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A CONDESSA DE CHARNY Vol. II / Alexandre Dumas
A CONDESSA DE CHARNY Vol. II / Alexandre Dumas

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A CONDESSA DE CHARNY

Volume II

 

O que é o acaso!

      Agora cumpre saber a maneira como mestre Gamain passara do estado quase cataléptico em que o deixámos, para o estado quase natural em que o vemos.

      O dono da taberna da ponte de Sèvres estava deitado, e nem o mais pequeno vislumbre de luz se enxergava no interior quando as primeiras pancadas do filantropo que recolhera mestre Gamain retiniram à sua porta.

      Estas pancadas eram aplicadas por tal modo, que não davam lugar a acreditar que os donos da casa, por muito sonolentos que fossem pudessem desfrutar um longo descanso na presença de semelhante ataque.

      Por isso, mal acordado, cambaleando e resmungando, o taberneiro foi em pessoa abrir a porta aos que tão rudemente o despertavam, na resolução de lhes administrar uma recompensa digna do desarranjo que lhe tinham causado, se porventura, como ele costumava dizer, o jogo não valesse uma vela.

      Parece, contudo, que o jogo contrabalançava, pelo menos, a tal vela; por isso que às primeiras palavras que o homem que batia de tão irreverente maneira, dirigiu em voz baixa ao dono da taberna da ponte de Sèvres, tirou o seu barrete de algodão, fazendo muitas reverências, que o seu trajo tornava singularmente grotescas, e foi introduzindo mestre Gamain e o seu companheiro no pequeno gabinete, onde já vimos o serralheiro saboreando o famoso borgonha, seu licor favorito.

      Mas desta vez, como saboreara em demasia, o pobre Gamain estava quase sem sentidos.

      Em primeiro lugar, como cocheiro e cavalos tinham feito cada qual o seu dever, um com o chicote, os outros com as pernas, principiou o desconhecido por se exonerar da sua obrigação, juntando, a título de gorjeta, uma peça de vinte e quatro soldos ao escudo de seis libras, que já tinha dado por pagamento.

      E vendo depois mestre Gamain todo repimpado numa cadeira, com uma mesa diante de si, mandou logo buscar para o seu hóspede duas garrafas de vinho, e outra com água, abrindo ele mesmo a janela, para dar saída ao ar mafítico que se respirava no interior da casa.

      Noutra qualquer circunstância, esta precaução teria sido comprometedora; com efeito, qualquer observador sabe perfeitamente que há só uma casta de gente que precisa respirar o ar natural, isto é, composta de setenta e nove partes de oxigénio, e de vinte e uma de azote, ao passo que o vulgo, costumado às suas habitações infectas, absorve o ar sem a menor dificuldade, por mais impregnado que ele esteja de elementos estranhos à sua composição primitiva.

      Felizmente, ninguém ali estava que pudesse fazer esta observação; o próprio taberneiro, depois de trazer rapidamente as duas garrafas de vinho, e mais vagarosamente a da água, retirara-se respeitoso, deixando o desconhecido a sós com mestre Gamain.

      O primeiro, como já dissemos, tivera o cuidado de renovar o ar; depois, antes de fechar novamente a janela, aproximara um frasquinho ao nariz dilatado e sibilante do serralheiro, que se achava ainda lutando com o nojento sono da embriaguez, sono que decerto extinguiria nos bêbedos o amor do vinho, se por um milagre da Providência eles pudessem ver uma só vez quanto tem de nauseabundo!

      Ao aspirar o cheiro penetrante do licor contido no frasquinho, abrira mestre Gamain os olhos, espirrando imediatamente com a maior força; depois murmurou algumas palavras ininteligíveis para outro qualquer filólogo experimentado, que, ouvindo-as com profunda atenção, conseguiu distinguir estas três ou quatro palavras:

      - O... maldito!... envenenou-me!...

      O espingardeiro pareceu reconhecer com satisfação que mestre Gamain continuava a estar dominado pela mesma idéia. Aproximou-lhe de novo o frasquinho ao nariz, o que deu mais algumas forças ao digno filho de Noé, permitindo-lhe completar o sentido da sua frase, e ajuntando às palavras, já pronunciadas, as duas outras que se seguem, acusação tanto mais terrível, que denotava ao mesmo tempo um abuso de confiança e um esquecimento de coração:

      - Envenenar... um amigo... um amigo!...

      - Na verdade, é horrível! - observou o espingardeiro.

      - Horrível! - balbuciou Gamain.

      - Infame! - replicou o primeiro.

      - Infame! - repetiu o segundo.

      - Felizmente - disse o espingardeiro - que eu estava presente para lhe ministrar o contraveneno.

      - É verdade... felizmente... - murmurou Gamain.

      - Mas, como uma só dose não é suficiente para semelhante envenenamento - acrescentou o desconhecido - tome, beba mais esta.

      E em meio copo de água deitou cinco ou seis gotas do licor que o frasquinho continha, e que não era outra coisa mais do que amoníaco dissolvido.

      Depois chegou o copo aos lábios de Gamain.

      - Ah! Ah! - balbuciou este; - é para beber? Tanto melhor! Antes pela boca do que pelo nariz.

      E bebeu com avidez o que o copo continha.

      Mas apenas engoliu o licor diabólico, arregalou consideravelmente os olhos, gritando entre os dois espirros:

      - Ah! Celerado! Que me deste tu a beber!... Irra!...

      - Meu caro - respondeu o desconhecido - é um licor que lhe há-de salvar a vida.

      - Ah! - replicou Gamain - se este licor me salva a vida, fez bem em mo dar; mas quem diabo pode chamar a isto licor?...

      E tornou a espirrar, limpando a boca e arregalando cada vez mais os olhos, como a máscara da tragédia antiga.

      O desconhecido aproveitou este momento para ir fechar, não a janela, mas as portas de dentro.

      Não foi sem algum proveito que Gamain abriu os olhos segunda ou terceira vez; apesar deste movimento ser convulso, o mestre serralheiro circunvagou a vista, e, com o profundo sentimento de afecto que têm os bêbedos para com as paredes de uma taberna, conheceu que aquela onde se achava era muito familiar.

      Efectivamente, nas freqüentes viagens que o ofício o obrigava a fazer a Paris, era raro que não se descansasse na taberna da ponte de Sèvres; aquele descanso era-lhe quase indispensável porque a taberna marcava aproximadamente metade do caminho.

      O reconhecimento produziu o seu efeito: em primeiro lugar inspirou ao mestre serralheiro grande confiança, provando-lhe que se achava em país amigo.

      - Eh! Eh! - exclamou ele - muito bem! Segundo vejo, já tenho meio caminho andado.

      - É verdade, mas a mim o deve - disse o espingardeiro.

      - Como é isso? - Balbuciou Gamain levantando os olhos dos objectos inanimados para os objectos vivos; - ao senhor o devo!... Então quem é o senhor?

      Gamain olhou para o seu interlocutor com mais atenção do que da primeira vez, e disse:

      - Espere... espere; parece-me, sim, não há dúvida, que já o vi...

      - Ora graças a Deus!

      - Sim, sim, sim... mas quando e onde? Isso é que não me lembra.

      - Onde? Olhe em volta de si, que talvez os objectos que o cercam ajudem um pouco a sua memória... Quando foi? Isso é outra coisa. Talvez seja necessário administrar-lhe uma nova dose de contraveneno para o habilitar a dizê-lo.

      - Não, obrigado - disse Gamain estendendo os braços - já tomei demais, estou farto do seu contraveneno; uma vez que me sinto quase restabelecido, dou-me por satisfeito... Onde o vi?... Foi aqui mesmo!

      - Ora graças a Deus!

      - Quando o vi? Espere... foi no dia em que voltava de fazer em Paris uma certa obra... secreta... Parece - acrescentou Gamain a rir - que a Providência me destinou para essas obras!

      - Muito bem... E agora, quem sou eu?

      -Quem é?... É um homem que me convidou para beber, e por conseqüência um homem de bem! Toque, amigo!

      - Com tanto mais prazer - disse o desconhecido - que de mestre serralheiro a mestre espingardeiro a diferença não é nenhuma.

      - Ah! Bom, bom! Agora me recordo!... Sim, foi no dia 6 de Outubro, no dia em que o rei voltou a Paris, e em que falámos um pouco a respeito dele.

      - Por sinal que achei a sua conversação das mais interessantes, mestre Gamain, o que faz que, desejando ouvi-lo outra vez, por isso que recupera a memória, me resolva a perguntar-lhe, se não for indiscrição, o que fazia o senhor, há-de haver uma hora, estirado ao comprido no meio da estrada, e a vinte passos de um carro carregado de fardos, prestes a esmagá-lo, e que decerto o esmagaria, se eu não interviesse? Tem acaso alguns desgostos, mestre Gamain, e teria tomado a fatal resolução de se suicidar!

      - Suicidar-me eu!... Decerto que não! Que fazia eu estirado no meio da estrada?... Seria de facto eu?

      - Ora essa! Olhe para si.

      Gamain percorreu o fato com a vista e disse:

      - Oh! Oh! Quem há-de ouvir a minha mulher! Ela que ainda ontem me dizia: “Não leves o teu fato novo, leva a tua véstia usada; para ires às Tulherias é quanto basta”.

      - Para ir às Tulherias? Pois vinha das Tulherias, quando o encontrei?

      Gamain coçou na cabeça, procurando assim reunir as idéias ainda em desordem.

      - Sim, sim... é isso mesmo, disse ele; não há dúvida que vinha das Tulherias... Não é nenhum mistério, todos sabem que fui mestre do Sr. Veto.

      - Como? Do Sr. Veto! A quem chama o Sr. Veto?

      - Pois não sabe que é o nome que dão ao rei? Donde diabo vem o senhor? Vem acaso da China?

      - Eu só me ocupo do meu ofício, e não me meto em política.

      - Feliz homem!... Pois eu ocupo-me dela, infelizmente, ou por melhor dizer, obrigam-me a isso... É o que me há-de perder!

      Mestre Gamain ergueu os olhos ao Céu e em seguida deu um suspiro.

      - Foi chamado a Paris para fazer alguma obra no género daquela que vinha de fazer na primeira vez que o encontrei? - perguntou o desconhecido.

      - Nem mais, nem menos... só com a diferença que então não sabia aonde ia, porque tinha os olhos vendados, ao passo que agora sabia muito bem para onde me dirigia, porque tinha os olhos abertos.

      - De sorte que lhe não custou muito conhecer as Tulherias?

      - As Tulherias! - disse Gamain admirado – quem lhe disse que eu fui às Tulherias?

      - O senhor mesmo, ainda há um instante. Como havia eu de saber que vinha de lá se mo não dissesse?

      - É verdade - disse Gamain falando consigo - como podia ele saber semelhante coisa, se eu lho não dissesse?...

      Depois, dirigindo-se ao desconhecido:

      - Fiz mal, talvez, em lho dizer; mas deixá-lo; o senhor não é como toda a gente. Se lho disse, está dito, não me desdigo; fui às Tulherias.

      - E - replicou o desconhecido - trabalhou com o rei, que lhe deu os vinte e cinco luíses que tem no bolso, não é assim?

      - Hein? - disse Gamain; - efectivamente, trazia vinte e cinco luíses no bolso.

      - E ainda os traz, meu amigo.

      Gamain meteu rapidamente a mão nas profundezas do bolso, donde tirou um punhado de ouro misturado com algumas moedas de prata e de cobre, e disse:

      - Espere, espere; cinco, seis, sete... bom! E eu que já me não lembrava de semelhante coisa! Doze, treze, catorze... É que vinte e cinco luíses já são uma continha, que no tempo presente não se encontra debaixo dos pés!... Vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco!... Ah! - continuou Gamain, respirando com mais desafogo - graças a Deus, não falta nem um soldo!

      - Não lho dizia eu? Podia acreditar-me logo.

      - Ao senhor? Então como sabia que eu possuía esta soma?

      - Meu caro Sr. Gamain, já tive a honra de lhe dizer que o encontrei estendido no meio da estrada, a vinte passos de um carro carregado de fardos, que quase o ia esmagando. Mandei parar o carro; chamei uma carruagem que passava naquela ocasião; tirei uma das lanternas, e quando o examinava vi dois ou três luíses de ouro, que brilhavam no chão; como estavam ao lado do seu bolso, entendi que dali tinham caído, examinei o bolso, e por uns vinte luíses mais que encontrei, conheci que me não tinha enganado. Mas o cocheiro, vendo tanto ouro, abanou a cabeça e disse:

      “- Não, senhor, não!”

      “- Como não?”

      “- Não, não levarei esse homem.”

      “- E por que não o leva?”

      “- Porque é rico demais para o fato que veste... Vinte e cinco luíses em ouro na algibeira de um colete de algodão, cheira de longe a enforcado.”

      “- Como? - perguntei eu - julga que seja algum ladrão?”

      Tal palavra parece que o impressionou, porque disse:

      “- Ladrão! Eu ladrão!”

      “- Sim, ladrão - redargüiu o cocheiro; - se o não fosse, como teria no bolso vinte e cinco luíses?”

      “- Tenho vinte e cinco luíses no bolso, porque o meu discípulo, o rei de França, mos quis dar! Respondeu o senhor.”

      “- Com efeito, a estas palavras pareceu-me conhecê-lo; aproximei-lhe a lanterna da cara e exclamei: Tudo se explica; é o Sr. Gamain, mestre serralheiro em Versalhes, que vem de trabalhar com o rei, e que recebeu dele vinte e cinco luíses... Vamos, respondo por ele. Então o cocheiro não pôs mais dificuldades. Meti-lhe no bolso os luíses que tinham caído, e pusemo-lo cuidadosamente na carruagem; eu subi para a almofada, parámos à porta desta taberna, e ei-lo aqui, não tendo, Deus louvado, de queixar-se de mais nada, senão do abandono do seu aprendiz.”

      - Pois eu falei do meu aprendiz? Queixei-me porventura dele me ter abandonado? Ora essa! – exclamou Gamain cada vez mais admirado.

      - Ora aí está! Já se não lembra do que disse! Como? Pois não disse há pouco: “Foi por culpa daquele maroto do...” Já me não recordo do nome que disse...

      - Luís Lecomte!

      - É isso mesmo... Como? pois não disse há pouco: “Foi por culpa daquele maroto do Luís Lecomte, que tinha prometido voltar comigo a Versalhes, e que desapareceu no momento da partida?”

      - O facto é que eu podia dizer tudo isso, porque é a pura verdade.

      - Pois bem, se é verdade por que o nega? Não sabe que, se não fosse eu, seriam todos esses mistérios perigosíssimos neste tempo?

      - Sim, mas com o senhor... - disse Gamain, afagando o desconhecido.

      - Comigo... Que quer isso dizer?

      - Quer dizer com um amigo!

      - Ah! Sim, parece ter muita confiança no seu amigo! Disse-lhe sim, e depois não; disse-lhe é verdade, e depois que não é! É como da outra vez que me contou uma história, que seria necessário ser muito tolo para acreditá-la!

      - Que história?

      - A história da porta secreta que foi chapear a casa de um grande senhor, de quem nem sequer soube dizer-me a morada.

      - Pois bem, quer me acredite, quer não, desta vez tratou-se também de uma porta.

      - No palácio do rei?

      - Sim, senhor, no palácio do rei... Só com a diferença que, desta vez em lugar de ser uma porta de escada era uma porta de armário.

      - E é capaz de me fazer acreditar que o rei, que entende de serralharia, o mandava chamar para lhe chapear uma porta? Ora adeus!

      - Pois é como lhe digo. Ah! O pobre homem julgava que podia passar sem mim; tinha começado a fechadura dardar! “Para que preciso eu de Gamain? De que serve Gamain?” Não há dúvida; mas atrapalha-se nas barbas e nas lingüetas, e é necessário então recorrer ao pobre Gamain.

      - Então mandou-o chamar por algum criado de confiança, por Durey ou por Weber?

      - É justamente no que se engana. Tinha tomado para o ajudar um operário que ainda sabia menos do que ele; de sorte que numa manhã, apareceu-me o rapaz em Versalhes, e disse-me:

      “- Mestre Gamain, o rei e eu quisemos fazer uma fechadura; mas nem para trás nem para diante!”

      “- Que quer que faça?”

      “- Que a ponha em estado de trabalhar, e que não leve muito tempo, pois que é precisa, por estes dias!”

      E como lhe dissesse:

      “- Isso não é verdade, não vem da parte do rei; é um laço que me querem armar”; respondeu-me:

      - Ora! A prova é que o rei me encarregou de lhe entregar vinte e cinco luíses!

      “- Vinte e cinco luíses - disse eu - onde estão eles?”

      “- Estão aqui!”

      E entregou-mos.

      - São então os vinte e cinco luíses que traz no bolso? - perguntou o espingardeiro.

      - Não, esses são outros... Os vinte e cinco primeiros eram por conta.

      - Safa! Cinqüenta luíses só para arranjar uma fechadura! Mestre Gamain! Aqui anda o que quer que seja!

      - Assim me parece... tanto mais que o tal operário...

      - E então?

      - Desconfio dele; parece-me que quer inculcar o que não é... Devia tê-lo interrogado mais cuidadosamente, pedir-lhe notícia acerca do giro do mundo, perguntar-lhe o nome da nossa mãe comum.

      - Pois o senhor não é homem que se deixe enganar facilmente, ao examinar o trabalho de um aprendiz.

      -Não digo que não... Este meneava sofrivelmente a lima e o buril; vi-o cortar de um só golpe uma barra de ferro em brasa, brocar os metais com a maior facilidade; mas é necessário observar que em tudo isto havia mais teoria do que prática. Ainda bem não tinha concluído o seu trabalho, ia logo lavar as mãos, que vinham brancas... brancas... Como se as mãos de um verdadeiro serralheiro se fizessem brancas!... Pois não! Que fosse eu lavar as minhas!

      E dizendo isto, mostrava Gamain, com uma espécie de orgulho, as suas mãos calosas e denegridas, que efectivamente pareciam desafiar todos os sabonetes do mundo.

      - Mas enfim - replicou o desconhecido chamando o serralheiro ao objecto que julgava mais interessante - que fez quando chegou ao palácio?

      - Em primeiro lugar, parece-me que já nos esperavam... Fizeram-nos entrar na oficina, onde o rei me apresentou uma fechadura, menos mal principiada, mas que não ia nem para trás nem para diante... Por vida minha! Uma fechadura de três lingüetas nem todos os serralheiros são capazes de a fazer, e menos ainda os reis; isto é claro... Examinei-a; vi o que faltava e disse logo: “Está bem; deixe-me sozinho uma hora, que dentro dela ficará concluído o negócio!” O rei respondeu-me então:

      “Bom, Gamain, meu amigo, estás em tua casa; aí tens os utensílios necessários: trabalha, meu rapaz, trabalha... que nós vamos dispor o armário”. E dizendo isto, saiu com o maldito companheiro...

      - Pela escada pública? - perguntou negligentemente o espingardeiro.

      - Não, pela escadinha secreta, que vai dar a um gabinete de trabalho. Quando concluí a minha obra disse com os meus botões: “O armário é um pretexto; fecharam-se no gabinete para forjar algum conluio... Vou descer pé ante pé; abrirei de súbito a porta, e apanhá-los-ei com a boca na botija!”

      - E que viu então? - perguntou naturalmente o desconhecido.

      - Eu nada. Provavelmente estavam com o ouvido à escuta... Bem vê que não tenho passo de dançarina; fiz-me leve quanto era possível, mas a maldita escada rangia-me debaixo dos pés. Sentiram-me, fingiram que vinham ao meu encontro; e no momento em que punha a mão no fecho para abrir, trás! Abre-se a porta... Quem foi o logrado? Foi o Gamain!

      - Quem será?... Ah! Ah! É o Gamain? – exclamou o rei; - pois és tu?

      “- Sou eu, sou, sim, senhor - respondi-lhe – que já concluí a obra.”

      “- Também nós concluímos a nossa – redargüiu ele. - Agora vou encarregar-te de outro trabalho; vem comigo.”

      Fez-me atravessar rapidamente o gabinete! Mas não tão depressa que não visse estendida em cima de uma mesa uma grande carta geográfica, que me pareceu ser uma carta de França, porque tinha três flores de lis num dos cantos.

      - E não viu nada de extraordinário nessa carta? - perguntou o que se dizia espingardeiro.

      - Oh! Se vi!... Três compridas fileiras de alfinetes, que partiam do centro e afastando-se a alguma distância uns dos outros, pareciam caminhar para a extremidade da carta; dir-se-iam soldados marchando para a fronteira por três caminhos diferentes.

      - Na verdade, meu caro Gamain - disse o desconhecido afectando admiração - tem uma perspicácia a que nada pode escapar!... E julga que em lugar de se ocuparem do armário, o rei e o seu companheiro se ocupavam da carta, hein?

      - Tenho toda a certeza - respondeu Gamain.

      - Não pode ter tal certeza.

      - Posso tal.

      - Como?

      - Por uma razão muito simples; os alfinetes tinham as cabeças no ar; umas eram de lacre preto, outras de lacre azul, e outras de lacre encarnado; pois bem, o rei tinha na mão um alfinete de cabeça encarnada, com que descuidadamente palitava os dentes.

      - Ah! Gamain, meu amigo - disse o desconhecido - se eu descobrir algum novo sistema de espingardas, decerto que não o deixarei entrar na oficina, salvo se lhe vendassem os olhos como lhe fizeram no dia em que o conduziram a casa do tal alto personagem, que apesar dos olhos vendados, o meu amigo ainda conheceu que a tal escada tinha dez degraus e que a casa dava sobre o boulevard.

      - Espere, espere - disse Gamain, ufanando-se com os elogios que recebia; - ainda não disse tudo! Havia efectivamente ali um armário.

      - Ah!... E onde?

      - Onde! Adivinhe, se é capaz... Praticado na parede, meu amigo!

      - Em que parede?

      - Na parede do corredor interno, que vai da alcova do rei para o quarto do delfim!

      - É na verdade curiosíssimo o que me conta! E o armário estava de todo aberto?

      - Pois não! Por mais que arregalasse os olhos, nunca pude descobrir coisa nenhuma; perguntava a mim mesmo: “Onde diabo está o tal armário? O rei lançou, então os olhos em volta de si e disse-me: sempre tive confiança em ti, e por isso, só a ti quis confiar o meu segredo... Olha! E dizendo estas palavras, ao passo que o aprendiz nos alumiava, por isso que o dia não pôde penetrar naquele corredor, o rei levantou um quadro, que parecia pendurado na parede, e foi então que descobri um buraco redondo, que tinha pouco mais ou menos dois pés de diâmetro na entrada; depois, como me visse piscar os olhos para o aprendiz, o rei continuou sempre dirigindo-se a mim:

      “- Este buraco foi aberto para esconder algum dinheiro, e este moço ajudou-me no trabalho durante os quatro ou cinco dias que aqui esteve. Agora é preciso aplicar a fechadura a esta porta de ferro, que deve fechar de modo que o quadro volte ao seu lugar, e a dissimule, como já dissimulava o buraco. Queres que te ajudem? Este moço te ajudará; e se não precisas dele, encarregá-lo-ei de um trabalhinho particular.”

      “- Oh! - respondi eu - Vossa Majestade bem sabe que, quando posso fazer sozinho uma obra, não preciso que ninguém me ajude. Seriam necessárias quatro horas de trabalho a um operário; mas eu, como mestre, só careço de três... O rapaz que vá tratar dos negócios que tem a tratar, e Vossa Majestade dos seus, e se tiver alguma coisa que esconder neste buraco, volte daqui a três horas.”

      - É de crer que, como dissera o rei, reservasse ao nosso companheiro outra espécie de trabalho, porque não tornei a vê-lo. Só o rei me apareceu dali a três horas, dizendo:

      “- Então, Gamain que tens feito?

      - Está tudo pronto - respondi-lhe - mostrei-lhe a porta que era um gosto vê-la, não fazia a mais leve bulha, e a fechadura movia-se como um autómato!

      “- Bem - disse-me ele: - agora, Gamain, vais ajudar-me a contar o dinheiro que quero esconder”. E fez conduzir por um moço particular quatro sacos de dobrões de ouro, dizendo-me: “Contemos!”

      - Eu contei então um milhão e ele outra quantia igual; depois, como ficassem ainda vinte e cinco luíses, estendendo a mão, disse:

      “- Toma, Gamain, é pelo teu trabalho.”

      - Como se não fosse uma vergonha o fazer contar um milhão de luíses a um pobre homem, que tem mulher e cinco filhos, e dar-lhe a miséria de vinte e cinco luíses de recompensa!... Hein, que diz a isto?

      O desconhecido, fazendo um movimento com os lábios, disse-lhe:

      - Na verdade é mesquinho.

      - Espere, que ainda não é tudo. Pego nos vinte e cinco luíses, meto-os no bolso e digo: “Muito obrigado; mas apesar de tudo isto, desde manhã que não como nem bebo, estou morto de fome!” Ainda estas palavras não eram ditas, quando vejo entrar a rainha por uma porta oculta. Trazia na mão um prato, em que vinha um copo de vinho e um biscoito.

      “- Meu caro Gamain - me disse ela - se tem sede beba este copo de vinho, se tem fome coma este biscoito.”

      “- Ah! - respondi eu fazendo-lhe uma reverência - não precisava incomodar-se por minha causa, senhora; não valia a pena tanto trabalho.”

      - E que tal? Um copo de vinho a um homem que diz ter fome! Que diabo queria a rainha que eu fizesse de semelhante ninharia? Isto de reis não entendem de nada. Já se vê que ela nunca teve fome nem sede...

      - Vamos, recusou?

      - Deveria fazer mais do que isso, mas bebi-o; quanto ao biscoito embrulhei-o num lenço, dizendo com os meus botões: “O que não presta para o pai servirá para os filhos”. Depois agradeci a sua Majestade, como era meu dever, e pus-me logo a caminho, protestando que me não tornariam a ver nas Tulherias!

      - E por que razão não deveria ter aceitado o vinho?

      - Porque decerto lhe deitaram veneno!... Apenas passei a Pont-Tournant acometeu-me uma sede tão violenta, que tendo de um lado o rio e do outro algumas tabernas, hesitei um momento se não daria antes a preferência ao rio... Ah! Foi então que conheci a má qualidade do vinho que me deram! Quanto mais bebia, mais sede tinha! Isto durou até que perdi de todo os sentidos. Por isso, podem eles estar descansados, se por acaso me chamarem como testemunha contra eles, hei-de dizer que me deram apenas vinte e cinco luíses para me fazerem trabalhar quatro horas e contar um milhão, e que receando que eu denunciasse o lugar onde esconderam o seu tesouro, tiveram a pouca vergonha de me envenenar como se fosse um cão...1

      - E eu, meu caro Sr. Gamain - disse levantando-se o espingardeiro, que já sabia decerto o que queria saber - apoiarei o seu testemunho dizendo que fui eu que lhe ministrei o contra-veneno, graças ao qual tornou à vida.

      - É por isso - disse Gamain, apertando as mãos do desconhecido - que de hoje em diante seremos ambos amigos para a vida e para a morte!

      E recusando com uma sobriedade espartana o copo de vinho que, pela terceira ou quarta vez, lhe apresentava o amigo desconhecido, a quem acabava de jurar eterna amizade, Gamain, em quem o amoníaco fizera o seu duplo efeito, restituindo-lhe espontaneamente a razão, e desgostando-o por vinte e quatro horas de vinho, tomou de novo o caminho de Versalhes, onde chegou são e salvo pelas duas horas da madrugada com os vinte e cinco luíses do rei no bolso do colete, e com o biscoito da rainha embrulhado no lenço.

      O fingido espingardeiro, que ficara na taberna, tirou do seio uma carteirinha de tartaruga guarnecida de ouro, na qual escreveu a lápis o seguinte:

      Por detrás da alcova do rei, no corredor escuro, que conduz ao quarto do delfim - armário de ferro.

      Verificar se Luís Lecomte, aprendiz de serralheiro, não será simplesmente o conde Luís, filho do marquês de Bouillé, que há onze dias chegou de Metz.

 

A máquina de Guillotin

      Dali a dois dias, graças às singulares ramificações que Cagliostro possuía em todas as classes da sociedade, e até no serviço do rei, já sabia que o conde Luís de Bouillé chegara a Paris no dia 15 ou 16 de Novembro; que tinha sido descoberto por Lafayette, seu primo, no dia 18; que fora apresentado por ele a el-rei no mesmo dia; que se oferecera a Gamain como serralheiro no dia 22 e ficara três dias em casa deste; que no quarto partira com ele de Versalhes para Paris, e fora introduzido sem dificuldade até junto do rei; que saíra das Tulherias duas horas antes de Gamain; que entrara no aposento que ocupava em casa do seu amigo Achilles de Chasteler, que mudara imediatamente de fato, e que nessa mesma noite saíra na posta para Metz.

      Por outro lado, no dia seguinte àquele em que se deu a conferência nocturna no cemitério de Saint-Jean, entre Cagliostro e Beausire, viram correr este todo esbaforido em direcção a Bellevue e entrar em casa do banqueiro Zannone. Voltando do jogo pelas sete horas da manhã, depois de ter perdido o último luís, a despeito dos cálculos infalíveis que fizera, o nosso Beausire encontrou a casa completamente vazia; a Srª. Oliva e o menino Toussaint tinham desaparecido!

      Foi então que ocorreu de novo à memória de Beausire que o conde de Cagliostro se recusara a sair com ele, declarando que tinha alguma coisa confidencial que comunicar à Srª. Oliva. Era uma vereda aberta às conjecturas: a Srª. Oliva fora roubada pelo conde de Cagliostro! Como bom sabujo, Beausire farejara essa vereda, que foi seguindo até Bellevue. Chegado ali e anunciando-se foi logo conduzido à presença do barão Zannone, ou do conde de Cagliostro, que vem a ser a mesma coisa.

      Introduzido na sala que já conhecemos, por ter visto entrar ali, no começo desta história, o Dr. Gilberto e o marquês de Favras, e achando-se em face do conde, Beausire ficou como indeciso; afigurava-se-lhe o conde um alto personagem, e não se atrevia a reclamar-lhe a amante.

      Mas, como se pudesse ler no íntimo do pobre abandonado, Cagliostro disse:

      - Sr. de Beausire, tenho notado uma coisa, e vem a ser que não tem neste mundo mais do que duas paixões verdadeiras: o jogo e a Srª. Oliva.

      - Ai, Sr. conde! - exclamou Beausire - sabe o que aqui me traz?

      - Perfeitamente: procura Oliva, que está em minha casa.

      - Como! Pois está em casa de V. Exª.?

      - Está na minha residência da rua de Saint-Claude; encontrou aí o seu antigo alojamento, e se o senhor for discreto, e eu ficar satisfeito consigo, se me der algumas notícias que me interessem ou que me divirtam, logo que isso se realize, hei-de meter-lhe no bolso vinte e cinco luíses para ir ostentar de fidalgo ao Palais-Royal, e dar-lhe um fato elegante para ir à rua de Saint-Claude namoriscar o seu ídolo.

      Grande era o desejo que Beausire tinha de levantar a voz e de reclamar Oliva; mas Cagliostro dissera duas palavras acerca do monstruoso negócio de Portugal, que continuava a estar suspenso sobre a cabeça de Beausire, como a espada de Damocles, e por isso preferiu calar-se.

      Então, sobre a dúvida por ele manifestada, se a Srª. Oliva estaria na rua de Saint-Claude, o conde mandou pôr a carruagem, dirigiu-se com Beausire à casa do boulevard, introduziu-se no sanctum sanctorum, e aí desviando um quadro suspenso da parede, fez-lhe ver por uma abertura habilmente combinada a Srª. Oliva, vestida como uma rainha, lendo, reclinada num sofá, um daqueles maus livros, tão comuns naquela época, e em que encontrava o mais vivo prazer a antiga aia da Srª. de Taverney; o filho, o menino Toussaint, vestido como se fora filho de rei, com um chapéu branco à Henrique IV, guarnecido de plumas, calças azul celeste, e um cinto tricolor franjado de ouro, brincava com delicados bonitos.

      Então, sentira Beausire dilatar-se-lhe o coração de amante e de pai, prometera quanto o conde exigia, e este, fiel à sua palavra, permitia, nos dias em que Beausire lhe trouxesse alguma notícia, que depois de haver recebido da sua própria mão o pagamento em ouro, fosse receber, nos braços da Srª. Oliva, um prémio talvez mais apreciável, o do amor.

      Tudo marchava pois, segundo os desejos do conde, e quase podemos afirmar que segundo os desejos de Beausire, quando, no declinar do mês de Dezembro, pelas seis horas da manhã, o Dr. Gilberto, que trabalhava desde a hora e meia da noite, sentiu bater três pancadas na porta, reconhecendo pela sua cadência, que quem assim se anunciava era um irmão maçom.

      Foi portanto abrir. O conde de Cagliostro, com o sorriso nos lábios, estava de pé do outro lado da porta.

      Gilberto nunca se achava na presença daquele homem misterioso sem estremecer.

      - Ah - disse ele - é o conde! - e fazendo um esforço sobre si, e dando-lhe a mão, acrescentou: seja bem-vindo a qualquer hora que queira, e seja qual for o motivo que o traga.

      - O motivo que aqui me traz, meu caro Gilberto, - disse o conde - é o desejo de o fazer assistir a uma experiência filantrópica, de que tive a honra de falar-lhe.

      Gilberto procurou recordar-se, mas inutilmente, da experiência de que o conde lhe falara, e disse:

      - Não me recordo.

      -Venha, venha, meu caro Gilberto; não é debalde que venho incomodá-lo, sossegue. E demais, onde o conduzo, há-de encontrar algumas pessoas do seu conhecimento.

      - Querido conde - disse Gilberto - para toda a parte onde me conduza irei sempre com a maior satisfação, por ser o senhor o meu guia; o lugar onde vou, e as pessoas que aí devo encontrar, são para mim coisas secundárias.

      - Nesse caso não se demore, venha.

      Gilberto estava completamente vestido; não teve mais do que largar a pena que tinha na mão e pôr o chapéu.

      Feito isto, disse:

      - Conde, estou às suas ordens.

      - Então vamos - respondeu simplesmente o conde, pondo-se logo a andar.

      Gilberto seguiu-o.

      Esperava-os uma carruagem; ambos se meteram nela.

      Partiu imediatamente, sem que o conde tivesse dado ordem alguma; era evidente que o cocheiro já sabia para onde se dirigiam.

      Durante o quarto de hora que caminharam, observou Gilberto que atravessavam Paris e transpunham a barreira. Pararam então num grande pátio quadrado, dentro do qual se via uma casa de dois andares com janelas guarnecidas de grades de ferro.

      Assim que a carruagem penetrou no pátio, sentiu-se logo fechar a porta do mesmo.

      Ao apear-se, Gilberto conheceu que estava no pátio de uma prisão, e ao examiná-la, fácil lhe foi também conhecer a cadeia de Bicêtre.

      O lugar da cena, já bastante lúgubre pelo seu aspecto natural, mais lúgubre se tornava ainda pela claridade duvidosa, que parecia descer a custo, àquele taciturno pátio.

      Eram seis horas e um quarto da manhã, hora incómoda no Inverno, visto que é a hora em que o frio se torna sensível até às organizações mais robustas.

      No meio do pátio, cinco ou seis carpinteiros, sob a direcção de um indivíduo que parecia o mestre, e recebia as ordens de um homem baixo, vestido de preto, construíam uma máquina, de forma desconhecida e singular.

      À vista dos dois recém-chegados, o homem vestido de preto ergueu a cabeça.

      Gilberto estremeceu; acabava de conhecer o Dr. Guillotin, que tinha encontrado em casa de Marat: aquela máquina agora em ponto grande, era a mesma que vira em ponto pequeno no subterrâneo do redactor do jornal Amigo do Povo.

      Da sua parte, o homem baixo conheceu Cagliostro e Gilberto.

      A chegada daqueles dois personagens pareceu-lhe bastante importante para que deixasse por um momento a direcção do seu trabalho; dirigiu-se portanto a eles, mas depois de recomendar ao mestre carpinteiro vigilância sobre a tarefa de que se ocupavam, dizendo-lhe:

      - Muito bem, muito bem, mestre Guidon, conclua a plataforma... é a base do edifício... e depois de a concluir, levantará os dois postes, atendendo bem aos sinais, para que não fiquem nem muito distantes, nem muito próximos. Eu não vou para longe e não os perco de vista.

      E aproximando-se depois de Cagliostro e de Gilberto, que lhe pouparam metade do caminho, disse:

      - Bons dias, barão. Ah! É muita amabilidade da sua parte chegar tão cedo e trazer-nos o doutor. Não se recorda, doutor, que o convidei em casa de Marat para assistir à minha experiência? É verdade que me esqueci de lhe perguntar onde morava. Ah! Vai ver uma coisa extraordinária, a máquina mais filantrópica que se tem inventado!

      Em seguida, voltando-se de súbito para a máquina, objecto das suas mais caras preocupações, exclamou:

      - Olá Guidon, que faz? Isso vai às avessas!

      E subindo a escada, que os dois ajudantes acabavam de aplicar a um dos lados do quadrado, chegou num momento à plataforma, onde fez corrigir em poucos segundos o erro que acabavam de cometer os carpinteiros, ainda pouco conhecedores da máquina que construíam.

      - Assim, assim - disse o Dr. Guillotin, vendo com satisfação que uma vez por ele dirigidas, as coisas caminhavam por si mesmas: - assim, agora não se trata mais do que introduzir o cutelo num encaixe. Guidon! Guidon! - bradou ele de repente, como assustado - por que motivo não está o encaixe guarnecido de cobre?

      - Ah, Sr. doutor - respondeu o mestre carpinteiro - é que pensei que a madeira de carvalho, bem untada, daria o mesmo resultado que o cobre.

      - Isso mesmo - acudiu o doutor com ar desdenhoso - economias e mais economias!... quando se trata do progresso da ciência e do bem da humanidade! Guidon, se a nossa experiência falha hoje, fá-lo-ei responsável disso.

      Depois dirigindo-se a Gilberto e a Cagliostro, disse:

      - Meus senhores, tomo-os por testemunhas de que exigi encaixes de cobre; protesto, pois, por esta falta... Se o cutelo descer mal, a culpa não é minha, a culpa é das economias mal entendidas; lavo as mãos desse pecado!

      E o doutor sobre a plataforma fez o mesmo gesto, que mil e oitocentos anos antes fizera Pilatos no terraço do palácio.

      Todavia, apesar de todas aquelas contrariedades, a máquina foi construída, e ao levantar-se, tomava um certo garbo homicida que fazia palpitar de júbilo o seu inventor, e estremecer de susto o Dr. Gilberto.

      Quanto a Cagliostro, conservava-se impassível. Depois da morte de Lorenza, aquele homem parecia ter-se tornado de mármore.

      A máquina tinha a seguinte forma:

      Em primeiro lugar, um sobrado, para o qual se subia por uma espécie de escada de marceneiro.

      O sobrado, à maneira de cadafalso, tinha uma plataforma de quinze pés de largo por todos os lados; na plataforma, a dois terços do seu comprimento defronte da escada, levantavam-se dois postes paralelos de dez a doze pés de altura.

      Os postes eram adornados pelo famoso encaixe, em que Guidon economizara o cobre, economia que tanto fizera gritar o filantropo Dr. Guillotin.

      Corria pelo centro do encaixe, por meio de uma mola, que abrindo-se lhe deixava toda a facilidade de se precipitar com a força do próprio peso, centuplicada por outro estranho, uma espécie de cutelo em forma de meia lua.

      Entre os dois postes havia uma pequena abertura: os lados desta abertura, através da qual podia passar a cabeça de um homem, juntavam-se de modo que lhe cingiam o pescoço como se fosse um colar.

      Num momento dado, um baloiço cuja tábua tinha o comprimento de um homem de estatura ordinária, movia-se por si e ao mover-se apresentava-se à altura daquela espécie de janela.

      Como vê, tudo aquilo era engenhosíssimo.

      Enquanto os carpinteiros, mestre Guidon e o doutor davam a última demão ao seu trabalho; enquanto Cagliostro e Gilberto discutiam, mais ou menos, sobre a novidade do instrumento, cuja invenção o conde contestava ao Dr. Guillotin, encontrando outros análogos na manaya italiana, e sobretudo no machado de Tolosa, com que fora executado o marechal de Montmorency2, novos espectadores, sem dúvida convocados para assistirem também à experiência da máquina, achavam-se reunidos no pátio.

      Eram, em primeiro lugar, um ancião nosso conhecido e que representou um papel bem activo no decurso desta longa história. Atacado pela doença a que em breve devia sucumbir, o Dr. Luís, instado pelo seu colega Guillotin, ou antes, arrancado do seu quarto, correra, apesar da hora e do mau tempo, na intenção de ver funcionar o invento. Gilberto conheceu-o e foi logo ao seu encontro.

      Acompanhava-o Giraud, arquitecto de Paris, que devia ao seu emprego a honra de um convite particular.

      O segundo grupo, que a ninguém saudara, compunha-se de quatro homens todos vestidos com a maior simplicidade.

      Assim que ali chegaram, estes quatro homens foram colocar-se a um canto do pátio, no ponto mais distante daquele onde se achavam Gilberto e Cagliostro, e ali se conservaram humildemente, falando em voz baixa, e descobertos apesar da chuva.

      O que parecia o chefe, ou pelo menos, o que era ouvido com certa deferência pelos três quando proferia algumas palavras, era homem dos seus cinqüenta e dois anos, de elevada estatura, sorriso benévolo, e com uma fisionomia franca e aberta.

      Chamava-se Carlos Luís Samson. Nascera em 15 de Fevereiro de 1758; vira esquartejar Damiens pelo pai, e ajudara este quando teve a honra de decepar a cabeça de Lally-Tollendal.

      Chamavam-lhe geralmente o senhor de Paris.

      Os três outros eram o filho, que devia ter a honra de ajudar a degolar Luís XVI, e os seus dois ajudantes.

      A presença do Sr. de Paris, de seu filho e dos seus dois ajudantes inspirava uma terrível eloqüência à máquina do Dr. Guillotin, provando que a experiência que este ia fazer era tentada, se não com a garantia, pelo menos com a aprovação do governo.

      Por enquanto, o Sr. de Paris parecia tristíssimo.

      Se a máquina, cujo ensaio vinha presenciar, fosse adoptada, a sua fisionomia ressentir-se-ia logo. O executor não aparecia mais à multidão como o anjo exterminador armado com a espada flamejante; o carrasco não seria mais do que uma espécie de carcereiro, que puxava pelo cordão da morte!

      Era por isso que naquele grupo estava a verdadeira oposição.

      Como a chuva continuasse a cair talvez mais miúda, mas decerto mais cerrada, o Dr. Guillotin, que receava decerto que o mau tempo o privasse de alguns dos seus espectadores, dirigiu-se ao grupo mais importante, isto é, àquele que se compunha de Cagliostro, de Gilberto, do Dr. Luís e do arquitecto Giraud, e como um director de teatro que conhece que o público se impacienta, disse:

      - Meus senhores, só esperamos uma pessoa, o Sr. Dr. Cabanis. Logo que chegue, daremos começo à experiência.

      Apenas acabava de pronunciar estas palavras, entrou outra carruagem no pátio, e um homem de trinta e oito anos, com a cabeça descoberta, fisionomia inteligente, olhar vivo e interrogador, apeou-se.

      Era o único espectador que se esperava, era o Dr. Cabanis.

      Saudou individualmente a todos com modo afável, como deve sempre fazer um médico filósofo, indo dar a mão a Guillotin, que do alto da plataforma lhe gritava: “Venha, doutor, venha, só se espera pelo senhor!”, e em seguida foi-se confundir no grupo de Gilberto e de Cagliostro.

      Entretanto a carruagem do recém-chegado acomodava-se junto das outras.

      - Meus senhores - disse o Dr. Guillotin - como se não espera mais ninguém, vamos principiar.

      E a um sinal que fez com a mão abriu-se uma porta e por ela saíram dois homens vestidos com uma espécie de uniforme pardo, trazendo às costas um saco de lona, no qual se desenhava vagamente a forma de um corpo humano.

      Por detrás dos vidros das janelas, viam-se os rostos pálidos de alguns doentes, os quais, com olhos espavoridos, observavam, sem que os tivessem para isso convidado, aquele espectáculo inesperado e terrível, de que não podiam compreender os preparativos nem o fim.

 

Um sarau no pavilhão de Flora

      Na noite daquele mesmo dia, isto é, em 24 de Dezembro, véspera de Natal, havia uma recepção no pavilhão de Flora.

      Como a rainha não quisesse receber pessoalmente, era a princesa de Lumballe quem recebia em seu lugar e fazia as honras até que a rainha chegasse.

      Logo que esta entrasse tudo tomaria o seu curso ordinário, como se o sarau, em vez de ser no pavilhão de Flora, fosse no pavilhão Marsan.

      De manhã, chegara de Turim o jovem barão Isidoro de Charny, sendo logo admitido à presença de el-rei, e em seguida à da rainha.

      Ambos se fizeram o melhor acolhimento, e especialmente a rainha; havia duas razões poderosíssimas que assim o exigiam.

      Em primeiro lugar, Isidoro era irmão de Charny; e na ausência deste, tornava-se a sua presença agradabilíssima aos olhos da rainha.

      Por outro lado, Isidoro vinha encarregado de algumas missões da parte do conde de Artois e do príncipe de Condé, as quais estavam em harmonia com os seus próprios desejos.

      Os príncipes recomendavam à rainha o projecto do Sr. de Favras, convidando-a a aproveitar-se da dedicação do corajoso fidalgo, para se juntar a eles em Turim.

      Além disso, vinha também encarregado, por parte dos príncipes, de exprimir ao Sr. de Favras toda a simpatia que ligavam ao seu projecto, e os votos que faziam pelo bom êxito dele.

      A rainha demorou Isidoro junto a si por espaço de uma hora; convidou-o a aparecer à noite nas salas da Srª. de Lumballe, e só permitiu que se retirasse, quando ele lhe pediu licença para ir procurar o Sr. de Favras.

      A rainha nada disse de positivo a respeito da sua fuga; apenas encarregara Isidoro de repetir ao Sr. de Favras e à esposa deste o mesmo que dissera quando recebeu a Srª. de Favras, e quando entrou no gabinete do rei, na ocasião em que lá estava o marquês.

      Separando-se da rainha, correu logo Isidoro em busca do Sr. de Favras, que morava na praça Real, n.º 21.

      Foi a Srª. de Favras quem recebeu o barão de Charny; primeiro disse que o marido tinha saído; mas quando soube o nome da visita, o dos augustos personagens a quem falara havia uma hora, e o daqueles de quem se separara cinco ou seis dias antes, declarou que o seu marido estava em casa, e mandou-o logo chamar.

      O marquês entrou de cara alegre e olhos radiantes.

      Fora prevenido directamente de Turim; sabia portanto donde Isidoro vinha.

      A mensagem, de que o mancebo se encarregara da parte da rainha, aumentou a alegria do conspirador.

      Efectivamente tudo parecia sorrir-lhe à esperança; o conluio do monarca ia maravilhosamente: cada um dos mil e duzentos cavaleiros reunidos em Versalhes trouxera um peão na garupa do cavalo, o que fazia um total de dois mil e quatrocentos homens em lugar de mil e duzentos. Quanto ao tríplice assassínio de Necker, de Bailly e de Lafayette, que devia executar-se simultaneamente por cada uma das três colunas, entrando em Paris, uma pela barreira do Roule, outra pela barreira de Grenelle, e a terceira pela porta do Chaillot, haviam renunciado a isso, assentando que bastava desfazerem-se de Lafayette. Ora, para levar a cabo essa execução, bastavam quatro homens bem montados e bem armados, que esperariam a carruagem do general, pela volta das onze horas, no momento em que saísse das Tulherias; dois prolongar-se-iam na rua à direita e à esquerda, os outros dois apresentar-se-iam na frente da carruagem; um destes levaria um papel na mão, fazendo sinal ao cocheiro para parar, dizendo que tinha um aviso importante para comunicar ao general. Então pararia a carruagem, o general deitaria a cabeça de fora do postigo, e um tiro de pistola lhe faria saltar imediatamente os miolos.

      Fora esta a única alteração de importância que se fizera no conluio; tudo mais se restringia às condições já estabelecidas; o dinheiro já estava em arrecadação, os homens estavam prevenidos, o rei só tinha que dizer: “Sim!” e ao sinal de Favras, o negócio estava concluído.

      Uma única coisa inquietava o marquês; era o silêncio do rei e da rainha a seu respeito. Este silêncio acabava a rainha de o interromper por intervenção de Isidoro, e por vagas que fossem as palavras que este fora encarregado de transmitir a Favras e a sua esposa, como tinham saído da boca do monarca, assumiam decerto a maior importância.

      Isidoro prometeu a Favras transmitir logo naquela mesma noite, à rainha e a el-rei a expressão de todo o seu respeito e dedicação.

      O jovem barão partira para Turim, como todos sabem, no mesmo dia em que chegara a Paris; não tinha portanto outro alojamento se não o que o irmão ocupava nas Tulherias; e uma vez que este se achava ausente, ordenou ao criado do conde, que lhe abrisse o quarto.

      Às nove horas apresentou-se Isidoro em casa da princesa de Lumballe: esta não o conhecia, mas, prevenida com antecipação pela rainha, assim que ouviu anunciar o seu nome, levantou-se logo, e com a graça que nela substituía o espírito, que não tinha, fê-lo entrar sem demora no círculo dos seus escolhidos.

      Nem o rei, nem a rainha tinham ainda chegado; o conde de Provença, que parecia bastante inquieto, conversava num canto da sala com dois fidalgos da sua amizade, que eram os Srs. de la Châtre e de Avaray.

      O conde Luís de Narbonne ia de um para outro grupo com a liberdade de um homem, que se considera em família.

      O círculo dos escolhidos compunha-se dos jovens fidalgos que tinham resistido à mania da emigração. Eram os Srs. de Lameth, que muito deviam à rainha, e ainda não tinham tomado partido contra ela; o Sr. de Ambly, uma das boas ou das más cabeças da época, como quiserem; o Sr. de Castries, o Sr. de Ferson, Suleau, redactor em chefe do judicioso jornal Os Actos dos Apóstolos, todos corações leais, mas todos cabeças ardentes, algumas um pouco estouvadas!

      Isidoro não conhecia nenhum daqueles moços; mas como lhe ouvissem pronunciar o nome, tão conhecido, e vissem a benevolência particular com que a princesa o honrara, todos lhe estenderam a mão.

      Demais, era portador de notícias dessa outra França que vivia em país estrangeiro. Cada qual tinha um parente ou um amigo junto dos príncipes: Isidoro vira-os a todos, e portanto era uma segunda gazeta.

      Já dissemos que Suleau era ali o mais espirituoso.

      Sustentava a palestra e todos riam com a maior satisfação; Suleau assistira naquele dia à sessão da assembléia. Guillotin subira à tribuna, gabara muito as doçuras da máquina que acabava de imaginar, relatara o ensaio que fizera naquela manhã, e pedira que lhe fizessem a honra de a substituir a todos os instrumentos de morte - roda, forca, fogueira, garrote, etc., etc., que sucessivamente aterravam a praça de Grève.

      A assembléia, seduzida pela suavidade da máquina, estava disposta a adoptá-la.

      Suleau compusera a respeito da assembléia de Guillotin e da sua máquina, sobre a música do minuete D'Exaudet, uma canção, que devia aparecer no dia seguinte no seu jornal.

      Esta canção, que cantava a meia voz no centro do círculo jubiloso que o rodeava, provocava risadas tão francas, que o rei acompanhado pela rainha, as ouvira desde a antecâmara, e como ele, pobre rei! há muito não ria, resolveu desde logo indagar o que podia, em tempos tão tristes, provocar semelhante alegria.

      É desnecessário dizer que, desde que se anunciou el-rei e a rainha, todos os segredinhos, todas as conversações, todas as gargalhadas cessaram logo, para dar lugar ao mais respeitoso silêncio. Os dois augustos personagens entraram na sala.

      Quanto mais o génio revolucionário despojava lá fora a realeza dos seus prestígios, tanto mais na intimidade, cumpre dizê-lo, se aumentava nos verdadeiros realistas, o respeito e acatamento, que o infortúnio inspira sempre, prestando-lhe nova força.

      A Srª. de Lumballe e a princesa Isabel apoderaram-se da rainha.

      O conde de Provença dirigiu-se logo ao rei, a fim de lhe apresentar os seus respeitos, e ao inclinar-se, disse:

      - Meu irmão, não seria possível, que fizéssemos uma partida de wisth, em particular, acompanhado pela rainha e por algum dos seus confidentes, a fim de podermos conversar sob a aparência do jogo?

      - Com todo o gosto, meu irmão, - respondeu o rei; - arranje esse negócio com a rainha.

      O conde chegou-se a Maria Antonieta, a quem Charny apresentava as suas homenagens, dizendo-lhe em voz baixa:

      - Minha senhora, vi o Sr. de Favras, e tenho coisas da maior importância que comunicar a Vossa Majestade.

      - Querida irmã - disse o conde - o rei deseja que joguemos de quatro uma partida de wisth. Jogaremos contra Vossa Majestade, e ele deixa-lhe livre a escolha do seu parceiro.

      - Pois bem - disse ela desconfiando logo que a partida de wisth fosse um pretexto - a minha escolha está feita; o Sr. barão de Charny jogará na nossa companhia, e enquanto jogarmos dar-nos-á notícias de Turim.

      - Ah! Vem de Turim, barão? - perguntou o conde de Provença.

      - Venho sim, meu senhor, e voltando de Turim, passei pela praça Real, onde vi um homem muito dedicado a el-rei, à rainha e a vossa alteza.

      O conde corou, tossiu e desviou-se. Era homem muito circunspecto: aquele espírito recto e preciso parecia inquietá-lo.

      Lançou um olhar ao Sr. de la Châtre, que se aproximou dele e que, recebendo em voz baixa as suas ordens, saiu logo.

      Durante este tempo recebia o rei as homenagens dos fidalgos, e das damas bastante raras, que ainda freqüentavam as Tulherias, saudando todos com a maior benignidade.

      A rainha foi buscá-lo pelo braço para o conduzir ao jogo.

      Aproximou-se da mesa, procurou com um relancear de olhos o quarto parceiro, e vendo Isidoro, disse:

      - Ah! Ah! Sr. Charny, na ausência de seu irmão, é o senhor quem o substitui?... Não podia ser melhor substituído; seja pois bem-vindo.

      E com um gesto convidou a rainha a sentar-se, sentando-se junto dela e do conde de Provença.

      A rainha fez por seu turno um gesto de convite a Isidoro, que também se sentou.

      A princesa Isabel ajoelhou-se num sofá por detrás do rei, encostando os braços ao respaldo da cadeira onde este se sentara.

      Jogaram duas ou três partidas de wisth, pronunciando-se apenas as palavras sacramentais.

      Depois, finalmente, sem deixarem de jogar e convencidos de que o respeito conservava a todos distantes da mesa, a rainha dirigiu-se ao conde, dizendo:

      - Meu irmão, o barão já lhe disse que vinha de Turim?

      - Sim - respondeu o príncipe - alguma coisa me disse a esse respeito.

      - Disse-lhe que o conde de Artois e o príncipe de Condé nos pediam muito que fôssemos acompanhá-los?

      O rei fez um movimento de impaciência.

      - Meu irmão - murmurou a princesa Isabel com a sua doçura de anjo - escute, rogo-lho.

      - Também a mana? - disse o rei.

      - Eu mais do que outrem, meu caro Luís, por isso que o amo mais do que ninguém, e estou muito inquieta.

      - Acrescente - disse Isidoro - que tinha vindo pela praça Real, e que me demorei mais de uma hora no n.º 21.

      - No n.º 21? -perguntou o rei; - o que quer dizer com isso?

      - É aí, meu senhor - replicou Isidoro - que mora um fidalgo muito dedicado a Vossa Majestade, como nós todos o somos, pronto a morrer pelo seu rei, como nós estamos, mas mais activo do que nós em combinar um projecto...

      - Que projecto, senhor? - perguntou o rei levantando a cabeça.

      - Se julgasse ter a desventura de desagradar a Vossa Majestade, repetindo-lhe o que sei desse projecto, nem mais uma palavra diria.

      - Não, não, senhor - disse a rainha com vivacidade - fale!... Muitos outros formam projectos contra nós; ser-nos-á permitido que saibamos ao menos quem são as pessoas que também os formam a nosso favor; desse modo, ao passo que perdoamos aos nossos inimigos, poderemos também ser reconhecidos aos nossos amigos... Sr. barão, diga-nos o nome desse fidalgo.

      - É o marquês de Favras, minha senhora.

      - Ah! ah! - exclamou a rainha - conhecemo-lo excelentemente!... E acredita na sua dedicação, Sr. barão ?

      - Na sua dedicação? Acredito, sim, minha senhora...

      - Atenda, senhor - disse o rei - veja o que diz.

      - O coração, julga-se pelo coração, meu senhor. Respondo pela dedicação do Sr. Favras. Quanto à beleza do seu projecto, quanto às suas probabilidades, isso é outra coisa! Sou ainda muito novo, e quando se trata da salvação de Suas Majestades, sou bastante prudente para que me atreva a emitir opinião.

      - E esse projecto em que alturas está? - perguntou a rainha.

      - Já se acha em execução minha senhora, e se el-rei dignar pronunciar uma só palavra, ou fizer esta noite um único gesto, amanhã, a estas horas, estará em Péronne.

      O rei ficou silencioso, e o conde de Provença amarrotava entre os dedos um pobre valete de copas!

      - Senhor - disse a rainha dirigindo-se a seu marido - não ouve o que o barão acaba de dizer?

      - Bem ouvi, minha senhora - respondeu o rei franzindo o sobrolho.

      - E o senhor? - perguntou a rainha ao príncipe - também ouviu?

      - Não sou mais surdo do que el-rei.

      - E então que diz? Parece-me ser uma resposta.

      - Decerto, - disse o príncipe - decerto.

      E voltando-se para Isidoro:

      - Vamos, barão, repita-nos outra vez essa interessante narração.

      Isidoro replicou:

      - Disse que bastava uma só palavra, um só gesto de el-rei, para este se achar, vinte e quatro horas depois, em segurança, na cidade de Péronne.

      - E então, meu irmão - perguntou o conde de Provença; - não lhe parece tentador o que o barão acabou de dizer?

      O rei voltou-se rapidamente para o irmão, e cravando nele um olhar escrutador, perguntou:

      - E se me resolver a partir, partirá também comigo?

      O príncipe mudou de cor; tremiam-lhe as faces agitadas por um movimento que não pôde reprimir.

      - Eu?... - balbuciou.

      - Sim, senhor - disse Luís XVI; - o senhor, que me aconselha a sair de Paris, diga: “Se partir, partirá também comigo?”

