adentro para pedir a seus três ocupantes, cada um dos quais tendo trabalhado um turno de 18 horas, detalhes exatos do progresso que eles estavam fazendo na questão que mais lhes interessava. O que diabo estava acontecendo ali? E o terceiro caso, hã, e Irma Freneau? Já a encontraram? Esses palhaços tinham alguma coisa, ou continuam só soltando fumaça? Precisam de ajuda?, rugiu Beezer, então nos comissionem, vamos lhes dar toda a ajuda de que precisarem e mais alguma. Um gigante chamado Ratinho fora com um sorriso besta até Bobby Dulac e continuara andando, barrigão contra barriga de chope, até encostar Bobby num arquivo, após o que o Ratinho gigante perguntou misteriosamente, com um bafo de cerveja e maconha, se Bobby já havia lido as obras de um cavalheiro chamado Jacques Derrida. Quando Bobby respondeu que nunca havia ouvido falar no cavalheiro, Ratinho disse: “Não diga, Sherlock”, e chegou para o lado para olhar os nomes no quadro-negro. Meia hora depois, Beezer, Ratinho e seus companheiros foram mandados embora insatisfeitos, não comissionados, mas sossegados, e Dale Gilbertson disse que tinha que ir ‘ para casa dormir um pouco, mas Tom precisava ficar, por via das dúvidas. Ambos os homens do plantão noturno haviam arranjado desculpas para não vir. Bobby disse que iria ficar, também, não tem problema, chefe, por isso a gente encontra esses dois homens na delegacia a essa hora da manhã.

       — Me dê isso — diz Bobby Dulac.

       Lund pega o jornal, vira-o, e segura-o para Bobby ver: PESCADOR AINDA À SOLTA NA ÁREA DE FRENCH LANDING, diz a manchete em cima do artigo de três colunas no canto esquerdo superior da primeira página. As colunas foram impressas sobre um fundo azul-claro, e uma linha preta as destaca do resto da página. Embaixo da manchete, em caracteres menores, lê-se: Identidade de assassino psicótico confunde polícia. Embaixo do subtítulo, uma linha em caracteres ainda menores atribui o artigo a Wendell Green, com o apoio da redação.

       — O Pescador — diz Bobby. — Desde que a coisa começou, seu amigo ainda não fez nada. O Pescador, o Pescador, o Pescador. Se de repente eu me transformasse num macaco de 15 metros e começasse a pisar em prédios, você me chamaria de King Kong? — Lund abaixa o jornal e ri. — Certo — Bobby concede —, exemplo ruim. Digamos que eu assaltasse alguns bancos. Você me chamaria de John Dillinger?

       — Bem — diz Lund, com um sorriso ainda mais rasgado —, dizem que o pau de Dillinger era tão grande que o puseram num vidro no Smithsonian. Então...

       — Leia para mim a primeira frase — diz Bobby.

       Tom Lund olha para baixo e lê:

       — “Como a polícia de French Landing não consegue descobrir nenhuma pista da identidade do diabólico assassino e criminoso sexual apelidado de ‘o Pescador’ por este repórter, os sinistros espectros do medo, do desespero e da desconfiança infestam cada vez mais as ruas daquela cidadezinha, e dali se espalham para as fazendas e aldeias do Condado Francês, contaminando com seu toque cada recanto do Condado de Coulee.”

       — Era só o que faltava — diz Bobby. — Nossa! — E num instante já cruzou a sala e está inclinado sobre o ombro de Tom Lund, lendo a primeira página do Herald com a mão descansando na coronha da sua Glock, como se estivesse pronto para meter uma bala no artigo agora mesmo.

       — “Nossas tradições de confiança e boa vizinhança, nosso hábito de estender carinho e generosidade a todos” [escreve Wendell Green, exagerando no tom editorial] “estão se erodindo diariamente sob o corrosivo ataque dessas emoções aterrorizantes. O medo, o desespero e a desconfiança são um veneno para a alma das comunidades pequenas e grandes, pois viram vizinho contra vizinho e ridicularizam a civilidade.

       “Duas crianças foram horrivelmente assassinadas e seus restos mortais, parcialmente consumidos. Agora uma terceira criança desapareceu. Amy St. Pierre, de oito anos, e Johnny Irkenham, de sete, foram vítimas das paixões de um monstro em forma de gente. Nenhum deles conhecerá a felicidade da adolescência nem as satisfações da idade adulta. Seus pais enlutados jamais conhecerão os netos que teriam acarinhado. Os pais dos colegas de Amy e Johnny guardam seus filhos no recesso de seus próprios lares, assim como os pais cujos filhos não conheceram as vítimas. Por isso, grupos de jogos de verão e outros programas para crianças pequenas foram cancelados em praticamente todas as cidades e municípios do Condado Francês.

       “Com o desaparecimento de Irma Freneau, de dez anos, sete dias após a morte de Amy St. Pierre e apenas três dias após a morte de Johnny Irkenham, a paciência do povo está por um fio. Como já disse este correspondente, Merlin Graasheimer, 52, um lavrador desempregado sem endereço certo, foi atacado e espancado por um grupo não identificado de homens numa rua secundária de Grainger na noite de terça-feira. Outro episódio semelhante ocorreu na madrugada de quinta-feira, quando Eivar Praetorious, 36, um turista sueco que viajava desacompanhado, foi atacado por três homens, também não identificados, enquanto dormia no parque Leif Eriksson de La Riviere. Graasheimer e Praetorious necessitaram apenas de cuidados médicos de rotina, mas futuros incidentes quase certamente acabarão de forma mais séria.”

       Tom Lund olha para o próximo parágrafo, que descreve o desaparecimento abrupto da menina Freneau de uma calçada da Rua Chase, e se afasta de sua mesa.

       Bobby Dulac lê em silêncio por algum tempo, depois diz:

       — Você precisa ouvir essa merda, Tom. É assim que ele termina:

       “Quando o Pescador vai atacar de novo?

       “Pois ele vai atacar de novo, meus amigos, não tenham dúvida.

       “E quando o chefe de polícia de French Landing, Dale Gilbertson, vai cumprir o seu dever e livrar os cidadãos deste condado da obscena selvageria do Pescador e da compreensível violência produzida por sua própria inércia?”

       Bobby Dulac vai para o meio da sala batendo os pés. Sua cor se intensificou. Ele inspira, depois expira uma quantidade monumental de oxigênio.

       — E se da próxima vez que o Pescador atacar — diz Bobby — ele for direto na bunda mole de Wendell Green?

       — Estou com você — diz Tom Lund. — Você pode acreditar nessa babaquice? Violência compreensível? Ele está dizendo que as pessoas podem se meter com qualquer um que parecer suspeito!

       Bobby aponta o indicador para Lund.

       — Vou prender pessoalmente esse cara. Isso é uma promessa. Vou trazê-lo, vivo ou morto. — Na hipótese de Lund não ter entendido, ele repete: — Pessoalmente.

       Sabiamente escolhendo não dizer a primeira coisa que lhe vem à mente, Tom Lund faz que sim com a cabeça. O dedo continua apontando. Ele diz:

       — Se quiser alguma ajuda para isso, talvez você deva falar com Hollywood. Dale não teve sorte, mas quem sabe você tem.

       Bobby faz um gesto descartando essa idéia.

       — Não precisa. Dale e eu... e você, também, claro, a gente dá conta. Mas vou pessoalmente pegar esse cara. Isso eu garanto. — Ele faz uma pausa. — Além do mais, Hollywood se aposentou quando se mudou para cá, ou você esqueceu?

       — Hollywood é muito moço para se aposentar — diz Lund. — Mesmo para um policial, ele é praticamente uma criança. Então você deve ser pouco mais que um feto.

       E na gargalhada compartilhada dos dois, saímos voando da sala de instruções e voltamos para o céu, onde avançamos uma quadra para o norte, até a Rua Queen.

      

      

Prosseguindo algumas quadras para o leste, descobrimos, lá embaixo, uma construção baixa e cheia de cantos e recantos que se bifurca de um eixo central, ocupando, com seu amplo gramado salpicado aqui e ali de carvalhos e bordos altos, todo um quarteirão orlado de sebes cerradas que pediam uma boa poda. Obviamente, algum tipo de instituição, de início, o prédio parece uma escola primária progressiva em que várias alas representam salas de aula sem paredes, e o eixo central representa o refeitório e os escritórios administrativos. Quando perdemos um pouco de altura, ouvimos o grito afável de George Rathbun subindo em nossa direção de várias janelas. A grande porta de entrada de vidro se abre e uma mulher magra de óculos gatinho sai para a manhã luminosa, com um cartaz numa das mãos e um rolo de fita adesiva na outra. Ela imediatamente se vira e, com gestos rápidos e eficientes, cola o cartaz na porta. A luz do sol faísca numa pedra esfumaçada do tamanho de uma avelã no dedo médio de sua mão direita.

       Enquanto ela se detém um instante para admirar seu trabalho, podemos espiar por cima de seu ombro retesado e ver que o cartaz anuncia, com uma alegre explosão de balões desenhados à mão, que HOJE É A FESTA DO MORANGO!!!; quando a mulher volta para dentro, percebemos a presença, numa parte da entrada visível logo abaixo do vertiginoso cartaz, de duas ou três cadeiras de rodas dobradas. Do outro lado das cadeiras, a mulher, cujo cabelo castanho foi preso na nuca numa espiral arquitetônica, vem andando com seus escarpins de salto alto por um saguão agradável com cadeiras de madeira clara e mesas do mesmo material sobre as quais há revistas artisticamente espalhadas, passa por uma espécie de central automática ou balcão de recepção na frente de uma bela parede de pedra bruta e desaparece saltitando imperceptivelmente, por uma porta lustrosa onde se lê WILLIAM MAXTON, DIRETOR.

       Que tipo de escola é essa? Por que está funcionando, por que está organizando festivais no meio de julho?

       Podemos chamá-la de escola de pós-graduação, pois quem reside aqui se formou em cada estágio de sua existência exceto o último, que é vivido, dia após dia, sob a intendência relapsa do Sr. William “Chipper” Maxton, diretor. Esta é a Casa Maxton para a Velhice, conhecida no passado — numa época mais inocente, e antes da reforma cosmética feita em meados dos anos 80 — como Lar Maxton, que pertencia a seu fundador, Herbert Maxton, pai de Chipper, e por ele era dirigida. Herbert era um homem decente embora sem personalidade que, pode-se dizer com segurança, ficaria apavorado com algumas coisas que seu filho único faz. Chipper nunca quis assumir o “cercado da família”, como ele chama, com sua carga de “peguentos”, “zumbis”, “molhadores de cama” e “babões”, e depois de se formar em contabilidade na UW-La Riviere (com especializações duramente conquistadas em promiscuidade, jogo e arte de beber cerveja), nosso garoto aceitou um cargo na Secretaria da Receita Federal de Madison, Wisconsin, com o fim precípuo de aprender a roubar do governo sem ser notado. Cinco anos na Receita ensinaram-lhe muita coisa útil, mas quando sua carreira posterior como free-lancer ficou aquém de suas ambições, ele cedeu às súplicas cada vez mais fracas do pai e associou sua sorte aos zumbis e aos babões. Com um certo prazer sinistro, Chipper reconheceu que, apesar de uma triste falta de glamour, o negócio de seu pai ao menos lhe daria a oportunidade de roubar dos clientes e do governo igualmente.

       Vamos entrar pela grande porta de vidro, atravessar o belo saguão (notando, enquanto o fazemos, os odores misturados de aromatizante de ambiente e amônia que impregnam até as áreas públicas de todas as instituições deste tipo), passar pela porta com o nome de Chipper e descobrir o que aquela jovem bem-arrumada está fazendo aqui tão cedo.

       Do outro lado da porta de Chipper há um cubículo sem janela equipado com uma mesa, um cabide e uma pequena estante abarrotada de impressos de computador, panfletos e folhetos. Há uma porta aberta ao lado da mesa. Pelo vão, vemos um escritório muito mais amplo, revestido com a mesma madeira lustrosa da porta do diretor e contendo cadeiras de couro, uma mesa de centro de tampo de vidro e um sofá cor de aveia. No fim da sala há uma vasta escrivaninha abarrotada de papéis, tão encerada que quase parece brilhar.

       Nossa jovem, cujo nome é Rebecca Vilas, está sentada na beira da mesa, as pernas cruzadas de uma forma particularmente arquitetônica. Um joelho está dobrado sobre o outro, e as panturrilhas formam duas linhas bem moldadas mais ou menos paralelas descendo até os bicos triangulares dos escarpins de salto alto, dos quais um aponta para quatro e outro para seis horas. Rebecca Vilas, deduzimos, arrumou-se para ser vista, fez uma pose com intenção de ser apreciada, embora certamente não por nós. Por trás dos óculos gatinho, seu olhar parece cético e divertido, mas não podemos ver o que despertou essas emoções. Supomos, que ela seja a secretária de Chipper, e essa suposição, também, só expressa meia verdade: como a desenvoltura e a ironia de sua atitude deixam implícito, os deveres da Srta. Vilas há muito ultrapassaram o secretariado puro e simples. (Podemos especular sobre a origem daquele belo anel que ela está usando; é só pensar em sujeira que acertamos em cheio.)

       Passamos pela porta aberta, seguimos a direção do olhar cada vez mais impaciente de Rebecca e nos vemos contemplando a robusta bunda vestida de cáqui de seu patrão ajoelhado, que enfiou a cabeça e os ombros dentro de um cofre grande, no qual entrevemos pilhas de livros de registro e alguns envelopes de papel pardo aparentemente recheados de dinheiro. Algumas notas caem desses envelopes quando Chipper os tira do cofre.

       — Você fez o anúncio, o cartaz? — pergunta ele sem se virar.

       — Sim, sim, mon capitaine — responde Rebecca Vilas. — E vamos ter um dia maravilhoso para a grande ocasião, também, como deve ser.

       Seu sotaque irlandês é surpreendentemente bom, ainda que um pouco genérico. Ela nunca esteve em um lugar mais exótico que Atlantic City, onde Chipper usou suas passagens de milhagem para ser seu acompanhante durante cinco dias encantados dois anos atrás. Ela aprendeu o sotaque vendo filmes antigos.

       — Odeio a Festa do Morango — diz Chipper, tirando o último envelope do cofre. — As mulheres e os filhos dos zumbis passam a tarde inteira zanzando por aí, excitando-os, e a gente tem que apagá-los com sedativos só para ter um pouco de paz. E se você quer saber a verdade, eu odeio balões.

       Ele joga o dinheiro no tapete e começa a separar as notas em pilhas de várias denominações.

       — Eu só estava querendo saber, com a minha simplicidade do interior — diz Rebecca —, por que eu deveria ser solicitada a aparecer ao romper da aurora no grande dia.

       — Sabe o que eu mais odeio? A parte da música. Zumbis cantantes e aquele DJ imbecil. O Stan Sinfônico com seus discos de grandes bandas, ah, garoto, isso é que é emoção.

       — Suponho — diz Rebecca, abandonando o sotaque irlandês teatral — que você quer que eu faça alguma coisa com o dinheiro antes do início da ação.

       — Hora de mais uma viagem a Miller. — Uma conta sob um nome fictício no State Provident Bank em Miller, a 40 quilômetros dali, recebe depósitos regulares de dinheiro desviado de fundos de pacientes destinados ao pagamento de bens e serviços extras. Chipper gira os joelhos com as mãos cheias de dinheiro e olha para Rebecca. Senta nos calcanhares de novo e deixa as mãos caírem no colo. — Puxa, você tem umas pernas maravilhosas. Com umas pernas assim, você devia ser famosa.

       — Pensei que você não fosse reparar nunca — diz Rebecca.

       Chipper Maxton tem 42 anos. Tem bons dentes, muito cabelo, uma cara larga, sincera, e olhos castanhos miúdos que sempre parecem um pouco úmidos. Tem também dois filhos, Trey, de nove anos, e Ashley, de sete, que, como se diagnosticou recentemente, sofre de deficiência da atenção, um problema que, Chipper calcula, irá custar-lhe talvez dois mil por ano só em comprimidos. E, naturalmente, ele tem uma mulher, sua parceira de vida, Marion, de 39 anos, l,65m, e mais ou menos uns 86 quilos. Além dessas bênçãos, desde a noite passada, Chipper deve ao seu bookmaker $13,000, em consequência de um mau investimento no jogo dos Brewers sobre o qual George Rathbun continua berrando. Ele reparou, ah, reparou, sim, Chipper reparou nas maravilhosas pernas da Srta. Vilas.

       — Antes de você ir lá — diz ele —, eu pensei que talvez a gente pudesse deitar no sofá e brincar um pouquinho.

       — Ah — diz Rebecca. — Brincar como, exatamente?

       — Glu, glu, glu — diz Chipper, rindo como um sátiro.

       — Seu diabo romântico — diz Rebecca, uma observação que escapa completamente a seu patrão.

       Chipper acha que realmente está sendo romântico.

       Ela desce elegantemente de onde está empoleirada, e Chipper levanta-se deselegantemente e fecha a porta do cofre com o pé. Com um brilho úmido nos olhos, ele dá alguns passos rufianescos e emproados pelo tapete, passa um braço em volta da cinturinha de Rebecca Vilas e, com o outro, deixa o gordo envelope de papel pardo na mesa. Já está arrancando o cinto antes mesmo de começar a puxar Rebecca para o sofá.

       — Então eu posso vê-lo? — diz a esperta Rebecca, que sabe exatamente como transformar o cérebro do amante em mingau...

      

      

... e antes que Chipper a satisfaça, fazemos a coisa sensata e nos retiramos para o saguão, que ainda está vazio. Um corredor à esquerda da mesa da recepção nos conduz a duas portas largas e claras com suas janelas de vidro onde se lê MARGARIDA e CAMPÂNULA, OS nomes das alas a que elas dão acesso. No final da cinzenta ala Campânula, um homem de macacão folgado bate a cinza do cigarro no ladrilho sobre o qual ele está passando, com requintada lentidão, um esfregão imundo. Entramos na ala Margarida.

       A área residencial da Maxton é muito menos atraente do que a comunitária. Há portas numeradas ao longo de ambos os lados do corredor. Cartões escritos à mão dentro de envelopes de plástico embaixo dos números indicam os nomes dos residentes. Quatro portas depois, uma mesa atrás da qual um assistente corpulento de uniforme branco sujo cochila sentado empertigado dá paira a entrada dos banheiros masculino e feminino — na Maxton, só os quartos mais caros, os do outro lado do saguão, na ala Asfódelo, fornecem tudo menos uma pia. Há marcas sinuosas de esfregão sujo endurecendo e secando por todo o chão ladrilhado, que se estende por uma distância incrível à nossa frente. Aqui, também, as paredes e o ar parecem ser do mesmo tom de cinza. Se olharmos de perto para as pontas do corredor, na junção das paredes com o teto, vemos teias de aranha, manchas velhas, sujeira acumulada. Desinfetante, amônia, urina e aromas piores perfumam o ambiente. Como uma senhora na ala Campânula gosta de dizer, quando se vive com um monte de gente velha que sofre de incontinência, nunca se fica longe do cheiro de cocô.

       Os quartos em si variam de acordo com o estado e os recursos de seus habitantes. Já que quase todo mundo está dormindo, podemos dar uma olhada em algumas dessas acomodações. Aqui no M10, um quarto de solteiro duas portas depois do empregado sonolento, está deitada a velha Alice Weathers (roncando delicadamente, sonhando que dança em perfeito entrosamento com Fred Astaire por um chão de mármore), cercada por tanta coisa de sua vida passada que ela precisa navegar por entre cadeiras e mesas para ir da porta até a cama. Alice ainda conserva uma parcela maior de suas faculdades mentais do que de sua mobília velha, e limpa pessoalmente o quarto, deixando-o imaculado. Ao lado, no Ml2, dois velhos fazendeiros chamados Thorvaldson e Jesperson, que não se falam há anos, dormem, separados por uma cortina fina, numa confusão alegre de fotografias de família e desenhos de netos.

       Descendo o corredor, o Ml8 apresenta um espetáculo completamente diferente do atravancamento limpo do M10, assim como seu habitante, um homem conhecido como Charles Burnside, poderia ser considerado o extremo oposto de Alice Weathers. No M18, não há mesas laterais, arcas, cadeiras superestofadas, espelhos dourados, lâmpadas, tapetes tramados nem cortinas de veludo: esse quarto despido contém apenas uma cama de ferro, uma cadeira de plástico e uma cômoda. Não há fotografias de filhos nem de netos em cima do móvel, nem há desenhos a lápis de casas quadradas e bonecos magros decorando as paredes. O Sr. Burnside não tem interesse em arrumação de casa, e uma fina camada de poeira cobre o chão, o parapeito da janela e o tampo nu da cômoda. O Ml8 não tem história nem personalidade; parece tão brutal e sem alma quanto uma cela de prisão. Um cheiro forte de excremento contamina o ar.

       Apesar de toda a diversão oferecida por Chipper Maxton, e todo o charme de Alice Weathers, foi principalmente Charles Burnside, “Burny”, que viemos ver.

 

 

Os antecedentes de Chipper nós conhecemos. Alice chegou à Maxton vinda de um casarão da Rua Gale, a parte velha da Rua Gale, onde sobreviveu a dois mandos, criou cinco filhos e ensinou piano a quatro gerações de crianças de French Landing, nenhuma das quais jamais se tornou pianista profissional, mas todas se lembram dela com carinho e pensam nela com afeição. Alice chegou a este lugar como a maioria das pessoas chega, num carro dirigido por um de seus filhos, entre relutante e vencida. Ficara muito velha para morar sozinha no casarão da parte antiga da Rua Gale; tinha dois filhos casados que eram bastante bons, mas não podia tolerar dar mais trabalho para eles. Alice Weathers passara a vida toda em French Landing e não desejava morar em qualquer outro lugar; de certa forma, sempre soubera que terminaria seus dias na Maxton, que, embora não fosse nada luxuosa, era bem agradável. No dia em que o filho Martin levou-a para inspecionar o local, ela viu que conhecia pelo menos metade das pessoas ali.

       Diferentemente de Alice, Charles Burnside, o homem alto, magro deitado à nossa frente, coberto com um lençol em sua cama de ferro, não está em pleno gozo de suas faculdades mentais nem sonhando com Fred Astaire. A superfície cheia de veias de sua estreita cabeça calva desce abaulada até as sobrancelhas, como emaranhados de arame cinza, embaixo dos quais, de cada lado do gancho carnudo de seu nariz, dois olhos estreitos brilham para uma janela voltada para o norte e a extensão de bosque para além da Maxton. Burny é o único de todos os moradores da ala Margarida que não está dormindo. Seus olhos faíscam, e seus lábios estão retorcidos num sorriso bizarro — mas estes detalhes não querem dizer nada, pois a mente de Charles Burnside pode ser tão vazia quanto seu quarto. Burny sofre de mal de Alzheimer há muitos anos, e o que parece uma forma agressiva de prazer poderia não ser mais que uma satisfação física de um tipo muito elementar. Se não tivermos conseguido adivinhar que ele era a origem do fedor deste quarto, as manchas que brotam dentro do lençol que o cobre deixam isso claro. Ele acabou de evacuar, maciçamente, na cama, e o mínimo que podemos dizer sobre sua reação à situação é que ele não está nem aí; não senhor, a vergonha não faz parte deste quadro.

       Mas se — diferentemente da encantadora Alice — Burny já não está em seu juízo perfeito, tampouco ele é um paciente de Alzheimer típico. É capaz de passar um ou dois dias resmungando para seu mingau como o resto dos zumbis de Chipper, depois revitalizar-se e tornar a se unir aos vivos. Quando não está morto-vivo, em geral consegue ir até o banheiro no corredor quando necessário, e passa horas ou se esquivando sozinho ou patrulhando o terreno, sendo desagradável — na verdade, ofensivo — com todo mundo. Restabelecido do estado morto-vivo, ele é manhoso, enrustido, rude, cáustico, teimoso, desbocado, mesquinho e ressentido; em outras palavras — no mundo segundo Chipper —, um irmão de sangue dos outros velhos que residem na Maxton. Algumas das enfermeiras e alguns dos ajudantes e assistentes duvidam que Burny realmente tenha Alzheimer. Acham que ele finge, foge da raia, fica na moita, fazendo de propósito com que eles trabalhem mais, enquanto ele descansa e reúne forças para mais um episódio de antipatia. Dificilmente podemos recriminá-los por essa desconfiança. Se não foi mal diagnosticado, Burny provavelmente é o único paciente de Alzheimer avançado no mundo a ter surtos prolongados de remissão.

       Em 1996, seu 78° ano, o homem conhecido como Charles Burnside chegou à Maxton numa ambulância do Hospital Geral de La Riviere, não num veículo dirigido por um parente solícito. Ele aparecera na sala de emergência certa manhã, levando duas malas pesadas cheias de roupas sujas e exigindo aos altos brados atenção médica. Suas exigências não eram coerentes, mas eram claras. Ele afirmava ter percorrido uma distância considerável para chegar ao hospital, e queria que o hospital tomasse conta dele. A distância variava a cada afirmação — 16 quilômetros, 24 quilômetros, 40. Ele passara ou não algumas noites dormindo em campos ou na beira da estrada. Seu estado geral e o cheiro que exalava sugeriam que ele andara vagando pelo interior e dormindo ao relento durante talvez uma semana. Se algum dia teve uma carteira, ele a perdera na viagem. O Hospital Geral de La Riviere limpou-o, alimentou-o, deu-lhe uma cama e tentou extrair dele uma história. A maioria de suas declarações acabava em uma fala ininteligível, mas, na ausência de qualquer documento, pelo menos esses fatos pareciam confiáveis: Burnside fora marceneiro, moldureiro e gesseiro na região durante muitos anos, trabalhando por conta própria e para empreiteiros. Uma tia que morava na cidade de Blair lhe dera um quarto.

       Ele fizera a pé os 29 quilômetros de Blair até La Riviere, então? Não, começara sua caminhada em outro lugar, não se lembrava onde, mas foi 16 quilômetros antes, não, 40 quilômetros antes, em alguma cidade, e as pessoas naquela cidade eram babacas inúteis e burras. Como era o nome da tia dele? Althea Burnside. Quais eram o endereço e o telefone dela?Não tinha idéia, não se lembrava. A tia dele tinha algum emprego? Tinha, era babaca e burra em tempo integral. Mas permitira que ele morasse na casa dela? Quem? Permitira o quê? Charles Burnside não precisava da permissão de ninguém, fazia o que bem entendia. Sua tia o expulsara de casa? Está falando com quem, seu burro idiota?

       O médico da emergência registrou um diagnóstico inicial de mal de Alzheimer, sujeito ao resultado de vários exames, e a assistente social foi ao telefone e solicitou o endereço e o número do telefone de uma certa Althea Burnside residindo atualmente em Blair. A companhia telefônica respondeu que não constava do guia pessoa alguma com aquele nome em Blair, nem constava dos guias de Ettrick, Cochrane, Fountain, Sparta, Onalaska, Arden, La Riviere, ou quaisquer outras cidades num raio de 80 quilômetros. Ampliando sua rede, a assistente social consultou o Registro Civil e os departamentos da Previdência Social, de Trânsito e da Receita para informações sobre Althea e Charles Burnside. Das duas Altheas que surgiram do sistema, uma era proprietária de um restaurante em Butternut, no norte do estado, e a outra era uma negra que trabalhava numa creche em Milwaukee. Nenhuma delas tinha qualquer ligação com o homem no Hospital Geral de La Riviere. Os Charles Burnsides localizados pelos registros não eram o Charles Burnside da assistente social. Althea parecia não existir. Charles, ao que parecia, era uma dessas pessoas fantasmas que passam pela vida sem jamais pagar impostos, ter título de eleitor, inscrever-se para receber um cartão da Previdência Social, abrir uma conta bancária, ingressar nas Forças Armadas, tirar carteira de motorista ou passar alguma temporada na penitenciária do estado.

       Outra rodada de telefonemas resultou na classificação do vago Charles Burnside como protegido do município e em sua admissão à Casa Maxton para a Velhice, até poderem ser encontradas acomodações no hospital estadual em Whitehall. A ambulância entregou Burnside à Maxton às custas do generoso povo, e o resmungão Chipper jogou-o na ala Margarida. Seis semanas depois, vagou um leito numa ala do hospital estadual. Chipper recebeu a ligação alguns minutos antes de a correspondência do dia lhe trazer um cheque, emitido por Althea Burnside, de um banco em De Pere, para a manutenção de Charles Burnside em sua instituição. O endereço de Althea Burnside era uma caixa-postal de De Pere. Quando o hospital estadual ligou, Chipper anunciou que, no espírito do dever cívico, ficaria feliz em continuar com o Sr. Burnside na Casa Maxton para a Velhice. O velho acabara de se tornar seu paciente favorito. Sem fazer Chipper passar por nenhum dos esquemas usuais, Burny contribuíra em dobro para o fluxo de rendimentos.

       Pelos seis anos seguintes, o velho foi escorregando ininterruptamente para a escuridão do Alzheimer. Se estava fingindo, teve uma atuação brilhante. Foi indo abaixo, pelas estações descendentes da incontinência, da incoerência, das explosões de raiva frequentes, da perda da memória, da perda da capacidade de se alimentar, da perda da personalidade. Ele se reduziu à infância, depois ao vazio, e passava os dias amarrado a uma cadeira de rodas. Chipper pranteou a inevitável perda de um paciente singularmente cooperativo. Depois, no verão do ano anterior a esses acontecimentos, deu-se a espantosa ressurreição. O rosto flácido de Burny recobrou ânimo, e ele começou a pronunciar veementes sílabas sem sentido. Abalá! Gorg! Munshun! Gorg! Queria comer sozinho, queria exercitar as pernas, andar cambaleando pela casa e se reacostumar com o ambiente em volta. Em uma semana, estava usando palavras em inglês para insistir em usar as próprias roupas e ir ao banheiro sozinho. Engordou, ganhou forças, tornou-se novamente um estorvo. Agora, muitas vezes no mesmo dia, ele oscila entre a inexpressividade do estágio avançado do Alzheimer e uma rabugice circunspecta e brilhante, tão saudável num homem de 85 anos, que poderia ser chamada de vigorosa. Burny parece uma pessoa que foi a Lourdes e teve uma experiência de cura, mas partiu antes de ficar completamente curada. Para Chipper, milagre é milagre. Desde que o velho ficasse vivo, quem lá queria saber se ele ficava zanzando pela casa ou escorado no cinto de segurança de sua cadeira de rodas?

       Chegamos mais perto. Tentamos ignorar o fedor. Queremos ver o que podemos descobrir pela cara desse sujeito curioso. Nunca foi uma cara bonita, e agora a pele é cinza e as faces são covas murchas. Veias azuis saltadas serpeiam pela calva cinzenta, manchada como um ovo de maçarico. O nariz parecendo borracha tem um ligeiro desvio para a direita, o que aumenta a impressão de manha e retraimento. Os lábios retorcidos se enroscam num sorriso inquietante — o sorriso de um incendiário contemplando um prédio em chamas — que, afinal de contas, pode ser apenas um esgar.

       Aí está um verdadeiro solitário americano, um andarilho do interior, uma criatura de quartos feios e restaurantes baratos, de viagens sem objetivo feitas por ressentimento, um colecionador de feridas e injúrias apontadas e reapontadas com amor. Aí está um espião sem uma causa mais elevada do que ele próprio. O nome verdadeiro de Burny é Carl Bierstone, e sob este nome ele conduziu, em Chicago, dos 25 aos 46 anos, atos de violência secretos, uma guerra não oficial, durante a qual fez coisas deploráveis pelos prazeres que elas lhe davam. Carl Bierstone é o grande segredo de Burny, pois ele não pode deixar ninguém saber que sua encarnação anterior, esse eu primeiro, ainda vive dentro de sua pele. Os prazeres terríveis de Carl Bierstone, seus brinquedos perversos, também são de Burny, e ele precisa mantê-los ocultos no escuro, onde só ele pode achá-los.

       Então esta é a resposta para o milagre de Chipper? Que Carl Bierstone encontrou uma forma de se esgueirar por uma junção no estado morto-vivo de Burny e assumir o controle do navio que naufragava? A alma humana contém uma infinidade de salas, afinal de contas, algumas delas amplas, algumas não maiores que um armário de vassouras, algumas trancadas, algumas imbuídas de uma luz radiante. Chegamos mais perto do crânio cheio de veias, do nariz sinuoso, das sobrancelhas hirsutas; abaixamo-nos mais sobre o fedor para examinar aqueles olhos interessantes. Eles parecem néon negro; brilham como o luar numa margem de rio inundada. No geral, parecem perturbadoramente alegres, mas não particularmente humanos. Isso não ajuda muito.

       Os lábios de Burny se mexem: ele continua sorrindo, se é que se pode chamar aquele ríctus de sorriso, mas começou a murmurar. O que está dizendo?

       ... eles estão se esgondento em suas maltidas tocas e tapanto os olhos, estão gemento de meto, meus pobres bebes pertitos... Não, não, isso não fai achutar, fai? Ah, fecha os motorres, sim, ah, aqueles motorres lintíssimos, que cena, os lintos motorres contra o foco, como eles xirram, como xirram e artem... vejo um purrago, sim, sim, lá está ele ah tão prilhante nas pontas, tão toprato...

       Carl Bierstone pode estar fazendo um relato, mas sua fala ininteligível não ajuda muito. Vamos seguir a direção do olhar embotado de Burny esperando que ele possa nos dar uma pista do que deixou o velho tão excitado. Sexualmente também, como observamos a partir da forma sob o lençol. Ele e Chipper parecem estar em sincronia aqui, já que ambos estão armados, só que em vez do benefício das atenções experientes de Rebecca Vilas, o único estímulo de Burny é a vista de sua janela.

       A vista dificilmente está à altura da Srta. Vilas. A cabeça ligeiramente elevada sobre um travesseiro, Charles Burnside olha embevecido por sobre um pequeno gramado para uma carreira de bordos e o início de um vasto bosque. Mais adiante assomam as grandes copas frondosas dos carvalhos. Alguns troncos de bétulas brilham como candeias na escuridão interior. Pela altura dos carvalhos e a variedade das árvores, sabemos que estamos contemplando um resquício da grande floresta que um dia cobriu toda essa parte do país. Como todos os vestígios de florestas antigas, a mata que se estende ao norte e a leste da Maxton fala de mistérios profundos numa voz quase profunda demais para ser ouvida. Embaixo de sua cobertura verde, tempo e serenidade abraçam carnificina e morte; a violência incomoda sem ser vista, Constantemente, absorvida em cada aspecto de uma paisagem silenciosa que nunca pára, mas se move com uma falta de pressa glacial. O solo cintilante e mole cobre milhões de ossos espalhados em camadas superpostas; tudo que cresce e viceja aqui viceja na podridão. Mundos dentro de mundos se agitam, e grandes universos sistemáticos zumbem lado a lado, cada qual, sem saber, trazendo abundância e catástrofe para seus vizinhos não-imaginados.

       Será que Burny contempla essa mata, e é animado pelo que vê nela? Ou, aliás, será que continua realmente dormindo, e Carl Bierstone faz travessuras por trás dos olhos esquisitos de Charles Burnside?

       Burny murmura: Rapossas em tocas de rapossa, ratos em purracos de rato, hienas riem de parrica facia, ohó, ahá, isso é muito alecre meus amicos, cada fez mais as criancinhas caminham caminham caminham com os pecinhos sancranto...

       Vamos nos mandar daqui, certo?

       Vamos sair da boca feia do velho Burny — já chega. Vamos procurar o ar fresco e voar para o norte, sobre a mata. Raposas em tocas de raposa e ratos em buracos de rato podem estar gemendo, é verdade, é assim que funciona, mas não vamos encontrar nenhuma hiena faminta no oeste de Wisconsin. De qualquer forma, as hienas estão sempre com fome. Ninguém tem pena delas, também. A pessoa tem que ter o coração realmente mole para ter pena de uma criatura que não faz outra coisa senão rondar pela periferia das outras espécies até o momento em que, rindo e gargalhando, pode pilhar suas sobras. Vamos sair, direto pelo telhado.

      

      

A leste da Maxton, a mata cobre o solo por cerca de 1.600 a 3.200 metros antes que uma estreita estrada de terra saia da Rodovia 35 como um repartido descuidado numa basta cabeleira. A mata continua por uns 90 metros, depois dá lugar a um loteamento de 30 anos que consiste em duas ruas. Aros de basquete, balanços de fundo de quintal, triciclos, bicicletas e veículos da Fisher-Price atravancam os acessos das casas modestas na Schubert e na Gale. As crianças que farão uso destas coisas estão na cama, sonhando com algodão-doce, filhotes de cães, home runs, excursões a territórios distantes e outras maravilhosas infinitudes; também deitados estão seus ansiosos pais, fadados a ficar mais ansiosos ainda após ler o artigo de Wendell Green na primeira página do Herald.

       Alguma coisa nos chama a atenção — aquela estreita estrada de terra sinuosa saindo da Rodovia 35 e entrando na mata. Mais um caminho que uma estrada de verdade, seu ar de privacidade não combina com sua aparente inutilidade. O caminho entra serpeando no bosque e, 1.200 metros depois, termina. De que adianta, para que serve? Da altitude em que estamos sobre a terra, a trilha parece uma linha fraca feita com um lápis n° 4 — é preciso quase ter olho de águia para vê-la —, mas alguém teve um trabalho considerável para traçar esta linha através do bosque. Árvores tiveram que ser abatidas e retiradas, tocos tiveram que ser arrancados. Se um homem fez isso, deve ter levado meses de árduo trabalho braçal. O resultado de todo esse esforço bárbaro tem a notável propriedade de se ocultar, de fugir da vista, de modo que desaparece se a atenção se distrai, e precisa ser localizado de novo. Podemos pensar em anões e minas secretas de anões, a trilha para o tesouro oculto de um dragão — uma riqueza tão protegida que o acesso a ela foi camuflado por um feitiço mágico. Não, minas de anões, tesouro de dragão e feitiços mágicos são muito infantis, mas quando descemos para um exame mais atento, vemos que há um aviso de ENTRADA PROIBIDA apagado no início da trilha, prova de que algo está sendo guardado, ainda que seja apenas a privacidade.

       Tendo visto o aviso, olhamos de novo para o fim da trilha. Na escuridão sob as árvores ali, uma área parece mais escura que o resto. Mesmo quando torna a sumir no escuro, essa área possui uma impassibilidade que a distingue das áreas vizinhas. Ahá, ohó, dizemos a nós mesmos ecoando o tatibitate de Burny, o que temos aqui, algum muro? Parece que sem traços marcantes. Quando atingimos o meio da curva da trilha, um triângulo de escuridão quase obscurecido pelas copas das árvores se define como um telhado pontudo. Só quando estamos quase em cima dela a construção inteira se define como uma casa de madeira de três andares, cuja estrutura parece estranhamente instável, com um alpendre baixo e bambo na frente. Esta casa visivelmente ficou vazia por muito tempo, e após captar sua excentricidade, a primeira coisa que notamos é sua inospitalidade a novos locatários. Uma segunda placa de ENTRADA PROIBIDA, inclinada num ângulo incrível contra um pilar de escada, meramente sublinha a impressão dada pela própria construção.

       O telhado pontudo só cobre a parte central. A esquerda, um puxado de dois andares recua para o bosque. A direita, brotam acréscimos baixos do prédio, como telheiros exagerados, mais parecendo excrescências que idéias posteriores. Em ambos os sentidos da palavra, a construção parece desequilibrada: uma mente perturbada concebeu-a, depois a criou inexoravelmente torta. O resultado difícil de controlar desvia a investigação e resiste à interpretação. Uma estranha invulnerabilidade monolítica emana dos tijolos e das madeiras, apesar do estrago feito pelo tempo. Obviamente construída em busca de privacidade, se não de isolamento, a casa ainda parece buscá-los.

       O mais estranho de tudo, de nossa posição privilegiada: a casa parece ter sido pintada de um preto uniforme — não só as madeiras, mas cada centímetro do exterior, o alpendre, as esquadrias, as calhas, até as janelas. Preto, de cima a baixo. E isso não pode ser possível; neste canto ingênuo e benfazejo do mundo, nem mesmo o construtor mais loucamente misantrópico transformaria sua casa em sua própria sombra. Descemos até rente ao chão e nos aproximamos pelo caminho estreito...

       Quando chegamos suficientemente perto para um julgamento confiável, o que vem a ser inconfortavelmente perto, descobrimos que a misantropia pode ir além do que havíamos suposto. A casa já não é negra, mas foi. A tonalidade para a qual desbotou nos faz sentir que talvez tenhamos sido excessivamente críticos quanto à cor original. A casa hoje tem o cinza-chumbo das nuvens de tempestade, dos mares lúgubres e dos cascos dos navios naufragados. Preto seria preferível a esta absoluta falta de vida.

       Podemos ter certeza de que muito poucos dos adultos que moram no loteamento próximo, ou quaisquer adultos de French Landing ou das cidades vizinhas, desafiaram a advertência na 35 e se aventuraram a subir a trilha estreita. Quase nenhum deles sequer nota mais o aviso; nenhum deles sabe da existência da casa negra. Mas podemos ter certeza também de que alguns de seus filhos exploraram o caminho, e algumas dessas crianças foram longe o bastante para encontrar a casa. Elas a teriam visto de uma forma que seus pais não poderiam ver, e o que elas viram as teria feito voltar correndo para a rodovia. A casa negra parece tão deslocada no oeste de Wisconsin quanto um arranha-céu ou um palácio cercado de fossos. Na verdade, a casa negra seria uma anomalia em qualquer lugar em nosso mundo, exceto talvez como uma “Casa Assombrada”, um “Castelo de Terrores” num parque de diversões, onde sua capacidade de repelir compradores de ingressos levaria o negócio à falência em uma semana. No entanto, de uma forma específica, ela talvez nos lembre os prédios sombrios da Rua Chase ao longo de sua ascensão à respeitabilidade a partir da margem do rio e da Alameda Nailhouse. O feio Hotel Nelson, a taberna obscura, a sapataria e as outras lojas marcadas com a listra horizontal desenhada pelo lápis-cera do rio compartilham o mesmo sabor sinistro, onírico, meio irreal que impregna a casa negra.

      

      

Neste momento de nosso avanço — e ao longo de tudo o que vem depois — deveríamos nos lembrar que este estranho sabor onírico e ligeiramente antinatural é característico das terras de fronteira. Pode ser detectado em cada confluência entre dois territórios específicos, por mais significativa ou insignificante que seja a fronteira em questão. Terras de fronteira são diferentes de outros locais. São fronteiriças.

       Digamos que por acaso você esteja passando de carro pela primeira vez por uma parte semi-rural do Condado de Oostler em seu estado natal, indo visitar um amigo recém-divorciado do sexo oposto que se mudou abruptamente e, segundo você, insensatamente para uma cidadezinha no contíguo Condado de Orelost. No banco do carona ao seu lado, em cima de uma cesta de piquenique contendo duas garrafas de vinho branco superior de Bordeaux bem calçadas por várias iguarias em requintadas caixinhas, há um mapa cuidadosamente dobrado para expor a área relevante. Você pode não saber a localização exata, mas você está na estrada certa e fazendo um bom tempo.

       Gradualmente, a paisagem muda. A estrada vira circundando uma berma inexistente, depois começa a serpear em curvas inexplicáveis; dos dois lados, a postura das árvores é largada; embaixo de seus galhos tortos, as casas intermitentes ficam menores e mais decadentes. A frente, um cachorro de três pernas passa se contorcendo por uma cerca e investe contra seu pneu dianteiro. Uma velha usando um chapeuzinho de palha e o que parece ser uma mortalha ergue os olhos vermelhos de um balanço de alpendre adernado. Dois jardins à frente, uma garotinha vestida de gaze cor-de-rosa suja e uma coroa de lata abana uma faiscante varinha de condão com uma estrela na ponta para um monte de pneus em chamas. Depois, aparece uma placa retangular com a legenda BEM-VINDO AO CONDADO DE ORELOST. Logo as árvores melhoram a postura e a estrada fica reta. Libertado das ansiedades que você mal notou até que elas desaparecessem, você pisa no acelerador e se apressa para chegar ao seu amigo carente.

       Terras de fronteira têm o sabor de indisciplina e distorção. O grotesco, o imprevisível e o sem lei enraízam-se nelas e vicejam. O sabor das terras de fronteira centrais é de resvalamento. E enquanto estamos num cenário de maravilhosa beleza natural, também estamos viajando por uma terra de fronteira natural, delineada por um grande rio e definida por outros rios menores, largas morainas glaciais, escarpas de calcário e vales que permanecem invisíveis, como a casa negra, até você virar no lugar certo e se deparar cara a cara com eles.

      

      

Você já viu um velho furioso maltrapilho empurrando um carrinho de compras vazio por ruas desertas e esbravejando sobre uma “porra de um caduno”? Às vezes ele usa um boné de beisebol, outras, uns óculos escuros com uma lente quebrada.

       Já foi apavorado até uma porta e observou um homem marcial com uma cicatriz em forma de raio de um lado da cara se meter furioso no meio de uma multidão embriagada e descobrir, estirado de braços abertos no chão, um garoto com a cabeça esmagada e os bolsos virados para fora? Já viu o ódio e o pesar faiscarem na cara mutilada desse homem?

       Estes são sinais de resvalamento.

       Outro está escondido embaixo de nós nos arredores de French Landing, e apesar do terror e da angústia que cercam este sinal, não temos escolha senão testemunhá-lo. Por testemunhá-lo, haveremos de honrá-lo, na medida de nossas capacidades individuais; por ser testemunhado, por oferecer seu testemunho a nosso olhar mudo, ele nos retribuirá numa medida muito maior.

       Estamos de volta no ar, e estendido — poderíamos dizer, de braços abertos —, embaixo de nós, o Condado Francês se espraia como um mapa topográfico. A claridade da manhã, mais forte agora, brilha em campos verdes retangulares e faísca nos pára-raios que se erguem no telhado dos celeiros. As estradas parecem limpas. Poças de luz fundida cintilam da capota dos poucos carros rumando para a cidade ao longo dos limites dos campos. As vacas de raça empurram porteiras, prontas para o confinamento nas baias e o encontro matinal com a ordenhadeira automática.

       A uma distância segura da casa negra, que já nos deu um excelente exemplo de resvalamento, estamos voando para o leste, cruzando a longa faixa reta da Rua Onze e começando uma viagem para uma área de transição de casas espalhadas e pequenos estabelecimentos comerciais antes de a Rodovia 35 cortar terras de propriedades rurais propriamente ditas. A 7-Eleven passa, e o Auditório dos Veteranos de Guerra, onde o mastro ainda não exibirá o pavilhão nacional por mais 45 minutos. Em uma das casas recuadas da estrada, uma mulher chamada Wanda Kinderling, esposa de Thornberg Kinderling, um homem mau e insensato que cumpre uma pena de prisão perpétua numa penitenciária da Califórnia, acorda, espia o nível de vodca na garrafa em cima da mesa-de-cabeceira e decide adiar o café da manhã por mais uma hora. Ao longo de 45 metros, tratores reluzentes em fileiras militares estão de frente para a gigantesca bolha de aço e vidro da concessionária de implementos agrícolas Ted Goltz, a Equipamentos Agrícolas do Condado Francês, onde um marido decente e perturbado chamado Fred Marshall, que já vamos conhecer, logo chegará para trabalhar.

       Do outro lado da bolha chamativa e do mar de asfalto do estacionamento da Goltz’s, uns 800 metros de um campo pedregoso há muito abandonado acabam degenerando em terra aparente e mato ralo. No final de uma longa entrada invadida pelo capim, há o que parece ser uma pilha de madeiras podres entre um velho galpão e uma antiga bomba de gasolina. Este é o nosso destino. Voamos em direção à terra. A pilha de madeira resume-se a uma estrutura inclinada e dilapidada prestes a ruir. Há um velho anúncio da Coca-Cola, torto e furado de balas na frente do prédio. O chão coberto de mato está coalhado de latas de cerveja e pontas de cigarro. Lá de dentro, vem o zumbido constante e monótono de um enxame de moscas. Queremos recuar para o ar puro e partir. A casa negra era bem ruim; na verdade, era um horror, mas isso... vai ser pior.

       Uma outra definição de resvalamento é: o sentimento de que as coisas em geral acabaram de piorar, ou vão piorar muito em breve.

       A barraca em forma de vagão de carga em petição de miséria à nossa frente antigamente abrigava um estabelecimento mal-administrado e infecto chamado Lanchonete do Ed. De trás de um balcão eternamente desorganizado, uma massa risonha de 150 quilos de gordura chamada Ed Gilbertson servia hambúrgueres engordurados e esturricados, sanduíches de salame e maionese ornamentados com impressões digitais pretas, e casquinhas de sorvete derretido para uma clientela pequena e sem preconceito, principalmente crianças locais que chegavam de bicicleta. Já há muito falecido, Ed era um dos muitos tios do chefe de polícia de French Landing, Dale Gilbertson, um porcalhão e um bronco de bom coração de grande fama local. Seu avental de cozinheiro era de uma imundície indescritível; o estado de suas mãos e unhas teria levado qualquer fiscal da vigilância sanitária à beira da náusea; seus utensílios bem podiam ter sido limpos por gatos. Logo atrás do balcão, latas de sorvete derretido cozinhavam no calor da chapa recoberta por uma crosta. No alto, fitas moles de papel de pegar mosca pendiam invisíveis, cobertas por mil cadáveres de moscas. A triste verdade é que durante décadas a Lanchonete do Ed permitiu que gerações de micróbios e germes se multiplicassem sem controle, passando do chão, do balcão e da chapa — sem hesitar em colonizar o próprio Ed! — para espátulas, garfos e a taça de sorvete não lavada, daí para a horrível comida e, finalmente, para as bocas e entranhas da criançada que come essas coisas, e para as de uma ou outra mãe.

       Por incrível que pareça, ninguém jamais morreu por comer naquela lanchonete, e depois que um ataque de coração que já era para ter chegado há muito abateu seu proprietário num dia em que ele subiu num tamborete com o propósito de finalmente pendurar uma dúzia de novas fitas de papel de pegar mosca, ninguém teve coragem de demolir sua barraquinha e remover o entulho. Durante 25 anos, sob o abrigo da escuridão, aquela carcaça em decomposição acolheu casais de adolescentes românticos, bem como reuniões de meninos e meninas em busca de um lugar isolado para investigar pela primeira vez na história registrada, ou assim lhes parecia, a liberação da embriaguez.

       O zumbido arrebatado das moscas nos diz que o que quer que estejamos prestes a ver dentro dessa ruína, não será um casal de jovens amantes esgotados nem alguns garotos bobos desmaiados. Aquele rumor delicado e guloso, inaudível da estrada, indica a presença de coisas finais. Poderíamos dizer que representa uma espécie de portal.

       Entramos. Uma claridade amena filtrada pelas frestas da parede leste e do telhado danificado deixa o chão arenoso raiado de luz. Há penas e pó pairando e turbilhonando sobre rastros de bichos e pegadas deixadas por vários sapatos que já se foram há muito. Cobertores surrados e embolorados excedentes do Exército estão amontoados contra a parede à nossa esquerda; alguns palmos adiante, latas de cerveja jogadas fora e pontas de cigarro achatadas rodeiam um lampião a querosene com o vidro rachado. A luz do sol derrama listras mornas sobre pegadas frescas que avançam numa curva aberta em volta dos vestígios do terrível balcão da Lanchonete do Ed e penetram no espaço antes ocupado pelo fogão, por uma pia e uma fila de prateleiras. Ali, no que um dia foi o domínio sagrado de Ed, as pegadas somem. Alguma atividade feroz espalhou a poeira e a areia, e algo que não é um velho cobertor do Exército, embora quiséramos que fosse, jaz confusamente contra a parede do fundo, parte dentro e parte fora de uma poça escura e irregular de um líquido pegajoso. Moscas em delírio pairam sobre a poça e pousam ali. No canto oposto, um vira-lata cor de ferrugem de pêlo espetado dá uma dentada na junta de carne e osso que se projeta do objeto branco entre suas patas dianteiras. O objeto branco é um sapato de corrida, um tênis. Um tênis New Balance, para ser preciso. Para ser mais preciso, um ténis New Balance infantil, número 34.

       Queremos invocar nossa capacidade de voar e dar o fora daqui. Queremos varar o telhado fraco, para voltar ao ar inofensivo, mas não podemos, precisamos testemunhar. Um cachorro feio está comendo o pé amputado de uma criança enquanto se esforça de todas as maneiras para extrair o pé do tênis New Balance branco. O dorso magro do vira-lata abaixa e se alonga, os ombros espetados e a cabeça estreita caem, as patas dianteiras ossudas seguram firmemente a presa, puxa puxa puxa, mas os cordões do ténis estão amarrados — para azar do vira-lata.

       Quanto à coisa, que não é um cobertor velho do excedente do Exército, depois de uma confusão de rastros e buracos empoeirados, na outra ponta do chão, sua forma pálida jaz estirada de costas no chão, a metade superior ultrapassando a poça escura. Um braço está molemente esticado na areia; o outro está levantado, apoiado na parede. Ambas as mãos estão cerradas. Cabelos duros louro-ruivos caem para trás da carinha. Se os olhos e a boca exibem alguma expressão reconhecível, é a de leve surpresa. Isso é um acidente estrutural; não quer dizer nada, pois a configuração do rosto da criança deixava-a com um ar levemente surpreso, mesmo dormindo. Há hematomas como borrões de tinta, alguns parecendo ter sido suavizados por uma borracha, em suas maçãs do rosto, sua testa, seu pescoço. Uma camiseta branca com o logotipo dos Milwaukee Brewers, suja de poeira e sangue seco, cobre seu torso do pescoço ao umbigo. A parte inferior de seu corpo, pálida como fumaça, exceto nos locais salpicados de sangue, está dentro da poça escura, onde as moscas em êxtase voejam e pousam. Sua perna esquerda esguia e nua incorpora um joelho coberto de crostas e termina com a pequena protuberância de um tênis New Balance número 34, amarrado com laço duplo, a ponta virada para o teto. Onde deveria estar o par dessa perna há um espaço, pois seu quadril direito termina, abruptamente, num toco dilacerado.

       Estamos na presença da terceira vítima do Pescador, Irma Freneau, de dez anos. As ondas de choque suscitadas por seu desaparecimento ontem à tarde do passeio em frente à loja de vídeo aumentarão em força e em número depois que Dale Gilbertson encontrar seu corpo, daqui a pouco mais de um dia.

       O Pescador pegou-a na Rua Chase e transportou-a — não podemos dizer como — por toda a Rua Chase e a Rua Lyall, passou pela 7-Eleven e pelo Auditório dos Veteranos de Guerra, pela casa onde Wanda Kinderling espuma de raiva e bebe, pela cintilante espaçonave de vidro da Goltz’s, e foi da cidade para a zona rural.

       Ela estava viva quando o Pescador a fez passar pela porta ao lado do anúncio furado da Coca-Cola. Deve ter se debatido, gritado. O Pescador levou-a para a parede dos fundos e calou-a com socos na cara. Muito provavelmente, estrangulou-a. Deitou seu corpo no chão e arrumou suas pernas e braços. À exceção do tênis New Balance branco, ele tirou-lhe toda a roupa da cintura para baixo, calcinha, jeans, short, o que quer que Irma estivesse usando quando ele a raptou. Depois disso, o Pescador amputou-lhe a perna direita. Usando um facão afiado, e sem a ajuda de um cutelo ou de uma serra, ele separou a carne do osso até conseguir destacar a perna do resto do corpo. Então, talvez com não mais que dois ou três golpes no tornozelo, amputou o pé. Descartou-o, ainda calçado com o ténis branco. O pé de Irma não era importante para o Pescador — tudo o que ele queria era sua perna.

      

      

Aqui, meus amigos, temos um verdadeiro resvalamento.

      

      

O corpinho inerte de Irma Freneau parece se achatar como se pretendesse derreter através das tábuas podres do chão. As moscas bêbadas cantam.

 

 

O cachorro continua arrancando seu prêmio suculento inteiro do tênis. Se trouxéssemos o simplório Ed Gilbertson de volta à vida e o puséssemos em pé ao nosso lado, ele cairia de joelhos e choraria. Já nós...

       Não estamos aqui para chorar. Não como Ed, de qualquer forma, horrorizado de vergonha e incredulidade. Um mistério tremendo habitou essa barraca, e seus efeitos e suas pistas pairam em toda parte à nossa volta. Viemos para observar, registrar e gravar as impressões, as imagens persistentes deixadas na cauda de cometa do mistério. Ele fala a partir dos detalhes, portanto, persiste em seu próprio rastro, portanto, nos cerca. Uma gravidade profundíssima flui da cena, e essa gravidade nos humilha. A humildade é a nossa primeira, melhor e mais precisa resposta. Sem ela, não enxergaríamos o ponto principal; o grande mistério nos escaparia, e continuaríamos surdos e cegos, ignorantes como porcos. Não vamos continuar como porcos. Precisamos honrar esta cena — as moscas, o cachorro roendo o pé amputado, o pobre corpo pálido de Irma Freneau, a magnitude do que aconteceu com ela —, reconhecendo nossa pequenez. Em comparação, não passamos de vapores.

       Uma abelha gorda entra pelo vão da janela na parede lateral a 1,80m do corpo de Irma e faz um lento circuito exploratório pelos fundos do barraco. Suspensa embaixo de suas asas indistintas, a abelha quase parece pesada demais para voar, mas continua com uma lentidão fácil e desapressada, fazendo uma curva aberta bem acima do chão ensanguentado. As moscas, o vira-lata e Irma não prestam atenção.

       Para nós, a abelha, que continua a vagar satisfeita no fundos da câmara de horror, deixou de ser uma distração bem-vinda e incorporou-se ao mistério em volta. E um detalhe dentro da cena, e ela, também, exige nossa humildade e fala. O pesado zumbido de suas asas parece definir o centro exato das ondas sonoras que sobem e descem, de um tom mais agudo, produzidas pelas moscas gulosas: como um cantor num microfone em frente a um coro, a abelha controla o ambiente sonoro. O som aumenta e atinge um ponto sério. Quando a abelha chega a uma réstia de luz amarela que vem entrando pela parede leste, suas listras cintilam pretas e douradas, as asas formam um leque, e o inseto vira uma intrincada maravilha no ar. A menina massacrada se achata para dentro do assoalho ensanguentado. Nossa humildade, nossa noção de pequenez, nossa apreciação da gravidade profundamente embutida nesta cena nos dão a noção de forças e poderes além de nossa compreensão, de um tipo de grandeza sempre presente e ativo, mas perceptível apenas em momentos como este.

       Fomos honrados, mas a honra é insuportável. A abelha falante volta para a janela e passa para outro mundo, e, atrás dela, vamos em frente, saímos pela janela que dá para o sol e o ar superior.

       Odores de merda e urina na Casa Maxton para a Velhice; a frágil e escorregadia sensação de resvalamento na casa em condições precárias ao norte da Rodovia 35; o zumbido das moscas e a visão do sangue na antiga Lanchonete do Ed. Argh! Urgh! Não há nenhum lugar aqui em French Landing, podemos perguntar, onde haja alguma coisa boa por baixo da pele? Onde o que se vê é o que se tem, por assim dizer?

       A resposta curta: não. French Landing deveria ser indicada com grandes placas na estrada em cada ponto de acesso: CUIDADO! RESVALAMENTO EM ANDAMENTO! PASSE POR SUA CONTA E RISCO!

       A magia em ação aqui é a magia do Pescador. Ela tornou o conceito de “agradável” pelo menos temporariamente obsoleto. Mas podemos ir a algum lugar melhor e, se pudermos, provavelmente vamos, porque precisamos de um descanso. Talvez não consigamos fugir do resvalamento, mas podemos pelo menos ir aonde ninguém faz cocô na cama nem se esvai em sangue no chão (pelo menos por enquanto).

      

      

Então a abelha segue seu caminho e nós, o nosso; o nosso nos leva para sudoeste, sobre mais bosques exalando sua fragrância de vida e oxigênio — não existe ar como este, pelo menos não neste mundo —, e depois, de volta às obras humanas.

       Esta parte da cidade é chamada de Vila da Liberdade, assim batizada pelo Conselho Municipal de French Landing em 1976. Você não vai acreditar nisso, mas o barrigudo Ed Gilbertson, o próprio Rei do Cachorro-quente, fazia parte desta banda bicentenária de fundadores da cidade; aquela era uma época estranha, estranha mesmo. Não tão estranha como esta, porém; em French Landing, esta é a época do Pescador, a época escorregadia de resvalamento.

       As ruas da Vila da Liberdade têm nomes que adultos acham fascinantes e crianças, dolorosos. Algumas delas, pelo que dizem, batizaram esta área da cidade de Vila das Bichas. Vamos descer agora, através do ar doce da manhã (já está esquentando; este será um dia tipo Festa do Morango, por certo). Cruzamos em silêncio a Rua Camelot, passamos pelo cruzamento da Camelot com a Avalon e continuamos descendo a Avalon até a Alameda Sta. Marian. Da Alameda Sta. Marian, continuamos até — isso é alguma surpresa? — a Alameda Robin Hood.

       Aqui, no n° 16, uma gracinha de casa que parece perfeita para A Família Trabalhadora Decente Subindo na Vida, encontramos uma janela de cozinha aberta. Sente-se o aroma de café e torrada, uma combinação maravilhosa que nega o resvalamento (se ao menos não tivéssemos percebido; se ao menos não tivéssemos visto o cachorro em ação, comendo o pé que saía de um tênis como uma criança poderia comer a salsicha que saía do pão), e entramos atrás do aroma. É bom ser invisível, não? Observar em nosso silêncio como que divino. Se ao menos o que nossos olhos como que divinos viram fosse apenas um pouquinho menos perturbador! Mas isso não vem ao caso. Agora estamos nessa, para o melhor ou o pior, e seria bom continuarmos fazendo o nosso trabalho. A claridade está se consumindo, como dizem nesta parte do mundo.

       Aqui na cozinha do n° 16 está Fred Marshall, cujo retrato atualmente enfeita o cavalete do Vendedor do Mês no showroom da Equipamentos Agrícolas Condado Francês. Fred também recebeu o título de Funcionário do Ano em três dos últimos quatro anos (há dois anos, Ted Goltz deu o prêmio a Otto Eisman, só para quebrar a monotonia), e quando ele está trabalhando, ninguém irradia mais charme, personalidade ou simpatia para todos os lados. Vocês queriam simpatia? Senhoras e senhores, apresento-lhes Fred Marshall.

       Só que agora seu sorriso de confiança não está em evidência, e seu cabelo, sempre cuidadosamente penteado no trabalho, ainda não viu a escova. Ele está usando um calção Nike e uma camiseta sem manga em vez das calças cáqui com camisa esporte habituais. No balcão está o exemplar de Marshall de La Riviere Herald, aberto numa página interna.

       Fred anda tendo sua cota de problemas ultimamente — ou, antes, sua mulher Judy tem problemas, e o que é dela é dele, assim disse o sacerdote quando os uniu em matrimônio — e o que ele está lendo não o está fazendo sentir-se nada melhor. Longe disso. É um boxe da reportagem de primeira página, e naturalmente o autor é o repórter investigativo favorito de todos, Wendell “PESCADOR AINDA À SOLTA” Green.

       O boxe é sua recapitulação básica dos primeiros dois assassinatos (Horripilante e Mais Horripilante é como Fred pensa neles), e à medida que lê, Fred dobra primeiro a perna esquerda atrás e depois a direita, alongando aqueles músculos importantíssimos e se preparando para sua corrida matinal. O que poderia ser mais anti-resvalamento que uma corrida matinal? O que poderia ser mais agradável? O que poderia estragar um começo tão bom de dia tão bonito em Wisconsin?

       Bem, que tal isso:

       Os sonhos de Johnny Irkenham eram bastante simples, segundo seu desgostoso pai. [Desgostoso pai, pensa Fred, alongando-se e imaginando o filho lá em cima. Meu Deus, faça com que eu nunca seja um pai desgostoso. Sem saber, obviamente, quão depressa deveria assumir este papel.] “Johnny queria ser astronauta’, disse George Irkenham, um sorriso iluminando brevemente seu rosto exausto. “Isto é, quando não estivesse apagando incêndios para o Corpo de Bombeiros de French Landing ou lutando contra o crime com a Liga de Justiça da América.”

       Estes sonhos inocentes viraram um pesadelo inimaginável. [Mas tenho certeza que vocês tentarão imaginar, Fred acha, agora começando as flexões dos artelhos.] Segunda-feira passada, seu corpo desmembrado foi descoberto por Spencer Hovdahl, de Centralia. Hovdahl, funcionário do setor de crédito do First Farmer State Bank, estava inspecionando uma fazenda abandonada de French Landing de propriedade de John Ellison, morador de um condado vizinho, com vistas a iniciar um processo de reintegração de posse. “Para começar, eu não queria estar lá”, disse Hovdahl a este repórter. “Se hã algo que eu odeio é essa coisa de reintegração. [Conhecendo Spence Hovdahl como ele conhece, Fred duvida muito se ‘coisa’ foi a palavra usada por ele.] Quis estar lá ainda menos depois que entrei no galinheiro. A construção está toda bamba e caindo aos pedaços, e eu não teria entrado se não fosse pelo zumbido das abelhas. Achei que poderia ter uma colmeia lá dentro. Eu me interesso por abelhas, e fiquei curioso. Valha-me Deus, fiquei curioso. Espero nunca mais ficar.”

       O que descobri no galinheiro foi o corpo de John Wesley Irkenham, de sete anos. O cadáver fora desmembrado, as partes estavam penduradas em correntes presas nos caibros. Embora o chefe de polícia Dale Gilbertson não tenha confirmado nem negado isso, fontes confiáveis da polícia em La Riviere afirmam que as coxas, o torso e as nádegas foram mordidos...

       Tudo bem, para Fred, isso basta. Ele fecha o jornal e empurra-o pela bancada para a máquina de café. Por Deus, nunca botavam matérias assim no jornal quando ele era garoto. E por que cargas d’água o Pescador? Por que precisavam rotular cada monstro com um nome fácil de guardar, transformar um cara como o que fez isso na Celebridade Mórbida do Mês?

       Claro, nada parecido com isso jamais acontecera quando ele era da idade de Tyler, mas o princípio... o maldito princípio da questão...

       Fred termina de flexionar os artelhos, planejando ter uma conversa com Tyler. Será mais difícil do que a que tiveram sobre o porquê de sua coisa às vezes ficar dura, mas é indispensável. Esquema de turma, Fred dirá. Você tem que andar sempre com sua turma agora, Ty. Não vai dar para sair para passear sozinho por uns tempos, certo?

       No entanto, a idéia de Ty ser mesmo assassinado parece a Fred remota: é a matéria dos documentários dramáticos de tevê ou talvez de um filme de Wes Craven. Chame-o de Pânico 4: O Pescador. Na verdade, não houve um filme mais ou menos assim? Um cara vestido de pescador perambulando pela cidade matando adolescentes com um anzol? Talvez, mas não criancinhas, não bebes como Amy St. Pierre e Johnny Irkenham. Nossa, o mundo estava se desintegrando bem à sua frente.

