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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A FEBRE DA PAIXÃO / Anne Mather
A FEBRE DA PAIXÃO / Anne Mather

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Os flocos de neve batiam no vidro do carro que Melanie guiava de volta a Londres, e ela não sabia, mas se sua visão estava turva pela neve ou pelas lágrimas.. Estava deixando para sempre a Escócia, onde tinha conhecido o verdadeiro calor da paixão e onde sua alma tinha se partido em mil pedaçosecido o verdadeiro calor da pal           .Lá naquela terra fascinante e gelada Sean Bothwell, o homem que a incendiou de desejo e de prazer. Oh, como ela o amava,como queria dedicar sua vida a ele! Mas Seran a desprezava e ia se casar com a doce Jennifer. E a Melanie só restava voltar para os braços de Michael, embora soubesse agora que não o amava.

 

 

 

 

Estava nevando quando Melanie deixou Fort William. Os flocos miúdos e irrequietos de neve se grudavam ao vidro do carro, mantendo o limpador de pára-brisa muito ocupado. Mas agora os flocos eram grandes e macios, aparentemente imunes à ação dos limpadores, cobrindo o vidro do carro sem se derreterem, quase impedindo a visão.

Melanie procurava dominar a sensação de pânico que a situação provocava nela, consolando-se com a idéia de que não devia estar longe de seu destino. Afinal, tinha passado há algum tempo a placa indicando o lago Cairnross e já devia ter rodado alguns quilômetros, apesar de só poder avançar muito devagar. Mas estava ficando escuro e, apesar de ainda ser muito cedo, Melanie achava tudo muito enervante. Mesmo assim recusava-se a admitir que Michael tivesse razão ao dizer que era uma bobagem irresponsável tentar ir sozinha de carro desde Londres até Cairnside, bem no meio de dezembro.

Olhava agora atentamente para a tempestade de neve lá fora, tentando distinguir algum sinal de civilização naquela desolação. Devia haver alguma habitação por ali. Alguém haveria de viver naquele lugar distante e isolado, mesmo que fosse apenas um pastor ou camponês. Lembrou-se das histórias que tinha lido sobre as montanhas escocesas, as descrições da vida solitária dos trabalhadores daqueles vales isolados entre as encostas. Lembrou-se também dos casos de motoristas e alpinistas presos em seus carros por causa da neve e que acabavam sendo encontrados só muitos dias depois mortos de frio e de fome...

Respirou fundo. Estava se deixando levar pela imaginação, pois não havia razão para pensar que ia ficar presa na tempestade de neve, uma vez que o carro continuava rodando em segurança.

Mas uma outra idéia surgiu em sua mente, fazendo com que reduzisse a marcha quase involuntariamente. Depois que escurecesse havia o enorme perigo de sair da estrada sem perceber e acabar se enfiando pelos pântanos, podendo até cair dentro de algum dos lagos. Como poderia distinguir os limites da estrada na escuridão, se tudo estava coberto de neve?

Um minuto depois de ter pensado nisso, as rodas começaram a derrapar. Era inútil continuar acelerando, pois isso apenas afundaria mais as rodas na neve.

Fechou o casaco até o queixo e enfiou o gorro de peles que estava no banco a seu lado, desde que saíra de Londres no dia anterior. Abriu a porta e saiu do carro aquecido para a fúria gelada da nevasca. Por um momento aquele vento tão frio a deixou sem ar, mas ela não perdeu tempo tentando olhar ã sua volta, uma vez que a visibilidade se reduzia a poucos metros. Curvou-se e olhou as rodas de trás do carro. Os pneus estavam cobertos com uma grossa camada de neve e não se agarravam mais na superfície escorregadia. Endireitou o corpo, suspirando e arranjando o cabelo que caía no rosto por debaixo do gorro. Os flocos de neve derretiam assim que tocavam seu rosto. Que haveria de fazer? Não tinha idéia de onde estava. Era a primeira vez que vinha à Escócia, e o fato de estar sozinha tomava tudo pior.

Resolveu,que era mais razoável continuar seca enquanto pensava no que fazer e voltou para dentro do carro. Olhou o relógio. Passava um pouco das três e meia da tarde, mas parecia já estar anoitecendo naquela desolação gelada. Olhou em torno de si, tremendo. Havia as malas.. Lá dentro tinha apenas roupas, mas podiam servir. Se pegasse alguma peça velha, limpasse, o pneu e depois a estendesse no chão, talvez conseguisse fazer o carro rodar novamente. Pelo menos até chegar a alguma casa.

Ajoelhou-se no banco e abriu uma das malas. Examinou as malhas e roupas de baixo, pensando que, o que quer que usasse para tentar dcsatolar o carro, ficaria permanentemente danificado. Além disso nem poderia parar e descer para pegar de volta a roupa da estrada. Mordeu os lábios. Não, esse pensamento não era nada construtivo. De que lhe valeriam todas aquelas roupas se morresse gelada ali?

Decidida, puxou dois suéteres de lã que achou, que podiam servir de calço. Desceu do carro de novo e se curvou para enfiar as malhas debaixo dos pneus de trás, O vento uivava nos pinheiros da beira da estrada e os flocos de neve picavam suas faces. Tentava desesperadamente manter a calma quando tudo à sua volta parecia conspirar para que entrasse em pânico. Tão concentrada estava na atividade que não percebeu o brilho de dois faróis que se aproximavam através da cortina de neve.

De repente se deu conta do barulho do motor e levantou a cabeça, a tempo apenas de saltar de lado para não ser atropelada por um enorme jipe, já estacionando a seu lado na estrada estreita. Borrifada pela lama gelada, tremendo e quase sem ar, tanto pelo susto quanto pelo frio. Melanie viu um homem descer e caminhar pesadamente até ela. Era impossível distinguir as feições dele, mas era evidentemente grande e másculo. Um enorme alívio inundou-a.

Já estava para fazer um agradecimento qualquer quando ele parou diante dela, parecendo ameaçador.

– Está querendo se matar? – perguntou em tom áspero e irritado.

– Desculpe... – disse ela, olhando-o com olhos arregalados.

– Ah, é inglesa! – resmungou ele, impaciente, olhando os pneus do carro e os suéteres estendidos na neve. – Que é que estava fazendo?

Ele tinha apenas um ligeiro sotaque, mas era distintamente celta em sua maneira rude e nos cabelos muito pretos e grossos.

– Meu carro atolou, como pode ver – explicou Melanie, tentando ignorar a grosseria dele.

– Não é bem o tipo de carro para esta parte do país, não acha? – comentou secamente.

– É, não é, não – concordou, cautelosa, tentando manter a calma. – Devo admitir que é mais próprio para estradas... civilizadas.

– Isso mesmo – disse o homem com um ligeiro sorriso. – Para onde é que está indo?

– Cairnside. Ainda está muito longe?

– Nem um pouco. Uns três quilómetros. Só que, indo nessa direção, você só vai chegar lá amanhã durante o dia.

– O que quer dizer? – perguntou, apertando os lábios.

– O que acha que quero dizer?

– Que estou indo na direção errada?

– Exatamente. – Ele se abaixou e apalpou as malhas de lã debaixo das rodas. – Melhor tirar isso daqui. Acho que não vão servir para nada.

– O que quer dizer? – Melanie já não se importava em ser gentil. – Onde é que eu errei?

– Acho que você sabe a resposta melhor do que eu – disse ele, sorrindo ironicamente. – Você saiu da estrada para Cairnside há um quilômetro mais ou menos.

– O quê? – exclamou, horrorizada.

– É isso aí. – Ele encolheu os ombros e acrescentou em tom menos irónico: – Isso acontece muito com este tempo. Eu vi as marcas do pneu e vim atrás. Se você continuasse em linha reta ia acabar no lago Cairnross.

– O quê?! – exclamou, perplexa, percebendo que quase tinha sofrido um desastre. Sentiu as pernas fracas e se apoiou no capo do carro. – Acho... acho que devo agradecer...

– Não precisa – disse ele, sacudindo a cabeça morena. – Eu teria feito a mesma coisa para qualquer um. Mas vai ter de deixar o carro aqui esta noite. Não adianta nem tentar desatolá-lo com isso. Se quiser, podemos pôr a sua bagagem no jipe e ir para o hotel. Pode cuidar do carro quando o tempo melhorar.

– É... é muita gentileza sua... – gaguejou ela. – Mas nem sei o seu nome.

Ele fez uma carranca, passou por ela e abriu a porta do carro para pegar as malas. Bateu a tampa da que estava aberta sem nem olhar o que continha.

– Agora não é hora de pensar nessas formalidades – disse ao passar por ela –, mas, se acha necessário, meu nome é Bothwell.

– Bothwell – repetiu Melanie. – Eu sou Melanie Stewart. Bothwell pareceu nem ouvir. Ou então não prestou atenção. Atirou as

malas na parte de trás do jipe e voltou-se para ela.

– Melhor entrar de uma vez, senão vai congelar aí – aconselhou rudemente. – Deixe que eu fecho o seu carro. As chaves estão dentro?

Melanie fez que sim com a cabeça e entrou no jipe. Lá dentro estava quentinho e só então sentiu quanto estava gelada. Os dedos das mãos e dos pés estavam adormecidos e um fiozinho gelado de água derretida da neve desceu por seu pescoço ao longo da espinha, por dentro da roupa.

Bothwell fechou o carro e veio para o jipe, atirando as chaves para ela. Antes de entrar chutou os pneus com força para livrá-los da neve grudada. Entrou, bateu a porta e acendeu a luz interior, encarando-a então sem a cortina de flocos de neve.

Melanie sentiu aquele olhar um tanto incômodo e perturbou-se ao perceber que o sangue afluía a seu rosto e pescoço. Ele demonstrou ter gostado do que via, mas ela não retribuiu aquele exame insolente, concluindo que não tinha gostado nem um pouco daqueles traços grosseiros. Ele não era bonito. Na verdade, devia ter quebrado o nariz em alguma época; os olhos eram fundos demais e as maçãs do rosto muito salientes.

Mas a sensualidade da boca e os olhos cinzentos debaixo de sobrancelhas pretas e espessas deviam ser atraentes para algumas mulheres. Já tinha notado que ele era só alguns centímetros mais alto que ela e que tinha os ombros largos e devia ser musculoso. Era, de fato, tão masculino, que chegava a ser provocante. Concluiu que ele era um exemplo típico daqueles homens que aterrorizaram a fronteira da Escócia com a Inglaterra durante os reinados de Elizabeth I e Mary da Escócia. Estava tão absorta nesses pensamentos que se assustou quando ele falou:

– Precisamente, o que uma moça como você veio fazer por aqui em pleno inverno?

Melanie mordeu o lábio. A franqueza rude da pergunta combinava bem com as maneiras dele. Sentiu-se tentada a dizer que não era da conta dele, mas, ao lembrar que ele era a única chance que tinha no momento para voltar à civilização, achou melhor se controlar. Afinal de contas, era apenas um desconhecido e o tipo de homem com quem ela absolutamente e não estava acostumada a lidar. Pensou que era primitivo e grosseiro e não gostava daquela pretensa intimidade que ele demonstrava, só porque a estava ajudando.

– Estou indo para o Black Bull, em Cairnside – respondeu finalmente.

– É mesmo? – comentou ele, levantando as sobrancelhas. – Lugar estranho para ir nesta época do ano. Não dá para esquiar perto do lago Cairnross, não há nada para fazer lá.

– Não tem importância, sr. Bothwell – respondeu ela, umedecendo os lábios. – Não venho a passeio.

"Ele apertou os olhos, deu de ombros, apagou a luz interna e ligou o motor. Fez uma curva fechadíssima em alta velocidade e começou a voltar pela estrada. O jipe rodava com firmeza sobre a neve e, ao virarem de novo, Melanie adivinhou que deviam estar retornando à estrada.

A tempestade de neve estava abrandando agora e o céu já estava mais claro, iluminando a estrada melhor que os faróis. O vento ainda soprava, uivando, mas pelo menos dava para enxergar o caminho. Bothwelf era um excelente motorista e ela se sentia segura com ele, percebendo que teria tido enorme dificuldade com seu carro se tivesse conseguido chegar até ali. Bothwell não tomou a falar e ela pensou que. ele devia ter entendido que não queria conversa. Fosse por que fosse, era melhor assim. Ele a perturbava quando a encarava. Melanie pensou em Michael. Tentava imaginar o que ele acharia daquele homem a seu lado e concluiu que Michael haveria de taxar aquela poderosa masculinidade de mera grosseria e mau gosto.

A estrada começou subitamente a descer e Melanie teve de se agarrar no assento para não escorregar. De ambos os lados havia florestas de pinheiros com os galhos cobertos de neve e, além delas, as altas montanhas daquela zona. Queria perguntar que montanhas eram aquelas, mas hesitou em quebrar o silêncio. Logo a estrada tornou-se plana outra vez e viu que atravessavam um vale.

Adiante brilhavam algumas luzes e ela se inclinou, animada, para a frente. Ao chegarem mais perto pôde ver para onde iam. O hotel estava aninhado ao sopé de uma montanha alta, cujo pico, envolto em nuvens, descia em encostas cobertas de pinheiros. O Black Bull era pequeno, compacto e agradável. De suas várias chaminés subiam rolos de fumaça clara e os latidos dos cães saudaram a chegada deles. Melanie recostou-se no assento, aliviada. Tinha conseguido chegar e, no momento, isso era tudo o que importava.

Bothwell parou o jipe diante do hotel e, desligando o motor, desceu sem falar com ela. Melanie pegou as luvas e a bolsa e tentou abrir a porta.

Mas antes que o conseguisse, ele a abriu subitamente para ela, voltou-se e entrou no hotel.

Quando ela desceu e bateu a porta, ele já tinha desaparecido lá dentro. Teria de entrar sozinha e isso era um pouco enervante. Será que teriam vagas? E se o hotel estivesse fechado naquela época do ano?

Ao passar a pesada porta de carvalho, teve uma agradável surpresa: um pequeno hall e uma área de recepção acarpetada, com móveis antigos mas muito polidos. Havia um balcão de registro com livro e campainha. A iluminação era fraca, mas pelo menos era elétrica.

Animada com essas provas de conforto, Melanie chegou ao balcão e tocou a campainha, perguntando-se para onde teria ido Bothwell. Não havia sinal dele.

Uma porta se abriu detrás do balcão e uma jovem apareceu. Era baixa, muito loira, as formas arredondadas realçadas pelo vestido justo de lã.

– Sim? Em que posso servi-la? – perguntou, sorrindo gentilmente, com um inconfundível sotaque escocês.

– Claro que é um pouco repentina a minha chegada, mas será que teria um quarto para mim por umas duas noites? – perguntou Melanie, retribuindo o sorriso.

– Sem dúvida, srta. ...– respondeu a moça, surpresa.

– Stewart. Melanie Stewart. Oh, graças a Deus. Eu temia que estivesse lotado.

– Não. Nesta época do ano sempre sobram vagas. Temos um ou dois hóspedes fixos, mas eles não vão incomodá-la. Umas duas noites?

– No mínimo – respondeu Melanie, mordendo o lábio. – Tenho negócios a tratar por aqui e não sei bem quanto vou demorar. A cidade fica longe?

– É só uma vila, srta. Stewart, e fica a um quilômetro. – Ela esperou, olhando para Melanie, evidentemente curiosa por ela estar interessada na vila, mas Melanie achou melhor não revelar nada naquele momento.

– Ahn... meu carro... está atolado a alguns quilômetros daqui – disse ela. – Vou precisar de um mecânico...

– Sei. Olhe, a oficina mais próxima é em Rossmore, a uns seis quilômetros. Se o tempo melhorar pode telefonar para eles amanhã.

– Sim, muito obrigada – disse Melanie. olhando em torno. – O sr. ... o sr. Bothwell me deu uma carona. Vi que entrou no hotel. Saberia onde é que ele está? Eu queria agradecer. Além disso, as minhas malas ainda estão no jipe dele.

A moça hesitou, depois voltou-se e foi até a porta atrás do balcão. Abriu-a e gritou para dentro:

– Sean!

Bothwell apareceu, agora já sem o pesado casaco de pele que usava antes. Parecia ainda mais moreno e musculoso na calça justa e no suéter colante de gola rulê azul-marinho. Melanie sentiu-se mal por ter mandado chamá-lo. Tentava não pensar em quais seriam as relações dele com aquela moça.

Por causa disso foi muito rápida em seu agradecimento e ele limitou-se a inclinar a cabeça às palavras dela.

– Não foi nada – disse ele depois de um momento, com uma expressão irónica que parecia demonstrar que percebia claramente a falta de jeito dela. – Estou acostumado a procurar ovelhas desgarradas e o seu problema não foi muito diferente disso.

– Vou pegar as malas, então – respondeu, forçando um sorriso.

– Eu pego – disse Bothwell, saindo detrás do balcão, num tom que não admitia recusas.

Melanie agradeceu enquanto a moça loira examinava-a, curiosa, deixando-a pouco à vontade. Que olhar!, pensava. Parece que eu sou um bicho raro.

– Quarto 7. Subindo a escada, é a terceira porta à direita – disse a moça, estendendo as chaves assim que Bothwell entrou com uma mala em cada mão.

– Obrigada.

– A arrumadeira sobe daqui a pouco para fazer a sua cama – continuou a moça, lançando um olhar para Bothwell.

Melanie hesitou um momento e subiu as escadas. Os degraus faziam uma curva no alto, desembocando num corredor. Quando estava passando, uma outra porta se abriu, um velho apareceu no batente e ficou olhando, curioso. Bothwell o cumprimentou.

– Quem é, Sean? – perguntou, direto.

– É a srta. Stewart, Alaister – respondeu ele, colocando as malas no chão diante da porta do quarto 7. – Outra hóspede.

– Ah, é? – disse o velho, examinando Melanie abertamente. – Você não disse que estavam esperando mais gente.

– A gente não sabia que ela ia chegar – disse Bothwell, enquanto Melanie levantava as sobrancelhas, surpresa. – Está querendo o seu chá?

– É, é – respondeu o velho, caminhando tropegamente para os degraus.

– Bom, acho que pode entrar agora – disse a Melanie com um sorriso.

Ela se atrapalhou com as chaves, mas ele se curvou e abriu a porta.

– Não está trancada. A gente não liga muito para a segurança. Melanie apertou os lábios e entrou no quarto enquanto ele acendia as

luzes.

Tinha de admitir que era um quarto bonito. Cortinas estampadas em cores vivas, colcha da cama com franjas longas, mobília de madeira de carvalho também antiga, mas muito bem cuidada. Bothwell abriu as cortinas e voltou-se para ela. Tentando evitar aqueles olhos brilhantes, Melanie se voltou para pegar as malas que estavam na porta.

– Não tem banheiro particular – explicou ele –, mas no fim do corredor tem dois. Se não for das que levantam cedo, vai tê-los quase só para si.

– Acha que durmo até tarde? – perguntou, reagindo à ironia da voz dele.

– Gente da cidade nunca levanta cedo.

– Tem certeza de que eu sou "gente da cidade"?

– Tenho – disse ele, caminhando para a porta sem esperar outra resposta. – O jantar é servido às seis e meia. Eu sei que é muito cedo, mas o cozinheiro tem de ir embora antes das nove.

– O senhor parece saber de tudo, sr. Bothwell! – disse Melanie, fechando os punhos, indignada.

– Tenho de saber. O hotel é meu – respondeu, calmo, fechando a porta ao sair.

Melanie ficou olhando a porta fechada, perplexa. Então ele era o dono do hotel. Por isso o velho havia comentado com ele a súbita chegada dela. De início, tinha pensado que Bothwell também era hóspede, mas agora entendia por que é que ele estava atrás do balcão de recepção. E a loira devia ser mulher dele. Só podia ser, pois aquele lugar não devia ter nenhum atrativo para alguém tão jovem continuar vivendo ali.

Bem, pensou Melanie, encolhendo os ombros, isso não é importante. Importante era a razão que a havia trazido ali. Amanhã de manhã tinha de começar a se informar sobre Monkshood.

Enquanto tirava da mala o pijama e os objetos de toalete, pensava se devia dar um telefonema a Michael. Ficaria mais tranquilo se soubesse que ela tinha chegado bem. Devia a ele essa consideração. Tinha feito o possível para vir com ela, mas estava cuidando de algumas causas importantes que o tinham impedido. Michael tinha insistido que ela esperasse para ir quando ele pudesse acompanhá-la, mas Melanie sentia que desta vez ia ter de cuidar das coisas sozinha.

Talvez o fato de que iam se casar em março a tivesse levado a um último lance de independência. Ou talvez fosse apenas a excitação de ter herdado uma casa como Monkshood que a tivesse estimulado tanto, a ponto de esquecer todo o resto.

 

Na manhã seguinte Melanie acordou com uma enorme sensação de expectativa. Havia algo de muito estimulante em estar viajando sozinha, sem ter de pensar em mais ninguém. Apesar dessa satisfação provocar uma vaga sensação de culpa, ela conseguiu afastar isso. Afinal de contas, tinha o direito de demonstrar independência algumas vezes. Michael era sempre muito solícito, tentando fazer tudo para ela, tornando sua vida tão calma e sossegada quanto possível. Mas às vezes ela desejava que ele a deixasse agir sozinha, mesmo que errasse. Talvez o fato de ele ser advogado fosse a causa daquele ar oficial que ele às vezes tinha na vida particular. De qualquer modo, Melanie estava gostando de se sentir um pouco livre daquela solicitude dele e esfregou os pés debaixo das cobertas quentinhas.

Deu uma olhada no relógio. Passava das oito e ela saltou da cama com um arrepio de frio. Foi até a janela e abriu as cortinas. Não pôde conter uma exclamação de surpresa diante do que viu. A tempestade de neve, que tinha amainado tanto na noite passada, começara de novo com força total. Fora da vidraça só dava para ver uma cortina branca de flocos dançando no ar.

Tomou a fechar as cortinas e foi até a cama pegar o penhoar. Nossa, quanto tempo vai durar essa tempestade, pensou, inquieta, começando a se preocupar. Se tivesse nevado a noite toda ia ser impossível ir buscar o carro.

Abriu a porta e deu uma olhada no corredor. Não havia ninguém; pegou seus objetos de toalete e passou depressa. Entrou no banheiro e abriu as torneiras para encher a banheira enquanto escovava os dentes na pia. Estava tão preocupada com o mau tempo que nem percebeu que a banheira não soltava a fumaça que era de se esperar. Quando pôs o pé para entrar na água, recuou, assustada. Ela estava tão fria que seu pé chegou a doer pelo contato.

Com uma exclamação de impaciência, tirou a tampa e deixou a água escoar enquanto lavava o rosto na pia. Irritada, abriu a porta para sair e deu de cara com o homem que tinha encontrado na noite anterior e que Bothwell chamara de Alaister.

O velho não se importou com a surpresa dela, limitando-se a cumprimentá-la com ar azedo.

– Bom dia – resmungou.

– Bom dia – respondeu, tentando sorrir polidamente. – A água está gelada.

– Ah, é? É mesmo? – disse ele com um olhar provocador. – O aquecedor deve ter quebrado de novo.

– Acontece sempre? – perguntou, passando pelo velho.

– Às vezes – chiou ele. – Mas não precisa ter medo. Sean acende a lareira na sala de jantar. Não vai morrer de frio, não, está ouvindo?

– Que bom – comentou Melanie, meio seca, começando a sentir

frio.

– Se queria luxo não devia ter vindo para Cairnside, não – rosnou o velho, entrando no banheiro e batendo a porta.

Melanie estava chocada com aquela grosseria. Que velho mais desagradável, pensou, irritada, marchando de volta a seu quarto. Será que querer água quente para um banho, num frio daqueles, era demais?

Vestiu uma calça quente e um suéter bem grosso antes de pentear os cabelos. Às vezes os prendia para cima, mas resolveu deixá-los soltos, seguros apenas por uma fivela. Antes de sair pegou a bolsa e deu uma olhada na janela. Ainda nevava.

O andar de baixo era mais quente. Na noite anterior tinha jantado na sala que dava para o hall, junto com os outros hóspedes. Eram quatro ao todo. O velho Alaister, duas velhotas que pareciam professoras aposentadas e um outro homem que parecia mais alegre. Mas como tinha saído logo depois da refeição para ligar para Londres, não chegara a saber seus nomes. Também não tinha visto mais nem a moça loira, nem Bothwell.

Um homem de meia-idade, que parecia ser o faz tudo do hotel, havia mostrado onde ficava a cabine telefônica do hall e a criada que tinha arrumado a cama era a mesma mulher que servia as mesas. Não deviam precisar de muitos funcionários ali. Havia poucos hóspedes e, mesmo levando em conta os fregueses do bar que ficava na outra ponta do prédio, os empregados ali não deviam ganhar muito.

Depois do telefonema, tinha ido direto para a cama. Lembrando-se agora desse telefonema, Melanie suspirou. Talvez Michael tivesse razão em censurá-la por ter ido até ali sozinha naquela época do ano. Evidentemente não contara a ele do seu quase desastre na estrada, mas mesmo sem saber disso ele tinha insistido para que esquecesse tudo aquilo e voltasse para Londres imediatamente.

Melanie tornou a suspirar. Tudo podia ter corrido tão bem, más no fim... Deu de ombros. Afinal, quem podia saber o que estava para acontecer? Se ficasse detida ali, por causa da neve, o que é que ia fazer?

A lareira brilhava com chamas altas na sala de jantar vazia. Além do calor gostoso, o fogo de lenha exalava um cheiro bom de resina de pinho. Estava parada diante do fogo, fruindo aquele conforto, quando a porta se abriu e Bothwell entrou.

Calçava botas até os joelhos sobre uma calça preta, tão justa que moldava os músculos de suas coxas, e um casaco de couro curto sobre a camisa cor de bronze. Parecia tão poderoso e perturbador que Melanie tremeu com o olhar que ele lhe lançou. A idéia de ficar retida ali, em companhia daquele homem, era mais perturbadora do que queria admitir.

– Bom dia, srta. Stewart. Espero que tenha dormido bem.

– Muito bem, obrigada, sr. Bothwell – respondeu, afastando-se do fogo.

– É, era de se esperar. Nossas camas aqui são famosas.

– Foi muito interessante usar bolsas de água quente depois de tanto tempo – respondeu, mordendo o lábio. – Já estou tão acostumada a cobertores elétricos que esqueci que elas existiam.

Por que é que tinha dito isso? perguntou-se, impaciente. Tinha mesmo gostado do calorzinho das bolsas de água quente. Talvez fosse aquela segurança excessiva dele que despertasse nela. esses laivos de perversidade. Mas nem precisava se preocupar, Bothwell não tinha se abalado.