      - Mas - tornou a balbuciar o conde - não estava prevenido, não fiz preparativos nenhuns.

      - Como? Não estava prevenido! - exclamou o rei - e é o senhor que fornece o dinheiro ao Sr. de Favras? Não fez preparativos nenhuns, e sabe, hora por hora, o progresso do conluio?...

      - Do conluio? - repetiu o conde empalidecendo.

      - Sim, do conluio; um conluio tão positivo que se for descoberto, o Sr. de Favras será preso, conduzido ao Châtelet e condenado à morte, se o senhor à força de solicitações e de dinheiro o não salvar, como salvamos o Sr. de Besenval.

      - Mas, se el-rei salvou o Sr. de Besenval, também há-de salvar o Sr. de Favras...

      - Não... porquanto, o que pude fazer por um, não poderei provavelmente fazer por outro... Além de que, o Sr. de Besenval era criatura minha, do mesmo modo que o Sr. de Favras é criatura sua. Que cada qual salve o seu, meu irmão! Ambos cumpriremos assim o nosso dever.

      E pronunciando estas palavras, el-rei levantou-se.

      A rainha segurou-o pelas abas da casaca.

      - Senhor - disse ela - quer seja para aceitar quer seja para recusar, é necessário que dê uma resposta ao Sr. de Favras.

      - Eu?

      - Sim, senhor; o que responderá o barão de Charny, em nome de el-rei?

      - Responderá - disse o rei soltando a casaca das mãos da rainha - responderá que o rei não pode consentir que o raptem.

      E retirou-se logo.

      - Quer dizer - acrescentou o conde de Provença - que se o marquês de Favras raptar el-rei sem o seu consentimento, será acolhido maravilhosamente, uma vez que consiga o seu fim; por isso, aquele que o não consegue é um asno, e em política os asnos merecem dobrado castigo.

      - Sr. barão - disse a rainha - vá esta noite a casa do Sr. marquês de Favras e reproduza-lhe as próprias palavras de el-rei: “Sua Majestade não pode consentir que o raptem” toca-lhe a ele compreender estas palavras, e ao senhor explicar-lhas... Vá.

      O barão, que considerava com razão a resposta do rei e a recomendação da rainha como duplicado assentimento, pegou no chapéu, saiu precipitadamente, e metendo-se logo numa carruagem, bradou ao cocheiro:

      - Praça Real, n.º 21.

 

O que a rainha vira numa garrafa, vinte anos antes, no castelo de Taverney

      O rei, levantando-se da mesa de jogo, dirigira-se para o grupo de mancebos, cujas risadas lhe haviam atraído a atenção, ainda antes de entrar no salão.

      Ao aproximar-se, o mais profundo silêncio se apoderou logo dos circunstantes.

      - Então, meus senhores - perguntou ele – será porventura o rei tão desgraçado que traga sempre consigo a tristeza?

      - Meu senhor... - murmuraram os mancebos.

      - Pareciam estar muito alegres, quando há pouco entrei com a rainha.

      E meneando a cabeça, exclamou:

      - Maldição aos reis, diante dos quais se não ri.

      - Meu senhor - disse de Lameth- o respeito...

      - Meu querido Carlos - disse o rei - quando saía do colégio, aos domingos e às quintas-feiras, e eu o mandava buscar para o recrear em Versalhes, acaso o privava de rir por me achar presente? Disse há pouco: “Maldição aos reis, diante dos quais se não ri!” Direi agora: “Venturosos os reis, diante dos quais todos riem!”

      - Meu senhor - disse o Sr. de Castries - é porque o motivo que nos provocava o riso, talvez não seja do agrado de Vossa Majestade...

      - De que falavam, então, senhores?

      - Meu senhor - disse Suleau chegando-se para el-rei - aqui está o culpado!

      - Ah! É o senhor - disse o rei?... - Li o último número do seu jornal; tome cautela, Sr. Suleau, tome cautela!

      - Por que motivo, meu senhor? - perguntou o moço jornalista.

      - É um pouco realista; veja que não se envolva com o amante da menina Théroigne.

      - Com o senhor Populus! - disse rindo Suleau.

      - Justamente... E que foi feito da heroína do seu poema?

      - Théroigne?

      - Sim. Já não ouço falar dela.

      - Meu senhor, parece-me que não acha que a nossa revolução caminhe depressa, e por isso iria talvez activar a do Brabante... Vossa Majestade, sabe que aquela casta amazona é de Liège?

      - Não, não o sabia... Era acerca dela que há pouco riam?

      - Não meu senhor, era acerca da Assembléia Nacional.

      - Oh! Oh! Meus senhores; nesse caso fizeram bem em se tornar sérios quando cheguei; não devo permitir que se riam, em minha casa, da Assembléia Nacional. É verdade - acrescentou ele como quem capitulava - que não estou em minha casa, mas sim em casa da princesa de Lumballe; deste modo, rindo ou não rindo, poderão dizer-me o que tanto os fazia rir?

      - Vossa Majestade sabe qual foi o objecto de que hoje se tratou durante toda a sessão da Assembléia Nacional?

      - Sim, sim, e até me interessou isso muito. Não se tratou de uma nova máquina para criminosos?

      - Oferecida à nação pelo Dr. Guillotin... Sim, meu senhor, foi isso mesmo - disse Suleau.

      - Oh! Oh! Sr. Suleau, e zombava do Guillotin, de um filantropo?... Parece esquecer-se que também eu sou filantropo.

      - Oh! Meu senhor, eu cá me entendo; há filantropos de diferentes géneros. Por exemplo, temos à frente da nação francesa um filantropo que aboliu a tortura preparatória; a esse respeitamo-lo, ainda mais, amámo-lo, meu senhor.

      Todos os mancebos, como um só, se inclinaram ao mesmo tempo.

      - Mas - continuou Suleau - existem outros que, sendo já médicos e tendo na mão infinitos meios para arrancar da vida os enfermos, procuram ainda outro meio para a arrancar aos que passam de perfeita saúde... Ai, meu senhor, quanto a estes, pedirei a Vossa Majestade que mos abandone!

      - E o que fará deles, Sr. Suleau? Decapitá-los-á sem dor? - perguntou o rei, aludindo à pretensão emitida pelo Dr. Guillotin; - sentirão apenas uma suave friagem no pescoço?

      - É tudo quanto lhes desejo, meu senhor – disse Suleau - mas não é o que lhes prometo.

      - Como assim! O que lhes deseja? - perguntou o rei.

      - Sim, meu senhor, gosto muito que os inventores de novas máquinas as ensaiem. Não deploro muito mestre Aubriot enxugando os muros da Bastilha, nem Enguerrand de Marigny estreando a forca de Montfaucon. Infelizmente, tenho a honra de ser juiz: é portanto provável que seja obrigado a restringir-me ao respeitável Dr. Guillotin.

      - E o que prometeu o senhor a respeito de Guillotin?

      - Ocorreu-me a idéia, meu senhor, de que este grande benfeitor da humanidade devia tirar a sua recompensa do próprio benefício. Ora, amanhã, no número dos Actos dos Apóstolos que se deve imprimir esta noite, há-de realizar-se o baptismo... É justo que a filha do Sr. Guillotin, reconhecida hoje publicamente por seu pai, perante a Assembléia Nacional, se chame a menina Guilhotina.

      O próprio rei não pôde deixar de sorrir.

      - E como não há noivado, nem baptismo, sem canções - disse Carlos Lameth - compôs duas o Sr. Suleau, em honra da afilhada.

      - Duas! - Disse o rei.

      - Meu senhor - disse Suleau - é necessário satisfazer todos os gostos.

      - E que música aplicou a essas canções, a do De Profundis?

      - Nada, meu senhor, Vossa Majestade parece esquecer-se da satisfação que cada qual terá em se deixar decapitar pela filha do Sr. Guillotin... quero dizer, que todos quererão ter a preferência... Não, meu senhor; uma das minhas canções é composta sobre a música tanto em voga do minuete de Exaudet: a outra é para se cantar com qualquer música; é uma miscelânea.

      - E poderíamos gozar com antecipação a sua poesia, Sr. Suleau? - perguntou o rei.

      Suleau inclinou-se e disse:

      - Não sou da Assembléia Nacional, para ter a pretensão de limitar os poderes de el-rei; não sou mais do que um súbdito fiel de Sua Majestade, e a minha opinião é que el-rei pode fazer tudo quanto queira.

      - Nesse caso escuto-o.

      - Obedeço meu senhor, disse Suleau.

      E a meia voz, principiou a cantar, na música do minuete de Exaudet, a seguinte canção.

     

       Guillotin.

       médico

       político

      

       conheceu um belo dia

       que a forca era desumana

       e mui pouco patriótica.

      

       E desde logo

       teve carência

       dum suplício,

      

       que sem poste, nem corda

       suprima do carrasco

      

            o ofício...

      

       É debalde que publicam

       ser uma pura inveja

      

            d'Hipócrates,

      

       o matar impunemente,

       e até exclusivamente;

      

       o romano

       Guillotin

       se lisonjeia

       e se dispõe

      

       a consultar homens da arte,

       Barnave e Chapellier,

       até o próprio carrasco;

      

       e para logo

       nos prepara

       a tal máquina,

     

       que prestes nos matará,

       e que se chamará:

      

            A Guilhotina!

 

      As risadas dos mancebos não tinham limite; mas, conquanto aquilo não parecesse ao rei demasiadamente divertido, como Suleau era um dos seus afeiçoados, não quis demonstrar a espécie de comoção que, sem conhecer o motivo, lhe torturava o coração.

      - Mas - disse ele por fim - o senhor falou-nos de duas canções, meu caro Suleau. Já vimos o padrinho, vejamos agora a madrinha.

      - A madrinha, meu senhor, vai ter a honra de lhe ser apresentada. Canta-se na música de - Paris pertence ao rei. - Ei-la:

     

       O senhor Guillotin,

       esse grande Esculápio,

       que do amor do próximo

       se ocupa sem descanso;

       de súbito se apresenta,

            a palavra pede

      

       e com gesto mui benigno

      

       propõe

       bagatela

      

       que em poucas palavras

            expõe:

      

       Mas a ênfase

       da sua frase

       obtém os bravos

       de cinco ou seis asnos.

      

       “Se na vossa sabedoria

       vós decretastes, senhores,

       para a frágil humanidade

       essa lei ou igualdade

       sem que atenção me presteis,

       sempre haveis de convencer-vos,

       que se a forca é cruel,

       é mais cruel ser enforcado!”

      

       “Que se há-de então fazer,

       quando um bravo cidadão,

       fascinado pela cólera,

       um dos seus assassinar?

       Que se há-de então fazer?...

       Meditando à surdina,

       para vos tirar d’embaraços,

       subtil máquina pus em obra

       para as cabeças decepar!”

      

       “Recebe-se esse golpe,

       antes que a dor se sinta,

       apenas se vê o efeito!

       Ninguém compreende a máquina...

       certa mola, mui oculta,

       comprimida de repente,”

      

       “zás-trás

       faz cair

       ir, ir;

       faz saltar

       ar, ar;

       faz cair,

       faz saltar,

       faz voar

       a cabeça!...”

     

      - Então! Meus senhores - exclamou o rei – que motivo os faz rir?... E se a máquina do Sr. Guillotin fosse destinada a evitar aos infelizes condenados os terríveis sofrimentos do suplício? Que exige a sociedade quando reclama a morte de um criminoso? A supressão pura e simples do indivíduo; se essa supressão é acompanhada de sofrimentos, como os da roda ou os do garrote, já isso não deve considerar-se uma justiça, mas sim uma vingança!

      - Todavia, meu senhor - observou Suleau – quem diz a Vossa Majestade que a dor fique suprimida pelo facto da separação da cabeça? Quem diz que a vida não persiste ao mesmo tempo no corpo e na cabeça, e que o moribundo não sofra duplamente, tendo a consciência do seu dualismo?

      - Isso é uma questão que só os científicos poderão discutir. Demais, creio que hoje mesmo se fez, na prisão de Bicêtre, uma experiência; nenhum dos senhores assistiu a ela?

      - Não, meu senhor, não, não, não - disseram quase simultaneamente doze ou quinze vozes.

      - Assisti eu, senhor - disse uma voz bastante grave.

      O rei voltou-se e conheceu Gilberto, que entrara durante a discussão, aproximando-se respeitosamente do rei.

      - Ah! É o doutor - disse o rei estremecendo; - também estava aqui?

      - Estava sim, senhor.

      - E qual foi o resultado da experiência?

      - O melhor possível com os dois primeiros corpos, mas com o terceiro, conquanto a coluna vertebral ficasse quase separada, foi contudo necessário separá-la de todo com uma faca.

      Os mancebos ouviam de boca aberta e olhos espantados aquela narração.

      - Como assim, meu senhor! - disse Carlos Lameth, falando visivelmente em nome de todos - pois esta manhã executaram-se três homens?!

      - Sim, meus senhores - disse o rei; - com a diferença de que esses três homens eram três cadáveres ministrados pelo hospital... E a sua opinião, Gilberto?

      - Acerca de quê?

      - Acerca do instrumento.

      - É evidentemente um progresso, comparado com as outras máquinas deste género; mas o acidente que ocorreu com o terceiro cadáver, prova suficientemente que a máquina carece ainda de algum aperfeiçoamento.

      - E de que modo é ela construída? - perguntou o rei, em quem se divisava o génio da mecânica.

      Gilberto procurou então dar uma explicação, mas como o rei não pudesse conceber a forma exacta do instrumento, ouvindo unicamente as palavras do doutor, disse:

      - Aproxime-se, doutor, aproxime-se, aqui tem nesta mesa o necessário... Julgo que sabe desenhar...

      - Alguma coisa, senhor...

      - Pois bem, faça-me um esboço para melhor compreender o maquinismo.

      E como os jovens fidalgos, contidos pelo respeito, não ousassem seguir o rei sem que ele lho permitisse, Luís XVI disse-lhes:

      - Oh! Aproximem-se também, meus senhores, estas questões interessam à humanidade em geral.

      - E demais, quem sabe - disse Suleau em voz baixa - quem sabe se um de nós não está destinado a ter a honra de desposar a menina Guilhotina? Vamos, meus senhores, vamos conhecer a nossa futura noiva.

      E todos, seguindo o rei e Gilberto, se agruparam em volta da mesa, diante da qual, para melhor executar o seu desenho, Gilberto se sentou, depois do rei lho permitir.

      Gilberto principiou o esboço, cujas linhas Luís XVI seguia com a mais escrupulosa atenção.

      Nada foi esquecido, nem a plataforma, nem a escada, nem os dois postes, nem o peso, nem a espécie de postigo, nem o cutelo em forma de crescente.

      - Ainda bem não tinha concluído o último detalhe o rei exclamou:

      - Ora! Não admira que a experiência falhasse, muito principalmente à terceira vez!

      - Como assim? - perguntou Gilberto.

      - O motivo é a forma do cutelo – redargüiu Luís XVI; - é necessário não ter a menor idéia de mecânica para dar a um objecto destinado a decepar uma matéria, que oferece resistência, a forma de um crescente.

      - Mas qual seria a forma que Vossa Majestade lhe daria?

      - Muito simples; a de um triângulo.

      - Gilberto procurou rectificar o desenho.

      - Nada, nada, não é isso - acudiu o rei; - dê-me a pena.

      - Aqui está a pena e a cadeira, senhor – disse Gilberto.

      - Espere, espere - disse Luís XVI entusiasmado pelo amor que consagrava à mecânica - olhe, talhemos o ferro bisel... assim... muito bem... e asseguro-lhe que cortará vinte e cinco cabeças umas atrás das outras, sem que deixe de operar uma única vez...

      Apenas o rei acabava de pronunciar estas palavras, um grito de susto, quase sem dor, lhe retiniu por cima da cabeça.

      Voltou-se de súbito, e viu a rainha pálida, balbuciante, que caía sem sentidos nos braços de Gilberto!

      Instigada também pela curiosidade, aproximara-se, pé ante pé, da mesa, onde se fazia o desenho, e encostando-se à cadeira do rei, pôde conhecer facilmente a terrível máquina, no momento em que ele lhe corrigia a principal circunstância; era a mesma que Cagliostro lhe mostrara, vinte anos antes, no castelo de Taverney Casa-Vermelha.

      À vista daquele objecto, só teve forças para soltar um grito espantoso, e abandonada pela vida, como se a máquina fatal tivesse operado sobre ela, caíra sem sentidos, como já dissemos, nos braços de Gilberto.

 

O médico do corpo e o médico da alma

      É fácil conceber que depois de tal acontecimento a reunião se interrompesse.

      Posto que ninguém pudesse explicar as causas que produziram o desmaio da rainha, nem por isso deixava o facto de existir patente aos olhos de todos.

      A rainha, assim que viu o desenho de Gilberto, retocado pelo rei, soltou um grito terrível, caindo desfalecida.

      Era esta a voz que circulava por todos os grupos; e todas as pessoas que não eram da família, ou pelo menos da intimidade dela, retiraram-se.

      Gilberto foi quem prestou os primeiros cuidados a Maria Antonieta.

      A Srª. de Lumballe não quis que a doente fosse transportada para os seus aposentos, o que seria assaz difícil, porquanto, residindo a Srª. de Lumballe no pavilhão Marsan, era necessário atravessar todo o comprimento do palácio para chegar ao quarto da rainha.

      A augusta doente fora por conseqüência levada para uma cadeira de braços, e ali conduzida ao quarto de dormir da princesa, que com a perspicácia natural das mulheres adivinhara que aquele delíquio encobria algum mistério sombrio, e mandara sair quantos ali se achavam, incluindo o próprio rei, e encostada ao respaldo da cadeira, com os olhos inquietos, esperava que, graças aos socorros do Dr. Gilberto, a rainha tornasse a si.

      Com um simples gesto interrogava de vez em quando o doutor, que não podendo abreviar o restabelecimento da enferma, todavia podia tranqüilizar a princesa com promessas frívolas e banais.

      Efectivamente durante alguns instantes, a violência do choque, que acabava de sofrer todo o sistema nervoso da pobre rainha, foi tão intensa, que a aplicação de diferentes frasquinhos de sais ao nariz, e as fricções de vinagre nas fontes, tudo era insuficiente; mas por fim, alguns ligeiros arrepios nas extremidades indicaram a volta da sensibilidade; a rainha agitou languidamente a cabeça, como se saísse de um pesadelo, soltou um suspiro e abriu os olhos.

      Era evidente porém, que a vida despertara primeiro que a razão; e por isso durante alguns segundos olhava em volta do quarto com o olhar vago de quem ignora onde está e o que lhe sucedera; mas em breve ligeiro tremor lhe percorreu o corpo, soltou um débil grito, e levou as mãos aos olhos, como se quisesse afastar deles a imagem de um objecto horrível.

      Recordava-se, mas a crise passara. Gilberto, que não podia dissimular que aquele incidente tivera uma causa moral, e sabendo a nenhuma acção que a medicina exerce sobre tais fenómenos, dispunha-se já para se retirar, quando, ao primeiro passo que deu para trás, como se a rainha, por meio de uma vista interior, lhe adivinhasse a intenção, estendeu-lhe a mão, agarrou-lhe no braço, e com voz tão nervosa como o gesto que a acompanhava, disse:

      - Fique!

      Gilberto parou pasmado. Sabia a pouca simpatia que a rainha lhe tinha, e contudo, por outro lado, observara a singular e quase mágica influência que exercia sobre ela.

      - Estou às ordens de Vossa Majestade - disse ele; - mas parece-me que seria acertadíssimo ir aplacar os cuidados de el-rei e das pessoas que se acham no salão, e se Vossa Majestade me permite...

      - Teresa - disse a rainha dirigindo-se à princesa de Lumballe - vá anunciar a el-rei que tornei a mim, e dê as providências necessárias para que eu não seja interrompida; preciso falar com o Dr. Gilberto.

      A princesa obedeceu com a doçura passiva que era o tipo dominante do seu carácter e até da sua fisionomia.

      A rainha, encostada ao cotovelo, seguiu-a com os olhos, esperou, como se quisesse dar-lhe o tempo necessário para desempenhar a comissão de que a encarregara, e vendo que efectivamente se achava livre para falar a sós com o doutor, voltou-se para o lado deste, e cravando nele um olhar penetrante, perguntou:

      - Doutor, não se admira do acaso que o coloca sempre a meu lado nas crises físicas ou morais da minha vida?

      - Ai, senhora - respondeu Gilberto - não sei se devo bem-dizer se amaldiçoar esse acaso.

      - Por quê?

      - Porque leio assaz profundamente nos corações para conhecer que não é, nem ao desejo de Vossa Majestade nem à sua real vontade que devo este honroso contacto.

      - Foi por isso mesmo que disse acaso... – acudia a rainha. - Bem sabe que sou muito franca; e contudo, doutor, nas últimas circunstâncias que nos obrigaram a proceder de combinação, o senhor mostrou-me sempre verdadeira dedicação: não o hei-de esquecer nunca, e sempre lhe serei reconhecida.

      Gilberto inclinou-se.

      A rainha seguiu-lhe os movimentos do corpo e do rosto.

      - Também sou fisionomista, doutor - disse ela - sabe o que me respondeu, sem pronunciar uma só palavra?

      - Senhora - disse Gilberto - muito me pesaria que o meu silêncio fosse menos respeitoso para com Vossa Majestade do que as minhas palavras.

      - Respondeu-me: “Está bem, como me agradeceu, é negócio concluído; passemos a outra coisa”.

      - Ao menos senti o desejo de que Vossa Majestade sujeitasse a minha dedicação a uma prova tal, que lhe permitisse manifestar-se de maneira mais eficaz do que até aqui tem feito... É daí que deriva essa espécie de impaciência que Vossa Majestade talvez notasse na minha fisionomia.

      - Sr. Gilberto - disse a rainha olhando fixamente para o doutor - é um homem inteiramente superior, faço-lhe essa justiça; tinha algumas prevenções contra o senhor, agora desvaneceram-se de todo.

      - Vossa Majestade há-de permitir-me que lhe agradeça com todas as veras do coração, não o cumprimento que se digna fazer-me, mas a segurança que acaba de me dar.

      - Doutor - replicou a rainha, como se o que ia dizer se encadeasse naturalmente ao que já dissera - o que pensa do que acaba de acontecer-me?

      - Senhora - disse Gilberto - sou um homem positivo, um homem de ciência: digne-se Vossa Majestade pôr a questão de um modo mais preciso.

      - Pergunto-lhe se julga que o delíquio que tive fosse motivado por alguma dessas crises nervosas, a que as pobres mulheres estão sujeitas pela debilidade da sua organização, ou se lhe parece que fosse provocado por coisa mais grave?

      - Responderei a Vossa Majestade que a filha de Maria Teresa, a senhora que vi tão plácida e corajosa na noite de 5 para 6 de Outubro, não é decerto uma mulher vulgar, e por conseqüência não pode ser afectada por nenhum dos acidentes a que as mulheres vulgares estão sujeitas ordinariamente.

      - Tem razão, doutor; diga-me, acredita em pressentimentos?

      - A ciência repele os fenómenos, que tendem a pôr em desarmonia as coisas materiais; e contudo, muitas vezes, os factos vêm desmentir a “infalibilidade” da ciência.

      - Deveria antes perguntar se o doutor acredita em predições?

      - Acredito que, para nossa felicidade, a bondade suprema cobriu o futuro com um véu impenetrável. Alguns espíritos, que receberam da natureza um grande tacto matemático, podem chegar, pelo estudo profundo do passado, a levantar uma ponta desse véu e a entrever, como através de um nevoeiro, algumas coisas no porvir; mas estas excepções são raríssimas, e desde que a filosofia impôs à fé os seus limites, perderam os profetas as três quartas partes da sua magia... E contudo... - acrescentou Gilberto.

      - E contudo?... - repetiu a rainha, vendo que ele ficara pensativo e vacilante.

      - E contudo, senhora - continuou ele como se fizesse um esforço sobre si para entrar em questões que à sua razão repugnavam - e contudo, senhora, existe um homem...

      - Um homem?... - repetiu a rainha, que seguia com interesse palpitante as palavras de Gilberto...

      - Existe um homem, que algumas vezes tem confundido, por meio de factos incontestáveis, todos os argumentos da minha inteligência.

      -E esse homem... é?...

      - Não me atrevo a nomeá-lo na presença de Vossa Majestade.

      - Esse homem é o seu mestre, não é verdade, Dr. Gilberto? O homem omnipotente, o homem imortal, o divino conde de Cagliostro!

      - O meu único e verdadeiro mestre, senhora, é a natureza... Cagliostro é apenas o meu salvador. Varado por uma bala, que me atravessou o peito, perdendo todo o meu sangue por uma ferida, que, depois de vinte anos de estudo da medicina, considero incurável, dentro de poucos dias, graças a um bálsamo, cuja composição ignoro, restabeleceu-me completamente... É desde então que data o meu reconhecimento, direi até, a minha admiração.

      - E esse homem fez-lhe predições que se realizaram, não é assim?

      - Extraordinárias, senhora, incríveis pareciam elas! Esse homem caminha no presente com uma tal exactidão que faria acreditar no conhecimento do futuro.

      - De sorte que se esse homem lhe predissesse alguma coisa, acreditá-lo-ia?

      - Pelo menos haver-me-ia como se a sua profecia tivesse de realizar-se.

      - De sorte que, se lhe vaticinasse uma morte prematura, terrível, infamante, preparar-se-ia para essa morte?

      - Tendo antes empregado todos os meios – disse Gilberto, olhando profundamente para a rainha - para escapar-lhe.

      - Para escapar-lhe! Não, doutor, não; bem vejo que estou condenada! - disse a rainha. - Esta revolução é um sorvedouro, que deve sorver o trono; este povo é um leão, que há-de devorar-me!

      - Ai, senhora - disse Gilberto - esse leão que a assusta, só depende de Vossa Majestade, vê-lo deitado a seus pés como se fosse um cordeiro.

      - Não o viu em Versalhes?

      - E Vossa Majestade não o viu nas Tulherias?... É o Oceano, senhora, batendo incessantemente, até derrubar o rochedo, que se lhe opõe à carreira, impelindo desabridamente a barca que a ele se confia...

      - Doutor, há muito que tudo se rompeu entre mim e esse povo... Ele despreza-me, e eu aborreço-o.

      - É porque, realmente, Vossa Majestade não conhece nem um nem outro... Cesse de ser para ele rainha, e torne-se carinhosa mãe; esqueça-se que é filha de Maria Teresa, nossa velha inimiga, irmã de José II, nosso falso amigo; seja francesa, e ouvirá então as vozes desse povo levantarem-se para bem-dizê-la!. Verá estenderem-se os braços desse povo para a afagar.

      Maria Antonieta encolheu os ombros.

      - Sim, bem sei... Ele abençoou ontem para afagar hoje... Amanhã esmagará os que afagou e abençoou!

      - É porque sente que nestes existe uma resistência à sua vontade, um ódio que se opõe ao seu amor.

      - E sabe porventura esse povo o que estima ou o que odeia? Sabe esse elemento destruidor... Como o vento, a água, o fogo, e caprichoso como uma mulher?

      - É porque observa de alto, senhora, como quem de cima de um rochedo observa o Oceano; é porque, avançando e recuando sem motivo aparente, lhe despedaça aos pés a sua espuma e cerca-a de queixumes, que Vossa Majestade considera rugidos; mas não é desse modo que deve observá-lo: é necessário vê-lo possuído pelo espírito do Senhor, que domina nas grandes águas; é necessário vê-lo como Deus o vê, caminhando unido e despedaçando quanto lhe sirva de obstáculo para chegar ao seu fim... Vossa Majestade é a rainha dos franceses e ignora o que neste momento se passa em França... Digne-se levantar o seu véu, senhora, em lugar de o abaixar, e então admirará em lugar de tremer.

      - Que verei então de tão belo, tão magnífico, tão esplêndido?

      - Verá então desabrochar o novo mundo do meio das ruínas do antigo; verá o berço da França flutuar como o de Moisés sobre um rio mais largo do que o Nilo, do que o Mediterrâneo, do que o Oceano! Deus te proteja, oh! frágil berço! Deus te guarde França!

      E conquanto Gilberto - fosse um pouco entusiasta, levantou os braços e os olhos para o Céu. A rainha olhava-o com admiração, sem poder compreendê-lo.

      - E onde irá abordar esse berço? - perguntou ela. - Irá porventura à Assembléia Nacional, a essa reunião de palavrosos, de destruidores, de niveladores? Será a velha França que deve guiar a nova? Triste mãe para tão linda criança, Sr. Gilberto!

      - Não, senhora... Onde esse berço deve abordar mais cedo ou mais tarde, hoje, talvez amanhã, é a uma terra desconhecida até aqui, e que se chama a PÁTRIA; encontrará aí a vigorosa nutriz que torna os povos fortes, a liberdade!

      - Ora! Palavrões - exclamava a rainha; - julgava que o abuso tinha acabado com eles.

      - Não, senhora - disse Gilberto - não são palavrões, são maravilhas! Veja a França no momento em que tudo se acha despedaçado, e nada ainda existe reconstruído; veja-o sem municipalidades regulares, impondo-se a si mesma uma lei; veja como ela franqueia, com o olhar fixo e o passo seguro, a vereda que conduz de um a outro mundo, ligeira ponte sobre o abismo... Veja essa ponte estreita como a de Mahomet; veja como ela a atravessa sem vacilar! Onde vai essa bela França? À unidade da Pátria! Tudo quanto julgou difícil, penoso, invencível até aqui, achou-a não só possível, mas facílima. As nossas províncias eram um feixe de preconceitos diferentes de interesses opostos, de recordações individuais; nada podia arrostar as vinte e cinco ou trinta nacionalidades que repeliam a nacionalidade geral, o velho Languedoc, a velha Tolosa, a velha Bretanha, consentiriam porventura em tornarem-se Normandia, Borgonha, ou Delfinado? Não, senhora; mas todos se fizeram França! Por que teimaram tanto em sustentar os direitos dos seus privilégios, da sua legislação? Porque não tinham pátria. Ora, como disse, senhora a pátria apareceu-lhes por fim, muito longe ainda, talvez no futuro, mais imortal e fecunda, acenando-lhes risonha com os braços abertos; filhos isolados e perdidos, a que os chama é mãe de todos! Tinham a humildade de se julgarem languedócios, provençais, bretões, normandos, borguinhões, delfineses... e enganavam-se: eram todos franceses.

      - Mas, quem o ouvisse, doutor - redargüiu a rainha com certa entoação de ironia - não deixaria de dizer que a França, a velha França, a filha mais velha da Igreja, como lhe chamam os papas desde o nono século, apenas existe há dois dias!

      - É justamente aí senhora, que consiste o milagre! É que havia uma França, e hoje existem franceses; não digo bem; existem irmãos, que mutuamente se dão as mãos. Senhora, os homens não são tão maus como se diz: tendem todos para socializar-se; para os desunir, para se evitar que se aproximem, foi preciso um mundo todo de invenções opostas à natureza: alfândegas interiores, portagens inumeráveis, barreiras nas estradas, barcos de passagem nos rios, diversidade de leis, de regulamentos, de pesos, de medidas, rivalidades de províncias, de terras, de cidades, de vilas e de aldeias. Sobrevêm um dia um tremor de terra que abala o trono, e derruba todas essas velhas muralhas, destrói todos esses obstáculos! Então, os homens encaram-se mutuamente à face do Céu, à claridade da salutar e brilhante luz do Sol, que fecunda, não só a terra, senão também os corações; a fraternidade vegeta como uma seara abençoada, e os próprios inimigos, admirados dos ódios que por tanto tempo os agitaram, avançam, não uns contra os outros, mas procurando-se reciprocamente, de braços, não armados, mas abertos! Nada oficial, nada imperioso! Debaixo do fluxo que sobe, os rios e as montanhas hão-de desaparecer; a geografia falecerá; os sons serão ainda diversos, mas a língua será a mesma, e o hino universal, que hão-de cantar trinta milhões de franceses, há-de compor-se unicamente destas poucas palavras:

     

       “Louvemos a Deus, que nos deu uma pátria!”

     

      - E que quer então concluir, doutor? Julga porventura, muito animadora para mim a vista dessa federação universal de trinta mil rebeldes contra a sua rainha e o seu rei?

      - Mas, senhora - exclamou Gilberto - não é o povo que é rebelde à sua rainha e ao seu rei; o rei e a rainha é que são rebeldes ao seu povo, porque continuam a falar a linguagem dos privilégios e da realeza, si quando em volta deles se fala apenas a linguagem da fraternidade e do amor. Lance Vossa Majestade os olhos sobre uma dessas festas improvisadas, senhora, e verá aí quase sempre, no meio duma vasta planície ou no alto de um outeiro, um altar, tão puro como o de Abel! Sobre esse altar verá um menino, que todos adoptam, e que dotado dos votos, dos dons e das lágrimas de todos, constituem seu filho dilecto! Pois bem, senhora! A França, que ontem nasceu e de que falo, é o menino colocado sobre o altar, mas em volta desse altar já não são as cidades e aldeias que se agrupam; são os povos, são as nações... A França é o Cristo que acaba de nascer num presépio no meio dos humildes, e os povos regozijam-se com o seu nascimento, esperando que os reis dobrem o joelho diante dele, e lhe tragam o seu tributo. A Itália, a Polónia, a Irlanda, a Espanha, observaram este recém-nascido, que lhes leva o seu futuro, com os olhos debulhados em lágrimas, estendem-lhe as mãos algemadas, bradando ao mesmo tempo: “França! França! Contigo somos livres!...” Senhora - continuou Gilberto - ainda é tempo, tome o menino de sobre o altar, e seja mãe dele.

      - Doutor - respondeu a rainha - parece esquecer que tenho outros filhos das minhas entranhas, e que, praticando o que diz, ficariam deserdados por um filho estranho.

      - Sendo assim, senhora - disse Gilberto fundamente contristado - cubra os seus filhos com o manto real, com o manto guerreiro de Maria Teresa, e saia com eles de França; porquanto Vossa Majestade mesmo o disse, o povo devorá-la-á e com Vossa Majestade devorará também os seus filhos... Mas atenda a que não há tempo a perder; apresse-se, pois, senhora, apresse-se!

      - E o senhor, não se oporá a essa partida? - perguntou Maria Antonieta.

      - Pelo contrário - disse Gilberto; - agora, que conheço as verdadeiras intenções de Vossa Majestade, ajudá-la-ei.

      - Pois bem; isso vem muito a propósito - disse a rainha - porque há um fidalgo dedicado a morrer...

      - Ai, senhora - disse Gilberto um tanto aterrado; - será porventura do Sr. de Favras de que Vossa Majestade quer falar?

      - Quem lhe disse o nome, Dr. Gilberto? Quem lhe revelou o seu projecto?

      - Oh! Senhora, tenha cautela! Também a esse o persegue uma fatal predição!

      - Do mesmo profeta?

      - Sim, senhora.

      - E segundo esse profeta, qual é a sorte que o espera marquês?

      - Uma morte prematura, terrível, infamante como aquela de que há pouco Vossa Majestade falava.

      - Nesse caso, tinha razão de dizer que não há tempo a perder para desmentir esse profeta da desgraça!

      - Vai então prevenir o Sr. de Favras de que lhe aceita os serviços?

      - Já preveni, Sr. Gilberto, e espero a resposta.

      Neste momento, e quando Gilberto, assustado das circunstâncias em que se via, corria a mão pela fronte, como para chamar a razão em seu auxílio, entrou a Srª. de Lumballe, e disse algumas palavras ao ouvido de Maria Antonieta.

      - Que entre! Que entre! - exclamou ela; - o doutor sabe tudo... Doutor - continuou ela - é o Sr. Isidoro de Charny, que me traz a resposta do marquês de Favras... A rainha sairá amanhã de Paris, deixaremos a França! Venha, barão, venha... Meu Deus que tem? Está tão pálido!

      - Senhora, a Srª. princesa de Lumballe disse-me que podia falar diante do Sr. Dr. Gilberto – disse Isidoro.

      - E disse-lhe a verdade; sim, sim, fale... Esteve com o marquês de Favras, não esteve? Ele está pronto, não é verdade?... Aceitamos o seu oferecimento... Vamos sair de Paris, deixar a França...

      - O marquês de Favras acaba de ser preso, haverá uma hora, na rua de Beaurepaire e conduzido ao Châtelet - respondeu Isidoro de Charny.

      O olhar da rainha cruzou-se com o de Gilberto, luminoso, desesperado, cheio de cólera.

      Mas toda a força de Maria Antonieta pareceu esgotar-se naquele lampejo!

      Gilberto aproximou-se dela, e com um gesto de profunda compaixão, disse:

      - Senhora, posso ser-lhe útil para alguma coisa? Disponha de mim; a minha inteligência, a minha dedicação, a minha vida, tudo deposito aos pés, de Vossa Majestade.

      A rainha levantou pausadamente os olhos para o doutor. Depois, com voz sonora e resignada, respondeu:

      - Dr. Gilberto, o senhor que é um homem tão sábio, e que assistiu à experiência desta manhã, diga-me. É sua opinião que a morte dada por aquela terrível máquina seja tão suave quanto pretende o seu inventor?

      Gilberto soltou um suspiro, e escondeu os olhos com as mãos.

      Neste momento, o conde de Provença, que sabia tudo quanto queria saber, por isso que a notícia da prisão de Favras se espalhara em poucos segundos por todo o palácio, meteu-se na sua carruagem, e partiu, sem se inquietar com a saúde da rainha, e quase sem se despedir do rei.

      Luís XVI atravessou-se diante dele, dizendo-lhe:

      - Meu irmão, o senhor não deve ter tanta pressa em recolher-se ao Luxemburgo, que não tenha tempo para me dar um conselho. Segundo a sua opinião, que devo fazer?

      - Pergunta-me o que faria eu no seu lugar?

      - Tal qual.

      - Abandonaria o Sr. de Favras e juraria fidelidade à constituição.

      - Como quer que jure fidelidade à constituição, se ainda não está concluída?

      - É mais uma razão para o fazer, meu irmão - disse o conde de Provença com o olhar vesgo e falso que partia das mais profundas sinuosidades do coração; - é uma razão para se não julgar obrigado a sustentar o juramento.

      O rei ficou um momento pensativo.

      - Pois seja - disse ele; - isso não me inibe de escrever ao Sr. de Bouillé, e dizer-lhe que subsiste o nosso projecto, mas que fica adiado; esta demora dará tempo ao conde de Charny para calcular o caminho que devemos seguir.

 

O conde de Provença renega Favras, e o rei presta juramento à constituição

      No dia seguinte àquele em que fora preso o marquês de Favras, corria pelas ruas de Paris, a seguinte circular:

     

      “O marquês de Favras (Praça Real) foi preso com sua esposa na noite de 24 para 25, em conseqüência de um plano que consistia em mandar assassinar o general Lafayette e o maire da cidade, para em seguida nos interceptar os víveres.

      O conde de Provença, irmão do rei, estava à testa da conspiração.

       (Assinado) Barauz”

     

      É fácil de conceber a estranha revolução que fez em Paris semelhante circular.

      Um rastilho de pólvora incendiada não produziria uma chama mais rápida do que a que aparecia por toda a parte por onde passava o papel incendiário. Em primeiro lugar, corria por todas as mãos; duas horas depois, todos o sabiam de cor.

      No dia 26, à noite, os mandatários da comuna, achavam-se reunidos na casa da câmara, e liam o decreto da junta de investigações que acabava de ser promulgado, quando o meirinho anunciou que o Sr. infante pedia para ser introduzido.

      - O Sr. infante? - repetiu o bom Bailly, que presidia à assembléia - que infante é esse?

      - É o Sr. infante, conde de Provença, irmão de el-rei - respondeu o meirinho.

      A estas palavras, os membros do conselho olharam uns para os outros. O nome do conde circulara, desde a véspera de manhã, pela boca de todos.

      Mas ao mesmo tempo todos se levantaram.

      Bailly lançou um olhar investigador em volta de si, e como as mudas respostas que leu nos olhos dos seus colegas lhe pareceram unânimes, disse:

      - Vá anunciar ao Sr. infante, que, conquanto admirados da honra que nos faz, estamos prontos para o receber.

      Dali a poucos segundos o conde de Provença era introduzido.

      Vinha só; o rosto estava pálido, e o andar, de ordinário pouco firme, era ainda mais vacilante naquela noite.

      Para felicidade do príncipe, os membros do conselho tinham muitas luzes ao pé de si, sobre uma grande mesa em forma de ferradura, em que trabalhavam, ficando por isso o centro daquela ferradura numa obscuridade relativa.

      Esta circunstância não escapou ao príncipe, que pareceu mais animado.

      Lançou ainda um olhar tímido sobre aquela numerosa reunião, onde, ao menos, encontrava respeito na ausência de simpatia, e com voz trémula, mas que gradualmente se ia tornando firme, disse:

      - Senhores, traz-me à vossa presença o desejo de repelir uma calúnia atroz. O marquês de Favras foi preso anteontem por ordem deste conselho, e hoje espalha-se com afectação que eu me achava relacionado com ele.

      Alguns sorrisos deslizaram nos rostos dos auditores, e esta primeira parte do discurso do príncipe foi recebida com murmúrios.

      Ele prosseguiu:

      - Na minha qualidade de cidadão de Paris, julguei de meu dever dar-lhes pessoalmente alguns esclarecimentos acerca dos motivos que me fizeram conhecer o Sr. de Favras.

      Como facilmente se julgará, todos os membros do conselho redobraram de atenção; desejavam saber da própria boca do infante quais eram as relações de Sua Alteza real com o Sr. de Favras.

      Sua alteza real continuou nos seguintes termos:

      - Em 1772, o Sr. de Favras entrou para o serviço das minhas guardas suíças, de onde saiu em 1775. Desde essa época nunca mais lhe falei...

      Um murmúrio de incredulidade circulou de boca em boca, mas um olhar de Bailly comprimiu esse murmúrio, e o conde ficou em dúvida se aquele olhar era negativo, se aprovativo.

      Continuou:

      - Privado há uns poucos de meses dos meus rendimentos, inquieto por pagamentos consideráveis que devo fazer em Janeiro, concebi o desejo de satisfazer as minhas obrigações sem que para isso fosse pesado ao tesouro público; resolvi-me portanto a contrair um empréstimo.

      “Indicaram-me o Sr. de Favras, haverá uns quinze dias, como capaz de poder realizar esse empréstimo em casa de um banqueiro de Génova: foi o Sr. de la Châtre quem me deu estes esclarecimentos.

      Assinei, pois, uma obrigação de dois milhões, soma necessária para solver as minhas dívidas e pagar aos meus criados. Deste negócio, puramente financeiro, encarreguei o meu intendente; não vi o Sr. de Favras, não lhe escrevi, não tive comunicação alguma com ele. Sou inteiramente estranho ao seu procedimento.”3

      Algumas risadinhas, que saíram das galerias públicas, provaram que nem todos estavam dispostos a acreditar esta singular asserção de um príncipe, que confiava, sem mais nem menos, dois milhões a um intermediário, principalmente sendo esse intermediário um dos seus antigos guardas.

      O príncipe corou, e querendo provavelmente sair da falsa posição em que se achava, continuou com algum calor:

      - Todavia, senhores, soube ontem que se distribuía com profusão pela capital um papel concebido nestes termos.

      E leu então a famosa circular, o que era decerto escusado, porque todos a sabiam de cor.

      A estas palavras: “o conde de Provença, irmão do rei, estava à testa da conspiração” todos os membros do conselho se inclinaram.

      Queriam dizer que participavam da opinião do boletim, ou pura e simplesmente que se achavam ao facto da acusação?

      O infante prosseguiu:

      - Os senhores não esperam decerto que desça a justificar-me de crime tão ignóbil; mas num tempo em que as mais absurdas calúnias podem facilmente confundir os melhores cidadãos com os inimigos da revolução, julguei que devia ao rei, aos senhores e a mim próprio os esclarecimentos que acabam de ouvir, para que a opinião pública não fique incerta um só momento. Desde o dia em que na segunda assembléia dos notáveis me declarei sobre a questão fundamental que ainda dividia os espíritos, nunca deixei de acreditar que uma revolução estava iminente; que por suas intenções, por suas virtudes e alta categoria, el-rei devia ser o chefe dessa revolução, por isso que ela não podia ser vantajosa à nação sem que o fosse igualmente ao monarca; enfim, que a autoridade real devia ser o baluarte da liberdade nacional, e a liberdade nacional a base da autoridade real.

      Bem que o sentido da frase não fosse muito claro, o costume de aplaudir certas combinações de palavras fez também que aquelas fossem aplaudidas.

      O príncipe, animado com os aplausos, levantou a voz e acrescentou, dirigindo-se com alguma segurança aos membros da assembléia:

      - Que se cite uma só das minhas acções; um só dos meus discursos que desmintam os princípios que acabo de expender; que mostrem que em qualquer circunstância em que tenho sido colocado, a felicidade e bem-estar do povo deixassem de ser o objecto dos meus mais ardentes votos: até aqui tenho o direito de ser acreditado. Nunca mudei de sentimentos, nem de princípios, nem espero mudar para o futuro!

      Apesar de romancista, invadimos um pouco a história, dando o fibroso discurso de sua alteza real em toda a sua íntegra. Cumpre portanto que os leitores de romances saibam quem era, aos trinta e cinco anos, o príncipe que, aos sessenta, nos devia dar a carta adornada com o seu artigo 14.

      Ora, como não queremos ser mais injustos para com Bailly do que para sua alteza real, daremos também a resposta do maire de Paris.

      Este respondeu:

      - É grande satisfação para os representantes do conselho de Paris verem entre si o irmão de um rei tão querido, de um rei que é o restaurador da liberdade francesa. Augustos irmãos, os mesmos sentimentos vos ligam. O Sr. infante provou que era o primeiro cidadão do reino votando pelo terceiro estado na segunda assembléia dos notáveis; foi quase o único desta opinião com diminutíssimo número de amigos do povo, e ajuntou a dignidade da razão a todos os demais títulos que já tinha ao respeito da nação. O Sr. infante é portanto o primeiro autor da igualdade civil, e dá-nos hoje um novo exemplo, vindo envolver-se com os representantes do conselho, onde parece que só deseja ser apreciado pelos seus sentimentos patrióticos, que se acham consignados nas explicações que sua alteza quis ter a bondade de dar à assembléia. O príncipe vem ao encontro da opinião pública; o cidadão aprecia a opinião dos seus concidadãos, e em nome da assembléia ofereço a sua alteza o tributo de respeito e de reconhecimento que ela deve aos seus sentimentos, à honra da sua presença, e sobretudo ao valor que dá a estima dos homens livres.

      Então, como o conde entendesse, que apesar do grande elogio que Bailly fazia da sua conduta, esta havia de ser apreciada de outro modo, respondeu com ar paternal, que tão bem sabia tomar nas circunstâncias que via lhe podiam ser úteis:

      - Senhores, o dever que venho cumprir é bastante difícil para um coração virtuoso; mas os sentimentos que a assembléia acaba de testemunhar-me aliviaram de algum modo a minha dor. Só me resta pedir-lhes perdão para aqueles que me ofenderam.

      O príncipe nem se obrigou a si, nem obrigava a assembléia. Para quem era o perdão que pedia?

      Não era para Favras; porque ninguém ainda sabia que Favras fosse criminoso, e demais talvez que ele não tivesse ofendido o infante.

      Não, o príncipe pedia simplesmente perdão para o autor anónimo da circular que o acusava; mas esse não precisava de perdão, porque ninguém o conhecia.

      Os historiadores saltam tantas vezes por cima das infâmias dos príncipes, que nós, romancista, temos muitas vezes que cometer a mesma falta, correndo o risco de ver, no decurso de um capítulo, tornar-se o romance tão aborrecido como a própria história.

      É desnecessário dizer que, quando falamos de historiadores cegos ou de histórias enfadonhas, todos sabem quais são os historiadores e as histórias de que queremos falar.

      O conde de Provença, pela sua parte, punha em prática alguns dos conselhos que dera ao irmão, Luís XVI.

      Renegara o Sr. de Favras, e à vista dos elogios que lhe fizera o virtuoso Bailly, era evidente o completo triunfo que alcançara.

      Luís XVI, conhecedor destas circunstâncias, decidiu-se por sua vez jurar a constituição.

      Numa bela manhã, foi o meirinho da assembléia anunciar ao seu presidente, que naquele dia era o Sr. de Bureaux de Puzy, que el-rei, com um ou dois ministros e três ou quatro oficiais, batiam à porta do picadeiro, do mesmo modo que o conde de Provença batera à porta da casa da câmara.

      Os representantes do povo olharam pasmados uns para os outros. Que teria o rei que dizer-lhes, andando separado deles havia tanto tempo?

      Mandaram entrar Luís XVI, cedendo-lhe o presidente a sua cadeira.

      As aclamações retumbaram por toda a sala. À excepção de Pétion, Camilo Desmoulins e Marat, ainda toda a França se considerava realista.

      O rei sentira a urgência de vir felicitar a assembléia pelos seus trabalhos; tinha que louvar a bela divisão da França em departamentos; mas o que não queria retardar a exprimir era o sentimento que o abrasava, era o seu amor ardente pela constituição.

      O princípio do discurso (não esqueçam que, preto ou branco, realista ou patriota, nem um só dos representantes conhecia as intenções do rei), o princípio do discurso causou alguma inquietação; o meio predispôs os espíritos ao reconhecimento; mas o fim... Oh! O fim... Esse elevou os sentimentos da assembléia ao maior entusiasmo!

      O rei não podia resistir ao desejo de exprimir o seu amor por essa pobre constituiçãozita de 1791, que ainda não era nascida; que seria pois quando ela visse completa a luz do dia?...

      Então já não seria amor que lhe teria, seria fanatismo.

      Não citamos o discurso do rei... pois não! Seis páginas! Basta citarmos o do conde de Provença, que apenas tinha uma e que, contudo, nos pareceu terrivelmente extenso.

      Diremos unicamente que Luís não pareceu demasiadamente prolixo à assembléia, que chorou enternecida, quando lhe ouviu o discurso.

      Quando dizemos chorou, não é por metáfora: Barnave chorou, Lameth chorou, Duport chorou, Mirabeau chorou, Barrère chorou; enfim, era um verdadeiro dilúvio!

      A assembléia pareceu desorientada; levantou-se toda; as tribunas igualmente; cada qual estendia a mão, jurando fidelidade à constituição que ainda não existia.

      O rei saiu, mas o rei e a assembléia não podiam assim separar-se; ela segue-o, faz-lhe cortejo... e chega às Tulherias, onde é recebida pela rainha.

      A rainha! Essa não é entusiasta; a rude filha de Maria Teresa não chora, é a digna irmã de Leopoldo! Apresentando seu filho aos representantes da nação, disse:

      - Senhores, eu participo de todos os sentimentos de el-rei; uno-me com todas as veras do coração ao passo que ele acaba de dar, movido pela ternura que o seu povo lhe merece. Eis aqui meu filho; não me descuidarei de ensinar-lhe a tempo a imitar as virtudes do melhor dos pais, a respeitar a liberdade pública e a manter as leis, das quais espero que há-de ser o mais firme sustentáculo.

      Era necessário um entusiasmo verdadeiro para que este discurso o não esfriasse; o da assembléia havia chegado ao seu apogeu. Propôs-se a prestar logo o juramento, que foi formulado em sessão permanente. Primeiro que todos, o presidente, fez ouvir estas palavras:

      “Juro ser fiel à nação, à lei e ao rei, e manter com todo o meu poder a constituição, decretada pela Assembléia Nacional e aceite pelo rei.”

      E todos os membros da assembléia à excepção de um, levantaram a mão, repetindo cada, por seu turno: “Assim o juro!”

      Os dez dias que se seguiram a este feliz acontecimento, que tanta alegria trouxera à assembléia, que restituíra o sossego de Paris, e a Paz à França, deslizaram todos em banquetes, em bailes, em iluminações. Ouviam-se sermões e juramentos por toda a parte: jurava-se na praça de Grève na casa da câmara, nas igrejas, nas ruas; sobre as praças elevaram-se altares em honra da pátria, onde eram conduzidos os estudantes, os quais juravam como se já fossem adultos, e como se soubessem o que era prestar um juramento.

      A assembléia ordenou um Te Deum, a que assistiu em massa: ali, sobre o altar, na presença de Deus, todos renovaram o juramento já prestado.

      Todavia o rei não compareceu na igreja, e por conseqüência, não jurou. Notou-se a sua ausência; mas era tão grande a confiança que tinham no rei, que se contentaram com o primeiro pretexto que ele quis dar.

      - Porque não foi ao Te Deum? Porque não jurou sobre o altar como juraram os mais? – perguntava ironicamente a rainha.

      - Porque me apraz mentir, senhora, mas não perjurar - respondeu o rei.

      A rainha respirou.

      Até ali acreditava, como todos acreditavam, na sinceridade de Luís XVI!

 

Um fidalgo

      A visita do rei à assembléia realizara-se em 4 de Fevereiro de 1790.

      Doze dias depois, isto é, na noite de 17 para 18 do mesmo mês na ausência do governador do Châtelet, que naquele mesmo dia obtivera licença para ir visitar a Soissons sua mãe, que se achava em perigo de vida, apresentou-se à noite na prisão um homem com uma ordem do intendente de polícia, autorizando o visitante a conferenciar, sem testemunhas, com o Sr. de Favras.

      A ordem seria verdadeira ou falsificada? É o que não podemos afirmar; mas em todo o caso, o imediato do governador, que foram acordar para lha submeter, considerou-a como boa, ordenando logo que, apesar da hora já muito adiantada da noite, fosse o portador da ordem introduzido no cárcere onde se achava o marquês de Favras; e tendo toda a confiança nos seus carcereiros e nas sentinelas, tornou novamente a deitar-se, para continuar o seu sono, tão desastradamente interrompido.

      O visitante, sob o pretexto de lhe ter caído um papel de importância, no momento em que tirara a ordem da carteira, pegou na lanterna como quem queria procurar alguma coisa, dando tempo, deste modo, a que o imediato ao governador tornasse a entrar no seu quarto. Declarou então que lhe parecia ter deixado o papel, que julgava perdido, sob a mesa de cabeceira, mas em todo o caso pedia que, se o achassem, lho entregassem quando se retirasse.

      Em seguida deu ao carcereiro, que o esperava, a lanterna, que ainda tinha na mão, pedindo que o conduzisse ao cárcere do Sr. de Favras.

      O carcereiro abriu uma porta, fez passar por ela o desconhecido, entrou também e tornou a fechar a porta sobre si.

      Parecia examinar aquele desconhecido com a maior curiosidade, como se esperasse que, de um momento para outro, lhe dirigisse a palavra.

      Desceram doze degraus de uma escada, que conduzia a um corredor subterrâneo.

      Depois, chegaram a outra porta, que o carcereiro abriu e fechou como fizera à primeira.

      O desconhecido e o seu guia chegaram então a uma espécie de patamar, tendo diante de si um segundo andar de degraus para descer: o desconhecido parou, mergulhando um olhar nas profundezas do sombrio corredor.

      E quando se assegurou de que a escuridão era tão profunda, quanto muda, perguntou:

      - É o chaveiro Luís?

      - Sim, senhor.

      - Irmão da loja americana?

      - Sim.

      - Foi colocado aqui há oito dias por um indivíduo misterioso, a fim de cumprir uma obra secreta?

      - Sim.

      - Está pronto a cumprir essa obra?

      - Estou.

      - Deve receber ordens de um indivíduo?

      - Sim, de Messias.

      - Como reconhecerá esse homem?

      - Vendo-lhe três letras bordadas sobre o peito.

      - Sou esse homem, eis aqui as três letras.

      E a estas palavras, o visitador fez-lhe ver sobre o peito as três letras bordadas, cuja influência já no decurso desta história tivemos ocasião de patentear: L. P. D.

      - Mestre - disse o carcereiro inclinando-se - estou às suas ordens.

      - Bem. Abra-me o cárcere do Sr. de Favras, e esteja pronto a obedecer-me.

      O carcereiro inclinou-se outra vez sem responder, passou adiante para alumiar, e parando em frente de uma porta, murmurou em seguida:

      - É aqui!

      O desconhecido fez um sinal com a cabeça: a chave introduzida na fechadura, girou duas vezes e a porta abriu-se.

      Ao passo que tomavam as maiores precauções para segurança do preso, a ponto de o meterem num cárcere enterrado vinte pés abaixo da terra, algumas atenções tinham tido com a sua qualidade. Tinha uma cama muito asseada; junto dela estava uma mesa com livros, tinteiro, penas e papel, tudo destinado para serviço do preso.

      Havia também uma lâmpada apagada.

      Num canto, sobre outra mesa, brilhavam vários objectos de toucador, tirados de um elegante estojo com as armas do marquês; encostado à parede estava um pequeno espelho pertencente ao mesmo estojo.

      O Sr. de Favras dormia profundamente, quando abriram a porta; o desconhecido aproximou-se dele, e o carcereiro depois pousou a lanterna ao lado da outra apagada, saiu a um gesto do visitante sem que o ruído e o movimento que se fizeram conseguissem arrancar o marquês do seu sono.

      O desconhecido contemplou um momento aquele homem adormecido, com um sentimento de profunda melancolia; depois, como recordando-se de que todo o tempo lhe era precioso, apesar da repugnância que parecia ter em perturbar aquele descanso, resolveu-se a pôr-lhe a mão no ombro.

      O preso estremeceu, voltando-se com vivacidade, com os olhos muito abertos, como costumam fazer todas as pessoas que se deixam adormecer na esperança de serem despertadas por alguma triste nova.

      - Tranquilize-se, Sr. de Favras - disse o desconhecido - que é um amigo.

      Favras examinou o visitante nocturno com uma espécie de dúvida, que inculcava a estranheza que sentia de que um amigo viesse procurá-lo a dezoito ou vinte pés abaixo da terra.

      Mas, de repente, chamando em seu auxílio a memória, exclamou:

      -Ah! Ah! É o barão Zannone?

      - Eu mesmo, meu caro marquês.

      Favras, sorrindo-se, relanceou os olhos em volta de si, e designando com o dedo ao barão um banco, que estava desocupado, disse:

      - Não se senta?

      - Meu caro marquês - disse o barão - venho propor-lhe um negócio que não admite longa discussão, além de que não temos tempo a perder...

      - O que é então que vem: propor-me, meu caro barão? Julgo que não será algum empréstimo?

      - Por quê?

      - Porque as garantias que tenho a dar-lhe me parecem pouco seguras...

      - Isso para mim seria o mesmo, marquês; pelo contrário, se quiser aceitar um milhão, está às suas ordens.

      - Eu? - disse Favras sorrindo.

      - O senhor, sim... Mas como isso seria debaixo de condições que não aceitaria, nem sequer lhe farei tal oferecimento.

