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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Dama Negra / Nora Roberts
A Dama Negra / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Dama Negra

 

PORTO DE ABRIGO

O vento húmido e impertinente gelava os ossos até à medula. A neve de uma tempestade do início da semana empilhara-se em montes irregulares ao longo da beira da estrada. O céu era de um azul amargo. Árvores sombrias com ramos negros e despidos brotavam da erva escurecida pelo Inverno e oscilavam os seus membros como punhos contra o frio.

Assim era Março no Maine.

Miranda pôs o aquecimento no máximo, programou o leitor de CD para La Bohème de Puccini e conduziu com a música em altos berros.

Estava de volta a casa. Depois de dez dias em conferências, saltitando entre hotéis, universidades e o aeroporto, Miranda estava mais do que pronta para regressar a casa.

O alívio que sentia poderia ter algo a ver com o facto de detestar dar palestras e de sofrer imenso sempre que tinha de enfrentar auditórios de rostos ansiosos. Mas a timidez e o medo do palco não podiam interferir com o dever.

Ela era a Dra. Miranda Jones, uma Jones de Cabo Jones. E nunca a deixavam esquecer-se disso.

A cidade tinha sido fundada pelo primeiro Charles Jones a deixar marca no Novo Mundo. Miranda sabia que aos Jones era exigido que deixassem as suas marcas, que mantivessem a sua posição como família mais importante do Cabo, que contribuíssem para a sociedade, que se comportassem como era esperado dos Jones de Cabo Jones, no Maine.

Entusiasmada por se estar a afastar do aeroporto, virou para a estrada litoral e pisou a fundo no acelerador. Conduzir depressa era um dos seus pequenos prazeres. Gostava de se movimentar com rapidez, de ir de um ponto a outro com um mínimo de confusão e de tempo. Uma mulher com quase um metro e oitenta de altura e cabelo da cor de um carro de bombeiros raramente passava despercebida.

E quando se movia com a precisão e o objectivo de um míssil por infravermelhos, o caminho à sua frente ficava geralmente livre.

Tinha uma voz que um homem apaixonado comparara a veludo envolto em papel de lixa. Ela compensava o que considerava ser um acidente do destino cultivando uma elocução rápida e bem articulada que muitas vezes tocava a afectação.

Mas alcançava assim os seus objectivos.

O seu corpo poderia ter resultado de algum antepassado celta, mas o rosto era completamente Nova Inglaterra. Estreito e frio, com um nariz longo e direito, queixo ligeiramente pontiagudo e maçãs-do-rosto salientes. A boca era grande e encontrava-se quase sempre fechada numa linha séria. Os olhos eram de um azul profundo e, na maioria das vezes, discretos.

Mas naquele momento, enquanto se entretinha com o caminho longo e sinuoso que abraçava os rochedos cobertos de neve, tanto a boca como os olhos sorriam. Para lá dos rochedos, o mar estava picado e cinzento. Ela adorava as alterações de humor do mar, o seu poder para acalmar ou fazer vibrar. No preciso momento em que a estrada curvou como um dedo arqueado, ela ouviu o barulho estrondoso da água a bater nas rochas, recuando em seguida como uma mão cerrada para atacar novamente.

A ténue luz do Sol cintilava sobre a neve e o vento espalhava correntes irregulares desta pelo ar e pela estrada. Do lado da baía, as árvores nuas curvavam-se como velhotes, torcidas por anos a fio de tempestades. Quando ainda era criança, e tinha a cabeça cheia de fantasias, imaginara aquelas árvores murmurando lamentos entre si enquanto baloiçavam ao vento.

Embora já não se considerasse imaginativa, ainda adorava o aspecto das árvores, deformadas e nodosas, alinhadas como velhos soldados na falésia.

A estrada subia à medida que o terreno estreitava, com a água a galgar de ambos os lados. O mar instável, muitas vezes revolto, beliscava as praias com uma fome infindável. A sinuosa ponta de terra elevava-se, o seu ponto mais alto arqueado como uma articulação artrítica adornado pela antiga casa vitoriana com vista para o mar. Do outro lado, onde o terreno tombava novamente em direcção à água, estava o farol que vigiava a costa.

A casa fora o seu refúgio e alegria enquanto criança por causa da mulher que lá vivera. Amélia Jones contrariara a tradição dos Jones e vivera como quisera, dissera o que pensava e sempre guardara no coração um lugar para os dois netos.

Miranda adorara-a. A única dor que verdadeiramente sentira até então fora a perda de Amélia, que falecera sem aviso, durante o sono, oito anos antes.

A avó deixara a casa, o álbum de fotografias que organizara ao longo dos anos e a colecção de arte a Miranda e ao irmão. Ao filho, pai de Miranda, deixara votos para que ele conseguisse ser metade do homem que ela desejara antes de se encontrarem novamente. À nora, deixara um colar de pérolas porque fora a única coisa que se lembrara ser do agrado de Elizabeth.

Mesmo típico dela, pensava agora Miranda. Aqueles pequenos comentários cheios de significado no testamento. Ela vivera sozinha na grande casa de pedra durante anos e sobrevivera ao marido por mais de uma década.

Miranda estava a pensar na avó quando chegou ao fim da estrada litoral e virou para o longo caminho sinuoso que conduzia à casa.

A casa sobrevivera aos anos e aos temporais, à crueldade do frio do Inverno, ao calor repentino no pino do Verão. Agora, pensava Miranda, com um ligeiro sentimento de culpa, sobrevivia à negligência.

Nem ela nem Andrew pareciam ter tempo para arranjar pintores ou quem tratasse do relvado. A casa que fora em tempos um lugar visitado pela sua beleza exibia agora as suas marcas e cicatrizes. Ainda assim, ela achava-a encantadora, muito como uma mulher mais velha que não receia mostrar a sua idade. Em vez de apresentar uma construção irregular, erguia-se em ângulos corajosos, a sua pedra cinzenta dignificada, os beirais do telhado e torreões notáveis.

Do lado do estreito, uma pérgula conferia charme e extravagância. Glicínias revestiam os lados e cobriam o telhado de flores na Primavera. Miranda fazia sempre tenção de arranjar tempo para se sentar num dos bancos de mármore que se encontravam sob a cobertura perfumada para desfrutar os aromas, a sombra, o sossego. Mas, de alguma forma, a Primavera dava lugar ao Verão, e o Verão ao Outono, e ela nunca se lembrava do seu intento até ao Inverno, quando as espessas trepadeiras já estavam nuas.

Talvez algumas das tábuas da ampla sacada na frente da casa precisassem de substituição. As portadas, de um azul desbotado para cinza, precisavam certamente de ser raspadas e pintadas. As glicínias na pérgula precisavam provavelmente de ser podadas ou regadas ou o que quer que se fizesse com essas coisas.

Ela trataria disso. Mais cedo ou mais tarde.

Mas as janelas brilhavam e as gárgulas agachadas nos beirais sorriam ironicamente. Longos terraços e varandas estreitas ofereciam vistas em todas as direcções. As chaminés lançavam baforadas de fumo - quando alguém se dava ao trabalho de acender uma lareira. Grandes carvalhos antigos erguiam-se a grande altura, e uma densa parede de pinheiros quebrava o vento a norte.

Ela e o irmão partilhavam o espaço de uma forma bastante compatível - ou assim fora até Andrew começar a beber com maior frequência. Mas Miranda não ia pensar nisso. Gostava de o ter por perto, amava-o, e por isso era para si um prazer trabalhar e partilhar a casa com ele.

O vento soprou-lhe o cabelo para dentro dos olhos no exacto momento em que ela saía do carro. Ligeiramente incomodada, puxou-o para trás e depois retirou o portátil e a pasta de dentro do carro. Pôs ambos ao ombro e, assobiando os acordes finais de Puccini, dirigiu-se à bagageira e abriu-a.

O cabelo deslocou-se novamente para diante do rosto fazendo-a bufar de irritação. O meio-suspiro terminou num engasgo quando os cabelos foram subitamente agarrados e usados como corda para lhe puxar a cabeça para trás. Pequenas estrelas brancas explodiram em frente aos seus olhos quando a dor e o choque lhe atingiram o crânio. E ela sentiu a ponta fria e aguçada de uma faca encostada à garganta.

O medo vociferou na sua mente, um grito primitivo que irrompeu no estômago e se dirigiu à garganta. Antes que ela o pudesse libertar, foi virada ao contrário e violentamente atirada contra o carro, e a dor que sentiu na coxa enevoou-lhe a visão e amoleceu-lhe as pernas. A mão que lhe segurava o cabelo sacudiu-a de novo, puxando-lhe violentamente a cabeça para trás como se fosse a de um boneco.

O rosto dele era medonho. De um branco macilento e coberto de cicatrizes, não transmitia qualquer emoção. Ela demorou alguns segundos até o terror lhe permitir perceber que se tratava de uma máscara.

Miranda não lutou, não conseguiu. Não havia nada que ela temesse mais do que uma faca com a sua ponta aguçada e gume mortal. A extremidade cortante pressionada sob o seu queixo fazia com que cada fôlego engasgado viesse acompanhado de dor e medo.

Ele era grande. Cerca de um metro e noventa de altura, reparou ela, tentando prestar atenção aos detalhes enquanto o coração lhe subia até à garganta. Mais de cem quilos, ombros largos, pescoço curto. Meu Deus!

Olhos castanhos, castanho-escuros. Foi a única coisa que conseguiu ver através das aberturas na apavorante máscara de borracha que ele usava. E eram inexpressivos e frios como os de um tubarão enquanto ele pressionava a ponta da faca e a fazia deslizar sobre o pescoço para lhe cortar delicadamente a pele.

Miranda sentiu um pequeno ardor, e uma fina linha de sangue escorreu para a gola do casaco.

- Por favor. - As palavras saíram num murmúrio enquanto ela tentava instintivamente agarrar no pulso da mão que segurava a faca. Todos os pensamentos racionais deram lugar a um medo frio quando ele usou a ponta aguçada para a fazer levantar a cabeça e expor a linha vulnerável da garganta.

Miranda imaginou a faca a fazer um corte rápido e silencioso na carótida, um jorro de sangue quente. E ela morreria de pé, abatida como um cordeiro.

- Por favor, não faça isso. Tenho trezentos e cinquenta dólares em dinheiro. - Por favor, meu Deus, fazei com que seja dinheiro o que ele quer, pensava ela freneticamente. Que seja apenas dinheiro. Se fosse violação, ela rezava para ter coragem para lutar e tinha esperança que fosse rápido.

- Eu dou-lhe o dinheiro - começou ela, engasgando-se depois com o susto quando ele a atirou para o lado como se de um trapo se tratasse.

Miranda caiu com força sobre as mãos e os joelhos no chão de gravilha e sentiu o ardor de pequeninos cortes nas palmas das mãos. Começou a choramingar e odiou-se pelo medo paralisante que a impossibilitava de fazer mais do que olhar fixamente para ele através de olhos embaciados e para a faca que cintilava sob a ténue luz do Sol.

Enquanto a sua mente gritava para que fugisse, para que lutasse, ela encolhia-se, paralisada.

O homem pegou na mala e na pasta e rodou a lâmina por forma a que o Sol lançasse um raio de luz para dentro dos olhos dela. Depois agachou-se e perfurou o pneu traseiro do carro com a ponta da faca. Quando se levantou e deu um passo na direcção dela, Miranda começou a rastejar em direcção à casa.

Ela esperava que o homem a atacasse outra vez, lhe rasgasse a roupa, lhe enfiasse a faca nas costas com a mesma força desmedida que usara para furar o pneu, mas continuou a rastejar sobre a relva quebradiça.

Quando chegou aos degraus, olhou para trás murmurando sons indistintos.

E viu que estava sozinha.

A sua respiração era ofegante e sentia o ar queimar-lhe os pulmões enquanto se arrastava escada acima. Tinha de entrar, fugir dali. Trancar a porta. Antes que ele voltasse, antes que ele voltasse e a atacasse com a faca.

A mão escorregou-lhe duas vezes da maçaneta antes de ela conseguir segurá-la com firmeza. A porta estava trancada. Claro que estava trancada. Não estava ninguém em casa. Não havia ninguém para a ajudar.

Por um momento, manteve-se simplesmente encolhida, ali, do lado de fora da porta, a tremer devido ao choque e ao vento frio que vergastava a colina.

Mexe-te, ordenou a si mesma. Tens de te mexer. Pega na chave, entra e chama a polícia.

Os seus olhos moviam-se rapidamente para um lado e para o outro, como um coelho à procura de lobos, e os dentes começaram a bater. Apoiando-se na maçaneta, pôs-se de pé. As pernas ameaçavam ceder, o joelho esquerdo latejava de dor, mas Miranda atravessou rapidamente a sacada numa espécie de andar embriagado e procurou freneticamente pela mala antes de se lembrar que o homem a levara.

Balbuciou palavras, orações, maldições e súplicas enquanto abria a porta do carro e remexia desajeitadamente no porta-luvas. Quando conseguiu agarrar nas chaves de reserva, ouviu um som que a fez virar-se subitamente e erguer os braços num gesto defensivo.

Não havia nada exceptuando o vento que circulava por entre os ramos negros e desnudados das árvores, através dos caules espinhosos das rosas trepadeiras e sobre a relva quebradiça.

Com uma respiração sibilante, avançou rapidamente para casa a coxear, enfiou atrapalhadamente a chave na fechadura e suspirou de alívio quando esta fez abrir a porta.

Entrou em casa aos tropeções, bateu com a porta e trancou-a. Quando se encostou à madeira sólida, as chaves deslizaram-lhe dos dedos e aterraram no chão com um ruído musical. A sua visão enturvou e ela fechou os olhos. Tudo lhe parecia dormente: mente e corpo. Precisava de dar o passo seguinte, de agir, de fazer frente à situação, mas não conseguia lembrar-se do passo a tomar.

Tinha os ouvidos a zunir e sentiu uma forte náusea. Cerrando os dentes, deu um passo em frente e depois outro, enquanto o hall de entrada parecia inclinar-se suavemente para a direita e para a esquerda.

Estava quase a chegar à escada quando percebeu que não eram os ouvidos que estavam a zunir, mas o telefone. Mecanicamente, dirigiu-se, confusa, até à sala de estar, onde tudo era tão normal, tão familiar, e atendeu o telefone.

- Estou? - A sua voz parecia longínqua, cavernosa como uma pancada solitária num tambor de madeira. Oscilando um pouco, olhou para o padrão produzido pelos raios de Sol que entravam pelas janelas e iluminavam as grandes tábuas do soalho de pinho. - Sim. Sim, compreendo. Estarei aí. Tenho... - O quê? Abanando a cabeça para clarear a mente, Miranda tentou esforçadamente lembrar-se do que precisava de dizer. - Tenho algumas coisas... tenho que tratar de algumas coisas primeiro. Não, partirei assim que puder.

Depois sentiu algo efervescer dentro de si mas estava demasiado atordoada para perceber tratar-se de histeria. - Já tenho as malas feitas - disse. E começou a rir.

Ainda estava a rir quando desligou o telefone. A rir quando se deixou cair numa cadeira. E, enquanto se enrolava numa pequena esfera defensiva, não se apercebeu que o riso dera lugar a soluços.

Tinha as mãos em volta de uma chávena de chá quente, mas não o bebia. Ela sabia que a chávena iria tremer, mas era um conforto segurá-la, sentir o calor passar do recipiente para os dedos gelados e aliviar a pele esfolada das palmas das mãos.

Miranda fora coerente - era imperativo ser-se coerente, claro, preciso e sereno quando se relatava um crime à polícia.

Assim que conseguira raciocinar novamente, fizera os telefonemas adequados, falara com os agentes que se haviam deslocado a sua casa. Mas agora que estava feito, e se encontrava sozinha outra vez, parecia não conseguir reter um único pensamento consistente por mais de dez segundos.

- Miranda! - O grito foi seguido pelo estrondo da porta da frente a fechar. Andrew entrou esbaforido e examinou horrorizado o rosto da irmã.

- Jesus! - Correu ao seu encontro, agachou-se aos pés dela e começou a deslizar os longos dedos pelas suas faces pálidas. - Oh, querida...

- Estou bem. São só algumas nódoas negras. - Mas o controlo que ela conseguira reedificar estremeceu. - Fiquei mais assustada do que magoada.

Andrew viu as lágrimas nas pernas das calças dela, o sangue seco na camisola de lã. - O filho da mãe! - Os seus olhos, de um azul mais sereno do que os da irmã, escureceram subitamente de horror. - Ele...? - As suas mãos cobriram as dela e seguraram ambos na chávena de porcelana.

- Ele violou-te?

- Não. Não. Não aconteceu nada disso. Roubou-me apenas a mala. Ele só queria dinheiro. Desculpa por ter pedido à polícia para te ligar. Devia tê-lo feito eu mesma.

- Não tem importância. Não te preocupes. - Apertou as mãos dela com mais força e depois libertou-as rapidamente quando ela se retraiu.

- Oh, querida. - Tirou-lhe a chávena das mãos, pousou-a de lado e voltou-lhe as palmas das mãos para cima. - Desculpa. Anda, vou levar-te ao hospital.

- Não preciso de ir ao hospital. São só nódoas negras e esfoladelas. - Miranda inspirou profundamente, percebendo que era mais fácil fazê-lo agora que ele estava ao pé dela.

Ele conseguia enfurecê-la, e já a tinha desiludido. Mas durante toda a vida, o irmão fora a única pessoa que nunca a abandonara, que sempre a apoiara.

Andrew pegou na chávena de chá e entregou-a de novo à irmã. Bebe um pouquinho - ordenou, antes de se levantar e começar a andar de um lado para o outro.

Ele tinha um rosto fino, e bastante ossudo, que ficava bem com a estatura longa e magra. Tinha as mesmas cores da irmã, embora o cabelo fosse de um ruivo mais escuro, castanho-avermelhado. Os nervos faziam-no bater com os dedos na coxa enquanto andava.

- Quem me dera ter estado aqui. Raios, Miranda! Eu devia ter estado aqui.

- Não podes estar em toda a parte, Andrew. Ninguém podia adivinhar que eu seria assaltada à porta de casa. Eu acho, e a polícia também, que ele ia provavelmente assaltar a casa e que a minha chegada o surpreendeu e lhe alterou os planos.

- Disseram-me que ele tinha uma faca.

- Sim. - Miranda levou cuidadosamente uma mão ao corte superficial que tinha na garganta. - E eu posso dizer que não ultrapassei a minha fobia de facas. Bastou um olhar e a minha mente ficou imediatamente paralisada.

O olhar de Andrew ficou pesado, mas ele falou delicadamente quando se sentou ao lado da irmã. - O que é que ele fez? Podes contar-me?

- Ele surgiu do nada. Eu estava a tirar as minhas coisas da bagageira. Ele puxou-me os cabelos e encostou a faca ao meu pescoço. Pensei que me ia matar, mas atirou-me ao chão, pegou na minha mala, na pasta, cortou os pneus do carro e foi-se embora. - Miranda conseguiu fazer um sorriso trémulo. - Não foi exactamente o regresso a casa que eu esperava.

- Eu devia ter estado aqui - disse ele outra vez.

- Pára, Andrew. - Miranda encostou-se ao irmão e fechou os olhos.

- Estás aqui agora. - E parecia que isso era suficiente para a acalmar. - A mãe telefonou.

- O quê? - Andrew inclinou-se para a frente para olhar para a cara dela.

- O telefone estava a tocar quando entrei em casa. Meu Deus, ainda tenho a cabeça baralhada - queixou-se ela, esfregando a têmpora. - Amanhã tenho de ir para Florença.

- Não sejas ridícula. Acabaste de chegar a casa e estás magoada, estás abalada. Meu Deus, como é que ela te pode pedir que entres num avião depois de teres sido atacada?

- Não lhe contei. - Encolheu os ombros. - Não estava a raciocinar. De qualquer forma, a ordem foi clara. Tenho de reservar uma passagem.

- Miranda, tu vais é deitar-te.

- Oh, claro. - Sorriu novamente. - Já não falta muito.

- Eu telefono-lhe. - Andrew susteve a respiração como alguém que se depara com uma tarefa complicada. - Eu explico-lhe.

- Meu herói. - Miranda deu um beijo na bochecha do irmão.

- Não, eu vou. Um banho quente, uma aspirina, e fico boa. E depois desta pequena aventura, fazia-me bem uma distracção. Parece que ela tem um bronze que quer que eu analise. - Como o chá já tinha esfriado, ela pousou novamente a chávena. - Ela não me chamaria à Standjo se não fosse importante. Quer um especialista em arqueometria e com urgência.

- Ela tem arqueólogos na Standjo.

- Exactamente. - Desta vez o sorriso de Miranda foi fino e luminoso. «Standjo» significava Standford-Jones. Elizabeth garantira que não só o seu nome mas tudo o que constava da sua agenda fosse prioritário na operação de Florença. - Por isso, se ela precisa de mim, é porque se trata de algo muito importante. Ela quer que o assunto fique em família. Elizabeth Standford-Jones, directora da Standjo, em Florença, precisa de um perito em bronzes do período renascentista italiano, e quer um com o nome Jones. Não tenciono desiludi-la.

Miranda não conseguiu passagem para a manhã seguinte e teve de se contentar com um lugar no voo da noite para Roma com um transbordo para Florença.

Quase um dia inteiro de atraso.

Teria de enfrentar o inferno.

Enquanto tentava aliviar as dores numa banheira de água quente, calculou a diferença horária e decidiu que não valia a pena telefonar à mãe. Elizabeth estaria em casa e, muito provavelmente, já a dormir.

Não posso fazer mais nada esta noite, pensou. De manhã ligaria para a Standjo. Um dia não faria assim tanta diferença, mesmo a Elizabeth.

Chamaria um táxi para a levar ao aeroporto, porque, da forma como o joelho latejava, conduzir seria problemático mesmo se conseguisse substituir rapidamente os pneus do seu carro. Ela só tinha que...

Sentou-se direita na banheira, fazendo transbordar alguma água.

O passaporte. O passaporte, a carta de condução, os cartões de identificação da companhia. O assaltante levara a pasta e a mala; levara todos os seus documentos de identificação.

- Droga - disse, enquanto esfregava as mãos sobre o rosto. Isso tornava tudo ainda melhor.

Destapou o ralo da antiga banheira com pés. Sentiu-se enfurecer, e a explosão de raiva fê-la levantar-se e pegar numa toalha antes que o joelho afectado cedesse. Contendo um grito, apoiou uma mão na parede e sentou-se na borda da banheira deixando cair a toalha dentro de água.

As lágrimas queriam brotar, de frustração, de dor, do medo repentino que a atingia novamente. Sentou-se despida e a tremer, com a respiração agitada e presa em pequenos fôlegos até os conseguir controlar.

Lágrimas não a ajudariam a recuperar os documentos, a aliviar as dores ou a chegar a Florença. Engoliu-as e espremeu a toalha. Com muito cuidado, tirou as pernas de dentro da banheira com a ajuda das mãos, uma de cada vez. Pôs os pés no chão, com suor a escorrer-lhe da pele, e os olhos encheram-se novamente de lágrimas. Mas levantou-se, apoiando-se no lavatório, e examinou-se no espelho de corpo inteiro que estava atrás da porta.

Tinha nódoas negras nos braços. Não se lembrava de ele a ter agarrado ali, mas as marcas eram de um cinza escuro, por isso, logicamente, ele agarrara. A anca estava azul e negra e extremamente dorida. Aquele, recordou ela, era o resultado de ter sido atirada contra o carro.

Os joelhos estavam esfolados e em carne viva; o esquerdo, vermelho e inchado. Devia ter caído mais sobre aquele e tê-lo torcido. As palmas das mãos ardiam devido ao atrito com a gravilha do caminho.

Mas foi o golpe longo e superficial na garganta que lhe pôs a cabeça a andar à roda e lhe provocou mais uma náusea. Fascinada e horrorizada, levou os dedos ao pescoço. A poucos milímetros da jugular, pensou. A poucos milímetros da morte.

Se ele tivesse querido matá-la, ela teria morrido.

E isso era pior do que as feridas e as dores latejantes. Um estranho tivera a sua vida nas mãos.

- Nunca mais. - Afastou-se do espelho e pegou no robe que estava pendurado na porta. - Nunca mais deixarei uma coisa destas acontecer.

Estava a gelar e embrulhou-se o mais rapidamente possível no robe. Quando tentava dar um nó no cinto, um movimento do lado de fora da janela fê-la levantar subitamente a cabeça e o coração acelerar.

Ele tinha voltado.

Ela queria fugir, esconder-se, gritar por Andrew, encolher-se atrás de uma porta trancada. E, de dentes cerrados, aproximou-se da janela e espreitou lá para fora.

Era Andrew, observou com uma estonteante sensação de alívio. Estava com o casaco xadrez de lenhador que usava para cortar lenha ou trepar as escarpas. Ele ligara os projectores e ela conseguia ver alguma coisa a brilhar-lhe na mão, algo que ele baloiçava enquanto caminhava a passos largos pelo pátio.

Intrigada, encostou o rosto à janela.

Um taco de golfe? Que raio fazia ele lá fora a marchar pelo relvado coberto de neve com um taco de golfe na mão?

Então percebeu, e sentiu-se inundar de um amor que a aliviou mais do que um analgésico.

Estava a protegê-la. As lágrimas regressaram. Uma saltou. Então ela viu-o parar e retirar algo do bolso.

E viu-o tomar um grande gole de uma garrafa.

Oh, Andrew, pensou, fechando os olhos com a desilusão. Que mal estamos.

Foi a dor que a acordou, uma dor aguda e latejante que emanava do joelho. Miranda ligou atrapalhadamente a luz e entornou os comprimidos do frasco que colocara em cima da mesa-de-cabeceira. Enquanto os engolia, percebeu que deveria ter seguido o conselho de Andrew e ter ido ao hospital, onde algum médico simpático lhe teria prescrito algumas drogas boas e potentes.

Deu uma olhadela ao mostrador luminoso do seu relógio e viu que já passava das três. Pelo menos a mistura de ibuprofeno e aspirina que tomara à meia-noite dera-lhe três horas de alívio. Mas já estava acordada, à caça da dor. Decidiu que o melhor era acabar com esta de uma vez por todas e aguentar com as consequências.

Com a diferença horária, Elizabeth deveria estar no escritório. Miranda pegou no telefone e ligou à mãe. Gemendo um pouco, apoiou as almofadas na cabeceira de ferro forjado e encostou-se nelas.

- Miranda, eu estava prestes a ligar para deixar uma mensagem no teu hotel para quando chegasses amanhã.

- Vou chegar atrasada. Vou...

- Atrasada? - A palavra foi como uma lasca de gelo, fria e cortante.

- Desculpa.

- Pensei que tinha deixado claro que este projecto é uma prioridade. Garanti ao governo que iniciaríamos os testes hoje.

- Vou mandar o John Carter. Eu...

- Não mandei chamar o John Carter, mas sim a ti. Qualquer outro trabalho que tenhas pode ser delegado. Acho que também deixei isso bem claro.

- Sim, deixaste. - Não, pensou ela. Desta vez os comprimidos não iriam ajudar. Mas a raiva que começava a formar-se dentro dela iria certamente deixar para trás uma pequena dor. - Eu tencionava estar aí, como me mandaste.

- Então porque é que não estás?

- O meu passaporte e os outros documentos de identificação foram roubados ontem. Vou tratar de os substituir o mais rapidamente possível e marcar outro voo. Como hoje é sexta-feira, duvido que consiga ter novos documentos antes de meados da próxima semana.

Ela sabia como funcionavam as burocracias, pensou Miranda. Fora criada dentro de uma.

- Mesmo num lugar relativamente calmo como Cabo Jones, é um descuido tolo não trancar o carro.

- Os documentos não estavam no meu carro, estavam comigo. Conto-te tudo assim que forem substituídos e eu tiver marcado outro voo. Peço desculpa pelo atraso. O projecto terá toda a minha atenção assim que eu chegar. Adeus, mãe.

Deu-lhe um gosto perverso desligar antes de Elizabeth conseguir dizer mais alguma coisa.

No escritório elegante e espaçoso a cinco mil quilómetros de distância, Elizabeth olhava para o telefone com um misto de irritação e confusão.

- Algum problema?

Distraída, Elizabeth olhou para a sua antiga nora. Elise Warfield estava sentada, com um bloco de notas apoiado no joelho, os enormes olhos verdes perplexos, a boca suave e sensual ligeiramente curvada num sorriso atento.

O casamento entre Elise e Andrew não tinha funcionado, o que fora uma decepção para Elizabeth. Mas a sua relação profissional e pessoal com Elise não ficara prejudicada com o divórcio.

- Sim. A Miranda está atrasada.

- Atrasada? - Elise ergueu as sobrancelhas e estas desapareceram por debaixo da franja que tocava levemente a testa. - Isso não parece coisa da Miranda.

- Roubaram-lhe o passaporte e os outros documentos de identificação.

- Oh, isso é terrível. - Elise levantou-se. Tinha cerca de um metro e sessenta de altura e um corpo com curvas exuberantes e femininas que conseguiam parecer delicadas. Com o seu gorro liso de cabelo preto, os olhos grandes e pestanudos, pele branca e o vermelho profundo da boca, parecia uma fada eficiente e sexy. - Ela foi assaltada?

- Não sei pormenores. - Os lábios de Elizabeth cerraram-se por instantes numa linha estreita. - Ela vai tratar de os substituir e de marcar nova viagem. Pode levar alguns dias.

Elise ia começar a perguntar se Miranda tinha sido ferida, mas fechou a boca. Pelo olhar de Elizabeth, ou ela não sabia ou não era essa a sua preocupação principal. - Sei que quer começar hoje com os testes. Isso pode certamente ser conseguido. Posso trocar algum do meu trabalho e iniciá-los eu mesma.

Reflectindo, Elizabeth levantou-se e voltou-se para a janela. Conseguia sempre pensar mais claramente quando observava a vista sobre a cidade. Florença era a sua casa, tinha sido a sua casa desde a primeira vez que a vira. Tinha nessa altura dezoito anos, era uma estudante universitária com um amor desesperado por arte e uma sede secreta por aventura.

Apaixonara-se perdidamente pela cidade, pelos seus telhados vermelhos e cúpulas majestosas, ruas sinuosas e praças movimentadas.

E apaixonara-se por um jovem escultor que a atraíra de um modo encantador para a cama, lhe dera massas e lhe mostrara o seu próprio coração.

Claro que não era o homem adequado para si. Pobre e loucamente arrebatado. Os pais tinham-na enviado de volta para Boston assim que haviam tido conhecimento da relação.

E isso, obviamente, ditara o fim da mesma.

Elizabeth estremeceu, irritada por o seu pensamento ter divagado naquela direcção. Ela fizera as suas escolhas e tinham sido escolhas excelentes.

Agora era directora de uma das maiores e mais respeitadas companhias de investigação de arte no mundo. A Standjo podia ser um dos braços da organização Jones, mas era dela. O seu nome vinha em primeiro lugar, e também ela.

Ali estava emoldurada pela janela, uma mulher de cinquenta e oito anos, atraente e em plena forma. O seu cabelo era de um tom louro pálido discretamente tingido por um dos melhores cabeleireiros de Florença. O seu excelente gosto reflectia-se no fato Valentino de corte impecável, cor de beringela com botões dourados que usava. As sabrinas de cabedal eram exactamente do mesmo tom.

A sua compleição era clara, com uma boa estrutura óssea tipo Nova Inglaterra que sobressaía sobre as poucas rugas que se atreviam a aparecer. Os olhos eram de um azul intenso e impiedosamente inteligentes. A imagem era a de uma mulher fria, moderna e profissional, de fortuna e alta posição social.

Ela nunca se teria contentado com menos.

Não, pensou, nunca se teria contentado com menos do que o melhor.

- Vamos esperar por ela - disse. E voltou-se de costas para Elise. - É a área dela, a sua especialidade. Contactarei pessoalmente o ministro e explicarei o curto atraso.

Elise sorriu. - Ninguém compreende os atrasos como os italianos.

- É verdade. Veremos esses relatórios mais tarde, Elise. Agora quero fazer este telefonema.

- A senhora é que manda.

- Pois é. Oh, o John Carter chega amanhã. Vai trabalhar na equipa da Miranda. Estás à vontade para lhe atribuir outro projecto enquanto ela não chega. Não faz sentido ele ficar de braços cruzados.

- O John vem? Será bom revê-lo. Pode fazer-nos jeito no laboratório. Vou tratar disso.

- Obrigada, Elise.

Já sozinha, Elizabeth sentou-se novamente à secretária e examinou o cofre do outro lado do gabinete. Concentrou-se no que se encontrava lá dentro.

Miranda lideraria o projecto. Tomara essa decisão assim que vira a figura de bronze. Seria uma operação Standjo, com um Jones no comando. Fora isso que planeara, e era o que esperava.

E seria isso que aconteceria.

 

Miranda estava cinco dias atrasada, por isso transpôs rapidamente as imponentes portas medievais da Standjo, em Florença, e caminhou a passos largos fazendo com que os estalidos dos seus sapatos práticos parecessem rápidos disparos sobre o chão de mármore branco reluzente.

Prendeu na lapela do casaco a identificação da empresa, que a assistente de Elizabeth lhe entregara na noite anterior, enquanto contornava uma excelente reprodução em bronze da autoria de Cellini de Perseu exibindo a cabeça cortada de Medusa.

Miranda perguntara-se muitas vezes o que simbolizaria para a mãe aquela obra de arte no átrio de entrada. Talvez vencer, com um golpe rápido, todos os inimigos.

Parou no balcão da recepção, voltou o livro de registos para si e assinou-o à pressa, verificou a hora no seu relógio e acrescentou-a.

Vestira-se com cuidado, e até estrategicamente, para aquele dia, seleccionando um fato de seda azul de estilo e corte militar. Considerava-o elegante e poderoso.

Quando se tinha um encontro com a directora de um dos maiores laboratórios de arqueometria do mundo, a aparência tinha uma importância vital. Mesmo que essa directora fosse nossa mãe.

Especialmente, pensou Miranda com um leve sorriso escarninho, se essa directora era a nossa mãe.

Premiu o botão do elevador e aguardou impacientemente. Os nervos pulavam alegremente no seu estômago, faziam-lhe cócegas na garganta, zumbiam-lhe na cabeça. Mas ela não deixaria que se notassem.

Assim que entrou no elevador, abriu o pó compacto e retocou o bâton. Um único bâton podia durar um ano, por vezes mais. Ela só se preocupava com essas pequenas chatices quando não podiam ser evitadas.

Satisfeita por se ter esmerado, guardou novamente o pó compacto e passou a mão pela sofisticada trança enrolada que lhe ocupara demasiado tempo e lhe dera bastante trabalho a criar. Enfiou alguns ganchos soltos de novo no lugar no preciso momento em que as portas se abriram novamente.

Saiu para o átrio calmo e elegante do que via como um sacrário interior. A carpete cinza-pérola, as paredes cor de marfim e as antigas cadeiras de costas austeras adequavam-se à mãe, pensou ela. Encantadoras, finas e distantes. A elegante consola onde trabalhava a recepcionista com o computador e sistema telefónico de última geração era também a cara de Elizabeth. Eficiente, rápida e topo de gama.

- Buongiorno. - Miranda aproximou-se da secretária e explicou em poucas palavras o que pretendia num italiano impecável. - Sono la Dottoressa Jones. Ho un appuntamento con la Signora Standford-Jones.

- Si, Dottoressa. Un momento.

Miranda imaginou-se a mudar a posição dos pés, a ajeitar o casaco e a rolar os ombros. Por vezes, imaginar-se a contorcer-se e a mexer-se ajudava-a a manter o corpo calmo e quieto. Estava mesmo a terminar um caminhar imaginário quando a recepcionista sorriu e lhe deu permissão para entrar.

Miranda atravessou as portas de vidro duplas à sua esquerda e desceu o corredor branco e frio que conduzia ao gabinete da signora direttrice.

Bateu à porta. Tinha sempre que se bater em qualquer porta de Elizabeth. Ouviu imediatamente a resposta «Entri».

Elizabeth estava sentada à secretária, um elegante Hepplewhite de pau-cetim que combinava perfeitamente com o seu aspecto aristocrático de Nova Inglaterra. Emoldurada na janela atrás dela estava Florença, em todo o seu luminoso esplendor.

Olharam uma para a outra, avaliando-se rapidamente.

Elizabeth foi a primeira a falar: - Como foi a viagem?

- Sem incidentes.

- Bom.

- Pareces bem.

- E estou, bastante bem. E tu?

- Óptima. - Miranda imaginou-se a fazer um sapateado frenético em volta do gabinete perfeitamente equipado e permaneceu direita como um cadete na inspecção.

- Queres um café? Alguma coisa refrescante?

- Não, obrigada. - Miranda arqueou uma sobrancelha. - Não perguntaste pelo Andrew.

Elizabeth fez sinal para que se sentasse. - Como está o teu irmão?

Miserável, pensou Miranda. A beber de mais. Zangado, deprimido, amargo. - Está bem. Manda cumprimentos - mentiu ela sem remorso. - Presumo que tenhas dito à Elise que eu vinha.

- Claro. - Como Miranda não se sentara, Elizabeth levantou-se.

- Todos os chefes de departamento e o pessoal habilitado estão cientes de que irás trabalhar temporariamente aqui. O Bronze de Fiesole é uma prioridade. Como é natural, terás livre acesso aos laboratórios e ao equipamento, e a cooperação e assistência de quaisquer membros da equipa que escolheres.

- Falei ontem com o John. Ainda não iniciaram quaisquer testes.

- Não. Este atraso custou-nos tempo e é esperado que comeces imediatamente.

- É para isso que estou aqui.

Elizabeth inclinou a cabeça. - O que aconteceu à tua perna? Estás a coxear um pouco.

- Fui atacada, lembras-te?

- Disseste-me que tinhas sido roubada, não disseste que tinhas ficado magoada.

- Não perguntaste.

Elizabeth deixou escapar o que, vindo de qualquer outra pessoa, Miranda consideraria um suspiro. - Podias ter dito que tinhas sido ferida durante o incidente.

- Podia, mas não disse. Afinal, a prioridade era a perda dos meus documentos e o subsequente atraso. - Inclinou a cabeça, imitando o gesto de Elizabeth. - Isso ficou bem claro.

- Presumi... - Elizabeth calou-se e acenou a mão num gesto que poderia ter sido de aborrecimento ou derrota. - Porque não te sentas enquanto eu te transmito algumas informações?

Então, a discussão ia ser adiada. Miranda já esperava. Sentou-se e cruzou as pernas.

- O homem que descobriu o bronze...

- O canalizador.

- Sim. - Elizabeth sorriu pela primeira vez, um rápido curvar de lábios que era mais um reconhecimento do absurdo do que divertimento genuíno. - Carlo Rinaldi. Aparentemente, trata-se de um artista que nunca foi capaz de ganhar a vida com a sua pintura, e o sogro tem um negócio de canalização.

O rápido elevar de sobrancelha de Miranda foi demonstrativo de alguma surpresa. - A vida dele interessa?

- Apenas no que respeita à sua ligação à peça. Parece não existir nenhuma. Segundo consta, tropeçou literalmente nela. Ele alega que a encontrou escondida debaixo de um degrau partido na cave da Villa della Donna Oscura. E, tanto quanto foi possível averiguar, parece ser esse o caso.

- Havia alguma dúvida a respeito disso? Suspeita-se que ele possa ter inventado a história... e o bronze?

- Se havia, o ministro agora já está satisfeito com a história de Rinaldi.

Elizabeth fechou as mãos perfeitamente cuidadas sobre o rebordo da

 mesa. A sua coluna Nova Inglaterra estava direita como uma régua. Inconscientemente, Miranda ajeitou-se levemente para endireitar a dela.

- O facto de ele o ter encontrado, - continuou Elizabeth - de o ter levado furtivamente da villa escondido na caixa de ferramentas e depois ter demorado um certo tempo até fazer chegar a informação através dos canais apropriados causou inicialmente alguma preocupação.

Perturbada, Miranda fechou as mãos para impedir que os dedos tamborilassem no joelho. Não lhe ocorreu que imitava precisamente a pose da mãe. - Quanto tempo ficou a estátua em posse dele?

- Cinco dias.

- Não houve danos? Já a examinaste?

- Sim, mas preferia não tecer comentários até a veres pessoalmente.

- Está bem. - Miranda inclinou a cabeça. - Vamos dar uma olhadela.

Em resposta, Elizabeth dirigiu-se a um armário e, ao abrir a porta, revelou um pequeno cofre de aço.

- Guarda-la aqui?

- A minha segurança é mais do que adequada. Algumas pessoas têm acesso aos cofres que estão nos laboratórios e neste caso eu preferi limitar esse acesso. E pensei que seria menos incómodo para ti fazer uma primeira observação aqui.

Com um dedo de extremidade coral, Elizabeth digitou um código, esperou e introduziu outra série de algarismos. Depois, abriu a porta reforçada e tirou do cofre uma caixa de metal. Depois de a pousar em cima da mesa, abriu a tampa e retirou de dentro um objecto envolto em veludo desbotado.

- Dataremos também o tecido e a madeira do degrau.

- Naturalmente. - Embora estivesse ansiosa por mexer na figura, Miranda levantou-se e aproximou-se lentamente quando Elizabeth pousou o objecto sobre o seu imaculado mata-borrão branco. - Não há documentos, correcto?

- Até agora, nenhum. Conheces a história da villa.

- Sim, claro. Foi em tempos a casa de Giulietta Buonadoni, uma amante de Lourenço, o Magnífico, conhecida por Dama Negra. Depois da morte dele, pensa-se que ela se terá tornado companheira de outros Médicis. Em qualquer altura, qualquer ilustre da Renascença do interior ou arredores de Florença era bem-vindo à sua casa.

- Então, entendes as possibilidades.

- Não trabalho com possibilidades - disse Miranda secamente.

- Exactamente. É por isso que estás aqui.

Cuidadosamente, Miranda roçou um dedo sobre o veludo esfarrapado.

- Eu queria o melhor, e estou em posição de aceder ao que quero. Também exijo discrição. Se houver fuga de informação sobre esta descoberta, a especulação será feroz. Isso é algo que a Standjo não pode nem irá arriscar. O governo não quer publicidade, nem qualquer especulação pública até o bronze estar datado e os testes estarem concluídos.

- Provavelmente o canalizador já contou tudo aos seus companheiros de bebida.

- Eu não pensaria assim. - Uma vez mais, Elizabeth esboçou um pequeno sorriso. - Ele tirou o bronze de dentro de um edifício do governo. Neste momento, está bastante ciente de que se não fizer exactamente o que lhe dizem, pode ir parar à prisão.

- O medo é muitas vezes uma mordaça eficaz.

- Sim. Mas isso não nos diz respeito. Estamos incumbidos de analisar o bronze e de fornecer ao governo todas as informações que a ciência pode oferecer. Precisamos de uma visão objectiva, alguém que acredite em factos e não em romance.

- Em ciência não existe lugar para o romance - murmurou Miranda, desembrulhando cuidadosamente o veludo.

O seu coração deu um salto quando viu a estátua. O olhar perito e experiente reconheceu imediatamente o brilhantismo da obra, a sua magnificência. Mas depois franziu o sobrolho, enterrando instintivamente a admiração por debaixo do cepticismo.

- Está maravilhosamente concebida e executada. Certamente o estilo corresponde ao período da Renascença. - Tirou os óculos de dentro do estojo que tinha no bolso e colocou-os antes de levantar a estatueta. Avaliou o peso, rodando-a lentamente.

As proporções eram perfeitas, a sensualidade do objecto era óbvia. Os mais pequenos detalhes - unhas dos pés, cada fio de cabelo, a definição dos músculos das barrigas das pernas - estavam esplendidamente representados.

Ela era gloriosa, livre, maravilhosamente ciente do seu poder. O corpo alongado e rico em curvas estava arqueado para trás, os braços erguidos, não em prece ou em súplica, reparou Miranda. Em triunfo. O rosto não era delicado, mas espantoso, os olhos semicerrados de prazer, a boca curvada num sorriso malicioso desfrutando esse prazer.

Estava equilibrada na ponta dos pés, como uma mulher prestes a saltar para dentro de uma piscina quente e perfumada. Ou para os braços de um amante.

Estava desavergonhadamente sexual, e por um momento desconcertante, Miranda pensou conseguir sentir o seu calor. Como a vida.

A patina indicava idade, mas ela sabia que coisas desse tipo eram enganadoras. A patina podia ser criada. O estilo do artista era inconfundível. Mas os estilos podiam ser imitados.

- É a Dama Negra - disse ela. - Giulietta Buonadoni. Não tenho qualquer dúvida. Já vi muitas vezes este rosto em quadros e esculturas do período. Mas não sabia da existência deste bronze. Vou fazer alguma pesquisa, mas duvido que me tivesse passado despercebido.

Elizabeth examinou o rosto de Miranda em vez do da estatueta. Ela vira aquele brilho de entusiasmo e alegria nos seus olhos, que fora rapidamente controlado. Exactamente como ela esperara que acontecesse.

- Mas concordas que se trata de um bronze de estilo renascentista.

- Sim. Por isso, dificilmente se tratará de uma peça perdida do século quinze. - Os olhos de Miranda semicerravam à medida que voltava lentamente o bronze nas suas mãos. - Qualquer estudante de arte com bom olho já esboçou e copiou o seu rosto. Eu própria já o fiz. Raspou um pouco da patina azul-esverdeada com a unha do polegar. A corrosão superficial era visivelmente espessa, mas ela precisava de mais, muito mais.

- Vou começar agora mesmo.

A música de Vivaldi enchia com suavidade o laboratório. As paredes eram de um pálido verde hospitalar, o chão de linóleo branco. Todas as bancadas estavam impecavelmente arrumadas, equipadas com microscópios, computadores, frascos ou sacos de amostras. Não havia objectos pessoais, molduras bonitas com retratos de família, mascotes ou objectos de recordação.

Os homens usavam gravata, as mulheres usavam saia, e, sobre a roupa, as batas brancas com o logotipo da Standjo cosido a preto no bolso do peito.

As conversas eram mínimas e em surdina, e o equipamento zunia como relógios bem oleados.

A casa no Maine onde Miranda crescera apresentara precisamente a mesma atmosfera. Fora um lar frio, mas um eficaz local de trabalho, pensou Miranda enquanto examinava a área.

- Já há algum tempo que não vinhas cá - começou Elizabeth. - Mas a Elise refrescar-te-á a memória quanto ao funcionamento. Terás livre acesso a todas as áreas, claro. Tenho o teu cartão de segurança e os teus códigos.

- Excelente. - Miranda pôs um sorriso educado no rosto quando Elise se afastou de um microscópio e começou a caminhar em sua direcção.

- Miranda, bem-vinda a Florença. - A voz de Elise era suave e não propriamente rouca, mas prometia sê-lo se ela fosse convenientemente provocada.

- É bom estar de volta. Como estás?

- Bem. Ocupada. - Abriu um largo sorriso e pegou na mão de Miranda. - Como está o Drew?

- Não muito bem... mas ocupado. - Miranda ergueu uma sobrancelha quando Elise lhe apertou a mão.

- Lamento.

- Não tenho nada a ver com o assunto.

- Ainda assim, lamento. - Libertou a mão de Miranda e voltou-se para Elizabeth. - É a Elizabeth que lhe vai mostrar as instalações, ou sou eu?

- Não preciso de uma visita guiada - disse Miranda antes que a mãe pudesse falar. - Preciso de uma bata, de um microscópio e de um computador. Vou querer tirar fotografias e raios X, claro.

- Aqui estás tu. - John Carter aproximou-se a passos largos. O chefe de laboratório de Miranda tinha um aspecto cativantemente desgrenhado no meio de um estilo e eficiência implacáveis. A sua gravata com estúpidas vacas sorridentes já estava de esguelha. Prendera o bolso da bata em qualquer lado e este encontrava-se pendurado por algumas linhas. Tinha uma marca no queixo no sítio onde se cortara durante o barbear, um pedaço de lápis do tamanho de um polegar atrás da orelha e manchas nas lentes dos óculos.

Ele fazia Miranda sentir-se confortavelmente em casa.

- Tudo bem? - Deu-lhe umas pancadinhas no braço e depois acrescentou: - Como está o joelho? O Andrew disse-me que o tipo que te assaltou te atirou ao chão.

- Atirou-te ao chão? - Elise olhou-a rapidamente de cima a baixo.

- Não sabíamos que tinhas ficado magoada.

- Só abalada. Não teve importância. Estou bem.

- Ele apontou-lhe uma faca à garganta - anunciou Carter.

- Uma faca. - Elise encostou uma mão à própria garganta. - Isso é horrível. É...

- Não teve importância - disse novamente Miranda. - Ele só queria dinheiro. - Virou-se e olhou a mãe nos olhos. - E eu acho que ele já nos fez perder muito tempo precioso.

Por um momento, Elizabeth não disse nada. Havia desafio no olhar de Miranda e ela decidiu que o tempo para a solidariedade já se tinha esgotado.

- Então deixarei a Elise instalar-te. Os teus cartões de identificação e segurança estão aqui. - Entregou um envelope a Miranda. - A Elise deverá saber responder a todas as tuas dúvidas ou necessidades. Ou então podes contactar-me. - Olhou para o elegante relógio que tinha no pulso.

- Tenho outra reunião daqui a pouco, por isso vou deixar-te começar. Espero ter um relatório preliminar até ao final do dia.

- Terás - murmurou Miranda quando a mãe se afastou.

- Ela não perde tempo. - Elise fez mais um sorriso. - Lamento imenso que tenhas passado por tamanha dificuldade, mas o trabalho aqui deverá ajudar-te a espairecer a cabeça. Tenho um gabinete preparado para ti. O Bronze de Fiesole é prioridade máxima. Estás autorizada a formar a tua equipa com quaisquer elementos do pessoal de segurança máxima.

 

- Miranda! - Havia uma abundância de prazer na palavra, que foi proferida com os tons carregados e exóticos de Itália. Miranda sorriu mesmo antes de se voltar e de as suas mãos serem agarradas e sumptuosamente beijadas.

- Giovanni. Tu não mudas. - De facto, o químico era tão escandalosamente atraente como Miranda se recordava. Moreno e elegante, com olhos como chocolate derretido e um sorriso que irradiava charme. Era cerca de dois centímetros mais baixo do que ela, mas ainda assim conseguia fazê-la sentir-se feminina e minúscula. Usava o lustroso cabelo negro num rabo-de-cavalo - um capricho que Elizabeth só permitia porque, além de ser alguém agradável à vista, Giovanni Beredonno era um génio.

- Mas tu mudas, bella donna. Estás ainda mais encantadora. Mas que história é essa de teres sido agredida?

- Não é nada, apenas uma lembrança.

- Queres que vá rachar alguém ao meio? - Beijou-a docemente numa face e depois na outra.

- Podemos não voltar a falar do assunto?

- Giovanni, a Miranda tem trabalho para fazer.

- Sim, sim. - Sacudiu as palavras duras e reprovadoras de Elise com um gesto de desdém: outro motivo para Miranda sorrir. - Eu sei. Um grande projecto, muito secreto. - Agitou rapidamente as suas sobrancelhas expressivas. - Quando a direttrice manda chamar um perito que vive na América, não é coisa pequena. Então, belíssima, posso ser-te útil?

- És o primeiro da minha lista.

Giovanni enfiou a mão dela no braço, ignorando a expressão contrariada de Elise. - Quando começamos?

- Hoje - disse Miranda enquanto Elise apontava em direcção a uma porta. - Quero imediatamente testes feitos às camadas de corrosão e ao metal.

- Acho que o Richard Hawthorne te poderia ser muito útil. - Elise bateu no ombro de um homem debruçado sobre o teclado de um computador.

- Dr. Hawthorne. - Miranda observou o homem calvo pestanejar como uma coruja através dos óculos e depois tirá-los desajeitadamente. Havia nele algo de familiar e ela tentou recordar-se de onde o conhecia.

- Dra. Jones. - Fez-lhe um sorriso tímido que tornava o seu rosto mais atraente. O queixo era curto, os olhos de um azul pálido, mas o sorriso era tão doce quanto o de um menino. - É bom vê-la de novo. Estamos felizes por tê-la aqui. Li o seu artigo sobre o humanismo florentino. É deveras brilhante.

- Obrigada. - Oh, sim, ela recordava-se. Ele fizera um trabalho no Instituto alguns anos antes. Depois de um momento de hesitação, que ela sabia só ter acontecido porque fora Elise a recomendar o sujeito, cedeu.

- Elise preparou-me um gabinete. Quer juntar-se a nós por um momento? Gostaria de lhe mostrar o que tenho.

- Seria um prazer. - Mexeu novamente nos óculos e gravou o trabalho.

- Não é um espaço muito grande - começou Elise enquanto apressava Miranda a entrar. - Equipei-o com o que achei que irias precisar. Claro que podes pedir tudo o que quiseres.

Miranda deu uma rápida vista de olhos. A mesa do computador parecia bem equipada e em ordem. Numa grande bancada branca havia microscópios, lamelas e as pequenas ferramentas manuais do seu ofício. Um gravador tinha sido providenciado para registar notas. Não havia janela, apenas uma porta, e com os quatro lá dentro, quase não havia espaço para se virarem.

Mas havia uma cadeira, um telefone, e os lápis estavam afiados. Serviria muito bem, pensou ela.

Pousou a pasta na bancada e depois a caixa de metal. Com todo o cuidado, removeu o bronze embrulhado. - Gostaria de saber a sua opinião, Dr. Hawthorne. Baseada apenas num exame visual da peça.

- Claro, com todo o prazer.

- O projecto tem sido o principal tópico de conversa por estes lados nos últimos dois dias - intrometeu-se Giovanni quando Miranda começou a desembrulhar o veludo. - Ah... - Soltou um suspiro quando ela pousou o bronze descoberto sobre a bancada. - Bella, molto bella.

- Uma obra excelentemente executada. - Richard ajeitou os óculos e semicerrou os olhos. - Simples. Fluida. Forma e pormenores maravilhosos. Perspectiva.

- Sensual - disse Giovanni, inclinando-se para ver mais de perto.

- A arrogância e o fascínio da fêmea.

Miranda ergueu uma sobrancelha a Giovanni antes de devolver a sua atenção a Richard. - Reconhece-la?

- É a Dama Negra dos Médicis.

- Também acho. E o estilo?

- Renascença, sem qualquer dúvida. - Richard esticou um dedo para acariciar a face esquerda da figura. - Não diria que a modelo foi utilizada para representar uma figura mítica ou religiosa, mas a si própria.

- Sim, a dama enquanto dama - concordou Miranda. - O artista retratou-a, penso eu, como ela era. Do ponto de vista de um artista, diria que ele a conhecia pessoalmente. Precisarei de fazer uma pesquisa documental. A sua ajuda seria muito preciosa.

- Terei muito gosto em ajudar. Se esta peça puder ser autenticada como uma grande obra do período renascentista, será uma grande jogada para a Standjo. E também para si, Dra. Jones.

Ela já pensara nisso. De facto, pensara precisamente nisso. Mas sorriu friamente. - Não ponho o carro à frente dos bois. Se ela passou algum tempo no ambiente em que foi encontrada, como parece ter acontecido, o crescimento da corrosão terá sido afectado. Quero os resultados disso, claro, - acrescentou ela a Giovanni, - mas não posso depender deles para uma verdadeira exactidão.

- Poderá recorrer a comparações relativas, à termoluminescência.

- Sim. - Sorriu novamente para Richard. - Também testaremos o tecido e a madeira do degrau da escada. Mas a documentação tornará tudo mais conclusivo.

Miranda encostou uma anca ao canto da pequena mesa de carvalho.

- A peça foi encontrada na cave da Villa della Donna Oscura, escondida sob o degrau inferior das escadas. Providenciarei um relatório para os três sobre os pormenores conhecidos até agora. Apenas para vocês três e o Vincente - acrescentou. - A segurança é uma das principais preocupações da directora. Quem quer que solicitem para vos ajudar tem de ter autorização específica para isso, e as informações têm de ser muito bem guardadas até termos completado todos os testes.

- Então, por agora ela é nossa - disse Giovanni piscando um olho.

- É minha - corrigiu Miranda com um sorriso lento e sério. - Preciso de todas as informações sobre a própria villa e sobre a mulher. Quero conhecê-la.

Richard acenou afirmativamente com a cabeça. - Vou começar agora mesmo.

Miranda voltou-se para o bronze. - Vamos ver do que ela é feita - murmurou.

Algumas horas depois, Miranda rolou os ombros e ajeitou-se na cadeira. O bronze estava à sua frente, sorrindo maliciosamente. Não havia sinais de latão ou bronze silicioso, nem de platina, nenhum dos metais ou materiais que não eram usados na Renascença, na amostra de patina e metal que ela extraíra. O bronze tinha uma parte central de argila, tal como uma peça daquele período deveria ter. O teste anterior aos níveis de corrosão indicava finais do século quinze.

Não te precipites, ordenou a si mesma. Os testes preliminares não eram suficientes. Até então ela estava a trabalhar no negativo. Não havia nada fora do lugar, nenhuma liga metálica que não pertencesse, nenhum sinal de trabalho manual que não correspondesse àquele período no seu exame visual, mas ela tinha ainda de determinar o positivo.

Seria a dama verdadeira ou falsa?

Fez uma pausa para tomar um café e comer algumas bolachas e queijo que Elise providenciara em vez de almoço. O jet lag era ameaçador, e ela recusou-se a reconhecê-lo. O café forte, escuro e potente, como só os italianos conseguiam fazer, percorreu-lhe o corpo encobrindo o cansaço com uma máscara de cafeína. Ela acabaria por não aguentar, mas não ainda.

Colocou as mãos sobre o teclado e começou a escrever o relatório preliminar para a mãe. Era tão rigoroso e seco como a tia de uma donzela, até então desprovido de especulação e com muito pouca personalidade. Ela poderia ter pensado no bronze como um puzzle, um mistério a ser resolvido, mas nenhum desse romantismo foi transposto para o relatório.

Enviou o relatório por e-mail, gravou-o no disco rígido protegido com a sua palavra-passe, e depois levou o bronze consigo para o último teste do dia.

A técnica sabia pouco de Inglês e tinha demasiada veneração pela filha da direttrice para Miranda se sentir à vontade. Miranda inventou uma tarefa e mandou-a buscar mais café. Sozinha, começou o processo da termoluminescência.

A radiação ionizante captaria os electrões em estados energéticos mais elevados no núcleo de argila do bronze. Quando aquecidos, os cristais na argila emitiriam explosões de luz. Miranda preparou o equipamento, tomando notas rápidas de cada passo e resultado num caderno de apontamentos.

Registou a medida dessas explosões, acrescentando-as às suas notas e também como backup. Aumentou a radiação, aqueceu de novo a argila, para medir o quão susceptível esta era à captação de electrões. Essas medições foram cuidadosamente registadas.

O passo seguinte foi testar os níveis de radiação do local onde tinha sido descoberta a peça. Miranda testou tanto as amostras de terra como as de madeira.

Depois era apenas uma questão de matemática. Embora o teste não fosse infalível, era mais um a acrescentar aos restantes.

Finais do século quinze. Ela não tinha dúvidas quanto a isso.

Savonarola pregara contra a luxúria e a arte pagã durante aquele período, reflectiu Miranda. A obra era um glorioso pontapé no traseiro daquela mentalidade tacanha. Os Médicis tinham o controlo de Florença, com o incompetente Pedro, o Desafortunado, no comando durante um curto período antes de ser expulso da cidade pelo rei Carlos VIII de França.

A Renascença afastava-se da sua glória inicial quando o arquitecto Brunelleschi, escultor de Donatello, e o pintor Masaccio revolucionaram a concepção e as funções da arte.

A partir daí, a geração seguinte e o início do século dezasseis: Leonardo, Miguel Angelo, Rafael, não-conformistas à procura de originalidade pura.

Ela conhecia o artista. Sentia no seu âmago. Não havia nada que ele tivesse criado que ela não tivesse estudado tão intensa e completamente como uma mulher estuda o rosto do seu amado.

Mas o laboratório não era lugar para sentimentos ou para instintos, lembrou a si mesma. Repetiria todos os testes. E uma terceira vez. Compararia a fórmula conhecida para os bronzes daquela época e verificaria e reverificaria todos os ingredientes e ligas metálicas na estatueta. Perseguiria Richard Hawthorne para conseguir a documentação.

E encontraria as respostas.

 

O nascer do Sol sobre os telhados e abóbadas de Florença era um momento magnífico. Era arte e glória. A mesma luz delicada espalhara-se sobre a cidade quando homens haviam concebido e construído as grandes cúpulas e torres, as haviam revestido com mármore extraído dos montes e decorado com as imagens de santos e deuses.

As estrelas extinguiam-se à medida que o céu passava de veludo negro para cinzento-pérola. As silhuetas dos pinheiros longos e esguios, que salpicavam as encostas toscanas, desvaneciam-se à medida que a luminosidade hesitante dava lugar e ganhava força.

A cidade estava tranquila, como tão raramente acontecia, enquanto o Sol subia devagar salpicando o ar com tons de ouro. As portas metálicas do quiosque de revistas rangiam enquanto o proprietário bocejava e se preparava para o dia de trabalho. Apenas algumas luzes eram visíveis nas muitas janelas da cidade. Uma dessas era a de Miranda.

Vestindo-se rapidamente, virou a cara ao espantoso quadro que se pintava silenciosamente do lado de fora do quarto do hotel. Os seus pensamentos estavam voltados para o trabalho.

Que progressos faria naquele dia? Quanto se aproximaria das respostas? Ela lidava com factos e cingir-se-ia aos factos, independentemente de quão tentador fosse saltar para o nível seguinte. Nem sempre se podia confiar nos instintos. Na ciência, sim.

Apanhou o cabelo e calçou sapatos de salto raso que combinavam com o simples fato azul-marinho.

Chegar cedo garantir-lhe-ia algumas horas de trabalho solitário. Embora gostasse de ter peritos à sua disposição, a Dama Negra já se tinha tornado sua. Tencionava participar em todos os passos do projecto.

Apresentou o cartão de identificação ao guarda de olhos pesados que se encontrava à entrada. Este largou relutantemente o café e os bolinhos de pequeno-almoço e olhou contrariado para o cartão, para o rosto dela e de novo para o cartão. Pareceu suspirar enquanto destrancava a porta.

- Chegou muito cedo, Dottoressa Jones.

- Tenho trabalho a fazer.

Tanto quanto o guarda sabia, os americanos pensavam em pouco mais do que trabalho. - Tem de assinar o livro de registo.

- Claro. - Ao aproximar-se do balcão, o cheiro do café entranhou-se-lhe na garganta. Miranda fez o que pôde para não se babar enquanto rabiscava o nome e anotava a hora de chegada no livro.

- Grazie.

- Prego - murmurou ela, dirigindo-se em seguida para o elevador. Primeiro faria um café, pensou. Não esperava ficar alerta antes de tomar pelo menos uma chávena.

Utilizou o cartão de acesso para aceder ao piso correcto e introduziu o seu código assim que chegou ao posto de segurança do lado de fora do laboratório. Quando premiu os interruptores, acendeu-se uma série de luzes fluorescentes. Uma rápida vista de olhos permitiu-lhe verificar que estava tudo no lugar, que o trabalho em curso fora ordenadamente guardado no final do dia de trabalho.

A mãe não admitiria outra coisa, pensou. Não toleraria menos do que eficiência pura nos seus empregados. E nos filhos. Miranda encolheu os ombros como que para expulsar o ressentimento.

Em pouco tempo tinha o café a ferver, o computador ligado e transcrevia as suas anotações da noite anterior para o disco rígido.

Se gemesse com o primeiro gole de café quente e forte, não haveria ninguém para a ouvir. Se se recostasse na cadeira, de olhos fechados, a sorrir sonhadora, não estaria lá ninguém para ver. Durante cinco minutos, permitiu-se entregar a um dos pequenos prazeres da vida. Descalçou os sapatos e o seu rosto suavizou. Só lhe faltava ronronar.

Se o guarda a visse naquele momento, teria aprovado completamente.

Depois levantou-se, serviu uma segunda chávena, pôs a bata e começou a trabalhar.

Primeiro voltou a testar a terra do local, medindo a radiação e anotando os valores. Testou uma vez mais a argila que fora cuidadosamente extraída. Colocou uma amostra de cada numa lamela e depois preparou uma terceira com as aparas de bronze e patina e observou cada uma ao microscópio.

Estava a olhar para o ecrã do computador quando o pessoal começou a chegar. Giovanni aproximou-se com uma chávena de café acabado de fazer e um pãozinho levemente açucarado.

- Diz-me o que vês - pediu ela, continuando a estudar as cores e formas no ecrã.

- Vejo uma mulher que não sabe como relaxar. - Pousou as mãos nos ombros dela e massajou-os suavemente. - Miranda, já aqui estás há uma semana e não tiveste uma hora de descanso.

- A imagem, Giovanni.

- Ah. - Massajando-lhe ainda os ombros, baixou-se de modo a que as suas cabeças se aproximassem. - O processo de deterioração primário, corrosão. Aquela linha branca indica a superfície original do bronze, no?

- Sim.

- A corrosão na superfície é grande e cresce para baixo, para dentro do metal, o que seria típico de um bronze de quatrocentos anos.

- Precisamos de determinar a taxa de crescimento.

- Nunca é fácil - disse ele. - E a estatueta estava numa cave húmida. A corrosão cresce rapidamente num local desses.

- Vou ter isso em consideração. - Tirou os óculos para massajar a cana do nariz. - A temperatura e a humidade. Podemos calcular ali uma média. Nunca ouvi falar em níveis de corrosão deste tipo serem falseados. Estão lá, Giovanni, dentro da estátua.

- O tecido não tem mais de cem anos de idade. Menos uma ou duas décadas, penso eu.

- Cem? - Irritada, Miranda voltou-se para olhar para ele. - Tens a certeza?

- Sim. Farás os teus próprios testes, mas verás que estou certo. Entre oitenta a cem anos. Não mais.

Ela voltou-se de novo para o computador. Os seus olhos viam o que viam, o cérebro sabia o que sabia. - Está bem. Então devemos pensar que o bronze esteve embrulhado naquele tecido e escondido naquela cave entre oitenta a cem anos. Mas todos os testes indicam que a peça é muito mais antiga.

- Talvez. Toma, come alguma coisa.

Ela aceitou distraidamente o pãozinho e deu uma dentada. - Oitenta anos... o início do século. Primeira Guerra Mundial. Os objectos de valor são frequentemente escondidos em tempo de guerra.

- Verdade.

- Mas onde estaria antes disso? Porque é que nunca ouvimos falar da sua existência? Porque estava escondida - murmurou ela. - Foi escondida quando Pedro de Médici foi expulso da cidade. Talvez durante as Guerras Italianas. Escondida, sim, isso seria aceitável. Mas esquecida? - Insatisfeita, abanou a cabeça. - Isto não é trabalho de um amador, Giovanni. - Mandou imprimir a imagem. - É a obra de um mestre. Tem de haver alguma documentação algures. Preciso de saber mais sobre a villa, e mais sobre a mulher. A quem deixou ela os seus bens? Quem viveu na villa imediatamente a seguir à sua morte? Tinha filhos?

- Eu sou um químico - disse ele com um sorriso. - Não um historiador. Para isso precisas do Richard.

- Ele já chegou?

- Ele é sempre pontual. Espera. - Riu um pouco, dando-lhe o braço antes que ela se pudesse afastar. - Janta comigo esta noite.

