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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Dália Azul / Nora Roberts
A Dália Azul / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Dália Azul

 

Sempre houve um Harper na Harper House, a secular mansão nos arredores de Memphis. E, desde que há memória, a fantasmagórica Noiva Harper vagueia pelos corredores, cantarolando músicas de embalar à noite...

Tentando fugir aos fantasmas do passado, a jovem viúva Stella Rothchild, com os seus dois rapazinhos cheios de energia, regressa às raízes, no Sul do Tennessee - e a uma nova vida na Harper House. Aí encontra um emprego estimulante e duas grandes amigas-, e acaba por desenvolver um forte fascínio pelo rude e atraente paisagista Logan Kitridge.

Mas alguém não está feliz com este romance prometedor... a Noiva Harper. A medida que as mulheres mergulham na história da Harper House, descobrem que a dor e a raiva mantiveram vivo o espírito da Noiva muito depois da sua morte. E, agora, ela fará qualquer coisa para destruir a paixão entre Logan e Stella.

Da autora de maior destaque da lista de best-sellers do New York Times, chega-nos o primeiro romance da nova trilogia NO JARDIM. No cenário de uma casa mergulhada em história e de um próspero negócio de jardinagem, três mulheres desenterram as memórias do passado e descobrem um perigoso segredo.

 

Memphis, Tennessee Agosto de 1892

Dar à luz um bastardo não estava nos seus planos. Quando descobriu que trazia no ventre o filho do seu amante, o choque e o pânico rapidamente se transformaram em raiva.

Havia formas de lidar com a situação, claro. Uma mulher na sua posição tinha contactos, tinha opções. Mas ela tinha medo das abortadeiras, quase tanto medo delas como daquilo que crescia, indesejado, dentro de si.

A amante de um homem como Reginald Harper não podia dar-se ao luxo de engravidar.

Ele sustentava-a há quase dois anos, e sustentava-a bem. Oh, ela sabia que ele tinha outras - incluindo a mulher -, mas elas não a preocupavam.

Ainda era nova e era bonita. A juventude e a beleza eram produtos que podiam ser comercializados. E ela fizera-o, ao longo de quase uma década, com mente e coração de aço. E lucrara com essas mercadorias, polira-as com a graça e o charme que aprendera observando e imitando as senhoras elegantes que visitavam a grandiosa casa junto ao rio, onde a sua mãe trabalhava.

Ela tinha educação - um pouco. Mas, mais do que a de livros e música, aprendera a das artes da sedução.

Vendera-se pela primeira vez com quinze anos e, juntamente com o dinheiro, ganhara conhecimento. Mas a prostituição não era o seu objectivo, tal como não o era o trabalho doméstico ou arrastar-se para a fábrica dia após dia. Ela sabia a diferença entre prostituta e amante. Uma prostituta trocava sexo frio e rápido por tostões e já estava esquecida antes mesmo de o homem abotoar a braguilha.

Mas uma amante - uma amante inteligente e bem-sucedida - oferecia romance, sofisticação, conversa, boa disposição, para além da mercadoria que tinha entre as pernas. Era uma companheira, um ombro para ele chorar, uma fantasia sexual. Uma amante ambiciosa sabia como não exigir nada e ganhar muito.

Amélia Ellen Conner tinha ambições.

E concretizara-as. Pelo menos, a maioria delas.

Seleccionara Reginald muito cuidadosamente. Ele não era atraente nem tinha uma mente brilhante. Mas era, como a sua pesquisa lhe garantira, muito rico e muito infiel à magra e legítima esposa, que presidia a Harper House.

Ele tinha uma mulher em Natchez e dizia-se que mantinha outra em Nova Orleães. Podia sustentar mais uma e, portanto, Amélia apontou-lhe as suas armas. Fez-lhe olhinhos e conquistou-o.

Aos vinte e quatro anos, vivia numa bela casa em South Main e tinha três criadas. O seu guarda-fato estava cheio de roupa bonita e a caixa de jóias cintilava.

Era verdade que não era recebida pelas senhoras elegantes que em tempos invejara, mas havia um mundo semielegante onde uma mulher da sua posição era bem-vinda. Onde ela era invejada.

Dava festas sumptuosas. Viajava. Vivia.

Depois, pouco mais de um ano após Reginald a ter instalado naquela bonita casa, o seu mundo hábil e astuciosamente construído desabara.

Teria escondido a gravidez até reunir a coragem necessária para visitar o bairro da luz vermelha e acabar com ela. Mas ele apanhara-a a vomitar violentamente e estudara o seu rosto com aqueles olhos escuros e perspicazes.

E soubera.

Não só ficara satisfeito como a proibira de pôr termo à gravidez. Para seu choque, comprara-lhe uma pulseira de safiras para festejar a ocasião.

Ela não queria a criança, mas ele queria.

E, assim, ela começou a perceber como a criança podia funcionar a seu favor. Como mãe do filho de Reginald Harper - bastardo ou não -, ela estaria garantida para sempre. Ele podia perder o interesse em ir para a sua cama quando ela perdesse a frescura da juventude, quando a beleza diminuísse, mas continuaria a sustentá-la e à criança.

A mulher nunca lhe dera um rapaz. Mas ela podia dar-lho. E daria.

Durante os últimos gelos do Inverno e pela Primavera adentro, ela carregou a criança no ventre e fez planos para o futuro.

Depois, aconteceu algo estranho. O bebé mexeu-se dentro dela. Agitou-se e espreguiçou-se, deu-lhe pontapés. A criança que ela não tinha querido transformou-se no seu filho.

Crescia dentro de si como uma flor que apenas ela conseguia ver, sentir, conhecer. E, da mesma forma, cresceu dentro de si um tremendo e forte amor.

Ao longo daquele Verão sufocante e peganhento, ela desabrochou e, pela primeira vez na sua vida, conheceu uma paixão que não era por si própria e pelo seu próprio conforto.

A criança, o seu filho, precisava dela. Protegê-lo-ia com tudo o que tinha.

Com as mãos pousadas no ventre inchado, supervisionou a decoração do quarto do bebé. Paredes pintadas de verde-claro e cortinas de renda branca. Um cavalo de baloiço importado de Paris, um berço feito à mão em Itália.

Arrumou as roupinhas no guarda-fatos em miniatura. Renda irlandesa e bretã, sedas francesas. Tudo com um monograma requintadamente bordado com as iniciais do bebé. Ele seria James Reginald Conner.

Teria um filho. Finalmente, algo seu. Finalmente, alguém para amar. Viajariam juntos, ela e o seu lindo menino. Ela mostrar-lhe-ia o mundo. Ele frequentaria as melhores escolas. Era o seu orgulho, a sua alegria e o seu coração. E se, durante esse Verão abrasador, Reginald aparecia cada vez com menos frequência na casa de South Main, tanto melhor.

Ele era apenas um homem. Aquilo que crescia dentro dela era um filho.

Nunca mais estaria sozinha.

Quando sentiu as dores do parto, não teve medo. Ao longo das horas de suor e dor, pensava apenas numa coisa. O seu James. O seu filho. A sua criança.

Os seus olhos desfocaram-se com a exaustão, e o calor, um monstro vivo, era ainda pior do que a dor.

Viu o médico e a parteira trocarem olhares. Olhares de preocupação, de testas franzidas. Mas ela era jovem, era saudável, e ia conseguir.

O tempo não existia; as horas passaram, com a luz dos candeeiros a gás lançando sombras trémulas pelo quarto. Ouviu, por entre as ondas de exaustão, um choro débil.

- O meu filho - disse, com as lágrimas a deslizarem pelas faces. O meu filho.

A parteira segurou-a, impedindo-a de se levantar, murmurando, murmurando.

- Deixe-se estar deitada. Beba um pouco. Descanse.

Ela bebeu um gole para acalmar a garganta inflamada e sentiu o sabor do láudano. Antes que conseguisse protestar, mergulhou profundamente no sono. Para muito longe.

Quando acordou, o quarto estava escuro, as cortinas fechadas sobre as janelas. Quando se mexeu, o médico levantou-se da cadeira e aproximou-se para lhe pegar na mão, para lhe verificar o pulso.

- O meu filho. O meu bebé. Quero ver o meu bebé.

- Vou mandar que lhe tragam um pouco de caldo. Dormiu durante muito tempo.

- O meu filho deve ter fome. Mande que mo tragam.

- Minha senhora. - O médico sentou-se na beira da cama. Tinha os olhos muito apagados, muito perturbados. - Lamento muito. O bebé nasceu morto.

Aquilo que lhe apertou o coração era monstruoso, perverso, dilacerando-a com garras ardentes de dor e medo.

- Eu ouvi-o chorar. Isso é mentira! Porque me está a dizer uma coisa tão horrível?

- Ela nunca chorou. - Gentilmente, ele pegou-lhe nas mãos. - O seu parto foi longo e difícil. No final, estava delirante. Minha senhora, lamento muito. Deu à luz uma menina, morta.

Ela não queria acreditar. Gritou e enfureceu-se e chorou e foi sedada, apenas para acordar e gritar e enfurecer-se e chorar de novo.

Primeiro não desejara esta criança. E depois não desejara mais nada. A sua dor era inominável, para lá de qualquer razão. A dor levou-a à loucura.

 

Southfield, Michigan Setembro de 2001

Tinha queimado o molho bechamel. Stella recordaria para sempre esse pormenor irritante, tal como recordaria o ribombar e o estrondo dos trovões da tempestade de Verão e a algazarra dos filhos a discutirem na sala.

Recordaria o cheiro desagradável, o súbito grito dos alarmes de incêndio e a forma como tirara mecanicamente a caçarola do fogão e a despejara no lava-loiça.

Não era grande cozinheira, mas era - em geral - uma cozinheira precisa. Para esta refeição de boas-vindas, planeara fazer galinha à Alfredo, um dos pratos preferidos de Kevin, cozinhada de raiz, e acompanhá-la com uma bela salada verde e pão fresco e estaladiço com molho de manjericão.

Na sua cozinha organizada, na bonita casa suburbana, alinhara todos os ingredientes e apoiara o livro de culinária aberto no seu suporte, com a protecção de plástico sobre as páginas.

Pusera um avental azul por cima das calças e da camisola e prendera os caracóis ruivos no alto da cabeça, para não atrapalharem.

Estava a começar mais tarde do que pretendera, mas o trabalho tinha sido uma loucura o dia inteiro. Todas as flores de Outono estavam em saldo no centro de jardinagem e o tempo quente trouxera clientes aos magotes.

Não que se importasse. Adorava o trabalho, adorava positivamente o seu emprego como gerente da estufa. Sabia bem estar de novo em actividade, a tempo inteiro, agora que Gavin estava na escola e Luke já tinha idade suficiente para ir para a creche. Como é que o seu bebé crescera tanto, a ponto de já ir para a escola?

E, em menos de nada, Luke estaria na idade de ir para o jardim-de-infância.

Ela e Kevin deviam começar a ser um pouco mais activos na produção do terceiro filho. ”Talvez esta noite”, pensou com um sorriso. Quando chegasse aquela última fase, muito pessoal, dos seus planos de boas-vindas.

Enquanto media os ingredientes, ouviu o estrondo e o grito na sala do lado. ”Estão a pedi-las”, pensou, enquanto largava o que estava a fazer e corria para a sala. E queria ela ter outro filho, quando os dois que já tinha davam com ela em doida.

Entrou na sala e lá estavam eles. Os seus anjinhos. Gavin, louro e com o demónio nos olhos, estava inocentemente sentado, a brincar com dois carrinhos, enquanto Luke, com o cabelo ruivo igualzinho ao dela, gritava e olhava para os blocos de madeira espalhados.

Não precisava de ter visto o que acontecera para saber. Luke construíra; Gavin destruíra.

Na sua casa, era essa a lei que imperava.

- Gavin, porque fizeste isso? - Pegou em Luke e deu-lhe palmadinhas nas costas. - Não faz mal, querido. Podes construir outro.

- A minha casa! A minha casa!

- Foi sem querer - disse Gavin, mas aquele brilhozinho nos olhos, que a fazia ter de se esforçar por conter o sorriso, não desapareceu. - Foi o carro.

- Aposto que foi o carro... depois de o apontares à casa dele. Por que razão não consegues brincar sem estragar? Ele não estava a aborrecer-te.

- Eu estava só a brincar. Ele é um bebezinho.

- Pois é. - E foi a expressão dos olhos dela que conseguiu apagar a dos olhos de Gavin. - E, se queres portar-te também como um bebé, vai ser um bebé para o teu quarto. Sozinho.

- Era só uma casa estúpida.

- Não, não! Mamã - Luke segurou o rosto de Stella com ambas as mãos e olhou para ela com aqueles olhos ávidos e marejados de lágrimas. - Era uma casa boa.

- Podes construir outra ainda melhor, está bem? Gavin, deixa-o em paz. Estou a falar a sério. Estou ocupada na cozinha e o papá não deve demorar. Queres que eu te castigue no dia em que ele chega?

- Não. Nunca me deixas fazer nada.

-Azar. Que aborrecido não teres brinquedo nenhum, não é? - Pousou Luke no chão. - Constrói a tua casa, Luke. Não mexas nos blocos dele, Gavin. Se eu tiver de cá vir outra vez, garanto-te que não vais gostar.

- Quero ir lá para fora! - lamentou-se Gavin quando ela virou costas.

- Bom, está a chover, por isso não podes. Estamos todos presos dentro de casa. Portem-se bem.

Nervosa, voltou ao livro de culinária, tentando organizar as ideias. Num gesto irritado, ligou a televisão da cozinha. Céus, tinha tantas saudades de Kevin. Os miúdos tinham estado rabugentos a tarde toda e ela sentia-se atrasada, atrapalhada e desorientada. Com Kevin fora há quatro dias, passara o tempo todo a correr de um lado para o outro como uma louca. Cuidar da casa, dos miúdos, do trabalho, de tudo o que era preciso fazer, sozinha.

Por que diabo os electrodomésticos pareciam estar só à espera de que Kevin saísse da cidade para entrarem em greve? Ontem a máquina de lavar avariara-se e esta manhã a torradeira fizera curto-circuito.

Tinham um ritmo tão bom quando estavam juntos, dividindo as tarefas, partilhando a disciplina e o prazer dos filhos. Se ele estivesse em casa, podia ter-se sentado a brincar com os rapazes - e a arbitrá-los - enquanto ela cozinhava.

Ou, melhor ainda, ele cozinharia e ela brincaria com os filhos.

Sentia falta do cheiro dele quando se aproximava por trás dela, inclinando-se para roçar a face na sua. Sentia falta de se enroscar nele na cama, à noite, e de como conversavam no escuro sobre os seus planos ou se riam de qualquer coisa que os filhos tinham feito nesse dia.

”Por amor de Deus, até parece que ele está fora há quatro meses e não há quatro dias”, disse a si própria.

Distraída, ouviu Gavin a tentar convencer Luke a construir um arranha-céus que ambos poderiam destruir, mexeu o molho bechamel e viu o vento levantar as folhas do outro lado da janela.

Ele não viajaria tanto depois da promoção. ”Falta pouco”, recordou a si própria. Ele andava a trabalhar muito e estava mesmo à beira de o conseguir. O dinheiro a mais também daria jeito, principalmente quando tivessem outro filho - talvez desta vez fosse uma menina.

Com a promoção e ela a trabalhar de novo a tempo inteiro, podiam levar os miúdos a qualquer lado no próximo Verão. À Disneylândia, talvez. Eles adorariam. Mesmo que ela estivesse grávida, haviam de conseguir. Ela andava a amealhar algum dinheiro para o fundo das férias - e para o fundo do carro novo.

Ter de comprar uma máquina de lavar nova faria um sério rombo no fundo de emergência, mas eles aguentariam.

Quando ouviu os rapazes a rir, os seus ombros relaxaram de novo. Na verdade, a vida era boa. Era perfeita, tal como ela sempre imaginara. Estava casada com um homem maravilhoso, por quem se apaixonara assim que lhe pusera os olhos em cima. Kevin Rothchild, com o seu sorriso calmo e doce.

Tinham dois filhos lindos, uma casa bonita num bom bairro, empregos que ambos adoravam e planos para o futuro em que estavam os dois de acordo. E, quando faziam amor, ainda havia fogo-de-artifício.

Ao pensar nisso, imaginou qual seria a reacção dele quando, depois de os miúdos estarem na cama, ela vestisse a lingerie sensual que comprara na ausência dele, uma extravagância.

Um pouco de vinho, algumas velas e...

O estrondo que se seguiu, maior do que o primeiro, fê-la revirar os olhos para o tecto. Pelo menos desta vez havia risos em vez de lágrimas.

- Mamã! Mamã! - Com o rosto iluminado de alegria, Luke entrou a correr. - Deitámos tudo abaixo. Podemos comer uma bolacha?

- Não, falta pouco para o jantar.

- Por favor, por favor, por favor!

Ele estava a puxar-lhe as calças, tentando trepar pela perna dela. Stella pousou a colher e afastou-o do fogão.

- Não há bolachas antes de jantar, Luke.

- Estamos a morrer de fome - interveio Gavin, batendo com os carros um no outro. - Porque é que não podemos comer quando temos fome? Porque é que temos de comer a estúpida galinha?

- Porque sim. - Ela sempre detestara essa resposta em criança, mas agora parecia-lhe ter imensa utilidade. - Vamos comer todos juntos assim que o vosso pai chegar. - Mas olhou pela janela, preocupada, com receio de que o avião dele se atrasasse. - Podem dividir uma maçã.

Tirou uma maçã da fruteira em cima do balcão e pegou numa faca.

- Não gosto da casca - queixou-se Gavin.

- Não tenho tempo para a descascar - disse ela, mexendo o molho com gestos rápidos. - A casca faz bem! - Fazia, não fazia?

- Posso beber sumo? Posso beber sumo também? - Luke continuava a puxar-lhe as calças. - Tenho sede.

- Céus, esperem cinco minutos, está bem? Cinco minutos. Vão, vão construir qualquer coisa, que eu já vos dou fatias de maçã e sumo.

Um trovão ribombou e a reacção de Gavin foi começar aos saltos e gritar:

- Tremor de terra!

- Não é um tremor de terra.

O rosto dele estava corado de excitação enquanto girava em círculos e saía da cozinha a correr.

- Tremor de terra! Tremor de terra!

Entrando no espírito, Luke correu atrás dele, também aos gritos.

Stella levou a mão à cabeça, que latejava. O barulho era de doidos, mas talvez assim ficassem entretidos até ela ter o jantar adiantado.

Virou-se de novo para o fogão e ouviu, sem grande interesse, anunciarem na televisão um boletim noticioso especial.

As palavras filtraram-se através da dor de cabeça e ela virou-se para a televisão como um autómato.

Um avião despenhara-se. Dirigia-se para o aeroporto de Detroit Metro, proveniente de Lansing. Trazia dez passageiros a bordo.

A colher caiu-lhe da mão. O coração caiu-lhe do corpo.

Kevin. Kevin.

Os filhos gritavam, assustados e deliciados, e o trovão ribombou e rebentou por cima deles. Na cozinha, Stella deslizou para o chão enquanto o seu mundo se desmoronava.

Vieram dizer-lhe que Kevin estava morto. Desconhecidos à sua porta, com expressões solenes. Ela não conseguia aceitar, não conseguia acreditar. Embora já soubesse. Soubera assim que ouvira a voz do jornalista na pequena televisão da cozinha.

Kevin não podia estar morto. Era jovem e saudável. Vinha a caminho de casa e

iam comer galinha à Alfredo ao jantar.

Mas ela queimara o molho bechamel. O fumo fizera disparar os alarmes e não havia senão loucura na sua bonita casa.

Teve de mandar os filhos para a vizinha para que lhe pudessem explicar o que acontecera.

Mas como podia o impossível, o impensável, alguma vez ser explicado?

Um erro. A tempestade, um relâmpago, e tudo mudara para sempre. Um instante no tempo e o homem que ela amava, o pai dos seus filhos, já não estava vivo.

”Há alguém a quem queira telefonar?”

A quem havia de telefonar senão a Kevin? Ele era a sua família, o seu amigo, a sua vida.

Eles falaram-lhe de pormenores que eram como um zumbido na mente dela, de preparativos, de terapia. Lamentavam muito a sua perda.

Depois foram-se embora e ela ficou sozinha na casa que ela e Kevin tinham comprado quando estava grávida de Luke. A casa para a qual ti nham poupado e que tinham pintado e decorado juntos. A casa com os jardins que ela própria desenhara.

A tempestade passara e estava tudo silencioso. Alguma vez o silêncio fora tão grande? Conseguia ouvir o bater do seu próprio coração, o zumbi do do aquecimento a disparar, o gotejar da chuva a pingar das goteiras.

Depois, ouviu o seu próprio lamento quando tombou por terra junto da porta da rua. Deitada de lado, encolheu-se numa bola, em defesa, e negação. Não havia lágrimas, ainda não. Estavam acumuladas numa espécie de nó tenso e quente dentro dela. A dor era tão profunda que as lágri mas não conseguiam alcançá-la. Só conseguia estar ali deitada, encolhida com aqueles sons de animal ferido a brotar-lhe dos lábios.

Estava já escuro quando se levantou, cambaleante, atordoada e agoniada. Kevin. Algures no seu cérebro, o nome dele ainda se repetia uma e outra vez.

Tinha de ir buscar os filhos, tinha de trazer os filhos para casa. Tinha de contar aos seus bebés.

Oh, meu Deus! Oh, meu Deus, como havia de lhes dizer?

Abriu a porta e saiu para a escuridão e para o frio, com a mente abençoadamente vazia. Deixou a porta aberta atrás de si, caminhou entre os crisântemos e ásteres e passou pelas folhas verdes e brilhantes das azáleas que ela e Kevin tinham plantado num dia claro de Primavera.

Atravessou a estrada como uma cega, caminhando através das poças e ensopando os sapatos, por cima da relva molhada, em direcção à luz do alpendre dos vizinhos.

Como se chamava a vizinha? Era engraçado, conheciam-se há quatro anos. Davam boleia uma à outra e às vezes iam às compras juntas. Mas não conseguia recordar-se...

Oh, sim, claro. Diane. Diane e Adam Perkins, e os filhos, Jessie e Wyatt ”Uma família simpática”, pensou apaticamente. Uma família simpática e normal. Tinham feito um churrasco juntos ainda há duas semanas. Kevin assara frangos. Ele adorava churrascos. Tinham bebido um bom vinho, dado umas boas gargalhadas e as crianças tinham brincado juntas. Wyatt caíra e arranhara o joelho.

Claro que se lembrava.

Mas parou em frente da porta, sem saber bem o que estava ali a fazer

Os filhos. Claro. Vinha buscar os filhos. Tinha de lhes dizer...

”Não penses.” Endireitou-se, cambaleou, aguentou-se. ”Não penses ainda. Se pensares, vais quebrar-te em mil pedaços que nunca mais conseguirás colar.”

Os seus bebés precisavam dela. Precisavam dela agora. Agora só a tinham a ela.

Engoliu aquele nó tenso e quente e tocou à campainha.

Viu Diane como se estivesse a olhar para ela através de uma fina camada de água. Ondulante, como se não estivesse bem ali. Ouviu-a vagamente. Sentiu os braços que a rodearam num gesto de apoio e compreensão.

”Mas o teu marido está vivo, não está?”, pensou Stella. ”A tua vida não acabou. O teu mundo é o mesmo que era há cinco minutos. Por isso, não podes saber. Não podes.”

Quando sentiu que estava a começar a tremer, afastou-se.

- Agora não, por favor. Agora não posso. Tenho de levar os rapazes para casa.

- Eu posso ir contigo. - Diane tinha as faces molhadas de lágrimas quando estendeu a mão e tocou no cabelo de Stella. - Queres que vá contigo, que fique convosco?

- Não. Agora não. Preciso... dos meus filhos.

- Vou buscá-los. Entra, Stella.

Mas ela limitou-se a abanar a cabeça.

- Está bem. Eles estão na sala. Vou buscá-los. Stella, se houver alguma coisa que eu possa fazer, seja o que for... Basta telefonares. Lamento muito. Lamento muito.

Ela ficou ali, na escuridão, a olhar para a luz dentro de casa e à espera.

Ouviu os protestos, as queixas, depois o som de passos. E ali estavam os seus rapazes - Gavin com o cabelo cor de sol do pai, Luke com a boca do pai.

- Não queremos ir já - disse-lhe Gavin. - Estávamos a jogar. Não podemos acabar?

- Hoje não. Temos de ir já para casa.

- Mas eu estava a ganhar! Não é justo e...

- Gavin. Temos de ir.

- O papá já chegou?

Ela olhou para Luke, para o seu rosto feliz e inocente, e quase se foi abaixo.

- Não. - Baixou-se, pegou nele ao colo e encostou os lábios àquela boca tão parecida com a de Kevin. - Vamos para casa.

Pegou na mão de Gavin e começou a caminhar em direcção à casa vazia.

- Se o papá estivesse em casa, ele deixava-me acabar. - Na voz de Gavin, havia a promessa de lágrimas. - Quero o papá.

- Eu sei. Eu também.

- Podemos ter um cão? - quis saber Luke, virando o rosto dela para o seu com as mãos. - Podemos pedir ao papá? Podemos ter um cão como a Jessie e o Wyatt?

- Falamos sobre isso depois.

- Quero o papá - repetiu Gavin, agora em voz mais aguda.

”Ele sabe”, pensou Stella. ”Ele sabe que algo está errado, que algo está terrivelmente errado. Tenho de fazer isto. Tenho de o fazer já.”

- Vamos sentar-nos. - Cuidadosa, muito cuidadosamente, fechou a porta atrás de si e levou Luke até ao sofá. Sentou-se com ele ao colo e passou o braço pelos ombros de Gavin.

- Se eu tivesse um cão - disse-lhe Luke muito sério -, tomaria conta dele. Quando é que o papá chega?

- Ele não pode vir.

- Por causa da viagem de trabalho?

- Ele... - Ajuda-me, meu Deus, ajuda-me a fazer isto. - Houve um acidente. O papá teve um acidente.

- Como quando os carros se viram? - perguntou Luke. Gavin não disse nada, absolutamente nada, e os seus olhos perscrutaram o rosto dela.

- Foi um acidente muito grave. O papá teve de ir para o céu.

- Mas depois tem de vir para casa.

- Não pode. Nunca mais pode vir para casa. Agora tem de ficar no céu.

- Não quero que ele fique lá. - Gavin tentou libertar-se mas ela apertou-o com mais força. - Quero que ele venha para casa já.

- Eu também não quero que ele fique lá, meu amor. Mas ele já não pode voltar para casa, por muito que nós queiramos.

Os lábios de Luke tremeram.

- Ele está zangado connosco?

- Não! Não, não, meu querido. Não. - Encostou o rosto ao cabelo dele, com o estômago às voltas e o que lhe restava do coração a latejar como uma ferida aberta. - Ele não está zangado connosco. Ele gosta muito de nós. E gostará sempre de nós.

- Ele morreu. - Havia fúria na voz de Gavin, raiva no seu rosto. Depois desapareceram e ele era apenas um menino a chorar nos braços da mãe.

Abraçou-os até adormecerem e depois levou-os para a cama dela, para que nenhum deles acordasse sozinho. Tal como fizera vezes sem conta descalçou-os e tapou-os, aconchegando os cobertores.

Deixou uma luz acesa enquanto deambulava - parecia-lhe mais que flutuava - pela casa, trancando as portas, verificando se as janelas estavam fechadas. Quando viu que estava tudo bem, fechou-se na casa de banho. Encheu a banheira com água tão quente que o vapor encheu o ar de neblina.

Só quando entrou na banheira e se submergiu na água a escaldar permitiu que o nó se desfizesse. Com os filhos a dormir e o corpo a tremer dentro da água quente, chorou, chorou, chorou.

Conseguiu aguentar. Alguns amigos sugeriram que tomasse um tranquilizante, mas ela não queria bloquear os sentimentos. Nem queria ter a cabeça embotada quando tinha de pensar nos filhos.

Manteve as coisas simples. Kevin teria preferido uma coisa simples. Pensou em cada pormenor da cerimónia - na música, nas flores, nas fotografias. Escolheu uma urna de prata para as cinzas dele e planeou deitá-las no lago. Ele pedira-a em casamento no lago, num barco alugado, numa tarde de Verão.

Vestiu-se de preto para a cerimónia, uma viúva de trinta e um anos, com dois filhos pequenos e uma hipoteca, e um coração tão partido que julgava que continuaria a sentir os seus pedaços a perfurarem-lhe a alma para o resto da vida.

Manteve sempre os filhos perto dela e marcou consultas com um psicólogo para os três.

Pormenores. Conseguia lidar com os pormenores. Desde que tivesse qualquer coisa para fazer, qualquer coisa concreta, aguentaria. Conseguia ser forte.

Os amigos vieram, com a sua compreensão e pratos de comida e olhos húmidos. Ela ficou-lhes mais grata pela distracção do que pelas condolências. Não havia condolência para ela.

O seu pai e a mulher dele vieram de Memphis e neles, sim, apoiou-se. Deixou Jolene, a mulher do seu pai, andar de roda dela, acarinhar e mimar as crianças, enquanto a sua mãe se queixava de ter de estar na mesma sala que aquela mulher.

Quando a cerimónia acabou, depois de os amigos se irem embora, depois de ter abraçado o pai e Jolene que voltavam para casa, obrigou-se a despir o vestido preto.

Enfiou-o num saco para o mandar para uma instituição de caridade. Nunca mais queria vê-lo.

A sua mãe ficou. Stella pedira-lhe que ficasse alguns dias. Com certeza que, nestas circunstâncias, tinha direito a ter a mãe ao pé dela. Independentemente do atrito entre as duas, que sempre existira, nada se comparava à morte.

Quando entrou na cozinha, a mãe estava a fazer café. Stella ficou tão grata por não ter de se preocupar com essa pequena tarefa que se aproximou e deu um beijo no rosto de Carla.

- Obrigada, estou farta de chá.

- Cada vez que eu virava costas, aquela mulher estava a fazer chá.

- Ela estava a tentar ajudar e, sinceramente, não sei se ia conseguir beber café antes.

Carla virou-se. Era uma mulher magra, com cabelo louro e curto. Ao longo dos anos, combatera o tempo com visitas regulares ao cirurgião. Cortes, suturas, lifts e injecções tinham apagado alguns dos anos. ”E deixaram-na com um ar cortante e duro”, pensou Stella.

Podia aparentar ter quarenta anos, mas nunca pareceria feliz por isso.

- Estás sempre a defendê-la.

- Não estou a defender a Jolene, mãe. - Cansada, Stella sentou-se. Não há mais pormenores, percebeu. Não há mais nada que tenha de ser feito.

Como é que ia conseguir ultrapassar aquela noite?

- Não vejo por que razão hei-de tolerá-la.

- Lamento que te sintas pouco à vontade. Mas ela foi muito simpática. Ela e o pai estão casados há quê?... Vinte e cinco anos, mais ou menos. Já devias estar habituada.

- Não gosto de estar ao pé dela e da sua voz fanhosa. Gentinha reles. Stella abriu a boca e voltou a fechá-la. Jolene não era decididamente gentinha reles. Mas de que adiantaria dizê-lo? Ou recordar à mãe que fora ela quem quisera o divórcio, fora ela quem pusera um fim ao casamento. Tal como não adiantava apontar que Carla já estivera casada duas vezes depois disso.

- Bom, ela já se foi embora.

- E já foi tarde.

Stella respirou fundo. ”Não quero discutir”, pensou com um aperto no estômago. ”Estou demasiado cansada para discutir.”

- Os miúdos estão a dormir. Estão esgotados. Amanhã... logo veremos como será amanhã. Acho que tem de ser assim. - Baixou a cabeça e fechou os olhos. - Estou sempre a pensar que isto é um pesadelo horrível e que vou acordar a qualquer segundo e o Kevin estará aqui. Não... não consigo imaginar a vida sem ele. Não aguento pensar nisso.

As lágrimas começaram a correr de novo.

- Mãe, não sei o que vou fazer.

- Ele tinha seguro, não tinha?

Stella pestanejou e olhou para Carla, que estava a pôr uma caneca de café à sua frente.

- Seguro de vida. Ele tinha seguro de vida?

- Sim, mas...

- Devias falar com um advogado e pensar em processar a companhia aérea. É melhor começares a pensar em coisas práticas. - Sentou-se, também com um café para si. - É o melhor a fazer, de qualquer maneira.

- Mãe. - Falou lentamente, como se estivesse a traduzir uma língua estranha e desconhecida. - O Kevin está morto.

- Eu sei, Stella, e tenho muita pena. - Estendeu o braço e acariciou-lhe a mão. - Deixei tudo para vir aqui dar-te uma ajuda, não foi?

- Sim. - Tinha de se lembrar disso e sentir-se grata.

- É uma merda de mundo, quando um homem tão novo morre sem razão nenhuma. Um desperdício terrível. Nunca compreenderei.

- Não. - Stella tirou um lenço do bolso e limpou as lágrimas. - Nem eu.

- Eu gostava dele. Mas a verdade é que estás numa situação complicada. Contas para pagar, crianças para sustentar. Viúva com dois filhos pequenos. Não há muitos homens dispostos a aceitar uma família já pronta, podes acreditar em mim.

- Não quero homem nenhum, mãe, por amor de Deus.

- Mas hás-de querer - disse Carla com um aceno. - Aceita o meu conselho e certifica-te de que o próximo tem dinheiro. Não cometas os mesmos erros que eu. Perdeste o teu marido e isso é duro. É muito duro. Mas todos os dias há mulheres que perdem os maridos. É melhor perdê-lo desta maneira do que passar por um divórcio.

A dor no estômago de Stella era demasiado aguda para ser pesar, demasiado fria para ser raiva.

- Mãe, o Kevin foi cremado hoje. Tenho as cinzas dele numa maldita caixa no meu quarto.

- Querias a minha ajuda - disse ela, agitando a colher - e estou a tentar dar-ta. Processa a companhia aérea, arranja um bom pé-de-meia. E não te agarres a um miserável qualquer como eu estou sempre a fazer. Achas que o divórcio não é também um golpe duro? Nunca passaste por nenhum, pois não? Pois bem, eu já. Duas vezes. E posso dizer-te desde já que o terceiro está a caminho. Estou farta daquele filho-da-mãe estúpido. Não fazes ideia do que ele me tem feito passar. Não só é um idiota insensível e fala-barato, como acho que me anda a enganar.

Afastou-se da mesa, remexeu no armário e serviu-se de uma fatia de bolo.

- Se ele julga que eu vou aturar isso, está muito enganado. Adorava ver a cara dele quando receber os papéis do divórcio. Hoje mesmo.

- Lamento que o teu terceiro casamento não esteja a resultar - disse Stella rigidamente. - Mas é um pouco difícil para mim mostrar compreensão, uma vez que tanto o terceiro casamento como o terceiro divórcio foram por escolha tua. O Kevin morreu. O meu marido morreu e podes ter a certeza de que isso não foi por escolha minha.

- Achas que eu quero passar por isto outra vez? Achas que quero vir aqui para te ajudar e ter de aguentar a galdéria do teu pai?

- Ela é mulher dele, uma mulher que nunca foi outra coisa senão decente contigo e que sempre me tratou muito bem.

- Pela frente. - Carla enfiou um pedaço de bolo na boca. - Achas que és a única que tem problemas? Que sofre? Não serias tão rápida a desdenhar aquilo por que eu estou a passar se tivesses cinquenta anos e a perspectiva de passar o resto da vida sozinha.

- Entraste agora nos cinquenta, mãe, e, mais uma vez, estar sozinha é escolha tua.

O mau génio escureceu os olhos cortantes de Carla.

- Não gosto desse tom de voz, Stella. Não tenho de aturar isto.

- Pois não. Realmente, não tens. Na verdade, provavelmente seria melhor para as duas se te fosses embora. Já. Isto foi má ideia. Não sei o que me passou pela cabeça.

- Se queres que eu vá, muito bem. - Carla levantou-se. - O melhor é mesmo voltar para a minha vida. Nunca foste capaz de mostrar gratidão e só te sentes feliz se puderes irritar-me por qualquer coisa. Da próxima vez que quiseres chorar no ombro de alguém, telefona à campónia da tua madrasta.

- Oh, é o que farei - murmurou Stella assim que Carla saiu da cozinha.

- Podes ter a certeza.

Levantou-se para ir pôr a caneca no lava-loiça, depois cedeu a um impulso mesquinho e partiu-a. Apetecia-lhe quebrar tudo, tal como ela fora quebrada. Queria semear a destruição pelo mundo, tal como ela fora destruída.

Em vez disso, apoiou-se na beira do lava-loiça e rezou para que a mãe fizesse as malas e partisse rapidamente. Queria-a fora dali. Por que diabo pensara que queria que ela ficasse? Era sempre a mesma coisa entre elas. Cáusticas, combativas. Não havia ligação, não havia nada em comum.

Mas, céus, precisava de um ombro. Precisava muito, apenas por uma noite. Amanhã faria o que tivesse de fazer a seguir. Mas esta noite precisava de ser abraçada, acariciada e consolada.

Com dedos trémulos, apanhou os fragmentos da caneca do lava-loiça, chorando enquanto os deitava no lixo. Depois, dirigiu-se ao telefone e chamou um táxi para a mãe.

Não trocaram nem mais uma palavra e Stella achou que era melhor assim. Fechou a porta e ouviu o táxi afastar-se.

Agora sozinha, foi ver os filhos, aconchegou-os melhor e beijou-os ao de leve na testa.

Eles eram tudo o que lhe restava. E ela era tudo o que eles tinham.

Seria uma mãe melhor, jurou. Mais paciente. Nunca, nunca os desiludiria. Nunca lhes viraria costas quando precisassem dela.

E quando precisassem do seu ombro, por Deus, ela estaria disponível. Acontecesse o que acontecesse. Fosse quando fosse.

- Vocês estão em primeiro lugar para mim - murmurou. - Estarão sempre em primeiro lugar.

No seu quarto, voltou a despir-se e tirou o velho roupão de flanela de Kevin do armário. Enrolou-se nele, no seu cheiro familiar e desolador.

Encolhida em cima da cama, apertou mais o roupão, fechou os olhos e rezou pela manhã. Por aquilo que aconteceria a seguir.

Capítulo 2

 

Harper House Janeiro de 2004

Não podia dar-se ao luxo de se deixar intimidar pela casa ou pela sua dona. Ambas tinham reputações estabelecidas.

Da casa, dizia-se que era elegante e antiga, com jardins que rivalizavam com o do Éden. E ela acabara de o confirmar pessoalmente.

Da mulher, dizia-se que era interessante, algo solitária e talvez um pouco ”difícil”. Uma palavra, Stella sabia-o, que podia significar qualquer coisa, desde determinada a má e fria.

De uma maneira ou de outra, ela era capaz de aguentar, recordou a si própria enquanto combatia a vontade de se levantar e começar a andar de um lado para o outro. Já aguentara coisas piores.

Precisava deste emprego. Não apenas pelo salário - e era um salário generoso -, mas pela estrutura, pelo desafio, pela acção. Para poder fazer mais do que continuar na rotina em que caíra.

Precisava de uma vida, de algo mais do que picar o ponto e receber o cheque do ordenado que seria sugado pelas contas. Por mais lugar-comum que isso parecesse, precisava de algo que a realizasse e a estimulasse.

Rosalind Harper era uma mulher realizada, Stella tinha a certeza disso. Uma bela casa ancestral, um negócio bem-sucedido. Tentou imaginar como seria acordar todos os dias e saber exactamente qual era o seu lugar e a sua meta.

Se pudesse pedir alguma coisa e transmitir essa dádiva aos filhos, seria a consciência de saber quem era. Receava ter perdido essa consciência com a morte de Kevin. O fazer não era problema. Dessem-lhe uma tarefa ou um desafio e o espaço para a cumprir ou resolver, e ela era a mulher certa.

Mas a consciência de saber quem era, dentro de si mesma, fora mutilada naquele dia de Setembro de 2001 e nunca mais sarara por completo.

Este era o seu princípio, este regresso ao Tennessee. Esta última entrevista, cara a cara, com Rosalind Harper. Se não conseguisse o emprego bom, arranjaria outro. Ninguém podia acusá-la de não saber trabalhar ou de não conseguir ganhar a vida para ela e para os filhos.

Mas, céus, queria este trabalho.

Endireitou os ombros e tentou ignorar os murmúrios de dúvida que ecoavam na sua cabeça. Ia consegui-lo.

Vestira-se cuidadosamente para a ocasião. De forma profissional, mas não exagerada, com um fato azul-escuro e uma camisa branca engomada. ”Bons sapatos, uma boa mala”, pensou. Jóias simples. Nada de demasiado vistoso. Maquilhagem subtil, para realçar o azul dos olhos. Prendera o cabelo na nuca com um travessão. Se tivesse sorte, a massa de caracóis não se soltaria antes do fim da entrevista.

Rosalind estava a fazê-la esperar. Provavelmente era um jogo mental, conjecturou Stella, retorcendo os dedos, abrindo e fechando a fivela do relógio. Deixando-a a fermentar nesta saleta magnífica, dando-lhe tempo para ver bem as antiguidades e os quadros encantadores, a vista sumptuosa das janelas da frente.

Tudo decorado naquele estilo sulista, sonhador e gracioso, que lhe recordava que era uma ianque, um peixe fora de água.

”As coisas aqui são mais lentas”, recordou a si própria. Tinha de se lembrar de que este era um ritmo diferente daquele a que estava habituada, e uma cultura diferente.

A lareira era provavelmente uma Adams, segundo lhe pareceu. Aquele candeeiro era de certeza um Tiffany original. Chamariam reposteiros àquelas cortinas ou isso era demasiado Scarlett O’Hara? Seriam as rendas por detrás das cortinas herança de família?

Deus, alguma vez se sentira mais fora do seu elemento? O que estava uma viúva da classe média do Michigan a fazer no meio de todo este esplendor sulista?

Recompôs-se e afivelou uma expressão neutra no rosto quando ouviu passos aproximarem-se no corredor.

- Trouxe café. - Não era Rosalind, mas sim o homem jovial que abrira a porta e conduzira Stella à sala.

Tinha cerca de trinta anos, calculou ela, era de altura mediana e muito magro. O cabelo castanho e brilhante era ondulado e emoldurava um rosto de estrela de cinema, realçado por uns cintilantes olhos azuis. Apesar de se vestir de preto, Stella não via nada de mordomo nele. Demasiado artístico, demasiado elegante. Apresentara-se como David.

Pousou em cima da mesinha de café o tabuleiro com o bule e as chávenas de porcelana, os pequenos guardanapos de linho, o açúcar e as natas, e uma jarrinha minúscula com um raminho de violetas.

- A Roz atrasou-se um pouco, mas já não se demora, portanto descontraia-se e aprecie o seu café. Está confortável?

- Sim, muito.

- Posso trazer-lhe mais alguma coisa enquanto espera por ela?

- Não, obrigada.

- Nesse caso, esteja à vontade - ordenou, servindo-lhe uma chávena de café. - Nada como uma lareira em Janeiro, não é? Faz-nos esquecer que ainda há poucos meses estava calor suficiente para derreter a pele de cima dos ossos. O que põe no café, minha querida?

Ela não estava habituada a ser tratada por ”minha querida” por homens desconhecidos que lhe serviam café em saletas magnificentes. Em particular, quando desconfiava que ele era alguns anos mais novo do que ela.

- Apenas um pouco de natas. - Teve de fazer um esforço para não olhar fixamente para a cara dele, pois era... bom, delicioso, com os lábios cheios, os olhos cor de safira, as maçãs do rosto fortes, a covinha sexy no queixo. Já trabalha para a sr.a Harper há muito tempo?

- Desde sempre - disse ele, com um sorriso encantador, entregando-lhe o café. - Ou pelo menos é o que parece, e digo-o no melhor dos sentidos. Responda-lhe directamente às perguntas directas e não ature tretas.

- O seu sorriso abriu-se mais. - Ela odeia quando as pessoas lhe lambem as botas. Sabe, minha querida, adoro o seu cabelo.

- Oh... - Ela levou automaticamente a mão ao cabelo. - Obrigada.

- Ticiano sabia o que estava a fazer quando pintou essa cor. Boa sorte com a Roz - disse, dirigindo-se à porta. - Oh, e os sapatos são fantásticos.

Ela suspirou e pegou no café. Ele reparara no seu cabelo e nos sapatos, elogiando ambos. Era gay. Azar o dela.

O café era bom e David tinha razão. Era bom estar junto da lareira em Janeiro. Lá fora, o ar estava húmido e frio, com um céu cinzento. Uma pessoa podia habituar-se a um Inverno passado junto à lareira a beber café numa chávena... o que era? Meissen, Wedgwood? Curiosa, levantou a chávena para ver o logotipo do fabricante.

- É Staffordshire, trazida de Inglaterra por uma das noivas Harper em meados do século XIX.

Não valia a pena amaldiçoar-se, pensou Stella. Não valia a pena lamentar o facto de a sua tez clara de ruiva estar corada de embaraço. Simplesmente, baixou a chávena e olhou directamente para os olhos de Rosalind Harper.

- É linda.

- Sempre achei o mesmo. - Ela entrou, sentou-se na cadeira ao lado de Stella e serviu-se de uma chávena de café.

Uma delas, percebeu Stella, calculara mal o código de vestuário para a entrevista.

Rosalind vestira a sua silhueta alta e graciosa com uma camisola larga, cor de azeitona, e calças de trabalho castanhas, esgaçadas nas bainhas. Estava descalça, com um par de meias grossas castanhas a cobrir os pés compridos e estreitos. O que explicava, calculou Stella, a sua entrada silenciosa.

O seu cabelo era curto, liso e preto.

Apesar de, até ao momento, todos os seus contactos terem sido através de telefone, fax ou e-mail, Stella fizera uma pesquisa sobre ela no google. Queria saber mais sobre a sua potencial patroa - e queria ver a cara dela.

Encontrara numerosos artigos de jornais e revistas. Estudara Rosalind em criança e ao longo da juventude. Maravilhara-se com as fotos de arquivo de uma noiva deslumbrante e delicada, de apenas dezoito anos, e sentira empatia pela viúva pálida de expressão estóica aos vinte e cinco anos.

Havia mais, claro. Material tirado de revistas da sociedade, especulações e mexericos sobre quando e se a viúva voltaria a casar. Depois, bastante material sobre a fundação do negócio dos viveiros, os seus jardins, a sua vida amorosa. O breve segundo casamento e o divórcio.

Stella formara a imagem de uma mulher determinada e perspicaz e atribuíra a aparência deslumbrante aos ângulos das câmaras, a luz e a maquilhagem.

Enganara-se.

Aos quarenta e seis anos, Rosalind Harper era uma rosa madura, uma rosa de estufa, pensou Stella, mas uma rosa que enfrentava os elementos, estação após estação, e regressava, ano após ano, mais forte e bonita.

Tinha um rosto fino, definido por ossos fortes, e olhos grandes e Profundos cor de uísque. A boca, com lábios cheios e bem desenhados, não estava pintada - nem, percebeu o olhar entendido de Stella, o resto daqele rosto encantador.

Havia rugas nos cantos dos olhos escuros, aquelas linhas finas que o deus do tempo adora gravar, mas que não diminuíam a sua beleza.

Tudo o que Stella conseguia pensar era: ”Por favor, posso ser como a senhora quando crescer? Mas gostava de me vestir melhor, se não se importa.”

- Fi-la esperar, não foi? Respostas directas, recordou Stella.

- Um bocadinho, mas não é um grande sacrifício estar sentada nesta sala a beber um bom café por uma chávena Staffordshire.

- O David preocupa-se demais. Eu estava na estufa de propagação, atrasei-me.

A voz dela, pensou Stella, era enérgica. Não seca - era impossível falar secamente com sotaque do Tennessee -, mas directa e cheia de energia.

- Parece mais nova do que eu pensava. Tem o quê, trinta e três?

- Sim.

- E os seus filhos... seis e oito?

- Exacto.

- Não os trouxe consigo?

- Não. Ficaram com o meu pai e a mulher dele.

- Gosto muito do Will e da Jolene. Como estão eles?

- Estão bem. Gostam de ter os netos com eles.

- Imagino que sim. O seu pai de vez em quando mostra as fotografias deles e quase rebenta de orgulho.

- Uma das razões por que me mudei para aqui foi para eles poderem passar mais tempo juntos.

- É uma boa razão. Eu gosto muito de rapazinhos. Sinto falta de ter miúdos por aqui. O facto de ter dois joga a seu favor. O seu currículo, a recomendação do seu pai e a carta do seu último patrão... bom, também não fazem mal nenhum.

Tirou uma bolacha do tabuleiro e mordeu-a, sem nunca tirar os olhos de Stella.

- Preciso de uma organizadora, alguém criativo e trabalhador, uma pessoa apresentável e basicamente incansável. Gosto de que as pessoas que trabalham comigo consigam acompanhar o meu ritmo, e eu imponho um ritmo acelerado.

- Foi o que me disseram. - ”Muito bem”, pensou Stella, ”serei também enérgica e directa.” - Tenho o curso de gestão de viveiros. À excepção dos três anos em que fiquei em casa para ter os meus filhos... e durante os quais criei e tratei do meu próprio jardim e dos jardins de dois vizinhos... trabalhei sempre nesse ramo. De há mais de dois anos para cá, desde a morte do meu marido, tenho criado os meus filhos e trabalhado fora de casa, na minha área. Fiz um bom trabalho com ambas as coisas. Consigo acompanhá-la, sr.a Harper. Consigo acompanhar qualquer pessoa. ”Talvez”, pensou Roz. ”Talvez.”

- Mostre-me as suas mãos.

Um pouco aborrecida, Stella estendeu as mãos. Roz pousou o café e pegou-lhes. Virou-as de palmas para cima e passou os polegares sobre elas.

- Sabe trabalhar.

- Sim, sei.

- O fato Banker enganou-me. Não que não seja um bonito fato. - Roz sorriu e acabou a bolacha. -Tem estado muito húmido nestes últimos dias. Vamos ver se conseguimos arranjar-lhe umas botas para não dar cabo desses lindos sapatos. Vou mostrar-lhe as instalações.

As botas eram grandes demais e a borracha verde-tropa pouco atraente, mas o terreno húmido e o cascalho moído teriam arruinado os seus sapatos novos.

Mas a aparência importava pouco para o projecto que Rosalind Harper erguera.

A empresa No Jardim ocupava todo o lado oeste da propriedade. O centro de jardinagem estava voltado para a estrada e os terrenos à entrada e de ambos os lados do parque de estacionamento eram lindos e bem tratados. Mesmo em Janeiro, Stella conseguia ver o cuidado e a criatividade colocados na apresentação: pela selecção e posicionamento das árvores sempre-verdes e ornamentais, pelas zonas elevadas e adubadas, onde presumia que brotaria a cor dos bolbos e das vivazes, e pelas coloridas plantas anuais da Primavera e do Verão até às do Outono.

Logo à primeira vista, percebeu que não queria o emprego. Estava desesperada por ele. O desejo deixou-lhe os nervos em franja e apertou-lhe o estômago, as sensações que geralmente estão reservadas para um amante.

- Não queria a parte de venda ao público perto da casa - disse Roz enquanto estacionava a carrinha. - Não queria ver comércio da janela da sala. Os Harpers são, e sempre foram, pessoas viradas para os negócios. Mesmo quando parte destas terras tinha algodão em vez de construções.

Stella, com a boca demasiado seca para falar, conseguiu apenas acenar com a cabeça. A casa principal não era visível dali. Uma área de bosque natural escondia-a e impedia que os edifícios compridos e baixos, o próprio centro e, imaginou, a maior parte das estufas, se intrometessem na paisagem vista das janelas da Harper House.

E olhem só para aquele velho castanheiro-da-índia maravilhoso!

- Esta secção está aberta ao público doze meses por ano - continuou Roz. - Temos todas as actividades secundárias que seria de esperar, bem como plantas de interior e uma selecção de livros de jardinagem. O meu filho mais velho está a ajudar-me a gerir esta secção, embora se sinta mais feliz nas estufas ou nos campos. Temos dois empregados de escritório em part-time. Dentro de algumas semanas, precisaremos de mais.

”Concentra-te”, ordenou Stella a si própria.

- Nesta região, a estação mais movimentada deve começar em Março.

- Exacto. - Roz conduziu-a por uma rampa de asfalto, através de um alpendre imaculado, até um edifício branco e térreo.

Stella reparou que havia dois balcões baixos e largos de ambos os lados da porta. Muita luz, para manter o ambiente alegre. Havia prateleiras cheias de aditivos para o solo, adubos, pesticidas, suportes rotativos para sementes. Mais prateleiras com livros e vasos coloridos, próprios para ervas aromáticas ou para colocar plantas em parapeitos. Havia espanta-espíritos, placas decorativas para jardins e outros acessórios.

Uma mulher de cabelo branco como a neve estava a limpar o pó a uma montra de peças de vitral. Vestia uma camisola azul-clara com rosas bordadas na parte da frente, por cima de uma camisa branca que parecia ter sido engomada até ficar dura como ferro.

- Ruby, esta é a Stella Rothchild. Estou a mostrar-lhe as instalações.

- Muito prazer.

O olhar calculista disse a Stella que a mulher sabia que ela viera por causa do emprego, mas o sorriso era perfeitamente cordial.

- É a filha do Will Dooley, não é?

- Sim, isso mesmo.

- De... do Norte.

Disse-o, para divertimento de Stella, como se fosse um país do Terceiro Mundo de reputação duvidosa.

- Do Michigan, sim. Mas nasci em Memphis.

- Ah, sim? - O sorriso tornou-se ligeiramente mais caloroso. - Bom, que coisa, não é? Mudou-se quando era pequena?

- Sim, com a minha mãe.

- Está a pensar voltar?

- Já voltei - corrigiu Stella.

- Bom. - Essa única palavra dizia que logo se veria. - Está um dia desagradável - continuou Ruby. - Um bom dia para estar dentro de casa. Esteja à vontade para ver o que quiser.

- Obrigada. Não há praticamente lugar nenhum em que goste mais de estar do que num viveiro.

- Escolheu uma vencedora, Roz. É verdade, a Marilee Booker esteve cá e comprou a orquídea. Não consegui convencê-la do contrário.

- Oh, merda. Morrerá em menos de uma semana.

- As orquídeas são bastante fáceis de tratar - observou Stella.

- Não para a Marilee. Dizer que tem pouco jeito para plantas é ser simpática. Aquela mulher devia ser proibida por lei de ter qualquer ser vivo a menos de dez metros dela.

- Lamento, Roz. Mas obriguei-a a prometer que a trazia de volta se começasse a parecer doente.

- A culpa não foi sua - disse Roz, com um aceno, enquanto se dirigia a uma passagem larga. Aqui estavam as plantas de interior, das mais exóticas às clássicas, e vasos que iam do tamanho de um dedal a outros tão largos como uma tampa de esgoto. Havia também outros acessórios, como lajes decorativas, armações para caramanchões, suportes para árvores, fontes de jardim e bancos.

- Espero que os meus empregados saibam um bocadinho de tudo disse Roz enquanto caminhavam. - E, se não souberem a resposta, têm de saber onde a encontrar. Não somos muito grandes, em comparação com alguns dos viveiros grossistas ou com as organizações paisagistas. Não temos os preços dos centros de jardinagem nos grandes armazéns. Portanto, concentramo-nos em oferecer as plantas mais invulgares, a par das básicas, e no serviço ao cliente. Vamos a casa.

- Tem alguém específico entre os seus funcionários para consultas no local?

- O Harper ou eu, se estivermos a falar de um cliente que tenha dúvidas sobre alguma coisa que tenha comprado aqui. Ou se quiser simplesmente algum conselho personalizado.

Enfiou as mãos nos bolsos e baloiçou-se sobre os calcanhares das botas enlameadas.

-Além disso, tenho um paisagista. Tive de lhe pagar uma fortuna para o roubar à concorrência. E tive também de lhe dar praticamente rédea solta. Mas é o melhor na sua área. Quero expandir esse lado do negócio.

- Qual é a sua declaração de missão?

Roz virou-se e ergueu as sobrancelhas, com um brilho divertido nos olhos perspicazes.

- Aí tem... é precisamente por isso que preciso de alguém como a Stella. Alguém capaz de dizer ”declaração de missão” sem se rir. Deixe-me pensar.

Agora com as mãos nas ancas, olhou em volta e depois abriu as portas de vidro para a estufa adjacente.

- Suponho que tem duas vertentes... já agora, aqui é onde guardamos a maior parte das nossas plantas anuais e cestos suspensos a partir de Março.

A primeira vertente seria servir a pessoa que cuida do seu jardim. Desde o novato que está apenas a começar, ao mais experiente que sabe o que quer e que está disposto a experimentar algo novo ou invulgar. Dar a esse cliente um bom stoc, e prestar um bom serviço, bom aconselhamento. A segunda vertente seria servir o cliente que tem dinheiro, mas não tem tempo nem inclinação para sujar as mãos de terra. Aquele que quer um jardim bonito, mas não sabe por onde começar ou não quer ter esse trabalho. Aí entramos nós e, por um preço, fornecemos o design e as plantas e contratamos os trabalhadores. Garantimos a satisfação do cliente.

- Muito bem. - Stella estudou as mesas compridas, as cabeças dos aspersores do sistema de rega, os ralos no chão de cimento inclinado.

- Quando a estação começa, temos mesas de plantas anuais e perenes ao lado deste edifício. Vêem-se da parte da frente quando as pessoas passam de carro. Temos uma zona de sombra para aquelas que precisam de sombra - continuou enquanto caminhava, com as botas a ecoar sobre o cimento. - Aqui temos as especiarias e por ali há um armazém para vasos e canteiros de plástico e etiquetas. Aqui, na parte de trás, há estufas para as plantas em stoc e rebentos e áreas de preparação. Aquelas duas vão abrir ao público. Aqui há mais anuais vendidas em tabuleiros.

Pisou a gravilha até chegar de novo ao asfalto. Arbustos e árvores ornamentais. Apontou para uma área lateral onde as plantas ”hibernadas” se encontravam protegidas dos olhares.

- Ali por trás, fechadas ao público, são as zonas de propagação e enxertos. Tratamos essencialmente de plantas de vaso, mas seleccionei um acre, mais ou menos, para plantações no terreno. A água não é problema, com o lago lá atrás.

Continuaram a caminhar, enquanto Stella calculava e analisava. E a ânsia nas suas entranhas passara de um nó a um punho duro como ferro.

Ela podia fazer qualquer coisa aqui. Deixar a sua marca sobre as excelentes bases construídas por outra mulher. Podia ajudar a melhorar, a expandir, a refinar.

”Realizada?”, pensou. ”Estimulada?” Raios, estaria tão ocupada que se sentiria realizada e estimulada em cada minuto de cada dia.

Era perfeito.

Havia estufas brancas, mesas de trabalho, mesas de exposição, toldos, biombos, aspersores. Stella conseguia visualizar o local repleto de plantas, apinhado de clientes. A cheirar a crescimento e a possibilidades.

Depois Roz abriu a porta da estufa de propagação e Stella deixou escapar um som, um som breve que não conseguiu controlar. E era um som de prazer.

O cheiro a terra e a coisas em crescimento, o calor húmido. O ar era abafado e ela sabia que o seu cabelo ficaria desvairadamente frisado, mas entrou de qualquer maneira.

Rebentos brotavam nos seus recipientes, plantas novas e delicadas perfuravam o solo enriquecido. Pendurados em ganchos, havia cestos já plantados, prestes a florir. No princípio da estufa, estavam as plantas de stock, as mães destes rebentos. Viu aventais pendurados em pregos, ferramentas espalhadas sobre as mesas ou enfiadas em baldes.

Silenciosamente, percorreu os corredores, reparando que todos os recipientes estavam muito bem classificados. Conseguia identificar algumas das plantas sem ler as etiquetas. Cosmos, columbinas e petúnias. Tão para sul, dentro de poucas semanas estariam prontas para serem transplantadas para canteiros, dispostas em vasos de jardim, aninhadas em espaços soalheiros ou recantos sombrios.

Estaria ela? Estaria ela pronta para se transplantar para aqui, para criar raízes aqui? Para florescer aqui? E os seus filhos?

A jardinagem era um risco, pensou. A vida era apenas um risco maior. As pessoas inteligentes calculavam esses riscos, minimizavam-nos e trabalhavam para alcançarem os seus objectivos.

- Gostava de ver a área de enxertos, os armazéns e os escritórios.

- Está bem. É melhor tirá-la daqui. O seu fato vai murchar. Stella olhou para si própria e viu as botas verdes. Riu-se.

- E queria eu parecer uma profissional.

A gargalhada fez Roz inclinar a cabeça num gesto de aprovação.

- A Stella é uma mulher bonita e tem bom gosto a vestir-se. Esse tipo de imagem não a prejudica. Teve o cuidado de se arranjar bem para esta reunião, coisa que eu não me dei ao trabalho de fazer. Tenho de lhe dar o devido crédito.

- A senhora tem as cartas na mão, sr.a Harper. Pode andar como quiser.

- Nesse aspecto tem razão. - Dirigiu-se à porta, chamou-a com um gesto e saíram as duas para o exterior, onde caía uma chuvinha gelada. Vamos para o escritório. Não vale a pena andarmos à chuva. Que outras razões tem para se mudar para cá?

- Não tinha razões para ficar no Michigan. Eu e o Kevin mudámo-nos para lá depois de casarmos, por causa do trabalho dele. Acho que, depois de ele morrer, acabei por ficar por uma espécie de lealdade para com ele, ou apenas porque estava habituada. Não tenho a certeza. Gostava do meu trabalho, mas nunca me senti... nunca senti que estava onde devia estar. Limitava-me a viver um dia depois do outro.

- Família?

- Não, ninguém no Michigan. Apenas eu e os miúdos. Os pais do Kevin morreram antes de nós casarmos. A minha mãe vive em Nova Iorque. Não estou interessada em viver na cidade nem em criar lá os meus filhos. Além disso, a minha mãe e eu temos... dificuldades de relacionamento. Como acontece muitas vezes entre mães e filhas.

- Graças a Deus só tive rapazes.

- Oh, sim. - Riu-se outra vez, agora mais à vontade. - Os meus pais divorciaram-se quando eu era muito nova. Suponho que sabe disso.

- Em parte. Como já lhe disse, gosto muito do seu pai e da Jolene.

- Também eu. Assim, em vez de escolher um sítio qualquer à sorte, decidi vir para aqui. Nasci cá. Não me lembro, mas pensei... tive esperança de que houvesse alguma ligação. De que pudesse ser este o lugar certo.

Atravessaram de novo o centro de venda ao público e entraram num gabinete minúsculo e atulhado que fez a alma organizada de Stella encolher-se de horror.

- Não o uso muito - começou Roz. - Tenho as coisas espalhadas entre este escritório e a casa. Quando estou aqui, acabo por passar a maior parte do tempo nas estufas ou nos campos.

Tirou um monte de livros de jardinagem de uma cadeira, indicou a Stella que se sentasse e empoleirou-se na beira da secretária atulhada enquanto Stella se sentava.

- Conheço os meus pontos fortes e sei como gerir um bom negócio. Construí este local do nada em menos de cinco anos. Quando o negócio era mais pequeno, quando era praticamente eu a única trabalhadora, podia dar-me ao luxo de cometer erros. Agora, chego a ter dezoito empregados na época alta. Pessoas que dependem do ordenado que eu lhes pago. Portanto, não posso dar-me ao luxo de cometer erros. Sei como plantar, o que plantar, como atribuir preços, como desenhar, como armazenar, como lidar com os empregados e como lidar com os clientes. Sei como organizar.

- Parece-me que tem toda a razão. Porque precisa de mim... ou de alguém como eu?