      - Então, como me preveniu de que tinha pressa, vamos ao facto, meu caro barão.

      - Sabe que é amanhã que deve ser julgado, marquês?

      - Assim o ouvi dizer - respondeu Favras.

      - Sabe também que os juízes, perante os quais deve comparecer, são os mesmos que absolveram Augeard e Besenval?

      - Sei.

      - Sabe que um e outro foram absolvidos por intervenção da corte?

      - Sei - respondeu ainda Favras, sem que a voz lhe exprimisse a mais leve alteração nas respostas.

      - Espera talvez que a corte se empenhe pelo marquês como se empenhou por eles?

      - As pessoas com quem tive a honra de estar em relações para levar a cabo a empresa, que aqui me trouxe, sabem perfeitamente o que devem fazer a meu respeito, Sr. barão... O que elas fizerem será bem feito.

      - Já tomaram todas o partido que julgaram conveniente tomar, Sr. marquês, e posso instruí-lo do que fizeram.

      O marquês de Favras não significou a menor curiosidade em sabê-lo.

      - O Sr. conde de Provença - continuou o visitante - apresentou-se na casa da câmara, e declarou que mal o conhecia; que em 1772 tinha o marquês entrado para as guardas suíças; que deixou este serviço em 1775, e que, desde essa época, não o tornara mais a ver.

      Favras inclinou a cabeça em sinal de adesão.

      - Quanto ao rei, esse, longe de querer evadir-se, uniu-se à Assembléia Nacional, e jurou a constituição.

      Viu-se deslizar um sorriso dos lábios de Favras.

      - Duvida? - perguntou o barão.

      - Não digo tal - respondeu Favras.

      - Deste modo, marquês, bem vê que nada tem que esperar nem do rei nem do infante.

      - Vamos ao facto, Sr. barão, vamos ao facto.

      - Vai, pois, amanhã, comparecer na presença dos seus juízes...

      - Já fez a honra de dizer-mo.

      - Será condenado...

      - É provável.

      - À morte.

      - É possível.

      Favras inclinou-se como homem prestes a receber qualquer golpe que lhe fosse destinado.

      - Mas, meu caro marquês, sabe porventura a morte a que talvez o condenem?

      - Pois haverá acaso duas mortes, meu caro barão de Zannone?

      - Oh! Há até dez: a estaca, o esquartejamento, o laço, a roda, a forca, o cepo... ou, para melhor dizer, a semana passada, havia ainda todos estes géneros de mortes; hoje, como diz, não há mais do que um, o cadafalso!

      - O cadafalso!

      - Sim, a Assembléia Nacional, depois de proclamar a igualdade perante a lei, achou também conveniente proclamar a igualdade perante a morte... Agora, nobres e vilões saem deste mundo pela mesma porta: enforcam-nos, marquês, enforcam-nos!

      - Ah! Ah! - exclamou Favras.

      - Condenado à morte, será enforcado, o que deve ser tristíssimo para um fidalgo, que não receia a morte, mas a quem repugna o patíbulo.

      - Ora diga-me, Sr. barão - disse Favras – veio porventura procurar-me para me anunciar unicamente todas essas belas notícias, ou tem ainda alguma coisa agradável para me dizer?

      - Vim para lhe anunciar que tudo se acha pronto para a sua evasão, e para lhe dizer também que, dentro de dez minutos, se quiser, pode sair da sua prisão, e em vinte e quatro horas sair de França.

      Favras reflectiu um momento, sem que o oferecimento que o barão lhe fazia parecesse causar-lhe a menor comoção; depois, dirigindo-se ao seu interlocutor, perguntou:

      - Esse oferecimento vem da parte de el-rei ou de sua alteza real?

      - Não, senhor, vem de mim só.

      Favras olhou para o barão.

      - Do senhor! - disse ele; - e por que motivo?

      - Pelo interesse que tomo pelo marquês.

      - Que interesse posso merecer-lhe, senhor, se apenas me viu duas vezes?

      - Não há precisão de ver um homem duas vezes para o conhecer, meu caro marquês. Ora, os verdadeiros fidalgos são raríssimos, e por isso quero conservar um, não direi à França, mas sim à humanidade.

      - Não tem outro motivo?

      - Tenho este, senhor, que havendo negociado consigo um empréstimo de dois milhões, e tendo o senhor recebido esse dinheiro, julgo ter-lhe dado os meios de prosseguir na conspiração hoje descoberta e por conseqüência ter sido eu quem involuntariamente concorreu para a sua morte.

      Favras sorriu.

      - Se não tem cometido outro crime, pode dormir descansado - disse Favras - que está absolvido!

      - Como! - exclamou o barão - recusa fugir?

      Favras estendeu-lhe a mão e respondeu:

      - Agradeço-lhe do fundo do coração, senhor; agradeço-lhe em nome da minha mulher e de meus filhos, mas recuso o seu favor.

      - Por que julga talvez que as nossas medidas estejam mal tomadas, marquês, e por que receia que uma tentativa de evasão malograda agrave mais a sua situação?

      - Creio, senhor, que é um homem prudente, e direi mais, um homem aventuroso, visto que vem pessoalmente propor-me essa evasão, mas, repito-lhe, não quero fugir.

      - Sem dúvida, senhor, receia que, obrigado a sair de França, deixe aqui sua mulher e seus filhos na miséria?... O caso já foi prevenido, senhor, e posso oferecer-lhe esta carteira, na qual existem cem mil francos em notas do banco.

      Favras olhou para o barão com uma espécie de profunda admiração.

      Depois, meneando a cabeça, disse:

      - Não é isso, senhor, sob a sua palavra, e sem que fosse preciso dar-me essa carteira, sairia de França se tivesse tenção de fugir, mas, torno a repetir, a minha resolução é inabalável; não fugirei.

      O barão olhou para o marquês, como que duvidando do bom estado da sua razão.

      - Admira-lhe isto, senhor? - disse Favras com singular serenidade - e pergunta a si mesmo, sem se atrever a perguntar-mo directamente, donde me provém esta singular persistência que me anima a morrer, se for necessário, de qualquer modo que seja?

      - Confesso-o senhor.

      - Pois assim é, senhor. Sou realista, mas não como os que emigram para o estrangeiro, ou se dissimulam em Paris. A minha opinião não é o facto que se baseia em cálculos de interesse; é um culto, uma religião, e os reis não são outra coisa para mim mais do que um arcebispo e um papa, isto é, os representantes visíveis da religião de que lhe falo. Se fugisse haviam de supor que fora el-rei ou o Sr. infante que me facilitaram a fuga; ora, se tal fosse, seriam meus cúmplices, e o Sr. infante, que foi renegar-me à câmara, el-rei que fingiu não me conhecer, acham-se sob o peso de um golpe que os pode ferir mortalmente. As religiões caem Sr. barão, quando já lhes não restam mártires; pois eu quero exaltar a minha, morrendo por ela. Será uma censura feita ao passado, uma advertência ao futuro.

      - Mas - disse o barão - lembre-se do género de morte que o espera, marquês!

      - Quanto mais infamante for, tanto mais meritório será o sacrifício; Cristo morreu numa cruz entre dois ladrões!

      - Isso seria muito bom, marquês, acudiu o barão, se a sua morte tivesse para a realeza a mesma influência que teve a de Cristo para o mundo; mas os pecados dos reis são de tal natureza, marquês, que receio muito não só que o sangue de um simples fidalgo, mas até o de um rei não seja suficiente para os redimir.

      - Será o que Deus quiser, Sr. barão; nesta época de irresolução e de dúvida, em que tanta gente falta ao seu dever, morrerei eu ao menos com a consciência de ter cumprido o meu.

      - Não, senhor - redargüiu o barão com ar de importância - o senhor morre simplesmente com o pesar de morrer sem nenhuma utilidade.

      - Quando o soldado desarmado não quer fugir, quando espera o inimigo, quando arrosta a morte, quando a recebe, conhece perfeitamente que essa morte é inútil, mas considera que a fuga seria vergonhosa, e prefere morrer.

      - Senhor - disse o barão - ainda não me considero vencido, e olhando então para o relógio, que marcava três horas da manhã, continuou: Resta-nos ainda uma hora; vou sentar-me a esta mesa e lerei pelo espaço de meia hora... Durante esse tempo reflicta, medite. Daqui a meia hora dar-me-á uma resposta definitiva.

      E dirigindo-se para uma cadeira, sentou-se à mesa, com as costas voltadas para o preso, abriu um livro e pôs-se a ler.

      - Boas noites barão! - disse Favras - e voltou-se para o lado da parede, provavelmente para reflectir menos distraidamente.

      O barão consultou duas ou três vezes o relógio, mais impaciente do que o próprio preso; depois, tendo decorrido a meia hora designada, levantou-se e aproximou-se da cama.

      Mas por mais que esperasse, Favras não se mexia.

      Então o barão de Zannone debruçou-se sobre ele, e conheceu pela regularidade e sossego da respiração que o preso dormia profundamente!

      - Vamos - disse falando consigo - dou-me por vencido... Mas a sentença ainda não está pronunciada; talvez que ele ainda não duvide...

      E sem querer acordar o desgraçado, a quem tão contínuo e tão profundo sono esperava dentro de alguns dias, pegou na pena e numa folha de papel e escreveu o seguinte:

     

      “Quando a sentença for pronunciada, quando o Sr. de Favras for condenado à morte, quando já não tiver esperança nem nos seus juízes, nem no Sr. infante, nem no próprio rei, se mudar de opinião, não tem mais do que chamar o carcereiro Luís, e dizer-lhe: Estou decidido a fugir, e ainda assim haverá meio de lhe oferecer a fuga.

      Quando o Sr. de Favras já estiver no carro fatal, quando fizer a oração diante da igreja de Nossa Senhora, quando atravessar descalço com as mãos amarradas o curto espaço que separa os degraus da casa da câmara, onde irá fazer o seu testamento de morte, da forca levantada na praça de Grève, basta que pronuncie em voz alta estas palavras: Quero ser salvo! e será salvo.

      Cagliostro.”

     

      Depois de escrever, o visitante pegou na lanterna, aproximou-se outra vez do preso para ver se teria acordado, e afirmando-se que continuava a dormir, dirigiu-se novamente, voltando-se muitas vezes para a porta do cubículo, por detrás da qual, com a impassível resignação dos adeptos, dispostos a todos os sacrifícios para chegarem ao cumprimento da grande obra que empreenderam, se conservava de pé e imóvel o carcereiro Luís.

      - Então, mestre - perguntou ele - que devo fazer?

      - Ficares na prisão, e obedecer a tudo quanto te ordenar o Sr. de Favras.

      O carcereiro inclinou-se, tomou a lanterna das mãos de Cagliostro, e caminhou respeitosamente diante dele como o mais humilde criado que alumia a seu amo.

 

Realiza-se a profecia de Cagliostro

      No mesmo dia, pela uma hora da tarde, desceu um escrivão do Châtelet, com quatro homens armados, à prisão de Favras, para lhe anunciar que ia comparecer na presença dos seus juízes.

      Favras fora durante a noite prevenido desta circunstância por Cagliostro, e pela volta das nove horas da manhã, pelo imediato do governador do Châtelet.

      A leitura do processo começara pelas nove horas e meia da manhã, e ainda durava às três da tarde!

      Desde as nove da manhã, via-se a sala repleta de curiosos, que ali acorriam para ver aquele cuja sentença ia pronunciar-se.

      Dissemos aquele cuja sentença ia pronunciar-se, visto que ninguém duvidava da condenação do acusado.

      Nas conspirações políticas figuram sempre destes desgraçados, votados com antecipação ao extermínio: sentem que é necessária uma vítima expiatória e consideram-se fatalmente designados para ser essa vítima.

      Sentados em semi-círculo, achavam-se no topo da sala quarenta juízes; o presidente estava debaixo de um dossel, e por detrás dele havia um quadro que representava Jesus crucificado; na outra extremidade da sala estava o retrato do rei.

      Uma fileira de granadeiros nacionais guarnecia o circuito do pretório; interior e exteriormente quatro homens guardavam a porta.

      Às três e um quarto ordenaram os juízes que se fosse buscar o acusado.

      Um destacamento de doze granadeiros, que, armados, esperavam esta ordem, pôs-se logo a caminho.

      Desde então todas as cabeças, incluindo as dos juízes, se voltaram para a porta por onde Favras devia entrar.

      Cerca de um quarto de hora depois, viram-se aparecer quatro granadeiros.

      Atrás deles ia o marquês de Favras.

      O resto dos granadeiros seguia-o.

      O preso entrou na sala no meio de um desses silêncios assustadores de duas mil pessoas amontoadas numa casa, quando vêem comparecer o objecto geral da expectativa.

      À fisionomia do marquês era perfeitamente sossegada, o vestuário elegante.

      Trajava de casaca de seda alvadia toda bordada, colete de cetim branco, calção da mesma seda da casaca, meias também de seda, sapatos com fivelas, e no peito a Cruz de S. Luís.

      Vinha penteado com todo o esmero, um cabelo não excedia o outro, como dizem na História da Revolução os dois Amigos da Liberdade.

      Durante o curto espaço de tempo que Favras gastou a transpor o intervalo que se estendia desde a porta até ao banco dos réus todas as respirações estavam suspensas.

      Decorreram alguns segundos entre a chegada do marquês e as primeiras palavras que lhe dirigiu o presidente.

      Este, fazendo com a mão um escusado sinal aos juízes para lhes recomendar silêncio, com a voz comovida, perguntou:

      - Quem é?

      - Sou acusado e preso, respondeu Favras com a maior serenidade.

      - Como se chama?

      - Tomás de Mahi, marquês de Favras.

      - Donde é natural?

      - De Blois.

      - Qual é o seu emprego?

      - Coronel ao serviço de el-rei.

      - A sua morada?

      - Na praça Real, número vinte um.

      - A sua idade?

      - Quarenta e seis anos.

      - Sente-se.

      O marquês obedeceu.

      Dir-se-ia que só então os circunstantes recuperaram a respiração; sentiu-se pelo ar como que um sopro terrível, como que um sopro de vingança.

      O acusado não se enganava: circunvagou a vista e viu em todos os olhos brilhar o fogo do ódio, todos os punhos ameaçarem-no. Todos sentiam que era necessário àquele povo uma vítima; tinham-lhe sido arrancados Augerard e Besenval, e pedia em altos clamores que se enforcasse, ao menos em estátua, o príncipe de Lambesc.

      No meio de todos aqueles rostos sombrios e iracundos, reconheceu o marquês de Favras o simpático olhar do seu visitador nocturno.

      Saudou-o com um gesto imperceptível e continuou a sua revista.

      - Acusado - disse o presidente - prepare-se para me responder.

      Favras, inclinando-se, respondeu:

      - Estou às suas ordens, Sr. presidente.

      Começou então segundo interrogatório, que Favras sustentou com a mesma presença de espírito com que sustentara o primeiro.

      Seguiram-se depois as testemunhas de acusação contrárias.

      Favras, que recusava defender a sua vida por meio da fuga, queria defendê-la por meio de discursos: tinha mandado citar catorze testemunhas de defesa.

      Ouvidas as testemunhas de acusação, esperava que chamassem as suas, quando ouviu pronunciar de súbito ao presidente as seguintes palavras:

      - Meus caros senhores, estão terminados os debates.

      - Perdão, Sr. presidente - disse Favras com a sua cortesia habitual - esquece uma coisa, é verdade que de pouca importância; esquece o depoimento daquelas catorze testemunhas que mandei citar.

      - O tribunal - respondeu o presidente – decidiu que não fossem ouvidas.

      Alguma coisa, como que uma nuvem, passou pela fronte do acusado; como que um relâmpago pareceu sair-lhe dos olhos.

      - Pensava que seria julgado pelo Châtelet de Paris - disse ele; - enganei-me: sou julgado, segundo vejo, pela inquisição de Espanha!

      - Levem o acusado - disse o presidente.

      Favras foi conduzido à prisão. A sua presença de espírito, a sua cortesia, a sua coragem tinham produzido certo abalo nos espectadores, que ali tinham concorrido despidos de preconceitos.

      Mas, cumpre dizer que o número destes era diminutíssimo. A retirada de Favras foi acompanhada de gritos, de ameaças e de apupos.

      - Nada de graça! Nada de graça! - bradavam quinhentas vozes quando ele passava.

      Estas vociferações seguiram-no até se achar dentro da prisão.

      Então, como falando consigo mesmo, murmurou:

      - Aqui está o que acontece a quem conspira com príncipes!

      Assim que o acusado saiu do tribunal, entraram logo os juízes em deliberação.

      Favras deitou-se à hora do costume.

      Pela uma hora da manhã, entrou alguém no seu cárcere e acordou-o.

      Era o carcereiro Luís.

      Tomara por pretexto levar ao preso uma garrafa de vinho de Bordéus, que ele não tinha pedido.

      - Sr. marquês - disse ele - os juízes pronunciaram neste momento a sua sentença.

      - Meu amigo - respondeu Favras - se foi para isso que me acordou, podia bem deixar-me dormir.

      - Não, Sr. marquês, acordei-o para lhe perguntar se quer mandar algum recado à pessoa que o visitou a noite passada.

      - Não tenho recados para ninguém.

      - Reflicta, Sr. marquês, que quando a sentença estiver pronunciada, será guardado à vista, e por mais poderosa que seja essa pessoa, talvez que a sua vontade seja vencida pela impossibilidade.

      - Obrigado, meu bom amigo - disse Favras - mas nada tenho que pedir-lhe, nem agora nem depois.

      - Nesse caso - disse o carcereiro - pesa-me tê-lo acordado; mas terá de o ser igualmente dentro de uma hora.

      - Desse modo - disse Favras sorrindo-se – não vale a pena tornar a adormecer, não é assim?

      - Olhe - disse o carcereiro - julgue por si.

      Com efeito, sentia-se grande rumor nos andares superiores; abriam-se e fechavam-se portas, as coronhas das armas retiniam no chão.

      - Ah! Ah! - exclamou Favras - todo aquele rumor é por minha causa!

      - Vêm ler-lhe a sentença, Sr. marquês.

      - Diacho! - disse Favras - faça com que o relator me dê o tempo necessário para enfiar ao menos os calções.

      O carcereiro saiu efectivamente, puxando a porta para si.

      Durante este tempo calçou Favras as suas meias de seda, os sapatos de fivelas e vestiu os calções.

      Achava-se neste estado quando abriram a porta.

      Nesta espécie de desalinho estava o marquês quase elegante; a cabeça levantada, os cabelos menos desgrenhados, as rendas da camisa meio abertas, deixando-lhe ver o peito.

      No momento em que o relator entrou, pôs o colarinho e disse:

      - Bem vê, senhor, que já o esperava e em trajo de combate.

      E ao dizer isto, passou a mão pelo pescoço descoberto, disposto já para a espada aristocrática ou para o laço plebeu.

      - Fale, senhor, que o escuto.

      O relator leu, ou antes, balbuciou a sentença.

      O marquês era condenado à morte: devia orar diante da igreja de Nossa Senhora, e ser depois enforcado na praça de Grève.

      Favras ouviu toda esta leitura com o maior sossego; nem sequer franziu o sobrolho ao ouvir pronunciar a palavra enforcado, palavra tão áspera aos ouvidos de um fidalgo!

      Somente, depois de um momento de silêncio, olhando para o relator, disse:

      - Oh! Quanto o deploro por se ver obrigado a condenar um homem com semelhantes provas!

      O relator iludiu a resposta, dizendo:

      - Bem sabe, senhor, que as únicas consolações que lhe restam são as da religião.

      - Engana-se - respondeu o condenado - ainda me restam as que a minha consciência me ministra.

      E nisto o Sr. de Favras saudou o relator, que, não tendo ali mais nada que fazer, se retirou.

      Contudo, ao sair, voltando-se de súbito, perguntou:

      - Quer que lhe envie um confessor?

      - Um confessor da escolha daqueles que me assassinam!... Não, senhor, ser-me-ia suspeito. Entrego-lhe a minha vida, mas reservo a minha salvação. Peço que me mandem o cura de Saint-Paul.

      Duas horas depois, o venerável eclesiástico que ele solicitara achava-se na sua presença.

 

A praça de Grève

      As duas horas tinham sido bem empregadas.

      Assim que saiu o relator, entraram dois homens de gesto sombrio e particular.

      Favras entendeu logo que eram os precursores da morte, a vanguarda do carrasco.

      - Acompanhe-nos - dissera um deles.

      Favras inclinara-se em sinal de anuência.

      Depois, apontando-lhe para o resto do fato, que estava numa cadeira, disse:

      - Não me dão tempo para acabar de me vestir?

      - Como quiser - disse um dos homens.

      Então Favras foi direito à mesa onde estavam os diferentes objectos de toilette, e com o auxílio do pequeno espelho, que ornava a parede, abotoou o colarinho da camisa, deu certa graça às rendas da mesma, e um nó, o mais aristocrático que lhe foi possível, à gravata.

      Depois vestiu o colete e a casaca.

      - É preciso levar o chapéu, meus senhores?

      - É inútil - respondeu o mesmo homem que já tinha falado.

      Um daqueles que nada dissera olhava para Favras com tal atenção, que muito o surpreendia.

      Pareceu-lhe até que este homem lhe fizera um sinal imperceptível. Mas esse sinal fora tão rápido, que Favras ficara duvidoso.

      E demais, que teria que lhe dizer aquele homem?

      Não se ocupou mais de semelhante coisa e fazendo com a mão um sinal amigável ao carcereiro, disse:

      - Está bem, meus senhores, caminhem adiante, que eu os sigo.

      À porta esperava-o um meirinho.

      Este ia adiante de Favras, e em seguida os dois homens sinistros.

      O fúnebre cortejo dirigiu-se ao andar térreo.

      Entre os carcereiros havia também um pelotão da guarda nacional.

      O meirinho, vendo-se apoiado por esta força, disse ao condenado:

      - Senhor, entregue-me a cruz de S. Luís.

      - Julgava ter sido condenado à morte e não à degradação - disse Favras.

      - São as ordens - respondeu o meirinho.

      Favras tirou a cruz, e não querendo entregá-la àquele homem de justiça, depositou-a nas mãos do sargento, que comandava o pelotão.

      - Está bem - disse o meirinho sem insistir em que a cruz lhe fosse entregue pessoalmente; - acompanhe-me.

      Subiram uns vinte degraus, parando diante de uma porta de carvalho toda chapeada de ferro; era uma dessas portas que causam calafrios aos condenados que as vêem; uma dessas portas como duas ou três que se encontram no caminho do sepulcro, por detrás das quais, sem saber o que nos espera, facilmente se adivinha que existe algum objecto horrível!

      Abriu-se a porta, para logo se tornar a fechar como se um braço de ferro a impelisse.

      Favras achou-se então na sala da tortura!

      - Ah! Ah! Meus senhores - disse ele empalidecendo ligeiramente - quando se conduz alguém a estes lugares, sempre se tem a caridade de o prevenir.

      Ainda bem não acabara de pronunciar estas palavras, quando os dois homens, que o seguiam, caíram sobre ele repentinamente a fim de lhe despirem a casaca e o colete, para lhe desatarem a gravata tão engenhosamente posta, e para lhe atarem as mãos atrás das costas.

      Apenas um daqueles homens, que se dispunha a torturá-lo, aquele que julgou ter-lhe feito um sinal, se chegou a ele, para lhe murmurar ao ouvido:

      - Quer que o salvem? Ainda é tempo.

      Este oferecimento fez assomar o sorriso aos lábios de Favras, recordando-se da grandeza da sua missão.

      Favras apenas meneou negativamente a cabeça.

      Estenderam-no num cavalete.

      Um dos algozes trazia o avental cheio de pontas de ferro e um malho na mão.

      Favras apresentou voluntariamente ao homem a delicada perna, calçada com meia de seda e sapato de salto encarnado.

      Mas neste momento, estendeu o meirinho o braço, como para suspender a execução.

      - Basta - disse ele; - o tribunal perdoa ao condenado a pena de tortura.

      - Ah! Parece-me que o tribunal tem medo que eu fale... Mas nem por isso deixo de lhe agradecer a graça que me faz; ficarei com as pernas em bom estado para me levarem ao patíbulo, o que já não é pouco... Agora, meus senhores, bem sabem que estou à sua disposição.

      - É necessário que se demore nesta sala uma hora - respondeu o meirinho.

      - Não é lá muito recreativo, mas, enfim, sempre é curioso - disse Favras.

      E dizendo isto, principiou a examinar miudamente todos aqueles bárbaros instrumentos semelhantes a monstruosas aranhas de ferro, a gigantescos escorpiões.

      Conhecia-se que todos aqueles instrumentos obedecendo a uma voz fatal, se animavam, tomavam vida e mordiam cruelmente.

      Havia-os de todas as formas e de todos os tempos, desde Filipe Augusto até Luís XVI: viam-se os croques que rasgavam os judeus no século XII; viam-se as rodas que moeram os protestantes no século XVII.

      Favras parou diante daqueles troféus, perguntando o nome de cada um.

      Aquele sangue frio chegou a fazer pasmar os algozes, que, como todos sabem, é gente que não pasma facilmente.

      - Com que fim faz todas essas perguntas? – disse um deles a Favras.

      Este olhou para ele com o ar chocarreiro, que tão familiar é nos fidalgos.

      - É porque pode acontecer que encontre Satanás no caminho que vou percorrer, e não se me daria de conquistar-lhe a amizade, indicando-lhe, para torturar os seus condenados, todas estas máquinas, que decerto ainda não conhece.

      O preso acabava justamente de fazer estas observações quando bateram cinco horas no relógio do Châtelet.

      Havia duas horas que tinha saído do cárcere.

      Levaram-no para lá novamente.

      Encontrou o cura de Saint-Paul, que o esperava.

      Já vimos que as duas horas de demora não tinham sido perdidas, e que, se alguma coisa podia convenientemente dispô-lo para a morte, era o espectáculo que acabava de contemplar.

      O cura recebeu-o com os braços abertos.

      - Padre - disse Favras - desculpe-me se não posso abrir-lhe mais do que o meu coração; estes senhores tiveram o cuidado de dispor as coisas de modo que nada mais pudesse patentear-lhe.

      E mostrou-lhe as mãos, que trazia ligadas atrás das costas.

      - Não seria possível - perguntou o padre – desatar os braços do condenado, durante o tempo que estiver comigo?

      - Isso, não está na nossa mão - respondeu o meirinho.

      - Meu reverendo - disse Favras - pergunte-lhe se em lugar de as ter ligadas atrás, não poderiam ligar-mas adiante; ao menos poderia pegar numa tocha e ler a minha sentença.

      Os dois algozes olharam para o meirinho, o qual fez um sinal com a cabeça, que queria dizer que não havia nisso inconveniente nenhum, sendo logo concedido ao marquês o favor que solicitava.

      Depois deixaram-no só com o cura.

      O que se passou naquela entrevista suprema de homem do mundo com o homem de Deus, é o que ninguém pôde saber. Na presença da santidade da religião, patentearia Favras o seu coração, que se conservara fechado perante a majestade da justiça? Perante as consolações que lhe oferecia aquele mundo em que ia entrar, os olhos, ressequidos pela ironia, molhar-se-iam com uma das lágrimas, que no seu coração amontoara, e decerto precisaria derramar sobre os objectos queridos, que ia deixar sós e abandonados neste mundo, de que ia separar-se? É o que não puderam revelar os que lhe entraram no cárcere pelas três horas depois do meio dia, e o foram encontrar de lábios risonhos, pálpebras enxutas e o coração inteiramente fechado.

      Iam anunciar-lhe que era chegada a hora de morrer!

      - Meus senhores - disse ele - peço-lhes perdão, mas foram os senhores que me fizeram esperar.

      Então, como se achasse já sem casaca, nem colete, e tivesse as mãos ligadas, tiraram-lhe os sapatos e as meias, e vestiram-lhe uma alva por cima do resto do vestuário.

      Em seguida puseram-lhe ao peito um papel com estas palavras:

     

CONSPIRADOR CONTRA O ESTADO

     

      À porta do Châtelet esperava-o um carro cercado de numerosa guarda.

      Havia nesse carro uma tocha acesa.

      Assim que a multidão avistou o condenado, rompeu logo em estrepitosas palmas!

      Desde as seis horas da manhã que tinham conhecimento da sentença, e a multidão achava muito longo o espaço que mediava entre o julgamento e o suplício.

      Os mendigos corriam pelas ruas, pedindo a molhadura a quem passava.

      - Por que motivo querem vocês a molhadura? - perguntavam estes.

      - Pela execução do Sr. de Favras – respondiam os mendigos da morte.

      Favras subiu com passo firme para o carro fatal; sentou-se do lado onde a tocha brilhava, por saber que ela estava ali por causa dele.

      O cura de S. Paulo subiu após ele, sentando-se-lhe à esquerda.

      O executor foi o último a subir, sentando-se atrás do condenado.

      Era o mesmo homem, de olhar triste e suave que vimos assistir, no pátio de Bicêtre, ao ensaio da máquina de Guillotin.

      Vimo-lo então, vemo-lo agora, e teremos ocasião de o tornar a ver. É o verdadeiro herói da época em que vamos entrar.

      Antes de sentar-se, o carrasco passou ao pescoço do condenado a corda com que o devia enforcar, e cuja ponta conservou na mão.

      No momento em que o carro se punha a caminho, observou-se na multidão um movimento; Favras dirigiu naturalmente os olhos para aquele lado.

      Viu muita gente que se atropelava com o fim de colocar-se melhor para o ver passar.

      Mau grado seu, estremeceu de repente, divisando entre a multidão, rodeada de cinco ou seis amigos, o visitante nocturno, que lhe prometera vigiá-lo até ao último momento, e que, apesar do disfarce, reconheceu logo.

      O condenado fez-lhe um sinal com a cabeça, mas um sinal que só indicava reconhecimento e nada mais.

      O carro continuou no seu caminho, parando unicamente, diante da igreja de Nossa Senhora, cuja porta principal estava aberta, distinguindo lá ao fundo, o altar-mor, onde brilhavam seis velas acesas.

      Havia uma tal afluência de curiosos, que o carro era obrigado a parar a cada momento, não podendo continuar no seu caminho sem que a guarda conseguisse abrir-lho.

      - É necessário descer, senhor, para fazer uma confissão pública do seu delito - disse o executor ao condenado.

      Favras obedeceu sem responder.

      O padre desceu primeiro, em seguida o condenado, depois o carrasco sem largar a corda da mão.

      Levava os braços ligados, mas as mãos iam livres.

      Na direita puseram-lhe a tocha; na esquerda a sentença.

      O condenado adiantou-se até ao adro, onde ajoelhou.

      Nas primeiras pessoas que o rodeavam, conheceu logo o mesmo indivíduo que já tinha visto à saída do Châtelet, juntamente com os seus companheiros.

      Aquela persistência pareceu enternecê-lo, mas nem uma só palavra lhe saiu dos lábios.

      Um escrivão do Châtelet esperava-o ali.

      - Leia, senhor - disse-lhe em voz alta.

      E logo em voz baixa, acrescentou:

      - Sr. marquês, bem sabe que, se quiser pronunciar uma só palavra, será salvo.

      Sem nada responder, o condenado continuou a sua leitura, que foi feita em voz alta, sem que a mais pequena comoção lhe traísse a acentuação firme e enérgica.

      Depois, terminando a leitura e dirigindo-se à multidão que o rodeava, disse:

      - Prestes a comparecer na presença de Deus, perdôo aos que, contra a sua consciência, me acusaram de projectos criminosos. Amava o meu rei, morro fiel a este sentimento. É um exemplo que dou e que espero seja seguido por alguns nobres corações. O povo pede a minha morte em altos brados: precisa uma vítima; seja! Quero antes que a escolha da fatalidade caia sobre mim, do que sobre algum cobarde, a quem a presença de um suplício não merecido lançasse no desespero ou na consternação. Portanto, se não tenho aqui mais nada que fazer, continuemos o nosso caminho, meus senhores.

      Assim se fez.

      Pouca distância há da igreja de Nossa Senhora até à praça de Grève; contudo o carro gastou uma boa hora para fazer esse trânsito.

      Chegado à praça:

      - Meus senhores - perguntou Favras - não me seria permitido subir um instante que fosse à casa da câmara?

      - Tem algumas revelações a fazer, meu irmão? - perguntou o padre.

      - Não, meu padre, mas quero ditar o meu testamento de morte. Sempre ouvi dizer que nunca se negava a um condenado esta última graça.

      O carro, em vez de marchar direito ao sítio da execução, tomou para a casa da câmara.

      Um grande clamor se levantou no povo.

      - Vai fazer revelações! - exclamou o populacho de todos os lados.

      A este brado poderia ver-se empalidecer um elegante mancebo, todo vestido de preto, e que se conservava de pé, junto ao cais Pelletier.

      - Oh! Nada receie, Sr. conde Luís - disse uma voz; - o condenado não dirá uma só palavra do que se passou na praça Real.

      O mancebo vestido de preto voltou-se de súbito. As palavras que lhe tinham sido dirigidas foram pronunciadas por um indivíduo, cujo rosto não podia divisar, porque assim que acabara a frase carregara para os olhos o largo chapéu.

      E daí, se alguma dúvida ficasse ao mancebo, essa dúvida seria em breve desvanecida.

      Chegando à casa da câmara, Favras fez sinal de que queria falar.

      No mesmo instante cessaram os rumores, como se a rajada de vento oeste, que naquele momento passava, os levasse consigo.

      - Meus senhores - disse Favras - ouço repetir em volta de mim que subo à casa da câmara para fazer revelações; isto não é exacto, e no caso, em que haja entre os senhores, como é possível, alguém que receie essas revelações, que se tranqüilize; o único motivo que me obriga a subir à casa da câmara é ditar o meu testamento de morte.

      E com passo firme penetrou pela abóbada sombria, subiu as escadas, e entrou na sala onde costumam conduzir os condenados, e a que por isso chamavam sala das revelações.

      Ali, três homens vestidos de preto esperavam Favras, e entre eles o escrivão, que lhe falara no adro de Nossa Senhora.

      Então o condenado, que com as mãos presas não podia escrever, pôs-se a ditar o seu testamento de morte.

      Muito se falou do testamento de Luís XVI, por isso que muito se fala do testamento dos reis; temos à vista o de Favras, e só diremos ao público que o leia e compare!

      Ditado o testamento, pediu Favras para o ler e assinar.

      Desataram-lhe as mãos; leu o testamento, corrigiu três erros de ortografia que cometera o escrivão, e em cada página assinou: Mahi de Favras.

      Feito isto, estendeu as mãos para que lhas ligassem de novo, operação que efectuou o carrasco, que se não tinha desviado dele.

      Todavia, o testamento levara mais de duas horas. O povo, que esperava desde pela manhã, começava a impacientar-se; havia ali muitas pessoas que tinham vindo com o estômago vazio, contando almoçar depois da execução, e ainda se achavam em jejum.

      Principiava-se portanto a murmurar com o murmúrio terrível e ameaçador, que já se ouvira na mesma praça no dia do assassínio de Launay, naquele em que enforcaram Foulon, e naquele em que estriparam Berthier.

      Além disso, o povo principiava a desconfiar que tivessem feito evadir Favras por alguma das portas traseiras.

      Nesta conjectura, já alguém propunha que se enforcassem os municipais em lugar de Favras, e que se desmoronasse a casa da câmara.

      Felizmente, pela volta das nove horas da noite, apareceu de novo o condenado. Tinham distribuído tochas acesas aos soldados que o acompanhavam; todas as janelas da praça estavam iluminadas; só a forca ficara em misteriosa e terrível escuridão!

      A aparição do condenado foi saudada por um clamor uníssono e por um grande movimento, que se operou entre os cinqüenta mil espectadores, que estavam amontoados na praça de Grève.

      Desta vez, estavam certos de que o desgraçado não se evadira, e também de que não poderia já evadir-se.

      Favras lançou os olhos em volta de si.

      Depois falando consigo, com o sorriso irónico que lhe era particular, murmurou:

      - Nem uma só carruagem! Muito esquecida é a nobreza! Foi mais solícita para com o conde Horn do que para comigo!

      - É porque o conde de Horn era um assassino, e tu não és mais do que um mártir! - lhe respondeu uma voz.

      Favras voltou-se e conheceu o mesmo indivíduo, que já tinha visto duas vezes, apesar do seu disfarce, e que não era outro senão Cagliostro.

      - Adeus, senhor - lhe disse Favras - espero que em caso de necessidade testemunhará o meu procedimento.

      E com passo seguro, desceu os degraus e encaminhou-se direito ao patíbulo.

      No momento em que punha os pés no primeiro degrau da escada da forca, ouviu uma voz que lhe gritava:

      - Salta, marquês!

      O marquês com voz grave e sonora, respondeu:

      - Cidadãos, morro inocente... Orai a Deus por mim!

      No quarto degrau ainda tornou a parar, e com entoação tão firme e elevada como da primeira vez, repetiu:

      - Cidadãos, peço-lhes o auxílio das suas orações... Morro inocente!

      Do oitavo degrau, isto é, daquele donde devia ser precipitado, disse pela terceira vez:

      - Cidadãos, morro inocente... Orai a Deus por mim!

      - Mas, disse-lhe um dos ajudantes do carrasco, que subia a escada ao lado dele, não quer então que o salvem?

      - Obrigado, meu amigo, disse Favras; Deus lhe pague as suas intenções!

      Depois, levantando a cabeça para o carrasco, que parecia esperar alguma ordem, em lugar de lha dar, disse:

      - Cumpra o seu dever.

      Apenas pronunciara estas palavras, o carrasco, impeliu-o e o corpo balanceou o espaço.

      Enquanto se operava um grande movimento à vista daquele espectáculo na praça de Grève; enquanto alguns amadores batiam as palmas e gritavam bis como teriam feito ouvindo uma copla da comédia ou uma ária dalguma ópera, o mancebo vestido de preto, fendendo a multidão, e dirigindo-se apressadamente ao Pont-Neuf, subiu lesto para uma carruagem sem armas, que o esperava, gritando ao cocheiro:

      - Ao Luxemburgo, e a galope!

      A carruagem partiu sem demora.

      Efectivamente, três homens esperavam impacientes a chegada daquela carruagem.

      Eram o conde de Provença e dois fidalgos da sua casa, a quem já nomeámos no decurso desta história, e julgamos inútil nomear aqui.

      Esperavam com grande impaciência, por isso que deviam sentar-se à mesa às duas horas, e no meio da sua inquietação, ainda o não tinham podido fazer.

      Pela sua parte, o cozinheiro também estava desesperado; era o terceiro jantar que preparava; o jantar, que só poderia esperar dez minutos, estragar-se-ia inevitavelmente num quarto de hora!

      Estavam pois neste momento supremo, quando ouviram o rodar de uma carruagem no interior do pátio.

      O conde de Provença correu à janela, mas só pôde ver uma sombra que saltava do último degrau do estribo para o primeiro degrau da escada do palácio.

      Em conseqüência disto retirou-se da janela e correu para o lado da porta; mas antes do futuro rei de França chegar à porta, ela abriu-se, dando entrada ao mancebo vestido de preto.

      - Meu senhor - disse ele - tudo está concluído... O marquês de Favras morreu sem pronunciar uma só palavra.

      - Então podemos tranquilamente assentar-nos à mesa, meu caro Luís.

      - Sim, meu senhor... Era na verdade um digno fidalgo o marquês!

      - Também sou da sua opinião, meu caro – acudiu sua alteza real - beberemos ao dessert um copo de Constança à saúde dele. Para a mesa, meus senhores!

      Neste momento abriu-se a porta de par em par e os ilustres comensais passaram do salão para a sala de jantar.

 

Está salva a monarquia

      Alguns dias depois da execução, que acabamos de referir e em cujas particularidades entrámos para edificar os nossos leitores acerca da gratidão que devem esperar dos reis e dos príncipes, os que por eles se sacrificam, um homem montado num cavalo russo seguia lentamente a aldeia de Saint-Cloud.

      Aquela lentidão não provinha de cansaço do cavaleiro nem do cavalo; tanto um como outro pouco se tinham fatigado, o que era fácil ver, porquanto a espuma que saía da boca do animal provinha mais de o terem reprimido com obstinação, do que de o haverem violentado. Quanto ao cavaleiro, que facilmente se conhecia ser um fidalgo, o vestuário, extremamente asseado, atestava a precaução que tomara para se livrar da lama, que naquele tempo cobria a estrada.

      O que tinha retardado o cavaleiro era o pensamento profundo em que visivelmente vinha imerso, e talvez o desejo que tinha de chegar a uma hora certa e determinada, que ainda não se aproximava.

      Era um homem dos seus quarenta anos, cuja notável fealdade não deixava de infundir-lhe grande carácter.

      Cabeça grande, pernas inchadas, rosto bexigoso, cor fácil a animar-se, olhos prontos a projectar o relâmpago, boca costumada a mascar e a cuspir o sarcasmo, tal era o aspecto daquele homem, que à primeira vista parecia destinado a ocupar um lugar elevado e a fazer no mundo grande bulha.

      Todavia aquela fisionomia parecia coberta com um véu lançado sobre ela por uma dessas enfermidades orgânicas, contra as quais se debatem em vão os mais vigorosos temperamentos. Cor de rosto escura e macilenta, olhos fatigados e vermelhos, faces abatidas, um princípio de obesidade doentia, tais eram as características que aquele homem apresentava.

      Chegando ao cimo da aldeia, franqueou, sem hesitar, a porta que deitava para o pátio do palácio, sondando com os olhos as profundezas do pátio.

      Do lado direito, entre dois edifícios que formavam uma espécie de beco sem saída, parecia esperá-lo outro homem, que fez imediatamente sinal ao cavaleiro para que se aproximasse.

      Havia uma porta aberta: o homem que a guardava entrou por ela, o cavaleiro foi atrás dele, e continuando a segui-lo, em breve se achou num segundo pátio, onde o homem parou.

      Trajava casaca, calções e colete, tudo preto; depois, circunvagando a vista e certificando-se de que o pátio estava inteiramente deserto, aproximou-se respeitosamente do cavaleiro com o chapéu na mão.

      O cavaleiro foi de algum modo ao encontro do desconhecido, porquanto, inclinando-se sobre o pescoço do cavalo, disse em voz baixa:

      - É o Sr. Weber?

      - É o Sr. conde de Mirabeau? - perguntou o outro.

      - Ele mesmo - tornou o cavaleiro - e com mais ligeireza do que se julgaria, apeou-se.

      - Entre - disse Weber com vivacidade - e digne-se esperar enquanto eu vou meter o cavalo na cavalariça.

      Ao mesmo tempo abriu a porta de uma sala, cujas janelas e outra porta deitavam para o parque.

      Mirabeau entrou na sala, e empregou os poucos minutos que mediavam até à volta de Weber em desabotoar as polainas de couro, que descobriam umas meias de seda intactas e uns sapatos de um polimento deslumbrante.

      Weber voltou dali a cinco minutos.

      - Venha, Sr. conde - disse ele; - Sua Majestade a rainha espera-o.

      - A rainha espera-me! - exclamou Mirabeau. – Teria eu a desventura de a fazer esperar? Todavia julgava ter sido exacto na hora combinada.

      - Quero dizer que a rainha está impaciente por o ver... Venha, Sr. conde, venha.

      Weber abriu a porta, que deitava para o jardim, e embrenhou-se no labirinto de ruas arborizadas, que conduzem ao sítio mais solitário e mais elevado do parque.

      Ali, através das árvores, que estendiam os seus ramos desfolhados no meio de uma atmosfera triste e carregada, distinguia-se um pavilhão, conhecido pelo nome de quiosque.

      As persianas deste pavilhão estavam hermeticamente fechadas, à excepção de duas, que apenas cerradas, deixavam penetrar, como através das seteiras de uma torre, dois raios de luz, apenas suficientes para alumiar o interior.

      O fogão estava aceso e sobre ele ardiam as velas de dois candelabros.

      Weber fez entrar aquele a quem servia de guia, numa espécie de antecâmara, e abrindo depois cautelosamente a porta do quiosque, anunciou:

      - O Sr. conde Riquetti de Mirabeau!

      E desviou-se em seguida para deixar passar o conde adiante de si.

      Se houvesse escutado no momento em que o conde passava junto dele, certamente lhe teria sentido palpitar o coração no vasto peito.

      Quando foi anunciada a presença do conde, levantou-se uma mulher do canto mais desviado do quiosque, e com uma espécie de hesitação, mesmo de terror, deu alguns passos para ir ao encontro da pessoa que anunciavam.

      O coração daquela mulher palpitava também com violência; tinha diante dos olhos o homem odiento, fatal e desacreditado; o homem acusado de ter promovido os dias 5 e 6 de Outubro; o homem para quem se havia voltado um momento, mas que fora repelido por alguém mesmo da corte, e que depois fizera sentir a necessidade de tratar de novo com ele em conseqüência de duas terríveis cóleras, que se tinham exaltado até ao sublime.

      A primeira era a sua apóstrofe ao clero, a segunda o discurso em que ele explicara como os representantes do povo de simples deputados de aldeia se tinham constituído em Assembléia Nacional.

      Mirabeau aproximou-se com uma graça e cortesia, que a rainha muito se admirou de encontrar nele, ao primeiro relancear de olhos, e que parecia repugnar àquela organização enérgica.

      Depois de dar alguns passos, saudou respeitosamente, esperando as palavras da rainha.

      Foi ela quem primeiro rompeu o silêncio, e com certa comoção que não podia ocultar, disse:

      - Sr. de Mirabeau, o Dr. Gilberto assegurou-me noutro tempo a disposição em que felizmente se encontrava de ser nosso fiel aliado.

      Mirabeau inclinou-se em sinal de anuência.

      A rainha continuou:

      - Então dirigiu-se-lhe uma proposta, a que respondeu com um projecto de ministério.

      Mirabeau inclinou-se pela segunda vez.

      - Não é culpa nossa, Sr. conde, se o projecto não pôde realizar-se.

      - Assim o creio, minha senhora - respondeu Mirabeau - muito principalmente por parte de Vossa Majestade... A culpa foi dos que se dizem interessados pelo bem da monarquia.

      - Que quer, Sr. conde, é uma das desgraças da nossa oposição... Os reis não podem extremar os seus inimigos dos seus amigos; são muitas vezes obrigados a aceitar dedicações funestas. Estamos rodeados de homens, que querem salvar-nos e nos perdem; a sua moção, que separa da próxima legislatura os homens da assembléia actual, é um triste exemplo contra o senhor. Quer que lhe cite também um contra mim? Acreditará porventura que um dos meus mais fiéis, um homem de quem não duvido, seria capaz de morrer por nós, sem que primeiro nos dissesse nada do seu projecto, apresentou no nosso jantar público a viúva e os filhos do marquês de Favras, todos vestidos de luto. O meu primeiro movimento, assim que os vi, foi de me levantar, dirigir-me a eles, e fazer colocar convenientemente os filhos daquele homem, que tão corajosamente morreu por nós (cumpre observar-lhe, Sr. conde Riquetti de Mirabeau, que não sou daquelas que costumam habitualmente negar os seus amigos), de os fazer colocar entre mim e el-rei. Todos os olhos estavam fitos sobre nós; esperavam o que íamos fazer... Voltei-me... Sabe quem estava por detrás de mim, a quatro passos distante da minha cadeira? Santerre, o homem dos Faubourgs!... Tornei a sentar-me, chorando de raiva e sem me atrever sequer a lançar os olhos para aquela triste viúva e para os seus infelizes filhos!... Os realistas censurar-nos-ão por não termos arrostado qualquer perigo para dar um testemunho de interesse àquela infeliz família; os revolucionários ficarão furiosos, quando souberem que esta família me foi apresentada por ordem minha. Oh! senhor, senhor - continuou a rainha meneando a cabeça - não há remédio senão sucumbir quando somos atacados por gente de génio, decerto muito estimável, mas que não tem idéia alguma da nossa situação.

      E com um suspiro, a rainha levou o lenço aos olhos enxugando uma lágrima.

      - Senhora - disse Mirabeau enternecido à vista daquele grande infortúnio, que não procurava ocultar, e que, ou por cálculo de rainha, ou por fraqueza de mulher, lhe patenteava as angústias e as lágrimas: - Vossa Majestade decerto não fala de mim. Professei os princípios monárquicos, quando não conhecia nem a alma nem o pensamento da augusta filha de Maria Teresa; combati a favor dos direitos do trono quando só inspirava confiança, e quando todos os meus esforços, envenenados pela malignidade, pareciam outras tantas ciladas; servia o rei quando sabia que não devia esperar dele, justo mas iludido, nem benefício nem recompensa; que farei, pois, actualmente, senhora, quando a confiança revela a minha coragem, e quando o reconhecimento que me inspira a recepção de Vossa Majestade faz dos meus princípios um dever? Bem sei que já é tarde, senhora, muito tarde – acrescentou Mirabeau meneando, por seu turno, a cabeça. Talvez que a monarquia, vindo propor-me que a salve, me proponha realmente, que me perca com ela: se reflectisse, escolheria, para aceitar o favor desta audiência, um momento mais oportuno do que aquele em que Sua Majestade el-rei entregou à assembléia o livro vermelho, isto é, a honra dos seus amigos...

      - Oh! senhor - exclamou a rainha - julga porventura o rei cúmplice dessa traição, e ignora acaso como as coisas se passaram? O livro vermelho que se exigiu do rei, só foi entregue por ele com a condição de que o conselho guardaria segredo e o conselho mandou-o imprimir; é uma falta de palavra do conselho para com o rei, e não uma traição deste para com os seus amigos.

      - Ai, minha senhora, não sabe o motivo que decidiu o conselho a essa publicação, que desaprovo como homem de honra, e renego como deputado? No mesmo momento em que el-rei jurava a constituição, tinha ele um agente em permanência em Turim, no meio dos inimigos mortais dessa constituição; na hora em que falava de reformar as finanças, parecendo aceitar as que a assembléia lhe propunha, existia em Trèves um soldado por ele vestido, por ele equipado, o príncipe de Lambesque, inimigo mortal dos parisienses, e cujo suplício em estátua reclama o povo todos os dias em altos brados. Paga-se ao conde de Artois, ao príncipe de Condé, a todos os emigrados enormes pensões, sem curar do decreto publicado há dois meses, que as aboliu. É certo que el-rei se esqueceu de sancionar esse decreto. Que quer, minha senhora, durante esses dois meses, em vão se pretendeu saber o destino que tiveram sessenta milhões! O rei, instado para o dizer, recusou-se constantemente a responder; o conselho julgou-se então exonerado da sua promessa, e fez imprimir o livro vermelho... Por que motivo entrega o rei as armas, que podem voltar-se contra ele?!

      - Deste modo, senhor - redargüiu a rainha – se fosse elevado à honra de conselheiro de el-rei, não lhe aconselharia então as fraquezas com que o comprometem, com que (oh! cumpre dizê-lo!) com que o desonram?

      - Se fosse elevado a essa honra, minha senhora - replicou Mirabeau - seria junto dele o defensor do poder monárquico, regulado pelas leis, e o apóstolo da liberdade garantida pelo poder monárquico. Esta liberdade, minha senhora, tem três inimigos, o clero, a nobreza e os parlamentos. O clero já não pertence a este século, matou-o a moção de Talleyrand; a nobreza pertence a todos os séculos; julgo pois que é necessário contar com ela, por isso que sem nobreza não pode haver monarquia; mas é preciso contê-la, e isso não é possível sem que se ligue o povo com a realeza. Ora a realeza não se ligará nunca com o povo, enquanto os parlamentos existirem, por isso que estes hão-de alimentar sempre no rei e na nobreza a esperança fatal da posse da antiga ordem de coisas. Portanto, depois de aniquilado o clero, segue-se a destruição dos parlamentos! Reanimar o poder executivo, regenerar a autoridade real, e conciliá-la com a liberdade, eis aqui toda a minha política, senhora: se é também a de el-rei, cumpre adoptá-la; se não é, que a rejeite.

      - Senhor, senhor - acudiu a rainha impressionada pelas luzes que espargia ao mesmo tempo do passado, do presente e do porvir a irradiação daquela vasta inteligência - ignoro absolutamente se essa política seria a de el-rei; mas o que não ignoro é que se eu tivesse algum poder, seria infalivelmente a minha. Portanto, Sr. conde, peço-lhe que me dê a conhecer quais são os meios que tem para chegar a esse fim: escutá-lo-ei não direi com atenção, com interesse, mas decerto com o maior reconhecimento.

      Mirabeau lançou um olhar à rainha, olhar de águia, que lhe sondava o abismo do coração, e viu que se não estava convencida, estava pelo menos enlevada.

      Tal triunfo alcançado sobre uma mulher tão superior como era Maria Antonieta lisonjeava quanto possível a vaidade de Mirabeau.

      - Senhora - disse ele - pode-se dizer que perdemos Paris; mas ainda nos restam na província grandes massas dispersas, que poderemos constituir em combatentes. É esta a razão, senhora, que me suscita a idéia de que el-rei deve sair de Paris, mas não de França; que se retire para Ruão, que se coloque à frente do seu exército e que publique dali determinações mais populares do que os decretos da assembléia. Desde logo deixará de existir a guerra civil, por isso que o rei se torna mais revolucionário do que a própria revolução.

      - Mas essa revolução, não o assusta, senhor? - perguntou a rainha.

      - Ai de mim, senhora! Julgo saber melhor do que ninguém os perigos que ela envolve; já o disse a Vossa Majestade, é uma empresa audaciosa das forças humanas o querer restabelecer a monarquia sobre as antigas bases que a revolução destruiu. Para essa revolução concorreram todos em França, desde o rei até ao último dos seus vassalos, fosse por intenção, por acção ou por omissão. Não é pois a antiga monarquia que pretendo defender, senhora, mas penso em modificá-la, em regenerá-la, em estabelecer, enfim, uma forma de governo mais ou menos semelhante àquele que elevou a Inglaterra ao apogeu do seu poder e da sua glória.

      - Oh! Sr. conde - disse a rainha, que se recordava com horror daquela visão do castelo de Taverney, e do desenho do instrumento de morte inventado por Guillotin - oh! Sr. conde, dê-nos, se pode, essa monarquia e verá se somos ingratos, como dizem!

      - Pois bem - exclamou por seu turno Mirabeau - é o que tenciono fazer, senhora; apoie-me el-rei, anime-me Vossa Majestade, e aqui, a seus pés, deposito o meu juramento de fidalgo de sustentar a promessa que faço a Vossa Majestade, ou morrer de dor e desesperação, se não a cumprir.

      - Conde, conde - disse Maria Antonieta – veja que é mais do que uma mulher, que acaba de receber o seu juramento, é uma dinastia de cinco séculos, são setenta monarcas de França, os quais desde Pharamond até Luís XV, dormem nos seus túmulos, e serão destronados connosco se o nosso trono cair.

      - Conheço a obrigação que acabo de contrair, senhora; é imensa, bem sei, mas nem por isso é maior do que a minha vontade, nem mais forte do que a minha dedicação. Tenha eu a certeza da simpatia da minha rainha, e da confiança do meu rei, e gostoso empreenderei tão grande obra.

      - Se não exige mais do que isso, asseguro-lhe tanto uma como outra.

      E dizendo isto saudou Mirabeau com aquele sorriso de sereia, com que conquistava todos os corações.

      Mirabeau entendeu que a audiência estava acabada.

      O orgulho do homem político estava satisfeito, mas ainda faltava alguma coisa à vaidade do fidalgo.

      - Senhora - disse ele fazendo respeitosa vénia - quando Vossa augusta mãe, a imperatriz Maria Teresa, admitia na sua presença um dos seus súbditos, nunca o despedia sem lhe fazer a honra de lhe dar a mão a beijar...

      E conservou-se de pé, aguardando a resposta da rainha. Esta olhou para aquele leão agrilhoado, cujo maior desejo era lançar-se-lhe aos pés; e com um sorriso de triunfo nos lábios, estendeu-lhe lentamente a delicada mão, tão fria e quase tão transparente como o alabastro.

      Mirabeau inclinou-se, tocou com os lábios aquela mão, e levantando com orgulho a cabeça, disse:

      - Senhora, este beijo salvará a monarquia!

      E retirou-se comovido e risonho, acreditando, pobre homem de génio! no cumprimento da profecia que acabava de fazer.

 

Regresso à herdade

      Enquanto Maria Antonieta deixa penetrar-lhe no coração dolorido a mais ligeira esperança, esquecendo por um momento as angústias da mulher, para se ocupar só das rainhas; enquanto Mirabeau, à maneira do atleta Alcidamas, medita o modo de sustentar só a abóbada da monarquia prestes a desmoronar-se, ameaçando-o a ele próprio de submergi-lo nas ruínas, conduzamos o leitor, já cansado de tanta política, para junto de horizontes mais frescos e mais amenos.

      Vimos os receios que Pitou incutiu no coração de Billot durante a segunda viagem de Lafayette de Haramont à capital do reino, e que estes receios chamavam o lavrador à herdade, ou para melhor dizer, chamavam o pai para junto da filha.

      Não eram exagerados estes receios e cuidados.

      O regresso realizara-se no dia que se seguia à famosa noite em que se passara o tríplice acontecimento da fuga de Sebastião Gilberto, da partida do visconde Isidoro de Charny e do delíquio de Catarina no caminho de Villers-Cotterets a Pisseleux.

      Noutro capítulo, referimos a maneira como Pitou, depois de conduzir Catarina à herdade, depois de saber dela, no meio de lágrimas e soluços, que o acidente que acabava de ter fora causado pela partida de Isidoro, voltara a Haramont aterrado sob o peso desta notícia, encontrara a carta de Sebastião e partira imediatamente para Paris.

      Em Paris, vimo-lo esperando o Dr. Gilberto e Sebastião com tal solicitude, que nem sequer falara a Billot do acontecimento da herdade.

      Só depois de se assegurar da sorte de Sebastião, quando o viu chegar com o pai, só então, depois de ouvir da própria boca do mancebo os pormenores da sua viagem, é que se recordara de Catarina, da herdade, e da tia Billot, e falara da má colheita, das chuvas continuadas, e do delíquio de Catarina.

      Já dissemos que fora este delíquio que mais particularmente impressionara Billot, resolvendo-se a pedir a Gilberto uma licença, a qual lhe foi imediatamente concedida.

      Durante o caminho não cessara Billot de interrogar Pitou a respeito daquele delíquio, porquanto, o pobre homem amava bastante a herdade; amava também a herdade, mas sobretudo o que mais amava era a filha.

      E contudo, graças às suas invariáveis idéias de honra, aos seus invencíveis princípios de probidade, esse amor em ocasião oportuna não deixaria de o constituir tão recto e inflexível juiz, quanto era terno e carinhoso pai.

      Interrogado por ele, Pitou ia-lhe dizendo tudo.

