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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A DONZELA DE PEDRA / Susan King
A DONZELA DE PEDRA / Susan King

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Sete cavaleiros avançavam pela crista da colina coberta de neve como guerreiros de lenda, sulcando o resplendor do sol, trazendo o crepúsculo atrás de si. Em sua cavalgada, o sol poente arrancava brilhos de prata a suas armaduras e brilhos de bronze a seus escudos.

Alainna estava de pé na colina, aguardando, enquanto eles se aproximassem. O frio vento agitava sua cabeleira acobreada e levantava o tartãm (tipo de tecido quadriculado parecido com xadrez, era nas cores do clã) que descansava sobre seu vestido, mas ela não se movia. Uns instantes mais e terminaria pisoteada a menos que os cavaleiros freassem ou ela passasse para o lado. Mas não sentia que corria perigo algum.

A luz do sol ia diminuindo conforme se aproximavam os cavaleiros. Alainna notou a sutil pausa no fôlego do mundo que, conforme diziam acontecia de tempo em tempos. Seu tio avô, o chefe do clã, lhe havia dito que nos momentos de uma mudança efêmera - o amanhecer, o anoitecer, a névoa - o reino místico e o terrestre podiam entrar em contato. Alainna estava segura de que estava ocorrendo algo assim naquele preciso momento, enquanto observava fascinada.

Abaixo, no vale, ouviu os gritos dos homens, que participavam de uma caçada. Não a tinham visto no alto da colina. Alainna não voltou a olhá-los, mas sim afundou as botas firmemente na neve. O cabelo flutuava à suas costas, como uma labareda, sem descanso, com vida própria, empurrado pelo vento.

O primeiro dos cavaleiros chegou até ela e puxou das rédeas. Seu garanhão, alto e de cor creme, girou sobre si mesmo, dançando sobre suas magras patas. Os outros guerreiros se detiveram também e aguardaram a que seu chefe se aproximasse da Alainna.

-Quem são vocês? Perguntou ela.

O guerreiro a olhou fixamente, silencioso e coberto por seu elmo. O escudo que estava pendurado em sua sela tinha como emblema uma só flecha em diagonal, branca sobre um fundo azul. Aquele símbolo de sua identidade não tinha significado algum para a Alainna.

O guerreiro tirou o elmo e o colocou debaixo do braço, e a seguir retirou o capuz da cota de malha que lhe cobria a cabeça. O último raio de sol roubado se refletiu no ouro escuro de seu cabelo. As estrelas e a noite pareciam formar parte de sua capa, de cor azul escura e pincelada de prata. Seus olhos eram nublosos, cinzas e profundos.

-Alainna MacLaren. Ele conhecia seu nome, mas ela não conhecia o dele. É a filha do chefe do clã Laren. Agora que ele já não está, você ocupou seu lugar.

-Assim é. Respondeu ela-. E você, quem é? Um príncipe dos daoine sith, a gente das fadas? Ou por acaso conduzem aos guerreiros de Fionn, o grupo de guerra de Fionn MacCumhail, saído das névoas do tempo?

-Não somos nenhum desses. Repôs o guerreiro.

-Aenghus o Eterno Jovem, filho do sol, com sua horda de seguidores. Esses são vocês. Disse Alainna. As histórias sobre os bonitos heróicos de dourados cabelos Aenghus Mac Og se encontravam entre suas favoritas, das quais contava seu tio avô pelas noites. Por algum motivo, não estava surpresa de ver aparecer um deus guerreiro ao entardecer, naquele momento mágico entre a escuridão e a luz.

Ele sorriu levemente.

-Parecemos vindos desse reino?

-Sim. Por que, se não, iriam se encontrar em nossas terras ao pôr do sol?

-Por quê? Respondeu ele-. Por você.

-Por mim? Alainna ficou olhando.

-Mandou-nos chamar. Chamou a mim. Acrescentou em voz baixa.

Alainna sentiu que lhe acelerava o coração e que sua respiração parava. A esperança, cheia e luminosa, percorreu-a por dentro. Ela e seu clã estavam desesperadamente precisando de ajuda. Entretanto, ela, como chefe dos seus, não havia mandado procurar a ninguém. Como havia ouvido aquele guerreiro sua súplica, sussurrada tão somente em suas orações, e guardada como um silencioso desejo em seu coração? Como poderia ser, senão por arte da magia?

-Quem são? Sua voz foi um sussurro.

Ele a contemplou fixamente.

-Ajudarei-lhe se deseja salvar seu clã. Murmurou. Mas terá que me dar o que vos é mais querido.

-Daria qualquer coisa para salvar meu clã. Replicou Alainna com veemência, lhe devolvendo o mesmo olhar fixo. Juro.

Ele estendeu uma mão.

-Então, que assim seja.

Alainna observou seu belo rosto, esquadrinhou seus olhos como o aço, como a prata. Aquele homem não era deste mundo, estava segura. Deveria ser um príncipe, inclusive um rei, do mundo das fadas, capaz de obrar magia, capaz de ajudar a sua gente.

-O que querem de mim? Perguntou-lhe.

-Venha comigo. Respondeu ele.

Deixou escapar um suspiro.

-Se o fizer tudo ficará bem com eles?

-Sim. O guerreiro a olhava fixamente, com a mão estendida.

Uma sensação surgiu em seu interior como uma avalanche; não era medo, sim uma súbita pontada de desejo. Desejava ir com ele. Conforme aquele desejo se ia fazendo mais forte, fechou os olhos para contê-lo.

-Alainna. Disse ele com voz melosa como o mais grave acorde de uma harpa. Vêem comigo.

Ela voltou a olhar para o vale, onde caçavam os homens de seu clã. Amava profundamente a seu clã e a sua gente e não podia suportar a idéia de abandoná-los. Mas tinha que fazer por eles o que estivesse em suas mãos, sem importar o custo. Havia feito essa promessa a seu pai moribundo.

Se conseguisse encontrar o valor necessário para passar para o outro mundo e não retornar jamais, seu clã prosperaria e estaria a salvo. Seu orgulhoso e antigo legado duraria para sempre.

Exalou um longo suspiro e olhou outra vez para o reluzente e silencioso guerreiro.

-Necessito que me prometa que meu clã sobreviverá. Disse-lhe.

-Prometo. De algum modo Alainna soube que podia confiar nele.

Levantou o braço em sinal de aceitação. O guerreiro aproximou um pouco mais seu cavalo, estendeu-lhe a mão e se inclinou até ela. Sentiu seus dedos quentes junto aos seus, e o coração acelerou no peito como uma ave que se põe a voar do ninho.

 

 

 

 

Alainna despertou com o coração desbocado e se ergueu na escuridão. Um pesadelo. Disse-se a si mesma. Foi só um pesadelo. Reprimiu um soluço e afundou o rosto entre as mãos. Quem dera que aquele sonho fosse real. Seu clã necessitava um guerreiro audaz assim, um milagre que os ajudasse. Por muito que tentasse, Alainna não podia salvar sozinha a seu reduzido e ameaçado clã. Podia garantir alimento e refúgio e podia fazer todo o possível para preservar seu orgulhoso e antigo legado, mas não podia combater seus inimigos na batalha, e essa ajuda era o que necessitava com mais desespero.

O clã Laren consistia agora em um punhado de homens e mulheres de avançada idade à frente dos quais se encontrava Alainna. O clã rival que vinha de várias gerações em guerra com eles logo triunfaria, a menos que conseguissem impedir-lhe Uma vez que chegasse a primavera, o antigo feitiço que havia ajudado tanto tempo a seu clã chegaria a seu fim e aumentaria o poder de seus inimigos sobre eles. Sua gente insistia a que se desposasse um guerreiro das Highlands, um que contasse com camaradas que o apoiassem, dispostos a lutar. O clã Laren necessitava um homem assim, mas ninguém queria assumir o risco que supunha um clã fraco com um inimigo forte.

Quem dera que aquele sonho fosse real, pensou e suspirou profundamente. O guerreiro dourado não existia, e o tempo estava acabando.

O aço cintilou à luz do amanhecer quando Sebastien girou em volta e afundou a ponta de sua espada com mestria. A folha assobiou ao descrever um rápido arco para baixo e elevar-se de novo. Com os músculos tensos, sustentando a espada de punho envolto em couro com a mão direita, girou sobre seus pés descalços. A folha, bem equilibrada, rasgou e sulcou o ar fresco da manhã.

As torres em formas de prisma que rodeavam os muros estavam sombreadas de cristais congelados e um frio vento agitava os cachos de seu cabelo dourado escuro. Tinha as costas fresca e coberta de suor sob a frouxa camisa de linho, mas o exercício o mantinha quente por dentro.

Concentrou-se no movimento dos pés, no tempo, o equilíbrio, a força. Cada passo e cada golpe com as duas mãos eram vigorosos, desesperadores, amadurecidos com um pouco de fúria, mas se sentia sem forças. Sua espada não cortava mais que o ar, precisava de um inimigo contra o qual lutar alguma maneira de proteger seu bem mais precioso.

O vento soava com força no telhado da torre real. Fez uma pausa, com a respiração agitada, enquanto o açoitava a brisa. Seu olhar percorreu as copas das árvores do bosque, as brilhantes torres da abadia, as vastas montanhas azuis que se divisavam ao longe. Escócia era uma terra linda, cheia de promessas para os cavaleiros normandos que procuravam favor e propriedades. Com esse propósito ele tinha ido. Agora deveria partir logo que fosse possível. Apertou a mandíbula com força, frustrado. Estava a três anos naquele frio lugar do norte. Se ficasse mais tempo, poderia receber a recompensa que o rei lhe ofereceria sem dúvida nenhuma... mas não lhe restava tempo para esperar.

Voltou a brandir a espada com renovada força. Lançar, golpear, retroceder, girar. Sua prática com as armas lhe proporciona ação e solidão, duas coisas que ansiava. Sempre que o rei estava em sua torre real de Dunfermline, os guardas do telhado acabavam acostumando-se ao treinamento daquele peculiar guarda de honra bretão. Com frequência deixavam Sebastien sozinho nas pontas da torres enquanto iam procurar uma ração extra para o café da manhã.

Antes do amanhecer, havia saído das dependências da guarnição para subir ao telhado. Gostava daquela hora do dia porque anunciava algo místico, gostava do imenso panorama que se desfrutava do telhado e secretamente entesourava a alegria que aquilo lhe produzia no coração.

Um novo golpe com a espada pareceu fez com que o aço arranhasse a pedra e levantasse algumas faíscas azuis. Inclusive aquele golpe lhe produziu satisfação, mesmo que sabendo que logo teria que afiar a ponta. Queria conflito, ansiava enfrentar algo ou alguém. A frustração lhe corroia o ventre, pedindo para liberar-se.

No dia anterior havia chegado uma carta para ele, levada por um mensageiro bretão cujo navio havia se atrasado grandemente. As notícias que Sebastien recebeu, vários meses mais tarde, tinham-no deixado completamente aturdido. Seu filho, que estava em um monastério bretão, esteve em perigo seis meses antes e Sebastien não estava ali para lhe proteger. Nem sequer estava seguro de como se encontrava agora o menino. A meio mundo de distância e com meio ano de atraso para se inteirar da notícia. Amaldiçoou a forte ambição que o havia levado para a Escócia quando poderia ter ficado na Bretanha com seu filho de cinco anos. Em lugar disso, havia deixado Conan a cargo dos monges e aceitou outro período de serviço como cavaleiro.

A carta havia sido enviada pelo abade do monastério no qual havia deixado Conan e no qual ele mesmo havia crescido quando menino. Um incêndio havia reduzido a ruínas o complexo dos monges beneditinos, ferido muitos de seus moradores e matado alguns, entre eles monges que Sebastien conhecia bem. Seu filho, junto com outros meninos, saiu ileso, mas todos eles se encontravam com a urgente necessidade de procurar um lar. Os monges procuravam desesperadamente um benfeitor que lhes proporcionasse alojamento e mantimentos até que se pudesse reconstruir o monastério. Sem essa ajuda, teriam que dispersar-se entre distintas casas religiosas e os jovens que estavam a seu cuidado seriam enviados também a outra parte e alguns acabariam abandonados nas ruas.

O abade perguntava a Sebastien aonde deveria enviar Conan. E fazia a insinuação de que o cavaleiro, favorito do duque da Bretanha e do rei da Escócia, poderia ajudá-los se lhes cedesse o uso de uma de suas propriedades na Bretanha.

Tinham transcorrido meses desde que o abade enviou sua súplica. Sebastien, desconhecedor daquele problema, não havia respondido.

Rugiu com desespero e deu um forte golpe no vento. Depois desceu a espada e olhou para o sol nascente, com o cabelo e a camisa ondeando ao vento, o corpo e o espírito fortes e serenos. Havia permitido que sua ânsia de possuir terras e renome como cavaleiro o governasse, e a conseqüência disso seu filho já não estava a salvo. Depois da morte de sua nobre esposa francesa, havia continuado perseguindo suas ambições em nome do menino que adorava.

Conan herdaria algum dia herdaria as propriedades que correspondiam a sua mãe, que ainda se encontravam em posse da família dela, a qual só sentia desdém pelo marido viúvo. Sebastien havia conquistado o amor de sua doce e finada esposa, mas a família desta o considerava indigno. A valia que ele possuía havia saído do nada; Sebastien Le Bret, famoso por sua destreza e seu valor nas justas e na batalha, cavaleiro ao serviço de duques e reis, carecia de linhagem, de herança e de um sobrenome que fosse orgulhoso e antigo. Abandonado como órfão no monastério de Saint-Sebastien na Bretanha, só possuía o nome que lhe tinham dado os monges; o resto conquistou por si mesmo. Estava cansado de lutar, mas continuaria por seu filho.

Agora deveria deixar de lado seus sonhos e suas metas e retornar a Bretanha o quanto antes possível. Levantou a espada por cima de sua cabeça e a lançou para baixo em um golpe final, descrevendo outro arco, girando de uma vez. Deteve-se e permaneceu de pé no meio do vento.

O sol coroava as montanhas, semelhante uma luminosa bola. A manhã trazia obrigações que requeriam sua presença como guarda de honra do rei dos escoceses. Sebastien deu meia volta, recolheu sua túnica e seu cinturão, e pôs-se a andar em direção às escadas.

 

                           Capítulo 1

Ardia, as Highlands, outono de 1170

No espaço silencioso e entre as sombras que precediam o amanhecer, Alainna colocou um pequeno saco de aveia e um punhado de flores silvestres ao pé do pilar de pedra. Murmurou uma bênção e deu um passou atrás. Além da alta coluna, o lago acariciava ritmicamente a borda e o céu se tingia de um pálido resplendor.

Retorceu as mãos com nervosismo e depois se obrigou a tranquilizar-se, pois sabia que a impaciência não apressaria o benéfico espírito da Donzela (Criadora).

A coluna chamada de Donzela de Pedra se elevava a quatro metros de altura, uma rocha de granito cinza que tinha a forma de uma mulher com um vestido. Mostrava uns antigos relevos na parte frontal e na dorsal, já desgastados em alguns lugares. A névoa envolvia a pedra, fria e úmida.

-Donzela. Disse. - Sou Alainna, filha de Laren de Kinlochan, filho de Laren, filho de Donal, filho de Aodh... -Não continuou, ainda que soubesse os nomes de seus antepassados até a própria Donzela de Pedra, com a qual ela compartilhava um nome, o de àlainn, linda, e até Labhrainn, o príncipe irlandês que havia fundado o clã séculos atrás.

A lenda dizia que aquela pedra guardava o espírito de uma donzela que havia sido capturada ali, muito tempo atrás, pelo encantamento de uma fada. A Donzela de Pedra, conforme afirmava a tradição, atuava como guardiã do clã Laren. Durante gerações, o clã havia depositado oferendas e havia pronunciado conjuros para solicitar seu amparo. Como chefe do clã depois da morte de seu pai meses antes, Alainna tinha a esperança de obter um designo tranqüilizador para levar a sua gente.

Murmurou seu profundo desejo de ver seu clã a salvo e na prosperidade, e esperou.

O vento sussurrava por cima de sua cabeça, soltando os fios de seu cabelo cor oro avermelhado que estava trançado. Ouviu o canto dos pássaros, o murmúrio do lago, o latido de seu cão de caça ao assustar a algum rato de campo nas cercanias. O sol nascente arrancava brilhos da fortaleza de madeira de Kinlochan que se elevava ao outro lado do estreito braço de água. Permaneceu pacientemente de pé junto à pedra, mas não se produziu nenhum sinal claro.

Suspirou. Tinha que encontrar uma maneira de salvar o clã Laren de desvanecer-se nas lembranças das Highlands. A solução que necessitava não viria das oferendas e dos cânticos; tão somente uma ação rápida resolveria aquela situação.

O cão chegou correndo até ela e começou a riscar círculos a seu redor nervoso, sem parar de ladrar. Alainna escrutinou a névoa e viu um cervo vermelho que estava perto do brejo.

-Ach, Finan, sente saudades de perseguir os cervos, não é? - Disse ao cão enquanto lhe tocava a cabeça, que lhe chegava até acima da cintura. O feroz latido do cão lhe provocou calafrios nas costas. - Finan, o que ocorre?

Então viu um homem que caminhava pelo topo da colina e começava a descer pela ladeira. Alainna o conheceu por sua estatura e sua forte constituição, por seu cabelo negro e desalinhado e as cores vermelho e marrom de seu tartam.

Era Cormac, o jovem chefe do clã Nechtan, seu inimigo, que vinha até ela. Se soubesse que ele estava ali, que a estava observando enquanto ela estava sozinha, exceto pelo cão, não teria ficado naquele lugar.

-Quieto, Finam! - Ordenou e segurou com a mão a coleira de couro do animal. Este agitou seu grande corpo, emitiu uns roucos grunhidos e eriçou o pêlo cinza azulado, mas ficou onde estava, tal como disse sua proprietária.

-Alainna de Kinlochan! - Cormac se deteve a escassos metros dela, com as pernas separadas. Sua voz profunda e grave sulcou o ambiente aprazível que se respirava. – Vi você enquanto caçava com meus homens. Quero falar contigo em privado.

-Cormac MacNechtan. - Disse ela. - Não temos nada que conversar.

-Claro que sim. Estão seus homens por aqui? - Perguntou, olhando ao redor.

-Estarão logo. - Repôs Alainna, sabendo que começariam a procurá-la quando percebessem sua ausência ou quando alguém de Kinlochan olhasse para a pedra que se elevava do outro lado do lago.

Alainna conhecia Cormac de vista, mas raras vezes havia falado com ele desde que era menina, quando os caminhos de ambos se cruzavam com muita frequência ao percorrer as colinas em companhia de seus dois irmãos pequenos e seu irmão adotivo. Cormac havia demonstrado ser uma pessoa de espírito mesquinho tanto criança como agora adulto e Alainna não queria ter nada que ver com ele.

Mas Cormac e ela eram os chefes de seus respectivos clãs e ela não podia fugir dele caso ele quisesse conversar. O começo da paz entre ambos poderia depender de umas poucas palavras.

Alainna permaneceu altiva e orgulhosa, como uma irmã gêmea do grande pilar de pedra e sustentou firmemente a coleira do cão para mostrar a Cormac que estava protegida pelo animal e também pela pedra e sua lenda.

-Acalme esse teu cão, ou o farei por ti. - Cormac pegou a adaga que levava no cinto.

-Finam, Mor. Disse Alainna. - Finam, bonito. Se acalme. - O cão de caça ficou quieto, mas rugindo baixinho.

-Um cão de caça grande como esse é para que o tenha um homem, não uma mulher - Observou Cormac.

-Finam meu é desde que nasceu.

-Nesse caso, foi malcriado pela mão de uma mulher.

Alainna olhou para Cormac sem alterar-se.

-Pode provar se é como diz.

-Está a salvo - Repôs ele. - De momento. A lenda da Donzela de Pedra garante que nenhum homem do clã Nechtan possa fazer mal a uma mulher do clã Laren ou do contrário sofrerá as conseqüências.

-É uma lástima que nenhuma lenda impeça que o clã Nechtan faça a guerra aos homens do clã Laren. -Replicou Alainna.

-Alimentamos um velho rancor contra vocês, que é o que nos dá o direito de lhes fazer guerra.

Alainna o olhou furiosa.

-Seu ódio contra nós é antigo, mas o nosso também é! Destruiria a todos se pudessem.

-A ti não, Alainna. Você será minha.

-Não te atreva a dizer isso na presença da Donzela!

-Ela já não pode te proteger muito mais. O encantamento termina na primavera, todos sabem. - Olhou para Alainna sério. Não tinha um rosto desagradável, inclusive com aquela mandíbula larga e saliente, mas a ira que ardia em seus olhos escuros estragava seu semblante mais que nenhum defeito. - Alguns dizem que o poder da Donzela para ajudar sua gente está minguando já.

-Nosso bardo diz que o poder da Donzela aumentará quando terminar o encantamento. - Repôs Alainna. Na realidade, não estava segura do que aconteceria quando a magia daquela pedra terminasse na primavera seguinte.

-Isso é o que diria o velho Lorne MacLaren, antes de dizer que seu clã está perdido! - Cormac estalou os dedos em um gesto de rechaço. - A Donzela de Pedra já não lhes manterá a salvo, se é que o fez alguma vez. A Donzela e seu clã se afundarão juntos.

-Pode que estejamos debilitados pela guerra, a enfermidade e a má sorte. - Disse Alainna acaloradamente. - Pode que ficaram poucos que levem nosso sobrenome. Pode que estejamos ameaçados por um inimigo cruel - Dirigiu-lhe um olhar de fúria. - Mas nosso orgulho e nosso legado permanecerão. Você não pode destruir isso com suas incursões nem com seu ódio!

Cormac encolheu os ombros.

-Se quiser me escutar, trago boas notícias para seu clã.

-As notícias que são boas para o clã Nechtan não podem ser também para o clã Laren. - Replicou Alainna. Voltou os olhos para Kinlochan, do outro lado do lago. Umas finas colunas de fumaça se elevavam das chaminés; logo seus homens começariam a procurá-la. Se vissem Cormac com ela, haveria outro enfrentamento.

-Solicitei ao rei Guillermo a mão da donzela de Kinlochan. A donzela viva, não a de pedra. - Soltou uma risada ante sua própria má piada.

Alainna deixou escapar uma exclamação.

-Jamais me casaria contigo!

-Agora é uma herdeira, e eu devo me casar logo. Seu pai morreu e não pode acordar seu matrimônio.

-Morto por sua mão!

-Por minha mão, não, Alainna. - Cormac sacudiu negativamente a cabeça. - Por minha mão, não.

-Tenha sido pela sua ou pela de outro, matou-o uma espada MacNechtan, a mesma que levou também a meus irmãos. Jamais me casaria contigo nem com ninguém de seu sangue!

-Sei que você e seus parentes maiores desejam pôr fim a esta inimizade. E minha gente insiste a que te despose. Já é hora de me casar.

-Pode se casar com a mulher a que desposou pelo rito do apertão de mãos e logo repudiou. - Disse Alainna.

-Com ela, não. Casarei-me contigo. - Cormac inchou o peito. - Não há nenhuma honra ao guerrear com os anciões do clã Laren. Você não pode fiscalizar sozinha esta vasta propriedade. De modo que deve se converter em minha esposa. Sei que seu pai assim o desejava.

-Jamais. - Disse Alainna com os dentes apertados. Finam emitiu um ruído grave e se moveu adiante. Tocou-lhe a cabeça com dedos trêmulos. Tiraria nossa terra e até nosso nome!

Cormac franziu o cenho em um gesto sinistro.

-O rei tem direito a decidir seu matrimônio, posto que seja a única herdeira e possui título e terra. Deixaremos este assunto em suas mãos. Enviei-lhe uma mensagem com minha oferta de te desposar. Agradá-lo-á o fim desta disputa de um modo tão fácil.

-Nem o rei em pessoa pode me obrigar a fazer algo que não desejo.

-Uma mulher teimosa é uma mulher estúpida. - Murmurou Cormac. - Ouvi dizer que é uma moça voluntariosa, mas esperava que fosse mais sensata. -Fez um gesto de impaciência-. Os homens do clã Laren são muito velhos para brandir a espada. Seu irmão adotivo, Giric MacGregor, é jovem, mas está sozinho e nós somos muitos. - Deu um passou adiante, mas retrocedeu quando o cão latiu. - Se case comigo e o sangue do clã Laren perdurará em nossos filhos.

-Não quero ter filhos que levem o sobrenome MacNechtan!

Ele riu brandamente.

-Encantadora, mas briguenta. Também ouvi dizer que é forte. Dizem que recebeu ensinos de um professor da pedra, como outros de seu clã e que maneja o martelo e o arco igual a um homem. - Percorreu-lhe todo o corpo com os olhos brilhantes. - Eu tenho um martelo e ferramentas que poderá utilizar quando quiser. - Seu sorriso pareceu malévolo.

-Vá embora. - Espetou Alainna. - Meu braço é forte, mas está ficando cansado de segurar este cão.

Cormac a olhou com os olhos entreabertos. Neles ardia uma fria cólera.

-Donzela de pedra. - Vaiou. - Me escute bem: Virá a primavera e com ela terminará sua segurança. Quem protegerá seu clã então? Não será uma moça com um clã. Nem tampouco uns poucos homens anciões.

-Meu clã te matará um dia, Cormac. - Murmurou ela.

Cormac sorriu com uma expressão dura e fria.

-Poderia ter você agora mesmo se quisesse, ao pé dessa pedra. Nem cães nem fadas poderiam impedir isso Ou também posso esperar até a primavera. Eu tenho como escolher. Você, não.

-Sim posso escolher. - Alainna elevou o queixo. - Não penso me casar contigo. E nenhum rei, nem nenhum montanhês poderá me obrigar a fazê-lo.

-Serei generoso e te concederei tempo até o dia de Santa Brígida, quando terminar o encantamento, para que aceite. Para então, o rei terá enviado seu aprovação. Se case comigo, ou verá como morre seu clã. – Encolheu os ombros. - Qualquer das duas alternativas suporá o fim da inimizade.

Deu meia volta antes que Alainna pudesse responder e se entrou com grandes passos na névoa até desaparecer além do topo da colina. Alainna o observou com o coração acelerado. O cão ladrou, mas permaneceu junto a ela rugindo implacável, com o corpo tenso.

Acariciou o frio granito da pedra e fechou os olhos, desejando fervorosamente uma solução, um salvador. Um milagre. Inclinou a cabeça para rezar e sussurrou uma antiga bênção em gaélico para satisfazer tanto a sua herança cristã como a celta.

Depois se voltou e pôs-se a andar até Kinlochan. Finam correu na frente através da alta grama parda enquanto rodeava o extremo do lago, onde a água roçava pacificamente a borda.

O sol matinal havia dissipado a névoa e a torre de madeira de Kinlochan, dentro da paliçada que a circundava, resplandecia com uma cor vermelha terra à claridade do amanhecer. Mais à frente, umas escuras montanhas se elevavam ao longe, seus agrestes topos coroados de nuvens. Debaixo elas, o lago estreito se estendia como um lago de prata.

As portas da fortaleza se abriram para deixar sair três homens, com os tartans ondeando contra suas pernas nuas. Agitaram a mão e rodearam a margem do lago, seguindo o caminho que havia tomado antes Alainna. Esta respondeu agitando também a mão e seguiu andando e esteve a ponto de tropeçar quando seu pé topou com um pau que havia no chão. Agachou-se e recolheu uma flecha esquecida que estava escondida entre a grama. Estava puída e desgastada pela intempérie, mas a ponta ainda se via afiada. Alainna se perguntou se aquilo seria o presságio que estava esperando. Se fosse assim, era mau, porque devia significar mais guerra.

Decidiu jogar a flecha no mesmo lugar, mas se deteve ao lembrar seu recente sonho com um cavaleiro dourado cujo escudo levava o desenho de uma flecha. Havia oferecido salvar a sua gente em apuros. Cativada, Alainna havia decidido acompanhá-lo, inclusive a outro mundo.

Exalou um suspiro, pensando naquele guerreiro formoso e forte. Mas os sonhos não lhe serviriam de nada naquele momento.

Finam ladrou e pôs-se a correr até os homens. Ela o seguiu com expressão pensativa, levando a flecha na mão.

-Alainna! - Chamou-a Giric, seu irmão adotivo, que se aproximava correndo por entre a alta grama junto com seu primo mais velho Niall e Lulach, um de seus dois tios avós. O cão se equilibrou entre eles. Giric tocou a cabeça de Finam com a mão ao passar e recebeu em troca um olhar de adoração.

Chegaram até ela, Giric movendo-se com ágil elegância apesar de sua constituição alta e corpulenta. Seu cabelo castanho flutuava solto ao redor do belo rosto, e um tartam estava preso com um cinturão e se agitava sobre suas musculosas pernas.

-Vimos você com Cormac. - Disse-lhe. - Está ferida?

-Podemos matá-lo? Aonde foi? - Perguntou Niall, de bochechas afundadas e cobertas de uma incipiente barba, e uns lábios finos e contraídos pela cólera. A brisa agitava seu cabelo prateado contra seu rosto e ele o colocou para trás com o coto cheio de cicatrizes de seu pulso esquerdo.

-Está ferida? - Lulach deu um passo à frente, o cabelo cor de aço e prata, os olhos azuis encolerizados. - Teria matado Cormac o Negro com minhas próprias mãos se o tivesse visto antes.

-Suas velhas pernas não teriam conseguido alcançá-lo. - Disse Niall.

-Já me preocuparei eu do que podem fazer minhas velhas pernas. - Replicou Lulach.

-Estou bem. - Tranquilizou-os Alainna rapidamente. - Estava sob o amparo da Donzela Cormac jamais me teria feito mal ali.

-Certo, seria um estúpido se esquecesse o encantamento. - Disse Niall.

-Já é um estúpido. - Assinalou Lulach.

-Necessita o amparo de uma espada forte, não de uma pedra. - Disse Giric. Normalmente era de caráter tranqüilo, mas em seu rosto se via tensão e tinha as mãos fechadas em punhos. - Não confio em nenhum homem do clã Nechtan.

-Cormac não se atreveria a me machucar. - Voltou a tranquilizá-los Alainna. Mas por dentro estava tremendo ao se lembrar da ameaça de Cormac de tomá-la ao pé da estátua de pedra, com encantamento ou sem ele.

-Não terá espada, mas uma flecha. - Disse Niall, observando o projétil que Alainna sustentava na mão. - Onde a encontrou?

-Na grama.

-Uma flecha dos elfos. - Murmurou ele. - Deixa-a, pode que a tenham perdido as fadas.

-Está é feita pelo homem. - Atravessou Lulach. - Necessita um novo recobrimento, mas a ponta ainda se encontra em bom estado.

-Encontrei-a depois de fazer uma oferenda à Donzela. Talvez seja um presságio para nós. - Disse Alainna.

-Um sinal de haverá um MacNechtan a menos. - Disse Niall. - Está bem fazer uma oferenda em um dia tão bom, mas não deveria ter saído sozinha.

-Não gozará do amparo da Donzela por muito tempo mais. - Apontou Lulach. - Logo chegará o final dos setecentos anos de encantamento.

-Faltam meses para o dia de Santa Brígida. - Disse Alainna.

-E o que é que queria Cormac o Negro? - Quis saber Niall.

-Levar sua você outra mão. - Soltou Lulach com ênfase.

-Baothan. - Grunhiu Niall. - Cretino.

Giric conteve uma risada.

-Paz, por favor. - Disse. - Alainna pediu a sua gente que passe o inverno em Kinlochan. Temos que manter a paz entre nós. Ela já tem bastante de que preocupar-se.

-Assim seja. - Disse Niall. - Alainna, ontem à noite descemos as colinas depois de ver a Esa. Nega-se a vir a Kinlochan. Inclusive nos oferecemos para levar seu enorme tear, mas ela quer ficar junto a sua chaminé.

-Quem dera pudéssemos convencê-la para que se reunisse conosco. -Comentou Alainna.

-É como convencer à palha para que se converta em mármore. - Disse Lulach. - Tomou a decisão de passar ali o inverno.

-Ainda sente falta de seu Ruari Mór, mesmo que já tenha passado mais de um ano desde que lhe disseram que tinha morrido. - Alainna suspirou. - É difícil perder um amor tão profundo, tão forte.

-Voltaremos a falar com ela. - Assinalou Giric. - Nos diga o que queria Cormac, Alainna.

-É óbvio o que quer Cormac e por isso deveríamos lhe arrancar a cabeça. - Disse Lulach, apoiando os punhos fechados nos quadris.

-Falou de matrimônio. - Comentou Alainna.

Lulach soltou um suspiro de desdém. Niall piscou horrorizado.

-O que disse? - Perguntou Giric bruscamente.

-Explicarei enquanto comemos algo quente. Tenho fome. - Adiantou-se e chamou com um assobio a Finan, que estava na margem do lago.

-Cormac MacNechtan está pensando em casar-se com nossa toiseach, nossa chefe, nosso membro mais jovem? - Perguntou Niall, com os outros caminhando a seu lado. - Isso não pode acontecer nunca!

-Nunca. - Concordou Lulach. - Nossos clãs necessitam paz, e ela necessita um marido, mas não esse marido.

-Falamos frequentemente sobre isso desde que morreu Laren MacLaren. -Disse Giric. - Já é hora de que se case Alainna.

-Não é fácil encontrar um guerreiro que esteja disposto a unir-se a uma guerra, e que, além disso, goste deste clã. -Repôs Alainna.

-Casar-se com o chefe do clã Laren supõe muitas vantagens. - Disse Niall. - Bosques cheios de cervos, um lago repleto de peixes, pastos para o gado, uma bela moça de orgulhosa linhagem...

-E uma disputa de sangue herdada de várias gerações. - Acrescentou Alainna com amargura.

-Você é a mais jovem, a última de nosso sangue. - Disse Lulach. - Um matrimônio cuidadosamente eleito pode trazer a segurança a nosso clã durante várias gerações mais.

Segurança. Alainna desejava intensamente a segurança para todos. Sua garganta se fechou.

-Mas o homem com o qual me case dará seu sobrenome a nossos filhos. O que passará então com o clã Laren?

Seus homens guardaram silêncio.

-O homem com o qual você se casar poderia tomar nosso sobrenome. -Sugeriu Niall.

-Às vezes acontece algo assim, conforme ouvi dizer. - Disse Lulach.

Alainna franziu o cenho.

-Onde vamos encontrar um homem que aceite o sobrenome de nosso clã, além de nossos problemas?

-Quem dera pudesse se casar com nosso Giric. - Disse Niall. - Ele não é de seu sangue, e nos quer muito a todos.

-Mas é seu irmão adotivo. - Assinalou Lulach.

-Corresponde ao rei decidir com quem se casará. - Disse Giric. - Ele tem o direito de escolher um marido para uma herdeira solteira. Alainna, logo deverá render comemoração por sua herança. Peça ajuda ao rei Guillermo sobre esse assunto.

Ela assentiu, compreendendo que poderia apelar ao rei antes que a petição de Cormac fosse tomada em conta e passada.

-Farei, mas terá que ser logo.

-Giric pode te acompanhar a corte - Disse Niall.

-O rei passa o inverno em Dunfermline, há dois dias daqui. Seguro que conhecerá algum cavaleiro faminto de terras e desejoso de entrar em uma disputa.

-E se sugerir um cavaleiro estrangeiro?- Perguntou Lulach.

Niall sacudiu a cabeça em um gesto negativo.

-Diremos o que queremos. Somos leais, e ele não deseja ver desaparecer um antigo clã. Apoiará-nos e nos encontrará o celta que necessitamos.

-Alainna. - Disse Giric em voz baixa, olhando-a fixamente. Isso é o que você deseja em um marido, não é assim?

-O que agradar meu clã me agrada. - Repôs ela, mas de repente lhe tremeu a voz.

Sabia que seu desejo secreto seria impossível de cumprir. O cavaleiro dourado que havia visto uma vez em sonhos não existia.

Deu-se a volta, ainda sustentando a velha flecha na mão, e se encaminhou até a ladeira rochosa que conduzia às portas de madeira de Kinlochan.

 

                     Capítulo 2

O camareiro do rei chamou para que entrasse o seguinte solicitante. Sebastien continuou de pé e impassível sobre o estrado real, escutando apenas. Nesse momento uma mulher saiu da multidão, e dela conseguiu captar tão somente o brilho cor bronze de seu cabelo trançado, até que ela chegou mais perto.

Então atraiu toda sua atenção. Permaneceu silencioso e imóvel, como guarda de honra do rei dos escoceses, e entrecerrou os olhos, alerta. A mulher era como uma flor viçosa no meio do inverno naquela sala cheia de gente, e ele não pôde evitar olhá-la.

Os dois cavaleiros que estavam de pé com ele deixaram escapar leves assobios. Murmúrios de admiração percorreram toda a sala, ocupada por cavaleiros, damas, mercadores, camponeses, inclusive bárbaros das montanhas, todos os quais aguardavam no grande salão para obter a justiça do rei Guillermo. A manhã havia sido tediosa, e a aparição da moça seria para romper a monotonia.

Sebastien experimentou mais alívio do que aborrecimento; por um curto espaço de tempo se sentiu aturdido, como se tivesse acontecido algo mais notável que a aparição de uma moça saindo de entre os pressentes. Franziu o cenho e manteve a cabeça alta, os ombros retos e uma mão sobre o punho de sua espada. Era capaz de manter aquela postura imóvel durante um longo tempo, sem fazer caso das distrações e com a atenção concentrada. Mas aquela distração não podia ignorá-la. A luz do sol se filtrava pelas altas janelas e transformava a jovem em uma visão. Ela se ajoelhou com um movimento fluido, vestida de cor azul noite e com um manto de tartam em tecido marrom e arroxeado.

O camareiro lhe pediu que dissesse seu nome.

-Alainne nighean Labhrainn mac Labhrainn an Ceann Lochan. - Murmurou ela em gaélico, mesmo com o camareiro lhe falando em inglês. Sebastien notou o orgulho em sua voz grave e cativante.

-Quem é esta dama das Highlands? - Perguntou o cavaleiro que estava a seu lado.

-Chama-se Alainna MacLaren de Kinlochan. - Respondeu Sebastien em voz baixa, pronunciando o nome «Ol-in», como havia feito ela. Hugo e Robert, os dois cavaleiros que estavam ao lado de Sebastien, assentiram com um gesto.

Sentado em sua poltrona, Guillermo da Escócia se inclinou até Alainna, seu cabelo de um vermelho mais escuro que o dela, e a saudou em gaélico. Sebastien ocupava uma posição que lhe proporcionava uma visão clara, e pôde ouvir a maior parte do que era dito enquanto a moça explicava ao rei o assunto que a havia levado ali.

-Bastien, você recebeu suficiente instrução na língua nativa para poder traduzir isso a Robert de Kerec, o cavaleiro que se encontrava a sua direita, falou de novo usando o inglês, um costume entre eles em qualquer lugar que estivessem: França, Bretanha, Inglaterra ou Escócia. Robert era seu amigo mais antigo, e mesmo que os dois fossem de origem bretã, formaram-se juntos na Inglaterra como escudeiros e cavaleiros.

-Possui muita instrução. - Disse sorrindo Hugo de Valognes, ao lado de Robert. - A bonita jovem que o ensina compartilha com ele mais que o gaélico, e eu apostaria que Bastien é mais professor que aluno em algumas coisas, não é?

-Ainda nos vemos para as lições. - Respondeu Sebastien brandamente, com a vista fixa à frente. Hugo soltou uma risada e deu uma cotovelada em Robert.

A maioria dos cavaleiros normandos da corte escocesa falava inglês e francês, e a maioria deles conhecia um pouco a língua nativa. De jovem, Sebastien dominava o francês, o inglês e o latim, além de seu idioma nativo, o bretão, e o gaélico lhe resultou fácil. Tendo pela frente um período de três anos de serviço ao rei da Escócia, aceitou de bom grado a provocação.

A filha do cavaleiro se havia oferecido para lhe ensinar, e resultou que ela se mostrou muito desejosa de desfrutar também de outras coisas mais íntimas. Ele possuía uma afinidade natural por ambas as coisas. Intercambiar uma gentil destreza por outra era justo, convieram ele e a moça. De sua professora agradava sua inteligência rápida e sua beleza sem defeitos, e admirava sua força e seu valor, mas não lhe pedia mais que a amizade e o consolo que davam um ao outro.

-Que mais esta dizendo? - Perguntou Robert.

-Alainna de Kinlochan é a chefe de um clã das Highlands, e veio render comemoração por sua herança depois da morte de seu pai. - Respondeu Sebastien.

Seus amigos bretões assentiram de novo. Embelezados de modo similar com cota de malha e sobrevestes de cor verde escura pincelada de prata, os três altos cavaleiros permaneciam perto do rei como membros de uma elite da guarda de honra apreciada por seu valor, sua destreza militar, sua disciplina e seu dourado aspecto.

Robert era magro e loiro, enquanto Hugo era largo e simples, com cabelo como o bronze. Sebastien sabia que suas próprias características eram iguais e seu cabelo dourado escuro lhe tinha proporcionado um lugar de privilégio entre os cavaleiros que enviou o duque da Bretanha para servir ao rei Guillermo.

-Uma herdeira das Highlands? Interessante. - Assinalou Hugo. - Não tem aspecto de selvagem.

Sebastien assentiu para si mesmo enquanto observava à jovem. Sua pele clara e cremosa se via agora ligeiramente rosada, e suas tranças longas e grossas, de cor acobreada, caíam por diante de sua flexível figura. Seus olhos pareciam ter o mesmo tom azul escuro que seu elegante vestido. Parecia uma dama normanda ou inglesa, pensou, exceto pelo tartam com que envolvia os ombros e que estava preso no pescoço com um grande broche redondo de prata. Apertado à cintura, caía em amenas dobras sobre os quadris.

Um quadril muito bem formado reparou Sebastien, além de uma cintura pequena, longos braços e pernas, ombros quadrados, seios cheios. Suas formas e seu cabelo da cor das chamas possuíam um atração terrena que fazia contraste com seu sereno rosto ovalado.

-Ah, que doce bocado. - Sussurrou Hugo. - Se tiver vindo aqui em busca de um marido, eu sou seu homem.

-Ao melhor seu homem é esse. - Assinalou Robert.

Sebastien viu um montanhês que se aproximava do estrado. Alainna MacLaren se levantou. Não era uma mulher pequena, mas aquele homem se elevava por cima dela. Vestia um tartam de cor verde e marrom, estendido a modo de saia em cima de uma camisa clara. Além de alto era corpulento, possuía umas pernas torneadas e uma cabeça grande e bonita e um cabelo comprido de cor castanho avermelhado domado por umas tranças. Dirigiu-se ao rei na língua fluída dos gaélicos.

-Bárbaro. - Murmurou Hugo. - Não espera a que o rei lhe dê permissão para falar, mas sim se equilibra igual a um boi. E o rei o consente! Semelhante falta de maneiras não se veria jamais na França.

-Cala. - Murmurou Robert. – Está aqui tempo suficiente para saber que os escoceses se comportam como se nenhum homem tivesse mais patente que outro, nem sequer seu rei. Esse orgulho de sentirem-se iguais tem seu encanto, e não ofende ao rei. Se não lhe importa, por que teria que importar a ti?

-Não me estranha que tenham tanto problemas aqui. - Murmurou Hugo.

Sebastien contemplava o estrado. Ao mesmo tempo, seguia com a mão no punho de seu espada e se mantinha alerta a qualquer rumor de descontentamento ou movimento súbito que pudesse indicar uma ameaça para o rei.

Era um observador agudo e precavido. Era capaz de perceber rapidamente muitas coisas das pessoas e das situações, e havia chegado a confiar naquelas capacidades. No gesto altivo do queixo da moça e na postura de seu comprido e elegante pescoço viu orgulho e força. Mas as azuis profundidades de seus olhos guardavam uma sutil tristeza. Uma frágil leoa pensou franzindo o cenho.

A uma leve indicação do rei, a moça se dirigiu a ele em inglês. Culta além de encantadora pensou Sebastien. Absolutamente uma selvagem. Trocava de língua com facilidade, falava com sotaque, mas de maneira precisa, seu tom de voz era grave e cativante.

As mulheres belas e inteligentes não eram uma raridade em sua experiência, mas não se brava nenhuma mulher que ele conhecesse que irradiasse tal força e elegância, nem que resplandecesse de orgulho como esta. Contemplou-a com crescente fascinação.

-Sire.- Disse ela ao rei. - Meu parente Giric MacGregor e eu viajamos até a corte para render comemoração por minha herança. Meu pai, Laren Maclaren, chefe de nosso clã, morreu em setembro passado em uma batalha contra o clã Nechtan. Meus dois irmãos morreram em anteriores combate com o clã Nechtan, assim fiquei como chefe do clã Laren e única herdeira de Kinlochan. - O timbre quente de sua voz percorreu Sebastien como uma carícia.

-Estendemos nossas simpatias, Lady Alainna. - Disse o rei.

-Meu senhor. - Inclinou a cabeça tristemente e voltou a levantá-la. - Estou aqui para pagar um tributo de sucessão por minha herança.

-O pagamento habitual consiste em dar um ou dois cavaleiros ao serviço da Coroa.

-Sire, neste momento não posso oferecer cavaleiro algum, meu clã se viu reduzido pela tragédia. Possuímos riqueza em terras e em antepassados, mas não ficaram mais que uns poucos bens e o mínimo de homens. Fomos levados quase à ruína por esta disputa de sangue. Rogo-vos que me permita oferecer outro símbolo que meu salde minha pretensão a Kinlochan.

O rei assentiu. Alainna de Kinlochan se voltou para o montanhês que a acompanhava, o qual extraiu das dobras de seu tartam um objeto envolto em tecido e o estendeu ao rei.

Guillermo abriu o pacote e descobriu uma pedra retangular do tamanho de uma mão, em cuja superfície aparecia esculpida em relevo o desenho de uma cruz e um círculo ao estilo entrelaçado dos celtas. Inclusive do outro lado do estrado, Sebastien conseguiu ver que se tratava de uma pedra belamente trabalhada.

-Uma linda peça. - Disse o rei. – É obra de um artesão de Kinlochan?

-Assim é. - Respondeu Alainna.

-Aceitaremos este símbolo, minha senhora. Cada ano se requererá que Kinlochan entregue uma pedra esculpida. Será redigido um documento para você.

A moça sorriu.

-Agradeço-lhe, sire. Se me permitirem, desejaria tratar outro assunto, o de meu matrimônio.

-A isso teremos que dedicar um pouco mais de reflexão.

-Sire, sei que corresponde a você o direito de escolher um marido para mim. Os mas velhos de meu clã me pediram que oferecesse certas condições em relação a meu casamento, se consentir.

-Condições? - Perguntou o rei.

-Meu clã deseja que me case com um guerreiro celta que possa derrotar nossos inimigos, sire, um cuja linhagem seja a mesma da nossa. Tem que falar gaélico e ser um homem compassivo e valoroso. E deve poder viajar para Kinlochan desde suas próprias terras no prazo de um dia.

-Seu clã decidiu na adivinhação que deverá ser resolvida por algum paladino, para obter sua mão? - O rei se recostou em sua cadeira. Parecia divertir-se.

-Sire. - As bochechas de Alainna se ruborizaram de repente. - Não fazemos nenhuma adivinhação.

-Na corte temos exemplares cavaleiros normandos que possuem honoráveis patrimônios e grande destreza militar. Convir-lhes-á um de meus guardas de honra.

Hugo e Robert ficaram rígidos como perus reais. Sebastien permaneceu imperturbável.

-Não desejo me casar com um normando, sire. Meu clã quer que despose a um paladino celta. - Lançou um suspiro. -Sire, existe uma condição mais. Solicitamos que meu marido renuncie a seu sobrenome e adote o de nosso clã.

Sebastien ficou olhando. A jovem possuía orgulho, temperamento, beleza... e uma boa dose de vaidade, o que não esperava dela.

-Já! - Murmurou Hugo. - Agora está pedindo muito.

-Isso é muito para pedir a um homem, seja normando ou gaélico. - Disse o rei. - Mesmo que se faça às vezes, quando a propriedade é valiosa. Mesmo que existisse um guerreiro tão desinteressado, não seria judicioso envolver a outro clã celta nessa disputa.

Alainna levantou o queixo, uma figura elegante e teimosa.

-De todos os modos, casarei-me com esse homem, e com nenhum outro.

Resplandecia como uma vela, pensou Sebastien, com uma força luminosa e apaixonada. Franziu o cenho e continuou escutando.

-Suas propriedades são boas terras, Lady Alainna. - Disse o rei. - Um de nossos cavaleiros normandos será um bom marido para você.

-Sire, rogo-lhe. – Sua voz se quebrou. - Considere minha petição.

No meio do silêncio, Hugo mudou o peso de um pé a outro e sua cota de malha chiou. A jovem voltou o olhar em direção ao ruído.

A claridade de seus olhos tocou os Sebastien como uma faísca. Seu olhar parecia penetrar em seu espírito, como um puxão em seu interior, como se ela tivesse esticado as fibras de seu coração.

Não ficavam fibras que esticar, disse-se a si mesmo. Tinham-lhe arrancado todas, deixando restos que ninguém poderia agarrar.

Antes que ela afastasse a vista, Sebastien alcançou a ver o desespero em seus olhos turvados. Um inesperado sentimento de compaixão o percorreu de cima abaixo. Permaneceu impassível como uma rocha, mas o coração lhe pulsava mais depressa. Havia conhecido a necessidade e o medo e os havia rebatido com vontade e orgulho, tal como suspeitava que fazia ela.

-O rei rechaçará sua petição. - Murmurou Robert. - Essa zona necessita o poder militar estável dos normandos, não outro senhor guerreiro celta.

-Eu desejo terras e uma esposa, e vim para Escócia às conseguir. -Murmurou Hugo. - Mas não penso ceder meu sobrenome em troca.

Fez um gesto com a cabeça em direção a Sebastien. - Você poderia adotar seu sobrenome sem pensá-lo duas vezes, enquanto nós não.

-Já basta. - Disse Sebastien a modo de dura advertência.

-Não foi minha intenção te ofender. - Disse Hugo. - Você carece de...

-Já basta. – Vaiou Sebastien. Manteve os olhos fixos à frente e as costas reta como aço. Hugo soltou um grunhido quando Robert o repreendeu com uma cotovelada. Hugo estava acostumado a falar sem pensar, Sebastien sabia. Aquele homem o havia salvado na vida e na batalha e era um bom camarada na luta, mas possuía a cortesia de um urso.

Por muito valor que tivessem as terras daquela jovem, Sebastien nunca poderia aceitar o sobrenome de uma mulher em troca do dele. Havia lutado muito e intensamente para dar valia ao nome de Sebastien o Bret.

Renunciar a isso resultava inconcebível.

O rei murmurou algo a jovem, e ela olhou a seu companheiro montanhês com as bochechas rosadas por causa da consternação ou da raiva. O gaélico lhe sorriu.

Ah, pensou Sebastien. Alainna MacLaren exibia sua força ante outros e revelava sua debilidade tão somente ante aquele homem. Ambos faziam contraste entre o selvagem e o elegante, mas o laço que os unia, fosse o qual fosse, era forte. Os gaélicos da Escócia tinham o parentesco e a lealdade em alta estima. Sebastien viu naqueles dois.

Sentiu uma pontada de inveja. Franziu o cenho e deixou que escorregasse dele como uma capa que não deseja.

Esperava que a moça encontrasse o orgulhoso guerreiro celta que estava procurando, um homem que pudesse cumprir suas condições impossíveis e estar à altura de seu espírito.

Ele, por sua parte, não era seu homem.

 

                       Capítulo 3

-Lady Alainna, a questão de seu casamento se estudará atentamente. - Disse o rei Guillermo. – Chegará a você uma mensagem quando a decisão for tomada. Boa viagem aos dois.

Alainna olhou nervosa para Giric. Ela e seu irmão adotivo tinham viajado de tão longe para obter tão pouco. O rei parecia decidido a lhe escolher um marido segundo suas próprias condições, mais que segundo as dela.

-Sire... - Começou.

Mas o rei não lhe deu atenção e voltou a vista para os três cavaleiros que estavam de pé no estrado, os três com sobrevestes de cor verde e cotas de malha, os três loiros, bonitos e fornidos.

-Sir Sebastien, escolte Lady Alainna e seu parente. Ocupe-se de que lhes entreguem provisões para sua viagem.

-Sire. - O homem mais alto dos três deu um passo à frente. Alainna já se havia fixado nele antes. Ele a havia observado todo o tempo com olhar fixo, mas circunspeto.

O normando se deteve diante dela e inclinou a cabeça cortesmente.

-Minha senhora venha comigo. - Disse em gaélico. Ela sentiu a cálida pressão de seus dedos através da manga. Surpreendida tanto pelo calor de seu contato como pelo fato de que utilizasse sua língua, levantou a vista fazia ele.

-Não - Replicou em gaélico. - Tenho algo mais que dizer a meu rei.

Ele arqueou uma sobrancelha.

-Como deseja. - Disse submisso. Permaneceu de pé junto a ela, forte e maciço, com a manga de sua cota de malha lhe roçando o ombro.

Alainna o olhou fixamente, distraída por um instante por sua dura beleza, ligeiramente imperfeita por causa de uma cicatriz que lhe cruzava a sobrancelha esquerda. Tinha o cabelo da cor de oro escuro, os olhos cinza e frios, o rosto magro e de ossos fortes, a mandíbula angulosa. Um tranquilo controle emanava dele em seu aspecto e sua atitude.

Alainna afastou o olhar do seu e a fixou no rei.

-Sire, rogo-lhe, quanto ao de meu casamento...

-Minha senhora, já expôs sua petição. - Replicou o rei.

-Sire, o inimigo de meu clã, Cormac MacNechtan, tem intenção de lhe pedir minha mão. Só deseja se apoderar de Kinlochan e submeter nosso clã casando-se comigo, seu chefe.

-É certo, sire. - Interveio Giric. - Esta disputa de sangue se apóia em um antigo ódio, herdado através de gerações.

Guillermo franziu o cenho.

-O matrimônio entre inimigos pode resolver uma disputa assim.

-Não posso me casar com Cormac! - Estalou Alainna. – Rogo-vos que compreenda. Necessitamos guerreiros que lutem por nós.

-Necessita um homem que seja capaz de levantar um castelo nesse lugar, instalar nele uma guarnição de homens e trazer amparo e a paz a essa região das Highlands.

Alainna suspirou aliviada.

-Um guerreiro das Highlands.

-Um cavaleiro normando. - Corrigiu ele. Será escolhido um entre os dignos cavaleiros de minha corte. Adeus, minha senhora.

Uma sensação de alarme percorreu Alainna e pareceu que quase lhe dobraram os joelhos.

-Sire...

O cavaleiro normando a puxou pelo braço.

-Cale-se senhora. - Murmurou. Se quiser se sair com a sua, apresente uma petição. Por agora, o rei terminou com você.

Ela se soltou de um puxão.

-Não sei escrever. - Disse. - Mas sei falar, aqui e agora.

-A risco de perder sua causa.

Alainna o olhou séria, mas guardou silêncio.

-Um belo casal. - Disse o rei. Belo de verdade. Sebastien, que eu me lembre, é viúvo... Quanto tempo está a meu serviço?

Alainna lançou um olhar ao rei, atônita pelo que estava dando a entender.

O cavaleiro ficou em silêncio uns momentos.

-Quase três anos, sire.

-E ainda não lhe concedi uma recompensa adequada. Não está casado, se não me recordo mau.

Alainna sentiu que lhe retumbava o coração. Olhou alternadamente a um homem e a outro.

O cavaleiro inclinou a cabeça.

-O privilégio de servir como guarda de honra do rei da Escócia monopoliza toda minha devoção, sire. - Sua resposta foi suave e cortês, mas seus dedos se apertavam como aço sobre o braço de Alainna.

Ela olhou alarmada para Giric, que tinha a testa franzida de preocupação.

-Veremos o que se pode fazer por você. - Disse o rei. - Minha senhora, pode que Sir Sebastien Le Bret seja justamente o guerreiro que necessitam. - E sorriu.

-Sire... - Protestou Alainna.

-Eu não sou o paladino adequado para esta dama. - Disse o cavaleiro em tom grave e firme.

-É muito modesto. Você é um para se comparar entre cavaleiros, reconhecido por todos como lutador de grande força e espírito. - Disse o rei. - Exatamente o que pediu Lady Alainna. E, além disso, fala gaélico. - Continuava sorrindo. - Isso satisfará a dama.

-Duvidou sire. - Murmurou Sebastien. Alainna notou como aumentava a tensão entre os dois homens.

-De todos os modos, sua presença em Kinlochan, com uma guarnição de homens, agradará-me grandemente.

Alainna conteve uma exclamação.

-Meu clã jamais aceitará cavaleiros normandos em Kinlochan!

O rei posou seu olhar nela. A resolução que havia em seus olhos pareceu vacilar. Sabia que o rei Guillermo não era um governante cruel, mas que podia ser rápido e decisivo. Negar-se poderia ser considerado traição.

-Falaremos mais tarde, Sebastien. Lady Alainna. - O rei fez um gesto ao camareiro para que chamasse o seguinte solicitante.

Sir Sebastien segurou Alainna pelo braço e a conduziu fora dali. Ela se voltou para olhar atrás.

-Sire... - Começou.

-Guarde silêncio. - Vaiou Sebastien.

-Quer dar a você minhas terras!

-Não pode me dar nada que eu não deseje aceitar. - O repôs em tom cortante. - Venham por aqui, Sir - Disse a Giric. - Enviarei um pajem para procurar seus cavalos.

-Os cavalos se encontram em um estábulo da cidade. - Respondeu Giric. - Eu mesmo irei buscá-los. Alainna?

-Eu... Eu esperarei na abadia. - Disse ela a seu irmão adotivo em gaélico. - Quero ver o trabalho da pedra antes de partir. Giric, não posso me casar com um normando! - Acrescentou, frenética.

-Se tranqüilize. Agora vá, reunirei-me contigo na abadia.

-Me permita que lhes escolte até a abadia, minha senhora. - Disse o cavaleiro. - As talhas em pedra são muito bonitas. Seguro que as ver lhe acalmará. É por aqui. - Seu gaélico era frio e cortês.

Conduziu-a através da multidão. Alainna levantou a cabeça com orgulho, mas seu coração pulsava presa pelo pânico ao seguir ao cavaleiro.

A raiva alimentava seus passos, esticava-lhe a boca e lhe nublava a vista com lágrimas. Piscou com força enquanto o cavaleiro remontava o caminho de ascensão que partia da torre. A abadia de Dunfermline coroava o topo da colina, de pedra dourada e as torre gêmeas que brilhavam ao sol.

Caminhava tão depressa que ia tropeçando na saia azul, e teve que parar. A barra do vestido estava cheia de folhas outonais. Agarrou o suave tecido de lã e a sacudiu com mais gênio que elegância.

-Tranquilize-se, minha senhora. - O cavaleiro se inclinou para retirar as folhas presas. Irá estragar seu vestido.

Ela suspirou e alisou a saia com mais suavidade. Mesmo que rara vez usava aquele vestido de lã azul escuro, debruado de ouro e contas vermelhas, era o objeto de confecção mais bonito que tinha.

-Minha gente disse que me vestir assim ajudaria a defender minha súplica na corte. - Grunhiu. - Resultou inútil.

-Foi uma súplica bem feita, de todos os modos. - Disse ele. - E este é um formoso vestido.

Alainna lhe dirigiu um olhar turvo. O sorriso do cavaleiro foi fugaz, mas genuíno, e possuía uma ternura que a comoveu. Afastou o olhar e se ajustou o tartam sobre os ombros e na cintura.

-Esse tecido de cores parece bem tecido. - Assinalou ele.

-Foi fabricado por uma mulher de meu clã. - Replicou ela. Tece magníficos tartans de lã, quentes e frescos, muito bonitos. Nas Highlands estão acostumados a se vestirem de maneira singela, mas não somos tão selvagens quanto vocês acreditam, senhor. Meu pai pediu que me confeccionassem este vestido em Glasgow. Pensava que eu iria me casar com ele. Em vez disso, o coloquei para render comemoração por suas terras. - Acrescentou com tristeza.

-Seu pai estaria orgulhoso de você neste momento. - Murmurou ele em gaélico. Seu rápido uso daquela língua resultava um consolo, como uma carícia. Por um instante, Alainna se abrandou a respeito dele; logo começou de repente a andar.

-Não há muitos normandos que falem gaélico. - Disse.

-Eu levei tempo para aprendê-lo. Quando atuo em nome da Coroa, é útil. Vocês falam bem o inglês.

-Meu pai insistiu que meus irmãos e eu o aprendêssemos, assim nos ensinou nosso sacerdote. O padre Padruig diz que a maioria dos estrangeiros opinam que o gaélico é duro e bárbaro, mas é a língua dos bardos e os poetas. É como música.

-Na boca de algumas pessoas - Murmurou ele. - Certamente é.

Alainna sentiu o calor do rubor.

-Nunca havia conversado com um cavaleiro privilegiado, nem em inglês nem em gaélico.

-Não de tanto privilégio como pode pensar, minha senhora.

Ela franziu o cenho, desconcertada. A cota e as armas do cavaleiro eram caras e sua sobreveste de cor verde escura estava debruada com fios de prata. Irradiava segurança em si mesmo, autoridade, inteligência e força controlada. Levava o privilégio normando no sangue.

-Meu irmão adotivo e eu ouvimos dizer que a guarda de honra estrangeira do rei goza de alta estima na corte e do favor do rei.

-Fomos atribuídos a corte escocesa por nosso suserano, o duque Conan da Bretanha. É uma honra servir ao rei Guillermo.

-É isso humildade de cavaleiro, senhor? Estou a par dos votos de virtude que tomam os cavaleiros estrangeiros.

-Procuramos honrar nossos votos de cavalaria. Mesmo que poucos diriam que sou humilde, minha senhora. - Disse em tom irônico.

Alainna inclinou a cabeça para olhá-lo com curiosidade.

-Quando o rei falou de lhe enviar a Kinlochan, você mostrou cortesia, mas ficou tenso, como se isso lhe desagradasse muito. Ou foi meramente sua ânsia de possuir terras na Escócia o que fez com que me agarrasse o braço com tanta força?

Ele entrecerrou os olhos e a sobrancelha da cicatriz se contraiu. Suas íris eram cinza e frias, mas Alainna captou neles uma faísca de calor.

-O rei não me fez uma oferta verdadeira. Preocupa-se por nada.

-Eu não estou preocupada. - Replicou ela. Suas frustrações e seus medos, açoitados pela audiência com o rei, faziam com que seu gênio estivesse disposto a explodir em qualquer momento. - Mas terei muito de que me preocupar se ele vos envia ali ou a qualquer de seus camaradas!

-O rei ainda não assinou nada a respeito. Se acalme.

-Estive calma, por nada. Agora devo esperar enquanto que o rei escolha um marido normando. Minha gente espera um herói celta que salve nosso clã! E agora tenho que lhes dizer que fracassei!

-Fez o que pôde. Se o rei enviar homens ali, fará para garantir a paz.

-A paz! Se enviar normandos, haverá mais guerra!

-Solicitou ajuda ao rei. - Lembrou-lhe o cavaleiro.

-Para o que deseja meu clã, não o que deseja ele!

-Ele pensa na Escócia; vocês pensam no clã Laren.

-No que outra coisa deveria pensar? - Exigiu Alainna, olhando-o furiosa.

-Maravilha-me que tenham resposta para tudo. - Comentou ele. - Está bem que nos dirijamos à igreja; pode que a oração aplaque esse ardor das Highlands.

Alainna lhe dirigiu um olhar fulminante e continuou caminhando.

O cavaleiro a seguiu a longos passos. Ao fim de um trecho, ela o olhou de esguelha. Apesar de seu ressentimento, queria saber mais a respeito dele, sobre tudo se o rei o considerava adequado para ela e para Kinlochan.

-Deve ser o herdeiro de algum grande senhor para obter tanto favor de um rei. - Disse. – É de família francesa ou normanda?

Uma faísca de ferocidade brilhou nos olhos dele.

-Nem todos os homens triunfam desde que nascem. Alguns o obtêm a base de méritos e destreza. E determinação. - Seu tom era cortante. - Eu me criei na Bretanha e me passei vários anos na Inglaterra. Sou bretão, mais que normando da Normandia ou normando inglês. - Fez uma pausa. - E não sou herdeiro de ninguém.

-Um segundo vindo para a Escócia para adquirir terras, posição e riqueza, então. Suponho que pensam que os escoceses são simples bárbaros.

-Não todos os escoceses. - Replicou ele com ênfase, olhando-a.

Alainna suspendeu as saias e apertou o passo. O cavaleiro caminhava a seu lado rapidamente e com passo regular, apesar da cota de malha e a grande espada que levava, com tanta facilidade como se pudesse subir as colinas das Highlands levando o dobro de armas.

-Têm aspecto nórdico, alto e loiro, igual a seus companheiros. - Disse Alainna. - Estão aparentados os três? Sua família descende dos vikings, como alguns dos Highlands?

-Quantas perguntas. - Disse ele. - Não estamos aparentados. Os cavaleiros da guarda de honra bretã se escolhem por seu tamanho e seus cabelos loiros. E pode que eu leve sangue nórdico, não sei com certeza.

Alainna piscou surpreendida. Todos os montanheses que conhecia sabiam qual era sua linhagem.

-Suponho que os normandos não levam em conta seus antepassados tão meticulosamente como os gaélicos.

-Os bretões e os normandos se sentem orgulhosos de suas linhagens. - Disse o cavaleiro. - E também do valor de seus sobrenomes.

Alainna o olhou estupefata. Ele sorriu cortesmente, mas uma efêmera faísca que surgiu em seus olhos rebateu aquela frieza.

Era como um gato selvagem tomando sol em uma rocha, pensou Alainna de repente: tranquilo na aparência, poderoso por dentro. Podia ser feroz se o provocasse. Entretanto, advertiu doçura em seu olhar e na suave curva do lábio superior.

Chegaram ao pátio coberto de grama que se estendia frente à entrada oeste da igreja. Duas torres gêmeas se elevavam por cima de uma enorme leva de carvalho emolduradas por arcos de pedra e esbeltas colunas. Alainna não viu Giric. As imediações da abadia estavam desertas exceto por uns quantos beneditinos de hábito negro que passeavam por ali.

Subiu os degraus para observar os relevos das colunas. O cavaleiro se uniu a ela.

-É uma abadia linda. - Disse.

-Entretanto, deve parecer humilde em comparação com as catedrais da França ou Inglaterra. Ouvi dizer que são como milagres de pedra e cristal.

-Este lugar possui força e simplicidade. Eu prefiro isso à grandeza ostentosa.

-Seu desenho se parece com a catedral de Durham, na Inglaterra. Alguns dos professores de pedra que trabalharam em Durham vieram também aqui.

-Por não ser daqui, conhece bem a história da abadia.

-O primo de meu pai fez relevos neste lugar há vinte anos. Era pedreiro -Explicou Alainna. Há muito tempo desejava ver sua obra nesta igreja. -Tocou uma coluna. - Disse-me que Dunfermline se converteu em um santuário de peregrinação porque nossa querida rainha Margarida está enterrada aqui. Possuía uma alma tão pura que muitos escoceses opinam que deveriam declará-la Santa.