       Partes do corpo penduradas em correntes num galinheiro caindo aos pedaços, esta é a parte que o persegue. Isso pode acontecer mesmo? Pode acontecer aqui, bem aqui e agora na terra de Tom Sawyer e Becky Thatcher?

       Bem, deixa para lá. É hora de correr.

       Mas talvez o jornal tenha se perdido hoje de manhã, pensa Fred pegando-o na bancada e dobrando-o até deixá-lo parecido com um livro grosso (mas parte da manchete o acusa mesmo assim: PESCADOR CONTINUA À S). Talvez o jornal, sei lá, tenha migrado direto para a velha lata de lixo ao lado da casa.

       Sim, boa idéia. Porque Judy anda estranha ultimamente, e as histórias palpitantes de Wendell Green sobre o Pescador não estão ajudando (Coxas e torso mordidos, Fred pensa e desliza em direção à porta pela casa mergulhada no silêncio matinal, e enquanto você está fazendo isso, garçom, mande me cortarem um bom pedaço malpassado da bunda). Ela lê obsessivamente os relatos da imprensa, sem fazer comentários, mas Fred não gosta do modo como seus olhos ficam pulando de uma coisa para outra, ou de alguns dos outros tiques que ela adquiriu: tocar obsessivamente o lábio superior com a língua, por exemplo... e às vezes, isso nos últimos dois ou três dias, ele viu sua língua esticar toda para cima e quase tocar o nariz, um feito que ele julgaria impossível se não o tivesse visto de novo a noite passada, durante o noticiário local. Ela se deita cada vez mais cedo, e às vezes fala dormindo — palavras estranhas e pastosas que não parecem inglês. Às vezes, quando Fred fala com ela, ela não reage, simplesmente fica fitando o vazio, os olhos arregalados, movendo ligeiramente os lábios, esfregando as mãos (começaram a aparecer cortes e arranhões nas costas das mãos, embora ela mantenha as unhas sensatamente curtas).

       Ty também notou as esquisitices que vão tomando conta de sua mãe. Sábado, enquanto pai e filho almoçavam juntos — Judy estava lá em cima tirando uma de suas longas sonecas, outra inovação —, o garoto de repente perguntou, sem mais nem menos:

       — O que tem de errado com mamãe?

       — Ty, não tem nada de errado com...

       — Tem, sim! Tommy Erbter diz que ela anda com uma telha a menos ultimamente.

       E será que ele quase avançara no filho passando por cima da sopa de tomate e dos sanduíches de queijo quente e o esbofeteara? Seu filho único? O velho e bom Ty, que só estava preocupado? Que Deus o ajude, ele fizera isso.

       Do lado de fora, no início do passeio de concreto que leva à rua, Fred começa a correr devagar sem sair do lugar, respirando fundo, depositando o oxigênio que ele logo retirará. Esta costuma ser a melhor parte de seu dia (isto é, supondo que ele e Judy não façam amor, e ultimamente isso tem sido raríssimo). Ele gosta da sensação — do conhecimento — de que o passeio de sua casa pode ser o início da estrada para qualquer lugar, de que ele poderia sair daqui da Vila da Liberdade, em French Landing, e acabar em Nova Iorque... São Francisco... Bombaim... nos desfiladeiros do Nepal. Cada passo para fora da casa de uma pessoa é um convite para o mundo (talvez até o universo), e isso é algo que Fred Marshall intuitivamente entende. Ele vende tratores John Deere e capinadeiras Case, sim, tudo bem, mas não é desprovido de imaginação. Quando ele e Judy eram estudantes, na UW-Madison, seus primeiros encontros eram no café ao lado do campus, um refúgio para quem queria café expresso, jazz e poesia, chamado Chocolate Watchband. Não seria de todo injusto dizer que eles se apaixonaram ouvindo bêbados irados declamando as obras de Alan Ginsberg e Gary Snyder pelo sistema de alto-falantes barato, mas superpossante.

       Fred respira fundo mais uma vez e começa a correr. Desce a Alameda Robin Hood até a Alameda Sta. Mariam, onde ele acena para Deke Purvis. Deke, de robe e chinelo, acaba de pegar a dose diária de pessimismo de Wendell Green em sua própria varanda. Depois ele entra na Rua Avalon, acelerando um pouco agora, mostrando os calcanhares para a manhã.

       Mas ele não pode correr mais que suas preocupações.

       Judy, Judy, Judy, ele pensa na voz de Cary Grant (uma piadinha que há muito tempo perdeu a graça com o amor de sua vida).

       Há a fala ininteligível quando ela está dormindo. Há o modo como os olhos dela saltam de um lado para o outro. E não vamos esquecer a vez (há apenas três dias) em que ele a seguiu até a cozinha e ela não estava lá — estava atrás dele, descendo a escada, e como ela fez isso lhe parece menos importante do que por que o fez, subindo sorrateiramente pelos fundos e descendo com passos pesados pela frente (porque isso é o que ela deve ter feito; é a única explicação que lhe ocorre). Há a língua que ela não pára de estalar e passear. Fred sabe que o resultado é esse: Judy anda agindo como uma mulher aterrorizada. Isso vem acontecendo desde antes do assassinato de Amy St. Pierre, portanto não pode ser o Pescador, ou não inteiramente o Pescador.

       E há um problema maior. Antes das duas últimas semanas, Fred lhe diria que a mulher dele não tinha um pingo de medo. Ela podia ter só l,57m (“Ora, você é mesmo diminuta”, foi o comentário da avó ao conhecer a pretendente do neto), mas Judy tem um coração de leão, de guerreiro viking. Isso não é besteira, nem propaganda, nem licença poética; é a simples verdade na ótica de Fred, e o contraste entre o que ele sempre soube e o que ele vê agora é o que mais o assusta.

       Da Avalon, ele corre até a Camelot, atravessando o cruzamento sem olhar para o tráfego, indo muito mais depressa que o normal, quase em disparada em vez de no ritmo de sempre. Está lembrando de algo que aconteceu mais ou menos um mês depois que começaram a sair.

      

      

Foi ao Chocolate Watchband que eles haviam ido, como sempre, só que, daquela vez, foram à tarde, para ouvir um quarteto de jazz que foi mesmo muito bom. Não que eles tivessem ouvido muito, como Fred agora lembra; ele conversara com Judy sobretudo sobre quão pouco ele gostava de estar na Faculdade de Agricultura e Ciências da Vida (U Muu, chamavam os convencidos de Letras e Ciências), e quão pouco gostava da suposição tácita da família de que, quando se formasse, ele voltaria para casa e ajudaria Phil a tocar a fazenda da família em French Landing. A idéia de passar a vida atrelado a Phil deixava Fred profundamente deprimido.

       O que quer, então?, perguntara Judy. Segurando sua mão por sobre a mesa, uma vela acesa dentro de um vidro de geléia, o conjunto no palco tocando uma musiquinha doce chamada “I’ll Be There for You” [Estarei ao seu lado].

       Não sei, disse ele, mas vou lhe dizer uma coisa, Judy, eu deveria estar fazendo Administração, não U Muu. Sou muito melhor em vender do que em plantar.

       Então, por que não muda?

       Porque minha família acha...

       Sua família não vai ter que viver a sua vida, Fred... você vai.

       Falar é fácil, ele lembra de ter pensado, mas aí aconteceu algo na volta ao campus, algo tão incrível e que contrariava tanto seu entendimento de como a vida deveria ser que o deixa admirado até hoje, 13 anos depois.

       Ainda falando sobre o futuro dele e o futuro deles dois juntos (Eu poderia ser fazendeira, dissera Judy, mas só se meu marido realmente quiser ser fazendeiro). Mergulhados nisso. Deixando seus pés levá-los sem querer saber muito onde estavam exatamente. E aí, no cruzamento da Rua State com a Gorham, um barulho de freada e um choque metálico violento interrompeu a conversa. Fred e Judy olharam em volta e viram uma picape Dodge que acabara de bater numa caminhonete Ford velha.

       Saindo da caminhonete, que nitidamente havia avançado o sinal no final da Rua Gorham, estava um homem de meia-idade com um terno marrom de meia-idade. Ele parecia assustado e abalado, e Fred achou que havia motivo para isso; o homem que avançava para ele da picape era jovem, corpulento (Fred lembrava-se particularmente da barriga pulando sobre o cós de sua calça jeans, com um pé-de-cabra na mão). Seu babaca descuidado!, gritou o Jovem e Corpulento. Olhe o que fez com a minha picape! É a picape do meu pai, seu babaca miserável!

       Terno-de-Meia-idade recuando, olhos arregalados, mãos levantadas, Fred olhando fascinado da frente da Ferragens Rickman, pensando Ah, não, moço, que idéia. Não se foge de um cara como esse, vai-se para cima dele, ainda que ele esteja furioso como está. Você o está provocando — não vê que o está provocando? Tão fascinado, ele nem percebeu que a mão de Judy já largara a dele, ouvindo com uma espécie de presciência doentia enquanto o Sr. Terno-de-Meia-idade, ainda recuando, dizia o quanto sentia... inteiramente sua culpa, não estava olhando, não estava pensando... documentos do seguro... Cadeia... fazer um diagrama... chamar um guarda para tomar depoimentos...

       E o tempo todo, o Jovem e Corpulento vinha avançando, batendo com o pé-de-cabra na palma da mão, sem ouvir. Não se tratava de seguro ou compensação; tratava-se do bruto susto que o Sr. Terno-de-Meia-idade lhe dera enquanto ele estava apenas dirigindo e cuidando de sua vida e ouvindo Johnny Paycheck cantar “Take this Job and Shove it” [Pegue esse emprego e enfie-o]. O Jovem e Corpulento pretendia dar pessoalmente o troco pelo bruto susto e o tranco que levara atrás do volante... tinha que dar algum, porque o cheiro do outro homem o estava incitando, aquele cheiro amarelo;mijo de medo e desamparo inatos. Era um caso de coelho e cachorro de fazenda, e de repente o coelho estava a descoberto; o Sr. Terno-de-Meia-idade foi imprensado contra o lado de sua caminhonete, e num segundo o pé-de-cabra ia começar a tomar impulso e o sangue ia começar a espirrar.

       Só que não houve sangue nem um único impulso, porque, de repente, Judy DeLois estava ali, diminuta mas em pé entre os dois, olhando destemida para a cara inflamada do Jovem e Corpulento.

       Fred piscou, imaginando como é que ela chegara lá tão depressa. (Muito depois, ele teria a mesma sensação quando a seguiu até a cozinha, só para ouvir seus passos pesados descendo a escada da frente.) E aí? Aí Judy sentou a mão no braço do Jovem e Corpulento! Chlap, bateu bem no bíceps carnudo, deixando a mão branca marcada na carne queimada de sol e sardenta abaixo da manga da camiseta azul rasgada do cara. Fred viu isso, mas não conseguia acreditar.

       Pare!, Judy gritou na cara surpresa e começando-a-ficar-perplexa do Jovem e Corpulento. Abaixe isso, pare! Não seja burro! Quer ir em cana por 700 dólares de conserto?Abaixe isso! Controle-se, garotão!ABAIXE... isso!

       Houve um instante em que Fred não tinha muita certeza se o Jovem e Corpulento ia abaixar o pé-de-cabra mesmo, e bem na cabeça de sua namoradinha. Mas Judy não recuou; seus olhos não largaram os olhos do rapaz com o pé-de-cabra, que era pelo menos 30 centímetros mais alto que ela e devia pesar uns 100 quilos mais. Certamente ela não exalava cheiro de mijo amarelo de medo naquele dia; sua língua não tocava seu lábio superior nem quase o nariz; seus olhos ardentes não se desviavam.

       E, após mais um momento, o Jovem e Corpulento abaixou o pé-de-cabra.

       Fred não percebera que uma multidão se formara até ouvir o aplauso espontâneo de talvez uns 30 curiosos. Ele uniu-se a eles, nunca tendo se orgulhado mais dela do que naquele momento. E, pela primeira vez, Judy pareceu assustada. Ficou ali, porém, assustada ou não. Aproximou os dois, puxando o Sr. Terno-de-Meia-idade pelo braço, e realmente falou grosso com eles obrigando-os a se apertarem as mãos. Quando os guardas chegaram, o Jovem e Corpulento e o Sr. Terno-de-Meia-idade estavam sentados lado a lado no meio-fio, cada qual estudando os documentos do seguro do outro. Caso encerrado.

       Fred e Judy foram andando para o campus, novamente de mãos dadas. Por duas quadras, Fred não falou. Estaria assombrado com ela? Ele agora acha que sim. Afinal, disse: Foi incrível.

       Ela lhe dirigiu um olharzinho constrangido, um sorrisinho constrangido. Não, não foi, disse ela. Se quiser chamar isso de alguma coisa, chame de cidadania. Eu estava vendo aquele cara se preparando para ir em cana. Não quis que isso acontecesse. Nem que o outro fosse ferido.

       No entanto, ela disse esta última frase quase como se fosse algo que só lhe ocorrera depois, e Fred, pela primeira vez, sentiu não só a sua coragem, mas também seu intrépido coração viking. Ela estava do lado do Jovem e Corpulento... bem, porque o outro sujeito tivera medo.

       Mas você não ficou preocupada?, ele lhe perguntou. Ele ainda estava tão pasmo com o que vira que não lhe ocorrera — ainda — pensar que devia estar um pouco envergonhado; afinal de contas, sua namorada é que tomara a atitude, em vez dele, e aquilo não era o Evangelho Segundo Hollywood. Você não receou que no calor do momento o cara com o pé-de-cabra acertasse você?

       Os olhos de Judy ficaram intrigados. Isso nunca me passou pela cabeça, disse ela.

      

      

A Camelot acaba desembocando na Rua Chase, onde se vê um pouco do Mississipi em dias claros como esse, mas Fred não vai tão longe. Vira no topo do Alto da Liberdade e volta pelo mesmo caminho, a camisa agora empapada de suor. Em geral a corrida o faz sentir-se melhor, mas não hoje, pelo menos por enquanto. A destemida Judy daquela tarde na esquina da State com a Gorham é tão diferente da Judy de olhos inconstantes, às vezes desligada, que agora vive em sua casa — a Judy dorminhoca, que torce as mãos —, que Fred realmente falou com Pat Skarda sobre isso. Foi ontem, quando o médico estava na Goltz’s olhando máquinas de cortar grama pilotáveis.

       Fred mostrara-lhe algumas, uma Deere e uma Honda, perguntara pela família, depois perguntara (displicentemente, esperava ele): Ei, doutor, diga-me uma coisa... acha que é possível uma pessoa enlouquecer de repente? Assim, de uma hora para outra?

       Skarda lhe lançara um olhar mais agudo do que Fred realmente gostaria. Estamos falando de um adulto ou de uma criança, Fred?

       Bem, não estamos falando de ninguém, na verdade. Gargalhada franca — inconvincente aos próprios ouvidos de Fred, e a julgar pelo olhar de Pat Skarda, não muito convincente para ele também. Ninguém real, de qualquer forma. Mas, como hipótese, digamos que de um adulto.

       Skarda pensara um pouco, depois balançara a cabeça. Há poucas verdades absolutas em medicina, menos ainda em medicina psiquiátrica. Isso posto, tenho que lhe dizer que acho muito pouco provável uma pessoa “enlouquecer de repente”. Pode ser um processo bastante rápido, mas é um processo. Ouvimos as pessoas dizerem “Fulano pirou “, mas raramente é o caso. A disfunção mental — um comportamento neurótico ou psicótico — leva tempo para se desenvolver, e em geral há sinais. Como vai sua mãe, Fred?

       Mamãe? Ah, vai bem. Vendendo saúde.

       E Judy?

       Ele custou um pouco a abrir um sorriso, mas uma vez que começou, conseguiu um largo. Largo e ingênuo. Judy? Ela também está vendendo saúde, doutor. Claro que está. Continua firme.

       Claro. Continua firme. Apenas manifestando alguns sinais, só isso.

       Talvez passe, ele pensa. Essas boas e velhas endorfinas estão finalmente se manifestando, e de repente isso parece plausível. Otimismo é um estado mais normal para Fred, que não acredita em resvalamento, e um pequeno sorriso aparece em seu rosto — o primeiro do dia. Talvez os sinais passem. Talvez o que quer que haja de errado com ela vá embora tão rápido quanto veio. Talvez seja até, sabe, um problema menstrual. Como TPM.

       Deus, se fosse só isso, que alívio! Enquanto isso, é preciso pensar em Ty. Ele precisa ter uma conversa com Tyler a respeito do esquema de turma, porque embora Fred não acredite no que Wendell Green aparentemente está tentando insinuar, que o fantasma de um fabuloso canibal da virada do século, um bicho-papão consumado chamado Albert Fish por alguma razão apareceu aqui no Condado de Coulee, certamente há alguém ali, e esse alguém assassinou duas criancinhas e fez coisas indescritíveis (a não ser para Wendell Green, ao que parece) com os corpos.

       Coxas, torso e nádegas mordidos, pensa Fred, e corre mais, embora agora esteja sentindo uma pontada do lado. No entanto, nunca é demais repetir: ele não acredita que esses horrores possam realmente atingir seu filho nem vê como possam ter causado o estado de Judy, já que as esquisitices dela começaram quando Amy St. Pierre ainda estava viva, Johnny Irkenham também, ambos presumivelmente brincando felizes em seus respectivos quintais.

       Talvez isso, talvez aquilo... mas, chega de Fred e suas preocupações, certo? Vamos sair de perto desta cabeça perturbada e chegar antes dele de volta ao n° 16 da Alameda Robin Hood — vamos direto para a fonte de seus aborrecimentos.

      

      

A janela de cima do quarto do casal está aberta, e a persiana certamente não é problema; fazemos força e passamos por ela, entrando com a brisa e os primeiros ruídos do dia que começa.

       Os ruídos de French Landing despertando não acordaram Judy Marshall. Não, ela está de olhos abertos desde as três, estudando as sombras, para quê, não sabe, fugindo de sonhos horríveis demais para serem lembrados. No entanto, ela lembra de algumas coisas, por menos que queira.

       — Vi o olho de novo — comenta ela para o quarto vazio. Sua língua entra e sai sem Fred por perto para vigiá-la (ela sabe que ele está vigiando, está atormentada mas não é idiota), não só quase toca as narinas mas lambe-as com vontade, como um cachorro lambendo os beiços depois de uma tigela de restos. — É um olho vermelho. O olho dele. Olho do Rei.

       Ela olha para as árvores lá fora. Elas dançam no teto, fazendo formas e caras, formas e caras.

       — Olho do Rei — repete ela, e agora começa com as mãos amassando e torcendo e apertando e arranhando. — Abalá! Raposas em tocas de raposa! Abalá-dum, o Rei Carmim! Ratos em buracos de rato! Abalá Munshun! O Rei está na Torre, comendo pão e bardana! Os Demolidores estão no porão, ganhando toda a grana!

       Ela balança a cabeça de um lado para o outro. Ah, essas vozes, elas saem da escuridão, e às vezes ela acorda com uma visão queimando atrás de seus olhos, uma visão de uma vasta torre de ardósia no meio de um roseiral. Um roseiral de sangue. Aí a conversa começa, a fala em línguas, testificação, palavras que ela não pode compreender, muito menos controlar, um fluxo misto de inglês e algaravia.

       — Caminham, caminham, caminham — ela diz. — As criancinhas caminham com os pezinhos sangrando... ah, pelo amor de Deus, isso não vai acabar nunca?

       Sua língua sai e lambe a ponta de seu nariz; por um momento, suas narinas estão tampadas com sua própria saliva, e sua cabeça ruge

       — Abalá, Abalá-dum, Can-tá Abalá...

com aquelas terríveis palavras estrangeiras, aquelas terríveis imagens da torre e das cavernas em chamas embaixo, cavernas pelas quais criancinhas caminham com os pés sangrando. Sua mente se esforça com elas, e só há uma coisa que as fará parar, só há uma maneira de obter alívio.

       Judy Marshal senta na cama. Na mesa-de-cabeceira, há uma lâmpada, um exemplar do último romance de John Grisham, um bloquinho de papel (presente de aniversário de Ty, cada folha com o cabeçalho EIS MAIS UMA GRANDE IDÉIA QUE TIVE!) e uma caneta esferográfica com a inscrição LA RIVIERE SHERATON gravada do lado.

       Judy pega a caneta e escreve no bloco.

       Nada de Abalá nada de Abalá-dum nada de Torre sem Demolidores nada de Rei Carmim só sonhos são só meus sonhos

       Isso é suficiente, mas canetas também são estradas para qualquer lugar, e antes que consiga separar a ponta desta do bloco de aniversário, ela escreve outra linha:

       A Casa Negra é a entrada para Abalá a entrada para o inferno Sheol Munshun todos esses mundos e espíritos

       Chega! Bom Deus misericordioso, chega! E o pior: E se isso tudo começar a fazer sentido?

       Ela joga a caneta na mesa, e a caneta rola para a base da lâmpada e pára. Então ela arranca a folha do bloco, amassa-a e enfia-a na boca. Mastiga-a furiosamente, sem rasgá-la, mas pelo menos deixando-a como uma papa, depois engole. Há um momento terrível quando a folha cola em sua garganta, mas depois desce. Palavras e mais palavras descem e Judy torna a deitar nos travesseiros, exausta. Seu rosto está pálido e suado, os olhos imensos cheios de lágrimas não derramadas, mas as sombras em movimento no teto já não parecem caras para ela — as caras das crianças que caminham, de ratos em seus buracos, raposas em tocas, olho do Rei, Abalá-Abalá-dum! Agora são apenas as sombras das árvores de novo. Ela é Judy DeLois Marshall, mulher de Fred, mãe de Ty. Ali é Vila da Liberdade, ali é French Landing, ali é o Condado Francês, ali é Wisconsin, ali são os Estados Unidos, ali é o hemisfério Norte, ali é o mundo, e não há outro mundo além deste. Que assim seja.

       Ah, que assim seja.

       Seus olhos fecham, e quando ela finalmente torna a adormecer, atravessamos o quarto para ir até a porta, mas na hora em que estamos quase chegando lá, Judy Marshall diz mais uma coisa — diz ao passar a fronteira e cair no sono.

       — Burnside não é o seu nome. Onde fica a sua toca?

       A porta do quarto está fechada, então usamos o buraco da fechadura, passando por ele como um suspiro. Vamos pelo corredor, passando por retratos da família de Judy e de Fred, entre eles uma foto da fazenda da família Marshall onde Fred e Judy passaram um período horrível, mas felizmente curto, depois de casados. Quer um bom conselho? Não fale com Judy Marshall sobre o irmão de Fred, Phil. Simplesmente não comece, como sem dúvida diria George Rathbun.

       Não tem buraco de fechadura na porta no fim do corredor, então passamos por baixo como um telegrama e entramos num quarto que reconhecemos imediatamente como um quarto de menino: podemos dizer pelos odores misturados de meias sujas e geléia de mocotó. É pequeno, este quarto, mas parece maior que o de Fred e Judy no fim do corredor, muito provavelmente porque não tem o cheiro de ansiedade. Nas paredes há retratos de Shaquille O’Neal, Jeromy Burnitz, do time do ano passado dos Milwaukee Bucks... e do ídolo de Tyler Marshall, Mark McGwire. McGwire joga para os Cards, e os Cards são o inimigo, mas, diabos, não é como se os Milwaukee Brewers fossem realmente páreo para alguma coisa. O time dos Brewers era capacho na Liga Americana, e da mesma maneira é capacho na Liga Nacional. E McGwire... bem, ele é um herói, não é? É forte, é modesto, e dá uma tacada de dois quilômetros. Mesmo o pai de Tyler, que só torce por times de Wisconsin, acha que McGwire tem algo mais. “O maior batedor da história do jogo”, ele o chamou depois da temporada dos 70 home-runs, e Tyler, embora fosse pouco mais que um bebê naquele célebre ano, nunca esqueceu isso.

       Também na parede desse garotinho que logo será a quarta vítima do Pescador (sim, já houve uma terceira, como vimos), no lugar de honra bem acima de sua cama, há um pôster de viagem mostrando um castelo escuro no fim de um prado longo e enevoado. Na parte de baixo do pôster, que ele prendeu com fita adesiva na parede (sua mãe proíbe terminantemente tachinhas), está escrito VOLTE AO TORRÃO NATAL em grandes letras verdes. Ty está pensando em tirar o pôster porque não tem interesse nenhum na Irlanda; para ele, a paisagem fala de um lugar diferente, um lugar Completamente Diferente. E como uma fotografia de um esplêndido reino mítico onde talvez haja unicórnios nas florestas e dragões nas cavernas. A Irlanda não importa; Harry Potter, também não. Hogwarts serve para tardes de verão, mas este é um castelo do Reino Completamente Diferente. Esta é a primeira coisa que Tyler Marshall vê de manhã, a última coisa que vê à noite, e é assim que ele gosta.

       Ele dorme encolhido de lado, de cuecas, uma vírgula humana com cabelo louro-escuro desgrenhado e um polegar que está perto da boca, faltando mais ou menos uns dois centímetros para ser chupado. Ele está sonhando — podemos ver seus globos oculares se mexendo atrás das pálpebras fechadas. Seus lábios se movem... ele está murmurando alguma coisa... Abalá? Está murmurando a palavra de sua mãe? Certamente não, mas...

       Chegamos mais perto para escutar, mas antes de conseguirmos ouvir alguma coisa, um circuito no radiorrelógio vermelho espalhafatoso de Tyler se liga e, de repente, a voz de George Rathbun enche o quarto, chamando Tyler, portanto, de quaisquer sonhos que estivessem passando embaixo daquela gaforinha desgrenhada.

       — Torcedores, vocês têm que me ouvir agora, quantas vezes eu já lhes disse isso. Se vocês não conhecem os Móveis Irmãos Henreid de French Landing e Centralia, então vocês não conhecem móveis. Isso mesmo, estou falando Irmãos Henreid, o lugar da Festa Colonial. Conjuntos de sala de estar, conjuntos de sala de jantar, dormitórios, nomes famosos em que você aprende a confiar como La-Z-Boy Breton Woods e Moosehead, ATÉ UM CEGO PODE VER QUE IRMÃOS HENREID SIGNIFICAM QUALIDADE!

       Ty Marshall está rindo antes mesmo de ter aberto completamente os dois olhos. Ele adora George Rathbun; George é sabidíssimo.

       E agora, emendando no comercial:

       — Você está pronto para o Concurso dos Brewers, não está? Mandou aqueles cartões-postais com seu nome, endereço e el teléfono? Espero que sim, porque o concurso se encerrou à meia-noite. Se você perdeu... sinto muito.

       Ty fecha os olhos de novo e pronuncia a mesma palavra três vezes: Merda, merda, merda. Ele esqueceu, sim, de mandar, e agora só pode esperar que seu pai (que sabe quão esquecido o filho pode ser) tenha lembrado e se inscrito no concurso por ele.

       — Grande prêmio? — George está dizendo. — APENAS a sua chance ou a do seu coleguinha preferido de ser o menino ou a menina responsável pelo equipamento dos Brewers durante toda a série de Cincinnati. APENAS a chance de ganhar um taco de Richie Sexson autografado, a MADEIRA que leva o RAIO! Sem falar nos 50 lugares grátis junto da primeira base ao lado da minha pessoa, George Rathbun, a Universidade Itinerante de Conhecimento de Beisebol do Condado de Coulee. MAS POR QUE ESTOU LHE DIZENDO ISSO? Se você perdeu, chegou atrasado. Caso encerrado, fim de jogo, vamos nessa! Ah, sei por que toquei neste assunto: para garantir que você esteja sintonizado conosco na próxima sexta-feira para ver se eu falo SEU NOME no rádio!

       Ty geme. Só há duas chances de George falar seu nome no rádio: pouca e nenhuma. Não que ele faça muita questão de ser responsável pelo equipamento do time, vestido com um uniforme folgado dos Brewers e correndo na frente de toda aquela gente no Miller Park, mas quanto a ter o taco de Richie Sexson, a madeira com o raio... isso não seria legal?

       Tyler sai da cama, cheira a camiseta de ontem debaixo do braço, joga-a de lado, pega outra na gaveta. Seu pai às vezes lhe pergunta por que ele põe o despertador para tão cedo — são as férias de verão, afinal de contas —, e Tyler não consegue fazê-lo entender que cada dia é importante, especialmente aqueles quentes e claros e sem responsabilidades especiais. É como se houvesse uma vozinha dentro dele dizendo-lhe para não perder um minuto, nem um único, porque o tempo é curto.

       O que George Rathbun diz a seguir limpa a névoa do sono remanescente do cérebro de Tyler — é como um balde de água fria.

       — Diga aí, Coulee, quer falar sobre o Pescador?

       Tyler pára o que está fazendo, um friozinho esquisito subindo-lhe pela espinha e descendo-lhe pelos braços. O Pescador. Um doido matando crianças... e comendo-as? Bem, ele ouviu aquele boato, principalmente dos garotos maiores lá no campo de beisebol ou no Centro Recreativo de French Landing, mas quem faria uma coisa tão grosseira? Canibalismo, eca!

       A voz de George fala mais baixo.

       — Agora vou lhe contar um segredinho, então ouça bem o seu tio George. — Tyler senta na cama, segurando os tênis pelos cadarços e prestando atenção em seu tio George, como foi mandado. Parece estranho ouvir George Rathbun falando de um assunto tão... não esportivo, mas Tyler confia nele. George Rathbun não previu que os Bichos da Terra estariam pelo menos entre os oito melhores dois anos atrás, quando o resto das pessoas dizia que eles seriam eliminados na primeira rodada da Grande Dança? Sim, ele previu. Caso encerrado, fim de jogo, vamos nessa.

       George fala mais baixo ainda, como se estivesse fazendo uma confidência.

       — O Pescador original, meninos e meninas, Albert Fish, morreu há 67 anos, e até onde eu sei, ele nunca esteve mais para oeste do que Nova Jérsei. Além do mais, ele provavelmente era um TORCEDOR IANQUE! ENTÃO CALMA, CONDADO DE COULEE! CALMA!

       Tyler relaxa, sorrindo, e começa a calçar os tênis. Calma, você entendeu. O dia está começando, e sim, tudo bem, sua mãe anda meio lelé da cuca ultimamente, mas vai sair dessa.

       Vamos embora depois dessa nota otimista — fazer como uma ameba e nos dividir, como o temível George Rathbun poderia dizer. E, falando em George, aquela voz onipresente da manhã do Condado de Coulee, não deveríamos procurá-lo? Vamos fazer isso já.

 

 

Lá vamos nós pela janela de Tyler, saindo da Vila da Liberdade, voando para o sul em diagonal, agora sem remanchear, mas realmente batendo aquelas velhas asas, voando com um objetivo. Vamos rumo ao lampejo heliográfico do sol do início da manhã no Pai das Águas, e também rumo à maior embalagem de meia dúzia do mundo. Entre isso e a estrada municipal Oo (podemos chamá-la de Alameda Nailhouse se quisermos; já somos praticamente cidadãos honorários de French Landing) há uma torre de rádio, a luz de alerta no alto agora invisível na claridade forte das primeiras horas deste dia de julho. Sentimos cheiro de capim e árvores e terra se aquecendo, e à medida que nos aproximamos da torre também sentimos o aroma efervescente e fecundo de cerveja.

       Ao lado da torre de rádio, no parque industrial no lado leste da Península Drive, há um pequeno prédio de blocos de concreto com um estacionamento com capacidade para apenas meia dúzia de carros e a radiopatrulha de Coulee, um velha van Ford Econoline pintada de rosa-maçã-do-amor. À medida que o sol cai e vai anoitecendo, as sombras cilíndricas do cartucho de meia dúzia se projetam primeiro na placa no gramado careca em frente à rua de acesso, depois no prédio, depois no estacionamento. KDCU-AM, diz a placa, SUA VOZ NO CONDADO DE COULEE. Pichada na placa, num cor-de-rosa quase igual ao da radiopatrulha, há uma declaração apaixonada: TROY AMA MARYANN! SIM! Mais tarde, Howie Soule, o técnico da Equipe U, vai limpar isso (provavelmente durante o programa de Rush Limbaugh, que é alimentado por satélite e totalmente automatizado), mas, por ora, a pichação fica, dizendo-nos tudo o que precisamos saber sobre amor de cidade pequena no centro dos Estados Unidos. Parece que afinal encontramos algo agradável.

       Saindo pela porta lateral da estação ao chegarmos está um homem magro de calça de pregas cáqui, camisa de algodão egípcio sem gravata, toda abotoada, e tiras bordô-escuro (são esguias como ele, essas tiras, e muito maneiras para serem chamadas de suspensórios; suspensórios são coisas vulgares usadas por gente como Chipper Maxton e Sonny Heartfield, no salão funerário). Esse sujeito de cabelos prateados também está usando um chapéu de palha muito elegante, antigo mas conservadíssimo. A fita bordô-escuro combina com as tiras. Óculos de aviador cobrem seus olhos. Ele se posiciona na grama à esquerda da porta, embaixo de um alto-falante amassado que está amplificando a atual transmissão da KDCU: o noticiário local. Este noticiário será seguido pela reportagem agrícola de Chicago, o que lhe dá dez minutos antes de ter que voltar para trás do microfone.

       Com uma perplexidade crescente, nós o observamos tirar um maço de cigarros American Spirit do bolso da camisa e acender um com um isqueiro de ouro. Naturalmente este sujeito elegante de tiras, calças de pregas e sapatos Bass não pode ser George Rathbun. Em nossas cabeças, já fizemos um retrato de George, e é um retrato de um sujeito muito diferente deste. Imaginamos um cara com uma pança caindo por cima do cinto branco da calça xadrez (aqueles salsichões todos de estádios de beisebol), uma tez cor de tijolo (aquelas cervejas todas de estádios de beisebol, sem falar em toda aquela gritaria com os árbitros infames), e um pescoço atarracado e grosso (perfeito para abrigar aquelas cordas vocais de amianto). O George Rathbun de nossa imaginação — e de todo o Condado de Coulee, não é preciso dizer — tem olhos esbugalhados, bunda grande, cabelo desgrenhado, pulmões duros, é consumidor de pastilhas antiácidas, dirige um Chevy, vota no Partido Republicano, é candidato a um ataque do coração, é um poço de trivialidades sobre esporte, entusiasmos furiosos, preconceitos doidos e colesterol alto.

       Esse sujeito não é aquele. Esse sujeito anda como um dançarino. Esse sujeito é um refresco num dia de calor, calmo como o rei de espadas.

       Mas aí é que está a graça, não é? Hã-hã. A graça do DJ gordo de voz fina, só que às avessas. Num sentido muito real, George Rathbun absolutamente não existe. É um hobby em ação, uma ficção em carne e osso, e só uma das múltiplas personalidades do homem magro. As pessoas na KDCU sabem o verdadeiro nome dele e acham que estão por dentro da piada (cuja essência obviamente é a marca registrada de George, aquela coisa de só-um-cego), mas elas não sabem nem a metade. Isso tampouco é uma afirmação metafórica. Elas sabem exatamente um terço, porque o homem de calça de pregas e chapéu de palha, na verdade, é quatro pessoas.

       De qualquer maneira, George Rathbun foi a salvação da KDCU, a última estação AM sobrevivente num mercado predatório de FM. Cinco manhãs por semana, entra e sai semana, ele é um filão lucrativo na hora em que as pessoas estão dirigindo. A Equipe U (como eles mesmos se chamam) o ama de paixão.

       Acima dele, o alto-falante continua gritando:

       — ... ainda não há pistas, segundo o delegado Dale Gilbertson, que chamou o repórter do Herald, Wendell Green, de “um forasteiro que explora o medo e se interessa mais em vender jornal do que em como fazemos as coisas em French Landing”.

       — Enquanto isso, em Arden, um incêndio doméstico tirou a vida de um casal de fazendeiros idosos. Horst P. Lepplemier e sua mulher, Gertrude, ambos de 82 anos...

       — Horst P. Lepplemier — diz o homem magro dando uma tragada no cigarro com o que parece ser um grande prazer. — Tente dizer isso dez vezes depressa, sua besta.                        

       Atrás dele, à direita, a porta torna a abrir, e, embora continue bem embaixo do alto-falante, o fumante a ouve perfeitamente. Os olhos atrás dos óculos de aviador estiveram mortos a vida inteira, mas sua audição é refinada.

       O recém-chegado tem uma cara macilenta e vem piscando para o sol da manhã como um filhote de toupeira que acaba de ser desalojado de seu buraco pela lâmina de um arado de passagem. Sua cabeça foi raspada, exceto pela listra de mohawk no meio do crânio e o rabicho que começa bem acima da nuca e lhe cai até as escápulas. A crista mohawk foi pintada de vermelho vivo; o rabicho, de azul elétrico. Balançando numa orelha, há um brinco em forma de raio suspeitamente parecido com a insígnia da SS nazista. Ele está usando uma camiseta preta rasgada com o logo da turnê de 97 dos SNIVELLING SHITS. Numa das mãos, esta figura tem uma caixa de CD.

       — Oi, Morris — diz o homem magro de chapéu, ainda sem se virar.

       Morris deixa escapar um pequeno ruído de espanto, e, em sua surpresa, parece o bom garoto judeu que ele na verdade é. Morris Rosen é o estagiário de verão da Equipe U da filial de Oshkosh da UW. “Cara, eu adoro essa mão-de-obra desqualificada que trabalha de graça!”, já se ouviu o gerente da estação Tom Wiggins dizer, em geral esfregando as mãos perversamente. Nunca um talão de cheques foi tão bem guardado como o da KDCU é guardado pelo Wigger. Ele parece Smaug o Dragão recostando-se em suas pilhas de ouro (não que haja pilhas de qualquer coisa na contabilidade da ‘DCU; nunca é demais repetir que, como uma emissora AM, a estação tem sorte de estar viva).

       A cara de surpresa de Morris — talvez seja justo chamá-la de surpresa desagradável— se dissolve num sorriso.

       — Uau, Sr. Leyden! Essa foi boa! Que ouvido!

       Então ele franze o cenho. Mesmo se o Sr. Leyden — que está bem embaixo do alto-falante, não se pode esquecer isso — ouviu alguém sair, como em nome de Deus sabia quem era esse alguém?

       — Como sabia que era eu? — pergunta ele.

       — Só duas pessoas aqui recendem a maconha de manhã — diz Henry Leyden. — Uma delas disfarça o cheiro com Scope; a outra, que é você, Morris, simplesmente não faz nada.

       — Uau — diz Morris respeitosamente. — Isso é totalmente demais.

       — Eu sou totalmente demais — concorda Henry. Ele fala de mansinho e com delicadeza. — Este é um trabalho difícil, mas alguém tem que fazê-lo. Em relação ao seu encontro matinal com o inegavelmente saboroso bastão tai, posso lhe oferecer um aforismo apalachiano?

       — Vá em frente, cara.

       Esta é a primeira conversa real de Morris com Henry Leyden, que é exatamente a cabeça que haviam dito a Morris que esperasse. Exatamente e mais alguma coisa. Já não é tão difícil acreditar que ele poderia ter outra identidade... uma identidade secreta, como Bruce Wayne. Mas, mesmo assim... isso é muito maneiro.

       — O que fazemos na infância forma um hábito — diz Henry com a mesma voz suave, completamente diferente da de George Rathbun. — Este é meu conselho para você, Morris.

       — É, totalmente — diz Morris.         

       Ele não faz a menor idéia do que o Sr. Leyden está falando. Mas, lenta e timidamente, estende a caixa de CD em sua mão. Por um instante, quando Henry não faz nenhum movimento para pegá-la, Morris se sente esmagado, de repente de novo com sete anos e tentando agradar a seu pai ocupadíssimo com um desenho que ele passou a tarde inteira fazendo no quarto. Então pensa: Ele é cego, cacete. Pode conseguir farejar maconha na gente e pode ter ouvido de morcego, mas como pode saber que a gente está segurando a porra de um CD?

       Hesitantemente, meio assustado com a própria temeridade, Morris pega o pulso de Henry. Sente o homem se sobressaltar um pouco, mas aí Leyden permite que sua mão seja guiada até a pequena caixa.

       — Ah, um CD — diz Henry. — E o que é, diga, por favor?

       — Você tem que tocar a sétima faixa hoje à noite no seu programa — diz Morris. — Por favor.

       Pela primeira vez, Henry parece alarmado. Dá uma tragada no cigarro, depois larga-o (sem nem olhar — claro, ah-ah) no balde de areia ao lado da porta.

       — De que programa você pode estar falando? — pergunta.

       Em vez de responder diretamente, Morris faz um rápido barulho com a boca, o som de um carnívoro pequeno mas voraz comendo algo saboroso. E, para piorar as coisas, acompanha isso com a fala que é a marca registrada do Rato de Wisconsin, tão familiar para o pessoal da idade de Morris quanto o grito rouco de George Rathbun “Até um cego” para o pessoal mais velho: “Mastigue, coma, engula, tuuudo sai pelo mesmo lugar!.”

       Ele não imita muito bem, mas não há dúvida quanto a quem ele está imitando: o famoso Rato de Wisconsin, cujo programa vespertino na KWLA-FM tem fama no Condado de Coulee (só que provavelmente queremos dizer “má fama”). A KWLA é a pequena emissora FM universitária de La Riviere, mas a audiência do Rato é enorme.

       E se alguém descobriu que o careta George Rathbun, torcedor dos Brewers, eleitor dos republicanos e locutor de AM também era o Rato — que uma vez narrou uma alegre evacuação de seus intestinos ao vivo num CD dos Backstreet Boys —, pode haver problema. Bem sério, possivelmente, repercutindo muito além da unida comunidade do rádio.

       — O que em nome de Deus algum dia o faria pensar que sou o Rato de Wisconsin, Morris? — pergunta Henry. — Mal sei de quem você está falando. Quem botou essa idéia maluca na sua cabeça?

       — Uma fonte bem-informada — diz Morris maliciosamente.

       Ele não vai entregar Howie Soule, nem se eles lhe arrancarem as unhas com torquezes quentes. Além do mais, Howie só descobriu por acaso: um dia entrou no banheiro da emissora depois que Henry havia saído e descobriu que a carteira de Henry caíra do bolso de trás quando ele estava sentado no trono. Seria de imaginar que um sujeito cujos outros sentidos eram tão obviamente ligados sentiria a falta, mas provavelmente Henry estava com a cabeça em outras coisas — ele obviamente era um cara sério que sem dúvida passava os dias às voltas com alguns pensamentos sérios. De qualquer maneira, havia um cartão de identificação da KWLA na carteira de Henry (que Howie examinou “com espírito de curiosidade amigável”, como diz), e na linha marcada NOME, alguém carimbou o desenho de um rato. Caso encerrado, fim de jogo, vamos nessa.

       — Nunca na vida sequer entrei na KWLA — diz Henry, e isso é absolutamente verdade.

       Ele grava as fitas do Rato de Wisconsin (entre outras) no estúdio em sua casa, depois manda-as para a emissora da agência de caixas-postais do centro da cidade, onde tem uma alugada no nome de Joe Strummer. A natureza do cartão com o rato carimbado era mais a de um convite da equipe da KWLA do que qualquer outra coisa, um convite que ele nunca aceitou... mas guardou o cartão.

       — Você se tornou a fonte bem-informada de alguém, Morris?

       — Hã?

       — Contou a alguém que acha que sou o Rato de Wisconsin?

       — Não! Claro que não!

       O que, como todos sabemos, é o que as pessoas sempre dizem. Felizmente para Henry, neste caso, por acaso é verdade. Até agora, pelo menos, mas o dia ainda está começando.

       — Nem vai contar, não é? Porque boato é uma coisa que cria raízes. Assim como alguns maus hábitos. — Henry finge que solta baforadas e traga.

       — Sei como ficar de boca calada — declara Morris, talvez com um orgulho descabido.

       — Espero que sim. Porque, se você espalhar isso, vou ter que matá-lo.

       Espalhar, pensa Morris. Ih, cara, esse sujeito é demais.

       — Me matar, é? — diz Morris rindo.

       — E comê-lo — diz Henry. Ele não está rindo nem sorrindo.

       — E, está certo. — Morris ri de novo, mas desta vez a risada soa estranhamente forçada a seus próprios ouvidos. — Como se você fosse Hannibal Lecture.

       — Não, como se eu fosse o Pescador — diz Henry. Ele lentamente vira os óculos de aviador para Morris. O sol reflete neles, por um momento transformando-os em olhos ruivos de fogo. Morris dá um passo para trás sem se dar conta de tê-lo feito. — Albert Fish gostava de começar com a bunda, sabe disso?

       — N...

       — E, sim. Ele dizia que um bom naco de bunda jovem era gostoso como costeleta de vitela. Suas palavras exatas. Escritas numa carta para a mãe de uma de suas vítimas.                     

       — Estranhíssimo — diz Morris. Sua voz parece fraca a seus próprios ouvidos, a voz de um leitãozinho gordo negando entrada ao lobo mau. — Mas não estou exatamente preocupado que você seja o Pescador.

       — Não? Por quê?

       — Cara, você é cego, para início de conversa!

       Henry não diz nada, só olha para o agora nervosíssimo Morris com seus olhos de vidro em chamas. E Morris pensa: Mas ele é cego? Ele anda muito bem para um cara cego... e como ele soube que era eu assim que cheguei aqui, não foi estranhíssimo?

       — Vou ficar quieto — diz. — Juro por Deus.

       — É tudo o que eu quero — diz Henry com doçura. — Agora que esclarecemos isso, o que exatamente você me trouxe? — Ele segura o CD, mas não como se estivesse olhando para ele. Morris observa aliviadíssimo.

       — É, hum, esse conjunto de Racine. Dirtysperm? E eles têm essa capa de “Where Did Our Love Go” [Aonde foi o nosso amor]? A velha música das Supremes? Só que eles parecem que a tocam com 150 batidas por minuto. É hilário. Sério, isso destrói toda a música pop, cara, bombardeia-a.

       — Dirtysperm — diz Henry. — Eles não eram Jane Wyatt’s Clit?

       Morris olha para Henry com um assombro que poderia facilmente virar amor.

       — O guitarrista principal do Dirtysperm formou o JWC, cara. Depois ele e o baixista tiveram aquela briga política, algo sobre Dean Kissinger e Henry Acheson, e Ucky Ducky, ele é o guitarrista, e saiu da Dirtysperm.

       — “Where Did Our Love Go”? — reflete Henry, depois devolve o CD. E, como se visse como Morris ficara desapontado: — Não posso ser visto com uma coisa dessas, use a cabeça. Ponha-o no meu escaninho.

       O desapontamento de Morris desaparece e ele abre um sorriso solar.

       — Sim, certo! Esteja sossegado, Sr. Leyden!

       — E não deixe ninguém ver que você está fazendo isso. Sobretudo Howie Soule. Howie é meio xereta. É bom você não o ficar imitando por aí.

       — De jeito nenhum!

       Ainda sorrindo, encantado com o modo como as coisas correram, Morris estende a mão para o puxador da porta.

       — E, Morris...

       — Sim?

       — Já que você sabe o meu segredo, talvez seja melhor me chamar de Henry.

       — Henry! Sim!

       Esta é a melhor manhã do verão para Morris Rosen? E melhor acreditar que é.

       — E tem mais uma coisa.

       — Sim, Henry?

       Morris ousa imaginar um dia em que eles vão chegar a Hank e Morrie.

       — Fique de boca calada sobre o Rato.

       — Eu já lhe disse...

       — Sim, e acredito em você. Mas a tentação chega sorrateira, Morris; a tentação chega sorrateira como um ladrão durante a noite, ou como um matador em busca de uma presa. Se você ceder à tentação, eu vou saber. Vou farejá-la na sua pele como uma colônia ruim. Acredita em mim?

       — Hã... acredito.

       E acredita. Mais tarde, quando tiver tempo para relaxar e refletir, Morris vai achar aquela idéia ridícula, mas sim, na hora, acredita nela. Acredita nele. E como estar hipnotizado.

       — Muito bem. Agora vá embora. Quero a deixa para Ferragens Ace, Zaglat Chevy e Sr. Costeletas Saborosas entrarem todos no primeiro segmento.

       — Entendi.

       — E o jogo de ontem à noite...

       — Wickman eliminado no oitavo? Aquilo foi maneiro. Totalmente anti-Brewers.

       — Não, acho que queremos o home run de Mark Loretta no quinto. Loretta não acerta muitas, e os torcedores gostam dele. Não posso imaginar por quê. Até um cego pode ver que ele não tem alcance, especialmente da interbase para trás. Vá, filho. Ponha o CD no meu escaninho, e se vir o Rato, eu o entrego a ele. Tenho certeza que ele vai tocá-lo.

       — A faixa...

       — Sete, sete, rima com repete. Não vou esquecer, nem ele. Agora vá.

       Morris lhe lança um último olhar agradecido e entra. Harry Leyden, aliás George Rathbun, aliás o Rato de Wisconsin, também aliás Henry Shake (vamos chegar a este, mas não agora; está ficando tarde), acende outro cigarro e dá uma tragada funda. Não terá tempo de terminá-lo; o relatório agrícola já está no ar (barriga de porco em alta, trigo futuro em baixa e milho em alta mais forte que um elefante), mas ele precisa de algumas tragadas já para se acalmar. Tem um longo dia pela frente, terminando com o Baile da Festa do Morango na Casa Maxton para a Velhice, aquela casa de horrores de antiquário. Que Deus o livre das garras de William “Chipper” Maxton, ele pensa sempre. Se pudesse escolher entre terminar os dias na CMV e queimar a cara com um maçarico, ele escolheria o maçarico sempre. Depois, se não estiver totalmente exausto, talvez seu vizinho vá até sua casa e eles possam começar a leitura há muito prometida de A Casa Soturna. Será um prazer.

       Por quanto tempo, ele se pergunta, Morris Rosen pode guardar este segredo importantíssimo? Bem, Henry supõe que descobrirá isso. Ele gosta muito do Rato para denunciá-lo, a menos que seja obrigado a fazê-lo; isto é um fato inegável.

       — Dean Kissinger — ele murmura. — Henry Acheson. Ucky Ducky. Deus nos salve.

       Ele dá outra tragada no cigarro, depois o joga no balde de areia. Está na hora de entrar no ar, está na hora de repetir o home run de Mark Loretta da noite passada, de começar a atender mais ligações dos dedicados fãs de esporte do Condado de Coulee.

       E, para nós, está na hora de partir. Bateu sete horas no campanário da igreja luterana.

      

      

Em French Landing, as coisas estão entrando em marcha acelerada. Ninguém fica muito tempo deitado nesta parte do mundo, e precisamos correr no final da nossa volta. As coisas vão começar a acontecer logo, e talvez aconteçam depressa. Mesmo assim, estamos bem, e só temos que fazer mais uma escala antes de chegar ao nosso destino final.

       Subimos nas mornas correntes ascendentes de verão e pairamos um instante ao lado da torre da KDCU (estamos suficientemente perto para ouvir o tique-tique-tique da luz e o zumbido baixo, um tanto sinistro, da eletricidade), olhando para o norte e nos orientando. Treze quilômetros rio acima fica a cidade de Great Bluff, assim chamada por causa do afloramento de calcário que se ergue ali. O afloramento tem fama de ser assombrado, porque em 1888 um chefe da tribo fox (Olhos Afastados era o nome dele) reuniu seus guerreiros, seus xamãs, seus índios e suas crianças, e mandou-os saltar para a morte, fugindo assim de um destino horroroso que ele vislumbrara em sonho. Os seguidores de Olhos Afastados, como os de Jim Jones, fizeram o que lhes mandaram.

       Não subiremos tanto o rio, porém; já temos fantasmas suficientes com que lidar aqui mesmo em French Landing. Em vez disso, vamos sobrevoar a Alameda Nailhouse mais uma vez (as Harleys foram embora; Beezer St. Pierre conduziu os Thunder Five para o batente na cervejaria), a Rua Queen e a Casa Maxton para a Velhice (Burny está ali, ainda olhando pela janela... urgh), até a Rua Bluff. Isto é quase o campo de novo. Mesmo agora, no século XXI, as cidades no Condado de Coulee logo cedem terreno às matas e aos campos.

       A Rua Herman é a primeira à esquerda depois da Rua Bluff, numa área que não é nem cidade pequena nem cidade grande. Aqui, numa casa de tijolinhos sólida localizada no final de um prado de 800 metros ainda não descoberto pelos construtores (até aqui há alguns construtores, agentes inconscientes de resvalamento), mora Dale Gilbertson com sua mulher, Sarah, e seu filho de seis anos, David.

       Não podemos demorar muito, mas vamos pelo menos entrar um instante pela janela da cozinha. Está aberta, afinal de contas, e há espaço para nos empoleirarmos bem aqui na bancada, entre o forninho e a torradeira. Sentado à mesa da cozinha, lendo o jornal e enfiando cereal na boca sem sentir o gosto (ele esqueceu o açúcar e a banana em rodelas na aflição de ver mais uma assinatura de Wendell Green na primeira página do Herald) está o chefe Gilbertson em pessoa. Hoje de manhã ele é sem dúvida o homem mais infeliz de French Landing. Vamos conhecer seu único rival na disputa desse título idiota, mas por ora vamos ficar com Dale.

       O Pescador, pensa ele pesaroso, suas reflexões sobre esse assunto muito semelhantes às de Bobby Dulac e Tom Lund. Por que não lhe dá um nome um pouco mais da virada do século, seu escrevinhador chato? Algo um pouco mais local? Dahmerboy talvez fosse bom.

       Ah, mas Dale sabe por quê. As semelhanças entre Albert Fish, que agiu em Nova Iorque, e o garoto deles aqui em French Landing são simplesmente muito boas — muito saborosas — para serem ignoradas. Fish estrangulava as vítimas, assim como Amy St. Pierre e Johnny Irkenham aparentemente foram estrangulados; Fish jantava as vítimas, assim como a menina e o menino aparentemente foram jantados; tanto Fish como o sujeito atual mostraram uma predileção especial pelas... bem, pelas regiões posteriores da anatomia.

       Dale olha para o seu cereal, depois enfia a colher na gororoba e afasta o prato com o lado da mão.

       E as cartas. Não posso esquecer as cartas.

       Dale olha para sua maleta, postada ao lado de sua cadeira como um cão fiel. A pasta está ali, e o atrai como um dente cariado que dói atrai a língua. Talvez ele possa manter as mãos longe da pasta, pelo menos enquanto está em casa, onde joga bola com o filho e faz amor com a mulher, mas manter a cabeça longe... isso já é outra história, como eles também dizem nessas paragens.

       Albert Fish escreveu uma carta longa e horrivelmente explícita para a mãe de Grace Budd, a vítima que finalmente mandou o velho canibal para a cadeira elétrica. (“Que execução emocionante vai ser!”, parece que Fish dizia aos carcereiros. “A única que não provei!”) O atual perpetrador escreveu cartas semelhantes, uma endereçada a Helen Irkenham, outra ao pai de Amy, o terrível (mas genuinamente pesaroso, na avaliação de Dale) Armand “Beezer” St. Pierre. Seria bom se Dale pudesse acreditar que essas cartas foram escritas por algum engraçadinho sem outra conexão com os assassinatos, mas ambas contêm informações que não foram divulgadas à imprensa, informações que presumivelmente só o assassino poderia ter.

       Dale afinal cede à tentação (Henry entenderia tão bem...) e levanta a maleta. Abre-a e põe uma pasta grossa onde antes estava seu prato de cereal. Ele devolve a maleta para seu lugar ao lado da cadeira, depois abre a pasta (está marcada ST. PIERRE/IRKENHAM, e não PESCADOR). Passa fotos escolares desoladoras de duas crianças sorridentes e com a dentadura desfalcada, relatórios médicos horríveis demais para se ler e fotos do local do crime horríveis demais para se ver (ah, mas ele precisa olhá-las a toda hora, precisa olhá-las... as correntes ensanguentadas, as moscas, os olhos abertos). Há também várias transcrições, sendo a mais longa a entrevista com Spencer Hovdahl, que encontrou o menino Irkenham e que foi, muito brevemente, considerado suspeito.

       Depois vêm cópias de três cartas. Uma fora enviada a George e Helen Irkenham (endereçada só para Helen, se é que isso fazia alguma diferença). Outra para Armand “Beezer” St. Pierre (endereçada assim mesmo também, com apelido e tudo). A terceira fora enviada para a mãe de Grace Budd, da cidade de Nova Iorque, após o assassinato de sua filha no fim da primavera de 1928.

       Dale põe as três abertas lado a lado.

       Grace sentou no meu colo e me beijou. Decidi comê-la. Assim escrevera Fish à Sra. Budd.

       Amy sentou no meu colo e me abraçou. Decidi comê-la. Assim escrevera o correspondente de Beezer St. Pierre, e seria de espantar que este tivesse ameaçado tocar fogo na delegacia de French Landing? Dale não gosta do filho da mãe, mas precisa admitir que sentiria a mesma coisa se estivesse no lugar de Beezer.                            

       Subi e tirei a roupa toda. Eu sabia que se não fizesse isso elas ficariam manchadas com o sangue dela. Fish para a Sra. Budd.

       Fui para os fundos do galinheiro e tirei toda a roupa. Eu sabia que, se não fizesse isso, elas ficariam manchadas com o sangue dele. Anônimo, para Helen Irkenham. E havia uma pergunta: Como poderia uma mãe receber uma carta como esta e conservar a sanidade mental? Seria possível? Dale achava que não. Helen respondeu às perguntas coerentemente, até lhe oferecera um chá na última vez em que ele lá esteve, mas tinha um olhar vidrado, espantado, que sugeria que ela estava funcionando só no piloto automático.

       Três cartas, duas novas, uma de quase 25 anos. E, no entanto, todas as três são muito parecidas. A carta St. Pierre e a Irkenham foram escritas à mão por alguém que era canhoto, segundo os grafólogos oficiais. O papel era Hammermill branco de mimeógrafo, disponível em qualquer rede de papelarias dos Estados Unidos. A caneta provavelmente fora uma Bic — agora, havia uma pista.

       Fish para a Sra. Budd, em 1928: Eu não a fodi, embora pudesse ter feito isso se quisesse. Ela morreu virgem.

       Anônimo para Beezer St. Pierre: Eu NÃO a fodi, embora pudesse ter feito isso se quisesse. Ela morreu VIRGEM.

       Anônimo para Helen Irkenham: Isso pode consolá-la: eu NÃO o fodi, embora pudesse ter feito isso se quisesse. Ele morreu VIRGEM.

       Dale está desnorteado aqui e sabe disso, mas espera não ser completamente idiota. Esse perpetrador, embora não assinasse suas cartas com o nome do velho canibal, nitidamente desejava que se fizesse a associação. Fez tudo menos deixar algumas trutas mortas nos locais de despejo.

       Suspirando com amargura, Dale torna a guardar as cartas na pasta, a pasta dentro da maleta.

       — Dale? Amor? — A voz sonolenta de Sarah, do topo da escada.

       Dale tem um pequeno sobressalto culpado de quem quase foi flagrado fazendo alguma coisa feia e fecha a maleta.

       — Estou na cozinha — grita em resposta.

       Não é preciso ter receio de acordar Davey; ele dorme feito uma pedra no mínimo até as sete e meia da manhã todos os dias.

       — Saindo atrasado?

       — Hã-hã.

       Ele sempre sai atrasado, depois compensa trabalhando até as sete, oito ou nove da noite. Wendell Green não explorou muito isso... pelo menos até agora, mas dê-lhe tempo. Em termos de canibais...

       — Dê um pouco d’água para as flores antes de sair, sim? Está muito seco.

       — Pode deixar.

       Regar as flores de Sarah é uma tarefa que Dale aprecia. Ele elabora alguns de seus melhores raciocínios com a mangueira na mão.

       Pausa no andar de cima.,. mas ele não ouviu o arrastar dos chinelos de volta para o quarto. Espera. E finalmente:

       — Você está bem, amor?

       — Estou — ele responde, colocando o que ele espera seja o grau certo de entusiasmo na voz.

       — Porque você ainda estava se virando de um lado para o outro quando eu peguei no sono.

       — Não, eu estou bem.

       — Sabe o que Davey me perguntou ontem à noite quando eu estava lavando a cabeça dele?

       Dale revira os olhos. Ele odeia conversas a distância. Sarah parece adorar. Ele se levanta e se serve de outra xícara de café.

       — Não, o quê?

       — Ele perguntou: “Papai vai perder o emprego?”

       Dale pára com a xícara na mão a meio caminho dos lábios.

       — O que você disse a ele?

       — Eu disse que não. Claro.

       — Então você respondeu certo.

       Ele espera, mas não vem mais nada. Tendo instilado nele mais uma gota de preocupação venenosa — com a mente frágil do filho, bem como com o que pode acontecer com o menino na mão de uma certa pessoa, caso David tenha a pouca sorte de se meter com ela —, Sarah volta arrastando os pés para o quarto e, presumivelmente, para o chuveiro do outro lado.

       Dale volta para a mesa, toma o café, depois põe a mão na testa e fecha os olhos. Neste momento podemos ver precisamente quão assustado e angustiado ele está. Dale tem apenas 42 anos e é um homem de hábitos abstêmios, mas, na cruel claridade da manhã que chega pela janela pela qual entramos, ele aparenta, no momento, pelo menos uns doentios 60.

       Ele está preocupado com o emprego, sabe que se o sujeito que matou Amy e Johnny continuar fazendo isso, é quase certo que ele será demitido no próximo ano. Também está preocupado com Davey... embora Davey não seja sua principal preocupação, pois, como Fred Marshall, ele não consegue realmente conceber que o Pescador possa tirar o filho único dele e de Sarah. Não, é com as outras crianças de French Landing que ele está mais preocupado, possivelmente com as crianças de Centralia e Arden também.

       Seu maior medo é simplesmente não ser bom o bastante para pegar o filho da mãe. É o Pescador matar uma terceira, uma quarta, talvez uma décima primeira e uma décima segunda criança.

       Deus sabe que ele pediu ajuda. E recebeu... mais ou menos. Foram designados dois detetives da Polícia Estadual para o caso, e o cara de Madison do FBI vem toda hora se apresentar (informalmente, porém; o FBI não participa oficialmente da investigação). Mesmo essa ajuda externa tem algo de surreal para Dale, algo que em parte foi causado por uma estranha coincidência de nomes. O cara do FBI é o agente John P. Redding. Os detetives estaduais são Perry Brown e Jeffrey Black. Então ele tem Brown, Black e Redding em sua equipe. O Pelotão da Cor, assim os chama Sarah. Todos três deixando claro que são estritamente apoio profissional, pelo menos por ora. Deixando claro que Dale Gilbertson é a base.

       Nossa, mas eu gostaria que Jack fosse contratado para me ajudar nisso, pensa Dale. Eu o nomearia delegado num segundo, exatamente como num daqueles velhos filmes de faroeste piegas.

       Sim, de fato. Num segundo.

       Quando Jack foi pela primeira vez a French Landing, quase quatro anos atrás, Dale não sabia o que fazer com o homem que seus funcionários logo apelidaram de Hollywood. Quando eles dois prenderam Thornberg Kinderling — sim, o inofensivo Thornberg Kinderling, difícil de acreditar, mas é a pura verdade —, ele sabia exatamente o que fazer com ele. O cara era o melhor detetive nato que Dale já conhecera na vida.

       O único detetive nato, é o que você quer dizer.

       Sim, certo. O único. E embora eles tenham dividido o preso (por insistência absoluta do recém-chegado de L.A.), foi o trabalho de detetive de Jack que resolveu o problema. Ele era quase como aqueles detetives de livro... Hercule Poirot, Ellery Queen, um desses. Só que Jack não deduzia exatamente, nem andava por aí batendo na testa e falando sobre sua “massinha cinzenta”. Ele...

       — Ele escuta — resmunga Dale, e se levanta.

       Dirige-se para a porta dos fundos, depois volta para pegar a maleta. Vai botá-la no banco traseiro do carro antes de regar os canteiros de flores. Não quer aquelas fotos horrendas em sua casa mais tempo do que o estrito necessário.

       Ele escuta.

       Do jeito que escutou Janna Massengale, a barwoman do Taproom. Dale não sabia por que Jack estava gastando tanto tempo com aquela biscazinha; até ocorreu-lhe que o Sr. Los Angeles Calça de Linho estava tentando levá-la para a cama a fim de poder voltar para casa e dizer a todos os seus amigos da Via Rodeo que havia arranjado uma garota gostosa lá de Wisconsin, onde o ar era rarefeito e as pernas eram compridas e fortes. Mas não fora nada disso. Ele estivera escutando, e finalmente ela lhe dissera o que ele precisava ouvir.

       É claro, as pessoas têm tiques engraçados quando bebem, dissera Janna. Tem aquele cara que começa afazer isso depois de alguns copos. Ela apertou o nariz com as pontas dos dedos... só que com a mão virada ao contrário, de modo que a palma ficasse virada para fora.

       Jack, ainda sorrindo descontraidamente, ainda tomando uma club soda: Sempre com a palma da mão para fora? Assim?. E imitou o gesto.

       Janna sorrindo, meio apaixonada: Isso mesmo, boneco — você aprende rápido.

       Jack: As vezes, eu acho. Como é o nome desse cara, querida?

       Janna: Kinderling. Thornberg Kinderling. Ela deu uma risada. Só que depois de uns dois copos — depois que começa com essa coisa de tapar o nariz — ele quer que todo mundo o chame de Thorny.

       Jack, ainda com aquele seu sorriso: E ele bebe gim Bombay, querida? Uma pedra de gelo, um pingo de angustura?

       O sorriso de Janna começa a morrer, agora olhando para ele como se ele pudesse ser algum mágico: Como sabe disso?

       Mas como ele sabia não importava, porque isso era realmente o pacote todo, amarrado com um belo laço. Caso encerrado, fim de jogo, vamos nessa.

       Jack acabou voltando para Los Angeles levando Thornberg Kinderling sob custódia — Thornberg Kinderling, apenas um inofensivo vendedor de seguros para fazendas de Centralia que usava óculos, não matava uma mosca, não dizia merda, não ousaria pedir um copo d’água à sua mãe num dia quente, mas matara duas prostitutas da Cidade dos Anjos. Nada de estrangulamento para Thorny; ele fizera seu trabalho com uma faca Buck, que o próprio Dale acabou rastreando até a Lapham Materiais Esportivos, o pequeno e feio posto comercial ao lado do Sand Bar, o botequim mais mal-ajambrado de Centralia.

       A essa altura, o exame de DNA ligara Kinderling à porta do celeiro, mas Jack ficara feliz em ter a proveniência da arma do crime, de qualquer forma. Ele ligou pessoalmente para Dale para lhe agradecer, e Dale, que nunca na vida estivera a oeste de Denver, ficara quase absurdamente comovido com a gentileza. Jack dissera várias vezes ao longo da investigação que nunca se podia ter provas suficientes quando o criminoso era um verdadeiro bandido, e Thorny Kinderling era tão mau como se poderia querer. Ele enveredara pelo caminho da loucura, claro, e Dale — que no íntimo esperara talvez ser chamado para testemunhar — ficou radiante quando o júri rejeitou o apelo e condenou-o à prisão perpétua duas vezes.