      Encontrara Catarina estendida no meio do caminho, muda, imóvel, inanimada: julgara que estivesse morta; levantara-a nos braços, e pusera-a sobre os joelhos; em breve conhecera que ainda respirava, correra logo com ela à herdade, onde, ajudado pela mãe, a deitara cuidadosamente na cama.

      Ali, enquanto a desconsolada mãe se lamentava, lançara-lhe quantidade de água sobre o rosto. Graças àquela frescura, Catarina abrira os olhos, o que fez com que Pitou se retirasse da herdade, julgando que a sua presença já ali não fosse necessária, e até se tornasse enfadonha.

      Quanto ao resto, isto é, quanto ao que dizia respeito a Sebastião, o pai Billot ouvira-lhe uma vez dizer o que se passara e isso lhe bastara.

      Portanto, o pobre pai só se ocupava da filha perdendo-se sem cessar em conjecturas acerca do acidente que ela tivera, e das causas prováveis que o tivessem motivado.

      Estas conjecturas traduziam-se em perguntas dirigidas a Pitou, perguntas a que este respondia diplomaticamente: “Não sei, ignoro...”

      E estas respostas não deixavam de ter um mérito; por isso que Catarina, como já sabemos, tivera a cruel franqueza de lhe confessar tudo, e portanto, Pitou tudo sabia.

      Sabia que, com o coração opresso, com a partida de Isidoro, Catarina desmaiara no sítio em que a encontrara.

      Mas isto não seria ele capaz de declarar, nem por todas as riquezas do mundo!

      Pitou amava Catarina, admirava-a sobretudo; vimos oportunamente a soma de angústias que essa admiração e esse amor, mal apreciados, haviam amontoado no coração de Pitou e os veementes transportes, com que lhe assaltavam o espírito.

      Mas aqueles transportes, por mais exaltados que fossem, aquelas dores por mais agudas que as sentisse, ao passo que causavam a Pitou os maiores apertos de estômago, que muitas vezes o impossibilitavam de comer, aqueles transportes e dores, dizemos, nunca lhe provocavam nem o desfalecimento nem o delíquio.

      Pitou, estabelecia portanto este dilema cheio de razão, que com a sua lógica habitual dividia em três partes:

      “Se Catarina ama Isidoro a ponto de perder os sentidos, quando ele se separa dela, é inquestionável que o ama mais do que eu a amo, por isso que nunca desmaiei, ao ausentar-me dela”.

      Depois desta primeira passara à segunda:

      “Se o ama mais do que eu a amo, deve necessariamente sofrer mais do que eu sofri; neste caso deve sofrer muito... muito”!

      Daqui passava à conclusão, conclusão tanto mais lógica, quanto, assemelhando-se a qualquer boa conclusão... referia-se toda ao exórdio.

      “E com efeito, ela sofre mais do que eu, por isso que perde os sentidos e eu não”.

      Era do que derivava o silêncio de Pitou acerca de Catarina, silêncio que aumentava os receios de Billot, os quais à medida que aumentavam, se traduziam mais claramente pelas chicotadas que o digno proprietário aplicava sem cessar ao triste rocinante que chegava de Dammartin; e com tal vigor que pelas quatro horas da tarde, tanto o cavalo, como a carroça e os dois viajantes que conduzia, tudo chegara à porta da herdade, onde os latidos dos cães em breve lhes anunciaram a presença.

      Assim que parou a carroça, entrou Billot rapidamente na herdade.

      Mas um obstáculo, que decerto não esperava, parecia vedar-lhe a entrada no quarto da filha.

      Era o Dr. Raynal, cujo nome, segundo nos parece, já tivemos ocasião de pronunciar no decurso desta história, o qual declarou que, no estado em que Catarina se achava, qualquer comoção, não só era perigosíssima, mas poderia ser mortal. Era um novo golpe que feria Billot.

      Sabia o facto do delíquio, mas desde o momento em que Pitou vira Catarina abrir novamente os olhos e tornar a si, não se preocupara mais, se assim nos podemos explicar, senão das causas e das conseqüências morais do acontecimento.

      Mas queria a desgraça que, além das causas e das conseqüências, houvesse ainda um resultado físico.

      Esse resultado físico era uma febre cerebral, que se declarara na véspera pela manhã, e que ameaçara de elevar-se ao maior auge de intensidade.

      O Dr. Raynal estava ocupado em combater essa febre cerebral com todos os meios que costumavam empregar os adeptos da antiga medicina, isto é, sangrias, sinapismos, etc., etc.

      Esse tratamento, porém, por mais enérgico que fosse, até ali, apenas servira de paliativo à enfermidade; a luta mal principiava a empenhar-se entre o mal e o remédio: e desde pela manhã que Catarina se achava a braços com um violento delírio.

      E nesse delírio, sem dúvida, declarara a infeliz coisas extraordinárias; porquanto, sob pretexto de evitar-lhe comoções, já o Dr. Raynal desviara dali a mãe, como neste momento desviava o pai.

      A mãe Billot estava sentada num escabelo próximo da chaminé; tinha a cabeça escondida entre as mãos, e parecia completamente estranha a tudo quanto se passava em sua volta.

      Todavia, insensível ao ruído da carroça, aos latidos dos cães, à entrada de Billot na cozinha, reanimou-se quando ouviu a voz do marido, que discutia com o doutor.

      Levantou então a cabeça, abriu os olhos, cravou o olhar inquieto em Billot, e exclamou:

      - Ah! Meu marido!

      E levantando-se, trémula, correu com os braços abertos a lançar-se contra o peito arquejante de Billot.

      O marido olhou para ela espavorido, como se mal a conhecesse.

      - Ah! - exclamou ele com o rosto banhado de suor, de agonia - que temos por aqui de novo?

      - Temos - disse o Dr. Raynal - que sua filha tem uma meningite, como nós lhe chamamos, e quando se sofre esta moléstia, assim como se não devem tomar certas coisas, também se não podem ver certas pessoas.

      - Mas - perguntou o pai Billot - acaso essa doença é perigosa? Morre-se porventura dela?

      - De todas as doenças se morre, meu caro Sr. Billot, quando não são bem tratadas: mas deixe-me cuidar de sua filha, e asseguro-lhe que não há-de morrer.

      - Com certeza, doutor?

      - Respondo por ela... mas é necessário que nestes dois ou três dias só eu e as pessoas por mim designadas lhe entrem no quarto.

      Billot soltou um suspiro; todos o julgavam resignado, mas tentando um último esforço, como se fosse uma criancinha pedindo uma graça, perguntou:

      - Não poderei ao menos vê-la?

      - E se a vir, se lhe der um beijo, deixar-me-á sossegado, sem nada mais exigir?

      - Juro-o, doutor!

      - Pois bem! Venha comigo.

      Abriu então a porta do quarto de Catarina, e o pai Billot pôde vê-la com a testa cingida com um pano ensopado em água gelada, os olhos espantados, e o rosto ardente de febre.

      Pronunciava palavras entrecortadas, e quando Billot chegou os lábios, pálidos e trémulos, àquela fronte fria e úmida, afigurou-se-lhe, no meio daquelas palavras incoerentes, ter ouvido balbuciar o nome de Isidoro.

      No limiar da porta da cozinha agrupavam-se a mãe Billot com as mãos postas; Pitou nos bicos dos pés, olhando por cima dos ombros da proprietária; e dois ou três trabalhadores que, achando-se ali, estavam curiosos de saber o estado da sua patroa nova.

      Fiel à sua promessa, o pai Billot retirou-se depois de dar um beijo na filha, mas retirou-se de sobrancelhas franzidas com o olhar sombrio e resmungando:

      - Vamos, vamos, agora vejo que era tempo de voltar...

      E tornou a entrar na cozinha onde sua mulher o seguiu maquinalmente, e onde Pitou também ia segui-lo, quando o doutor, puxando pela aba da véstia, lhe disse:

      - Não saia da herdade, tenho precisão de lhe falar.

      Pitou voltou-se pasmado, e ia já para interrogar o doutor; mas este pôs misteriosamente e em silêncio o dedo na boca.

      Pitou não se mexeu do lugar onde estava, simulando, de um modo mais grotesco do que poético, os deuses antigos, que com os pés pegados aos pedestais, marcavam aos proprietários o limite dos seus campos.

      Daí a cinco minutos tornou a abrir-se a porta do quarto de Catarina, e ouviu-se a voz do doutor chamando por Pitou.

      - Heim? - disse este como arrancado do profundo sonho em que parecia mergulhado - que me quer, Sr. Raynal?

      - Venha ajudar a Srª. Clementina a segurar Catarina, enquanto eu vou sangrá-la pela terceira vez.

      - Pela terceira vez! - rosnou a tia Billot; - vai sangrar minha filha pela terceira vez!

      - Mulher, mulher - murmurou Billot com voz severa - nada disto teria acontecido se vigiasses melhor a tua filha!

      E retirou-se logo para o seu quarto, do qual se achava ausente havia três meses, ao passo que Pitou, arvorado em ajudante de cirurgião pelo Dr. Raynal, entrava no de Catarina.

 

Pitou enfermeiro

      Pitou ficou admiradíssimo de prestar para alguma coisa ao médico; mas muito mais admirado ficaria se este lhe dissesse que era mais um auxílio moral do que físico o que dele esperava para com a doente.

      Efectivamente, o doutor notara que, na força do delírio, Catarina juntara sempre o nome de Pitou ao de Isidoro; eram estas, como hão-de lembrar-se, as últimas imagens que deviam ter-se gravado no espírito da moça: Isidoro, quando ela fechara os olhos; Pitou, quando tornara a abri-los.

      Todavia, como a doente não pronunciava aqueles nomes com a mesma expressão, o Dr. Raynal, que não era menos perspicaz que o seu ilustre homónimo autor da História Filosófica da Índia, considerara imediatamente que entre aqueles dois nomes, Isidoro de Charny e Ângelo Pitou, pronunciados em tom diferente, mas igualmente expressivo, por uma rapariga, o nome de Ângelo Pitou devia ser o de um amigo, e o de Isidoro Charny o de um amante. Portanto, não só não achava inconveniente, como encontrava vantagem em aproximar da doente um amigo com quem pudesse falar do amante.

      Conquanto nada queiramos abater na perspicácia do Dr. Raynal, diremos que a coisa era-lhe fácil, porque tudo se lhe apresentara tão claro como o dia, bastando-lhe, como nos casos de medicina legal, agrupar os factos para que a verdade se lhe apresentasse completa.

      Em Villers-Cotterets todos sabiam que na noite de 5 para 6 de Outubro Jorge de Charny fora morto em Versalhes, e que na manhã seguinte o seu irmão Isidoro, chamado pelo conde de Charny, partira para Paris.

      Ora, Pitou, encontrara Catarina desmaiada no caminho de Boursonne; levara-a sem sentidos para o casal; em seguida a este acontecimento, Catarina fora atacada de febre cerebral, trouxera o delírio; no delírio todos os esforços eram para deter o fugitivo, e o fugitivo chamava-se Isidoro.

      Vê-se portanto quão fácil era ao doutor adivinhar o segredo de Catarina, o qual era mais que o segredo do seu coração.

      Nesta conjectura o doutor formara o seguinte raciocínio:

      A primeira necessidade de um doente atacado do cérebro é o sossego.

      O que pode levar o sossego ao coração de Catarina? Saber o que foi feito do amante.

      A quem pode ela pedir notícias do amante? Àquele que pode sabê-las.

      E quem pode sabê-las? Pitou, que acaba de chegar de Paris.

      O raciocínio era ao mesmo tempo, simples e lógico; e foi por isso que o doutor o concebeu.

      Por isso, tratou desde logo de ocupar Pitou como seu ajudante, conquanto nessa qualidade pudesse dispensá-lo, visto que não era uma nova sangria que ia fazer, mas simplesmente abrir de novo a cesura, a fim de tirar mais um pouco de sangue.

      O doutor descobriu cuidadosamente o braço de Catarina, tirou o chumaço que comprimia a cicatriz, apartou com os dedos as carnes ainda mal unidas, e o sangue espirrou de súbito.

      Vendo aquele sangue, em troco do qual dera o seu de bom grado, Pitou sentiu que as forças o abandonavam.

      Foi sentar-se na poltrona da Srª. Clementina, com as mãos nos olhos, soluçando, e a cada soluço, soltava do íntimo do coração estas palavras:

      - Oh! Menina Catarina!... Pobre menina Catarina!...

      E a cada uma destas palavras dizia mentalmente consigo mesmo:

      - Oh! Não há dúvida, que ela ama Isidoro mais do que eu mesmo a amo! Não há dúvida que sofre mais do que eu nunca sofri, porque é necessário sangrá-la, porque sofre de uma febre cerebral, duas coisas desagradabilíssimas que eu nunca tive.

      E ao passo que tirava duas chávenas de sangue a Catarina, o doutor, que não perdia de vista o pobre Pitou, felicitava-se por haver tão bem adivinhado que a doente tivesse nele um verdadeiro amigo.

      Como pensara o doutor, aquela pequena emissão de sangue acalmara consideravelmente a febre; as artérias das fontes batiam com mais frouxidão; o peito desoprimia-se; a respiração, que era sibilante, tornara-se suave e igual; o pulso passou de cento e dez pulsações a oitenta e cinco, e tudo indicava que Catarina passaria uma noite sossegada.

      O Dr. Raynal respirou pois por sua vez. Fez à Srª. Clementina as prescrições necessárias, e entre elas a singular recomendação de dormir duas ou três horas, enquanto Pitou vigiasse a doente em seu lugar; e fazendo sinal a este para que o seguisse, entrou com ele na cozinha.

      Pitou não hesitou em segui-lo; foram encontrar a tia Billot mergulhada no escuro da chaminé.

      A pobre mulher estava por tal modo preocupada, que apenas pôde compreender o que o doutor lhe dizia.

      Eram contudo excelentes palavras para o coração de uma mãe!

      - Vamos, vamos, coragem, tia Billot! - dizia o doutor; - isto vai o melhor possível.

      E a pobre mulher parecia voltar do outro mundo!

      - Oh! Meu caro Sr. Raynal, é verdade o que me diz?

      - É verdade... a noite não há-de ser má... Não se inquiete; todavia, se ouvir ainda alguns gemidos no quarto de sua filha, livre-se de entrar lá!...

      - Meu Deus! Meu Deus - exclamou a pobre mulher com a mais profunda dor; - é bem triste para uma mãe ver-se privada de entrar no quarto de sua filha!

      - Que quer! - disse o doutor - é prescrição absoluta... nem a senhora nem seu marido.

      - Mas quem cuidará então da minha pobre Catarina?

      - Nada receie; lá estão com ela a Clementina e o Pitou.

      - Como, o Pitou!

      - Sim, o Pitou; conheci nele há pouco as melhores disposições para a medicina; ele vai comigo a Villers-Cotterets, onde vai mandar aviar um remédio pelo boticário, e voltará com ele; Clementina há-de fazê-lo tomar à doente, uma colher de cada vez, e se acontecer alguma coisa de extraordinário, o Pitou, que vigiará Catarina com Clementina, irá chamar-me sem demora... Não é assim, Pitou?

      - Em cinco minutos, Sr. Raynal - disse Pitou, com tal confiança em si mesmo, que não devia deixar a menor dúvida no espírito dos seus auditores.

      - Bem vê, pois, Srª. Billot... - disse o Dr. Raynal.

      - Pois bem - respondeu ela - seja como diz; mas ao menos diga ao pobre pai alguma coisa que lhe reanime a esperança.

      - Onde está ele? - perguntou o doutor.

      - Aqui, no quarto imediato.

      - É inútil - disse uma voz do limiar da porta - tudo ouvi.

      E efectivamente, os três interlocutores, que se voltaram sobressaltados com aquela resposta inesperada, depararam com o fazendeiro, pálido e de pé no meio da penumbra.

      Depois, como se nada mais tivesse que ouvir ou que dizer, Billot entrou outra vez para o seu quarto, sem fazer observação alguma sobre as medidas tomadas pelo Dr. Raynal para aquela noite, no entanto ia num estado que confrangia o vê-lo.

      Pitou cumpriu a sua palavra; dali a um quarto de hora já estava de volta com o calmante ordenado pelo facultativo.

      O mensageiro atravessou a cozinha e entrou no quarto de Catarina, não só sem impedimento algum, mas também sem ouvir mais que estas palavras, que lhe dirigiu a tia Billot:

      - És tu, Pitou?

      E sem outra resposta deste, mais do que a seguinte:

      - Sou, sim, senhora.

      Catarina dormia, como vaticinara o doutor, um sono assaz sossegado; junto dela, estendida em vasta poltrona e com os pés sobre um banquinho, estava a enfermeira, entregue a esse estado de sonolência peculiar àquela honrosa classe da sociedade, a qual, não tendo direito para dormir a sono solto, nem força para se conservar sempre acordada, se parece com essas almas a que é proibido descer até aos Campos Elísios, e que se vêem por isso condenadas a vaguear eternamente entre os limites da vigília e do sono.

      Foi neste estado de sonambulismo natural que ela recebeu das mãos de Pitou a garrafa com o calmante, que destapou e pôs em cima da mesa, colocando também junto dela uma colher de prata, para que a doente esperasse o menos possível, quando houvesse de se lhe ministrar o remédio.

      Depois estendeu-se de novo na poltrona.

      Quanto a Pitou, esse sentou-se no parapeito da janela, para ver Catarina mais à sua vontade.

      O sentimento misericordioso que dele se apossara, ao pensar em Catarina, não tinha por certo diminuído quando a vira. Agora, que lhe era permitido, por assim dizer, tocar o mal com o dedo, e julgar o terrível estrago que pode produzir essa coisa abstracta a que chamam amor, sentia-se disposto, mais do que nunca, a sacrificar o seu amor, que lhe parecia de tão fácil composição ao pé desse amor exigente, febril, terrível, de que lhe parecia atacada a formosa Catarina.

      Estas idéias, colocavam-no insensivelmente na disposição de espírito de que carecia, para favorecer o plano do Dr. Raynal.

      Efectivamente, pensara o insigne facultativo, que o remédio de que Catarina mais carecia era esse tónico a que se chama um confidente. Era com efeito um grande observador!

      Cerca duma hora depois de Pitou entrar, Catarina agitou-se, deu um suspiro e abriu os olhos.

      Cumpre fazer essa justiça à enfermeira Clementina, que ao primeiro movimento da doente, pôs-se de pé, e chegando-se a ela, balbuciou estas palavras:

      - Estou aqui, menina Catarina; diga-me o que pretende?

      - Tenho sede - murmurou a doente, tornando a si, por meio de uma dor física, e ao sentimento por uma necessidade material.

      Clementina lançou na colher algumas gotas do calmante, chegou-a aos lábios ressequidos de Catarina, que maquinalmente engoliu aquele líquido adocicado.

      Em seguida deixou cair de novo a cabeça no travesseiro e Clementina, satisfeita por ter cumprido o seu dever, foi de novo estender-se na poltrona.

      Pitou deu um suspiro: julgava que Catarina nem sequer o vira.

      Enganava-se: quando ajudou Clementina a fazê-la sentar na cama para tomar o calmante, ela, ao deitar-se, novamente, entreabrira os olhos, e com esse olhar mórbido que deslizara por entre as pálpebras, julgou ter distinguido Pitou.

      Mas, no meio do delírio em que se achava havia três dias, vira tantos fantasmas, que de contínuo lhe apareciam, que julgou ser aquele Pitou verdadeiro algum Pitou fantástico.

      O suspiro que acabava de soltar o pobre rapaz, não era portanto de todo exagerado.

      Contudo, a aparição daquele amigo, para quem Catarina tantas vezes fora injusta, causou na doente uma impressão mais profunda do que as precedentes, conquanto conservasse os olhos fechados parecia-lhe, com o espírito já mais sossegado e menos febril que via diante de si o intrépido viajante, que o fio, tantas vezes quebrado de suas idéias, lhe representava como estando junto de seu pai em Paris.

      Resultou daí que, torturada pela idéia, de que desta vez era Pitou uma realidade, e não uma fantasia do seu delírio, abriu novamente os olhos, assegurando-se se aquele que vira se conservava sempre no mesmo lugar. É desnecessário dizer que ele se não tinha desviado dali.

      Ao ver os olhos de Catarina abrirem-se de novo e fixarem-se sobre ele, o rosto de Pitou parecia iluminar-se; ao ver-lhe os olhos animados e cheios de inteligência, estendeu os braços para o lado da doente.

      - Pitou!... - murmurou a doente.

      - Menina Catarina!... - exclamou Pitou.

      - Hein! - disse Clementina em sobressalto.

      Catarina lançou um olhar inquieto para a enfermeira, deixando cair de novo a cabeça sobre o travesseiro Pitou conheceu que a presença de Clementina servia de embaraço a Catarina.

      Dirigiu-se pois a ela e disse em voz baixa:

      - Srª. Clementina não se prive de dormir; bem sabe que o Sr. Raynal mandou-me aqui ficar para velar a doente, e para que pudesse ter algum descanso enquanto eu velo. Portanto, vá sossegar, que eu cá fico para o que for preciso.

      - Ah! Sim, é verdade - disse a enfermeira.

      E efectivamente, como se não aguardasse mais do que esta permissão, a pobre mulher reclinou-se mais à vontade sobre a sua poltrona, e depois de um instante de silêncio, mostrou, por um ressonar, tímido a princípio, mas que tornando-se cada vez mais forte chegou por fim a dominar a situação, que entrava a panos largos nesse país encantado do sono, que ordinariamente ela só procurava em sonhos.

      Catarina seguia o movimento de Pitou com alguma admiração, e com essa agudeza que é peculiar aos doentes, não perder uma só palavra de quanto ele dissera à Srª. Clementina.

      Pitou demorou-se alguns momentos junto da enfermeira como para se assegurar se realmente dormia; e logo que teve essa certeza, aproximou-se de Catarina, e deixando pender os braços, meneando ao mesmo tempo a cabeça, disse:

      -Ah! Menina Catarina, sabia que o amava, mas não fazia idéia que o amasse tanto!

 

Pitou confidente

      Pitou pronunciou estas palavras de tal maneira, que Catarina não pôde deixar de conhecer nelas não só a prova evidente da bondade do pobre moço, mas também da dor pungente que sofria por vê-la naquele estado.

      Estes dois sentimentos, que emanavam ao mesmo tempo do coração de Pitou que olhava para Catarina tão contristado e pungido, enterneceram-no fundamente.

      Enquanto Isidoro habitara Boursonne, enquanto ela sentira o seu amante a três quartos de légua distante de si, enquanto, finalmente, Catarina se considerava feliz, salvo algumas pequenas contrariedades motivadas pela persistência de Pitou em acompanhá-la nas suas digressões, salvo algumas ligeiras inquietações causadas por certos parágrafos das cartas de seu pai, Catarina, dizíamos, escondera o seu amor em si mesma, como um tesouro, cujo valor só ela queria apreciar; mas Isidoro partira, e então, isolada, substituindo-se-lhe no coração a desdita à felicidade, a pobre rapariga debalde procurava uma coragem igual ao seu egoísmo, e entendia que haveria para ela um grande alívio, encontrando alguém com quem pudesse falar do sedutor fidalgo, que a deixara, sem nada lhe dizer acerca da época do seu regresso.

      Ora, ela não podia falar de Isidoro nem a Clementina, nem ao Dr. Raynal, nem tão-pouco a sua mãe, e sofria por isso cruelmente, vendo-se condenada a tão rude silêncio, quando de repente, no momento em que menos esperava, a Providência lhe apresentava diante dos olhos, que acabava de abrir à vida e à razão, um amigo, de quem duvidou um momento, quando se calou, mas do qual não podia duvidar às primeiras frases que pronunciou.

      Por isso, às primeiras palavras de compaixão tão penosamente escapadas ao coração do sobrinho da tia Angélica, Catarina respondeu logo sem tratar de ocultar os seus sentimentos:

      - Ah! Sr. Pitou sou muito desgraçada!... Muitíssimo!

      Desde este momento o dique abrira-se de um lado e a corrente estabelecera-se do outro.

      - Em todo o caso, menina Catarina – continuou Pitou - ainda que não tenha grande satisfação em falar do Sr. Isidoro, se isso lhe for agradável, posso dar-lhe notícias dele.

      - Tu? - perguntou Catarina.

      - Sim, eu - disse Pitou.

      - Pois tu viste-o?

      - Não, menina Catarina, mas sei que chegou de perfeita saúde a Paris.

      Catarina fez um esforço para levantar a cabeça e olhando para Pitou com os olhos chamejantes de amor, perguntou:

      - Como sabes isso?

      Aquele ar arrancou um fundo suspiro do coração de Pitou; mas nem por isso deixou de responder com o seu modo habitual:

      - Soube-o, menina, pelo meu amigo Sebastião Gilberto, que o Sr. Isidoro encontrou de noite um pouco acima da Fonte de água clara, e que o conduziu a Paris na garupa do cavalo.

      - Desse modo - acudiu Catarina com vivacidade - está em Paris?

      - Quero dizer - objectou Pitou - actualmente já lá não está.

      - Então onde está? - redargüiu languidamente a pobre Catarina.

      - Não sei... O que sei unicamente, é que devia partir em comissão para a Espanha ou talvez para a Itália.

      Catarina, à palavra partir, tornou a deixar cair a cabeça sobre o travesseiro com um gemido, que em breve foi seguido de copiosas lágrimas.

      - Menina - tornou Pitou, pungido à vista das lágrimas de Catarina - se quer saber absolutamente onde ele está, posso informar-me.

      - Com quem? - perguntou Catarina.

      - Com o Dr. Gilberto, que se separou dele nas Tulherias... ou então, se o julgar melhor – acrescentou Pitou, vendo que Catarina abanava a cabeça em sinal de agradecimento negativo - posso voltar a Paris, e procurar ali alguns esclarecimentos... Oh! Meu Deus, não me será necessário muito tempo para o fazer; é obra de vinte e quatro horas.

      Catarina estendeu a mão febril e apresentou-a a Pitou, o qual, desprevenido do favor que lhe era dispensado, nem sequer ousou tocar-lhe.

      - Então, Sr. Pitou - disse Catarina sorrindo-se - receia acaso que lhe pegue a febre?

      - Oh! Perdão, menina Catarina - disse Pitou, apertando entre as suas calosas mãos a tépida e úmida mão da doente; - É porque não compreendia bem... desculpe. Aceita, então, não é verdade?

      - Não, pelo contrário, Pitou, agradeço... é inútil; é impossível que não receba uma carta dele até amanhã.

      - Uma carta dele! - repetiu Pitou.

      E calou-se relanceando os olhos em volta de si.

      - Sim, uma carta dele - disse Catarina, procurando descobrir com o olhar o motivo que podia perturbar assim a alma sempre plácida do seu interlocutor.

      - Uma carta dele!... Ah! Com a breca – tornou Pitou, roendo as unhas, como quem se vê em dificuldades.

      - Sim, sem dúvida, uma carta dele... Que admiração pode causar-lhe que ele me escreva? – replicou Catarina; - o senhor, que tudo sabe... ou, pelo menos, - acrescentou ela em voz baixa - quase tudo...

      - Não me admiro que lhe escreva... Se me fosse permitido escrever-lhe, Deus sabe, se também lhe escreveria, e mui extensas cartas!... Mas tenho medo...

      - Medo de quê, meu amigo?

      - Que a carta do Sr. Isidoro vá parar às mãos de seu pai.

      - De meu pai?

      Pitou fez com a cabeça um tríplice sinal que queria dizer três vezes: “Sim!”

      - Como de meu pai? - perguntou Catarina, cada vez mais admirada - pois meu pai não está em Paris?

      - Seu pai está em Pisseleux, menina Catarina, no casal aqui mesmo, no quarto imediato... Mas o Sr. Raynal proibiu-lhe a entrada no seu quarto, por causa do delírio, segundo disse, e julgo que fez muito bem.

      - Muito bem! por quê?

      - Porque me parece que o Sr. Billot não é muito afeiçoado ao Sr. Isidoro: numa ocasião em que a menina pronunciou o seu nome, fez ele uma careta! Jesus, que grande careta!...

      - Oh! Meu Deus! Meu Deus! - murmurou Catarina toda trémula - o que diz, Sr. Pitou?

      - A verdade... Até o ouvi resmungar por entre dentes: “Está bem, está bem, nada direi enquanto estiver doente; mas depois nós veremos!”

      - Sr. Pitou - disse Catarina pegando na mão de Pitou com um gesto tão veemente, que o fez estremecer.

      - Menina Catarina!

      - Tem razão, Deus me livre que as cartas fossem parar às mãos de meu pai... era capaz de me matar!

      - É verdade! É verdade! - disse Pitou; - é um homem arrebatado, que não quer ouvir a razão.

      - Mas que hei-de fazer?

      - O que quiser, menina.

      - Descubro um único meio...

      - Nesse caso, cumpre empregá-lo.

      - Mas não me atrevo... - balbuciou Catarina.

      - Como? Não se atreve!

      - Não me atrevo a dizer-lhe o que seria necessário fazer.

      - Como assim? Pois esse meio depende de mim, e não se atreve a dizer-mo?

      - Que há-de ser? Sr. Pitou.

      - Ah! Isso não é bonito, menina Catarina; julgava que tinha mais confiança em mim!

      - Tenho em ti toda a confiança, meu caro Pitou, - disse Catarina - mas...

      - Ora graças a Deus! - respondeu Pitou, muito lisonjeado pelo modo familiar com que era tratado. - Mas o quê?

      - É que te há-de causar isso muita pena.

      - Oh! Se não é mais do que isso - disse Pitou – não tem de que recear, menina Catarina.

      - Consentes então em fazer o que eu te pedir?

      - Sem dúvida nenhuma... Ora essa! Contanto que não seja algum impossível...

      - Nesse caso pode dizer.

      - Pelo contrário, é coisa muito fácil.

      - Pois bem, será necessário ir a casa da Colombe.

      - A conserveira?

      - Sim, e que distribui também as cartas do correio.

      - Ah! Entendo... Entendo, quer que lhe diga que me entregue as suas cartas, não é assim?

      - Dir-lhe-ás que não as dê senão a ti.

      - A mim? - disse Pitou. Ah! Sim... Não tinha percebido bem.

      E soltou mais um terceiro ou quarto suspiro.

      - É este o meio mais seguro, uma vez que queiras fazer-me esse serviço...

      - Como quer que lho recuse, menina Catarina? Ora essa!

      - Agradeço-te, meu Pitou, agradeço-te.

      - Lá irei, fique descansada.

      - Amanhã já será tarde, meu caro amigo; seria conveniente ir hoje mesmo.

      - Pois seja, menina; irei logo de madrugada, agora mesmo se o exigir.

      - Como és bom, Pitou, e quanto te amo! – disse Catarina.

      - Oh! Menina Catarina, não me diga essas coisas: era capaz de me fazer passar pelo fogo!

      - Vê que horas são, Pitou.

      Pitou chegou-se ao relógio de Catarina, que estava pendurado na chaminé.

      - Cinco horas e meia da manhã.

      - Então - disse Catarina - meu bom amigo Pitou...

      - Então o quê, menina?

      - Seriam horas talvez...

      - De ir a casa da conserveira? Estou às suas ordens, menina; mas seria necessário que tomasse algumas gotas do seu calmante; o doutor recomendou que lhe dessem uma colher dele de hora a hora.

      - Ah! Meu caro Pitou - disse Catarina, bebendo o remédio e olhando para o mancebo com olhos que lhe iam direitos ao coração - o que tu me fazes vale mais do que todos os calmantes do mundo.

      - O Dr. Raynal dizia que eu tinha as melhores disposições para aprender a medicina!

      - Mas onde dirás tu que vais, Pitou, para que ninguém desconfie no casal?

      - Oh! quanto a isso fique descansada!

      E Pitou lançou mão do chapéu.

      - Quer que acorde a Clementina? - perguntou ele.

      - Oh! É inútil! Deixa dormir a pobre mulher... Agora de nada careço... senão...

      - Senão?... - repetiu Pitou.

      Catarina sorriu-se.

      - Ah! Agora percebo - murmurou o mensageiro de amor - senão de uma carta do Sr. Isidoro.

      E depois de algum silêncio:

      - Pois bem, descanse, que se a houver, tê-la-á e se não a houver...

      - Se não a houver?... - perguntou Catarina com ansiedade.

      - Se não a houver, para que olha para mim, como há pouco olhou, para me sorrir, como já me sorriu, para que me chame de novo seu caro Pitou e seu bom amigo; se não achar essa carta, pode estar certa que hei-de ir buscá-la a Paris!

      - Que excelente coração tens! - murmurou Catarina seguindo com os olhos o pobre Pitou, que saía do quarto.

      Em seguida, fatigada da longa conversação que com ele tivera, tornou a reclinar a cabeça sobre o travesseiro.

      Dali a dez minutos, fora impossível a Catarina explicar a si mesma, se o que acabava de se passar era uma realidade proveniente do regresso da sua razão, ou um sonho gerado pelo delírio; mas do que estava segura, era que um frescor vivificante e suave se lhe dilatava do coração às mais afastadas extremidades dos seus membros febris e abatidos.

      No momento em que Pitou atravessava a cozinha, a tia Billot levantou a cabeça. Havia três dias que se não deitava; durante este tempo não tinha abandonado o banco que estava colocado junto da chaminé, donde os seus olhos podiam pelo menos ver a porta do quarto da filha, que lhe era vedada.

      - Então? - perguntou ela.

      - Isto vai o melhor possível - respondeu Pitou.

      - Onde vais agora?

      - A Villers-Cotterets.

      - Que vais lá fazer?

      Pitou hesitou um instante; não era homem de repentes ou de improvisos, e repetiu, para assim ganhar mais algum tempo:

      - O que vou lá fazer?

      - Sim, minha mulher pergunta-te o motivo que te conduz a Villers-Cotterets - disse a voz de Billot.

      - Vou prevenir o Dr. Raynal.

      - O Dr. Raynal tinha recomendado que o prevenisses se houvesse alguma coisa de novo.

      - Pois bem - respondeu Pitou - uma vez que a menina Catarina vai melhor, já isso é alguma coisa de novo.

      Ou fosse que o pai Billot achasse a resposta de Pitou peremptória, ou fosse que não quisesse mostrar-se demasiadamente difícil para um homem que, afinal de contas, lhe trouxera uma boa notícia, não fez objecção alguma à saída de Pitou.

      Pitou saiu pois, ao passo que o tio Billot entrava de novo para o seu quarto, e a tia Billot tornava a reclinar a cabeça sobre o peito.

      Pitou chegou a Villers-Cotterets pelas seis horas menos um quarto da manhã.

      Acordou escrupulosamente o Dr. Raynal, para lhe dizer que Catarina ia melhor, e para lhe perguntar o que devia fazer.

      O doutor interrogou-o acerca da sua noite de vigília, e com grande admiração de Pitou, que pusera nas suas respostas a maior circunspecção possível, o honrado mancebo em breve percebeu que o doutor sabia o que se passara entre ele e Catarina, como se tudo ouvisse, escondido nalgum cantinho da casa.

      O Dr. Raynal prometeu dar, naquele dia, uma chegada à herdade, recomendou que continuassem a servir a doente do mesmo tonel, e despediu Pitou que, reflectindo seriamente naquelas palavras enigmáticas, veio finalmente a compreender que o doutor lhe recomendara que continuasse a falar a Catarina do visconde Isidoro Charny.

      Em seguida, de casa do doutor, dirigiu-se à conserveira Colombe, que morava no fim da rua de Ormet, isto é, na outra extremidade da vila.

      Chegou no momento em que ela abria a porta.

      A tia Colombe era íntima amiga da tia Angélica; mas a amizade que a conserveira tinha pela tia não a impedia de apreciar o sobrinho.

      Entrando na loja da tia Colombe, recheada de gulodices, entendeu Pitou, pela primeira vez, que para sair bem da sua missão, era necessário empregar, quando não fosse a corrupção, ao menos a sedução.

      Por isso comprou meia dúzia de bolos.

      Feita esta despesa, fez então a sua proposta.

      Antepunham-se-lhe graves dificuldades.

      As cartas só deviam ser entregues às pessoas a quem eram dirigidas, ou pelo menos, àquelas que se apresentassem munidas de procuração para as receber.

      A tia Colombe não duvidava da palavra de Pitou, mas exigia uma procuração escrita.

      Pitou viu que era necessário fazer um sacrifício.

      Prometeu trazer no dia seguinte o recibo da carta, se a houvesse, e além disso uma autorização para receber dali em diante todas as que viessem para Catarina.

      Promessa que acompanhou com uma segunda compra de bolos.

      Não havia pois meio algum de lhe recusar.

      A tia Colombe não fez mais do que fracas objecções, terminando afinal por permitir a Pitou que a acompanhasse ao correio, onde lhe entregaria a carta para Catarina, se porventura ela lá estivesse.

      Pitou acompanhou-a, entretendo-se em manducar os seus bolinhos.

      Nunca tivera um tal regabofe; mas graças às liberalidades do Dr. Gilberto, Pitou estava suficientemente rico, julgando-se milionário, portanto podia permitir-se àquele espantoso excesso.

      Ao atravessar a grande praça, subiu às escadas do chafariz, aplicou a boca a uma das quatro bicas, e durante cinco minutos, absorveu a corrente de água sem que lhe escapasse uma só gota. Quando desceu do chafariz, lançou os olhos em volta de si, e descobriu uma espécie de teatro, improvisado no meio da praça.

      Recordou-se então que, no momento de partir para Paris, se tratava com grande empenho de uma reunião em Villers-Cotterets, a fim de colocar ali as bases de uma federação entre a cabeça do distrito e os lugares vizinhos.

      Os diversos acontecimentos privados que se seguiram fizeram-lhe esquecer este acontecimento político, que afinal não era destituído de alguma importância.

      Lembrou-se então dos vinte e cinco luíses, que lhe dera no momento da sua partida o Dr. Gilberto, a fim de o ajudar a pôr no melhor pé possível a guarda nacional de Haramont.

      Levantou pois a cabeça com uma espécie de orgulho, pensando na esplêndida figura que faria, graças aos tais vinte e cinco luíses, os trinta e três homens que tinha sob as suas ordens.

      Tudo isto o ajudou a digerir a meia dúzia de bolos, que juntos à meia canada de água que engolira poderiam ter-lhe pesado demasiadamente no estômago, apesar do calor dos sucos gástricos com que a natureza o dotara, se porventura se visse privado desse digestivo a que chamam o amor próprio satisfeito.

 

Pitou geógrafo

      Enquanto Pitou bebia, fazia a digestão e ao mesmo tempo reflectia sobre os acontecimentos, a tia Colombe adiantara-se mais, e chegara ao correio primeiro do que ele.

      Mas Pitou nem por isso se inquietava. O correio era situado em frente da rua Nova, espécie de beco que deita para uma porção do parque, onde se acha situada a aldeia dos Suspiros, de lânguida memória.

      Bastava-lhe dar quinze passos e alcançaria Colombe.

      Deu pois esses quinze passos, e chegou ao limiar do correio no momento em que a tia Colombe saía com um maço de cartas na mão.

      No meio delas havia uma, fechada num elegante sobrescrito e garridamente lacrada.

      Era para Catarina Billot.

      Evidentemente que era a carta que Catarina esperava.

      Segundo as convenções feitas, a carta foi entregue pela conserveira ao comprador de bolos, o qual partiu sem demora para Pisseleux, muito contente e satisfeito, e ao mesmo tempo muito triste, e melancólico.

      Satisfeito pela ventura que levava a Catarina, triste porque essa ventura dimanava de uma fonte, cuja água tão amargosa se lhe tornava aos lábios.

      Mas apesar deste amargor, o mensageiro era de tal natureza, que para levar mais depressa a maldita carta, passou do passo ao trote, e do trote quase ao galope.

      A cinqüenta passos da herdade, parou de súbito, lembrando-se com razão que se chegasse assim todo esbaforido e todo coberto de suor, poderia inspirar desconfiança ao tio Billot, que não era para graças e parecia já meio desconfiado.

      Resolveu-se pois, com risco de se demorar mais um ou dois minutos, a percorrer o resto do caminho que lhe faltava com mais vagar, e para isso passou a caminhar com a gravidade dos confidentes de tragédia, com quem Catarina o comparara, e ao passar em frente do quarto da doente, observou que a enfermeira, naturalmente para arejar o quarto abrira um pouco a janela.

      Pitou não pôde introduzir mais que o nariz e um olho por entre a greta da janela.

      Mas foi o bastante para ver Catarina acordada, e para esta o ver todo misterioso e fazendo-lhe sinais.

      - Uma carta? - balbuciou ela - uma carta?

      - Caluda! - disse Pitou - e olhando em volta de si com um olhar de águia, atreveu-se a atirar a carta com tanta destreza, que ela foi cair nas mãos daquela a quem era dirigida.

      E sem esperar o agradecimento, que não podia deixar de lhe ser dirigido, foi seguindo até à porta da casa, onde encontrou o tio Billot.

      Se não fosse uma espécie de curva que o muro fazia, o fazendeiro teria necessariamente visto o que acabava de se passar, e sabe Deus o que aconteceria, na disposição de espírito em que parecia achar-se!

      O honrado Pitou não esperava encontrar-se na presença de Billot, e sentiu-se portanto corar até às meninas dos olhos.

      - Oh! Sr. Billot! - exclamou ele - realmente, meteu-me medo!

      - Medo a ti, Pitou? A um capitão da guarda nacional, a um vencedor da Bastilha!... medo!?...

      - Que quer! - exclamou Pitou - há momentos assim! Quando se não está prevenido...

      - Sim - disse Billot - e quando se encontra o pai em lugar de se encontrar a filha!... não é assim?...

      - Oh! Sr. Billot, isso não - acudiu Pitou - eu não esperava encontrar a menina Catarina... Oh! não! não!... Ainda que vai cada vez melhor, não está em estado de poder levantar-se!

      - Não tens nada que dizer? - perguntou Billot.

      - A quem?

      - A Catarina?

      - Tenho, sim, senhor; quero preveni-la de que o Sr. Raynal ficou muito contente e que por todo o dia virá fazer-lhe uma visita... Mas qualquer lhe pode dizer isso.

      - E demais, tu deves ter fome, não é assim?

      - Fome eu?... - redargüiu Pitou.

      - Como! Pois tu não tens fome? - disse o fazendeiro.

      Pitou conheceu que dissera uma parvoíce.

      Pitou não ter fome às oito horas da manhã seria um desarranjo no equilíbrio da Natureza.

      - Tenho fome tenho - disse Pitou.

      - Pois bem, entra e come... Os trabalhadores estão almoçando neste momento; vai juntar-te a eles.

      Pitou entrou; Billot seguiu-o com os olhos, conquanto a simplicidade do mancebo lhe desvanecesse quase as suspeitas. Viu-o sentar-se no topo da mesa, e atacar a boroa e o prato de toucinho com tanta gana como se não albergasse no estômago uma dúzia de bolos.

      É certo que, segundo toda a probabilidade, o estômago de Pitou já estava desembaraçado.

      Pitou não sabia fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas o que fazia era bem feito. Encarregado por Catarina de uma comissão, havia-a desempenhado o melhor possível; convidado por Billot para almoçar, comia maravilhosamente.

      Billot continuava a observá-lo; porém, vendo que ele não desviava os olhos de sobre o prato, vendo que toda a sua preocupação se limitava à garrafa de cidra que tinha diante de si, notando que nem uma só vez o seu olhar buscara a porta de Catarina, acabou de acreditar que a ida de Pitou a Villers-Cotterets não tivera outro fim mais do que o que ele dissera.

      No fim do almoço de Pitou, abriu-se a porta do quarto de Catarina, e Clementina entrou na cozinha com um sorriso de enfermeira nos lábios. Vinha buscar a sua chávena de café.

      É desnecessário dizer que pelas sete horas da manhã, isto é, um quarto de hora depois da partida de Pitou, já ela tinha feito a sua primeira aparição, a fim de reclamar o seu copinho de aguardente, única coisa que a sustinha - dizia ela - enquanto velava uma noite inteira.

      Ao entrar na cozinha, dirigiu-se-lhe a Srª. Billot, enquanto o pai Billot saiu do seu quarto.

      Ambas se informaram da saúde de Catarina.

      - Vai o melhor possível - respondeu a enfermeira; - contudo, parece-me que neste momento delira um pouco.

      - Como! Delira um pouco? - acudiu o pai Billot.

      - Ai, minha pobre filha! - murmurou a fazendeira.

      Pitou levantou a cabeça e pôs-se à escuta.

      - Sim - replicou a enfermeira - fala de uma cidade chamada Turim, de um país chamado Sardenha, e chama o Sr. Pitou para que lhe diga o que são essa cidade e esse país.

      - Aqui estou - disse Pitou bebendo o último trago de cidra e limpando a boca à manga da véstia.

      O olhar escrutador do pai Billot deteve-o.

      - Contudo - disse ele - se o Sr. Billot não julga a propósito que dê à menina Catarina as explicações que deseja...

      - E por que não? - acudiu a mãe Billot; - uma vez que a pobre rapariga te chama, vai falar-lhe, meu rapaz, muito principalmente assegurando o Dr. Raynal que davas um bom discípulo de medicina.

      - Isso lá é verdade! - respondeu ingenuamente Pitou; - pergunte à Srª. Clementina como tratámos a doente esta noite. A Srª. Clementina não dormiu um só instante, é uma excelente mulher, e eu também não preguei olho!

      Era grande sagacidade da parte de Pitou o atacar o ponto mais delicado acerca da enfermeira. Como dormira a sono solto desde a meia noite até às seis horas da manhã, era com efeito arrojo declarar que não dormira um só instante; era fazer dela uma amiga, mais do que uma amiga, uma cúmplice!

      - Está bem - disse o tio Billot - uma vez que a Catarina te chama, vai falar-lhe... Talvez venha um momento em que também nos chame, tanto a mim como à mãe.

      Pitou sentiu instintivamente que as nuvens se aglomeravam para formar uma grande trovoada; e à maneira do pastor, que nos campos procura com antecipação um abrigo para se ocultar, sem que por isso deixe de arrostar a trovoada, se tanto for necessário, também procurava um albergue onde pudesse abrigar-se.

      Este albergue foi Haramont.

      Em Haramont, era ele rei... Que digo eu? Era mais do que rei, era comandante da guarda nacional, era um Lafayette.

      Os seus deveres, como bom patriota, chamavam-no também a Haramont, mas antes de efectuar esta jornada, era necessário que ele concertasse com Catarina as medidas que tinha na mente.

      Com a permissão pois do pai e da mãe dela, decidiu-se a entrar no quarto da doente.

      Catarina esperava-o com impaciência. O brilho dos olhos e o colorido das faces indicavam efectivamente, como dissera Clementina, que se achava debaixo do império da febre.

      Apenas Pitou fechara a porta do quarto de Catarina, esta, reconhecendo-lhe os passos, voltou-se logo para o seu lado, estendendo-lhe as mãos.

      - Ah! És tu, Pitou? - disse ela; - como tardaste!

      - Não foi culpa minha, menina - disse Pitou; - foi seu pai que me demorou.

      - Meu pai?

      - Sim... Oh! Decerto desconfia de alguma coisa... E demais, eu não tinha precisão de me apressar; sabia que estava na posse do que desejava; era tudo quanto me bastava...

      - Sim, Pitou, sim - disse Catarina baixando os olhos - sim, e agradeço-te muito.

      Depois em voz alta:

      - És excelente moço, Pitou, oh! És digno de ser amado!

      - Tem muita bondade, menina Catarina - respondeu Pitou com as lágrimas nos olhos; - por isso que sentia que toda aquela amizade era apenas um reflexo do amor que ela a outro consagrava, e no fundo do coração, por mais modesto que fosse o pobre mancebo, sentia-se humilhado de ser apenas um satélite de Charny.

      Em seguida acrescentou com vivacidade:

      - Vim incomodá-la, menina, porque me disseram que desejava saber de mim alguma coisa.

      Catarina levou a mão ao coração: procurava ali a carta de Isidoro, talvez para extrair dela a necessária coragem com que devia interrogar Pitou.

      Assim, fazendo um novo esforço, disse:

      - Pitou, tu, que tanto sabes, poder-me-ás dizer o que é a Sardenha?

      Pitou evocou todas as suas recordações geográficas.

      - Espere, espere, menina - disse ele - devo saber o que me pergunta... No número das coisas que o Sr. Fortier nos ensinava havia também a geografia... Espere... A Sardenha... A Sardenha... Ah! Se eu achasse a primeira palavra, dir-lhe-ia o resto.

      - Oh! Procura Pitou, procura - disse Catarina pondo as mãos.

      - Ora! - exclamou Pitou - é justamente o que faço... A Sardenha... A Sardenha... Ah! agora!

      Catarina respirou.

      - A Sardenha - replicou Pitou - a Sardinia, dos romanos, uma das três grandes ilhas do Mediterrâneo, ao Sul da Córsega, da qual é separada pelo estreito de Bonifácio, faz parte dos Estados Sardos, que derivam daí o seu nome, e que se chamam reino da Sardenha; tem sessenta léguas de Norte a Sul, dezesseis do Oeste a Leste; é povoada por quinhentos e quarenta mil habitantes; capital Cagliari. Aqui tem a Sardenha, menina Catarina.

      - Oh! Meu Deus! - exclamou ela - como é feliz em saber tantas coisas, Sr. Pitou!

      - O que é certo - respondeu Pitou, assaz satisfeito do seu amor próprio - o que é certo é que tenho uma excelente memória.

      - E agora - disse Catarina com menos timidez - agora, que já me disse o que é a Sardenha, não me dirá também o que é Turim?

      - Turim? - repetiu Pitou; - sim menina, com todo o gosto... se me lembrar...

      - Oh! Deus queira que se lembre... É o ponto mais importante, Sr. Pitou.

      - Se é o ponto mais importante, não haverá outro remédio... E demais, se não me recordar, farei outras investigações.

       -É... é... - insistiu Catarina, é porque muito desejo sabê-lo já... Procure, pois, meu caro Pitou, procure!

      E Catarina pronunciou estas palavras com uma voz tão meiga, que fez estremecer o pobre Pitou.

      - Ah! Menina, estou vendo se me recordo.

      Catarina parecia devorá-lo com os olhos.

      Pitou lançou a cabeça para trás, como quem queria interrogar o tecto e disse:

      - Turim... Turim... Menina, é mais difícil do que a Sardenha... A Sardenha é uma grande ilha do Mediterrâneo: a Sardenha, que pertence ao rei do Piemonte; a Córsega que pertence ao rei da França, e a Sicília que pertence ao rei de Nápoles... ao passo que Turim, é uma simples capital.

      - Como disse a respeito da Sardenha, meu caro Pitou?

      - Disse que a Sardenha pertencia ao rei do Piemonte; e julgo que me não enganei, menina.

      - É isso mesmo, meu caro Pitou! Isidoro diz na sua carta, que vai a Turim, no Piemonte.

      - Ah! - exclamou Pitou - agora entendo! Bom! Bom, muito bom! Foi a Turim que o Sr. Isidoro foi mandado pelo rei, e é para saber onde o Sr. Isidoro foi que me interroga?

      - Para que queria eu sabê-lo, se não fosse para esse fim? Que me importa a mim a Sardenha, o Piemonte ou Turim! Enquanto ele aí não foi ignorava o que fossem essa ilha e essa capital... Mas ele partiu para Turim, entendes, meu caro Pitou, e é por isso que quero saber o que é Turim e onde é.

      Pitou soltou um fundo suspiro e meneou a cabeça, mas nem por isso deixou de fazer todos os esforços para satisfazer Catarina.

      - Turim - disse ele - espere... capital do Piemonte... Turim, Turim... Agora, agora! Turim, Bodincomagus, Taurasia Colonia Júlia, Augusta Taurinorum, segundo os antigos, hoje capital do Piemonte e dos Estados Sardos, situada sobre o Pó e o Aduar, é uma das mais belas cidades da Europa. População; cento e vinte e cinco mil habitantes; rei reinante Carlos Emanuel. Eis aqui o que é Turim, menina Catarina.

      - E em que distância fica Turim de Pisseleux, Sr. Pitou? O senhor, que tudo sabe, também deve saber isto.

      - Ah! Quanto a isso, posso dizer-lhe a distância que há de Paris a Turim, mas quanto a Pisseleux, isso é um pouco mais difícil.

      - Pois bem; diga-me sempre a distância que há de Paris a Turim, e juntar-lhe-emos depois as dezoito léguas que há de Pisseleux a Paris.

      - É verdade, tem razão, menina - disse Pitou.

      E continuando a sua nomenclatura:

      - Distância de Paris, duzentas e seis léguas; de Roma, cento e quarenta; de Constantinopla...

      - Só careço de Paris, meu caro Pitou... Duzentas e seis léguas com dezoito, fazem duzentas e vinte e quatro... Deste modo acha-se distante de mim duzentas e vinte e quatro léguas! Há três dias estava a três quartos de légua de distância; mas hoje, hoje - acrescentou Catarina desfazendo-se em lágrimas - hoje acha-se a duzentas e vinte e quatro léguas!...

      - Oh! Ainda não - disse timidamente Pitou; - partiu antes de ontem, e apenas terá feito metade do caminho.

      - Então onde estará?

      - Ah! Quanto a isso, não posso dizê-lo – respondeu Pitou. - O abade Fortier ensinava-nos a conhecer os reinos e as capitais, mas nada nos dizia acerca dos caminhos que lá conduziam.

      - Então não sabes mais nada, meu caro Pitou?

      - É verdade, menina - respondeu ele contristado por se ver tão depressa chegado aos limites da ciência; - só posso dizer-lhe que Turim é um covil de aristocratas.

      - Que queres dizer com isso?

      - Quero dizer que se acham reunidos ali todos os príncipes, todas as princesas, todos os emigrados, o Sr. conde de Artois, o Sr. príncipe de Condé; a Srª. de Polignac e finalmente um bando de ladrões que conspiram contra a nação, e aos quais um dia cortarão a cabeça, com uma máquina mui engenhosa que neste momento trata de inventar o Sr. Guillotin.

      - Oh! Isso é horrível, Sr. Pitou!

      - O quê, menina?

      - Torna-se feroz como veio da primeira vez que foi a Paris?

      - Eu feroz! - disse Pitou. Ah! Não há dúvida... Sim, sim... O Sr. Isidoro é um desses aristocratas, e a menina receia pela vida dele.

      E em seguida, com um desses suspiros, que já por mais de uma vez temos mencionado - acrescentou:

      - Não falemos mais nisso. Falemos de si, e da maneira como poderei ser-lhe útil.

      - Meu caro Pitou - disse Catarina - a carta que recebi esta manhã não será, talvez, a última que receba.

      - Não quer que vá buscar também as outras como fiz com esta?

      - Pitou, uma vez que principiaste a ser tão bom...

      - Devo por isso continuar a sê-lo não é verdade?

      - Sim.

      - É justamente o meu desejo.

      - Bem vês que, vigiada por meu pai, como sou, não poderei ir à vila.

      - Ah! Mas é necessário saber que ele também me vigia a mim... Não me escapou o modo como me observava.

      - Assim será, Pitou; mas não pode segui-lo até Haramont, e podemos combinar um sítio onde deposite as cartas.

      - Oh! Muito bem - respondeu Pitou; - por exemplo, o grande salgueiro oco, que se acha junto do lugar onde a encontrei desmaiada.

      - Justamente - disse Catarina; - não pode ver-se das janelas... Está, pois, combinado que seja o salgueiro oco o depósito das cartas?

      - Está sim, menina Catarina.

      - Mas tome cuidado que não o vejam!

      - Pergunte aos guardas de Longpré, de Taille-Fontaine e de Montaigu se me viram alguma vez, sem que por isso deixasse de lhes apanhar algumas dúzias de coelhos!... Mas a menina Catarina, como fará para ir buscar as cartas?

      - Eu?... Oh! Eu - disse Catarina com um sorriso cheio de esperança e de vontade - agora hei-de restabelecer-me depressa.

      Pitou soltou o maior dos suspiros que até ali tinha soltado.

      Neste momento abriu-se a porta para dar entrada ao Dr. Raynal.

 

Pitou capitão quartel-mestre

      A visita do Dr. Raynal vinha muito a propósito para facilitar a saída de Pitou.

      O médico aproximou-se da doente e observou a espantosa mudança que nela se operara em vinte e quatro horas.

      Catarina sorriu para o doutor e estendeu-lhe a mão.

      - Oh! - disse ele - se não fora pelo prazer de tocar esta linda mão, querida Catarina, não me seria necessário consultar o seu pulso... Aposto que não temos mais de setenta e cinco pulsações por minuto?

      - Estou efectivamente muito melhor, doutor, e o seu receituário tem feito prodígios.

      - O meu receituário!... Hum, hum! - disse o doutor; - desejo muito, minha filha, ter as honras da sua convalescença; mas, por mais vaidoso que seja, não posso deixar de ceder uma parte das honras ao meu discípulo Pitou.

      E erguendo os olhos ao céu, exclamou:

      - Ó Natureza! Natureza! Poderosa Ceres! Misteriosa Ísis! Quantos segredos não reservas ainda aos que sabem interrogar-te!

      E voltando-se para a porta, disse:

      - Vamos, vamos, entre, Sr. Billot com o seu rosto sombrio, e a mãe com o seu olhar inquieto e contristado, entrem... e venham ver a nossa cara doente; só lhe resta, para de todo se restabelecer, o seu amor e as suas carícias; entrem!

      Ouvindo a voz do doutor, os pais correram logo ao quarto da filha; o tio Billot com um resto de desconfiança na fisionomia; a tia Billot radiante e satisfeita.

      Enquanto entravam, Pitou, depois de ter respondido ao último relancear de olhos de Catarina, saiu do quarto.

      Deixemos Catarina, que com a carta de Isidoro junta ao coração dispensa de ora em diante a aplicação da neve na cabeça e da mostarda nos pés; deixemos Catarina voltar, afagada pelos pais, à esperança e à vida, e vejamos Pitou cumprir uma das acções mais difíceis, imposta pelo cristianismo às almas cristãs: a abnegação de si mesmo e a dedicação ao próximo.

      Dizer que o honrado mancebo se separava de Catarina alegre e satisfeito, seria exagerar muito: limitar-nos-emos pois a afirmar, que se separava dela com o coração sossegado; conquanto não pudesse explicar-se a grandeza da acção que acabava de praticar nem por isso deixava de sentir as felicitações da voz interna que cada um de nós sente no coração, pela acção santa e meritória que praticara; não talvez aos olhos da moral, que decerto reprovaria a intimidade de Catarina com o visconde de Charny, isto é de uma camponesa com um fidalgo, mas aos olhos da humanidade.

      Ora, na época de que falamos, a humanidade era um dos palavrões da moda, e Pitou que mais de uma vez pronunciava a palavra sem lhe saber o verdadeiro sentido, acabava de pô-la em prática.