– Pena as pessoas terem se esquecido de que o corpo é para ser usado e não abusado. Eu acho que cobertores elétricos destroem a capacidade natural do corpo de esquentar a si mesmo.

– Tem razão – respondeu Melanie, levantando a cabeça. – Mas nem todos têm a sua força de vontade, talvez. Eu sempre me rendo ao conforto.

– É assunto seu, claro. Mas, se é assim, seria de se esperar que viesse visitar a Escócia numa época do ano mais agradável que neste inverno forte.

– Estou bastante preparada para enfrentar as condições – respondeu Melanie, perturbada com aquela insolência que conseguia vencer seu controle.

– É mesmo? – Ele tirou um cigarro do maço e colocou entre os lábios, completando antes de acender: – Isso é muito bom, srta. Stewart, porque parece que vai ter de contar com a nossa hospitalidade por mais tempo do que estava pretendendo.

– Porquê?

– As condições de tempo nesta área são imprevisíveis – disse ele, olhando a chama do cigarro. – Se não partir já, talvez não possa mais partir.

– Não posso ir embora antes de... – respondeu, inquieta, tentando controlar-se. – Haveria um jeito de pegar o meu carro?

– Duvido – disse ele com um meio sorriso.

– Entendo. – Melanie suspirou, tentando reprimir o pânico que sentia ao ver que ia ficar ali como uma espécie de prisioneira. – Bom, então vou ter de achar um jeito de aproveitar minha estada, não é?

– Minha cara srta. Stewart, se quer aproveitar, quem sou eu para reclamar?

– Eu não gostaria de incomodá-lo – declarou, irritada pela

indiferença dele.

– Isso não vai acontecer, srta. Stewart, pode ficar sossegada. Já estou acostumado às esquisitices do seu sexo. Se acha divertido dirigir algumas centenas de quilômetros para ficar trancada num hotel, no meio das montanhas, com este tempo, issoé inteiramente problema seu.

– É isso mesmo – disse ela, sentindo o sangue afluir ainda mais ao rosto e pescoço.

– Então esperarei a revelação do mistério – observou ele, sorrindo da agitação dela. – Até então, com licença.

– Sr. Bothwell! – Melanie chamou, quando ele já se virava para sair.

– Sim? – disse com uma expressão cínica.

– Talvez possa me dizer quando é que vou poder tomar um banho quente – disse, endireitando os ombros,

– Ah, claro, srta. Stewart – disse Bothwell, levantando as sobrancelhas. – Minhas desculpas. O aquecedor quebrou ontem à noite. Mas já está funcionando, e se quiser tomar um banho depois do café da manhã...

– Muito obrigada – respondeu ela ao cínico gesto de falsa gentileza

que ele lhe fazia.

– Suponho que sua valente declaração de estar preparada para enfrentar as condições não inclui banhos frios, não é?

Ele não esperou resposta. Virou-se e saiu da sala. Melanie ainda estava em pé diante da lareira, mordendo o lábio, irritada e deprimida, quando a porta se abriu e as duas velhotas entraram. Olharam para ela, curiosas, e Melanie resolveu que devia tomar a iniciativa de fazer contato.

– Bom dia. Que tempo horrível, não? – disse, sorrindo.

– Já estamos acostumadas. A gente mora aqui, sabe?

– Ah, é mesmo?

– É, sim – respondeu a outra mulher. – Minha irmã e eu nos aposentamos há muitos anos. Como a gente sempre vinha passar férias nesta parte da Caledônia, achamos que ia ser agradável mudar para cá agora que somos livres.

– Entendo – disse Melanie. – Mas acho que deve ser mais agradável quando é um pouquinho mais quente, não?

– Ah, a gente gosta de tudo, sabe? – disse uma delas, depois de trocar um olhar com a irmã. – Os invernos aqui são como os invernos de antigamente. Muita neve, lareiras de lenha, castanhas assadas...

– ...e as frutas de inverno – completou a outra. – Vai ficar para o Natal, srta. ... srta. ...

– Stewart. Melanie Stewart.

– Nós somos Sullivan – disse uma delas, depois de terem trocado olhares de novo. – Jane e Elizabeth Sullivan.

– Como vai? – disse Melanie, apertando a mão de uma e depois da outra, ao perceber que era esse tipo de comportamento que esperavam dela. – Sabe, eu não pretendo ficar até o Natal. Tenho de voltar a Londres em menos de uma semana. Eu trabalho lá.

– Em que é que trabalha, srta. Stewart? – perguntou Elizabeth Sullivan.

– Desenho ilustrações para livros infantis.

– É mesmo? – perguntaram em coro as irmãs. – Que interessante!

– E, bastante. Eu gosto muito. Mas o que eu quero mesmo é escrever as histórias também. Além de ilustrar, claro.

– Claro – disseram as duas, juntas.

– E por que é que veio a Cairnside, srta. Stewart? – perguntou Jane Sullivan – Está pesquisando para algum livro?

Melanie suspirou. Por que é que perguntavam tanto por ali? Seria apenas uma maneira de demonstrar simpatia? Fosse o que fosse, não precisava responder, nem protestar, como tinha feito com Bothwell.

– Vim para ver uma casa que fica perto daqui. Monkshood – disse Melanie, afinal, achando que não podia ignorar a pergunta.

– Monkshood! – exclamaram as duas, juntas, voltando-se uma para a outra.

– Não é aquela casa que pertencia ao falecido Angus Cairney? – perguntou Elizabeth, intrigada.

– É. É essa mesma – respondeu Melanie, os olhos brilhando. – Conhecem?

– Já ouvi falar. – Elizabeth deu de ombros e voltou-se para a irmã. – Você também conhece a casa, não conhece, Jane?

– Ah, é aquele casarão horrível perto da aldeia, não é? – disse Jane, mexendo na bolsa.

– Claro! – respondeu Elizabeth, voltando-se então para Melanie. –

Mas por que é que está interessada naquela monstruosidade? Não está pensando em comprar aquela casa velha, está?

– Não – respondeu ela, sincera, esquentando as mãos na chama da lareira. – Não estou pensando em comprar, não. Só quero dar uma olhada.

– E veio de Londres até aqui só para dar uma olhada em Monkshood?! – exclamou Elizabeth, alarmada. – No pior do inverno!

– É – disse Melanie com firmeza, tentando acabar com aquele bate-papo tolo. – Talvez possam me dizer como chegar até lá.

Mas bem nesse momento a porta tornou a se abrir e o velho Alaister entrou. As velhotas sorriram desejando bom-dia e ocuparam uma mesa para dois.

Melanie suspirou e foi até a sua mesa, que já estava arrumada. Ia ter de esperar. Mas não tinha pressa. A neve ainda caía pesada e parecia que ia continuar assim para sempre.

Comeu devagar, para encher o tempo. Quando terminou os outros já haviam se retirado e ela resolveu dar uma olhada pelo hotel.

Além da saleta de recepção e da sala de jantar, havia uma de estar equipada com televisão, que parecia deslocada naquele lugar. Havia o bar com o balcão e mais uma saleta e outras portas fechadas com etiquetas de "Particular" e que deviam provavelmente ser usadas pelo proprietário e sua família.

A garota loira estava de novo atrás do balcão quando ela passou pelo hall em direção a seu quarto.

– Já telefonou para a oficina em Rossmore? – Melanie perguntou, chegando impulsivamente ao balcão.

– Não, senhorita – respondeu –, mas acho que não ia adiantar muito com esse tempo. É uma oficina pequena, entende? Não estão muito bem equipados.

– Mas deve haver alguém aqui na região que possa rebocar o meu carro, não? – perguntou Melanie, um tanto alarmada.

– Nesta época do ano eles estão sempre muito ocupados com os casos de emergência. E não se pode dizer que rebocar o seu carro até Cairnside seja uma emergência, não é?

– É, é verdade – concordou Melanie, mordendo o lábio.

A moça sorria para ela, simpática, mas Melanie não estava a fim de conversa e voltou-se abruptamente para ir para o quarto.

– Posso chamar a oficina de Newtoncross, se quiser – disse a moça, atenciosa.

– É perto daqui? – perguntou Melanie, parando.

– Não muito. Mas é a cidade mais próxima e talvez lá haja alguém que possa ajudá-la.

– Então está bom. Agradeço a sua gentileza. – Voltou-se e subiu para o quarto.

Com o aquecimento funcionando de novo, o quarto estava quentinho e agradável. A cama já estava arrumada e Melanie puxou a cadeira de vime para perto da janela. Sentou-se e ficou olhando pela janela, um tanto resignada. Se Michael soubesse que o tempo estava tão incerto, ia exigir que ela voltasse imediatamente a Londres. Mas, mesmo que quisesse, não poderia voltar agora. Seu carro estava abandonado no meio da estrada até que surgisse alguém para arrancá-lo da neve. Além disso, Cairnside não era nada do que tinha esperado.

Ainda em Londres tudo tinha parecido tão simples. Tão, tão simples! Ela dirigiria até aquele hotel que os advogados tinham mencionado, e daria uma primeira olhada em Monkshood. Mas em Londres o tempo estava bom. Um pouco chuvoso e frio, mas nada como aquilo. Ninguém tinha ihe dito nada sobre os extremos de temperatura daquele lugar. Não podia durar muito mais. Havia de parar de cair neve.

Era bobagem voltar para Londres sem ver a casa. Sabia que Michael faria tudo para consolá-la, mas no fundo ele ia ficar satisfeitíssimo por provar mais uma vez que ela não era capaz de fazer nada sozinha. Talvez fosse pelo fato de Melanie não ter mais pais que ele se sentisse tão protetor com ela. Mas era um pouco demais às vezes, e por isso tinha resolvido enfrentar aquela aventura, mesmo contra o sarcasmo e a ironia de Bothwell e as deploráveis condições do tempo.

Levantou-se e andou inquieta pelo quarto. O que será que as pessoas faziam ali quando o tempo estava assim tão ruim? Era impossível ficar trancada no quarto o dia inteiro.

Parou à janela de novo. Dava para a frente do hotel. Lá fora, ocupado em remover a neve da entrada, estava o funcionário que lhe havia indicado a cabine telefônica no dia anterior. Talvez desse para dar uma volta. Se se agasalhasse bem e não saísse da estrada principal, não havia perigo nenhum em dar um passeio. Talvez pudesse até chegar à aldeia e perguntar onde era Monkshood. Seria ótimo, porque evitaria a curiosidade do pessoal do hotel.

Decisão tomada, sentiu-se imediatamente mais animada. Abriu a mala depressa. Felizmente tinha se lembrado de trazer as galochas.

Minutos depois, com seu casaco de pele de carneiro, gorro enfiado até as orelhas, luvas e galochas altas protegendo pés e pernas, ela desceu a escada do hotel. Não havia ninguém na recepção. Só um cachorro collie que parecia mais interessado no osso que roía com gosto. Melanie saiu.

A porta estava dura de abrir, mas ela conseguiu, emergindo para um inundo branco e tão frio que mal se podia respirar. Lá de dentro de seu quarto toda aquela brancura tinha parecido convidativa, mas, agora que estava ali, Melanie hesitou. Olhou em torno enquanto os flocos de neve grudavam em seus cílios longos, invadindo sua boca e narinas, mas não havia ninguém com quem passar o tempo. Mesmo o funcionário que tinha visto limpando a entrada já tinha desaparecido.

Melanie suspirou. Enfiou as mãos nos bolsos, batendo os pés no chão, sem saber o que fazer. Sabia para que lado ficava a aldeia, mas não seria arriscado tentar caminhar até lã?

Olhou para o hotel. Assim coberto de neve nas bordas do telhado parecia tão acolhedor e confortável que Melanie sentiu-se tentada a desistir da caminhada. Mas ficar ali o dia inteiro, sem nada para fazer, perdendo tempo, era demais para ela. Começou a caminhar, decidida.

Não era tão ruim, afinal de contas. A neve sobre o chão estava fofa em vez de escorregadia e dava para andar bem depressa para não sentir frio. Apesar de tudo estar branco, dava para perceber bem claramente os contornos do caminho. Além disso, as marcas de pneu de algum carro que tinha passado eram uma trilha segura. Sentiu-se animada. Era melhor que ficar no hotel, sentada diante da lareira, ouvindo o clique-claque das agulhas de tricô das irmãs Sullivan. Maldade minha, pensou, nem sei se elas fazem tricô ou não.

Ao virar a curva da estrada deparou com um grande portão coberto de neve. Parou para olhar a casa que havia ao fim da entrada ladeada de árvores. Parecia tudo meio abandonado, mesmo com a brancura da neve.

Evidentemente, a casa estava vazia. Dava de fundos para a encosta da montanha, como o hotel. Não devia estar longe da aldeia e, segundo Jane Sullivan, Monkshood ficava perto da aldeia. Seria aquela?

Sem parar para pensar, empurrou o portão e entrou. Caminhou pela entrada até a casa. As chaves que os advogados tinham lhe dado em Fort William estavam em sua bolsa no hotel. Portanto, não poderia entrar, mas não resistiu à tentação de dar uma olhada e quem sabe espiar através de alguma janela aberta.

Jane Sullivan tinha razão. Era um lugar velho e feio. Nem mesmo a neve acumulada nos batentes suavizava as janelas quadradas. As trepadeiras secas que subiam pelas paredes pioravam ainda mais aquele ar de abandono.

Verificou, desapontada, que as janelas da frente estavam todas fechadas com venezianas. Deu a volta pelo jardim descuidado.

Atônita, descobriu pegadas na neve. Pegadas enormes que cruzavam e descruzavam diante da porta traseira. Algumas das marcas pareciam ter sido feitas no dia anterior, pois já estavam quase cobertas de neve. Mas havia outras, evidentemente recentes.

Franziu a testa, intrigada. Podia estar errada. Aquela casa podia não ser Monkshood, e nesse caso estava invadindo propriedade alheia.

Sacudiu a cabeça, confusa. Cairnside era uma área tão pouco habitada que parecia impossível existirem duas casas tão grandes com as mesmas características, ambas em evidente estado de abandono. Os advogados já a tinham prevenido de que a casa estava abandonada e malcuidada. Mas tinham dito também que era sólida e por isso tinha resolvido vir olhar de perto.

O silêncio era pesado em torno da grande construção. Nem a neve fazia barulho ao cair e ela começou a sentir-se inquieta. E se estivesse certa? Se aquilo fosse realmente Monkshood e alguém estivesse dormindo lá dentro? Afinal, não havia pegadas na entrada e na frente da casa. Quem quer que fosse a pessoa, era evidente que queria permanecer no anonimato.

Sentiu um arrepio percorrê-la. Agora havia pegadas na parte da frente. As suas próprias pegadas. Alguém que olhasse do andar de cima da casa poderia vê-las claramente. Sentiu um impulso desesperado de correr dali, mas, ao pensar no sorriso de Michael dizendo que ela não ia conseguir fazer nada sozinha, controlou as emoções. Estava sendo melodramática, deixando o silêncio perturbá-la. Afinal de contas, aquela casa era dela, e se havia alguém lá dentro era melhor que saísse logo.

Ganhando coragem, experimentou a maçaneta da porta. Para sua surpresa ela cedeu e Melanie abriu a porta, sem poder acreditar naquilo.

Viu uma cozinha, triste e fria. Havia um fogão dum tipo que nunca tinha visto antes, e que devia servir também como aquecedor para a água da casa, uma mesa um pouco embolorada pela umidade e várias cadeiras simples, de madeira.

Hesitou no batente, ouvindo atenta, mas não distinguiu nenhum ruído. Se havia alguém usando a casa, não devia estar ali no momento. Entrou. Mas deixou a porta aberta por precaução.

Reagiu à tendência de andar nas pontas dos pés. Cruzou com firmeza a cozinha e abriu a porta do outro extremo. Dava para um corredor que, apesar de meio escuro, tinha luz suficiente para Melanie ver que atravessava toda a casa até a porta da frente. Tinha várias portas e lá no fim uma escada que subia.

Sentiu-se um pouco mais segura. Não havia sinais de ninguém estar morando ali. Abriu uma porta.

Ali parecia ser a sala de jantar. Havia uma mesa, coberta por uma grossa camada de poeira, muitas cadeiras e uma cristaleira antiga, cheia de pratos e xícaras.

Uma outra porta levava a uma espécie de estúdio, com prateleiras de livros nas paredes e uma grande mesa que serviria perfeitamente para seu trabalho de ilustração.

Entrou depois no que devia ser a sala de estar, com um conjunto de sofá e duas poltronas, além de várias outras cadeiras e poltronas avulsas.

Se o andar de cima seguisse a mesma linha, a casa parecia ter sido mobiliada com muita unidade de gosto. Melanie achou que uma boa limpeza havia de melhorar tudo aquilo. Sentiu-se animada. Se ficasse detida ali em Cairnside por algum tempo mais, podia cuidar disso ela mesma.

Estava tão excitada com esses pensamentos que não ouviu os passos que desciam as escadas cobertas de tapete e chegaram até a porta da sala.

Melanie quase teve um colapso ao ouvir uma voz grave soar de repente às suas costas.

– Que diabo está fazendo aqui?

Voltou-se, ainda não recuperada do choque. Era Sean Bothwelt, que a encarava tão surpreso quanto ela, mas bem menos assustado.

– Você! – exclamou, perplexa. – Então aquelas pegadas eram suas?!

– Eram, sim – respondeu, carrancudo. – Mas você ainda não me respondeu. O que pensa que está fazendo aqui?

– Eu podia lhe fazer a mesma pergunta – disse, ligeiramente trêmula diante da força daquele olhar.

– Eu perguntei primeiro – insistiu, rude, apertando os olhos.

– Muito bem – respondeu Melanie, engolindo em seco. – Esta casa me pertence, isto é Monkshood, não é?

– É, srta. Stewart. Isto aqui é Monkshood, sim. Mas ela não pertence a você. Pertence a mim!

 

Melanie ficou completamente sem fala por um momento, olhando indefesa para Bothwell, como se ele fosse algum fantasma maligno.

– Deve estar havendo algum engano, sr. Bothwell – conseguiu dizer depois de reunir todas as suas forças. – Angus Cairney era meu tio-avô. Minha mãe era a única parente que ele tinha e, como ela já morreu, Monkshood foi deixada para mim.

Os olhos cinzentos de Bothwell se sombrearam com os longos cílios negros, que eram o único traço mais delicado naquele rosto rudemente másculo. As costeletas muito longas tornavam-no ainda mais sombrio, acentuando seu ar impositivo. Se usasse roupas diferentes caberia perfeitamente em outro momento histórico, mais primitivo. Mas, mesmo vestido como estava, Melanie teve a exata sensação de que, mesmo nos dias de hoje, ele era ainda daqueles que fazem suas próprias leis.

– Entendo – disse ele. – E quem foi que disse que Monkshood pertencia a você?

– Ora.... os advogados, é claro.

– Que advogados? – exigiu ele, duro.

– McDougall e Price.

– Ah! – fez Bothwell, passando a mão no rosto. – Eles entraram em contato com você em Londres?

– Sim, são os meus advogados.

Melanie de repente se empertigou. Percebeu que ele estava aproveitando o susto dela para tirar todas as informações que podia.

– Talvez agora possa me dizer por que achou que Monkshood era propriedade sua – exigiu ela, endireitando ainda mais os ombros.

Bothwell voltou para ela os olhos cinzentos, forçando-a a mover-se, incômoda. Ela não ia permitir que Sean Bothwell a intimidasse, mas na verdade ele a perturbava como nenhum outro homem havia conseguido até então. Era a atitude imprevisível dele que conseguia esse efeito. Era muito desconcertante não saber nunca o que ele ia fazer ou dizer em seguida. Melanie tinha sempre achado fácil lidar com os homens, mas Bothwell era diferente, por alguma razão.

– Angus Cairney era meu pai – disse ele apertando os olhos enquanto a encarava intensamente.

– O quê? – Melanie sentiu as pernas fraquejarem. Sacudiu a cabeça, confusa. – Mas... mas os advogados! Eles nem sabiam que Angus fosse casado!

– Ele não era mesmo – disse Bothwell olhando-a, provocador. Melanie sentiu o sangue colorir suas faces violentamente. Torcia as

mãos, nervosa. Tinha certeza de que ele devia estar se divertindo com a perturbação dela. Apertou os lábios, tentando encontrar algo para dizer, mas a afirmação dele era irrefutável.

Parecendo abrandar um pouco, Bothwell desviou dela os olhos, passeando-os pela sala. Acendeu um cigarro e caminhou até a janela. Estavam fechadas por venezianas, mas era possível ver o exterior através das barrinhas de madeira. Ele ficou de costas um tempo, olhando para fora, e Melanie sentiu-se aliviada por ter aquele momento para se recompor. Mas, mais cedo ou mais tarde, ia encará-la de novo e teriam de continuar a conversa.

Quando ele pousou de novo os olhos nela, Melanie sentiu uma horrível sensação de inadequação. Pela primeira vez lamentou não ter esperado Michael para vir com ela. Essa situação nunca teria ocorrido se ele estivesse junto. Ele teria insistido em tomar todas as informações primeiro, para depois fazer uma visita oficial ao lugar. Não teria nunca compactuado com aquela invasão impulsiva de uma propriedade particular.

– E então? – disse Bothwell num gesto largo. – O que pretende fazer com isto?

– Eu... eu... Oh, não sei – disse, apertando os lábios para que não tremessem. – Acho... quer dizer... sinto que não tenho mais nenhum direito sobre este lugar...

– Ora, vamos, srta. Stewart – disse ele, apertando os olhos frios. – Poupe-me as formalidades. Estou bastante consciente de que abalei o seu coraçãozinho, mas não deixe que isso perturbe sua cabeça. Certamente McDougall e Price hão de concordar comigo, nisso pelo menos.

– Seu... seu pai fez um testamento...

– É, eu sabia. Mas imagino que deve ter sido feito há muito tempo.

– Sim – disse Melanie. desviando os olhos, incapaz de sustentar o olhar dele. – Talvez tenha feito outro depois...

– Deve ter esquecido que fez o primeiro – disse Bothwell, encolhendo os ombros largos. – Ele já era velho. Não dava muita importância a esses assuntos.

– Mamãe só falou nele algumas poucas vezes. Nunca o conheci.

– Ela devia ser a única parente do velho. Ele nunca se casou.

– Mas sua mãe... – Melanie controlou-se imediatamente.

– Minha mãe já era casada. Com outro – explicou ele, rude. – Mas não acho que deva se preocupar com os detalhes do meu nascimento.

– Estou me sentindo tão mal...

– Por quê? – perguntou ele friamente. – Não podemos ser responsabilizados pelos atos dos outros. Vou deixá-la agora para examinar a sua propriedade. Só uma coisa, porém: quando resolver vender a casa, eu sou o primeiro pretendente.

– Oh, por favor... – Melanie voltou-se para ele, juntando as mãos num gesto que parecia de súplica. – Por favor, não vá. Eu... Bem, gostaria que ficasse.

– Por quê?

– Afinal... afinal somos quase parentes, não é? – perguntou, tirando o gorro de pele e deixando os cabelos caírem como uma cortina clara e brilhante em tomo de sua face corada. – Acho que podíamos ser amigos. Eu gostaria de seu conselho.

– Você não me parece o tipo de mulher que aceita conselhos de ninguém – disse ele, encostando-se indolente e elegante no batente da porta.

– Por que pensa assim? – perguntou, dominando a indignação.

– Deve haver alguém em Londres que a aconselhou a não vir para Cairnside nesta época do ano. Você usa anel de noivado. Será que seu noivo não se preocupa com você ou essa jóia é um mero adorno, usado apenas para causar curiosidade?

Melanie olhou para o diamante quadrado que Michael tinha lhe dado de presente. Estava tão acostumada a usá-lo que nunca pensou que alguém fosse notar.

– Sou noiva, sim – disse devagar. – Meu noivo realmente sugeriu que eu esperasse até a primavera para vir. Mas acho que dá para entender que fiquei preocupada em deixar a casa vazia durante todo o inverno.

– Podia ter contratado alguém para cuidar dela. Os advogados podiam cuidar disso.

– Não pensei nisso.

– Por que, exatamente, queria vir pessoalmente? – perguntou Bothwell, cruzando os braços.

– Minhas razões não pareceriam razoáveis à sua maneira fria de enxergar as coisas – respondeu, impaciente.

– Vamos tentar!

– Queria ver a casa porque nunca tive uma casa própria antes. Nem mesmo morei, nunca, numa casa, em toda a minha vida. Sempre vivi em apartamentos e estava pensando, talvez, em vir morar aqui. O que é uma grande bobagem.

– Entendo – disse Bothwell, tragando o cigarro. – E seu noivo? Ele concorda em mudar para cá?

– Eu... ainda não falamos sobre isso – disse Melanie com um gesto quase involuntário. – Ele também é advogado, em Londres.

– Pois devia falar com ele – observou secamente.

– Acha que estou sendo boba? – disse, corando ainda mais.

– Por quê? Por conversar com seu noivo?

– Não. Sabe o que quero dizer. Por pensar em ficar com a casa,

– Se eu concordar, você vai achar que tenho interesses pessoais, não é? – disse ele, atirando o toco do cigarro na lareira vazia.

– Dadas as circunstâncias, acho que devia me dizer o que pensa.

– Porquê?

– Na verdade, a casa é muito mais sua que minha.

– Ah, não, srta. Stewart. A casa é sua.

– Você está fazendo questão de não me entender – disse Melanie, fixando nele os olhos. – Para que queria a casa?

– Para morar nela. Para que mais?

– Se eu fosse um homem, podíamos talvez chegar a alguma espécie de acordo...

– Se você fosse um homem, esta situação não teria acontecido. Você simplesmente venderia a casa e não inventaria essa bobageira sentimental de ter um lar e etc. ...

– Como ousa dizer isso! Se eu resolver me mudar de Londres, isso é assunto só meu.

– Se quer tanto sair de Londres, talvez deva examinar melhor os motivos que a levam a isso. – Os olhos cinzentos brilhavam frios e provocantes. – Talvez a razão não seja Londres.

– O que quer dizer?

– Sinto muito, srta. Stewart – disse ele, voltando-se em direção à porta –, mas não tenho (empo para ficar aqui discutindo a manhã inteira. Algumas pessoas têm de trabalhar, sabia? Com licença.

Melanie ficou olhando enquanto ele avançava pelo corredor. Sentia o corpo tremendo e a respiração entrecortada. Sempre que se defrontava com aquele homem ficava nervosa depois.