       E o que fez isso tudo acontecer? Qual fora a primeira causa? Ora, o homem estava escutando. Só isso. Escutando uma barwoman acostumada a que olhassem os seus peitos enquanto suas palavras em geral entravam por um ouvido do homem que a olhava e saíam pelo outro. E quem Hollywood Jack ouviu antes de Janna Massengale? Uma piranha de Sunset Strip, ao que parece... ou, mais provavelmente, uma penca delas. (Que nome você daria a isso?, Dale se pergunta distraidamente enquanto vai para a garagem buscar sua fiel mangueira. Uma putaria? Uma putada?) Nenhuma delas poderia ter reconhecido Thornberg Kinderling numa fila de suspeitos, porque o Thornberg que foi a L.A. certamente não se parecia muito com o Thornberg que viajava para as companhias de suprimentos agrícolas no Coulee ou em Minnesota. O Thorny de L.A. usara peruca, lentes de contato em vez de óculos e um bigodinho falso.

       — O mais brilhante foi o produto para escurecer a pele — dissera Jack. — Só um pouco, o suficiente para fazê-lo parecer um nativo.

       — Teatro nos quatro anos da escola de ensino médio de French Landing — retrucara Dale com um ar infeliz. — Eu pesquisei. O filho da mãe fez Dom Juan no penúltimo ano, você acredita?

       Um monte de pequenas mudanças ardilosas (demais para um júri engolir uma declaração de insanidade, ao que pareceu), mas Thorny esquecera aquele sinalzinho revelador, aquela coisa de tapar o nariz com a palma da mão virada para fora. Uma prostituta lembrara, porém, e quando o mencionou — só de passagem, Dale não tem dúvida, como Janna Massengale mencionou —, Jack escutou.

       Porque escutava.

       Ligou para me agradecer por ter rastreado a faca, e de novo para me contar como o júri respondeu, Dale pensa, mas daquela segunda vez ele queria algo, também. E eu sabia o que era. Mesmo antes de ele abrir a boca, eu sabia.

       Porque, embora não seja um detetive genial como seu amigo da Califórnia, Dale não deixara escapar a reação inesperada e imediata do homem mais jovem à paisagem do oeste de Wisconsin. Jack se apaixonara pelo Condado de Coulee, e Dale apostaria um bom dinheiro que fora amor à primeira vista. A expressão em seu rosto quando eles foram de French Landing para Centralia, de Centralia para Arden e de Arden para Monroe era inconfundível: admiração, prazer, quase uma espécie de enlevo. A Dale, Jack parecera um homem que fora a um lugar onde nunca estivera antes, só para descobrir que estava de novo em casa.

       — Cara, não consigo superar isso — uma vez ele dissera a Dale. Os dois iam no velho Caprice de Dale, o que não ficava alinhado (e cuja buzina às vezes prendia, o que podia ser embaraçoso). — Você percebe a sorte que tem por morar aqui, Dale? Deve ser um dos lugares mais bonitos do mundo.

       Dale, que morara no Coulee a vida inteira, não discordara.

       No fim da última conversa que tiveram a respeito de Thornberg Kinderling, Jack lembrou Dale de como ele uma vez pedira (nem brincando, nem muito a sério) para Dale informá-lo se algum dia aparecesse no mercado uma casinha simpática na parte do mundo onde Dale morava, algo fora da cidade. E Dale logo vira pela voz de Jack — seu tom quase ansioso — que a brincadeira havia acabado.

       — Então você está me devendo — murmura Dale, com a mangueira no ombro. — Está me devendo, seu filho da mãe.

       Claro que ele pedira a Jack para dar uma mãozinha por fora na investigação do Pescador, mas Jack recusara... quase com uma espécie de medo. Estou aposentado, dissera bruscamente. Se não sabe o que significa essa palavra, Dale, podemos procurar juntos no dicionário.

       Mas é ridículo, não? Claro que é. Como pode um homem de menos de 35 anos estar aposentado? Especialmente um tão infernalmente bom no que faz?

       — Você está me devendo, garoto — repete ele, agora passando pelo lado da casa em direção à bica.

       O céu no alto está limpo; o gramado bem regado está verde; não há nenhum sinal de resvalamento aqui na Rua Herman. No entanto, talvez haja, e talvez o sintamos. Uma espécie de zumbido dissonante, como o som de toda aquela voltagem letal correndo pelos esteios de aço da torre da KDCU.

       Mas já nos demoramos muito aqui. Precisamos alçar vôo de novo e continuar em direção ao nosso destino final deste início de manhã. Não sabemos tudo ainda, mas sabemos três coisas importantes: primeiro, que French Landing é uma cidade em terrível aflição; segundo, que algumas pessoas (Judy Marshall, para começar; Charles Burnside, a seguir) entendem num nível profundo que os males da cidade vão muito além das depredações de um único assassino-pedófilo doente; terceiro, que não encontramos ninguém capaz de reconhecer conscientemente a força — o resvalamento — que agora começou a ter ligação com essa cidade sossegada às margens do rio de Tom e Huck. Cada pessoa que conhecemos é, à sua própria maneira, tão cega quanto Henry Leyden. Isto é tão verdadeiro a respeito dos sujeitos que ainda não vimos — Beezer St. Pierre, Wendell Green, o Pelotão da Cor — quanto dos que já vimos.

       Nossos corações gemem por um herói. E embora possa ser que não encontremos um (este é o século XXI, afinal de contas, não a época de d’Artagnan e Jack Aubrey, mas de George W. Bush e Dirtysperm), talvez possamos encontrar um homem que foi um herói num tempo qualquer. Vamos portanto procurar um velho amigo, um que vimos pela última vez mais de 1.600 quilômetros a leste daqui, na costa do calmo Atlântico. Anos se passaram e de alguma forma diminuíram o menino que foi; ele esqueceu muita coisa e passou boa parte da vida adulta mantendo este estado de amnésia. Mas ele é a única esperança de French Landing, portanto, vamos levantar vôo e voltar quase diretamente para o leste, sobrevoando bosques, campos e colinas suaves.

       Principalmente, vemos quilômetros de terras cultivadas contínuas: milharais a perder de vista, campos de feno luxuriantes, carreiras gordas e amarelas de alfafa cortada. Estradinhas de terra estreitas levam a casas de fazenda brancas e seus conjuntos de celeiros altos, silos de grãos, silos cilíndricos de blocos de cimento e compridos galpões metálicos para equipamentos. Homens de jaquetas de brim estão se movimentando pelos caminhos batidos entre as casas e os celeiros. Já podemos sentir o cheiro da luz do sol. Seu aroma ricamente compactado de manteiga, fermento, terra, crescimento e deterioração vai se intensificar à medida que o sol subir e a luz ficar mais forte.

       Embaixo de nós, a Rodovia 93 cruza a 35 no meio da minúscula Centralia. O estacionamento vazio atrás do Sand Bar espera a turbulenta chegada dos Thunder Five, que costumam passar as tardes e as noites de sábado no bar desfrutando suas mesas de bilhar, seus hambúrgueres e as canecas daquele néctar para cuja criação eles dedicaram suas vidas excêntricas, o melhor produto da Companhia Cervejaria Kingsland, uma cerveja que pode manter sua cabeça cor de creme erguida no meio de qualquer coisa fabricada numa minicervejaria de especialidades ou num mosteiro belga, a Kingsland. Se Beezer St. Pierre, o Rato e companhia dizem que é a melhor cerveja do mundo, por que deveríamos duvidar deles? Além de saberem muito mais sobre cerveja que nós, eles apelaram para todo o conhecimento, a habilidade, a experiência e a inspiração que vêm da prática à sua disposição, para tornar a Kingsland uma referência na arte de fazer cerveja. Na verdade, eles se mudaram para French Landing porque a cervejaria, que eles escolheram após cuidadosa elaboração, estava querendo trabalhar com eles.

       Invocar a cerveja Kingsland é desejar uma boa talagada da coisa, mas deixamos a tentação para trás; 7h30 é muito cedo para beber qualquer coisa além de suco de fruta, café e leite (exceto para gente da espécie de Wanda Kinderling, e Wanda considera cerveja, mesmo a Kingsland, um suplemento dietético para a vodca Aristocrat); e estamos à procura de nosso velho amigo, e o mais próximo a que podemos chegar de um herói, que vimos pela última vez como um garoto na costa do oceano Atlântico. Não estamos para perder tempo; estamos seguindo, aqui e agora. Os quilômetros voam embaixo de nós, e ao longo da Rodovia 93 os campos se estreitam e as colinas se elevam dos dois lados.

       Apesar de toda a nossa pressa, precisamos ver isso, precisamos ver onde estamos.

 

 

Três anos atrás, nosso velho amigo fez este trecho da 93 no banco do carona do velho Caprice de Dale Gilbertson, o coração aos pulos, um nó na garganta e a boca seca, enquanto Dale, então pouco mais que um tira de cidade pequena que ele impressionara além de qualquer medida racional simplesmente fazendo seu trabalho mais ou menos tio bem quanto podia, levava-o em direção a uma fazenda de dois hectares que Dale herdara do pai. “A casinha simpática” pôde ser comprada por uma ninharia, já que nem os primos de Dale nem qualquer outra pessoa estavam muito interessados nela. Dale conservava-a por motivos sentimentais, mas também não tinha nenhum interesse especial por ela. Ele não sabia bem o que fazer com uma segunda casa, a não ser passar muito tempo trabalhando em sua manutenção, tarefa que ele achava estranhamente agradável, mas não se importava nada em delegar a outra pessoa. E, nesse ponto do relacionamento deles, Dale estava tão fascinado com o nosso amigo que, longe de se ofender com a perspectiva de este homem ocupar a velha casa de seu pai, considerou-a uma honra.

       Quanto ao homem no banco do carona, ele estava muito envolvido com sua reação à paisagem — muito envolvido pela paisagem — para se embaraçar com o fascínio de Dale. Em circunstâncias normais, nosso amigo levaria seu admirador para um bar sossegado, pagaria uma cerveja para ele e diria: “Olhe, sei que você está impressionado cora o que eu fiz, mas afinal de contas, Dale, sou apenas um policial, como você. Só isso. E, honestamente, tenho muito mais sorte do que mereço.” (O que seria verdade, também: desde a última vez que o vimos, nosso amigo foi abençoado, se é que isto é uma bênção, com uma sorte tão incrível que já não ousa jogar cartas nem apostar em eventos esportivos. Quando se ganha quase sempre, ganhar tem gosto de suco de uva estragado.) Mas estas não eram circunstâncias normais, e no enxame de emoções que andaram ameaçando causar sua ruína, desde que eles deixaram Centralia na reta da Rodovia 93, a adulação de Dale mal foi registrada. Esta viagem curta para um lugar que ele não conhecia parecia uma volta ao lar há muito adiada: tudo que ele via parecia impregnado de significado e recordações, uma parte dele, essencial. Tudo parecia sagrado. Ele sabia que ia comprar a casinha simpática, não importava o aspecto que tivesse nem quanto custasse, não que o preço pudesse atrapalhar de alguma forma. Ele ia comprá-la, e pronto. O culto ao herói de Dale só o afetava à medida que ele se dava conta de que seria obrigado a impedir que o admirador lhe cobrasse menos. Enquanto isso, lutava com as lágrimas que queriam lhe encher os olhos.

       Do alto, vemos os vales glaciais dividindo a paisagem à direita da 93 como as impressões digitais de um gigante. Ele viu apenas as estradas estreitas que saíam de repente da rodovia e resvalavam para um misto de claridade e escuridão. Cada estrada dizia: Quase lá. A rodovia dizia: Este é o caminho. Olhando para baixo, podemos observar uma área de estacionamento à beira da estrada, duas bombas de gasolina e um longo telhado cinza com a inscrição ROY’S STORE desbotada; quando olhou para a direita e viu, depois das bombas de gasolina, os degraus de madeira subindo para um amplo e convidativo alpendre e para a entrada da loja, ele teve a sensação de já ter subido aqueles degraus 100 vezes antes e entrado para pegar pão, leite, cerveja, frios, luvas de trabalho, uma chave de fenda, um saco de pregos, o que quer que ele precisasse da cornucópia de utilidades que abarrotava as prateleiras, como ele faria, depois daquele dia, mais de 100 vezes.

       Quarenta e cinco metros adiante na rodovia, a lâmina cinza-azulado do riacho Tamarack entra serpeando no Vale Noruega. Quando o carro de Dale atravessou uma pequena ponte de ferro enferrujada, a ponte disse É aqui!, e o homem vestido informalmente com roupas caras no banco do carona, dando a impressão de que, em matéria de terras de fazenda, só sabia o que aprendera olhando das janelas da primeira classe nos vôos transcontinentais, e, de fato, era incapaz de diferenciar trigo de feno, sentiu o coração estremecer. Do outro lado da ponte, uma placa dizia ESTRADA DO VALE NORUEGA.

       — É aqui — disse Dale, e virou à direita para entrar no vale.

       Nosso amigo tapou a boca com a mão, prendendo quaisquer sons que seu coração trêmulo pudesse fazê-lo emitir.

       Aqui e ali, à beira da estrada, flores silvestres balançavam a cabeça, algumas delas ousadas e vivas, outras meio escondidas num manto de verde vibrante.

       — Dirigir nesta estrada sempre me deixa bem-disposto — Dale disse.

       — Não é de admirar — conseguiu retrucar o nosso amigo.

       A maior parte do que Dale dizia não penetrava no turbilhão de emoções rugindo na cabeça e no corpo de seu carona. Esta é a velha fazenda Lund — primos da minha mãe. A escola de uma única sala onde minha bisavó lecionava era bem ali, só que a demoliram faz tempo. Aqui é a casa de Duane Updahl, ele não é meu parente, graças a Deus. Zumbido borrão resmungo. Borrão resmungo zumbido. Eles tornaram a atravessar o riacho Tamarack, suas águas cintilantes cinza-azulado rindo e gritando: Estamos aqui!’Depois de uma curva, o carro foi recebido por uma profusão de flores silvestres luxuriantes na beira da estrada. Em meio a elas, as caras cegas e atentas dos lírios-tigrinos inclinavam-se para encontrar o rosto de nosso amigo. Uma ondulação de sentimento separada do turbilhão, mais silenciosa mas não menos potente, trouxe-lhe aos olhos lágrimas de deslumbramento.

       Lírios-tigrinos, por quê? Lírios-tigrinos não queriam dizer nada para ele. Ele usou um bocejo como pretexto para enxugar os olhos, esperando que Dale não tivesse notado.

       — Chegamos — disse Dale, tendo ou não notado, e deu uma guinada entrando numa estradinha longa e invadida pelo mato, ladeada de flores silvestres e capim alto, que parecia não levar a lugar algum senão a um extenso prado e moitas de flores que batiam na cintura. Do outro lado do prado, campos listrados subiam até o arvoredo da encosta. — Você já vai ver a velha casa do meu pai. O prado pertence à casa, e meus primos Randy e Kent são donos do campo.

       Nosso amigo não viu a sede branca de dois andares que se erguia no fim da última curva da estradinha até Dale Gilbertson estar no meio da curva, e não falou até Dale estacionar o carro na frente da casa, desligar o motor e os dois saltarem. Ali estava a “casinha simpática”, sólida, recém-pintada, mantida com amor, modesta mas de belas proporções, afastada da estrada, afastada do mundo, em frente a um prado verde e amarelo com uma profusão de flores.

       — Meu Deus, Dale — disse ele. — É a perfeição.

       Aqui encontraremos nosso antigo companheiro de viagem, que na infância conheceu um garoto chamado Richard Sloat, e uma vez, muito rapidamente, conheceu mais outro cujo nome era, simplesmente, Lobo. Nesta bela sede branca, sólida e afastada, vamos encontrar nosso velho amigo que na infância atravessou o país de oceano a oceano em busca de uma certa coisa crucial, um objeto necessário, um grande talismã, e que, apesar de obstáculos medonhos e perigos assustadores, conseguiu encontrar o que estava procurando e usou-o bem e com sabedoria. Que, poderíamos dizer, realizou uma série de milagres, heroicamente. E que não se lembra de nada disso. Aqui, preparando o seu café da manhã em sua cozinha, ouvindo George Rathbun na KDCU, afinal encontramos o antigo tenente da polícia do Condado de Los Angeles, Divisão de Homicídios, Jack Sawyer.

      

      

Nosso Jack, Jacky, como sua mãe, a falecida Lily Cavanaugh Sawyer, costumava chamar.

      

      

Ele seguira Dale pela casa vazia, subindo ao primeiro andar e descendo até o porão, admirando conscienciosamente a nova caldeira que Gilbertson instalara um ano antes da morte do pai, a qualidade dos reparos que fizera desde então, o brilho dos assoalhos de madeira, a espessura do isolamento do sótão, a solidez das janelas, e muitos toques artísticos que lhe chamaram a atenção.

       — É, fiz muitas obras na casa — Dale lhe disse. — Ela já estava bem em ordem, mas gosto de trabalhar com as mãos. Com o tempo, isso virou uma espécie de hobby. Sempre que eu não tinha nada para fazer, nos fins de semana e feriados, peguei o hábito de vir para cá e trabalhar para me distrair. Não sei, talvez isso tenha ajudado a me sentir como se continuasse em contato com meu pai. Era um Ótimo sujeito, o meu pai. Queria que eu fosse fazendeiro, mas quando eu disse que estava pensando em entrar para a polícia, ele me deu todo o apoio. Sabe o que ele disse? “Quem vai se tornar fazendeiro sem entusiasmo terá um castigo de sol a sol. Acabará se sentindo igual a uma mula. Sua mãe e eu não o trouxemos ao mundo para transformá-lo em mula.”

       — O que ela achou? — perguntou Jack.

       — Minha mãe vem de uma longa linhagem de fazendeiros — dissera Dale. — Ela achava que eu podia descobrir que ser mula não era assim tão ruim. Quando morreu, quatro anos antes do meu pai, ela já estava acostumada com o fato de eu ser tira. Vamos sair pela porta da cozinha e dar uma olhada no prado, está bem?

       Enquanto estavam lá fora dando a olhada, Jack perguntara a Dale quanto ele queria pela casa. Dale, que estivera esperando essa pergunta, tirou cinco mil do máximo que ele e Sarah julgavam poder obter. Quem ele estava enganando? Dale queria que Jack Sawyer comprasse a casa onde ele crescera — queria que Jack morasse perto dele pelo menos algumas semanas por ano. E se Jack não comprasse a casa, ninguém mais compraria.

       — Está falando sério? — perguntara Jack.

       Mais consternado do que gostaria de admitir, Dale respondera:

       — Me parece um preço justo.

       — Não é justo para você — dissera Jack. — Não vou deixar você dar essa casa só porque gosta de mim. Aumente o preço, ou estou fora.

       — Vocês, magnatas da cidade grande, sabem negociar direitinho. Está certo, acrescente mais três mil.

       — Cinco — disse Jack. — Senão estou fora.

       — Fechado. Mas você está me deixando triste.

       — Espero que seja a última vez que compro um imóvel de vocês, noruegueses mesquinhos — disse Jack.

       Ele comprara a casa a distância, enviando um sinal de L.A., trocando assinaturas por fax, sem hipoteca, pagando à vista. Qualquer que tenha sido a origem de Jack Sawyer, Dale pensara, era muito mais próspera que a de um policial comum. Algumas semanas depois, Jack reaparecera no meio de um tornado autocriado, providenciando para que o telefone fosse ligado e a conta da energia elétrica fosse transferida para o seu nome, levando o que parecia ser metade do conteúdo da Roy’s Store, correndo até Arden e La Riviere para comprar uma cama nova, roupa de cama, artigos de mesa, panelas de ferro fundido e um conjunto de facas francesas, um microondas compacto e uma televisão gigante, e um equipamento de som tão lustroso, preto e resplandecente, que Dale, que fora convidado para tomar um drinque amistoso, calculou que devia ter custado mais que seu salário anual. Muito mais, aliás, Jack trouxe para casa, consistindo uma parte deste muito mais em artigos que Dale nunca pensou pudessem ser obtidos no Condado Francês, Wisconsin. Por que alguém precisaria de um saca-rolha de 65 dólares chamado WimeMaster? Quem era esse cara, que tipo de família o produzira?

       Ele notou uma sacola com um logotipo desconhecido cheia de CDs — de 15, 16 dólares cada; estava olhando para algumas centenas de dólares em CDs. Fosse lá mais o que pudesse ser verdade a respeito de Jack Sawyer, ele era muito ligado em música. Curioso, Dale abaixou-se, pegou um punhado de caixas de CDs e viu imagens de pessoas, em geral negras, em geral com instrumentos encostados em suas bocas ou dentro delas. Clifford Brown, Lester Young, Tommy Flanagan, Paul Desmond.

       — Eu nunca ouvi falar desses caras — disse. — O que é isso, jazz, eu acho?

       — Achou certo — disse Jack. — Posso lhe pedir para me ajudar a arrastar móveis e pendurar quadros, esse tipo de coisa, daqui a um mês ou dois? Vou despachar uma tralha danada para cá.

       — Quando quiser. — Dale teve uma idéia maravilhosa. — Ei, você tem que conhecer meu tio Henry! Ele é inclusive seu vizinho, mora uns 400 metros adiante. Era casado com minha tia Rhoda, irmã de meu pai, que morreu há três anos. Henry parece uma enciclopédia de música estranha.

       Jack não partia do pressuposto de que jazz era estranho. Talvez fosse. De qualquer forma, provavelmente parecia estranho para Dale.

       — Eu não imaginaria que fazendeiros tivessem muito tempo para ouvir música.

       Dale abriu a boca e soltou uma gargalhada.

       — Henry não é fazendeiro. Henry... — Rindo, Dale ergueu as mãos, abertas com as palmas para cima, e olhou para longe, procurando a expressão correta. — Ele é o oposto de um fazendeiro. Quando você voltar, vou apresentá-lo a ele. Você vai achá-lo o máximo.

       Seis semanas depois, Jack voltou para receber o caminhão da mudança e dizer aos homens onde colocar os móveis e as outras coisas que ele despachara; alguns dias depois, quando já desembalara metade das caixas, telefonou para Dale perguntando se ele ainda estava disposto a lhe dar uma mão. Eram 5h de um dia tão devagar que Tom Lund adormecera na mesa, e Dale foi para lá sem sequer se dar ao trabalho de tirar o uniforme.

       Sua primeira reação, depois que Jack lhe apertara a mão e o mandara entrar, foi de choque total. Tendo dado um único passo para além da porta, Dale ficou paralisado, incapaz de prosseguir. Passaram-se dois ou três segundos antes que ele se desse conta de que era um choque bom, um choque prazeroso. Sua velha casa fora transformada: era como se Jack Sawyer lhe tivesse pregado uma peça e aberto a conhecida porta da entrada para o interior de uma casa completamente diferente. O trecho da sala até a cozinha não tinha nada a ver nem com o espaço de que ele se lembrava da infância nem com a progressão limpa e vazia do passado recente. Jack decorara a casa com o movimento de uma varinha de condão, pareceu a Dale, transformando-a com isso em algo que ele mal conhecia — uma mansão da Riviera, um. apartamento da Park Avenue. (Dale nunca fora a Nova Iorque nem ao Sul da França.) Depois notou que, em vez de transformar a velha casa em algo que ela não era, Jack simplesmente vira mais nela do que Dale jamais havia visto. Os sofás e as poltronas de couro, os tapetes vistosos, as amplas mesas e as luminárias discretas vieram de outro mundo, mas se encaixaram à perfeição, como se tivessem sido feitos especialmente para aquela casa. Tudo que ele via o convidava, e ele percebeu que podia se mexer de novo.

       — Uau — disse. — Vendi essa casa para o cara certo.

       — Estou feliz que esteja gostando — disse Jack. — Tenho que admitir que também estou. Ficou até melhor do que eu esperava.

       — O que devo fazer? Já está tudo organizado.

       — Vamos pendurar alguns retratos — disse Jack. — Depois vai ficar tudo organizado.

       Dale supôs que Jack estivesse falando de fotografias de família. Não entendia por que alguém precisaria de ajuda para pendurar algumas fotografias emolduradas, mas se Jack queria sua assistência, ele a daria. Além disso, os retratos lhe diriam muita coisa sobre a família de Jack, ainda um tema de grande interesse para ele. No entanto, quando Jack o levou até um monte de engradados chatos encostados na bancada da cozinha, Dale mais uma vez teve a sensação de que estava desorientado ali, de que entrara num mundo desconhecido. Os engradados eram feitos à mão; eram objetos sérios feitos para fornecer proteção industrial. Alguns deles tinham l,50m ou l,80m de altura, e mais ou menos a mesma largura. Esses monstros não continham retratos de Mamãe e Papai. Ele e Jack tiveram que abrir os cantos e soltar os pregos nas bordas antes de poderem abrir as embalagens. Dava um bocado de trabalho soltar a tábua de cima dos engradados. Dale lamentou não ter parado em casa tempo suficiente para tirar o uniforme, que estava molhado de suor quando ele e Jack tiraram de seus casulos cinco pesados objetos retangulares enrolados em grossas camadas de papel. Ainda havia muitos engradados.

       Uma hora depois, eles levaram as embalagens vazias para o porão e subiram para tomar uma cerveja. Depois, cortaram as camadas de papel, expondo quadros e gravuras numa variedade de molduras, inclusive algumas que pareciam ter sido feitas pelo próprio artista, com tábuas de celeiro. Os quadros de Jack ocupavam uma categoria em que Dale pensava vagamente como “arte moderna”. Ele não entendia sobre o que deviam ser algumas daquelas coisas, embora realmente gostasse de quase todas, especialmente de algumas paisagens. Sabia que nunca ouvira falar nos artistas, mas seus nomes, achava ele, seriam reconhecidos pelo tipo de gente que morava em cidades grandes e frequentava museus e galerias. Toda essa arte — todas essas imagens grandes e pequenas agora alinhadas no chão da cozinha — o deixava aturdido, não de uma forma completamente agradável. Ele realmente entrara num outro mundo, e não conhecia nenhum de seus pontos de referência. Então lembrou-se que ele e Jack Sawyer iam pendurar esses quadros nas paredes da velha casa de seus pais. Um entusiasmo imediato fluiu para esta idéia e encheu-a até a borda. Por que mundos contíguos não deveriam se misturar de vez em quando? E este outro mundo não era o de Jack?

       — Certo — disse ele. — Eu gostaria que Henry, aquele tio de quem lhe falei, que mora ali embaixo, eu gostaria que ele pudesse ver essas coisas. Henry saberia como apreciá-las.

       — Por que ele não poderia vê-las? Vou convidá-lo para vir aqui em casa.

       — Eu não lhe disse? — perguntou Dale. — Henry é cego.

       Quadros foram colocados nas paredes da sala, subiram a escada, entraram nos quartos. Jack pendurou alguns pequenos no banheiro de cima e no pequeno lavabo do térreo. Dale começou a ficar com dor nos braços de segurar as molduras enquanto Jack marcava os pontos em que os pregos entrariam. Após os três primeiros quadros, ele tirara a gravata e arregaçara as mangas, sentindo o suor pingando do cabelo e escorrendo pelo rosto. Seu colarinho desabotoado estava empapado. Jack Sawyer trabalhara tanto ou mais que ele, mas era como se não tivesse feito um esforço maior do que pensar no jantar.

       — Você é uma espécie de colecionador de arte, hein? — perguntara Dale. — Levou muito tempo para conseguir todos esses quadros?

       — Não sei o suficiente para ser um colecionador — disse Jack. — Meu pai comprou a maioria dessas obras nos anos 50 e 60. Minha mãe também comprava alguma coisa, quando via algo que a interessava. Como aquele pequeno Fairfield Porter ali, com o alpendre e um gramado e as flores.

       O pequeno Fairfield Porter, nome que Dale presumiu ser de seu pintor, atraíra-o desde o momento em que ele e Jack o tiraram da embalagem. Você podia pendurar um quadro como aquele em sua sala. Quase podia pisar num quadro como aquele. O engraçado era, pensou Dale, que se você o pendurasse na sala, a maioria das pessoas que entrasse ali não o notaria nunca.

       Jack dissera algo quanto a estar feliz em tirar os quadros do depósito.

       — Então — disse Dale —, sua mãe e seu pai lhe deram esses quadros?

       — Eu os herdei depois da morte de minha mãe — disse Jack. — Meu pai morreu quando eu era pequeno.

       — Ah, sinto muito — disse Dale, arrancado abruptamente do mundo no qual o Sr. Fairfield Porter o acolhera. — Deve ter sido duro para você, perder seu pai tão cedo.

       Ele achou que Jack lhe dera a explicação para a aura de reserva e isolamento que sempre parecia envolvê-lo. Um segundo antes que Jack pudesse responder, Dale disse a si mesmo que aquilo era besteira. Não tinha idéia de como alguém acabava virando um Jack Sawyer.

       — É — disse Jack. — Felizmente, minha mãe era mais dura ainda.

       Dale pegou essa deixa com as duas mãos.

       — O que seus pais faziam? Você foi criado na Califórnia?

       — Nascido e criado em Los Angeles — disse Jack. — Meus pais trabalhavam na indústria do entretenimento, mas não vá fazer mau juízo deles por causa disso. Eles eram ótimas pessoas.

       Jack não o convidou para ficar para jantar — foi nisso que Dale reparou. Durante a hora e meia que levaram para pendurar o resto dos quadros, Jack Sawyer permaneceu simpático e bem-humorado, mas Dale, que não era policial à toa, sentiu algo evasivo e forçado na afabilidade do amigo: uma porta abrira uma frestinha, depois batera. A expressão “ótimas pessoas” fizera dos pais de Jack um assunto proibido. Quando os dois pararam para outra cerveja, Dale notou um par de sacolas de um armazém de Centralia perto do microondas. Eram quase 20h, pelo menos duas horas depois da hora do jantar naquele condado. Jack poderia razoavelmente ter presumido que Dale já jantara, se seu uniforme não fosse uma prova em contrário.

       Ele perguntou a Jack sobre o caso mais difícil que ele já resolvera e foi chegando para perto da bancada. As extremidades vermelhas marmorizadas de dois bifes de picanha despontavam da sacola mais próxima. Seu estômago emitiu um clamor reverberante. Jack ignorou o ronco e disse:

       — Thornberg Kinderling era do nível de todos os casos em que eu trabalhei em L.A. Fiquei gratíssimo por sua ajuda.

       Dale entendeu. Aqui estava mais uma porta fechada. Esta não se permitira abrir por uma fresta sequer. Não se falava de história aqui; o passado fora lacrado.

       Eles terminaram as cervejas e penduraram o último quadro. Nas últimas horas, falaram de centenas de coisas, mas sempre dentro dos limites que Jack Sawyer estabelecera. Dale tinha certeza que sua pergunta sobre os pais de Jack encurtara a noite, mas por que isso deveria ser verdade? O que o cara estava escondendo? E de quem estava escondendo? Terminado o trabalho, Jack agradeceu-lhe calorosamente e acompanhou-o até o carro, cortando com isso qualquer esperança de uma prorrogação de última hora. Caso encerrado, fim de jogo, vamos nessa, nas palavras do imortal George Rathbun. Enquanto estavam na escuridão fragrante embaixo de milhões de estrelas dispostas no alto, Jack suspirou com prazer e disse:

       — Espero que saiba o quanto lhe sou grato. Sinceramente, sinto muito ter que voltar para L.A. Quer dar uma espiada como isso é bonito?

       Voltando para French Landing, sendo os seus os únicos faróis no longo trecho da Rodovia 93, Dale se perguntou se os pais de Jack estariam envolvidos em algum aspecto da indústria do entretenimento embaraçoso para seu filho adulto, como pornografia. Talvez papai dirigisse filmes de sacanagem, e mamãe os estrelasse. As pessoas que faziam filmes pornôs provavelmente ganhavam uma grana, especialmente se trabalhassem em família. Antes que seu odômetro marcasse mais 100 metros, a lembrança do pequeno Fairfield Porter transformou a satisfação de Dale em poeira. Nenhuma mulher que ganhasse a vida fazendo sexo diante das câmeras com estranhos gastaria dinheiro de verdade num quadro como aquele.

      

      

Vamos entrar na cozinha de Jack Sawyer. O Herald matutino está aberto na mesa de jantar; uma frigideira preta esquenta sobre o círculo de chamas azuis do queimador esquerdo da parte da frente do fogão a gás. Um homem alto, enxuto, com um ar distraído, usando um suéter de moletom velho da UCS, jeans e sapatos italianos cor de melado está manejando um batedor dentro de uma tigela de aço inoxidável contendo uma boa quantidade de ovos crus.

       Vendo-o franzindo a testa para o vazio bem acima da reluzente tigela, observamos que o belo menino de 12 anos visto pela última vez num apartamento do quarto andar de um hotel deserto de New Hampshire tornou-se um homem cuja boa aparência é apenas o menor dos atributos que o tornam interessante. Pois que Jack Sawyer é interessante é óbvio. Mesmo quando distraído por alguma preocupação pessoal, algum enigma, melhor dizendo, diante daquela expressão contemplativa, Jack Sawyer não consegue evitar irradiar uma autoridade persuasiva. Só de olhar para ele, sabe-se que ele é uma daquelas pessoas para quem os outros se voltam quando se sentem aturdidos, ameaçados ou contrariados pelas circunstâncias. Inteligência, decisão e confiabilidade moldaram suas feições tão profundamente que a beleza delas é irrelevante para o que elas exprimem. Este homem nunca pára para se olhar no espelho — a vaidade não faz parte de seu caráter. Faz sentido ele ser uma estrela em ascensão no Departamento de Polícia de Los Angeles, sua pasta estar abarrotada de recomendações e ele ter sido escolhido para vários programas e cursos de treinamento patrocinados pelo FBI e destinados a impulsionar o progresso de estrelas em ascensão. (Alguns colegas e superiores de Jack concluíram em particular que ele seria o comissário de polícia de uma cidade como San Diego ou Seattle por volta dos 40 anos e, dez a 15 anos depois, se tudo corresse bem, chegaria a São Francisco ou Nova Iorque.)

       Mais impressionante, a idade de Jack não parece mais relevante que sua beleza: ele tem o aspecto de quem passou por vidas antes desta, de quem foi a lugares e viu coisas além do alcance da maioria das outras pessoas. Não espanta que Dale Gilbertson o admire; não espanta que Dale almeje a ajuda de Jack. Em seu lugar, também haveríamos de querer, mas nossa sorte não seria melhor que a dele. Este homem se aposentou, está fora do jogo, sinto muito, é uma vergonha e tudo o mais, mas um homem precisa quebrar os ovos quando vai fazer omelete, como disse John Wayne para Dean Martin em Onde Começa o Inferno.

       — E, como minha mãe me disse — Jack fala alto para si mesmo —, “Meu filho, quando o Duque falava, todo mundo escutava, a menos que ele estivesse discorrendo sobre um de seus temas políticos prediletos”, sim, ela disse, estas foram suas palavras exatas, como ela as disse a mim. — Meio segundo depois, ele acrescenta: — Naquela bela manhã em Beverly Hills — e finalmente entende o que está fazendo.

       O que temos aqui é um homem espetacularmente solitário. A solidão é conhecida de Jack Sawyer há tanto tempo que ele a acha natural, mas a gente acaba se acostumando com aquilo que não consegue consertar, certo? Muitas coisas, como paralisia cerebral e a doença de Lou Gehrig, para citar apenas duas, são piores que a solidão. A solidão é só parte do programa, nada mais. Até Dale notou este aspecto da personalidade do amigo, e apesar de suas muitas virtudes, nosso chefe de polícia não pode ser descrito como um ser humano particularmente dotado de psicologia.

       Jack olha para o relógio em cima do fogão e vê que ainda tem 45 minutos até precisar ir a French Landing pegar Henry Leyden no final de seu turno. Isso é bom; ele tem muito tempo, está segurando a barra, e o subtexto disso pode ser Está tudo bem, e não há nada de errado comigo, muito obrigado.

       Quando Jack acordou essa manhã, uma vozinha em sua cabeça anunciou sou um puliça. Sou nada, pensou ele, e mandou a voz deixá-lo em paz. A vozinha podia ir para o inferno. Ele desistira desse trabalho de “puliça”, deixara a indústria do homicídio...

       ...as luzes de um carrossel se refletiam na calva do cadáver de um negro no píer de Santa Mônica...

       Não. Não vá lá. Simplesmente... não vá, só isso.

      

      

Jack não deveria estar em Santa Mônica, afinal de contas. Santa Mônica tinha seus próprios “puliças”. Até onde sabia, eles eram uns caras legais, embora talvez não exatamente do padrão estabelecido por aquele garoto de ouro genial e o mais moço tenente da Divisão de Homicídio do DPLA, ele próprio. O único motivo pelo qual o garoto de ouro genial estivera na área deles em primeiro lugar era ele ter acabado de romper com aquela moradora de Malibu extremamente — ou, pelo menos, moderadamente — boazinha, a Srta. Brooke Greer, uma roteirista admiradíssima em seu gênero, comédia romântica de ação e aventura, também uma pessoa de notável inteligência, insight, charme físico, e enquanto estava voltando para casa pelo belo trecho da Rodovia Costa do Pacífico embaixo da saída do cânion de Malibu, ele cedeu a um ataque de tristeza atipicamente nervoso.

       Alguns segundos depois de subir a Ladeira Califórnia para Santa Mônica, ele viu o aro brilhante da roda-gigante girando acima dos cordões de luzes e da multidão animada do píer. Um encanto barato ou uma barateza encantada tocou-o do coração desta cena. De repente, Jack resolveu estacionar o carro e foi andando para o conjunto de luzes brilhantes piscando no escuro. A última vez que visitara o píer de Santa Mônica, era um garoto de seis anos excitado puxando a mão de Lily Cavanaugh Sawyer como um cachorro puxando a guia.

      

      

O que aconteceu foi acidental. Foi muito insignificante para ser chamado de coincidência. A coincidência une dois elementos sem relação prévia de uma história maior. Aqui, nada tinha ligação, e não havia história maior.

      

      

Ele chegou à entrada vistosa do píer e notou que, afinal de contas, a roda-gigante não estava girando. Um aro de luzes paradas pendia sobre gôndolas vazias. Por um momento, a enorme máquina pareceu um invasor alienígena, astutamente disfarçado e esperando até poder fazer o máximo de estrago. Jack quase podia ouvi-la zumbindo para si mesma. Certo, pensou, uma roda-gigante má... controle-se. Você está mais abalado do que quer admitir. Depois, tornou a olhar para a cena à sua frente, e finalmente compreendeu que sua fantasia do píer de Santa Mônica escondera um mal real que sua profissão tornara muito familiar. Ele topara com os estágios iniciais de uma investigação de homicídio.

       Algumas das luzes brilhantes que ele vira não vinham da roda-gigante, mas da capota de radiopatrulhas de Santa Mônica. No píer, quatro guardas estavam desencorajando a multidão de civis de romper o cordão de isolamento em volta do carrossel feericamente iluminado. Jack disse a si mesmo para deixar isso para lá. Ele não tinha nada que fazer ali. Além do mais, o carrossel despertava algumas sensações indistintas, todo um conjunto de sentimentos indesejáveis dentro dele. O carrossel era mais arrepiante que a roda-gigante parada. Os carrosséis sempre o assustaram, não? Cavalos anões pintados, paralisados com os dentes arreganhados e tubos de aço enfiados em suas entranhas — sadismo kitsch.

       Vá embora, Jack disse a si mesmo. Você levou um fora da namorada e está de péssimo humor.

       E quanto a carrosséis...

       A descida abrupta de uma cortina mental de chumbo encerrou o debate sobre carrosséis. Sentindo-se como que empurrado interiormente, Jack subiu no píer e começou a caminhar entre a multidão. Tinha a vaga consciência de estar tomando a atitude mais antiprofissional de sua carreira.

       Quando conseguiu chegar à frente da multidão, passou por baixo do cordão de isolamento e mostrou o distintivo a um guarda com cara de bebê que tentou mandá-lo voltar. Perto dali, um guitarrista começou a tocar um blues que Jack quase conseguiu identificar; o título veio à superfície de sua mente, depois mergulhou e sumiu. O guarda bebê lançou-lhe um olhar intrigado e afastou-se para consultar um dos detetives debruçados sobre uma forma longa que Jack não estava muito a fim de olhar naquela hora. A música incomodou-o. Incomodou-o muito. Na verdade, encheu-lhe o saco. Sua irritação era desproporcional à causa, mas que tipo de idiota achava que homicídios precisavam de trilha sonora?

       Um cavalo pintado recuou, paralisado na luz ofuscante.

       O estômago de Jack se contraiu, e no fundo de seu peito algo feroz e insistente, algo para não ser nomeado em hipótese alguma, dobrou-se e abriu os braços. Ou as asas. A terrível coisa desejou se libertar e se dar a conhecer. Por um instante, Jack receou ter que vomitar. A passagem dessa sensação trouxe-lhe um momento de clareza inconfortável.

       Voluntária e negligentemente, ele entrara na loucura, e agora estava louco. Não se podia dizer de outra forma. Marchando em sua direção com uma expressão que combinava bem descrença e fúria estava um detetive chamado Angelo Leone que, antes da conveniente transferência para Santa Mônica, era um colega de Jack que se destacava pelos apetites grosseiros, pela capacidade de violência e corrupção, pelo desprezo por todos os civis, independentemente de cor, raça, credo ou posição social, e, para ser justo, pelo destemor e pela lealdade absoluta a todos os policiais que aceitavam o programa e faziam as mesmas coisas que ele, o que significava qualquer coisa da qual pudessem escapar impunemente. O desdém de Angelo Leone por Jack Sawyer, que não fizera parte do programa, equivalia a seu ressentimento pelo sucesso do homem mais jovem. Em alguns segundos, esse brutamontes iria estar à sua frente. Em vez de tentar imaginar como se explicar para o brutamontes, ele estava obcecado com carrosséis e guitarras, tratando dos detalhes de seu enlouquecimento. Ele não tinha como se explicar. Não havia explicação. A necessidade interna que o impelira para essa posição continuou se manifestando, mas não dava para Jack falar com Angelo Leone de necessidades internas. Também não dava para oferecer uma explicação racional a seu capitão, se Leone registrasse uma queixa.

       Bem, está vendo, era como se outra pessoa estivesse puxando meus cordéis, como se outra pessoa estivesse no comando...

       As primeiras palavras a sair da boca carnuda de Angelo Leone salvaram-no do desastre.

       — Não me diga que está aqui por uma razão, seu imbecilzinho ambicioso.

       Uma carreira de pirata como a de Leone inevitavelmente expunha o pirata ao perigo de uma investigação oficial. Uma retirada estratégica para uma força vizinha oferecia pouca proteção contra as escavações arqueológicas secretas que os policiais usavam para montar fichas e perfis quando a imprensa não lhes dava outra escolha. A cada dez ou 20 anos, chatos prestativos, informantes, reclamadores, cagüetes, civis irritados e tiras muito burros para aceitar o programa tradicional se reuniam, enfiavam um foguete no rabo coletivo da imprensa e desencadeavam uma orgia de mortes. A paranóia essencial movida pela culpa de Leone sugerira-lhe de imediato que o garoto de ouro da Homicídios de L.A. poderia estar dourando seu currículo.

       Como Jack sabia que aconteceria, sua afirmação de ter sido puxado para a cena como um cavalo de fogo para um incêndio aumentou as suspeitas de Leone.

       — Certo, por acaso você entrou na minha investigação. Ótimo, agora me ouça. Se por acaso eu ouvir seu nome associado a alguma coisa de que eu não goste alguma vez nos próximos seis meses, ou melhor, algum dia, você vai precisar de um tubo para mijar até o fim da vida. Agora suma daqui, porra, e me deixe trabalhar.

       — Estou indo, Angelo.

       O parceiro de Leone veio vindo pelo píer iluminado. Leone contraiu o rosto e fez sinal para que ele recuasse. Sem tencionar fazer isso, inconscientemente, Jack deixou os olhos passarem pelo detetive e baixarem para o cadáver em frente ao carrossel. Com muito mais força que da primeira vez, a feroz criatura dentro de seu peito se dobrou, desenrolou as asas e abriu-as, abriu os braços, as garras, o que quer que fosse, e com um incrível impulso para cima tentou libertar-se de suas amarras.

       As asas, os braços, as garras esmagaram os pulmões de Jack. Unhas medonhas rasgaram seu estômago.

       Há uma coisa que um detetive de homicídios, especialmente um tenente de homicídios, jamais pode fazer, qual seja: confrontado com um corpo, ele não pode vomitar. Jack fez força para permanecer do lado respeitável do Proibido. A bílis queimava em sua garganta, e ele fechou os olhos. Uma constelação de pontos luminosos cintilou de um lado a outro de suas pálpebras. A criatura, que fedia e vazava, debatia-se contra o que a prendia.

       Luzes se refletiam na calva do cadáver de um negro ao lado de um carrossel...

       Você não. Não, você não. Bata o quanto quiser, mas você não pode entrar.                                                       

       As asas, os braços e as garras se fecharam; a criatura reduziu-se a um ponto sonolento. Tendo conseguido evitar o Ato Proibido, Jack viu que era capaz de abrir os olhos. Não sabia quanto tempo se passara. A testa enrugada de Angelo Leone, seus olhos turvos e sua boca carnívora apareceram e, a uma distância de 15 centímetros, ocuparam todo o espaço disponível.

       — O que estamos fazendo aqui? Revendo nossa situação?

       — Eu gostaria que aquele idiota guardasse a guitarra no estojo.

       E esta foi uma das surpresas mais estranhas da noite.

       — Guitarra? Não estou ouvindo guitarra nenhuma.

       Nem ele, Jack percebeu.

      

      

Qualquer pessoa normal não tentaria tirar esse episódio da cabeça? Jogar esse lixo no mar? Podia-se fazer qualquer coisa com ele, podia-se usá-lo, então, por que agarrar-se a ele? O incidente no píer nada significava. Não se ligava a nada a não ser a si mesmo, e não levava a nada. Era literalmente inconsequente, pois não tivera consequências. Depois que a namorada lhe dera o fora, Jack ficara desarvorado, sofrera um desvio momentâneo, e invadira o local do crime de outra jurisdição. Isso não passava de um erro embaraçoso.

       Cinquenta e seis dias e 11 horas depois, o garoto de ouro entrou na sala de seu capitão, entregou o distintivo e a arma e anunciou, para espanto do capitão, sua aposentadoria imediata. Nada sabendo do confronto com o detetive Leone no píer de Santa Mônica, o capitão não perguntou sobre a possível influência na decisão de seu tenente de um carrossel parado e do cadáver de um negro; se tivesse perguntado, Jack lhe teria dito que ele estava sendo ridículo.

      

      

Não vá lá, ele aconselha a si. mesmo, e faz muito bem em não ir. Recebe alguns flashes involuntários, apenas, instantâneos iluminados da luz estroboscópica da cabeça empinada de um pônei, da cara mal-humorada de Angelo Leone, de outra coisa também, o objeto ocupando o centro morto da cena em todos os sentidos, aquilo que, acima de tudo, não deve ser testemunhado... na hora em que esses raios imagísticos aparecem, ele os manda embora. Parece uma atuação mágica. Ele está fazendo mágica, mágica boa. Sabe perfeitamente que estes feitos de banimento de imagem representam uma forma de autoproteção, e se os motivos por trás de sua necessidade desta mágica protetora permanecem obscuros, a necessidade é motivo suficiente. Quando se quer fazer omelete, é preciso quebrar os ovos, para citar aquela inimpugnável autoridade John Wayne, o Duque.

       Jack Sawyer tinha mais coisas na cabeça do que as irrelevâncias sugeridas por uma voz de sonho pronunciando a palavra “polícia” em linguagem tatibitate. Esses assuntos, também, ele deseja mandar embora com a execução de um truque mágico, mas os miseráveis assuntos rejeitam o banimento; eles voejam como um enxame de vespas em torno dele.

       No geral, o nosso Jack não está se saindo muito bem. Ele está fazendo hora e olhando para os ovos, que já não estão com muito bom aspecto, embora ele não saiba dizer por quê. Os ovos resistem à interpretação. Os ovos são o mínimo. Na periferia de sua visão, a faixa atravessada na página de La Riviere Herald parece sair da folha de jornal e flutuar para ele. PESCADOR AINDA À SOLTA EM... Não, basta; ele vira as costas com o terrível conhecimento de ter causado sozinho esse negócio do Pescador. E quanto a EM STATEN ISLAND ou EM BROOKLYN, onde o verdadeiro Albert Fish, uma peça atormentada, se é que já houve alguma, encontrou duas de suas vítimas?

       Essa história o está deixando doente. Duas crianças mortas, a menina Freneau desaparecida e provavelmente morta, pedaços de corpo comidos, um doido que plagiava Albert Fish... Dale insistia em bombardeá-lo de informações. Os detalhes entram em seu organismo como algo que contamina. Quanto mais fica sabendo — e para um homem que realmente desejava sair do grupo que mandava, Jack aprendeu muito —, mais os venenos circulam em sua corrente sanguínea, distorcendo suas percepções. Ele viera para o Vale Noruega fugindo de um mundo que de repente se tornara inconfiável e inseguro, como se liquefazendo sob pressão térmica. Durante seu último mês em Los Angeles, a pressão térmica ficara intolerável. Possibilidades grotescas espiavam de janelas escuras e dos espaços entre os prédios, ameaçando tomar forma. Em dias de folga, a sensação de lavagem engordurando seus pulmões fazia-o arfar e lutar contra a náusea, então ele trabalhava sem parar, solucionando mais casos do que nunca. (Seu diagnóstico era que o trabalho o estava perturbando, mas dificilmente podemos censurar o capitão por se espantar com o pedido de desligamento do garoto de ouro.)

       Ele fugira para este obscuro recanto do interior do país, este abrigo, este porto à beira de um prado amarelo, afastado do mundo das ameaças e da loucura, a cerca de 32 quilômetros de French Landing, a uma boa distância até da Estrada do Vale Noruega. No entanto, as camadas de afastamento não conseguiram surtir efeito. Aquilo de que ele estava tentando fugir torna a fazer arruaça em volta dele, aqui em seu reduto. Se se deixasse sucumbir a uma fantasia autocentrada, ele teria de concluir que aquilo de que ele fugiu passara os últimos três anos farejando sua pista e finalmente conseguira encontrá-lo.

       Na Califórnia, os rigores de sua tarefa o devastaram; agora os tumultos do oeste de Wisconsin precisavam ser mantidos a distância. Às vezes, tarde da noite, ele acorda com o eco de uma vozinha envenenada gemendo: Puliça mais não, não vou, muito perto, muito perto. O que estava muito perto, Jack Sawyer recusa-se a considerar; o eco prova que ele precisa evitar mais contaminação.

       Más notícias para Dale, ele sabe, e lamenta sua inabilidade tanto para entrar na investigação quanto para explicar sua recusa ao amigo. Dale está a perigo, é triste mas é verdade. Ele é um bom chefe de polícia, mais do que bom para French Landing, mas avaliou mal a politicagem e deixou os estaduais armarem para ele. Com toda a aparência de respeito pela autoridade local, os detetives estaduais Brown e Black fizeram uma mesura, deram um passo para o lado e permitiram que Dale Gilbertson, que achava que eles lhe estavam fazendo um favor, passasse uma corda em volta do pescoço. Uma pena, mas Dale acaba de ver que está em cima de um alçapão com um saco preto na cara. Se o Pescador matar mais um garoto... Bem, Jack Sawyer envia seus mais profundos pêsames. Ele não pode fazer milagre agora, sinto muito. Jack tem coisas mais urgentes na cabeça.

       Penas vermelhas, por exemplo. Pequenas. Peninhas vermelhas estão muito na cabeça de Jack, e já andavam ali, apesar de seus esforços para afastá-las com um passe de mágica, um mês antes de começarem os assassinatos. Certa manhã, quando ele saiu do quarto e começou a descer para fazer o café da manhã, uma peninha vermelha, uma pluma menor que um dedo de bebê, pareceu flutuar do teto inclinado no alto da escada. Atrás dela, duas ou três outras vieram voando para ele. Uma placa oval de gesso de cinco centímetros de largura pareceu piscar e abrir como um olho, e o olho soltou uma coluna apertada e gorda de penas que saíram do teto como se impelidas através de um canudo. Uma explosão de penas, um furacão de penas deu-lhe uma surra no peito, nos braços levantados, na cabeça.

       Mas isso...                 

       Isso nunca aconteceu.

       Alguma outra coisa aconteceu, e ele levou uns dois minutos para descobrir. Um neurônio caprichoso falhou em seu cérebro. Um receptor mental bebeu o produto químico errado, ou bebeu demais do produto químico certo. As chaves que a cada noite acionavam os condutos de imagem reagiram a um sinal falso e produziram um sonho acordado. O sonho acordado parecia uma alucinação, mas quem tinha alucinações eram alcoólatras, drogados e doidos, especialmente esquizofrênicos paranóicos, com quem Jack lidara em muitas ocasiões durante sua vida de “puliça”. Jack não se encaixava em nenhuma dessas categorias, incluindo a última. Ele sabia que não era esquizofrênico paranóico nem outra espécie qualquer de louco. Se você achasse Jack Sawyer louco, você era louco. Ele confia plenamente, ou pelo menos 99 por cento, em sua sanidade.

       Já que ele não está delirando, as penas devem ter voado para ele em seu sonho acordado. A única outra explicação envolve realidade, e as penas não têm ligação com a realidade. Que tipo de mundo seria esse, se essas coisas acontecessem conosco?

       De repente, George Rathbun berra:

       — Me dói dizer isso, realmente me dói, pois amo nosso querido e velho time dos Brewers, vocês sabem que amo, mas tem horas que o amor precisa cerrar os dentes e encarar uma dura realidade... por exemplo, tomem o estado lastimável de nosso time de arremessadores. Bud Selig, ei, BU-UD, aqui é Houston chamando. Você poderia fazer o Favor de voltar já para a Terra? Um cego lançaria melhor que aquele conjunto de BANANAS, PERDEDORES E CABEÇAS DE VENTO!

       O bom e velho Henry. Henry faz George Rathbun com tanta perfeição que dá para ver as manchas de suor em suas axilas. Mas a melhor invenção de Henry — na opinião de Jack — tem que ser aquela encarnação do sabe-tudo tranqüilão, o respeitado Henry Shake (“O Sheik, o Shake, o Xeque das Arábias”), que pode, se estiver a fim, lhe dizer a cor das meias usadas por Lester Young no dia em que ele gravou “Shoe Shine Boy” e “Lady Be Good”, e descrever o interior de duas dúzias de clubes de jazz famosos mas quase todos fechados há muito.

       ... e antes de chegarmos à música muito cool, linda e simpática sussurrada um domingo no Village Vanguard pelo Bill Evans Trio, podemos prestar a nossa homenagem ao terceiro olho, o interno. Vamos homenagear o olho interno, o olho da imaginação. Estamos no fim de uma tarde quente de julho em Greenwich Village, cidade de Nova Iorque. Na ensolarada Sétima Avenida Sul, chegamos debaixo do toldo do Vanguard, abrimos uma porta branca e descemos por uma longa escada estreita para um salão espaçoso no subsolo. Os músicos sobem ao palco. Bill Evans senta-se ao piano e cumprimenta a platéia com um aceno de cabeça. Scott LaFaro abraça seu baixo. Paul Motian pega suas baquetas. Evans abaixa bem a cabeça e deixa as mãos caírem no teclado. Para aqueles de nós que têm o privilégio de estar ali, nada voltará a ser como antes.

       “My Foolish Heart” pelo Bill Evans Trio, ao vivo, no Village Vanguard, dia 25 de junho de 1961. Sou seu anfitrião, Henry Shake — o Sheik, o Shake, o Xeque das Arábias.

       Sorrindo, Jack deita os ovos batidos na frigideira, mexe-os duas vezes com um garfo, e diminui um pouco o fogo. Ocorre-lhe que esqueceu de fazer café. Que se dane o café. Café é a última coisa de que ele precisa; pode tomar suco de laranja. Uma olhada na torradeira sugere que ele também esqueceu de preparar a torrada da manhã. Ele precisa de torrada, torrada é essencial? Pense na manteiga, pense nas placas de colesterol esperando para entupir suas artérias. A omelete já é suficientemente arriscada; na verdade, ele tem a sensação de ter quebrado ovos demais. Agora Jack não consegue se lembrar por que queria fazer uma omelete, para início de conversa. Ele raramente come omelete. Na verdade, costuma comprar ovos por uma noção de obrigação despertada pelas duas carreiras de buracos do tamanho de um ovo na porta de sua geladeira. Se não fosse para as pessoas comprarem ovos, por que as geladeiras viriam com porta-ovos?

       Ele enfia uma espátula sob as beiradas dos ovos que estão coagulando mas ainda estão moles, inclina a frigideira para a mistura se espalhar por igual, acrescenta os cogumelos e a cebola e dobra o resultado ao meio. Muito bem. Certo. Parece bom. Quarenta e cinco minutos luxuriantes de liberdade se estendem à sua frente. Apesar de tudo, ele parece estar funcionando bastante bem. Controle não é problema aqui.

       Aberto na mesa da cozinha, La Riviere Herald dá na vista de Jack. Ele se esqueceu do jornal. Mas o jornal não se esqueceu dele, e pede sua cota apropriada de atenção. PESCADOR AINDA À SOLTA EM, e assim por diante. CÍRCULO ÁRTICO seria bom, mas não, ele chega mais perto da mesa e vê que o Pescador continua sendo um problema obstinadamente local. De sob a manchete, o nome de Wendell Green salta e se aloja em seu olho como um seixo. Wendell Green é uma peste em todos os sentidos, uma irritação continuada. Após ler os dois primeiros parágrafos do artigo de Green, Jack geme e tapa os olhos com uma das mãos.

       Sou cego, me transforme em juiz!

       Wendell Green tem a confiança de um herói atlético de cidade pequena que nunca viajou. Alto, de cabelos louro-ruivos e com uma cintura senatorial, Green pavoneia-se pelos bares, tribunais, pelas arenas públicas de La Riviere e suas comunidades vizinhas distribuindo o encanto de quem abriu os olhos para a realidade. Wendell Green é um repórter que sabe agir como tal, um jornalista à antiga, o grande ornamento do Herald.

       No primeiro encontro, o grande ornamento pareceu a Jack uma fraude de quinta categoria, e ele não viu nenhuma razão para mudar de idéia desde então. Ele não confia em Wendell Green. Na opinião de Jack, a fachada gregária do repórter esconde uma ilimitada capacidade de traição. Green é um fanfarrão posando na frente de um espelho, mas um fanfarrão malandro, e essas criaturas fazem qualquer coisa para alcançar seus objetivos.

       Depois da prisão de Thornberg Kinderling, Green solicitou uma entrevista. Jack recusou, e declinou dos três convites que recebeu depois de sua remoção para a Estrada do Vale da Noruega. Suas recusas não dissuadiram o repórter de encenar eventuais encontros “casuais”.

       Na véspera da descoberta do corpo de Amy St. Pierre, Jack saiu de uma lavanderia da Rua Chase com uma caixa de camisas recém-lavadas debaixo do braço, começou a se encaminhar para seu carro e sentiu alguém pegando-o pelo cotovelo. Olhou para trás e viu, contorcido num olhar de deleite espúrio, a rosada máscara pública de Wendell Green.

       — Ei, ei, amigo... — Um sorriso de bandido. — Digo, tenente Sawyer. Ei, que bom que topei com você. É aqui que você manda lavar suas camisas? Eles trabalham bem?

       — Se você não levar em conta a parte dos botões.

       — Boa. Você é um cara engraçado, tenente. Deixe eu lhe dar uma dica. Confiável, na Rua Três em La Riviere? Eles estão à altura do nome. Não estraga, não rasga. Se quer suas camisas bem lavadas, vá sempre a uma lavanderia chinesa. Experimente o Sam Lee, tenente.

       — Não sou mais tenente, Wendell. Me chame de Jack, ou Sr. Sawyer. Me chame de Hollywood, eu não me importo. E agora...

       Ele se encaminhou para o carro, e Wendell Green foi andando ao seu lado.

       — Alguma chance de algumas palavras, tenente? Desculpe... Jack? O chefe Gilbertson é muito amigo seu, eu sei, e esse caso trágico, a garotinha aparentemente mutilada, coisas terríveis, pode nos oferecer sua autoridade, entrar no caso, dar-nos o benefício de seus pensamentos?

       — Quer saber meus pensamentos?

       — Tudo o que você puder me contar, amigo.

       Pura e irresponsável malícia inspirou Jack a passar o braço pelos ombros de Green e dizer:

       — Wendell, amigo velho, verifique um cara chamado Albert Fish. Foi nos anos 20.

       — Fisch?

       — Fish. De uma família tradicional antiga de Nova Iorque. Um caso incrível. Procure.

       Até aquele momento, Jack mal tivera consciência de se lembrar das atrocidades cometidas pelo bizarro Sr. Albert Fish. Açougueiros mais atualizados — Ted Bundy, John Wayne Gacy e Jeffrey Dahmer — eclipsaram Albert Fish, sem falar em exóticos como Edmund Emil Kemper III, que, após cometer oito assassinatos, decapitou a mãe, pendurou a cabeça dela em cima da lareira e usou-a como alvo. (À guisa de explicação, Edmund III disse: “Isso pareceu apropriado.”) No entanto, o nome de Albert Fish, uma obscura figura do passado, aflorara na mente de Jack, e ele o pronunciara no ouvido atento de Wendell Green.

       O que dera nele? Bem, essa era a questão, não?

       Epa, a omelete. Jack pega um prato num armário, talheres de prata numa gaveta, corre ao fogão, desliga o queimador e passa a gororoba da frigideira para o prato. Senta-se e abre o Herald na página 5, onde lê sobre Milly Kuby perdendo o terceiro lugar num grande concurso estadual de ortografia, por ter trocado um c por um s em opopânace, o tipo da coisa que deve acontecer num jornal local. Como se espera que uma criança soletre opopânace corretamente, aliás?

       Jack come duas ou três garfadas da omelete antes que o sabor característico em sua boca o distraia da monstruosa injustiça cometida contra Milly Kuby. O gosto engraçado parece lixo meio queimado. Ele cospe a comida e vê uma papa cinzenta com legumes crus, meio mastigados. A parte intocada de seu desjejum não parece mais apetitosa. Ele não fez esta omelete; estragou-a.

       Deixa pender a cabeça e geme. Um estremecimento, como um fio elétrico solto, percorre seu corpo, soltando faíscas que chamuscam sua garganta, seus pulmões, seus órgãos subitamente palpitantes. Opopânace, ele pensa. Estou desmontando. Aqui e agora. Esqueça que eu disse isso. O selvagem opopânace me agarrou, me sacudiu com o temível opopânace de seus braços opopânaces, e tenciona me jogar no turbulento Rio Opopânace, onde encontrarei meu opopânace.

       — O que está acontecendo comigo? — diz ele em voz alta.

       O som esganiçado de sua voz o assusta.

       Lágrimas opopânaces ferem seus olhos opopânaces, e ele se levanta gemendo de seu opopânace, joga a gororoba na lata de lixo, passa uma água no prato e decide que é hora de começar a entender as coisas por aqui. Não me opopânace nenhum opopânace. Todo mundo erra. Jack examina a porta da geladeira, tentando lembrar se ainda tem um ou dois ovos ali. Claro que tem; um monte deles, uns nove ou dez, praticamente enchiam toda a carreira de buracos ovais na parte superior da porta. Ele não pode ter usado todos; não estava assim tão distraído.

       Jack cerra os dedos em volta da beirada da porta da geladeira. De forma totalmente espontânea, a visão de luzes se refletiu na calva de um negro.

       Você, não.

       A pessoa com quem se está falando não se encontra presente; a pessoa com quem se está falando quase não é uma pessoa.

       Não, não, você, não.

       A porta se abre sob a pressão de seus dedos; a luz da geladeira ilumina suas prateleiras cheias. Jack Sawyer olha os porta-ovos. Eles parecem estar vazios. Um olhar mais atento revela, aninhada dentro do buraco arredondado no fim da primeira carreira, a presença de um pequeno objeto oval com uma delicada tonalidade de azul: um nostálgico azul suave, muito possivelmente um azul que lembrava um céu de verão observado no início da tarde por um garotinho deitado de costas no gramado de mil metros quadrados localizado atrás de uma simpática propriedade residencial na Via Roxbury, Beverly Hills, Califórnia. Seja quem for o proprietário dessa residência, garoto, uma coisa é certa: ele trabalha na indústria do entretenimento.

       Jack sabe o nome desse exato tom de azul graças a um amplo estudo de amostras de cores realizado em companhia de Claire Evinrude, M.D., uma oncologista despachada, no período em que eles planejavam repintar o chalé que então dividiam nas colinas de Hollywood. Claire, a Dra. Evinrude, escolhera esta cor para o quarto principal; ele, recém-chegado de um importante curso do Programa de Análise de Crimes Violentos em Quantico, Virgínia, e recém-promovido à patente de tenente, descartara-a como, hã, bem, talvez um pouco fria.

       Jack, você já viu mesmo um ovo de sabiá?, perguntou a Dra. Evinrude. Tem alguma idéia de como são lindos? Os olhos cinzentos da Dra. Evinrude se arregalaram quando ela pegou seu bisturi mental.

       Jack enfia dois dedos no recipiente do ovo e tira dali um pequeno objeto oval da cor de um ovo de sabiá. O que sabe você, este é um ovo de sabiá. Um ovo de sabiá “mesmo”, nas palavras da Dra. Claire Evinrude, saído do corpo de uma sabiá, às vezes chamada de sabiá-laranjeira. Ele deposita o ovo na palma da mão esquerda. Lá fica ele, com sua forma azul achatada nos pólos do tamanho de uma pecã. A capacidade de raciocínio parece tê-lo deixado. O que ele fez? Comprou um ovo de sabiá? Perdão, não, esta relação não está dando certo, o opopânace está pifado. A Roy’s Store não vende ovo de sabiá, vou embora.

       Lenta, rígida e desajeitadamente como um zumbi, Jack atravessa a cozinha e chega à pia. Estende a mão esquerda sobre o triturador no meio da pia e solta o ovo de sabiá. Lá vai ele depósito de lixo abaixo, irrecuperavelmente. Sua mão direita liga a máquina, com os costumeiros resultados barulhentos. Ronca, tritura, rosna, um monstro está fazendo uma boquinha. Grrr. O fio elétrico desencapado estremece dentro dele, soltando faíscas à medida que se convulsiona, mas ele virou zumbi e mal registra os choques internos. No geral, considerando tudo, o que Jack Sawyer mais tem vontade de fazer no momento...

       Quando o sabiá...