      O que ele fizera fora uma coisa que deveria ter feito por esperteza, se não a tivesse feito por bondade.

      De rival do Sr. de Charny, situação mais que ingrata, tornara-se em confidente de Catarina, e por isso, esta, em lugar de o tratar com rudeza, em vez de o despedir, como fizera na volta da sua primeira ida a Paris, afagava-o tratando-o por tu.

      Confidente, obtivera o que nunca obtivera como rival, sem contar o mais que ainda alcançaria, à proporção que os acontecimentos tornassem a sua cooperação cada vez mais necessária à vida privada e aos sentimentos secretos da bela camponesa.

      Para conservar esse futuro de amigáveis ternuras, Pitou principiou por levar à Srª. Colombe uma autorização, quase ininteligível, que fora concedida por Catarina, que lhe dava plenos poderes para receber todas as cartas que chegassem em seu nome.

      A essa autorização escrita, juntava Pitou uma promessa verbal de Catarina que consistia em oferecer a todos os trabalhadores de Pisseleux, no dia de S. Martinho, uma merenda composta dos melhores bolos, que houvesse na conservaria da Srª. Colombe.

      Em virtude da autorização e da promessa, que punha ao mesmo tempo a coberto a consciência e os interesses da conserveira Colombe, obrigou-se esta a ir buscar todos os dias ao correio, e a pôr à disposição de Pitou, as cartas que chegassem para Catarina.

      Estabelecido isto, Pitou, que não tinha outro objecto que o retivesse em Villers-Cotterets, encaminhou-se para a aldeia.

      A entrada de Pitou em Haramont foi um notável acontecimento.

      A sua precipitada partida para a capital não deixava de suscitar um sem número de comentários, e depois do que acontecera acerca da ordem enviada de Paris por um ajudante de campo do general Lafayette para se apoderar das armas depositadas em casa do abade Fortier, não podiam os haramonteses pôr em dúvida a importância política de Pitou. Diziam uns que fora chamado a Paris pelo Dr. Gilberto, outros que pelo general Lafayette, outros, finalmente, mas esses em número diminuto, asseveravam que fora mandado chamar pelo próprio rei!

      Conquanto Pitou ignorasse os boatos que se espalharam na sua ausência, boatos que eram todos em favor da sua importância pessoal, nem por isso deixou de entrar na sua terra natal com um ar de dignidade que a todos maravilhou.

      É que para serem vistos na sua verdadeira distância, devem os homens ser também vistos no terreno que lhes é próprio. Estudante no pátio do abade Fortier, jornaleiro no casal de Billot, Pitou não deixava de ser homem, cidadão e capitão em Haramont, sem contar, que na qualidade de capitão, além de cinco ou seis luíses, que eram propriedade sua, trazia no bolso, como todos se devem recordar, mais vinte e cinco luíses, oferecidos generosamente pelo Dr. Gilberto para equipamento da guarda nacional de Haramont.

      Portanto, assim que chegou a casa, como o tambor viesse logo visitá-lo, ordenou-lhe que anunciasse para o dia seguinte, que era domingo, ao meio dia, uma revista oficial com armas e baionetas, na praça de Haramont.

      Desde logo ninguém duvidou mais de que Pitou tivesse alguma comunicação a fazer à guarda nacional da parte do governo.

      Muitos foram procurá-lo com o desígnio de saber, primeiro que os outros, alguma particularidade do grande segredo; mas Pitou era inviolável, sabia guardar sobre os negócios públicos o maior silêncio.

      À noite, Pitou, a quem os negócios públicos não distraíam mais dos negócios privados, do que estes o distraíam daqueles, foi apresentar as suas homenagens ao tio Clouis, dever este que não o impossibilitou de estar às sete horas da manhã em casa de Dulauroy, mestre alfaiate, tendo primeiro deixado no seu domicílio de Haramont três coelhos e uma lebre, e informando-se também da conserveira se haveria alguma carta para Catarina.

      Não havia nenhuma, e Pitou quase se afligira ao lembrar-se da pena que esta falta causaria à pobre convalescente.

      A visita de Pitou ao alfaiate Dulauroy tinha por fim indagar se este se queria encarregar do fardamento da guarda nacional de Haramont e que preço exigia.

      O mestre Dulauroy fez algumas perguntas acerca da estatura dos indivíduos, às quais Pitou respondeu, fazendo-lhe ver a relação nominal dos trinta e três homens, oficiais, inferiores e soldados, que compunham o efectivo da guarda cívica haramontesa.

      Como todos estes homens eram conhecidos do alfaiate, fácil lhe foi calcular, com o lápis na mão, a estatura de cada um, declarando que não podia fornecer trinta e três calções feitos convenientemente por menos de trinta luíses, sem que por este preço se lhe pudesse exigir que fizesse esta obra de pano inteiramente novo.

      Pitou quis objectar, dizendo que o mesmo Lafayette lhe certificara ter fardado os três milhões de homens que compunham a guarda cívica de França na razão de vinte libras cada um, o que perfazia um total de setenta e cinco milhões.

      O mestre Dulauroy respondeu que em semelhante verba fácil seria tirar algum interesse; mas que tendo ele unicamente para fardar trinta e três homens, o mais que podia fazer era fardá-los por vinte e dois francos cada um, e mesmo assim era necessário que fosse pago de pronto, visto os adiantamentos que tinha de fazer.

      Pitou tirou do bolso um punhado de ouro, e declarou que não servisse isso de obstáculo, mas que quanto ao preço já o tinha limitado; que se o mestre Dulauroy recusava, iria procurar o mestre Bligny, colega e rival do mestre Dulauroy, que não deixaria de lhe fardar os trinta e três homens por vinte e cinco luíses; contudo, que lhe daria a preferência, visto ser seu amigo e compadre da tia Angélica.

      Efectivamente, Pitou não se lhe dava que a tia Angélica soubesse por segunda pessoa que ele distribuía ouro às mãos cheias, e não duvidava que, naquela mesma noite, o alfaiate lhe fosse contar o que vira, isto é, que Pitou era tão rico como o finado Creso.

      A ameaça de ir procurar outro alfaiate produziu o seu efeito, e mestre Dulauroy teve de ceder a Pitou, o qual exigiu de mais a mais que o seu uniforme fosse feito de pano novo, e que se lhe fornecessem também as dragonas, tudo pelo mesmo preço.

      Esta exigência deu lugar a novo debate, não menos renhido que o primeiro, mas sobre o qual ainda Pitou triunfou, graças à terrível ameaça de alcançar do mestre Bligny o que não podia obter do mestre Dulauroy.

      O resultado de toda esta discussão foi a obrigação tomada por mestre Dulauroy de fornecer, para o próximo sábado, trinta e uma fardas e trinta e um calções para soldados, duas fardas e dois calções para sargento e tenente, e uma farda e um calção para capitão, este último uniforme com as competentes dragonas.

      Se esta obra faltasse para o dia designado, ficaria por conta do alfaiate remisso, porquanto, devendo realizar-se a cerimónia da federação de Villers-Cotterets, e de todas as aldeias e lugares que derivam daquela cabeça de distrito, no domingo, era indispensável que os uniformes estivessem prontos no sábado convencionado.

      Esta condição foi aceite como as outras.

      Às nove horas da manhã ficara concluído o negócio.

      E às nove horas e meia tinha Pitou voltado a Haramont, gozando com antecipação a surpresa que reservava aos concidadãos.

      Às onze horas tocava o tambor a chamada.

      E ao meio dia, a guarda nacional, debaixo de armas, manobrava com a sua precisão ordinária, na praça pública da aldeia.

      Depois de uma hora de manobras, que valeram àquela brava guarda nacional os elogios do seu chefe, e os bravos das mulheres, das crianças e dos velhos, que observavam aquele espectáculo patético com o mais vivo interesse, Pitou chamou ao pé de si o sargento Cláudio Tellier, e o tenente Désiré Maniquet, para lhe ordenar que reunissem os seus homens, e que os convidassem da parte do mesmo rei a irem a casa do mestre Dulauroy, em Villers-Cotterets, o qual tinha uma comunicação que fazer-lhes da maior importância.

      O tambor tocou à ordem; o sargento e o tenente, tão ignorantes como aqueles a quem se dirigiam, transmitiram aos soldados as textuais palavras do seu capitão; em seguida à voz de: “Fora de forma!” todos se dispersaram.

      Cinco minutos depois, os trinta e um soldados da guarda cívica de Haramont, acompanhados pelo sargento Cláudio Tellier e pelo tenente Désiré Maniquet, corriam todos pela estrada que conduz a Villers-Cotterets.

      À noite, os dois menestréis de Haramont deram uma serenata ao capitão; o ar era semeado por uma imensidade de foguetes e de outros fogos de artifício, ouvindo-se gritar a espaços algumas vozes, ainda que um pouco roufenhas:

      “Viva Ângelo Pitou, o pai do povo!”

 

Em que o abade Fortier dá uma nova prova do seu espírito anti-revolucionário

      No domingo seguinte, foram os habitantes de Villers-Cotterets acordados pelo tambor, que tocava encarniçadamente a chamada pelas cinco horas da manhã.

      Nada há mais impertinente, na minha opinião, do que esta maneira de acordar uma povoação, cuja maioria quase sempre, forçoso é dizê-lo, preferiria acabar tranquilamente a noite, e completar as sete horas de sono, de que, segundo a higiene popular, todo o homem carece para se conservar bem disposto.

      Mas, em todas as épocas de revolução, sempre assim acontece, e quando se entra num desses períodos de agitação e de progresso, é necessário colocar filosoficamente o sono no número dos sacrifícios que à pátria se devem fazer.

      Pouco satisfeitos, patriotas ou aristocratas, os habitantes de Villers-Cotterets foram pois arrancados do seu pacífico sono, no domingo 18 de Outubro de 1790, pelas cinco horas da manhã.

      A cerimónia não devia, contudo, celebrar-se senão pelas dez horas; mas não eram muito cinco horas para concluir os preparativos da festa.

      Um grande teatro, construído havia dez dias, elevava-se no meio da praça; porém a sua construção improvisada atestava exuberantemente o zelo dos construtores, e não era, por assim dizer, mais do que o esqueleto do monumento.

      O monumento era altar dedicado à pátria, para o qual fora convidado o abade Fortier, havia já quinze dias, a ir dizer missa no domingo 18 de Outubro, em lugar de dizer na sua igreja.

      Ora, para tornar este monumento digno do seu duplo destino religioso e social, era necessário que todas as riquezas do distrito concorressem para o embelezar.

      E, cumpre dizê-lo, ninguém se recusava a oferecer generosamente quanto possuía de mais rico para esta solenidade: este um tapete, aquele uma toalha de altar; um, umas cortinas de seda, outro, o painel de algum santo.

      Assim, como no mês de Outubro se não pode contar com a estabilidade do tempo, ainda que o barômetro o marque seguro, ninguém quis antecipar-se a fazer o seu oferecimento, reservando-se todos a concorrerem no mesmo dia do festejo com o seu tributo.

      O Sol nasceu às seis horas e meia, segundo costuma naquela época, anunciando pela limpidez e calor dos raios, um desses famosos dias de Outono, que podem comparar-se com os mais belos dias da Primavera.

      Por isso, desde as nove horas da manhã, já o altar da pátria estava adornado com um magnífico tapete de Aubresson, coberto com uma toalha de rendas, sobrepujado com um painel representando a prédica de S. João, no deserto, e abrigado por um dossel de veludo franjado de ouro, donde pendiam magníficas cortinas de brocado.

      Os objectos necessários à celebração da missa deviam ser naturalmente fornecidos pela igreja; ninguém pois receava a sua falta.

      Além disto, cada cidadão, como no dia do Corpo de Deus, havia guarnecido a frontaria da casa com lençóis ornados de ramos de hera ou outras tapeçarias, representando flores, personagens ou outros objectos.

      Todas as raparigas de Villers-Cotterets e dos subúrbios, vestidas de branco com um cinto tricolor e um ramo na mão deviam cercar o altar da pátria.

      Finalmente concluída a missa, deviam os homens prestar juramento à constituição.

      A guarda nacional de Villers-Cotterets, debaixo de armas desde as oito horas da manhã, esperava pelas guardas cívicas de diferentes aldeias, fraternizando com elas à medida que iam chegando.

      É desnecessário dizer que entre todas estas milícias patrióticas, a que se esperava com mais impaciência era a guarda cívica de Haramont.

      Havia-se espalhado o boato de que, graças à influência de Pitou e em conseqüência de uma generosidade verdadeiramente real, os trinta e três homens que compunham aquela guarda, se apresentariam completamente uniformizados.

      A oficina de mestre Dulauroy não tivera mãos a medir, naquela semana; concorrera grande afluência de curiosos para ver os dez oficiais trabalhando naquela gigantesca encomenda, e ninguém se lembrava de ter visto outra semelhante em Villers-Cotterets.

      O último uniforme, que era o de capitão, por isso que Pitou recomendara que fosse ele o último a ser servido, ficava concluído, segundo as convenções, às onze horas e cinqüenta e nove minutos da noite de sábado.

      E igualmente segundo as convenções, já Dulauroy tinha recebido de Pitou os vinte e cinco luíses convencionados.

      Tudo isto produzira grande arruído na cabeça do distrito, e por isso não admira que a guarda nacional de Haramont fosse esperada com tanta curiosidade e avidez.

      Às nove horas em ponto, o som do tambor e do pífaro retiniu na extremidade da rua de Largny, ouviam-se clamores de alegria e de admiração, e avistava-se ao longe Pitou, montado no cavalo branco, ou para melhor dizermos, montado no cavalo branco do seu tenente Désiré Maniquet.

      A guarda nacional de Haramont, o que não acontece de ordinário com as coisas muito faladas, não se apresentou inferior à sua reputação!

      Todos se recordam do triunfo que obtiveram os haramonteses, que não tinham outro uniforme mais do que trinta e três chapéus iguais, e quando Pitou não tinha outro distintivo mais do que a sua graduação, um capacete e um sabre de simples dragão.

      Que se imagine pois o garbo marcial que deviam ter os trinta e três homens de Pitou, vestidos com fardas e calções de uniforme, e a garridice que teria o seu chefe com o chapelinho sobre a orelha, as patas de gato nos ombros e a espada na mão.

      Não se ouvia mais do que um brado de admiração desde a extremidade da rua de Largny até à praça de Fontaines.

      A tia Angélica não queria de modo algum conhecer o sobrinho; esteve prestes a ser esmagada pelo cavalo branco de Maniquet; querendo ver de perto Pitou, que lhe fez uma majestosa continência com a espada, e para que fosse ouvido a vinte passos de distância, pronunciou apenas, por única vingança, as seguintes palavras:

      - Bons dias Srª. Angélica!

      A pobre mulher, acabrunhada com o peso daquela respeitosa saudação, deu três passos para trás, levantando as mãos ao céu, e bradando ao mesmo tempo.

      - Oh! Desgraçado! As honras deram-lhe volta ao miolo; já não conhece a sua tia!

      Pitou passou garbosamente sem responder à apóstrofe, indo tomar, junto ao altar da pátria, o lugar de honra que fora destinado à guarda nacional de Haramont como única tropa que havia de uniforme completo.

      Chegado ali, Pitou apeou-se, dando a guardar o cavalo a um gaiato, que recebeu do magnífico capitão avultada espórtula.

      O facto foi referido dali a cinco minutos pela tia Angélica, que exclamou:

      - Então o desgraçado é porventura algum milionário?

      Depois acrescentou em voz baixa:

      - Muito mal andei em me pôr de mal com ele... As tias são as herdeiras dos sobrinhos.

      Pitou não ouviu nem a exclamação nem a reflexão; parecia extasiado!

      No meio das raparigas cingidas com uma fita tricolor, e tendo na mão um ramo verdejante, conhecera Catarina.

      Catarina estava ainda pálida, mas muito mais bela na sua palidez do que outra qualquer com o mais belo frescor de saúde!

      Catarina pálida, mas feliz, achara naquela manhã, graças aos cuidados de Pitou, uma carta no salgueiro oco.

      Já dissemos que o pobre Pitou tinha tempo para tudo.

      Às sete horas da manhã teve o tempo necessário para ir a casa de Colombe; às sete e um quarto fora depositar a carta no salgueiro oco, e às oito horas já estava vestido de uniforme à frente dos seus trinta e três homens!

      Não tornara a ver Catarina desde o dia em que a deixara na cama, e, repetimo-lo, via-a tão bela e tão feliz, que parara extasiado ao pé dela.

      Ela fez-lhe sinal para lhe falar.

      Pitou circunvagou a vista, como para se assegurar se ela dera aquele sinal.

      Catarina sorriu, e repetiu o sinal.

      Não havia portanto que duvidar.

      Pitou embainhou a espada, tirou gentilmente o chapéu, e dirigiu-se a Catarina.

      Se fosse o general Lafayette, Pitou teria simplesmente levado a mão ao chapéu.

      - Ah! Sr. Pitou - disse Catarina - decerto que não o conhecia... Meu Deus! Como o uniforme lhe fica bem!

      Depois, em voz baixa, acrescentou:

      - Obrigado! Obrigado! Meu caro Pitou. Oh! Quanta bondade tem, e quanto lhe quero!

      E pegou na mão do capitão da guarda nacional, que apertou entre as suas.

      Uma espécie de deslumbramento passou pelos olhos de Pitou; caiu-lhe o chapéu da mão, e talvez que o infeliz namorado caísse também, se um grande arruído, acompanhado de gritos ameaçadores, não retinisse do lado da rua de Saissons.

      Fosse qual fosse a causa do motim, Pitou aproveitou-se do incidente para sair do embaraço em que se achava.

      Desembaraçou a mão das de Catarina, levantou o chapéu e correu a gritar: “Às armas!” pondo-se logo à frente dos seus trinta e três homens.

      Cumpre dizer a causa daquele motim e daqueles rumores ameaçadores.

      Já sabemos que o abade Fortier fora designado para celebrar a missa da federação no altar da pátria, e que vasos sagrados e mais ornamentos do culto, como cruz, bandeiras, castiçais, deviam ser transportados da igreja, e colocados sobre o novo altar construído no meio da praça.

      Foi o maire, o Sr. de Longpré, quem deu as ordens relativas a esta parte da cerimónia.

      O Sr. do Longpré já tinha tido algumas desavenças com o abade Fortier, quando Pitou, com a ordem do general Lafayette na mão, requisitava a força armada para se apoderar das armas retidas pelo abade Fortier.

      Ora, o Sr. de Longpré conhecia, como todos, o carácter do abade Fortier; sabia que era teimoso, irritável, insolente.

      Desconfiava que ele lhe conservasse algum rancor, em conseqüência da sua intervenção no negócio das armas.

      Por isso se limitou, em lugar de ir pessoalmente procurar o abade, a tratar com ele como de autoridade civil para autoridade religiosa, e enviou ao digno servo de Deus o seguinte programa da festa:

     

ARTIGO 4.º

     

      “A missa será dita no altar da pátria pelo Sr. abade Fortier, e principiará às dez horas da manhã.”

 

ARTIGO 5.º

     

      “Os vasos sagrados e mais ornamentos do culto serão, sob a vigilância do Sr. abade Fortier, transportados da igreja de Villers-Cotterets para o altar da pátria.”

     

      O secretário do maire entregou pessoalmente o programa ao abade Fortier, que o leu todo com modo chocarreiro, e com o mesmo modo respondeu ao secretário:

      - Está bem!

      Já dissemos que pelas nove horas estava o altar da pátria inteiramente adornado com um tapete, cortinas, toalhas, e um quadro representando S. João pregando no deserto.

      Não faltava mais do que os castiçais, o tabernáculo, a cruz e outros objectos necessários ao serviço divino.

      Às nove horas e meia ainda estes objectos não tinham chegado!

      O maire principiou a inquietar-se.

      Enviou à igreja o seu secretário para se informar se com efeito tratavam de conduzir os objectos sagrados.

      O secretário voltou dizendo que achara a igreja fechada.

      Recebeu então ordem de correr a casa do bedel, que naturalmente devia estar encarregado daquela condução.

      Encontrou o bedel com uma perna estendida sobre um tamborete, e soltando gritos de possesso.

      O desgraçado tinha torcido um pé!

      O secretário recebeu nova ordem para se dirigir a casa dos chantres.

      Ambos se achavam incomodados; um tinha tomado um vomitório, o outro um purgante; os dois remédios operavam de uma maneira milagrosa, e os dois doentes esperavam ver-se completamente restabelecidos no dia seguinte.

      O maire principiou a conjecturar uma conspiração; enviou portanto o seu secretário a casa do abade Fortier.

      O abade tinha sido acometido naquela manhã por um terrível ataque de gota, e sua irmã receava muito que o ataque aumentasse.

      Desde logo tudo se esclareceu aos olhos do maire: não só o abade não queria celebrar missa no altar da pátria, mas, impossibilitando o bedel e os chantres e fechando a porta da igreja, fazia com que outro padre, quando por acaso se encontrasse, não pudesse dizer missa em seu lugar.

      A situação era demasiadamente séria!

      Naquela época ainda se julgava que, nas circunstâncias graves, não era permitido à autoridade civil separar-se da autoridade religiosa, e uma festa qualquer não podia fazer-se sem missa.

      Alguns anos depois, todos caíram no excesso contrário!

      Além de que, todas aquelas idas e vindas do secretário não se haviam verificado sem que este cometesse alguma indiscrição acerca da indisposição do bedel, do vomitório do primeiro chantre, do purgante do segundo e da gota do abade.

      Um rumor surdo principiava a circular pela povoação.

      Já se falava em arrombar a porta da igreja para se apoderarem dos vasos sagrados e mais ornamentos do culto, e de arrastar o abade Fortier até aos degraus do altar da pátria.

      O Sr. de Longpré, homem essencialmente conciliador, acalmou os primeiros movimentos de efervescência, oferecendo-se para ir, como embaixador, procurar o abade.

      Por conseguinte, encaminhou-se para a rua de Soissons, e bateu à porta do digno abade, tão cuidadosamente aferrolhada como a da igreja

      Por mais que batesse, a porta conservava-se sempre fechada.

      O Sr. de Longpré julgou então necessário recorrer à intervenção da força armada.

      Ordenou que se prevenissem os sargentos da gendarmeria.

      Ambos se achavam na praça; e correram logo ao convite do maire.

      Um grande concurso do povo os seguia.

      Como não havia nem balista nem catapulta para arrombar a porta, contentaram-se simplesmente em mandar vir um serralheiro.

      Mas no momento em que o serralheiro ia arrancar a fechadura, a porta abriu-se de súbito, e o abade Fortier apareceu no limiar.

      Não como Coligny, perguntando aos seus assassinos: “Que me quereis, meus irmãos?”

      Mas como Calchas, com os olhos chamejantes e o pêlo eriçado, como disse Racine na sua Efigénia.

      - Alto lá! - bradou ele levantando a mão com gesto ameaçador; - alto lá, hereges, ímpios, huguenotes, relapsos! Alto lá, amacelitas, sodomitas, gomorenos, desembaraçai o limiar da porta do homem de Deus!

      Seguiu-se um grande murmúrio entre a multidão, murmúrio que, cumpre dizê-lo, não era a favor do abade Fortier.

      - Perdão - disse o maire com a sua voz afável, a que dera a inflexão mais persuasiva possível - perdão, Sr. abade, queremos unicamente saber se quer ou não dizer missa no altar da pátria.

      - Se quero dizer missa no altar da pátria? - clamou ele arrebatado por uma dessas santas cóleras, a que era tão sujeito; - pergunta-me se quero sancionar a revolta, a desordem, a ingratidão? Se quero pedir a Deus que maldiga a virtude e abençoe o pecado? Decerto que não esperará semelhante coisa, Sr. maire... Quer saber se sim ou não direi a sua missa sacrílega? Pois bem! Não, não e não!

      - Está bem, Sr. abade - respondeu o maire – o senhor é livre, ninguém pode obrigá-lo.

      - Oh! Que ventura, considerarem-me livre! – disse o abade - que ventura que ninguém possa obrigar-me... Na verdade, o Sr. maire tem muita bondade.

      E soltando um riso sardónico e insolente, principiou a empurrar a porta, mesmo na cara das autoridades.

      A porta ia pois fechar-se inteiramente na cara da assembléia, toda pasmada, quando um homem se arrojou contra ela, dando-lhe um forte encontrão, que quase lançou por terra o abade, apesar da sua força e vigor.

      Esse homem era Billot, pálido de cólera, com a fonte enrugada, e com os dentes cerrados.

      Billot, já o sabemos, era filósofo, e nessa qualidade detestava os padres, a quem chamava insolentes e preguiçosos.

      Seguiu-se um silêncio profundo; todos viram que se ia passar alguma coisa terrível entre aqueles dois homens.

      E todavia, Billot, que acabava de impelir a porta, de praticar tão grande violência, com voz sossegada e quase enternecida, proferiu estas palavras:

      - Perdão, Sr. maire, que disse o senhor há pouco?... Disse, torne a repetir, rogo-lhe; disse se o Sr. abade não queria celebrar o ofício, ninguém o podia obrigar, não foi isto?

      - Sim, não há dúvida - balbuciou o pobre Longpré - sim, foi isso mesmo.

      - Ah! Nesse caso cometeu um grande erro, Sr. maire, e no tempo em que nos achamos, convém muito que os erros se não propaguem.

      - Alto lá sacrílego! Alto lá, ímpio! Alto lá, relapso, alto lá, herege! - bradou outra vez o abade, dirigindo-se a Billot.

      - Oh! Lá, Sr. abade, calemo-nos, ou o negócio acabará muito mal! Sou eu que o advirto... Não o insulto; o Sr. maire julga que não o podem obrigar a dizer a missa; eu entendo que nada há mais fácil do que obrigá-lo a dizê-la.

      - Ah! Celerado!...

      - Silêncio - gritaram todos a uma voz - silêncio!

      - Ouviu, Sr. abade? - disse Billot com o mesmo sangue frio, todos são da minha opinião. Não prego tão bem como o senhor, mas parece-me que as minhas palavras são mais interessantes do que as suas, por isso que todos as escutam.

      O abade tinha fortes desejos de replicar com algum novo anátema, mas aquela voz ingente da multidão aterrou-o, mau grado seu.

      - Fala, fala - disse ele com modo zombeteiro; veremos o que vais dizer.

      - Vai vê-lo Sr. abade - redargüiu Billot.

      - Vamos, que te escuto.

      - E faz bem.

      E lançando um olhar de soslaio sobre o abade, como para se assegurar se se calava enquanto ele falava, continuou:

      - Vou pois dizer uma coisa bem simples; qualquer que recebe um salário é obrigado, em troca desse salário, a praticar o mister para que lhe pagam.

      - Ah! - exclamou o abade - bem te vejo vir, meu espertalhão...

      - Amigos - disse Billot com a mesma doçura de voz, e dirigindo-se aos duzentos ou trezentos espectadores desta cena - o que preferem, ouvir as injúrias do Sr. abade, ou escutar os meus raciocínios?

      - Fale, Sr. Billot, fale que o escutamos... Silêncio!

      Billot, desta vez, contentou-se a olhar para o abade, e continuou:

      - Digo, pois, que qualquer que percebe um salário é obrigado a desempenhar o mister para que lhe pagam. Por exemplo, aqui está o Sr. secretário da municipalidade, a quem pagam para ajudar o Sr. maire, e para lhe levar as suas mensagens; o Sr. maire enviou-o a sua casa, Sr. abade, para lhe trazer o programa da festa; pois bem, nunca lhe viria à idéia dizer: “Sr. maire, não quero levar o programa da festa ao Sr. Fortier”. Não é assim Sr. secretário, que semelhante coisa lhe não passou pela idéia?

      - É Sr. Billot - respondeu o secretário - isso nem tem discussão!

      - Ouviu, Sr. abade? - perguntou Billot.

      - Blasfemo? - bradou o abade.

      - Silêncio! - clamaram os circunstantes.

      Billot continuou.

      - Aqui está o Sr. sargento da gendarmeria, que é pago para manter a ordem e o sossego público: quando o Sr. maire julgou há pouco que a ordem podia ser perturbada pelo senhor, e lhe mandou dizer que viessem em seu auxílio, o Sr. sargento decerto não teve a idéia de lhe dizer: “Sr. maire, restabeleça a ordem como quiser, mas restabeleça-a sem mim”. O senhor, decerto não teve essa idéia Sr. sargento, não é assim?

      - À fé de militar, que não tive! Era meu dever obedecer - respondeu simplesmente o sargento.

      - Ouviu, Sr. abade? - disse Billot.

      O abade rangeu os dentes.

      - Espere - disse ainda Billot - aqui está um honrado serralheiro. O seu ofício, como indica o seu nome, é de fabricar ou abrir as fechaduras. O Sr. maire mandou-o chamar há pouco para que viesse abrir a sua porta; pois não lhe ocorreu a idéia de responder ao Sr. maire: “Não quero abrir a porta do Sr. Fortier”. Não é assim, Priard, que semelhante idéia lhe não ocorreu?

      - Por certo que não ocorreu! - respondeu o serralheiro; - peguei na ferramenta, e apresentei-me logo.

      - Ouve, Sr. abade? - perguntou Billot.

      O abade quis interrompê-lo, mas Billot deteve-o com um gesto, e continuou:

      - Pois bem, diga-me então, qual o motivo por que, sendo o senhor eleito para dar o exemplo, quando todos cumprem aqui o seu dever, é unicamente o senhor que não cumpre o seu?

      - Bravo! Billot! Bravo! - bradaram com voz uníssona os circunstantes.

      - Não só é o único que não cumpre o seu dever - repetiu Billot - mas também o único que dá o exemplo da desordem.

      - Oh! - disse o abade Fortier, vendo que era necessário defender-se - a igreja é independente, a igreja a ninguém obedece, a igreja só se tolera a si mesma!

      - Aí é que está justamente o mal - disse Billot - é que todos os padres fazem um poder num país, um corpo no estado! É porventura francês ou estrangeiro? É ou não cidadão? Se não é cidadão, se não é francês, se é prussiano, inglês ou austríaco; se são Pitt, Cobourg ou Kaunitz que lhe pagam obedeça-lhes; mas se é francês, se é cidadão, se é a nação que lhe paga, obedeça então à nação!

      - Sim! Sim! - clamaram trezentas vozes.

      - Então - disse Billot com os sobrolhos carregados, com os olhos incendiados, e pondo a mão poderosa sobre o ombro do abade - então, em nome da nação, padre, eu te emprazo para desempenhares a tua missão de paz e para chamares os favores do céu, as liberalidades da Providência, a misericórdia do Senhor sobre os teus concidadãos e sobre a tua pátria!... Vem, pois, vem, acompanha-nos!

      - Bravo, Billot! Viva Billot! - bradaram todos. - Ao altar, ao altar! O padre ao altar!

      E animado por aquelas aclamações, com o seu braço vigoroso, o fazendeiro arrostou para fora da porta, sua protectora, o primeiro padre, talvez, que em França desse tão descaradamente o sinal da contra-revolução.

      O abade por sua vez entendeu que não havia meio de resistir.

      - Pois bem! Sim - disse ele - ao martírio! Eu chamo o martírio! Quero o martírio! Invoco o martírio!

      E com voz de trovão, principiou a entoar o Libera-nos, Domine.

      Era esse singular cortejo que se dirigia para a grande praça, acompanhado dos gritos e dos clamores, cujo ruído chegava aos ouvidos de Pitou, no momento em que estava prestes a desfalecer, ao peso dos amáveis agradecimentos, das ternas palavras e do aperto de mão da gentil Catarina.

 

A declaração dos direitos do homem

      Pitou, a quem aquele motim recordava os tumultos parisienses, que presenciara mais de uma vez, julgando ver aproximar-se um bando de assassinos, julgando que ia defender algum novo Flesselles, Foulon ou Berthier, gritou: “Às armas!” e foi-se colocar à frente dos seus trinta homens.

      Então Pitou, abrindo a multidão caminho, vira avançar o abade Fortier, arrastado por Billot, e ao qual só faltava uma palma para se assemelhar aos antigos cristãos que conduziam ao suplício.

      Um movimento natural impeliu-o a correr em defesa do seu antigo professor, cujo crime ignorava.

      - Oh! Sr. Billot! - exclamou ele lançando-se adiante do fazendeiro.

      - Oh! Meu pai! - exclamou Catarina, fazendo um movimento tão identicamente semelhante, que dir-se-ia ter sido combinado.

      - Mas bastou um relancear de olhos de Billot para deter Pitou de um lado e Catarina do outro. Havia alguma coisa da águia e do leão, naquele homem que representava a encarnação do povo.

      Chegando ao estrado já preparado, ele próprio deixou o abade Fortier, e apontando-lhe para o altar, disse:

      - Olha! Aí tens o altar da pátria sobre o qual te dedignas oficiar, e do qual, por isso eu, Billot, te declaro indigno de seres o celebrante; para subires estes degraus sagrados é necessário sentir no coração três sentimentos: o desejo da liberdade, a dedicação à pátria, o amor da humanidade. Padre! Queres tu a liberdade do mundo? Padre! És tu dedicado ao teu país? Padre! Amas porventura o teu próximo mais do que a ti mesmo? Se assim é, sobe a este altar e invoca a Deus do Universo; mas se não sentes que não sejas o primeiro entre nós, como cidadão, então cede o lugar ao mais digno e retira-te, desaparece, vai-te!

      - Oh! Desgraçado! - disse o abade retirando-se e ao mesmo tempo ameaçando Billot com o dedo; - não sabes decerto a quem declaras a guerra!

      - Oh! Se sei! - acudiu Billot; - declaro a guerra aos lobos, às raposas e às serpentes; a tudo quanto pica, a tudo quanto morde, a tudo quanto intriga nas trevas! Pois bem! Seja! - acrescentou ele batendo com um gesto cheio de potência no seu robusto peito com as mãos ambas; - intrigai, mordei, picai ...que haveis de achar em quê!....

      Seguiu-se um momento de silêncio, durante o qual toda aquela multidão abriu caminho para deixar escapar o padre, e tornando a unir-se ficou imóvel e extasiada diante daquela vigorosa natureza, oferecendo-se, como um escudo aos golpes daquele poder terrível, que naquela época ainda dominava meio mundo, e ao qual chamavam clero.

      Já não havia nem maire, nem adjunto, nem conselho municipal: não havia mais do que Billot.

      O Sr. de Longpré, aproximando-se dele, disse:

      - Apesar de tudo isto, Sr. Billot, o caso certo é que não temos padre!

      - E então? - perguntou Billot.

      - E como não temos o padre, também não temos missa!

      - Que grande desgraça! - disse Billot, que desde a sua primeira comunhão apenas tinha voltado à igreja duas vezes: no dia do seu casamento e no dia do baptismo de sua filha.

      - Não digo que não seja uma grande desgraça - replicou o maire, que por justos motivos não queria contrariar Billot - mas que faremos em lugar da missa?

      - Em lugar da missa! - exclamou Billot, como inspirado por uma luminosa idéia - eu lhe digo. Suba comigo ao altar da pátria, Sr. maire; sobe também comigo, Pitou; o senhor à minha direita, tu à minha esquerda; isso mesmo!... Escutem bem o que vamos dizer em lugar da missa - bradou Billot; - e a Declaração dos Direitos do Homem; é o Credo da liberdade; é o Evangelho do futuro!

      Simultâneas palmas se ouviram de todos os lados; todos aqueles homens livres, ou antes, desagrilhoados, estavam ávidos por terem conhecimento dos direitos que acabavam de conquistar, e dos quais ainda até ali não tinham gozado.

      Careciam muitíssimo mais dessa palavra do que propriamente daquela a que o abade Fortier chamava, palavra celeste.

      Colocado entre o maire, que representava a força legal, e Pitou, que representava a força armada, Billot estendeu a mão, e de cor (todos sabem que o honrado fazendeiro não sabia ler), pronunciou com voz sonora as seguintes palavras, que o povo todo ouviu de pé, silencioso e descoberto:

 

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM

 

ARTIGO 1.º

     

      Os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos. As distinções sociais não podem ser fundadas senão em utilidade comum.

 

ARTIGO 2.º

     

      “O fim de qualquer associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescindíveis do homem; estes direitos consistem na propriedade, na segurança e na resistência à opressão...”

     

      Estas palavras: e na resistência à opressão, foram pronunciadas por Billot como por um homem que vira cair por terra as muralhas da Bastilha, e que sabia que nada pode resistir ao braço do povo, quando o povo o estende.

      Foi por isso que elas produziram no auditório as mais estrepitosas aclamações.

      Ele continuou:

 

ARTIGO 3.º

     

      “O princípio de toda a soberania reside essencialmente na nação; nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade alguma que não derive também essencialmente da mesma nação...”

     

      Esta última frase recordava vivamente àqueles que a ouviram a discussão que acabava de ocorrer entre Billot e o abade Fortier, e na qual Billot invocara esse princípio: esta última frase foi pois coberta de bravos e de aplausos.

      Billot deixou passar os bravos e os aplausos, e continuou:

 

ARTIGO 4.º

     

      “A liberdade consiste em fazer tudo que não é prejudicial a ninguém. Por isso o exercício dos direitos naturais de cada um só tem por limites aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade as prerrogativas desses direitos. Esses limites só podem ser determinados por lei...”

     

      Este artigo tinha alguma coisa de abstracto para os espíritos simples que escutavam; por isso o deixaram passar menos acaloradamente do que os outros.

      Billot continuou:

 

ARTIGO 5.º

     

      “A lei só tem direito de proibir as acções prejudiciais à sociedade; tudo que não é proibido por lei, não pode ser impedido, e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não determina.”

     

      - Quer dizer - perguntou uma voz do meio da multidão - que como a lei não determina as faxinas, e aboliu os dízimos, não poderão vir jamais os padres receber os dízimos ao meu campo, nem obrigar-me o rei às faxinas?

      - Justamente - disse Billot, respondendo ao curioso - e desde já e para o futuro, nos devemos considerar isentos desses vergonhosos vexames.

      - Nesse caso, viva a lei - respondeu o curioso.

      Billot continuou:

 

ARTIGO 6.º

     

      “A lei é a expressão da vontade geral...”

     

      E depois, levantando com solenidade o dedo, disse:

      - Escutem bem estas palavras, amigos, irmãos, homens, cidadãos!

     

      “Todos os franceses têm o direito de concorrer pessoalmente, ou por seus representantes, à formação da lei...”

     

      E levantando a voz para que nem uma só sílaba, se perdesse - continuou:

     

      “Ela deve ser a mesma para todos, quer proteja, quer castigue...”

     

      E depois ainda mais alto:

     

      “Todos os cidadãos são iguais perante ela, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a capacidade, e sem outra distinção que a de suas virtudes e de seus talentos...”

     

      O artigo sexto provocou muitos aplausos.

      Billot prosseguiu:

 

ARTIGO 7.º

     

      “Nenhum homem pode ser acusado, preso ou detido se não nos casos determinados por lei, e segundo as formas que ela prescrever.

      Aqueles que solicitarem, expedirem, executarem ou fizerem executar quaisquer ordens arbitrárias, serão irremediavelmente punidos. Mas qualquer cidadão chamado ou preso em virtude da lei deve obedecer sem demora; a resistência torná-lo-á criminoso.”

 

ARTIGO 8.º

     

      “A lei só deve estabelecer as penas estritamente necessárias, e ninguém poderá ser punido se não em virtude de uma lei estabelecida e promulgada anteriormente ao delito, e legalmente aplicada.”

 

ARTIGO 9.º

     

      “Todo o homem que se julgue inocente até que se declare criminoso, sendo indispensável a sua prisão, todo o rigor que se empregar, necessário para a sua captura, será severamente reprimido pela lei.”

 

ARTIGO 10.º

     

      “Ninguém poderá ser incomodado por suas opiniões, mesmo religiosas, contanto que a sua manifestação não perturbe a ordem estabelecida pela lei.”

 

ARTIGO 11.º

     

      “A livre comunicação do pensamento e da opinião é um dos direitos mais preciosos do homem; qualquer cidadão pode portanto falar, escrever, imprimir livremente, ficando contudo obrigado a responder pelo abuso dessa liberdade nos casos determinados pela lei.”

 

ARTIGO 12.º

     

      “A garantia dos direitos do homem e do cidadão precisa de uma força pública. Esta força é pois instituida para vantagem de todos, não para utilidade particular daqueles a quem é confiada.”

 

ARTIGO 13.º

     

      “Para custeio da força pública e para despesas de administração, será indispensável uma contribuição comum, que será igualmente dividida entre todos os cidadãos, segundo as suas faculdades.”

 

ARTIGO 14.º

     

      “Todos os cidadãos têm direito para verificar pessoalmente, ou por seus representantes, a necessidade da contribuição pública, de a consentir livremente, de vigiar-lhe a aplicação, e determinar a sua quotização.”

 

ARTIGO 15.º

     

      “A sociedade tem o direito de pedir contas a qualquer agente público da sua administração.”

 

ARTIGO 16.º

     

      “Qualquer sociedade, na qual a garantia dos seus direitos não for segura, nem determinada a separação de seus poderes, não tem constituição alguma.”

 

ARTIGO 17.º

     

      “Sendo a propriedade um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, salvo se a necessidade pública o exigir evidentemente, e debaixo da condição de uma justa e antecipada indemnização.”

     

      - Agora - continuou Billot - eis aqui a aplicação destes princípios. Escutem, irmãos! Escutem cidadãos! Homens a quem esta declaração dos vossos direitos acaba de constituir livres, escutem!

      - Caluda! Silêncio! Escutemos - disseram ao mesmo tempo muitas vozes.

      Billot continuou:

      - A assembléia Nacional, querendo estabelecer a constituição francesa sob os princípios que acaba de reconhecer e de declarar, anula irrevogavelmente as instituições que ferem a liberdade e a igualdade de direitos...

      (A voz de Billot, para prosseguir, tomou uma terrível entoação de ódio e de ameaça.)

      Acabou-se a nobreza, o pariato, as distinções hereditárias, as distinções de ordens, o regime feudal, a justiça patrimonial, os títulos, as denominações e prerrogativas que deles dimanam, as ordens de cavalaria, as corporações ou decorações pelas quais se exigiam provas de nobreza, ou que supusessem distinções de nascimento; e finalmente nenhuma outra superioridade além daquela dos funcionários públicos no exercício das suas funções.

      Acabou-se a venalidade, a herança de qualquer ofício público, em parte alguma da nação, nem em indivíduo algum, se verão de ora avante mais privilégios ou a excepção ao direito comum de todos os franceses.

      Acabaram-se os juízes de ofícios, as corporações de professores, de belas artes ou de artes mecânicas.

      Finalmente, a lei não reconhece mais, nem votos religiosos, nem outra qualquer obrigação que for contrária aos direitos naturais ou à constituição.

      Dito isto, Billot calou-se.

      Tinha sido ouvido com o mais religioso silêncio.

      Pela primeira vez, ouviu o povo com admiração o reconhecimento dos seus direitos, proclamados em pleno dia, à luz do Sol, à face de Deus, ao qual havia muito tempo, pedia em suas orações esta carta natural, a qual só obtinha depois de séculos de escravidão, de miséria e de sofrimento.

      Pela primeira vez, o homem, o homem verdadeiro, aquele sobre cujo dorso pesava, havia seiscentos anos, o edifício da monarquia, com a nobreza de um lado e com o clero do outro; pela primeira vez, o jornaleiro, o artista, o lavrador, acabavam de reconhecer a sua força, de apreciar o seu valor, de calcular o lugar que possuíam sobre a terra, de medir a sombra que faziam ao Sol, e tudo isto, sem ser em virtude do posso, quero e mando do seu senhor, mas sim à voz potente de um de seus iguais!

      Por isso, quando depois destas palavras: “A lei não reconhece mais, nem votos religiosos, nem outra qualquer obrigação que seja contrária aos direitos naturais ou à constituição”, Billot soltara esse grito, ainda tão novel que parecia criminoso, de “Viva a Nação!” quando estendendo as mãos reuniu sobre o peito, num abraço fraternal, a banda do maire e as dragonas do capitão, conquanto o maire representasse uma pequena vila, e o capitão não fosse mais do que o chefe de um punhado de camponeses; apesar de todas estas circunstâncias, todos repetiram o grito de “Viva a Nação!” todos os braços se abriram e fecharam num abraço geral, na sublime fusão de todos os corações num só coração, na gravitação de todos os interesses particulares para um interesse somente!

      Foi uma das cenas de que Gilberto falara à rainha, e que esta não compreendera.

      Billot desceu do altar da pátria no meio das maiores aclamações de alegria.

      A música de Villers-Cotterets, reunida às músicas das vilas e aldeias vizinhas, principiou logo a tocar a área das reuniões fraternais, a ária das núpcias e dos baptismos: Onde se pode estar melhor senão no seio da família?

      E efectivamente, a contar daquele momento, a França constituía-se numa grande família; a contar daquele momento todos os ódios religiosos se extinguiram, e aniquilaram-se os preconceitos de província; a contar daquele momento o mundo inteiro se fazia para a França, estava morta a geografia; nada de rios, nada de obstáculos entre os homens: uma só língua! Uma só pátria! Um só coração!

      E com aquela ária tão ingénua, com que a família acolhera noutro tempo Henrique IV, e com que um povo inteiro saúda hoje a liberdade, um imenso concerto, desenrolando-se logo como uma cadeia sem fim, espalhou seus elos visuais, do centro da praça, até à extremidade das ruas, que ali iam desembocar.

      Em seguida colocaram as mesas em frente das portas. Pobre ou rico, cada qual trazia um prato, um caneco de cidra, uma garrafa de vinho, um quartilho de cerveja, ou uma bilha de água, e uma povoação inteira quinhoou este grande ágape, dando graças ao Senhor do Universo! Seis mil cidadãos comungaram na mesma mesa, na mesa santa da Fraternidade!

      Billot foi o herói daquele dia; mas repartiu generosamente as honras com o maire e com Pitou.

      Será inútil dizer que Pitou, no meio da multidão, pôde facilmente dar a mão a Catarina, assim como à mesa, lhe foi fácil sentar-se a seu lado.

      Mas a pobre rapariga estava triste. A sua alegria da manhã desaparecera, como desaparece um fresco e risonho raio da aurora debaixo dos vapores tempestuosos do meio dia.

      Na sua luta com o abade Fortier, na sua declaração dos direitos do homem, seu pai fizera um desafio formal à nobreza e ao clero; desafio este tanto mais terrível, quanto ele dimanara de mais baixo.

      Pensava em Isidoro, que não era já senão o mesmo que era outro qualquer homem.

      Não era o título, não era a categoria, nem a riqueza que ela chorava, porque teria amado Isidoro simples camponês, mas parecia-lhe que eram violentos, injustos, brutais para com o nobre moço; parecia-lhe enfim, que seu pai, arrancando-lhe os títulos e os privilégios, em lugar de o aproximar dela um dia, o desviava para sempre.

      Quanto à missa, ninguém mais falou dela. Quase que até perdoaram ao abade Fortier a sua resistência revolucionária; apenas no seguinte dia reconheceu ele a intensidade do golpe que, na recusa que fizera de oficiar sobre o altar da pátria, descarregara sobre a popularidade dos parentes patriotas que tinha em Villers-Cotterets.

 

Debaixo da janela

      A cerimónia que acabamos de referir, e que, por meio de federações parciais, tinha por fim reunir entre si todas as municipalidades da França, não era mais do que o prelúdio da grande federação, que devia realizar-se em Paris no dia 14 de Julho de 1790.

      Naquelas federações parciais, as municipalidades lançavam os olhos com antecipação sobre os deputados que deviam enviar à federação geral.

      O papel que Billot e Pitou tinham representado no domingo 18 de Outubro designava-os muito naturalmente aos sufrágios dos seus concidadãos, logo que chegasse o dia da federação geral.

      Mas, enquanto não chegava esse dia, tudo tinha voltado à vida ordinária, da qual cada um se havia desviado momentaneamente pelo choque que dera aos pacíficos costumes provincianos aquele memorável acontecimento.

      Quando falamos de pacíficos costumes provincianos, não queremos dizer com isto que na província se não sintam as penas e os prazeres, do mesmo modo que noutra qualquer parte. Não existe ali um só regato, por mais pequeno que seja, desde o que murmura serpeando por entre a relva do vergel, até ao rio majestoso que desce dos Alpes, para ir precipitar-se no mar, à maneira de um conquistador; não existe um só que nas suas ribas, quer humildes, quer orgulhosas, não tenha mil variegadas flores, um sem número de cabanas, e em que se não gozem momentos de sombra ou de Sol.

      E sem duvidarmos disto, desde o palácio das Tulherias, onde introduzimos já os nossos leitores, até à herdade de Billot, onde os acabamos de conduzir, poderíamos facilmente achar um exemplo.

      Não que superficialmente não parecesse tudo tranqüilo e quase risonho: mas o facto é que, pelas cinco horas da manhã lá se ia abrir a grande porta que eleita para a planície, onde se estende a floresta, e no estilo verde alcatifa, no Inverno crepe sombrio, via-se sair por ela a pé o semeador, com um saco de trigo, misturado com cinza, ao ombro; a cavalo o lavrador, que ia buscar a charrua onde na véspera a deixara, no final do sulco que abrira; a vaqueira conduzia o seu rebanho, guiado pelo touro majestoso, que era seguido pelas vacas e vitelos, entre as quais se distinguia a vaca favorita, que se dava a conhecer pela sonora campainha que lhe pendia no pescoço; finalmente atrás de tudo, montado em vigoroso cavalo normando, lá se via Billot, o dono, a alma, a vida de todo aquele mundo em miniatura, de todo aquele povo em resumo.

      Qualquer observador desinteressado não teria feito reparo nessa saída nem nos sobrolhos encrespados, nem no olhar interrogador que se fixava nas cercanias, nem no ouvido, que se mostrava atento a qualquer ruído, nem no círculo descrito em volta do casal, durante o qual, o olhar, como de um caçador que acha uma pista, se não desvia da terra um só momento; um espectador indiferente não teria visto em tudo isso mais do que o que é natural: um proprietário que procurava ver se o dia lhe correria bem, ou se durante a noite os lobos, os javalis e os coelhos lhe não vieram devastar os currais, as batatas, ou as túberas ao saírem dos covis, onde muitas vezes eram acometidas pelo chumbo do duque de Orleans ou pelo dos guardas.

      Mas para qualquer, que soubesse o que se passava no fundo da alma do honrado lavrador, cada um dos gestos ou dos passos dele teria assumido um carácter mais grave.

      O que ele observava através da escuridão era se algum vagabundo se aproximava ou desviava furtivamente na sua propriedade.

      O que escutava no meio do silêncio que o rodeava era se algum sinal misterioso não correspondia, do quarto de Catarina, a outro sinal que saísse de entre as árvores que orlam a estrada, ou do fundo das valas que separam a floresta da planície.

      O que perguntava à terra, tão vivamente interrogada pelo seu olhar, era se porventura ela conservava o vestígio de alguns pés, que, pela ligeireza ou pelo tamanho, revelassem um aristocrata.

      Quanto a Catarina, já o dissemos, conquanto o rosto de Billot se tornasse para ela mais prazenteiro, nem por isso deixava de encontrar continuamente em volta de si, como guarda vigilante, a desconfiança paternal, resultando de tudo isso que, durante as noites de Inverno, tão compridas, tão solitárias e ansiosas, vacilava ela sobre se Isidoro deveria voltar a Boursonne, ou se deveria conservar-se distante dela.

      Quanto à tia Billot, essa voltara à sua vida ordinária e vegetativa; o marido regressara, a filha recuperara a saúde: nada via, portanto, além deste limitado horizonte; eram necessários olhos mais perspicazes que os seus para irem achar no coração do marido a desconfiança; no coração da filha a aflição.

      Pitou, depois de saborear com certo orgulho misturado de tristeza o seu triunfo como capitão, caíra novamente no seu estado habitual, isto é, numa doce e benévola melancolia. Com a sua habitual regularidade, visitava todas as manhãs a conserveira Colombe; se não achava carta para Catarina, voltava melancólico para Haramont, por isso que se lembrava que naquele dia Catarina, não recebendo carta de Isidoro, não teria ocasião de pensar em quem lhas trazia; pelo contrário, se a achava, ia depositá-la religiosamente no côncavo do salgueiro, e voltava muitas vezes ainda mais triste do que nos dias em que não havia cartas, lembrando-se dessa vez que Catarina só pensava nele como por tabela, porque o gentil fidalgo, a quem a Declaração dos Direitos do Homem podia privar do seu título, mas não da sua graça e elegância, era o fio condutor, graças ao qual ele sentia a sensação quase dolorosa da recordação.

      Todavia, como é fácil compreender, Pitou não era um mensageiro puramente pacífico, e se era mudo, nem por isso era cego. Em seguida ao interrogatório acerca de Turim e da Sardenha, que lhe revelara o fim da viagem de Isidoro, conhecera pela marca das cartas que o fidalgo se achava na capital de Piemonte; depois, a marca era de Lião, em lugar de ser de Turim, e finalmente dois dias depois, a 25 de Dezembro viera-lhe à mão uma carta com a marca de Paris em vez da marca de Lião.

      Então, sem que fosse necessário grande esforço de perspicácia, Pitou compreendera que o visconde Isidoro de Charny deixara a Itália e entrara em França.

      Agora, visto que se achava em Paris, tornava-se evidente que não se demoraria a sair dali para vir a Boursonne.

      O coração de Pitou comprimiu-se; fizera o propósito de ser dedicado, mas o coração nem por isso deixava de ser sensível às diferentes comoções que o assaltavam.

      Por isso, no dia em que chegou a carta marcada de Paris, Pitou, para inventar um pretexto, resolveu-se a ir colocar os laços de caça na mata de Bruyère-aux-Loups, onde o vimos operar com tanta vantagem no princípio desta obra.

      Ora, a herdade de Pisseleux achava-se situada justamente na parte da estrada de Haramont que conduz àquela mata.

      Nada havia portanto que admirar que Pitou parasse naquele sítio.

      Escolheu a hora em que Billot visitava o campo, como tinha por costume depois de jantar.

      Segundo a prática. Pitou, cortando através dos campos, ia de Haramont até à estrada real de Villers-Cotterets; da estrada real até à herdade de Noue, e daí, por diversos atalhos, à de Pisseleux. Depois costeava os muros do casal, seguia os currais e os apriscos, concluindo por fim o seu giro achando-se em frente da porta principal, do outro lado da qual se elevavam as casas da habitação.

      Desta vez seguira o caminho do costume.

      Chegado à porta da herdade circunvagou a vista, como poderia fazê-lo o próprio Billot, e avistou Catarina à janela.

      Catarina parecia esperar alguém com o olhar vago, e, sem o fixar nalgum ponto determinado, percorria toda a extensão da floresta, compreendida entre o caminho de Villers-Cotterets até à la Ferté Milon e o de Villers-Cotterets até Boursonnes.

      Pitou não queria surpreender Catarina; operou então de modo que fosse visto por ela, que, tendo-o visto, fixou os olhos nele.

      Sorriu-lhe! Pitou para Catarina não era mais do que um amigo, ou antes, era um confidente.

      - É o senhor, meu caro Pitou? - perguntou-lhe ela: - que bonançoso vento o conduz aos nossos lares?

      Pitou mostrou-lhe os laços de caça, que trazia enrolados no braço.

      - Ocorreu-me a idéia de a regalar com um par de coelhos bem tenros e bem cevados, menina Catarina; e como os melhores são os que há em Bruyère-aux-Loups, em virtude do serpão que ali cresce em abundância, dirigi-me com antecipação àquele lugar para a ver de passagem, e para saber notícias da sua saúde.

      Catarina sorriu àquela delicadeza de Pitou; e em seguida disse:

      - Notícias da minha saúde. Sr. Pitou! É na verdade muito boa pessoa; graças aos cuidados que me prestou quando estava doente, e que continuou a prestar-me na minha convalescença, acho-me quase restabelecida.

      - Quase restabelecida! - replicou Pitou sorrindo; - desejava bem que o estivesse de todo.

      Catarina corou, suspirou por sua vez, pegou na mão de Pitou, como se fosse dizer-lhe alguma coisa importante; mas, arrependendo-se talvez, largou a mão que já tinha entre as suas, deu alguns passos no seu quarto, como se procurasse o lenço, e encontrando-o, limpou o suor, que lhe deslizava da fronte, apesar de se estar então no rigor do Inverno.

      Nenhum desses movimentos escapou aos olhos investigadores de Pitou.

      - Tem alguma coisa para dizer-me? – perguntou ele.

      - Eu?... Nada, não; engana-se, meu caro Pitou - respondeu ela com voz alterada.

      Pitou fez um esforço.

      - Olhe, menina Catarina... É que se precisasse de mim para alguma coisa... Não devia poupar-me.

      Catarina reflectiu, melhor digamos, hesitou um instante.

      - Meu caro Pitou - disse ela afinal - já me tem provado que podia contar consigo em qualquer ocasião, e acredite que lhe consagro o maior reconhecimento.

      Depois acrescentou em voz baixa:

      - É escusado continuar a ir ao correio; é provável que já não encontre cartas para mim.

      Pitou esteve quase a responder que já desconfiava disso; mas talvez quisesse ver até que ponto alcançava a confiança que Catarina tinha nele. Ela porém limitou-se à recomendação que já referimos, e que tinha simplesmente por fim não incomodar Pitou com caminhadas inúteis.

      Todavia, aos olhos de Pitou, essa recomendação era de uma transcendência muito mais elevada.

      O regresso de Isidoro a Paris não era uma razão suficiente para ele deixar de escrever. Portanto se não escrevia mais a Catarina, é porque contava vê-la.

      Quem dizia a Pitou que a carta, marcada de Paris, que naquela mesma manhã fora por ele depositada no salgueiro, não anunciava a Catarina a próxima chegada do amante? Quem lhe dizia que aquele olhar, que se perdia no espaço quando ele apareceu, e que ele atraíra para si, não procurava descobrir na extremidade da floresta alguma outra confidência?

      Mas vendo que ela se obstinava em guardar silêncio, disse-lhe:

      - Menina Catarina, não tem notado a mudança de seu pai?

      A pobre rapariga estremeceu.

      - Ah! - disse ela, respondendo a uma interrogação com outra interrogação; - tem porventura notado alguma coisa?

      - Menina Catarina - disse Pitou, meneando a cabeça - não tarda muito que aquele que dá causa àquela mudança tenha que passar um triste quarto de hora; asseguro-lhe, percebe, menina?

      Catarina empalideceu.

      Mas, olhando fixamente para Pitou, perguntou:

      - Por que motivo diz aquele e não aquela? É talvez uma mulher, e não um homem, quem tem de sofrer essa cólera encoberta...

      - Ai, menina Catarina - disse Pitou - assusta-me! Tem alguma coisa que recear?