Depois de alguns minutos conseguiu retomar o controle de si mesma e olhou em torno outra vez. Era bobagem deixar-se influenciar pela amargura dele. Além disso, não tinha certeza se queria ou não ficar com a casa. Michael teria de concordar e ela não conseguia vê-lo sujeito àquele tipo de clima.

Para ela o lugar parecia perfeito. Havia muita liberdade e muita vida animal por ali e seria ideal para escrever os livros infantis com que sonhava.

Continuou sua exploração, descobrindo que o andar superior era muito parecido com o de baixo. A casa eslava inteiramente mobiliada, mas se resolvesse morar ali ia ter de fazer muitas modificações. Parou um momento para pensar por que é que Bothwell estava dentro da casa. Sacudiu a cabeça: afinal, ele tinha presumido que a casa era dele, portanto podia estar ali quando quisesse.

Era meio-dia e meia quando saiu de Monkshood para ir almoçar no hotel. Nevava ainda pesadamente. Surpresa, tinha encontrado um molho de chaves sobre a mesa da cozinha. Eram sem dúvida as chaves de Bothwell. Mas teria preferido que ele tivesse ficado com elas. Parecia tão definitivo entregá-las assim. Não conseguia evitar a sensação de culpa que a invadia naquele momento.

Caminhando sobre a neve macia, surpreendeu-se ao ver um carro esporte ultra-modemo parado em frente ao hotel, todo sujo de lama gelada. Parecia tão inadequado ao lado do enorme jipe! De quem seria? Talvez de algum outro hóspede.

O almoço era servido à uma, portanto teria tempo de ir até seu quarto para lavar o rosto e trocar de roupa. Não havia ninguém na recepção, mas ouviu vozes vindas do bar. Devia ser o dono do carro, tomando um drinque.

Quando tomou a descer foi diretamente para a sala de jantar e encontrou as irmãs Sullivan conversando com o outro senhor, perto do fogo. Elas a cumprimentaram muito sorridentes e apresentaram-na ao outro hóspede. O nome dele era Ian Macdonald e perguntou logo onde é que ela tinha ido para estar tão corada.

– Fui visitar Monkshood – disse, sorrindo para Jane. – A senhora disse que ficava perto da aldeia e consegui achá-la com facilidade.

– Ah, é? – Jane Sullivan disse, levantando as sobrancelhas em pretensa indiferença.

– Monkshood – ponderou Macdonald. – Por que uma moça como você estaria interessada num lugar velho daqueles? Foi posta à venda, afinal? Sean não falou que ia vender!

Melanie percebeu o olhar significativo que Elizabeth lançou para o homem, mas ele não se importou.

– Ora, Elizabeth – protestou – todo mundo sabe que Sean é o dono de Monkshood. Pois não foi só isso que ele herdou do velho Angus. Ele é esperto demais.

Melanie abaixou a cabeça. Diante de tudo aquilo não podia revelar que Monkshood era dela. Ficou aliviada quando viu a criada entrar com as primeiras bandejas de almoço, e todo mundo se acomodou, cada um em sua mesa. Alaister sentou-se com Ian Macdonald e as irmãs Sullivan falavam sem parar. Melanie ficou contente por não ter de dizer mais nada.

A comida estava ótima. Uma sopa grossa seguida de um filé apetitoso, com torta de rins. A sobremesa era uma torta de maçã com creme. O menu podia não ser muito inspirado, mas era muito bem preparado c saboroso. Se continuasse comendo assim, ia acabar engordando.

Depois do almoço os outros hóspedes foram para seus quartos, mas Melanie sentou-se diante do fogo com sua segunda xícara de café.

Agora que já tinha visto a casa e feito sua própria avaliação, nada mais a detinha em Cairnside. Podia retornar a Londres como tinha planejado. Era boa a sugestão de Bothwell. Podia arrumar alguém para cuidar do prédio. O único problema que restava era apanhar seu carro, ainda na estrada. Claro que podia ir de trem e mandar buscar o carro depois, quando o tempo estivesse melhor, mas não queria isso, sem saber bem por quê. Talvez dentro de uns dois dias conseguisse encontrar alguma oficina que pudesse desencalhar o carro e, enquanto isso, podia se divertir tirando medidas para cortinas, tapetes, essas coisas.

Suspirou, olhando a neve que caía ainda pesadamente nas. janelas da sala de jantar. Se Michael soubesse de tudo ia exigir que ela voltasse imediatamente, mas ela não tinha nenhuma pressa. A não ser por suas discussões com Bothwell, estava se divertindo ali, e a neve, apesar de tudo, era uma novidade. Só voltaria a Londres quando se sentisse absolutamente pronta para isso.

De repente ouviu ruído de vozes e a porta se abriu. Bothwell entrou, acompanhado de uma moça que Melanie nunca tinha visto antes. Era tão alta quanto Melanie, mas mais magra. A tal ponto que o rosto era quase encovado. Os cabelos eram quase brancos de tão loiros e acentuavam ainda mais a palidez de sua pele. Apesar de não ser feia, suas roupas eram tão deselegantes que ela chamava atenção. Estava dependurada no braço de Bothwell, olhando-o com um ar de adoração.

Melanie sentiu de repente que não devia estar ali testemunhando a cena. E Bothwell a fez sentir ainda mais inadequada quando pousou nela os olhos frios. Melanie pensou em se levantar e sair, mas isso chamaria a atenção deles para ela. Em vez disso, encolheu mais as pernas e voltou o rosto para os troncos que queimavam perfumados na lareira.

Bothwell soltou-se da menina e pegou-a pela mão, arrastando-a até onde Melanie estava.

– Jennie, quero apresentá-la a uma nova hóspede do Black Bull. A srta. Stewart.

Melanie viu-se forçada a voltar-se e encará-los, pondo-se de pé, consciente do olhar com que Sean a examinava dos pés à cabeça.

– Como vai? – disse a moça, apertando calorosamente a mão de Melanie. – Meu nome é Jennifer Craig.

Melanie apenas sorriu.

– Eu moro perto daqui, depois da aldeia, às margens do lago – prosseguiu a moça. – Vai ficar muito tempo?

– Não. Creio que não – respondeu Melanie, surpresa com a franqueza da menina. – A menos que o tempo me prenda aqui.

– É. Está ruim mesmo, não é? – Jennifer riu. – Eu estava dizendo para Sean que a gente devia fazer uma festa sobre patins, se o lago congelar. Mas, sabe, a gente já está acostumado com esse tempo. Não é, Sean?

– É. É verdade – confirmou Bothwell, olhando para Jennifer com uma expressão tão doce que Melanie sentiu um aperto na garganta.

Ele nunca olharia para mim com tamanha ternura, pensou. E imediatamente tomou consciência do que tinha pensado, sentindo-se incômoda.

– Está de férias, srta. Stewart?

– Não exatamente... – Melanie disfarçou.

– A srta. Stewart veio para ver Monkshood – disse Bothweil, pousando novamente os olhos frios em Melanie.

– Monkshood? – perguntou Jennifer, surpresa. – Está interessada em casas antigas, é?

Mas antes que Melanie pudesse responder, Bothwell tomou a iniciativa.

– A srta. Stewart é a nova proprietária de Monkshood – informou ele, frio e cortante.

– Quer dizer... quer dizer que Angus, afinal de contas, tinha parentes? – perguntou Jennifer.

__ Um – acrescentou ele, sem nenhuma expressão.

– Oh, Sean! –exclamou Jennifer, olhando-o preocupada.

– Não fique tão abalada, Jennie – ordenou Bothwell, passando o braço pelos ombros magros da mocinha. – A srta. Stewart ainda pode resolver me vender a casa.

Jennifer suspirou e voltou-se para Melanie.

– Oh, faria isso, srta. Stewart? Nós... quer dizer, Sean queria tanto aquela casa.

– Eu... ainda não decidi o que vou fazer com a casa – disse Melanie, sincera, apertando as mãos juntas.

– O sr. Cairney sempre dizia que a casa ia ser de Sean um dia – contou Jennifer, emocionada.

– A srta. Stewart não está interessada nas razões por que queremos a casa – interrompeu ele rudemente. E, voltando-se para Melanie, concluiu; – Acho que vai partir logo, agora que já viu a casa, não?

– Também não resolvi isso ainda – exclamou, surpresa com a expressão do rosto dele.

– Pois devia resolver logo – disse ele, duro. – O tempo está piorando e a previsão não é nada boa.

– Você deve ter esquecido que o meu carro ainda está lá na estrada –

respondeu, irritada.

– Não, não está – disse Bothwell, pegando um cigarro. – A oficina de Rossmore localizou o carro hoje de manhã. Deve estar sendo rebocado para cá agora.

– Mas... mas a moça do balcão disse que eles não iam poder... – Melanie estava desapontada.

– Falei com o gerente – explicou ele com um olhar pesado – e disse que você queria partir logo por causa do estado das estradas.

– Não me lembro de ter-lhe comunicado quanto tempo eu pretendia ficar aqui – disse, sentindo vontade de bater o pé no chão de tanta raiva. – Acho que devo lhe agradecer por ter cuidado do carro, mas ainda não sei quando é que vou partir.

Jennifer assistia à discussão com um ar muito preocupado. Melanie caminhou para a porta. Não tinha por que ficar discutindo algo que dizia respeito exclusivamente a si mesma.

Mas Bothwell chegou à porta antes, apoiando a mão na madeira escura, impedindo-a de sair.

– Se está preocupada com o estado da casa durante a sua ausência, não precisa ficar – aconselhou-a friamente. – Cuidei do lugar durante estes três meses, desde que Angus morreu, e posso continuar cuidando até que você resolva o que vai fazer.

– Obrigada, sr. Bothwell, mas há algumas coisas que quero fazer pessoalmente antes de partir.

– O quê, por exemplo?

– Não acho que tenha de lhe dar satisfações, mas, se quer saber, pretendo fazer uma limpeza na casa! – Não era verdade, mas Melanie não estava disposta a permitir que ele a mandasse embora de Cairnside a seu bel-prazer.

– Mas, srta. Stewart – interrompeu Jennifer. – Não pode fazer isso sozinha. A casa precisa de uma faxina completa. Está imunda!

– Isso não me assusta – disse Melanie, conseguindo sorrir. – Não fujo de trabalho pesado, srta. Craig. Na verdade, vou até achar divertido. Agora, se me dão licença...

Lançou um olhar provocante a Bothwell. Ele tirou a mão da porta, mas um lampejo brilhou em seus olhos diante da recusa de Melanie. Ela sorriu mais uma vez para Jennifer, saiu e fechou a porta.

Só quando estava subindo as escadas foi que percebeu quanto tremia. Entrou no quarto, mas não foi capaz de sentar-se. Caminhou de um lado para o outro. Por que é que Bothwell queria tanto que ela fosse embora logo? Que mal podia lhe fazer se ficasse ali? É claro que sentia por ele ter perdido a casa que dava como certa, mas ele não acreditaria nunca em seus sentimentos. E Melanie nada podia fazer contra aquele frio ressentimento dele. Era evidentemente um homem orgulhoso e arrogante, que não aceitaria nada de alguém como ela.

Desde o começo a atitude dele tinha sido de impaciência não disfarçada e deixava sempre claro que considerava-a irresponsável por não seguir os seus conselhos. Mas na verdade nunca tinha dado conselhos. Tinha dado ordens e era por isso que ela reagia tão violentamente contra ele. Bothwell não tinha nenhum direito de dizer a ela o que devia ou não fazer. E não tinha também o direito de considerá-la tola e sentimental só porque tinha confiado a ele quanto desejava uma casa própria.

Caminhou até a janela. A melhor coisa a fazer seria retornar a Londres imediatamente, como ele havia dito. Agora que já tinha garantido que a casa ia ser bem cuidada, podia deixar seus planos para a primavera, quando seria bem mais fácil convencer Michael de que a casa era linda. Além disso, ele poderia vir com ela da próxima vez. Seria muito animador.

Olhou em volta, examinando o quarto. Um enorme ressentimento crescia dentro dela. Não queria partir. Queria ficar e limpar a casa, exatamente como tinha inventado há pouco lá embaixo. Queria abrir as janelas para arejar as salas, queria ver fumaça saindo das chaminés e tudo limpo, brilhando.

Sua cabeça funcionava a todo vapor. O editor esperava que voltasse até o fim da semana, mas os rascunhos das ilustrações já estavam quase prontos e podiam esperar mais um ou dois dias. Considerando o número de quartos da casa, uma semana havia de ser suficiente para uma faxina completa. Conseguiria aplacar Michael por esse tempo. Além disso, ele estava muito ocupado e não ia sentir muito a falta dela.

Enfiou as mãos nos bolsos da calça. Sentia-se a cada momento mais animada com aqueles planos. Queria começar agora mesmo.

Desceu, decidida, e tocou a campainha da recepção. A moça loira surgiu da porta e sorriu ao ver que era Melanie.

– Quer a sua conta? – perguntou, já procurando entre os papéis do balcão.

– Não – respondeu com firmeza. – Quero apenas comunicar que vou ficar mais uma semana.

– Uma semana, srta. Stewart? – perguntou a moça. surpresa. – Mas seu carro acaba de ser trazido. Está aí fora. Sean tinha dito que a senhora ia embora amanhã de manhã.

– Acho que o sr. Bothwell se enganou – disse claramente, comprimindo os lábios, controlando a raiva. – Resolvi ficar.

– Bom, então vou ter de perguntar a Sean se não tem problema – disse a moça, confusa.

– Então pergunte – disse Melanie, respirando fundo. – E diga também a ele que, caso se recuse a me receber aqui no hotel, eu terei de ir morar em Monkshood!

 

Melanie se vestiu com cuidado para o jantar daquela noite. Por alguma razão sentia vontade de demonstrar a Sean Bothwell que sua irritabilidade não a afetava em nada. Pretendia manter seu ar de indiferença quando se encontrasse de novo com ele.

Escolheu um vestido de veludo cor de vinho. Era longo e reto, moldando seus seios de forma a realçá-los e caindo depois em dobras fartas até os tornozelos. O cabelo, repartido no meio, caía macio em volta do rosto, dando-lhe um ar bastante descontraído, uma vez que a única maquilagem que usava era uma sombra violeta enfatizando os olhos.

Satisfeita com a própria aparência, desceu os degraus até a sala de jantar. Foi saudada com alegria pelos dois velhos, que a olharam com visível admiração.

– Helen nos disse que você vai ficar mais uns dias – disse Ian Macdonald, levantando-se à entrada dela.

– Helen? – perguntou Melanie. – Ah, sim, a recepcionista. É. Vou ficar mais uma semana.

– Que foi que a fez mudar de idéia? – perguntou Elizabeth Sullivan, interessada. – O sr. Bothwell tinha dito que ia ficar só uns dois dias...

– Acho que gostei daqui – conseguiu dizer, sem demonstrar emoção. – Ainda está nevando?

Não estava. O céu estava claro, brilhante, pela primeira vez desde que ela deixara Fort William, no dia anterior. Sua pergunta teve exatamente o efeito que ela esperava – mudar o rumo da conversa –, e quando Alaister começou a dizer que achava que o lago logo ia congelar, todo mundo se esqueceu das razoes que poderiam ter provocado a permanência de Melanie em Cairnside.

Depois do jantar Melanie resolveu chegar até o bar. A coisa mais forte que tinha tomado desde que saíra de Londres fora café, e de repente sentiu vontade de tomar algo alcoólico.

O bar estava quase vazio quando ela entrou. Havia um rapaz bastante jovem atrás do balcão curvo, de madeira polida, cheio de luzes coloridas. Era um alívio ver alguém jovem por ali e Melanie sorriu para ele, pedindo um licor.

– Você é a srta. Stewart, não? – perguntou ele, servindo a bebida.

– Sou, sim – respondeu, apoiando o rosto na mão. – E você, quem é?

– Sou Jeffrey Bothwell. Irmão de Sean.

– Ah! – ela disse, meio surpresa. – Não sabia que ele tinha um irmão.

– Nem podia mesmo. Você só chegou ontem, não foi? E eu estava de folga. Passei a noite com uns amigos e só voltei hoje de manhã.

– Não vim ao bar ontem à noite – disse Melanie, virando o cálice entre os dedos. Queria saber mais. – Você gosta de trabalhar aqui no hotel?

– É bom. Trabalho só meio período. Estou numa escola de Glasgow, mas como estou de férias vim dar uma mãozinha. O hotel é negócio de família. Você deve ter conhecido minha irmã também.

– Irmã?

– É, a Helen. Ela fica sempre na recepção.

– Ah, claro – respondeu Melanie, surpresa.

– Nós todos ajudamos – disse o rapaz, polindo os copos. – Mas o hotel é de Sean agora. Ele é o filho mais velho.

O filho mais velho!

Essas palavras ecoaram na mente de Melanie. Intrigada, ela repetia a frase para si mesma quando percebeu que não estavam mais sozinhos. Havia entrado um homem alto. muito moreno, parecendo muito elegante e imaculado num smoking impecável e camisa branca brilhante. Era Sean Bothwell.

– Boa noite, srta. Stewart – disse polidamente, parando ao lado dela. – Creio que deixou um recado para mim com Helen.

Melanie teve de fazer um esforço para se controlar, pois todos os seus sentidos exigiam que colocasse a maior distância possível entre eles. Era-lhe impossível ficar insensível à presença perturbadora dele, sobretudo quando a olhava tão intensamente, com aqueles olhos cinzentos, estranhos, avaliando insolentemente a qualidade de seu vestido, detendo-se por um longo momento na alvura de seu colo e pescoço. Ela se viu encarando-o, numa tentativa de enfrentar aquela segurança com igual força. Mas aqueles ombros largos e a potência dos músculos que apareciam debaixo do tecido caro da roupa a excitavam, fazendo com que corasse involuntariamente.

Confusa e apressada, pegou o copo e tomou um gole grande, quase engasgando. Ele apenas esperou que ela ficasse mais controlada.

– Helen me disse que pretende ficar mais uma semana.

– É verdade – concordou, olhando novamente para ele. – Se isso não o incomoda.

– Por que incomodaria? – perguntou, sentando-se no banquinho ao lado dela e apertando os olhos num sorriso provocador.

Por alguma razão ele estava decidido a desconcertá-la. Ela, no entanto, preferia a arrogância dele do que aquela faceta nova, que lhe parecia mais perigosa. Talvez ele tivesse percebido que brigando com ela não conseguiria o que queria, tendo, portanto, optado por outros métodos para forçá-la a ir embora.

Jeffrey se afastou para atender outros clientes, deixando-os a sós. Melanie suspirou. Tomou mais um gole e se concentrou nas luzes coloridas do bar. Mas era inútil porque podia sentir o olhar dele o tempo todo. Tudo o que queria era que a deixasse e fosse atender aos outros clientes.

– O que é que está esperando, sr. Bothwell? – perguntou, irritada, voltando-se para ele. – Já confirmei o que tinha dito a Helen. Isto encerra o assunto.

– Achei que podíamos conversar – disse, inclinando a cabeça de lado e olhando-a ainda mais intensamente.

– Sobre o quê?

– Sobre o nosso relacionamento, talvez. Ou quem sabe sobre Monkshood.

– O senhor não quis falar disso antes, por que é que mudou de idéia de repente?

– Talvez eu esteja começando a perceber quanto você é decidida, srta. Stewart – disse ele, apertando os olhos de novo, com aqueles cílios enormes. – E então? O que me diz?

Melanie mordeu o lábio. Estava dividida entre a vontade de se afastar o mais que pudesse daquele homem perturbador e o desejo igualmente forte de tentar explicar a ele o que realmente sentia a respeito de Monkshood. Nb fim das contas, não deviam ser inimigos, pois não havia absolutamente razão para isso.

– Muito bem, então falemos sobre Monkshood – disse ela finalmente, ainda cheia de dúvidas. – Talvez a gente possa chegar a alguma espécie de acordo.

– Não aqui – disse ele, pondo-se de pé. – Prefiro conversar em particular.

– Oh, mas... acho que... não... – disse, confusa, arregalando os olhos.

– Vamos, srta. Stewart, não vai me dizer que tem medo de tomar um drinque sozinha comigo. – Ele deu a volta e entrou no balcão. – O que é que gosta mais? Uísque? Rum? Conhaque? Gim?

– Não quero nada, não, obrigada. – Melanie sentia-se inquieta.

– Ora, vamos, você deve gostar de alguma coisa. – Ele sorriu. – Uisque e gelo, não?

– Eu estou cansada, sr. Bothwell. – Melanie suspirou. – Talvez devêssemos deixar nossa conversa para outra hora.

Bothwell parou diante dela com uma garrafa de uísque e dois copos na mão, olhando-a intensamente.

– Está com medo de mim, srta. Stewart?

– É claro que não – disse Melanie, tomando o último gole de seu licor.

– Ótimo. Então vamos?

Ele indicou com um gesto que ela devia ir na frente e saíram ambos para a recepção. Alguém tinha deixado a porta da frente aberta e um vento gelado soprava de fora. Bothwell pousou a garrafa e os copos no balcão de recepção e foi fechar a porta, enquanto Melanie cruzava os braços sobre o peito, tremendo tanto de frio quanto de apreensão.

– Pensei que ia fugir de mim – disse, sardônico, ao voltar para o lado dela.

– Oh, por favor, sr. Bothwell, pare de querer brincar de gato e rato comigo. Estou certa de que o senhor deve ser um adversário bastante experiente, mas não gosto de jogos!

– E mesmo, srta. Stewart? Que pena. Pensei que todas as jovens emancipadas gostassem de se aventurar, verbalmente, pelo menos, em território masculino.

– Para onde vamos? – perguntou, olhando em torno, recusando-se a se deixar intimidar.

Bothwell deu a volta ao balcão, pegou as garrafas e abriu a porta.

– Aqui, srta. Stewart. Quer entrar?

Ele ficou no batente, esperando que ela passasse e entrasse na sala iluminada apenas pela lareira. Ela olhou em volta, nervosa, quando ele fechou a porta, mas Bothwell não fez nada demais. Apenas colocou a garrafa e os copos na mesa e acendeu um abajur que encheu o ambiente de uma luz dourada.

Era uma sala confortável, pequena e bem arrumada, com o equipamento de um escritório misturado a coisas mais caseiras. Além da grande escrivaninha e de dois arquivos, havia duas grandes poltronas de couro vermelho-escuro, ligeiramente gastas, mas muito confortáveis, e um divã antiquado acolchoado em veludo verde-musgo. A mesa estava cheia de papéis, numa espécie de bagunça organizada. A única coisa que parecia deslocada naquele ambiente era o telefone.

Melanie circulou lentamente pela sala, sentindo o calorzinho gostoso do fogo da lareira, enquanto Sean enchia os copos. Aceitou o seu copo e ficou parada, incerta, ao lado do fogo que crepitava, cheirando a resina.

– Sente-se – convidou ele, indicando uma das poltronas vermelhas e tragando metade do drinque num gole só.

Melanie hesitou um pouco, depois obedeceu, deixando o copo sobre a lareira. Não ia beber nada.

– Diga-me uma coisa – disse ele depois de terminar o uísque, enquanto se servia de outro. – Que preço acha que pode conseguir por Monkshood?

– Não sei – respondeu, surpresa. – Imagino que não seria muito alto.

– Cinco mil libras?

– Talvez. Mas acho um pouco demais. Quatro mil é mais possível.

– Sei – disse Bothwell, tragando de novo o uísque num gole só. – Quatro mil, é? Então, se alguém oferecesse oito mil, você acharia essa uma oferta generosa?

– Oito mil?! – exclamou, incrédula, encarando-o. – Ninguém ofereceria oito mil libras por Monkshood!

– Eu ofereço.

– O quê?! Você está brincando!

– Não. Não estou, não – respondeu, olhando-a muito intensamente. – Foi por isso que a chamei aqui. Queria fazer a proposta.

Melanie, que tinha se levantado, caminhou até a lareira e pegou o copo de uísque. Precisava de um gole, agora, para reanimá-la do susto. Não podia acreditar. Bothwell eslava oferecendo oito mil libras por uma propriedade que não valia nem a metade.

Esvaziou o copo e ele veio até ela, pegando-o de sua mão para enchê-lo de novo. Ela aceitou o novo drinque automaticamente, mas não bebeu logo.

– Por que faz tanta questão de Monkshood? – perguntou depois de longos momentos de silêncio. – Na certa deve haver outras casas por aqui. Por que Monkshood?

– Tenho as minhas razoes – respondeu ele secamente, servindo-se de mais um drinque. – Monkshood é conveniente, além de ser a única casa grande por aqui. Pelo menos é a única que está desocupada.

– Está me colocando um problema difícil, sr, Bothwell.

– Por quê?

– Porque eu não quero vender Monkshood.

– Pelo amor de Deus! – disse ele, batendo a mão na testa. – Por quê? Com oito mil libras você pode comprar uma casa de campo perto de Londres, que seria muito mais conveniente para você do que Monkshood.

– Não está entendendo, sr. Bothwell – respondeu ela, depois de tomar um gole. – Gosto da casa. Gosto desta área. Já lhe disse antes, não quero viver perto de Londres.

– Você está louca! – disse, violento, virando mais um gole da bebida. – O que é que essa casa pode significar para você?

– Significa algo que posso chamar de meu pela primeira vez em toda a minha vida! – respondeu ferozmente,

– Mas qualquer outra casa serviria – interrompeu ele, impaciente. – Você não tem nenhum vínculo especial com este lugar. Se eu tivesse lhe dito que aquela casa não era Monkshood e tivesse lhe mostrado qualquer outra casa, você nem teria notado a diferença.

– Teria, sim – respondeu depressa. – Olhe, você tem uma família com você. Irmãos, irmãs. Eu não tenho ninguém. Meus pais já morreram e eu era filha única. Para mim, Monkshood representa uma ligação com o passado, com minha mãe. Pelo menos pertencia a alguém que tinha o meu sangue, ainda que remotamente.

– Baboseira sentimental! Nunca ouvi tamanha bobagem em toda a minha vida. E você está pensando que o seu inestimável noivo, com a sua clientela elegante em Londres, vai acabar concordando em viver numa casa no meio das montanhas, a quilômetros de distância de qualquer sofisticação civilizada?

– Michael pode não concordar em viver na Escócia – respondeu, tremendo. – Estou preparada para enfrentar esse fato, mas isso não quer dizer que eu tenha de vender a casa. Podíamos mantê-la para passar férias e coisas assim...

– E ficaria absolutamente vazia durante o resto do ano todo!

– Isso. E era sobre isso que eu queria falar com você. Queria sugerir que fizéssemos um acordo para que ambos...

– Ah, pare com isso, por favor! – disse ele, selvagem. – Eu não quero nenhum acordo. Quero Monkshood e, juro por Deus, farei o impossível para conseguir aquela casa!