       Por alguma razão, há muito, muito tempo ele não liga para a mãe. Não atina por quê, e já está na hora de fazer isso. Não quero nem saber de sabiás-laranjeira. A voz de Lily Cavanaugh Sawyer, a Rainha dos filmes B, outrora sua única companheira num quarto de um hotel de New Hampshire inundado de êxtase, transcendente e rigorosamente esquecido, é precisamente a voz que Jack precisa ouvir agora. Lily Cavanaugh é a única pessoa no mundo para quem ele pode contar essa ridícula encrenca em que se meteu. Apesar da vaga e inoportuna consciência de invadir os limites da racionalidade estrita e portanto colocando mais em questão sua própria sanidade incerta, ele se desloca ao longo da bancada da cozinha, pega seu telefone celular e tecla o número da simpática residência na Via Roxbury, Beverly Hills, Califórnia.

       O telefone em sua velha casa toca cinco, seis, sete vezes. Um homem atende e, com uma voz zangada, ligeiramente bêbada e sonolenta, diz:

       — Kimberley... seja lá sobre o que isso for... por você mesma... espero que seja realmente importante.

       Jack tecla END e fecha o telefone. Ai meu Deus ai inferno ai droga. São só cinco e pouco da manhã em Beverly Hills, ou em Westwood, ou Hancock Park, ou onde quer que este número alcance. Ele esqueceu que a mãe havia morrido. Ai inferno ai droga ai Deus, dá para segurar isso?

       A tristeza de Jack, que andara se acentuando subterraneamente, mais uma vez sobe para apunhalá-lo, como se fosse pela primeira vez, pou, bem no coração. Ao mesmo tempo, ele acha engraçadíssima, sabe Deus por que, a idéia de que mesmo por um segundo pudesse ter esquecido que a mãe havia morrido. Até que ponto se pode ser ridículo? Deu um ataque de bobeira nele, e, sem saber se vai cair em prantos ou na gargalhada, Jack sente uma tonteira e encosta pesadamente na bancada da cozinha.

       Peru escroto, ele lembra de ouvir a mãe dizendo. Lily estivera descrevendo o recém-falecido sócio de seu finado marido antes que seus contadores desconfiados descobrissem que o sócio, Morgan Sloat, andara desviando para o próprio bolso três quartos dos rendimentos das propriedades imobiliárias espantosamente grandes da Sawyer & Sloat. Desde a morte de Phil Sawyer num assim chamado acidente de caça, Sloat roubara milhões de dólares, muitos milhões, da família de seu falecido sócio. Desviou o curso de volta para os canais apropriados e vendeu a companhia para seus novos sócios, sem falar na mina anual que produz os juros que a fundação particular de Jack canaliza para causas nobres. Lily chamou Sloat de coisas muito mais coloridas que peru escroto, mas este é o termo que sua voz pronuncia em seu ouvido interno.

       Em maio passado, Jack diz a si mesmo, ele provavelmente encontrou aquele ovo de sabiá num passeio distraído pela campina e o guardou na geladeira por segurança. Para guardá-lo bem. Porque, afinal de contas, ele tinha um tom de azul delicado, um belo azul, para citar a Dra. Evinrude. Guardara-o bem por tanto tempo que esquecera dele. Por isso, ele reconhece agradecido, o sonho acordado presenteou-o com uma explosão de penas vermelhas!

       Tudo acontece por uma razão, por oculta que seja; descontraia-se e relaxe tempo suficiente para deixar de ser um peru escroto, e a razão pode se revelar.

       Jack se debruça na pia e, para se refrescar interna e externamente, mergulha o rosto na água contida nas mãos em concha. Por ora, o choque de limpeza lava o desjejum estragado, o telefonema ridículo e os lampejos de imagens corrosivas. É hora de amarrar os patins e ir em frente. Em 25 minutos, o melhor amigo e confidente de Jack Sawyer com sua aura costumeira de percepção rotativa sairá pela porta de entrada do prédio de blocos de cimento da KDCU-AM e, aplicando a chama de seu isqueiro de ouro à ponta de um cigarro, descerá o passeio até a Península Drive. Caso a percepção rotativa o informe que a picape de Jack Sawyer está esperando, Henry Leyden infalivelmente localizará o puxador da porta e entrará. A exibição de calma de cego é fascinante demais para ser perdida.

      

      

E perdê-la ele não vai, pois, apesar das dificuldades matinais, que, da perspectiva equilibrada e madura concedida por essa viagem pelo lindo interior, acabam parecendo banais, a picape de Jack pára no fim do passeio da KDCU-AM que dá na Península Drive às 7h55, mais de cinco minutos antes do horário previsto para seu amigo sair na luz do dia. Henry será bom para ele: só ver Henry será como uma dose de tônico para a alma. Certamente Jack não pode ser o primeiro homem (ou mulher) na história do mundo que se sentiu momentaneamente inseguro sob pressão e meio que esqueceu que sua mãe se livrara das velhas preocupações mortais e passara para uma esfera superior. Mortais estressados voltavam-se naturalmente para suas mães em busca de consolo e tranquilidade. O impulso está codificado em nosso DNA. Quando ouvir a história, Henry vai rir e aconselhá-lo a botar a cabeça no lugar.

       Pensando melhor, por que nublar o céu de Henry com uma história tão absurda? O mesmo se aplica ao ovo de sabiá, especialmente uma vez que Jack não falou com Henry sobre o sonho acordado de uma erupção de penas, nem está a fim de se envolver num monte de regressões inúteis. Viva no presente; deixe o passado se esticar em seu túmulo; empine o queixo e contorne as poças de lama; não procure seus amigos para fazer terapia.

       Ele liga o rádio e aperta o botão para sintonizar na KWLA-FM, a estação da Universidade de Wisconsin-La Riviere, emissora do Rato de Wisconsin e Henry o Sheik o Shake o Xeque. O que sai cintilando dos alto-falantes ocultos do carro deixa-o com os braços arrepiados: Glenn Gould, olho interno luminosamente aberto, tocando algo de Bach, ele não sabe dizer exatamente o quê. Mas é Glenn Gould, e é Bach, com certeza. Uma das Partitas, talvez.

       Uma caixa de CD numa das mãos, Henry Leyden sai pela humilde porta lateral da estação, entra na claridade e, sem hesitação, começa a descer o passeio lajeado, pisando no meio de cada laje com as solas de borracha de seus sapatos de camurça marrom-chocolate.

       Henry... Henry é uma visão.

       Hoje, Jack observa, Henry vem vestido com um de seus conjuntos de proprietário de floresta de teca da Malásia, uma bela camisa sem colarinho, tiras furta-cor, um chapéu de palha vincado à perfeição. Não fora tão bem-vindo na vida de Henry, Jack não teria sabido que a capacidade de misturar roupas do amigo dependia da profunda organização de seu enorme closet há muito estabelecida por Rhoda Gilbertson Leyden, a falecida mulher de Henry: Rhoda arrumara cada peça de roupa do marido por estação, estilo e cor. Item por item, Henry memorizara o sistema inteiro. Embora cego de nascença, portanto incapaz de distinguir entre tons que combinam ou não, Henry nunca erra.

       Henry tira do bolso da camisa um isqueiro de ouro e um maço amarelo de American Spirits, acende, solta uma nuvem radiante que, realçada pela luz do sol, fica leitosa e continua seu progresso resoluto pelas lajes do passeio.

       As letras de forma cor-de-rosa e inclinadas para trás de TROY AMA MARYANN! SIM!, pichadas na placa no gramado careca, sugerem que: 1) Troy passa muito tempo ouvindo a KDCU-AM; e 2) Maryann também o ama. Bom para Troy, bom para Maryann. Jack aplaude anúncios de amor, mesmo pichados de cor-de-rosa, e deseja felicidade e boa sorte aos amantes. Ocorre-lhe que se no estágio atual de sua existência se puder dizer que ele ama alguém, este alguém teria que ser Henry Leyden. Não no sentido em que Troy ama Maryann, ou vice-versa, mas ele o ama assim mesmo, uma questão que nunca foi tão clara quanto neste momento.

       Henry atravessa as últimas lajes e aproxima-se do meio-fio. Uma única passada o leva à porta da picape; ele segura a barra de metal embutida, abre a porta, sobe e senta no carro. Sua cabeça se inclina, aproximando o ouvido direito da música. As lentes escuras de seus óculos de aviador brilham.

       — Como consegue fazer isso? — Jack perguntou. — Desta vez, a música ajudou, mas você não precisa de música.

       — Consigo porque sou totalmente demais — diz Henry. — Aprendi esta expressão linda com nosso estagiário maconheiro Morris Rosen, que gentilmente aplicou-a a mim. Morris acha que sou Deus, mas ele deve ter alguma coisa na cuca, porque achou que George Rathbun e o Rato de Wisconsin são a mesma pessoa. Espero que o garoto fique de boca calada.

       — Eu também — diz Jack —, mas não vou deixar você mudar de assunto. Como consegue sempre abrir a porta logo? Como encontra o puxador sem tatear?

       Henry suspira.

       — O puxador me diz onde está. Ê óbvio. Eu só preciso escutá-lo.

       — O puxador da porta faz um barulho?

       — Não como seu rádio high-tech e as Variações Goldberg, não. Mais como uma vibração. O som de um som. O som dentro de um som. Daniel Barenboim não é um grande pianista? Cara, ouça isso: cada nota, uma coloração diferente. Dá vontade de beijar a tampa do Steinway dele, menino. Imagine os músculos da mão dele.

       — Esse é Barenboim?

       — Bem, quem mais podia ser? — Lentamente, Henry vira a cabeça para Jack. Um sorriso irritante ergue os cantos de sua boca. — Ah. Estou entendendo, sim. Conhecendo você como eu conheço, seu bobo, vejo que imaginava que estava ouvindo Glenn Gould.

       — Eu não — diz Jack.

       — Por favor.

       — Talvez por um minuto eu tenha me perguntado se era Gould, mas...

       — Não, não, não. Nem tente. Sua voz o trai. Tem um pequeno efeito de lamúria em cada palavra; é muito patético. Vamos voltar para o Vale Noruega, ou você gostaria de ficar aqui sentado continuando a me mentir? Quero lhe dizer uma coisa no caminho de casa.

       Ele segura o CD.

       — Vamos acabar com a sua infelicidade. O maconheiro me deu isso... Dirtysperm tocando uma cançãozinha das Supremes. Eu abomino esse tipo de coisa, mas pode ser perfeito para o Rato de Wisconsin. Ponha na faixa sete.

       O pianista já não tem nada a ver com Glenn Gould, e a velocidade da música parece ter caído para metade do que era antes. Jack sai de sua infelicidade e enfia o CD na fenda embaixo do rádio. Aperta um botão, depois outro. Em um ritmo doidamente acelerado, gritos de um louco submetido a torturas atrozes explodem dos alto-falantes. Jack cai para trás no assento, com o tranco.

       — Meu Deus, Henry — diz ele, e procura o controle do volume.

       — Não ouse tocar neste dial — ordena Henry. — Se não faz seu ouvido sangrar, essa bosta não está cumprindo sua tarefa.

 

 

“Ouvido”, Jack sabe, é, no jargão do jazz, a capacidade de ouvir o que está acontecendo na música à medida que ela se desenrola no ar. Um músico bom de ouvido logo memoriza as canções e os arranjos que é solicitado a tocar, pega ou já sabe a harmonia subjacente ao tema e segue as transformações e substituições para esse padrão introduzidas por seus colegas músicos. Sabendo ou não ler uma partitura, um músico bom de ouvido aprende as melodias e os arranjos na mesma hora em que os ouve, capta através de uma intuição impecável as complexidades harmônicas, e imediatamente identifica as notas e os tons registrados por buzinas de táxis, campainhas de elevador e miados de gato. Essas pessoas habitam um mundo definido pelas particularidades de sons individuais, e Henry Leyden é uma delas. Para Jack, o ouvido de Henry é olímpico, maravilhoso.

       Foi o ouvido de Henry que lhe deu acesso ao grande segredo de Jack, o papel que sua mãe, Lily Cavanaugh Sawyer, “Lily Cavanaugh”, tivera em sua vida, e ele foi a única pessoa a descobrir isso. Pouco depois que Dale os apresentou, Jack e Henry Leyden começaram uma amizade fácil e companheira, surpreendente para ambos. Cada um deles sendo a resposta para a solidão do outro, duas ou três vezes por semana, eles jantavam juntos, ouviam música e conversavam sobre o que quer que lhes desse na cabeça bem abastecida. Ou Jack ia até a excêntrica casa de Henry, ou pegava Henry e depois o levava de volta em casa. Depois de uns seis ou sete meses, Jack se perguntou se o amigo gostaria de passar uma hora mais ou menos ouvindo-o ler em voz alta livros escolhidos de comum acordo por ambas as partes. Henry respondeu: Puxa vida, que bela idéia. Que tal começarmos com alguns romances doidões de crime? Eles começaram com Chester Himes e Charles Willeford, passaram para romances contemporâneos, viajaram por S. J. Perelman e James Thurber, e se aventuraram encorajados em mansões ficcionais erguidas por Ford Madox Ford e Vladimir Nabokov. (Marcel Proust vem depois, eles sabem, mas Proust pode esperar; atualmente, eles estão para embarcar em A Casa Soturna.)

       Uma noite depois que Jack terminou o capítulo da noite do The Good Soldier de Ford, Henry pigarreou e disse: Dale me falou que você contou a ele que seus pais trabalhavam na indústria do entretenimento. No sbow business.

       — Isso mesmo.

       — Não quero ser curioso, mas você se importaria se eu lhe fizesse algumas perguntas? Se você quiser responder, responda só sim ou não.

       Já alarmado, Jack disse: O que é isso, Henry?

       — Quero ver se estou certo a respeito de uma coisa.

       — Tudo bem. Pergunte.

       — Obrigado. Seus pais trabalhavam em aspectos diferentes da indústria?

       — Hum.

       — Um trabalhava na finalização das coisas, e o outro era ator?

       — Hum.

       — Sua mãe era atriz?

       — Hã-hã.

       — Uma atriz famosa, de certa forma. Ela nunca teve o respeito que merecia, mas fez uma montanha de filmes nos anos 50 e até meados dos 60, e, no final da carreira, ganhou um Oscar de melhor atriz coadjuvante.

       — Henry — Jack disse. — Onde você...

       — Fique quieto. Tenciono gozar este momento. Sua mãe era Lily Cavanaugh. Isso é maravilhoso. Lily Cavanaugh sempre teve muito mais talento que a maioria das pessoas lhe creditava. Ela sempre dava um outro nível aos papéis que fazia, aquelas garotas, aquelas garçonetezinhas duronas e aquelas mulheres com armas na bolsa. Bonita, elegante, peituda, sem pretensão, basta entrar no papel. Ela era 100 vezes melhor que qualquer pessoa em volta dela.

       — Henry...

       — Um daqueles filmes tem uma boa trilha sonora, também. Lost Summer, Johnny Mandei? Sumido.

       — Henry, como você...

       — Você me disse; do contrário, como eu podia saber? Com essas coisinhas que sua voz faz, é assim. Você escorrega na cabeça dos seus rr, e pronuncia as outras consoantes numa espécie de cadência, e essa cadência corre por suas frases.

       — Uma cadência?

       — Pode apostar a bunda, garoto. Um ritmo subjacente, como seu próprio baterista particular. Durante The Good Soldier inteiro fiquei tentando lembrar onde já tinha ouvido isso. Quase conseguia, mas escapava. Uns dias atrás, lembrei. Lily Cavanaugh. Você não pode me censurar por querer ver se eu estava certo, pode?

       — Censurá-lo? — disse Jack. — Estou muito pasmo para censurar alguém, mas me dê uns minutos.

       — Seu segredo está seguro. Quando as pessoas o vêem, você não quer que a primeira coisa que pensem seja: Ei, lá está o filho de Lily Cavanaugh. Faz sentido para mim.

       Henry Leyden tem bom ouvido, mesmo. Enquanto a picape atravessa French Landing, a zoada que enche a cabine torna impossível conversar. Dirtysperm está abrindo um rombo no centro de marzipã de “Where Did Our Love Go” e, assim, cometendo atrocidades hediondas contra todas aquelas gracinhas das Supremes. Henry, que afirma abominar esse tipo de coisa, refestela-se no banco, joelhos no painel, mãos em ponta embaixo do queixo, rindo de prazer. As lojas da Rua Chase estão abertas, e há meia dúzia de carros estacionados em ângulo nas vagas.

       Defronte ao empório Schmitt’s, quatro garotos de bicicleta saem de repente do passeio para a rua a seis metros da picape em movimento. Jack pisa no freio; os garotos estacam abruptamente e ficam alinhados lado a lado, esperando que ele passe. Jack avança. Henry se empina, verifica seus misteriosos sensores e encosta novamente. Está tudo bem com Henry. Os garotos, porém, ficam atordoados com a zoada cada vez mais alta à medida que a picape se aproxima. Eles olham para o pára-brisa de Jack com uma perplexidade com toques de repugnância, como seus bisavós uma vez olharam para os gêmeos siameses e o Homem Jacaré no sbow de aberrações nos fundos da feira. Todo mundo sabe que motorista de picape só ouve dois tipos de música, heavy metal ou country, então o que é esse desgraçado?

       Quando Jack passa pelos meninos, o primeiro, um gordo enfezado com uma cara inflamada de valentão de pátio de escola, faz um gesto obsceno. Os dois seguintes continuam as imitações de seus bisavós curtindo uma noite quente em 1921 e olham com cara de bobos, boquiabertos. O quarto garoto, cujo cabelo louro-escuro embaixo de um boné dos Brewers, os olhos vivos e o ar de inocência o tornam o mais bonito do grupo, encara Jack e lhe dá um sorriso doce e tímido. Este é Tyler Marshall, saindo para dar uma volta — embora sem a menor consciência disso — na terra de ninguém.

       Os garotos ficam para trás, e Jack olha pelo espelho e os vê pedalando furiosamente rua acima, Enfezado na frente, o menor, mais simpático, na rabeira, já ficando para trás.

       — Um painel de calçada de especialistas deu queixa contra o Dirtysperm — diz Jack. — Quatro garotos de bicicleta.

       Já que mal consegue distinguir suas palavras, ele acha que Henry não conseguirá de jeito nenhum ouvi-las.

       Henry, ao que parece, ouviu-as perfeitamente, e responde com uma pergunta que desaparece no alarido. Imaginando mais ou menos o que deve ter sido, Jack responde assim mesmo.

       — Um totalmente contra, dois indecisos tendendo à rejeição e um cautelosamente a favor.

       Henry faz que sim com a cabeça.

       O estrondo e o baque da violenta destruição de marzipã terminam na Rua Onze. Como se uma névoa tivesse se dissipado da cabine, como se o pára-brisa tivesse acabado de ser lavado, o ar parece mais claro, as cores mais vibrantes.

       — Interessante — diz Henry. Ele alcança sem vacilar o botão de EJECT, tira o disco do aparelho e guarda-o na caixa. — Isso foi muito revelador, não acha? O ódio bruto, autocentrado, nunca deveria ser rejeitado automaticamente. Morris Rosen estava certo. Isso é perfeito para o Rato de Wisconsin.

       — Ei, acho que eles podiam ser maiores que Glenn Miller.

       — Isso me faz lembrar — diz Henry. — Você nunca vai adivinhar o que vou fazer mais tarde. Uma apresentação! Chipper Maxton, na verdade, quem está abaixo dele, aquela Rebecca Vilas, que, tenho certeza, é tão maravilhosa quanto parece pela voz, me contratou para fazer a música de um baile que deve ser o ponto alto da grande Festa do Morango da Maxton. Bem, eu não... uma de minhas personas antigas e há muito esquecidas. Stan Sinfônico, o Homem das Grandes Bandas.

       — Precisa de carona?

       — Não. A maravilhosa Srta. Vilas cuidou das minhas necessidades, na forma de um carro com um assento confortável para o prato do toca-disco e uma mala bem grande para os alto-falantes e caixas de discos, que ela vai mandar. Mas, de qualquer forma, obrigado.

       — Stan Sinfônico? — disse Jack.

       — Uma encarnação espantosa, frenética, de terno zoot* da era das big bands, e além do mais um cavalheiro encantador e doce. Para os moradores da Maxton, uma evocação dos verdes anos deles e uma alegria para os olhos.

      

* Termo popular entre os adolescentes da pesada americanos nos anos 40 que consistia num paletó de ombreiras enormes que chegava até o meio da coxa e calças folgadas, pregueadas na cintura e de bocas estreitíssimas [N. da T.].

      

       — Você tem mesmo um terno zoot?

       Magnificamente inexpressivo, o rosto de Henry vira-se para ele.

       — Perdão. Não sei o que me deu. Para mudar de assunto, o que você disse, isto é, o que George Rathbun disse sobre o Pescador hoje de manhã provavelmente foi muito bom. Gostei de ouvir.

       Henry abre a boca e convoca George Rathbun em toda a sua glória camarada.

       — O Pescador original, meninas e meninos, Albert Fish, já morreu há 67 anos. — É estranho ouvir a voz daquele gordo carregado sair da garganta magra de Henry Leyden. Em sua própria voz, Henry diz: — Espero ter feito algum bem. Depois que li o absurdo daquele seu amigo Wendell Green no jornal hoje de manhã, achei que George tinha que dizer alguma coisa.

       Henry Leyden gosta de usar termos como li, estava lendo, vi, estava olhando para. Ele sabe que essas expressões desconcertam seus ouvintes. E referiu-se a Wendell Green como “seu amigo” porque Henry é a única pessoa a quem Jack admitiu ter alertado o repórter sobre os crimes de Albert Fish. Agora, Jack gostaria de não o ter confessado a ninguém. O demagogo Wendell Green não é seu amigo.

       — Tendo sido de alguma utilidade para a imprensa — diz Henry —, é razoável achar que você também possa ser útil a nossos meninos de azul. Perdão, Jack, mas você abriu a porta, e só vou dizer isso uma vez. Afinal de contas, Dale é meu sobrinho.

       — Não acredito que você esteja fazendo isso comigo — diz Jack.

       — Fazendo o que, sendo sincero? Dale é meu sobrinho, lembra? Ele gostaria de aproveitar sua experiência, e acha que você lhe deve um favor. Não lhe ocorreu que você pudesse ajudá-lo a conservar o emprego? Ou que, se gosta de French Landing e do Vale Noruega tanto quanto diz, você deve a esses sujeitos um pouco do seu tempo e do seu talento?

       — Não lhe ocorreu, Henry, que estou aposentado? — Jack diz entre os dentes. — Que investigar homicídios é a última coisa, falando sério, a última coisa no mundo que eu quero fazer?

       — Claro que sim — diz Henry. — Mas, e de novo espero que você me perdoe, Jack, cá está você, a pessoa que sei que você é, com as habilidades que você tem, que decerto vão muito além das de Dale e provavelmente das desses outros caras todos, e não posso deixar de me perguntar qual é o seu problema.

       — Eu não tenho nenhum problema — diz Jack. — Sou civil.

       — Você é o chefe. O melhor a fazer é ouvirmos o resto do Barenboim. — Henry corre os dedos pelo consolo e aperta o botão do sintonizador.

       Nos próximos 15 minutos, o único som que se ouve na cabine da picape é a de um Steinway de cauda meditando sobre As Variações Goldberg no Teatro Colón, em Buenos Aires. A voz é esplêndida, também, pensa Jack, e a pessoa tem que ser muito ignorante para confundi-la com Glenn Gould. Quem era capaz de cometer este erro provavelmente não conseguia ouvir o som interno, como se fosse uma vibração, produzido por uma tranca de porta de um General Motors.

       Quando eles dobram à direita para deixar a Rodovia 93 e pegar a Estrada do Vale Noruega, Henry diz:

       — Pare de ficar emburrado. Eu não devia tê-lo chamado de bobo. Nem dito que você tinha algum problema, porque quem está com um problema sou eu.

       — Você? — Jack olha para ele, espantado, A experiência imediatamente sugere que Henry está prestes a pedir algum tipo de ajuda investigativa não oficial. Henry está voltado para o pára-brisa, sem trair coisa alguma. — Que tipo de problema você pode ter? Suas meias estão desarrumadas? Ah, você está tendo problema com uma das estações?

       — Com isso, eu conseguiria me virar. — Henry faz uma pausa, e a pausa se estende num longo silêncio. — O que eu ia dizer é: parece que estou perdendo o juízo. Acho que estou enlouquecendo.

       — Que é isso. — Jack alivia o pé do acelerador e reduz a velocidade à metade. Henry assistiu a uma explosão de penas;? Claro que não; Henry não vê nada. E sua própria explosão de penas era meramente um sonho acordado.

       Henry vibra como um diapasão. Continua voltado para o pára-brisa.

       — Me diga o que está acontecendo — pede Jack. — Estou começando a me preocupar com você.

       Henry entreabre a boca o suficiente para acomodar uma hóstia, e torna a fechá-la. Outro tremor o percorre.

       — Hum — diz. — Isso é mais difícil que eu pensava.

       Surpreendentemente, sua voz seca, controlada, a verdadeira voz de Henry Leyden, treme com um vibrato amplo e incontrolável.

       Jack diminui a velocidade da picape, começa a dizer algo e decide esperar.

       — Eu ouço minha mulher — diz Henry. — A noite, quando estou deitado na cama. Lá pelas três, quatro da manhã. Os passos de Rhoda andando pela cozinha, subindo as escadas. Devo estar ficando maluco.

       — Com que frequência isso acontece?

       — Quantas vezes? Não sei exatamente. Três ou quatro.

       — Você se levanta e vai procurá-la? Chama o nome dela?

       A voz de Henry de novo oscila no trampolim vibrato.

       — Já fiz essas duas coisas. Porque tinha certeza que era ela. Os passos dela, o andar. Rhoda já morreu há seis anos. Bem engraçado, não? Se não achasse engraçado, eu ia pirar.

       — Você chama o nome dela — diz Jack. — E levanta da cama e desce.

       — Feito um lunático, um doido. “Rhoda? É você, Rhoda?” Ontem à noite, andei pela casa toda. “Rhoda? Rhoda?” Parecia que eu estava esperando que ela respondesse. — Henry não faz caso das lágrimas que pingam de detrás de seus óculos de aviador e escorrem por suas faces. — E eu estava, esse é o problema.

       — Não tinha mais ninguém em casa? — pergunta Jack. — Nenhum sinal de tumulto? Nada fora do lugar nem faltando, ou algo assim?

       — Não que eu tenha visto. Tudo estava nos devidos lugares. Exatamente onde deixei.

       Ele levanta a mão e enxuga o rosto.

       A entrada para a estradinha de acesso sinuosa à casa de Jack passa à direita do carro.

       — Vou lhe dizer o que penso — diz Jack visualizando Henry perambulando por sua casa às escuras. — Seis anos atrás, você viveu todo aquele luto que se vive quando se perde alguém que se ama, a negação, a barganha, a revolta, a dor, o que for, a aceitação, essa gama toda de emoções, mas depois você ainda continuava com saudades de Rhoda. Ninguém jamais diz que a gente continua com saudades dos mortos que a gente amou, mas continua.

       — Agora, isso é profundo — diz Henry. — E reconfortante, também.

       — Não interrompa. Coisas esquisitas acontecem. Acredite, sei do que estou falando. Sua mente se rebela. Destrói provas, dá falso testemunho. Quem sabe por quê? Simplesmente faz isso.

       — Em outras palavras, você pira — diz Henry. — Acho que é aí que entramos.

       — O que estou querendo dizer — explica Jack — é que as pessoas podem ter sonhos acordadas. E o que está acontecendo com você. Não é nada preocupante. Certo, sua entrada está ai, você está em casa.

       Ele entra no acesso coberto de mato e sobe para o casarão branco onde Henry e Rhoda Leyden passaram os 15 anos alegres entre seu casamento e a descoberta do câncer de fígado de Rhoda. Henry passou quase dois anos após a morte dela perambulando pela casa todas as noites, acendendo as luzes.

       — Sonhos acordado? Onde você arranjou essa?

       — Um sonho acordado não é uma coisa incomum — diz Jack. — Especialmente em quem nunca dorme o suficiente, como você. — Ou como eu, acrescenta ele em silêncio. — Não estou inventando isso, Henry. Eu mesmo já tive um ou dois. Um, de qualquer maneira.

       — Sonhos acordado — diz Henry num tom diferente, pensativo. — Legal.

       — Veja só. Vivemos num mundo racional. As pessoas não voltam do mundo dos mortos. Tudo tem uma razão de ser, e as razões são sempre racionais. É uma questão de química ou coincidência. Se elas não fossem racionais, a gente nunca descobriria.

       — Até um cego pode ver isso — diz Henry. — Obrigado. Palavras sábias. — Ele se afasta, volta, e se debruça na janela. — Quer começar com A Casa Soturna hoje à noite? Devo chegar em casa lá pelas oito e meia, mais ou menos.

       — Apareço às nove.

       A guisa de despedida, Henry diz:

       — Ding-dong.

       Ele dá meia-volta, encaminha-se para a porta e entra em casa, que, obviamente, está destrancada. Por ali, só os pais se trancam, e até isso está mudando.

       Jack manobra a picape e desce para pegar a Estrada do Vale Noruega. Sente-se como se tivesse praticado uma ação duplamente boa, pois, ajudando Henry, também se ajudou. É legal, como as coisas às vezes acontecem.

       Quando ele entra na longa estradinha que dá acesso à sua casa, um chocalhar esquisito vem do cinzeiro ao lado do painel. Ele torna a ouvi-lo na última curva, justo antes de avistar a casa. O barulho não é tanto um chocalhar, mas um tinido surdo, abafado. Um botão, uma moeda — algo assim. Ele estaciona ao lado da casa, desliga o motor e abre a porta. Pensando melhor, resolve tirar o cinzeiro.

       O que Jack descobre aninhado nos sulcos no fundo da bandeja móvel, um minúsculo ovo de sabiá, um ovo de sabiá do tamanho de um M&M de amêndoa, o faz expelir todo o ar do corpo.

       O ovinho é tão azul que um cego poderia enxergá-lo.

       Os dedos trêmulos de Jack pinçam o ovo do cinzeiro. Olhando-o, ele salta da picape e fecha a porta. Ainda olhando o ovo, ele finalmente se lembra de respirar. Sua mão dá uma volta e solta o ovo, que cai reto na grama. Intencionalmente, ele levanta o pé e pisa no obsceno pontinho azul. Sem olhar para trás, põe as chaves no bolso e segue rumo à segurança duvidosa de sua casa.

 

O RAPTO DE TYLER MARSHALL

Vimos rapidamente um zelador em nosso giro relâmpago pela Casa Maxton para a Velhice — lembram-se dele? Macacão folgado? Um pouquinho barrigudo? Cigarro pendurado apesar dos avisos de PROIBIDO FUMAR! PULMÕES TRABALHANDO!, colados mais ou menos de seis em seis metros ao longo dos corredores? Um esfregão que parece um bolo de aranhas mortas? Não? Não se desculpe. É muito fácil não notar Pete Wexler, um adolescente insignificante (média final no ensino médio de French Landing: 79) que passou por uma juventude insignificante e agora está à beira do que ele espera seja uma meia-idade insignificante. Seu único hobby é dar um ou outro beliscão secreto nos velhinhos corocas que lhe enchem os dias com resmungos e perguntas absurdas, e recendem a gaze e mijo. Os babacas com Alzheimer são os piores. Dizem que ele já apagou cigarro nas costas e nas nádegas descarnadas deles. Ele gosta de seus gritos esganiçados quando bate o calor e começa a doer. Essa torturazinha feia tem um efeito duplo: desperta-os um pouco e satisfaz algo nele. Alegra seus dias, de alguma forma. Refresca a velha perspectiva. Além do mais, a quem eles contariam?

         E, ai meu Deus, lá vai o pior deles agora, arrastando-se lentamente pelo corredor da ala Margarida. A boca de Charles Burnside está aberta, como os fundilhos de suas ceroulas. Pete tem uma visão melhor do que gostaria das nádegas descarnadas e cagadas de Burnside. As manchas cor de chocolate descem até o avesso de seus joelhos, por Deus. Ele se encaminha para o banheiro, mas está só um pouquinho atrasado. Um certo cavalo marrom — chame-o de Trovão Matinal — já fugiu da baia e sem dúvida saiu a toda pelos lençóis de Burny.

       Graças a Deus, limpá-los não é meu serviço, pensa Pete, e sorri com o cigarro na boca. Para você, Butch.

       Mas a mesa ao lado dos banheiros dos meninos e das meninas por ora está sem o funcionário responsável. Butch Yerxa vai perder o espetáculo encantador da bunda suja de Burny passando por ali. Butch, ao que parece, saiu para fumar, embora Pete tenha dito ao idiota centenas de vezes que todos aqueles avisos de PROIBIDO FUMAR nada significam — Chipper Maxton podia ligar menos para quem fumava e onde (ou onde os cigarros eram apagados, aliás). Os avisos só estavam ali para manter a velha Casa dos Babões de acordo com certas leis estaduais cansativas.

       O sorriso de Pete se alarga, e neste momento ele está muito parecido com seu filho Ebbie, o antigo amigo de Tyler Marshall (foi Ebbie Wexler, na verdade, quem fez o gesto obsceno para Jack e Henry). Pete está se perguntando se devia sair e dizer a Butch que ele tem um servicinho de limpeza no Ml8 — e no ocupante do Ml8, obviamente — ou se simplesmente devia deixar Butch descobrir sozinho a última cagada de Burny. Talvez Burny volte para o quarto e faça um pouquinho de pintura a dedo, tipo espalhar em volta a alegria. Isso seria bom, mas também seria bom ver a cara de consternação de Butch quando Pete lhe contasse...

       — Pete.

       Ah, não. Forçado por aquela vagabunda. Ela é uma vagabunda jeitosa, mas uma vagabunda não deixa de ser uma vagabunda. Pete fica onde está por um instante, pensando que talvez, se ele ignorá-la, ela vá embora.

       Esperança vã.

       — Pete.

       Ele se vira. Lá está Rebecca Vilas, atual cacho do chefão. Hoje ela está usando um vestido vermelho de verão, talvez em homenagem à Festa do Morango!, e escarpins pretos de salto alto, provavelmente em homenagem às próprias pernas bem-feitas. Pete imagina rapidamente aquelas pernas bem-feitas enroscadas nele, aqueles saltos altos cruzados em suas costas e apontando como pequenos ponteiros de relógio, depois vê a caixa de papelão que ela está segurando. Trabalho para ele, sem dúvida. Pete também nota o anel faiscante em seu dedo, uma pedra do tamanho de um ovo de sabiá, embora consideravelmente mais clara. Ele se pergunta, não pela primeira vez, o que uma mulher faz para ganhar um anel como aquele.

       Ela está ali parada, batendo o pé, deixando-o dar sua olhada. Atrás dele, Charles Burnside continua seu progresso lento e titubeante para o banheiro dos homens. Você poderia pensar, olhando para aquele velho infeliz com aquelas pernas descarnadas e aquele cabelo branco ralo, que o tempo em que ele corria ficara para trás há muito. Mas estaria errado. Redondamente errado.

       — Srta. Vilas? — diz Pete afinal.

       — Salão, Pete. No duplo. E quantas vezes já lhe disseram para não fumar nas alas dos pacientes:?

       Antes que ele possa responder, ela se vira fazendo um saracoteio sensual com a saia e parte para o salão da Maxton, onde se realizará o baile da Festa do Morango!, daquela tarde.

       Suspirando, Pete deixa a vassoura encostada na parede e a acompanha.

      

      

Charles Burnside agora está sozinho na ponta do corredor da ala Margarida. O vazio deixa seus olhos e é substituído por um brilho feroz de inteligência. Na mesma hora, ele parece mais jovem. Na mesma hora, Burny, a máquina humana de merda desapareceu. Em seu lugar está Carl Bierstone, que ceifava os jovens em Chicago com uma eficiência muito selvagem.

       Carl... e algo mais. Algo não humano.

       Ele — a coisa — sorri.

       Na mesa sem o funcionário responsável há uma pilha de papéis presa com uma pedra redonda do tamanho de uma xícara de café. Inscrito na pedra em letras pretas está PEDRA DE ESTIMAÇÃO DE BUTCH.

       Burny pega a pedra de estimação de Butch Yerxa e vai depressa para o banheiro masculino, ainda rindo.

      

      

No salão, as mesas foram arrumadas ao redor das paredes e cobertas com toalhas de papel vermelhas. Mais tarde, Pete acrescentará pequenas luzes vermelhas (à bateria; nada de velas para os babões, nossa, não). Nas paredes, grandes morangos de papelão foram colados com fita adesiva por toda parte, alguns parecendo bem usados — eram pendurados e depois guardados todos os meses de julho desde que Herbert Maxton abriu esta instituição, no final dos anos de embalo da década de 60.

       Hoje à tarde e à noitinha, os velhos corocas que ainda se locomovem e estão a fim de fazê-lo vão se arrastar até lá para o som das big bands dos anos 30 e 40, pendurados uns nos outros durante os números lentos e provavelmente molhando as fraldas de excitação no final dos jitterbugs. (Há três anos, um velho coroca chamado Irving Christie teve um pequeno infarto depois de dançar num passo particularmente extenuante “Não sente embaixo da macieira com ninguém a não ser eu”.) Ah, sim, o Baile da Festa do Morango é sempre empolgante.

       Sozinha, Rebecca juntou três chapas de madeira e cobriu-as com um pano branco, criando a base para o pódio de Stan Sinfônico. No canto, há um microfone cromado reluzente, com uma grande cabeça redonda, uma antiguidade autêntica dos anos 30 que esteve em uso no Cotton Club. É um dos objetos de estimação de Henry Leyden. Ao lado do microfone, está a caixa alta e estreita em que ele chegou ontem. No pódio, embaixo de uma viga decorada com papel crepom vermelho e branco e mais morangos de papelão, há uma escada portátil. Vendo-a, Pete sente um momentâneo ciúme possessivo. Rebecca Vilas esteve em seu armário. Vagabunda invasora! Se ela roubou algum baseado seu, por Deus...

       Rebecca pousa a caixa no pódio com um resmungo audível, depois se levanta. Afasta uma mecha de cabelo castanho e sedoso da face corada. Ainda é cedo, mas aquele vai ser um dos dias tórridos do Condado de Coulee. Refrigere sua roupa de baixo e use duas vezes mais desodorante, gente, como George Rathbun costumava gritar.

       — Piensei que você viria, mieu garoto — diz Rebecca.

       — Bem, estou aqui — diz Pete emburrado. — Parece que você está se virando bem sem mim. — Ele faz uma pausa, depois acrescenta: — Biem. — Para Pete isso é uma brincadeira muito espirituosa. Ele se adianta e olha dentro da caixa, que, como a que estava ao lado do microfone, tem o selo PROPRIEDADE DE HENRY LEYDEN. Dentro da caixa há um pequeno refletor com um fio enrolado em volta, e um gel circular cor-de-rosa cujo objetivo é fazer a luz ficar da cor de bengalas de açúcar e de balas de morango.

       — Que merda é essa? — pergunta Pete.

       Rebecca lhe lança um sorriso brilhante, perigoso. Mesmo para um cara relativamente burro como Pete, a mensagem daquele sorriso é clara: você está à beira do lago do jacaré, amigo; quantos passos mais quer dar?

       — Luz — diz ela. — L-U-Z. Fica pendurada ali, naquele gancho. G-A-N-C-H-O. É uma coisa na qual o DJ insiste. Diz que o deixa no clima. C-L-I...

       — O que aconteceu com Weenie Erickson? — resmunga Pete. — Não tinha nada dessa merda com Weenie. Ele tocava os discos durante duas horas, tomava uns goles da garrafinha de bolso, depois desligava.

       — Ele se mudou — diz Rebecca com indiferença. — Para Racine, eu acho.

       — Bem — Pete está olhando para cima, estudando a viga com aqueles tufos de papel crepom vermelho e branco. — Não vejo gancho nenhum, Srta. Vilas.

       — Pela madrugada — diz ela, e sobe a escada. — Aqui. Você é cego?

       Pete, que definitivamente não é cego, raramente foi tão grato por estar em estado de enxergar. De sua posição embaixo dela, ele tem uma clara visão de suas coxas, da espuma de renda vermelha de suas calcinhas e das curvas gêmeas de suas nádegas, agora lindamente contraídas enquanto ela está trepada no quinto degrau da escada.

       Ela olha para ele ali embaixo, vê o olhar abobalhado em seu rosto, nota a direção de sua linha de visão. Sua expressão se suaviza um pouco. Como sua querida mãe tão sabiamente observou, alguns homens são doidinhos para ver um pedaço de calcinha.

       — Pete. Terra para Pete.

       — Hã? — Ele olha para ela, boquiaberto, um pingo de saliva no lábio inferior.

       — Não tem nenhum gancho na minha calcinha, tenho certeza disso como de poucas coisas na vida. Mas, se você olhar para cima... para a minha mão, em vez de para a minha bunda...

       Ele olha para cima, ainda aparvalhado, e vê uma unha de ponta vermelha (Rebecca hoje é uma visão em todos os aspectos, vestida de vermelho-morango, sem dúvida) batendo num gancho que cintila no papel crepom, como um anzol cintilando com um brilho assassino numa isca vistosa.

       — Gancho — diz ela. — Cole o gel na lâmpada, prenda a lâmpada no gancho. Lâmpada vira refletor rosa quente, conforme instruções explícitas do DJ. Entendeu, Kemo sabe?

       — Hã... tá.

       — Então, se eu puder cunhar uma expressão, quer fazer o favor de pendurar isso?

       Ela desce a escada, decidindo que Pete Wexler viu o cinema de graça mais longo que ele poderia razoavelmente esperar ver por uma tarefa pobre. E Pete, que já tivera uma ereção, tira da caixa o refletor rosa de Stan Sinfônico e se prepara para ter outra. Quando ele sobe a escada, sua braguilha passa pela cara de Rebecca. Ela nota o volume ali e morde o interior da bochecha para reprimir um sorriso. Os homens são bobos, mesmo. Bobos amáveis, alguns deles, mas mesmo assim bobos. Só que alguns bobos têm dinheiro para anéis e viagens e jantares à meia-noite em boates de Milwaukee, e outros não.

       Com alguns bobos, o máximo que se consegue é fazê-los pendurar uma pobre lâmpada.

      

      

— Me espera, gente! — grita Ty Marshall. — Ebbie! Ronnie! T. J.! Me esperem!

       Por cima do ombro, Ebbie Wexler (que parece mesmo com o Sluggo, o namorado não muito brilhante de Nancy) responde:

       — Pegue a gente, lesma!

       — É! — berra Ronnie Metzger. — Pegue a gente, mes-la! — Ronnie, um garoto com um monte de horas de consultório fonoaudiológico pela frente, olha para trás por cima do próprio ombro, tira um fino de um parquímetro e quase tromba a bicicleta. Logo estão fugindo, todos os três, ocupando a calçada com suas bicicletas (Deus ajude o pedestre vindo na direção contrária), suas sombras correndo ao lado deles.

       Tyler cogita uma arrancada final para alcançá-los, depois decide que suas pernas estão cansadas demais. Seus pais dizem que, com o tempo, ele vai alcançá-los, que ele só é pequeno pela sua idade, mas, puxa, Ty tem suas dúvidas. E também tem cada vez mais dúvidas sobre Ebbie, Ronnie e T. J. Vale a pena mesmo nivelar-se a eles? (Se soubesse dessas dúvidas, Judy Marshall aplaudiria de pé — há dois anos ela se pergunta quando o filho inteligente e consciencioso finalmente vai se cansar de andar com uma turma de fracassados como aquela... o que ela chama de “gente de baixo nível”.)

       — Vão tomar banho — diz Ty desconsolado e salta da bicicleta. Não há razão real para correr atrás deles, afinal de contas; ele sabe onde vai encontrá-los: no estacionamento da 7-Eleven, bebendo refrigerante e trocando figurinhas do Magic Johnson. Este é outro problema que Tyler está tendo com os amigos. Atualmente, ele prefere mil vezes trocar figurinhas de beisebol. Ebbie, Ronnie e T. J. não têm o menor interesse pelos Cardinals, os Indians, o Red Sox e os Brewers. Ebbie chegou até a dizer que beisebol é gay, um comentário que Ty considera antes burro (quase digno de pena) do que ofensivo.

       Ele vai andando devagar levando a bicicleta pela calçada, recobrando o fôlego. Chega ao cruzamento da Chase com a Queen. Ebbie chama a Queen de Queer.* Claro. Isso não surpreende. E não é esta uma grande parte do problema? Tyler é um garoto que gosta de surpresas; Ebbie Wexler é um garoto que não gosta. O que torna sua reação contrária à música que saía da picape ainda agora, naquela manhã, perfeitamente previsível.

      

      

      

       Tyler dá uma parada na esquina, olhando a Rua Queen. Há sebes cerradas de ambos os lados. Acima das do lado direito, erguem-se alguns telhados vermelhos interligados. O asilo dos velhos. Ao lado do portão principal foi colocada uma espécie de placa. Curioso. Tyler torna a montar na bicicleta e segue devagar pela calçada para ver. Os galhos mais longos da sebe ao lado dele sussurram no guidom de sua bicicleta.

       A placa é um enorme morango. HOJE É A FESTA DO MORANGO!!! está escrito embaixo dela. O que é uma Festa do Morango?, Ty Marshall se pergunta. Uma festa, algo só para velhos? Ê uma pergunta, mas não muito interessante. Após refletir alguns segundos sobre ela, ele vira a bicicleta e se prepara para voltar à Rua Chase.

      

* Queen (rainha) e queer (estranho) são sinônimos de “bicha” [N. da T.].

      

 

Charles Burnside entra no banheiro masculino no início do corredor da ala Margarida, ainda rindo e segurando a pedra de estimação de Butch. À sua direita, há uma carreira de pias, e, em cima de cada pia, um espelho — daqueles típicos de banheiros de bares e botequins populares. Em um deles, Burny vê o próprio reflexo sorridente. Em outro, o mais próximo da janela, ele vê um garotinho vestido com uma camiseta dos Brewers de Milwaukee. O garoto está montado em sua bicicleta, do lado de fora do portão, lendo a placa da Festa do Morango!

       Burny começa a babar. Não há nada de discreto nisso, tampouco. Burny baba como um lobo num conto de fadas, grumos brancos de saliva espumosa vazando dos cantos de sua boca e escorrendo pelo rolo flácido e escuro de seu lábio inferior. A baba lhe escorre pelo queixo como um rio de espuma de sabão. Ele a limpa distraidamente com as costas da mão nodosa, deixando-a respingar no chão, sem tirar os olhos do espelho. O garoto no espelho não é um dos pobres bebês perdidos desta criatura — Ty Marshall viveu a vida toda em French Landing e sabe exatamente onde está —, mas poderia ser. Ele poderia facilmente se perder e acabar numa certa sala. Numa certa cela. Ou caminhando na direção de um horizonte estranho com os pezinhos ardendo e sangrando.

       Especialmente se Burny conseguir fazer o que quer. Ele terá que andar depressa, mas, como já notamos, Charles Burnside pode, se estiver bem motivado, andar muito depressa mesmo.

       — Gorg — ele diz para o espelho. Ele fala esta palavra sem sentido com um sotaque perfeitamente claro, perfeitamente neutro do meio-oeste. — Vamos, Gorg.

       E, sem esperar para ver o que vem depois — ele sabe o que vem depois —, Burny vira-se e encaminha-se para a linha de quatro sanitários. Entra no segundo a partir da esquerda e fecha a porta.

      

      

Tyler acabou de montar de novo na bicicleta quando a sebe farfalha a três metros da placa Festival do Morango! Um corvo enorme passa por entre a ramagem e pousa na calçada da Rua Queen. Olha para o menino com um olhar vivo, inteligente. Fica em pé com as patas pretas afastadas, abre o bico e fala.

       — Gorg!

       Tyler olha para ele, começando a sorrir, sem ter certeza de ter ouvido isso, mas pronto para se deliciar (com dez anos, ele está sempre pronto para se deliciar, sempre preparado para acreditar no incrível).

       — O quê? Você disse alguma coisa?

       O corvo bate as asas luzidias e inclina a cabeça de uma forma que torna o feio quase charmoso.

       — Gorg! Ty!

       O garoto ri. A ave disse seu nome! O corvo disse seu nome!

       Ele salta da bicicleta, equilibra-a ao descanso e dá alguns passos em direção ao corvo. Pensamentos a respeito de Amy St. Pierre e Johnny Irkenham — infelizmente — nem lhe passam pela cabeça.

       Ele pensa que o corvo na certa vai voar quando ele se aproximar, mas a ave apenas bate ligeiramente as asas e escorrega de lado na direção da sebe cerrada e escura.

       — Você disse meu nome?

       — Gorg! Ty! Abalá!

       Por um momento, o sorriso de Tyler vacila. Aquela última palavra é quase familiar para ele, e as associações, embora fracas, não são exatamente agradáveis. A palavra o faz pensar na mãe, por alguma razão. Depois o corvo torna a dizer seu nome; seguramente está dizendo Ty.

       Tyler dá mais um passo afastando-se da Rua Queen e aproximando-se da ave negra. O corvo dá um passo correspondente, chegando mais perto da moita de sebe. Não há ninguém na rua; esta parte de French Landing está sonhando no sol da manhã. Ty dá outro passo para seu destino, e todos os mundos tremem.

      

      

Ebbie, Ronnie e T. J. saem com um ar petulante da 7-Eleven, onde o cabeça-enrolada atrás do balcão acabou de lhes servir refresco de mirtilo (cabeça-enrolada é só uma das muitas generalizações pejorativas que Ebbie aprendeu com o pai). Eles também vêm com pacotes novos de figurinhas do Magic Johnson, dois cada um.

       Ebbie, os lábios já lambuzados de azul, vira-se para T. J.

       — Vá lá embaixo na rua pegar o lesma.

       T. J. parece ofendido.

       — Por que eu?

       — Porque Ronnie comprou as figurinhas, cretino. Ande, vá logo.

       — Por que precisamos dele, Ebbie? — pergunta Ronnie.

       Ele encosta no bicicletário comendo as lascas frias e doces de gelo.

       — Porque eu estou mandando — retruca Ebbie com arrogância.

       O fato é que Tyler Marshall em geral tem dinheiro às sextas-feiras. Na verdade, Tyler tem dinheiro quase todo dia. Os pais dele são podres de ricos. Ebbie, que está sendo criado (se é que se pode dizer assim) por um pai solteiro que tem um emprego de merda como zelador, já concebeu um ódio vago contra Tyler por causa disso; as primeiras humilhações não estão longe, e as primeiras surras virão logo depois. Mas, agora, tudo o que ele quer são mais figurinhas do Magic Johnson, um terceiro pacote para cada um deles. O fato de Tyler nem gostar tanto assim de Magic Johnson só vai tornar mais saboroso o ato de fazê-lo pagar.

       Mas, primeiro, eles precisam trazer o lesminha aqui. Ou o mes-linha, como o tatibitate Ronnie o chama. Ebbie gostou do nome, e acha que vai começar a usá-lo. Mes-la. Uma palavra boa. Goza Ty e Ronnie ao mesmo tempo. Dois pelo preço de um.

       — Ande, T. J. A não ser que queira levar um calor.

       T. J. não quer. Os calores de Ebbie Wexler doem loucamente. Ele dá um suspiro teatral, tira a bicicleta do bicicletário, monta nela e desce a ladeira suave, segurando o guidom com uma das mãos e o refresco com a outra. Ele espera ver Ty logo, provavelmente andando a pé e empurrando a bicicleta porque está exausto, mas parece que Ty não está mesmo na Rua Chase... o que aconteceu?

       T. J. pedala um pouco mais depressa.

      

      

No banheiro masculino, agora estamos olhando para a linha de sanitários. A porta do segundo a partir da esquerda está fechada. As outras três estão escancaradas em suas dobradiças cromadas. Embaixo da porta fechada, vemos um par de tornozelos nodosos e cheios de veias subindo de um par de chinelos imundos.

       Uma voz grita com uma força surpreendente. É uma voz de jovem, rouca, faminta e zangada. Ela ecoa surdamente nas paredes azulejadas: Abalá! Abalá-dum! Munshun gorg!

       De repente as descargas disparam. Não só a do cubículo fechado, mas todas elas. Do outro lado, as descargas dos mictórios também disparam, as válvulas abaixando em perfeita sincronia. A água desce por suas superfícies abauladas de porcelana.

       Quando tornamos a olhar dos mictórios para os sanitários, vemos que os chinelos sujos — e os pés que estavam dentro deles — desapareceram. E pela primeira vez ouvimos realmente barulho de resvalamento, uma espécie de exalação quente, o tipo de barulho que ouvimos escapando do pulmão de uma pessoa acordando de um pesadelo às duas da manhã.

       Senhoras e senhores, Charles Burnside deixou o prédio. O corvo agora recuou para junto da sebe. Continua olhando para Tyler com seus olhos brilhantes e sinistros. Tyler adianta-se para ele, sentindo-se hipnotizado.

       — Diga meu nome de novo — murmura ele. — Diga meu nome e pode ir.

       — Ty! — crocita o corvo amavelmente, depois dá uma sacudidela nas asas e entra na sebe. Por um momento, Tyler ainda pode vê-lo, um misto de preto luzidio no verde luzidio, depois ele some.

       — Caracorvo! — diz Tyler. Ele percebe o que acabou de dizer e dá uma risadinha convulsa. Aconteceu isso? Aconteceu, não?

       Ele se aproxima mais do lugar onde o corvo entrou de novo na sebe, pensando que se a ave perdesse uma pena ele iria pegá-la para guardar de lembrança, e nisso um braço branco descarnado irrompe da ramagem e agarra-o com segurança pelo pescoço. Tyler tem tempo de dar um único grito aterrorizado e depois é arrastado através da sebe. Um de seus tênis é arrancado pelos galhos curtos e duros. Do outro lado, vem um único grito gutural e guloso — poderia ter sido “Garoto!”—, e depois um baque, o barulho de uma pedra de estimação caindo na cabeça de um garotinho, quem sabe. Depois, não há nada senão o zumbido distante de uma máquina de cortar grama e o zumbido mais próximo de uma abelha.

       A abelha está zunindo em volta das flores do outro lado da sebe, o lado da Maxton. Não há mais nada para ser visto ali senão grama, e mais perto do prédio as mesas onde os habitantes idosos irão, ao meio-dia, sentar-se para o piquenique da Festa do Morango.

       Tyler Marshall sumiu.

      

      

T. J. Renniker vem no embalo e pára na esquina da Chase com a Queen. O suco azul de seu refresco está pingando em seu pulso, mas ele mal nota. No meio da Rua Queen, ele vê a bicicleta de Ty, bem equilibrada em seu descanso, mas Ty, não.

       Pedalando devagar — ele tem um mau pressentimento sobre isso, de alguma forma —, T. J. vai até a bicicleta. A certa altura, ele vê que seu refresco batido com gelo derreteu todo e virou um xarope. Ele joga o copo na sarjeta.

       É a bicicleta de Ty, sim. Não dá para confundir aquela Schwinn vermelha aro 20 com guidom de corrida e o decalque verde dos Milwaukee Bucks na lateral. A bicicleta e...

       Perto da cerca que cria um limite entre o mundo dos velhos e o das pessoas normais, as pessoas de verdade, T. J. vê um pé de tênis Reebock. Em volta dele há algumas folhas verdes reluzentes espalhadas. Uma pena se projeta do tênis.

       O garoto arregala os olhos para este tênis. T. J. pode não ser tão brilhante quanto Tyler, mas tem muito mais watts que Ebbie Wexler, e é muito fácil para ele imaginar Tyler sendo arrastado através da cerca, deixando para trás a bicicleta... e um pé de tênis solitário e virado de lado.

       — Ty? — ele chama. — Você está de brincadeira? Porque, se estiver, é melhor parar. Vou dizer a Ebbie para lhe dar o maior calor que você já levou.

       Nenhuma resposta. Ty não está de brincadeira. De alguma forma, T. J. sabe disso.

       Pensamentos de Amy St. Pierre e Johnny Irkenham de repente explodem na cabeça de T. J. Ele ouve (ou imagina ouvir) passos furtivos atrás da sebe: o Pescador, tendo garantido o jantar, voltou para a sobremesa!

       T. J. tenta gritar, mas não consegue. Sua garganta tem o calibre de um furo de alfinete. Em vez de gritar, ele voa para a bicicleta e começa a pedalar. Passa da calçada para a rua, querendo se afastar da massa escura daquela sebe o mais depressa possível. Quando desce do meio-fio, o pneu dianteiro de sua bicicleta Huffy atropela o resto de seu refresco. Pedalando em direção à Rua Chase, curvado sobre o guidom como um corredor de Grande Prêmio, ele vai deixando um rastro escuro e brilhante no asfalto. Parece sangue. Em algum lugar ali perto, um corvo crocita. Parece uma gargalhada.

      

      

Alameda Robin Hood, 16: já estivemos aqui antes, como disse a corista ao arcebispo. Uma espiada pela janela da cozinha, e vemos Judy Marshall dormindo na cadeira de balanço no canto. Há um livro em seu colo, o romance de John Grisham que vimos da última vez em sua mesa-de-cabeceira. Ao lado dela, no chão, há meia xícara de café frio. Judy conseguiu ler dez páginas antes de adormecer. Não devemos responsabilizar as habilidades narrativas do Sr. Grisham; Judy teve uma noite difícil ontem, e não foi a primeira. Há mais de dois meses ela não consegue dormir mais de duas horas seguidas. Fred sabe que há algum problema com sua mulher, mas não tem idéia da profundidade dele. Se tivesse, estaria muito mais que assustado. Daqui a pouco, que Deus o ajude, ele vai ter uma noção melhor de seu estado mental.

       Agora ela começa a gemer profundamente, e a virar a cabeça de um lado para o outro. Aquelas palavras sem sentido começam a sair dela novamente. A maioria delas sai muito confusa para se entender, mas captamos abalá e gorg.

       Seus olhos se abrem de repente. São de um azul-rei brilhante na luz da manhã, que enche a cozinha com o ouro empoeirado do verão.

       — Ty! — ela diz num arquejo, e seus pés fazem um movimento convulsivo consciente. Ela olha para o relógio em cima do fogão. Passam 12 minutos das nove horas, e tudo parece torto, como tantas vezes parece quando dormimos profundamente, porém mal ou pouco. Ela sugou algum sonho ruim, não exatamente um pesadelo, como cordões mucosos de placenta: homens de chapéus moles abaixados para esconder a cara, caminhando com pernas compridas tipo R. Crumb que terminavam em sapatões de bico redondo tipo R. Crumb, jovens sinistros que andavam depressa demais tendo uma cidade como pano de fundo — Milwaukee? Chicago? — e, na frente, um céu alaranjado ameaçador. A trilha sonora do sonho era a banda de Benny Goodman tocando “King Porter Stomp”, que seu pai sempre tocava quando estava tomando um traguinho, e a sensação do sonho fora uma tenebrosa mistura de terror e pesar: coisas horríveis aconteceram, mas a pior estava esperando.

       Não há nada do alívio que as pessoas costumam sentir ao acordar de pesadelos — o alívio que ela mesma sentira quando era mais jovem e... e...

       — E com a mente sadia — diz ela com uma voz gutural, de quem acabou de acordar. — “King Porter Stomp.” Imagine.

       Para ela, esta música sempre parecia aquela que se ouvia nos velhos desenhos animados, aquela em que camundongos de luvas brancas entram e saem correndo de buracos de rato com uma velocidade estonteante e febril. Uma vez, quando seu pai estava dançando com ela ao som dessa música, ela sentiu uma coisa dura cutucando-a. Algo nas calças dele. Depois disso, quando ele botava sua música de dança, ela procurava estar em outro lugar.

       — Pare com isso — diz ela com a mesma voz gutural.

       É uma voz de corvo, e ocorre-lhe que havia um corvo no sonho. Claro, pode apostar. O corvo Gorg.

       — Gorg significa morte — ela diz, e lambe o lábio superior seco sem perceber. Sua língua estica mais ainda, e, ao voltar, a ponta lambe as narinas, quentes e úmidas e de certa forma reconfortantes. — Lá, gorg significa morte. Lá na...

       Lonjura é a palavra que ela não diz. Antes que possa dizer, ela vê algo na mesa da cozinha que não estava lá antes. É uma caixa de vime. Um som está saindo da caixa, um som baixo e monótono.

       A agonia vai penetrando em sua barriga, dando a sensação de que seus intestinos estão soltos e aguados. Ela sabe como se chama uma caixa como aquelas: samburá. É um samburá de pescador.

       Há um pescador em French Landing atualmente. Um pescador mau.

       — Ty? — ela chama, mas obviamente não há resposta.

       Ela está sozinha em casa. Fred está trabalhando, e Ty deve estar na rua brincando — pode apostar. Estamos em meados de julho, o coração das férias de verão, e Ty deve estar zanzando pela cidade, fazendo todas as coisas dos livros de Ray Bradbury-August Derleth que os garotos fazem quando têm todo o interminável dia de verão para fazê-las. Mas ele não vai estar sozinho; Fred conversou com ele sobre andar em turma até o Pescador ser pego, pelo menos até lá, e ela também. Judy não gosta muito do garoto Wexler (nem dos garotos Metzger e Renniker), mas há segurança no número. Ty provavelmente não está tendo nenhum despertar cultural este verão, mas pelo menos...

       — Pelo menos ele está seguro — diz ela em sua voz gutural de corvo Grog.

       No entanto, a caixa que apareceu na mesa da cozinha enquanto ela cochilava parece negar todo o conceito de segurança. De onde veio? E o que é a coisa branca em cima dela?

       — Um bilhete — ela diz, e se levanta.

       Atravessa a pequena distância entre a cadeira de balanço e a mesa como alguém ainda sonhando. O bilhete é um pedaço de papel dobrado. No meio do papel, ela pode ver escrito Doce Judy Olhos Azuis. Na faculdade, pouco antes de conhecer Fred, Judy tinha um namorado que a chamava assim. Ela pediu que ele parasse — era irritante, meloso — e como ele vivia esquecendo (de propósito, ela achava), ela o jogou fora como uma pedra. Agora, aquele apelido idiota está ali de novo, zombando dela.

       Judy abre a torneira da pia sem tirar os olhos do bilhete, enche a mão em concha de água fria e bebe. Algumas gotas respingam em Doce Judy Olhos Azuis e borram seu nome na mesma hora. Escrito à caneta-tinteiro? Que antiquado! Quem escreve à caneta-tinteiro hoje em dia?

       Ela estende a mão para pegar o bilhete, depois recua. O barulho de dentro da caixa agora está mais alto. E um zumbido. São...

       — São moscas — ela diz. A água refrescou sua garganta e sua voz não está tão gutural, mas Judy acha que continua parecendo a do corvo Gorg. — A gente conhece barulho de mosca.

       Pegue o bilhete.

       Não quero.

       Sim, mas você PRECISA! Agora, pegue! O que aconteceu com sua CORAGEM, sua cagoninha?

       Boa pergunta. Boa paca. A língua de Judy sai, lambe seu lábio superior e as narinas. Depois ela pega o bilhete e desdobra-o.

      

       Desculpe só ter um “rin-zinho” (rim). 0 outro

       eu fritei e comi. Estava muito gostoso!                              

                                               O Pescador

      

       Os nervos dos dedos, das palmas das mãos, dos pulsos e dos braços de Judy Marshall de repente se desligaram. A cor desaparece tão completamente de seu rosto que as veias azuis em suas faces ficam visíveis. Certamente é um milagre ela não ter desmaiado. O bilhete lhe cai da mão e vai em ziguezague para o chão. Gritando o nome do filho sem parar, ela abre a tampa do samburá.

       Dentro há pedaços vermelhos e brilhantes de intestino, infestados de moscas. Há sacos enrugados de pulmões e a bomba do tamanho de um punho que era o coração da criança. Há a grossa posta arroxeada de um fígado... e um rim. Este bolo de entranhas está infestado de moscas e o mundo inteiro está gorg, está gorg, está gorg.

       Na calma ensolarada de sua cozinha, Judy Marshall agora começa a urrar, e é o som da loucura finalmente libertada de sua frágil gaiola, loucura desenfreada.

      

      

Butch Yerxa tencionava entrar depois de fumar só um cigarro — sempre há muito que fazer em dias de Festa do Morango! (embora o bondoso Butch não odeie feriadinhos artificiais como Pete Wexler). Então apareceu Petra English, uma enfermeira da ala Asfódelo, e eles começaram a conversar sobre motocicleta, e quando viram, tinham se passado 20 minutos.

       Ele diz a Petra que tem de ir, ela lhe diz para deixar o lado brilhante para cima e o da borracha para baixo, e Butch volta depressa para dentro e encontra uma surpresa desagradável. Lá está Charles Burnside, pelado, em pé ao lado da mesa com a mão em cima da pedra que Butch usa como peso de papel. (O filho dele a fez no acampamento ano passado — pintou as palavras nela, pelo menos —, e Butch acha aquilo o máximo.) Butch não tem nada contra os moradores — certamente ele daria uma surra em Pete Wexler se soubesse daquela coisa dos cigarros, além de apenas denunciá-lo —, mas ele não gosta que mexam nas suas coisas. Especialmente esse cara, que é bem desagradável quando está de posse do pouco juízo que tem. Como é o caso agora. Butch pode ver nos olhos dele. O verdadeiro Charles Burnside veio tomar ar, talvez em homenagem à Festa do Morango!

       E por falar em morango, Burny aparentemente já caiu de boca neles. Há traços de vermelho em seus lábios e nos vincos fundos nos cantos de sua boca.

       Butch mal olha para isso, porém. Há outras manchas em Burny. Marrons.

       — Quer tirar a mão daí, Charles? — ele pede.

       — De onde? — Burny pergunta, depois acrescenta: — Babaca.

       Butch não quer dizer Da minha pedra de estimação, isso parece idiota.

       — Do meu peso de papel.

       Burny olha para a pedra, que ele acabou de botar de volta no lugar (havia um pouco de sangue e de cabelo nela quando ele saiu do sanitário, mas é para limpeza que pias de banheiro servem). Ele larga a pedra e fica ali parado.

       — Me limpe, paspalho. Eu me caguei.

       — Estou vendo. Mas primeiro me diga se você foi espalhar seu cocô pela cozinha. E sei que você esteve lá, por isso não minta.

       — Lavei as mãos primeiro — diz Burny, e as mostra.

       Elas são nodosas, mas estão rosadas e limpas apesar disso tudo. Até as unhas estão limpas. Ele sem dúvida as lavou. Então acrescenta:

       — Coió.

       — Venha comigo até o banheiro — diz Butch. — O coió babaca vai limpar você.

       Burny bufa, mas até que vai de boa vontade.

       — Você está pronto para o baile de hoje à tarde? — pergunta-lhe Butch, só para dizer alguma coisa. — Está com seus sapatos de dança bem engraxados, garotão?