- Porque, de todas estas coisas que eu sei fazer e que tenho feito, há algumas de que não gosto. Não gosto de organizar. E o negócio cresceu demasiado para ser apenas eu a tratar do stock. Quero um olhar novo, ideias novas e uma boa cabeça.

- Entendido. Um dos seus pedidos era que a gerente dos viveiros vivesse em sua casa, pelo menos durante os primeiros meses. Eu...

- Não era um pedido. Era uma exigência. - Pelo tom firme com que ela o disse, Stella percebeu por que razão algumas pessoas se referiam a Rosalind Harper como difícil. - Começamos cedo e trabalhamos até tarde. Quero alguém que esteja aqui, à mão, pelo menos até eu ter a certeza de que entrou no ritmo. Memphis é muito longe e, a menos que esteja disposta a comprar muito rapidamente uma casa a menos de dez quilómetros da minha, não há outra alternativa.

- Tenho dois rapazinhos muito activos e um cão.

- Eu gosto de rapazinhos activos e não me importo com o cão, a menos que ele seja um escavador. Se escavar os meus jardins, temos um problema. A casa é grande. Terá bastante espaço para si e para os seus filhos. Oferecia-lhe a casa de hóspedes, mas não conseguiria arrancar de lá o Harper nem com dinamite. É o meu filho mais velho - explicou. - Quer o emprego, Stella?

Ela abriu a boca e respirou fundo. Não tinha já calculado os riscos de vir para aqui? Estava na altura de trabalhar para alcançar os seus objectivos. Os riscos desta única condição imposta por Roz não se sobrepunham aos benefícios.

- Quero, sr.a Harper, quero muito este emprego.

- Nesse caso, é seu. - Roz estendeu-lhe a mão. - Pode trazer as suas coisas amanhã... é melhor da parte da manhã... e trataremos de a instalar. Pode tirar dois ou três dias antes de começar, para se certificar de que os seus filhos estão ambientados.

- Agradeço muito. Eles estão excitados, mas também um pouco assustados. - ”E eu também”, pensou. - Tenho de ser franca consigo, sr.a Harper. Se os meus filhos não estiverem felizes ao fim de um tempo de adaptação razoável, terei de pensar noutra alternativa.

- Se não estivesse de acordo, nunca a contrataria. E trate-me por Roz.

Celebrou comprando uma garrafa de champanhe e outra de sidra espumante no caminho para casa do pai. A chuva e o desvio fizeram com que ficasse presa no trânsito da tarde. Ocorreu-lhe que, por mais estranho que pudesse ser ao princípio, havia vantagens em viver onde se trabalhava.

Conseguira o emprego! Um emprego de sonho, do seu ponto de vista. Talvez não soubesse como seria trabalhar com Rosalind Roz, melhor dizendo - Harper, e ainda tinha muito que estudar sobre o processo de viveiros nesta região, além de não saber se os outros empregados aceitariam receber ordens de uma desconhecida. E uma desconhecida ianque, ainda por cima.

Mas estava ansiosa por começar.

E os filhos teriam mais espaço para correr na... herdade Harper, supunha que podia chamar-lhe assim. Ainda não estava pronta para comprar uma casa - não antes de ter a certeza de que ficaria, não antes de ter tido tempo de estudar a região e as comunidades locais. A verdade era que estavam muito apertados em casa do pai. Tanto ele como Jolene eram mais do que amáveis, extremamente acolhedores, mas não podiam ficar indefinidamente todos enfiados numa casa de dois quartos.

Esta era a solução mais prática, pelo menos a curto prazo.

Estacionou o velho monovolume atrás do pequeno descapotável desportivo da madrasta e, pegando no saco, correu até à porta debaixo de chuva.

Bateu. Eles tinham-lhe dado uma chave, mas não se sentia à vontade para entrar sem bater.

Jolene, esbelta nas suas calças de ioga pretas e camisola preta justa, com um ar demasiado jovem para quem tinha quase sessenta anos, abriu a porta.

- Interrompi os teus exercícios?

- Não, acabei mesmo agora. Graças a Deus! - Limpou a cara com uma toalha branca e sacudiu o cabelo cor de mel. - Perdeste a chave, querida?

- Desculpa. Não consigo habituar-me a usá-la. - Entrou e parou à escuta.

- Isto está muito silencioso. Acorrentaste os miúdos na cave?

- O teu pai levou-os a Peabody para verem os patos. Pensei que seria mais divertido se fossem apenas os três e fiquei em casa com a minha cassete de ioga. - Inclinou a cabeça para o lado. - O cão está a dormir no alpendre. Estás com um ar satisfeito.

- E com razão. Fui contratada.

- Eu sabia, eu sabia! Parabéns! -Jolene abriu os braços. - Nunca tive a mais pequena dúvida. A Roz Harper é uma mulher inteligente. Sabe reconhecer uma jóia quando a vê.

- Tenho o estômago às voltas e os nervos em franja. Devia esperar pelo pai e pelos miúdos, mas... - Tirou a garrafa de champanhe do saco.

- Que me dizes a uma taça de champanhe para brindar ao meu novo emprego?

- Oh, não precisas de oferecer duas vezes. Estou tão entusiasmada por ti! -Jolene passou o braço sobre os ombros de Stella e dirigiram-se à sala. Conta-me o que achaste da Roz.

- Não é tão assustadora em pessoa como eu pensava. - Stella pousou a garrafa no balcão para a abrir, enquanto Jolene tirava taças da cristaleira. Terra-a-terra e directa, confiante. E aquela casa!

- É uma beleza. - Jolene riu-se quando a rolha saltou. - Céus, que som tão decadente a meio da tarde. A Harper House está na família dela há gerações. Na verdade, ela é uma Ashby por casamento... o primeiro casamento. Voltou ao nome Harper depois de o segundo casamento terminar.


- Conta-me tudo, está bem, Jolene? O papá não me diz nada.

- Queres embebedar-me para me arrancares os mexericos? Obrigada, querida. - Sentou-se num banco e ergueu o copo. - Primeiro, brindemos à nossa Stella e a corajosos recomeços.

Stella tocou com o copo no dela e bebeu.

- Hum, maravilhoso. Agora, fala.

- Ela casou-se muito nova. Dezoito anos. Aquilo a que se pode chamar um casamento ideal... boas famílias, do mesmo círculo social. Mais importante ainda, foi um casamento de amor. Via-se a léguas. Foi mais ou menos na altura em que eu me apaixonei pelo teu pai, e uma mulher reconhece alguém que está no mesmo estado que ela. Ela foi uma filha tardia, acho que a mãe já tinha perto de quarenta anos e o pai estava a caminho dos cinquenta quando ela nasceu. A mãe dela nunca mais recuperou completamente ou então gostava do papel de esposa frágil e delicada... as opiniões variam. Mas, seja como for, a Roz perdeu-os a ambos em menos de dois anos. Ela estava grávida do segundo filho, o... bolas... o Austin, acho eu. Ela e o John ficaram com a Harper House. Tiveram três rapazes e o mais pequeno ainda mal andava quando o John morreu. Podes imaginar melhor do que ninguém o que isso foi para ela.

- Sim.

- Durante dois, três anos, praticamente ninguém a viu fora de casa. Quando começou a sair de novo, a conviver, a dar festas e esse tipo de coisas, houve a especulação que seria de esperar. Com quem é que ela casaria e quando. Já a viste. É uma bela mulher.

- Muito bonita, sim.

- E, por estes lados, uma linhagem como a dela vale o seu peso em ouro. Com o seu aspecto e a sua linhagem, podia ter tido qualquer homem que quisesse. Novo ou velho, solteiro ou casado, rico ou pobre. Mas ficou sozinha. Criou os filhos.

”Sozinha”, pensou Stella, bebericando o champanhe. Compreendia muito bem essa escolha.

- Manteve a sua vida privada para si - prosseguiu Jolene -, para consternação da sociedade de Memphis. O maior rebuliço que recordo foi quando ela despediu o jardineiro... bom, os dois jardineiros. Foi atrás deles com um aparador de relva portátil, segundo alguns relatos, e expulsou-os da propriedade.

- A sério? - Stella arregalou os olhos, chocada e espantada. - A sério?

- Foi o que ouvi dizer e foi a história que pegou, seja verdade ou mentira. Aqui no Sul, muitas vezes preferimos uma mentira divertida a uma verdade pouco interessante. Ao que parece, eles tinham arrancado algumas das plantas dela ou coisa do género. Depois disso, nunca mais contratou ninguém. Ficou sozinha a tomar conta de tudo. Quando demos por isso... embora devam ter passado uns cinco anos, acho eu... ela estava a construir as instalações de jardinagem no lado ocidental. Casou-se há cerca de três anos e divorciou-se... bom, num abrir e fechar de olhos. Querida, e se bebêssemos mais uma tacinha de champanhe?

- Porque não? - Stella serviu. - Então, o que se passou com o segundo marido?

- Hum... era um tipo muito manhoso. Bonito como o pecado e duas vezes mais sedutor. Chama-se Bryce Clerk e diz que a sua família é de Savannah, mas eu não acreditaria numa única palavra saída daquela boca, nem que viesse banhada a ouro. Seja como for, eles faziam um casal fabuloso, mas veio a saber-se que ele gostava de ser fabuloso com várias mulheres e uma aliança não era suficiente para restringir os seus hábitos. Ela deu-lhe com os pés.

- Ainda bem.

- Não é mulher que se deixe levar.

- Isso deu para perceber muito bem.

- Eu diria que ela é orgulhosa mas não vaidosa, decidida mas não dura... pelo menos não demasiado dura, embora haja quem discorde. Boa amiga e uma inimiga formidável. Mas tu consegues lidar com ela, Stella. Consegues lidar com qualquer coisa.

Stella gostava que as pessoas pensassem assim, mas o champanhe ou os nervos estavam a deixar-lhe o estômago um bocado sensível.

- Bom, é o que veremos.

 

Stella tinha um carro cheio de bagagem, uma pasta atulhada de papéis e esboços, um cão muito infeliz - que já exprimira a sua opinião sobre a mudança vomitando no banco da frente do carro - e dois rapazes a discutir no banco de trás.

Já tivera de parar para tratar do cão e do banco vomitado e, apesar do frio de Janeiro, tinha as janelas todas abertas. Parker, o seu boston temer, estava deitado no chão com um ar patético e infeliz.

Não sabia o motivo da discussão dos rapazes e, uma vez que ainda não se tornara física, eles que continuassem. Sabia que estavam tão nervosos como o cão com mais esta mudança.

Ela desenraizara-os. Por mais cuidadosamente que trabalhasse a situação, era sempre um choque. Agora todos eles iam ser transplantados. Stella acreditava que floresceriam. Tinha de acreditar ou estaria tão agoniada como o cão da família.

- Odeio-te, és um nojento - declarou Gavin do alto dos seus oito anos.

- E eu odeio-te a ti, és um estúpido - retorquiu Luke, de seis.

- Odeio as tuas orelhas de elefante!

- E eu odeio a tua cara toda que é horrível! Stella suspirou e aumentou o volume do rádio.

Esperou até chegar aos pilares de tijolo que flanqueavam a entrada do acesso à herdade Harper. Desviou o carro para a berma e parou. Por um momento, ficou simplesmente ali sentada enquanto os insultos voavam no banco de trás. Parker lançou-lhe um olhar cauteloso, depois saltou para cima do banco e farejou o ar que entrava pela janela aberta.

Stella desligou o rádio e continuou sentada em silêncio. Aos poucos, as vozes atrás dela começaram a esmorecer e, depois de um último ”Odeio o teu corpo todo” murmurado, o silêncio instalou-se.

- Estou aqui a pensar - disse ela, num tom natural - que devíamos fazer uma partida à sr.a Harper.

Gavin inclinou-se para a frente, esticando o cinto de segurança.

- Que tipo de partida?

- Uma partida complicada. Não tenho a certeza se vamos conseguir, já percebi que ela é muito esperta. Tínhamos de ser muito manhosos.

- Eu consigo ser manhoso - garantiu-lhe Luke. E um olhar para o espelho retrovisor disse a Stella que a cor da batalha já estava a desaparecer das suas faces.

- Muito bem, então, o plano é este. - Virou-se para olhar para os dois. Como acontecia muitas vezes, ficou abalada ao ver como eles eram uma fusão interessante de si própria e de Kevin. Os olhos azuis dela no rosto de Luke, os olhos verde-acinzentados de Kevin no rosto de Gavin. A sua boca em Gavin, a de Kevin em Luke. O seu cabelo em Luke, pobrezinho, e o cabelo louro de Kevin em Gavin.

Fez uma pausa dramática, vendo que ambos os filhos estavam ansiosos e concentrados.

- Não, não sei - Abanou a cabeça pesarosamente. - Se calhar não é boa ideia.

Eles irromperam num coro de súplicas e protestos, aos saltos no banco, fazendo com que Parker desatasse a ladrar entusiasticamente.

- Está bem, está bem. - Ergueu as mãos. - Aqui está o que vamos fazer: vamos conduzir até à casa e depois vamos bater à porta. E quando entrarmos e vocês conhecerem a sr.a Harper... aqui é que têm de ser muito manhosos, muito espertos.

- Nós conseguimos! - gritou Gavin.

- Bom, quando isso acontecer, vocês têm de fingir... isto é difícil, mas acho que vocês são capazes. Têm de fingir serem meninos muito bem-educados e bem-comportados.

- Nós conseguimos! Nós... - O rosto de Luke franziu-se. - Eh!

- E eu tenho de fingir não estar nada surpreendida por ter dois filhos bem-educados e bem-comportados. Acham que conseguimos?

- Se calhar, nós não vamos gostar de viver aqui - murmurou Gavin. Um sentimento de culpa subiu dentro dela, transformando-se em nervosismo.

- Talvez não. Talvez sim. Teremos de esperar para ver.

- Eu preferia viver com o avô e a avó Jo na casa deles. - Os lábios de Luke tremeram, dilacerando o coração de Stella. - Não podemos?

- Não podemos mesmo. Mas podemos visitá-los montes de vezes. E eles podem visitar-nos também. Agora que vamos ficar a viver aqui, podemos vê-los sempre. Isto é uma aventura, lembram-se? Se tentarmos, se fizermos realmente um esforço e mesmo assim não formos felizes, então tentaremos outra coisa.

- As pessoas aqui falam de maneira estranha - queixou-se Gavin.

- Não, é apenas diferente.

- E não há neve. Como é que podemos construir bonecos de neve e andar de trenó se o tempo é tão estúpido que nem sequer neva?

- Nesse aspecto tens razão, mas podemos fazer outras coisas. - Teriam visto o seu último Natal branco? Por que raio não se lembrara disso antes?

Ele espetou o queixo.

- Se ela for má, eu não fico.

- Combinado. - Stella ligou o carro, respirou fundo e começou a percorrer o caminho de acesso.

Momentos depois, ouviu Luke murmurar:

- É grande!

Não havia dúvidas a esse respeito, pensou Stella, tentando ver a casa como os filhos a veriam. Seria o tamanho da estrutura de três pisos que os impressionava? Ou estariam a reparar nos pormenores? A pedra amarelo-clara, as colunas majestosas, o charme da entrada coberta pela escadaria dupla que levava ao primeiro andar e ao seu bonito terraço?

Ou veriam apenas o volume da casa - o triplo do tamanho da sua doce casinha em Southfield?

- É muito antiga - disse-lhes. - Tem mais de cento e cinquenta anos. E a família da sr.a Harper sempre viveu aqui.

- Ela tem cento e cinquenta anos? - quis saber Luke, ganhando uma cotovelada e uma fungadela desdenhosa do irmão.

- Palerma. Se tivesse, já estava morta. E havia vermes a rastejar em cima dela e...

- Tenho de te recordar que rapazinhos bem-educados e bem-comportados não chamam palerma aos irmãos? Estão a ver esta relva toda? Não acham que o Parker vai adorar dar os seus passeios aqui? E têm tanto espaço para brincar... Mas têm de se manter afastados dos jardins e dos canteiros, tal como lá em casa. No Michigan - corrigiu-se. - E temos de perguntar à sr.a Harper quais são os sítios onde vocês podem ir.

- As árvores são muito grandes - murmurou Luke. - Mesmo grandes.

- Estás a ver aquela ali? É um sicómoro, e aposto que é ainda mais velha do que a casa.

Estacionou em frente da casa, numa área própria, admirando o efeito do ácer vermelho japonês e do cedro dourado a par das azáleas no centro.

Prendeu a trela de Parker com mãos muito mais firmes do que o seu coração.

- Gavin, tu levas o Parker. Voltamos para buscar as nossas coisas depois de cumprimentarmos a sr.a Harper.

- Ela pode mandar em nós? - inquiriu ele.

- Pode. O triste e horrível destino das crianças é receberem ordens dos adultos. E, como é ela que paga o meu ordenado, também pode mandar em mim. Estamos todos no mesmo barco.

Gavin pegou na trela de Parker quando saíram do carro.

- Não gosto dela.

- É isso que eu adoro em ti, Gavin - disse Stella, despenteando o cabelo louro e ondulado do filho. - Sempre com pensamentos positivos. Muito bem, aqui vamos nós. - Pegou na mão dele e na de Luke e apertou-as carinhosamente. Os quatro dirigiram-se à entrada coberta.

As portas duplas, pintadas do mesmo branco brilhante que a ombreira abriram-se de rompante.

- Finalmente! - exclamou David, abrindo os braços. - Homens! Já não sou uma minoria por aqui.

- Gavin, Luke, este é... desculpe, David, não sei o seu apelido.

- Wentworth. Mas David chega muito bem. -Agachou-se e olhou para Parker, que ladrava desassossegado. - Qual é o teu problema, amigo?

Em resposta, Parker apoiou as patas da frente no joelho de David e lambeu-lhe a cara com grande excitação.

- Assim está melhor. Entrem. A Roz vem já. Está lá em cima ao telefone, a desancar um fornecedor por causa de uma entrega.

Entraram para o amplo vestíbulo, onde os rapazes se limitaram a olhar à volta de olhos arregalados.

- Muito chique, ha?

- É como uma igreja?

- Não - respondeu David a Luke com um sorriso. - Tem partes extravagantes, mas é só uma casa. Depois levo-vos numa visita guiada, mas se calhar precisam de um chocolate quente para recuperar da longa viagem.

- O David faz um chocolate quente maravilhoso - disse Roz, descendo a graciosa escadaria que dividia o vestíbulo. Vestia roupa de trabalho, como no dia anterior. - Com montes de natas batidas.

- Sr.a Harper, os meus filhos. Gavin e Luke.

- É um prazer conhecê-los. Gavin. - Estendeu-lhe a mão.

- Este é o Parker. É o nosso cão. Tem um ano e meio.

- E é muito bonito. Olá, Parker. - Deu uma palmadinha amigável na cabeça do cão.

- Eu sou o Luke. Tenho seis anos e estou na primeira classe. Já sei escrever o meu nome.

- Não sabe nada - troçou Gavin, com desdém fraternal. - Só com letra de imprensa.

- Tem de se começar por algum lado, não é? Muito prazer, Luke. Espero que todos se sintam à vontade aqui.

- Não parece muito velha - comentou Luke, e David tentou abafar uma gargalhada.

- Ora, muito obrigada. Não me sinto muito velha, pelo menos na maior parte do tempo.

Sentindo-se ligeiramente mal, Stella forçou um sorriso.

- Eu contei-lhes como a casa era antiga e disse-lhes que a sua família sempre viveu aqui. Ele está um pouco confuso.

- Eu não estou cá há tanto tempo como a casa. E se bebêssemos o tal chocolate quente, David? Vamos sentar-nos na cozinha para nos conhecermos melhor.

- Ele é o seu marido? - perguntou Gavin. - Porque é que têm apelidos diferentes?

- Ela não quer casar comigo - disse-lhe David, enquanto os conduzia pelo corredor. - Partiu o meu pobre coração choroso.

- Ele está a brincar convosco. O David toma conta da casa e de quase tudo o mais. Também vive cá.

- Ela também manda em ti? - Luke puxou a mão de David. - A mamã diz que ela manda em todos nós.

- Eu deixo-a pensar que sim. - David introduziu-os na grande cozinha, com os seus balcões de granito e móveis de madeira de cerejeira. Debaixo de uma grande janela, havia um banco corrido com almofadas de cabedal cor de safira.

Em cima do balcão havia vasos azuis de ervas aromáticas. Os tachos de cobre cintilavam.

- Estes são os meus domínios - disse-lhes David. - Aqui quem manda sou eu, só para que saibam. Gosta de cozinhar, Stella?

- Não sei se ”gostar” será a palavra certa, mas sei que não consigo fazer nada merecedor de uma cozinha destas.

Tinha um frigorífico americano, aquilo que parecia ser um fogão de restaurante com forno duplo, e metros e metros de balcões.

E tinha os pormenores que tornam acolhedor um espaço de trabalho, observou ela com alívio. A lareira de tijolo, com um bonito fogo a arder baixinho, o velho armário de loiça cheio de copos antigos, bolbos de tulipas e jacintos a florescer em cima de um carrinho de cozinha.

- Eu vivo para cozinhar. Posso dizer-lhe que é uma frustração desperdiçar os meus consideráveis talentos com a Roz. Para ela, basta uma tigela de cereais frios. E o Harper raramente aparece.

- O Harper é o meu filho mais velho. Vive na casa de hóspedes. Hão-de encontrá-lo de vez em quando.

- É o cientista louco. - David pegou numa caçarola e em pedaços de chocolate.

- Ele faz monstros? Como o Frankenstein? - Enquanto fazia a pergunta, Luke agarrou novamente na mão da mãe.

- O Frankenstein é só a fingir - recordou-lhe Stella. - O filho da sr.a Harper trabalha com plantas.

- Talvez um dia consiga fazer uma planta gigante que fale. Encantado, Gavin aproximou-se de David.

- Não acredito!

- ”Há mais coisas nos céus e na terra, Horácio.” Traz esse banco para aqui, meu bom e jovem amigo, e podes ver o mestre a fazer o melhor chocolate quente do mundo.

- Sei que provavelmente quer voltar ao trabalho - disse Stella a Roz. A noite passada estive a trabalhar em algumas notas e esboços que gostava de lhe mostrar.

- Esteve ocupada!

- Ansiosa. - Olhou para Luke quando este lhe largou a mão e se foi juntar ao irmão, no banco. - Esta manhã, tenho uma reunião com o director da escola. Os rapazes devem poder começar amanhã. Pensei em pedir na escola recomendações para espaços de ocupação dos tempos livres antes e depois das aulas, e...

- Eh! - exclamou David, enquanto mexia o chocolate e o leite na caçarola. - Estes são os meus homens a partir de agora. Pensei que podiam ficar comigo, fazer-me companhia e trabalhar como meus escravos quando não estivessem na escola.

- Não posso pedir-lhe que...

- Podíamos ficar com o David - interveio Gavin. - Era bom.

- Eu não...

- Claro que tudo depende... - disse David descontraidamente enquanto adicionava açúcar ao chocolate. - Se eles não gostarem de PlayStation, está fora de questão ficarem comigo. Tenho os meus princípios.

- Eu gosto de PlayStation - disse Luke.

- Na verdade, têm de adorar PlayStation.

- Sim! Sim! - Os dois rapazes saltaram ao mesmo tempo em cima do banco. -Adoramos PlayStation.

- Stella, enquanto eles acabam de fazer o chocolate, porque não vamos ao carro buscar algumas das vossas coisas?

- Está bem. Nós não demoramos. O Parker...

- Deixe estar o cão - disse David.

- Bom, então já voltamos.

Roz esperou até estarem na porta da rua.

- O David é maravilhoso com crianças.

- Qualquer pessoa vê isso. - Percebeu que estava a torcer a pulseira do relógio e obrigou-se a parar. - Mas sinto-me como se estivesse a impor-lhe alguma coisa. Posso pagar-lhe, claro, mas...

- Decidam isso entre os dois. Só queria dizer-lhe, de mãe para mãe, que pode confiar nele para cuidar dos seus filhos, para os entreter e para não os... bom, não, não pode confiar nele para não os deixar meterem-se em sarilhos. Quer dizer, em sarilhos sérios, sim, mas os normais nem por isso.

- Para isso teria de ter superpoderes.

- Ele praticamente cresceu nesta casa. É como um quarto filho para mim.

- Seria tremendamente mais fácil. Não teria de estar a levá-los e a ir buscá-los a uma ama. - ”Mais uma desconhecida”, pensou.

- Mas não está habituada a que as coisas sejam fáceis.

- Pois não. - Ouviu gargalhadas provenientes da cozinha. - Mas quero que os meus filhos sejam felizes e acho que este é o voto decisivo.

- É um som maravilhoso, não é? Já tinha saudades de o ouvir. Vamos buscar as suas coisas.

- Tem de me dizer quais são os limites - disse Stella enquanto se dirigiam ao carro. - Onde os rapazes podem ir e onde não podem. Eles precisam de tarefas e regras. Estavam habituados a isso em casa. No Michigan.

- Vou pensar nisso. Mas o David... apesar de eu mandar em vocês todos... já deve ter ideias a esse respeito. O cão também é muito engraçado. - Tirou duas malas do porta-bagagens do carro. - O meu cão morreu o ano passado e não tive coragem de arranjar outro. É bom ter um cão por aqui. E o nome é giro.

- Parker... de Peter Parker. É o...

- O Homem-Aranha. Não se esqueça de que eu também criei três rapazes.

- Certo. - Stella pegou noutra mala e numa caixa de cartão. Sentiu o esforço nos músculos enquanto Roz carregava as duas malas com aparente facilidade.

- Tenho andado para lhe perguntar quem mais vive aqui, ou que outros empregados tem.

- É só o David.

- Oh? Quando nós chegámos, ele disse qualquer coisa sobre ser uma minoria no meio das mulheres.

- Exactamente. O David, eu e a Noiva Harper. - Roz entrou com as malas e começou a subir as escadas com elas. - É o nosso fantasma.

- O vosso...

- Se uma casa tão velha como esta não fosse assombrada, seria uma grande pena, na minha opinião.

- Suponho que é uma maneira de ver as coisas.

Partiu do princípio de que Roz estava a divertir-se, recorrendo a um pouco do colorido local em benefício da nova hóspede. Fantasmas aumentariam o folclore da família. Por isso esqueceu rapidamente o comentário.

- Podem ficar com a ala oeste. Acho que os quartos que preparámos serão os que melhor vos convêm. Eu fico na ala leste, e os aposentos do David são perto da cozinha. Toda a gente tem muita privacidade, algo que sempre achei essencial para haver boas relações.

- Esta é a casa mais bonita que já vi.

- É, não é? - Roz parou por um momento, olhando pelas janelas que davam para um dos seus jardins. - Pode ser húmida no Inverno, e passamos a vida a chamar o canalizador, o electricista, sempre alguém. Mas adoro cada centímetro. Talvez haja quem ache um desperdício uma casa destas para uma mulher sozinha.

- É sua. É o lar da sua família.

- Exactamente. E assim continuará, aconteça o que acontecer. É aqui. Os quartos dão todos para o terraço. Deixo ao seu critério se deve ou não trancar as janelas do quarto dos rapazes. Presumi que na idade deles quisessem partilhar o mesmo quarto, ainda por cima numa casa desconhecida.

- E acertou em cheio. - Stella entrou no quarto atrás de Roz. - Oh, eles vão adorar. Muito espaço, muita luz. - Pousou a caixa e a mala em cima de uma das duas camas. - Mas são antiguidades. - Passou os dedos pela cómoda de criança. - Estou aterrorizada.

- A mobília foi feita para ser usada. E as boas peças para serem respeitadas.

- Acredite, vou transmitir-lhes o recado. - ”Por favor, meu Deus, não deixes que eles partam nada.”

- O seu quarto é o do lado. A casa de banho faz a ligação entre os dois

- disse Roz, apontando. - Achei que, pelo menos inicialmente, quereria estar perto deles.

- É perfeito. - Entrou na casa de banho. A grande banheira antiga estava em cima de uma plataforma de mármore, em frente das portas do terraço. Havia persianas de tecido que se podiam baixar para ter privacidade. A sanita estava dentro de um armário alto, feito de pinho claro, e tinha um autoclismo de corrente. Os rapazes iam achar o máximo!

Ao lado do lavatório de pé, estava um aquecedor de toalhas de bronze, já coberto de macias toalhas verde-mar.

Do outro lado da porta de ligação, o seu quarto estava banhado pela luz de Inverno. No chão de carvalho, havia um padrão de plantas.

Em frente da pequena lareira de mármore branco, havia uma acolhedora zona de estar, com um quadro de um jardim de Verão por cima da lareira.

Em cima da cama de dossel, envolta em tule branco e rosa-pérola, havia uma montanha generosa de almofadas de seda em tons pastel. A cómoda, com o seu longo espelho oval, era de mogno brilhante, bem como o toucador encantadoramente feminino e o guarda-fato trabalhado.

- Começo a sentir-me como a Cinderela no baile.

- Se o sapatinho lhe servir. - Roz pousou as malas. - Quero que se sinta confortável e que os seus rapazes sejam felizes, porque vou obrigá-la a trabalhar muito arduamente. A casa é grande e o David depois leva-a numa visita guiada. Não teremos de nos cruzar a menos que assim o desejemos.

Arregaçou as mangas da camisa e olhou em volta.

- Não sou uma mulher muito sociável, mas aprecio a companhia das pessoas de quem gosto. E acho que vou gostar de si. Já gosto dos seus filhos.

Olhou para o relógio.

-Vou beber aquele chocolate quente... não consigo resistir-lhe... e depois voltar ao trabalho.

- Mais tarde, gostava de passar por lá para lhe mostrar algumas das minhas ideias.

- Muito bem. Procure-me.

E Stella assim fez. Embora tencionasse levar os filhos com ela, depois da reunião na escola, não teve coragem de os tirar de junto de David.

Lá se iam as suas preocupações de que eles não se adaptassem a viver numa casa nova com desconhecidos. Parecia que a maior parte das adaptações seriam da parte dela.

Desta vez, vestiu-se mais apropriadamente, com sapatos fortes que já tinham visto a sua quota-parte de lama, calças de ganga bastante usadas e uma camisola preta. Com a pasta na mão, dirigiu-se à entrada principal do centro de jardinagem.

Estava a mesma mulher ao balcão, mas desta vez a atender uma cliente. Stella reparou numa pequena planta de borracha num vaso vermelho e num quarteto de bambus da sorte, presos com um fio de cânhamo decorativo, já numa caixa de cartão.

À espera de serem registados, viu um saco de pedras e uma jarra de vidro quadrada.

Óptimo.

- A Roz está por aqui? - perguntou Stella.

- Oh... - Ruby fez um gesto vago. - Anda por aí.

Stella indicou o walkie-talkie atrás do balcão com um aceno da cabeça.

- Ela terá um destes consigo? A ideia pareceu divertir Ruby.

- Não me parece.

- Está bem, eu vou à procura dela. São tão giros - disse à cliente, apontando para os bambus. - Descontraídos e interessantes. Vão ficar fantásticos nessa jarra.

- Estava a pensar pô-los no balcão da casa de banho. Engraçado e bonito.

- Perfeito. E são presentes fantásticos, também. Muito mais imaginativos do que as flores habituais.

- Não tinha pensado nisso. Sabe, se calhar vou levar mais um conjunto.

- Nunca é demais. - Sorriu e afastou-se na direcção das estufas, congratulando-se enquanto caminhava. Não tinha pressa de encontrar Roz. Isto dava-lhe oportunidade de meter o nariz nas instalações, verificar as mercadorias, as montras, os stocks, a afluência de clientes. E de fazer mais apontamentos.

Demorou-se algum tempo na área de propagação, estudando o progresso dos rebentos e estacas, o tipo de plantas e a sua saúde.

Só quase uma hora depois se dirigiu à área de enxertos. Conseguia ouvir música - ”os Coors”, pensou - a sair pela porta entreaberta.

Espreitou. Havia mesas compridas de ambos os lados da estufa, e outras duas encostadas uma à outra no centro. Cheirava a calor, a vermiculite e a turfa.

Havia vasos, alguns com plantas que tinham sido ou estavam a ser enxertadas. Havia pastas penduradas na mesa, como fichas num hospital. Num canto viu um computador, com o ecrã coberto de cores pulsantes que pareciam mudar ao ritmo da música.

Dentro de tabuleiros havia bisturis, facas, tesouras, fita de enxerto, cera e outros instrumentos necessários a esta parte do negócio.

Viu Roz do outro lado, de pé atrás de um homem sentado num banco. Ele tinha os ombros curvados enquanto trabalhava. Roz tinha as mãos nas ancas.

- Não deve demorar mais de uma hora, Harper. Este negócio é tão meu como teu. Tens de a conhecer e ouvir o que ela tem para dizer.

- Sim, sim, mas, raios, estou no meio de uma coisa. Tu é que queres que ela seja gerente, então deixa-a gerir. Não quero saber.

- Há uma coisa chamada boas maneiras. - A exasperação sentia-se no ar demasiado quente. - Estou a pedir-te apenas que durante uma hora finjas ter um pouco de tal coisa.

O comentário recordou a Stella as palavras que ela própria dissera aos filhos. Não conseguiu evitar uma gargalhada, mas fez o seu melhor para a disfarçar com uma tossidela enquanto descia o corredor estreito entre as mesas.

- Peço desculpa por interromper. Estava apenas... - Parou junto de um vaso, estudando o caule enxertado e as novas folhas. - Não estou a ver o que é isto.

- Dafne. O filho de Roz lançou-lhe um breve olhar. -Variedade sempre-verde. E usou um enxerto lateral superficial.

Ele parou e girou sobre o banco. A mãe deixara a sua marca no rosto dele - os mesmos ossos fortes e olhos quentes. O cabelo escuro era consideravelmente mais comprido que o da mãe, tão comprido que ele o prendera atrás com o que parecia ser um pedaço de ráfia. Tal como ela, era magro e parecia ter pelo menos um metro de pernas e, tal como ela, vestia-se descuidadamente com calças de ganga rasgadas e uma camisola manchada da Universidade de Memphis.

- Percebe alguma coisa de enxertos?

- Apenas as bases. Uma vez fiz um enxerto de garfo numa camélia. Aguentou-se muito bem. Geralmente, fico-me pelas estacas. Sou a Stella. É um prazer conhecê-lo, Harper.

Ele limpou a mão às calças antes de apertar a dela.

- A mãe diz que vem organizar-nos.

- É esse o plano, e espero que não seja demasiado doloroso para nenhum de nós. Está a trabalhar em quê? - Aproximou-se de uma fila de vasos cobertos por sacos de plástico transparentes, mantidos afastados da planta enxertada por quatro paus.

- gipsófila... Estou a tentar em azul, bem como branco e cor-de-rosa. -Azul. A minha cor preferida. Não quero incomodá-lo. Estava a pensar

- disse, voltando-se para Roz - que podíamos encontrar um sítio para estudarmos algumas das minhas ideias.

-Vamos para a estufa das anuais. O escritório está uma confusão. Harper?

- Está bem, está bem. Vão andando. Vou lá ter dentro de cinco minutos.

- Harper.

- Está bem, dez. Mas é a minha última oferta.

Com uma gargalhada, Roz deu-lhe uma palmada ao de leve na nuca.

- Não me obrigues a vir cá buscar-te.

- Chata - murmurou ele, sorrindo. Lá fora, Roz soltou um suspiro.

- Ele enfia-se ali e é preciso espetar-lhe uma forquilha no rabo para o obrigar a mexer-se. É o único dos meus filhos que tem algum interesse no negócio. O Austin é repórter, trabalha em Atlanta. O Mason é médico, ou melhor, há-de ser. Está a fazer o estágio em Nashville.

- Deve estar muito orgulhosa.

- Estou, mas quase não vejo nenhum dos dois. E aqui está o Harper, praticamente debaixo do meu nariz, e tenho de andar a persegui-lo para conseguir ter uma conversa.

Roz sentou-se numa das mesas.

- Bom, o que tem para me mostrar?

- Ele é muito parecido consigo.

- É o que as pessoas dizem. Eu só vejo o Harper. Os seus filhos estão com o David?

- Não conseguiria arrancá-los de lá nem com um pé de cabra. - Stella abriu a pasta. - Imprimi algumas notas.

Roz olhou para a pilha de papéis e tentou não fazer uma careta.

- Estou a ver.

- E fiz alguns esboços de como podemos alterar a disposição das coisas para melhorar as vendas e realçar os artigos que não são plantas. Tem aqui uma localização fantástica, uma paisagem e sinalização excelentes e uma entrada muito apelativa.

- Estou a adivinhar um ”mas”.

- Mas... - Stella humedeceu os lábios. - O primeiro nível da sua área de venda ao público está um pouco desorganizado. Com algumas alterações, a transição para a área secundária seria mais fluida, bem como para as instalações de plantas principais. Ora bem, um plano estrutural funcional...

- Um plano estrutural funcional. Oh, meu Deus.

- Calma, isto não custa nada. O que precisa é de uma cadeia de responsabilidade para a área funcional. Ou seja, vendas, produção e propagação. Obviamente, é uma propagadora hábil, mas, neste momento, precisa que eu fique à frente da produção e das vendas. Se aumentarmos o volume de vendas, tal como eu propus aqui...

- Fez tabelas. - Havia uma ponta de espanto na voz de Roz. - E gráficos. De repente, estou com medo.

- Não está nada - disse Stella com uma gargalhada, e depois olhou para o rosto de Roz. - Está bem, talvez um bocadinho. Mas se olhar para esta tabela pode ver a gerente dos viveiros... que sou eu... e a Roz, pois tem tudo a seu cargo. Partindo daí, temos o seu propagador... que será a Roz e o Harper, presumo; o gerente de produção, eu; e o gerente de vendas, também eu. Pelo menos por agora. Precisa de delegar e/ou contratar alguém para se encarregar da produção nos terrenos e/ou em recipientes. Esta secção aqui trata do pessoal, tarefas e responsabilidades inerentes a cada função.

- Está bem. - Roz suspirou e esfregou a nuca. - Antes de eu cansar os olhos a ler isso tudo, deixe-me dizer que, embora não afaste a hipótese de contratar mais pessoal, o Logan, o meu paisagista, tem a produção no terreno bastante bem controlada neste momento. Eu posso continuar à frente da produção em recipientes. Não fundei este negócio para me sentar a ver os outros trabalharem.

- Óptimo. Depois, quando for possível, gostava de me encontrar com o Logan para podermos coordenar as nossas visões.

O sorriso de Roz era ligeiramente perverso.

- Isso vai ser interessante.

- Entretanto, já que estamos as duas aqui, porque não levamos as minhas notas e os meus esboços para a secção de vendas e os estudamos no local? Será mais fácil perceber o que eu tenho em mente e mais simples de explicar.

”Mais simples?”, pensou Roz, levantando-se. Parecia-lhe que nada por aqui ia ser simples a partir de agora.

Mas de certeza que não se iam aborrecer.

 

Era tudo perfeito. Stella trabalhava longas horas, mas, nesta fase, grande parte do trabalho ainda era de planeamento. E havia pouco de que ela gostasse mais do que de planeamento. Excepto de arranjar. Tinha uma visão das coisas na sua cabeça, de como as coisas podiam e deviam ser.

Alguns podiam ver isto como um defeito, esta tendência para organizar e projectar, para tentar concretizar aquelas visões das coisas mesmo quando - talvez especialmente quando - os outros não percebiam bem o que ela estava a pensar.

Mas ela não achava que fosse um defeito.

A vida corria melhor quando tudo estava onde devia estar.

Assim correra a sua vida - ela certificara-se disso - até à morte de Kevin. A sua infância fora um labirinto de contradições, de confusões e irritações. Perdera o pai aos três anos, de uma forma muito real, quando o divórcio dividira a família.

A única coisa que recordava claramente da mudança de Memphis era de estar a chorar pelo pai.

Desse ponto em diante, parecia que ela e a mãe tinham chocado por tudo e por nada, desde a cor das paredes, às finanças, à forma de passar férias e épocas festivas. Tudo.

Essas mesmas pessoas podiam dizer que isso era o que acontecia quando duas mulheres obstinadas viviam na mesma casa. Mas Stella sabia que não era bem assim. Enquanto ela era prática e organizada, a mãe era dispersa e espontânea. O que explicava os quatro casamentos e três noivados acabados.

A mãe gostava de luzes, barulho e romances loucos. Stella preferia calma, sossego e compromisso.

Não que não fosse romântica. Era simplesmente mais sensata a esse respeito.

Fora ao mesmo tempo sensato e romântico apaixonar-se por Kevin. Ele era carinhoso, doce e fiável. Queriam ambos as mesmas coisas. Um lar, uma família, um futuro. Ele fizera-a feliz, fizera-a sentir-se segura e apreciada. E, céus, como sentia a falta dele.

Perguntou-se o que pensaria ele da sua vinda para aqui, deste seu recomeço. Kevin teria confiado nela. Sempre acreditara nela. Sempre tinham acreditado um no outro.

Ele fora o seu rochedo de uma forma muito concreta. O rochedo que lhe dera uma base sólida sobre a qual pudera construir, depois de uma infância de convulsões e descontentamento.

Depois, o destino arrancara esse rochedo de debaixo dos seus pés. Perdera a sua base, o seu amor, o seu amigo mais querido e a única pessoa no mundo que podia amar os seus filhos tanto como ela os amava.

Houvera alturas, muitas alturas, nos primeiros meses após a morte de Kevin, em que quase perdera a esperança de algum dia voltar a encontrar o seu equilíbrio.

Agora ela era o rochedo dos filhos e faria o que fosse preciso para lhes dar uma boa vida.

Com os rapazes já deitados e um suave fogo a arder na lareira - na sua próxima casa, decididamente ia ter uma lareira no quarto -, sentou-se na cama com o computador portátil.

Não era a forma mais profissional de trabalhar, mas não tinha à-vontade para pedir a Roz que a deixasse transformar um dos quartos em escritório.

Por enquanto.

Por enquanto, podia trabalhar assim. Na verdade, era aconchegante e, para ela, relaxante estudar o plano de trabalhos para o dia seguinte aninhada nesta fabulosa cama antiga.

Tinha a lista de telefonemas que tencionava fazer aos fornecedores, a reorganização dos acessórios de jardim e das plantas de interior. O novo sistema de preços por códigos de cores para implementar. O novo programa de facturação para instalar.

Tinha de falar com Roz sobre os empregados sazonais. Quem, quantos, responsabilidades individuais e de grupo.

E ainda não conseguira apanhar o paisagista. Seria de pensar que o raio do homem já teria tido tempo nesta última semana de retribuir os telefonemas dela. Escreveu ”Logan Kitridge”, sublinhando o nome.

Olhou para o relógio, recordando a si própria que trabalharia melhor se dormisse bem.

Desligou o computador e levou-o para o toucador para o pôr a recarregar. Ia mesmo precisar de um escritório.

Dedicou-se à sua rotina habitual antes de dormir, limpando meticulosamente a maquilhagem, estudando o rosto lavado no espelho para ver se a Bruxa do Tempo deixara alguma ruga nova nesse dia. Aplicou o creme para os olhos, o dos lábios, o hidratante de noite - todos alinhados por ordem de utilização no balcão da casa de banho. Depois de pôr mais creme nas mãos, passou alguns minutos à procura de cabelos brancos. A Bruxa do Tempo podia ser traiçoeira.

Desejou ser mais bonita. Desejou que as suas feições fossem mais regulares, o cabelo liso e de uma cor aceitável. Uma vez pintara-o de castanho e isso fora um desastre. Assim, tinha de viver com...

Percebeu que estava a cantarolar e olhou para o seu reflexo no espelho de testa franzida. Que canção era aquela? Que estranho ter ficado com uma canção na cabeça quando nem sabia qual era.

Depois percebeu que não lhe ficara na cabeça. Estava a ouvi-la. Uma voz suave e sonhadora a cantar. Vinha do quarto dos rapazes.

Perguntando a si própria por que diabo Roz estaria a cantar para os rapazes às onze da noite, Stella estendeu a mão para a porta de comunicação.

Assim que a abriu, o canto parou. Sob o brilho suave da luz de presença do Harry Potter, viu os filhos nas respectivas camas.

- Roz? - murmurou, entrando.

Estremeceu. Porque estava tanto frio ali dentro? Dirigiu-se rapidamente e em silêncio às portas do terraço, abanou-as e viu que estavam bem fechadas, bem como as outras janelas. E a porta do corredor também, verificou, franzindo de novo a testa.

Podia jurar que tinha ouvido alguma coisa. Sentido alguma coisa. Mas o arrepio já se desvanecera e não havia qualquer som no quarto a não ser a respiração calma dos filhos.

Aconchegou-lhes os cobertores, como fazia todas as noites, e beijou-os a ambos no alto da cabeça.

E deixou a porta de comunicação aberta.

De manhã, já esquecera o sucedido. Luke não encontrava a sua camisola da sorte e Gavin envolvera-se num desafio de luta livre com Parker durante o passeio matinal, antes de sair para a escola, e teve de mudar de roupa. Em resultado, Stella mal teve tempo para o café e o pãozinho doce que David a obrigou a comer.

- Importas-te de dizer à Roz que eu já fui andando? Quero ter a área da recepção pronta antes de abrirmos às dez.

- Ela saiu há uma hora.

- Há uma hora? - Stella olhou para o relógio. Acompanhar o ritmo de Roz tornara-se a sua missão pessoal... e, até agora, estava a falhar. - Ela não dorme?

- Com ela, o pássaro madrugador não só apanha a minhoca, como tem tempo para a saltear com um belo molho de ameixa para o pequeno-almoço.

- Desculpa-me, mas que nojo. Tenho de ir. - Correu para a porta, depois parou. - David, está tudo a correr bem com os miúdos? Dizias-me se houvesse algum problema, não dizias?

- Com certeza. Temo-nos divertido imenso. Hoje, depois da escola, vamos experimentar correr com tesouras na mão, e a seguir vamos tentar descobrir quantas coisas conseguimos improvisar para espetar nos olhos. Depois disso, avançaremos para os materiais inflamáveis.

- Obrigada, estou muito mais tranquila. - Baixou-se e deu uma última palmadinha a Parker. - Mantém este tipo debaixo de olho - disse ao cão.

Logan Kitridge estava com pouco tempo. A chuva obrigara-o a atrasar o seu projecto pessoal, a ponto de ter de adiar alguns dos pormenores - mais uma vez - para poder cumprir os seus compromissos profissionais.

Não que se importasse muito. Considerava o paisagismo um trabalho perpetuamente em curso. Nunca estava terminado. Nunca devia estar terminado. E, quando se trabalhava com a natureza, era a natureza que mandava. Era uma patroa volúvel e complicada, e continuamente fascinante.

Um homem tinha de estar sempre atento, pronto a vergar, disposto a fazer cedências e a mudar com os estados de espírito da natureza. Planear em termos absolutos era um exercício de frustração e, para ele, havia já coisas suficientes com que se sentir frustrado.

Uma vez que a natureza se dignara dar-lhe um dia bom e limpo, estava a aproveitá-lo para tratar do seu projecto pessoal. Isso significava que tinha de trabalhar sozinho - de qualquer maneira, era como preferia - e ainda arranjar tempo para passar pelo local do trabalho em curso e ver como estavam as coisas com a sua equipa de dois homens.

Isso significava que tinha de ir a casa de Roz buscar as árvores que seleccionara para o seu próprio uso, trazê-las para sua casa e plantá-las antes do meio-dia.

Ou da uma hora. Duas, o mais tardar.

Bom, logo veria como as coisas corriam.

A única coisa que não podia fazer era arranjar tempo para esta nova gerente que Roz arranjara. Nem sequer conseguia perceber por que diabo Roz contratara uma gerente e, por amor de Deus, uma ianque. Parecia-lhe que Rosalind Harper sabia gerir muito bem o seu próprio negócio e não precisava de uma desconhecida de fala rápida para dar cabo do sistema.

Ele gostava de trabalhar com Roz. Era uma mulher que despachava as coisas e que não metia o nariz no seu trabalho mais do que era razoável. Ela adorava o trabalho, tal como ele, e tinha instinto para o fazer. Assim, quando ela fazia uma sugestão, as pessoas tinham tendência a ouvi-la e a levá-la em consideração.

Pagava bem e não aborrecia um homem com pormenores.

E ele sabia, sabia, que esta gerente ia ser uma pedra no seu sapato.

Não começara já ela a deixar-lhe mensagens, naquela voz ianque fria, sobre gestão de tempo, sistemas de facturação e inventário de equipamento?

Ele sempre se borrifara para esse tipo de coisas e não era agora que ia começar a preocupar-se com elas.

Ele e Roz tinham um sistema, raios. Um sistema que era suficiente para os trabalhos aparecerem feitos e os clientes ficarem satisfeitos.

Para quê mexer numa equipa vencedora?

Conduziu a sua carrinha de caixa aberta através da zona de estacionamento, serpenteando entre os montes de adubo vegetal, a areia e os troncos decorativos, e contornou a zona de descargas.

Já vira e identificara aquilo que queria - mas, antes de carregar as plantas, ia dar mais uma vista de olhos. Além disso, havia algumas sempre-verdes novas no campo e dois abetos na zona protegida que poderia usar.

Harper tinha-lhe enxertado dois salgueiros e uma sebe de peónias. Estariam prontos para plantar esta Primavera, bem como os vários vasos de estacas e plantas que Roz o ajudara a fazer.

Avançou entre as filas de árvores, depois virou e voltou para trás.

”Isto não está certo”, pensou. Estava tudo fora do sítio, mudado. Onde estavam os seus cornisos? Onde diabo estavam os rododendros e os loureiros que tinha seleccionado? Onde estava a sua maldita magnólia?

Olhou de testa franzida para um salgueiro, depois começou uma busca cuidadosa, passo a passo, pela secção.

Estava tudo diferente. As árvores e arbustos já não estavam naquilo que ele considerava uma mistura interessante e eclética de tipos e espécies, mas sim alinhadas como soldados, concluiu. Alfabetizadas, por amor de Deus. Em latim.

Os arbustos tinham sido segregados e estavam organizados da mesma forma obsessiva.

Encontrou as suas árvores e, a ferver de raiva, levou-as para o camião. Murmurando entre dentes, decidiu ir ao campo e tirar as árvores que queria levar de lá. Pelos vistos, estariam mais seguras em sua casa. Obviamente.

Mas primeiro ia procurar Roz e esclarecer aquela trapalhada.

Em cima de um escadote, armada com um balde de água com detergente e um trapo, Stella atacou a prateleira que acabara de esvaziar. Uma boa limpeza, decidiu, e estaria pronta para a sua mostra recentemente planeada. Visualizava-a cheia de vasos decorativos ordenados por cores, com algumas plantas sortidas entre eles. Se juntasse outros acessórios, como fio de ráfia, regadores decorativos, pedras e berlindes de florista, e por aí fora, ficaria algo digno de se ver.

Ali, no ponto de vendas, ia gerar compras por impulso.

Estava a passar os aditivos para o solo, os fertilizantes e os repelentes de animais para a parede lateral. Esses eram artigos básicos, não de impulso. Os clientes teriam de ir até ao fundo para procurar os artigos dessa natureza, passando pelos espanta-espíritos que ela ia pendurar, pelo banco e pelo canteiro de betão que tencionava trazer para dentro. Com as outras alterações, ficaria tudo em harmonia e os clientes seriam naturalmente atraídos para a secção de plantas de interior, passando pelos vasos de pátio, pelo mobiliário de jardim, tudo antes de chegarem à exposição de plantas.

Faltava ainda uma hora e meia para abrirem e, se conseguisse convencer Harper a ajudá-la com as coisas mais pesadas, conseguiria acabar tudo.

Ouviu passos vindos das traseiras e soprou para o cabelo para o tirar dos olhos.

- Estou a fazer progressos - disse. - Eu sei que ainda não parece, mas... Interrompeu-se quando o viu.

Mesmo em cima do escadote, sentiu-se pequena. Ele não devia medir menos de um metro e noventa e cinco, um homem duro, esguio e em forma, com calças de ganga desbotadas, manchadas de lixívia numa das coxas. Vestia uma camisa grossa de flanela por cima de uma T-shirt e calçava um par de botas tão gastas e coçadas que Stella pensou que ele devia ter pena delas e dar-lhes um enterro decente.

O cabelo comprido, ondulado e despenteado, era da cor que ela pretendera da única vez que tentara pintar o seu.

Não lhe chamaria atraente - tudo nele parecia grosseiro e rude. A boca dura, as faces secas, o nariz afilado, a expressão dos olhos. Eram verdes, mas não como os de Kevin tinham sido. Estes eram profundos e carregados, e pareciam, de alguma forma, quentes, por baixo da linha forte das sobrancelhas.

Não, ela não diria que ele era atraente, mas sim impressionante, num estilo grande e duro. O tipo de dureza que dava a ideia de que um soco causaria muito mais danos a quem o desferisse do que a ele próprio.

Sorriu, embora estivesse a perguntar a si própria onde estaria Roz. Ou Harper. Ou alguém.

- Lamento, ainda não abrimos. Posso ajudá-lo em alguma coisa?

Oh, ele conhecia aquela voz. Aquela voz decidida e fria que lhe deixara mensagens irritantes sobre planos estruturais funcionais e objectivos de produção.

Esperara que ela parecesse como soava - um erro comum, supôs. Não havia nada de frio naquele cabelo ruivo rebelde, que ela tentava controlar com aquele lenço estúpido, nem na desconfiança dos grandes olhos azuis.

- Mudou o raio das minhas árvores.

- Desculpe?

- Bem pode pedir desculpa. Não volte a fazê-lo.

- Não sei do que está a falar. - Agarrou melhor o balde, pelo sim, pelo não, e desceu do escadote. - Encomendou algumas árvores? Se me disser o seu nome, posso ver se consigo encontrar a sua encomenda. Estamos a implementar um sistema novo, por isso...

- Não preciso de encomendar nada e não gosto do seu sistema novo. E que diabo está a fazer aqui dentro? Onde está tudo?

A voz dele parecia-lhe de alguém da região, desagradável e com indícios claros de impaciência.

- Acho que talvez seja melhor voltar quando estivermos abertos. No Inverno abrimos às dez. Se me deixar o seu nome... - Aproximou-se do balcão e do telefone.

- É Kitridge e devia saber muito bem disso, uma vez que não pára de me chatear há quase uma semana.

- Não sei... Oh! Kitridge. - Descontraiu-se um pouco. - O paisagista. E não tenho estado a chateá-lo - disse num tom mais acalorado quando se apercebeu do que ele dissera. - Tenho estado a tentar contactá-lo para podermos marcar uma reunião. E o senhor não teve a cortesia de retribuir os meus telefonemas. Espero sinceramente que não seja tão mal-educado com os clientes como é com os colegas.

- Mal-educado? Oiça, a senhora não sabe o que é ser mal-educado.

- Tenho dois filhos - retorquiu ela. - Sei muito bem o que é ser mal-educado. A Roz contratou-me para pôr ordem no negócio dela, para tirar parte da carga sistémica dos ombros dela, para...

- Sistémica? - Ele ergueu os olhos para o céu como um homem a rezar.

- Céus, vai falar sempre assim?

Ela respirou fundo e tentou acalmar-se.

- Sr. Kitridge, tenho um trabalho para fazer. Parte desse trabalho é lidar com a vertente paisagista deste negócio. Por acaso é uma vertente muito importante e lucrativa.

- Pode ter a certeza. E é a minha vertente.

- Por acaso está também ridiculamente desorganizada e, ao que parece, é gerida como se fosse um circo. Tenho passado a semana a encontrar pedacinhos de papel soltos e encomendas e facturas... se é que podemos chamar-lhes isso... escritas à mão.

- E depois?

- E depois, se se tivesse dado ao trabalho de retribuir os meus telefonemas e de combinar uma reunião, eu podia ter-lhe explicado como é que esta vertente do negócio vai funcionar a partir de agora.

- Ah, sim? - O sotaque do oeste do Tennessee adquiriu uma tonalidade suave e perigosa. - Vai explicar-me?

- Exactamente. O sistema que estou a implementar vai, em última análise, poupar-lhe uma quantidade considerável de tempo e trabalho, graças aos programas informáticos de facturas e de inventário, às listas de clientes e de designs, a...

Ele estava a observá-la de alto a baixo. Calculou que devia ter uns bons trinta centímetros a mais do que ela, provavelmente uns quarenta quilos a mais. Mas esta mulher tinha uma língua afiada. Era aquilo a que a sua mãe costumava chamar uma ferroada de abelha - embora bonita -, e pelos vistos nunca se calava.

- Como diabo é que passar metade do tempo sentado em frente de um computador me vai poupar seja o que for?

- Depois de os dados estarem introduzidos, acredite que é o que acontecerá. Nesta altura, parece que transporta a maior parte das informações num bolso qualquer ou na cabeça.

- E depois? Se estiver no bolso, sei onde a encontrar. Se estiver na minha cabeça, também sei onde a encontrar. Não há problema nenhum com a minha memória.

- Talvez não. Mas amanhã pode ser atropelado por um camião e passar os próximos cinco anos em coma. - Os bonitos lábios distenderam-se num sorriso gelado. - E depois como é que nós ficamos?

- Uma vez que eu estaria em coma, isso não me preocuparia muito. Venha cá.

Pegou-lhe na mão e puxou-a em direcção à porta.

- Eh! - exclamou ela, surpreendida. - Eh!

- É trabalho. - Abriu a porta e continuou a puxá-la. - Não vou arrastá-la para a minha caverna.

- Então largue-me. -As mãos dele eram duras como uma rocha e igualmente ásperas. E as pernas dele, percebeu Stella enquanto ele se afastava do edifício, devoravam o terreno em passadas grandes e rápidas, forçando-a a segui-lo num passo de corrida muito pouco digno.

-Já a largo. Olhe para aquilo.

Apontou para a área de árvores e arbustos enquanto ela tentava recuperar o fôlego.

- O que tem?

- Está uma confusão.

- Claro que não está. Passei quase um dia inteiro nesta área. - E ainda tinha os músculos doridos para o provar. - Está arranjada de forma coesa, de modo que um cliente ou um funcionário que procure uma árvore ornamental consiga encontrá-la rapidamente. Se o cliente estiver à procura de um arbusto que floresça na Primavera ou...

- Estão todos alinhados. Como é que fez isto, usou um nível de carpinteiro? Como é que as pessoas que aqui entrarem agora vão ter uma imagem de como as diferentes espécies resultarão juntas?

- Esse é o seu trabalho, seu e do restante pessoal. Estamos aqui para ajudar e orientar o cliente para as várias possibilidades, de acordo com os seus desejos mais concretos. Se andarem a vaguear aqui pelo meio à procura de uma maldita hortênsia...

- Podem ver uma aleluia ou uma camélia que também gostariam de ter. Ele tinha alguma razão, e Stella reflectiu sobre o que ele dissera. Não era nenhuma idiota.

- Ou então podem sair de mãos a abanar porque não conseguiram encontrar facilmente aquilo de que vinham à procura. Funcionários atentos e bem informados devem ser capazes de encontrar o que o cliente quer. Ambas as formas têm prós e contras, mas eu gosto mais desta. E a decisão é minha.

Recuou um passo.

- Agora, se tiver tempo, precisamos de...

- Não tenho. - Ele afastou-se com passos largos na direcção da carrinha.

- Espere aí. - Stella correu atrás dele. - Temos de falar sobre as novas ordens de compra e sobre o sistema de facturação.

- Mande-me um memorando. Parece ser o seu estilo.

- Não quero mandar-lhe um memorando... e o que está a fazer com essas árvores?

- A levá-las para casa - respondeu ele, abrindo a porta da carrinha e entrando.

- Como assim, a levá-las para casa? Não tenho papelada nenhuma destas árvores.

- Olhe, nem eu. - Depois de bater com a porta, abriu a janela um centímetro. - Para trás, ruiva. Não quero passar-lhe por cima dos dedos dos pés.

- Oiça lá, não pode simplesmente tirar daqui plantas quando muito bem lhe apetece.

- Vá falar com a Roz. Isto se ela ainda for a patroa. Caso contrário, é melhor chamar a polícia. - Acelerou o motor e, quando ela saltou apressadamente para trás, arrancou em marcha atrás, deixando-a a olhar para ele.

Com as faces coradas de fúria, Stella avançou de novo em direcção ao edifício. ”Era bem feita para ele”, pensou, ”era muito bem feita se eu chamasse a polícia.” Ergueu a cabeça, de olhos a faiscar, quando Roz abriu a porta.

- Não era a carrinha do Logan?

- Ele trabalha com clientes?

- Claro. Porquê?

- Tem sorte de nunca ninguém a ter processado. Entrou por aqui adentro, não fez outra coisa senão queixar-se. Resmungar, resmungar, resmungar - disse Stella entre dentes, passando por Roz. - Não gosta disto, não gosta daquilo, não gosta de nada, tanto quanto percebi. Depois arrancou com a carrinha cheia de árvores e arbustos.

Roz esfregou o lóbulo da orelha com ar pensativo.

- É verdade que ele tem os seus estados de espírito.

- Estados de espírito? Só vi um, e não gostei. - Arrancou o lenço da cabeça e atirou-o para cima do balcão.

- Irritou-a, foi?

- E como! Eu estou a tentar fazer aquilo para que me contratou, Roz.

- Eu sei. E, até agora, acho que não fiz nenhum comentário ou queixa que se possa classificar como resmungar, resmungar, resmungar.

Stella olhou para ela horrorizada.

- Não! Claro que não. Não queria dizer... meu Deus!

- Estamos naquilo a que eu chamaria um período de adaptação. Nem toda a gente tem a mesma facilidade de adaptação. Eu gosto da maior parte das suas ideias e estou disposta a dar uma oportunidade às outras. O Logan está habituado a fazer as coisas à sua maneira e eu não tenho tido problemas com isso. Resulta.

- Ele levou material. Como é que eu posso manter um inventário se não sei o que ele levou nem para que é? Preciso de papéis, Roz.

- Imagino que ele deve ter levado os espécimes que tinha seleccionado para seu uso pessoal. Se levou mais alguma coisa, com certeza que me dirá. E sei que não é esta a sua forma de fazer as coisas - continuou, antes que Stella pudesse abrir a boca. - Eu vou falar com ele, mas talvez a Stella também tenha de se adaptar a algumas coisas. Já não está no Michigan. Bem, vou deixá-la voltar ao seu trabalho.

E ela ia voltar para junto das suas plantas. Geralmente, causavam-lhe menos problemas do que as pessoas.

- Roz? Eu sei que às vezes consigo ser muito chata, mas quero mesmo ajudá-la a desenvolver o seu negócio.

-Já tinha percebido ambas as coisas.

Sozinha, Stella ficou amuada durante um minuto. Depois, pegou no balde e voltou a subir o escadote. Este encontro não planeado tinha feito ir pelos ares os seus planos.

- Não gosto dela. - Logan estava sentado na sala de Roz com uma cerveja numa mão e uma carrada de ressentimento na outra. - É autoritária, inflexível, presumida e histérica. - Quando Roz ergueu as sobrancelhas, encolheu os ombros. - Bom, está bem, histérica não... por enquanto... mas mantenho o resto.

- Eu gosto dela. Gosto da sua energia e do seu entusiasmo. E preciso de alguém que trate dos pormenores, Logan. As coisas cresceram demasiado e fugiram-me das mãos. Só estou a pedir que vocês os dois mostrem um pouco de flexibilidade.

- Acho que ela não tem meios-termos. É de extremos. Não confio em mulheres de extremos.

- Confias em mim.

Ele olhou para a cerveja com expressão carrancuda. Isso era verdade. Se não confiasse em Roz, nunca teria vindo trabalhar para ela, independentemente do salário e das regalias que ela lhe agitasse à frente do nariz.

- Ela vai pôr-nos a preencher formulários em triplicado e a documentar quantos centímetros podámos de cada arbusto.

- Não me parece que chegue a tanto. - Roz apoiou os pés em cima da mesa de café e bebeu um gole da sua cerveja.