-Eu mesmo rezei para ela algumas vezes. Converteu-se em santas dos pobres e os perdidos. - Estendeu uma mão para tocar também a pedra, uma mão grande e forte, salpicada de pêlo dourado.

-Está na Escócia para obter terras dos escoceses. - Alainna se deu a volta. - Duvido que nossa rainha Margarida lhe considere pobre e perdido.

-Compartilha seu gênio comigo com grande facilidade. Não pode compartilhar também a sua Santa reina?

-Quero dizer que...

-Já sei o que quer dizer. Têm uma má opinião sobre os normandos.

-Não é isso. - Respondeu ela. - Exatamente.

-Ah - Repôs o cavaleiro. - E o que é, exatamente? - Apoiou uma mão na pedra, o olhar frio como o inverno, a pequena cicatriz pálida cruzando a sobrancelha esquerda.

Alainna sentiu um calor que subia às bochechas e desviou o rosto.

-Sei que no passado os normandos ajudaram a Escócia e a nossos reis, e que a Coroa escocesa os valoriza por sua força militar. Mas estão trazendo muitas mudanças para a Escócia.

-E vocês não querem se casar com um deles.

-Assim é. - Conveio Alainna.

-Talvez seu clã se beneficiasse com essa união.

-Jamais.

-Parece-me que é uma moça muito teimosa. - Murmurou ele.

-Sou. Tenho que sê-lo, por minha gente. Não posso ver como meu clã é dispersado e destruído.

-E teme que um marido normando faça tal coisa. Por quê?

-Sei que o faria. - Correu os dedos pela textura granulada do granito. - Os normandos destruiriam nosso legado, nossa história, até nosso nome, e os fariam deles.

-É mais provável que faça tal coisa esse inimigo das Highlands que têm, antes que um normando.

-Não penso me casar com nenhum dos dois.

Um sorriso irônico apareceu na boca do cavaleiro.

-Deixou muito claro. - Disse. - Minha senhora, eu não sou súdito escocês, não estou obrigado a aceitar uma doação do rei Guillermo se me oferecer.

Alainna piscou.

-Rechaçaria Kinlochan?

-Tenho outros planos. - Disse ele em voz baixa.

Alainna se sentiu aliviada, mas também, surpreendentemente, decepcionada. É obvio, queria que ele rechaçasse a oferta, disse a si mesma; entretanto, sentia curiosidade sobre o cavaleiro, atraía-lhe sua força, seu engenho e seu olhar penetrante e amável.

Conteve a respiração ao perceber que se parecia com o guerreiro do outro mundo que havia visto em sonhos. Que ironia que um normando fosse igual àquele guerreiro perfeito: irônico, perturbador e impensável. Os guerreiros loiros e bonitos eram comuns, disse-se.

-O rei lhe oferecerá Kinlochan. - Disse em tom cortante. - Nenhum normando rechaçaria um presente assim. Vocês são ambicioso, ávidos por fazer fortuna em chão escocês.

O cavaleiro se inclinou até ela.

-Entre minhas ambições não inclui desposar a uma irascível jovem das Highlands e me assentar em uma montanha remota para lutar em sua guerra. Prefiro deixar isso para seu herói celta, em qualquer lugar que se encontre.

Alainna piscou, estupefata. Ele a olhou fixamente, quase nariz com nariz, o braço apoiado contra a coluna de pedra e a mão justo por cima da dela. Não se inclinou para trás, pois não queria ceder o mínimo. Ambos respiravam ao mesmo tempo e observavam um ao outro.

Rara vez tinha visto olhos de um cinza tão nítido, nem tão brilhantes de cólera. Com certeza de que nos seus ardia a mesma ira. Franziu as sobrancelhas para acentuá-la.

-Não deve aceitar a oferta.

-isso é uma ameaça? - Perguntou ele com suavidade.

-É. - O coração lhe pulsou com força. Não podia afastar o olhar dele. Percebeu sua vontade de ferro, tão forte como a sua, ou talvez mais. Era uma sensação estranha e emocionante.

-Não gosto de ameaças. - Disse o cavaleiro em voz baixa. - Tenho o costume de ir contra elas.

-Os clãs celtas não querem normandos em suas tropas. - Disse Alainna. Os bárbaros das Highlands atacam a todos que tem a intenção de lhes tirar suas terras. Por esse motivo as Highlands têm tão poucos habitantes normandos, enquanto que nas Terras Baixa estão cheias deles. Controle sua cobiça e sua ambição.

-É uma líder dos rebeldes, para falar com tanta veemência?

-Certamente que nos rebelaríamos se alguém tentasse nos tirar nossa terra. - Replicou Alainna. - Mas não nos rebelamos contra nosso rei.

-Eu cavalguei ao lado de seu rei enquanto ele derrotava a uma hoste de rebeldes celtas, o ano passado. Depois do que vi ali, pode estar segura de que em minhas ambições não inclui compartilhar terra com selvagens.

-Muito bem. - Respondeu ela. - Diga ao rei que Kinlochan pertencerá somente a um guerreiro celta.

-Que Deus ajude a esse celta. - O cavaleiro se voltou para abrir a grande porta arqueada. - Minha senhora, desejava ver a abadia.

Com o coração lhe retumbando, Alainna titubeou. Então lembrou que a entrada de uma igreja, onde estava naquele momento com o cavaleiro, era o lugar onde tradicionalmente se celebravam as cerimônias nupciais. Aquela idéia resultava tão perturbadora que se apressou a adiantar-se.

-Em efeito, desejava ver o trabalho da pedra. - Admitiu.

-Esta é sua oportunidade. - Sustentou a porta aberta.

Alainna entrou naquele reduto de paz e silêncio. Estava iluminado por uma luz dourada e translúcida, e no ar flutuava incenso.

Caminhou até o altar e se ajoelhou para orar. Sebastien se ajoelhou também, e se levantou quando ela o fez. Seus olhares se cruzaram e se separaram imediatamente. Alainna olhou para cima.

Maciças colunas se elevavam e eram pintadas de branco. Por cima delas havia uma parte com janelas de vidros leitosos, tudo isso coroado por uma abóbada de nervos. Alainna se aproximou de um corredor lateral nas sombras. Seus passos fizeram um leve eco.

Viu que o cavaleiro estava de pé na nave, silencioso e paciente, seu próprio guarda de honra. A luz arrancava brilhos dourados de seu cabelo e se refletia em seu colete de aço. Vestido com a cota de malha possuía uma beleza feroz, dura e perfeita.

Afastou o olhar e se esforçou para concentrar a atenção nos relevos da pedra. Conhecedora da mão de artista de seu primo viu seu sereno aprumo na decoração dos capitólios e se deixou afundar naquele prazer, como se encontrasse a um amigo perdido. Passeou pela igreja procurando sua marca, uma assinatura na pedra.

Enquanto passeava, pensou nos relevos que ela mesma havia feito em sua pequena oficina de Kinlochan e suspirou. Mesmo que afinasse mais o trabalho com os cinzéis, nunca alcançaria a mestria do que estava vendo ali.

Deteve-se na frente de uma grinalda de folhas no canto, tirou um pedaço de tecido e um palito de salgueiro queimado da bolsa de couro que estava pendurada no cinto e se começou a desenhar a forma das folhas no tecido. O primo Malcolm sempre havia insistido em que um bom relevo dependia de um bom desenho, e ela frequentemente riscava esboços para tomar nota da idéia ou para copiar imagens e aprender delas.

Olhou o cavaleiro, que desviou os olhos assim que seu olhar se cruzou com o dela. Naquele ambiente lembrava um santo guerreiro. Fascinava-a, dinâmico em sua postura estática. Apesar do que havia dito, a fazia sentir-se segura. Fechou os olhos e sentiu que sua constante carga de medo e preocupação se aliviava um pouco. Logo, retornaria a um mundo de incerteza; no momento queria saborear a serenidade e tranquilidade que sentia naquele lugar e na presença do cavaleiro.

Ao fim de uns instantes recomeçou seu passeio. Então, ao levantar os olhos, soltou uma pequena exclamação. Lá no alto, a marca distintiva de Malcolm reluzia na pedra de uma coluna. Apressou-se a continuar.

 

O cavaleiro esquadrinhou as sombras como costume, mesmo sabendo que não havia perigo algum. A abadia parecia resplandecer, disse a si mesmo enquanto percorria com os olhos a seu redor. Talvez aquela luminosidade procedesse da claridade da tarde, ou talvez a moça a tenha criado, como uma chama.

Certamente, era uma chama, porque o havia feito arder como fogo quando ele preferia a frieza e o controle. Em apenas uma hora, havia suscitado nele fascinação, luxúria, inveja, cólera e frustração. E agora estava lhe provocando algo mais, uma necessidade de protegê-la do mundo e lhe proporcionar paz. Desejava lhe dar isso.

Quando a jovem desapareceu entre as colunas durante um longo momento, ele cruzou a nave movido pela curiosidade. Então deu a volta em uma coluna e se deteve assombrado.

Alainna estava de pé sobre a estreita borda da base de uma coluna, nas pontas dos pés, com os seios e o torso grudados ao pilar. Tinha um braço ao redor da coluna e estirava o outro até a fenda de um galão, como se procurasse onde se agarrar.

-Pretende subir até lá em cima, minha senhora? - Perguntou-lhe.

Ela deixou escapar uma exclamação e mudou de postura. O pé pegou na barra do vestido e perdeu ligeiramente o equilíbrio, agitando os braços. Sebastien se lançou para frente, de modo que Alainna caiu totalmente em seus braços.

-Ach. - Disse sem fôlego, lhe rodeando o pescoço com um braço.

A jovem era de membros longos, mas não pesava muito, notou seu corpo firme sob as várias capas de tecido. Também era forte, porque se retorceu dê tal maneira que esteve a ponto de escapar de seus braços.

-Me solte, senhor! - Insistiu.

--Soltarei. - Prometeu ele. - Antes me diga o que aconteceu. Torceu o tornozelo? Assustou-lhe um rato? - Deu a volta com ela nos braços. - Quer que mate a essa criatura por você?

-Me poupe de seus alardes de cavaleiro. - Disse Alainna. - E suas más piadas. Sobressaltaste-me e caí. Deixe-me no chão!

-Está bem. - Depositou-a no chão com suavidade. - Me diga, por que estava tentando escalar essa coluna como se fosse um esquilo em uma árvore?

Percebeu que a jovem não achou graça naquilo, mesmo que ele mesmo apenas conseguia ocultar seu sorriso. Um rubor alagou a cútis translúcida dela, seus olhos de safira se escureceram, suas sobrancelhas se arquearam. Sebastien teve a sensação de estar contemplando uma tormenta que se iniciava. Gostava das tormentas.

-Se quiser. - Disse em tom malicioso. - Posso ir procurar uma escada.

Ela abriu a boca para replicar, mas em troca riu a contra gosto. Aquele som provocou um eco semelhante a pequenas campainhas. Ele riu também, mesmo que ao fazê-lo resultou estranhamente seco e oxidado.

Percebeu que não ria frequentemente.

-Queria ver a assinatura de meu primo, aí em cima. - Assinalou.

Sebastien levantou os olhos.

-Sua assinatura?

-Sua assinatura na pedra. - Disse Alainna. - Um símbolo esculpido na pedra. Quando um trabalhador de pedreira termina uma peça de selaria ou um relevo, ele grava sua assinatura. Pagam-lhes por cada peça assinada. Essa ali é a assinatura de meu primo.

A visão de seu olho esquerdo não era tão boa como havia sido em outro tempo, mas distinguiu um símbolo nítido gravado na pedra. Assentiu com um gesto.

-Só queria vê-la, e tocá-la. - Disse Alainna.

Sebastien franziu o cenho, pensativo. Recolheu o tecido e o salgueiro queimado que ela havia deixado no chão. Alcançar a assinatura não foi nenhum problema quando apoiou um pé na base da coluna e estirou o braço. Apoiou o tecido sobre o relevo e a esfregou com o pau de salgueiro para obter um rastro impresso. A seguir desceu e deu o tecido a Alainna.

-Uma lembrança de seu primo. - Disse-lhe.

Olhou-lhe com expressão sincera.

-Obrigada. Deve ter grande devoção por sua gente, para saber por que isto significa tanto para mim.

-Eu... valorizo minha família. - Repôs ele ambiguamente, e olhou a parte de tecido. - Vejo que é uma imagier.

-Meu primo me ensinou um pouco. Venha, mostrarei seu trabalho.

Passeou com ele, assinalando relevos de folhas de canto e painéis de copas entrelaçadas. - Vê essas flores? Malcolm sempre curvava e retorcia as formas de folhas, para fazer as beiradas finas e delicadas.

Sebastien assentiu com a cabeça, escutando, admirando a beleza do que Alainna lhe mostrava, mesmo que olhava mais a ela que aos relevos. Sua voz era grave e tranquila e vê-la era como um bálsamo.

Quando se aproximaram das portas em forma de arco, ela se voltou.

-Meu irmão adotivo estará esperando, suponho.

Sebastien experimentou uma estranha consternação, mas assentiu e lhe abriu a porta.

Viram Giric MacGregor que vinha cavalgando até eles, puxando as rédeas de um segundo cavalo. Ambos cavalos eram robustos corcéis comuns das Highlands, menores e peludos que os cavalos normandos.

Sebastien se voltou.

-Adeus, Álainne an Ceann Lochan. Não voltaremos a nos ver. Tenho a intenção de abandonar Escócia logo.

As bochechas de Alainna ficaram rosa.

-Oh... Oh. Mil benções, então, e que Deus lhe abra o caminho. - Disse em gaélico. - Que as fadas lhes protejam.

Ele sorriu, pois tinha ouvido despedidas similares em gaélico.

-Queira Deus lhe liberar de todo dano. - Murmurou a sua vez. - Que os anjos lhe bem diga.

Alainna assentiu e ato seguido deu meia volta e pôs-se a correr até seu irmão adotivo, que a ajudou a montar. Pegou as rédeas e olhou para trás.

Sebastien elevou a mão a modo de saudação. Quando deixaram atrás o terreno da abadia, ele pegou o caminho que conduzia à torre do rei, mas não pôde resistir ao impulso de voltar-se para olhar.

Alainna se voltou para olhá-lo justo no momento que ele fazia o mesmo. Ambos se apressaram a afastar o olhar. Sebastien desceu o caminho, rodeado pelas árvores e pelo canto dos pássaros, e surpreendeu a si mesmo esforçando-se para ouvir os cascos dos cavalos ao longe, como se um fio o unisse a ela por uns instantes mais.

Aproximou-se da torre de pedra sumido em seus pensamentos. Tinha a sensação de que havia acontecido algo importante, mas não conseguia definir o que. Aquela moça das Highlands havia sido como um raio de sol que se derrama sobre as sombras. Em sua ausência, o mundo parecia mais insípido, mais frio.

Experimentou uma pontada de ciúmes ao pensar que se casaria com algum guerreiro, celta ou normando. Sério, sem saber muito bem por que demônios devia preocupar-se, seguiu caminhando.

 

                         Capítulo 4

-Esta noite nevará. - Disse Uma. - Dizem-me isso os ossos doloridos de Lorne.

Olhou pela janela da oficina de Alainna. A tênue luz dava um reflexo de prata a seu cabelo, parcialmente coberto pelo lenço de linho branco que tinha dobrado e envolto ao redor da cabeça.

Era uma mulher pequena e estava nas pontas dos pés, se equilibrando com uma mão apoiada no batente enquanto olhava para o exterior.

-Não me doem os ossos, mulher. - Disse Lorne. Pegou uma pequena pedra esculpida em forma de cruz e a fez girar com delicadeza em suas longas mãos.

-Ach, claro que sim; hoje me pediu que pusesse uma dose de salgueiro na cerveja. - Disse Una em tom impaciente. - Nevará com toda segurança, entre o que me dizem seus longos ossos e essas nuvens cinza ali fora. O céu está da mesma cor que algumas de suas pedras, Alainna.

-Já vejo. - Respondeu ela sem levantar os olhos. Seus tios avós tinham entrado na oficina momentos antes, mas ela apenas os havia olhado. – Deixe que termine essa parte, Una, e então olharei.

Alainna rodeou o banco, estudando com olho crítico a laje parcialmente esculpida de calcária cinza que descansava sobre o mesmo. Logo apoiou o cinzel (instrumento manual que possui em uma extremidade uma lâmina de metal usada para entalhar ou cortar a madeira) formando um ângulo contra a pedra e deu uns golpes no extremo com a maça de madeira que sustentava na mão direita.

-Esta é uma boa peça. - Disse Lorne, deixando a pequena cruz sobre a mesa. - Melhor inclusive do que a que levou ao rei. Não a tinha visto até agora.

-Fiz esta semana. - Disse Alainna, soprando o pó da pedra que se havia formado. - Prometi uma a Esa.

-Quando a levar, tente convencê-la outra vez de que fique em Kinlochan. -Disse Lorne. - É teimosa, mas este ano o inverno vai ser muito duro. Todos os presságios assim o indicam. - Sua voz profunda e suave, cuja magia Alainna adorava desde que era menina, traía uma clara preocupação.

Levantou os olhos e viu que se detinha junto à larga mesa de cavalete em que havia várias lajes de pedra, cada uma delas tão largas como o antebraço de um homem. Inclinou-se para examiná-las, com os ombros encurvados e seu comprido cabelo branco caindo adiante de seu belo perfil aquilino.

-Aqui está gelado. - Alguém fechou a veneziana de madeira com um golpe vigoroso e a colocou o fecho. Pegará um resfriado nos pulmões se ficar com a janela aberta todo o dia.

-Necessito luz. - Repôs Alainna, golpeando de novo com a maça. Fez uma pausa para soprar o pó que se concentrava na beirada do cinzel.

-Aqui dentro está escuro como a noite. - Queixou-se Una. - Logo não verei nada. - E deu um passou adiante.

-Acaba de fechar a janela. - Lembrou-lhe Lorne. - Nenhum de nós vê nada.

-Nessa estante há velas. – Apontou Alainna. - O braseiro também dá um pouco de luz.

-Não muita. - Disse Una. - E tampouco muito calor. De modo que bem poderia deixar de trabalhar durante um momento. Não parou toda a semana. Oh, se mova, cão glutão, ocupa todo o espaço. Alainna, já sei que você gosta deste cão, mas não vale muito como guardião; nem tampouco serve para fazer companhia, passa todo o dia deitado.

Alainna olhou o grande cão de caça, que dormia feliz contra o braseiro.

-Finan é um bom guardião quando tem que ser. E eu gosto de sua companhia. Deixa-me em paz.

Lorne soltou uma risada ao mesmo tempo que encontrava uma vela e a acendia com um pau seco que aproximou às brasas do braseiro.

-Alainna, viemos te chamar para jantar conosco esta noite. - Disse Una.

-E também a ver como ia com o trabalho. - Acrescentou Lorne. - Realmente está muito bom. A laje que acaba de terminar é inclusive melhor que as outras.

Alainna sorriu.

-Obrigada. E não estou com fome, Una. - Deixou o cinzel para pegar uma ferramenta de ferro com ponta, e usou a maça para introduzir o afiado instrumento no extremo na laje e arrancar uma pequena lasca-. Morag me trouxe comida.

-Morag leva dois dias te trazendo comida aqui. Disse-me que ontem à noite que se deitou muito tarde e que te levantou cedo para voltar a trabalhar. Ficará esgotada e adoecerá.

-Tenho muito que fazer. - Disse Alainna enquanto soprava o pó branco da superfície da pedra. - Esta é a sétima pedra. As cenas que tenho pensado esculpir necessitam vinte, possivelmente mais.

-Impôs uma dura tarefa, pequena. - Disse Lorne. - Mas precisa descansar. Ninguém pode terminar o trabalho de toda uma vida em uns meses.

-Eu devo fazê-lo. - Alainna golpeou a ponta com a maça.

-Vêem ao salão, janta conosco e se aqueça. - Insistiu Una. - Os velhos se alegrarão de te ter com eles.

-Tenho muito que fazer. - Repetiu Alainna, arrancando outro pedaço de pedra.

-Está escurecendo. - Disse Una. - Uma vela não lhe dá luz suficiente. Apenas pôs o pé no salão em dois dias. Tenho um guisado de veado quente na cozinha, e depois do jantar Lorne nos contará uma agradável historia. Morag se ocupou de que tudo esteja em ordem na casa, varreram o chão e pulverizaram a palha fresca, arejaram os tartans e a roupa de cama, prepararam as camas e os colchões para a noite. - Dirigiu um olhar a seu marido, e logo voltou a olhar para Alainna. - Tudo está em ordem em Kinlochan, exceto a chefe do clã que se encerra em uma diminuta oficina com o chão sem varrer nem comida no estômago, a trabalhar como um operário.

Alainna flexionou seus ombros doloridos.

-A prima Morag leva bem nossa casa. Adora o trabalho que faz por Kinlochan, e nunca descansa até convencer-se de que suas tarefas se realizam à perfeição. E eu adoro o trabalho que faço, mesmo que resulte um pouco sujo. Eu também quero continuar até que fique satisfeita com o trabalho realizado.

Alguém suspirou impaciente.

-O que faz aqui não é trabalho de um dia, pequena, como a maioria das tarefas domésticas. Tem que comer deve descansar! E os teus precisam ter a seu chefe entre eles. Lorne lhe diga algo.

-Niall quer que esta noite comece o ciclo das histórias de Fionn. - Disse Lorne. - Mas Una e Morag querem ouvir outra vez o conto de Deirdre e os filhos de Uisneach. O que devo fazer? Niall diz que está cansado de historia de amor e que quer uma de guerra e homens, que contenha uma longa passagem que narre uma batalha.

-Eu gosto do conto de Deirdre das Desditas. – Disse Alainna. - Nunca me canso dessa história. Quando Deirdre vê a Naoise e seus irmãos pela primeira vez... - Suspirou. - Ah, é muito formoso.

-Então contarei a história de Deirdre, se estiver conosco esta noite. Deixe o trabalho. Há tempo.

Enquanto seu tio falava, Alainna contemplava com a cabeça inclinada a cena que havia esculpido: três homens em um navio, sustentando umas lanças em posição vertical, ligeiramente esboçados na superfície da pedra. Tão somente havia eliminado o excesso de pedra, enquanto que o resto mostrava as marcas do cinzel, para formar um alto-relevo.

Suspirou e olhou para Lorne, cujos olhos azuis brilhavam afetuosos. A seu lado, Una, que nem sequer chegava ao ombro de seu marido, olhava-a com um cenho de preocupação. Alainna suspirou outra vez e deixou o cetro.

-Têm razão. Estou cansada.

-Bem. Sua gente sente sua falta. - Disse Una.

Alainna limpou as ferramentas com um pano suave e as deixou a um lado. A seguir cobriu a pedra com outro pano e se levantou e estirou os braços.

-Tenho que varrer isto. - Disse, lançando um olhar ao chão, que estava coberto de lascas de pedra e pó.

-Varreremos amanhã. - Disse Uma. - Esta noite descansaremos. Vamos, menina, trabalha muito. Preocupa-se muito.

-Não me preocupo. - Replicou Alainna, rígida. Retirou o lenço que protegia o cabelo do pó da pedra e sacudiu as tranças. - Jamais me preocupo.

-É obvio que não. - Disse Lorne. - Esta noite deve jantar bem, escutar uma história e pensar só no que é bom.

-Sobre tudo, não pense nesses cavaleiros normandos que talvez mande o rei. - Disse Una.

-Uma. - Disse Lorne. - Parece-me que seu guisado necessita atenção.

-Morag se ocupará dele. - Replicou a aludida. O cão se levantou de seu lugar contra o braseiro e bocejou estirando suas longas patas. Depois foi até Una e a empurrou com a cabeça que lhe chegava quase até o ombro. Acariciou-lhe o focinho, e foi recompensada com uma lambida.

-Vamos, Finan Mor, cão preguiçoso. - Disse-lhe. - Vou te dar um pedaço de carne. - E se encaminhou para a porta com o cão.

Lorne aguardou enquanto Alainna apagava a vela e tirava a velha túnica que levava por cima do vestido a modo de avental.

-Está preocupada com o que fará o rei, pequena. - Disse-lhe. - Vi em seus olhos nas duas semanas que transcorreram desde que voltou. Por isso trabalha tanto em suas pedras.

-O trabalho me ajuda a descansar a mente. É duro ficar esperando notícias do rei.

-É difícil para todos nós. Vêm se relaxar com boa comida e boa companhia. Talvez o conto de Deirdre não te convenha esta noite; necessita algo que te faça rir, como a história do parvo nas bodas e de como tentou colocar o lago em casa para servir peixe fresco aos convidados.

Alainna sorriu.

-Niall também gosta desta historia. Queremos que esteja contente, já que terá que esperar para ouvir histórias de Fionn.

-Não estará descontente se nossa chefe se encontrar a salvo no salão, bem alimentada e rindo, esquecendo suas preocupações.

-Nunca as esqueço, tio. - Murmurou ela, e suspirou.

-E o som de seu suspiro era como o murmúrio da grama no outono. - Disse Lorne brandamente, olhando-a. - Ou como as folhas secas ao vento, que mudam para preparar-se para o sono do inverno.

Alainna sorriu com tristeza.

-Como poderia rechaçar uma oportunidade de escutar semelhante poeta? Melhor será que nos apressarmos. Alguém estará impaciente porque ainda não nos sentamos à mesa, e a comida já está preparada.

-Estará muito atarefada evitando que Finan aproxime o focinho de seu guisado. - Disse Lorne.

-Sire, eu não sou a pessoa adequada para essa tarefa. - Enquanto falava, Sebastien olhava fixamente as chamas da chaminé do quarto privado do rei. Essa dama quer um guerreiro celta com tranças e tartam.

-Não tem alternativa. - Replicou o rei-. Terá a você.

Em silêncio, com a mandíbula tensa, Sebastien se aproximou de uma mesa e pegou uma jarra de bronze para verter vinho quente e picante em umas taças de madeira com bordas de prata. A fumegante fragrância do líquido se pulverizou pelo ar quando entregou uma ao rei, e depois colocou uma terrina de maçãs perto de sua cadeira. Retornou junto à chaminé e ficou de pé enquanto bebia de sua taça.

-Lady Alainna pediu um guerreiro exemplar, e eu vou enviar lhe um. - Disse o rei. Cortou uma maçã com uma pequena faca. - Vocês presenciaram a audiência, sabem que seu clã necessita um protetor.

-Sim, meu senhor, lembro-me.

A elegante dignidade de Alainna MacLaren e a desesperada necessidade que se lia em seus olhos azuis não eram coisas que se pudessem esquecer facilmente. A moça inclusive havia aparecido em seus sonhos, inquietantes sequências de luxúria e angústia que lhe deixaram com um sentimento de nostalgia. Sentia uma inegável necessidade de ajudar a ela e a seu clã, e, entretanto se perguntava pela origem daquele desejo.

-Meu senhor. - Prosseguiu ao fim de uns instantes. - Honra-me com semelhante favor, mas tenho pensado residir em Bretanha e me casar ali.

-Um viúvo com um filho necessita uma esposa. Estou-lhe dando uma herdeira escocesa proprietária de vastas terras. Como meu paladino no norte melhorará de modo incomensurável sua posição em Escócia, Inglaterra e França. Viva com sua família onde lhes agrade, depois de se certificar de que Kinlochan se encontra em paz.

-A dama protestará pela concessão e pelas núpcias. Sem dúvida, seu clã protestará também.

-Igual a você, parece-me. - Disse o rei. - Por que duvida?

-Prefiro minhas terras e minhas mulheres domesticadas, sire. - Respondeu Sebastien em tom irônico. Guillermo riu ligeiramente.

Na realidade, Sebastien desejava aceitar aquele pedaço de terra, mas não queria casar-se para tê-lo. Esperava encontrar uma esposa nobre francesa ou bretã que substituiria a que havia perdido. Certamente, seu filho necessitava uma mãe, mas Conan tinha direito a uma herança francesa através de sua mãe morta, e precisava educar-se na França ou em Bretanha, não na fria e distante Escócia.

Contudo, a idéia de casar-se com Alainna MacLaren lhe causava um profundo e sutil estremecimento no mais fundo de seu ser. Franziu o cenho, pensativo, sem deixar de contemplar as vívidas chamas. As montanhas agrestes e remotas das Highlands, habitadas por bárbaros, inclusive os governados por uma bela moça, não o ajudariam a estabelecer o legado de terras e herança que asseguraria o futuro de seu filho. Soltou um profundo suspiro.

-Tenho certeza de que Lady Alainna lhe agrada. - Disse o rei.

-É... encantadora. Mas a Escócia está muito longe de Bretanha, sire. E essa moça espera que seu marido adote o sobrenome de sua família. – Calou-se por um instante. - Não posso fazer isso.

-Então se negue a adotar seu sobrenome. - O rei encolheu os ombros. - Se deseja possuir os direitos sobre essa terra, além disso do privilégio de ser o dono de uma concessão assim na Escócia, terá que se casar com essa dama. Ela pagou o tributo de sucessão. Kinlochan não pode ser entregue a ninguém mais no prazo de um ano, exceto por meio de matrimônio. Quando enviarem uma cópia do contrato de núpcias entre você e Lady Alainna a meu camareiro, a nova concessão se redigirá a seu nome.

-E não antes. - Comentou Sebastien em tom terminante. Sentiu um músculo contrair-se em sua mandíbula, sentiu uma armadilha fechar-se sobre ele.

-E não antes -repetiu o rei em tom depravado. Cortou uma rodela de maçã. - Me diga, Bastión, que terras possui agora?

-Um pequeno castelo e uma casa na Bretanha, de cinquenta e cem acres respectivamente, entregues pelo duque de Conan. - Respondeu Sebastien. - Em York, uma casa forte de mil acres concedidos pelo rei Enrique como pagamento de serviços prestados há anos.

Prometeu-me um título junto com a terra, mas parece haver se esquecido desde que vim para Escócia. - Acrescentou secamente. - Nunca residi em minhas propriedades, mas sim as cedi a arrendatários.

-Existem terras que eram propriedade de sua finada esposa?

-Não diretamente, sire. Meu filho é herdeiro de um castelo e de algumas terras na França, mas a família de sua mãe reside ainda ali.

Guillermo assentiu pensativo.

-Originalmente, devem sua lealdade ao duque de Conan, naturalmente. Mas ele cedeu você e seus camaradas a meu serviço durante todo o tempo que eu lhes necessitar. O ato de acatamento que assinaram não expirou ainda, e pode renovar-se.

-Sinto-me honrado, meu senhor. - Sebastien falou devagar, com cautela. - Mas, como sabem, existe um assunto urgente que requer minha presença na Bretanha o quanto antes.

Já havia lhe explicado dias antes o problema de seu filho e dos monges de Saint-Sebastien. Havia-lhe sido estendido o privilégio de se servir de um mensageiro real, a fim de que pudesse responder ao abade. Em sua carta lhe emprestava o uso de suas propriedades na Bretanha e prometia retornar logo que pudesse comprar uma passagem em um navio que se dirigisse a França.

-Certamente, deve voltar, mas ainda não. Para lhe tranquilizar, despacharei um mensageiro com uma carta para o duque de Conan e sua duquesa, minha irmã. Recomendarei que se ocupem do bem-estar desse grupo de monges.

-Estou em dívida com você. - Sebastien fez uma leve reverência, com os punhos fechados. Não era nenhum tonto; percebia o quanto era muito aquela dívida.

-É meu dever caridoso. A dívida pode pagar-se com serviço contínuo. Assinaram um voto de me servir que ainda seguirá em vigor durante vários meses mais. No momento, suas destrezas resultam necessárias em Kinlochan.

Sebastien olhou ao rei com os olhos entrecerrados. Sentiu uma onda de raiva, mas sabia que rechaçar abertamente aquela concessão poderia acabar não só com suas possibilidades de obter terras em Ardia, mas também com a ajuda que o rei iria prestar a Conan e aos monges.

-Meu senhor é generoso. - Disse brevemente. - Mas devo lembrar ao rei que não sou o guerreiro que fui em outro tempo.

Naquele momento se sobressaltou ao apanhar a maçã que lhe lançou Guillermo. Não a tinha visto vir de seu lado esquerdo até que quase foi muito tarde, devido a sua vista defeituosa, mas a segurou em sua mão esquerda com rápida agilidade. Se tivesse sido a folha de uma adaga, a teria desviado com o escudo ou com uma arma por puro instinto.

-Acredito, Bastien. - Disse o rei com suavidade. Que ainda é plenamente o guerreiro que foi em outro tempo, mesmo que ultimamente apenas tenha provado suas capacidades. Vá a Kinlochan e se ocupe por mim desse assunto.

-Sire. - Disse Sebastien.

-E se ocupe de que se construa ali um castelo de pedra.

-Um castelo? - Teve a sensação de que o atoleiro que o estava tragando acabava de ficar mais denso, mais profundo.

-Kinlochan está situado em uma entrada às montanhas do oeste das Highlands. A presença militar normanda nessa zona é essencial para garantir nossa autoridade e desalentar a rebelião celta.

Sebastien o olhou consternado.

-Um projeto assim poderia levar anos. - Desejava ardentemente uma oportunidade para fiscalizar a construção de um castelo dele, mas não daquela forma. Não na Escócia.

-Disporá de tempo para ser o barão. Têm experiência na construção de castelos, não é assim?

-Interessei-me por seu desenho. O barão inglês que me acolheu como escudeiro e jovem cavaleiro construiu três castelos de pedra na Inglaterra enquanto eu fazia parte de sua família e mais tarde estando a seu serviço. Permitiu-me assumir certas responsabilidades na tarefa de contratar pedreiros e aprovar o desenho. O processo não me é totalmente desconhecido.

-Necessitarão essa experiência quando contratarem pedreiros e iniciem as obras. Com a ajuda de recursos reais, é obvio, mesmo que também se destinarão a essa empresa os ganhos de Kinlochan.

-Esperemos que Kinlochan tenha ganhos próprios, sire. A julgar pelo que indicou Lady Alainna, trata-se de um clã pobre.

-Sem dúvida descobrirá logo. De momento, pegue vinte homens e parta. Deixe-me suficientes bretões para uma guarda de honra. Quando tiver visto o que falta ali, busque mais homens. - O rei Guillermo sorveu seu vinho, relaxado e seguro de suas ordens.

-E o que tem que esse tal MacNechtan, que apresentou uma petição?

-Afirma ser leal, mas se é uma ameaça para o clã dessa dama ou para a Coroa, deverá ser reprimido.

-E se não for uma ameaça?

-Não sou tão estúpido para acreditar nisso. - O rei depositou sua taça. - Existe outra razão pela qual quero que você monte uma guarnição ali. Os MacWilliam ainda se mostram inflexíveis em afirmar que têm direito a este trono através de sua descendência do rei Duncan. Pode que encontre apoio nessa parte das Highlands.

Sebastien franziu o cenho.

-Faz mais de um ano que derrotamos a um grupo desses rebeldes celtas. Os que não morreram no campo de batalha e escaparam de ser capturados e executados, fugiram para a Irlanda e ao exílio. Seriam uns loucos se voltassem.

-Dizem que ao menos um deles saiu da Irlanda para procurar apoio a sua causa nas Highlands: Ruari MacWilliam.

-Lembro-me desse nome. Um celta de grande ferocidade, e uma força com a que contar. - Disse Sebastien. – Pensei que estivesse morto.

-Assim acreditávamos todos. Meu informante esteve recentemente na Irlanda e nas ilhas ocidentais, e disse que esse homem partiu da Irlanda não faz muito e se dirigiu à zona dos arredores de Kinlochan.

-Por que? Não pode encontrar apoio que lhe seja de utilidade em um clã débil.

-Os MacNechtan podem lhe proporcionar esse apoio. Averigue se estão aliados com os rebeldes. Poderiam estar dando refúgio a esse Ruari MacWilliam. Se for assim, terá que se ocupar deles, e com dureza.

-Leal ou não, pode que MacNechtan se rebele quando se inteirar de que Kinlochan foi entregue a um estrangeiro. As pessoas das Highlands se inflamarão logo e não se esfriarão com facilidade.

-Esse sangue quente é precisamente o motivo pelo qual Kinlochan não pode cair nas mãos dos celtas. Ali precisa de um cavaleiro de temperamento calmo e experiência militar. Confio em você.

Sebastien se inclinou rigidamente e partiu sem dizer uma palavra. Quando estendeu a mão para abrir a porta, tinha o punho fechado com tal força que os nódulos estavam brancos.

 

                         Capítulo 5

Alainna acreditou ouvir um retumbar de cavalos e se virou para baixo ao mesmo tempo em que sustentava o arco. Viu tão somente colinas e árvores nuas cujas silhuetas se recortavam contra um vivido céu poente. Só era o vento que balançava as árvores, disse a si mesmo e se voltou.

No estreito vale que discorria sob o lugar no qual ela fazia guarda, seus homens e os cães destes perseguiam uma pequena manada de cervos vermelhos. Alainna havia subido um pouco mais alto para montar guarda enquanto os homens e os cães conduziam os cervos pelo vale em forma de gargalo. Os cães ladravam lhes pisando os calcanhares, correndo junto a um arroio de rápidas águas, estreitando cada vez mais o cerco. Giric, Lorne e Lulach viraram para jogar uma rede pela entrada que estava circundava as colinas cobertas de gelo.

Agora, o clã Laren não passaria fome, pensou Alainna com alívio. Os cervos eram bastante grandes para poder separar dele uns quantos veados e fêmeas e permitir aos caçadores perdoar à maioria das peças, além das mães e os cervos. As incursões dos MacNechtan tinham deixado seu clã com poucas cabeças de gado e ovelhas que sacrificar para o inverno. A carne de veado, salgada e guardada na despensa, ajudaria a alimentar a sua gente nos meses que viriam.

Sustentando o arco, com umas quantas flechas metidas no cinturão, procurou cervos que escaparam e também possíveis inimigos que pudessem se aproximar. Com os poucos homens que ficaram no clã, frequentemente ela oferecia outro par de mãos e de olhos durante as caçadas. Enquanto os cães abatiam os cervos com suas poderosas mandíbulas e seus homens continuavam a caça, ela montava guarda.

A fina casca de neve rangia sob suas botas e o vento varria a colina. Alainna se alegrava de ter colocado roupas de homem nesse dia; o versátil tartam ao redor do corpo, as várias camisas e as meias de lã que levava debaixo lhe davam calor e a protegiam do intenso frio. Soltou o comprido passador que segurava o tartam sobre seu ombro esquerdo e envolveu com ele a cabeça para se resguardar do vento.

À suas costas soou de novo aquele retumbar, esta vez mais forte. Voltou os olhos para o topo da colina. O sol poente tingia o céu de brandas nuvens cor rosa. Ela elevou uma mão para proteger os olhos da forte luz. Então lançou uma exclamação de assombro.

No cume da colina apareceu um grupo de homens a cavalo, como um exército de anjos resplandecentes, com as capas ondulando e os escudos reluzentes ao sol. Ao chegar ao topo, quem os conduzia se deteve para lhes fazer um sinal, e então se detiveram todos.

Inclusive de longe, Alainna viu que montavam cavalos altos e de boa raça, levavam boas armas e escudos estendidos, e vestiam cotas de qualidade e capas forradas de pele. Poucos cavaleiros das Terras Baixas e ainda menos cavaleiros das Highlands poderiam se permitir semelhantes cavalos e trajes.

Normandos. O coração começou a pulsar com força. Levava semanas temendo que chegassem. Os normandos raras vezes entravam nas Highlands exceto em missão da Coroa, e ainda que muitos deles tivessem propriedades nas Terras Baixas, até o momento nenhum possuía terras ao norte.

Subiu até o alto. O rei deve ter os enviado a Kinlochan. Se o rei havia tomado aquela decisão, sua terra, seu futuro e o bem-estar de seu clã estavam agora pendentes por um fio.

Dois cavaleiros se separaram do resto e cavalgaram em direção a ela, ambos com capa e capuz em cima da cota de malha, o cavaleiro montando um cavalo cinza pintado e o outro a lombos de um formoso corcel de intensa cor creme. Gostaria de saber se o bretão, Sir Sebastien, seria um deles, mas não podia lhes ver seus rostos.

Os furiosos latidos dos cães fizeram com que voltasse a atenção ao vale. Os cervos, sensíveis aos novos sons e movimentos, dispersaram-se e alguns deles saltaram da rede. Alainna gritou consternada ao ver que os animais, acossados durante horas, perdiam-se tão facilmente. Percebeu que seus homens, que tentavam encurralá-los de novo, ainda não tinham reparado nos cavaleiros que estavam na colina. Soltando faíscas de fúria, dirigiu-se a grandes passos até eles, sem preocupar-se com quem fossem. Aqueles cervos eram essenciais para o bem-estar de seu clã. Plantou-se diante dos cavaleiros, com um punho no quadril e a outra mão ocupada com o arco em posição vertical.

-Vão embora! - Gritou. – Estão espantando nossa caça! - Falou em gaélico sem pensar, e então percebeu que os cavaleiros poderiam falar inglês ou francês. Se entre eles se encontrasse Sebastien Le Bret, poderia ser o tradutor, pensou zangada.

-Calma, rapaz! Que tenha um bom dia! - O cavaleiro do corcel pintado saudou com a mão e se puxou para trás da capa o capuz.

Era um homem corpulento de feições abertas e agradáveis, rosto avermelhado pelo frio e cabelo da cor do bronze. – Diga-nos para onde está Kinlochan! - Tal como Alainna esperava, falou em inglês.

O coração lhe pulsou com força.

-Vá embora! - Gritou outra vez em gaélico, agitando o braço. Tinha visto aquele homem semanas atrás, fazia parte do guarda do rei ao lado de Sebastien Le Bret. Olhou para o outro cavaleiro.

Então o reconheceu, inclusive com o capuz; reconheceu a amplitude de seus ombros, suas pernas longas e fortes dentro da cota de malha. Percorreu-a um leve tremor, nem de frio nem de medo, a não ser provocado pela lembrança daqueles olhos cinza e tranquilos e aqueles fortes braços que a tinham sustentado no interior d igreja.

Sebastien Le Bret deixou cair o capuz de sua capa forrada de pele, que levava em cima da sobreveste verde que Alainna se lembrava que usava na primeira vez que o viu. A cota de malha emoldurava um rosto cujas formas e os olhos cinza aço lhe resultavam familiares. Olhava-a com o cenho franzido.

-Conhecemo-nos? - Perguntou em gaélico.

Devolveu-lhe o mesmo gesto, com o coração ainda acelerado.

-Vá embora. - Disse, apontando na direção de onde tinham vindo.

-O moço fala somente a língua nativa, Bastien. - Disse o outro cavaleiro. - E pelo visto o estamos incomodando.

-Perturbamos a caça. Olhe lá em baixo, no vale.

-Ah. Estavam encurralando aos cervos. Ouvi dizer que os montanheses usam esse bárbaro método para caçar.

-Quando os homens têm fome, são práticos - Disse Sebastien, olhando fixamente para Alainna.

O olhar da jovem ficou preso no seu. Suspeitava que o cavaleiro a havia reconhecido... mas se os dois homens supunham que fosse um rapaz, aproveitaria-se daquele anonimato.

-Peça-lhe para nos dizer onde está o castelo. - Insistiu o outro.

-Hugo, temos que cavalgar mais a noroeste. Disseram-me que está situado junto a um estreito lago ao pé de uma montanha. Logo o encontraremos. Não é necessário interromper a caça. - Elevou as rédeas-. Desculpe-nos, rapaz.

-Este condenado vento está muito frio. - Queixou-se Hugo. - As colinas são mais vastas do que pensava. Devemos encontrar refúgio logo ou passarmos a noite em algum lugar. Como se diz castelo? Dün. - Disse torpemente, dirigindo-se para Alainna. - Kinlochan.

-Por aqui perto não há nenhum castelo. - Disse ela a Sebastien. - A fortaleza de Kinlochan se encontra a três léguas ao noroeste. O que lhes trazem aqui?

-Assuntos do rei. - Respondeu ele. - E Turroch, que pertence ao clã Nechtan? Onde fica está propriedade?

-Turroch! Por que querem saber?

-Assuntos do rei, também. Em que direção está?

Alainna olhou com rosto de poucos amigos.

-A fortaleza de Cormac MacNechtan. - Disse em preciso e fluente inglês. - Está a cinco léguas ao oeste daqui. Se forem bem recebidos nela, certamente não o serão em Kinlochan. Sigam seu caminho.

-Seu inglês é surpreendentemente bom para ser um selvagem das Highlands. - Disse o bretão com ênfase.

O brilho de seus olhos disse a Alainna que já a havia reconhecido. Elevou uma mão para puxar para trás o tartam que lhe ocultava o cabelo e o olhou abertamente.

-Como eu disse. - Disse Sebastien. - Saudações, Lady Alainna.

-A dama das Highlands, pelos céus! - Grasnou Hugo.

-Estava-me perguntando se não teria um irmão com seus mesmos olhos, mas se trata da demoiselle em pessoa. - Sebastien inclinou a cabeça.

-Assim é. - Respondeu ela. Então ouviu um grito e voltou os olhos para o vale. Seus homens estavam subindo a costa, com a lança na mão.

-Esses selvagens estão de humor para atacar. - Disse Hugo. - Lanças com ponta de ferro e uns quantos bárbaros de pernas nuas não são rivais para homens armados e a cavalo. Quer que chame os outros, Bastien?

     -Uns quantos bárbaros com lanças podem vencer a cavaleiros armados. - Disse Sebastien. – Retorne e diga aos outros que não façam nada. Não queremos ter problemas aqui. - Hugo cravou os calcanhares e se afastou em direção ao resto do grupo.

-Vá com ele. - Disse Alainna a Sebastien. Mas este não se moveu, mas sim continuou olhando-a fixamente, com as mãos relaxadas sobre a sela. Ao fim de um momento, ela levantou a mão para indicar a seus homens que aguardassem. Eles se detiveram com cautela e ficaram na colina, com as lanças apontadas.

-Não penso ir. - Disse Sebastien. - Fiz uma viagem muito longa para falar com você.

-A última vez que nos falamos, tinha a intenção de abandonar a Escócia.

-E o farei muito em breve. De momento, estou aqui em nome do rei.

-Qual é sua missão? - Perguntou Alainna, com o coração retumbando.

-O rei vos envia um paladino e um marido. - Respondeu ele.

Alainna franziu o sobrecenho com cautela, insegura de se o bretão se referia a si mesmo ou a um dos outros cavaleiros. Seu olhar se desviou um instante até ali, para voltar a posar-se nele.

-Qual de vós é esse? E por que têm ordens de ir a Turroch? - Esperava fervorosamente que o rei não tivesse escolhido depois de tudo a Cormac MacNechtan.

-Meus camaradas e eu queremos conversar em outro lugar onde faça menos frio. Acredito que nas Highlands existe o costume da hospitalidade.

-Vá procurá-la em Turroch. - Espetou-lhe ela. - Nas Highlands existe outro costume: os amigos de meus inimigos são inimigos meus.

-Então, os amigos de seus amigos são também os seus, suponho.

-Entre nós não há amigos comuns.

-O rei é seu amigo, minha senhora, e meu também. Foi ele quem me enviou aqui a lhes oferecer uma solução, tal como você solicitou.

-Eu não solicitei nenhuma interferência dos normandos.

Seus olhos, de um cinza invernal, percorreram-na da cabeça aos pés. Alainna levantou o queixo sob aquele silencioso escrutínio. O vento gelado lhe açoitava as bochechas e as mechas de cabelo soltos flutuavam diante de seus olhos. Seu orgulho lhe impedia de afastar o olhar.

-Aplaque seu ardor, minha senhora, não pretendemos lhes causar dano algum. - Disse Sebastien. - É possível que a você este vento não incomode, mas a mim sim, e também a meus homens. Estamos cavalgando desde a alvorada. Irá oferecer-nos sua hospitalidade ou não?

Alainna suspirou.

-Está bem. - Por tradição, nunca se negava a hospitalidade a ninguém, nem sequer a um inimigo. E tampouco podia rechaçar a um mensageiro enviado pelo rei. - Espere com seus companheiros. Vou falar com meus homens, e lhes conduziremos até Kinlochan. Agora que os cervos se foram. – Acrescentou. - Já não há razão alguma para que fiquemos aqui mais tempo.

Olhou além dele e contou pelo menos vinte cavaleiros. Sem veado, não estava segura de como a hospitalidade de Kinlochan iria dar de comer a tantos homens. Duvidava que os normandos gostassem de sopa mais do que gostavam do frio.

-Aguardaremos a dama. - Disse Sebastien com cortesia, mas seus olhos faiscavam como aço. Retomou as rédeas.

Quando o cavalo deu a volta, Alainna viu o escudo pintado de azul que estava pendurado ao lado da sela de montar, que até aquele momento estava parcialmente oculto de seus olhos. O escudo levava um singelo desenho de uma flecha branca sobre um fundo azul. Havia visto antes aquele desenho, em um sonho, portado por um misterioso guerreiro dourado. Santo Deus, disse a si mesma. Igual ao sonho, agora se via sozinha de pé no alto de uma colina coberta de neve recebendo a uns guerreiros, enquanto seus homens caçavam no vale. O guerreiro dourado de escura capa azul, com seu escudo e sua flecha pintada, estava ali também; o único que lhe faltava era a magia do mundo das fadas.

A respiração parou na garganta.

-Esperem! - Exclamou, correndo atrás dele.

Sebastien puxou das rédeas e se voltou.

-O que acontece?

-Seu... Seu escudo leva uma flecha sobre um fundo liso. Que significado tem?

-É por São Sebastián. - Respondeu ele. - Seu símbolo é uma flecha, e também serve para mim.

Por que teria sonhado com Sebastien Le Bret antes de conhecê-lo, e por que tinha encontrado uma flecha na grama, como se fosse um presságio? Não entendia o que significava tudo aquilo. O bretão não era o cavaleiro que necessitava seu clã.

-Sebastien. - repetiu. Por causa de seu nome de batismo? E seu sobrenome, Le Bret? Os símbolos que levavam os cavaleiros normandos em seus escudos e estandartes se referiam aos sobrenomes de suas famílias.

-Há muitos cavaleiros. - Repôs ele. - Da Bretanha. - Fez girar o cavalo e se afastou em um suave galope.

Alainna ficou olhando. O vento lhe açoitava o tartam e lhe revolvia o cabelo. O sol poente se refletia na grama coberta de neve e arrancava brilhos de bronze das armaduras dos guerreiros e da chefe, que o esperavam. Seu sonho se havia feito realidade.

O coração lhe pulsou com força. O guerreiro dourado existia, depois de tudo. Mas trazia consigo destruição, não salvação.

No vale, seus homens gritaram ao ver um cervo que cruzou seu caminho. Começaram a acossá-lo, seguindo os cães. Alainna ficou na colina e os contemplou, sumida no labirinto de seus pensamentos.

Mesmo que não olhasse, tinha viva consciência do cavaleiro bretão que aguardava com seus homens.

Quando os homens de seu clã retornaram depois de perder o cervo, o sol começava a projetar sombras azuis sobre as colinas. Alainna começou a descer da colina em direção a eles. Uma lebre branca cruzou o caminho e desapareceu atrás de um monte. Suspirou. O clã Laren nem sequer tinha uma lebre para cozinhar, com tantas bocas para alimentar naquela noite. Certamente, um dia afortunado se havia convertido em um dia ruim.

Outra lebre surgiu atrás da primeira. Alainna se deteve, perguntando-se o que as estaria fazendo sair de suas tocas no caminho. Então se voltou, e ficou congelada no lugar.

A poucos metros de onde ela se encontrava, surgiu um urso de entre um grupo de árvores. Seus olhos brilhavam, e sua comprida boca se abriu para se deixar ver umas presas amareladas e uma boca negra. De cor parda, feio e enorme, parecia agitado e movia a cabeça para cima e para baixo como se tivesse intenção de atacar.

Os cavalos na colina e os cães do vale devem ter o incomodado enquanto rondavam entre as árvores. Alainna sabia que os animais possuíam um temperamento incerto, de modo que avançou com cautela colina abaixo. O urso rugiu, bamboleou sua larga cabeça e se equilibrou sobre ela. Alainna começou a correr, tropeçando um pouco. Os ruídos que ouvia suas as suas costas lhe indicavam que o urso a seguia.

Sabia que os ursos eram animais rápidos, perigosos e temperamentais, e que sua vista era defeituosa exceto para o que tinham diretamente em seu caminho. Se corresse fazendo uma trajetória estranha e saísse de seu campo visual, e se conseguisse encontrar uma árvore para subir, estaria a salvo até que seus homens pudessem alcançá-la. Mas se a besta se aproximasse, fincaria-lhe suas potentes presas nos tornozelos, guiado por seu instinto de atacar os pés das presas para que não pudessem escapar.

Aquele horroroso pensamento lhe renovou as forças. Girou e ocorreu junto a mata sem fazer caso das agudas agulhas que lhe cravaram a pele através das meias de lã. Começou a mover-se em ziguezague, com a idéia de confundir ao urso. Olhou atrás, tropeçou de novo, esteve a ponto de cair, e se esqueceu do arco em sua pressa por levantar-se. O urso a perseguiu teimoso, pisando na grama. Alainna se lançou para frente, através da vegetação seca em direção a outro grupo de árvores.

Ouviu gritos a suas costas, latidos de cães e o retumbar de cascos de cavalos, mas não podia se permitir o luxo de olhar para trás mais vezes; os implacáveis rugidos do urso eram fortes e insistentes.

Então viu a sua frente uma árvore larga e pôs-se a correr até ela para agarrar-se a um galho baixo. Saltou ao refúgio que lhe oferecia a árvore, balançando-se sobre um grosso galho e olhou abaixo. Sem seu arco não tinha defesa, de modo que se aferrou desesperadamente à árvore. Segundos mais tarde a besta arremeteu contra o tronco, fazendo-a tremer em seu galho. Escorregou-lhe um pé a causa do impacto, e o urso lançou uma garra à bota que estava pendurada. Alainna afastou rapidamente a perna e subiu mais alto, tremendo de pavor. A besta investiu o tronco uma e outra vez, desafogando sua fúria.

Nisso, um movimento próximo chamou a atenção de Alainna. Levantou os olhos surpreendida, e viu que se aproximava um cavalo de cor clara montado por um cavaleiro de aço e anil. Um escudo azul com uma flecha desenhada nele resplandecia sobre a sela. Sebastien, com a lança em riste, conduzia seu cavalo a toda velocidade até a árvore onde se encontrava Alainna.

Com eficiência e rapidez, se virou de lado, levantou a lança e a jogou sobre o urso. A ponta se afundou no alvo e o animal desabou com um rugido ao pé da árvore, com a haste de madeira tremendo em suas carnes.

Alainna olhou para Sebastien, aturdida. A respiração lhe queimava a garganta e o coração lhe retumbava com força. Ao parecer não podia mover-se, nem pensar, tinha a mente embotada pelo pânico. Nem tampouco podia afastar a vista do cavaleiro. Este puxou as rédeas para frear seu cavalo. Os homens se reuniram atrás dele, tanto escoceses como normandos, mas Alainna via tão somente o cavaleiro que cavalgava aproximando-se da árvore. Ele fez girar seus arreios para poder inclinar-se até ela e lhe estendeu um braço, com o olhar fixo no seu.

Alainna, aferrada ao galho, aferrou-se também àquele olhar. Sentia-se como se estivesse se afogando e ele fosse sua única salvação. Tudo o que a rodeava desapareceu, tudo exceto aqueles olhos e aquela mão estendida.

-Alainna. - Disse ele com suavidade, movendo os dedos a modo de gesto. - A besta está morta. Desça da árvore.

Ela assentiu com rigidez, notando que se ia desvanecendo-se o pânico. Sentia-se como uma tonta. Rechaçou sua mão e se moveu ao longo do galho, mas se deteve insegura quando viu o urso morto.

-Alainna. - Disse Sebastien com voz firme. - Vem comigo.

Vem comigo. Aquelas palavras lhe lembraram o sonho, em que o guerreiro dourado lhe havia estendido a mão e pronunciado aquelas mesmas palavras... mesmo que ela não estivesse em cima de uma árvore, tremendo como uma menina aterrorizada. No sonho sabia que sua vida iria mudar, inclusive talvez terminar, quando aceitasse a mão que o cavaleiro lhe oferecia.

Titubeou. Sebastien se estirou e a segurou pelo a puxando. Alainna saltou à sela em um só movimento e lhe rodeou a cintura com os braços para não perder o equilíbrio. Ele fez o cavalo a avançar, e nesse momento apareceram os homens de Alainna.

-Alainna, pequena, está ferida? - Perguntou Lorne. Parecia mais velho pensou ela, com seu rosto cinza pela preocupação, o cabelo branco revolto e os ombros afundados. Mas seus penetrantes olhos azuis céu brilhavam de angustia.

-Estou bem. - Respondeu. Lorne lhe segurou a mão e agradeceu a Sebastien com um gesto de cabeça. Depois os deixou e foi ajoelhar-se contra ao urso morto.

Giric chegou até eles e agradeceu em gaélico a Sebastien. Enquanto falava sustentava a mão de Alainna, e esta lhe sorria. Alainna viu que Sebastien os olhava ligeiramente sério. Então retornou Lorne com a fêmea de javali que havia arrancado do animal, limpou-a com seu tartam e a devolveu a Sebastien, o qual a colocou em uma correia na sela.

-O clã Laren vos agradece, senhor cavaleiro. - Disse Lorne em inglês. - Matou um urso tão feroz como o que abateu o poderoso paladino Diarmuid em tempos passados. Salvou nossa amada menina. Estaremos sempre em dívida com você.

Alainna o olhou assombrada. Não a surpreendia ouvir frases formais de agradecimento dos lábios de Lorne, mas sim em inglês. Lorne rara vez utilizava a língua do sul, pois a considerava inferior ao gaélico. Aquela demonstração de respeito ia muito além de suas palavras de gratidão.

-Foi uma honra ajudar a demoiselle. - Respondeu Sebastien.

-Eu também lhe agradeço, senhor. - Disse Alainna, mesmo que sem querer declarar-se em dívida com ele para sempre, como havia feito Lorne. Passou a perna por cima do cavalo para descer.

Sebastien a segurou pelo braço e a ajudou a descer e sustentou seu pulso quando ela ficou de pé contra o cavalo. Inclusive através do grosso couro da luva, Alainna percebeu a reconfortante força de sua mão, antes de soltar-se.

-Espero que um pouco de carne de urso fresca ajude a compensar ter perdido os cervos. - Disse Sebastien.

-Compensará. - Respondeu ela, dando um passo para trás.

-Boa carne, e um bom paladino ao que agradecer. - Disse Lorne, sorridente. Você e seus homens são bem-vindos a compartilhar nossa comida em Kinlochan, naturalmente. Depois de tudo, matou o urso.

-Agradecemos sua generosidade. - Disse Sebastien. - Vários de meus homens lhes ajudarão a atar o animal. Minha senhora me alegro de que esteja a salvo. – Inclinou brevemente a cabeça e ato seguido guiou seu cavalo em direção a seus homens.

À salvo. Aquelas palavras ecoaram na mente de Alainna enquanto contemplava como o cavaleiro se dirigia para falar com seus camaradas. A salvo. Ele não podia imaginar o quão essencial era para ela a segurança. Nenhum paladino, mesmo que tivesse matado a um monstro a suas pés, poderia vencer o medo que a acossava diariamente, o medo de que seu clã desaparecesse para sempre.

Suspirou e ocorreu a mão pela cabeça com um gesto de cansaço. Lorne a rodeou com um braço e ela se apoiou agradecida em seu forte abraço. Enquanto os dois se afastavam andando, Alainna se perguntou se de verdade estariam todos a salvo agora que o rei havia enviado normandos a Kinlochan.

 

                       Capítulo 6

-Nós gostaríamos que um de nossos hóspedes narrasse um conto, agora que terminamos que jantar. - disse Lorne desde sua cadeira situada contra o fogo central. - Sebastien Le Bret, nos narrem uma historia de seu país, se lhe parecer bem.

Sebastien bebeu outro sorvo de sua taça de cerveja para ocultar sua surpresa. Os homens e mulheres do clã, a maioria dos quais pareciam tão anciões como Lorne, olhavam-no desde seus assentos ao redor do fogo. Seus próprios homens, acomodados em bancos ao longo de duas mesas de cavalete, observavam-no também fixamente.

Seu impulso foi negar-se, mas fez uma pausa. O fogo que ardia no círculo de pedras do centro da estadia despedia um resplendor avermelhado que se refletia nos rostos dos pressente que aguardavam, e o forte crepitar preenchia o silêncio.

Passou o olhar pelo lugar, uma grande sala que mostrava uma sólida construção e comodidades singelas. O grande salão de Kinlochan era uma estadia estendida e de vigas de madeiras robustas, com pilares de madeira que dividiam os corredores laterais em inter colunas que flanqueavam a zona central. A grossa capa de grama seca e limpa e de pétalas de flores que cobria o lugar acrescentava um aroma de limpo. Sobre os painéis de madeira dos muros estavam penduradas tapeçarias de lã tecidos com coloridos desenhos, assim como diversas armas e escudos com rebites de bronze.

Sentados em bancos e bancos estavam uma hoste de escoceses, cavaleiros normandos e os escudeiros que tinham acompanhado os homens do rei. Todos eles olhavam espectadores para Sebastien. Este clareou a garganta e bebeu uma vez mais de sua taça. Às vezes contava contos a seu filho na hora de dormir, mas não era nenhum bardo e não sentia desejo algum de exibir aquela incapacidade.

-O talento dos narradores escoceses é de conhecimento de todos. – Disse por fim. - Preferiria escutar um autêntico conto escocês narrado por um verdadeiro bardo.

-Nas Highlands é costume que um convidado narre um conto na primeira noite de sua visita. - disse Alainna em inglês, de pé junto à cadeira de seu tio avô. - Nós gostaríamos de ouvir algo que se conte junto às chaminés de seu país.

Sebastien a observou enquanto falava, distraído. O resplendor do fogo se refletia em todo seu corpo, destacando suas flexíveis curvas e fazendo brilhar suas longas tranças com brilhos de bronze. Desde o momento em que a reconheceu na colina coberta pela neve, havia sido consciente de que iria convertê-la em sua esposa por ordem do rei. Não importava que conflitos tivesse respeito daquele matrimônio, ela era um prezado presente para o leito de um homem. Seu próprio corpo reagiu ao vê-la e ouvir o quente timbre de sua voz.

Logo teria que lhe dizer por que havia ido a Kinlochan. Não estava desejoso precisamente de que chegasse o momento; estava seguro de que nenhum dos montanheses iria querer aquele matrimônio.

Tampouco ardia de desejos de explicar que partiria de Kinlochan o quanto antes possível. Os cavaleiros que tinham diferentes senhores aos que servir e várias propriedades que fiscalizar estavam acostumados a estarem separados de suas esposas e famílias durante meses e inclusive anos. Muito bem sabia ele, mas não tinha mais remedeio que fazê-lo de novo.

Percorreu com o olhar o arco íris de sorrisos, grandes e pequenos, radiantes e insípidos, abertos e tímidos. Seus homens também sorriam de orelha a orelha, como o desafiando a que aceitasse o pedido de Lorne, enquanto que os montanheses o olhavam ansiosos. Estava claro que não tinha outro remédio que aceitar.

-Aproximem-se do fogo.

Alainna se plantou diante dele. A barra de sua singela túnica cinza flutuava ao redor dos tornozelos. Por cima usava um manto azul e marrom, preso com um cinto, cuja parte superior lhe caía em dobras pelas costas. Suas tranças reluziam com um brilho sedoso. Sentiu o impulso de deslizar os dedos por aquela fascinante suavidade.

-Conte uma das histórias que contam as crianças na Bretanha. - Disse.

-Não me contaram tantas. Além das contidas nas Escrituras, claro. –Calou-se por um instante. - Mas posso recitar um dos contos bretões que os trovadores declamam na corte do duque da Bretanha.

-Isso servirá.

Alainna estendeu uma mão como se o contato fosse algo natural e comum entre eles. Seus dedos se fecharam sobre os dele, suaves, elegantes e pálidos. Um calor nasceu entre ambos, e algo ameno e quente surgiu de repente no interior de Sebastien, da virilha até o coração. Alainna puxou sua mão, e ele se pôs em pé.

Sentiu-se violento, preferia estar na periferia do grupo, onde pudesse observar e aprender. Gostava de ficar de costas à parede, guardando seus pensamentos para si e tendo a vantagem.

Alainna elevou os olhos para olhá-lo e lhe obsequiou um sorriso fascinante e fugaz. O coração pareceu parar. Os murmúrios, as rostos e o resplendor do fogo foram desvanecendo-se, e só ficou aquele sorriso, dirigido a ele.

Ao lado do fogo Lorne lhe assinalou um banquinho vazio.

-Rogo-lhes. - disse-lhe. - Sentem-se contra o fogo.

Sebastien soltou a mão de Alainna e pegou o assento. O fogo despedia muito calor, e se alegrou de usar somente uma túnica de sarja marrom, meias e botas. Havia tirado a pesada armadura, a sobreveste e a capa de inverno forrada de pele, assim como fizeram seus companheiros. Tinham deixado seus pertences em um canto do salão, onde tinham colocado alguns cobertores para que os utilizassem mais tarde.

Alguém lhe entregou uma taça cheia de cerveja até a borda, espumosa e ligeiramente florida em gosto e em aroma. Bebeu um gole e olhou as chamas. Na sala o silêncio a seu redor. Alainna se acomodou no chão, a seus pés, com as costas perto de seu joelho.

-Há muito tempo. - Começou em inglês para benefício dos normandos. - Havia um cavaleiro da Bretanha de nome Sir Landau, que estava de visita na corte do grande rei Artur. Sir Lanval saiu para cavalgar pelo bosque e se encontrou com umas belas moças vestidas de verde e adornadas com flores, que dançavam. Eram as criadas da Rainha das Fadas, a que deu um passo à frente, a mulher mais linda que o cavaleiro havia visto jamais. Pareceu-lhe um gesto para que a acompanhasse ao Outro Mundo...

Alainna, sentada a seus pés e lhe roçando o joelho com o ombro, ia traduzindo suas palavras para o gaélico. Enquanto falava, Sebastien contemplava o reflexo do fogo em sua brilhante cabeleira.

-Depois de casar-se com a rainha das fadas e retornar a seu mundo, Sir Lanval cometeu o engano de insultar à rainha Genebra dizendo que amava uma mulher que era mais bela que nenhuma rainha terrestre. Ela se ofendeu profundamente e pediu que o cavaleiro fosse julgado. Então se reuniu o tribunal ante o rei Artur.

Prosseguiu o conto, enquanto Alainna ia repetindo em tom alegre. Sebastien desejava que continuasse só para ouvir sua doce voz entrelaçada com a sua.

-E assim estava, aguardando o julgamento do rei, quando a fada a que amava, e a que acreditava ter perdido para sempre, apareceu no meio do tribunal, vestida de um verde deslumbrante, para falar a seu favor, pois o amava tanto como ele a amava a ela.