- Giovanni. - Apertou afectuosamente a mão dele e depois largou-a. - Aprecio o facto de estares preocupado comigo, mas eu estou bem. Estou demasiado ocupada para ir jantar fora.

- Andas a trabalhar de mais e a não cuidar de ti. Sou teu amigo, por isso, preocupo-me.

- Prometo que peço uma refeição enorme enquanto estiver hoje à noite a trabalhar no quarto do hotel.

Deu-lhe um beijo no rosto no momento em que a porta se abriu. Elise ergueu uma sobrancelha e contraiu os lábios num sinal reprovador.

- Peço desculpa por interromper. Miranda, a directora gostaria que fosses ao seu gabinete às quatro e meia para falarem sobre o teu progresso.

- Claro. Elise, sabes se o Richard tem um momento para mim?

- Estamos todos à tua disposição.

- Era exactamente isso que eu lhe estava a dizer. - Obviamente imune ao gelo, Giovanni sorriu e saiu do laboratório.

- Miranda. - Após uma breve hesitação, Elise entrou e fechou a porta. - Espero que não te ofendas, mas acho que te devia avisar que o Giovanni...

Divertida com o desconforto de Elise, Miranda apenas sorriu suavemente. - O Giovanni?

- Ele é excelente no trabalho que faz, um elemento valioso para a Standjo. Mas a nível pessoal, é um mulherengo.

- Eu não diria isso. - De cabeça inclinada, Miranda colocou os óculos, puxando-os para baixo para olhar por cima da armação. - Um mulherengo usa. O Giovanni dá.

- Isso pode ser verdade, mas o facto é que ele se faz a todas as colegas.

- Incluindo a ti?

As sobrancelhas bem delineadas de Elise aproximaram-se. - De vez em quando. E eu consigo tolerar isso como parte da sua personalidade. Ainda assim, o laboratório não é lugar para namoricos e beijos roubados.

- Meu Deus, pareces a minha mãe. - E nada poderia ter irritado mais Miranda. - Mas terei isso em mente, Elise, da próxima vez que o Giovanni e eu considerarmos fazer sexo selvagem no laboratório de química.

- Ofendi-te. - Elise suspirou e levantou as mãos num gesto de impotência. - Eu só queria... É que ele consegue ser tão encantador. Eu própria quase caí na armadilha quando fui transferida para cá. Estava a sentir-me tão em baixo, tão infeliz.

- Estavas?

O gelo no tom de voz de Miranda fez Elise endireitar os ombros estreitos. - Divorciar-me do teu irmão não me pôs a dar pulos de alegria, Miranda. Foi uma decisão dolorosa e difícil, e só posso esperar que tenha sido a certa. Eu amava o Drew, mas ele... - Não conseguiu continuar e abanou furiosamente a cabeça. - Só posso dizer que não era o suficiente para nenhum de nós.

O brilho de humidade nos olhos de Elise despertou em Miranda um sentimento de culpa. - Desculpa - murmurou ela. - Tudo aconteceu tão rapidamente. Eu não pensei que te tivesse custado.

- Mas custou. Ainda custa. - Suspirou e afastou as lágrimas ameaçadoras. - Quem me dera que tivesse sido diferente, mas o facto é que não foi e não é diferente. Tenho de viver a minha vida.

- Sim, tens. - Miranda encolheu os ombros. - O Andrew tem andado tão infeliz, e foi mais fácil para mim culpar-te. Não acho que o fim de um casamento seja culpa apenas de uma pessoa.

- Eu acho que nenhum de nós tinha muito jeito para o casamento. Pareceu-me mais honesto e até menos doloroso acabar com tudo do que continuar a fingir.

- Como com os meus pais?

Elise esbugalhou os olhos. - Oh, Miranda. Eu não queria...

- Não faz mal. Concordo contigo. Os meus pais não vivem sob o mesmo tecto há mais de vinte e cinco anos, mas nenhum dos dois se dá ao trabalho de acabar com o casamento. O Andrew pode estar magoado, mas, considerando bem as coisas, prefiro a tua maneira.

Era, admitiu ela, o caminho que ela própria teria tomado - se alguma vez caísse na asneira de casar. O divórcio era uma alternativa mais humana à pálida ilusão do casamento.

- Deverei desculpar-me por todos os maus pensamentos que tive acerca de ti no último ano?

Elise esboçou um sorriso. - Não é necessário. Compreendo a tua lealdade para com o Drew. Admiro-a e sempre admirei. Sei o quão chegados vocês são.

- Unidos, amparamo-nos. Separados, temos de ir a correr para o psicólogo.

- Nós nunca conseguimos realmente ser amigas. Fomos colegas, depois parentes, mas nunca nos tornámos amigas apesar de tudo o que temos em comum. Talvez não o consigamos, mas gostaria de pensar que poderíamos ao menos ser amistosas.

- Não tenho muitos amigos. - Demasiado risco de intimidade, pensou Miranda com uma ponta de desprezo. - Seria tolo da minha parte recusar a oferta de uma.

Elise abriu novamente a porta. - Eu também não tenho muitos amigos - disse calmamente. - É bom ter-te a ti.

Tocada, Miranda ficou a vê-la sair e depois pegou nas folhas impressas e nas amostras para as guardar no cofre.

Interrompeu Carter por uns instantes para lhe pedir que verificasse todas as fontes quanto a fórmulas de bronze da era em questão, embora ela própria já o tivesse feito e o fosse fazer novamente.

Encontrou Richard quase enterrado em páginas impressas e livros. Só faltava roçar o nariz pelas folhas como um cão de caça a farejar um odor.

- Encontrou alguma coisa interessante? - Perguntou-lhe Miranda.

- Ha? - Richard pestanejou mas não olhou para cima. - A villa foi concluída em 1489. Lourenço de Medici contratou o arquitecto, mas a escritura estava em nome de Giulietta Buonadoni.

- Ela era uma mulher poderosa. - Miranda puxou uma cadeira.

- Não seria usual uma amante possuir uma propriedade tão valiosa. Ela fez um óptimo negócio.

- Mulheres de grande beleza têm um grande poder - murmurou ele por entre dentes. - As inteligentes sabem como o utilizar. A História indica que ela era inteligente.

Intrigada, Miranda retirou uma fotografia do bronze da sua pasta.

- Podemos ver no seu rosto que era uma mulher que sabia o seu valor. Que mais pode dizer-me sobre ela?

- O seu nome surge de vez em quando. Mas não há muito detalhe. Por exemplo, a genealogia perdeu-se com o passar do tempo. Não consigo encontrar nada. As primeiras menções que encontrei até agora datam de 1487. Tudo indica que ela era da família dos Médicis, potencialmente uma jovem prima de Clarice Orsini.

- Então, admitindo isso, Lourenço terá escolhido por amante a prima da mulher. Mantendo tudo em família - disse ela com um sorriso. Richard acenou sobriamente com a cabeça.

- Isso explicaria como ela lhe despertou a atenção. Embora outra fonte indique que ela poderá ter sido a filha ilegítima de um dos membros da Academia Neoplatónica de Lourenço. Esse facto também a teria colocado na sua linha de visão. Independentemente da forma como se tenham conhecido, ele mudou-a para a villa em 1489. Segundo consta, ela era tão dedicada às artes quanto ele e usava o seu poder e influência para reunir as celebridades da época sob o seu tecto. Faleceu em 1530, durante o cerco de Florença.

- Interessante. - Mais uma vez, uma altura em que poderiam ter sido escondidos objectos de valor. Reclinando-se, Miranda oscilou os óculos pelas hastes. - Então morreu antes de haver certeza de que os Médicis permaneceriam no poder.

- Assim parece.

- Filhos?

- Não encontrei nada a esse respeito.

- Dê-me alguns desses livros - decidiu ela. - Ajudo-o a consultá-los.

Vincente Morelli era a coisa mais próxima de tio que Miranda podia reivindicar. Conhecera os seus pais antes de ela nascer, e durante vários anos fora ele quem tratara da publicidade, das promoções e dos eventos para o Instituto no Maine.

Quando a sua primeira mulher adoecera, ele regressara com ela para Florença e enterrara-a lá havia já doze anos. Chorara a morte dela durante três anos e depois, para espanto geral, casara subitamente com uma actriz quase desconhecida. O facto de Gina ser dois anos mais nova do que a sua filha mais velha causara alguma consternação na família e alguns sorrisos afectados entre os seus sócios.

Vincente era redondo como um barril, com um peito à Pavarotti e pernas como troncos de árvore, enquanto que a esposa se parecia com uma jovem Sofia Loren, exuberante, sensual e deslumbrante. Raramente era vista sem algumas peças de ouro italiano e gemas cintilantes em volta do pescoço e do pulso ou nas orelhas.

Eram ambos ruidosamente alegres e ocasionalmente rudes. Miranda gostava muito de ambos, mas perguntava-se muitas vezes como um casal tão extrovertido conseguia manter um relacionamento tão próximo da sua mãe.

- Enviei cópias dos relatórios para cima - disse Miranda a Vincente enquanto ele preenchia o pequeno gabinete com a sua corpulência e personalidade. - Pensei que quisesses ver a evolução dos trabalhos, e assim, quando chegasse a hora de fazer um comunicado à imprensa, já terias conseguido extrapolar dados para a declaração.

- Sim, sim. Os factos são relativamente simples de relatar, mas diz-me o que achas, cara. Dá-me algumas luzes.

- Eu acho que ainda temos trabalho a fazer.

- Miranda - disse ele devagar, com um sorriso persuasivo, enquanto se recostava na cadeira que rangia alarmantemente devido ao seu peso. - A tua bela mãe atou-me as mãos até estar tudo verificado. Por isso, quando eu puder levar esta história à imprensa, ela tem de ter impacto, emoção e romance.

- Se o bronze for realmente genuíno, terás impacto.

- Sim, sim, mas quero mais. A encantadora e talentosa filha da direttrice vem do outro lado do Atlântico. Uma dama ao encontro de outra. O que pensas dela? O que sentes em relação a ela?

Miranda arqueou uma sobrancelha e batucou com o lápis na borda da mesa. - Acho que o Bronze de Fiesole tem noventa ponto quatro centímetros de altura e vinte e quatro ponto sessenta e oito quilos de peso. É a estátua de um nu, feminino, - continuou ela, reprimindo um sorriso enquanto Vincente revirava os olhos para o tecto, - trabalhada ao estilo renascentista. Os testes até agora indicam que foi esculpida na última década do século quinze.

- És demasiado parecida com a tua mãe.

- Não vais conseguir nada de mim com insultos - avisou Miranda. E sorriram um para o outro.

- Estás a dificultar-me o trabalho, cara. - Quando chegasse a altura certa, pensou ele, ele torceria as coisas à sua maneira no comunicado à imprensa.

Elizabeth deu uma atenta vista de olhos na papelada. Miranda fora muito cuidadosa com os factos, números, fórmulas, com cada passo e fase de todos os testes. Mas ainda era possível ver onde ela se apoiava e onde acreditava que iria chegar.

- Acreditas que é genuíno.

- Todos os testes indicam que a sua idade se situa entre os quatrocentos e cinquenta e os quinhentos anos. Tens cópias das fotografias geradas por computador, dos testes químicos.

- Quem as tirou?

- Eu.

- E o processo da termoluminescência. Quem o realizou?

- Fui eu.

- E a datação pelo estilo também é tua. A maioria da documentação resulta da tua própria investigação. Supervisionaste os testes químicos, testaste pessoalmente a patina e o metal e fizeste as comparações das fórmulas.

- Não foi para isso que me mandaste vir para cá?

- Sim, mas também te forneci uma equipa de peritos. Esperava que os utilizasses mais.

- Se fizer eu mesma os testes, tenho maior controlo - disse Miranda secamente. - Há menor possibilidade de erro. Esta é a minha área. Autentiquei cinco peças desta era, três delas bronzes, uma delas um Cellini.

- O Cellini tinha uma documentação inatacável e registos de escavação.

- Seja como for - disse Miranda numa irritação fervilhante. Embora se imaginasse a levantar as mãos e a balançar os punhos, manteve os braços quietos ao lado do corpo. - Fiz nessa peça precisamente os mesmos testes que fiz nesta para descartar a hipótese de falsificação. Consultei-me com o Louvre, o Smithsonian, o Bargello. Acho que as minhas credenciais estão em ordem.

Elizabeth recostou-se com lassidão. - Ninguém está a pôr em causa as tuas credenciais, ou a tua perícia. Eu não te teria chamado para este projecto se duvidasse de alguma delas.

- Então porque é que as estás a questionar agora que fiz o meu trabalho?

- Estou a comentar a tua falta de espírito de equipa, Miranda, e estou preocupada com o facto de teres formado a tua opinião no instante em que viste o bronze.

- Reconheci o estilo, a época e o artista. - Assim como tu, pensou Miranda furiosa. Raios, assim como tu. - Contudo, - continuou friamente, - realizei todos os testes padrão, voltei a testar, e documentei o procedimento e os resultados. A partir deles posso formar uma opinião e uma convicção de que o bronze presentemente trancado no cofre é uma representação de Giulietta Buonadoni, esculpida por volta dos finais do século quinze, e que é obra de Miguel Angelo Buonarroti ainda jovem.

- Concordo que o estilo é da Escola de Miguel Angelo.

- O bronze é uma obra muito precoce para ser da Escola dele. Ele não tinha mais de vinte anos. E só génios conseguem imitar génios.

- Tanto quanto sei, não há nenhuma documentação de um bronze deste artista que atribua esta obra à sua autoria.

- Então a documentação ainda tem de ser encontrada, ou nunca existiu. Temos documentação de muitas das suas obras que se perderam. Porque não ter uma obra e não a documentação? O esboço do fresco da Batalha de Cascina. Perdido. O bronze de Júlio, o Segundo, destruído e derretido, muitos dos seus desenhos aparentemente queimados por ele próprio pouco antes de morrer.

- Contudo, sabemos que existiram.

- A Dama Negra existe. A idade está correcta e o estilo está correcto, particularmente se virmos o seu trabalho mais antigo. Ele teria cerca de dezoito anos quando isto foi esculpido. E já tinha esculpido Madona das Escadas, Batalha dos Lápitas e Centauros. Já tinha demonstrado que era um génio.

Considerando-se uma mulher paciente, Elizabeth acenou simplesmente com a cabeça. - Não há nenhuma dúvida de que o bronze é de excelente qualidade e que corresponde ao seu estilo. Contudo, isso não prova ser obra dele.

- Ele vivia no Palácio dos Médicis, era tratado como filho de Lourenço. Conhecia-a. Existe documentação em como se conheciam. Ela era frequentemente usada como modelo. Seria mais estranho se ele não a tivesse usado. Sabias que existia esta possibilidade quando mandaste chamar-me.

- Possibilidade e factos são coisas distintas, Miranda. - Elizabeth entrelaçou as mãos. - Como disseste no teu primeiro dia aqui, não trabalhas com possibilidades.

- Vou apresentar-te factos. A fórmula do bronze está correcta, e os raios X verificam que a ferramenta de trabalho é autêntica para a época. O miolo de argila e as aparas foram datados. Os testes revelam o crescimento acentuado da corrosão. A patina está correcta. O bronze é dos finais do século quinze. Mais provavelmente da última década.

Ergueu uma mão antes que a mãe pudesse falar. - Como perita nesta área, e após um estudo cuidadoso e objectivo da peça, concluo que o bronze é obra de Miguel Angelo. Só falta a sua assinatura. E ele não assinava as suas obras, à excepção da Pietà em Roma.

- Não discutirei os resultados dos teus testes. - Elizabeth inclinou a cabeça. - Contudo, tenho reservas quanto às tuas conclusões. Não podemos dar-nos ao luxo de deixar o teu entusiasmo pesar para qualquer um dos lados. Por enquanto não dirás nada disto a ninguém. E devo insistir para que não digas nada fora do laboratório. Se passarem alguns rumores para a imprensa, será desastroso.

- Não vou ligar para os jornais para anunciar que autentiquei um Miguel Angelo perdido. Mas autentiquei. - Colocou as mãos em cima da secretária e inclinou-se para a frente. - Eu sei. E mais cedo ou mais tarde, terás de o admitir.

- Nada me daria mais prazer, garanto-te. Mas, entretanto, isto tem de ser mantido em segredo.

- Não estou nisto pela glória. - Embora pudesse sentir o seu sabor, na ponta da língua. Podia senti-la, formigando nas pontas dos dedos.

- Estamos todos nisto pela glória - corrigiu Elizabeth com um pequeno sorriso. - Porquê fingir o contrário? Se a tua teoria for comprovada, terás muita. Se não, e fores prematura nas tuas declarações, estragarás a tua  reputação. E a minha e a desta instituição. Isso, Miranda, eu não permitirei. Continua com a pesquisa documental.

- É o que tenciono fazer. - Miranda deu meia volta e saiu a passos largos. Reuniria um monte de livros, levá-los-ia para o hotel e, se Deus quisesse, pensava ela, encontraria a ligação.

Quando o telefone tocou às três da manhã, ela estava sentada na cama rodeada de livros e papéis. O toque acordou-a de um sonho agradável com encostas ensolaradas e pátios frescos de mármore, fontes musicais e música de harpa.

Desorientada, pestanejou devido à claridade das luzes que deixara acesas e procurou pelo telefone.

- Pronto. Dra. Jones. Está?

- Miranda, preciso que venhas a minha casa assim que puderes.

- Quê? Mãe? - Olhou com dificuldade para o relógio da mesa-de-cabeceira. - São três da manhã.

- Sei muito bem que horas são. Assim como o ministro-adjunto que foi acordado há uns vinte minutos por um repórter que exigia saber os detalhes sobre o bronze perdido de Miguel Angelo.

- O quê? Mas...

- Não quero discutir isto ao telefone. - A voz de Elizabeth vibrava com frieza e fúria mal refreada. - Lembras-te de como chegar aqui?

- Sim, claro.

- Espero-te dentro de meia hora - disse ela, segundos antes de desligar o telefone.

Miranda chegou em vinte minutos.

A casa de Elizabeth era pequena e elegante, uma habitação de dois andares típica de Florença, com paredes de marfim amarelado e telhado de telhas vermelhas. Flores brotavam de vasos e floreiras nas janelas e eram religiosamente cuidadas pela empregada.

Na escuridão, as janelas brilhavam, listas brilhantes de luz que escapava através das venezianas. Era espaçosa, como Miranda recordava, uma atraente arena para o entretenimento. Não ocorrera à mãe nem à filha partilharem aquele espaço enquanto Miranda estivesse em Florença.

A porta abriu-se antes que ela pudesse bater. Elizabeth apareceu, bem arranjada e perfeitamente apresentada num roupão cor-de-pêssego.

- O que é que aconteceu? - Perguntou Miranda.

- É precisamente essa a minha questão. - Um controlo severo foi o que impediu Elizabeth de bater com a porta. - Se esta foi a tua forma de fazeres valer o teu ponto de vista, de exercer a tua perícia, ou de me causar um embaraço profissional, só conseguiste o último.

- Não sei do que é que estás a falar. - Miranda não tinha tido tempo de pentear o cabelo e passou uma mão impaciente para o afastar dos olhos. - Disseste que um repórter telefonou...

- Correcto.

Hirta como um general, Elizabeth virou-se e avançou a passos largos para a sala de estar. Havia uma lareira, mas tinha ainda de ser acesa. Lâmpadas brilhavam intensamente, fazendo reflectir o brilho da madeira polida. Havia um vaso de rosas brancas por cima do fogão e mais nada. As cores eram todas suaves, todas claras.

Parte da mente de Miranda registou o que sempre registava quando entrava naquela ou em qualquer outra divisão da casa. Era mais cenário do que casa, e igualmente fria.

- O repórter, como é óbvio, recusou-se a revelar a fonte. Mas estava bastante informado.

- O Vincente nunca iria prematuramente à imprensa.

- Pois não - concordou friamente Elizabeth. - O Vincente não faria tal coisa.

- Terá o canalizador falado com o repórter?

- O canalizador não lhe poderia ter entregue fotografias do bronze, nem resultados de testes.

- Resultados de testes. - Como os joelhos cederam subitamente, Miranda sentou-se. - Os meus testes?

- Os testes da Standjo - disse Elizabeth por entre dentes. - Apesar do facto de teres sido tu a realizá-los, continuam a ser responsabilidade do meu laboratório. E foi a segurança desse laboratório que foi quebrada.

- Mas como... - Então ela percebeu o tom, a expressão no olhar da mãe. Levantou-se lentamente. - Achas que contactei um repórter e lhe forneci informação? Fotografias e resultados de testes?

Elizabeth observou apenas o rosto furioso de Miranda. - Foste tu?

- Não, não fui. Mesmo que não tivéssemos discutido as implicações, eu nunca prejudicaria um projecto desta forma. É também a minha reputação que está em jogo.

- E é a tua reputação que podia muito bem ser construída.

Miranda olhou Elizabeth nos olhos e viu que a opinião já estava formada. - Podes ir para o Inferno.

- O repórter citou o teu relatório.

- Direitinha para o Inferno, e levar o teu precioso laboratório contigo. Sempre significou mais para ti do que a tua própria carne e sangue.

- O meu precioso laboratório deu-te experiência e emprego, e a hipótese de atingires o topo da tua carreira. Agora, devido a precipitação, teimosia e ego, a minha integridade profissional está posta em questão, e a tua reputação pode muito bem estar arruinada. O bronze vai hoje ser transferido para outras instalações.

- Transferido?

- Fomos despedidos - disse bruscamente Elizabeth, atendendo em seguida o telefone que tocava numa mesa ao lado. Os seus lábios afilaram e a respiração atravessou-os de modo sibilante. - Sem comentários - disse ela em italiano. E desligou. - Outro repórter. O terceiro que me contacta no meu número particular.

- Não importa. - Embora tivesse o estômago aos saltos, Miranda falou calmamente. - Transfiram-no. Qualquer laboratório respeitável confirmará apenas as minhas descobertas.

- Foi precisamente esse tipo de arrogância que nos colocou nesta posição. - Os olhos de Elizabeth emitiam uma frieza tal que Miranda não reparou na tensão nem nas olheiras debaixo deles. - Trabalhei durante anos para chegar aqui, para construir e manter uma instituição que é sem dúvida uma das melhores do mundo.

- Isto não vai alterar isso. As fugas de informação acontecem nos melhores estabelecimentos.

- Não na Standjo. - A seda do robe de Elizabeth ondulava enquanto ela andava de um lado para o outro. As chinelas condizentes não produziam nenhum som ao calcarem as rosas cor-de-rosa que desabrochavam no tapete. - Vou começar imediatamente a reparar o estrago. Espero que evites a imprensa e que apanhes o primeiro avião para o Maine.

- Não me vou embora até isto estar acabado.

- Para ti já acabou. Os teus préstimos já não são necessários na Standjo. - Voltou-se para a filha, de rosto contraído, olhos cansados gelados e directos. - O teu livre-trânsito será cancelado.

- Estou a ver. Uma execução rápida sem julgamento. Não deveria estar surpreendida - disse meio para si mesma. - Porque é que estou?

- Isto não é hora de te entregares a dramas.

Como os seus nervos estavam em franja, Elizabeth dirigiu-se a um armário para ir buscar o brandy. Sentia um batuque na base do crânio que lhe provocava mais irritação do que dor.

- Depois disto, vai dar bastante trabalho equilibrar outra vez a Standjo. E surgirão perguntas, muitas perguntas. - De costas voltadas para Miranda, Elizabeth verteu dois dedos de brandy para dentro de um copo de balão. - Seria melhor para ti se não estivesses no país quando forem colocadas.

- Não tenho medo de perguntas. - O pânico trepava dissimuladamente  pela sua coluna. Ela ia ser mandada embora. A Dama Negra ser-lhe-ia tirada. O seu trabalho posto em causa, a sua integridade ensombrada. - Não fiz nada de ilegal ou pouco ético. E reafirmo a minha autenticação do bronze. Porque está correcta. Porque é real.

- Pela tua saúde, espero bem que sim. A imprensa tem o teu nome, Miranda. - Elizabeth ergueu o brandy num brinde inconsciente. - Acredita, vão usá-lo.

- Que usem.

- Arrogância. - Elizabeth soltou um suspiro. - Obviamente não levaste em linha de conta o facto de as tuas acções se reflectirem em mim, tanto a nível pessoal como profissional.

- Pensaste nisso, - ripostou Miranda, - quando me trouxeste para cá para verificar e corroborar as tuas próprias suspeitas. Podes dirigir a Standjo, mas não tens as qualificações para este tipo de trabalho. Querias a glória.

O coração de Miranda batia dolorosamente na garganta quando ela se aproximou. - Chamaste-me porque tenho parte do teu nome e do teu sangue, por mais que ambas lamentemos isso.

Os olhos de Elizabeth semicerraram-se. A acusação não estava incorrecta, mas também não estava completa. - Dei-te a oportunidade da tua vida, por causa das tuas qualificações, e sim, porque és uma Jones. Estragaste essa oportunidade e a minha instituição no processo.

- Não fiz nada para além do que me chamaram para fazer. Não falei com ninguém fora da instituição, e com ninguém na instituição que não estivesse autorizado a saber.

Elizabeth inspirou profundamente. A sua decisão já estava tomada, lembrou a si própria. Não valia a pena discuti-la mais. - Sairás hoje de Itália. Não regressarás ao laboratório nem contactarás qualquer pessoa que lá trabalhe. Se não concordares, serei forçada a acabar com o teu lugar no museu.

- Já não diriges o Instituto, e nem o pai. Sou eu e o Andrew.

- Se queres manter essa situação, farás o que te digo. Quer acredites quer não, estou a tentar poupar-te de embaraços.

- Não me faças favores, mãe. Não queremos que estragues a tua reputação. - Exilada, era tudo o que conseguia pensar. Afastada do trabalho mais emocionante da sua vida e mandada embora tão impotente como uma criança que é mandada para o quarto.

- Dei-te a escolher, Miranda. Se ficares, ficarás por tua conta. E não serás mais bem-vinda em qualquer estabelecimento da Standjo, incluindo o Instituto de História da Arte de Nova Inglaterra.

Miranda sentiu que começava a tremer, tanto de medo como de raiva.

Enquanto ouvia os gritos desse medo e raiva ecoarem na sua cabeça, falou calmamente: - Nunca te perdoarei por isto. Nunca. Mas vou, porque o Instituto é importante para mim. E porque, quando isto acabar, terás de me pedir desculpas e eu dir-te-ei que vás para o Inferno. Serão essas as últimas palavras que alguma vez te direi.

Tirou o copo de balão da mão da mãe. - Salute - disse ela, devolvendo provocadoramente o brandy. Pousando o copo com um estalido de vidro contra madeira, voltou-se e saiu. Não olhou para trás.

 

Andrew Jones estava a pensar em casamento e fracasso enquanto bebericava um Jack Daniels de um copo pequeno. Estava bem ciente de que todos os que o conheciam achavam que já era tempo de ele virar a página quanto ao divórcio e seguir em frente.

Mas não lhe apetecia seguir em frente. Não quando era tão reconfortante mergulhar no vício.

O casamento fora um enorme passo para si, que considerara cuidadosamente, muito embora estivesse loucamente apaixonado. Aceitar esse compromisso, transformando uma emoção num documento legal, custara-lhe muitas noites sem dormir. Ninguém na família Jones tivera até então um casamento bem sucedido.

Ele e Miranda chamavam-lhe a maldição dos Jones.

A avó sobrevivera ao avô por mais de uma década e nunca - pelo menos que o neto soubesse - dissera uma palavra agradável sobre o homem com quem vivera durante trinta anos.

Era difícil culpá-la, já que o falecido e não chorado Andrew Jones fora infame pela sua predilecção por jovens louras e uísque Jack Daniels.

O seu homónimo estava bem ciente de que o velho fora um canalha, esperto e bem sucedido, mas ainda assim um canalha.

O pai de Andrew preferia escavações ao aconchego do lar, e passara a maior parte da infância do filho longe de casa a limpar terra de ossadas antigas. Quando estava em casa, concordava com tudo o que a mulher dissesse, olhava espantado para os filhos como se se tivesse esquecido de como eles haviam aparecido à sua frente e trancava-se durante horas seguidas no escritório.

Não tinham sido mulheres e uísque para Charles Jones. Ele cometera o seu adultério e incúria com a ciência.

Não que a grande Dra. Elizabeth Standford-Jones se tivesse importado, pensou Andrew enquanto matutava sobre o que tencionara ser uma agradável bebida no Bar da Annie. Ela deixara a educação dos filhos ao cuidado de empregados, governara a casa como um general nazi e ignorara o marido tão subtimemente como ele a tinha ignorado.

Andrew estremecia sempre quando imaginava que, pelo menos duas vezes, estas pessoas de sangue frio e egocêntricas se tinham embrulhado na cama o tempo suficiente para conceber dois filhos.

Enquanto criança, Andrew fantasiara muitas vezes que Charles e Elizabeth os haviam comprado, a ele e à irmã, a algum casal pobre que chorara copiosamente quando trocara os filhos pelo dinheiro da renda.

Já mais velho, gostara de imaginar que ele e Miranda tinham sido criados num laboratório, tendo resultado de experiências científicas em vez de sexo.

Mas a triste realidade é que havia demasiado dos Jones em si para não ser filho daquele homem.

Sim, pensou, levantando o copo, Charles e Elizabeth haviam dançado o tango uma noite há trinta e três anos e concebido a geração seguinte de imbecis.

Mas ele tentara, pensou Andrew, deixando o uísque escorrer pela garganta abaixo numa carícia quente. Fizera o seu melhor para que o casamento funcionasse, para fazer Elise feliz, para ser o tipo de marido que ela queria e acabar com a maldição dos Jones.

E falhara por completo.

- Quero mais um, Annie.

- Não, não queres.

Andrew ajeitou-se no banco e suspirou irritado. Conhecia Annie McLean desde pequeno e sabia como lhe dar a volta.

No Verão do ano em que ambos haviam completado dezassete anos, haviam-se enroscado num cobertor em cima da areia e tinham feito amor ao som da rebentação das ondas do Atlântico.

Ele achava que o sexo atrapalhado - que afinal fora uma estreia para os dois - tivera tanto a ver com a cerveja que os dois tinham consumido, com a própria noite e com a tolice da juventude como com as ondas de calor que provocavam um ao outro.

E nenhum deles poderia ter adivinhado o que aquela única noite, aquelas poucas horas à beira-mar, faria aos dois.

- Vá lá, Annie, deixa-me beber mais um copo.

- Já bebeste dois.

Annie acabou de encher uma caneca de cerveja e fê-la deslizar pelo balcão de cerejeira até ao cliente. Rapidamente, limpou as mãos esguias ao avental.

Com um metro e setenta, e sessenta quilos bem tonificados, Annie McLean dava a impressão de competência séria, sem brincadeiras.

Apenas algumas pessoas - incluindo um ex-marido traidor - sabiam que tinha uma delicada borboleta azul no traseiro.

O cabelo cor de trigo era curto e espetado, e emoldurava um rosto mais interessante do que bonito. O queixo era pontiagudo, o nariz inclinava ligeiramente para a esquerda e era salpicado de sardas. A pronúncia era típica do Maine, com tendência para achatar as vogais.

Ela podia, e já tinha, atirado homens para fora do bar com as suas próprias mãos.

O Bar da Annie era dela porque ela o tornara seu. Enterrara todos os tostões que conseguira juntar na época em que trabalhara como empregada de mesa no bar - todos os tostões que o patife do ex-marido não lhe roubara - e pedira emprestado o restante. Trabalhara dia e noite para transformar o que não passava de uma cave num confortável bar de bairro.

Tinha um estabelecimento agradável, conhecia os clientes habituais, as suas famílias, os seus problemas. Sabia quando servir mais uma dose, quando mudar para café e quando pedir as chaves do carro e chamar táxis.

Olhou para Andrew e abanou a cabeça. Ele beberia até desmaiar se ela o deixasse.

- Andrew, vai para casa. Come qualquer coisa.

- Não tenho fome. - Andrew sorriu, sabendo como pôr as suas covinhas em acção. - Está frio e chuva lá fora, Annie. Só preciso de alguma coisa para aquecer o sangue.

- Está bem. - Voltou-se para a máquina do café e serviu-lhe uma caneca. - Isto é quente.

- Meu Deus! Posso ir até ao fundo da rua e tomar uma porcaria de bebida sem me chatear.

Ela levantou simplesmente as sobrancelhas. - Bebe o café e pára de te queixar. - E regressou ao trabalho.

A chuva estava a manter a maioria dos clientes em casa. Mas aqueles que tinham enfrentado a tempestade estavam colados aos seus assentos a beber cerveja, a ver o canal de desporto na televisão e entretidos a conversar.

Havia uma pequena lareira acesa e alguém escolhera Ella Fitzgerald na jukebox.

Era o tipo de noite que ela mais apreciava. Quente, agradável, descomplicada. Era esse o motivo pelo qual ela estivera disposta a arriscar tudo, a trabalhar como uma louca e a ficar noites seguidas acordada na cama devido às preocupações. Poucos haviam acreditado que ela poderia ter êxito, uma mulher de vinte e seis anos cuja única experiência de negócio viera de servir cervejas e contar gorjetas.

Sete anos depois, e o Bar da Annie era visita obrigatória em Cabo Jones.

Andrew acreditara, recordou ela com uma pontada de culpa quando o viu sair do bar arrastando os pés. Emprestara-lhe dinheiro quando os bancos haviam recusado. Aparecera-lhe com sanduíches quando ela andara a pintar as paredes. Ouvira os seus sonhos quando outros os tinham ignorado.

Ele achava que estava em dívida para com ela, pensou Annie naquele momento. E era um homem honesto que pagava as suas dívidas.

Mas não conseguia esquecer a noite de dezasseis anos antes quando, perdida de amor por ele, ela lhe entregara a sua inocência e recebera a dele. Ele não podia fazê-la esquecer que ao fazer isso haviam gerado uma vida que existira apenas por instantes.

Não conseguia fazê-la esquecer-se da sua expressão quando, com uma felicidade escondida por detrás do medo, ela lhe contara que estava grávida. O rosto dele empalidecera, o corpo retesara quando ele se sentara numa rocha a olhar fixamente para o mar.

E a voz fora fria, impessoal, sem ponta de emoção quando a pedira em casamento.

A pagar uma dívida, pensou ela. Nem mais, nem menos. E, ao oferecer-se para fazer o que a maioria consideraria a coisa mais honrada, partira-lhe o coração.

Ela achava que perder o bebé apenas duas semanas depois fora obra do destino. Poupara a ambos o fardo de decisões pesadas. Mas ela amara o que estava a crescer dentro de si, tal como amara Andrew.

Assim que aceitara a perda do bebé, parara de amar. E sabia que esse facto tinha sido um alívio tanto para Andrew como para ela.

Era muito mais fácil dançar ao som do sussurrar da amizade do que ao do bater descompassado do coração apaixonado.

O raio das mulheres eram a cruz da sua vida, concluiu Andrew ao abrir a porta do carro. Sempre a dizer-lhe o que fazer, como fazer, e principalmente o que estava a fazer mal.

Estava satisfeito por ter acabado com elas.

Estava melhor a afundar-se em trabalho no Instituto durante o dia e a esquecer os problemas com uísque durante a noite. Assim ninguém se magoava. Especialmente ele.

Agora estava demasiado sóbrio e a noite ainda era uma criança.

Conduziu através da chuva, pensando como seria continuar simplesmente a conduzir. Continuar até ficar sem gasolina e começar de novo onde quer que isso acontecesse. Podia mudar o nome, arranjar um trabalho nas obras. Tinha braços fortes e boas mãos. Talvez o trabalho duro e manual fosse a solução.

Ninguém o conheceria nem esperaria nada de si.

Mas ele sabia que não faria tal coisa. Nunca abandonaria o Instituto. Este era, como nada mais havia sido, a sua casa. Precisava tanto dele quanto ele de si.

Bem, tinha uma ou duas garrafas em casa. Não havia razão para não tomar alguns copos, em frente à sua própria lareira, que o ajudassem a adormecer.

Mas viu as luzes a piscar através da chuva quando subia o caminho de acesso a casa. Miranda. Não esperara a irmã em casa, a não ser daí a uns dias. Os dedos apertaram o volante quando pensou nela em Florença, com Elise. Depois de estacionar o carro, demorou alguns minutos até os conseguir relaxar.

O vento açoitou-o quando abriu a porta do carro. A chuva bateu-lhe no rosto e escorreu para dentro do colarinho. Mesmo acima dos picos e beirais do telhado da casa, o céu explodia com os clarões dos relâmpagos.

Uma noite selvagem. Andrew imaginava que Miranda estivesse lá dentro a admirá-la. Ela adorava uma boa tempestade. Quanto a ele, preferia paz, sossego e o esquecimento.

Correu para a porta e sacudiu-se como um cão assim que entrou. Pendurou o casaco molhado no velho cabide de carvalho que estava na entrada e passou uma mão pelo cabelo sem olhar para o espelho antigo. Podia ouvir os tons fúnebres do Requiem de Mozart vindos da sala de estar.

Se Miranda estava a ouvir aquilo, ele sabia que a viagem não tinha corrido bem.

Encontrou-a encolhida numa cadeira em frente à lareira, envolta no seu robe de caxemira cinzento e a beber chá do melhor serviço de porcelana da avó.

- Voltaste cedo.

- Parece que sim. - Miranda examinou-o. Tinha a certeza que ele tinha estado a beber, mas os seus olhos estavam límpidos e a tez normal. Pelo menos ainda estava relativamente sóbrio.

Embora ele quisesse uma bebida, sentou-se em frente dela. Era fácil detectar os sinais de irritação. Mas ele conhecia-a melhor do que qualquer outra pessoa, e também conseguiu perceber a tristeza escondida. - Então, o que se passa?

- Ela tinha um projecto para mim. - Como tivera esperança de que ele regressasse a casa antes de ela se ir deitar, Miranda levara duas chávenas. Serviu uma segunda chávena de chá e fingiu não ver a cara de aversão de Andrew.

Ela sabia muito bem que ele preferiria um copo de uísque.

- Um projecto incrível - continuou Miranda, entregando-lhe a chávena. - Foi encontrado um bronze na cave da Villa della Donna Oscura. Conheces a história do lugar?

- Refresca-me a memória.

- Giulietta Buonadoni.

- Ok, já sei. A Dama Negra, amante de um dos Médicis.

- Lourenço, o Magnífico; pelo menos foi ele o seu primeiro protector - especificou Miranda, satisfeita por o conhecimento de Andrew relativamente à época ser suficientemente aprofundado. Poupar-lhe-ia tempo. - O bronze é da própria dama; o rosto não deixa dúvidas. Ela queria que eu fizesse os testes, a datação.

Andrew esperou um pouco. - A Elise podia ter tratado disso.

- A área da Elise é mais abrangente do que a minha. - Havia uma ponta de irritação na voz de Miranda. - A Renascença é a minha época, os bronzes a minha especialidade. Elizabeth queria a melhor.

- Ela quer sempre. Então, fizeste os testes?

- Sim. E tornei a fazê-los. Tinha o pessoal mais competente a ajudar-me. Fiz tudo pessoalmente, passo a passo. Depois voltei a fazer tudo de novo.

- E?...

- Era genuíno, Andrew. - Algum do entusiasmo transpareceu quando ela se inclinou para a frente. - Finais do século quinze.

- Isso é incrível. Maravilhoso. Porque é que não estás a celebrar?

- Ainda há mais. - Miranda teve de respirar fundo, acalmar-se.

- É um Miguel Angelo.

- Jesus! - Pousou rapidamente a chávena de chá. - Tens a certeza? Não me recordo de nada relacionado com um bronze perdido.

Miranda franziu o sobrolho. - Posso apostar a minha reputação nisso. É uma obra de início de carreira, magnificamente executada. É uma peça lindíssima, que ecoa o estilo sensual do seu Baco embriagado. Eu ainda estava a trabalhar na documentação quando me vim embora, mas esta já é suficiente para apoiar a teoria.

- O bronze não estava documentado?

Miranda começou a bater com o pé em sinal de irritação. - Provavelmente Giulietta escondeu-o, ou, pelo menos, guardou-o com ela. Política. Faz sentido - insistiu Miranda. - Tê-lo-ia provado sem sombra de dúvida se ela me tivesse dado mais tempo.

- Porque é que não deu?

Incapaz de se sentar, Miranda desdobrou as pernas e levantou-se para avivar o fogo com um atiçador. - Alguém informou a imprensa. Não estávamos nada preparados para um comunicado oficial e o governo ficou nervoso. Despediram a Standjo e ela despediu-me a mim. Acusou-me de ter sido eu a dar a informação. - Furiosa, voltou-se para trás. - De querer tanto a glória que arriscaria o projecto para a alcançar. Eu nunca faria uma coisa dessas.

- Não, claro que não. - Andrew podia afastar a ideia sem qualquer dúvida. - Despediram-na. - Embora fosse uma atitude baixa da sua parte, não conseguiu conter o sorriso sarcástico. - Aposto que isso a pôs fora de si.

- Estava lívida. Noutras circunstâncias, eu poderia ter ficado satisfeita com isso. Mas agora perdi o projecto. Não só não serei reconhecida pelo meu trabalho, como só voltarei a ver aquela peça num museu. Raios, Andrew, eu estava tão perto!

- Podes crer que quando o bronze for autenticado e anunciado, ela encontrará forma de lhe associar o nome da Standjo. - Levantou uma sobrancelha. - E quando ela fizer isso, só terás de te certificar que o teu não ficará de fora.

- Não é a mesma coisa. - Ela tirou-mo, era só o que Miranda conseguia pensar.

- Apanha o que puderes. - Ele levantou-se também, dirigindo-se ao armário do bar. Porque teria de perguntar. - Viste a Elise?

- Sim. - Miranda enfiou as mãos nos bolsos do robe. Porque teria de responder. - Ela parece-me bem. Acho que se adaptou bem à função de directora de laboratório. Perguntou por ti.

- E disseste-lhe que eu estava óptimo.

Miranda viu-o servir o primeiro copo. - Não pensei que quisesses que lhe dissesse que te estavas a transformar num bêbado pensativo e autodestrutivo.

- Eu sempre fui pensativo - disse ele. - Todos nós somos, por isso essa parte não conta. Ela anda com alguém?

- Não sei. Não chegámos a discutir a nossa intimidade. Andrew, tens de parar com isto.

- Porquê?

- Porque é uma perda de tempo e é estupidez. E, francamente, embora eu goste dela, acho que não vale a pena.

- Eu amava-a - murmurou ele, vendo o uísque rodopiar antes de o beber. - Dei-lhe o melhor de mim.

- Alguma vez consideraste a hipótese de ela não ter dado o melhor? Que talvez tenha sido ela a não estar à altura?

Andrew observou Miranda por cima da borda do copo. - Não.

- Talvez devesses. Ou talvez devesses considerar que o melhor que tinhas e o melhor que ela tinha não equivalessem ao melhor dos dois juntos.

Há muitos casamentos que falham. As pessoas acabam por ultrapassar a situação.

Ele olhou para a bebida, observando a luz tremeluzir através do copo. Talvez se não ultrapassassem isso tão facilmente, os casamentos não fracassassem tantas vezes.

- E talvez se as pessoas não fingissem que o amor é que faz girar o mundo, escolhessem os seus companheiros com mais cuidado.

- É o amor que faz girar o mundo, Miranda. É por isso que o mundo está de pernas para o ar.

Levantou o copo e bebeu tudo de uma só vez.

 

O céu brilhava com a luz de uma madrugada fria e carregada. Irrequieto, escuro e cheio de som, o mar batia nas rochas e elevava-se para socar com os seus punhos brancos o ar gélido e cortante. A Primavera teria muito que lutar para conseguir derrotar o Inverno.

Nada poderia ter agradado mais a Miranda.

Estava na falésia, com um humor tão caprichoso como a água abaixo dela. Observava-a jorrar de entre as rochas, gelada e agressiva, e inalava a antiga violência do seu odor.

Dormira mal, enredada em sonhos que atribuía tanto à sua disposição como ao cansaço da viagem. Ela não era pessoa que costumasse sonhar. Ainda estava escuro quando desistira de dormir e vestira uma grossa camisola verde e calças de lã suave. Usara o café que ainda restava - Andrew não ficaria nada satisfeito quando acordasse - e preparara meia cafeteira para si.

Agora bebericava o café, forte e escuro, de uma caneca e observava o nascer da madrugada no infeliz céu oriental.

A chuva tinha parado mas regressaria, pensou. E como a temperatura baixara drasticamente durante a noite, muito provavelmente regressaria como neve e granizo. O que era bom, era óptimo.

Era assim o Maine.

Florença, com o seu Sol radioso e quente, e vento seco, estava a um oceano de distância. Mas dentro dela, no seu coração enraivecido, estava perto.

A Dama Negra tinha sido a sua passagem para a glória. Pelo menos nisso Elizabeth estava certa. A finalidade era sempre o reconhecimento. Mas ela tinha trabalhado para isso. Tinha estudado, esforçando-se brutalmente para aprender, absorver, lembrar, quando os seus contemporâneos haviam saltado de grupo em grupo e de relação em relação.

Não existira período rebelde e selvagem na sua vida, nem o torcer do nariz a regras e tradições enquanto estudava, nem casos loucos e comoventes. Recalcada, chamara-lhe uma colega de quarto. Entediante, fora a opinião de outra. Como, no seu íntimo, ela concordara, resolvera o problema saindo do campus e indo morar para um apartamento seu.

Fora melhor assim, pensava sempre Miranda. Não tinha jeito para interacção social. Sob a armadura de compostura e formalismo, ela era extremamente tímida com as pessoas e sentia-se muito mais à vontade com a informação.

Então lera, escrevera, fechara-se noutros séculos com uma disciplina acesa pela chama da ambição.

Essa ambição tinha um propósito. Ser a melhor. E ao ser a melhor, ver os pais admirarem-na com orgulho, satisfação e respeito. Oh, atormentava-a o facto de essa motivação ainda estar enterrada dentro de si, mas nunca conseguira desenterrá-la e livrar-se dela.

Estava quase na casa dos trinta, tinha o seu doutoramento, a sua posição no Instituto, uma reputação sólida em arqueometria. E uma necessidade lamentável de ouvir os pais aplaudirem o seu desempenho. Bem, teria apenas que ultrapassar isso.

Não faltaria muito tempo para que as suas descobertas fossem provadas, pensou. E, nessa altura, certificar-se-ia de que receberia o reconhecimento que merecia. Escreveria um artigo sobre a Dama Negra e o seu próprio envolvimento nos testes e na autenticação. E nunca perdoaria Elizabeth por ter tirado o controlo e o prazer das suas mãos. Ou por ter o poder para o fazer.

O vento aumentou, enfiando-se por debaixo da camisola como mãos à procura da pele. Os primeiros flocos molhados e finos começaram a cair. Miranda afastou-se do mar e desceu do rochedo.

O feixe estável do grande farol continuava a rodar no cimo da torre branca, projectando-se sobre a água e rocha embora não houvesse barcos dentro do seu raio de acção. Do anoitecer ao amanhecer, ano após ano, pensava ela, nunca falhava. Alguns olhavam para ele e viam romantismo, mas quando Miranda observava a robusta torre branca, via fiabilidade.

Maior, pensou ela naquele momento, do que a que se encontrava habitualmente nas pessoas.

Ao longe, a casa ainda estava escura e adormecida, uma bonita silhueta de outros tempos gravada contra um céu implacável.

A relva era de um castanho-amarelado invernal e ficava esmagada debaixo dos seus pés devido ao gelo. A cicatriz do outrora encantador jardim da avó parecia repreendê-la.

Naquele ano, prometeu Miranda a si mesma ao passar pelas folhas enegrecidas e ramos quebradiços, dedicar-lhe-ia algum tempo e atenção. Faria da jardinagem o seu hobby - estava sempre a prometer-se um hobby.

Na cozinha, verteu o resto do café que estava na cafeteira para dentro da caneca. Depois de uma última olhadela para a neve que caía lá fora, decidiu ir cedo para o Instituto antes que as estradas ficassem cobertas.

Do interior do Mercedes confortavelmente aquecido que alugara, ele viu o Land Rover deslizar sem esforço sobre a fina camada de neve da estrada e depois virar para o parque de estacionamento ao lado do Instituto de História da Arte de Nova Inglaterra. Parecia um veículo que deveria ter sido conduzido por um general durante uma pequena guerra elegante.

Ela era uma figura e tanto, reflectiu ele ao vê-la descer do jipe. Cerca de um metro e oitenta em cima das botas, embrulhada num casaco cinza-chumbo que era mais quente do que bonito. O cabelo era de um sexy vermelho-semáforo que escapava em caracóis desalinhados de dentro de um gorro preto. Levava uma pasta ligeiramente abaulada com o conteúdo e movia-se com a precisão e objectivo que teria orgulhado qualquer general.

Mesmo com a ténue luminosidade, reconheceu-a. Era uma mulher difícil de não ser notada, pensou ele com um sorriso lento.

Já estava ali sentado há quase uma hora, entretido com diversas árias de Carmen, La Bohème, O Casamento de Fígaro. Na verdade, já tinha tudo de que precisava e já fizera o que tinha a fazer, mas estava satisfeito por se ter demorado o suficiente para a ver chegar.

Uma madrugadora, decidiu ele, uma mulher que gostava suficientemente do trabalho para o enfrentar numa manhã fria e nevosa antes de a maior parte dos habitantes da cidade acordarem. Ele apreciava uma pessoa que gostava do seu trabalho. Deus sabia que ele adorava o seu.

Mas o que fazer com a Dra, Miranda Jones? Pensou. Imaginou que ela estaria a utilizar a entrada lateral, a introduzir o cartão na ranhura e a inserir o código no teclado numérico. Sem dúvida que iria voltar a ligar os alarmes de segurança assim que entrasse.

Todas as informações indicavam que era uma mulher prática e cuidadosa. Ele gostava de mulheres práticas. Era um enorme prazer corrompê-las.

Ele podia evitá-la, ou usá-la. Fosse como fosse, faria o seu trabalho. Mas usá-la seria tão mais... divertido. Como este seria o seu último trabalho, parecia justo que incluísse alguma diversão além da emoção e do lucro.

Pensou que valeria a pena conhecer Miranda Jones, satisfazer-se com ela. Antes de a roubar.

Viu uma luz acesa numa janela do terceiro piso do edifício de granito. Directa ao trabalho, meditou ele, sorrindo outra vez ao ver a sombra em movimento do outro lado da janela.

Também estava na altura de ele próprio deitar mãos ao trabalho. Ligou o carro e arrancou para ir vestir-se para a parte seguinte do dia.

O Instituto de História da Arte de Nova Inglaterra fora construído pelo bisavô de Miranda. Mas tinha sido o seu avô, Andrew Jones, que o estendera ao seu potencial máximo. Ele sempre tivera uma grande paixão pelas artes, e considerara-se até um pintor. Pelo menos fora suficientemente bom para convencer uma série de jovens modelos a despir a roupa e a posar para si.

Gostara de socializar com artistas, de os entreter, agindo como patrono quando um - principalmente uma mulher bonita - lhe despertava a atenção. Podia ter sido um mulherengo e bebedor entusiasta, mas também fora generoso, imaginativo e nunca tivera receio de aplicar o dinheiro onde mandava o coração.

O edifício era de um granito cinzento forte, que se estendia num bloco, com as suas colunas altas, alas e arcadas de ângulos rectos. A estrutura original tinha sido um museu com jardins cuidadosamente tratados, enormes árvores de sombra antigas e uma dignidade serena e bastante rígida.

Andrew quisera mais. Vira o Instituto como uma montra para a arte e os artistas, e como uma arena onde a arte era exibida, restaurada, ensinada e analisada. Por isso, deitara as árvores abaixo, lajeara o jardim e erigira as graciosas formas anexas à estrutura original.

Havia salas de aula com janelas altas e cheias de luz, laboratórios cuidadosamente concebidos, depósitos e muitos gabinetes. O espaço de galeria tinha sido mais que triplicado.

Os que lá desejavam estudar eram aceites com base no mérito. Os que podiam pagar, pagavam muito pelo privilégio. Os que não podiam, e que eram considerados merecedores, eram subsidiados.

A arte era sagrada no Instituto, e a ciência a sua divindade.

Esculpido num lintel de pedra acima da entrada principal estavam as palavras de Longfellow:

A ARTE É DURADOURA, E O TEMPO É FUGAZ

Estudar, preservar e exibir essa arte era como o Instituto empregava o seu tempo.

Cinquenta anos depois, permanecia basicamente idêntico à concepção original de Andrew, com os netos no comando.

As salas de exposição que tinha eram provavelmente as melhores do Maine, e a obra lá representada fora cuidadosamente escolhida e adquirida ao longo dos anos, começando com as colecções particulares de Charles e depois de Andrew.

As áreas abertas ao público ocupavam o piso principal, com galerias ligadas através de arcadas amplas. As salas de aula e os estúdios preenchiam o segundo piso, com a área de restauro separada por um pequeno átrio onde os visitantes com os passes adequados podiam percorrer os espaços de trabalho.

Os laboratórios ocupavam o andar mais baixo e projectavam-se para todas as alas. Eram, apesar das grandes galerias e instalações educativas, os seus alicerces.

Os laboratórios eram também os alicerces de Miranda.

Pousando a pasta de lado, dirigiu-se à mesa que estava debaixo da janela para fazer um café. Ao ligar a cafeteira, ouviu o sinal do fax. Depois de abrir os estores, dirigiu-se à máquina e pegou na folha.

Bem-vinda a casa, Miranda. Gostaste de Florença? Pena que a viagem tenha sido interrompida de modo tão brusco. Onde achas que erraste? Já pensaste nisso? Ou tens assim tanta certeza de que tens razão?

Prepara-te para a queda. Vai ser dura.

Esperei tanto tempo. Observei tão pacientemente.

Ainda observo, e a espera já quase terminou.

Miranda deu por si a esfregar o braço para o aquecer enquanto lia a mensagem. Embora se tenha obrigado a parar, o frio permaneceu.

Não havia nenhum nome, nenhum número de origem.

Parecia uma brincadeira de mau gosto, pensou ela. O tom sarcástico e sinistramente ameaçador. Mas porquê? E quem?

A mãe? Envergonhava-a que o nome de Elizabeth fosse o primeiro a vir à sua mente. Mas certamente que uma mulher com o poder, personalidade e posição de Elizabeth não se esconderia atrás de mensagens anónimas.

Ela já magoara Miranda da forma mais directa possível.

Era mais provável tratar-se de um empregado descontente da Standjo ou do Instituto, alguém que se sentia de alguma forma injustiçado por ela.

Claro, era isso, concluiu ela tentando respirar calmamente outra vez. Um técnico que repreendera ou um aluno insatisfeito com uma nota. Aquilo só pretendia perturbá-la e ela não permitiria que funcionasse.

Mas em vez de se livrar da folha, enfiou-a na última gaveta da secretária e trancou-a à chave.

Afastando o sucedido do pensamento, começou a planear o dia. Quando terminou de anotar as primeiras tarefas na lista - ler o correio e anotações, organizar as mensagens telefónicas -, o sol já entrava radioso através das lâminas dos estores.

Miranda? - Uma pancada rápida na porta assustou-a.

Sim, entra. - Olhou para o relógio, reparando que a assistente tinha sido pontual, como sempre.

Vi o teu carro no estacionamento. Não sabia que regressavas hoje.

- Não, foi... inesperado.

- Como estava Florença? - Lori movia-se rapidamente pela sala, verificando mensagens, ajustando a inclinação dos estores.

- Quente, cheia de sol.

- Parece maravilhoso. - Satisfeita por estar tudo nos devidos lueares, Lori sentou-se e pousou a agenda sobre o joelho. Era uma loura bonita com uma boca de boneca Kewpie, uma voz como a de Betty Boop e uma eficiência aguçada como uma navalha afiada. - É bom ter-te de volta - disse ela com um sorriso.

- Obrigada. - Como o sentimento era sincero, Miranda sorriu em resposta. - É bom estar de volta. Tenho muita coisa atrasada. Neste momento preciso de actualizações no Nu de Carbello e no restauro do Bronzino.

A rotina era tranquilizante, de tal forma que Miranda esqueceu tudo para além dos assuntos que tinha em mãos durante as duas horas seguintes. Deixando Lori a marcar encontros e reuniões, foi verificar como estavam as coisas no laboratório.

Como estava a pensar em Andrew, Miranda decidiu passar pelo gabinete dele antes de descer. O gabinete ficava na ala oposta, mais perto das áreas públicas. As galerias, aquisições e exibições eram responsabilidade dele, enquanto Miranda preferia trabalhar principalmente na retaguarda.

Avançou a passos largos pelos corredores, as botas práticas calcando o mármore. De quando em vez, as janelas quadradas permitiam que pálidos raios de luz listassem o chão, e ofereciam o som abafado do trânsito na rua, imagens de prédios e de árvores nuas.

As portas dos gabinetes estavam discretamente fechadas. O som ocasional de telefones ou o gemido de faxes ecoavam monotonamente. Uma secretária que carregava uma resma de papel lançou a Miranda um olhar assustado de coelho antes de murmurar um «Bom-dia, Dra. Jones», seguindo depois apressadamente.

Seria assim tão intimidativa? Pensou Miranda. Tão antipática? Como isso a fez lembrar-se do fax, olhou para trás para as costas da mulher, enquanto entrava rapidamente por uma porta e a fechava atrás de si.

Talvez não fosse sociável, talvez o pessoal não tivesse por ela o mesmo carinho que parecia ter por Andrew, mas ela não era... dura. Era?

Perturbava-a pensar que sim, pensar na possibilidade de a sua timidez inata ser confundida com frieza.

Como a sua mãe.

Não, ela não queria acreditar nisso. Os que a conheciam não pensariam assim. Ela tinha uma relação sólida com Lori, uma camaradagem agradável com John Carter. Não dirigia o laboratório ali como um campo de treino militar onde ninguém podia expressar as suas ideias ou contar uma anedota.

Embora ninguém brincasse com ela, pensou.

Estava no comando, lembrou a si mesma. Que mais poderia esperar?

Deliberadamente, relaxou novamente os ombros. Não podia deixar que uma secretária tímida a pusesse a fazer auto-análise.

Como felizmente não tinha nenhum compromisso marcado, ainda tinha a mesma camisola e calças que vestira naquela manhã para ver o amanhecer. O cabelo estava apanhado atrás, mas alguns caracóis e uma trança já se encontravam fora de sítio.

Lembrou-se que já passava do meio-dia na Itália e que o bronze estaria a ser intensamente estudado. Isso fê-la contrair de novo os músculos.

Entrou na antessala do gabinete do irmão. No interior encontrava-se uma robusta escrivaninha vitoriana, duas cadeiras de costas direitas, arquivos em cinzento e a mulher que guardava tudo aquilo.

- Bom-dia, Dona Purdue.

A assistente de Andrew estava algures na casa dos cinquenta, bem arranjada como uma freira e igualmente rigorosa. Usava o cabelo apanhado num carrapito idêntico todos os dias, ano após ano, e nunca se apresentava sem uma camisa engomada e casaco e saia pretos.

Era sempre a Dona Purdue.

Ela acenou com a cabeça, levantou os dedos do teclado do computador e entrelaçou-os. - Bom-dia, Dra. Jones. Não sabia que tinha regressado de Itália.

- Regressei ontem. - Miranda tentou fazer um sorriso, pensando ser uma boa altura para começar a ser mais simpática com os empregados.

- É um pouco chocante regressar a este frio. - Quando a Dona Purdue respondeu apenas com um rápido aceno de cabeça, Miranda desistiu da ideia de uma conversa. - O meu irmão está?

- O Dr. Jones desceu agora mesmo para receber um convidado. Deve regressar dentro de momentos. Gostaria de esperar, ou quer que lhe transmita algum recado?

- Não, não é nada de importante. Vejo-o mais tarde. - Virou-se quando ouviu vozes masculinas nas escadas. Se o olhar crítico da Dona Purdue não lhe fosse dirigido, Miranda ter-se-ia escondido rapidamente em vez de arriscar a possibilidade de socializar com o convidado de Andrew.

Não teria ficado presa se tivesse ido directamente para o laboratório, pensou, afastando rapidamente o cabelo dos olhos e pondo um sorriso educado no rosto.

Mas o sorriso desvaneceu quando Andrew e o acompanhante chegaram ao topo das escadas.

- Miranda, ainda bem que te encontro. - Andrew sorriu para ela. E um rápido exame mostrou a Miranda que não havia sinais de bebida. E Poupa-me o trabalho de ligar para o teu gabinete. Gostava que conhecesses Ryan Boldari, da Galeria Boldari.

O convidado avançou, pegou na mão de Miranda e levou-a suaveente aos lábios. - É um prazer conhecê-la finalmente.

O homem tinha um rosto que poderia ter sido reproduzido com traços a negro num dos quadros do Instituto. A boa aparência selvagem era apenas levemente suavizada por um fato cinzento de excelente corte e uma gravata de seda com um nó perfeito. O cabelo era espesso, negro como tinta e gloriosamente ondulado. A pele era morena, cobria ossos fortes e apresentava uma pequena cicatriz em forma de crescente na extremidade exterior da sobrancelha esquerda.

Os olhos que fixaram os dela eram escuros, de um castanho profundo que captava pequenos reflexos dourados de luz. A boca poderia ter sido esculpida por um mestre e estava curvada num sorriso concebido para fazer uma mulher pensar como seria a sensação de a encostar à dela. E suspirar. Miranda ouviu um tinido - um alegre estalido dentro da cabeça - e o coração disparou.

- Bem-vindo ao Instituto, Sr. Boldari.

- É um prazer estar aqui. - Ele manteve a mão dela na sua porque isso parecia perturbá-la. Por mais educadamente que ela sorrisse, havia uma ténue linha de aborrecimento entre as sobrancelhas.

Ela ponderou tirar repentinamente a mão, mas decidiu que isso seria uma atitude demasiado feminina.

- Porque não entramos no meu gabinete? - Alheio a quaisquer jogos que se passassem debaixo do seu nariz, Andrew fez um gesto em direcção à porta do gabinete. - Miranda, tens um minuto?

- Na verdade, eu só...

- Gostaria muito que me concedesse alguns minutos do seu tempo, Dra. Jones. - Ryan lançou-lhe um sorriso ao deslocar a mão para o cotovelo dela. - Tenho uma proposta para o seu irmão que me parece poder ser do seu interesse. A sua principal área de investigação é a Renascença, não é?

Encurralada, Miranda deixou-se conduzir para dentro do gabinete de Andrew. - Correcto.

- Uma época brilhante, tão rica em beleza e energia. Conhece a obra de Giorgio Vasari?

- Claro, finais do período renascentista, um maneirista cujo estilo representou a fase de aproximação à elegância.

- Ryan tem três Vasaris. - Andrew fez sinal em direcção a umas cadeiras que, graças à Dona Purdue, não estavam cobertas de livros e papéis como seria normal.

- Verdade? - Miranda sentou-se numa cadeira e colocou outro sorriso. O gabinete de Andrew era muito mais pequeno do que o dela, porque ele assim preferia. Também era desorganizado, colorido e cheio de bugigangas de que adorava rodear-se. Ossos velhos, fragmentos de cerâmica, pedaços de vidro. Ela preferiria ter feito aquela reunião inesperada na formalidade acerba do seu próprio território.

Como estava nervosa, imaginou-se a tamborilar com os dedos e a abanar o pé.

- Sim. - Ryan ajeitou as calças para preservar o vinco enquanto se sentava numa estreita cadeira forrada a pele. - Não considera a obra dele um pouco auto consciente? Demasiado madura?

- Isso também era típico do Maneirismo - replicou Miranda. Vasari é um artista importante daquela época e estilo.

- Concordo. - Ryan sorriu simplesmente. - Pessoalmente, prefiro o estilo do início e auge do período renascentista, mas negócio é negócio. - Abanou uma mão. Tinha mãos fortes e elegantes, reparou Miranda. Grandes e com dedos longos.

Irritava-a reparar nisso, envergonhava-a ter - por um ou dois segundos - imaginado a sensação delas na sua pele. Como uma adolescente que se depara com uma estrela de rock, pensou, espantada consigo própria.

Quando desviou propositadamente o olhar das mãos dele, este deparou-se com o dele. Ele sorriu novamente, com um brilho definitivo nos olhos.

Em defesa, a voz dela tornou-se fria: - E que negócio tem com o Instituto?

Mulher fascinante, pensou ele. Corpo de uma deusa, modos de uma puritana, o sentido de estilo de um refugiado e uma ponta de timidez extremamente encantadora em volta daqueles belos olhos azuis.

Manteve o olhar preso ao dela, deleitado quando ela começou a corar. Na sua opinião, as mulheres da actualidade já não coravam o suficiente.

Perguntou-se então como ficaria ela com aqueles óculos de armação metálica que estavam enganchados no decote da blusa.

Intelectualmente sexy.

- Conheci o seu irmão há alguns meses quando estivemos ambos em Washington para o encontro sobre as Mulheres nas Artes. Acho que ele foi no seu lugar.

- Sim, eu não pude ir.

- A Miranda estava com muito trabalho no laboratório. - Andrew sorriu ironicamente. - Eu sou mais facilmente dispensável. - Recostou-se na cadeira. - O Ryan está interessado na nossa Madona de Cellini.

Miranda arqueou uma sobrancelha. - É um dos nossos mais importantes.

- Sim, acabo de o ver. Glorioso. O seu irmão e eu discutimos uma troca.

- O Cellini. - O seu olhar lançou faíscas ao irmão. - Andrew...

- Não permanente - disse rapidamente Ryan, não se dando ao trabalho de disfarçar o risinho provocado pela angústia dela. - Uma troca de três meses, para benefício mútuo. Estou a planear fazer uma exposição sobre Cellini na nossa galeria de Nova Iorque, e o empréstimo da vossa Madona seria uma mais-valia para mim. Em troca, estou disposto a emprestar ao Instituto os meus três Vasaris pelo mesmo período de tempo.

- Podias fazer a exposição sobre os três estilos da Renascença de que falas há anos - salientou Andrew.

Era um dos sonhos de Miranda, uma grande exposição para mostrar todo o âmbito da sua área de interesse. Arte, artefactos, História, documentos, todos em exibição, exactamente como ela escolhesse.

Miranda manteve as mãos entrelaçadas para evitar erguer um punho triunfante no ar.

- Sim, acho que podia. - Miranda sentiu a rápida agitação de entusiasmo no estômago, mas virou-se serenamente para Ryan. - Os Vasaris foram autenticados.

Ryan reclinou a cabeça e ambos fingiram não ouvir o gemido de Andrew. - Sim, claro. Farei com que receba cópias dos documentos antes de esboçarmos o acordo. E far-me-á o mesmo relativamente ao Cellini.

- Posso tratar disso hoje mesmo. A minha assistente pode fazer-lhos chegar ao hotel.

- Óptimo. Agradecia.

- Bem, deixo-vos a tratar dos pormenores.

Mas quando ela se levantou, ele levantou-se também e pegou-lhe novamente na mão. - Gostaria de saber se seria muito pedir-lhe que me mostrasse um pouco do Instituto. O Andrew disse-me que os laboratórios e os serviços de restauro são alçada sua. Gostaria muito de os ver.

- Eu...

Antes de ela se poder desculpar, Andrew levantou-se e deu-lhe uma pancada não muito subtil nas costas. - Não podias estar em melhores mãos. Encontrar-me-ei de novo aqui contigo daqui a algumas horas, Ryan. Então veremos aquele guisado de amêijoas que te prometi.