- Se tinhas mesmo de contratar um maldito gerente, Roz, por que raio não contrataste alguém daqui? Arranja alguém que perceba como as coisas funcionam por aqui.

- Porque não queria alguém daqui. Queria-a a ela. Quando ela descer, vamos tomar uma bebida civilizada e agradável, seguida por uma refeição civilizada e agradável. Não me interessa se vocês gostam um do outro ou não, mas vão aprender a dar-se bem.

- Tu é que mandas.

- Isso é um facto. - Roz deu-lhe uma palmada amigável na perna. O Harper também vem. Obriguei-o.

Logan ficou em silêncio mais um minuto.

- Gostas mesmo dela?

- Gosto mesmo. E sentia falta de ter a companhia de uma mulher. Pelo menos de uma mulher que não fosse pateta nem irritante. E ela não é uma coisa nem outra. Passou por um mau bocado, Logan, perdendo o marido tão nova. Eu sei como isso é. E ela não se foi abaixo nem se tornou frágil. Portanto, sim, gosto dela.

- Nesse caso, vou tolerá-la, mas só por ti.

- Falinhas mansas. - Com uma gargalhada, Roz inclinou-se e beijou-o na face.

- Só porque sou louco por ti.

Stella entrou na sala a tempo de ver Logan pegar na mão de Roz e pensou: ”Oh, merda.”

Tinha-se precipitado, discutido, insultado e feito queixas do namorado da sua patroa.

Com um aperto no estômago, empurrou os filhos para a frente e entrou, afivelando um sorriso no rosto.

- Espero que não estejamos atrasados - disse num tom jovial. - Tivemos uma pequena crise com os trabalhos de casa. Olá, sr. Kitridge. Gostava de lhe apresentar os meus filhos. Este é o Gavin, e este é o Luke.

- Como vai isso? - Pareciam-lhe miúdos normais e não os robôs mecânicos que esperaria que uma mulher como Stella produzisse.

- Tenho um dente a abanar - informou-o Luke.

- Sim? Mostra lá, então. - Logan pousou a cerveja para inspeccionar seriamente o dente que Luke fez abanar com a língua. - Fixe. Sabes, tenho ali um alicate na caixa de ferramentas. Um puxão e tiramos já isso daí.

Ao ouvir um som horrorizado atrás de si, Logan virou-se e sorriu friamente a Stella.

- O sr. Kitridge está a brincar - disse Stella a Luke, que parecia fascinado. - O teu dente cairá quando estiver pronto.

- E, quando cair, a Fada dos Dentes vem e eu recebo um dólar. Logan franziu os lábios.

- Um dólar, ha? Bom negócio.

- Deita sangue quando cai, mas eu não tenho medo.

- Sr.a Roz? Podemos ir ter com o David à cozinha? - Gavin olhou para a mãe. - A mamã disse que tínhamos de lhe pedir.

- Claro, vão.

- Nada de doces - gritou Stella enquanto eles se afastavam a correr.

- Logan, porque não serves um copo de vinho à Stella?

- Eu vou lá. Não se levante - disse-lhe Stella.

”Hoje ele não parece tanto um idiota autoritário”, pensou ela. Arranjara-se bastante bem e Stella conseguia perceber por que razão Roz se sentia atraída por ele. Para quem gostasse do visual másculo.

- Não disse que o Harper também vinha? - perguntou-lhe Stella.

- Deve estar a aparecer. - Roz agitou a cerveja. - Vamos lá ver se conseguimos portar-nos todos bem. Vamos já despachar o assunto para podermos ter uma refeição agradável sem dar cabo da digestão. A Stella está encarregada das vendas, da produção e da gestão diária do negócio. Ela e eu, pelo menos por enquanto, vamos partilhar a gestão de pessoal, enquanto o Harper e eu tratamos da propagação.

Bebeu um gole de cerveja e esperou, embora conhecesse o seu próprio poder e não estivesse à espera de objecções.

- O Logan está à frente do paisagismo, tanto na estufa como fora. Assim, tem a primeira opção na escolha de materiais e está autorizado a fazer encomendas especiais ou a tratar da compra ou aluguer de equipamento, material ou espécimes necessários para projectos exteriores. As alterações que a Stella já implementou ou propôs... e que foram aprovadas por mim... são para continuar ou implementar, enquanto eu não decidir que não funcionam. Ou pura e simplesmente que não me agradam. Até aqui, tudo claro?

- Perfeitamente - disse Stella friamente. Logan encolheu os ombros.

- O que significa que vocês vão colaborar um com o outro, fazer o que for necessário para trabalharem juntos de forma que ambos possam obter resultados nas respectivas áreas. Eu construí a empresa No Jardim do nada e posso geri-la sozinha, se tiver de ser. Mas não é o que pretendo. Pretendo que vocês os dois e o Harper arquem com as responsabilidades que lhes foram atribuídas. Podem discutir à vontade. Não me incomodam as discussões. Mas o trabalho tem de aparecer feito.

Acabou a sua cerveja.

- Perguntas? Comentários? - Após uns segundos de silêncio, levantou-se. - Muito bem, nesse caso, vamos comer.

 

Foi, de uma maneira geral, uma noite muito agradável. Nenhum dos seus filhos atirou com a comida nem fez ruídos desagradáveis de forma audível. Isso era sempre positivo, na maneira de ver de Stella. A conversa foi educada, até mesmo animada - particularmente quando os rapazes descobriram o primeiro nome de Logan, o mesmo nome usado por Wolverine dos X-Men.

Ele ganhou instantaneamente o estatuto de herói, mais ainda quando se descobriu que Logan partilhava a obsessão de Gavin por livros de banda desenhada.

O facto de Logan parecer mais interessado em conversar com os seus filhos do que com ela era outro ponto positivo.

- Se o Hulk e o Homem-Aranha alguma vez lutassem um com o outro, eu acho que o Homem-Aranha ganhava.

Logan acenou enquanto cortava um pedaço da sua carne malpassada.

- Porque o Homem-Aranha é mais rápido e mais ágil. Mas, se o Hulk conseguisse apanhá-lo, dava cabo dele.

Gavin espetou o garfo numa batatinha nova, depois ergueu-a no ar como uma cabeça decepada numa estaca.

- Se ele estivesse sob a influência de um vilão perverso qualquer, como...

- Talvez o Mr. Hyde.

- Sim! O Mr. Hyde, então o Hulk podia ser obrigado a ir atrás do Homem-Aranha. Mas ainda acho que o Homem-Aranha ganhava.

- Por isso é que ele é espantoso - concordou Logan - e o Hulk é incrível. É preciso mais do que músculos para combater o mal.

- Sim, é preciso ser corajoso e esperto e essas coisas.

- O Peter Parker é o mais esperto de todos. - Luke imitou o irmão com a batata espetada no garfo.

- O Bruce Banner também é esperto. - Uma vez que isso fizera os rapazes rir, Logan espetou uma batata e abanou-a. - Consegue sempre arranjar roupa nova depois de voltar à forma normal.

- Se fosse mesmo esperto - comentou Harper -, arranjaria maneira de fazer a sua roupa esticar e expandir-se.

- Vocês, os cientistas - disse Logan, sorrindo a Harper. - Nunca pensam no mundano.

- O Mundano é um supervilão? - quis saber Luke.

- Mundano quer dizer vulgar - explicou-lhe Stella. - Por exemplo, é mais mundano comeres as tuas batatas do que brincares com elas, mas é isso que se deve fazer à mesa.

- Oh! - Luke sorriu-lhe, com uma expressão entre o doce e o malandro, e enfiou a batata na boca. - Está bem.

Depois da refeição, ela aproveitou a desculpa da hora de dormir dos rapazes para se retirar. Tinha de tratar dos banhos deles, de responder às habituais mil perguntas e de aguentar enquanto eles esgotavam as últimas energias do dia, o que geralmente incluía um deles ou os dois a correr de um lado para o outro praticamente nus.

Depois chegava a sua hora preferida, quando puxava uma cadeira para o meio das camas e lia para eles, enquanto Parker começava a ressonar aos seus pés. O livro que estavam a ler neste momento era Mystic Horse, e, quando o fechou, ouviu os habituais gemidos e súplicas para só mais um bocadinho.

- Amanhã, porque agora, infelizmente, é hora dos beijos molhados.

- Beijos molhados não! - Gavin virou-se de barriga para baixo e escondeu o rosto na almofada. - isso não!

- Sim, e tens de te submeter. - Cobriu-lhe a nuca de beijos enquanto ele ria às gargalhadas. - E agora, a minha segunda vítima. - Virou-se para Luke e esfregou as mãos.

- Espera, espera! - Ele estendeu as mãos para se defender do ataque. Achas que o meu dente vai cair amanhã?

- Mostra lá outra vez. - Sentou-se na beira da cama dele, observando solenemente enquanto ele abanava o dente com a língua. - Acho que é bem possível.

- Posso ter um cavalo?

- Não cabe debaixo da almofada. - Ele riu-se e ela beijou-o na testa, nas faces e naqueles lábios tão doces.

Levantou-se e apagou o candeeiro, deixando-os com a claridade suave da luz de presença.

- Só têm autorização para ter sonhos divertidos.

- Eu vou sonhar que tenho um cavalo, porque às vezes os sonhos realizam-se.

- É verdade. Então boa noite.

Voltou para o seu quarto, ouvindo os murmúrios de cama para cama que também faziam parte do ritual da hora de dormir.

Tornara-se o ritual deles ao longo dos últimos dois anos. Apenas os três à hora de dormir, quando antes tinham sido quatro. Mas agora era um ritual sólido e bom, pensou ela, quando um riso interrompeu os murmúrios.

A certa altura, ela deixara de sofrer todas as noites, a cada novo dia, por aquilo que tinha tido. E começara a dar valor àquilo que tinha.

Olhou para o computador portátil e pensou no trabalho que planeara fazer esta noite. Em vez disso, dirigiu-se às portas do terraço.

Ainda estava demasiado frio para se sentar lá fora, mas precisava do ar do silêncio e da noite.

Imagine-se, imagine-se só, estava ao ar livre numa noite de Janeiro. E não estava a morrer de frio. Apesar de as previsões apontarem para mais chuva, o céu estava salpicado de estrelas e adornado com uma nesga de lua. Sob a luz fraca, conseguia ver uma camélia em flor. Flores no Inverno - aí estava mais uma coisa para adicionar à lista das vantagens de se ter mudado para o Sul

Cruzou os braços sobre o peito e pensou na Primavera, quando o ar estaria quente e perfumado pelo jardim.

Queria estar aqui na Primavera para o ver, para participar nesse despertar. Queria manter este emprego. Não se apercebera do quanto queria ficar até às palavras firmes e directas de Roz antes de jantar.

Menos de duas semanas e já estava tão envolvida. Talvez demasiado envolvida, admitiu. Isso era sempre um problema. Tinha sempre de acabar tudo o que começava. Era a sua religião, como a mãe costumava dizer.

Mas era mais do que isso. Sentia-se tocada por aquele local. Era um erro e sabia-o. Estava apaixonada pelos viveiros e pela sua própria visão de como as coisas poderiam ficar. Queria ver mesas transbordando de cores e folhas verdes, cascatas de flores a derramar-se de cestos suspensos dispostos ao longo dos corredores, formando caramanchões. Queria ver clientes a percorrer a loja e a comprar, a encher carrinhas e carros com caixas.

E, claro, havia aquela parte de si que queria ir com cada um deles e mostrar-lhes exactamente como cada coisa devia ser plantada. Mas conseguia controlar esse impulso.

Admitia que também queria ver o sistema de arquivo implementado, as folhas de cálculo e os registos de inventário semanal.

E, quer ele gostasse ou não, tencionava visitar alguns dos trabalhos de Logan. Ter uma percepção dessa parte do negócio.

Isto partindo do princípio de que ele não convencia Roz a despedi-la.

Ele também fora posto no seu lugar, admitiu Stella. Mas tinha a vantagem de jogar em casa.

De qualquer maneira, não ia conseguir trabalhar nem relaxar nem pensar em mais nada enquanto não esclarecesse as coisas.

Ia descer, com a desculpa de fazer um chá. Se a carrinha dele já lá não estivesse, tentaria conversar um minuto com Roz.

Estava tudo silencioso e teve o triste pressentimento de que eles tinham subido para o quarto. Não queria ter essa imagem na cabeça. Entrou na sala em bicos de pés e espreitou pela janela. Apesar de não ver a carrinha dele, lembrou-se de que não sabia onde ele tinha estacionado, nem sequer se teria trazido outro carro.

Deixaria a conversa para de manhã. Era o melhor. De manhã, solicitaria uma breve reunião com Roz e esclareceria tudo. Era melhor dormir sobre o assunto, planear exactamente o que queria dizer e como devia dizê-lo.

Uma vez que já estava cá em baixo, decidiu de qualquer modo fazer um chá. Depois podia levá-lo para cima e concentrar-se no trabalho. As coisas pareceriam melhores quando estivesse concentrada no trabalho.

Entrou silenciosamente na cozinha e soltou um grito abafado quando viu um vulto indistinto sob a luz fraca. O vulto gritou também e carregou no interruptor ao lado do fogão.

- Para a próxima, mate-me logo - disse Roz, levando a mão ao coração.

- Desculpe. Céus, assustou-me. Eu sabia que o David ia sair esta noite e não pensei que estivesse aqui alguém.

- Só eu. Estou a fazer café.

- As escuras?

- A luz do fogão estava acesa. Conheço os cantos à casa. Veio assaltar o frigorífico?

- O quê? Não, não! - Dificilmente teria à-vontade para tanto na casa de outra mulher. - Ia apenas fazer um chá para levar para cima e beber enquanto trabalho um pouco.

- Força. A menos que prefira um café.

- Se beber café depois de jantar, passo a noite em claro.

Era estranho estarem ali na casa silenciosa, apenas as duas. Não era a sua casa, pensou Stella, nem a sua cozinha, nem o seu silêncio. Ela não era uma hóspede, mas sim uma empregada.

Por mais amável que Roz fosse, tudo o que a rodeava era propriedade dela.

- O sr. Kitridge já se foi embora?

- Pode tratá-lo por Logan, Stella. Senão parece desagradável.

- Desculpe, não era essa a minha intenção. - Bom, talvez um pouco. Simplesmente eu e ele começámos com o pé errado e... oh, obrigada disse, quando Roz lhe estendeu a chaleira. - Sei que não devia ter-me queixado dele.

Encheu a chaleira, desejando ter pensado melhor no que queria dizer. Ensaiado algumas vezes.

- Porquê? - perguntou Roz.

- Bom, não é muito construtivo que a sua gerente e o seu paisagista choquem logo ao primeiro contacto, e muito menos que venham fazer-lhe queixas sobre isso.

- Sensata. Madura. - Roz encostou-se ao balcão enquanto esperava que o café estivesse pronto. ”Jovem”, pensou. Não podia esquecer-se de que, apesar de algumas experiências comuns, a rapariga era pelo menos dez anos mais nova do que ela. E ainda estava um bocadinho verde.

- Tento ser ambas as coisas - disse Stella, pondo a chaleira a aquecer.

- Também já fui assim, em tempos. Depois pensei, que se lixe. Vou começar o meu próprio negócio.

Stella afastou o cabelo do rosto. Quem era aquela mulher que conseguia ser elegante mesmo sob luzes fortes? Que pronunciava palavras francas com a sua voz de debutante da aristocracia sulista e usava meias de lã velhas em vez de chinelos?

- Não consigo defini-la. Não consigo compreendê-la.

- É isso que costuma fazer, não é? Definir as coisas. - Esticou-se para tirar uma caneca do armário atrás de si. - É uma boa qualidade para uma gerente. Mas pode ser irritante a nível pessoal.

- Não seria a primeira a pensar assim - suspirou Stella. - E, justamente a nível pessoal, gostava de acrescentar um pedido de desculpas. Não devia ter-lhe dito aquelas coisas sobre o Logan. Primeiro, porque não é bonito fazer queixas de um colega. E, segundo, não me tinha apercebido de que vocês os dois estavam envolvidos.

- Não? - Roz decidiu que este momento estava a pedir uma bolacha. Enfiou a mão no frasco que David mantinha sempre bem abastecido. E apercebeu-se disso quando...

- Quando descemos, antes de jantar. Não tive intenção de ouvir, mas não pude evitar reparar...

- Coma uma bolacha.

- Não costumo comer doces depois de...

- Coma uma bolacha - insistiu Roz, estendendo-lhe uma. - O Logan e eu estamos de facto envolvidos. Ele trabalha para mim, embora ele não o veja bem dessa forma. - Um sorriso divertido apareceu-lhe nos lábios. - Do ponto de vista dele, é mais comigo, e eu não me importo. Desde que o trabalho apareça feito, o dinheiro entre e os clientes estejam satisfeitos. Também somos amigos. Gosto muito dele. Mas não dormimos juntos. Não estamos, de forma alguma, envolvidos romanticamente.

- Oh! - Desta vez, susteve a respiração. - Oh... Bom, os meus pés já estão ensopados, portanto tenho de pedir emprestado o pé de alguém para enfiar outra vez na poça.

- Não me sinto insultada, estou lisonjeada. Ele é um espécime excelente. Mas não posso dizer que alguma vez tenha pensado nele dessa maneira.

- Porquê?

Roz serviu-se de café enquanto Stella tirava a chaleira do lume.

- Sou dez anos mais velha do que ele.

- E isso leva-a a que conclusão?

Roz olhou para ela com uma expressão de surpresa que se transformou em divertimento.

- Tem razão. Isso não quer dizer nada, ou não devia. No entanto, fui casada duas vezes. Uma foi boa, muito boa. Outra foi má, muito má. Não estou à procura de um homem neste momento. Dão demasiados problemas. Mesmo quando uma relação é boa, exige muito tempo, esforço e energia. Estou a gostar de usar todo esse tempo, esforço e energia comigo própria.

- Não se sente sozinha?

- Sim. Sim, sinto-me. Houve uma altura em que nunca pensei que poderia dar-me ao luxo de estar sozinha. Criar os meus filhos, a correria, o caos, as responsabilidades.

Olhou em volta, como se estivesse surpreendida por ver a cozinha silenciosa, sem o barulho e a desarrumação causados por rapazinhos pequenos.

- Depois de estarem criados... não que isso alguma vez acabe, mas há um ponto em que temos de nos distanciar... pensei que queria partilhar a minha vida, a minha casa, a minha pessoa, com alguém. Foi um erro. Embora a sua expressão continuasse descontraída e agradável, o seu tom de voz tornou-se duro como granito. - E corrigi-o.

- Não consigo imaginar casar-me de novo. Mesmo um bom casamento é um número de equilibrismo, não é? Principalmente se juntarmos à equação a carreira e a família.

- Nunca precisei de jogar com todas essas coisas porque nunca as tive ao mesmo tempo. Quando o John era vivo, tinha a casa, os miúdos, ele. A minha vida girava à volta deles. E mais ainda quando fiquei sozinha com os miúdos. Não estou arrependida de o ter feito - disse, depois de beber um gole de café. - Era assim que eu queria as coisas. O negócio, a carreira, isso começou tarde para mim. Admiro as mulheres que conseguem lidar com todas essas coisas ao mesmo tempo.

- Eu acho que era bastante boa. - Sentiu uma pontada de dor com a recordação, um aperto agridoce no coração. - É um trabalho exaustivo, mas julgo ter sido boa. Agora? Acho que já não tenho capacidade para isso. Estar com alguém todos os dias, ao fim do dia. - Abanou a cabeça. - Não me estou a ver. Conseguia sempre imaginar-me ao lado do Kevin, em todos os passos e todas as fases. Não consigo imaginar mais ninguém.

- Talvez essa pessoa simplesmente ainda não tenha aparecido. Stella encolheu os ombros.

- Talvez. Mas conseguia imaginá-la com o Logan.

- A sério?

Disse-o com tanto humor, com um tom tão sugestivo, que Stella esqueceu todo o embaraço e desatou a rir.

- Não dessa maneira. Ainda comecei, mas interpus de imediato um bloqueio mental impenetrável. Queria dizer que ficam bem juntos. Tão atraentes e descontraídos. Achei que era bom. É bom ter alguém com quem podemos estar descontraídos.

- E a Stella e o Kevin eram assim.

- Éramos. Como se navegássemos lado a lado na mesma corrente.

- Reparei que não usa aliança.

- Não. - Stella olhou para o dedo vazio. - Tirei-a há cerca de um ano, quando comecei a sair com outras pessoas. Não parecia correcto usá-la quando estava com outro homem. Já não me sinto casada. Foi um processo gradual, suponho.

Roz acenou afirmativamente, como se ela tivesse feito uma pergunta.

- Sim, eu sei.

- Algures, ao longo do caminho, deixei de pensar ”o que diria o Kevin disto”, ou ”o que faria o Kevin” ou de imaginar o que ele pensaria ou desejaria. Por isso, tirei a aliança. Foi difícil. Quase tão difícil como perdê-lo.

- Eu tirei a minha no dia em que fiz quarenta anos - murmurou Roz.

- Percebi que deixara de a usar como um tributo. Tornara-se mais uma espécie de escudo contra relações. Assim, tirei-a nesse dia negro - disse, com um meio sorriso. - Porque a verdade é que ou avançamos ou desaparecemos.

- Na maior parte do tempo, estou demasiado ocupada para me preocupar com tudo isto, e não era minha intenção tocar no assunto agora. Só queria pedir desculpa.

- Desculpas aceites. Vou levar o meu café para cima. Vemo-nos de manhã.

- Está bem. Boa noite.

Sentindo-se melhor, Stella acabou de fazer o seu chá. Daria um bom avanço ao trabalho de manhã, decidiu, enquanto subia as escadas com o tabuleiro. Adiantaria boa parte da reorganização, falaria com Harper e Roz sobre as estacas que deviam ser adicionadas ao inventário e arranjaria maneira de se dar bem com Logan.

Ouviu o canto, baixinho e triste, quando começou a percorrer o corredor. O seu coração deu um salto no peito e a chávena estremeceu no tabuleiro quando acelerou o passo. Estava praticamente a correr quando chegou à porta do quarto dos filhos.

Não estava lá ninguém, apenas aquele mesmo gelo no ar. Mesmo depois de pousar o chá para revistar o armário e olhar para debaixo da cama, não encontrou nada.

Sentou-se no chão entre as duas camas, à espera de a pulsação voltar ao normal. O cão agitou-se, depois subiu para o colo dela para lhe lamber a mão.

Acariciando-o, Stella ficou ali sentada entre os filhos, enquanto eles dormiam.

No domingo, foi almoçar a casa do pai. Não se ralou nada quando Jolene lhe deu um copo de champanhe com sumo de laranja e a mandou sair da cozinha.

Era o seu primeiro dia de folga desde que começara a trabalhar No Jardim e estava decidida a descansar.

Com os rapazes a correrem pelo pequeno quintal com Parker, podia sentar-se a conversar com o pai.

- Conta-me tudo - ordenou ele.

- Se te contasse tudo, ficávamos aqui durante o almoço, o jantar e o pequeno-almoço de amanhã.

- Faz um resumo das partes principais. O que achas da Rosalind?

- Gosto muito dela. Consegue ser directa e ao mesmo tempo fugidia. Nunca sei bem em que pé estou, mas gosto dela.

- Ela tem sorte de te ter consigo. E, como é uma mulher inteligente, sabe disso.

- És capaz de ser um bocadinho parcial nesse aspecto.

- Só um bocadinho.

Stella sabia que ele sempre a amara. Mesmo quando passavam meses sem se verem. Havia sempre telefonemas, ou cartas, ou presentes surpresa no correio.

Olhou agora para ele e pensou que envelhecera tranquilamente. Enquanto a sua mãe travara uma guerra amarga e prolongada contra os anos Will Dooley fizera uma trégua com eles. O cabelo ruivo estava agora grisalho e o corpo ossudo ostentava uma barriga proeminente. Tinha rugas de riso em volta dos olhos e da boca, óculos empoleirados no nariz.

O seu rosto estava queimado do sol. Ele adorava jardinagem e golfe.

- Os miúdos parecem contentes - comentou ele.

- Adoram viver lá. Nem acredito como me preocupei por causa disso. Eles simplesmente adaptaram-se como se sempre lá tivessem vivido.

- Querida, se não estivesses preocupada com alguma coisa, morrias.

- Detesto-te por teres razão a esse respeito. Seja como for, ainda há alguns problemas em relação à escola. É muito difícil para eles serem os miúdos novos na escola, mas gostam da casa e de todo aquele espaço E são loucos pelo David. Conheces o David Wentworth?

- Sim. Pode dizer-se que ele faz parte da casa de Roz desde pequeno e agora gere-a.

- Ele é fantástico com os miúdos. É um alívio saber que, depois da escola, estão com alguém de quem gostam. E também gosto do Harper, apesar de não o ver muito.

- Esse rapaz sempre foi um solitário. Está mais feliz junto das suas plantas. É bem-parecido - acrescentou.

- É, sim, pai, mas acho que me vou limitar a falar com ele de estacas e enxertos, está bem?

- Não podes culpar um pai por querer ver a filha assentar.

- Eu estou assente, até ver. - ”Mais do que alguma vez julguei possível”, pensou. - No entanto, vai chegar uma altura em que vou querer a minha própria casa. Ainda não estou pronta para começar à procura... tenho muito que fazer e não quero causar mau ambiente entre mim e a Roz. Mas é uma das coisas na minha lista. Uma casinha na zona das escolas, quando chegar a altura. Não quero que os miúdos tenham de mudar outra vez.

- Acabarás por encontrar o que procuras, como sempre.

- Não serve de nada contentar-me com menos do que isso. Mas ainda tenho tempo. Neste momento, estou metida na reorganização até aos olhos. Stockcs, papelada, expositores.

- E aposto que te estás a divertir como nunca. Ela riu-se e esticou os braços e as pernas.

- Estou mesmo. Oh, pai, o sítio é fantástico e tem tanto potencial para mais... Gostava de encontrar alguém que tivesse mesmo vocação para vendas e relações com os clientes, e pôr essa pessoa à testa desse departamento enquanto eu me concentro na rotação do stock, na papelada e em concretizar algumas das minhas ideias. Ainda nem sequer toquei na parte do paisagismo. Excepto para ter uma discussão com o tipo que trata disso.

- O Kitridge? - Will sorriu. -Já estive com ele uma ou duas vezes, acho eu. Ouvi dizer que é um tipo muito susceptível.

-A quem o dizes.

- Mas faz um bom trabalho. A Roz não se contentaria com menos, posso garantir-te. Ele tratou da propriedade de um amigo meu há cerca de dois anos. O meu amigo tinha comprado uma casa velha e queria dedicar-se exclusivamente ao seu restauro. Os terrenos estavam uma desgraça. Contratou o Kitridge para tratar disso. Agora está um sonho. Apareceu numa revista e tudo.

- Qual é a história do Logan?

- É um rapaz daqui. Nascido e criado. Mas acho que se mudou para o Norte durante algum tempo. Casou-se.

- Não sabia que ele era casado.

- Foi - corrigiu Will. - Não resultou. Não sei os pormenores, talvez a Jo saiba. Ela é melhor a descobrir e a recordar esse tipo de coisas. O Logan voltou para cá há coisa de seis ou oito anos. Trabalhou numa grande companhia na cidade até a Roz o ir buscar. Jo! O que é que sabes sobre aquele rapaz, o Kitridge, que trabalha para a Roz?

- O Logan? - Jolene apareceu a espreitar na esquina. Trazia um avental que dizia COZINHA DAJO, um colar de pérolas ao pescoço e chinelos cor-de-rosa felpudos nos pés. - É sexy.

- Acho que não era bem isso que a Stella queria saber.

- Bom, isso ela pode ver por si própria. Tem olhos na cara e sangue nas veias, não tem? Os pais dele mudaram-se para Montana, imagina, há uns dois ou três anos.

Encostou-se à parede e levou o dedo ao rosto enquanto organizava a informação.

- Tem uma irmã mais velha que vive em Charlotte. Ele chegou a sair algumas vezes com a filha da Marge Peters, a Terri. Lembras-te da Terri, não te lembras, Will?

- Acho que não.

- Claro que te lembras. Foi Rainha do Liceu e do Baile de Finalistas quando andava na escola, e depois foi Miss Shelby. Primeira-dama de honor no concurso de Miss Tennessee. A maior parte das pessoas acha que ela não ganhou porque a prova de talento não foi tão boa como podia ter sido. A sua voz é um pouco... acho que se pode dizer delicada.

Enquanto Jo falava, Stella recostou-se e apreciou. Imaginem, saber estas coisas todas e, mais, importar-se. Stella duvidava que se conseguisse lembrar de quem tinha sido a rainha do baile de finalistas do seu liceu E aqui estava Jo a despejar muito naturalmente informações que tinham pelo menos dez anos.

Só podia ser uma coisa de sulista.

- E a Terri disse que o Logan era demasiado sério para ela - continuou Jo -, mas aquela rapariga acharia qualquer um demasiado sério.

Voltou para a cozinha, levantando a voz para se fazer ouvir na sala.

- Ele casou com uma ianque e mudou-se para Filadélfia, ou Boston, ou un desses sítios. Voltou cerca de dois anos depois, sem ela. Não tiveram filhos.

Voltou com mais um cockctail para Stella e outro para si própria.

- Ouvi dizer que ela gostava da vida na cidade grande e ele não, e que foi por isso que se separaram. Provavelmente houve mais qualquer coisa. Há sempre mais qualquer coisa, mas o Logan não é pessoa de falar muito, portanto as informações são escassas. Ele trabalhou na Fosterly Landscapin durante algum tempo. Sabes qual é, Will, tratam basicamente de paisagismo comercial. Embelezar escritórios e centros comerciais e por aí fora. Consta que a Roz lhe ofereceu a lua, a maior parte das estrelas e um ou dois sistemas solares para o convencer a ir trabalhar para ela. Will piscou o olho à filha.

- Eu disse-te que ela devia saber os pormenores.

- Nunca tive dúvidas.

Jo riu-se e fez um gesto displicente com a mão.

- Ele comprou a velha quinta Morris, junto ao rio, há uns dois anos. Tem estado a arranjá-la. E ouvi dizer que estava a fazer um trabalho para o Tully Scopes. Tu não conheces o Tully, Will, mas eu estou no comité de jardinagem com a mulher dele, a Mary. É mulher para se queixar de o céu estar demasiado azul ou de a chuva ser demasiado molhada. Nunca está satisfeita com nada. Queres mais um Bloody Mary, querido? - perguntou a Will.

- Pode ser.

- Então ouvi dizer que o Tully queria que o Logan lhe desenhasse uma zona de arbustos e um jardim para uma propriedade que ele queria vender.

Jolene continuou a falar enquanto voltava à cozinha para preparar a bebida. Stella trocou um sorriso com o pai.

- E todo o santo dia o Tully aparecia lá a queixar-se, ou a pedir alterações, ou a dizer isto ou aquilo. Até que o Logan o mandou dar uma volta ou qualquer coisa desse género.

- Lá se vão as boas relações com os clientes - disse Stella.

- E largou o trabalho - continuou Jolene. - Recusou-se a pôr os pés na propriedade ou a permitir que alguém da sua equipa plantasse sequer um malmequer enquanto o Tully não concordasse em se manter afastado. Era isso que querias saber?

- Cobre mais ou menos os aspectos básicos, sim - disse Stella, brindando com Jolene.

- Óptimo. O almoço está quase pronto. Porque não vais chamar os miúdos?

Com as informações fornecidas por Jolene introduzidas nos seus arquivos mentais, Stella formulou um plano. Bem cedo, na segunda-feira de manhã, armada com o seu mapa e indicações retiradas da Internet, partiu para o local do trabalho que Logan tinha marcado nesse dia.

Ou, corrigiu-se, para o trabalho que Roz achava que ele tinha pensado fazer nessa manhã.

Ia ser terrivelmente amável e cooperativa e flexível. Até ele ver as coisas à maneira dela.

Percorreu as ruas dos arredores da cidade propriamente dita. Casas antigas e encantadoras, mais perto umas das outras do que da estrada. Bonitos relvados inclinados. Árvores antigas maravilhosas. Carvalhos e áceres para sombra, cornisos e pereiras Bradford que celebrariam a Primavera com flores. Claro que não seria o Sul se não houvesse muitas magnólias, lado a lado com azáleas e rododendros enormes.

Tentou imaginar-se ali, com os filhos, a viver numa dessas casas graciosas, com um belo jardim para cuidar. Sim, conseguia ver-se, conseguia vê-los felizes num sítio assim, amigos dos vizinhos, a organizar jantares, jogos, churrascos.

Mas ultrapassava as suas possibilidades financeiras. Mesmo com o dinheiro que poupara e com o capital da venda da casa no Michigan, duvidava poder comprar uma propriedade aqui. Além disso, implicaria os filhos terem de mudar novamente de escola e ela ter de perder muito tempo nas deslocações para o trabalho.

Contudo, era uma fantasia agradável, embora de curta duração.

Viu a carrinha de Logan ao lado de outra, em frente de uma casa de tijolo de dois pisos.

Percebeu imediatamente que a propriedade não estava tão bem cuidada como a maioria das casas vizinhas. O relvado na parte da frente era irregular. As plantações à volta da casa precisavam desesperadamente de forma, e aquilo que pareciam ter sido canteiros de flores estavam cheios de ervas daninhas ou simplesmente mortos.

Ouviu o zumbido de serras eléctricas e música country demasiado alta quando contornou a casa. A hera crescia aqui descontroladamente, trepando pelos tijolos. ”Devia ser arrancada”, pensou ela. Aquele ácer tinha de ser derrubado antes que caísse e aquela cerca estava coberta de silvas e afogada em madressilva.

Nas traseiras viu Logan, preso a meio do tronco de um carvalho morto Com a serra eléctrica na mão, cortava os ramos secos. Apesar de estar frio o sol e o esforço físico tinham feito surgir gotas de transpiração no rosto e uma mancha escura nas costas da camisa.

Muito bem, ele era sexy. Qualquer homem bem constituído, a faze trabalho manual, parece sexy. Se juntássemos uma ferramenta perigosa à equação, a imagem ia directa aos centros de desejo e fazia tocar uma me lodia primitiva.

Mas sexy, recordou a si própria, não era a questão aqui.

A questão era o trabalho dele e a sua dinâmica de trabalho. Manteve-se afastada enquanto ele trabalhava e inspeccionou o resto dos terrenos.

O espaço podia ter sido bonito em tempos, mas agora estava negligenciado, cheio de ervas daninhas, coberto com árvores secas e arbustos moribundos. No canto oposto havia um telheiro inclinado, encostado a uma cerca coberta de trepadeiras.

Quase mil metros quadrados, calculou, enquanto via um enorme homem negro arrastar os ramos cortados para junto de um homem branco, baixo e magro, com uma talhadeira na mão. Perto deles, uma trituradora de aspecto maciço esperava a sua vez para mastigar o resto.

A beleza não desaparecera daqui, constatou Stella. Estava apenas escondida.

Era preciso visão para lhe dar vida de novo.

Uma vez que o negro a vira, Stella aproximou-se da equipa.

- Posso ajudá-la?

Ela estendeu a mão e sorriu.

- Sou Stella Rothchild, a gerente da sr.a Harper.

- Prazer. Eu sou o Sam, este é o Dick.

O homem mais baixo tinha o rosto fresco e sardento de um rapaz de doze anos, com uma barbicha desgrenhada que parecia ter crescido por engano.

-Já ouvi falar de si - disse, olhando para o colega com as sobrancelhas erguidas e um sorriso.

- Sim? - Ela manteve o tom amável, apesar de ter cerrado os dentes quando sorriu. - Pensei que seria boa ideia passar por alguns dos trabalhos, para ver como vão as coisas. - Inspeccionou novamente o terreno, mantendo deliberadamente o olhar abaixo do poleiro de Logan na árvore. E não há dúvida de que têm aqui muito que fazer.

- Uma carga de trabalhos só com a limpeza - concordou Sam, apoiando as mãos enormes e enluvadas nas ancas. - Mas já vi pior.

- Há alguma projecção quanto às horas de trabalho?

- Projecção. - Dick riu-se e deu uma cotovelada a Sam. Das suas alturas, Sam lançou-lhe um olhar compadecido.

- Se quer saber dos planos e das... ah, projecções, tem de falar com o patrão - disse. - Ele tem isso tudo calculado.

- Está bem. Obrigada. Vou deixá-los voltar ao trabalho.

Stella afastou-se, extraiu a pequena máquina fotográfica da mala e começou a tirar aquilo que ela designava como fotografias ”antes”.

Ele sabia que ela estava ali. Ali de pé, com a roupa passada a ferro e impecável, o cabelo rebelde preso e óculos de sol a esconderem os grandes olhos azuis.

Já se tinha perguntado quando é que ela o viria azucrinar no meio de um trabalho, pois parecia-lhe que esta era uma mulher que nascera para azucrinar. Pelo menos tivera o bom senso de não o interromper.

Por outro lado, a verdade é que ela não parecia ter mais nada a não ser bom senso.

Talvez o viesse a surpreender. Ele gostava de surpresas e já tivera uma quando conhecera os filhos dela. Estava à espera de ver dois pequenos robôs bem-educados. O género de miúdos que olham para a mãe dominadora antes de dizer uma palavra. Em vez disso achara-os normais, interessantes, engraçados. Com certeza que era preciso ter alguma imaginação para lidar com dois rapazinhos activos.

Talvez ela fosse chata apenas em relação ao trabalho.

”Bem”, pensou sorrindo, enquanto cortava um ramo. ”Ele também o era.”

Deixou-a esperar enquanto acabava o que estava a fazer. Demorou mais trinta minutos, durante os quais praticamente a ignorou, apesar de ter visto que ela tirara da mala uma máquina fotográfica - céus - e depois um bloco de notas.

Reparou também que ela fora falar com os seus homens e que Dick olhava de vez em quando na direcção de Stella.

Dick era um imbecil em termos sociais, pensou Logan, particularmente quando se tratava de mulheres. Mas era um trabalhador incansável e aceitaria o trabalho mais imundo com um sorriso ditoso e idiota. Sam, que tinha mais senso comum num dedo do que Dick em todo o corpo, era, graças a Deus, um homem tolerante e paciente.

Conheciam-se desde o liceu e esse era o tipo de coisa que caía bem a Logan. A continuidade e o facto de, por se conhecerem há cerca de vinte anos, não precisarem de estar sempre a dar à língua para se fazerem entender.

Explicar a mesma coisa meia dúzia de vezes esgotava-lhe a paciência. E não tinha problemas em admitir que paciência não era coisa que tivesse em abundância.

Os três juntos faziam um bom trabalho, muitas vezes um trabalho excepcional. E, com os músculos de Sam e a energia de Dick, raramente precisava de contratar mais trabalhadores.

E isso era conveniente. Preferia equipas pequenas às grandes. Assim era mais pessoal, pelo menos do seu ponto de vista. E, do ponto de vista de Logan, todos os trabalhos que aceitava eram pessoais.


Era a sua visão, o seu suor e o seu sangue que ficavam na terra. E o seu nome que ficava ligado àquilo que criava.

A ianque podia falar tanto quanto quisesse sobre formulários e tretas sistémicas. A terra estava-se borrifando para isso. E ele também.

Gritou um aviso aos seus homens e derrubou o velho carvalho morto. Depois de descer, soltou o arnês e pegou numa garrafa de água. Bebeu metade sem parar para respirar.

- Senhor... - começou Stella, mas depois pensou: ”Lembra-te, amigável.” Abriu mais o sorriso e aproximou-se dele. - Bom trabalho. Não sabia que era o Logan que tratava das árvores.

- Depende. Esta não tinha nada de complicado. Veio dar um passeio?

- Não, apesar de ter gostado muito da zona. É linda. - Olhou em volta e fez um gesto para abarcar os terrenos. - Esta propriedade também o deve ter sido, em tempos. O que aconteceu?

- Um casal viveu aqui cinquenta anos. Ele morreu há algum tempo. Ela não conseguia cuidar da propriedade sozinha e nenhum dos filhos vive perto. Ela adoeceu, a casa foi-se degradando. Ela piorou. Finalmente, os filhos vieram buscá-la para a pôr num lar.

- Isso é muito duro. E triste.

- Sim, grande parte da vida é assim. Venderam a casa. Os novos donos conseguiram uma pechincha e querem arranjar o terreno. E nós estamos a arranjá-lo.

- O que é que tem em mente?

Ele bebeu mais um gole de água da garrafa. Stella reparou que a trituradora parara e, depois de Logan olhar para trás, por cima do ombro, recomeçou a trabalhar.

- Tenho muitas coisas em mente.

- Especificamente relacionadas com este trabalho?

- Porquê?

- Porque poderei fazer melhor o meu trabalho se souber mais sobre o seu. Obviamente que vai derrubar o carvalho e, presumo, o ácer na parte da frente.

- Sim. Oiça, isto é assim. Tiramos tudo o que não pode ou não deve ser salvo. Relva nova, cercas novas. Deitamos abaixo o velho telheiro e substituímo-lo. Os novos donos querem muitas cores. Portanto, recuperamos as azáleas, pomos uma cerejeira na parte da frente, no lugar do ácer. Lilases ali e uma magnólia daquele lado. Peónias daquele lado, roseiras ao longo da cerca dos fundos. Está a ver aquela elevaçãozinha ali ao fundo, à direita? Em vez de a nivelarmos, plantamo-la.

Resumiu rapidamente o resto, debitando termos em latim e nomes comuns e gesticulando enquanto bebia longos tragos de água.

Ele conseguia ver, como sempre, os terrenos depois de prontos. Os pequenos e os grandes pormenores encaixando-se para formar um todo atractivo.

Tal como conseguia ver o trabalho necessário para cada um dos passos, conseguia antever todo o processo e o produto final.

Gostava de ter as mãos na terra. De que outra forma se podia respeitar a paisagem e as alterações que se fazia nela? E, enquanto falava, olhou para as mãos dela, sorrindo interiormente dos dedos bem tratados, com o verniz cor-de-rosa brilhante.

”Burocrata”, pensou. Provavelmente incapaz de distinguir relva de sumagre.

Como queria despachá-la, a ela e ao seu bloco de notas, o mais depressa possível, voltou-se para a casa e falou sobre o pátio que tencionavam construir e as plantas que usaria para o realçar.

Quando achou que já tinha falado mais do que falaria normalmente durante uma semana, acabou com a garrafa de água e encolheu os ombros. Não esperava que ela tivesse seguido tudo o que dissera, mas não se podia queixar de que ele não colaborara.

- É maravilhoso. E o canteiro ao longo do lado sul, na parte da frente? Ele franziu a testa.

- Vamos arrancar a hera e os clientes querem experimentar tratar eles próprios dessa parte.

- Melhor ainda. O investimento é maior se eles próprios fizerem alguma coisa.

Como concordava, Logan não disse nada e brincou com os trocos que tinha no bolso.

- Só que eu preferia ver trepadeiras de Inverno em vez de teixos em volta do telheiro. As folhas matizadas ficariam bem, tal como o formato menos uniforme.

- Talvez.

- Trabalha a partir de uma planta ou de cabeça?

- Depende.

”Não sei se lhe arranque os dentes todos ao mesmo tempo ou um de cada vez”, pensou ela, mas manteve o sorriso.

- Pergunto porque gostava de ver alguns dos seus designs em papel. O que me recorda uma ideia que tive.

- Aposto que tem montes de ideias.

- A minha patroa disse-me para ser simpática - disse ela, agora friamente. -E a si?

Ele encolheu novamente os ombros.

- Estava só a dizer.

- Pensei que, com alguma da reorganização e transferências que estou a fazer, podia arranjar-lhe algum espaço para ter um escritório no centro.

Ele lançou-lhe o mesmo olhar que lançara aos seus homens por cima do ombro. ”Uma mulher menos forte”, pensou Stella, ”definharia sob aquele olhar.”

- Não quero escritório nenhum.

- Não estou a sugerir que passe todo o seu tempo lá, apenas que tenha um local para tratar da papelada, fazer telefonemas, guardar os seus arquivos.

- É para isso que serve a carrinha.

- Está a tentar ser difícil?

- Não preciso de tentar, é natural. E a senhora?

- Se não quer o escritório, muito bem. Esqueça o escritório. -Já esqueci.

- Óptimo. Mas eu preciso de um escritório. Eu preciso de saber exactamente que stock, equipamento e materiais vai precisar para este trabalho. Pegou de novo no bloco de notas. - Um ácer vermelho, uma magnólia. Que variedade de magnólia?

- Do Sul. Grandiflora gloriosa.

- Boa escolha para o local. Uma cerejeira - continuou e, para surpresa e admiração de Logan, passou em revista todo o plano que ele delineara.

”Está bem, ruiva”, pensou. ”Talvez saibas uma ou duas coisas sobre horticultura, afinal de contas.”

- Teixos ou trepadeiras de Inverno?

Ele olhou para o telheiro, visualizando ambas as coisas. Diabos o levassem se ela não tinha razão, mas não viu motivo para lho dizer já.

- Eu depois digo-lhe.

- Está bem, e vou precisar do número exacto e do tipo de espécimes que retirar do stock, à medida que os for trazendo.

- Conseguirei encontrá-la... no seu escritório?

- Procure-me. - Ela virou costas e começou a afastar-se.

- Eh, Stella!

Quando ela se virou, ele sorriu.

- Sempre quis dizer isto.

De olhos a faiscar, ela virou-se e continuou a andar.

- Calma, calma, foi só uma piada. Credo. - Ele correu atrás dela. - Não se vá embora zangada.

- Mas vou-me embora, certo?

- Sim, mas não vale a pena estarmos chateados um com o outro. Regra geral, não me importo de estar chateado.

- Ninguém diria.

- Mas neste momento não vale a pena. - Como se tivesse acabado de se lembrar de que as tinha postas, descalçou as luvas de trabalho e enfiou-as no bolso de trás das calças. - Eu estou a fazer o meu trabalho, a senhora está a fazer o seu. A Roz acha que precisa de si e eu tenho a Roz em grande consideração.

- Também eu.

-Já percebi. Vamos tentar não nos irritarmos mutuamente, antes que se torne crónico.

Ela inclinou a cabeça e ergueu as sobrancelhas.

- Isto é a sua ideia de ser simpático?

- Basicamente, sim. Estou a ser simpático para que possamos fazer ambos aquilo que a Roz nos paga para fazermos. E porque o seu filho tem um exemplar do Homem-Aranha número cento e vinte e um. Se estiver zangada comigo, não vai deixar que ele mo mostre.

Ela baixou os óculos escuros e olhou para ele por cima das armações.

- E esta é a sua ideia de ser encantador, certo?

- Não, isto sou eu a ser sincero. Quero mesmo ver aquela revista, com os meus próprios olhos. Se estivesse a ser encantador, garanto-lhe que já seria uma poça aos meus pés. É um poder terrível que tenho sobre as mulheres e tento usá-lo com moderação.

- Imagino.

Mas estava a sorrir quando entrou no carro.

 

O carro de Hayley Phillips deslocava-se numa nuvem de fumo e com uma transmissão moribunda. O rádio ainda trabalhava, graças a Deus, e ela tinha-o no máximo, com as Dixie Chicks a todo o volume. A música mantinha a sua energia a fluir.

Tudo o que possuía estava enfiado dentro do Pontiac Grandville, que era mais velho do que ela e muito mais temperamental. Não que tivesse muita coisa nesta altura. Vendera tudo o que podia ser vendido. Não valia a pena ser sentimental. O dinheiro fazia uma pessoa chegar muito mais longe do que o sentimento.

Não era uma indigente. O que pusera no banco chegava para a ajudar a passar pelos momentos mais difíceis, e, se houvesse mais momentos difíceis do que previra, podia trabalhar para ganhar mais. Não andava à deriva. Sabia exactamente para onde ia. Simplesmente não sabia o que aconteceria quando lá chegasse.

Mas não fazia mal. Se uma pessoa soubesse sempre tudo, nunca seria surpreendida.

Talvez estivesse cansada e talvez tivesse pressionado o velho carro a andar mais do que ele queria nesse dia. Mas, se ela e ele conseguissem aguentar mais alguns quilómetros, talvez tivessem sorte.

Não esperava ser corrida a pontapé. Mas, enfim, se fosse, faria o que tinha de ser feito a seguir.

Gostava do aspecto da região, especialmente porque contornara o emaranhado de auto-estradas que rodeava Memphis. Deste lado norte, para além da cidade, a terra ondulava um pouco e vira vislumbres do rio e das falésias íngremes que se erguiam sobre ele. Havia casas bonitas - primeiro os simpáticos subúrbios que se espalhavam à volta da cidade e agora as propriedades maiores e mais ricas. Havia muitas árvores grandes e antigas e, apesar de alguns muros de pedra ou de tijolo, havia no ar uma sensação amigável.

E ela bem precisava de um amigo.

Quando viu o letreiro ”No Jardim”, abrandou. Estava com medo de parar, com medo de que o velho Pontiac se engasgasse e morresse se ela parasse. Mas abrandou o suficiente para olhar para os edifícios principais, para o espaço entre as luzes de segurança.

Depois respirou fundo várias vezes e continuou a conduzir. Estava quase lá. Planeara muito bem o que ia dizer, mas estava sempre a mudar de ideias. Cada nova abordagem dava-lhe uma dezena de novos cenários para representar na mente. Servira para passar o tempo, mas não se tinha decidido por nenhuma em concreto.

Algumas pessoas diriam que mudar de ideias era parte do seu problema. Mas ela não pensava assim. Se uma pessoa nunca mudasse de ideias, de que adiantava tê-las? Parecia a Hayley que conhecera demasiadas pessoas presas a uma maneira de pensar, e isso não era usar o cérebro que Deus lhes dera.

Enquanto se dirigia ao caminho de acesso, o carro começou aos solavancos, engasgado.

- Vá lá, vá lá, só mais um bocadinho. Se eu tivesse prestado atenção, tinha-te metido gasolina na última estação de serviço.

Depois o carro falhou, meio dentro, meio fora da entrada entre os pilares de tijolo.

Deu uma palmadinha irritada no volante, mas sem grande convicção. Afinal de contas, a culpa não era de mais ninguém a não ser dela. E talvez fosse bom. Era mais difícil correr com ela se o seu carro estivesse sem gasolina e a bloquear o caminho.

Abriu a mala e tirou uma escova para ajeitar o cabelo. Depois de um número considerável de experiências, decidira voltar à sua cor original, castanho-escuro. Pelo menos por enquanto. Estava contente por o ter cortado e arranjado antes de partir. Gostava das madeixas compridas dos lados e do ar descuidado do corte escadeado.

Fazia-a parecer descontraída, jovial. Confiante.

Pôs batom e pó-de-arroz para tirar o brilho do rosto.

- Muito bem, vamos a isto.

Saiu do carro, pôs a mala ao ombro e começou a subir o longo caminho. Era preciso dinheiro - antigo ou novo - para pôr uma casa tão longe da estrada. A casa em que ela crescera estava tão perto da estrada que as pessoas que passavam de carro praticamente podiam estender o braço e apertar-lhe a mão.

Mas ela não se importara com isso. Era uma casa bonita. Uma boa casa, e parte dela sentira pena de a vender. Mas aquela casinha perto de Little Rock era o passado. Estava a caminhar agora em direcção ao futuro.

A meio do caminho parou e pestanejou. Isto não era apenas uma casa, constatou, de boca aberta. Era uma mansão. O tamanho era assombroso, ela já tinha visto casas grandes antes, mas nada assim. Era a casa mais bonita que alguma vez vira sem ser numa revista. Era como Tara e Manderley numa só. Graciosa e feminina, forte.

Havia luzes a brilhar por detrás das janelas e outras a iluminar o relvado. Como se estivessem a dar-lhe as boas-vindas. Não seria bom?

Mesmo que não fosse, mesmo que corressem com ela, tivera oportunidade de a ver. Só isso fazia com que a viagem tivesse valido a pena.

Continuou a andar, cheirando a noite, os pinheiros e o fumo da lareira.

Cruzou os dedos sobre a alça da mala, para dar sorte, e dirigiu-se directamente à porta principal.

Levantou um dos batentes de bronze e bateu três vezes, com firmeza.

Lá dentro, Stella estava a descer as escadas com Parker. Era a sua vez de o ir passear.

- Eu abro - gritou.

Parker já estava a ladrar enquanto ela abria a porta.

Viu uma rapariga com cabelo castanho, liso e cortado à moda, um rosto fino e anguloso dominado por uns enormes olhos azul-esverdeados. Ela sorriu, mostrando um pouco de gengiva, e baixou-se para acariciar Parker enquanto este lhe cheirava os sapatos.

- Olá - disse.

- Olá. - ”De onde é que ela terá vindo?”, pensou Stella. Não estava carro nenhum lá fora.

A rapariga parecia ter para aí doze anos. E estava muito grávida.

- Estou à procura da Rosalind Ashby. Rosalind Harper Ashby - corrigiu.

- Ela está em casa?

- Sim. Está lá em cima. Entre.

- Obrigada. Chamo-me Hayley. - Estendeu a mão. - Hayley Phillips. A sr.a Ashby e eu somos primas, de uma forma complicada e sulista.

- Stella Rothchild. Entre, sente-se. Vou procurar a Roz.

- Agradeço muito. - Olhando de um lado para o outro, Hayley tentou ver tudo enquanto seguia Stella até à sala. - Uau. Uma pessoa tem mesmo de dizer ”uau”.

- Eu disse o mesmo da primeira vez que aqui entrei. Posso trazer-lhe alguma coisa? Qualquer coisa para beber?

- Estou bem. Provavelmente devia esperar até... - Ficou de pé e aproximou-se da lareira. Parecia algo saído de um programa de televisão ou de um filme. - Trabalha na casa? É uma governanta ou coisa parecida?

- Não. Trabalho nos viveiros da Roz. Sou a gerente. Vou chamá-la. Devia sentar-se.

- Não é preciso. - Hayley afagou a barriga inchada. - Viemos sentados.

- Volto já. - Stella saiu, com Parker atrás dela.

Subiu rapidamente as escadas e virou para a ala de Roz. Só lá estivera uma vez, quando David lhe fizera a visita guiada à casa, mas seguiu os sons da televisão e encontrou Roz na sua sala de estar.

Na televisão, estava a passar um velho filme a preto-e-branco. Não que Roz o estivesse a ver. Estava sentada a uma secretária antiga, vestindo calças de ganga largas e uma camisola, enquanto fazia esboços num bloco. Estava descalça e, para surpresa de Stella, tinha as unhas dos pés pintadas de cor-de-rosa-vivo.

Bateu na ombreira da porta.

- Hum? Oh, Stella, ainda bem. Estava precisamente a desenhar uma ideia que tive para um jardim de estacas na parte noroeste do viveiro. Pensei que talvez inspirasse os clientes. Venha cá ver.

- Gostava muito, mas está uma pessoa lá em baixo para a ver. Hayley Phillips. Diz que é sua prima.

- Hayley? - Roz franziu a testa. - Não tenho nenhuma prima chamada Hayley, pois não?

- Ela é muito nova. Parece uma adolescente. Bonita. Cabelo castanho, olhos azuis, mais alta do que eu. Está grávida.

- Bom, por amor de Deus. - Roz esfregou a nuca. - Phillips. Phillips. A irmã da avó do meu primeiro marido... ou talvez fosse uma prima... casou com um Phillips. Acho eu.

- Bom, ela disse que eram primas de uma forma complicada e sulista.

- Phillips. - Fechou os olhos e levou o dedo à testa como se quisesse despertar as memórias. - Deve ser a filha do Wayne Phillips. Ele morreu o ano passado. Bom, é melhor ir ver o que ela quer.

Levantou-se.

- Os seus filhos já se deitaram?

- Sim, agora mesmo.

- Então venha comigo.

- Não acha que devia...

- A Stella tem a cabeça bem assente nos ombros. Venha daí e traga-o consigo.

Stella pegou em Parker e, esperando que a bexiga dele aguentasse, desceu com Roz.

Hayley virou-se quando elas entraram.

- Acho que esta é a sala mais totalmente fantástica que já vi. Uma pessoa sente-se aconchegada e especial só de estar cá dentro. Eu sou a Hayley. Sou filha do Wayne Phillips. O meu pai era familiar do seu primeiro marido, pelo lado da mãe. A senhora mandou-me um bilhete muito simpático a dar os pêsames quando ele morreu, o ano passado.

- Eu lembro-me. Cheguei a conhecê-lo, estive com ele uma vez e gostei dele.

- Eu também gostava dele. Peço desculpa por aparecer assim, sem telefonar nem pedir primeiro. Não tencionava chegar tão tarde. Tive problemas com o carro.

- Não faz mal. Senta-te, Hayley. De quanto tempo estás?

- Quase seis meses. O bebé nasce no fim de Maio. Tenho também de pedir desculpa porque o meu carro ficou sem gasolina mesmo à entrada da sua propriedade.

- Podemos tratar disso mais tarde. Tens fome, Hayley? Queres comer alguma coisa?

- Não, obrigada, estou bem. Parei para comer pelo caminho. Esqueci-me foi de dar de comer ao carro. Tenho dinheiro. Não quero que pense que estou na miséria ou que vim pedir uma esmola.

- É bom saber. Nesse caso, tens de beber um chá. Está uma noite fria. Um chá quente far-te-ia bem.

- Se não der muito trabalho. E se tiver descafeinado. - Acariciou a barriga. - A coisa mais difícil da gravidez é ter de cortar com a cafeína.

- Eu trato disso. Não demoro nada.

- Obrigada, Stella. - Roz voltou-se de novo para Hayley quando Stella saiu. - Então vieste de carro desde... Little Rock, não é?

- Sim. Gosto de conduzir. Gosto mais quando o carro não me prega partidas, mas cada um tem de fazer aquilo que tem de fazer. - Pigarreou. Espero que tenha passado bem, prima Rosalind.

- Tenho passado muito bem. E tu? Tu e o bebé estão bem?

- Estamos óptimos. Saudáveis como cavalos, segundo o médico. E sinto-me óptima. Grande como uma casa, mas isso não me incomoda, pelo menos muito. É interessante. Os seus... filhos? Estão bons?

- Sim, estão. Já estão crescidos. O Harper, que é o mais velho, vive aqui na casa de hóspedes. Trabalha comigo nos viveiros.

- Eu vi os viveiros quando cheguei. - Hayley percebeu que estava a esfregar as mãos nas calças de ganga e fez um esforço para parar. - Parecem tão grandes, muito maiores do que eu esperava. Deve estar muito orgulhosa.

- Estou mesmo. O que é que fazias em Little Rock?

- Trabalhava numa livraria, quando me vim embora já fazia trabalho de gerente. Uma pequena livraria e café independente.

- Gerente? Com a tua idade?

- Tenho vinte e quatro anos. Sei que não pareço - disse, com um leve sorriso. - E não me importo nada. Mas posso mostrar-lhe a minha carta de condução. Estive na universidade, com uma bolsa parcial. Tenho uma boa cabeça. Comecei a trabalhar na livraria nos Verões, desde o liceu. Arranjei o trabalho porque o meu pai era amigo do dono. Mas depois fiz por o merecer.

- Disseste ”quando me vim embora”. Já não trabalhas lá.

- Não. - ”Ela está atenta”, pensou Hayley. Estava a fazer as perguntas certas. Já era alguma coisa. - Despedi-me há cerca de duas semanas. Mas tenho uma carta de recomendação do proprietário. Decidi deixar Little Rock.

- Parece uma altura difícil para sair de casa e deixar um emprego seguro.

- Pareceu a altura certa, para mim. - Ergueu os olhos quando Stella entrou com o carrinho do chá. - Bom, isso é mesmo como nos filmes. Eu sei que dizer este tipo de coisas me faz parecer uma provinciana, mas não consigo evitar.

Stella riu-se.


- Eu estava a pensar precisamente a mesma coisa enquanto o preparava. Fiz chá de camomila.

- Obrigada. Stella, a Hayley estava a contar-me que deixou a sua casa e o seu emprego. Espero que ela nos conte por que razão achou que esta era a altura certa para dois gestos tão drásticos.

- Drásticos não - corrigiu Hayley. - Apenas grandes. E foi por causa do bebé. Bom, por causa dele e de mim. Provavelmente, já perceberam que não sou casada.

- A sua família não lhe dá apoio? - perguntou Stella.

- A minha mãe abandonou-nos quando eu tinha cinco anos. Talvez não se lembre disso - disse, voltando-se para Roz. - Ou é demasiado bem-educada para o mencionar. O meu pai morreu o ano passado. Tenho tias e tios, duas avós e primos. Alguns ainda vivem na zona de Little Rock. As opiniões deles sobre a minha actual situação... bom, digamos que variam. Obrigada - acrescentou, quando Roz lhe estendeu uma chávena de chá. Bom, a questão é que fiquei terrivelmente triste quando o meu pai morreu. Ele foi atropelado por um carro ao atravessar a estrada. Um daqueles acidentes que nunca conseguimos compreender e que, bom... não parecem certos. Não tive tempo para me preparar. Acho que nunca se tem tempo. Mas ele desapareceu de um minuto para o outro.

Bebeu o chá e sentiu-o aquecê-la até aos ossos. Não se tinha apercebido de que estava tão cansada.

- Fiquei triste, zangada e sozinha. E depois apareceu um rapaz. Não foi uma aventura de uma noite, nem nada parecido. Gostávamos um do outro. Ele costumava ir à livraria, namoriscava comigo. Eu costumava retribuir. Quando fiquei sozinha, ele foi um conforto para mim. Foi carinhoso. Seja como for, uma coisa levou à outra. Ele é estudante de Direito. Depois voltou para a universidade e, poucas semanas depois, eu descobri que estava grávida. Não sabia o que havia de fazer. Como é que havia de lhe dizer. Nem a ele, nem a ninguém. Adiei durante algumas semanas. Não sabia o que ia fazer.

- E quando soubeste?

- Achei que seria melhor dizer-lhe cara a cara. Ele deixara de aparecer na loja. Assim, passei pela universidade e procurei-o. Vim a descobrir que entretanto ele se apaixonara por outra rapariga. Ficou um pouco embaraçado por ter de mo dizer, uma vez que tínhamos dormido juntos. Mas nunca tínhamos feito promessas um ao outro, nem estávamos apaixonados, nem nada. Simplesmente gostávamos um do outro, só isso. E, quando ele falava da outra rapariga, os seus olhos brilhavam. Percebia-se que estava louco por ela. Portanto não lhe disse nada sobre o bebé.

Hesitou, depois pegou numa das bolachas que Stella colocara num prato.

- Não resisto a doces. Depois de pensar melhor, achei que contar-lhe não faria bem a nenhum de nós.

- Foi uma decisão muito difícil - disse-lhe Roz.

- Não sei se foi. Não sei o que esperava que ele fizesse quando eu lhe contasse, simplesmente achei que tinha o direito de saber. Não queria casar com ele, nem nada. Na altura, ainda nem sequer tinha a certeza de que ia ficar com o bebé.

Mordiscou a bolacha enquanto acariciava a barriga.

- Acho que essa foi uma das razões por que o procurei, para falar com ele. Não apenas para o informar, mas para ver o que ele achava que eu devia fazer. Mas, enquanto estava ali sentada com ele, a ouvi-lo falar daquela rapariga...

Parou e abanou a cabeça.

- Tinha de decidir o que fazer. Se lhe tivesse contado, isso serviria apenas para o fazer sentir-se mal, ressentido ou assustado. Ia dar cabo da vida dele quando tudo o que ele tentara fazer fora ajudar-me numa época complicada.

- Mas assim ficou sozinha - observou Stella.

- Se lhe tivesse contado, teria ficado sozinha na mesma. Quando decidi ficar com o bebé, pensei novamente em contar-lhe e perguntei a algumas pessoas como é que ele estava. Ele ainda estava com a tal rapariga e falavam em casamento, por isso acho que fiz a coisa mais certa. No entanto, assim que se começou a notar, houve muitos mexericos e perguntas, muitos olhares e murmúrios. E pensei: o que eu preciso é de começar do zero. Assim, vendi a casa e praticamente tudo o que ela tinha lá dentro. E aqui estou eu.