Quando terminou e Alainna traduziu o final, elevou o olhar até ele. O único que viu Sebastien foi seu sorriso, apesar das expressões de complacência que o rodeavam.

-É um narrador de contos, além de um paladino. - Disse Lorne. - E são bem-vindos em Kinlochan por ambos os talentos, naturalmente.

-Se conhecer mais contos como esse, deve ficar o tempo necessário para contá-los todos! - Exclamou sorridente um ancião que tinha uma só mão e a outra terminada em um coto cheio de cicatrizes.

-O cavaleiro e seus homens não vão ficar tanto tempo. - Disse Alainna. Levantou-se e ergueu as costas. - São portadores de uma mensagem, mesmo que ainda não nos dissessem do que se trata.

-Ainda não me perguntou. - Murmurou ele bastante baixo como para que só ela pudesse ouvi-lo.

Os olhos de Alainna resplandeceram de azul.

-Não lhes perguntei porque não desejava perturbar este agradável ambiente com más notícias do rei.

-A mensagem do rei tem que ser revelada a você em privado, segundo ordem dele. Não tenho a intenção de oferecê-la a seu clã, isso deverá fazer você. Quando desejarem ler a mensagem do rei, estarei disposto a lhes fazer feliz.

-Mais tarde. - Respondeu Alainna, afastando o olhar.

-Agradecemos por esse conto, Sebastien Le Bret. - Disse a anciã que estava sentada perto de Lorne. Sebastien lembrou que era Una, a esposa de Lorne. Havia ajudado a servir o jantar, percebeu que comeu pouco em seus esforços por certificar-se de que os outros estivessem satisfeitos. - Primeiro, comida e contos, Alainna. - Continuou dizendo Una. - Nas Highlands costumam oferecer hospitalidade antes de falar de assuntos de negócios.

Outra mulher, de grande ossos e belo rosto, com o cabelo escuro com fios chapeados de branco parecia de meia idade, aproximou-se dele e lhe entregou uma taça pequena.

-Sou Morag MacLaren. - Disse sorrindo. - Foi um conto muito agradável. Isto é uisge beatha, a água da vida. Uma bebida adequada para um bardo e um guerreiro.

Sebastien pegou a taça com umas palavras de agradecimento e bebeu, piscando de assombro. Aquela beberagem era potente. Havia provado uma bebida dinamarquesa parecida, chamada aqua vitae, e havia visto como derrotava homens mais acostumados ao vinho aguado e à cerveja. Bebeu outra vez, devagar, deixando que o ardor descesse brandamente pela garganta.

Levantou-se e inclinou a cabeça em direção a Lorne.

-Agradeço pelo privilégio de desfrutar de um assento em seu lar. Estou desejando ouvir uma narração dos lábios de um professor.

Retornou até seu lugar, mas o banco sobre o que se sentavam Hugo e Robert estavam ocupados. De modo que foi até outro lugar e se acomodou em um banco vazio, nas sombras.

Alguém entregou a Lorne uma pequena harpa, e o bardo começou a tocar uma melodia que enchia a sala com deliciosos sons. Sebastien ficou sentado em seu canto nas sombras e voltou a provar a uisge beatha. Gostou de seu sabor, sua ligeira doçura e seu efeito suave.

Alainna se levantou de seu lugar contra o fogo e cruzou a sala em direção a Sebastien para sentar-se a seu lado nas sombras a escutar a música. Enquanto Lorne tocava, Alainna olhou para Sebastien.

-Narrou um belo conto e fez algo formoso.

Ele se inclinou.

-O que eu fiz?

-Deixar livre seu assento ao terminar e ter cedido outra vez a Lorne o lugar quente contra ao fogo. Foi um gesto de cortesia, e lhe agradeço por isso.

-Ah - Disse ele em tom ligeiro. - Eu sou um homem cortês.

-Um cavaleiro virtuoso. - Assentiu ela com ironia.

Sebastien emitiu uma risada.

-Seu tio avô Lorne nos disse os nomes de sua gente quando entramos no salão. – Disse. - Mas devo confessar que não ouvi todos. Já sei que Giric é seu irmão adotivo, e também conheci Lorne e a sua esposa Una, seus tios avós. Quem são os outros? A mulher que me deu esta bebida, Morag MacLaren, é sua mãe?

-Minha mãe morreu quando eu era jovem. - Repôs Alainna. - Morag é a nora de Lorne e de Una, e é viúva desde que seu filho morreu em uma batalha contra o clã Nechtan. Vive conosco e ajuda Una a levar a casa. As duas se dão muito bem com tudo o que tem que ver com o fogo, a despensa, os quartos e o jardim. Eu não sou competente como elas, de modo que me afastei de seu caminho. -Sorriu. - Tenho outras tarefas em que me ocupar, e Una e Morag me deixam livre para atendê-las.

Continuando, com a elegância natural que Sebastien havia observado em seus gestos, assinalou Lorne o bardo. Sua voz era sonora mesmo quando falava em voz baixa com Giric.

-Lorne MacLaren é meu tio avô, o tio de meu pai. É um consumado narrador, um fili formado em uma escola das Highlands. Foi bardo de meu pai e de meu avô, seu irmão. Una é sua esposa. Sua gente é do clã Donald das Ilhas. Possivelmente tenha ouvido falar deles. O marido de Morag era o único filho que tinham.

-E outros? - Quis saber Sebastien.

Alainna se inclinou para ele para falar em voz baixa e ser ouvida por cima do estrondo de vozes. Sebastien, relaxado pelo feitiço da bebida, a companhia da moça, desfrutava daquela proximidade.

-O ancião que está sentado ao lado de Lorne é Niall o Maneta, um primo. -Explicou. - Perdeu a mão esquerda em uma batalha com o clã Nechtan há muitos anos. O homem do cabelo cinza escuro é Lulach, irmão de Lorne. O pai de ambos era meu avô e chefe de nosso clã antes de meu pai e de mim. Lorne, Lulach e eu somos descendentes do primeiro Laren de Kinlochan, um príncipe irlandês que se estabeleceu aqui há muito tempo.

Sebastien assentiu com um gesto. Apreciou o parecido em seus corpos altos, finos e de ossos fortes, em suas feições lisas e em seus queixos teimosos. Além disso, viu outro parecido mais sutil, que era comum em quase todos os montanheses que havia ali: uma veia de orgulho que compartilhavam todos, e que se revelava na postura, no olhar, na forma de falar.

-Essa mulher grande ali. - Prosseguiu Alainna. - È Beitris, a esposa de Lulach. Lulach e ela vieram passar o inverno conosco, igual a alguns mais. A outra mulher é a esposa de Niall, Mairi, que se tornou muito calada desde que o ano passado quando perdeu seus filhos varões, e cujas filhas são Isabel, Margaret e Giorsal, todas viúvas de homens que perdemos.

Sebastien assentiu compreensivo.

-E Giric MacGregor? - Perguntou, olhando o bonito montanhês de trança escura que ria com Niall por alguma brincadeira. - Que relação tem com você?

-Não é uma relação de sangue. - Disse Alainna. - Seu pai e o meu eram amigos, e ele se criou conosco. - Sorriu ao contemplá-lo, e Sebastien sentiu uma súbita pontada de ciúmes. Comparado com os anciões parentes, Alainna e Giric pareciam se destacar por sua juventude e sua beleza, como o senhor e a senhora da primavera no meio do inverno.

-E os outros? - Assinalou com um gesto da cabeça a vários homens e mulheres, todos mais velhos como os familiares mais próximos de Alainna. - Eles também são membros do clã Laren?

Alainna afirmou com a cabeça.

-São arrendatários de Kinlochan, e em sua maioria primos longínquos. Vieram aqui porque Giric e Niall lhes levaram a notícia da chegada dos normandos e lhes disseram que iríamos assar um urso grande e que eram bem-vindos.

-Os normandos também? - Perguntou Sebastien, arqueando uma sobrancelha.

Alainna riu. Gostou do som de sua risada.

-De momento. - Assentiu Alainna. Pelo urso que você proporcionou e o conto que narrou.

-Quem são os dois homens que estão apoiados contra a parede? - Quis saber. Um era baixo e grosso, o outro alto e fornido, com cabelo branco. Ambos usavam tartans sobre cima as camisas frouxas como os outros montanheses. Sebastien pensou que aquele vestuário parecia excepcionalmente cômodo, ainda que se perguntou se resultariam práticas frente ao vento e o frio.

-Primos. Donal, o do cabelo branco, supõe-se que tinha que vigiar as muralhas esta noite, mas entrou para jantar. O outro é Aenghus Manndach, Aenghus o Gago. Não fala muito. Cuida de nosso gado... ou cuidava, quando o tínhamos.

-Perdeu seu gado?

Alainna franziu o cenho.

-Os furtos do clã Nechtan não nos deixaram mais que duas vacas leiteiras e outras três que tivemos que sacrificar no dia de São Martín para guardar carne para o inverno. É possível que no clã Laren não tenhamos muitas bocas que alimentar, mas queremos que sejam bem alimentadas. Eu me preocupo com todos e cada um dos meus como certamente vocês fará com os seus.

-Uma lealdade compreensível. - Murmurou ele.

-Temos outra parente, uma mulher. Essa, que não está aqui. - Disse Alainna. Vive nas colinas e se nega a passar o inverno em Kinlochan, ainda que outros anciões vieram quando eu os convidei. Vamos com frequência ver se está bem e a convidamos cada vez, mas é muito teimosa e está triste, e se aferra a sua solidão. Seu marido morreu, e também seu filho. Seu marido se chamava Ruari Mor. - Fez uma pausa.

Sebastien a olhou fixamente.

-Ruari?

-Ruari MacWilliam. - Disse ela. - Era um homem valoroso, um grande guerreiro, alto e corpulento, por isso o chamavam Mor.

Sebastien entrecerrou os olhos.

-Quando morreu?

-Faz mais de um ano. - Alainna o olhou. - Ouviu falar dele? Sua fama como guerreiro se estendia, mas não acredito que as histórias que contavam dele chegassem a corte do rei.

-De certo modo. Parte do motivo pelo qual o rei nos enviou aqui foi para caçar a um homem chamado Ruari MacWilliam, um rebelde e proscrito.

-Proscrito! - Exclamou Alainna.

-Dizem que se foi ao exílio na Irlanda depois da derrota de seu clã rebelde, mas há rumores de que retornou às Highlands em busca de apoios à causa dos MacWilliam. Afirmam ter direito à coroa...

-Conheço qual é seu direito. - Disse Alainna. Sua linhagem se remonta aos reis pictos da Escócia. E Ruari Mor era um bom homem, não um proscrito!

-Entre sua gente talvez seja certo isso, mas é um foragido que servirá de exemplo se puser um pé na Escócia e for apanhado. Os rebeldes serão capturados e julgados, e talvez enforcados como traidores, se aventurarem a retornar da Irlanda.

-Rúan está morto, de maneira que há uma ordem do rei que não têm que cumprir. - disse Alainna com frieza.

-Há alguma prova de sua morte?

-Por acaso o coração partido de uma mulher não é suficiente prova? Seu tartam ensanguentado e sua espada quebrada foram devolvidos a sua viúva. Esse dia também morreu seu filho. Esa ainda guarda luto pelos dois. Essa é em parte a razão pela qual não quer sair das colinas. Ach Dhia, jamais verá tanta dor, aí têm a prova! Eu acredito que a cada dia deseja reunir-se com seu marido e seu filho na morte.

-Nesse caso, enviarei essa informação ao rei. - Disse Sebastien, franzindo o cenho. Perguntava-se como o rei podia ter essa informação a respeito daquele celta rebelde. Mas se alegrava com a notícia; sem um rebelde para capturar, poderia partir de Kinlochan e da Escócia muito antes.

-Lembra-se de todos os nomes de meus parentes? - Perguntou-lhe Alainna.

-Giric MacGregor, seu irmão adotivo. Lorne MacLaren o bardo, Uma sua esposa. Lulach seu irmão, com sua esposa Beitris. Morag, Isabel, Giorsal e Margaret, as viúvas. Niall o Maneta, Donal o guarda, Aenghus o Gago, e uma que não está aqui: Esa, a das colinas longínquas, viúva de um herói chamado Ruari Mór. E outros sete, arrendatários e primos cujos nomes não me disse.

Alainna assentiu.

-Aprende depressa. Possuem uma memória de bardo, parece.

Seus o olhos brilhavam.

-E outra mais. - Continuou Sebastien. A toiseach e Donzela de Kinlochan, que possui cabelos da cor do bronze novo e olhos da cor do mar da costa da Bretanha. - O coração lhe deu um suave tombo enquanto falava.

-Ach. - Um minúsculo sorriso roçou os lábios da jovem. - Estou pensando que, depois de tudo, sentar-se contra o fogo lhes converteu em um poeta, Sebastien Le Bret.

-Ou possivelmente tenha sido seu uisge beatha. - Replicou ele, enquanto tomava um gole.

-Pode ser. - Riu ela.

-Quantos mais há no clã Laren?

-Os velhos. - Respondeu Alainna. São todos minha gente.

Sebastien a olhou fixamente, seguro de ter entendido mau.

-Estes poucos? Não há entre eles nenhum menino nem nenhuma pessoa jovem?

-Nenhum. Passamos anos de guerra, enfermidade e carestia. Muitos morreram, e muitos se mudaram para viver em outras partes das Highlands, com outros parentes. Os velhos e eu somos o que sobraram do clã Laren.

Sebastien franziu o cenho.

-Agora contam com muitos homens a sua disposição, se os necessitarem.

Alainna o olhou.

-Diz o rei?

-Digo eu. - Respondeu ele.

Alainna se voltou para seu elegante perfil.

-Agora me diga os nomes de seus homens. Já conheço Robert de Kerec e Hugo de Valognes. Parecem ser bons seus amigos.

-Quase como se fossem irmãos, se eu tivesse algum. - Disse Sebastien.

-Quem são os outros? São todos bretões?

-Alguns são normandos ingleses, outros normandos franceses, outros escoceses das Terras Baixas. Etienne de Varre, Richard de Wicke, Walter de Coldstream, William FitzHugh... - Foi dizendo seus nomes e comentando algo de cada homem; alguns eram camaradas deles, outros ainda desconhecidos.

Enquanto falava, deu-se conta que os cavaleiros tinham travado conversas animadas com alguns dos montanheses, enquanto que Giric e Lorne, que falavam tanto gaélico como inglês, os ajudavam a entenderem-se entre si.

-Se só ficarem estes, seu clã perdeu muito nesta larga disputa. - Assinalou.

-Muito. Filhos, irmãos e pais foram mortos em combate, filhas falecidas pela enfermidade ou ao dar a luz, ou que tiveram que voltar a casar-se. Meninos mortos por enfermidades ou levados por suas mães em busca de uma vida melhor. - Alainna abaixou as vistas. - Eu perdi meus dois irmãos há dois anos, e meu pai faz seis meses.

Pelo ângulo da cabeça inclinada, Sebastien percebeu a vulnerabilidade que ela tentava ocultar, e experimentou um forte impulso de tocá-la no ombro para lhe oferecer consolo.

-Sinto muito. - Murmurou.

Ela olhou fixamente em direção ao fogo.

-Eu sou a última da linhagem do pai original do clã Laren, o pai da Donzela de Pedra.

-A Donzela de Pedra?

-Amanhã a conhecerá. Esta noite já houve muitas histórias tristes. - Sorriu com ar melancólico. - Quero lhe pedir que leia a carta do rei.

-Com gosto o farei, mas aqui não. Necessitamos um lugar mais privado.

-Lorne esta a ponto de começar uma história. Ninguém se dará conta se formos. – Ficou em e Sebastien fez o mesmo. - Ia pedir para ler a carta amanhã. - Disse olhando-o nas sombras. - Desejava ter uma noite mais de paz e uma noite mais como chefe de meu clã ante de que nos arrebatem nosso futuro.

Ele a olhou fixamente.

-O que a fez mudar de idéia?

-Seus olhos. - Respondeu Alainna. - Foi a doçura em seus olhos. Causou-me a impressão de que, depois de tudo, poderia suportar o que quer que diga a mensagem do rei esta noite. Vamos sair para conversar. - Dirigiu-lhe um sorriso triste e se voltou para a entrada, recolhendo um par de sapatos do chão ao sair.

Um enorme cão de caça de pêlo cinza azulado se levantou de um ponto próximo ao fogo e seguiu Alainna. Sua silueta contra a soleira, ela tocou a alta cabeça do cão e saiu ao exterior.

Sebastien admirou seus movimentos, que tinham a graça e a dignidade de uma rainha tirada de uma lenda. Depois pegou sua capa e a seguiu em silêncio através das sombras.

 

                   Capítulo 7

O frio ar da noite congelou a respiração de Alainna ao cruzar o pátio com Finan a seu lado, e jogou o tartam pela cabeça e os ombros para abrigar-se. Ao ouvir os passos do cavaleiro atrás dela, lançou um olhar fugaz para Sebastien Le Bret.

Este havia recolhido sua capa azul escuro ao sair do salão, e as dobras da capa ondulavam ao redor de suas pernas ao caminhar. De certo modo combinava com a escuridão, sua capa era da cor da noite, seu cabelo reluzia à luz das estrelas. Aquilo despertou a lembrança do estranho cavaleiro de seu sonho mágico e lhe provocou um estremecimento. Logo se apressou a continuar.

Foi até a cerca de estacas que circundava o pátio da fortaleza. Uma inclinação de terra rodeava o muro formando uma calçada redonda coberta de grama. Subiu por aquele caminho plano até as pontas agudas das estacas da cerca.

Finam permaneceu junto a ela, um ser simples e devoto, um amigo. Ela apoiou uma mão na cabeça do animal e olhou fazia para fora do muro. O lago resplandecia escuro e faiscante sob as montanhas nas sombras. Lá encima brilhava a lua, uma esbelta curva em um céu cor lavanda.

-Ainda não escureceu de tudo, mesmo sendo já tão tarde. - Disse Sebastien, reunindo-se com ela junto à cerca. Enquanto que Alainna tinha que elevar-se nas pontas dos pés para ver o amplo panorama, Sebastien simplesmente olhou.

-Esta luz durará horas, sem escurecer de tudo, sobre tudo na primavera e nos meses de verão.

-É uma vista tranquila.

-Mas não é uma terra tranquila. - Alainna se voltou para ele. - Veio nos ajudar a recuperar a paz? Ou trazer mais problemas?

-Estou aqui como seu paladino, não como conquistador.

-Não é o paladino que eu desejava.

-Eu sei. - Repôs ele em voz baixa. Introduziu uma mão na bolsa de couro que estava em seu cinto e extraiu um pergaminho dobrado que ofereceu a Alainna. - A carta do rei.

-Seja sua voz além de seu braço armado. Eu não sei ler.

-Então rompa o selo você mesma, porque o rei ordenou que entregasse isso somente a você.

Alainna pegou o documento e deslizou um dedo entre as duas fitas que prendiam o selo. Abriu-o e viu a escrita, indecifrável para ela. O devolveu a Sebastien.

-Entende o latim falado? - Perguntou-lhe ele.

-Sim. - Respondeu ela. - Leia. – Mesmo que contemplasse com atitude calma o lago e o céu, tinha as mãos fortemente unidas. Adivinhava o que o cavaleiro iria dizer, e temia ouvi-lo.

-«Guillermo, rei da Escócia pela graça de Deus» - Leu Sebastien em latim. - «envia suas saudações a Lady Alainna de Kinlochan.»

Seu latim era o de um monge, pensou Alainna enquanto ele lia, fluido e preciso, uma arte em si mesmo. Fechou os olhos e escutou. O bretão possuía a voz de um bardo, clara e profunda, tranquila, ainda que o que estava dizendo fosse profundo.

-«No relativo à herança de Kinlochan e do bem-estar de sua herdeira e seus subarrendatários» - Continuou ele. - «faz-se saber a todos os súditos que declaramos, como é nosso direito, que a propriedade de Kinlochan, a fortaleza e suas imediações, sejam entregue ao cuidado e serviço de Sir Sebastien Le Bret como barão e...»

Alainna conteve uma exclamação.

-Assim é você!

-Escute o resto. - Replicou ele com brutalidade.

-Então diga em palavras simples, em vez desse latim de igreja.

Sebastien lhe estendeu o documento.

-Muito bem. Talvez deseje examiná-lo mais tarde ou fazer com que alguém o examine por você.

-Nenhum de nós sabe ler, exceto o sacerdote. Prossiga.

Sebastien exalou um longo suspiro.

-«Alainna de Kinlochan será dada em matrimônio a Sir Sebastien Le Bret. “Será redigido um contrato nupcial entre ambos de conformidade com os desejos do rei tal como se estabelece neste documento.» - Fez uma pausa e a olhou.

-Matrimônio. - Repetiu Alainna brandamente.

-Assim é. - Respondeu ele. Alainna captou gentileza em seu tom de voz. Não importava se era amável ou cruel, disse a si mesma; ele não era o homem que necessitava seu clã. Ele era um normando. O rei não havia tido considerado a petição de seu clã.

Contemplou o lago com a cabeça alta e equilibrada. O coração lhe pulsava com força, os membros tremiam, os pensamentos corriam desbocados por sua mente. Tinham-lhe arrebatado a esperança e a promessa de um guerreiro celta que defendesse seu clã e continuasse sua estirpe.

-Disse que não desejavam vir às Highlands. - Disse em tom sem expressão. - Disse que esta terra não lhe interessava, nem tampouco uma esposa escocesa.

Sebastien a olhou fixamente.

-Nenhum dos dois pôde escolher neste caso.

-Você, sim.

-Eu estou obrigado pelo contrato que assinei como cavaleiro ao serviço do rei. E tenho uma dívida de gratidão com Guillermo da Escócia. Para pagar essa lealdade, aceitei esta responsabilidade e esta concessão.

-E esta esposa. - Soltou Alainna.

-E a você. – Concordou ele.

Ela inclinou a cabeça para baixo.

-Continue. O que mais contém esse escrito.

-Me ordenou que levantasse um castelo de pedra aqui.

-Um castelo! - Estalou Alainna. As mãos lhe tremiam de tal modo que teve que as entrelaçar.

-Podemos comentar os detalhes mais tarde, quando estiver mais calma.

-Estou tão calma como uma pedra. - Replicou ela, cortante. - Que mais declara o rei?

-Assuntos de menor importância como a medição da terra, arrendatários, que meu serviço como cavaleiro servirá de tributo de sucessão, e outros mais. E também me ordenaram que me reúna com Cormac MacNechtan para avaliar a lealdade desse homem à Coroa.

-Cormac é um ladrão, um mentiroso e um assassino. Leve essa mensagem ao rei.

-Devo verificar se compartilha da rebelião. Ao rei lhe preocupa esta disputa de sangue entre os dois clãs. MacNechtan apresentou uma solicitação ao rei com uma promessa de apoio e voto de lealdade se pudesse ter sua mão e sua propriedade. O rei Guillermo não confia em tal promessa, e eu tampouco.

-Por fim, uma questão em que podemos estar de acordo.

-Se ele está decidido a ser desleal, tem que ser detido pela força das armas. Isso será bom para a você, ao menos.

-Em efeito. - Respondeu Alainna. Finam cheirou sua mão, situado entre ela e o cavaleiro. - Me diga: Como pode o rei lhe conceder esta propriedade quando eu paguei o tributo de sucessão por ela? É que a cruz de pedra não foi suficiente? Ele a aceitou. Era o único que eu podia lhe dar, acreditava que a herança estava segura.

-Se o rei quisesse, poderia ter me concedido a terra sem necessidade de contrair matrimônio. - Disse Sebastien. - Ele respeita seu pagamento de tributo e por isso lhes proporciona um marido e um protetor, tal como você deseja.

-Isto não é o que desejo!

-Sua gente necessita um amparo que você não podem lhe dar. - Replicou o cavaleiro em tom tenso. - Não é assim?

Alainna desceu o olhar e afirmou com a cabeça.

-Sim.

-O rei é seu guardião, já que você é uma herdeira solteira. – Calou-se por uns instantes, e ela assentiu de novo, sabendo que o que o bretão dizia era verdade. - O rei possui a terra da Escócia, não as pessoas, independência da posição que elas ocupem e a divide conforme julga oportuno. Tradicionalmente, as posses se passam sem sair das famílias, mas neste caso o rei deve decidir quem cuidará melhor da herança.

-Em interesse da Coroa. - Emendou Alainna.

Sebastien inclinou a cabeça.

-Talvez. Mas tudo isto se está fazendo como tem que ser segundo a lei e o dever. Não há nada que você possa fazer, nem eu tampouco, a não ser obedecer.

Alainna fechou os olhos, afligida por tudo o que havia lhe dito. Aspirou profundamente, lutando para manter a postura e dominar seu gênio e seus medos.

-Temo que pacifique esta terra com os cavaleiros normandos e que joguem o clã Laren à intempérie. Ouvi dizer que isso é o que têm feito outros normandos. Sua fama não é melhor.

-Acredito que minha fama é impecável. - Disse Sebastien. - E não tenho a intenção de jogar ninguém à intempérie. - De novo aquele tom tranquilo. Se o bretão se mostrasse desagradável, se tivesse exibido seu cobiça, Alainna teria um motivo para zangar-se com ele. Desejava desesperadamente estar furiosa com ele, e com o rei... e sobre tudo consigo mesma por ter ido ao rei a solicitar algo.

Reprimiu um soluço ao sentir que a invadia o desespero, rápido e fervente. Lutando contra as lágrimas, permaneceu imóvel e em silêncio. O cavaleiro a observava, com um ombro apoiado contra o muro e a capa ondeando ao vento.

-Confiava em que o rei ajudasse a um clã celta.

-Ele deve velar pelo bem-estar da Escócia acima de tudo. - Concisas palavras, mas não ditas com crueldade. – Tenho certeza de que sabia disso quando foi a ele em busca de ajuda.

Ela negou com a cabeça sem deixar de contemplar as montanhas.

-Pensava somente nos meus. - Disse. - Fui uma tola ao não pensar um pouco mais. Não sou uma boa chefe para eles se os deixo com este peso.

Por um instante teve a sensação de não poder respirar, como se o coração tivesse ficado muito grande para lhe caber no peito. Ficou quieta, com o rosto e as mãos geladas pelo vento. Várias mechas de seu cabelo se soltaram do tartam e flutuaram livres na brisa.

Na outra margem do lago, sob o céu de cor violeta, a Donzela de Pedra se erguia pálida e eterna, um monumento à força e à tragédia. A Donzela havia lhe dado esperanças e havia atuado como benfeitora para seu clã; agora tudo parecia estar finalmente, completamente perdido.

Finam se aproximou de sua mão, mas ela a afastou, pois não desejava tocar nem que a tocassem. Qualquer consolo podia fazer com que se desmoronasse, e precisava permanecer forte. Por dentro se sentia intumescida e fria, como se ela também fosse de granito, a chama de sua fúria aplacada pela tristeza.

-Lady Alainna. - Disse o cavaleiro, estendendo uma mão e tocando-a no ombro. - Sei que esta noticia não é agradável para você. Há outros assuntos sobre os quais quero falar, mas...

Alainna se afastou daquele quente contato.

-Neste momento não posso continuar escutando. - Disse. Se lhe falasse com aquela grave, voz de bardo, se a tocasse... Deus do céu, se a tocasse, partir-se-ia em dois como uma rocha defeituosa.

Contendo o pranto, deixou Sebastien para trás e se apressou para descer a inclinação de terra seguida pelo cão. Precisava ir aonde pudesse estar sozinha, onde pudesse encontrar distração. Ao chegar às portas aguardou impaciente a que Donal, que havia retornado a abrisse depois de lhe haver dito que queria fazer uma visita à Donzela para lhe solicitar uma bênção especial, e que prometia voltar em seguida.

Donal deslizou a pesada viga por seus suportes de ferro. Alainna atravessou as portas com Finam a seu lado e pegou o caminho que rodeava o lago e levava até a Donzela de Pedra.

 

Sebastien suspirou, contemplando-a. A moça não devia vagar pelas colinas de noite e sem escolta, seria uma presa fácil para os lobos e os MacNechtan. Pôs-se a andar, assombrado por seu parente mais velho a deixar partir. Tocou com a mão o punho da adaga que levava no cinto e decidiu que aquela arma teria que bastar para afastar possíveis problemas com os quais pudesse tropeçar-se. Ato seguido se encaminhou rapidamente para as portas, percorrendo com o olhar o pátio iluminado pela luz das estrelas quando passou.

O pátio era espaçoso, sua forma circular estava definido pela cerca de madeira e seu centro dominado por uma alta torre de madeira. Baixas construções se apinhavam contra o rosto interior do muro; abrigos, estábulos, cozinha e cervejaria, e também um ou dois edifícios cuja função não soube identificar. Tão somente o da cozinha, construído de pedra enquanto os outros eram de madeira ou de tijolo cru, resplandecia pelo fogo aceso. Adiante da porta aberta cruzou a sombra de uma mulher ocupada em seus deveres. Em outro lugar mugia uma vaca em um curral no canto, e também se ouvia o ameno bufar dos cavalos no estábulo.

A torre se erguia por cima de tudo, com seus três andares de altura, apoiada em robustos postes de madeira. Umas quantas janelas estreitas abertas nas paredes de madeira piscavam como adormecidos olhos dourados. Música e risadas saíam do segundo andar, onde se encontrava o salão. Quase todos que estavam naquele momento em Kinlochan se encontravam ali dentro, fosse no salão principal situado em cima das despensas ou nos dormitórios do terceiro e último andar.

-Que buscas, normando? - Perguntou-lhe o guarda da porta.

-Proteger ao chefe de seu clã. - Respondeu ele diretamente. - Quer segui-la você mesmo, ou prefere que o eu faça?

-Você tem as pernas mais longas que eu. Vá, então. Gritarei para avisar se aproximarem alguns demônios. Mas a Donzela de Pedra protege a nossa Donzela de Kinlochan.

Sebastien lhe dirigiu um olhar confuso por aquela estranha afirmação e saiu pelas portas. O ar de fora estava frio e fresco, e um pouco úmido por causa do lago. No céu, a noite estava ficando de cor anil.

Entreabriu os olhos e esquadrinhou a paisagem em busca de uma sombra efêmera ou do latido do cão. Então divisou a jovem e seu cão correndo entre a alta grama, já na outra margem do lago. Começou a descer com cautela pela inclinação rochosa, abrindo-se passo nas sombras através de uma paisagem que lhe era desconhecida. Uma vez que esteve já pisando na grama, pôs-se a andar com passos longos e seguros.

Alainna corria em direção à alta pedra que se erguia até o céu à beira do lago, e então desapareceu atrás dela. Sebastien diminuiu a marcha. Se a jovem necessitava tempo para si mesma, ele não queria incomodá-la; mas não pensava deixá-la ali só, com um cão ou sem ele. Não pôde ficar discretamente para trás, pois o cão ladrou e correu até ofegando amigavelmente, posto que já o conhecesse. Cheirou-o e logo colocou sua enorme cabeça sob a mão que o cavaleiro lhe estendia.

-Calma, fera. - Murmurou Sebastien em tom carinhoso. - Está muito disposto a defender a sua senhora, eh? Eu não vou fazer lhe mau, mesmo que ela acredite que sim. Bom menino. - Continuou caminhando, com o cão trotando a seu lado.

Ao aproximar-se, viu que a pedra se erguia enorme, um alto pilar de granito semelhante a um tranquilo gigante que olhava o lago. Foi levantando os olhos ao caminhar. Inclusive na escuridão apreciou os elegantes relevos das superfícies anteriores e posteriores.

Alainna saiu da sombra da pedra como se fosse uma aparição. O cão correu para ela, rodeou-a em círculo e depois voltou até Sebastien, cobrindo a distância cada vez menor que separava a ambos, uma e outra vez.

-Finam - Chamou Alainna. - Vêm aqui. O cão voltou a rodeá-la e de novo retornou com Sebastien. - Finam!

Sebastien estendeu uma mão para lhe coçar a cabeça. Finam lambeu a mão e correu outra vez até sua proprietária, aceitou uma carícia dela e retornou de novo, movendo a rabo sem parar.

Alainna foi até eles.

-Não o entendo. - Disse-. Trata-o como se fossem um de meus parentes, mesmo quando apenas lhe conhece. Finam, vêem aqui!

O cão a obedeceu, com a língua pendurada retornou junto a Sebastien para que este lhe coçasse outra vez a cabeça.

-Quando meus homens e eu chegamos a Kinlochan, grunhiu bastante. - Disse Sebastien. - Agora já parece estar acostumado a minha presença.

-Cormac MacNechtan o viu muitas vezes, mas cada vez que se apresenta atua com ele como se fosse o diabo.

-Ah, seu Finam é um bom juiz de homens, então.

-Nem sempre. - Observou Alainna. - Defenderia-me até a morte se fosse necessário, mas a maior parte do tempo parece ter muito pouca inteligência. Finam Mor, venha aqui!

Sebastien incentivou ao cão para que voltasse com sua proprietária.

-Está confuso. – Disse. - Pergunta-se por que anda vagando na escuridão quando poderia estar lá dentro. - Inclinou-se quando o cão retornou com ele e lhe esfregou a cabeça. - Junto a um bom fogo, dormindo enquanto os seres humanos escutam contos, eh, moço? Vamos, vá com sua dona.

Alainna lhe acariciou a cabeça. Sebastien se aproximou um pouco mais.

-Esse cão gosta de você com verdadeira devoção. - Disse em tom macio. - Não há mais que ver como a olha, tão ávido para satisfazê-la. Fará o que você quiser. É um dom inspirar uma devoção assim em uma criatura.

-Ach, não tem nenhum mistério. Uma carícia na cabeça o deixa atordoado. -Acariciou a cabeça do cão e voltou o olhar para Sebastien. - Agora está entre as poucas pessoas que conhece o secreto de Finam.

Ele inclinou a cabeça.

-Que segredo?

-Finam Mór é mais que um feroz cão de caça. - Disse Alainna. As bajulações o deixam louco.

-Ah. - Sebastien começou a rir. Alainna sorriu, e seu coração parou de repente. - As criaturas mais ferozes podem converter-se em anjinhos pela mão de uma dama assim. - Murmurou.

Ela se voltou sem responder e se aproximou do pilar de pedra. Finam saiu de seu lado, e logo retornou junto a Sebastien. Este contemplou a pedra examinando-a das sombras. Era quase duas vezes mais alta que ele e duplamente larga, e estava coberta na frente e por trás com desenhos em relevo de estranha beleza.

-Na Bretanha também temos pedras verticais. - Disse. - Em campos como este, ou junto a um rio. Há milhares delas, velhas como as montanhas. Algumas são imensas, e outras têm símbolos gravados, e algumas outras estão associadas com histórias de sacrifícios, magia ou milagres.

Alainna não disse nada, mas ele notou que escutava atentamente.

-Colocaram-nas ali os antigos bretões. – Disse Sebastien. - Era um povoado celta. Nossa língua não se diferencia muito da sua.

-É descendente de uma linhagem celta? - Perguntou Alainna.

Ele encolheu os ombros.

-Poderia ser. Fale-me desta pedra.

Ela apoiou a palma da mão no granito.

-Esta é nossa Donzela de Pedra, que está a gerações vigiando o clã Laren. A Donzela era filha do clã Laren, Há muito tempo. - Correu a mão pela pedra como se consolasse a uma amiga. - Mas alguns dizem que sua magia já se acabou. É possível que esteja... cansada. Está há muito tempo presa no interior de esta pedra.

Sebastien a contemplou enquanto coçava distraidamente a cabeça do cão.

-Eu gostaria de conhecer sua história.

-Talvez lhe conte algum dia. Se ainda estiver aqui.

-Estarei aqui ainda durante um tempo, pelo menos. – Calou-se uns instantes para ouvir um grito leve e fantasmal, quase humano, que se elevou na escuridão para desvanecer-se depois. Um som que fez com que um calafrio lhe percorresse as costas. - O que foi isso?

-Um gato selvagem. - Respondeu Alainna. - De noite andam por aqui, sobre tudo nas colinas. Igual aos lobos. E os ursos, como já sabemos.

-No inverno esses animais têm mais fome e soam ainda mais ferozes. Será melhor que nunca ande por aqui sozinha, minha senhora.

-Aqui estou protegida pela Donzela. - Repôs Alainna com simplicidade, colocando uma mão sobre a pedra. - Venho a este lugar frequentemente para trazer oferendas em nome de meu clã, e nunca me aconteceu nada.

-Admiro sua fé na tradição, mas um pouco de precaução de sua parte me deixaria mais tranquilo.

-Por que deveria me incomodar eu em lhe tranquilizar? - Espetou-lhe ela.

-Será minha esposa. - Assinalou ele. - Lady Alainna, sei que as notícias que lhes trouxe não são fáceis de agüentar. As ordens do rei tampouco me agradaram.

Alainna não disse nada, sua silhueta estava recortada contra a escuridão, junto à pedra.

-Já lhes disse em Dunfermline que meus planos eram outros, e o continuam sendo. Devo retornar a Bretanha para atender... certos assuntos de importância. Assuntos pessoais.

Alainna assentiu de novo, silenciosa. Sebastien franziu o cenho; a paixão que parecia tão intensa havia diminuído. Não queria ser o responsável por subjugar seu espírito, mas temia que assim fosse.

O cão a cheirou e se sentou, olhando-a fixamente com pura devoção. Ela se inclinou e lhe tocou a cabeça, e sua ondulada cabeleira se assemelhou a uma brilhante capa.

-E o que é o que quer, se não deseja se casar com uma escocesa para obter terras na Escócia? - Quis saber.

-Sempre foi minha intenção me estabelecer na Bretanha ao finalizar meus serviços como cavaleiro. Tenho ali... fortes vínculos. Quanto mais tempo estiver na Escócia, a maiores perdas me arrisco a ter na Bretanha.

-Então vai embora. - Disse ela simplesmente.

-Dei minha palavra ao rei. Esta situação também beneficiará a você; necessita nosso amparo.

-Eu não necessito o amparo de ninguém.

-Seu clã, sim. - Lembrou-lhe Sebastien. - E acredito que faria qualquer coisa por seu clã.

Ela levantou a cabeça.

-Assim é.

-Até se casar com um normando.

-Não me casarei com um normando se isso supuser algum dano para meu clã ou a perda de nossas terras.

-Eu não sou o paladino celta que queria, mas não dispõem de nenhum outro, por ordem do rei.

Alainna acariciou o cão e não disse nada.

-Minha senhora. - Disse Sebastien. - Os dois estamos presos nesta difícil situação. Se brigarmos ou nos negamos, o rei concederá esta terra a outra pessoa, e poderia ser que esse homem se sentisse inclinado a jogar os anciões à intempérie e maltratar você, enquanto que eu não vou fazer tal coisa. Ambos não temos outro remédio que aceitar e suportar a situação.

-Está pedindo que haja paz entre nós.

-Paz, ou uma trégua.

-Diga-me uma coisa, Sebastien Le Bret. – Gostava de como soava seu nome pronunciado por ela, como o sussurro do vento sobre a água. - Está disposto a adotar como seu o sobrenome de meu clã?

Ele calou-se um momento.

-Não posso fazer isso. - Só pensava dizer isso. O sobrenome e o lar eram direitos naturais no mundo dela. Como iria entender o muito que significava para ele aquele nome simples, que ele mesmo havia criado?

-Permitirá que nossos filhos levem o sobrenome de MacLaren em vez do Le Bret?

Sebastien suspirou, pensando em Conan e sem atrever-se a pensar em outros meninos que aguardassem no futuro nas sombras.

-Tampouco posso aceitar isso, minha senhora.

-Nesse caso. - Disse ela, Não temos um acordo. E não sei como poderá haver um matrimônio.

Afastou-se, deu meia volta e desapareceu na sombra da pedra. Finam a seguiu.

 

                     Capítulo 8

Sebastien rodeou a pedra esperando encontrar Alainna na escuridão, o que o obrigaria a correr atrás dela. Mas a viu de pé tão perto da sombra da pedra que esteve a ponto de chocar com ela.

-Escute-me. - Disse-lhe em tom firme. - Não sou seu inimigo, nem tampouco seu conquistador. Não tenho intenção de causar dano a sua gente. Mas agora estas terras são minhas por decreto do rei, e eu cumpro com minhas obrigações, quaisquer que sejam.

-E agora eu sou uma delas. - Murmurou Alainna.

-Assim é. - Concordou ele.

Alainna ficou em silêncio. Um movimento de sua cabeça revelou o brilho das lágrimas. Sebastien sabia o que significava para ela a mensagem do rei e a concessão que havia feito a ele. Sentia-se responsável por sua aflição.

-Antes me encerraria em um convento e cederia meus direitos herdados à Igreja do que entregar a um normando. - Disse Alainna ao fim de uns instantes. Mantinha-se tão firme como sua irmã de pedra.

-Isso pode der feito, se é o que deseja verdadeiramente. - Disse em tom áspero, sentindo que seu próprio gênio se inflamava, como se ela tivesse acrescentado lenha ao fogo que já ardia nele.

-Ou. - Disse Alainna- posso me negar a entregar Kinlochan e a mim mesma a como sua... propriedade.

-Poderia fazê-lo, mas ir contra as ordens do rei é traição.

-Nas Highlands há rebeldes celtas a quem a traição não importa o mínimo. Nem sequer reconhecem Guillermo como autêntico rei de Escócia, porque afirmam que não descende da antiga estirpe real. Posso ir a até eles e lhes rogar ajuda.

-Sabe onde encontrar esses celtas?

-Posso encontrar pessoas que talvez saibam.

-Tomem cuidado com o que me dize. - Disse Sebastien bruscamente. - Estou aqui para caçar rebeldes tanto como para cumprir outras coisas.

-Se os encontrasse, não lutariam contra os MacNechtan por nós, mas sim lutariam em nosso nome contra a Coroa.

-Alainna. - Disse ele. - Não seja estúpida.

-Eu nunca sou estúpida! - Voltou ela. - Você não me conhece.

-De certo modo. - Repôs Sebastien devagar. - Tenho a sensação de que sim.

Ela desviou rapidamente o olhar.

-O que quer dizer?

Sebastien se voltou para olhar para frente.

-Sei que é orgulhosa e teimosa. Sei o que faria o que fosse para salvar seu clã e sua herança.

-Isso qualquer um sabe. - Replicou Alainna. - Não o oculto.

-E também sei. - Continuou ele, inclinando-se. - Que não irá para um convento deixando abandonados os seus. E que tampouco se unirá aos rebeldes, porque isso não seria seguro para seu clã. E sei. - Inclinou-se mais ainda, baixando a voz até convertê-la em um murmúrio. - Que não só é orgulhosa, mas também apaixonada e leal. - Contemplou-a fixamente. - Brilha em você como uma luz.

Alainna manteve a cabeça alta e ficou em silêncio. Sebastien ouvia o suave sussurro de sua respiração. Deixou que seu olhar vagasse por sua elegante garganta até o nascimento dos seios e prosseguisse para baixo, pelo vestido.

Por Deus, que linda ela era. Seu orgulho e sua ferocidade supunham um desafio para um homem, no coração, mente e alma. Sempre tinha gostado dos desafios, de correr riscos.

Apoiou um ombro contra a rocha, envolto em sombras e olhou-a pensativo.

-Está assustada, no mais profundo de você. - Murmurou. Há algumas semanas vi orgulho e o medo em seus olhos, quando estavam na sala do trono. Agora vejo de novo.

-Não é verdade. –Dirigiu-lhe um fugaz olhar de vulnerabilidade.

-Sim é. Está aqui, neste queixo levantado. - Tocou-lhe brandamente o queixo. Tinha a pele sedosa e delicada.

Ela conteve a respiração enquanto Sebastien deslizava a mão até seu ombro, enquanto seus dedos lhe percorriam a coluna vertebral roçava-lhe a cintura e se afastavam por fim.

-E aqui, nestes ombros e estas costas retas. - Continuou. - Uma mulher capaz, orgulhosa, conforme me disse, que se preocupa profundamente, trabalha muito e nunca se queixa. - Alainna era magra e forte, suas firmes curvas eram tão evidentes sob o singelo vestido e o tartam que levava Sebastien a sentir arder seu próprio corpo, tentado pelo instinto.

Ela não protestou ao sentir seu contato, mesmo quando seus olhos se fecharam por um breve instante. Sebastien desceu a mão. Alainna o olhou, de lado e com cautela. O cão levantou a cabeça e observou a ambos com curiosidade.

Seu perfil era limpo e puro, seu silêncio eloquente. Não iria para cima dele enfurecida, pensou Sebastien; aquela tormenta inicial já havia passado. Mas estava seguro de que ela considerava a paz uma capitulação, e não iria cedê-la.

-Não conseguirá me convencer com agrados de que faça as pazes com você, para que suas tarefas aqui sejam mais fáceis... ou mais agradáveis. - Disse Alainna.

-Acredito que se parece muito a sua Donzela de Pedra. - Tocou o granito frio e liso. - È forte e orgulhosa. Mas também sozinha e desprotegida, mesmo que cuide de seu clã.

Ela inclinou a cabeça para ocultar o que pensava.

-E isso o que importa?

-Muito. - Respondeu Sebastien com suavidade. Não estava seguro do por que, mas sabia que certamente importava.

Ela sacudiu negativamente a cabeça.

-Já têm o que veio buscar na Escócia: terras em propriedade, um título, uma esposa... - Conteve a respiração.

-A dama solicitou um paladino. - Sebastien encolheu os ombros. - E veio eu.

-Assim veio aqui só devido a um virtuoso dever de cavaleiro.

-Você não me conhece. - Replicou ele. - Não sabem o que é o que me empurra.

-Conheço-o tanto como você a mim.

Sebastien a olhou, elevou uma sobrancelha em um gesto cético e aguardou.

Ela inclinou a cabeça para estudá-lo.

-Orgulho. - Disse. - Força. E segredos... Realmente, muitos segredos.

Sebastien se afastou da pedra.

-A maioria dos homens tem orgulho, força e segredos. E também muitas mulheres..., você também.

-Eu não tenho, nem de longe, tantos segredos como você. - Repôs Alainna. – Apenas guardo alguns.

-Mais do que quer admitir. - Murmurou ele.

Alainna franziu o cenho.

-Sei que protege a outras pessoas, essa é sua missão na vida. Mas acredito que também protege a você mesmo, com muito cuidado. - Apoiou uma mão em seu braço, que ele tinha cruzado, e o outro apoiou no peito. - Aqui esconde seu coração. - Estendeu a mão e lhe tocou o queixo, que ele havia fechado com força. - Aqui, o orgulho o esforço para guardar segredos. - Seus dedos, ligeiros como plumas, percorreram-lhe o lado esquerdo do rosto. - E aqui estão os segredos reais. - Correu-lhe um dedo pela cicatriz que cruzava o extremo da sobrancelha.

Aquele suave contato o estava derretendo. Afastou-se, com o corpo tenso e o coração pulsando com força. Alainna desceu a mão e se rompeu o vínculo, como uma ave que se propõem a voar.

-Orgulho, e também tristeza. - Disse-lhe. É uma alma solitária que procura seu lar.

Sebastien entrecerrou os olhos na escuridão e ficou em silêncio.

Alainna contemplou a coluna de pedra.

-Estou cansado, e sou um forasteiro. - Murmurou em gaélico. - Me conduz à terra dos anjos.

-O que é isso? - Perguntou-lhe Sebastien, intrigado e confuso.

-Um conjuro, uma invocação para pedir ajuda. É uma antiga prece gaélica. -Explicou Alainna.

 

Estou cansado, e sou forasteiro,

conduz-me à terra dos anjos,

Sede meus olhos na escuridão,

Sede meu escudo contra as hostes do outro mundo,

Sede minhas asas até que meu encontre lar.

 

-É belo. - Disse Sebastien, surpreso com aqueles comovedores versos.

-Temos muitos conjuros e preces. Eu estou acostumada a vir aqui e pronunciá-los na frente desta pedra e pedir amparo à alma que foi da donzela. Reverenciando-a como uma espécie da Santa daqui.

Sebastien assentiu com um gesto.

-Na Bretanha existe um lugar, perto do monastério onde eu me criei, onde há sete pedras que conforme se acredita são os espíritos de sete irmãos que se converteram todos em Santos.

Alainna inclinou a cabeça.

-Criou-se em um monastério?

-Até a idade de onze anos, logo me levaram para a Inglaterra e me converti em pajem, e com o tempo em cavaleiro. Parece surpreendida.

-Acreditava que tinha se convertido em cavaleiro por ser o filho de algum senhor francês. Então deve ser o mais jovem. Como é que não é religioso, já que seus pais lhes deram à Igreja?

-Era órfão. - Respondeu Sebastien mais bruscamente do que pretendia. - Os monges me acolheram.

-Não sabe quem foram seus pais?

Ele encolheu os ombros.

-Com o tempo me chegaram algumas notícias deles. Mas desde muito jovem busquei meu próprio lugar no mundo.

-Ah, isso é o que vi em seus olhos. - Disse Alainna com suavidade.

-O que? - Perguntou ele receoso.

-Têm o olhar de uma alma errante. Uma alma que busca um lar.

Sebastien a contemplou em silêncio, muito orgulhoso para afastar seu olhar do dela ou para falar em defesa própria. Fazer qualquer das duas coisas equivaleria a admitir que ela tinha razão, que sua alma sentia um desesperado desejo; mas aquela parte de si mesmo era essencial e bela, e não podia compartilhá-la com ninguém. Reconhecer isso seria demonstrar uma debilidade, uma ferida. Ninguém havia aprofundado tanto nela, com tanta facilidade.

Inclinou a cabeça.

-Acredito. - Disse marcando as palavras. - Que fui repreendido por minha atrevida afirmação de conhecer a dama.

-Foi sincero comigo, e eu com você. Acredito que nos parecemos em algumas coisas.

-Só no orgulho. Mas se nos entendermos, podemos declarar a paz entre nós.

-Talvez nos entendamos melhor que a maioria dos desconhecidos. - Repôs Alainna. - Mas seguimos sendo desconhecidos.

-Não por muito tempo, por ordem do rei.

Ela abriu a boca para replicar, mas de repente se virou e começou a andar em direção ao caminho que rodeava o lago e conduzia de volta a Kinlochan. O cão foi atrás dela dando saltos e correu na frente. Sebastien os observou partir, enquanto a escuridão se fazia mais intensa a seu redor. Levantou a vista para olhar a silhueta de pedra e correu os dedos pelas linhas gravadas na superfície fria e lisa.

-«Estou cansado, e sou forasteiro» - Murmurou. «conduz-me à terra dos anjos». - Aquelas frases o acompanharam todo o caminho de volta à fortaleza.

As portas de Kinlochan estavam abertas. Donal o saudou com um grunhido e uma inclinação de cabeça quando as cruzou. Mais adiante, Alainna e o cão atravessavam o pátio juntos com passos firmes.

Sebastien refletiu se deveria segui-la uma vez mais. Ela se dirigiu para uma das pequenas construções de madeira que se apoiavam no rosto interior do muro de amparo. Uma vez que entrou e fechou a porta, Sebastien a viu acender a luz de uma lamparina atrás do marco da pequena janela.

-Deixe-a em paz. - Disse uma voz. Sebastien se voltou e se encontrou com Una, a tia avó de Alainna, de pé a seu lado. Não a tinha ouvido chegar. - Precisa resolver a tristeza e a confusão que sente, e ali dentro pode fazê-lo.

-Que lugar é esse? Uma capela? - Falou em gaélico, como ela.

-É sua oficina. - Respondeu Una.

Sebastien franziu o cenho. Nenhuma mulher que ele conhecia tinha uma oficina, a não ser que se tratasse de uma padaria ou uma cervejaria, ou de um lugar onde se confeccionassem objetos de vestir.

-O trabalho servirá para liberar-se um pouco da angústia. - Murmurou Una, e a seguir o olhou. - Sebastien Bàn, o chamo assim por seu cabelo loiro. –Adicionou. - É um herói dourado para todos nós por ter salvado a nossa menina do urso, mas também possuem um lado escuro. É portador de uma mensagem que trouxe tristeza a nossa pequena.

-Uma mensagem do rei. - Disse ele.

-Alainna está como se lhe tivesse apagado uma vela do coração. E eu acredito que você foi quem a soprou.

Sebastien lançou um suspiro.

-Não foi minha intenção alterá-la. Não gostou da mensagem do rei.

-Nosso rei lhe deu estas terras e a Alainna para que a desposasse?

-Assim é.

-Ah. – Uma assentiu, uma e outra vez, e Sebastien se deu conta que a cabeça pequena e grisalha tremia ligeiramente. Por fim levantou o olhar até ele. - Tinha a esperança de que lhe tivesse enviado como paladino e acredito que respondeu a nossas orações. Mas quero que me faça uma promessa.

-O que pedir, minha senhora. - Disse Sebastien com um sorriso amável.

-Não rompa o coração de nossa pequena.

-Por minha honra, que não o farei. - Murmurou ele.

Una o olhou fixamente.

-A honra é uma coisa frágil, Sebastien Bàn - Disse-lhe, e partiu.

 

                     Capítulo 9

O pátio estava em silêncio sob a claridade chapeada da alvorada quando Sebastien o cruzou. Levantou a vista e viu Alainna apoiada contra a soleira de um edifício estendido e de teto de palha que estava construído contra a cerca, com Finam a seu lado. Percebeu que se tratava do mesmo edifício no qual havia entrado na noite anterior.

Estava encantadora à luz do amanhecer, a pele pálida, as tranças de cor avermelhada dourada, a singela túnica de um tom cinza claro. Perguntou-se por que estaria já levantada e fazendo coisas inclusive antes que rompesse o dia.

-Que o céu lhe guarde. - Murmurou a jovem em gaélico.

-E que lhe encha de benções. - Respondeu Sebastien ao aproximar-se. Finam agitou o rabo e levantou a cabeça até que ele se inclinou para lhe acariciar o pêlo e o focinho.

-É cedo. - Disse Alainna. Os outros estão ainda deitados.

Sebastien elevou os ombros.

-Eu estou acostumado a me levantar cedo. Eu gosto desta hora do dia. Havia pensado em dar um passeio para ver outra vez a sua Donzela de Pedra. Aquele é um lugar pacífico. - Falou em inglês, e ela assentiu.

-Muito pacífico, a menos que se aproximem por ali os MacNechtan.

-Sei cuidar de mim mesmo.

-Mas não pretende sair tão cedo, e sozinho.

-Ainda não. Faz muito tempo que tenho o costume de praticar com a espada a primeiras horas do dia. Acredito que isso é o que vou fazer esta manhã. Mais tarde, seu irmão adotivo aceitou sair a cavalgar comigo e com alguns de meus homens para dar uma olhada na propriedade. - Revolveu o pêlo e os ombros do cão. Finam grunhiu feliz. Sebastien olhou para Alainna. - Você também despertou cedo.

-Estou acostumada a começar o trabalho antes que outros comecem a rondar por aqui.

Ele a olhou com curiosidade.

-O trabalho?

-O trabalho com a pedra.

Sebastien piscou surpreso.

-Com a pedra? - Acreditava que lhe responderia cozinhar ou fazer pão, pois tinha as mãos cobertas com por um pó branco e alguns grãos.

-Escultura. Esta era a oficina de meu primo Malcolm. Agora é minha.

Intrigado, Sebastien olhou mais à frente do ombro da jovem.

--Posso vê-lo?

Alainna se afastou. Ele agachou a cabeça para passar e entrou. Tratava-se de um espaço estendido e de teto baixo, lotado de bancos e pedras. Por uma janela quadrada da parede frontal penetrava um pouco de luz, mas tinha as venezianas parcialmente fechadas para que não entrasse o frio. No centro havia um braseiro de ferro que criava um círculo de calor. Quando Alainna fechou a porta, Sebastien viu o fresco vapor que formava sua respiração na penumbra.

O chão estava coberto com uma grossa capa de lascas de pedra que rangiam sob suas botas ao andar. Nos bancos de trabalho se viam pedras de diversos tamanhos e cores, e as estantes das paredes estavam repletas de ferramentas, velas e outros objetos. Em uma mesa estendida que se apoiava contra a parede havia várias pedras planas e esculpidas. No ar parecia flutuar o aroma vagamente terrestre da pedra e também uma sensação de frescor.

Sebastien percebeu que as paredes caiadas estavam cobertas com desenhos, alguns feitos em tecidos presos com pregos, outros diretamente sobre as paredes. Em um canto mais afastado descansava uma grande laje de cor rosa a modo de tabuleiro de uma mesa apoiado em um robusto cavalete.

Finam se aproximou do braseiro e tombou sobre um grosso tapete que havia ali, com a enorme cabeça apoiada nas patas cruzadas, e contemplou os humanos com olhar lânguido antes de deixar-se levar pelo sono.

Sebastien se voltou.

-Tudo isto é seu trabalho?

-Sim. - Alainna foi até um banco que sustentava uma pedra colocada em um ângulo. Junto a ela havia ferramentas espalhadas que pareciam ter sido deixadas ali recentemente. Sobre uma mesa pequena se via um castiçal de ferro com duas velas acesas.

-Não me disse que era uma escultura de pedra, nem sequer na abadia, quando admirando a obra de seu primo.

-Não me perguntou.

Ele sorriu a meias e encolheu os ombros para admitir aquele raciocínio.

-Sabia que era uma imagier (ilustradora em francês), mas não me ocorreu pensar que fosse uma escultora de pedra. Não é uma ocupação habitual em uma mulher.

-Meu primo viajou para muitas cidades para fazer trabalhos com pedra. Disse-me que as mulheres frequentemente são artesãs e artistas junto com seus maridos e irmãos, que são ensinadas por eles e que trabalham a seu lado pintando, ilustrando livros e esculpindo. As mulheres não estão limitadas por sua natureza delicada a bordar, como acreditam alguns cavaleiros andantes.

-Eu não penso assim. E vi nas cidades mulheres artesãs e comerciantes. Aprendeu esta arte de seu primo?

Alainna afirmou com a cabeça.

-Malcolm passava vários meses por ano em Kinlochan com os seus, já que os trabalhadores das pedreiras trabalham pouco no inverno. Viajava muito, mas quando estava aqui trabalhava para as paróquias locais fazendo cruzes, faixas e lápides de cemitérios. Construiu esta oficina e costumava trabalhar aqui sempre que possível, exceto quando tinha que fazer algum trabalho no próprio lugar. –Encolheu os ombros. - Eu era rápida com os olhos e com a mão, e ele precisava de um ajudante, de modo que me ensinou o ofício. Mas eu não sou uma artista tão boa como ele foi.

Sebastien observou algumas das pedras.

-Eu acredito que possui destreza suficiente como a de qualquer professor de pedra, seja homem ou mulher. - Disse. - Estas obras revelam uma mão firme e delicada para o desenho e a técnica.

-Obrigada.

Sebastien passeou pelo lugar olhando as pedras esculpidas e as que estavam sem terminar, os cinzéis de ferro, os cetros de madeira, os instrumentos de medida e outras ferramentas que não conhecia. Pegou uma que parecia um pequeno atiçador de ferro e a sopesou.

-Isso é um cinzel, ou um furador. - Explicou Alainna. - Usa-se para cortar partes da pedra com ajuda do martelo.

Sebastien o deixou e sacudiu a cabeça um tanto divertido.

-Confesso que ainda estou assombrado de que uma mulher realize um trabalho como este.

Ela se aproximou.

-Não é difícil. As ferramentas requerem uma mão cuidadosa mais que a força bruta, e as pedras macias não resultam mais difíceis de trabalhar que a madeira.

-Entendo. - Olhou ao redor. - Como faz para mover as pedras? Algumas destas são blocos enormes.

-Não sou inválida. - Disse ela.

Sebastien arqueou uma sobrancelha.

-Não duvido.

-Pode-se mover uma pedra de qualquer tamanho com alavancas e paus de macarrão. Se uma é o bastante pequena para levantá-la, levantou-a eu mesma ou procurou alguém que me ajude. Sou mais forte do que pareço.

O olhar de Sebastien percorreu seu corpo com gesto apreciativo. Esta vez notou o porte reto e quadrado de seus ombros, o elegante equilíbrio de seu esbelto corpo, de suas mãos longas e ágeis, a firmeza de us braços sob o vestido. Não cabia duvida de que possuía certa força, e estava seguro de que a jovem era excelente em um trabalho que requeresse destreza. Sabia que possuía suficiente determinação para qualquer tarefa.

Passeou pela oficina, observando os trabalhos das pedras, enquanto Alainna o contemplava sem dizer nada. Deteve-se junto à mesa estendida. As pedras que estavam por cima variavam em tamanho desde pedaço de um pão até outras muito maiores. Todas estavam esculpidas em alto-relevos que revelavam a mesma mão firme, dotada para os detalhes.

-Este é um trabalho excelente. - Disse. As pedras menores tinham forma de cruz e tinham complexos desenhos lineares em relevo, ao estilo celta. Tocou uma delas. - Deu uma peça como esta ao rei Guillermo. De modo que se tratava de sua obra, mesmo que não o disse.

-Em efeito. Estou fazendo essas para nossa paróquia. O padre Padruig quer um jogo para as estações da Via Crucis.

Sebastien assentiu. Cravada na parede em frente a ele estava o tecido que usou na abadia, em que se viam uns quantos desenhos e a impressão da marca distintiva de seu primo. Também percebeu um pequeno desenho de um cavaleiro vestido com cota de malha, cuja espada se parecia muito a dele. Não fez nenhum comentário, nem Alainna tampouco, ainda que percebeu um ligeiro rubor nas bochechas da jovem quando examinou o desenho.

A maior parte das grandes pedras retangulares que havia colocado umas junto a outras em cima da mesa estavam cuidadosamente terminadas. Eram todas similares, cor cinza ameno, tinham um delicado brilho prateado, e também em seu tamanho e desenho: a longitude de um braço e metade da largura, cada uma com um palmo de profundidade; estava claro que formavam um conjunto.

-Que classe de pedra é esta? - Perguntou Sebastien, tocando uma delas. Notou-a fria sob os dedos.

-Pedra calcária cinza. - Respondeu Alainna. - Extrai-se um pouco ao sul daqui. Meu pai pediu que trouxessem estas faz um ano, e que fossem cortadas e formadas pela tocha dos trabalhadores da pedreira, quando eu lhe disse que queria fazer um conjunto de imagens em pedra. Há vinte blocos do mesmo tamanho, e terminei sete. Mas não acredito que vinte sejam suficientes para o que quero fazer.

-E o que é que quer fazer? - Examinou uma pedra já terminada e depois outra, movendo-se ao longo da mesa.

-Quero contar em imagens a história do clã Laren.

Sebastien a olhou, surpreso pela ambição da jovem. Logo observou as pedras mais de perto. Cada laje terminada tinha uma sianinha que mostrava ramos e nós entrelaçados que emolduravam as imagens do interior. Tinha visto desenhos traçados e entrelaçados parecidos com aqueles nos manuscritos e das igrejas escocesas. Os que havia feito Alainna eram muito detalhados, e possuíam elegância e ritmo.

Em conjunto, o estilo era de uma simplicidade de forma e desenho que se adaptava muito bem à pedra cinza. As imagens representavam figuras humanas, animais, aves, navios e armas. Havia cenas de homens em navios, homens caçando, uma mulher lutando contra um lobo, várias figuras a cavalo e uma cena de uma sereia sobre uma rocha.

-São muito belas. - Comentou.

Alainna se aproximou dele.

-Cada uma relata uma historia de meu clã. Esta mostra o primeiro Labhrainn que partiu dea Irlanda com seus irmãos e veio a Escócia. Apaixonou-se por uma sereia que vivia em um lago. - Assinalou a imagem da sereia na rocha, sustentando um espelho em uma mão e um pente na outra.

Sebastien afirmou com a cabeça.

-E isto? - Assinalou a cena da mulher que se enfrentava a um lobo. Segurava uma faca em uma mão, enquanto que no outro braço levava um menino envolto em mantas.

-Mairead a Valente, esposa de Niall, filho de Conall, que matou a um lobo para proteger a seu filho.

-Ah. Todas as mulheres de seu clã possuem grande valor.

-Fazemos o que temos que fazer para proteger os nossos.

Sebastien a olhou. Um rubor tingiu suas cremosas bochechas. A tinha muito perto, olhando as lajes com ele, tanto que seu ombro lhe roçava o braço. Voltou a cabeça para ela.

-Eu acho. – Murmurou. - Que Alainna, filha de Laren, herdou o valor de Mairead a Valente, esposa de Niall. Defende seu clã com toda a ferocidade de um guerreiro... ou de uma mãe. - Levantou a mão em um impulso de afastar as mechas soltas de cabelo que lhe tinham caído sobre a testa. - Que Deus ajude ao que se atrever a ameaçar seu clã.

Alainna o olhou diretamente aos olhos.

-Então, que Deus ajude a você.

Sebastien deixou escapar um suspiro.

-Fale-me das outras pedras. - Disse. Estava claro que Alainna não queria estabelecer uma trégua com ele. Teria que descobrir momentos de paz ou do contrário chocaria de frente com ela cada vez que estivessem juntos.

Alainna o agradou e lhe explicou sobre a pedra seguinte, e a seguinte. Ele estava fascinado pelas imagens e as histórias, e pela voz grave da jovem. Sua mão roçava a dela quando tocava uma pedra os duas, os dedos dele compridos e de nós salientes, os dela suaves, compridos.

Alainna fechou os dedos rapidamente, mas não antes que Sebastien advertisse que tinha calos e pequenos cortes que estavam se curando. Aquele gesto revelou uma tenra vulnerabilidade por debaixo da exibição exterior de força e orgulho.

-As pedras contam a história de meu clã ao longo de várias gerações, ou contarão quando as terminar.

-É afortunada por ter um legado tão rico.

-Todo mundo tem um legado.

-Não todo mundo. - Murmurou Sebastien, tocando a pedra com os dedos.

Ela não perguntou, nem ele tampouco disse nada.

-Temo que nossos relatos se percam para sempre. - Elevou o queixo. - Minha intenção é salvar nosso legado esculpindo-o nestas pedras.

Sebastien estava perplexo pela vontade e determinação que possuía Alainna. Tinha visto o orgulho em muitas de suas formas, mas nunca uma mistura de modo tão delicioso com uma intenção honrada.

-É uma narradora de historia, como Lorne.

Ela negou com a cabeça.

-Sou... uma guardiã. Uma conservadora. Lorne guarda centenas de contos que se remontam a um milhar de anos, perdidos nas névoas do tempo. Ele é um fio da larga corda de narradores que une as gerações com sua cultura celta, e é capaz de desenvolver essa magia uma e outra vez. Eu guardo as histórias de nosso clã. Quando estiverem gravadas em pedra, minha tarefa estará concluída.

-Outros poderiam narrar seu legado em uma crônica, ou em uma árvore genealógica.

-O pergaminho e a tinta se perdem ou se destroem com facilidade. Além disso, eu não sei ler nem escrever.

Sebastien apoiou um quadril na mesa e cruzou os braços sobre o peito, olhando a Alainna de frente.

-Isto é o trabalho de toda uma vida.

-Pois então, que assim seja. Narrarei as histórias as gravando em pedra mesmo que isso me custe a vida inteira. Pode que algum dia os de nosso sangue e nosso sobrenome desapareçam, e não quero que nosso legado se perca na memória nem tampouco quero que esteja escrito em pergaminho.