       Burny, que às vezes pode surpreendê-lo quando é verdadeiramente direto, sorri, mostrando alguns dentes amarelos. Como seus lábios, eles estão manchados de vermelho.

       — É, estou pronto para dançar — diz ele.

      

      

Embora a cara de Ebbie não mostre, ele ouve com uma inquietação crescente a história de T. J. sobre a bicicleta e o tênis abandonado de Tyler Marshall. A cara de Ronnie, por outro lado, mostra muita inquietação.

       — Então o que vamos fazer, Ebbie? — T. J. pergunta quando termina.

       Finalmente está recobrando o fôlego depois de pedalar velozmente ladeira acima.

       — O que você quer dizer com o que vamos fazer? — diz Ebbie. — As mesmas coisas que íamos fazer de qualquer maneira: descer a rua, ver o que podemos encontrar em termos de garrafas reutilizáveis. Ir para o parque e trocar figurinhas do Magic Johnson.

       — Mas... e se...

       — Cale a boca — diz Ebbie.

       Ele sabe quais são as duas palavras que T. J. está prestes a dizer, e não quer ouvi-las. Seu pai diz que dá azar botar chapéu em cima da cama, e Ebbie nunca faz isso. Se isso dá azar, dizer o nome de um assassino tarado tem que dar em dobro.

       Mas aí o idiota daquele Ronnie Metzger vai e diz de qualquer jeito... mais ou menos.

       — Mas, Ebbie, e se o Fescamar? E se Ty foi agarrado pelo...

       — Cale a boca, porra! — diz Ebbie e fecha o punho como se para acertar o raio do tatibitate.

       Naquele momento o atendente cabeça-enrolada pula da 7-Eleven como um boneco de mola pulando da caixa.

       — Eu não quer saber dessa conversa aqui não! — grita ele. — Agora vão embora, vão conversar sua conversa suja outro canto! Senão eu chama polícia!

       Ebbie sai pedalando devagar, numa direção que vai levá-lo para mais longe da Rua Queer (entre os dentes, ele murmura preto sujo, outro termo encantador que aprendeu com o pai), e os outros dois meninos o seguem. Quando eles estão a um quarteirão da 7-Eleven, Ebbie pára e se volta para os dois com a barriga e a cara empinadas.

       — Ele foi embora sozinho meia hora atrás — diz.

       — Hã? — diz T. J.

       — Quem fez o quê? — pergunta Ronnie.

       — Ty Marshall. Se alguém perguntar, ele foi embora sozinho meia hora atrás. Quando a gente estava... hum...

       Ebbie volta o foco de sua mente para trás, algo que é difícil para ele porque ele não tem muita prática. Em circunstâncias normais, o presente é tudo de que Ebbie Wexler precisa.

       — Quando estávamos olhando a vitrine do empório? — T. J. pergunta timidamente, esperando não estar atraindo um dos ferozes calores de Ebbie Wexler.

       Ebbie olha-o com um olhar vazio por um momento, depois sorri. T. J. relaxa. Só Ronnie Metzger continua parecendo perplexo. Com um taco de beisebol nas mãos ou um par de patins de hóquei nos pés, Ronnie é o máximo. O resto do tempo, ele é bem tonto.

       — Isso mesmo — diz Ebbie —, é. A gente estava olhando a vitrine do Schmitt’s, aí chegou aquela picape, aquela tocando a música loucona, e aí o Ty disse que tinha que ir embora.

       — Aonde ele tinha que ir? — pergunta T. J.

       Ebbie não é brilhante, mas possui o que se pode chamar de “malandragem”. Ele sabe instintivamente que a melhor versão é uma versão curta — quanto menos elementos, menor é a chance de alguém fazer você tropeçar numa inconsistência.

       — Ele não disse. Só disse que tinha que ir.

       — Ele não foi a lugar nenhum — diz Ronnie. — Só ficou para trás porque é uma... — Faz uma pausa arrumando a palavra e, dessa vez, sai certo. — Lesma.

       — Essa não — diz Ebbie. — E se... e se aquele cara pegou ele, seu bundão? Quer que digam que foi porque ele não conseguiu nos acompanhar? Que morreu porque deixamos ele para trás? Quer que digam que foi nossa culpa?

       — Nossa — diz Ronnie. — Você não acha mesmo que o Fescamar... Pescador... pegou Ty, acha?

       — Não sei e estou pouco ligando — diz Ebbie —, mas não me importo que ele tenha ido embora. Ele estava começando a me encher o saco.

       — Ah.

       Ronnie consegue parecer distraído e satisfeito. Que bundão ele é, maravilha-se Ebbie. Que bundão completo e acabado. E se você não acreditou, pense em como Ronnie, que é um cavalo de forte, permite que Ebbie lhe dê calor atrás de calor. Provavelmente há de chegar um dia em que Ronnie vai ver que não tem mais que agüentar isso, e nesse dia ele pode bater em Ebbie até enfiá-lo no chão como uma estaca de tenda em forma de gente, mas Ebbie não se preocupa com essas coisas; ele é até pior em dirigir o foco da mente para a frente do que para trás.

       — Ronnie — diz Ebbie.

       — O quê?

       — Onde a gente estava quando Tyler foi embora?

       — Hum... no empório Schmitt’s?

       — Certo. E aonde ele foi?

       — Não disse.

       Ebbie vê que para Ronnie isso já está virando a verdade e ele está satisfeito. Volta-se para T. J.

       — Você entendeu?

       — Entendi.

       — Então vamos.

       Eles saem pedalando. O bundão vai um pouco à frente de Ebbie e T. J. enquanto eles seguem pela rua arborizada, e Ebbie permite isso. Aproxima um pouco mais a bicicleta da de T. J. e diz:

       — Você viu alguma outra coisa ali? Alguém? Um cara?

       T. J. balança a cabeça.

       — Só a bicicleta e o tênis dele. — Ele faz uma pausa, puxando pela memória. — Havia algumas folhas espalhadas em volta. Folhas da sebe. E acho que talvez tivesse uma pena. Tipo uma pena de corvo.

       Ebbie não leva isso em conta. Está querendo saber se o Pescador chegou ou não perto dele naquela manhã, perto o suficiente para raptar um de seus colegas. Há uma parte dele sedenta de sangue que gosta da idéia, que adora pensar num monstro impreciso sem cara matando o cada vez mais irritante Ty Marshall e comendo-o de almoço. Há também uma parte dele que tem pavor de bicho-papão (esta parte estará no comando hoje à noite enquanto ele estiver no quarto, sem conseguir dormir, vendo sombras que parecem tomar forma e passar a andar furtivamente em volta de sua cama, cada vez mais perto). E há a parte dele mais madura, que tomou providências instintivas e imediatas para evitar o olho da autoridade, caso o desaparecimento de Tyler se transformasse naquilo que o pai de Ebbie chama de “um estardalhaço”.

       Mas sobretudo, como ocorre com Dale Gilbertson e o pai de Ty, Fred, há um continente de incredulidade fundamental em Ebbie Wexler. Ele simplesmente não consegue acreditar que nada definitivo tenha acontecido com Tyler. Nem mesmo depois de Amy St. Pierre e Johnny Irkenham, que foi cortado em pedacinhos e pendurado num velho galinheiro. Estas são crianças de quem Ebbie ouviu falar no noticiário da noite, ficções da Terra da Tevê. Ele não conhece Amy nem Johnny, por isso eles podiam ter morrido, assim como pessoas ilusórias estavam sempre morrendo nos filmes e na tevê. Ty é diferente. Ty estava ali ainda agora. Conversava com Ebbie, Ebbie conversava com ele. Na cabeça de Ebbie, isso equivalia à imortalidade. Ou devia equivaler. Se Ty podia ser raptado pelo Pescador, qualquer garoto podia. Inclusive ele. Portanto, como Dale e Fred, ele simplesmente não acredita. Seu coração mais secreto e fundamental, a parte que garante para o resto dele que está tudo bem no planeta Ebbie, nega o Pescador e todas as suas obras.

       T.J. diz:

       — Ebbie, você acha...

       — Não — diz Ebbie. — Ele vai aparecer. Vamos embora, vamos para o parque. Podemos procurar latas e garrafas depois.

      

      

Fred Marshall deixou o paletó esporte em sua sala, arregaçou as mangas e está ajudando Rod Tisbury a desembalar uma nova escavadeira Hiler. E a primeira de uma nova linha Hiler, e é uma beleza.

       — Estou esperando por uma máquina assim há 20 anos ou mais — diz Rod. Ele enfia com habilidade a ponta larga do pé-de-cabra no alto do caixote grande e uma das laterais de madeira cai chapada no chão de concreto da garagem de manutenção. Rod é o mecânico-chefe da Goltz’s, e ali na manutenção é rei. — Vai servir para o pequeno fazendeiro; vai servir para o jardineiro urbano, também. Se não conseguir vender uma dúzia dessas máquinas até o outono, você não está fazendo o seu trabalho.

       — Vou vender 20 até o fim de agosto — diz Fred com plena confiança.

       Todas as suas preocupações foram temporariamente varridas por essa esplêndida pequena máquina verde, que pode fazer muito mais que escavar; há uma quantidade de acessórios sensuais que se encaixam e se desencaixam tão facilmente quanto o forro numa jaqueta de outono. Ele quer ligá-la. Ouvi-la funcionar. Aquele motor de dois cilindros parece bem agradável.

       — Fred?

       Ele olha em volta com impaciência. É Ina Gaitskill, a secretária de Ted Goltz’s e a recepcionista da agência.

       — O quê?

       — Tem uma ligação para você na linha um.

       Ela aponta para o outro lado da garagem — animada com o retinir das máquinas e a zoeira de chaves de parafuso pneumáticas, soltando as porcas de um velho trator Case —, para o telefone na parede, onde há várias luzes piscando.

       — Você pode anotar o recado, Ina? Eu ia ajudar Rod a pôr uma bateria nesse bichinho e aí...

       — Acho que você devia atender. E uma mulher chamada Enid Purvis. Uma vizinha sua?

       Por um momento, dá um branco em Fred, depois, sua cabeça, que guarda nomes compulsivamente, vem acudi-lo. Enid Purvis. Mulher de Deke. Esquina de Robin Hood e Sta. Marian. Ele viu Deke hoje de manhã mesmo. Acenaram um para o outro.

       Ao mesmo tempo, ele percebe que os olhos de Ina estão muito arregalados e que sua boca normalmente generosa está muito contraída. Ela parece preocupada.

       — O que é? — pergunta Dale. — Ina, o que é?

       — Não sei. — Depois, com relutância: — Alguma coisa sobre sua mulher.

       — E melhor atender, chefe — diz Rod, mas Fred já está atravessando o chão de concreto manchado de óleo rumo ao telefone.

      

      

Ele chega em casa dez minutos depois de ter saído da Goltz’s e deixado o estacionamento dos funcionários cantando pneu como um adolescente. A pior parte fora a maneira de falar calma e cuidadosa de Enid Purvis, o esforço que ela fez tentando não parecer assustada.

       Ela estava passeando com Potsie e, quando passou pela casa dos Marshall, ouviu Judy gritar, disse. Não uma vez, mas duas. Obviamente Enid fizera o que qualquer bom vizinho faria, Deus a abençoe: foi até a porta, bateu, depois abriu a fresta para cartas e chamou por ali. Se ninguém tivesse respondido, ela disse a Fred, provavelmente ela teria chamado a polícia. Nem teria voltado para casa para fazer isso; teria ido até a casa dos Plotsky ali em frente e telefonado dali. Mas...

       — Eu estou bem — respondera Judy, e aí soltara uma gargalhada.

       A gargalhada começava estridente e terminava abafada. Enid achou essa risada de certa forma mais perturbadora que os gritos.

       — Foi tudo um sonho. Até Ty foi um sonho.

       — Você se cortou, querida? — Enid perguntara pela fresta das cartas. — Caiu?

       — Não tinha samburá nenhum — Judy respondeu. Ela podia ter dito camburão, mas Enid tinha quase certeza de que foi samburá. — Eu também sonhei isso. — Então, Enid contou a Fred com relutância, Judy Marshall começara a chorar. Fora muito aflitivo ouvir aquele ruído chegar a ela pela fresta das cartas. Isso até fez o cachorro ganir.

       Enid falara através da fresta mais uma vez, perguntando se podia entrar e certificar-se de que Judy não estava ferida.

       — Vá embora! — Judy respondera. No meio do choro, ela riu de novo. Uma risada zangada, transtornada. — Você também é um sonho. Esse mundo inteiro é um sonho.

       Aí ouviu-se um barulho de vidro quebrando, como se ela tivesse batido numa caneca de café ou num copo de água e derrubado uma coisa ou outra no chão. Ou a atirado na parede.

       — Eu não chamei a polícia porque ela parecia bem — Enid disse a Fred (Fred em pé com o telefone grudado numa orelha e a mão tapando a outra para cortar todos aqueles barulhos mecânicos que em geral o agradam e que no momento pareciam entrar em sua cabeça como espetos de cromo). — Fisicamente hem, pelo menos. Mas Fred... acho que você devia ir para casa ver como ela está.

       Todas as recentes esquisitices de Judy passaram-lhe pela cabeça num turbilhão. As palavras de Pat Skarda também. Disfunção mental. (...) Ouvimos pessoas dizerem “Fulano pirou”, mas em geral há sinais...

       E ele vira os sinais, não?

       Vira e não fizera nada.

      

      

Fred estaciona o carro, um comedido Ford Explorer, na entrada da garagem e sobe correndo os degraus, já chamando o nome da mulher. Não há resposta. Mesmo quando ele cruza a porta da entrada (abre-a com tanta força que a fresta de cartas de latão dá um pequeno estalo absurdo), não há resposta. O interior refrigerado da casa lhe dá uma sensação fria demais na pele e ele percebe que está suando.

       — Judy? Jude?

       Nada de resposta ainda. Ele vai correndo para a cozinha, onde é mais certo encontrá-la, quando passa em casa por algum motivo no meio do dia.

       A cozinha está ensolarada e vazia. A mesa e a bancada estão limpas; os aparelhos brilham; duas xícaras de café foram colocadas no escorredor de pratos em cuja superfície recém-lavada o sol cintila. Mais sol cintila num monte de cacos de vidro no canto. Fred vê um decalque de flores num deles e percebe que era o vaso da janela.

       — Judy? — ele chama de novo.

       Sente o sangue latejando na garganta e nas têmporas.

       Ela não responde, mas ele a ouve lá em cima, começando a cantar.

       — Boi, boi, boi... boi da cara preta... leva esse menino...

       Fred reconhece a cantiga, e em vez de sentir-se aliviado com o som da voz dela, fica mais gelado ainda. Ela costumava cantar para Tyler quando o filho era pequeno. A canção de ninar de Ty. Fred não ouve esta especificamente sair de sua boca há anos.

       Ele volta para a escada no saguão, agora vendo o que perdeu na primeira viagem. A gravura de Andrew Wyeth, O mundo de Christina, foi tirada da parede e encostada no aquecedor de rodapé. O papel de parede embaixo do prego da gravura foi arrancado em vários lugares, revelando a placa de gesso que havia por baixo. Fred, mais gelado que nunca, sabe que Judy fez aquilo. Não é intuição, exatamente; nem dedução. Chame de telepatia de quem é casado há muito tempo.

       Vindo de cima, lindo e afinado embora ao mesmo tempo perfeitamente vazio:

       — ... que tem medo de careta. Boi, boi, boi... boi da cara malhada, nina esse menino que não tem medo de nada...

       Fred chega lá em cima subindo de dois em dois degraus, chamando o nome dela.

       O saguão do segundo andar está numa confusão assustadora. Foi ali que fizeram a galeria do passado deles. Fred e Judy em frente ao Madison Shoes, um clube de blues aonde eles iam às vezes quando não havia nada de interessante no Chocolate Watchband; Fred e Judy dançando a primeira dança em sua festa de casamento enquanto seus pais olhavam felizes; Judy numa cama de hospital, exausta mas sorridente, segurando a trouxa que era Ty; a foto da fazenda da família Marshall para a qual ela sempre torcia o nariz; e outras mais.

       A maioria dessas fotografias emolduradas foi tirada da parede. Algumas, como a da fazenda, foram jogadas no chão. Cacos de vidro cobrem o chão formando buquês faiscantes. E ela também atacou o papel de parede atrás de várias. No lugar onde ficava pendurada a foto de Judy e Ty no hospital, o papel foi completamente arrancado, e ele pode ver onde ela arranhou a placa de madeira embaixo. Em alguns dos arranhões há manchas de sangue quase seco.

       — Judy! Judy!

       A porta do quarto de Tyler está aberta. Fred atravessa correndo o saguão do andar de cima com vidro rangendo embaixo dos sapatos.

       — ... pega o Tyler, que não tem. medo de nada.

       — Judy! Ju...

       Ele fica parado à porta, todas as palavras temporariamente retiradas de dentro dele com um tranco.

       O quarto de Ty parece o cenário de filme de detetive após uma busca em regra. As gavetas foram arrancadas da escrivaninha e estão jogadas pelo chão, a maioria virada. A própria escrivaninha foi arrancada da parede. Roupas de verão estão todas atiradas — jeans e camisetas e cuecas e meias atléticas brancas. A porta do armário está escancarada e mais coisas foram arrancadas dos cabides; esta mesma telepatia conjugal lhe diz que ela rasgou as calças e as camisas sociais de Ty para se certificar de que não havia nada por trás. O paletó do único terno de Ty está pendurado na maçaneta do armário. Seus pôsteres foram retirados das paredes; Mark McGwire foi rasgado ao meio. Em todos, exceto um, ela deixou o papel de parede atrás dos pôsteres intacto, mas a única exceção é uma beleza. Atrás do retângulo onde ficava o pôster do castelo (VOLTE AO TORRÃO NATAL), O papel de parede foi quase todo arrancado. Há mais riscos de sangue na placa de madeira embaixo.

       Judy Marshall está sentada no colchão descoberto da cama do filho. Os lençóis estão amontoados no canto, junto com o travesseiro. A própria cama foi arrancada da parede. A cabeça de Judy está virada para baixo. Fred não pode ver-lhe o rosto — o cabelo o cobre —, mas ela está de short e ele pode ver manchas e riscas de sangue em suas coxas bronzeadas. Suas mãos estão entrelaçadas embaixo dos joelhos, escondidas, e Fred fica contente. Não quer ver quão gravemente ela se feriu até ser obrigado a isso. Seu coração está martelando no peito, seu sistema nervoso recebeu uma descarga excessiva de adrenalina, e sua boca tem gosto de cabo de guarda-chuva.

       Ela começa a cantar de novo o refrão da cantiga de ninar de Ty e não dá para ele agüentar isso.

       — Judy, não — ele diz, indo até ela através do campo minado que, ainda ontem à noite, quando ele entrou para dar um beijo de boa-noite em Ty, era um quarto de garoto razoavelmente arrumado. — Pare, querida, chega.

       Por milagre, ela pára. Levanta a cabeça, e quando vê a expressão de pavor em seus olhos, ele perde o pouco ar que lhe resta. É mais do que pavor. E vazio, como se algo dentro dela tivesse fugido e exposto um buraco negro.

       — Ty foi embora — ela diz simplesmente. — Procurei atrás de todas as fotos que pude... eu tinha certeza que ele estaria atrás daquela, se estivesse em algum lugar ele estaria atrás daquela...

       Ela aponta para o lugar onde ficava o pôster de viagem da Irlanda, e ele vê que quatro unhas de sua mão direita foram parcial ou totalmente arrancadas. Seu estômago se revira. Os dedos dela parecem ter sido mergulhados em tinta vermelha. Se ao menos fosse tinta, pensa Fred. Se ao menos.

       — ... mas, claro, é só uma foto. Todas são só fotos. Estou vendo isso agora. — Ela faz uma pausa, depois grita: — Abalá! Munshun! Abalá-gorg, Abalá-dun!

       Sua língua sai para fora — sai numa extensão incrível, caricatural — e passa cheia de cuspe por seu nariz. Fred vê, mas não consegue acreditar. Isso é como entrar num filme de terror no meio da sessão, descobrir que o filme é real e não saber o que fazer. O que ele deve fazer? Quando se descobre que a mulher que se ama enlouqueceu — no mínimo, saiu um pouco da realidade —, o que se deve fazer? Como se lida com isso?

       Mas ele a ama, amou-a desde a primeira semana em que a conheceu, irresistível e completamente, e sem nunca ter tido um pingo de arrependimento, e agora o amor o guia. Ele senta-se ao lado dela na cama, envolve-a com o braço e simplesmente fica abraçado com ela. Pode senti-la tremendo de dentro para fora. Seu corpo vibra como um arame.

       — Amo você — ele diz, surpreso com sua voz. É incrível que aquela calma aparente possa sair de um tal caldeirão de confusão e medo. — Amo você e vai dar tudo certo.

       Ela olha para ele e algo volta a seus olhos. Fred não pode chamar isso de sanidade (por mais que queira), mas pelo menos é uma espécie de consciência marginal. Ela sabe onde está e quem está com ela. Por um momento, ele vê gratidão em seus olhos. Então ela contrai o rosto numa tristeza agoniada e começa a chorar. É um ruído exausto, perdido, que o dilacera. Nervos, coração e mente, o ruído o dilacera.

       — Ty foi embora — diz Judy. — Gorg o fascinou e o abalá o levou. Abalá-dun!

       As lágrimas lhe escorrem pelo rosto. Quando ela ergue a mão para enxugá-las, seus dedos deixam terríveis riscos de sangue.

       Embora ele tenha certeza de que Tyler está bem (sem dúvida, Fred não teve nenhuma premonição hoje, a menos que contemos sua previsão otimista para a nova escavadeira Hiler), ele sente um estremecimento percorrê-lo ao ver estes riscos, e não é o estado de Judy que causa isso, mas o que ela acaba de dizer: Ty foi embora. Ty está com os amigos; ele disse a Fred ainda ontem à noite que ele, Ronnie, T. J. e o desagradável garoto Wexler tencionavam passar o dia “de bobeira”. Se os outros três garotos fossem a algum lugar aonde Ty não quisesse ir, ele prometeu que iria direto para casa. Todas as bases parecem estar cobertas, no entanto... não existe essa coisa de intuição de mãe? Bem, ele pensa, talvez na Rede Fox.

       Ele pega Judy nos braços e fica de novo completamente apavorado, agora com a leveza dela. Ela deve ter perdido uns dez quilos desde a última vez em que a peguei assim no colo, ele pensa. No mínimo dez. Como foi que eu não notei? Mas ele sabe. A preocupação com o trabalho foi parte do motivo; a teimosia em se aferrar à idéia de que basicamente estava tudo bem foi o restante. Bem, ele pensa, saindo do quarto com ela no colo (os braços dela se ergueram cansados e se fecharam em volta do pescoço do marido), superei aquele pequeno equívoco. E ele acredita mesmo nisso, apesar de continuar com uma confiança cega na segurança do filho.

       Judy não esteve no quarto do casal durante seu furor, e a Fred o aposento parece um oásis de sanidade. Judy aparentemente tem a mesma sensação. Ela dá um suspiro cansado, e seus braços caem do pescoço do marido. Ela põe a língua para fora, mas agora só dá uma lambidinha fraca no lábio superior. Fred se abaixa e a põe na cama. Ela levanta as mãos, olha para elas.

       — Eu me cortei... me arranhei...

       — É — diz ele. — Vou pegar alguma coisa para isso.

       — Como...?

       Ele senta ao lado dela por um momento. Ela está com a cabeça afundada nos travesseiros macios, as pálpebras caindo. Ele acha que, além da perplexidade que há atrás delas, ainda pode ver aquele vazio aterrador. Espera estar errado.

       — Você não se lembra? — ele pergunta a ela.

       — Não... eu caí?            

       Fred opta por não responder. Está começando a pensar de novo. Não muito, ainda não é capaz de pensar muito, mas um pouco.

       — Querida, o que é gorg? O que é abalá? E uma pessoa?

       — Não... sei... Ty...

       — Ty está bem — diz ele.

       — Não...

       — Está — ele insiste. Talvez ele esteja insistindo para ambas as pessoas naquele quarto bonito e bem decorado. — Amorzinho, fique deitada aí. Quero pegar umas coisas.

       Os olhos dela se fecham. Ele acha que ela vai dormir, mas suas pálpebras lutam para ficar entreabertas.

       — Fique aí deitada — ele diz. — Nada de se levantar e ficar zanzando pela casa. Já chega. Você deu um bruta susto na pobre Enid Purvis. Promete?

       — Prometo...

       Suas pálpebras tornam a se fechar.

       Fred entra no banheiro contíguo, atento a qualquer movimento atrás dele. Nunca viu ninguém mais atordoado do que Judy parece agora, mas os loucos são espertos, e apesar da sua prodigiosa capacidade de negação em algumas áreas, Fred não pode mais se iludir sobre o estado mental atual da mulher. Louca? Realmente louca de pedra? Talvez não. Mas destrambelhada, certamente. Temporariamente destrambelhada, ele emenda abrindo o armário de remédios.

       Pega um vidro de mercurocromo, depois dá uma olhada nos vidros de medicamentos que exigem receita médica na prateleira acima. Não há muitos. Ele pega um no canto esquerdo. Sonata, farmácia de French Landing, uma cápsula ao deitar, não usar por mais de quatro noites seguidas, médico responsável Patrick J. Skarda, M.D.

       Não dá para Fred ver a cama toda no espelho do armário, mas dá para ver o pé da cama... e um dos pés de Judy, também. Ainda na cama. Ótimo. Ele pega uma pílula de Sonata, depois tira as escovas de dentes do copo — não tem intenção de ir lá embaixo pegar um copo limpo, não quer deixá-la sozinha por tanto tempo.

       Ele enche o copo, depois volta ao quarto com a água, a pílula e o vidro de mercurocromo. Os olhos dela estão fechados. Ela está respirando tão devagar que ele precisa pôr a mão em seu peito para certificar-se de que ela está realmente respirando.

       Ele olha para o sonífero, pondera, depois sacode-a.

       — Judy! Judy! Acorde um pouquinho, amor. Só para tomar o remédio, sim?

       Ela nem sequer resmunga, e Fred deixa o Sonata de lado. Não será necessário, afinal. Ele sente um leve otimismo com relação a quão depressa e quão profundamente ela adormeceu. É como se uma bolsa ruim tivesse estourado, descarregado seu veneno, deixando-a fraca e cansada, mas possivelmente bem de novo. Poderia acontecer isso? Fred não sabe, mas tem certeza de que ela não está fingindo dormir. Todas as desgraças atuais de Judy começaram com insônia, e a insônia foi a constante em todas elas. Embora só de dois meses para cá ela venha exibindo sintomas angustiantes — falar sozinha e fazer aquela coisa esquisita e repulsiva com a língua, para mencionar apenas dois itens —, ela não vem dormindo bem desde janeiro. Desde o Sonata. Agora parece que finalmente apagou. E será demais esperar que, quando acordar de um sono normal, ela volte ao seu antigo estado normal? Que suas preocupações com a segurança do filho no verão do Pescador a tenham forçado a alguma espécie de clímax? Pode ser que sim, pode ser que não... mas, pelo menos, este intervalo deu tempo a Fred para pensar sobre o que ele deveria fazer em seguida, e seria melhor ele aproveitá-lo bem. Uma coisa lhe parece indiscutível: se Ty estiver ali quando a mãe acordar, Ty terá uma mãe muito mais feliz. A questão imediata é como localizar Tyler o mais depressa possível.

       Seu primeiro pensamento é ligar para a casa dos amigos de Ty. Seria fácil. Estes números de telefone estão colados na geladeira, escritos com a clara letra inclinada para trás de Judy, junto com os do Corpo de Bombeiros, da Delegacia de Polícia (incluindo o número particular de Dale Gilbertson; ele é um velho amigo) e da Defesa Civil de French Landing. Mas Fred só leva um instante para perceber que péssima idéia esta é. A mãe de Ebbie morreu e o pai dele é um chato — Fred só esteve com ele uma vez, e uma vez é mais do que suficiente. Fred não gosta muito de ouvir a mulher rotulando algumas pessoas de “baixo nível” (Quem você pensa que é, uma vez ele lhe perguntou, a rainha da China?), mas no caso de Pete Wexler, o rótulo se aplica. Ele não deve ter a menor noção de onde os garotos estão hoje, nem se preocupa com isso.

       A Sra. Metzger e Ellen Renniker talvez, mas já tendo ele próprio sido um garoto em férias — o mundo inteiro a seus pés e pelo menos dois mil lugares para ir —, Fred duvida muito que elas saibam. Há uma possibilidade de que os garotos possam estar almoçando (é quase hora do almoço) na casa dos Metzger ou dos Renniker, mas vale a pena dar um bruta susto desses em duas mulheres por essa possibilidade minúscula? Porque o assassino será a primeira coisa que vai lhes passar pela cabeça, tão certo como Deus criou peixinhos... e pescadores para pegá-los.

       De novo sentado na cama ao lado da mulher, Fred sente o primeiro arrepio de apreensão por causa do filho e tira isso da cabeça bruscamente. Não é hora de ceder a chiliques de medo. Ele precisa se lembrar que os problemas mentais da mulher e a segurança do filho não têm ligação — exceto em sua cabeça. Sua tarefa é apresentar Ty, inteiro, provando assim que os temores dela não têm fundamento.

       Fred olha para o relógio ao lado da cama e vê que são 15 para as 11. Como o tempo voa quando agente está se divertindo, pensa ele. Ao lado dele, Judy emite um único ronco arquejante. É um ruído insignificante, realmente bastante feminino, mas Fred de qualquer forma leva um susto. Como ela o assustou quando ele a viu no quarto de Ty! Ele ainda está apavorado.

       Ty e os amigos talvez venham almoçar. Judy diz que muitas vezes eles vêm porque na casa dos Metzger não tem muita comida e a Sra. Renniker em geral serve o que os meninos chamam de “gororoba”, um prato misterioso que consiste em macarrão e uma carne cinzenta. Judy faz para eles sopa Campbell e sanduíches de mortadela, esse tipo de coisa. Mas Ty tem dinheiro para pagar um lanche no McDonald’s para todo mundo na pequena galeria na zona norte, ou eles podem ir ao Sonny’s Cruisin’s Restaurant, uma casa barata com um ambiente fuleiro anos 50. E Ty não é avesso a convidar. Ele é um menino generoso.

       — Vou esperar até o almoço — ele murmura, sem ter a menor consciência de estar pensando alto. Certamente ele não perturba Judy; ela está ferrada no sono. — Então...

       Então o quê? Ele não sabe exatamente.

       Ele desce, põe a máquina de café para funcionar, e liga para o trabalho. Pede a Ina para dizer a Ted Goltz que ele não vai voltar naquele dia. Judy está doente. Gripe, ele lhe diz. Vômitos e tudo. Desfia uma lista de pessoas que ele esperava encontrar naquele dia e pede que ela peça a Otto Eisman para se ocupar delas. Otto não vai fazer outra coisa.

       Uma idéia lhe ocorre enquanto está falando com ela, e, quando termina, ele afinal liga para a casa dos Metzger e dos Renniker. Na dos Metzger, atende a secretária eletrônica, e ele desliga sem deixar recado. Ellen Renniker, porém, atende no segundo toque. Com uma voz natural e alegre — isso vem instintivamente, ele é um vendedor e tanto —, ele pede que ela mande Ty ligar para casa se o menino aparecer lá para almoçar. Fred diz que tem uma coisa para contar ao filho, dando a impressão de que é algo bom. Ellen diz que vai fazer isso, mas acrescenta que T. J. estava seco para gastar os quatro ou cinco dólares que tinha no bolso quando saiu dali naquela manhã, e ela não espera vê-lo antes do jantar.

       Fred volta ao quarto para ver como está Judy. Ela não mexeu um dedo sequer, e ele supõe que isso seja bom.

       Não. Não há nada de bom em tudo isso.

       Em vez de desaparecer agora que a situação se estabilizou — mais ou menos —, seu temor parece estar se intensificando. Dizer a si mesmo que Ty está com os amigos dele já não parece ajudar. A casa ensolarada e silenciosa o está apavorando. Ele percebe que já não quer Ty inteiro só por causa da mulher. Aonde os meninos iriam? Há algum outro lugar...?

       Claro que há. Onde eles podem conseguir as figurinhas do Magic Johnson. Esse jogo idiota e incompreensível que eles jogam.

       Fred Marshall desce correndo, pega a lista telefônica, procura nas Páginas Amarelas e liga para a 7-Eleven. Como a maioria das pessoas de French Landing, Fred passa na 7-Eleven quatro ou cinco vezes por semana — uma lata de refrigerante aqui, uma caixa de suco de laranja ali — e reconhece a voz do balconista indiano que trabalha de dia. Lembra na mesma hora o nome do homem: Rajan Patel. É aquele velho truque de vendedor de guardar o máximo possível de nomes no arquivo ativo. Isto certamente ajuda aqui. Quando Fred o chama de Sr. Patel, o atendente logo fica simpático, inteiramente disposto a ajudar. Infelizmente, não pode ajudar muito. Montes de garotos vêm ali. Compram figurinhas do Magic Johnson, e também do Pokémon e de beisebol. Alguns trocam essas figurinhas na rua. Ele lembra, sim, de três que apareceram de bicicleta naquela manhã, diz. Eles compraram refrescos de fruta e figurinhas, e aí discutiram por causa de alguma coisa lá fora. (Rajan Patel não menciona os palavrões, embora seja principalmente por causa disso que se lembre dos garotos.) Pouco depois, ele diz, eles seguiram o caminho deles.

       Fred está tomando café sem se lembrar de quando se serviu. Fios frescos de mal-estar tecem teias de aranha em sua cabeça. Três garotos. Três.

       Isso não quer dizer nada, você sabe, não sabe?, ele diz a si mesmo. Sabe, sim, e ao mesmo tempo não sabe. Nem acredita que pegou um pouco da esquisitice de Judy, como um germe de resfriado. Isso é só... bem... esquisitice pela esquisitice.

       Ele pede a Patel para descrever os garotos e não se surpreende muito quando Patel não consegue. O atendente acha que um deles era meio gordo, mas nem tem certeza disso.

       — Desculpe, mas é que vejo tantos — diz.

       Fred lhe diz que compreende. Ele compreende, também, só que toda a compreensão do mundo não vai deixá-lo sossegado.

       Três garotos. Não quatro, mas sim três.

       Chegou a hora do almoço, mas Fred não tem a mínima fome. O silêncio assustador e ensolarado da casa se mantém. As teias de aranha continuam sendo tecidas.

       Não quatro, mas sim três.

       Se foi a turma de Ty que o Sr. Patel viu, o garoto gorducho certamente era Ebbie Wexler. A questão é: quem eram os outros dois? E qual deles estava faltando? Qual deles foi burro o bastante para ir embora sozinho?

       Ty foi embora. Gorg o fascinou e o abalá o levou.

       Conversa doida, sem dúvida alguma... todavia, os braços de Fred se arrepiam. Ele pousa ruidosamente a caneca de café. Vai limpar os cacos de vidro, é isso que vai fazer. Este é o próximo passo, sem dúvida alguma.

       O próximo passo de verdade, o próximo passo lógico sussurra em sua cabeça enquanto ele sobe as escadas, e ele imediatamente o tira da cabeça. Tem certeza de que os guardas ultimamente andam atolados de perguntas de pais histéricos que perderam a pista dos filhos por uma hora mais ou menos. A última vez em que ele viu Dale Gilbertson, o pobre-coitado parecia aflito e deprimido. Fred não quer ser visto como parte do problema em vez de parte da solução. Mesmo assim...

       Não quatro, mas sim três.

       Ele pega a pá e a vassoura no pequeno armário ao lado da lavanderia e começa a varrer os cacos de vidro. Quando termina, vai dar uma olhada em Judy, vê que ela ainda está dormindo (mais profundamente que nunca, pelo aspecto) e vai até o quarto de Ty. Se o visse desse jeito, Ty ficaria uma fera. Ele acharia que a mãe tinha muito mais que uma telha de menos.

       Não precisa se preocupar com isso, murmura sua cabeça. Ele não vai ver o quarto, nem hoje à noite nem nunca. Gorg o fascinou e o abalá o levou.

       — Pare com isso — Fred diz a si mesmo. — Deixe de ser caduco.

       Mas a casa está muito vazia, muito silenciosa, e Fred Marshall está com medo.

      

      

Pôr o quarto de Tyler em ordem leva mais tempo do que Fred jamais esperaria; sua mulher passou por ali como um furacão. Como uma mulher pequena pode ter tanta força? É a força dos loucos? Talvez, mas Judy não precisa da força dos loucos. Quando põe uma coisa na cabeça, ela é um motor incrível.

       Quando ele termina a limpeza, quase duas horas se passaram e a única cicatriz óbvia é a falha retangular no papel de parede no local em que o pôster de viagem irlandês ficava pendurado. Sentado na cama refeita de Ty, Fred vê que, quanto mais olha para aquele ponto, menos suporta olhar para a chapa branca, espiando dali tão acintosamente quanto um osso quebrado através da pele magoada. Ele lavou os riscos de sangue, mas não pôde fazer nada quanto aos arranhões que ela fez com as unhas.

       Posso, sim, ele pensa. Posso sim, também.

       A cômoda de Ty é de mogno, um móvel que eles herdaram de um parente distante pelo lado de Judy. Mudá-la de lugar realmente não é trabalho para um homem só, e naquela situação, isso convém perfeitamente a Fred. Ele enfia um pedaço de tapete embaixo da cômoda para evitar que ela arranhe o chão, depois arrasta-a para o outro lado do quarto. Uma vez encostada na parede desse lado, ela tapa a maior parte da área arranhada. Sem ver a parede nua, Fred sente-se melhor. Mais são. Ty não veio almoçar em casa, mas Fred não esperava realmente que ele viesse. Chegará às quatro, o mais tardar. Para o jantar. Com certeza.

       Fred volta ao quarto do casal, massageando os rins enquanto caminha. Judy ainda não se mexeu, e mais uma vez ele põe uma ansiosa mão em seu peito. Sua respiração está lenta, mas é constante. Isso está bem. Ele deita ao lado dela na cama, vai afrouxar a gravata e ri quando sente o colarinho aberto. Paletó e gravata, as duas coisas ficaram na Goltz’s. Bem, foi um dia louco. Por ora é bom ficar ali deitado no ar-condicionado, acalmando a dor nas costas. Arrastar aquela cômoda foi uma lenha, mas ele está feliz por ter feito isso. Certamente não há chance de ele adormecer; está muito aflito. Além do mais, ele nunca foi de dormir de dia.

       Então, pensando, Fred adormece.

       Ao lado dele, dormindo também, Judy começa a murmurar: Gorg... abalá... o Rei Carmim. E um nome de mulher.

       O nome é Sophie.

 

 

Na sala de espera da Delegacia de Polícia de French Landing, o telefone na mesa toca. Bobby Dulac estava tirando ouro do nariz. Agora ele esmaga seu tesouro mais recente na sola do sapato e atende o telefone.

       — Alô, Delegacia de Polícia, policial Dulac falando, em que posso ajudá-lo?

       — Ei, Bobby. É Danny Tcheda.

       Bobby sente uma comichão de desconforto. Danny Tcheda — sobrenome que se pronuncia Tchita — é um dos 14 tiras da RPM em tempo integral. Ele atualmente está de serviço, e o procedimento normal dita que policiais de serviço se comuniquem por rádio — o R de RPM significa isso, afinal. A única exceção à regra tem a ver com o Pescador. Dale determinou que os patrulheiros falassem por telefone de linha, caso julgassem tratar-se de uma situação que envolvesse o assassino. Muita gente anda na escuta por ali, inclusive, sem dúvida, Wendell “Babaca” Green.

       — Danny, o que há?

       — Talvez nada, talvez alguma coisa não muito boa. Estou com uma bicicleta e um pé de tênis na mala do carro. Encontrei-os na Rua Queen. Perto da Casa Maxton para a Velhice.

       Bobby puxa um bloco e começa a escrever. A coceira de desconforto virou um mau pressentimento.

       — Nada errado com a bicicleta — continua Danny —, estava ali equilibrada no descanso, mas aliada ao pé de tênis...

       — Sim, sim, estou entendendo o seu ponto, Danny, mas você nunca devia ter mexido no que pode ser a prova de um crime...

       Por favor, meu Deus, não permita que isso seja a prova de um crime, Bobby Dulac está pensando. Por favor, meu Deus, não permita que seja mais um.

       A mãe de Irma Freneau esteve ali ainda há pouco para falar com Dale, e embora não tenha havido gritaria, ela saiu chorando e parecendo a morte em pessoa. Eles ainda não podem ter certeza de que a garotinha tenha sido a terceira vítima do Pescador, mas...

       — Bobby, eu precisei mexer. Estou patrulhando sozinho, e não queria botar isso no ar, tinha que achar um telefone. Se eu deixasse a bicicleta ali, outra pessoa podia brincar com ela. Roubá-la, puxa. E uma boa bicicleta, Schwinn de três marchas. Melhor que a do meu filho, posso lhe dizer.

       — Qual é sua posição?

       — 7-Eleven, lá em cima, na 35. O que fiz foi marcar o local da bicicleta e o do tênis com uma cruz a giz na calçada. Peguei-os com luvas e botei o tênis num saco de provas.

       Danny está parecendo mais que nervoso. Bobby sabe como ele deve estar se sentindo, compreende as escolhas que Danny precisou fazer. Patrulhar sozinho é uma lenha, mas French Landing já está sustentando tantos policiais — em tempo integral e em meio expediente — quanto o orçamento comporta. A menos, obviamente, que esse negócio de Pescador fuja totalmente do controle; nesse caso, os administradores da cidade sem dúvida encontrarão mais elasticidade no orçamento.

       Talvez já tenha fugido do controle, Bobby pensa.

       — Certo, Danny. Certo. Entendo seu ponto.

       Se Dale entende ou não, isso é outra coisa, Bobby pensa.

       Danny abaixa a voz.

       — Ninguém precisa saber que eu quebrei a cadeia de provas, precisa? Quer dizer, se o assunto vier à baila. No tribunal, ou algo assim.

       — Acho que isso é com Dale.

       Ai meu Deus, pensa Bobby. Um novo problema acaba de lhe ocorrer. Todas as ligações que entram nesta linha são automaticamente gravadas. Bobby decide que vai aparecer um defeito no gravador, retroativo mais ou menos até as duas da tarde.

       — E quer saber a outra coisa? — Danny está perguntando. — A grande coisa? Eu não queria que vissem a bicicleta. Uma bicicleta assim em pé sozinha, não é preciso ser a porra do Sherlock Holmes para tirar uma certa conclusão. E as pessoas estão à beira do pânico, especialmente depois daquele artigo irresponsável no jornal hoje de manhã. Eu não queria ligar da Maxton pela mesma razão.

       — Vou passar sua ligação. É melhor você falar com Dale.

       Com uma voz infelicíssima, Danny diz:

       — Minha nossa.

      

      

Na sala de Dale Gilbertson há um quadro de ocorrências tomado por fotografias ampliadas de Amy St. Pierre e Johnny Irkenham. Uma terceira foto será acrescentada em breve, a de Irma Freneau. Embaixo das duas fotos atuais, Dale está sentado em sua mesa, fumando um Marlboro 100. Está com o ventilador ligado. O aparelho, ele espera, fará a fumaça se dissipar. Sarah quase o mataria se soubesse que ele estava fumando de novo, mas, puxa vida, ele precisa de alguma coisa.

       Sua conversa com Tansy Freneau foi realmente um sofrimento. Tansy é uma biriteira, uma freguesa assídua do Sand Bar, e durante a conversa o cheiro de licor de café era tão forte que quase parecia estar lhe saindo dos poros (outra desculpa para o ventilador). Ela estava meio embriagada, e Dale deu graças a Deus. Isso a manteve calma, pelo menos. Não colocou nenhuma centelha em seus olhos mortos, licor de café não servia para isso, mas ela estava calma. De forma medonha, ela até dissera: “Obrigada por estar me ajudando”, antes de sair.

       O ex de Tansy — o pai de Irma — mora do outro lado do estado, em Green Bay (“Green Bay é a cidade do diabo”, costumava dizer o pai de Dale, sabe Deus por quê), onde trabalha numa garagem e, segundo Tansy, sustenta vários bares com o nome de Zona Final e Linha dos 50 Metros. Até hoje, havia alguma razão para crer — pelo menos para esperar — que Richard “Cubby” Freneau tivesse raptado a filha. Um e-mail da Delegacia de Polícia de Green Bay descartou essa hipótese. Cubby Freneau mora com uma mulher que tem dois filhos, e ele estava na cadeia no dia em que Irma desapareceu. Ainda não há corpo, e Tansy não recebeu carta do Pescador, mas...

       A porta se abre, Bobby Dulac põe a cabeça para dentro. Dale apaga o cigarro na parte interior da tampa da lixeira, queimando as costas da mão com fagulhas ao fazer isso.

       — Pô, Bobby, você não sabe bater na porta?

       — Perdão, chefe. — Bobby olha para a espiral de fumaça subindo da lixeira sem surpresa nem interesse. — Danny Tcheda está ao telefone. Acho melhor você atender.

       — É sobre o quê? — Mas ele sabe. Do contrário, por que seria um telefonema? Bobby só repete, não sem solidariedade: — Acho melhor você atender.

      

      

O carro enviado por Rebecca Vilas deixa Henry na Casa Maxton para a Velhice às três e meia, 90 minutos antes da hora marcada para o início do baile da Festa do Morango! A idéia é abrir o apetite dos velhinhos na pista de dança, depois rumar para a cafeteria — bem decorada para a ocasião —, para um jantar a uma hora glamourosamente avançada (sete e meia é tardíssimo para a Maxton). Com vinho, para aqueles que bebem.

       Um Pete Wexler ressentido foi convocado por Rebecca Vilas para trazer aquela merda toda do DJ (Pete pensa em Henry como o “cego viciado em disco”). A dita merda consiste em dois alto-falantes (muito grandes), um toca-discos (leve mas chato paca de carregar), um pré-amplificador (muito pesado), cabos sortidos (todos embaraçados, mas isso é problema do cego viciado em disco) e quatro caixas de discos propriamente ditos, que saíram de moda uns 100 anos atrás. Pete imagina que o cego viciado em disco nunca ouviu um CD na vida.

       O último item é um saco de roupa pendurado num cabide. Pete deu uma espiada e verificou que a roupa é um terno branco.

       — Pendure isso aí, por favor — diz Henry apontando com uma precisão infalível para o quarto de guardados que foi designado como seu camarim.

       — Certo — diz Pete. — O que é isso exatamente, se me permite perguntar?

       Henry sorri. Ele sabe perfeitamente bem que Pete já deu uma olhada. Ouviu o saco plástico farfalhar e o zíper zunir num dueto que só ocorre quando alguém afasta o saco do cabide no colarinho.

       — Dentro desse saco, meu amigo, Stan Sinfônico, o Homem das Big Bands, só está esperando eu vesti-lo e lhe dar vida.

       — Aah, ah-ah — diz Pete, sem saber se sua pergunta foi respondida ou não.

       A única coisa de que ele tem certeza é que aqueles discos são quase tão pesados quanto o pré-amplificador. Alguém realmente devia dar ao cego viciado em disco algumas informações sobre CDs, o próximo grande salto à frente.

       — Você me fez uma pergunta; posso lhe fazer outra?

       — À vontade — diz Pete.

       — Parece que a polícia esteve hoje à tarde aqui na Casa Maxton para a Velhice — diz o cego viciado em disco. — Agora os policiais já foram, mas estavam aqui quando cheguei. Qual é o problema? Não houve um assalto ou uma agressão entre os velhos, espero.

       Pete pára de chofre ao lado de um grande morango de papelão, segurando o saco de roupa e olhando para o cego viciado em disco com um espanto quase palpável.

       — Como sabe que a polícia esteve aqui?

       Henry põe um dedo no lado do nariz e inclina a cabeça para o lado. Responde com uma voz rouca e conspiratória.

       — Farejei algo azul.

       Pete parece intrigado, questiona se faz mais perguntas ou não e decide não fazer. Seguindo seu caminho para o quarto de guardados-camarim, diz:

       — Eles estão escondendo o jogo, mas acho que estão procurando mais uma criança desaparecida.

       O olhar de curiosidade divertida desaparece do rosto de Henry.

       — Minha nossa — ele diz.

       — Eles entraram e saíram correndo. Aqui não tem criança, Sr... hã, Leyden?

       — Leyden — confirma Henry.

       — Uma criança aqui se destacaria como uma rosa num canteiro de sumagre venenoso, se sabe o que estou querendo dizer.

       Henry não vê nenhuma analogia entre velhos e sumagre venenoso, mas entra de fato no raciocínio do Sr. Wexler.

       — O que os fez pensar...?

       — Acharam alguma coisa na calçada — diz Pete. Aponta para a janela, e aí se dá conta de que o cego não enxerga seu gesto. Pô, como diria Ebbie. Ele abaixa a mão. — Se um garoto foi raptado, alguém deve ter passado de carro e agarrado o pobrezinho. Aqui não tem seqüestrador, isso eu posso lhe dizer.

       Pete ri só de pensar num velho coroca da Maxton agarrando qualquer criança com tamanho para andar de bicicleta. A criança provavelmente quebraria o joelho do cara como um pau seco.

       — Não — diz Henry calmamente —, isso não parece muito provável, parece?

       — Mas acho que os tiras têm que botar os pingos nos ii. — Ele faz uma pausa. — Isso é uma brincadeirinha minha.

       Henry sorri educadamente, pensando que, em algumas pessoas, o mal de Alzheimer pode ser um verdadeiro progresso.

       — Quando pendurar meu terno, Sr. Wexler, poderia fazer a fineza de sacudi-lo um pouquinho? Só para eliminar qualquer amassado incipiente.

       — Certo. Quer que eu tire o terno do saco para o senhor?

       — Obrigado, não precisa.

       Pete entra no armário de guardados, pendura o saco de roupa e sacode-o de leve. Incipiente, que diabo quer dizer isso? Há um rudimento de biblioteca na Maxton; talvez ele vá procurar a palavra no dicionário. É vantajoso aumentar o seu poder vocabular, como dizem na Seleções, embora Pete duvide que isso seja muito vantajoso para ele naquele trabalho.

       Quando ele volta para o salão, o cego viciado em disco — o Sr. Leyden, Stan Sinfônico, seja ele quem diabos for — já começara a desenrolar fios e ligá-los com uma velocidade e uma precisão que Pete acha um tanto enervante.

      

      

O pobre Fred Marshall está tendo um sonho terrível. Saber que é sonho devia torná-lo menos horrível, mas de certa forma não o torna. Ele está num barco a remo com Judy num lago. Judy está sentada na proa. Eles estão pescando. Pelo menos, ele está. A cara dela tem uma expressão vazia. Sua pele está amarelada. Seus olhos têm uma expressão abobalhada, bêbada. Ele luta cada vez mais desesperadamente para entrar em contato com ela, tentando puxar um assunto atrás do outro. Nenhum dá certo. Fazendo o que, naquelas circunstâncias, seria uma metáfora bastante adequada, ela cospe cada isca. Ele vê que seus olhos vazios parecem grudados no samburá que está entre eles no fundo do barco. Fios gordos de sangue escorrem pela trama do vime.                                                       

       Não é nada, é só sangue de peixe, ele tenta lhe assegurar, mas ela não responde. Na verdade, o próprio Fred não tem muita certeza. Está pensando que precisa dar uma olhada dentro do samburá, para se certificar, quando seu caniço dá um tremendo tranco — se não tivesse bons reflexos, teria perdido a vara. Fisgou um grandão!

       Fred colhe a linha, o peixe do outro lado lutando palmo a palmo com ele. Aí, quando finalmente consegue trazer a presa até perto do barco, ele vê que não tem rede. Diabo, ele pensa, é tudo ou nada. Ele dá um puxão no caniço, arriscando arrebentar a linha, e o peixe — o raio da truta mais enorme que se pode esperar ver — descreve um arco prateado ao saltar de dentro d’água agitando as nadadeiras. Aterrissa no fundo do barco (ao lado do samburá por onde o sangue vaza, na verdade) e começa a se debater. Também começa a fazer ruídos de sufocação macabros. Fred nunca ouviu um peixe fazer barulhos assim. Ele se abaixa e vê que a truta tem a cara de Tyler. Seu filho de alguma forma virou uma truta-do-outro-mundo, e agora está morrendo no fundo do barco. Sufocado.

       Fred agarra o peixe, querendo tirar o anzol e devolvê-lo à água enquanto ainda é tempo, mas aquela coisa terrível asfixiada continua lhe escorregando da mão, deixando só uma gosma brilhante de escamas em seus dedos. De qualquer maneira, seria difícil tirar o anzol. O peixe-Ty engoliu-o inteiro, e a ponta com a rebarba está mesmo saindo de uma das guelras, bem embaixo do ponto em que a cara humana some. O sufoco de Ty fica ainda mais ruidoso, mais áspero, infinitamente mais horrível...

      

      

Fred senta-se reto com um grito baixo, com a sensação de estar sufocando também. Por um momento, está completamente à deriva quanto a tempo e lugar — perdido no resvalamento, poderíamos dizer —, e aí percebe que está no seu próprio quarto, sentado no seu lado da cama que divide com Judy.

       Repara que tem muito menos luz ali, porque o sol passou para o outro lado da casa. Meu Deus, ele pensa, quanto tempo eu dormi? Como pude...

       Ah, mas tem outra coisa: aquele terrível barulho de sufocação seguiu-o fora do sonho. Está mais alto que nunca. Vai acordar Judy, assustá-la...

       Porém Judy não está mais na cama.

       — Jude? Judy?

       Ela está sentada no canto. Seus olhos estão arregalados e vazios como no sonho. Um bolo de papel amassado sai de sua boca. Sua garganta está grotescamente inchada, parece a Fred um salsichão que foi grelhado até o invólucro estar prestes a arrebentar.

       Mais papel, ele pensa. Nossa, ela está sufocando com isso.

       Fred rola para o outro lado da cama, cai e aterrissa nos joelhos como um ginasta fazendo um truque. Estica o braço para alcançá-la. Ela não faz nenhum movimento para fugir dele. Pelo menos isso. E embora ela esteja sufocando, ele ainda não vê expressão em seus olhos. São zeros empoeirados.

       Fred puxa-lhe o bolo de papel da boca. Há outro atrás. Fred põe a mão entre seus dentes, pinça este segundo bolo de papel com os dois primeiros dedos da mão direita (pensando Por favor não me morda, Judy, não me morda) e puxa-o também. Há um terceiro bolo atrás desse, lá no fundo de sua boca. Ele pega esse também e o extrai. Embora esteja amassado, ele pode ver as palavras GRANDE IDÉIA impressas, e sabe o que ela engoliu: folhas do bloco que Ty lhe deu de aniversário.

       Ela ainda está sufocando. Sua pele está ficando azul.

       Fred agarra-a pelos braços e levanta-a. Ela vem facilmente, mas quando ele pára de fazer força, os joelhos dela se dobram e ela começa a desabar de novo. Virou uma boneca de trapo. O barulho de sufocação continua. Sua garganta de salsicha...

       — Me ajude, Judy! Me ajude, sua vagabunda!

       Sem consciência do que está dizendo. Ele puxa a mão dela — com tanta força quanto puxou o caniço no sonho — e gira-a como uma bailarina quando ela fica na ponta do pé. Aí agarra-a num abraço de urso, seus pulsos roçando a parte de baixo dos seios dela, o traseiro dela colado em sua braguilha, o tipo da posição que ele acharia extremamente sensual se por acaso sua mulher não estivesse morrendo sufocada.

       Ele lhe enfia o polegar erguido entre os seios como alguém pedindo carona, depois diz a palavra mágica ao fazer um movimento para cima e para trás. A palavra mágica é Heimlich, e funciona. Mais dois bolos de papel voam da boca de Judy, impulsionados por uma golfada de vômito que é pouco mais que bílis — seu consumo de comida nas últimas 12 horas resume-se a três xícaras de café e um bolinho de mirtilo.

       Ela solta um arquejo, tosse duas vezes, depois começa a respirar mais ou menos normalmente.

       Ele a põe na cama... joga-a na cama. Sente cãibras violentas nas costas, o que, realmente, não é de espantar; primeiro a cômoda de Ty, agora isso.

       — Bem, o que você acha que estava fazendo? — ele lhe pergunta elevando a voz. — O que em nome de Cristo você acha que estava fazendo?

       Ele percebe que levantou a mão para a cara virada para cima de Judy como se para esbofeteá-la. Parte dele quer esbofeteá-la. Ele a ama, mas neste momento também a odeia. Imaginou muitas coisas ruins durante os anos em que estão casados — Judy com câncer, Judy paralítica depois de um acidente, Judy primeiro arranjando um amante, depois pedindo o divórcio —, mas nunca imaginou Judy mentindo para ele, e não é nisso que isto se resume?

       — O que você acha que estava fazendo?

       Ela olha para ele sem medo... mas sem mais nada, também. Seus olhos estão mortos. Seu marido abaixa a mão, pensando: Eu cortaria a mão antes de bater em você. Posso estar danado com você. Estou danado com você, mas eu cortaria minha mão antes de fazer isso.

       Judy rola, de bruços, em cima da colcha, os cabelos espalhados em volta da cabeça numa coroa.

       — Judy?

       Nada. Ela não se mexe.

       Fred olha para ela um momento, depois desamassa uma das bolas gosmentas de papel com as quais ela tentou se sufocar. Está coberta de palavras garatujadas. Gorg, abalá, ilili, munshun, bas, lum, opopânace: estas nada significam para ele. Outras, escravo, babaca, preto, vermelho, Chicago e Ty — são palavras de verdade, mas fora de contexto. Escrito de um dos lados da folha está SE VOCÊ TEM O PRÍNCIPE ALBERTO DENTRO DE UMA LATA, COMO PODE FAZÊ-LO SAIR ALGUM DIA? No alto de outra, como um teletipo travado no modo de repetição, há isto: CASA NEGRA REI CARMIM CASA NEGRA REI CARMIM CASA

       Se perder tempo procurando sentido nisso, você é tão doido quanto ela, Fred pensa. Você não pode perder tempo...

       Tempo.

       Ele olha para o relógio no seu lado da cama e não pode acreditar no que ele anuncia: 16h17. Será possível? Ele olha para o relógio de pulso e vê que é.

       Sabendo que é bobagem, sabendo que teria ouvido o filho entrar mesmo se estivesse ferrado no sono, Fred vai até a porta de pernas bambas.

       — Ty! — ele grita. — Ei, Ty! TYLER!

       Esperando uma resposta que não virá, Fred percebe que tudo em sua vida mudou, muito possivelmente para sempre. As pessoas dizem a você que isso pode acontecer — num piscar de olhos, elas dizem, antes que você se dê conta, elas dizem —, mas você não acredita nelas. Aí vem um vento.

       Ir até o quarto de Ty? Verificar? Ter certeza?

       Ty não está lá — Fred sabe disso —, mas vai assim mesmo. O quarto está vazio, como ele sabe que estaria. E parece estranhamente deformado, quase sinistro, com a cômoda agora do outro lado.

       Judy. Você a deixou sozinha, seu idiota. Ela deve estar comendo papel de novo agora, eles são espertos, os loucos são espertos...

       Fred volta correndo para o quarto do casal e dá um suspiro de alívio quando vê Judy deitada como ele a deixou, de bruços, o cabelo espalhado em volta da cabeça. Ele descobre que suas preocupações com a sua mulher louca agora foram suplantadas por suas preocupações com o seu filho desaparecido.

       Ele vai estar em casa às quatro, o mais tardar... com certeza. Assim ele pensara. Mas quatro horas chegou e passou. Um vento forte começou e levou a certeza pelos ares. Fred vai até o seu lado da cama e senta junto da perna direita aberta da mulher. Pega o telefone e tecla um número. É um número fácil, apenas três dígitos.

       — Alô, Delegacia de Polícia, policial Dulac falando, você ligou para 911, está em alguma emergência?

       — Policial Dualac, aqui é Fred Marshall. Eu gostaria de falar com Dale, se ele ainda estiver aí.

       Fred tem quase certeza de que Dale está. Ele trabalha até tarde quase todos os dias, especialmente desde que...

       Ele reprime o resto, mas dentro de sua cabeça o vento sopra com mais força. Mais alto.

       — Puxa, Sr. Marshall, ele está, mas está em reunião e acho que não...

       — Chame-o.

       — Sr. Marshall, o senhor não me ouviu. Ele está com dois caras da Polícia Estadual de Wisconsin e do FBI. Se o senhor pudesse me dizer...

       Fred fecha os olhos. E interessante, não? Há alguma coisa interessante ali. Ele ligou para 911, mas o idiota do outro lado parece ter esquecido isso. Por quê? Porque é um conhecido seu. É o velho Fred Marshall, comprou um cortador de grama Deere com ele no ano retrasado. Deve ter ligado para 911 porque é mais fácil do que procurar o número normal. Porque ninguém que Bobby conheça pode estar numa emergência.

       Fred se lembra de ter tido uma idéia parecida naquela manhã — um Fred Marshall diferente, um que achava que o Pescador nunca poderia tocar em seu filho. Seu filho, não.

       Ty foi embora. Gorg o fascinou e o abalá o levou.

       — Alô? Sr. Marshall? Fred? Ainda está...

       — Preste atenção — diz Fred, de olhos ainda fechados. Lá na Goltz’s, ele já estaria chamando o homem do outro lado de Bobby, mas a Goltz’s nunca pareceu tão longe; a Goltz’s fica no sistema solar Opopânace, no planeta Abalá. — Preste bem atenção. Anote, se precisar. Minha mulher enlouqueceu e meu filho desapareceu. Você entende essas coisas? Mulher louca. Filho desaparecido. Agora me passe para o seu chefe!

       Mas Bobby Dulac não passa, não de imediato. Ele tirou uma conclusão. Um policial mais diplomático (como Jack Sawyer era em seus verdes anos, por exemplo) guardaria esta conclusão para si mesmo, mas Bobby não consegue fazer isso. Bobby fisgou um graúdo.

       — Sr. Marshall? Fred? Seu filho não tem uma Schwinn, tem? Uma Schwinn de três marchas, vermelha? Com uma placa de brinquedo que diz... ha... BIG MAC?

       Fred não consegue responder. Por vários longos e terríveis segundos, ele não consegue sequer respirar. Entre suas orelhas, o vento sopra mais alto e mais forte. Agora é um furacão.

       Gorg o fascinou... o abalá o levou.

       Finalmente, quando parece que ele vai começar a sufocar também, seu peito se abre e puxa uma quantidade dilacerante de ar.

       — PONHA O DELEGADO GILBERTSON NA LINHA! JÁ, SEU VEADO!

       Embora ele grite isso a plenos pulmões, a mulher deitada de bruços em cima da colcha ao seu lado não se mexe. Ouve-se um clique. Ele aguarda na linha. Não muito tempo, mas o suficiente para ele ver a falha na parede do quarto do filho desaparecido, a coluna inchada da garganta de sua mulher louca e o sangue escorrendo pelo samburá naquele sonho. Suas costas doem terrivelmente, e Fred agradece a dor. É como um telegrama do mundo real.

       Aí Dale lhe fala ao telefone, Dale está lhe perguntando o que houve, e Fred Marshall começa a chorar.

 

 

Deus deve saber onde Henry Leyden encontrou aquele terno incrível, mas nós certamente não sabemos. Numa loja de fantasias? Não, é muito elegante para ser fantasia; é uma peça autêntica, não uma imitação. Mas que tipo de peça autêntica é? As lapelas largas descem dois centímetros abaixo da cintura, e as abas duplas da casaca chegam quase até os tornozelos das calças largas de pregas, que, por baixo do alvo colete transpassado, parecem chegar quase ao nível do esterno. Nos pés de Henry, polainas brancas de cano longo adornam sapatos de verniz branco; em seu pescoço, um colarinho duro e alto se dobra com as pontas viradas sobre uma gravata-borboleta larga e fluida de cetim branco, amarrada à perfeição. O efeito geral é de uma elegância diplomática antiquada, combinando harmoniosamente com um terno zoot: a vulgaridade do conjunto supera sua formalidade, mas a dignidade do paletó e o colete dão à roupa um tipo específico de suntuosidade, aquela que se vê muitas vezes em animadores e músicos afro-americanos.

       Acompanhando Henry ao salão enquanto o mal-humorado Pete Wexler vem atrás, empurrando um carrinho carregado de caixas de discos, Rebecca Vilas se lembra vagamente de ter visto Duke Ellington usando uma casaca desse tipo num clipe de um filme antigo... ou era Cab Calloway? Ela lembra de uma sobrancelha erguida, um sorriso luminoso, uma cara sedutora, uma figura empertigada diante de uma banda, porém quase nada mais. (Se fossem vivos, o Sr. Ellington ou o Sr. Calloway poderiam ter informado Rebecca de que a roupa de Henry, incluindo as calças de cós alto pregueadas na cintura, sem dúvida foi feita à mão por um dos quatro alfaiates específicos localizados nos bairros negros de Nova Iorque, Washington, D.C, Filadélfia ou Los Angeles, mestres de seu ofício durante os anos 30 e 40, alfaiates clandestinos, agora tão mortos quanto seus célebres clientes. Henry Leyden sabe exatamente quem fez esta roupa, de onde ela veio e como lhe caiu nas mãos, mas em se tratando de pessoas como Rebecca Vilas, Henry não passa mais nenhuma informação além do que ela já deve saber.) No corredor que leva ao salão, a casaca branca parece ter luz própria, uma impressão só aumentada pelos exagerados óculos escuros de pai descolado com armação de bambu, com o que talvez sejam safiras miúdas cintilando nos cantos do aro.

       Será que há alguma loja que venda roupas chiques de grandes líderes de bandas dos anos 30? Será que algum museu herda essas coisas e as põe em leilão? Rebecca não pode mais conter a curiosidade.

       — Sr. Leyden, onde comprou essa bela roupa?

       De trás, e tomando cuidado para parecer que está falando sozinho, Pete Wexler opina que obter uma roupa daquelas provavelmente exige que se persiga uma pessoa de uma etnia que começa com a letra n por no mínimo uns quatro quilômetros.

       Henry ignora Pete e sorri.

       — É tudo uma questão de saber onde procurar.

       — Imagino que nunca tenha ouvido falar em CD — diz Pete. — Os CDs são uma grande invenção.

       — Cale a boca e vá trabalhar, cara — diz a Srta. Vilas. — Estamos quase acabando.

       — Rebecca, minha querida, com licença — diz Henry. — O Sr. Wexler tem todo o direito de resmungar. Afinal, ele não poderia saber que eu tenho uns três mil CDs, poderia? E se o primeiro dono desta roupa pode ser chamado de crioulo, eu também ficaria orgulhoso de ser chamado assim. Seria uma honra incrível. Eu gostaria de afirmar isso.

       Henry parou. Pete e Rebecca, chocados, cada qual à sua maneira, com a palavra proibida, também pararam.