- À procura desse recomeço - concluiu Roz.

- À procura de um emprego. - Fez uma pausa e humedeceu os lábios. Sei trabalhar. Sei também que muitas pessoas pensariam duas vezes antes de contratar uma mulher no sexto mês de gravidez. Mas talvez a família, apesar de ser família distante e por afinidade, seja um pouco mais compreensiva.

Pigarreou quando viu que Roz continuava calada.

- Estudei literatura e gestão na universidade. Formei-me com louvor. Tenho um historial de emprego sólido. Tenho dinheiro... embora não muito. A minha bolsa parcial não cobria tudo, e o meu pai era professor e não ganhava muito. Mas tenho o suficiente para tomar conta de mim própria, para pagar renda, comprar comida, o que o bebé precisar. Preciso de um emprego, para já, qualquer emprego. A Roz tem o seu negócio, tem esta casa. São precisas muitas pessoas para tratar de ambas as coisas. Estou a pedir-lhe a oportunidade de ser uma dessas pessoas.

- Sabes alguma coisa sobre plantas, sobre jardinagem?

- Plantávamos canteiros de flores todos os anos. O meu pai e eu dividíamos o trabalho no jardim. E, aquilo que não souber, posso aprender. Aprendo depressa.

- Não preferias trabalhar numa livraria? A Hayley geria uma livraria disse Roz dirigindo-se a Stella.

- Mas a senhora não tem uma livraria - observou Hayley. - Trabalharei de graça durante duas semanas.

- Se alguém trabalha para mim, é paga. Vou contratar os trabalhadores sazonais dentro de poucas semanas. Entretanto... Stella, pode usá-la em algum lado?

- Ah... - Como é que podia olhar para aquele rostinho jovem e aquele ventre inchado e dizer que não? - Quais eram as suas responsabilidades como gerente?

- Eu não era oficialmente a gerente. Mas na prática era o que fazia. Era uma operação pequena, por isso fazia um bocadinho de tudo. Inventário, compras, contactos com clientes, planificação, vendas, publicidade. Só da parte da livraria. Havia uma equipa independente para a parte do café.

- Quais são os seus pontos fortes, na sua opinião?

Ela teve de fazer uma pausa para acalmar os nervos. Sabia que era essencial ser clara e concisa. E era igualmente essencial, para o seu orgulho, não implorar.

- Relações com clientes, o que estava ligado às vendas. Sou boa com pessoas e não me importo de perder mais um bocadinho de tempo para ter a certeza de que os clientes levam aquilo que querem. Se os clientes saírem satisfeitos, voltarão e comprarão mais. Se dermos esses passos extra e oferecermos um serviço personalizado, conseguimos a lealdade do cliente.

Stella acenou.

- E os seus pontos fracos?

- As compras - respondeu ela sem hesitação. - Se fosse eu, era capaz de querer comprar tudo. Tinha de estar sempre a recordar a mim própria que não era o meu dinheiro que estava a gastar. Mas às vezes fazia orelhas moucas a mim própria.

- Estamos no meio de um processo de reorganização e expansão. Dava-me jeito alguma ajuda para implementar o novo sistema. Ainda há muitas coisas para introduzir no computador... algumas delas bastante chatas.

- Sei trabalhar com um teclado. PC e Mac.

- Vamos fazer a experiência durante duas semanas - decidiu Roz. - Eu pago-te, mas consideraremos estas duas semanas como um período experimental para todas. Se não resultar, farei o que puder para te ajudar a arranjar outro emprego.

- Não posso desejar nada mais justo. Obrigada, prima Rosalind.

- Chama-me Roz. Temos gasolina no telheiro. Vou buscá-la e podemos trazer o teu carro para cima para levares as tuas coisas para dentro.

- Para dentro? Para aqui? - Abanando a cabeça, Hayley pousou a chávena. - Eu disse que não vinha à procura de esmolas. Agradeço muito o emprego, a oportunidade. Não espero que me dê guarida.

- A família, mesmo a família distante e por afinidade, é sempre bem-vinda aqui. E teremos oportunidade de nos conhecer melhor, de ver se vamos encaixar.

- Também vive aqui? - perguntou Hayley a Stella.

- Sim. E os meus filhos... seis e oito anos. Estão lá em cima, a dormir.

- Somos primas? -Não.

- Eu vou buscar a gasolina. - Roz levantou-se e dirigiu-se à porta.

- Eu pago uma renda. - Hayley levantou-se também, levando instintivamente a mão à barriga. - Pago as minhas despesas.

- Ajustaremos o teu salário para compensar.

Quando ficou sozinha com Stella, Hayley soltou um longo suspiro.

- Pensava que ela era mais velha. E mais assustadora. Mas aposto que consegue ser bem assustadora quando precisa. Ninguém pode ter o que ela tem, mantê-lo e expandi-lo sem saber como ser assustadora.

- É verdade. E eu também posso ser assustadora em relação ao trabalho.

- Vou lembrar-me disso. É do Norte?

- Sim. Michigan.

- Isso é muito longe. Vive só com os seus filhos?

- O meu marido morreu há dois anos e meio.

- É duro. É muito duro perdermos alguém que amamos. Suponho que as três sabemos como isso é. Acho que é algo que pode tornar uma pessoa dura, se não tiver mais nada ou ninguém para amar. Eu tenho o bebé.

- Já sabe se é rapaz ou rapariga?

- Não. O bebé estava de costas na ecografia. - Começou a roer a unha do polegar, depois baixou a mão. -Acho que devia ir buscar a gasolina que a Roz deve estar a trazer.

- Eu vou consigo. Podemos tratar disso juntas.


Uma hora depois, Hayley estava instalada num dos quartos de hóspedes na ala oeste. Sabia que estava de boca aberta. Sabia que não estava a dizer coisa com coisa. Mas nunca tinha visto um quarto tão bonito, nunca esperara estar num quarto assim. Muito menos poder chamar-lhe seu, mesmo que o fosse apenas temporariamente.

Arrumou as coisas, passando os dedos pela madeira brilhante da cómoda, do roupeiro, pelos candeeiros de vidro gravado, pelos entalhes na cabeceira da cama.

Ia fazer por merecer tudo isto. Fez essa promessa a si própria e à criança, enquanto relaxava num longo banho quente. Mereceria a oportunidade que lhe estavam a dar e pagaria a Roz com trabalho e lealdade.

Era boa em ambas as coisas.

Limpou-se e passou óleo na barriga e nos seios. Não tinha medo do parto - sabia como trabalhar duramente para alcançar um objectivo. Mas esperava sinceramente conseguir evitar as estrias.

Sentiu um arrepio e vestiu rapidamente a camisa de dormir. Na orla do espelho, pelo canto do olho, viu uma sombra, um movimento.

Esfregando os braços para os aquecer, entrou no quarto. Não viu nada e a porta estava fechada como ela a deixara.

”Estou exausta”, disse a si própria, e esfregou os olhos. Fora uma longa viagem, do passado para o limiar do futuro.

Tirou um dos livros que tinha na mala - os outros, aqueles de que não conseguira desfazer-se, ainda estavam no porta-bagagens do carro - e enfiou-se na cama.

Abriu-o na marca, preparada para uma hora de leitura como fazia todas as noites.

E estava a dormir com a luz acesa antes de chegar ao fim da primeira página.

A pedido de Roz, Stella voltou à sala e sentou-se. Roz serviu um copo de vinho para cada uma.

- Qual é a sua impressão, sinceramente? - perguntou.

- Jovem, inteligente, orgulhosa. Honesta. Podia ter-nos contado uma história triste sobre ter sido traída pelo pai do bebé, implorado um lugar para ficar, usado a gravidez como desculpa para uma data de coisas. Em vez disso, assumiu a responsabilidade e pediu trabalho. Mesmo assim, vou verificar as referências dela.

- Claro. Pareceu-me corajosa em relação ao bebé.

- É depois de eles nascerem que aprendemos a ter medo de tudo.

- É bem verdade. - Roz passou os dedos pelos cabelos. - Vou fazer alguns telefonemas, descobrir um pouco mais sobre essa parte da família Ashby. Honestamente, não me lembro muito bem. Nunca tivemos muito contacto, mesmo quando o pai dela era vivo. Lembro-me do escândalo quando a mulher desapareceu e o deixou com a menina. Pela impressão que ela me causou, parece que ele se saiu muito bem.

- A experiência de gestão dela pode ser um bom trunfo.

- Outra gerente. - Roz, num gesto que Stella considerou apenas meio trocista, ergueu os olhos para o céu. - Rezem por mim.

 

Não foram precisas duas semanas. Dois dias depois, Stella decidiu que Hayley era a resposta às suas orações. Aqui estava alguém com juventude, energia e entusiasmo, que compreendia e apreciava a eficiência no local de trabalho.

Sabia ler e criar folhas de cálculo, compreendia as instruções à primeira e respeitava os códigos de cores. Se fosse tão boa a lidar com os clientes como era com os sistemas de arquivo, seria uma jóia.

No que dizia respeito às plantas, não sabia muito mais do que as coisas básicas: isto é um gerânio e isto é um amor-perfeito. Mas podia ser ensinada.

Stella já estava preparada para implorar a Roz que oferecesse a Hayley um emprego em part-time quando Maio se aproximasse.

- Hayley? - Stella enfiou a cabeça no novo escritório, arrumado e eficiente. - Porque não vens comigo? Temos quase uma hora até abrirmos. Vamos ter uma aula sobre plantas de sombra na estufa 3.

- Fixe. Já está tudo introduzido até aos ”H” nas perenes. Não sei o que são metade delas, mas ando a ler umas coisas à noite. Não sabia que os girassóis se chamavam Helia... espera... Helianthus.

- É mais correcto dizer que os Helianthus se chamam girassóis. As plantas perenes podem ser divididas na Primavera, quer as que são propagadas por sementes na Primavera, quer por estacas no fim da Primavera. As sementes do Helianthus anual podem ser colhidas, daquele grande olho castanho, no final do Verão ou princípio do Outono. Apesar de as cultivadas se hibridizarem livremente, podem não nascer das sementes recolhidas. E aqui estou eu a dar palestras.

- Não faz mal. Cresci com um professor. Gosto de aprender. Enquanto passavam pela zona do balcão, Hayley olhou para a janela.

- Acabou de parar uma carrinha junto das... como é que vocês lhes chamam? Pedras de calçada - disse, antes que Stella pudesse responder. E, hum... olha bem para o que está a sair daquela carrinha. Alto, moreno e totalmente musculado. Quem é o borracho?

Esforçando-se por não franzir a testa, Stella encolheu os ombros.

- Deve ser o Logan Kitridge, o paisagista da Roz. Suponho que tem bastantes pontos na escala de borrachos.

- Pontuação máxima na minha escala. - Ao ver a expressão de Stella, Hayley levou a mão à barriga e riu-se. - Estou grávida, mas ainda tenho as peças todas a funcionar. E, lá por não estar à procura de homem, isso não quer dizer que não goste de olhar para eles. Principalmente quando são tão apetitosos. Ele é mesmo duro e sério, não é? Porque será que os homens duros e sérios nos causam um aperto na barriga?

- Não faço ideia. O que é que ele está a fazer?

- Parece que está a carregar pedras. Se não estivesse tanto frio, aposto que despia o casaco. Tínhamos aqui um verdadeiro espectáculo de músculos. Céus, bem dizem que os olhos também comem.

- Ainda apanhavas uma indigestão - murmurou Stella. - Ele não tem planos para pedras de calçada. Não fez nenhum pedido de pedras. Raios!

Hayley ergueu as sobrancelhas quando Stella se dirigiu à porta e saiu com passo decidido. Depois encostou o nariz à janela, preparada para assistir ao espectáculo.

- Com licença?

- Hum? - respondeu Hayley em tom ausente, enquanto tentava ver melhor o que se passava lá fora. Depois afastou-se da janela, lembrando-se de que espiar era uma coisa, ser apanhada a fazê-lo outra. Virou-se e fez um sorriso inocente. E constatou que os seus olhos hoje iam apanhar uma barrigada.

Este não era grande e sério, mas meio desajeitado e sonhador. E muito giro. O seu cérebro demorou um instante a começar a trabalhar, mas finalmente percebeu quem era.

- Olá! Deves ser o Harper. És muito parecido com a tua mãe. Ainda não nos tínhamos visto porque parece que nunca estás por aqui ao mesmo tempo que eu. Enfim. Eu sou a Hayley. A prima Hayley, de Little Rock? Talvez a tua mãe te tenha dito que estou a trabalhar aqui.

- Sim, sim. - Harper não conseguiu lembrar-se de mais nada para dizer. Mal conseguia sequer pensar. Sentia-se fulminado e estúpido.

- Não adoras trabalhar aqui? Eu já adoro. Há tanta coisa e os clientes são tão simpáticos. E a Stella é fantástica. A tua mãe é... nem sei, uma deusa, por me ter dado esta oportunidade.

- Sim. - Fez uma careta. Não costumava ser tão pouco eloquente. - Elas são fantásticas. É fantástico. - Pelos vistos, hoje estava a bater todos os recordes. E, raios, ele costumava ser bom com as mulheres. Geralmente. Mas um olhar para esta e parecia que tinha levado uma pancada na cabeça. - Ah... precisas de alguma coisa?

- Não. - Ela sorriu-lhe com expressão curiosa. - Pensei que tu é que precisavas.

- Eu preciso de alguma coisa? De quê?

- Não sei. - Pousou a mão na fascinante elevação da barriga e riu-se, um riso rouco e livre. - Tu é que entraste.

- Certo, certo. Não, nada. Agora. Mais tarde. Tenho de voltar. - Lá para fora, para o ar livre, onde talvez conseguisse respirar de novo.

- Foi um prazer conhecer-te, Harper.

- Igualmente. - Olhou para trás antes de sair e viu que ela já estava outra vez encostada à janela.

Lá fora, Stella atravessou rapidamente o estacionamento. Chamou duas vezes e, da segunda vez, conseguiu da parte de Logan um olhar breve e um aceno distraído. Cada vez mais furiosa à medida que se aproximava, explodiu assim que chegou junto das pilhas de pedras.

- O que pensa que está a fazer?

- A jogar ténis. O que lhe parece que estou a fazer?

- Parece-me que está a tirar material que não encomendou e que não foi autorizado a levar.

- A sério? - Pegou em mais uma pilha. - Não admira que a minha caligrafia esteja enferrujada. - A carrinha estremeceu quando largou a carga. - Eh! - Para grande espanto de Stella, ele inclinou-se para ela e cheirou-a. - Champô diferente. Cheira bem.

- Pare de me cheirar - enxotou-o com uma sacudidela no queixo e recuou.

- Não consigo evitar. Está mesmo aqui. Tenho nariz.

- Preciso da papelada deste material.

- Sim, sim, sim. Está bem. Eu entro para tratar disso depois de acabar de carregar.

- Devia tratar disso antes de carregar.

Ele voltou-se e lançou-lhe um olhar quente com aqueles olhos verde-musgo.

- É uma chata, ruiva.

- Tenho de ser. Sou a gerente.

Ele teve de sorrir e baixou os óculos de sol para olhar para ela.

- É muito boa nisso, também. Pense na coisa desta maneira: as pedras estão armazenadas no caminho para o edifício. Se as carregar primeiro e só depois entrar, na realidade estou a ser mais eficiente.

O sorriso tornou-se irónico.

- Isso seria importante, acho eu, se estivéssemos a fazer, digamos, uma projecção de horas de trabalho.

Encostou-se à carrinha e estudou-a. Depois, pegou em mais uma pilha de pedras.

- E estar aí parada a olhar para mim significa que está a perder tempo e, muito provavelmente, a aumentar as suas horas de trabalho.

- Se não entrar para tratar da papelada, Kitridge, eu vou atrás de si.

- Não me tente.

Logan demorou, mas acabou por entrar.

Estava a calcular qual seria a melhor forma de irritar Stella outra vez. Os olhos dela ficavam da cor de tremoceiros do Texas quando estava irritada. Mas, quando entrou, viu Hayley.

-Olá.

- Olá - disse ela com um sorriso. - Chamo-me Hayley Phillips. Sou parente da Roz por parte da família do primeiro marido dela. Agora trabalho aqui.

- Logan. Muito prazer. Não deixe que esta ianque a assuste. - Indicou Stella com um aceno de cabeça. - Onde estão os formulários sagrados e a faca ritual para eu poder cortar uma veia e assiná-los com sangue?

- No meu escritório.

- Muito bem! - Mas deixou-se ficar, em vez de a seguir. - Para quando é o bebé? - perguntou a Hayley.

- Maio.

- Sente-se bem?

- Nunca me senti melhor.

- Óptimo. Esta é uma boa empresa, um bom sítio para trabalhar, na maior parte do tempo. Bem-vinda a bordo. - Dirigiu-se ao escritório de Stella, onde ela já estava sentada em frente do computador, com o formulário aberto no ecrã.

- Eu trato deste, para poupar tempo. Mas há um monte deles naquela pasta. Leve-a. Basta preenchê-los conforme precisar, pôr a data e assinar ou fazer uma rubrica. E depois deixá-los aqui.

- Hum - disse ele, olhando em volta. A secretária estava limpa. Não havia caixas nem livros no chão ou empilhados em cima de cadeiras.

”É pena”, pensou. ”Ele gostava do caos normal do escritório antigo.”

- Onde é que está tudo o que costumava estar aqui?

- No devido lugar. Aquelas pedras eram as redondas de quarenta e cinco centímetros de diâmetro, número A-23?

- Eram as redondas de quarenta e cinco centímetros. - Pegou na fotografia emoldurada que ela tinha em cima da secretária e olhou para a fotografia dos rapazes com o cão. - Giros.

- Pois são. As pedras são para uso pessoal ou para um trabalho contratado?

- Ruiva, nunca perde a compostura?

- Não. Nós, os ianques, somos assim. Ele passou a língua pelos dentes.

- Hum.

- Imagina por acaso como estou farta de ser tratada por ”ianque”, como se fosse uma espécie estranha ou uma doença? Metade dos clientes que entram aqui olham para mim como se fosse de outro planeta e houvesse a possibilidade de não vir em paz. Depois tenho de lhes dizer que nasci aqui, responder a uma data de perguntas sobre a razão de me ter ido embora, de ter voltado, quem é a minha gente, por amor de Deus, antes de poder voltar ao trabalho. Sou do Michigan, não da Lua, e a maldita Guerra Civil já acabou há algum tempo.

Sim, tal e qual tremoceiros do Texas.

- Deste lado da Linha Mason-Dixie, chamamos-lhe a maldita Guerra Entre os Estados, querida. E parece-me que afinal perde a compostura quando está irritada.

- Não me chame ”querida” nesse sotaque sulista.

- Sabe, ruiva, gosto mais de si assim.

- Oh, cale-se. As pedras. Uso pessoal ou profissional?

- Bom, isso depende do ponto de vista. - Uma vez que já tinha espaço para isso, sentou-se no canto da secretária. - São para uma amiga. Estou a fazer-lhe um caminho... no meu tempo livre, sem prejuízo para o trabalho. Eu disse-lhe que vinha buscar os materiais e que depois lhe mandava a conta do centro.

- Vamos considerar uso pessoal e usar o seu desconto de empregado. Começou a escrever. - Quantas pedras?

- Vinte e duas.

Ela escreveu o número e deu-lhe o preço por pedra, antes e depois do desconto.

Impressionado, mesmo contra vontade, ele apontou para o monitor.

- Tem algum maluquinho da matemática preso aí dentro?

- Apenas as maravilhas do século xxi. Se experimentasse, veria que é mais rápido do que contar pelos dedos.

- Não sei. Tenho dedos bastante rápidos. -Tamborilando-os na perna, olhou para ela. - Preciso de três pinheiros brancos.

- Para a mesma amiga?

- Não. - Ele sorriu, um sorriso rápido de esguelha. Se ela queria interpretar ”amiga” como ”namorada”, ele não via de que adiantaria dizer-lhe que as pedras eram para a sr.a Kingsley, a sua professora de inglês do décimo ano. - Os pinheiros são para um cliente. Roland Guppy. Sim, como o peixe. Provavelmente ele deve constar algures nos seus vastos e misteriosos arquivos. Fizemos um trabalho para ele no Outono passado.

Uma vez que havia uma máquina de café na mesa encostada à parede e a cafeteira estava meio cheia, ele levantou-se, pegou numa caneca e serviu-se.

- Faça de conta que está em casa - disse Stella secamente.

- Obrigado. Por acaso, fui eu que lhe recomendei os pinheiros brancos como quebra-vento. Ele hesitou. Demorou este tempo todo para admitir que eu tinha razão. Telefonou-me ontem para casa. Eu disse-lhe que os levava e o ajudava.

- Precisamos de um formulário diferente. Ele provou o café. Nada mau.

- Não sei porquê, mas estava mesmo a adivinhar.

- As pedras são tudo o que vai levar para uso pessoal?

- Provavelmente. Por hoje.

Ela carregou na tecla para imprimir e abriu outro formulário.

- Três pinheiros brancos. De que tamanho?

- Temos aí uns bons de dois metros e meio.

- Com raiz?

- Sim.

”Meia dúzia de teclas”, pensou ele, maravilhado, ”e já está.” A mulher tinha dedos bonitos. Longos e esguios, com aquele verniz brilhante, da cor delicada do interior de uma pétala de rosa.

Não usava anéis.

- Mais alguma coisa?

Ele apalpou os bolsos e por fim encontrou um pedaço de papel.

- Foi o preço que eu lhe dei para lhe pôr os pinheiros.

Ela acrescentou o preço da mão-de-obra, somou e imprimiu três cópias enquanto ele bebia o café dela.

- Uma assinatura ou uma rubrica - pediu. - Uma cópia para os meus arquivos, outra para os seus e uma para o cliente.

- Entendido.

Quando ele pegou na caneta, Stella agitou a mão.

- Oh, espere, vou buscar a tal faca. Que veia é que tencionava cortar?

- Muito engraçada. - Apontou para a porta com o queixo. - E ela também é gira.

- A Hayley? Pois é. E totalmente nova demais para si.

- Não diria totalmente. Apesar de preferir mulheres com um pouco mais de... - Parou e sorriu de novo. - Acho que me fico pelo mais.

- Muito sensato.

- Os seus filhos estão a ter problemas na escola?

- Desculpe?

- Estava a pensar naquilo que me disse há pouco, ianques.

- Oh! Um pouco, talvez, mas a maior parte dos outros miúdos acha interessante que eles sejam do Norte e tenham vivido perto de um dos Grandes Lagos. Os professores foram buscar um mapa para mostrar aos outros de onde eles eram.

O seu rosto suavizou-se ao falar dos filhos.

- Obrigada por perguntar.

- Gosto dos miúdos.

Assinou os formulários e, divertido, viu-a gemer - efectivamente gemer

- quando ele dobrou descuidadamente os seus e os enfiou no bolso.

- Para a próxima, importa-se de fazer isso depois de sair daqui? Magoa-me.

- Tudo bem. - Talvez fosse o tom diferente em que a conversa estava a acabar ou talvez a maneira como ela se enternecera e sorrira quando falara dos filhos. Mais tarde, talvez se perguntasse o que lhe passara pela cabeça, mas, por agora, resolveu seguir os seus impulsos. - Alguma vez esteve em Graceland?

- Não. Não sou fã do Elvis.

- Chiu! - Ele arregalou os olhos e olhou para a porta. - Legalmente, não pode dizer uma coisa dessas por aqui. Sujeita-se a uma multa e a uma pena de prisão ou, dependendo do júri, a ser açoitada em público.

- Não li nada sobre isso no guia de Memphis.

- São as letras pequeninas. Então eu levo-a. Quando é o seu dia de folga?

- Eu... depende. Quer levar-me a Graceland?

- Não pode assentar por estes lados enquanto não tiver estado em Graceland. Escolha um dia que eu arranjo maneira de estar livre.

- Estou a tentar compreender. Está a convidar-me para sair consigo, um encontro?

- Não estava a querer levar isto para o lado de um encontro. Mais uma saída entre colegas. - Pousou a caneca vazia na secretária. - Pense nisso e diga-me qualquer coisa.

Ela tinha muito que fazer para poder pensar nisso. Não podia simplesmente ir passear a Graceland. E mesmo que pudesse, e tivesse algum estranho desejo de o fazer, sem dúvida que não iria passear para Graceland com Logan.

O facto de admirar o trabalho dele - está bem, e o seu corpo - não queria dizer que gostava dele. Não queria dizer que queria passar o seu valioso tempo livre na companhia dele.

Mas não conseguia deixar de pensar nisso, mais ainda, de se perguntar por que razão ele a convidara. Talvez fosse algum truque, um estranho ritual de iniciação para a ianque. Levá-la a Graceland, depois abandoná-la na floresta da parafernália do Elvis e ver se ela conseguia encontrar a saída.

Ou talvez Logan, à sua estranha maneira, tivesse decidido que flirtar com ela era uma maneira mais fácil de contornar o seu novo sistema do que discutir com ela.

Mas não parecera estar a flirtar com ela. Bom, não exactamente. Parecera mais um gesto amigável, espontâneo, impulsivo. E perguntara pelos seus filhos. Não havia forma mais rápida de ultrapassar a sua irritação, qualquer escudo, qualquer defesa, do que um interesse sincero pelos seus rapazes.

E, se ele estava apenas a ser amável, parecia uma questão de boa educação e de sensatez retribuir a amabilidade.

O que é que as pessoas vestiam para ir a Graceland, afinal?

Não que ela tencionasse ir. Provavelmente não iria. Mas era inteligente estar preparada. Pelo sim, pelo não.

Na estufa 3, supervisionando enquanto Hayley regava as anuais propagadas, Stella ponderou a situação.

- Já foste a Graceland?

- Oh, claro que sim. Estas são alegrias-do-lar, certo? Stella olhou para as plantas.

- Sim. Essas são Busy Lizzies. Estão a crescer muito bem.

- Estas todas também são alegrias-do-lar. As da Nova Guiné.

- Certo. Aprendes depressa.

- Bom, estas são mais fáceis de reconhecer porque já as plantei antes. Seja como for, fui a Graceland com uns amigos quando estava na universidade. É muito fixe. Comprei um marcador de livros do Elvis. O que será que lhe fiz? Elvis é uma forma de Elvin. Quer dizer ”amigo duende”. Não é estranho?

- O mais estranho, para mim, é que tu saibas isso.

- É uma daquelas coisas que apanhamos sem saber onde.

- Certo. Qual é o código do vestuário?

- Hum? - Ela estava a tentar identificar outro canteiro pelas folhas dos rebentos. E a esforçar-se por não espreitar para o nome na etiqueta. -Acho que não há código. As pessoas vestem o que quiserem. Calças de ganga e essas coisas.

- Casual, então.

- Certo. Gosto do cheiro aqui dentro. Cheira a terra e a humidade.

- Nesse caso, fizeste a escolha de carreira certa.

- Podia ser uma carreira, não podia? - Os olhos azul-claros voltaram-se para Stella. - Algo em que eu podia aprender a ser boa. Sempre pensei ter o meu próprio negócio, um dia. Sempre achei que seria uma livraria, mas isto é mais ou menos o mesmo.

- Como assim?

- Bom, temos o material novo e os clássicos. Temos vários géneros, se formos a ver bem. Anuais, bianuais, perenes, arbustos, árvores e relvas. Plantas de água e plantas de sombra. Esse tipo de coisas.

- Sabes, tens razão. Nunca tinha pensado nisso dessa forma. Encorajada, Hayley caminhou ao longo dos corredores.

- E estamos a aprender e a explorar, como fazemos com os livros. E nós, os funcionários, estamos a tentar ajudar as pessoas a encontrarem o que é melhor para elas, o que as deixa mais felizes ou, pelo menos, mais satisfeitas. Plantar uma flor é como abrir um livro, porque em ambos os casos estamos a começar qualquer coisa. E o nosso jardim é a nossa biblioteca. Eu podia tornar-me boa nisto.

- Não duvido.

Virou-se e viu que Stella estava a sorrir-lhe.

- Quando for boa, deixará de ser apenas um emprego. Um emprego é bom. Por enquanto, chega, mas eu quero mais do que um cheque ao fim da semana. Não me refiro apenas ao dinheiro... embora, sim, o dinheiro também dê jeito.

- Não, eu percebo o que queres dizer. Queres o que a Roz tem aqui. Um sítio e a satisfação de fazer parte desse sítio. Raízes - disse Stella, tocando nas folhas de um rebento. - E flores. Eu sei, porque quero o mesmo.

- Mas tu já o tens. És tão inteligente e sabes para onde vais. Tens dois filhos fantásticos e... e uma posição aqui. Trabalhaste para chegares a este... a este sítio, a esta posição. Eu sinto-me como se estivesse apenas a começar.

- E estás impaciente por avançar. Eu também era assim, na tua idade. O rosto de Hayley irradiava boa disposição.

- Sim, e agora és tão velha e ferrugenta. Rindo, Stella puxou o cabelo para trás.

- Tenho mais dez anos do que tu. Muita coisa pode acontecer, muito pode mudar... incluindo nós próprias... numa década. De certa forma, eu também estou a começar agora, uma década depois de ti. A transplantar-me para aqui, a mim e aos meus dois preciosos rebentos.

- Não tens medo?

- Todos os dias. - Pousou a mão na barriga de Hayley. - Faz parte do ofício.

- Ajuda muito poder falar contigo. Quer dizer, tu eras casada quando passaste por isto, mas tanto tu como a Roz tiveram de lidar com a situação de serem mães sozinhas. Ajuda porque tu sabes coisas. É bom estar perto de outras mulheres que sabem coisas que eu preciso de saber.

Depois de terminar o trabalho, Hayley aproximou-se para desligar a água.

- Então - perguntou -, vais a Graceland?

- Não sei. Talvez.

Com a equipa dividida entre os pinheiros brancos e a preparação do terreno no trabalho para Cuppy, Logan deitou mãos à obra no caminho da sua antiga professora. Não lhe levaria muito tempo e podia passar pelos outros dois trabalhos durante a tarde. Gostava de ter muita coisa entre mãos. Sempre gostara.

Ir directamente do princípio ao fim num trabalho, demasiado depressa, não deixava espaço para ideias geniais ou inspirações súbitas. Havia pouco de que ele gostasse mais do que daquele clique, quando via algo na sua cabeça que sabia que conseguiria fazer com as mãos.

Podia pegar naquilo que existia e melhorá-lo, talvez fundir parte do que existia com o novo e criar um todo diferente.

Crescera a respeitar a terra e os caprichos da natureza, mas mais do ponto de vista de um agricultor. Quando se crescia numa pequena quinta a trabalhar a terra, a lutar com ela, pensou, compreendia-se o que ela significava. Ou podia significar.

O seu pai também adorava a terra, mas de uma forma diferente, supunha Logan. A terra sustentara a família, mas também lhes custara muito e, no fim, oferecera-lhes alguma prosperidade quando o pai optara por a vender.

Não podia dizer que sentia saudades da quinta. Sempre quisera mais do que colheitas e preocupações com os preços de mercado. Mas sempre quisera, sempre precisara de trabalhar a terra.

Talvez tivesse perdido alguma da magia quando se mudara para o Norte. Demasiados edifícios, demasiado betão, demasiadas limitações para ele. Não conseguira adaptar-se ao clima ou à cultura, tal como Rae nunca se conseguira adaptar aqui.

Não resultara. Por mais que ambos tivessem tentado alimentar as coisas, o casamento murchara e morrera.

Assim, voltara para casa e, por fim, com a oferta de Roz, encontrara o seu lugar - em termos pessoais, profissionais e criativos. E estava satisfeito.

Estendeu os fios e pegou na pá.

E enfiou novamente a pá na terra.

O que lhe passara pela cabeça? Convidara a mulher para sair com ele. Podia dar-lhe o nome que quisesse, mas, quando um homem convidava uma mulher para sair, era um maldito encontro.

Não tinha a menor intenção de namorar com a certinha Stella Rothchild. Ela não era o estilo dele.

Está bem, claro que era. Começou a levantar o solo entre os fios, preparando-o antes de o alisar e de estender o plástico preto. Na verdade, nunca conhecera uma mulher que não fosse o estilo dele.

Gostava daquela espécie, simplesmente. Jovens e velhas, raparigas do campo e mulheres urbanas e sofisticadas. Inteligentes ou burras, as mulheres atraíam-no a quase todos os níveis.

Acabara casado com uma, não fora? E, apesar de isso ter sido um erro, uma pessoa tinha de cometer alguns erros pelo caminho.

Talvez ele nunca se tivesse sentido particularmente atraído pelo tipo de mulher estruturada e obstinada. Mas havia sempre uma primeira vez. E ele gostava de primeiras vezes. Eram as segundas e as terceiras vezes que podiam deixar um homem saturado.

Mas não se sentia atraído por Stella.

Está bem, bolas. Sim, sentia-se. Ligeiramente. Ela era uma mulher atraente, com formas bonitas, também. E depois havia o cabelo. Ele estava mesmo perdido pelo cabelo. Não se importava de deitar as mãos àquele cabelo, só para ver se era tão sexy ao toque como era à vista.

Mas isso não queria dizer que quisesse namorar com ela. Já era suficientemente difícil lidar com ela profissionalmente. A mulher tinha uma regra ou um formulário ou um maldito sistema para tudo.

Provavelmente, também era assim na cama. Provavelmente, tinha uma lista introduzida no computador de coisas a fazer e a não fazer, tudo com uma declaração de objectivos prévia.

O que ela precisava era de alguma espontaneidade, de um pequeno abanão na ordem das coisas. Não que estivesse interessado em ser ele a dar-lho.

Mas estava tão bonita esta manhã, e o cabelo dela cheirava bem. Além disso, tinha aquele sorrisinho sexy que funcionava a seu favor. Quando ele dera por isso, já estava a convidá-la para ir a Craceland.

”Não há motivo para preocupações”, garantiu a si próprio. Ela não aceitaria. Não era o tipo de coisa que uma mulher como ela fizesse só por fazer. Tanto quanto ele conseguia perceber, ela não fazia nada só por fazer.

Ambos acabariam por se esquecer de que ele falara no assunto.

Como achava que isso era imperativo, pelo menos nos primeiros seis meses de trabalho, Stella insistia em ter uma reunião semanal com Roz para discutir os progressos.

Teria preferido uma altura específica e um local específico para essas reuniões. Mas era difícil apanhar Roz.

Já tinham tido reuniões na estufa de propagação e nos campos. Desta vez, encurralou Roz na sua sala de estar, onde teria poucas probabilidades de lhe escapar.

- Quero dar-lhe a actualização semanal.

- Oh... Bom, está bem. - Roz pôs de lado um grosso livro sobre híbridos e tirou os óculos de leitura. - O tempo passa a correr. O solo já está a aquecer.

- Eu sei. Os narcisos estão prontos para rebentar. Muito mais cedo do que eu estava habituada. Temos vendido muitos bolbos. No Norte, geral mente, vendíamo-los mais no final do Verão ou no Outono.

- Saudades de casa?

- De vez em quando, mas cada vez menos. Não posso dizer que tenho pena de não estar no Michigan no mês de Fevereiro. Ontem eles tiveram quinze centímetros de neve, e eu estou aqui a ver os narcisos rebentarem.

Roz recostou-se na poltrona e cruzou os pés calçados com meias.

- Há algum problema?

- Lá se vai a minha ilusão de que consigo esconder as minhas emoçõe sob um semblante calmo. Não, não há problema nenhum. Mas fiz o telefonema obrigatório para a minha mãe há bocado. Ainda estou a recuperar

-Ah!

Era um som evasivo, e Stella pensou que podia ser interpretado com um desinteresse total ou como um convite tácito para desabafar. Uma vez que estava quase a rebentar, decidiu desabafar.

- Passei praticamente a totalidade dos quinze minutos que ela me poude dispensar do seu ocupado horário a ouvi-la falar sobre o actual namorado. Ela chama mesmo namorados a estes homens com quem anda. A minha mãe tem cinquenta e oito anos de idade e divorciou-se pela quarta vez há dois meses. Quando não se estava a queixar de que o Rocky... ele chama-se mesmo Rocky... não é suficientemente atencioso e se recusa a levá-la às Bahamas para umas férias de Inverno, estava a falar sobre o seu próximo peeling químico e a queixar-se de como sofrera com a sua última injecção de Botox. Não perguntou pelos netos, e a única referência que fez ao facto de eu estar a viver e a trabalhar aqui foi para perguntar se eu já estava farta de estar perto do idiota e da sua lambisgóia... os termos habituais que usa para se referir ao meu pai e à Jolene.

Quando se lhe esgotou a corda, Stella esfregou as mãos no rosto.

- Raios!

- São muitas lamúrias, queixas e veneno para enfiar em quinze minutos. Ela parece ser uma mulher muito talentosa.

Stella ficou calada durante um minuto - um minuto em que deixou as mãos caírem para o colo para poder olhar para o rosto de Roz. Depois atirou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.

- Oh, sim! Oh, sim, está carregadinha de talento. Obrigada.

- Não há problema. A minha mãe passava a maior parte do tempo... pelo menos do tempo que passámos juntas neste mundo... a suspirar melancolicamente por causa da sua frágil saúde. Não que quisesse queixar-se, dizia ela. Quase pus isso na lápide dela: ”Não Que Eu Queira Queixar-me.”

- Eu podia pôr ”Eu Não Peço Muito” na lápide da minha mãe.

- Aí tem. A minha mãe causou-me uma impressão tão profunda que eu segui completamente na direcção oposta. Provavelmente, podiam cortar-me um braço que eu não soltaria um gemido.

- Céus, acho que fiz o mesmo com a minha. Tenho de pensar melhor nisso. Muito bem, vamos ao trabalho. Esgotámos os vasos de bolbos mistos. Não sei se quer fazer mais nesta fase tardia da estação.

- Talvez uns poucos. Há pessoas que gostam de os comprar, já feitos, para prendas de Páscoa e essas coisas.

- Muito bem. E se eu ensinasse a Hayley a fazê-los? Sei que geralmente é a Roz que os faz, mas...

- Não, é um trabalho bom para ela. Tenho estado a observá-la. - Ao ver a expressão de Stella, inclinou a cabeça. - Não gosto de mostrar que estou a observar, mas geralmente estou. Sei o que se passa na minha casa e no meu negócio, Stella, mesmo que de vez em quando deixe passar algum pormenor.

- E eu estou aqui para me preocupar com os pormenores, portanto não há problema.

- Exacto. No entanto, tenho-a deixado basicamente aos seus cuidados. Está a correr bem?

- Mais do que isso. Nunca preciso de lhe dizer nada duas vezes e, quando ela disse que aprendia depressa, não estava a exagerar. Parece que tem sede de aprender.

- E não faltam aqui coisas para aprender.

- É simpática com os clientes... amável, nunca tem pressa. E não tem medo de dizer que não sabe, mas promete sempre informar-se. Neste momento, está lá fora a inspeccionar os canteiros e os arbustos. Quer conhecer o que está a vender.

Aproximou-se da janela enquanto falava, para olhar para fora. Era quase crepúsculo, mas ali estava Hayley a passear o cão e a estudar as perenes.

- Na idade dela, eu estava a planear o meu casamento. Parece que foi há um milhão de anos.

- Na idade dela, eu estava a criar duas crianças pequenas e grávida do Mason. Isso é que parece ter sido há um milhão de anos. E há cinco minutos, ao mesmo tempo.

- Vou sair outra vez do tema, mas queria perguntar-lhe o que está a pensar fazer quando chegarmos a Maio.

- Maio ainda é época alta para nós, e as pessoas gostam de refrescar os jardins de Verão. Vendemos...

- Não, referia-me à Hayley. Ao bebé.

- Oh! Bom, ela é que terá de tomar essa decisão, mas, se decidir ficar nos viveiros, teremos de lhe arranjar um trabalho mais leve.

- Ela tem de arranjar quem lhe tome conta do bebé, quando estiver pronta para voltar ao trabalho. E o quarto do bebé...

- Hum, isso é pôr a carroça à frente dos bois.

- O tempo passa a correr - disse Stella.

- Havemos de arranjar qualquer coisa.

Curiosa, Roz aproximou-se também da janela. Parou ao lado de Stella e olhou para fora.

Era muito bonito, pensou, ver uma jovem com uma criança no ventre a passear por um jardim de Inverno.

Ela fora em tempos aquela jovem, a sonhar no crepúsculo, à espera de que a Primavera trouxesse vida.

”O tempo não passa a correr”, pensou. ”Praticamente evapora-se sem darmos por isso.”

- Ela parece feliz e certa do que quer fazer. Mas pode ser que, depois de ter o bebé, mude de ideias em relação ao envolvimento do pai. - Roz viu Hayley pousar a mão na barriga e olhar para ocidente, onde o Sol estava a afundar-se por detrás das árvores, no rio para além das copas. - Ter um bebé vivo nos braços e enfrentar a perspectiva de ter de cuidar dele sozinha é um grande choque com a realidade. Veremos, quando a altura chegar.

- Tem razão. E suponho que nenhuma de nós a conhece suficientemente bem para saber o que é melhor para ela. Por falar em bebés, está quase na hora de enfiar os meus na banheira. Deixo o relatório semanal consigo.

- Está bem. Eu depois leio-o. Tenho de lhe dizer, Stella, que gosto do que tem feito. Tanto do que se vê, por exemplo, nas áreas dos clientes, como do que não se vê, na gestão do escritório. Vejo a Primavera a aproximar-se e, pela primeira vez em vários anos, não estou exausta e de rastos por excesso de trabalho. Não posso dizer que me importasse muito de ter tanto trabalho, mas também não posso dizer que não me sabe bem o contrário.

- Mesmo quando eu a aborreço com os pormenores?

- Mesmo nessa altura. Não tenho ouvido queixas sobre o Logan nos últimos dias. Nem da parte dele. Estarei a viver num paraíso de falsidade ou vocês os dois entraram em consonância?

-Ainda há alguns problemazinhos e desconfio que surgirão outros, mas nada com que tenha de se preocupar. Na verdade, ele teve um gesto muito amável e ofereceu-se para me levar a Craceland.

- Sim? - Roz ergueu as sobrancelhas. - O Logan?

- Seria assim tão fora do normal, para ele?

- Não faço ideia, mas nunca o vi convidar ninguém do trabalho para um encontro.

- Não é um encontro, é uma saída.

Intrigada, Roz sentou-se outra vez. ”Nunca se sabe o que podemos aprender com uma mulher mais nova”, pensou.

- Qual é a diferença?

- Bom, um encontro é jantar e cinema, com potenciais, até mesmo prováveis, conotações românticas. Levar os miúdos ao jardim zoológico é uma saída.

Roz recostou-se e esticou as pernas.

- As coisas mudam mesmo, não é? Na minha maneira de ver, quando um homem e uma mulher saem juntos, não deixa de ser um encontro.

- Está a ver, esse é o meu dilema. - Uma vez que Roz parecia estar disposta a conversar, Stella aproximou-se e sentou-se no braço da poltrona.

- Porque essa foi a minha primeira ideia. Mas pareceu-me apenas um gesto amável, e o termo ”saída” foi dele. Como uma espécie de ramo de oliveira. E, se eu aceitar, talvez encontremos esse meio-termo, essa consonância, o que quer que seja preciso para amenizar os pontos mais complicados na nossa relação de trabalho.

- Então, se estou a compreender bem, iria a Craceland com o Logan pelo bem da empresa.

- Mais ou menos.

- E não porque ele é um homem solteiro muito atraente, dinâmico e decididamente sexy.

- Não, isso seria apenas um bónus. - Esperou que Roz parasse de rir. E não estou a pensar em ir por aí. O namoro é um campo minado.

- A quem o diz. Tenho mais anos nessa zona de guerra do que a Stella.

- Eu gosto de homens. - Levou a mão à nuca para prender melhor o rabo-de-cavalo. - Gosto da companhia dos homens. Mas namorar é demasiado complicado e stressante.

- É melhor complicado e stressante do que totalmente aborrecido, algo que muitas das minhas experiências nesse campo foram.

- Complicado, stressante ou totalmente aborrecido, mesmo assim prefiro o som de ”saída”. Oiça, eu sei que o Logan é seu amigo. Mas gostava de lhe perguntar se acha que eu estaria a cometer um erro se fosse com ele, ou a dar-lhe a impressão errada. O sinal errado. Ou talvez a cruzar aquela linha divisória entre colegas. Ou...

- Isso é muita complicação e stresse para uma simples saída.

- Eu sei. Consigo irritar-me a mim própria. -Abanou a cabeça e levantou-se. - É melhor ir tratar dos banhos. Oh, e vou pôr a Hayley a trabalhar nos tais bolbos amanhã.

- Muito bem. Stella... vai aceitar esta saída? Ela fez uma pausa à porta.

- Talvez. Vou dormir sobre o assunto.

 

Elistava a sonhar com flores. Um jardim encantado, cheio de botões novos e cheios de vida, ondulava à sua volta. Era perfeito, bem arranjado e ordenado, as orlas direitas como uma régua, formando um contraste nítido com a relva bem aparada.

As cores fundiam-se umas nas outras, brancos e rosas, amarelos e verdes-prateados, todos os pastéis suaves e delicados que tremeluziam com uma elegância subtil sob os raios dourados do sol.

A sua fragrância era calmante e atraía um bonito bando de borboletas atarefadas, a curiosidade de um colibri cintilante. Nem uma erva daninha se intrometia na sua perfeição, e todas as flores estavam cheias e maduras com dezenas e dezenas de botões à espera da sua vez de abrir.

Fora ela que fizera isto. Circundou o canteiro com uma sensação de orgulho e satisfação. Remexera a terra e alimentara-a, planeara e seleccionara e plantara cada planta exactamente no local certo. O jardim correspondia tão precisamente à sua visão que era como uma fotografia.

Demorara anos a planear, a trabalhar, a criar. Mas agora tudo o que quisera alcançar estava aqui, a florescer aos seus pés.

Contudo, perante os seus olhos, um caule cresceu, forte e verde, empurrando os outros, estragando a simetria. ”Deslocado”, pensou ela, mais aborrecida do que surpreendida por o ver a brotar do solo, a crescer, a desenrolar as folhas.

Uma dália? Não plantara dálias aqui. O lugar das dálias era na parte de trás. Plantara especificamente um trio de dálias, altas e cor-de-rosa, na parte de trás do canteiro, com trinta centímetros exactos de intervalo.

Espantada, inclinou a cabeça e estudou a planta enquanto os caules cresciam e engrossavam, enquanto os botões se formavam, gordos e saudáveis. Fascinante, tão fascinante e inesperado.

Mesmo enquanto começava a sorrir ouviu - sentiu um murmúrio sobre a pele, um murmúrio através do cérebro.

- Está mal aqui. Mal. Tem de ser removida. Vai roubar e roubar até não restar mais nada.

Estremeceu. O ar à sua volta estava subitamente frio, com um vestígio de humidade, e nuvens lúgubres aproximavam-se daquele encantador sol dourado.

Sentiu um aperto de terror na boca do estômago.

- Não a deixes crescer. Vai estrangular a vida de tudo o que fizeste. Era verdade. Claro que era verdade. Não tinha nada que crescer aqui,

afastando as outras à força, alterando a ordem.

Teria de a arrancar, de encontrar outro sítio para ela. Reorganizar tudo, precisamente quando julgara ter terminado. ”E olhem para aquilo”, pensou, enquanto os botões se formavam, enquanto se abriam para libertar as pétalas azul-escuras. Era em absoluto da cor errada. Demasiado forte, demasiado escura, demasiado viva.

Era linda; não podia negá-lo. Na verdade, nunca vira um espécime mais belo. Parecia tão forte, tão real. Era já quase tão alta como ela, com flores do tamanho de pratos.

- Ela mente. Mente.

Aquele murmúrio, de algum modo feminino, de algum modo irado, deslizou no seu cérebro adormecido. Gemeu baixinho e agitou-se, inquieta, na cama fria.

- Mata-a! Mata-a. Depressa, antes que seja demasiado tarde.

Não, não podia matar algo tão belo, tão vivo, tão vigoroso. Mas isso não queria dizer que podia deixá-la ali, fora do sítio, desequilibrando o resto do canteiro.

Todo o seu trabalho, a preparação, o planeamento, e agora isto. Teria de planear outro canteiro onde incluir esta flor. Com um suspiro, estendeu a mão, roçou os dedos naquelas pétalas azul-forte. Daria muito trabalho, pensou, muito trabalho, mas...

- Mamã...

- Não é bonita? - murmurou ela. - É tão azul.

- Mamã, acorda.

- O que é? - Emergiu do sonho, sacudindo as teias do sono quando viu Luke ajoelhado na cama ao lado dela.

Céus, o quarto estava gelado.

- Luke? - Instintivamente, puxou a colcha para cima dele. - O que se passa?

- Estou maldisposto da barriga.

- Oh! - Sentou-se e pousou automaticamente a mão na testa dele para ver se tinha febre. Pareceu-lhe um pouco quente. - Dói-te?

Ele abanou a cabeça. Stella viu o brilho dos seus olhos, o reflexo das lágrimas.

- Estou maldisposto. Posso dormir na tua cama?

- Está bem. - Afastou os lençóis. - Deita-te e agasalha-te. Não sei porque está tanto frio aqui dentro. Vou tirar-te a febre, só para ficar descansada. - Encostou os lábios à sua testa enquanto ele se aninhava na almofada dela. Decididamente, um pouco quente.

Acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira e saiu da cama para ir buscar o termómetro à casa de banho.

- Vamos lá ver se consigo ver através do teu cérebro. - Acariciou-lhe o cabelo enquanto enfiava o termómetro na orelha dele. - Já estavas maldisposto quando foste para a cama?

- Não, foi... - O corpo dele ficou tenso e emitiu um pequeno gemido. Stella soube que ele ia vomitar antes mesmo que ele se apercebesse disso. Com rapidez de mãe, pegou nele e correu para a casa de banho. Chegaram a tempo, mesmo à justa, e ela murmurou e acariciou-o, preocupada, enquanto ele vomitava.

Depois, ele voltou o rostinho pálido para ela.

-Vomitei.

- Eu sei, amor. Pobrezinho. Já vais ficar melhor.

Deu-lhe um pouco de água, refrescou-lhe o rosto com uma toalha húmida e levou-o de novo para a cama. ”Que estranho”, pensou, ”o quarto já não parece frio.”

- Já não estou maldisposto.

- Ainda bem. - Apesar disso, mediu-lhe a febre (trinta e sete e meio, não era muito mau) e trouxe o cesto dos papéis para junto da cama. Dói-te alguma coisa?

- Não, mas não gosto de vomitar. Fico com a boca a saber mal. E tenho outro dente a abanar e, se vomitar outra vez, pode cair e depois não posso pô-lo debaixo da almofada.

- Não te preocupes com isso. Claro que vais ter o dente para pôr debaixo da almofada, como fizeste com o outro. Vou lá abaixo buscar-te ginger-ale. Fica aqui quietinho que eu venho já, está bem?

- Está bem.

- Se tiveres vontade de vomitar outra vez, tenta usar isto. - Puxou o cesto dos papéis para o lado dele. - Eu venho já, amor.

Saiu rapidamente, correndo pelas escadas em camisa de dormir. Uma das desvantagens de uma casa muito grande, percebeu, era que a cozinha ficava a um quilómetro dos quartos.

Tinha de pensar em comprar um pequeno frigorífico, como aquele que tinha no dormitório na universidade, para pôr na sala de estar do andar de cima.

”Febre baixa”, pensou, enquanto entrava na cozinha. Provavelmente estaria melhor amanhã. Caso contrário, chamaria um médico.

Procurou o ginger-ale, encheu um copo grande de gelo, agarrou numa garrafa de água e voltou para cima.

- Vou beber ginger-ale - ouviu Luke dizer enquanto se aproximava da porta do quarto. - Porque estive maldisposto. Já estou melhor, mas mesmo assim posso beber ginger-ale. Também podes beber um bocadinho, se quiseres.

- Obrigada, querido, mas... - Quando entrou no quarto, viu que Luke estava voltado de costas para a porta, encostado às almofadas. E o quarto estava outra vez frio, tão frio que via o vapor da sua própria respiração.

- Ela foi-se embora - disse Luke.

Um arrepio que não era causado unicamente pelo frio percorreu a espinha de Stella.

- Quem é que se foi embora?

- A senhora. - Os seus olhos ensonados animaram-se um pouco quando viu o ginger-ale. - Ficou aqui comigo enquanto tu foste lá abaixo.

- Que senhora, Luke? A sr.a Roz? Hayley?

- Não. A senhora que costuma vir cantar. É simpática. Posso beber o ginger-ale todo?

- Podes beber um pouco. - As mãos tremiam-lhe ligeiramente enquanto despejava a bebida no copo. - Onde é que a viste?

- Ali. - Apontou para a cama, depois pegou no copo com as duas mãos e bebeu. - É bom.

- Já a tinhas visto antes?

- Já. Às vezes, acordo e ela está lá. Canta a canção do dilly-dilly. ”Lavender’s blue, dilly dilly, lavender’s green...” Era a canção que ela ouvira, percebeu Stella com um medo gelado. A canção que dera por si a cantarolar.

- Ela... - ”Não”, pensou, ”é melhor não lhe perguntar se ela o assustou.” - Como é ela?

- É bonita, acho eu. Tem cabelo amarelo. Acho que é um anjo, uma senhora anjo. Lembras-te da história do anjo de guardar?

- Anjo da guarda.

- Mas ela não tem asas. O Gavin diz que se calhar é uma bruxa, mas uma bruxa boa, como no Harry Potter.

A garganta de Stella estava seca como um deserto.

- O Gavin também já a viu?

- Sim, quando ela vem cantar para nós. - Devolveu o copo a Stella e esfregou os olhos. - Já não estou maldisposto, mas tenho sono. Posso dormir na tua cama na mesma?

- Claro que sim. - Mas, antes de se enfiar na cama com ele, Stella acendeu a luz da casa de banho.

Foi ver Gavin, lutando contra o impulso de o arrancar da cama e o trazer consigo para a sua.

Deixando a porta de ligação bem aberta, voltou para o seu quarto.

Apagou o candeeiro da mesa-de-cabeceira e enfiou-se na cama com o filho.

E, puxando-o para si, abraçou-o enquanto ele dormia.

Na manhã seguinte, ele parecia bem, animado e enérgico, enquanto contava alegremente a David, ao pequeno-almoço, que tinha vomitado e bebido ginger-ale.

Pensou em deixá-lo ficar em casa por um dia, mas ele não tinha febre e, a julgar pelo seu apetite, nenhum problema de estômago.

- Não deixou sequelas - comentou David quando os rapazes correram pelas escadas acima para irem buscar as mochilas. - Tu, por outro lado, pareces ter passado uma noite complicada. - Serviu-lhe mais uma chávena de café.

- Pois passei. E não foi por causa de o Luke ter estado maldisposto. Depois de vomitar, acalmou-se e dormiu como um bebé. Mas, antes de adormecer, disse-me uma coisa que me deixou acordada a noite toda.

David apoiou os cotovelos no balcão central e inclinou-se para a frente.

- Conta tudo ao papá.

- Ele diz... - Olhou em volta, atenta ao som dos passos dos filhos nas escadas. - Diz que há uma senhora de cabelo amarelo que vai à noite ao quarto dele e canta para ele.

- Oh! - Ele pegou no pano e começou a limpar o balcão.

- Não digas ”oh” com esse sorrisinho palerma.

- Eh, fica sabendo que este é o meu sorriso afectado e divertido. Não tem nada de palerma.

- David.

- Stella - disse ele no mesmo tom severo. - A Roz disse-te que temos um fantasma, não disse?

- Tocou no assunto. Mas há só um pequeno problema em relação a isso. Os fantasmas não existem.

- Então achas que uma loura qualquer entra na casa todas as noites, dirige-se ao quarto dos rapazes e desata a cantar? Isso é mais plausível?

- Não sei o que se passa. Já ouvi alguém cantar, e senti... - Nervosa, torceu a pulseira do relógio. - Seja como for, a ideia de um fantasma é ridícula. Mas passa-se qualquer coisa com os meus filhos.

- Ele tem medo dela?

- Não. Provavelmente imaginei ter ouvido alguém cantar. E o Luke tem seis anos. É capaz de imaginar tudo e mais alguma coisa.

-Já perguntaste ao Gavin?

- Não. O Luke diz que ambos a viram, mas...

- Eu também a vi..

- Oh, por favor.

David passou o pano por água, espremeu o excesso e pousou-o na beira do lava-loiça para secar.

- Só quando era miúdo, mas vi-a algumas vezes quando dormi cá. Ao princípio assustou-me, mas ela simplesmente ficava ali. Podes perguntar ao Harper. Ele viu-a muitas vezes.

- Está bem. E quem é afinal este suposto fantasma? - Ergueu a mão para o impedir de responder quando ouviu passos a correrem pelas escadas. Falamos mais tarde.

Tentou não pensar nisso e conseguiu esquecer o assunto temporariamente, quando se concentrava no trabalho. Mas a questão acabava por voltar sempre à sua mente e ali ficava como a canção de embalar do fantasma.

Ao meio-dia, deixou Hayley a trabalhar nos vasos de bolbos, Ruby ao balcão e, pegando num bloco, dirigiu-se à estufa de enxertos.

”Dois coelhos de uma cajadada só”, pensou.

A música hoje era Rachmaninoff. Ou seria Mozart? Fosse qual fosse, incluía muitas cordas e flautas apaixonadas. Passou pelas áreas de manutenção, pelas ferramentas, pelos solos e aditivos e preparados de enraizamento.

Encontrou Harper no extremo oposto, junto de uma bancada em cima da qual tinha uma pilha de vasos de doze centímetros, vários cactos e um tabuleiro de preparado de enraizamento. Reparou nas molas da roupa, nos elásticos, na ráfia, no frasco de álcool desnaturado.

- O que usas nos cactos-de-natal?

Ele continuou a trabalhar, usando a sua faca para cortar uma vergôntea da junção de um rebento. Tinha mãos muito bonitas, reparou Stella. Dedos compridos, de artista.

- Cunha apical? Complicado, mas provavelmente é o melhor com esse espécime, por causa dos caules achatados. Estás a criar um padrão ou a hibridizar?

Ele fez o corte vertical no feixe vascular, mas continuou em silêncio.

- Estou a perguntar porque... - Pousou a mão no seu ombro e, quando ele deu um salto e soltou um grito abafado, Stella recuou, sobressaltada, e embateu na mesa atrás de si.

- Merda! - Ele largou a faca e enfiou o polegar que cortara na boca. Merda! - repetiu, com o polegar na boca, e tirou os auscultadores dos ouvidos com a mão livre.

- Desculpa! Cortaste-te? Deixa-me ver.

- É só um arranhão. - Tirou o dedo da boca e esfregou-o distraidamente nas calças de ganga sujas. - Nem de longe tão fatal como o ataque cardíaco que me ias causando.

- Mostra lá o dedo. - Pegou-lhe na mão. - Agora o corte está cheio de terra.

Ele viu o olhar dela desviar-se para o álcool e puxou a mão.

- Nem penses nisso!

- Bom, pelo menos devias limpá-lo. E peço desculpa, mais uma vez. Não vi os auscultadores. Pensei que me tinhas ouvido.

- Não faz mal, não foi nada. A música clássica é para as plantas. Mas eu começo a ficar com os olhos vidrados se a ouvir durante muito tempo.

- Sim? - Pegou nos auscultadores e encostou um deles ao ouvido. Metallica?

- Sim. O meu tipo de música clássica - disse ele, olhando desconfiado para o bloco de notas que ela trazia na mão. - O que se passa?

- Gostava de ter uma ideia do que terás pronto, aqui, para a grande abertura de Primavera no mês que vem. E o que tens em fase de poder ser transferido para a estufa do stock.

- Oh, bom... - Ele olhou em volta. - Muita coisa. Provavelmente. Tenho os registos no computador.

- Melhor ainda. Talvez possas fazer-me uma cópia. Uma disquete seria perfeito.

- Sim, está bem. Espera um minuto. -Arrastou o banco para o computador.

- Não é preciso ser já, se estás a meio de outra coisa.

- Se não for já, vou acabar por me esquecer.

Com uma perícia que ela admirou, carregou nas teclas com os dedos meio sujos até encontrar o que procurava. Pegou numa disquete e enfiou-a na ranhura.

- Preferia que não tirasses nada quando eu não estiver aqui.

- Não há problema.

- Ah... como está a Hayley a dar-se?

- É a resposta às minhas orações.

- Sim? - Ele pegou numa lata de Coca-Cola e bebeu um gole rápido. Ela não está a fazer trabalho pesado nem a mexer em produtos tóxicos, pois não?

- Claro que não. Neste momento está a tratar dos vasos de bolbos.

- Aqui tens. - Estendeu-lhe a disquete.

- Obrigada, Harper. Isto facilita-me muito a vida. Nunca fiz um enxerto num cacto-de-natal. - Enfiou a disquete no bolso; - Posso ver?

- Claro. Queres fazer um? Eu vou-te explicando.

- Gostava muito.

- Vou acabar este. Estás a ver, corto um rebento de cinco ou seis centímetros, mesmo pela junção. Cortei os cinco centímetros superiores do caule da planta principal. E, antes de cortar o dedo...

- Desculpa.

- Não foi a primeira vez. Fiz este corte fino e vertical no feixe vascular. -Até aí já percebi.

- Daqui, desbasto lascas de pele de ambos os lados da base do rebento, afunilando a ponta e expondo o núcleo central. - Os dedos compridos trabalharam pacientemente. - Estás a ver?

- Hum, hum. Tens boas mãos para isto.

- São naturais. Foi a minha mãe que me ensinou a enxertar. Fizemos uma cerejeira ornamental quando eu era para aí da idade do Luke. Agora vamos inserir o rebento no corte do caule da outra planta. Queremos que os tecidos expostos de ambas fiquem em contacto. Temos de fazer coincidir o mais possível as superfícies do corte. Eu gosto de usar um espinho de cacto comprido... - Tirou um de um tabuleiro e enfiou-o através da área enxertada.

- Prático e orgânico.

- Sim, não gosto de usar ráfia nestes. Molas da roupa fracas é o melhor. Mesmo na junção, vês, para que fique firme, mas não demasiado apertado. O preparado de enraizamento é composto por duas partes de solo para cactos e uma parte de areia fina. Já fiz a mistura. Pomos o nosso bebé no vaso e cobrimos a mistura com um pouco de cascalho miúdo.

- Para ficar húmido, mas não encharcado.

- Isso mesmo. Depois é preciso etiquetá-lo e pô-lo num local arejado, mas não sob o sol directo. As duas plantas devem unir-se dentro de dois dias, mais ou menos. Queres experimentar?

- Quero. - Sentou-se no banco depois de ele se levantar e começou, seguindo cuidadosamente as instruções dele. - É verdade, o David estava a falar-me da lenda da casa, esta manhã.

- Muito bem. - Ele manteve o olhar concentrado nas mãos dela e na planta. - Faz uma lasca muito fina. Lenda?

- Sabes, buuuu, o fantasma.

- Oh, sim, a loura de olhos tristes. Costumava cantar para mim quando eu era miúdo.

- Vá lá, Harper.

Ele encolheu os ombros e bebeu mais um gole de Coca-Cola.

- Queres? - Agitou a lata. - Tenho mais na mala térmica.

- Não, obrigada. Estás a dizer-me que um fantasma costumava entrar no teu quarto e cantar para ti?

- Até aos meus doze, treze anos. Aconteceu o mesmo com os meus irmãos. Quando chegamos à puberdade, ela deixa de aparecer. Agora tens de afunilar o rebento.

Stella fez uma pausa no trabalho e olhou para ele.

- Harper, não te consideras um cientista?

Ele sorriu-lhe com aqueles olhos castanhos e sonhadores.