-A pedra durará para sempre.

-Assim é. Quando não ficar ninguém de nosso sangue que relate as histórias do clã Laren, estas pedras conterão nosso legado.

-Alainn. - Disse Sebastien. - Seu clã não morrerá.

-Vocês veio aqui para destruir algo que existiu durante gerações. Eu sou a última de meu sobrenome, por isso meus filhos devem levá-lo também.

Ele suspirou com gesto de impaciência e pegou Alainna pelo braço.

-Não vim aqui destruir nada. E não penso carregar a culpa de sua ira e sua pena.

Ela tentou escapar.

-Seja o que for que pretende, é muito possível que tenha por resultado o fim de meu clã.

-Escute-me. - Disse ele sem soltá-la. - Fique aqui. - Disse-lhe, e a aproximou de si agarrando-a pelos braços quando ela tentou escapulir. - Escutei-a, agora me conceda a mesma cortesia. - E a segurou com firmeza como se segurasse um menino rebelde.

-Fale, então. - Alainna ficou quieta, com a testa enrugada.

-Estou aqui porque você solicitou um paladino...

-Eu não pedi que viesse você! Eu pedi...

-Já sei, um guerreiro celta. Mas eu estou aqui para fazer o que puder para salvar seu clã. Deve aceitá-lo, pelo bem de todos.

-Salvar meu clã? Um cavaleiro normando que só se preocupa com a quantidade de terra que pode adquirir, com a riqueza, com a fama? Não quero ser salva por um normando. Salvar aos meus satisfaz as necessidades dos normandos, as suas, não as deles.

Sebastien entrecerrou os olhos e aproximou Alainna dele até que seu peito, sob a lã cinza, esmagasse seus seios e as coxas dela batessem nas dele.

-Se pensasse só em satisfazer minhas necessidades. – Rugiu. - Você seria a primeira, a saber.

Ela o olhou sem mover um cílio, com os seios agitados contra o peito dele e o corpo quente e flexível. O próprio corpo de Sebastien vibrou ao sentir aquele doce prazer e o sangue lhe acelerou nas veias, incendiado por um súbito ardor. Mas se não deixou trair pelo que sentia, mas sim manteve o olhar fixo e a mão firme.

Aguardou a que ela reagisse, aguardou a que compreendesse, por fim e para sempre, que ele não pretendia fazer dano a ela nem a seu clã. A cadência de sua respiração foi se acalmando, mas Sebastien notava o retumbar de seu coração contra seu próprio peito. A jovem parecia desprender cada vez mais calor em seus braços.

De repente Sebastien pensou que se Alainna continuava ardendo como uma chama diante dele, se o fogo natural dela avivava sua paixão um pouco mais, seria imensamente difícil respeitar sua intenção de deixá-la em paz.

Alainna inclinou a cabeça até a dele e o olhou com um intenso brilho em seus olhos azuis. Seus lábios suaves e rosados estavam a escassos centímetros dos de Sebastien. Este inclinou a rosto até que sentiu o calor que desprendia da pele de Alainna. Ela fechou os olhos lentamente; ele lutou contra seus impulsos e contra algo que havia subestimado quando a atraiu para si.

-Veja. - Murmurou por fim. - Posso resistir a essa atração mesmo que lhe tenha tão perto como um amante. Não importa que sinta um impulso irresistível de satisfazer minhas necessidades... e as suas. - Acrescentou, observando como ela descia as pálpebras e voltava a levantá-las em um instante de verdade. - De modo que pode estar segura de que tenho suficiente honra para me encarregar de manter suas terras e seu clã a salvo e sem sofrer dano algum.

-Solte-me. - Sussurrou Alainna.

Sebastien abriu as mãos devagar. Ela retrocedeu. Assim que os corpos de ambos se separaram, Sebastien sentiu em seu interior algo intangível que se encolhia e protestava, e cruzou os braços sobre o peito.

Alainna o olhou fixamente, subindo e baixando o peito devagar. Ele estendeu uma mão e pegou seu queixo entre os dedos.

-Fui enviado aqui para ser o paladino que pediram. Mas deve confiar em mim.

Ela fechou os olhos durante um instante.

-Não posso. - Sussurrou.

Sebastien lhe acariciou com o dedo polegar a nítida linha do queixo.

-Nós dois temos gênio e orgulho, e não é fácil esquecer essas duas coisas para ter paz. Mas eu tenho que fazer o que o rei me ordenou. A deixarei em paz logo que possa. Encontrará uma vida mais segura para seu clã quando tudo estiver disse e feito.

-Têm a intenção de partir? - Perguntou-lhe Alainna.

-Tenho que retornar para a Bretanha. - Respondeu Sebastien. - Mesmo que seja o barão de Kinlochan, e mesmo que esteja casado com você, tenho assuntos que atender ali, outras propriedades, outros... outros laços. Não é incomum que os cavaleiros viajem muito e abandonem o lar e sua esposa durante longos períodos de tempo.

-Entendo. - Alainna fechou os olhos, esta vez para conter as lágrimas. Sebastien sentiu de novo aquela estranha opressão no peito e no ventre. Deslizou os dedos pelo rosto da moça, surpreso e impulsionado pelas sensações muito mais profundas que o desejo, mas por alguma razão inexplicável.

Uma lágrima escorregou das pálpebras fechadas de Alainna. Afastou a cabeça para afastar a mão de Sebastien e se voltou.

-Se vir que contribui com algum benefício aos meus. - Disse com voz rouca. - Farei as pazes com você. Mas não até esse momento. É tudo o que posso lhe oferecer.

Dirigiu-se até o banco baixo e estendido sobre o qual havia uma laje de calcária cinza meio trabalhada. Jogou as longas tranças para trás dos ombros, segurou um cinzel de ferro e um cetro de madeira e começou a trabalhar. Apoiou o cinzel em um ângulo contra a áspera superfície da pedra e com o cetro redondo e desgastado começou a golpear ritmicamente a manga de madeira do cinzel.

Sebastien compreendeu que o fato de começar a trabalhar equivalia a uma despedida, mas decidiu mostrar-se obtuso e não captar a indireta, porque havia muito que desejava saber a respeito daquela curiosa moça e seu curioso trabalho. Assim se aproximou e observou por cima de seu ombro.

-Que história é esta? - Perguntou-lhe.

A superfície ainda estava lisa e plana em alguns lugares, coberta de ligeiros esboços. Alainna usava um cinzel denteado em zonas nas quais a ferramenta já atingido a pedra. As partes da pedra que eram retiradas tinham convertido o nível original da superfície em um relevo elevado que iria ressaltando-se pelos detalhes e os toques de acabamento à medida que avançava o trabalho.

-Esta. - Disse Alainna ao fim de uns instantes. - É a história da donzela de Pedra, que morreu no lago.

-Desejo conhecer essa historia em particular.

-Contarei-lhe. Disse ela. - Algum dia. - Descarregou o cetro e o cinzel com um leve ruído metálico contra a pedra.

Sebastien observou como ia fazendo girar o cinzel ao redor de uma incipiente sianinha de ramos entrelaçados, similar aos que tinha visto nas outras lajes. A cena central mostrava duas figuras ao lado do que devia ser o lago. O desenho era ainda grosseiro e pouco claro.

Alainna permaneceu silenciosa enquanto se concentrava no trabalho. Ao fim de uns momentos, Sebastien se levantou.

-Minha senhora, agradeço-lhe por me mostrar seu trabalho. É muito notável. Agora lhes deixarei tranquila, quero procurar meus homens e a alguns de seus parentes para percorrer os limites das terras de Kinlochan.

-Por favor, diga-lhes que logo irei ao salão. - Disse Alainna sem levantar os olhos. - Quero falar com eles sobre a mensagem do rei, e tenho que lhes informar sobre... as núpcias que nos ordenou celebrar.

-Vocês gostaria que estivesse eu apresente? - Perguntou Sebastien em voz baixa.

Alainna não respondeu imediatamente, concentrada em dirigir o cinzel em uma pequena área da pedra e depois soprou o pó.

-Preferiria falar com eles sozinha. - Disse por fim.

Ele murmurou umas palavras de acordo e se despediu. Ela não respondeu nem levantou o olhar.

Enquanto Sebastien cruzava o pátio, soaram os firmes golpes de martelo semelhantes aos batimentos rápidos e apaixonados de um coração.

 

                     Capítulo 10

-Temos que falar logo com o padre Padruig. - Disse Una.

A seu lado, Morag e Beitris assentiram muito sérios.

-Iremos todos a ver o sacerdote no Sabbath, dentro de uns dias. -Anunciou Lorne olhando desde seu assento junto à Alainna. - Não há duvida de que os cavaleiros irão quer ver nossa igreja de Santa Brígida, onde Alainna e Malcolm esculpiram tantos relevos.

Niall e vários outros assentiram.

-Pediremos ao padre Padruig que organize as bodas. - Disse.

Alainna suspirou. Para consternação dela, nenhum de sua família havia protestado pela decisão do rei. Tinham escutado e formulado cuidadosas perguntas, mas nenhum havia mostrado fúria e o medo que sentia ela e que havia meio esperado neles. Até Niall e Lulach tinham assentido seriamente, mostrando seu acordo.

-Mas esse cavaleiro não é o guerreiro das Highlands com o que queriam que me casasse. - Protestou. - É um normando.

-Ach. - Disse Lulach. - Necessitamos guerreiros que lutem por nós e conosco. Estes são homens jovens com boas armas, enviados pelo rei para nosso bem.

-Este cavaleiro e seus homens estão dispostos a derrotar os MacNechtan. Seremos uns tolos se os rechaçarmos. - Adicionou Donal.

-Ninguém disse que irão derrotar os MacNechtan... - Começou Alainna, mas Niall se inclinou adiante com veemência.

-Viveremos em paz quando os normandos acabarem com os MacNechtan. -Disse-. Com nossa ajuda, naturalmente. Os normandos não podem vencer os montanheses eles sozinhos.

-Suas armas, suas armaduras e seus cavalos os estorvarão. - Disse Lulach. - Necessitarão que os acompanhemos. – Ele estava satisfeito. - Seremos de novo um grupo de guerra forte, com estes normandos ao nosso lado. Eu gostaria de saber quantos homens pode tomar o cavaleiro bretão das forças do rei.

-Trouxe vinte homens. - Disse Donal. - Deveríamos lhe pedir duzentos mais.

-Duzentos! - Estalou Alainna. - E como vamos dar de comer a duzentos cavaleiros com seus cavalos?

-Disse que vai construir um castelo e estabelecer uma guarnição. - Disse Lulach. - O clã Laren voltará a ser forte.

-Acreditava que alguns de vós ficariam furiosos com sua chegada, mas o que querem é apoiá-lo.

-Sabíamos o que queria dizer a chegada dos normandos sem saber o que dizia mensagem do rei. - Interveio Lorne. - Todos estávamos de acordo com o que fosse necessário.

-Não podemos fazer caso omisso de uma ordem do rei. - Disse Niall. - Ele tem direito a se apoderar das terras. Mas agora o clã Laren poderá conservar seu direito sobre a terra por meio de seu matrimônio e de seus filhos.

-Somos tão tolos para tentar conservar Kinlochan com poucos de nós, com uma moça teimosa como chefe? - Perguntou Lulach. - Não temos alternativa. Está bem claro para todos.

-Para todos menos para a Alainna. - Disse Niall. Pense, moça.

-Onde está o orgulho deste clã quando vêm os normandos para apropriar-se de Kinlochan? - Exigiu ela.

-Somos orgulhosos, mas também práticos. - Disse Donal. - O orgulho apaixonado é mais apropriado para a apaixonada juventude. Nós somos velhos e temos o coração e a cabeça mais frios que antigamente.

Lorne se inclinou até Alainna.

-As panelas pequenas fervem a fervuras, enquanto que as grandes fervem a fogo lento e duram mais. Vimos a tragédia, e fomos testemunhas de como nosso clã ia reduzindo-se até ficar só um punhado de nós. Somos bastante velhos e judiciosos para saber quando temos que resistir e quando não.

-Temos que resistir contra os MacNechtan. - Disse Donal. - Mas não contra a vontade do rei, quando esta nos beneficia.

-Nosso sobrenome desaparecerá para sempre com este matrimônio! -Exclamou Alainna. - Kinlochan pertencerá a Le Bret e não a MacLaren! Como vai beneficiar-nos isso?

-Ach! - Alguém agitou a mão para descartar o assunto. - Pode convencê-lo a adotar nosso sobrenome. Não será difícil.

-Não posso convencê-lo! Está decidido a conservar o seu.

-Você o fará mudar de opinião. - Disse Lorne com firmeza.

-Peça-lhe que permita que seus filhos levem seu sobrenome. - Disse Morag.- Ele pode conservar o seu, se tanto lhe importa. As mulheres escocesas não tomam o sobrenome de seus maridos, de modo que só o de seus filhos tem que ser MacLaren.

Alainna franziu o cenho.

-Não aceitará tal coisa.

Lorne cruzou os braços e sorriu.

-Há tempo. Não sei como, mas haverá um modo; sinto-o nos ossos. Não se preocupe.

-Seus ossos acertam em muitas coisas. - Disse Una. - Quando sente algo concreto, ocorre.

Alainna suspirou; tinha a sensação de carregar um novo peso sobre seus ombros. Seus parentes estavam totalmente convencidos de que o cavaleiro renunciaria a seu sobrenome pelo deles, mas não tinham falado com ele a respeito, não tinham visto sua teimosia como uma rocha. A tarefa de convencê-lo parecia uma provocação maior ao que se havia enfrentado jamais.

-Acredito que não deveria me casar com esse homem. -Aventurou. Uma exclamação coletiva percorreu a sala. - Não é o melhor para nós.

-Se casará com ele. - Disse Una. - É o mais prudente para o clã. E para ti. -Acrescentou.

-É um feroz guerreiro. -Disse Niall. - Matou um urso tão grande como o que matou o herói Diarmuid das antigas lendas!

-É bom para narrar histórias. - Atravessou Aenghus. - Um ho-homem que sabe narrar histórias te-tem bom coração.

-Conta com homens dispostos a lutar. - Disse Lulach. Que mais podemos pedir?

-E, além disso, é um homem dourado, como Aenghus Mac Og das lendas. -Disse Beitris. - Um homem que faz vibrar os corações.

Niall e Donal grunhiram, e Lulach franziu o cenho ante o comentário de sua esposa, que se havia se ruborizado intensamente por seu próprio atrevimento. Uma e Morag sorriram e olharam a Alainna, que os olhou a todos carrancuda.

-Devemos procurar o sacerdote e terminar de uma vez. - Disse Una.

Alainna se sentiu como se uma grande onda a estivesse arrastando contra sua vontade.

-Mas as admoestações devem estar expostas durante três domingos. -Protestou.

-Admoestações, ora. - Disse Lulach com desdém. - O que importam as admoestações quando nenhum de nós sabe ler?

-Nada de admoestações! - Exclamou Niall. - Não podemos permitir que Cormac se inteire disto antes das bodas!

-Cormac tampouco sabe ler, idiota. - Ladrou Lulach.

-Devemos celebrar as bodas antes que fique sabendo! - Insistiu Niall. - Ficará furioso. E não podemos pô-lo furioso até que tenhamos aqui a todos os homens do rei.

-Certo. - Disse Lorne. - Quando Cormac fique sabendo, é possível que ataque.

-Sebastien Le Bret pensa em falar com Cormac. - Disse Alainna.

-Ja! - Explodiu Lulach. - Falar é perda de tempo! Lutar, isso sim que servirá de algo.

-Giric irá procurar ao padre Padruig. - Disse Uma, olhando ao redor. - Onde está?

-Nos estábulos com os cavaleiros, preparando-se para levá-los a dar um passeio pelas propriedades de Kinlochan. - Respondeu Alainna.

-Temos que organizar um banquete. - Disse Beitris a Una e Morag, e as três mulheres começaram a falar dos preparativos.

-Padruig adora os banquetes. - Apontou Niall. Ficará alegre por vir aqui se lhe prometermos que haverá comida, bebida e narrações.

-Não temos nada que celebrar. - Disse Alainna.

-Vai se casar. - Replicou Una em tom calmo. - E todos nos alegramos por isso. Você também deveria se alegrar. Logo teremos meninos de novo. Parirá filhos que levarão nosso sobrenome e que nos alegrarão o coração, filhos formosos, de pais formosos. - Adicionou enquanto se inclinava até Morag, que assentiu também.

-Certamente, teremos um banquete. - Disse Lorne. - Primeiro levaremos os normandos de caçada para que haja carne para todos. Depois veremos o sacerdote na igreja, e por último celebraremos todos um banquete, e uma boda. Temos muito que celebrar. O clã Laren volta a ter esperança.

Alainna correu os dedos pela testa para apagar sua consternação. Seus parentes ficaram a tagarelar entusiasmados e a fazer mais planos. Sua confiança e sua esperança eram para ela como uma pesada laje.

-Estou desejando dar ao padre Padruig esta boa notícia, mas podemos esperar uns dias. - Disse Una. - Temos que fazer planos para as bodas.

-Como pode chamar a isto de uma boa notícia? Perdemos Kinlochan. - Disse Alainna, quase gemendo de desgosto.

-Querida menina. - Interveio Lorne, inclinando-se adiante para pegá-la pela mão. - Não perdemos Kinlochan. Você e seu marido a conservarão, e depois o conservarão seus filhos. O único tem que fazer é convencer esse homem de que adote seu orgulhoso sobrenome.

-Adotará. - Assegurou Niall. - Nosso antigo legado, que procede dos reis irlandeses, tem que ser inveja de muitos.

-Não perdemos nada, Alainna. - Disse Una. Ganhamos nosso futuro, que estava perdido.

Todos ficaram a falar entre si, planejando a partida de caça, as bodas, e o futuro dela. Alainna desceu a cabeça e retirou a mão da de Lorne. Perguntou-se se saberiam que tinham depositado todas suas esperanças e seus sonhos sobre os ombros dela.

De algum modo, disse a si mesma com veemência, o cavaleiro bretão teria que aceitar levar o sobrenome de seu clã. Mas sabia que Sebastien Le Bret havia encontrado uma vontade tão forte como a sua própria. Ele havia se negado categoricamente a mudar seu sobrenome e a permitir que seus filhos levassem o de seu clã. O futuro de Kinlochan pertenceria aos descendentes de Le Bret e não do clã Laren.

Isso feriria profundamente os seus, e eles já tinham suportado muitas aflições e perdas. Independente do que desejasse o cavaleiro bretão, ela não podia consentir que lhe arrebatassem a última migalha de esperança. Se isso significasse que tinha que procurar um marido em outra parte, assim seria, disse a sim mesma com o cenho franzido enquanto a rodeava o animado bate-papo dos pressente. Restava-lhe outra oportunidade de evitar aquelas bodas com o normando, e tinha a intenção de agarrar-se a ela antes de que terminasse o dia.

 

-Giric! - Chamou Alainna ao ver seu irmão adotivo cruzar o pátio conduzindo um cavalo selado até as portas. - Eu gostaria de falar contigo. - Agarrou a saia de sua túnica ao sentir um estremecimento de incerteza.

Estava decidida a dizer: abertamente o que sentia, mesmo que supunha qual iria ser a reação de Giric a seu impulsivo, inverossímil plano. Mas se o moço aceitasse, poderia resolver seu dilema.

Giric a saudou com a mão. Além dele viu vários cavaleiros normandos e montanheses no interior do estábulo baixo e estendido. O bretão estava de pé perto da porta, captou o brilho de seu cabelo dourado nas sombras enquanto falava com um jovem escudeiro, um dos três moços que tinham acompanhado aos cavaleiros e que agora os ajudava a preparar suas montarias para sair a cavalgar.

Giric deixou seu cavalo aos cuidados de Aenghus junto às portas e foi até Alainna com passou relaxado e balançando os braços.

-O que acontece? - Perguntou-lhe. - Estamos a ponto de sair.

-Já sei. Só umas palavras, por favor, antes que vá.

O menino franziu o cenho.

-Alainna, sei que não está contente com os normandos. Logo falaremos disso, se isso é o que necessita de mim.

-Não te chamei para me queixar. Venha comigo. Os cavaleiros podem esperar. - E lhe puxou o braço. Giric segurou a brida do cavalo e pôs-se a andar com ele a seu lado.

Desceram o aterro rochoso que levava ao lago, cuja superfície estava frisada por suaves ondas. Alainna se dirigiu até a água e levantou a barra da saia quando a espuma quase roçou quase seus sapatos de couro, e esperou a que Giric deixasse o corcel na grama.

-Alainna, o que ocorre?

Ela percebeu a preocupação em sua voz.

-O que faria eu sem ti, Giric MacGregor? - Disse, voltando-se sorridente.- É um bom amigo e um irmão para mim desde que veio aqui quando criança junto a meu pai.

-Não era tão bom amigo quando cheguei aqui com sete anos. - Replicou ele. – Puxava seu cabelo, te dava rasteiras e escapava de ti correndo, que eu me lembre, mesmo que você fosse três anos maior que eu.

Alainna sorriu com tristeza.

-Às vezes me tratava mau, você e meus irmãos, mas agora te agradeço por isso. Acredito que todas aquelas brincadeiras dos três meninos me fizeram mais forte.

-Rara vez chorava, e me lembro que frequentemente se vingava de nós. E não há de que, pelo fato de se endurecer. – Piscou um olho.

-Ah, Giric - Disse ela passeando a vista ao redor e cruzando os braços para proteger-se de um súbito frio. – Sinto falta, sinto falta de todos... muito. -Reprimiu um soluço. - Eu gostaria de saber o que pensariam eles agora se soubesse que perderemos Kinlochan para as mãos de um normando. - Levou o punho à boca e escutou o gemido do vento no lago. – Ach. - Disse. Ouve a pena que flutua no vento?

Giric lhe rodeou os ombros com um braço e a atraiu para seu lado.

-Pode que seus irmãos e seu pai já não estejam como à maioria dos homens do clã. – Disse. - Mas eu estou aqui, e os velhos também. Não está sozinha. -Esfregou-lhe o braço.

-Já sei. É muito leal com todos nós, e lhe estamos agradecidos. Sei que deve partir para retornar ao clã Gregor, mas... tinha a esperança de que quisesse ficar conosco.

-Agora que o rei enviou ajuda a Kinlochan, logo serei livre para voltar para casa. Eu gostaria de fazê-lo. - Olhou para Alainna. - O que você precisa? Não tem mais que pedi-lo, e o terá.

Ela contemplou as montanhas que davam à fortaleza e tremeu no refúgio dos braços de Giric.

-Diga-me o que opina da decisão do rei, Giric.

-Acredito que é algo necessário. - Respondeu ele com o semblante grave. - Você já não pode seguir lutando sozinha contra os problemas deste clã, necessita a ajuda de um marido, um guerreiro que conte com homens que o apóiem. Acredito que o bretão é muito adequado para essa tarefa.

-Mas não é adequado para mim, nem eu para ele.

-Com um homem assim por marido, um paladino em muitas cortes, conforme me disse seus cavaleiros, seu clã prosperará por fim.

-Não quer adotar nosso sobrenome, e não é gaélico. Meu pai não o aceitaria.

-Seu pai se alegraria por isto. - Disse Giric. Ela o olhou, surpreendida. - Estou seguro. Aceitaria que o clã, na situação em que se encontra agora, necessita o amparo dos normandos.

-O que precisamos são homens para vencer a nosso inimigo, e os normandos não prometem tal coisa.

-Certo, os anciões preferem tomar vingança contra o clã Nechtan. Isso é o que quer você?

-Vingança é uma palavra de homens. Eu desejo paz, e pôr fim a esta disputa de sangue. Mas o fato de me casar com Sebastien não é garantia disso, e suporá um convite para mais problemas! - Afastou-se uns passos. - Isto trará mais batalhas, e poderia nos destruir a todos. Os normandos não têm a habilidade necessária para combater os montanheses. Como pode dizer que meu pai estaria de acordo? Como pode está-lo você? Não o entendo! Nenhum de vocês está do meu lado, nem sequer você!

-Fique em paz. - Disse Giric elevando a mão. - Eu não sou seu inimigo.

Alainna suspirou e assentiu com um gesto. Seu irmão adotivo frequentemente conseguia acalmá-la. Amava-o como a seu amigo mais querido, mas com frequência não fazia mais que aplacá-la e não lhe oferecia nenhum argumento, nenhum desafio.

-Eu sou a última resta. - Disse, contemplando o lago.

-Eles se alegram de que vá se casar bem de que desse modo continue sua linhagem.

-Me casar bem... Esse é o problema.

-Eu penso que o cavaleiro bretão é adequado para ti.

Alainna se ergueu tanto como o pilar que olhava para o lago, enquanto o vento fazia ondear sua saia e suas tranças.

-Giric - Disse-lhe. - Pode que haja uma solução.

-Qual?

-Se case comigo. Adote nosso sobrenome. - A frase ficou flutuando no ar.

-Alainna. - Giric deu uns passos para situar-se atrás dela. - Faria qualquer coisa por ti, mas não posso fazer isso.

-Sim pode. Poderíamos nos casar, segundo a Igreja de Roma. Não somos do mesmo sangue.

-Mas nosso sacerdote obedece à Igreja celta. De acordo com as leis celtas, o fato de me haver criado como filho adotivo nos dá um parentesco igual ao de irmãos de sangue; inclusive mais íntimo, dizem alguns. O padre Padruig se negaria a ser testemunha de nosso casamento. Alainna...

-Tem que haver um modo. - Disse ela. - Se nos casarmos agora, se nos unirmos hoje pelo rito do apertão de mãos, sem a bênção do sacerdote, não teria que me casar com o cavaleiro estrangeiro. - Começou a passear pela margem do lago.

-Por que está tão empenhada? Não é isto o que quer.

Alainna não fez caso de sua tranquila lógica. Queria ação, uma paixão para proteger seu clã que fosse igual à que sentia ela.

-Ele se nega a adotar nosso sobrenome. - Disse. - Isso destroçará o coração de meus!

-Alainna. - Disse Giric com calma. - Mesmo que pudéssemos nos casar, eu tampouco posso tomar seu sobrenome. Meu pai é um chefe entre os Gregorach, e eu respondo ante o toiseach do clã Gregor. Ficaria furioso se eu fizesse algo assim, e meu clã também. - Tocou-a no ombro e o massageou. – Quem dera os Gregorach enviassem ajuda ao clã Laren, mas nosso chefe não quer entrar em uma disputa de sangue com os MacNechtan.

-Já sei que lhes pediste que nos ajudem. - Disse Alainna. - Giric, que mais posso fazer? Você é o único homem que pode compreender por que meu marido deve adotar meu sobrenome.

-E o compreendo. Mas não posso fazê-lo.

Ela olhou as pedras que rodeavam seus pés.

-Não acreditava que fosse aceitar, mas tinha que lhe pedir. Ele colocou a mão sobre seu ombro.

-Você não me quer por marido. Somos irmãos adotivos, e amigos, mas não enquadramos como outra coisa. Você com seu gênio e seu martelo de ferro, e eu com o medo que te tenho desde que era um pirralho que nem te chegava à altura do ombro. - Falou em tom de brincadeira.

Alainna piscou para afastar as lágrimas.

-E agora sou eu que não chega a seu ombro e necessita sua ajuda.

Ele a rodeou com o braço.

-Ach, já sabe quanto te quero. - Murmurou. - Sabe que quero que seja feliz. Não quero ver você chorar. E quando tomar uma esposa quero que seja exatamente como você.

Alainna sorveu as lágrimas.

-Teimosa e solene, como sempre me definiu?

-Linda como a chuva e brilhante como as estrelas. - Afastou-a para contemplá-la. – Agradeço-te por esta honra, mas deve escutar o seu coração, não seus medos. Você necessita um homem que tenha tanta paixão como você.

-Você tem suficiente paixão para mim. - Disse Alainna irritada.

-Pois você tem muita para mim. Esse cabelo, esse gênio. Esmaga-me, e eu não sou mais que um covarde, um homem calado.

-Eu gosto dos homens calados.

-O cavaleiro bretão não é um homem gritão nem fanfarrão. - Disse Giric sorrindo ligeiramente.

Ela secou mais lágrimas.

-Você e todo o resto do meu clã pensam que deveria me casar com ele. Nenhum de vocês foi contra as ordens do rei.

-Não só porque o rei o ordena. - Disse Giric. - Mas também porque esse normando é um verdadeiro guerreiro, o que necessita seu clã, e possui a força e o espírito que necessita você em um marido. Se case com esse guerreiro.

-Isso é o que diz o resto de meu clã. Querem falar com o padre Padruig e celebrar as bodas em seguida. E o cavaleiro deseja o mesmo. Não obterá a assinatura do rei no documento de propriedade até que possa lhe mostar um contrato matrimonial. – Acrescentou, séria. - É que eu sou a única que vê o perigo que seria isto?

-Eu também insisto a que o faça. - Giric a olhou seriamente. - Acende-te como o fogo cada vez que o tem perto, sabia?

-Isso não é nada bom. - Murmurou Alainna.

-Às vezes não, mas essa faísca que surge entre duas pessoas pode provocar uma fogueira.

-O que sabe você? Fala como uma velha. - O olhou de esguelha.

Ele riu brandamente e voltou a rodeá-la com o braço, e a seguir se girou com ela em direção ao prado.

-Olhe, já estão saindo os cavaleiros da fortaleza. - Disse. - Demoraram bastante para prepararem-se, com tantos arreios e adornos para os cavalos e para os cavaleiros. Eu prefiro a simplicidade das Highlands.

-Eu também. - Respondeu Alainna. Contemplou como os cavaleiros conduziam suas montarias ladeira abaixo e ganhavam velocidade ao chegar no plano. Inclusive por cima do rítmico murmúrio do lago ouviu o retumbar dos cascos dos cavalos e o tinir das cotas e as armas.

-Reluzentes como uma moeda nova, e montando bons cavalos da Espanha e Arábia. - Assinalou Giric. - Suponho que deveríamos lhes dizer que esses cavalos de patas magras tropeçarão e se machucarão em nossas rochosas ladeiras das Highlands.

-Certo, deveríamos dizer-lhe. – Concordou Alainna. - Realmente têm um aspecto magnífico, brilhantes e reluzentes como um exército de fadas.

-Ah, cativada pelo esplendor da cavalaria? Agora me dirá que quer um cavaleiro por marido em lugar de um singelo celta.

Alainna não respondeu. Ao contemplar o cavaleiro que cavalgava na frente do grupo, seu coração saltou como se fosse um salmão nadando rio acima.

Giric a abraçou com mais força, e ela se refugiou no consolo que lhe oferecia. Seu irmão adotivo tinha razão ao adivinhar o que ela necessitava; ansiava algo mais que calor e complacência. Uma paixão que igualasse a sua faria com que o matrimônio fosse forte e estimulante em vez de entediado.

O cavaleiro bretão possuía uma força contida que a Alainna resultava quase tangível. Cada vez que ele estava perto, experimentava estranhos, emocionantes calafrios de desejo que a deixavam atônita e confusa.

Mas se casasse com ele, temia que seu clã fracassasse que a perda de seu sobrenome ante um normando, com o tempo, significasse a perda de todo seu legado.

Afastou-se de Giric quando os cavaleiros se aproximaram.

-Vá, quase chegaram. - Disse-lhe. - Agradeço-te por me escutar. Por favor, não me considere uma tola pelo que te disse.

-Tola, não; uma moça desesperada que ama os seus. Não há nada vergonhoso nisso. Tomara pudesse fazer o que desejas. - Sorriu-lhe com tristeza e a contemplou por um longo instante.

Logo se voltou para encaminhar-se até seu cavalo, que estava pastando.

Alainna permaneceu de pé na margem enquanto a água sussurrava a seus pés, e observou como Giric montava e se reunia com a companhia de cavaleiros. Sebastien Le Bret puxou as rédeas de seu garanhão de cor marfim e a olhou com grande intensidade dede o prado.

Alainna desejava desviar o olhar, mas não pôde. O céu ia ficando nublado e cinza, o vento soprava com mais força, e sentiu umas poucas gotas de chuva gelada. Contemplou-o ao passar a seu lado e se rodeou a si mesma com os braços, notando o frio.

Uma tormenta estava a ponto de estalar também em sua vida, trazendo consigo poderosas forças que poderiam a destruir com a mesma facilidade que com que a renovasse.

 

                       Capítulo 11

O frio ar do amanhecer estimulou Sebastien ao passar contra o lago que fazia de espelho para o largo céu de cor estanha. A geada congelava as folhas de erva e formava delicados desenhos nas rochas e os calhaus do estreito rio. Correu até o murmúrio da água segurando a espada embainhada com uma mão, enquanto sua respiração formava nuvens de vapor. Frente a ele, a coluna de pedra se elevava até o céu cinza, e seguiu o caminho através do prado que conduzia a ela. Despertar antes que amanhecesse era um costume muito arraigado que continuava mantendo cada dia desde que chegou a Kinlochan.

Perto do pilar o chão era plano. Deixou cair a capa sobre a grama e desembaiou sua espada bem equilibrada para começar a praticar golpes e golpes. Flexionou os dedos sobre o punho de couro, com a mão encaixada entre a guarda reta e o pomo em forma de disco do reluzente bronze. Girou em direção à pedra, com passos seguros e movimentos fortes.

Não pensava em sua destreza nem tampouco se esforçava, como fazia frequentemente, por desafiar a periferia de seu campo de visão; em vez disso, pensava na impressionante beleza daquele lugar e em sua gente, e também na encantadora jovem que se encontrava no centro de tudo, a chama mais brilhante do lar.

Não havia levado boas notícias ao clã Laren, mas aquela gente, com exceção de sua furiosa chefe, havia aceito a ele e a mensagem da decisão do rei com generosidade, calor e até entusiasmo. Ainda o elogiavam por sua proeza com o urso no primeiro dia, e não lhe tinham mostrado outra coisa que aprovação, mesmo que ele trouxesse ventos de mudança em suas vidas.

Lembrou da noite anterior, quando esteve sentado até muito tarde no salão com o resto do clã e com seus cavaleiros escutando outra narração de Lorne. Alainna não se encontrava ali, e Una lhe disse que trabalhava até muito tarde em sua oficina, como estava acostumada. Em sua ausência, ele e Giric faziam as vezes de tradutores para os cavaleiros. O gaélico era bastante claro para segui-lo, e as frases de Lorne eram singelas, mas poéticas. Enquanto fazia suas próprias traduções, Sebastien sentia que sua alma se comovia como reação ao valor e a beleza que descrevia o bardo em sua história.

Possivelmente, disse a si mesmo agora, enquanto a espada assobiava e fendia o ar, aquilo se devia aos efeitos do uisge beatha e não à emoção proveniente de nenhuma parte de sua alma.

Alainna havia dito que sua alma era um ser que vagava errante em busca de um lar. Sebastien girou no ar frio, lembrando. Mesmo que não quisesse admitir diante dela nem de ninguém, sabia que a jovem havia atingido o alvo. Aquela moça que apenas o conhecia havia visto a verdade que levava dentro quando ninguém mais havia conseguido nunca; aquela moça de olhos azuis como o mar, de cabelos brilhantes como o sol de poente...

Por Deus, pensou enquanto se detinha e descia a espada respirando com força. A poesia daquela gente já havia entrado em sua alma, igual a sua embriagadora bebida lhe havia filtrado no sangue.

Franziu o cenho e moveu os ombros antes de atirar com um golpe de espada o ar a esquerda, mantendo o pilar de pedra no limite de seu campo visual.

Alainna o havia feito perder seu equilíbrio com aquele olhar direto e aquelas bochechas e lábios de cor rosada, e com aquela habilidade para captar rapidamente seus segredos. Ele preferia o mistério que o silêncio e a intimidade que sempre lhe tinham dado; aquela aura o havia feito chegar longe, desde que foi um escudeiro órfão sem apelido até converter-se em um cavaleiro com propriedades e certo renome.

Entretanto, a moça tinha visto além daquele escudo de silêncio, e para Sebastien era desconcertante e emocionante de uma vez.

A folha rasgou limpamente um nada. Afundou a ponta na terra, e o punho se balançou durante uns instantes até ficar imóvel. Levantou-se, com a respiração agitada, e contemplou o lago estendido e brilhante, as montanhas coroadas de branco, o céu que ia cobrando claridade. A poesia e a selvageria se mesclavam naquela terra, no ar mesmo, pensou. Não estranhava que a Escócia produzisse tanto bardos como guerreiros.

Correu o braço pela testa úmida e se encaminhou para a margem do lago para sentar-se em uma grande rocha. Esquadrinhou as montanhas e o estreito lago, e pela primeira vez reparou na ilha baixa e estendida que se sobressaía da superfície cristalina um pouco mais longe.

Abriu a bolsa que levava no cinto e extraiu dela uma tábua de cera guardada em um estojo de couro, maior que a palma de sua mão, e um lápis de osso afiado e estreito. No centro da tábua se via o pequeno desenho de um castelo. Com traços rápidos e destros, desenhou uma ilha debaixo da construção, logo a apagou e voltou a desenhar a base, substituindo-a por um promontório rochoso que me sobressaía de uma alta montanha.

Se ele tivesse se tornado um homem em um lugar assim, se tivesse feito parte de uma família carinhosa, de um legado. - Acrescentou uma torre quadrada e aumentou o muro circundante. - Jamais o deixaria ao capricho de um rei, mas sim lutaria a morte por isso. Se os membros do clã Laren tivessem tido forças para resistir a entrega de suas terras a um normando, não duvidava que teriam feito o mesmo.

Na outra margem, a fortaleza de madeira descansava sólida e aprazível em seu lugar, um lar para aqueles que compartilhavam um sobrenome, uma herança. Ele, um homem que carecia do que aquela gente possuía em abundância, ia alterar para sempre suas vidas e seu futuro. Obraria as mudanças, e depois partiria. Não podia ficar. Uma vez que tivesse partido para Bretanha, não estava seguro de quando voltaria a ver Kinlochan nem a sua bela castelã.

A jovem seria sua esposa, e bem sabia que não deveria abandoná-la. Havia aprendido aquela amarga lição muito tempo atrás, e a um alto preço. A ironia da decisão que se via forçado a tomar entre a esposa que não havia pedido e o filho ao que tanto amava lhe causava um fundo pesar. O dilema parecia insuperável. Alainna MacLaren não adotaria seu sobrenome nem deixaria Kinlochan em troca de Bretanha, e ele não podia adotar o sobrenome dela e ficar em Kinlochan.

Sacudiu a cabeça profundamente consternado, incapaz de compreender por que razão o rei havia exigido aquilo a ambos. Segundo as regras do coração e da honra, não devia casar-se com Alainna, nem se apropriar de Kinlochan; segundo o que ordenava a lei e a mensagem do rei, não tinha alternativa, pois estava obrigado por seu voto.

A honra era certamente uma frágil coisa, tal como disse Una.

Voltou a guardar a tábua de cera na bolsa e se levantou. Liberou a espada do chão, a embainhou ao cinto e recolheu sua capa.

Palavras que lembrava, pronunciadas por uma voz suave, encantadora, acompanharam-no como uma canção ao caminhar.

Estou cansado, e sou forasteiro...

-Não guardaram pouco de feno para dar de comer aos animais durante o inverno?

Fortes passos ressoaram no piso do grande salão, e a voz do cavaleiro bretão, aguda de impaciência, levantou eco na sala quase deserta.

Alainna levantou os olhos quando ele se aproximou do fogo, onde estava sentada em companhia de Una e Morag. Deixou um momento o fuso e a roca que sustentava e o olhou com calma, mesmo com o coração lhe retumbava no seio.

-Guardar feno? A que se refere? - Perguntou-lhe.

Ele retirou da cabeça o capuz da cota e tirou as luvas de couro. Tinha o aspecto de cansado, pensou Alainna, e parecia zangado, com aquelas olheiras e aquele gesto tenso na mandíbula coberta pela barba castanha.

-Acabamos de retornar depois de estar todo o dia fora e agora me inteiro de que não há forragem para os cavalos nem para o gado. - Disse-lhe o cavaleiro. - Só pegaram a aveia, conforme disse Niall.

É que sua gente não cortou a grama dos campos e os prados para alimentar os animais nos meses de inverno?

Alainna olhou para Una e Morag, que piscaram de modo silencioso a resposta e se voltaram de novo para sua tarefa de estirar bolas de lã estendidas em fios e enrolar estas nos ramos que tinham na mão.

-Nunca fizemos tal coisa. - Respondeu Alainna.

-Por que não? - Quis saber ele, e golpeou as luvas contra a mesa. - Como esperam alimentar os animais nos meses de inverno, quando não podem pastar devido ao mau tempo?

-Nas Highlands não se costuma colher feno.

-Que não se costuma? Pois deveria acostumar-se. - Lançou um suspiro de exasperação e se correu os dedos pelo cabelo, de um brilhante dourado escuro sob a tênue luz. - O que vamos dar de comer a vinte cavalos? - Perguntou, meio que para si mesmo.

-Aveia e centeio, O mesmo que comemos nós. - Repôs Alainna. Olhou às outras mulheres e traduziu aquilo ao gaélico. - Há suficiente para os cavalos dos normandos? - Perguntou-lhes.

Alguém encolheu os ombros e Morag negou com a cabeça.

-Duvidou. - Respondeu enquanto passava o dedo por um fio azul.

Alainna voltou a olhar para Sebastien.

-Se soubéssemos que viriam. – Voltou. - Teríamos cultivado mais aveia.

-Temos um problema, senhora. Economize seu mau gênio.

-Então economize o seu também! Não estou disposta a ser repreendida por algo do que não tenho a culpa. Lamento muito que os costumes das Highlands não sejam do agrado dos normandos, mas assim são as coisas.

Ele deixou cair sua capa sobre um banco e se sentou com as mãos nos joelhos.

-Teremos que fazer algo a respeito, se quisermos ficar aqui.

-Então não fiquem. - Replicou Alainna. Viu que ele esticava a boca e que lhe contraía um músculo na mandíbula, e percebeu que entreabria os olhos. Esperando uma reação violenta, desviou o olhar e se concentrou em enrolar mais fios de lã vermelha ao redor do tear.

Ele deixou escapar um comprido suspiro.

-Seus parentes dizem que não há feno nem forragem em nenhuma parte, nem aqui nem nas pequenas fazendas dos arrendatários. - Disse já mais calmo. - Qual é, exatamente, o costume das Highlands para alimentar o gado no inverno?

-Não temos mais que uns quantos cavalos, e os alimentamos a base de aveia e centeio. No inverno não conservamos muito gado, exceto uma vaca leiteira ou duas, um touro e umas poucas ovelhas. O resto sacrificamos em novembro para defumar a carne ou o deixarmos em liberdade.

-Deixar em liberdade? Para que sobreviva por sua conta como os cervos?

-Naturalmente. O que vamos lhe dar de comer?

-Feno. - Replicou Sebastien. Quando chega a primavera, não têm rebanhos?

-Os animais que sobrevivem ao inverno os reunimos em rebanhos de novo. -Disse Alainna. – Colocamos em pastos de grama para que comam até que se reponham. Mesmo que alguns deles estejam tão fracos que temos que transportá-los. - Admitiu.

-Transportá-los? - Perguntou Sebastien com incredulidade. - Às vacas?

-Assim é como se faz.

-Então, no futuro terá que mudar.

-Não tem que mudar. Nada tem por que mudar exceto uma coisa: Peguem seus vinte cavalos e retornem ao sul.

Sebastien a olhou fixamente.

-Encontraremos um modo de dar de comer aos cavalos mesmo que tenha que sair às pradarias a cortar a grama eu mesmo.

-Muito bem. - Repôs ela tranquilamente. - Ou poderiam ir para casa.

Sebastien olhou para outro lado lançando um suspiro de clara exasperação, e se golpeou a palma brandamente com o punho em um intento de controlar sua ira.

-E outros animais? - Perguntou. - Aenghus disse que só há três vacas e quatro ovelhas nos currais.

-E é verdade. - Disse Alainna. Os MacNechtan levaram o resto. Carecíamos de homens e mulheres para cuidar e proteger nossos rebanhos, assim que os perdemos nas incursões ou foram devorados pelos lobos.

Sebastien a observou durante uns momentos.

-E diz que não quer que as coisas mudem. - Comentou em tom irônico.

Ela continuou enrolando a lã, dirigindo a roca e ajustando o peso do fuso.

-Algumas coisas devem permanecer tal como estão. - Replicou.

-E o que me diz de armazenar comida para sua gente e para a minha?

-Temos provisões de aveia e centeio, cestos de maçãs, cenouras, cebolas... - Voltou-se para Una e Morag e traduziu ao gaélico a pergunta do cavaleiro.

-Temos comida. - Disse Una. - E também é pouca para os paladinos do rei ao longo de todo o inverno, se isso é o que quer saber. O rei não enviou mantimentos para seus cavaleiros nem para seus cavalos.

-Sorriu de sua própria piada. - Mas podem caçar e pescar para ter mais comida enquanto perseguem os MacNechtan.

Sebastien suspirou.

-Tem razão, é obvio. Ajudaremos a procurar comida enquanto estivermos aqui.

-E quanto tempo vai ser isso? - Perguntou Alainna.

-Até que tenha terminado minha missão.

-Isso é muito. - Murmurou. Os dedos tremeram e lhe escapou o fuso, que caiu rodando pelo estou chão e desenrolando um longo fio de lã vermelha. Sebastien o deteve com a bota. Alainna foi até ele para recuperá-lo e se agachou. Ao mesmo tempo, ele se inclinou adiante para recolhê-lo, e ao fazê-lo-suas cabeças se chocaram com um ruído audível. Alainna, com um gesto de dor, levou uma mão à cabeça, segura de que havia feito mais dano a ele que ele a ela.

Nesse mesmo instante, Sebastien apoiou a palma da mão na testa da moça.

-Está ferida? - Perguntou-lhe, ainda inclinado sobre ela.

O calor daquela mão resultou assombrosamente eficaz e dissipou a dor quase imediatamente. Alainna lhe acariciou a testa alta e suave, sentindo seu cabelo grosso e surpreendentemente sedoso ao tato.

-Não. Achei que você estivesse. - Disse.

-Eu tampouco. - Sebastien retirou a mão, e ela se afastou um momento depois. - Têm a cabeça dura. - Admitiu, esfregando a têmpora.

-Igual à sua. - Repôs Alainna, e recolheu o fuso.

-Isso deve indicar de que é uma jovem teimosa. - Murmurou ele.

-Necessitava um sinal que lhe indicasse isso?

Sebastien riu levemente.

-Absolutamente. -Começou a enrolar os fios enquanto Alainna sustentava o novelo. De um modo ou de outro. - Murmurou enquanto trabalhava, em voz muito baixa para que só Alainna pudesse ouvi-lo. Terá que suavizar um pouco essa sua teimosia e aceitar que sua vida vai mudar, Lady Alainna.

Ela ficou em silêncio, pois não tinha resposta para aquela verdade. Observou como os dedos longos e ágeis de Sebastien dirigiam a lã com suavidade e destreza. Sentiu que a percorria um calafrio, porque de repente teve a impressão de que o que tinha em suas fortes e capazes mãos era o fio de sua própria alma.

Arrebatou-lhe o extremo do fio e retornou contra o fogo.

 

-Todos os cães e guerreiros de Fionn viram aquele temível urso. - Relatava Lorne aos montanheses e cavaleiros reunidos naquela noite para escutar uma narração. A sala forrada de madeira estava aquecida e ligeiramente úmida, e o fogo central desprendia um resplendor dourado que se refletia nos rostos dos pressentes. Fora o vento açoitava as paredes exteriores e uma corrente de ar gélido se filtrava pela porta.

Sebastien notava o frio, pois estava sentado mais perto da porta que do fogo. Estava recostado contra a parede, escutando a história que contava Lorne com sua voz grave e profunda. Havia chegado a preferir aquele banco solitário situado em um sombrio corredor lateral porque lhe dava privacidade no meio do atestado salão.

-Seu aspecto era capaz de matar a um homem de terror. - Dizia Lorne. - De pêlo negro azulado como uma tormenta, cerdas afiadas como o ferro, olhos vermelhos como as chamas do inferno. Tinha os dentes longos e amarelos e uma boca negra, e seu rugido podia fazer com que um homem tremesse os ossos.

»Avançaram até ele, homens e cães, e a besta investiu, disposta a destroçar a qualquer que se aproximasse. Conforme foram se aproximando, alguns homens deram a volta, os cães começaram a gemer, e alguns homens mais titubearam e advertiram aos outros que tivessem muito cuidado.

»Mas de todos eles, Diarmuid, o amado amigo e sobrinho de Fionn MacCumhaill; Diarmuid, que traiu seu amigo por amor, era o único que não tinha medo, e o único que continuou avançando.

Alainna estava sentada em um banco, entre Robert e Hugo, com outros cavaleiros a suas pés, e traduzia o conto de Lorne ao inglês em voz baixa, entrelaçando suas palavras com as dele como uma sombra aveludada. Sebastien a olhava distraidamente, com a cabeça apoiada na parede e dando voltas à taça de madeira na mão.

-... Quando viu que seu amigo Diarmuid jazia ferido e moribundo. - Continuou dizendo Lorne enquanto Alainna se fazia de eco. - Fionn teve que tomar uma decisão: podia salvar a seu amigo de alma, ou podia ter a vingança que desejava pelo dano que lhe tinha causado Diarmuid e sua própria esposa ao traí-lo com seu amor, um amor tão forte que passou por cima da honra do matrimônio e da amizade...

Sebastien escutava a hábil mescla da voz masculina e a feminina em dois idiomas. Estudou o pescoço de cisne de Alainna, notando como o resplendor do fogo intensificava o azul de seus olhos e ressaltava o brilho dourado avermelhado de seu cabelo. Passeou o olhar por seu corpo, percorrendo suas atraentes curvas e suas linhas firmes e estendidas. Sem esforço algum, imaginou a pele cálida e viçosa que havia baixo aquele tartam de lã, e se deu conta de que seu próprio corpo reagia imediatamente.

Bebeu um gole de uisge beatha de sua taça. A bebida fluiu por seu interior como fogo e nata, e voltou a beber. Contemplando Alainna, perdido no som suave de sua voz e no atraente e bem formado corpo, sentiu que se prendia uma faísca no mais profundo de si, sutil e poderosa.

Mais tarde, quando os que o rodeavam sorriram e aplaudiram e pediram mais a Lorne, Sebastien percebeu que estava tão absorto com o que via, tão abismado em seus próprios pensamentos, que havia perdido o final da história.

 

                         Capítulo 12

Alainna surgiu da névoa matutina como um fantasma, surpreendendo Sebastien de tal modo que este deu um salto para trás para não golpeá-la com a espada ao se virar de repente. Seu cotovelo esquerdo se chocou com o pilar de pedra que tinha às costas com um rangido audível.

Com a respiração agitada, olhou para Alainna sério ao mesmo tempo em que jogava a espada ao chão e se esfregava o cotovelo dolorido.

-Como diabos lhe ocorre se apresentar assim diante um homem?

-Peço-lhe perdão. - Disse Alainna. – Pensei que estava me vendo. Quero falar com você. Por que está aqui fora, com a Donzela? Já lhe vi outras vezes neste lugar, ao amanhecer.

Ele seguia sustentando o cotovelo.

-Prefiro praticar com a espada cedo e sozinho. Poderia ter lhe matado, pelo amor de Deus... apareceu de repente a meu lado esquerdo. – Calou-se por um instante. - Minha vista não é tão clara pelo lado esquerdo.

Alainna deixou um vulto no chão e se aproximou dele, apoiou a mão com naturalidade em seu braço e massageou seu cotovelo com dedos fortes e hábeis. A dor se dissolveu rapidamente.

-Sua vista não é clara por culpa da cicatriz? - Perguntou-lhe. - Como fez isso?

-Faz alguns anos, quando cavalgava escoltando à duquesa da Bretanha. -Respondeu Sebastien. - Atravessávamos um bosque e fomos atacados por bandidos. Eu defendi a carruagem na qual viajavam as senhoras e vários canalhas me atacaram ao mesmo tempo. Lutei contra eles, mas... – Encolheu os ombros, pois não desejava descrever o banho de sangue que seguiu. - Tive a sorte de sair com apenas esta ferida. Nesse dia morreram muitos outros.

-Ach Dhia. - Murmurou Alainna. Levou uma mão até o rosto de Sebastien. Este se afastou instintivamente, mas os suaves dedos da jovem encontraram a cicatriz e a acariciaram, lhe provocando ligeiros calafrios ao longo das costas. - Teve muita sorte de não ficar cego.

-Durante uma temporada não pude ver nada por esse olho. - Admitiu ele.

Os dedos de Alainna eram frescos e agradáveis, e ela estava tão perto como uma amante. Sebastien percebia a sutil fragrância floral de seu cabelo. Sempre parecia limpa e recém perfumada com lavanda ou urze, e aquilo parecia o enfeitiçar e embriagar.

-O médico do duque tinha certeza de que iria ficar sem olho. - Continuou, fazendo um esforço para prosseguir com a história. - O olho me curou, mas não tenho uma visão tão ampla com ele. Por isso. - Adicionou em tom mais rápido. - Pôde me surpreender, saindo como uma fada de entre a névoa.

-Me alegro de que não esteja cego. - Disse Alainna, retirando a mão.

-Eu também. - Concordou Sebastien com um sorriso triste. - O duque e a duquesa me recompensaram com propriedades na Bretanha. Quando me recuperei, o duque Conan me deu um cobiçado posto na Escócia como guarda de honra do rei Guillermo, que era irmão da duquesa da Bretanha. E essa é minha história, senhora. - Inclinou a cabeça cortesmente antes de voltar-se para recolher a espada.

-Não é sua história completa. - Assinalou Alainna.

-Não de tudo. - Sebastien embainhou a espada e recolheu sua capa forrada de pele.

Alainna inclinou a cabeça.

-Não encontrou na Escócia muito que lhe estimule, diria eu.

-Só chefes de clã com mau gênio e cabelo ruivo. - Respondeu ele com ironia. Alainna ruborizou, e ele sorriu. - Certo, há poucas emoções. No ano passado perseguimos um grupo de rebeldes e os endireitamos de modo contundente.

-Fugiram para Irlanda. - Disse Alainna-. Já sei. Mas um guerreiro de seu calibre deve sentir-se insatisfeito por estar a maior parte do tempo atrás de um rei, com pouco mais que ocupar seu tempo e seus talentos. - Inclinou a cabeça. - Essa é a razão pela qual quer retornar a Bretanha?

-Há muitas razões para isso. - Sebastien elevou uma sobrancelha. Veio para ver-me esta manhã com algum outro propósito, além de me irritar?

-Vim lhe dizer que Giric e os cavaleiros estão preparando os cavalos para sair a cavalgar de novo com você. Esta vez lhes acompanharei eu, se não se importar.

-Não me importa absolutamente. - Repôs Sebastien. - É um privilégio percorrer as propriedades com o chefe do clã.

Dirigiu-lhe um olhar irônico.

-Também vim para trazer uma oferenda à Donzela de Pedra. – Apontou o vulto que havia deixado no chão.

-Onde está seu grande cão de caça azul? Está sempre a seu lado.

-Ontem feriu a pata com um espinho. Morag a curou, mas agora coxeia e prefere a comodidade de um lugar contra o fogo.

-Em um dia como este, qualquer criatura sensata preferiria ficar perto do calor.

-Pode voltar para o calor, se quiser. - Disse Alainna com gesto desenvolto. Sebastien riu. Ela pegou o embrulho e se aproximou da pedra para depositá-lo ao pé da mesma. Sebastien viu que tirava um pequeno saco de aveia, um queijo redondo e uma terrina de nata.

-Oferenda para pedir boa sorte? - Perguntou-lhe.

-E também como amostra de gratidão à Donzela por seu amparo. -Respondeu Alainna. Deu três voltas ao redor da pedra e logo se deteve para passar os dedos sobre os relevos enquanto começava a murmurar em um musical gaélico:

 

Mulher do reino das fadas, guardiã de nossos lares,

proteja-nos e nos guarde,

neste dia e nesta noite, e para sempre.

 

-Um conjuro encantador. - Disse Sebastien. - Por que dá voltas à pedra?

-Traz boa sorte dar voltas deiseil, na direção do sol.

Ele assentiu, intrigado.

-Vêm aqui freqüentemente para pronunciar conjuros ante a Donzela de Pedra?

-É bom fazê-lo antes de empreender uma viagem, em dias especiais e em momentos de necessidade ou de mudanças.

-E que momento é este?

-De necessidade. - Respondeu ela. - De mudança.

-Ah. - Sebastien compreendeu. - Eu gostaria de saber se ela lhe protegerá dos invasores normandos que vieram a Kinlochan.

-Fará tudo o que estiver a seu alcance. - Respondeu Alainna.

Sebastien se aproximou um pouco mais à pedra e levantou os olhos para contemplá-la em toda seu estatura. Estirou uma mão e tocou um dos relevos.

-Esta pedra está há muito tempo aqui.

-Setecentos anos, conforme dizem. Lembro-me de tê-la visitado quando era menina. Segurava com força da mão de meu pai ao vir aqui, porque esta enorme pedra me assustava. Meu pai não soube nunca. - Disse Alainna, sorrindo levemente. - Ele presumia que sua pequena havia herdado sua valentia, além do mesmo cabelo vermelho e a mesma teimosia. – Encolheu os ombros. – Sinto falta dele.

-Estaria orgulhoso de você. - Murmurou Sebastien. Ela permaneceu muito quieta. - E suspeito. – Adicionou. - Que também é valente e teimosa ao dirigir o martelo e o cinzel.

Alainna riu com tristeza.

-Suponho que sim. - Aproximou-se da pedra e a tocou como a uma amiga.

-Prometeu me contar a história da Donzela de Pedra. - Lembrou-lhe Sebastien.

-É certo. - Alainna contemplou a alta coluna. - Era a bisneta do primeiro Labhrainn. Um dia saiu para colher nozes e bagos para o jantar de seu pai. Quando voltou à fortaleza e deixou atrás o lago, pensou nas fadas que viviam nas colinas, que eram amigas dela, pois ela era uma menina muito boa. Deixou-lhes um pouco de comida e seguiu seu caminho.

“Um homem chamado Nechtan, pertencente a um clã vizinho, aproximou-se dela e a saudou, e se ofereceu para levar sua cesta. Ela esperou. Mas, em vez disso, o homem o fez com más intenções. Ela lutou desesperadamente, mas ele tinha uma faca afiada e a feriu”.

Alainna se voltou de rosto para o lago, e Sebastien se voltou com ela. A praia de pedras estava rodeada de grama e juncos de cor parda, e as ondas beijavam lentamente a margem. A neblina flutuava sobre a água semelhante a retalhos de seda.

-Quando jazia moribunda na margem do lago. - Prosseguiu Alainna. - Com o sangue saindo dela, as fadas saíram da colina ao ouvirem seus gritos. Caçaram Nechtan e fizeram que com que caísse sobre sua própria faca. Depois rodearam à donzela e tentaram ajudá-la. As fadas sabiam muito bem fazer magia, mas não sabem curar.

“Não puderam lhe salvar a vida, mas empregaram sua magia para convertê-la em uma pedra à beira do lago para que sua alma estivesse sempre perto de seu amado lar. Logo lançaram o encantamento que afeta nosso clã e ao clã Nechtan. Aquele dia se fez dois encantamentos, um pelo bem e o outro por vingança”.

-O encantamento que lhe protege? - Perguntou Sebastien.

Alainna estremeceu e se levou uma mão ao tartam que lhe cobria a garganta, assentindo.

-A menina se converteu em uma donzela de pedra e permaneceu assim setecentos anos. Sobre o clã de seu assassino se lançou outro feitiço. - Calou um instante. - Se alguma vez um homem do clã Nechtan voltasse a fazer mal a uma mulher do clã Laren, a linhagem dos MacNechtan desapareceria em uma geração.

Sebastien ficou olhando.

-De modo que assim começou a inimizade.

-Durante gerações tentaram fazer desaparecer nossa linhagem. Não fazem mal a nossas mulheres, mas sempre lutaram contra nossos homens, e talvez um dia nos destruam.

-Cormac parece estar empenhado em pôr fim a isto.

-Um fim amargo. Fala de paz enquanto traça sinistros planos. Está ganhando tempo. Os setecentos anos terminarão no primeiro dia da primavera.

Sebastien lançou um profundo suspiro.

-E o que ocorrerá então?

-Quero lhe mostrar uma coisa. - Disse Alainna, voltando-se de novo para a pedra. Ajoelhou-se e afastou algumas das altas gramas que rodeavam a base da pedra.

-O que são essas marcas? - Sebastien fincou um joelho na terra a seu lado e correu os dedos pelas filas de traços verticais que arranhavam a pedra, similares ao bordado de uma saia de mulher.

-Aqui há seiscentas e noventa e nove incisões. - Disse Alainna. - Cada ano, no primeiro dia da primavera, o chefe do clã Laren acrescenta uma marca nova. Na próxima festividade de Santa Brígida, que nós consideramos o começo da primavera, eu acrescentarei a marca número setecentos.

-E desse modo terminará o encantamento. - Disse Sebastien com seriedade.

-E depois, não sabemos o que acontecerá. Levantar-se-á uma maldição que pesa sobre o clã Nechtan e a alma da Donzela de Pedra ficará livre. Alguns dizem que ela voltará para a vida. - Disse Alainna com suavidade, acariciando o frio granito com os dedos. - Outros dizem que já se foi e que deixou que exercer seu amparo.

-E a disputa de sangue?

-Pode que termine ou que piore. Não haverá nenhum feitiço que dissuada a nossos inimigos.

Levantou-se, e Sebastien fez o mesmo.

-Haverá cavaleiros que os dissuadam. Tudo irá bem.

-Assim acredita? - Alainna o olhou.

Ele franziu o cenho e não disse nada. A história da Donzela de Pedra ainda ressonava em sua mente. Não acreditava ter ouvido uma história mais comovedora; possivelmente estava tão fascinado pela narradora como pelo conteúdo do conto.

-Como se chamava essa donzela de Kinlochan? - Quis saber.

-Alainna. - Respondeu ela. - Significa «a linda».

Sebastien sustentou seu olhar.

-Esse nome lhe parece apropriado. - Murmurou.

Ela ruborizou.

-A Donzela é muito especial para mim; de certo modo é como uma irmã. -Sorriu e foi ao outro lado da pedra. Ele a seguiu.

-Me fale destas marcas. - Disse-lhe, tocando as raias gravadas, simples esboços curvilíneos de animais e objetos. - Alguns me resultam fáceis de distinguir... Isto é um peixe, e isso um urso. O que são outros?

-Trata-se de marcas muito antigas. - Disse Alainna. - Um salmão que representa a prudência, e esta forma redonda é um espelho, aquela um pente. Essa espiral tripla é um símbolo sagrado de Santa Brígida. Nem sequer Lorne sabe o que significam todos esses desenhos, mas há quem diga que significam que a Donzela está dentro da pedra.

-É um trabalho muito belo. Vejo similitudes com o que você faz.

-Aprendi muito estudando esta pedra e de observar outros antigos relevos celtas.

-Estes desenhos parecem bastante difíceis de gravar. - Disse Sebastien, olhando uma complicada sianinha cheia de pontos.

-Em realidade, não. Desenham-se sobre modelos de quadrados e círculos. Quando um desenho se repete tem que riscá-lo com supremo cuidado, mas o fato de gravá-lo em si não é difícil. Precisa ter uma mão firme e trabalhar devagar. O melhor é uma mão suave.

-Vocês têm ambas as coisas, tenho certeza. - Murmurou Sebastien.

Ela ruborizou de novo e desviou o rosto. - Vi desenhos decorativos parecidos no Igrejas da Escócia, e também em manuscritos.

Com um dedo em alto, Alainna seguiu um risco ondulado ao longo de um dos entrelaçados.

-Estes desenhos são mais que decorativos, têm um significado. Este é uma série de nós sem fim, veja. - Disse. - Os nós são como os filamentos místicos da vida que une a alma ao mundo. Não podem desatar-se.

-Ah. E isto? Estas espirais? - Perguntou ele, tocando um círculo cheio de três espirais em leque.

-Representam o infinito fluxo da vida. E este comprido trançado daqui é como o tear da vida, o constante entretecido de acontecimentos que se mesclam entre si. - Olhou para Sebastien. - Temos uma adivinhação: Quem é o ser que existe, mas que nunca nasceu e alguma vez nascerá?

Sebastien estendeu a mão para deslizar os dedos sobre um trançado, ao lado da mão de Alainna, roçando seus dedos.

-A alma. Estes desenhos descrevem o caminho da alma.

-Assim é. – Disse ela, e sorriu. - Todas as almas possuem fios que as unem com Deus e com o mundo. As almas podem florescer e crescer em suas vidas, ou podem perder-se, ou romper-se, ou roubar-se. Nós acreditamos que as almas feridas e as almas errantes podem recuperar-se por meio dos mesmos fios que as seguram.

Sebastien a olhou.

-As fazer voltar para a vida?

-As fazer voltar para cuidando-as. As amando. É o assunto de muitos de nossos relatos.

Ele assentiu enquanto tocava os desenhos.

-A intenção destes desenhos é nos lembrar que nossas almas são valiosas. -Continuou Alainna. - E que cada um de nós tem um caminho na vida. Celebram o milagre sem fim da alma e a vida. Cantam à alma, a sua maneira. - Seus dedos dançaram ao longo das curvas e os redemoinhos.

Sebastien deteve sua mão. Já não olhava os desenhos; olhava Alainna, e naquele momento se deu conta de que as fibras rasgadas de seu coração não estavam perdidas, mas sim simplesmente separadas do tecido de sua vida. Aquela revelação lhe produziu uma inesperada sensação de esperança.

Ela o olhou com os olhos de um limpo azul. Ele levantou uma mão para tocar uma de suas tranças da cor do bronze. Era como seda fria e brilhante.

-Trançado. - Murmurou em tom rápido. – Como o desenho antigo.

Alainna sorriu, e Sebastien puxou brandamente a trança para que ela se inclinasse um pouco até ele.

Com a palma da mão sobre a pedra por cima da cabeça dela, inclinou-se, ainda com a trança na mão. Sentiu-se atraído por uma força sutil e irresistível, que não sabia se emanava dos formosos e penetrantes olhos da jovem ou da pedra misteriosa que os dois estavam tocando.

Apenas os separavam uns centímetros, e Sebastien viu que as pálpebras de Alainna se fechavam lentamente e que levantava a ponta do queixo, um movimento tímido e vacilante que o fez conter a respiração. Com o coração desbocado e o corpo inflamado por uma súbita labareda de desejo, apoiou os lábios na boca da moça.

Sentiu seus lábios mornos e flexíveis debaixo os dele, mais doces e mais amenos do que jamais teria imaginado. Soltou a trança e deslizou os dedos por sua bochecha, inclinou a cabeça, aprofundou o beijo. Alainna levantou uma mão para ir apoiar no ombro dele, enquanto com a outra lhe tocava o queixo em uma leve carícia que de algum modo penetrou como fogo na medula. Sebastien deixou escapar um grave gemido e a abraçou, beijando-a de novo, afastando a mão da pedra para apoiá-la na nuca de Alainna.