Com as pernas trêmulas, Melanie não esperou mais nada. Passou por ele, abriu a porte e saiu para a recepção. Estava muito mais frio ali fora, mas ela nem notou. Suas faces e todo o seu corpo estavam queimando. Como tinha podido imaginar que seria possível conversar com aquele homem? Ele era impossível, absolutamente intolerável.

Largou o copo pela metade em cima do balcão e subiu para o quarto. Atirou-se na cama. Sempre que falava com Bothwell sentia-se mole depois. Ele tinha a capacidade de reduzir todos os argumentos dela a uma tentativa infantil de ser adulta. E isso ninguém, nem mesmo Michael, com aquela cabeça treinada para os tribunais, jamais tinha conseguido fazer com ela.

Apagou a luz e caminhou até a janela. Abriu as cortinas. As estrelas brilhavam no céu negro. Na escuridão, a neve reverberava, revelando as formas das montanhas que dominavam tudo. Era sorte não se afetar nos espaços fechados, pois as montanhas, naquela noite, pareciam muito opressivas. Mas talvez fosse apenas a lembrança do que tinha acontecido que a fazia sentir-se assim. Fosse o que fosse, estava a ponto de chorar e em sua cabeça não via nenhuma razão plausível para isso.

Na manhã seguinte, as coisas pareciam melhores. A neve não estava derretendo e o ar estava frio e fino. Depois de tomar o café da manhã, Melanie vestiu roupas quentes e saiu para examinar seu carro. Tinha dado uma olhada no dia anterior, assim que o tinham trazido, mas agora queria ligar o motor e certificar-se de que ainda andava.

Não conseguia fazer o motor pegar, quando Jeffrey Bothwell saiu do hotel. Vestia um suéter vermelho e uma calça preta, os cabelos negros meio agitados pelo vento e por um momento ela pensou que fosse Sean. Quando chegou mais perto, viu que não era ele e saltou do carro.

– Entende de motores?

– Algum problema? – perguntou, chegando até ela.

– Acho que sim.

– Abra o capô. Vou dar uma olhada.

Melanie voltou para dentro do carro, puxou a alavanca e Jeffrey abriu o capô. Olhou lá dentro com um ar de sabichão. Melanie, de pé a seu lado, mexia-se sem parar para não sentir frio, esperando, impaciente, o veredicto,

– As velas estão molhadas – disse ele, afinal. – Sean disse que o carro ficou fora durante a noite, não é?

– É

– Então. A umidade invadiu o motor. Vai ter de esperar um pouco de sol para a coisa secar. Talvez amanhã já esteja tudo bem. Mas se ficar dando partida assim, vai acabar com a bateria.

– Muito obrigada – disse Melanie, batendo a tampa do capô e mordendo o lábio, nervosa.

– Qual é o problema? Está precisando do carro?

– Claro – respondeu, dando uma olhada no jipe. – Quero ir até a aldeia comprar umas coisas.

– Bom, não olhe para mim – disse Jeffrey, encolhendo os ombros. – Eu não tenho carro.

– Não? Melanie suspirou. – Sabe dirigir?

– É claro. Mas se está pensando em pedir o jipe emprestado é bobagem sua. Sean não ia emprestá-lo para mim.

– Sei. Acha que para mim ele empresta?

– Ninguém pega o jipe dele – declarou Jeffrey, definitivo. – Dá para ir andando. Não é longe.

– Não é a distância o problema – ela explicou. – São as coisas que vou comprar. Vai ser pesado para trazer de volta.

– Por quê? O que é que vai comprar?

– Tinta – revelou. – E equipamento de limpeza.

– Tinta? Equipamento de limpeza? – Jeffrey estava perplexo, sem entender nada.

De repente Melanie viu o carro esporte de Jennifer Craig subindo a estrada em direção ao hotel. A moça parou ao lado deles e desceu, sorridente.

– Oi. Vocês dois estão com uma cara! O que foi que aconteceu?

– Meu carro não quer pegar – disse Melanie, conseguindo sorrir. – O sr. Bothwell disse que as velas estão úmidas.

– Sr. Bothwell! Chame-me de Jeffrey, por favor – exclamou ele rindo. – Você entende de mecânica, Jennie?

– Não. Nada! –Jennifer riu.

Vestindo saia de tweed, jaqueta de pele e botas grossas, a mocinha estava mais deselegante que nunca, mas era agradável e Melanie concluiu que gostava dela.

– Mas talvez eu possa dar uma mão – continuou Jennie. – Onde é que quer ir?

– É muita gentileza sua – disse Melanie, mordendo o lábio. – Quero comprar umas coisas na aldeia, só isso.

– Está bem. Entre. Eu a levo.

– Ei, e eu? – exclamou Jeffrey, fazendo Melanie supor que ele devia ter algum encontro com Jennifer.

– Só tem dois lugares, Jeffrey – respondeu Jennifer. – E você não está querendo ir até a aldeia, está?

– Não – respondeu, encolhendo os ombros.

– Então. A gente volta logo. Entre e vá pedir para Josie lhe fazer um café. Ela vai adorar.

Jeffrey ameaçou dar um soco nela de brincadeira e, soltando um gritinho, Jennifer entrou no carro, abrindo a outra porta para Melanie.

Ela deu uma olhada para Jeffrey e entrou. Em um segundo estavam rodando.

Jennifer dirige bem, no estilo de Sean Bothwell, pensou Melanie, tentando achar alguma coisa para dizer.

– Está precisando de muitas coisas? – perguntou Jennifer, salvando a situação. – Devo avisar que as lojas aqui são muito simples. Só têm o essencial.

– Mas devem ter o que eu quero, sem problemas – respondeu, sorrindo. – Preciso de líquidos para limpeza, panos, essas coisas. E um pouco de tinta também.

– Desculpe a curiosidade – Jennifer olhou-a com o rabo dos olhos –, mas essas coisas são para Monkshood?

– São.

– Ótimo.

Melanie arregalou os olhos, surpresa, e voltou-se para a moça.

– Você não se importa? Quer dizer... eu achei que...

– Achou que só porque Sean quer a casa eu ia ficar chateada por você arrumá-la, não é? Mas não é assim, não. Eu mesma já tentei mil vezes fazer uma limpeza lá, mas Sean não deixa. Acho uma idéia maravilhosa.

– Ainda bem! – Melanie suspirou, relaxando. – Achei que estaria sendo meio desonesta aceitando a carona.

– Que bobagem. Estou até gostando de poder ajudar. Seu carro deve estar funcionando de novo amanhã. Já resolveu até quando vai ficar?

– Bom, eu pretendo ficar até Monkshood estar habitável de novo – explicou Melanie. –Talvez uma semana...

– Sei.

Estavam chegando à aldeia e Melanie viu que era bem pequena. Havia uma rua principal, de casas estreitas, uma pequena escola, a igreja e as duas ou três lojas que Jennifer tinha mencionado. A esquerda da rua, por entre as casas, Melanie viu pela primeira vez o lago Cairnross e olhou interessada quando Jennifer apontou sua própria casa, na outra margem do lago.

– Você devia ter vindo no verão – comentou Jennifer, suspirando. – A gente nada, faz esqui aquático. Sean tem um bote.

Melanie apertou os lábios. Gostaria de dizer que estaria sempre em Monkshood, de agora em diante, mas não teria sido gentil, apesar das coisas que Jennifer tinha dito.

A mulher que cuidava da loja maior era muito atenciosa e, apesar de estar obviamente curiosa para saber quem era Melanie e por que queria todos aqueles pós, líquidos de limpeza e a tinta, a presença de Jennifer parecia intimidá-la, impedindo-a de fazer muitas perguntas.

Voltaram carregadas de pacotes para o carro.

– Não sei o que teria feito sem a sua ajuda. – Melanie riu por cima de uma caixa de detergente. – Obrigada mais uma vez.

– Esqueça – respondeu Jennifer. – Eu até que estou me divertindo. Acho gozadíssimo quando a sra. MacPherson fica tentando descobrir as coisas com meias palavras. Ela estava morrendo de vontade de saber o que é que uma turista como você pode fazer com coisas de limpeza. Aposto que vai espalhar pela aldeia inteira que o hotel de Sean está tão sujo que os hóspedes agora têm de limpar seus próprios quartos.

– Você está brincando! – exclamou Melanie.

– Talvez não – disse Jennifer, rindo enquanto abria a porta do carro. – Jogue tudo aí atrás. A gente arruma quando chegar na casa.

– Na casa? – perguntou Melanie, incerta, sentando-se em seu lugar.

– Claro. A gente já pode deixar tudo em Monkshood. Você não vai querer carregar tudo para lá depois, vai?

– Bom, não... – Melanie mordeu o lábio. – Mas será que... o sr. Bothwell não vai ficar bravo?

– E daí? Que fique! – Jennifer deu de ombros, ligando o motor. – Ele não manda em mim, sabia?

Melanie sentiu-se tentada a perguntar qual era exatamente a relação de Jennifer com Sean Bothwell, mas sentiu-se igual à sra. MacPherson, reprimindo-se por causa da atitude de Jennie.

Os portões estavam abertos e Jennifer entrou direto, indo parar diante da porta da frente.

– Tem as chaves? – perguntou.

– As chaves? – Melanie procurou nos bolsos o molho que Sean Bothwell tinha deixado para ela. – Aqui. Sabe qual é a da porta da frente?

– Deixe ver. – Jennifer saiu do carro, levando as chaves, e Melanie foi atrás. A mocinha descobriu logo qual era a chave certa e a porta se abriu rangendo.

– Meio impressionante, não? – comentou Jennifer enquanto ajudava Melanie a descarregar os pacotes. – O velho Angus não gastava nem um tostão que não fosse absolutamente indispensável na casa. Tinha de estar tudo caindo aos pedaços para ele cuidar de arranjar alguém para uma faxina. Mas também, coitado, ficou preso na cama durante os dois últimos anos de vida.

– É mesmo? – Melanie estava intrigada. – Continue. Conte-me mais sobre ele. Na verdade eu sei muito pouco.

Enquanto levavam todos os pacotes para a mesa da cozinha, Jennifer foi contando o que sabia sobre o parente da mãe de Melanie. Explicou que ele tinha nascido em Monkshood e vivido ali toda a sua vida, a não ser por um breve intervalo durante a Segunda Grande Guerra, quando tinha se alistado na Marinha.

– Parece que ele era muito atraente – continuou Jennie. – Papai diz que era maravilhoso de uniforme. Acho que deve ter sido mesmo, porque...

– Por quê? – insistiu Melanie quando a moça se interrompeu. Jennifer apertou os lábios e deu de ombros.

– Nada. Bom, isto é tudo?

– Acho que sim. – Melanie suspirou. – Acabei de trazer os últimos três.

– Por onde vai começar? – perguntou Jennifer, olhando para o teto,

pensativa.

– Acho que pela cozinha mesmo – respondeu Melanie, voltando os pensamentos para o trabalho que tinha a enfrentar. – A mim me parece o lugar mais lógico para arrumar primeiro. Acho que qualquer faxineira começaria pelo andar de cima, descendo aos poucos, mas quero arrumar a cozinha logo para poder fazer funcionar o aquecimento. Sabe acender esse fogão?

– Ah, sei, sim – respondeu Jennifer, olhando o enorme fogão de lenha. – A gente tinha um desses em casa há alguns anos. Acho que consigo acender sem problema. – Deu um suspiro. Depois, parecendo ter uma súbita idéia, perguntou: – Olhe, será que você não quer que eu ajude? Quer dizer, com duas trabalhando as coisas andam mais depressa, e posso fazer as coisas que não daria tempo para você fazer sozinha...

– Nossa – disse Melanie, encarando a mocinha –, acho que os seus pais ou... ou Bothwell não haveriam de deixar você me ajudar aqui. É um trabalho pesado.

– Eu não tenho medo de trabalho pesado, não. – Jennifer riu. – Da mesma forma que você, eu ia ficar muito satisfeita de botar esta casa brilhando.

– Mas... mas... – Melanie abriu os braços sem saber o que dizer.

– Nada de mas! – disse Jennifer, rindo bem-humorada. – Quer que eu ajude ou não?

– É claro que eu quero. Mesmo que não fosse para trabalhar, adoraria ter companhia. Esta lugar é solitário e, como você disse, meio impressionante.

– Então, tudo bem. Deixe que eu me encarrego de Sean e dos meus pais. – Ela olhou no relógio. – Passa um pouco das dez. Por que não começamos agora mesmo? E, olhe, meu nome é Jennie e sei que o seu é Melanie. Bobagem a gente ficar se chamando pelos sobrenomes. É meio antiquado, não acha?

– Nem sei o que dizer! – Melanie estava perplexa.

– Então não diga nada – aconselhou Jennifer. – Vamos começar de uma vez!

Era incrível o que tinha acontecido em tão pouco tempo. Enquanto Jennifer limpava o fogão, Melanie escarafunchou os armários e encontrou dois baldes grandes, que lavou antes de usar. Tirou o casaco mais pesado, afastou a mesa para um canto e começou a lavar o teto com detergente. Era cansativo ficar com os braços levantados o tempo todo e Jennífer a observava de quando em quando, lavando as paredes externas do fogão.

– Acho que fiquei com o trabalho mais fácil – disse ao terminar sua tarefa. – Quer que eu ajude? Ou prefere que acenda o fogão?

– Posso terminar sozinha – disse, baixando um pouco os braços. – Mas se você conseguir achar alguma coisa para acender o aquecedor, acho que seria bom. Eu agora estou suando por causa do exercício, mas o frio aqui deve estar forte.

– Não sei onde é que vou encontrar varetas secas – disse Jennifer, olhando em torno, pensativa. – A lenha que a gente encontrar por aqui vai fatalmente estar úmida, por causa da neve. Olhe, vou dar uma chegada na aldeia e comprar um pouco de lenha seca.

– Que chato! – Melanie mordeu o lábio. – Não tinha pensado nisso. ,

– Não tem importância – respondeu Jennifer, sem perder seu sorriso. – Eu vou. É só lavar as mãos.

Enquanto Jennifer estava fora, Melanie desceu da mesa para pegar água limpa. Enquanto o balde enchia, olhou o que já tinha feito. A parte limpa estava com um aspecto melhor, e quando tivesse recebido uma mão de tinta branca estaria melhor ainda. Era difícil limpar tudo aquilo com água fria, seus dedos estavam gelados, mas assim que Jennie acendesse o fogão poderiam esquentar a água.

Ouviu o ruído do carro chegando e foi até o hall esperar a moça. Mas assim que Jennie abriu a porta, Melanie viu por sua expressão que havia problemas.

– Que foi? – perguntou, ansiosa. Mas, antes que Jennie pudesse responder, uma outra figura surgiu por trás dela.

– Sean estava me procurando – esclareceu Jennifer, sentindo-se incômoda. – Nós nos encontramos na aldeia.

– Sei – respondeu Melanie, umedecendo os lábios subitamente ressecados. – Como está, sr. Bothwell? Veio ver como é que vai o trabalho?

– Não estou interessado no que está fazendo, srta. Stewart – rugiu ele, passando por Jennifer e avançando ferozmente para Melanie. – Mas não gostei nada da forma como envolveu Jennifer.

– Sean, eu já expliquei que... – Jennifer tentou dizer, agarrando o braço dele, desesperada.

– Deixe comigo, Jennifer! – gritou ele, sacudindo o braço com violência para se libertar da mão dela. – Muito bem, srta. Stewart. A senhorita sabia que eu não concordava com a sua tentativa de arrumar a casa e assim pensou que, se envolvesse Jennie, poderia dispor de um mediador, não é isso?

– Não preciso de. nenhum mediador, sr. Bothwell. Monkshood é minha. E se eu resolver reformá-la inteira, isso é problema meu. Não preciso de sua aprovação.

– Estou avisando, srta. Stewart...

– Sean, pelo amor de Deus! – Jennifer colocou-se entre os dois. – Isto é ridículo! Se está preocupado comigo, fale de uma vez, não fique inventando outras razões...

– E claro que estou preocupado com você – disse, baixando as sobrancelhas negras sobre os olhos cinzentos. – Mas, além disso, não aprovo os métodos da srta. Stewart!

– Querido, não seja bobo! – Jennifer enganchou o braço no dele. – A casa só tem a ganhar com as coisas que Melanie está fazendo. Então, posso acender o fogão?

– Não! – rugiu Sean, definitivo.

Jennifer apertou os lábios, com raiva, mas incapaz de afrontá-lo.

– Desculpe, Melanie – disse, sorrindo tristemente. – Eu bem que queria ajudar.

– Tudo bem, Jennie – respondeu, fechando os punhos, controlando com enorme esforço a sensação de injustiça que crescia dentro de si. – Eu compreendo.

– Duvido! – comentou Sean Bothwell, azedo.

E, empurrando Jennifer, saiu da casa, batendo com força a velha porta de madeira pesada.

 

Melanie achou incrivelmente difícil trabalhar depois que eles se foram. Sentia frio. Antes, movida pelo entusiasmo da atividade, sentira-se aquecida, mas agora, subitamente, tudo parecia sem graça. Largou o pano que estava usando para limpar e vestiu o casaco de pele de carneiro. Antes de mais nada ia fazer funcionar aquele aquecedor e nada haveria de detê-la.

Mas era mais fácil falar do que fazer. Não sabia se Jennifer tinha ou não comprado alguma lenha. O fato é que não tinha na casa nada com que acender o fogo.

Decidida, Melanie saiu e caminhou o mais depressa que podia até a aldeia. O que tinha sido tão rápido de carro era uma caminhada bastante dura, sobretudo naquela superfície escorregadia. A melhora do tempo tinha trazido consigo uma queda de temperatura.

A mulher da loja estranhou quando ela pediu varetas para o fogo.

– A srta. ... srta. Craig esteve aqui agora há pouco comprando isso mesmo – contou ela, com óbvia curiosidade. – Pensei que fosse para a senhora.

– É. Mas preciso de mais algumas. – Melanie sorriu fingindo uma calma que não sentia. – Não se importa, não é?

– Aí está – disse a mulher, colocando diante dela um saco de plástico.

– Muito obrigada.

Melanie pagou, pegou o saco e saiu sem dizer mais nada. Estava tentando não pensar nas razões que teriam levado Sean Bothwell a impedir com tanta veemência que Jennifer a ajudasse, mas era difícil esquecer a cara dele, possesso como estava. Achava a solicitude dele com a mocinha ao mesmo tempo compreensível e perturbadora. Qual seria o envolvimento deles? Será que ele a amava? Por sua maneira de agir dava essa impressão. E se a amasse será que tencionava levar a noiva para viver em Monkshood?

Sacudiu a cabeça, confusa. Se assim fosse, poderia compreender a frustração dele. Mas não podia se deixar levar pela emoção.

Passou os portões e começou a subir em direção a casa. De repente uma lufada de fumaça a envolveu, seguida de outra e mais outra. Arregalou os olhos e olhou para a casa. De uma das chaminés elevava-se uma coluna de fumaça. Excitada, correu para a porta.

– Jennie! Jennie! Já voltei – gritou, ainda no hall.

Mas a casa estava vazia. Voltou para fechar a porta e encostou-se nela, confusa por um momento antes de voltar lentamente para a cozinha. Na sua ausência alguém tinha acendido o fogão e um brilho vermelho e quente inundava a cozinha. Melanie ficou olhando as chamas através da grade, sacudiu a cabeça, largou o saco plástico em cima da mesa e se encostou nela, sentindo-se fraca.

Havia algo de muito enervante em tudo aquilo e sentia vontade de sair da casa imediatamente. Mas nunca se abandonaria a atitudes tão intempestivas. Não era desse tipo. Em vez disso, tirou o casaco e voltou a limpar o forro.

Porém, já estava na hora do almoço e passou só mais quinze minutos trabalhando antes de descer da mesa e limpar as mãos num pano novo. Por precaução abriu a tampa do fogão para olhar. A chama inicial tinha diminuído e precisava de mais combustível. Descobriu que a porta de trás não estava fechada. Portanto, quem quer que tivesse vindo acender o fogão, devia ter entrado por ali. A carvoeira ficava ao lado da porta de trás e ela pegou uma boa quantidade de carvão que colocou sobre as chamas. Feito isso, bem satisfeita consigo mesma, trancou a porta dos fundos e atravessou a casa para sair pela frente.

Assim que chegou à porta da frente, viu, através dos vidros, a silhueta de um homem se aproximando.

Melanie não pôde conter um suspiro de susto e recuou um passo, para não ser vista. Não podia imaginar quem seria, a menos que Jeffrey tivesse vindo procurá-la.

Reunindo toda a sua coragem avançou novamente, mas antes que chegasse à porta ela se abriu subitamente. Para seu grande alívio, reconheceu imediatamente o visitante. Sean Bothwell olhava-a do batente com uma expressão impaciente.

– Está pálida, srta. Stewart – disse ele. – Trabalhar em temperaturas abaixo de zero não deve lhe fazer muito bem, Sobretudo estando tão acostumada aos confortos da vida moderna, como você mesma disse.

– Não estou trabalhando em temperaturas abaixo de zero, sr. Bothwell – respondeu, abotoando o casaco com dedos trêmulos. – Alguém acendeu o fogão para mim.

– Mesmo assim – disse ele, levantando as sobrancelhas –, vai levar um bom tempo para esquentar todo este mausoléu.

– É verdade. – Melanie sorriu docemente. – Por isso mesmo eu já cuidei de botar lenha suficiente no fogão para durar a tarde inteira.

– Pretende voltar à tarde? – perguntou Sean.

– Por que não?

– Vem vindo uma tempestade das montanhas. A previsão é de mau tempo. Eu ficaria no hotel, se fosse você.

– Mas você não é eu, sr. Bothwell – disse ela, impaciente. – Dificilmente poderei ficar detida aqui por causa da neve, não acha? Estamos a menos de cem metros do hotel.

– Como quiser, srta. Stewart.

Melanie fez um movimento em direção à porta e ele recuou um passo para dar passagem. Mas ela hesitou antes de sair. Estava muito consciente daquele corpo forte e daqueles olhos extremamente cinzentos.

– Diga-me uma coisa: por que deixou Jennifer voltar e acender o fogão, afinal?

– Acha que deixei?

– Que quer dizer? – perguntou Melanie, quase sem ar.

– Exatamente o que disse. Jennifer não acendeu aquele fogão. – Os olhos cinzentos eram intensos.

– Então, quem foi? – Ela o encarou um momento, depois desviou o olhar, sentindo o coração bater mais rápido, – Claro. Eu devia ter adivinhado. Foi você.

– Fui? – perguntou ele, encolhendo os ombros largos. – E por que deveria fazer uma coisa dessas? Sobretudo depois de você ter me contrariado vindo até aqui.

– Você está me gozando – disse ela, arranjando o cabelo atrás da orelha num gesto distraído. – Se me dá licença, o almoço deve estar pronto e tenho de voltar para o hotel.

– Talvez o velho Angus tenha acendido o fogão para você – disse ele, encostando-se na porta aberta. – Algumas pessoas da aldeia juram de pés juntos terem visto fumaça saindo das chaminés mesmo depois que ele morreu.

– Oh, sr. Bothwell – disse Melanie, encarando-o ferozmente –, está decidido a me impedir de vir aqui. não é? Pois fique sabendo de uma coisa: não tenho medo de coisas sobrenaturais e também não acredito que o fogão tenha sido aceso por algum fantasma. O senhor acendeu aquele fogão, sr. Bothwell. E nada que possa me dizer vai me convencer do contrário.

– Eu não acendi o fogão, srta. Stewart. – Bothwell endireitou o corpo. – Dou-lhe minha palavra de honra.

Melanie olhou-o por mais um momento, depois mordeu o lábio e caminhou rapidamente para o portão. Não ia permitir que ele a intimidasse dessa forma. Ele gritou o nome dela, mas Melanie não se virou para olhar.

Em vez disso andou mais depressa, quase correndo para o hotel. Só quando a empregada colocou sobre a mesa um molho de chaves, dizendo que vinham com os cumprimentos do sr. Bothwell, foi que ela se lembrou de que não tinha trancado a porta de Monkshood.

Por causa de tudo o que tinha acontecido, Melanie não voltou a Monkshood naquele dia. Depois do almoço, começou a sentir uma terrível enxaqueca, causada sem dúvida pelo esforço de limpar o teto da cozinha naquela manhã. Teve de ir para a cama em vez de voltar à velha casa. Dizia a si mesma que lamentava não poder voltar lá, mas no fundo sabia que não era verdade. Tinha tido já problemas suficientes para um único dia.

Como não sentia fome, não desceu para jantar e a jovem criada veio bater à sua porta, para saber se precisava de. alguma coisa. Melanie aceitou um pouco de café e foi para a cama pouco depois das oito horas.

Na manhã seguinte a tempestade de neve que estava prevista chegou finalmente. Quando desceu para o café da manhã, Melanie percebeu que o vento uivava em torno do hotel. Era impossível evitar as correntes de ar. Comeu pouco, pensando se devia tentar chegar a Monkshood mesmo no pico do temporal, mas resolveu esperar. Passou a manhã inteira na saleta de estar, jogando cartas com Alaister e Ian Macdonald, diante do fogo aceso na lareira. Alaister parecia ter perdido aquela agressividade com ela. Talvez porque estivesse curioso, assim como Ian devia estar, para saber qual era sua ligação com Monkshood.

Ambos lhe fizeram perguntas sobre seus planos imediatos e Melanie se viu em dificuldades para responder sem mentir. Mas, aparentemente, deram-se por satisfeitos com suas respostas e a conversa terminou caindo sobre o falecido proprietário de Monkshood. Alaister conhecia Angus Cairney desde muitos anos atrás. Na verdade, desde a Segunda Guerra Mundial. Falava bastante sobre sua amizade com o velho solitário e contou que costumavam jogar xadrez uma vez por semana.

– Sean era a única alegria do velho – revelou Ian.

Melanie pensou que estranha amizade devia ser aquela, mas não fez perguntas. Os assuntos de Sean Bothwell não eram da conta dela. Evitaria a todo custo dar a Sean a oportunidade de pensar que ela estava tentando colher informações sobre a vida particular dele. Ou do velho Angus.

Depois do almoço, os hóspedes mais velhos se retiraram aos seus quartos para descansar e Melanie ficou diante da janela da saia de jantar, olhando pensativa lá para fora. Ainda nevava, mas não tão pesado quanto antes. Aquela inatividade forçada estava começando a irritá-la, pois tinha muita coisa para fazer em pouquíssimo tempo.

Resolveu ir até Monkshood. Subiu, vestiu roupas quentes e desceu de novo. Ao sair do hotel encontrou Jeffrey Bothwell e ele estranhou que ela estivesse saindo com aquele tempo.