- Estou desejoso... As minhas galerias são para a exibição de arte - começou ele, mantendo casualmente a mão de Miranda na sua enquanto percorriam o corredor até à ala seguinte. - Não sei quase nada acerca da ciência da arte. Alguma vez dá por si com dificuldade em fundir as duas coisas?

- Não, sem uma não existiria a outra. - Percebendo que a sua resposta fora abrupta, Miranda inspirou lentamente. O homem punha-a nervosa, suficientemente nervosa para se notar. Assim não podia ser. - O Instituto foi construído para albergar as duas, ou, poder-se-á dizer, celebrar as duas. Enquanto cientista que estuda arte, eu gosto muito disso.

- Eu fui um péssimo aluno a ciências - disse ele, com um sorriso tão encantador que ela sorriu em resposta.

- Tenho a certeza de que deveria ter outros pontos fortes.

- Gosto de pensar assim.

Ele era um homem observador e reparou cuidadosamente no espaço entre as alas e na localização das escadas, gabinetes, armazéns, janelas. E, claro, nas câmaras de segurança. Era exactamente como constava das suas informações. Ainda assim, transcreveria mais tarde as observações em notas pormenorizadas. Mas naquele momento preencheu-as simplesmente na cabeça enquanto apreciava a suave fragrância do perfume de Miranda.

Nada evidente para a Dra. Jones, pensou. Nada obviamente feminino. E o odor campestre que imaginava vir do sabão em vez de um frasco delicado assentava-lhe que nem uma luva, decidiu ele.

No final do corredor, ela virou para a direita e depois parou para passar o cartão de acesso numa ranhura ao lado de uma porta de metal cinzenta. Ouviu-se uma campainha e as fechaduras abriram. Ryan olhou de relance para a câmara que estava por cima.

- A nossa segurança interna é bastante apertada - começou ela. - Ninguém entra neste departamento sem uma chave ou um acompanhante. Fazemos frequentemente testes independentes para particulares e para outros museus.

Conduziu-o até um local muito parecido com a Standjo, em Florença, embora numa menor escala. Os técnicos trabalhavam em computadores e microscópios, ou entravam apressadamente em antessalas.

Ela reparou num membro do pessoal a trabalhar num vaso antigo e levou Ryan até ele. - Stanley, o que nos podes dizer acerca disto?

O técnico coçou o bigode louro e inspirou através de dentes ligeiramente tortos. - O seu pai enviou esta peça da escavação no Utah, juntamente com outros artefactos. Este é provavelmente Anasazi, século doze, e era usado como recipiente para cozinhar.

Pigarreou, lançando um olhar rápido a Miranda. - A beleza é que está praticamente intacto, apenas com esta pequena falha no rebordo.

- Porquê um recipiente para cozinhar? - Perguntou Ryan, e Stanley pestanejou.

- Pelo formato, tamanho, espessura.

- Obrigada, Stanley. - Miranda virou-se novamente para Ryan e quase esbarrou nele, já que ele se aproximara enquanto ela estivera voltada de costas. Ela deslocou-se imediatamente para o lado, mas sem antes reparar que ele era uns cinco centímetros mais alto do que ela. E aquele brilho de divertida percepção nos olhos dele fazia a sua cara ir para além do sensual, directamente para o erótico.

Ela ouviu o maldito tinido outra vez.

- Somos acima de tudo um instituto para a arte, mas como os interesses do meu pai se situam na área da arqueologia, temos uma secção para exibição de artefactos e fazemos bastantes testes e datação nessa área. Não é o meu campo. Agora isto...

Miranda dirigiu-se a um armário, abriu uma gaveta e retirou lá de dentro um pequeno saco castanho. Transferiu os pequenos pedaços de tinta do interior para uma lamela e inseriu-a num microscópio desocupado.

- Dê uma olhadela - convidou ela. - Diga-me o que vê.

Ele dobrou-se e ajustou o foco. - Cor, forma, interessante como um quadro de Pollock. - Endireitou-se e fixou aqueles olhos cor de brandy nos dela. - O que é que eu estou aqui a ver, Dra. Jones?

- Uma raspagem de um Bronzino que estamos a restaurar. O quadro é indiscutivelmente do século dezasseis. Retiramos uma amostra por segurança antes de iniciarmos o trabalho e outra depois de o trabalho estar finalizado. Desta forma não há dúvidas de que recebemos uma obra autêntica e que devolvemos a mesma obra aos seus proprietários depois do trabalho terminado.

- Como é que sabe que se trata de um quadro do século dezasseis?

- Quer uma aula sobre ciência, Sr. Boldari?

- Ryan... podemos tratar-nos por tu. Miranda é um nome encantador. - A voz dele era como nata quente sobre uísque e fazia-lhe cócegas.

- E eu podia realmente gostar dessa aula sobre ciência se fosse com a professora certa.

- Terás de te inscrever numa turma.

- Os estudantes fracos saem-se melhor com aulas particulares. Janta comigo esta noite.

- Sou má professora.

- Janta comigo de qualquer forma. Podemos discutir arte e ciência, e posso falar-te dos Vasaris. - Ele tinha pressa em erguer a mão e brincar com os caracóis rebeldes que escapavam à sua prisão. Ela saltaria como um coelho, decidiu ele. - Chamar-lhe-emos jantar de negócios, se isso te deixa mais confortável.

- Não me sinto desconfortável.

- Então, está bem. Apanho-te às sete. Sabes, - continuou ele, deslizando a mão novamente sobre a dela, - adorava ver aquele Bronzino. Admiro a pureza formal do teu trabalho.

Antes que ela pudesse pensar em como libertar a mão, ele já a enfiara confortavelmente no braço, dirigindo-se para a porta.

 

Ela não sabia porque tinha concordado com o jantar. Embora, pensando bem na conversa, não tivesse realmente concordado. O que não explicava porque é que se estava a vestir para sair.

Ele era um sócio, lembrou a si mesma. A Galeria Boldari era famosa pela sua elegância e exclusividade. A única vez que estivera em Nova Iorque e conseguira arranjar uma hora livre para a visitar, ficara impressionada com a subtil grandiosidade do edifício, quase tanto como com a própria arte.

Não faria mal ao Instituto que ela ajudasse a estabelecer uma ligação entre uma das galerias mais glamorosas do país e a organização Jones.

Ele queria jantar para discutir negócios. Ela certificar-se-ia de que as coisas se mantivessem na arena dos negócios. Mesmo que aquele sorriso enviasse pequenas fagulhas de puro desejo directamente ao seu âmago.

Se ele queria namoriscá-la, muito bem. Com tinido ou sem tinido, namoricos não a afectavam. Afinal, ela não era uma tontinha facilmente impressionável. Homens com o aspecto de Ryan Boldari nasciam com a capacidade de seduzir totalmente desenvolvida.

Ela gostava de pensar que já nascera imune a tais talentos.

Ele tinha os olhos mais incríveis. Olhos que olhavam para uma pessoa como se tudo, exceptuando ela, tivesse simplesmente desaparecido.

Quando Miranda percebeu que suspirara e fechara os seus, resmungou por entre dentes e puxou o fecho das costas do vestido.

Fora apenas por uma questão de orgulho e cortesia profissional que decidira esmerar-se no visual aquela noite. A primeira vez que o vira parecia uma estudante mal-arranjada. Naquela noite ele veria que ela era uma mulher madura e sofisticada sem qualquer dificuldade em lidar com um homem a uma refeição.

Miranda escolhera um vestido preto de lã fina com um decote profundo que revelava a elevação dos seus seios firmes. As mangas eram longas e quentes, a saia estreita e fluida até aos tornozelos. Acrescentara uma excelente reprodução de uma cruz bizantina inquestionavelmente sexy. A haste vertical ornamentada repousava aconchegadamente no sulco entre os seios.

Apanhou o cabelo utilizando ganchos dispostos aleatoriamente. O resultado, de acordo com a sua opinião, era descuidadamente sexy.

Era um bom visual, concluiu ela, um visual confiante e muito distante da palerma demasiado alta e socialmente inapta que fora nos tempos de estudante. Ninguém que olhasse para esta mulher perceberia que sentia um nó no estômago por causa de um simples jantar de negócios, ou que se preocupava em esgotar o assunto de conversa antes de serem servidos os aperitivos.

Toda a gente veria segurança e estilo, pensou. Todos, incluindo ele, veriam exactamente o que ela queria que se visse.

Agarrou na bolsa, esticou o pescoço para examinar o traseiro ao espelho e para se certificar de que o vestido não o fazia parecer demasiado grande, e depois desceu as escadas.

Andrew estava na sala a beber o segundo uísque. Baixou o copo quando ela entrou e ergueu as sobrancelhas.

- Bem, uau!

- Andrew, és um poeta. Pareço gorda com isto?

- Não existe uma resposta certa para essa pergunta. Ou se existe, ainda nenhum homem a descobriu. Assim sendo... - Levantou o copo num brinde. - Abstenho-me.

- Cobarde. - E porque o seu estômago estava demasiado agitado, Miranda serviu-se de meia taça de vinho branco.

- Não estarás demasiado aperaltada para um jantar de negócios? Ela bebeu um gole de vinho, deixando a bebida escorrer para acalmar alguns dos nervos do estômago. - Não foste tu que me deste um sermão de vinte minutos esta tarde em como seria benéfica para nós uma ligação à Galeria Boldari?

- Sim. - Mas semicerrou os olhos. Embora Andrew não visse muitas vezes a irmã como mulher, via-a naquele momento. Ela estava deslumbrante, pensou desconfortavelmente. - Ficaste apanhada por ele?

- Controla-te.

- Ficaste?

- Não. Não exactamente - corrigiu ela. - E se tivesse ficado, ou se estiver a ficar, sou uma mulher adulta que sabe como se conter e comportar-se.

- Onde é que vão?

- Não perguntei.

- As estradas ainda estão em bastante mau estado.

- É Março, e estamos no Maine; claro que as estradas estão uma porcaria. Não te armes em meu pai. Andrew. - Deu-lhe umas pancadinhas na bochecha ao afirmar isso, já mais relaxada porque ele não estava. - Deve ser o Ryan - acrescentou ela quando a campainha tocou. - Comporta-te.

- Por três Vasaris, comportar-me-ei - murmurou ele, mas franzindo o sobrolho ao ver Miranda dirigir-se à porta. Às vezes esquecia-se o quão provocante ela podia parecer se perdesse algum tempo com isso. O facto de ela se ter realmente preocupado provocou-lhe uma comichão entre as omoplatas.

A comichão poderia ter-se transformado em ardor se ele tivesse visto a forma como os olhos de Ryan brilharam, a forma como entraram em ebulição quando Miranda abriu a porta.

Era um soco directo ao estômago, pensou Ryan, para o qual deveria estar melhor preparado. - Pareces algo que Ticiano poderia ter pintado. - Pegou na mão dela, mas desta vez entrou e roçou os lábios pelas suas faces: primeiro uma, depois a outra, ao estilo europeu.

- Obrigada. - Ela fechou a porta e resistiu à necessidade de se encostar a esta para recuperar o equilíbrio. Havia algo de poderoso e desconcertante no modo como as botas de salto alto faziam os seus olhos e bocas ficarem à mesma altura. Como ficariam na cama, pensou ela.

- Andrew está na sala de estar - disse-lhe ela. - Queres entrar por alguns instantes?

- Sim, claro. Têm uma casa fabulosa. - Ryan observou o hall de entrada e deitou uma olhadela às escadas enquanto a seguia em direcção à sala. - Dramática e confortável ao mesmo tempo. Devias contratar alguém para a pintar.

- O meu avô fez um retrato a óleo. Não é muito bom, mas gostamos dele. Posso servir-te uma bebida?

- Não, nada. Olá, Andrew. - Estendeu a mão para o cumprimentar. - Vou roubar a tua irmã por esta noite, a não ser que gostasses de nos fazer companhia.

Ryan jogara com as probabilidades durante toda a vida, mas amaldiçoava-se agora ao ver que Andrew considerava a hipótese. Embora não estivesse ciente de que Miranda estivesse a semicerrar os olhos e a fazer expressões ameaçadoras atrás das suas costas, Ryan sentiu-se aliviado quando Andrew acenou negativamente com a cabeça.

- Agradeço, mas tenho outros planos. Divirtam-se vocês dois.

- Vou buscar o meu casaco.

Andrew acompanhou-os à porta e depois tirou também o casaco do armário. Os seus planos tinham mudado. Já não lhe apetecia beber sozinho. Preferia embebedar-se acompanhado.

Miranda Contraiu os lábios ao deslizar para dentro da limusina. - Viajas sempre assim?

Não. -Ryan sentou-se ao lado dela, tirou uma rosa branca de uma jarra e ofereceu-lha. -Mas tinha um apetite por champanhe que não podia satisfazer se fosse a conduzir. -Para o provar, retirou uma garrafa já aberta de Cristal de um balde com gelo e serviu-lhe uma taça.

- Jantares de negócios raramente começam com rosas e champanhe.

-Mas deviam. -Ele serviu a sua própria taça e encostou-a à dela. -Quando incluem mulheres atraentes. Ao início de uma relação interes­sante.

-Sociedade -corrigiu ela, bebericando o champanhe. -Estive na tua galeria de Nova Iorque.

-Estiveste? E o que é que achaste?

-Íntima. Clamorosa. Uma pequena jóia polida que tem arte como facetas.

-Sinto-me lisonjeado. A nossa galeria em São Francisco é mais are­jada, tem mais luz e espaço. Lá centramo-nos em arte contemporânea e moderna. O meu irmão Michael tem uma ligação muito forte a esse tipo de arte. Eu prefiro a clássica... e a íntima.

A voz dele provocou suaves arrepios na pele de Miranda. Um sinal sig­nificativo e perigoso, pensou ela. -Então Boldari é uma empresa familiar.

-Sim. Como a tua.

-Duvido -murmurou ela. Faz conversa, lembrou a si mesma. Era uma mulher segura. Podia manter uma conversa. -Como é que te envol­veste com a arte?

-Os meus pais são artistas. Durante a maior parte do tempo ensi­nam, mas as aguarelas da minha mãe são espantosas. O meu pai esculpe estruturas de metal complicadas que ninguém, exceptuando o Michael, pa­rece compreender. Mas alimenta-lhe a alma.

Ryan mantinha os olhos fixos directamente nos dela enquanto falava, o que lhe provocava insistentes ondas de desejo sexual. -E pintas ou es­culpes? - Perguntou ela.

-Não, não tenho habilidade para nada disso, ou talento. Foi uma enorme decepção para os meus pais nenhum dos seis filhos ter talento para criar arte.

-Seis. -Miranda pestanejou. -Seis filhos.

-A minha mãe é irlandesa, o meu pai italiano. -Fez um sorriso breve e charmoso. -Que mais podiam fazer? Tenho dois irmãos, três irmãs, e sou o mais velho de todos. Tens um cabelo fascinante -murmurou ele, enrolando um caracol solto no dedo. E estava certo. Ela deu um salto.

-Como é que consegues manter as mãos afastadas dele?

-É ruivo e indomável, e se eu não ficasse parecida com uma azálea de um metro e oitenta, cortava-o bem curto.

-Foi a primeira coisa que reparei em ti. -O olhar dele desceu e fixou-se outra vez no dela. -Depois foram os teus olhos. És feita de cores e formas arrojadas.

Ela esforçou-se por reprimir a imagem fascinante de segurar na la­pela dele e de o puxar para si, juntando os corpos até estes se tornarem um emaranhado de membros no banco traseiro. E apesar de lutar por se con­trolar, não parava de se remexer. -Como a arte moderna?

Ele riu por entre dentes. -Não, demasiado pragmatismo clássico para isso. Gosto da tua aparência -disse ele quando a limusina encostou e parou. Quando a porta abriu, pegou-lhe na mão para a ajudar a sair. A sua boca quase roçou na orelha dela. -Vejamos se gostamos da companhia um do outro.

Ela não conseguia dizer quando tinha começado a relaxar. Talvez tivesse sido durante a terceira taça de champanhe. Tinha de admitir que ele era amável - talvez um pouquinho de mais - mas funcionava. Há muito tempo que não se sentava numa mesa à luz de velas em frente a um homem, e quando o homem tinha um rosto que pertencia a um quadro renascentista, era impossível não apreciar o momento.

E ele escutava. Podia alegar ter sido um mau aluno a ciências, mas fazia perguntas e parecia interessado nas respostas. Talvez estivesse sim­plesmente a deixá-la à vontade conduzindo a conversa para o plano profis­sional, mas ela estava grata pelos resultados.

Miranda não conseguia lembrar-se da última vez que passara a noite a falar do trabalho e, ao falar nisso, lembrou-se porque é que gostava tanto do que fazia.

-É a descoberta -disse-lhe ela. -O estudo de uma obra de arte e descobrir a sua história, a sua individualidade, a sua personalidade.

-Dissecá-la?

-De certa forma, sim. -Era tão agradável estar assim sentada, no quente aconchego do restaurante com uma lareira acesa por perto e o mar gelado e escuro mesmo do outro lado da janela. -A tinta em si, depois as pinceladas, o tema, o propósito. Todas as partes podem ser estudadas e analisadas para encontrar as respostas.

- E não sentes, no final, que a resposta é simplesmente a própria arte?

- Sem a história e a análise, é apenas um quadro.

- Quando algo é belo, isso basta. Se eu fosse analisar o teu rosto, analisaria os olhos, o seu azul profundo, a sua inteligência, a ponta de tristeza. E a desconfiança - acrescentou ele com um sorriso. - A tua boca, suave, ampla, relutante em sorrir. As tuas maçãs-do-rosto, salientes, aristocráticas. O teu nariz, fino, elegante. Separando tudo, estudando, analisando, chegaria ainda assim à conclusão de que és uma mulher belíssima. E posso fazer isso recostando-me apenas e admirando o todo.

Ela brincava com o peixe, tentando não ficar demasiado agradada ou encantada. - Isso foi perspicaz.

- Sou um homem perspicaz, e não confias em mim.

O olhar dela ergueu-se de novo em direcção ao dele. - Não te conheço.

- Que mais te posso dizer? Venho de uma família grande, ruidosa e étnica, cresci em Nova Iorque e estudei, sem muito entusiasmo, na Columbia. Depois, como não sou artístico, mudei para o negócio da arte. Nunca casei, o que desagrada a minha mãe, e de tal forma que houve uma altura em que considerei seriamente a hipótese, mas apenas por breves momentos.

Ela arqueou uma sobrancelha. - E rejeitaste-a?

- Naquela altura específica, com aquela mulher em particular. Faltava-nos uma faísca. - Inclinou-se mais, para prazer dela e porque gostava do estado de alerta que surgia nos olhos dela quando o fazia. - Acreditas em faíscas, Miranda?

Ela imaginava que as faíscas devessem ser primas dos tinidos. - Acho que alimentam a atracção inicial, mas as faíscas extinguem-se e não são suficientes para a longa caminhada.

- És muito racional - concluiu ele. - Eu sou um romântico. Tu analisas e eu aprecio. É uma combinação interessante, não achas?

Miranda mexeu o ombro, descobrindo que já não estava assim tão relaxada. Ele tinha a mão dela outra vez, e brincava simplesmente com os seus dedos sobre a mesa. Ryan tinha um hábito de tocar a que ela não estava habituada e que a fazia sentir demasiado bem as faíscas.

As faíscas tinham uma luz bonita, lembrou a si mesma. Mas também podiam queimar.

Ficar assim tão rápida e escandalosamente atraída por ele era perigoso e era ilógico. Tinha tudo a ver com glândulas e nada com o intelecto.

Assim sendo, era algo que podia e seria controlado, concluiu ela.

- Não compreendo os românticos. Tomam decisões com base em sentimentos e não em factos. - Andrew era um romântico, e ela sofria por ele - Depois admiram-se quando essas decisões se revelam erradas.

- Mas divertimo-nos muito mais do que os racionais. - Ryan percebeu que se sentia muito mais atraído por ela do que esperara. E não era apenas a sua aparência, concluiu enquanto os pratos eram levantados. Era aquele sentido pragmático a que era difícil resistir.

E, sim, os enormes olhos tristes.

- Sobremesa? - perguntou ele.

- Não, não consigo. Foi uma refeição maravilhosa.

- Café?

- É muito tarde para tomar café.

Ele sorriu, totalmente encantado. - És uma mulher metódica, Miranda. Gosto disso. - Ainda a observá-la, fez sinal para que lhe trouxessem a conta. - Porque não damos um passeio a pé? Podias mostrar-me o porto.

- Cabo Jones é uma cidade segura - começou ela quando caminhavam através do vento gelado que açoitava a água. A limusina seguia-os em marcha lenta, um facto que a divertia e desconcertava. Por mais que tivesse vindo de uma família abastada, nenhum Jones alugaria alguma vez uma limusina para acompanhar um passeio a pé. - É muito boa para caminhar. Há diversos parques. São lindos na Primavera e no Verão. Árvores sombreiras, canteiros de flores. Nunca cá estiveste?

- Não. A tua família já vive aqui há muitas gerações?

- Sim. Sempre existiram Jones em Cabo Jones.

- É por isso que vives aqui? - Os dedos enluvados brincavam com os dela, cabedal deslizando sobre cabedal. - Porque assim se espera?

- Não. É de onde eu venho, onde estou. - Era difícil explicar, mesmo a si própria, o quão profundamente enterradas estavam as suas raízes naquele solo rochoso de Nova Inglaterra. - Gosto de viajar, mas é aqui que quero estar quando é hora de regressar a casa.

- Então fala-me de Cabo Jones.

- É uma cidade tranquila que evoluiu de uma aldeia piscatória para uma comunidade que dá ênfase à cultura e ao turismo. Uma série de habitantes ainda ganha a vida no mar. Aquilo a que chamamos porto é na realidade a Rua Comercial. A pesca da lagosta é lucrativa; exportamos para o mundo inteiro.

- Alguma vez fizeste isso?

- O quê?

- Pescar lagostas.

- Não. - Miranda sorriu levemente. - Consigo ver os barcos e bóias da falésia atrás da casa. Gosto de observar.

Observa em vez de participar, pensou ele.

- Esta zona é o Porto Velho - continuou ela. - Encontras muitas galerias nesta parte da cidade. Talvez gostasses de visitar algumas antes de te ires embora.

- Sim.

- A cidade é mais atractiva na Primavera, quando podemos fazer uso dos parques e das praias. Há algumas belas extensões de charcos e areia, vistas da baía e das ilhas. Mas no Inverno pode ser um postal. O lago gela no Parque Atlântico e as pessoas vêm patinar no gelo.

- Também patinas? - Ryan colocou-lhe um braço em volta dos ombros para a proteger do vento cortante. Os corpos colidiram.

- Sim. - O sangue dela fervilhava, a garganta estava seca. - É um excelente exercício.

Ele riu, e mesmo no limite externo do foco de luz emitido pelo candeeiro de rua, voltou-a para si. Agora tinha as mãos nos ombros dela, e o vento que batia nas suas costas levantava-lhe os cabelos. - Então é pelo exercício e não pela diversão.

- Eu gosto. Mas nesta época do ano já não se patina.

Ele conseguia sentir os nervos dela, a vibração sob as suas mãos. Intrigado, puxou-a um pouco mais para si. - E como é que te exercitas nesta altura do ano?

- Caminho bastante. Nado quando posso. - A pulsação dela começava a disparar, uma sensação em que não podia confiar. - Está muito frio para estarmos parados.

- Então porque não consideramos exercício esta partilha de calor corporal? - Ele não tinha a intenção de a beijar. Eventualmente, sim, claro, mas não tão cedo. Ainda assim, não lhe havia mentido ao dizer que era um romântico. E o momento exigia isso.

Roçou os lábios nos dela, testando, de olhos abertos como ela. A prudência nos dela fê-lo sorrir e saboreá-la uma segunda vez. Ele era um homem que acreditava na prática até se tornar experiente num assunto do seu agrado. Sendo muito experiente com as mulheres, aqueceu pacientemente os lábios de Miranda com os seus até os dela relaxarem, abrirem, até ela baixar as pálpebras e suspirar suavemente para dentro da sua boca.

Talvez fosse tolice, mas que mal poderia fazer? O pequeno debate racional na cabeça dela desvanecia-se para sussurros à medida que era tomada pela sensação. A boca dele era firme e persuasiva, o corpo longo e rijo. Ele sabia vagamente ao vinho que tinham partilhado e era igualmente excitante e exótico.

Miranda deu por si a encostar-se nele e a agarrar-lhe o casaco pela zona da cintura. E a sua mente ficou desorientada de prazer.

De repente as mãos dele estavam a emoldurar-lhe o rosto, o cabedal frio e suave das luvas um choque para o seu cérebro sonhador. Miranda abriu os olhos e viu que os dele tinham uma intensidade ardente que o beijo fácil não previra.

- Tentemos novamente.

Desta vez a boca dele foi rude e quente, invadindo a dela até a sua cabeça ressoar com sons idênticos aos do mar abaixo da falésia de sua casa. Havia ali exigência» e a certeza arrogante de que seria correspondido. Enquanto a sua mente se retraía, decidida a recusar, a boca respondia.

Ele sabia o que era querer. Ele quisera muita coisa na vida e empenhara-se em concretizar os seus desejos. Querê-la era aceitável, até esperado. Mas querê-la naquele momento, com aquela violência, era perigoso. Até um homem que jogava por opção sabia evitar riscos desnecessários.

Mesmo assim, demorou o tempo suficiente para ter a certeza de que passaria uma noite muito desconfortável, sozinho. Não podia dar-se ao luxo de a seduzir, de a levar para a cama. Havia trabalho a fazer, e a altura certa já estava determinada. Acima de tudo, não podia dar-se ao luxo de gostar dela. Apegar-se a um peão era uma maneira certa de perder o jogo.

Ele nunca perdia.

Afastou-a de si, observando-lhe o rosto. As bochechas estavam coradas, do frio e do calor. Os olhos ainda estavam enevoados com uma paixão que ele pensava tê-la surpreendido tanto quanto a si mesmo. Ela estava a tremer quando ele baixou novamente as mãos até aos seus ombros. E ela não disse nada.

- É melhor levar-te a casa. - Por mais que se amaldiçoasse, o sorriso foi suave e fácil.

- Sim. - Ela queria sentar-se, acalmar-se. Pensar outra vez. - Está a ficar tarde.

- Mais um minuto, - murmurou ele, - e teria sido tarde de mais.

- Pegando na mão dela, conduziu-a à limusina. - Vais muitas vezes a Nova Iorque?

- De vez em quando. - O calor parecia concentrar-se numa bola nas suas entranhas. O resto do corpo estava frio, muito frio.

- Diz-me quando tiveres planos para ir até lá. E eu ajustarei os meus.

- Está bem - ouviu-se dizer, e não se sentiu nada tola.

Miranda cantava no chuveiro. Era algo que nunca costumava fazer. Não precisava que lhe dissessem que tinha uma voz medonha, quando podia constatar isso mesmo. Mas naquela manhã cantava a plenos pulmões «Making Whoopee». Não fazia ideia por que razão aquela música não lhe saía da cabeça - não fazia ideia que até sabia a letra - mas gorgolejava-a enquanto a água lhe escorria pela cabeça.

Ainda estava a cantarolar quando saiu para se secar.

Dobrando-se pela cintura, envolveu o cabelo com uma toalha enquanto bamboleava as ancas. Não era melhor a dançar, embora conhecesse todos os passos. Os membros do Conselho das Artes que a tinham conduzido nas suas rígidas valsas teriam ficado chocados ao ver a plácida Dra. Jones a saracotear-se pela casa de banho.

Deu risadinhas ao pensar nisso, um som tão raro que teve de parar para retomar o fôlego. Percebeu com uma certa surpresa que estava feliz. Realmente feliz. Isso também era uma coisa rara. Sentia-se muitas vezes contente, envolvida, satisfeita ou desafiada. Mas sabia que a simples felicidade lhe escapava muitas vezes.

Era maravilhoso senti-la agora.

E porque não? Enfiou um robe de veludo frisado e amaciou os braços e pernas com um creme corporal ligeiramente perfumado. Estava interessada num homem bastante atraente e ele estava interessado nela. Ele gostava da sua companhia, apreciava o seu trabalho, achava-a atraente tanto no plano físico como no intelectual.

Não se sentia intimidado, como tantos outros, com a sua posição ou personalidade. Era encantador, bem sucedido - já para não dizer lindo - e fora suficientemente civilizado para não se aproveitar de uma vantagem óbvia para tentar levá-la para a cama.

Teria ela ido? Pensou Miranda enquanto limpava apressadamente o espelho embaciado. Normalmente a resposta teria sido um firme não. Ela não se entregava a aventuras amorosas e ponto final. Já haviam passado dois anos desde que tivera um namorado, e as coisas tinham acabado tão mal que ela resolvera evitar até relacionamentos casuais.

Mas a noite anterior... Sim, ela achava que poderia ter sido persuadida. Contra a sua convicção, podia ter-se deixado levar. Mas ele respeitara-a o suficiente para não lhe perguntar.

Continuou a cantarolar enquanto se arranjava para o dia de trabalho, escolhendo um fato de lã com uma saia curta e casaco comprido num bonito tom de azul. Maquilhou-se cuidadosamente e deixou os cabelos soltos. Num último acto de desafio feminino contra os elementos, enfiou uns sapatos de salto alto.

Saiu para o trabalho na escuridão gelada, continuando ainda a cantar.

Andrew acordou com a mãe de todas as ressacas. Não sendo capaz de suportar os próprios gemidos, tentou aliviar-se com comprimidos. A sobrevivência era mais forte do que a infelicidade e ele explodiu, lutando por respirar e agarrando a cabeça para a impedir de cair dos ombros. Depois largou-a, rezando para que a dor passasse. Levantou-se lentamente da cama. Enquanto cientista, sabia que não era possível os ossos estilhaçarem realmente, mas tinha medo que estes desafiassem as leis da física e fizessem precisamente isso.

A culpa era de Annie, decidiu. Ela aborrecera-se o suficiente com ele na noite anterior para o deixar beber até cair. Ele contara com ela para o travar, como fazia habitualmente. Mas não, ela não tinha parado de lhe servir bebidas sempre que ele as pedia.

Lembrava-se vagamente de ela o enfiar dentro de um táxi e de dizer alguma coisa como esperar que ele ficasse bastante maldisposto.

Ela conseguira realizar o desejo, pensava ele enquanto descia as escadas aos tropeções. Se se sentisse pior, estaria morto.

Quando viu que já havia café, pronto e quente, quase chorou de amor e gratidão pela irmã. Com mãos trémulas e atrapalhadas, tirou quatro Excedrin extra-fortes da embalagem e engoliu-os com café que lhe escaldou a boca.

Nunca mais, prometeu a si mesmo, pressionando os dedos sobre os olhos raiados de sangue. Nunca mais se embebedaria daquela maneira. Enquanto fazia a promessa, o desejo dissimulado de apenas um copo fê-lo estremecer. Apenas um copo para lhe acalmar as mãos e o estômago.

Mas recusou, dizendo para si mesmo que havia uma diferença entre cometer-se excessos e o alcoolismo. Se tomasse uma bebida às sete da manhã, seria um alcoólico. Mas às sete da tarde não tinha problema. Ele podia esperar. Ia esperar. Doze horas.

O soar da campainha da porta trespassou-lhe o crânio como uma lâmina bem afiada. Ele quase gritou. Em vez de responder, sentou-se à mesa da cozinha, deitou a cabeça e rezou para que se esquecesse de tudo.

Já quase adormecera quando a porta das traseiras se abriu, deixando entrar uma corrente de ar gelada e uma mulher furiosa.

- Pensei que estavas enrolado nalgum sítio a sentir pena de ti mesmo. - Annie pousou um saco de compras em cima da bancada, bateu com as mãos nas ancas e lançou-lhe um olhar carrancudo. - Olha para ti, Andrew. Metes dó. Meio despido, barba por fazer, olhos vermelhos e a cheirares mal. Vai tomar um duche.

Ele levantou a cabeça para olhar para ela. - Não quero.

- Vai tomar um duche enquanto eu te preparo o pequeno-almoço. - Quando ele tentou baixar de novo a cabeça, ela agarrou-o simplesmente pelos cabelos e puxou-a outra vez. - Estás apenas a ter o que mereces.

- Meu Deus, Annie! Vais arrancar-me a cabeça.

- E tu sentir-te-ias consideravelmente melhor se eu fizesse isso. Agora levanta-me esse rabo magricela da cadeira e vai-te lavar. E usa alguma pasta de dentes extra-forte. Estás a precisar.

- Jesus! Que raios estás tu a fazer aqui? - Ele não achara que haveria espaço para constrangimento na fúria da ressaca, mas estava errado. Podia sentir o enrubescimento - uma maldição da sua tez - subir do peito em direcção à cara. - Vai-te embora.

- Vendi-te a bebida. - Annie soltou-lhe os cabelos, e a cabeça dele caiu para cima da mesa com um baque que o fez gritar. - Enfureceste-me, por isso deixei-te continuar a beber. Por isso vou preparar-te um pequeno-almoço decente e assegurar-me de que te vais arranjar e trabalhar. Agora vai tomar um duche, ou levo-te para cima e enfio-te eu mesma na banheira.

- Ok, ok. - Qualquer coisa era melhor do que tê-la a chateá-lo. Com a dignidade possível de quem está apenas de boxers, levantou-se. Não quero comer nada.

- Vais comer o que eu te preparar. - Annie voltou-se para a bancada e começou a despejar o saco. - Agora sai daqui. Cheiras como o chão de um bar de segunda categoria.

Esperou até o ouvir afastar-se e depois fechou os olhos e encostou-se à bancada.

Oh, ele estava tão patético. Tão triste, maldisposto e tolo. Ela tivera vontade de o abraçar, de o acalmar, de lhe fazer festas e livrá-lo de todos aqueles venenos. Venenos que lhe vendera porque estava furiosa, pensou com remorso.

Na realidade, o problema não era o álcool, pensou ela. Era o coração dele, e ela não sabia como alcançá-lo.

Perguntou-se se conseguiria se gostasse dele um pouco menos.

Ouviu a água a correr pelos canos quando ele ligou o chuveiro e isso fê-la sorrir. Ele era tão parecido com aquela casa, pensou. Um pouco gasto, um pouco danificado, mas surpreendentemente robusto no seu interior.

Só não conseguia ver que Elise, com toda a sua inteligência e beleza, não fora a pessoa certa para ele. Haviam formado um belo casal, inteligente e brilhante, mas fora tudo superficial. Ela não compreendera o seu íntimo, a necessidade de doçura e a dor que sentia no coração por não se achar digno de ser amado.

 

Andrew precisava que cuidassem dele.

Isso ela podia fazer, decidiu Annie arregaçando as mangas. Quanto mais não fosse, podia coagi-lo a encontrar de novo o chão.

Os amigos ajudavam-se, disse para si mesma.

A cozinha estava cheia de aromas caseiros quando ele regressou. Se não fosse Annie estar ali, ele provavelmente ter-se-ia trancado no quarto. O duche ajudara e os comprimidos tinham eliminado o pior da ressaca. Ainda havia uns resquícios a embrulhar-lhe o estômago e a ribombarem-lhe na cabeça, mas ele achava que já conseguia lidar com isso.

Clareou a garganta e pôs um sorriso. - Cheira muito bem.

- Senta-te - disse-lhe ela sem se virar.

- Ok. Desculpa, Annie.

- Não precisas de me pedir desculpa. Devias pedir desculpa a ti mesmo. O prejudicado aqui és tu.

- Desculpa, de qualquer forma. - Olhou para a tigela que ela colocou à sua frente. - Papas de aveia?

- Vão forrar-te o estômago.

- A Sra. Patch costumava obrigar-me a comer papas de aveia - disse ele, pensando na mulher que cozinhara para eles quando ele era criança.

- Todos os dias antes de ir para a escola, no Outono, Inverno e Primavera.

- A Sra. Patch sabia o que era bom para ti.

- Ela costumava acrescentar um pouco de xarope de ácer. Sentindo os lábios contorcerem-se, Annie dirigiu-se a um armário.

Conhecia a cozinha dele tão bem quanto a sua. Pôs a garrafa de xarope em frente dele e acrescentou um prato de pão torrado. - Come.

- Sim, senhora. - Deu cuidadosamente uma primeira dentada, com receio de que as coisas não se aguentassem no estômago. - É bom. Obrigado.

Quando Annie viu que ele estava a conseguir comer e que a sua tez já não era acinzentada, sentou-se em frente dele. Os amigos ajudavam-se, pensou novamente. E eram honestos uns com os outros.

- Andrew, tens de parar de fazer isto a ti próprio.

- Eu sei. Não devia ter bebido tanto.

Ela esticou o braço e tocou-lhe na mão. - Se tomares um copo, tomas outro a seguir, e mais outro.

Aborrecido, ele encolheu os ombros. - Não há nada de errado em tomar um copo de vez em quando.

- Há, quando se é um alcoólico.

- Eu não sou.

Ela recostou-se. - Eu tenho um bar e fui casada com um bêbado. Conheço os sinais. Existe uma diferença entre alguém que bebe alguns copos a mais e alguém que não consegue parar.

- Eu consigo parar. - Pegou no café que ela lhe servira. - Não estou a beber agora, estou? Não bebo no trabalho. E não deixo que a bebida afecte o meu trabalho. Não me embebedo todas as noites.

- Mas bebes todas as noites.

- Eu e meio mundo. Que diferença há entre dois copos de vinho ao jantar e um shot ou dois à noite?

- Terás de descobrir isso por ti próprio. Como eu. Estávamos ambos meio bêbados na noite em que... - Custava falar. Ela achava que estaria preparada, mas o assunto magoava-a e ela não conseguiu continuar.

- Meu Deus, Annie. - Recordar fê-lo passar uma mão pela cabeça, desejando que o novelo de vergonha e culpa não tivesse acabado de lhe cair no estômago. - Éramos apenas miúdos.

- Éramos suficientemente crescidos para fazermos um bebé. - Annie contraiu os lábios. Por mais que lhe custasse, exteriorizaria pelo menos uma parte. - Éramos estúpidos, inocentes e irresponsáveis. Já aceitei esse facto. - Oh, Deus, como ela tentava aceitar isso. - Mas o que aconteceu ensinou-me o que podemos perder, o que pode acontecer se não nos controlarmos. Tu não te estás a controlar, Andrew.

- Uma noite há quinze anos atrás não tem nada a ver com o que se passa agora. - No mesmo instante em que pronunciou as palavras, no preciso momento em que viu a forma como ela se encolhera, arrependeu-se do que tinha dito. - Eu não queria dizer isto, Annie. Não é que não tenha importado. Eu só...

- Pára. - A voz dela era fria e distante. - Não digas mais nada. Estamos melhor quando fingimos que não aconteceu. Só toquei no assunto porque tu não pareces perceber a diferença. Só tinhas dezassete anos, mas já tinhas problemas com a bebida. Eu não tinha. Eu não tenho. Conseguiste passar a maior parte da tua vida sem te deixares dominar. Agora ultrapassaste o risco. A bebida está a começar a controlar-te, Andrew, e tu tens de retomar esse controlo. Digo-te isto como amiga. - Annie levantou-se e segurou-lhe o rosto com as mãos. - Não venhas mais ao meu estabelecimento. Não te vou servir.

- Vá lá, Annie...

- Podes aparecer para conversar, mas não me peças uma bebida porque eu não ta vou dar.

Virou-se, pegou no casaco e saiu apressadamente.

 

Ryan vagueava pela galeria sul, admirando a utilização da luz e a fluidez do espaço. Os Jones sabiam do seu ofício, reflectiu. As vitrinas estavam elegantemente arranjadas, as placas educativas eram discretas e informativas.

Ouviu, sem prestar muita atenção, uma mulher de cabelo azul com um acentuado sotaque de Nova Inglaterra que conduzia um pequeno grupo de visitantes a uma das magníficas Madonas de Rafael.

Outro grupo, um pouco maior e mais barulhento, era composto de meninos de escola e estava a ser guiado por uma morena desenvolta. Dirigiam-se para os Impressionistas, para grande alívio de Ryan.

Não que não gostasse de crianças. A realidade é que as suas sobrinhas e sobrinhos eram uma grande fonte de alegria e diversão para si. Ele tinha prazer em estragá-los com mimos sempre que possível. Mas as crianças eram uma distracção durante as horas de trabalho. Ryan estava muito ocupado.

Os seguranças eram discretos, mas em grande número. Ryan reparou nos postos de vigilância e percebeu pelo olhar sub-reptício que um guarda lançou para o relógio que estavam quase a mudar de turno.

Ele parecia deambular sem objectivo, parando aqui e ali para ver um quadro, uma escultura ou uma vitrina de artefactos. Na sua mente contava passos. Da porta de entrada até à câmara de vigilância no canto sudoeste, da câmara até à arcada, da arcada à câmara seguinte, e daí ao seu objectivo.

Não se demorou mais em frente da vitrina do que qualquer amante de arte demoraria para examinar a beleza rara de um bronze do século quinze. O bronze David era uma pequena jóia: jovem, pretensioso, esbelto, com a sua funda naquele histórico momento de verdade.

Embora o artista fosse desconhecido, o estilo era de Leonardo. E como indicava a placa, presumia-se ser uma obra de um dos seus alunos.

O cliente de Ryan era particularmente fã de Leonardo, e contratara-o por causa daquela obra em particular depois de a ter visto no Instituto seis meses antes.

Ryan achava que o cliente ficaria muito feliz, e era melhor mais cedo do que mais tarde. Decidira antecipar o plano. Era mais sensato continuar e concluir o trabalho antes que cometesse algum erro com Miranda, pensou, lá começava a sentir um pouco de pena por lhe ir causar algum transtorno e aborrecimento.

Mas, afinal de contas, ela estava segura. E o bronze não era de todo a melhor peça do Instituto.

Se fosse ele a escolher, ficaria com o Cellini, ou talvez com a mulher de Ticiano que lhe fazia lembrar Miranda. Mas o pequeno bronze fora a escolha do seu cliente. E seria uma tarefa mais fácil do que o Cellini ou o Ticiano.

Devido à sua reacção inesperada em relação a Miranda, depois de a ter levado a casa e de ter trocado de roupa passara uma ou duas horas produtivas nos túneis de manutenção por baixo do Instituto. Aí, tal como já sabia, encontrava-se a instalação eléctrica do sistema de segurança do edifício. Alarmes, câmaras, sensores.

Só tinha precisado do portátil e de um pouco de tempo para introduzir as suas especificações pessoais. Não alterara muita coisa. A maior parte do trabalho seria executada daí a algumas horas, mas algumas modificações sensatas facilitariam a tarefa.

Completou as medições e depois, de acordo com o plano, executou o primeiro teste. Sorriu para a senhora de cabelo azul, passando rente ao grupo. Com as mãos nos bolsos, estudou um quadro sombrio da Anunciação. Com o pequeno mecanismo na mão, percorreu os controlos com o polegar até encontrar o botão certo. A câmara estava mesmo à sua direita.

Sorriu para a Virgem quando viu, pelo canto do olho, a minúscula luz vermelha da câmara apagar-se.

Deus, como ele adorava a tecnologia!

No outro bolso, pressionou o botão de um cronómetro e aguardou.

Calculou que tivessem passado quase dois minutos antes de o walkie-talkie do guarda mais próximo dar sinal. Pressionou novamente o botão do cronómetro, desbloqueou a câmara com a outra mão e avançou rapidamente para examinar o rosto triste e perplexo de São Sebastião. Mais do que satisfeito, saiu da galeria e foi para o exterior para usar o telemóvel.

- Gabinete da Dra. Jones. Posso ajudar?

- Espero que sim. - A voz fininha da assistente de Miranda fê-lo sorrir. - A Dra. Jones pode atender? Daqui fala Ryan Boldari.

- Um momento, Sr. Boldari.

Ryan resguardou-se do vento enquanto esperava. Ele gostava do aspecto da cidade, da diversidade arquitectónica, do granito e tijolo. Passara por uma imponente estátua de Longfellow durante os seus passeios e descobrira que esta e as outras estátuas e monumentos eram uma mais-valia para uma cidade interessante.

Talvez preferisse Nova Iorque, o ritmo acelerado e as exigências da cidade. Mas achava que não se importaria de passar um pouco mais de tempo ali. Noutra altura, claro. Nunca era sensato ficar por muito tempo depois de concluir um trabalho.

- Ryan? - A voz de Miranda soou ligeiramente sem fôlego. - Desculpa ter-te feito esperar.

- Não tem importância. Acabo de passear pelas tuas galerias. - Melhor que ela soubesse, pois era provável que fossem rever as cassetes no dia seguinte.

- Oh. Gostava que me tivesses dito que vinhas. Teria tido muito gosto em mostrar-tas.

- Não queria interromper o teu trabalho. Mas queria dizer-te que acho que os meus Vasaris irão ter uma maravilhosa casa temporária. Devias vir a Nova Iorque para veres onde vai ficar o teu Cellini.

Ele não tencionara dizer aquilo. Raios. Mudou o telemóvel para a outra mão, lembrando a si mesmo que seria necessário algum distanciamento durante uns tempos.

- Talvez faça isso. Queres subir?

- Gostaria, mas tenho uns compromissos inadiáveis. Esperava poder levar-te a almoçar, mas não posso cancelar estes encontros. Vou estar preso o resto do dia, mas pensei que talvez pudesses almoçar comigo amanhã.

- Estou certa de que posso arranjar tempo para isso. A que horas te dá mais jeito?

- Quanto mais cedo melhor. Quero ver-te, Miranda. - Podia imaginá-la sentada no gabinete, talvez de bata vestida sobre uma camisola grossa. Oh, sim, queria vê-la, e muito. - Que tal meio-dia?

Ouviu o restolhar de papéis. A consultar a agenda, pensou ele. E, por alguma razão, achou isso delicioso. - Sim, ao meio-dia está óptimo. A documentação do teu Vasari acaba de chegar à minha mesa. Trabalhas depressa.

- Mulheres belas não deviam ter de esperar. Vejo-te amanhã. Vou pensar em ti esta noite.

Cortou a ligação e sofreu uma sensação muito rara. Reconheceu-a como culpa apenas porque na realidade não se recordava de a ter sentido antes. Não certamente quando se tratava de mulheres e de trabalho.

- Não há nada que eu possa fazer - disse suavemente. E guardou o telemóvel. Enquanto caminhava a passos largos para o estacionamento, retirou o cronómetro do bolso. Cento e dez segundos.

Tempo suficiente. Mais do que suficiente.

Olhou para cima em direcção à janela do gabinete de Miranda. Também haveria tempo para isso. Eventualmente. Mas as obrigações profissionais vinham primeiro. Ele tinha a certeza de que uma mulher de natureza prática como ela concordaria.

Ryan passou as horas seguintes trancado na sua suite. Encomendara um almoço rápido, sintonizara o rádio para uma estação de música clássica e espalhara as anotações para as rever.

Tinha as plantas do Instituto abertas em cima da mesa presas com o saleiro, o pimenteiro e pequenos frascos de mostarda e ketchup que tinham ido no carrinho do almoço.

Os esquemas do sistema de segurança estavam no monitor do portátil. Mordiscou uma batata frita e bebericou Evian enquanto estudava os esquemas.

As plantas tinham sido relativamente fáceis de obter. Contactos e dinheiro conseguiam aceder a quase tudo. Ele tinha também muito jeito para computadores. Um talento que desenvolvera e aprimorara quando andava no liceu.

A mãe insistira para que ele aprendesse a dactilografar - porque nunca se sabia se um dia poderia ser útil - mas ele arranjara coisas mais interessantes para fazer com um teclado do que dactilografar correspondência.

Construíra o computador portátil que levava consigo, acrescentando-lhe uma série de extras que não eram exactamente legais. Mas a sua profissão também não.

As Galerias Boldari eram totalmente legais e auto financiavam-se e faziam um lucro bastante bom. Mas tinham sido construídas com dinheiro que ele acumulara ao longo dos anos, tendo começado como carteirista nas ruas de Nova Iorque.

Algumas pessoas nasciam artistas, outras nasciam contabilistas. Ele tinha nascido ladrão.

No início, roubara carteiras e pequenas jóias porque não tinha dinheiro. Afinal, os professores de arte não andavam a nadar em dinheiro e havia muitas bocas para alimentar no lar dos Boldari.

Mais tarde começara a assaltar apartamentos porque... bem, porque era bom nisso e porque era emocionante. Ainda conseguia lembrar-se da sua primeira invasão a um apartamento escuro e adormecido. O sossego, a tensão, a excitação de estar num lugar onde não deveria estar, e o nervosismo inicial que sentira devido à possibilidade de ser apanhado tornaram tudo mais entusiasmante.

Como fazer sexo num local público, em plena luz do dia. Com a mulher de outro.

Como tinha um código bastante estrito contra o adultério, limitava essa sensação eléctrica ao roubo.

Quase vinte anos depois, sentia a mesma excitação cada vez que arrombava uma fechadura de um edifício seguro.

Ryan refinara o seu ofício e especializara-se em arte durante mais de uma década. Tinha um sentido para a arte, um amor, e no seu íntimo, considerava-a domínio público. Se roubasse um quadro do Smithsoniano - o que já acontecera -, estava apenas a prestar um serviço a um particular, pelo qual era bem pago.

E com os honorários adquiria mais arte para expor nas suas galerias para o público admirar e apreciar.

Parecia equilibrar bem as coisas.

Como tinha uma queda para electrónica e engenhocas, porque não pô-la ao seu serviço juntamente com o talento natural para o furto?

Voltando-se para o portátil, acedeu às medições que fizera na Galeria Sul, visionando a planta do piso a três dimensões. As posições das câmaras estavam realçadas a vermelho. Com o digitar de algumas teclas, instruiu a máquina para calcular os ângulos, a distância e a melhor aproximação.

Já ia longe o tempo em que assaltava casas, trepava por janelas e rastejava enquanto enfiava jóias num saco, pensou. Esse aspecto da profissão era para os novos, para os estouvados ou para os tolos. E nestes tempos instáveis, havia muita gente com armas em casa que atirava em qualquer coisa que se mexesse na escuridão da noite.

Ele preferia evitar proprietários armados.

Era melhor pôr a tecnologia ao seu serviço, fazer um trabalho limpo e seguir em frente.

Como já era habitual, verificou as pilhas do transmissor de bolso. Era concepção sua, feito de partes retiradas de um comando remoto de televisão, de um telemóvel e de um pager.

Assim que estudava o sistema de segurança de uma marca - que Andrew fora suficientemente simpático para lhe mostrar -, podia facilmente ajustar a frequência a aplicar depois de ter alterado o sistema na fonte. O teste no final daquela manhã provara que fora bem sucedido nesse aspecto.

Conseguir entrar fora mais problemático. Se trabalhasse com um cúmplice, um deles poderia trabalhar com o computador no túnel para destrancar fechaduras. Ele trabalhava sozinho, e precisava do transmissor | para as câmaras.

As fechaduras eram um assunto relativamente simples. Ele tinha acedido aos esquemas do sistema de segurança algumas semanas antes e conseguira finalmente quebrá-lo. Depois de passar duas noites no local, marcara a porta lateral e forjara um cartão de acesso.

O código de segurança fora uma vez mais cortesia de Andrew. Ryan achava espantoso a quantidade de informação que as pessoas transportavam nas suas carteiras. Os algarismos e a sequência tinham sido anotados num pedaço de papel que estava escondido atrás da carta de condução de Andrew. Ryan precisara apenas de alguns segundos para sacar a carteira, de alguns momentos para a vasculhar, encontrar os números e memorizá-los, e nada mais do que uma amigável pancadinha nas costas para voltar a enfiar a carteira no bolso de Andrew.

Ele calculava que o serviço lhe tivesse custado aproximadamente setenta e duas horas de trabalho preparativo; acrescentando a hora que demoraria a executar, e deduzindo os gastos, conseguiria um lucro de oitenta e cinco mil dólares.

Um bom trabalho para quem pode, pensou, tentando não lamentar o facto de esta ser a sua última aventura. Empenhara a palavra nisso, e nunca deixava de cumprir uma promessa. Não à família.

Verificou as horas e reparou que tinha oito horas antes de iniciar a tarefa. Passou a primeira a tratar das provas, queimando as plantas na lareira da suite, trancando todos os aparelhos eléctricos numa caixa reforçada e introduzindo depois atalhos e palavras-passe no computador para o guardar em segurança.

Ainda tinha tempo para algum exercício, uma sauna, natação e uma sesta curta. Acreditava em estar alerta de espírito e corpo antes de entrar em acção.

Passava pouco das seis e Miranda estava no gabinete a compor uma carta que ela própria preferia digitar. Embora ela e Andrew dirigissem o Instituto, ainda era procedimento normal os pais serem informados e aprovarem qualquer empréstimo ou transferência de arte.

Ela tencionava fazer uma carta directa e sucinta e estava disposta a trabalhar nisso palavra a palavra até esta ficar tão ácida como vinagre, igualmente desagradável, mas extremamente profissional.

Já tinha completado o primeiro rascunho, e estava a começar a fazer os melhoramentos, quando o telefone tocou.

- Instituto de Nova Inglaterra. Fala a Dra. Jones.

- Miranda, graças a Deus que te apanho.

- Perdão? - Perturbada com o ruído de fundo, ajeitou o telefone e tirou o brinco. - Quem fala?

- Giovanni.

- Giovanni? - Olhou para o relógio de secretária e calculou as horas. - Já passa da meia-noite aí. Passa-se alguma coisa de errado?

- Está tudo errado. É um desastre. Não me atrevi a telefonar-te mais cedo, mas achei que tinhas de saber, o mais depressa possível, antes... antes de amanhecer.

O coração dela deu um pulo, bastante forte, e o brinco que tinha tirado caiu em cima da mesa. - A minha mãe? Aconteceu-lhe alguma coisa?

- Sim... não. Ela está bem, não lhe aconteceu nada. Desculpa. Estou perturbado.

- Não faz mal. - Para se acalmar, fechou os olhos e inspirou profundamente. - Mas diz-me o que foi que aconteceu.

- O bronze, o Bronze de Fiesole. É uma falsificação.

- Isso é ridículo. - Endireitou-se na cadeira e começou a falar bruscamente. - Claro que não é uma falsificação. Quem é que te disse isso?

- Chegaram hoje cedo os resultados dos testes feitos em Roma. Nos Laboratórios Arcana-Jasper. O Dr. Ponti supervisionou os testes. Conheces o trabalho dele?

- Sim, claro. Foste mal informado, Giovanni.

- Estou a dizer-te, eu mesmo vi os resultados. A Dra. Standford-Jones mandou chamar-me, e também ao Richard e à Elise, já que estávamos na equipa original. Até interrogou o Vincente. Miranda, ela está furiosa e muito maldisposta. O bronze é uma falsificação. Provavelmente não foi esculpido há mais de alguns meses, se tanto. A fórmula do metal estava certa, até a patina estava perfeita e podia ter causado confusão.

- Eu não me confundi com nada - insistiu ela. Mas sentia arrepios de pânico percorrerem-lhe as costas.

- Os níveis de corrosão estão errados, todos errados. Não sei como é que isso nos escapou, Miranda, mas estavam errados. Alguém tentou criá-los no metal, mas não conseguiu.

- Tu viste os resultados, as fotos de computador, os raios X.

- Eu sei. Eu disse isso à tua mãe, mas...

- Mas o quê, Giovanni?

- Ela perguntou-me quem tinha feito os raios X, quem programara o computador. Quem tinha feito os testes de radiação. Lamento, cara.

- Compreendo. - Agora sentia-se dormente, a mente enevoada. A responsabilidade é minha. Fui eu que fiz os testes e escrevi os relatórios.

- Se não tivesse sido a fuga de informação para a imprensa, podíamos ter varrido pelo menos parte disto para debaixo do tapete.

- Ponti pode estar errado. - Miranda esfregou a boca com a mão.

- Pode estar errado. Eu não me posso ter enganado com uma coisa tão básica como níveis de corrosão. Preciso de pensar nisto, Giovanni. Agradeço teres-me contado.

- Detesto ter de pedir isto, Miranda, mas tenho de o fazer se quero manter o meu emprego. A tua mãe não pode saber que falei contigo acerca deste assunto, que entrei em contacto contigo. Creio que ela tenciona contactar-te de manhã.

- Não te preocupes. Não mencionarei o teu nome. Não posso falar agora. Preciso pensar.

- Está bem. Lamento, lamento imenso.

Lenta e deliberadamente, Miranda pousou o auscultador e deixou-se ficar sentada, imóvel como uma pedra, a olhar para o nada. Tentou recordar-se de toda a informação, ordená-la e ver tudo claramente como vira em Florença. Mas não conseguiu nada para além de um zumbido que a fez desistir e baixar a cabeça entre os joelhos.

Uma falsificação? Não podia ser. Não era possível. A respiração acelerou, tornando-lhe impossível encher os pulmões. Então as pontas dos dedos começaram a formigar à medida que a dormência ia desaparecendo dando lugar aos tremores.

Tinha sido cuidadosa, garantiu a si mesma. Tinha sido minuciosa. Tinha sido exacta. O coração batia tão violentamente que ela pressionou o esterno com a mão fechada.

Oh, Deus, não tinha sido suficientemente cuidadosa, suficientemente minuciosa nem suficientemente precisa.

A mãe teria razão? Apesar de todas as alegações em contrário, ter-se-ia ela decidido a respeito do bronze no momento em que o vira?

Em que o quisera, admitiu, levantando a cabeça para se recostar na cadeira com um movimento lento característico dos idosos ou doentes. Ela quisera que a estátua fosse verdadeira, desejara ter tido algo tão importante, tão precioso e raro nas mãos.

Arrogância, fora o nome que Elizabeth dera. Arrogância e ambição. Teria ela deixado aquele capricho, aquele desejo, aquela necessidade de aprovação toldar-lhe o raciocínio e afectar-lhe o trabalho?

Não, não, não. Cerrou os punhos e pressionou-os contra os olhos. Ela vira as imagens, os resultados da radiação, os testes químicos. Estudara-os. E eram factos, e os factos não mentiam. Todos os testes tinham corroborado a sua convicção. Tinha de haver algum engano, mas não era seu.

Porque se fosse, pensou, pousando as mãos em cima da mesa, era pior do que fracasso. Ninguém voltaria a confiar nela. Nem ela própria.

Fechou os olhos e recostou a cabeça.

Foi assim que Andrew a encontrou vinte minutos depois.

- Vi que tinhas a luz acesa. Também ainda estava a trabalhar e...

- Calou-se, parando à entrada da porta. Ela estava pálida como a água, e quando abriu os olhos, estes estavam demasiado escuros, demasiado brilhantes e vazios. - Estás doente?

Embora a doença o pusesse nervoso, Andrew atravessou a sala para lhe pôr uma mão na testa. - Estás fria. - Pegou instintivamente nas mãos dela e começou a esfregá-las. - Deves ter-te resfriado ou coisa do género. Vou levar-te a casa. Devias deitar-te.

Andrew... - Ela ia ter que contar. E as palavras custavam a sair da garganta. - A Dama Negra é falsa.

- O quê? - Ele tinha começado a fazer-lhe festas na cabeça e parou naquele instante. - O bronze? De Florença?

- Chegaram os resultados das repetições dos testes. O crescimento da corrosão está errado, os valores da radiação estão errados. Ponti, em Roma. Foi ele que supervisionou pessoalmente os testes.

Ele sentou-se à beira da mesa, sabendo que festas de irmão na cabeça não iam afastar aquela doença. - Como é que sabes?

- O Giovanni acabou de me telefonar. Não era suposto fazê-lo. Se a mãe descobre, pode despedi-lo.

- Ok. - Giovanni não era a sua preocupação no momento. - Tens a certeza de que as informações dele estão correctas?

- Não quero pensar dessa forma. - Cruzou os braços sobre o peito, enterrando os dedos nos bíceps. Apertando e largando, apertando e largando. - Ele não me teria contactado se não estivessem. A mãe chamou-o e mais à Elise e ao Richard Hawthorne para lhes dizer. E também ao Vincente. Imagino que os tenha arrasado. Eles vão dizer que fui eu que fiz asneira. - A voz quebrou, fazendo-a abanar veementemente a cabeça como que para negar a emoção. - Tal como ela previu.

- E fizeste?

Ela abriu a boca para negar isso também, e de forma igualmente veemente. Mas fechou-a de novo, pressionando os lábios. Controla-te, ordenou a si mesma. No mínimo, precisava de se controlar. - Não vejo como. Fiz os testes. Segui os procedimentos. Documentei os resultados. Mas eu queria que o resultado fosse aquele, Andrew, talvez quisesse demasiado.

- Nunca me pareceu que deixasses o que queres intrometer-se no que é a realidade. - Ele não suportava vê-la tão abalada. Dos dois, ela fora sempre a mais forte. Ambos sempre haviam contado com isso. - Poderá ter havido alguma falha ao nível do equipamento?

Ela quase riu. - Estamos aqui a falar do orgulho e satisfação de Elizabeth, Andrew.

- As máquinas avariam.

- Ou as pessoas que introduzem dados nessas máquinas cometem erros. A equipa de Ponti pode ter cometido um. - Afastou-se da secretária, e embora sentisse as pernas a tremer, começou a andar de um lado para o outro. - Não é mais inverosímil do que ter sido eu a errar. Preciso de ver outra vez os meus dados e os resultados. Preciso de ver os dele. Preciso de ver a Dama Negra.

- Vais ter de falar com ela.

- Eu sei. - Miranda parou e virou-se para a janela, mas viu apenas a escuridão. - Ligar-lhe-ia agora se isso não prejudicasse o Giovanni. Preferia tratar já do assunto do que esperar que ela me contacte.

- Tu sempre foste aquela que tomava o remédio de uma só vez. Eu sou um grande apologista de adiarmos para sempre o que não queremos enfrentar hoje.

- Não há como evitar. Quando os resultados forem públicos, vem tudo por água abaixo. Serei considerada uma tola ou uma fraude, e uma é tão má como a outra. O Vincente vai encontrar alguma forma de torcer a história, mas isso não deterá a imprensa. Ela estava certa nesse ponto. Isto vai afectar a Standjo, a ela e a mim. - Voltou-se para o irmão. - Vai afectar o Instituto.

- Podemos tratar disso.

- Isto é problema meu, Andrew. Não teu.

Ele avançou e pôs as mãos nos ombros dela. - Não - disse simplesmente. E fê-la ter vontade de chorar. - Estamos juntos nisto, como sempre.

Ela suspirou, encostou-se a ele e deixou-se confortar. Mas pensou que a mãe não lhe daria qualquer hipótese. Se tivesse de escolher entre o Instituto e a filha, Miranda não tinha dúvidas de qual teria primazia.

 

O vento nocturno era frio como uma mulher desprezada e igualmente mal-humorado. Ryan não se incomodava. Considerou-o tonificante enquanto percorria os três quarteirões depois de ter estacionado o carro.

Tinha tudo o que precisava debaixo do casaco, em bolsas e algibeiras, ou na pequena pasta que transportava. Se a polícia o mandasse parar por algum motivo, e desse uma olhadela, estaria atrás das grades antes de conseguir exercer o direito de fazer um telefonema. Mas isso fazia parte da emoção.

Não ia chegar a tempo, pensou, e acelerou o passo como quem está desejoso de se encontrar com a pessoa amada. A fase de planeamento estava terminada, e também esse aspecto da sua vida. Agora aproximava-se a execução, a última. Queria gravar todos os detalhes na cabeça para quando fosse muito velhinho conseguir descrever aos netos aquela maravilhosa sensação de poder.

Perscrutou as ruas. As árvores estavam nuas e tremiam ao vento, o trânsito estava fraco e a Lua reduzida a um ponto ténue pelas luzes da cidade e pelas nuvens altas. Passou por um bar onde um copo de Martini azul-néon cintilava à janela e sorriu. Era capaz de entrar para tomar um copo depois do trabalho. Um pequeno brinde ao final de uma era parecia-lhe apropriado.

Atravessou a rua quando o sinal dos peões permitiu, como um cidadão cumpridor da lei que não sonharia em atravessar fora da passadeira. Pelo menos não quando estava em posse de ferramentas de assalto.

Viu o Instituto mesmo à sua frente, uma silhueta majestosa de bom granito ianque. Agradava-lhe o facto de a última tarefa consistir em assaltar um edifício antigo tão imponente e digno.

As janelas estavam escuras à excepção do brilho das luzes de segurança no átrio de entrada. Ele pensou que era estranho, e de facto bastante encantador, as pessoas deixarem as luzes ligadas para afastar os bandidos. Um que fosse bom conseguia assaltar tão facilmente em plena luz do dia como na escuridão da noite.

E ele era muito bom.

Olhou a rua de cima a baixo antes de consultar o relógio. As vigilâncias que fizera haviam-lhe permitido observar o comportamento da polícia naquela zona. A não ser que a chamassem, tinha uns bons quinze minutos antes que um carro azul e branco passasse por ali.

Atravessou para o lado sul do edifício, mantendo o passo acelerado mas sem pressas. O casaco longo conferia-lhe a ilusão de corpulência, o chapéu chique encobria-lhe o rosto, e o cabelo que se via por debaixo era agora de um elegante cinzento-aço.

Qualquer um que reparasse nele veria um homem de negócios de meia-idade ligeiramente obeso.

Ainda se encontrava a cerca de dois metros da porta, e fora do alcance da câmara, quando retirou o transmissor do bolso e o apontou para ela. Viu a luz vermelha apagar-se e avançou rapidamente.

O falso cartão de acesso deu algum trabalho, mas foi aceite à terceira tentativa. Introduziu o código que tinha de memória e em quarenta e cinco segundos estava na antessala. Voltou a ligar a câmara, pois não dava muito jeito que se deslocasse lá um guarda para a verificar, e depois fechou a porta e voltou a trancá-la.

Despiu o casaco e pendurou-o ao lado da maquineta de café do pessoal. Guardou as luvas pretas no bolso. Debaixo destas usava umas finas luvas de cirurgia que qualquer pessoa podia comprar às caixas numa loja de produtos médicos. Cobriu o cabelo grisalho com um gorro negro.

Verificou com eficiência as ferramentas uma última vez.

Só depois é que se permitiu fazer uma pausa, apenas por uns instantes, e desfrutar do momento.

Estava no escuro a ouvir o silêncio que não era de facto nenhum silêncio. Os edifícios tinham a sua linguagem, e aquele zunia e chiava. Podia ouvir a passagem do ar quente através das grelhas de ventilação, os suspiros do vento que empurrava a porta atrás de si.

O guarda e as salas de segurança estavam no andar de cima, e os pisos eram espessos. Não ouvia nada do que se passava lá em cima, e sabia que eles também não o conseguiam ouvir. Com a vista já adaptada à escuridão, passou à porta seguinte. Tinha uma boa fechadura que exigia as suas gazuas, a sua lanterna, que segurou entre os dentes, e aproximadamente trinta segundos para a conseguir abrir.

Sorriu ao ouvir a fechadura destrancar, abriu a porta e seguiu pelo corredor.

A primeira câmara encontrava-se onde o corredor fazia uma bifurcação para a esquerda e para a direita. Esta não o preocupava grandemente. Ali ele era uma sombra entre muitas, e a câmara estava apontada na direcção da galeria. Ryan deslizou por debaixo desta, fora de alcance, e virou para a esquerda.

A gruta de Aladino, pensou quando se agachou mesmo à entrada da Galeria Sul. A Torre de Londres, o Tesouro do Barba-Negra, País das Maravilhas.

Um lugar como aquele era todos os contos de fadas que lera e lhe tinham lido na sua infância.