Sentiu que ela o rodeava com os braços, forte e esbelta, e mesmo que estivesse sobre terreno firme, ao abraçá-la e beijá-la por um momento acreditou flutuar em um torvelinho.

O frio vento penetrava entre ambos como uma reprimenda e Alainna deixou escapar uma exclamação afogada pela boca dele, e se afastou. Sebastien retrocedeu, ainda abraçando-a. Ela o olhou com os olhos muito abertos e a boca viçosa e rosada, e cobriu os lábios com dedos pálidos e trementes.

Sebastien a soltou de tudo e deu um passou atrás.

-Deus santo. - Disse sem fôlego. - Deus santo. - Ele mesmo não sabia se aquelas palavras eram de desculpa ou de pura surpresa.

Alainna estendeu seus dedos trêmulos para tocar a superfície de granito.

-A Donzela. - Disse. - Bem pode ter sido a Donzela... Há quem diga que a rodeia uma poderosa força. Uma força bondosa. - Acrescentou a toda pressa.

Sebastien assentiu e ocorreu os dedos pelo cabelo.

-Isto é um impulso natural. - Disse com voz rouca sem saber muito bem se Alainna era consciente, até aquele momento, de que existia uma força assim entre um homem e uma mulher. Ele possuía muita experiência, mas nunca havia sentido tal energia em um beijo, como uma mistura de luxúria e prece. O coração ainda lhe retumbava no peito.

-Um impulso natural. - Repetiu. - Depois de tudo, vamos nos casar.

-Sim. -Disse ela elevando a barra da saia e voltando-se. – Eu sei.

Afastou-se dele meio correndo, contornando a borda de lago para retornar à fortaleza, com as tranças ondulando às costas.

Sebastien a olhou partir, logo contemplou a Donzela de Pedra e seus relevos cheios de pontos e laços. De repente teve a sensação de que uns poucos e belos fios tivessem encontrado o caminho de volta ao desenho de sua própria vida.

-Sim, foi a donzela. - Murmurou para si mesmo enquanto empreendia a volta. - Mas não foi ela só.

 

-No extremo sul do lago. - Disse Alainna, assinalando desde seu cavalo -. Kinlochan tem colinas largas e ondulantes com bons pastos, e também algumas terras cultiváveis. Ao norte. - Girou seu cavalo para assinalar de novo. - A terra é mais agreste, mais dura, com altas montanhas e penhascos escarpados. Ali há zonas de pastos, mas escasso terreno para cultivar.

Sebastien assentiu com um gesto, a lombos de seu corcel árabe de cor creme, cuja crina resplandecia como a seda no ar frio e claro.

-Kinlochan se encontra situado a beira das Highlands, a modo de porta de entrada. - Observou. - O lago mesmo está justo no ponto onde a terra muda. O resto da montanha que domina o lago parece como se tivesse sido arrancado da rocha pura pela mão de Deus.

-É um lugar espetacular e muito formoso. - Disse Robert. Sebastien se voltou para olhá-lo. - Agora compreendo por que é uma propriedade tão desejável.

Giric deteve seu cavalo ao lado de Alainna.

-O clã Laren leva gerações lutando para defender estas terras.

-E agora as perdem com tanta facilidade. - Disse Robert. Sebastien captou a preocupação que refletia o semblante de seu amigo e se deu conta de que este tampouco aprovava o fato de arrebatar aquelas terras de quem tinha sido seus donos durante gerações.

-Quantas fazendas arrendatárias existem em total dentro da propriedade? -Perguntou Sebastien. - Não vimos mais que umas poucas.

-Quinze. - Respondeu Alainna. - A maioria delas já não estão habitadas.

-Os fazendeiros morreram, ou eles e suas famílias abandonaram o clã Laren e se foram a outro lugar em busca de uma vida mais segura. - Explicou Giric. - Apascentar rebanhos com os MacNechtan roubando tantas cabeças de gado não é gratificante.

-Imagino. - Disse Sebastien com gesto sério. Cavalgaram até o norte, em direção a uma larga pradaria cheia de árvores. Uma magra capa de neve a havia convertido em uma esplanada branca e as árvores nuas formavam escuros e complicados desenhos que se recortavam contra o céu cinza.

-É mais tarde do que eu esperava. - Disse Alainna. - Quase anoiteceu, e já passou da hora que deveríamos ter retornado a Kinlochan.

-Una e as mulheres terão já o jantar pronto. - Conveio Giric.

-E muitos dos cavaleiros se acostumaram aos contos que narra o bardo de noite. - Comentou Robert. - Alguns saíram a patrulhar enquanto nós estávamos fora, mas é muito provável que já tenham retornado e nos estejam esperando.

Sebastien assentiu e fez seu cavalo apertar o passo. Esse dia havia escolhido o cavalo árabe, mas descobriu que tinha que selecionar cuidadosamente as rotas a seguir por aquelas acidentadas colinas. Mesmo que os corcéis árabes tivessem uma pernada mais longa e rápida que os percherones (uma raça especifica de cavalos escoceses) corpulentos que montavam Alainna e Giric, os destes resultavam muito mais adequados ao terreno. Robert também havia tomado um daqueles animais e parecia gostar de tê-lo escolhido, mesmo que às vezes suas longas pernas faziam com que arrastasse os pés pelas gramas maiores. O caráter afável de Robert havia convertido aquela circunstância em objeto de diversão em vez de indignidade, como poderia ter sido o caso de muitos cavaleiros normandos.

Sebastien diminuiu a marcha o suficiente para que Alainna pudesse situar-se a sua altura. Ela mostrava uma atitude ligeiramente fria, mais formal que antes, mas ele não podia censurá-la depois daquele surpreendente beijo.

Apontou para o lago que se divisava ao longe.

-Há várias ilhas no lago. Há construções em alguma delas?

-Só na maior, a do meio. - Respondeu ela. - Ali se levanta uma antiga torre. Giric e eu, e meus irmãos, íamos ali de meninos. Há boa pesca. Às vezes vou recolher pedras para o trabalho; as que estão lisas pela água aceitam bem as incisões, assim gravo cruzes nelas.

-Deu uma ao rei. - Disse Sebastien. Alainna sorriu. - Tem nome seu lago? -Perguntou-lhe depois.

-Lago Eiteag - Respondeu Alainna. - Que quer dizer «calhau branco e liso», a mesma palavra que também pode significar «donzela loira». - Sorriu. - Chama-se assim pela Donzela de Pedra, mas nós o chamamos simplesmente de lago.

Sebastien levou uma mão aos olhos a modo de viseira e olhou o lago.

-Eu gostaria de saber se essa ilha seria uma boa base para um castelo.

Ela encolheu os ombros.

-É um entorno muito belo, mas será prático? Necessitaria uma embarcação para chegar até ele, a não ser que construa uma ponte.

-Isso pode ser feito. O lago é estreito, e proporcionaria um excelente amparo.

-Certo. - Disse Alainna. - E mais, algum antigo clã construiu nessa ilha. As ruínas são muito velhas e agora só servem de casa para os pássaros.

Sebastien assentiu sem deixar de contemplar a ilha, e decidiu investigá-la mais adiante, quando surgisse a oportunidade. Também faria um esboço de sua idéia, pois a perspectiva de construir um castelo sobre uma ilha possuía um grande atrativo.

Enquanto prosseguiam a marcha, de repente Sebastien ouviu um uivo, violento e alarmante, que reverberou por toda a pradaria. Voltou-se para olhar Robert e Giric, os quais giraram em suas montarias com o cenho franzido.

-Isso parece um lobo. - Disse Giric.

-Mais de um. - Apontou Robert. - Veio dali... do bosque que há do outro lado do prado.

Nesse momento se ouviu um chiado, agudo e estridente, logo outro grito, e depois mais uivos.

Sebastien olhou para Alainna, que havia empalidecido e girava para esquadrinhar o bosque.

-Não se movam daqui! - Ordenou-lhe Sebastien, e ato seguido esporeou o cavalo árabe, que reagiu lançando-se para frente para atravessar o prado.

A suas costas, ouviu que Robert e Giric o seguiam a todo galope. Um rápido olhar revelou que Alainna cavalgava atrás deles. Jurou baixo, mas de todos os modos não esperava que ela obedecesse.

Ao aproximar-se do bosque, ouviu com claridade os gritos e os uivos inclusive por cima do estrondo dos cascos dos cavalos sobre a neve. Freou seu cavalo e penetrou com cautela na densa abóbada de árvores quase nuas, agachando a cabeça para evitar um galho. Aferrou o punho de sua espada, desejando ter levado seu arco. Justo em frente viu, através do emaranhado de galhos, figuras que lutavam nas sombras azuis. Os gritos e os horríveis uivos continuavam sem cessar. Então se desprendeu da capa e desmontou.

Pôs-se a correr adiante e lançou um olhar fugaz a suas costas para ver se Robert e Giric o seguiam. Assim era. Também viu que Alainna continuava montada, e esperou que tivesse suficiente sentido comum para ficar ali.

Ao aproximar-se viu um homem em luta com um lobo, enquanto que um segundo lobo saltava sobre ele. O homem, um montanhês a julgar por seu tartam e seus joelhos nus, lançou um chute e, de um só golpe, deixou o lobo sem sentido. O animal gemeu e desabou no chão, onde ficou imóvel.

O primeiro lobo tinha agarrado fortemente o homem pelo braço. Ambos se debateram juntos, girando em uma horrível dança, o homem de pé e o lobo cinza levantado sobre suas patas traseiras. Sebastien viu uma mulher que subia em uma árvore levando um menino pequeno que empurrou até um robusto galho.

Sebastien se voltou rapidamente para Giric e Robert, que se encontravam a vários metros dele.

-Seu arco! - Gritou agitando uma mão. - Seu arco de caça! Me de!

Giric, que levava consigo a arma, chegou correndo e a lançou para Sebastien, tirou várias flechas de seu cinto e as deu também. Sebastien as pegou e se voltou para a cena.

O montanhês lutando com o lobo, e agora o segundo estava levantando-se com esforço. A mulher soltou um alarido.

Sebastien colocou a flecha, equilibrou-a e esticou a corda em um só movimento fluido, e disparou o projétil sobre o lobo que avançava. O animal caiu no chão. Então Sebastien se lançou adiante, com Giric e Robert lhe pisando os calcanhares. Não podia perder um só momento em olhar para Alainna.

Ao aproximar-se percebeu que não podia disparar ao outro lobo tão facilmente; o constante retorcer-se e girar de homem e lobo em sua resistência fazia com que disparar resultasse muito traiçoeiro, e temia que pudesse matar ao homem em vez do animal.

Plantou-se com as pernas separadas e apontou uma e outra vez, sem disparar, baixando cada vez o ângulo da flecha, sem ver uma possibilidade clara de atingir o alvo. Os uivos e a violenta resistência suscitavam nele a desesperada necessidade de ajudar. Estava claro que o montanhês se havia colocado em perigo para salvar à mulher e ao menino, que continuavam na árvore, fortemente abraçados.

Só levava uns segundos ali de pé, mas o tempo era algo muito precioso para tentar esperar. De modo que entregou o arco a Giric, desembaiou sua espada e se lançou à carga. Pela extremidade do olho viu que Giric esticava o arco e o apontava, e que Robert tirava uma adaga e o seguia, preparado para cobri-lo.

Com a folha nua, Sebastien se situou mais perto e se deteve, trocando o peso de um pé ao outro, com a espada em alto. Quando homem e animal giraram de novo, lançou a larga folha no ar, preparado para golpear. Assim que viu o lombo estendido e musculoso do lobo girar até ele, deu um golpe lateral velozmente e com toda sua força, que abateu o animal imediatamente. O lobo desabou no chão e soltou o braço do homem.

Por um momento, Sebastien e o montanhês se olharam fixamente um para o outro. O homem estava coberto de sangue, o tartam esmigalhado e de cor clara que lhe envolvia o braço como um frágil amparo se via empapado. Permaneceu de pé, respirando pesadamente, o rosto de feições duras e bonitas mesmo que envelhecido, os olhos de um penetrante azul sob umas sobrancelhas escuras, o cabelo escuro e com fios chapeados. Cravou seu olhar no de Sebastien, e logo olhou os outros.

Então, com um rápido gesto da cabeça a modo de agradecimento a Sebastien, deu meia virou e se internou rapidamente nas sombras do bosque.

 

                           Capítulo 13

Alainna gritou e começou a correr para frente, levantando as saias para avançar sem tropeços, abrindo caminho através da vegetação e afastando os galhos magros de seu caminho. Diante dela, a luta entre o homem e o lobo havia finalizado. De longe havia visto Sebastien atacar e matar a um dos lobos, e viu aterrorizada que depois se aproximava ainda mais, como se não temesse absolutamente por sua vida, para derrubar o outro a pouca distancia com sua espada.

Deteve-se e observou como o montanhês encarava Sebastien ao outro lado do corpo morto do animal. Naquele momento o coração, que lhe pulsava com força no peito, quase parou.

Era Ruari MacWilliam que olhava para Sebastien, e o que logo a olhou para ela. Os olhares de ambos se tocaram diretamente, reconhecendo-se.

Logo, o montanhês deu meia volta e pôs-se a correr.

Alainna deixou escapar uma leve exclamação e tampou a boca com as mãos tremendo. Giric e Robert passaram velozes por seu lado fazendo ranger a neve e a erva daninha sob seus pés. Estava segura de que o homem que havia visto era seu parente Ruari Mór. Mas Ruari estava morto, lembrou-se a si mesma, morto pelos homens do rei no campo de batalha ao sul da Escócia, no ano anterior. Entretanto, estava segura; reconhecê-lo-ia em qualquer parte, sob qualquer barba, ensanguentado ou não. E ele havia reconhecido a ela, Alainna tinha visto em seus olhos.

Com as pernas tremendo, avançou uns passos. Sebastien limpou sua espada na neve e a guardou e a seguir se encaminhou até a base da árvore para ajudar à mulher e ao menino que estavam nela.

Alainna acudiu em seguida para ajudar. Quando a mulher desceu da árvore, viu que era uma amiga dela. Ambas as mulheres soltaram um grito e se fundiram em um abraço.

-Lileas. - Exclamou Alainna. - OH, Lileas! Já está a salvo!

-Olhou para cima. - É Eoghan que está na árvore? Ach, pequeno, desça aqui! O cavaleiro te pegará! Vamos, desça já!

-Eoghan. - Repetiu Sebastien, estirando-se para agarrar o menino pela cintura. - Vêm comigo. Isso. - Disse com alivio enquanto pegava o leve peso do menino nos braços.

Voltou-se com o pequeno de cabelos escuros comodamente agasalhado em suas braços e olhou para Lileas sorridente. Eoghan, o qual Alainna sabia que tinha três anos, contemplou o cavaleiro e a sua mãe com grandes olhos castanhos notavelmente tranquilo.

-Obrigada. - Disse Lileas em gaélico, e dirigiu a Alainna um olhar de insegurança. - Alainna, este cavaleiro está contigo?

-É Sebastien Le Bret, que veio para Kinlochan com os homens do rei. -Respondeu ela. - Sebastien, esta é Lileas, filha do padre Padruig, o sacerdote de nossa paróquia. E seu filho Eoghan.

Alainna se fixou em Sebastien que ocultava sua surpresa admiravelmente bem; estava segura de que não era frequente que conhecesse uma filha e um neto de um sacerdote. O normando piscou e sorriu imediatamente, e inclinou a cabeça para Lileas a modo de saudação.

-Estamos muito agradecidos. - Disse Lileas.

Estendeu os braços para tomar a seu filho, o qual sacudiu negativamente a cabeça e se aferrou ao pescoço do cavaleiro. Sebastien parecia cômodo com o menino em braços. Conversava com ele em voz baixa para distraí-lo da visão dos lobos mortos e as manchas de sangue na neve enquanto o levava até a beirada exterior do bosque, onde aguardavam os cavalos.

Alainna o seguiu com um braço ao redor de Lileas, que correu uma mão trêmula pelo cabelo vermelho escuro. Estava tremendo de frio, e Alainna se deteve um momento para tirar o tartam arisaid e colocá-lo sobre os magros ombros de Lileas, ao ver que a jovem não usava o seu em cima da túnica de cor parda.

-Eoghan e eu voltávamos para casa, a nossa pequena cabana, depois de visitar meu pai. - Disse a Alainna sem fôlego. Sebastien se girou para ouvi-la-. Não percebi que estava tão tarde. Então apareceram os lobos e nos seguiram, tão silenciosos e ameaçadores... - Estremeceu de novo, esta vez de horror.

-Quem era o homem que lhes acompanhava? - Perguntou-lhe Sebastien.

-Não nos acompanhava. Saiu do bosque para nos ajudar. De repente se apresentou ali, graças a Deus. Nunca o havia visto. Deixou Eoghan na árvore e também me ajudou a subir, e depois se enfrentou aqueles lobos como se não fossem nada que temer. -Olhou a suas costas. - Esperou que o encontrem. Não sei por que se pôs a correr. Esta ferido gravemente, tenho certeza, mesmo que lhe dando meu arisaid para que envolvesse o braço com ele ao enfrentar-se os lobos.

-Provavelmente isso lhe salvou o braço. - Disse Sebastien, que olhou para Alainna com o cenho franzido. - Conhece esse homem?

A jovem tragou saliva.

-Não... Não o vi de perto. - Respondeu com cuidado. - É estranho ver por aqui um cavaleiro com armadura. Talvez seja esse o motivo pelo qual se assustou e saiu correndo.

Sebastien riu, uma risada breve e concisa.

-Um homem que se enfrenta a dois lobos não se assusta facilmente.

-Voltou os olhos para trás. - Ah, já vêm Giric e Robert.

Alainna se voltou também.

-Sem o montanhês.

Seu irmão adotivo e o cavaleiro normando correram até eles.

-Foi-se. - Disse Robert sem fôlego. - Sumiu. Parece assombroso, para um homem tão ferido gravemente. Nem sequer há uma pista de sangue para seguir.

Sebastien assentiu com um gesto.

-Um poderoso guerreiro, esse homem. - Disse pensativo, e se voltou para Alainna com olhar claro e penetrante. Ela levantou o queixo e lhe devolveu o mesmo olhar, com o coração acelerado. – Conhece-o? - Perguntou Sebastien para Giric.

-Não o vi bem. - Respondeu Giric. Dirigiu um olhar rápido e sério para Alainna, e esta se deu conta de que seu irmão também havia reconhecido o guerreiro.

-Se era um MacNechtan. - Disse Robert. - Isso explicaria por que fugiu.

-Poderia ser. - Sebastien não parecia convencido.

-Lileas, está ferida? - Perguntou Giric.

-Estou bem. - Disse a jovem. - E meu filho também se encontra a salvo, graças a este cavaleiro e ao homem que fugiu.

-Deixe que lhes leve a casa - Disse Giric, e olhou para Sebastien. - Robert e eu carregaremos os lobos em um dos cavalos, e Robert pode levá-lo para Kinlochan. Depois eu escoltarei Lileas e Eoghan até sua casa. Não está longe daqui, mas não se encontra nas terras de Kinlochan. Alainna não deveria vir.

Sebastien aceitou com um movimento de cabeça.

-Eu a levarei de virou para Kinlochan.

Enquanto Giric ia procurar seu cavalo e Robert retornava à árvore, Sebastien se voltou, ainda com o menino nos braços, e se dirigiu até onde estavam os cavalos. Alainna e Lileas o seguiram. Eoghan assinalou o cavalo de Sebastien, que pastava silenciosamente na grama e se sobressaía entre a neve.

-É esse seu cavalo?

-Sim. - Respondeu Sebastien. – Venha, vou lhe apresentá-lo, chama-se Araby. Sua mãe era de um país no qual faz muito calor e muito sol. Não gosta de muito do frio. - Acrescentou.

-Eu gosto do frio. - Disse Eoghan. - Eu gosto dos cavalos. Os cavalos brancos. - Mostrou um largo sorriso.

Sebastien levantou o menino para que pudesse tocar as crinas longas e de cor creme do cavalo e lhe acariciar a cabeça, enquanto o animal se mantinha passivo. Logo o sentou na sela.

-Eu terei um cavalo e uma espada. - Anunciou Eoghan. - Serei um guerreiro como meu pai.

-Estou seguro de que era um bom guerreiro, e você também o será

-Disse Sebastien. Fez o cavalo caminhar em círculos enquanto Eoghan, que sustentava as rédeas, sorria feliz.

-Vamos já, sua mãe está esperando. - Disse Sebastien então. - Se alguma vez vier a Kinlochan, poderá se sentar no lombo de Araby e dar uma volta. Você gostaria?

Eoghan assentiu muito a sério, e Sebastien o deixou nas mãos de sua mãe. Despediu-se deles e aceitou o agradecimento de Lileas. Esta deu um abraço em Alainna e levou Eoghan até Giric e Robert, que estavam saindo do bosque.

-Têm frio. - Disse Sebastien a Alainna em tom austero enquanto pegava na sua sela sua capa forrada de pele e a colocava sobre os ombros da jovem. Vista isto.

Ela se estremeceu e o agradeceu com um gesto. Sebastien a ajudou a subir a seu cavalo e depois, quando ele se voltou para montar também, Alainna olhou furtivamente para o bosque, como se esperasse que aparecesse Ruari MacWilliam.

Estava segura de que Ruari estava já longe dali. Esperava que se refugiasse na segurança da casa de sua esposa nas colinas. Reprimiu uma leve exclamação e se perguntou se não teria estado já ali, se não seria aquela a razão pela qual Esa se negava a descer das colinas e ficar em Kinlochan.

Sebastien deu volta em seu cavalo para ficar ao lado de Alainna. Esta sorriu apesar dos angustiantes pensamentos que lhe corriam pela mente.

-Mostrou muito valor aí atrás. - Disse-lhe. Ele encolheu os ombros e murmurou umas palavras de modéstia. - Foi um ato prodigioso. - Insistiu Alainna. - Giric contará aos meus, e Lorne ficará encantado. Já está compondo um poema a respeito de você e do urso. Agora terá que acrescentar mais versos. Estou muito agradecida por atuar tão rapidamente para salvar à filha do padre Padruig e a seu filho. Ouvirá muitas palavras de agradecimento pelo que fez.

Sabia que estava falando muito, mas é que queria evitar que seus pensamentos e seus olhos escapassem até o bosque.

-Eu cheguei primeiro, isso é tudo. - Disse Sebastien. - Giric teria feito o mesmo, ou Robert, ou qualquer outro que tivesse armas e capacidade. O valente foi esse misterioso gaélico que fugiu antes que pudéssemos lhe agradecer.

Alainna manteve os olhos à frente.

-Esperou que não esteja ferido gravemente.

-Esperemos que tenha parentes perto que possam lhe curar as feridas. -Murmurou Sebastien, olhando-a de relance. Alainna se limitou a assentir e não disse nada. - Eoghan é um menino muito bom. - Comentou ao fim de uns instantes.

-Gosta dos cavalos e os guerreiros, como todos os meninos pequenos. -Disse ela. – Foi muito paciência com ele.

-Foi um prazer. O sacerdote é avô dele?

-O padre Padruig e sua esposa têm três filhas. Os sacerdotes das Highlands que pertencem à Igreja celta e não a de Roma tendem a casarem-se e formar uma família.

-Ouvi sobre isso. Sei que Roma condena essa prática, mas aos montanheses isso não parece incomodá-los. - Olhou para Alainna. - O pai de Eoghan está vivo, ou é um dos homens que morreram lutando pelo clã Laren?

Alainna titubeou.

-Seu pai é Cormac MacNechtan.

-Cormac! - Sebastien ficou olhando. – Pensei que não estava casado... Pediu sua mão.

-Faz alguns anos ele e Lileas se uniram pelo rito do apertão de mãos. -Explicou Alainna.

-O apertão de mãos? É como casar-se?

Ela assentiu.

-É um passo intermédio entre o compromisso e o matrimônio, com os votos de um e os privilégios do outro. Se não forem felizes, o casal pode dissolver a união ao fim de um ano e um dia. A maioria fazem os votos ante um sacerdote.

-Lileas e Cormac não fizeram os votos?

-Ela viveu com Cormac em Turroch, mas sua união pelo apertão de mãos não chegou a durar um ano. Teve Eoghan poucos meses depois de retornar a casa de seu pai. Agora, ela e o menino vivem em sua própria casa, que lhes proporcionou Cormac. Ele reconheceu o menino, como devido.

-Então lhe cabe certa honra. - Disse Sebastien, um tanto irônico.

Alainna encolheu os ombros.

-Você se mostrou amável com o pequeno. Esperou que conhecer o nome de seu pai não lhe faça mudar de opinião.

-Não penso fazer pagar o menino pelos pecados de seu pai. - Replicou ele. O vento lhe revolveu o cabelo quando levantou os olhos para as montanhas. Lembra-me alguém.

-Eoghan se parece com seu pai.

-Lembra meu filho.

Alainna o olhou boquiaberta.

-Seu filho? - Naquele dia já havia tido muitos emoções, disse a si mesma, meio enjoada; primeiro os lobos, logo Ruari, agora isto. Continuou olhando-o fixamente. - Seu filho?

Sebastien esboçou um lento sorriso, e Alainna viu nele orgulho e prazer.

-É um pouco maior que Eoghan. Eu sou viúvo.

-Não tinha me dito isso disse.

-Não me perguntou. - Repetiu as mesmas palavras que ela disse. - Este matrimônio nos veio imposto muito rapidamente aos dois, há detalhes que não conhecemos um do outro.

Ficou calado uns instantes. - Se tiver algo para me contar, esta é a ocasião de fazê-lo.

-Eu não tenho marido. - Disse Alainna, séria. - Nem filhos.

-Me alegro de saber. - Repôs ele em tom macio.

-Quando se casaram? - Quis saber Alainna, de repente sem fôlego, com o coração lhe retumbando no peito ao imaginá-lo com uma esposa anterior, sem dúvida uma mulher com a qual se havia casado por decisão própria. De forma espontânea, a lembrança do beijo que tinham compartilhado fazia seu rosto arder.

-Foi há seis anos. Faz mais de três desde que morreu. - Apoiou sobre a coxa o punho fechado e com os nós dos dedos brancos. Aquela calada intensidade comoveu o coração de Alainna.

-E o menino? Onde está agora?

-Na Bretanha. Só tem cinco anos. Chama-se Conan, como meu suserano, o duque da Bretanha.

Contemplou-o, curiosa e atônita. Percebeu que aquele homem guardava um profundo poço de sentimentos e experiências, que só lhe havia contado o mais superficial, mas o que se vislumbrava por debaixo era muito tentador. Era pai, havia sido marido, havia se criado órfão em um monastério para meninos enjeitados. Não lhe estranhava que houvesse mostrado tanta paciência e amabilidade com Eoghan.

-Por que não me fala dele?

Sebastien deixou passar alguns uns instantes.

-É esperto e forte, loiro como eu, e tem os olhos de sua mãe. É como... como a luz do sol. - O brilho sutil de seu sorriso oprimiu o coração de Alainna. - Deixei-o com amigos, monges, em um monastério na Bretanha, o lugar onde eu vivi quando era pequeno. Pareceu-me o melhor.

-Estou segura de que se encontra seguro e bem cuidado durante sua ausência.

Ele franziu o sobrecenho.

-Conan já não está ali. Um incêndio destruiu uma grande parte do complexo e todos foram forçados a partir. Eu me inteirei disso pouco antes de ser enviado aqui. - Esticou a mandíbula. - Agora não sei onde está.

-Oh, Sebastien. - Sussurrou Alainna, e estendeu uma mão para lhe tocar a manga da cota. - Esse é o motivo pelo qual está tão decidido a retornar.

-Em parte. Logo que me inteirei mandei uma carta, oferecendo que fizessem uso de minha propriedade na Bretanha, mas não sei se a carta chegou.

-Deve retornar e procurar o menino. - Disse Alainna com decisão-. E trazê-lo com você para Escócia.

Sebastien levantou as sobrancelhas.

-Aqui?

Alainna afirmou com a cabeça.

-Aqui tem um lar e uma família.

Sebastien diminuiu o passa do cavalo e olhou fixamente para a jovem. Logo reatou a marcha em silêncio, olhando as colinas, como se tivesse esquecido que ela estava a seu lado.

-Sebastien? - Disse ela.

-Não... Não tinha pensado trazê-lo aqui. - Respondeu ele. - Sempre pensei que Conan cresceria na Bretanha. Converter-se-ia em conde das terras de sua mãe na França, que agora estão em posse de seu avô.

-Ah. - Sentiu que a invadia uma dor fria. - Entendo. Não quer que seu filho cresça como um bárbaro em uma terra selvagem.

-Não é isso. - Replicou ele bruscamente.

-Não sou idiota. - Alainna não quis olhá-lo.

Sebastien suspirou, como sem vontade de falar.

-Eu... Eu tenho muitos sonhos, muitas ambições em minha vida. - Disse por fim. - Não esperava que nada disso me conduzisse até aqui, mas por alguma razão aconteceu.

-E o lamenta. - Disse Alainna. O vento levantou a barra da capa que usava e lhe revolveu o cabelo. - É compreensível em um cavaleiro de seu calibre e sua educação.

-Você conhece muito pouco sobre minha educação.

-Então me fale você, para que a conheça.

-Não contei a quase ninguém.

Alainna aguardou, mas ele não disse mais nada.

-Protege seu passado com grande zelo.

-Simplesmente não sou dado a falar disso. Meu passado é... meu.

Alainna o olhou séria.

-Algum dia romperá essa couraça que leva sobre o coração, Sebastien Bàn. -O nome que usava Una para nomeá-lo veio aos lábios de forma natural.

-Pode ser que algum dia sim. - Repôs ele.

Robert os chamou com um grito. Eles se voltaram e pararam suas montarias enquanto o outro cavaleiro chegava até eles, puxando um cavalo carregado com os dois lobos.

 

Alainna saiu à densa névoa matinal levando uma oferenda de aveia para deixá-la ao pé do pilar de pedra. Precaveu-se de que a nata, a aveia e o queijo que havia deixado na vez anterior tinham desaparecido, a terrina, tudo. Normalmente as oferendas eram devoradas por animais... mas os animais não estavam também com as terrinas.

-Finam! - Chamou o cão, que vagava por aí farejando a erva. Provavelmente havia percebido o aroma da pessoa que tinha estado ultimamente perto da pedra. O cão olhou de frente para o terreno rochoso que se estendia além da Donzela de Pedra e ladrou.

-Cala, Finam - Disse Alainna. - Hoje não estamos perseguindo cervos. Volte aqui!

O cão correu até sua dona, mas girou e voltou atrás de novo, pelo mesmo caminho, e ladrou outra vez. Alainna olhou ao redor, mas não pôde ver nada mais lá da pedra e a margem próxima do lago, onde a névoa formava redemoinhos.

Começou a cair uma chuva fina e gelada, e fechou um pouco mais seu arisaid para tampar-se. Murmurou um cântico, rodeou a pedra no sentido do sol e se voltou para retornar à fortaleza.

-Finam! - Chamou. Ach. - Murmurou irritada, porque o cão havia desaparecido. Quando o ouviu ladrar perto das árvores, que estavam cobertas pela névoa, dirigiu-se até o bosque olhando cautamente a seu redor.

A forma de ladrar do cão era a que utilizava com seus parentes e com Sebastien Le Bret, mas os homens estavam ainda no interior da fortaleza. Estavam acostumados a sair todos os dias a patrulhar a propriedade e visitar os arrendatários um por um. Sebastien também havia começado a calcular o número de acres que tinha as terras medindo as distâncias entre as pedras que assinalavam os limites. Aquela tarefa por si só levaria muito tempo. Mas nada podia fazer-se com uma névoa tão espessa, assim que os cavaleiros ficaram esse dia dentro de Kinlochan para reparar e limpar suas armas e cotas e os arreios de seus cavalos.

-Finam! Aqui, moço! Vêm aqui!

-Alainna! - Uma voz de homem, baixa e em tom urgente, chegou-lhe das árvores. Era uma voz familiar, mesmo que distorcida pela névoa.

-Niall? - Perguntou. - Lorne?

-Alainna, aqui. Ajude-me.

Então sentiu um calafrio lhe percorrer as costas. Avançou até o cão e o segurou pela coleira.

-Leve-me até Ruari. - Insistiu.

Finam a conduziu ao refúgio das árvores, através da névoa. Alainna se lançou adiante e ouviu que a voz a chamava de novo.

Surgiu um homem diante ela.

-Alainna. - Disse. Fazia muito tempo que não ouvia aquela voz tão familiar, tão querida. Ele apoiou um largo ombro contra o tronco de uma árvore e sorriu.

Alainna parou em seco.

-Ruari! Oh, Ruari, é você!

-Alainna milis, doce menina. - Disse ele. Finam correu até ele, e Ruari lhe acariciou a cabeça e sorriu para Alainna de novo. Tinha o cabelo mais branco do que ela se lembrava, e a barba também, mas ainda conservava muitos fios negros. Seus olhos eram do mesmo azul vivo que lembrava, sob umas sobrancelhas arqueadas e escuras. E seu sorriso, sempre inclinado, sempre encantador, não havia mudado absolutamente.

Abriu um braço para receber Alainna, e esta correu até ele.

-É um fantasma? - Riu a meias enquanto o rodeava com os braços.

-Não sou um fantasma. - Respondeu Ruari com um leve grunhido. - Sou de carne e osso, e voltei para casa com a esperança de ser bem-vindo.

Alainna lhe beijou a curtida bochecha e depois se afastou, secando as lágrimas, ao se lembrar que estava ferido. Levava um braço envolto em um tecido puído e ensanguentado e dobrado contra o peito.

-Como é que está aqui? Disseram-nos que tinha morrido! Viu a Esa! Sabe ela? Oh, Ruari, mal pude acreditar o que viram meus olhos no outro dia, quando te vi no bosque lutando com aqueles lobos! Está ferido gravemente?

Ele riu ante aquela torrente de pergunta.

-Esa não sabe ainda. - Respondeu. - Dirigia-me até aqui quando descobri os lobos. Mas não estou tão ferido para morrer.

-E como é que está aqui? Disseram-nos que tinha morrido em uma batalha contra os homens do rei!

-Ali caí gravemente ferido. Vários de meus homens escaparam e me levaram com eles. Quando recuperei a consciência descobri que me encontrava na Irlanda, no exílio. Não tive oportunidade de retornar até recentemente, e em segredo.

-E em todo este tempo não nos enviou notícias suas? Nem tampouco a Esa? Como pôde? Ruari Mór, para nós foi terrível saber que estava morto, quando todo o tempo esteve vivo!

Ele adotou uma expressão contrita.

-Não pude lhes fazer chegar nenhuma mensagem. Mas têm direito a estar zangada.

-Eu estou, por Esa! Ela sofreu muito por ti, chorou sua morte, e a de seu filho... Nem sequer aceita a abandonar sua casa nas colinas.

-Encontra-se bem? - Perguntou Ruari com urgência.

-Bem de corpo, mas fraca na alma. Vai agora a vê-la? Inclusive com esta névoa saberá o caminho de cor.

-Iria, mas não posso, Alainna; necessito sua ajuda. - Afastou-se da árvore contra a que estava apoiado, e Alainna se deu conta do quão débil estava, da palidez de suas bochechas. Além disso, tinha o braço grosseiramente enfaixado, levava também a panturrilha esquerda coberta de bandagens manchadas de sangue.

-Necessito um lugar seguro onde descansar. Encontrei uma cova e mantenho um fogo aceso para afugentar às feras. Ontem à noite foi a primeira vez que tive forças para sair. A aveia e a nata que deixou para a Donzela estavam deliciosas. - Sorriu.

Alainna emitiu um gemido de compaixão.

-Fique aqui com Finam, eu vou procurar a minha gente...

-Não. - Apressou-se a dizer Ruari. - Em Kinlochan há cavaleiros, um deles me salvou a vida ao matar a aqueles lobos. Por que estão aqui? Quem são?

-Enviou-os o rei. Entregou Kinlochan a um normando, um cavaleiro bretão, que lutou por ti. Vamos... nos casar.

-Você vai se casar com um normando? Kinlochan será dele?

-Ruari franziu o cenho. - Quando aconteceu tudo isto?

-Recentemente. Não me faz feliz, mas ajudará a proteger os meus dos MacNechtan.

-Ach. - Repôs Ruari. - Então, seu pai morreu.

Ela mordeu o lábio ao perceber que Ruari não sabia nada.

-Pela mão de um MacNechtan, há uns meses. - Disse com atitude sombria.

Ruari assentiu gravemente.

-Deus seu benza alma. Não me surpreende que Kinlochan tenha caído nas mãos da Coroa agora que Laren já não está.

-Tenho que conseguir ajuda para ti. - Disse Alainna com urgência ao ver sangue fresco em seu braço. - Fique aqui, Ruari, por favor. Voltarei em seguida.

-Alainna, espera. Pode que você esteja a salvo com os homens do rei, mas eu não. Sou um proscrito, um homem procurado. Se souberem que estou vivo e na Escócia, me pendurarão pelos pés sem piedade.

-Os cavaleiros do rei procuram os rebeldes, mas eu lhes disse que estava morto. Não há motivo para lhes dizer quem é se vier a Kinlochan.

-Não posso correr esse risco por ti, nem por mim, nem pelos meus. Se me descobrirem me matarão, e trarão a desgraça a tudo o que esteja perto de mim.

-Ruari, o que ocorre? O que está fazendo aqui em segredo?

Ele sacudiu a cabeça em um gesto negativo.

-Sou um MacWilliam, e isso já é suficiente. Nós reclamamos o trono nos apoiando em um laço sanguíneo mais próximo ao rei Duncan e aos antigos reis pictos da Escócia que os direitos que possa esgrimir o rei Guillermo. Acreditamos que meu jovem primo Guthred está na linha direta ao trono. Agora se encontra na Irlanda, mas jamais renunciará ao reclamo de seu direito à coroa. Eu vim aqui para ajudá-lo. Não posso me dar a conhecer, nem tampouco a causa de meu clã, aos normandos. Mas necessito sua ajuda; devo ter comida e um lugar onde me ocultar até que me cure.

Alainna assentiu e se voltou nervosa, sem saber o que fazer.

-Ah! A ilha do lago! Ali há umas antigas ruínas nas quais pode se esconder, e árvores de folha perene que o manterão coberto. Levar-te-ei ali no bote e farei chegar comida. Poderá dispor de um bom fogo. Minha lhe ajudará também, quando souberem...

-Não deve sabê-lo ninguém. Sua gente não apóia minha causa.

-É certo, e nunca a apoiaram, mas estão de sua parte por ser um grande guerreiro. Além disso, Esa é nosso sangue; não trairão o seu marido, faça o que for.

-Não deve sabê-lo ninguém. - Repetiu Ruari com insistência.

-Já sabe Giric MacGregor, ele também te viu no bosque. Deixe-me que diga a ele, ajudará. - Viu que Ruari suspirava e cedia. - E também devo dizer a Essa. Tem o coração quebrado de amor por ti.

-Diga aos dois. - Disse Ruari com voz rouca. - Mas a ninguém mais.

-Trarei Esa.

Ele desviou o rosto e afirmou com a cabeça.

-Estou desejando vê-la.

Alainna passou um ombro por debaixo do braço para lhe oferecer apóio, saíram do bosque e começaram a caminhar devagar em direção ao lago, seguidos por Finam. Ao passar por diante da grande pedra Ruari insistiu com Alainna para que se aproximasse dela.

-Jura diante da Donzela. - Disse. - Jure que ninguém além de Esa e Giric saberão que estou aqui.

-Não confia em mim? - Perguntou-lhe Alainna.

-Sim confio em ti. - Replicou ele. - Mas sei que se preocupa tanto por um velho parente que poderia ser que tentasse ajudá-lo com muito entusiasmo. Jura pela Donzela que guardará o segredo.

Alainna titubeou insegura de como iria ocultar aquilo a sua gente... e ao cavaleiro que logo seria seu marido.

-Jure, pequena. - Disse Ruari com doçura. - Ou do contrário retornarei ao bosque e não voltará a me ver nunca.

Ela lançou um suspiro e apoiou a mão no frio granito.

-Guardarei o segredo, Ruari Mór, e farei tudo o que estiver na minha mão para que esteja a salvo. Pelo céu e pela terra, pela água e pela pedra, pela Donzela, juro.

-Feito. - Disse Ruari. Ambos continuaram avançando até a margem, onde aguardava um pequeno bote que se balançava entre os juncos. - Faremos com que Giric e Esa jurem também, mesmo que Esa não goste absolutamente, se a conheço bem. - Acrescentou com ironia.

-Preocupe-se mais com seu mau gênio quando se inteirar de que está vivo e que não lhe enviou nenhuma notícia. - Disse Alainna, e Ruari riu.

Uma vez que Ruari e Finam estiveram acomodados com muita dificuldade no fundo do bote redondo e coberto de peles, Alainna pegou o remo triangular e começou a remar com cautela até a ilha, uma massa escura e envolta na névoa que se elevava no centro do lago.

Enquanto remava, e quando alcançaram a rochosa borda, sentiu-se agradecida que tivessem permanecido ocultos à vista pelas profundas dobras brancas da espessa névoa.

 

                     Capítulo 14

-Bastien, olhe... - Disse Hugo quando Sebastien entrou no salão. - Os escoceses querem que saiamos hoje todos a caçar. Mas querem que usemos essas mantas que usam eles. - Acrescentou com desdém, assinalando um dos tartans dobrados que Una e Morag tinham nos braços. Alguém sorriu e ofereceu a Hugo um dos tartans com mão trêmula, mas o normando negou com a cabeça.

-Não penso andar por aí com o bunda ao ar e as pernas nuas como estes selvagens. - Disse Etienne de Varre, que estava ao lado de Hugo.

Sebastien franziu o cenho. Olhou a seu redor enquanto tirava o cinto da espada com a arma embainhada que havia usado durante seus exercícios matinais e o deixava a um lado. Esperava ver seus homens recém levantados de suas camas e Una removendo uma panela ainda no fogo, mas em lugar disso havia entrado em uma sala dominada pela comoção. Seus homens falavam com vários homens e mulheres mais velhos; alguns deles, como não tinham nenhuma língua em comum, discutiam, fazendo grandes gestos. No chão estavam estendidos vários tartans de cores luminosas. Niall e Lulach, junto com suas mulheres Mairi e Beitris, tentavam convencer a alguns dos cavaleiros, quem sacudia a cabeça em gesto negativo.

Sebastien olhou para Robert que estava perto.

-O que está acontecendo aqui?

-Enquanto você estava fora, veio Giric e disse que a batida de caça seria hoje. - Respondeu Robert. - Então chegaram os velhos com esses tartans que usam os escoceses.

-Essas são mantas. - Disse Hugo. - Não penso me vestir como um bárbaro. Sou um cavaleiro normando.

-Por que temos que renunciar a um objeto de boa sarja e bom linho para nos vestir com mantas de cavalo? - Rugiu Etienne a seu lado.

-Os montanheses não usam mantas de cavalo. - Disse uma voz de mulher em inglês, atrás deles. Sebastien se voltou e viu que se aproximava Alainna. - Minha gente deseja que vistam com que se usa nas Highlands. - Disse a Sebastien. – Aqui é tradicional que os convidados usem o breacan an fhéilidh, o tartam com cinto, para sair para caçar.

-Não é uma tradição normanda. - Disse Etienne teimosamente.

-O tartam é um objeto antigo e honorável entre as pessoas das Highlands. -Disse Alainna. - Nossos homens estão orgulhosos de levá-lo.

-Se é o costume de nossos anfitriões. - Disse Sebastien. - Não desejamos insultá-los.

-Então use você. - Disse Hugo cruzando os braços.

-Oui. - Repôs Etienne. – Mostre-nos como fica a manta. Logo vai ser um deles, depois de tudo, quando celebrar esse casamento. - Sorriu abertamente e deu uma cotovelada em Walter de Coldstream, o cavaleiro que estava a seu lado.

-Isso, Bastien coloque! - Dez coro Walter.

-Melhor que seja ele, e não nós. - Disse William, outro cavaleiro.

-O guarda de honra do rei não anda nu como um selvagem. - Interveio Richard de Wicke. – Aposto que não o fará.

-Eu aposto contra ti. - Disse Etienne.

-Eu também. Apoiamos um valent. - Presumiu Hugo.

Sebastien olhou para seus homens sorridentes. Viu que também a Alainna faiscavam os olhos.

-Será um prazer ensinar a Sir Sebastien como se usa o breacan. - Disse Alainna. - Deve tirar a túnica, senhor. - Alguém soltou uma gargalhada, e as bochechas da moça se tingiram de rosa.

Sebastien dirigiu a todos um olhar de poucos amigos, sentou-se em um banco e tirou as botas e as meias enquanto seus homens murmuravam e riam. Logo ficou em pé e, com um movimento decisivo, desfez-se de sua larga túnica de cor marrom e da camisa as tirando pela cabeça e as deixando no chão. Suas braies de linho, enrolados à cintura em cima de um cordão e estendidos sobre seu liso abdômen, deixavam exposta a maior parte de suas longas pernas. Notou o frio na pele, ainda coberta de suor devido ao exercício com a espada.

Alguns de seus homens lançaram assobios, outros sorriram abertamente ou romperam em gargalhadas ao ver o descaramento com que ele assumiu o desafio. Sebastien obsequiou a todos uma pequena reverência e alargou seu próprio sorriso ainda mais. Continuou, inclinou-se ante Alainna e os seus. Alguém sorriu de brincadeira, enquanto que Morag e Beitris se desfaziam em risinhos. Percebeu que Alainna já não sorria, mas tinhas os olhos muito abertos e as bochechas rosadas.

Voltou-se para Niall e Lulach.

-Será um orgulho para mim usar o tartam. - Disse em gaélico. - Se quiserem me mostrar o modo correto de levá-lo.

Niall assinalou com sua única mão um tartam estendido no chão.

-O breacan se dobra uma vez e outra vez. – Explicou. - E depois se prende ao cinto, como vê. Se jogue no chão e lhe ensinarei o que têm que fazer.

-Que me jogue no chão? - Repetiu Sebastien, incrédulo.

Lulach afirmou com a cabeça e Sebastien se colocou em posição. Niall se ajoelhou a seu lado agachado.

-O breacan serve para vestir e também como manta para dormir quando estamos nas colinas. - Disse. - Por essa razão nos tombamos, para nos vestir rapidamente se cairmos em uma emboscada ou se precisarmos nos levantar de um salto para perseguir uma manada de cervos ou alguma cabeça de gado roubada. Bem, envolva esta parte na frente do corpo, assim. Agora pegue as pontas do cinto e rodeie à cintura. Isso, muito bem.

Em questão de minutos, Sebastien estava já de pé com o tartan firmemente colocado e seguro à cintura, com o restante caindo pelas costas. Via-se suas pernas nuas do joelho para abaixo. Lulach remeteu um pouco de tecido restante no cinturão de couro e a seguir puxou a parte embolsada para cima, até as costas, para cruzar uma parte sobre o ombro esquerdo e outra sob o braço direito e depois unir os dois no ombro esquerdo com um broche de ferro. Mostrou a Sebastien o útil bolso de grande tamanho que formava a queda do tecido, e se afastou uns passos.

Sebastien deu uns passos em círculo para provar o traje. Os cavaleiros sorriram e aplaudiram, alguns deles assobiando e lançando gargalhadas.

-Parece muito cômodo. - Anunciou a seus homens. - E é de uma lã abrigada e leve. É um bom objeto. - Deu um passou longo, depois outro, apreciando a liberdade que dava a suas pernas a saia de generosas dobras. Ele estava acostumado a usar uma túnica que, a menos que a dividisse em duas, podia impedir o passo rápido.

-Parece mais adequado para subir colinas que nossas túnicas. - Disse, dando voltas. - E é prático, porque pode utilizar-se como colchão e manta e entretanto servir roupa em questão de minutos. Eu gosto.

Inclinou a cabeça em direção a Niall e Lulach, e logo a Alainna.

-Eu gosto muito. - Anunciou em gaélico.

-Passará frio sem a calça! - Disse Hugo.

-Você também. - Respondeu Sebastien. - Todos vamos usar o breacan na partida de caça para honrar os costumes de nossos anfitriões.

Os cavaleiros, com alguns cochichos, começaram a desprender suas túnicas e sobrevestes, alguns conservaram a camisa, as botas e as meias. Os homens e mulheres do clã se aproximaram para ajudá-los a vestirem os tartans.

Ao caminhar pela sala Sebastien viu que Alainna se dirigia até ele levando um objeto no braço, e a esperou nas sombras de um corredor lateral.

-Sebastien Bán - Disse-lhe a moça. Gostava do som suave do carinhoso nome que lhe havia dado Una. - Obrigada por sua cortesia. Minha gente está muito agradecida.

-Não foi nada, minha senhora. - Murmurou ele. Olhou os montanheses, que riam, tagarelavam e gesticulavam regozijados quando conversava em um idioma tentando ajudar os cavaleiros. - E você? Está feliz? – Perguntou-lhe.

-Estou. - Seu olhar se desviou até o peito nu do bretão e foi de novo até seu rosto. Sua cútis era tão translúcida que Sebastien via como lhe subia o calor em forma de rubor rosado. – Tome. - Disse-lhe estirando o braço que sustentava o objeto. - Quero lhe dar isto. É a Léine, a camisa de linho que usam nossos homens com o tartam e o cinto. - E a ofereceu.

Sebastien correu os dedos pela camisa larga e de generoso corte, de um tecido resistente, mas suave.

-Obrigado. - Disse ele. Confesso que me preocupava sair para caçar sem usar uma camisa, com este tempo tão frio. - Acrescentou em tom irônico.

Alainna riu brandamente enquanto lhe desabotoava com dedos ágeis a parte superior do tartam e liberava o tecido. Colocou-se as suas costas e suas mãos lhe roçaram o ombro nu.

Sebastien vestiu a camisa e Alainna se aproximou para remetê-la na cintura. Sua cabeleira roçou brandamente o peito dele, desprendendo um leve aroma a lavanda. Tinhas as mãos mornas, e Sebastien fechou os olhos um momento para saborear a intimidade que os envolvia.

Alainna levantou os olhos com as bochechas acesas.

-Deve puxar a camisa para baixo. - Disse-lhe, apontado as abas do tartam.

-Ah. - Sebastien introduziu as mãos e colocou o objeto em seu sítio.

Ajustou-lhe o pescoço da camisa e voltou a abotoar o tartam. Suas mãos lhe roçaram brandamente os ombros e se apoiaram um instante sobre o peito. Sebastien a observou fascinado, sentindo um lânguido formigamento onde ela ia tocando. O coração lhe pulsava com força e seu corpo transformou aquele inocente contato em desejo.

O impulso de tocá-la, de atraí-la para si era muito forte; queria beijá-la com intensidade, com plenitude, e queria muito mais que isso para aliviar o profundo retumbar de seu coração e a sensação quente e pesada que experimentava na virilha.

Aproximou-se um pouco mais. Alainna o olhou com seus limpos olhos de cor anil e os lábios entreabertos, suaves e atraentes como uma rosa. A jovem tragou saliva lentamente, e ele viu a delicada linha de sua garganta. Elevou uma mão para afastar uma sedosa mecha de cabelo que havia escorregado sobre a bochecha e deixou que seus dedos lhe acariciassem o rosto antes de descer a mão.

-Obrigado. - Murmurou.

Ela levantou o queixo.

-Agora têm tão bom aspecto como qualquer montanhês, senhor.

-Mesmo que não esteja à altura de seu ideal de guerreiro celta.

-Mais do que acredita. - Murmurou Alainna. - Poderia fazer vibrar o coração de qualquer uma. Beitris e Morag estão sorrindo, pelo que vejo.

-E seu coração? -Sebastien olhava só a ela.

A Alainna ardiam as bochechas e o olhar.

-O meu. – Respondeu. - Não vibra facilmente. - E desviou o rosto.

O meu tampouco, quis dizer Sebastien. Apesar do implacável e regular bater de seu coração a toda pressa como uma ave em seu peito.

-Giric - Disse Alainna voltando-se para seu irmão adotivo que cruzava a sala em direção a eles levando camisas e botas nas mãos. Sebastien não tinha percebido que o jovem montanhês havia entrado na sala.

-Já vejo que os normandos estão quase preparados para sair de caçada. -Disse Giric.

-Sim e devemos agradecer a Sebastien Bán.

-Isso me disseram. Niall me disse que têm muito valor. - Sorriu.

Sebastien fez uma careta irônica.

-Foi algo pequeno.

Giric riu brandamente.

-Quando se tem valor para as coisas pequenas, tem-se valor para as grandes, não? - Olhou para Alainna. - Lorne e eu trouxemos algumas outras coisas para que as coloquem os cavaleiros. - Entregou-lhe um par de botas de larga pele. - Parece-me que estas ficarão boas. - Indicou a Sebastien. Se não te importa lhe dar as que pertenciam a seu pai. Estou seguro de que Laren MacLaren não importaria.

Alainna ofereceu as botas a Sebastien.

-Meu pai as levou com orgulho, porque as fez com a pele de um lobo que matou. Você matou dois lobos no outro dia e ele teria ficado impressionado com sua façanha. É quase da mesma constituição que meu pai, ainda que ele pesasse mais. A camisa que usa também era dele.

Sebastien aceitou o presente.

-Sinto-me honrado.

Ela o olhou em silêncio, com os olhos cheios de algo novo, um brilho de repentina admiração e calor que lhe produziu uma profunda emoção no mais fundo de si. Devolveu-lhe o olhar e sorriu ligeiramente, com o coração lhe retumbando no peito.

-Vai vir conosco, Alainna? - Quis saber Giric.

-Esta caçada deixarei para vocês. - Repôs ela. - As mulheres desfrutarão de um pouco de paz em Kinlochan com os homens ausentes durante todo o dia. -Sorriu a Giric, e este riu de volta.

Mas o sorriso de Sebastien se esfumou. Já havia notado antes o trato fácil e carinhoso que fluía entre ambos. Ainda que soubesse que aquele afeto era próprio entre irmãos ou primos, de todos os modos sentiu uma pontada de ciúmes.

-Partiremos logo. - Disse Giric. - Espero que você e seus normandos tenham pernas fortes. Aqui caçamos os cervos perseguindo-os a pé, com os cães, e utilizamos nossos cavalos para transportar as peças. - Mostrou um largo sorriso que representava um desafio amistoso.

-Estaremos à altura. - Respondeu Sebastien. Despediu-se dos dois com um movimento de cabeça e partiu, levando consigo as botas de pele.

 

Ansiosa e emocionada, pensando na volta de Ruari MacWilliam, Alainna não conseguia relaxar seus nervos nem sua mente. Ainda não teve a oportunidade de falar com Giric sobre Ruari, e não podia compartilhar aquela noticia com ninguém mais que Esa. Uma vez que os homens tinham partido, foi a sua oficina com a esperança de distrair-se com o trabalho. A concentração, o esforço e o simples golpear com o cetro frequentemente conseguiam dissolver suas preocupações e tranquilizar sua mente quando falhava todo o resto.

Acomodou-se em uma banco contra ao banco de trabalho e segurou o cetro e as ferramentas para aplicar-se à tarefa de dar os últimos retoques a uma das lajes de calcária cinza. Sorriu para si mesma ao imaginar contente que ficaria Esa quando se inteirasse de que seu marido estava vivo.

O coração pulsou com força ao compreender que Ruari estava escondido perigosamente perto de Kinlochan e os homens do rei o buscavam. No dia anterior havia ido e voltado da ilha no abrigo da névoa, um risco no qual apenas havia pensado porque o mais importante era sua preocupação por Ruari. Havia levado comida e tartans, havia-lhe curado as feridas e proporcionado um acolhedor fogo.

Instruída nos rudimentos de curar feridas por Una e Morag, assim como por sua própria experiência com homens feridos e moribundos em Kinlochan nos últimos anos, soube tratar às de Ruari. Uma vez que estava corretamente enfaixado, e depois de fazê-lo beber uma infusão de ervas que o ajudaria a limpar o sangue, esteve segura de que se curaria bem, sempre que descansasse.

Ruari havia prometido permanecer na ilha dentro do antigo broch em ruínas, uma velha torre de pedra destruída pelo passar dos anos e pela intempérie. Havia pedido algo para ocupar o tempo enquanto se recuperava, e se ofereceu para fabricar algumas terrinas e colheres para os novos inquilinos que tinha Kinlochan, de modo que Alainna lhe levou madeira de pinheiro e uma colher pequena e afiada para esculpi-la. Ambos concordaram que ele precisava estar na ilha só até que recuperasse as forças o suficiente para continuar seu caminho.

Mesmo que Alainna estando habituada a usar o cetro, doíam-lhe os braços e as costas pelo esforço de remar. Flexionou as articulações intumescidas e sentiu que o segredo que guardava pesava sobre ela como um fardo.

Seus pensamentos voltaram uma e outra vez para Sebastien. Ela havia ajudado a esconder o renegado que o cavaleiro bretão pretendia capturar, e havia jurado pela Donzela de Pedra que guardaria o segredo de Ruari. Não podia revelá-lo para Sebastien, mesmo sabendo que a divisão de lealdades e os segredos desesperados não tinham lugar em um matrimônio.

Há uma semana antes não teria dúvidas de onde pertencia sua lealdade; agora, entretanto, cada vez que estava com Sebastien parecia ver este com uma claridade distinta. Era muito mais que o normando sedento por terras que ela havia acreditado que era; dentro dele havia um homem amável, considerado e solitário, bem protegido por uma barreira de força e vontade.

E a lembrança daquele beijo profundo e glorioso à sombra da Donzela de Pedra a fazia desejar mais, imensamente mais, dele. Perguntava-se de fato poderia amar o homem que o rei lhe havia escolhido por marido.

E então se perguntou se não teria começado já a amá-lo.

Ao fim de um momento, muito distraída com seus pensamentos ao trabalhar, deixou a um lado as ferramentas, envolveu-se em seu tratam e saiu. Assobiou para chamar Finam e se encaminhou primeiro à cozinha e logo às portas, para ir ver Ruari. Iria levar-lhe bolachas de aveia recém cozidas e lhe fazer um pouco de companhia. Quando levasse Esa das colinas, saberia que Ruari, apesar de suas feridas, estaria bem.

 

Os caçadores retornaram a Kinlochan horas mais tarde, conduzindo cavalos carregados com dois cervos vermelhos, uma fêmea e um molho de lebres cujas peles eram da cor branca como o inverno. Caminhando junto a Robert e Giric, Sebastien passou na frente do grande pilar de pedra, o qual projetava uma sombra estendida sobre a grama marrom do prado. Atrás vinham Niall e Lulach puxando as rédeas dos cavalos. Hugo e o resto dos cavaleiros os seguiam a pé um pouco mais atrasados.

Giric olhou para trás.

-São bons caçadores, seus cavaleiros, mas a nenhum deles se dá bem subir colinas.

-As ladeiras das Highlands são às vezes um verdadeiro inferno. - Disse Robert. - Agora já sabemos. – Esfregou o lado dolorido.

-Já. - Exclamou Giric. - Têm que provar escalar as montanhas negras do norte, e depois me dirá se as colinas de Kinlochan são duras. - Sorriu e deu a Robert uma palmada no ombro. O normando tropeçou ligeiramente, com as pernas cansadas, e dirigiu um olhar contrito a Sebastien.

-Bastien, tinha razão ao nos dizer para nos vestirmos como bárbaros concedo-te isso. - Disse Robert. - Aqui resultam muito mais práticos os tartans.

Giric emitiu um ruído de zombaria.

-Bárbaros, nós! E quem eram os tolos que acreditavam que os cavalos espanhóis podiam subir montanhas e pretendiam trazê-los? Os caçadores das Highlands têm que correr e subir montanhas se querem comer, e deixar que os cavalos se encarreguem de transportar a caça.

-Seus cavalos das Highlands têm o pé firme. - Admitiu Robert. - Mas seus donos continuam sendo os selvagens do norte. - Obsequiou um largo sorriso a Giric e lhe devolveu a palmada nas costas.

Sebastien sorriu ao observá-los. Depois de perseguir os lobos e ter abatido um cervo na caçada, Robert e Giric ficaram amigos rapidamente. Giric se voltou para dizer algo em gaélico a Niall e Lulach, o qual provocou uma gargalhada em ambos.

Robert diminuiu o passo, e Sebastien se pôs a sua altura. Contemplou o lago, de água tranquilas e azuis sob o céu das últimas horas da tarde, no qual se refletiam os cumes das montanhas cobertas com um manto branco.

-Esta é uma terra forte e orgulhosa, como sua gente. Agora entendo por que tantos cavaleiros normandos anseiam obter concessões de terras escocesas do rei.

Robert concordou com um movimento de cabeça.

-Eu não rechaçaria um pedaço de terra em nenhum lugar da Escócia.

-Assegurarei-me de dizer ao rei Guillermo a próxima vez que o veja.

Robert o olhou.

-Está pensando em partir?

-Ainda não posso, mas estou desejoso de voltar para Bretanha. O ano está chegando a seu fim, e abrigava a esperança de estar ali para o Natal, mas não poderá ser.

-Mesmo que fosse agora mesmo de Kinlochan e cavalgasse até Dunfermline para render seus informes ao rei, nenhum navio poderia chegar a Bretanha para o Natal.

-Ainda tenho muito que fazer aqui antes que possa pensar em partir. Menos mal que hoje tivemos sorte com a caça; Kinlochan tem muitas bocas que alimentar, e assim vai ser durante um tempo.

-Tem muito por fazer, em efeito. - Disse Robert. - Logo vai se casar, meu amigo. - Disse com um largo sorriso.

-Sim. - Respondeu Sebastien. - Amanhã vamos ver o sacerdote para falar disso, ou isso diz Una.

-Então o Natal nos trará a alegria de um casamento. - Robert arqueou uma sobrancelha e Sebastien lhe dirigiu um olhar turvo. - Suspeito que talvez passemos o inverno aqui, entre os selvagens, se o tempo piorar, e os montanheses afirmam que assim será.

Sebastien deixou escapar um suspiro.

-Já está perto o Natal, e minha única esperança é que o abade tenha recebido minha carta. Terei que confiar em que tenha podido cuidar de meu filho. - Franziu o cenho. - Conan irá quer me ver no dia de Natal, e eu não estarei ali. Tampouco estive com ele quando esteve em perigo.

-Estará com ele logo que for possível, e os monges cuidarão dele o melhor que puderem.

Sebastien afirmou com a cabeça.

-Ao morrer sua mãe, pensei que seria sensato deixá-lo aos cuidados dos monges em lugar de com seus avós, mas me equivoquei; e é possível que tenha feito mau em vir para a Escócia, ao menos no que diz respeito a Conan.

-Como você iria saber o que aconteceria no monastério? E tampouco podia deixá-lo com a família de sua mãe. - Disse Robert. - Uma vez que esses abutres o tivessem na França, não voltaria a vê-lo nunca. Não gostam de você, Sebastien, mesmo que tenha estado se casado com sua bela filha.

-Certo. Não podia conservar o menino comigo, não tinha um verdadeiro lar que para lhe oferecer. - Fechou o punho. – Deveria ter ficado ali!

-Fez o que era melhor, Sebastien. - Insistiu Robert em voz baixa.

Sebastien assentiu em silêncio. Contemplou a fortaleza que resplandecia com o sol da tarde; era um lar e um lugar de paz para muitos, e o havia sido durante gerações. Mas não tinha intenção de viver ali com Conan; um lar nas Highlands não beneficiaria a seu filho.

Ou por acaso sim? Perguntou-se. Estaria equivocado ao querer que Conan se criasse na Bretanha? Franziu o cenho com a sensação de que seus objetivos e suas ambições tinham começado a mudar, como se estivesse pisando em areias movediças e não soubesse em que direção se encontrava o terreno firme.

As portas de Kinlochan se abriram de par em par quando os homens começaram a descer a ladeira rochosa que conduzia à cerca do pátio. Donal apareceu na entrada para lhes indicar por gestos que se aproximassem.

Sebastien, com Robert e outros, chegou ao final da costa e se aproximou das portas. Então viu Alainna no pátio, pálida e esbelta com seu vestido cinza. Se não fosse pela ardente cor de seu cabelo, pareceria uma irmã pequena do pilar de granito que se elevava contra o lago. Nesse momento ela se moveu, uma estátua cobrando vida, e pôs-se a correr até eles com elegância, o rosto iluminado, e saudou seus homens. Quando entrou Sebastien, ela se voltou com aquela luz ainda no rosto brilhando como uma tocha.

Sebastien sentiu que o coração saltava, mas manteve o semblante impassível e a saudou com uma inclinação de cabeça. Algo em seu interior ferveu como um manancial para ouvir sua risada e ver seu rosto sorridente; era uma sensação estranha e apreciada, e a guardou para si como quem guarda um tesouro.

Alainna se voltou para falar com os outros e lhes perguntar a respeito da jornada, evidentemente encantada com as peças que tinham caçado e orgulhosa de seu êxito.

Sebastien tirou o molho de lebres do lombo do cavalo. Alainna, ria por algo que havia dito Giric, girou-se de repente e se deu de cara com Sebastien. Ele a pegou rapidamente pelo cotovelo, logo a soltou e retrocedeu.

-Perdoe-me, não era minha intenção lhe tocar. Estou sujo.

-Como eu. - Repôs ela levantando as palmas das mãos para lhe mostrar o pó da pedra que as manchava. - Se levarem essas peças à cozinha, Morag e Beitris as pegarão. - Assinalou o edifício. Ele assentiu e começou a andar.

-Sebastien. - Chamou-o Alainna. Ele se voltou. - Foi uma boa caça.

-Em efeito. - Olhou-a fixamente.

-Agora teremos comida para todos, ao menos durante um tempo. Eu... estava preocupada com isso, confesso. Mas agora estou contente.

-Ah. Então também estou contente, se você estiver. - Replicou Sebastien, e inclinou a cabeça.

Ela permaneceu ali de pé, com as mãos entrelaçadas.

-Irá tirar o breacan agora que terminou a caçada?

-Sou um cavaleiro bretão, não um montanhês. - Repôs ele. - Devo vestir o que melhor me corresponda.

Alainna inclinou a cabeça observando-o.

-Fica bem com ele.

Sorriu e deu meia volta, e depois olhou um momento para trás para lhe enviar um fugaz sorriso.

Sebastien ficou de pé no pátio com o molho de lebres pendurando na mão. O dia havia esfriado e o sol estava se escondendo atrás de uma nuvem. A luz ficou flutuando no sorriso radiante de Alainna, na cor de seu cabelo, na música de sua risada. Observou-a atentamente, pensativo, perguntando-se o que iria representar Alainna MacLaren em sua vida. Não havia planejado ficar ali quando aceitou a concessão do rei; mas tampouco havia esperado encontrar a ela tão encantadora, nem amar sua gente e seu lar como agora os amava.

Era muito, pensou, para um homem que havia decidido assentar-se onde tivesse suas raízes, independente de quais fossem. Com o coração retumbando como um tambor, deu meia volta e se encaminhou para a cozinha.

 

                        Capítulo 15

-A igreja de Santa Brígida está justo por aí. - Disse Giric a Sebastien assinalando o leste. Na baixa saia de uma colina se recortava um edifício de pedra com uma torre quadrada contra o fundo de uma paisagem nevada e de levantadas ladeiras.