      - Meu amigo - disse Catarina contristada – receio o que uma pobre rapariga, que esqueceu a sua condição e ama uma pessoa superior a ela, pode recear de um pai irritado.

      - Menina - disse Pitou arriscando um conselho - parece-me que no seu lugar...

      E deteve-se.

      - Parece-me que no meu lugar? - repetiu Catarina.

      - Sim, parece-me que no seu lugar... Mas, não, esteve às portas da morte por uma simples ausência que ele fez; se lhe fosse necessário renunciar a ele, decerto morreria e eu não quero que morra... Antes quero vê-la doente e triste do que lá em baixo... no fim do Pleux... Ai, menina Catarina, tudo isto é uma fatalidade, uma desgraça!

      - Caluda! - disse Catarina - falemos de outra coisa, ou então calemo-nos, porque vem aí meu pai. Olhe, Sr. Pitou, não vê?

      Pitou voltou-se para o lado onde Catarina olhava, e viu efectivamente o fazendeiro que se aproximava, com o seu cavalo a trote.

      Avistando um homem junto da janela de Catarina, Billot parou; depois, conhecendo sem dúvida Pitou, continuou o seu caminho.

      Pitou deu alguns passos para ele, sorrindo-se e tirando o chapéu...

      - Ah! Ah! És tu, Pitou? - exclamou Billot. – Vens jantar connosco?

      - Não, Sr. Billot - respondeu Pitou - não me atreveria a tanto; mas...

      Neste momento pareceu-lhe que um olhar de Catarina o animava...

      - Mas o quê? - replicou Billot.

      - Mas... se me convidar, aceitarei.

      - Pois bem - disse o fazendeiro - estás convidado.

      - Nesse caso - acudiu Pitou - aceito.

      O fazendeiro deu uma esporada no cavalo, e entrou pela porta da cocheira.

      Pitou voltou-se imediatamente para Catarina e perguntou:

      - Não era isto que me dizia?

      - Era, sim... Ainda está hoje mais sombrio do que nos outros dias.

      Depois acrescentou em voz baixa:

      - Oh! Meu Deus! Acaso saberá ele?...

      - O quê, menina? - perguntou Pitou, que por mais baixo que ela falasse, tinha-a ouvido.

      - Nada - disse ela retirando-se para dentro e fechando a janela. - Entre!

 

O tio Clouis aparece novamente em cena

      Catarina não se enganara: apesar do benigno acolhimento que o pai fizera a Pitou, nunca ele parecera mais sombrio e taciturno. Deu a mão a Pitou quando se apeou, mas este sentiu-lhe a mão fria e úmida. A filha, como de costume, ofereceu-lhe as faces pálidas e trémulas, mas ele contentou-se em tocar-lhe a fronte com os lábios. Quanto à tia Billot, essa levantou-se por um movimento que lhe era natural quando via entrar o marido, e que derivava ao mesmo tempo do sentimento da sua inferioridade e do respeito que lhe tributava; mas o fazendeiro nem sequer olhou para ela.

      - O jantar está pronto? - perguntou ele.

      - Está, sim - respondeu a tia Billot.

      - Nesse caso vamos para a mesa! Tenho muito que fazer antes da noite.

      Passaram então para a casa de jantar, que deitava para o pátio; ninguém que chegasse de fora podia entrar na cozinha sem passar por diante da janela daquela pequena casa.

      Pôs-se um talher a mais para Pitou, que colocaram entre as duas mulheres com as costas voltadas para a janela.

      Por muito preocupado que Pitou estivesse, no que essa preocupação nunca influía, era no estômago; resultando daqui que Billot, apesar da perspicácia do olhar, não pôde conhecer durante o primeiro serviço, outra coisa mais no seu convidado que não fosse a satisfação que sentia à vista de uma excelente sopa de couves, e do prato de suculento cozido que se lhe seguiu.

      Era pelo menos evidente que Billot desejava saber, se fora o acaso ou um desígnio premeditado que conduzira Pitou à herdade.

      Por isso, no momento em que retiravam o resto do cozido, para servirem um quarto de carneiro assado, prato que Pitou parecia saudar com alegria, o fazendeiro desmascarou inteiramente as suas baterias, e falando directamente a Pitou, perguntou:

      - E agora, meu caro Pitou, agora, que sabes que és sempre bem recebido, poder-se-á saber o motivo que te atraiu hoje a estes sítios?

      Pitou sorriu, relanceou os olhos em volta de si, como para se assegurar que não havia ali olhos indiscretos, nem ouvidos perigosos, e arregaçando com a mão esquerda a manga direita da véstia, disse:

      - Olhe, tio Billot! - e mostrou-lhe uns vinte laços de arame que tinha enrolados no pulso à maneira de bracelete.

      - Ah! Ah! - exclamou Billot - despovoaste então as matas de Longpré e de Taille-Fontaine?

      - Não é isso, Sr. Billot - respondeu ingenuamente Pitou - mas como persigo desde muito tempo aqueles malditos coelhos, parece que cheiram os laços e voltam-lhes o lombo... Decidi-me pois a vir esta noite experimentar os do tio Lajeunesse, que são mais dóceis e mais delicados, por isso que são nutridos com serpão e urzes.

      - Safa! - disse o fazendeiro - não julguei que fosses tão guloso, meu Pitou!

      - Oh! Não é para mim; não sou guloso; é para a menina Catarina... Disse cá com os meus botões: “como esteve doente, precisa de viandas finas...”

      - Tens muita razão - acudiu Billot, interrompendo Pitou: - não vês que ainda não tem apetite?

      E dizendo isto apontou para o prato de Catarina, a qual, tendo comido apenas algumas colheres de sopa, não tocara, nem no cozido, nem no assado.

      - Não tenho apetite, meu pai - disse Catarina corando, por assim a interpelarem, porque tinha comido uma grande tigela de sopas de leite antes da chegada do Sr. Pitou.

      - Não te pergunto a causa por que tens ou deixas de ter apetite - disse Billot; - aponto unicamente o facto e nada mais.

      Em seguida, olhando para o pátio através da janela, levantou-se dizendo:

      - Ah! Aí vem alguém procurar-me.

      Pitou sentiu o pé de Catarina apoiar-se vivamente no dele e voltou-se para ela; estava pálida como uma defunta, indicando-lhe com os olhos a janela que deitava para o pátio.

      Seguiu com os olhos a direcção do olhar de Catarina e conheceu então o seu velho amigo, o tio Clouis, que passou defronte da janela, levando ao ombro a espingarda de dois canos de Billot.

      - É verdade - respondeu Billot tornando a sentar-se; - jantará também connosco, se ainda não tiver jantado. Mulher - acrescentou ele - abre a porta ao tio Clouis.

      A tia Billot levantou-se e foi abrir a porta, ao passo que Pitou, com os olhos fitos em Catarina, perguntava a si mesmo a causa daquela palidez.

      Entrou o tio Clouis; trazia além da espingarda do fazendeiro uma lebre, que naturalmente matara com a mesma arma.

      Recordar-se-ão os nossos leitores, que o tio Clouis tinha licença do duque de Orleans para matar num dia um coelho, noutro uma lebre.

      Era provavelmente o dia da lebre.

      Tirou então uma espécie de barrete, que trazia todo rasgado pelos ramos das árvores: Clouis era quase tão insensível aos espinhos como o próprio javali.

      - Sr. Billot e mais sociedade - disse ele – tenho a honra de os cumprimentar.

      - Bons dias, tio Clouis - respondeu Billot; - vamos, que é homem de palavra... Obrigado.

      - Oh! O que está tratado, tratado está, Sr. Billot. Encontrou-me esta manhã, e falou-me deste modo: “Tio Clouis, como é um fino atirador, forneça-me uma dúzia de balas do calibre da minha espingarda; far-me-á nisso um particular obséquio”. A isto respondi: “Para quando as quer o tio Billot?” e vai o senhor respondeu-me: “Para esta noite, sem falta”. Então, respondi: “Pois bem, tê-las-á”, ei-las aqui, Sr. Billot.

      - Obrigado, tio Clouis: o meu amigo janta connosco, não é assim?

      - Oh! Tem muita bondade, Sr. Billot; mas eu não tenho vontade.

      O tio Clouis julgava que a civilidade mandava que, quando lhe oferecessem uma cadeira, dissesse que não estava cansado, e que, quando o convidassem para jantar, respondesse cerimoniosamente que não tinha fome.

      Billot bem sabia isso e replicou:

      - Não importa, sente-se sempre à mesa; graças a Deus, temos aqui bastante que comer e beber, e se não quiser comer, beberá.

      Durante este tempo, a tia Billot, com a regularidade e quase com a mudez de um autómato, pusera na mesa mais um prato, um talher e um guardanapo.

      Depois aproximou uma cadeira.

      - Enfim! Como teima, não há remédio senão aceitar - disse o tio Clouis.

      E foi pôr a espingarda a um canto, e a lebre num bufete, indo depois sentar-se à mesa.

      Sentou-se justamente defronte de Catarina, que olhava para ele horrorizada.

      O rosto ameno e dócil do velho guarda parecia tão-pouco feito para inspirar esses sentimentos, que Pitou não podia achar a explicação das comoções que traíam, não só o rosto de Catarina, mas também o terror nervoso que lhe agitava todos os membros.

      - Todavia Billot enchera o copo e o prato do seu hóspede, o qual, apesar de ter declarado que não tinha vontade, nem por isso deixou de atacar com denodo tanto o copo como o prato.

      - Ah! Eis aqui um vinho excelente, Sr. Billot! - disse ele, como para render homenagem à verdade; - que óptimo carneiro! - acrescentou também. - Parece-me que é também da mesma opinião do provérbio que diz: “Os melhores carneiros para comer são os mais novos e o melhor vinho para beber é o mais velho”?

      Ninguém respondeu ao gracejo do tio Clouis, o qual, vendo cair a conversação, e julgando-se, na sua qualidade de hóspede, obrigado a sustentá-la, continuou:

      - Disse pois cá com os meus botões: “Por minha fé, que é hoje o dia das lebres; tanto importa que mate a que me pertence de um lado da floresta como do outro; vou portanto matá-la dentro da tapada do tio Lajeunesse... verei ao mesmo tempo o alcance de uma espingarda guarnecida”. Fundi portanto treze balas em lugar de doze... Asseguro-lhe que a experiência saiu toda a favor da sua espingarda. Que excelente arma!

      - Sim, bem sei - respondeu Billot - é óptima escopeta.

      - Doze balas! - observou Pitou; - trata-se então de alguma aposta, Sr. Billot?

      - Não - respondeu este.

      - Ah! Bem conheço a guarnecida de prata, como lhe chamam por estes arredores; já lhe vi fazer das suas na festa de Boursonnes, há dois anos! Foi lá que ganhou o talher de prata, com que se serve agora a Srª. Billot, e o copo pelo qual bebe a menina Catarina... Oh!... - exclamou Pitou todo assustado; - mas que tem, menina Catarina?

      - Eu?... Nada! - respondeu ela - abrindo os olhos meio fechados, e endireitando-se na cadeira, sobre a qual parecia um momento antes quase desfalecida.

      - Catarina?... que queres tu que ela tenha! - disse Billot encolhendo os ombros.

      - Justamente - continuou Clouis - cumpre dizer-lhe que na antiga oficina do tio Montagnon, o espingardeiro, deparei com uma forma. Ah! É muito raro encontrar uma forma como o senhor precisa! Estes malditos canos de Leclerc são quase todos do calibre 24, o que nem por isso os impossibilita de alcançar Deus sabe aonde! Encontrei pois uma forma do calibre da sua espingarda, alguma coisinha mais pequena; mas isso nada faz ao caso, pelo contrário, é melhor, embrulha a bala num bocadinho de pele untada... É para atirar ao vôo ou é para caça pousada?

      - Não sei ainda - respondeu Billot - tudo quanto sei dizer é que é para ir à espera.

      - Ah! Sim, agora, entendo - acudiu o tio Clouis - os javalis do Sr. duque de Orleans vêm devastar-lhes as suas devezas, e o senhor assentou que era melhor salgá-los do que deixá-los devastar, não é assim?

      Seguiu-se um silêncio, apenas perturbado pela respiração palpitante de Catarina.

      Os olhos de Pitou dirigiam-se do guarda para Billot, e deste para sua filha.

      Procurava descobrir o mistério, mas nada obtinha.

      Quanto à tia Billot, era inútil procurar-lhe no rosto o menor esclarecimento; nada percebia do que se dizia, e muito menos do que queriam dizer.

      - Ah! - continuou o tio Clouis - se as balas são para os javalis, são talvez pequenas; aqueles animais têm a pele dura, sem contar que se voltam às vezes contra o caçador... Já os vi com cinco, seis, oito balas no couro e na carne (balas de munição de dezesseis ao arrátel!) correr como gamos...

      - Não é para os javalis - disse Billot.

      Pitou não pôde resistir, por mais que quisesse, à sua curiosidade, e disse:

      - Perdão, Sr. Billot; mas se não são para empregar nas apostas, se não são para atirar aos javalis, então para que são as balas?

      - Para atirar a um lobo - disse Billot.

      - Oh! Muito bem, se são para atirar a um lobo, tem aqui o que lhe é necessário - disse o tio Clouis tirando as doze balas do bolso, e deitando-as dentro de um prato, onde retiniram; - enquanto à décima terceira, lá a tem na barriga da lebre... Ah! ignoro se a sua espingarda se dá bem com o chumbo; com a bala, asseguro-lhe que se dá maravilhosamente!

      Se Pitou olhasse para Catarina, teria visto que estava quase a desmaiar.

      Mas todo embevecido no que dizia o tio Clouis, não olhava para outra parte.

      Por isso, tão depressa ouviu dizer ao guarda que a décima terceira bala estava no ventre da lebre, correu logo a verificar o facto.

      - Não há dúvida, cá está - exclamou ele metendo o dedo mínimo no buraco da bala; - veja, Sr. Billot! O senhor é um bom atirador, mas ainda não mata as lebres como as mata o tio Clouis... isto é à bala rasa.

      - Que me importa isso? - disse Billot; - sendo o animal a que tenho de atirar, vinte vezes maior do que uma lebre, confio em que não hei-de errar!

      - É certo que um lobo... Mas o senhor fala de lobos, como se porventura os houvesse actualmente por estes sítios! Admira muito! Antes da neve!...

      - Sim, admira, mas é como lhe digo.

      - Está certo disso, Sr. Billot?

      - Certíssimo! - respondeu o fazendeiro olhando ao mesmo tempo para Pitou e para Catarina, que se achavam colocados um ao pé do outro; - o pastor viu um esta manhã.

      - Onde? - perguntou Pitou ingenuamente.

      - Na estrada de Paris a Boursonnes, mesmo junto da mata de Ivors.

      - Ah! - exclamou Pitou, olhando por seu turno para Billot e para Catarina.

      - Sim - continuou Billot com a mesma placidez; - já o ano passado o tinham visto, e preveniram-me logo... Julgou-se depois que desaparecera de todo, mas...

      - Mas? - perguntou Pitou.

      - Mas parece-me que voltou - disse Billot - e que se dispõe outra vez a farejar a herdade... É esta a razão por que disse ao tio Clouis que me limpasse a espingarda, e que me fundisse algumas balas.

      Foi quanto Catarina pôde suportar; soltou um grito abafado, levantou-se convulsa e dirigiu-se para a porta.

      Pitou meio inquieto e meio sincero, levantou-se também, e vendo que Catarina cambaleava, correu para ela com o fim de a segurar.

      Billot lançou um olhar terrível para o lado da porta, mas a fisionomia de Pitou exprimia tão grande expressão de surpresa, que ele não pôde supor que houvesse cumplicidade entre os dois.

      Sem pois se inquietar mais, nem com Pitou, nem com Catarina, continuou:

      - Diz então o tio Clouis, que para que o tiro tenha certeza é conveniente embrulhar a bala num bocado de pele untada?

      Pitou ainda ouviu esta pergunta, mas não pôde ouvir a resposta, porquanto, chegando naquele momento à cozinha, onde fora juntar-se com Catarina, sentia a pobre rapariga desfalecer-lhe nos braços de momento a momento.

      - Mas que tem a menina? - perguntou ele muito assustado.

      - Oh! - disse Catarina - pois não compreendeu?... Ele sabe que Isidoro chegou esta manhã a Boursonnes, e quer decerto assassiná-lo se se aproximar da herdade!

      Neste momento abriu-se a porta da casa de jantar e Billot apareceu no limiar.

      - Meu caro Pitou - disse ele com voz tão rude que não admitia réplica - se vieste com efeito por causa dos coelhos do tio Lajeunesse, parece-me que é tempo de ires armar os teus laços... Ouviste? Se fores mais tarde, não vês nada.

      - Sim, Sr. Billot, foi para isso que aqui vim - respondeu humildemente Pitou, olhando ao mesmo tempo para Catarina e para Billot; - não foi outro o motivo que aqui me conduziu, juro-lhe.

      - E então?

      - Então, Sr. Billot, corro ao meu destino.

      E dizendo isto correu pela porta do pátio, ao passo que Catarina, desolada, entrava no seu quarto, fechando-se por dentro.

      - Sim - murmurou Billot - sim, encerra-te desgraçada; isso pouco me importa, porquanto não é por certos sítios que eu farei a minha espera.

 

O jogo das barras

      Pitou saiu muito absorto da herdade. Pelas palavras de Catarina conhecera o que até ali ignorava. Sabia pois quanto desejava saber.

      Sabia também que o visconde Isidoro de Charny havia chegado naquela manhã a Boursonnes, e que se porventura viesse à herdade com o fim de ver Catarina, correria o grande risco de receber um tiro.

      Era indubitável que as parabólicas palavras de Billot se haviam esclarecido com as poucas que Catarina pronunciara. O lobo, que fora visto no ano precedente a farejar os currais, e que se dizia haver desaparecido para sempre, mas que naquela manhã se tornara a ver junto à mata de Ivors, da estrada de Paris a Boursonnes, não era outro se não o visconde Isidoro de Charny.

      Era para ele que a espingarda de Billot se mandara limpar, era para ele que as balas tinham sido fundidas.

      Bem se vê, pois, que este negócio se tornara de suma gravidade.

      Pitou por algumas vezes, quando se oferecia ocasião, era tão valente como o próprio leão, quase sempre acompanhava esta força com a prudência da serpente. Em contravenção dos vigilantes guardas, na presença dos quais devastava os vergéis defendidos por grossas sebes, e as árvores frutíferas no meio dos campos; em contravenção dos couteiros e de todos esses guardas, que pareciam outros tantos argus, estendia as suas redes e os laços, e habituara-se a uma reflexão profunda, a uma decisão rápida que em todos os casos de perigo em que se achara lhe permitiam sair das maiores dificuldades debaixo das melhores condições possíveis. Portanto, desta vez, como das outras, chamando em seu auxílio uma decisão rápida, decidiu-se prontamente a ir embrenhar-se no bosque, situado a uns oitenta passos da herdade.

      Um bosque é um abrigo impenetrável, no qual é fácil ao homem reflectir e meditar.

      Desta vez, como se vê, Pitou invertera a ordem das coisas, preferindo uma rápida decisão a uma reflexão profunda.

      Tratou portanto de providenciar o mais rápido possível.

      Mas Ângelo Pitou com a sua inteligência instintiva, quis acudir ao mais urgente, e o mais urgente para ele era procurar um abrigo.

      Dirigiu-se pois para o bosque, com um modo tão desembaraçado, como se não levasse o cérebro carregado com um turbilhão de pensamentos, e chegou finalmente ao seu destino, tendo a coragem de não olhar sequer uma só vez para trás.

      É verdade que, assim que calculou achar-se fora do alcance de vista da herdade, baixou-se, como quem queria afivelar a presilha das polainas, e com a cabeça entre as mãos, interrogou o horizonte.

      O horizonte estava livre, e não parecia, naquele momento, oferecer o menor perigo. Feita esta observação, Pitou seguiu a linha vertical, e quase de um salto achou-se na desejada floresta.

      A floresta era o domínio de Pitou; considerava-se ali em sua casa; considerava-se livre; considerava-se um rei!

      Rei como a doninha, cuja agilidade possuía; como a raposa, de que tinha a astúcia; como o lobo, do qual tinha também o olhar, sendo capaz de ver nas mais profundas trevas da noite.

      Porém naquela hora, não carecia nem da agilidade da doninha, nem da astúcia da raposa, nem dos olhos nictalopes do lobo.

      Apenas lhe bastava cortar diagonalmente a porção de bosque, onde penetrara, e voltar à orla da floresta, que se estendia em toda a extensão da herdade.

      A sessenta ou setenta passos de distância, veria Pitou quanto se passasse na herdade, e desafiaria quem quer que, para o atacar, apenas se servisse dos pés e das mãos.

      Escusado é dizer que melhor desafiaria um cavaleiro, fosse qual fosse, que decerto não poderia dar cem passos na floresta, metendo pelos caminhos por onde Pitou se introduzisse.

      Pitou deitou-se ao comprido, junto do tronco de uma árvore, no qual reclinou a cabeça e pôs-se a reflectir profundamente.

      Reflectia que era o seu dever impedir, quanto lhe fosse possível, que o tio Billot pusesse em execução a terrível vingança que meditava.

      A primeira coisa que lhe ocorreu foi correr a Boursonnes, e prevenir Isidoro do perigo que o esperava, se porventura se dirigisse para o lado da herdade.

      Mas, quase de súbito, reflectiu em duas coisas:

      A primeira foi que Catarina lhe não tinha dado missão para o fazer; a segunda, que o perigo talvez não intimidasse Isidoro.

      E demais, que certeza tinha Pitou que o visconde, cuja intenção era decerto ocultar-se, viesse pela estrada real, ou por algum desses pequenos atalhos, só praticados pelos lenhadores e no geral por homens do campo?

      Indo em busca de Isidoro, Pitou abandonava Catarina, e conquanto sentisse muito que o visconde sofresse algum desastre, nem por isso deixaria de sentir mais que esse desastre acontecesse a Catarina.

      Portanto, o que lhe pareceu mais prudente foi esperar onde estava, e aconselhar-se com as circunstâncias que sobreviessem.

      Esperando que se dessem essas circunstâncias, fixou os olhos na herdade: pareciam os olhos de uma onça, que espreitava a sua presa!

      O primeiro movimento que observou foi a saída do tio Clouis.

      Viu-o ao portão despedindo-se de Billot, seguir depois o muro e desaparecer na direcção de Villers-Cotterets, que devia atravessar ou tornejar para regressar à sua choupana, distante coisa de légua e meia de Pisseleux.

      Quando ele saiu começava a cair o crepúsculo.

      Como o tio Clouis não passava de personagem secundário, uma espécie de comparsa no drama que se representava, Pitou não lhe prestou atenção, tendo-o apenas, por descargo de consciência, seguido com a vista até ao momento em que desapareceu na esquina do muro, e tornando logo a cravá-la no centro do edifício, isto é, no portão e nas janelas.

      Poucos momentos depois viu luz numa das janelas; era a do quarto de Billot.

      Do sítio onde se achava, Pitou via perfeitamente o interior do quarto; pôde portanto ver Billot carregar a espingarda com todas as precauções que o tio Clouis lhe recomendara.

      Durante este tempo anoiteceu completamente.

      Concluída a tarefa Billot apagou a luz e fechou a janela, mas de modo que pudesse vigiar os arredores.

      Da janela de Billot, situada no primeiro andar parece-nos ter dito que se não podia descobrir a de Catarina, situada no andar baixo, por causa de um cotovelo formado pelos muros da herdade; mas descobria-se inteiramente o caminho de Boursonnes e todo o círculo da floresta que se acha em contacto com a montanha da Ferté-Milon, a que chamam a mata de Ivors.

      Ao passo que Billot não via a janela de Catarina, supondo que ela saísse por essa janela com o fim de se dirigir ao bosque, não perdia a esperança de a ver no momento em que entrasse no raio do terreno, que os olhos não podiam abranger.

      Contudo, como a noite se tornasse cada vez mais escura, podia acontecer que Billot visse apenas uma mulher sem a conhecer. Eram estas as reflexões que Pitou fazia. Não duvidava que durante a noite Catarina tentasse algum meio de sair de casa com o fim de prevenir Isidoro.

      Sem perder pois inteiramente de vista a janela de Billot, foi contudo sobre a de Catarina que fixou mais particularmente a atenção.

      Pitou não se enganava: tão depressa escureceu - para Pitou já nós dissemos que não havia escuridão - viu abrir-se mansamente a janela de Catarina, viu-a saltar e seguir ao longo do muro.

      Enquanto seguisse esta direcção, não corria ela risco algum de ser vista, e supondo que o seu fim fosse ir a Villers-Cotterets, poderia chegar ali sem que ninguém a visse; mas, se, pelo contrário, quisesse ir para o lado de Boursonnes, ser-lhe-ia absolutamente necessário entrar no raio que o olhar que partia da janela do pai abrangia.

      Chegando ao fim do muro, hesitou durante alguns segundos, dando a entender a Pitou, que era a Villers-Cotterets e não a Boursonnes que se dirigia; mas de repente cessou essa hesitação; por isso, curvando-se o mais que lhe foi possível, com o fim de que não a vissem, atravessou o caminho, lançando-se numa vereda que ia dar à floresta, por meio de uma curva que ia dar a coisa de um quarto de légua do caminho de Boursonnes.

      Seguindo pois esta vereda, já Pitou não podia duvidar de qual fosse o destino de Catarina, já não tinha que se ocupar dela, mas sim da janela meia aberta, através da qual, como se fosse uma cidadela, se mergulharam os olhos de Billot, de uma extremidade à outra do bosque.

      Todo esse raio que a vista de Billot abrangia, à excepção de algum pastor isolado aqui e acolá, estava completamente solitário.

      O resultado de tudo isto foi que, assim que Catarina entrou naquele raio, conquanto o seu mantelete preto a tornasse quase invisível, nem por isso pôde escapar ao olhar penetrante do lavrador.

      Pitou viu abrir a janela, aparecer a cabeça de Billot através dela, e conservar-se um momento fixo e imóvel, como se duvidasse, no meio daquelas trevas, do testemunho dos seus olhos, mas tendo corrido na direcção daquela sombra os cães do pastor, voltando de novo para junto do amo, depois de haverem dado alguns latidos, não pôde Billot duvidar, por mais tempo, de que aquela sombra fosse a de Catarina...

      Os cães aproximando-se dela, reconheceram-na logo, cessando por isso de ladrar.

      É desnecessário dizer que tudo isto era traduzido por Pitou, tão claramente, como já estivesse prevenido nos diversos incidentes daquele drama.

      Esperava portanto ver de novo fechar a janela do quarto de Billot, e abrir-se o portão.

      Efectivamente, alguns segundos depois, o portão abriu-se, e tendo Catarina chegado à orla do bosque, Billot, com a espingarda ao ombro, transpôs o limiar da porta, caminhando a passos largos em direcção à floresta, seguindo o caminho de Boursonnes, que Catarina demandava aparentemente.

      Não havia portanto tempo a perder; em dez minutos, o máximo, achar-se-ia a pobre rapariga em frente do pai!

      Foi isto o que Pitou reflectiu.

      Levantou-se, pois, e saltando como um cabrito assustado através daquelas matas, cortando diagonalmente a floresta no sentido inverso da sua primeira caminhada, achou-se justamente no fim da vereda que percorria, no mesmo momento em que já se sentiam os passos e a respiração palpitante de Catarina.

      Parou então, ocultando-se por detrás do tronco de um carvalho.

      Dali a dez minutos passava Catarina próximo do carvalho.

      Pitou apresentou-se-lhe, impediu-lhe o passo, e ao mesmo tempo deu-se a conhecer.

      Julgou necessária esta unidade duma tríplice acção para não assustar Catarina.

      Efectivamente, ela não soltou mais do que um débil grito, e parando muito convulsa, perguntou:

      - Que me quer Sr. Pitou?...

      - Nem mais um passo, em nome do céu, menina! - disse Pitou juntando as mãos.

      - Por quê?

      - Porque seu pai sabe que saiu, meteu ao caminho de Boursonnes com a espingarda, e espera-a na encruzilhada de Bourg-Fontaine!

      - Mas ele, ele - exclamou Catarina desorientada, - ninguém o prevenirá?

      E afastando-o com a mão, fez um movimento para continuar o caminho.

      - E quem o previne quando seu pai impedir o caminho à menina? - perguntou Pitou.

      - Que hei-de fazer?

      - Venha, menina Catarina; volte para o seu quarto; por-me-ei de emboscada nas proximidades da sua janela, e assim que vir o Sr. Isidoro eu o prevenirei.

      - Pois fará isso Sr. Pitou?

      - Por si tudo farei, menina Catarina... Ah! É que a amo muito... muito!

      Catarina apertou-lhe a mão.

      Depois, reflectindo um instante; disse:

      - Sim, tem razão, leve-me para casa.

      E como as pernas principiassem a fraquejar-lhe, deu o braço a Pitou, que lhe fez seguir o caminho da herdade.

      Dez minutos depois, entrava Catarina no seu quarto sem que ninguém a visse, fechando logo a janela, ao passo que Pitou lhe indicava o grupo de salgueiros para junto dos quais ia esperar e vigiar.

 

A espera do lobo

      O grupo de salgueiros, colocado numa pequena altura, a vinte ou vinte e cinco passos de distância da janela de Catarina, dominava uma espécie de fosso, no fundo do qual serpeava um pequeníssimo regato.

      O regato, que seguia a direcção do caminho, era sombreado de espaço a espaço por alguns salgueiros semelhantes aos que formavam o grupo de que há pouco falámos, isto é, de árvores parecidas (principalmente de noite) como anões de enorme cabeça desgrenhada.

      Era numa dessas árvores, carcomida pelo tempo, que Pitou ia depositar, todas as manhãs, as cartas de Isidoro, e onde Catarina ia buscá-las quando o pai saía, e depois de o ver desaparecer numa direcção oposta.

      E daí, tanto Pitou como Catarina empregavam sempre tantas precauções, que nunca poderiam ser descobertos, e fora um simples acaso que naquela manhã conduzira o pastor da herdade pelo mesmo caminho que Isidoro percorria. O pastor anunciara, como notícia sem importância, a chegada do visconde; esta chegada oculta, que ocorrera pelas cinco horas da manhã, parecera mais que suspeita aos olhos de Billot. Depois que regressara de Paris, depois da doença de Catarina, depois da recomendação que lhe fizera o Dr. Raynal para não entrar no quarto da doente enquanto lho não consentisse, convencera-se de que o visconde de Charny era o namorado da filha, e como não visse em tais relações mais que desonra, por isso que Isidoro nunca casaria com Catarina, resolvera tirar a essa desonra quanto ela tivesse de vergonhoso, lavando-a com sangue.

      Foi este o motivo que deu lugar aos pormenores que referimos, e que insignificantes a olhos desprevenidos, tomaram tão medonha importância aos olhos de Catarina, e depois da explicação dada por esta, aos olhos de Pitou.

      Vimos que Catarina, ao passo que adivinhava o projecto do pai, só tentara prevenir Isidoro para o evitar, passo que Pitou felizmente suspendera, por isso que, em lugar de Isidoro, era com o pai que ela ia dar no caminho.

      Conhecia muito o terrível carácter do lavrador, para que lhe restassem esperanças de que as súplicas, ou as lágrimas o abonançassem; seria isso provocar o raio em vez de o desviar.

      Evitar um choque entre o amante e o pai, era quanto ela ambicionava.

      Oh! Como teria ardentemente desejado naquele momento, que essa ausência, da qual esteve prestes a morrer, se prolongasse indefinidamente!

      Como não abençoaria a voz que viesse dizer-lhe ao ouvido: “Ele partiu...” ainda que essa voz acrescentasse: “Para sempre!”

      Pitou compreendera tudo isto tão bem como Catarina, e por isso se lhe oferecera como intermediário. Quer o visconde viesse a pé, quer a cavalo, esperava vê-lo a tempo, precipitar-se-ia adiante dele, e em duas palavras pô-lo-ia ao alcance da situação, e resolvê-lo-ia a fugir, prometendo dar-lhe notícias de Catarina no dia seguinte.

      Pitou conservava-se, pois, colado ao seu salgueiro como se fizesse parte da família vegetal, no meio da qual se achava, aplicando tudo quanto os seus sentidos e hábitos da noite, das planícies e dos bosques lhe permitiam, a fim de distinguir uma sombra ou perceber um ruído.

      De repente, pareceu-lhe ouvir atrás de si, vindo da floresta, o rumor de uns passos de homem, que caminhava pelo mato; como os passos lhe parecessem demasiadamente pesados para serem do jovem e elegante visconde, tornejou cautelosamente, e de um modo quase insensível, o salgueiro, e a trinta passos de distância de si, descobriu o lavrador com a arma ao ombro.

      Esperara, conforme Pitou imaginara, na encruzilhada de Bourg-Fontame; mas não vendo desembocar pessoa alguma de nenhuma das veredas, julgou ter-se enganado, e viera de novo pôr-se à espera defronte da janela de Catarina, bem convencido de que era por ela que o visconde de Charny tentaria introduzir-se no quarto.

      Desgraçadamente, quis o acaso que escolhesse para emboscada o mesmo grupo de salgueiros onde Pitou se ocultara.

      Pitou, adivinhando a intenção de Billot, não quis disputar-lhe o lugar e deixou-se escorregar pelo declive, desaparecendo pelo fosso, e ocultando a cabeça com os ramos salientes do salgueiro, a cuja sombra Billot fora ocultar-se.

      Porém, cumpre dizê-lo em honra da natureza admirável do nosso herói, era menos o seu perigo pessoal que o desespero de faltar, mau grado seu, à palavra que dera a Catarina o que lhe dava cuidado.

      Se viesse o Sr. de Charny e lhe acontecesse alguma desgraça, que conceito faria ela de Pitou?

      Talvez de que o atraiçoara! Teria preferido a morte a que ela pensasse semelhante coisa.

      Mas o mais que podia fazer era conservar-se onde estava, e sobretudo conservar-se imóvel; o mais pequeno movimento denunciá-lo-ia...

      Decorreu um quarto de hora sem que nada viesse perturbar o silêncio da noite. Uma derradeira esperança animava Pitou, e era que, se porventura o visconde viesse tarde, Billot se impacientasse de esperar, duvidando de que ele viesse e voltasse para casa.

      Porém de repente Pitou, que no sítio onde estava tinha o ouvido encostado à terra, julgou sentir o galopar de um cavalo, o qual devia vir pela pequena vereda que vinha desembocar no bosque.

      Em breve reconheceu que se não enganava; o cavalo atravessou o caminho a sessenta passos, pouco mais ou menos, do grupo dos salgueiros; sentiram-se tenir as ferraduras do animal no solo, e uma das ferraduras, tendo tocado numa pedra, soltou faíscas, que se viram perfeitamente.

      Pitou via inclinar-se o fazendeiro por cima da sua cabeça para ver melhor no meio da escuridão.

      Mas a noite estava tão escura, que os olhos de Pitou, por mais perspicazes que fossem em penetrar nas trevas, só viram como que uma sombra saltando por cima do caminho, desaparecer no ângulo do muro da herdade.

      Pitou não pôde duvidar de que fosse Isidoro, mas esperava que o visconde tivesse qualquer outra entrada para penetrar na herdade, além da janela de Catarina.

      Billot assim o receou, por isso que murmurou algumas palavras que mais pareciam uma blasfémia.

      Seguiu-se depois um terrível silêncio, em seguida ao qual, Pitou graças à sagacidade da sua vista, pôde distinguir uma forma humana na extremidade do muro.

      O cavaleiro tinha prendido o cavalo a alguma árvore e caminhava a pé.

      A noite era tão escura, que Pitou julgava que Billot não visse aquela sombra, ou então, que quando a visse, já fosse muito tarde.

      Enganava-se: Billot via perfeitamente, por isso que Pitou sentiu duas vezes por cima da cabeça o surdo tenir de uma arma quando a engatilham.

      O homem que se ia escoando ao longo do muro decerto ouviu também o tenir, com o qual se não engana o ouvido de um caçador, porquanto parou, procurando penetrar a escuridão com o olhar, o que era impossível.

      Durante o lapso de um segundo, viu Pitou levantar-se por cima do fosso o cano de uma espingarda, mas porque naquela distância o lavrador não tivesse certeza de empregar o tiro, ou porque receasse cometer algum erro, o cano que Pitou vira levantar-se com tanta presteza, abaixou-se vagarosamente.

      A sombra tomou de novo o seu movimento e continuou a caminhar ao longo do muro.

      Aproximava-se cada vez mais da janela de Catarina.

      Desta vez foi Pitou que sentiu bater o coração de Billot.

      Pitou perguntava a si mesmo o que devia fazer, por que meio poderia advertir o desgraçado mancebo, por que meio poderia salvá-lo.

      Mas nada se lhe oferecia ao espírito, nada absolutamente, e como desesperado, arrepelava os cabelos!

      Tornou a ver levantar-se o cano da espingarda; mas do mesmo modo tornou a vê-lo baixar.

      O visconde estava muito distante.

      Decorreu mais meia hora pouco mais ou menos, durante a qual chegou o mancebo até junto da janela de Catarina.

      Chegando ali, bateu devagarinho três pancadas com intervalos iguais.

      Desta vez não havia que duvidar; era decerto um amante que ia procurar Catarina.

      Por isso, pela terceira vez se tornou a levantar o cano da espingarda, ao passo que, da sua parte, Catarina, reconhecendo o sinal convencionado, abriu um pouco a janela.

      Pitou sobremodo palpitante, sentiu comprimir o gatilho, e sentiu também o ruído da pederneira; um clarão semelhante ao de um relâmpago alumiou o espaço, mas o clarão não foi seguido de explosão.

      Foi unicamente a pólvora que ardeu.

      Charny viu o perigo que correra, e fez um movimento para marchar direito ao sítio onde vira o fogo; mas Catarina, estendendo o braço e puxando-o para si, disse em voz baixa:

      - Que desdita! É meu pai, que sabe tudo... Vem cá!

      E com uma força sobre-humana, ajudou-o a franquear a janela, que fechou imediatamente.

      O lavrador ainda tinha um segundo tiro para atirar, mas os dois amantes estavam tão estreitamente abraçados, que decerto, atirando sobre Isidoro, mataria a filha.

      - Oh! Quando ele sair não me há-de escapar!

      E logo com um alfinete desentupiu o ouvido da espingarda, deitou-lhe pólvora de novo, para que não se repetisse a espécie de milagre a que Isidoro devia a existência.

      Durante cinco minutos não se ouviu rumor algum, nem sequer o das respirações de Pitou e do lavrador.

      De repente, no meio daquele silêncio sepulcral, os latidos dos cães que se achavam encadeados, soaram no pátio da herdade.

      Billot bateu com o pé no chão, escutou um momento, e tornando a bater, disse:

      -Ah! Dá-lhe fuga pelo pomar... É contra ele que ladram os cães!

      E saltando por cima da cabeça de Pitou, foi cair do outro lado do fosso, e apesar da noite, graças ao conhecimento que tinha do local, desapareceu com a rapidez do relâmpago na esquina do muro.

      Esperava chegar ao outro lado da herdade ao mesmo tempo que Isidoro.

      Pitou entendeu a manobra. Com a inteligência do homem da natureza, arrojou-se por seu turno para fora do fosso, atravessou o caminho em linha recta, foi direito à janela de Catarina, que conseguiu abrir, penetrou no quarto, onde não encontrou ninguém, dirigiu-se à cozinha, que estava alumiada por uma lanterna, penetrou pelo atalho que conduzia ao pomar e chegando ali, graças à faculdade que tinha de distinguir os objectos através das trevas, pôde enxergar duas sombras que se iam escoando, uma que saltava por cima do muro, e a outra que junto do muro, se conservava de pé e com os braços estendidos.

      Mas antes de saltar para o outro lado do muro o mancebo, voltando-se pela última vez, disse:

      - Até à vista, Catarina; não te esqueças que me pertences, que és minha!

      - Oh! Sim, sim - respondeu ela; - mas corre, vai-te!

      - Oh! Sim, parta, parta, Sr. Isidoro! - gritou Pitou - parta!

      Sentiu-se o estrondo que fez o mancebo caindo em terra, depois o relinchar do cavalo, que o conheceu; depois os arremessos do animal, impelido talvez pelas esporas; depois um primeiro tiro, e depois um segundo!...

      Ao primeiro soltou Catarina um grito e fez um movimento como para correr em socorro de Isidoro; ao segundo soltou um suspiro, e faltando-lhe as forças caiu nos braços de Pitou.

      Este, com o pescoço estendido, aplicou o ouvido para se assegurar se o cavalo continuava a sua carreira com a mesma rapidez que levava antes de ouvir o tiro, e sentindo o galopar do animal, que se afastava, disse sentenciosamente:

      - Bem! Temos ainda alguma esperança... Não se atira tão bem de noite como de dia, e a mão não é tão certa quando se atira a um homem como quando se atira a um lobo ou a um porco montês.

      E levantando Catarina, tentou levá-la nos braços.

      Porém ela, por um inaudito esforço da sua vontade, chamando em seu auxílio todas as forças, pôs-se de pé, e amparando-se no braço de Pitou, perguntou:

      - Onde queres conduzir-me?

      - Mas, menina - disse Pitou muito admirado - conduzo-a para o seu quarto.

      - Pitou - replicou ela - tens algum sítio onde me possas ocultar?

      - Oh! Sem dúvida que tenho, menina – acudiu Pitou; e se o não tivesse, ser-me-ia fácil encontrá-lo.

      - Nesse caso - respondeu ela - não percamos tempo, leva-me, conduze-me.

      - Mas a herdade?

      - Em cinco minutos, conto sair dela para nunca mais voltar.

      - E seu pai?

      - Tudo se acha acabado entre mim e o homem que quis matar o meu amante.

      - Todavia, menina, veja... - disse ainda Pitou.

      - Ah! Tu recusas acompanhar-me, Pitou? – perguntou Catarina abandonando o braço do seu amigo.

      - Não, menina Catarina, Deus me defenda!

      - Pois então segue-me.

      E Catarina, tomando a dianteira, passou do pomar para a horta.

      Na extremidade desta havia uma pequena porta, que deitava para a planície de Noue.

      Catarina abriu-a sem hesitar, tirou a chave, tornou a fechá-la sobre si, lançando depois a chave num poço que havia junto do muro.

      Depois, com passo firme, ausentou-se através dos campos, encostada ao braço de Pitou, desaparecendo ambos no meio do vale que se estende desde a aldeia de Pisseleux até à herdade de Noue.

      Ninguém a viu partir, e só Deus sabe onde Catarina encontrou o refúgio que Pitou lhe prometera.

 

Dissipa-se a tempestade

      As tempestades humanas são como as tempestades celestes: tolda-se o céu, brilha o relâmpago, ribomba o trovão, a terra parece tremer nos seus eixos; há então um momento de paroxismo terrível, no qual se receia a aniquilação dos homens e das coisas, no qual todos temem, todos vacilam, todos levantam as mãos ao Senhor, como para a única misericórdia; depois, a pouco e pouco, vem a bonança, dissipa-se a escuridão, aparece o astro luminoso, abrem-se as flores, avigoram-se as árvores, os homens voltam aos seus trabalhos, aos seus prazeres, aos seus amores, a vida ri e canta, tanto nas estradas e nas ruas, como no limiar das portas, e ninguém se lembra mais do deserto parcial que o raio fez quando caiu.

      Foi o que aconteceu na herdade. Durante a noite sentiu-se ali decerto uma terrível tempestade; mil serpentes corroíam o coração daquele homem, que meditara e pusera em execução o seu projecto de vingança; quando deu pela fuga da filha, quando baldadamente e no meio da escuridão lhe procurou o rasto dos passos, quando a chamou, em primeiro lugar com voz de cólera, depois com a das súplicas, e por fim com a do desespero, sem que ela respondesse a nenhuma dessas vozes, decerto se rompeu naquela robusta e potente organização alguma coisa de vital! Mas, quando à tempestade de gritos e ameaças, que tinham igualmente lançado os seus relâmpagos e raios, como as tempestades celestes, sucedeu o silêncio e o desfalecimento; quando os rafeiros, não tendo já motivo que os perturbasse, cessaram de latir; quando uma chuva à mistura com saraiva apagou uma nódoa de sangue, que semelhante a um cinto meio desatado, rodeava um dos lados da herdade; quando o tempo, essa testemunha, muda e insensível, de quanto se passa na terra, sacudiu os ares, sobre as trémulas asas de bronze, as últimas horas da noite, tudo ali recuperou o seu curso ordinário e habitual: o portão da quinta gemeu nos gonzos enferrujados, os trabalhadores saíram, uns para ir semear, outros para ir gradar, outros para ir à charrua; em seguida apareceu por sua vez Billot, cruzando a planície em todas as direcções, e finalmente rompeu o dia, despertou o resto da aldeia, e os que não tinham dormido tão bem como os outros, disseram com ar meio curioso e meio negligente:

      - Os cães do tio Billot ladraram bastante esta noite, e por detrás da herdade ouviram-se tiros de espingarda...

      - Sim? - perguntaram alguns.

      - É certo.

      E calaram-se.

      Quando o tio Billot voltou a casa, pelas nove horas, para almoçar, como tinha por costume, perguntou-lhe a mulher:

      - Onde está a Catarina? Não a viste?

      - A Catarina - respondeu o fazendeiro fazendo um esforço - foi para a casa da tia, em Solongne: o ar da herdade não lhe fazia bem.

      - Ah!... E demorar-se-á lá muito?

      - Até se achar melhor - respondeu Billot.

      A tia Billot soltou um suspiro, e desviou de si a chávena de café com leite que estava bebendo.

      O fazendeiro, pela sua parte, quis fazer um esforço para comer, mas ao terceiro bocado, como se a comida o sufocasse, lançou mão da garrafa de Borgonha pelo gargalo, e de um trago bebeu o líquido.

      Em seguida, com voz roufenha perguntou:

      - Creio que não desaparelhariam o meu cavalo, heim?

      - Não, Sr. Billot - respondeu a tímida voz de um rapaz, que com a mão estendida vinha todos os dias receber ali o seu almoço.

      - Bem!

      E o fazendeiro, desviando bruscamente o pobre pequeno, montou a cavalo e penetrou nos campos, ao passo que sua mulher, debulhada em lágrimas, foi sentar-se no seu lugar do costume, junto da chaminé.

      E sem contar de menos com aquele passarinho folgazão, com aquela rapariga que alegrava e embalsamava aquelas velhas paredes, a herdade parecia, desde pela manhã, o mesmo que parecera na véspera.

      Pela sua parte, Pitou viu raiar o dia na sua casinha de Haramont, e os que foram procurá-lo pelas seis horas da manhã, encontraram-no alumiado por uma vela, que, pelo morrão, parecia arder havia muito tempo. Ocupava-se em pôr a limpo, para enviá-la a Gilberto, devidamente documentada, uma conta do emprego que fizera dos vinte e cinco luíses que recebera para fardar e equipar a guarda de Haramont.

      Não há dúvida que um lenhador dissera tê-lo visto, pela meia noite, conduzindo nos braços uma espécie de fardo, que parecia ser uma mulher, e descer com ela as rampas que conduzem ao eremitério do tio Clouis; mas isso não passava de uma probabilidade, visto que o tio Lajeunesse o vira correr a bom correr, pela volta da uma hora da manhã, pela estrada de Boursonnes; ao passo que Maniquet, que morava no fim da aldeia do lado de Longpré, pretendia que pelas duas horas e meia o vira passar em frente da sua porta, e lhe gritara ao mesmo tempo: “Boas noites, Pitou!” civilidade a que Pitou respondera, gritando também: “Boas noites, Maniquet!”

      Não havia que duvidar: Maniquet vira Pitou pelas duas horas e meia da madrugada.

      Todavia, para que o lenhador visse Pitou perto da pedra Clouise, levando nos braços, e pela meia noite, um objecto que parecia ser uma mulher; para que o tio Lajeunesse visse Pitou correndo a bom correr, pela uma hora da manhã, pela estrada de Boursonnes; para que Maniquet lhe desse as boas noites quando lhe passou em frente da porta pelas duas horas ou duas e meia da manhã, era necessário que Pitou, que nós perdemos de vista com Catarina, das dez para as onze horas da noite, por entre as quebradas que separam a aldeia de Pisseleux da herdade de Noue, fosse de lá até à pedra Clouise, e daí finalmente a sua casa; supondo-se assim que, para pôr Catarina em segurança, para ir depois saber notícias do visconde, e para em seguida ir dar essas notícias a Catarina seria necessário que fizesse, desde as onze horas da noite até às duas e meia da manhã, umas oito ou nove léguas, pouco mais ou menos; ora, esta suposição não seria admissível nem quando se tratasse de um desses corredores ou volantes dos príncipes, que a gente do povo pretendia noutro tempo que não tinham fôlego; mas o certo é que este esforço do coração não fez mais do que admirar mediocremente os que já tinham podido apreciar as faculdades locomotoras de Pitou.

      Todavia, como Pitou não comunicou a pessoa alguma os segredos daquela noite, em que parecera dotado de um grande dom de ubiqüidade, resultou daqui que, pondo de parte Désiré Maniquet, a cujas boas noites, respondera, nem o lenhador, nem o tio Lajeunesse teriam afirmado, com a fé de juramento, que era efectivamente Pitou em pessoa, e não uma sombra, um espectro fantasma, com a forma de Pitou, que viram junto da pedra Clouise, e na estrada de Boursonne.

      Tanto assim, que pelas seis horas da manhã do dia seguinte, quando Billot montava a cavalo para ir visitar os campos, fora encontrado Pitou, sem aparência de fadiga ou de cuidados, a fazer a conta do alfaiate Dulauroy, à qual juntava como documentos comprovativos muito bem coordenados os recibos dos seus trinta e três homens.

      Havia ainda outra pessoa do nosso conhecimento, que não dormira bem naquela noite.

      Era o Dr. Raynal.

      Por volta das duas horas da manhã, fora acordado pelo criado do visconde de Charny, que lhe tocava à campainha da porta com toda a força.

      Ele mesmo foi abrir a porta, como costumava quando sentia tocar de noite a campainha.

      O criado do visconde de Charny vinha chamá-lo para acudir a um acidente grave, acontecido a seu amo.

      Trazia à mão outro cavalo aparelhado, para que o doutor se não demorasse um só momento.

      Raynal vestiu-se à pressa, montou a cavalo e partiu a galope, precedido do criado, que corria diante dele como se fosse um correio.

      Qual fora o acidente, sabê-lo-ia quando chegasse ao castelo; apenas tinha sido prevenido para que levasse os seus instrumentos de cirurgia.

      O acidente era uma ferida na ilharga esquerda, e uma arranhadura no ombro direito, ocasionado tudo por duas balas, que pareciam ser do mesmo calibre, isto é, do calibre vinte e quatro.

      Porém quanto às circunstâncias do caso, o visconde recusava-se a referi-las.

      Uma das feridas, a da ilharga, era bastante séria, sem contudo oferecer carácter de perigo: a bala atravessara as carnes sem todavia ofender órgão algum importante.

      Quanto à outra ferida nem sequer valia a pena ocuparem-se dela.

      Feito o curativo, deu o visconde vinte e cinco luíses ao doutor, para guardar silêncio.

      - Se quer que guarde silêncio, é necessário que me pague a visita pelo preço ordinário, - redargüiu o honrado doutor - isto é, uma pistola.

      E pegando num luís, voltou ao visconde, de troco, catorze libras: este insistiu inutilmente para o obrigar a aceitar mais dinheiro.

      O Dr. Raynal declarou que julgava necessárias três visitas, e por isso apenas voltaria nos seguintes dois dias para ver o doente.

      À segunda visita, o doutor encontrou já o visconde a pé; ajudado pela cinta que lhe sustinha o aparelho contra a ferida, tinha podido, logo no seguinte dia, montar a cavalo, como se nada lhe houvesse acontecido, de sorte que toda a gente, à excepção do seu criado de confiança, ignorava o acidente.

      À terceira visita, o Dr. Raynal não encontrou o seu doente, o que fez que por esta visita sem resultado não quisesse aceitar mais do que meia pistola.

      O Dr. Raynal era um desses médicos raros, que são dignos de ter na sala a famosa gravura que representa Hipócrates recusando os presentes d'Artaxerxes.

 

A grande traição do Sr. Mirabeau

      Lembrar-se-ão das últimas palavras de Mirabeau à rainha, no momento em que, deixando-o em Saint-Cloud, ela lhe deu a mão a beijar:

      - Por este beijo, senhora, a monarquia está salva!

      Esta promessa, feita por Prometheo a Juno prestes a ser destronada, tratava-se de a realizar.

      Mirabeau encetara a luta confiando na sua força, sem pensar que depois de três imprudências, e de três conspirações abortadas, o impeliam para uma luta impossível.

      Seria talvez mais prudente que Mirabeau combatesse por algum tempo ainda ao abrigo da máscara; mas logo no dia seguinte àquele em que fora recebido pela rainha, quando ia para a Assembléia Nacional, viu grupos e ouviu gritos.

      Aproximou-se dos grupos, e informou-se da causa dos gritos.

      Distribuíam-se pequenos folhetos.

      Depois, de tempo a tempo, uma voz gritava:

      “A grande traição do Sr. de Mirabeau! a grande traição do Sr. de Mirabeau!”

      - Ah! Ah! - disse ele tirando dinheiro da algibeira - parece que isto é comigo. Quanto custa a grande traição do Sr. de Mirabeau? - perguntou dirigindo-se ao vendedor que trazia os folhetos em cestos sobre um jumento, que os transportava tranquilamente para onde o dono desejava estabelecer a sua loja ambulante.

      O distribuidor olhou-o fixamente e respondeu:

      - Sr. conde, dou-lho.

      Depois, mais baixo, ajuntou:

      - Tiraram-se cem mil exemplares deste opúsculo!

      Mirabeau afastou-se pensativo.

      Cem mil exemplares daquela brochura!

      Um folheto que se distribuía grátis!

      Um distribuidor que o conhecia!

      Mas, a brochura não passava naturalmente de uma dessas publicações estúpidas ou atrevidas, que se faziam aos milhares naquela época.

      O excesso do ódio ou da inépcia tirava-lhes todo o perigo, roubava-lhes todo o valor.

      Mirabeau olhou para a primeira página e empalideceu.

      A primeira página continha a nomenclatura das dívidas de Mirabeau, e, coisa estranha! essa relação era exacta.

      Duzentos e oito mil francos!

      Na parte superior da relação estava a data do dia em que esta soma tinha sido paga aos diversos credores de Mirabeau, pelo esmoler da rainha, o Sr. de Fontanges.

      Seguia-se a soma que a corte lhe pagava por mês: seis mil francos!

      E finalmente, a narração da sua entrevista com a rainha.

      Nada se podia compreender: o autor anónimo não se enganara nem sequer numa palavra.

      Que inimigo terrível, misterioso e cheio de segredos inauditos o perseguia assim, ou antes perseguia nele a monarquia!

      Pareceu-lhe que a cara do distribuidor, que lhe falara, o conhecera e lhe chamara Sr. conde, lhe não era desconhecida.

      Voltou atrás.

      O jumento continuava a estar ali com os cestos quase vazios, mas o primeiro distribuidor desaparecera, e fora substituído por outro.

      Este era inteiramente desconhecido a Mirabeau.

      A distribuição prosseguia com o mesmo furor.

      Quis o acaso que, no momento daquela distribuição, o Dr. Gilberto, que assistia quase todos os dias aos debates da assembléia, principalmente quando os debates tinham alguma importância, atravessasse a praça, em que estava estacionado o distribuidor.

      Talvez que, preocupado e pensativo, não reparasse naquele ruído nem nos grupos; mas com a sua audácia habitual, Mirabeau dirigiu-se a ele, tomou-o pelo braço e muito amavelmente conduziu-o à presença do distribuidor.

      Este fez a Gilberto o que fazia aos mais, isto é, estendeu a mão para ele, dizendo:

      - Cidadão, a grande traição do Sr. de Mirabeau!

      Mas à vista de Gilberto, a língua e o braço ficaram-lhe como que paralisados.

      Gilberto olhou também, deixou cair a brochura e afastou-se, dizendo:

      - Vil ofício é o que exerce, Sr. Beausire!

      E tomando o braço de Mirabeau, continuou o seu caminho para a assembléia que deixara o arcebispado pelas cortes.

      - Conhece aquele homem? - perguntou Mirabeau a Gilberto.

      - Conheço-o como se conhece esta gente – disse Gilberto; - é um antigo oficial, um jogador e um velhaco. Não sabendo o que havia de fazer, fez-se caluniador!

      - Ah! - murmurou Mirabeau pondo a mão onde devia existir o coração, e onde só havia uma carteira contendo o dinheiro do paço - se ele caluniasse...

      E meditabundo, o grande orador continuou pausadamente o seu caminho.

      - Como - disse Gilberto - será tão-pouco filósofo que se deixe abater por semelhante ataque?

      - Eu? - exclamou Mirabeau. - O doutor, não me conhece!... Ah! Dizem que me vendi, quando deveriam dizer simplesmente que estou pago! Está bem, amanhã compro um palácio, terei carruagem, cavalos e criados. Amanhã terei um cozinheiro e mesa franca... Abatido, eu?! Que importa a popularidade de ontem e a impopularidade de hoje? não terei futuro?... Não, doutor, o que me abate é uma promessa feita, que não poderei provavelmente cumprir, são as faltas, direi melhor, as traições da corte a meu respeito. Vi a rainha, que parecia cheia de confiança em mim, não é verdade? Pois um instante sonhei – sonho insensato com semelhante mulher! - não direi ser ministro de um rei, como Richelieu, mas o ministro, digamos ainda melhor, o amante de uma rainha, como Mazarino, e a política do mundo não ficaria mal! O que fazia ela então? No mesmo dia em que me deixou, tenho provas, escreveu ao seu procurador na Alemanha, o Sr. de Flachlauden: “Diga a meu irmão Leopoldo, que sigo o seu conselho, que me sirvo do Sr. de Mirabeau, mas que nada há de sério nas minhas relações com ele”.

      - Está certo disso? - perguntou Gilberto.

      - Certo! Materialmente certo! Ainda não é tudo. Sabe de que se trata hoje na câmara?

      - Sei que se trata da guerra; mas estou mal informado a respeito dessa questão.