Uma ansiedade gloriosa percorria-lhe o corpo, contraindo-lhe os músculos, contorcendo-se como desejo nas suas entranhas. Estava tudo ao seu alcance. O que o fez pensar o quão facilmente um profissional podia sucumbir à ganância... e ao desastre.

Verificou uma vez mais as horas. A sensibilidade ianque num lugar daqueles significava que os guardas ainda faziam rondas, embora as câmaras e os sensores fossem suficientes. Claro que ele era a prova de que não eram, e se fosse ele o responsável pela segurança, teria contratado o dobro dos guardas e duplicado as rondas. Mas não era essa a sua função.

Desligou a lanterna. Até o brilho punctiforme faria disparar os sensores. Usando as suas medições e excelente visão nocturna, avançou até ao canto da galeria, apontou o transmissor e desligou a câmara maçadora.

Numa parte do cérebro contava segundos. O resto dele movia-se rapidamente. Quando se agachou em frente à vitrina, já tinha o cortador de vidro na mão. Fez um círculo perfeito, ligeiramente maior do que o seu punho, retirou-o praticamente sem barulho e pousou-o em cima do expositor.

Agiu rapidamente, mas com uma agilidade de movimento que era tão inata como a cor dos seus olhos. Não perdeu tempo a admirar o objecto ou a pensar no quão maravilhoso seria levar mais do que estava nos seus planos. Isso era para amadores. Enfiou simplesmente a mão, pegou no bronze e meteu-o na bolsa que tinha à cintura.

Como apreciava ordem, e ironia, colocou novamente o círculo de vidro no lugar e recuou de gatas até ao canto. Ligou outra vez a câmara e iniciou o caminho de regresso.

Pelas suas contas, demorara setenta e cinco segundos.

Quando chegou à antessala, transferiu o bronze para uma pasta, enfiando-o entre duas placas espessas de espuma. Trocou de chapéu, tirou as luvas cirúrgicas e enfiou-as no bolso.

Vestiu o casaco, abriu a porta, saiu, trancou-a de novo e estava a um quarteirão de distância menos de dez minutos depois de ter entrado no edifício.

Rápido e sem incidentes, pensou. Uma boa maneira de acabar uma carreira. Olhou novamente para o bar e quase entrou. Mas no último instante decidiu voltar para o hotel e encomendar antes uma garrafa de champanhe.

Alguns brindes eram para se fazer em privado.

Às seis da manhã, depois de uma noite sem conseguir dormir, Miranda acabara finalmente de adormecer quando acordou sobressaltada com o telefone a tocar. Cheia de dores de cabeça, desorientada, pegou atrapalhadamente no auscultador.

- Dra. Jones. Pronto. - Não. Não estás em Itália. Estás no Maine. Em casa. - Estou?

- Dra. Jones, daqui fala Ken Scutter da segurança.

- Sr. Scutter. - Não conseguia associar o nome à pessoa e estava demasiado confusa para tentar. - Que se passa?

- Tivemos um incidente.

- Um incidente? - Assim que a sua mente começou a clarear, sentou-se na cama. Os lençóis e cobertores estavam enrolados em volta dela como faixas numa múmia, e ela praguejou baixinho enquanto tentava libertar-se. - Que tipo de incidente?

- Ninguém reparou até à mudança de turnos, há momentos, mas eu quis contactá-la imediatamente. Fomos assaltados.

- Assaltados. - Endireitou-se como um raio, completamente acordada com o sangue a inundar-lhe o cérebro. - O Instituto?

- Sim, senhora. Achei que devia querer vir para cá.

- O que é que levaram?

- Falta apenas uma peça da Galeria Sul, Dra. Jones. O catálogo indica que é um bronze de David do século quinze, de autor desconhecido.

Um bronze, pensou ela. De repente era perseguida por bronzes. Vou imediatamente.

Saltou da cama e, sem se preocupar com o robe, correu de pijama até ao quarto de Andrew. Entrou de rompante, foi direita à cama e abanou-o energicamente.

- Andrew, acorda! Houve um assalto.

- O quê? - Ele tentou desviar a mão dela e começou a bocejar. O maxilar deu um estalo enquanto ele se sentava na cama. - O quê? Onde? Quando?

- No Instituto. Falta um bronze da Galeria Sul. Veste-te, vamos embora.

- Um bronze? - Passou uma mão pelo rosto. - Miranda, estavas a sonhar?

- O Scutter, da segurança, acaba de ligar! - Gritou. - Eu não sonho. Dez minutos, Andrew - disse ela por cima do ombro enquanto saía apressadamente.

Em menos de quarenta minutos já estava com o irmão na Galeria Sul, a olhar para o círculo perfeito no vidro e para o espaço vazio por detrás. Sentiu um aperto no estômago.

- Chame a polícia, Sr. Scutter.

- Sim, senhora. - Fez sinal para um dos seus homens. - Dei ordem para que passassem revista ao edifício, o que ainda está em curso, mas até agora não encontrámos nada fora do lugar e parece não haver mais nada em falta.

Andrew acenou com a cabeça. - Quero rever as gravações das câmaras de segurança das últimas vinte e quatro horas.

- Sim, senhor. - Scutter produziu um suspiro. - Dra. Jones, o guarda-nocturno comunicou um pequeno problema com duas das câmaras.

- Problema. - Miranda virou-se. Já se recordava de Scutter. Era um homem baixo e forte, um antigo polícia que decidira trocar as ruas pela segurança privada. Tinha uma folha de serviços impecável. Andrew entrevistara-o e contratara-o pessoalmente.

- Esta câmara. - Scutter apontou para cima. - Apagou durante aproximadamente noventa segundos ontem de manhã. Ninguém deu muita importância ao facto, embora o diagnóstico habitual tenha sido feito. Ontem à noite, cerca da meia-noite, a câmara exterior da entrada sul falhou quase um minuto. O vento estava muito forte, e a falha foi atribuída ao tempo. Esta câmara interna também desligou cerca de oitenta segundos entre a meia-noite e a uma da manhã. As horas exactas estão gravadas nas fitas.

- Entendo. - Andrew enfiou as mãos nos bolsos e cerrou os punhos. - Opinião, Sr. Scutter?

- Eu penso que o assaltante é um profissional, com conhecimentos de segurança e electrónica. Terá entrado pelo lado sul, desligado o alarme e a câmara. Ele sabia o que vinha buscar, não teve de andar à procura. Tudo indica que conhece o museu e o seu funcionamento.

- E entra sem qualquer dificuldade - disse Miranda com uma fúria mal disfarçada -, leva o que quer e sai sem problemas. Apesar da existência de um complexo e caro sistema de segurança e de meia dúzia de guardas armados.

- Sim, senhora. - Os lábios de Scutter estreitaram quando ele os contraiu. - Basicamente foi isso que aconteceu.

- Obrigada. Não se importa de ir até ao átrio da recepção aguardar a chegada da polícia? - Esperou até deixar de ouvir os passos dele; depois, como já se encontrava sozinha com Andrew, libertou toda a ira que estava a sentir.

- Filho da mãe! Filho da mãe. - Avançou a passos largos até à câmara em questão, espreitou-a e depois voltou para trás. - Aquele homem quer fazer-nos acreditar que qualquer pessoa é capaz de passar por cima da segurança, entrar aqui e roubar uma peça de arte específica em menos de dez minutos.

- Essa é a teoria mais provável, a não ser que aches que os guardas estão metidos nalguma conspiração e que todos tenham subitamente desenvolvido uma obsessão por meninos nus italianos esculpidos em bronze.

Andrew sentia-se doente. Ele adorava aquela peça, a sua vitalidade e arrogância pura. - Podia ter sido muito pior, Miranda.

- A nossa segurança falhou, fomos roubados. Como é que poderia ter sido pior?

- Pelo aspecto da coisa, este tipo podia ter enchido um saco do Pai Natal e pilhado metade desta área.

- Uma peça ou uma dúzia, o que interessa é que fomos assaltados. Meu Deus! - Miranda cobriu o rosto com as mãos. - O Instituto já não era assaltado desde os anos cinquenta, quando levaram seis quadros; e quatro deles foram recuperados.

- Então talvez tenha sido culpa nossa - disse ele.

- Uma treta. - Miranda deu meia volta. - Protegemos a nossa propriedade, não olhando a despesas quanto à segurança.

- Não temos sensores de movimento - murmurou ele.

- Tu queria-los.

- O sistema que eu queria significava ter de levantar o chão. - Olhou para o mármore lindo e espesso. - Os generais não foram nisso.

Com generais ele queria dizer pais. O pai ficara horrorizado com a ideia de destruírem o chão, e quase igualmente horrorizado com o custo estimado do sistema proposto.

- Se calhar não tinha feito diferença - disse ele com um encolher de ombros. - O ladrão teria muito provavelmente conseguido arranjar uma forma de anular os sensores. Raios, Miranda, a segurança é responsabilidade minha!

- Isto não é culpa tua.

Andrew suspirou e ansiou ardentemente por uma bebida. - É sempre culpa de alguém. Vou ter de lhes contar. Nem sei como contactar o velhote no Utah.

- Ela vai saber, mas não avancemos depressa de mais. Deixa-me pensar um pouco. - Miranda fechou os olhos e permaneceu quieta. Como disseste, podia ter sido muito pior. Só perdemos uma peça. E podemos muito bem vir a recuperá-la. Entretanto, a peça está segura e a polícia  está a caminho. Tudo o que podíamos fazer está a ser feito. Temos de deixar a polícia fazer o seu trabalho.

- E eu tenho de fazer o meu, Miranda. Tenho de ligar para Florença. - Conseguiu esboçar um pequeno sorriso. - Vê as coisas desta forma: o nosso pequeno incidente pode fazê-la esquecer o teu problema durante algum tempo.

Miranda bufou. - Se eu achasse que isso podia acontecer, teria eu própria roubado o raio da peça.

- Dra. Jones. - Um homem de faces coradas do frio e pequenos olhos verdes sob umas sobrancelhas grisalhas entrou na sala. - E Dr. Jones. Sou o detective Cook. - Exibiu um distintivo dourado. - Parece que perderam alguma coisa.

Às nove, a cabeça de Miranda pulsava com uma violência suficiente para a fazer desistir e deitá-la sobre a mesa. Tinha a porta fechada, quase cedera à necessidade de a trancar e permitira-se parar durante dez minutos para se deixar levar pelo desespero e auto comiseração.

Só haviam passado cinco quando o intercomunicador deu sinal. - Miranda, desculpa. - Havia preocupação e hesitação na voz de Lori. - A Dra. Standford-Jones está na linha um. Queres que lhe diga que não estás disponível?

Oh, era tentador. Mas inspirou profundamente e endireitou as costas.

- Não, eu atendo. Obrigada, Lori. - Como a sua voz soava enferrujada, ela clareou-a e depois premiu o botão da linha um. - Olá mãe.

- A análise ao Bronze de Fiesole já foi efectuada - disse Elizabeth sem rodeios.

- Sim.

- As tuas conclusões estavam erradas.

- Não acredito nisso.

- Independentemente daquilo em que insistas em acreditar, a verdade é que foram refutadas. O bronze não passa de uma tentativa sagaz e bem executada de imitar o estilo e materiais do Renascimento. As autoridades estão a investigar Carlo Rinaldi, o homem que afirma ter encontrado a peça.

- Quero ver esses resultados.

- Isso está fora de questão.

- Podes conseguir isso. Tenho direito a...

- Não tens direito a nada, Miranda. Sejamos claras. A minha prioridade neste momento é evitar que este mal se espalhe. Já nos cancelaram dois projectos governamentais. A tua reputação e, consequentemente, a minha estão a ser atacadas. Há quem pense que forjaste propositadamente resultados para te ser atribuída uma descoberta.

Com muito cuidado, Miranda limpou o círculo de humidade que uma chávena de chá tinha deixado sobre a secretária. - É isso que achas?

A hesitação foi mais clara do que as palavras que se seguiram. - Eu acho que permitiste que a ambição, a pressa e o entusiasmo te nublassem o raciocínio, a lógica e a eficiência. Assumo a responsabilidade, já que te envolvi nisto.

- Sou responsável pelos meus actos. Obrigada pelo teu apoio.

- O sarcasmo fica-te mal. Estou certa de que os media tentarão contactar-te durante os próximos dias. Não farás qualquer comentário.

- Tenho muitos comentários a fazer.

- Que guardarás para ti. Seria melhor se tirasses uma licença.

- Seria? - A mão começava a tremer, por isso cerrou-a num punho.

- Isso é uma admissão passiva de culpa, e não o farei. Quero ver esses resultados. Se cometi um erro, pelo menos preciso de saber onde e como.

- Está fora das minhas mãos.

- Certo. Encontrarei uma forma. - Olhou irritada para o fax que começava a apitar e chiar. - Eu mesma entrarei em contacto com Ponti.

- Já falei com ele. Ele não tem nada para te dizer. O assunto está encerrado. Transfere-me para o gabinete do Andrew.

- Oh, com todo o prazer. Ele tem uma novidade para ti. - Furiosa, esmurrou o botão de espera e apitou para Lori. - Transfere esta chamada para o Andrew - ordenou ela, afastando-se depois da sua mesa.

Primeiro respirou profundamente. Daria alguns momentos a Andrew e depois iria ter com ele. Já estaria calma nessa altura. Calma e solidária. Para conseguir isso, tinha de esquecer por uns instantes o seu próprio problema e concentrar-se no assalto.

Para se distrair, dirigiu-se ao fax e arrancou a folha impressa.

E o sangue gelou-se-lhe nas veias.

Estavas tão segura, não estavas? Parece que estavas errada. Como é que vais explicar isso?

O que é que te resta agora, Miranda? Agora que a tua reputação está desfeita? Nada. Não passavas disso: de uma reputação, um nome, um monte de diplomas.

Agora metes dó. Agora não tens nada.

E eu tenho tudo.

Qual é a sensação de ser exposta como fraude, de ser considerada incompetente? De ser um fracasso?

Miranda enfiou uma mão entre os seios enquanto lia a mensagem. A respiração acelerada e descontrolada fê-la sentir-se enfraquecer e ela recuou, apoiando-se na mesa para não cair.

- Quem és tu? - Disse com raiva. - Quem és tu?

Não interessa, pensou. Não deixaria que aquelas mensagens mal-intencionadas a afectassem. Não significavam nada.

Mas enfiou o fax dentro da gaveta, ao pé do outro, e trancou-a.

Ia acabar por descobrir. Havia sempre uma forma de descobrir. Pôs as mãos na cara e esfregou as faces para as irrigar de novo. E quando descobrisse, trataria do assunto, prometeu a si mesma.

Aquela não era a altura para se preocupar consigo e com brincadeiras de mau gosto. Inspirou fundo, expirou e esfregou as mãos até estas aquecerem.

Andrew precisava dela. O Instituto precisava dela. Fechou os olhos com força quando a pressão no peito se transformou em dor. Ela não era apenas um nome, um monte de diplomas.

Era mais do que isso. E tencionava prová-lo.

Saiu do seu gabinete com a intenção de se dirigir ao de Andrew.

Pelo menos dois membros da família apoiar-se-iam mutuamente.

O detective Cook estava junto à mesa de Lori. - Mais um momento do seu tempo, Dra. Jones.

- Claro. Entre, por favor, e sente-se. Lori não me passes nenhuma chamada. Deseja um café, detective?

- Não, obrigado. Estou a tentar reduzir. A cafeína e o tabaco são verdadeiros assassinos. - Instalou-se numa cadeira e retirou um bloco de notas do bolso. - Dra. Jones, o Dr. Andrew disse-me que a peça que foi roubada estava segura.

- O Instituto está totalmente seguro contra roubo e incêndio.

- Quinhentos mil dólares. Não é muito para uma peça tão pequena como aquela? Também não estava assinada nem nada, não é assim?

- O artista é desconhecido, mas pensamos tratar-se de um aluno de Leonardo da Vinci. - Miranda ansiava massajar a dor incomodativa que sentia na têmpora, mas manteve as mãos quietas. - Era um excelente estudo de David, aproximadamente de 1524.

Ela própria fizera os testes, pensou irritada. E ninguém pusera em questão a sua descoberta.

- Quinhentos mil é bastante razoável para o caso de a peça ter sido leiloada ou vendida a um coleccionador - acrescentou ela.

- Fazem aqui esse tipo de coisas? - Cook contraiu os lábios. - Vendem peças?

- Ocasionalmente. Também adquirimos. Faz parte do nosso objectivo.

Cook passou os olhos pelo gabinete. Arrumado, limpo, com equipamento de última linha e uma secretária que também valia provavelmente uma pequena fortuna. - É necessário muito dinheiro para gerir um lugar destes.

- Sim, é. Os lucros que obtemos com as aulas, trabalho de consultadoria e admissões cobrem grande parte da despesa. Existe também um fundo criado pelo meu avô. Além disso, há benfeitores que doam frequentemente dinheiro ou colecções. - Embora lhe passasse pela ideia que seria sensato chamarem o advogado, Miranda continuou. - Detective Cook, não precisamos de quinhentos mil dólares da seguradora para o funcionamento do Instituto.

- Deve ser uma gota no charco. Claro que para algumas pessoas é uma boa soma. Principalmente se jogam ou têm dívidas, ou querem apenas comprar um carro de luxo.

Apesar de sentir o pescoço e ombros retesados, olhou directamente para os olhos dele. - Eu não jogo, não tenho dívidas e já tenho carro.

- Se me permite, Dra. Jones, não me parece particularmente transtornada com esta perda.

- O facto de eu estar transtornada vai ajudá-lo a recuperar o bronze?

Cook fez um estalido com a língua. - Tem razão. Mas o seu irmão está bastante abalado.

Miranda baixou os olhos em direcção à chávena de chá. - Ele sente-se responsável. Leva as coisas a peito.

- E a senhora não?

- Se me sinto responsável, ou se levo as coisas a peito? - Retorquiu ela, elevando as mãos alguns centímetros da mesa. - Neste caso, nenhum dos dois.

- Só para as minhas anotações, importa-se de me relatar a sua noite?

- Está bem. - Os músculos estavam de novo todos contraídos, mas Miranda falou calmamente: - O Andrew e eu trabalhámos até cerca das sete horas. Mandei a minha assistente para casa por volta das seis. Recebi uma chamada do estrangeiro pouco depois.

- De?

- Florença, Itália. Um sócio meu. - A angústia ardia-lhe sob o peito como uma úlcera. - Calculo que tenhamos estado cerca de dez minutos ao telefone, talvez um pouco menos. O Andrew apareceu aqui pouco depois. Tivemos uma conversa e saímos juntos por volta das sete.

- Costumam chegar e sair juntos do trabalho?

- Não. Os nossos horários nem sempre coincidem. Ontem à noite eu não me estava a sentir bem, por isso ele levou-me a casa. Partilhamos a casa que a nossa avó nos deixou. Tivemos um pequeno jantar. Fui-me deitar perto das nove.

- E já não saiu de casa?

- Não. Como disse, não me estava a sentir muito bem.

- E o seu irmão esteve em casa a noite toda.

Ela não fazia ideia. - Sim, esteve. Acordei-o assim que recebi o telefonema do Sr. Scutter da segurança, pouco depois das seis da manhã de hoje. Chegámos juntos, ficámos a par da situação e dissemos ao Sr. Scutter para chamar a polícia.

- Aquele pequeno bronze... - Cook pousou o bloco no joelho. - Certamente terá obras muito mais valiosas naquela galeria. Estranho ele só ter levado aquela peça. Apenas uma peça depois de todo o trabalho para conseguir entrar.

- Sim - disse ela calmamente. - Eu pensei o mesmo. Como explicaria isso, detective?

Ele teve de sorrir. Era uma boa réplica. - Teria de dizer que ele queria essa peça. Não falta mais nada?

- A galeria está a ser minuciosamente examinada. Parece não faltar mais nada. Não sei que mais lhe posso adiantar.

- Por agora é suficiente. - Cook levantou-se e guardou o bloco de notas. - Vamos entrevistar o seu pessoal, e é provável que precise de falar novamente consigo.

- Estamos ao seu inteiro dispor. - Miranda levantou-se também. Queria que ele saísse. - Pode entrar em contacto comigo, aqui ou em casa - continuou ela enquanto se encaminhava para a porta. Quando a abriu, viu Ryan a andar de um lado para o outro na antessala.

- Miranda. - Foi direito a ela e pegou-lhe nas mãos. - Acabo de saber.

Por algum motivo, ela sentiu as lágrimas virem-lhe novamente aos olhos e tentou retraí-las. - Um mau dia - conseguiu dizer.

- Lamento. Quanto é que levaram? A polícia tem alguma pista?

- Eu... Ryan, este é o detective Cook. É ele que está responsável pelo caso. Detective, apresento-lhe Ryan Boldari, nosso sócio.

- Detective. - Ryan teria percebido que se tratava de um polícia a quilómetros de distância.

- Sr. Boldari, trabalha aqui?

- Não, tenho galerias em Nova Iorque e São Francisco. Estou aqui a negócios durante alguns dias. Miranda, que posso fazer para ajudar?

- Nada. Não sei. - A pergunta atingiu-a de novo, como uma onda, e fez tremer as suas mãos dentro das dele.

- É melhor sentares-te.

- Sr. Boldari? - Cook levantou um dedo quando Ryan se virou para levar Miranda de volta para o gabinete. - Como se chamam as suas galerias?

- Boldari - disse com o arquear de uma sobrancelha. - Galerias Boldari. - Retirou um cartão de visita do bolso e entregou-o a Cook. Está aqui o endereço de ambas. Desculpe, detective. A Dra. Jones precisa de um momento.

Deu-lhe algum prazer fechar a porta na cara de Cook. - Senta-te, Miranda. Diz-me o que aconteceu.

Ela fez como ele lhe pediu, confortada pelo aperto das suas mãos.

- Apenas uma peça - disse Ryan quando ela terminou. - Estranho.

- Tinha de ser um ladrão estúpido - disse ela com alguma graça. - Podia ter surripiado aquela vitrina sem precisar de muito mais tempo e sem maior esforço.

Ryan enfiou a língua na bochecha e lembrou-se de não se sentir ofendido. - Aparentemente ele foi selectivo, mas estúpido? É difícil acreditar que um homem estúpido, ou uma mulher, se for o caso, conseguisse passar pela segurança com tal facilidade e rapidez aparentes.

- Bem, ele pode ter conhecimentos de electrónica, mas não percebe nada de arte. - Incapaz de ficar sentada, Miranda levantou-se e ligou a máquina de café. - O David era uma peça encantadora, mas nem de longe a melhor que temos. Oh, mas isso não interessa - murmurou ela, passando uma mão pelos cabelos. - Pareço que estou aborrecida por ele não ter levado mais nada nem escolhido melhor. Mas estou furiosa por ele ter conseguido entrar.

- Como eu ficaria. - Ele aproximou-se para lhe beijar a testa. - Tenho a certeza de que a polícia irá encontrá-lo, e ao David. Cook pareceu-me ser eficiente.

- Espero que sim. Assim que me eliminar e ao Andrew da lista de suspeitos e se concentrar em encontrar o verdadeiro ladrão.

- Imagino que isso seja típico. - O pequeno verme da culpa começou a remexer-se quando a voltou de frente para si. - Não estás preocupada com essa parte, pois não?

- Não, nem por isso. Chateada, mas não preocupada. Agradeço que tenhas vindo até cá, Ryan, eu... Oh, o almoço - lembrou-se. - Não vou poder ir.

- Não te preocupes com isso. Marcamos outro da próxima vez que eu vier.

- Próxima vez?

- Tenho de partir esta noite. Tinha esperança de ficar mais um ou dois dias... por motivos pessoais. Mas preciso de regressar hoje.

- Oh. - Ela não pensara ser possível ficar mais infeliz.

Ele levou as mãos dela aos seus lábios. Olhos tristes eram tão irresistíveis, pensou. - Não fará mal sentires saudades minhas. Pode até ajudar-te a desviar o pensamento de tudo isto.

- Tenho um pressentimento de que irei estar ocupada durante os próximos dias. Mas tenho pena que não possas ficar mais tempo. Isto não... Este problema não vai fazer-te mudar de ideias acerca do nosso acordo, pois não?

- Miranda. - Ele desfrutava o momento, fazendo o papel de herói firme e solidário. - Não sejas tola. Os Vasaris estarão nas tuas mãos em menos de um mês.

- Obrigada. Depois da manhã que tive, agradeço a confiança.

- E vais sentir a minha falta. Miranda sorriu. - Acho que sim.

- Agora diz-me adeus.

Ela começou, mas ele tapou-lhe a boca com a sua e deleitou-se com um beijo profundo, ultrapassando a resistência inicial dela como ladrão que era.

Ryan sabia que passaria muito tempo antes que tornassem a ver-se - se alguma vez isso voltasse a acontecer. As suas vidas separavam-se ali, mas ele queria levar alguma coisa consigo.

Por isso, levou a doçura que começara a sentir sob a resistência, e a paixão que começara a despertar sob o controlo.

Afastou-a de si, examinou-lhe o rosto, acariciou-lhe os braços num movimento ascendente e novamente para baixo até o toque atingir as pontas dos dedos.

- Adeus, Miranda - disse ele, com maior tristeza do que era desejável. E deixou-a, certo de que ela conseguiria resolver o pequeno contratempo que causara na sua vida.

 

Quando Andrew terminou a conversa telefónica com a mãe, teria traído o país por três dedos de um Jack Daniels. A bebida obcecava-o. Ele aceitava esse facto. A direcção do Instituto era responsabilidade sua, e a segurança a primeira prioridade.

A mãe frisara isso mesmo - em frases curtas e claras.

Não havia sentido em contrapor isso já que essa segurança fora quebrada, e deveriam dar pulos de alegria por terem perdido apenas uma peça. Para Elizabeth o assalto era um insulto pessoal, e a perda do pequeno bronze de David tinha um sabor tão amargo como uma limpeza completa das galerias.

Ele também podia aceitar isso. Podia e iria arcar com o trabalho de lidar com a polícia, a companhia de seguros, os empregados, a imprensa. Mas o que não conseguia aceitar, o que o fazia desejar ter acesso a uma garrafa, era a completa ausência de apoio e solidariedade da parte dela.

Mas não tinha acesso a uma garrafa. Guardar uma no gabinete era um risco que ele não pisava e que permitia afastar qualquer insinuação de que sofria de alcoolismo.

Bebia em casa, nos bares, em eventos sociais. Não bebia durante o horário de trabalho. Dessa forma mantinha-se controlado.

Sonhar em dar um pulo até à loja de bebidas mais próxima para comprar alguma coisinha que o ajudasse a ultrapassar um dia longo e difícil não era o mesmo que fazê-lo.

Premiu o botão do intercomunicador. - Dona Purdue.

- Sim, Dr. Jones?

Por favor, corra até à Freedom Liquors, minha querida, e traga-me uma garrafa de Jack Daniels. É uma tradição familiar.

- Pode chegar aqui, por favor?

- É para já.

Andrew afastou-se da secretária e virou-se para a janela. As suas mãos estavam seguras, não estavam? O estômago podia ter andado às reviravoltas, as costas podiam ter ficado húmidas de suor, mas as mãos ainda estavam firmes. Estava controlado.

Ouviu-a entrar e fechar a porta devagar.

- O inspector dos seguros chega às onze - disse ele sem se voltar.

Certifique-se de que tenho tempo para isso.

Cancelei todos os compromissos do dia à excepção dos inadiáveis,Dr. Jones.

- Bom, obrigado. Ah... - Apertou a cana do nariz na expectativa de aliviar alguma pressão. - Precisamos de remarcar uma reunião com o pessoal, apenas com os chefes de departamento. Logo ao início da tarde, se possível.

- À uma, Dr. Jones.

- Óptimo. Envie um memorando à minha irmã. Gostava que ela trabalhasse com a publicidade numa declaração à imprensa. Informe todos os repórteres que liguem para cá que emitiremos uma declaração no final do dia e que de momento não temos comentários a fazer.

- Sim, senhor. Dr. Jones, o detective Cook gostaria de falar consigo outra vez o mais depressa possível. Está lá em baixo.

- Já desço. Precisamos de fazer uma carta para a Dra. Standford-Jones e para o Dr. Charles Jones a explicar o incidente e a dar conta da situação actual. Eles... - Calou-se ao ouvir bater à porta, e virou-se quando Miranda entrou.

- Desculpa, Andrew. Posso voltar mais tarde se estiveres ocupado.

- Não faz mal. Poupamos um memorando à Dona Purdue. Podes trabalhar com a publicidade numa declaração?

- Vou já tratar disso. - Ela conseguia perceber a tensão em redor dos olhos do irmão. - Falaste para Florença.

Ele sorriu timidamente. - Florença ligou para mim. Vou fazer uma carta, a contar a triste história, e enviá-la para ela e para o pai.

- Porque não faço eu isso? - As olheiras sob os olhos dele eram demasiado negras e as linhas em redor da boca demasiado vincadas, reparou ela. - Poupava-te um pouco de tempo e chatice.

- Ficar-te-ia muito grato. O inspector dos seguros chega daqui a pouco e o Cook quer falar comigo outra vez.

- Ah. - Miranda entrelaçou as mãos para as manter quietas. Dona Purdue, pode deixar-nos a sós por um instante?

- Claro. Vou marcar a reunião com o pessoal, Dr. Jones.

- Chefes de departamento - disse Andrew a Miranda quando a porta se fechou. - À uma da tarde.

- Está bem. Andrew, acerca do Cook Ele vai querer saber o que se passou a noite passada. Onde estiveste, o que fizeste e com quem estiveste. Eu disse-lhe que saímos juntos às sete para vir para cá e que ambos estivemos em casa a noite toda.

- Óptimo.

Miranda torceu os dedos. - Estiveste?

- O quê? Em casa? Sim. - Inclinou a cabeça e semicerrou os olhos.

- Porquê?

- Eu não sabia se tinhas saído ou não. - Desentrelaçou os dedos e esfregou as mãos na cara. - Achei melhor dizer que não tinhas.

- Não tens de me proteger, Miranda. Não fiz nada, o que, de acordo com a nossa mãe, é o problema.

- Eu sei que não. Não queria dizer isso. - Esticou a mão para lhe tocar no braço. - Pareceu-me apenas menos complicado dizer que tinhas ficado em casa a noite toda. Depois comecei a pensar, e se tivesses saído e tivesses sido visto...

- A enfrascar-me num bar? - A voz estava coberta de ressentimento. - Ou aos tombos pela rua?

- Oh, Andrew. - Infeliz, Miranda apoiou-se no braço de uma cadeira. - Não vamos atacar-nos. É que o Cook põe-me nervosa, e eu comecei a pensar que se ele me apanhasse a mentir, por mais inocente que fosse a mentira, ficaria tudo muito mais complicado.

Com um suspiro, Andrew recostou-se na cadeira. - Parece que estamos enterrados até aos joelhos.

- Eu estou até à cintura - resmungou ela. - Ela mandou-me tirar uma licença. Eu recusei.

- Estás a querer defender-te, ou apenas a atacá-la?

Miranda franziu o sobrolho e examinou as unhas. Qual é a sensação de ser um fracasso? Não, ela não admitiria isso. - Posso fazer ambas as coisas.

- Tem cuidado para não te magoares. Ontem à noite eu teria concordado com ela. Não pelos mesmos motivos, mas teria concordado. Hoje as coisas estão diferentes. Preciso de ti aqui.

- Não vou a lado nenhum.

Andrew deu-lhe umas pancadinhas no joelho antes de se levantar.

- Vou falar com o Cook. Envia-me uma cópia da declaração à imprensa, e a carta. Ah, ela deu-me o endereço do pai em Utah. - Rasgou um pedaço de folha do bloco que tinha em cima da secretária e entregou-o à irmã. Trata das cartas ainda hoje. Quanto mais depressa as receberem, melhor.

- Então vejo-te à uma. Ah, Andrew, o Ryan disse-me para te dizer adeus.

Ele parou com a mão na maçaneta. - Adeus?

- Ele teve de regressar esta noite para Nova Iorque.

- Ele esteve aqui? Raios. E já sabe o que aconteceu? Os Vasaris?

- Está completamente solidário. Garantiu-me que este problema não afectaria o negócio. Estou a pensar ir até Nova Iorque dentro de duas semanas. - Na verdade, ela acabava de ter a ideia. - Para... acelerar o empréstimo.

Ele acenou distraidamente com a cabeça. - Isso seria óptimo. Falamos sobre isso mais tarde. Uma nova exposição é tudo o que precisamos para compensar esta confusão.

Começou a descer as escadas, olhando para o relógio. Ficou espantado ao constatar que ainda não eram dez. Parecia-lhe que já estava a tratar daquele assunto há dias.

Havia polícias, tanto de uniforme como à paisana, espalhados pelo piso principal. A vitrina estava coberta do que lhe parecia tratar-se de pó para detectar impressões digitais. O pequeno círculo de vidro tinha desaparecido. Devia estar enfiado nalgum saco de provas, pensou.

Andrew falou com um dos polícias uniformizados e foi informado de que encontraria o detective Cook na entrada sul.

Deslocou-se até lá, tentando imaginar o ladrão a percorrer o mesmo caminho. Vestido de preto, imaginava ele, um homem de feições duras. Talvez uma cicatriz na face. Teria levado uma arma? Uma faca? Uma faca, decidiu. Com certeza teria preferido matar de forma rápida e silenciosa se fosse necessário.

Pensou em quantas noites Miranda trabalhava até tarde no laboratório ou no gabinete, e praguejou violentamente.

Estava a brotar nele uma nova raiva quando entrou na antessala e encontrou Cook a observar minuciosamente as ofertas da máquina de snacks.

- É assim que vai encontrar o filho da mãe? - Perguntou Andrew.

- A trincar batatas fritas?

- Na verdade, vou escolher um pretzel. - Cook premiu calmamente os botões adequados. - Estou a cortar nas gorduras. - A embalagem caiu sobre o tabuleiro de metal. Cook enfiou a mão na ranhura e retirou-a.

- Óptimo. Um polícia preocupado com a saúde.

- Quem tem saúde, tem tudo - disse Cook enquanto abria a embalagem.

- Quero saber o que é que está a fazer para encontrar o canalha que assaltou o meu edifício.

- É trabalho meu, Dr. Jones. Porque não nos sentamos um pouco? - Indicou uma das pequenas mesas de café. - Parece que está a precisar de um cafezinho.

Os olhos de Andrew faiscaram, um súbito azul brilhante de fúria que transformou o seu rosto estético em algo rude e potencialmente mau. A rápida mudança fez Cook reconsiderar o indivíduo.

- Não me quero sentar, e não quero café nenhum - ripostou Andrew. Desejava desesperadamente um. - A minha irmã trabalha até tarde, detective. Trabalha frequentemente até tarde, sozinha, neste edifício. Se não se tivesse sentido mal ontem à noite, poderia ter estado aqui quando o ladrão entrou. Eu poderia ter perdido algo muito mais valioso para mim do que um bronze.

- Compreendo a sua preocupação.

- Não, não compreende.

- Eu também tenho família. - Apesar da recusa de Andrew, Cook contou algumas moedas e voltou-se para a máquina de café. - Como é que prefere?

- Simples - murmurou Andrew por entre dentes. - Sem açúcar.

- Eu também costumava bebê-lo assim. Ainda sinto a falta. - Cook inspirou profundamente quando o café começou a verter para dentro do copo de plástico. - Deixe-me tranquilizá-lo um pouco, Dr. Jones. Tipicamente, um assaltante de edifícios, especialmente um esperto, não faz tenção de magoar ninguém. Na realidade, prefere adiar o serviço em vez de se envolver nesse tipo de confusão. Nem tão-pouco transporta uma arma, porque, se for apanhado, isso acrescenta anos à pena de prisão.

Pousou o café na mesa, sentou-se e esperou. Passado um momento, Andrew cedeu e juntou-se a ele. À medida que a fúria desaparecia dos seus olhos, os traços suavizavam e os ombros relaxavam. - Talvez este tipo não fosse típico.

- Eu diria que não, mas se for tão esperto como penso, teria seguido esta regra. Sem armas, sem contacto com pessoas. Se a sua irmã tivesse estado aqui, ele tê-la-ia evitado.

- O senhor não conhece a minha irmã. - O café fê-lo sentir-se ligeiramente mais humano.

- Uma mulher forte, a sua irmã?

- Tem tido que ser. Mas foi assaltada recentemente, mesmo em frente à nossa casa. O tipo tinha uma faca, e ela tem pavor a facas. Ela não pôde fazer nada.

Cook contraiu os lábios. - Quando é que foi isso?

- Acho que há cerca de quinze dias. - Passou uma mão pelo cabelo. - Ele atirou-a ao chão, levou-lhe a mala e a pasta. - Parou, inspirou mais uma vez e tomou mais um gole de café. - Ela ficou muito abalada; ficámos os dois. E pensar que ela podia estar aqui quando aquele tipo entrou...

- Estes ladrões não costumam derrubar mulheres e levar-lhes a mala.

- Talvez não. Mas nunca o apanharam. Ele aterrorizou-a, levou-lhe as coisas e foi-se embora. Miranda já passou por muita coisa; isto e os problemas em Florença. - Andrew deu por si a relaxar e a falar sobre Miranda. - Mas não era sobre isto que queria falar comigo.

- Na verdade, o que me disse ajuda bastante, Dr. Jones. - Um assalto com agressão e um roubo em menos de um mês. A mesma vítima? Era interessante, concluiu Cook. - Diz-me que a sua irmã não se sentiu bem ontem à noite. O que é que ela teve?

- Um problema em Florença - disse ele laconicamente. - Uns problemas com a nossa mãe. Ela ficou perturbada.

- A sua mãe está na Itália?

- Ela vive lá. Trabalha lá. Dirige a Standjo. É um laboratório que analisa arte e artefactos. Faz parte dos negócios da família. Uma ramificação do Instituto.

- Então há algum atrito entre a sua mãe e a sua irmã?

Andrew bebeu mais um gole de café para se acalmar e observou Cook sobre o rebordo do copo. O seu olhar endureceu novamente. - As relações entre os meus familiares não são da conta da polícia.

- Só estava a tentar ter uma imagem geral. Afinal, esta é uma organização familiar. Não há sinal de entrada forçada.

A mão de Andrew tremeu, quase entornando o café. - Desculpe?

- Não há nenhum sinal visível de entrada forçada em nenhuma destas portas. - Cook apontou um dedo para as portas interiores e exteriores.

- Estavam ambas fechadas. Lá fora é preciso um cartão de acesso e um código, certo?

- Sim. Só os chefes de departamento é que podem utilizar esta entrada. Esta área é usada como zona de descanso do pessoal. Há outra zona de lazer para o pessoal em geral no terceiro piso.

- Preciso de uma lista dos chefes de departamento.

- Claro. Acha que pode ser alguém que trabalha aqui?

- Eu não acho nada. O maior erro é chegar a um cenário com uma ideia preconcebida. - Sorriu ligeiramente. - É apenas a norma.

O assalto ao Instituto foi a notícia principal do noticiário local das onze horas. Em Nova Iorque, teve direito a trinta segundos na segunda metade das notícias. Estendido no sofá no seu apartamento em Central Park South, Ryan bebericava um brandy, desfrutava do aroma forte de um charuto cubano e prestava atenção aos detalhes.

Não havia muitos. Mas Nova Iorque tinha muitos crimes e escândalos próprios para preencher o tempo. Se o Instituto não fosse um ponto de referência e os Jones uma família tão distinta em Nova Inglaterra, a notícia do assalto não teria ultrapassado as fronteiras do Maine.

A polícia estava a investigar. Ryan sorriu de charuto na boca ao lembrar-se de Cook. Conhecia o estilo. Persistente, meticuloso, com uma boa reputação quanto a casos encerrados. Era satisfatório ter um bom polícia a investigar o seu último assalto. Rematava lindamente a sua carreira.

A seguir diversas pistas. Bem, isso era tanga. Não havia pistas, mas precisavam de dizer que existiam para ficarem bem vistos.

Sentou-se ao ver Miranda sair do edifício. Ela tinha o cabelo apanhado num carrapito. Fizera isso para as câmaras, pensou ele, recordando como estivera solto e emaranhado quando a beijara na despedida. A sua expressão estava calma, composta. Fria, concluiu ele. A mulher tinha uma certa frieza, o que o inspirava a tentar dar-lhe a volta. Coisa que teria feito se tivesse tido um pouco mais de tempo, pensou.

Ainda assim, ficou satisfeito por ver que ela estava a lidar bem com a situação. Era das rijas. Apesar daquela timidez e tristeza, era forte. Ele calculava que mais um dia ou dois e a vida dela voltaria à rotina. O pequeno transtorno que lhe causara iria desaparecer, o seguro iria tratar do assunto e a polícia arquivaria o caso e esquecê-lo-ia.

E ele tinha um cliente satisfeito, uma folha de serviços impecável e algum tempo de descanso pela frente, pensou enquanto bufava alegres círculos de fumo para o tecto.

Talvez, apenas talvez, desrespeitasse as regras neste caso e levasse Miranda consigo para as Índias Ocidentais durante algumas semanas. Sol, areia e sexo. Far-lhe-ia bem, pensou.

E, decerto, a ele não custaria nada.

O apartamento de Annie McLean teria cabido na sala de estar de Ryan, mas ao menos tinha vista para o parque. Se se debruçasse suficientemente para fora da janela do quarto, torcesse o pescoço até este começar a doer e esforçasse a vista. Mas isso bastava-lhe.

A mobília podia ser em segunda-mão, mas tinha cores vivas. O tapete podia vir de uma liquidação de garagem, mas tinha ficado bem limpinho. E ela gostava das rosas espalhadas no rebordo.

Ela própria montara as estantes, pintara-as de verde escuro e atulhara-as de livros que costumava comprar na altura em que a biblioteca fazia a liquidação anual.

A maior parte deles eram obras clássicas. Livros que deixara de ler na escola e que ansiava explorar agora. E fazia-o sempre que tinha uma ou duas horas livres, encolhida debaixo da manta de riscas azuis e verdes que a mãe havia tricotado, mergulhando em Hemingway, Steinbeck ou Fitzgerald.

O leitor de CD fora um presente de Natal que oferecera a si mesma dois anos antes. Reunira propositadamente uma ampla variedade de música: eclética, como gostava de a designar.

Estivera demasiado ocupada para desenvolver o gosto por livros e música na fase da adolescência. Uma gravidez, um aborto e uma desilusão amorosa, tudo antes do décimo oitavo aniversário, mudaram o seu destino. Decidira conquistar algo por si própria.

Mas então deixara-se seduzir por Buster; um fala-barato e mau carácter.

Achava que as hormonas e a necessidade de um lar e de constituir família a tinham cegado para a impossibilidade do casamento com um mecânico quase sempre desempregado e com uma predilecção por cerveja e louras.

Ela desejara um filho, pensava agora. Talvez, se Deus quisesse, para compensar aquele que perdera.

Vive e aprende, dizia, frequentemente a si mesma. Fizera ambas. Agora era uma mulher independente com um negócio sólido e que fazia um esforço para aumentar o seu conhecimento.

Gostava de ouvir os clientes, as suas opiniões e pontos de vista, e compará-los aos seus. Estava a alargar as suas perspectivas, e calculava que nos sete anos de existência do Bar da Annie aprendera mais sobre política, religião, sexo e economia do que qualquer licenciado.

Se havia algumas noites em que, quando ia para a cama sozinha, ansiava por ter alguém que a escutasse, a abraçasse e que risse com ela quando lhe contasse o seu dia, esse era um pequeno preço a pagar pela sua independência.

Segundo a sua experiência, os homens não queriam ouvir o que tinha para dizer, só queriam fazer poucas-vergonhas e coçar o rabo. Estava muito melhor sozinha.

Um dia talvez pudesse comprar uma casa com quintal, pensava ela. Não se importava de ter um cão. Diminuiria as horas de trabalho, contrataria um gerente de bar e talvez tirasse umas férias. Iria primeiro até à Irlanda, naturalmente. Queria ver as colinas - e os pubs, claro.

Mas sofrera a humilhação de não ter dinheiro suficiente, de ter portas fechadas na cara quando pedira empréstimos, de lhe terem dito que era um negócio demasiado arriscado.

Não tencionava passar por isso nunca mais.

Assim, os lucros que obtinha serviam para alimentar o negócio e a parte que retirava era aplicada em acções e em títulos de crédito. Não precisava de ser rica, mas nunca mais seria pobre.

Os pais haviam raiado o escorregadio limiar da pobreza durante toda a vida de Annie. Tinham feito tudo o que podiam por ela, mas o pai agarrara-se ao dinheiro como uma mão agarra a água. Este havia-lhe escapado continuamente por entre os dedos.

Quando, três anos antes, se tinham mudado para a Florida, Annie despedira-se de ambos, chorara um pouco e entregara quinhentos dólares à mãe. Fora um dinheiro duro de ganhar, mas ela sabia que a mãe conseguiria fazê-lo sobreviver aos esquemas de «enriquecer rapidamente» do pai.

Telefonava-lhes todas as semanas, aos domingos à tarde quando as tarifas eram mais baixas, e enviava um cheque à mãe de três em três meses. Prometia visitá-los mais vezes, mas só conseguira fazer duas curtas viagens em três anos.

Annie pensava neles enquanto assistia ao final do último noticiário e fechava o livro que andava a tentar ler. Os seus pais adoravam Andrew. Claro que nunca tinham tido conhecimento da noite na praia, ou do bebé que ela gerara e depois perdera.

Abanou a cabeça para afastar esses pensamentos. Desligou o televisor, pegou na caneca de chá que deixara arrefecer e levou-a para o armário que o seu senhorio teimava em chamar de cozinha.

Estava prestes a desligar a luz quando alguém bateu à porta. Annie olhou para o batedor de Louisville que tinha atrás da porta e que era idêntico ao que tinha atrás do balcão do bar. Embora nunca tivesse tido oportunidade de usar nenhum dos dois, faziam-na sentir-se segura.

- Quem é?

- É o Andrew. Deixa-me entrar, está bem? Está um gelo aqui fora. Embora não estivesse particularmente agradada de o encontrar à sua porta, Annie tirou a corrente, destrancou a porta e abriu-a. - Já é tarde, Andrew.

- Dizes-me isso a mim - disse ele, embora ela usasse um robe escocês e meias pretas grossas. - Vi luz debaixo da porta. Vá lá, Annie, sê simpática e deixa-me entrar.

- Não te vou dar bebida.

- Está bem. - Assim que entrou, enfiou a mão por debaixo do casaco e retirou uma garrafa. - Trouxe a minha. Foi um dia longo e miserável, Annie. - Lançou-lhe um olhar de cachorro abandonado que lhe apertou o coração. - Não me apetecia estar em casa.

- Ok. - Aborrecida, Annie dirigiu-se apressadamente à cozinha para ir buscar um copo pequeno. - És adulto. Bebe se quiseres.

- Eu quero. - Andrew serviu-se e levantou o copo numa espécie de brinde. - Obrigado. Já deves ter ouvido as notícias.

- Sim. Lamento. - Annie sentou-se no sofá e enfiou o exemplar de Moby Dick entre as almofadas, embora não pudesse explicar porque ficaria envergonhada se ele o tivesse visto.

- A polícia acha que foi alguém de dentro. - Andrew bebeu e riu um pouco. - Nunca pensei que iria utilizar esta expressão numa frase. Estão a investigar a Miranda e eu próprio primeiro.

- Por que razão pensaria ele que roubarias a ti mesmo?

- As pessoas fazem isso muitas vezes. A companhia de seguros está a investigar. Estamos a ser minuciosamente investigados.

- É apenas rotina. - Já preocupada, segurou na mão dele e puxou-o para se sentar ao seu lado.

- Sim. A rotina é uma droga. Eu adorava aquele bronze.

- Qual? O que foi roubado?

- Tinha algum significado para mim. O jovem David a enfrentar o gigante, disposto a lançar uma pedra contra uma espada. Coragem. Daquela que eu nunca tive.

- Porque é que te martirizas dessa forma? - A voz dela denotava irritação.

- Eu nunca enfrento os gigantes - disse ele, pegando novamente na garrafa. - Deixo-me apenas levar pela maré e sigo ordens. Os meus pais dizem que está na hora de eu assumir o comando do Instituto, e eu pergunto quando é que querem que eu comece.

- Tu adoras o Instituto.

- Uma feliz coincidência. Se me tivessem dito para ir para o Bornéu estudar os hábitos dos nativos... aposto que teria agora um bronzeado de fazer inveja. Elise diz que está na altura de casarmos, e eu digo para ela marcar a data. Ela diz que se quer divorciar, e eu pergunto-lhe se ela quer que eu pague o advogado.

Eu digo-te que estou grávida, pensou Annie, e tu perguntas-me se eu quero casar.

Andrew examinou o álcool dentro do copo, observando como a luz do candeeiro de chão atravessava o âmbar. - Eu nunca contrariei o sistema porque nunca me pareceu valer a pena o esforço. E isso não é muito favorável a Andrew Jones.

- Então bebes porque é mais fácil do que veres se vale a pena?

- Talvez. - Mas pousou o copo para ver se conseguia, para ver qual era a sensação de dizer que mais lhe ia na cabeça sem a muleta. - Eu não agi da melhor forma contigo, Annie. Não te apoiei como devia naquela época porque estava apavorado com o que eles pudessem fazer.

- Não quero falar sobre isso.

- Nunca falámos, principalmente porque nunca me pareceu que o quisesses fazer. Mas falaste nisto no outro dia.

- Não devia ter falado. - Sentiu um pânico crescer dentro dela ao lembrar-se do assunto. - São águas passadas.

- É um assunto nosso, Anniie. - Ele falou com cuidado porque sentiu a angústia dela.

- Deixa estar. - Annie afastou-se e cruzou os braços numa atitude defensiva.

- Está bem. - Para quê arranhar velhas feridas quando tinha umas tão recentes? Pensou ela. - Continuemos a falar da vida de Andrew Jones. Nesta altura estou pacientemente à espera que a polícia me diga que eu não tenho de ir para a prisão.

Quando ele se esticou para pegar novamente na garrafa, ela agarrou-a, levantou-se, foi até à cozinha e despejou o conteúdo pela pia abaixo.

- Raios, Annie!

- Não precisas de uísque para ficares infeliz, Andrew. Consegues perfeitamente isso sozinho. Os teus pais não te amaram suficientemente. Isso é duro. - A raiva que não sabia conter libertou-se naquele momento. - Os meus amaram-me muito, mas ainda me sento sozinha à noite com recordações e mágoas que me despedaçam o coração. A tua mulher também não te amou o suficiente. Golpe duro. O meu marido embebedava-se e tinha relações comigo quer eu quisesse quer não.

- Annie. Meu Deus. - Ele nunca imaginara tal coisa. - Lamento muito.

- Não me digas que lamentas - ripostou ela. - Consegui ultrapassar isso. Ultrapassei-te a ti e a ele, percebendo que cometera um erro e tentando consertá-lo.

- Não digas isso! - A fúria dele irrompeu subitamente do nada. Uma luz perigosa cintilou nos seus olhos, endurecendo-os enquanto ele se levantava. - Não compares o que tivemos com o que tiveste com ele!

- Então não uses o que tivemos da mesma forma que usas o que tiveste com a Elise!

- Não foi. Não é a mesma coisa.

- Claro, porque ela era linda e inteligente. - Espetou um dedo no peito dele com força suficiente para o fazer recuar um passo. - E talvez não a amasses o suficiente. Se amasses, ainda a terias. Porque nunca me pareceu que perdesses aquilo que realmente queres. Podes não pegar numa pedra para lutares por isso, mas consegue-lo.

- Ela é que quis acabar! - Gritou ele. - Não podemos obrigar alguém a amar-nos!

Ela encostou-se à bancada minúscula, fechou os olhos e, para surpresa dele, começou a rir. - Podes ter a certeza que não. - Limpou as lágrimas que o acesso de riso lhe provocara. - O senhor pode ter um diploma, Dr. Jones, mas é um estúpido. És um estúpido, e eu estou cansada. Vou-me deitar. Podes sair.

Passou por ele como uma flecha, meio esperançosa de o ter irritado suficiente para que ele a segurasse. Mas ele não segurou e ela entrou sozinha no quarto. Quando o ouviu sair e fechar a porta, encolheu-se na cama e começou a chorar.

 

A tecnologia nunca deixava de deslumbrar e surpreender Cook. Quando iniciara a sua carreira como polícia de giro vinte e três anos antes, percebera que o trabalho de um detective envolvia horas de telefonemas, muita papelada e deslocações. Não tão emocionante como Hollywood gostava, nem como ele - jovem e ambicioso - tinha ambicionado obter quando se alistara.

Planeara passar aquela tarde de domingo a pescar em Miracle Bay, já que o tempo acalmara e as temperaturas haviam ascendido aos quinze graus. Mas fizera um desvio pela esquadra por impulso. Acreditava em seguir impulsos, que considerava estarem pouco abaixo dos palpites.

Em cima da sua secretária, no meio de uma pilha de correspondência, estava o relatório da jovem e bonita agente Mary Chaney.

Cook aproximou-se do computador com o cuidado e respeito de um polícia de rua que se aproxima de um drogado num beco escuro. Tinha que lidar com aquilo, tinha de fazer o seu trabalho, mas sabia muito bem que podia tudo dar para o torto se falhasse um passo.

O caso Jones era uma prioridade porque os Jones eram ricos e o governador conhecia-os pessoalmente. Como tinha o caso de memória, pediria a Mary para fazer uma busca por computador para averiguar crimes idênticos.

Informação como a que tinha nas mãos teria demorado semanas nos primeiros tempos de serviço, se alguma vez tivesse sido capaz de a reunir. Agora tinha um padrão à sua frente que lhe afastava do pensamento os planos de pescaria enquanto se sentava para o examinar.

Tinha seis casos idênticos ao do assalto ao Instituto ao longo de um período de dez anos, e o dobro de outros suficientemente parecidos para justificar uma menção.

Nova Iorque, Chicago, São Francisco, Boston, Kansas City, Atlanta. Um museu ou galeria em cada uma dessas cidades comunicara um assalto e perda de uma peça nos últimos dez anos. O valor de cada peça variava entre cem mil e um milhão de dólares. Não tinha havido danos nos edifícios, nenhuma confusão, e não fora feita nenhuma detenção.

Habilidoso, pensou. O tipo era habilidoso.

Nos doze casos seguintes havia algumas variações. Tinham sido levadas duas ou mais peças, e num dos casos, o café de um guarda fora drogado e o sistema de segurança tinha sido simplesmente desligado durante trinta minutos. Noutro, tinha sido feita uma detenção. Um guarda tentara surripiar um camafeu do século quinze. Fora preso e confessara o crime, mas afirmava que roubara o camafeu depois de o museu ter sido assaltado. A paisagem de Renoir e o retrato de Manet que também tinham sido roubados nunca mais tinham sido recuperados.

Interessante, pensou Cook novamente. O perfil da presa que se estava a formar na sua mente não incluía trabalhos descuidados e casas de penhores. Ele podia ter um guarda como fonte interna. Era algo para averiguar.

E não faria mal ver onde os Jones haviam estado nas datas dos outros roubos. Afinal de contas, era apenas outro tipo de pescaria.

A primeira coisa em que Miranda pensou quando abriu os olhos domingo de manhã foi na Dama Negra. Tinha de a ver novamente. De que outra forma saberia como estivera tão absolutamente errada?

Pois, com o passar dos dias, ela chegara à dolorosa conclusão de que cometera um erro. Que outra explicação poderia haver? Ela conhecia muito bem a mãe. Para salvar a reputação da Standjo, Elizabeth teria posto em causa todos os pormenores dos segundos testes. Teria insistido e recebido provas irrefutáveis da sua acuidade.

Nunca se teria contentado com menos.

A coisa prática a fazer era aceitar e salvaguardar o seu orgulho não falando mais sobre o assunto até a situação arrefecer. Agitar as águas não conduziria a nada de positivo porque o mal já estava feito.

Decidindo que podia aproveitar melhor o tempo em vez de ficar a meditar, vestiu um fato de treino. Algumas horas no ginásio poderiam ajudá-la a livrar-se de alguma da depressão.

Duas horas depois, regressou a casa e encontrou Andrew aos tropeções com uma ressaca. Estava prestes a subir ao primeiro andar quando a campainha da porta tocou.

- Dê-me o seu casaco, detective Cook - ouviu Andrew dizer. Cook? Numa tarde de domingo? Miranda ajeitou o cabelo com as mãos e sentou-se.

Quando Andrew entrou com Cook, Miranda fez um sorriso educado. - Tem novidades para nós?

- Nada de concreto, Dra. Jones. Apenas algumas pontas soltas.

- Sente-se, por favor.

- Grande casa. - Os olhos de polícia sob as espessas sobrancelhas grisalhas varreram a sala enquanto Cook se dirigia a uma cadeira. - É realmente imponente aqui em cima da falésia. - O dinheiro antigo tinha o seu odor próprio, o seu aspecto próprio, pensou. Ali era cera de abelha e óleo de limão. Era a mobília antiga, o papel de parede desbotado e as janelas do chão ao tecto emolduradas numa cascata bordeaux do que seria provavelmente seda.

Classe e privilégio, e desordem na medida certa para a transformar num lar.

- Em que podemos ajudá-lo, detective?

- Estou a seguir umas informações. Gostaria de saber se me poderiam dizer onde estiveram ambos em Novembro passado. Primeira semana.

- Novembro passado. - Era uma pergunta tão estranha. Andrew coçou a cabeça. - Eu estava aqui em Cabo Jones. Não viajei no último Outono. Viajei? - Perguntou a Miranda.

- Não que me lembre. Porque é que isso é importante, detective?

- Estou apenas a esclarecer alguns detalhes. E onde é que a senhora esteve, Dra. Jones?

- Estive alguns dias em Washington D. C. no início de Novembro. Trabalho de consultadoria no Smithsonian. Teria de consultar a minha agenda para ter a certeza.

- Importa-se? - Sorriu apologeticamente. - Só para eu poder arrumar este assunto.

- Está bem. - Ela não conseguia entender, mas também não via mal nenhum. - Está lá em cima no meu gabinete.

- Sim, senhor - continuou Cook quando ela saiu da sala. - É uma grande casa. Deve ser difícil de aquecer.

- Gastamos muita lenha - murmurou Andrew por entre dentes.

- Viaja muito, Dr. Jones?

- O Instituto mantém-me muito perto de casa. É a Miranda quem viaja frequentemente. Ela faz muito trabalho de consultadoria e dá algumas palestras. - Tamborilou com os dedos no joelho e reparou que o olhar de Cook pousara na garrafa de Jack Daniels que estava na mesinha ao lado do sofá. Encolheu defensivamente os ombros. - O que é que Novembro passado tem a ver com o nosso assalto?

- Não tenho a certeza de que tenha, estou apenas a seguir uma possível pista. O senhor pesca?

- Não. Enjoo no mar.

- É pena.

- De acordo com as minhas anotações, estive em Washington entre três e sete de Novembro - disse Miranda quando regressou à sala.

E o assalto em São Francisco ocorrera nas primeiras horas do dia cinco recordou Cook. - Suponho que tenha ido de avião.

- Sim, até ao Reagan National. - Miranda verificou a agenda. Voo USAir quatro um zero oito, que partiu de Cabo Jones às dez e cinquenta e chegou ao National às doze e cinquenta e nove. Fiquei instalada no The Four Seasons. Estes detalhes são suficientes para si?

- Claro. Sendo uma cientista, decerto guardaria bons registos.

- Claro que sim. - Miranda dirigiu-se à cadeira de Andrew e sentou-se no braço ao lado dele. - O que é que o senhor pretende com isto?

- Estou apenas a organizar as coisas na minha cabeça. Terá aí anotado onde esteve em Junho passado? Na terceira semana?

- Claro. - Com a mão de Andrew no seu joelho, Miranda abriu a agenda e folheou-a. - Estive no Instituto durante todo o mês de Junho. Trabalho de laboratório, algumas aulas de Verão. Tu também leccionaste algumas, não foi, Andrew? Quando as alergias do Jack Goldbloom o obrigaram a afastar-se uns dias?

- Sim. - Andrew fechou os olhos para conseguir lembrar-se melhor.

- Isso foi nos finais de Junho. Arte Oriental do Século Doze. - Abriu os olhos outra vez e sorriu para ela. - Tu não lhe pegavas e eu tive de marrar. Podemos indicar-lhe as datas exactas, detective - continuou ele. - Também guardamos excelentes registos no Instituto.

- Óptimo. Agradecia.

- Temos todo o gosto em colaborar. - O tom de voz de Miranda era sério. - E esperamos que o senhor faça o mesmo. Foi um bem nosso que foi roubado, detective. Acho que temos o direito de saber que caminhos está a investigar.

- Sem qualquer problema. - Pousou as mãos nos joelhos. - Estou a averiguar uma série de assaltos que têm o mesmo perfil do vosso. Talvez tenham ouvido alguma coisa, já que estão no mesmo ramo, sobre um roubo em Boston em Junho passado.

- No museu da Universidade de Harvard. - Miranda sentiu um arrepio subir-lhe pelas costas. - O kuang. Uma peça chinesa dos finais do século treze ou inícios do século doze a.C. Mais um bronze.

- Tem uma boa memória para os detalhes.

- Sim, é verdade. Foi uma perda enorme. É um dos mais belos bronzes chineses alguma vez recuperados, e muito mais valioso do que o nosso David.

- Em Novembro foi em São Francisco, um quadro.

Não um bronze, pensou ela, e por algum motivo quase estremeceu de alívio. - Foi no M. H. do Young Memorial Museum.

- Correcto.

- Arte americana - interveio Andrew. - Período colonial. Onde é que está a ligação?

- Eu não disse que existia uma ligação, mas penso que pode existir. - Cook levantou-se. - Podemos ter um ladrão com o que se poderá chamar um gosto ecléctico por arte. Quanto a mim, gosto dos quadros da Georgia O'Keeffe. São vivos, e percebe-se o que são. Agradeço o tempo que me dispensaram. - Começou a dirigir-se à porta. - Será que me podia emprestar a sua agenda, Dra. Jones? E se os dois tivessem registos do ano passado... Só para me ajudar a encaixar as coisas.

Miranda hesitou e pensou de novo em advogados. Mas o orgulho fê-la levantar-se e estender a agenda. - Com todo o prazer. E tenho registos dos últimos três anos no meu gabinete no Instituto.

- Agradecido. Vou só passar-lhe um recibo. - Guardou a agenda de Miranda e pegou no bloco para escrever apressadamente a informação e a sua assinatura.

Andrew levantou-se também. - Vou mandar entregar-lhe a minha.

- Isso seria uma grande ajuda.

- É difícil não me sentir insultada com isto, detective.

Cook ergueu as sobrancelhas a Miranda. - Lamento, Dra. Jones. Só estou a tentar fazer o meu trabalho.

- Imagino que sim, e assim que me afastar e ao meu irmão da lista de suspeitos conseguirá fazê-lo com maior rapidez e eficiência. E é por isso que estamos dispostos a tolerar este tipo de tratamento. Vou acompanhá-lo à porta.

Cook acenou com a cabeça a Andrew e seguiu-a até ao hall de entrada. - Não era minha intenção irritá-la, Dra. Jones.

- Era sim, detective. - Miranda abriu a porta com violência. - Boa-tarde.

- Com licença. - Vinte e cinco anos na polícia não o haviam tornado imune à língua afiada de uma mulher furiosa. Baixou a cabeça e fez uma careta quando a porta se fechou estrondosamente nas suas costas.

- O tipo acha que somos ladrões. - Irritada, Miranda voltou rapidamente para a sala. Aborreceu-a, mas não a surpreendeu, ver Andrew servir-se de uma bebida. - Ele acha que andamos pelo país a assaltar museus.

- Teria uma certa graça, não teria?

- O quê?

- Só estava a tentar aliviar um pouco a tensão. - Levantou o copo.

- De uma forma ou de outra.

- Isto não é uma brincadeira, Andrew, e eu não gosto de estar sob investigação policial.

- Não há nada para ele descobrir a não ser a verdade.

- Não é o resultado que me preocupa, são os meios. Estamos a ser investigados. A imprensa está prestes a deitar mão a isto.

- Miranda. - Andrew falou suavemente e acrescentou um sorriso afectuoso. - Pareces a mãe a falar.

- Não há motivo para me insultares.

- Desculpa... tens razão.

- Vou fazer um assado - anunciou Miranda enquanto se encaminhava para a cozinha.

- Um assado. - A boa disposição de Andrew aumentou consideravelmente. - Com batatinhas e cenouras?

- Tu descascas as batatas. Faz-me companhia, Andrew - pediu ela, tanto por si como para o afastar da garrafa. - Não quero estar sozinha.

- Claro. - Pousou o copo. Também já estava vazio. E pôs um braço sobre os ombros da irmã.

A refeição ajudou, assim como a sua preparação. Ela gostava de cozinhar e considerava essa actividade uma outra ciência. Fora a Sra. Patch que a ensinara, feliz por a menina demonstrar interesse pela cozinha. Haviam sido o calor da cozinha e a companhia a atrair Miranda. O resto da casa era tão fria, tão disciplinada. Mas a Sra. Patch comandara as hostes na cozinha. Nem Elizabeth se atrevera a intrometer-se.

O mais provável é que ela nem sequer tivesse tido interesse nisso, pensava Miranda enquanto se preparava para ir para a cama. Nunca tivera conhecimento de uma refeição preparada pela mãe, e esse facto incentivara-a ainda mais a aprender.

Ela não seria um retrato de Elizabeth.

O assado cumprira o seu propósito, pensou ela. Carne de boa qualidade e batatas, biscoitos que ela improvisara, conversa com Andrew. Talvez ele tivesse tomado mais vinho ao jantar do que ela desejaria, mas pelo menos não estivera sozinho.

Tinha sido quase uma alegria. Haviam concordado tacitamente não falarem sobre o Instituto nem do problema em Florença. Era muito mais relaxante discutir as opiniões diversas sobre música e livros.

Sempre haviam discutido sobre esses temas, recordou enquanto vestia o pijama. Sempre haviam partilhado opiniões, pensamentos e esperanças. Ela duvidava ter sido capaz de sobreviver intacta à infância sem ele.

Sempre haviam sido a âncora um do outro no meio de um mar gelado.

Ela desejava apenas conseguir fazer mais para o acalmar naquele momento e o convencer a procurar ajuda. Mas sempre que tocava no assunto da bebida, ele fechava-se. E bebia mais. Tudo o que podia fazer era assistir e apoiá-lo até ele cair no precipício à beira do qual estava tão tenuemente equilibrado. Depois faria o que pudesse para o ajudar a reerguer-se.

Entrou na cama, ajeitou as almofadas para lhe ampararem as costas e pegou no livro de cabeceira. Alguns poderiam dizer que reler Homero não era uma ocupação particularmente relaxante. Mas resultava com ela.

Cerca da meia-noite, o seu pensamento estava cheio de batalhas gregas e traições, e livre de preocupações. Marcou a página onde ia, pôs o livro de lado e desligou a luz. Em poucos instantes estava a dormir profundamente.

Tão profundamente que não ouviu a porta a abrir e fechar-se de novo. Não ouviu o trancar da fechadura ou os passos que atravessavam o quarto em direcção à cama.

Acordou sobressaltada, com uma mão enluvada a tapar-lhe a boca e outra a apertar-lhe o pescoço com firmeza e a voz sussurrante e ameaçadora de um homem ao seu ouvido.

- Podia estrangular-te.

 

O LADRÃO

A sua mente bloqueou simplesmente. A faca. Por um terrível momento, podia jurar que sentira a picada de uma faca na garganta em vez do leve apertar de mãos, e o seu corpo ficou lasso com o pavor.