       — E — diz Henry — devemos respeito àqueles que nos ajudam na execução de nossos deveres. Pedi ao Sr. Wexler para sacudir meu terno quando ele o pendurasse, e ele muito gentilmente me atendeu.

       — É — diz Pete. — Também pendurei sua luz e botei seu toca-discos e seus alto-falantes e aquela merda toda onde o senhor queria.

       — Muito obrigado, Sr. Wexler — diz Henry. — Agradeço o trabalho que está tendo comigo.

       — Ora, porra — diz Pete —, eu só estava fazendo meu serviço, sabe? Mas, qualquer coisa que precise depois que terminar, lhe dou uma mão.

       Sem a vantagem de um lampejo de calcinha e um vislumbre de bunda, Pete Wexler andava totalmente desarmado. Rebecca acha isso espantoso. Considerando tudo, cego ou não, Henry Leyden, ela se dá conta, é de longe o ser humano mais descolado que ela já teve o privilégio de conhecer em seus 26 anos na face da Terra. Pouco importam suas roupas — de onde vêm esses caras assim?

       — Acha mesmo que um garotinho sumiu da calçada aqui em frente hoje à tarde? — pergunta Henry.

       — O quê? — pergunta Rebecca.

       — Me parece que sim — diz Pete.

       — O quê? — Rebecca pergunta de novo, agora para Pete Wexler, não para Henry. — O que está dizendo?

       — Bem, ele me fez uma pergunta e eu respondi — diz Pete. — Só isso.

       Fervendo perigosamente, Rebecca dá um passo para ele.

       — Isso aconteceu em nossa calçada? Outra criança, em frente ao nosso prédio? E você não disse nada para mim nem para o Sr. Maxton?

       — Não havia nada a dizer — defende-se Pete.

       — Talvez você possa nos contar o que aconteceu realmente — diz Henry.

       — Claro. O que aconteceu foi que eu fui lá fora fumar, entendem? — Isso não é estritamente verdadeiro. Tendo que escolher entre andar nove metros até o banheiro masculino do corredor da ala Margarida para jogar o cigarro na privada ou andar nove metros até a entrada e arremessá-lo para o estacionamento, Pete sensatamente escolheu livrar-se da guimba ao ar livre. — Então eu fui lá fora, e foi aí que vi. Um carro da polícia estacionado ali em frente. Aí fui até a sebe, e tinha um tira ali, um tira jovem, acho que se chama Tchita, ou coisa assim, e ele estava botando uma bicicleta de criança na mala do carro. E mais outra coisa, só que não deu para ver o que era a não ser que era pequena. Depois disso, ele pegou um giz no porta-luvas e veio marcar a calçada com uns X.

       — Você falou com ele? — pergunta Rebecca. — Perguntou o que ele estava fazendo?

       — Srta. Vilas, eu não falo com tira, a não ser que não tenha outra saída, está entendendo? O Tchita nem me viu. O cara não falaria nada, mesmo. Estava com uma cara... parecia, puxa, espero que dê para chegar ao banheiro antes que eu me borre nas calças, uma cara desse tipo.

       — Então ele simplesmente foi embora?

       — Rapidinho. Vinte minutos depois, dois outros tiras apareceram. Rebecca ergue as duas mãos, fecha os olhos e pressiona a testa com as pontas dos dedos, dando a Pete Wexler uma excelente oportunidade, que ele não deixa de aproveitar até o fim, de admirar a forma de seus seios por baixo da blusa. Pode não ser tão espetacular quanto a visão do pé da escada, mas serve, serve, sim. No que diz respeito ao pai de Ebbie, uma visão dos peitos de Rebecca Vilas despontando de sua blusa é como uma boa fogueira numa noite fria. Eles são maiores do que se poderia esperar numa coisinha esguia como ela, e quer saber de uma coisa?, quando os braços sobem, os peitos também sobem! Ei, se soubesse que ela ia dar um show desses, ele teria contado sobre Tchita e a bicicleta na hora em que aconteceu.

       — Muito bem — ela diz, ainda pressionando a testa com as pontas dos dedos.

       Ela levanta o queixo, erguendo os braços mais alguns centímetros, e franze o cenho concentrando-se, parecendo por um momento uma estátua num pedestal.

       Hurra, aleluia, pensa Pete. Tudo tem um lado bom. Se outro guri for agarrado na calçada amanhã de manhã, para mim já vai ser tarde.

       Rebecca diz:

       — Está bem, está bem, está bem.

       Ela abre os olhos e abaixa os braços. Pete Wexler está olhando fixo para um ponto por cima do ombro dela, com um olhar vazio de falsa inocência que ela logo entende. Minha nossa, que troglodita.

       — Não é tão ruim quanto pensei. Em primeiro lugar, você só viu um policial pegando uma bicicleta. Talvez fosse roubada. Talvez algum outro garoto tenha pegado a bicicleta emprestada, a tenha largado e fugido. O guarda podia estar à procura dela. Ou o garoto dono da bicicleta podia ter sido atropelado por um carro. E mesmo se aconteceu o pior, não vejo como pode nos afetar. A Maxton não é responsável por nada que acontece fora de seu terreno.

       Ela se vira para Henry, que dá a impressão de desejar estar a quilômetros de distância.

       — Perdão, sei que isso pareceu de uma frieza terrível. Estou tão aflita com esse negócio do Pescador quanto todo mundo, com esses dois pobres garotos e a garota desaparecida. Estamos todos tão transtornados que mal podemos pensar direito. Mas eu odiaria que acabássemos arrastados para essa confusão, não vê o que eu quero dizer?

       — Vejo perfeitamente — diz Henry. — Sendo um daqueles cegos sobre quem George Rathbun vive gritando.

       — Ah! — late Pete Wexler.

       — E concorda comigo, não?

       — Sou um cavalheiro, concordo com todo mundo — diz Henry. — Concordo com Pete que outra criança pode ter sido raptada por nosso monstro local. O policial Tchita, ou seja lá como se chama, parecia nervoso demais só para estar recolhendo uma bicicleta perdida. E concordo com você que a Maxton não pode ser responsabilizada por nada do que aconteceu.

       — Ótimo — diz Rebecca.

       — A não ser, claro, que alguém aqui esteja envolvido nos assassinatos dessas crianças.

       — Mas isso é impossível! — diz Rebecca. — A maioria dos nossos clientes masculinos nem consegue lembrar do próprio nome.

       — Uma garota de dez anos poderia enfrentar a maioria desses débeis — diz Pete. — Mesmo os que não têm doença de velho andam por aí todos borrados com a própria... você sabe.

       — Você está esquecendo os funcionários — diz Henry.

       — Ora — diz Rebecca momentaneamente quase sem palavras. — O que é que há. Dizer isso é de uma leviandade total.

       — É mesmo. Mas, se isso continuar, não haverá ninguém acima de qualquer suspeita. Este é o meu ponto.

       Pete Wexler sente um calafrio — se os palhaços da cidade começarem a interrogar residentes da Maxton, suas diversões particulares podem ser reveladas, e Wendell Green não teria um prato cheio com isso? Uma idéia brilhante lhe ocorre, e ele a manifesta, esperando impressionar a Srta. Vilas.

       — Sabe de uma coisa? Os tiras deviam falar com aquele cara da Califórnia, o famoso detetive que prendeu o babaca daquele Kinderling há uns dois ou três anos. Ele agora mora por aqui, não? Alguém assim, ele é o cara que a gente precisa para isso. Os tiras daqui estão totalmente perdidos. Aquele cara é, como é que se diz, um recurso danado.

       — Estranho você dizer isso — observa Henry. — Não posso estar mais de acordo com você. Já está na hora de Jack Sawyer fazer o trabalho dele. Vou insistir de novo com ele.

       — Você o conhece? — pergunta Rebecca.

       — Ah, sim — diz Henry. — Conheço, sim. Mas não está na hora de eu começar a fazer o meu trabalho?

       — Daqui a pouco. Ainda estão todos lá fora.

       Rebecca o conduz pelo restante do corredor até o salão, que os três atravessam para chegar ao grande palco. O microfone de Henry está ao lado de uma mesa equipada com seus alto-falantes e seu toca-discos. Com uma precisão enervante, Henry diz:

       — Tem muito espaço aqui.

       — Você consegue perceber isso? — pergunta ela.

       — Moleza — diz Henry. — Devemos estar chegando perto agora.

       — Está bem na sua frente. Quer alguma ajuda?

       Henry estica um pé e bate no lado do estrado. Passa a mão pela borda da mesa, localiza a armação do microfone, e diz:

       — Por enquanto não, querida. — E sobe agilmente no palco.

       Guiado pelo tato, ele vai para trás da mesa e localiza o toca-discos.

       — Está tudo nos conformes — ele diz. — Pete, quer fazer o favor de pôr as caixas de discos na mesa? A de cima fica aqui, e a outra, ao lado.

       — Como ele é, o seu amigo Jack? — pergunta Rebecca.

       — Um órfão da tempestade. Um doce, mas um doce difícil. Devo dizer que ele pode ser um verdadeiro pé no saco.

       Pelas janelas, desde que eles entraram na sala, chegam ruídos de multidão, um burburinho de conversa entrelaçado com vozes de crianças e músicas tocadas pesadamente num velho piano de parede. Depois de pôr as caixas de discos na mesa, Pete diz:

       — É melhor eu ir lá, porque Chipper deve estar me procurando. Vai ter uma sujeira danada para limpar quando eles entrarem.

       Pete sai arrastando os pés, empurrando o carrinho à sua frente. Rebecca pergunta se Henry quer que ela faça mais alguma coisa para ele.

       — As luzes de cima estão acesas, não estão? Por favor, apague-as, e espere a primeira leva entrar. Então acenda o refletor rosa e prepare-se para dançar até botar os bofes pela boca.

       — Quer que eu apague as luzes?

       — Você vai ver.

       Rebecca vai até a porta, apaga as luzes de cima, e vê, exatamente como Henry prometera. Uma iluminação fraca e suave que vem das janelas paira no ar, substituindo a claridade intensa e a dureza de antes por uma bruma agradável e indistinta, como se a sala estivesse atrás de um véu. Aquele refletor cor-de-rosa vai ficar ótimo aqui, Rebecca pensa.

       

      

Lá fora, no gramado, a festança pré-baile está terminando. Montes de velhos e velhas estão diligentemente acabando de traçar seus biscoitos de morango e seus refrigerantes nas mesas de piquenique, e o pianista de chapéu de palha e ligas de mangas vermelhas chega ao fim de “Heart and Soul”, ba bump ba bump ba ba bump bump bump, sem finura mas bem alto, fecha a tampa do piano e fica de pé para os aplausos esparsos. Netos que antes haviam reclamado de ter que ir à grande festa esgueiram-se por entre mesas e cadeiras de rodas, fugindo dos olhares dos pais e esperando conseguir um último balão da mulher dos balões vestida de palhaço com uma peruca vermelha, ai que alegria.

       Alice Weathers aplaude o pianista, como seria de se esperar: 40 anos atrás, ele absorveu com relutância as noções que Alice tinha da arte de tocar piano apenas o suficiente para ganhar alguns trocados em ocasiões como esta, quando não era obrigado a exercer sua função usual, a de vender blusões e bonés de beisebol na Rua Chase. Charles Burnside, depois de ter levado uma faxina geral do bondoso Butch Yerxa e se enfarpelado com uma camisa branca velha e uma calça larga imunda, está ligeiramente afastado da multidão à sombra de um grande carvalho, sem aplaudir mas sorrindo com um ar de desprezo. O colarinho aberto da camisa lhe cai bambo em volta do pescoço comprido e forte. De quando em quando, ele limpa a boca e palita os dentes com a unha quebrada do polegar, mas essencialmente não se mexe. Parece que alguém o jogou na beira de uma estrada e foi embora. Toda vez que chegam correndo perto dele, as crianças desviam na mesma hora, como se repelidas por um campo de força.

       Entre Alice e Burny, três quartos dos residentes da Maxton circulam perto das mesas apoiados em andadores, sentam-se embaixo de árvores, ocupam suas cadeiras de rodas, mancam aqui e ali — tagarelando, cochilando, rindo, peidando, dando tapinhas em manchas frescas cor de morango em suas roupas, olhando para a cara dos parentes, olhando para suas mãos trêmulas, olhando para o vazio. Meia dúzia dos mais ausentes entre eles está usando chapéus de festa cônicos de um vermelho e um azul berrantes, as cores da alegria forçada. As mulheres da cozinha começaram a circular entre as mesas com grandes sacos de lixo pretos, pois logo terão que se retirar para seus domínios a fim de preparar o grande banquete da noite à base de salada de batata, purê de batata, batata com creme, feijão no forno, salada de frutas com gelatina, salada de frutas com marshmallow e salada de frutas com chantilly, além, obviamente, do poderoso biscoito de morango!

       O soberano inconteste e hereditário deste reino, Chipper Maxton, cuja disposição em geral parece a de um gambá preso num buraco lamacento, passou os 90 minutos anteriores passeando por ali, sorrindo e apertando mãos, e já está farto.

       — Pete — ele rosna —, por que demorou tanto? Comece a guardar as cadeiras dobráveis, sim? E ajude a levar essa gente para o salão. Vamos andar logo. Vamos.

       Pete sai correndo, e Chipper bate palmas duas vezes, alto, depois levanta os braços.

       — Ei, gente — grita ele —, dá para acreditar no dia deslumbrante que o Senhor nos deu para este belo evento? Não é uma coisa?

       Meia dúzia de vozes fracas se eleva concordando.

       — Vamos, gente, vocês podem fazer melhor que isso! Quero ouvir seu louvor por este dia maravilhoso, por estas horas maravilhosas que estamos vivendo e por toda a ajuda e todo o apoio que recebemos de nossos voluntários e nossos funcionários!

       Um clamor ligeiramente mais exuberante recompensa seus esforços.

       — Muito bem! Ei, sabem de uma coisa? Como diria George Rathbun, até um cego poderia ver como estamos nos divertindo. Eu sei que estou, e ainda não terminamos! Temos o maior DJ que vocês já ouviram, um sujeito chamado Stan Sinfônico, o Homem das Big Bands, esperando para fazer um show espetacular no salão, música e dança até o grande jantar da Festa do Morango, e ele também saiu barato para a gente, mas não digam isso a ele! Então, amigos e familiares, está na hora de se despedirem e deixarem seus entes queridos irem dançar ao som dos sucessos antigos como eles, ah-ah! Antigos somos nós todos aqui na Maxton. Nem eu sou mais jovem como era, ah-ah, então talvez eu dê um giro na pista com alguma felizarda.

       “Sério, gente, está na hora de calçarmos nossos sapatos de dança. Por favor, despeçam-se de papai, mamãe, vovô ou vovó, e, na saída, talvez vocês queiram deixar uma contribuição para nossas despesas na cesta em cima do piano de Ragtime Willie ali, dez dólares, cinco dólares, qualquer coisa que vocês puderem poupar nos ajuda a cobrir os custos de proporcionar à sua mãe, ao seu pai, um dia muito alegre. Nós fazemos isso por amor, mas metade deste amor é o de vocês.”

       E no que talvez para nós pareça um tempo surpreendentemente curto, mas não para Chipper Maxton, que entende que muito pouca gente deseja se demorar mais que o necessário numa instituição para idosos, os parentes dão seus abraços e beijos finais, reúnem a garotada exausta e seguem em fila pelos caminhos e pelo gramado para o estacionamento, alguns depositando notas na cesta em cima do piano de parede de Ragtime Willie na passagem.

       Mal tem início este êxodo, Pete Wexler e Chipper Maxton começam, com toda a habilidade de que dispõem, a convencer os velhinhos a voltar para dentro do prédio. Chipper diz coisas do tipo “Agora o senhor sabe o quanto queremos vê-lo usar seus dotes de bailarino, Sr. Syversom!”, enquanto Pete escolhe a abordagem mais direta de “Anda, cara, é hora de sacudir as canelas”, mas ambos usam as técnicas sutis e não tão sutis de cutucões, empurrões, agarramento de braço e condução de cadeira de rodas para fazer seus decrépitos tutelados entrarem.

       Em seu posto, Rebecca. Vilas observa os residentes entrarem no salão enevoado, alguns deles caminhando num passo um tanto apertado para seu próprio bem. Henry Leyden está imóvel atrás de suas caixas de LPs. Seu terno cintila; sua cabeça é apenas um vulto escuro na frente das janelas. Muito ocupado para devorar o peito de Rebecca com os olhos, Pete Wexler passa segurando o braço de Elmer Jesperson, deixa-o a dois metros e meio da entrada e dá meia-volta para localizar Thorvald Thorvaldson, o mais caro inimigo de Elmer e seu companheiro de quarto no M12. Alice Weathers entra flutuando por si só e cruza as mãos sob o queixo, esperando a música começar. Alto, magro, faces encovadas, no centro de um espaço vazio que é só seu, Charles Burnside entra de mansinho e logo se coloca bem à parte. Quando seus olhos mortos encontram indiferentemente os dela, Rebecca estremece. O próximo par de olhos a encontrar os seus pertencem a Chipper, que empurra a cadeira de rodas de Flora Flostad como se ali estivesse sendo transportado um caixote de laranjas e lhe lança um olhar impaciente completamente em desacordo com o sorriso natural em seu rosto. Tempo é dinheiro, é mesmo, mas dinheiro também é dinheiro, vamos começar este show, já. A primeira leva, Henry lhe dissera — é isso o que eles têm ali, a primeira leva? Ela olha para o outro lado da sala, imaginando como perguntar, e vê que a pergunta já foi respondida, pois tão logo ela olha para cima, Henry lhe dá o sinal de OK.

       Rebecca liga o interruptor do refletor cor-de-rosa e quase todo mundo na sala, incluindo alguns velhos que pareciam incapazes de reagir de alguma forma a qualquer estímulo, emitem um suave aaah. O terno, a camisa, as polainas chamejando no cone de luz, um Henry Leyden transformado desliza e se inclina para o microfone enquanto um LP de 12 polegadas, que aparentemente se materializou num passe de mágica, gira como uma cartola na palma de sua mão direita. Seus dentes brilham, seu cabelo reluzente cintila; as safiras faíscam dos aros de seus óculos escuros encantados. Henry parece estar quase dançando, com seu passo de lado delicado e esperto... Só que já não é mais Henry Leyden. Não é não, Teresinha, como George Rathbun gosta de gritar. O terno, as polainas, o cabelo emplastrado para trás, as sombras, mesmo o maravilhosamente eficaz refletor cor-de-rosa são mero figurino de palco. A verdadeira magia aqui é Henry, aquela criatura singularmente maleável. Quando é George Rathbun, ele é todo George. Idem o Rato de Wisconsin; idem Henry Shake. Há 18 meses ele tirou o Stan Sinfônico do armário e encaixou-se nele como uma mão numa luva para deslumbrar o pessoal num baile dos Veteranos de Guerra de Madison, mas o figurino ainda serve, serve, sim, e ele se encaixa nele, um seguidor de modismos renascido inteiro num passado que ele nunca viu em primeira mão.

       Na palma de sua mão estendida, o LP girando parece uma bola de praia preta, lisa e parada.

       Sempre que faz um baile, Stan Sinfônico começa com “In the Mood”. Embora ele não deteste Glenn Miller como alguns aficionados de jazz detestam, com o passar do tempo, cansou-se deste número. Mas a música sempre atinge seu objetivo. Mesmo se os clientes não têm outra escolha a não ser dançar com um pé na cova e o outro na proverbial casca de banana, eles dançam mesmo. Além do mais, ele sabe que depois que foi convocado Miller contou ao arranjador Billy May sobre seu plano para “sair dessa guerra como um herói de algum tipo”, e, diabos, ele cumpriu com a palavra, não?

       Henry alcança o microfone e coloca no prato o disco em movimento com um gesto displicente da mão direita. A platéia o aplaude com um oooh exalado.

       — Sejam bem-vindos: todos vocês, gatos e gatas — diz Henry.

       As palavras emergem dos alto-falantes envoltas na voz macia, ligeiramente dominante de um verdadeiro locutor de rádio em 1938 ou 1939, um dos homens que faziam locução ao vivo de cabarés e boates localizados de Boston a Catalina. Da garganta desses talentos da noite escorria mel, e eles nunca perdiam uma batida.

       — Me digam só, garotas e garotos, vocês podem imaginar uma maneira melhor de começar uma noite de embalo do que com Glenn Miller? Vamos lá, meus irmãos e minhas irmãs, digam éééé.

       Dos residentes da Maxton — alguns dos quais já se encontram na pista de dança e outros estão em volta dela presos a cadeiras de rodas, em posturas variadas de confusão e ausência — vem uma resposta sussurrada, menos um grito de festa do que o farfalhar de um vento de outono ao passar por galhos despidos. Stan Sinfônico sorri como um tubarão e ergue as mãos como se para acalmar uma multidão animada, depois rodopia como um dançarino do Salão de Baile Savoy inspirado em Chick Webb. As abas de seu paletó se abrem como asas, seus pés efervescentes voam e aterrissam e tornam a voar. O momento se evapora e duas bolas de praia pretas aparecem nas palmas das mãos do DJ, uma girando para dentro de sua manga, a outra para ir ao encontro da agulha.

       — Muito bem, certo certíssimo, suas gatinhas saltitantes e coelhinhas dançantes, aí vem o Cavalheiro Sentimental, o Sr. Tommy Dorsey, então mostrem o dinheiro e peguem o companheiro enquanto o vocalista Dick Haymes, o orgulho de Buenos Aires, Argentina, faz a pergunta musical “Como vou conhecer você?”. Frank Sinatra ainda não entrou no prédio, meus irmãos e minhas irmãs, mas a vida ainda é boa como mmm-mmm vinho.

       Rebecca Vilas não consegue acreditar no que está vendo. Esse cara está fazendo quase todo mundo ir para a pista de dança, mesmo algumas das pessoas nas cadeiras de rodas, que estão saçaricando e rodopiando com os mais saudáveis. Embonecado em sua roupa exótica e incrível, Stan Sinfônico — Henry Leyden, ela não se deixa esquecer — é ao mesmo tempo meloso e impressionante, absurdo e convincente. Ele é como... um tipo de cápsula do tempo, fechado em seu papel e no que esses velhos querem ouvir. O feitiço dele os trouxe de volta à vida, a qualquer resquício de juventude que lhes tivesse sobrado. Inacreditável! Não há outra palavra. As pessoas que ela considerara zeros à esquerda estão florescendo bem na sua frente. Quanto a Stan Sinfônico, ele continua como um dervixe elegante, fazendo-a pensar em palavras como suave, polido, civilizado, desequilibrado, sensual, elegante, palavras que não têm ligação senão através dele. E essa coisa que ele faz com os discos! Como é possível?

       Rebecca não se dá conta de que está batendo o pé e balançando no ritmo da música até Henry botar “Beguin the Beguine” [Entrar no beguine], de Artie Shaw, quando ela literalmente entra em seu próprio beguine começando a dançar sozinha. O jazz animado de Henry, a visão de tanta gente de cabelos brancos, azuis e de calvas deslizando pela pista de dança, Alice Weathers feliz e sorridente nos braços de ninguém menos que Thorvald Thorvaldson, Ada Meyerhoff e “Tom Tom” Boettcher rodopiando em volta um do outro em suas cadeiras de rodas, a pulsação arrebatadora da música conduzindo tudo para baixo da radiação em fusão da clarineta de Artie Shaw, todas essas coisas abrupta e magicamente se fundem numa visão de beleza terrena que lhe traz lágrimas aos olhos. Sorrindo, ela ergue os braços, gira e acaba habilmente agarrada pelo irmão gêmeo de Tom Tom, Hermie Boettcher, de 89 anos, o professor de geografia aposentado do Al7 anteriormente considerado um pateta, que, sem uma palavra, vai dançando com ela até o meio do salão.

       — É uma pena ver uma moça bonita dançando sozinha — diz Hermie.

       — Hermie, eu iria atrás de você para qualquer lugar — ela retruca.

       — Vamos chegar mais perto da banda — diz ele. — Quero ver melhor o figurão com aquele terno elegante. Dizem que ele é cego que nem morcego, mas eu não acredito.

       A mão firmemente plantada na base da espinha dela, os quadris gingando no ritmo de Artie Shaw, Hermie guia-a até junto ao palco, onde o Sinfônico já está fazendo seu truque com um novo disco enquanto espera o último compasso do atual. Rebecca poderia jurar que Stan/Henry não só sente sua presença diante dele, mas até pisca para ela! Mas isso é totalmente impossível... não?

       O Sinfônico faz o disco de Shaw entrar girando dentro de sua manga, faz o novo cair no prato, e diz:

       — Vocês podem dizer “Vout”? Vocês podem dizer “Sólido”? Agora que estamos todos de pé, vamos começar a pular e dançar com Woody Herman e “Wild Root”. Essa música é dedicada a todas vocês, lindas senhoras, especialmente a que está usando Calyx.

       Rebecca ri e diz:

       — Ai, meu Deus.

       Ele sentiu o cheiro de seu perfume; reconheceu-o!

       Sem se intimidar pelo ritmo quente de “Wild Root”, Henry Boettcher escorrega o pé para trás, estica o braço e faz Rebecca rodopiar. Na primeira batida do compasso seguinte, ele a pega nos braços e muda de direção, ambos girando para o outro lado do palco, onde está Alice Weathers ao lado do Sr. Thorvaldson, contemplando Stan Sinfônico.

       — A senhora especial deve ser você — diz Hermie. — Porque esse seu perfume vale uma dedicatória.

       Rebecca pergunta:

       — Onde aprendeu a dançar assim?

       — Meu irmão e eu éramos garotos de cidade pequena. Aprendemos a dançar na frente da jukebox da Alouette’s, em Arden. — Rebecca conhece a Alouette’s, na Rua Principal de Arden, mas no balcão onde antes serviam-se refrigerantes, agora, serve-se almoço, e a jukebox desapareceu mais ou menos na época em que Johnny Mathis saiu das paradas. — Se você quer um bom dançarino, arranje um garoto de cidade pequena. Já o Tom Tom, ele sempre foi o dançarino mais elegante das redondezas, e você pode atirá-lo naquela cadeira, mas não pode tirar o ritmo dele.

       — Sr. Stan, ei, Sr. Stan? — Alice Weathers inclinou a cabeça e pôs as mãos em concha em volta da boca. — O senhor aceita pedidos?

       Uma voz desafinada e dura como o som de uma pedra esfregando na outra diz:

       — Eu estava aqui primeiro, velha.

       Essa grosseria implacável faz Rebecca estacar. O pé direito de Hermie pisa de leve no seu esquerdo, e logo é retirado, sem machucar mais que um beijo. Mais alto que Alice, Charles Burnside fuzila Thorvald Thorvaldson com os olhos. Thorvaldson recua e puxa a mão de Alice.

       — Claro, querida — diz Stan com uma mesura. — Me diga seu nome e o que gostaria de ouvir.

       — Sou Alice Weathers, e...

       — Eu estava aqui primeiro — Burny repete falando alto.

       Rebecca olha para Hermie, que balança a cabeça e faz uma cara de mau humor. Garoto de cidade pequena ou não, ele está tão intimidado quanto o Sr. Thorvaldson.

       — “Moonglow”, por favor. Com Benny Goodman.

       — É a minha vez, sua besta. Quero aquela música de Woody Herman chamada “Lady Magowan’s Nightmare” [O pesadelo de Lady Magowan]. Essa é boa.

       Hermie inclina-se para o ouvido de Rebecca.

       — Ninguém gosta desse sujeito, mas ele consegue o que quer.

       — Não dessa vez — diz Rebecca. — Sr. Burnside, quero que o senhor...

       Stan Sinfônico a faz calar com um gesto. Ele se vira para ficar de frente para o dono da voz desagradabilíssima.

       — Não dá, senhor. A música se chama “Lady Magowan’s Dream” [O sonho de Lady Magowan], e hoje eu não trouxe essa pecinha animada, sinto muito.

       — Tudo bem, amigo, e “I Can’t Get Started” [Não posso começar], a que Bunny Berigan gravou?

       — Ah, eu adoro essa — diz Alice. — É, toque “I Can’t Get Started”.

       — Com todo o prazer — diz Stan com a voz normal de Henry Leyden. Sem se dar ao trabalho de dançar ou girar os discos na mão, ele simplesmente troca o LP do toca-discos por um da primeira caixa. Ele parece estranhamente murcho quando volta ao microfone e diz: — Dei a volta ao mundo de avião, resolvi revoluções na Espanha. Não posso começar. Dedicada à encantadora Alice Vestido Azul e Àquela que Anda à Noite.

       — Você não vale mais que um macaco num pau — diz Burny.

       A música começa. Rebecca cutuca Hermie e vai para o lado de Charles Burnside, por quem ela nunca sentiu outra coisa senão repugnância moderada. Agora que o tem em foco, sua indignação e seu nojo fazem-na dizer:

       — Sr. Burnside, o senhor vai pedir desculpas a Alice e a nosso amigo aqui. O senhor é um provocador infame e grosseiro, e, depois que pedir desculpas, quero que volte para o seu quarto, que é o seu lugar.

       Suas palavras não surtem efeito. Os ombros de Burnside estão caídos. Ele tem no rosto um sorriso largo e sentimental, e fita o vazio com um olhar parado. Parece longe demais para lembrar o próprio nome e menos ainda o de Bunny Berigan. De qualquer forma, Alice Weathers já saiu dali dançando, e Stan Sinfônico, de novo no fundo do palco e fora do refletor cor-de-rosa, parece estar absorto em seus pensamentos. Os casais idosos bailam na pista. Em seu canto, Hermie Boettcher finge que dança e interroga-a com um olhar.

       — Sinto muito por isso — diz ela a Stan/Henry.

       — Não precisa se desculpar. “I Can’t Get Started” era o disco preferido da minha mulher. Tenho pensado nela muito nesses últimos dias. Isso me surpreendeu.

       Ele passa a mão pelo cabelo luzidio e abre os braços, visivelmente voltando ao seu papel.

       Rebecca decide deixá-lo em paz. Na verdade, quer deixar todo mundo em paz por um tempinho. Sinalizando a Henry que lamenta e que o dever a chama, ela atravessa a multidão e sai do salão. De alguma forma, Burny chegou antes dela no corredor. Vai distraído, encaminhando-se para a ala Margarida, cabisbaixo, arrastando os pés.

       — Sr. Burnside — ela diz —, seu jeito pode enganar o resto das pessoas, mas quero que saiba que a mim não engana.

       Aos arrancos, o velho se vira. Primeiro mexe um pé, depois uma perna, a cintura torta, por fim o tronco cadavérico. A feia inflorescência da cabeça de Burny pende da haste fina, oferecendo a Rebecca uma visão de seu crânio manchado. Seu nariz comprido se projeta como um leme deformado. Com a mesma lentidão terrível, sua cabeça se ergue para revelar olhos velados e uma boca mole. Um lampejo de desejo de vingança surge nos olhos parados, e os lábios mortos se retorcem.

       Assustada, Rebecca instintivamente dá um passo para trás. A boca de Burny esticou-se toda num sorriso medonho. Rebecca quer fugir, mas a raiva por ter sido humilhada por esse pateta miserável faz com que ela fique firme.

       — Lady Magowan teve um pesadelo horrível — Burny lhe informa. Ele parece drogado, ou meio dormindo. — E Lady Sophie teve um pesadelo. Só que o dela foi pior. — Ele ri. — O rei estava na contabilidade, contando seus docinhos. Foi o que Sophie viu quando adormeceu. — Ele ri mais alto, e diz algo que poderia ser Sr. Munching. Seu lábios abrem e fecham, revelando dentes amarelos e irregulares, e seu rosto encovado sofre uma mudança sutil. Um novo tipo de inteligência parece aguçar suas feições. — Você conhece o Sr. Munshun? Sr. Munshun e seu amiguinho Gorg? Sabe o que aconteceu em Chicago?

       — Pare já com isso, Sr. Burnside.

       — Xá ofiu falar em Fritz Haarman, que era tão simpático? Era chamado de “Vamp, Vamp, Vamp de Hanover”, é, era, sim, sim, sim. Toto munto, toto munto tem pessatelo tota horra, tota horra, ha ha ho ho.

       — Pare de falar assim!— grita Rebecca. — Você não está me enganando!

       Por um momento, uma nova inteligência brilha nos olhos apagados de Burny. Quase de imediato, desaparece. Ele lambe os beiços e diz:

       — Acorte, Burn-Burn.

       — Tudo bem — diz Rebecca. — O jantar é às sete lá embaixo. Vá dormir um pouco, sim?

       Burny lhe lança um olhar enervado e turvo e pousa de novo um pé no chão, iniciando o tedioso processo que o fará dar meia-volta.

       — Você pode escrever. Fritz Haarman. Em Hanover. — Sua boca se torce num sorriso perturbadoramente malicioso. — Quando o rei vier aqui, talvez possamos dançar juntos.           

       — Não, obrigada. — Rebecca vira as costas para o velho horror e segue pelo corredor batendo os saltos, inconfortavelmente consciente dos olhos dele a segui-la.

      

      

A linda bolsinha Coach de Rebecca está em cima de sua mesa na ante-sala sem janela do escritório de Chipper. Antes de entrar, ela pára para pegar uma folha de papel, escreve Fritz Harmann (?), Hanover (?), e enfia o papel na divisão central da bolsa. Pode não ser nada — provavelmente não é —, mas quem sabe? Ela está furiosa por ter deixado Burnside assustá-la, e se puder arranjar um jeito de usar os absurdos dele contra ele, fará o que estiver ao seu alcance para expulsá-lo da Maxton.

       — Garota, é você? — pergunta Chipper.

       — Não, é Lady Magowan e seu pesadelo maluco.

       Ela entra na sala de Chipper e encontra-o à sua mesa, contando alegremente as notas doadas naquela tarde pelos filhos de seus clientes.

       — Minha Becky parece muito chateada — diz ele. — O que aconteceu, um dos nossos zumbis pisou no seu pé?

       — Não me chame de Becky.

       — Ei, ei, anime-se. Você não vai acreditar na grana que o seu amigo bom de conversa tirou hoje dos parentes. Cento e vinte e seis paus! Dinheiro de graça! Tudo bem, mas qual foi o problema?

       — Charles Burnside me assustou, foi isso. Ele devia estar num hospício.

       — Está brincando? Esse zumbi específico vale o quanto pesa em ouro. Enquanto for vivo, Charles Burnside sempre terá um lugar no meu coração. — Rindo, ele brande um punhado de notas. — E quem tem um lugar no meu coração, gatinha, sempre tem um lugar na Maxton.

       A lembrança de Burnside dizendo O rei estava na contabilidade, contando seus docinhos faz com que ela se sinta suja. Se Chipper não estivesse rindo com a boca frouxa daquela maneira exultante, Rebecca acha que ele não lhe lembraria de forma tão desagradável o seu residente favorito. Toto munto, toto munto tem pesatelo tota horra, tota horra, ha ha ho ho — essa não era uma má descrição da French Landing do Pescador. Engraçado, ninguém pensaria que o velho Burny repararia mais que Chipper nesses assassinatos. Rebecca nunca ouviu o amante mencionar os crimes do Pescador, a não ser na vez em que reclamou que não poderia contar a ninguém que ia pescar até Dale Gilbertson se mexer, e que tipo de negócio de merda era aquele?

 

 

Dois telefonemas e mais outro, particular, um que ele está fazendo o possível para negar, conspiraram para arrancar Jack Sawyer de seu casulo no Vale Noruega e botá-lo na estrada para French Landing, Rua Sumner e a Delegacia de Polícia. A primeira ligação fora de Henry, e Henry, ligando da lanchonete da Maxton durante um dos intervalos do Sinfônico, insistira em dizer o que pensava. Uma criança aparentemente fora raptada em frente à Maxton, poucas horas atrás, naquele dia. Fossem quais fossem as razões de Jack para ficar fora do caso, as quais, por sinal, ele nunca explicara, elas não contavam mais, sinto muito. Com essa, eram quatro crianças perdidas para o Pescador, porque Jack não achava realmente que Irma Freneau fosse aparecer entrando em casa a qualquer momento, achava? Quatro crianças!

       — Não — dissera Henry —, eu não ouvi isso no rádio. Aconteceu hoje de manhã.

       — De um zelador da Maxton — dissera Henry. — Ele viu um tira com cara preocupada pegar uma bicicleta e botá-la na mala do carro.

       — Certo — dissera Henry —, talvez eu não saiba ao certo, mas estou certo. Hoje à noite, Dale vai identificar o pobre garoto, e amanhã o nome dele estará no jornal inteiro. E aí este país inteiro vai ficar histérico. Você não entende? Só saber que você está envolvido vai ajudar muito a acalmar as pessoas. Você já não pode mais se dar ao luxo de uma aposentadoria, Jack. Tem que fazer a sua parte.

       Jack disse-lhe que ele estava tirando conclusões precipitadas, que conversariam sobre isso mais tarde.

       Quarenta e cinco minutos depois, Dale Gilbertson ligara com a notícia de que um garoto chamado Tyler Marshall sumira em frente à Maxton naquela manhã, e que o pai de Tyler, Fred Marshall, estava agora mesmo na delegacia, pedindo para falar com Jack Sawyer. Fred era um cara maravilhoso, um homem de família, direito, um cidadão de peso, amigo de Dale, se é que se pode dizer, mas no momento já não tinha mais forças. Aparentemente, Judy, sua mulher, já andava com algum tipo de distúrbio mental antes mesmo que o problema começasse, e o desaparecimento de Tyler a enlouquecera de vez. Ela não dizia coisa com coisa, se ferira, destruíra a casa.

       — E eu conheço Judy Marshall — dissera Dale. — Uma linda mulher, baixinha, mas forte por dentro, com os pés no chão, uma grande figura, uma pessoa incrível, alguém que a gente nunca acharia que iria perder o controle, acontecesse o que acontecesse. Parece que ela já achava ou sabia que Tyler tinha sido raptado antes mesmo que a bicicleta dele aparecesse. Hoje à tarde, ela ficou tão ruim que Fred teve que ligar para o Dr. Skarda e levá-la para o Hospital Luterano do Condado Francês, em Arden, onde a examinaram e a botaram na enfermaria D, a ala para doentes mentais. Então você pode imaginar como Fred está. Ele insiste em falar com você. Não confio em você, ele me disse.

       — Bem — dissera Dale —, se você não vier aqui, Fred Marshall vai aparecer na sua casa, é o que vai acontecer. Não posso botar o cara na coleira, e não vou prendê-lo só para mantê-lo longe de você. Ainda por cima, precisamos de você aqui, Jack.

       — Está bem — dissera Dale. — Sei que você não está prometendo nada. Mas você sabe o que deve fazer.

       Essas conversas teriam sido suficientes para fazê-lo entrar em sua picape e rumar para a Rua Sumner? Muito provavelmente, Jack imagina, o que torna o terceiro fator, o segredo, um segredo mal admitido, inconseqüente. Não significa nada. Um ataque de nervos ridículo, uma escalada da ansiedade, coisa completamente natural naquelas circunstâncias, que pode acontecer com todo mundo. Ele estava a fim de sair de casa, e daí? Ninguém podia acusá-lo de fugir. Ele estava indo ao encontro, não fugindo, daquilo de que ele mais queria fugir — a contracorrente escura dos crimes do Pescador. Tampouco estava se comprometendo a qualquer envolvimento mais profundo. Amigo de Dale e pai de um filho aparentemente desaparecido, esse Fred Marshall insistia em falar com ele; ótimo, pode falar. Se meia hora com um detetive aposentado pudesse ajudar Fred Marshall a começar a entender seus problemas, o detetive aposentado estava disposto a lhe conceder o tempo.

       Tudo o mais era meramente pessoal. Sonhos acordado e ovos de sabiá fundiam a cuca, mas isso era meramente pessoal. A gente podia esperar mais, ser mais esperto, entender. Nenhum ser racional levava isso a sério; como um temporal de verão, chegava e passava. Agora, quando atravessou o sinal verde em Centralia e notou, por reflexo de tira, as Harleys enfileiradas no estacionamento do Sand Bar, ele sentiu que se alinhava com as dificuldades da tarde. Fazia todo o sentido não ter conseguido — bem, digamos, não ter querido — abrir a porta da geladeira. Surpresas desagradáveis faziam a gente pensar duas vezes. Queimara uma lâmpada em sua sala, e quando ele foi até a gaveta que continha meia dúzia de lâmpadas halógenas novas, não conseguira abri-la. Na verdade, não conseguira abrir nenhuma gaveta e nenhum armário em sua casa, o que o tornava incapaz de fazer uma xícara de chá, mudar de roupa, preparar o almoço, ou fazer qualquer coisa senão folhear revistas desanimadamente e assistir à televisão. Quando a aba da caixa de correspondência ameaçara esconder uma pirâmide de ovinhos azuis, ele decidira só pegar a correspondência no dia seguinte. De qualquer forma, ele só recebia demonstrações financeiras, revistas e propaganda.

       Não vamos fazer isso parecer pior do que foi, Jack diz a si mesmo. Eu poderia ter aberto qualquer porta, gaveta ou armário na casa, mas não quis. Eu não temia que ovos de sabiá fossem cair de dentro da geladeira ou do armário — só que eu não queria correr o risco de encontrar o raio de uma dessas coisas. Me mostre um psiquiatra que diga que isso é neurótico e eu lhe mostro um cretino que não entende de psicologia. A velha guarda toda me dizia que trabalhar com homicídios fundia a cuca. Diabo, antes de tudo, foi por isso que me aposentei!

       O que eu devia fazer, ficar na ativa até comer a pistola? Você é um cara esperto, Henry Leyden, e adoro você, mas algumas coisas você não ENTENDE!

       Tudo bem, ele estava indo para a Rua Sumner. Todo mundo estava gritando para ele fazer alguma coisa, e era isso que ele ia fazer. Ia dar boa-noite a Dale, cumprimentar os rapazes, sentar com esse Fred Marshall, o cidadão de peso com um filho desaparecido, e despejar-lhe a lengalenga habitual sobre estar sendo feito todo o possível, blablablá, o FBI está trabalhando em conjunto conosco neste caso, e eles têm os melhores investigadores do mundo. Essa lengalenga. No que dizia respeito a Jack, seu primeiro dever era alisar Fred Marshall, como se para acalmar os sentimentos de um gato machucado; quando Marshall tivesse sossegado, a suposta obrigação de Jack para com a comunidade — uma obrigação que existia inteiramente na cabeça dos outros — estaria cumprida, liberando-o para voltar à privacidade que ele conquistara. Se Dale não gostasse disso, ele poderia se atirar no Mississipi: se Henry não gostasse, Jack se recusaria a ler A Casa Soturna e, em vez disso, iria obrigá-lo a ouvir Lawrence Welk, Vaughn Monroe, ou alguma coisa igualmente penosa. Dixieland ruim. Anos atrás, alguém dera a Jack um CD chamado Fats Manassas & His Muskrat All Stars Stompin’ the Ramble. Trinta segundos de Fats Manassas e Henry iria estar pedindo penico.

       A imagem faz Jack sentir-se suficientemente confortável para provar que sua hesitação diante de armários e gavetas fora meramente uma falta de vontade temporária, não uma incapacidade fóbica. Mesmo enquanto sua atenção estava em outra coisa, como em geral estava, o cinzeiro fechado embaixo do consolo zombara dele e o ridicularizara desde a primeira vez em que ele entrara na picape. Uma espécie de sugestionabilidade sinistra, uma aura de malícia latente cerca o pequeno consolo do cinzeiro.

       Será que ele receia que haja um ovinho azul escondido atrás do pequeno consolo?

       Claro que não. Ali não há nada a não ser ar e plástico preto moldado.

       Nesse caso, ele pode abri-lo.

       Os prédios nos arredores de French Landing deslizam pelas janelas da picape. Jack chegou quase ao ponto exato em que Henry desligou o Dirtysperm. Obviamente, ele pode abrir o cinzeiro. Nada poderia ser mais simples. Basta pegar por baixo e puxar. A coisa mais fácil do mundo. Ele estica a mão. Antes de seus dedos encostarem no consolo, ele puxa a mão. Gotas de suor lhe escorrem pela testa e se alojam em suas sobrancelhas.

       — Não tem nada de mais — ele diz em voz alta. — Você está com algum problema aqui, Jacky?

       De novo, ele estica a mão para o cinzeiro. Abruptamente percebendo que está prestando mais atenção na parte inferior do painel do que na estrada, ele ergue os olhos e reduz a velocidade à metade. Recusa-se a frear. É só um cinzeiro, pelo amor de Deus. Seus dedos tocam o consolo, e se encolhem embaixo do rebordo. Jack olha de novo para a estrada. Depois, com a decisão de uma enfermeira arrancando um esparadrapo da barriga peluda de um paciente, puxa a bandeja deslizante. A parte do isqueiro, que ele inadvertidamente deslocara na entrada de sua garagem naquela manhã, pula sete centímetros no ar, parecendo muito, aos olhos apavorados de Jack, um ovo voador preto e prateado.

       Ele dá uma guinada e sai da estrada, atravessa aos solavancos o acostamento coberto de mato e se encaminha para um poste telefônico ameaçador. O isqueiro cai na bandeja com um baque metálico alto que nenhum ovo no mundo poderia ter produzido. O poste telefônico se aproxima e praticamente enche todo o pára-brisa. Jack pisa no freio e pára com um tranco, provocando um chocalhar dentro do cinzeiro. Se não tivesse diminuído a velocidade antes de abrir o cinzeiro, teria batido no poste, que está a cerca de um metro do capô da picape. Jack enxuga o suor do rosto e pega o isqueiro.

       — Cacilda.

       Ele enfia o acessório em seu receptáculo e cai para trás no banco.

       — Não admira que digam que o fumo pode matar — diz ele.

       A piada é muito fraca para diverti-lo, e por alguns segundos ele não faz mais nada senão ficar atirado no banco e olhar o tráfego esparso na Rua Lyall. Quando seu coração volta a um estado mais ou menos normal, ele se lembra que, afinal de contas, abriu o cinzeiro.

      

      

O louro e amassado Tom Lund evidentemente fora preparado para sua chegada, pois quando Jack passa por três bicicletas enfileiradas ao lado da porta e entra na delegacia, o jovem policial sai voando de sua mesa e vem lhe dizer baixinho que Dale e Fred Marshall estão à sua espera na sala de Dale, e ele vai acompanhá-lo até lá. Eles ficarão felizes em vê-lo, isso é certo.

       — Eu também estou, tenente Sawyer — acrescenta Lund. — Menino, eu tenho que dizer. Eu acho que a gente está precisando do que você tem.

       — Pode me chamar de Jack. Não sou mais tenente. Nem sou mais policial.

       Jack conhecera Tom Lund durante a investigação do caso Kinderling, e gostara da garra e da dedicação do jovem. Apaixonado por aquele trabalho, aquele uniforme e aquele distintivo, cheio de consideração pelo chefe e assombrado com Jack, Lund passara, sem reclamar, centenas de horas ao telefone, em registros de ocorrências e em seu carro, checando e rechecando os detalhes muitas vezes contraditórios estabelecidos pela colisão entre um vendedor de seguros rurais de Wisconsin e uma trabalhadora de Sunset Strip. O tempo todo, Tom Lund conservara a disposição de um zagueiro de time escolar entrando em campo para o primeiro jogo.

       Ele já não é mais assim, Jack observa. Manchas escuras sublinham seus olhos, e os ossos estão mais proeminentes em seu rosto. Há mais do que sonolência e exaustão por trás do estado de Lund: seus olhos têm aquela expressão de perplexidade incontida de quem foi vítima de um choque moral. O Pescador roubou grande parte da juventude de Tom Lund.

       — Mas vou ver o que posso fazer — diz Jack, oferecendo a promessa de um empenho maior do que pretendia.

       — Certamente podemos aproveitar tudo que você puder nos dar — diz Lund.

       É demais, servil demais, e enquanto Lund dá meia-volta e o conduz até a sala, Jack pensa: Não vim aqui para ser seu salvador.

       A idéia imediatamente o faz sentir-se culpado.

       Lund bate, abre a porta para anunciar Jack, o faz entrar e desaparece como um fantasma, totalmente despercebido pelos dois homens que se levantam e colam os olhos no rosto do visitante, um com visível gratidão, o outro com um enorme grau da mesma emoção aliada a uma carência óbvia, o que deixa Jack sentindo-se pior ainda.

       Em cima da apresentação embrulhada de Dale, Fred Marshall diz:

       — Obrigado por concordar em vir, muito obrigado. É só o que posso...

       Seu braço direito se estende como uma alavanca de bomba. Quando Jack lhe dá a mão, uma quantidade de sentimentos ainda maior inunda o rosto de Fred Marshall. Sua mão aperta a de Jack e parece quase reclamá-la, como um bicho reclama sua presa. Ele espreme, com força, muitas e muitas vezes. Seus olhos ficam marejados.

       — Não posso... — Marshall puxa a mão e esfrega o rosto para enxugar as lágrimas. Agora seus olhos parecem irritados e intensamente vulneráveis. — Puxa vida — diz ele. — Estou muito feliz que o senhor esteja aqui, Sr. Sawyer. Ou devo dizer tenente?

       — Jack está bem. Por que vocês dois não me põem a par do que aconteceu hoje?

       Dale aponta para uma cadeira vaga; os três tomam seus lugares; a dolorosa mas essencialmente simples história de Fred, Judy e Tyler Marshall começa. Fred fala primeiro, bastante. Em sua versão da história, uma mulher brava e corajosa, mãe e esposa dedicada, sucumbe a desconcertantes transformações e distúrbios multifacetados, e desenvolve misteriosos sintomas negligenciados por seu marido ignorante, idiota e autocentrado. Ela deixa escapar palavras sem sentido; escreve coisas malucas em folhas de bloco, enfia os papéis na boca e tenta engoli-los. Ela vê com antecedência a tragédia chegando, e isso a desequilibra. Parece loucura, mas o marido autocentrado acha que é a verdade. Isto é, ele acha que acha que é a verdade, porque está achando isso desde a primeira vez que falou com Dale, e, embora pareça loucura, faz sentido. Que outra explicação poderia haver? Então é isso que ele acha que acha — que sua mulher começou a enlouquecer porque sabia que o Pescador estava a caminho. Esse tipo de coisa é possível, ele imagina. Por exemplo, a brava esposa doente sabia que seu filho lindo maravilhoso estava desaparecido mesmo antes de seu marido idiota e egoísta, que foi trabalhar exatamente como se aquele fosse um dia normal, lhe contar sobre a bicicleta. Isso provava bem o que ele estava falando. O lindo garotinho saiu com os três amigos, mas só os três amigos voltaram, e o policial Danny Tcheda encontrou a bicicleta Schwinn do filhinho e um pé de seu pobre tênis na calçada em frente à Maxton.

       — Danny Tchita? — pergunta Jack, que, como Fred Marshall, começa a achar que acha uma quantidade de coisas alarmantes.

       — Tcheda — diz Dale, e soletra para ele.

       Dale conta-lhe a sua versão pessoal da história, muito mais curta. Na história de Dale Gilbertson, um garoto sai para andar de bicicleta e some, talvez por ter sido raptado, em frente à Maxton. É só isso que Dale sabe da história, e ele acredita que Jack Sawyer será capaz de preencher muitas das lacunas circundantes.

       Jack Sawyer, para quem os outros dois homens na sala estão olhando, custa a se ajustar às três idéias que agora acha que tem. A primeira não é tanto uma idéia quanto uma resposta que exprime uma idéia oculta: desde o momento em que Fred Marshall apertou sua mão e disse “Puxa vida”, Jack começou a gostar do homem, uma reviravolta não prevista no enredo da noite. Fred Marshall mais ou menos lhe parece o garoto-propaganda da vida numa cidade pequena. Se pusesse o retrato dele em cartazes anunciando imóveis do Condado Francês, você poderia vender um monte de casas de campo para gente de Milwaukee e Chicago. A cara simpática e atraente de Fred Marshall e seu corpo esguio de corredor são certificados de responsabilidade, decência, boas maneiras e boa vizinhança, modéstia e um coração generoso. Quanto mais Fred Marshall se chama de egoísta e idiota, mais Jack gosta dele. E quanto mais gosta dele, mais compreende o que ele sente naquela terrível situação por que ele está passando, mais tem vontade de ajudá-lo. Jack chegara à delegacia esperando que iria responder ao amigo de Dale como policial, mas seus reflexos de tira enferrujaram por falta de uso. Ele está respondendo de cidadão para cidadão. Os tiras, como Jack bem sabe, raramente vêem os civis enredados na esteira de um crime como concidadãos, e certamente nunca nos estágios iniciais de uma investigação. (A idéia oculta no centro da resposta ao homem à sua frente é que Fred Marshall, sendo o que é, não pode abrigar suspeitas de ninguém com quem tenha boas relações.)

       A segunda idéia de Jack é a de um tira e concidadão, e embora ele continue o seu ajuste à terceira, que é inteiramente um produto de seus reflexos de tira enferrujados porém ainda precisos, ele a torna pública.

       — As bicicletas que eu vi lá fora pertencem aos amigos de Tyler? Alguém os está interrogando agora?

       — Bobby Dulac — responde Dale. — Falei com eles quando eles entraram, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Segundo eles, estavam todos juntos na Rua Chase, e Tyler foi embora sozinho. Eles afirmam não ter visto nada. Talvez seja verdade.

       — Mas você acha que há mais coisa.

       — Sinceramente, acho. Mas não sei que diabo poderia ser, e temos que mandá-los para casa antes que os pais deles fiquem aflitos.

       — Quem são eles, como se chamam?

       Fred Marshall aperta os dedos como se estivesse segurando um taco de beisebol invisível.

       — Ebbie Wexler, T. J. Renniker e Ronnie Metzger. São os garotos com quem Ty anda saindo este verão.

       Uma crítica não falada paira ao redor desta última frase.

       — Parece que você não os considera a melhor companhia para seu filho.

       — Bem, não — diz Fred, preso entre a vontade de falar a verdade e o desejo inato de evitar parecer injusto. — Não, se você colocar as coisas assim. Ebbie parece meio metido a valentão e os outros dois talvez sejam meio... devagar. Espero... ou esperava... que Ty visse que podia fazer melhor e passar o tempo livre com garotos que sejam mais do... você sabe...

       — Mais do nível dele.

       — Certo. O problema é que meu filho é meio baixo para a idade dele, e Ebbie Wexler é... hã...

       — Forte e alto para a idade — diz Jack. — A situação perfeita para um valentão.

       — Você está dizendo que conhece Ebbie Wexler?

       — Não, mas eu o vi hoje de manhã. Ele estava com os outros dois garotos e seu filho.

       Dale se empertiga de repente na cadeira, e Fred Marshall larga o taco invisível.

       — Quando foi isso? — Dale pergunta.

       Ao mesmo tempo, Fred Marshall pergunta:

       — Onde?

       — Na Rua Chase, mais ou menos às oito e dez. Vim pegar Henry Leyden para levá-lo para casa. Quando estávamos saindo da cidade, os garotos apareceram de bicicleta no meio da rua bem na minha frente. Vi bem o seu filho, Sr. Marshall. Ele parecia um ótimo garoto.

       Os olhos arregalados de Fred Marshall indicam que algum tipo de esperança, alguma promessa, está tomando forma na sua frente. Dale relaxa.

       — Isso combina bastante com a história deles. Deve ter sido justo antes de Ty ir embora sozinho. Se é que foi.

       — Ou eles foram embora e o largaram — diz o pai de Ty. — Eles eram mais rápidos na bicicleta que Ty, e às vezes, sabe... implicavam com ele.

       — Andando a toda e o largando sozinho — diz Jack.

       O aceno de cabeça triste de Fred Marshall fala de humilhações de infância compartilhadas com seu pai compreensivo. Jack se lembra da cara hostil, inflamada e do gesto obsceno de Ebbie Wexler e se pergunta se o menino poderia estar se protegendo e como. Dale dissera que ele sentira cheiro de falsidade na história dos meninos, mas por que eles iriam mentir? Fossem quais fossem suas razões, a mentira com certeza deve ter começado com Ebbie Wexler. Os outros dois obedeciam a ordens.

       Por ora deixando de lado a terceira de suas idéias, Jack diz:

       — Quero falar com os meninos antes que vocês os mandem para casa. Onde eles estão?

       — Na sala de interrogatório, lá em cima. — Dale aponta para o teto. — Tom vai levar você lá.

       Com suas paredes cinza-belonave, sua mesa de aço cinza e sua única janela estreita como uma seteira no muro de um castelo, a sala de cima parece projetada para obter confissões através de tédio e desespero, e quando Tom Lund entra com Jack, os quatro habitantes da sala de interrogatório parecem ter sucumbido à sua atmosfera plúmbea. Bobby Dulac olha de lado, pára de tamborilar com um lápis na mesa e diz:

       — Bem, viva Hollywood. Dale disse que você viria. — Até Bobby brilha um pouco mais discretamente nessa escuridão. — Quer interrogar esses arruaceiros aqui, tenente?

       — Já, já, talvez.

       Dois dos três arruaceiros do outro lado da mesa observam Jack passar por Bobby Dulac como se receando que ele fosse pô-los numa cela. As palavras “interrogar” e “tenente” tiveram o efeito vivificante de um vento frio soprando do Lago Michigan. Ebbie Wexler aperta os olhos para Jack, tentando parecer durão, e o garoto a seu lado, Ronnie Metzger, se torce na cadeira, os olhos como pratos. O terceiro garoto, T. J. Renniker, deitou a cabeça em cima dos braços cruzados e parece estar dormindo.

       — Acordem-no — diz Jack. — Tenho uma coisa para dizer e quero que vocês todos ouçam.

       Na verdade, ele não tem nada para dizer, mas precisa que aqueles garotos prestem atenção nele. Já sabe que Dale tinha razão. Se eles não estão mentindo, pelo menos estão ocultando alguma coisa. Por isso sua aparição abrupta dentro daquele cenário adormecido os assustou. Se estivesse tratando do caso, Jack teria separado os meninos e os interrogado individualmente, mas agora tinha que lidar com o erro de Bobby Dulac. Tem que tratá-los coletivamente, para começar, e tem que explorar o medo deles. Não quer aterrorizar os meninos, só fazer seus corações baterem um pouquinho mais depressa; depois disso, pode separá-los. O elo mais fraco e mais culpado já se declarou. Jack não tem escrúpulo nenhum em mentir para obter informações.

       Ronnie Metzger cutuca o ombro de T. J. e diz:

       — Acorda, cobrom... bronco.

       O garoto adormecido geme, levanta a cabeça da mesa, começa a se espreguiçar. Seus olhos colam em Jack, e, piscando e engolindo em seco, ele se levanta.

       — Bem-vindo de volta — diz Jack. — Quero me apresentar e explicar o que estou fazendo aqui. Meu nome é Jack Sawyer, e sou tenente da Divisão de Homicídios do Departamento de Polícia de Los Angeles. Tenho uma ficha excelente e uma sala cheia de menções honrosas e medalhas. Quando vou atrás de um bandido, geralmente acabo prendendo o bicho. Três anos atrás, vim aqui por causa de um caso de Los Angeles. Duas semanas depois, um homem chamado Thornberg Kinderling foi despachado de volta para L.A. algemado. Porque eu conheço esta área e trabalhei com seus policiais que fazem cumprir a lei, o DPLA me pediu para ajudar a polícia local na investigação dos crimes do Pescador.

       Ele olha para ver se Bobby Dulac está rindo desse absurdo, mas Bobby está olhando para a frente com uma expressão congelada.

       — Seu amigo Tyler Marshall estava com vocês antes de desaparecer hoje de manhã. Será que o Pescador o pegou? Odeio dizer isso, mas acho que sim. Talvez a gente consiga ter Tyler de volta, talvez não, mas se eu for deter o Pescador, preciso que vocês me contem exatamente o que aconteceu, nos mínimos detalhes. Vocês têm que ser inteiramente honestos comigo, porque, se mentirem ou esconderem alguma coisa, serão culpados de obstrução de justiça. A obstrução de justiça é um crime sério. Policial Dulac, qual é a pena mínima para esse crime no estado de Wisconsin?

       — Cinco anos, tenho quase certeza — diz Bobby Dulac.

       Ebbie Wexler morde o interior da bochecha; Ronnie Metzger olha para o lado e franze o cenho para a mesa; T. J. Renniker contempla estupidamente a janela estreita.

       Jack senta-se ao lado de Bobby Dulac.

       — Por sinal, eu era o cara na picape para quem um de vocês fez aquele gesto obsceno hoje de manhã. Não posso dizer que eu esteja encantado em ver vocês de novo.

       Duas cabeças giram para Ebbie, que franze os olhos ferozmente, tentando resolver esse problema novíssimo.

       — Eu não fiz — diz ele, tendo se decidido pela recusa total. — Talvez tenha dado a impressão de que fiz, mas não fiz.

       — Você está mentindo, e ainda nem começamos a falar sobre Tyler Marshall. Vou lhe dar mais uma chance. Diga a verdade.

       Ebbie sorri com maldade.

       — Eu não ando por aí fazendo gestos obscenos para gente que eu não conheço.

       — Levante-se — diz Jack.

       Ebbie olha de um lado para o outro, mas seus amigos são incapazes de sustentar seu olhar. Ele empurra a cadeira para trás e se levanta, com hesitação.

       — Policial Dulac — diz Jack —, leve esse garoto para fora e segure-o lá.

       Bobby Dulac executa seu papel à perfeição. Levanta-se da cadeira e mantém os olhos em Ebbie enquanto se aproxima dele. Parece uma pantera a caminho de uma lauta refeição. Ebbie Wexler pula para trás e tenta deter Bobby com uma mão levantada.

       — Não, não, eu retiro o que disse, eu fiz, está certo?

       — Agora é tarde — diz Jack.

       Ele olha enquanto Bobby agarra o menino pelo braço e o puxa em direção à porta. Vermelho e suando, Ebbie planta os pés no chão e a força com que seu braço é puxado o faz dobrar-se sobre a pança. Ele avança quase caindo, chorando e gritando. Bobbio Dulac abre a porta e arrasta-o para o corredor lúgubre do segundo andar. A porta bate e corta um gemido de medo.

       Os dois outros garotos ficaram brancos como papel e incapazes de se mexer.

       — Não se preocupem com. ele — diz Jack. — Ele vai estar bem. Em 15 ou 20 minutos, vocês estarão livres para ir para casa. Achei que não adiantava nada falar com alguém que mente desde o início, só isso. Lembrem-se: até os péssimos tiras sabem quando alguém está mentindo para eles, e eu sou um ótimo tira. Então é isso que a gente vai fazer agora. Vamos falar do que aconteceu hoje de manhã, do que Tyler estava fazendo, da maneira como vocês se separaram dele, onde vocês estavam, o que fizeram depois, qualquer pessoa que vocês possam ter visto, esse tipo de coisa. — Ele se inclina para trás e espalma as mãos sobre a mesa. — Vamos, me contem o que aconteceu.

       Ronnie e T. J. se entreolham. T. J. enfia o indicador direito na boca e começa a roer a unha com os dentes da frente.

       — Ebbie lhe fez um gesto obsceno — diz Ronnie.

       — Sem brincadeira. Depois disso.

       — Hã, Ty disse que tinha que ir a algum lugar.

       — Ele tinha que ir a algum lugar — ecoa T. J.

       — Onde vocês estavam nessa hora?

       — Hã, em frente ao pomério Schmitt’s.

       — Empório — diz T. J. — Não é pomério, cabeça-dura, é em-pó-rio.

       — E?

       — E Ty disse — Ronnie olha para T. J. — Ty disse que tinha que ir a algum lugar.

       — Para que lado ele foi, leste ou oeste?

       Os garotos tratam esta pergunta como se ela tivesse sido feita em outra língua, tentando respondê-la, em silêncio.

       — Para o lado do rio ou para o lado oposto?

       Eles se consultam de novo. A pergunta foi feita em inglês, mas não sai nenhuma resposta adequada. Finalmente Ronnie diz:

       — Não sei.                                                                       

       — E você, T. J.? Você sabe?

       T. J. balança a cabeça.   

       — Muito bem. Isso é honesto, vocês não sabem porque não o viram ir embora, viram? E na verdade ele não disse que tinha que ir a algum lugar, disse? Aposto que Ebbie inventou isso.

       T. J. se torce, e Ronnie olha para Jack maravilhado e assombrado. Ele acaba de se revelar o Sherlock Holmes.

       — Lembram quando passei por vocês na minha picape? — Eles fazem que sim em uníssono. — Tyler estava com vocês. — Eles tornam a fazer que sim. — Vocês já tinham saído da calçada em frente ao empório Schmitt’ s e estavam indo para leste na Rua Chase. Para o lado oposto ao rio. Vi vocês pelo retrovisor. Ebbie estava pedalando muito depressa. Vocês dois quase não conseguiam acompanhá-lo. Tyler é menor que vocês todos e ficou para trás. Então eu sei que ele não foi embora sozinho. Ele não conseguiu acompanhá-los.

       Ronnie Metzger geme.

       — E ele ficou muito para trás e o Dapescor agarrou ele.

       Ele logo cai em prantos.

       Jack se inclina à frente.

       — Vocês viram acontecer? Algum de vocês?

       — Nããão — soluça Ronnie.

       T. J. lentamente faz que não com a cabeça.

       — Vocês não viram ninguém falando com Ty, ou um carro parando, ou ele entrando numa loja, ou algo assim?

       Os meninos gaguejam ao mesmo tempo palavras sem nexo para dizer que não viram nada.

       — Quando perceberam que ele tinha desaparecido?

       T. J. abre e fecha a boca. Ronnie diz:

       — Quando estávamos tomando refresco.

       O rosto contraído de tensão, T. J. balança a cabeça concordando.

       Duas outras perguntas revelam que eles haviam tomado os refrescos na 7-Eleven, quando também compraram figurinhas de Magic Johnson, e que não levaram mais que alguns minutos para dar por falta de Tyler.

       — Ebbie disse que Ty ia comprar mais figurinhas para a gente — acrescenta o prestativo Ronnie.

       Eles chegaram ao momento pelo qual Jack esperava. Fosse qual fosse o segredo, ele aconteceu logo depois que os meninos saíram da 7-Eleven e viram que Tyler ainda não se reunira a eles. E o segredo é só de T. J. O garoto está praticamente suando sangue, enquanto as lembranças dos refrescos e das figurinhas acalmaram extraordinariamente seu amigo. Só há uma pergunta que ele deseja fazer aos dois.

       — Então Ebbie queria encontrar Tyler. Vocês todos montaram na bicicleta e foram procurar, ou Ebbie mandou só um?

       — Hã? — diz Ronnie.

       T. J. abre a boca e cruza os braços em cima da cabeça, como se para proteger-se de um soco.

       — Tyler foi para outro lugar — diz Ronnie. — A gente não foi atrás dele. Foi para o parque. Trocar figurinha.

       — Entendo — diz Jack. — Ronnie, obrigado. Você ajudou muito. Eu gostaria que você fosse lá para fora ficar com Ebbie e o policial Dulac enquanto eu tenho uma conversinha com T. J. Não deve demorar mais que cinco minutos, se tanto.