-E essa cruz de pedra que se vê mais adiante no caminho? - Perguntou Sebastien. - O que é que marca? - Uma alta cruz se erguia no caminho pelo qual avançavam, com seus braços de pedra recortados contra o céu nublado. Trincada pelo tempo, a cruz estava totalmente coberta de intrincados desenhos de espirais e ramos entrelaçadas.

-Há muito tempo, estas cruzes marcavam os lugares de reunião para os sacerdotes e seus fiéis. - Explicou Alainna. - Naquela época se chamava missa e era ao ar livre, mas agora há igrejas por todas as Highlands.

Sebastien caminhou até a cruz puxando as rédeas de seu cavalo atrás dele. Em Kinlochan, quando montanheses e cavaleiros se reuniram no pátio antes de percorrer os três quilômetros que havia até a igreja, Sebastien sentou Una nos lombos de seu garanhão árabe e preferiu ir ele andando. Robert, Hugo, Etienne e alguns outros cavaleiros seguiram seu exemplo e emprestaram suas montarias a membros mais velhos do clã.

-Ainda há quem deve rezar aqui, ou a dizer votos matrimoniais. - Alainna se aproximou de Sebastien. – Diante destas cruzes isoladas se pode realizar o rito de casar-se por um apertão de mãos, com ou sem testemunhas.

Estava encantadora à luz da manhã, pensou Sebastien, com as bochechas rosadas pelo frio, os olhos de um azul brilhante e o cabelo cor âmbar ali onde aparecia sob o tartam marrom que lhe cobria a cabeça. Experimentou uma forte onda de desejo ao lembrar a maravilhosa sensação de ter Alainna entre seus braços.

-Faremos também nós, então? - Murmurou.

Alainna mostrou para ele seu perfil tranquilo, perfeito, mas a cor rosada de suas bochechas se intensificou.

-Tinha entendido que o rei requeria um casamento entre você e eu, com contrato e testemunhas.

-E assim é. - respondeu Sebastien. - Mesmo assim, estaria bem realizar este rito, singelo e rápido, sem o alvoroço de um casamento. - Arqueou uma sobrancelha e obsequiou Alainna com um sorriso irônico, deliberadamente encantador, com a esperança de provocar um pouco de desenvoltura nela. A jovem lhe devolveu um sorriso desconfiada.

-O padre Padruig terá que fazer esperar a missa por nossa culpa se não nos apressarmos! Advertiu Una atrás deles. Então Alainna voltou a caminhar como Sebastien.

-Olhem ao oeste, ali. - Disse Alainna. – Ali é Turroch, que pertence a Cormac MacNechtan.

Sebastien avistou uma fortaleza de madeira a uns três quilômetros de distância, que coroava uma roda cercada de pinheiros contra um fundo de montanhas.

-Tenho intenção de lhe fazer uma visita e lhe leva a mensagem do rei. -Disse.

-Espere até depois do casamento. - Disse Alainna. Seu tom de súplica atraiu a atenção de Sebastien, que a olhou com o cenho franzido.

-Verá Cormac antes disso. - Disse Giric. Ele e Niall tinham deslocado a seu encontro, sua respiração formava nuvens de vapor no ar frio. - Olhe para o sul, aí vem Cormac o Negro e outro, a pé.

-Seu irmão Struan. - Acrescentou Niall.

Sebastien se voltou para olhar, como fez Alainna. Dois homens se aproximavam deles caminhando pela ladeira de uma colina. Eram enormes, desalinhados e de aspecto feroz; o um com cabelo negro, o outro ruivo. Ambos vestiam tartans de cores vermelho e marrom em cima de camisas e coletes, com meias de pele também.

Sebastien viu neles a classe de homens que tinham dado aos montanheses a fama de selvagens.

-Por essas lanças e arcos que levam, saíram para caçar. - Disse Robert, que se adiantou para reunir-se com Sebastien e os outros.

-Ou algo pior. - Disse Giric. - Não farão nada. Não são mais que dois homens sozinhos, enquanto que nós somos vinte e mais fortes, e estamos armados.

-E tem as mulheres, e hoje é Sabbath. - Adicionou Alainna.

-Não farão nada. - Disse Niall. - A menos que tenham uma hoste de MacNechtans escondida nas colinas para nos preparar uma emboscada.

Ao ouvir a leve exclamação que lançou Alainna, Sebastien captou seu olhar e sacudiu a cabeça para tranquilizá-la.

-Estão sozinhos. - Disse. - Daqui a vista é muito ampla, e não se vê a ninguém mais. Não há motivo de preocupação, minha senhora.

Um dos homens gritou uma saudação conforme foram se aproximando. Eram indivíduos fornidos, armados com lanças, arcos e escudos. O ruivo levava duas lebres mortas pendurada em uma corda.

-Cormac MacNechtan. - Disse Alainna. - Struan.

-Alainna de Kinlochan. - Disse o homem de cabelo negro. - Ouvimos dizer que chegaram uns normandos a Kinlochan, e queríamos saudá-lo também. -Cuspiu no chão, um óbvio insulto.

-Vá embora. - Disse-lhe Alainna. - Hoje é Sabbath.

-Não temos intenção de fazer dano a ti nem aos teus. - Disse o ruivo.

-Vejo que têm o arco e a lança preparados para caçar lebres. - Espetou Giric.

-Teme que vocês sejam essas lebres? - Perguntou-lhe Cormac.

-Nós seríamos lobos. - Replicou Giric.

-Haja paz. -Advertiu Sebastien. Seu cavalo, ao perceber a tensão que flutuava no ar, retrocedeu nervoso. Entregou as rédeas a Lulach e se aproximou dos montanheses.

-Não é um sacerdote, para ordenar que haja paz entre inimigos. - Disse Cormac, olhando a Sebastien com os olhos entreabertos. – O que busca um cavaleiro normando nas Highlands? Veio provocar problemas e reclamar uma terra que não lhe pertence?

-É você Cormac MacNechtan de Turroch? - Perguntou-lhe Sebastien em gaélico. Olhou para trás e viu que vários membros do clã, entre eles Alainna, estavam agora a suas costas.

-Sou. Quem é você?

-Sebastien Le Bret, enviado aqui por ordem do rei. Trago uma mensagem do rei que devo lhe entregar, mas o farei mais tarde. Este não é o lugar apropriado.

-Por fim, uma resposta a minha petição. - Disse Cormac. - Esperou que a resposta me agrade e me proporcione uma boa esposa. - Disse olhando para Alainna.

Sebastien se moveu para interpor-se e não deixar que a visse, como se aquele olhar sinistro pudesse manchá-la.

-O rei ordena que o clã Laren e o clã Nechtan deponham as armas e terminem esta inimizade. Mais tarde falaremos sobre os detalhes.

-Só podemos resolver esta inimizade mediante o matrimônio entre ambos os clãs. - Disse Cormac. - Nosso ódio é mais antigo que a linhagem celta do rei. Ele não pode simplesmente nos ordenar que esqueçamos e esperar que o façamos, sem uma adequada recompensa.

-O rei deseja assegurar-se de sua lealdade antes de lhe conceder uma recompensa. Estou seguro de que estará desejoso de demonstrar-lhe.

-Diga ao rei que somos leais. - Interveio Struan. - Os rebeldes são os MacWilliam. E os rebeldes que não morreram fugiram para Irlanda.

-Como vêem, nós não estamos mortos nem na Irlanda. - Cormac mostrou um largo sorriso. - De modo que como vamos ser rebeldes?

Sebastien o olhou sem alterar-se.

-Se forem dignos de confiança, irá bem. Mas quem apóia os rebeldes celtas arriscam tudo, a terra e a vida. - É obvio. - Disse Cormac. - Ultimamente ouvi dizer que os rebeldes MacWilliam estão voltando para as Highlands para solicitar apoio. Chegou a meus ouvidos que entre eles se encontra Ruari Mòr, que retornou dos mortos. Se o vir, negarei-me ajuda. - Olhou com dureza para Alainna.

-Mesmo que estivesse vivo Ruari jamais pediria ajuda a ti! -Soltou Alainna.

-Ah, não? - Replicou Cormac-. Nós temos homens, coisa que o clã Laren não tem. Se o fantasma de Ruari Mòr ou qualquer rebelde se aproximar de minha porta, deixarei que o capturem os normandos. Agradaria isso ao rei, normando?

-Nada que você faça pode agradar ao rei. - Rugiu Lulach, dando um passo adiante. Um murmúrio se estendeu entre o grupo.

Sebastien se interpôs entre os MacNechtan e o resto, decidido a cortar os arranques de cólera entre ambas as partes.

-Já nos reuniremos para falar das ordens do rei. - Disse a Cormac. - De momento, estão advertido de que a Coroa exige que demonstrem sua lealdade e que seu clã deixe de guerrear com o clã Laren. Se não obedecerem, arriscam tudo. O rei possui o direito de lhes arrojar de suas terras.

-E as tomar aos normandos? - Grunhiu o montanhês. - Por que estão em Kinlochan? O que é que ainda não sabe o clã Nechtan? - Olhou para Alainna. – Diga-me o que significa isso.

-Sir Sebastien Le Bret foi nomeado barão de Kinlochan por ordem do rei. -Disse ela.

-Senhor de Kinlochan! - Cormac dirigiu a Sebastien um olhar de fúria, com o peito agitado. Sebastien esticou a mão, preparado para desembaiar a espada se Cormac tocasse na arma. Este se girou para Struan. - Vou matar a esse padre -Murmurou. - Paguei-lhe para que escrevesse uma petição que me desse Kinlochan , não aos normandos!

-Não pode culpar o sacerdote. - Disse Struan.

-Ora! - Cormac se voltou para Sebastien. - E sobre Alainna MacLaren? Melhor seria casar-se comigo. Eu sou o homem mais forte que está perto de Kinlochan. Se não for minha, haverá mais luta.

Sebastien permanecia inflexível, com a mão firmemente apoiada no punho da espada e o olhar duro.

-Estamos preparados para isso.

-Peçam ao rei outra recompensa. - Disse Cormac. - As terras dos MacGregor iriam bem.

Nesse momento Giric se equilibrou para frente, mas Sebastien levantou o braço para lhe impedir de saltar. Robert, Hugo e outros dois cavaleiros avançaram um passo. Sebastien sentiu o impulso básico de lançar o punho contra o rosto zombeteiro de Cormac, mas obrigou a si mesmo a permanecer impassível.

-Quem se casará com ela? - Exigiu saber Cormac. - O normando que adulou o rei para conseguir as terras que possui a dama? Eu, que apresentei uma petição com todo direito? Ou seu irmão adotivo, que a deseja em segredo?

Giric voltou a inclinar-se para adiante, mas Sebastien lhe lançou um olhar fulminante, com o braço estendido.

-Respeita o propósito do rei, não o teu próprio. - Vaiou. Giric entrecerrou os olhos, furioso, mas se acalmou.

Nesse momento Alainna se abriu passou entre Giric e Sebastien. Os dois tentaram segurá-la, mas ela escapou e cruzou a grama para plantar-se ante Cormac como uma rainha, com a cabeça alta e o cabelo brilhando como uma coroa de ouro vermelho. Sebastien se apressou para se colocar ao lado dela como se fosse seu guarda de honra, a mão sobre a arma, o olhar alerta.

-Cormac MacNechtan. - Disse-lhe. - Eu mesma escolherei meu marido. Você não tem que me dizer com quem me tenho que casar.

-Escolhe ao normando? - Perguntou Cormac.

-O normando é um grande guerreiro, e eu estou em dívida com ele. Matou um urso de uma só lançada e me salvou a vida. Você também está em dívida com ele. Este homem salvou Eoghan e Lileas dos lobos, junto com outro homem que se ocultou. Se esse homem era um rebelde, você não deveria estar tão ansioso de entregá-lo aos homens do rei.

-Desse modo estamos em dívida com o normando, e também com o outro homem. - Disse Struan a Cormac.

Cormac franziu o cenho ante seu irmão e Sebastien.

-Quem quer que tenha ajudado meu filho. - Disse com cautela. - Se é um inimigo, seguirá sendo um inimigo. Mas não morrerá por minha mão. Não posso prometer nada mais.

Sebastien continuou olhando fixamente a Cormac e não disse nada.

-Com isso basta. - Disse Alainna. - Este homem demonstrou sua força e sua vontade de ajudar a minha gente. Se eu escolher me casar com ele, se inteirará quando se publicarem as admoestações.

-Não cometa o engano de se converter em sua esposa. - Disse Cormac.

-É minha decisão, para bem ou para mau. - Replicou Alainna.

-Cormac MacNechtan. - Disse Sebastien. - O rei ordena que haja paz neste lugar, e nos enviou para cumprir essa ordem. Reunirei-me com você em Turroch para falar da mensagem do rei. Se ameaçarem a este clã ou a esta gente, se preparem para a batalha contra o próprio exército do rei.

Cormac flexionou seus grossos dedos sobre a haste da lança.

-Então venham a Turroch. - Disse em tom rígido. - De momento desejo falar em privado com Alainna, de um chefe a outro chefe. Tenho algo mais a discutir com ela.

-Assiste-lhe esse direito. - Disse Alainna.

Sebastien flexionou a mão e despiu lentamente a ponta de sua espada.

-Não toleraremos nenhuma violência. - Advertiu, retrocedendo para que Cormac e Alainna ficassem a sós.

-A fortaleza de Kinlochan é minha. - disse Cormac em um tom grave que retumbou no frio do ar. - Você será minha. Seu pai desejava a paz tanto como qualquer um, e teria te entregado a mim para consegui-la. Assim me prometeu isso o dia em que morreu.

-Não poderia te prometer tal coisa!

-Poderia e o fez. Seu destino é ser minha.

-Jamais serei sua!

Ele a segurou pelo pulso.

-Se lembre da Donzela de Pedra. Nada poderá já te proteger quando chegar a primavera. - Vaiou. - Nem sua gente nem os normandos, nem sequer as fadas.

Sebastien foi até eles com a espada em mão. O brilhante aço lançou um brilho ao descrever um arco para ir posar se sobre o antebraço de Cormac.

-Afaste a mão dela ou a perderá. - Disse-lhe. A suas costas ouviu o ruído de outros aços que eram desembaiados de suas capas pelos membros do clã e seus próprios cavaleiros para brandir suas armas.

Cormac soltou Alainna. Sebastien a empurrou para trás dele com o braço estendido e apoiou a ponta da espada no peito do montanhês.

-Parte já. - Rugiu.

-Normando. - Disse Cormac. - Agora que é o senhor de Kinlochan, você e eu somos inimigos. Perdoarei-lhe a vida porque ajudou meu filho, mas nunca lhe chamarei amigo... a não ser que cumpra a promessa que me fez Laren MacLaren e entregue sua filha junto com uma justa porção de suas terras.

-Meu pai não te fez nenhuma promessa. - Replicou Alainna.

-Giric sabe! - Disse Cormac, voltando-se. – Diga-lhe o que disse no dia em que Laren MacLaren resultou ferido de morte!

-Já lhe disse o que tinha que saber. - Respondeu Giric. - Que caiu em uma emboscada que preparou você e seus homens. Que mais tem que saber, além dessa traição?

Sebastien viu que Alainna fechava os olhos angustiada e logo olhava a seu irmão adotivo.

-O que quer dizer, Giric? Que mais tenho que saber?

-Nada mais. - Disse Giric apertando os lábios e olhando furioso para Cormac.

-Laren MacLaren me deu permissão para desposar a sua filha. - Disse Cormac. - Deu sua bênção a nosso casamento.

-É um embusteiro. - Rugiu Giric.

-Deveria te matar aqui mesmo. - Disse Cormac. - Conserva a vida só porque estamos no Sabbath.

-Já basta! - Interveio Sebastien. – Vá embora.

-Você e eu nos veremos em Turroch, normando. - Disse Cormac. - Alainna MacLaren, pergunte a Giric o que aconteceu nesse dia. Não esqueça que é minha. Se estima seu clã, o que fica dele, escolherá-me como marido, porque eu conheço suas terras tão bem como as minhas, e sou um montanhês até a medula dos ossos, a diferença de outros. - Dirigiu a Sebastien um olhar feroz, afastou-se da pressão da espada e se afastou com seu irmão.

Sebastien os observou até que desapareceram atrás de uma colina. Uma vez que esteve seguro de que não havia mais homens com eles e de que se foram, embainhou a arma. Ao se voltar descobriu Alainna e Giric não longe dele, falando muito sérios. Mais à frente, o resto reatava a marcha.

-Não é assim. - Dizia Alainna quando Sebastien se aproximou.

-Foi. - Disse Giric, tocando o braço da jovem. Mas afastou a mão. - Sinto muito. Esperava não ter que lhe dizer isso nunca. É verdade. Eu os ouvi conversar naquele dia.

Alainna olhou para Sebastien, e este captou desejo e medo em seus olhos.

-Meu pai me prometeu a Cormac? - Perguntou a Giric-. Como pôde fazer tal coisa?

-Estava muito ferido e sabia que não iria sobreviver. Vi em seu esse rosto o que surge nos olhos de um homem quando sabe que se aproxima a morte.

Alainna mordeu o punho e fechou os olhos com força durante uns instantes.

-Continue.

-Cormac não feriu Laren por sua própria mão, mas sim viu como caía. Eu não pude ir até ele porque tinha ferido uma perna e Aodh o Vermelho havia caído a meu lado e me havia bloqueado com seu peso, com as costas contra uma rocha.

-Aodh. - Disse Alainna. - Era um bom homem. Mas me conte o que ocorreu depois com meu pai.

Sebastien tinha a intenção de afastar-se para lhes dar intimidade, mas Alainna estendeu uma mão para lhe rogar que ficasse. Assim o fez e permaneceu em silêncio, observando-os com olhar de preocupação.

-Vi que Cormac se ajoelhava junto a seu pai. Poderia ter dado ali mesmo o golpe de misericórdia, mas não o fez.

-Meu pai falou com ele?

-Cormac exigiu que seu pai se rendesse ao clã Nechtan, mas ele se negou. Entretanto, pediu que se fizesse a paz e que terminasse a disputa de sangue.

-Cormac lhe pediu minha mão, e meu pai a concedeu?

-Não sei o que foi dito entre eles, mas Cormac assentiu como se ficasse satisfeito. Ordenou a seus homens que partissem quando podia ter matado a todos, porque eram vinte mais e nos tinham pegado de surpresa. E eu sei o que me disse seu pai quando por fim pude me arrastar até seu lado.

-Disse-me que esse dia não te disse nada. - Espetou Alainna. - Nunca me falou sobre isso.

-Como iria te machucar, quando já estava sofrendo? - Replicou Giric-. Guardei isso para mim mesmo. Sabia o que desejava Laren. - Lançou um longo suspiro para combater uma poderosa emoção. - Laren me disse que logo você o substituiria como chefe do clã. - Continuou. - Pediu-me que te vigiasse, suplicou-me que me certificasse de que se casasse, antes que chegasse a primavera, com o guerreiro mais forte que pudesse encontrar, alguém que vencesse a Cormac.

-Deve ter dado permissão a Cormac para me desposar quando terminasse o encantamento da Donzela de Pedra. - Disse Alainna. - Então pediu a ti que se ocupasse de que me casasse com alguém antes dessa data, para frustrar os planos de Cormac.

-Isso acredito eu. Cormac está decidido a se casar quando chegar a primavera. Mas seu pai queria que estivesse a salvo, Alainna. Ele aprovaria seu casamento com Sebastien.

Alainna afirmou com a cabeça. Voltou-se para Sebastien e cravou seu olhar no dele.

-Meu pai desejaria este matrimônio. - Concordou.

Sebastien a olhou fixamente, enquanto o frio vento açoitava sua capa.

-Ele desejaria que fosse feliz. - Disse Giric em voz alta. - Todos nós o desejamos.

Alainna o olhou.

-Sabem os velhos sobre a petição de meu pai?

-Alguns. - Respondeu Giric.

Ela assentiu devagar, com os olhos cheios de lágrimas.

Sebastien sentiu imediatamente uma opressão no coração. Deu um passo até ela, empurrado pela necessidade que viu em seu semblante. Alainna elevou uma mão para ele.

Deus santo pensou. Sentia tal necessidade de abraçá-la que lhe causou dor, uma súbita sensação física no ventre. Deu outro passo mais.

Nesse momento Giric a puxou pelo ombro e a voltou para si para abraçá-la.

Sebastien se deteve. Viu o olhar de afeto que lhe dedicou Giric e como ela se derrubava contra ele, e então fechou os punhos com força para reprimir o desejo que o invadiu. Giric pertencia àquele mundo, disse-se a si mesmo; mas ele não, independente das ordens do rei e do jogo do destino com as vidas de ambos. Não importava que ele ansiasse formar parte de uma família assim, daquele legado; não importava que naquele momento desejasse Alainna com cada parte de seu ser. Ele era uma alma errante, como o havia definido Alainna; ele nunca havia conhecido um verdadeiro lar, e se perguntou se alguma vez pertenceria a alguma parte, por muito que o desejasse.

Giric acariciou as costas de Alainna, e Sebastien experimentou uma sensação no estômago parecida com uma navalhada. Deu a volta em silêncio. Sabia que Alainna considerava Giric somente um irmão e que necessitava seu consolo, mas não gostava de vê-lo.

Lançou um profundo suspiro e se afastou. Sentia uma estranha dor dentro de si, como se uma fibra de seu coração tivesse sido arrancada, como se tivesse deixado uma parte de si mesmo na ventosa cúpula daquela colina, com Alainna.

 

                     Capítulo 16

Alainna aguardou enquanto os outros iam saindo da igreja depois que o padre Padruig repartisse a bênção final. As vozes ecoavam contra as paredes caiadas, e logo a risada profunda do sacerdote se elevou por cima do resto, quando se reuniu com eles no exterior. Ouviu que Lorne estava apresentando Sebastien ao padre Padruig, e viu que Una e Giric voltaram os olhos até ela ao sair. Alainna os incentivou para que não se detivessem; sabia que entenderiam o que ela tinha que fazer.

Cruzou o lado norte da igreja e atravessou uma estreita soleira. Segurou uma vela que ardia em um nicho da parede e a protegeu com a mão enquanto descia os degraus que conduziam à escura cripta.

Aquele quarto subterrâneo, que tinha o chão de terra e um teto de pedra baixo e arredondado, continha várias tumbas. Alainna foi até o canto mais afastado, onde se encontravam as tumbas de seus pais e seus irmãos em um espaço que formava uma pequena capela. Deixou a vela no chão, ajoelhou-se sobre a terra fria e inclinou a cabeça para rezar por suas almas.

As lágrimas lhe escorregaram pelas bochechas ao pensar em seu pai. Sabendo que sua ferida era fatal, acossado em sua debilidade por seu mortal inimigo, havia-se visto obrigado a aceitar algo que não acreditava que fosse correto. Havia protegido a sua filha pedindo a Giric que se assegurasse de casá-la com um guerreiro antes que Cormac pudesse reclamá-la para si.

Inclinou-se sobre as mãos juntas e chorou de pena e de agradecimento, mas o fato de saber que seu pai aprovaria seu casamento com o cavaleiro bretão supunha um grande alívio e uma verdadeira bênção. Secou-se as lágrimas sentindo-se desafogada, limpa. Sabia que a pena voltaria espontânea como uma tormenta, capaz de afligi-la. Cada vez conseguia vencê-la mais facilmente mesmo sabendo que possivelmente nunca se recuperasse do todo da dor de ter perdido a sua família. O único que podia fazer era procurar nichos para a pena, o vazio, as lembranças. E tinha a sensação de ter saído fortalecida depois de carregar aquela dor.

Ao fim de um momento sussurrou uma prece por sua família, levantou-se e foi para a escada da cripta. Nesse momento veio de acima o ruído de umas botas ao roçar a pedra.

Na estreita soleira apareceu Sebastien. Alainna o olhou, sustentando a vela na mão, e ato seguido, sem dizer nada, indicou-lhe por sinais à cripta.

-Estão aí? - Perguntou ele ao entrar.

Alainna sabia a que se referia, e afirmou com a cabeça.

-Venha, mostrarei-lhe. - Falou brandamente em inglês, a língua que ambos usavam mais frequentemente entre si. Sustentou a vela no alto e conduziu o bretão até o fundo. - Meus pais estão nesse lado, e meus irmãos neste. Eles também estão enterrados um ao lado do outro, Conall e Niall, almas amigas em vida. Pusemo-los juntos também na morte, sob uma só lápide.

-Almas amigas? - Perguntou Sebastien.

-São almas unidas entre si pelo amor e a lealdade ao longo de toda sua vida. Podem ser camaradas, irmãos e irmãs ou amantes. Nem todo mundo tem uma alma amiga, mas o que a tem é muito afortunado.

Tocou a laje de arenito que os cobria; esculpida em alto-relevo, mostrava dois guerreiros rodeados por um entrelaçado de ramos ao redor de duas espadas.

-Meu primo Malcolm fez esta tumba para eles. - Disse, limpando o pó da superfície. - Malcolm não está enterrado aqui, porque morreu em Glasgow e foi depositado a descansar aqui. Ele fez a lápide de minha mãe, essa dali, quando eu era muito pequena. Ela nunca conheceu a desgraça que caiu mais tarde sobre nós.

Sebastien assentiu. Alto e de ombros largos com sua armadura, e com o cabelo brilhando como o ouro à luz da vela, parecia encher aquele diminuto espaço. Irradiava uma serena força que parecia produzir uma sensação de consolo e segurança que Alainna estranha vez havia experimentado.

Aquela resolução tangível provinha de algo mais que um corpo musculoso e capaz ou da segurança que inspiravam umas poucas palavras; o bretão emanava uma reserva de força interior. Alainna desejou extraí-la igual a se extrai a água de um poço; desejava desesperadamente lhe dar também algo de si mesma, mas não estava segura de como fazê-lo nem se ele estaria disposto a aceitar.

Parecia um homem privado, reservado, mas ela havia vislumbrado compaixão, bondade e ternura nele. As breves referências a sua infância revelavam uma vulnerabilidade que contrastava com a dura couraça de sua força.

Resultava estranho disse a si mesma ao olhá-lo nas sombras, ter sentimentos assim por um homem que em outro tempo só havia pensado resistir e odiar. Resultava estranho pensar que logo estaria casada com ele. Aquele pensamento suscitou uma sutil emoção que lhe acelerou os batimentos do coração como se fosse um tambor.

Sebastien se voltou para a tumba contigua de sua mãe.

-E a lápide de seu pai? Quem a esculpiu, seu primo já não estava?

-Foi eu. - Alainna deslizou os dedos pela sianinha entrelaçada que rodeava um cavaleiro com uma espada, e uma fortaleza em baixo.

-Você? - O bretão lhe dirigiu um olhar penetrante. - Meu deus. - Seu tom foi de assombro e respeito. Ela voltou a piscar para afastar as lágrimas e se situou a seu lado, com um braço apoiado contra o dele naquele apertado espaço. Sebastien não se afastou, e sua solidez lhe proporcionou consolo. Alainna acariciou a lápide, tão bem conhecida por seus dedos.

-A arenito for fácil de esculpir. - Disse. – Usei o cinzel como se fosse argila seca, e não leva muito tempo trabalhá-la. Eu não estou acostumado a trabalhar com ela porque desprende um pó desagradável e que faz tossir muito. Mas Malcolm havia talhado as outras lajes com mesmo tipo de pedra, de modo que tínhamos vários blocos. Suportamos muitas mortes. - Adicionou com suavidade. - Nos anos em que Malcolm esteve conosco tivemos muitas tumbas e cruzes que esculpir. Nesta cripta há mais pedras, e várias mais fora da igreja, para outros membros de meu clã. Mas esta. - Disse, acariciando a efígie de seu pai. -Esta fiz eu.

Sebastien lhe cobriu a mão com a sua. O calor daquela palma invadiu Alainna, filtrou-se em suas veias como se fosse ouro. Fechou os dedos ao redor do polegar dele e ambos ficaram de pé em silêncio, com as mãos enlaçadas.

-Deve ser insuportável havê-los perdido a todos. - Disse Sebastien.

-Ainda tenho a outros. - Repôs Alainna. Terei a ti? Quis perguntar, mas se conteve.

Apertou-lhe a mão e depois a soltou. Ela desejou sentir de novo aquele calor, quase o buscou com os dedos, mas Sebastien se virou.

-Vamos. - Disse. - Sua gente está esperando à porta da igreja. Conheci o padre Padruig, e está desejando falar conosco sobre preparativos do casamento.

Alainna recolheu a vela e se dispôs a sair da cripta com Sebastien.

-Só podemos falar com ele um momento. Há uma légua inteira de caminho para casa, ao ar livre e com os anciões.

-Você e seus parentes estão seguros entre tantos cavaleiros armados.

-Eu sei. Cormac não nos atacará em um Sabbath, respeita as regras da igreja. - Fez uma pausa. - Mas me preocupo com sua segurança, quando me reunir com Cormac.

-Estaremos preparados para lutar caso esteja pensando em cometer traição.

-E o estará. E o que ocorrerá então?

-Lutaremos. - Respondeu ele com simplicidade.

Alainna deixou escapar um suspiro.

-Os homens lutam. - Disse. - E as mulheres esperam. Estou cansada de tudo isso. Tenho que escolher um marido, só para perdê-lo logo?

-Não me perderá. - Replicou Sebastien.

Estava à distância de um braço dela, nas sombras, e sua voz soou suave e profunda. Algo vibrou em seu interior ao ouvi-lo dizer aquilo. Havia perdido a tantos seres queridos... pai, irmãos, parentes. Desejava desesperadamente acreditar nele.

De repente experimentou o impulso de estender a mão até ele, de sentir como a rodeava sua força, mas o espaço que havia entre eles parecia um largo precipício. Sentiu-se insegura e se voltou, com a vela piscando em sua mão trêmula.

-Pelo menos, se volta para a Bretanha, poderia retornar algum dia. Se for a Turroch, possivelmente não retorne nunca.

-Retornarei de ambos os sítios. - Sua voz era calma.

-Pode que não. - Insistiu Alainna. A sensação de desejo e do medo se intensificou. - E sempre aconteceu isso com os homens de minha família, quando saíam a guerrear com os MacNechtan, jamais tornaram! Acredita que desejo isso mesmo para você? Absolutamente! - E se voltou para dirigir-se às escadas.

Mas Sebastien a segurou pelo braço e a obrigou a olhá-lo no rosto. Tirou-lhe a vela da mão e a pôs a um lado.

-Venha aqui. - Disse-lhe com voz rouca, aproximando-a a ele. - Por acaso tomaria eu uma esposa para abandoná-la logo? - Perguntou, mais para si mesmo que a ela. - Tão tolo sou?

-É? - Sussurrou ela.

-Não. - Replicou Sebastien, e aproximou sua boca a da Alainna.

Seus lábios estavam secos e mornos, seu beijo terno. Alainna gemeu brandamente e se aferrou a seus antebraços cobertos pela cota de malha. Sebastien passou uma mão por sua nuca e afundou os dedos na espessura de seu cabelo, por cima das tranças. Ela inclinou a cabeça para trás para aceitar um beijo mais profundo, com o coração acelerado. Uma força surgiu daquele beijo, algo que se meteu em seu corpo e vibrou ao longo de suas costas como uma corrente, como vento, chama, água, tudo de uma vez.

Sebastien se retirou e apoiou a testa na de Alainna, ainda lhe sustentando o rosto entre as mãos.

-Jesus. - Sussurrou com voz rouca.

Alainna se inclinou para ele, desejando mais daquela incrível maravilha que havia exposto em seus braços, mas Sebastien só a beijou na bochecha.

-Se vou estar tão perto de ti, mais vale que te despose, ou correrei o risco de te desonrar.

-Existem várias formas de desonra. - Murmurou ela. – Das quais não conheço nada.

-Melhor que não as conheça.

-Sinto curiosidade. - Replicou Alainna enquanto inclinava o rosto para ele e fechava os olhos. Sebastien a beijou de novo, com mais intensidade que antes, sua boca exigente e segura, sua mão apoiada na nuca. Atraiu-a para si pela cintura, curva e contracurva, inclinado sobre ela.

Alainna se elevou nas pontas dos pés e lhe rodeou a cintura com os braços, atônita pelas sensações que experimentava, pela calma, quão perfeito era beijar e ser beijada, ver-se envolta em seu abraço. A cota de malha penetrava através da lã, e sentiu o forte apoio dos sólidos músculos que havia debaixo.

Quando Sebastien se afastou, ela voltou para buscá-lo. Ele emitiu um leve gemido e rodeou uma vez mais seus quadris, abertamente, e deslizou as mãos até tomar o rosto. Alainna se aferrou a seus pulsos nus e robustos como se fosse o contrapeso que a sustentava em pé. Ansiava mais, e o expressou com os lábios enquanto se deixava arrastar pela emoção que lhe percorria todo o corpo.

-Ah. - Disse uma voz por cima deles. - Vejo que não é muito cedo para falar de celebrar um casamento.

Alainna proferiu uma exclamação, separou-se bruscamente e levantou os olhos. O padre Padruig lhes sorriu do alto das escadas.

-Subam, subam. - Disse. - Saiam da escuridão à luz, vamos. Nessa cripta faz um frio para congelar o nariz do muito mesmo diabo... mas vocês tenham encontraram um modo de criar um pouco de calor, eh? - Riu jocoso e lhes fez gestos para que subissem.

-Mas, padre Padruig. - Disse Alainna levantando a voz ligeiramente por causa dos nervos. - A um momento estava de acordo em que devíamos nos casar, e agora diz que não? - Olhou com incredulidade ao sacerdote, e logo para Sebastien.

A declaração do sacerdote havia confundido tanto a ele quanto a Alainna, mas não disse nada e se limitou a arquear a sobrancelha.

-Sei quais são suas razões para se casar. - Disse o padre Padruig. Falava um inglês rápido e alegre. - E estou pensando que é insensato que eu seja testemunha de seu casamento agora.

-Insensato? - Disse Alainna - Insensato é não fazer caso do que ordenou o rei! Meu clã poderia perder Kinlochan para sempre e o rei poderia entregar estas terras a algum outro cavaleiro normando. Necessitamos Sebastien e seus homens para que nos ajudem a resistir ao clã Nechtan. Este matrimônio é imperativo para nós, nenhum de nós pode escolher.

-De todos os modos, acredito que deveriam esperar um pouco. A menos que queiram se unir pelo rito das mãos. Isso poderia valer.

-Que poderia valer? - Exclamou Alainna. - Por acaso precisamos mentir? No que está pensando?

Sebastien franziu o cenho. Sua mente trabalhava a toda pressa enquanto Alainna discutia veementemente com o sacerdote. Encontravam-se apinhados na nave da singela igreja de pedra. A luz diurna penetrava por duas janelas sem fechar. Fora se ouvia fracamente a conversa entre os membros do clã Laren e os cavaleiros do rei.

Tendo sido criado por monges piedosos e silenciosos, Sebastien nunca havia conhecido um religioso como o padre Padruig. Aquele padre parecia mais um veterano guerreiro com sua constituição larga e musculosa, suas grandes mãos e seu rosto avermelhado e curtido pela intempérie. Ainda tinha o cabelo avermelhado com corte de orelha a orelha típico dos sacerdotes celtas, o que parecia ser.

Sebastien descobriu que o padre Padruig era inteligente e culto, afetuoso e até de caráter buliçoso. Havia abraçado Alainna como uma filha, e lhe havia dado umas palmadas nas costas como se fosse um amigo de taberna e pontuado seu discurso com uma risada alegre e contagiosa.

-Deixem que me explique. - Disse o padre Padruig levantando um dedo no ar-. - Se atuar como testemunha de seu casamento, tal como se deve fazer nas escadas da entrada da igreja enquanto vocês declararem os votos, todos saberão que estão casados.

Alainna assentiu.

-Assim é como se faz.

-Se aceitou atuar como testemunha de sua união. - Prosseguiu o padre Padruig com o dedo levantado como se estudasse a direção do vento. - Antes de lhes colocar na entrada da igreja devo expor as admoestações durante três domingos seguidos. Para algumas pessoas isso é pouco tempo; neste caso é muito.

-Acredita nos domina a luxúria de tal maneira que não podemos esperar... Oh. - Alainna se interrompeu, envergonhada. Sebastien reprimiu um sorriso, mas o padre Padruig soltou uma gargalhada.

-Entendo o que o bom padre quiser dizer. - Disse Sebastien. - Opina que um casamento público não é seguro.

O padre assentiu com um gesto.

-Se eu atuar como testemunha do casamento, chegará aos ouvidos de Cormac. É um indivíduo imprevisível, e não acredito que queiram provocá-lo mais. Espere, a que Sebastien negocie primeiro as ordens do rei com Cormac. Deve renunciar a idéia de que tem direito antes que ninguém a reclamar a mão de Alainna.

-O rei requer uma cópia de nosso contrato matrimonial. - Disse Sebastien. - E eu prometi partir para Bretanha na primavera. Quanto tempo tem intenção de esperar antes de publicar as admoestações?

-È difícil esperar, eh? Mas já sabem que o matrimônio é algo mais que os prazeres da carne. E suspeito que nenhum de vocês está em paz com este casamento; ambos necessitam tempo para pensar nisso.

Sebastien viu que Alainna se girava de repente, como se as observações do sacerdote a tivessem angustiado.

-Foi o rei quem tomou a decisão por nós, padre. - Disse. - Segundo o documento que tenho em meu poder. - Pegou a bolsa que levava no cinto. -O contrato de matrimônio tem que estar nas mãos do rei, ou a escritura da concessão da propriedade de Kinlochan não será definitiva. Alainna e os seus poderiam certamente perder muito se o matrimônio não se celebrar, e logo.

-Poderiam se unir pelo rito do apertão de mãos. - Sugeriu Padruig.

Sebastien olhou para Alainna com expressão de surpresa. Ela franziu o cenho.

-Consiste em tomar os votos diante de testemunhas por um período de um ano e um dia. - Disse o padre Padruig. - Se ao término desse prazo não conseguem entrar em um acordo, podem se separar.

Já não haverá obrigação que vos uma, exceto se houver um filho. Sebastien deverá reconhecer o menino, naturalmente, mas não há por que celebrar um casamento nem sequer então.

-Isso daria cumprimento à ordem do rei. - Disse Alainna devagar. - Podemos redigir um contrato matrimonial e assiná-lo, como se faz com os compromissos.

-Para a união pelas mãos não precisa se publicar admoestações. - Disse o padre Padruig. - Cormac não se inteirará até que queiram dizer-lhe.

-É um bom plano. - Disse Sebastien.

Alainna assentiu com o olhar baixo.

-Sugiro que realizem o rito da união pelas mãos o dia doe Natal, ou a véspera. - Disse o padre Padruig. - Isso augurará uma sorte excelente, um bom futuro para os dois. Com um augúrio assim, resolverão bem seus conflitos. - E sorriu.

Sebastien se fixou em que as bochechas de Alainna adquiriam uma encantadora cor rosada. Ela deu a volta e correu até a entrada.

 

O vento era intenso e fresco enquanto Alainna caminhava em silêncio junto a Sebastien, de volta para Kinlochan. Parte do grupo ia diante, enquanto que a maioria caminhava atrás, deixando um círculo de intimidade a seu redor.

Ao fim de um momento Alainna lançou um suspiro e disse:

-Assim que nos uniremos pelo rito do apertão de mãos, e nenhum dos dois o deseja. Estou segura de que você quer uma esposa francesa ou bretã, e um lar naquelas terras.

-E você, um guerreiro celta. - Sebastien a olhou. - Um autêntico mito, um homem forte que surja da névoa e derrote a seu inimigo, e que seja o pai de um novo herdeiro do clã Laren.

Alainna levantou o rosto ao vento.

-Assim é.

-Eu não sou esse homem. - Repôs Sebastien.

-Poderia sê-lo. - Replicou ela Impulsivamente, com o coração retumbando.

-Tenho uma vida distinta planejada. - Disse Sebastien com firmeza.

-E eu não sou da nobreza francesa, nem quero sê-lo.

O bretão continuou andando sem dizer nada, a passos longas e tranquilos. Então elevou os olhos, cinzas e tristes.

-Está disposto a adotar meu sobrenome, senhor cavaleiro, e tomá-lo a seus filhos? - Perguntou ela.

-Quer você adotar o meu. - Contra-atacou ele com suavidade. - E tomá-lo a seus filhos?

-Não posso. Se o fizesse, desapareceria um antigo clã.

-E eu levo toda minha vida lutando para dar algum valor a meu sobrenome e assim fundar um novo legado.

-Deu valor você mesmo. - Repôs Alainna. - O nome que usa não vai mudar por isso.

Ouviu-o suspirar contemplando as colinas. Ela suspirou também.

-O que vamos fazer, Sebastien?

-De um modo ou outro devemos celebrar um casamento.

-E se tivermos filhos?

-Há maneiras de evitar isso.

Alainna o olhou atônita.

-Isso não é o que eu quero de um matrimônio. - Sentiu a ardência das lágrimas. - Eu quero ter filhos, e um marido que me queira e a meus.

-Por acaso acha que me agrada isto? - Exclamou Sebastien de repente. - Devo escolher entre você ou meu filho. Parecia-me mais fácil quando cheguei aqui. - Acrescentou com voz baixa, desviando o rosto. - Cada dia fica mais difícil.

-Se não convertermos a união pelas mãos em um matrimônio. - Disse Alainna. - Os dois podemos ser livres dentro de um ano e um dia.

Ele assentiu devagar.

-Pode que esse seja o único modo de sair deste embrulho. Robert e alguns dos outros podem ficar aqui quando eu fiscalizo a construção do castelo. Sua gente necessita muito amparo da Coroa. É possível que o rei esteja disposto a negociar e a repartir a terra entre nós.

-É isso possível? - Alainna sentiu uma luz de esperança.

-Em um ano pode acontecer muitas coisas.

-Você e eu nos entendemos. - Disse ela à medida que a idéia ia tomando forma em sua mente. - Sabemos o que deseja o outro. Podemos nos oferecer mutuamente a companhia de um amigo e não informar a ninguém de nossos planos de nos separar ao finalizar o ano.

Sebastien a olhou e arqueou uma sobrancelha. A cicatriz que lhe cruzava o olho esquerdo lhe dava um aspecto duro, de foragido. Seus olhos tinham a cor sombria do céu nublado.

-É uma oferta de paz, minha senhora? - Perguntou.

-É. - Respondeu Alainna. - Durante um ano e um dia.

Ele seguiu caminhando em silêncio, com passos longos e ágeis.

-Então que assim seja. - Disse por fim, mostrando um sorriso lento e triste.

Alainna lhe devolveu um sorriso incerto. Por espaço de uns instantes, seus passos foram no mesmo ritmo que os seus.

-Amanhã irei ver Esa, se o tempo permitir. - Disse ao fim de uns momentos. - Pedirei-lhe que venha para Kinlochan.

-Ah, a misteriosa Esa. Estou desejando conhecê-la.

Falou naquele tom frio que Alainna sabia que utilizava quando queria ocultar o que estava pensando. Perguntou-se suspeitaria que Ruari MacWilliam estava vivo e se falaria disso com Esa. Em tal caso, estava decidida a não permitir que descobrisse nada que pudesse prejudicar a nenhum dos seus.

Já havia falado a Giric de Ruari. O jovem reagiu tal como ela esperava, com perfeita calma. Sabia que ele guardaria o segredo.

-Tenho que perguntar aos homens de meu clã qual deles me acompanhará a ver Esa. - Disse. Olhou para trás e se deteve esperar que Niall, Lulach e Giric se aproximassem. Logo lhes explicou o que queria fazer. - Quando chegarem as nevadas fortes, não será fácil trazer Esa para Kinlochan. - Acrescentou.

-Não será fácil em nenhum caso, seja quando for. - Disse Niall.

-Quero que Esa esteja aqui quando nos unirmos pelo rito das mãos. - Disse Alainna. – Esperava que um de vós me acompanhasse.

-Já. - Disse Lulach. - Antes arrancaria um carvalho do chão que tirar Esa de sua casa. É encantadora, mas muito teimosa.

-Ach. - Respondeu Alainna-. Eu a convencerei de que venha comigo. É que você não sabe como fazê-lo. - Disse com um sorriso.

-Ultimamente tentamos três vezes. - Disse Lulach. - Ela se nega, tão tranquila e segura que quase não nos damos conta de que está negando. Mas essa mulher é dura como uma pedra.

-Eu sei como trabalhar a pedra. - Replicou Alainna, ainda sorrindo. - Quem de vocês virá comigo? Niall? Você gosta de ver Esa.

-Não penso ir. - Repôs Niall. - Obrigaria-me a lhe fazer todos os trabalhos caseiros, e terminaria carregando esse enorme tear sua montanha abaixo... se é que está disposta a abandonar sua casinha, que não acredito que o faça.

-Giric? Você sim virá.

-Alainna, prometi aos cavaleiros que manhã os levaria para caçar cervos. Podemos deixar para o dia seguinte?

-Não quero esperar. - Disse ela. - O tempo vai piorar, Uma disse que está segura. E quero que Esa esteja aqui para o apertão de mãos e para Natal. Lulach?

-Donal e eu vamos limpar a forja e fazer reparações durante os próximos dois dias. - Respondeu o aludido. - Una e Morag querem que a fortaleza esteja limpa para o ano seguinte. Há muito que fazer para deixá-las felizes.

-Vá você. - Disse Niall a Lulach. - Está louco por Esa desde que era um menino pequeno.

-Eu? Era você o que estava apaixonado por Esa! - Ladrou Lulach.

-Eu acredito que estavam apaixonados os dois. - Interrompeu Giric. - Entendi que quando Esa se casou com Ruari rompeu o coração de centenas de apaixonados.

-Tenho que conhecer essa mulher. - Disse Sebastien, divertido. - Eu te acompanharei, Alainna.

-Você? - Chiou ela, e olhou rapidamente para Giric, que franziu o cenho. - Pode me acompanhar Lorne. - Apressou-se para dizer.

-Lorne estará em sua cama de poeta. - Disse Giric. - Disse a Una que era sua vez.

-Sua cama de poeta? - Perguntou Sebastien.

-De vez em quando passava um dia inteiro na cama, de um amanhecer a outro. - Explicou Alainna. – Fica deitado na escuridão, com um pano sobre os olhos e uma pedra no ventre, e lembra até o último verso de todos os poemas e histórias que aprendeu em sua vida. Faz parte de sua formação de bardo.

-Ah. - Disse Sebastien, assentindo fascinado. - Eu te acompanharei. - Repetiu com firmeza. - Ainda tenho que encontrar todos os marcos que assinalam os limites e alguns estão nesse caminho. Tenho que ir nessa direção cedo ou tarde.

Alainna suspirou.

-Muito bem... Mas teremos que caminhar, porque Esa vive nas colinas mais altas.

-Perfeitamente. - Repôs ele. - O que você desejar minha senhora.

-Aja! - Exclamou Niall. - Este homem vai se casar! Não quer afastar-se do lado de sua noiva!

Alainna sentiu que lhe subia um intenso calor ao ver os largos sorrisos dos homens de seu clã e o olhar tranquilo e inalterável de Sebastien, junto com seu lento sorriso.

 

                   Capítulo 17

-Aí abaixo há um marco. - Disse Alainna a Sebastien. Vê? - Estava de pé no alto de uma escarpada colina, muito por cima de onde se encontrava Sebastien.

-Já o vi. - Respondeu o bretão fazendo um gesto com a mão.

Ele se encontrava na base da colina, onde corria um rápido arroio. Agachou-se para pegar um pouco de água fria no oco das mãos para beber, e secou os dedos na capa. No ribeiro havia uma grande rocha pintada de branco, o marco que procurava. Levantou-se de novo e entreabriu os olhos para escrutinar as colinas e calcular a distância que estavam percorrendo Alainna e ele desde o último marco que tinham encontrado contra o mesmo arroio.

Durante boa parte da manhã tinham subido ainda, ali onde as ladeiras eram de cor parda e estavam cortadas e rochosas, onde o vento açoitava o rosto e a densa névoa branca não deixava ver as cúpulas.

Tirou da bolsa sua tábua de cera e seu lápis e escreveu algumas notas sobre a localização do marco. Depois voltou de novo até onde o aguardava Alainna, ao lado de uma enorme rocha.

-Posso ver? - Pediu ela, estendendo a mão. - Fez um mapa de Kinlochan?

Sebastien titubeou.

-É muito simples. - Disse enquanto lhe mostrava a tábua de cera.

Alainna observou o minúsculo desenho que mostrava a forma aproximada da propriedade, o lago, a fortaleza e o arroio largo e estendido. Depois contemplou o pequeno e minucioso desenho que havia em um canto.

-Não sabia que tinha tão boa mão para desenhar. - Disse-lhe. - Este pequeno castelo está muito bem feito. É algum que já viu em alguma parte?

Sebastien estendeu a mão, mas Alainna não lhe entregou a tábua.

-É meu desenho.

-É encantador. E eu gosto das três torres das muralhas. Imagino que não há nada assim nas Highlands. Assim é como vai ser o castelo de Kinlochan quando construir?

Ele encolheu os ombros.

-É possível. - Tirou-lhe a tábua das mãos e a guardou de novo na bolsa de couro.

-Assim entende de mapas e construções?

Ele mostrou um sorriso sem expressão.

-Acreditava que só me interessavam a guerra, as lutas ou fazer parte da guarda de um rei?

-Vi você praticar para a guerra e sair de caça. E, é obvio, vi você como guarda do rei. Mas isso é tudo.

-Eu desenharia construções. - Disse Sebastien. - Se não tivesse me convertido em um cavaleiro ao serviço de um suserano, se tivesse tido o privilégio de me educar na universidade, teria estudado a arte da arquitetura.

Enquanto falava olhava a curva da colina, consciente de que rara vez havia expressado em voz alta aquele desejo diante de ninguém. O desenho do castelo poderia parecer simples para outra pessoa, mas para ele representava algo precioso e íntimo.

Ao longo dos anos havia estudado e desenhado muitas estruturas, pois desde menino se sentia fascinado por desenho. Havia aprendido muito observando, lendo tudo o que pôde encontrar nas bibliotecas dos nobres senhores aos que serviu, e também de sua experiência ao serviço de um barão inglês que lhe permitiu participar diretamente na construção de três castelos. Aquele pequeno esboço em cera era a culminação de observações e idéias, uma expressão de seu amado sonho de desenhar seu próprio castelo. Nesse sentido, a ordem do rei Guillermo em relação a Kinlochan havia sido mais que bem recebida, mas ao mesmo tempo lhe resultava frustrante. Mesmo que desejasse fiscalizar a construção de uma fortaleza de pedra, não tinha a intenção de que Kinlochan fosse seu lar.

O brilho dos profundos olhos azuis de Alainna lhe indicou que a jovem estava intrigada. Desejava lhe contar mais, de repente percebeu que não lhe dava medo compartilhar aquilo com Alainna. Queria dizer-lhe o que sentia, ver como se iluminavam seus olhos com a paixão que parecia pôr em todas as coisas.

-Como chegou a conhecer a arte da arquitetura? - Perguntou-lhe ela. - Não foi à universidade. Como adquiriu conhecimentos?

-Quantas perguntas. - Disse ele, sorrindo levemente. - Descansamos um pouco? Alguém pôs algo de comida nessa bolsa?

-Sim. Se quiser podemos nos sentar aqui... Espere. - Disse quando ele se dispôs a sentar-se sobre a rocha. Sebastien retrocedeu. - Observa.

Tocou a pedra com a ponta do dedo. A rocha era alta como um homem e tinha quase a metade dessa distância em largura, mas ao ligeiro contato de Alainna começou a balançar-se brandamente para frente e para trás. Sebastien riu surpreso. Quando a rocha ficou quieta, tocou-a ele mesmo, e começou a mover-se de novo. Sentindo curiosidade, ajoelhou-se no chão para olhar debaixo.

A curva inferior da rocha descansava sobre uma base plana de xisto. A luz do dia se filtrava por toda parte exceto o ponto central de união entre a pedra superior e a inferior. Levantou-se de novo sacudindo a cabeça, estupefato.

-É uma pedra do julgamento. - Disse Alainna. - Os antigos a utilizavam para fazer justiça em casos de delitos e disputas. Lorne me falou sobre isto. O acusado se situava aqui. - Indicou o extremo da rocha que apontava colina abaixo. - E um sacerdote ou um chefe de clã se colocava no outro extremo e expunha o caso em voz alta para os pressente. Continuando, o chefe dava um golpe à pedra com uma vara e a pedra respondia balançando-se de um lado a outro.

Sebastien empurrou a rocha várias vezes para provar.

-Umas vezes se move de norte ao sul, e outras de leste a oeste. - Observou, rodeando a pedra.

-O movimento de norte ao sul se considerava um veredicto de inocência, e o de leste a oeste era de culpabilidade. Se a pedra permanecesse imóvel, queria dizer que não havia decisão, o qual permitia o acusado ir-se livre de castigo. Já ninguém a utiliza. - Disse, e se sentou. A rocha tremeu ligeiramente sob seu peso. - Só foi uma curiosidade.

-Certamente curioso. - Sebastien se sentou também sobre a pedra e apoiou firmemente os pés no chão até que ficou imóvel. Alainna rebuscou na marmita que havia levado consigo, e entregou a Sebastien uma bolacha de aveia e um grosso pedaço de queijo.

-Conte-me como foi educado. - Disse enquanto começavam a comer. - E como começou a se interessar por desenhar castelos.

-Os monges que me criaram me deram uma excelente formação em línguas, ensinaram-me a ler e escrever, matemática e teologia. A arte da arquitetura e a geometria me intrigava, e continuei estudando por minha conta. Mas não possuo a formação especializada de uma universidade. Não havia ninguém para pagar o que custava isso. - Adicionou.

-Não tem família, Sebastien? - Perguntou Alainna em voz fraca.

-Só meu filho. - Palavras singelas que não revelavam a perda e a angústia de anos atrás. Partiu um pedaço de queijo e o mastigou lentamente antes de prosseguir. - Os monges são mais minha família que nenhuma outra pessoa. O abade Philippe foi como um pai para mim.

Cheguei a seu monastério quando não tinha mais de dois anos e ele era um jovem que ainda não era abade.

-Não me estranha que deseje retornar para Bretanha.

O simples gesto de assentimento pareceu contradizer a intensidade de sua convicção.

-Devo encontrar Conan e os monges e fazer o que estiver em minha mão para ajudá-los. Parece-me... Difícil ficar na Escócia sem saber o que aconteceu com eles. - E também lhe resultava difícil admitir seus sentimentos em voz alta, pensou, mesmo que com Alainna pudesse fazê-lo mais facilmente que com nenhuma outra pessoa.

-A primeira vez que te vi. - Disse ela em tom ligeiro, olhando-o-, pensei que você e eu não podíamos ser mais diferentes. Mas cada vez mais penso que somos parecidos.

-Em orgulho, com certeza que sim. - Replicou ele sorrindo.

-Mais que isso. Nós dois faríamos o que fosse pelos seres aos que amamos. Você abandonaria esta excelente propriedade. - Mostrou com a mão. - Só para estar com eles e saber que se encontram sãos e salvos.

Sebastien, enquanto percorria a paisagem com o olhar, sentiu uma pontada de remorso. Havia começado a amar aquele país de ladeiras, lagos e céu aberto, e se dava conta de que partir dali lhe ia resultar muito mais duro do que havia esperado, por várias razões.

-Daria minha alma para saber que se encontram bem. - Murmurou.

-Igual eu faria pelos meus. - Repôs ela. - Mesmo que se eu fosse separada de minha família e estivesse em um lugar desconhecido, entre desconhecidos, não seria tão amável com eles como você foi conosco. Iria antes que pudesse, e seria considerada uma escocesa bárbara, suponho.

Sebastien sorriu.

-Pensei que tivesse recrio de minha cortesia e cavalheirismo, minha senhora.

Alainna riu.

-Não de todo seu cavalheirismo, senhor. - Desceu o olhar para posá-lo nas longas pernas e os pés do bretão. - É muito amável ao segurar esta pedra para que possamos comer.

Sebastien riu ligeiramente e mordeu a salgada e suculenta bolacha de aveia. Alainna comeu também, e ao fim de uns instantes limpou as mãos.

-Em certa ocasião disse que sabia algo a respeito de seus pais. Não tem relação com suas famílias?

Sebastien partiu o que restava de sua bolacha de aveia e a lançou entre os emplastros de urzes para que o buscassem os pássaros e outros animais.

-Eu era um órfão. – Disse. - Que deixaram abandonado às portas do monastério com um anel de ouro e um pouco de sal para demonstrar que era de nobre berço e que estava batizado. Os monges não sabiam como me chamava nem de onde provinha, então me puseram o nome de seu santo padroeiro, já que me encontraram no dia de sua festividade. O monastério é Saint-Sebastien, perto de Rennes, na Bretanha.

-Ah. Assim foi como se converteu em Sebastien Le Bret. É um bom nome. -Os olhos de Alainna revelavam só sinceridade, sem indício de zombaria.

-Pode que meu nome não esteja respaldado pelo valor de gerações de guerreiros e herdeiros. - Disse Sebastien. - Pode que não leve o “de” que indique uma família nobre e latifundiária, mas meu é.

-E jamais renunciará a ele. - Disse Alainna lentamente.

Sebastien se inclinou para frente para apoiar os braços nos joelhos e contemplou as escarpadas ladeiras cobertas de neve e de neblina, dilatadas pradarias e o arroio sinuoso e encaracolado de espuma branca.

-Meu nome é o único que tenho. - Disse. A única coisa que é só minha.

Alainna lhe tocou o braço. Ele não a olhou, mas era consciente da pressão que exercia sua mão. Aquele leve contato o comoveu, acelerou-lhe o coração e o corpo, produziu-lhe um ardente calor. Melhor seria que ela não soubesse, melhor seria que ele não pensasse nisso.

-Sabe algo de seus pais? - Perguntou-lhe Alainna.

-O abade Philippe indagou durante anos, e por fim, quando eu tinha nove anos, foi ver o um sacerdote de uma aldeia bretã. Uma mulher lhe havia suplicado em seu leito de morte que fosse ao monastério contar sua história. -Calou uns momentos. - Afirmava ter deixado ali a um menino, não nascido dela. Descreveu o anel e o pacote que encontraram comigo, e disse que era a babá que havia sido contratada pela família da mãe.

-Ela conhecia seus pais?

-O sacerdote contou que minha mãe era filha de um senhor bretão. Eu nunca cheguei a saber seu nome nem o de sua família, porque a mulher insistiu em manter segredo. Meu pai era o filho menor de um barão inglês, uma família chamada De Linfield.

-Então sim que conhece seu sobrenome! - Alainna sorriu.

-Não é meu sobrenome. Não tenho direito a ele.

-Como pode ser isso?

-Meu pai era sacerdote. Os filhos dos sacerdotes não têm direito legal a herdar o sobrenome de seu pai. Só na Escócia. – Acrescentou. - Seria eu legítimo e com sobrenome, como filho de um sacerdote.

Alainna o olhou fixamente.

-Quem era sua mãe?

-A família de minha mãe queria colocá-la em um convento. Meu pai era um sacerdote inglês da corte bretã. O pai de minha mãe o contratou para que ensinasse sua filha a ler. Apaixonaram-se... e assim eu nasci. Minha mãe morreu no parto, e seu irmão procurou meu pai e o matou.

Fez-se um silêncio tão denso como a névoa que envolvia o topo da colina. Alainna expressou sua compreensão com um som sem palavras e se inclinou até Sebastien, braço com braço. Sua presença era para ele um agradável consolo. A pedra sobre a qual estavam sentados se moveu ligeiramente, e Sebastien não fez nada por freá-la.

-O babá me deixou com os monges uma vez que fui desmamado, tal como a família de minha mãe lhe havia pedido que fizesse, com uma retribuição econômica. Eles não queriam um filho bastardo, que supunha uma desgraça e uma lembrança da tragédia. Ela tinha mais filhos e não podia permitir-se outra boca mais para alimentar. Disse ao sacerdote que lhe rompeu o coração me abandonar e que esteve muito preocupada comigo, mas que não podia ajudar.

-Mas era uma mulher de bom coração. - Disse Alainna.

-Isso parece. Quando eu era jovem sonhava frequentemente com uma mulher pequena e redonda de olhos castanhos que cantava e me sustentava em seus braços. – Encolheu os ombros. - Naquela época me perguntava quem poderia ser, já que a única família que conhecia eram os monges.

-Estou segura de que se lembrava. - Disse Alainna.

-Talvez. - Suspirou. - Os monges eram bondosos com todos os meninos que estavam a seus cuidados, mas lhes davam uma educação muito estrita. Poucos jogos e muitas orações e estudos. Não era a vida normal de um menino. Uma vida assim faz um bom monge, mas não me interessava isso.

-Partiu para abrir caminho no mundo secular?

-O abade Philippe encontrou a família de meu pai na Inglaterra.

Um primo foi ao monastério e me levou para sua casa na Inglaterra quando eu tivesse onze anos.

-Então têm parentes.

Sebastien elevou de ombros.

-Suponho. Mas nenhum deles estava desejoso de me acolher, e logo percebi que não devia esperar nada deles. Deram-me um lugar nos estábulos, onde aprendi muito a respeito de treinar cavalos. Com o tempo, outro cavaleiro me levou consigo e me converti em escudeiro e por fim em cavaleiro. Sir Richard era um bom homem, deu-me muitas oportunidades.

-Chegou longe, desde aquele monastério bretão.

-De certo modo. Desde muito jovem aprendi a me abrir caminho na vida por mim mesmo. Queria o que tinham outros cavaleiros: nome, riquezas, terras, família; e me empenhei em consegui-lo. - Olhou para Alainna. - Em outros aspectos não cheguei longe absolutamente. Continuo sendo um homem solitário. Levo uma veta ativa, mas conservo dentro de mim a veta contemplativa.

Alainna ficou em silêncio, o olhar sério e a cabeça inclinada como a tinha tão frequentemente quando olhava Sebastien.

-De modo que esta é sua história? - disse-lhe em tom desenvolto.

-Parte dela. E você? Qual é sua história?

Alainna encolheu os ombros.

-A minha não é tão interessante, e você já conhece muito dela. Vivi em Kinlochan toda minha vida, com minha família perto. Foi uma vida protegida, ainda mais estreita e mais protegida por causa da disputa de sangue e as perdas e perigos que sofreu meu clã. Mas a sorte de ter a minha família e meu lar compensaram com acréscimo a maldição que supuseram essas desgraças.

Enquanto falava, ficou de pé para empacotar as sobras da comida. A pedra se balançou sob Sebastien como uma barco na água. Ele voltou a aquietá-la com o pé.

-Que pedra tão estranha esta. - Disse pensativo, deslizando a mão pela superfície dura e fria.

-Algumas pessoas ainda sobem até aqui para fazer predições no primeiro dia de maio, perguntas de apaixonados, e em busca de sorte para o ano novo.

-Imagino. - Disse Sebastien. Levantou-se e se inclinou para frente. Diga-me, pedra, vai nevar?

Alainna começou a rir. Era como o bater da prata.

-Isso é fácil de responder.

Sebastien tocou a pedra com suavidade, e esta imediatamente começou a balançar-se.

-De norte a sul. - Anunciou, sorrindo a Alainna.

-Nevará cedo ou tarde. Não necessitamos que nos diga isso a pedra.

Ele pôs um pé na rocha para freá-la.

-Consentirá a misteriosa Esa em voltar conosco?

Alainna riu outra vez.

-Acredito que sabe a resposta.

-Cale-se. -Disse-lhe Sebastien, fingindo que franzia o cenho. Ela soltou um risinho suave. Sebastien tocou a pedra, e esta começou a balançar-se. - De norte ao sul. Esa voltará conosco.

-Eu mesma poderia te haver dito isso. - Alainna fez um gesto presumido.

-Para que se necessita uma pedra do julgamento quando se tem Lady Alainna? - Sebastien contemplou contente como se alargava seu sorriso.

-Pergunte-lhe algo que não possa saber. - Sugeriu ela.

Ele inclinou a cabeça, pensando.

-Conseguirá Alainna... encontrar o guerreiro celta que busca? - Perguntou, um pouco em brincadeira.

Ela fez uma careta. Ele sorriu, inclinou-se e tocou a pedra. Esta se moveu de norte a sul, em sentido afirmativo.

Sebastien sentiu um estremecimento de desilusão.

-Ah. - Murmurou. - Pelo visto, cumprirão-se seus desejos.

Ela parecia consternada.

-Deixe-me provar. Conseguirá Sebastien. - Enquanto falava rodeou a pedra. - Encontrar uma esposa bretã? - A rocha se moveu ao tocá-la-. De leste a oeste. Oh, não a vai encontrar. Deveria ter perguntado se encontraria uma boa dama francesa. - Emendou.

-Sem dúvida. - Murmurou ele.

-Conseguirá Sebastien... encontrar um lar para sua alma errante? - Utilizou um tom de voz suave.

Sebastien notou que estava muito quieto, tanto seu corpo como seu espírito. Alainna tocou a pedra. Ao fim de um momento se balançou lentamente.

-De norte a sul. - Murmurou Alainna, olhando-o-. Encontrará o que quer.

-Encontrarei? - Contemplou Alainna durante longos instantes, e a seguir pôs um pé na pedra para deter o movimento.

-Dizem que a pedra do julgamento nunca se equivoca.

-Já a provamos o bastante. – Disse ele. Rodeou a pedra em direção a Alainna e se agachou para recolher o restante. Quando estava se levantando, ouviu que Alainna lançava uma exclamação.

-Olhe!

Uns quantos flocos de neve caíam brandamente do céu. Sebastien levantou a mão para apanhá-los e os mostrou a Alainna.

-A pedra tinha razão. - Disse ela. Sebastien sorriu, mais contente pela alegria da jovem que pela predição da rocha ou pelos delicados flocos de neve que sustentava na mão.

Alainna levantou a vista até ele, tão fresca e linda que Sebastien teve a sensação de que o coração caía aos pés. Estendeu uma mão para afastar brandamente a neve que tinha ficado presa no cabelo e deslizou o polegar por sua bochecha, onde brilhavam uns quantos flocos.

-Ainda há outra pergunta que desejo fazer. - Murmurou.

-Qual é? - Sussurrou ela.

-Quererá Alainna. - Murmurou, roçando com o dedo o contorno de sua mandíbula. - Me beijar?

Ela fechou os olhos a modo de resposta, e ele se aproximou para posar sua boca sobre a da jovem. A neve lhe dançava no rosto e o ar era frio, mas os lábios de Alainna criavam um círculo de doce calor. Sabia que não deveria ter reagido a sua atração, mas havia exposto uma debilidade dentro de si no que a ela se referia. Encontrava-a cada vez mais irresistível, mesmo sendo consciente de que responder ao desejo poderia expor a ambos à dor.

Só por agora, disse a si mesmo; só uma vez, para saboreá-la de novo. Deslizou a mão por seu rosto e a beijou mais profundamente, saboreando aquele resplendor que havia percebido nela.

Momentos depois, muito rápido, ela se afastou.

-Não tocou a pedra para saber a resposta. - Disse Alainna.