Estava a sonhar, devia estar a sonhar. Mas sentia o odor do cabedal e do homem, sentia a pressão na garganta, que a obrigava a um esforço para respirar, e a mão que lhe cobria a boca para tapar qualquer som. Podia ver uma linha ténue, o formato de uma cabeça, uma largura de ombros.

Tudo isso entrou no seu cérebro e foi processado em segundos que lhe pareceram horas.

Outra vez, não, garantiu a si mesma. Nunca mais.

Numa reacção instintiva, cerrou a mão direita num punho e levantou-a bruscamente do colchão. Ele ou era mais rápido ou um leitor de mentes, já que se desviou do soco um instante antes.

- Quieta e calada. - O homem sibilou a ordem e acrescentou uma sacudidela convincente. - Por mais que desejasse magoar-te, não o farei. O teu irmão está a ressonar na outra ponta da casa, por isso é pouco provável que te oiça gritar. Mas não vais gritar, pois não? - Os dedos suavizaram o aperto no pescoço com uma carícia trémula do polegar. - Feriria o teu orgulho ianque.

Ela murmurou alguma coisa contra a mão enluvada. Ele retirou-a, mas manteve a outra no pescoço. - O que quer de mim?

- Quero dar-te um valente pontapé nesse traseiro jeitoso. Raios, Dra. Jones, a senhora estragou tudo.

- Não sei do que é que está a falar. - Era difícil manter a respiração controlada, mas ela conseguiu. Era também o orgulho. - Largue-me. Eu não vou gritar.

E ela não o faria porque Andrew poderia ouvir e correr até lá. E quem quer que estivesse naquele momento a prendê-la à cama estaria provavelmente armado.

Bem, pensou ela, desta vez também ela. Se conseguisse chegar à gaveta da mesinha de cabeceira e pegar na arma.

Em resposta, ele sentou-se ao lado dela na cama e, mantendo-a ainda agarrada, esticou a mão para ligar o candeeiro. Ela pestanejou rapidamente devido à luz e depois ficou a olhar estupefacta.

- Ryan?

- Como é que pudeste cometer um erro tão estúpido, reles e amador?

Estava vestido de preto: calças de ganga, botas, camisola de gola alta e casaco de aviador. O seu rosto estava impressionantemente atraente como sempre, mas o olhar não estava quente e envolvente como ela recordava. Estava impaciente e inequivocamente perigoso.

- Ryan - conseguiu ela dizer. - O que estás a fazer aqui?

- A tentar consertar a asneira que fizeste.

- Compreendo. - Talvez ele tivesse tido alguma espécie de... esgotamento nervoso. Era essencial permanecer calma, lembrou a si mesma, e não o alarmar. Lentamente, pôs uma mão no pulso dele e desviou-lhe a mão do pescoço. Sentou-se instintivamente, puxando imediatamente a gola do pijama.

- Ryan. - Tentou fazer o que pensava ser um sorriso tranquilizador.

- Estás no meu quarto, no meio da noite. Como é que entraste?

- Da forma como entro habitualmente nas casas que não me pertencem. Arrombei a fechadura. Devias realmente ter uma de melhor qualidade.

Miranda pestanejou perplexa. Ele não parecia nada alguém que estava a sofrer de um problema mental, mas que estava a fervilhar em lume brando com mau feitio mal disfarçado. - Arrombaste a fechadura da minha casa? - E a frase soou-lhe ridícula. - Arrombaste a fechadura - repetiu ela.

- Exactamente - disse ele, brincando com os cabelos que caíam sobre o ombro dela. Era completamente doido pelos cabelos dela. - É o que faço.

- Mas és um homem de negócios, um patrono das artes. És... bem, não és de todo Ryan Boldari, pois não?

- Claro que sou. - Pela primeira vez, aquele sorriso malicioso brilhou, tornando o seu olhar quente e divertido. - E sou-o desde que a minha santa mãe assim quis há trinta e dois anos em Brooklyn. E até me associar a ti, este nome tinha alguma importância. - O sorriso transformou-se numa rosnadela. - Fiabilidade, perfeição. O raio do bronze era falso.

- O bronze? - Miranda ficou sem pinga de sangue no rosto. Sentiu-o desaparecer, gota a gota. - Como é que sabes do bronze?

- Sei porque fui eu quem roubou aquela porcaria. - Abanou a cabeça. - Ou talvez estejas a pensar no bronze de Florença, o outro com que também fizeste asneira. Soube ontem do acontecido, depois de o meu cliente me encostar à parede por eu lhe ter entregue uma falsificação. Uma falsificação, meu Deus!

Demasiado irritado para se sentar, saltou da cama e começou a andar de um lado para o outro. - Mais de vinte anos sem mácula, e agora isto! E tudo porque confiei em ti.

- Confiaste em mim. - Ela ajoelhou-se, dentes cerrados. Não havia lugar para medo ou ansiedade quando o sangue lhe fervia nas veias. - Tu é que me roubaste, canalha.

- E então? O que roubei não deve valer mais de cem dólares como pisa-papéis. - Aproximou-se outra vez, incomodado por achar tão atraentes o brilho quente nos olhos e a expressão de raiva no rosto dela. - Quantas mais falsificações estão em exposição naquele teu museu?

Ela não pensou; agiu. Saltou da cama como um foguete e lançou-se sobre ele. Ela não era nenhum peso-pluma, e Ryan sofreu o impacto do corpo bem tonificado e temperamento bem disposto. Foi uma afeição inata pelas mulheres que o fez mudar de posição para amparar a queda dela - um gesto de que se arrependeu assim que caíram no chão. Para poupar energia a ambos, ele rebolou para cima dela e imobilizou-a no chão.

- Roubaste-me. - Ela arqueou-se, torceu-se e não conseguiu desviá-lo um milímetro. - Usaste-me. Fizeste-te a mim, filho da mãe. - Oh, e essa era a pior parte. Ele seduzira-a, encantara-a e quase a fizera ceder à tentação.

- O último foi um benefício adicional. - Apertou-lhe os pulsos com as mãos para a impedir de lhe bater na cara. - És muito atraente. Não me custou nada.

- És um ladrão. Não passas de um reles ladrão.

- Se achas que isso me ofende, estás muito enganada. Sou um ladrão muito bom. Agora podemos sentar-nos e resolver o assunto, ou podemos continuar aqui a lutar um com o outro. Mas vou avisar-te de que mesmo com esse pijama incrivelmente feio, és um grande borracho. A decisão é tua, Miranda.

Ela ficou muito quieta, e ele observou com uma admiração relutante o olhar dela arrefecer. - Sai de cima de mim. Sai já de cima de mim!

- Ok - Ele saiu e levantou-se. Embora lhe tenha oferecido uma mão para a ajudar, ela afastou-a com um estalo e levantou-se sozinha.

- Se fizeste algum mal ao Andrew...

- Porque é que eu faria mal ao Andrew? Foste tu que documentaste o bronze.

- E foste tu que o roubaste. - Agarrou no robe que estava aos pés da cama. - O que é que vais fazer agora? Matar-me e depois limpar os vestígios?

- Eu não mato pessoas. Sou um ladrão, não um assassino.

- Então és extra

ordinariamente estúpido. O que é que achas que eu vou fazer assim que saíres daqui? - Atirou ela enquanto vestia o robe.

- Vou pegar naquele telefone e ligar ao detective Cook para lhe dizer quem assaltou o Instituto.

Ele enfiou simplesmente os polegares nos bolsos da frente das calças. O robe era tão espantosamente feio como o pijama, pensou ele. Não havia absolutamente nenhum motivo para ele conter o desejo de enfiar os dedos por debaixo daquela flanela toda.

- Se chamares a polícia, vais fazer figura de parva. Primeiro, porque ninguém acreditaria em ti. Eu nem sequer estou aqui, Miranda. Estou em Nova Iorque. - Escancarou um sorriso, pretensioso e seguro. - E há várias pessoas mais do que dispostas a confirmar isso.

- Criminosos.

- Isso não é maneira de falar dos meus amigos e da minha família. Especialmente quando nem sequer os conheces. Segundo - continuou ele enquanto ela rangia os dentes -, terias de explicar à polícia por que razão a peça roubada estava segura em milhares de dólares quando valia apenas uns trocados.

- Estás a mentir. Eu própria autentiquei aquela peça. É do século dezasseis.

- Sim, e o Bronze de Fiesole foi esculpido por Miguel Angelo. Fez-lhe um sorriso de gozo. - Ficaste sem argumentos. Agora senta-te para eu te dizer exactamente como vamos tratar disto.

- Quero-te daqui para fora. - Empinou o queixo. - Quero que saias imediatamente desta casa.

- Ou...?

Foi um impulso selvagem, mas pela primeira vez na vida, ela seguiu o instinto primário. Lançou-se para a gaveta, abriu-a e pegou na arma. Ele agarrou-lhe no pulso e torceu-lho ligeiramente até ela a soltar. Com a outra mão, atirou-a para cima da cama.

- Sabes quantos disparos acidentais ocorrem por as pessoas guardarem armas em casa?

Ele era mais forte do que ela supusera. E mais rápido. - Isto não teria sido um acidente.

- Podias ferir-te - murmurou ele, removendo rapidamente o carregador. Enfiou-o no bolso e atirou a arma de novo para dentro da gaveta.

- Agora...

Ela tentou levantar-se, mas ele pôs-lhe uma mão aberta sobre o rosto e empurrou-a para trás.

- Senta-te e está quieta! Ouve-me. Estás em dívida para comigo, Miranda.

- Eu... - Miranda quase se engasgou. - Eu estou em dívida para contigo?

- Eu tinha uma folha impecável. Sempre que aceitava um trabalho, satisfazia o cliente. E este foi o meu último, raios. Não posso acreditar que mesmo no final uma ruiva intelectual tenha manchado a minha reputação. Tive de oferecer uma peça da minha colecção particular ao meu cliente e de lhe devolver os honorários para cumprir o nosso contrato.

- Folha? Cliente? Contrato? - Ela estava prestes a puxar os cabelos e a gritar. - Por amor de Deus, tu és um ladrão e não um negociante de arte!

- Não vou discutir semântica contigo - disse ele calmamente, totalmente em controlo da situação. - Quero a pequena Vénus, de Donatello.

- Desculpa? Queres o quê?

- A pequena Vénus que estava exposta junto ao teu David falso. Eu podia lá voltar para a ir buscar, mas isso não ajustaria as contas. Quero que a vás buscar e ma entregues, e se for uma peça autêntica, consideraremos este assunto encerrado.

Nem a maior força de vontade conseguiu impedi-la de ficar boquiaberta. - Estás louco!

- Se não o fizeres, arranjo forma de o David regressar ao mercado. Quando a companhia de seguros o recuperar e o testar, como é habitual, a tua incompetência será desmascarada. - Inclinou a cabeça e viu pelo franzir do sobrolho dela que Miranda estava a perceber muito bem. - Isso, juntamente com o seu recente desastre em Florença, poria um fim à sua carreira, Dra. Jones. Gostava de lhe poupar essa vergonha, embora não tenha ideia do motivo.

- Não me faças favores. Não me vais forçar a entregar-te um Donatello ou qualquer outra coisa. O bronze não é uma falsificação, e tu vais para a cadeia.

- Não consegues admitir que cometeste um erro, pois não?

Tinhas a certeza, não tinhas? Parece que estavas errada. Como é que vais explicar isto? Ela estremeceu antes de se conseguir controlar. - Quando cometer um, admiti-lo-ei.

- Como fizeste em Florença? - Ripostou ele. - A notícia dessa gafe está a espalhar-se pelo mundo da arte. Uns acham que adulteraste os testes e outros acham que és simplesmente incompetente.

- Não me interessa o que as pessoas acham. - Mas a afirmação foi fraca e ela começou a esfregar os braços para se aquecer.

- Se eu tivesse tido conhecimento disto uns dias mais cedo, não me teria arriscado a roubar uma coisa autenticada por ti.

- Eu não posso ter cometido um erro. - Miranda fechou os olhos porque pensou subitamente que isso era pior, muito pior, do que saber que ele a usara para roubar. - Não esse tipo de erro. Não posso.

O desespero velado na sua voz fê-lo enfiar as mãos nos bolsos. Ela parecia subitamente frágil e intoleravelmente abatida.

- Toda a gente comete erros, Miranda. Faz parte da natureza humana.

- Não no meu trabalho. - Sentiu lágrimas na garganta quando abriu os olhos para olhar para ele. - Não os cometo no meu trabalho. Sou demasiado cuidadosa. Não me precipito a tirar as conclusões. Sigo os protocolos. - Começou a sentir o coração a palpitar. Pressionou as mãos entre os seios para tentar controlar as lágrimas que subiam dentro dela como uma maré.

- Ok, tem calma. Não te descontroles.

- Não vou chorar. Não vou chorar. - Repetiu ela vezes seguidas, como se se tratasse de um mantra.

- Há uma boa notícia. Isto são apenas negócios, Miranda. - Aqueles enormes olhos azuis estavam molhados e brilhantes. E distraíam-no.

- Mantenhamos as coisas assim e seremos ambos mais felizes.

- Negócios. - Ela roçou as costas da mão na boca, aliviada por aquela absurdez da frase ter posto termo à maré de lágrimas. - Está bem. Negócios. Dizes que o bronze é falso. Eu digo que não. Dizes que eu não participarei isto à polícia. Eu digo que sim. O que pretendes fazer quanto a isto?

Ele examinou-a por um momento. Na sua linha de trabalho - ambos os trabalhos -, tinha de ser rápido e preciso no juízo que fazia das pessoas. Era fácil ver que ela defenderia os seus testes e que chamaria a polícia. A segunda parte não o preocupava muito, mas causaria alguma inconveniência.

- Ok, veste-te.

- Porquê?

- Vamos até ao laboratório. Assim poderás testá-lo outra vez, à minha frente.

- São duas da manhã.

- Então não seremos interrompidos. A não ser que queiras ir de pijama, é melhor vestires alguma coisa.

- Não posso testar aquilo que não tenho.

- Mas eu tenho. - Apontou em direcção ao saco de cabedal que pousara atrás da porta. - Trouxe-o comigo, com a ideia de to enfiar goela abaixo. Mas a razão prevaleceu. Agasalha-te - sugeriu ele, sentando-se confortavelmente na poltrona dela. - As temperaturas desceram.

- Não te vou levar ao Instituto.

- És uma mulher lógica. Sê lógica. Eu tenho o bronze e a tua reputação nas mãos. Tu queres uma oportunidade para recuperar o primeiro e salvar a segunda. Estou a oferecer-te isso mesmo. - Esperou um momento para ela cair em si. - Dou-te o tempo que precisares para o testar, mas vou estar ao teu lado, a espreitar por cima do teu ombro quando o fizeres. É esse o acordo, Dra. Jones. Seja esperta. Aceite o acordo.

Ela precisava de saber, não precisava? Tinha de ter a certeza. E assim que tivesse a certeza, entregá-lo-ia à polícia antes que ele tivesse tempo de piscar aqueles belos olhos.

Decidiu que podia lidar com ele. O facto era que o seu orgulho exigia que ela aproveitasse a oportunidade para fazer isso mesmo. - Não me vou trocar à tua frente.

- Dra. Jones, se eu tivesse sexo em mente, teríamos tratado disso quando estávamos no chão. Negócios - disse ele outra vez. - E não vai sair da frente da minha vista enquanto não estiverem concluídos.

- Odeio-te mesmo. - Disse ela com um tal desprezo que ele não viu razão para duvidar da sua palavra. Mas sorriu para si mesmo quando ela se fechou dentro do closet e os cabides começaram a bater uns nos outros.

Ela era uma cientista, uma mulher culta com uma reputação inatacável. Tinha artigos publicados numa dúzia de revistas importantes de ciência e arte. A Newsweek fizera um artigo sobre ela. Dera aulas em Harvard e estivera três meses como professora convidada em Oxford.

Não era possível que estivesse a conduzir o seu carro numa gelada noite do Maine ao lado de um ladrão, com o propósito de invadir o seu próprio laboratório e de realizar testes clandestinos a um bronze roubado.

Travou repentinamente e encostou à berma da estrada. - Não posso fazer isto. É ridículo, já para não dizer ilegal. Vou ligar para a polícia.

- Óptimo. - Ryan encolheu simplesmente os ombros enquanto pegava no telefone do carro. - Faz isso, minha querida. E explica-lhes o que é que estás a fazer com um bocado de metal sem qualquer valor que tentaste fazer passar por obra de arte. Depois podes explicar à companhia de seguros como é que esperavas que eles te pagassem quinhentos mil por uma falsificação. Que tu mesma autenticaste.

- Não é nenhuma falsificação - disse ela irritada. Mas não ligou para o 112.

- Então prova. - O sorriso dele brilhou no escuro. - Prova-o a mim e a ti própria. Se o fizeres... negociaremos.

- Negociaremos, uma ova! Vais para a cadeia - disse ela, ajeitando-se no banco por forma a ficarem cara a cara. - E eu vou assistir.

- Primeiro, o que é prioritário. - Divertido, Ryan deu-lhe uma beliscadela na face. - Liga para a segurança. Diz-lhes que tu e o teu irmão vão trabalhar para o laboratório.

- Não vou envolver o Andrew nisto.

- O Andrew já está envolvido. Faz o telefonema. Usa a desculpa que quiseres. Não conseguias dormir, por isso decidiste adiantar algum trabalho enquanto está tudo em sossego. Anda, Miranda. Queres saber a verdade, não queres?

- Eu sei a verdade. E tu não a reconhecerias mesmo que ela saltasse e te mordesse.

- Perdes um pouco da tua pose de menina fina quando estás furiosa. - Aproximou-se mais e beijou-a ao de leve antes que ela tivesse tempo de o afastar. - Gosto disso.

- Tira as mãos de cima de mim.

- Não eram as minhas mãos. - Segurou-lhe nos ombros e acariciou-os. - Estas são as minhas mãos. Telefona.

Ela afastou-o com uma cotovelada e marcou o número. As câmaras estariam ligadas, pensou. Ele nunca passaria por Andrew, por isso, as coisas terminariam mesmo antes de começar. O seu chefe de segurança, se tivesse algum bom senso, chamaria a polícia. Ela só teria de contar a sua história e Ryan Boldari seria algemado, preso e sairia da sua vida.

- Daqui fala a Dra. Miranda Jones - disse bruscamente enquanto Ryan lhe batia suavemente no joelho em sinal de aprovação. - Eu e o meu irmão estamos a chegar. Sim, para trabalhar. Com a confusão dos últimos dias, tenho o trabalho laboratorial atrasado. Vamos entrar pela porta principal. Obrigada.

Miranda desligou e inspirou. Tinha-o apanhado, e ele é que se entregara. - Já estão à minha espera e vão desligar o alarme quando eu lá chegar.

- Óptimo. - Ele esticou as pernas quando ela regressou à estrada.

- Sabes, estou a fazer isto por ti.

- Não consigo expressar toda a minha gratidão.

- Não é preciso agradecer - disse ele a sorrir enquanto ela fazia uma careta. - Apesar de toda a chatice que me causaste, eu gosto de ti.

- Bem, até fiquei com o coração aos saltos!

- Vês? Tens estilo. Já para não dizer que tens uma boca que implora para ser saboreada durante horas na escuridão. Lamento realmente não poder passar mais tempo com essa tua boca.

Miranda agarrou o volante com força. A irregularidade da sua respiração era fúria. Não permitiria que fosse qualquer outra coisa. - Terás mais tempo, Ryan - disse ela com doçura. - Esta minha boca vai mastigar-te e cuspir-te antes de termos terminado.

- Estou desejoso. Esta é uma zona agradável - comentou ele em tom de conversa enquanto seguiam pela estrada litoral da cidade. - Ventosa, dramática, solitária, mas com a cultura e a civilização à mão. Tem mesmo a ver contigo. Presumo que a casa seja uma herança de família.

Ela não respondeu. Por mais absurdas que fossem as suas atitudes, ela não tencionava aumentá-las mantendo uma conversa com ele.

- É invejável - continuou ele sem se ofender. - O património e o dinheiro, claro. Mas para além do privilégio, está o nome, sabes? Os Jones do Maine. Tresanda a classe.

- Ao contrário dos Boldari de Brooklyn - murmurou ela por entre dentes. Mas a afirmação só o fez rir.

- Oh, nós tresandamos a outras coisas. Ias gostar da minha família. É impossível não se gostar. E o que pensariam eles de ti?

- Talvez nos conheçamos no teu julgamento.

- Ainda determinada a entregar-me à justiça. - Ele admirava quase tanto o perfil dela quanto as sombras das rochas irregulares e o mar escuro.

- Estou neste jogo há vinte anos, querida. Não faço tenção de dar um passo em falso nas vésperas da minha aposentação.

- Uma vez ladrão, sempre ladrão.

- Oh, lá no fundo, concordo contigo. Mas na verdade... - Suspirou. - Assim que limpar a minha folha, dou por terminado. Se não tivesses estragado tudo, estaria agora a passar umas merecidas férias em St. Barts.

- Que trágico para ti.

- Sim. - Mexeu outra vez os ombros. - Bem, mas ainda posso salvar alguns dias. - Desapertou o cinto de segurança e virou-se para pegar no saco que tinha colocado no banco traseiro.

- O que é que estás a fazer?

- Estamos quase a chegar. - Ryan assobiou baixinho enquanto retirava um gorro do saco e o enfiava cabeça abaixo até esconder completamente o cabelo. Depois pegou num longo lenço de caxemira que atou à volta do pescoço e sobre a parte inferior do rosto.

- Podes tentar avisar os guardas - começou ele, baixando a pala para se ver ao espelho. - Mas se o fizeres, não voltas a ver o bronze e nem a mim. Faz como eu te disse: entra e dirige-te para o laboratório como farias habitualmente e tudo correrá bem. O Andrew é um pouco mais alto do que eu - considerou ele enquanto desdobrava o longo casaco escuro. - Não importa. Vão ver o que estão à espera de ver. É isso que acontece sempre.

Quando ela entrou no estacionamento, teve de admitir que ele estava certo. Estava tão anónimo com as roupas para o frio que ninguém olharia duas vezes para ele. Mais, quando saíram do carro e começaram a caminhar para a entrada principal, ela percebeu que poderia ela própria confundi-lo com Andrew.

A linguagem corporal, o modo de andar e o ligeiro arquear de ombros estavam perfeitos.

Passou o cartão pela ranhura com um irascível movimento do pulso. Depois de uma pausa, introduziu o código. Imaginou-se a fazer caretas para a câmara, a atacar Ryan e a dar-lhe socos na cara enquanto os guardas o tentavam agarrar. Em vez disso, bateu suavemente com o cartão de acesso na palma da mão enquanto esperava ouvir as portas a abrir.

Ryan abriu as portas, com uma mão fraternamente pousada no ombro dela. Manteve a cabeça baixa e murmurou-lhe qualquer coisa enquanto entravam. - Sem desvios, Dra. Jones. Não quer certamente a chatice nem a publicidade.

- O que eu quero é o bronze.

- E estás prestes a tê-lo. Pelo menos temporariamente.

Manteve as mãos no ombro dela, conduzindo-a pelos corredores, escadas abaixo, até às portas do laboratório. Mais uma vez, ela fê-los entrar.

- Não vais sair daqui com a minha estatueta.

Ele acendeu as luzes. - Faz os teus testes - sugeriu, despindo o casaco. - Estás a perder tempo. - Manteve as luvas calçadas para pegar no bronze e o entregar. - Eu também percebo alguma coisa de autenticação, Dra. Jones, e vou observá-la de perto.

E aquele era um dos maiores riscos da sua longa carreira, pensou ele. Ir ali com ela. Encurralara-se a si mesmo. E raios o partissem se conseguia discernir o motivo, pensou enquanto a observava a retirar um par de óculos de uma gaveta e a colocá-los.

Tinha tido razão quanto àquele aspecto, reflectiu. A intelectual sexy. Afastando esse pensamento, pôs-se à vontade enquanto ela levava o bronze até uma bancada para uma extracção.

A sua reputação e o seu orgulho - que eram uma e a mesma coisa - estavam em jogo.

Aquele trabalho, que teria sido um perfeito final de carreira, acabara por lhe causar muitos aborrecimentos, feito perder dinheiro e prejudicado a sua reputação.

Mas o que ele deveria ter feito, e fora a sua intenção, era tê-la confrontado, ameaçado e coagido a reparar os seus prejuízos, e depois ter ido embora.

Não fora capaz de resistir a ser mais esperto do que ela. Não tinha dúvidas de que ela tencionava adulterar os testes a seu favor para tentar convencê-lo de que o bronze era genuíno. E quando o fizesse, ia sair-lhe caro.

Pensou que o Cellini seria um pagamento justo pela sua indulgência. O Instituto estava prestes a fazer uma doação generosa à Galeria Boldari, decidiu, enfiando as mãos nos bolsos enquanto a via trabalhar.

Isso iria destroçá-la.

Miranda tinha o sobrolho franzido quando se afastou do microscópio. Sentia um aperto no estômago que já não tinha nada a ver com raiva ou irritação. Não disse nada, mas tomou notas com uma mão firme.

Retirou outras amostras do bronze, tanto da patina como do metal, colocou-as numa lamela e examinou uma de cada vez. Estava pálida quando colocou o bronze numa balança e tomou notas adicionais.

- Tenho de testar o nível de corrosão e tirar raios X.

- Óptimo. Vamos. - Ryan seguiu-a pelo laboratório, imaginando onde é que iria expor o Cellini. O pequeno bronze de Vénus que ela lhe daria iria para a sua colecção particular, mas o Cellini era para a galeria, para o público, e daria um toque de prestígio ao seu negócio.

Tirou um charuto do bolso e pegou no isqueiro.

- Não se pode fumar aqui - disse ela com brusquidão.

Ele enfiou-o na boca e acendeu-o. - Chama a polícia - sugeriu. - Que tal um café?

- Deixa-me em paz. Está calado.

O aperto no estômago estava a piorar e a espalhar-se como ácido à medida que os minutos passavam. Seguiu minuciosamente o protocolo. Mas já sabia o resultado.

Aqueceu a argila, esperando, rezando pelo clarão dos cristais. E teve de morder o lábio para conter o nervosismo. Não lhe daria essa satisfação.

Mas quando observou o raio X e viu a confirmação das suas suspeitas, os dedos gelaram-se-lhe.

- Então? - Ele arqueou uma sobrancelha e esperou pelo conto do vigário.

- Este bronze é falso. - Como tinha as pernas bambas, Miranda sentou-se num banco e não viu o olhar de espanto de Ryan. - A fórmula, tanto quanto posso afirmar pelos testes preliminares, está correcta. Contudo, a patina foi aplicada recentemente e os níveis de corrosão são inconsistentes com os de um bronze do século dezasseis. O bronze está bem executado - continuou ela, com uma mão inconscientemente pousada sobre o estômago -, mas não é verdadeiro.

- Bem, Dra. Jones - murmurou ele -, a senhora surpreende-me.

- Este não é o bronze que eu autentiquei há três anos.

Ele enfiou os polegares nos bolsos e inclinou-se nos calcanhares. - Fizeste asneira, Miranda. Terás de enfrentar as consequências.

- Este não é o mesmo bronze - repetiu ela. E levantou-se de repente.

- Não sei o que é que pretendias ao trazeres-me esta falsificação e fazendo-nos passar por esta charada ridícula.

- Esse é o bronze que eu roubei da Galeria Sul confiando na sua reputação, Doutora - disse ele calmamente. - Por isso, deixemo-nos de tretas e passemos aos negócios.

- Não vou fazer negócio nenhum contigo. - Ela pegou no bronze e atirou-lho. - Achas que podes invadir a minha casa e tentar convencer-me que esta falsificação é minha para que eu te dê outra coisa? És um lunático.

- Roubei este bronze de boa fé.

- Oh, por amor de Deus! Vou chamar a segurança.

Ele agarrou-a pelo braço e atirou-a violentamente contra a bancada.

- Olha, queridinha, entrei neste joguinho porque não devia estar bom da cabeça. Agora está feito. Talvez não estivesses a tentar passar algo por aquilo que não é. Talvez tenha sido um erro genuíno, mas...

- Eu não me enganei. Eu não cometo erros.

- O nome Fiesole diz-te alguma coisa?

O rubor de raiva esvaiu-se do rosto dela. O olhar tornou-se turvo. Por um momento ele pensou que ela ia desmaiar. Se estivesse a fingir perturbação, ele tê-la-ia subestimado.

- Não cometi nenhum erro - repetiu ela, mas agora com uma voz abalada. - Posso prová-lo. Tenho os registos, as minhas anotações, os raios X e os resultados dos testes do bronze original.

Ele sentiu-se tocado pela vulnerabilidade dela, de tal forma que a soltou quando ela se contorceu. Abanou a cabeça e seguiu-a para uma sala cheia de arquivos.

- O peso estava errado - disse ela rapidamente, enquanto tentava destrancar uma gaveta. - A amostra que eu retirei batia certo, mas o peso... percebi que estava errado assim que lhe peguei. A estátua era pesada de mais mas... Onde raios é que está a pasta?

- Miranda...

- Era pesada de mais, ligeiramente mais, e a patina anda lá perto mas não está certa. Não está certa. Mesmo que não percebesse isso, não me poderia enganar com os níveis de corrosão. Não há engano possível.

Já a balbuciar, fechou a gaveta com força e destrancou outra e mais outra.

- Não está aqui. Os registos não estão aqui. Desapareceram. Tentando acalmar-se, fechou a gaveta. - As fotografias, as anotações e os relatórios sobre o bronze de David desapareceram. Roubaste-os.

- Com que finalidade? - Perguntou ele, com o que considerou ser uma paciência de santo. - Olha, se eu pudesse entrar aqui para levar uma falsificação, teria levado qualquer coisa que quisesse. Qual seria o propósito de querer passar por isto, Miranda?

- Tenho de pensar. Cala-te um bocado. Tenho de pensar. - Tapou a boca com as mãos e começou a andar de um lado para o outro. Lógica, sê lógica, ordenou a si mesma. Analisa os factos.

Ele roubara o bronze, e o bronze era falso. Qual era a lógica de roubar uma falsificação para depois a devolver? Nenhuma. Se fosse uma peça genuína, porque é que ele estaria ali? Não estaria. Assim sendo, a história que ele lhe contara, por mais absurda que fosse, era verdadeira.

Ela fizera os testes e concordara com as conclusões dele.

Teria ela cometido um erro? Oh, Deus, teria cometido um erro?

Não. Lógica, e não emoção, lembrou a si mesma. Obrigou-se a parar com os movimentos erráticos e a ficar completamente quieta.

- Alguém se adiantou a ti - disse calmamente. - Alguém se adiantou a ti e substituiu o bronze verdadeiro por uma imitação.

Virou-se para ele, percebendo pela sua expressão que ele deveria estar a chegar à mesma conclusão que ela.

- Bem, Dra. Jones, parece que alguém nos passou a perna. - Inclinou a cabeça para a examinar. - O que é que vamos fazer quanto a isso?

 

Miranda decidiu aceitar que se tratava de um dia para comportamentos anormais quando deu por si sentada numa estação de serviço da Route 1 às seis da manhã.

A empregada de mesa levou-lhes um bule de café, duas canecas e um par de menus.

- O que é que estamos a fazer aqui?

Ryan serviu-se, cheirou o café, bebeu um gole e depois suspirou. - Isto é que é café.

- Boldari, o que é que estamos a fazer aqui?

- A tomar o pequeno-almoço. - Ryan recostou-se e estudou o menu.

Ela inspirou fundo. - São seis da manhã. Tive uma noite difícil e estou cansada. Tenho coisas muito sérias em que pensar e não tenho tempo para estar sentada numa estação de serviço a trocar graças com um ladrão.

- Até agora não foste assim tão espirituosa. Mas como disseste, tiveste uma noite difícil. Irás encontrar aqui alguém conhecido?

- Claro que não.

- Exactamente. Precisamos de comer e de falar. - Pousou o menu e lançou um sorriso à empregada de mesa quando ela se aproximou de bloco na mão. - Vou querer os ovos com bacon e bolinhos quentes, por favor.

- Sim, capitão. E a senhora?

- Eu... - Resignada, Miranda examinou o menu à procura de alguma coisa não letal. - Só... flocos de aveia. Tem leite magro?

- Vou ver o que posso arranjar e volto já.

- Ok, façamos o ponto da situação - continuou Ryan. - Há três anos adquiriste uma pequena estátua de bronze de David. A minha pesquisa indica que ela chegou através do teu pai, de uma escavação particular nos arredores de Roma.

- A tua pesquisa está correcta. A maior parte do que foi encontrado foi doado ao Museu Nacional de Roma. Ele trouxe o David para o Instituto. Para ser analisado, autenticado e exposto.

- E foste tu quem o analisou e autenticou.

- Sim.

- Quem é que trabalhou contigo?

- Sem as minhas anotações, não posso ter a certeza.

Tenta lembrar-te.

Já foi há três anos. - Como estava um pouco baralhada, provou o café. - O Andrew, claro - começou ela. - Ele gostava muito daquela peça. Atraía-o. Acho que ele é capaz de ter feito alguns desenhos do bronze. O meu pai entrava e saía do laboratório, ia verificando o progresso dos testes. Ficou satisfeito com os resultados. O John Carter - acrescentou, pressionando uma dor no meio da testa. - É chefe de laboratório.

- Então teria acesso à estátua. Quem mais?

- Quase todos os que trabalharam no laboratório durante aquele período. Não era um projecto prioritário.

- Quantas pessoas trabalham no laboratório?

- Entre doze a quinze, depende.

- E todas têm acesso aos arquivos?

- Não. - Miranda fez uma pausa quando lhes serviram o pequeno-almoço. - Nem todos os assistentes e técnicos têm chave.

- Vai por mim, Miranda. Estás a dar demasiada importância às chaves. - Fez outra vez aquele sorriso enquanto voltava a servi-los de café. - Vamos assumir que qualquer pessoa que trabalhasse no laboratório tivesse acesso aos arquivos. Precisas de arranjar uma lista dos nomes com o departamento de pessoal.

- A sério?

- Queres descobrir o bronze? Tens um atraso de três anos - explicou ele. - Desde a altura em que foi autenticado até eu te ter livrado da falsificação. Quem quer que o tenha lá colocado teve de ter acesso à peça original para fazer a cópia. A forma mais simples e inteligente de fazer isso seria através de um molde de silicone e uma reprodução em cera.

- Imagino que saibas tudo sobre falsificações - disse ela enquanto comia a aveia.

- Apenas o que um homem na minha área, ou áreas, precisa de saber. Precisas do original para fazer o molde - continuou ele, tão claramente imperturbável que ela pensou por que motivo se estaria a dar ao trabalho de o tentar espicaçar. - O mais eficaz seria fazê-lo enquanto o bronze ainda estivesse no laboratório. Quando um bronze vai para exposição, tem que se contornar a segurança, e a tua é bastante boa.

- Muito obrigada. Isto não é leite magro - queixou-se ela, franzindo a testa ao pequeno jarro que a empregada de mesa levara junto com os flocos de aveia.

- Vive perigosamente. - Ryan acrescentou sal aos ovos. - A minha opinião é a seguinte: alguém do laboratório viu como estavam a correr os vossos testes. É uma peça bonita, que um coleccionador pagaria de bom grado para ter. Essa pessoa, talvez com dívidas ou zangada contigo ou com a tua família, resolveu provavelmente tentar a sua sorte. Fez o molde numa noite qualquer. Não é um processo complicado, e essa pessoa já estava dentro do laboratório. Nada mais fácil. Se não soubesse fazê-lo pessoalmente, conhecia certamente alguém que soubesse. Mais, sabia como fazer o bronze parecer ter séculos de idade. Depois trocou as peças, muito provavelmente imediatamente antes de o bronze ser exposto. Nada mais sensato.

- Não pode ter sido feito de impulso. Foi preciso tempo e planeamento.

- Não estou a dizer que foi um impulso. Mas também não teria demorado muito tempo. Quanto tempo esteve o bronze no laboratório?

- Não sei ao certo. Duas semanas, talvez três.

- Mais do que suficiente. - Ryan fez um gesto com a fatia de bacon antes de lhe dar uma dentada. - Se eu fosse a ti, testaria algumas das outras peças.

- Outras? - Ela não sabia porque é que isso não lhe passara pela cabeça, quando agora lhe parecia tão óbvio. - Meu Deus!

- Se fez uma vez, e suficientemente bem para se safar com isso, porque não fazer novamente? Não fiques tão desesperada, querida. Vou ajudar-te.

- Ajudar-me. - Pressionou os olhos com os dedos. - Porquê?

- Porque quero aquele bronze. Afinal, garanti-o ao meu cliente.

- Vais ajudar-me a recuperá-lo para o poderes roubar outra vez?!

- Tenho um direito adquirido. Acaba o pequeno-almoço. Temos muito que fazer. - Pegou na caneca de café e sorriu para ela. - Sócia.

Sócia. A palavra fê-la estremecer. Talvez estivesse demasiado cansada para pensar com clareza, mas naquele momento não via forma de recuperar o que lhe pertencia sem a ajuda dele.

Ele usara-a, recordou ela enquanto destrancava a porta de casa. Agora usá-lo-ia ela. Depois, certificar-se-ia de que ele passasse os vinte anos seguintes a tomar duche em grupo num estabelecimento federal.

- Estás à espera de alguém? Mulher-a-dias, técnico de TV, canalizador?

- Não. A empresa de limpezas vem às terças e sextas.

- Empresa de limpezas. - Ryan despiu o casaco. - Não vais obter guisados caseiros e conselhos sábios de empresas de limpezas. Precisas de uma governanta chamada Mabel que use um avental com renda branca e sapatos práticos.

- A empresa de limpezas é eficaz e discreta.

- Que pena. O Andrew já saiu para o trabalho. - Viu no seu relógio que já eram oito e um quarto. - A que horas chega a tua assistente?

- A Lori chega por volta das nove, geralmente um pouco antes. Vais ter de lhe ligar. Tens o número de casa?

- Sim, mas...

- Telefona-lhe e diz-lhe que hoje não vais.

- Claro que vou. Tenho compromissos.

- Ela que os cancele. - Entrou na sala de estar e pôs-se à vontade ajeitando as acendalhas na lareira. - Diz-lhe para arranjar cópias das fichas do pessoal de laboratório, de há três anos. É a melhor forma de começar. E que as envie aqui para o teu computador.

Incendiou as acendalhas, e ela não disse nada quando em seguida ele escolheu dois toros da caixa de lenha e os colocou por cima das mesmas com uma eficiência de escuteiro.

Quando ele se levantou e se voltou, o sorriso dela era tão cortante e hostil como uma espada desembainhada. - Há mais alguma coisa que eu possa fazer?

- Querida, vais ter de aceitar ordens com um pouco mais de boa disposição. É que alguém tem de mandar.

- E és tu que mandas.

- Correcto. - Avançou até ela e segurou-a pelos ombros. - Sei muito mais sobre roubos do que tu.

- A maioria das pessoas não consideraria isso uma qualidade para uma liderança.

- A maioria das pessoas não está a tentar apanhar um ladrão. - O olhar dele desceu e parou na boca dela.

- Nem penses nisso.

- Eu nunca censuro os meus pensamentos. Provoca-nos úlceras. Podíamos desfrutar muito mais esta... sociedade se fosses um pouco mais amigável.

- Mais amigável?

- Mais flexível. - Puxou-a para si. - Em determinadas áreas.

Ela deixou-se encostar ligeiramente a ele e pestanejou. - Tais como?

- Bem, para começar... - Ryan baixou a cabeça, inspirou o perfume dela e ansiou por aquela primeira prova. E o ar saiu todo de uma só vez quando ela lhe enfiou um murro no estômago.

- Eu disse-te para manteres as mãos longe de mim.

- Pois disseste. - Com um ligeiro acenar de cabeça, massajou o estômago. Mais uns centímetros para baixo, pensou, e o punho dela teria destruído a sua virilidade. - Tem um soco bastante forte, Dra. Jones.

- E dá-te por satisfeito por eu me ter contido, Boldari. - Embora não fosse isso que tivesse acontecido, nem por sombras. - Ou estarias de rastos a ofegar. Espero que nos entendamos neste ponto.

- Perfeitamente. Faz o telefonema, Miranda. E mãos à obra.

Ela fez o que ele lhe pediu porque fazia sentido. A única forma de proceder era começando, e para começar era preciso um ponte de partida.

Às nove e meia ela já estava no escritório de casa a puxar dados para o desktop.

O escritório era tão organizado como o do Instituto, mas ligeiramente mais aconchegante. Ryan também acendera uma lareira ali, embora ela não achasse estar frio suficiente para isso. As labaredas estalavam alegremente na lareira de pedra. O Sol dos finais de Inverno entrava pelas cortinas que ele puxara para trás.

Estavam sentados lado a lado na secretária, a verificar nomes.

- Parece que houve uma grande reviravolta há cerca de dezoito meses - salientou ele.

- Sim. A minha mãe renovou o laboratório em Florença. Houve empregados transferidos para lá e alguns transferidos de lá para o Instituto.

- Estou admirado por não teres aproveitado a oportunidade.

- De quê?

- De ires para Florença.

Miranda mandou imprimir o ficheiro. Uma folha impressa significaria que não teria de se sentar ao lado dele. - Essa questão não se pôs. O Andrew e eu dirigimos o Instituto. A minha mãe dirige a Standjo.

- Percebo. - E achou realmente que sim. - Algum atrito entre ti e a mamã?

- As minhas relações familiares não são da tua conta.

- Então diria que é mais do que um atrito. E o teu pai?

- Desculpa?

- És a menina do papá?

Ela não conseguiu evitar rir e depois levantou-se para ir buscar a folha. - Nunca fui a menina de ninguém.

- Que pena - disse ele com sinceridade.

- A questão aqui não é a minha família. - Miranda sentou-se no sofá cor-de-framboesa e tentou concentrar-se nos nomes que continuavam a surgir diante dos seus olhos cansados.

- Podia ser. A tua família é dedicada aos negócios. Talvez alguém tenha tentado prejudicá-la roubando o bronze.

- O teu lado italiano está a vir ao de cima - disse ela secamente, e fê-lo sorrir.

- Os irlandeses interessam-se igualmente por vingança, querida. Fala-me das pessoas na lista.

- John Carter. Chefe de laboratório. Fez o doutoramento na Duke. Trabalha no Instituto há dezasseis anos. O seu interesse principal é a arte oriental.

- Não, no plano pessoal. É casado? Paga alguma pensão? Joga, bebe, veste-se de mulher aos sábados à noite?

- Não sejas ridículo. - Ela tentou sentar-se direita, mas desistiu e encolheu as pernas. - É casado. Nunca se divorciou. Dois filhos. Acho que o mais velho entrou agora para a faculdade.

- É preciso muito dinheiro para criar os filhos e mandá-los estudar. - Ryan analisou os dados e reparou no salário anual. - Ele vive bem, mas isso não satisfaz toda a gente.

- A mulher dele é advogada, e muito provavelmente ganha melhor do que ele. O dinheiro não é um problema para eles.

- O dinheiro é sempre um problema. Que tipo de carro tem ele?

- Não faço a mínima ideia.

- Como é que se veste?

Ela começou a suspirar, mas achou que percebia aonde ele queria chegar. - Casacos velhos e gravatas ridículas - começou ela, fechando os olhos para tentar visualizar o chefe de laboratório. - Nada de espampanante; embora a mulher lhe tenha oferecido um Rolex no vigésimo aniversário de casamento. - Miranda conteve um bocejo e anichou-se um pouco mais nas almofadas. - Usa sempre os mesmos sapatos. Hush Puppies. Quando já estão quase a cair-lhe dos pés, compra outro par.

- Dorme uma sesta, Miranda.

- Estou bem. Quem se segue? - Forçou-se a abrir os olhos. - Oh, a Elise. A ex-mulher do meu irmão.

- Divórcio complicado?

- Não me parece que algum seja fácil, mas ela foi bastante delicada com ele. Ela era assistente do John aqui, e foi depois transferida para Florença. É directora de laboratório da minha mãe. Ela e o Andrew conheceram-se no Instituto. Na verdade fui eu quem os apresentou. Ele ficou logo caidinho. Casaram-se seis meses depois. - Bocejou novamente e não se incomodou em disfarçar.

- Quanto tempo durou?

- Alguns anos. Pareceram muito felizes durante a maior parte do tempo, e depois começou tudo a desmoronar.

- O que é que ela queria? Roupas caras, férias na Europa, uma casa grande?

- Queria a atenção dele - disse Miranda por entre dentes, deitando a cabeça sobre as mãos. - Queria que ele se mantivesse sóbrio e desse atenção ao casamento. É a maldição dos Jones. Pura e simplesmente não conseguimos. Os nossos relacionamentos são enguiçados. Tenho de descansar um pouco os olhos.

- Claro.

Ele voltou a examinar a lista. Naquela altura não passavam de nomes numa folha. Ele tencionava que fossem muito mais. Antes de terminar, saberia de todos os pormenores íntimos. Saldos bancários. Vícios. Hábitos.

E a essa lista acrescentou três nomes: Andrew Jones, Charles Jones e Elizabeth Standford-Jones.

Levantou-se e dobrou-se para tirar os óculos do rosto de Miranda e os pousar na mesa ao lado dela. Ela não parecia uma menina inocente a dormir, decidiu. Mas uma mulher exausta.

Movendo-se com cuidado, pegou na manta que estava nas costas do sofá e colocou-a em cima dela. Deixá-la-ia dormir uma ou duas horas para recarregar a mente e o corpo.

As respostas estavam algures dentro dela; ele tinha a certeza disso. Era ela a ligação.

Enquanto Miranda dormia, Ryan fez uma chamada para Nova Iorque. Não fazia sentido ter um irmão que era um génio com os computadores se não se aproveitasse disso de vez em quando.

- Patrick? É o Ryan. - Sentou-se outra vez na cadeira a ver Miranda dormir. - Tenho aqui um trabalho de pirataria que não tenho tempo de efectuar. Estás interessado? - Riu-se. - Sim, é bem pago.

Os sinos da igreja ressoavam. A sua música ecoava pelos telhados vermelhos até aos montes distantes. O ar era quente, e o céu tão azul quanto o interior de um desejo.

Mas na cave desagradavelmente húmida e fria da villa, as sombras eram espessas. Ela estremeceu enquanto espreitava do patamar das escadas. Estava ali, ela sabia que estava ali.

À sua espera.

A madeira estalou quando começou a mexer-lhe. Depressa. Depressa. A sua respiração começou a chiar nos pulmões, e o suor a escorrer pelas costas. E as mãos tremiam-lhe quando ela as estendeu para a agarrar, a retirou da escuridão e apontou a lanterna para os seus contornos.

Braços erguidos, seios voluptuosos, uma cabeleira sedutora. O bronze era brilhante, sem a patina azul-esverdeada da idade. Podia percorrê-lo com as pontas dos dedos e sentir o frio do metal.

Depois ouviu uma harpa e o riso leve de uma mulher. Os olhos da estátua assumiram vida, a boca do bronze sorriu e pronunciou o seu nome.

Miranda.

Ela acordou de um sobressalto, com o coração aos pulos. Poderia jurar que por um momento sentira um cheiro a perfume - floral e intenso. E que ouvira o eco distante das cordas de uma harpa.

Mas era a campainha da porta que soava, repetidamente e com alguma impaciência. Abalada, Miranda atirou a manta para trás e saiu da sala a correr.

Foi bastante surpreendente ver Ryan. Mas foi um choque enorme ver o pai à entrada da porta.

- Pai. - Tentou afastar a sonolência da voz e tentou novamente.

- Olá. Não sabia que vinhas ao Maine.

- Acabei de chegar. - Charles era um homem alto, elegante, queimado do sol. Tinha um cabelo espesso e farto, tão brilhante como aço polido, que condizia com a sua barba e bigode e com o rosto afilado.

Os olhos - do mesmo azul profundo dos da filha - observavam Ryan por detrás das lentes de uns óculos de armação metálica.

- Vejo que tens companhia. Espero não estar a incomodar. Tomando rapidamente o controlo da situação, Ryan estendeu uma mão. - Dr. Jones, que prazer. Rodney J. Pettebone. Sou sócio da sua filha, e um amigo, espero. Acabo de chegar de Londres - continuou, recuando e conduzindo Charles para dentro de casa. Olhou para as escadas onde Miranda continuava especada a olhar como se ele tivesse duas cabeças.

- A Miranda foi suficientemente amável para me dispensar um pouco do seu tempo enquanto eu cá estou. Minha querida. - Estendeu uma mão e fez um sorriso ridiculamente adorador.

Ela não tinha a certeza do que mais a espantava, se o sorriso de cachorrinho ou o forte sotaque britânico que saía da sua boca como se ele tivesse nascido na realeza.

- Pettebone? - Charles franziu o sobrolho quando Miranda permaneceu hirta e quieta como um dos seus bronzes. - O filho do Roger?

- Não, ele é meu tio.

- Tio? Não sabia que o Roger tinha irmãos.

- Um meio -irmão, Clarence. Meu pai. Dá-me o seu casaco, Dr. Jones?

- Sim, obrigado. Miranda, venho agora do Instituto. Disseram-me que não te estavas a sentir muito bem hoje.

- Eu estava... com uma dor de cabeça. Nada...

- Fomos apanhados, querida. - Ryan subiu as escadas para lhe pegar na mão, apertando-a com força suficiente para lhe sentir os ossos.

- Tenho a certeza de que o teu pai vai compreender.

- Não, não vai - disse Miranda com firmeza.

- Foi tudo culpa minha, Dr. Jones. Só vou estar alguns dias no país. - Acentuou a frase beijando docemente os dedos de Miranda. - Receio ter persuadido a sua filha a tirar o dia. Ela está a ajudar-me com a minha pesquisa sobre arte flamenga do século dezassete. Não chegaria a lado nenhum sem ela.

- Compreendo. - Os olhos de Charles transmitiam uma clara desaprovação. - Receio...

- Eu ia agora fazer um chá - interrompeu Miranda. Precisava de um momento para organizar as ideias. - Se nos deres licença, pai. Porque não esperas na sala de estar? Não demoramos. Rodney, ajudas-me, não ajudas?

- Com todo o prazer. - Lançou um sorriso quando ela devolveu o aperto de mão.

- Perdeste a cabeça? - Ciciou ela ao fechar a porta da cozinha. Rodney J. Pettebone? Quem é esse?

- Neste momento sou eu. Não estou cá, lembras-te? - Beliscou-lhe o queixo.

- Passaste ao meu pai a impressão de que estávamos a fazer gazeta!

- Agarrou na chaleira que estava no fogão e levou-a até à pia. - Não só isso, como também que íamos passar o dia a brincar às casinhas.

- Brincar às casinhas. - Ele não conseguiu resistir e abraçou-a pelas costas. Nem sequer se importou com o cotovelo nas costelas. - És tão querida, Miranda.

- Não sou querida, e não estou feliz com esta mentira ridícula.

- Bem, suponho que lhe poderia ter dito que sou a pessoa que roubou o bronze. Depois podíamos explicar-lhe que se trata de uma falsificação e que o Instituto está envolvido numa fraude com a seguradora. Parece-me que brincares às casinhas com um idiota britânico é mais agradável.

De dentes cerrados, Miranda pôs a chaleira ao lume. - Mas porquê um idiota britânico?

- Ocorreu-me simplesmente. Pareceu-me que podia fazer o teu tipo. - Ryan sorriu de forma cativante quando ela lhe lançou um olhar fulminante por cima do ombro. - A questão é que o teu pai está aqui, foi ao Instituto e obviamente quer algumas respostas. Tens de decidir que respostas lhe vais dar.

- E achas que eu não sei isso? Pareço-te estúpida?

- Não, de todo, mas diria que és uma pessoa inerentemente honesta. Para mentir é preciso habilidade. O que tens de fazer é dizer-lhe tudo  o que sabias até eu me ter enfiado na tua cama hoje de manhã.

Eu teria chegado lá por mim própria, Rodney. - Mas já sentia nós no estômago por ter de mentir.

- Dormiste menos de três horas. Estás um pouco lenta. Onde estão as chávenas? - Dirigiu-se a um armário.

- Não, não utilizes a louça do dia-a-dia. - Acenou com a mão. Vai buscar as de porcelana que estão no aparador da casa de jantar.

Ryan ergueu as sobrancelhas. A porcelana era para as visitas, não para a família. Isso deu-lhe a conhecer um pouco mais de Miranda Jones.

- Vou buscar duas. Acho que o Rodney percebeu que o teu pai quer ter uma conversa particular contigo.

- Cobarde - murmurou ela.

Miranda arrumou meticulosamente o bule, as chávenas e o açucareiro no tabuleiro, e tentou não se aborrecer por Ryan se ter escapado e a ter deixado a tratar sozinha do assunto. Descontraiu os ombros, pegou no tabuleiro e levou-o até à sala de estar onde o pai estava sentado em frente à lareira a folhear uma pequena agenda de pele.

Ele era tão atraente, era tudo o que ela conseguia pensar. Alto, magro e bronzeado, de cabelo brilhante. Quando era muito nova, havia pensado que ele parecia uma imagem retirada de um conto de fadas. Não um príncipe ou um cavaleiro, mas um mago. Tão sábio e digno.

Desejara tão desesperadamente que ele a amasse. Que a pusesse às cavalitas e a aninhasse no colo, que lhe aconchegasse os cobertores à noite e lhe contasse histórias tolas.

Mas, em vez disso, tivera de se contentar com um afecto ligeiro e muitas vezes ausente. Nunca ninguém a levara às cavalitas ou lhe contara histórias tolas.

Tentou afastar a mágoa do pensamento e prosseguiu para a sala. Pedi ao Rodney que nos concedesse alguns minutos a sós - começou ela.

- Imagino que queiras falar comigo acerca do roubo.

- Sim, quero. É muito perturbador, Miranda.

- Sim, estamos todos muito preocupados. - Miranda pousou o tabuleiro, instalou-se numa cadeira e serviu o chá como lhe tinham ensinado.

- A polícia está a investigar. Temos esperança de recuperar o bronze.

- Entretanto, a publicidade prejudica o Instituto. A tua mãe está preocupada e eu tive de deixar o meu projecto numa altura crucial para vir até cá.

- Não havia necessidade de vires. - Com as mãos firmes, estendeu-lhe a chávena. - Tudo o que pode ser feito está a ser feito.

- É óbvio que a nossa segurança não está a um nível aceitável. O teu irmão é o responsável por isso.

- Isto não foi culpa do Andrew.

- Pusemos o Instituto nas mãos dele e nas tuas - lembrou-lhe ele, bebericando indolentemente o chá.

- Ele está a fazer um trabalho maravilhoso. A afluência às aulas subiu dez por cento, e as receitas de bilheteira aumentaram. A qualidade das nossas aquisições nos últimos cinco anos tem sido surpreendente.

Oh, e humilhava-a tanto ter de se defender e justificar quando o homem que estava sentado à sua frente tinha fugido às responsabilidades do Instituto com a mesma facilidade com que se esquivara às responsabilidades familiares.

- O Instituto nunca foi uma das tuas prioridades - disse ela com suavidade, sabendo que ele só se iria irritar. - Preferiste o trabalho de campo. O Andrew e eu empenhámos nele todo o nosso tempo e esforço.

- E agora temos o nosso primeiro assalto em mais de uma geração. Não podemos fechar os olhos a isso, Miranda.

- Não, mas ao tempo, ao suor e ao trabalho, e às melhorias que fizemos, a tudo isso podes fechar os olhos.

- Ninguém está a criticar o teu entusiasmo. - Fez um gesto de desdém. - Contudo, temos de lidar com isto. E acrescentando a publicidade negativa resultante da tua falha em Florença, ficamos numa posição difícil.

- Minha falha - murmurou ela. Quão típico dele usar um eufemismo fraco para uma crise. - Fiz tudo o que me era exigido em Florença. Tudo. - Quando sentiu a emoção a querer brotar, engoliu-a e falou-lhe com a frieza que ele esperava. - Se eu pudesse ver os resultados dos segundos testes, podia analisar os meus e determinar onde foram cometidos os erros.

- Isso é algo que tens de resolver com a tua mãe. Embora te possa dizer que ela está bastante desagradada. Se a imprensa não tivesse sido notificada...

- Eu nunca falei com a imprensa. - Miranda levantou-se, incapaz de se manter sentada e incapaz de fingir estar calma. - Eu nunca falei sobre a Dama Negra com alguém que não fosse do laboratório! Raios, porque é que eu faria isso?

Ele parou por um momento, pousou a chávena. Detestava discussões, não gostava de emoções confusas que interferissem com a tranquilidade. Estava bem ciente de que existiam enchentes dessas emoções confusas a fervilhar dentro da filha. Nunca fora capaz de compreender de onde vinham.

- Acredito em ti.

- E ser acusada... O quê?

- Acredito em ti. Embora possas ser teimosa e, na minha opinião, muitas vezes leves as coisas para o lado errado, nunca me pareceu que fosses desonesta. Se me dizes que não falaste à imprensa sobre esta matéria,

então acredito em ti.

- Eu... - Miranda sentia a garganta a arder. - Obrigada.

- Contudo, isso não altera em nada a situação. A publicidade tem de ser abafada. Dadas as circunstâncias, estás, por assim dizer, no centro da tempestade. A tua mãe e eu achamos que seria melhor tirares uma licença prolongada.

As lágrimas que haviam inundado os seus olhos secaram. - Já discuti isso com ela. Disse-lhe que não me vou esconder disto. Não fiz nada.

- O que fizeste ou não fizeste não é a questão. Até estes dois assuntos estarem resolvidos, a tua presença no Instituto é prejudicial.

Charles sacudiu as pernas das calças e levantou-se. - A partir de hoje terás de tirar uma licença de um mês. Se for necessário, podes ir até lá para resolver alguns assuntos pendentes, mas seria melhor se fizesses isso daqui durante as próximas quarenta e oito horas.

- Podias também pintar-me um C de culpada na testa.

- Estás a reagir exageradamente, como de costume.

- E tu estás a fugir, como de costume. Bem, sei como fico. Sozinha.

- Embora fosse humilhante, tentou uma última vez: - Pelo menos uma vez, só por uma vez, não podias ficar do meu lado?

- Não se trata de uma questão de lado, Miranda. E não é um ataque pessoal. Trata-se do que é melhor para todas as partes envolvidas, e tanto para o Instituto como para a Standjo.

- Isso magoa-me.

Ele pigarreou e evitou o olhar dela. - Estou certo de que assim que tiveres tempo para reflectir, concordarás que este é o caminho mais lógico a tomar. Estarei no Regency até amanhã se precisares de falar comigo.

- Nunca consegui falar contigo - disse ela em voz baixa. - Vou buscar-te o casaco.

Como sentia algum remorso, Charles seguiu-a até ao hall de entrada.

- Devias aproveitar este tempo para viajar um pouco. Apanhar um pouco de sol. Talvez o teu... jovem te queira acompanhar.

- O meu quê? - Ela tirou o casaco do armário e olhou para as escadas. E começou a rir. - Oh, claro. - Teve de esfregar os olhos, no preciso momento em que reconheceu o nervoso ataque de histeria. - Aposto que o meu amigo Rodney adoraria viajar comigo.

Despediu-se do pai acenando-lhe à porta, e depois sentou-se no primeiro degrau das escadas a rir como uma louca... até começar a chorar.

 

Um homem com três irmãs sabia tudo sobre as lágrimas das mulheres. Havia as lentas, e bastante encantadoras, que podiam escorregar pela face feminina como pequenos diamantes líquidos e que faziam um homem implorar. Havia as inflamadas e exaltadas que jorravam dos olhos de uma mulher como fogo e induziam um homem sensato a fugir.

E havia aquelas que estavam tão profundamente escondidas no coração que, quando se soltavam e saíam livremente, eram um dilúvio de dor desconfortável para qualquer homem.

Por isso, ele deixou-a estar, deixou-a encolhida ao fundo da escada enquanto brotavam aquelas lágrimas vindas do âmago. Ele sabia que a mágoa que gerava tal inundação a fazia fechar-se. Tudo o que podia fazer era dar-lhe privacidade e esperar.

Quando os soluços violentos e dilacerantes suavizaram, ele foi até ao vestíbulo, abriu o armário e procurou até encontrar um casaco. - Toma.

- Estendeu-lho. - Vamos apanhar ar.

Ela olhou fixamente para ele com olhos inchados e confusos. Esquecera-se simplesmente que ele lá estava. - O quê?

- Vamos apanhar um pouco de ar - repetiu ele. E como ela estava ainda completamente desarmada, ajudou-a a levantar-se. Enfiou-lhe o casaco, virou-a e apertou eficientemente os botões.

- Preferia estar sozinha. - Miranda tentou aparentar calma, mas a garganta ainda estava arranhada e ela não conseguiu.

- Já estiveste bastante tempo sozinha. - Ryan vestiu também o seu casaco e puxou-a porta fora.

O ar era tonificante e o Sol estava suficientemente forte para fazer arder os olhos inflamados de Miranda. A humilhação estava a começar a infiltrar-se. As lágrimas eram bastante inúteis, pensou ela, mas pelo menos quando eram privadas ninguém a via perder o controlo.

- Esta é uma zona muito bonita - disse ele em tom de conversa. Manteve a mão dela na sua mesmo quando os dedos dela relaxaram. - Privacidade, uma vista deslumbrante, o cheiro do mar mesmo à porta. O jardim é que está a precisar de alguns cuidados.

Ryan concluiu que os Jones não passavam tempo suficiente no exterior. Do outro lado do relvado em ruínas havia um par de árvores enormes que suplicavam por ter uma cama de rede presa entre elas. Ele duvidava que alguma vez Miranda tivesse explorado os milagres de uma cama de rede numa sombra de uma tarde de Verão.

Havia arbustos, esfarrapados pelo Inverno, que ele imaginava florescerem maravilhosamente - e sem qualquer tipo de cuidados - na Primavera Havia zonas desnudadas no relvado a implorarem por serem replantadas e alimentadas.

Mas o facto de existir relva, arbustos, árvores antigas e uma impressionante parede de pinheiros no lado norte indicava que outrora alguém se preocupara o suficiente para plantar, ou pelo menos para contratar alguém para o fazer.

Ele podia ter sido sempre um citadino, mas apreciava a atmosfera rural.

- Não estás a cuidar do que tens aqui. Espantas-me, Miranda. Eu pensaria que uma mulher com o teu sentido prático faria questão de manter a sua propriedade e de preservar um legado como este.

- É só uma casa.

- Sim, é. Devia ser um lar. Cresceste aqui?

- Não. - Sentia a cabeça cheia e pesada devido ao choro. Queria voltar para dentro, tomar uma aspirina e deitar-se num quarto escuro. Mas não teve força suficiente para resistir quando ele a puxou pelo caminho da falésia. - Era da minha avó.

- Faz mais sentido. Não estava a ver o teu pai a decidir viver aqui depois de adulto. Não tem nada a ver com ele.

- Não conheces o meu pai.

- Claro que conheço. - O vento açoitava, envolvendo-os enquanto subiam. Séculos das suas carícias constantes haviam desgastado os rochedos, tornando-os lisos e boleados, resplandecentes como metal ao sol. - É pomposo e arrogante. Tem o tipo de obstinação que muito provavelmente o torna brilhante na sua área, mas também um ser humano pouco atencioso. Ele não te ouviu - acrescentou quando já tinham chegado à plataforma rochosa que se projectava sobre o mar - porque ele não sabe ouvir.

- E tu sabes. - Retirou a mão de dentro da dele e cruzou defensivamente os braços. - Não sei porque me havia de surpreender o facto de alguém que ganha a vida a roubar os bens das pessoas se dê ao trabalho de escutar as conversas alheias.

- Eu também não. Mas a questão é que te deixaram desamparada. O que é que vais fazer quanto a isso?

- O que é que posso fazer? Por mais autoridade que eu possa ter no Instituto, não me posso esquecer de que trabalho para eles. Fui temporariamente afastada dos meus deveres, e é só.

- Quando temos dignidade, não nos contentamos até as coisas serem da forma como desejamos.

- Não percebes nada disso. - Voltou-se bruscamente de costas para ele, e a auto comiseração que transparecera nos seus olhos deu lugar à raiva.

- Eles é que mandam, e sempre foi assim. Independentemente da forma como pintes a coisa, faço o que me mandam fazer. Dirijo o Instituto com o Andrew porque nenhum deles se quis preocupar com o funcionamento do dia-a-dia. E sempre soubemos que eles nos podiam tirar o tapete de debaixo dos pés quando lhes apetecesse. Foi o que fizeram agora.

- E vais tolerar que te dêem um pontapé no traseiro? Retalia, Miranda. - Agarrou-lhe nos cabelos enquanto o vento agitava violentamente os restantes caracóis ruivos. - Mostra-lhes de que és feita. O Instituto não é o único sítio onde podes brilhar.

- Achas que algum museu ou laboratório importante me aceitaria depois disto? O Bronze de Fiesole arruinou-me. Quem me dera nunca lhe ter posto a vista em cima.

Derrotada, sentou-se nas rochas a olhar fixamente para a ponta onde o farol se destacava como mármore branco contra o céu de um azul intenso.

- Então, monta o teu próprio laboratório.

- Isso é um sonho irreal.

- Muita gente me disse a mesma coisa quando quis abrir a galeria em Nova Iorque. - Sentou-se ao lado dela de pernas cruzadas.

Ela deixou escapar uma gargalhada. - A diferença aqui pode ser apenas o facto de eu não tencionar roubar para montar um negócio.

- Todos fazemos aquilo que melhor sabemos - disse ele. Retirou um charuto e protegeu a extremidade com as mãos em concha para o acender. - Tens contactos, não tens? És inteligente. Tens dinheiro.

- Sou inteligente e tenho dinheiro. Os contactos... - Encolheu os ombros. - Não posso contar com eles agora. Adoro o meu trabalho - ouviu-se dizer. - Adoro a sua estruturação, a descoberta. A maioria das pessoas pensa na ciência como uma série de passos rígidos, mas não é assim. Quando conseguimos encaixar alguns e obter uma resposta, é emocionante. Não quero perder isso.

- E não vais perder, a não ser que desistas.

- Assim que vi o Bronze de Fiesole, e percebi o que era o projecto, fiquei completamente extasiada com as possibilidades. Sabia que era um pouco de ego, mas quem é que queria saber? Ia autenticá-lo, provar o quão esperta e inteligente era, e a minha mãe aplaudiria. Como as mães fazem quando vêem os filhos numa peça de teatro da escola. Com um entusiasmo e orgulho sentidos. - Baixou a cabeça entre os joelhos. - Isto é patético.

- Não, não é. A maioria de nós passa a vida a exibir-se para os pais, à espera desse aplauso.

Ela virou-se para olhar para ele. - Tu também?

- Ainda me recordo da inauguração da minha galeria de Nova Iorque. Do momento em que os meus pais entraram. O meu pai com o seu melhor fato, aquele que levava sempre aos casamentos e funerais, e a minha mãe com um vestido azul novo e o cabelo todo arranjado. Lembro-me da expressão nos seus rostos. Entusiasmo e orgulho sentidos. - Riu-se um pouco. - E nem um pouco chocados. Foi muito importante para mim.

Miranda virou a cabeça, pousou o queixo nas mãos e olhou outra vez para o mar, para a zona da rebentação das ondas. - Lembro-me da expressão no rosto da minha mãe quando me despediu do projecto Fiesole - Suspirou. - Teria suportado melhor decepção ou desgosto do que aquele desdém gelado.

- Esquece o bronze.