- Nem por isso. Parte do que eu faço é ciência e parte requer algum conhecimento científico. Mas, na realidade, sou um jardineiro.

Atirou a lata de Coca-Cola para o cesto e baixou-se para tirar outra da mala térmica.

- Mas se me estás a perguntar se acho que os fantasmas estão em contradição com a ciência, a resposta também é: nem por isso. A ciência é uma exploração, é experimentação, é descoberta.

- Não posso discutir essa definição. - Voltou-se de novo para o trabalho. - Mas...

Ele abriu a lata.

- Vais armar-te em Scully comigo? Ela teve de se rir.

- Uma coisa é um rapazinho acreditar em fantasmas e no Pai Natal, mas...

- Estás a tentar dizer-me que o Pai Natal não existe? - Ele fingiu-se horrorizado. - Isso é cruel.

- Mas - continuou ela, ignorando-o - é completamente diferente no caso de um homem adulto.

- A quem é que estás a chamar homem adulto? Acho que vou ter de te expulsar da minha casa. Stella. - Deu-lhe uma palmadinha no ombro, sujando-a de terra, e depois sacudiu-lhe distraidamente a camisa. - Eu vi aquilo que vi, sei aquilo que sei. Faz parte de crescer nesta casa, mais nada. Ela foi sempre... uma presença benigna, pelo menos para mim e para os meus irmãos. Embora tenha dado preocupações à minha mãe de vez em quando.

- Preocupações? Como assim?

- Pergunta-lhe. Mas não sei porque te estás a incomodar com isso, uma vez que não acreditas mesmo em fantasmas. - Sorriu. - Belo enxerto. Segundo o folclore familiar, ela é uma das noivas Harper, mas não está em nenhum dos quadros ou fotografias que nós temos. - Encolheu os ombros.

- Talvez seja uma criada que morreu aqui. Não há dúvida de que conhece os cantos à casa.

- O Luke disse-me que a viu.

- Sim? - Pareceu mais atento enquanto Stella colocava a etiqueta no vaso. - Se estás com medo de que ela faça mal ao Luke ou ao Gavin, não precisas de te preocupar. Ela é... não sei, maternal.

- Perfeito, então... um fantasma não identificado e, contudo, maternal, que assombra os quartos dos meus filhos à noite.

- É uma tradição da família Harper.

Depois de uma conversa daquelas, Stella precisava de qualquer coisa sensata com que ocupar a mente. Tirou um tabuleiro de amores-perfeitos e algumas pervincas de uma estufa, encontrou alguns vasos de betão moldado no armazém e colocou-os, juntamente com alguns sacos de terra, num carrinho de mão. Reuniu ferramentas, luvas, juntou alguma solução adubadora e levou tudo para a parte da frente.

Os amores-perfeitos não se importam com um bocadinho de frio, pensou, portanto não se vão incomodar se apanharem mais algumas geadas. E o seu ar festivo, as suas cores ricas, pintariam a Primavera junto à entrada.

Depois de posicionar os vasos, pegou no bloco e anotou exactamente tudo o que tirara do armazém. Introduziria os dados no computador quando acabasse.

Depois ajoelhou-se para fazer algo que adorava, algo que nunca deixava de a reconfortar. Algo que fazia sempre sentido.

Plantou.

Quando acabou o primeiro, com as alegres flores púrpuras e amarelas contra o cinzento baço do vaso, afastou-se para examinar o seu trabalho. Queria que o segundo fosse o mais parecido possível com este.

Estava a meio quando ouviu o ruído de pneus no cascalho. ”Logan”, pensou, enquanto erguia os olhos e identificava a carrinha dele. Viu-o começar a virar na direcção da área de material, depois voltar para trás e conduzir em direcção ao edifício.

Saiu da carrinha, com as suas botas gastas, calças de ganga coçadas e óculos de sol de lentes pretas.

Stella sentiu um arrepio entre as omoplatas.

- Olá- disse ele.

- Olá, Logan.

Ele ficou ali parado, com os polegares enfiados nos bolsos das calças de trabalho e um trio de arranhões recentes no antebraço, logo abaixo das mangas arregaçadas.

- Venho buscar uns troncos decorativos e mais plástico preto para o trabalho nos Dawsons.

- Está a avançar depressa.

- É canja. - Aproximou-se mais e inspeccionou o trabalho dela.

- Estão com bom aspecto. Sou capaz de os usar.

- Estes são só para amostra.

- Pode fazer mais. Vou levar esses à Miz Dawson, ela vai querer ficar com eles. Uma venda é uma venda, ruiva.

- Oh, está bem. - Praticamente não tivera um minuto para pensar nos vasos como seus. - Pelo menos deixe-me acabar. Diga-lhe que tem de substituir estes amores-perfeitos quando estiver calor. Não se dão bem no Verão. E se puser perenes nos vasos, deve tapar as plantas durante o Inverno.

- Por acaso, eu também sei uma coisinha ou duas sobre plantas.

- Quero apenas garantir a satisfação do cliente.

Ele fora educado, pensou ela. Até mesmo cooperativo. Não se aproximara para lhe dar uma lista de material? O mínimo que podia fazer era retribuir a simpatia.

- Se o convite para Graceland ainda estiver de pé, posso tirar algum tempo na próxima quinta-feira. - Manteve os olhos nas plantas, falando num tom tão casual como um molho de malmequeres. - Se lhe der jeito.

- Quinta-feira? - Ele tinha preparado uma data de desculpas para o caso de ela tocar no assunto. Estava cheio de trabalho, tinha de ficar para outra altura.

Mas ali estava ela, ajoelhada no chão, com aquele maldito cabelo aos caracóis espalhado por todo o lado e o sol a incidir sobre ele. Aqueles olhos azuis, aquela voz fria de ianque.

- Claro, pode ser na quinta-feira. Quer que a venha buscar aqui ou a casa?

- Aqui, se não houver problema. A que horas lhe dá mais jeito?

- Talvez por volta da uma. Assim, ainda posso trabalhar de manhã.

- Perfeito. - Levantou-se, sacudiu as luvas e arrumou-as muito direitas no carrinho. - Deixe-me só calcular o preço destes vasos e preencher um formulário de encomenda. Se ela decidir não ficar com eles, traga-os de volta.

- Não vai ser preciso. Trate lá da papelada. - Tirou um papel muito dobrado do bolso. - Para os vasos e para os materiais que apontei aqui. Eu vou carregando a carrinha.

- Muito bem. Óptimo. - Dirigiu-se ao escritório. O arrepio tinha passado das omoplatas para o umbigo.

Não era um encontro, não era um encontro, recordou a si própria. Nem sequer era uma saída, na verdade. Era um gesto. Um gesto de boa vontade de ambas as partes.

”E agora”, pensou enquanto entrava no escritório, ”nenhum dos dois pode voltar atrás.”

 

Não sei como chegámos a quinta-feira.

- Tem qualquer coisa a ver com Thor, o deus nórdico. - Hayley encolheu os ombros com ar acanhado. - Sei montes de coisas estúpidas. Não me perguntes porquê.

A palavra inglesa para ”quinta-feira” é ”thursday”, daí a referência a Thor como possível origem da palavra. (N. da T.)

- Não estava a referir-me à origem da palavra, mas sim a como chegou tão depressa. Thor? - repetiu Stella desviando os olhos do espelho na casa de banho dos empregados para olhar para Hayley.

- Tenho quase a certeza.

- Vou aceitar a tua palavra. Muito bem. - Abriu os braços. - Que tal estou?

- Estás muito bonita.

- Demasiado bonita? Pareço demasiado formal ou demasiado arranjada?

- Não, bonita na medida certa. - A verdade era que invejava a aparência de Stella, com as calças cinzentas simples e camisola preta. Elegante, mas cheia de curvas por baixo. Quando não estava grávida, Hayley era mais a dar para o ossudo e tinha pouco peito.

- A camisola realça as tuas formas - acrescentou.

- Oh, meu Deus! - Horrorizada, Stella cruzou os braços e pressionou-os contra os seios. - Realça as formas? Como quem quer dizer ”olhem para os meus seios”?

- Não. - Rindo, Hayley puxou os braços de Stella para baixo. - Pára com isso. Tens um peito muito bonito.

- Estou nervosa. É ridículo, mas estou nervosa. Detesto estar nervosa, é por isso que raramente fico nervosa. - Puxou a manga da camisola e sacudiu-a. - Porque havemos de fazer uma coisa que detestamos?

- É apenas uma saída descontraída, à tarde. - Hayley evitou a palavra encontro. Já tinham discutido esse assunto. - Vai e diverte-te.

- Certo. Claro. Sou tão estúpida. - Sacudiu-se antes de sair da casa de banho. - Tens o número do meu telemóvel.

- Toda a gente tem o número do teu telemóvel, Stella. - Olhou para Ruby, que respondeu com uma gargalhada. - Acho que o presidente da câmara o tem nas teclas de marcação rápida.

- Se houver algum problema, não hesitem em usá-lo. E se tiveres alguma dúvida e não conseguires encontrar a Roz nem o Harper, liga-me.

- Sim, mamã. Não te preocupes, o vinho só chega às três. - Levou a mão à boca. - Eu disse vinho? Queria dizer Alvarinho. Sim, o Alvarinho, era o que eu queria dizer.

- Muito engraçada.

- E os strippers não confirmaram. - Ruby soltou uma gargalhada e Hayley sorriu. - Portanto, podes ir descansada.

- Acho que descansar não consta dos meus planos para hoje.

- Posso perguntar há quanto tempo não tens um encontro... quero dizer, uma saída?

- Não muito. Uns meses. - Quando Hayley revirou os olhos, Stella revirou também os seus. - Tenho andado ocupada. Tive muito trabalho com a venda da casa, embalar as coisas, arranjar espaço para as guardar, investigar escolas e pediatras por aqui... Não tive tempo.

- E não tiveste ninguém que te fizesse querer arranjar tempo. Até hoje.

- Não é nada disso. Por que diabo está ele atrasado? - inquiriu, olhando para o relógio. - Eu já sabia que ele se ia atrasar. Tem todo o ar de alguém que chega sempre cronicamente atrasado a quase tudo.

Quando um cliente entrou, Hayley deu uma palmadinha no ombro de Stella.

- Esta é a minha deixa. Diverte-te. Posso ajudar? - perguntou, aproximando-se do cliente.

Stella esperou mais alguns minutos, dizendo a si própria que Hayley estava a cuidar bem do novo cliente. Ruby registou as compras de outros dois. O trabalho que havia para fazer estava a ser feito e não lhe restava outra coisa senão esperar.

Decidindo esperar lá fora, pegou no casaco.

Os seus vasos estavam bonitos, e calculou que o local onde os colocara era directamente responsável pela quantidade de amores-perfeitos que tinham vendido nos últimos dias. Se fosse esse o caso, podiam acrescentar mais alguns, talvez um ou dois barris cortados ao meio e uns vasos suspensos.

Tomando notas, caminhou de um lado para o outro, escolhendo os melhores locais para colocar as amostras, para acrescentar outros pequenos toques que inspirassem os clientes a comprar.

Quando Logan chegou, à uma e um quarto, ela estava sentada nos degraus, a fazer uma lista das potenciais mostras e arranjos e a calcular a mão-de-obra necessária para os criar.

Levantou-se assim que ele saiu da carrinha.

- Desculpa o atraso.

- Não há problema. Estive entretida.

- Não te importas de ir na carrinha?

- Não seria a primeira vez. - Entrou e, enquanto punha o cinto, estudou a floresta de bilhetes e apontamentos, esboços e contas, presos ao tablier.

- É o teu sistema de arquivo?

- A maior parte dele. - Ligou o leitor de CDs e Elvis começou a cantar ”Heartbreak Hotel”. - Parece adequado.

- És um grande fã?

- Temos de respeitar o Rei.

- Quantas vezes já estiveste em Graceland?

- Não sei. Qualquer pessoa de fora que vem cá quer vê-la. Uma visita a Memphis inclui Craceland, Beale Street, entrecosto e a caminhada dos patos no Peabody.

Talvez pudesse descontrair-se, decidiu Stella. Afinal de contas, estavam apenas a conversar. Como pessoas normais.

- Então esta é a primeira coisa na minha lista de coisas a fazer.

Ele olhou para ela. Apesar de ter os olhos escondidos pelas lentes escuras, Stella percebeu, pelo ângulo da sua cabeça, que estavam semicerrados e a fitá-la especulativamente.

- O quê, já cá estás há um mês e ainda não foste comer o nosso famoso entrecosto?

- Não. Achas que serei presa?

- És vegetariana?

- Não, e gosto de entrecosto.

- Querida, se não comeste o entrecosto de Memphis, então não sabes o que é entrecosto. Os teus pais não vivem cá? Acho que já os conheci.

- O meu pai e a mulher, sim. Will e Jolene Dooley.

- E nada de entrecosto?

- Pelos vistos, não. Achas que eles podem ser presos?

- É possível, se a notícia se espalhar. Mas eu vou portar-me bem e manter o silêncio, por enquanto.

- Suponho que ficamos a dever-te uma.

A seguir a ”Heartbreak Hotel” começou a tocar ”Shake, Rattle and Roll”. Esta era a música do seu pai, pensou Stella. Era estranho, e de certa forma enternecedor, ir a bater o pé a caminho de Memphis, a ouvir a música que o seu pai ouvira em adolescente.

- O que tens a fazer é levar os miúdos a Reunion para comerem entrecosto - disse-lhe Logan. - De lá podem ir a pé até Beale, para verem o espectáculo. Mas, antes de comerem, têm de passar pelo Peabody para verem os patos. Os miúdos têm de ver os patos.

- O meu pai já os levou.

- Isso é capaz de o safar da cadeia.

- Que alívio. - Era mais fácil do que ela julgara que seria, e sentiu-se uma pateta ao pensar que preparara várias entradas de conversa de circunstância. - Tirando a época em que estiveste no Norte, viveste sempre na área de Memphis?

- Exactamente.

- É estranho para mim saber que nasci aqui, mas não ter nenhuma recordação. Gosto de cá estar, e gosto de pensar... excluindo a falta de entrecosto, até ao momento... que existe uma ligação. Claro que ainda não passei cá o Verão... que me lembre... mas gosto. Adoro trabalhar para a Roz.

- Ela é uma jóia.

Ao ouvir o afecto na sua voz, Stella virou o rosto para ele.

- Ela pensa o mesmo de ti. Na verdade, inicialmente, pensei que vocês os dois fossem...

O sorriso dele abriu-se mais.

- A sério?

- Ela é bonita e inteligente, e têm muito em comum. Têm uma história.

- É tudo verdade. Provavelmente, a nossa história faz com que algo desse género fosse muito estranho. Mas obrigado.

- Admiro-a muito. Também gosto dela, mas tenho uma grande admiração por tudo o que ela alcançou. Sozinha. Criar a família, manter a casa, construir um negócio do zero. E sempre à sua maneira, tomando ela própria todas as decisões.

- É isso que queres para ti?

- Não quero ter um negócio. Pensei nisso há alguns anos. Mas dar um salto desses sem pára-quedas e com dois filhos? - Abanou a cabeça.

- A Roz é mais corajosa do que eu. De resto, percebi que não era isso o que eu realmente queria. Gosto de trabalhar para outra pessoa, de resolver problemas e de apresentar planos criativos e eficientes de melhoramento ou expansão. A gestão é aquilo em que eu sou melhor.

Fez uma curta pausa.

- Não tens nenhum comentário sarcástico para fazer a esse respeito?

- Só em pensamento. Assim posso guardá-lo para quando me irritares outra vez.

- Mal posso esperar. Seja como for, eu gosto de plantar um jardim do zero... como começar a escrever numa folha em branco. Mas, mais do que isso, gosto de pegar num jardim que não foi muito bem planeado, ou que precisa de melhoramentos, e dar-lhe a volta.

Fez uma pausa e franziu a testa.

- É engraçado, acabo de me lembrar de um sonho que tive há algumas noites sobre um jardim. Um sonho muito estranho, com... não sei, com qualquer coisa de sinistro. Não consigo lembrar-me de tudo, mas havia... uma dália azul, enorme e maravilhosa. As dálias são das minhas flores preferidas, e o azul é a cor de que mais gosto. Apesar disso, ela não devia estar ali, não era o lugar dela. Eu não a tinha plantado. Mas ali estava. Estranho.

- O que é que fizeste com ela? Com a dália?

- Não me lembro. O Luke acordou-me e o meu jardim e a dália exótica evaporaram-se. - ”E o quarto”, pensou, ”o quarto estava gelado.” - Ele não se estava a sentir bem, estava maldisposto.

-Já está bom?

- Sim. - ”Mais um ponto a favor dele”, pensou Stella. - Está óptimo, obrigada.

- E o dente?

”Oh, oh! Segundo ponto positivo.” Ele lembrava-se de que o seu filho tinha um dente a abanar.

- Vendido à Fada dos Dentes por uma nota de dólar novinha em folha. O segundo está quase a cair. Agora fala à ”sopinha de massa”, é muito engraçado.

- O irmão já o ensinou a cuspir pelo buraco do dente? Ela fez uma careta.

- Que eu saiba, não.

- Olhos que não vêem... Aposto que ainda lá está. A dália mágica a florescer na terra dos sonhos.

- É um pensamento agradável. - Mata-o. ”Céus, de onde veio isto?”, pensou, estremecendo. - Era espectacular, se bem me lembro.

Olhou para a janela quando ele entrou num parque de estacionamento.

- É aqui?

- É do outro lado da estrada. Aqui é uma espécie de centro de visitantes, a área de organização. É onde se compram os bilhetes e os grupos são transportados de miniautocarro a partir daqui.

Desligou o motor e virou-se para ela.

- Aposto cinco dólares em como, quando sairmos, estarás totalmente convertida.

- Convertida ao Elvis? Nunca tive nada contra ele.

- Cinco dólares. Depois da visita, vais comprar no mínimo um CD do Elvis.

- Apostado.

Era muito mais pequeno do que ela imaginara. Tinha imaginado uma grande propriedade, uma espécie de mansão, ao nível da Harper House. Em vez disso, era uma casa de tamanho relativamente modesto, e as divisões - pelo menos as incluídas na visita - eram bastante pequenas.

Avançou lentamente com o resto dos turistas, ouvindo as memórias e observações gravadas de Lisa Marie Presley através dos auscultadores que lhe tinham sido fornecidos.

Observou assombrada os tecidos pregueados, em tons de amarelo-torrado, azul e cor de vinho, que pendiam do tecto e cobriam cada centímetro das paredes na sala de jogos atafulhada, dominada por uma mesa de bilhar. Depois olhou maravilhada para a cascata, as gravuras de animais selvagens e os acessórios polinésios, coroados por um tecto forrado com uma carpete verde, na sala da selva.

”Alguém viveu aqui”, pensou. Não apenas alguém, mas um ícone - um homem famoso, de um talento miraculoso. E era enternecedor ouvir uma mulher, que era uma criança quando perdera esse pai famoso, falar sobre o homem que recordava e que amara.

A sala dos trofeus era espantosa e as suas objecções de estilo foram imediatamente substituídas por uma sensação de deslumbramento. Parecia que quilómetros de parede, nos corredores sinuosos, estavam cobertos de cima a baixo com os discos de ouro e platina de Elvis. Tudo aquilo alcançado e conquistado em menos anos do que ela tinha de vida.

E, com Elvis a cantar nos auscultadores, admirou os seus feitos, observou maravilhada os seus inúmeros fatos elaborados e espalhafatosos. Depois, deixou-se encantar pelas suas fotografias, pelos cartazes dos seus filmes e pelos recortes das suas entrevistas.

Logan descobriu que se aprendia muito sobre uma pessoa a passear com ela por Craceland. Algumas pessoas riam-se da decoração ultrapassada e discutivelmente pirosa. Outras paravam, com os olhos vidrados de adoração pelo Rei morto. Outras caminhavam ao som da música, olhando à sua volta de boca aberta ou conversando entre si, de passo acelerado para poderem despachar-se a chegar às lojas de recordações. Depois podiam ir para casa e dizer que já lá tinham estado.

Mas Stella olhava para tudo. E ouvia. Logan percebia que ela estava a ouvir atentamente a gravação, pela forma como tinha a cabeça ligeiramente inclinada para a direita. ”A ouvir seriamente”, pensou ele, e apostaria muito mais do que cinco dólares em como ela estava a seguir as instruções da fita gravada, pressionando o número para activar o segmento seguinte exactamente na altura certa.

Na verdade, era engraçado de se ver.

Quando saíram para a pequena peregrinação à campa de Elvis ao lado da piscina, ela tirou os auscultadores pela primeira vez.

- Não sabia nada disto - começou. - Sabia apenas as coisas mais básicas. Mais de mil milhões de discos vendidos? É quase incompreensível. Nem consigo imaginar como seria fazer tudo isso e... estás a rir-te de quê?

- Aposto que se fizesses um teste sobre o Elvis agora terias pontuação máxima.

- Cala-te. - Mas riu-se, ficando novamente séria enquanto caminhavam, ao sol, em direcção ao Jardim da Meditação e à campa do Rei.

Havia flores, flores vivas a murcharem ao sol e flores de plástico com as cores desbotadas. E a pequena sepultura ao lado da piscina parecia ao mesmo tempo excêntrica e adequada. À sua volta, as máquinas fotográficas disparavam e Stella ouviu alguém a soluçar.

- Há quem afirme ter visto o fantasma dele ali - Logan apontou. - Isto, claro, se é que ele está mesmo morto.

- Não acreditas nisso, com certeza.

- Oh, não, o Elvis deixou o edifício há muito tempo.

- Estava a falar do fantasma.

- Bom, se ele quisesse assombrar algum sítio, seria este com certeza. Voltaram para o local onde o miniautocarro os aguardava.

- As pessoas por aqui falam de fantasmas com uma grande naturalidade. Ele demorou um minuto a perceber.

- Oh, a Noiva Harper! Já a viste?

- Não, não vi. Mas talvez isso seja apenas porque ela não existe. Não me vais dizer que já a viste.

- Não. Muitas pessoas afirmam tê-la visto, mas também há quem diga ter visto o Elvis a comer sanduíches de manteiga de amendoim e banana num restaurante qualquer, dez anos depois de ele ter morrido.

- Exactamente! - Ela estava tão satisfeita com o bom senso dele que lhe deu uma palmadinha no braço. - As pessoas vêem o que querem ver, ou o que foram educadas para ver, ou o que esperam ver. A imaginação não tem limites, principalmente nas condições ou na atmosfera certas. Deviam fazer qualquer coisa melhor com estes jardins, não achas?

- Nem me faças falar.

- Tens razão. Nada de falar de trabalho. Em vez disso, vou agradecer-te por me teres trazido. Não sei se teria cá vindo sozinha.

- O que achaste?

- Triste, enternecedor e fascinante. - Entregou os auscultadores ao funcionário e entrou no autocarro. - Algumas das divisões tinham uma decoração bastante... única, digamos.

Os braços de ambos tocaram-se, roçaram e ficaram encostados um ao outro nos assentos apertados do autocarro. O cabelo de Stella ficou caído sobre o ombro dele até ela o puxar para trás. Logan teve pena que ela o tivesse feito.

- Conheci um tipo que era um fã incondicional do Elvis. Dedicou-se a fazer uma réplica de Graceland em sua casa. Arranjou um tecido como aquele que vimos na sala de jogos e forrou as paredes e o tecto.

Ela virou-se para ele.

- Estás a brincar.

Logan fez uma cruz com o dedo sobre o coração.

- Juro. Até fez um rasgão na mesa de bilhar para ficar igual à do Elvis. Quando ele falou em arranjar aqueles electrodomésticos amarelos...

- Dourados.

- Seja lá o que for. Quando começou a dizer que ia arranjar uns iguais, a mulher fez-lhe um ultimato. Ela ou o Elvis.

O rosto de Stella iluminou-se com uma expressão divertida e Logan deixou de ouvir a conversa dos outros passageiros. Havia qualquer coisa nela, quando sorria, que o deixava tonto.

- E quem é que ele escolheu? -Hum?

- Quem é que ele escolheu? A mulher ou o Elvis?

- Bem. - Logan esticou as pernas, mas não conseguia afastar o corpo do dela. O sol incidia na janela, reflectindo-se naqueles caracóis ruivos. - Contentou-se em fazer a recriação na cave, e estava a tentar convencê-la a deixá-lo pôr um modelo em escala mais reduzida do Jardim da Meditação no quintal.

Ela soltou uma gargalhada deliciosa. Quando encostou a cabeça ao banco, o seu cabelo caiu de novo sobre o ombro dele.

- Se ele conseguir convencê-la, espero que nós fiquemos com o trabalho.

- Podes contar com isso. Ele é meu tio. Ela riu-se de novo, até ficar sem fôlego.

- Bolas, mal posso esperar por conhecer a tua família. - Olhou para ele.

- Vou confessar que só aceitei vir hoje contigo porque não queria estragar um gesto simpático com uma recusa. Não estava à espera de me divertir.

- Não foi bem um gesto simpático, mais um impulso de momento. O teu cabelo cheirava bem e isso toldou-me os sentidos.

A ironia invadiu-lhe o rosto enquanto puxava o cabelo para trás.

- Agora devias dizer-me que também te divertiste.

- Por acaso, diverti-me.

Quando o autocarro parou, ele levantou-se e chegou-se para trás para a deixar passar.

- Por outro lado, o teu cabelo ainda cheira bem, portanto pode ter sido por causa disso.

Ela lançou-lhe um sorriso por cima do ombro e, bolas, ele sentiu um aperto na barriga. Geralmente esse aperto significava a possibilidade de diversão e prazer. Com ela, Logan achava que significava sarilhos.

Porém, fora educado para levar as coisas até ao fim e a sua mãe ficaria horrorizada e chocada se ele não levasse uma mulher com quem passara a tarde a comer qualquer coisa.

- Tens fome? - perguntou, depois de descer do autocarro atrás dela.

- Oh... Bom, é demasiado cedo para jantar e demasiado tarde para almoçar... Eu devia...

- Perde a cabeça. Come fora do horário das refeições. - Pegou-lhe na mão e ela ficou tão surpreendida que nem lhe ocorreu protestar enquanto ele a puxava para um dos restaurantes no local.

- Não devia mesmo demorar-me. Disse à Roz que estaria de volta às quatro.

- Sabes, se continuares tão tensa por muito mais tempo, vais acabar por arranjar uma úlcera.

- Não estou tensa - objectou ela. - Sou apenas responsável.

- A Roz não tem relógio de ponto nos viveiros e um cachorro-quente não demora assim tanto tempo.

- Não, mas... - Gostar dele era muito inesperado. Tão inesperado como o arrepio na sua pele ao sentir aquela mão grande e forte a segurar a dela. Há muito tempo que não estava na companhia de um homem. Porquê pôr já fim à tarde?

- Está bem - assentiu, apesar de o seu assentimento ser supérfluo, pensou, pois ele já a tinha puxado para junto do balcão. - Bom, já que estou aqui, se calhar podia perder um minuto ou dois e dar uma vista de olhos nas lojas.

Ele pediu dois cachorros-quentes e duas Coca-Colas e sorriu-lhe.

- Está bem, espertinho. - Ela abriu a mala e procurou a carteira, da qual tirou uma nota de cinco dólares. - Vou comprar o CD. E a minha Coca-Cola é light.

Comeu o cachorro-quente e bebeu a Coca-Cola. Comprou o CD. Mas, ao contrário de qualquer outra mulher que Logan conhecia, Stella não parecia sentir nenhuma obrigação religiosa de olhar e de mexer em tudo o que havia na loja. Fez o que tinha a fazer e saiu - metódica, despachada e precisa.

Enquanto regressavam à carrinha, reparou que ela estava outra vez a olhar para o telemóvel.

- Há algum problema?

- Não - respondeu ela, voltando a guardar o telemóvel na mala. - Estava só a ver se tinha alguma mensagem. - Mas parecia que toda a gente tinha sobrevivido sem ela durante uma tarde.

A menos que houvesse algum problema com os telefones. Ou que tivessem perdido o número dela. Ou...

- Os viveiros podem ter sido atacados por psicopatas com um fetiche por petúnias - disse Logan, enquanto lhe abria a porta. - Os funcionários podem estar todos amarrados e amordaçados na estufa de propagação neste preciso momento.

Stella fechou a mala com um gesto decidido.

- Não acharias tanta graça se chegássemos lá e isso tivesse acontecido mesmo.

- Oh, sim, acredita que acharia.

Deu a volta à carrinha e sentou-se ao volante.

- Tenho uma personalidade obsessiva, linear e orientada por objectivos, com fortes tendências organizativas.

Ele olhou para ela.

- Ainda bem que me disseste. Tinha ficado com a impressão de que eras uma cabeça no ar.

- Bom, chega de falar sobre mim. Porque...

- Porque insistes em fazer isso?

Ela fez uma pausa, com as mãos no ar.

- Fazer o quê?

- Por que diabo estás sempre a enfiar esses ganchos no cabelo?

- Porque eles estão sempre a cair.

Deixando-a chocada e sem palavras, ele estendeu a mão, tirou-lhe os ganchos e atirou-os para o chão da carrinha.

- Nesse caso, porque te dás sequer ao trabalho de os pôr?

- Bom, por amor de Deus. - Ela olhou para os ganchos de testa franzida. - Quantas vezes por semana é que alguém te diz que és arrogante e autoritário?

- Nunca as contei. - Saiu do parque de estacionamento. - O teu cabelo é sexy. Devias deixá-lo à vontade.

- Muito obrigada pelos conselhos de beleza.

- Normalmente, as mulheres não ficam amuadas quando um homem lhes diz que são sexy.

- Não estou amuada e tu não disseste que eu era sexy. Disseste que o meu cabelo era sexy.

Ele tirou os olhos da estrada o tempo suficiente para a olhar de cima a baixo.

- O resto também não está mal.

Bom, alguma coisa não estava bem quando um elogio daqueles a fazia sentir calor na barriga. Era melhor voltar a temas de conversa mais seguros.

- Voltando ao que te ia perguntar antes de ser tão estranhamente interrompida, porque te dedicaste ao design paisagístico?

- Um emprego de Verão, que foi ficando. Ela esperou um, dois, três segundos.

- Sinceramente, Logan, não é preciso aborreceres-me com tantos pormenores.

- Desculpa. Nunca sei quando devo calar-me. Cresci numa quinta.

- A sério? E gostavas ou odiavas?

- Estava habituado, basicamente. Gosto de trabalhar ao ar livre e não me importo de fazer trabalho duro e físico.

- Que tagarela - disse Stella, quando ele se calou de novo.

- Não há muito mais para contar. Não queria ser agricultor e, de qualquer maneira, o meu pai vendeu a quinta há alguns anos. Mas gosto de trabalhar a terra. É o que eu gosto de fazer e o que eu faço bem. Não vale a pena fazermos uma coisa de que não gostamos ou na qual não somos bons.

- Vamos experimentar outra abordagem. Como é que soubeste que eras bom nisso?

- Nunca ter sido despedido foi uma pista. - Ele não via como é que ela podia estar interessada nisto, mas, uma vez que estava a insistir, sempre dava para passarem o tempo. - Sabes quando andamos na escola e, por exemplo em História, se fala na Batalha de Hastings, ou na travessia do Rubicão, ou sabe Deus em quê? Entrava e saía - disse, tocando num lado da cabeça e depois no outro. - Eu decorava o que era preciso, durante o tempo suficiente para fazer o teste e depois puf. Mas, no trabalho, o patrão dizia-me ”Vamos pôr as cotoneasters ali, alinhar aquelas bérberis ali”, e eu não me esquecia. Nem do que eram nem do que precisavam. Gostava de as plantar. Dava-me satisfação cavar o buraco, preparar o solo, mudar o aspecto das coisas. Tornar as coisas mais agradáveis à vista.

- Pois é - concordou ela. - Acredites ou não, é mais ou menos o que sinto em relação aos meus arquivos.

Ele lançou-lhe um olhar de esguelha e ela reprimiu um sorriso.

- Não me digas. Seja como for, às vezes pensava que se calhar as cotoneasfers ficariam melhor ali e, em vez de bérberis, camecipáris realçariam mais esta secção. Assim, fui-me inclinando para o design.

- Eu pensei no design durante algum tempo. Não sou muito boa - disse ela. - Apercebi-me de que era difícil adaptar a minha visão à do resto da equipa... ou do cliente. Ficava demasiado presa à matemática e ciência da coisa e bloqueava quando era altura de passar para a parte artística.

- Quem é que tratava do paisagismo quando estavas no Norte?

- Era eu. Se tinha alguma coisa em mente que exigia maquinaria ou mais músculos do que eu e o Kevin tínhamos juntos, fazia uma lista para dar aos subempreiteiros. - Sorriu. - Uma lista muito pormenorizada e específica, com o design passado para papel de gráficos. Depois andava constantemente de roda deles. Sou uma campeã a andar de roda das pessoas.

- E nunca ninguém tentou empurrar-te para um buraco e enterrar-te?

- Não. Mas, por outro lado, sou uma pessoa muito simpática e agradável. Talvez, quando chegar a altura de eu procurar a minha própria casa, possas ajudar-me com o design dos jardins.

- Mas eu não sou simpático nem agradável.

- Vou ter isso em mente.

- E não será um grande passo para uma maníaca dos pormenores, obsessiva e linear, confiar em mim quando só viu um dos meus trabalhos, ainda por cima na fase inicial?

- Não concordo com o termo ”maníaca”. Prefiro ”entusiasta”. E por acaso já vi vários dos teus trabalhos completos. Tirei algumas moradas dos ficheiros e dei uma volta por aí. É o que eu faço - disse, quando ele travou num sinal Stop e olhou para ela. - Passei algum tempo a ver o Harper trabalhar, e a Roz, bem como todos os empregados. Fiz questão de ver alguns dos teus trabalhos terminados. E gosto do teu trabalho.

- E se não tivesses gostado?

- Se não tivesse gostado, não diria nada. Isso é com a Roz e é evidente que ela gosta do teu trabalho. Mas teria feito alguma pesquisa sobre outros paisagistas, discretamente, depois faria um relatório e entregá-lo-ia à Roz. É o meu trabalho.

- E eu a pensar que o teu trabalho era gerir os viveiros e aborrecer-me com formulários.

- Também é. Parte desse trabalho de gestão é garantir que todos os empregados, subempreiteiros, fornecedores e equipamentos não sejam apenas adequados para a empresa No Jardim, mas os melhores que a Roz pode pagar. Tu és caro - acrescentou -, mas o teu trabalho justifica-o.

Quando viu que ele continuava de testa franzida, espetou-lhe o dedo no braço.

- Normalmente, os homens não ficam amuados quando uma mulher elogia o trabalho deles.

- Ah! Os homens nunca amuam, cismam.

Ela tinha uma certa razão. Mas ocorreu-lhe que sabia muito sobre ele coisas pessoais. Quanto dinheiro ganhava, por exemplo. Quando perguntou a si próprio como se sentia em relação a isso, a resposta foi: ”Não muito à vontade.”

- O meu trabalho, o meu salário e os meus preços são apenas entre mim e a Roz.

- Já não - disse ela em tom jovial. - A Roz tem a última palavra, claro, mas eu estou aqui para gerir. Só estou a dizer que, na minha opinião, a Roz mostrou intuição e bom senso comercial quando te trouxe para trabalhar para ela. Paga-te muito bem porque tu o mereces. Há alguma razão para não poderes tomar isto como um elogio e ultrapassarmos a fase da cisma?

- Não sei. Quanto é que ela te paga?

- Isso é entre mim e ela, mas tens toda a liberdade para lhe perguntar.

- O tema da Guerra das Estrelas começou a tocar dentro da sua mala. - É o toque do Gavin - explicou, enquanto procurava o telemóvel e via que a chamada vinha de casa. - Estou? Olá, querido.

Embora ainda estivesse um pouco aborrecido, Logan viu o rosto de Stella iluminar-se.

- A sério? És o máximo. Sim. Claro que sim. Até já. Fechou o telefone e voltou a guardá-lo na mala.

- O Gavin teve nota máxima no teste de vocabulário. -Boa.

Ela riu-se.

- Nem imaginas o que isso é. Tenho de ir buscar uma piza de pepperoni. Na nossa família, não é uma cenoura na ponta de um pau que usamos como motivação... ou simplesmente suborno... é piza de pepperoni.

- Subornas os teus filhos?

- Muitas vezes e sem qualquer peso na consciência.

- Muito esperta. Como é que eles se estão a dar na escola?

- Bem. Tanta preocupação e sentimento de culpa da minha parte para nada. Tenho de me lembrar disso no futuro. Foi uma grande mudança para eles... casa nova, escola nova, pessoas novas. O Luke tem facilidade em fazer amigos, mas o Gavin às vezes é um bocadinho tímido.

- Não me pareceu nada tímido. O miúdo tem energia. Têm os dois.

- Isso foi por causa da ligação da banda desenhada. Qualquer amigo do Homem-Aranha, blá, blá, blá... Por isso é que foram simpáticos contigo. Mas estão ambos a adaptar-se muito bem. Portanto, posso riscar da minha lista de motivos de preocupação o trauma dos meus filhos por terem sido arrancados aos seus amigos.

- Aposto que tens mesmo uma lista.

- Todas as mães têm. - Soltou um suspiro satisfeito quando ele estacionou em frente dos viveiros. - Foi um dia muito agradável. Este sítio não é fantástico? Olha para ele. Activo, bonito, eficiente, acolhedor. Invejo a visão da Roz, já para não falar da sua coragem.

- Não me parece que tenhas muita falta de coragem.

- Isso é um elogio?

Ele encolheu os ombros.

- É uma observação.

Stella gostava de ser vista como uma pessoa corajosa, portanto não lhe disse que passava grande parte do tempo assustada. A ordem e a rotina eram sólidos muros defensivos que mantinham o medo à distância.

- Bom, muito obrigada. Pela observação e pela tarde. Gostei muito das duas. - Abriu a porta e saiu. - E a ida à cidade para comer entrecosto está na minha lista de coisas a fazer.

- Não te vais arrepender. - Ele saiu e contornou a carrinha até junto dela. Não sabia bem porquê. Hábito, talvez. Boas maneiras arraigadas que a mãe lhe incutira desde rapaz. Mas este não era o tipo de situação em que o rapaz tinha de acompanhar a rapariga à porta para lhe roubar um beijo de boas-noites.

Stella pensou em estender a mão, mas parecia formal e ridículo. Portanto, limitou-se a sorrir.

- Vou pôr o CD para os rapazes ouvirem - disse, abanando a mala. Vamos ver o que eles acham.

- Muito bem. Até à próxima.

Logan começou a dirigir-se à carrinha. Depois praguejou entre dentes, atirou os óculos de sol para cima do capô e voltou para trás.

- Mais vale levar isto até ao fim.

Ela não era lenta e não era ingénua. Percebeu o que ele tencionava fazer quando ainda estava a um passo de distância. Mas parecia incapaz de se mexer.

Ouviu brotar dos seus próprios lábios um som indistinto - não uma palavra - e depois os dedos dele enfiaram-se no seu cabelo, segurando-lhe a cabeça com pressão suficiente para a obrigar a pôr-se em bicos de pés. Viu os olhos dele. Havia salpicos dourados no meio do verde.

Depois tudo se desfocou e a boca dele, quente e forte, estava sobre a sua.

Não havia nada de hesitante no beijo, nada de experimental ou particularmente amigável. Era apenas exigente, com um vestígio de irritação. ”Tal como o homem”, pensou ela vagamente. Ele estava a fazer o que tencionava fazer, determinado em ir até ao fim, mas não particularmente contente com isso.

E no entanto Stella sentiu o coração na garganta, palpitante, bloqueando-lhe as palavras e a respiração. Os dedos da mão que erguera contra o ombro dele, numa espécie de defesa aturdida, apertaram com força. Depois deslizaram para o cotovelo dele, sem forças, quando Logan levantou a cabeça.

Com a mão ainda no cabelo dela, disse:

- Raios!

Puxou-a de novo até ela estar em bicos de pés e passou o braço à sua volta, colando o corpo ao dela. Quando a sua boca baixou uma segunda vez, o resto do cérebro de Stella que ainda não tinha entrado em curto-circuito derreteu por completo.

Ele não devia ter pensado em beijá-la. Mas, depois de ter pensado, não parecia razoável virar costas e deixá-lo por fazer. E agora estava metido em sarilhos, completamente enredado naquele cabelo rebelde, naquele aroma sexy, naqueles lábios macios.

E, quando aprofundou o beijo, ela emitiu um ligeiro som, uma espécie de gemido abafado. Como diabo é que um homem podia evitar desejá-la?

O cabelo dela era como uma teia de seda encaracolada, e o corpo bonito e curvilíneo vibrava contra o seu como uma máquina bem afinada, preparada para entrar em acção. Quanto mais tempo a apertava, mais conseguia saboreá-la e mais longínquos pareciam os sinos de aviso que o recordavam de que não queria envolver-se com ela. Fosse de que maneira fosse.

Quando conseguiu libertá-la, recuou e viu o sangue subir-lhe às faces. Tornava-lhe os olhos mais azuis, maiores. Dava-lhe vontade de a pôr ao ombro e de a levar para qualquer lado, qualquer lado onde pudessem acabar o que aquele beijo começara. Como a ânsia de o fazer era tal que doía, recuou mais um passo.

- Muito bem - julgou ter dito num tom calmo, mas não tinha a certeza, por causa do barulho do sangue a rugir-lhe nos ouvidos. - Vemo-nos por aí.

Voltou para a carrinha e entrou. Conseguiu ligar o motor e meter a marcha atrás. Depois pisou novamente o travão quando o sol lhe bateu nos olhos.

Viu Stella avançar, pegar nos óculos escuros que tinham saltado do capô e caído para cima do cascalho. Abriu a janela quando ela se aproximou.

Os seus olhos não se desviaram dos dela quando estendeu a mão.

- Obrigado.

- De nada.

Pôs os óculos, recuou, virou o volante e saiu do parque de estacionamento.

Sozinha, Stella soltou um longo suspiro trémulo e respirou fundo; depois soltou a respiração, enquanto ordenava às pernas fracas que a levassem até ao alpendre.

Conseguiu chegar aos degraus e deixou-se cair sobre eles.

- Santa mãe de Deus - murmurou.

Deixou-se ficar ali sentada, mesmo quando um cliente saiu e outro entrou, a tremer e sentindo tudo dentro de si aos saltos. Sentia-se como se tivesse caído de um precipício e estivesse agarrada com os dedos suados - por pouco, por muito pouco - a uma pequena saliência prestes a desfazer-se.

O que havia de fazer em relação a isto? E como havia de raciocinar, quando nem sequer conseguia pensar?

O melhor era não tentar raciocinar enquanto não conseguisse pensar. Levantou-se e limpou as palmas húmidas às calças. Por agora, ia regressar ao trabalho, mandar vir uma piza e depois voltar para casa, para junto dos filhos. Voltar para o que era normal.

Sempre se dera melhor com a normalidade.

 

Harper escavou a terra na base da clematite que trepava pela latada de ferro. Este lado do jardim era muito calmo. Os arbustos e as árvores ornamentais, os caminhos e os canteiros, separavam aquilo a que ele ainda chamava casa de hóspedes do edifício principal.

Os narcisos começavam a abrir, o amarelo-vivo fazendo um forte contraste com o verde primaveril. As túlipas seriam as próximas. Eram uma das suas coisas preferidas neste início de Primavera, por isso plantara um canteiro de bolbos mesmo à porta da cozinha da casa de hóspedes.

A casa era uma pequena cocheira convertida e, segundo todas as mulheres que já lá levara, era encantadora. ”Casinha de bonecas” era a expressão geralmente utilizada. Ele não se importava, apesar de pensar mais na casa como uma casa de campo ou uma casa de caseiro, com as aduelas de cedro caiadas e o telhado inclinado. Era confortável, por dentro e por fora, e mais do que adequada para as suas necessidades.

Havia uma pequena estufa a poucos metros da porta das traseiras e esse era o seu domínio pessoal. A casinha estava suficientemente longe da casa principal para ter privacidade, pelo que não precisava de se sentir mal quando tinha convidadas do sexo feminino a passar lá a noite. No entanto, era suficientemente perto para poder chegar à casa principal em poucos minutos, se a mãe precisasse dele.

Não gostava que ela estivesse sozinha, apesar de David estar por perto. E dava graças a Deus pela presença de Davíd. Pouco lhe importava que ela fosse auto-suficiente ou a pessoa mais forte que ele conhecia. Simplesmente, não gostava da ideia de a mãe estar sozinha naquela grande casa velha, dia após dia, noite após noite.

Embora sem dúvida fosse preferível assim a ter ficado com aquele imbecil com quem casara. Não havia palavras que descrevessem como desprezava Bryce Clerk. Supunha que o facto de a mãe ter caído na conversa dele provava que ela não era infalível, mas fora um raio de um erro para uma pessoa que raramente cometia erros.

Embora ela lhe tivesse dado guia de marcha, rapidamente e sem misericórdia, Harper ficara preocupado, sem saber como acertaria ele o corte de relações - com Roz, com a casa, com o dinheiro, com tudo.

E diabos o levassem se ele não tinha tentado entrar à socapa na casa, uma vez, na semana antes de o divórcio se tornar definitivo. Harper não tinha dúvidas de que a mãe teria conseguido lidar com ele, mas não fizera mal nenhum estar por perto.

E o prazer que lhe dera poder correr com aquele filho-da-mãe interesseiro, falso e mentiroso, não tinha descrição.

Mas talvez já tivesse passado tempo suficiente. E não se podia dizer que actualmente ela estivesse sozinha na casa, de maneira alguma. Duas mulheres e dois miúdos eram muita companhia. Com isso e com o negócio, ela andava mais ocupada do que nunca.

Talvez devesse começar a pensar em arranjar a sua própria casa.

O problema era que não conseguia pensar numa boa razão para o fazer. Adorava este local, como nunca amara uma mulher. Com uma espécie de paixão absorvente, respeito e gratidão.

Os jardins eram o seu lar, mais até do que a casa grande, mais do que a sua casinha. Na maior parte dos dias, podia sair de casa, dar uma boa e saudável caminhada e estava no trabalho.

Deus sabia que não queria mudar-se para a cidade. Aquela barulheira toda, aquela gente toda. Memphis era óptima para uma saída à noite uma discoteca, um encontro, para se juntar com os amigos. Mas, se lá vivesse, sufocaria em menos de um mês.

E decididamente não queria viver nos subúrbios. O que ele queria estava exactamente aqui, onde vivia agora. Uma casinha bonita, vastos jardins, uma estufa e o trabalho a curta distância.

Agachou-se sobre os calcanhares e ajeitou o boné que usava para o cabelo não lhe cair para os olhos. A Primavera estava a chegar. Não havia nada como a Primavera aqui. O cheiro, as vistas, até os sons.

A luz, com a aproximação do crepúsculo, estava mais suave. Quando o Sol se pusesse, o ar ficaria frio, mas já sem o gelo do Inverno.

Quando acabasse de plantar, iria buscar uma cerveja. E sentar-se-ia cá fora, na escuridão, ao fresco, a apreciar a solidão.

Tirou um amor-perfeito amarelo-vivo do tabuleiro e começou a plantá-lo.

Não a ouviu aproximar-se. Estava tão concentrado que nem reparou na sombra dela. Por isso, o ”Olá!” amigável fê-lo dar um salto.

- Desculpa. - Rindo, Hayley afagou a barriga. - Pelos vistos estavas muito longe daqui.

- Acho que sim. - De súbito, os dedos pareciam-lhe gordos e desajeitados, o cérebro lento. Ela tinha o sol por trás, pelo que teve de semicerrar os olhos quando os ergueu para ela. Um halo de luz circundava-lhe a cabeça e o rosto estava oculto pelas sombras.

- Estava só a dar uma volta e ouvi a tua música. - Indicou as janelas abertas, pelas quais se derramava o som dos REM. - Já os vi ao vivo, uma vez. Muito bons. Amores-perfeitos? São um artigo com muita saída neste momento.

- Bom, eles gostam do frio.

- Eu sei. Porque é que estás a pô-los aqui? Tens esta espécie de trepadeira.

- Clematite. Gosta de sombra nas raízes. Por isso... pomos plantas anuais em cima das raízes dela.

- Oh! - Agachou-se para ver melhor. - De que cor é a clematite?

- É púrpura. - Harper não tinha a certeza se uma mulher grávida devia agachar-se. As coisas lá dentro não ficariam muito apertadas? - Queres uma cadeira ou qualquer coisa?

- Não, estou bem. Gosto da tua casa.

- Sim, eu também.

- Parece um livro de histórias, com os jardins e tudo. Quer dizer, a casa grande é fantástica, mas às vezes é um bocadinho intimidante. - Fez uma careta. - Espero não estar a parecer ingrata.

- Não, eu percebo o que queres dizer. - Ajudava se continuasse a plantar. Ela não tinha cheiro de grávida. Tinha um cheiro sexy. E esse pensamento só podia ser errado. - É uma casa extraordinária e ninguém conseguiria arrancar de lá a minha mãe, nem com dinamite. Mas é muita casa.

- Demorei uma semana a ultrapassar o instinto de andar em bicos de pés e falar em voz baixa. Posso plantar um?

- Não tens luvas. Eu vou buscar...

- Bolas, não me importo de sujar as mãos. Hoje esteve cá uma senhora que me disse que dava sorte uma grávida plantar jardins. Qualquer coisa a ver com fertilidade, acho eu.

Ele não queria pensar em fertilidade. Havia nisso qualquer coisa de aterrorizador.

- Força.

- Obrigada. Queria dizer... - E era mais fácil com as mãos ocupadas.

- Bom, queria dizer-te que sei o que deve ter parecido eu surgir assim do nada, cair de pára-quedas à porta da tua mãe. Mas não vou abusar da sua boa vontade. Não quero que penses que eu era capaz de uma coisa dessas.

- Só conheci uma pessoa que foi capaz de o fazer, e não durante muito tempo.

- O segundo marido. - Hayley acenou enquanto calcava a terra à volta da planta. - Pedi ao David para me falar sobre ele, para não dizer qualquer coisa estúpida sem querer. Ele contou-me que ele meteu o pé na argola e enganou a Roz com outra mulher. - Escolheu outro amor-perfeito. - E que a Roz, quando soube, lhe deu um pontapé tão grande e com tanta força que ele só aterrou a meio caminho de Memphis. Tenho de a admirar, porque, mesmo estando furiosa, de certeza que isso a magoou. Além disso, é embaraçoso quando alguém... ops!

Encostou a mão à parte lateral da barriga e Harper ficou branco como a cal da parede.

- O que foi? O que foi?

- Nada. O bebé a mexer-se. Às vezes dá-me umas pontadas, mais nada.

- Devias levantar-te. Devias sentar-te.

- Deixa-me só acabar esta. Onde eu vivia, quando a barriga começou a notar-se, havia pessoas que pensavam que eu me tinha metido em sarilhos e que o pai do bebé me abandonara. Quer dizer, por amor de Deus, estamos no século XXI! Seja como for, isso irritava-me, mas também era embaraçoso. Acho que, em parte, foi por isso que me vim embora. É difícil estar constantemente embaraçada. Pronto. - Deu uma palmadinha na terra. Estão muito bonitos.

Ele levantou-se de um salto, para a ajudar a endireitar-se.

- Queres sentar-te um bocadinho? Queres que te acompanhe a casa? Ela deu uma palmadinha na barriga.

- Isto deixa-te nervoso.

- Parece que sim.

- A mim também. Mas está tudo bem. É melhor ficares a plantar o resto antes que escureça. - Olhou de novo para as flores, para a casa, para os jardins à sua volta, e aqueles olhos cor de água pareceram absorver tudo.

Depois fixaram-se no rosto dele e Harper sentiu a garganta seca.

- Gosto mesmo da tua casa. Vemo-nos no trabalho.

Ele ficou parado, como que pregado ao chão, enquanto ela se afastava, desaparecendo numa curva do caminho, em direcção ao crepúsculo.

Harper apercebeu-se de que estava exausto. Como se tivesse acabado de correr uma maratona. Ia beber a tal cerveja, sentar-se um bocado. Logo acabaria de plantar os amores-perfeitos.

Enquanto os miúdos levavam Parker a dar o seu passeio após o jantar, Stella arrumou a confusão que dois rapazes e um cão podiam fazer numa cozinha com uma piza de pepperoni.

- Na próxima noite de piza, pago eu - disse Hayley, enquanto arrumava os copos na máquina de lavar.

- Combinado. - Stella olhou para ela. - Quando eu estava grávida do Luke, só queria comida italiana. Piza, spaguette, manicotti. Fiquei surpreendida por ele não sair logo a cantar o ”Thats Amore”.

- Eu não tenho tido nenhum desejo específico. Como qualquer coisa. Sob a luz dos holofotes, lá fora, viu os dois rapazes e o cão a correrem.

- O bebé anda a mexer-se muito. É normal, não é?

- Claro. O Gavin enroscava-se e dormia. Tinha de espetar o dedo na barriga ou beber uns goles de Coca-Cola para ele se mexer. Mas o Luke fez ginástica na minha barriga durante meses. Não te deixa dormir?

- As vezes, mas não me importo. Sinto-me como se fôssemos as duas únicas pessoas do mundo. Só eu e ele... ou ela.

- Sei exactamente o que queres dizer. Mas, Hayley, se alguma vez estiveres acordada, preocupada, ou se não te sentires bem, podes vir ter comigo.

O nó que Hayley tinha na garganta desapareceu instantaneamente.

- A sério? Não te importas?

- Claro que não. Às vezes ajuda falar com alguém que já passou pelo mesmo.

- Não estou sozinha - disse Hayley baixinho, com os olhos nos rapazes do outro lado da janela. - Não como pensei que estaria. Como estava preparada para estar... acho eu. - Os seus olhos encheram-se de lágrimas, pestanejou e esfregou-os. - As malditas hormonas, céus!

- Chorar também ajuda. - Stella acariciou os ombros de Hayley.

- E quero que me digas se precisares de alguém que vá contigo às consultas.

- Quando lá estive, o médico disse que parecia estar tudo bem. Dentro do prazo previsto. E que eu devia inscrever-me em aulas, sabes, para o parto. Mas eles preferem que tenhamos um parceiro.

- Eu, eu!

Hayley riu-se e virou-se.

- A sério? Tens a certeza? É muito para te pedir.

- Adoraria. É quase tão bom como ter outro.

- Gostavas de ter outro? Se...

- Sim. Dois era o plano inicial, mas, assim que o Luke nasceu, eu pensei... como é que posso não fazer isto outra vez? Não seria divertido tentar ter uma menina? Mas outro rapaz também seria fantástico. - Inclinou-se sobre o balcão e olhou para a janela. - São fantásticos, os meus filhos, não são?

- São mesmo.

- O Kevin tinha tanto orgulho deles, adorava-os. Por ele, acho que teríamos meia dúzia.

Hayley percebeu a mudança de tom de voz e, desta vez, foi ela que pousou a mão no ombro de Stella.

- Magoa muito falar sobre ele?

- Agora já não. Durante algum tempo sim... durante muito tempo. Pegou num pano para limpar o balcão. - Mas agora é bom recordar. Reconfortante, suponho. Devia chamar os rapazes para dentro.

Porém, ao ouvir o som de passos no soalho de madeira, voltou-se. Quando Roz entrou, Stella olhou para ela de boca aberta.

Lembrava-se de que a primeira impressão que tivera de Rosalind Harper fora de uma mulher bela, mas esta era a primeira vez que via Roz explorar os seus atributos naturais.

Vestia um vestido cor de cobre liso, colado ao corpo, que fazia com que a pele parecesse brilhar. A saia e as sandálias de salto agulha realçavam as pernas esguias e tonificadas. Um delicado colar de filigrana, com uma lágrima de citrina, caía-lhe entre os seios.

- David? - Roz olhou em volta, depois revirou os olhos escuros e dramáticos. - Vou chegar atrasada por causa dele.

Stella soltou um assobio exagerado.

- Deixa-me dizer apenas, uau!

- Pois. - Ela sorriu e deu meia-volta. - Devia estar maluca quando comprei estes sapatos. Vão matar-me. Mas, quando tenho de me arrastar para um destes eventos de caridade, gosto de causar uma impressão duradoura.

- Se a impressão que pretendes deixar é ”sou fabulosa” - interveio Hayley -, acertaste em cheio.

- Era essa a intenção.

- Estás deslumbrante. Sexy, mas com classe. Todos os homens vão desejar poder levar-te para casa esta noite.

- Bom. - Com uma gargalhada, Roz abanou a cabeça. - É óptimo ter mulheres cá em casa. Quem havia de dizer? Vou chatear o David. Se eu não o apressar, vai ficar em frente do espelho mais meia hora.

- Diverte-te.

- Ninguém pode dizer que ela parece mãe de alguém - murmurou Stella entre dentes.

”Como estarei dentro de vinte anos?”, pensou Hayley.

Estudou o seu reflexo no espelho enquanto punha creme de vitamina. E na barriga e nos seios. Ainda conseguiria arranjar-se e saber que estava com bom aspecto?

Claro que não tinha uma matéria-prima tão boa com que trabalhar como Roz. Lembrava-se de a avó lhe ter dito uma vez que a beleza estava na estrutura óssea. Olhar para Roz ajudava a perceber exactamente o que isso queria dizer.

Nunca seria tão deslumbrante como Roz, nem tão vistosa como Stella, mas não era feia. Tratava da pele, experimentava os truques de maquilhagem que lia nas revistas.

Os rapazes sentiam-se atraídos por ela.

”Obviamente”, pensou, com um sorriso irónico, olhando para a barriga.

Pelo menos antes de engravidar. A maioria dos homens não se sentia atraída por mulheres grávidas. E não fazia mal, porque neste momento não estava interessada em homens. A única coisa que interessava era o seu bebé.

- Agora só tu é que importas, anjinho - disse, enquanto enfiava uma T-shirt larga.

Depois de se meter na cama e ajeitar as almofadas, pegou num dos livros empilhados na mesa-de-cabeceira. Tinha livros sobre o parto, sobre a gravidez, sobre o desenvolvimento dos bebés. Todas as noites lia um bocadinho de um.

Quando sentiu os olhos começarem a ficar pesados, fechou o livro.

Apagou a luz e aninhou-se.

- Boa noite, bebé - murmurou.

E sentiu-o precisamente quando estava a adormecer. Aquele pequeno arrepio, a certeza absoluta de que não estava sozinha. O seu coração começou a bater mais depressa, até conseguir ouvi-lo. Reunindo toda a sua coragem, entreabriu os olhos.

Viu a figura de pé ao lado da cama. O cabelo claro, o bonito rosto triste. Pensou em gritar, como pensava sempre que via a mulher. Mas controlou-se, encheu-se de coragem e estendeu a mão.

Quando a sua mão passou através do braço da mulher, Hayley não conseguiu conter um grito abafado. E depois estava sozinha, a tremer e à procura do interruptor do candeeiro.

- Não estou a imaginar coisas. Não estou!

Stella subiu para o banquinho para pendurar mais um cesto. Depois de olhar para as vendas do ano anterior e de fazer algumas contas, decidira aumentar a oferta em quinze por cento.

- Eu podia fazer isso - insistiu Hayley. - Não vou cair de um banquinho de nada.

- Nem penses. Passa-me esse. O das begónias.

- São mesmo bonitas. Tão luxuriantes.

- A Roz e o Harper começaram a criá-las durante o Inverno. As begónias e as alegrias-do-lar vendem-se muito. Com criadores como a Roz e o Harper, podemos tê-las em grandes quantidades, a baixo custo. Estas plantas são a base do nosso sustento.

- As pessoas podiam criá-las em casa, sairia mais barato.

- Claro. - Stella desceu, reposicionou o banco e subiu de novo. - Os gerânios - pediu. - Mas é difícil resistir a todas estas cores e flores. Mesmo jardineiros entusiastas, aqueles que fazem a sua própria propagação, têm dificuldade em resistir a flores grandes e bonitas. As flores, minha jovem aprendiza, vendem.

- E é por isso que estamos a pendurar estes cestos por todo o lado.

- Sedução. Espera até mudarmos algumas das anuais lá para fora, para a parte da frente. As cores vão atrair os clientes. As perenes de floração precoce também.

Escolheu outro cesto.

-Já está. Chama a Roz, está bem? Quero que ela veja isto e que me dê autorização para pendurar umas dezenas na estufa 3, junto do stock extra. E escolhe um vaso. Um dos grandes que não se venderam no ano passado. Quero arranjá-lo, pô-lo ao pé do balcão. Vou vender esse desgraçado. Na verdade, escolhe dois. Apaga o preço com desconto. Quando eu acabar, não só se venderão, como se venderão com um belo lucro.

- Está bem.

- Escolhe um dos vidrados cor de cobalto - gritou Stella. - Sabes quais são? E não pegues nele sozinha.

Na sua mente, Stella começou a planeá-lo. Flores brancas - alegrias-do-lar, cascatas de alissos, realçados pelo prateado de crisântemos e salva. Mais uma fila de petúnias brancas. Raios, devia ter dito a Hayley para trazer um dos vasos de pedra cinzenta. Faria um bom contraste com o cobalto. E usaria cores quentes. Gerânios encarnados, lobélias, verbenas, alegrias-do-lar vermelhas da Nova Guiné.

Somou e subtraiu plantas na cabeça, calculando o custo dos vasos, das plantas, da terra. E sorriu enquanto pendurava outro cesto.

- Não devias estar a tratar de papelada?

Quase caiu do banco e teria caído se uma mão não a segurasse por trás.

- Não é só isso que eu faço. - Começou a descer, mas percebeu que em cima do banco conseguia olhar para ele nos olhos sem inclinar a cabeça. -Já podes tirar a mão, Logan.

- Ela não se importa de estar aí. - Mas baixou-a e enfiou-a no bolso. Bonitos cestos.

- Queres comprar?

- Talvez. Tinhas uma expressão no rosto quando entrei.

- Geralmente tenho. Por isso é que se chama cara.

- Não, o tipo de expressão que as mulheres fazem quando estão a pensar em deixar um tipo babado.

- Tinha? Importas-te? - disse, apontando para um dos cestos. - Estás muito longe da verdade. Estava a pensar em como vou transformar dois vasos da prateleira dos descontos em mostras estupendas e os vou vender por um lucro considerável.

Enquanto pendurava o cesto, ele levantou outro e, limitando-se a esticar o braço, pendurou-o no sítio.

- Exibicionista.

- Baixota.

Hayley apareceu à porta, depois deu meia-volta rapidamente e voltou a sair.

- Hayley! - chamou Stella.

- Esqueci-me de uma coisa - respondeu ela, sem parar.

Stella respirou fundo e pensou em pedir outro cesto a Logan, mas ele já tinha pegado num e já o pendurara.

- Tens andado ocupado - disse ela.

- Tivemos tempo fresco e seco esta semana.

- Se vieste buscar os arbustos para o trabalho do Pitt, posso tratar da papelada.

- A minha equipa está a carregá-los. Quero ver-te outra vez.

- Bom, estás a ver-me.

Ele não tirou os olhos dos dela.

- Sei que não és parva.

- Não, não sou. Mas não sei se...

- Nem eu - interrompeu ele. - Mas isso não me impede de querer ver-te outra vez. É irritante pensar em ti.

- Obrigada. Isso realmente faz-me ter vontade de suspirar e cair nos teus braços.

- Não quero que me caias nos braços. Se quisesse, dava um pontapé nesse banco.

Ela pousou a mão no coração, bateu as pestanas e fez o seu melhor sotaque sulista.

- Meu Deus, este sentimentalismo todo é demais para mim. Ele sorriu.

- Gosto de ti, ruiva. Às vezes. Venho buscar-te às sete?

- O quê? Hoje? - O divertimento relutante transformou-se em pânico num abrir e fechar de olhos. - Não posso simplesmente sair assim, de um momento para o outro. Tenho dois filhos.