       — Posso ir?

       Ao gesto de cabeça de Jack, Ronnie levanta-se da cadeira com insegurança. Quando ele chega à porta, T. J. choraminga um pouco. Aí Ronnie se foi, e T. J. encosta bruscamente no espaldar da cadeira e tenta se encolher ao máximo, enquanto olha para Jack com olhos que ficaram brilhantes, vazios e perfeitamente redondos.

       — T. J. — diz Jack —, você não tem com que se preocupar, eu lhe prometo. — Agora que está sozinho com o garoto que declarou sua culpa adormecendo na sala de interrogatório, Jack Sawyer quer acima de tudo absolvê-lo dessa culpa. Ele sabe o segredo de T. J., e o segredo não é nada; é inútil. — Não importa o que você me disser, eu não vou prender você. Isso é uma promessa, também. Você não está em nenhuma encrenca, filho. Na verdade, estou feliz por você e seus amigos terem podido vir aqui e nos ajudar a esclarecer as coisas.

       Ele continua nesse estilo por mais três ou quatro minutos, durante os quais T. J. Renniker, antes condenado a ser executado por um pelotão de fuzilamento, aos poucos compreende que seu perdão chegou e sua libertação daquilo que seu amigo Ronnie chamaria de são taliber é iminente. Um pouco de cor lhe volta ao rosto. Ele volta ao tamanho original, e seus olhos perdem aquele brilho apavorado.

       — Me conte o que Ebbie fez — diz Jack. — Só entre nós dois. Não vou contar nada a ele. Palavra. Não vou fazer sujeira com você.

       — Ele queria que Ty comprasse mais figurinhas de Magic Johnson — diz T. J., tateando por território desconhecido. — Se Ty estivesse ali, ele compraria. Ebbie às vezes é meio mau. Então... ele me disse, vá lá pegar o lesma, senão eu lhe dou um calor.

       — Você pegou sua bicicleta e desceu a Rua Chase.

       — Hã-hã. Eu procurei, mas não vi Ty em lugar nenhum. Achei que iria ver, sabe? Porque, onde mais ele poderia estar?

       — E...? — Jack colhe a resposta que ele sabe estar vindo, girando a mão no ar.

       — E continuei sem ver. E entrei na Rua Queen, onde fica o lar dos velhos, com aquela sebe grande na frente. E, hã, vi a bicicleta dele ali. Na calçada em frente à sebe. O tênis dele estava ali, também. E algumas folhas da sebe.

       Aí está, o segredo inútil. Talvez não de todo inútil: determina para eles com bastante precisão a hora do desaparecimento do menino: 8h15, digamos, ou 8h20. A bicicleta ficou na calçada ao lado do tênis por cerca de quatro horas antes que Danny Tcheda a visse. A Maxton ocupa quase toda aquela parte da Rua Queen, e ninguém chegaria para a Festa do Morango antes do meio-dia.

       T. J. descreve ter tido medo — se o Pescador puxou Ty para dentro daquela sebe, talvez voltasse querendo mais! Em resposta à pergunta final de Jack, o menino diz:

       — Ebbie mandou a gente dizer que Tyler se separou de nós em frente ao empório, para as pessoas não nos culparem. Caso ele tivesse sido morto. Ty não foi morto mesmo, foi? Um garoto como Ty não é morto.

       — Espero que não — diz Jack.

       — Eu também. — T. J. funga e limpa o nariz no braço.

       — Vamos deixar você ir para casa — Jack diz, levantando-se da cadeira.

       T. J. se levanta e vai passando ao lado da mesa.

       — Ah! Acabei de me lembrar.

       — O quê?

       — Vi umas penas na calçada.          

       O chão embaixo dos pés de Jack parece balançar para a esquerda, depois para a direita, como o convés de um navio. Ele se equilibra agarrando o encosto de uma cadeira.

       — É mesmo? — Ele tem o cuidado de se acalmar antes de se virar para o garoto. — Penas, como?

       — Pretas. Grandes. Pareciam penas de corvo. Uma estava ao lado da bicicleta e a outra estava dentro do tênis.

       — Engraçado — diz Jack, ganhando tempo até cessar o seu abalo por causa da aparição inesperada de penas em sua conversa com T. J. Renniker.

       Que ele tenha tido alguma reação é ridículo; que tenha sentido, por um segundo sequer, que ia desmaiar é grotesco. As penas de T. J. eram penas de corvo de verdade numa calçada de verdade. As suas eram penas de sonho, penas de sabiás irreais, ilusórias como tudo o mais num sonho. Jack diz a si mesmo algumas coisas úteis como esta, e logo torna mesmo a se sentir normal, mas devemos ter em mente que, pelo resto da noite e grande parte do dia seguinte, a palavra penas flutua, envolta numa aura tão carregada quanto uma tempestade elétrica, embaixo e através de seus pensamentos, vindo à tona de vez em quando com o estrondo de um raio.

       — É esquisito — diz T. J. — Como é que uma pena entrou no tênis dele?

       — Talvez levada pelo vento — diz Jack, ignorando convenientemente a inexistência de vento neste dia.

       Tranqüilizado pela estabilidade do chão, ele faz sinal para T. J. sair para o corredor e o acompanha.

       Ebbie Wexler se desencosta da parede e fica em pé ao lado de Bobby Dulac. De temperamento calmo, Bobby poderia ter sido esculpido de um bloco de mármore. Ronnie Metzger sai de fininho.

       — Podemos mandar esses garotos para casa — diz Jack. — Eles já cumpriram o dever deles.

       — T. J., o que você disse? — pergunta Ebbie, furioso.

       — Ele deixou claro que você não sabia nada sobre o desaparecimento do seu amigo — diz Jack.

       Ebbie relaxa, porém não sem distribuir olhares fulminantes para todo lado. O último e mais malévolo é para Jack, que ergue as sobrancelhas.

       — Eu não chorei — diz Ebbie. — Eu estava assustado, mas não chorei.

       — Você estava assustado, tudo bem — diz Jack. — Da próxima vez, não minta para mim. Você teve sua chance de ajudar a polícia e a jogou fora.

       Ebbie peleja com essa idéia e consegue absorvê-la, pelo menos em parte.

       — Tudo bem, mas eu não estava realmente lhe fazendo um gesto obsceno. Foi aquela música idiota.

       — Eu também detestava aquela música. O cara que estava comigo insistiu em tocá-la. Sabe quem era ele?

       Diante do olhar desconfiado e furioso de Ebbie, Jack diz:

       — George Rathbun.

       E como dizer “Super-homem” ou “Arnold Schwarzenegger”; a desconfiança de Ebbie desaparece, e seu rosto se transforma. Uma expressão de maravilhamento inocente enche seus olhos miúdos e juntos.

       — Você conhece George Rathbun?

       — Ele é um de meus melhores amigos — diz Jack, sem acrescentar que a maioria de seus outros melhores amigos é, em certo sentido, também George Rathbun.

       — Legal — diz Ebbie.

       No fundo, T. J. e Ronnie ecoam:

       — Legal.

       — George é legal à beça — Jack diz. — Vou contar a ele que você disse isso. Vamos descer e botar vocês nas suas bicicletas.

       Ainda envolvidos na glória de terem visto com os próprios olhos o grande, o tremendo George Rathbun, os garotos montam nas bicicletas, descem a Rua Sumner e entram na Dois. Bobby Dulac diz:

       — Foi um bom truque, isso que você falou sobre George Rathbun. Fez com que eles fossem embora felizes.

       — Não foi um truque.

       Tão espantado que volta para dentro da delegacia esbarrando em Jack, Bobby diz:

       — George Rathbun é seu amigo?

       — É — diz Jack. — E, às vezes, ele é um verdadeiro pé no saco.

       Dale e Fred Marshall erguem os olhos quando Jack entra na sala, Dale com uma expectativa cautelosa, Fred Marshall com o que Jack interpreta, comovido, como esperança.

       — Bem — diz Dale.

       (penas)

       — Você tinha razão, eles estavam escondendo alguma coisa, mas não é nada importante.

       Fred Marshall se deixa cair para trás na cadeira, e parte de sua crença em uma esperança futura foge dele como ar de um pneu furado.

       — Pouco depois de terem chegado à 7-Eleven, o garoto Wexler mandou T. J. descer a rua procurando seu filho — diz Jack. — Quando chegou à Rua Queen, T. J. viu a bicicleta e o tênis na calçada. Claro, todos eles pensaram no Pescador. Ebbie Wexler imaginou que eles poderiam ser recriminados por tê-lo deixado para trás e inventou a história que vocês ouviram: que Tyler os largou, em vez de o contrário.

       — Se você viu os quatro meninos às dez para as oito, isso significa que Tyler desapareceu só alguns minutos depois. O que esse cara faz? Se esconde em sebes?

       — Talvez ele faça isso mesmo — diz Jack. — Vocês mandaram alguém verificar aquela sebe?

       (penas)

       — A polícia estadual passou por cima, por dentro e por baixo dela. Só encontrou folha e terra.

       Como que cravando uma ponteira com a mão, Fred Marshall bate com o punho na mesa.

       — Meu filho já estava desaparecido há quatro horas quando viram a bicicleta dele. Já são quase sete e meia! Já faz quase 12 horas que ele sumiu! Eu não devia estar sentado aqui, devia estar rodando por aí de carro, à procura dele.

       — Todo mundo está à procura do seu filho, Fred — diz Dale. — Meus homens, a polícia estadual, até o FBI.

       — Não tenho fé neles — diz Fred. — Eles não encontraram Irma Freneau, encontraram? Por que devem encontrar meu filho? Na minha opinião, eu tenho uma chance aqui. — Quando ele olha para Jack, a emoção transforma seus olhos em lâmpadas. — A chance é você, tenente. Vai me ajudar?

       A terceira e mais desconcertante idéia de Jack, até agora contida e puramente a idéia de um policial experiente, o faz dizer:

       — Eu gostaria de falar com sua mulher. Se for visitá-la amanhã, você se incomodaria se eu fosse junto?

       Dale pisca e diz:

       — Talvez a gente devesse conversar sobre isso.

       — Acha que isso vai trazer algum benefício?

       — Talvez — diz Jack.

       — Ver você talvez faça bem para ela, de alguma forma — diz Fred. — Você não mora no Vale Noruega? Fica no caminho para Arden. Posso pegá-lo lá pelas nove.

       — Jack — diz Dale.

       — Vejo você às nove — diz Jack, ignorando os sinais de agonia e raiva misturadas, emanando do amigo, e também a vozinha que sussurra (pena).

      

      

— Incrível — diz Henry Leyden. — Não sei se lhe agradeço ou lhe dou os parabéns. As duas coisas, suponho. O jogo já está muito avançado para dizer “demais”, como eu, mas acho que você devia dar uma tentada em “genial”.

       — Não perca a cabeça. Só fui lá para manter o pai do garoto longe da minha casa.

       — Não foi só por isso.

       — Tem razão. Eu estava meio nervoso e me sentindo pressionado. Estava a fim de sair, mudar o cenário.

       — Mas havia também outro motivo.

       — Henry, você está atolado na merda, sabe disso? Quer pensar que eu agi por dever cívico, ou honra, ou compaixão, ou altruísmo, ou alguma coisa, mas não agi. Não gosto de dizer isso, mas sou muito menos generoso e responsável do que você pensa.

       — “Atolado na merda?” Cara, você está certíssimo. Ando atolado na merda, até o peito e às vezes até o queixo, quase desde que nasci.

       — Simpático de sua parte admitir isso.

       — No entanto, você está me interpretando mal. Tem razão, acho mesmo você uma boa pessoa, decente. E não acho só, eu sei. Você é modesto, compassivo, honrado, responsável, não importa a opinião que você tenha a seu respeito agora. Mas não era disso que eu estava falando.

       — O que quis dizer, então?

       — O outro motivo pelo qual você decidiu ir à delegacia tem ligação com esse problema, essa preocupação, qualquer que seja ela, que anda lhe perturbando nas últimas semanas. E como se você estivesse andando por aí debaixo de uma sombra.

       — Hã — disse Jack.

       — Esse problema, esse segredo seu, lhe toma metade da atenção, então você só está meio presente; o resto da sua pessoa está em outro lugar. Querido, não acha que vejo quando você está preocupado ou aflito? Posso ser cego, mas vejo as coisas.

       — Tudo bem. Vamos supor que ultimamente ando encucado com uma coisa. O que isso tem a ver com ir à delegacia?

       — Há duas possibilidades. Ou você estava partindo para enfrentar a coisa, ou estava fugindo dela.

       Jack fica calado.

       — Isso tudo sugere que esse problema tem a ver com sua vida de policial. Poderia ser um caso antigo voltando para persegui-lo. Talvez um bandido psicótico que você botou na cadeia tenha sido solto e esteja ameaçando matá-lo. Ou, diabo, eu só digo besteira, e você descobriu que está com câncer no fígado e tem três meses de vida.

       — Não estou com câncer, pelo menos que eu saiba, e nenhum ex-presidiário quer me matar. Todos os meus casos antigos, a maioria, de qualquer forma, estão dormindo em segurança nos arquivos do DPLA. Claro, tem alguma coisa me incomodando ultimamente, e eu esperaria que você enxergasse esse dado. Mas não quis sobrecarregá-lo com ele até conseguir entendê-lo por mim mesmo.

       — Quer me dizer uma coisa? Você estava indo ao encontro ou fugindo disso que o incomoda?

       — Essa pergunta não tem resposta.

       — Vamos ver. A comida já não está pronta? Estou faminto, literalmente faminto. Você cozinha muito devagar. Eu já teria terminado há dez minutos.

       — Controle-se — Jack diz. — Já está saindo. O problema é essa sua cozinha maluca.

       — A cozinha mais racional dos Estados Unidos. Talvez do mundo.

       Depois de dar o fora depressa da delegacia para evitar uma conversa inútil com Dale, Jack cedeu ao impulso e ligou para Henry oferecendo-se para preparar um jantar para eles dois. Dois bons bifes, uma boa garrafa de vinho, cogumelos grelhados, uma salada farta. Ele podia comprar todo o necessário em French Landing. Jack já cozinhara para Henry em três ocasiões, e Henry preparara um jantar tremendamente esquisito para Jack. (A governanta tirara todas as ervas e especiarias da prateleira para lavá-la, e depois guardara tudo no lugar errado.) O que ele estava fazendo em French Landing? Ele explicaria isso quando chegasse lá. Às oito e meia, estacionara na frente da espaçosa casa de fazenda de Henry, cumprimentara Henry e levara as compras e seu exemplar de A Casa Soturna para a cozinha. Jogara o livro para a ponta da mesa, abrira o vinho, servira um copo para o anfitrião e um para si mesmo, e começara a cozinhar. Precisara de um bom tempo para se familiarizar novamente com as excentricidades da cozinha de Henry, em que os objetos não eram guardados por espécie — panelas com panelas, facas com facas, potes com potes —, mas segundo o tipo de refeição que exigia seu uso. Se Henry quisesse preparar rapidamente uma truta com batatinhas, bastava ele abrir o armário certo para encontrar todos os utensílios necessários. Estes eram arrumados em quatro grupos básicos (carne, peixe, aves e vegetais), com muitos subgrupos e subsubgrupos dentro de cada categoria. O sistema de arquivamento confundia Jack, que muitas vezes precisava procurar em vários reinos bem separados antes de encontrar a frigideira ou a espátula que buscava. Enquanto Jack picava, perdia-se nas prateleiras e cozinhava, Henry havia posto a mesa na cozinha com pratos e prataria, e sentara para interrogar o amigo perturbado.

       Agora os bifes, sangrentos, são passados para os pratos, os cogumelos dispostos em volta e a enorme saladeira de madeira é instalada no centro da mesa. Henry declara a refeição deliciosa, toma um gole de vinho e diz:

       — Se você continua não querendo falar sobre seu problema, seja ele qual for, seria melhor pelo menos me contar o que aconteceu na delegacia. Suponho que quase não haja dúvida que outra criança foi raptada.

       — Quase nenhuma, sinto dizer. É um garoto chamado Tyler Marshall. O nome do pai dele é Fred Marshall, e ele trabalha na Goltz’s. Você o conhece?

       — Tem muito tempo que comprei uma máquina de ceifar e debulhar com ele — diz Henry.

       — A primeira impressão que tive foi que Fred Marshall era muito bom sujeito — diz Jack, e começa a contar, com os maiores detalhes e sem deixar nada de fora, os acontecimentos e as revelações da tarde, exceto por um assunto, o de sua terceira idéia não expressa.

       — Você pediu mesmo para visitar a mulher de Marshall? Na ala para doentes mentais do Hospital Luterano do Condado Francês?

       — Pedi, sim — diz Jack. — Vou lá amanhã.

       — Não entendo. — Henry come caçando a comida com a faca, espetando-a com o garfo e cortando uma tira fina de carne. — Por que você haveria de querer ver a mãe?

       — Porque, de uma maneira ou de outra, acho que ela está envolvida — diz Jack.

       — Ah, essa não. A própria mãe do garoto?

       — Não estou tentando dizer que ela seja o Pescador, porque claro que não é. Mas, segundo o marido, o comportamento de Judy Marshall começou a mudar antes de Amy St. Pierre desaparecer. Ela foi piorando à medida que os assassinatos foram acontecendo, e no dia em que o filho desapareceu, ela pirou de vez. O marido teve que interná-la.

       — Não acha que ela teve um motivo excelente para endoidar?

       — Ela pirou antes que alguém lhe contasse sobre o filho. O marido acha que ela tem PES! Ele disse que ela viu os crimes com antecedência, sabia que o Pescador estava a caminho. E sabia que o filho tinha sumido antes que encontrassem a bicicleta: quando Fred Marshall chegou em casa, encontrou-a arrancando o papel de parede e sem dizer coisa com coisa. Completamente descontrolada.

       — A gente ouve falar em montes de casos em que uma mãe de repente percebe alguma ameaça ou algum acidente com o filho. Um elo psíquico. Parece bobagem, mas acho que acontece.

       — Não acredito em PES, e não acredito em coincidência.

       — Então o que você está dizendo?

       — Judy Marshall sabe de alguma coisa, e seja lá o que for é realmente impressionante. Fred não consegue ver. Ele está perto demais. E Dale também não consegue. Você devia tê-lo ouvido falar dela.

       — Então, o que supõe que ela saiba?

       — Acho que ela pode conhecer o autor dos crimes, Acho que tem que ser alguém próximo a ela. Seja quem for, ela sabe o nome dele, e isso a está enlouquecendo.

       Henry franze o cenho e usa sua técnica de lagarta para atrair outro pedaço de carne.

       — Então você vai ao hospital para fazê-la se abrir — ele diz finalmente.

       — É. Basicamente.

       Um silêncio misterioso acompanha essa afirmação. Henry calmamente corta a carne, mastiga o pedaço cortado e o faz descer com cabernet Jordan.

       — Como foi sua apresentação como DJ? Foi boa?

       — Foi uma beleza. Todos os velhinhos adoráveis soltos na pista de dança, até os que usam cadeiras de rodas. Teve um cara que me irritou. Ele foi grosseiro com uma mulher chamada Alice, e pediu que eu tocasse “Lady Magowan’s Nightmare”, que não existe, como você deve saber...

       — É “Lady Magowan’s Dream”. Woody Herman.

       — Muito bem. Acontece que ele tinha uma voz horrorosa. Parecia uma coisa saindo do inferno. De qualquer forma, eu não tinha o disco do Woody Herman, e ele pediu o “I Can’t Get Started” do Bunny Berigan. Que por acaso era a música preferida de Rhoda. E com minhas alucinações bobas de ouvido e tudo, isso mexeu comigo. Não sei por quê.

       Por alguns minutos, eles se concentram em seus pratos.

       Jack diz:

       — O que acha, Henry?

       Henry inclina a cabeça, ouvindo uma voz interior. Franzindo o cenho, ele pousa o garfo. A voz interior continua exigindo sua atenção. Ele ajusta os óculos e vira-se para Jack.

       — Apesar de tudo o que diz, você ainda pensa como tira.

       Jack se indigna com a suspeita de que Henry não o está elogiando.

       — O que quer dizer com isso?               

       — Os tiras vêem as coisas de maneira diferente. Quando olha para uma pessoa, um tira se pergunta de que ela é culpada. A possibilidade de inocência nunca lhe entra na cabeça. Para quem é tira há muito tempo, quem tem dez anos de serviço ou mais, todo mundo que não é tira é culpado. Só que quase ninguém foi pego ainda.

       Henry descreveu a mentalidade de dezenas de homens com quem Jack trabalhou.

       — Henry, como você sabe disso?

       — Vejo nos olhos deles — diz Henry. — Essa é a visão de mundo de um policial. Você é um policial.

       Jack deixa escapar:

       — Eu sou um “puliça”. — Apavorado, enrubesce. — Perdão, ando com essa frase idiota na cabeça, e ela simplesmente escapou.

       — Por que não tiramos a mesa e começamos A Casa Soturna?

       Depois que aqueles poucos pratos foram empilhados ao lado da pia, Jack pega o livro na ponta da mesa e segue Henry para a sala, parando para dar uma olhada, como sempre, no estúdio do amigo. Uma porta com uma ampla janela de vidro dá para uma câmara pequena e acusticamente isolada abarrotada de equipamentos eletrônicos: o microfone e o toca-discos que voltaram da Maxton e foram reinstalados diante da cadeira giratória bem estofada de Henry; um trocador de discos e seu conversor digital-analógico, bem à mão, ao lado de um painel de mixagem e um enorme gravador junto da outra janela mais larga, que dá para a cozinha. Quando Henry estava planejando o estúdio, Rhoda exigiu as janelas, porque, dissera ela, ela queria poder vê-lo trabalhando. Não há um fio à vista. O estúdio inteiro tem a ordem disciplinada dos aposentos do capitão em um navio.

       — Parece que você vai trabalhar hoje à noite — diz Jack.

       — Quero ter mais dois Henry Shakes prontos para enviar, e estou trabalhando numa homenagem de aniversário a Lester Young e Charlie Parker.

       — Eles nasceram no mesmo dia?

       — Quase. Vinte sete e 29 de agosto. Sabe, não posso dizer ao certo se você vai querer as luzes acesas ou não.

       — Vamos acendê-las — diz Jack.

       E assim Henry Leyden acende as duas lâmpadas perto da janela, e Jack Sawyer vai para a poltrona estofada ao lado da lareira, acende a lâmpada de pé em um de seus braços arredondados, e olha o amigo caminhar com firmeza para a luz junto à porta da entrada e ao móvel decorado ao lado dele, seu local de descanso predileto, o sofá estilo Missão, acendendo primeiro uma, depois a outra, então senta no sofá com uma perna esticada no sentido do comprimento do móvel.

       — A Casa Soturna, de Charles Dickens — ele diz. Pigarreia. — Certo, Henry, saímos para as corridas.

       — Londres. As férias da festa de São Miguel terminaram há pouco — ele lê e entra num mundo de fuligem e lama. Cachorros sujos de lama, cavalos sujos de lama, gente suja de lama, um dia sem luz. Logo chega ao segundo parágrafo: — Nevoeiro por toda parte. Nevoeiro rio acima, onde corre entre ilhotas e prados verdes; nevoeiro rio abaixo, onde rola sujo entre as fileiras de navios e a imundície da ribeira de uma cidade grande (e suja). Nevoeiro nos pântanos de Essex, nevoeiro nas colinas de Kent. Nevoeiro se insinuando nas cozinhas de brigues carvoeiros; estirando-se nos estaleiros e pairando no cordame de grandes navios; nevoeiro baixando nas amuradas de barcaças e pequenos botes.

       Sua voz prende, e sua mente sai temporariamente de foco. O que ele está lendo com tristeza lembra-lhe French Landing, Rua Sumner e Rua Chase, as luzes na janela da Pousada Tree, os Thunder Five escondidos na Alameda Nailhouse, e a subida cinzenta do rio, a Rua Queen e as sebes da Maxton, as casinhas se espalhando em grades de ruas, tudo abafado por um nevoeiro invisível — que traga uma placa de PROIBIDA A ENTRADA na rodovia e engole o Sand Bar e desliza faminto e penetrante pelos vales abaixo.

       — Desculpe — ele diz. — Eu só estava pensando...

       — Eu também estava — diz Henry. — Continue, por favor.

       Exceto por esse breve relance de uma velha placa de PROIBIDA A ENTRADA desconhecendo totalmente a casa negra onde terá que entrar um dia, Jack se concentra de novo na página e continua a ler A Casa Soturna. As janelas escurecem à medida que as lâmpadas esquentam. O caso de Jarndyce e Jarndyce se arrasta nos tribunais, ajudado ou retardado pelos promotores Chizzie, Mizzle e Drizzle; Lady Dedlock deixa Sir Leicester Dedlock em paz em sua grande mansão, com sua capela cheia de mofo, seu rio parado e seu “Passeio do Fantasma”; Esther Summerson começa a pipilar na primeira pessoa. Nossos amigos decidem que o aparecimento de Esther exige uma pequena libação, se forem enfrentar mais pipilos. Henry se levanta do sofá, vai até a cozinha e volta com dois copos curtos e largos cheios até um terço da capacidade de uísque puro malte Balvenie Doublewood, bem como um copo d’água sem gás para o leitor. Alguns goles, alguns murmúrios de avaliação, e Jack recomeça. Esther, Esther, Esther, mas sob a tortura transparente de sua alegria inexorável a história esquenta e leva o leitor e o ouvinte com ela.

       Tendo chegado a um ponto de interrupção conveniente, Jack fecha o livro e boceja. Henry levanta-se e se espreguiça. Eles vão para a porta e Henry sai atrás de Jack para baixo de um vasto céu noturno pontilhado de estrelas luzindo.

       — Conte-me uma coisa — diz Henry.

       — O quê?

       — Quando estava na delegacia, você se sentiu mesmo como um tira? Ou como se estivesse fingindo ser um?

       — Na verdade, foi um pouco surpreendente — diz Jack. — Na mesma hora, eu me senti de novo como um tira.

       — Ótimo.

       — Ótimo por quê?

       — Porque significa que você está indo ao encontro desse misterioso segredo, não fugindo dele.

       Balançando a cabeça e sorrindo, deliberadamente não dando a Henry a satisfação de uma resposta, Jack entra em sua picape e dá adeus da ligeira porém marcada elevação do banco do motorista. O motor tosse e pega, os faróis se acendem, e Jack está indo para casa.

 

 

Não muitas horas depois, Jack se vê caminhando pela rua principal de um parque de diversões vazio sob um sol cinzento de outono. De ambos os lados há barracas lacradas: a de cachorro-quente Fenway Franks, a Galeria de Tiro Annie Oakley, a Atire até Ganhar. Já choveu, e vai chover mais; o ar está úmido e frio. Não muito longe, ele ouve o ronco solitário das ondas quebrando na praia deserta. De mais perto, vêm os acordes animados de uma guitarra. Devia ser um som alegre, mas, para Jack, é o terror musicado. Ele não devia estar ali. Esse é um lugar antigo, um lugar perigoso. Ele passa uma montanha-russa lacrada. Uma placa na frente diz: o VELOZ OPOPÂNACE REABRIRÁ NO MEMORIAL DAY DE 1982 — Arthur Conan Doyle - ATÉ LÁ!

       Opopânace, Jack pensa, só que ele não é mais Jack; agora é Jacky. E Jacky, e ele e a mãe estão fugindo. De quem? De Sloat, claro. Do tio Morgan trambiqueiro.

       Speedy, Jack pensa, e como se tivesse recebido uma deixa telepática, uma voz quente, ligeiramente engrolada, começa a cantar. Quando o sabiá-laranjeira chegar salti-ti-tando / Não vai ter mais choro quando ele estiver cantando sua velha canção brejeira...

       Não, pensa Jack. Não quero ouvir sua velha canção brejeira. Aliás, você não pode estar aqui, você está morto. Morto no Píer de Santa Mônica. Preto velho e careca morto à sombra de um cavalo de carrossel parado.

       Ai, mas não. Quando volta, a velha lógica de policial se instala como um tumor, até em sonhos, e não é preciso muito dessa lógica para perceber que aqui não é Santa Mônica — é muito frio e muito antigo. Aqui é a terra do passado, quando Jacky e a Rainha dos filmes B fugiram da Califórnia, como os fugitivos que eles se tornaram. E não pararam de fugir até chegar à outra costa, o lugar aonde Lily Cavanaugh Sawyer...

       Não, eu não penso nisso, nunca pensei nisso

       ... chegou para morrer.

       — Acorde, acorde, seu dorminhoco!

       A voz de seu velho amigo.

       Amigo, uma ova. Ele é um dos que me puseram no caminho das provações, o que causou desavenças entre mim e Richard, meu amigo de verdade. Ele é um dos que quase me mataram, quase me enlouqueceram.

       — Acorde, acorde, saia da carnal

       Acorte, acorte, acorte. Horra de efrentar o terrível opopânace. Horra de foltar a ser quem erra naquela época não muito fácil.

       — Não — sussurra Jack, e aí a rua principal termina.

       Adiante está o carrossel, mais ou menos parecido com o do Píer de Santa Mônica e com o que ele se lembra de... bem, do passado. É um híbrido, em outras palavras, uma especialidade de sonho, nem cá nem lá. Mas não há como confundir o homem que está sentado embaixo de um dos cavalos empinados com sua guitarra no joelho. Jacky reconheceria essa cara em qualquer lugar, e todo o amor antigo surge em seu coração. Ele luta contra isso, mas esta é uma luta que pouca gente vence, especialmente quem aos 12 anos de idade foi mandado voltar para trás.

       — Speedy! — ele grita.

       O velho olha para ele e seu rosto escuro se abre num sorriso.

       — Jack Viajante — ele diz. — Como senti saudades suas, filho.

       — Também senti saudades suas — diz ele. — Mas não viajo mais. Estou morando em Wisconsin. Isso... — Ele aponta para um corpo de garoto magicamente restaurado, vestido de jeans e camiseta. — Isso é só um sonho.

       — Talvez sim, talvez não. De qualquer maneira, você ainda tem muito que viajar, Jack. Ando lhe dizendo isso há algum tempo.

       — Como assim?

       O sorriso de Speedy é irônico no meio, exasperado nos cantos.

       — Não se faça de bobo comigo, Jacky. Mandei as penas para você, não mandei? Mandei um ovo de sabiá, não mandei? Mandei mais de um.

       — Por que as pessoas não podem me deixar em paz? — pergunta Jack. Sua voz lembra muito um choramingo. Não é um som bonito. — Você... Henry... Dale...

       — Pare com isso já — diz Speedy, agora severo. — Não tenho mais tempo para pedir com gentileza. O jogo ficou duro. Não é?

       — Speedy...                                                                

       — Você tem seu trabalho e eu tenho o meu. O mesmo trabalho, também. Não choramingue comigo, Jack, e não me faça mais ir atrás de você. Você é um “puliça”, como sempre foi.

       — Estou aposentado...

       — Vá à merda com esse seu aposentado. As crianças que ele matou já são uma coisa horrível. Pior ainda as que ele pode matar se o deixarem continuar. Mas a que ele pegou... — Speedy se inclina à frente, os olhos escuros soltando chispas em seu rosto escuro. — Aquele garoto tem que ser trazido de volta, e logo. Se não puder trazê-lo de volta, você tem que matá-lo você mesmo, por mais que me desagrade pensar nisso. Porque ele é um Demolidor. Poderoso. Talvez ele só precise de mais um para desmontar aquilo.

       — Ele quem? — pergunta Jack.

       — O Rei Carmim.

       Speedy olha um momento para ele, depois começa a tocar aquela cançãozinha animada em vez de responder.

       — Não vai ter mais choro quando ele estiver cantando sua velha canção brejeira...

       — Speedy, eu não posso!

       A música termina com um dedilhado desafinado. Speedy olha para o Jack Sawyer de 12 anos com uma frieza que congela o garoto por dentro, até atingir o coração oculto do homem. E quando torna a falar, seu sotaque sulista está mais carregado. Impregnou-se de um desprezo que é quase líquido.

       — Você vai pôr mãos à obra agora, está ouvindo? Vai parar de gemer e choramingar e ser preguiçoso. Vai catar sua garra onde quer que a tenha deixado e pôr mãos à obra!                         

       Jack recua. Uma pesada mão cai em seu ombro e ele pensa: É o tio Morgan. Ele ou talvez Sunlight Gardener. É 1981 e tenho que fazer isso tudo de novo....

       Mas aquele é um pensamento de garoto, e esse é um sonho de homem. O Jack Sawyer que ele é agora afasta o desespero submisso da criança. Não, de jeito nenhum. Eu nego isso. Deixei essas caras e esses lugares de lado. Foi um trabalho duro, e não vou vê-lo todo desfeito por algumas penas fantasmas, alguns ovos fantasmas e um sonho ruim. Arranje outro garoto, Speedy. Este aqui cresceu.

       Ele se vira, pronto para brigar, mas não há ninguém ali. Atrás dele, na passarela, de lado como um pônei morto, jaz uma bicicleta infantil. Há uma placa na traseira onde se lê BIG MAC. Em volta da bicicleta, há penas luzidias de corvo espalhadas. E agora Jack ouve uma outra voz, fria e desafinada, feia e inconfundivelmente má. Ele sabe que é a voz da coisa que o tocou.

       — É isso mesmo, babaca. Fique fora disso. Meta-se comigo e espalho suas tripas de Racine até La Riviere.

       Um buraco giratório se abre na passarela bem em frente à bicicleta. Abre-se como um olho espantado. Continua se abrindo, e Jack mergulha nele. É o caminho de volta. A saída. A voz de desprezo o segue.

       — É isso, panaca — ela diz. — Fuja! Fuja do abalá! Fuja do rei! Fuja para salvar a porra dessa sua pele miserável!

       A voz se dissolve em uma risada, e é o barulho louco dessa risada que acompanha Jack Sawyer para a escuridão entre os dois mundos.

      

      

Horas depois, Jack está nu na janela de seu quarto, coçando distraidamente a bunda e vendo o dia raiar no leste. Está acordado desde as quatro. Não consegue se lembrar muito de seu sonho (suas defesas podem estar vacilando, mas mesmo agora não quebraram completamente), no entanto, o que ainda resta dá para ele ter certeza de uma coisa: o cadáver no Píer de Santa Mônica o perturbou tanto que ele largou o emprego porque o corpo lembrou-lhe alguém que ele conheceu.

       — Isso tudo nunca aconteceu — diz ele ao novo dia numa voz falsamente paciente. — Eu tive uma espécie de colapso nervoso pré-adolescente, causado por estresse. Minha mãe pensava que estava com câncer, me agarrou e fugimos até a Costa Leste. Até New Hampshire. Ela achava que estava voltando ao Grande Lugar Feliz para morrer. Acabou que era sobretudo depressão, o raio de uma crise de meia-idade de uma atriz, mas o que sabe um garoto? Eu estava estressado. Sonhava.

       Jack suspira.

       — Sonhei que eu salvava a vida da minha mãe.

       O telefone atrás dele toca, o barulho estridente e descontínuo no quarto sombrio.

       Jack Sawyer grita.

      

      

— Acordei-o — diz Fred Marshall, e Jack sabe imediatamente que esse homem passou a noite em claro, sentado em sua casa, sem mulher e sem filho. Vendo álbuns de fotografias, talvez, com a tevê ligada. Sabendo que está esfregando sal nas feridas, mas incapaz de parar de fazer isso.

       — Não — diz Jack —, na verdade eu estava...

       Ele pára. O telefone está ao lado da cama, e há um bloco ao lado. Há um bilhete escrito no bloco. Jack deve tê-lo escrito, já que é a única pessoa ali — e-le-men-tar, porra, meu caro Watson —, mas não é a letra dele. No sonho, em algum momento ele escreveu esse bilhete com a letra da mãe.

      

                  A Torre. As Vigas. Se as Vigas quebrarem,

                  Jacky, se as Vigas quebrarem e a Torre cair

      

      

Não há mais nada. Só o pobre Fred Marshall que descobriu quão depressa as coisas podem se deteriorar na vida mais ensolarada do meio-oeste. A boca de Jack tentou dizer algumas coisas enquanto sua mente está ocupada com essa falsificação de suas coisas subconscientes, talvez não muito sensatas, mas isso não incomoda Fred; ele simplesmente continua falando sem nenhuma das pausas e hesitações que as pessoas costumam empregar para indicar fins de frases ou mudanças de raciocínio. Fred está só desabafando, descarregando, e, mesmo aflito como está, Jack percebe que Fred Marshall da Alameda Robin Hood 16, aquela gracinha de casa estilo Cape Cod, está chegando ao limite da resistência. Se as coisas não mudarem para ele em breve, ele não precisará visitar a mulher na enfermaria D do Hospital Luterano do Condado Francês; os dois serão companheiros de quarto.

       E é sobre a visita prevista deles a Judy que Fred está falando, Jack se dá conta. Ele pára de tentar interromper e apenas escuta, enquanto olha intrigado para o bilhete que escreveu para si mesmo. Torre e Vigas. Que tipo de vigas? De madeira? De concreto? Levantem bem a viga mestra, carpinteiros?

       — ... sei que eu disse que ia pegá-lo às nove mas o Dr. Spiegleman é o médico dela lá o nome dele é Spiegleman ele disse que ela passou uma noite muito ruim gritando e berrando muito e depois tentando levantar e comer o papel de parede e talvez algum tipo de ataque então estão testando uma nova medicação nela talvez ele tenha dito Pamizene ou Patizone não anotei Spiegleman me ligou há 15 minutos eu me pergunto se esses caras dormem alguma hora e disse que devíamos poder vê-la por volta das quatro ele acha que ela vai estar mais estabilizada lá pelas quatro e a gente podia vê-la então de modo que pego você às três ou talvez você tenha...

       — Três está ótimo — diz Jack com calma.

       — ... outra coisa para fazer outros planos eu poderia passar aí se você não tiver é sobretudo que eu não quero ir sozinho...

       — Vou estar esperando você — disse Jack. — Vamos na minha picape.

       — ... pensei que talvez fosse ter alguma notícia de Ty ou de quem quer que o tenha raptado talvez um pedido de resgate mas ninguém ligou só Spiegleman ele é o médico da minha mulher lá no...

       — Fred, vou encontrar seu filho.

       Jack fica apavorado com esta afirmação simples, com a confiança suicida que ouve na própria voz, mas isso pelo menos tem uma utilidade: cortar a torrente de palavras mortas de Fred. Há silêncio do outro lado da linha.

       Finalmente, Fred fala num sussurro trêmulo.

       — Ah, tenente. Se ao menos eu pudesse acreditar no que você disse.

       — Quero que tente — diz Jack. — E, enquanto estivermos trabalhando nisso, talvez possamos encontrar o juízo da sua mulher.

       Talvez os dois estejam no mesmo lugar, ele pensa, mas não diz.

       Sons líquidos vêm do outro lado da linha. Fred começou a chorar.

       — Fred.

       — Sim?

       — Você vai passar aqui em casa às três.

       — Sim.

       Um suspiro poderoso; um choro sofrido que é em grande parte abafado. Jack tem uma idéia de quão vazia a casa de Fred Marshall deve parecer neste momento, e mesmo essa vaga idéia é bem ruim.

       — Minha casa fica no Vale Noruega. Depois da Roy’s Store, atravessando o riacho Tamarack...

       — Eu sei onde é.

       Um tom tênue de impaciência insinuou-se na voz de Fred. Jack está muito feliz em ouvi-lo.

       — Ótimo. Estou esperando você.

       — Não tenho dúvida.

       Jack ouve um fantasma da animação de vendedor de Fred, e isso lhe corta o coração.

       — A que horas?

       — T-três? — Então, com uma segurança marginal: — Três.

       — Está certo. Vamos pegar minha caminhonete. Quem sabe a gente come alguma coisa na Gertie’s Kitchen na volta. Até logo, Fred.

       — Até logo, tenente. E obrigado.

       Jack desliga o telefone. Olha mais um pouco para a sua reprodução de memória da letra da mãe e pergunta como se chamaria uma coisa dessas em jargão de tira. Autofalsificação? Ele bufa, depois amassa o bilhete e começa a se vestir. Tomará um copo de suco e sairá para dar uma caminhada de uma hora mais ou menos. Varrer da cabeça todos os sonhos maus. E, enquanto trabalha nisso, varrer o som da terrível voz monótona de Fred Marshall. E então, depois de uma chuveirada, ele pode ou não ligar para Dale Gilbertson e perguntar se houve alguma novidade. Se ele realmente for se envolver nisso, terá que se pôr em dia com registros de montes de ocorrências... vai querer entrevistar de novo os pais... dar uma olhada no lar dos idosos próximo ao local onde o garoto Marshall desapareceu...

       Com a cabeça cheia desses pensamentos (pensamentos agradáveis, na verdade, embora, se isso lhe tivesse sido sugerido, ele teria negado energicamente), Jack quase tropeça numa caixa depositada no capacho em frente à sua porta da entrada. E onde Buck Evitz, o carteiro, deixa pacotes quando há pacotes para deixar, mas ainda são seis e meia, e Buck só passará em seu caminhãozinho azul dali a três horas.

       Jack se abaixa e pega o pacote com cuidado. É do tamanho de uma caixa de sapatos, embrulhado de qualquer maneira em papel pardo rasgado e unido não com fita adesiva, mas com grandes pingos de lacre vermelho. Além disso, há voltas complicadas de barbante branco amarradas com um laço infantil exagerado. Há um monte de selos no canto superior, dez ou 12, representando vários pássaros. (Nenhum sabiá, no entanto; Jack nota isso com alívio compreensível.) Há algo de errado com esses selos, mas a princípio Jack não vê o que é. Ele está concentrado demais no endereço, que está espetacularmente incorreto. Não tem o número da caixa-postal, não tem o carimbo do correio, não tem o CEP. Não tem nome, realmente. O endereço consiste numa simples palavra rabiscada em letras de forma grandes:

      

             JACKY

      

       Olhando para esses garranchos, Jack imagina uma mão fechada empunhando uma caneta marca-texto; olhos franzidos; a ponta de uma língua projetando-se do canto da boca de algum doido. O ritmo de seus batimentos cardíacos dobrou.

       — Não estou gostando disso — ele sussurra. — Não estou gostando nada disso.

       E, naturalmente, há ótimas razões, razões de “puliça”, para isso. Isso é uma caixa de sapatos; dá para ele sentir a beira da tampa através do papel pardo, e é sabido que loucos põem bombas em caixas de sapatos. Ele seria louco se a abrisse, mas tem idéia de que vai abri-la, assim mesmo. Se ela explodir mandando-o pelos ares, pelo menos ele poderá se retirar da investigação do Pescador.

       Jack levanta o pacote para ver se ouve algum tique-taque, tendo consciência plena de que bombas que fazem tique-taque estão tão fora de moda quanto desenhos animados da Betty Boop. Ele nada ouve, mas vê o que há de errado com os selos, que não têm nada de selos. Alguém recortou as figuras de uns 12 envelopes de açúcar, desses que se oferecem nas lanchonetes, e colou-as nesta caixa de sapatos embrulhada. Uma risada sem graça escapa de Jack. Algum doido mandou isso, com certeza. Algum louco, numa instituição fechada, com acesso mais fácil a envelopes de açúcar que a selos. Mas como aquilo chegou ali? Quem deixou aquilo (com os selos falsos sem carimbo), enquanto ele sonhava aqueles sonhos confusos? E quem, nesta parte do mundo, poderia conhecê-lo como Jacky? Seu tempo de Jacky já passou há muito.

       Não passou, não, Jack Viajante, murmura uma voz. Falta muito. Está na hora de parar de chorar e chegar salti-ti-tando, garoto. Comece vendo o que tem nessa caixa.

       Ignorando firmemente sua própria voz mental, que lhe diz que ele está sendo perigosamente idiota, Jack arrebenta o barbante e usa a unha do polegar para cortar os pingos de lacre vermelho. Quem usa lacre hoje em dia? Ele põe de lado o papel de embrulho. Mais uma coisa para os rapazes da perícia, talvez.

       Não é uma caixa de sapatos, mas sim uma caixa de tênis. Uma caixa de tênis New Balance, para ser exato. Número 34. Um tamanho de criança. E com isso o coração de Jack bate três vezes mais depressa. Ele sente gotas de suor frio brotando na testa. Sua garganta e seu esfíncter estão ambos se fechando. Esta reação também é familiar. E como um “puliça” se arma e se fecha, preparando-se para ver algo terrível. E isso certamente é terrível. Jack não tem dúvida quanto a isso, e não tem dúvida quanto a quem enviou o pacote.

       Essa é minha última chance de recuar, ele pensa. Depois disso, é todos a bordo e vamos para... seja lá aonde for.

       Mas até isso é mentira, ele percebe. Dale estará à sua procura na delegacia na Rua Sumner ao meio-dia. Fred Marshall vai passar na casa de Jack às três horas e eles vão ver a Dona-de-casa Louca da Alameda Robin Hood. O ponto de recuo já chegou e já passou. Jack ainda não sabe ao certo como aconteceu, mas parece que ele voltou à ativa. E se Henry Leyden cometer a temeridade de felicitá-lo por isso, Jack acha que provavelmente dará um pontapé na bunda cega de Henry.

       Uma voz de seu sonho sussurra debaixo do piso da consciência de Jack como uma lufada de ar podre — Vou espalhar suas tripas de Racine até La Riviere —, mas isso o incomoda menos que a loucura inerente aos selos de envelopes de açúcar e às letras laboriosamente desenhadas de seu velho apelido. Ele já lidou com loucos antes. Sem filar em sua cota de ameaças.

       Ele senta nos degraus com a caixa de tênis no colo. A sua frente, no campo norte, tudo está parado e cinza. Bunny Boettcher, filho de Tom Tom, veio dar o segundo corte só há uma, semana, e agora uma bruma fina paira no restolho que bate no tornozelo. No alto, o céu começou a clarear. Nenhuma nuvem por enquanto marca sua calma ausência de cor. Em algum lugar, um pássaro pia. Jack respira fundo e pensa: Se é aqui que eu saio, eu podia fazer pior. Muito pior.

       Depois, com muito cuidado, ele abre a caixa e põe a tampa de lado. Nada explode. Mas parece que alguém encheu a caixa de tênis New Balance com noite. Então ele percebe que a encheram de penas de corvo pretas e luzidias, e seus braços se arrepiam.

       Ele vai pegá-las, depois hesita. Quer tocar nessas penas tanto quanto quer tocar no cadáver em decomposição de uma vítima de peste, mas há algo embaixo delas. Ele pode ver. Deveria ir buscar umas luvas? Há luvas no armário da entrada...

       — Fodam-se as luvas — Jack diz, e vira a caixa na folha de papel pardo ao seu lado na varanda.

       Há uma inundação de penas, que rodopiam um pouco, mesmo no ar totalmente parado da manhã. Então ouve-se um baque quando o objeto em volta do qual as penas foram colocadas cai na varanda de Jack. O cheiro atinge o nariz de Jack logo depois, um odor de salame podre.

       Alguém enviou um tênis de criança manchado de sangue para a casa de Sawyer na Estrada do Vale Noruega. Algo roeu com vontade o calçado, e com mais vontade ainda o seu conteúdo. Ele vê um forro de algodão ensangüentado — seria uma meia. E dentro da meia, pedaços de pele. Isso é um tênis New Balance com um pé dentro, um pé que foi muito comido por algum bicho.

       Ele mandou isso, Jack pensa. O Pescador.

       Intimidando-o. Dizendo-lhe: Se quer entrar, entre. A água está boa, Jacky, a água está boa.

       Jack se levanta. Seu coração bate forte, as batidas agora muito aceleradas para se contar. As gotas de suor em sua testa incharam e estouraram e escorreram pelo seu rosto como lágrimas, seus lábios e suas mãos estão dormentes... no entanto, ele diz a si mesmo que está calmo. Que já viu coisas piores, muito piores, empilhadas em pilares de pontes e passagens subterrâneas de auto-estradas em L.A. Este tampouco é o seu primeiro pedaço de corpo decepado. Uma vez, em 1997, ele e seu parceiro Kirby Tessier encontraram um único testículo em cima do reservatório de água de um vaso sanitário na biblioteca pública da cidade de Culver, parecendo um ovo cozido velhíssimo. Então ele diz a si mesmo que está calmo.

       Ele se levanta e desce os degraus da varanda. Passa pelo capô de sua Dodge Ram bordo com o sistema de som de primeira linha; passa pela casa de passarinho que ele e Dale montaram no limite do campo norte um mês ou dois depois que Jack se mudou para esta casa, a mais perfeita do universo. Ele diz a si mesmo que está calmo. Diz a si mesmo que isso são provas, mais nada. Só mais uma volta no laço que o Pescador vai acabar botando no próprio pescoço. Ele diz a si mesmo para não pensar naquilo como o pedaço de uma criança, o pedaço de uma garotinha chamada Irma, mas como Prova A. Ele sente o orvalho molhando seus tornozelos sem meia e a barra das calças, sabe que qualquer tipo de passeio em cima de restolho de feno vai estragar um par de sapatos Gucci de 500 dólares. E daí, se estragar? Ele é invulgarmente rico; pode ter tantos sapatos quanto Imelda Marcos, se quiser. O importante é manter a calma. Alguém lhe trouxe uma caixa de sapatos com um pé humano dentro, depositou-a em sua varanda na calada da noite, mas ele está calmo. Isso é uma prova, nada mais. E ele? Ele é um “puliça”. Provas são tudo para ele. Ele só precisa de um pouco de ar, precisa tirar do nariz aquele cheiro de salame podre que saiu da caixa...

       Jack emite um ruído estrangulado de quem está tendo um engulho e começa a andar mais depressa. Há uma sensação de clímax iminente crescendo em sua mente (minha mente calma, ele diz a si mesmo). Algo está se preparando para irromper... ou mudar... ou voltar ao que era.

       A última idéia é particularmente alarmante e Jack começa a correr pelo campo, levantando cada vez mais os joelhos, mexendo os braços. Sua passagem deixa uma linha escura no restolho, uma diagonal que começa na entrada da garagem e pode terminar em qualquer lugar. No Canadá, talvez. Ou no Pólo Norte. Mariposas brancas, despertadas de sua sonolência matinal pesada de orvalho, sobem voejando em espirais rendadas e tornam a pousar no restolho.

       Ele corre mais, fugindo do tênis comido e ensangüentado na varanda da casa perfeita, fugindo de seu próprio horror. Mas essa sensação de clímax iminente permanece com ele. Caras começam a surgir em sua mente, cada qual com sua trilha sonora. Caras e vozes que ele ignora há 20 anos ou mais. Quando essas caras aparecem ou essas vozes murmuram, ele até agora contou para si mesmo a velha mentira, que ele foi um menino assustado que pegou o terror neurótico da mãe como quem pega um resfriado e inventou uma história, uma grande fantasia tendo no centro o bom e velho Jack Sawyer salvador da mamãe. Nada disso era real, e tudo foi esquecido quando ele tinha 16 anos. Nessa época ele estava calmo. Assim como está agora, correndo como um doido pela parte norte do seu campo, deixando um rastro escuro e essas nuvens de mariposas assustadas ao passar, mas está fazendo isso com calma.

       Rosto fino, olhos apertados embaixo de um boné branco de papel inclinado: Se você puder me trazer um barril quando eu precisar de um, pode ter o emprego. Smokey Updike, de Oatley, Nova Iorque, onde bebiam cerveja e depois comiam o copo. Oatley, onde houve algo no túnel fora da cidade e onde Smokey o manteve prisioneiro. Até...

       Olhos indiscretos, sorriso falso, terno branco reluzente: Já nos vimos antes, Jack... onde? Diga-me. Confesse. Sunlight Gardener, um pregador de Indiana cujo nome também era Osmond. Osmond em algum outro mundo.

       A cara larga e hirsuta e os olhos assustados de um garoto que não era um garoto de jeito nenhum: Esse é um lugar ruim, Jacky, Lobo sabe. E era, era um péssimo lugar. Eles o botaram numa caixa, botaram o bom e velho Lobo numa caixa, e finalmente o mataram. Lobo morreu de uma doença chamada América.

       — Lobo! — o homem que está correndo no campo arqueja. — Lobo, ai, meu Deus, desculpe!

       Caras e vozes, todas essas caras e vozes surgindo diante de seus olhos, fazendo barulho em seus ouvidos, exigindo serem vistas e ouvidas, dando-lhe aquela sensação de clímax, cada defesa prestes a ser levada pelas águas como um quebra-mar diante de uma onda gigante.

       A náusea ruge por seu corpo e inclina o mundo. Ele torna a fazer aquele ruído de engulho, e dessa vez esse ruído lhe enche o fundo da garganta com um gosto do qual ele se lembra: o gosto de vinho barato e desagradável. E de repente é New Hampshire de novo, o Parque Funworld de novo. Ele e Speedy de novo ao lado do carrossel, todos aqueles cavalos parados (Todos os cavalos de carrossel têm nome, sabe disso, Jack?), e Speedy está estendendo uma garrafa de vinho e dizendo-lhe que é suco mágico, um golezinho e ele atravessa, passa para lá...

       — Não! — grita Jack, sabendo que já é tarde demais. — Eu não quero atravessar!

       O mundo se inclina para o outro lado e ele cai de quatro na relva de olhos bem fechados. Não precisa abri-los; os cheiros mais ricos, mais acentuados que de repente lhe enchem o nariz lhe dizem tudo o que ele precisa saber. Isso e a noção de estar voltando para casa após tantos anos sombrios, quando quase todo movimento e toda decisão de seu estado de vigília de certa forma foram dedicados a esconder (ou pelo menos adiar) a chegada deste exato momento.

       Este é Jack Sawyer, senhoras e senhores, ajoelhado num vasto campo de relva macia debaixo de um céu matinal sem uma única partícula de poluição. Ele está chorando. Sabe o que aconteceu, e está chorando. Seu coração explode de medo e alegria.

       Este é Jack Sawyer 20 anos depois, já homem feito, e afinal de volta aos Territórios.

      

      

É a voz de seu velho amigo Richard — às vezes conhecido como Richard Racional — que o salva. Richard como é agora, cabeça de seu próprio escritório de advocacia (Sloat & Associados Ltda.), não o Richard que ele era quando Jack talvez o conheceu melhor, durante umas longas férias em Seabrook Island, na Carolina do Sul. O Richard de Seabrook Island tinha imaginação, uma basta cabeleira, era bem-falante, veloz e magro como uma sombra matinal. O atual Richard, o Richard do direito societário, está afinando em cima, engrossando no meio, é a favor do sedentarismo e do uísque Bushmills. Além disso, esmagou a imaginação, tão brilhantemente alegre naquela época de Seabrook Island, como uma mosca incômoda. A vida de Richard Sloat foi uma vida de redução, Jack às vezes pensava, mas uma coisa foi acrescentada (provavelmente no curso de direito): o pomposo ruído de hesitação semelhante a um balido, particularmente irritante ao telefone, que é a marca registrada vocal de Richard. Este ruído começa com os lábios fechados, depois aumenta à medida que os lábios de Richard se abrem, deixando-o parecido com uma absurda combinação de um coroinha de Viena e Lorde Haw-Haw.*

      

* Locutor de rádio, nascido nos Estados Unidos e radicado em Londres, propagandista do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. [N. da T.]

      

       Agora, ajoelhado de olhos fechados na vasta extensão verde que costumava ser a parte norte do seu próprio campo, sentindo os cheiros novos e mais acentuados de que tão bem se lembra e pelos quais tanto ansiou sem sequer se dar conta, Jack ouve Richard Sloat começar a falar dentro de sua cabeça. Que alívio essas palavras são! Ele sabe que é só sua mente imitando a voz de Richard, mas ainda assim é maravilhoso. Se Richard estivesse ali, Jack acha que iria abraçar o velho amigo e dizer: Que você possa pontificar para sempre, Richie. Com balidos e tudo.

       O Richard Racional diz: Você percebe que está sonhando, Jack, não?... ba-haaa... a tensão de abrir aquele pacote, sem dúvida... ba-haaa... sem dúvida, fez você desmaiar, e isso, por sua vez, causou... ba-HAAA!... o sonho que você está tendo agora.

       De joelhos, os olhos ainda fechados e o cabelo caindo no rosto, Jack diz:

       — Em outras palavras, isso é o que chamávamos de...

       Certo! O que costumávamos chamar... ba-haaa... “Coisa de Seabrook Island.” Mas Seabrook Island foi há muito tempo, Jack, então sugiro que você abra os olhos, levante-se e lembre-se que se vir alguma coisa fora do normal... b’ haa!... ela não está exatamente ali.

       — Não está exatamente ali — murmura Jack. Levanta-se e abre os olhos.

       Sabe desde a primeira olhada que a coisa está ali mesmo, mas guarda na sua cabeça a voz pomposa de Richard de pareço-trinta-e-cinco-mas-te-nho-mesmo-sessenta, escudando-se nela. Assim, é capaz de manter um equilíbrio precário em vez de desmaiar de verdade, ou — talvez — pirar de vez.

       No alto, o céu está de um azul-escuro infinitamente límpido. Em volta dele, o feno e o capim-rabo-de-gato estão na altura do peito, e não do tornozelo; não há nenhum Bunny Boettcher nesta parte do mundo para cortá-los. Na verdade, não há casa nenhuma no caminho por onde ele veio, só um velho celeiro pitoresco com um moinho do lado.

       Onde estão os homens voadores?, Jack pensa, olhando para o céu, e então sacode a cabeça com vigor. Nenhum homem voador; nenhum papagaio de duas cabeças; nenhum lobisomem. Tudo isso era coisa de Seabrok Island, uma neurose que ele pegou da mãe e até passou para Richard durante algum tempo. Era só... ba-haaa... besteira.

       Ele aceita isso, sabendo ao mesmo tempo que besteira de fato seria não acreditar no que está em volta dele. O cheiro de capim, agora tão forte e doce, misturado com o cheiro mais floral de cravo e o cheiro mais forte, basso profundo, da terra preta. O som interminável dos grilos na relva, vivendo sua vida irracional de grilo. As esvoaçantes mariposas brancas do campo. A face intocada do céu, sem a marca de nenhum cabo telefônico ou de alta-tensão, de nenhum rastro de jato.

       O que mais impressiona Jack, porém, é a perfeição do campo em volta dele. Há um círculo atapetado onde ele caiu de joelhos, a relva pesada de orvalho amassada. Mas não há nenhuma trilha levando ao círculo, nenhuma marca de passagem através da relva úmida e macia. Ele deve ter caído do céu. Isso é impossível, claro, também é coisa de Seabrook Island, porém...

       — Porém, eu de certa forma caí do céu, sim — diz Jack com uma voz extraordinariamente calma. — Vim de Wisconsin. Passei para cá.

       A voz de Richard protesta vigorosamente contra isso, explodindo numa rajada de rrãmps e ba-haaas, mas Jack mal nota. É só o velho e bom Richard Racional fazendo aquela sua coisa de Richard Racional dentro de sua cabeça. Richard já passara por experiências assim e saíra do outro lado com a cabeça mais ou menos intacta... mas tinha 12 anos. Eles dois tinham 12 anos naquele outono, e quando você tem 12 anos, a mente e o corpo são mais elásticos.

       Jack andou dando uma volta lenta, sem ver nada além de campos abertos (a névoa sobre eles agora se dissipando numa bruma fina, à medida que o dia esquenta) e a mata cinza-azulado do outro lado. Agora há algo mais. A sudoeste, há uma estrada de terra a pouco mais de um quilômetro e meio dali. Do outro lado da estrada, no horizonte ou talvez logo além, o céu perfeito de verão está um pouco enfumaçado.

       Não são fogões de lenha, pensa Jack, não em julho, mas talvez sejam pequenas fábricas. E...

       Ele ouve um apito — três longos silvos ao longe. Seu coração parece aumentar em seu peito, e os cantos de sua boca se repuxam numa espécie de sorriso inevitável.

       — O Mississipi é para lá, meu Deus — ele diz, e em volta dele as mariposas do campo parecem dançar concordando, renda da manhã. — É o Mississipi ou seja qual for o nome que lhe dão aqui. E o apito, amigos e vizinhos...

       Dois outros silvos cortam o dia de verão. São fracos ao longe, sim, mas de perto seriam fortes. Jack sabe.

       — É uma barca do rio. Uma barca enorme. Talvez uma movida por roda.

       Jack começa a caminhar para a estrada, dizendo a si mesmo que isso tudo é um sonho, sem acreditar nem um segundo que seja, mas usando essa idéia como um acrobata usa a vara para se equilibrar. Depois de ter andado uns 100 metros, ele olha para trás. Uma linha escura corta o capim-rabo-de-gato, começando no local em que ele caiu e vindo reta até onde ele está. E a marca de sua passagem. A única marca. A esquerda (na verdade, quase atrás dele agora) estão o celeiro e o moinho. Essas são a minha casa e a minha garagem, Jack pensa. Pelo menos é o que são no mundo de Chevrolets, guerras no Oriente Médio e o programa Oprah Winfrey.

       Ele segue, e está quase chegando à estrada quando percebe que há mais que fumaça a sudoeste. Há uma espécie de vibração, também. Ela lateja na cabeça como o início de uma enxaqueca. E é estranhamente variável. Se ele fica com a cara virada para o sul, esse latejar desagradável diminui. Basta virar para leste que desaparece. Para o norte, quase desaparece. Aí, conforme ele continua a girar, a vibração volta com força total. Pior do que nunca agora que ele notou, assim como o zumbido de uma mosca ou o ruído de um radiador num quarto de hotel fica pior depois que se começa realmente a notá-lo.

       Jack dá outra volta completa, devagar. Sul, e a vibração diminui. Leste, some. Norte, está começando a voltar. Oeste, está voltando com força. Sudoeste e ele está trancado como o botão PROCURAR num rádio de carro. Pou, pou, pou. Uma vibração desagradável e incômoda como uma dor de cabeça, um cheiro como que de fumaça antiga.

       — Não, não, não, fumaça não — diz Jack.

       Ele está em pé com grama quase até o peito, as calças encharcadas, mariposas brancas voejando em volta da sua cabeça como um meio halo, olhos abertos, faces de novo pálidas. Nesse momento, ele parece ter de novo 12 anos. É sinistro como ele encontrou seu eu mais jovem (e talvez melhor).

       — Fumaça não, isso tem cheiro de...

       Ele de repente torna a fazer aquele ruído de engulho. Porque o cheiro — não em seu nariz, mas dentro de sua cabeça — é de salame podre. O cheiro do pé decepado e em decomposição de Irma Freneau.

       — Estou sentindo o cheiro dele — Jack sussurra, sabendo que não é um cheiro que ele quer dizer. Ele pode fazer o que quiser desse pulsar... inclusive, ele percebe, pode fazê-lo sumir. — Estou sentindo o cheiro do Pescador. Dele ou... não sei.

       Ele começa a andar e, 90 metros à frente, torna a parar. O latejar em sua cabeça de fato desapareceu. Saiu do ar corno saem as emissoras de rádio quando o dia esquenta e a temperatura sobe. E um alívio.

       Jack quase chegou à estrada, que, sem dúvida, leva, de um lado, para alguma versão de Arden e, do outro, para versões de Centralia e French Landing, quando ouve um batuque irregular. Ele também sente isso, subindo por suas pernas como uma batida de Gene Krupa.

       Ele vira à esquerda, depois grita entre surpreso e feliz. Três enormes criaturas marrons de orelhas compridas e saltitantes passam aos pulos por Jack, subindo acima do capim, afundando novamente nele, depois tornando a subir. Parecem uma cruza de coelho com canguru. Seus olhos negros e saltados espreitam com um terror cômico. Os bichos atravessam a estrada, com os pés chatos (de pêlo branco em vez de marrom) levantando poeira.

       — Cruzes! — diz Jack, meio rindo e meio soluçando. Bate no meio da testa com a base da palma da mão. — O que foi isso, Richie? Tem algum comentário sobre isso?

       Richie, obviamente, tem. Ele diz a Jack que Jack acaba de sofrer uma... ba-haaa!... alucinação extremamente vivida.

       — Claro — diz Jack. — Coelhos gigantes. Me leve para a primeira reunião dos AA.

       Então, quando pisa na estrada, ele olha de novo para o horizonte sudoeste. Para a bruma de fumaça ali. Um vilarejo. E os moradores têm medo quando as sombras da tarde chegam? Têm medo da noite que chega? Têm medo da criatura que está levando suas crianças? Precisam de um “puliça”? Claro que sim. Claro que...

       Algo jaz no meio da estrada. Jack se abaixa e pega um boné de beisebol dos Milwaukee Brewers, gritantemente deslocado neste mundo de coelhos gigantes saltitantes, mas indubitavelmente real. A julgar pela tira de plástico reguladora atrás, é um boné infantil de beisebol. Jack olha o interior, sabendo o que vai achar, e lá está, cuidadosamente escrito na pala: TY MARSHALL. O boné não está tão molhado como o jeans de Jack, que está encharcado de orvalho da manhã, mas também não está seco. Está ali na beira da estrada, ele pensa, desde ontem. A suposição lógica seria que o raptor de Ty tivesse trazido Ty por ali, mas Jack não acredita nisso. Talvez seja o pulsar persistente da vibração que desperte um pensamento diferente, uma imagem diferente: o Pescador, com Ty cuidadosamente escondido, andando por essa estrada de terra. O homem tem debaixo do braço uma caixa de sapatos embrulhada, decorada com selos falsos. Pousado na cabeça, tem o boné de beisebol de Ty, meio equilibrado ali por ser pequeno demais para que o use. Mesmo assim, ele não quer mexer na tira de ajuste. Não quer que Jack confunda este com um boné de adulto, nem por um segundo. Porque está atiçando Jack, convidando Jack a entrar no jogo.

       — Levou o garoto para o nosso mundo — Jack murmura. — Fugiu com ele para este mundo. Escondeu-o em algum lugar seguro, como uma aranha escondendo uma mosca. Vivo? Morto? Vivo, eu acho. Não sei por quê. Talvez seja só o que quero acreditar. Não importa. Depois ele foi para onde quer que tenha escondido Irma. Pegou o pé dela e o trouxe para mim. Trouxe-o através deste mundo, depois voltou para o meu mundo para deixá-lo na varanda. Perdeu o boné no caminho, talvez? Caiu da cabeça dele?

       Jack não acha isso. Jack acha que esse puto, essa peste, esse nojento, deixou o boné de propósito. Sabia que, se passasse nessa estrada, Jack o encontraria.

       Segurando o boné junto ao peito como um torcedor do Miller Park mostrando respeito à bandeira durante o hino nacional, Jack fecha os olhos e se concentra. É mais fácil do que ele teria esperado, mas ele supõe coisas que a gente nunca esquece — como descascar uma laranja, andar de bicicleta, passar de um mundo para o outro.

       Um garoto como você não precisa de vinho barato, de qualquer forma, ele ouve o velho amigo Speedy Parker dizer, e lá está o tom de riso na voz de Speedy. Ao mesmo tempo, essa sensação de vertigem percorre Jack de novo. Em seguida, ele ouve o barulho alarmante de um carro chegando.