      - Oh! Meu Deus! - disse Mirabeau - é bem simples. Toda a Europa, dividida em duas partes, a Áustria e a Rússia de um lado, a Inglaterra e a Prússia do outro, caminha para o mesmo fim: O ódio, a revolução. Quanto à Rússia e à Áustria, a manifestação não é difícil; é a sua própria opinião; mas, a respeito da liberal Inglaterra, e da filosófica Prússia, é preciso tempo para se decidirem, para passarem de um a outro pólo, para abjurarem, renegarem e confessarem que são o que são: inimigas da liberdade. A Inglaterra viu o Brabante estender a mão à França; isso apressou-lhe muito a decisão. A nossa revolução, meu caro doutor, é viva, é contagiosa; é mais que uma revolta nacional, é a revolução da humanidade. O irlandês Burke, discípulo dos jesuítas de Santo Homero, inimigo encarniçado de Mr. Pitt, acaba de publicar contra a França um manifesto que lhe foi pago em belo ouro por Mr. Pitt... A Inglaterra não faz a guerra à França; por ora não se atreve a fazê-la mas deixa a Bélgica ao imperador Leopoldo, e vai ao fim do mundo buscar motivo de querela contra a nossa aliada Espanha. Luís XVI declarou ontem na assembléia, que armava catorze navios, o que dá causa à grande discussão que há hoje na câmara. A quem pertence a iniciativa da guerra? Eis a questão. O rei já perdeu o interior e a justiça: se perde também a guerra, o que lhe restará? Por outro lado (discutamos francamente entre nós o ponto que ninguém se atreve a discutir na câmara), por outro lado o rei é suspeito; a revolução não tem feito até agora (e lisonjeio-me de haver contribuído para isso mais do que ninguém) senão quebrar a espada na mão do rei. De todos os poderes o mais perigoso em se lhe conceber, é certamente o da guerra; entretanto, eu, fiel à promessa que fiz, vou arriscar a minha popularidade, e talvez a vida, sustentando o pedido; vou fazer lavrar um decreto, que tornará o rei vitorioso, triunfante. Mas, que faz o rei agora? Faz procurar pelo guarda-selos, nos arquivos do parlamento, as antigas fórmulas de protesto contra as cortes, sem dúvida para redigir um protesto secreto contra a assembléia. Ah! essa é a desgraça, meu caro Gilberto, fazem-se muitas coisas secretas, e não francas, públicas, e com rosto descoberto! Eis a razão por que quero, eu, Mirabeau, que saibam o que faço pelo rei e pela rainha, uma vez que a isso me obrigam. O senhor diz se esta infâmia dirigida contra mim me perturba? Não, doutor, pelo contrário, serve-me; eu preciso do mesmo que as tempestades para rebentarem; nuvens sombrias e ventos contrários. Venha, venha, doutor, que vai assistir a uma bela sessão, asseguro-lho.

      Mirabeau não mentia, e desde que entrou na antecâmara, foi-lhe necessário encher-se de coragem; todos lhe gritavam olhando-o de frente: “Traição!” e um mostrava-lhe uma corda, outro uma pistola e alguns ameaçavam-no de punhos cerrados.

      Mirabeau encolheu os ombros, e passou, como João Bart, afastando com os cotovelos os que lhe impediam o caminho.

      As vozes seguiram-no até à sala, e pareceram aí acordar novas vociferações. Apenas ouviu que muitos gritavam: “Ah! O vil, o traidor! O orador renegado! O homem vendido!”

      Barnave estava na tribuna e falava contra Mirabeau; este olhou para ele fixamente.

      - Sim - diz Barnave - é a ti que chamam traidor, e é contra ti que falo.

      - Então - respondeu Mirabeau - se é contra mim que falas, posso ir dar um passeio às Tulherias, e terei tempo de voltar antes que tenhas concluído.

      E efectivamente, com a cabeça levantada e o olhar ameaçador, saiu no meio dos gritos, das imprecações e das ameaças, dirigiu-se ao terraço dos frades Bernardos, e desceu rapidamente para as Tulherias.

      A uma terça parte de um extenso renque de árvores estava uma senhora, ainda nova, com um ramo de uma verbena na mão, cujo perfume respirava, e reunia um círculo em volta de si.

      Havia um lugar desocupado à esquerda dele. Mirabeau tomou uma cadeira e foi sentar-se-lhe ao lado.

      Metade dos que a rodeavam levantaram-se e foram-se a pouco e pouco.

      Mirabeau viu-os afastarem-se sorrindo.

      A senhora estendeu-lhe a mão.

      - Ah! Baronesa, não tem medo de se contaminar?

      - Meu caro conde - respondeu ela - asseguram-me que pende para o nosso lado... e eu puxo-o para nós.

      Mirabeau sentou-se e falou três quartos de hora com aquela senhora, que era Ana-Luísa-Germana Necker, baronesa de Stael.

      Depois, passado este lapso de tempo, tirando o relógio, disse:

      - Ah! Baronesa, peço-lhe perdão... Barnave falava contra mim havia uma hora quando saí da assembléia; quase três quartos de hora tive a felicidade de conversar com a baronesa, por conseqüência, há perto de duas que o meu acusador fala; o discurso deve estar quase no fim, é preciso responder-lhe.

      - Vá - disse a baronesa - responda, e tenha coragem!

      - Dê-me esse ramo de verbena, que há-de servir-me de talismã.

      - A verbena, tome cuidado, meu caro conde, é um arbusto de fúnebres agouros.

      - Não importa; é bom ir coroado como um mártir, quando se desce ao circo.

      - O facto é - disse a Srª. de Stael - que não se pode ser mais estúpido do que foi ontem a Assembléia Nacional.

      - Ah! baronesa - redargüiu Mirabeau - de que serve designar o dia?...

      E recebendo o ramo de verbena, que ela lhe oferecia, sem dúvida em recompensa da sua resposta, Mirabeau despediu-se elegantemente, subiu a escada que conduzia ao terraço dos frades Bernardos, e tornou para a assembléia.

      Barnave descia da tribuna no meio das aclamações de toda a sala. Tinha pronunciado um desses discursos arrogantes, que se adaptam a todos os partidos.

      Logo que viram Mirabeau na tribuna, uma trovoada de gritos e imprecações rebentou sobre ele.

      Mas elevando a mão poderosa, esperou, e aproveitando um dos intervalos de silêncio, como os há nas tempestades e nas sedições, exclamou:

      - Eu bem sabia que não era muito distante do Capitólio à Rocha Tarpeia!

      Tal é a superioridade do génio, que estas palavras fizeram calar os mais raivosos.

      Desde o momento em que Mirabeau tinha conquistado o silêncio estava vitória meia ganha. Pediu que a iniciativa da guerra fosse dada ao rei; era pedir muito e recusaram-lho. Então a luta travou-se sobre as emendas à lei proposta; o ataque geral fora repelido; tornava-se necessário conquistar o terreno por ataques parciais.

      Subiu cinco vezes à tribuna. Barnave falara duas horas: Mirabeau falou três, com alguns intervalos.

      Finalmente obteve:

      Que o rei tinha direito para fazer os preparativos e dirigir as forças como quisesse; que proporia a guerra à Assembléia, a qual só decidiria o que fosse confirmado pelo rei.

      O que não teria obtido se não fosse a pequena brochura distribuída grátis por um distribuidor desconhecido, e depois pelo Sr. de Beausire, e que, como dissemos, era intitulada: A grande traição do Sr. de Mirabeau!

      Ao sair da sessão, Mirabeau esteve a ponto de ser feito em pedaços.

      Em troca, Barnave foi levado em triunfo pelo povo.

      Pobre Barnave! Não está longe o dia em que ouvirás também gritar:

      “Grande traição do Sr. Barnave!...”

 

O elixir da vida

      Mirabeau saiu da assembléia com o olhar firme e a cabeça levantada; enquanto estava em face do perigo, o rude atleta só pensava no perigo, e não nas suas forças.

      Passou-se com ele o mesmo que sucedera com o marechal de Saxe na batalha de Fontenoy; abatido, doente, permaneceu todo o dia a cavalo, tão firme como o mais valente gendarme do seu exército; mas quando o exército inglês foi desbaratado, quando o último tiro de artilharia saudou a fuga dos ingleses, deixou-se cair moribundo sobre o campo de batalha, que acabava de conquistar.

      Outro tanto aconteceu a Mirabeau.

      Entrando em casa, deitou-se sobre as almofadas entre flores.

      Mirabeau tinha duas paixões, as mulheres e as flores.

      Além disso, desde o começo da sessão, a sua saúde alterara-se visivelmente. Apesar de ter nascido com uma constituição robusta, tinha sofrido tanto moral como fisicamente, por causa das perseguições e encarceramentos, que não gozava saúde perfeita.

      Enquanto o homem é moço todos os órgãos submissos à sua vontade, prontos a obedecerem à primeira voz que lhe comunique o cérebro, obram de todas as maneiras simultaneamente e sem oposição alguma ao desejo que os move; mas à proporção que o homem avança em idade, cada órgão, semelhante a um criado que ainda obedece, mas a quem um longo serviço tem dado intimidade, cada órgão faz, se assim se pode dizer, suas observações, e não é sem grande fadiga e grande luta, que se consegue mexê-los. Mirabeau estava nesta idade.

      Para que os órgãos continuassem a servi-lo com a presteza a que estava costumado, tornava-se necessário encolerizar-se, porque só a cólera fazia mover esses nervos cansados e doentes.

      Nessa ocasião sentia em si alguma coisa mais grave do que de costume, e só resistia fracamente ao criado que falava em mandar chamar um médico, quando o doutor Gilberto tocou a campainha e foi introduzido junto de Mirabeau.

      Este estendeu a mão ao doutor, e obrigou-o a sentar-se nas almofadas, em que estava deitado, no meio das flores e das folhas.

      - Está bem, caro conde - disse Gilberto – não quis recolher-me a casa sem primeiro o felicitar. Tinha-me prometido uma vitória, e alcançou mais do que isso, alcançou um triunfo!

      - Sim, mas como se vê, é um triunfo, uma vitória no género de Pirrho... Mais uma vitória como esta, doutor, e estou perdido!

      Gilberto olhou para Mirabeau e disse:

      - Efectivamente, está doente.

      Mirabeau encolheu os ombros e murmurou:

      - Equivale a dizer que, com o ofício que exerço, qualquer que não fosse eu já teria morrido cem vezes. Tenho dois secretários: estão indiferentes um com o outro; Pelline especialmente, que está encarregado de copiar o original da minha péssima letra, e sem o qual não posso passar, porque só ele ma pode ler e compreender, está de cama há três dias! Doutor, indique-me, pois, não direi alguma coisa que me faça viver, mas que me dê forças, enquanto eu viver.

      - Que quer - disse Gilberto, depois de haver tomado o pulso do doente - não há conselhos a dar a uma organização como a sua. Como aconselhar descanso a um homem que consome a vida especialmente no movimento, temperança a um génio que se exalta no meio do excesso? Quer que lhe mande retirar do quarto as flores e as plantas, que exalam o oxigênio de dia e o carbono de noite? Tem tornado as flores uma necessidade, e sofre mais com a ausência, do que com a presença delas. Quer que lhe mande tratar as mulheres, como as flores, e que as afaste de si, especialmente de noite? Responder-me-á que prefere morrer... Viva, pois, meu caro conde, com as condições da sua vida; porém, ao pé de si tenha só flores sem perfume, e se é possível, amores sem paixão.

      - Oh! Nessa última parte, meu caro doutor, está admiravelmente servido! Tenho tido mau êxito com os amores de paixão para que deseje recomeçar; três anos de prisão, uma condenação à morte e o suicídio da mulher que amava, e que se matou por outro, curaram-me dessa qualidade de amor. Um momento, já lho disse, sonhei alguma coisa grandiosa, sonhei a aliança de Isabel e de Essex, de Ana de Áustria e de Mazarino, de Catarina II e de Potenkin; mas foi um sonho! Que quer! Não vi hoje a mulher por quem luto, e provavelmente nunca mais a verei... Ouça, Gilberto, não há maior suplício, do que conhecer que se albergam em nós projectos imensos, a prosperidade de um reino, o triunfo dos amigos, e que por um contratempo do acaso, por um capricho da fatalidade, tudo isto nos escapa!... Oh! como me fazem expiar as loucuras da mocidade! como eles próprios as expiarão!... Mas, porque é que desconfiam de mim? Além de duas ocasiões, em que me impeliram até ao fim, e que me foi necessário que ferisse para dar a medida dos meus golpes, não tenho sido completamente deles, desde o princípio até ao fim? Não fui pelo voto absoluto, quando o Sr. Necker se contentava com um voto suspensivo? Não fui contra a noite de 4 de Agosto, em que não tomei parte, e que despojou a nobreza dos seus privilégios? Não protestei contra a declaração dos direitos do homem, não que pensasse em os diminuir, mas porque julgava que o dia da sua proclamação ainda não tinha chegado? Hoje, finalmente, não os servi além do que podiam esperar? Não obtive à custa da minha honra, da minha popularidade, da minha vida, mais do que nenhum homem, fosse ele ministro ou príncipe, poderia obter para eles. E quando penso - reflicta bem, grande filósofo, porque a queda da monarquia consiste talvez neste facto - quando penso que devo olhar como um grande favor, tão grande que só uma vez me foi concedido, o ter falado com a rainha; quando penso que se meu pai não morresse na véspera da tomada da Bastilha, e a decência me não impedisse de aparecer no dia seguinte ao da sua morte, no dia em que Lafayette foi nomeado general da guarda nacional, e Bailly maire, seria eu nomeado maire em lugar de Bailly!... Então as coisas mudariam: o rei ver-se-ia imediatamente na necessidade de entrar em relações comigo; inspirar-lhe-ia idéias contrárias às que tem sob a direcção duma cidade, que encerra em seu seio a revolução; havia de conquistar-lhe a confiança, e levá-lo antes que o mal estivesse tão profundamente inveterado, a medidas decisivas de conservação; ao passo que, simples deputado, homem suspeito, invejado, temido e odiado, afastaram-me do rei e caluniaram-me perante a rainha. Acredita uma coisa, doutor? Quando ela me viu em Saint-Cloud empalideceu... e o motivo é simples: não lhe fizeram acreditar que fui eu o autor da revolta nos dias 5 e 6 de Outubro? E todavia, durante este ano, eu faria tudo o que me tem impedido de fazer, ao passo que hoje... Ah! hoje para a saúde da monarquia, como para a minha, tenho medo que seja demasiado tarde!

      E Mirabeau, transparecendo-lhe no rosto uma profunda expressão de dor, arrepanhou com força a carne do peito acima do estômago...

      - Que tem, conde, está incomodado? – perguntou carinhosamente Gilberto.

      - Como um danado!... Há dias em que, palavra de honra, o que me fazem no meu moral com a calúnia, creio que o fazem no meu físico com o arsénico... Acredita no veneno dos Bórgias? Na água tofana de Pérouse, e nos pós de sucessão de la Voisin, doutor? - perguntou sorrindo Mirabeau.

      - Não, mas creio na lâmina ardente que queima a bainha, creio na lâmpada, cuja chama quando se chega a dilatar, faz rebentar o vidro.

      Gilberto tirou da algibeira um pequeno frasco de cristal, que continha um licor esverdeado, quanto bastasse para encher dois dedais.

      - Conde, vamos fazer um ensaio.

      - De quê? - perguntou Mirabeau olhando para o frasco com curiosidade.

      - Um amigo meu, que eu desejava também o fosse seu, e que é muito instruído em todas as ciências naturais, e até, segundo ele pretende, nas ciências ocultas, deu-me a receita desta bebida, como antídoto soberano, como uma panaceia universal, quase como o elixir da vida. Muitas vezes, quando estou possuído desses sombrios pensamentos que levam os nossos vizinhos da Inglaterra à melancolia, ao spleen e até à morte, tendo bebido algumas gotas deste licor, devo dizê-lo, sempre o efeito tem sido salutar e pronto... Quer o meu caro conde de Mirabeau experimentá-lo também?

      - Da sua mão, caro doutor, tomaria o próprio veneno: quanto mais o elixir da vida... É preciso algum preparo, ou deve tomar-se puro?...

      - Não, porque este licor possui na realidade um grande poder. É preciso usar dele muito cautelosamente. Diga ao seu criado que lhe traga algumas gotas de aguardente ou de espírito de vinho numa colher.

      - Diabo! Espírito de vinho ou aguardente para adoçar a sua bebida! Então é fogo líquido? Ignorava que alguém o tivesse bebido depois de Prometheo o ter dado ao avô do género humano... Mas previno-o de que duvido que o meu criado encontre em toda a casa seis gotas de aguardente: não sou como Pitt, e não é aí que vou buscar a minha eloqüência.

      Todavia o criado, passados alguns minutos, voltou com uma colher com cinco ou seis gotas de aguardente.

      Gilberto juntou-lhe uma quantidade igual do licor que continha o frasco. No mesmo instante, os dois licores combinados tomaram a cor do absinto. Mirabeau, sem hesitar, pegando na colher bebeu-o com a maior naturalidade.

      - Por certo! Doutor - disse ele a Gilberto – fez bem em me prevenir de que esta droga era vigorosa; parece-me, literalmente, ter bebido um relâmpago!

      Gilberto sorriu, e pareceu esperar com confiança o efeito que o elixir devia produzir.

      Mirabeau ficou um instante abatido por aquelas gotas de fogo, com a cabeça inclinada para o peito e a mão apoiada no estômago; mas, de repente, levantando a cabeça, exclamou cheio de entusiasmo:

      - Oh! Doutor, é verdadeiramente o elixir da vida o que me fez beber!

      Depois, levantando-se com a respiração estrondosa, a cabeça erguida o mais que podia, os braços estendidos, continuou:

      - Caia embora a monarquia! Sinto-me com força para a sustentar.

      Gilberto sorriu e perguntou:

      - Então sente-se melhor?

      - Doutor, ensine-me onde se vende esta bebida, e ainda que tenha de pagar cada gota com um diamante igual em grossura, que tenha de renunciar a todo o luxo por este luxo de força e de vida, respondo-lhe que também possuirei essa chama líquida, e então julgar-me-ei invencível.

      - Conde - disse Gilberto - prometa-me tomar esta bebida duas vezes por semana, e dirigir-se a mim para renovar a sua provisão, que lhe dou já este frasco.

      - Dê-mo - disse o conde de Mirabeau - e prometo tudo o que quiser.

      - Aqui o tem, meu ilustre amigo - disse Gilberto. - Mas ainda não é tudo... não basta o licor. Vai ter cavalos e carruagens, disse-me o senhor?

      - Vou sim.

      - Está bem, viverá no campo. Estas flores que viciam o ar do seu quarto, purificam o ar de um jardim. O caminho que fará todos os dias para vir a Paris e voltar para o campo será um passeio saudável. Escolha, se for possível, uma residência situada num ponto elevado, num bosque, ou perto de um rio; Bellevue, Saint-Germain ou Argenteuil.

      - Argenteuil? - replicou Mirabeau; - justamente aí mandei o meu criado procurar casa. Teisch, não me disseste que tinhas ali encontrado alguma coisa que me convinha?

      - Sim, Sr. conde - respondeu o criado, que assistira à cura operada por Gilberto; - sim, uma casa encantadora, em que me falou um tal Fritz, meu compatriota; ele habitara-a, segundo julgo, com o amo, que é um banqueiro estrangeiro. Está desabitada, e o Sr. conde pode alugá-la quando quiser.

      - Onde é situada a casa?

      - Fora de Argenteuil... Chamam-lhe o castelo do Marais.

      - Oh! Conheço-a - disse Mirabeau. - Muito bem, Teisch... Quando meu pai me expulsava de casa, com a sua maldição e algumas bengaladas... Sabe, doutor, que meu pai habitou em Argenteuil?

      - Sei.

      - Pois quando me expulsava de casa aconteceu-me muitas vezes passar pelo exterior dessa bela habitação, e dizer como Horácio creio eu - perdão se a citação é falsa: O rus quando te aspiciam!

      - Então meu caro conde, chegou o momento de realizar o seu sonho; parta; vá ver a casa do Marais, e mude para lá a sua residência o mais depressa possível.

      Mirabeau reflectiu um instante, e voltando-se para Gilberto, disse:

      - Vejamos, caro doutor, é do seu dever velar pelo doente, que acaba de ressuscitar; são cinco horas da tarde, estamos nos dias grandes do ano, está bom tempo; subamos para a carruagem, e vamos a Argenteuil.

      - Está dito, conde, vamos a Argenteuil – respondeu Gilberto. - Quando se empreende a cura de uma saúde tão preciosa como a sua, meu caro conde, é preciso estudar tudo... Vamos estudar a sua casa do campo.

 

Para além de quatro graus termina o parentesco

      Mirabeau não tinha ainda casa pronta, e por conseqüência não tinha carruagem. O criado foi buscar uma do aluguer.

      Naquela época era quase uma jornada ir a Argenteuil, onde se vai hoje em onze minutos, e onde talvez daqui a dez anos se vá em onze segundos!

      Porque tinha Mirabeau escolhido Argenteuil? É porque algumas recordações da sua vida, como dissera ao doutor, se prendiam à pequena cidade, e porque o homem sente tão grande necessidade de duplicar o curto período da existência, que lhe foi concedida, que se agarra tanto quanto pode ao passado para ser menos rapidamente arrastado para o futuro.

      Fora em Argenteuil que o pai, o marquês de Mirabeau, morrera, a 14 de Julho de 1789, como devia morrer um verdadeiro fidalgo, que não queria assistir à tomada da Bastilha.

      Por isso no fim da ponte de Argenteuil, Mirabeau fez parar a carruagem.

      - Estamos chegados? - perguntou o doutor.

      - Sim e não... Não chegámos ainda ao castelo do Marais, que está situado a um quarto de légua para lá de Argenteuil, mas o que fazemos hoje, caro doutor, esqueci-me de lho dizer, não é uma simples visita, é uma romaria em três estações.

      Uma romaria! - disse Gilberto sorrindo - a que santo?

      - A S. Riquetti, meu caro doutor; é um santo que não conhece, um santo que os homens canonizaram.

      - Em verdade, duvido muito que Deus, supondo que se ocupe de todas as misérias deste pobre mundo, tenha ratificado a canonização; mas o certo é que foi aqui que se finou S. Riquetti, marquês de Mirabeau, amigo dos homens, conduzido à morte pelos excessos e deboches de seu indigno filho, Honorato Gabriel-Victor-Riquetti de Mirabeau.

      - Ah! É verdade - disse o doutor - foi aqui que morreu seu pai. Perdoe-me tê-lo esquecido meu caro conde; a minha desculpa consiste nisto: chegava da América quando fui preso na estrada do Havre a Paris nos primeiros dias de Julho, e estava na Bastilha quando seu pai faleceu. Saí de lá a 14 de Julho com os outros sete prisioneiros, e por grande que fosse este esquecimento único, estão senão o facto, pelo menos os pormenores, perdidos entre os acontecimentos que sucederam no mesmo mês... Onde habitava seu pai?

      No mesmo momento em que Gilberto fazia esta pergunta, Mirabeau parava diante da grade de uma casa situada próximo do cais, em frente do rio, do qual estava separada por um tabuleiro de relva de quase trezentos passos e por uma rua de árvores.

      Vendo parar um homem diante da grade, um enorme cão da raça dos Pirinéus correu ladrando, passou à cabeça através dos varões da grade, e tentou morder algum pedaço de carne, ou alguma parte do fato de Mirabeau.

      - Por Deus, doutor - disse ele recuando para escapar aos dentes brancos e ameaçadores do cão - nada está mudado, recebem-me como no tempo de meu pai!

      Entretanto apareceu um mancebo no poial, fez calar o cão, chamou-o e dirigiu-se aos dois estranhos.

      - Perdão, senhores, nada têm que temer da recepção que lhes faz o cão. Muitas pessoas param diante desta casa, outrora habitada pelo Sr. marquês de Mirabeau, e como o pobre Cartouche não pode compreender o interesse histórico, que se liga à habitação dos seus humildes donos, por isso ladra eternamente! Para casa Cartouche!

      O mancebo fez um gesto ameaçador, e o cão, sempre ladrando, foi ocultar-se na sua casinha, por cujas aberturas passou imediatamente as duas patas dianteiras, sobre as quais estendeu o focinho, mostrando-lhe os dentes agudos, a língua ensangüentada e os olhos de fogo.

      Durante este tempo Mirabeau e Gilberto trocaram um rápido olhar.

      - Senhores - continuou o mancebo - agora não há dentro desta grade mais do que um hóspede pronto a abri-la se a sua curiosidade se não limita a olhar para o exterior.

      Gilberto tocou em Mirabeau com o cotovelo, em sinal de que visitaria de boa vontade o interior da casa.

      Mirabeau compreendeu-o, tanto mais quanto o seu desejo concordava com o de Gilberto, e disse:

      - Senhor, leu decerto no nosso pensamento; sabíamos que esta casa fora habitada pelo amigo dos homens e estávamos desejosos de a visitar.

      - E a sua curiosidade redobrará, senhores - replicou o mancebo - quando souberem que duas ou três vezes, durante o tempo em que ele aqui morou, foi honrada com a visita do seu ilustre filho, que, se acreditarmos a tradição, nem sempre foi recebido como devia, e como nós o receberíamos se tivesse o desejo que os senhores mostram, e ao qual me apresso em satisfazer.

      E inclinando-se, o mancebo abriu a porta aos dois visitantes, afastou a grade e caminhou adiante deles.

      Mas Cartouche, que não parecia disposto a deixá-los gozar assim da hospitalidade, que lhes era oferecida, saltou de novo para fora da sua casinha com horríveis latidos.

      O mancebo lançou-se entre o cão e o hóspede, contra quem o animal parecia mais particularmente raivoso.

      Mas Mirabeau, afastando o mancebo com a mão, disse:

      - Senhor, os cães e os homens têm ladrado muito contra mim; os homens têm-me mordido algumas vezes, os cães nunca. Além disso, diz-se que a vista humana é muito poderosa sobre os animais; peço-lhe que me deixe fazer a minha experiência.

      - Senhor - disse o mancebo - previno-o de que o Cartouche é mau.

      - Deixe, deixe, senhor - respondeu Mirabeau; - trato todos os dias com animais piores do que ele, e ainda hoje fui aplaudido por uma matilha completa.

      - Sim, mas a essa matilha pôde falar e ninguém contesta o poder da sua palavra - disse-lhe baixo Gilberto.

      - Doutor, não é um adepto do magnetismo?

      - Sem dúvida... Mas por quê?

      - Porque deve conhecer nesse caso o poder do olhar... Deixe-me magnetizar o Cartouche.

      Mirabeau falava esta linguagem perigosa, só bem compreendida pelos espíritos superiores.

      - Opere - disse Gilberto.

      - Oh! Senhor - repetiu o mancebo - não se exponha!

      - Por obséquio - disse Mirabeau.

      O mancebo inclinou-se em sinal de assentimento, e passou para a esquerda, enquanto Gilberto ficava à direita, como fazem os padrinhos num duelo, quando o adversário lhes vai atirar ao afilhado.

      Apesar disso, o mancebo, subido dois ou três degraus do poial, estava pronto a prender Cartouche, se a palavra ou o olhar do desconhecido não fossem suficientes.

      O cão voltou a cabeça para a direita e para a esquerda, como para examinar se aquele a quem parecia ter votado um ódio implacável estava bem isolado de todo o socorro; depois vendo-o só e desarmado, rojou-se lentamente para fora de casa, mais como serpente do que como quadrúpede, saltou repentinamente, e do primeiro salto percorreu o terço de caminho que o separava do seu adversário.

      Então Mirabeau cruzou os braços, e com o poderoso olhar, que fazia dele o Júpiter tonante da tribuna, cravou a vista no animal.

      Imediatamente, tudo o que aquele corpo tão vigoroso podia conter de electricidade pareceu subir-lhe à fronte; o cabelo eriçou-se como a juba de um leão, e se em lugar de ser àquela hora do dia, em que o Sol já declina mas ainda alumia, tivesse sido às primeiras horas da noite, sem dúvida que de cada cabelo se lhe veria saltar uma faísca.

      O cão ficou imóvel e olhou para ele.

      Mirabeau abaixou-se, apanhou um punhado de areia e atirou-lha ao focinho.

      O cão rugiu e deu outro salto, que o aproximou três ou quatro passos do seu adversário; mas, então, foi este que caminhou para o cão.

      O animal ficou imóvel um instante, como o cão de granito do caçador Céfalo; mas inquieto pela marcha progressiva de Mirabeau, pareceu hesitar entre a cólera e o temor, ameaçou-o com os dentes e os olhos, firmando-se sempre nas patas traseiras.

      Finalmente, Mirabeau levantou o braço com aquele gesto dominador, que tantas vezes lhe havia aproveitado na tribuna, quando lançava aos seus inimigos o sarcasmo, a injúria ou a ironia, e o cão vencido, tremendo-lhe todos os membros, recuou olhando para trás para se certificar se o seu asilo estava aberto, e voltando sobre si, entrou precipitadamente na casinha.

      Mirabeau levantou a cabeça altiva como a de um vencedor dos jogos ístmicos

      - Ah! Doutor - disse ele - o Sr. de Mirabeau, pai, tinha bastante razão em dizer que os cães eram candidatos à humanidade: viu aquele insolente, e vai vê-lo servir como um homem.

      Ao mesmo tempo, deixou pender a mão ao longo da perna, e com voz imperiosa bradou:

      - Aqui, Cartouche! aqui!

      O cão hesitou; mas com um gesto de impaciência saiu pela segunda vez da casa, fixou novamente os olhos nos de Mirabeau, transpôs assim toda a distância que o separava do seu vencedor, e rojando-se-lhe aos pés, levantou lenta e timidamente a cabeça, e com a ponta da língua arquejante tocou-lhe na extremidade dos dedos.

      - Está bem - disse Mirabeau - para casa!

      Fez um gesto e o cão foi deitar-se.

      Depois, voltando-se para Gilberto, ao passo que o mancebo permanecia sobre o poial trémulo de medo e mudo de admiração, continuou:

      - Sabe, meu caro doutor, em que pensava quando fiz a loucura de que foi testemunha?

      - Não, mas diga... porque não foi por simples bazófia, não é verdade?

      - Pensava na famosa noite de 5 para 6 de Outubro... Doutor, doutor, daria metade dos dias que me restam para que o rei Luís XVI visse este cão correr para mim, entrar na sua pousada e vir lamber-me a mão.

      Depois, voltando-se para o mancebo, acrescentou:

      - Decerto que me perdoará, senhor, por haver abatido Cartouche!... Vamos ver a casa do amigo dos homens, visto que faz o favor de no-la mostrar.

      O mancebo afastou-se para deixar passar Mirabeau, que parecia não necessitar de guia, pois conhecia a casa tão bem, como se a tivesse habitado.

      Sem se demorar nos quartos baixos, subiu rapidamente a escada, que tinha um corrimão de ferro perfeitamente trabalhado, dizendo:

      - Por aqui, doutor, por aqui!

      Efectivamente, com o atractivo que lhe era natural, com o hábito de dominar, que fazia parte do seu temperamento, de espectador, Mirabeau passou a ser actor, de simples visita a dono da casa.

      Gilberto seguiu-o.

      Durante este tempo, o mancebo chamava o pai, bom burguês de cinqüenta e cinco anos, e as irmãs, raparigas de quinze a dezoito anos, para lhes dizer que estranho hóspede tinha recebido.

      Enquanto contava a história da submissão de Cartouche, Mirabeau mostrava a Gilberto o gabinete de trabalho, o quarto da cama e a sala do marquês de Mirabeau.

      E como cada peça visitada acordava nele uma recordação, Mirabeau contava anedotas, sobre anedotas, com o encanto e os atractivos que lhe eram peculiares.

      O proprietário e a família escutavam o cicerone, que lhes contava a história da própria casa, abrindo-a para verem e ouvirem melhor os olhos e ouvidos.

      Visitado o andar superior, e como davam sete horas na igreja de Argenteuil, Mirabeau receou que lhe faltasse o tempo para o que queria fazer, e pediu a Gilberto descesse, dando o exemplo, e descendo rapidamente os quatro degraus.

      - Senhor - disse então o proprietário - visto que sabe tantas histórias do marquês de Mirabeau, e do seu ilustre filho, parece-me que, se quisesse, poderia contar-nos a respeito destes quatro degraus uma história, que não seria a menos curiosa.

      Mirabeau parando sorriu-se e disse:

      - É verdade, mas desejava passá-la em claro.

      - Por que, conde? - perguntou o doutor.

      - Vai julgá-lo ouvindo o que vou dizer:

      “Voltando da torre de Vincennes, onde tinha estado dezoito meses, Mirabeau, que tinha o dobro da idade do filho pródigo, e que nem sequer se lembrara de que se preparassem para matar o vitelo gordo pela alegria do seu regresso, teve a idéia de reclamar a sua legítima. Havia dois motivos para que Mirabeau fosse mal recebido na casa paterna; primeiro saíra de Vincennes contra vontade do marquês; depois entrava em casa para pedir dinheiro; daí resultou que o marquês, ocupado em dar fim a uma obra filantrópica, levantou-se logo que avistou o filho, pegou na bengala às primeiras palavras que pronunciou, e correu sobre ele, logo que ouviu a palavra dinheiro. O conde conhecia o pai, e todavia esperava que os seus trinta e sete anos o salvassem da correcção que o ameaçava; breve reconheceu o seu engano, sentindo as bengaladas nas costas.”

      - Como! Bengaladas?

      - Sim, verdadeiras e boas bengaladas, não como as que se dão e recebem na Comédia Francesa, nas peças de Molière, mas bengaladas reais, de racharem a cabeça e quebrarem os braços.

      - O que fez então o conde de Mirabeau? –perguntou Gilberto.

      - Fez o mesmo que Horácio no seu primeiro combate, fugiu. Infelizmente, não tinha, como Horácio, um escudo, porque, em vez de o arremessar, como fez o poeta da Lídia, servir-se-ia dele para aparar os golpes; mas, não o tendo, saltou os quatro primeiros degraus desta escada, quase como eu acabo de fazer, talvez ainda mais depressa; chegando ali, voltou-se, levantou também a bengala e bradou ao pai: “Alto lá, senhor! que para além de quatro graus acaba o parentesco!” O trocadilho era chato, mas, apesar disso, deteve o bom do conde mais depressa do que a melhor razão. “Que pena ter morrido o bailio, senão mandava-lhe contar isso”. Mirabeau - continuou o narrador - era muito astucioso para que deixasse de aproveitar a ocasião que se lhe oferecia de fazer tréguas. Desceu o resto dos degraus, quase tão rapidamente como os primeiros, e com grande pesar dele, nunca mais aqui entrou... É um grande velhaco, o tal conde de Mirabeau, não lhe parece, doutor?

      - Oh! Senhor! - exclamou o mancebo aproximando-se de Mirabeau com as mãos postas, e como que se lhe pedisse perdão por ter uma opinião tão oposta à dele; - eu acho que é um grande homem!

      Mirabeau, voltando-se e olhando para o mancebo, de frente, disse:

      - Oh! Oh! Pois há alguém que pense isso do conde de Mirabeau?

      - Sim, senhor - disse o mancebo - e ainda que lhe desagrade, penso-o eu primeiro que todos.

      - Oh! - replicou o conde rindo - não diga isso muito alto nesta casa, porque quando menos o esperar, podem as paredes desabar-lhe em cima, o que seria pouco agradável.

      Depois, saudando respeitosamente o velho, e mui cortesmente as duas meninas, atravessou o jardim, fazendo com a mão um sinal amigável a Cartouche, que lho retribuiu com um grunhido, em que um resto de raiva se misturava com a submissão.

      O Dr. Gilberto seguiu Mirabeau, que ordenou ao cocheiro que andasse para a cidade e parasse defronte da igreja.

      À esquina da primeira rua mandou parar a carruagem, e tirando da carteira um bilhete de visita, disse ao criado:

      - Teisch, vai entregar este bilhete da minha parte àquele bom rapaz que não é da minha opinião a respeito de Mirabeau.

      Depois, soltando um profundo suspiro, dirigindo-se ao doutor, acrescentou:

      - Oh! Aquele é um dos que ainda não leram A grande traição do Sr. de Mirabeau!

      Teisch voltou, vindo acompanhado pelo mancebo.

      - Oh! Sr. conde - disse ele possuído da maior admiração, no que não podia haver engano; - conceda-me o mesmo que concedeu a Cartouche, isto é, a honra de lhe beijar a mão.

      Mirabeau abriu os braços e apertou o mancebo contra o peito.

      - Sr. conde - disse ele - chamo-me Mamais; se alguma vez tiver precisão de alguém que morra pelo senhor, lembre-se de mim.

      As lágrimas assomaram aos olhos de Mirabeau.

      - Doutor - disse ele - aqui tem os homens que hão-de suceder-nos. Creio que valem mais do que nós, palavra de honra!

 

Uma mulher que se parece com a rainha

      A carruagem parou à porta da igreja de Argenteuil.

      - Disse-lhe que não tornara mais a Argenteuil desde o dia em que meu pai me expulsou de casa às bengaladas; enganava-me, voltei aqui no dia em que lhe acompanhei o corpo a esta igreja.

      Mirabeau apeou-se, tirou reverentemente o chapéu, e com a cabeça descoberta, com passo lento e solene, entrou na igreja.

      Aquele homem encerrava em si sentimentos tão opostos, que tinha várias vezes ataques de religião, na época em que todos eram filósofos, e em que alguns levavam a filosofia até ao ateísmo.

      Gilberto seguia-o a pequena distância. Viu Mirabeau atravessar toda a igreja, junto do altar da Virgem, ir encostar-se a uma coluna maciça, cujo capitel romano parecia ter inscrita a data do século XIII.

      Inclinou a cabeça, e fixou os olhos numa lápide negra, que formava dentro da capela.

      O doutor procurou saber o que absorvia assim o pensamento do conde de Mirabeau; seguiu-lhe com a vista a direcção dos olhos, e bem depressa os deteve na seguinte inscrição:

 

AQUI JAZ

FRANCISCA CASTELLANE, MARQUESA DE MIRABEAU.

MODELO DE PIEDADE E DE VIRTUDES, ESPOSA E MÃE

VENTUROSA;

NASCEU NO DELFINADO EM 1685

E MORREU EM PARIS EM 1779.

SEPULTADA EM S. SULPÍCIO, E DEPOIS TRASLADADA

PARA AQUI PARA SE REUNIR, NA MESMA SEPULTURA,

COM SEU DIGNO FILHO,

VICTOR DE RIQUETTI, MARQUÊS DE MIRABEAU,

DENOMINADO O AMIGO DOS HOMENS;

NASCIDO EM PERTUIS, NA PROVENÇA,

A 4 DE OUTUBRO DE 1715

MORREU EM ARGENTEUIL, A 11 DE JULHO DE 1789.

ROGAI A DEUS PELAS SUAS ALMAS.

     

      A religião da morte é tão forte, que o Dr. Gilberto inclinou um momento a cabeça, e procurou na memória se ainda lhe restava alguma oração qualquer para obedecer ao convite que fazia a todo o cristão à pedra sepulcral que tinha diante dos olhos.

      Mas, se alguma vez na infância (o que é duvidoso) Gilberto soube falar a linguagem da humildade e da fé, a dúvida, essa gangrena do século passado, riscara até a última linha daquele livro vivo, e a filosofia escrevera nele os seus sofismas e paradoxos.

      Encontrando o coração seco e a boca muda, levantou os olhos e viu duas lágrimas caírem da altiva face de Mirabeau, sulcada pelas paixões, como o terreno de um vulcão o é pela lava.

      Aquelas duas lágrimas comoveram estranhamente Gilberto; correu para ele e apertou-lhe a mão.

      Mirabeau compreendeu-o.

      Lágrimas derramadas pela lembrança de um pai, que tinha encarcerado, torturado e martirizado Mirabeau, deviam ser lágrimas incompreensíveis ou banais.

      O conde deu-se pressa em explicar a Gilberto a verdadeira causa daquela sensibilidade.

      - Era uma digna mulher esta Francisca de Castellane, mãe de meu pai; quando todos me achavam horrível, ela contentava-se com achar-me apenas feio; quando todo o mundo me odiava, ela quase que me amava; mas a quem ela amava sobretudo, era ao filho. Assim, pois, como vê, meu caro Gilberto, eu reuni-os...

      Fez uma pausa e continuou:

      - A quem me ajuntarão? A mim, que nem sequer tenho um cão que me consagre amor?!

      E riu dolorosamente.

      - Senhor - disse alguém com uma voz, cuja entoação era áspera, cheia de censura, desta que só pertence aos devotos - não se ri na igreja.

      Mirabeau voltou o rosto marejado de lágrimas para o lado donde vinha a voz, e viu um padre.

      - Senhor - disse ele com doçura - é o cura desta capela?

      - Sim, senhor; que me quer?

      - Tem muitos pobres na sua paróquia?

      - Mais do que pessoas a dar-lhes esmola.

      - Todavia, o senhor conhece alguns corações caridosos, alguns espíritos filantrópicos?

      O padre pôs-se a rir.

      - Senhor - observou Mirabeau - creio que me tinha feito a honra de avisar-me de que se não ria nas igrejas!

      - Senhor - disse o cura ferido - terá acaso a pretensão de me dar uma lição?

      - Não, senhor, mas a de lhe provar que as pessoas que compreendem que é seu dever vir em socorro de seus irmãos, não são tão raras como pensa. Assim, senhor, vou, segundo toda a probabilidade, habitar o castelo do Marais; por isso qualquer trabalhador, a quem falte trabalho ali o encontrará, bem como bom salário; qualquer velho que tenha fome lá encontrará pão; qualquer doente, sejam quais forem os seus princípios religiosos e a sua opinião política, achará ali socorro; e de hoje em diante, Sr. cura, ofereço-lhe para esse fim um crédito de mil francos mensais.

      Depois, arrancando-lhe uma folha do seu livro de lembranças, escreveu a lápis:

     

      “Abono a soma de doze mil francos, que o Sr. cura de Argenteuil poderá sacar sobre mim, à razão de mil francos por mês, que serão empregados por ele em obras de caridade, a começar no dia da minha instalação no castelo do Marais.

      Feito na igreja de Argenteuil, e assinado sobre o altar da Virgem.

      Mirabeau, Sénior.”

     

      Efectivamente, Mirabeau, escrevera e assinara aquela letra de câmbio sobre o altar da Virgem.

      Entregou a letra de câmbio ao cura, que ficou estupefacto antes de ler a assinatura, mas muito mais depois de a ter lido.

      Depois saiu da igreja, fazendo ao Dr. Gilberto sinal para que o seguisse.

      Subiram para a carruagem.

      Por pouco que Mirabeau se demorasse em Argenteuil, aí deixava atrás de si, na passagem, duas recordações, que o deviam ir engrandecendo para o futuro.

      O gosto de certas organizações é fazerem brotar um acontecimento de qualquer sítio onde põem os pés.

      É Cadmus dispersando os soldados no solo de Tebas.

      É Hércules espalhando os seus doze trabalhos sobre a face da terra.

      Ainda hoje, e todavia Mirabeau morreu há sessenta anos, vão a Argenteuil, façam, no mesmo lugar em que Mirabeau as fez, as duas pausas que indicamos, e a não ser que a casa esteja desabitada, ou a igreja deserta, encontrarão alguém que lhes conte detalhadamente, como se o caso se tivesse passado ontem, o que acabámos de referir-lhes.

      A carruagem seguiu a grande rua até ao fim; depois deixou Argenteuil, e rodou sobre o caminho de Bessons. Não teria feito cem passos sobre este caminho, quando Mirabeau avistou à sua direita as árvores copadas de um parque, separadas pelos telhados avermelhados do palácio, e suas dependências.

      Era o Marais.

      À direita da estrada que seguia a carruagem, antes de chegar ao caminho, que ia ter à grade do palácio, elevava-se uma pobre cabana.

      Diante da porta desta, estava uma mulher assentada num banco de pau, tendo nos braços uma criança magra e devorada pela febre.

      A mãe, acalentando sempre aquele meio cadáver levantava os olhos para o Céu, e chorava.

      Dirigia-se Àquele a quem todos se dirigem, quando nada mais esperam dos homens.

      O conde de Mirabeau fixou de longe os olhos no triste espectáculo.

      - Doutor - disse ele - sou supersticioso como um velho. Se aquela criança morre, não tomo o caminho do Marais... Veja-a que isso diz-lhe respeito.

      Mandou parar a carruagem em frente da choupana.

      - Doutor - continuou ele - como só tenho vinte minutos para ver a casa, deixo-o aqui. Irá ter comigo, e dir-me-á se espera salvar a criança.

      Depois dirigindo-se à mãe, disse:

      - Boa mulher, aqui tem este senhor, que é um grande médico, agradeça à Providência, que lho envia; vai tentar salvar seu filho.

      A mulher não sabia se era sonho.

      Levantou-se trazendo o filho nos braços, balbuciando alguns agradecimentos.

      Gilberto apeou-se.

      A carruagem continuou o seu caminho.

      Cinco minutos depois, Teisch batia à grade do castelo.

      Esperaram algum tempo, sem verem aparecer pessoa alguma; por fim um homem, que pelo trajo era fácil de conhecer pelo jardineiro, veio abrir.

      Mirabeau informou-se primeiro do estado em que estava a casa.

      Estava nos casos de ser habitada, ao que pelo menos dizia o jardineiro, e até conforme à primeira vista parecia.

      Fazia parte do domínio da Abadia de Saint-Denis como principal lugar do priorado de Argenteuil, e vendia-se em virtude dos decretos publicados a respeito dos bens do clero.

      Mirabeau, como já dissemos, já a conhecia, mas nunca tivera ocasião de examiná-la tão minuciosamente, quanto lhe era permitido naquela ocasião.

      Aberto o portão, entrou num pátio quase quadrado. À direita era o pavilhão habitado pelo jardineiro; à esquerda outro pavilhão, que pela elegância com que estava decorado, mesmo exteriormente, podia duvidar-se de que fosse igual ao primeiro.

      Contudo, era igual; mas do pavilhão plebeu o preparo tinha feito uma habitação quase aristocrata. Gigantescas roseiras cobertas de flores o vestiam com uma capa matizada, ao passo que uma faixa lhe cingia toda a cintura com um cordão verde. Cada uma das janelas era tapada por uma cortina de cravos, girassóis e violetas, cujos ramos espessos, cujas flores desabrochando, impediam ao mesmo tempo o Sol e a vista de penetrarem no quarto; um pequeno jardim, todo de lírios, cactos e narcisos, um verdadeiro tapete, que visto de longe, dir-se-ia bordado pela mão de Penélope, começava na casa e alargava-se em toda a extensão do primeiro pátio, terminado por um gigantesco salgueiro florido, e por magníficos olmeiros plantados do lado oposto.

      Já descrevemos a paixão de Mirabeau pelas flores.

      Vendo o pavilhão perdido entre as rosas e o pequeno jardim, que parecia fazer parte da casa de Flora, deu um grito de alegria, e disse ao jardineiro.

      - Oh! Este pavilhão é para alugar ou para vender?

      - Está claro, senhor - respondeu este - que uma vez que pertence ao palácio, vende-se ou arrenda-se. Contudo, agora está habitado; mas como não há arrendamento, se o senhor alugar a casa, pode-se despedir a pessoa que o habita.

      - Ah! - disse Mirabeau - quem é essa pessoa?

      - Uma senhora.

      - Ainda moça?

      - De trinta e cinco anos.

      - Bonita?

      - Muito bonita.

      - Bem - disse Mirabeau - veremos... Uma boa vizinha não faz mal. Mostra-me o castelo.

      O jardineiro caminhou adiante de Mirabeau, atravessou uma ponte que separava o primeiro pátio do segundo, abaixo da qual passava um pequeno rio.

      O jardineiro parou ali.

      - Se o senhor não quisesse despedir a inquilina do pavilhão, este pequeno rio isola completamente a porção do parque relativa ao pavilhão do resto do jardim, e cada qual estaria na sua casa.

      - Bom, bom, vejamos o palácio.

      O conde de Mirabeau subiu rapidamente os cinco degraus da entrada.

      O jardineiro abriu a porta principal.

      A porta dava para um vestíbulo de estuque, onde havia estátuas em nichos e colunas com vasos, segundo a moda do tempo.

      Uma porta aberta ao fim do vestíbulo, em frente da entrada, dava passagem para o jardim.

      À direita do vestíbulo ficavam a sala do bilhar e a do jantar.

      À esquerda havia outras duas salas, uma grande e outra pequena.

      Esta primeira disposição agradara bastante a Mirabeau, que ao mesmo tempo parecia distraído e impaciente.

      Subiram ao primeiro andar.

      Compunha-se de uma grande sala, maravilhosamente disposta para fazer um gabinete de trabalho, e de três ou quatro quartos de cama.

      As janelas da sala e dos quartos estavam fechadas.

      Mirabeau foi a uma delas e abriu-a.

      O jardineiro quis abrir as outras.

      Mirabeau fez-lhe sinal com a mão e o jardineiro parou.

      Justamente por baixo da janela que Mirabeau acabava de abrir, ao pé de um imenso chorão, estava uma mulher lendo, meio recostada, ao passo que um menino de cinco ou seis anos, a alguns passos distante dela, brincava na relva com as flores.

      Mirabeau julgou que fosse a dama do pavilhão.

      Era impossível estar mais graciosa e mais elegantemente vestida do que aquela senhora, com o seu ligeiro penteador de cassa guarnecido de rendas, que lhe cobria a jaquetinha de tafetá branco com laços cor de rosa e branca, com a sua saia de cassa branca, com folhos cor de rosa e brancos como a jaquetinha, com um corpete de tafetá cor de rosa de laços da mesma cor, e o seu capuz todo guarnecido de rendas, caídas como um véu, e através das quais, como através de uma nuvem de vapor, se lhe podia distinguir o rosto.

      Mãos finas, compridas, de unhas aristocratas, pés de criança, que brincavam em duas chinelinhas de tafetá cor de rosa com laços brancos, completavam este harmonioso e sedutor conjunto.

      O menino, todo vestido de cetim branco, trazia, contraste singularíssimo, bem que muito comum naquela época, um pequeno chapéu à Henrique IV e um cinto tricolor, dos que se chamavam cintos à nação.

      Era pouco mais ou menos assim o vestuário, que trazia o delfim a última vez que aparecera com a mãe numa janela das Tulherias.

      O sinal feito por Mirabeau, tinha por fim não perturbar a gentil ledora.

      Era a bela do pavilhão das flores; era a rainha dos lírios, dos cactos e dos narcisos; era finalmente a vizinha que Mirabeau, homem sempre entregue às voluptuosidades, de bom grado escolheria, se o acaso não tivesse deparado. Durante algum tempo, devorou com os olhos a encantadora criatura, imóvel como uma estátua, e ignorante do olhar ardente que a cobria; mas, acaso, ou corrente magnética, afastando os olhos do livro, volveu-os para a janela.

      Viu Mirabeau, deu um pequeno grito de surpresa, levantou-se, chamou o filho, afastou-se levando-o pela mão, não sem voltar a cabeça duas ou três vezes, e desapareceu com o menino por entre as árvores, através das quais Mirabeau lhe seguiu as diferentes reaparições do brilhante vestido, cuja alvura lutava com as primeiras sombras da noite.

      Ao grito de surpresa dado pela desconhecida, Mirabeau respondeu por um grito de espanto.

      Aquela mulher tinha não só o andar da rainha, como também, tanto quanto o véu de renda, que lhe cobria meio rosto, permitia ver as feições eram perfeitamente semelhantes às de Maria Antonieta.

      O menino concorria para a semelhança; era justamente da idade do segundo filho da rainha, cujo andar, cujo rosto, cujos menores movimentos tinham ficado tão presentes, não só na memória, mas, diremos também, no coração de Mirabeau, desde a entrevista de Saint-Cloud, que conheceria a rainha em toda a parte onde a encontrasse, embora estivesse envolta numa nuvem divina em que Virgílio envolvia Vénus, quando ela aparecia ao filho na praia de Cartago.

      Que estranha maravilha conduzira pois ao parque, da casa que Mirabeau ia alugar uma mulher misteriosa, que, se não era a rainha, era pelo menos o seu vivo retrato?

      Naquele momento Mirabeau sentiu a mão de alguém apoiar-se-lhe no ombro.

 

Em que a influência da senhora desconhecida começa a fazer-se sentir

      Mirabeau voltou-se sobressaltado.

      Quem lhe pusera a mão no ombro fora o Dr. Gilberto.

      - Ah - disse Mirabeau - é o senhor, caro doutor?

      - Vi o pequenito - disse Gilberto.

      - E espera salvá-lo?

      - Um médico nunca deve perder a esperança, nem sequer na presença da morte.

      - Diabo - disse Mirabeau - isso quer dizer que a doença é grave!

      - Mais do que grave! É mortal.

      - Que doença é?

      - Preciso colher algumas informações, que não deixarão de ser igualmente interessantes para quem, sem saber a que se expõe, resolve habitar esta casa.

      - O quê! - disse Mirabeau; - vai acaso dizer-me que está empestada?

      - Não, mas digo-lhe de que maneira a pobre criança apanhou a febre, de que, segundo toda a probabilidade, dentro de oito dias terá morrido. A mãe cortava o feno do castelo com o jardineiro, e para estar mais desembaraçada, deitou a criança a pouca distância destes fossos de água estagnada que cercam o parque. A boa mulher, que não tem idéia alguma do movimento da terra, deitara o filho à sombra, sem pensar que no fim de uma hora a sombra cederia o lugar ao Sol; quando voltou a buscar o filho, atraída pelos gritos, encontrou-o duplamente atacado: atacado pela demorada insolação, que lhe ofendera o tenro cérebro, e atacado pela absorção das exalações pantanosas, que tinham produzido aquele género de envenenamento, a que se chama envenenamento palustre.

      - Desculpe-me, doutor - disse Mirabeau – mas não o compreendo bem.

      - Não tem ouvido falar nas febres das lagoas Pontinas? Não conhece, ao menos pela fama, os miasmas mortíferos que se exalam dos rios toscanos? Nunca leu no poeta florentino a morte de Pia dei Talomei.

      - É verdade, doutor, sei tudo isso, mas como homem do mundo e como poeta, e não como químico. Cabanis disse-me outro tanto a última vez que o vi, a propósito da sala da câmara, onde estamos muito mal; pretendia mesmo que se não saísse três vezes em cada sessão a respirar o ar das Tulherias morreria envenenado.

      - E Cabanis tinha razão.

      - Quer ter a bondade de me explicar isso, doutor? Teria grande prazer em o ouvir.

      - Seriamente?

      - Sim, sei perfeitamente o grego e o latim; durante os quatro ou cinco anos que estive preso em diferentes épocas, graças às susceptibilidades de meu pai, estudei bastante a antiguidade; fiz mesmo nas minhas horas vagas, acerca da sobredita antiguidade, um livro obsceno, que não deixa de conter uma certa ciência, mas ignoro completamente como se pode ser envenenado na sala da assembléia nacional, a não ser por se ter sido lá mordido pelo abade Maury, ou que se tenha lido o jornal do Sr. Marat.

      - Então vou dizer-lho. Talvez a explicação seja muito obscura para um homem que tem a modéstia de se confessar pouco forte em física e ignorante em química; entretanto buscarei ser o mais claro possível.

      - Fale, doutor, nunca encontrou ouvinte mais desejoso de aprender.

      - O arquitecto que construiu a sala da assembléia, - e por desgraça, meu caro conde, os arquitectos são como o senhor, muito maus químicos - não teve a lembrança de abrir chaminés para a saída do ar viciado, nem tubos inferiores para a sua renovação. Resulta daí que as cem bocas que, fechadas na sala, aspiram o oxigénio, exalam em seu lugar vapores carbónicos; o que faz que, no fim de uma hora de sessão, especialmente no Inverno, quando as janelas estão fechadas e as cortinas corridas, o ar não seja já respirável.

      - Aí está justamente o trabalho de que me queria encarregar, ainda que só fosse para dar parte a Bailly.

      - Nada mais simples do que esta explicação; o ar puro, tal como é destinado a ser absorvido pelos pulmões, o ar, tal qual se respira numa casa meio voltada para o nascente, com água corrente na sua proximidade, isto é, com as melhores condições, para que o ar possa ser respirado, compõe-se de 77 partes de oxigénio, 21 de azote, e 2 a que chamam vapor de água.

      - Muito bem; até aí compreendo e tomo nota dos números.

      - Escute isto: o sangue venenoso passa negro e carregado de carbono para os pulmões, onde se deve vivificar pelo contacto do ar exterior, isto é, do oxigénio, que a acção respiratória vai buscar ao ar livre. Neste caso produz-se um duplo fenómeno, que designamos com o nome de fluxo de sangue. O oxigénio, posto em contacto com o sangue, combina-se com ele, de negro que era torna-o vermelho, e dá-lhe assim o elemento da vida, que se deve espalhar por toda a economia; ao mesmo tempo, o carbono, que se combinava com uma parte de oxigénio, passa-se ao estado de ácido carbónico, ou de protóxido de carbono, e exala-se, misturado com uma certa quantidade de vapor de água, no acto da respiração. O ar puro absorvido pela aspiração, e o ar viciado expulso pela respiração formam numa sala fechada uma atmosfera, que não só deixa de satisfazer às condições respiráveis, mas que ainda não pode chegar a produzir envenenamentos.

      - De maneira que, segundo a opinião do doutor, estou já meio envenenado.

      - Perfeitamente... as suas dores inferiores não procedem de outra causa senão disso; bem entendido, juntando aos envenenamentos da sala da Assembléia, os da sala do arcebispado, da torre de Vincennes, do forte de Joux e do castelo de If. Não se lembra, que a Srª. de Belegarde dizia que havia no castelo de Vincennes uma câmara que valia o seu peso em arsénico?

      - De maneira que, meu caro doutor, a pobre criança está completamente envenenada, ao passo que eu só o estou metade?

      - Sim, caro conde, e o envenenamento produziu-lhe uma febre perniciosa, que existe especialmente no cérebro e nas meninges; esta febre produziu-lhe uma doença, a que se chama simplesmente congestão cerebral, e que designarei com um nome novo, chamando-lhe, se o consente, um hidrocéfalo agudo; daí procedem as convulsões, a cara inchada, os lábios roxos, o tremor pronunciado do queixo, o envenenamento do globo ocular, a respiração cansada, o estremecimento do pulso substituindo as pulsações, e finalmente o suor viscoso, que lhe cobre todo o corpo.

      - Apre! Meu caro doutor, sabe que é de causar medo o que acaba de dizer? Na realidade, quando ouço falar um médico em termos técnicos, é como quando leio algum papel selado com os termos da chicana; sempre me parece que o que me espera de mais doce é a morte... E o que receitou à pobre criança?

      - O tratamento mais enérgico, e também um ou dois luíses embrulhados na receita que puseram a mãe no caso de o seguir: refrigerantes na cabeça, excitantes nos pés, emético, e a quina em cozimento.

      - Deveras! E nada disso produzirá resultado?

      - Tudo isto, sem o auxílio da natureza, pouca coisa fará. Para descargo da minha consciência, ordenei este tratamento:4 o seu bom anjo, se a pobre criança o tem, fará o resto.

      - Hum! - murmurou Mirabeau...