- E três adultos em casa. Há alguma razão para um deles ou os três não poderem tomar conta dos teus filhos durante algumas horas, esta noite?

- Não. Mas não lhes perguntei, um conceito que parece ser estranho para ti. E... - Afastou o cabelo da cara com um gesto irritado. - Podia ter outros planos.

- E tens?

Ela inclinou a cabeça e olhou para ele de cima.

- Tenho sempre planos.

- Aposto que sim. Então contorna-os. Já levaste os miúdos a comer entrecosto?

- Sim, a semana passada, depois de...

- Óptimo.

- Já reparaste na quantidade de vezes que me interrompes a meio de uma frase?

- Não, mas vou começar a contá-las. Olá, Roz.

- Olá, Logan. Stella, está fantástico. - Parou no meio do corredor, observando e acenando com a cabeça enquanto batia distraidamente com as luvas sujas nas calças manchadas de terra. - Não estava certa de que pendurar assim tantos fosse resultar, mas resulta. Talvez pela abundância de flores.

Tirou o boné, enfiou-o num dos bolsos de trás das calças e as luvas no outro.

- Estou a interromper alguma coisa? -Não.

- Sim - corrigiu Logan. - Mas não faz mal. Podes tomar conta dos filhos da Stella esta noite?

- Eu ainda não disse...

- Claro que sim. Vai ser divertido. Vão sair?

- Jantar. Depois deixo a factura na tua secretária - disse ele a Stella. Vemo-nos às sete.

Cansada de estar de pé, Stella sentou-se no banquinho e olhou para Roz de testa franzida enquanto Logan saía.

- Não me ajudaste nada.

- Acho que ajudei. - Ela estendeu o braço e virou um dos cestos para verificar a simetria das plantas. - Sai, diverte-te. Os miúdos ficam muito bem e eu vou gostar de passar algum tempo com eles. Se não quisesses sair com o Logan, não sairias. Sabes muito bem como dizer não.

- Talvez seja verdade, mas eu gostava de um pouco mais de aviso prévio. Um pouco mais de... qualquer coisa.

- Ele é como é - disse Roz, com uma palmadinha no joelho de Stella. E o que isso tem de bom é que não precisas de te preocupar com o que ele estará a esconder ou se estará a representar. Ele é... não posso dizer que é um homem agradável, porque consegue ser incrivelmente complicado. Mas é um homem honesto. Acredita em mim, isso vale muito.

 

É por isto”, pensou Stella, ”que namorar raramente vale a pena.” Estava de pé em frente do espelho, apenas de roupa interior, a debater, a considerar, a desesperar sobre o que havia de vestir.

Nem sequer sabia onde ia. Odiava não saber onde ia. Como é que havia de saber para o que tinha de se preparar?

”Jantar” não era informação suficiente. Seria um jantar para o vestido preto curto ou um jantar para o fato de marca elegante-casual comprado em saldos? Calças de ganga e camisa e casaco ou calças de ganga e blusa de seda?

Além disso, ao combinar ir buscá-la às sete, ele deixara-lhe muito pouco tempo para mudar de roupa, quanto mais para decidir o que havia de vestir.

Namorar. Como é que algo que era tão desejado, tão excitante e tão divertido na adolescência, tão natural e fácil aos vinte anos, se tornara uma coisa tão complicada e frequentemente irritante aos trinta?

Não era apenas o problema de o casamento a ter estragado ou enferrujado as suas ferramentas de namoro. O namoro entre adultos era complexo e cansativo, porque as pessoas envolvidas no maldito namoro já tinham, praticamente de certeza, passado por uma relação séria e uma separação pelo menos e carregavam consigo essa bagagem extra. Já estavam habituados à sua maneira de viver, já tinham definido as suas expectativas e já tinham efectuado este ritual social do namoro tantas vezes que, na realidade, só queriam ir direitos ao assunto - ou então ir para casa ver televisão.

Se juntássemos a isto um homem que combinava um encontro sem um mínimo de aviso prévio, que não tinha o bom senso suficiente para dar algumas indicações de forma que a parceira soubesse como se apresentar, tínhamos uma autêntica complicação mesmo antes de começar.

Muito bem, então. Muito bem. Ele teria de se contentar com o que houvesse.

Estava a vestir o vestido preto curto quando a porta da casa de banho se abriu de rompante e Gavin entrou a correr.

- Mamã! Já acabei os trabalhos de casa. O Luke ainda não acabou, mas eu já. Posso ir para baixo? Posso?

Ela estava contente por se ter decidido pelas sandálias sem collants, pois Gavin estava neste momento a tentar trepar pela sua perna.

- Não te esqueceste de nada? - perguntou ao filho.

- Não. Fiz os exercícios de vocabulário todos.

- De bater à porta?

- Oh! - Ele dirigiu-lhe um grande sorriso inocente. - Estás muito bonita.

- Bajulador. - Inclinou-se e deu-lhe um beijo no alto da cabeça. - Mas, quando uma porta está fechada, tens de bater.

- Está bem. Posso descer?

- Já vais. - Aproximou-se da cómoda para pôr as argolas de prata. Quero que me prometas que te vais portar bem com a sr.a Roz.

- Vamos comer hambúrgueres com queijo e jogar jogos de vídeo. Ela diz que consegue ganhar-nos no Smackdown, mas eu não acredito.

- Nada de discussões com o teu irmão. - ”Como se isso fosse possível”, pensou. - Considera esta noite a noite de folga dele.

- Posso ir para baixo?

- Podes. - Deu-lhe uma palmadinha no rabo. - Lembra-te de que eu tenho o meu telemóvel, se precisares de alguma coisa.

Depois de ele sair a correr, enfiou os sapatos e uma camisola preta leve. Depois de uma olhadela ao espelho, concluiu que os acessórios davam ao vestido aquele ar entre o casual e o ligeiramente formal, tal como pretendera.

Pegou na mala e, verificando se não se esquecera de nada, entrou no quarto do lado. Luke estava deitado de barriga para baixo no chão - a sua posição preferida - a olhar de testa franzida e com ar infeliz para o livro de aritmética.

- Problemas, querido?

Ele levantou a cabeça, com o rosto contraído naquela expressão melindrada que só um rapazinho consegue fazer.

- Odeio trabalhos de casa.

- Também eu.

- O Gavin fez a dança da vitória, com os braços no ar, só porque acabou primeiro.

Compreendendo a desmoralização que isso era, Stella sentou-se no chão ao lado dele.

- Vamos lá ver o que te falta.

- Porque é que eu tenho de saber quantos são dois mais três?

- Se não soubesses, como é que podias contar os dedos que tens em cada mão?

Ele franziu a testa, depois o rosto iluminou-se com um sorriso encantado.

- Cinco!

Depois de contornada a crise, Stella ajudou-o com o resto dos problemas.

- Muito bem, já está tudo. Não foi assim tão mau.

- Odeio trabalhos de casa na mesma.

- Talvez, mas... e a dança da vitória?

Ele riu-se, levantou-se de um salto e deu alguns passos de dança à volta do quarto.

”E está outra vez tudo bem no meu pequeno mundo”, pensou ela.

- Porque é que não comes cá em casa? Vamos fazer hambúrgueres com queijo.

- Nem sei bem. Vais portar-te bem com a sr.a Roz?

- Vou. Ela é simpática. Uma vez veio ter connosco ao quintal e atirou a bola para o Parker ir buscar. E não se importou de lhe pegar mesmo depois de estar toda babada. Há raparigas que se importam. Vou para baixo, está bem? Porque tenho fome.

- Está bem.

Sozinha, levantou-se, apanhando automaticamente a roupa e os brinquedos que não tinham chegado a ser arrumados nos devidos lugares.

Passou os dedos por alguns dos tesouros dos filhos. Os adorados livros de banda desenhada de Gavin, a sua bola de basebol. O camião preferido de Luke e o urso velho com o qual ainda não tinha vergonha de dormir.

Depois sentiu um arrepio entre as omoplatas e ficou rígida. Mesmo por baixo da camisola, sentiu os braços arrepiados. Pelo canto do olho, viu uma silhueta - um reflexo, uma sombra - no espelho por cima da cómoda.

Quando se virou, Hayley abriu a porta e entrou no quarto.

- O Logan está a estacionar em frente da casa - começou ela a dizer, depois parou. - Estás bem? Pareces pálida.

- Sim. Estou bem. - Mas passou a mão trémula pelo cabelo. - Pareceu-me apenas... nada. Nada. Para além de estar pálida, que tal estou? E forçou-se a olhar de novo para o espelho. Viu apenas o seu próprio reflexo e o de Hayley, que se aproximava dela.

- Cinco estrelas. Adoro o teu cabelo.

- É fácil dizer isso quando não tens de acordar com ele todas as manhãs. Pensei em prendê-lo, mas pareceu-me demasiado formal.

- Está muito bem assim. - Hayley aproximou-se mais, inclinando a cabeça para olhar para Stella. - Uma vez experimentei pintar o cabelo de ruivo. Foi um grande desastre. Fazia com que a minha pele parecesse amarela.

- Esse castanho-escuro e denso é o que te fica melhor. - ”E olhem para este rosto”, pensou Stella com uma leve pontada de inveja. ”Nem uma ruga.”

- Sim, mas o ruivo é tão moderno. Bom, vou para baixo. Posso manter o Logan entretido um bocadinho. Espera mais alguns minutos e estaremos todos na cozinha. Há um grande festim de hambúrgueres.

Ela não tencionava fazer uma grande entrada, por amor de Deus. Mas Hayley já desaparecera e ainda tinha de pôr batom. E tentar acalmar-se.

Pelo menos os nervos que sentia em relação ao encontro - e desta vez era um encontro - tinham ficado em segundo plano. Não fora o reflexo de Hayley que vira no espelho. Mesmo aquele vislumbre fugaz fora suficiente para lhe dizer que a mulher que vira tinha cabelo louro.

Mais calma, saiu do quarto e percorreu o corredor. Do cimo das escadas, ouviu o riso de Hayley.

- Ela desce já. Suponho que não preciso de te dizer para fazeres de conta que estás em casa. Vou voltar para a cozinha, para junto do resto do pessoal. Diz à Stella que eu dou beijinhos a todos em nome dela. Divirtam-se.

”Será que esta rapariga é vidente?”, pensou Stella. Hayley tinha calculado tão habilmente a sua saída que Stella estava a meio das escadas quando ela se dirigiu à cozinha.

E a atenção de Logan voltou-se para cima.

”Umas boas calças pretas”, reparou ela. Uma bela camisa azul, sem gravata, mas com um casaco desportivo por cima. E mesmo assim parecia algo selvagem.

- Muito bem - disse ele.

- Obrigada. Tu também.

- A Hayley pediu para te dizer que se despedia de toda a gente por ti. Estás pronta?

- Estou.

Saiu com ele e inspeccionou o Mustang preto. -Tens um carro.

- Isto não é apenas um carro, e tratá-lo assim é mesmo coisa de mulher.

- E dizer isso é muito machista. Está bem, se não é um carro, o que é?

- É uma máquina.

- Peço desculpa. Não chegaste a dizer-me onde íamos. Ele abriu-lhe a porta.

- Vamos lá descobrir.

Ele conduziu em direcção à cidade, com uma música que ela não conseguiu identificar a tocar baixinho. Sabia que era blues, ou supunha que era, mas não conhecia nada sobre essa área musical. Quando o disse, casualmente, ele pareceu ficar chocado, mas o assunto deu tema de conversa para a viagem.

Stella obteve uma educação resumida sobre artistas como John Lee Hooker e Muddy Waters, B. B. King e Tas Mahal.

Ocorreu-lhe, depois de terem entrado na cidade, que a conversa entre eles nunca parecia ser problema. Depois de estacionar, ele virou-se e olhou longamente para ela.

- Tens a certeza de que nasceste aqui?

- É o que diz na minha certidão de nascimento. Ele abanou a cabeça e saiu do carro.

- Uma vez que és tão ignorante em relação aos blues, talvez seja melhor verificares outra vez.

Levou-a para um restaurante onde as mesas já estavam cheias de clientes e o nível de ruído das conversas era elevado. Depois de se sentarem, Logan mandou o empregado embora com um aceno.

- Porque não esperamos para pedir as bebidas quando decidirmos o que queremos comer? Depois podemos pedir uma garrafa de vinho.

- Está bem. - Uma vez que parecia que ele queria ir directo ao jantar, ela abriu a ementa.

- Este restaurante é conhecido pelo seu peixe-gato. Alguma vez experimentaste? - perguntou ele.

Ela levantou os olhos por cima da ementa e olhou para ele.

- Não. E, mesmo que isso faça de mim uma ianque, estou a pensar em comer galinha.

- Está bem. Podes provar o meu, só para veres o que estás a perder. Eles têm um bom chardonnay da Califórnia na lista de vinhos, que vai bem tanto com peixe como com aves. Tem um bom final.

Ela pousou a ementa e inclinou-se para a frente.

- Sabes mesmo o que estás a dizer ou estás a inventar?

- Gosto de vinho. Faço questão de conhecer as coisas de que gosto.

Stella recostou-se quando ele chamou o empregado. Depois de pedirem, inclinou a cabeça.

- O que estamos a fazer aqui, Logan?

- Falando por mim, vou jantar um belo peixe-gato e beber um copo de bom vinho.

-Já tivemos algumas conversas, na maioria relacionadas com o trabalho.

- Tivemos algumas conversas e algumas discussões - corrigiu ele.

- É verdade. Tivemos uma saída, bastante agradável, que terminou numa nota surpreendentemente pessoal.

- Às vezes gosto mesmo de te ouvir falar, ruiva. É quase como ouvir uma língua estrangeira. Estás a assentar esses factos todos como se fossem pedras de calçada, tentando fazer uma espécie de caminho entre um ponto e outro?

- Talvez. A questão é que estou aqui sentada contigo, num encontro. Essa não era a minha intenção há vinte e quatro horas. Temos uma relação de trabalho.

- Hum. Por falar nisso, ainda acho o teu sistema muito irritante.

- Que grande surpresa. Por falar nisso, esqueceste-te de deixar aquela factura na minha secretária esta tarde.

- Esqueci-me? - Ele encolheu os ombros. - Sei que a tenho em qualquer lado.

- O que eu quero dizer é...

Interrompeu-se quando o empregado se aproximou com o vinho e voltou o rótulo para Logan.

- É esse mesmo. A senhora prova.

Ela demorou algum tempo, mas por fim pegou no copo para provar o vinho. Bebeu um gole e levantou as sobrancelhas.

- É muito bom... tem um bom final. Logan sorriu.

- Sendo assim, vamos tratar dele.

- O que eu estava a querer dizer - recomeçou ela - é que, embora seja inteligente e benéfico para os dois desenvolvermos uma relação amigável, provavelmente não é inteligente nem benéfico para nenhum de nós se a levarmos para qualquer outro nível.

- Hum. - Ele provou o vinho, sem tirar os grandes olhos de gato de cima dela. - Achas mesmo que não vou beijar-te outra vez porque pode não ser inteligente nem benéfico?

- Estou num sítio novo, com um emprego novo. Mudei os meus filhos para um sítio novo. Para mim, eles estão em primeiro lugar.

- Imagino que sim. Mas também imagino que esta não é a primeira vez que jantas com um homem desde que perdeste o teu marido.

- Tenho sempre muito cuidado.

- Ninguém diria. Como é que ele morreu?

- Num acidente de avião. Vinha de uma viagem de negócios. Eu tinha a televisão ligada e deram um boletim noticioso de última hora. Não disseram nomes, mas eu soube logo que era o avião do Kevin. Soube que ele tinha morrido antes mesmo de me virem informar.

- E sabes o que tinhas vestido quando ouviste a notícia, o que estavas a fazer, onde estavas. - A voz dele era calma, o seu olhar directo. - Sabes todos os pormenores desse dia.

- Porque dizes isso?

- Porque foi o pior dia da tua vida. O dia antes e o dia depois são apenas recordações indistintas, mas nunca esquecerás um único pormenor desse dia.

- Tens razão. - A intuição dele surpreendeu-a, tocou-a. - Já perdeste alguém?

- Não, não dessa maneira. Mas uma mulher como tu? As mulheres como tu não se casam nem ficam casadas a menos que o homem seja o centro da sua vida. Se alguma coisa lhes rouba esse centro, nunca esquecem.

- Pois não. - Estava gravado no seu coração. - Essa é a manifestação de simpatia mais perspicaz, exacta e reconfortante que alguém me fez. Espero que não te sintas insultado se eu disser que isso me surpreende.

- Não me sinto insultado facilmente. Perdeste o pai dos teus filhos, mas construíste uma vida... e parece ser boa... para eles. Isso exige trabalho. Não és a primeira mulher em quem eu estou interessado que tem filhos. Respeito a maternidade e as suas prioridades. Isso não me impede de olhar para ti neste momento e de pensar quando é que te vou ver nua.

Ela abriu a boca e voltou a fechá-la. Pigarreou e bebeu um gole de vinho.

- Bem... muito directo.

- Se fosses outro tipo de mulher, eu teria ido directo para a cama. - Ela abafou uma gargalhada e ele ergueu o copo de vinho, enquanto esperava que lhes servissem a entrada. - Mas tu és... uma vez que estamos a ter este belo jantar juntos, direi apenas que és uma mulher cautelosa.

- O que querias dizer era empertigada. Ele sorriu.

- Nunca o saberás. Além disso, ambos trabalhamos para a Roz e eu nunca faria nada para lhe causar problemas. Pelo menos intencionalmente. Tens dois filhos em que pensar. E não sei até que ponto estarás ainda sensível pela perda do teu marido. Por isso, em vez de te arrastar para a cama, estamos a conversar enquanto jantamos.

Ela demorou um minuto a pensar no que ele dissera. No fundo, não encontrava nada de errado na lógica dele. Na verdade, estava de acordo.

- Está bem. Primeiro, a Roz. Eu também não farei nada que possa causar-lhe problemas. Portanto, o que quer que aconteça aqui, temos de concordar em manter uma relação de trabalho cortês.

- Pode não ser sempre cortês, mas será profissional.

- Muito bem. Os meus filhos são a minha prioridade, a primeira e a última. Não só porque têm de ser - acrescentou -, mas porque eu quero que sejam. Nada poderá alterar isso.

- Se assim não fosse, não teria muito respeito por ti.

- Bom. - Esperou mais um momento porque a resposta dele, para além de ser novamente muito directa, lhe agradara muito. - Quanto ao Kevin, amava-o muito. Perdê-lo cortou-me ao meio. Uma parte de mim só queria deitar-se e morrer, e outra tinha de passar pela dor e pela raiva... e viver.

- É preciso coragem para viver.

Ela sentiu os olhos a arder e respirou fundo.

- Obrigada. Tive de me recompor. Pelos miúdos, por mim própria. Nunca sentirei por outro homem exactamente aquilo que sentia por ele. E acho que nem devo. Mas isso não quer dizer que não possa interessar-me e sentir-me atraída por outra pessoa. Não quer dizer que esteja condenada a viver o resto da vida sozinha.

Ele não disse nada por um instante.

- Como é que uma mulher tão sensata pode ter uma ligação tão emocional com formulários e facturas?

- Como é que um homem tão talentoso pode ser tão desorganizado? Mais descontraída do que imaginara, apreciou a salada. - Ontem passei outra vez pelo trabalho dos Dawsons.

- Ah, sim?

- Sei que ainda faltam alguns retoques finais que têm de esperar que as últimas geadas passem, mas queria dizer-te que é um bom trabalho. Não, não é nada. É um trabalho excepcional.

- Obrigado. Tiraste mais fotografias?

- Tirei. Vamos usar algumas, as do ”antes” e do ”depois”, na secção de paisagismo do site na Internet que estou a criar.

- Não me digas.

- Digo, pois. Vou fazer a Roz ganhar mais dinheiro, Logan. Se ela ganhar mais, tu também ganhas mais. O site vai trazer mais trabalhos de paisagismo, posso garantir.

- É difícil encontrar um lado negativo nisso.

- Sabes o que invejo mais em ti?

- A minha personalidade cintilante.

- Não, não és nada cintilante. Os teus músculos.

- Invejas os meus músculos? Acho que não te ficariam muito bem, ruiva.

- Sempre que começava um projecto, no Norte, nunca podia fazê-lo todo sozinha. Tenho visão... talvez não tão criativa como a tua, mas consigo ver aquilo que quero e tenho uma habilidade considerável. Mas, quando se trata de trabalho manual pesado, estou fora. É frustrante porque há certas coisas que gostava mesmo de conseguir fazer sozinha. E não consigo. Por isso, invejo os teus músculos, que te dão a possibilidade de o fazer.

- Imagino que, quer estejas a fazer ou a orientar, as coisas são sempre feitas como tu queres.

Ela sorriu e bebeu um gole de vinho.

- Nem é preciso dizer. Ouvi dizer que tens uma casa, não muito longe da Roz.

- A cerca de três quilómetros. - Quando o prato principal foi servido, Logan partiu um pedaço de peixe-gato e colocou-o no prato dela.

Stella olhou para o prato.

- Bem... hum.

- Aposto que dizes aos teus filhos que não podem dizer que não gostam de uma coisa sem nunca a terem provado.

- Uma das vantagens de ser adulta é poder dizer esse tipo de coisas sem as aplicarmos a nós próprios. Mas está bem. - Partiu um pedacinho, preparou-se para o pior e comeu-o. - Estranhamente - disse, após um instante -, não sabe nada a gato. Ou àquilo que uma pessoa presume que um gato saberia. Na verdade, até é bom.

- Ainda vais recuperar o teu sangue sulista. A seguir vamos pôr-te a comer papas de milho.

- Não me parece. Isso já experimentei. Seja como for, és tu que estás a fazer o trabalho todo? Na tua casa?

-A maior parte. O terreno tem algumas elevações suaves, bom escoamento. Umas árvores antigas muito bonitas no lado norte. Dois sicómoros e algumas nogueiras, com azáleas silvestres e loureiros espalhados por ali. Do lado sul tem boa exposição. Uma boa largura e um pequeno ribeiro ao fundo.

- E a casa?

- O quê?

- A casa. Que tipo de casa é?

- Oh... É uma casa de dois pisos. Provavelmente demasiado espaçosa só para mim, mas vinha com o terreno.

- Parece o tipo de coisa que eu vou começar a procurar dentro de alguns meses. Se souberes de alguma coisa interessante, avisa-me.

- Claro, posso estar atento. Os miúdos estão a dar-se bem em casa da Roz?

- Estão óptimos. Mas vai chegar uma altura em que vamos querer a nossa própria casa. É importante para eles. Não quero nada muito especial... nem tenho dinheiro para isso. E não me importo de fazer alguns arranjos. Sou bastante habilidosa. E preferia que não estivesse assombrada.

Calou-se quando ele lhe lançou um olhar interrogativo. Depois abanou a cabeça.

- Deve ser do vinho, porque não fazia ideia de que tinha isto na cabeça.

- E porquê?

- Vi... pensei ter visto... - corrigiu-se - o fantasma que se diz que assombra a Harper House. No espelho, no meu quarto, pouco antes de me ires buscar. Não era a Hayley. Ela entrou um instante depois e eu tentei convencer-me a mim própria de que tinha sido ela. Mas não foi. E, ao mesmo tempo, não pode ter sido mais ninguém, porque... simplesmente não é possível.

- Parece que ainda estás a tentar convencer-te disso.

- Sou uma mulher sensata, lembras-te? - Tocou com o dedo na cabeça.

- As mulheres sensatas não vêem fantasmas nem os ouvem a entoar cantigas de embalar. Nem os sentem.

- Senti-los como?

- Um arrepio, uma... uma sensação. - Estremeceu e tentou aligeirar o ambiente com uma gargalhada. - Não consigo explicar, porque não é racional. E hoje a sensação foi muito intensa. Breve, mas intensa. De hostilidade. Não, não é bem isso. ”Hostilidade” é uma palavra demasiado forte. Talvez de desaprovação.

- Porque não falas com a Roz sobre isso? Ela pode contar-te a história, se a souber.

- Talvez. Tu nunca o viste? -Não.

- Nem sentiste nada?

- Não posso dizer que tenha sentido. Mas às vezes, quando estou a trabalhar, a mexer na terra, a escavá-la, já tenho sentido algo. Quando plantamos uma coisa, mesmo que morra, deixa qualquer coisa no solo. Porque não há-de uma pessoa deixar também algo para trás?

Era um assunto em que pensar mais tarde, quando não estivesse tão distraída. Neste momento tinha de pensar no facto de estar a apreciar a companhia dele. E havia a atracção animal básica a ter em conta. Se continuasse a apreciar a companhia dele e a atracção não desaparecesse, iam acabar na cama.

Depois, havia todas as ramificações e perturbações que isso implicava. Além do mais, o universo deles era limitado. Trabalhavam para a mesma pessoa, no mesmo negócio. Não era o tipo de atmosfera em que duas pessoas pudessem ter uma relação adulta sem que toda a gente à sua volta soubesse que a estavam a ter.

Portanto, teria de pensar também nisso e em como seria desconfortável que a sua vida privada fosse do conhecimento público.

Depois de jantar, caminharam até Beale Street para tomarem parte nas festividades nocturnas. Turistas, habitantes de Memphis, casais e grupos de jovens percorriam a rua iluminada por letreiros de néon. A música saía das portas abertas e os clientes entravam e saíam das lojas.

- Havia aqui um bar chamado Monarch. Esses sapatos incomodam-te para andar a pé?

-Não.

-Ainda bem. Belas pernas, a propósito.

- Obrigada. Tenho-as há anos.

- Então, o Monarch - continuou ele. - As traseiras davam para um beco onde havia também um cangalheiro. Facilitava a vida dos proprietários quando tinham de se desfazer das vítimas dos tiroteios.

- Uma curiosidade engraçada sobre Beale Street.

- Oh, há muitas mais. Blues, rock... é o lar de ambas as coisas... vodu, jogo, sexo, escândalos, contrabando de uísque, carteiristas e homicídios.

Enquanto ele falava, passaram por um bar de onde vinha música que pareceu a Stella muito sulista, no bom sentido.

- Aconteceu tudo aqui - continuou ele. - Mas devias apreciar as festividades tal como são hoje.

Juntaram-se à multidão que enchia o passeio para ver três rapazes a fazerem acrobacias no meio da rua.

- Eu também sei fazer aquilo - disse ela, indicando com a cabeça um dos rapazes, que caminhava sobre as mãos até à caixa das gorjetas.

- Sim, sim.

- A sério. Não vou demonstrar aqui e agora, mas podes ter a certeza. Seis anos de ginástica. Consigo torcer-me como uma contorcionista. Bom, não como uma contorcionista, mas antigamente...

- Estás a tentar excitar-me? Ela riu-se.

-Não.

- Então foi apenas um efeito colateral. O que é que consegues fazer?

- Pode ser que te mostre um dia, quando estiver vestida de forma mais apropriada.

- Estás a tentar excitar-me.

Ela riu-se de novo e observou os artistas. Depois de Logan deixar algum dinheiro na caixa, continuaram a caminhar lentamente pelo passeio.

- Quem é a Betty Paige e porque está a cara dela nestas camisolas? Ele estacou abruptamente.

- Só podes estar a brincar.

- Não estou.

- Pelos vistos, não só vivias no Norte, como vivias no Norte dentro de uma caverna. Betty Paige, a lendária pin-up dos anos 50 e deusa sexual de uma maneira geral.

- Como sabes? Nem sequer eras nascido nos anos 50.

- Faço questão de conhecer a minha história cultural, especialmente quando envolve mulheres deslumbrantes que se despem. Olha para aquele rosto. A rapariga do lado com um corpo de Vénus.

- Provavelmente não era capaz de andar em cima das mãos - disse Stella, e recomeçou a andar enquanto ele soltava uma gargalhada.

Caminharam para digerir o vinho e a refeição, descendo por um lado da rua e subindo pelo outro. Ele tentou-a com um bar de blues, mas, depois de um breve debate consigo própria, ela abanou a cabeça.

- Não posso mesmo. Já é mais tarde do que tinha planeado. Amanhã tenho um dia muito ocupado e hoje já abusei da boa vontade da Roz.

- Fica para outra vez.

- E um clube de blues está na minha lista. Já fiz algumas das coisas que queria, esta noite. Beale Street e peixe-gato. Já sou praticamente uma nativa.

- Quando deres por isso, vais estar a fritar o gato e a pôr amendoins na Coca-Cola.

- Por que raio é que havia de pôr amendoins na Coca-Cola? Nem quero saber. - Acenou com a mão enquanto ele arrancava com o carro. É uma coisa de sulista. E se eu disser apenas que me diverti muito esta noite?

-Já não é mau.

”Não foi complicado”, pensou ela, ”nem aborrecido, nem stressante.” Pelo menos depois dos primeiros minutos. Quase se tinha esquecido de como era sentir-se excitada e ao mesmo tempo descontraída junto de um homem.

Ou de pensar, e não valia a pena fingir que não o tinha pensado, como seria ter aquelas mãos - aquelas mãos grandes, de trabalhador - no seu corpo.

Roz deixara as luzes acesas para ela. A do alpendre, a do vestíbulo e a do seu quarto. Viu-as a brilhar quando se aproximaram da casa e pensou que era um gesto muito maternal. Ou fraternal, como de uma irmã mais velha, uma vez que Roz não tinha idade para ser sua mãe.

A sua mãe estivera sempre demasiado ocupada com a sua própria vida e interesses para pensar em pormenores como as luzes do alpendre. ”Talvez”, pensou Stella, ”essa seja uma das razões por que eu própria sou tão obsessiva em relação aos pormenores.”

-É uma casa tão bonita-disse Stella.-A maneira como brilha à noite... Não admira que ela a adore.

- Não há lugar como este. Quando chega a Primavera, os jardins tiram-nos o fôlego.

- Ela devia fazer visitas guiadas à casa e aos jardins.

- Costumava fazer, uma vez por ano. Deixou de o fazer desde que despachou o imbecil do Clerk. Se fosse a ti, não lhe falava nisso - avisou, antes que Stella falasse. - Se ela quiser voltar a fazer esse tipo de coisas, fá-lo-á.

Conhecendo agora o estilo dele, Stella esperou que ele contornasse o carro para lhe abrir a porta.

- Estou ansiosa por ver os jardins em toda a sua glória. E estou grata pela oportunidade de viver aqui durante algum tempo e de os meus filhos poderem estar em contacto com este tipo de tradição.

- Há outra tradição. Um beijo de boas-noites.

Aproximou-se um pouco mais lentamente, desta vez dando-lhe a oportunidade de prever o beijo. Sentiu a pele arrepiada de excitação, quando a boca dele encontrou a sua.

Depois os nervos concentraram-se na barriga e na garganta, quando a língua dele deslizou sobre os seus lábios para os entreabrir. As mãos dele enfiaram-se no seu cabelo, acariciaram-lhe os ombros e percorreram-lhe o corpo até às ancas, onde a seguraram com firmeza.

”Músculos”, pensou ela vagamente. Oh, céus, não havia dúvida de que ele os tinha. Era como estar encostada a aço quente e macio. Depois ele avançou e prendeu-a entre si e a porta. Aprisionada, com o corpo a arder enquanto ele explorava a sua boca, Stella sentiu-se frágil e tonta, viva de desejo.

- Espera um minuto - conseguiu dizer. - Espera.

- Deixa-me só acabar isto primeiro.

Ele queria muito mais do que isto, mas já sabia que teria de se contentar com um beijo. Portanto, não tencionava apressá-lo. A boca dela era deslumbrante e aquele leve tremor no seu corpo era brutalmente erótico. Imaginou-se a engoli-la inteira, com violência, com avidez. Ou a saboreá-la pedacinho a pedacinho, até enlouquecer com o sabor.

Quando ele se afastou, a expressão entorpecida e sonhadora nos olhos dela disse-lhe que o podia fazer, se quisesse. Noutra altura, noutro lugar.

- Achas que vale a pena fingirmos que vamos deixar as coisas por aqui?

- Não posso...

- Não estou a dizer hoje - disse ele, quando ela olhou para a porta.

- Nesse caso, não, não vale a pena.

- Óptimo.

- Mas não posso meter-me de olhos fechados numa coisa destas. Preciso de...

- Planear - terminou ele. - Organizar.

- Não sou muito espontânea, e a espontaneidade... neste caso... é praticamente impossível quando se tem dois filhos.

- Então planeia. Organiza. E depois avisa-me. Eu sou muito espontâneo. - Beijou-a de novo, até ela sentir os joelhos fracos.

- Tens os meus contactos. Liga-me. - Recuou. - Vai para dentro, Stella. Tradicionalmente, o rapaz não se limita a dar um beijo de boas-noites à rapariga, espera que ela entre antes de se afastar, perguntando-se quando terá oportunidade de a voltar a beijar.

- Boa noite, então. - Entrou, subiu as escadas e esqueceu-se de apagar as luzes.

Ainda estava nas nuvens quando começou a percorrer o corredor, pelo que apenas se apercebeu de uma voz que cantava quando estava a dois passos do quarto dos filhos.

Cobriu a distância de um salto. E viu, viu a silhueta, o brilho do cabelo louro sob a claridade ténue da luz de presença, o tremeluzir dos olhos que se voltaram para ela.

Depois o frio atingiu-a como uma bofetada, irada e forte. Depois o frio e a mulher desapareceram.

Com as pernas trémulas, correu para as camas e acariciou o cabelo de Gavin e de Luke. Pousou as mãos nas faces deles, depois nas suas costas, como fazia quando eram bebés. Uma mãe nervosa, tentando certificar-se de que os filhos estavam a respirar.

Parker virou-se preguiçosamente, soltou um pequeno rosnido, bateu com a cauda no chão uma vez e voltou a adormecer.

”Ele sente-me, fareja-me, conhece-me. Será o mesmo com ela? Porque é que ele não lhe ladra?”

”Ou estarei apenas a perder o juízo?”

Despiu-se e levou um cobertor e uma almofada para o quarto deles. Deitou-se no chão, no meio dos filhos, e passou o resto da noite entre eles, protegendo-os do impossível.

 

Na estufa, Roz regou os canteiros de plantas anuais que plantara durante o Inverno. Estava quase na altura de as pôr à venda. Parte dela ficava sempre um pouco triste por saber que não seria ela a plantá-las nalgum jardim. E sabia que nem todas seriam bem tratadas.

Algumas morreriam por negligência, outras teriam sol de mais, ou de menos. Agora eram luxuriantes, belas e cheias de potencial.

E eram dela.

Tinha de as deixar partir, tal como fizera com os filhos. Tinha de ter esperança, tal como com os filhos, de que elas encontrariam o seu potencial e floresceriam sumptuosamente.

Tinha saudades dos seus meninos. Apercebia-se disso mais do que nunca, agora que havia novamente rapazes em casa, com a sua tagarelice, os seus cheiros e a sua desarrumação. O facto de Harper estar perto ajudava, tanto que, por vezes, era difícil para ela não se apoiar demasiado nele, não o sufocar com a sua necessidade.

Mas ele já passara a fase de ser apenas seu. Apesar de viver perto e de muitas vezes trabalharem lado a lado, nunca mais seria apenas dela.

Tinha de se contentar com visitas ocasionais, com os telefonemas e e-mails dos outros filhos. E com o saber que eles estavam felizes a construir as suas próprias vidas.

Ela plantara-os, cuidara deles, alimentara-os e ensinara-os. E deixara-os partir.

Recusava-se a ser uma daquelas mães autoritárias e sufocantes. Os filhos, tal como as plantas, precisavam de espaço e de ar. Mas, oh, às vezes queria voltar atrás dez anos, vinte, e segurar nos braços por um bocadinho mais os seus preciosos meninos.

Este sentimentalismo todo ia deixá-la nostálgica, pensou para si própria. Fechou a água quando Stella entrou na estufa.

Roz respirou fundo.

- Não há nada como o cheiro de terra molhada, pois não?

- Não, pelo menos para pessoas como nós. Olha para aqueles cravos-túnicos. Vão vender-se num instante. Senti a tua falta esta manhã.

- Queria chegar cá cedo. Tenho a reunião do Clube de Jardinagem logo à tarde. Quero fazer duas dúzias de vasos de quinze centímetros para os centros de mesa.

- Boa publicidade. Só queria agradecer-te mais uma vez por teres cuidado dos rapazes ontem à noite.

- Foi divertido. Muito. E vocês divertiram-se?

- Sim, bastante. Haverá algum problema, para ti, se o Logan e eu nos encontrarmos socialmente?

- Porque haveria problema?

- Numa situação de trabalho...

- Os adultos devem poder viver as suas próprias vidas, tal como em qualquer outra situação. Vocês são os dois adultos descomprometidos. Calculo que conseguirão resolver sozinhos qualquer problema que derive da vossa relação social.

- É claro que ambas estamos a usar a palavra ”socialmente” como um eufemismo.

Roz começou a ajeitar algumas petúnias.

- Stella, se não quisesses ir para a cama com um homem como o Logan, eu ficaria preocupada contigo.

- Nesse caso, suponho que não tens com que te preocupar. Mesmo assim, queria dizer-te... estou a trabalhar para ti, a viver na tua casa, portanto queria dizer-te que não sou uma pessoa promíscua.

- Tenho a certeza de que não - disse Roz, erguendo os olhos do trabalho. - És demasiado cautelosa, demasiado circunspecta e um bocadinho séria demais para seres promíscua.

- Mais uma maneira de me chamar empertigada - murmurou Stella.

- Não exactamente. Mas, se fosses promíscua, isso continuaria a ser problema teu e não meu. Não precisas da minha aprovação.

- Mas quero-a... porque estou a trabalhar para ti e a viver na tua casa. E porque te respeito.

- Está bem - Roz passou para as alegrias-do-lar. - Tens a minha aprovação. Uma das razões por que quis que ficasses a viver aqui foi porque queria conhecer-te a nível pessoal. Quando te contratei, dei-te um papel em algo que é muito importante para mim a título pessoal. Portanto, se eu tivesse concluído, após as primeiras semanas, que não eras o tipo de pessoa de quem eu podia gostar e a quem conseguiria respeitar, ter-te-ia despedido. - Olhou para ela. - Por mais competente que fosses. A competência não é assim tão difícil de encontrar.

- Obrigada. Acho eu.

- Acho que vou levar alguns daqueles gerânios que já estão em vasos. Poupa-me tempo e trabalho e temos um bom abastecimento deles.

- Diz-me quantos, para eu actualizar o inventário. Roz, há mais uma coisa de que queria falar contigo.

- Fala - disse Roz enquanto começava a seleccionar plantas.

- É sobre o fantasma.

Roz levantou um gerânio rosa-salmão e estudou-o de vários ângulos.

- O que tem?

- Sinto-me estúpida só de estar a falar nisto, mas... alguma vez te sentiste ameaçada por ela?

- Ameaçada? Não. Não usaria uma palavra tão forte. - Roz pousou o gerânio num tabuleiro de plástico e escolheu outro. - Porquê?

- Porque, segundo parece, eu vi-a.

- Isso não é inesperado. A Noiva Harper geralmente mostra-se a mães e a rapazinhos. Às meninas também, mas com menos frequência. Eu própria a vi algumas vezes quando era rapariga, e com bastante regularidade depois de ter os meus filhos.

- Diz-me como ela é.

- Mais ou menos da tua altura. - Enquanto falava, Roz continuou a escolher os gerânios para o Clube de Jardinagem. - Magra. Muito magra. Vinte e tal anos, talvez perto dos trinta, embora seja difícil de calcular. Não parece muito bem. Quer dizer - acrescentou com um sorriso distraído -, mesmo tendo em conta que é um fantasma. Parece-me uma mulher que foi muito bela, mas que esteve doente durante algum tempo. É loura e tem olhos verdes ou cinzentos. E muito tristes. Usa um vestido cinzento, ou que parece cinzento, e que lhe fica largo, como se tivesse perdido muito peso.

Stella respirou fundo.

- Foi quem eu vi. O que eu vi. É muito estranho, mas eu vi-a.

- Devias sentir-te lisonjeada. Ela raramente se mostra a pessoas que não sejam da família... pelo menos é o que diz a lenda. Não devias sentir-te ameaçada, Stella.

- Mas senti-me. Ontem à noite, quando cheguei a casa e fui ver os rapazes. Primeiro ouvi-a. Ela canta uma melodia de embalar qualquer.

- ”Lavender’s Blue.” É aquilo a que se pode chamar a sua imagem de marca. - Pegando numa tesoura de podar pequena, Roz aparou um ramo lateral mais fraco. - Nunca falou, pelo menos que eu tenha ouvido ou que tenha ouvido alguém contar, mas canta para as crianças da casa durante a noite.

- ”Lavender’s Blue.” Sim, é isso. Eu ouvi-a e corri para o quarto. E ali estava ela, de pé entre as duas camas. Olhou para mim. Foi apenas por um segundo, mas olhou para mim. Os olhos dela não estavam tristes, Roz, estavam zangados. Senti uma rajada de ar frio, como se ela me tivesse atirado qualquer coisa com raiva. Não foi como das outras vezes, em que senti apenas um arrepio.

Agora interessada, Roz estudou o rosto de Stella.

- Também senti algumas vezes que a tinha aborrecido, de longe a longe. Apenas uma mudança de tom. Mais ou menos como acabaste de descrever, suponho.

- Aconteceu.

- Eu acredito, mas, essencialmente, pela minha experiência, ela foi sempre uma presença benigna. Sempre entendi esses acessos de mau génio como uma espécie de mau humor. Imagino que os fantasmas também fiquem mal-humorados.

- Imaginas que os fantasmas ficam mal-humorados - repetiu Stella lentamente. - Não consigo compreender uma afirmação dessas.

- As pessoas ficam, não ficam? Porque é que isso há-de mudar quando morrem?

- Está bem - disse Stella passado um instante. - Vou tentar aceitar tudo isto como se não fosse uma loucura. Então talvez ela não goste da minha presença aqui.

- Ao longo dos últimos cem anos, mais ou menos, a Harper House teve muitas pessoas a viver nela, muitos hóspedes. Ela já devia estar habituada. Se te fizer sentir melhor, podemos mudar-te para outra ala...

- Não. Não me parece que fizesse alguma diferença. Embora a noite passada eu tenha ficado suficientemente enervada para dormir no quarto dos miúdos, ela não estava zangada com eles. Era apenas comigo. Quem era ela?

- Ninguém sabe ao certo. Referimo-nos a ela como a Noiva Harper, mas pensa-se que terá sido uma criada. Uma ama ou uma governanta. A minha teoria é que um dos homens da casa a seduziu, talvez a tenha repudiado, principalmente se ela tiver engravidado. Há uma forte ligação a crianças, portanto parece lógico que ela estivesse relacionada com crianças. É quase certo que terá morrido na casa ou perto dela.

- Mas deve haver registos, não? Uma bíblia de família, certidões de nascimento e de morte, fotografias, daguerreótipos, qualquer coisa.

- Oh, toneladas.

- Gostava de os ver, se não te importares. Gostava de tentar descobrir quem ela era. Quero saber com quem ou com o que estou a lidar.

- Está bem. - De tesoura ainda na mão, Roz apoiou o punho na anca. Suponho que é estranho nunca ninguém o ter feito antes, incluindo eu própria. Eu ajudo. É capaz de ser interessante.

- Isto é fantástico - disse Hayley, olhando para a mesa da biblioteca onde Stella colocara os álbuns de fotografias, a grossa bíblia, as caixas de papéis antigos, o seu computador portátil e vários blocos de notas. - Parecemos o bando do Scooby Doo.

- Nem acredito que também a viste e nunca disseste nada. Hayley encolheu os ombros e continuou a explorar a sala.

- Pensei que acharias que eu tinha perdido o juízo. Além disso, excepto da última vez, tive apenas vislumbres pelo canto do olho. - Ergueu a mão ao lado da cara. - Nunca tinha visto um fantasma a sério. Isto é totalmente o máximo.

- Ainda bem que alguém se está a divertir.

E estava mesmo. Uma vez que tanto ela como o pai adoravam livros, tinham transformado a sala de estar numa espécie de biblioteca, enchendo as prateleiras de livros e colocando duas poltronas confortáveis.

Era uma sala simpática, acolhedora e simpática.

Mas isto era uma biblioteca. Estantes fundas de madeira escura flanqueavam as janelas altas e cobriam as paredes em torno de uma espécie de plataforma, onde estava a mesa comprida. Devia haver centenas de livros, mas o ambiente não era esmagador, graças ao sereno verde-escuro das paredes e ao granito claro da lareira. Hayley gostava dos grandes candelabros pretos e dos grupos de fotografias de família em cima da prateleira da lareira.

Havia mais fotografias espalhadas aqui e ali, e coisas. Coisas fascinantes como taças e estátuas e um relógio de cristal em forma de cúpula. Flores, claro. Havia flores em quase todas as divisões da casa. Estas eram túlipas de um tom roxo-escuro, numa jarra de vidro transparente.

Havia muitas cadeiras, largas e estofadas em cabedal macio, e até um sofá de cabedal. Apesar de haver um candelabro no centro do tecto e de até as estantes estarem iluminadas, havia candeeiros em quebra-luzes fantásticos, que pareciam vitrais. As carpetes eram provavelmente muito antigas e extremamente interessantes, com um padrão de pássaros exóticos na orla.

Hayley não conseguia imaginar como seria ter uma sala destas, muito menos saber como a decorar para ficar tão, bom, deslumbrante era a única palavra que lhe ocorria e, ao mesmo tempo, tão acolhedora como a pequena biblioteca que ela tivera em casa.

Mas Roz sabia. Roz, na opinião de Hayley, era o máximo.

- Acho que esta é a minha divisão preferida da casa - declarou. - Claro que acho o mesmo de todas as divisões depois de lá estar cinco minutos. Mas penso que esta leva mesmo a taça. Parece uma fotografia tirada de uma revista como a Southern Living, mas é tão acolhedora! Uma pessoa não se sentiria mal por dormir uma sesta no sofá.

- Sei o que queres dizer. - Stella afastou para o lado o álbum de fotografias que estivera a ver. - Hayley, não te podes esquecer de não falar sobre isto aos miúdos.

- Claro que não. - Voltou para junto da mesa e finalmente sentou-se. Olha, talvez possamos fazer uma sessão espírita. Seria arrepiante e fantástico.

- Ainda não cheguei a tanto - respondeu Stella. Ergueu os olhos quando David entrou.

- Um lanche para as caça-fantasmas - anunciou enquanto pousava o tabuleiro na mesa. - Café, chá, biscoitos. Pensei trazer bolo de anjo, mas pareceu-me demasiado óbvio.

- Estás a achar graça a isto?

- Claro que sim. Mas também estou disposto a arregaçar as mangas e mergulhar nestas coisas todas. Seria bom poder dar um nome à mulher depois deste tempo todo. - Apontou para o computador de Stella. - E para que é isto?

- Para tomar notas. Datas, factos, especulação. Não sei. É o meu primeiro dia de trabalho.

Roz entrou com uma caixa nas mãos. Tinha a cara suja de poeira e restos de teias de aranha no cabelo.

- As contas da casa estavam no sótão. Há lá mais, mas isto deve chegar para começar.

Largou a caixa em cima da mesa e sorriu.

- Isto vai ser divertido. Não sei como nunca me tinha lembrado de tal coisa. Por onde querem começar?

- Estava a pensar que podíamos fazer uma sessão espírita - começou Hayley. - Talvez ela nos diga simplesmente quem é e por que razão o seu espírito está, sei lá, preso neste plano de existência. É o que acontece com os fantasmas. Ficam presos e às vezes nem sequer sabem que estão mortos. Não é sinistro?

- Uma sessão espírita. - David esfregou as mãos. - Onde é que eu deixei o meu turbante?

Quando Hayley desatou a rir, Stella bateu com os nós dos dedos na mesa.

- Podemos controlar a risota? Pensei que devíamos começar por algo um pouco mais prosaico. Como tentar datá-la.

- Nunca datei um fantasma - disse David com ar pensativo -, mas estou disposto a tentar.

- Descobrir o período em que viveu - explicou Stella, lançando-lhe um olhar de esguelha. - Através da roupa. Devemos conseguir determinar quando viveu, pelo menos aproximadamente.

- Descoberta através da moda. - Roz acenou e pegou num biscoito. Parece-me bem.

- Inteligente - concordou Hayley. - Mas não reparei bem no que ela tinha vestido. Foi uma visão muito rápida.

- Um vestido cinzento - disse Roz. - De gola subida. Mangas compridas.

- Algum de nós tem jeito para desenhar? - perguntou Stella. - Eu safo-me com linhas rectas e curvas, mas não tenho jeito para desenhar pessoas.

- A Roz é a pessoa certa. - David deu uma palmadinha no ombro de Roz.

- Consegues desenhá-la, Roz? A impressão com que ficaste dela?

- Posso tentar.

- Eu trouxe blocos. - Stella estendeu um a Roz e esta sorriu.

- Claro que sim. E aposto que os teus lápis estão todos muito bem afiados. Tal como no primeiro dia de aulas.

- É difícil escrever com eles se não estiverem afiados. David, enquanto a Roz desenha, porque não nos falas das tuas experiências com... acho que podemos continuar a chamar-lhe a Noiva Harper, por enquanto.

- Não foram muitas, e todas quando era miúdo e vinha para cá brincar com o Harper.

- Como foi a primeira vez?

- Nunca nos esquecemos da primeira vez. - Ele piscou-lhe o olho, sentou-se e serviu-se de um café. - Eu estava no quarto do Harper e estávamos a fingir que dormíamos para a Roz não entrar e nos mandar calar. Estávamos a falar baixinho...

- Pensavam sempre que eu não os ouvia - interrompeu Roz, sem tirar os olhos do desenho.

- Acho que foi na Primavera. Lembro-me de que tínhamos as janelas abertas e soprava uma leve brisa. Eu devia ter cerca de nove anos. Conheci o Harper na escola e, apesar de eu estar um ano à frente dele, ficámos amigos. Conhecíamo-nos há poucas semanas quando eu vim cá passar a noite. Ali estávamos nós, no escuro, a pensar que estávamos a falar baixinho, e ele contou-me do fantasma. Pensei que estava a inventar uma história para me assustar, mas ele jurou que era verdade e que já a tinha visto montes de vezes.

”Devemos ter adormecido. Lembro-me de acordar e pensar que alguém me tinha acariciado a cabeça. Pensei que fosse a Roz e fiquei um bocadinho envergonhado, por isso entreabri um olho para ver.

Bebeu um gole de café, semicerrando os olhos enquanto procurava a memória.

- E vi-a. Ela aproximou-se da cama do Harper e inclinou-se sobre ele, como se fosse beijá-lo na cabeça. Depois atravessou o quarto. Havia uma cadeira de baloiço no canto. Sentou-se e começou a baloiçar e a cantar.

Pousou a chávena.

- Não sei se fiz barulho ou se me mexi, mas de repente ela olhou directamente para mim. E sorriu. Pensei que estava a chorar, mas sorriu. E levou o dedo aos lábios como para me dizer que não fizesse barulho. Depois desapareceu.

- O que é que fizeste? - perguntou Hayley num murmúrio, em tom reverente.

- Tapei a cabeça com os cobertores e fiquei lá debaixo até de manhã.

- Tiveste medo dela? - perguntou Stella.

- Um miúdo de nove anos e um fantasma... e eu sou uma pessoa de natureza sensível, portanto, claro que sim. Mas não fiquei com medo. De manhã, parecia ter sido um sonho, mas um sonho bom. Ela acariciou-me o cabelo e cantou para mim. E era bonita. Nada de correntes a ranger nem de uivos de gelar o sangue. Parecia um anjo, de certa forma, por isso não tive medo dela. De manhã contei ao Harper e ele disse que devíamos ser irmãos, porque nunca nenhum dos seus amigos a tinha visto.

Sorriu ao recordá-lo.

- Fiquei muito orgulhoso e cheio de vontade de a ver outra vez. Vi-a mais algumas vezes quando cá dormia. Depois, por volta dos meus treze anos, as... as aparições, digamos assim, pararam.

- Ela nunca falou contigo?

- Não, só cantava. Sempre a mesma canção.

- Viste-a sempre no quarto, à noite?

- Não. Houve uma vez em que acampámos no quintal. Era Verão, estava calor e havia montes de insectos lá fora, mas nós chateámos a Roz até ela nos deixar dormir lá fora, numa tenda. Não chegámos a ficar a noite toda porque o Mason cortou o pé numa pedra. Lembras-te, Roz?

- Lembro-me. Às duas da manhã, estava a enfiar quatro miúdos no carro para levar um deles ao hospital para ser cosido.

- Fomos lá para fora antes do pôr do Sol, no lado oeste da propriedade. Às dez estávamos todos meio agoniados de tantos cachorros-quentes e marshmallows, e fartos de meter medo uns aos outros com histórias de fantasmas. Havia pirilampos - murmurou, fechando os olhos. -Já passava do meio do Verão e estava abafado. Estávamos todos só de roupa interior. Os mais novos adormeceram, mas o Harper e eu ainda ficámos acordados mais um bocado. Um bom bocado. Eu devo ter adormecido porque, quando dei por isso, o Harper estava a abanar-me para me acordar. ”Ali está ela” disse, e eu vi-a a caminhar pelo jardim.

- Oh, meu Deus - disse Hayley quase sem fôlego, aproximando-se mais de David enquanto Stella continuava a escrever. - O que aconteceu depois?

- Bom, o Harper começou a dizer-me ao ouvido que devíamos segui-la, enquanto eu tentava demovê-lo da ideia sem sacrificar a minha masculinidade. Os outros dois acordaram e o Harper disse que ia sozinho e que nós podíamos ficar ali se fôssemos uns cobardes miseráveis.

- Aposto que isso os pôs a mexer - comentou Stella.

- Ser um cobarde miserável não é uma opção aceitável para um rapaz na companhia de outros rapazes. Fomos todos. O Mason não devia ter mais de seis anos, mas correu atrás de nós, tentando acompanhar-nos. Havia luar, pelo que conseguíamos vê-la, mas o Harper disse para não nos aproximarmos muito para ela não nos ver.

”Juro que não corria uma aragem nessa noite, nem uma leve brisa que agitasse as folhas. Ela não fazia o mínimo ruído enquanto andava pelos caminhos, entre os arbustos. Havia qualquer coisa diferente nela, nessa noite. Só muito tempo depois percebi o que era.

- O que era? - Hayley inclinou-se para a frente, ofegante, e agarrou-lhe no braço. - O que é que ela tinha de diferente nessa noite?

- Tinha o cabelo solto. De todas as outras vezes, tinha o cabelo preso numa espécie de carrapito com canudos caídos. Mas nessa noite estava solto, meio despenteado e caído sobre as costas, sobre os ombros. E vestia qualquer coisa branca e esvoaçante. Parecia mais um fantasma nessa noite do que em qualquer uma das outras vezes. E tive medo dela, mais do que da primeira vez ou em qualquer das vezes que se seguiram. Ela saiu do caminho e passou por cima das flores sem lhes tocar. Eu ouvia a minha respiração ofegante e devo ter abrandado, porque o Harper ia muito à nossa frente. Ela seguia na direcção dos velhos estábulos ou talvez da cocheira.

- A cocheira? - disse Hayley, quase num grito. - Onde o Harper vive?

- Sim, mas na altura ele não vivia lá - acrescentou David com uma gargalhada. - Não tinha mais de dez anos. Parecia que ela ia na direcção dos estábulos, mas teria de passar pela cocheira. Então parou, virou-se e olhou para trás. Sei que fiquei paralisado nesse momento, sem pinga de sangue.

- Imagino! - exclamou Hayley com empatia.

- Ela parecia louca e, de alguma forma, isso era pior do que o facto de estar morta. Antes que eu conseguisse decidir se seguia o Harper ou voltava para trás como um cobarde miserável, o Mason gritou. Pensei que ela o tinha apanhado, não sei bem como, e quase desatei também aos gritos. Mas o Harper voltou para trás a correr. Afinal, o Mason tinha cortado o pé numa pedra. Quando olhei outra vez para os estábulos, ela já tinha desaparecido.

Parou, estremeceu e riu de forma pouco convincente.

- Consegui meter medo a mim próprio.

- E a mim também - balbuciou Hayley.

- Ele precisou de seis pontos. - Roz empurrou o bloco para Stella.

- É assim que eu a vejo.

- É ela. - Stella estudou o esboço da mulher magra, de olhos tristes. Era assim que a vias, David?

- Sim, excepto naquela noite.

- Hayley?

- Sim, tanto quanto consigo dizer.

- E eu também. Isto mostra-a com um vestido bastante simples, cintura vincada, gola subida, botões à frente. As mangas são um pouco largas até ao cotovelo, depois justas até ao punho. A saia é estreita sobre as ancas, depois alarga um pouco. Tem o cabelo encaracolado, montes de caracóis apanhados no alto da cabeça. Vou fazer uma pesquisa na Internet, mas não há dúvida de que é posterior a 1860, não acham? Nessa altura, a moda eram as saias largas, à Scarlett O’Hara. E deve ser anterior a, digamos, 1920, quando se começaram a usar saias mais curtas.

- Acho que deve ser por volta da viragem do século - disse Hayley, encolhendo depois os ombros quando todos os olhares se voltaram para ela. - Sei muitas coisas que não servem para nada. Isto parece aquilo a que chamavam o estilo ampulheta. Quer dizer, apesar de ela ser demasiado magra, parece ser esse o estilo. Finais do século XIX.

- Muito bem, vamos procurar e descobrir. - Stella carregou em algumas teclas.

- Tenho de ir fazer chichi. Não descubram nada importante até eu voltar. - Hayley saiu da sala tão depressa quanto o seu estado lhe permitia.

Stella passou os olhos pelos vários sites sugeridos e escolheu um sobre moda feminina da década de 1890.

- Finais do período vitoriano - declarou, enquanto lia e estudava as fotografias. - Ampulheta. Estes são todos mais elegantes, diria eu, mas parece ser a mesma ideia.

Avançou até ao final da década e aos primeiros anos do século XX.

- Não, estão a ver, estas mangas são muito maiores nos ombros. Chamam-lhes ”perna de carneiro”, e a parte de cima dos vestidos de dia parece ser um pouco mais justa.

Voltou para trás e recuou até às décadas anteriores a 1890.

- Não, aqui já encontramos saias com armação atrás. Acho que a Hayley acertou em cheio. Algures na década de 1890.

- 1890? - disse Hayley, entrando. - Um a zero para mim.

- Espera aí. Se ela era uma criada - recordou-lhes Roz -, podia não se vestir de acordo com a última moda.

- Raios. - Hayley fingiu apagar a pontuação do quadro.

- Mas, mesmo assim, podemos dizer entre 1890 e, quê, 1910? - sugeriu Stella. - Se usarmos esse intervalo e lhe dermos uma idade aproximada de vinte e cinco anos, podemos calcular que nasceu entre 1865 e 1885.

Suspirou.

- É um intervalo demasiado grande e com uma grande margem de erro.

- O cabelo - disse David. - Mesmo que fosse uma criada e usasse roupa em segunda mão, nada a impediria de usar o cabelo à última moda.

- Excelente. - Stella procurou de novo e estudou os vários sites. - Muito bem, o penteado ”rapariga Cibson”, todo apanhado, popularizou-se depois de 1895. Se dermos um salto no escuro e considerarmos que a nossa heroína se penteava à moda, podemos limitar o período entre 1890 e 1895 ou, no máximo, 1898, se ela estivesse um pouco atrasada. Depois, se partirmos do princípio de que morreu nessa década, entre os vinte e dois e os vinte e seis anos, digamos...

- Primeiro vamos ver a bíblia da família - decidiu Roz. - Isso deve dizer-nos se alguma das mulheres Harper, por sangue ou por casamento, dessa faixa etária morreu nessa década.

Puxou-a para si. A encadernação era de cabedal preto, decorada com relevos intrincados. Alguém - Stella calculou que fosse a própria Roz - a mantinha limpa e oleada.

Roz folheou a genealogia da família.

- Isto remonta a 1793, ao casamento de John Andrew Harper com Fiona McRoy. Tem indicação do nascimento dos seus oito filhos.

- Oito? - Hayley arregalou os olhos e pousou a mão na barriga. - Santo Deus!

- Bem podes dizê-lo. Seis deles chegaram a adultos - continuou Roz. Casaram e procriaram, procriaram, procriaram. - Virou as páginas finas cuidadosamente. -Aqui temos várias raparigas nascidas de casamentos com Harpers entre 1865 e 1870. E aqui temos uma Alice Harper Doyle, que morreu ao dar à luz em Outubro de 1893, com vinte e dois anos.

- Que horror - disse Hayley. - Era mais nova do que eu.

- E já tinha dado à luz duas vezes - disse Roz. - A vida para as mulheres antes de Margaret Sangere era dura.

- E ela teria vivido aqui nesta casa? Morrido aqui? - perguntou Stella.

- É possível. Casou com Daniel Francis Doyle, de Natchez, em 1890. Podemos verificar as certidões de óbito. Tenho aqui mais três que morreram durante esse período, mas as idades não batem certo. Vejamos, a Alice era a irmã mais nova de Reginald Harper. Ele tinha mais duas irmãs e nenhum irmão. Teria portanto herdado a casa e a propriedade. Há um grande intervalo entre Reggie e as irmãs. Provavelmente vários abortos.

Quando Hayley soltou um gemido, Roz ergueu os olhos.

- Não quero que isto te perturbe.

- Eu estou bem. Estou bem - disse ela, respirando fundo. - Então o Reginald era o único filho rapaz desse ramo da família?

- Era. Havia muitos primos, e a propriedade teria passado para um deles depois da sua morte, mas ele teve um filho... primeiro várias filhas, depois o rapaz em 1892.

- E a mulher dele? - perguntou Stella. - Talvez seja ela.

- Não, essa viveu até 1925, morreu já velha.

- Então vamos investigar primeiro a Alice - decidiu Stella.

- E ver o que conseguimos encontrar sobre as criadas durante esse período. Não seria muito estranho que o Reginald tivesse andado metido com uma ama ou uma criada enquanto a mulher procriava. Tendo em conta que era um homem.

- Eh! - exclamou David indignado.

- Desculpa, querido. Digamos antes que era um homem Harper e que viveu num período em que os homens de uma certa posição tinham amantes e não viam nada de errado em levar uma criada para a cama.

- Está melhor. Mas não muito.

- Temos a certeza de que ele e a família viveram aqui durante esse período?

- Um Harper viveria sempre na Harper House - disse Roz a Stella. - E, se bem me recordo da história da família, foi Reginald quem substituiu a iluminação a gás pela luz eléctrica. Ele deve ter vivido aqui até à sua morte, em... - Verificou o livro. - Em 1919, e a casa terá passado para o seu filho, Reginald Jr., que casou com Elizabeth Harper McKinon, prima em terceiro grau, em 1916.

Enfermeira norte-americana (1883-1966) que promoveu pela primeira vez a divulgação de métodos contraceptivos. (N. da T.)

- Muito bem, então temos de descobrir se a Alice morreu aqui e temos de estudar os registos para ver se alguma criada da idade certa morreu aqui durante esse período. - Usando o bloco de notas, Stella escreveu os tópicos da busca. - Roz, sabes quando é que as... vamos chamar-lhes visões, à falta de melhor termo... quando é que começaram?

- Não, e apercebo-me agora de que isso é estranho. Devia saber e devia saber mais sobre ela do que sei. A história da família Harper é passada de geração em geração, tanto oralmente como por escrito. Mas aqui temos um fantasma que, tanto quanto sei, vagueia pela casa há mais de um século, e não sei praticamente nada a seu respeito. O meu pai chamava-lhe simplesmente a Noiva Harper.

- O que sabes sobre ela? - Stella preparou-se para tomar notas.