Sebastien lhe roçou o cabelo com os dedos em um gesto de afeto, enquanto o coração lhe retumbava estranhamente no peito. Um momento depois colocou o tartam sobre a cabeça para se proteger da neve.

-Não tinha intenção de perguntar à pedra. - Repôs. - Estava perguntando isso a ti.

Sorriu, desejando atraí-la a seus braços, em vez disso jogou a bolsa nas costas.

-Onde está a casa de sua parente? Morro por um bom fogo.

-Precisamos sair deste vento. - Concordou Alainna.

-Eu te daria calor. - Disse ele. – Como se fosse um fogo.

Alainna o olhou fixamente sem dizer nada, mas ele viu uma labareda de desejo em seus olhos, o mesmo que ardia dentro dele, repentino e violento. Desviou o olhar. - Mas isso não seria sensato. O que acabamos de fazer tampouco é sensato.

-É que temos que ser só sensatos? - Perguntou Alainna. - Se isto foi uma tolice, os tolos são mais felizes que os sábios.

-Os tolos. - Disse Sebastien com seriedade. - Têm sua própria classe de sensatez. - Deu a volta e disse. - É por aqui?

-Sim. - Respondeu Alainna, e começou a marcha pela ladeira da colina.

Um momento mais tarde a neve havia se intensificado até converter-se em uma tempestade de neve. Sebastien viu, ao longo do pendente que se estendia em frente a eles, uma casa de pedra com um teto de palha, protegida do vento da colina. Uma espiral de fumaça se elevava do teto e um resplendor alaranjado iluminava uma das duas janelas que havia aos lados da porta.

Aproximou-lhes uma cabra, que ficou olhando um momento sem pestanejar e a seguir se afastou. Nisso se abriu a porta da casa deixando ver a silhueta alta e esbelta de uma mulher.

-Alainna? É você? - A mulher saiu da casa. A cabra passou em frente a ela para deslizar-se ao interior da porta aberta.

-Esa!

Alainna começou a correr até ela. Sebastien permaneceu longe enquanto elas se abraçavam. Logo Esa se voltou e lhe sorriu, e por um instante ele ficou aturdido e sem fala.

A mulher possuía uma beleza surpreendente. Tinha um cabelo escuro brandamente trançado que se mesclava com alguns fios brancos, uma constituição alta e fina, e levava um singelo vestido de lã avermelhada e um tartam de cor azul. Movia-se como um cisne na água. Seu rosto estava primorosamente modelado, com uma estranha e perfeita simetria, possuía um sorriso encantador e uns brilhantes olhos castanhos de povoadas cílios que transmitiam calidez.

Viu tudo aquilo em um instante. Também viu bondade e pena naqueles magníficos olhos, sulcados de sombras, fragilidade na esbelta curva de sua garganta e determinação nos ombros estreitos e retos. Gostou imediatamente daquela mulher, e compreendeu por que os homens de Kinlochan pareciam aterrorizados e apaixonados por ela, todos ao mesmo tempo.

Pegou sua mão.

-Minha senhora. - Disse, inclinando-se sobre seus esbeltos dedos. - É uma honra lhe conhecer.

Ela inclinou a cabeça com elegância.

-Senhor, o prazer é meu ao lhe dar as boas vindas a minha casa. – Tinha uma voz grave e melosa.

-Esa MacLaren, este é Sebastien Le Bret. - Disse Alainna.

Sebastien olhou para Alainna. Sua vibrante cor parecia nata e fogo ao lado da serena e escura elegância de Esa. De repente se sentiu invadido por uma estranha sensação; Esa era uma beleza impressionante, mas Alainna era a chama que ardia no centro de seu ser.

Então sorriu, fixo em Alainna. A neve caía ao redor deles, mas Sebastien apenas notou o frio.

-Entrem. - Disse Esa abrindo a porta. - Posso lhes oferecer sopa quente e um bom fogo, e também um lugar onde dormir esta noite, porque parece que aumenta a neve. Mas espero que não tenham subido até aqui para me pedir que vá para Kinlochan com vocês.

Alainna entrou na pequena casa com Esa e ficou de pé na penumbra interior. Espantou a cabra dali e olhou para Sebastien.

-Quer levá-la ao outro lado da casa? Ali há grama para ela comer. E leve também a ovelha. - Empurrou uma ovelha gorda até o exterior da casa e dedicou um lindo sorriso a Sebastien.

O bretão, suspirando, fez o que pôde para conduzir os animais até o outro lado da casa. Havia-se construído um diminuto montículo contra a parede de pedra, onde cresciam a erva e as urzes, desiguais pelo inverno. A ovelha começou imediatamente a comer, mas a cabra continuou olhando fixamente para Sebastien com seus olhos dourados e o seguiu em círculo.

Sebastien a esquivou e retornou à casa. Ao agachar a cabeça para atravessar a soleira, viu as duas mulheres abraçadas. Alainna estava sussurrando algo a Esa, e ouviu que a mulher deixava escapar uma exclamação e se aferrava aos braços de Alainna.

Então Esa se afastou com os olhos brilhantes de lágrimas.

-Voltaremos para o Kinlochan com as primeiras luzes. - Disse com firmeza.

 

                             Capítulo 18

O fogo lançava labaredas, e flutuavam as faíscas semelhantes a lanternas de outro mundo. A seu redor girava a pequeno quarto. Alainna piscou e observou que o chão de terra e as baixa vigas de madeira pareciam inclinar-se, junto com a mesa, os bancos e o tear. Desejou não ter terminado tão depressa a cerveja de urze que pegou depois do jantar.

Do outro lado do resplendor do fogo estavam Esa e Sebastien, de pé ao lado do enorme tear que dominava o centro do único quarto da casa. Os vermelhos e verdes escuros do tecido estirado ainda por cima resplandeciam à luz das chamas. Todas as cores que a rodeavam pareciam saturadas e luminosas. O cabelo de Sebastien parecia com ouro fundido, seus olhos como prata. Era justamente igual ao guerreiro dourado de seu sonho... mas ele não desejava sê-lo para ela.

Suspirou ao lembrar a sensação de seus braços rodeando-a, o sabor de seus lábios sobre os dela. Contemplou como conversava com Esa, mas só conseguiu que a estadia se prolongasse ainda mais. Apoiou uma mão no chão para segurar-se, contra no cobertor no qual estava sentada.

-Menos mal que a tempestade de neve nos reteve aqui. - Disse Sebastien em voz baixa, olhando a Esa. - Alainna parece a ponto de adormecer. Jamais conseguiria retornar a Kinlochan.

-Sim conseguiria. - Protestou a aludida, enroscando-se contra o cobertor. O fogo era quente, e o cobertor no qual estava sentada, formado por dois grossos tartans estendidos sobre um colchão de urzes e palha, resultava tão cômodo como seu próprio colchão cheio de plumas. Apoiou a cabeça nos braços cruzados. - Seria capaz de descer correndo essas colinas mais rápido que você, se tivesse que fazê-lo.

Ele riu brandamente.

-Estou seguro. - Aproximou-se e se ajoelhou junto a ela para lhe pôr por cima outro tartam ao redor dos ombros. - Agora descansa.

-Faça o que ele diz. - Aconselhou-lhe Esa. - Descansa. A noite vai ser longa e silenciosa, com essa forte nevasca que está caindo. Se não for muito profunda, poderemos ir a Kinlochan amanhã. Teremos que levar a cabra e a ovelha, não penso as deixar aqui.

Alainna bocejou e se aconchegou um pouco mais, e Sebastien estendeu a mão para afastar umas mechas de cabelo da testa.

-Durma. - Disse-lhe.

Ela fechou os olhos ao sentir a carícia daqueles dedos. Sebastien apoiou a mão em seu ombro por um breve instante e depois se levantou. Alainna o ouviu falar de novo com Esa em voz baixa.

-Percebo que usa um tartam tecido por mim. - Disse Esa. - Mas não o usa como um breacan.

-Não sou um montanhês. - Repôs ele.

-Lembram-me um. Parece muito com meu Ruari Mòr.

Alainna apoiou a cabeça no braço dobrado e observou, sabendo que Esa jamais revelaria o segredo de Ruari. Nas horas que tinham transcorrido desde que Esa se inteirou sobre Ruari, sua beleza natural tinha ficado mais radiante e as sombras tinham desaparecido de seu rosto.

-Disseram-me que seu marido foi um grande guerreiro.

-Um grande homem. - Disse Esa. - Bom e valente, bonito e forte. Você é loiro, e ele... era de cabelos negro e olhos azuis, mas você me lembra ele. -Estudou Sebastien por espaço de tempo. - Acredito que é pela suavidade que se percebe embaixo dessa fortaleza; fortaleza de coração tanto como de corpo. Nem todos os homens a têm, e só os melhores a possuem com tal intensidade que brilha como uma nervura de ouro em uma rocha maciça.

Sebastien inclinou a cabeça.

-Agradeço-lhe o belo elogio, mas se houver alguma nervura de ouro em mim, brilha somente como reflexo da luz que emanam de duas mulheres tão lindas. - Sorriu, e em seus olhos brilhou uma faísca ao olhar primeiro para Alainna, depois a Esa.

Esa riu encantada.

-Certamente, se parece muito com meu Ruari. - Disse. - Se ambos se conhecessem, em seguida se converteriam em amigos leais.

Sebastien não disse nada, mas seu olhar posou em Alainna. Ela o olhou fixamente e lhe acelerou o coração ao ver que ele a olhava com tanta naturalidade, tanta intimidade. Descansou de novo, escutando-os falar, ouvindo sua risada suave e sincera, sentindo como aquela amizade entre ambos ia tomando forma e fortalecendo-se. Experimentou uma leve pontada de ciúmes, pois sabia que Sebastien havia caído sob o feitiço de Esa, como aconteci com a maioria dos homens que contemplavam sua beleza, e havia descoberto que possuía uma alma cálida e maravilhosa.

Entretanto, não pôde invejar a atenção que Sebastien prestava a Esa. A mulher tinha uma personalidade forte e não a fazia sofrer o orgulho, o qual Alainna sabia que era seu ponto fraco. Esa havia entregue seu coração a Ruari, e ao acreditar que ele estava morto se havia encerrado em sua solidão. O amor que os havia unido era formoso e difícil de encontrar, e Alainna sentiu que as lágrimas chegavam a seus olhos ao pensar que iria recuperar aquela sorte.

-Olhe. - Ouviu dizer a Esa. - Alainna dormiu contra o fogo. Queria compartilhar com ela minha cama, e deixar a você esse cobertor, mas agora não podemos despertá-la para que se mude.

-Posso me dar qualquer canto.

-Estenda ao lado de Alainna, perto do fogo. - Disse Esa. Nesse momento Alainna abriu de repente os olhos pela surpresa. - Logo irão se casar pelo rito do apertão de mãos. - Continuou dizendo Esa. - Segundo nosso costume, os casais noivos costumam dormir juntos, inclusive compartilham a mesma cama, quando a mulher está envolta em mantas como Alainna o está agora.

-Não está... - Começou a dizer Sebastien.

-É bom para vocês que estejam sozinhos e perto um do outro antes de se unirem em matrimônio. - Replicou Esa.

-Não é assim como se faz. - Assinalou Sebastien.

-Não? - Perguntou Esa com suavidade. - Vi o modo como se olham.

O coração de Alainna deu um salto enquanto aguardava, agora com os olhos fechados. A resposta de Sebastien deve ter sido muda. Logo ouviu os passos em de Esa ao cruzar a sala.

-Boa noite, então. - Disse. Alainna ouviu o deslizar das argolas de ferro da cortina que isolava sua cama do quarto.

Alainna esperou, imóvel. Ouviu que Sebastien se movia, e sentiu o ruído que faziam suas botas quando as tirou. A seguir ele se ajoelhou a seu lado e se esticou, enquanto que ela jazia de lado de rosto para o fogo. Permaneceu imóvel enquanto Sebastien se cobria com um tartam. Sua respiração era suave e regular, e notou sua mão fechada perto das costas, no estreito espaço que os separava.

O fogo crepitava, o vento assobiava, as respirações de ambos se fizeram rítmicas. Alainna sentiu que a calada força de Sebastien a envolvia como um manto, mas não podia dormir; sentia vividamente sua presença. O pequeno espaço que os separava parecia tão evidente que poderia havê-lo tocado como se fora uma correnteza.

Ao fim de um momento Sebastien moveu a mão. Alainna notou como aqueles dedos se deslizavam por sua coluna vertebral e voltaram a descer. O coração começou a pulsar com força e a invadiu uma série de pequenos calafrios. Aquilo não era efeito da cerveja; só seu contato podia fazê-la estremecer daquele modo. Desejava ardentemente deitar-se em seus braços, mas ficou como estava, insegura.

Os dedos de Sebastien lhe acariciaram o cabelo, que ela tinha recolhido com um pedaço de couro. Então se deteve a suave carícia e a mão voltou a apoiar-se em suas costas. Alainna tentou dormir, mas o sonho a evitava. cada vez mais incômoda sobre de lado, voltou-se de barriga para cima, girou a cabeça e abriu os olhos.

Sebastien a olhava fixamente, com o rosto muito perto do seu. O brilho do fogo iluminava a magra estrutura de seu rosto e dava a seus olhos um prateado. Ela o olhou com o coração desbocado. Sebastien lhe pôs um dedo no queixo e se inclinou até ela. Alainna inclinou a cabeça quando ele a beijou, devagar e em silêncio. Sentiu a aspereza da barba sem barbear, mas sua boca era amena como a seda.

O beijo se filtrou em suas veias como ouro quente e se estendeu por todo seu corpo. Bebeu dele, e se sentiu abrir como uma flor, em corpo, coração e alma. Os dedos lhe acariciaram a bochecha e se deslizaram por seu pescoço e seu ombro para ir sobre o nascimento dos seios. Ficou quieta, mesmo com o coração batendo como uma tormenta. Se movesse um só centímetro, temia que aquele formoso momento terminasse.

Inclinou a cabeça para aceitar um beijo mais profundo, abriu a boca à língua de Sebastien, exploradora, lenta, enquanto sentia seus dedos escorregarem sobre o seio. Sentiu que a percorriam delicados calafrios e se arqueou de forma eloquente até sua mão, em silenciosa aceitação.

A mão de Sebastien se apoiou brandamente em seu seio, tocando o mamilo, procurando o outro, provocando sensações tão deliciosas por todo seu corpo que deixou escapar um leve gemido. Ele a beijou com mais força, mais profundo. Sua mão se deslizou até o abdômen e se moveu sobre a curva do quadril, no alto da coxa. Alainna sentiu que o coração lhe saltava e que a respiração se detinha. Moveu-se, faminta para receber mais, rapidamente excitada pelo poder daquelas carícias lânguidas, mas persistentes. Todo seu corpo vibrava por ele.

Afundou os dedos em seu cabelo denso e sedoso e depois desceu a mão lentamente. Notou o corpo de Sebastien duro e morno sob a túnica. Percorreu as curvas firmes das costas, o quadril liso, a forte linha dos músculos da coxa. Ele a rodeou com um braço e a atraiu para si, até que o abdômen dela se esmagou contra o seu. Era evidente a força de sua excitação, e Alainna se assombrou de não sentir-se surpreendida nem impressionada. Gemeu brandamente e se moveu contra ele enquanto a beijou de novo, sentiu que ele também gemia contra a cavidade de seu boca.

Sebastien lhe acariciou o quadril e a obrigou a voltar-se para ele. Alainna se sentiu derreter por dentro quando os lábios de Sebastien lhe roçaram a bochecha procurando o ouvido. Ansiava carícias mais profundas, beijos mais profundos; ansiava fundir seu corpo com o dele com uma sede súbita, voraz. Gemeu ligeiramente contra sua boca e se retorceu, suplicando, deslizando as mãos por suas costas.

Sebastien deixou escapar um suspiro, separou seus lábios dos de Alainna e se afastou de seu corpo. A capa de ar quente que ficou entre ambos parecia vibrar. Alainna abriu os olhos e procurou seu olhar.

-Agora não. - Sussurrou Sebastien. - Deus, agora não. - Roçou-lhe levemente a bochecha com a mão, e ela se refugiou em sua palma.

-Por quê? - Protestou com um suspiro, segura de repente do que queria, do que necessitava.

-Dê a volta. - Sussurrou ele, com uma mão em seu ombro. Ele mesmo se estendeu de costas e cobriu os olhos com o antebraço.

Alainna se virou e se estendeu de lado. Ainda ouvia as palavras de Sebastien, e fechou os olhos angustiados. Ficou rígida, ferida por aquele rechaço, com o coração batendo forte no peito.

Ao fim de um momento Sebastien mudou de postura e a rodeou com um braço em um silencioso gesto de desculpa. Ela continuou rígida, mas seu abraço era consolador mesmo que casto, e seu peito firme. Relaxou um pouco apesar de si mesma, desejando que a paixão voltasse a arder entre eles, e logo sucumbiu ao sono.

 

No dia seguinte, Alainna foi a mais silenciosa das três durante a viagem de volta a Kinlochan. A descida foi muito mais rápida que a prolongada ascensão, inclusive com o grosso manto de neve que cobria o chão. Acompanhavam-nos a ovelha e a cabra, guiadas a base de gritos e fortes trancos. Esa era todo sorrisos e deslumbrante encanto, e Alainna sabia que era o fato de pensar em Ruari o que fazia com que sua beleza resultasse assustadora e atribuía aquela alegria a seu estado de ânimo.

Sebastien conversava bastante com Esa, e poucas vezes diretamente com Alainna. Não se uniu muito a conversa, mesmo quando viu a expressão de preocupação nos olhares fugazes e sérios que lhe dirigia Sebastien. O coração lhe saltava no peito cada vez que ele a tocava: uma mão no braço para subir uma ladeira rochosa, um leve puxão para lhe colocar bem o tartam quando lhe escorregava.

Quando por fim estiveram sentados no aquecido salão de Kinlochan, Alainna observou como sua gente esbanjava uma carinhosa bem-vinda a Esa. Incluíram Sebastien no círculo familiar para o jantar, e lhe agradeceram repetidamente por ter ajudado a trazer Esa de novo com os seus. Alainna sorriu e compartilhou o regozijo geral, mas uma parte dela se sentia distante.

O rito do apertão de mãos se celebraria dentro de muito pouco. Tinham convidado o sacerdote e haviam caçado um cervo para o banquete. Una e as mulheres tinham trabalhado muito durante todo o dia para preparar o salão, e Lorne havia se retirado à solidão de sua cama de poeta para pôr a ponto suas habilidades trovadorescas para a celebração.

Alainna tinha a sensação de estar caindo em algo imprevisível e assustador. O fato de unir-se a Sebastien pelo rito do apertão de mãos iria imprimir a sua vida uma mudança em uma direção nova, emocionante, apaixonada... e também poderia levar a ambos ao desastre. Não sabia, e não podia expressar seus medos nem suas esperanças a ninguém.

Antes de enfrentar-se a tudo aquilo, restava ainda a tarefa de cumprir em segredo com Ruari e Esa.

-Aenghus Mac Og, deus do amor e da juventude. - Declamou Lorne sentado em sua cadeira contra o fogo. - Apaixonou-se por uma donzela um dia. E quando o próprio deus do amor sucumbe a esse feitiço, faz-se um poderoso entrelaçado das almas.

Alainna se inclinou adiante para murmurar a tradução enquanto Lorne falava, vertendo as palavras para o inglês para os cavaleiros, que se tinham se acostumado a sentar-se perto dela para poderem escutar também as histórias que se narravam pelas noites. Robert e Hugo estavam sentados cada um de um lado, com outros cavaleiros perto.

Alainna percebeu que Sebastien havia escolhido uma vez mais um assento nas sombras, o lugar que pelo visto preferia. Olhou-o sem deixar de falar e descobriu que ele já a estava olhando, com olhos cinza e firmes, e reagiu ruborizando-se.

-Aenghus viu aquela linda donzela em um sonho. - Continuou Lorne, e Alainna repetiu suas palavras-. Aparecia-lhe uma e outra vez, doce e deliciosa, às vezes tocando a harpa para ele. Aenghus, louco de amor e incapaz de tê-la, sentia crescer cada dia seu desejo. Buscou-a sem cessar, até que por fim descobriu que era Cair, filha de um rei, e que podia encontrá-la em determinado lago junto com outras donzelas, de modo que correu para aquele lugar.

Alainna se deteve quando o fez Lorne e olhou para Sebastien, pensando no sonho que ela mesma havia tido com um mágico guerreiro. Aquele homem estava agora sentado nas sombras, e lhe acelerou o coração.

-Quando Aenghus chegou ao lago, viu o triplo de cinquenta cisnes nadando nele. Cair era um deles, e seu pai explicou a Aenghus que sofria um encantamento. Se Aenghus fosse capaz de reconhecê-la, teria-a para si. Conheceu, a seu amor, imediatamente.

»Cair era o mais encantado de todos os cisnes, o de um branco mais puro, o mais grácil. Chamou-a e ela veio nadando até ele. Mas não podia ser sua porque ele tinha a forma de um homem e Cair a de uma ave. Assim ele adotou a forma de um cisne por ela.

»elevaram-se juntos no ar, unidos por uma cadeia de ouro, e voaram o um ao lado do outro até a fortaleza de Aenghus, onde viveram felizes para sempre, e cada dois anos se transformavam juntos em cisnes.

Quando Alainna terminou de traduzir, certa frase ficou flutuando em sua mente.

E ele adotou a forma de um cisne por ela.

Ela havia pedido a Sebastien que adotasse sua forma, que se convertesse em um guerreiro celta com um sobrenome das Highlands, mas ele havia se recusado. Fechou os olhos e desejou ardentemente, fervorosamente, que Sebastien e ela pudessem ser como os cisnes daquele conto, compartilhando a mesma forma, juntos para sempre.

Abriu os olhos e viu que Sebastien a estava olhando fixamente. E então percebeu que ele também havia entendido o conto de Aenghus e Cair.

Correspondia a ele decidir, e lhe correspondia o direito de partir ou ficar.

 

Era já muito tarde, e a névoa era densa e fria. Alainna se alegrou de que Giric estivesse ali para levar a ela e a Esa no barco de remos até a ilha quando todo mundo foi dormir.

Ruari os aguardava na margem, uma figura alta e silenciosa na névoa à luz da lua, com cabelo de prata. O bote tocou a praia de calhaus e Giric se levantou e saltou para a terra para arrastar o bote até terra firme. Logo se voltou e estendeu uma mão. Esa se levantou também e saltou do bote, enquanto Alainna observava desde seu assento.

Esbelta e elegante, Esa estava de pé em frente ao homem na praia. Ruari estendeu a mão. Ela a pegou na sua e a levou a rosto, olhando-o com uma expressão maravilhada que se apreciou com toda claridade à luz da lua, e depois lhe beijou a mão. Tocou-lhe a bochecha, o cabelo, o peito. Acariciou-lhe a cabeça e disse algo. Então ela riu, um som como campainhas de prata, e o rodeou com seus braços.

Alainna desviou o olhar com os olhos cheios de lágrimas.

Giric se sentou a seu lado e segurou o remo.

-Voltarei. – Disse. - Antes que amanheça para levá-la de volta a Kinlochan. E todas as noites a trarei até aqui para que se reúna com ele, durante todo o tempo que Ruari ficar. - Sua voz soou rouca.

Alainna afirmou com a cabeça, incapaz de responder devido ao nó que tinha na garganta. Limpou as lágrimas e fechou um pouco mais o tartam sobre a cabeça, enquanto o bote flutuava com a corrente do lago.

O amor que compartilhavam Ruari e Esa era forte e profundo. Ela ansiava ter uma paixão assim em sua vida. Agora sabia que aquilo era o que sentia por Sebastien, e estava segura de que ele sentia algo sincero por ela.

O que teria ali podia crescer e aprofundar-se, podia durar para sempre. Mas o orgulho e a honra os separavam, e não sabia se aquela barreira poderia ser derrubada alguma vez.

Voltou os olhos para trás pela última vez. Ruari e Esa tinham desaparecido em seu mundo privado, envolto na névoa.

 

                       Capítulo 19

Os flocos de neve caíam formando espirais em preguiçosas trajetórias enquanto Sebastien cruzava o pátio da fortaleza. Olhou para cima perguntando se a aumentaria a nevasca, o vento era cortante. Agachou a cabeça contra o frio, desejando não ter deixado a capa no salão, e se encaminhou à oficina de Alainna.

Nos poucos dias que tinham transcorrido desde que foram procurar Esa, havia vislumbrado a Alainna aqui e lá se dirigindo à cozinha ou carregando um cubo de água, ou saindo do salão quando ele entrava. Só havia trocado com ela palavras de saudação e ela não apareceu para jantar nem às narrações de contos. Quando perguntou, Esa lhe disse que estava ocupada trabalhando com a pedra.

Pelas noites o salão parecia frio e sombrio sem sua presença. Até as histórias que contava Lorne pareciam inexpressivas sem a suave voz de Alainna traduzindo. Giric e ele tinham feito as vezes de tradutores, mas nenhum dos dois resultava tão lírico como ela. Para Sebastien, Alainna era o quente e brilhante coração de Kinlochan.

Depois de seus exercícios com as armas dessa manhã, retornou decidido a procurá-la para falar de Kinlochan e de seus arrendatários, mesmo que em realidade só desejasse vê-la. Iriam se unir pelo rito das mãos no dia seguinte, na véspera de natal, e se surpreendeu pensando nisso frequentemente.

Outra razão pela qual queria ver Alainna era esclarecer certos assuntos antes de reunir-se com Cormac MacNechtan para lhe transmitir as ordens do rei. Queria ir logo para Turroch, certamente antes do ano novo.

Sacudiu a neve das mangas da escura túnica. Os flocos eram tão grandes e brancos que seu rastro permaneceu na lã. Suas longas pernadas o tinham levado até o centro do pátio quando ouviu que alguém o chamava, e olhou a seu redor. Então viu Uma na porta da cozinha, que o chamava com gestos para que se aproximasse. Mudou de direção e foi até ela.

-Entra, Sebastien Bàn. - Disse-lhe a mulher, lhe puxando pela manga para ele se apressar. - Quero falar contigo. Não neva muito, eh?

-Não sei se aumentará. - Respondeu Sebastien em gaélico.

-Possivelmente.

Uma foi até o um lugar construído com pedras do campo e disposto contra a parede do fundo. Havia várias bolachas de aveia assando em uma grande churrasqueira de ferro por cima do fogo. Una usou uma espátula de madeira para lhes virar.

-Sempre faço caso dos presságios sobre o tempo. - Disse enquanto trabalhava. Os pássaros, as sombras, o vento, as nuvens; todos eles me indicam o que vai acontecer. E também os ossos doloridos de meu marido.

-O que queria me dizer, Una? - Perguntou Sebastien. Aspirou aos aromas das bolachas de aveia e de algo saboroso que fervia em uma panela sobre o fogo. A cozinha era cheirosa e estava iluminada por uma luz tênue. Estendida e de teto baixo, era o único edifício da fortaleza que estava construído com pedra e telhado de palha, para evitar incêndios. Uma grossa mesa de carvalho, arranhada por facas e esfregadas, enchia o centro daquele espaço. Do teto penduravam cachos de ervas e réstias de cebolas; contra uma parede se viam empilhados vários cestos de maçãs e cenouras e grão.

-Quero te dar um presente. - Declarou Una. Tirou as fumegantes bolachas de aveia da churrasqueira para que se esfriassem na superfície da mesa. - A cozinha não é lugar para um guerreiro, já sei, mas pensei que talvez tivesse fome. Não faz tanto que te vi aí fora, contra o pilar, como um bom guerreiro protegendo a nossa Donzela. - Mostrou um largo sorriso e a cabeça tremeu ligeiramente.

Sebastien riu com suavidade.

-Pratico com a espada pelas manhãs. Ainda que gostosamente protegeria a sua Donzela de Pedra se fosse real.

-È. - Repôs Una em tom resolvido.

-Refere-se a Alainna.

-Às duas. Toma coma isto. Estão feitas de mel, são doces e muito boas. Necessita-o.

Obediente, Sebastien pegou uma e deu uma dentada. A bolacha era grossa e estava quente e deliciosa. Engoliu, e aceitou o copo de cerveja fresca que lhe ofereceu Una.

-Como é isso de que a Donzela de Pedra é real? - Quis saber.

-Está presa dentro do pilar de pedra. - Disse Una. - Está aguardando ali, nos vigiando. Sofre um feitiço mágico das fadas, mas logo será livre.

-Ah, o encantamento das fadas. Alainna me contou.

-Quero te agradecer por sair todas as manhãs para proteger a nossa Donzela de Pedra. - Continuou Una. - É possível que sua força esteja já se debilitando, pois está perto de cumprir setecentos anos. Ela está agradecida ao ver que a protege. - Sorriu. - Toma, Sebastien Bàn, quero que tenha isto. -Estendeu-lhe um tartan dobrado de um brilhante verde escuro, tecido com fios de cor negra vermelha.

-É um formoso presente. - Disse ele. - Não posso...

-Vamos, sim que pode. - Respondeu ela, colocando-lhe sobre o ombro esquerdo. - Fez muito por nós, e me dá a sensação de que passa frio com essas roupas normandas. Esta é boa lã das Highlands, tecida por nossa Esa, com fios que prepararam as mulheres de Kinlochan das ovelhas de Kinlochan. É um objeto que te manterá tão quente como se estivesse sentado junto a nosso fogo, eh? – Bateu em seu peito e sorriu.

Sebastien sentiu que lhe encolhia o coração com aquela carícia maternal.

-Em efeito. - Disse com um sorriso afetuoso. - É um bom objeto de verdade, e um bom presente.

-Tomara que te traga alegrias e benções, e te guarde de todo mau. – Calou-se por um instante, com os lábios trêmulos. Logo lhe entregou um broche de ferro, com um extremo torcido decorativamente, para segurar o tartam. – Use-o como os montanheses. Está muito bonito com o breacan. - Esboçou um sorriso rápido e travesso.

-Mas eu não sou um montanhês.

-É, em seu coração, se permitir isso a ti mesmo. - Replicou ela, crítica. Empurrou-o para a porta. - Vá, vamos, vá procurar Alainna. Está amanhã está trabalhando.

-Trabalhando outra vez? - Não era isso o que queria dizer.

-Trabalha todos os dias, todas as noites, inclusive no Sabbath. Vá falar com ela. - Instigou. – Diga-lhe que trabalha muito e que não descansa o suficiente. Diga-lhe que quer vê-la no salão rindo e escutando histórias com todos outros.

Ele esboçou um sorriso triste.

-Duvido que me escute.

-Ach, escutará. Ao fim e ao cabo, foi enviado aqui para proteger à Donzela.

-À Donzela de Pedra ou à Donzela de Kinlochan? - perguntou Sebastien enquanto abria a porta.

-Às duas. - Respondeu Una, e o empurrou para fora.

Sebastien cruzou o pátio sorrindo para si e se deteve para ajustar o tartam verde escuro sobre os ombros como se fosse uma capa. Dobrou-o, o colocou sobre os ombros, envolveu o restante pela frente e colocou o broche de ferro para segurá-lo. A grossa lã bloqueava o vento de modo admirável quando continuou seu caminho através da neve.

-Vá! - Disse um homem. - Essa não é maneira de levar um tartam.

Girou em redondo e viu Lorne que vinha até ele. Seu comprido cabelo parecia mais branco que a neve, sua barba uma mancha pálida em suas fracas bochechas, seus olhos de um penetrante azul. Levava uma larga espada na mão e Sebastien a olhou, desconcertado, pois sabia que o bardo não era guerreiro.

-Terei que te ensinar de novo a colocar o breacan. - Perguntou Lorne.

Sebastien negou com a cabeça, sorrindo.

-Não esqueci. - Disse. - Una acaba de me dar de presente este. - Explicou. - Sinto-me honrado por este obséquio, mas não estou seguro de que deva levá-lo a maneira das Highlands, sendo bretão de nascimento.

Lorne sorriu.

-Esse tartam pertencia a nosso filho.

Sebastien o olhou atônito.

-O marido de Morag? Não sabia que...

-Não importa. Leva-o com elegância e valor, como fez ele. Já não lhe serve de nada, e não é bom escondê-lo em um baú envolto em mirto para proteger dos insetos. Uma fez bem em lhe dar de presente.

-Deveria dá-lo a um montanhês.

-Neste clã temos muitos tartans que compartilhar. Temos tantos, Sebastien Bàn, porque perdemos muitos homens. As mulheres têm arcas repletas de coisas guardadas. Leva-o, e tomara que te traga boa sorte. - Lorne deu uma palmada em Sebastien no ombro.

-Obrigada.

O ancião levantou a espada em posição vertical, sustentada pelo punho.

-Além disso, vim te buscar para te dar isto. - Ofereceu-lhe a arma. - Toma-a. É o que nós chamamos de claidheamh mór, uma grande espada. Uma espada das Highlands.

Sebastien a segurou com ambas as mãos.

-Ouvi falar destas espadas, e já vi sendo usada. - Disse admirando a larga e pesada folha, o punho para duas mãos envoltas em couro, o trabalho em bronze do cabo. - É uma arma magnífica. Não posso aceitar algo...

-Queremos que a você tenha. - Disse Lorne sério. - Minha gente e eu mesmo. Lulach e Niall, Donal e Aenghus, todos falamos sobre este assunto. Vimos se exercitar com a espada todas as manhãs aí fora, junto a nossa Donzela de Pedra. Possui excelente destreza e uma grande força, de modo que necessita uma destas.

Sebastien a sopesou para provar. Aquela espada era muito mais larga e pesada que a sua, mas estava belamente equilibrada pelo peso do punho mais longo e a guarda inclinada para baixo.

-Já usei antes espadas para as duas mãos, mas esta é ainda mais larga. E mais alta que alguns homens que conheço.

Lorne sorriu abertamente.

-Então a poderá usar bem, você é um homem alto. - Estendeu a mão para agarrar de novo o punho e pôs a ponta da folha contra o chão. - O pomo deve ficar justo por debaixo do queixo. Ah, perfeito. - A devolveu para Sebastien.

-Vai ser um desafio usar esta espada, porque é muito mais larga que a que eu costumo a usar. - Disse Sebastien admirando o desenho forte e singelo da arma.

-Praticará e chegará a dominá-la. Nós lhe ensinaremos... ou melhor meus companheiros. Eu não dirijo armas de guerra, só para caçar. Não é muito adequado para um bardo. Mas esta é uma boa arma e te manterá a salvo. Ajudará-te a defender Kinlochan... e a nossa Donzela.

Sebastien sustentou a espada em posição horizontal e passou os dedos pelo canal largo e endentado que reluzia ao longo da folha.

-Estou muito agradecido. São muito amáveis ao me darem de presente está espada e este tartam.

-Em outro tempo pertenceram a um forte guerreiro, e agora volta a pertencer a outro. - A voz de Lorne enrouqueceu.

-Seu filho? - Perguntou Sebastien em voz baixa.

O bardo afirmou com a cabeça.

-Uma coisa se faz maior quando se compartilha, conforme dizem. Se as folhas do bosque fossem de ouro e a espuma do mar fosse toda de prata, o grande herói Fionn MacCumhaill o teria dado tudo. Então, por que havemos nós de reter o que temos? - Sorriu. - Você foi enviado aqui para proteger este clã, e nos trará ajuda e esperança. E queremos te agradecer por isso.

Sebastien desviou o olhar, inseguro de como responder à fé que aquele clã havia depositado nele.

-Valoro muito estes presentes. Lorne MacLaren, e procurarei lhes fazer justiça. - Disse. - Mesmo que seja um cavaleiro normando e não um guerreiro celta.

--Seja o que te indique sua natureza. - Disse Lorne com simplicidade. - De um modo ou de outro, aqui é bem-vindo.

Sebastien sentiu um nó na garganta.

-Eu gostaria de lhes dar algo também, como presente de Natal e de Ano Novo.

-Ach, vai nos dar mais do que acha quando se casar com nossa Alainna, quando derrotar o clã Nechtan, quando engendrar filhos para o clã Laren e se converta no chefe de nosso clã. - Lorne sorriu.

Sebastien o olhou fixamente.

-Lorne. - Disse-lhe. - Não decidi me estabelecer em Kinlochan. Você sabe.

O ancião continuava sorrindo, e Sebastien viu uma profunda faísca de sabedoria em seus olhos azul claro.

-Decidirá o que for mais honorável.

-A honra é uma frágil coisa. - Murmurou Sebastien, lembrando o que Una lhe disse em certa ocasião.

-Assim é. - Concordou Lorne-. Nós acreditamos que vai trazer boas mudanças a Kinlochan, e muitos benefícios para nosso clã.

-Alainna não quer que mude nada. - Disse Sebastien com ironia. - Mas as mudanças terão lugar apesar do que ela deseje para o clã.

-Ah, ela pensa que sua obrigação é proteger nossas tradições. Criou-se vendo a guerra e o perigo a seu redor. Além disso, seu pai, em seu leito de morte, pediu-lhe que preservasse o clã, nosso legado, nossas vidas, nosso futuro. A fez prometer. É jovem para fazer uma promessa assim, mas possui a força necessária para cumpri-la.

Sebastien assentiu.

-Sei muito bem. E agora entendo que qualquer dano que seu sofra clã representa um fracasso para ela como chefe e como filha. Mas ela não é responsável pelo que acontece a sua gente.

-eu já disse isso, mas ela é muito teimosa. Diga-lhe, Sebastien Bán. - Seu olhar era direto e claro. - Você pode convencê-la de que a mudança não significa fracasso. Tem que compreender que o novo, quando substitui o velho, nem sempre acontece o indesejável.

-Ela não quer que Kinlochan se veja afetado por nenhuma influência normanda. Eu não posso convencê-la de que seus arrendatários devem armazenar feno para fazer forragem para os cavalos e o gado no próximo inverno. Alainna o vê como um costume normando, mas é simples sentido comum.

-Então o converta em um costume das Highlands. - Disse Lorne sorridente-. Um costume de Kinlochan.

Sebastien sorriu com tristeza. Cruzaram a esplanada do pátio em silêncio, com o vento sussurrando a seu redor e a neve caindo delicadamente sobre seus ombros. Sebastien foi até a porta de Alainna e levantou a mão para chamar.

_Não. - Disse Lorne, levantando a palma. - Espera. Não vamos interrompê-la preciso instante.

Por cima do vento, Sebastien ouviu que Alainna estava cantando. Sua voz penetrava pela janela meio aberta, em uma comovedora melodia:

 

Ai de mim pelos que se foram,

homens valentes, boas mulheres.

Ai de mim pelos que já não estão,

homens fortes, doces mulheres.

 

Através da janela viu Alainna inclinada sobre sua pedra, movendo as costas e os braços com um ritmo regular, seguindo a cadência da canção, perdida em seu trabalho e melodia. Não percebia que a estavam olhando. Sebastien olhou para Lorne e viu que seus olhos se nublaram.

A suave voz continuou:

 

Haja paz, haja alegria,

haja coragem, haja bondade.

Seguros estamos no rio da vida.

nos proteja e nos traga para o lar.

 

A canção se desvaneceu, e Sebastien não ouviu mais que o fraco coçar do ferro contra a pedra. Piscou para afastar as lágrimas.

-Por que canta? - Perguntou a Lorne.

-As mulheres cantam quando tecem, cantam os pastores, cantam os barqueiros, as mães, os amantes. - Respondeu o bardo. - Somos uma raça de poetas e cantores, além de guerreiros. Este é um cântico especial, que não se deve interromper até que tenha terminado. Poderíamos entrar em escutar, mas esta vez não.

Nesse momento começou uma canção de novo, os mesmos versos, em tom grave e suave.

-Esta cantando à alma para que volte. - Disse Lorne.

Sebastien sentiu que o percorria um calafrio.

-A de quem? A de seu pai?

-A de nosso clã. - Respondeu Lorne.

Sebastien assentiu pensativo enquanto escutava a suave cadência daquela voz. Lembrou o que Alainna lhe havia contado quando estiveram juntos ao lado da Donzela de Pedra. Não havia duvida de que a jovem sentia a pressão do breve espaço de tempo que restava para que desaparecesse o encantamento que os protegia.

-Está cantando à alma de seu clã para atraí-la ao lar porque começa a partir. Quer fazê-la voltar antes que nosso clã se esfume na névoa do tempo. É como uma espécie de magia, muito antiga. - E sorriu.

-Pode-se fazer isso? - perguntou Sebastien.

-Considera essa canção uma prece. - Disse Lorne. - Uma chamada. O que Alainna faz aqui é tão sagrado como se ajoelhasse no interior de uma igreja. Está pedindo ajuda a Deus, está lhe rogando por seu clã.

Sebastien assentiu sem dizer nada e olhou o degrau de cerca da porta, coberto de neve.

-Você. - Murmurou Lorne. - É parte da resposta de Deus. – Bateu em Sebastien no ombro e se foi.

Sebastien ficou de pé junto à porta durante um longo tempo, desejando poder entrar, falar com Alainna, estar com ela. Agora tinha muitas perguntas, umas para o rei e a Coroa, outras para ele só. A canção terminou, e levantou a mão para chamar. Mas não se atreveu a incomodar Alainna; o que estava fazendo parecia muito valioso para interrompê-lo. De modo que ficou ali, envolto em um tartam das Highlands e uma túnica normanda, sentindo-se como um intruso.

Ali era um intruso; isso não mudaria pela maneira que usava o tartam, nem tampouco pelo peso da grande espada que tinha na mão.

Podia escutar suas histórias, falar sua língua, beber sua água da vida, caçar em suas colinas; podia construir uma fortaleza de pedra em frente a seu lago e converter-se em um grande senhor entre eles; podia casar-se com sua bela chefe. Podia ficar ali para sempre e criar ali a seus filhos, se quisesse fazê-lo. Mas se perguntava se alguma vez poderia compartilhar de verdade aquela mesma lealdade, aquela história e aquela sensação de família que existia em Kinlochan.

Apoiou a palma da mão na porta. O desejo que havia sentido da infância renasceu novo e doloroso. Estava na soleira de tudo o que sempre havia desejado: um lar, uma herança, amor e calor humano, e, entretanto não fazia parte daquilo. A vida agradável que sempre havia imaginado para si estava em outra parte, do outro lado de um largo mar.

Fechou os olhos e soube que faria tudo o que estivesse em sua mão para proteger aquela gente, para preservar suas vidas e sua maneira de viver. Não podia deixá-los desfalecer.

Alainna voltou a cantar outra vez. Sebastien inclinou a cabeça e se afastou da porta. A voz se filtrou ao exterior, bela e pura como os flocos de neve que flutuavam a seu redor quando se afastou andando.

 

                       Capítulo 20

-Ach, Morag querida, sacudiu o pó da pedra do cabelo? - Disse Una. Separou-se do brilhante braseiro com uma toalha de linho quente nas mãos. - Usou o sabão de lavanda, esse tão ameno que compramos no mercado de verão, que provinha da França?

-Sim, sim. - Respondeu Morag, eficiente, e verteu um cubo de água por cima da cabeça de Alainna. Quando a água lhe jorrou por cima, esta escondeu a rosto entre os joelhos levantados.

Na última hora, as mulheres apenas lhe tinham dado tempo para falar nem inclusive para banhar-se sozinha. Haviam-na tirado a toda pressa de sua oficina, onde esteve trabalhando desde muito antes que amanhecesse, pois era incapaz de dormir. Conduzida até seu dormitório por suas improvisadas criadas, foi introduzida a toda pressa em uma banheira de água quente e esfregada vigorosamente como se fosse uma menina.

-Morag gastou todo o sabão. - Grunhiu Beitris, recolhendo o pote vazio. - E também as pétalas de rosa que ficavam.

-Uma noiva merece o melhor no dia de seu casamento. - Disse Esa desde seu assento na beirada da cama, onde estava ocupada com agulha e fio e o vestido de lã azul escura de Alainna. - E um casamento celebrado na Véspera de natal traz muita sorte. - Sorriu.

-É uma união pelas mãos. - Cuspiu Alainna enquanto lhe arrojavam mais água pela cabeça. Vai ser uma união pelo rito das mãos, não um casamento. Não sou uma noiva.

-Oh, claro que sim. - Replicou Morag. – Observei a ti e a seu Sebastien. Entre vocês dois há algo mais que uma ordem do rei, posso jurar.

-Não é mais que a necessidade mútua de obedecer. - Disse Alainna. - Nenhum dos dois deseja isso

-Se esse homem não te desejar, é que eu estou cega. - Espetou Beitris. E se você não deseja a ele, então a cega é você.

-Certamente. - Conveio Una, e Esa riu.

-E como a união pelas mãos dura um ano e um dia, o próximo Natal poderemos ter uma casamento completo. - Acrescentou Beitris. - Os! Isso vai trazer a melhor sorte do mundo ao clã inteiro!

Alainna franziu o cenho enquanto Morag lhe escorria a água do cabelo.

-Isso. - Disse Morag. - Como te ocorre passar sem dormir a noite antes de se casar, para trabalhar com essas pedras? Tem o cabelo cheio de pó e lascas. E está tão cansada que tem olheiras.

-Tenho muito trabalho a fazer.

-E muito que sonhar sobre o bom marido com o que vai se casar hoje. - Disse Beitris sorrindo.

-Não é mais que uma união pelas mãos. - Insistiu Alainna.

-Seja o que for, temos que nos apressar. Há muito que fazer. - Disse Una. - Esa estava arrumando o rasgão do bordado de seu formoso vestido. Daria má sorte que hoje levasse algo quebrado ou imperfeito, e nosso clã não pode permitir-se maus presságios. Este ano, o Natal traz novas benções para todos. –Uma sorria abertamente enquanto sustentava a toalha para Alainna.

Alainna se levantou e se envolveu nela. Depois saiu da banheira e se secou; o cabelo o esfregou com outra toalha de linho.

-Em minha opinião, a união pelas mãos é tão boa como um casamento. -Disse Beitris. - Lulach e eu passamos nossos primeiros anos unidos pelo rito do apertão de mãos. Para nós foi um bom começo, e também o será para ti.

-Possivelmente nós não queiramos um bom começo. - Disse Alainna. Levantou os braços para que Morag passasse uma suave e leve camisa de linho pela cabeça. Deixou cair a toalha molhada ano chão e a afastou a um lado com um chute, e a seguir se sentou em uma banco baixa para colocar as meias de lã que Una lhe entregou.

-Tcha! - Una sacudiu a cabeça negativamente, com as mãos nos quadris. - Se limite a aceitar o matrimônio, como já fez todo mundo.

-Sebastien também me diz para aceitá-lo. - Respondeu ela, atando as fitas por cima dos joelhos para segurar a meias.

-É inteligente além de bonito e valente, e deveria escutá-lo. - Disse Esa. - Será um bom marido.

-Pode que não seja um marido absolutamente. - Replicou Alainna. - Pensa me abandonar e retornar para Bretanha assim que puder.

Una soltou uma exclamação.

-Não pode te abandonar antes de um ano e um dia o que dura a união pelas mãos! Suponho que já disse.

-Nem sequer eu sabia. O que quer dizer? - Alainna ficou de pé e elevou os braços para deslizar a túnica de lã marrom que lhe estendeu Una. Morag a puxou pelos ombros para lhe dar a volta e começou a trabalhar com seu cabelo molhado e enredado.

-Uma vez que fizerem os votos da união pelas mãos, o homem e a mulher não podem passar mais de três noites separados, durante esse ano e um dia, ou do contrário a união fica anulada. - Disse Morag.

Alainna a olhou surpreendida.

-Antes de um ano?

-Assim que se acontece uma separação longa. - Disse Morag. - Se ele se for para a Bretanha e não te leva consigo, a união já não será válida. Se for a outra parte, inclusive de caçada ou fazer uma visita a corte do rei, e esteja ausente mais de três noites, a união fica anulada. E também será nulo qualquer contrato nupcial que tenha assinado com ele. Não te explicou tudo isto o padre Padruig?

Alainna negou com a cabeça.

-Só disse que se ele atuasse como testemunha de nossos votos, isso seria um casamento e não uma união pelas mãos. Por isso disse que viria na última hora de hoje, só para o banquete, sem assistir à cerimônia.

-Se seu cavaleiro normando partir para a Bretanha, deve te levar com ele. -Disse Morag passando o pente pela densa cabeleira molhada de Alainna.

-Eu não penso ir de Kinlochan, e ele não pensa ficar aqui. Tem na Bretanha um filho pequeno que vive com... uns amigos que ultimamente se viram em apuros. Sebastien está muito preocupado com todos eles.

-Um filho pequeno! - Una sorriu abertamente. Vá, já começou a sorte! Logo haverá um menino em Kinlochan!

-Sebastien quer que o menino fique em sua terra. - Disse Alainna. - Não pode ficar na Escócia por causa de seu filho, e eu não penso partir daqui.

-Ach. - Disse Una, sacudindo a cabeça em um gesto negativo. - Quanto orgulho.

-E quanta lealdade sente cada um para com os seus. - Comentou Morag. - Tem que haver um modo de solucionar isto.

-Diga a seu cavaleiro que não te deixe aqui. - Disse Una. - Bem poderia acompanhá-lo por mar para Bretanha.

-Demorará muito tempo para voltar. - Disse Alainna.

-Beitris, pegue a túnica de Alainna e sacode-a pela janela, por favor. - Instruiu Una. - Está cheia de pó de pedra. E também temos que sacudir os sapatos. Temos flores para o cabelo? Há tanto que fazer e tão pouco tempo, com a cerimônia antes do banquete!

-Se tranquilize, Uma. - Disse Morag. - Mairi está já trabalhando na cozinha, e Beitris e eu iremos em seguida para ajudá-la. Temos que pôs para secar uns raminhos de urze para trançar uma grinalda para Alainna. Necessitamos mais zimbro para decorar o salão e para queimar, para que a fumaça afaste a má sorte. Alainna pode ir buscá-lo quando tiver secado o cabelo.

Beitris foi até a janela, abriu a veneziana e sacudiu o objeto no ar como se fosse uma bandeira.

-Olhem! - exclamou, apontando. - Isto sim que deve ser um bom presságio para o casamento!

-Não é um casamento. - Ai! - Murmurou Alainna quando Morag lhe empurrou a cabeça para frente para vencer um nó difícil.

-Deixe-me ver. - Disse Una, indo até a janela. - Ah, sim que é um bom sinal!

Esa deixou o trabalho e a seguiu.

-Que é? - Morag se levantou para reunir-se com as outras ante a estreita abertura que iluminava o pequeno dormitório de Alainna, de paredes cobertas com madeira. - Parece-se com Aenghus Mac Og ou a algum herói guerreiro tirado de um conto. - Disse Beitris, admirando.

-Ah, é claro que sim. - Concordou Morag com um suspiro.

Alainna passou o pente pelo cabelo.

-O que estão olhando?

-Seu homem. - Respondeu Una-. Venha vê-lo.

Alainna se aproximou da janela e olhou além da cerca e do lago, ao prado onde se erguia a Donzela de Pedra, um sereno gigante à luz da manhã.

Um gigante com seu próprio guarda. Sebastien girava ao redor do enorme pilar brandindo sua nova espada, atacando, retrocedendo. Estava concentrado em seu exercício, seu cabelo brilhava com uma cor dourada e a folha da espada lançava brilhos a cada movimento.

-É um grande privilégio ver o noivo guardando a nossa Donzela na manhã de seu casamento. União pelas mãos. - Apressou-se a acrescentar Beitris.

-Está dando voltas deiseil, no sentido do sol. Isso indica definitivamente boa sorte. - Disse Una. - Alainna, disse que não deve se esquecer de dar várias voltas ao redor dele no sentido do sol antes da cerimônia?

-Sim, disse-me. - Disse ela enquanto observava Sebastien mover-se ao redor da Donzela como se a estivesse protegendo. Elevou a espada e a sustentou em alto, de rosto à pedra. A luz arrancou brilhos do aço antes que ele abatesse a folha e desse a volta para recolher sua capa e seu escudo estendido, pintado de azul e cuja insígnia apenas era visível.

Mesmo que de longe não o visse com claridade, Alainna conhecia bem o desenho; uma só flecha branca contra um fundo azul. Havia-a visto em poder do cavaleiro na realidade, e também em seu sonho, mesmo que naquela época não conhecesse Sebastien Le Bret.

O dourado guerreiro de seu sonho existia de verdade, pensou. Inclusive naquele momento se aproximava andando de Kinlochan, encaminhando-se a celebrar com ela o rito do apertão de mãos. Um calafrio lhe percorreu as costas e lhe acelerou-lhe coração.

De repente desejou que aquele bretão pudesse estar com ela para sempre, que adotasse seu sobrenome e aceitasse seu clã como sua própria família. Em muitos aspectos, ele era o paladino de seu sonho.

Mas ele não queria ser esse paladino; alegraria-se de saber que sua viagem a Bretanha anularia a união de ambos pelas mãos.

Suspirou entristecida e se afastou da janela.

 

Sebastien aguardava sozinho no centro do salão, sentindo o calor do fogo que crepitava a suas costas. Usava sua sobreveste verde escura debruada de prata em cima da túnica marrom, e havia colocado o tartam verde escuro sobre os ombros a modo de manto. Clareou-se a garganta, nervoso.

Outros formavam um amplo círculo iluminado pelo resplendor do fogo ao redor dele. Quando se abriu a porta, o único que ouviu de repente foi o pulsar de seu próprio sangue retumbando nos ouvidos.

Alainna entrou sozinha, vestida como a viu pela primeira vez, no salão do rei. A barra de seu vestido de cor azul noite, que cintilava com um bordado em vermelho e ouro, ia roçando os juncos do chão ao avançar até ele. Levava o cabelo solto em cascata até a cintura como uma nuvem no crepúsculo, de uma cor deslumbrante que emoldurava seu pálido rosto e o decote. Não levava tartam, e a elegante caída do vestido ressaltava as firmes curvas de sua figura. Uma estreita grinalda de raminhos de urzes seca coroava sua cabeça. Em baixo daquela delicada diadema, seus olhos se viam intensamente azuis.

Foi até ele e depois caminhou em círculo a seu redor, passando por trás, logo pela frente, duas vezes mais, até que finalmente se deteve em frente a ele.

Sebastien estendeu as mãos e lhe ofereceu as suas. Juntaram esquerda com esquerda, direita com direita, de modo que seus braços formassem um laço cruzado, como um desenho entrelaçado. Os dois permaneceram imóveis, com os olhares fixos o um no outro. As mãos de Alainna eram suaves mas fortes. Sebastien lhe deu um suave apertão, e Alainna respondeu da mesma maneira, em silenciosa aceitação para que continuasse.

Sebastien fechou os olhos por um instante para lembrar as instruções de Lorne. Este lhe havia ensinado pacientemente uns versos que devia recitar e lhe havia aconselhado sobre como pronunciar os votos, os quais, disse-lhe, deviam lhe sair livremente do coração.

Mas quando olhou para Alainna, o que tinha pensado dizer se apagou da mente igual à névoa sob o sol. Estava radiante à luz do fogo e lhe brilhavam os olhos. Sebastien percebeu o leve tremor que a agitava como se pulsasse a corda de uma harpa.

Alainna se aferrou a suas mãos, aspirou profundamente e começou:

 

Uma sombra é você. No verão

Um refúgio é você no inverno

Uma rocha é você

Uma fortaleza é você

Um escudo para mim

Amarei-te

Ajudarei-te

Estreitarei-te em meus braços

Dou-te minha promessa

 

Alainna fez uma pausa e logo prosseguiu:

-Recebo você, Sebastien Le Bret. - Disse com suavidade. - Como meu marido pelo rito das mãos até que ambos aceitemos, em paz, em alegria, na graça da promessa. - E apertou com seus dedos trêmulos os dele.

Sebastien sentiu naquele tremor brilhar a alma de Alainna; era a força suavizada pela elegância. O que lhe oferecia era prezado e genuíno. Respirou fundo, afligido por um respeito reverencial.

Sabia o que tinha que dizer, mas até aquele momento não sabia que o diria com tanta convicção.

-Eu recebo a ti, Alainna MacLaren. – murmurou. - Como minha esposa pelo rito das mãos, em paz e em alegria, na graça da promessa. - Apertou os dedos e fechou os olhos. O poema que surgiu de repente em sua mente não era o que Lorne lhe havia ensinado naquela manhã, a não ser um que o bardo havia recitado dias atrás. Por alguma razão lhe pareceu perfeito.

 

Achei no jardim

minha jóia, meu amor.

Seus olhos são como estrelas,

Seus lábios são fruta amadurecida,

sua voz for música celestial.

Achei entre a erva

uma donzela de olhar limpo.

Seus olhos são como estrelas,

suas bochechas como rosas,

Seus beijos como o mel.

 

Umas primeiras lágrimas brilharam nos olhos de Sebastien. Atraiu a Alainna até ele, sem lhe soltar as mãos.

-Já está. - Sussurrou. - Que assim seja.

-E assim começará. - Murmurou ela enquanto inclinava o rosto até Sebastien com os olhos semicerrados. Roçou-lhe ligeiramente os lábios com os seus em um beijo de paz entre ambos. Encontrou os lábios de Alainna suaves, quentes e flexíveis.

Sentiu que o coração começava a pulsar de um modo diferente em seu peito, e então soube que estava definitivamente apanhado em seu ritmo sem fim.

 

                         Capítulo 21

O delicado som das campainhas de prata se deixou ouvir por todo o salão. Sobressaltado, Sebastien levantou o olhar da tranquila conversa que estava tendo com Robert e olhou ao redor, mas só viu as cabeças e os ombros de quem o rodeava. Segurou sua taça de madeira e bebeu um gole da potente água da vida.

O jantar que teve lugar depois do rito das mãos estava ainda nas mesas, em terrinas de madeira meio vazios, junto às colheres e as facas de comer. As bandejas e outras terrinas maiores continham ainda generosas porções de assado de veado e guisado de cordeiro, cenouras e cebolas, bolachas de aveia e mel, queijos e maçãs. Por toda parte havia jarras de vinho com especiarias, cerveja de urze e odres de uisge beatha, que eram visitados de vez em quando pelos que ainda tinham sede.

Mesmo que a maioria estavam saciados, Sebastien havia comido pouco. Sabia que Alainna, que estava sentada a seu lado falando em voz baixa com Giric, e apenas havia tocado sua comida tampouco. Alguns montanheses e cavaleiros estavam ainda sentados à mesa, enquanto que outros se transladaram a banquinhos e bancos ou tinham encontrado um lugar no chão, prevendo que se aproximava o momento de contar histórias.

De novo se ouviu o agudo som. Os murmúrios se apagaram. Sebastien voltou a levantar o olhar, e esta vez viu que Lorne entrava pela porta e avançava até o centro do salão. O cabelo lhe flutuava sobre os ombros como se fosse neve. Levantou uma mão que sustentava um galho de macieira curvada, cheia de raminhos entretecidas com fios de cores, das que pendiam pequenas campainhas de prata, vidros reluzentes, bolotas e frutos secos. Ao sacudir o galho com um ritmo distintivo, esta fazia um som ligeiro e musical.

Alainna ficou em pé quando Lorne entrou no salão. Foi até o lá para aproximar uma cadeira contra o fogo, e a seguir serviu cerveja de uma jarra em uma taça de prata, que deixou em cima de um banco baix. Logo retornou ao banco e se deslizou de novo em seu lugar entre Giric e Sebastien, que a olharam com expressão interrogante, picados pela curiosidade.

-O que está fazendo? - Perguntou.

Alainna se inclinou até ele, com o braço perto dele. Sebastien se inclinou para ouvir a resposta.

-Leva o galho de prata, uma honra que se concede só aos bardos que se formaram pelo menos durante nove anos. - Sussurrou ela. - Lorne é mais que um narrador de contos; é um fili instruído, um poeta consumado. Aprendeu em uma escola de bardos a oeste das Highlands, cujas tradições se remontam à antiga Irlanda. Estudou durante nove anos de jovem para ganhar o direito de ser um dos filidh.

Sebastien assentiu com a cabeça, fascinado, desfrutando daquela singela proximidade entre ambos, tão natural devido ao banco lotado de gente no qual estavam sentados.

Lorne rodeou o lugar sacudindo o galho decorado com um alegre ritmo, fazendo vibrar as campainhas, as bolotas e os vidros. A música mágica que produzia enchia a sala. Lorne pegou o assento, depositou o galho no banco que tinha a seu lado e segurou a taça para beber um gole de cerveja. Ato seguido se acomodou em sua cadeira e olhou a seu redor, mostrando seu perfil forte e imponente à luz do fogo.

Cada movimento que fazia, cada olhar que dirigia, eram lentos e deliberados. Sebastien percebeu como ia aumentando a tensão no ambiente, como se fosse algo tangível. Um após o outro, presentes foram inclinando-se para frente, desejosos de que começasse o relato. O ancião segurou de novo o galho e esta vez criou uma animada cadência, levantando-a e deixando-a cair, uma e outra vez, até que por fim a deixou quieta. O som das campainhas de prata diminuiu até desaparecer.

Alainna estava ao lado de Sebastien, fechada pelo outro lado por Giric e outros que ocupavam o banco. Sebastien mudou de postura e voltou o torso para lhe deixar mais espaço. Ao fazê-lo, o ombro dela encostou-se ao peito, e imediatamente surgiu calor entre ambos. Consciente do fácil que lhe seria atraí-la a seus braços, permaneceu imóvel e observou Lorne.

-Há muito, muito tempo. - Disse o bardo. - Perdido nas brumas dos séculos, vivia um guerreiro chamado Conall das Vitórias, que viajava com quatro de seus camaradas para o oeste. Viram uma linda ilha verde que brilhava sobre a água, e então foram procurar um bote e navegaram até ela em busca de aventura, que foi o que acharam.

»O rei da ilha verde tinha uma bela filha a que havia encerrado dentro de uma alta torre de prata com porta de bronze e um telhado feito de asas de pássaros brancos. Aquela torre descansava sobre umas altas colunas. Então o rei disse a Conall que quem fosse capaz de chegar a princesa daquela torre a receberia como esposa e herdaria a ilha verde à morte do ancião rei.

Enquanto falava, Robert, Hugo e outros escutavam atentamente a tradução que ia fazendo Alainna. Sebastien escutava tanto a Alainna como Lorne, e sentia o calor do corpo da jovem, tão perto do dele, fluir através dele, uma sensação parecida com a do vinho doce. A vibração de sua voz lhe penetrava no peito, e fechou os olhos.

A paz o envolveu semelhante à névoa no bosque. Saboreou aquela sensação, sem saber muito bem se era produzida pelo suave eco de duas belas vozes; ou possivelmente pelo quente toque do corpo de Alainna contra o seu; ou talvez pelo ambiente sereno e atento que flutuava na sala. Não sabia. O único que desejava era sentir como ia o envolvendo, de forma estranha e cálida.

-... E depois que todos os guerreiros tiveram provado e falhado, por fim Conall empurrou com todas suas forças e derrubou as colunas que sustentavam a torre. - Continuou Lorne. - A princesa caiu dela diretamente em seus braços. Quando a abraçou e a olhou nos olhos, sentiu o amor nascer em seu peito como a um ser vivo...

Sebastien abriu os olhos. Ele conhecia bem aquela sensação. Voltou o olhar até Alainna, e esta o olhou a sua vez fazendo uma pausa na tradução, como se compartilhasse seus pensamentos.

-Mas Conall sabia que seu companheiro Mac Morna também amava a princesa da torre de prata. E Conall amava a seu amigo, porque era seu amigo de alma. Quem se casasse com a princesa ficaria na ilha verde para sempre. Mac Morna estava preparado para desfrutar daquela paz em sua vida, enquanto que Conall tinha sede de virou e depositou à moça nos braços de seu amigo. E depois Conall disse ao rei que Mac Morna havia derrubado as colunas e ganhado à princesa...

Sebastien sentiu que algo intangível lhe encolhia no peito. Sabia a maravilhosa sensação que era abraçar Alainna; não podia imaginá-la nos braços de outro homem, ser a esposa de outro homem.

Sabia o muito que a desejava; sabia que havia sido um tonto ao pensar que poderia abandoná-la. Estavam unidos pelas mãos pelo preço de um contrato e uma escritura de propriedade, estavam juntos por uma ordem do rei. Mas, de algum modo, entre eles havia se formado um vínculo mais profundo, quando nenhum dos dois queria que acontecesse tal coisa. E o orgulho, tanto o dela como o dele, poderia romper aquele vínculo como um martelo rompia a pedra. Fechou os olhos angustiados.

Ouviu que Lorne e depois Alainna finalizavam o relato e voltou a ouvir o delicado som das campainhas de prata, e então abriu os olhos. Alainna lhe sorriu.

-Este conto é um de meus favoritos. - Disse-lhe, ainda apoiada contra seu lado.

-É uma história maravilhosa. - Murmurou ele, sentindo que um sorriso subia desde seu coração até seus olhos e tomava forma em seus lábios.

Alegrava-se de que o banco estivesse totalmente ocupado, para que Alainna tivesse que apertar-se contra ele daquele modo. Alegrava-se de não ter procurado seu lugar habitual em um canto escuro, como a princípio pensou fazer, inclusive naquele dia. E também se alegrava de ter tomado os votos da união pelas mãos com Alainna, mesmo que só fosse por um breve espaço de tempo. Não importava o que o futuro lhe tinha reservado a cada um; ele entesouraria o que havia forjado naquele dia.

 

-O padre está bêbado. - Disse Una. Alainna olhou por cima do ombro de Sebastien para olhar o padre Padruig, que estava sentado ao outro lado.

-Como, já? - Disse Niall do outro lado da mesa. - Normalmente espera que terminem as narrações. Vamos, padre Padruig, me dê isso. - Tirou o odre de ovelha de entre as mãos inseguras, o aproximou de sua própria boca e começou a tragar com gosto.

Logo o deixou sobre a mesa e sorriu abertamente a Una. - Vê? Assim fica menos para ele.

Una olhou a ambos com desgosto.

-Apenas está aqui a umas horas, desde que terminou a cerimônia do apertão de mãos, e já está bêbado pela bebida.

O padre Padruig levantou os olhos.

-Não estou bêbado. - Disse fazendo gestos extravagantes. - E meu amigo Niall o Maneta me contou o que foi dito na cerimônia. Ach! Que pena, ter perdido isso! Niall disse que lhe saltaram as lágrimas.

-Assim é. - Concordou Niall. - E se você tivesse atuado como testemunha, agora estaríamos celebrando um casamento e não uma união pelas mãos. - Ele e o padre caíram em gargalhadas.

Una fez um ruído de impaciência.

-Este não está bêbado. - Disse o sacerdote, assinalando a Sebastien como se fosse um exemplo. - E esteve bebendo água da vida, como você. E você é um sacerdote! - Sacudiu a cabeça em um gesto negativo e se afastou andando.

-Sou um bom padre. - Disse o padre Padruig em tom defensivo.

-É. - Concordou Niall. Deslizou um olhar de relance para Sebastien. - Como é que este cavaleiro não está bêbado, se o único que havia bebido antes de vir a Kinlochan era vinho francês e cerveja inglesa?

-Criei-me com vinho da Bretanha, que tem que beber-se devagar, e só com as costas apoiada contra a parede. - Sebastien esboçou um sorriso lânguido e olhou para Alainna com os olhos brilhantes. Ela sorriu a sua vez, divertida.

-Quando for ali, nos traga um pouco. - Disse Niall.