– Não vai tentar dirigir com um tempo desses, não é? – exclamou ele.

– Não. Vou só até Monkshood. Dá para ir a pé.

– Ah, sei. Monkshood – repetiu o rapaz. – Quer companhia?

– Não... melhor não – disse ela depois de pensar um momento, encarando o jovem. – Seu irmão podia não gostar. Ele não quer que eu faça a limpeza lá e ontem, quando descobriu que Jennie estava comigo, me ajudando, ficou uma fera!

– Ah, mas isso é diferente.

– Porquê?

– Jennie não lhe contou que ainda está se recuperando de um ataque muito forte de pleurite? Ela não é muito forte e acho que Sean estava preocupado por causa disso...

– Mas por que ele não disse isso? Ou ela? Por que é que ela não me contou? – Mordeu o lábio. – Meu Deus, eu não podia imaginar... Pensei que ela era pálida daquele jeito por natureza...

– Bom, ela é pálida mesmo. Como eu já disse, ela não é muito forte, e no momento tem de se cuidar. Imagino que Sean deve ter ficado furioso de encontrá-la em Monkshood.

– É. Foi muito estranho.

– Acho que você está no seu direito de estranhar as coisas. Sean não está sendo muito razoável nessa questão da casa, desde que você chegou. – Jeffrey suspirou. – É uma situação difícil.

– Eu sei – concordou Melanie, arranjando melhor o cabelo debaixo do gorro. – Mas não fui eu que a criei.

– Você não está querendo vender a casa, não é?

– Não, não estou – respondeu Melanie. – Nunca tive uma casa minha mesmo, sabe?

– Entendo. – Jeffrey coçou a orelha um minuto. – E então? Quer a minha ajuda ou não?

– Não – disse Melanie lentamente, depois de pensar um instante.__

Hoje não, Jeffrey. Muito obrigada de qualquer forma, mas eu sinto que Sean não ia gostar.

– Eu não faço só as coisas que ele aprova, sabia? – protestou Jeffrey.

Melanie sorriu e afastou-se, abanando a mão para o rapaz. Monkshood estava coberta de neve. As paredes de pedra tinham grandes volumes brancos, formando desenhos, e o vento gelado continuava atirando mais flocos contra elas. Parecia ainda mais abandonada e isolada com aquele escudo de neve separando-a do resto do mundo. Melanie se pôs a pensar em por que estava se prendendo tanto àquela casa. Não era por causa do charme ou da beleza da construção, por certo. Mas a idéia de vendê-la e nunca mais voltar ficava cada dia mais e mais difícil de aceitar.

Viu diante de si o rosto de Sean Bothwell, à medida que caminhava pela rampa da entrada. Se vendesse Monkshood a ele teria sua eterna gratidão, além da satisfação de saber que a velha casa estaria nas mãos de seu mais legítimo dono. Mas a idéia de que ele traria a esposa para viver ali não lhe era tão aceitável. Tudo o que podia pensar era que resistia porque Sean era muito arrogante.

A casa não lhe pareceu mais tão fria quanto no dia anterior. Talvez o fogão tivesse conseguido vencer um pouco da umidade. Ao entrar na cozinha, descobriu que o fogão ainda eslava aceso, com bastante carvão, deixando o ambiente bem quentinho.

Melanie olhou em tomo, tentando descobrir quem poderia ter mantido o fogão aceso, mas só havia algumas pegadas tímidas no chão. Suspirou, sacudiu a cabeça e tirou o casaco, um tanto relutante. Era muito inquietante não conseguir resolver aquele mistério. Talvez devesse- ter aceitado a companhia de Jeffrey, no fim das contas.

Apesar de a neve iá fora refletir bastante luz através da janela aberta, sabia que não ia poder trabalhar até muito tarde, pois a eletricidade tinha sido cortada depois da morte do tio-avô. Jennifer tinha-lhe contado que a água também havia sido cortada. As duas juntas tinham conseguido abrir o registro de água, mas a eletricidade era mais complicada e precisava de alguém especializado. E, evidentemente, ninguém viria com um tempo daqueles.

O teto da cozinha já estava muito mais limpo e Melanie pensou se não podia já dar uma demão de tinta antes de qualquer outra coisa. Agora, que estava tudo limpo e o fogão funcionava, a cozinha parecia muito gostosa e ela não sentia nenhuma vontade de sair dali. O silêncio era quase assustador e dava uma certa sensação de segurança saber que a porta de saída dos fundos estava bem pertinho.

Mexeu a tinta na lata e empurrou a mesa para junto da parede. Não tinha trazido nenhuma roupa de trabalho, mas a tinta era grossa e sujava apenas os seus dedos. Inconscientemente estava o tempo todo alerta. Sentiu vontade de cantar para não se sentir tão só, mas o som de sua voz poderia impedi-la de ouvir se alguém se aproximasse.

A luz já estava caindo quando terminou o trabaho. Desceu da mesa e deu uma olhada, de longe. Estava satisfeita com o resultado de seu esforço; com uma segunda camada de branco o teto estaria perfeito.

Lavou os pincéis e arrumou as coisas todas. Limpou as mãos e pegou o casaco. Sorria para si mesma, lembrando dos horrores que tinha imaginado enquanto trabalhava. Aquele lugar não tinha nada sobrenatural. Alguém devia ter acendido o fogão e cuidado para que não se apagasse desde o dia anterior. E ela tinha quase certeza de que tinha sido Sean Bothwell. Na verdade, devia sentir-se grata e não apreensiva.

Porém, um súbito ruído a assustou e sua mente entrou em alerta. O barulho tinha vindo do andar de cima. E não havia razão para haver qualquer ruído no andar de cima!

Ficou parada no meio da cozinha, casaco na mão, um arrepio percorrendo a espinha de alto a baixo, os ouvidos alerta para o menor ruído. Teria sido impressão sua? Podia ser só a água da caixa. Ou uma tábua do assoalho que estalou.

Mas ouviu então o inconfundível ruído de passos cruzando a sala que ficava acima de sua cabeça. As pernas de Melanie pareceram virar geléia. Seu primeiro instinto foi sair correndo da casa sem esperar mais nada, mas algo lhe dizia que era bobagem fazer isso. Se fugisse agora, nunca mais teria coragem de ficar sozinha ali. E, além disso, fantasmas não faziam tanto barulho ao caminhar.

Tentou pensar com lógica. Alguém tinha entrado no andar de cima, alguém que não tinha absolulamente o direito de estar ali. Respirou fundo, abriu a porta da cozinha e saiu para o hall. Os degraus subiam. escuros e soturnos, Melanie olhou para cima, preocupada.

– Quem está aí? – grilou numa voz que mesmo a seus próprios ouvidos soou fraca e assustada.

Ninguém respondeu e ela engoliu em seco, hesitando em subir a escada.

– Desça imediatamente, seja quem for! – gritou, colocando o pé no primeiro degrau. – Se não descer já eu chamo a polícia!

Houve um momento de silêncio e depois o barulho de passos fortes se aproximando do topo da escada. Uma figura escura surgiu lá no alto. Na penumbra era impossível perceber se era um homem ou uma mulher e Melanie apenas recuou, tapando a boca com a mão.

– Quem... quem é? – perguntou num fio de voz.

Mas não houve resposta. Melanie soltou um gemido e sua coragem fraquejou. Voltou-se e correu para a cozinha. Voou para a porta dos fundos. Só então se lembrou de que tinha entrado pela frente e que aquela porta ainda estava trancada.

Procurou desesperada nos bolsos pelo molho de chaves. Podia ouvir os passos descendo os degraus e olhou em torno, aflita, procurando alguma coisa com que se defender. Estava em absoluto pânico quando levantou uma das cadeiras de madeira e atirou-a no vulto que surgiu na porta. O homem teve de cobrir a cabeça com os braços, mas a cadeira não o atingiu, estatelando-se na parede.

– Seu... seu porco! – gritou ela ao ver a expressão divertida de Sean Bothwell. – Monstro!

Agarrou uma caixa de sabão em pó e ia atirar nele também, mas Sean foi mais rápido e contornou a mesa, agarrando os pulsos dela, dominando-a.

– Calma aí – disse, agora com uma expressão impaciente.

– Não quero me acalmar coisa nenhuma – gritou Melanie, debatendo-se para escapar dos braços dele. – Você fez isso de propósito! Veio aqui com o objetivo de me assustar! Você é desprezível! Isso foi baixo demais, mesmo para você, seu...

– Cale a boca! – Os olhos dele brilharam, frios como o aço. Melanie estava tão tensa, magoada e assustada, que não se deu conta de estar indo longe demais.

– Não calo a boca nada! – gritou, sem se importar com ele, – Não vai conseguir me assustar, sr. Bothwell! Falo quanto quiser.

Um músculo se contraía espasmodicamente no rosto dele. Melanie percebeu então como estavam próximos um do outro. Sentia a presença dele em cada fibra de seu ser. Aquela expressão firme, os músculos duros de seu corpo, a força das mãos que seguravam seus pulsos. Nunca tinha sentido a presença de Michael com tanta intensidade. Ou talvez Michael fosse mais atraente ã sua mente que ao seu corpo, enquanto a personalidade daquele homem colado a ela era mais envolvente, mais dominadora. Sabia que o tinha desafiado ao máximo e os olhos dele brilhavam sem nenhum resquício de paciência, mas isso a excitava em vez de atemorizar.

Como se estivesse lendo os pensamentos dela, ele examinou o rosto vermelho de Melanie, detendo-se demoradamente em sua boca; então, com uma exclamação de desprezo, afastou-a bruscamente.

Melanie o encarava, confusa, esfregando os pulsos doloridos.

– Não vim até aqui com a intenção de assustá-la – disse ele duramente. – Pensei que você já tinha saído. Mas admito que quando a vi ao pé da escada, achando que estava correndo perigo de ser atacada, não me identifiquei de propósito. E devia controlar melhor suas emoções, para não cair nessas fantasias bobas – completou, apertando os olhos de maneira significativa.

– Não sei do que é que está falando, sr. Bothwell – respondeu Melanie, piscando os olhos diante do insulto.

– Não sabe mesmo? Ah, eu acho que sabe muito bem, srta. Stewart.

Não é o tipo de mulher que não tenha consciência dos próprios atrativos mas para os meus valores um noivado é coisa que tem de ser respeitada.

– O que é que está insinuando?

– Insinuando? Achei que estava sendo perfeitamente claro. Você gosta de ser admirada pelos homens, srta. Stewart. E agora há pouca achou que ia conseguir me conquistar...

– Como ousa dizer isso? Como ousa... – Melanie não conseguia encontrar palavras para expressar sua indignação.

– Um homem só ousa até o ponto em que a mulher permite – interrompeu ele, cínico. – E sei muito bem que ficou desapontada por nada ter acontecido.

– Não sei... como tem coragem de me olhar no rosto enquanto diz... essas coisas – gaguejou, tremendo de raiva. – Está se auto-afirmando.

Calou-se bruscamente quando ele avançou de repente e puxou-a para si, rudemente. Os olhos dele queimavam os dela com uma ferocidade não disfarçada e, quando colou os lábios aos dela, Melanie estranhou a sensação de posse, tão distinta da delicadeza que estava acostumada a receber de Michael. Sean Bothwell chegou a ferir os lábios dela com uma violência que a aterrorizava e excitava ao mesmo tempo. Ele machucava, os músculos fortes de suas coxas pressionando as dela, forçando-a a agarrar-se a ele, tentando desesperadamente não corresponder.

Mas era difícil permanecer indiferente à fome dos lábios dele. E aquelas mãos em seus cabelos eram estranhamente sedutoras. Era como se a fusão de suas bocas tivesse provocado uma reação química na relação deles. A rudeza do beijo transformou-se numa ternura apaixonada que a desarmou por completo. Melanie deslizou as mãos pelo peito dele envolvendo seu pescoço. A pele de Sean era macia e quente debaixo dos dedos dela. Os cabelos grossos e macios. Ela tentou resistir ainda por um momento, mas depois envolveu o pescoço de Sean com ambos os braços e, durante alguns segundos enlouquecedores, correspondeu ao beijo sentindo a pressão urgente do desejo dele.

E então, como se tomasse consciência da situação, Sean a afastou violentamente, os traços contorcidos.

– Sua vaca! – xingou, violento. – Não se importa de ferir os outros, não é?

– E você? – perguntou Melanie, sentindo-se tonta e tendo de se apoiar na mesa.

Ele passou a mão pelos cabelos desfeitos, olhando-a em silêncio por um momento.

– Não – murmurou ele, subindo gradualmente o tom de voz. – Não. Por um momento permiti que me dominasse, mas isso não vai tornar a acontecer! Fique longe de mim, srta. Stewart, ou não me responsabilizo por meus atos da próxima vez! Virou-se subitamente e saiu da casa.

 

Foi um verdadeiro suplício para Melanie descer para o jantar naquela noite. Apesar de saber que não havia nenhuma razão para não querer encontrar Sean Bothwell, sabia que teria dificuldades para encará-lo. Detestava saber que leria desprezo nos olhos dele quando a visse. Não adiantava repetir para si mesma que o que tinha acontecido tinha sido culpa tanto dele quanto dela. Não se convencia. Por que é que ela o tinha provocado daquela forma? Por que se sentia tão consciente da presença dele? E pior de tudo: como tinha se permitido corresponder a um ataque tão brutal?

De início tinha achado difícil acreditar que tudo aquilo acontecera de fato. mas depois, em seu quarto, ao sentir os lábios feridos, tinha sido forçada a enfrentar a realidade. Ainda agora, enquanto virava a comida no prato, podia sentir a pressão do corpo dele contra o seu, lembrando-se da explosão sensual que o contato tinha-lhe provocado. Empurrou o prato confusa com aquelas emoções que nunca tinha sentido antes.

– Telefone para a senhorita – disse a criada, chegando à sua mesa. – É de Londres.

Londres!

– Onde atendo? – perguntou, confusa.

– Na cabine do hall, senhorita. Sabe onde é?

– Oh, sei. Sei, sim.

Melanie se levantou depressa, a mente confusa. Só podia ser Michael. Mas por que estaria telefonando? Especialmente nessa noite, quando se sentia tão despreparada para falar com ele?

Conseguiu caminhar com calma maior do que sentia de fato. Entrou na cabine e pegou o telefone.

– Melanie! Melanie, é você?

Mal podia reconhecer a voz dele. Sua entonação sempre calma e contida tinha dado lugar a um tom áspero, rouco. Ficou imediatamente preocupada.

– Michael! Michael, o que foi que aconteceu?

– Não se aflija, Melanie – respondeu ele, rindo. – Não vou morrer, pelo menos, não ainda. Peguei uma gripe muito forte e não estou me sentindo muito bem. Estava pensando se você ia voltar Jogo.

– Oh, Michael – exclamou Melanie, apertando os lábios. – Como é que pegou essa gripe? Não está se cuidando direito? Está trabalhando demais?

– Acho que estou trabalhando demais – disse ele, tossindo, rouco. – O velho Madison não veio trabalhar estes três dias por causa do reumatismo e eu tentei manter as coisas em dia. Mas não adiantou muito.

– Sabe que tem de se cuidar quando o tempo está muito úmido – disse, preocupada. – Por que não fez só a sua parte?

– Bom, é o que vou ter de fazer agora, não é? Mamãe tem sido ótima. Veio aqui para o apartamento desde ontem e está cuidando de mim. Mas não pode deixar o papai sozinho indefinidamente, por isso resolvi telefonar para saber se você ia voltar logo.

– Sei. – Melanie mordeu o lábio inferior.

– Acho que ela ia ficar mais sossegada se você estivesse aqui para cuidar das compras, da comida, essas coisas. Além disso, não acha que já ficou bastante por aí?

– Bom – suspirou Melanie –, as coisas não são tão simples como eu tinha pensado.

– O que é que aconteceu? – perguntou Michael, tossindo de novo. Melanie encolheu os ombros num gesto involuntário. Como explicar

todas as complicações pelo telefone? Não podia esperar que ele compreendesse, passando tão mal como estava.

– Ainda não consegui fazer tudo o que queria – disse sem conseguir mentir. – Quando é que sua mãe volta para a casa dela?

– Amanhã, acho – disse ele, fungando do outro lado da linha. – Escute, Melanie, se a minha doença atrapalha seus planos, não se preocupe. Vou ter de me arranjar sozinho da melhor maneira possível.

– Ora, Michael – respondeu ela, exasperada –, não precisa entender tudo ao pé da letra. Ainda não completei os detalhes, mas isso não quer dizer que eu não possa voltar imediatamente. Se você está precisando de mim...

– Claro que estou precisando. Mas isso não quer dizer que você deva vir correndo. Eu consigo me virar sozinho.

– Ora, Michael, por favor! – disse ela, ansiosa. – Eu... eu volto amanhã. Pelo menos posso começar a viagem amanhã. Mas talvez só chegue aí depois de amanhã.

– Bom, se você não se importa...

– Claro que não... – Melanie tinha de controlar o desespero que crescia dentro dela. – Na verdade, acho que talvez seja melhor deixar as coisas aqui para depois do Natal.

– Também acho – concordou Michael, rouco. – Estou morrendo de saudades, Melanie.

Melanie sentiu o rosto esquentar a essas palavras e ficou contente por ele não poder vê-la. Sentia-se desleal, quase infiel, e talvez o fato de Michael precisar dela de repente fosse a melhor coisa que podia acontecer naquelas circunstâncias. Dava-lhe um bom motivo para sair de Cairnside e escapar das complicadas relações surgidas naquela tarde...

– Espero que não tenham sido más notícias – disse Ian Macdonald assim que ela entrou de volta na sala de jantar.

– Não. – Melanie sorriu. – Mas vou ter de partir imediatamente. Houve um coro de gentis lamentações e ela teve de inventar desculpas

para uma partida tão súbita. Terminado o jantar, foi até o balcão de recepção. Helen, a irmã de Sean Bothwell, estava de plantão e olhou-a um tanto surpresa.

– Pode fechar a minha conta, por favor? – pediu Melanie.

– Vai embora, srta. Stewart? – perguntou a moça, conseguindo disfarçar perfeitamente qualquer reação.

– Sim, amanhã de manhã. Você poderia chamar um dos mecânicos da oficina para dar uma olhada no carro, amanhã bem cedo? Sei que é meio precipitado, mas... é uma emergência.

– Entendo – respondeu Helen. – Acho que não vai haver problema. Vai partir antes do almoço, srta. Stewart?

– É o que pretendo.

– Muito bem. Vou cuidar do mecânico. E faço sua conta para o café da manhã, amanhã. Certo?

– Obrigada.

Melanie conseguiu dar um sorrizinho, mas quando se virou para subir a escada sentiu o vento frio entrar pela porta aberta. Jennifer entrou da rua, sorridente.

– Melanie! – exclamou a garota. – É com você mesma que eu queria falar.

– Olá, Jennie.

– Vamos tomar alguma coisa no bar – disse a mocinha, tomando o braço de Melanie. – Quero falar com você.

– Eu já estava indo para a cama... – Melanie hesitou em aceitar o convite.

– O quê? Às nove horas, já dormindo? Ainda bem que eu cheguei antes. Vamos!

Não podia recusar sem parecer rude. Deixou que Jennie a arrastasse até o bar. Como na noite anterior, havia pouca gente e Jeffrey estava lá em seu posto atrás do balcão. Jennifer acenou animada para ele, mas levou Melanie para uma mesa perto da lareira e foi buscar os drinques.

– Olhe aí – disse, estendendo a Melanie um gim-tônica e colocando seu suco de abacaxi na mesa. – Eu não bebo, sabe?

Melanie agradeceu, olhando ansiosamente para a porta. Se Helen contasse ao irmão que Jennifer tinha chegado, ele devia vir procurá-la logo, logo. Sentiu enorme dificuldade em se concentrar no que Jennifer estava dizendo, pois tinha os nervos extremamente tensos.

– Bom – disse a moça afinal, tomando um gole de suco –, eu queria me desculpar.

– Se desculpar?

– Claro. Por causa de ontem à noite. Eu vim até aqui ontem à noite, mas Helen disse que você estava com enxaqueca.

– É verdade – respondeu Melanie, brincando com o copo. – Mas não precisa se desculpar.

– Preciso, sim. Eu me senti muito mal com a atitude de Sean e acho que a culpa foi minha. Afinal de contas, você não sabia que eu tinha estado doente e nem que Sean é incrivelmente protetor comigo.

– Tudo bem, Jennie. Eu não fiquei chateada com você – insistiu Melanie, controlando a expressão de seu rosto.

– Não. Mas dá para entender como é que eu me senti? Quer dizer, Sean pode ser bastante grosseiro às vezes, e se não fosse por minha culpa...

– Esqueça – pediu Melanie, um tanto tensa. Então se lembrou: – Olhe, você... você sabe se o sr. Bothwell foi acender o fogão depois?

– Acender o fogão? – perguntou Jennifer com uma careta. – Não. Não que eu saiba.

– Alguém acendeu aquele bendito fogão.

– O quê?!

– Lembra que você foi até a aldeia buscar um pouco de lenha?

– Lembro.

– E você trouxe a lenha?

– Trouxe, sim. – Jennifer estava intrigada. – Achei que Sean devia ter dado para você.

– Não. Não me deu. Bom, depois que vocês saíram, vi que ia precisar de lenha para acender o fogo e esquentar a água, Então dei uma corrida até a aldeia. Quando voltei para a casa, o fogão estava aceso.

– Entendo. Bom, eu não sei nada a respeito – disse, preocupada. – Mas vou perguntar para Sean.

– Não, não precisa – Melanie se precipitou a dizer. – Não tem importância.

– O que é que não tem importância? – perguntou uma voz grave e cínica.

Jennifer olhou para cima, surpresa com a interrupção, mas Melanie não precisou olhar para reconhecer a ironia de Sean Bothwell. Sentiu o pulso se acelerar e o coração disparar. Sentia-se absolutamente inadequada ali. Tomou um gole de bebida, mas viu, horrorizada, Jennie indicar o assento a seu lado e ele se sentar com elas.

Melanie não levantou a cabeça, sentindo fortemente a presença daquele homem. Podia ver apenas os músculos da perna dele debaixo do tecido cor de creme da calça justa e a mão bronzeada pousada no joelho.

– Oh, Sean – perguntou Jennifer ingenuamente –, Melanie estava querendo saber se você tinha acendido o fogão ontem, depois que a gente saiu.

Melanie percebeu que estava agarrando o copo com tanta força que podia até quebrar o cristal entre os dedos.

– Não, não acendi, não – respondeu ele calmamente para Jennifer. – Foi Jeffrey.

Melanie levantou o olhar subitamente, dando de cara com os olhos cinzentos dele, absolutamente calmos. Por que ele não tinha contado isso de uma vez em lugar de inventar aquela história de forças sobrenaturais? Ele devia saber que o medo dela ao encontrar-se com ele na casa, depois, era resultado exclusivamente daquela insinuação maldosa.

– Pronto, Melanie – Jennifer disse, contente. – Você devia ter perguntado. Sean teria contado quem foi.

Melanie apertou os lábios. Queria acabar com aquele ar de cinismo do rosto de Sean, mas não sabia como. De qualquer forma, não podia deixar que ele levasse a melhor.

– Mas eu perguntei! – Seus olhos brilhavam, desafiantes, para Sean. – Não perguntei, sr. Bothwell?

– Perguntou mesmo? – Jennifer olhava de um para o outro, curiosa.

– O sr. Bothwell me contou uma história estranha. Disse que Angus Cairney tinha levantado do túmulo para vir acender o fogão de sua própria casa...

Jennifer estava perplexa e Melanie ficou satisfeita, sentindo que o tinha deixado desconcertado. – Verdade, Sean? – Jennifer perguntou a ele.

– O quê? Que eu contei para a srta. Stewart as histórias da fumaça saindo da chaminé depois que o velho morreu? É. é verdade. Eu contei a ela.

– Quer dizer que existem mesmo essas histórias? – Melanie estava impaciente.

– Ah, existem, sim – esclareceu Jennie. – Mas quando morre alguém num lugar isolado, sempre inventam essas histórias. Sean! Você não devia ter assustado Melanie...

– Não é minha culpa se a srta. Stewart é medrosa – disse ele, colocando um cigarro entre os dentes.

Melanie tornou a baixar a cabeça. Não tinha conseguido nada. Pelo contrário, eles agora tinham material para contar uma anedota divertida a respeito dela; podia ver isso no sorriso que bailava nos olhos de Jennifer. Terminou a bebida e pôs-se de pé.

– Com licença. Eu vou partir amanhã cedo e quero dormir bem...

– Vai embora amanhã? – perguntou Sean, pondo-se de pé também e ficando muito próximo dela. – Não sabia.

– Não? – Melanie torcia as mãos nervosamente atrás das costas. – Pensei que sua irmã tivesse lhe comunicado.

– Helen? Não, não estive com ela agora. – Sean apertou os olhos, sombreando-os com os cílios extremamente longos. – Pensei que ia ficar até amimar tudo em Monkshood.

– Vai voltar, Melanie? – Jennifer também tinha se levantado e estava ao lado deles. Era evidente que lamentava a partida da amiga recente.

– Vou. Vou, sim. – Melanie suspirou. – Mas acho que demora um pouco. Tem o Natal, sabe, todas as festas. Talvez na primavera...

– Então vai querer que eu continue cuidando da propriedade? – perguntou Sean, agora com o olhar muito sério.

– Ah, é claro, tinha me esquecido deste detalhe. Poderia fazer isso?

– Se quiser...

– Você deve ter espantado Melanie com essas histórias de horror – Jennifer brincou, enfiando o braço no dele.

Melanie conseguiu sorrir. Era isso que esperavam dela naquele momento. A pobre Jennifer devia estar sentindo a tensão no ar e tentava tornar as coisas mais leves.

– Não – Melanie respondeu, ainda sorrindo. – A historinha do sr. Bothwelt não me assustou, não.

Falou com bastante firmeza, percebendo satisfeita que ele apertava os olhos ao ouvi-la. Mas aquela satisfação durou pouco. Agora que se aproximava o momento da partida, não queria ir. Era muito desagradável perceber isso.

– Meu noivo está doente. Telefonou pedindo que eu voltasse – informou, decidida.

Jennifer consolou-a, mas Sean não disse nada e Melanie sentiu os olhos queimando. Sabia que linha de sair dali antes que dissesse ou fizesse alguma coisa de que se arrependeria depois. Deu boa-noite e foi para a porta.

– Nós nos veremos quando você voltar! – gritou Jennie.