- O seu aspecto, a melodia que canta. Vi-a quando era pequena, quando vinha ao meu quarto cantar aquela melodia de embalar, tal como constava ter feito há várias gerações. Era... reconfortante. Havia nela uma espécie de doçura. Tentei falar-lhe algumas vezes, mas nunca me respondeu. Limitava-se a sorrir. Às vezes chorava. Obrigada, querido - disse, quando David lhe serviu mais café. - Não a vi durante a adolescência e, sendo uma adolescente, não pensei muito nisso. Tinha a cabeça noutras coisas. Mas lembro-me da primeira vez que a vi depois de adulta.

- Não faças suspense - pediu Hayley.

- Foi no princípio do Verão, em finais de Junho. O John e eu estávamos casados há pouco tempo e vivíamos cá em casa. Já estava calor, uma daquelas noites quentes e paradas em que o ar parece um manto molhado. Mas eu não conseguia dormir, por isso troquei a casa fresca pelo calor dos jardins. Estava inquieta, enervada. Achava que estava grávida. Queria estar... queríamos tanto ter um filho que eu não conseguia pensar em mais nada. Saí para o jardim e sentei-me num velho baloiço de madeira a olhar para a Lua, rezando para que fosse verdade e tivéssemos feito um bebé.

Soltou um leve suspiro.

- Eu tinha apenas dezoito anos. Seja como for, enquanto estava ali sentada, ela apareceu. Não a vi nem ouvi aproximar-se, estava apenas ali no caminho. A sorrir. Algo na forma como me sorriu, como olhou para mim, deu-me a certeza, a certeza absoluta, de que tinha uma criança dentro de mim. Fiquei ali sentada, no calor do meio da noite, e chorei de alegria. Quando fui ao médico algumas semanas depois, já sabia que trazia o Harper no ventre.

- Que bonito. - Hayley pestanejou para conter as lágrimas. - Tão enternecedor.

- Depois disso, vi-a de vez em quando ao longo dos anos e via-a sempre no início de uma gravidez, antes de ter a certeza. Via-a e sabia que vinha aí um bebé. Quando o mais novo atingiu a adolescência, deixei de a ver regularmente.

- Tem de ter qualquer coisa a ver com crianças - declarou Stella, sublinhando duas vezes a palavra ”gravidez” no seu bloco. - Esse é o elo de ligação. As crianças vêem-na, as mulheres com filhos ou grávidas vêem-na. A teoria da morte no parto começa a parecer boa. - Assim que o disse, fez uma careta. - Desculpa, Hayley, isto não me saiu bem.

- Eu sei o que queres dizer. Talvez seja a Alice. Talvez precise apenas de ser reconhecida pelo nome para o seu espírito passar para o outro lado.

- Bom. - Stella olhou para as caixas e livros. - Vamos a isto.

Nessa noite, com a mente cheia de fantasmas e de interrogações, Stella sonhou outra vez com o seu jardim perfeito, com a dália azul a crescer teimosamente no meio dele.

- Uma erva daninha é uma flor a crescer no sítio errado. Ouviu a voz dentro da cabeça, uma voz que não era a sua.

- É verdade. É verdade - murmurou. - Mas é tão bonita. Tão forte e vigorosa.

- Assim parece agora; mas é um engano. Se ela ficar, vai mudar tudo. Vai apoderar-se de tudo e estragar tudo o que fizeste. Tudo o que tens. Arriscarias isso, arriscarias tudo, por uma flor deslumbrante? Uma flor que morrerá, de qualquer maneira, na primeira geada ?

- Não sei. - Estudando o jardim, esfregou o braço quando a pele se arrepiou de inquietação. - Talvez pudesse alterar o plano. Podia usá-la como ponto central.

Um trovão ribombou e o céu ficou negro. Ela estava de pé junto ao jardim, tal como estivera uma noite de pé na sua cozinha durante uma noite de tempestade.

E a dor que sentira nessa altura apunhalou-a como se alguém tivesse cravado uma faca no seu coração.

- Sentiste? Estás disposta a senti-la de novo? Arriscarias esse tipo de dor por isto?

- Não consigo respirar. - Caiu de joelhos enquanto a dor a invadia. Não consigo respirar. O que me está a acontecer?

- Lembra-te disso. Pensa nisso. Lembra-te da inocência dos teus filhos e corta-a. Arranca-a. Antes que seja tarde demais! Não vês que está a tentar ofuscar tudo o resto? Não vês como está a roubar a luz? A beleza pode ser venenosa.

Acordou a tremer de frio, com o coração a bater devido à dor que a acordara.

E soube que não estivera sozinha, nem mesmo em sonhos.

 

No seu dia de folga, Stella foi com os rapazes, o seu pai e a mulher deste ao jardim zoológico. Uma hora depois, os miúdos já tinham cobras de borracha, balões e deliciavam-se com cones de gelado gigantescos.

Stella há muito que aceitara o facto de que o principal dever de um avô é mimar os netos e, uma vez que o destino dera aos filhos apenas este avô, dava-lhe rédea solta.

Quando a casa dos répteis se tornou o próximo objectivo, ela preferiu ficar de fora, entregando a responsabilidade desta fase da visita ao avô.

- A vossa mãe nunca gostou de cobras - disse Will aos rapazes.

- E não tenho vergonha de o admitir. Vão vocês. Eu fico à espera.

- Faço-te companhia - disse Jolene, ajeitando o boné azul-claro. - Prefiro sempre a companhia da Stella à de uma jibóia.

- Mulheres! - Will trocou um olhar desdenhoso com os netos. - Vamos, homens, para o poço das cobras!

Com um grito de guerra, os três carregaram sobre o edifício.

- Ele tem tanto jeito para os miúdos - disse Stella. - É tão natural e descontraído. Estou muito contente por vivermos mais perto uns dos outros e eles se poderem ver regularmente.

- Não podes estar mais contente do que nós. Juro que aquele homem parecia um miúdo nestes últimos dias, ansioso pelo dia de hoje. Ele não podia estar mais orgulhoso de vocês os três.

- Suponho que ambos perdemos muita coisa enquanto eu crescia.

- Ainda bem que estão a recuperar o tempo perdido.

Stella olhou para Jolene enquanto se dirigiam a um banco de jardim.

- Nunca dizes nada sobre ela. Nunca a criticas.

- Minha querida, já tive de morder a língua tantas vezes para me controlar, nos últimos vinte e sete anos, que não sei como ainda a tenho.

- Porquê?

- Bom, quando se é a segunda mulher e ainda por cima a madrasta, é o mais inteligente a fazer. Além disso, tu cresceste e tornaste-te uma mulher forte, inteligente e generosa, e estás a criar os dois rapazinhos mais bonitos, espertos e encantadores à face da Terra. Porquê criticar? ”Mas ela critica-te”, pensou Stella.

- Alguma vez te disse que acho que foste a melhor coisa que podia ter acontecido ao meu pai?

- Talvez uma ou duas vezes. - Jolene corou de forma encantadora. Mas nunca me importo de o ouvir.

- Deixa-me acrescentar que foste uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida. E na dos miúdos.

- Oh, vá lá. - Desta vez, os olhos de Jolene encheram-se de lágrimas. já me fizeste chorar. - Enfiou a mão na mala e tirou um lencinho de renda.

- És uma querida. Uma querida. - Fungou e tentou limpar os olhos e abraçar Stella ao mesmo tempo. - E eu adoro-te de morrer. Sempre te adorei.

- E eu sempre o senti. - Também de olhos húmidos, Stella remexeu na mala à procura de um mais prosaico lenço de papel. - Céus, olha para o que fizemos uma à outra.

- Valeu a pena. Às vezes chorar um bocadinho é tão bom como sexo. Tenho rímel na cara?

- Não. Só um bocadinho... - Stella usou o canto do lenço para limpar uma mancha debaixo do olho de Jolene. - Pronto. Já está.

- Sinto-me maravilhosa. Agora conta-me como estão as coisas antes que eu comece outra vez a fungar.

- Em termos de trabalho, não podiam estar melhores. Não podiam mesmo. Estamos quase a começar a época alta da Primavera, e estou ansiosa. Os rapazes estão felizes, estão a fazer amigos na escola. Na verdade, aqui entre nós, acho que o Gavin tem uma paixoneta por uma loirinha de caracóis da turma dele. Chama-se Melissa e ele fica com as orelhas vermelhas quando fala dela.

- Que querido! Não há nada como a primeira paixoneta, pois não? Lembro-me bem da minha. Estava maluca por aquele rapaz. Tinha a cara cheia de sardas e um caracol na testa. Quase morri de alegria no dia em que ele me deu um pequeno sapo dentro de uma caixa de sapatos.

- Um sapo.

- Bom, querida, eu tinha oito anos e era uma rapariga do campo, portanto, bem vistas as coisas, foi uma prenda muito atenciosa. Ele acabou por casar com uma amiga minha. Eu fui ao casamento e tive de usar um vestido cor-de-rosa horroroso, com uma saia tão rodada que podia ter escondido um cavalo lá debaixo e ido para a igreja montada nele. Estava coberto de folhos, parecia um bolo de casamento em tamanho gigante.

Fez um gesto com a mão quando Stella soltou uma gargalhada.

- Não sei porque estou a falar nisto, mas é o tipo de experiência traumática que nunca se esquece, mesmo mais de trinta anos depois. Eles agora vivem do outro lado da cidade. De vez em quando, juntamo-nos para jantar. Ele ainda tem sardas, mas o caracol desapareceu, juntamente com a maior parte do cabelo.

- Imagino que deves conhecer muitas pessoas e a história desta região, uma vez que viveste aqui a vida toda.

- Suponho que sim. Não posso ir ao supermercado, de noite ou de dia, sem encontrar meia dúzia de pessoas conhecidas.

- O que sabes sobre o fantasma Harper?

- Hum. - Jolene tirou um espelhinho e o batom da mala e retocou a maquilhagem. - Apenas que ela sempre vagueou por lá, pelo menos desde que as pessoas se lembram. Porquê?

- Isto vai parecer uma loucura, especialmente vindo de mim, mas... eu vi-a.

- Oh, meu Deus! - exclamou ela, fechando o espelho. - Conta-me tudo.

- Não há muito para contar.

Mas contou-lhe o que havia e o que começara a fazer em relação ao assunto.

- Que excitante! És como um detective. Talvez eu e o teu pai possamos ajudar. Sabes como ele adora brincar com o computador. Stella! -Apertou o braço de Stella. - Aposto que ela foi assassinada, despedaçada com um machado ou qualquer coisa, e enterrada numa campa rasa. Ou atirada ao rio... aos pedaços. Sempre pensei isso.

- Deixa-me dizer, antes de mais... credo! O fantasma, pelo menos, está inteiro. Além disso, a nossa melhor pista é a antepassada da Roz que morreu a dar à luz - recordou-lhe Stella.

- Oh, é verdade. -Jolene ficou amuada por um segundo, obviamente desapontada. - Bom, se descobrirem que é ela, será uma história triste, mas nem de longe tão excitante como um homicídio. Conta a história ao teu pai e nós veremos o que podemos fazer. Ambos temos montes de tempo livre. Será divertido.

- Isto é uma novidade para mim - respondeu Stella. - Parece que ultimamente ando a fazer muitas coisas fora do habitual.

- E alguma delas tem a ver com um homem? Um homem alto, de ombros largos, com um sorriso malandro?

Stella semicerrou os olhos.

- Porque perguntas?

- Sabes quem é a minha prima em segundo grau, a Lucille? Já estiveste com ela uma vez. Por acaso, estava a jantar na cidade há umas noites e disse-me que te viu no mesmo restaurante com um homem muito bem-parecido. Não foi cumprimentar-te porque estava com o seu último namorado e ele ainda não está completamente divorciado da segunda mulher. Na verdade, não estava completamente divorciado quando começaram a namorar há um ano e meio, mas a Lucille é assim.

Jolene fez um gesto com a mão e perguntou:

- Então quem é o homem bem-parecido?

- O Logan Kitridge.

- Oh! - exclamou ela, prolongando o som. - Esse é mesmo um homem bem-parecido. Pensei que não gostavas dele.

- E não gostava, achava-o irritante e era difícil trabalhar com ele. Agora estamos a dar-nos um pouco melhor no trabalho e, não sei bem como, parece que começámos a sair juntos. Tenho andado a tentar perceber se quero mesmo voltar a vê-lo.

- O que há para perceber? Ou queres ou não queres.

- Quero, mas... sei que não devia pedir-te para me contares mexericos...

Jolene aproximou-se mais dela.

- Querida, se não podes pedir-me a mim, a quem hás-de poder? Stella riu-se e olhou para a casa dos répteis para se certificar de que os filhos não vinham aí.

- Gostava de saber, antes de me envolver demasiado, se ele tem muitas namoradas.

- Queres saber se ele é mulherengo.

- Suponho que é a palavra certa.

- Eu diria que um homem daqueles safa-se quando quer, mas nunca ouvi ninguém dizer ”aquele Logan Kitridge é um filho-da-mãe tarado”. Como dizem do filho da minha irmã, o Curtis. A maior parte do que as pessoas, principalmente as mulheres, dizem sobre o Logan é como raio aquela mulher dele o deixou escapar ou como é que ainda nenhuma mulher mais esperta o caçou. Estás a pensar em caçá-lo?

- Não. Não, decididamente não.

- Talvez ele esteja a pensar em caçar-te a ti.

- Eu diria que estamos ambos a apalpar terreno. - Avistou os filhos e o pai. - Ali vêm os caçadores de répteis. Não fales sobre nada disto em frente dos rapazes, está bem?

- Sabes que eu sou um túmulo.

O centro de jardinagem No Jardim abriu às oito, preparando-se para a anunciada abertura de Primavera como para uma guerra. Stella tinha reunido as tropas e supervisionado com Roz a exposição das mercadorias. Tinham o apoio de recrutas experientes e o campo de combate estava modéstia à parte - extraordinariamente bem montado e organizado.

As dez estavam cheios, com as salas de exposição, as zonas exteriores e as estufas públicas apinhadas de clientes. As caixas registadoras tilintavam como sinos de igreja.

Stella corria de zona para zona, intervindo onde achava que era mais necessária em determinada altura. Respondia a perguntas dos funcionários e dos clientes, reabastecia carrinhos quando os empregados estavam demasiado ocupados e ajudou pessoalmente inúmeras pessoas a levar as suas compras para os carros, carrinhas ou monovolumes.

Usava o walkie-talkie que trazia à cintura como um general.

- Desculpe, trabalha aqui?

Stella parou e virou-se para uma mulher com calças de ganga largas e uma camisola velha.

- Sim, minha senhora, trabalho. Chamo-me Stella. Em que posso ajudar?

- Não encontro a columbina, nem a dedaleira, nem... não encontro metade das coisas da minha lista. Está tudo em sítios diferentes.

- Fizemos uma reorganização. Deixe-me ajudá-la a encontrar o que procura.

-Já tenho aquele carrinho cheio - disse a mulher, indicando o carrinho com um aceno. - Não quero ter de o arrastar pela propriedade toda.

- Vai estar muito ocupada, não vai? - disse Stella em tom jovial. - E que escolhas maravilhosas. Steve? Não te importas de levar este carrinho para a frente e de lhe pôr uma etiqueta em nome de...?

- Sr.a Haggerty. - Ela franziu os lábios. - Agradeço muito. Mas não deixes ninguém mexer-lhe. Passei muito tempo a escolher essas coisas.

- Claro que não. Como tem passado, sr.a Haggerty?

- Muito bem. Como estão os teus pais?

- Bem, obrigado. - Steve pegou na pega do carrinho. - A sr.a Haggerty tem um dos jardins mais bonitos do condado - disse a Stella.

- Vou pôr uns canteiros novos. Cuida do meu carrinho, Steve, ou terás de te ver comigo. Agora, onde raio está a columbina?

- Por aqui. Deixe-me ir buscar-lhe outro carrinho, sr.a Haggerty. Stella agarrou num carrinho pelo caminho.

- É a rapariga nova que a Rosalind contratou?

- Sim, senhora.

- Do Norte.

- Culpada.

Ela franziu os lábios e olhou em volta com evidentes sinais de irritação.

- Não há dúvida de que mudou tudo.

- Eu sei. Espero que o novo esquema poupe ao cliente tempo e trabalho.

- Não me poupou nem uma coisa nem outra, hoje. Espere aí. - Parou, ajeitando o chapéu de palha enquanto estudava os vasos de milefólio.

- As aquileias estão bonitas e saudáveis, não estão? Dão-se muito bem no calor e têm uma longa época de floração.

- Não faria mal levar algumas coisas para a minha filha, já que aqui estou. - Escolheu três vasos e continuou. Enquanto caminhavam, Stella falou sobre as plantas, conseguindo envolver a sr.a Haggerty na conversa. Tinham enchido o segundo carro e metade de um terceiro quando chegaram à zona das perenes.

- Tenho de reconhecer que percebe de plantas.

- E eu tenho de retribuir o elogio. E invejo-lhe as horas de jardinagem que tem pela frente.

A sr.a Haggerty parou, olhando novamente em volta. Mas desta vez com uma expressão especulativa.

- Sabe, da maneira como arrumou as coisas, provavelmente comprei o dobro do que tinha planeado.

Desta vez, Stella exibiu um sorriso radiante.

- A sério?

- Matreira. Isso agrada-me. A sua gente é toda do Norte?

- Não, na verdade o meu pai e a mulher dele vivem em Memphis. São naturais de cá.

- Não me diga? Bem, bem. Passe lá por casa para ver o meu jardim. A Roz diz-lhe onde é.

- Adoraria. Muito obrigada.

Ao meio-dia, Stella calculou já ter andado uns quinze quilómetros.

Às três, desistiu de tentar calcular quantos quilómetros já andara, quantos quilos levantara, a quantas perguntas respondera.

Começou a sonhar com um demorado duche frio e um copo de vinho que nunca mais acabasse.

- Isto é uma loucura - disse Hayley, enquanto arrastava os carrinhos vazios do parque de estacionamento.

- Quando é que fizeste a última pausa?

- Não te preocupes, tenho passado muito tempo sentada a cuidar do balcão e a conversar com os clientes. Para dizer a verdade, estava a precisar de esticar as pernas.

- Vamos fechar dentro de pouco mais de uma hora e as coisas já estão mais calmas. Porque não procuras o Harper ou um dos empregados e tratas do reabastecimento?

- Parece-me bem. Olha, não é a carrinha do Senhor Bom Como o Milho? Stella olhou e viu a carrinha de Logan.

- Senhor Bom Como o Milho?

- Quando é apropriado, é apropriado. Vou voltar ao trabalho.

E ela devia fazer o mesmo. Mas ficou a ver Logan conduzir sobre o cascalho, em volta das montanhas formadas por sacas enormes de adubo e terra. Ele saiu por um lado da carrinha e os seus dois homens pelo outro. Depois de uma breve conversa, atravessou o parque de estacionamento em direcção a ela.

E ela foi ao seu encontro.

- Tenho um cliente que se decidiu por aquele adubo de cedro vermelho. Podes dar saída de um quarto de tonelada.

- Que cliente?

- O Jameson. Vamos passar pelo armazém e carregá-lo antes de acabarmos por hoje. Eu trago-te os papéis amanhã.

- Podias dar-mos já.

- Tenho de fazer as contas. Se perder tempo agora a fazer as contas, já não consigo levar-lhe o maldito adubo hoje e o cliente não vai ficar nada satisfeito.

Ela limpou a testa com o braço.

- Felizmente para ti, hoje não tenho energia para discutir.

- Tens estado ocupada, já percebi.

- Nem há palavras. É fantástico. Aposto que quebrámos todos os recordes. Nem sinto os pés. É verdade, estava a pensar que gostava de passar pela tua casa, para a ver.

Os olhos dele fixaram os dela até Stella sentir arrepios de calor no fundo da espinha.

- Podias fazer isso. Tenho tempo hoje à noite.

- Hoje à noite não posso. Talvez na quarta-feira, depois de fecharmos? Se a Roz puder tomar conta dos rapazes.

- Quarta-feira está bem para mim. Consegues encontrar o local sozinha?

- Sim, eu chego lá. Por volta das seis e meia?

- Óptimo. Até lá.

Enquanto ele voltava para a carrinha, Stella apercebeu-se de que esta tinha sido a conversa mais estranha que alguma vez tivera sobre sexo.

Nessa noite, depois de os filhos terem jantado e enquanto estavam na sua hora de brincadeiras antes de dormir, Stella tomou o tal duche demorado. À medida que as dores e a fadiga do dia desapareciam, a sua excitação crescia.

”Foi um dia fantástico”, pensou.

Ainda estava um pouco preocupada com o excesso de mercadoria nalgumas áreas e aquilo que considerava insuficiência de mercadoria noutras. Mas, entusiasmada com o sucesso do dia, decidiu não questionar os instintos de cultivadora de Roz.

A julgar pelo dia de hoje, avizinhava-se uma estação muito boa.

Enfiou o roupão turco, enrolou uma toalha à volta do cabelo e saiu da casa de banho com três passos de dança. E soltou um gritinho agudo ao ver a mulher à entrada do seu quarto.

- Desculpa, desculpa - disse Roz, com uma gargalhada. - Sou de carne

e osso.

- Céus! - Com as pernas bambas, Stella deixou-se cair sobre a cama. Meu Deus! Acho que o meu coração parou.

- Tenho aqui uma coisa que talvez o ponha a trabalhar outra vez. - Roz tirou uma garrafa de champanhe de detrás das costas.

- Dom Perignon? Viva, viva! Sim, acho que já tenho pulso.

- Vamos celebrar. A Hayley está na sala. E eu vou dar-lhe meio copo disto. E nada de sermões.

- Na Europa, as grávidas têm permissão e são mesmo encorajadas a beber um copo de vinho por semana. Estou disposta a fingir que estamos em França se eu tiver direito a um copo cheio.

- Anda daí. Os rapazes estão com o David. Vão fazer um concurso de jogos de vídeo.

- Oh! Bom, acho que não faz mal. Ainda falta meia hora para a hora de dormir. Isso é caviar? - perguntou quando entrou na sala.

- A Roz diz que não posso comer porque não faz bem ao bebé. - Hayley inclinou-se para a frente e cheirou o tabuleiro de prata com a tigela de caviar negro e brilhante. - De qualquer maneira, não sei se ia gostar.

- Óptimo. Mais fica para mim. Champanhe e caviar. Isto é que é uma patroa!

- Foi um grande dia. Geralmente, começo sempre a estação um pouco melancólica - disse Roz, abrindo a garrafa. - Os meus bebés todos a abandonarem-me... Depois, fico demasiado ocupada para pensar nisso. Encheu os copos. - E ao fim do dia lembro-me de que me meti nisto para vender e ter lucro... fazendo ao mesmo tempo algo de que gosto. Depois venho para casa e começo a sentir-me outra vez um pouco melancólica. Mas hoje não.

Distribuiu os copos.

- Posso não ter os números, os factos e os dados na ponta da língua, mas sei o que sei. Acabámos de ter o melhor dia de sempre.

- Uma subida de dez por cento em relação ao ano passado. - Stella ergueu o copo num brinde. - Eu por acaso tenho os números e os dados na ponta da língua.

- Claro que sim. - Com uma gargalhada, Roz passou o braço pelos ombros de Stella e deu-lhe um beijo na face, apanhando-a de surpresa. Naturalmente. Fizeram um trabalho fantástico, as duas. Toda a gente fez. E é justo dizer, Stella, que eu fiz um grande favor a mim própria e ao negócio no dia em que te contratei.

- Uau! - Stella bebeu um gole para desfazer o nó na garganta. - Não vou discutir isso. - Bebeu mais um pouco, deixando o champanhe borbulhar na língua, antes de se atirar ao caviar. - No entanto, por muito que eu gostasse de aceitar todo o crédito por este aumento de dez por cento, não posso. O stock é fantástico. Tu e o Harper são cultivadores excepcionais. Aceito o crédito por cinco desses dez por cento.

- Foi divertido - interveio Hayley. - Foi uma loucura na maior parte do tempo, mas divertido. Tanta gente e tanto barulho e tantos carrinhos cheios... Toda a gente parecia feliz. Acho que estar perto de plantas e pensar em levá-las para casa tem esse efeito nas pessoas.

- Um bom serviço aos clientes tem muito a ver com essas caras felizes. E tu - disse Stella, erguendo o copo na direcção de Hayley - és a melhor nessa área.

- Temos uma boa equipa - disse Roz, agitando os dedos dos pés descalços. Hoje tinha as unhas pintadas num tom de pêssego-claro. - Vamos fazer uma ronda completa de manhã, ver quais as áreas em que o Harper e eu temos de nos concentrar. - Inclinou-se para a frente e pôs caviar numa tosta. - Mas hoje vamos simplesmente celebrar.

- Este é o melhor emprego que eu já tive. Queria apenas dizer isto. Hayley olhou para Roz. - E não é só por poder beber champanhe caro e vê-las comer caviar.

Roz deu-lhe uma palmadinha no braço.

- Tenho outro assunto para falar. Já contei ao David. Fiz uns telefonemas em relação à Alice Harper Doyle, por causa da certidão de óbito. Natchez - disse. - Segundo os registos oficiais, ela morreu em Natchez, na casa onde vivia com o marido e dois filhos.

- Raios! - Stella olhou para o copo de testa franzida. - Era demasiado fácil.

- Temos de continuar a vasculhar os papéis e tomar nota dos nomes das criadas que aqui estiveram durante esse período.

- Um trabalho complicado - respondeu Stella.

- Ei, mas nós somos as maiores - disse Hayley. - Conseguimos tratar disso. Além disso, tenho andado a pensar. O David disse que a viu dirigir-se aos velhos estábulos, certo? Talvez ela estivesse envolvida com um dos moços de estrebaria. Talvez tenham tido uma discussão, ou algo do género, e ele a tenha matado. Talvez tenha sido um acidente, talvez não. Supostamente, as mortes violentas são uma das coisas que prende os espíritos. - Homicídio - disse Roz em tom especulativo. - É possível.

- Pareces a minha madrasta. Falei com ela sobre o assunto - disse Stella a Roz. - Ela e o meu pai estão dispostos a ajudar com as pesquisas, se precisarmos deles. Espero que não haja problema.

- Por mim, nenhum. Pensei que talvez a Noiva Harper se mostrasse a uma de nós, agora que começámos a investigar o seu caso. Talvez tente apontar-nos a direcção correcta.

- Tive um sonho. - Uma vez que se sentia meio idiota ao falar nisso, Stella encheu o copo de champanhe. - Uma espécie de continuação de outro sonho que tive há algumas semanas. Nenhum deles foi muito claro...

ou então esqueci-me dos pormenores depois de acordar. Mas sei que ambos tinham a ver com um jardim que eu tinha plantado e com uma dália azul.

- As dálias podem ser azuis? - perguntou Hayley.

- Podem, embora não seja comum - explicou Roz. - Mas é possível hibridizá-las em tons de azul.

- Esta era diferente de tudo o que eu já vi. Era de um azul... eléctrico, intenso. Um azul terrivelmente vivo, e a flor era enorme. E o fantasma estava no sonho. Não a vi, mas senti-a.

- Eh! - Hayley chegou-se para a frente. - Talvez ela se chamasse Dália!

- É uma boa ideia - comentou Roz. - Já que estamos a investigar fantasmas, não parece muito rebuscado considerar que um sonho esteja relacionado com o caso de alguma maneira.

- Talvez. - Stella franziu a testa e bebeu mais um gole. - Eu conseguia

ouvi-la, mas não vê-la. Mais ainda, conseguia senti-la, e havia qualquer coisa sombria, assustadora. Ela queria que eu me livrasse da dália. Parecia insistente, zangada, e, não sei como explicar, mas ela estava lá. Como é que ela pode estar num sonho?

- Não sei - disse Roz. - Mas não me agrada.

- Nem a mim. É demasiado... íntimo. Ouvi-la dentro da minha cabeça, a murmurar... - Estremeceu com a recordação. - Quando acordei, soube que ela tinha estado ali, no quarto, tal como estivera no meu sonho.

- É assustador - concordou Hayley. - Os sonhos são uma coisa pessoal, só nossa, a menos que queiramos partilhá-los. Achas que a flor tinha alguma coisa a ver com ela? Não percebo por que razão quer que te vejas livre dela.

- Quem me dera saber. Podia ser simbólico. Dos jardins, dos viveiros. Não sei. Mas as dálias são uma das minhas flores preferidas e ela queria que eu a arrancasse.

- Mais um dado para acrescentar à confusão. - Roz bebeu um longo trago de champanhe. - Vamos esquecer o assunto por hoje, antes que fiquemos malucas. Podemos tentar arranjar algum tempo esta semana para procurar nomes.

-Ah... em princípio tenho planos para quarta-feira, depois do trabalho. Se não se importarem de tomar conta dos miúdos durante algumas horas.

- Acho que podemos tratar disso entre todos - concordou Roz.

- Mais um encontro com o Senhor Bom Como o Milho? Com uma gargalhada, Roz comeu mais caviar.

- Presumo que estejam a falar do Logan.

- Na versão da Hayley - assentiu Stella. - Vou passar por casa dele. Gostava de ver o que ele está a fazer com os jardins. - Bebeu mais champanhe. - E, embora isso seja perfeitamente verdade, a principal razão da visita é ir para a cama com ele. Provavelmente. A menos que mude de ideias. Ou ele. Enfim! - Pousou o copo vazio. - É isso.

- Não sei bem o que queres que nós digamos - disse Roz um instante depois.

- Diverte-te? - sugeriu Hayley. Depois olhou para a barriga. - E tem cuidado?

- Só estou a contar-vos porque acabariam por saber, de qualquer maneira, ou por desconfiar. Parece-me melhor não estar com rodeios. E não me parece correcto estar a pedir-vos que tomem conta dos meus filhos enquanto eu... enquanto eu não estou cá, e não ser honesta convosco.

- A vida é tua, Stella - observou Roz.

- Sim. - Hayley bebeu o resto do seu delicioso champanhe. - Mas eu estou disposta a ouvir os pormenores. Acho que ouvir falar de sexo é o mais perto que vou estar da coisa durante os próximos tempos. Portanto, se quiseres partilhar...

- Vou tentar não me esquecer. Agora é melhor descer e tratar dos miúdos. Obrigada pelo champanhe, Roz.

- Foi merecido.

Enquanto se afastava, Stella ouviu Roz perguntar:

- Senhor Bom Como o Milho? - E as duas mulheres irromperam em gargalhadas.

 

Stella não conseguia evitar o sentimento de culpa enquanto corria para casa para se arranjar antes do encontro com Logan. Não, encontro não, corrigiu-se enquanto entrava para a banheira. Não era um encontro a menos que houvesse planos. Isto era uma visita.

Portanto, já tinham tido uma saída, um encontro e uma visita. Era a relação mais estranha em que já estivera envolvida.

Mas, independentemente do que lhe chamasse, sentia-se culpada. Não era ela que ia dar de jantar aos filhos e ouvir as aventuras do seu dia enquanto comiam.

”Não é que tenha de passar todos os meus momentos livres com eles”, pensou, enquanto saía do banho. Esse tipo de coisa não lhes fazia bem - nem a ela. Eles não passariam fome, lá por não ser ela a pôr-lhes a comida à frente.

Mesmo assim, parecia terrivelmente egoísta da sua parte entregá-los aos cuidados de outra pessoa só para poder estar com um homem.

Para ter intimidades com um homem, se as coisas corressem como ela esperava.

”Desculpem, meninos, a mamã hoje não pode jantar convosco porque quer ter sexo escaldante.”

Céus.

Passou creme no corpo enquanto se debatia entre a excitação e a culpa.

Talvez devesse adiar. Não havia dúvidas de que estava a precipitar-se e isso não era coisa dela. Quando fazia coisas que não eram típicas dela, geralmente eram erros.

Tinha trinta e três anos e tinha direito a uma relação física com um homem de quem gostava, um homem que a excitava, um homem com quem, como descobrira entretanto, tinha bastante em comum.

Trinta e três. Trinta e quatro em Agosto, recordou a si própria com uma careta. Trinta e quatro já não era trinta e poucos. Era trinta e tal. Merda.

Muito bem, não ia pensar nisso agora. Tinha de esquecer os números. Diria apenas que era uma mulher adulta. Era melhor.

”Uma mulher adulta”, pensou, enfiando o roupão para se maquilhar. Uma mulher adulta e livre. Um homem adulto e livre. Interesses mútuos, um companheirismo razoável. Uma forte tensão sexual.

Como é que uma mulher havia de pensar como deve ser quando não conseguia parar de imaginar como seria ter as mãos de um homem...

- Mamã!

Olhou para o rosto parcialmente maquilhado no espelho.

-Sim?

As pancadas na porta da casa de banho pareciam uma rajada de metralhadora.

- Mamã! Posso entrar? Posso? Mamã!

Abriu a porta e viu Luke, corado de raiva, com os punhos cerrados ao lado do corpo.

- O que se passa?

- Ele está a olhar para mim.

- Oh, Luke!

- Com aquela cara, mamã. Com... aquela... cara!

Ela conhecia bem essa cara. Era um sorriso tolo, de olhos semicerrados, que Gavin criara para atormentar o irmão. Stella sabia muito bem que ele a praticava ao espelho.

- Não olhes para ele.

- Se eu não olhar, ele faz aquele barulho.

O barulho era um sopro sibilado que Gavin conseguia manter durante horas, se fosse preciso. Stella tinha a certeza de que até o mais experiente agente da CIA fraquejaria sob o poder brutal daquele barulho.

- Está bem. - Como é que podia preparar-se para sexo se tinha de fazer de árbitro entre os filhos? Saiu da casa de banho, passou pelo quarto dos rapazes e entrou na sala do outro lado do corredor, onde tivera a esperança de que os filhos conseguissem passar os vinte minutos que ela demorava a vestir-se assistindo de forma serena aos desenhos animados.

”Parva”, pensou. ”És mesmo parva.”

Gavin estava deitado no chão e olhou para cima quando ela entrou. O seu rosto era o retrato da inocência por baixo do cabelo dourado.

Para a semana tinha de lhes cortar o cabelo, decidiu, fazendo uma nota nos seus arquivos mentais.

Ele tinha um carrinho de brincar na mão e estava a rodar distraidamente o brinquedo enquanto as personagens dos desenhos animados saltavam na televisão. Havia vários outros carros empilhados, caídos de lado ou de pernas para o ar, como se tivesse havido um acidente horrível. Infelizmente, a pequena ambulância e o carro da polícia pareciam ter-se envolvido numa feia colisão frontal.

Não vinha ajuda a caminho.

- Mãe, estás com a cara franzida.

- Sim, eu sei. Gavin, quero que pares com isso.

- Não estou a fazer nada.

Ela sentiu, sentiu mesmo, a ameaça de um grito agudo a formar-se na garganta. ”Controla-te”, ordenou a si própria. ”Controla-te.” Não ia gritar com os filhos como a mãe gritara com ela.

- Talvez queiras ficar sem fazer nada no teu quarto, sozinho, o resto da noite.

- Eu não estava...

- Gavin! - Stella interrompeu a negação antes que o grito se escapasse da sua garganta. Em vez de gritar falou em tom lento e irritado. - Não olhes para o teu irmão. Não assobies ao teu irmão. Sabes que isso o irrita e é exactamente por isso que o fazes, e quero que pares imediatamente.

O ar inocente transformou-se numa expressão amuada e Gavin atirou o último carro para o monte de veículos acidentados.

- Porque é que sou sempre eu?

- Sim, porquê? - retorquiu Stella, igualmente exasperada.

- Ele está a ser um bebé.

- Não sou um bebé! Tu és um cabrão.

- Luke! - Dividida entre o riso e o choque, Stella virou-se para Luke. Onde é que ouviste essa palavra?

- Num lado qualquer. É uma asneira?

- Sim, e não quero que a repitas. - ”Mesmo quando for apropriado”, pensou, enquanto apanhava Gavin a fazer a tal cara.

- Gavin, posso cancelar os meus planos para esta noite. Queres que eu faça isso e fique em casa? - Falou num tom calmo, quase doce. - Podemos passar a hora de brincar a arrumar o teu quarto.

- Não. -Vencido, enfiou o dedo na pilha de carros. - Eu não olho mais para ele.

- Nesse caso, se não se importam, vou acabar de me arranjar. Enquanto se afastava, ouviu Luke perguntar baixinho a Gavin:

- O que é um cabrão?

- Esta noite estão impossíveis de aturar - avisou Stella.

- Não seriam irmãos se não discutissem um com o outro de vez em quando - disse Roz. Olhou para os rapazes que, com o cão e Hayley, brincavam no quintal. - Parece estar tudo bem.

- Está a fermentar sob a superfície, como um vulcão. Um deles está só à espera do momento certo para cair em cima do outro.

- Veremos se conseguimos distraí-los. Se não conseguirmos e eles ficarem descontrolados, acorrento-os em cantos diferentes até tu voltares. Ainda tenho as grilhetas que usava com os meus. Têm valor sentimental.

Stella riu-se e sentiu-se completamente tranquilizada.

- Está bem. Mas telefona-me se eles decidirem portar-se terrivelmente. Voltarei para casa a horas de os pôr na cama.

- Vai e diverte-te. E, se não voltares a tempo, nós tratamos de tudo.

- Estás a tornar-me as coisas demasiado fáceis - disse Stella.

- Não há necessidade de serem difíceis. Sabes ir até casa dele?

- Sei. Essa é a parte fácil.

Entrou no carro, buzinou e acenou. ”Eles ficam bem”, pensou, vendo no espelho retrovisor os filhos a rebolarem no chão com Parker. Não teria conseguido sair de casa se não tivesse a certeza disso.

Era mais difícil ter a certeza de que correria tudo bem com ela.

Podia pelo menos apreciar o passeio. A brisa do princípio de Primavera entrava pelas janelas e deslizava-lhe sobre o rosto. As árvores estavam cobertas de folhas novas e verdes, e as olaias e os cornisos silvestres adicionavam-lhes a cor das suas flores.

Passou pelos viveiros e sentiu uma vaga de orgulho e satisfação, porque agora ela também fazia parte de tudo aquilo.

A Primavera chegara ao Tennessee e ela estava aqui para a viver. Com as janelas abertas e o vento a soprar-lhe no rosto, teve a impressão de sentir o cheiro do rio. Apenas um leve vestígio de algo grande e poderoso, em contraste com o perfume doce das magnólias.

”Os contrastes”, pensou, ”são a norma, ultimamente.” A elegância etérea e a força básica da casa que era agora o seu lar, o ar quente que antecipava o início oficial da Primavera, enquanto no mundo que deixara para trás as pessoas ainda estavam a tirar a neve dos passeios.

E ela, uma mulher cautelosa e de natureza prática, a caminho da cama de um homem que não compreendia completamente.

Já nada parecia completamente em ordem. Dálias azuis, concluiu. A sua vida, tal como os seus sonhos, tinha grandes dálias azuis a crescerem para alterarem o design.

Pelo menos esta noite, ela ia deixá-las crescer.

Seguiu a curva da estrada, ocupando a mente com os planos para a vaga de clientes que esperavam no fim-de-semana.

Embora, admitiu, ninguém tivesse pressa por aqui. Ninguém, empregados ou clientes, parecia ter pressa para nada - a não ser ela.

Eles vinham, entravam, passeavam entre as plantas, conversavam, passeavam mais um pouco. Eram atendidos com uma atenção descontraída e mais conversa.

Este ritmo mais lento, por vezes, dava-lhe vontade de agarrar em qualquer coisa e despachar o serviço. Mas o facto de, muitas vezes, demorar o dobro do tempo que devia para atender um cliente - na sua opinião - não parecia incomodar ninguém por aqui.

Tinha de recordar a si própria que parte do seu trabalho como gerente era fundir-se de forma eficiente com a cultura do negócio que geria.

Mais um contraste.

De qualquer maneira, os planos que estabelecera garantiam que havia sempre pessoas suficientes para atender os clientes. Ela e Roz já tinham feito mais uma dúzia de vasos de cimento e iam arranjá-los no dia seguinte. Podia pedir a Hayley que fizesse alguns. Aquela rapariga tinha olho.

O seu pai e Jolene iam ficar com os rapazes no sábado e em relação a isso não podia sentir-se culpada, pois todos os envolvidos estavam excitados com a perspectiva.

Tinha de verificar o stock de tabuleiros de plástico e de caixas de embalagem, oh, e dar uma olhadela às plantas no campo e...

Os seus pensamentos dispersaram-se quando viu a casa. Não podia dizer do que estava à espera, mas não era disto.

Era maravilhosa.

Um pouco estragada, talvez, um pouco velha, mas linda. A transbordar de potencial.

Dois pisos de cedro cinzento, no cimo de uma leve inclinação arranjada em socalcos, com grandes janelas a quebrarem a uniformidade da madeira antiga. No alpendre largo e coberto - supunha que podia chamar-se uma varanda -, viu uma velha cadeira de baloiço, um baloiço de jardim e um banco de costas altas rodeados por vasos e cestos de flores.

Ao lado, havia um terraço e conseguiu ver um curto lance de escadas que levava do mesmo a um bonito pátio.

Neste havia mais cadeiras, mais vasos - oh, estava a ficar apaixonada e depois apenas terreno aberto, que se estendia até um encantador bosquezinho de árvores.

Ele estava a plantar arbustos nos socalcos - andrómeda japonesa com as suas flores em forma de sino já em botão, loureiros com as suas folhas brilhantes, a antiquada veigela e um conjunto sumptuoso de azáleas prestes a explodirem em flores.

”E é inteligente”, pensou ela, aproximando-se lentamente, era muito inteligente e criativo pôr flox e ibéris e zimbros no socalco mais baixo, para servirem de base aos arbustos e se derramarem sobre o muro.

Ele plantara mais por cima, no pátio - uma magnólia, ainda tenra e jovem, e um corniso com flores cor-de-rosa. No lado oposto, havia uma jovem cerejeira.

Algumas destas árvores eram as que ele a criticara por ter mudado de sítio quando se tinham conhecido. E o que dizia sobre os seus sentimentos por ele o facto de essa recordação a fazer sorrir?

Estacionou ao lado da carrinha dele e estudou o terreno.

Havia estacas, com uma corda fina a uni-las numa espécie de padrão sinuoso, no caminho de acesso ao alpendre. Sim, estava a ver a ideia dele. Um passeio indolente até ao alpendre, que ele provavelmente rodearia com arbustos ou árvores anãs. Encantador. Viu uma pilha de pedras e pensou que ele devia estar a planear fazer um jardim de pedras. Ali, na orla das árvores, ficaria perfeito.

A casa precisava de ser pintada e algumas das pedras que se erguiam das fundações tinham de ser recolocadas. ”Um jardim ali”, pensou enquanto saía do carro. Narcisos naturalizados no interior das árvores. E, ao longo da estrada, ela colocaria vegetação rasteira e arbustos e plantaria lírios, talvez algumas íris.

O baloiço no alpendre também precisava de ser pintado e devia haver uma mesa ali... e ali. Um banco de jardim ao pé da cerejeira, talvez outro caminho daí às traseiras. Com lajes, talvez. Ou bonitas alpondras, com musgo ou tomilho rastejante a crescer entre elas.

Controlou-se quando subiu para o alpendre. ”Ele deve ter os seus próprios planos”, recordou a si própria. Era a casa dele, os planos dele. Por mais que a propriedade a atraísse, não era sua.

Ainda tinha de encontrar a sua.

Respirou fundo, passou os dedos pelo cabelo e bateu.

Esperou durante muito tempo, ou assim lhe pareceu, enquanto torcia a pulseira do relógio entre os dedos. Os nervos começaram a apertar-lhe o estômago enquanto aguardava ali, sob a brisa do final da tarde.

Quando ele abriu a porta, Stella teve de forçar um sorriso descontraído. Ele parecia tão masculino. O corpo longo e musculado estava vestido com calças de ganga desbotadas e uma T-shirt branca. Tinha o cabelo despenteado; ela nunca o vira de outra forma. Tinha demasiado cabelo para estar penteado. E também não lhe ficaria bem.

Estendeu o vaso de dálias que preparara.

- Tenho andado a pensar em dálias - disse-lhe. - Espero que tenhas lugar para elas.

- Claro que sim. Obrigado. Entra.

- Adoro a casa - começou ela a dizer - e o que estás a fazer com ela. Dei por mim a plantar mentalmente...

Calou-se de repente. A porta dava directamente para aquilo que supôs ser uma sala de estar. Fosse o que fosse, estava completamente vazia. O espaço consistia em paredes nuas, soalhos riscados e uma lareira de tijolos enegrecidos pelo fumo.

- Estavas a dizer?

- A vista é magnífica. - Era a única coisa que lhe ocorria, e era verdade. As grandes janelas traziam o exterior para dentro de casa. Era uma pena que a parte de dentro fosse tão triste.

- Ainda não estou a usar este espaço.

- Nota-se.

- Tenho planos para ele, no futuro, quando tiver tempo e vontade. É melhor irmos para dentro antes que comeces a chorar.

- Estava assim quando a compraste?

- Por dentro? - Ele encolheu os ombros e passou para uma divisão que poderia ser uma sala de jantar. Também estava vazia, com as paredes cobertas de papel desbotado e a descolar-se. Stella viu quadrados mais claros onde em tempos deviam ter estado quadros.

- Havia uma carpete de parede a parede em cima deste soalho de carvalho - disse ele. - Lá em cima havia uma fuga de água e os tectos estavam todos manchados. E as térmitas tinham causado alguns estragos. Tive de arrancar as paredes no Inverno passado.

- O que vai ser aqui?

- Ainda não decidi.

Passaram por mais uma porta e Stella soltou a respiração num assobio.

- Achei que estaríamos mais confortáveis aqui. - Pousou as flores num balcão de granito amarelo e afastou-se para a deixar olhar.

Stella não teve dúvidas de que havia a marca dele nesta cozinha. Era essencialmente masculina e forte. Os tons de areia dos balcões condiziam com os mosaicos do chão e eram realçados pelo tom acastanhado mais profundo das paredes. Os armários eram de uma madeira escura, com portas de vidro martelado. Havia especiarias a crescerem em vasos de terracota no parapeito largo por cima do lava-loiça duplo e uma pequena lareira de pedra a um canto.

O balcão em L oferecia muito espaço para trabalhar, e havia muito espaço para comer na parte diagonal que separava a cozinha de uma zona grande e arejada, onde ele colocara um sofá de cabedal preto e duas poltronas grandes.

E, melhor do que tudo, ele substituíra a parede das traseiras por vidro. Era possível uma pessoa estar ali sentada, pensou Stella, e sentir-se parte dos jardins que estava a criar lá fora. Podia sair para o terraço de lajes e caminhar entre flores e árvores.

- Está maravilhoso. Maravilhoso. Foste tu que fizeste tudo? Naquele momento, ao ver a expressão sonhadora no rosto dela, Logan teve vontade de lhe dizer que tinha sido ele a juntar a areia para fazer o vidro.

- Em parte. O trabalho acalma no Inverno, por isso posso dedicar-me ao interior, quando tenho vontade. Conheço pessoas que trabalham bem. Contrato-as ou trocamos serviços. Queres beber alguma coisa?

- Sim, obrigada. A outra divisão tem de ser a sala de jantar formal, para quando receberes pessoas ou deres algum jantar. Claro que toda a gente vai acabar aqui. É irresistível.

Voltou para a cozinha e aceitou o copo de vinho que ele lhe ofereceu.

- Vai ficar fabuloso, quando acabares. Único, lindo e acolhedor. Adoro as cores que escolheste.

- A última mulher que cá esteve disse que pareciam apagadas.

- Não percebia nada do assunto. - Stella bebeu um gole e abanou a cabeça. - Não, são tons de terra, naturais... o que condiz contigo e com o espaço.

Olhou para o balcão, onde havia legumes numa tábua.

- E vejo que cozinhas, portanto o espaço tem mesmo de condizer contigo. Podias fazer-me uma visita guiada rápida, enquanto bebemos o vinho, e depois deixo-te voltar ao teu jantar.

- Não tens fome? O meu atum vai ser desperdiçado, então.

- Oh! - Ela sentiu o estômago às voltas. - Não quis fazer-me convidada para jantar. Pensei que...

- Gostas de atum grelhado?

- Sim. Gosto.

- Óptimo. Queres comer antes ou depois?

Ela sentiu o sangue subir-lhe ao rosto e depois desaparecer. -Ah...

- Antes ou depois da visita guiada?

O humor no seu tom disse a Stella que ele sabia exactamente o que lhe passara pela cabeça.

- Depois. - Ela bebeu um gole de vinho para se recompor. - Depois. Podíamos começar lá por fora, antes que escureça.

Logan levou-a para o terraço e os nervos dela acalmaram de novo enquanto falavam sobre o terreno e os planos que ele tinha.

Stella estudou o terreno que ele cultivara e acenou enquanto ele lhe falava de hortas, jardins de pedras, jardins de água. E o seu coração suspirou de desejo.

- Vou arranjar uns tijolos holandeses antigos - disse ele. - Conheço um pedreiro que mos arranja. Vou pedir-lhe que construa um muro com três lados, aqui, com cerca de dois metros quadrados de área.

- Vais fazer um jardim murado? Meu Deus, acho que vou chorar. Sempre quis ter um. Não ficava bem na minha casa do Michigan. Prometi a mim própria que, quando arranjasse uma casa nova, faria um. Com um pequeno lago e bancos de pedra e cantos secretos.

Girou lentamente sobre si própria. Sabia que já tinha sido investido aqui muito trabalho duro e muito suor. E muito mais seria necessário. Um homem capaz de fazer uma coisa destas, um homem que queria fazer algo assim, era um homem que valia a pena conhecer.

- Invejo-te e admiro-te por cada centímetro desta propriedade. Se precisares de um par de mãos extra, diz-me. Tenho saudades de fazer jardinagem só pelo prazer.

- Se quiseres aparecer, traz essas mãos e os miúdos que eu arranjo-vos trabalho. - Ao vê-la levantar as sobrancelhas, ele acrescentou: - Os miúdos não me incomodam, se é isso que estás a pensar. E não vale a pena planear um jardim onde as crianças não sejam bem-vindas.

- Porque é que não tens filhos?

- Sempre pensei que já os teria por esta altura. - Ele estendeu a mão e tocou-lhe no cabelo, contente por ela não ter posto ganchos. - Mas as coisas nem sempre correm como planeamos.

Caminharam lado a lado em direcção à casa.

- As pessoas costumam dizer que o divórcio é como a morte.

- Não me parece. - Ele abanou a cabeça, caminhando lentamente. É como um fim. Cometemos um erro, corrigimo-lo, pomos um ponto final e começamos de novo. O erro foi tanto dela como meu. Simplesmente só o percebemos depois de já estarmos casados.

- A maioria dos homens, se lhes derem essa oportunidade, não hesita em falar mal da ex-mulher.

- É um desperdício de energia. Deixámos de nos amar, depois deixámos de gostar um do outro. Isso é o que mais lamento - acrescentou ele, abrindo a grande porta de vidro da cozinha. - Depois deixámos de estar casados, e foi melhor para os dois. Ela ficou onde queria estar, eu voltei para onde queria estar. Perdemos apenas dois anos da nossa vida e não foi tudo mau.

- Muito sensato. - ”Mas o casamento é uma coisa séria”, pensou ela. ”Talvez a mais séria de todas. O fim de um casamento devia deixar cicatrizes, não devia?”

Ele serviu mais vinho e pegou-lhe na mão.

- Vou mostrar-te o resto da casa.

Os seus passos ecoaram nos espaços vazios.

- Estou a pensar fazer uma espécie de biblioteca aqui, com um espaço de trabalho. Podia desenhar as minhas plantas aqui.

- Onde é que as desenhas agora?

- No quarto, principalmente, ou na cozinha. O que der mais jeito. Aqui é uma casa de banho, precisa de uma remodelação completa, eventualmente. As escadas são sólidas, mas têm de ser lixadas e envernizadas.

Conduziu-a para o piso de cima e ela imaginou tinta nas paredes, talvez uma técnica que fundisse os tons de terra e realçasse as tonalidades da madeira.

- Se fosse eu, teria arquivos e listas e recortes e dúzias de fotografias cortadas de revistas. - Olhou para ele de lado. - Imagino que não deve ser o teu caso.

- Tenho ideias, e não me importo de lhes dar algum tempo para fermentarem. Cresci numa quinta, lembras-te? As quintas têm casas, e a minha mãe adorava comprar mobílias velhas e restaurá-las. Havia mesas por todo o lado... ela tinha um fraquinho por mesas. Para já, estou a gostar de ter muito espaço à minha volta.

- O que é que ela fez com as coisas quando se mudaram? Alguém me disse que os teus pais se mudaram para Montana - explicou quando ele lhe lançou um olhar interrogativo.

- Sim, têm uma casinha simpática em Helena. O meu pai vai pescar quase todos os dias, pelo menos é o que a minha mãe diz. E ela levou as suas peças preferidas, encheu uma camioneta de mudanças. Vendeu algumas coisas, deu outras à minha irmã, impingiu-me outras. Tenho tudo armazenado. Um destes dias, tenho de ver bem o que lá está, ver o que posso usar.

- Se fosses ver o que tens, podias decidir como querias pintar, decorar, arranjar as divisões. Terias pontos focais.

- Pontos focais. - Ele encostou-se à parede e sorriu.

- O paisagismo e a decoração de interiores têm o mesmo núcleo básico, o uso do espaço, pontos focais, design... e sabes disso muito bem ou não terias feito o que fizeste na cozinha. Portanto, vou calar-me.

- Não me importo de te ouvir falar.

- Bom, já acabei. Qual é a próxima paragem da visita?

- Aqui, suponho. Estou a usá-lo como escritório. - Apontou para uma porta. - Mas acho que tu não queres vê-lo.

- Eu aguento.

- Mas não sei se eu aguento. - Puxou-a em direcção a outra porta. Vais começar a falar em sistemas de arquivo e caixas de entrada e saída e isso vai estragar a harmonia. Não vale a pena usar a propriedade como preliminares se vou quebrar o ambiente mostrando-te algo que vai ferir a tua susceptibilidade.

-A propriedade como preliminares?

Ele sorriu e, sem responder, conduziu-a a outra porta.

Era o quarto dele e, tal como a cozinha, os acabamentos reflectiam a pessoa que lá dormia. Simples, espaçoso e masculino, com o exterior a fundir-se com o interior. O terraço que ela vira ficava do outro lado das portadas e, para além dele, a vista era dominada pelo verde primaveril das árvores. As paredes eram de um tom amarelo-baço discreto, realçado pelas madeiras dos rodapés, dos soalhos e dos ângulos do tecto, onde três clarabóias deixavam entrar a luz do crepúsculo.

A cama era larga. Um homem do tamanho dele devia precisar de espaço na cama, concluiu ela. Para dormir e para o sexo. A cabeceira e os pés eram de ferro preto e a colcha era cor de chocolate.

Havia desenhos a lápis emoldurados nas paredes, jardins a preto e branco. Quando se aproximou, viu a assinatura rabiscada no canto inferior.

- Foste tu que fizeste estes desenhos? São lindos.

- Gosto de ter uma imagem visual dos projectos e, às vezes, faço esboços. E alguns não são maus de todo.

- São muito melhores do que isso e sabe-lo muito bem. - Não conseguia imaginar aquelas mãos grandes e duras a desenhar algo tão elegante, tão belo e fresco. - És uma surpresa constante, Logan. Um estudo em contrastes. Estava a pensar em contrastes pelo caminho, em como as coisas não estão a acontecer como eu pensava que estariam. Como deviam estar.

Virou-se para ele e apontou para os esboços.

- Mais uma dália azul.

- Desculpa, não estou a perceber. Como a dália do teu sonho?

- Sonhos. Já tive dois, e nenhum foi propriamente agradável. Na verdade, estão a tornar-se positivamente assustadores. Mas giram à volta da dália, tão ousada e bela, tão inesperada. Mas não é o que eu tinha planeado. Não é o que eu tinha imaginado. E isto também não.

- Planeado, imaginado ou não, eu queria ter-te aqui. Ela bebeu mais um gole de vinho.

- E aqui estou eu. - Respirou fundo, lentamente. - Talvez devêssemos falar sobre... o que esperamos e como...

Ele aproximou-se e puxou-a para si.

- E que tal se plantássemos outra dália azul e simplesmente víssemos o que acontece?

”Podíamos tentar”, pensou ela enquanto a boca dele cobria a sua. O formigueiro na sua barriga espalhou-se e a parte necessitada dentro de si murmurou: ”Graças a Deus.”

Pôs-se em bicos de pés, como uma bailarina em pontas, para ir ao encontro dele. E, moldando o corpo ao dele, deixou-o tirar-lhe o copo da mão.

Depois, as mãos dele estavam no seu cabelo, os dedos entrelaçados nele, agarrando-o, e Stella pôs os braços à volta dele.

- Estou tonta - murmurou. - Há qualquer coisa em ti que me deixa tonta.

O sangue dele disparou, descarregando uma onda de desejo no seu ventre.

- Nesse caso, é melhor não estares de pé. - Num gesto rápido, pegou-lhe ao colo. Ela era o tipo de mulher que um homem queria ter nos braços, pensou. Feminina, delicada, curvilínea e macia. Segurá-la fazia-o sentir-se impossivelmente forte e invulgarmente carinhoso.

- Quero tocar-te em todo o lado. Depois voltar ao princípio e tocar-te outra vez em todo o lado. - Quando a levou para a cama, sentiu o corpo dela tremer de forma sexy. - Mesmo quando me irritas, só me apetece pôr-te as mãos em cima.

- Nesse caso, deves desejar-me constantemente.

- É bem verdade. O teu cabelo deixa-me meio louco. - Enterrou o rosto nele enquanto a pousava na cama.

- E a mim também. - Sentiu a pele ganhar vida quando os lábios dele deslizaram pela sua garganta. - Mas provavelmente por razões diferentes.

Ele mordeu a pele sensível, ao de leve, como um homem a provar uma iguaria. E a sensação percorreu-a numa torrente de calor.

- Somos adultos - começou. -Ainda bem.

Ela soltou um riso trémulo.

- O que eu quero dizer é que nós... - Os dentes dele exploraram a pele da sua garganta e uma neblina deliciosa invadiu-lhe a mente. - Nada.

Ele tocou-lhe, tal como dissera que queria tocar-lhe. Uma carícia longa e suave, dos ombros à ponta dos dedos. Uma passagem lenta sobre as suas ancas, a sua coxa, como se estivesse a saborear as formas dela tal como saboreara o seu gosto.

Depois beijou-a de novo, um beijo quente e ávido. Os nervos dela explodiram em choques eléctricos quando as mãos e os lábios dele a percorreram como se estivesse esfomeado. As suas mãos duras, ásperas nas palmas, acariciaram-lhe o corpo com perícia e desespero.

Tal como ela imaginara. Tal como desejara.

Desejos que ela enterrara implacavelmente vieram ao de cima e ganharam subitamente vida. Deixando-se ir, puxou-lhe a camisola até as suas mãos encontrarem a pele quente e se cravarem nela.

Homem e músculo.

Ele encontrou o seio dela, fazendo-a arquear o corpo de prazer enquanto os seus dentes a mordiscavam por cima da camisa e do soutien, atormentando a pele por baixo, agitando-lhe o sangue e fazendo-o correr febrilmente. Tudo dentro dela estava maduro e pronto.

Com os sentidos bem despertos, agarrados um ao outro num torvelinho tenso de prazer, Stella entregou-se aos seus desejos e a ele. E desejou-o, desejou aquela promessa de libertação que há tanto tempo não desejava. Queria, ansiava pelo calor que a percorria, à medida que a carícia possessiva daquelas mãos marcadas pelo trabalho e a pressão exigente daqueles lábios insaciáveis electrizavam o seu corpo.

Queria, ansiava por toda aquela agonia palpitante, aquela necessidade que se agitava loucamente dentro de si e aquela liberdade de a satisfazer.

Ergueu-se com ele, corpo contra corpo, e moveu-se com ele, pele contra pele. E levou-o ao delírio com aquela pele sedosa, aquelas curvas maravilhosas. Sob a luz do crepúsculo, ela era mais do que bela, ali deitada sobre a colcha escura - o cabelo brilhante espalhado, os olhos da cor de um céu de Verão turvados de prazer.

A paixão irradiava dela, encontrando e igualando a dele. E ele queria dar-lhe mais, e receber mais, e simplesmente afogar-se naquilo que davam um ao outro. O cheiro dela enchia-o como a sua própria respiração.

Murmurou o nome dela, saboreando-o e explorando-o como se estavam a explorar um ao outro. E havia mais, descobriu, mais do que ele esperara.

O coração dela acelerou à medida que aquelas mãos ásperas a guiavam pelos degraus do desejo. Atingiu o cume numa longa e interminável vaga de calor apaixonado. Arqueou de novo o corpo, gritando enquanto apertava os braços à volta dele, com o coração a disparar.

A sua boca cobriu a dele numa espécie de loucura faminta, enquanto a sua mente gritava - mais!

Ele conteve-se, apertando-a enquanto ela alcançava o cume, e a violência da reacção dela fê-lo tremer. O seu coração, a sua mente, o seu ventre, tudo estava sensível a ponto de doer.

E, quando não aguentou mais, mergulhou nela.

Ela gritou mais uma vez; um som que era ao mesmo tempo de choque e triunfo. E já estava a mover-se com ele, movimentando rapidamente as ancas, com as suas mãos segurando o seu rosto.

Ela olhou para ele, com aqueles olhos azuis, os lábios sensuais a tremerem com cada inspiração, enquanto se erguiam e baixavam juntos.

Em toda a sua vida, ele nunca vira uma flor tão bela.

Quando aqueles olhos se turvaram, quando se fecharam com um gemido soluçado, ele deixou-se ir.

Ele era pesado. Muito pesado. Stella ficou imóvel debaixo de Logan e reflectiu sobre a maravilha que era estar presa, impotente, debaixo de um homem. Sentia-se livre e sonolenta e totalmente em paz. Imaginou que provavelmente tinha uma bonita luz rosa a irradiar suavemente dos dedos das mãos e dos pés.

O coração dele ainda batia com força. Que mulher não se sentiria cheia de si e satisfeita, sabendo que fizera um homem tão grande e forte ficar sem fôlego?

Indolente como um gato, passou as mãos pelas costas dele.

Ele gemeu e rebolou para o lado.

Stella sentiu-se imediatamente exposta e embaraçada. Estendeu a mão para puxar a colcha, para se tapar pelo menos parcialmente. Depois ele fez algo que a deixou paralisada e com o coração aos saltos.

Pegou-lhe na mão e beijou-lhe os dedos.

Não disse nada, absolutamente nada, e ela ficou muito quieta enquanto tentava acalmar o coração.

- Acho que agora devia dar-te de comer - disse ele por fim.

- Ah... eu devia telefonar para casa e ver se está tudo bem com os miúdos.

- Força. - Ele sentou-se, dando-lhe uma palmadinha na coxa nua antes de sair da cama e enfiar as calças. - Vou adiantar as coisas na cozinha.

Não se deu ao trabalho de vestir a camisola e dirigiu-se à porta. Depois parou, virou-se e olhou para ela.

- O que foi? - perguntou ela, levantando um braço para tapar os seios num gesto que esperava que parecesse casual.

- Gosto de te ver assim. Toda despenteada e corada. Dá-me vontade de te despentear e fazer corar outra vez, assim que tiver oportunidade.

- Oh! - Ela tentou encontrar uma resposta, mas ele já se fora a assobiar.

 

Ele sabia cozinhar. Com pouca ajuda de Stella, Logan preparara uma refeição de atum delicadamente grelhado, arroz integral com ervas aromáticas e pimentos salteados com cogumelos. Era o tipo de cozinheiro que misturava e punha ingredientes a olho, ou por impulso, e parecia gostar de o fazer.

Os resultados eram maravilhosos.

Stella cozinhava de forma adequada, competente. Media tudo e considerava as refeições apenas mais uma das suas tarefas diárias.

Era provavelmente uma boa analogia para aquilo que eles eram, pensou. E mais uma razão para fazer muito pouco sentido ela estar a comer na cozinha dele ou estar nua na cama dele.