- Como? Foi o que originou toda esta desgraça. Se ao menos eu pudesse voltar e ver onde é que errei... - Tapou os olhos com as mãos.

- Testá-lo outra vez como fiz com o David.

Lentamente, baixou as mãos. As palmas estavam húmidas. - Como com o David - murmurou. - Oh, meu Deus! - Levantou-se tão rapidamente que por um louco momento Ryan receou que ela se quisesse atirar.

- Espera! - Segurou-lhe firmemente na mão enquanto se levantava. - Estás demasiado perto da beira para o meu gosto.

- Foi como com o David! - Afastou-se dele e depois agarrou-lhe no casaco. - Segui o protocolo, passo a passo. Sei o que tive nas mãos. Eu sei! - Afastou-se novamente e virou-se de costas. - Fiz tudo bem. Especifiquei tudo. As medições, as fórmulas, os níveis de corrosão. Tinha os dados todos, as respostas todas. Alguém o trocou.

- Trocou?

- Como com o David. - Aproximou-se e deu-lhe um soco no peito como que para fazer entrar a verdade dentro dele. - Exactamente como com o David. O que o laboratório de Ponti analisou foi uma falsificação. Não foi o mesmo bronze. Era uma cópia. Tinha de ser uma cópia!

- Isso seria uma grande reviravolta, Dra. Jones. - E as hipóteses começaram a subir-lhe à cabeça como vinho de boa qualidade. - Interessante.

- Faz sentido. É a única coisa que faz sentido.

- Porquê? - Ryan levantou as sobrancelhas. - Porque é que não faz mais sentido teres-te enganado?

- Porque não me enganei. Oh, nem posso acreditar que tenha deixado isto obscurecer o que sei. - Enfiou a mão nos cabelos, pressionando os punhos nos lados da cabeça. - Não estava a pensar com clareza. Quando nos dizem muitas vezes que estamos errados, acabamos por acreditar. Mesmo quando não estamos.

Começou a andar, com passos largos e determinados, deixando o vento limpar-lhe o pensamento e o sangue borbulhar. - Eu teria continuado a acreditar se não tivesse sido o David.

- Ainda bem que o roubei.

Ela olhou-o de esguelha. Ele estava a caminhar ao mesmo ritmo que ela e parecia estar a desfrutar de um passeio descontraído numa tarde ventosa. - Aparentemente - murmurou ela. - Porquê aquela peça? Porque é que roubaste aquela peça específica?

- Já te disse, tinha um cliente.

- Quem?

Ryan sorriu. - Ora, Miranda, algumas coisas são sagradas.

- Podiam estar relacionados.

- O meu David e a tua dama? Isso é esticar um bocado.

- O meu David e a minha dama; e não é assim tão improvável. Eram ambos bronzes, ambos obras da Renascença, a Standjo e o Instituto estão relacionados, e eu trabalho em ambos. São estes os factos. Eram ambos genuínos e foram ambos substituídos por réplicas.

- E isso são especulações, e não factos.

- É uma teoria lógica e inteligente - corrigiu ela - e a base para uma conclusão preliminar.

- Conheço este cliente há vários anos. Acredita em mim, ele não está interessado em enredos ou esquemas complicados. Vê simplesmente uma coisa que quer e tenta arranjá-la. Se eu acho que é exequível, faço o trabalho. Mantemos as coisas simples.

- Simples. - Era uma atitude que dava graças nunca vir a compreender.

- E - acrescentou ele - ele não me contrataria para roubar uma falsificação.

Miranda franziu a testa. - Ainda acho que quem quer que tenha trocado o David também trocou a Dama Negra.

- Concordo que é uma possibilidade intrigante.

- Eu poderia solidificar esta conclusão se pudesse examinar as duas peças e compará-las.

- Ok.

- Ok, o quê?

- Vamos fazer isso.

Ela parou à porta do farol, onde o xisto argiloso rangia sob os seus pés.

- Fazer o quê?

Compará-los. Temos um. É apenas uma questão de conseguir o outro.

- Roubá-lo? Não sejas ridículo.

Ele agarrou-a pelo braço quando ela se virou. - Queres saber a verdade, não queres?

- Sim, quero a verdade, mas não vou voar até à Itália para invadir uma instalação governamental e roubar uma réplica sem qualquer valor.

Não há motivos para não aproveitarmos outras coisas enquanto lá estivermos. Era só uma ideia - acrescentou ele quando ela ficou de boca aberta. - Se estiveres certa, e conseguirmos prová-lo, vais salvar a tua reputação.

Era impossível, insano. Não podia ser feito. Mas ela viu o brilho no olhar dele e hesitou. - Porque é que te darias a esse trabalho? O que é que ganharias com isso?

- Se estiveres certa, fico mais perto de encontrar o David original. Também tenho uma reputação a salvar.

E se ela estivesse certa, pensou ele, e a Dama Negra fosse verdadeira, ele também ficaria mais perto dela. Encontrá-la-ia. Que maravilhosa aquisição para a sua colecção privada.

- Não vou transgredir a lei.

- Já estás a fazê-lo. Estás aqui comigo, não estás? A senhora é cúmplice por encobrimento, Dra. Jones. - Pousou amigavelmente o braço sobre os ombros dela. - Não te apontei uma arma à cabeça nem uma faca às costas. Fizeste-me passar pela segurança - continuou ele, caminhando de volta à casa. - Passaste o dia comigo, perfeitamente ciente de que estou em posse de um objecto roubado. Já estás envolvida. - Deu-lhe um beijo afectuoso no cimo da cabeça. - Podias levar a coisa até ao fim.

Olhou para o relógio e fez contas. - Sobe e faz as malas. Temos de passar primeiro por Nova Iorque. Tenho algumas coisas para tratar lá e preciso de ir buscar algumas roupas e ferramentas.

- Ferramentas? - Miranda desviou o cabelo da cara. É melhor não saber, decidiu. - Não posso simplesmente partir para Itália. Tenho de falar com o Andrew. Tenho de lhe explicar.

- Deixa-lhe um recado - sugeriu Ryan, abrindo a porta das traseiras. - Mas que seja breve. E diz-lhe que vais estar ausente por algumas semanas. Não expliques mais nada, e deixa-o fora disto se a polícia se começar a intrometer.

- A polícia. Se eu me for embora desta forma sem a investigação estar concluída, podem pensar que estava envolvida.

- O que aumenta a emoção, não é? É melhor não usares o teu telefone - murmurou ele. - Há sempre uma possibilidade de estar sob escuta.

Vou buscar o meu ao saco. Preciso de telefonar ao meu primo Joey. Ela tinha a cabeça a andar à roda. - O teu primo Joey?

- Ele é agente de viagens. Vai fazer as malas - repetiu ele. - Ele arranja forma de partirmos no primeiro voo. Não te esqueças do passaporte e do computador. Vamos querer acabar de examinar os ficheiros do pessoal.

Ela tentou respirar fundo. - Mais alguma coisa que eu deva levar?

- Apetite. - Tirou o telemóvel do saco. - Devemos chegar a Nova Iorque à hora do jantar. Vais adorar o tagliatelle da minha mãe.

Eram quase seis quando Andrew conseguiu chegar a casa. Tentara telefonar meia dúzia de vezes a Miranda, mas só conseguira falar para o atendedor de chamadas. Não tinha a certeza de como a iria encontrar - louca de ódio ou desolada de dor. Esperava estar preparado para lidar com qualquer das hipóteses, ou ambas.

Mas encontrou apenas um recado no frigorífico:

Andrew, estou certa de que sabes que me mandaram tirar uns dias de licença do Instituto. Desculpa abandonar-te numa altura destas. Não quero dizer que não tive escolha, por isso vou dizer que escolhi o que era melhor para mim. Vou estar fora durante algumas semanas. Por favor, não te preocupes. Entrarei em contacto contigo assim que puder.

Não te esqueças de despejar o lixo. O rolo de carne que sobrou de domingo dá-te para mais uma ou duas refeições. Vê se comes.

Com amor, Miranda

- Droga! - Arrancou o papel do frigorífico e releu-o. - Onde estás tu?

 

- Não percebo porque não fomos directamente para Florença. - Miranda já pensara bastante no assunto quando Ryan se sentou ao volante de um pequeno BMW para os levar para fora de La Guardia. - Se vamos cometer uma loucura destas, não há sentido em fazermos desvios.

- Não é um desvio, é uma paragem programada. Preciso das minhas coisas.

- Podias comprar roupas em Itália.

- E provavelmente vou fazê-lo. Se os italianos vestissem o mundo, este seria um lugar muito mais atraente. Contudo, preciso de determinadas coisas que nem sempre podem ser facilmente adquiridas no mercado.

- As tuas ferramentas - murmurou ela por entre dentes. - Ferramentas de assalto.

- Entre outras.

- Está bem, está bem. - Ela ajeitou-se no assento e tamborilou com os dedos no joelho. De alguma forma tinha de aceitar o facto de estar agora a trabalhar com um criminoso. Um ladrão, que, por definição, era uma pessoa sem integridade.

Sem a ajuda dele, Miranda não via forma de voltar a ver o bronze - ou a imitação. E havia uma imitação, garantiu a si própria. Era uma teoria lógica e que requeria mais informação e estudo para ser provada.

E se engolisse o orgulho e apresentasse essa teoria à mãe? A ideia quase a fez rir. Elizabeth rejeitá-la-ia, e à filha, num abrir e fechar de olhos, reduzindo-a a arrogância, teimosia e algum desespero.

E não de uma forma completamente descabida, pensou Miranda.

A única pessoa que estava disposta a ouvi-la e a explorar a possibilidade era um ladrão profissional que estava certamente a trabalhar para atingir os seus próprios objectivos - e que estava à espera que ela lhe entregasse a Vénus de Donatello como recompensa.

Bem, depois veriam isso.

Ele era um factor na equação, lembrou a si mesma, e nada mais. Encontrar e autenticar a Dama Negra era mais importante do que o meio utilizado para atingir esse fim.

- Não há motivos para irmos a Brooklyn.

- Claro que há. - Ryan pensava ter uma ideia bastante boa do que se passava naquele cérebro admirável dela. Ela tinha um rosto muito expressivo quando não sabia que estavam a observá-la. - Tenho saudades da comida da minha mãe.

Sorriu abertamente para ela e ultrapassou um sedan preguiçoso. Era tão fácil lê-la. Ela estava a detestar tudo aquilo, a julgar os prós e os contras para tentar encontrar uma justificação plausível para a decisão que tomara.

- E tenho alguns assuntos familiares a resolver antes de ir para Itália. A minha irmã vai querer sapatos - resmungou ele. - Ela quer sempre sapatos. É viciada no Ferragamo.

- Roubas sapatos para a tua irmã?

- Por favor! - Genuinamente insultado, fez cara feia ao trânsito.

- Não sou um ladrão de lojas.

- Desculpa, mas roubar é roubar.

Ryan arqueou maliciosamente a sobrancelha marcada com cicatriz.

- Nem por sombras!

- E não há motivos para eu ir a Brooklyn. Porque é que não me deixas no hotel em que vou ficar?

- Primeiro, não vais ficar em hotel nenhum. Vais ficar comigo. Miranda semicerrou os olhos. - Isso é que não vou.

- E segundo, vais a Brooklyn porque, como pareces ter esquecido, estamos colados até isto estar terminado. Vai aonde eu for... Dra. Jones.

- Isso é ridículo. - E inconveniente. Ela precisava de algum tempo a sós, de tempo apenas para si para poder registar tudo de forma organizada. Para pensar e reflectir. Ele não lhe dera tempo para pensar. - Tu próprio disseste que estou demasiado envolvida para fazer mais do que colaborar. Se não confias em mim, só vais complicar as coisas.

- Confiar em ti é que complicaria as coisas - corrigiu ele. - O teu problema é que tens uma consciência que te vai alertar de vez em quando e tentar convencer-te a ligares para a polícia e a confessares tudo. - Estendeu o braço para lhe dar pancadinhas na mão. - Considera-me o diabinho no teu ombro a bater no anjinho sempre que este começa a falar de honestidade e verdade.

- Não vou ficar em tua casa. Não tenho qualquer intenção de dormir contigo.

- Agora conseguiste. Qual é o sentido da vida?

O riso na sua voz fê-la cerrar os dentes e ela não teve outra hipótese senão falar através deles. - Sabes muito bem que queres que eu durma contigo.

- Era o sonho da minha vida, que agora foi destruído. Não sei como vou conseguir continuar a viver.

- Desprezo-te - disse ela com voz sibilante. E quando ele riu outra vez, ela olhou pela janela e ignorou-o o resto da viagem.

 

Ela não sabia o que tinha esperado, mas não fora certamente a bonita casinha de dois andares pintada de amarelo num bairro tranquilo.

- Cresceste aqui?

- Aqui? Não.

Ryan sorriu devido ao choque na voz dela. Imaginava que Miranda supusera que ele a levasse a algum bairro de lata onde o som das vozes seria tão penetrante como o cheiro a alho e couve.

- A minha família mudou-se para aqui há cerca de dez anos. Anda, estão à nossa espera e a mamã já deve ter algumas massas preparadas.

- Que queres dizer com à espera?

- Telefonei-lhe para a avisar de que vínhamos.

- Telefonaste? Quem é que é suposto eu ser?

- Essa é a pergunta a que todos vão ter de responder por si mesmos.

- O que é que lhe disseste? - perguntou Miranda, agarrando-se ao puxador da porta quando ele se debruçou sobre ela para a abrir.

- Que ia trazer uma mulher para jantar. - Deixou-se ficar um pouco como estava, com o corpo inclinado sobre o dela e os rostos próximos.

- Não sejas tímida. São pessoas muito simples.

- Não sou tímida. - Mas tinha aquela ligeira sensação doentia no estômago que sentia sempre que tinha de conhecer novas pessoas no plano social. Naquele caso era absurdo, pensou. - Só quero saber como é que explicaste... Pára com isso - ordenou quando o olhar dele desceu até à sua boca.

- Mmm. - Ele queria realmente dar uma dentada lenta e saborosa naquele teimoso lábio inferior. - Desculpa, estava distraído. Cheira... a algo interessante, Dra. Jones.

O momento exigia acção e movimento, e não a fantasia ridícula que lhe assaltou o pensamento de o agarrar pelos cabelos e o puxar para si. Em vez disso, deu-lhe um empurrão no peito com uma mão, abriu a porta com a outra e saiu.

Ele engasgou-se um pouco, o que ajudou a aliviar a tensão que se cumulara no baixo-ventre, e saiu pelo lado contrário. - Ei, Remo!

O grande cão castanho que tinha estado a dormir no relvado levantou-se, deu um latido que ecoou como um tiro de canhão e depois saltou afectuosamente para cima de Ryan. - Pensei que ias aprender a ter bons modos. - A rir, coçou as orelhas do cão deleitado. - O que é que aconteceu à escola de obediência? Vieste-te embora outra vez, não foi? - Perguntou Ryan enquanto se dirigiam para a porta de casa.

Como se estivesse a evitar a pergunta, o cão olhou para Miranda e deitou a língua de fora num sorriso canino.

- Não tens medo de cães, pois não?

- Não, gosto deles - respondeu ela quando Ryan abriu a porta. E através desta emergiu o som do noticiário da noite e de vozes altas - masculinas e femininas, envolvidas no que parecia tratar-se de uma discussão violenta -, o delicioso aroma a alho e especiarias, e um enorme gato malhado que correu para a rua e começou imediatamente a brigar com o cão.

- Lar, doce lar - murmurou Ryan, puxando-a para o meio da confusão.

- Se não consegues comportar-te como uma pessoa decente, nunca mais quero que fales com amigas minhas!

- Eu só comentei que se ela fizesse uma operação plástica bastante básica, melhoraria o seu aspecto, a sua auto-estima e a sua vida sexual.

- És um porco, Patrick!

- Sim, e a tua amiga tem um nariz que parece uma barbatana caudal de um Chevrolet de cinquenta e sete.

- Não só um porco, mas ainda por cima estúpido!

- Estou a tentar ouvir o noticiário. Por amor de Deus, vão discutir lá para fora enquanto estão a dar as notícias de desporto.

- Esta é obviamente uma má altura - disse Miranda num tom cerimonioso.

- Não, isto é o normal - garantiu-lhe Ryan. E arrastou-a até à espaçosa, abarrotada e barulhenta sala de estar.

- Ei, Ry!

O homem - na verdade, rapaz, reparou Miranda quando ele se voltou com um sorriso quase tão letal como o de Ryan - aproximou-se e socou Ryan no ombro. Um sinal de afecto, assumiu Miranda.

Tinha um cabelo escuro e encaracolado, e os olhos de um castanho dourado num rosto que Miranda presumia já ter causado muitos suspiros às colegas de liceu.

- Pat. - Com igual afecto, Ryan pôs-lhe um braço à volta do pescoço e apresentou-o. - O meu irmão mais novo, Patrick. Miranda Jones. Comporta-te - avisou a Patrick.

- Claro. Ei, Miranda, tudo bem?

Antes de ela conseguir responder, a jovem com quem Patrick estivera a discutir apareceu. Olhou Miranda de alto a baixo enquanto abraçava Ryan. - Tive saudades tuas. Olá, Miranda, eu sou a Colleen. - Não lhe estendeu a mão, mas manteve os braços em redor do irmão.

Tinha os atraentes tons ónix e dourado dos Boldari, e um brilho penetrante nos olhos.

- É um prazer conhecer-vos. - Miranda fez um sorriso frio a Colleen e deixou-o aquecer um pouco para Patrick.

- Vais deixar a rapariga à porta o resto do dia, ou vais trazê-la até aqui para eu Poder vê-la? - A voz veio da sala de estar e pôs os três irmãos a sorrir.

- Vou levá-la até aí, papá. Dá-me o teu casaco.

Ela entregou-lho com alguma relutância e ouviu a porta fechar-se atrás de si com o mesmo entusiasmo de uma mulher que ouve a porta da cela a bater.

Giorgio Boldari levantou-se da sua poltrona e, educadamente, retirou o som do televisor. Ryan não herdara a constituição física do pai, concluiu Miranda. O homem que a observava era baixo, atarracado e usava um bigode cinzento sobre lábios não sorridentes. Vestia umas calças de caqui, uma camisa bem passada, uns ténis e um medalhão da Virgem numa corrente ao pescoço.

Ninguém falou. Os ouvidos de Miranda começaram a zunir com os nervos.

- Não és italiana, pois não? - Perguntou ele finalmente.

- Não, não sou.

Giorgio contraiu os lábios e olhou para a cara dela. - Com um cabelo desses, deves provavelmente ter algo de irlandesa.

- A mãe do meu pai era uma Riley. - Miranda lutou contra a vontade de mexer os pés e levantou antes uma sobrancelha.

Ele sorriu então, rápido e brilhante como um relâmpago. - Esta tem classe, Ry. Pelo amor de Deus, Colleen, serve um pouco de vinho à rapariga! Vais deixá-la aqui cheia de sede? Gostas de basebol?

- Não, eu...

- Mas devias. É bom para ti. - Então voltou-se para o filho e envolveu Ryan num enorme abraço. - Devias passar mais tempo em casa.

- Estou a tratar disso. A mamã está na cozinha?

- Sim, sim. Maureen! - O grito poderia ter rachado cimento. - O Ryan está aqui com a miúda dele. Ela é uma brasa. - E piscou o olho a Miranda. - Porque é que não gostas de basebol?

- Não desgosto particularmente. Só que...

- O Ryan já foi batedor de terceira base. Já te contou?

- Não, eu...

- Teve uma média de quatrocentas e vinte e cinco batidas no último ano do liceu. Ninguém roubou mais bases do que o meu Ryan.

Miranda olhou para Ryan. - Aposto que não.

- Temos trofeus. Ry, mostra os teus trofeus à tua miúda.

- Mais tarde, papá.

Colleen e Patrick voltaram à discussão, em tom baixo e sibilante quando ela entrou com um tabuleiro de copos. O cão latia incessantemente à porta, e Giorgio gritou novamente para a mulher ir até à sala de estar conhecer a miúda de Ryan.

Pelo menos não ia precisar de conversar muito, pensou Miranda. Aquelas pessoas dominavam por completo, continuando como se não houvesse nenhum desconhecido na casa.

A casa propriamente dita era uma confusão, cheia de luz e arte. Miranda viu que Ryan estivera certo acerca das aguarelas da mãe. As três paisagens de Nova Iorque que estavam na parede eram encantadoras.

Havia uma estranha e intrigante escultura alta em metal preto - muito provavelmente obra do pai - atrás de um sofá com grandes almofadas azuis salpicadas de pêlo de cão.

Havia bugigangas e retratos emoldurados por toda a parte, uma corda grossa no chão, que mostrava sinais dos dentes de Remo, e uma confusão de jornais e revistas na mesa do café.

Ninguém se incomodou a apanhá-los nem a pedir desculpas pela balbúrdia.

- Bem-vinda à casa dos Boldari. - Com um piscar de olho, Ryan tirou dois copos do tabuleiro, entregou-lhe um e brindou. - A tua vida nunca mais será a mesma.

Ela começava a acreditar nisso.

Quando tomava o primeiro gole, entrou na sala uma mulher que limpava as mãos a um avental salpicado de molho. Maureen Boldari era uns bons sete centímetros mais alta do que o marido, magra como um salgueiro e com uma aparência tipicamente irlandesa. O cabelo brilhante caía em ondas em redor do seu rosto forte, e os vívidos olhos azuis cintilavam de prazer quando abriu os braços.

- Aqui está o meu menino. Vem dar um beijinho à mamã.

Ryan obedeceu, levantando-a do chão e fazendo-a soltar uma grande gargalhada. - Patrick, Colleen, parem com essa discussão antes que dê um estalo em cada um! Temos companhia! Giorgio, onde estão os teus modos? Desliga a televisão. Remo, pára de ladrar!

E como todos obedeceram, rapidamente e sem contestação, Miranda ficou com uma ideia bem clara de quem comandava a casa.

- Ryan, apresenta-me a tua amiga.

- Sim, mamã. Maureen Boldari, amor da minha vida, apresento-te Miranda Jones. É bonita, não é, mamã?

- É sim. Bem-vinda à nossa casa, Miranda.

- É muito simpático da sua parte receber-me, Sra. Boldari.

- Tenham modos - disse Maureen com um rápido movimento de cabeça - Patrick, traz a massa. Ryan, mostra a Miranda onde é que ela pode lavar as mãos.

Ryan levou-a para fora da sala de estar, através de um curto corredor, té a uma pequena casa de banho. Ela agarrou-o pela camisa. -- Disseste-lhes que estávamos envolvidos.

- Nós estamos envolvidos.

Sabes muito bem o que quero dizer - disse ela no mesmo sussurro furioso. - Tua miúda? Isso é ridículo!

- Eu não lhes disse que tu eras a minha miúda. - Porque aquilo o divertia, baixou também a voz para um sussurro. - Tenho trinta e dois anos, querem-me casado a fazer bebés. Calculam que sejas.

- Porque é que não deixaste claro que éramos sócios num negócio?

- És bela, és solteira e és mulher. Não teriam acreditado que somos apenas sócios. Qual é o problema?

- Primeiro, a tua irmã olhou para mim como se me fosse esmurrar o nariz se eu não te adorasse o suficiente; e depois, trata-se de uma mentira. Não que pormenores como a honestidade te digam alguma coisa.

- Sou sempre honesto com a minha família.

- Claro que és. Sem dúvida que a tua mãe tem muito orgulho no filho ladrão.

- Claro que tem.

Ela começou a gaguejar, esquecendo o que planeara dizer. - Estás a tentar convencer-me de que ela sabe que roubas?

- Claro que sabe. Achas que é estúpida? - Abanou a cabeça. - Eu não minto à minha mãe. Agora, despacha-te, está bem? - Deu-lhe um empurrãozinho para dentro da casa de banho quando ela ficou pasmada a olhar para ele. - Estou com fome.

Não ficou com fome durante muito tempo. Ninguém poderia ter ficado. Havia comida suficiente para alimentar um pequeno exército esfomeado do Terceiro Mundo.

Como tinham companhia, tomaram a refeição na sala de jantar, com as suas atraentes paredes listadas e bonita mesa de mogno. Havia porcelana fina, o brilho do cristal e vinho suficiente para fazer flutuar um navio de guerra.

A conversa nunca abrandava. Na verdade, se não se fosse suficientemente rápido com as palavras, não havia espaço para elas. Quando reparou que o nível de vinho no copo subia outra vez até ao rebordo sempre que bebia algum, Miranda pô-lo de parte e concentrou-se na comida.

Ryan estivera certo numa coisa. Ela adorava o tagliatelle da mãe dele.

Foi informada acerca da família. Michael, o segundo filho, dirigia a Galeria Boldari em São Francisco. Casara com uma colega de faculdade e tinha dois filhos. A última informação foi transmitida pelo orgulhoso avô com um olhar significativo para Ryan e um levantar de sobrancelha para Miranda.

- Gosta de crianças? - Perguntou Maureen a Miranda.

- Hum, sim. - De uma maneira vaga e cautelosa, pensou Miranda.

- As crianças preenchem a nossa vida. Dão-lhe um objectivo real e celebram o amor que une um homem e uma mulher. - Maureen passou um cesto de pão irresistível a Miranda.

- Tenho a certeza de que tem razão.

- Veja a minha Mary Jo.

E Miranda foi informada sobre as virtudes da filha mais velha, que tinha uma boutique em Manhattan e três filhos.

Depois havia a Bridgit, que tirara uma licença sabática de uma carreira no mundo editorial para ficar em casa com a bebé.

- Deve ter muito orgulho delas.

- São boas miúdas. Instruídas. - Olhou para Ryan ao proferir aquelas palavras. - Todos os meus filhos frequentaram a universidade. O Patrick é caloiro. Sabe tudo sobre computadores.

- Não diga. - Parecia-lhe um tópico muito mais seguro, por isso Miranda sorriu para ele. - É uma área fascinante.

- É como ganhar a vida a jogar jogos. Oh, Ry, tenho alguns dos dados que me pediste para aceder.

- Óptimo.

- Que dados? - Colleen parou de olhar para Miranda e olhou desconfiadamente para Ryan.

- Estou só a tratar de um negócio, querida. - Deu-lhe um aperto casual na mão. - Mamã, hoje superaste-te.

- Não mudes de assunto, Ryan.

- Colleen. - A voz de Maureen era suave, com aço por debaixo.

- Temos uma visita. Ajuda-me a levantar a mesa. Fiz tiramisu: a tua sobremesa favorita, Ryan.

- Vamos voltar a falar disto - disse Colleen por entre dentes. Mas levantou-se obedientemente para tirar os pratos.

- Deixa-me ajudar. - Miranda começou a levantar-se mas foi impedida pela anfitriã.

- Os convidados não trabalham. Sente-se.

- Não te preocupes com a Colleen - disse Patrick assim que ela saiu da sala. - Nós tratamos dela.

- Cala-te, Patrick. - Embora Ryan estivesse a sorrir para Miranda, ela notou uma ponta de desconforto nos seus olhos. - Acho que ainda não te dissemos o que é que a Colleen faz.

- Pois não.

- É polícia. - Ryan suspirou e levantou-se. - Vou ajudá-las com o café.

- Oh, maravilhoso. - Instintivamente, Miranda pegou no copo de vinho.

Miranda manteve-se afastada, obedecendo às regras da casa, e retirou-se para a sala de estar depois da sobremesa e do café. Como Giorgio estava ocupado a interrogá-la sobre o que fazia e porque não era casada, o seu pensamento estava ocupado. Ninguém parecia incomodar-se com as palavras ríspidas que vinham da cozinha.

Quando Colleen saiu de rompante, Patrick revirou simplesmente os olhos. - Lá vai ela outra vez.

- Tu prometeste, Ry! Deste a tua palavra!

- E estou a mantê-la. - Claramente frustrado, Ryan passou uma mão pelo cabelo. - Estou apenas a terminar o que comecei, querida. Depois acaba-se.

- E o que é que ela tem a ver com o assunto? - Apontou com um dedo para Miranda.

- Colleen, não é educado apontar - disse-lhe Giorgio.

- Que diabos! - E atirando alguma coisa desagradável em italiano por cima do ombro, Colleen saiu de casa a passos largos.

- Droga! - Ryan suspirou e ofereceu um sorriso apologético a Miranda. - Volto já.

Ela deixou-se ficar por mais um instante, quase se contorcendo por Giorgio e Patrick não pararem de olhar para si. - Bem... vou ver se a Sra. Boldari sempre precisa de ajuda.

E fugiu para o que esperava ser uma zona mais tranquila. A cozinha era grande e arejada e continha os odores aconchegantes e agradáveis da refeição. Com as suas bancadas claras e chão branco cintilante, era uma imagem retirada de uma revista.

Dezenas de desenhos incompreensíveis feitos a lápis atafulhavam a porta do frigorífico. Havia uma taça com fruta fresca em cima da mesa e cortinas curtas nas janelas.

Normalidade, concluiu Miranda.

- Estava com a esperança que pudesse fazer uma excepção à sua regra e me deixasse dar-lhe uma ajuda.

- Sente-se. - Maureen fez um gesto na direcção da mesa. - Tome um café. Eles já acabam de discutir. Devia bater nos dois por fazerem este espectáculo na frente de uma convidada. - Voltou-se para uma máquina de fazer cappuccinos e começou a preparar um. - Os meus filhos são passionais, inteligentes e muito teimosos. Saem ao pai.

- Acha? Vejo muito de si no Ryan.

Era exactamente a coisa certa a dizer. Os olhos de Maureen ficaram calorosos e afectuosos. - O primogénito. Independentemente de quantos tenhamos, só há um primeiro. Amamo-los a todos, e com tanta intensidade que até admira como o nosso coração não rebenta. Mas só há um primeiro. Um dia compreenderá.

- Hum. - Miranda escusou-se a comentar enquanto Maureen fazia espuma no leite. - Deve ser um bocado preocupante ter um filho na força policial.

- A Colleen sabe o que quer. Segue sempre em frente, aquela miúda. Um dia será capita. Vai ver. Está furiosa com o Ryan - continuou em tom de conversa, enquanto pousava a chávena à frente de Miranda. - Ele vai conseguir dar-lhe a volta.

- Tenho a certeza que sim. Ele é muito persuasivo.

- As raparigas andavam sempre atrás dele. Mas o meu Ryan é muito especial. E está interessado em si.

Estava na altura de esclarecer as coisas, decidiu Miranda. - Sra. Boldari, acho que o Ryan não foi completamente claro acerca disto. Somos apenas sócios.

- Acha? - Disse placidamente Maureen, virando-se em seguida para encher a máquina da loiça. - Ele não lhe parece suficientemente bom para si?

- Parece-me muito bom, mas...

- Talvez porque venha de Brooklyn e não de Park Avenue não seja suficientemente elegante para uma Doutora?

- Não, de todo. Só que... Só que somos apenas sócios.

- Ele não a beija?

- Ele... - Por amor de Deus, era só o que ela conseguia pensar, e encheu a boca com café quente espumoso para a calar.

- Bem me pareceu. Preocupar-me-ia com aquele menino se ele não beijasse uma mulher com o seu aspecto. Ele também aprecia a inteligência. Não é uma pessoa fútil. Mas talvez não goste do modo como ele beija. Isso é importante - acrescentou ela enquanto Miranda olhava fixamente para o café. - Se um homem não nos põe o sangue a ferver com os seus beijos, não pode haver uma relação feliz. O sexo é importante. Alguém que afirme o contrário é porque nunca teve bom sexo.

- Meu Deus! - Foi tudo o que lhe ocorreu.

- O que foi? Acha que eu não sei que o meu menino tem relações? Acha que sou tontinha?

- Eu não tive relações com o Ryan.

- Porquê?

- Porquê? - Miranda só conseguiu pestanejar enquanto Maureen fechava a máquina da louça e começava a encher a pia para lavar os tachos. - Porque mal o conheço. - Ela não conseguia acreditar que estava a ter aquela conversa. - Não tenho relações com todos os homens atraentes que conheço.

-- Ainda bem. Não quero que o meu filho ande metido com mulheres fáceis.

- Sra. Boldari. - Miranda perguntou-se se adiantaria bater com a cabeça na mesa. - Nós não temos nada um com o outro. A nossa relação é estritamente profissional.

- O Ryan não traz sócios cá a casa para comerem o meu tagliatelle. Como não tinha comentários a fazer a isso, Miranda calou-se outra vez e olhou para cima aliviada quando Ryan e a irmã entraram na cozinha.

Como esperado, ele já conseguira acalmar Colleen. Miranda reparou que os dois vinham a sorrir, abraçados à cintura um do outro. Pela primeira vez, Colleen lançou um olhar simpático a Miranda.

- Desculpa. Mas tínhamos de esclarecer umas coisas.

- Não tem importância.

- Então... - Colleen sentou-se à mesa e pôs os pés na cadeira em frente. - Tens algum palpite sobre quem terá roubado o bronze original?

Miranda olhou perplexa. - Desculpa?

- O Ryan pôs-me a par de tudo. Talvez eu possa ajudar a resolver isto.

- Saiu há seis meses da academia e acha que é o Sherlock Holmes. - Ryan baixou-se e beijou-lhe os cabelos. - Queres que seque os tachos, mamã?

- Não, é a vez do Patrick. - Maureen olhou em volta. - Alguém roubou alguma coisa à tua miúda?

- Fui eu - disse ele simplesmente, juntando-se a elas na mesa. Mas afinal tratava-se de uma imitação. Estamos a tentar esclarecer isso.

- Bom.

- Esperem. Esperem só um instante. - Miranda levantou as mãos.

- Bom? Foi o que disse? Bom? Está a dizer-me que sabe que o seu filho é um ladrão?

- Acha que sou alguma atrasada? - Maureen limpou as mãos antes de as pousar nas ancas. - Claro que sei.

- Eu disse-te que ela sabia - salientou Ryan.

- Sim, mas... - Ela simplesmente não acreditara. Estupefacta, mudou de posição e olhou para o bonito rosto de Maureen. - E isso não a incomoda? Está tudo bem? E tu... - Apontou para Colleen. - Tu és polícia. O teu irmão rouba. Como é que lidas com isso?

- Ele vai reformar-se. - Colleen ergueu os ombros. - Está apenas um pouco atrasado.

- Não compreendo. - Pressionou a cabeça com as mãos. - A senhora é mãe dele. Como pode encorajá-lo a desrespeitar a lei?

- Encorajar? - Maureen deu novamente uma grande gargalhada. - Quem é que precisou de o encorajar? - Decidida a dar à convidada a cortesia de uma explicação, pousou o pano da loiça. - Acredita em Deus?

- O quê? O que é que isso tem a ver com isto?

- Não discuta, responda. Acredita em Deus?

Ao lado de Miranda, Ryan sorria. Ela não podia saber, mas quando a mãe usava aquele tom de voz significava que decidira que gostava da pessoa.

- Está bem. Sim.

- Quando Deus nos dá um dom, é um pecado não o usarmos.

Miranda fechou os olhos por um momento. - Está a dizer que Deus deu um dom a Ryan, e que seria um pecado ele não arrombar edifícios e roubar?

- Deus podia ter-lhe dado o dom para a música, como fez com a Mary Jo, que toca piano como um anjo. Mas Deus deu-lhe este dom.

- Sra. Boldari...

- Não discutas - murmurou Ryan. - Só vais conseguir uma dor de cabeça.

Ela franziu-lhe o sobrolho. - Sra. Boldari - tentou outra vez - aprecio a sua lealdade para com o seu filho, mas...

- Sabe o que ele faz com o dom que tem?

- Sim, por acaso, sei.

- Ele compra esta casa para a família porque o antigo bairro já não é seguro. - Abriu os braços para abarcar a bela cozinha, e depois abanou um dedo. - Garante que os irmãos e irmãs tenham educação. Nada disso seria possível. Por mais que o Giorgio e eu trabalhássemos, não se pode mandar seis filhos para a universidade com os salários de professor. Deus deu-lhe um dom - disse ela outra vez, pousando a mão no ombro de Ryan. - Vai discutir com Deus?

Ryan tivera razão outra vez. Ela tinha realmente ficado com dores de cabeça. Balançou-a em silêncio no caminho até Manhattan. Não tinha a certeza do que a espantava mais naquele momento, se a posição de defesa que Maureen assumira em relação à opção de carreira do filho, se os abraços calorosos que tinha recebido de todos os membros da família antes de virem embora.

Ryan deixou-a sossegada. Quando estacionou em frente ao seu prédio, entregou as chaves ao porteiro. - Olá, Jack. Devolve este carro alugado ao aeroporto, por favor, e manda as malas da Dra. Jones, que estão na bagageira, para o meu apartamento.

- Claro, Sr. Boldari. Bem-vindo a casa. - A nota de vinte que Ryan lhe passou discretamente fez alargar o sorriso de Jack. - Tenha uma boa noite.

- Não compreendo a tua vida - começou Miranda enquanto ele a conduzia através de um elegante hall decorado com antiguidades vistosas e arte interessante.

- Não faz mal. Eu também não compreendo a tua. - Ryan entrou num elevador e usou a chave para aceder ao último piso. - Deves estar exausta. O Jack vai já enviar as tuas coisas para cima. Podes pôr-te à vontade.

- A tua mãe queria saber porque é que eu não estava a ter sexo contigo.

- Também me pergunto a mesma coisa. - O elevador abriu para uma zona de estar espaçosa em tons de azul e verde. Janelas amplas ofereciam uma belíssima vista sobre Nova Iorque.

Ele rendera-se claramente ao gosto por objectos de qualidade, decidiu ela depois de uma rápida vista de olhos. Candeeiros Art Deco, mesas Chippendale, cristal Baccarat.

Perguntou-se quantos daqueles objectos teriam sido roubados.

- Tudo legitimamente comprado - disse ele, lendo os seus pensamentos. - Bem, aquele candeeiro Erté foi caro, mas não consegui resistir. Queres uma touca de dormir?

- Não, não quero.

O chão era de madeira cor-de-mel envernizada e estava adornado com um dos tapetes orientais mais belos que ela já vira. A arte nas paredes ia desde um indistinto Corot a uma suave e bonita aguarela do que ela reconheceu como sendo uma paisagem irlandesa.

- Um quadro da tua mãe.

- Sim. Ela é boa, não é?

- Muito. Desconcertante, mas muito boa.

- Ela gosta de ti.

Com um suspiro, Miranda dirigiu-se à janela. - Eu também gosto dela.

A própria mãe nunca a abraçara daquela forma, com uma força que transmitia aceitação e afecto. O pai nunca lhe havia sorrido com aquele encantador piscar de olhos, como fizera o pai de Ryan.

Ela interrogava-se como, apesar de tudo, a família dele parecia tão mais ditosamente normal do que a sua.

- Devem ser as tuas malas. - Quando a campainha tocou, Ryan dirigiu-se ao intercomunicador e destrancou o elevador. A entrega foi rápida, com mais uma troca de notas. Quando o elevador se fechou novamente, Ryan deixou as malas onde estavam e foi ter com ela.

- Estás tensa - murmurou depois de começar a massajar-lhe os ombros. - Tinha esperança de que uma tarde com a minha família te relaxasse.

- Como é que alguém pode relaxar com toda aquela energia? - Ela arqueou-se para trás contra as mãos dele. - Deves ter tido uma infância interessante.

- Tive uma infância espectacular. - Longe da privilegiada que ela conhecia, e de todas as aparências, mas muito mais afectuosa. - Foi um dia longo - murmurou ele. E como sabia que ela estava a começar a relaxar, dobrou-se para lhe mordiscar o pescoço.

- Sim, muito. Pára.

- Estava a pensar chegar até... aqui. - Virou-a, cobriu a boca dela com a sua e roubou-lhe o fôlego.

A mãe dele dissera que os beijos deviam fazer ferver o sangue. O dela estava a ferver, borbulhando sob a pele, a nadar-lhe na cabeça e a bombear com força e demasiado depressa nas veias.

- Pára - disse ela outra vez; mas foi um protesto fraco, facilmente ignorado por ambos.

Ele conseguia sentir o desejo a fervilhar dentro dela. Não importava que não fosse por ele em particular. Não deixaria que isso importasse. Queria-a, queria ser aquele a quebrar o escudo protector e a descobrir o vulcão que tinha a certeza existir dentro dela.

Havia algo nela que o atraía com uma força lenta e contínua que se recusava a ser ignorada.

- Deixa-me tocar-te. - E enquanto fazia o pedido, as suas mãos já subiam pelo corpo dela para tocarem levemente os seus seios. - Deixa-me possuir-te.

Oh, sim. O suspiro circulou pelo cérebro confuso de Miranda como se procurasse um lugar para pousar. Toca-me. Possui-me. Deus, por favor, não me deixes pensar.

- Não. - Foi um choque ouvir-se a dizer tal coisa. Perceber que se estava a afastar quando ansiava por estar mais perto. - Isto não vai funcionar.

- Estava a funcionar lindamente para mim. - Ryan enfiou a mão no cós das calças dela e deu-lhe um puxão. - E diria que também estava a funcionar muito bem para ti.

- Não me vou deixar seduzir, Ryan. - Miranda concentrou-se na expressão de contrariedade nos olhos dele e ignorou o clamor do seu próprio sistema para a libertação que a boca dele prometera. - Não me vou deixar levar. Se queremos que esta ligação resulte, tem de ser mantida ao nível dos negócios. E apenas nesse nível.

- Não gosto desse nível.

- É esse o acordo, e é inegociável.

- A tua língua alguma vez ficou queimada pelo frio quando utilizas esse tom de voz? - Enfiou as mãos no bolso enquanto ela o observava de modo ameaçador. - Ok, Dra. Jones, são apenas negócios. Vou levá-la até ao seu quarto.

Ele voltou atrás para apanhar as malas dela, levando-as por umas escadas metálicas em caracol com uma suave patina verde. Depois pousou-as à porta do quarto e acenou com a cabeça. - Deves achar este quarto suficientemente confortável e privado. Partimos amanhã à noite. Assim terei tempo para tratar de uns assuntos pendentes. Dorme bem - acrescentou. E fechou a porta na cara dela antes que ela tivesse oportunidade de a fechar na sua.

Miranda começou a encolher os ombros, mas os seus olhos abriram-se subitamente quando ouviu o trancar de uma fechadura. Lançou-se imediatamente para a porta e tentou abri-la.

- Sacana. Não me podes trancar aqui!

- Apenas uma medida de precaução, Dra. Jones. - A voz dele era suave como seda. - Para garantir que fica aí até amanhã.

Afastou-se a assobiar enquanto ela batia na porta e prometia vingança.

 

Embora soubesse que se tratava de um gesto inútil, de manhã, Miranda trancou a porta da casa de banho. Tomou um duche rápido, esforçando-se por vigiar a porta para o caso de Ryan decidir que queria brincadeiras.

Ela não se surpreenderia se ele fizesse tal coisa.

Assim que se embrulhou no robe, demorou o tempo que precisou. Queria estar completamente vestida, com um confiante escudo de maquilhagem e de cabelo bem arranjado antes de o ver. Decidiu que não haveria pequeno-almoço íntimo em pijama.

Claro que primeiro ele tinha de a deixar sair. O filho da mãe.

- Deixa-me sair daqui, Boldari - gritou ela enquanto batia na porta.

A resposta foi o silêncio. Enfurecida, bateu com mais força, gritou mais alto e começou a acrescentar ameaças imaginativas.

Rapto, decidiu; acrescentaria rapto à lista de acusações contra ele. E esperava que os outros presos do estabelecimento prisional em que ele fosse passar o resto da vida se deliciassem a torturá-lo.

Frustrada, começou a mexer na maçaneta da porta. Esta abriu-se sem esforço e fez com que a raiva dela desse lugar ao embaraço.

Saiu e olhou cautelosamente para o hall de entrada. As portas estavam abertas, por isso dirigiu-se à primeira, determinada a confrontá-lo.

Viu-se numa biblioteca com estantes cheias de livros do chão até ao tecto, confortáveis cadeiras de couro e uma pequena lareira de mármore com um relógio de pêndulo a enfeitar a chaminé. Um armário de vidro em forma hexagonal continha uma colecção impressionante de frascos de rapé orientais. Ela cheirou uma vez. Ele podia ser inteligente nos gostos e cultura, mas continuava a ser um ladrão.

Tentou a porta seguinte e encontrou o quarto dele. A grande cama com cabeceira e pés ao estilo rococó era por si só impressionante, mas o facto de estar perfeitamente arranjada, com um edredão cinza-pérola bem alisado, fê-la ficar espantada. Ou ele não dormira ali, ou a mãe treinara-o muito bem.

Depois de conhecer Maureen, votava na segunda hipótese.

Um quarto bastante masculino, decidiu ela, contudo, subtilmente sensual com paredes cor-de-jade. Mulheres sinuosas ao estilo Art Deco que ele tanto parecia apreciar suportavam abat-jours de vidro fosco que suavizariam a luz. Uma cadeira bastante grande no mesmo tom de cinzento estava convidativamente virada para uma lareira feita de mármore raiado de rosa. Limoeiros ornamentais em urnas enormes ladeavam a ampla janela onde o cortinado fora desviado para deixar entrar a luz do Sol e a vista.

A cómoda era Duncan Phyfe, e junto ao bronze do deus persa Mitras estavam alguns trocos, um bilhete, uma carteira de fósforos e outros conteúdos habituais do bolso de um homem.

Miranda sentiu-se tentada a espreitar para dentro do armário, a abrir as gavetas, mas resistiu. Não era bom que ele entrasse enquanto ela estivesse a espiar e ficasse com a impressão de que ela estava de alguma forma interessada.

Havia um terceiro quarto, claramente um escritório de um homem que podia comprar o melhor para o seu trabalho de casa. Dois computadores, ambos com impressoras a laser, um telefone, arquivos de carvalho. Estantes maciças de carvalho continham livros, bugigangas e dezenas de fotografias de família emolduradas.

Os mais novos deviam ser as suas sobrinhas e sobrinhos, pensou. Carinhas bonitas a fazer caretas para a máquina. A mulher serena parecida com uma Madona que tinha um bebé ao colo era provavelmente a sua irmã Bridgit, o homem atraente com os olhos dos Boldari devia ser Michael, e a mulher que ele abraçava seria a sua esposa. Viviam na Califórnia, recordou-se ela.

Havia um retrato de Ryan com Colleen, com sorrisos idênticos, e uma fotografia de grupo da família completa tirada no Natal. As luzes da árvore estavam lindamente desfocadas atrás da multidão de rostos.

Pareciam felizes, pensou ela. Unidos, e nada rígidos como as pessoas pareciam muitas vezes nas fotos. Deu por si a examiná-las, a observar outra de Ryan a beijar a mão da irmã, que usava um vestido de casamento de uma princesa de conto de fadas.

A inveja percorreu-a sem que ela conseguisse evitar. Não havia fotografias sentimentais na sua casa para recordar os momentos familiares.

Desejou, tolamente, poder deslizar para dentro de um daqueles retratos, enfiar-se por debaixo de um daqueles braços acolhedores e sentir o que eles sentiam.

Sentir amor.

Afastou o pensamento, e afastou-se decidida das estantes. Não era altura para especular sobre o porquê de a família Boldari ser tão calorosa e a sua tão fria. Precisava de encontrar Ryan e de lhe dizer umas coisas enquanto ainda se sentia irritada.

Desceu as escadas, mordendo a língua para não o chamar. Não lhe queria dar esse prazer. Ele não estava na sala de estar, nem no pequeno quarto algo hedonístico com a sua enorme TV plasma, aparelhagem sofisticada e máquina de flippers - apropriadamente intitulada «Polícias e Ladrões».

Ela supunha que ele considerasse isso uma ironia.

Nem estava na cozinha. Mas havia meia cafeteira de café quente.

Ele não estava no apartamento.

Miranda pegou no telefone com a ideia estapafúrdia de ligar a Andrew e de lhe contar tudo. Mas o telefone estava mudo. Praguejando violentamente, correu de volta à sala de estar e carregou no botão do elevador. Este não fez um único ruído. A resmungar, voltou-se para a porta e encontrou-a trancada.

De olhos semicerrados, pegou no intercomunicador e não ouviu nada senão interferências.

O filho da mãe tinha destrancado o quarto, mas alargara apenas o perímetro da sua gaiola.

Já passava da uma quando Miranda ouviu o som do elevador em movimento. Não desperdiçara tempo naquela manhã. Aproveitara para vasculhar todos os milímetros do apartamento. Revistara-lhe o guarda-roupa sem qualquer sentimento de culpa. Ele inclinava-se definitivamente para os estilistas italianos. Tinha-lhe remexido nas gavetas. Ele preferia boxers sexy de seda, e camisas e camisolas de fibras naturais.

As escrivaninhas do quarto, biblioteca e escritório tinham sido todas trancadas. Ela perdera um pouco de tempo a tentar abrir as fechaduras com ganchos de cabelo. As palavras-passe dos computadores haviam-na bloqueado, o terraço de pedra da sala de estar encantara-a e a cafeína que continuara a beber enquanto bisbilhotava tinha-a posto nervosa.

Estava mais do que preparada quando ele atravessou a porta do elevador.

- Como é que te atreves a trancar-me desta forma? Não sou nenhuma prisioneira.

- Apenas precaução. - Pousou a pasta e sacos de compras que trazia.

- O que se segue? Algemas?

- Só quando nos conhecermos melhor. Como foi o teu dia?

- Eu...

- Odeias-me, abominas-me e desprezas-me - concluiu ele enquanto despia o casaco. - Sim, já percebi isso. - Pendurou-o cuidadosamente. Ela estava certa, a mãe dele treinara-o bem. - Tive algumas coisas a tratar.

Espero que te tenhas sentido à-vontade enquanto eu estive fora.

- Vou-me embora. Devia estar louca quando achei que podíamos trabalhar em conjunto.

Ele esperou até ela chegar ao fundo da escada. - A Dama Negra está num armazém no Bargello até se conseguir determinar de onde veio e quem a esculpiu.

Miranda parou, como ele já previra, e voltou-se lentamente para trás. - Como é que sabes?

- Cabe-me a mim saber essas coisas. Agora, contigo ou sem ti, vou a Itália buscá-la. Posso, com pouco esforço, arranjar outra arqueometrista, e acabarei por descobrir o que aconteceu e porquê. Se te fores embora, ficas completamente de fora.

- Nunca a conseguirás tirar do Bargello.

- Oh, sim. - O sorriso dele foi breve e feroz. - Podes ter a certeza que sim. Podes tentar obtê-la assim que eu conseguir, ou podes voltar a correr para o Maine e esperar que os teus pais decidam que o teu castigo acabou.

Miranda deixou passar o último comentário. Ela achava que estava bem perto da verdade. - Como é que a vais tirar de lá?

- Isso é problema meu.

- Para concordar com este plano idiota, tenho de saber os detalhes.

- Informo-te sobre o que precisas de saber à medida que formos avançando. É esse o acordo. Dentro ou fora, Dra. Jones? Estamos a perder tempo.

Miranda percebeu que seria ali que passaria o risco e já não teria possibilidade de voltar atrás. Ele estava a observá-la, à espera, com a arrogância suficiente no olhar para lhe atingir o orgulho.

- Se conseguires fazer um milagre e entrares realmente no Bargello, não levas nada para além do bronze. Não se trata de uma ida às compras.

- Combinado.

- Se acabarmos por conseguir o bronze, sou eu que fico responsável por ele.

- Tu é que és a cientista - acrescentou ele com um sorriso. Ela podia ficar com a cópia. Ele queria o original. - Está combinado - repetiu ele. - Dentro ou fora?

- Dentro. - Miranda expirou bruscamente. - Que Deus me ajude.

- Óptimo. - Ryan abriu a pasta e despejou o conteúdo para cima da mesa. - Isto é para ti.

Ela pegou no livro azul escuro. - Isto não é o meu passaporte.

- Agora é.

- Este não é o meu nome. Como é que conseguiste esta fotografia? - Olhou para a sua imagem. - Esta é a fotografia do meu passaporte.

- Exactamente.

- Não, o meu passaporte. E a minha carta de condução - continuou ela, pegando-lhe. - Roubaste-me a carteira!

- Levei apenas alguns documentos emprestados - corrigiu ele. Ela tremia. Não havia outro termo para aquilo. - Entraste no meu quarto enquanto eu estava a dormir e levaste as minhas coisas.

- Estavas descontrolada - lembrou-lhe ele. - Muito agitada. Talvez devesses tentar a meditação para libertar alguma dessa tensão.

- Isso é desprezível.

- Não, foi necessário. Teria sido desprezível se eu me tivesse deitado ao teu lado. Divertido, mas desprezível.

Ela inspirou pelo nariz e conteve a respiração. - O que é que fizeste aos meus documentos verdadeiros?

- Estão em lugar seguro. Não precisas deles até regressarmos. Estou apenas a ser cauteloso, querida. Se a polícia estiver a investigar, é melhor que não saiba que deixaste o país.

Ela largou outra vez o passaporte. - Não me chamo Abigail O'Connell.

- Sra. Abigail O'Connell. Estamos na nossa segunda lua-de-mel. E acho que te vou tratar por Abby. É afectuoso.

- Não vou fingir que sou casada contigo. Preferia estar casada com um sociopata.

 

Afinal ela era inexperiente, lembrou-se ele. Era precisa alguma paciência. - Miranda, vamos viajar juntos. Vamos partilhar uma suite de hotel. Um casal não vai causar suspeitas. Isto simplifica as coisas. Durante os próximos tempos, eu serei Kevin O'Connell, teu marido dedicado. Sou um corretor da Bolsa e tu trabalhas na publicidade. Estamos casados há cinco anos, vivemos em Manhattan e estamos a considerar formar família.

- Então agora somos yuppies.

- Já ninguém utiliza essa designação. Mas, basicamente, sim. Arranjei-te alguns cartões de crédito.

Ela olhou para cima da mesa. - Como é que conseguiste esta identificação?

- Contactos - disse ele.

Ela imaginou-o num quarto escuro e fedorento com um homem enorme, com uma tatuagem em forma de serpente e mau hálito, que vendia armas e identidades falsas.

Não era nada parecido com a casa em New Rochelle onde o primo contabilista de Ryan criava documentos na cave.

- É ilegal entrar-se num país estrangeiro com identidade falsa.

Ele olhou para ela durante dez segundos e depois desatou a rir à gargalhada. - És maravilhosa. A sério. Agora preciso de uma descrição pormenorizada do bronze. Tenho de ser capaz de o reconhecer rapidamente.

Ela examinou-o, pensando como é que alguém podia acompanhar um homem que saltava da hilaridade para o negócio num piscar de olhos. - Noventa ponto quatro centímetros de altura, vinte e quatro ponto sessenta e oito quilos de peso, uma mulher nua com a patina azul-esverdeada típica de um bronze com mais de quinhentos anos.

Enquanto falava, a imagem da estátua pulsava vivamente na sua cabeça. - Ela está em bicos de pés, de braços erguidos. Seria mais fácil se eu te fizesse um desenho.

- Óptimo. - Ryan dirigiu-se a um armário e retirou de lá um lápis e um bloco. - O mais exacto que conseguires. Detesto cometer erros.

Ela sentou-se e, com uma rapidez e habilidade que o deixou espantado, passou para o papel a imagem que tinha em mente. A cara, aquele sorriso malicioso e sensual, os dedos esticados para o alto, o arco fluido do corpo.

- Linda. Absolutamente linda - murmurou ele, atingido pelo poder da imagem enquanto espreitava por cima do ombro de Miranda. - És boa. Pintas?

- Não.

- Porquê?

- Porque não. - Teve de se esforçar para não sacudir o ombro. O rosto dele quase lhe tocou quando ela desenhava os últimos pormenores.

- Tens um verdadeiro talento. Porquê desperdiçá-lo?

- Não desperdiço. Um desenho bem feito pode ser muito útil no meu trabalho.

- Um talento para a arte devia trazer prazer à tua vida. - Ryan pegou no desenho e examinou-o mais um bocado. - Tens um dom.

Ela pousou o lápis e levantou-se. - O desenho está fiel. Se tiveres sorte em dares com ela, reconhecê-la-ás de imediato.

- A sorte tem muito pouco a ver com isto. - Passou dengosamente um dedo pelo rosto dela. - Pareces-te um pouco com ela... o formato do rosto, a forte estrutura óssea. Seria interessante ver-te com aquele sorriso manhoso no rosto. Não sorris muitas vezes, Miranda.

- Ultimamente não tenho tido muitos motivos para sorrir.

- Acho que podemos alterar isso. O carro chega dentro de uma hora... Abby. Aproveita para te habituares ao teu novo nome. E se achares que não te vais lembrar de me chamar Kevin... - Piscou-lhe o olho. - Chama-me apenas querido.

- Não chamo.

- Ah, e uma última coisa. - Tirou uma pequena caixa de jóias do bolso. Quando a abriu, o brilho de diamantes fê-la pestanejar. - Pelo poder que me foi concedido, e por aí adiante - disse ele, retirando o anel da caixa e pegando na mão dela.

- Não.

- Não sejas idiota. É pura fachada.

Não era possível não olhar para baixo e ficar deslumbrada quando ele o enfiou no dedo dela. A aliança de casamento estava cravejada com quatro diamantes que cintilavam como gelo. - Que fachada. Suponho que seja roubado.

- Assim magoas-me. Tenho um amigo que tem um negócio na área dos diamantes. Arranjei-o num grossista. Preciso de fazer as malas.

Ela observou o anel que tinha no dedo enquanto ele subia as escadas. Era absurdo, mas desejava que o anel não lhe tivesse servido tão bem. - Ryan? Consegues mesmo fazer isto?

Ele piscou-lhe o olho por cima do ombro. - Espera para veres.

Ryan percebeu imediatamente que ela tinha estado a remexer nas suas coisas. Fora cuidadosa, mas não o suficiente. De qualquer modo, ela não tinha visto os pequenos denunciadores que ele deixara espalhados pelo quarto: o fio de cabelo colocado sobre os puxadores das portas do guarda-roupa, o pequeno pedaço de fita adesiva invisível no topo da cómoda. Era um velho hábito que ele nunca abandonara mesmo com a alta segurança do seu prédio.

Abanou simplesmente a cabeça. Ela nunca teria encontrado nada que ele não quisesse.

Abriu o guarda-roupa, premiu um mecanismo escondido atrás da roupa e entrou no quarto privado. Seleccionar o que precisava não demorou muito tempo. Já pensara em tudo. Iria precisar das gazuas e dos instrumentos electrónicos; do rolo de corda fina e flexível e das luvas cirúrgicas.

Cola para postiços, tinta para o cabelo, algumas cicatrizes, dois pares de óculos. Ryan duvidava que o serviço exigisse disfarces, e se tudo corresse como devia ser, não precisaria de nada a não ser da mais básica das ferramentas. Ainda assim, preferia estar preparado para qualquer eventualidade.

Arrumou tudo cuidadosamente no fundo falso da mala. Juntou o que se esperaria que um homem levasse numa viagem romântica à Itália, enchendo a mala e um saco.

No escritório, preparou o seu portátil e escolheu os CDs que queria. Desligou a lista mental enquanto arrumava as malas, acrescentando algumas coisas que fora buscar à baixa da cidade.

Satisfeito, trancou a sua identificação verdadeira no cofre atrás da colecção completa de Edgar Allan Poe - o pai do mistério das portas trancadas - e, num impulso, retirou a aliança de ouro que lá guardava.

Fora a aliança de casamento do avô. A mãe dera-lha dois anos antes, no velório. Embora ele já tivesse tido a oportunidade de usar uma aliança de casamento como disfarce, nunca usara aquela.

Sem questionar porque é que o desejava agora, enfiou-a no dedo, fechou o cofre e foi buscar as malas.

Quando ele descia com as malas, o intercomunicador tocou a avisar que o carro tinha chegado. Miranda já levara as suas coisas para baixo. As malas, o computador portátil e a pasta estavam cuidadosamente empilhados. Ryan levantou as sobrancelhas.

- Gosto de uma mulher que sabe estar pronta a horas. Tudo pronto?

Ela respirou fundo. - Vamos andando. Detesto andar à corrida no aeroporto.

Ele sorriu-lhe. - Esta é a minha miúda - disse ele, dobrando-se para pegar numa das malas dela.

- Posso levar as minhas coisas. - Empurrou-lhe a mão e pegou ela na mala. - E não sou a tua miúda.

Ele recuou com um encolher de ombros, esperando até ela conseguir pegar em tudo. - Atrás de si, Dra. Jones.

Não devia tê-la surpreendido o facto de ele conseguir comprar dois bilhetes em primeira classe num espaço de tempo tão curto. Como se sobressaltava sempre que a hospedeira de bordo se dirigia a ela como Sra. O'Connell, Miranda embrenhou-se nas páginas de Kafka assim que o avião descolou.

Ryan passou algum tempo com o último romance policial de Lawrence Block. Depois bebeu um pouco de champanhe e viu Arnold Schwarzenegger à trolha no seu monitor de vídeo. Miranda bebia água mineral e tentava concentrar-se num documentário sobre a Natureza.

A meio do Atlântico, a noite agitada apanhou-a. Fazendo o melhor que podia para ignorar o companheiro de voo, rebateu o banco, esticou-se e ordenou ao cérebro que dormisse.

Sonhou com o Maine, com o mar a rebentar contra os rochedos e com um denso nevoeiro cinzento que encobria as formas. A luz cintilou desfocada, e ela utilizou-a para a orientar até ao farol.

Estava só; completamente só.

E estava assustada; terrivelmente assustada.

Aos tropeções, tacteante, lutando para não perder o fôlego por mais que os pulmões lhe ardessem. O riso de uma mulher, suave e ameaçador atormentava-a e ela começou a correr.

E deu por si à beira da falésia sobre o mar fervilhante.

Quando uma mão agarrou na sua, ela segurou-se com força. Não me deixes sozinha.

Ao seu lado, Ryan olhou para baixo para as mãos entrelaçadas. As dela estavam trémulas até a dormir. O que a perseguiria lá, perguntou-se ele, e o que a impediria de pedir ajuda?

Acariciou-lhe os dedos com o polegar até estes relaxarem. Mas manteve a mão dela na sua, achando-a curiosamente confortante enquanto fechava os olhos e adormecia.

 

- Só há um quarto. - Miranda não viu mais nada da bonita suite a não ser o único quarto com a graciosa cama extra-grande e elegante colcha branca.

Na sala de estar, Ryan abriu as portas duplas e saiu para o enorme terraço onde o ar cheirava a Primavera e o Sol italiano brilhava alegremente sobre os lisos telhados vermelhos.

- Olha-me esta vista. Este terraço foi uma das razões por que eu quis alugar este quarto outra vez. Podia viver aqui.

- Que bom. - Ela abriu as portas do quarto e saiu também. - Porque não fazes precisamente isso? - Ela não se deixaria encantar pela vista deslumbrante sobre a cidade, nem pelos alegres gerânios que enfeitavam os vasos mesmo abaixo do parapeito de pedra. Nem pelo homem que se debruçava sobre eles e que parecia ter nascido para estar precisamente naquele sítio.

- Só há um quarto - repetiu ela.

- Somos casados. A propósito, que tal trazeres-me uma cerveja?

- Estou certa de que há um certo tipo de mulher que te acha irresistivelmente divertido, Boldari. Mas eu não sou desse tipo. - Aproximou-se do corrimão. - Só há uma cama no único quarto existente.

- Se és tímida, podemos dormir à vez no sofá da sala. Primeiro tu.

- Pousou um braço sobre os ombros dela e apertou-os afectuosamente.

- Relaxa, Miranda. Levar-te para a cama seria divertido, mas não é a minha primeira prioridade. Uma vista destas compensa uma longa viagem de avião, não é?

- A vista não é a minha primeira prioridade.

- Já que está aqui, mais vale apreciá-la. Há um jovem casal que vive naquele apartamento ali. - Puxou-a ligeiramente e apontou para a janela de um último andar de um prédio amarelo-claro mesmo à esquerda.

- Trabalham juntos no jardim do terraço aos sábados de manhã. E houve uma noite em que saíram e fizeram amor ali.

- Tu viste-os?

- Só até a intenção ser inequívoca. Não sou nenhum pervertido.

- Quanto a isso, tenho as minhas dúvidas. Então já cá tinhas estado.

- Kevin O'Connell ficou aqui durante alguns dias no ano passado. E é por isso que o estamos a usar novamente. Num hotel de qualidade como este, o pessoal tem tendência a recordar-se dos hóspedes; mais ainda se dão boas gorjetas, e o Kevin é uma alma generosa.

- Porque é que estiveste aqui como Kevin O'Connell?

- Um pequeno problema com um relicário que tinha um fragmento de osso de Giovanni Battista.

- Roubaste uma relíquia? Uma relíquia? O osso de João Baptista?

- Apenas um fragmento. Diabos, há partes dele espalhadas por toda a Itália. Especialmente aqui, onde é santo padroeiro. - Ryan não conseguia evitar; divertia-se à grande com o olhar abismado de Miranda. - Muito popular, o Joãozinho. Ninguém vai dar por falta de uma lasca de osso.

- Estou sem palavras - murmurou Miranda.

- O meu cliente tinha cancro e convenceu-se de que a relíquia o salvaria. Claro que agora está morto, mas viveu mais nove meses do que os médicos haviam previsto. Por isso, quem pode saber? Vamos desfazer as malas. - Deu-lhe umas pancadinhas no ombro. - Vou tomar um duche e depois vamos trabalhar.

- Trabalhar?

- Tenho algumas compras para fazer.

- Não vou passar o dia a procurar Ferragamos para a tua irmã.

- Isso não vai demorar muito, e vou precisar de bugigangas para o resto da família.

- Olha, Boldari, eu acho que temos coisas mais importantes para fazer do que comprar lembranças para a tua família.

Ele enfureceu-a ao inclinar-se para lhe beijar a ponta do nariz. - Não te preocupes, querida. Também compro alguma coisa para ti. Calça sapatos confortáveis - aconselhou ele, e voltou para dentro para tomar um duche.

Ryan comprou uma pulseira de ouro cravada de esmeraldas numa loja na Ponte Vecchio - estava a aproximar-se o dia do aniversário da mãe - e pediu que a enviassem para o hotel. Visivelmente satisfeito com a quantidade de turistas e caçadores de pechinchas que apinhavam a ponte sobre o plácido Arno, acrescentou correntes de ouro italiano, brincos de marcassite e broches ao estilo florentino. Para as irmãs, disse a Miranda enquanto esta esperava impacientemente e se recusava a deixar-se seduzir pelo brilho nos escaparates.

- Se ficares aqui tempo suficiente, poderás ouvir todas as línguas do mundo - comentou ele.

- E tu ficaste aqui tempo suficiente?

Ele deslizou um braço por cima dos ombros dela, abanando a cabeça quando ela se contraiu. - Nunca se deixa levar pelo momento, Dra. Jones? Estamos em Florença, na mais antiga das pontes da cidade. O Sol brilha. Inspire e absorva - sugeriu ele.

Ela quase o fez, quase se encostou a ele para fazer isso mesmo. - Não viemos até cá pela atmosfera - disse ela no que esperava ser um tom suficientemente frio para diminuir o entusiasmo dele e os seus próprios anseios.

- Mas a atmosfera está aqui. E nós também. - Sem lhe dar ouvidos, pegou-a pela mão e puxou-a ponte afora.

As pequenas lojas e bancas pareciam encantá-lo, reparou Miranda ao vê-lo regatear malas de pele e caixas de bibelôs perto da Piazza della Repubblica.

Miranda ignorou a sugestão dele de comprar alguma coisa para ela e, desviando a sua atenção para a arquitectura, esperou silenciosamente por ele.