       Ele recua, abrindo os olhos ao fazer isso. Vê de relance uma estrada asfaltada — a Estrada do Vale Noruega, mas...

       Uma buzina soa e um velho Ford empoeirado passa a toda por ele, o espelho do lado do carona tirando um fino do nariz de Jack Sawyer. Ar quente, mais uma vez impregnado do odor fraco mas pungente de hidrocarbonetos, passa pela cara de Jack, junto com a voz indignada de um garoto de fazenda.

       — ... sai da estrada, babaca...

       — Não gosto de ser chamado de babaca por um bacharel em escola de vaca — Jack diz em sua melhor voz de Richard Racional, e, embora acrescente um pomposo Ba-haaa! de quebra, seu coração está batendo forte. Cara, ele quase voltou para o outro lado na frente daquele sujeito!

       Por favor, Jack, me poupe, disse Richard. Você sonhou tudo isso.

       Jack sabe o que faz. Embora olhe em volta completamente espantado, no fundo não está nada espantado, não, nem um pouquinho. Ele ainda tem o boné, para início de conversa — o boné dos Brewers de Ty Marshall. E depois, a ponte sobre o riacho Tamarack é logo depois da próxima elevação. No outro mundo, aquele onde coelhos gigantes passam saltitando por você, ele andou talvez um pouco mais de um quilômetro e meio. Neste, andou pelo menos seis.

       Assim é que era antes, ele pensa, assim é que era quando Jacky tinha seis anos. Quando todo mundo morava na Califórnia e ninguém morava em nenhum outro lugar.

       Mas isso está errado. Errado de alguma forma.

       Jack está em pé na beira da estrada que era de terra alguns segundos atrás, e agora é asfaltada, está olhando para o boné de beisebol de Ty Marshall e tentando imaginar exatamente o que está errado e como está errado, sabendo que provavelmente não será capaz de conseguir. Isso tudo foi há muito tempo, e, além do mais, ele se empenhou para enterrar suas lembranças de infância reconhecidamente bizarras desde os 13 anos. Mais de metade de sua vida, em outras palavras. Uma pessoa não pode dedicar tanto tempo a tentar esquecer, depois estalar os dedos e esperar...

       Jack estala os dedos. Diz à manhã de verão que vai esquentando:

       — O que aconteceu quando Jacky tinha seis anos?

       E responde à própria pergunta:

       — Quando Jacky tinha seis anos, papai tocava cometa.

       O que quer dizer isso?

       — Papai não — diz Jack de repente. — Não o meu pai. Dexter Gordon. A música se chamava “Papai tocava corneta”. Ou talvez o disco. O LP. — Ele fica ali em pé, balançando a cabeça, depois faz que sim. — Toca. Papai toca. “Papai toca cometa.”

       E num piscar de olhos, tudo volta. Dexter Gordon tocando na vitrola. Jacky Sawyer atrás do sofá, brincando com seu táxi londrino de brinquedo, tão satisfatório por causa do peso, que de alguma forma o fazia parecer mais real que um brinquedo. Seu pai e o pai de Richard conversando. Phil Sawyer e Morgan Sloat.

       Imagine o que esse cara seria lá, dissera tio Morgan, e esta fora a primeira pista que Jack Sawyer tivera dos Territórios. Quando Jacky tinha seis anos, Jacky teve a informação. E...

       — Quando Jacky tinha 12 anos, Jacky realmente foi lá — ele diz.

       Ridículo!, trombeteia o filho de Morgan. Inteiramente... ba-haa!... ridículo! Em seguida você vai me dizer que havia realmente homens no céu!

       Mas, antes que Jack possa contar sua versão mental a seu velho amigo ou outra coisa qualquer, chega outro carro. Este pára ao lado dele. Olhando desconfiada pela janela do motorista (a expressão é habitual, Jack achou, e, em si, nada significa) está Elvena Morton, a governanta de Henry Leyden.

       — O que você está fazendo aqui, Jack Sawyer? — ela pergunta.

       Ele lhe dá um sorriso.

       — Não dormi muito bem, Sra. Morton. Pensei em dar uma voltinha para clarear as idéias.

       — E sempre vai caminhar no molhado quando quer clarear as idéias? — ela pergunta olhando para seu jeans, que está molhado até o joelho e até um pouco mais para cima. — Isso ajuda?

       — Acho que me distraí com o que eu estava pensando — diz ele.

       — Acho que sim — concorda ela. — Entre que lhe dou uma carona quase até sua casa. Isto é, a não ser que você ainda tenha mais idéias para clarear.

       Jack ri. Essa é boa. Na verdade, lembra-lhe sua finada mãe. (Quando seu filho impaciente lhe perguntava o que era o jantar e quando seria servido, Lily Cavanaugh era capaz de dizer: “Peidos fritos com cebola, pudim de vento e molho de ar de sobremesa, venha pegá-lo às picles e meia.”)

       — Acho que minhas idéias estão tão claras hoje quanto posso esperar que estejam — ele diz, e dá a volta pela frente do velho Toyota marrom da Sra. Morton.

       No banco do carona, há uma sacola de papel pardo de onde se projetam algumas verduras. Jack passa-a para o meio, e senta.

       — Não sei se Deus ajuda a quem cedo madruga — diz ela, seguindo viagem —, mas o cliente que cedo madruga consegue as melhores verduras na Roy’s, isso eu posso lhe dizer. Além disso, gosto de chegar lá antes dos preguiçosos.

       — Preguiçosos, Sra. Morton?

       Ela olha para ele com seu olhar mais desconfiado, enviesado, o canto direito da boca contraído para baixo como se tivesse provado algo amargo.

       — Se instalam no bar da lanchonete e ficam conversando sobre o Pescador. Quem ele pode ser, o que pode ser (sueco, polonês ou irlandês) e, claro, o que vão fazer com ele quando ele for pego, o que já teria acontecido há muito tempo se qualquer pessoa que não aquela anta do Dale Gilbertson estivesse encarregada do caso. Assim eles dizem. Ê fácil falar quando se está com o rabo bem sentadinho num dos bancos de Roy Soderholm, uma xícara de café numa das mãos e uma rosquinha na outra. Eu acho. Claro, metade deles também está com o cheque do seguro desemprego no bolso, mas eles não falam nisso. Meu pai costumava dizer: “Mostre-me um homem bom demais para ceifar em julho e eu lhe mostro um homem que também não faz nada o resto do ano.”

       Jack se acomoda no banco do carona, joelhos encostados no painel, e observa a estrada se desenrolar. Eles estarão de volta logo. Suas calças estão começando a secar e ele se sente estranhamente em paz. O bom em Elvena Morton é que você não precisa fazer a sua parte da conversa porque ela se encarrega de tudo com prazer. Outro Lily-ismo lhe ocorre. Sobre uma pessoa muito tagarela (tio Morgan, por exemplo), ela podia dizer que a língua de fulano era “pendurada no meio e correndo nas duas pontas”.

       Ele ri um pouco, e levanta a mão com naturalidade para a Sra. M. não ver sua boca. Ela lhe perguntaria qual era a graça, e o que ele diria? Que tinha acabado de pensar que a língua dela tinha duas pontas? Mas também é engraçado como está voltando uma enxurrada de pensamentos e lembranças. Ontem mesmo ele não tentou ligar para a mãe, esquecendo que ela havia morrido? Isso agora parece algo que pode ter feito numa vida diferente. Talvez fosse uma vida diferente. Deus sabe que ele não parece o mesmo homem que se levantou da cama hoje de manhã, cansado, e com uma sensação que pode ser mais bem descrita como sensação de fim. Ele se sente inteiramente vivo pela primeira vez... bem, desde a primeira vez que Dale o trouxe por essa mesma estrada, ele supõe, e lhe mostrou a casinha que pertencera ao seu pai.

       Elvena Morton, enquanto isso, segue em frente.

       — Embora eu também admita que dou qualquer desculpa para sair de casa quando ele começa com o Mongolóide Maluco — diz ela. O Mongolóide Maluco é como a Sra. Morton chama a persona Rato de Wisconsin de Henry. Jack balança a cabeça sinalizando compreensão, sem saber que em poucas horas ele conhecerá um sujeito apelidado de Húngaro Maluco. Pequenas coincidências da vida.

       — É sempre de manhã cedo quando ele resolve fazer o Mongolóide Maluco, e eu já lhe disse: “Henry, se você tem que gritar assim e dizer coisas horrorosas e depois tocar essa música horrorosa de garotos que não deveriam ser autorizados a passar perto de uma tuba, quanto mais de uma guitarra elétrica, por que você faz isso de manhã quando sabe que estraga o seu dia?” E estraga, ele tem dor de cabeça, quatro em cada cinco vezes em que finge ser o Mongolóide Maluco, e à tarde fica de cama com um saco de gelo na testa e nem come nada no almoço nesses dias. Às vezes a janta dele não está na geladeira quando eu confiro no dia seguinte (eu sempre deixo no mesmo lugar na geladeira, a não ser que ele me diga que ele mesmo quer prepará-la), mas metade das vezes a comida ainda está onde eu deixei, e mesmo quando não está eu acho que ele vira o prato na lixeira.

       Jack resmunga. É tudo o que ele tem que fazer. As palavras dela o inundam e ele pensa como irá botar o tênis numa bolsa de plástico, segurando-o com a pinça da lareira, e quando entregá-lo na delegacia, a cadeia de provas terá início. Ele está pensando sobre como precisa se certificar de que não há nada mais na caixa de sapatos, e verificar o papel de embrulho. Também quer verificar aqueles envelopes de açúcar. Talvez haja o nome de um restaurante impresso embaixo das imagens de pássaro. É uma hipótese remota, mas...

       — E ele diz: “Sra. M., é mais forte que eu. Alguns dias eu simplesmente acordo como o Rato. E, embora eu pague por isso depois, é uma alegria enorme quando tenho o acesso. Uma alegria completa.” E perguntei a ele: “Como pode haver alegria em uma música que fala de crianças que querem matar os pais e comer fetos e fazer sexo com animais”, como era realmente o tema de uma daquelas músicas, Jack, eu ouvi claro como água, “e isso tudo?”, eu perguntei a ele, e ele disse.... Opa, chegamos.

       Eles de fato chegaram à estradinha que leva à casa de Henry. Quatrocentos metros adiante está o telhado da casa de Jack. Sua picape Ram pisca serenamente na entrada da garagem. Ele não consegue ver a varanda, com toda a certeza não pode ver o horror que jaz em cima de suas tábuas, esperando que alguém venha limpá-lo. Limpá-lo em nome da decência.

       — Eu poderia levá-lo lá em cima — ela diz. — Por que não faço isso?

       Jack, pensando no tênis e no cheiro de salame podre pairando em volta, sorri, balança a cabeça e rapidamente abre a porta do carona.

       — Acho que preciso raciocinar mais um pouco, afinal de contas — diz.

       Ela olha para ele com aquela expressão de desconfiança descontente que é, Jack desconfia, amor. Ela sabe que Jack alegrou a vida de Henry Leyden, e só por isso ele acha que ela o ama. De qualquer maneira, ele gosta de ter essa esperança. Ocorre-lhe que ela em nenhum momento mencionou o boné de beisebol que ele está segurando, mas por que mencionaria? Nesta parte do mundo, todo homem tem pelo menos quatro.

       Ele começa a subir a estrada, o cabelo balançando (seus dias de cortes estilizados no Chez-Chez de Rodeo Drive são coisa do passado — aqui é o Condado de Coulee, e quando pensa em cabelo, ele vai cortá-lo com o velho Herb Roeper na Rua Chase, perto da Amvets), o andar solto e desengonçado como o de um garoto. A Sra. Morton se debruça na janela e grita para ele.

       — Troque esse jeans, Jack! Assim que entrar em casa! Não deixe secar no corpo! É assim que a artrite começa.

       Ele levanta a mão sem se virar e responde:

       — Certo!

       Cinco minutos depois, ele está subindo de novo a rampa de sua casa. Pelo menos temporariamente, o medo e a depressão o deixaram. O êxtase também, o que é um alívio. A última coisa de que um “puliça” precisa é atacar uma investigação num estado de êxtase.

       Ao ver a caixa na varanda — e o papel de embrulho, e as penas, o popularíssimo tênis infantil, não se pode esquecer isso —, a mente de Jack volta para a Sra. Morton citando o grande sábio Henry Leyden.

       É mais forte que eu. Alguns dias eu simplesmente acordo como o Rato. E, embora eu pague por isso depois, é uma alegria enorme quando tenho o acesso. Uma alegria completa.

       Alegria completa. Jack sente isso de vez em quando como detetive, às vezes durante a investigação do local de um crime, mais freqüentemente enquanto interroga uma testemunha que sabe mais do que está dizendo... e isso é algo que Jack Sawyer quase sempre percebe, algo que ele fareja. Ele supõe que os marceneiros sintam isso quando trabalham particularmente bem, os escultores, quando fazem um bom queixo ou um bom nariz, os arquitetos, quando os traços caem em suas plantas como devem cair. O único problema é que alguém em French Landing (talvez em uma das cidades vizinhas, mas Jack está supondo French Landing) tem essa sensação de alegria matando crianças e comendo pedaços de seus pequenos corpos.

       Alguém em French Landing está, cada vez com mais freqüência, acordando como o Pescador.

      

      

Jack entra em casa pela porta dos fundos. Pára na cozinha para pegar a caixa de bolsas plásticas grandes, alguns sacos de lixo, uma pá e uma vassoura. Abre o compartimento de fazer gelo da geladeira e despeja mais ou menos metade dos cubos em um dos sacos de lixo — ao que consta a Jack Sawyer, o pobre pé de Irma Freneau atingiu seu estágio máximo de decomposição.

       Ele dá um pulo no escritório, onde pega um bloco, uma caneta marca-texto preta e uma esferográfica. Na sala, pega a pinça menor da lareira. E, ao voltar para a varanda, já deixou bastante de lado sua identidade secreta como Jack Sawyer.

       Sou um “PULIÇA”, ele pensa, sorrindo. Defensor do Estilo Americano, amigo dos aleijados, dos estropiados e dos mortos.

       Depois, quando olha para o tênis cercado por sua triste nuvem de fedor, o sorriso desaparece. Ele sente um pouco do imenso mistério que sentiu ao deparar com Irma nas ruínas do restaurante abandonado. Ele fará o possível para respeitar esse resto, como fizemos o possível para respeitar a criança. Ele pensa nas autópsias a que assistiu, na solenidade verdadeira que se esconde nas piadas e nas vulgaridades de açougue.

       — Irma, é você? — ele pergunta baixinho. — Se for, me ajude, agora. Fale comigo. Esta é a hora de os mortos ajudarem os vivos.

       Sem pensar, Jack beija os dedos e sopra o beijo na direção do tênis. Ele pensa: Eu gostaria de matar o homem — ou a coisa — que fez isso. Deixá-lo pendurado numa corda aos gritos enquanto ele se borra nas calças. Despachá-lo no fedor de sua própria sujeira.

       Mas tais pensamentos não são dignos, e ele os expulsa.

       A primeira bolsa plástica é para o tênis contendo o resto de pé. Usar a pinça. Fechar o zíper. Marcar a data na bolsa com a caneta marca-texto. Anotar a natureza da prova com a caneta esferográfica no bloco. Botá-la no saco de lixo com o gelo dentro.

       A segunda é para o boné. Não há necessidade de pinça aqui; ele já segurou a peça. Coloca-a na bolsa de plástico. Fecha o zíper. Marca a data, anota a natureza da prova no bloco.

       A terceira bolsa é para o papel de embrulho. Ele o segura no alto um instante com a pinça, examinando os falsos selos de pássaros. FABRICADO POR DOMINO está impresso embaixo de cada imagem, mas isso é tudo. Nada de nome de restaurante, nada desse tipo. Para dentro da bolsa. Fechar o zíper. Marcar a data. Anotar a natureza da prova.

       Ele varre as penas e as põe na quarta bolsa. Há mais penas na caixa. Ele pega a caixa com a pinça, vira as penas na pá e aí seu coração dá um pulo no peito, parecendo acertar um soco no lado esquerdo de sua caixa torácica. A mesma caneta marca-texto foi usada para fazer os mesmos garranchos. E quem quer que tenha escrito isso sabia para quem estava escrevendo. Não o Jack Sawyer exterior, do contrário, ele — o Pescador — sem dúvida o teria chamado de Hollywood.

       A mensagem está endereçada ao homem secreto, e à criança que estava ali antes de sequer se cogitar em Jack “Hollywood” Sawyer.

      

                Experimente a Lanchonete do Ed, puliça.

                                   Seu tiete,

                                                  O Pescador.

      

       — Seu tiete — Jack murmura. — Sim.

       Ele pega a caixa com a pinça e a põe no segundo saco de lixo; não tem nenhuma bolsa plástica suficientemente grande para ela. Depois empilha ordenadamente todas as provas ao seu lado. A coisa sempre tem o mesmo aspecto, macabro e ao mesmo tempo prosaico, como o tipo de fotografias que se costumava ver naquelas revistas de crimes reais.

       Ele entra e disca o número de Henry. Receia que a Sra. Morton atenda, mas acaba sendo Henry mesmo, graças a Deus. Seu atual acesso de Ratismo aparentemente passou, embora tenha ficado um resíduo; mesmo pelo telefone, Jack pode ouvir aquele toque fraco de “guitarras elétricas”.

       Ele conhece a Lanchonete do Ed, Henry diz, mas por que cargas d’água Jack haveria de querer ir a um lugar como aquele?

       — É só uma ruína agora; Ed Gilbertson morreu há muito tempo e muita gente em French Landing acha isso uma bênção, Jack. O lugar era um palácio de intoxicação alimentar, se já houve algo assim. Uma dor de barriga na certa. Seria de esperar que fosse fechado pela vigilância sanitária, mas Ed conhecia gente, Dale Gilbertson, por exemplo.

       — Eles são parentes? — pergunta Jack, e quando Henry responde “São, porra”, alguma coisa que o amigo nunca diria normalmente, Jack entende que embora Henry possa ter evitado uma enxaqueca dessa vez, aquele Rato continua correndo em sua cabeça.

       Jack já ouviu fragmentos semelhantes de George Rathbun pipocarem de quando em quando, exultações gordas inesperadas da garganta magra de Henry, e há a maneira como Henry muitas vezes se despede, jogando um Ding-dong ou um XPTO por cima do ombro: aqui é só o Sheik, o Shake, o Xeque entrando no ar.

       — Onde é exatamente? — pergunta Jack.

       — É difícil dizer — responde Henry. Ele agora parece um pouco rabugento. — Perto da loja de equipamentos agrícolas... Goltz’s. Pelo que me lembro, o caminho de acesso é tão longo que se poderia chamá-lo de estrada de acesso. E se algum dia houve alguma placa, já sumiu há muito. Quando Ed Gilbertson vendeu aquela sanduicheria infecta, Jack, você devia estar na primeira série. O que você está pretendendo?

       Jack sabe que o que está pensando em fazer é ridículo pelos padrões investigativos normais — não se convida um John Q. para o local de um crime, especialmente um local em que houve assassinato —, mas esta não é uma investigação normal. Ele tem uma prova ensacada que foi recuperada em outro mundo, que tal isso em termos de anormalidade? Claro que ele pode encontrar a Lanchonete do Ed há muito fechada; alguém na Goltz’s certamente vai indicar direitinho. Mas...

       — O Pescador acabou de me mandar um pé de tênis da Irma Freneau — Jack diz. — Com o pé de Irma dentro.

       A resposta inicial de Henry é uma inspiração funda e marcada.

       — Henry? Você está bem?

       — Estou. — A voz de Henry está chocada, mas firme. — Que horror para a menina e para a mãe dela. — Faz uma pausa. — E para você. Para Dale. — Outra pausa. — Para esta cidade.

       — É

       — Jack, quer que eu o leve à Lanchonete do Ed?

       Henry é capaz de fazer isso, Jack sabe. Com um pé nas costas. XPTO. E vamos ver a realidade: para começar, por que ele ligou para Henry?

       — Quero — ele responde.

       — Você chamou a polícia?

       — Não.

       Ele vai me perguntar por que não, e o que vou dizer? Que não quero Bobby Dulac, Tom Lund e o resto do pessoal andando por ali, misturando os cheiros deles com o do assassino, até eu ter uma chance de sentir o cheiro? Que eu não acredito que nenhum deles não vá foder tudo, e isso inclui o próprio Dale?

       Mas Henry não pergunta.

       — Vou estar lá embaixo na entrada — ele disse. — Só me diga a que horas.

       Jack calcula o resto das tarefas com as provas, tarefas que terminarão com ele guardando tudo no cofre, no fundo da picape. Lembra de pegar o telefone celular, que em geral não faz outra coisa senão ficar encaixado no pequeno carregador em seu escritório. Ele vai querer chamar todo mundo logo que vir os despojos de Irma Freneau in loco e terminar essa primeira tarefa vital. Então vamos deixar Dale e seus rapazes virem. Vamos deixá-los trazer a banda da escola, se quiserem. Ele olha para o relógio e vê que são quase oito horas. Como ficou tão tarde tão cedo? As distâncias são mais curtas no outro lugar, isso ele se lembra, mas o tempo também passa mais depressa? Ou simplesmente ele perdeu contato?

       — Estarei aí às 8h15 — diz Jack. — E quando eu chegar à Lanchonete do Ed, você vai ficar sentado no meu carro como um menino bonzinho até eu dizer que pode saltar.

       — Entendido, mon capitaine.

       — Ding-dong. — Jack desliga e volta para a varanda.

      

      

As coisas não vão acontecer do jeito que Jack espera. Ele não vai conseguir aquela primeira visão nem aquele primeiro cheiro claros. Na verdade, esta tarde, a situação em French Landing, já delicada, estará quase fugindo do controle. Embora haja muitos fatores atuando aqui, a causa principal dessa última escalada será o Húngaro Maluco.

       Há uma dose daquele bom e velho humor de cidade pequena neste apelido, como chamar o bancário raquítico de Grande Joe ou o proprietário da livraria que usa óculos trifocais de Águia. Arnold Hrabowski, com l,67m e 67quilos, é o menor homem no quadro atual de Dale Gilbertson. Na verdade, ele é a menor pessoa no quadro atual de Dale, pois tanto Debbi Anderson como Pam Stevens pesam mais e são mais altas que ele (com l,85m, Debbi poderia comer ovos mexidos na cabeça de Arnold Hrabowski). O Húngaro Maluco é também um sujeito bastante inofensivo, o tipo do cara que continua se desculpando por aplicar multas, não importa quantas vezes Dale lhe tenha dito que esta é uma péssima política, e que é conhecido por começar interrogatórios com frases infelizes como Sinto muito, mas eu estava querendo saber. Por isso, Dale o mantém no gabinete o máximo possível, ou no centro da cidade, onde todo mundo o conhece e a maioria das pessoas o trata com um respeito ausente. Ele dá aulas de segurança nas escolas de primeiro grau do condado seguindo o programa educativo da polícia. As crianças, sem saber que estão recebendo do Húngaro Maluco as primeiras aulas sobre os malefícios da maconha, adoram-no. Quando ele dá palestras mais pesadas sobre drogas, álcool e direção perigosa na escola de ensino médio, as crianças cochilam ou passam bilhetinhos, embora achem realmente que o carro do programa educativo de resistência ao abuso de drogas que ele dirige, financiado pelo governo federal — um Pontiac lento e reluzente com DIGA NÃO gravado nas portas —, é muito legal. Basicamente, o policial Hrabowski é tão empolgante quanto um sanduíche de atum em pão branco, sem maionese.

       Mas nos anos 70, sabe, havia um lançador reserva do St. Louis e depois do Kansas City Royals, um sujeito muito assustador, e ele se chamava Al Hrabosky. Ele vinha do aquecimento com passos largos e, antes de começar a lançar (em geral, no nono tempo, com as bases animadas e o jogo a perigo), Al Hrabosky voltava da primeira base, abaixava a cabeça, cerrava os punhos e os levantava e abaixava uma vez, com muita força, se concentrando. Então virava e começava a lançar bolas rápidas maldosas, muitas delas quase acertando o queixo dos rebatedores. Naturalmente, deram-lhe o nome de Húngaro Maluco, e até um cego podia ver que ele era o melhor reserva dos profissionais. E claro que Arnold Hrabowski agora é conhecido, deve ser conhecido, como o Húngaro Maluco. Ele até tentou deixar crescer um bigode de Fu Manchu alguns anos atrás, igual ao do famoso reserva. Mas enquanto o Fu de Al Hrabosky era tão assustador quanto uma pintura de guerra zulu, o de Arnold apenas provocava risadas — um Fu brotando daquela cara meiga de contador, imagine só! — e então ele o raspou.

       O Húngaro Maluco de French Landing não é um mau sujeito; ele dá o melhor de si, e em circunstâncias normais o melhor dele é bastante bom. Mas estes não são dias normais em French Landing, estes são os dias escorregadios de resvalamento, os dias abalá-opopânace, e ele é exatamente o tipo de policial que Jack teme. E esta manhã, ele vai fazer, sem ter propriamente essa intenção, uma situação ruim ficar muito pior.

      

      

A ligação do Pescador entra no 911 às 8hl0, enquanto Jack está terminando suas anotações no bloco amarelo e Henry está passeando na entrada de sua casa, sentindo o cheiro da manhã de verão com grande prazer apesar da sombra que as notícias de Jack lançaram em sua mente. Diferentemente de alguns dos policiais (Bobby Dulac, por exemplo), o Húngaro Maluco lê o roteiro colado ao lado do telefone de emergência, palavra por palavra. ARNOLD HRABOWSKI: Alô, aqui é do Departamento de Polícia de French Landing, policial Hrabowski falando. Você ligou para 911. Está em alguma emergência?

[Ruído ininteligível... pigarro?]

       AH: Alô? Aqui é o policial Hrabowski atendendo a linha 911. Está...

       INTERLOCUTOR: Alô, babaca.

       AH: Quem está falando? Está em alguma emergência?

       I: Você está numa emergência. Não eu. Você.          

       AH: Quem está falando, por favor?

       I: Seu pior pesadelo.

       AH: Senhor, eu poderia lhe pedir para se identificar?

       I: Abalá. Abalá-dun. [Fonético.]

       AH: Senhor, eu não...

       I: Eu sou o Pescador.

       [Silêncio.]

       I: Qual é o problema? Está assustado? Devia estar.

       AH: Senhor. Ah, senhor. Há penalidades por falso...

       I: Há chicotes no inferno e correntes no sheiol. [O interlocutor pode estar dizendo Sheol.*]

      

* O mundo dos mortos dos hebreus. [N. da T.]

      

       AH: Senhor, se eu pudesse saber seu nome...

       I: Meu nome é legião. Meu número é muitos. Sou um rato debaixo do chão do universo. Robert Frost disse isso. [O interlocutor ri.]

       AH: Senhor, se aguardar na linha, posso passá-lo para o meu chefe...

       I: Cale a boca e ouça, babaca. Seu gravador está ligado? Espero que sim. Eu poderia amassá-lo [O interlocutor pode estar dizendo “paralisá-lo”, mas não se distingue a palavra], se eu quisesse, mas eu não quero.

       AH: Senhor, eu...

       I: Vá tomar no cu, seu macaco. Deixei uma coisa para você e estou cansado de esperar que a encontre. Tente a Lanchonete do Ed. Pode estar meio podre agora, mas quando nova era muito [O interlocutor prolonga o i para “muiiiiito”] gostosa.

       AH: Onde o senhor está? Quem está falando? Se isso for um trote...

       I. Diga ao puliça que mandei lembranças.

      

      

Quando o telefonema começou, o pulso do Húngaro Maluco estava perfeitamente normal, com uma freqüência de 68 batimentos por minuto. Quando termina, às 8hl2, Arnold Hrabowski está com taquicardia. Seu rosto está pálido. No meio do telefonema, ele olhou para o identificador de chamadas e anotou o número exibido no visor, com uma mão tão trêmula que os algarismos dançaram para cima e para baixo em três linhas do bloco. Quando o Pescador desliga e ele ouve o ruído de discar, Hrabowski está tão nervoso que aperta o botão para ligar para o número que fez a chamada, esquecendo que o telefone vermelho só recebe ligações. Seus dedos batem na frente macia do fone e ele deixa este cair no gancho com uma exclamação assustada. Olha para aquilo como algo que o mordeu.

       Hrabowski pega o fone do aparelho preto ao lado do 911, começa a teclar a discagem automática para a última chamada, mas seus dedos o traem e batem em duas teclas ao mesmo tempo. Ele torna a praguejar, e Tom Lund, passando por ali com uma xícara de café, diz:

       — O que está havendo aí, Arnie?

       — Chame Dale! — grita o Húngaro Maluco, dando um susto tão grande em Tom que ele derrama café nos dedos. — Chame-o já!

       — Que diabo houve com vo...

       — JÁ, droga!

       Tom fica olhando para Hrabowski mais um momento, sobrancelhas erguidas, depois vai dizer a Dale que o Húngaro Maluco parece ter ficado realmente maluco.

       Na segunda tentativa, Hrabowski consegue discar para o número que fez a última chamada. Toca. Toca. E toca mais um pouco.

       Dale Gilbertson aparece com sua própria xícara de café. Há olheiras escuras embaixo de seus olhos, e as rugas dos cantos de sua boca estão muito mais acentuadas do que costumavam ser.

       — Arnie? O que...

       — Rode a última ligação — diz Arnold Hrabowski. — Acho que era... alô! — Ele rosna esta última palavra, inclinando-se para a frente na mesa de atendimento, empurrando papéis para todos os lados. — Alô, quem está falando?

       Ouve.

       — É da polícia. Policial Hrabowski, DPFL. Agora fale comigo. Quem está na linha?

       Dale, enquanto isso, pôs os fones de ouvido na cabeça e está ouvindo a última chamada para o 911 de French Landing com um horror crescente. Ai meu Deus, ele pensa. Seu primeiro impulso — o primeiríssimo — é ligar para Jack Sawyer e pedir ajuda. Chorando, como um garotinho com a mão presa na porta. Então diz a si mesmo para segurar a barra, que esse é o seu trabalho, goste ou não, e era melhor ele segurar a barra e tentar fazê-lo. Além do mais, Jack foi para Arden com Fred Marshall para ver a mulher louca de Fred. Pelo menos esse era o plano.

       Enquanto isso, tiras estão se aglomerando em volta da mesa de atendimento: Lund, Tcheda, Stevens. O que Dale vê quando olha para eles não são senão olhos arregalados e caras lívidas e perplexas. E os que estão na patrulha? Os que estão de folga? A mesma coisa. Com a possível exceção de Bobby Dulac, a mesma coisa. Ele sente desespero e horror. Ah, isso é um pesadelo. Um caminhão sem freio descendo em direção ao pátio de recreio de uma escola.

       Ele arranca os fones de ouvido, fazendo um pequeno corte na orelha, sem sentir.

       — De onde veio a ligação? — ele pergunta a Hrabowski. O Húngaro Maluco desligou o telefone e está ali parado, perplexo. Dale agarra seu ombro e sacode-o. — De onde veio?

       — Da 7-Eleven — responde o Húngaro Maluco, e Dale ouve Danny Tcheda resmungar. Não muito longe de onde a bicicleta do garoto Marshall apareceu, em outras palavras. — Acabei de falar com o Sr. Rajan Patel, que atende durante o dia. Ele diz que o número da última chamada pertence ao telefone público , fora da loja.

       — Ele viu quem fez a ligação?

       — Não. Estava nos fundos, recebendo uma entrega de cerveja.

       — Tem certeza que o próprio Patel não...

       — Tenho. Ele tem sotaque indiano. Forte. O cara no 911... Dale, você o ouviu. Ele tinha uma voz parecida com a de qualquer pessoa.

       — O que está havendo? — pergunta Pam Stevens. Ela tem alguma idéia, porém todos têm. É só uma questão de detalhes. — O que aconteceu?

       Por ser a melhor maneira de colocá-los a par rapidamente, Dale repete a gravação do telefonema, dessa vez no alto-falante.

       No silêncio estupefato que se segue, Dale diz:

       — Vou lá, à Lanchonete do Ed. Tom, você vem comigo.

       — Sim senhor! — Tom Lund diz.

       Parece quase doente de excitação.

       — Quero mais quatro carros atrás de mim. — A maior parte da mente de Dale está congelada: essa coisa de procedimento anda sozinha. Sou bom em procedimento e organização, ele pensa. A única coisa que está me perturbando um pouco é pegar o raio do assassino louco. — Em duplas. Danny, você e Pam no primeiro. Saiam cinco minutos depois de Tom e de mim. Cinco minutos contados no relógio, e nada de luzes nem sirene. Vamos ficar na moita enquanto pudermos.

       Danny Tcheda e Pam Stevens se entreolham, fazem um gesto de cabeça afirmativo, e tornam a olhar para Dale. Dale está olhando para Arnold “o Húngaro Maluco” Hrabowski. Ele determina mais três duplas, terminando com Dit Jesperson e Bobby Dulac. Bobby é quem ele realmente quer lá; os outros são apenas para dar cobertura e — Deus permita que isso não seja necessário — controlar o povo. Todos eles devem sair com cinco minutos de intervalo.

       — Deixe eu ir também — implora Arnie Hrabowski. — Vamos, chefe, o que diz?

       Dale abre a boca para dizer que quer Arnie onde ele está, mas aí vê o olhar esperançoso naqueles úmidos olhos castanhos. Mesmo naquela sua angústia profunda, Dale não consegue evitar se sensibilizar com isso, pelo menos um pouco. Para Arnie, a vida de policial é, na maioria das vezes, ficar na calçada assistindo à parada passar.

       Que parada, ele pensa.

       — Vou lhe dizer uma coisa, Arn — ele fala. — Quando você acabar todas as outras chamadas, toque para Debbi. Se conseguir que ela venha para cá, pode ir até a Lanchonete do Ed.

       Arnold balança a cabeça empolgado, e Dale quase sorri. O Húngaro Maluco terá Debbi ali às nove e meia, ele imagina, mesmo se tiver que arrastá-la pelos cabelos como Brucutu.

       — Quem faz dupla comigo, Dale?

       — Vá sozinho — Dale responde. — No carro do programa educativo contra as drogas, por que não? Mas, Arnie, se você deixar essa mesa sem alguém para substituí-lo no segundo em que se levantar da cadeira, amanhã mesmo estará procurando outro emprego.

       — Ah, não se preocupe — diz Hrabowski, e, húngaro ou não, naquela empolgação ele parece positivamente sueco. Isso também não surpreende, já que Centralia, onde ele cresceu, já foi conhecida como Cidade Sueca.

       — Vamos, Tom — diz Dale. — Vamos pegar o kit de provas no...

       — Hã... chefe?

       — O que, Arnie? — Obviamente querendo dizer: O que é agora?

       — Eu devo chamar aqueles caras da Polícia Estadual, Brown e Black?

       Danny Tcheda e Pam Stevens riem. Tom sorri. Dale não faz nada disso. Seu coração, já no porão, se afunda mais. Subsubsolo, senhoras e senhores... falsas esperanças à esquerda, causas perdidas à direita. Última parada, todo mundo para fora.

       Perry Brown e Jeff Black. Esquecera-se deles, que engraçado. Brown e Black, que agora quase certamente iriam tirar esse caso dele.

       — Eles ainda estão no Motel Paradise — continua o Húngaro Maluco —, embora eu ache que o cara do FBI voltou para Milwaukee.

       — Eu...

       — E os caras da Municipal — persiste o Húngaro. — Não se esqueça deles. Quer que eu ligue primeiro para o legista, ou para o furgão da perícia? O furgão da perícia é uma van Ford Econoline, que carrega de tudo, desde gesso de secagem rápida para tirar impressões de pneus até um estúdio de vídeo rolante. Coisas a que o DP de French Landing nunca terá acesso.

       Dale fica onde está, cabeça baixa, olhando melancolicamente para o chão. Vão tirar-lhe o caso. A cada palavra que Hrabowski diz, isso é mais evidente. E de repente ele quer o caso para si. Apesar do quanto odeia este caso e quanto ele o assusta, Dale o quer com todas as forças. O Pescador é um monstro, mas não é um monstro municipal, um monstro estadual ou um monstro do FBI. O Pescador é um monstro de French Landing, o monstro de Dale Gilbertson, e ele quer ficar com o caso por motivos que nada têm a ver com prestígio pessoal ou com a questão prática de segurar seu emprego. Ele quer porque o Pescador é uma ofensa a tudo o que Dale quer e crê e precisa. Aquelas coisas que ninguém pode mencionar sem parecer piegas e idiota, mas elas são verdade apesar de tudo isso. Ele sente uma raiva repentina e tola de Jack. Se Jack tivesse embarcado nessa antes, talvez...

       E se desejos fossem cavalos, os mendigos seriam cavaleiros. Ele tem que notificar o município, nem que seja apenas para tirar de cena o legista, e tem que notificar a Polícia Estadual, nas pessoas dos detetives Brown e Black, também. Mas não antes de dar uma olhada no que há ali, no campo depois da Goltz’s. No que o Pescador deixou. Por Deus, não antes disso.

       E talvez não antes de dar um golpe final no filho da mãe.

       — Faça nossos homens saírem com intervalos de cinco minutos — ele ordena —, exatamente como eu lhe disse. Depois ponha Debbi na cadeira de atendimento. Mande que ela ligue para o estado e para o município, — A cara intrigada de Arnold Hrabowski faz Dale ter vontade de gritar, mas de alguma maneira ele se controla. — Quero ter algum tempo de vantagem.

       — Ah — diz Arnie, e então, quando realmente percebe: — Ah!

       — E não conte a ninguém, a não ser os nossos rapazes, sobre a ligação nem sobre a nossa resposta. Ninguém. Você poderia provocar pânico. Está entendendo?

       — Perfeitamente, chefe — diz o Húngaro.

       Dale olha para o relógio: 8h26.

       — Vamos, Tom — ele diz. — Vamos andando. Tempus fugit.

      

      

O Húngaro Maluco nunca foi mais eficiente, e as coisas acontecem conforme se esperava, como um sonho. Até Debbi Anderson leva a questão da mesa com espírito esportivo. Entretanto, o tempo todo, a voz no telefone permanece com ele. Rouca, áspera, com um sotaquezinho — do tipo que qualquer pessoa morando nesta parte do mundo poderia pegar. Nada de inusitado quanto a isso. Entretanto, a voz o persegue. Não pelo fato de o cara o ter chamado de babaca — ele já foi chamado de coisas muito piores pelos bêbados costumeiros das noites de sábado —, mas por algumas das outras coisas. Há chicotes no inferno e correntes no sheiol, Meu nome é legião. Coisas assim. E abalá. O que é um abalá? Arnold Hrabowski não sabe. Só sabe que o simples som dessa palavra em sua cabeça o faz sentir-se mal e assustado. É como uma palavra num livro secreto, do tipo que se pode usar para invocar um demônio.

       Quando ele está agoniado, só há uma pessoa que pode aliviá-lo, e esse alguém é a sua esposa. Ele sabe que Dale lhe disse para não contar a ninguém sobre o que estava acontecendo, e ele compreende as razões, mas obviamente o chefe não se referia a Paula. Eles estão casados há 20 anos, e Paula não é absolutamente uma outra pessoa. É o resto dele.

       Então (mais para dissipar a agonia profunda do que para mexericar; vamos pelo menos conceder isso a Arnold) o Húngaro Maluco comete o terrível erro de confiar na discrição da mulher. Ele liga para Paula e conta que falou com o Pescador há menos de meia hora. Sim, o Pescador mesmo! Ele lhe conta sobre o corpo que supostamente está aguardando Dale e Tom Lund na Lanchonete do Ed. Ela lhe pergunta se ele está bem. Sua voz treme de assombro e alvoroço, e o Húngaro Maluco acha isso bastante satisfatório, já que também está assombrado e alvoroçado. Eles conversam mais um pouco, e quando desliga Arnold sente-se melhor. O terror daquela voz áspera, estranhamente cúmplice ao telefone, diminuiu um pouco.

      

      

Paula Hrabowski é a discrição em pessoa, a própria alma da discrição. Ela só conta a suas duas melhores amigas sobre a ligação que Arnie recebeu do Pescador e sobre o corpo na Lanchonete do Ed, e faz as duas jurarem segredo. Ambas dizem que nunca contarão a ninguém, e foi por isso que, uma hora depois, antes mesmo que a polícia estadual e a equipe de legistas do município tivessem sido chamadas, todo mundo sabe que a polícia encontrou um matadouro na Lanchonete do Ed. Meia dúzia de crianças assassinadas.

       Talvez mais.

 

 

Quando o carro pilotado por Tom Lund desce a Rua Três para pegar a Chase — luzes da capota convenientemente apagadas, sirene desligada —, Dale pega a carteira e começa a procurar na barafunda da divisão de trás: cartões de visita que as pessoas lhe dão, algumas fotografias com a ponta virada, papeizinhos dobrados. Num desses, ele encontra o que quer.

       — O que está fazendo, chefe? — pergunta Tom.

       — Não é da sua conta. Vá dirigindo, e pronto.

       Dale pega o telefone da base no consolo, faz uma careta e limpa o pó em que se transformaram os resíduos da rosquinha de alguém, depois, sem muita esperança, disca o número do telefone celular de Jack Sawyer. Começa a sorrir quando o telefone é atendido no quarto toque, mas o sorriso se transforma em expressão intrigada. Ele conhece aquela voz e devia reconhecê-la, mas...

       — Alô? — diz a pessoa que aparentemente atendeu o telefone de Jack. — Fale agora, seja você quem for, ou cale-se para sempre.

       Então Dale sabe. Saberia imediatamente se estivesse em casa ou em sua sala no trabalho, mas neste contexto...

       — Henry? — ele diz, sabendo que parece idiota, mas não podendo evitar. — Tio Henry, é você?

      

      

Jack está pilotando a picape na Ponte Tamarack quando seu celular começa a tocar com aquele apito irritante no bolso de sua calça. Ele pega o aparelho e o encosta na mão de Henry.

       — Cuide disso — ele diz. — Telefone celular dá câncer no cérebro.

       — O que convém para mim, mas não para você.

       — Mais ou menos, é.

       — É disso que eu gosto em você, Jack — diz Henry, e abre o telefone com um meneio tranqüilo do pulso. — Alô? — E após uma pausa: — Fale agora, seja você quem for, ou cale-se para sempre. — Jack olha para ele, depois para a estrada de novo. Eles estão chegando à Roy’s Store, onde quem cedo madruga consegue as melhores verduras. — Sim, Dale. De fato é seu estimado... — Henry ouve, franzindo o cenho um pouquinho e sorrindo um pouquinho. — Estou na caminhonete de Jack — ele diz. — George Rathbun não está trabalhando hoje de manhã porque a KDCU está cobrindo a Maratona de Verão em La Riv... — Ele ouve mais um pouco, depois diz:

       — Se for Nokia, que é o que parece, então é antes digital que analógico. Espere. — Ele olha para Jack. — Seu celular — ele diz — é Nokia?

       — Sim, mas por que...

       — Porque os telefones digitais são supostamente menos vulneráveis à escuta — diz Henry, e volta ao telefone. — É um digital, e vou passar para ele. Tenho certeza que Jack pode explicar tudo.

       Henry lhe passa o telefone, cruza as mãos afetadamente no colo e olha pela janela exatamente como se supervisionando um cenário. E talvez esteja fazendo isso, Jack pensa. Talvez de alguma maneira esquisita de morcego frugívoro ele esteja mesmo.

       Ele pára no acostamento da Rodovia 93. Não gosta de telefone celular, para início de conversa — algemas de escravos do século XXI, ele pensa —, mas odeia com todas as forças dirigir falando em um. Além do mais, Irma Freneau não vai a lugar nenhum naquela manhã.

       — Dale? — ele diz.

       — Onde você está? — Dale pergunta, e Jack sabe de imediato que o Pescador andou trabalhando em outro lugar, também. Desde que não seja outra criança morta, ele pensa. Não isso, ainda não, por favor. — Como você está com Henry? Fred Marshall está aí, também?

       Jack lhe conta sobre a mudança de planos, e está prestes a prosseguir quando Dale interrompe.

       — O que quer que você esteja fazendo, quero que vá para um lugar chamado Lanchonete do Ed, perto da Goltz’s. Henry pode ajudá-lo a encontrar. O Pescador ligou para a delegacia, Jack. Ele ligou para o 911. Nos disse que o corpo de Irma Freneau está lá. Bem, não com tantas palavras, mas ele disse que era ela, sim.

       Dale não está propriamente balbuciando, mas quase. Jack nota isso como qualquer bom clínico notaria os sintomas de um paciente.

       — Preciso de você, Jack. Muito...

       — Era para lá mesmo que a gente ia — diz Jack calmamente, embora naquele momento eles não estejam indo para lugar nenhum, apenas parados no acostamento enquanto um carro ou outro passa zunindo na 93.

       — O quê?

       Esperando que Dale e Henry tenham razão a respeito das virtudes da tecnologia digital, Jack conta ao chefe de polícia de French Landing sobre a entrega daquela manhã, consciente de que Henry, embora ainda olhando pela janela, é todo ouvidos. Ele diz a Dale que o boné de Ty Marshall estava em cima da caixa que continha as penas e o pé de Irma.

       — Puta... — diz Dale, parecendo sem fôlego. — Puta que pariu.

       — Me diga o que você fez — pede Jack, e Dale diz.

       Parece bastante bom — até aquele momento, pelo menos —, mas Jack não gosta da parte sobre Arnold Hrabowski. O Húngaro Maluco lhe pareceu o tipo do sujeito que nunca será capaz de agir como um tira de verdade, por mais que tente. Em L.A., costumavam chamar os Arnie Hrabowskis da vida de os Mayberry RFDs.*

      

* Série de tevê americana do final da década de 60. [N. do E.]

      

       — Dale, e o telefone na 7-Eleven?           

       — É um telefone público — diz Dale, como se falasse com uma criança.

       — É, mas pode ter impressões digitais — retruca Jack. — Quer dizer, vai ter bilhões de impressões digitais, mas a perícia pode isolar as mais recentes. Facilmente. Ele pode ter usado luvas, mas pode não ter usado. Se está deixando recados e cartões de visita bem como escrevendo para os pais, ele foi para o Segundo Estágio. Matar já não é mais suficiente para ele. Ele quer jogar contra você agora. Jogar com você. Talvez até queira ser pego e detido, como o Filho de Sam.

       — O telefone. Impressões digitais recentes no telefone. — Dale parece humilhadíssimo, e Jack se solidariza com ele. — Jack, não posso fazer isso. Estou perdido.

       Essa confissão é algo a que Jack prefere não dar trela. Em vez disso, pergunta:

       — Quem você tem que possa cuidar do telefone?

       — Dit Jesperson e Bobby Dulac, acho eu.

       Bobby, Jack pensa, é bom demais para ser desperdiçado por muito tempo na 7-Eleven fora da cidade.

       — Mande que eles lacrem o telefone com fita amarela e falem com o cara que está de serviço. Depois eles podem ir para o local.

       — Certo — Dale hesita, depois faz uma pergunta. O tom de derrota, a sensação quase completa de anulação entristecem Jack. — Mais alguma coisa?

       — Você ligou para a Polícia Estadual? Municipal? O cara do FBI sabe? Aquele que se acha parecido com Tommy Lee Jones?

       Dale bufa.

       — Hã... na verdade, eu resolvi adiar um pouquinho a notificação.

       — Ótimo — diz Jack, e a violenta satisfação em sua voz faz Henry deixar aquela contemplação cega da paisagem e virar-se para o amigo, sobrancelhas erguidas.

      

      

Vamos subir de novo — usando asas como águias, como o reverendo Lance Hovdahl, o pastor luterano de French Landing, poderia dizer — e sobrevoar a faixa escura da Rodovia 93, de novo em direção à cidade. Chegamos à Rodovia 35 e viramos à direita. Mais próximo e à nossa direita está o caminho tomado pelo mato que leva não ao ouro oculto de um dragão nem a minas secretas de anões, mas sim àquela singularmente desagradável casa negra. Um pouco mais adiante, podemos ver o domo futurista da Goltz’s (bem... parecia futurista nos anos 70, pelo menos). Todas as nossas referências estão no lugar, inclusive a trilha pedregosa e invadida pelo mato que sai da estrada principal à esquerda. Esta é a trilha que leva às ruínas do antigo palácio de prazeres culpados de Ed Gilbertson.

       Vamos pousar na linha telefônica do outro lado dessa trilha. Fofocas quentes fazem cócegas em nossos pés de pássaro: Myrtle Harrington, amiga de Paula Hrabowski, passando adiante a notícia do corpo (ou dos corpos) na Lanchonete do Ed para Richie Bumstead, que por sua vez vai passá-la para Beezer St. Pierre, pai enlutado e líder espiritual dos Thunder Five. Essa passagem de vozes através do fio não devia nos agradar, mas agrada. A fofoca sem dúvida é uma coisa ruim, mas realmente energiza o espírito humano.

       Agora, do oeste chega o carro com Tom Lund ao volante e Dale Gilbertson no banco do lado. E do leste chega a picape Ram bordô de Jack. Eles chegam ao desvio para a Lanchonete do Ed ao mesmo tempo. Jack faz um gesto mandando Dale ir primeiro, depois o segue. Alçamos vôo, voamos acima deles e depois na frente. Empoleiramo-nos na bomba de gasolina enferrujada da Esso para observar a evolução das coisas.

      

      

Jack vem devagar pelo caminho do prédio meio desmoronado que fica num emaranhado de ervas daninhas e varas-de-ouro. Está procurando algum sinal de passagem, e só vê as marcas recentes deixadas pelo carro de Dale e Tom.

       — Temos o lugar para nós — ele informa Henry.

       — Sim, mas por quanto tempo?

       Não muito teria sido a resposta de Jack, caso ele tivesse se dado ao trabalho de responder. Em vez disso, ele estaciona ao lado do carro de Dale e salta. Henry abaixa o vidro, mas fica a postos, como lhe mandaram.

       A Lanchonete do Ed era uma simples construção de madeira mais ou menos do tamanho de um vagão de carga fechado da Burlington Northern e com o teto chato de um vagão. Na ponta sul, podia-se comprar sorvete de uma de três janelas. Na norte, podia-se pegar o cachorro-quente infecto ou o peixe com fritas para viagem mais infecto ainda. No meio, havia um pequeno restaurante com um balcão e bancos de assento vermelho onde se podia comer sentado. Agora a ponta sul desmoronou toda, provavelmente com o peso da neve. Todas as janelas foram arrombadas. Há algumas pichações — Fulano chupa pau, fodemos Patty Jarvis até ela berrar, TROY AMA MARYANN —, mas não tantas quanto Jack talvez esperasse. Todos os bancos exceto um foram pilhados. Grilos conversam na grama. São ruidosos, mas não tanto quanto as moscas dentro do restaurante em ruínas. Há montes de moscas lá dentro, uma convenção de moscas em regra acontecendo. E...

       — Está sentindo o cheiro? — Dale lhe pergunta.

       Jack faz que sim com a cabeça. Claro que está. Já o sentiu hoje, mas agora é pior. Porque ali há mais pedaços de Irma para feder. Muito mais do que caberia apenas numa caixa de sapatos.

       Tom Lund arranjou um lenço e está enxugando a cara larga e desolada. Está quente, mas não o suficiente para justificar o suor que lhe escorre do rosto e da testa. E sua pele está lívida.

       — Policial Lund — Jack diz.

       — Hã!

       Tom pula e olha para Jack de forma bastante descontrolada.

       — Talvez você tenha que vomitar. Se sentir que precisa, vomite lá.

       — Jack aponta para uma trilha tomada pelo mato, ainda mais antiga e mal definida do que a que sai da estrada principal. Esta parece serpear em direção à Goltz’s.

       — Já vai passar — diz Tom.

       — Sei que vai. Mas, se precisar descarregar, não faça isso em cima do que pode ser uma prova.

       — Quero que você comece a cercar o prédio todo com fita amarela — diz Dale a seu policial. — Jack? Uma palavra?

       Dale pega o braço de Jack e vai se encaminhando de volta para a picape. Embora tenha muitas coisas na cabeça, Jack nota quão forte é essa mão. E ela não está tremendo. Ainda não, pelo menos.

       — O que é? — Jack pergunta impacientemente quando estão perto da janela do carona da picape. — Queremos ver antes que o mundo inteiro chegue aqui, não? Não era essa a idéia ou eu...

       — Você precisa pegar o pé, Jack — Dale diz. E depois: — Oi, tio Henry, você está bonito.

       — Obrigado — diz Henry.

       — De que você está falando? — pergunta Jack. — Aquele pé é uma prova.

       Dale faz que sim com a cabeça.

       — Acho que deve ser uma prova encontrada aqui, porém. A não ser, obviamente, que você goste da idéia de passar 24 horas respondendo a perguntas em Madison.

       Jack abre a boca para dizer a Dale que não perca o pouco tempo que eles têm com idiotices completas, depois torna a fechá-la. De repente lhe ocorre o que a posse daquele pé pode parecer a sabichões principiantes como os detetives Brown e Black. Talvez até para um sabichão profissional como John Redding do FBI. Tira brilhante se aposenta cedíssimo e se muda para a extremamente bucólica cidade de French Landing, Wisconsin. Ele tem muita grana, mas a fonte de renda é nebulosa, para dizer o mínimo. E, ah, olhe para isso, de repente tem um assassino serial em ação na vizinhança.

       Talvez o tira brilhante tenha um parafuso solto. Talvez ele seja como aqueles bombeiros que gostam tanto das lindas chamas que viram incendiários. Certamente o Pelotão da Cor tivesse que se perguntar por que o Pescador enviaria para alguém que se aposentou precocemente como Jack o pedaço do corpo de uma vítima. E um boné, pensa Jack. Não esqueça o boné de beisebol de Ty.

       De repente ele sabe como Dale se sentiu quando Jack disse-lhe que o telefone da 7-Eleven tinha que ser isolado. Exatamente.

       — Ah, cara — ele diz. — Você está certo. — Olha para Tom Lund, industriosamente esticando o cordão amarelo da polícia enquanto borboletas dançam em volta de seus ombros e as moscas prosseguem com sua zoeira bêbada nas sombras da Lanchonete do Ed. — E ele?

       — Tom vai ficar de boca fechada — diz Dale, e depois disso Jack resolve confiar nele. Não confiaria, se fosse o Húngaro.

       — Fico lhe devendo uma — diz Jack.

       — É — concorda Henry de seu lugar no banco do carona. — Até um cego poderia ver que ele lhe deve uma.

       — Cale a boca, tio Henry — diz Dale.

       — Sim, mon capitaine.

       — E o boné? — pergunta Jack.

       — Se acharmos mais alguma coisa de Ty Marshall... — Dale faz uma pausa, depois engole em seco. — Ou o próprio Ty, deixamos o boné. Se não, por enquanto, você o guarda.

       — Acho que talvez você tenha me poupado um aborrecimento importante — diz Jack, levando Dale para a traseira da picape. Ele abre uma caixa de aço inoxidável atrás da cabine, a qual não se deu ao trabalho de trancar para a viagem até ali, e tira um dos sacos de lixo. De dentro, vem o chape da água e o tilintar de algumas pedras de gelo remanescentes. — Da próxima vez que começar a se sentir bobo, você pode se lembrar disso.

       Dale ignora completamente essa observação.

       — Aimeudeus — ele diz numa palavra só.

       Está olhando para a bolsa plástica que acaba de emergir do saco de lixo. Há gotas d’água grudadas nos lados transparentes.

       — Que cheiro! — Henry diz com inegável angústia. — Ai, Coitadinha.

       — Você sente o cheiro mesmo através do plástico? — Jack pergunta.

       — Sinto, sim. E vindo dali. — Henry aponta para o restaurante em ruínas e depois pega os cigarros. — Se soubesse, eu teria trazido um vidro de Vick e um El Producto.

       De qualquer maneira, não há necessidade de passar com a bolsa contendo o artefato macabro perto de Tom Lund, que agora desapareceu atrás das ruínas com seu carretel de fita amarela.

       — Vá lá dentro — Dale instrui Jack baixinho. — Dê uma olhada e cuide da coisa dentro dessa bolsa de plástico se você encontrar... sabe... a menina. Quero falar com Tom.

       Jack passa pelo vão torto e sem porta e chega ao fedor mais intenso. Lá fora, ele ouve Dale dando instruções a Tom para que, tão logo Pam Stevens e Danny Tcheda cheguem, ele os mande voltar ao final da estrada de acesso, onde eles servirão de controladores de passaporte.

       O interior da Lanchonete do Ed provavelmente estará bem claro à tarde, mas agora está sombrio, iluminado principalmente por raios de sol malucos, entrecruzados. Galáxias de poeira giram preguiçosamente por eles. Jack pisa com cuidado, desejando ter uma lanterna, mas não querendo ir pegar uma no carro até resolver o problema do pé. (Ele pensa nisso como “redistribuição estratégica”.) Há rastros humanos na poeira, lixo e montes de penas cinzentas velhas. Os rastros são de adulto. Entrelaçando-se nele, há as pegadas de um cachorro. A sua esquerda, Jack avista um montinho de excrementos bem-feito. Ele contorna os vestígios enferrujados de uma grelha a gás virada para baixo e segue os dois pares de pegadas em volta do balcão imundo. Lá fora, vem subindo a segunda radiopatrulha de French Landing. Ali, naquele mundo mais escuro, o zumbido das moscas virou um rugido suave e o fedor... o fedor...

       Jack pega um lenço no bolso e o coloca no nariz ao seguir os rastros para a cozinha. Aqui as marcas de pata se multiplicam e as pegadas humanas desaparecem completamente. Jack pensa com preocupação no círculo de relva batida que ele fez no campo daquele outro mundo, um círculo sem nenhuma trilha batida levando até ele.

       Encostado na parede em frente, próximo a uma poça de sangue seco, está o que resta de Irma Freneau. Sua cabeleira louro-ruiva imunda felizmente lhe esconde o rosto. Acima dela, num pedaço de lata que provavelmente servia de anteparo para o óleo das frigideiras, duas palavras foram escritas com o que Jack tem certeza de que era uma caneta marca-texto preta.

      

                Oi meninos

      

       — Ai, porra — Dale Gilbertson diz quase logo atrás dele, e Jack por pouco não grita.

      

      

Lá fora, o bafafá começa quase imediatamente.

       No meio da estrada de acesso, Danny e Pam (nem um pouco desapontados por terem sido designados para ficar de guarda depois que viram a ruína desmoronada da Lanchonete do Ed e sentiram o cheiro que vinha de lá) quase batem de frente com uma picape International Harvester que vem subindo na direção da lanchonete bem a uns 60 quilômetros por hora. Felizmente, Pam dá uma guinada para a direita, e o motorista da picape — Teddy Runkleman — dá uma para a esquerda. Os veículos não se chocam por alguns centímetros e entram no capim dos dois lados desse pobre arremedo de estrada. O pára-choque da picape bate numa pequena bétula.

       Pam e Danny saem de sua unidade, o coração palpitando, a adrenalina jorrando. Quatro homens saltam da cabine da picape como palhaços saltando de um carrinho no circo. A Sra. Morton reconheceria todos eles como fregueses assíduos da Roy’s Store. Ela os chamaria de preguiçosos.

       — O que em nome de Deus vocês estão fazendo! — ruge Danny Tcheda. Sua mão cai na coronha da pistola e depois desce com relutância. Ele está ficando com dor de cabeça.

       Os homens (Runkleman é o único cujo nome os policiais sabem, embora eles reconheçam a fisionomia dos outros três) estão com os olhos arregalados de excitação.

       — Quantos vocês acharam? — um deles cospe. Pam pode mesmo ver a saliva espirrando no ar da manhã, uma visão a qual ela poderia passar sem. — Quantos o filho da mãe matou?

       Pam e Danny trocam um único olhar desolado. E antes que eles respondam, santo Deus, lá vem um velho Chevrolet Bel Air com mais quatro ou cinco homens dentro. Não, um dos passageiros é mulher. Eles param e saltam do carro, também como palhaços saltando do carrinho.

       Mas nós somos os verdadeiros palhaços, Pam pensa. Nós.

       Pam e Danny estão cercados por oito homens semi-histéricos e uma mulher semi-histérica, todos fazendo perguntas.

       — Diabo, vou lá em cima ver pessoalmente! — grita Teddy Runkleman, quase com júbilo, e Danny percebe que a situação está quase fugindo do controle. Se esses malucos subirem o resto da estrada de acesso, Dale primeiro vai lhe abrir um cu novo e depois vai salgá-lo.

       — PAREM AÍ MESMO, VOCÊS TODOS! — ele grita, e saca de fato a pistola.

       E a primeira vez que faz isso, e odeia o peso dela na mão — esses aí são pessoas comuns, afinal de contas, não bandidos —, mas isso lhes chama a atenção.

       — Isso é um local de crime — diz Pam, finalmente conseguindo falar num tom de voz normal. Ela dá um passo para o motorista do Chevrolet. — Quem é o senhor? — Um Saknessum? Parece um Saknessum.

       — Freddy — ele admite.

       — Bem, volte para o seu veículo, Freddy Saknessum, e vocês que vieram com ele também, caiam fora daqui de marcha à ré. Não se dêem ao trabalho de fazer a manobra, vocês vão ficar entalados.

       — Mas... — começa a mulher.

       Pam acha que ela é uma Sanger, um clã de imbecis, se algum dia isso existiu.                                                   

       — Entre no carro e vá embora — Pam lhe diz.

       — E você, logo atrás dele — Danny diz a Teddy Runkleman. Ele só espera em Cristo que não venha mais ninguém, senão eles vão acabar tendo que administrar uma parada ao contrário. Ele não sabe como a notícia se espalhou, e neste momento não pode se dar ao luxo de se importar com isso. — A menos que queira ser citado por interferir com uma investigação policial. Isso pode fazê-lo pegar cinco anos.

       Danny não tem idéia se existe tal acusação, mas ela os bota para correr mais do que a visão de sua pistola.

       O Chevrolet dá ré, rabeando. A picape de Runkleman segue atrás, com dois dos homens de pé na caçamba, olhando por cima da cabine, tentando ver pelo menos o telhado do restaurante. A curiosidade lhes dá uma aparência desagradável de falta de inteligência. O carro da polícia vem por último, pastoreando o carro velho e a picape mais velha ainda como um cachorro Corgi pastoreando ovelhas, agora com as luzes da capota piscando. Pam é obrigada a ir a maior parte do tempo com o pé no freio, e, enquanto dirige, deixa escapar baixinho uma torrente de palavras que sua mãe nunca lhe ensinou.

       — Com essa boca você beija seus filhos antes de eles irem dormir? — pergunta Danny, não sem admiração.

       — Cale a boca — responde ela. Depois: — Tem uma aspirina aí?

       — Eu ia lhe perguntar a mesma coisa — diz Danny.

       Eles voltam para a estrada principal na hora H. Vêm vindo mais três veículos da direção de French Landing, dois da direção de Centralia e Arden. Ouve-se uma sirene no ar que vai esquentando. Outra radiopatrulha, a terceira no que deveria ser uma fila discreta, vem vindo, passando pelos curiosos da cidade.                       

       — Ih, cara. — Danny parece à beira das lágrimas. — Ih, cara, ih, cara, ih cara. Vai ser um carnaval, e aposto que os caras da Estadual ainda não sabem. Eles vão ter um treco. Dale vai ter um treco.

       — Vai dar tudo certo — diz Pam. — Fique calmo. Vamos só atravessar a estrada e estacionar. Bote também sua pistola de volta na porra do coldre.

       — Sim, Mamãe. — Ele guarda a arma enquanto Pam manobra na estrada de acesso, recuando para deixar passar a terceira radiopatrulha, e vindo à frente novamente para bloquear a passagem. — É, talvez a gente tenha chegado a tempo para controlar a coisa.

       — Claro que chegamos.

       Eles relaxam um pouco. Ambos esqueceram o trecho de estrada que vai da Lanchonete do Ed até a Goltz’s, mas há muita gente na cidade que o conhece. Beezer St. Pierre e seus rapazes, por exemplo. E embora Wendell Green não o conheça, caras como ele parecem sempre conseguir achar a estrada secundária. É algo instintivo neles.

 

 

A jornada de Beezer começou com Myrtle Harrington, a amorosa esposa de Michael Harrington, sussurrando ao telefone para Richie Bumstead, por quem ela tem uma paixonite aguda embora ele tenha sido casado com sua segunda melhor amiga, Glad, que caiu morta na cozinha com a incrível idade de 31 anos. De sua parte, Richie Bumstead já recebeu de Myrtle uma cota de caçarolas de macarrão com atum e telefonemas sussurrados que dá para o resto desta vida e de mais duas, mas este é um conjunto de sussurros que ele está feliz, até estranhamente aliviado, em ouvir, porque é motorista de caminhão da Companhia Cervejaria Kingsland e conhece Beezer St. Pierre e o resto dos rapazes, pelo menos um pouco.

       A princípio, Richie pensou que os Thunder Five eram um bando de arruaceiros, aqueles caras grandões e cabeludos e barbudos atravessando a cidade em suas Harleys, mas, numa sexta-feira, ele por acaso estava ao lado de alguém chamado Ratinho na fila do pagamento, e Ratinho olhou para ele e disse algo engraçado sobre como trabalhar por amor nunca fez o contracheque parecer maior, e eles iniciaram uma conversa que deixou Richie Bumstead tonto. Duas noites depois, ele viu Beezer St. Pierre e alguém chamado Doc batendo papo no pátio no fim do expediente dele, e depois de ter trancado o caminhão para a noite, foi até eles e entrou em outra conversa que o deixou como se tivesse entrado numa combinação de bar de blues quente e um campeonato de Jeopardy!* Esses caras — Beezer, Ratinho, Doc, Sonny e Kaiser Bill — pareciam violentos e da pesada, mas eram espertos. Acontece que Beezer era o cervejeiro-chefe da divisão de projetos especiais da Cerveja Kingsland, e os outros caras eram subordinados a ele. Eles todos tinham feito faculdade. Estavam interessados em fazer uma ótima cerveja e se divertir, e Richie desejou poder comprar uma moto, relaxar e fazer o que quisesse, como eles, mas uma longa tarde de sábado entrando noite adentro no Sand Bar provou que a linha entre uma boa farra e o desregramento total era muito tênue para ele. Ele não tinha resistência para botar para dentro duas canecas de Kingsland, jogar uma partida decente de bilhar, beber mais duas canecas enquanto discutia as influências de Sherwood Anderson e Gertrude Stein no jovem Hemingway, começar um ataque sério, beber mais duas canecas, emergir disso tudo com a cabeça suficientemente no lugar para sair a toda pelo campo, pegar duas garotas que topam tudo de Madison, queimar muito baseado do bom e trepar até de madrugada. Você tem que respeitar quem consegue fazer isso e ainda segurar um emprego bom.

      

* Programa de perguntas da televisão americana. [N. da T.]