Melanie deu um breve olhar por cima do ombro e viu a mocinha passar o braço pelo de Sean. olhando-o com enorme calor.

 

Londres estava na mesma. Melanie chegou dois dias depois, bem na hora do rush, e levou mais de uma hora para ir até seu apartamento em Bayswater. Mas mesmo assim era confortador saber que ali podia andar na rua sem ser reconhecida, nem ser bombardeada com perguntas.

Era delicioso estar de volta ao lar, entre coisas já familiares, e ela andou pelo apartamento examinando tudo com nova perspectiva. Não era um apartamento particularmente grande, contando apenas com uma sala, cozinha minúscula, quarto e banheiro pequenos, mas era o seu lar. Serviu-se de um cálice de xerez e afundou-se preguiçosamente no sofá, pegando o telefone.

– Estava pensando em você – disse Michael, felicíssimo de ouvir a voz dela. – Queria que você já estivesse aqui comigo. Vista o casaco de novoe venha já. Vou ligar para o Luigi's e pedir para mandarem o jantar.

– Querido, me dê um minuto para tomar fôlego – respondeu Melanie, esticando as pernas. – Cheguei não faz nem quinze minutos. Ainda nem tive tempo de tomar banho e me trocar. Nada.

– Não importa – insistiu ele, impaciente. – Quero ver você. Já percebeu que faz mais de uma semana que não nos vemos?

– Está bem. – Ela conteve um bocejo. – Vou tomar um banho e me trocar. Tenho de me recompor um pouco. Estou exausta.

– Ótimo – concordou Michael.

– E a gripe? Melhorou?

– Bastante. – Ele deu uma tossida e continuou: – Depressa, querida. Estou louco para vê-la.

Melanie desligou e ficou olhando o telefone durante alguns minutos. Michael estava soando bastante saudável e ela começou a suspeitar se seu retorno a Londres não teria sido planejado por ele e pela mãe. Sabia que a sra. Croxley estava louca para eles se casarem logo. Como Michael, ela também não tinha aprovado aquela viagem de Melanie para o norte.

Incapaz de resolver o problema, Melanie foi tomar banho. Mergulhou na água perfumada por sais, pensando que naquele momento já estaria se sentando à mesa para jantar no hotel de Cairnside. Desde que partira de lá tinha tirado decididamente da cabeça tudo o que se referia a Monkshood, o Hotel Black Bull, Jennifer e sobretudo Sean Bothwell. Mas agora que a viagem já terminara e podia relaxar, ficava difícil não se lembrar das coisas. Além disso, talvez esquecer não fosse a melhor coisa. As situações tendem a parecer mais graves do que são na verdade quando a gente se recusa a enfrentá-las.

E, afinal de contas, o que é que havia de tão grave para enfrentar? Tudo o que tinha acontecido fora resultado de um conjunto de circunstâncias pelas quais ninguém era diretamente responsável. Tinha de esquecer os sentimentos negativos que Sean tinha demonstrado por ela e pensar apenas nos aspectos positivos da visita. Assim que Monkshood estivesse de novo em condições de ser habitada, não havia por que manter qualquer envolvimento com Sean. Arranjaria alguém para cuidar da casa em sua ausência. Pagaria um bom salário. Aliás, os advogados podiam ajudá-la.

Decisão tomada, saiu da água perfumada e pegou a toalha amarela e macia para se enxugar.

Vestiu-se com esmero. Queria que Michael a visse bem bonita. Além disso, precisava recobrar um pouco da segurança que Sean Bothwell parecia abalar com tanta facilidade. Vestiu uma blusa branca de renda veneziana, saia preta fina e pesada, caindo mole até os tornozelos, um xale verde-escuro, de lã, com bordas de pele preta. Estava bonita e o motorista do táxi que tomou para ir ao apartamento de Michael cumprimentou-a, visivelmente admirado.

O apartamento dele ficava num prédio alto, perto do Embankment. Era um lugar luxuoso, grande demais para um homem solteiro, mas Melanie iria morar com ele assim que se casassem. Até então ele mantinha uma diarista que cuidava do trabalho doméstico. Michael só usava o apartamento à noite e pela manhã, antes de ir trabalhar. Melanie achava uma pena desperdiçar uma cozinha tão grande e bonita, mas tudo mudaria quando fosse morar lá.

Pegou o elevador até o sétimo andar e caminhou pelo corredor até a porta de Michael. Tocou a campanhia e depois de uma pequena pausa ele próprio abriu a porta.

Michael Croxley era alto e magro e tinha trinta e dois anos. Seu porte convencional era ainda mais enfatizado pela meticulosa atenção com que se vestia. Mandava fazer os ternos sob medida e todas as suas camisas eram feitas à mão. Nunca seguia as modas, mas conseguia manter sempre uma elegância discreta, escolhendo cada detalhe de acordo com a seriedade de sua profissão. O cabelo castanho tinha alguns fios prateados, dando-lhe um toque de distinção.

Melanie admirava-o muito. Tinham-se conhecido através do editor dos livros que ela ilustrava e já estavam juntos há três anos. Desde que ela tinha vinte e um. Estavam oficialmente noivos há apenas seis meses, mas Melanie soubera desde o início que ele tinha sérias intenções com ela. Na verdade, tudo naquele jovem era sério.

– Melanie! – exclamou ele, iluminando um pouco as feições sérias. – Querida! Como estou contente!

Melanie deixou que ele a puxasse para dentro, examinando-a com uma cara muito séria. Apesar de estar com o nariz um pouquinho vermelho de tanto usar o lenço, ele não parecia nem de longe o inválido que ela esperava encontrar. Sentiu-se um pouco irritada com aquilo.

– Como vai, Michael? – perguntou, enquanto despia o xale. – Parece muito melhor.

– E estou. Muito melhor! – Ele suspirou. – Aqueles antibióticos que o médico me deu fizeram um verdadeiro milagre. Nem imagina como passei mal nos últimos dias. Mas valeu a pena, se isso a trouxe de volta para mim. – Ele se aproximou e a beijou muito de leve nos lábios.

Melanie caminhou até a sala grande e confortável, controlando a vontade que estava sentindo de brigar com ele.

– Não vá me dizer que tudo isso foi uma história inventada só para me trazer de volta a Londres?

– É claro que não! – disse Michael, fechando a porta e entendendo perfeitamente a ironia que havia na voz dela. – Quando telefonei para você, estava me sentindo realmente mal. Nem sabia como é que ia me arrumar depois que mamãe fosse embora.

Melanie suspirou. Era inútil ficar tão impaciente só porque Michael tinha recorrido a ela numa hora de necessidade. Afinal, sua maior preocupação devia ser com ele, e não com uma casa velha encravada nas montanhas da Escócia. Tinha de parar de dar tanta importância a coisas materiais!

– Bem, não importa – disse, forçando um sorriso. – Não vai me oferecer um drinque? Eu gostaria muito.

Michael hesitou, olhando para ela intensamente. Quando Melanie já começava a sentir uma pontada de culpa, ele se afastou e foi até o bar servir as bebidas. Era como se ele pudesse sentir um vago descontentamento na atitude dela e Melanie se perguntava por que, de repente, aquela figura esguia, de traços bonitos, lhe parecia tão distante.

Irritada, afastou esses pensamentos com decisão e se afundou numa das poltronas estofadas de veludo azul que faziam a sala do apartamento de Michael parecer tão elegante e bonita. Ela não via defeitos no gosto dele para móveis e pretendia mudar muito pouca coisa quando se casassem.

– E então? – perguntou ele, entregando a ela um gim-tõnica. – Como foi?

– A Escócia? – Melanie perguntou depois de tomar um gole.

– Que mais podia ser? Você foi muito confusa nas explicações pelo telefone.

– É que é difícil falar dessas coisas pelo telefone – respondeu Melanie, apertando os lábios. – Nem tudo saiu tão... tão direitinho quanto eu esperava.

– O que quer dizer? Monkshood estava lá, não estava? – perguntou Michael, levantando as sobrancelhas finas.

– Claro, claro, estava lá em seu lugar. Simplesmente havia lá outro pretendente a herdeiro.

– Outro herdeiro? – Michael sentou-se na poltrona diante dela, jogando a perna por sobre o braço estofado de azul. – Pensei que o velho Cairney fosse um tipo solitário.

– E era... – Melanie estava achando terrivelmente difícil contar a Michael sobre Sean Bothwell. Sentia-se mal de ter de expor aquele relacionamento aos olhos agudos de Michael.

– Ah, vamos lá, conte! – exclamou, impaciente. – O que foi que aconteceu? Algum malandro?

– Não, nada disso. – Melanie tomou um gole.

– Talvez seja melhor começar do começo – disse Michael secamente, num tom oficial. – Parece-me que essa coisa toda a perturbou muito. Senti uma certa... uma certa reserva em você, assim que entrou aqui.

– Oh, Michael, pare de me tratar como se eu fosse um cliente. – Melanie mordeu o lábio. – Estou tentando explicar, mas é uma coisa tão particular.

– Particular? Para quem?

– Para Sean Bothwell!

– Sean Bothwell... – Michael pegou seus cigarros. – Quem é Sean Bothwell?

– O homem que esperava herdar Monkshood.

– Sei. E ele... quem é?

– Dono do Black Bull. O hotel onde me hospedei.

– Sei – repetiu Michael, tentando compreender aqueles comentários desconexos que ela estava fazendo. – E ele também era algum parente do seu falecido tio-avô?

– É. – Melanie terminou a bebida. – Parente bem próximo. Na verdade, era filho dele.

– Filho?! – Michael se endireitou na cadeira. – O velho Angus tinha um filho? Velho danado. E não contou para ninguém. Então a casa pode não ser sua no final das contas? É isso? Mas por que os sobrenomes deles são diferentes?

– Michael, por favor. Está indo depressa demais. – Melanie se pôs em pé. – Eu estou tentando explicar. Monkshood é minha. Bothwell não

era filho legítimo.

– Meu Deus! Agora começo a entender!

– Ele achava que Angus não tinha parentes e o velho levou-o a pensar que a casa seria dele quando morresse. O testamento nunca entrou em discussão.

– Que situação! Pobre Bothwell! Como é que ele é? Você discutiu com ele?

– Discutimos, sim – concordou Melanie secamente. Foi até o bar servir-se de mais bebida, para que Michael não pudesse ver a expressão de seu rosto. – Ele... ele é jovem. Uma... uma personalidade muito forte!

– É mesmo? – Michael estava sério. – É casado?

– Não! Pelo menos, acho que não. – Estava preocupada, a mão tremia ao servir o drinque. Na verdade, não tinha nenhuma certeza sobre Bothwell.

Antes que Michael suspeitasse de sua demora no bar, voltou para a poltrona. Tomou um gole para esconder no copo sua expressão.

– E ele quer muito a casa? – Michael perguntou.

– Quer, sim.

– Sei. – Michael parecia aliviado, mas Melanie só entendeu por que quando ele continuou falando: – Acho bom. Honestamente, eu não vejo futuro para nós dois naquele lugar. Quer dizer, é longe demais para os fins de semana e nós dois trabalhamos aqui. Em Londres.

– Então você quer que eu venda? – Melanie arregalou os olhos.

– Claro. Você não quer?

– Francamente, não. Não quero.

– Mas por quê? Não é de nenhuma valia para você e esse sujeito parece ter certa prioridade. É o melhor que você tem a fazer!

– Não. Não é! – Melanie aprumou o corpo. – Olhe, Michael, ainda não tivemos tempo de conversar sobre essa casa, sobre os meus planos. Vamos esperar até depois do jantar e daí você me pergunta tudo o que quiser saber.

– Muito bem. – concordou Michael diante do sorriso de Melanie. – Não vejo por que discutirmos isso. Eu já tinha lhe dito antes mesmo de você viajar que era uma bobagem.

– Mas não é, Michael. E uma casa com enormes possibilidades. Eu... eu podia trabalhar lá.

– Mas eu não – disse ele pesadamente, pondo-se de pé. – Bom, vamos esperar até depois do jantar. Deixei Luigi avisado de que telefonaria quando quisesse a comida.

A refeição foi deliciosa. Melanie tomou vários cálices de vinho para aliviar a tensão e, enquanto tomavam licor junto com o café, ela começou a se sentir mais à vontade. Afinal, era àquilo que pertencia. Esta era a sua vida. Com Michael, naquele apartamento maravilhoso, com ar condicionado, satisfeita e preguiçosa depois de uma lauta refeição.

Sentaram-se juntinhos no sofá, Michael com o braço em torno dela. Melanie pensou, divertida, que estavam parecendo um daqueles casais de anúncios sobre o conforto moderno. Uma vida inteiramente diferente da casa isolada entre as montanhas, onde o aquecimento era absolutamente inseguro e nunca se tinha sequer ouvido falar de ar condicionado.

Quando Michael voltou a fazer perguntas sobre Monkshood, Melanie começou a se questionar por que estava sendo tão teimosa a respeito da questão de manter ou não a casa. Afinai, com que frequência poderia usar aquela vasta propriedade? Seria mesmo capaz de deixar Michael, depois que estivessem casados, para ir trabalhar lá na Escócia? Parecia tudo muito duvidoso.

Além do mais, Michael exigia conforto, e, quando já estivesse acostumado a tê-la ao seu lado, não renunciaria a isso tão facilmente. Já sabia que seu trabalho viria sempre depois do dele e dizia a si mesma que era assim que devia ser. Nunca tinha sentido antes nenhuma vontade de escapar à proteção dele e não havia nenhuma razão para que o fizesse agora.

– Se vendesse a casa – Michael dizia agora, suave e persuasivo –, podia usar o dinheiro da maneira que quisesse. Podia comprar uma casinha de campo para nós. Em Kent, ou em Sussex, talvez, um lugar para a gente ir e ficar absolutamente a sós.

Melanie inclinou a cabeça de lado para olhar para ele. É realmente o homem mais lindo que já conheci na vida, pensou, satisfeita. O cabelo meio ondulado caía um pouco na testa e os olhos azuis, muito grandes, eram quase infantis naquele brilho ardente que tinham. Mas...

– Dentro de onze semanas estaremos casados... – disse ela, olhando para o aquecedor elétrico que simulava as chamas de uma lareira.

– Exatamente. Menos de três meses – concordou Michael. – E o Natal e o Ano Novo estão a menos de quinze dias. Na verdade, não temos muito tempo a perder com casas em ruínas.

– Acho que tem razão – disse Metanie devagar, tentando apagar qualquer dúvida que ainda restasse. – Acho que a idéia de possuir uma casa me deixou meio tonta. Sobretudo sabendo que o dono tinha sido meu parente distante... Sabe, Michael, faz tempo que não tenho parentes.

– Logo, logo isso vai mudar! – Michael beijou-a na testa, murmurando suavemente: – Terá um marido, uma sogra e um sogro.

– E filhos – completou, contente.

– Pode ser – disse Michael, tolerante. – Mas não vamos querer um bebê assim tão depressa, não é, meu bem?

– Nem sempre dá para decidir isso, Michael.

– Mas é claro que podemos tomar providências, querida – disse ele, estalando os dedos de maneira irritante.

Ele se inclinou para pegar os cigarros, tirando o braço dos ombros de Melanie, e ela viu toda aquela satisfação que estava sentindo se evaporar de repente. Tornou a ter dúvidas.

Será que estava se deixando levar por Michael sem perceber? Estaria ele dirigindo a vida dela inteira, sem que ela tivesse o direito de resolver por si mesma? Por que é que volta e meia tinha aquela sensação de estar sendo treinada num curso de autodestruição?

Inclinou-se, pegou o copo de conhaque que Michael tinha servido para ela e tomou um gole, procurando desesperadamente aquela branda aceitação do destino que tinha sentido momentos antes. Tinha de parar com aquela consciência de si mesma. Michael tinha sido sempre maravilhoso com ela. Era um homem que muitas mulheres admiravam, não apenas porque era bonito e rico, mas também por sua posição social.

Era ingratidão imaginar que a estaria moldando para ser como ele queria. Só porque era sempre ele quem decidia? Será que gostaria de um homem que aceitasse prontamente tudo o que ela resolvesse? Ou preferia Michael, que só fazia aquilo que julgava ser o melhor para ela? Afinal, era o trabalho dele que era importante, não o dela. Teria de encontrar satisfação em outras esferas, não na arte. Como esposa de Michael, estaria sempre cheia de compromissos sociais, e aos poucos todos os planos de transformar Monkshood numa moradia confortável estariam esquecidos...

 

Incrível como Melanie se readaptou depressa à vida em Londres. Tinha muita coisa com que se ocupar por causa das festas de fim de ano e, além disso, o editor tinha uma nova série de ilustrações para ela. Ele estava muito contente com o trabalho dela e demonstrou mais interesse em Monkshood que Michael tinha demonstrado. Talvez sua mentalidade mais voltada para os negócios visse possibilidades naquilo. Ao discutir o assunto com ela, não insistiu para que vendesse a propriedade.

– Deixe estar – aconselhou, gentil. – Afinal de contas, a casa é sua. E, se mantiver os impostos em dia, não tem por que vender antes de explorar todas as possibilidades.

Melanie o ouvia com atenção, Desmond Granam não era tipo de dar conselhos sem sentido e ela concordava com ele. Não havia pressa.

Deixou portanto de lado todas as preocupações com Monkshood e concentrou suas atenções no futuro mais imediato. Michael não lhe fez mais perguntas e, como estava também cheio de trabalho, não tinha muito tempo para se preocupar com os assuntos dela.

Melanie passou o Natal com a família de Michael. Além do pai e da mãe, vieram também Lucy, a irmã mais velha, com o marido e três filhos. Foi uma festa familiar. Melanie adorou aquela atmosfera descontraída. Era a primeira vez que participava de atividades familiares em sua vida. E isso lhe tinha sido proporcionado pela família de Michael.

Sentia-se grata.

No primeiro dia do ano nevou bastante e, durante a tarde, eles se juntaram às crianças no jardim para uma batalha de bolas de neve. Era uma brincadeira agitada e Melanie notou que Michael tinha dificuldades em se livrar de seu permanente ar de dignidade. Mas ele pareceu se divertir. Depois, sentaram-se em torno do fogo tomando vinho quente e comendo doces. Foram uns dias deliciosos e Melanie sentiu quando

tiveram de voltar à cidade.

Londres com neve não era muito divertida. Os carros amassavam os flocos macios, transformando-os numa lama gelada e preta. Melanie usava suas botas altas praticamente todos os dias. Enquanto caminhava para o escritório, e depois de volta para casa, ia sempre pensando na diferença entre aquele ambiente urbano e aquela pureza dos grandes espaços nevados de Cairnside. Mais de uma vez sentiu-se tentada a convencer Michael a ir com ela visitar Monkshood. Sem dúvidas, depois que estivessem lá, gozando daquela liberdade que só a vida no campo dá, ele entenderia melhor por que ela relutava tanto em vender a propriedade.

Mas, apesar dessas vagas esperanças, não falou no assunto com Michael. Achava que seria mais conveniente esperar até que o tempo melhorasse, para convidá-lo a fazer uma visita. Como não havia nenhum problema imediato a resolver lá, deixou o assunto de lado. Mergulhou no trabalho. E Michael, por sua vez, estava ocupadíssimo, colocando em dia uma enxurrada de casos meio paralisados pelas festas de fim de ano.

Uma noite, lá pelo fim de janeiro, Melanie voltou para casa mais tarde que de costume. Tinha havido uma reunião inesperada na editora, que a tinha atrasado, mas como não tinha planos para sair à noite não se importou.

Ao chegar ao prédio onde morava estava começando a sentir um vazio no estômago e subiu os degraus pensando no que haveria dentro da geladeira. De repente, notou a figura de um homem no alto dos degraus.

Imediatamente lhe veio à mente o episódio de Monkshood e ela hesitou um momento antes de continuar subindo.

– Boa noite, srta. Stewart. Eu já estava achando que você não morava mais aqui.

Melanie olhou, incerta, para o rosto forte de Sean Bothwell. Por um momento chegou a pensar que a fome estava lhe provocando alucinações. Mas aqueles ombros largos pareciam bastante reais e a expressão irônica do rosto era inesquecível.

– Boa noite, sr. Bothwell – disse ela, conseguindo disfarçar a própria perturbação. – É uma surpresa...

– É mesmo? Não vejo por quê. Eu sempre preferi tratar de negócios pessoalmente. Não gosto de entregar essas coisas para advogados.

Melanie olhou para ele um instante e sacudiu a cabeça. Ou ela era muito burra ou o que ele estava dizendo não fazia nenhum sentido..De qualquer forma, não podiam continuar ali na escada indefinidamente, expostos aos comentários dos vizinhos.

– Entre, por favor – convidou, abrindo a porta.

Bothwell passou, ela entrou em seguida, fechou a porta e acendeu as luzes. Ali, na intimidade de seu apartamento, Bothwell parecia extremamente poderoso e dominador. Ela ainda não conhecia a razão daquela visita, mas sabia que depois que ele se fosse algo de sua personalidade permaneceria ali, na casa dela. Era uma idéia perturbadora. Preferia nem pensar nisso.

Bothwell caminhou até o centro da sala e olhou em volta, aparentemente interessado. Vestia um sobretudo escuro, forrado de pele, sobre o temo também escuro. Parecia extremamente grande e forte, tomando a sala menor. Usava os cabelos um tanto mais longos que os de Michael e aquelas costeletas tão compridas davam-lhe um ar estranho. Melanie se perguntou por que aquele homem de traços tão rudes, de maneiras bruscas, impunha tamanha virilidade, quando Michael, que era infinitamente mais bonito e seguramente muito mais sofisticado, parecia menos... eficiente.

Melanie afastou esses pensamentos e tirou o casaco. Agora que via Bothwell em sua sala, quase se arrependeu de não ter falado com ele na escada mesmo. Sentia como se ele estivesse invadindo sua intimidade. E não conseguia atinar com as razões daquela visita.

– Aceita um drinque? – perguntou, mais para romper o pesado silêncio.

– Aceito, sim, obrigado. Uísque?

– Claro.

Melanie foi até o barzinho. Serviu uma dose generosa para ele, mas não ousou tomar nada além de xerez, com o estômago vazio como estava.

Ele ignorou a sugestão dela para que se sentasse e Melanie resolveu ficar em pé também. Mas sentia-se fraca e apoiou-se no braço de uma poltrona.

– Não sabia que vinha sempre a Londres, sr. Bothwell.

– Mas não venho mesmo – respondeu ele, tragando metade do uísque num só gole. – Mas achei que neste caso era importante vir pessoalmente.

– E o que o traz a Londres, sr. Bothwell? – perguntou Melanie, sem esconder sua curiosidade.

– Sabe perfeitamente bem por que estou aqui – respondeu ele, um tanto irritado –, e não vejo razão para começar esse jogo de esconde-esconde.

– Não faço a menor idéia, sr. Bothwell... – Melanie estava surpresa, mas falou com firmeza. – Além do mais, acho que está sendo grosseiro. Pode ter dominado a situação enquanto eu fui hóspede de seu hotel, mas agora está em minha casa, e...

– Srta. Stewart – interrompeu ele, caminhando para a janela que dava para a praça de Bayswater –, vai me dizer agora que se esqueceu da carta que me escreveu propondo a venda de Monkshood? A preço baixo?

Melanie engasgou e ele se voltou para ela, evidentemente irritado. Caminhou até Melanie e parou perto dela. Por um instante encararam-se em silêncio.

– E então? Nega ter me escrito essa carta?

– Mas é claro. Não escrevi carta nenhuma. Nem mesmo para os advogados.

– Então quem foi? – perguntou ele, rude e impaciente.

– Nem... nem imagino. – Melanie passou a mão pelo rosto, olhando para ele. – Tem de me acreditar. Não sei de carta nenhuma. Estava... estava assinada por mim?

– Não, Foi mandada por McDougall e Price. Os advogados de Fort William.

– Mas quem poderia fazer isso sem a minha permissão? – Melanie sacudiu a cabeça, deixando a pergunta no ar.

Só podia ler sido Michael! Ele era a única pessoa com quem tinha falado da possibilidade de vender a casa. Devia ter achado que ela tinha acabado concordando com a venda naquela noite em que conversaram. Melanie tinha dado como certo que estava tudo esquecido e arquivado, mas ele tinha tratado do assunto por ela.

Sentiu-se ultrajada. Ele nunca tinha mencionado nem uma palavra sobre o assunto. Não devia ter ido tão longe sem consultá-la antes. Mas ao mesmo tempo, Michael supunha estar fazendo o que ela queria. E agora, ali estava Bothwell, diante dela, preparado para pagar quanto ela pedisse. Que devia fazer?

– Acho que agora já sabe quem foi que fez a proposta de venda – disse ele, depois de assistir ao jogo de expressões do rosto dela por alguns instantes.

– Sim... Quer dizer, acho que foi Michael.

– Michael?

– Meu noivo.

– Ah, entendo. Suponho que ele quer vender a casa, então? Não deve partilhar das suas aspirações sentimentais àquele lugar.

– É verdade – Melanie admitiu, sentindo o sangue afluir às faces, – Mas ele ainda não conhece a casa.

– Ainda não? O que quer dizer com isso?

– Exatamente o que disse. Estou planejando ir com ele assim que o tempo melhorar.

– Meu Deus! – Bothwell parecia sombrio, irritado, agitando as mãos ameaçadoramente. – Quer dizer que ainda não desistiu dessa idéia maluca?

– Claro... claro que não. – Ela saiu do braço da poltrona e caminhou nervosa pela sala. – Sinto muito que tenha perdido a viagem, mas não pode, honestamente, me culpar por isso. Eu não escrevi nenhuma carta. Não posso ser responsabilizada pelas ações de meu noivo.

– Ele é também seu advogado, não é?

– Isso mesmo.

– Entendo.

Bothwell fixou os olhos num ponto. Tirou os cigarros e acendeu um. Jogou o fósforo usado na lareira, sem nem perceber que o aquecedor de Melanie era elétrico. Parecia estar concentrado, tentando manter a calma.

– E seu noivo não lhe disse nada a respeito da carta... Por que será? Será que ele achou que você mudaria de idéia?

– Ainda não resolvi nada – Melanie respondeu e suspirou. – Na verdade, achei que o problema tinha sido arquivado por algum tempo. É como eu já disse. Sinto muito.

– Eu também! – Concentrado como estava, bateu a cinza na lareira também. Depois, muito à vontade, sentou-se numa das poltronas. – Tenho de ter uma conversa com esse... com esse senhor.

– Eu... não vamos nos encontrar hoje – disse Melanie, apertando os lábios.

– Não? – Eíe levantou as sobrancelhas escuras.

– Não! – Melanie suspirou mais uma vez e fez um gesto meio perdido. – É só isso?