-Não pode ir durante um ano. - Disse o padre Padruig. - Não pode ir-se a Bretanha nem a nenhuma parte por um tempo de um ano e um dia, a menos que leve consigo a Alainna. E ela não quer ir! - Arrancou o odre da mão de Niall.

Sebastien olhou para Alainna.

-Do que está falando?

Ela desceu o olhar, com o coração acelerado.

-Se me abandonar durante mais de três noites seguidas, a união pelas mãos ficará anulada.

-Anulada? - Repetiu ele.

-Como se nunca tivesse acontecido.

O bretão ficou olhando. Logo, de repente, afastou a vista e franziu o cenho enquanto dava voltas à taça meio vazia na mão.

Alainna desviou o rosto.

-Eu tampouco soube até hoje. Pensei que se alegraria se soubesse. –Murmurou. - Dado que... tem que partir.

Sebastien não respondeu. Incapaz de interpretar aquele silêncio, como estava acostumada a fazer frequentemente, Alainna não soube se estava contente ou descontente com aquela revelação.

-Esse contrato nupcial que redigi para vocês está já assinado e é válido. -Disse o padre Padruig, inclinando-se para Sebastien. - Mas faz falta um casamento para que siga sendo-o. Tenha cuidado de não ir a nenhuma parte sem ela, eh? - Sorriu muito sensível.

-Alainna não se irá de Kinlochan. - Disse Niall. - Parece-se com sua parente Esa. As raízes do lar são muito profundas nas duas.

-Que mais tenho que saber a respeito da união pelas mãos? - Perguntou Sebastien em tom sério. Alainna lhe dirigiu um olhar penetrante.

-Se deitar com ela, casa-te com ela. - Disse o sacerdote. - Isso constitui uma união matrimonial aos olhos de Deus, se não da Igreja.

-Isso já sei. - Repôs Sebastien com voz grave, enquanto que lhe contraía um músculo na bochecha.

-E no que a mim diz respeito, como sacerdote, a união carnal é um matrimônio, não importa se as pessoas desfizeram os votos ou não. - Disse o padre Padruig severo, obrigando-se a olhar fixamente os dois. - A união pelas mãos está permitida só pelas leis celtas. - Disse, agitando um grosso dedo no ar. - Mas a Santa Mãe Igreja de Roma não reconhece essas uniões. – Encolheu os ombros. - Mesmo assim, se a abandona e não retorna em três dias ou mais, segundo o costume ela não será sua esposa pelo rito das mãos, e nunca o terá sido.

-Toda essa linda poesia se desperdiçará. - Lamentou-se Niall, com os olhos avermelhados. O sacerdote lhe deu o odre.

Sebastien permaneceu sem dizer nada, sentado junto à Alainna. Não a olhou, nem tampouco deixou de dar voltas à taça, como se seu singelo desenho o fascinasse. Entretanto, ela percebia a profunda corrente de seus pensamentos como uma corda invisível que unia a ambos.

A união carnal constituía em matrimônio, disse-se a si mesmo; com independência dos votos pronunciados ou quebrados, aos olhos de Deus estariam casados para sempre se entregavam às deliciosas tentações que já havia provado com ele. Olhou para Sebastien, mas este não a olhou. Soltou um suspiro.

-Será melhor que pensem atentamente. - Disse o padre Padruig em tom sóbrio. - A união pelas mãos não é um passo que se possa dar a ligeira.

-Sei, padre. - Sebastien dirigiu a Alainna um olhar fugaz.

Ela a acusou da cabeça aos pés, como um contato físico.

-Mas, entretanto, os dois obedecem ordens do rei. - Disse Niall com um largo sorriso. - Que problema há? Já está tudo pensado, não? Agora encontrarão a paz e a felicidade juntos, tal como quer o rei e como lhes desejamos todos. -Sorriu-lhes.

Sebastien inclinou a cabeça, com o cenho enrugando. Alainna desviou o olhar com as bochechas acesas e o desejo bulindo em seu ventre com apenas olhá-lo, com apenas estar sentada a seu lado.

Levantou os olhos quando Giric e Lulach se sentaram à mesa a cada lado de Niall. Não fazia muito que os havia visto rir com Robert e com alguns outros cavaleiros normandos. Nesse momento, na sala se fez de novo o silêncio, porque Lorne apoiou sua harpa contra a coxa e começou a tocar uma suave melodia. Alainna se relaxou e descansou um cotovelo na mesa para escutar a música. Deixou escapar um bocejo.

-Vai se deitar logo, eh? - Perguntou-lhe Lulach com uma piscada.

Ela se ruborizou.

-Ontem à noite não dormi bem. Estive trabalhando até muito tarde.

-Acabou-se isso, eh, Sebastien? - Riu Niall.

Sebastien não respondeu, mas sim cruzou os braços em cima da mesa e disse a Giric:

-Amanhã ou passado, se o tempo permitir, tomarei uns quantos homens e percorrerei a parte noroeste de Kinlochan.

-Para medir os limites? - Perguntou-lhe Giric.

-Para isso, e também para procurar renegados. Um dos fazendeiros arrendatários com o que falei no outro dia me disse que dias atrás havia visto um homem escondido em uma das covas que há nessas colinas. Pensou que podia ser um dos celtas rebeldes. O tipo ao que vimos lutando com os lobos poderia ser um deles, já que Alainna e você não o reconheceram. Seguirei procurando. Os rebeldes procurarão apoio entre os montanheses desta zona.

Alainna clareou a garganta.

-O clã Laren não apóia a causa dos MacWilliam. Falo como chefe de meu clã.

-Como deve ser, mas persistem os rumores da existência de rebeldes. -Replicou Sebastien. - Há pelo mínimo um deles por aqui. O arrendatário me disse que havia chegado a seus ouvidos que os MacWilliam estão voltando da Irlanda de um a um.

-Eu também ouvi dizer isso. - Atravessou o padre Padruig. - De um em um, preparando o caminho para outros, percorrendo as Highlands em silêncio em busca de apoio para sua causa. Mais tarde pensam juntar-se e formar um grupo forte.

Alainna, nervosa, mordia-se o lábio enquanto escutava. Estava pensando em Ruari, escondido a salvo na pequena ilha; adivinhava o que Sebastien pensaria daquilo, mas se perguntava o que faria o resto de sua gente se descobrisse a verdade. Apoiariam Ruari, ou o entregariam à Coroa?

-Ruari MacWilliam desapareceu. - Disse Giric com firmeza, sem olhar para Alainna. - De modo que os rebeldes precisam de chefe na Escócia.

-Se estivesse vivo, viria aqui. - Disse Niall. - Eu gostaria de saber se os seus estão procurando apoios em nossa região.

-Aqui não encontrarão. - Disse Lulach. - Nós nunca seguimos Ruari na causa de seu clã, mesmo que teríamos coberto suas costas por estar casado com um dos nossos.

-Calem-se todos. - Disse Alainna, inclinando-se para frente. - Que Esa não lhes ouça falar de Ruari. - Dirigiu um olhar a Esa, que estava sentada ao lado de Una, Morag, Beitris e a calada esposa de Niall, Mairi. Sorria amavelmente a todos os que a rodeavam, e o brilho de felicidade que lhe iluminava o rosto era tão evidente que Alainna sorriu para si, contente de ter contribuído com aquela alegria.

-Ajudariam agora, se estivesse aqui? - Perguntou Sebastien.

Alainna retorceu as mãos por debaixo da mesa, agradecida de que Sebastien estivesse olhando aos homens e não a ela.

-Ruari Mór era um grande homem. - Disse Lulach. - Um poderoso guerreiro e um homem que deveria ter sido um rei, se os reis se escolhessem por sua valia e sua força. Eu não duvidaria em ajudá-lo se o visse agora mesmo, e lutaria a seu lado para defendê-lo. Mas não apoiaria a causa de seu clã.

-Eu também defenderia Ruari, se não fosse mais que um fantasma. - Disse Niall. - Eu gostava muito dele. Possuía o coração e o orgulho de um leão. Mas o resto de seu clã são temperamentais e muito orgulhosos, e não me importam.

Alainna olhou para Giric e viu que ele a estava olhando a ela com gesto sério e eloquente. A seu lado, Sebastien franzia o cenho, pensativo.

-Não me surpreenderia que o clã Nechtan tivesse algo que ver com os MacWilliam. - Disse nesse momento Lulach.

-Cormac declarava total lealdade em sua carta ao rei. - Disse Sebastien, e olhou ao sacerdote. – Escreveu você essa petição?

-Sim. - Respondeu o aludido. - Ele insiste que é leal, como já sabe. Como sacerdote dele, e como avô de seu filho, não posso dizer mais.

-Já vemos em seu rosto o que pensa. - Disse Niall com seriedade. - Não sairia muito de seu caminho para defender esse homem.

O sacerdote segurou o odre e bebeu um gole, logo limpou a boca e expulsou o ar com força.

Alainna se inclinou para frente, desejosa de mudar de assunto. O coração lhe saltava nervoso cada vez que mencionavam Ruari e Cormac. Odiava pensar que Ruari pudesse ter vindo a essa região só para procurar o apoio de Cormac. Se fosse assim, a própria lealdade dela se veria dolorosamente dividida.

-Note. - Disse Niall. - Una e as demais vêm até aqui. Devem estar pensando que já é hora de que estes dois se unam definitivamente. - E olhou para Sebastien com um largo sorriso.

Alainna ouviu rir a Una e Beitris e ao levantar os olhos viu que várias pessoas mais se levantavam de seus assentos para aproximarem-se da mesa. A maioria deles sorria de orelha a orelha e falavam todos de uma vez. Esa vinha entre eles, alta e digna.

-Ainda fica que a noiva seja levada a cama, e se está ficando tarde. - Disse Una, que encabeçava o grupo. Levava dois tartans dobrados nos braços. - Em pé, casal!

Sebastien se levantou e saiu do banco, e Alainna fez o mesmo. Sentiu um frio no estômago e o coração começou a pulsar mais depressa.

-Em uma união pelas mãos, o ato de levar a noiva à cama é diferente do matrimônio. - Disse Beitris a Sebastien. Pegou os tartans dos braços de Una e entregou um a ele e outro a Alainna. - Não lhes acompanharemos até o dormitório com cânticos e benções, porque isso está reservado para as núpcias. Devem sair e procurar um lugar onde ficarão sozinhos, em um dos outros edifícios.

-Ou escada acima no quente dormitório de Alainna se quer passar na nossa frente às escondidas. - Acrescentou Morag, sorrindo. - Fingiremos não ver nada. -Olhou para o outro lado intencionalmente enquanto os outros começavam a rir a seu redor.

-Não lhes seguiremos. - Prometeu Una. - Desfrutarão de intimidade para fazer o que quiserem. - Sorriu abertamente, e houve mais risadas.

Apesar de tudo, Alainna não podia sorrir. Notava as bochechas ardendo. Olhou para Sebastien, e viu com surpresa que tinha o rosto avermelhado. Nunca o havia visto ruborizar-se, mesmo sendo loiro. Parecia incômodo, ali de pé com o tartam nos braços como se não estivesse seguro do que fazer com ele.

-Não lhes seguiremos. - Disse Lorne. - Mas sim lhes daremos um conjuro benéfico. Venham aqui e fiquem do meu lado. - Fez um gesto.

Alainna se aproximou, como Sebastien, enquanto que os outros se retiraram e formavam um amplo círculo ao redor. Lorne elevou a mão. De seus dedos se desenrolou um fio vermelho atado e costurado com pequenos vidros brilhantes. Sacudiu-o brandamente para que soasse e brilhasse sob a luz.

Alainna permaneceu junto a Sebastien enquanto Lorne caminhava ao redor deles no sentido do sol agitando o fio de conta com um suave ritmo. Ao mesmo tempo ia recitando uma bênção, e Alainna fechou os olhos e escutou.

 

Sejam o caminho plano para o outro

Sejam brilhante estrela para o outro

Sejam olho amável para o outro

Sejam sol e lua para o outro

Sejam graça e paz para o outro

Sejam escudo e força para o outro.

 

Agitou de novo a fileira de vidros e os rodeou de novo.

 

Que cada dia seja feliz,

Que não haja dia penoso,

Que todos sejam dias felizes.

Que sete vezes formosos

Sejam os dias que vivam.

 

Lorne deixou de mover-se e a fileira de vidros emudeceu. Alainna sentiu o calor de Sebastien a seu lado e notou sua presença como uma rocha, como a fortaleza que guardava os votos que ambos tinham pronunciado.

O silêncio persistiu semelhante a um véu de paz. Alainna abriu os olhos e viu que os seus a observavam sorridentes e afetuosos, formando um amplo círculo ao redor dela e de Sebastien. Lorne também havia se afastado. Mesclados com os montanheses, os cavaleiros observavam também, com o semblante sério e respeitoso, conscientes de que estavam presenciando algo sagrado.

Levantou os olhos para Sebastien. As sombras e o resplendor do fogo brilhavam em seu esculpido perfil. Então ele posou seu olhar nela e inclinou a cabeça para lhe indicar que era hora de abandonar o salão.

Alainna se voltou para a porta. A multidão se dividiu como uma onda no mar e ela e Sebastien avançaram juntos até a saída.

 

                           Capítulo 22

No pátio iluminado pela lua, suas respirações formavam pálidas nuvens geladas. Alainna caminhava em silêncio junto a Sebastien, ouvindo em suas costas os alegres acordes da música que interpretava Lorne.

-Podemos entrar aí. - Disse quando se aproximaram da oficina. Abriu a porta e Sebastien entrou atrás dela agachando a cabeça sob a porta.

A sala estava fria, penumbrosa e reinava um silêncio fantasmal; as lajes mudas, pálidas presenças sobre as mesas e os bancos. Um débil resplendor vermelho emanava do braseiro que havia no centro. Alainna passou por cima dele fazendo ranger a capa de lascas de pedra, segurou um atiçador de ferro e começou a remover as brasas para ter mais luz. Depois de acrescentar uns quantos carvões, limpou as mãos e se levantou.

Voltou-se insegura. Sebastien cruzou o quarto em direção a ela fazendo ruído ao pisar nas partes de pedra. Pegou uma vela e se agachou para acendê-la no braseiro. Continuando, de pé junto à Alainna, com a vela em alto e o tartam dobrado sob o braço, elevou uma sobrancelha laconicamente.

-Vamos dormir aqui esta noite?

Alainna apertou o tartam contra seu seio.

-Eu passei aqui muitas noites. Neste momento faz frio, mas logo esquentará. - Viu que ele percorria o lugar com o olhar: o chão cobertos de lascas de pedra, os bancos e as mesas lotados de lajes esculpidas e toscamente cortadas, estantes cheias de ferramentas de madeira e de ferro, e uma fina capa de pó branco que cobria quase tudo.

-É acolhedor. - Comentou.

Ela riu levemente e foi até o canto mais afastado da oficina para deixar o tartam em cima de uma larga laje de arenito rosada que descansava, a modo de mesa, sobre três robustas estacas de madeira, com um extremo um pouco mais alto que o outro. Sebastien a seguiu depositou seu tartam ao lado do dela e deixou a vela em um canto da laje.

-Se está cansado e não quer voltar para o salão para procurar uma cama, pode descansar aqui. – Apontou a laje. - Não é uma cama muito atraente, já sei, mas... - Deixou a frase sem terminar.

Ele passou os dedos pela granulosa superfície. Observou uma sianinha de nós, composta por linhas entrelaçadas e círculos sem fim, que havia sido esculpida em baixo-relevo para formar um marco. A parte interior estava plana e em branco.

-Isto é um de seus projetos? - Perguntou.

-Este trabalho começou Malcolm. - Respondeu Alainna tocando a pedra. - É a última das lajes de arenisca rosa que trouxe aqui há alguns anos. As outras peças formaram as lápides que viu na igreja.

Franziu o cenho. - Espero que nunca tenha que terminar esta.

Sebastien assentiu com gravidade.

-O tapete do cão contra o braseiro servirá de cama.

Alainna enrugou o nariz e riu.

-Se você gosta da companhia das pulgas.

Ele riu, e o som ecoou entre as pedras da oficina.

-E se voltasse para salão, onde procuraria uma cama?

-Não acredito que conseguisse ocupar um lugar junto a outros cavaleiros e meus parentes. Agora, não.

-Certo. – Cruzou os braços e apoiou um quadril contra a pedra. - Não espera que vivamos como marido e mulher agora que nos unimos pelo rito das mãos? Faz parte do costume.

Alainna cruzou de braços também, espelho da postura dele, e se apoiou contra a pedra.

-Os casais que fazem os votos do rito do apertão de mãos também têm os... privilégios do matrimônio. Mas tendem a estar apaixonadas e desejosos de casarem-se. Unem-se pelas mãos até que seja possível chamar um sacerdote, por isso o costume se estendeu até um ano e um dia. Nós temos a sorte de ter um sacerdote perto de Kinlochan, mas não é o caso em uma boa parte das Highlands.

-Ah. - Disse Sebastien, afirmando com a cabeça. - Mas ainda se pode desfazer, mesmo que seja um matrimônio aos olhos de Deus.

-Segundo nosso costume, pode. - O coração lhe golpeou com força no peito. - Minha gente pensa que nós... completaremos nossa união. Acreditam que nos unimos pelas mãos para que Cormac não fique sabendo do casamento durante um tempo. - Deixou escapar um suspiro. - Querem que continuemos casados, e que você aceite tomar nosso sobrenome e o de nossos filhos.

-Não posso fazer isso. - Disse Sebastien com um fio de voz.

Alainna encolheu os ombros.

-Mesmo assim, eles esperam que o faça. É difícil acreditar que alguém possa rechaçar nosso sobrenome ou partir de Kinlochan.

-É um lugar muito belo, e um sobrenome orgulhoso. - Concordou ele. - Mas meus laços estão na Bretanha, como os seus estão aqui.

-Poderia trazer para seu filho aqui, a seu novo lar... se quisesse viver aqui. -Adicionou.

-Lar. - Disse ele, como se nunca tivesse ouvido aquela palavra.

Esfregou a beirada da pedra com os dedos.

-Acreditam que vai ficar aqui para derrotar o clã Nechtan e reconstruir o clã Laren. Minha gente deseja te aceitar não só como o paladino enviado pelo rei, mas também como um chefe.

-Você é seu chefe, não eu.

-Agora depositaram sua fé em ti também. - Replicou Alainna. - Acreditam em ti, seu guerreiro dourado. - Não tinha intenção de dizer o que pensava, e se mordeu o lábio.

Ele franziu o sobrecenho.

-Seu o que?

-Seu herói. Provou sua valia ante eles. - Voltou-se para estender os tartans. - Não é uma cama muito cômoda, mas, se quiser, pode descansar aqui.

-E você?

-Eu não estou cansada. E tenho trabalho a fazer.

-Pode que não te conheça tão bem como um marido conhece sua mulher, mas vejo que está esgotada. Tem a voz rouca e profundas olheiras. Precisa descansar.

Ela negou com a cabeça.

-O trabalho me relaxa. Estou muito tensa depois de um dia como hoje. Já descansarei mais tarde.

-Aqui? -Tocou a arenito e logo olhou o duro chão. - Aqui não há nenhum lugar adequado. E amanhã, e depois de amanhã?

Alainna já havia pensado nisso.

-Estou disposta a compartilhar meu dormitório, mas não minha cama. Não é necessário que saiba ninguém mais que você e eu.

Sebastien assentiu devagar.

-Está disposta a fazer quase qualquer coisa pela felicidade dos seus.

Ela se deteve um momento com as mãos sobre o tartam.

-Como vou contrariar seus desejos? Já sofreram muitas decepções, muitas perdas. Não posso lhes dizer que nós não desejamos isto.

-Pode que alguns deles se voltem frágeis com a idade, Alainna, mas são resistentes e espertos. - Seu tom era rápido e severo, quase uma reprimenda. - Não estão tão necessitados como você acha. Não há motivo para protegê-los da verdade.

Ela sacudiu a cabeça em um gesto negativo.

-Não posso dizer. Nossa união pelas mãos, e sua chegada aqui, lhes trouxeram esperança e alegria. Não sabia quanto significava para eles até que vi seus rostos esta noite e ouvi suas risadas. Não penso destroçar isso. Ainda não. - E se afastou.

Sebastien estendeu uma mão para tocá-la no ombro. Ela se deteve, de costas a ele.

-Ama-os tanto. – Murmurou. - Que inclusive está disposta a deixar acreditar que nós vivemos como marido e mulher. Isso é respeito por eles, Alainna, ou quer evitar a verdade?

-A verdade é que estamos fazendo isto só para assegurar a ajuda para Kinlochan... e a propriedade das terras para ti.

-Não vim aqui só pelas terras.

-Por que, então?

-Por ti. Vim por ti.

Alainna sentiu que a percorria um calafrio. Olhou-o, cativada pela sinceridade que havia em sua voz, e cativada também pela lembrança do que havia sonhado.

-Vi apresentando sua súplica ao rei. - Disse Sebastien. - Vi seu orgulho e seu desespero. Via-se com claridade que estava preocupada com os teus e que necessitava urgentemente um paladino. Vim aqui para te ajudar.

-Obrigada. - Respondeu ela em voz baixa. - Mas em Kinlochan necessitamos muito mais que cavaleiros virtuosos.

-Já sei que tem uma pobre opinião da cortesia. Mas a cortesia e a honra lhe mantêm a salvo neste momento.

-Por que? - Afastou-se da pressão de sua mão.

-A cortesia te manterá segura esta noite nessa incômoda cama de pedra. -Disse ele indicando a laje. - E em sua própria cama mais tarde, asseguro-lhe isso. Se a cortesia não fosse parte de minha forma de ser. - Inclinou-se a modo de parodia. - Não poderia garantir sua virtude, minha senhora.

-Já sei o quão cortês pode ser. - Replicou Alainna. E por agora te permitirei entrar em meu dormitório, mas não em minha cama.

-Então, que assim seja.

Seu tom de voz era suave e tranquilo, coberto com verniz de educação semelhante a um vidro opaco. Alainna desejava com desespero ver através daquele vidro, ansiava saber mais dele, desejava o fogo, a paixão, o forte desafio que pressentia nele. Mas sua declaração havia levantado uma barreira entre ambos.

Sem mediar palavras, segurou a vela e a levou até um banco sobre o qual descansava uma pedra coberta por um pano e várias ferramentas. Depositou a vela de forma que a luz se derramasse sobre a pedra. Depois pegou uma túnica singela e solta que havia por ali e a pôs por cima para proteger o delicado vestido do pó da pedra. Com mãos hábeis e rápidas, trouxe a inquieta massa de cabelo sobre um ombro e a segurou em uma larga trança que caiu às costas.

Sebastien observou como retirava o tecido que cobria a laje e escolhia um cinzel e um martelo de entre um sortido de ferramentas. Colocou o cinzel em posição e começou a golpeá-lo brandamente com o martelo no punho de madeira, movendo os dentes sobre uma parte da laje.

Consciente de que Sebastien havia se aproximado dela, não conseguiu aquietar o rápido pulsar de seu coração nem o tremor de suas mãos. Continuou manipulando o cinzel.

-Que pedra é esta? - Perguntou ele. - Não te vi trabalhar nela. Tem uma formosa cor, como nata fresca. - Disse, correndo um dedo pela beirada. E é muito suave ao tato. É pedra calcária?

-Calcária de Caem. Trouxe-a Malcolm da França, acredito.

-De Normandia. Caem está na Normandia. Eu estive ali, e ouvi falar desta famosa pedra calcária.

-E com razão, porque é muito cômoda de trabalhar. É o bastante macia para que resulte fácil de esculpir, cede ao menor toque, mas também é bastante dura para aceitar os detalhes finos e poder poli-la como o bom mármore. - Enquanto falava escolheu outro cinzel. - Faz justo que quer da ferramenta, o que quer a mão e a mente, mas só necessita o toque mais ligeiro, a mão mais delicada.

-Então é a pedra perfeita para ti. - Murmurou Sebastien.

Alainna desceu o olhar, mas adorou aquele calado elogio.

-Tomara tivesse mais pedra calcária como esta. - Disse, e voltou a golpear com o cetro, concentrada em sua tarefa durante uns momentos. - Como só tenho esta peça, quero esculpir nela algo que seja único.

Sebastien se inclinou um pouco mais para olhar a pedra.

-O que representa esta cena?  

-Algumas partes estão só esboçadas, mas aqui há uma torre com uma cerca ao redor, e um homem e uma mulher esperando dentro das portas...

-E fora, árvores, água, pássaros voando. Já entendo. Representa Kinlochan?

-É uma cena de uma história muito antiga de um lugar legendário chamado Tir Tairngire, a Terra de Promessa, ou Tir na n' Og, a Terra da Eterna Juventude. Uma bela ilha verde situada muito a oeste, onde o sol fica como se fosse oro fundido no brilhante mar. Nessa ilha há uma torre cujas paredes são feitas de prata e o teto de asas de pássaros brancos, e está rodeada por uma cerca de bronze novo. - Disse com voz sonhadora.

-É tão boa poetisa e narradora de contos como seu tio avô, mesmo que você não o veja. - Falou em gaélico, ainda que usassem o inglês. Sua voz desceu até um nível terno, mais profundo.

Alainna sentiu que se ruborizava e que a percorria um ligeiro tremor.

-O senhor dessa terra é o guerreiro mais bravo de entre todos os homens, e sua dama a mais graciosa e linda entre todas as mulheres. Sua terra está repleta de abundância, frutíferas nas colinas, salmões no rio, pássaros em todas as árvores.

-O paraíso. - Murmurou Sebastien.

-O paraíso. - Repetiu Alainna, passando os dedos pelo desenho em forma de trança da sianinha esculpida na pedra. - Uma terra cheia de alegria e esperança. Uma terra em que ninguém fica velho nem se sente triste. - Um súbito desejo lhe umedeceu os olhos. - Não é Kinlochan.

Sebastien inclinou a cabeça.

-É onde você gostaria de estar?

-Quem não quereria viver em uma terra de paz e abundância? - Perguntou ela, enquanto se inclinava para escolher um cinzel diferente.

-Em efeito. - Repôs Sebastien. Permaneceu a seu lado enquanto ela trabalhava.

Ao fim de uns instantes ela levantou a vista.

-Queria te dizer que Donal e Lulach saíram para falar com os arrendatários das terras de Kinlochan para lhes pedir aveia e centeio para que pudessem lhes dar para alimentar a seus cavalos. Acredito que poderemos recolher suficiente para todo o inverno.

-Bem. Entretanto, no ano próximo teremos que trazer grama para fazer feno, ou nosso gado sofrerá as consequências.

Nosso gado. Alainna desviou o olhar e deixou o cinzel para escolher uma ponta afiada.

-Se os cavalos continuarem aqui no ano próximo, certamente precisaremos cuidar bem deles. - Apoiou a ponta da ferramenta contra a pedra, inclinou-a com cuidado, golpeou-a uma vez e arrancou uma lasca que caiu no chão.

-Já que estamos falando de assuntos relativos a Kinlochan em vez de nosso casamento, seja o tipo de casamento que for. - Acrescentou Sebastien enquanto Alainna o olhava sério. - Queria mencionar que no outro dia, quando fazia tanta névoa, estive te procurando para te falar das provisões para o gado. Acreditei que estaria trabalhando aqui, ou com Una e as demais mulheres, mas ninguém te havia visto.

-Oh. Esse dia. - Repôs ela com o coração acelerado. Levantou a rosto e se encontrou com seu olhar inalterável. Ele tinha o cenho franzido e o olhar cinza como o cristal e sério-. Estive... Estive fora das muralhas.

-Fazia mau tempo para estar aí. - Comentou ele. - Ou para remar em um bote.

-Qu-que bote? - Golpeou de novo o cetro.

-Fui andando até a donzela de Pedra para te buscar e te vi no meio do lago, em um bote com Finam.

Alainna deixou escorregar a mão que segurava a ferramenta de ferro, e o cetro chocou contra seus dedos. Com um gesto de dor, deixou as ferramentas e segurou o polegar dolorido.

Sebastien estendeu uma mão para ajudá-la.

-Deixe-me ver.

-Não passa nada. - Insistiu ela, mas os dedos dele eram quentes e fortes, de modo que lhe permitiu que pegasse sua mão. - Estou habituada a estas coisas Disse com risada leve.

-É uma lástima que esteja habituada a se machucar. - Esfregou os dedos provocando agradáveis estremecimentos.

-Passará em seguida. - Murmurou Alainna tentando retirar a mão, mas Sebastien a reteve e continuou massageando-a.

-Estava no lago. - Disse, reatando o assunto que tinham deixado. - Então me perguntei por que teria ido àquela ilha sozinha em um dia assim. Teria te chamado ou teria ido eu mesmo te buscar, mas um dos escudeiros teve problemas ao dirigir meu cavalo no estábulo enquanto o ferrava e vieram correndo me buscar. Quando voltei por ti. Alguém me disse que já tinha retornado e que estava em seu dormitório.

-Oh. Oh. - Disse Alainna, procurando uma resposta. - Eu... Quando era pequena, pensava que essa ilha era Tir na n' Og. Sobre tudo no verão, ao chegar o sol, é um lugar muito formoso, verde e frondoso sobre a água. Às vezes vou ali procurar pedras para esculpir. A maioria das pequenas cruzes que faço é com pedras tiradas da ilha. - Aquilo era do todo verdade, pensou freneticamente.

-Em um dia frio, com névoa, não pode se parecer muito a um paraíso.

-Essa ilha é... um lugar tranqüilo, um remanso onde meditar sobre Deus, o qual o padre Padruig frequentemente nos diz que façamos.

-Levou seu cão em um bote pequeno e foi a essa ilha para meditar sobre Deus e coisas santas? -Sebastien a olhou incrédulo, ainda com os dedos sobre a mão dela.

-Para... er... pensar em atos de caridade. - Aquilo se aproximava bastante à verdade. - Disse Alainna. - A névoa, igual ao amanhecer e o anoitecer, são considerados pelos celtas coisas místicas. Resultam boas para meditar, não está de acordo?

-Ah. - Disse Sebastien. - E seu cão medita contigo?

Ela mostrou um sorriso angélico.

-É um cão notável.

-É claro que sim. - Soltou-lhe a mão, e ela flexionou o polegar e pegou de novo suas ferramentas. Ele a olhou com o cenho franzido, com a mão relaxada no quadril. - Quanto a atos de caridade, segundo meu entendimento, realiza-os diariamente aqui. Se também deseja meditar sobre questões sagradas, deve ser quase uma Santa.

Alainna se deteve com o cinzel no ar.

-Estou muito longe de sê-lo.

-Minha senhora, se, sente-se inclinada à contemplação do céu em lugares frios e místicos, seria mais feliz em um convento que casada com alguém. -Replicou Sebastien. - Já o mencionou quando eu cheguei aqui.

-Foi meu mau gênio, o qual deveria servir para demonstrar que não sou Santa nem mártir. - Voltou a inclinar-se sobre sua tarefa e deu um forte golpe ao cinzel. - O que quer dizer? - Tremiam-lhe as mãos e o coração lhe pulsava desbocado, mas tinha que averiguar o que suspeitava ele, pelo bem de Ruari, e de sua gente. - O estilo coloquial normando me parece confuso em ocasiões. Os montanheses são tão diretos que resultam descorteses, e isso é ao que estou habituada. De modo que se limite a dizer o que pensa.

Sebastien franziu o cenho e cruzou os braços sobre o peito.

-Posso ser direto, se isso é o que quer. O que fez foi perigoso e irresponsável, e me fez pensar que nessa ilha há algo que você quer guardar em segredo.

Alainna deixou de trabalhar e ficou quieta, pensando a toda velocidade, e limpou na túnica as mãos trêmulas e sujas de pó.

-Com frequência eu gosto de estar só, como você. O que outra razão pode haver?

Seus olhos cinza adotaram uma expressão fria e precavida.

-Era uma estranha conduta, quando há homens ocultos nas colinas e quem sabe onde mais. Não queria que sofresse dano algum.

-Estou a salvo em Kinlochan.

-Para isso estou eu aqui. - Respondeu ele com simplicidade. - Para me ocupar de velar por sua segurança e pela dos seus.

Alainna assentiu.

-E para isso nos unimos pelo rito das mãos, quando nenhum dos dois o desejava. Agora serei direto em outra questão. - Disse, desejosa de mudar de assunto. - Ainda tem pensado partir da Escócia o antes possível?

-Sim. E tenho pensado retornar de vez em quando para me certificar de seu bem-estar. Assim acontece com muitos matrimônios entre cavaleiros e suas esposas.

Esquadrinhou-lhe o rosto.

-De modo que tem a intenção de manter este matrimônio entre nós.

-É o que espera o rei, e o que nos ordenou.

O coração lhe golpeou o peito com força. Agitou uma mão em um gesto impaciente, de veemente ira.

-Um matrimônio de cavalaria, no qual o marido faz o que lhe dá vontade, procura aventuras aqui e lá, obtém terras e riquezas e cada vez mais valia, enquanto que sua esposa o espera sentada dentro de uma torre e cria seus filhos sozinhos, durante todos os anos que ele permanece ausente? - Foi elevando o tom de voz até terminar gritando. - Melhor seria não casar-se nunca que ter um amparo e uma companhia assim!

Sebastien a segurou pelos braços com dedos como ganchos de ferro de aço. Alainna apoiou as palmas das mãos em seu peito e sentiu ali o forte pulsar de seu coração e também sua tensão, como se ele estivesse contendo um estalo de fúria.

-E que classe de matrimônio quer você? - Exigiu Sebastien.

-O que se tem nas Highlands. O que vi em minha família.

-Mostre-me.

-Sincero e forte. - Disse ela. - Vistas compartilhadas, cheias de amor.

-Acha que eu não desejo isso? - Rugiu ele contendo-se. Atraiu-a para si, desceu a cabeça e procurou sua boca com uma segurança que deixou Alainna sem fôlego e a lançou a um profundo torvelinho.

Deslizou um braço pelas costas semelhante a uma garra de ferro, e uma mão por trás da nuca, afundando os dedos no cabelo, afrouxando a grossa tranca. Com seu duro corpo junto ao dela, sua boca se moveu sobre a de Alainna com uma força e uma suavidade que a aturdiram.

O beijo se prolongou, ficou ardente e delicioso, até que Alainna deixou escapar um leve gemido e sentiu que lhe dobravam os joelhos. Sebastien se afastou, mas a manteve abraçada estreitamente; se a tivesse soltado naquele preciso momento teria desabado, insegura de que as pernas a sustentariam. Olhou-a nos olhos com um olhar claro e penetrante.

-Isto é o que quer? - Perguntou-lhe com voz rouca.

Alainna fechou os olhos, seu corpo cedendo à força que encontrava nos braços de Sebastien, sua mente aturdida. Assentiu com veemência. - Perguntei-te. – Ofegou. - O que era o que queria você.

-Eu quero o mesmo que você. O paraíso. - Sua voz vibrou dentro do corpo de Alainna, e seus dedos lhe acariciaram o cabelo com tal delicadeza que ela sentiu aquela ternura até nas plantas dos pés. - Mas não acredito que exista para mim em nenhuma parte.

E a soltou. Ela estendeu uma mão até a laje de pedra a procura de algum apoio, com o coração retumbando e a outra mão sobre o peito. Sebastien se voltou e foi para a porta. Quando Alainna pensava que ia abrir a e sair, ele se deteve.

-Alainna. – Disse. - Eu sou um homem solitário por natureza. Não é fácil revelar o que me é mais importante.

-E que isso é? - Perguntou-lhe ela, quase em um sussurro.

-Meus sonhos. - Respondeu ele com voz rouca. - Meu filho. – Colocou uma mão no fecho de ferro. - E agora, você.

Alainna fez um movimento até ele, tão ofegante que o corpo lhe tremeu.

-Fique. - Sussurrou-lhe. - Não vá.

-Que fique, pelo que? - Quis saber ele.

O coração lhe golpeava o peito com força.

-Pela paz. Pela esperança.

-Nosso orgulho não nos permite ter paz nem esperança, nem um matrimônio.

Alainna lhe tocou as costas.

-Fique. Fale-me de seus sonhos.

-Meus sonhos são meus. Para cumpri-los ou para perdê-los.

-E também para compartilhá-los. - Acariciou-lhe o ombro com a mão apalpando a dureza de seu braço, a tensão que sentia nele. - Eu compartilhei os meus contigo.

Sebastien se voltou pela metade, com o rosto quase nas sombras.

-Seus sonhos? Ah, seu trabalho na pedra.

-Sobre tudo minha Terra de Promessa. Nunca mostrei essa laje a ninguém. Para mim é a mais querida de todas, porque contém... todas minhas esperanças, todos meus sonhos.

Ele se voltou de tudo e a olhou fixamente.

-Então, suponho que quererá saber quais são meus.

Falava em tom irônico, mas amável. Alainna assentiu. - Um menino que se criou em um monastério aprende a ficar calado. Eu guardei meus sonhos para mim. É um costume que ainda perdura.

-Conte-me. - Insistiu ela. - Crie um costume novo.

Ele riu brandamente, uma risada seca.

-De menino sonhei muito a respeito do que desejava ter na vida. Criei ambições e metas que se foram fazendo maiores até que tive que atuar para as conseguir.

-O que é o que desejava? - Perguntou Alainna.

Sebastien olhou além dela, e ela soube que estava observando a laje de cor creme com sua cena da Terra de Promessa.

-Um título de nobreza, terras, a categoria de cavaleiro, o valor de um sobrenome. - Enumerou Sebastien. - Um lar. Família. - Acrescentou em voz baixa.

Alainna sentiu que lhe encolhia o coração por ele, ao pensar naquele menino solitário.

-Já conseguiu essas coisas.

-Quase todas. Perdi... a parte mais importante de meu sonho. Minha esposa. Meu lar... Possivelmente, meu filho também.

Alainna o olhou fixamente, aguardando. Ele a olhou a sua vez.

-Já está. Já lhe contei.

-Se tiver algo mais que dizer, esperarei. - Disse-lhe. - Esperaria aqui para sempre... se você me pedisse isso.

Sebastien quase sorriu. Ela viu em seus olhos.

-Para ser uma mulher de tão mau gênio, tem muita paciência.

-Aprendi a ter paciência. A paciência desgasta a pedra.

Então sim que riu, com uma risada leve. Logo passou os dedos pelo cabelo.

-Nesse caso sente-se. - Disse-lhe, tocando-a no ombro para que desse a volta. - Sente-se, e te contarei mais a respeito de meus sonhos.

 

                           Capítulo 23

Enquanto Alainna escolhia um cinzel de ponta fina e recomeçava seu trabalho, Sebastien segurou outro banco e se acomodou ao lado dela. Observou como ia delineando a cerca que rodeava a torre com traços cuidadosos e ligeiros. Inclinou-se para frente, escutando o ritmo do golpear do cetro, impressionado pela precisão de movimentos e a habilidade com que Alainna ia fazendo a imagem.

-Nunca deixa de trabalhar, nem sequer em sua noite de núpcias. – Comentou. - Pelo que parece.

-Nem sequer então. - Disse ela. A luz da vela a iluminava convertendo sua pele lisa e seu brilhante cabelo em âmbar quente. – Conte-me, Sebastien. -Soprou o fino pó que se havia acumulado na laje.

Ele exalou um comprido suspiro.

-Muito bem.

Alainna sorriu e segurou uma peça pequena de pedra granulosa para limar uma beirada áspera do desenho.

-Há uns seis anos, quando eu tinha vinte e cinco e ainda não havia me casado, e era um cavaleiro a serviço do duque da Bretanha, desposei à filha de um conde francês. Era uma jovem piedosa e estudiosa, mais adequada que muitas para a vida contemplativa. Seus pais não lhe permitiram dedicar sua vida a Deus, mas teria sido melhor se o tivesse feito. - Acrescentou com amargura. Morreu ao dar a luz, depois de dois anos de matrimônio. Só tinha dezenove anos.

Alainna enrugou a testa em um mudo gesto de compreensão, incentivando Sebastien com seu silêncio. Ele desejava lhe contar mais. Deixou a parte de arenisca que havia utilizado para limar a calcária e a segurou ele, sentindo-a ainda morna pela mão de Alainna, e começou a brincar com ela distraidamente.

-Vivíamos no castelo dela no vale de Loira, que ia herdar de seu pai. Agora o herdará nosso filho.

-O castelo pertence agora a ti, não é assim?

-Não. Seu pai o havia especificado assim em nosso contrato de núpcias. Herdaria o filho mais velho dela, assim o reteria ele. Se não houvesse tal filho, deveria retomar a seu pai. Sua família não gostava de mim; a seus olhos eu não era digno de me casar com ela.

-Então, como chegou a ser seu marido?

-Apostas em um torneio. - Respondeu Sebastien.

Alainna piscou.

-Apostas?

-No dia de Epifanía, seu pai bebeu muito, e em um banquete que deu o duque de Bretanha anunciou a todos os presentes que quem ganhasse a justa no dia seguinte poderia casar-se com sua filha mais nova. Ganhei. E seu pai não gostou que fosse eu, um órfão bastardo, mas cumpriu o prometido.

-E ela se sentiu agradada? - Quis saber Alainna.

Sebastien encolheu os ombros.

-Pelo que parecia, sim.

-Como se chamava? Era linda, e amável, e... merecia-te?

Sebastien sorriu ante aquelas ávidas perguntas, ante aquela curiosidade e a lealdade que se adivinhava no comentário. Também sorriu ante suas lembranças, que eram mais emocionantes que dolorosas.

-Chamava-se Eloísa. - Respondeu. - Era encantadora. De cabelo escuro e olhos castanhos, e um pouco gordinha, o qual a incomodava muito... Mas fazia parte de seu encanto, de sua doçura e seu calidez. Passava muito tempo com os livros e conversando com seu sacerdote, e lhe teria ido bem se tivesse se encerrado em um convento. Mas se alegrou mais de casar-se comigo que com o homem que havia escolhido seu pai.

Alainna estendeu uma mão para lhe pedir parte de pedra, e Sebastien se inclinou para frente.

-Onde? - Perguntou. - Aqui? – Apontou a beirada rugosa, e Alainna afirmou com a cabeça. Ele o coçou com a pedra, como havia feito ela, e ambos se inclinaram para frente para soprar o pó.

-Amava-a? - perguntou Alainna com suavidade, e a seguir deu umas leves batidinhas com o cetro no cinzel.

Sebastien titubeou.

-Sim. Era amável e doce. Deu-me o que eu mais desejava,

-Um filho.

-Um filho, e um lar. Eu nunca tive um verdadeiro lar, uma família, um castelo e uma propriedade. Os anos que passei com ela foram os melhores de minha vida, em certos aspectos.

Alainna golpeou de novo com o cetro. Um cenho franzido lhe enrugava a testa lisa.

-Foi feliz com ela.

-Eu era feliz, mas ela não estava contente. Eu não era um bom marido.

Alainna abriu muito os olhos.

-Você seria o melhor dos maridos. - Disse a toda pressa, e em seguida desceu os olhos. - Não há duvida de que estava contente de tê-la.

Sebastien desviou o olhar, ainda zangado consigo mesmo apesar dos anos transcorridos. Nunca havia falado da sensação de culpa que o afligia pela infelicidade de Eloísa. Entretanto, por alguma razão, o fato de reconhecer seus sentimentos ante Alainna não lhe parecia mais difícil que reconhecê-los ante si mesmo.

-Naquela época eu tinha uma ambição muito forte. - Disse-lhe. - Estava ansioso para ganhar os torneios, propriedades e riquezas, para que meu nome fosse conhecido e respeitado entre senhores e reis. E o fiz. Consegui muito nos anos anteriores de meu casamento com Eloísa, e nos anos que seguiram. Mas naquela época não sabia o dano que estava causando a ela.

-Não posso acreditar que lhe causasse algum dano. Amava-a. - Disse em tom suave. Deixou as ferramentas e segurou um pano para esfregar a superfície da pedra e limpar o pó das gretas do desenho.

-Eu acreditava que Eloísa estava contente. Vivíamos em um castelo situado em uma bela curva do rio. Ela adorava seu jardim e seus manuscritos. Eu lhe levava um novo cada vez que voltava de uma viagem. Mais tarde, o pequeno Conan lhe deu muita alegria. Tinha tudo o que podia desejar. - Olhou a outra parte. - Em uma ocasião me disse que não tinha a mim.

Alainna interrompeu a tarefa por um instante.

-Não estava ali frequentemente, verdade? - Sebastien percebeu a compreensão em sua voz. - Sentia-se só. Ela te amava. - Falou com paixão.

-Estava ausente mais tempo que com ela. Não estive quando nasceu Conan, mesmo que fui logo que possível. E tampouco estive com ela quando voltou a dar a luz. Eloísa e nossa filha, que nasceu depois, morreram antes que eu retornasse.

-Oh, Sebastien. - Murmurou Alainna. Pousou os dedos sobre o pulso dele, um contato ligeiro como uma pluma que ele sentiu até o mais fundo. Sem dizer nada, deu volta à mão para tomar a de Alainna. Os dedos da jovem estavam cobertos de uma fina capa de pó branco que lhe manchou a pele.

-Estava descontente. - Disse. - Eu não percebi até que foi muito tarde. O único que me importava era fazer realidade meus sonhos. – Calou-se um momento. - Equivocava-me... Fui muito orgulhoso. E perdi o que mais amava, o que mais queria na vida.

Alainna suspirou e se virou para olhá-lo de frente e se inclinou para lhe pegar a outra mão.

-Seu descontentamento não era sua culpa. - Disse.

-Eu poderia ter aliviado sua solidão, e não o fiz. E agora fiz o mesmo com meu filho sem pensar. Deixei-o aos cuidados de outras pessoas para poder perseguir o que eu acreditava que ele necessitava e que eu queria. Equivoquei-me. E tenho que retornar para a Bretanha. - Fechou os olhos por um instante, sentindo como o invadia o desespero em uma onda pesada, sinistra. - Tenho que fazê-lo.

-Eu sei. - As mãos de Alainna permaneciam quietas e suaves nas suas. - Seu filho te necessita. Não necessita um pai com um título nobiliário, nem enormes extensões de terras que lhe pertençam, nem sequer um sobrenome de grande renome. Ele necessita a ti.

Sebastien lançou um suspiro e acariciou as palmas das mãos de Alainna, pensativo.

-Quando era menino. - Disse por fim. - Queria ser o senhor de um castelo, orgulhoso de meu sobrenome e de minhas terras, orgulhoso de meus filhos e do legado que lhes deixaria algum dia. Meus sonhos se converteram em minhas ambições. Quanto mais adquiria, mais dano causava às pessoas que amava. Agora devo dar a meu filho um verdadeiro lar na Bretanha, em uma das propriedades que tenho ali. Não vejo outra maneira.

-Não? - Alainna estendeu uma mão e tocou a cicatriz que lhe cruzava a sobrancelha esquerda. Percorreu brandamente seu traçado com a ponta do dedo e logo a afastou. – Como pode estar tão cego, quando seu caminho está tão claro?

Ele entrecerrou os olhos.

-Não está tão claro como você acha.

-Aqui há um lar para ele, Sebastien. - Disse Alainna em tom grave e seguro. - Aqui há família, e algum dia haverá um castelo, que construirá você. Aqui há o que você deseja para Conan. E para ti também.

Ele ficou de pé e se virou de costas, com as mãos na cintura e a cabeça baixa. A nostalgia o afligia, ameaçava fazer migalhas sua razão. Pareceu precisar de força de vontade para resistir a ela.

-E qual seria o preço, se o fizesse? - Perguntou bruscamente. - Meu sobrenome? Tudo o que sou?

Alainna se levantou também, roçando com o vestido os restos de pedras que cobriam o chão.

-Seu orgulho. Nada mais.

-O orgulho me ajudou a conseguir o que queria. Sem ele, eu não era nada mais que um órfão sem nome educado por uns monges. Quando fui para Inglaterra, poderia ter ficado como criado nos estábulos, mas me fiz cavaleiro. Meu orgulho alimentou minha ambição, e isso me apoiava em meus sonhos. Não posso ficar aqui e abandonar tudo isso. Estou seguro de que você entende.

-Um orgulho assim dá força aos sonhos. - Disse Alainna. - Mas também pode ser um estorvo para fazê-los realidade.

-Faço o que devo fazer então por meu filho, não pelo meu. Mas não posso renunciar a... o que sou.

-Eu jamais te pediria algo assim.

-Então, o que é o que quer de mim?

Olhou-o fixamente.

-Que fique comigo.

Sebastien riu com amargura.

-Venha você comigo.

Ela desviou o rosto. Sebastien sabia qual era a resposta. Sentia o dilema que existia entre ambos entre a forte vontade e o dever. E também sentia algo mais, dentro de si, que o puxava, muito mais forte que o que aparecia na superfície. Aquele fio havia começado a unir ambos desde a primeira vez que viu Alainna e vislumbrou o fogo e a pureza que havia em sua alma.

Aquele laço se havia tecido com mais força naquela mesma tarde, com os poéticos votos que pronunciaram com tão sinceros a respeito. Sabia que não era tão fácil abandonar aquilo. Como pôde acreditar que sim? Voltou a cabeça e a sacudiu em um gesto de consternação.

-Sebastien Bàn. - Disse Alainna. - Aqui lhe necessitamos. Este pode ser seu lar. Nosso legado pode ser o que deixe a seu filho.

-E o seu guerreiro celta?

-Os meus lhe aceitaram. Isto é o que eles querem que tenha isto entre nós.

-E você? - perguntou Sebastien brandamente.

Ela se levantou nas sombras, com o resplendor avermelhado da luz brincando em seu rosto.

-Eu desejo que fique. - Disse em tom suave. - Antes não o queria, mas agora... agora tudo parece ter mudado.

Sua voz e sua atitude eram tranquilas, mas Sebastien percebeu a paixão e a força que jaziam debaixo daquelas palavras. Ficou em silêncio por uns instantes, com o cenho franzido, perguntando-se realmente poderia ficar ali, se haveria algum modo. Então passou por sua mente um montão de razões pelas quais não podia, e varreu aquela frágil idéia.

-Não posso. - Disse. - E você não pode vir comigo. Nós dois temos um dever com outras pessoas.

-Somos dois iguais. - Disse Alainna com suavidade.

Ele assentiu. E de repente compreendeu que queria estar com ela mais que nenhuma outra coisa, que nenhum sonho. Permaneceu imóvel para não se virar e estreitá-la entre suas braços.

-Se não podermos estar juntos, e tampouco podemos nos pôr de acordo, talvez o mais prudente seja pôr fim a este matrimônio antes que comece. - Disse Sebastien por fim. - Não posso te machucar como o fiz com Eloísa e Conan.

-Faria-me isso de qualquer modo. - Sussurrou Alainna.

Ele permaneceu imóvel como uma pedra exceto pelo dolorido retumbar de seu coração.

Ela suspirou.

-Não posso esperar que viva aqui como um montanhês, ao estilo dos montanheses. Não voltarei a lhe pedir isso.

-Quando me for. -Disse ele. - Você e os teus poderão ficar na fortaleza. Ordenarei que se construa um castelo em outro lugar, dentro dos limites das terras de Kinlochan. Nomearei Robert ou a outro para que se encarregue de fiscalizá-lo e pedirei ao rei que mantenha aqui uma guarnição de cavaleiros que lhes protejam. - Sua voz levantou eco no cômodo cheio de pedra, mas ele se sentia seco como a madeira.

As metas e os deveres que em outro tempo lhe tinham parecido firmes e honrados já não pareciam adequados. Em algum ponto seu mundo havia mudado, e se sentia como um homem que caía e que procurava um ponto ao que agarrar-se, um equilíbrio.

Alainna ocorreu até ele, lhe roçando o braço no caminho, e foi até o canto para acariciar os tartans estendidos sobre a pedra.

-Estou agradecida de que permita que meu clã fique. - Seu tom de voz era frio.

Sebastien sentiu que algo se rompia em seu interior. Foi rapidamente até a Alainna, segurou-a pelos braços e a olhou intensamente à luz das velas.

-Não se sinta agradecida. - Disse com veemência. - Eu não sou o paladino que deseja, não sou o homem que merece você e os teus. Encontrará o homem que necessita... para ti, para todos eles.

-Já o encontrei. - Seus olhos se viam escuros e limpos nas sombras. - Mas ele não me quer. Nem a nós.

-Sim lhe quer. - rugiu ele. Ela era um ímã, e ele era ferro, e não pôde, apesar de toda sua força de vontade, evitar beijá-la. Atraiu-a para si e posou sua boca sobre a dela.

Alainna lhe rodeou a cintura com os braços e se apertou contra os duros contornos de seu corpo. Sebastien sentiu seu contato quente e sensual inclusive através das várias capas de lã e sarja; sentiu seus lábios suaves e flexíveis sob os seus, suas mãos acariciando suas costas, e acreditou afundar-se, girar.

Deslizou os dedos por entre seu cabelo e lhe desfez a trança, que ao soltar-se deixou cair a cabeleira em uma massa alvoroçada. Pegou um punhado de cabelo para lhe puxar a cabeça para trás brandamente, e pôs fim ao beijo para olhá-la.

-Apesar de todo meu orgulho. – Sussurrou. - Apesar de toda minha ambição, jamais desejei um sonho tanto como desejo a ti.

Alainna gemeu, um som profundo. Ele voltou a apoderar-se de sua boca e notou que ela se entregava. Rodeou-lhe a fina cintura com as mãos e a levantou do chão para sentá-la sobre a beirada da laje de arenisca. Ela se abraçou a ele e apertou os joelhos contra sua cintura. Sebastien procurou de novo sua boca, apressado por uma sede que crescia e exigia ser sufocada.

O sangue lhe golpeava as veias, o corpo inteiro lhe vibrava. Explorou Alainna com os lábios e com as mãos, incitando-a, enquanto ela se arqueava e gemia como um salgueiro ao vento. Era toda força, graça e paixão, mais suave ao contato que nenhuma mulher a que ele já tivesse abraçado jamais.

Devia parar, pensou; aquilo só podia conduzir a maiores complicações, a um vigamento de orgulho e amor que jamais poderia desfazer-se. Mas não podia parar, tinha que saborear Alainna, sua sensualidade, e queria mais. Perguntou-se como ia ser lhe possível deixá-la, como ia poder existir sem ela.

Quando Alainna o rodeou com os braços e seu cabelo se estendeu a seu redor como uma nuvem, Sebastien se rendeu a força de seu orgulho à sabedoria de seu coração. Só esta vez, disse a si mesmo; só esta e nenhuma mais. Mas cada contato, cada beijo lhe provocava mais prazer, supunha um passou mais ao interior de um jardim que o fascinava, nutria-o e lhe servia de bálsamo.

Acariciando com as mãos as curvas de seu corpo, bebeu de seus lábios como se fosse uma fonte que tinha tudo o que ele necessitava para sustentar-se. O pulsar do desejo que sentia dentro de si ficou tão urgente que já não pôde fazer caso omisso dele, era tão forte que lhe dobrava os joelhos mesmo quando pretendia emprestar suas forças para Alainna e lhe servir de apoio.

Perdeu um pouco mais de sua resolução ao beijar seus lábios, que o buscavam, ao sentir nos ombros suas mãos fortes e acariciadoras. Mesmo que seu vestido estando amassado entre os corpos de ambos, Alainna o atraiu ainda mais e apertou uma perna a dele, sentada com ele na frente. Sebastien correu as mãos por suas costas notando a forma de seus finos ossos, a curva de sua cintura. Fechou as mãos sobre seus seios, formando com os dedos uma delicada jaula.

Alainna gemeu brandamente em sua boca e se retorceu em seus braços quando ele passou os dedos por cima dos mamilos erguidos que apareciam debaixo da lã do vestido. Acariciou-a, enquanto sua boca procurava a dela e as mãos lhe percorriam com ardor as costas, a cintura.

O contato mais ligeiro, o sussurro de sua respiração, arrastavam-no cada vez mais fundo ao torvelinho de sensações, suspendendo todo pensamento. Deslizou os lábios por sua boca, sua mandíbula, seu pescoço, o relevo de sua garganta. Seus dedos procuraram o decote do vestido e encontraram a abertura frontal, a regata solta debaixo, e se deslizou ao interior.

Desceu a cabeça para beijar o nascimento de um seio e sentiu o calor refletido dentro do tecido, o batimento do coração. O seio lhe enchia a mão, e sentiu como se endurecia o mamilo ao tocá-lo e acariciá-lo. Alainna se recostou contra a parte superior da laje. Sebastien apoiou um joelho a seu lado e no espaço de um beijo, de uma carícia, estendeu-se junto a ela.

Um giro da cabeça revelou o suave arco de sua garganta. Sebastien percorreu aquela curva com os lábios, notando o retumbar de seu próprio coração. Perguntava-se que classe de louco era ao ceder àquela tentação, que classe de tolo era ao arrastar Alainna consigo.

A ponta de sua língua lhe abriu os lábios, e o movimento de suas mãos ao passar por seu corpo pareceu abri-la, aproximá-la mais plenamente dele. Alainna se mostrava receptiva, cálida, lânguida. Sebastien gemeu em voz baixa enquanto seus lábios de lhe percorriam a mandíbula e encontravam o lóbulo de sua orelha para sugá-lo ligeiramente. Sentindo como seu corpo se avivava e se endurecia, abraçou-a pelos quadris e a atraiu até ele através do tecido enrugado que os separava.

Com uma mão levantou as generosas dobras do vestido de lã e da regata até apalpar a seda morna da perna nua. Acariciou com os dedos a coxa, e os introduziu cada vez mais sob a roupa, para acariciar o firme abdômen, onde a respiração dela se acelerou.

Então Alainna deslizou as mãos pelo corpo de Sebastien, ternas e persuasivas, com o coração tão desbocado como o dele. Fortes, seguras e rápidas, suas mãos agarraram a sobreveste e a túnica que havia debaixo e puxou elas para cima, encontrou a cintura dos braies e a empurraram para baixo. Quando aqueles dedos se deslizaram sobre a cálida planície sob ventre, Sebastien sentiu que o coração parava e que todo seu ser se inflamava violentamente.

Esquivou levemente as mãos de Alainna, pois desejava saboreá-la, unir as bocas de ambos, brincar com sua língua. Deslizou a mão um pouco mais abaixo e encontrou o arbusto sedoso e a fenda que se abria debaixo, cálida e úmida. Introduziu um dedo, e nesse momento Alainna conteve a respiração e se inclinou para ele com um gemido rouco.

Tocando, acariciando, foi mimando com os dedos. Seu corpo se arqueava como as ondas do oceano na margem. Esticou-se e deixou escapar um leve grito, um som suave e macio que Sebastien sentiu vibrar em todo seu corpo dolorido. Fechou os olhos ante a onda de angustia e êxtase, pegou-a em seus braços e a reteve ali.

Desejava-a violentamente. O corpo se esticou, enfebrecido e inchado, pedindo liberação. Cada gota de seu sangue, cada partícula de sua carne insistia em procurar alívio nela. Mas titubeou, e sentiu que algo o puxava, como se as fibras de seu ser estivessem cada vez mais rígidas.

Alainna também deve ter notado, porque protestou com um gemido quando ele se deteve e escondeu a cabeça no oco de seu ombro. Sebastien a beijou na sedosa pele do pescoço, com a respiração agitada.

-Prometi cortesia. - murmurou. Parecia ter passado séculos desde que fez aquela promessa, e agora lamentava havê-la feito.

-Não quero sua cortesia. - ofegou Alainna. - Quero a ti. - Voltou-se para beijá-lo na boca, com os lábios abertos, provocando um grave gemido nele. Sebastien separou sua boca da dela.

-Se continuarmos. – Disse.- Selaremos os votos para sempre.

-Pode-se desfazer se for necessário. - Alainna o beijou. - Podem-se desfazer, segundo nosso costume.

Sebastien não estava seguro; aquele era um costume de Alainna, não dele.

Ela levantou uma mão até seu rosto.

-Hoje é Véspera de natal. Escute seu coração. Encontraremos um modo. Nós dois queremos isto, tanto você como eu. Necessitamos. - E desceu a cabeça para beijá-lo de novo. Ele emitiu um profundo gemido.

-Alainna...

-O que sente você também eu sinto. - Sua voz era grave, suave, mas Sebastien percebeu o fogo que ardia nela. - O que deseja de verdade, em seu coração, também o desejo eu. Somos os dois iguais. Agora sei.

Ele também sabia, e não poderia dizer por que, mas se rendeu à verdade no mesmo instante em que ela o disse. Alainna tocou sua boca com a dela e se apertou contra seu corpo, puxando sua roupa ao mesmo tempo em que ele ia tirando a roupa. O primeiro contato da pele nua de ambos, cálida e sedosa, foi como o calor de uma chama. Sebastien deixou escapar um profundo suspiro e continuou.

Abandonou-o todo pensamento, todo raciocínio, e se apoderou dele o sangue e a respiração. Já teria sido possível deter-se, já não, quando afundou a língua na boca dela, quando deslizou os dedos por suas pernas até o espaço que se abria para ele. Acariciou de novo aquela pele de mel e sentiu o lânguido gemido que Alainna emitiu perto de sua boca.

Desceu a cabeça para lhe beijar os seios, quentes e úmidos de suor, impregnados da fragrância de urze e lavanda e da essência de mulher, um aroma que o absorveu ainda mais dentro. Segurou-lhe os quadris entre as mãos o aproximou dele. Os suaves tartans sobre os quais estavam apoiados escorregaram sobre a fria pedra quando Alainna se moveu, quando pegou Sebastien em sua mão e o guiou.

Em mudo acordo, Sebastien empurrou para frente e Alainna se abriu, e ele se sentiu tremer à entrada e afundar-se dentro, cautamente, com firmeza, esperando que ela contivesse o fôlego, que sofresse uma dor que ele não desejava lhe causar.

Aquilo ocorreu em seguida e, segurando sua respiração com a dela, notou um tremor que a percorria, a força de uma corrente que o invadia. Aquela corrente o arrastou com mais velocidade, mais intensidade, mais profundidade como em um torvelinho, em uma deliciosa labareda pelo espírito. Soube que aquela mesma faísca queimava também em Alainna e logo se esfumava, e então se afundou nela e sentiu que ela se afundava com ele.

Ficou estendido, envolto no silêncio com Alainna, consciente de que tinham experimentado algo mais que luxúria. Santo Deus, pensou quando a claridade voltou a sua mente. Amava-a.

Aquela revelação o deixou sem fôlego.

Teve-a abraçada durante tanto tempo, silencioso, balançando-se, pensando, que ao princípio não se deu conta de que Alainna tinha adormecido. Sorriu com tristeza contra seu cabelo, pois sabia quão exausta devia estar já antes que começasse a cerimônia do apertão de mãos.

Afastou-se dela e retrocedeu nas sombras. O cascalho rangeu levemente sob suas botas quando recolheu o tartam que havia usado a modo de capa e foi até a porta. O vento soprava com força, e ainda ouvia a música e as risadas que provinham da torre do pátio. Uma luz dourada se filtrava pelo marco da porta e pela pequena janela quadrada. Voltou-se e começou a caminhar percorrendo o perímetro do pátio.

Em seu caminho se topou com um grosso galho, que sobrou de um pinheiro que levaram ao salão. Recolheu-o ao passar e ao princípio o utilizou como bengala, mas logo brandiu contra o vento. Girou, deteve-se e repetiu o movimento. Arrancou os ramos mais magros e tirou as espigas da madeira. Depois firmou os pés no chão e equilibrou o peso de um a outro. Continuou, agarrando com ambas as mãos como a espada que recentemente havia incluído em seus exercícios, rasgou o ar com o robusto galho, virou no vento, voltou-se, atacou. E por fim lançou o galho para o alto e contemplou como voava no ar e passava a cerca da fortaleza. Ficou ali de pé, com o coração pulsando com força, como uma coluna de pedra enquanto o açoitava o vento.

Havia capitulado ante seu coração e seu sangue, havia feito caso omisso de sua razão, suas precauções e sua ambição. O amor havia varrido sua vida, potente e rápido, proveniente de uma direção que jamais havia previsto. E agora todos seus objetivos tinham que mudar.

Ele mesmo havia mudado. Aquela idéia o enjoou, pareceu perder ligeiramente o equilíbrio. Não estava seguro do que devia fazer, de como proceder. Já não era o homem que havia sido, e ainda não estava seguro de quem era agora.

Levantou o olhar fazia para o céu, da cor da meia-noite e coalhado de diamantes. A Véspera de natal havia obrado um milagre, e ele não estava seguro do que fazer com ele.

Não era homem de aceitar as mudanças com facilidade. Exalou com força uma nuvem de vapor e voltou os olhos para a oficina. Uma tênue luz dourada recortava a janela fechada; a vela continuava acesa. Foi até ali e abriu com suavidade a porta.

Alainna estava sobre a laje de arenito, enroscada sobre si mesma como uma menina. Contemplou-a enquanto dormia e lhe afastou o cabelo do rosto. Logo tirou o tartam que usava, dobrou-o a modo de travesseiro e o deslizou sob sua cabeça.

Estava deitada dentro de uma sianinha de intermináveis nós, um entrelaçado que representava o caminho da alma pela vida. Agora, o fio de sua própria alma se havia entretecido com o de Alainna. Tão somente cortando-o, tão somente destruindo aquela cadeia, liberariam-se os dois do desenho se cada um quisesse ser livre do outro.

Foi até o outro lado da laje e se estendeu junto à Alainna sobre aquela cama fria e dura. Estreitou-a entre seus braços a forma da jovem, envolta no tartam e respirando brandamente, apoiou a bochecha contra sua cabeça e se deixou arrastar pelo sono.

 

                           Capítulo 24

A fogueira da cabeceira do lago despedia fumaça e chamas que se elevavam formando uma coluna cinza que deixava opaca a palidez do céu. Sebastien deu um passou para trás sentindo o intenso calor do fogo apesar do vento gelado, e contemplou os que estavam de pé em círculo ao redor do fogo, com o semblante luminoso, sorrindo a ele e também entre si.

O dia de Natal havia amanhecido prateado e frio. O padre Padruig tinha ido embora da fortaleza naquela manhã, acompanhado de vários montanheses e cavaleiros, entre eles Alainna e Sebastien, que tinham assistido cedo a missa de Natal celebrado na igreja de Santa Brígida. Os que não tinham coberto aquela distância a pé foram a cavalo, a lombos de fortes percherones de patas firme através das colinas, pois a fina capa de neve se havia congelado durante a noite.

A sua volta, os membros do clã tinham acendido a fogueira com os ramos dos troncos que tinham empilhado no dia anterior. Agora estavam reunidos em torno da enorme fogueira para cantar canções tradicionais e conjuros gaélicos e para queimar o tronco de Natal. Sebastien havia aprendido que os costumes natalinos das Highlands eram poucos e singelos. Aquela festividade se celebrava de modo mais austero que na Inglaterra ou na França, enquanto que pelo visto o Ano Novo se recebia com grande entusiasmo.

O calor se estendeu por aqueles rostos alegres e familiares. Entre todos eles, pensou Sebastien, Alainna refulgia como uma estrela, brilhante e bonita a seus olhos. Continuava com a cabeça descoberta, pois havia se negado a usar o véu branco que usavam as mulheres casadas e havia insistido que ainda não estava oficialment