- Isto é mesmo a cara do Robbie. - Ryan pegou num pequeno casaco preto de cabedal.

- Robbie?

- O meu sobrinho. Tem três anos. Ia gostar imenso disto.

Era um casaco muito bem feito, indubitavelmente caro, e suficientemente amoroso para a fazer fechar bem os lábios para evitar um sorriso.

- Não é nada prático para uma criança de três anos.

- Foi feito para uma criança de três anos - corrigiu ele. - É por isso que é pequenino. Quanto? - perguntou ao comerciante. E levou o casaco.

Quando acabou de dar a volta, dirigiu-se para oeste. Mas se tinha esperança de a tentar com as modas da Via dei Tornabuoni, subestimou a força de vontade dela.

Ryan comprou três pares de sapatos na catedral do calçado de Ferragamo. Ela não comprou nada - incluindo um par de sabrinas de cabedal deslumbrantes que lhe haviam chamado a atenção e despertado o seu desejo.

Os cartões de crédito que levava na carteira não tinham o seu nome, lembrou a si mesma. Preferia andar descalça a usar um deles.

- A maioria das mulheres já teria nesta altura uma dúzia de sacos e caixas - comentou ele enquanto caminhavam em direcção ao rio.

- Não sou como a maioria das mulheres.

- Já reparei. Mas ficarias magnífica vestida de cabedal.

- Só nas tuas fantasias patéticas, Boldari.

- As minhas fantasias não têm nada de patético. - Dirigiu-se a uma loja e abriu uma porta de vidro.

- E agora?

- Não podemos vir a Florença sem comprar uma peça de arte.

- Não viemos aqui para comprar nada. Isto é suposto ser uma viagem de negócios.

- Relaxa. - Pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios. - Confia em mim.

- Essas são duas expressões que não combinam quando se trata de ti.

A loja estava cheia de reproduções de mármore e bronze. Deuses e deusas dançavam para seduzir os turistas a pegarem nos seus cartões de crédito e a comprarem uma cópia da obra de um mestre ou uma de um artista novo.

Com a paciência a esgotar-se, Miranda preparou-se para perder outra hora preciosa enquanto Ryan cumpria com os deveres familiares. Mas ele surpreendeu-a ao apontar para uma estátua esguia de Vénus em menos de cinco minutos.

- O que achas?

Ela aproximou-se discretamente e deu uma volta em torno da figura de bronze. - É proporcionada, não particularmente boa, mas se alguém da tua legião de parentes está à procura de uma peça para pôr no jardim, esta serve muito bem.

- Sim, acho que serve muito bem. - Dirigiu um sorriso satisfeito ao empregado, e depois fez Miranda franzir o sobrolho quando começou a folhear um dicionário de italiano.

Durante as compras, ele havia falado fluentemente a língua, condimentando frequentemente o discurso com coloquialismos casuais. Agora assassinava a mais básica das frases com um sotaque péssimo que fez o empregado sorrir para ele.

- O senhor é americano. Podemos falar em inglês.

- Sim? Graças a Deus. - Ele riu e puxou Miranda pela mão. - A minha mulher e eu queremos levar algo de especial para casa. Gostamos bastante desta peça. Vai ficar lindamente no solário, não vai, Abby?

A resposta dela foi um «Hum».

Ele também não regateou bem desta vez, estremecendo apenas ao saber o preço e puxando-a à parte como se quisesse trocar umas ideias em privado.

- O que é que estás a fazer? - Miranda deu por si a sussurrar porque a cabeça dele estava perto da sua.

- Não queria comprá-la sem ter a certeza de que a minha esposa aprovava.

- És um estúpido.

É isto que recebo por ser um marido atencioso. - Baixou a cabeça e beijou-a firmemente na boca; e só por instinto conseguiu evitar os dentes dela. - Promete-me que mais tarde vais tentar isso de novo.

Antes que ela pudesse retaliar, ele voltou-se para o empregado: - Vamos levá-la.

Quando o negócio estava concluído, a estátua embrulhada e encaixotada, Ryan recusou a oferta de a enviarem para o hotel.

- Não é necessário. Nós já estamos de regresso. - Pegou no saco e pôs um braço em volta de Miranda batendo-lhe com uma das duas máquinas fotográficas que tinha ao ombro. - Vamos comer daqueles gelados no caminho, Abby.

- Não preciso de gelado nenhum - resmungou ela quando saíram da loja.

- Claro que precisas. Tens de manter essa energia em cima. Temos mais uma paragem para fazer.

- Escuta, estou cansada, estou cheia de dores nos pés e não me apetece ir às compras. Encontro-me contigo no hotel.

- E perdes o que é bom? Vamos ao Bargello.

- Agora? - O que sentiu espinha acima foi um misto de receio e excitação. - Vamos tratar disso agora?

- Agora vamos fazer um pouco mais o papel de turistas. - Ele desceu do passeio estreito para lhe dar mais espaço. - Vamos observar o espaço, sentir o ambiente, tirar algumas fotografias. - Piscou o olho. - Vamos apalpar o terreno.

- Apalpar o terreno - murmurou ela.

- Onde estão as câmaras de segurança? A que distância da entrada está o Baco de Miguel Angelo? - Embora ele já soubesse exactamente. Não se tratava da sua primeira visita. - A que distância está do pátio? Quantos passos até à galeria do primeiro andar? Quando é que os guardas mudam de turno? Quantos...

- Está bem, está bem, já percebi. - Levantou as mãos. - Não percebo porque não fomos primeiro lá.

- Tudo no seu devido tempo, querida. A Abby e o Kevin quereriam ver a cidade no primeiro dia, não quereriam?

Ela achou que eles deviam parecer realmente turistas americanos: máquinas fotográficas, sacos de compras e roteiros turísticos. Ele comprou-lhe um gelado de cone enquanto caminhavam. Como ela achou que talvez ajudasse a aliviar o nó de tensão que tinha no estômago, lambeu o ácido e aguado gelado de limão enquanto ele ia apontando para edifícios, estátuas, e parando em montras de lojas ou a ver menus à porta dos restaurantes.

Talvez houvesse um sentido para aquilo tudo, concluiu ela. Ninguém olharia duas vezes para eles, e se se concentrasse, quase poderia acreditar que estava a passear pela cidade pela primeira vez. Era um pouco como estar numa peça de teatro, pensou. As férias italianas de Abby e Kevin. Se ao menos não fosse uma actriz tão má.

- Fabulosa, não é? - Ryan parou, os seus dedos brincando com os dela enquanto observava a magnífica catedral que dominava a cidade.

- Sim. A cúpula de Brunelleschi foi uma obra revolucionária. Ele não utilizou andaimes. Giotto desenhou o campanilo, mas não viveu o suficiente para o ver concluído. - Ajustou os óculos de sol. - A fachada de mármore neo-gótica ecoa o seu estilo, mas foi adicionada no século dezanove.

Miranda passou uma mão pelo cabelo e viu-o a sorrir para si. - o que é que foi?

- Tem muito jeito para dar aulas de História, Dra. Jones. - Quando o rosto dela começou a perder a cor, ele segurou-o entre as mãos. - Não fiques assim. Não era uma boca, era um elogio. - Os dedos dele roçaram suavemente pelas maçãs-do-rosto de Miranda. Tantos pontos sensíveis, pensou ele. - Diz-me mais coisas.

Se ele estava a gozar com ela, estava a fazer um bom trabalho a disfarçar. Por isso, ela arriscou: - Miguel Angelo esculpiu o seu David no pátio do Museo dell'Opera del Duomo.

- A sério?

Ele falou com tanta seriedade que os lábios dela tremeram. - Sim. Também copiou o São João de Donatello para o seu próprio Moisés. Teria sido um elogio. Mas o orgulho do museu, penso eu, é a sua Pietà. Pensa-se que a figura de Nicodemo seja um auto-retrato, e está brilhantemente executada. Mas a figura de Maria Madalena na mesma escultura é inferior, e é claramente o trabalho de um dos seus alunos. Não me beijes, Ryan - disse ela rapidamente, fechando os olhos quando a boca dele estava a poucos milímetros da sua. - Complica as coisas.

- E têm de ser simples?

- Sim. - Miranda abriu novamente os olhos e olhou para dentro dos dele. - Neste caso, sim.

- Normalmente eu concordaria contigo. - Pensativamente, passou o interior do polegar pelos lábios dela. - Sentimo-nos atraídos um pelo outro, e isso devia ser simples. Mas não é o que parece. - Baixou as mãos da cara para os ombros dela, e depois pelos braços até aos pulsos. A pulsação dela era rápida e forte e devia tê-lo agradado.

Mas ele recuou. - Ok, mantenhamos as coisas o mais simples possível. Vai para ali.

- Porquê?

- Para eu poder tirar-te uma fotografia, querida. - Baixou os óculos de sol e piscou-lhe o olho. - Queremos que todos os nossos amigos vejam, não é, Abby?

Embora ela considerasse aquilo um exagero, fez pose em frente do grande Duomo com centenas de outros visitantes e deixou-o tirar fotografias com o magnífico mármore branco, verde e rosa atrás de si.

- Agora tira-me tu uma. - Ryan aproximou-se levando na mão a sua vistosa Nikon. - É só apontar e disparar. Só...

- Eu sei tirar fotografias. - Arrancou-lha das mãos. - Kevin.

Ela andou para trás, apontou e focou. Talvez o seu coração estivesse um pouco acelerado. Ele era uma visão tão desconcertante, alto e moreno, e a sorrir com ar superior para a câmara.

- Já está. Satisfeito?

- Quase. - Interpelou um casal de turistas que concordou alegremente em tirar uma fotografia aos jovens americanos.

- Isto é ridículo - resmungou Miranda quando se viu novamente a posar, desta vez com o braço de Ryan à volta da sua cintura.

- É para a minha mãe - disse ele. E depois seguiu o impulso e beijou-a.

Um bando de pombos aproximou-se com um bater de asas e uma agitação de ar. Ela não teve tempo para resistir, muito menos para se defender. A boca dele era quente, firme, deslizante sobre a sua enquanto o braço em redor da cintura a puxava mais para ele. O som suave que ela fez nada teve a ver com protesto. A mão que levou à cara dele teve tudo a ver com mantê-lo ali.

O Sol estava radioso, o ar cheio de som. E o coração dela vacilava no limite de algo extraordinário.

Era afastar-se ou mergulhar, pensou Ryan. Desviou os lábios para a palma da mão dela. - Desculpa - disse. E não sorriu; não foi capaz.

- Acho que me deixei levar pelo momento.

E pegou na máquina fotográfica, deixando-a ali com os joelhos a tremer.

Pendurou a máquina de novo ao pescoço, pegou no saco de compras e, de olhos nos dela, estendeu uma mão. - Anda.

Ela quase esquecera o objectivo, quase esquecera o plano. Com um aceno de cabeça, pôs-se a caminho com ele.

Quando chegaram aos portões do antigo palácio, ele tirou o roteiro turístico do bolso traseiro das calças, como um bom turista.

- Foi construído em 1255 - disse a Miranda. - Do século dezasseis até meados do século dezanove foi usado como prisão. As execuções tinham lugar no pátio.

- Apropriado, dadas as circunstâncias - murmurou ela. conheço a história.

- A Dra. Jones conhece a história. - Deu-lhe uma palmadinha afectuosa no traseiro. - Abby, querida.

Assim que entraram na sala principal do rés-do-chão, ele pegou na câmara de vídeo. - Belo lugar, não é, Abby? Olha para este tipo; já derrotou alguns.

Apontou a câmara para o bronze glorioso de Baco, e depois começou lentamente a apanhar uma vista panorâmica da sala. - Espera até o Jack e a Sally verem isto. Vão ficar verdes de inveja.

Virou a câmara para uma entrada onde estava um guarda a vigiar os visitantes. - Dá uma volta - disse-lhe ele em voz baixa. - Procura parecer deslumbrada.

Ela tinha as palmas das mãos a suar. Era ridículo, claro. Tinham todo o direito de estar ali. Ninguém poderia saber o que se passava dentro da sua cabeça. Mas o coração batia dolorosamente enquanto ela circulava pela sala.

- Maravilhosamente horrível, não é?

Miranda deu um pequeno salto quando ele apareceu ao seu lado enquanto ela fingia observar o Adão e Eva de Bandinelli. - É uma importante peça da época.

- Só porque é antiga. Parece um casal dos subúrbios que vai alguns fins-de-semana para uma colónia de nudismo. Vamos ver os pássaros de Giambologna na galeria.

Após uma hora, Miranda começou a suspeitar que muito da actividade criminal envolvia tédio. Foram a todas as salas públicas, captando todos os detalhes com a câmara. Contudo, ela esquecera que a Sala dei Bronzetti tinha a melhor colecção de pequenos bronzes renascentistas da Itália. Como esta a fez lembrar-se do David, começou outra vez a sentir-se nervosa.

- Ainda não chega?

- Quase. Vai conversar com aquele guarda.

- Desculpa?

- Desvia-lhe a atenção. - Ryan baixou a câmara e desabotoou rapidamente os dois botões superiores da blusa de algodão de Miranda.

- O que é que pensas que estás a fazer?

- A garantir que a atenção dele fique centrada em ti, cara. Faz-lhe algumas perguntas, fala italiano de má qualidade, pisca-lhe os olhos e fá-lo sentir-se importante.

- O que é que vais fazer?

- Nada, se não lhe conseguires prender a atenção durante cinco minutos. Dá-me esse tempo, pergunta-lhe onde fica a casa de banho, depois  dirige-te para lá. Vai ter comigo ao pátio daqui a dez minutos.

- Mas...

- Vai - disse ele bruscamente. - Está aqui gente suficiente para eu conseguir fazer o que quero.

- Oh, Deus. Está bem.

Tinha o estômago todo embrulhado e os joelhos a tremer quando se aproximou do guarda. - Ah... scusi - começou ela, conferindo à palavra um acentuado sotaque americano. - Per favore... - Viu o olhar do guarda desviar-se para a abertura na sua blusa e depois voltar a olhar para o rosto dela com um sorriso. Ela engoliu em seco e depois perguntou: - Inglês?

- Si, signora, um pouco.

- Oh, que maravilha. - Miranda experimentou pestanejar e viu pelo sorriso do guarda que tais truques resultavam realmente. - Estudei um pouco de italiano antes de viajar, mas baralho-me toda. Sou uma cabeça-no-ar. É terrível que os americanos não falem uma segunda língua como a maioria dos europeus, não é?

Pela forma como o olhar dele estava a turvar, ela deduziu que estava a falar depressa de mais para ele a compreender. Melhor ainda. - Aqui tudo é tão bonito. Será que me podia dizer alguma coisa sobre... - Escolheu uma escultura ao acaso.

Ryan esperou até ver a atenção do guarda centrada em Miranda e, sem ser notado, tirou uma gazua fina do bolso e dirigiu-se a uma porta secundária.

Foi bastante fácil, mesmo com as mãos atrás das costas. O museu não esperava que os seus visitantes viessem armados com gazuas ou que quisessem entrar em salas trancadas em plena luz do dia.

A planta do museu estava guardada num ficheiro do portátil. Assim como dezenas de outras. Se a sua fonte fosse fiável, Ryan iria encontrar o que procurava atrás daquela porta, num dos armazéns daquele piso.

Manteve-se atento à câmara de segurança e aguardou que um grupo de entusiastas de arte chegasse à sua frente.

Antes de estes se terem afastado, atravessou a porta e fechou-a suavemente atrás dele.

Inspirou profundamente de satisfação, calçou as luvas que tinha enfiado no bolso e flectiu os dedos. Não podia demorar-se muito tempo.

O armazém era uma confusão de pequenos compartimentos atafulhados de estátuas e quadros, a maioria dos quais necessitava desesperadamente de restauro. Ele sabia que geralmente aqueles que ganhavam a vida com a arte não eram as mais organizadas das almas.

Várias peças captaram a sua atenção, incluindo uma Madona de olhar triste com um ombro partido. Mas ele estava à procura de um tipo completamente diferente de dama...

O som de passos e de um assobio dissonante fê-lo procurar rapidamente refúgio.

Ela esperou os dez minutos, e quinze. Aos vinte já estava a apertar o assento do banco do pátio e a imaginar como seria passar algum tempo num presídio italiano.

Talvez a comida fosse boa.

Pelo menos já não matavam ladrões nem penduravam os cadáveres às janelas do Bargello como uma demonstração de justiça sumária.

Olhou mais uma vez para o relógio e passou os dedos pela boca. Tinha a certeza de que ele fora apanhado. Naquele momento deveria estar a ser interrogado numa salinha qualquer e já a denunciara sem qualquer escrúpulo.

Então viu-o a atravessar descontraidamente o pátio sem qualquer sinal de receio. O seu alívio foi tal que se levantou de um salto e se atirou nos braços dele.

- Onde é que estiveste? Pensei que...

Ele beijou-a tanto para parar os seus gaguejos como para tirar partido da situação. - Vamos tomar qualquer coisa e já conversamos - disse ele com a boca encostada à dela.

- Como é que pudeste fazer-me isto? Disseste dez minutos e passou quase meia hora!

- Precisei de demorar um pouco mais. - Estavam ainda de lábios encostados, e ele sorriu para ela. - Sentiste a minha falta?

- Não. Estava a pensar qual seria o menu na cadeia hoje à noite.

- Tem um pouco de confiança. - Deu-lhe a mão e começaram a caminhar. - Um pouco de vinho e queijo vinha mesmo a calhar agora. A Piazza della Signoria não é tão pitoresca como as outras, mas é perto.

- Onde é que foste? - Perguntou ela. - Estive a entreter o guarda o máximo de tempo possível, e quando olhei em volta, já não te vi.

- Quis ver o que estava por detrás da porta número três. Aquele lugar pode ter sido em tempos um palácio, e depois uma cadeia, mas as portas interiores são brincadeira para crianças.

- Como é que pudeste arriscar-te dessa maneira? Invadires uma área restrita com um guarda a dois metros de distância?

- Essa é geralmente a melhor altura. - Olhou para a montra de uma loja e lembrou-se que tinha de arranjar mais tempo para ir às compras.

- Encontrei a tua dama - disse ele casualmente.

- É uma atitude irresponsável, idiota e nada mais do que egocêntrica... O quê?

- Encontrei-a. - O seu sorriso iluminou-se como o sol toscano. - E não me parece que ela goste muito de estar escondida no escuro a apanhar pó. Paciência - disse ele antes que ela o pudesse questionar. - Tenho sede.

- Tens sede? Por amor de Deus, como é que podes pensar em vinho e queijo? Devíamos estar a fazer alguma coisa. A planear o nosso próximo passo. Não podemos pôr-nos simplesmente debaixo de um toldo a beber Chianti.

- É precisamente isso que vamos fazer. E pára de olhar para trás como se a polizia estivesse no nosso encalço.

Puxou-a em direcção a uma grande esplanada de um restaurante e escolheu uma mesa vaga.

- Estás louco! A comprar lembranças e casacos de cabedal para crianças, a passear pelo Bargello como se nunca lá tivesses estado. E agora...

Calou-se, chocada, quando ele a empurrou para uma cadeira. Apertou-lhe a mão com força ao inclinar-se para ela sobre a mesa. O sorriso que lhe enviou foi tão duro e gelado como a sua voz.

- Agora vamos sentar-nos aqui um bocado, e não me vais dar trabalhos.

- Eu...

- Nenhum trabalho. - O sorriso tornou-se mais caloroso quando olhou para o empregado de mesa. Como o disfarce parecia absurdo naquele momento, ele pediu uma garrafa do vinho local e um sortido de queijos num italiano perfeito.

- Não vou tolerar as tuas fracas tentativas de me intimidares.

- Querida, vais tolerar o que eu te disser para tolerares. Sou eu que tenho a dama.

- Estás a... O quê? - A cor que lhe tinha subido às faces desvaneceu novamente. - O que é que queres dizer com isso?

- Está debaixo da mesa.

- Debaixo da... - Quando ela se preparava para arredar a cadeira e espreitar para debaixo da mesa, ele apertou-lhe mais a mão até ela se queixar.

- Olha para mim, cara, e finge que estás apaixonada. - Beijou os dedos magoados de Miranda.

- Estás a dizer-me que entraste num museu em plena luz do dia e que saíste com o bronze?

- Sou bom. Já te tinha dito. Se não tivesse entretanto aparecido um guarda no armazém eu teria feito tudo em metade do tempo.

- Mas disseste que tínhamos de explorar o local, gravar tudo, tirar medidas, sentir o ambiente.

Ele beijou-lhe os dedos outra vez. - Menti. - Manteve a mão dela na sua e os olhos sonhadoramente nos dela enquanto o empregado pousava o vinho e o queijo na mesa. Reconhecendo dois apaixonados, o empregado sorriu complacentemente e deixou-os a sós.

- Mentiste.

- Se te tivesse dito que lá ia entrar para o ir buscar, terias ficado nervosa e muito provavelmente terias estragado tudo. - Serviu vinho em ambos os copos, provou e aprovou. - O vinho desta região é excepcional. Não vais experimentá-lo?

Ainda a olhar para ele, Miranda levantou o copo e esvaziou-o em poucos goles. Era agora cúmplice de roubo.

- Se vais beber dessa maneira, é melhor comeres alguma coisa. Cortou um pouco de queijo e ofereceu-lho. - Toma.

Ela empurrou-lhe a mão e pegou na garrafa. - Sabias de antemão que ias fazer isto.

- Eu sabia de antemão que, se a oportunidade surgisse, faria a troca.

- Que troca?

- O bronze que comprámos hoje. Pu-lo no lugar da Dama Negra. Já te disse que a maioria das pessoas vê aquilo que espera ver. Está uma estátua de bronze de uma mulher no armazém. O mais provável é que durante algum tempo ninguém se aperceba que se trata do bronze errado.

Provou um pouco de queijo e comeu mais numa tosta. - Quando isso acontecer, irão à procura do certo pensando que mudou de lugar. E quando não o encontrarem, não serão capazes de determinar com exactidão quando é que foi roubado. Se tivermos sorte, nessa altura já estaremos de regresso aos Estados Unidos.

- Preciso de o ver.

- Há muito tempo para isso. Tenho de confessar... saber que se vai roubar uma falsificação não é muito emocionante.

- Ai não? - Murmurou ela.

- Não. E vou sentir falta dessa emoção quando me afastar completamente. A propósito, fizeste um bom trabalho.

- Oh. - Ela não sentira nenhuma emoção; só um nó no estômago.

- A distrair o guarda. É melhor fortaleceres-te. - Ofereceu-lhe queijo outra vez. - Ainda temos muito que fazer.

 

Era surreal, estar no quarto do hotel com a Dama Negra nas mãos. Miranda examinou-a cuidadosamente, reparando de onde tinham sido retiradas amostras, calculando-lhe o peso e avaliando o estilo.

Era uma obra de arte bonita e graciosa, com a patina azul-esverdeada conferindo-lhe a dignidade da idade.

Colocou-a em cima da mesa ao lado do David.

- É linda - comentou Ryan fumando o seu charuto. - O esboço que fizeste dela era bastante exacto. Não capturaste o espírito, mas apanhaste muito bem os pormenores. Serias melhor artista se te empenhasses mais.

- Não sou artista. - A garganta dela estava seca como pó. - Sou uma cientista, e este não é o bronze que testei.

Ele ergueu uma sobrancelha. - Como é que sabes?

Ela não podia dizer-lhe que se tratava de um pressentimento. Não podia sequer explicar a si própria o facto de não sentir o mesmo formigueiro na ponta dos dedos quando a segurara. Por isso, apresentou-lhe factos.

- É muito possível para alguém com experiência reconhecer a obra do século vinte apenas com um exame visual. Neste caso eu certamente não me basearia apenas nisso. Mas tirei amostras. Aqui e aqui. - Usou a ponta de um dedo para apontar para a barriga da perna e para a curva do ombro. - Não há sinais disso nesta peça. Estas não são as minhas marcas. Preciso de equipamento e das minhas anotações para verificar, mas este não é o bronze que examinei.

Considerando, Ryan soltou a cinza do charuto para dentro de um cinzeiro. - Vamos verificá-lo primeiro.

- Ninguém vai acreditar em mim. Mesmo quando eu o verificar, ninguém acreditará que este não é o bronze. - Olhou para Ryan. - Porque haveriam de acreditar?

- Acreditarão quando conseguirmos o original.

- Como...

- Um passo de cada vez, Dra. Jones. É melhor trocar de roupa. O preto básico resulta melhor para uma divertida noite de arrombamento e assalto. Vou tratar do transporte.

Ela humedeceu os lábios. - Vamos entrar na Standjo.

- É esse o plano. - Ele sentiu a hesitação dela e recostou-se na cadeira. - A não ser que queiras ligar à tua mãe, explicar-lhe tudo isto e pedir-lhe que te ceda algum tempo de laboratório.

O olhar de Miranda arrefeceu quando ela se levantou. - Vou trocar-me.

A porta do quarto não tinha fechadura, por isso ela arrastou a cadeira da secretária e encaixou as costas por debaixo da maçaneta. Fazia-a sentir-se melhor. Só conseguia pensar que ele estava a usá-la como se ela não passasse de mais uma ferramenta. A ideia de serem sócios era uma ilusão E agora tinha-o ajudado a roubar.

Estava prestes a entrar furtivamente num edifício da família. E como poderia impedi-lo se ele decidisse fazer mais do que realizar alguns testes básicos?

Conseguia ouvi-lo a falar ao telefone na entrada, e demorou-se a vestir a blusa e as calças pretas. Precisava de um plano seu, necessitava de recrutar alguém da sua confiança.

- Tenho de ir rapidamente à recepção - gritou ele. - Despacha-te aí dentro. Só demoro um minuto, e também preciso de me trocar.

- Estou quase pronta. - E no instante em que ouviu a porta a fechar-se, afastou a cadeira da porta. - Demora, demora, demora - murmurou ela freneticamente enquanto tirava a agenda telefónica de dentro da pasta. Folheou-a, encontrou o número e fez a chamada.

- Pronto.

- Giovanni, é a Miranda.

- Miranda? - Não havia satisfação na voz dele, mas precaução.

- Onde estás? O teu irmão...

- Estou em Florença - interrompeu ela. - Preciso de te ver imediatamente. Por favor, Giovanni, encontra-te comigo em Santa Maria Novella. Dez minutos.

- Mas...

- Por favor, é urgente. - Desligou rapidamente e depois, agindo com ligeireza, envolveu os bronzes numa esponja protectora e enfiou-os outra vez no saco. Agarrou no saco, na mala e saiu a correr.

Foi pelas escadas, descendo rapidamente os lanços alcatifados com o coração aos saltos e esforçando-se por aguentar o peso do saco.

Conseguia ver Ryan na recepção a conversar alegremente com o recepcionista. Não podia arriscar-se a atravessar o hall de entrada, e tentou passar despercebidamente até à sala de estar. Continuou a andar, através das portas de vidro que levavam ao bonito pátio, com a sua piscina cintilante e árvores sombreiras. Os pombos fugiam à medida que ela passava a correr.

Embora o saco fosse muito pesado, não parou para tomar fôlego até ter dado a volta ao edifício e conseguido chegar à rua. Mesmo aí, só parou o tempo suficiente para mudar o saco de mão, reajustar o peso e lançar um olhar nervoso para trás. Depois deslocou-se directamente para a igreja.

Santa Maria Novella, com os seus encantadores padrões de mármore verde e branco, ficava a poucos passos do hotel.

Miranda controlou a necessidade de correr e entrou calmamente no espaço frio e sombrio. As pernas tremiam-lhe quando se sentou num lugar perto do coro. Só então se pôs a pensar o que raios é que estava a fazer.

Ryan ia ficar furioso, e ela não tinha a certeza de quanta violência estaria escondida por debaixo daquela superfície elegante. Mas estava a fazer a coisa certa, a única coisa lógica.

Até a cópia precisava de ser protegida até tudo estar resolvido. Não podia confiar num homem que ganhava a vida a roubar.

Giovanni iria aparecer, pensou ela. Conhecia-o há anos. Por mais atiradiço ou excêntrico que pudesse ser, era no fundo um cientista. E sempre fora seu amigo.

Iria ouvi-la e emitir a sua opinião. Iria ajudá-la.

Tentando acalmar-se, fechou os olhos.

Havia algo de diferente na atmosfera de lugares como aquele, templos antigos de fé e poder. A certos níveis, a religião sempre tivera a ver com poder. Ali, aquele poder manifestara-se em grandiosas obras de arte, a maioria paga pelos cofres dos Médicis.

A comprarem as suas almas? Interrogou-se ela. A tentarem equilibrar os seus pecados e delitos criando grandeza para uma igreja? Lourenço traíra a mulher com a Dama Negra - por mais aceitável que esse tipo de relacionamento fosse na altura. E o seu maior protegido imortalizara-a em bronze.

Teria ele sabido?

Não, não, recordou-se ela, já estava morto quando o bronze fora esculpido. Ela estaria a fazer a transição para Pedro, ou para um dos primos mais novos.

Ela não teria abdicado do poder que a sua beleza lhe garantia recusando um novo protector. Era demasiado esperta e prática para isso. Para prosperar, ou até para sobreviver naquele período, uma mulher precisava da protecção de um homem, da sua própria riqueza ou de uma linha aceitável.

Ou de uma grande beleza e uma mente e coração frios que soubesse como tirar partido deles.

Giulietta soubera.

A tremer, Miranda abriu novamente os olhos.Era o bronze, e não a mulher, que interessava naquele momento, lembrou a si própria.Era a ciência, e não a especulação, que solucionaria o puzzle.

Ouviu os passos rápidos e ficou tensa. Ele encontrara-a. Oh, Deus. Levantou-se de um salto, voltou-se e quase chorou de alívio.

- Giovanni. - Sentiu as pernas enfraquecerem quando avançou para o abraçar.

- Bella, o que é que fazes aqui? - Giovanni respondeu ao abraço com  um misto de exasperação e afecto. - Porque é que me chamaste chamaste com medo na voz e me pediste para me encontrar contigo como se fosse um espião? - Olhou para o alto altar. - E numa igreja.

- É um lugar tranquilo, seguro. É um santuário - disse ela com um sorriso fraco ao afastar-se. - Eu quero explicar, mas não sei quanto tempo tenho. Nesta altura ele já sabe que fugi, e anda à minha procura.

- Quem é que sabe?

- É demasiado complicado. Senta-te um minuto. - A voz dela era um sussurro, como convinha numa igreja e numa conspiração. - Giovanni, o bronze. A Dama Negra era uma imitação.

- Miranda, o meu inglês não é dos melhores, mas para ser uma imitação, tinha de haver algo para imitar. O bronze era uma falsificação, uma piada de mau gosto, um... - Tentou arranjar uma palavra. - Azar - decidiu. - As autoridades interrogaram o canalizador, mas parece que ele não passava de um pateta. É esta a palavra? Alguém tentou fazer passar aquela peça por genuína e quase conseguiu.

- Mas era genuína.

Giovanni pegou nas mãos dela. - Eu sei que isto é difícil para ti.

- Tu viste os resultados.

- Si, mas...

Magoava-a, ver dúvida e suspeição nos olhos de um amigo. - Achas que os manipulei?

- Acho que houve erros. Andámos depressa de mais, todos nós. Miranda...

- O ritmo não altera os resultados. O bronze era real. Este é uma imitação. - Enfiou a mão no saco e retirou o bronze.

- O que é isto?

- É a cópia. A que Ponti testou.

- Dio mio! Como é que a conseguiste? - O tom de voz aumentou na pergunta, fazendo com que algumas cabeças se voltassem. Estremecendo, aproximou-se mais dela e sussurrou: - Estava guardada no Bargello.

- Isso não é importante. O que é importante é que este não é o bronze que nós testamos. Poderás constatar isso por ti mesmo. Assim que o levares para o laboratório.

- Para o laboratório? Miranda, que loucura é esta?

- Isto é bom senso. - Tinha de se agarrar a isso. - Estou impedida de entrar na Standjo. As informações estão todas lá, Giovanni, e o equipamento também. Preciso da tua ajuda. Está um David de bronze neste saco. É uma falsificação. Já o testei. Mas quero que leves os dois, os examines e faças todos os testes possíveis. Vais comparar os resultados do Bronze de Fiesole com os dos testes feitos ao original. Vais provar que não se trata do mesmo bronze.

- Miranda, sê sensata. Mesmo que eu faça aquilo que me estás a pedir, só vou provar que estavas errada.

- Não. Pegas nas minhas anotações, nas tuas. Nas do Richard. Fazes os testes e comparas. Não podemos ter errado todos, Giovanni. Faria eu mesma os testes, mas há complicações.

Pensou em Ryan, furioso, a destruir a cidade em busca dela e das estátuas. - E realizá-los eu não vai convencer ninguém. É preciso ser-se objectivo. Não posso confiar em ninguém a não seres tu.

Apertou as mãos dele, sabendo que jogava com a sua amizade. Podia ter parado as lágrimas que lhe inundaram os olhos, mas eram genuínas. - É a minha reputação, Giovanni. É o meu trabalho. É a minha vida.

Ele praguejou em voz baixa, e depois retraiu-se quando se lembrou de onde estava e acrescentou rapidamente uma oração e o sinal da cruz.

- Isto só te vai fazer infeliz.

- Não posso ficar mais infeliz. Pela nossa amizade, Giovanni. Por mim.

- Farei o que me pedes.

Ela fechou os olhos com força quando o seu coração inchou de gratidão. - Esta noite.

- Quanto mais cedo, melhor. O laboratório vai estar fechado durante alguns dias, por isso ninguém saberá.

- Fechado? Porquê?

Ele sorriu pela primeira vez. - Amanhã, minha encantadora pagã, é Sexta-Feira Santa. - E não fora aquela a forma como ele planeara passar o feriado. Suspirou e tocou no saco com o pé. - Onde é que te posso encontrar quando terminar?

- Eu entro em contacto contigo. - Inclinou-se para a frente para tocar os lábios dele com os seus. - Grazie, Giovanni. Mille grazie. Nunca te poderei recompensar por isto.

- Uma explicação no final seria um bom começo.

- Uma explicação completa, prometo. Oh, estou tão feliz em ver-te. Quem me dera poder ficar, mas tenho de regressar, e... bem, digamos, enfrentar as consequências. Encontrarei forma de te ligar de manhã. Toma bem conta deles - acrescentou ela, empurrando o saco com o pé na direcção dele. - Espera um ou dois minutos antes de saíres, por favor. Só por precaução.

Beijou-o novamente, afectuosamente, e depois deixou-o.

Como não olhou nem para a direita nem para a esquerda, não viu a figura que estava na penumbra virada como se contemplasse os frescos descorados do Inferno de Dante.

Não sentiu a fúria, nem a ameaça.

Era como se se tivesse livrado de um peso, um fardo que havia pesado na sua cabeça, no seu coração e na sua consciência. Saiu da igreja para a ténue luz do Sol que se punha a ocidente. Pensando na possibilidade de Ryan andar a pé à sua procura, caminhou na direcção oposta à do hotel, em direcção ao rio.

Ele não podia encontrá-la antes de estar bem longe de Giovanni, pensou.

Foi uma longa caminhada que lhe deu tempo para se acalmar, para pensar e, pela primeira vez, para meditar sobre os casais que passeavam de mãos dadas e que partilhavam olhares e longos abraços. Giovanni dissera-lhe uma vez que o romance vivia no ar de Florença, e que ela só tinha de o inspirar.

A lembrança fê-la sorrir, e depois fê-la suspirar.

Ela simplesmente não fora talhada para o romance. E não o provara já? O único homem que alguma vez havia mexido verdadeiramente consigo era um ladrão que não tinha mais integridade do que um cogumelo.

Estava muito melhor sozinha. Como sempre estivera.

Chegou ao rio e observou o Sol salpicar a água com as suas últimas luzes. Quando ouviu um violento e impaciente barulho de motor atrás de si, percebeu que ele a tinha encontrado. Ela sabia que isso iria acontecer.

- Sobe.

Miranda olhou para trás e viu a expressão furiosa no rosto de Ryan, a forma como a raiva podia transformar aqueles olhos dourados em gelo mortal. Estava todo vestido de preto, tal como ela, em cima de uma mota azul. O vento desgadelhara-lhe o cabelo. Tinha uma aparência perigosa e absurdamente sexy.

- Vou a pé, obrigada.

- Sobe, Miranda. Porque se eu tiver de descer para te pôr aqui em cima, vai doer.

Como a alternativa era fugir como uma cobarde e, muito provavelmente, ser atropelada, Miranda encolheu os ombros. Caminhou até à mota e alçou uma perna para se sentar atrás dele. Agarrou-se à parte de trás do assento para se equilibrar.

Mas quando ele partiu como uma bala, o instinto de sobrevivência tomou conta dela e fê-la agarrar-se firmemente a ele.

 

- Acho que afinal devia ter usado as algemas. - Depois de percorrer as ruas estreitas e sinuosas a uma velocidade estonteante, Ryan parou repentinamente a mota na Piazzale Michelangelo.

Parecia apropriada e dava-lhes uma vista de Florença de cortar a respiração, com os montes toscanos ao fundo. Assim como a privacidade que ele queria se decidisse cometer alguma violência.

Estava quase vazia, já que os vendedores que enchiam a zona já tinham ido embora e se aproximava uma tempestade a ocidente, onde o Sol ainda se agarrava tenuemente ao horizonte.

- Desce - ordenou ele. E esperou que ela soltasse as mãos da sua cintura. Pregara-lhe uns bons sustos durante a viagem. De propósito.

- Conduzes como um lunático.

- Meio italiano, meio irlandês. O que é que esperavas? - Ryan desceu também da mota e arrastou-a até ao muro onde Florença se apresentava como uma antiga jóia lá em baixo. Ainda havia alguns turistas a tirar fotografias na grande fonte, mas como eram japoneses, ele pensou que podia arriscar a admoestá-la tanto em inglês como em italiano. Escolheu a última porque a considerava mais passional.

- Onde é que estão?

- Seguros.

- Eu não perguntei como é que estavam, mas onde. O que é que fizeste aos bronzes?

- A coisa sensata. Vai começar a trovejar - disse ela quando o céu se iluminou de relâmpagos. - Devíamos abrigar-nos algures.

Ele empurrou-a simplesmente contra a parede e prendeu-a com o seu corpo. - Quero os bronzes, Miranda.

Ela manteve o olhar fixo no dele. Não iria pedir ajuda aos poucos turistas que ainda lá se encontravam. Iria tratar sozinha daquele problema. - Não te servem de nada.

- Isso cabe a mim decidir. Raios, confiei em ti!

Os olhos dela dispararam de volta. - O que queres dizer é que não me pudeste trancar na suite como fizeste no teu apartamento. - Manteve a voz baixa, num tom já agressivo de raiva. - Não pudeste fazer-me esperar como no Bargello enquanto te adiantavas e fazias o que te apetecia sem me teres dito o que estavas a planear. Desta vez eu é que me adiantei.

Ele envolveu-a com os braços de tal forma que pareciam amantes desesperados, demasiado entretidos um com o outro para repararem na tempestade ou na cidade. O aperto dele diminuiu consideravelmente a respiração dela. - E fizeste o quê?

- Tomei umas providências. Estás a magoar-me.

- Não, ainda não. Tiveste de os entregar a alguém. À tua mãe. Não

- decidiu ele quando ela continuou a fitá-lo. - À tua mãe, não. Ainda tens esperança de a fazer rastejar por ter duvidado de ti. Tem um namorado aqui em Florença, Dra. Jones? Alguém que conseguisse convencer a esconder os bronzes até perceber que eu tivesse desistido? Agora quero os bronzes; os dois.

A trovoada ressoava e aproximava-se.

- Já te disse que estão seguros. Tomei providências. Fiz o que achei melhor.

- Achas que me estou a ralar com o que é que tu achas?

- Quero provar que se tratam de imitações. E tu também. Se fizesse eu os testes e as comparações, as pessoas poderiam afirmar que os tinha deturpado. Não ficaríamos melhor do que estamos agora. Era tua tarefa tirar o bronze do Bargello, é minha determinar como provar que se trata de uma falsificação.

- Deste-os a alguém da Standjo. - Recuou apenas o suficiente para pôr o rosto dela entre as mãos. - Que espécie de idiota és tu?

- Entreguei-os a alguém em quem confio, a alguém que conheço há anos. - Miranda respirou fundo, na esperança de trocar emoção por razão.

- Ele fará o trabalho porque eu lhe pedi. E amanhã vou contactá-lo a pedir os resultados.

Ele sentiu uma vontade imensa de bater com a cabeça dela na parede para ver se era realmente dura como suspeitava. - Siga este raciocínio, Dra. Jones. A Dama Negra é uma imitação. Por isso, alguém na Standjo fez a cópia. Alguém que sabia o que os testes mostrariam e como a fazer parecer suficientemente real para passar nos preliminares, alguém que muito provavelmente tem uma fonte que pagaria um bom dinheiro pelo original.

- Ele não faria isso. O trabalho dele é importante para ele.

- O meu também é. Vamos.

- Onde?

Ele já estava a arrastá-la pela praça em direcção à mota quando começaram a cair as primeiras gotas de chuva. - Para o laboratório, queridinha. Vamos verificar o progresso do teu amigo.

- Não compreendes? Se entrarmos no laboratório, os testes serão discutíveis. Ninguém vai acreditar em mim. Esqueces-te que eu já acredito. Essa é parte do problema. Agora sobe, ou deixo-te aqui e vou tratar sozinho do assunto.

Ela ponderou e decidiu que a última coisa de que Giovanni precisava era de um Ryan furioso a invadir o laboratório. - Deixa-o fazer os testes. __ Passou as mãos pelo cabelo molhado. - É a única forma de terem credibilidade.

Ele ligou simplesmente o motor. - Sobe.

Ela subiu, e quando ele saiu disparado da praça, ela tentou convencer-se de que conseguiria fazê-lo ver a razão quando chegassem à Standjo.

A meio quarteirão da empresa, ele enfiou a mota no meio de uma pequena selva de outras ao longo do passeio. - Está calada - disse ele, saltando para o chão para tirar uns sacos da bagageira. - Faz o que te digo e leva isto. - Meteu um dos sacos nas mãos dela, agarrou-a firmemente pelo braço e conduziu-a rua abaixo.

- Vamos entrar pelas traseiras, só para o caso de alguém ser suficientemente curioso para estar a olhar para a chuva. Passamos directamente por cima do laboratório fotográfico para as escadas.

- Como é que conheces a disposição dos laboratórios?

- Faço a minha investigação. Tenho esquemas completos das instalações em disco. - Puxou-a para as traseiras do edifício e depois retirou um par de luvas cirúrgicas do bolso. - Põe isto.

- Isto não vai...

- Eu disse-te para ficares calada e fazeres o que te digo. Já me causaste mais trabalho do que o necessário. Vou desactivar o alarme neste sector, o que significa que não te afastas de mim mais de um palmo enquanto estivermos lá dentro.

Calçou as suas próprias luvas enquanto falava e sem se incomodar com a chuva que caía naquela altura com força sobre eles. - Se precisarmos de aceder a outra área do edifício, trato da segurança desde o interior. Será mais fácil. Não há guardas, é tudo electrónico, por isso, é improvável que esbarremos em alguém que não o teu bom amigo num fim-de-semana prolongado.

Ela começou novamente a protestar mas calou-se. Ocorreu-lhe que assim que estivesse lá dentro teria Giovanni para a ajudar. Decerto que os dois poderiam dar conta de um ladrão irritante.

- Se ele não estiver lá dentro, com os bronzes, vou fazer com que te arrependas amargamente.

- Ele está lá. Deu-me a sua palavra.

- Claro, como tu me deste a tua. - Aproximou-se da porta, pousando o saco para se preparar para trabalhar. Então, semicerrou os olhos enquanto estudava o sistema eléctrico ao lado da porta. - O alarme está desligado - murmurou. - O seu amigo é descuidado, Dra. Jones. Não ligou o sistema do interior.

Ela ignorou o gelo arrepiante que sentia na pele. - Talvez não tenha achado necessário.

- Pois. Contudo, a porta está trancada. O que seria automático assim que fosse fechada. Vamos tratar disso.

Desenrolou uma tira de cabedal, usando o corpo para proteger as ferramentas o melhor possível. Teria que lhes passar um pano mais tarde pensou. Não podia arriscar-se a que se enferrujassem.

- Isto não deve demorar muito, mas de qualquer forma mantém-te alerta.

Cantarolou baixinho uma música que ela reconheceu como um trecho de Aida. Miranda cruzou os braços sobre o peito, voltou-se de costas para ele e olhou para a chuva torrencial.

Quem quer que tivesse instalado o sistema de segurança não quisera desfear a bela porta antiga com trincos. As maçanetas eram querubins de rostos tristes que condiziam com a arquitectura medieval e que guardavam uma série de fechaduras estéticas mas eficazes.

Ryan pestanejou para afastar a chuva dos olhos e desejou vagamente um guarda-chuva.

Tinha de trabalhar apenas por instinto. A queda da chuva impedia-o de ouvir aquele som ténue e satisfatório do destrancar das fechaduras. Mas as robustas fechaduras britânicas renderam-se, pouco a pouco.

- Traz o saco - disse a Miranda quando abriu a porta pesada. Usou a lanterna para os conduzir até às escadas. - Explica ao teu amigo que eu te estou a ajudar, e eu sigo a partir daí. Isto é, se ele aqui estiver.

- Ele disse-me que vinha para cá. Prometeu-me.

- Então deve gostar de trabalhar às escuras. - Apontou a lanterna para a frente. - Aquele é o teu laboratório, certo?

- Sim. - Miranda franziu o sobrolho. Estava escuro como breu.

- Ele é que ainda não chegou.

- Quem desligou o alarme?

- Eu... Ele está provavelmente no laboratório de química. É a área dele.

- Vamos já verificar isso. Entretanto vamos ver se as tuas anotações ainda estão no teu gabinete. Por aqui?

- Sim, por aquelas portas e à esquerda. Foi apenas o meu gabinete temporário.

- Guardaste as informações no disco rígido do teu computador?

- Sim.

- Então vamos buscá-las.

As portas estavam destrancadas, o que deixou Ryan um pouco triste. Decidindo pecar por excesso de precaução, desligou a lanterna. - Mantém-te atrás de mim.

- Porquê?

- Faz o que te digo. - Atravessou a porta, bloqueando o corpo dela com o seu. Ficou à escuta durante alguns segundos, e como não ouviu nada a não ser a passagem do ar pelas grelhas de ventilação, estendeu a mão para ligar as luzes.

- Oh, Deus! - Instintivamente, Miranda agarrou-lhe no ombro. - Oh, meu Deus!

- Pensei que os cientistas eram arrumados - murmurou ele. Parecia que alguém tinha tido um ataque de fúria, ou que tinha dado uma grande festa. Os computadores estavam esmagados, e o vidro dos monitores e dos tubos de ensaio cobria o chão. As mesas de trabalho tinham sido derrubadas, os papéis espalhados. As bancadas outrora cirurgicamente organizadas eram um monte de destroços. O fedor dos químicos negligentemente misturados conspurcava o ar.

- Não entendo isto. Para que foi isto?

- Não foi um assalto - disse ele facilmente. - Não com todos estes computadores destruídos em vez de roubados. A mim parece-me que o seu amigo veio e foi, Dra. Jones.

- O Giovanni nunca faria uma coisa destas. - Passou por Ryan para se aproximar da confusão. - Foram vândalos, miúdos em fúria. Todo este equipamento, toda esta informação. - Miranda lamentava-se à medida que avançava pelo laboratório. - Tudo destruído, arruinado.

Vândalos? Ele não pensava o mesmo. Onde estava o graffiti, onde estava a alegria? Aquilo fora feito com raiva e com um objectivo. E ele tinha o pressentimento de que ia voltar a atormentá-los.

- Vamos sair daqui.

- Tenho de verificar os outros departamentos, ver a extensão do prejuízo. Se chegaram ao laboratório de química...

Calou-se subitamente e apressou-se pelo meio da balbúrdia com a terrível ideia de um gang de encapuzados com um stock volátil de químicos roubados.

- Não podes fazer nada - murmurou ele por entre dentes, saindo atras dela. Quando a conseguiu apanhar, ela estava à entrada de uma porta a olhar para o interior da sala.

Giovanni cumprira a sua promessa, e não ia a lado nenhum. Estava deitado de costas, com a cabeça num ângulo esquisito, sobre uma poça escura e brilhante. Os olhos, abertos e turvos, estavam fixos na Dama Negra, que estava com ele, as suas mãos graciosas e rosto sorridente cobertos de sangue.

- Meu Jesus. - Ryan puxou-a para trás e voltou-a para si para que ela olhasse para dentro dos seus olhos em vez de olhar para o que se encontrava para lá da porta. - Aquele é o teu amigo?

- Eu... Giovanni. - As pupilas de Miranda tinham dilatado com o choque e os seus olhos estavam tão negros e sem vida como os de uma boneca.

- Não te deixes ir abaixo. Tens de ser forte, Miranda, porque talvez não tenhamos muito tempo. O bronze está cheio das nossas impressões digitais, percebes? - E o bronze acabava de passar de cópia a arma de crime. - São só essas que a polícia vai encontrar. Caímos numa armadilha.

Havia um rugido nos ouvidos dela - como o mar que se eleva para bater na rocha. - O Giovanni está morto.

- Sim, está. Agora fica aqui. - Encostou-a à parede e entrou no laboratório a respirar pela boca para não sentir o cheiro da morte. O ar estava empestado e o fedor era obscenamente recente. Embora o repugnasse, Ryan pegou no bronze e enfiou-o no saco. Fazendo o melhor que podia para impedir o seu olhar de se fixar no rosto que olhava para si, fez uma pequena busca ao local.

O David tinha sido atirado para um canto. A marca na parede mostrava onde tinha batido.

Muito inteligente, pensou enquanto enfiava a estatueta dentro do saco. Muito cuidadoso. Deixa ambas as peças e liga tudo a Miranda.

Ela estava exactamente como ele a deixara, mas estava a tremer e tinha a pele da cor da cal.

- Podes andar - disse ele asperamente. - Até podes correr se for preciso, porque temos de sair daqui.

- Não podemos... deixá-lo ali dentro. Desta maneira. Giovanni. Está morto.

- E não há nada que possas fazer por ele. Vamos embora.

- Não posso deixá-lo.

Em vez de perder tempo a discutir, Ryan pô-la ao ombro. Ela não ofereceu resistência, deixando-se ficar pendurada a repetir incessantemente as mesmas palavras: - Não posso deixá-lo. Não posso deixá-lo.

Ele já estava sem fôlego quando chegou à porta exterior. Parou, ajeitou-a no ombro e abriu a porta apenas o suficiente para conseguir espreitar para a rua.

Não viu nada fora de ordem, mas continuava a sentir picadas na parte de trás do pescoço como se este estivesse a ser agredido pela ponta de uma lâmina.

Quando saíram para a chuva, ele pô-la no chão e abanou-a com força. - Não te deixes ir abaixo até sairmos daqui! Reage, Miranda, e faz o que é preciso ser feito.

Sem esperar pela concordância dela, puxou-a para trás do edifício e rua abaixo. Ela subiu para a mota e segurou-se a ele fazendo com que ele sentisse o bater descompassado do seu coração contra as costas enquanto conduzia através da chuva.

Ele queria levá-la rapidamente para o hotel, mas forçou-se a conduzir pela cidade, por ruas estreitas e secundárias escolhidas ao acaso para garantir que não estavam a ser seguidos. Quem tinha assassinado Giovanni poderia ter estado a vigiar o edifício à espera deles. Ele estava a guardar a sua opinião até conseguir arrancar a Miranda a história completa.

Satisfeito por não estar ninguém a segui-los, estacionou em frente ao hotel. Pegou nos sacos e depois virou-se para desviar os cabelos molhados da cara dela. - Agora escuta-me. Presta atenção. - Segurou-lhe no rosto até os olhos turvos de Miranda começarem a focar. - Temos de passar pela recepção. Quero que vás direita ao elevador. Eu trato do recepcionista. Vais só até ao elevador e esperas lá. Percebeste?

- Sim. - Parecia que as palavras lhe saíam algures do cimo da cabeça em vez da boca. As palavras pairavam ali, confusas e sem sentido.

Quando caminhava, era como se nadasse num xarope, mas caminhou, intensamente concentrada nas portas reluzentes dos elevadores. Era esse o seu objectivo, pensou. Tinha apenas que caminhar até ao elevador.

Ouviu vagamente Ryan a conversar com o recepcionista, e um ressoar de gargalhadas masculinas. Olhou fixamente para a porta, esticou o dedo e percorreu-o pela superfície como se estivesse a avaliar a textura. Tão lisa e fria. Estranho, ela nunca havia reparado nisso. Encostou a palma da mão no momento em que Ryan apareceu ao seu lado e carregou no botão para subir.

O elevador retumbava como o trovão, percebeu ela. Mecanismos em movimento, a encaixarem-se. E a porta fez um suave ruído sibilante ao abrir.

Ryan reparou que ela não tinha mais cor nas faces do que o cadáver que haviam deixado para trás. E começava a bater os dentes. Ele imaginava que ela estivesse gelada até aos ossos. Deus sabia que ele estava, e não só devido a uma viagem sob chuva torrencial.

- Vai até ao final do corredor - ordenou ele, mudando os sacos de forma a poder pôr um braço à volta da cintura dela. Ela não se encostou a ele, não parecia ter substância suficiente no corpo para ter peso, mas ele manteve o braço à volta dela até entrarem na suite.

Ryan trancou a porta e pôs a corrente de segurança antes de a levar para o quarto. - Tira a roupa molhada e veste um robe. - Ele teria preferido mergulhá-la num banho quente, mas tinha receio que ela deslizasse e se afogasse.

Verificou as portas do terraço, para garantir que também se encontravam trancadas, antes de ir buscar uma garrafa de brandy ao minibar. Não se preocupou em arranjar copos.

Ela estava sentada na cama, exactamente como a deixara. - Tens de tirar essa roupa - disse-lhe ele. - Estás encharcada.

- Eu... Os meus dedos não mexem.

- Ok, ok. Toma, bebe isto.

Abriu a garrafa e levou-a aos lábios dela. Ela obedeceu sem pensar, até o fogo irromper garganta abaixo até ao estômago. - Não gosto de brandy.

- E eu não gosto de espinafres, mas a minha mãe obrigava-me a comê-los. Mais uma vez. Vá lá, sê um bom soldado. - Conseguiu enfiar outro gole pela boca dela antes de ela cuspir e lhe empurrar a mão.

- Estou bem. Estou bem.

- Claro que estás. - Na esperança de aliviar o mal-estar no seu próprio estômago, Ryan tomou também um gole. - Agora a roupa. - Pousou a garrafa e começou a desabotoar-lhe a blusa.

- Não...

- Miranda. - Percebendo que não tinha as pernas completamente firmes, sentou-se ao lado dela. - Achas que me vou aproveitar da situação? Estás em estado de choque. Precisas de te aquecer e secar. E eu também.

- Posso fazer isso sozinha. - Levantou-se ainda trémula e avançou aos tropeções até à casa de banho.

Quando a porta se fechou, ele resistiu ao desejo de a abrir novamente para se certificar de que ela não tinha caído no chão.

Baixou a cabeça entre as mãos por um momento e obrigou-se a respirar, apenas a respirar. Era a sua primeira experiência pessoal com morte violenta. Violenta e real, pensou, bebendo mais um pouco de brandy.

Não era uma experiência que quisesse repetir.

- Vou encomendar alguma comida. Alguma coisa quente. - Despiu o casaco molhado enquanto falava. Mantendo a porta debaixo de olho, despiu-se, atirou a roupa molhada para o lado e vestiu umas calças e uma camisa.

- Miranda? - De mãos nos bolsos, olhou de sobrolho franzido para « porta. Que se lixasse a modéstia, decidiu, e abriu-a.

Miranda já vestira um robe, mas o cabelo ainda estava completamente molhado e ela estava de pé com os braços apertados em volta do corpo a baloiçar-se. Lançou um olhar profundamente triste a Ryan. - Giovanni.

- Ok, está bem. - Ele pôs os braços em volta dela e embalou-a pelos ombros. - Portaste-te bem. Agora já podes deixar-te ir abaixo.

Ela só abria e fechava as mãos nas costas dele. - Quem é que lhe faria uma coisa daquelas? Ele nunca fez mal a ninguém. Quem é que faria uma coisa daquelas?

- Vamos descobrir isso. Prometo. Vamos falar sobre o assunto, passo a passo. - Apertou-a mais contra si, passando uma mão pelos cabelos molhados para a acalmar a ela e a si mesmo. - Mas a tua mente tem que estar clara. Preciso do teu cérebro. Preciso da tua lógica.

- Não consigo pensar. Continuo a vê-lo ali deitado. Aquele sangue todo. Ele era meu amigo. Veio ter comigo quando lhe pedi. Ele...

E percebeu subitamente todo o horror da situação, como se tivesse recebido um golpe brutal no coração que despertou a sua mente para uma realidade chocante. - Meu Deus, Ryan. Eu matei-o!

- Não. - Ele puxou-a de novo e olhou-a nos olhos. - Quem o matou foi quem lhe deu uma pancada na cabeça. Vê se sais dessa, Miranda, porque não vai ajudar em nada.

- Ele só foi lá esta noite por minha causa. Se eu não lhe tivesse pedido, ele teria ficado em casa, ou teria saído com alguém, ou teria ido a alguma esplanada tomar um copo com amigos.

Levou os punhos fechados à boca, com os olhos inundados de horror.

- Ele está morto porque lhe pedi para me ajudar, porque não confiei em ti e porque a minha reputação é tão importante, tão vital, que eu tinha de fazer as coisas à minha maneira. - Abanou a cabeça. - Nunca vou conseguir ultrapassar isto.

Por mais tristes que estivessem os seus olhos, a palidez tinha desaparecido e a voz era mais forte. A culpa tanto podia paralisar como estimular.

- Ok, então usa esse sentimento. Seca o cabelo enquanto encomendo a comida. Temos muito que conversar.

Ela secou o cabelo, vestiu um pijama de algodão branco e pôs o robe por cima. Iria comer, disse a si própria, porque de contrário ficaria doente. Precisava de estar bem, forte e lúcida se queria vingar a morte de Giovanni.

Vingar? Pensou com um arrepio. Nunca acreditara em vingança. Agora parecia-lhe algo perfeitamente são, perfeitamente lógico. A expressão «olho por olho» circulava sombriamente na sua cabeça. Quem tinha morto Giovanni usara-a como arma, de uma forma tão fria e racional como usara o bronze.

E ela faria e demoraria o que fosse preciso para os ver pagar por isso.

Quando saiu do quarto, viu que Ryan pedira ao empregado de mesa para pôr a mesa no terraço. A chuva tinha parado e o ar estava fresco. A mesa estava sob o toldo de listas verdes e brancas e tinha velas acesas sobre a toalha de linho.

Miranda supunha que a intenção fosse fazê-la sentir-se melhor. Como lhe estava grata, fez o melhor que pôde para fingir que tinha resultado.

- Isto está muito bonito. - Conseguiu fazer um sorriso. - O que é que vamos comer?

- Para começar, minestrone, e depois uns bifes florentinos. Vais ficar melhor. Senta-te e come.

Ela sentou-se numa cadeira, pegou na colher e provou a sopa. Parecia cola na sua garganta, mas ela forçou-se a engoli-la. E ele tinha razão, o calor da sopa derreteu algum do gelo do estômago.

- Preciso de te pedir desculpa.

- Ok. Nunca recuso um pedido de desculpas de uma mulher.

- Quebrei a promessa que te tinha feito. - Ergueu o olhar e fixou-o no dele. - Nunca tencionei cumpri-la. Disse a mim mesma que uma promessa feita a um homem como tu não precisava de ser cumprida. Foi errado da minha parte, desculpa.

A simplicidade e o tom suave comoveram Ryan. Ele teria preferido que fosse de outra forma. - Estamos a ver isto de formas diferentes. É essa a realidade. Contudo, temos um objectivo comum. Queremos encontrar os bronzes originais. E agora alguém aumentou a parada. Talvez seja mais inteligente para ti recuares, desistires disto. Provar que estavas certa não vale a tua vida.

- Custou-me um amigo. - Fechou os lábios e depois obrigou-se a comer mais um pouco de sopa. - Não vou recuar, Ryan. Não conseguiria viver comigo mesma se o fizesse. Não tenho muitos amigos. Estou certa de que é por culpa minha. Não me relaciono muito bem com as pessoas.

- Estás a ser demasiado severa para contigo. Relacionas-te muito bem quando baixas a guarda. Exactamente como fizeste com a minha família.

- Eu não baixei a guarda. Eles é que não lhe prestaram nenhuma atenção. Invejo a relação que tens com eles. - A voz tremeu-lhe um pouco, por isso, ela abanou a cabeça e engoliu mais sopa. - O amor incondicional, o puro prazer que todos vocês sentem uns com os outros. Não se pode comprar esse tipo de dádiva. - Sorriu um pouco. - E não se pode roubar.

- Podes consegui-la. Só tens de querer.

- Alguém tem de querer o que estamos a oferecer. - Miranda suspirou e decidiu arriscar provar o vinho. - Se os meus pais e eu tivéssemos um relacionamento melhor, tu e eu não estaríamos agora aqui sentados. É tão simples Quanto isso. A disfunção não se revela sempre em socos e vozes exaltadas. Por vezes pode ser insidiosamente educada. - Alguma vez lhes disseste como te sentes?

- Não da forma como imagino que queiras dizer. - Olhou para além dele, sobre a cidade onde as luzes brilhavam e a Lua começava a surgir no céu límpido. - Não tenho a certeza se sabia como me sentia até muito recentemente. E agora não importa. O que importa é encontrar quem fez isto ao Giovanni.

Ele não insistiu na conversa, e como decidira que era a sua vez de tratar com os pormenores práticos, destapou os bifes. - Ninguém sabe tratar melhor uma fatia de carne vermelha do que os florentinos. Fala-me do Giovanni.

Foi um soco no coração, e a sensação de choque fê-la olhar fixamente para ele. - Não sei o que queres que te diga.

- Primeiro, diz-me o que sabias acerca dele e como tiveste conhecimento disso. - Ryan queria induzi-la a contar-lhe os detalhes que mais desejava saber.

- Ele é... Ele era brilhante. Um químico. Nasceu aqui em Florença e entrou para a Standjo há cerca de dez anos. Trabalhava principalmente aqui, mas esteve algum tempo no laboratório do Instituto. Foi lá que comecei a trabalhar com ele, há uns seis anos.

Levantou uma mão e esfregou a têmpora. - Ele era um homem adorável, doce e engraçado. Era solteiro. Gostava de mulheres e era muito sedutor e atento. Reparava em detalhes. Se usávamos uma blusa nova ou tínhamos o cabelo diferente.

- Tiveram algum caso?

Ela hesitou, mas abanou a cabeça. - Não. Éramos amigos. Eu respeitava muito as suas capacidades. Confiava no seu juízo e dependia da sua lealdade. Aproveitei-me da sua lealdade - disse ela em voz baixa, levantando-se da mesa e dirigindo-se depois até ao parapeito.

Precisava novamente de um momento para se ajustar. Ele estava morto. Ela não podia alterar isso. Quantas vezes, durante quantos anos, precisaria ela de se ajustar a esses dois únicos factos?

- Foi o Giovanni que me ligou para dizer que o bronze tinha sido desacreditado - continuou ela. - Ele não me queria despreparada quando a minha mãe me contactasse.

- Então ele era uma pessoa da confiança dela?

- Ele fazia parte da minha equipa neste projecto. E foram-lhe pedidas contas quando as minhas descobertas foram postas em causa. - Mais calma, Miranda regressou à mesa e sentou-se. - Eu usei esta lealdade e a nossa amizade.

- Foi hoje a primeira vez que lhe falaste do facto de o bronze ser uma imitação?

- Sim. Liguei-lhe quando foste lá abaixo. Pedi-lhe que se encontrasse comigo em Santa Maria Novella. Disse-lhe que era urgente.

- Para onde lhe ligaste?

- Para o laboratório. Sabia que o podia apanhar antes de ele sair. Peguei nos bronzes, desci as escadas e saí para o pátio traseiro enquanto estavas na recepção. Ele chegou imediatamente. Não foram mais de quinze minutos.

Tempo suficiente para ter falado a alguém sobre o telefonema, reflectiu Ryan. À pessoa errada. - O que é que lhe disseste?

- Quase tudo. Expliquei que tinha o bronze que o Ponti tinha testado, e que não se tratava do mesmo que tínhamos analisado. Disse-lhe tudo o que podia sobre o David. Acho que ele não acreditou em mim. Mas ouviu-me.

Miranda parou de brincar com o bife que tinha no prato. Fingir comer era um esforço demasiado. - Pedi-lhe que levasse os bronzes para o laboratório, que fizesse os testes e que os comparasse com os anteriores. Disse-lhe que o contactaria amanhã. Não lhe disse em que hotel estava porque não queria que ele telefonasse nem que aparecesse. Não queria que tu soubesses o que eu tinha feito com os bronzes.

Ryan recostou-se na cadeira, concluindo que nenhum dos dois iria apreciar convenientemente a refeição. - Pode muito bem ser esse o motivo de estarmos agora aqui a admirar o luar.

- O que é que queres dizer?

- Ponha o cérebro a funcionar, Dra. Jones. O teu amigo tinha os bronzes, e agora está morto. A arma do crime e o David foram deixados no local do crime. O que é que liga os dois? Tu.

Ryan acendeu um charuto para dar tempo a que Miranda absorvesse a ideia. - Se a polícia tivesse encontrado as estátuas no local do crime, teria ido à tua procura. Quem fez isto sabe que andas à procura de respostas e que estás a infringir suficientemente a lei para não quereres o envolvimento da polícia.

- Matar o Giovanni para me implicar. - Era uma hipótese demasiado fria, demasiado horrível para ser contemplada. E demasiado lógica para ser ignorada.

- Um benefício adicional. Se ele fosse correcto, teria começado a interrogar-se depois dos testes. Iria consultar novamente os teus apontamentos, os teus resultados.

- Foi por isso que o laboratório foi destruído - murmurou ela. Agora nunca mais encontraremos a minha documentação.

- Levada ou destruída - concordou Ryan. - O teu amigo estava no caminho. E tu também estás.

- Sim, estou a ver. - Por algum motivo, era melhor assim, mais fácil - Agora é mais importante do que nunca encontrar o original. Quem o substituiu matou o Giovanni.

- Sabes o que dizem sobre assassinato? Que o primeiro é difícil. Depois é só negócio.

Ela ignorou o arrepio que dançava sobre a sua pele. - Se isso significa que queres acabar aqui o nosso acordo, não te censuro por isso.

- Não? - Ryan recostou-se novamente. Meditou quanto teria pesado o facto de ela o achar um cobarde e quanto teria pesado a necessidade de a proteger, na decisão que já tinha tomado. - Eu termino o que começo.

Ela sentiu-se inundar de alívio, mas pegou no copo de vinho e levantou-o numa espécie de brinde. - Também eu.

 

Ainda não era meia-noite quando Carlo deixou a pizzaria e se pôs a caminho de casa. Prometera à mulher que não chegaria tarde. Os limites do seu casamento incluíam uma noite por semana para ele sair e divertir-se com os amigos. A Sofia também tinha a sua, um jantar em casa da irmã, que ele supunha ser algo parecido.

Habitualmente ele ficava até à meia-noite, ou um pouco mais, mas ultimamente andava a encurtar um pouco a noite. Tinha-se tornado motivo de piada desde que os jornais haviam anunciado que a sua Dama Negra era uma intrujice.