O sexo fora... incrível. Não valia a pena ser desonesta a esse respeito. E, depois de sexo bom e saudável, ela devia estar a sentir-se à vontade, descontraída e confortável. Em vez disso, sentia-se tensa, contraída e embaraçada.

Fora tão intenso e, depois, ele simplesmente saltara da cama e começara a fazer o jantar. Era como se tivessem acabado de jogar uma partida de ténis.

Mas beijara-lhe os dedos, e esse gesto doce e afectuoso atingira-a em cheio no coração.

Era o seu velho problema, o problema de sempre, recordou a si própria. Analisava demais, preocupava-se demais, fazia tudo demais. Mas, se não analisasse uma coisa, como havia de saber o que era?

- O jantar está bom?

Ela interrompeu o seu debate interno e viu que ele a observava com aqueles olhos intensos de felino.

- Está óptimo.

- Não estás a comer muito.

Deliberadamente, ela partiu mais um pedaço de atum.

- Nunca compreendi as pessoas que cozinham como tu, como nalguns programas de culinária. Misturando as coisas, uma pitada disto, um borrifo daquilo. Como sabes se é a quantidade certa?

Logan sabia que não era nisso que ela estava a pensar, com a boca franzida naquele trejeito sexy.

- Não sei. Geralmente é ou então fica suficientemente diferente para resultar de outra forma.

Talvez não conseguisse entrar na cabeça dela, mas tinha de perceber se o que ela estava a pensar tinha a ver com o sexo ou com as ramificações de o terem feito. Mas, por enquanto, ia jogar à maneira dela.

- Já que tenho de cozinhar e, se não quero passar todas as noites num restaurante, tenho mesmo de cozinhar, quero apreciar o que estou a fazer. Se for demasiado disciplinado, acabo por ficar irritado.

- E eu, se não for disciplinada em certa medida, começo a ficar nervosa. Estará insonso ou demasiado salgado? Malpassado, demasiado bem passado? Quando pusesse a comida na mesa, teria os nervos em frangalhos.

-Uma expressão de preocupação passou pelo seu rosto. - Aqui não é o meu lugar, pois não?

- Define aqui.

- Aqui, aqui. - Fez um gesto largo com os braços. - Contigo, a comer esta refeição deliciosa e inventiva, na tua cozinha maravilhosamente decorada, na tua casa estranhamente encantadora e negligenciada, depois de uma espécie de loucura sexual no teu quarto totalmente masculino.

Ele recostou-se e decidiu beber um longo gole de vinho para clarear as ideias. Quando achava que a tinha compreendido, ela parecia sempre conseguir ir mais além.

- Nunca tinha ouvido essa definição de aqui. Deve ser uma coisa do Norte.

- Sabes o que quero dizer - retorquiu ela. - Isto não é... não é...

- Eficiente? Ordenado? Organizado?

- Não me fales com esse tom conciliador.

- Este não era o meu tom conciliador, era o meu tom exasperado. Qual é o teu problema, ruiva?

- Tu confundes-me.

- Oh! - Ele encolheu os ombros. - É só isso. - E pegou de novo no garfo.

- Achas que tem piada?

- Não, mas acho que tenho fome e que não posso fazer grande coisa em relação ao facto de tu estares confusa. E não me importo muito de te confundir, pois caso contrário tu começas a fazer listas de coisas por ordem alfabética.

Os olhos azuis semicerraram-se.

-A, és arrogante e aborrecido, B, és bruto. C...

- C, és do contra e castradora, mas isso já não me incomoda tanto como ao princípio. Acho que existe algo interessante entre nós. Nem tu nem eu estávamos à procura disso, mas eu consigo aceitá-lo. Tu tens de analisar até à exaustão. Diabos me levem se percebo por que raio é que até começo a gostar disso em ti.

- Eu estou a arriscar mais do que tu. Ele ficou sério.

- Não vou magoar os teus filhos.

- Se eu achasse que eras capaz de o fazer, não estaria contigo a este nível.

- Que ”nível”?

- Sexo e jantares.

- Pareceu-me que lidaste melhor com o sexo do que com o jantar.

- Tens toda a razão. Porque não sei o que esperas de mim agora e não tenho bem a certeza do que espero de ti.

- E isso é o equivalente, para ti, a atirar ingredientes para dentro da panela.

Ela suspirou.

- Pelos vistos, compreendes-me melhor do que eu a ti.

- Não sou muito complicado.

- Oh, por favor. És um labirinto, Logan. - Inclinou-se para a frente até conseguir ver os pontinhos dourados dos olhos dele. - Um maldito labirinto sem qualquer padrão geométrico. Profissionalmente, és um dos designers paisagistas mais criativos, versáteis e entendidos com que já trabalhei, mas fazes metade dos planos em cima do joelho, com pedacinhos de papel espalhados pela carrinha ou enfiados nos bolsos.

Ele enfiou uma garfada de arroz na boca.

- Resulta para mim.

- Pelos vistos, mas não devia resultar para ninguém. Dás-te bem no caos, como esta casa demonstra claramente. Ninguém devia dar-se bem no caos.

- Espera aí. - Desta vez ele fez um gesto com o garfo. - Onde é que está o caos? Não há praticamente nada aqui dentro!

- Precisamente! - exclamou Stella, apontando para ele. - Tens uma cozinha maravilhosa, um quarto confortável e elegante...

- Elegante? - Uma expressão embaraçada invadiu-lhe o rosto. - Meu Deus...

- E salas vazias. Devias estar a arrancar os cabelos, a tentar decidir o que fazer com elas, mas não. Tu simplesmente... simplesmente... - Abanou as mãos em círculos. - És preguiçoso.

- Nunca fui preguiçoso em toda a minha vida. Vagaroso, sim, às vezes respondeu ele. - Mas nunca preguiçoso.

- Como queiras. Percebes de vinho e lês banda desenhada. Que sentido é que isso faz?

- Muito, se pensares que eu gosto de vinho e de banda desenhada.

- Foste casado e, pelos vistos, dedicado o suficiente para te mudares para longe.

- Que sentido faz casar se não estivermos dispostos a fazer o que deixa a outra pessoa feliz? Ou a tentar, pelo menos.

- Amavas a tua mulher - disse Stella com um aceno. - Contudo passaste por um divórcio e sobreviveste sem uma cicatriz. As coisas estavam acabadas, é pena, vamos pôr um fim a isto. És rude e abrupto num minuto, amável no minuto seguinte. Sabias para o que eu vinha cá hoje, e contudo deste-te ao trabalho de preparar uma refeição... o que foi cortês e civilizado... aí tens, podes pôr isso na coluna do C.

- Céus. Ruiva, dás cabo de mim. Eu avançava para o D para dizer que és deliciosa, mas neste momento pareces mais demente.

Apesar de ele estar a rir, Stella estava lançada e não conseguia parar.

- O sexo foi incrível, de abanar as paredes, e depois saltaste da cama como se fizéssemos isto todas as noites há uma data de anos. Não consigo acompanhar-te.

Quando achou que ela tinha acabado de falar, Logan pegou no copo e bebeu, com ar pensativo.

- Vamos lá ver se consigo encontrar o caminho no meio disso tudo. Apesar de não ter detectado nenhum padrão geométrico.

- Oh, cala-te.

Ele agarrou-lhe na mão antes que ela pudesse levantar-se da mesa.

- Não, deixa-te estar aí sentada. Agora é a minha vez. Se não trabalhasse como trabalho, não conseguiria fazer aquilo que faço e de certeza que não gostaria do que faço. Descobri isso no Norte. O meu casamento foi um fracasso. Ninguém gosta de falhar, mas ninguém vive a vida inteira sem fazer uma asneira ou outra. Eu e a Rae fizemos asneira, mas não magoámos ninguém a não ser nós próprios. Lambemos as feridas e seguimos em frente.

-Mas...

- Espera. Se sou rude e abrupto, é porque me sinto rude e abrupto. Se sou amável, é porque quero ser, ou acho que tenho de ser, em determinadas alturas.

Pensou ”Oh, que se lixe” e encheu novamente o copo de vinho. Ela mal tocara no seu.

- Qual era a próxima? Oh, sim, a tua presença aqui esta noite. Sim, eu sabia porque tinhas vindo. Não somos adolescentes e tu és uma mulher bastante directa, à tua maneira. Queria estar contigo e acho que o deixei bem claro. Tu não virias bater-me à porta se não estivesses pronta. Quanto à refeição, há uma ou duas razões para isso. Primeiro, gosto de comer. Segundo, queria que estivesses aqui. Queria estar contigo aqui, assim. Antes, depois, a meio. Como quer que as coisas acontecessem.

Enquanto ele falava, de alguma forma, a irritação dela desaparecera.

- Como é que consegues fazer com que pareça tudo tão natural?

- Ainda não acabei. Apesar de concordar contigo na descrição do sexo, oponho-me ao uso da palavra ”saltar”. Eu não saltei da cama. Levantei-me porque, se tivesse respirado o teu aroma por muito mais tempo, pedir-te-ia para ficares cá. Sei que não podes ou não queres. E a verdade é que não sei se estarei também preparado para isso. Se és o tipo de mulher que precisa de uma data de conversa depois do sexo, tipo ”Querida, foi fantástico...”

- Não sou. - Algo no tom exasperado dele fê-la sorrir. - Sei julgar por mim própria e dei cabo de ti lá em cima.

A mão dele acariciou a dela.

- Se houve alguma destruição, foi mútua.

- Está bem. Destruição mútua. A primeira vez que se está com um homem, e acho que isto é verdade para a maioria das mulheres, é tão enervante quanto excitante. Mais ainda se o que aconteceu entre ambos a tocou de alguma maneira. E tu tocaste-me de alguma maneira, e isso assusta-me.

- Directa - comentou ele.

- Directa, em contraste com o teu labirinto. É uma combinação complicada. Dá-nos muito em que pensar. Lamento ter feito uma questão tão grande de tudo isto.

- Ruiva, tu nasceste para fazer questões de tudo. Até é interessante, agora que começo a habituar-me.

- Talvez seja verdade, e eu podia dizer que o facto de tu seres muito diferente também é bastante interessante. Mas, para já, vou ajudar-te a arrumar a cozinha. Depois tenho de ir para casa.

Ele levantou-se ao mesmo tempo que ela, depois simplesmente segurou-a pelos ombros e encostou-a ao frigorífico. Beijou-a loucamente - o mau génio, as necessidades, a frustração e os desejos acumulados misturavam-se naquele beijo.

- Aqui tens mais uma coisa em que pensar.

- Sem dúvida.

Roz não se metia na vida das outras pessoas. Não se importava de ouvir mexericos se lhos viessem contar, mas não se metia. Não gostava melhor dizendo, não permitia - que os outros se metessem na sua vida e dispensava-lhes a mesma cortesia.

Portanto, não fez perguntas a Stella. Pensou em várias, mas não as fez.

Observou.

A sua gerente tratou dos negócios com a habitual calma e eficiência. Roz achava que Stella podia estar no meio de um tornado e continuar a conduzir os negócios de forma eficiente.

Uma característica admirável e algo assustadora.

Roz ganhara um grande afecto por Stella e dependia agora dela, inquestionavelmente, para tratar dos pormenores do negócio, de forma que ela própria pudesse concentrar-se nos deveres e prazeres de cultivar.

Adorava os miúdos. Era impossível não gostar deles. Eram encantadores e inteligentes, malandros e barulhentos, divertidos e cansativos.

Já estava tão habituada à presença deles, de Stella e de Hayley, que não conseguia imaginar a casa sem eles.

Mas não se meteu, nem mesmo quando Stella chegou a casa, depois da sua noite com Logan, com o ar inconfundível de uma mulher bem satisfeita.

Mas também não mandou calar Hayley, nem lhe virou costas, quando a rapariga começou a falar nisso.

- Ela não entra em pormenores - queixou-se Hayley enquanto ela e Roz tiravam as ervas daninhas de um canteiro. - Gosto quando as pessoas entram em pormenores. Mas disse-me que ele cozinhou para ela. Sempre pensei que, quando um homem cozinha, ou está a tentar apanhar-nos na cama ou está apaixonado.

- Talvez estivesse apenas com fome.

- Um homem, quando tem fome, manda vir uma piza. Pelo menos os homens que eu conheci. Acho que ele está apaixonado. - Fez uma pausa, obviamente à espera de que Roz fizesse um comentário. Quando ela não disse nada, Hayley suspirou. - Então? Vocês conhecem-se há muito tempo.

- Há alguns anos. Mas não sei dizer-te o que vai dentro da cabeça dele. Posso no entanto dizer que nunca cozinhou para mim.

- A mulher dele era horrível?

- Não sei. Não a conheci.

- Gostava que fosse. Uma autêntica cabra com coração de pedra, que o tivesse destroçado e deixado ferido e ressentido com todas as mulheres. Depois a Stella aparecia e deixava-o todo confuso enquanto o curava.

Roz agachou-se sobre os calcanhares e sorriu.

- És muito novinha, minha querida.

- Não é preciso ser nova para gostar de romance. Ah... o teu segundo marido era terrível, não era?

- Era... e é... um mentiroso, um vigarista e um ladrão. Tirando isso, é um homem encantador.

- Partiu-te o coração?

- Não. Feriu-me o orgulho e irritou-me. O que foi ainda pior, na minha opinião. Mas isso é passado, Hayley. Vou pôr aqui umas Silene armeria continuou. - Têm uma época de floração longa e ficarão aqui bem.

- Desculpa.

- Não é preciso pedires desculpa.

- É que hoje de manhã esteve cá uma mulher... Sr.a Peebles?

- Oh, sim, a Roseanne. - Depois de olhar para o espaço vazio, Roz pegou na pequena pá e começou a remexer a terra na parte da frente do canteiro. - E comprou alguma coisa?

- Andou de um lado para o outro durante mais de uma hora e disse que voltava noutra altura.

- Típico. O que é que ela queria? Não era plantas, com certeza.

- Também percebi isso. Ela é bisbilhoteira, e a curiosidade dela não é aquilo a que se pode chamar uma curiosidade benigna. Vem cá só pelos mexericos... para os espalhar ou para os recolher. Há pessoas desse estilo em todos os lados.

- Suponho que sim.

- Bom, de qualquer maneira, ela tinha ouvido dizer que eu estava a viver aqui e que havia uma ligação familiar, portanto estava a tentar puxar por mim. Eu não me deixo levar com muita facilidade, mas deixei-a tentar.

Roz sorriu por baixo da pala do boné enquanto pegava numa planta.

- Ainda bem.

- Acho que o que ela queria mesmo era que eu te transmitisse a notícia de que o Bryce Clerk está de novo em Memphis.

As mãos de Roz estremeceram bruscamente, partindo parte do caule.

- Ah, sim? - perguntou baixinho.

- Está a viver no Peabody, por enquanto, e parece que tem um negócio qualquer em vista. Ela não foi muito específica. Diz que ele tenciona mudar-se permanentemente para cá e que está à procura de um escritório. Ela diz que ele parece muito próspero.

- Provavelmente caçou outra mulher insensata.

- Tu não és insensata, Roz.

- Fui, durante algum tempo. Bom, não me interessa onde ele está nem o que está a fazer. Não me deixo queimar duas vezes com o mesmo fósforo.

Ajeitou a planta e pegou noutra.

- O nome comum destas plantas é mais-bonitas. Sentes estas zonas peganhentas nos caules? Servem para apanhar moscas. Mostra que uma coisa tão atraente também pode ser perigosa ou, pelo menos, uma grande chatice.

Enterrou o assunto enquanto se lavava. Não estava preocupada com um patife com quem fora em tempos suficientemente idiota para casar. Uma mulher tinha direito a cometer alguns erros na vida, mesmo que os cometesse por solidão ou palermice ou - tinha de o admitir - vaidade.

”Tenho esse direito”, pensou Roz, ”desde que corrija os erros e não os repita.”

Vestiu uma camisa lavada e passou os dedos pelo cabelo húmido enquanto se via ao espelho. Ainda conseguia ser atraente e muito, se se desse a esse trabalho. Se quisesse um homem, conseguia arranjar um homem - e não apenas se ele partisse do princípio de que ela era burra e tinha uma fonte inesgotável de dinheiro. Talvez o que acontecera com Bryce tivesse abalado a sua confiança e auto-estima durante algum tempo, mas agora estava bem. Melhor do que bem.

Nunca precisara de um homem para preencher a sua vida antes de o conhecer e não precisava de um agora. As coisas estavam novamente como ela gostava delas. Os filhos eram felizes e produtivos, o negócio corria sobre rodas, a casa estava segura. Tinha amigos de quem gostava e conhecidos que tolerava.

E, neste momento, tinha o interesse acrescido de investigar o fantasma da família.

Escovando mais uma vez o cabelo, desceu para se juntar ao resto da equipa na biblioteca. Ouviu baterem à porta quando chegou ao fundo das escadas e fez um desvio para abrir.

- Logan, que boa surpresa!

- A Hayley não te disse que eu vinha?

- Não, mas não interessa. Entra.

- Encontrei-a hoje nos viveiros e ela pediu-me para passar por cá esta noite, para vos dar uma ajuda com as pesquisas. Não consegui resistir à ideia de ser um caça-fantasmas.

- Compreendo. - E compreendia. - Acho melhor avisar-te de que a nossa Hayley é uma romântica e, neste momento, vê-te como um Rochester e à Stella como Jane Eyre.

-Oh! Ela sorriu.

- A Stella ainda está com os filhos, a prepará-los para dormir. Porque não sobes até à ala oeste? Segue o barulho. Diz-lhe que nos vamos entretendo até ela descer.

Afastou-se antes que ele pudesse concordar ou protestar.

Ela não se metia na vida dos outros. Mas isso não queria dizer que não pudesse plantar uma semente de vez em quando.

Logan ficou onde estava durante alguns instantes, tamborilando com os dedos na perna. Ainda estava a fazê-lo quando começou a subir as escadas.

Roz estava certa em relação ao barulho. Ouviu os risos e gritos, os pés a baterem no chão, mesmo antes de chegar ao cimo das escadas. Seguindo o ruído, percorreu o corredor e parou junto da porta aberta.

Era obviamente um quarto de rapazes. E, apesar de estar muito mais arrumado do que o dele estava naquela idade, não era estático nem excessivamente organizado. Havia alguns brinquedos espalhados pelo chão, livros e outros objectos em cima da secretária e nas prateleiras. Cheirava a sabonete, champô, juventude e lápis de cor.

No meio do quarto, Stella estava sentada no chão, fazendo cócegas sem misericórdia a Gavin, que já estava de pijama, enquanto Luke, completamente nu, corria pelo quarto aos gritos imitando uma sirene, com as mãos curvadas à volta da boca.

- Como é que eu me chamo? - inquiriu Stella enquanto fazia o filho mais velho rir descontroladamente.

- Mamã!

Ela imitou o som de uma buzina e enfiou os dedos nas costelas dele.

- Tenta de novo, rapazinho indefeso. Como é que eu me chamo?

- Mamã, mamã, mamã, mamã, mamã! - Ele tentou escapar-se e ela virou-o de barriga para baixo.

- Não estou a ouvir.

- Imperatriz - conseguiu ele dizer entre as gargalhadas.

- E? O resto, diz o resto ou o tormento continua.

- Imperatriz Magnífica de Todo o Universo!

- E nunca te esqueças disso. - Deu-lhe um beijo repenicado no traseiro, por cima das calças de pijama, e endireitou-se. - E agora tu, criaturinha baixa com cara de sapo. - Levantou-se, esfregando as mãos, enquanto Luke gritava, deliciado.

E depois recuou, soltando também um grito, quando viu Logan à porta.

- Oh, meu Deus! Ias-me matando de susto!

- Desculpa, estava a assistir ao espectáculo. Sua Alteza. Olá, miúdo. Acenou a Gavin, que ainda estava deitado no chão. - Que tal vai isso?

- Ela derrotou-me. Agora tenho de ir para a cama, porque é essa a lei do país.

- Assim parece. - Baixou-se, apanhou as calças de um pijama dos X-Men e olhou para Luke com as sobrancelhas erguidas. - São da tua mãe?

Luke soltou uma gargalhada e começou a dançar, nada preocupado com a nudez.

- Não! São minhas. Só tenho de as vestir se ela me apanhar.

Luke tentou fugir para a casa de banho e a mãe apanhou-o com um só braço.

”É mais forte do que parece”, pensou Logan, enquanto ela levantava o filho acima da cabeça.

- Rapazinho tolo, nunca conseguirás escapar-me. - Colocou-o no chão.

- Toca a vestir o pijama, e cama. - Olhou para Logan. - Querias alguma coisa...

- Fui convidado para a... para a reunião lá em baixo.

- É uma festa? - quis saber Luke quando Logan lhe estendeu as calças do pijama. - Há bolachas?

- É uma reunião, uma reunião de adultos, e, se houver bolachas - disse Stella, abrindo a cama de Luke -, podes comê-las amanhã,

- O David faz umas bolachas mesmo boas - comentou Gavin. - Melhores do que as da mamã.

- Se isso não fosse verdade, teria de te punir severamente. - Abriu a cama dele e Gavin sentou-se, sorrindo. Stella empurrou-o carinhosamente para trás.

- Mas tu és mais bonita do que ele.

- Muito espertinho. Logan, importas-te de lhes dizer que eu desço já? Vamos só ler um bocadinho.

- Pode ser ele a ler? - pediu Gavin.

- Posso. Qual é o livro?

- Hoje é o Capitão Cuecas. - Luke pegou no livro e apressou-se a enfiá-lo nas mãos de Logan.

- Então é um super-herói? Luke arregalou os olhos.

- Não conheces o Capitão Cuecas?

- Acho que não. - Revirou o livro nas mãos, mas estava a olhar para o rapaz. Nunca lera para crianças antes. Talvez fosse divertido. - Talvez seja melhor eu ler-vos a história para ficar a conhecê-lo. Se a Imperatriz não se importar.

- Bem, eu...

- Por favor, mamã! Por favor!

Ao ouvir o coro de ambos os lados, Stella cedeu com uma estranha sensação no estômago.

- Claro. Vou arrumar a casa de banho.

Deixou-os sozinhos enquanto limpava o chão e recolhia os brinquedos do banho, ouvindo a voz profunda de Logan a ler em tom divertido.

Pendurou as toalhas molhadas, arrumou os brinquedos num saco de rede para secarem, limpou o chão. E sentiu o frio envolvê-la. Um frio duro e cortante que a penetrou até aos ossos.

Os seus cremes e loções tombaram em cima do balcão, como se uma mão zangada os tivesse derrubado. O barulho fê-la saltar para tentar apanhá-los antes que caíssem no chão.

E cada um era como um cubo de gelo na sua mão.

Ela vira-os mexerem-se. Deus do céu, vira-os mexerem-se.

Empurrando-os para a parede, dirigiu-se automaticamente para a porta de ligação para proteger os filhos do frio, da fúria que sentia no ar.

Ali estava Logan, sentado na cadeira entre as duas camas, a ler as aventuras patetas do Capitão Cuecas naquela voz lenta e descontraída, enquanto os seus filhos adormeciam, aconchegados nas suas camas.

Stella ficou ali parada, bloqueando o frio, deixando-o embater nas suas costas até Logan acabar de ler, até erguer os olhos para ela.

- Obrigada. - Ficou surpreendida com a calma da sua própria voz. Meninos, digam boa-noite ao Logan.

Entrou no quarto enquanto eles murmuravam as boas-noites. Ao sentir que o frio não a seguia, pegou no livro e conseguiu sorrir.

- Eu desço já.

- Está bem. Até à próxima, homens.

O interlúdio deixara-o enternecido e descontraído. Ler histórias para crianças era fantástico. Quem havia de dizer? Capitão Cuecas!

Não se importaria de voltar a fazê-lo noutra altura, especialmente se conseguisse convencer a mamã a deixá-lo ler-lhes um livro de banda desenhada.

Gostara de a ver no chão a lutar com o filho. ”Imperatriz Magnífica”, pensou com um sorriso.

De repente, ficou sem fôlego. A força do frio foi como uma rajada nas suas costas, envolvendo-o e empurrando-o para a frente.

Cambaleou no cimo das escadas e sentiu-se tonto com a perspectiva de cair. Agitando os braços, conseguiu agarrar-se ao corrimão e, rodando o corpo, segurou-se também com a outra mão, vendo pontinhos negros à frente dos olhos. Por um instante, temeu simplesmente cair por cima do corrimão, empurrado pelo impulso do seu próprio movimento.

Pelo canto do olho viu uma silhueta, vaga mas feminina. E, emanando dela, sentiu uma raiva crua e amarga.

Depois ela desapareceu.

Ouviu a sua própria respiração ofegante e sentiu o suor frio do pânico nas costas. Apesar de ter as pernas fracas, ficou onde estava, esforçando-se por se recompor até Stella aparecer.

O meio sorriso dela desapareceu assim que o viu.

- O que é? - perguntou, aproximando-se rapidamente dele. - O que aconteceu?

- Ela... esse vosso fantasma... alguma vez assustou os rapazes?

- Não. Exactamente o oposto. Com eles é... reconfortante, até mesmo protectora.

- Está bem. Vamos para baixo. - Pegou-lhe na mão com firmeza, preparado para a pôr em segurança à força se fosse necessário.

- Tens a mão fria. -A quem o dizes.

- Diz-me tu, o que foi? -Já falamos.

Contou o que acontecera a todos, depois de se sentarem à volta da mesa na biblioteca, com as suas pastas, livros e apontamentos. Enquanto falava, deitou uma boa porção de brandy no café.

- Em todos os anos desde que ela faz parte desta casa - começou Roz -, nunca houve nada que indicasse que é uma ameaça. Houve pessoas que se sentiram assustadas ou perturbadas, mas nunca ninguém foi fisicamente atacado.

- Os fantasmas podem atacar fisicamente? - perguntou David.

- Não terias de perguntar se tivesses estado no cimo das escadas comigo.

- Os poltergeists conseguem deslocar objectos - comentou Hayley. Mas geralmente manifestam-se perto de adolescentes. Tem qualquer coisa a ver com a puberdade. Seja como for, não é isso que se passa. Talvez um antepassado do Logan lhe tenha feito alguma coisa. E ela esteja a vingar-se.

-Já estive nesta casa dezenas de vezes. Ela nunca me incomodou antes.

- As crianças - disse Stella baixinho, olhando para os seus apontamentos. - Centra-se tudo nelas. Ela é atraída por crianças, principalmente meninos. E protectora em relação a eles. Quase se pode dizer que me inveja por eu os ter, não de uma forma malévola, mas triste. No entanto, estava zangada na noite em que eu saí para jantar com o Logan.

- Estás a pôr um homem à frente dos filhos. - Roz ergueu a mão. - Não estou a dizer que é isso que eu penso. Temos de pensar como ela. Já falámos sobre isto, Stella, e tenho andado a reflectir sobre o assunto. As únicas alturas em que me lembro de a sentir zangada foi uma ou outra vez em que saí com algum homem, quando os meus filhos estavam a crescer. Mas nunca senti nada tão directo nem perturbador como isto. Por outro lado, nunca foi nada importante. Nunca senti nada sério por nenhum desses homens.

- Não vejo como ela pode saber o que eu penso ou sinto. ”Os sonhos”, pensou Stella. ”Ela esteve nos meus sonhos.”

- Não vamos ser irracionais - interrompeu David. - Vamos seguir esta linha de pensamento até ao fim. Digamos que ela acha que as coisas são sérias ou se estão a encaminhar nesse sentido entre ti e o Logan. É evidente que isso não lhe agrada. As únicas pessoas que se sentiram ameaçadas foram vocês os dois. Porquê? Será que isso a deixa zangada? Ou com ciúmes?

- Um fantasma ciumento. - Hayley tamborilou com os dedos na mesa.

- Oh, essa é boa. É como se ela sentisse empatia contigo por seres mulher, uma mulher sozinha com filhos. Ajuda-te a tomar conta deles, até te protege, de certa forma. Mas, assim que entra um homem em cena, fica furiosa. É como se não quisesse que tu tivesses uma família normal, mãe, pai, filhos, porque ela também não teve.

- O Logan e eu dificilmente... Tudo o que ele fez foi ler-lhes uma história.

- O tipo de coisa que um pai faria - observou Roz.

- Eu... enquanto ele estava a ler, eu estava a arrumar a casa de banho. E ela estava lá. Senti-a. Depois, bom, as minhas coisas... as coisas que estão em cima do balcão começaram a saltar. Eu saltei.

- Credo - murmurou Hayley.

- Fui à porta e no quarto dos rapazes estava tudo calmo e normal. Sentia calor à minha frente e um frio cortante atrás de mim. Ela não queria assustá-los. Apenas a mim.

Porém, comprar um intercomunicador de vigilância estava no topo da sua lista. Daqui em diante, queria ouvir tudo o que se passava naquele quarto quando os filhos lá estavam sem ela.

- Esta é uma boa hipótese, Stella, e és suficientemente inteligente para saber que devíamos explorá-la. - Roz apoiou as mãos na mesa da biblioteca. - Nada do que encontrámos indica que este espírito pertença a uma das mulheres Harper, como se pensou ao longo de todos estes anos. No entanto, alguém a conhecia enquanto foi viva, alguém sabia que ela tinha morrido. Terá o caso sido abafado, ignorado? De uma maneira ou de outra, talvez isso explique a presença dela. Se o caso foi abafado ou ignorado, o mais lógico parece ser que ela tenha sido uma criada ou uma amante.

- Aposto que ela teve um filho. - Hayley pousou a mão na barriga. Talvez tenha morrido a dar à luz ou tenha sido obrigada a dar a criança e tenha morrido de desgosto. Deve ter sido um dos homens Harper a metê-la em problemas, não acham? Por que razão ficaria aqui se não tivesse vivido aqui ou...

- Morrido aqui - terminou Stella. - Reginald Harper era o chefe da família durante o período em que julgamos que ela morreu. Roz, como diabo havemos de descobrir se ele teve uma amante ou um filho ilegítimo?

 

Logan estivera apaixonado duas vezes em toda a sua vida. Sentira desejo várias vezes. Sentira fortes interesses, mas o amor só o apanhara duas vezes. A primeira no final da adolescência, quando tanto ele como a rapariga dos seus sonhos eram demasiado jovens para lidar com o sentimento.

Tinham-se consumido mutuamente e ao amor que sentiam com paixão, ciúmes e uma espécie de energia louca. Conseguia agora olhar para trás e pensar em Lisa Anne Lauer com afecto e uma doce nostalgia.

Depois houvera Rae. Ele era um pouco mais velho, um pouco mais vivido. Não se tinham precipitado, esperando dois anos antes de casarem. Ambos o desejavam, apesar de algumas pessoas que o conheciam terem ficado surpreendidas, não só com o noivado mas com o facto de ele ter concordado em se mudar para o Norte com ela.

Mas Logan não ficara surpreendido. Amava-a e o Norte era onde ela queria estar. ”Precisava de estar”, corrigiu-se, e ele pensara, afinal ingenuamente, que conseguiria viver em qualquer lado.

Deixara os planos do casamento nas mãos de Rae e da mãe dela, com alguma participação sua. Não era maluco. Mas gostara do grande casamento, espalhafatoso e cheio de gente, com toda a sua pompa.

Conseguira um bom emprego no Norte. Pelo menos em teoria. Mas sentia-se inquieto e insatisfeito naquela colmeia e deslocado na agitação urbana.

”Um rapaz do campo”, pensou, enquanto ele e a sua equipa acabavam de colocar as tábuas tratadas no telhado de um caramanchão de três metros e meio. Estava demasiado ligado ao campo, às cidades pequenas, para conseguir adaptar-se a uma paisagem urbana.

Não se dera bem lá, nem ele nem o seu casamento. No início, foram apenas pequenas coisas, coisas mesquinhas - em retrospectiva, coisas com que deviam ter sabido lidar, fazendo cedências, ultrapassando. Em vez disso, ambos tinham deixado essas pequenas coisas fermentarem e crescerem até os afastar - não apenas afastar, mas empurrar em direcções opostas.

Ela estava no seu elemento, ele não. No fundo, sentia-se infeliz, e ela sentia-se infeliz por ele não se estar a adaptar. Tal como qualquer doença, a infelicidade espalha-se até às raízes quando não é tratada.

A culpa não fora apenas dela. Nem dele. No fim, tinham sido suficientemente inteligentes, ou suficientemente infelizes, para desistir antes que as coisas piorassem.

O fracasso magoara, e a perda desse amor em tempos prometedor magoara. Stella estava errada quando falava em ausência de cicatrizes. Simplesmente havia cicatrizes com as quais se tinha de aprender a viver.

O cliente queria glicínias no caramanchão. Deu instruções à sua equipa sobre o local onde as plantar e dirigiu-se ao pequeno lago onde o cliente queria plantas aquáticas.

Sentia-se melancólico e, quando estava assim, gostava de trabalhar sozinho tanto quanto possível. Tinha os juncos em vasos e, arrastando as botas, entrou na água para os afundar. Se os deixasse à vontade, os juncos espalhar-se-iam e abafariam tudo o resto, mas em vasos dariam um belo efeito bucólico ao lago. Tratou de três nenúfares da mesma forma, depois enterrou os lírios amarelos. Eles gostavam de estar perto de água e fariam dançar a sua cor na beira do lago.

O trabalho satisfazia-o, centrava-o, como sempre. Deixava uma parte da sua mente livre para lidar com outros problemas. Ou pelo menos para reflectir sobre eles.

Talvez pusesse um pequeno lago no jardim murado que tencionava construir em sua casa. Mas sem juncos. Talvez experimentasse alguns nenúfares e uns lírios-de-água como planta de fundo. Parecia-lhe mais o tipo de coisa de que Stella gostaria.

Apaixonara-se duas vezes antes, pensou Logan de novo. E agora conseguia sentir as delicadas raízes dentro dele à procura de um lugar onde crescer. Provavelmente conseguiria cortá-las. Provavelmente. Talvez devesse fazê-lo.

O que ia fazer com uma mulher como Stella e com aqueles dois miúdos terrivelmente queridos? Inevitavelmente, a longo prazo, iam dar um com o outro em loucos, com as suas abordagens diferentes a praticamente tudo. Duvidava que se consumissem um ao outro, mas, céus, quando a tivera na cama sentira-se sem dúvida chamuscado. Mas podiam murchar, como ele e Rae tinham murchado. E sabia que isso era ainda mais doloroso, mais terrível, do que consumir-se rapidamente.

Desta vez tinha de pensar também nas crianças.

Não fora por isso que o fantasma lhe dera um bom pontapé no rabo? Era difícil acreditar que estava ali, a suar no ar abafado sob o céu encoberto, e a pensar no seu encontro com um fantasma. Sempre se julgara uma pessoa de espírito aberto em relação a essas coisas - até estar cara a cara, por assim dizer, com elas.

Na verdade, apercebeu-se Logan enquanto levava o adubo para o espalhar na beira do lago, ele nunca acreditara nessas histórias de fantasmas. Para ele, tinham sempre sido apenas lendas ou invenções. As casas antigas tinham de ter fantasmas porque isso dava uma boa história e aqui, no Sul, toda a gente adorava uma boa história. Aceitara-o como parte da cultura e talvez, de alguma forma estranha, como algo que podia acontecer às outras pessoas. Principalmente se as outras pessoas estivessem um bocadinho embriagadas ou fossem muito susceptíveis à atmosfera.

Mas ele não estava embriagado nem era susceptível. No entanto, sentira a respiração dela, o gelo da sua respiração e o poder da sua raiva. Ela quisera fazer-lhe mal, quisera afastá-lo. Daquelas crianças e da mãe das crianças.

Assim, dedicava-se agora a descobrir a identidade do fantasma que assombrava aqueles corredores.

Mas parte dele perguntava-se se ela não estaria certa. Não seria melhor para todos se ele se afastasse?

O telemóvel que trazia no cinto deu sinal. Uma vez que estava quase despachado, atendeu em vez de o ignorar, tirando as luvas imundas antes de soltar o telefone do cinto.

- Kitridge.

- Logan, é a Stella.

O coração deu-lhe um salto no peito, o que o irritou.

- Sim, tenho os malditos formulários na carrinha.

- Quais formulários?

- Sei lá, aqueles por que me telefonaste para me chatear.

- Por acaso, não estou a ligar para te chatear por nada. - A voz dela adquiriu um tom seco e profissional, o que fez com que o coração de Logan voltasse a saltar e a irritação aumentasse.

- Bom, também não tenho tempo para dar à língua. Estou a trabalhar.

- Ainda bem, porque queria marcar uma consulta. Tenho uma cliente que gostava que fosses fazer uma consulta no local. Ela está aqui, portanto, se me deres uma ideia dos teus planos para hoje, digo-lhe já se podes encontrar-te com ela e quando.

- Onde?

Stella deu-lhe uma morada que ficava a vinte minutos de onde ele se encontrava. Olhou à volta, fazendo cálculos de cabeça.

- Às duas horas.

- Muito bem. Eu digo-lhe. A cliente chama-se Marsha Fields. Precisas de mais alguma informação?

-Não.

- Óptimo.

Ouviu o estalido do outro lado da linha e deu por si ainda mais irritado por não ter desligado primeiro.

Quando Logan chegou a casa nessa noite estava cansado, suado e mais bem-disposto. O trabalho físico geralmente fazia-lhe bem, e nesse dia trabalhara muito. Trabalhara com tempo abafado e, depois, com uma breve tempestade de Primavera. Ele e a sua equipa tinham parado para almoçar quando o tempo piorara e tinham ficado sentados na carrinha quente, com a chuva a chicotear as janelas, enquanto comiam sanduíches e bebiam chá doce.

O trabalho de Marsha Fields tinha fortes possibilidades. Ela era uma mulher decidida e tinha ideias muito específicas. Uma vez que gostava e concordava com a maioria delas, Logan estava ansioso por as colocar em papel, para as desenvolver ou refinar.

E, uma vez que Marsha tinha uma prima por parte da mãe que era prima em segundo grau de Logan pelo lado do pai, a consulta demorara mais do que seria normal e decorrera de forma jovial.

Também não fazia mal nenhum o facto de ela estar prestes a dar-lhe mais trabalho.

Fez a última curva antes de chegar a casa num estado de espírito animado, que ficou considerável mente mais sombrio quando viu o carro de Stella estacionado atrás do seu.

Não queria vê-la agora. Ainda não tinha as coisas claras na sua cabeça e ela ia apenas dar cabo dos progressos que ele tinha feito. Queria um duche e uma cerveja, um pouco de silêncio. Depois queria jantar, com a televisão num canal desportivo e o trabalho espalhado na mesa da cozinha.

Não havia espaço nesse cenário para uma mulher.

Estacionou, firmemente decidido a mandá-la embora. Ela não estava no carro nem no alpendre. Tentou perceber se o facto de ter ido para a cama com ele a faria achar que tinha o direito de entrar em sua casa quando ele não estava lá. Concluiu que não, pelo menos no caso de Stella, e nesse momento ouviu o barulho da mangueira do jardim.

Enfiou as mãos nos bolsos e contornou a casa.

Ela estava no pátio, vestindo calças cinzentas justas - daquelas por cima dos tornozelos - e uma camisa azul larga. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo brilhante e encaracolado que, por razões que ele não conseguia explicar, lhe pareceu desesperadamente sexy. Uma vez que o sol começara a espreitar entre as nuvens, protegera os olhos com óculos escuros.

Estava simples e bem arranjada e trabalhava com o cuidado de não molhar os mocassins cinzentos.

- Hoje choveu - disse ele.

Ela continuou a regar os vasos.

- Não o suficiente.

Acabou o que estava a fazer, mas continuou com a mangueira na mão quando se virou para ele.

- Compreendo que tens o teu próprio estilo e os teus estados de espírito, e isso é problema teu. Mas não admito que me fales como me falaste hoje. Recuso-me a ser tratada como uma parvinha que telefona ao namorado a meio de um dia de trabalho para dizer lamechices ou como uma colega de trabalho paranóica que te interrompe para te aborrecer com pormenores. Não sou uma coisa nem outra.

- Não és minha namorada ou minha colega?

Viu perfeitamente os maxilares dela contraírem-se quando cerrou os dentes.

- Se e quando eu te contactar durante o trabalho, será por uma boa razão. Como era esta manhã.

Ela tinha razão, mas ele não precisava de o admitir.

- Conseguimos o trabalho.

- Viva.

Ele mordeu a bochecha para conter um sorriso ao ouvir o tom azedo da voz dela.

- Vou trabalhar no design com base numa proposta dela. Receberás uma cópia de ambas as coisas. Está bem assim?

- Está. O que não está...

- Onde estão os miúdos?

A pergunta apanhou-a desprevenida.

- O meu pai e a mulher foram buscá-los à escola. Vão jantar com eles e passar lá a noite, porque eu tenho uma aula de preparação para o parto com a Hayley.

- A que horas?

- A que horas o quê? -A aula?

-Às oito e meia. Não vim para tagarelar, Logan, nem para ser apaziguada. Acho mesmo que... - Arregalou os olhos, depois semicerrou-os e recuou. Ele tinha dado um passo em frente e as intenções por trás daquele sorriso lento eram inconfundíveis.

- Nem penses nisso. Não podia estar menos interessada em beijar-te neste momento.

- Nesse caso vou beijar-te, talvez consiga despertar o teu interesse.

- Estou a falar a sério. - Apontou-lhe a mangueira como se fosse uma arma. - Não te aproximes mais. Quero deixar bem claro o que tenho para te dizer.

- Estou a apanhar a mensagem. Vá, dispara - convidou. - Fartei-me de suar hoje, não me importo nada de levar um banho.

- Pára! - Ela recuou vários passos enquanto ele avançava. - Isto não é uma brincadeira, não tem piada.

- Só consegues excitar-me mais quando falas nesse tom.

- Não estou a falar em tom nenhum.

- Professora ianque. Vou ter pena se perderes esse sotaque. - Tentou agarrá-la e, instintivamente, Stella apertou a mangueira. E acertou-lhe.

A água atingiu-o em cheio no peito e Stella não conseguiu conter uma gargalhada.

- Não vou brincar contigo agora. Estou a falar a sério, Logan. Ensopado, ele tentou agarrá-la de novo enquanto se desviava para a esquerda. Desta vez ela soltou um grito, largou a mangueira e fugiu.

Ele apanhou-a pela cintura ao fundo do pátio e levantou-a no ar. Indecisa entre o choque e a incredulidade, ela esperneou, torceu-se e depois perdeu o fôlego quando aterrou sobre a relva, por cima dele.

- Larga-me, idiota.

- Não sei porquê. - Céus, era bom estar na horizontal. Melhor ainda tê-la na horizontal com ele. - Aqui estás tu, a invadir a minha propriedade, a regar os meus vasos, a debitar sermões. - Rebolou e prendeu-a debaixo de si. - Devia poder fazer o que quisesse na minha propriedade.

- Pára com isso. Ainda não acabei de discutir contigo.

-Aposto que consegues recomeçar onde paraste. - Mordeu-lhe o queixo ao de leve.

- Estás molhado, estás todo suado e eu estou a ficar com manchas de relva no...

O resto das palavras foram abafadas pela boca dele e Stella seria capaz de jurar que a água nos corpos de ambos se tinha transformado em vapor.

- Não posso... não podemos... - Mas as razões estavam a tornar-se indistintas. - No quintal.

- Queres apostar?

Ele não conseguia deixar de a desejar, então porquê tentar? Queria a sua parte sólida e sensível e a parte doce e suave. Queria a mulher obcecada por formulários que era capaz de lutar no chão com os filhos. Queria a mulher que lhe regava os vasos enquanto o esfolava com palavras.

E aquela que vibrava debaixo dele sobre a relva quando lhe tocava.

Tocou-lhe com mãos exigentes que lhe moldaram os seios, lhe percorreram o corpo até às ancas. Saboreou-a com lábios esfomeados na sua garganta, no ombro, no seio.

Ela derreteu-se debaixo dele e, ao mesmo tempo, o calor e o movimento pareciam dar-lhe vida.

Era uma loucura. Era imprudente e disparatado, mas não conseguia controlar-se. Rebolaram sobre a relva, como dois cachorrinhos frenéticos. Ele cheirava a suor, a trabalho e a humidade. E, céus, a homem. Um aroma pungente, delicioso e sexy.

Stella fechou os dedos sobre o cabelo ondulado, com madeixas mais claras do sol, e puxou a boca dele para a sua.

Mordiscou-lhe o lábio, a língua.

- O teu cinto... - Teve de se esforçar para conseguir falar. - Está a magoar-me...

- Desculpa.

Ele soergueu-se para o desapertar, depois parou para olhar para ela. O cabelo soltara-se do elástico; os seus olhos estavam ardentes, a pele corada. E Logan sentiu as raízes enterrarem-se no seu coração.

- Stella.

Não sabia o que poderia ter dito. As palavras eram um turbilhão no seu cérebro, misturadas com tantos sentimentos que não conseguia traduzi-los. Mas ela sorriu, um sorriso lento e ardente como o seu olhar.

- Deixa-me dar-te uma ajuda com isso.

Abriu-lhe o botão das calças, puxou o fecho. A sua mão fechou-se sobre ele, um torno de veludo. O corpo dele estava duro como aço, a sua mente e o seu coração indefesos.

Ela arqueou o corpo ao encontro do dele, roçando os lábios no seu peito nu, traçando com os dentes uma linha escaldante, apenas a um murmúrio da dor.

Depois estava em cima dele, a destruí-lo. A rodeá-lo.

Stella ouviu os pássaros e a brisa, sentiu o cheiro da relva e da pele húmida. E de alegria-do-lar, que pairava no ar do vaso que ela acabara de regar. Sentiu os músculos tensos dele, os ombros largos, as ondas surpreendentemente macias do seu cabelo.

Quando olhou para baixo, viu que ele estava perdido nela.

Atirando a cabeça para trás, moveu-se até estar também perdida.

Estava deitada em cima dele, suada, nua e meio atordoada. Parte do seu cérebro apercebeu-se de que ele tinha os braços apertados à volta dela como se fossem dois sobreviventes de um naufrágio.

Virou a cabeça e encostou a face ao peito dele. Talvez tivessem naufragado um no outro. E ela acabara de fazer amor com um homem em plena luz do dia, no quintal.

- Isto é uma loucura - murmurou, mas sem conseguir mexer-se. - E se tivesse aparecido alguém?

- Quem aparece sem ser convidado não pode reclamar.

O seu tom era arrastado e indolente, por contraste com a força com que a segurava. Ela levantou a cabeça para olhar para ele. Os seus olhos estavam fechados.

- E há alguma razão para reclamar? Ele sorriu levemente.

- Pessoalmente, não tenho nada a dizer.

- Sinto-me como se tivesse dezasseis anos. Raios, nem aos dezasseis anos fiz nada como isto! Preciso da minha sanidade. Preciso da minha roupa.

- Espera. - Ele afastou-a para o lado e levantou-se.

Era evidente que não o preocupava nada andar de um lado para o outro nu como viera ao mundo.

- Vim aqui para falar contigo, Logan. A sério.

- Vieste para discutir comigo - corrigiu ele. - A sério. E estavas a sair-te muito bem.

- Ainda não tinha acabado. - Virou-se e apanhou o elástico. - Mas vou acabar assim que me vestir e...

Gritou, como uma mulher grita quando está a ser assassinada com uma faca de cozinha.

Depois o grito transformou-se num gorgolejo quando a água da mangueira que ele virara para ela lhe escorreu para a boca.

- Pensei que estávamos ambos a precisar de algo para arrefecermos. Não era pura e simplesmente coisa dela, mesmo nestas circunstâncias,

correr nua sobre a relva. Em vez disso, enrolou-se sobre si própria, com os joelhos encostados ao peito e os braços à volta das pernas, e amaldiçoou-o com veemência e criatividade. Ele riu até lhe doer a barriga.

- Onde é que uma menina decente como tu aprendeu essas palavras? Como é que posso voltar a beijar essa boca?

Ela apunhalou-o com o olhar enquanto ele punha a mangueira por cima da cabeça e tomava um duche improvisado.

- Sabe bem. Queres uma cerveja?

- Não, não quero uma cerveja. Com certeza que não quero um raio de uma cerveja. Idiota, agora a minha roupa está toda molhada.

- Podemos pô-la na máquina de secar. - Ele largou a mangueira e apanhou a roupa. - Anda para dentro, eu arranjo-te uma toalha.

Uma vez que ele atravessara o pátio em direcção à porta, ainda nu e despreocupado, ela não teve outra hipótese senão segui-lo.

- Tens um roupão? - perguntou em tom frio e irado.

- Para que é que eu havia de querer um roupão? Espera, ruiva. Deixou-a na cozinha a pingar e a tremer.

Voltou poucos minutos depois, vestindo umas calças de fato de treino velhas e com duas toalhas de banho na mão.

- Devem servir. Limpa-te, eu ponho a tua roupa a secar.

Pegou na roupa e dirigiu-se a uma porta. ”A sala das máquinas”, pensou ela enquanto se enrolava numa das toalhas. Usou a outra para limpar o cabelo - que agora ficaria indomável, absolutamente indomável - enquanto o ouvia ligar o secador de roupa.

- Queres um copo de vinho? - perguntou ele quando voltou a aparecer. - Um café, qualquer coisa?

- Ouve lá...

- Ruiva, juro que já tive de te ouvir mais do que a qualquer outra mulher, que me lembre, em toda a minha vida. Não consigo perceber por que raio parece que estou a apaixonar-me por ti.

- Não gosto de ser... Desculpa?

- Foi o cabelo que começou tudo. - Ele abriu o frigorífico e tirou uma cerveja. - Mas isso era apenas atracção. Depois a voz. - Abriu a garrafa e bebeu um longo trago. - Mas isso é apenas espírito de contradição da minha parte. Foi uma data de pequenas coisas, com uma data de coisas importantes à mistura. Não sei exactamente o que é, mas de cada vez que estou ao pé de ti fico mais perto do precipício.

- Eu... tu... achas que estás a apaixonar-te por mim e a tua maneira de o demonstrar é atirar-me para o chão e agir como um viciado em sexo, e depois encharcar-me com uma mangueira quando acabas?

Ele bebeu mais um gole, lentamente, com ar mais pensativo, e esfregou a mão no peito nu.

- Pareceu-me a melhor coisa a fazer, na altura.

- Bom, muito romântico.

- Não estava a pensar em romantismo. Eu não disse que queria estar apaixonado por ti. Na verdade, pensar nisso deixou-me maldisposto durante a maior parte do dia.

Ela semicerrou os olhos até o azul parecer uma luz intensa. -Ah, sim?

- Mas agora já me sinto melhor.

- Oh, muito bem. Maravilhoso. Dá-me a minha roupa.

- Ainda não está seca.

- Não quero saber.

- As pessoas do Norte estão sempre com pressa. - Encostou-se descontraidamente ao balcão. - Hoje pensei noutra coisa.

- Também não quero saber.

- A outra coisa foi que só estive apaixonado... a sério... duas vezes antes. E de ambas as vezes... bom, não vou ser delicado. Ambas as vezes foram uma merda. É possível que isto vá a caminhar no mesmo sentido.

- É possível que já lá esteja.

- Não. - Ele sorriu. - Estás irritada e assustada. Eu não sou aquilo que procuravas.

- Não andava à procura de nada.

- Nem eu. - Pousou a cerveja, depois acabou com o mau humor dela quando se aproximou e lhe segurou o rosto nas mãos. - Talvez eu consiga parar aquilo que se está a passar dentro de mim. Talvez deva tentar. Mas olho para ti, toco-te, e o precipício não fica só mais perto, fica mais tentador.

Encostou os lábios à testa dela, depois soltou-a e recuou.

- Sempre que julgo ter percebido uma parte de ti, tu fazes qualquer coisa noutra direcção - disse Stella. - Eu só estive apaixonada uma vez... a sério... e foi tudo o que eu queria. Ainda não percebi o que quero agora, para além do que já tenho. Não sei, Logan, se tenho coragem de me aproximar outra vez desse precipício.

- Se as coisas continuarem como estão para mim, se não te aproximares a bem, sou capaz de ter de te empurrar.

- Não sou fácil de empurrar. Logan - agora foi ela que se aproximou dele e lhe pegou na mão. - Estou muito emocionada por me teres dito isso, muito sensibilizada por poderes sentir isso por mim. Mas preciso de tempo para perceber o que se passa cá dentro.

- Era capaz de ajudar - rematou ele após um momento - se conseguisses fazer um esforço para me acompanhar.

A sua roupa estava seca mas terrivelmente amarrotada, o cabelo frisado e, na opinião de Stella, quase com o dobro do volume.

Saiu do carro a correr, mortificada ao ver Hayley e Roz sentadas no alpendre a beber qualquer coisa em copos altos.

- Vou só mudar de roupa - disse. - Não me demoro.

- Temos tempo - respondeu Hayley, e franziu os lábios quando Stella entrou em casa a correr. - Sabes o que significa quando uma mulher aparece com a roupa toda amarrotada e manchas de relva no rabo das calças?

- Presumo que ela passou por casa do Logan.

- Queca ao ar livre.

Roz engasgou-se com o chá e desatou a rir.

- Hayley! Meu Deus.

- Alguma vez o fizeste ao ar livre? Roz suspirou.

- Num passado muito distante.

Stella era suficientemente perspicaz para saber que elas estavam a falar dela. Em resultado, não era só o seu rosto que estava corado enquanto corria para o quarto, mas sim todo o corpo. Despiu-se rapidamente e atirou a roupa para o cesto da roupa suja.

- Não tenho razão para estar embaraçada - murmurou para si própria enquanto abria o roupeiro. -Absolutamente nenhuma. - Pegou num conjunto de roupa interior lavada e sentiu-se melhor depois de o vestir.

E, quando estendeu a mão para a blusa, sentiu o frio.

Preparou-se, meio à espera de, desta vez, ver uma jarra ou um candeeiro voar em direcção a ela.

Mas reuniu toda a sua coragem, virou-se e viu a Noiva Harper. Claramente, pela primeira vez, claramente, apesar de a luz fraca passar por ela como se fosse feita de fumo. Mas viu o seu rosto, a sua forma, os canudos claros, os olhos desesperados.

A Noiva estava à porta que ligava o quarto de Stella à casa de banho e ao quarto dos filhos.

Mas não foi raiva que Stella viu no seu rosto. Não foi desaprovação que sentiu a vibrar no ar. Foi uma dor absoluta e terrível.

O seu medo transformou-se em piedade.

- Gostava de poder ajudar-te. Quero ajudar. - Com a blusa encostada aos seios, Stella deu um passo hesitante. - Quem me dera saber quem és, o que te aconteceu. Por que motivo estás tão triste.

A mulher virou a cabeça e olhou com olhos tristes para o quarto atrás dela.

- Eles não se foram embora - disse Stella. - Nunca os deixaria partir. São a minha vida. Estão com o meu pai e a mulher dele... com os avós. Um dia de festa para eles, mais nada. Uma noite para serem mimados e mal habituados e para comerem demasiado gelado. Voltam amanhã.

Deu um segundo passo, cautelosamente, com a garganta seca.

- Eles adoram estar com o meu pai e com a Jolene. Mas fica tudo tão silencioso quando não estão aqui, não é?

Deus do céu, estava a falar com um fantasma. A tentar meter conversa com um fantasma. Como é que a sua vida se tornara tão estranha?

- Podes dizer-me alguma coisa, qualquer coisa que possa ajudar? Estamos todos a tentar descobrir e, talvez, quando conseguirmos... Não podes dizer-me o teu nome?

Embora estivesse a tremer, Stella levantou a mão. Aqueles olhos desesperados encontraram os dela e a mão de Stella passou através do fantasma. Sentiu frio e uma espécie de choque. Depois nada.

- Tu consegues falar - disse Stella no quarto vazio. - Se consegues cantar, também consegues falar. Porque não dizes nada?

Abalada, vestiu-se e prendeu o cabelo. Ainda tinha o coração a bater com força enquanto retocava a maquilhagem, meio à espera de ver aquele rosto sofredor no espelho.

Depois enfiou os sapatos e desceu. Deixaria a morte para trás, pensou, e preparar-se-ia para uma vida nova.

 

O ritmo podia ser lento, mas os horários eram terríveis. À medida que a Primavera se tornava verde e viçosa e as temperaturas aumentavam para um calor que Stella considerava de pino de Verão, os clientes convergiam para os viveiros, tanto para passar uma horita a conversar com os empregados e os outros clientes, achava ela, como pelo stock propriamente dito.

No entanto, todos os dias saíam pela porta principal plantas de canteiro, vasos de perenes e florestas de arbustos e de árvores ornamentais.

Stella vigiava o stock de plantas do campo ensacadas em lona e corria a tapar buracos nas mesas, acrescentando material das estufas. À medida que os vasos mistos, os cestos suspensos e os vasos de betão eram comprados, ela criava mais.

Fazia telefonemas incontáveis para os fornecedores, a pedir mais: mais fertilizantes, mais sementes de relva, mais adubo de raízes, mais tudo.

Com a pasta na mão e olhar atento, controlava o inventário, ajustava e suplicava a Roz que libertasse parte do stock mais jovem.

- Ainda não está pronto. Para o ano.

- A este ritmo, vamos ficar sem columbina, hostas, crista-de-galo... Apontou para o quadro. - Roz, já vendemos uns bons trinta por cento do nosso stock de perenes. Teremos sorte se o actual inventário se aguentar até ao mês de Maio.

- As coisas vão acalmar - disse Roz, tratando dos rebentos de uma cravina.

- Se começarmos a vender plantas antes de estarem prontas, os clientes não vão ficar contentes.

- Mas...

- Estas cravinas só darão flor para o ano. Os clientes querem flores, Stella, sabes muito bem disso. Querem plantá-las quando estão a florir ou quase. Não querem esperar um ano pela gratificação.

- Eu sei. Mesmo assim...

- Estás entusiasmada. Estamos todos. - Com a mão enluvada, Roz coçou o nariz. - Céus, a Ruby anda feliz como se fosse ser avó outra vez, e o Steve dá-me palmadas nas costas de cada vez que me cruzo com ele.

- Eles adoram este sítio.

- E eu também. A verdade é que este é o melhor ano que já tivemos. O tempo ajudou, em parte. Estamos a ter uma bonita Primavera. Mas também arranjámos uma gerente eficiente e entusiástica para dar um empurrão às coisas. Mas, ao fim e ao cabo, a qualidade continua a ser o nosso lema. A quantidade vem em segundo lugar.

- Tens razão. Claro que tens razão. É só que não aguento a ideia de ficarmos sem alguma coisa e termos de mandar os clientes a outro sítio.

- Provavelmente não chegaremos a tanto, principalmente se formos inteligentes o suficiente para os convencer a levar um belo substituto.

Stella suspirou.

- Tens razão, mais uma vez.

- E, se tivermos mesmo de recomendar outros viveiros...

- Os clientes ficarão satisfeitos e impressionados com os nossos esforços para os satisfazer. E é por isso que tu és proprietária de um negócio como este e eu sou apenas a gerente.

- Também tem a ver com o facto de ter nascido e sido criada aqui. Dentro de poucas semanas, as compras de Primavera e a época de plantação chegarão ao fim. Quem aparecer depois do meio de Maio virá principalmente à procura de ferramentas de jardinagem ou de outros produtos, talvez um cesto ou um vaso já preparados, ou algumas plantas para substituir outras que tenham morrido ou que tenham passado a época de floração. E, quando o calor de Junho começar, temos de pôr o que resta do stock de Primavera e Verão em saldos antes de começarmos a despachar o stock de Outono.

- No Michigan, seria um risco plantar alguma coisa antes de meados de Maio.

Roz passou para o tabuleiro seguinte.

- Tens saudades?

- Queria dizer que sim, porque o contrário parece desleal. Mas não, na verdade não. Não deixei lá nada a não ser recordações.

Eram as recordações que a preocupavam. Tivera uma boa vida, com um homem que amara. Quando o perdera, essa vida desmoronara-se sob a superfície. Deixara-a abalada e instável por dentro. Mantivera a sua vida de pé, pelos filhos, mas no seu coração havia mais do que dor. Havia medo.

E ela lutara contra o medo e aceitara as recordações.

Mas não perdera apenas o marido. Os filhos tinham perdido o pai. Gavin tinha apenas uma memória doce mas vaga do pai - mais vaga a cada ano que passava. Luke era demasiado pequeno para se lembrar bem do pai. Parecia tão injusto. Se avançasse com a relação com Logan, enquanto os filhos eram tão pequenos...

Era um pouco como já não ter saudades de casa, supunha. Parecia desleal.

Ao entrar na sala principal, viu vários clientes com carrinhos a percorrerem os corredores entre as mesas e Hayley a agachar-se para pegar num grande vaso de morangos já plantado.

- Não!

A ordem seca fez as cabeças virarem-se, mas Stella avançou com passo decidido entre os curiosos e, de mãos nas ancas, olhou para Hayley.

- O que pensas que estás a fazer?

- Vendemos os vasos todos que estavam junto das caixas. Pensei que este ficaria bem ao pé do balcão.

- Tenho a certeza de que sim. Já reparaste que estás muito grávida? Hayley olhou para a barriga.

- É difícil não reparar.

- Se queres pegar num vaso, pede a alguém que o faça.

- Sou forte como um touro.

- E estás grávida de oito meses.

- Oiça o que ela diz, querida. - Uma das clientes deu uma palmadinha no braço de Hayley. - É melhor não correr riscos. Depois de o bebé nascer, tem muito tempo para andar a levantar coisas. Agora é altura de aproveitar a sua condição e deixar as pessoas mimarem-na um bocadinho.

- É preciso andarmos sempre em cima dela - disse Stella. - Essa lobélia é linda, não é?

A mulher olhou para o vaso que tinha nas mãos.

- Adoro esta cor azul-escura. Estava a pensar comprar umas salvas encarnadas para pôr ao lado, talvez com cosmos em fundo?

- Parece perfeito. Bonito e colorido, e fica com uma estação inteira de flores.

- Tenho mais espaço na parte de trás do canteiro, mas não sei bem o que hei-de lá pôr. - Mordeu o lábio enquanto inspeccionava as mesas carregadas de opções. - Não me importava de ouvir algumas sugestões, se tiver tempo.

- É para isso que aqui estamos. Temos umas alteias mistas fantásticas, suficientemente altas para pôr atrás do cosmo. E, se quiser realçar a salva, acho que aqueles cravos-túnicos ficariam muito bem. E já viu a perila?

- Nem sequer sei o que isso é - disse a mulher com uma gargalhada.

Stella mostrou-lhe a planta de folhagem roxa e mandou Hayley buscar vários cravos-túnicos. Com uma coisa e outra, encheram mais um carrinho.

- Ainda bem que se decidiu também pelos alissos. Está a ver como o branco realça o resto das cores? Na verdade, a maneira como estão arrumadas no carrinho dá-lhe uma boa ideia de como ficarão no seu jardim. Stella apontou para os carrinhos. - Pode ver como as plantas se complementam umas às outras.

- Mal posso esperar para as plantar. As minhas vizinhas vão ficar verdes de inveja.

- Mande-as vir ter connosco.

- Não seria a primeira vez. Sou vossa cliente desde que abriram. Vivia a cerca de um quilómetro e meio daqui, mudei-me para mais perto de Memphis há dois anos. Agora são vinte e cinco quilómetros, mas sei que aqui encontro sempre qualquer coisa especial, por isso continuo a vir.

- É muito bom ouvir isso. A Hayley ou eu podemos ajudar em mais alguma coisa? Precisa de adubo, fertilizante?

- Essas coisas consigo comprar sozinha. Mas, na verdade - sorriu a Hayley -, já que este carrinho está cheio, se pudesse mandar um dos seus rapazes fortes levar esse vaso até ao balcão... e depois até ao meu carro... eu fico com ele.

- Deixe-me tratar disso. - Stella lançou um &uac