Bothwell encolheu os ombros largos. Não estava mais tão carrancudo, mas ainda não sorria, nem demonstrava nenhum sinal de bom humor. Na verdade, Melanie desconfiava daquela expressão calculista que via nos olhos dele e imaginava o que é que ele pretendia fazer em seguida.

– Parece pálida, srta. Stewart – disse. – Já jantou?

– Ainda não.

– Então vista o casaco. Eu a convido para jantar.

– Oh, mas... não... eu... – Melanie procurou desesperadamente uma desculpa.

– Por que não? Eu também não jantei ainda. Não vai deixar que as coisas que aconteceram em Monkshood afetem sua decisão. Afinal, viajei toda essa distância e o mínimo que pode fazer é sair comigo para jantar. – Sean Bothwell apertou os olhos cinzentos. – Não precisa se preocupar. Não pretendo repetir aquele incidente de Monkshood. Você não é o meu tipo de mulher e eu faço questão de não guardar rancores.

Melanie se ofendeu com aquela amargura e o brilho frio do olhar dele. No fundo, uma pontinha de perversidade levava-a a sentir vontade de provar a ele que não era o tipo de mulher que ele imaginava. Na verdade, Sean não tinha em que basear sua opinião, a não ser naquele breve instante na cozinha da velha casa. E aquilo não se repetiria, ele mesmo tinha dito. Mesmo assim, era incrível que ousasse convidá-la para sair com tamanha insolência. Ela tinha de recusar e botá-lo para fora do apartamento. Mas talvez fosse exatamente isso que ele estivesse esperando acontecer. Era difícil saber, quando se tratava de Sean Bothwell.

Mas havia também outra razão que tomava o convite dele atraente. Ia gostar de contar depois a Michael que tinha saído com Sean Bothwell. Seria uma maneira de revidar a maneira altiva e autoritária com que o noivo tratava de seus assuntos.

– Muito bem. Vamos jantar! – Melanie resolveu, criando coragem,

– Espere um minuto, enquanto vou me trocar.

Se sua aceitação surpreendeu Bothwell, ele conseguiu disfarçar muito bem a surpresa.

Mas enquanto trocava de roupa, Melanie se perguntava por que ele a teria convidado a sair. Afinal, ele não devia ter dificuldade nenhuma parai encontrar companhia feminina. Sabia que aquelas feições um tanto toscas e aquele ar selvagem eram muito atraentes para algumas mulheres, portanto não era solidão. E havia também Jennifer. Qual seria o verdadeiro papel dela na vida dele? Será que iam se casar? E, se casassem, será que ela saberia satisfazê-lo?

Melanie mordeu o lábio enquanto aplicava mais rímel aos cílios já escuros. Esses assuntos não eram problema dela. Tinha de parar de se preocupar. Mas por que continuava insistindo em se relacionar com aquele homem? Por que a mera presença dele era capaz de despertar nela as mais confusas emoções? Ao voltar da Escócia e reencontrar Michael, tinha achado que Sean Bothwell desapareceria para sempre de sua mente, mas, agora que ele estava ali, ela sabia que não o tinha esquecido.

Escolheu um vestido de lã vermelho, curto, leve e muito apropriado a seu corpo. E, por cima, seu casaco comprido de veludo preto, debruado em pele.

Ao sair do quarto observou a expressão dele, mas não conseguiu descobrir se ele tinha gostado ou não de sua aparência. Bothwell se pôs de pé educadamente, mas mantinha uma certa altivez enigmática e impenetrável. Melanie admitiu para si mesma que o programa daquela noite a estimulava muito, apesar de não ser nada aconselhável naquelas circunstâncias.

Ele abotoou o casaco e, muito à vontade, cruzou a sala para abrir a porta para ela. Desceram os dois lances de escada em silêncio e saíram para o ar frio da noite. Melanie estava de botas altas de camurça e levantou a barra do casaco para cruzar a praça até a rua principal, onde tomariam um táxi. Pensou em onde estaria aquele jipe enorme, mas concluiu que Sean dexia ter vindo de trem.

Entraram no táxi e, depois de dar instruções ao motorista, ele se sentou ao lado dela.

– Vamos para o Roscani's.

Melanie olhou para ele, muito surpresa. O Roscani's era um restaurante relativamente novo e ela não pensou que ele já o conhecesse.

– Eu venho a Londres algumas vezes, srta. Stewart –- esclareceu ele, como se sentisse a perplexidade dela. – E, além disso, Cairnside não é o fim do mundo.

– Não pensei que gostasse disto aqui – observou ela, maldosa. – Gente da cidade parece não merecer muito da sua consideração.

– Eu disse isso?

– Sabe que sim. – Melanie suspirou,

– É mesmo? Que grosseria a minha.

Melanie sentiu um toque de humor na voz dele e virou-se para olhá-lo, mas Bothwell estava olhando pela janela e ela não pôde ver sua expressão.

Tentava entender por que ele a tinha convidado a sair. Evidentemente não era por apreciar a companhia dela. Talvez estivesse pretendendo conversar sobre Monkshood, para tentar convencê-la de que era perda de tempo insistir em não vender.

Não podia saber quais as razões do convite e não devia ter aceitado, mas... lá no fundo, não tinha sentido a menor vontade de recusar.

Ele não puxou conversa no táxi e, quando pararam, ajudou-a a descer, muito gentilmente, apoiando o cotovelo dela até que atravessassem a rua para a entrada do restaurante.

No hall acarpetado de vermelho, foram recebidos por um empregado muito solícito, que pegou os casacos e indicou uma das duas portas de vidro, que davam para o bar.

A sala era bonita e não estava cheia demais. Melanie aceitou mais um xerez, achando que seria arriscado tomar qualquer coisa mais forte, e Bothwell tomou seu uísque de sempre.

À volta deles as pessoas riam, conversavam e se divertiam, mas Melanie se sentia tensa, incapaz de relaxar. Desejou ter tido forças para recusar o convite, afinal. Mas agora era tarde demais e ia ter de aguentar. Esperava não encontrar conhecidos. Mas não havia nada a temer. Bothwell evidentemente ia querer encontrar Michael para esclarecer o assunto e o noivo ia ter de saber que tinham saído juntos. Só esperava que isso não criasse problemas entre eles.

– Está muito calada – observou ele, acendendo um cigarro. – É sempre assim ou é a minha presença que a emudece?

– Estava esperando que você falasse primeiro. Estava pensando se você não teria se arrependido de ter me convidado para jantar.

– Por quê?

Melanie sacudiu a cabeça e não respondeu. Aquela proximidade dele a perturbava. Podia estudar cada milímetro de seu rosto, os cílios longos, o lábio inferior grosso e sensual, os cabelos grossos. Ele tinha um magnetismo que a atraía no que tinha de mais primitivo. Sentia um desejo irresistível de tocá-lo. Lembrava-se da paixão exigente dos lábios dele colados à sua boca, da força daquele corpo colado ao seu e da firmeza daquelas mãos pressionando sua carne. Desviou os olhos, tentando acalmar os sentidos que se acendiam, o coração pulsando forte. Sean Bothwell pareceu perceber a perturbação dela e tirou vantagem disso.

– Pare de tentar me analisar, srta. Stewart – murmurou ele, insinuante, próximo ao rosto dela. – Aceite esta noite pelo que ela é apenas. Certamente seu inestimável noivo não vai objetar, não é?

– Não teria razões para isso. – Melanie percebeu que tinha falado incisiva demais, revelando toda a tensão que sentia.

– Então! Vamos relaxar e nos divertir. Somos apenas um homem e uma mulher sentados num lugar público. Deve haver centenas de assuntos que poderíamos discutir sem pular um na garganta do outro.

– Acho que sim.

– Bom – disse ele, inclinando a cabeça. – Fale-me do seu trabalho. Ele me interessa, apesar de eu não entender muito de arte.

Surpreendentemente, Melanie sentiu-se relaxar. Falar sobre seu trabalho sempre a entusiasmava e aquilo a tranquilizou temporariamente. Descobriu que ele era um ouvinte excelente e chegou mesmo a fazer algumas observações que revelaram que sabia apreciar a arte. Na verdade depois de algum tempo, Melanie chegou a se esquecer de tudo e enveredaram pelos campos de música e literatura. Sean lera muito e podiam falar de alguns autores de que ambos gostavam. Em música, no entanto, seus gostos diferiam bastante. Mas Melanie achava que ele acabaria gostando das obras contemporâneas que eram as suas preferidas.

Bothwell escolheu os pratos do jantar. A comida era deliciosa! Evidentemente ele já tinha comido ali antes, e conhecia as especialidades da casa, mas Melanie nunca tinha provado lagosta ao vinho. Tomaram licor junto com o café e Melanie se recostou na cadeira, satisfeita.

– Tenho de começar a cuidar do meu peso – disse ela, rindo. – A comida no seu hotel era ótima. E agora isto aqui...

Sean Bothwell deu um meio sorriso. Ele não tinha rido muito durante toda a noite, mas quando o fazia Melanie sempre se surpreendia com a transformação da expressão dele.

– Acho que ainda não tem com que se preocupar. – Bothwell a estudou com os olhos apertados. – Não gosto de mulheres que são só pele e ossos.

– Jennifer é bem magrinha – disse Melanie sem perceber, corando violentamente logo em seguida.

– Jennifer esteve muito doente – respondeu ele rudemente, o bom humor desaparecendo tão depressa quanto tinha surgido. – Ela nem sempre foi tão magra.

– Eu sei. Desculpe, não era minha intenção soar tão grosseira. – Melanie mordeu o lábio. – Foi só um pensamento que cruzou minha mente e eu deixei escapar em voz alta. Não tinha nenhuma intenção de

ofender.

– Tudo bem, srta. Stewart – disse ele, apagando o cigarro. – Não me ofendeu. As qualidade de Jennifer não são superficiais. São profundas e inatas. Algo que você talvez não admire.

– O quê?

– Nada, absolutamente nada.

Sean se pôs de pé e Melanie entendeu que ele estava dando a noite por encerrada. Suspirou e levantou-se também. Estava deprimida como se de repente tivesse atingido um anticlímax. Mas perguntava-se ao mesmo tempo o que é que esperava de tudo aquilo. Afinal de contas, sabia que era apenas alguém com quem ele tinha resolvido passar umas horas agradáveis. Sentia nele uma certa tolerância para com ela, mas também uma grande impaciência.

Saíram do restaurante e ele chamou outro táxi. Melanie esperava que ele a colocasse no carro e depois seguisse para o hotel onde estava hospedado, mas em vez disso Sean subiu no carro com ela.

A corrida era curta e, quando chegaram à praça, ele dispensou o táxi e foi com ela até a entrada do prédio.

– Muito obrigada pelo jantar – disse ela, dirigindo a ele o que imaginou ser um grande sorriso. – Foi ótimo e tão inesperado! Só posso dizer que lamento que lenha perdido sua viagem...

– Não vai me convidar para tomar café com você? – ele perguntou, enigmático.

– Mas... mas acabamos de tomar café! – exclamou, surpresa.

– Isso foi há quase uma hora. Eu aceitaria mais um pouco, você não?

– Está um pouco tarde...

– São dez e meia. Sempre achei que as moças em Londres dormiam tarde.

– Não quando têm de trabalhar na manhã seguinte – respondeu ela, corando ligeiramente.

– Entendo.

Com um gesto impotente Melanie se voltou, sem conseguir entender exatamente por que relutava em convidá-lo a entrar. Ele agarrou o pulso dela.

– Está com medo de mim, srta. Stewart? É isso?

– Claro que não – respondeu, respirando fundo.

– Talvez devesse estar.

– Por quê? – ela perguntou, tensa, quase com raiva. – Porque você [me beijou uma vez? Deixe-me lhe dizer uma coisa, sr. Bothwell. Nós, moças da cidade, sabemos enfrentar mais que um mero abraço furtivo numa casa deserta!

– Você é...

Ele interrompeu o que ia dizer quando Melanie se soltou de sua mão e correu para dentro do prédio. Subiu correndo os degraus, esperando a todo momento ouvir os passos dele atrás. Mas o casaco comprido e a bolsa na mão impediam seus movimentos e ela tropeçou e caiu.

Foi um tombo horrível e tudo o que havia dentro de sua bolsa se espalhou pelos degraus. Bateu apenas a base da espinha, ligeiramente, mas podia ter quebrado a cabeça ou um braço. Era a gota d'água e Melanie sentiu vontade de chorar de ódio e frustração. Bothwell chegou até ela, mas não se curvou, humilhando-a com sua altura.

– Machucou-se? – ele perguntou. E so então abaixou-se e apanhou as coisas do chão, colocando-as de novo dentro da bolsa.

– Não. Acho que não – respondeu Melanie, levantando-se cuidadosamente.

– Que loucura! – disse ele, levantando-se também e olhando para ela intensamente. – Podia ter se machucado.

– Eu sei.

Melanie pegou a bolsa da mão dele e subiu os degraus que faltavam. A espinha doía quando ela caminhava, mas conseguiu disfarçar a expressão de dor. Bothwell subia a seu lado e, quando chegaram diante da porta, ela começou a procurar a chave na bolsa.

– Estão comigo – disse ele, suspendendo o chaveiro diante dos olhos dela e abrindo a porta em seguida, sem nada dizer.

Melanie estava perturbada demais para discutir e, quando entrou, ele a acompanhou. Era inútil protestar, parecia inevitável que ele estivesse ali de novo. Bothwell pegou o casaco dos ombros dela e tirou o sobretudo também.

– Sente-se que eu faço café – ofereceu ele.

– Não... isto é... você não sabe onde estão as coisas.

– Eu encontro. Sente-se aí e descanse.

Melanie se atirou no sofá; não tinha forças para discutir. Quando ele voltou uns dez minutos depois, com uma xícara de café, ela já estava quase dormindo. Tinha tido um dia duro no trabalho e a noite tinha sido também bastante enervante. Consequentemente, o calor do apartamento, junto com todo o vinho que tinha bebido no jantar, a faziam relaxar.

– Então? – perguntou Bothwell depois de pousar a bandeja na mesinha. – Está melhor?

– Melhor – murmurou Melanie, abaixando a saia para cobrir as pernas. – Encontrou tudo?

– Por que fez isso? – ele perguntou, olhando intensamente para ela. – Estava mesmo com medo de mim?

– Você disse que eu devia tomar cuidado – respondeu, apoiando-se no cotovelo.

– Eu disse?

– Disse, – Melanie sentiu faltar-lhe o ar. A presença dele a dominava com tanta força que ela não pôde evitar de esticar o braço e tocar a mão dele. Bothwell deslizou os dedos entre os dela.

– Sean – ela murmurou, olhando para ele, apreensiva, sem perceber que estava pedindo muito mais que um mero toque de mãos.

– Quer que eu faça amor com você? – ele perguntou num tom estranhamente doce.

– Sean – ela protestou, achando que aquelas palavras tomavam tudo grosseiro –, não diga nada...

– Por quê? – perguntou, rouco. – Destrói o clima romântico? Melanie tentou retirar seus dedos da mão dele, mas Sean não soltou sua mão.

– Então eu estava certo, não é? – falou, duro. – O mistério todo era só esse... Você quer um caso na Escócia! O incidente que você pretende descartar tão displicentemente não foi nada furtivo para você. Foi uma pequena vitória. Deu-lhe uma sensação de poder, porque você sabe que eu a beijei contra a minha vontade. E agora está tentanto despertar esse desejo de novo, não é? Deve estar satisfeita com a riqueza e a posição social do seu noivinho, mas ele não satisfaz essas necessidades físicas que a corroem por dentro...

– Cale a boca! Como ousa falar assim comigo? – Melanie quase gritou, pondo-se de pé e encarando-o, furiosa.

– A verdade dói, não é? – Ele sorriu, insolente.

– Isso não é a verdade. Saia imediatamente!

– Com todo prazer, srta. Stewart!

Sean Bothwell inclinou a cabeça provocadoramente e, sem dizer mais nem uma palavra, cruzou a sala, jogou o sobretudo sobre o ombro e saiu do apartamento, batendo a porta com força.

 

Melanie dormiu mal. Virou e revirou na cama até de manhã, c sentia-se muito mal quando se levantou. Ao chegar ao trabalho, Desmond Graham comentou as olheiras escuras.

– Boêmia – disse ele, ralhando de brincadeira. – Não combina com você, filha.

– Não. Eu até que fui para a cama bem cedo – respondeu Melanie, mostrando logo alguns esboços para fugir ao assunto, – Gosta destes?

– Não precisa se ofender tanto – continuou o velho, levantando sobrancelhas grisalhas. – Eu só estava brincando.

– Desculpe. Estou um pouco nervosa. Só isso.

– Por quê? Brigou com Michael?

– Não!

– Então, o que foi? Não está com nenhum problema, está? Seu trabalho é excelente e não tem com que se preocupar. Esses desenhos estão ótimos e você sabe disso.

– Não estou com nenhum problema, não, Desmond. Pare de falar tanto disso. As coisas nem sempre têm motivos claros.

– Não sei, não – insistiu Desmond, – É que não é do seu estilo ficar irritada assim. Você é sempre calma, direta.

– Como é que sabe como eu sou? – Melanie reagiu, sabendo que estava usando Desmond como bode expiatório. Mas não conseguia evitar.

Ele acendeu um cigarro, recusando-se a levar a sério o mau humor dela.

– Está bom, está bom. Não digo mais nada. Esqueça. E se pisei nos seus calos, me desculpo. – Ele respirou fundo. – Bem, sobre aquele livro novo de Agnes Bowman: precisa do texto ou só as chamadas que Vincent escreveu bastam para você?

Melanie fez um esforço para se concentrar. Olhou para Desmond e sentiu remorsos. Afinal, não era culpa dele se tinha passado mal a noite Ela era a única culpada por ter permitido que Sean Bothwell percebesse que despertava nela uma atração física quase irresistível. Tinha de se cuidar para que isso nunca mais tornasse a acontecer.

– Desmond, desculpe – ela disse depressa. – Eu... aconteceu algo que eu não estava esperando. É isso.

Desmond sorriu. Tinha um lindo sorriso. É um homem adorável, pensou Melanie. Casado, com duas filhas e uma esposa que todo mundo adorava instantaneamente, ele ainda achava tempo para se interessar pelos problemas pessoais de seus funcionários, e por causa disso era adorado

por todos.

– Não pense nisso, filha – ele disse, calmo. – Você está certa em

reclamar. Não posso me intrometer.

– É que Michael tentou vender Monkshood sem me comunicar –

contou ela, apertando os lábios.

– O quê? – Desmond estava surpreso. – Como é que ele pôde fazer uma coisa dessas? Achei que você tinha deixado para resolver depois.

– Eu tinha. Mas ele não.

– Ele não lhe disse nada?

– Só no começo. Mas eu estava muito indecisa. Não me lembro de ter dito nunca que queria vender, mas não deixei nada muito claro. O fato é que Michael acha que eu devo vender e com o dinheiro comprar alguma coisa mais perto de Londres.

– Bom, até que não é má idéia – ponderou Desmond. – Afinal, vai ter de pensar um pouco nele depois que estiverem casados. Só porque você pode trabalhar onde quiser, isso não quer dizer que...

– Eu sei – interrompeu Melanie, impaciente. – Isso não devia importar, não é? Quer dizer, eu não devia me importar com o lugar onde morar, desde que seja junto com Michael.

– É isso. – Desmond riu. – O amor resolve tudo. Você vai ver que, depois de casada, Monkshood de repente não vai mais significar coisa alguma, contanto que estejam sempre juntos.

– É... –Melanie murmurou, incerta, – Bom, mas os desenhos...

O trabalho a absorveu durante o resto da manhã e nem mesmo os flocos de neve que voavam pela janela lhe chamaram a atenção. Quase na hora do almoço, recebeu um telefonema. Era Michael.

– Alô, Michael – atendeu, decidida a não falar de Monkshood pelo telefone. – Vai me convidar para almoçar se eu estiver livre?

– Foi isso o que pensei – respondeu ele, rindo de maneira que Melanie sentiu um pouco forçada. – Que tal à uma hora na churrascaria do Embassy?

– Ótimo – concordou.

O Embassy era um hotel novo e o restaurante tinha mesas isoladas por treliças cheias de trepadeiras, o lugar ideal para uma conversa particular.

– Combinado, então!

Michael parecia satisfeito e Melanie se pôs a pensar se as razões de ele ter entrado em contato tinham algo a ver com a chegada de Sean Bothwell. Estava curiosa, mas não queria puxar o assunto pelo telefone.

– Comprou os ingressos para o conceito de Dorlini? – ela perguntou.

– Comprei, sim. É para quinta à noite. Está bom para você?

– Quinta? Acho que sim – respondeu ela, preocupada. – Mas quando é que vamos jantar com os Allison?

– Sexta.

– Então está bom. Tenho de desligar, querido, estou no meio de um desenho.

– OK. Nos vemos à uma.

– Isso. Até lá.

Melanie desligou e ficou concentrada, olhando o telefone durante um longo tempo, até que ouviu a voz de Desmond. Respondeu o que ele perguntou, mas não conseguiu mais se concentrar no trabalho. Estava preocupada com a maneira de enfrentar Michael, sabendo o que ele tinha feito. Sabia que o melhor meio de defesa era o ataque, e pretendia atacar antes de contar que tinha saído com Sean Bothwell.

Entrou no Embassy poucos minutos depois da uma e um funcionário de branco levou-a até a mesa de Michael. Devido às divisões, era impossível enxergar a mesa antes de chegar nela. De repente, Melanie sentiu faltar-lhe o ar. Michael já tinha chegado e, sentado a seu lado, estava Sean Bothwell!

Michael se levantou, atencioso, à chegada dela e dispensou o garçom. Melanie estava perplexa. Todos os planos que tinha feito para conduzir a conversa iam por água abaixo. Olhou sem expressão para o outro homem, que também se levantara, e sentiu o sangue colorir seu rosto violentamente, diante daqueles cínicos olhos cinzentos.

– Michael...

– Olhe, Melanie – interrompeu ele –, sei que isto é uma grande surpresa para você e sei que vai ficar chocada por eu ter trabalhado por trás do pano, por assim dizer, mas isso é passageiro. O sr. Bothwell, que você conhece, é claro, está aqui para completar a transação da venda de Monkshood.

– É? – fez Melanie, voltando os olhos interrogativos para o noivo.

– É, sim. – Michael suspirou, tomando a mão dela entre as suas. – Querida, eu sei que não tínhamos decidido nada sobre a casa, mas como você estava hesitando...

– Eu estava? – Melanie tentava a todo o custo se compor. – Michael, não estou entendendo bem...

– O que o seu noivo está tentando explicar, srta. Stewart – interrompeu Sean Bothwell –, é que ele quer que venda Monkshood e por isso entrou um contato comigo para que fizesse a primeira oferta.

Os olhos dele a desafiavam. Desafiavam a contar que já sabia disso, que tinham se encontrado na noite anterior e que tudo já tinha sido resolvido! Mas ela nada podia revelar sem correr o risco de criar uma situação

desagradável.

– É claro que eu não esperava que o sr. Bothwell viesse pessoalmente – continuou Michael –, mas uma vez que está aqui vamos ter de

resolver essa questão.

– Está querendo me dizer, Michael – Melanie começava a sentir-se mais calma agora –, que entrou em contato com McDougall e Price sem

me consultar?

– Sim. Tomei a iniciativa, Melanie – respondeu ele, um tanto incomodado. – Sabia que você iria concordar que era a única coisa a fazer, e como vamos nos casar logo...

– Mas eu queria que você visse a casa! – exclamou Melanie. – Como é que pode se desfazer de Monkshood sem nem ter conhecido a

propriedade?

– Não creio que o sr. Croxley tenha quaiquer interesse em manter uma propriedade que não lhe trará nenhum benefício – interrompeu Sean Bothwell, acendendo um cigarro. – Pelo que entendi, ele quer que venda Monkshood para comprar uma casa mais perto de Londres.

– Monkshood pertence a mim, sr. Bothwell! – Melanie falava de dentes cerrados. – E, apesar de estar a par do que o sr. Croxley acha melhor, a decisão final é exclusivamente minha.

– Melanie, por favor! – Michael estava chateado. – Ninguém está colocando em duvida a sua posse da casa. Tudo o que queremos é chegar a uma decisão final. Como osr. Bothwell disse, não vejo razão para...

– Você não está nem tentando me entender, não é? – Melanie sentia enorme frustração. Que Michael tivesse agido por baixo do pano já era horrível, mas além disso ter o testemunho atento do cínico sr. Bothwell era demais. Por que Michael não tinha lhe comunicado que ele ia estar presente? Se ele a tivesse preparado, não se sentiria tão sem saída. Piscou os olhos nervosamente para Bothwell. Seria culpa dele? Talvez tivesse sido idéia dele aquela grosseira surpresa. Mais uma tentativa de humilhá-la.

O garçom serviu os aperitivos e Melanie tomou um gole grande de seu xerez. Foi servido o primeiro prato e, durante algum tempo, a conversa morreu. Michael olhava sempre para ela, revelando sua preocupação com o resultado daquela conversa. Melanie apertou os lábios. Queria agradar ao noivo, mas pela sua maneira de agir ele demonstrava que considerava muito pouco a participação dela.

Já no fim do almoço, Bothwell foi o primeiro a falar:

– Diga-me uma coisa, srta. Stewart. Se pretende manter Monkshood, quando é que pensa voltar lá?

– Isso importa? – respondeu ela, empurrando o prato de sobremesa.

– Gostaria de saber por quanto tempo mais vou ter de cuidar da casa.

– Foi você quem se ofereceu! – acusou Melanie.

– Eu sei. Não estou tirando o corpo. Tento apenas compreender quais são os seus planos.

– Está tentando é mostrar a meu noivo que Monkshood é um desperdício de dinheiro, isso sim!

– Estou? – perguntou ele, cínico, com um brilho perigoso no olhar. Melanie curvou a cabeça. Que é que aquele homem estava tentando

fazer? Por que insistia em tratá-la como se fosse uma colegial? Por que fazia tão pouco dela?

– Quer dizer que está pagando ao sr. Bothwell para cuidar da casa? – perguntou Michael, depois de ouvir cuidadosamente a conversa.

– Muito pouco – respondeu Melanie.

– O que exatamente é necessário?

– Acender o fogo, comprar lenha, essas coisas... –Sean respondeu.

– Havia bastante carvão no deposito atrás da casa – disse Melanie, encarando Bothwell.

– Nada dura eternamente. Comprei meia tonelada de carvão de pedra na semana passada.

– Melanie – exclamou Michael diante da expressão irritada dela –, já imaginou quanto vai ter de gastar para manter aquela casa?