Ele não acreditava nisso, nem por um segundo. Tivera a estátua nas mãos, sentira o seu segredar. Um artista sabia reconhecer arte. Mas sempre que o afirmava, os amigos riam-se.

As autoridades haviam-no interrogado como um criminoso. Dio mio, ele não fizera nada a não ser o que era correcto. Talvez tivesse cometido um pequeno erro de juízo ao tirar a estátua da villa.

Mas afinal fora ele que a encontrara. Tinha-a segurado nas mãos, olhado para o seu rosto, sentido a sua beleza e o seu poder como vinho no sangue. Ela petrificara-o, pensou. Enfeitiçara-o. E, ainda assim, ele tinha acabado por fazer a coisa certa e entregara-a.

Agora tentavam dizer que ela não valia nada. Um plano inteligente para enganar o mundo da arte. Ele sabia no seu íntimo que se tratava de uma mentira.

A Sofia dizia que acreditava nele, mas ele sabia que não. Ela afirmava-o porque era leal e carinhosa, e porque provocava menos discussões em frente das crianças. Os jornalistas com quem ele falara tinham anotado todas as suas declarações e feito com que parecesse um idiota.

Ele tentara falar com a americana, aquela que dirigia o grande laboratório para onde fora levada a sua dama. Mas ela não lhe quisera dar ouvidos. Ele perdera a paciência com ela e exigira falar com a Dra. Miranda Jones que tinha provado a autenticidade da sua dama.

A direttrice chamara a segurança e mandara expulsá-lo. Tinha sido humilhante.

Ele nunca deveria ter dado ouvidos a Sofia, pensou enquanto caminhava pela estrada deserta nos arredores da cidade em direcção a casa, tropeçando ligeiramente devido ao vinho que tinha ingerido. Devia ter ficado com a dama como fora sua vontade. Tinha sido ele a encontrá-la, a tirá-la da cave húmida e escura e a trazê-la para a luz. Ela pertencia-lhe.

Agora, muito embora afirmassem que ela não valia nada, não lha devolviam.

Ele queria-a de volta.

Ligara para o laboratório em Roma e exigira a devolução da sua propriedade. Gritara, esperneara e chamara-lhes mentirosos e aldrabões. Até telefonara para a América e deixara uma mensagem desesperada e sem grande coerência no atendedor de chamadas do gabinete de Miranda. Ele acreditava que era ela o elo de ligação à sua dama. De alguma forma iria ajudá-lo. Não conseguiria descansar até ver novamente a dama e tê-la outra vez nas suas mãos.

Contrataria um advogado, decidiu, inspirado pelo vinho e a humilhação de risos maldosos. Telefonaria outra vez para a americana, a que vivia num lugar chamado Maine, para a convencer de que tudo não passava de um plano, de uma conspiração para lhe roubarem a dama.

Lembrava-se do retrato dela nos jornais. Um rosto forte, honesto. Sim, ela ajudá-lo-ia.

Miranda Jones. Essa iria dar-lhe ouvidos.

Carlo não olhou para trás quando ouviu um carro aproximar-se. A estrada estava desimpedida e ele estava bem dentro da berma. Estava a concentrar-se no rosto dos jornais, no que iria dizer àquela mulher cientista.

Eram Miranda e a Dama Negra que ocupavam a sua mente quando o carro o atingiu a toda a velocidade.

Miranda estava no terraço a observar a cidade sob a intensa luz da manhã. Talvez apreciasse totalmente pela primeira vez a sua beleza. O fim da vida de Giovanni alterara irrevogavelmente a sua. Algures dentro dela permaneceria um lugar sombrio, formado de culpa e tristeza. E contudo, sentia mais a luz do que antes. Havia uma urgência para captar, para se demorar, para saborear os pormenores.

O tranquilo beijo da brisa que rodopiava sobre as suas faces, a luz do Sol que brilhava sobre a cidade e o monte, a pedra quente sob os seus pés descalços.

Queria descer. Vestir-se, sair e caminhar sem destino pelas ruas, sem qualquer objectivo a guiar-lhe os passos. Apenas para olhar as montras, para passear ao longo do rio. Para se sentir viva.

- Miranda.

Ela inspirou, espreitou por cima do ombro e viu Ryan à porta do terraço. - Está uma manhã linda. Primavera, renascimento. Acho que nunca tinha apreciado isto.

Atravessou o terraço e pousou uma mão no parapeito sobre a dela. Ela poderia ter sorrido se não tivesse visto a expressão no olhar dele. - Meu Deus. O que é que foi agora? O que é que aconteceu?

- O canalizador. Carlo Rinaldi. Está morto. Atropelo e fuga, ontem à noite. Acabo de ouvir no noticiário. - Ela voltou a mão sob a dele e apertou-lha. - Estava a regressar a casa perto da meia-noite. Não deram muitos mais pormenores. - Ryan sentiu um ódio frio apoderar-se dele. - Ele tinha três filhos, e mais um a caminho.

- Pode ter sido um acidente. - Ela queria agarrar-se a isso, e pensou que talvez o tivesse conseguido se não tivesse olhado para os olhos de Ryan.

- Mas não foi. Porque é que alguém o quereria matar? Ele não está relacionado com o laboratório. Não pode saber de nada.

- Ele andava a fazer muito barulho. Tanto quanto sabemos, podia estar envolvido nisto desde o início. Seja como for, foi ele que encontrou o bronze e o teve em sua posse durante alguns dias. Teve tempo de o estudar. Ele era uma ponta solta, Miranda. E as pontas soltas cortam-se.

- Como o Giovanni. - Miranda afastou-se. Podia viver com isso, pensou. Tinha de viver com esse facto. - Disseram alguma coisa sobre o Giovanni nas notícias?

- Não, mas vão dizer. Veste-te. Vamos sair.

Sair, pensou ela, mas não para vaguear pelas ruas e passear ao longo do rio. - Está bem.

- Nenhuma pergunta? - Ele levantou uma sobrancelha. - Onde, o quê, porquê?

- Desta vez, não. - Entrou no quarto e fechou as portas.

Trinta minutos depois estavam numa cabine telefónica e Ryan estava a fazer algo que evitara fazer toda a vida. Estava a ligar para a polícia.

Fez a voz mais aguda que conseguiu e usou um italiano coloquial para denunciar a existência de um corpo no laboratório do segundo andar da Standjo. Desligou quando lhe começaram a fazer perguntas. - Isto deve bastar. Vamos embora, não vá a polícia italiana localizar a chamada.

- Vamos voltar para o hotel?

- Não. - Subiu para a motocicleta. - Vamos a casa da tua mãe. Indicas tu o caminho.

- A casa da minha mãe? - A promessa de não fazer perguntas foi engolida em choque. - Porquê? Estás doido? Não posso levar-te a casa da minha mãe!

- Suponho que não haja um bom tagliatelle com molho de tomate para o almoço, mas podemos comprar uma pizza no caminho. Isso daria tempo suficiente.

- Para quê?

- Para a polícia encontrar o corpo, para a tua mãe tomar conhecimento do acontecido. O que achas que ela fará quando souber?

- Irá directamente para o laboratório.

- É com isso que estou a contar. Isso dar-nos-á um bom tempo para revistarmos a casa dela.

- Vamos arrombar a porta de casa da minha mãe?

- A não ser que ela deixe uma chave extra debaixo do tapete. Põe isto. - Entregou-lhe um capacete. - Os vizinhos podem detectar esse teu cabelo a um quilómetro de distância.

- Não vejo qual é a lógica disto - disse Miranda uma hora depois, sentada na mota atrás dele a meio quarteirão de casa da mãe. - Não posso justificar o facto de ter forçado a entrada em casa da minha mãe e de ter andado a revistar as coisas dela.

- Qualquer documento relacionado com os teus testes que estivesse guardado no laboratório é uma perda. Há uma hipótese de ela ter cópias aqui.

- Porque é que havia de ter?

- Porque és filha dela.

- Isso não seria importante para ela.

Mas é importante para ti, pensou Ryan. - Talvez sim, talvez não. Aquela é ela?

Miranda olhou de novo para a casa e deu por si agachada atrás de Ryan como uma menina que faltou à escola. - Sim, acho que já estavas a contar com isto.

- Mulher atraente. Não te pareces muito com ela.

- Muito obrigada.

Ele riu por entre dentes e viu Elizabeth, impecavelmente arranjada num fato escuro, destrancar o carro. - Mantém as aparências - reparou ele. - Ao olharmos para ela, não diríamos que acabam de a informar de que o seu negócio foi assaltado e que um dos empregados está morto.

- A minha mãe não é dada a demonstrações de emoção.

- Como eu disse, não és muito parecida com ela. Ok, vamos a pé a partir daqui. Ela ainda vai demorar algumas horas, mas faremos isto em uma para manter as coisas simples.

- Não há nada de simples aqui. - Miranda viu-o pendurar o saco ao ombro. Oh, sim, a sua vida nunca mais seria a mesma, concluiu. Agora era uma criminosa.

Ele foi até à porta da frente e tocou à campainha. - Ela tem algum empregado? Um cão? Um amante?

- Tem uma governanta, creio eu, mas não está cá o dia todo. E não liga a animais de estimação. - Encaixou melhor o capacete. - Não sei nada sobre a sua vida sexual.

Ele tocou novamente à campainha. Não imaginava nada mais constrangedor do que entrar numa casa que pensava estar vazia para fazer o serviço e descobrir que o proprietário estava na cama com gripe.

Pegou nas ferramentas e demorou pouco mais a abrir a fechadura do que se tivesse utilizado uma chave. - Sistema de alarme?

- Não sei. Provavelmente.

- Ok, tratamos disso. - Ryan entrou, viu o painel na parede e a luz que indicava que o sistema exigia um código. Concluiu então que dispunha de um minuto e, utilizando uma chave de fendas, removeu a tampa e cortou alguns fios.

Como o seu lado de cientista não pôde deixar de admirar a eficiência económica e rápida de Ryan, Miranda falou num tom doce: - Fazes-me pensar porque é que alguém se rala com este tipo de coisas. Porque é que não deixam simplesmente as portas e janelas abertas?

- Penso exactamente o mesmo. - Piscou-lhe o olho e depois deu uma olhada no hall de entrada. - Bonita casa. Arte bastante apelativa; um pouco estática, mas atraente. Onde é que fica o escritório?

Miranda olhou para ele apenas por um momento, interrogando-se porque é que achara divertida a crítica casual que ele fizera ao gosto da mãe. Deveria ter ficado chocada. - No segundo andar à esquerda, acho eu. Não passei muito tempo aqui.

- Vamos ver. - Ryan subiu um gracioso lanço de escadas. A casa ficava melhor com um pouco mais de cor e surpresa, pensou. Tudo era tão perfeito como uma casa modelo e transmitia a mesma sensação de vazio. Era certamente elegante, mas ele preferia muito mais o seu apartamento de Nova Iorque ou a casa elegantemente despojada do Maine.

Achou o escritório feminino mas não exageradamente, polido mas eficaz. Pensou se reflectiria a ocupante, e achou que era provável.

- Cofre?

- Não faço ideia.

- Então, procura - sugeriu ele, começando ele próprio a espreitar para trás dos quadros. - Aqui está ele atrás deste bonito Renoir. Eu trato disto enquanto tu revistas a escrivaninha.

Ela hesitou. Mesmo em criança, não se atrevera a entrar em qualquer aposento da mãe sem a sua permissão. Nunca teria entrado para experimentar uns brincos ou um pouco de perfume. E nunca teria certamente tocado no conteúdo da escrivaninha da mãe.

Parecia que estava prestes a compensar o tempo perdido. Atirou para o lado o condicionalismo de uma vida inteira e atirou-se de cabeça, com uma excitação muito maior do que alguma vez admitiria.

- Há aqui muitos documentos - disse ela a Ryan enquanto vasculhava os papéis. - A maioria parece ser pessoal. Seguros, recibos, correspondência.

- Continua a procurar.

Miranda sentou-se na cadeira da escrivaninha - outra estreia - e revistou outra gaveta. A excitação já borbulhava na sua barriga; uma excitação repreensível e vergonhosa.

- Cópias de contratos e relatórios - murmurou ela. - Acho que ela também trabalha um pouco aqui. Oh. - Os dedos gelaram-se-lhe. - O Bronze de Fiesole! Ela tem uma pasta!

- Leva-a. Consultamo-la depois. - Ouviu a última tranqueta encaixar no sítio. - Já está, minha beleza. Muito bom, muito bom - sussurrou ele abrindo um estojo de veludo e examinando um colar de pérolas. - Ficavam-te bem.

- Põe isso onde estava.

- Não as vou roubar. Não lido com jóias. - Mas abriu outra caixa e deslumbrou-se com o brilho de diamantes. - Uns brincos muito elegantes, com cerca de três quilates cada, parecem russos, de primeira qualidade.

- Pensei que não lidavas com jóias.

- Isso não quer dizer que não me interesse. Estes ficariam a matar com a tua aliança.

- A aliança não é minha - disse ela com afectação. Mas o seu olhar desviou-se para o diamante que cintilava no seu dedo. - É apenas de fachada.

- Certo. Olha para isto. - Puxou uma fina pasta de plástico. - É-te familiar?

- Os raios X. - Levantou-se de um salto e agarrou-os. - As cópias do computador. Olha, olha, está tudo aqui! Está aqui. Podemos ver. O nível de corrosão! Olha! Está aqui! É real!

Subitamente dominada pela emoção, pôs a mão na testa e fechou os olhos com força. - Está aqui. Eu não estava enganada. Não cometi nenhum erro.

- Nunca duvidei disso.

Miranda abriu novamente os olhos e sorriu. - Mentiroso. Invadiste o meu quarto e ameaçaste estrangular-me.

- Eu disse que podia estrangular-te. - Pôs-lhe outra vez as mãos à volta do pescoço. - E isso foi antes de te conhecer. Arruma tudo, querida. Já temos o suficiente para nos entretermos durante um bocado.

Passaram as horas seguintes na suite do hotel, com Miranda a examinar linha a linha as cópias dos seus relatórios e Ryan ocupado com o computador.

- Está tudo aqui. Tudo o que fiz, passo a passo. Todos os testes, todos os resultados. A documentação é reconhecidamente pouca, mas é consistente. Porque é que ela não viu isso?

- Dá uma olhadela nisto e vê se percebi bem.

- O quê?

- Cruzei algumas informações. - Fez sinal para que ela se aproximasse. - Estes foram os nomes que me surgiram. Pessoas que tiveram acesso aos dois bronzes. Provavelmente haverá mais, mas estas são as principais.

Ela levantou-se e leu por cima do ombro dele. Só se arrepiou quando reparou que o seu nome estava no topo da lista. A mãe também estava lá, e o pai, Andrew, Giovanni, Elise, Carter, Hawthorne e Vincente.

- O Andrew não teve acesso à Dama Negra.

Uma mecha de cabelo que ela apanhara caiu e fez cócegas no rosto de Ryan. A reacção imediata que ele sentiu no baixo-ventre fê-lo soltar um longo e silencioso suspiro. Se não fosse por outra coisa, o cabelo dela iria fazê-lo beber antes de terminarem, pensou.

- Ele está ligado a ti, à tua mãe e à Elise. Bastante próximo. Ela fungou e ajeitou melhor os óculos. - Isso é insultuoso.

- Quero saber qual é a precisão da informação. Poupa os comentários.

Claro, também havia o afectado tom de voz. Destruía-o com desejo de o transformar em gemidos. - A mulher de Hawthorne esteve com ele em Florença?

- Não.

- Richard é divorciado. - Que se lixe, pensou ele. E torturou-se voltando a cabeça por forma a sentir o perfume do cabelo dela. - Era casado quando esteve a trabalhar no Maine?

- Não sei. Mal o conheci. Na verdade, não me recordava dele ate ele me lembrar que já nos conhecíamos. - Aborrecida, Miranda virou a cabeça e deparou-se com os olhos dele, que não estavam propriamente concentrados no trabalho. O coração dela deu um pinote e enviou pequenas ondas de desejo para o seu ventre. - Porque é que isso importa?

- porque é que importa o quê? - Ele queria aquela boca. Raios! Tinha direito àquela boca.

- O... Richard ser divorciado.

- Porque as pessoas contam aos seus amantes e cônjuges todo o tipo de confidencialidades. O sexo - murmurou ele, enrolando a mecha de cabelo solto em volta do dedo - é um grande comunicador.

Um puxão, pensou ele, um pequeno puxão e a boca dela estaria encostada à sua. Teria todo aquele cabelo nas mãos, todos aqueles caracóis selvagens. Despi-la-ia em cinco minutos. À excepção dos óculos.

Estava a começar a ter fantasias incríveis com Miranda apenas de óculos.

Foi com imensa pena que não a puxou, mas desenrolou o cabelo dela do dedo, voltou-se e olhou para o monitor.

- Também temos de investigar as obreiras, mas estamos a precisar de uma pausa.

- Uma pausa? - Não havia uma única ideia organizada no seu pensamento. Os nervos faiscavam ao longo da superfície da pele como se fossem pequenas lambidelas de relâmpagos.

Se ele lhe tocasse naquele momento, se a beijasse naquele instante, ela sabia que iria disparar como um foguete. Então endireitou-se e fechou os olhos. E suspirou.

- O que é que tinhas em mente?

- Vamos pôr isto de lado e comer alguma coisa.

Os olhos dela esbugalharam repentinamente. - O quê?

- Comida, Dra. Jones. - Ryan premiu algumas teclas, concentrado, e não a viu esfregar o rosto com as mãos.

- Sim, comida. - A voz dela tremia levemente; se de riso ou desespero, ela não tinha a certeza. - Boa ideia.

- Do que é que gostarias para a tua última noite em Florença?

- Última noite?

- As coisas podem complicar-se aqui. É melhor continuarmos a trabalhar em casa.

- Mas se a Dama Negra estiver aqui...

- Voltaremos para a vir buscar. - Desligou o computador e afastou-se da pequena secretária. - Florença não é uma cidade grande, Dra. Jones. Mais cedo ou mais tarde, alguém teu conhecido irá localizar-te. - Passou um dedo pelos cabelos dela. - Tu não passas despercebida. Bem, rápida, elaborada ou típica?

Casa. Miranda descobriu que queria muito voltar para casa e vê-la com aqueles novos olhos. - Acho que prefiro típica para variar.

- Excelente escolha. Conheço o sítio perfeito.

Era barulhento, estava apinhado, e as luzes agressivas iluminavam os quadros aparatosos que enchiam a parede. Estes condiziam com as fiadas de salsichas penduradas e os presuntos inteiros fumados que eram a decoração principal do restaurante. As mesas estavam juntas por forma a os clientes - tanto amigos como estranhos - comerem as suas doses de carne e massa lado a lado.

Foram conduzidos até a um canto por um homem redondo com um avental manchado que registou com um aceno de cabeça o pedido de Ryan de uma garrafa de vinho tinto da região. À esquerda de Miranda estava um divertido casal americano que andava a viajar pela Europa. Partilharam um cesto de pão enquanto Ryan puxava conversa de uma forma natural e descontraída que Miranda admirou.

Ela nunca teria falado com estranhos num restaurante à excepção da conversa mais básica. Mas na altura em que o vinho foi para a mesa, já sabia que eram de Nova Iorque, que tinham um restaurante em Manhattan e que estavam juntos há dez anos. Aquela era a sua viagem de aniversário.

- É a nossa segunda lua-de-mel. - Divertido, Ryan pegou na mão de Miranda e beijou-a. - Não é, Abby, minha querida?

Completamente à nora, ela olhou para ele e depois respondeu ao seu ligeiro pontapé por debaixo da mesa. - Oh, sim. Não tivemos dinheiro para a lua-de-mel quando nos casámos. O Kevin tinha começado a trabalhar há pouco tempo e eu era apenas... uma subalterna na agência. Agora estamos a aproveitar antes que venham os filhos.

Espantada consigo própria, bebeu um pouco de vinho enquanto Ryan sorria para ela. - Valeu a pena a espera. Respira-se romance em Florença.

Desafiando todas as leis da física, o empregado enfiou-se entre as mesas e perguntou o que iam desejar.

Menos de uma hora depois, Miranda pediu mais vinho. - É maravilhoso. É um lugar maravilhoso. - Ajeitou-se na cadeira para sorrir afectuosamente para uma mesa de ingleses que conversavam de forma educada enquanto uma mesa de alemães ao lado deles emborcava cerveja e cantava.

- Nunca venho a sítios destes. - Tudo rodopiava na sua cabeça; odores, vozes, vinho. - Pergunto-me porque será.

- Queres sobremesa?

- Claro. Come, bebe e sê feliz. - Serviu-se de mais vinho e sorriu ebriamente para Ryan. - Adoro isto aqui.

- Sim, estou a ver. - Empurrou a garrafa para fora do alcance dela e fez sinal ao empregado.

-- Não eram um casal simpático? - Miranda sorriu sentimentalmente para o espaço que os seus companheiros de mesa haviam deixado vago. - Estavam realmente apaixonados. Vamos procurá-los quando regressarmos a casa, não vamos? Não, quando eles regressarem a casa. Nós vamos para casa amanhã.

- Vamos experimentar o zabaglione - disse Ryan ao empregado, olhando espantado para Miranda quando esta começou a cantarolar com os alemães bêbados. - E cappuccino.

 

- Eu preferia tomar mais vinho.

- Não é uma boa ideia.

- Porque não? - Cheia de amor pelo seu companheiro, pegou no copo e esvaziou-o. - Eu gosto.

- É a tua cabeça - disse ele com um encolher de ombros quando ela pegou outra vez na garrafa. - Se continuares assim, não vais ter um voo de regresso agradável.

- Eu sou muito boa voadora. - De olhos quase fechados, serviu-se de vinho até este ficar precisamente a um centímetro do rebordo do copo.

- Estás a ver? Firme como uma rocha. A Dra. Jones está sempre firme. - Deu umas risadinhas e inclinou-se para a frente. - Mas a Abby é uma bêbada.

- O Kevin está bastante preocupado com a hipótese de ela desmaiar em cima da mesa e de ter de a carregar até casa.

- Nah. - Esfregou o nariz com as costas da mão. - A Dra. Jones não permitiria tal coisa. Demasiado embaraçoso. Vamos dar um passeio pela beira-rio. Quero passear pela beira-rio ao luar. A Abby vai deixar-te beijá-la.

- Essa é uma proposta interessante, mas acho que era melhor levar-te para casa.

- Eu adoro o Maine. - Miranda recostou-se, baloiçando o copo na mão. - Adoro os rochedos e o nevoeiro e o bater das ondas e dos barcos de lagostas. Vou plantar um jardim. Este ano vou mesmo fazer isso. Mmm... - Emitiu Miranda quando viu a sobremesa cremosa que haviam colocado à sua frente. - Gosto de ceder à tentação. - Pousou o copo o tempo suficiente para poder tirar uma colherada de doce. - Não conhecia esta minha faceta - disse, com a boca cheia.

- Experimenta o café - sugeriu ele.

- Quero o vinho. - Mas quando tentou agarrar a garrafa, ele tirou-lha.

- Desejas mais alguma coisa?

Ela observou-o pensativamente e depois sorriu. - Traz-me a cabeça do Baptista - ordenou. E depois começou a dar risadinhas. - Roubaste mesmo os ossos dele? Não consigo realmente compreender um homem que rouba ossos de um santo. Mas é fascinante.

Hora de ir embora, decidiu Ryan. E colocou em cima da mesa dinheiro mais do que suficiente para pagar a conta. - Vamos dar um passeio, querida.

- Ok. - Miranda levantou-se de repente e teve de apoiar uma mão na parede. - Meu Deus, aqui há um bocadinho de gravidade a mais.

- Talvez lá fora haja menos. - Enfiou um braço em volta da cintura dela e puxou-a até à saída, rindo para dentro enquanto ela se despedia alegremente das pessoas.

- É mesmo um prato, Dra. Jones!

- Qual era o nome daquele vinho? Era muito bom. Quero comprar uma caixa.

- Estavas a sair-te muito bem a dar conta de uma caixa. - Conduziu-a ao longo do passeio irregular, pela rua tranquila, satisfeito por terem resolvido caminhar em vez de levarem a mota. Precisaria de a ter amarrado para ela não cair.

- Vou pintar os meus estores.

- Boa ideia.

- A tua mãe tem estores amarelos. Tão alegres. Todos da tua família são tão alegres. - Abraçando também a cintura dele, fê-lo dar uma volta.- Mas acho que um azul vivo ficaria bem na minha casa. Um azul vivo, e vou pôr uma cadeira de baloiço na sacada da frente.

- Nada como uma cadeira de baloiço. Cuidado com o degrau. Isso.

- Hoje assaltei a casa da minha mãe.

- Parece que sim.

- Estou a partilhar uma suite de hotel com um ladrão e assaltei a casa da minha mãe. Podia tê-la roubado à vontade.

- Só precisavas de ter pedido. Vira à esquerda, por aí. Estamos quase a chegar.

- Foi óptimo.

- O quê?

- O assalto. Não o quis dizer na altura, mas foi óptimo. - Atirou os braços para o alto e acertou-o em cheio no queixo. - Talvez pudesses ensinar-me a arrombar fechaduras. Farias isso, Ryan?

- Oh, claro. Vou mesmo fazer isso. - Ele esfregou o maxilar e levou-a até à entrada do hotel.

- Podia convencer-te a ensinares-me. - Ela voltou-se, esbarrando contra ele à entrada do elegante hall, e comprimiu a boca contra a dele antes que ele pudesse equilibrar-se. Desta vez ele sentiu a cabeça começar a andar à roda.

- Miranda...

- Para ti é Abby, amigo - murmurou ela enquanto o recepcionista tentava discretamente desviar o olhar. - Então, que me dizes?

- Falamos lá em cima. - Arrastou-a em direcção ao elevador.

- Não quero falar. - Colou-se a ele e atacou-lhe o lobo da orelha com os dentes. - Quero sexo selvagem e louco. Agora.

- Quem não quer? - Disse o componente masculino de um casal formalmente vestido que saía naquele momento do elevador.

- vês? - Disse Miranda enquanto Ryan a empurrava para dentro da cabine. - Ele concorda comigo. Desde que te vi e ouvi o tinido que desejo saltar para cima de ti.

- Tinido. - Ele estava a começar a ficar sem fôlego tentando libertar-se dela.

- Contigo oiço tinidos. Neste momento a minha cabeça está cheia deles. Beija-me outra vez, Ryan. Eu sei que queres.

- Pára com isso. - Um pouco desesperadamente, ele segurou-lhe nas mãos antes que ela começasse a desabotoar-lhe a camisa. - Estás bêbada.

- O que é que isso te importa? - Atirou a cabeça para trás e riu.

- Estás a tentar levar-me para a cama desde que me conheceste. É a tua oportunidade.

- Existem regras - murmurou ele por entre dentes, cambaleando como um bêbado enquanto ela tentava empoleirar-se nele. Um deles estava a precisar de um duche frio, pensou ele.

- Oh, agora existem regras. - A rir, desentalou-lhe a camisa. Com as mãos dela a percorrerem-lhe as costas e a barriga, Ryan teve de se esforçar para meter a chave na fechadura.

- Valha-me Deus. Miranda... - As mãos dela já estavam dentro das calças. - Eu disse que não. Controla-te - disse ele quando ela lhe tocou.

- Não consigo. Controla-te tu. - E libertou-o apenas o tempo suficiente para saltar e encaixar as pernas na cintura dele, segurá-lo pelos cabelos e fundir a sua boca com a dele. - Quero-te. Desejo-te - disse, ofegante, enquanto percorria o rosto dele com os lábios. - Faz amor comigo. Toca-me. Quero as tuas mãos no meu corpo.

Já estavam. Ele não conseguiu evitar apertar aquele lindo traseiro. O seu corpo gritava por ela, as duas línguas não se largavam. A pequena ponta de bom senso que ainda lhe restava estava lentamente a desaparecer.

- Amanhã de manhã vais odiar-nos aos dois.

- E depois? - Ela riu outra vez, e os seus olhos eram de um azul penetrante quando fitaram os dele. Atirou os cabelos para trás, transformando o corpo dele num órgão pulsante. - O agora é que interessa. Deixa-te levar pelo momento, Ryan. Não quero estar sozinha.

Os olhares permaneceram fixos um no outro enquanto ele a levava até ao quarto. - Então veremos quanto tempo o agora pode durar. E lembra-te. - Mordiscou-lhe suavemente o lábio inferior. - Foste tu que pediste.

Caíram juntos na cama, com o luar a invadir o quarto e sombras dançando nos cantos. O peso dele excitava-a, com os contornos rijos do seu corpo pressionando os dela contra o colchão. As bocas encontraram-se de novo num beijo quase violento de avidez, continuando depois com línguas ardorosamente entrelaçadas e pequenas mordidelas.

Ela queria tudo, e depois mais. Queria o impossível. E sabia que com ele o alcançaria.

Moldou o corpo ao dele, sem vontade de continuar a ter o papel passivo. Os movimentos bruscos puseram-na tonta e a sua respiração saiu num riso gemido. Oh, Deus, estava livre. E viva, tão viva. Na sua precipitação de sentir carne, abriu-lhe a camisa com um puxão, arrancando os botões da elegante seda.

- Oh, sim - sussurrou ela quando ele lhe rasgou a manga da blusa. - Despacha-te.

Mesmo que quisesse, ele não conseguiria ter abrandado o ritmo. As suas mãos hábeis e experientes arrancaram-lhe o sutiã e apertaram-lhe os seios.

Brancos como mármore, suaves como água.

Quando tocar já não lhe bastava, voltou a deitar-se em cima dela.

Miranda gritou, arqueando-se quando ele começou a devorá-la com os lábios, dentes e língua. As suas unhas cravaram-se-lhe nas costas, percorrendo os músculos tensos enquanto era inundada por ondas de prazer. As sensações assaltavam-na numa confusão desgovernada de dores gloriosas, prazeres recônditos e pontos sensíveis.

- Agora. Agora...

Mas a boca dele desceu pela sua barriga. Ainda não.

Ryan puxou-lhe as calças até às ancas e enfiou a língua no ponto de origem daquele prazer. Ela atingiu o clímax instantânea e violentamente, paralisando ambos com a intensidade da sensação. Soluçou o nome dele, entrelaçando os dedos nos seus cabelos, e a libertação do prazer voltou a dar lugar à necessidade, e a necessidade à exigência.

O corpo dela era um milagre, uma obra de arte, com pernas e torso longos, pele cor-de-leite, músculos trémulos. Ele queria saboreá-lo, lambê-lo de uma ponta à outra. Queria mergulhar o rosto naquela cascata de cabelos.

Mas o animal dentro de si lutava desesperadamente por liberdade.

Rebolaram novamente, lutando sobre a cama, atormentando-se mutuamente com dentadas e toques.

A visão turvou e os pulmões arderam quando ela atingiu de novo o mais sublime dos prazeres com uma intensidade colossal. A sua respiração era uma sucessão de gritos curtos queimando-lhe no peito, o corpo insuportavelmente sensível a qualquer toque, a qualquer sabor.

O rosto dele parecia nadar sobre o dela, e depois tornou-se claro, todos os traços distintos como se tivessem sido esculpidos em vidro com um diamante. As suas respirações misturaram-se e ela arqueou as ancas. E ele entrou nela.

Todos os movimentos cessaram por um eterno momento sussurrante. Juntos, com ele bem fundo dentro dela, olharam um para o outro. Lentamente, numa longa carícia, ela deslizou as mãos pelas costas dele e agarrou-lhe nas ancas.

Juntos, começaram a mover-se, aumentando cada vez mais o ritmo, os corpos suados e escorregadios deslizando um sobre o outro, e o prazer dando lugar a um prazer cada vez maior até avassalar o sistema e subjugar a mente.

Tudo, e depois mais, pensou ela quando se aproximava do clímax. E depois o impossível. Que alcançou no instante em que se enganchou nele e explodiu de prazer.

 

Foi a brilhante luz do Sol que a acordou. Por um terrível momento, julgou que os olhos estavam em chamas e bateu-lhes com as palmas das mãos antes de começar a pensar claramente.

Descobriu então que não estava a sofrer nenhuma combustão espontânea. E que não estava sozinha na cama. O melhor que conseguiu foi um gemido abafado enquanto fechava novamente os olhos doridos.

O que é que tinha feito?

Bem, era bastante óbvio o que é que tinha sido - na verdade, se a memória não lhe falhava, tinham sido duas vezes. Entre as quais Ryan a obrigara a ingerir três aspirinas e um pequeno oceano de água. Ela supunha que tivesse sido essa pequena consideração a permitir-lhe manter a cabeça entre os ombros.

Cautelosamente, olhou para o lado. Ele estava deitado de barriga com a cara enterrada na almofada. Ela imaginou que ele também não estivesse muito entusiasmado com o brilho do Sol, mas nenhum dos dois se lembrara de correr as cortinas na noite anterior.

Oh, Deus.

Ela saltara para cima dele, apalpara-o e rasgara-lhe a roupa como uma louca.

E ainda agora, em plena luz do dia, a sua boca salivava quando imaginava fazer tudo outra vez.

Desceu lentamente da cama, na esperança de preservar a sua dignidade pelo menos o tempo suficiente para chegar ao duche. Ele não moveu um músculo nem emitiu qualquer som e, grata por essa pequena bênção, ela precipitou-se para dentro da casa de banho.

Felizmente para o seu estado de espírito, Miranda não o viu abrir um olho e sorrir ao ver o seu traseiro nu.

Falou consigo própria enquanto tomava banho, dando graças ao vapor quente da água. Aliviava algumas das dores. Mas as mais profundas, as mais doces que ela admitia resultarem do sexo agradável e saudável mantinham-se.

De qualquer modo, tomou mais três aspirinas para ver se melhorava.

Quando ela saiu, ele estava no terraço a falar com um empregado do serviço de quartos. Como já era tarde para se esconder de novo lá dentro, fez um sorriso a ambos.

- Buon giorno. O dia está lindo, si? Aproveitem. - O empregado peou na factura assinada e fez uma pequena vénia. - Grazie. Buon appetito.

Deixou-os a sós com uma mesa cheia de comida e um pombo que nasseava pelo parapeito do muro do terraço a observar avaramente as ofertas.

- Bem... Eu... - Miranda enfiou as mãos nos bolsos do robe porque estas queriam tremer.

- Bebe um pouco de café - sugeriu Ryan. Ele tinha vestido umas calças cinzentas e uma camisa preta que lhe davam um ar muito descontraído e cosmopolita. E que a fizeram lembrar que os seus cabelos estavam húmidos e emaranhados.

Ela quase aproveitou para desviar o assunto, mas abanou a cabeça. Era uma mulher que aguentava com as consequências dos seus actos de forma frontal. - Ryan, ontem à noite... Acho que tenho de te pedir desculpa.

- A sério? - Serviu duas chávenas de café e sentou-se confortavelmente à mesa.

- Bebi de mais. Isto não é uma desculpa, é a realidade.

- Querida, tu estavas completamente passada. Gira também acrescentou, observando-a enquanto espalhava compota num croissant.

- E espantosamente ágil.

Ela fechou os olhos, rendeu-se e sentou-se. - O meu comportamento foi imperdoável e lamentável, e peço desculpa por isso. Coloquei-te numa posição bastante desconfortável.

- Recordo-me de várias posições. - Ryan bebeu um pouco de café, encantado com o ligeiro rubor que surgia no rosto dela. - Nenhuma das quais foi minimamente desconfortável.

Ela pegou no café, bebeu rapidamente e escaldou a língua.

- O que é que precisa de ser desculpado? - Perguntou ele, retirando um bolinho do cesto e colocando-o no prato dela.

- A questão é...

- A questão, se é que tem de haver alguma, é que somos ambos solteiros, descomprometidos e adultos saudáveis que sentem uma forte atracção um pelo outro. E foi por isso que aconteceu o que aconteceu ontem à noite. - Destapou uma omeleta dourada. - Eu, por mim, gostei imenso.

- Cortou a omeleta ao meio e pôs metade no prato dela. - E tu?

Ela preparara-se conscienciosamente para se humilhar, para pedir desculpas, para assumir todas as responsabilidades. Porque é que ele não a estava a deixar fazer isso? - Não estás a perceber onde quero chegar.

- Estou, sim. Apesar da tua falta de jeito. Ah, lá está um pouco daquele olhar de poucos amigos. Muito melhor. Agora, embora eu aprecie o facto de não me estares a culpar por ter tirado partido da situação, já que foste tu que começaste a rasgar-me a roupa, é igualmente tolo culpares-te a ti.

- Estou a culpar o vinho - disse ela de modo áspero.

- Não, já disseste que isso não era desculpa. - Ele riu-se, pegou-lhe na mão e deu-lhe um garfo. - Queria fazer amor contigo desde o momento em que te vi; e quanto mais te conhecia, mais te queria. Tu fascinas-me, Miranda. Agora come os teus ovos antes que arrefeçam.

Ela ficou a olhar para o prato. Não era possível ficar chateada com ele

- Eu não faço sexo casual.

- Chamas a isto casual? - Respirou fundo. - Deus me ajude quando isto ficar sério.

Ela sentiu um formigueiro nos lábios e desistiu. - Foi fabuloso.

- Ainda bem que te recordas. Não tinha a certeza de quão clara estaria a tua mente. Quem me dera que pudéssemos ficar aqui mais tempo.

- Pôs-se a brincar com os cabelos húmidos dela. - Florença é boa para os amantes.

Ela respirou fundo, olhou directamente para dentro dos olhos dele e pronunciou o que para si era um compromisso sem precedentes: - O Maine é lindo na Primavera.

Ele sorriu e acariciou-lhe o rosto com um dedo. - Vou gostar de ver isso.

A Dama Negra encontrava-se sob um único feixe de luz. Quem a examinava estava na escuridão. A mente estava fria, calma e clara, assim como estivera aquando do assassinato.

O assassínio não fora planeado. As forças motrizes tinham sido o poder e a justiça. Se tudo tivesse corrido bem, a violência não teria sido necessária.

Mas não tinha, por isso tinham que ter sido feitos ajustes. A culpa pela perda de duas vidas fora do roubo do David. Quem poderia ter adivinhado? Quem poderia ter controlado tal coisa?

Chamaria a isso de imprevisto. Sim, um imprevisto.

Mas assassínio não era uma coisa assim tão abominável como se podia pensar. Também trazia poder. Nada nem ninguém poderia documentar a existência da Dama Negra e permanecer vivo. Era tão simples quanto isso.

Trataria do assunto, de modo limpo, eficaz e definitivo.

Quando chegasse a altura certa, tudo terminaria. Com Miranda.

Era uma pena que uma mente tão inteligente e esperta tivesse de ser destruída. A reputação por si só teria bastado em tempos. Agora, tudo tinha de ser tomado. Na ciência, ou no poder, não havia lugar para o sentimento.

Um acidente, talvez, embora o suicídio fosse melhor.

Sim, suicídio. Seria tão... satisfatório. Que estranho não ter previsto quão satisfatória seria a morte dela.

Seria preciso algum planeamento. Seria preciso... Abriu um sorriso tão perverso como o do rosto glorioso do bronze. Seria preciso paciência.

Quando a Dama Negra ficou sozinha debaixo daquele solitário feixe de luz, não havia ninguém para ouvir a gargalhada silenciosa dos malditos. Ou dos loucos.

A Primavera espalhava-se sobre o Maine. Havia uma suavidade no ar que uma semana antes não existia. Ou, pelo menos, Miranda não a sentira.

Na sua colina, lá estava a casa antiga de costas para o mar, com as janelas reflectindo o pôr-do-sol. Era bom estar de volta.

Quando entrou em casa, Miranda encontrou Andrew no gabinete na companhia de uma garrafa de Jack Daniels. O seu humor optimista caiu a pique.

Ele levantou-se rapidamente, cambaleando um pouco. Ela reparou que os olhos dele demoraram alguns segundos a focar, que não fazia a barba há um ou dois dias e que tinha a roupa amassada.

Estava bastante bêbado, percebeu ela, e já o estaria muito provavelmente há alguns dias.

- Por onde andaste? - Deu alguns passos cambaleantes e abraçou-a de modo frouxo. - Tenho estado preocupado contigo. Telefonei a todos de que me consegui lembrar. Ninguém sabia para onde tinhas ido.

Apesar do intenso odor a uísque que o envolvia, ela sabia que a preocupação dele era sincera. Embora o tenha abraçado com vontade, a intenção de lhe contar tudo desvaneceu-se. Até que ponto se podia confiar num bêbado?

- Estou de licença - lembrou-lhe ela. - Deixei-te um recado.

- Sim, que não dizia nada. - Afastou-se dela, observando a sua expressão, e depois afagou-lhe os cabelos com uma das suas enormes mãos.

- Quando o velho foi ao Instituto, eu percebi que estávamos metidos em sarilhos. Vim para cá o mais depressa que consegui, mas tu já te tinhas ido embora.

- Não me deram escolha. Ele foi muito duro contigo?

- Não mais do que era esperado. - Encolheu os ombros. Mesmo com o whisky a atrapalhar-lhe os instintos, Andrew conseguiu ver que se passava algo de novo. - O que é que se passa, Miranda? O que é que fizeste?

- Fui para fora durante alguns dias. - Decidiu, com tristeza, guardar para si o que sabia. - Cruzei-me com o Ryan Boldari em Nova Iorque.

Voltou-se de costas porque era uma péssima mentirosa. E nunca havia mentido a Andrew. - Ele está de regresso ao Maine. Vai ficar aqui alguns dias.

- Aqui?

- Sim, eu... Estamos envolvidos.

- Estão... Oh. - Passou a língua pelos dentes e tentou raciocinar.

- Ok. Isso foi... rápido.

- Não exactamente. Temos muito em comum. - Ela não queria esticar muito a conversa. - Houve algum progresso na investigação?

- Deparámo-nos com uma dificuldade. Não conseguimos encontrar a documentação do David.

Embora ela já estivesse à espera disso, sentiu um aperto no estômago. Passou uma mão nervosa pelo cabelo e preparou-se para continuar com o embuste. - Não a conseguem encontrar? Devia estar nos arquivos.

- Eu sei onde é que devia estar, Miranda. - Irritado, Andrew pegou na garrafa e serviu mais um copo. - Não está lá. Não está em nenhum lugar do Instituto. Procurei em todo o lado. - Pressionou os olhos com os dedos. - A companhia de seguros está relutante. Se não encontrarmos os papéis, vamos ter de arcar com o prejuízo. Tu fizeste os testes.

- Sim - disse ela cuidadosamente. - Eu fiz os testes. Eu autentiquei a peça, e a documentação foi adequadamente preenchida. Tu sabes isso, Andrew. Também participaste.

- Sim, bem, o facto é que desapareceu. A companhia de seguros está a rejeitar a reclamação até terem os documentos, a nossa mãe está a ameaçar vir até cá para ver como é que somos tão incompetentes ao ponto de não só perdermos uma excelente obra de arte como também a sua documentação, e o Cook está a ficar todo desconfiado.

- Lamento ter-te deixado sozinho neste momento. - E esse sentimento era mais forte agora que podia ver como é que ele estava a lidar com a situação. - Andrew, por favor. - Aproximou-se dele e tirou-lhe o copo da mão. - Não consigo conversar contigo quando estás embriagado.

Ele sorriu apenas, revelando as covinhas do rosto. - Eu ainda não estou embriagado.

- Estás sim. - Ela conhecia muito bem os sinais. - Precisas de te inscrever num programa de reabilitação.

As covinhas desapareceram. Meu Deus, foi tudo o que ele conseguiu pensar. Era mesmo o que estava a precisar. - Eu preciso é de algum apoio e solidariedade. - Irritado, pegou novamente no copo e bebeu um longo golo. - Talvez lamentes teres-me deixado sozinho neste momento, mas foi precisamente isso que fizeste. E se eu quiser tomar alguns copos depois de um dia miserável a tratar de tudo com a polícia, a dirigir o Instituto e a aturar os nossos pais, isso não é da conta de ninguém.

Enquanto o ouvia, o peito dela comprimiu-se, apertando o coração com a pressão. - Eu amo-te. - As palavras custaram um pouco a sair, porque ela sabia que nenhum deles as pronunciava tanto quanto deveria. - Eu amo-te, Andrew, e tu estás a matar-te debaixo dos meus olhos. Isso faz com que seja da minha conta.

Havia lágrimas nos olhos e na voz dela que o fizeram sentir-se culpado, enfurecendo-o. - Ok, vou matar-me em privado. Dessa forma já não será da tua conta! - Agarrou na garrafa e saiu apressadamente.

Ele odiava o facto de estar a desiludir e a magoar a única pessoa com que sempre pudera contar. Mas, com que diabos, era a vida dele!

Bateu com a porta do quarto e não reparou no fedor a whisky que ficara da noite anterior. Sentou-se numa cadeira e bebeu directamente da garrafa.

Tinha o direito a relaxar, não tinha? Fazia o que lhe competia, cumpria o seu dever, por isso, porque é que tinha de sofrer por tomar alguns copos?

Ou algumas dúzias, pensou com um riso meio reprimido. Quem é que estava a contar?

Talvez as perdas de consciência o preocupassem um pouco, aqueles períodos de tempo de que não conseguia recordar-se. Mas isso tratava-se muito provavelmente de stress, e uma bebida forte era o melhor remédio para o stress.

Sem qualquer dúvida.

Dizia para si mesmo que sentia falta da mulher, embora cada vez fosse mais difícil visualizar de forma clara o seu rosto ou lembrar-se do tom exacto da sua voz. Ocasionalmente, quando estava sóbrio, tinha um lampejo da verdade. Já não amava Elise - e talvez nunca a tivesse amado tanto quanto gostava de pensar. Por isso, bebia para apagar essa verdade e rendia-se às sensações de traição e tristeza.

Estava a começar a ver o valor de beber sozinho desde que Annie o impedira de entrar no seu estabelecimento. Sozinho, podia beber até não aguentar mais, e quando já não aguentava, deitava-se e desmaiava. Conseguia assim passar as noites.

Um homem tinha de conseguir passar as noites, pensou, olhando para a garrafa antes de a emborcar de novo.

Não que precisasse de beber. Tinha a situação sob controlo e podia deixar de beber quando quisesse. Só que não queria. Ainda assim, iria parar só para provar a Miranda, a Annie e a todas as pessoas que estavam erradas acerca dele.

As pessoas sempre haviam estado enganadas a seu respeito, pensou com ressentimento. A começar pelos pais. Nunca haviam sabido quem ele era, o que queria, e muito menos do que é que precisava.

Por isso, que se lixassem. Que se lixassem todos!

Ia parar de beber. Amanhã, pensou com mais uma risadinha enquanto levava a garrafa à boca.

Viu as luzes entrarem no quarto. Luzes de faróis, concluiu após um estudo longo e hesitante. Vinha aí companhia. Talvez Boldari.

Tomou mais um longo gole e sorriu para si mesmo. Miranda tinha um namorado. Iria tirar algum proveito disso. Já há muito tempo que não arreliava a irmã com um assunto tão interessante como um homem.

Já agora, podia começar imediatamente, decidiu. Levantou-se, rindo ruidosamente quando começou a ver o quarto andar à roda. Juntem-se ao circo, vejam o mundo, pensou, avançando para a porta aos trambolhões.

Acabara de descobrir as intenções do velho Ryan Boldari. Sem dúvida. Tinha de mostrar àquele espertalhão de Nova Iorque que a Mirandinha tinha um irmão mais velho para tomar conta dela. Tomou mais uma golada da garrafa enquanto cambaleava pelo corredor, e, agarrando-se ao corrimão no cimo das escadas, olhou para baixo.

Lá estava a sua irmãzinha, mesmo ao fundo da escada, num beijo quente com o nova-iorquino. - Ei! - Chamou, fazendo gestos frenéticos com a garrafa e depois rindo quando Miranda se virou. - Que é que está a fazer com a minha maninha, Sr. Nova Iorque?

- Olá, Andrew.

- Olá, Andrew, uma ova! Estás a dormir com a minha irmã, sacana?

- Não de momento. - Ryan manteve o braço sobre os ombros tensos de Miranda.

- Bem, quero falar contigo, companheiro. - Começou a descer as escadas, indo até meio pelos seus pés e seguindo depois aos trambolhões. Era como ver um pedregulho a cair de um penhasco.

Miranda correu em seu auxílio, ajoelhando-se ao lado do corpo estatelado. Andrew tinha sangue na cara, o que a apavorou. - Oh, meu Deus! Andrew!

- Eu estou bem. Estou bem - murmurou ele, tentado afastar-lhe as mãos que procuravam ossos partidos. - Foi só uma pequena queda.

- Podias ter partido o pescoço!

- Os degraus são uma coisa traiçoeira - disse Ryan. Agachou-se ao lado de Miranda, reparando que o corte na testa de Andrew era superficial e que as mãos dela tremiam.

- Droga. - Andrew passou a mão pela testa e examinou a mancha de sangue. - Olha para isto.

- Vou buscar o estojo dos primeiros socorros.

Ryan olhou para Miranda. Ela estava pálida de novo, mas tinha os olhos fechados.

- Nós tratamos disto. Anda, Andrew. O meu irmão despistou-se numa curva na noite da despedida de solteiro e ficou muito pior.

- Ajudou Andrew a levantar-se enquanto Miranda se levantava também. Mas quando ela começou a subir as escadas com eles, Ryan abanou-lhe a cabeça.

- Mulheres, não. Isto é coisa de homens. Certo, Andrew?

- Certo. As mulheres são a raiz de todo o mal.

- Deus as proteja.

- Eu tive uma durante um tempo. Ela deixou-me.

- Quem precisa dela? - Ryan conduziu Andrew para a esquerda.

- É esse o espírito! Não consigo ver nada.

- Tens sangue a escorrer-te para o olho.

- Graças a Deus! Pensei que tinha ficado cego. Sabes uma coisa, amigo Ryan Boldari?

- O quê?

- Acho que vou ficar muito maldisposto.

- Pois vais. - Ryan arrastou-o até à casa de banho.

Que família, pensou Ryan enquanto segurava na cabeça de Andrew e se interrogava vagamente se seria possível vomitar órgãos internos. Se não, Andrew estava decerto a tentar.

Quando terminou, Andrew estava exausto, branco como um cadáver e a tremer. Foram precisas três tentativas para Ryan conseguir sentá-lo na sanita para lhe tratar o corte na cara.

- Deve ter sido a queda - disse Andrew debilmente.

- Vomitaste quase um litro de bebida - disse Ryan enquanto limpava sangue e suor. - Fizeste uma triste figura e envergonhaste a tua irmã, deste um mergulho de cabeça que poderia ter quebrado vários ossos se estes não estivessem impregnados de uísque, cheiras a taberna e tens um aspecto ainda pior. Claro, foi a queda.

Andrew fechou os olhos. Queria enrolar-se a um canto e adormecer para nunca mais acordar. - Talvez tenha bebido um pouco de mais. Mas isso não teria acontecido se a Miranda não tivesse implicado comigo.

- Deixa-te de desculpas lamechas. És um bêbado. - Ryan passou desinfectante na ferida e não sentiu qualquer pena quando Andrew susteve a respiração devido à dor. - Pelo menos sê homem suficiente para assumires a responsabilidade pelos teus actos.

- Vai-te lixar.

- Essa é uma resposta inteligente e original. Não deves precisar de pontos, mas vais ficar com um olho negro a condizer com o ferimento de guerra. - Satisfeito, Ryan despiu a camisola arruinada de Andrew.

- Ei!

- Precisas de um duche. Vai por mim.

- Eu só quero ir para a cama. Pelo amor de Deus, só me quero deitar. Acho que estou a morrer.

- Ainda não, mas estás a caminho. - Determinado, Ryan pô-lo de pé, esforçando-se para suportar o peso enquanto abria o chuveiro. Decidiu que era demasiado trabalhoso tirar as calças a Andrew, por isso, arrastou-o meio despido para dentro da banheira.

- Jesus! Vou vomitar outra vez.

- Então vê se acertas no ralo - sugeriu Ryan, mantendo-o quieto quando Andrew começou a soluçar como um bebé.

Demorou quase uma hora até conseguir deitar Andrew na cama. Quando desceu as escadas, Ryan reparou que o vidro estilhaçado da garrafa já tinha sido varrido e que o uísque que tinha molhado as paredes e o chão tinha sido limpo.

Como não conseguiu encontrar Miranda em casa, agarrou num casaco e saiu porta fora.

Ela estava na falésia. Ele observou a silhueta que ela fazia, sozinha, alta, esguia, contra o céu da noite, com os cabelos a esvoaçarem livremente e o rosto voltado para o mar.

Não apenas sozinha. Só. Achava que nunca tinha visto ninguém tão só.

Subiu até ao pé dela e pôs-lhe o casaco sobre os ombros.

Ela conseguira acalmar-se. De alguma forma, o movimento agitado do mar conseguia sempre acalmá-la. - Lamento muito que tenhas sido arrastado para uma situação daquelas.

Ryan reparou que a voz dela era fria. Defesa automática. Estava tensa e ainda de costas para ele. - Eu não fui arrastado. Eu estava aqui. - Pousou as mãos nos ombros dela, mas ela afastou-se.

- Foi a segunda vez que tiveste de lidar com um Jones vergonhosamente embriagado.

- A tolice de uma noite é muito diferente daquilo que o teu irmão está a fazer a ele mesmo, Miranda.

- Por mais verdadeiro que isso seja, não altera os factos. Comportámo-nos de forma reprovável e tu é que trataste da situação. Não sei se hoje teria sido capaz de cuidar do Andrew sozinha. Mas preferia que assim tivesse sido.

- É pena. - Aborrecido, voltou-a de frente para ele. - Porque eu estava aqui e aqui vou continuar durante uns tempos.

- Até encontrarmos as estátuas.

- Correcto. E se nessa altura eu ainda não estiver farto de ti... - Segurou-lhe no rosto, baixou a cabeça e beijou-lhe a boca de forma violenta e possessiva. - Terás de lidar com isso.

- Não sei como lidar com isso. - A voz dela sobrepôs-se ao rebentamento das ondas. - Não estou preparada para isto, para ti. Todos os relacionamentos que tive até agora acabaram mal. Não sei como lidar com este tipo de envolvimento emocional, ninguém da minha família sabe, por isso, desligam-se na primeira oportunidade.

- Tu nunca te envolveste comigo. - Ryan disse-o com uma arrogância tão evidente que ela poderia ter rido. Em vez disso, virou a cara e fixou o olhar no feixe de luz emitido pelo farol.

Seria ele a fugir quando tudo acabasse, pensou ela. E desta vez, com ele, ela estava desesperadamente receosa de vir a sofrer. Não importava perceber a razão da presença dele ali, qual era a sua intenção principal. Iria sofrer quando ele a deixasse.

- Tudo o que aconteceu desde que te conheci é estranho para mim. Não funciono bem sem linhas mestras.

- Tens estado a sair-te muito bem até agora.

- Morreram dois homens, Ryan. A minha reputação está em ruínas, a minha família está mais dividida do que nunca. Infringi a lei, ignorei a ética e estou a ter um caso com um criminoso.

- Mas ainda não te aborreceste, pois não?

Ela deixou escapar uma gargalhada débil. - Não. Não sei o que fazer a seguir.

- Posso ajudar-te nesse ponto. - Pegou-lhe na mão e começou a caminhar. - Amanhã é uma boa altura de darmos os passos seguintes. E de conversarmos sobre quais devem ser.

- Preciso de pôr as ideias em ordem. - Olhou de novo para a casa.

- Devia ir primeiro ver como está o Andrew e depois organizar-me.

- O Andrew está a dormir e não vai acordar até amanhã. Para organizares as ideias, precisas de ter a mente clara e concentrada. Tens demasiadas coisas na cabeça para a tua estar clara ou concentrada.

- Desculpa, mas a organização é a minha vida. Consigo organizar três projectos diferentes, delinear uma palestra e dar uma aula ao mesmo tempo.

- É uma mulher assustadora, Dra. Jones. Então digamos que a minha não está clara nem concentrada. E nunca estive dentro de um farol - Ryan observou-o enquanto se aproximavam, apreciando a forma como o feixe de luz atravessava a escuridão e pousava cintilante na superfície do mar. - Que idade tem?

Ela deixou escapar um suspiro. Se estava a querer desviar o assunto que assim fosse. - Foi construído em 1853. A estrutura original, embora o meu avô tenha mandado renovar o interior nos anos quarenta com a ideia de o utilizar como estúdio de arte. O facto é que, de acordo com a minha avó, ele usava-o para casos sexuais ilícitos porque gostava de os ter a tão curta distância da casa e dentro de um lugar que é um símbolo obviamente fálico.

- O bom avozinho.

- Era apenas um dos intoleráveis Jones emocionalmente raquíticos. O pai dele, também segundo palavras da minha avó, que era a única que abordava estes assuntos, exibia as suas amantes em público e concebeu diversos filhos ilegítimos que se recusou a reconhecer. O meu avô continuou apenas essa tradição.

- Os Jones de Cabo Jones são muitos.

Ela percebeu o insulto e abanou a cabeça. Achou divertida a insinuação. - Sim, acho que sim. De qualquer forma, a minha bisavó decidiu ignorar os seus hábitos e passava a maior parte do ano na Europa, vingando-se a esbanjar o mais possível o dinheiro dele. Infelizmente, decidiu voltar para os Estados Unidos num novo navio de luxo que se chamava Titanic.

- Verdade? - Ryan já estava suficientemente perto para conseguir ver a fechadura enferrujada na espessa porta de madeira. - Fixe.

- Bem, ela e os filhos entraram num barco salva-vidas e foram salvos. Mas ela apanhou uma pneumonia por causa do frio no Atlântico Norte e morreu algumas semanas depois. O marido fez o luto arranjando um caso com uma cantora de ópera pouco tempo depois. E foi morto quando o marido da cantora de ópera, de alguma forma desagradado com a situação, incendiou a casa onde eles viviam em pecado.

- Imagino que tenha morrido feliz. - Ryan retirou um canivete suíço do bolso, escolheu a ferramenta e dirigiu-se à fechadura.

- Não. Tenho uma chave em casa se quiseres ver o interior.

- Assim é mais divertido e rápido. Vês? - Voltou a guardar o canivete e abriu a porta. - Húmido - disse ele, pegando na lanterna de bolso para iluminar a ampla sala térrea. - Mas aconchegante.

As paredes estavam forradas com pinho nodoso à moda antiga, que lhe faziam lembrar uma sala de estar suburbana dos anos cinquenta. Havia várias formas bem protegidas debaixo de panos de Holanda, e uma pequena lareira, coberta de cinza, no lado oposto.

Ele pensou que era uma pena que quem tivesse concebido aquele espaço tivesse decidido endireitar as paredes em vez de as manter arredondadas.

Então era aqui que o avô entretinha as suas damas?

- Penso que sim. - Miranda ajeitou melhor o casaco sobre os ombros. O ar interior era frio e bafiento. - A minha avó detestava-o, mas manteve o casamento, criou o meu pai e depois cuidou do marido durante os dois últimos anos da sua vida. Era uma mulher maravilhosa. Forte, teimosa. Ela amava-me.

Ele virou-se para trás e passou as costas da mão pelo rosto dela. - Claro que sim.

- Não é claro quando se trata de amor na minha família. - Virou o rosto quando viu uma ponta de compaixão nos olhos dele. - Verias melhor o interior do farol se esperasses pela luz do dia.

Ele não disse nada por um momento. Lembrou-se de pensar certa vez que ela tinha um carácter frio. Era raro enganar-se tanto quando analisava uma marca. Ela fora uma marca na altura, e agora... Era algo a considerar mais tarde.

Não era frieza dentro dela, mas uma defesa bem construída contra mágoas de uma vida inteira. Contra a negligência, a indiferença, a própria frieza que ele pensara fazer parte dela.

Deu uma vista de olhos pela sala e ficou satisfeito ao encontrar um candeeiro a óleo e velas. Acendeu ambos, apreciando o brilho sinistro que davam ao espaço. - Assustador. - Guardou a lanterna e sorriu para ela. - Alguma vez vieste aqui à procura de fantasmas?

- Não sejas ridículo.

- Querida, tiveste uma infância triste. Vamos ter de compensar isso. Anda.

- O que é que estás a fazer?

- A subir. - Já estava a subir as estreitas escadas metálicas.

- Não toques em nada. - Apressou-se a ir atrás dele enquanto as luzes que ele transportava projectavam brilhos e sombras ondulantes nas paredes. - Agora é tudo automático.

Ryan encontrou um pequeno quarto, com pouco mais do que um colchão rasgado que parecia inabitável e uma cómoda com mau aspecto. A avó tinha muito provavelmente surripiado quaisquer objectos de valor, concluiu ele. Melhor para ela.

Atravessou o quarto e admirou a vista da janela tipo vigia. O mar estava bravo, cortado pela luz, agitando-se sob esta. Pequenas ilhas, como corcovas, pululavam na costa irregular. Vislumbrou o baloiçar de bóias e ouviu o som oco que produziam com o movimento das ondas.

- Linda vista. Drama, perigo e desafio.

- Raramente está calmo - disse ela atrás dele. - Da outra janela tem-se vista sobre a baía. Algumas vezes a água lá é tão lisa como vidro. Parece que podemos caminhar sobre ela até à margem.

Ele olhou por cima do ombro. - De qual gostas mais?

- Gosto de ambas, mas acho que sou mais atraída para o mar.

- Espíritos inquietos são atraídos para espíritos inquietos.

Ela franziu o sobrolho, seguindo atrás quando ele saiu do quarto. Ninguém a qualificaria como espírito inquieto. Muito menos ela própria.

A Dra. Miranda Jones era estável como granito, pensou. E, muitas vezes, igualmente aborrecida.

Com um vago encolher de ombros, seguiu-o até à sala de controlo.

- Lugar impressionante. - Ele já estava a ignorar a ordem dela e a tocar naquilo que lhe apetecia.

O equipamento era extremamente moderno e zunia à medida que as enormes luzes circulavam acima. O espaço era redondo com um pequeno rebordo circular no exterior. Os corrimãos de ferro estavam enferrujados, mas ele achou-os encantadores. Quando saiu, o vento esbofeteou-o como uma mulher insultada e fê-lo rir.

- Fabuloso. Raios me partam se eu não teria também trazido para aqui as minhas mulheres. Romântico, sexy e um pouco assustador. Devias arranjá-lo - disse ele olhando para Miranda. - Daria um magnífico estúdio.

- Eu não preciso de um estúdio.

- Precisarias se investisses na tua arte, que era o que devias fazer.

- Não sou artista.

Ele sorriu, voltou a entrar e fechou a porta. - Acontece que eu sou um negociador de arte muito importante, e digo que és. Tens frio?

- Um pouco. - Ela estava de braços cruzados por debaixo do casaco. - Está muito húmido aqui.

- Vais ganhar mofo se não tratares disso. O que seria um crime. Também sou perito em crime. - Ryan pôs as mãos sobre os braços dela, esfregando-os para a aquecer. - O mar soa diferente daqui. Misterioso, quase ameaçador.

- Durante um bom vento do nordeste, soaria muito mais ameaçador. O farol ainda funciona para orientar navios e evitar que eles se aproximem demasiado dos baixios e das rochas. Mesmo assim, aconteceram alguns naufrágios ao largo da costa durante o último século.

- Os fantasmas de náufragos marinheiros assombram a costa.

- Não me parece.

- Consigo ouvi-los. - Pôs os braços à volta dela. - Implorando por piedade.

- O que ouves é o vento - corrigiu ela. Mas ele já conseguira provocar-lhe um arrepio. - Já viste o suficiente?

- Nem por sombras. - Mordiscou-lhe os lábios. - Mas é o que tenciono fazer.

Ela tentou libertar-se dos braços dele. - Boldari, se pensas que me consegues seduzir dentro de um farol húmido e poeirento, estás a delirar.

- Isso é um desafio? - Começou a mordiscar-lhe o pescoço.

- Não, é um facto. - Mas os músculos das coxas dela já estavam a relaxar. Ele tinha uma língua muito inventiva. - Há um quarto muito bom em casa; na verdade, vários. São aquecidos, confortáveis e têm colchões excelentes.

- Vamos ter de os experimentar depois. Já te disse que tens um corno maravilhoso? - As mãos dele já estavam ocupadas a explorá-lo. Os seus dedos rápidos e ágeis abriram o fecho das calças de Miranda antes que ela pudesse fazer mais do que suspirar um protesto.

- Ryan, este não é o lugar para...

- Era suficientemente bom para o avôzinho - lembrou-lhe ele, metendo depois lentamente os dedos dentro dela. Miranda estava quente e húmida, e ele manteve o olhar fixo no dela, observando-o a ficar turvo e desesperado. - Deixa-te levar. Quero ver o que te faço. Quero dominar-te.

O corpo dela não lhe deu hipótese. Murmurava como uma máquina bem lubrificada em direcção a um fim, uma meta. A sensação profunda e longa deslizou através dela, um súbito emaranhado de circuitos, uma explosão de sensações, e depois uma longa onda suave de prazer que a inundou.

A cabeça dela caiu para trás num gemido, e ele entrou em acção para atacar a zona exposta da garganta. - Ainda tens frio? - Murmurou ele.

- Não, não... - Ela tinha a pele em chamas e o sangue pulsava como um rio quente. Agarrando-se aos ombros dele para não cair, Miranda balançava-se contra a mão ágil de Ryan.

Então, quando a boca dele regressou à sua, ela respondeu com uma exigência própria. O tempo e o lugar não eram nada perante o desejo forte e arrebatador.

As calças desceram até aos pés e o casaco deslizou dos ombros. Maleável como cera quente, ela moldou-se contra ele enquanto ele a apertava contra a bancada onde o equipamento trabalhava eficazmente para projectar a luz sobre o mar.

- Levanta os braços, Miranda.

Ela obedeceu, a sua respiração entrecortada a cada inalação enquanto ele lhe puxava a camisola para cima. Ele observou o prazer desenhar-se no rosto dela enquanto usava os polegares para procurar os mamilos através do fino tecido do sutiã.

- Hoje não há vinho para adormecer os sentidos. - Os dedos dele roçavam ao de leve o inchaço que se formava sob a seda branca. - Quero que sintas tudo e que anseies pelo que virá a seguir. - Puxou uma alça para baixo com a ponta de um dedo, depois a outra, e baixou a cabeça para mordiscar os ombros despidos.

Era como estar a ser... provada, pensou ela fechando os olhos. Saboreada, profusamente saboreada. A língua dele escorregava suavemente sobre a sua pele, os dentes roçavam-na e as pontas dos dedos deslizavam para cima e para baixo pelo seu corpo, gradualmente, baixando lentamente a fina peça de algodão nas suas ancas.

Ele encostou-se entre as pernas dela enquanto ela se agarrava à borda da bancada e percebia o que era estar totalmente sob o controlo de outra pessoa. E querer estar. Desejá-lo ardentemente.

Tudo o que ele lhe fazia era um choque, um abalo ao padrão implacavelmente ordenado da sua mente, que apenas alguns segundos depois era novamente desejado e bem acolhido.

Uma parte do seu cérebro sabia que ela estava quase nua, de pele enrubescida e corpo arqueado em rendição enquanto que o homem que a controlava estava completamente vestido.

Mas quando ele atirou o sutiã para o lado e baixou aquela boca experiente até ao seu seio, ela não se importou.

Ele não sabia que ela podia ser assim, ou quão excitante era ter uma mulher forte e prudente totalmente nas suas mãos. Ela era completamente sua, e dela podia tirar e dar prazer. Mas a emoção que daí advinha, em vez de misteriosa e tensa, era quase insuportavelmente terna.