      - O senhor compreende, não é verdade? – perguntou o Dr. Gilberto.

      - A sua teoria de envenenamento pelo óxido de carbono? Pouco mais ou menos.

      - Não é isso; eu quero dizer se compreende que o ar do castelo do Marais não lhe convém?

      - Acredita isso, doutor?

      - Tenho a certeza.

      - Seria muito desagradável, porque o castelo convém-me muitíssimo.

      - Bem o reconheço nisto, eterno inimigo de si mesmo! Aconselho uma montanha, escolhe uma planície, recomendo-lhe uma corrente de água, escolhe água estagnada!

      - Mas que parque! Olhe para estas árvores, doutor!

      - Durma uma única noite com a janela aberta, conde, ou passe depois das onze da noite à sombra destas belas árvores, e dar-me-á notícias suas no dia seguinte!

      - Quer dizer, que em lugar de estar meio envenenado como estou, no dia seguinte, o estarei completamente?

      - Pergunta-me a verdade?

      - Sim, e o senhor diz-ma não é assim?

      - Oh! Em toda a sua extensão... Conheço-o, meu caro conde, vem para aqui para evitar o mundo, mas ele aqui o virá procurar. Cada qual arrasta a sua cadeia, seja de ferro, de ouro ou de flores. A sua cadeia, é o prazer à noite, e o estudo de dia. Enquanto foi moço, era na voluptuosidade que descansava do trabalho; mas o trabalho consumiu os seus dias, e a voluptuosidade fatigou as suas noites. O senhor mesmo mo disse, com a linguagem sempre tão expressiva e tão colorida sente-se passar do Estio ao Outono. Meu caro conde, se a um excesso de prazer suceder a noite, e a um excesso de trabalho o dia, sou obrigado a sangrá-lo, porque com esta perda de força estará mais apto do que nunca para absorver o ar viciado, de noite pelas grandes árvores do parque, de dia pelos miasmas pantanosos desta água estagnada. Então que quer? Serão dois contra mim, ambos mais fortes do que eu: o senhor e a natureza; será forçoso que eu sucumba.

      - Acredita, meu caro doutor, que será pelas entranhas que hei-de morrer? Diabo! causa-me pena dizendo isso; as moléstias das entranhas são longas e, dolorosas; antes queria uma apoplexia fulminante, ou algum aneurisma... Não pode arranjar-me isso?

      - Oh! Meu caro conde - disse Gilberto - nada me diga a esse respeito; o que deseja está feito, ou há-de fazer-se. Segundo a minha opinião, as suas entranhas parecem ser a parte secundária, e é o seu coração que desempenha e desempenhará o primeiro papel; infelizmente, as doenças do coração, na sua idade, são numerosas e variadas, e nem todas são acompanhadas pela morte súbita. Regra geral, meu caro conde, ouça bem isto, não está escrito em parte nenhuma, mas digo-lho eu, mais observador - filósofo do que médico; as doenças crónicas do homem seguem uma ordem quase absoluta: nas crianças é o cérebro o primeiro a ser atacado; nos adolescentes o peito; no adulto são as vísceras inferiores; no velho, finalmente, é a cabeça ou o coração, quer dizer, o que tem pensado muito ou sofrido muito. Assim, quando toda a ciência disser a sua última palavra, quando toda a criação interrogada pelo homem tiver declarado o seu último segredo, quando toda a enfermidade tiver de encontrar o seu remédio, e quando o homem, com algumas excepções, como os animais que o cercam, só morrer de velhice, os dois únicos órgãos atacáveis serão a cabeça e o coração, e ainda a morte pela cabeça terá por princípio a doença do coração.

      - Realmente, meu caro doutor - disse Mirabeau - não faz idéia de quanto me está interessando. Veja: dir-se-ia que o meu coração conhece que está falando a respeito dele; veja como bate!

      Mirabeau pegou na mão de Gilberto e levou-a ao coração.

      - Pois bem - disse o doutor; - isso certifica o que eu lhe explicava. Como quer que um órgão, que participa de todas as suas emoções, acelerando ou retardando as pulsações para seguir uma simples conversação patológica, como quer, especialmente no conde, que esse órgão não seja afectado? Tem vivido pelo coração, pelo coração morrerá. Compreenda, pois, isto: não há nenhuma afecção moral, nenhuma afecção física crónica, que não cause no homem uma espécie de febre; não há febre que deixe de produzir uma agitação maior ou menor nas pulsações do coração; entretanto, neste trabalho, que é incómodo e fatigante, porque se executa além da ordem normal, o coração gasta-se e altera-se. Daí procede nos velhos a hipertrofia do coração, isto é, o seu desenvolvimento, daí o aneurisma ou a sua contracção. O aneurisma conduz às dores agudas do coração, e à única morte instantânea; a hipertrofia às apoplexias cerebrais, à morte algumas vezes mais demorada, mas em que morre logo a inteligência, e em que, consequentemente, a verdadeira dor já não existe, porque nunca há dor sem o sentimento que a julgue. Imagine que tem amado, que tem sido feliz, que tem sofrido, que teve momentos de alegria e de desespero, como nenhum outro homem antes do conde; que alcançou triunfos desconhecidos, quê tem descido a decepções incríveis, que o seu coração lhe tem fornecido durante quarenta anos o sangue em cataratas ardentes, precipitadas do centro para as extremidades; que tem pensado, trabalhado e falado muitos dias e dias; que tem bebido, rido e amado noites inteiras, e que o seu coração, que se tem gasto, lhe faltava de repente? Vamos pois, meu caro amigo, o coração é como uma bolsa, por bem guarnecida que esteja, à força de gastar, esgota-se.

      Mas mostrei-lhe o pior lado da situação; deixe-me explicar-lhe o bom.

      É necessário tempo para que o coração se consuma, não conte tanto com ele como habitualmente faz; não lhe dê mais trabalho do que o que ele pode; não lhe dê maiores comoções do que as que ele pode suportar; restrinja-se às condições que não produzem desordens graves, às três principais funções da vida; a respiração que se opera nos pulmões; a circulação no coração; a digestão no estômago; e poderá ainda viver vinte ou trinta anos e só morrer de velhice; ao passo que, se pelo contrário quiser caminhar para o suicídio, nada lhe é mais fácil! Apressará ou retardará a morte à vontade. Imagine que guia uns cavalos fogosos; obrigue-os a caminhar a passo, e eles farão uma longa jornada em muito tempo, deixe-os tomar o galope, que como os do Sol percorrerão num dia e uma noite toda a órbita celeste.

      - Sim - disse Mirabeau - mas durante esse dia admiram e brilham, o que é alguma coisa... Venha, doutor, faz-se tarde, reflectirei em tudo isso.

      - Reflicta bem em tudo - disse o doutor - mas, como princípio de obediência às ordens da faculdade, prometa-me primeiro que não aluga esta casa. Encontrará nos arredores de Paris dez, vinte, cinqüenta, cujas apresentarão as mesmas comodidades que esta.

      Talvez que Mirabeau cedesse à voz da razão e fizesse a promessa que Gilberto lhe pedia; mas repentinamente, no meio das primeiras sombras da noite, pareceu-lhe ver aparecer por detrás de uma cortina de flores a mulher de saia de tafetá branco e laços cor de rosa; pareceu-lhe também que aquela mulher se sorria para ele; mas não teve tempo para se certificar disso, porque no momento em que Gilberto, adivinhando que se passava alguma coisa extraordinária no seu doente, volveu os olhos para saber a causa do tremor nervoso que agitava o braço em que estava apoiado, a cabeça retirou-se prestes, e só se viram na janela do pavilhão os ramos levemente agitados das roseiras, dos girassóis e dos cravos.

      - Então - disse Gilberto - não responde?

      - Meu caro doutor, lembre-se do que eu disse à rainha quando ao deixar-me me deu a mão a beijar: Senhora, por este beijo, a monarquia está salva!

      - Sim.

      - Contraí nisso um pesado encargo, doutor, especialmente se me abandonam, como o fazem. Entretanto, não posso falar. Não desprezemos o suicídio em que me falou, doutor, o suicídio será talvez o único meio de me dispensar honrosamente do encargo!...

      No dia seguinte Mirabeau, comprava por enfiteuse o castelo do Marais.

 

O campo de Marte

      Já tentámos fazer compreender aos nossos leitores porque nó indissolúvel a confederação de toda a França acabava de se ligar, e que efeito essa confederação individual, precedendo a geral, tinha produzido na Europa.

      É que a Europa compreendera que um dia, qual ele fosse, estava oculto nas densas trevas do futuro, formaria também uma confederação de cidadãos, uma colossal sociedade de irmãos.

      Mirabeau dera o impulso a esta grande confederação. Aos receios que el-rei lhe fizera exprimir respondera que se na França havia alguma salvação para a realeza, não era em Paris, mas na província que devia ser procurada.

      E daí, resultava daquela reunião de homens vindos de todos os cantões da França uma grande vantagem, era o rei ver o povo e o povo ver o rei. Quando toda a população da França, representada pelos trezentos mil confederados burgueses, magistrados e militares, viesse gritar no campo de Marte, “Viva a nação” e desse as mãos sobre as ruínas da Bastilha, alguns cortesãos cegos ou interessados em cegar o rei, não lhe diriam que Paris, impelido por um punhado de facciosos, pedia uma liberdade, que o resto da França estava bem longe de reclamar. Não, Mirabeau contava com o espírito judicioso do rei; não, Mirabeau contava com o espírito realista, ainda tão vivo naquela época no coração dos franceses, e predizia que daquele contacto desusado, desconhecido e inaudito de um rei com o seu povo, resultaria uma aliança sagrada que nenhuma intriga, viesse ela donde viesse, seria capaz de romper.

      Os homens de génio são às vezes atacados destas loucuras sublimes, que fazem com que os mais ínfimos políticos do futuro tenham direito para lhes rir na memória.

      Já se tinha verificado uma confederação preparatória em Lião. A França, que instintivamente caminhava para a unidade, julgou achar a palavra dessa unidade nos campos de Ródano; mas logo conheceu que se Lião podia desposar a França com o génio da liberdade, só Paris os podia casar.

      Quando foi apresentada a proposta de uma confederação geral à Assembléia pelo maire e pela comuna de Paris, que já não podiam resistir ao pedido das outras cidades, fez-se um grande movimento entre os ouvintes. Aquela grande reunião de homens, conduzida a Paris, centro eterno de agitação, era reprovada ao mesmo tempo pelos dois partidos, que dividiam a Assembléia, pelos realistas e pelos jacobinos.

      Era, diziam os realistas, preparar um gigantesco 14 de Julho, não contra a Bastilha, mas contra a realeza.

      Que faria o rei no centro desse espantoso misto de paixões diversas, desse admirável concurso de opiniões diferentes?

      De outro lado os jacobinos, que sabiam qual era a influência que Luís XVI conservava sobre as massas, não temiam menos semelhante reunião que os seus inimigos.

      Aos olhos dos jacobinos uma tal reunião ia extinguir o espírito público, adormecer as desconfianças, acordar as velhas idolatrias, enfim, tornar a França realista.

      Mas não há meio de se oporem a esse movimento, que não tinha tido igual desde que no século XI, a Europa se levantou em massa para ir libertar o sepulcro de Cristo.

      E não se admirem, os dois movimentos não são tão estranhos um ao outro quanto poderiam julgar; a primeira árvore da liberdade foi plantada no Calvário.

      Entretanto, a Assembléia fez quanto pôde para tornar a reunião menos numerosa. Prolongaram a reunião, de maneira que devia passar-se com os que vinham dos confins do reino, o que na confederação de Lião sucedera aos deputados da Córsega, por muito que se apressassem, só chegaram no dia seguinte.

      Além disso, os gastos ficaram a cargo das povoações; ora, era sabido que havia províncias tão pobres, que não se supunha que, por mais economias que fizessem, pudessem prover às despesas de metade da jornada dos seus deputados, ou antes para a quarta parte, porque tinham de ir a Paris e voltar depois.

      Mas não contaram com o entusiasmo público, não contaram com as subscrições, em que os ricos pagavam duas vezes, uma por si, outra pelos pobres, não tinham contado com a hospitalidade, que gritava pelas estradas:

      “Franceses! Abri as vossas portas; eis os vossos irmãos, que chegam dos confins da França!”

      E este último grito, principalmente, não encontrou um único ouvido surdo, uma porta rebelde.

      Nada de estrangeiros nem de desconhecidos; por toda a parte franceses, pais, irmãos; a nós peregrinos da grande festa! Vinde guardas nacionais, soldados, marinheiros! Entrai, encontrareis pais, mães, esposas que desejam que os seus filhos encontrem entre vós a hospitalidade que vos oferecem.

      Aquele que pudesse ser, como o Cristo, transportado, não à mais elevada montanha da terra, mas à mais alta montanha da França, teria gozado o brilhante espectáculo de ver aqueles trezentos mil cidadãos caminhando para Paris, afluindo para o centro todos aqueles raios da estrela França.

      E por quem eram guiados todos esses peregrinos da liberdade? Por velhos, pobres soldados da guerra dos sete anos, por oficiais de Fontenoy, e por oficiais de fortuna, a quem fora necessária uma vida inteira de trabalho, de coragem e de dedicação para chegarem às dragonas de tenente ou às de capitão: pobres mineiros, que tinham sido obrigados a gastar com a fronte na abóbada de granito os sinais do antigo regímen militar! Por marinheiros, que conquistaram a Índia com Bussy e Dupleix, e que a tinham perdido com Lally-Tollendal, ruínas vivas truncadas pelo canhão dos campos da batalha, gastas pelo fluxo e refluxo do mar! Durante os primeiros dias, homens de oitenta anos fizeram marchas de dez e doze léguas para chegarem a tempo, e chegaram.

      No momento de se deitarem para sempre, e adormecerem com o sono eterno, os generosos anciãos recuperaram as forças da sua mocidade.

      É que a pátria os chamara com uma das mãos e com outra lhes mostrava o futuro de seus filhos.

      A esperança caminhava em companhia deles.

      Cantavam um só canto, embora os peregrinos viessem do Norte, do meio dia do Oriente ou do Ocidente, da Alsácia ou da Bélgica, da Provença ou da Normandia. Quem lhes havia ensinado aquele canto, rimado asperamente, como os antigos cânticos, que guiavam os cruzados através dos mares do Arquipélago, ou nas planícies da Ásia-menor? Ninguém o sabe. Talvez fosse o anjo do progresso que ao passar sacudisse as suas asas por sobre a França!

      Este canto era o famoso Ça ira! não o de 93 – 93 transtornou tudo, tudo mudou, o riso em lágrimas, o suor em sangue!

      Não, a França inteira, arrancando-se a si mesma para vir a Paris prestar o juramento universal, não cantava palavras de ameaça, não dizia:

     

       Ah! ça ira, ça ira, ça ira,

       Os aristocratas ao lampião!

       Ah! ça ira, ça ira, ça ira.

       Os aristocratas s'enforcarão!

     

      Não, o seu canto não era um canto de morte, era uma canção de vida; não era o hino do desespero, era o cântico da esperança.

      Cantava de outra maneira as palavras seguintes:

     

       O povo neste dia, sem cessar, repete:

       Ah! ça ira, ça ira, ça ira.

       Segundo as máximas do Evangelho.

       Ah! ça ira, ça ira, ça ira.

       Do legislador tudo se cumprirá;

       Quem se levanta, s'abaixará.

       Quem s'abaixa, levantar-se-á!

     

      Era preciso um circo gigantesco para receber, da província e de Paris, quinhentas mil almas: era preciso um anfiteatro colossal para dar asilo a um milhão de espectadores.

      Para o primeiro escolheu-se o campo de Marte.

      Para o segundo os altos de Passy e de Chaillot.

      Porém o campo de Marte apresentava uma superfície plana; era necessário torná-lo numa grande bacia, cavá-lo e amontoar a terra em volta para formar elevações.

      Quinze mil trabalhadores, desses que se lastimam eternamente de não encontrarem trabalho, e em segredo pedem a Deus que lho não envie, foram mandados com pás, alviões e enxadas para a cidade de Paris, para transformar aquele plaino num vale cercado por largo anfiteatro; mas aqueles quinze mil homens apenas tinham três semanas para concluir aquela obra de Titãs e ao cabo de dois dias de trabalho conheceram que lhes eram necessários três meses!

      Além de que, talvez fossem mais bem pagos para não trabalhar do que para o fazer.

      Então operou-se um milagre, pelo qual se pode julgar do entusiasmo parisiense. O imenso trabalho, que não podiam ou não queriam executar alguns milhares de trabalhadores preguiçosos empreendeu-o toda a população. No mesmo dia em que se espalhou a notícia de que o campo de Marte não estaria pronto a 13 de Julho, levantaram cem mil homens e disseram com a certeza que acompanha a vontade de um povo ou a vontade de Deus: “Há-de estar!”

      Alguns deputados foram procurar o maire de Paris em nome daqueles cem mil obreiros, e convencionaram que, para não prejudicarem os trabalhos do dia, trabalhariam de noite. E na mesma noite às sete horas, sentiu-se um tiro de artilharia que anunciava que estando concluído o trabalho do dia, ia começar a ocupação da noite.

      E imediatamente, ao tiro da peça, o campo de Marte foi invadido pelas quatro faces, por uma turba entusiasta: pelo lado de Grenelle, pelo lado do rio, pelo lado do Gros-Caillou e pelo lado de Paris.

      Cada qual trazia o seu instrumento, enxada, pá ou carrinho de mão.

      Outros rolavam pipas cheias de vinho, acompanhados de rabecas, guitarras, tambores e flautins.

      Todas as idades, todos os sexos, todos os estados estavam confundidos. Cidadãos, soldados, abades, cónegos, bonitas mulheres, vendedeiras, irmãs de caridade, actrizes, tudo manejava a enxada, empurrava o carrinho ou guiava a carroça. Os rapazes caminhavam na frente levando os archotes, as orquestras seguiam tocando toda a qualidade de instrumentos, e dominando toda aquela bulha, todo aquele alarido, todos aqueles instrumentos elevava-se o Ça ira, coro imenso, cantado por cem mil bocas, e ao qual respondiam trezentas mil vozes, que partiam de todos os pontos da França.

      No número dos trabalhadores mais laboriosos, notavam-se dois, que tinham sido dos primeiros a chegar, e vestiam uniforme; um teria quarenta anos, era homem de membros robustos, mas de cara sombria.

      Não cantava e mal falava.

      O outro era rapaz de vinte anos, rosto franco e risonho, grandes olhos azuis, dentes brancos e cabelos louros; firmado nos grandes pés e nos grossos joelhos, levantava facilmente com as mãos grandes pesos, empurrava os carros, puxava as carroças, sem nunca parar, sem descansar, cantando sempre, observando com o canto do olho o companheiro, dizendo-lhe graças a que o outro de modo nenhum respondia, oferecendo-lhe um copo de vinho que ele rejeitava, voltando para o seu lugar, encolhendo tristemente os ombros e começando de novo a trabalhar como dez, e a cantar como vinte.

      Aqueles dois homens eram deputados do novo departamento de Aisne, a dezoito léguas de Paris; ouvindo dizer que se carecia de braços, tinham corrido a toda a pressa para oferecerem um o seu silencioso trabalho, o outro a sua estrondosa e alegre cooperação.

      Aqueles dois homens eram os nossos valentes e estimados conhecidos Billot e Pitou.

      Digamos o que se passava em Villers-Cotterets durante a terceira noite da chegada deles a Paris; isto é, na noite de 5 para 6 de Julho, no mesmo momento em que os acabamos de ver, distinguindo-se entre os trabalhadores.

 

Vê-se o que foi feito de Catarina, sem se poder saber o que lhe sucederá

      Durante a noite de 5 para 6 de Julho, pelas onze horas, o Dr. Raynal, que acabava de se deitar com a esperança, tantas vezes iludida em cirurgiões e médicos, de dormir uma boa noite, foi acordado por três argoladas, dadas vigorosamente na porta.

      Sabem que era costume do bom doutor, quando de noite lhe batiam ou tocavam à porta, ir ele pessoalmente, para se pôr mais depressa em contacto com as pessoas que tinham precisão dele.

      Desta vez, como das outras, saltou da cama, enfiou o chambre, calçou as chinelas, e desceu o mais rápido possível a estreita escada.

      Por mais diligente que fosse, pareceu naturalmente muito vagaroso ao nocturno visitante, porque tornara a bater, e desta vez sem conta, quando a porta se abriu.

      O Dr. Raynal conheceu logo o mesmo lacaio, que o fora chamar certa noite para o conduzir a casa do visconde Isidoro de Charny

      - Oh! Oh! - disse o doutor - você por cá!... Isto não é uma censura; mas se seu amo foi outra vez ferido, convém que se acautele; não faz bem em passear por sítios em que chovem balas!

      - Não, senhor, não é para meu amo, não é para nenhum ferimento: é para uma causa que também não admite demora... Acabe de vestir-se, que tem ali um cavalo à espera.

      O doutor nunca gastava mais de cinco minutos em vestir-se; daquela vez, julgando pela voz do criado, e principalmente pela maneira de bater, que a sua presença era urgente, apenas consumiu quatro.

      - Pronto - disse ele - tornando a aparecer quase no mesmo instante em que tinha desaparecido.

      O criado, sem se apear, passou a rédea do cavalo ao Dr. Raynal, que montou imediatamente, e em lugar de voltar para a esquerda, ao sair de casa, como fizera da primeira vez, voltou para a direita seguindo o criado que lhe indicava o caminho.

      Era pois para o lado oposto a Boursonnes que o conduziam desta vez.

      Atravessou o parque, embrenhou-se no bosque, deixando Haramont à esquerda, e depressa se encontrou num sítio do bosque tão espesso, que era impossível ir mais longe a cavalo.

      De repente um homem oculto atrás de uma árvore apareceu fazendo um movimento, e perguntou:

      - É o doutor?

      O doutor, que parara o cavalo ignorando as intenções do desconhecido, viu por estas palavras que era o visconde Isidoro de Charny, e respondeu:

      - Sou eu sou... onde diabo me vai o Sr. visconde levar?

      - Vai ver, doutor - disse Isidoro; - peço que se apeie e venha comigo.

      O doutor apeou-se; começava a compreender.

      - Ah! Ah! - disse ele - aposto que se trata de algum parto, Sr. visconde?

      Isidoro apertou-lhe a mão.

      - Sim, doutor, e por conseqüência promete-me guardar silêncio, não é assim?

      Raynal encolheu os ombros como querendo dizer: “Ora! Tenho assistido a muitos!”

      - Então venha por aqui - disse Isidoro, respondendo-lhe ao pensamento.

      E no meio das árvores, por sobre folhas secas e ruidosas, perdidos entre as gigantescas faias, através da folhagem que se agitava e por meio da qual se via de vez em quando uma estrela, ambos desceram para uma profundidade onde os cavalos não podiam penetrar.

      No fim de alguns instantes o doutor avistou o telhado da casa de Clouis!

      -Oh! Oh! - disse ele - vamos porventura à cabana do bom Clouis?

      - Não - disse Isidoro - mas perto dela...

      E dando uma volta ao rochedo, conduziu o doutor à porta de uma pequena casa de tijolos próxima da cabana do velho guarda, tão unida que se podia acreditar, e acreditava-se efectivamente nos arredores, que o bom do homem para maior comodidade juntara aquele apêndice à sua habitação.

      É verdade que, além de se ver ali Catarina, que jazia na cama, ficar-se-ia surpreendido ao primeiro volver de olhos que se lançasse sobre o aposento.

      As paredes eram forradas de papel, cortinas de estofo da mesma cor do papel pendiam das janelas; entre estas estava um elegante espelho, por baixo do qual havia um toucador com todos os utensílios de porcelana, seguiam-se duas cadeiras e uma pequena biblioteca; tal era o interior quase confortável, como se diria hoje, que se oferecia à vista, ao entrar no pequeno quarto.

      Mas a vista do bom doutor não se demorou nisso. Vira a mulher deitada no leito, e apressou-se a socorrê-la.

      Assim que viu o doutor, Catarina ocultou o rosto entre as mãos, que todavia não podiam abafar-lhe os soluços, nem encobrir-lhe as lágrimas.

      Isidoro aproximou-se e chamou-a: ela lançou-se-lhe nos braços.

      - Doutor - disse o mancebo - confio-lhe a vida e a honra daquela, que hoje não é mais do que a minha amante, mas que espero seja um dia minha mulher.

      -Oh! Como és bom, meu caro Isidoro, em me dizeres semelhantes coisas, quando sabes que uma pobre rapariga como eu nunca poderá ser viscondessa de Charny; mas nem por isso to agradeço menos... Sabes que preciso forças, e queres dar-mas; está sossegado, que terei coragem! E a primeira, a maior que preciso ter, é a de lhe mostrar o rosto descoberto, caro doutor, e oferecer-lhe a mão. - E estendeu-a para o Dr. Raynal.

      Uma dor, mais violenta do que as que até então tinha sentido, contraiu a mão de Catarina no momento em que o Dr. Raynal lhe tocava.

      Este fez sinal a Isidoro, que compreendeu ser o momento chegado.

      O mancebo ajoelhou junto do leito da doente e murmurou:

      - Catarina, minha querida filha, sem dúvida deveria ficar aqui ao pé de ti para te amparar e animar, mas tenho medo que as forças me faltem... Entretanto, se o desejas...

      Catarina passou o braço à roda do pescoço de Isidoro, e beijou o amante.

      - Vai - disse ela - vai... Agradeço-te que me ames tanto que não possas ver-me sofrer.

      Isidoro chegou os lábios aos da pobre criança, apertou mais uma vez a mão do Dr. Raynal e saiu.

      Por espaço de duas horas errou como essas sombras, de que fala Dante, que não podem parar para descansar um instante, e que, se param, são novamente impelidas por um demónio, que as fere com o seu tridente de ferro. A todo instante, depois de um círculo maior ou menor voltava à porta, atrás da qual se verificava o doloroso mistério do parto; mas quase ao mesmo tempo um grito dado por Catarina chegava-lhe aos ouvidos, picava-o como o tridente de ferro do condenado, e forçava-o a tomar o seu curso errante, afastando-se sem cessar daquela porta, para onde imediatamente voltava.

      Finalmente, ouviu a voz do doutor e outra mais doce e mais fraca que o chamavam. Em dois pulos chegou à porta, que estava aberta, encontrando no limiar o excelente doutor com um robusto menino nos braços.

      - Ah! Isidoro - disse Catarina - agora sou duplamente tua; como mãe e como amante!

      Oito dias depois, à mesma hora, na noite de 13 para 14 de Julho, abria-se uma porta, dois homens conduziam numa liteira uma mulher e uma criança, que eram escoltadas por um mancebo a cavalo, recomendando aos condutores as maiores precauções; chegando à estrada real de Haramont a Villers-Cotterets, encontraram uma boa carruagem puxada por três cavalos para a qual subiram imediatamente a mãe e o filho.

      O mancebo deu então algumas ordens ao criado, apeou-se, atirou-lhes as rédeas, e subiu também para a carruagem, que sem se demorar em Villers-Cotterets, e sem o atravessar, costeou unicamente o parque desde a Faisanderie até ao fim da rua Largny, e chegando aí tomou pela estrada de Paris, por onde seguiu a trote rasgado.

      Antes de partirem o mancebo tinha deixado uma bolsa com dinheiro para o tio Clouis, e Catarina uma carta dirigida a Pitou.

      O Dr. Raynal, respondera que vista a pronta convalescença da doente, e a boa constituição do menino, a viagem de Vilers-Cotterets a Paris, podia, em uma carruagem, fazer-se sem inconveniente algum.

      Foi em virtude desta segurança, que Isidoro decidiu a viagem, que de mais se tornava necessária pelo próximo regresso de Billot e Pitou.

      Deus, que até um dado momento, vela sempre por todos aqueles que mais tarde parece abandonar, permitira que o parto se verificasse na ausência de Billot, que ignorava o asilo da filha, e de Pitou, que na sua inocência, nem sequer suspeitara da gravidez de Catarina.

      Pelas cinco horas da manhã, a carruagem chegava à porta de Saint-Denis, mas não podia atravessar os boulevards por causa da imensa concorrência que havia ali, causada pela festa do dia.

      Catarina deitou a cabeça fora da portinhola, mas recolheu-a imediatamente, dando um grito, e refugiando-se nos braços de Isidoro.

      As duas primeiras pessoas que acabava de ver entre os confederados eram Billot e Pitou.

 

O dia 14 de Julho de 1790

      O trabalho que de um plaino imenso devia fazer um extenso vale entre duas colinas, graças à cooperação de toda a gente de Paris, foi efectivamente acabado na noite de 13 de Julho.

      Muitos trabalhadores, para ficarem certos de terem lugar no dia seguinte, dormiram lá como vencedores no campo da batalha.

      Billot e Pitou foram juntar-se aos confederados, e tomaram lugar entre eles no Boulevard. O acaso fez que, conforme vimos, o lugar destinado para os deputados do departamento de Aisne, fosse justamente aquele onde parou a carruagem que conduzia a Paris Catarina e seu filho.

      Todos vestiam os seus melhores fatos para receberem os queridos hóspedes. Quando souberam que os bretões, esses irmãos mais velhos da liberdade, chegavam, os vencedores da Bastilha foram ao seu encontro e receberam-nos.

      Houve então os maiores transportes de desinteresse e patriotismo.

      Os donos das hospedarias reuniram-se e de comum acordo em lugar de aumentarem os preços, baixaram-nos. Eram demonstrações de desinteresse.

      Os jornalistas, esses ásperos lidadores de todos os dias, que guerreiam incessantemente com as paixões, que aumentaram geralmente os ódios em lugar de os extinguir, que afastam os corações em lugar de os aproximar, pelo menos dois deles, Loustalot e Camilo Desmoulins, propuseram um pacto entre os escritores, renunciaram a toda a desinteligência e inveja, e prometeram não sentir outra emulação, além da do público.

      Eis o patriotismo.

      Infelizmente, a proposta deste pacto não encontrou eco na imprensa, e aí ficou tanto no presente como para o futuro, a título de utopia.

      A assembléia pela sua parte, recebera uma porção do choque eléctrico, que movia a França como um tremor de terra. Alguns dias antes, sob proposta dos Srs. Montmorency e de Lafayette, aboliu a nobreza hereditária, defendida pelo abade Maury, filho de um remendão de aldeia.

      Desde o mês de Fevereiro, começara por abolir a herança do mal; decidira a propósito da execução dos irmãos Agasse, condenados por falsários, que o cadafalso não reflectiria mais nem sobre os filhos, nem sobre os outros parentes do culpado.

      Além disso, no mesmo dia em que a assembléia abolia a transmissão dos privilégios, como abolia a do mal, um alemão, homem das margens do Reno, o que mudara o nome de João Baptista pelo de Anacharsis, Anarcharsis Clootz, barão prussiano, nascido em Clèves, apresentou-se à entrada da sala como deputado do género humano: vinha acompanhado por uns vinte homens de todas as nações, com os seus trajos nacionais, todos proscritos, e vinha pedir em nome dos povos, únicos soberanos legítimos, o seu lugar na confederação.

      Foi imediatamente designado um lugar para o orador do género humano.

      Do outro lado a influência de Mirabeau fazia-se sentir todos os dias. Graças ao poderoso campeão, a corte adquiria partidários, não só na direita, senão também na esquerda. Devido a ele, a assembléia votou, diremos que quase com entusiasmo, vinte e quatro milhões de lista civil para el-rei, e uma dotação de quatro milhões para a rainha.

      Era pagar generosamente a ambos os duzentos e oito mil francos de dívidas, que tinham pago pelo eloqüente tribuno, e as seis mil libras de renda, que lhe davam por mês.

      Apesar disso Mirabeau não parecia haver-se enganado com o espírito das províncias: os federados que foram recebidos por Luís XVI, traziam a Paris grande entusiasmo pela Assembléia Nacional, mas ao mesmo tempo traziam a religião da realeza. Agitavam os chapéus na presença do Sr. Bailly gritando: “Viva a nação!” mas ajoelhavam diante de Luís XVI, e depunham-lhe as espadas aos pés, gritando: “Viva el-rei!”

      Infelizmente o rei, pouco poético, pouco cavalheiroso, respondia mal a todos esses transportes de dedicação.

      A rainha, desgraçadamente, muito altiva, muito lorena, se assim se pode dizer, não avaliava como mereciam esses testemunhos do coração.

      Depois, a pobre senhora tinha alguma coisa de sombrio no pensamento, alguma coisa de parecido com as manchas escuras que ofuscam a face do Sol.

      Essa tristeza, essa nuvem que lhe obscurecia o coração era a ausência de Charny; de Charny que, podendo ali estar presente, se deixava ficar junto do Sr. de Boillé.

      Quando viu Mirabeau, lembrou-se a título de distracção de mostrar-se amável para com ele; aquele génio poderoso lisonjeara-lhe o amor-próprio real e feminino, ao curvar-se-lhe aos pés; mas o que é o génio para o coração? Que importam as paixões, os triunfos do amor-próprio, as vitórias do orgulho?... Primeiro que tudo, em Mirabeau, a rainha, com os olhos de mulher só via o homem material, o homem com a sua obesidade doentia, as faces enrugadas, os olhos vermelhos, a garganta rouca. Comparou-o imediatamente com Charny, o elegante mancebo, na flor da idade, no auge da beleza, com o seu brilhante uniforme, que lhe dava ar de príncipe dos combates: ao passo que Mirabeau com o seu fato, mal se parecia, quando o génio lhe não animava a poderosa figura, com um cónego disfarçado. Encolheu os ombros, e deu um profundo suspiro; com os olhos vermelhos pelas vigílias e pelas lágrimas, tentou atravessar o espaço, e com voz dolorosa e entrecortada pelos soluços, murmurou: “Charny! Oh! Charny!”

      Que importavam àquela mulher, nesse momento, as populações reunidas a seus pés! Que lhe importavam as ondas humanas impelidas como o mar pelos quatro ventos celestes, vindo quebrar-se nos degraus do trono gritando: “Viva el-rei! Viva a rainha!” Uma voz conhecida, que lhe murmurasse ao ouvido: “Maria, nada mudou em mim, Antonieta, amo-a!” essa voz far-lhe-ia acreditar que nada efectivamente mudara em volta dela, e conseguia mais para a satisfação do seu coração e para a serenidade da sua fronte, que todas essas promessas, que todos esses juramentos!

      Enfim, o dia 14 de Julho chegou impassivelmente, trazendo consigo os grandes e pequenos acontecimentos, que fazem ao mesmo tempo a história dos humildes e dos poderosos, do povo e da realeza.

      Como se aquele desdenhoso dia 14 de Julho ignorasse que tinha de alumiar um espectáculo novo e esplêndido, raiou com a fronte coberta de nuvens, soprando asperamente o vento e chovendo.

      Mas a propriedade do povo francês é caçoar com tudo, mesmo com a chuva que cai nos dias de festa.

      Os guardas nacionais parisienses e os confederados das províncias, reunidos nos boulevards desde as cinco horas da manhã, e mortos de fome, riam e cantavam.

      É verdade que o povo de Paris não podia livrá-los da chuva, mas teve a idéia de lhes matar a fome.

      De todas as janelas começaram a descer, por meio de cordas, pães, presuntos e garrafas de vinho.

      Fez-se imediatamente outro tanto em todas as ruas por onde passavam.

      Durante o caminho, cento e cinqüenta mil pessoas tomaram lugar nas elevações do Campo de Marte, e outras tantas por detrás delas.

      Quanto aos anfiteatros de Chaillot e de Passy, estavam cheios de espectadores, cujo número era impossível precisar.

      Magnífico circo! Gigantesco anfiteatro! Esplêndida arena! Onde se verificou a confederação da França, e onde um dia será a confederação do universo.

      Que vejamos ou não essa festa, que importa! Os nossos filhos hão-de vê-la, há-de vê-la todo o mundo!

      Um dos grandes erros do homem é acreditar que o mundo se fez para a sua curta existência, e contudo, o que são estas cadeias de existências infinitamente curtas, efémeras e quase invisíveis, excepto à vista de Deus, que constituem o tempo, isto é, o período mais ou menos longo, durante o qual a Providência, essa ísis de peitos quadruplicados, que vigia sobre as nações, trabalha na sua obra misteriosa e prossegue na sua incessante génesis.

      Decerto que quantos ali estavam acreditavam conservar segura pelas asas a fugitiva deusa que chamam liberdade, que só foge e desaparece para tornar a aparecer cada vez mais altiva e mais brilhante.

      Enganaram-se, como se enganaram os seus filhos quando acreditaram que a tinham perdido.

      Por isso, que alegria, que confiança em toda aquela multidão, tanto na que esperava assentada ou de pé, como na que, passando a ponte de Chaillot, entrava no Campo de Marte pelo arco de triunfo.

      À proporção que se sucediam os batalhões dos confederados, gritos de entusiasmo, e talvez de admiração, em presença daquele espectáculo que ofuscava a vista, gritos lançados pelo coração se escapavam de todas as bocas.

      Com efeito, nunca espectáculo semelhante ferira a vista do homem.

      O Campo de Marte, transformado como por encanto, um plaino em menos de um mês tornado numa arena de uma légua de circunferência!

      Nas escarpas quadrangulares daquele vale estavam trezentas mil pessoas assentadas ou de pé!

      No centro, o altar da pátria, para o qual davam acesso quatro escadas correspondentes às quatro faces do obelisco que o terminava.

      Em cada ângulo do monumento grandes turíbulos, queimando o incenso que a Assembléia Nacional decidira que dali em diante só se queimaria para Deus.

      Em cada uma das faces havia inscrições, que anunciavam ao mundo que o povo francês era livre, e convidavam as outras nações à Liberdade...

      Oh! Grande alegria de nossos pais! Foi para vós tão viva, tão profunda, tão real, que os sobressaltos por ela produzidos chegaram até nós.

      Entretanto o Céu estava falando como um antigo augúrio.

      A cada momento grandes chuveiros, rajadas de vento e nuvens sombrias: - 1793 - 1814 - 1815!

      Depois de vez em quando, no meio de tudo isto, um Sol brilhante: - 1830 - 1848!

      O profeta que fosse predizer o futuro àquele milhão de homens, como seria recebido!

      Como os gregos recebiam Calchas, como os Troianos recebiam Cassandra!

      Diante do edifício da escola-militar levantaram-se tribunas.

      Essas tribunas, cobertas de panos, em que tremulavam bandeiras tricolores, eram reservadas para a rainha, em primeiro lugar, para a corte e para a Assembléia Nacional.

      Dois tronos iguais que se elevaram a três pés de distância um do outro, eram destinados para el-rei e para o presidente da Assembléia.

      O rei nomeado, somente nesse dia, chefe supremo e absoluto das guardas nacionais de França, transmitira o comando ao Sr. de Lafayette.

      Lafayette estava pois nesse dia feito generalíssimo-condestável de seis milhões de homens armados.

      A fortuna dele tinha pressa de chegar ao cume; maior do que ele, não podia tardar a declinar e a extinguir-se.

      Nesse dia chegou ao seu apogeu; mas como essas aparições nocturnas e fantásticas, que excedem a pouco e pouco todas as proporções humanas, só tinha engrandecido desmedidamente para se desfazer em vapores, esvaecer-se e desaparecer.

      Mas durante a confederação, tudo era real e tudo tinha o poder da realidade.

      Povo que devia dar a sua demissão, rei cuja cabeça havia de cair, generalíssimo a quem as quatro patas do cavalo haviam de conduzir ao desterro.

      Todavia debaixo da chuva fria das rajadas de vento tempestuosas, à claridade desses raios, não de sol, mas de dia, que se filtra através da abóbada sombria de nuvens, os confederados entravam no imenso circo pelas três aberturas do arco do triunfo; em seguida, depois da sua vanguarda, para assim dizer, perto de vinte e cinco mil homens desdobrando-se em duas linhas circulares para abrangerem os contornos do circo, vinham os eleitores de Paris; depois os representantes da comuna, finalmente a Assembléia Nacional.

      Todas essas corporações, que tinham os seus lugares reservados nas tribunas encostadas à escola militar, formavam uma linha recta que apenas se abria para rodear o altar da pátria, reunindo-se depois como antes, e tocava já com a cabeça nas tribunas, quando ainda a cauda da imensa serpente estendia a última dobra até ao arco do triunfo.

      Atrás dos eleitores, dos representantes da comuna e da Assembléia Nacional, vinha o resto do cortejo; confederados, deputações militares e guardas nacionais.

      Cada departamento trazia como distintivo a sua bandeira envolvida, cercada, nacionalizada, por esse grande círculo de bandeiras tricolores, que dizia ao coração e aos olhos estas duas palavras, as únicas com que os povos, obreiros de Deus, fazem as grandes coisas - Pátria! Unidade!

      Ao mesmo tempo que o presidente da Assembléia Nacional subia para a sua cadeira, subia o rei também à sua, e a rainha tomava lugar na tribuna.

      Ai! Pobre rainha! A sua corte era pequena; as suas melhores amigas tiveram medo e abandonaram-na. Talvez que, se soubessem que o rei tinha obtido, graças ao conde de Mirabeau, vinte e cinco milhões de dotação, e a rainha quatro milhões, voltassem algumas; mas ignoravam-no completamente.

      Quanto àquele que em vão procurava com os olhos, Maria Antonieta sabia que não era ouro, nem o poder que o atraíam para ela.

      Ao menos, na sua ausência quis descansar a vista sobre um amigo fiel e dedicado.

      Perguntou onde estava o Sr. Isidoro de Charny, e o motivo por que, tendo a realeza tão poucos partidários no meio de tão grande multidão, não estavam os seus defensores no seu lugar em volta do rei, ou aos pés da rainha.

      Ninguém sabia onde estava Isidoro de Charny, e quem respondesse à rainha que naquele momento, ele conduzia uma obscura camponesa, sua amante para uma casa de campo construída na encosta da montanha de Bellevue, far-lhe-ia decerto encolher os ombros de piedade, se não lhe tivesse apertado o coração pelo ciúme.

      Quem sabe se na realidade a herdeira dos Césares não teria dado trono e coroa, não teria consentido em ser uma camponesa obscura, filha de um pobre lavrador, para ser ainda amada de Olivier, como Catarina o era de Isidoro?

      Sem dúvida eram estes pensamentos que lhe perturbavam o espírito, quando Mirabeau, notando um desses olhares, metade raio do Céu, metade relâmpago de tempestade, não pôde abster-se de declamar em voz alta:

      - Mas, em que pensará a feiticeira?

      Se Cagliostro tivesse ouvido estas palavras, talvez lhe respondesse:

      “Pensa na fatal máquina que lhe mostrei no castelo de Taverney numa garrafa, e que reconheceu um dia nas Tulherias sob a pena do Dr. Gilberto”.

      E ter-se ia enganado o grande profeta, que raras vezes se enganava.

      Pensava em Charny ausente e no amor extinto.

      E isto no meio do ruído de quinhentos tambores, e de dois mil instrumentos músicos, que mal se ouviam entre os gritos de: “Viva o rei! Viva a lei! Viva a nação!”

      De repente, tudo se calou.

      O rei estava assentado, bem como o presidente da Assembléia Nacional.

      Duzentos padres, vestidos de alvas brancas, caminhavam para o altar, precedidos pelo bispo de Autun, o Sr. de Talleyrand, o patrono de todos os prestadores de juramentos passados, presentes e futuros.

      Subiu os degraus do altar com o pé coxo, o Mefistófeles esperava o Fausto, que devia aparecer no dia 13 vindemário.

      Uma missa celebrada pelo bispo de Autun! Esquecíamos isto no número dos maus presságios.

      Foi neste momento que a tempestade redobrou: dirse-ia que o Céu protestava contra aquele falso sacerdote, que profanava o santo sacrifício da missa, dando por tabernáculo ao Senhor um peito, que tantos perjúrios deviam manchar para o futuro.

      As bandeiras dos departamentos e as tricolores, próximas do altar, faziam-lhe um cinto flutuante, que o vento sudoeste desenrolava, agitando-lhe as mil cores.

      Celebrada a missa, o Sr. de Talleyrand desceu alguns degraus, abençoou a bandeira nacional e as dos oitenta e três departamentos.

      Depois começou a santa cerimónia do juramento.

      Lafayette jurava primeiro, em nome dos guardas nacionais do reino.

      O presidente da Assembléia Nacional jurava em segundo lugar, em nome da França.

      Lafayette apeou-se, atravessou o espaço que o separava do altar, subiu os degraus, tirou a espada, colocou a ponta sobre o livro do Evangelho, e com voz firme e segura, disse:

      - Juramos ser sempre fiéis ao rei, à nação e à lei!... Manter, com todo o nosso poder a constituição jurada pela Assembléia Nacional, e aceita pelo rei... proteger, conforme as leis, a segurança das pessoas e das propriedades, a circulação dos géneros e alimentos para o interior do reino, a recepção das contribuições públicas, debaixo de qualquer forma que existam... permaneceremos unidos a todos os franceses pelos laços indissolúveis da fraternidade!

      Estabeleceu-se grande silêncio durante este juramento.

      Terminada a cerimónia, cem peças de artilharia dispararam ao mesmo tempo, e deram o sinal aos departamentos vizinhos.

      Então, de toda a cidade fortificada, partiu um imenso relâmpago seguido desse trovão ameaçador inventado pelos homens, e que, se a superioridade se mede pelo dano, venceu há muito tempo o de Deus.

      Como os círculos produzidos por uma pedra lançada no meio de um lago, e que vão alargando até chegarem à borda, cada círculo de chama, cada estrondo da tempestade aumentava caminhando do centro para a circunferência, de Paris para a fronteira, do coração da França para os países estrangeiros.

      O presidente da assembléia levantou-se também, cercado por todos os deputados, e disse:

      - Juro ser fiel à nação, à lei, ao rei, e manter com todo o meu poder a constituição decretada pela Assembléia Nacional e aceita pelo rei!

      Apenas acabou, brilhou outra chama, sentiu-se outro trovão, que retumbou em diferentes ecos para as extremidades da França.

      Chegou a sua vez ao rei.

      Levantou-se.

      Silêncio! Escutem todos com que voz pronuncia o juramento nacional aquele que, ao prestá-lo, o estava traindo.

      Cuidado, senhor! A nuvem rompe-se, o Céu abre-se e o Sol brilha.

      O Sol é o olho de Deus e Deus está-vos vendo!

      - Eu, rei dos franceses - disse Luís XVI – juro empregar todo o poder que me delegou a lei constitucional do estado, manter a constituição decretada pela Assembléia Nacional e aceita por mim, e fazer executar as leis!

      Oh! Senhor, senhor, por que razão ainda desta vez não quisestes jurar no altar?

      O dia 21 de Junho responderá ao 14 de Julho; Varennes dará a chave do enigma do campo de Marte...

      Mas, falso ou verdadeiro, não deixou de fazer brilhar a chama e sentir-se o ruído dos canhões.

      As cem peças ribombaram, como tinham feito por Lafayette e pelo presidente da Assembléia, e a artilharia dos departamentos transmitiu pela terceira vez o ameaçador anúncio aos reis da Europa:

      “Acautelai-vos, a França vela! Acautelai-vos, ela quer ser livre! e como aquele embaixador romano, que trazia numa das pregas do manto a paz ou a guerra, está pronta a sacudi-lo sobre o mundo!”

 

Aqui dança-se

      Havia uma hora de grande alegria para aquela multidão.

      Mirabeau esqueceu-se um pouco da rainha. Billot esqueceu Catarina e o rei retirou-se no meio das aclamações de todo o povo.

      A assembléia passou à sala das sessões, acompanhada pelo mesmo cortejo.

      Quanto à bandeira dada pela cidade de Paris aos veteranos do exército, foi decretado, segundo diz a História da Revolução, escrita por dois amigos da liberdade, que ficaria às abóbadas da Assembléia, como um momento, para os futuros legisladores, feliz época que acabavam de celebrar, e como um emblema próprio para lembrar ao exército que deve ser submisso aos dois poderes, que não podem defraudá-la sem mútua intervenção.

      Chapellier, sob cuja proposta foi publicado este decreto, preveria acaso os dias 27 de Julho, 24 de Fevereiro e 2 de Dezembro?

      Chegou a noite. A festa da manhã tinha sido no Campo de Marte; a festa da noite foi na Bastilha.

      Oitenta e três árvores — tantas quantos eram os departamentos — representaram, cobertas de folhas, as oito torres da fortaleza, em cujos alicerces estavam plantadas; cordões de luz corriam de árvore em árvore; no meio elevava-se um mastro gigantesco, tendo uma bandeira em que se lia a palavra liberdade; junto dos fossos, numa cova aberta de propósito, estavam enterrados os ferros, as cadeias, as grades da Bastilha, e o famoso baixo relevo de relógio que representava escravos presos. Além disso tinham deixado abertos e alumiados de uma maneira lúgubre os cárceres, que tinham absorvidos tantas lágrimas, e escutado tantos gemidos; finalmente, quando atraído pela música que soava por entre a folhagem, até ao sítio onde fora outrora o pátio interior, encontrava-se uma sala de baile brilhantemente alumiada, por cima da entrada da qual se liam estas palavras, que eram o cumprimento da predição de Cagliostro:

     

Aqui dança-se

     

      A uma das mil mesas, que em volta da Bastilha estavam postas, e debaixo da sombra improvisada que representava a fortaleza, quase tão exactamente como as pequenas pedras lavradas pelo arquitecto Palloy, estavam sossegadamente assentados dois homens reparando as forças esgotadas por um dia inteiro de marchas, contramarchas e manobras.

      Tinham diante de si um enorme salpicão, um pão de quatro arráteis e duas garrafas de vinho.

      - Ah! Pela minha honra - disse, bebendo de um trago o conteúdo do seu copo, o mais moço dos dois homens, que trazia vestido o uniforme de capitão da guarda nacional - enquanto o outro, mais velho, pelo menos o dobro, trazia o de confederado - pela minha honra, é uma bela coisa comer quando há fome, e beber quando se tem sede!

      E acrescentou depois de uma pausa:

      - Mas o senhor não tem fome, nem sede, tio Billot?

      - Já comi e já bebi - respondeu ele: - agora só tenho fome e sede de uma coisa...

      - De quê?

      - Eu to direi, amigo Pitou, quando chegar a hora de me assentar à mesa...

      Pitou não notou malícia na resposta de Billot, que tinha comido e bebido pouco, apesar da fadiga do dia, e da fome que fazia, como ele dizia; mas desde a partida de Villers-Cotterets para Paris, e durante os cinco dias, ou antes as cinco noites de trabalho no Campo de Marte, Billot tinha igualmente comido e bebido pouco. Pitou sabia que certas indisposições, sem serem perigosas, roubam momentaneamente o apetite às organizações mais robustas, e todas as vezes que notara o pouco que Billot comia, perguntava-lhe, como agora, por que não comia, pergunta a que Billot respondia que não tinha fome, deixando Pitou satisfeito.

      Porém, havia uma coisa que contrariava Pitou; não era a sobriedade do estômago de Billot; cada um pode comer pouco ou muito; além de que, quanto menos comia, mais ficava para Pitou; o que dava que cismar ao excelente moço era a sobriedade de palavras do rendeiro.

      Quando Pitou comia acompanhado gostava de falar; tinha notado que a palavra, quando não prejudicasse o engolir, ajudava a digestão, e esta descoberta tinha lançado raízes tão fortes no seu espírito que, quando comia só, cantava.

      A menos que não estivesse triste.

      Mas Pitou não tinha motivos para estar triste, pelo contrário!

      O seu viver em Haramont, desde certo tempo, tinha-se tornado muito agradável.

      Viram que Pitou amava, ou antes adorava Catarina. Convido o leitor a aceitar a palavra literalmente. Ora o que é necessário ao italiano, ou ao espanhol, que adora a madona? Vê-la, ajoelhar-se diante dela, e adorá-la.

      Que fazia Pitou?

      Chegada a noite, partia para a pedra Clouise, via Catarina, ajoelhava diante dela e adorava-a.

      E a mocinha, reconhecida pelo imenso serviço, que ele lhe prestava, fazia-lhe todas as vontades; as suas vistas porém, estavam noutra parte muito mais longe dali e mais alta.

      Somente, de tempos a tempos, despertava na alma do excelente moço um pequeno sentimento de ciúme quando trazia do correio uma carta de Isidoro para Catarina, ou quando levava para lá alguma de Catarina para Isidoro.

      Mas em todo o caso esta situação era incomparavelmente melhor que a que experimentara na herdade, quando, à volta de Paris, Catarina, reconhecendo em Pitou um demagogo, um inimigo dos nobres e dos aristocratas, o pusera na rua, dizendo-lhe que já não havia na herdade trabalho para ele.

      Pitou, que ignorava a gravidez de Catarina, não duvidava de que aquela situação devesse durar eternamente.

      Por isso deixara Haramont com grande mágoa, mas obrigado pelo seu posto superior a dar o exemplo de zelo, despedira-se de Catarina, recomendando-a ao tio Clouis, e prometendo voltar o mais breve possível.

      Pitou nada deixara portanto atrás de si que devesse torná-lo triste. Em Paris nada acontecera, que pudesse fazer-lhe nascer no coração um tal sentimento.

      Encontrara o Dr. Gilberto, a quem dera a conta do emprego dos seus vinte e cinco luíses; o Dr. Gilberto fez-lhe presente de outros vinte e cinco para serem aplicados, não exclusivamente às necessidades da guarda nacional, mas também às dele.

      Pitou tinha aceitado simples e sinceramente os vinte e cinco luíses.

      Uma vez que o Dr. Gilberto, que para ele era um Deus, lhos dava, não havia mal algum em recebê-los.

      Quando Deus dava a chuva ou sol, nunca Pitou se lembrara de tomar um guarda-chuva ou um guarda-sol para se livrar dos dons de Deus.

      Não, aceitava uma e outra coisa; como as flores, as plantas e as árvores, e dera-se sempre bem.

      E demais, depois de ter pensado um instante, Gilberto havia levantado a sua bela cabeça pensativa e dissera-lhe:

      - Creio, meu querido Pitou, que Billot tem muitas coisas a contar-me; não quererias tu, enquanto converso com Billot, ir fazer uma visita ao Sebastião?

      - Oh! Decerto, Sr. Gilberto - exclamou Pitou batendo as palmas como uma criança - tinha bastante vontade de o fazer, mas não me atrevia a pedir-lhe licença. Não é que eu não tivesse muitas saudades do meu querido Sebastião.

      Gilberto reflectiu ainda um instante.

      Depois pegando numa pena, escreveu algumas palavras num papel, que dobrou em forma de carta e sobrescritou para o filho.

      - Aqui tens, aluga um trem e vai ter com Sebastião; provavelmente, pelo que lhe escrevo, há-de ir contigo fazer uma visita; acompanhá-lo-ás aonde tem de ir, não é assim, meu caro Pitou? E esperá-lo-ás à porta. Talvez te faça esperar uma hora ou mais; mas eu conheço a tua condescendência: pensarás que me obsequeias e não te aborrecerás.

      - Não, senhor, fique descansado - disse Pitou - que eu nunca me aborreço, Sr. Gilberto. Além disso, munir-me-ei em qualquer padeiro de um bom pedaço de pão, e se me aborrecer, esperando no trem, comerei.

      - Óptimo meio! - respondeu Gilberto: - mas Pitou (isto é um conselho higiénico, ajuntou ele sorrindo), não é bom comer pão seco e faz bem beber quando se come.

      - Então - replicou Pitou - comprarei também um bocado de presunto e uma garrafa de vinho.

      - Bravo! - exclamara Gilberto.

      E assim animado com esta aprovação, Pitou descera, metera-se num fiacre, fizera-se conduzir ao colégio de Saint-Louis, perguntara por Sebastião, que passeava no jardim, pegara-lhe ao colo como Hércules em Telefo, e abraçara-o muito à sua vontade; depois, tornando a pô-lo no chão, entregara-lhe a carta do pai.

      Sebastião primeiro beijou a carta com o grato respeito e terno amor que dedicava ao pai; depois, passado um instante de reflexão, perguntou:

      - Pitou, meu pai não te disse que devias acompanhar-me a alguma parte?

      - Disse, sim, se tu lá quiseres ir...

      - Sim, sim - disse vivamente o mancebo; - sim, quero, e dirás a meu pai que aceitei com ardor.

      - Bom! - disse Pitou - parece que é alguma parte onde acharás prazer?

      - É um sítio onde ainda não fui senão uma vez, Pitou; mas sinto-me bem feliz em lá voltar!

      - Nesse caso - disse Pitou - basta prevenir o abade Bérardier de que sais... Temos lá em baixo à porta um fiacre, e vens comigo.

      - Pois bem! Então, para não perdermos tempo, meu querido Pitou - disse o mancebo - leva tu mesmo ao abade este bilhetinho de meu pai... Entretanto arranjar-me-ei um pouco melhor, e irei ter contigo ao pátio.

      Pitou levou o bilhetinho ao director dos estudos, tomou um exeat e desceu ao pátio.

      A entrevista com o abade Bérardier produzira em Pitou certa satisfação de amor próprio: dera-se a conhecer pelo pobre aldeão de capacete, armado, com sabre, e ligeiramente privado de calções, que no mesmo dia célebre da tomada da Bastilha, havia já um ano, tão grande impressão causara naquele colégio ao mesmo tempo pelas armas que trazia e pelo vestuário que não trazia. Agora apresentava-se com chapéu de três bicos, trajando casaca azul de forro branco, calção curto, e dragonas de capitão nos ombros; agora apresentava-se com essa confiança em si mesmo que dá a consideração que nos outorgam os nossos concidadãos; agora, finalmente, como deputado da confederação, tinha direito a toda a espécie de atenções.

      Por isso o abade Bérardier teve para Pitou as maiores atenções.

      Quase ao mesmo tempo que Pitou descia a escada, vindo do aposento do director dos estudos, Sebastião descia do seu quarto, que era ao lado.

      Era mais do que uma criança; Sebastião era um rapaz encantador de dezesseis para dezessete anos, e cujos cabelos castanhos lhe emolduravam o rosto, cujos olhos azuis lançavam as primeiras chamas juvenis, douradas como os raios do Sol que desponta.

      - Pronto, Pitou - disse ele todo radiante e alegre; - Vamo-nos.

      Ângelo Pitou olhou-o com uma alegria, misturada de tão grande admiração, que Sebastião foi obrigado a repetir as suas palavras.

      À segunda vez Pitou seguiu o amigo.

      Chegados à grade da entrada, Pitou dizia a Sebastião:

      - Olha! Bem sabes que ignoro para onde vamos; portanto dá tu a indicação ao cocheiro.

      - Fica descansado! - respondeu Sebastião.

      E dirigindo-se ao cocheiro, disse-lhe:

      - Rua Coq-Héron n.º 9, no primeiro portão, entrando pela rua Coquillière.