– A casa não gastaria nada se fosse usada – disse com força, cerrando os punhos.

– Usada, como? – O bom humor de Michael estava acabando e suas preocupações com Melanie estavam desaparecendo debaixo de uma onda de impaciência. Dinheiro era sempre a coisa mais importante para ele, e Michael devia estar furioso ao saber que ela estava gastando seu magro salário num edifício que, para ele, não passava de um elefante branco.

– Podíamos morar lá – disse Melanie. Sabia que estava soando ridícula. Era impossível esperar que Michael fosse jogar fora sua excelente sociedade em Londres para mudar para uma área remota da Escócia. Era bobagem sugerir aquilo, mas não sabia o que dizer e daria qualquer coisa no mundo para apagar das caras dos dois aquela expressão de superioridade.

– Mudar para a Escócia! – disse Michael com sarcasmo exagerado. – Oh, Melanie, você não sabe o que está dizendo. O que é isso? Está se recusando a ser razoável.

Melanie olhou para ele mais um minuto, depois disparou um olhar

furioso a Bothwell, levantou-se e marchou para fora do restaurante. Ouviu Michael chamá-la, mas não se voltou e saiu para o ar frio da rua, respirando fundo.

Ouviu as portas do restaurante se abrirem e passos que a seguiram. Caminhou depressa, mas em um minuto Michael estava a seu lado, pegando o braço dela.

– Melanie, querida. Que bobagem, Olhe, eu sei que não devia ter escrito a Bothwell sem o seu conhecimento, mas como é que eu podia adivinhar que ele vinha até Londres? Fiquei numa posição difícil e, quando ele sugeriu que almoçássemos todos juntos, não pude recusar.

– Ele sugeriu?

– Claro. Não acha que eu imporia isso a você assim, não é?

Melanie hesitou. Realmente, aquilo não parecia coisa de Michael. Ele jscolhia sempre o momento adequado e, quando o momento chegava, introduzia o assunto sempre tão cuidadosamente que ela acabava invariavelmente concordando com ele. Era típico de Bothwell colocá-la diante de um fato consumado, na esperança de conseguir dominá-la.

– Devia ter me consultado antes de escrever para os advogados – disse ela, ainda incapaz de perdoar Michael. – Eu tinha o direito de saber. Só porque estamos noivos isso não quer dizer... – Ela suspirou. – Bom, isso não muda nada agora. O que quer que eu faça?

– Querida, não espero que faça nada. Pensei... quer dizer, depois da nossa conversa, achei que você queria vender Monkshood. Agi assim apenas para poupá-la de todas as complicações legais. Pretendia explicar-lhe tudo quando tivesse a proposta de Bodhwell por escrito. Dá para entender, não?

– Mas agora, no restaurante...

– Esqueça o que eu disse no restaurante! – Michael falou, gentil. – O que é que eu podia dizer? Não podia ficar do seu lado diante de um homem que está tão envolvido nisso. Isto é, a situação altera o caso. Quanto a mudarmos para a Escócia, isto está fora de cogitação e você

sabe disso.

– Mas eu não quero vender Monkshood – disse Melanie, torcendo a

alça da bolsa entre os dedos. – Conversei comDesmond...

– Ah, Desmond! – exclamou Michael, irritado.

– É, Desmond. Ele é um bom amigo e concorda comigo que não há nenhuma urgência em resolver.

– E se Bothwell mudar de idéia? – Michael tentava manter a calma.

– Não tem importância. Tem mais gente que compraria a casa.

– Mas não por dez mil libras, não é?

Dez mil libras!

– Quer dizer que Bothwell... – Melanie não conseguia acreditar.

– Exatamente – disse Michael, triunfante.

– Mas de onde é que ele vai tirar esse dinheiro? – perguntou Melanie arqueando as sobrancelhas, preocupada.

– O que quer dizer? – Michael ficou preocupado.

– Isso mesmo que eu disse. Sean Bothwell não é rico. Tem um hotel em Cairnside, mas não deve render muito. É negócio de família. O irmão e a irmã ajudam na administração. De onde é que ele vai tirar dez mil libras esterlinas? – Uma idéia surgiu em sua mente e ela olhou para Michael, desconfiada. – Quem foi que sugeriu essa quantia? Monkshood não vale tanto assim.

Michael passou um dedo por dentro do colarinho.

– Isso não é problema seu, Melanie. Quando se vende uma propriedade não se questionam os méritos ou o valor real daquilo que se pede. Sobretudo se o comprador concorda com o preço...

– Isso não é bem verdade. Lembre-se de que esta história não é nada simples. – Melanie apertou os lábios. Sentia-se deprimida, lembrando que Sean Bothwell tinha dito a ela que conseguiria a casa a qualquer custo. Na atual circunstância, devia ser grata a Michael por conseguir uma soma tão alta, mas no fim das contas ele também tinha interesse no assunto, uma vez que iam se casar logo.

– No que tange a você a questão é simples – afirmou Michael com um pouco de ênfase excessiva, como se a incerteza de Melanie o irritasse.

– Eu não quero vender a casa, Michael – ela insistiu, balançando a cabeça.

– Mas por quê? Por quê? – Michael suspirou. – Não podemos ir morar lá. E vai consumir o seu salário. Que uso teria para nós uma casa naquele lugar?

– Olhe, Michael, se eu não ficar com Monkshood para mim, prefiro dá-la de presente.

– Dar de presente! – Michael quase caiu para trás.

– É – Melanie. disse, pensando cuidadosamente. – Eu não gosto de Bothwell e sei que ele não gosta de mim, mas isso não altera o fato de ele ser filho de um parente meu distante e portanto ter direito à propriedade...

– Nunca ouvi bobagem maior! – Michael estava furioso. – Melanie, você deve estar louca! Não pode dar uma propriedade tão valiosa de presente!

– Ela é minha, Michael – afirmou calma e segura.

– Vamos nos casar dentro de dois meses! Acho que posso lhe dar um conselho!

– Pode sim, Michael. Mas neste caso vou ter de resolver sozinha.

– Sem se importar se vai magoar as pessoas?

– Claro que não! – Melanie mordeu o lábio. – Michael, você disse que não estou sendo razoável, mas se recusa a ir até a Escócia comigo para ver a casa pessoalmente. Isso não é nada razoável também.

– Mas de que adiantaria eu ir? – Michael enfiou as mãos nos bolsos. A neve começava a cair de novo, mansamente, e estava ficando cada vez mais frio conversar ali na rua. – Olhe, vamos voltar para o restaurante.

– Não! – Melanie foi definitiva. Não ia voltar para enfrentar Sean Bothwell de novo.

– Bom, eu tenho de voltar, pelo menos. O que é que digo a Bothwell?

– Resolva você. Vai ter de contar a ele que não vou vender Monkshood. – Ela suspirou. – Quanto a lhe dar a casa de presente... é cedo demais para mencionar isso. Tenho de voltar lá e dar mais uma olhada no lugar.

Michael voltou-se. Era evidente que estava achando difícil manter a calma e Melanie pensou que o estava fazendo de bobo. Mas pensou no que ele tinha feito a ela, agindo à sua revelia. Entendeu que Michael pretendia não falar mais no assunto, no momento. Talvez voltasse a tratar daquilo quando sentisse que a situação estivesse mais favorável ao ponto de vista dele.

– Muito bem – disse ele, olhando para ela de novo. – Vou dizer a ele que você não está interessada. Bothwell vai achar que você está louca, sem falar que, provavelmente, vai me cobrar as despesas da viagem.

– Tenho de ir – disse Melanie, calçando as luvas. – Está ficando tarde.

– Vamos nos ver à noite?

– Se você quiser – Melanie respondeu, indiferente.

– Passo depois do jantar. Acho que não vai querer sair, não é?

– Não. Hoje não. – Melanie conseguiu dar um sorriso. – Até logo. Michael hesitou um instante, depois inclinou-se e beijou-a de leve nos lábios.

– Não se preocupe – disse –, eu dou um jeito.

Melanie começou a andar depressa. Estava sentindo muito frio. Nada mais era igual. Seu trabalho, Michael, a vida. Num curto espaço de apenas algumas semanas tudo tinha mudado tanto que ela nem conseguia mais pensar direito no que era possível ou não, financeiramente.

Antes do Natal, antes de ter ido visitar Monkshood, se lhe oferecessem para escolher entre uma casa velha na Escócia e dez mil libras, ela teria hesitado um segundo e escolhia o dinheiro. Mas agora o dinheiro valia menos que sua paz de espírito e, apesar de ter dito a Michael sem pensar que seria capaz de dar Monkshood de presente, essa idéia começava a criar raízes em sua mente. Certamente resolveria uma série de problemas, mas criaria uns tantos outros. Serviria pelo menos para acabar com aquela sensação de culpa e demonstraria a Bothwell que ela não era tão monstruosa quanto ele supunha. Mas por que é que tinha de se preocupar com o que Bothwell pensava dela? Ele nada significava para ela, além de tê-la tratado de maneira abominável.

Parou um táxi e se encolheu num canto do assento, tentando examinar suas emoções. Estava sendo tola e tinha de se controlar. Como Michael tinha dito, iam se casar logo. A mãe dele já tinha cuidado de tudo. Logo começaria a fazer as provas do vestido, as damas de honra já estavam sendo escolhidas... Por que estava comprometendo o próprio futuro daquela forma? Michael não era homem para aguentar por muito tempo mais a indiferença com que o estava tratando. Não era convencido, mas tinha consciência de que era atraente e, se continuasse assim, não demoraria muito a substituir Melanie por alguma beleza da sociedade.

Se ele a amava ou não, parecia-lhe de pouca importância. O aspecto físico da relação deles nunca tinha sido apaixonado e Melanie respeitava aquela contenção de Michael. Mas seria contenção? Ou será que ele achava a parte sexual do casamento algo desagradável? Evidentemente não conseguia imaginar Michael se entregando ao êxtase de uma ligação apaixonada e sensual com mulher alguma. Mas, até conhecer Bothwell e experimentar o contato físico dele, Melanie nunca se sentira insatisfeita.

É tudo culpa de Bothwell, dizia a si mesma, amarga. Se ele não tivesse interferido, ela provavelmente venderia Monkshood e nunca se veria naquela complicação toda.

Olhou pela janela do táxi, percebendo que já estava quase chegando. Queria tanto ter alguém que não estivesse envolvido naquilo tudo para poder conversar. Mas não havia ninguém. Ia ter de decidir sozinha se Michael estava certo. E se devia romper para sempre as ligações com aquela casa.

 

Melanie estava lavando os pratos que tinha usado no jantar quando a campainha tocou. Enxugou as mãos, tirou o avental e cruzou a sala para abrir a porta. Como estava esperando Michael, tinha vestido uma calça de veludo preto e uma bata estampada.

No entanto, ao abrir a porta, não era Michael que estava displicentemente encostado ao batente. Era Sean Bothwell.

– Oh, boa noite, sr. Bothwell! – Ela estava muito surpresa, mas conseguiu controlar a expressão. – É uma surpresa!

– Você já disse isso na noite passada. Posso entrar?

– Não vejo nenhuma razão para convidá-lo a entrar – disse Melanie, hesitando. – Michael já deve ter lhe explicado...

– Seu noivo foi bastante claro – respondeu Bothwell. – Poderia mesmo dizer que foi eloquente. Ele sabe que, se pressioná-la demais, você pode acabar fazendo uma besteira. E ele não arriscaria isso.

– Bom, então... – Melanie suspirou.

– Temos alguns assuntos a discutir, se é que vai continuar com a casa.

– Como o quê, por exemplo?

– Como alugá-la para mim, por exemplo.

– Mas você disse que não estava interessado em nenhum acordo, sr. Bothwell!

– Disse, sim. Mas isso foi quando achava que ainda conseguiria convencê-la a vender.

– Melhor,entrar, então – disse Melanie, preocupada.

Bothwell entrou logo depois dela e fechou a porta atrás de si. Desabotoou o sobretudo. Melanie indicou uma cadeira, mas ele preferiu ficar em pé e ela ficou também.

– Bem – disse ela, tentando um tom de negócios –, o que tem em mente?

– Quero alugar, com contrato anual.

– Mas... mas se eu concordar, não vou poder usar a casa nunca.

– E pretende usá-la? – Os olhos cinzentos dele eram já um pouco irônicos.

– Como?

– Nada. Nada – disse ele, levantando a mão num gesto conciliador.

– Meu noivo deve ter-lhe explicado que não pretendo abandonar Monkshood completamente. O que quero é tentar convencê-lo, quando o tempo estiver melhor...

– Oh, por favor! – Sean Bothwell passou a mão, nervoso, pelos cabelos escuros. – Não estou interessado no que pretende fazer com o sr. Croxley. O que quero é garantir a minha posíção.

– Tudo bem, sr. Bothwell, mas Michael deve ter explicado...

– Seu noivo e eu tivemos uma discussão bastante clara sobre tudo isso! – declarou Bothwell. –No entanto, não sei o que você vai achar...

– Se o meu noivo o enganou... se ele o levou a pensar que...

– Sei muito bem o que o seu noivo pensa do assunto. – Ele interrompeu Melanie de novo. – Na verdade, posso até dizer que concordo com as objeções dele. Mas, no momento, estou preparado para não resistir. Afinal...

– Um momento! – Foi a vez de Melanie interromper. – Está tentando me dizer que Michael lhe fez uma proposta?

– Não! Nada disso. – Os olhos de Bothwell faiscaram. – Eu disse isso, por acaso?

– Não, mas está insinuando! Olhe, acho que seria melhor deixar para discutirmos depois que eu tiver inspecionado a casa novamente.

– Inspecionar a casa! – repetiu Bothwll, incrédulo. – Não vá me dizer que pretende voltar lá?!

– Claro.

– Entendo. Então está mesmo inabalável em sua decisão? Eu gostaria de saber por quê.

– Isso importa?

– É claro que importa, droga! – Ele estava furioso. – Eu lhe ofereci um preço mais do que generoso por Monkshood! Cheguei a fazer toda essa viagem para tentar um acordo e poupá-la de mais uma viagem para o norte. E você insiste em se comportar como uma criança malcriada com um brinquedo novo!

– Talvez, se parasse de me tratar como uma criança malcriada ou como uma mulher irresponsável, você descobrisse que não sou assim tão difícil de lidar – respondeu, magoada e com raiva.

– E o que quer dizer isso agora? – perguntou Bothwell, avançando um passo, a respiração alterada. – Como quer que a trate? Eu estava certo aquela noite, não estava? Está desapontada porque recusei sua generosa oferta de me levar para a cama...

– Seu porco!

Melanie o fuzilava com os olhos atormentados. Mas, antes que pudesse dar um passo, ele a agarrou, apertando-a contra si. Segurando a cabeça dela com ambas as mãos, forçou-a a voltar os lábios para ele. Depois de um momento de resistência, Melanie se viu de repente correspondendo inteiramente ao beijo. Era degradante, mas Bothwell tinha razão, era isso o que ela queria; quase sem querer, deslizou os braços em torno da cintura dele, por baixo do casaco. Apenas a seda fina da camisa estava entre os seus dedos e a carne quente dele. Os lábios de Bothwell queimavam sua pele, famintos. Ela sentia-se derreter por dentro. – Ame-me... que eu a amarei... – disse ele baixinho, era voz grave, íntima.

Melanie sentiu a garganta apertar. O que estava fazendo? Tinha perdido a cabeça? Por que permitia que aquele homem a tocasse de uma maneira que nunca permitiria a Michael, mesmo na remota possibilidade de o noivo vir a tentar isso? Por que seu corpo se derretia de desejo assim que Bothwell a tocava? Por que a firmeza do corpo dele, pressionado ao seu, destruía imediatamente todas as suas inibições?

Sentiu a mão dele deslizar por seu cabelo e inclinou a cabeça para trás, para que ele beijasse seu pescoço. Aqueles lábios queimavam sua carne enquanto Bothwell deslizava os dedos, afastando a blusa de seu ombro branco. E então... a campainha soou!

Melanie sentiu aquele ruído como uma ducha de água fria em suas emoções incendiadas. Afastou-se dele, meio tonta. Bothwell ficou olhando para ela, os olhos inflamados pela intensidade de sua emoção, apesar do cinismo que havia neles.

– Deve... deve ser Michael! – informou ela, abotoando a blusa com dedos trêmulos, enquanto ajeitava os cabelos com a outra mão.

– Parece preocupada, srta. Stewart – ele brincou. – Perdeu a coragem?

Ela queria bater nele, para feri-lo como ele a feria, mas não tinha

tempo para isso. A campainha tocou de novo.

– Vá atender, srta. Stewart. – Sean tirou o sobretudo e jogou-o numa cadeira. – As razões de eu estar aqui são bastante honestas, não são?

– Mas... mas...

– Não se apavore. Não vou incomodar seu noivo contando a ele as suas peraltices. Suas atitudes não me interessam em nada. Exceto no que tange a Monkshood.

– Ah, Monkshood, Monkshood! Já estou cheia desse nome! – Melanie estava quase chorando.

– Melhor abrir a porta logo – observou Sean Bothwell, arranjando a gravata –, ou seu noivo vai começar a pensar o pior mesmo!

Melanie lançou-lhe um olhar furioso e foi até a porta, relutando. Enquanto virava a chave a campainha soou de novo e, assim que ela abriu, Michael entrou, furioso.

– Onde é que estava? – perguntou, impaciente, quando então viu Bothwell. – Você? O que é que está fazendo aqui?

Sean Bothwell não parecia nada perturbado e Melanie mal podia acreditar que, menos de cinco minutos antes, ele a estava agarrando, apaixonadamente. Tinha endireitado o cabelo e as roupas estavam compostas. Comparadas às roupas de Bothwell, o terno de corte perfeito e a camisa rosa de Michael pareciam algo efeminados. Michael era mais alto que o outro, mas não tão corpulento.

– Vim conversar com a srta. Stewart sobre a possibilidade de alugar Monkshood – explicou Sean, oferecendo cigarros a Michael. – Diante das circunstâncias, achei que ela preferiria alugar.

Michael hesitou, tentando entender se Bothwell estava gozando dele ou falando sério realmente.

– Vai alugar a casa, Melanie? – Michael perguntou.

– Não sei – disse Melanie, por entre os dentes, farta de tudo aquilo. – Mas se pensam que vou discutir Monkshood a noite inteira, estão muito enganados.

– Faz tempo que chegou? – Michael perguntou a Sean.

– Alguns minutos – respondeu Sean. – Que tempo horrível, não?

– É verdade – concordou Michael, achando difícil ser natural. – Melanie... que tal um drinque?

– Eu já estou de saída – disse Sean, pegando o sobretudo com desenvoltura. – Podemos discutir isso depois, srta. Stewart.

– É

– Podem continuar agora mesmo – sugeriu Michael, olhando desconfiado para Melanie.

– Não. Agora não – respondeu, tentando parecer calma. – Preciso de tempo para pensar.

Bothwell estendeu a mão para Michael e, enquanto eles se despediam. ela ficou olhando. Como é que Sean Bothwell conseguia ser tão falso? Desejava profundamente achar uma maneira de deixá-lo tão desconcertado quanto ele a deixava.

– Até logo, srta. Stewart! – Bothwell estendeu a mão e Melanie teve de pegá-la. Mas tirou a mão assim que sentiu o calor dele. Odiava-o e não entendia o porquê daquilo.

Acompanhou-o até a porta, mas evitou olhá-lo nos olhos. Não havia maneira dele poder se comunicar com ela sem que Michael visse.

– Estou certo de que tomaremos a nos encontrar, srta. Stewan – ele disse, insinuante e irônico.

Melanie fechou a porta tremendo. Voltou para a sala. Michael estava de pé, junto ao aquecedor elétrico. Olhou para Melanie e ela entendeu que ele esperava uma explicação.

– E então? – disse, pomposo. – Que ousadia a desse sujeito vir aqui assim! Por que é que o deixou entrar? Devia ter dito que sou eu quem cuida dos seus negócios.

– Ele já sabe, Michael – respondeu ela, juntando as mãos. – E eu não podia recebê-lo no corredor, não é? Ah, vamos mudar de assunto. Já estou cheia disso tudo.

– Ainda não – Michael insistia. – Vocês se conhecem bem? Ele parecia muito à vontade aqui.

– Nada disso, – Melanie cerrou os punhos. – É o jeito dele. Está sempre à vontade em qualquer lugar. Você já deve ter percebido isso também.

– É, mas não gostei de encontrá-lo aqui. – Michael estava incomodado. – E gostaria que isso não se repetisse. Se têm negócios a discutir, eu devo estar presente e seu apartamento não é o lugar adequado para isso. Eu tenho um escritório exatamente para tratar de negócios,

– Foi você quem começou essa história! – disse ela, irritada. – Não fui eu que escrevi a ele! Tudo o que eu queria era deixar o assunto esfriar por enquanto.

– Não quero mais falar disso, Melanie, – Michael batia a mão na perna, impaciente. – Vamos mudar de assunto, mas saiba que não gostei nada disso.

Melanie arranjou o cabelo displicentemente, tentando não imaginar o que poderia acontecer se Michael não desse tanta importância às aparências. O que é que estava havendo com ela? Nunca tinha se considerado irresponsável. Sabia sempre o que queria. Mas nos últimos dias via-se constantemente tentando entender os motivos que a levavam a agir como agia. E a conclusão a que chegava não era nada confortadora.

O restante da noite demorou a passar e Melanie sentiu-se muito aliviada quando Michael finalmente foi embora. Ele não disse nada sobre a preocupação dela, mas isso certamente se devia ao fato dele também estar preocupado. O que é que estava acontecendo com eles? As coisas nunca tinham sido assim. Como podiam pensar em se casar, se estavam tão tensos um com o outro por causa de uma coisa sem importância?

Para sua surpresa, não ouviu falar de Sean Bothwell nos dias que se seguiram. De certa forma esperava que ele entrasse em contato com ela, mas, como não o fez, Melanie supôs que tivesse retornado a Cairnside. A vida retomou uma aparente normalidade e Melanie mergulhou nas ilustrações para o livro novo, usando o trabalho como antídoto para seu desespero.

Desmond ficou muito satisfeito com os desenhos e convidou Melanie e Michael para jantar fora uma noite. Era como retomar a normalidade da vida anterior a Monkshood e Melanie ficou contente de saber que Lydia, a mulher de Desmond, viria também.

Jantaram no Savoy e em seguida foram a uma boate. Michae! parecia relaxado e à vontade e, enquanto dançavam, Melanie começou a pensar que suas ansiedades eram resultado de sua imaginação.

Desmond e Michael encontraram um produtor de filmes, amigo de Desmond, e ficaram conversando. Lydia e Melanie ficaram sozinhas na mesa.

– Quanto falta para o casamento? – perguntou Lydia, interessada. Ela era miúda, alegre, com o cabelo ruivo começando a embranquecer. Melanie adorava aquela mulher calorosa e gentil.

– Um mês e meio, Lydia. Neste fim de semana vou até a casa dos pais de Michael para experimentar o vestido de noiva.

– Que maravilha! – Lydia suspirou – Eu queria voltar a esse momento da minha vida. Parece incrível que Desmond e eu já estejamos casados há quinze anos!

– Anos felizes, não? –perguntou Melanie, inclinando a cabeça.

– Ah, sim, muito felizes.

– Pois é! Eu não sei que tipo de esposa vou ser. Nem que tipo de mãe – disse Melanie, pensativa.

– Ah, essas coisas vêm naturalmente. Nem se preocupe – Lydia a tranquilizou. – Onde é que vão morar? Na cidade ou no campo?

– Na cidade, claro. – Melanie estava um pouco surpresa. – Não temos outro lugar para morar.

– Não? – Lydia fazia mistério. – Eu ouvi dizer que Michael estava pensando em comprar a casa de campo dos Bradbury. Aquela que fica perto de Meddleham, perto da nossa. Você conhece.

– A casa de campo dos Bradbury? – Melanie estava perplexa. – Owen Bradbury? O colecionador de antiguidades que morreu no ano passado?

– Isso mesmo. – Lydia sacudiu a cabeça. – Ah, meu Deus, ele não tinha contado nada? Então acho que estou estragando uma bela surpresa.

– Que nada! Conte mais – pediu Melanie, interessada, debruçando-se na mesa.

– Ah, não, acho que não devo... – Lydia hesitou.

– Que bobagem, Lydia. Agora que já começou, conte tudo de uma vez, vamos! – Melanie conseguiu manter o tom casual de conversa bem-numorada, mas já começava a temer pelo que viria.

– Bom, foi Desmond quem me contou – disse Lydia, incapaz de resistir à oportunidade de contar um bom caso. – Ele encontrou Michael almoçando com Virgínia Bradbury há algum tempo.

– Virgínia Bradbury?

– É. A viúva de Owen Bradbury. Ela é muito mais moça que ele. Era sua terceira mulher e tem trinta e poucos anos. Parece até mais jovem, sabe? Quando Desmond os viu juntos, até foi falar com Michael, porque Desmond adora você e... bem, você sabe o que ele imaginou, nãoé?

– O que foi que Michael disse? – Melanie apressou a amiga.

– Bem, Michael explicou que estava cuidando dos negócios dos Bradbury e que tinha aconselhado Virgínia a vender a casa de campo. É claro que ele não contou a Desmond que ia comprar a casa ele mesmo. Isso eu descobri depois. – Lydia curvou-se em direção a Melanie. – Uns amigos nossos estiveram com Virgínia lá na casa de campo e ela contou a eles que pretendia vender a propriedade a Michael.

– Entendo. – Melanie reclinou-se na cadeira, a cabeça zunindo com o que tinha acabado de ouvir. Então era por isso que Michael não queria que ela ficasse com Monkshood. Porque ele já estava comprando uma casa de campo para eles. A expressão de Melanie se abrandou momentaneamente. Então era por isso que ele insistia tanto para que ela vendesse a casa. Realmente tinha julgado Michael muito mal.

Ela sorriu. De repente as coisas pareciam muito mais leves. Isso alterava tudo. Se Michael queria dar a ela uma casa de campo como presente de casamento, devia ter ficado muito chateado com a insistência dela em manter Monkshood.

Ao voltarem para a casa, de táxi, Melanie enfiou o braço no de Michael e reclinou a cabeça no ombro dele. Michael hesitou um momento, antes de curvar-se e beijá-la muito de leve nos cabelos.

– Michael... – Melanie murmurou. – Já pensou alguma vez em comprar uma casa de campo?

Michael endureceu todo o corpo imediatamente. Tentando preservar o momento, Melanie chegou mais junto dele.

– Perto de Londres... – comentou ela.

– Por que está me perguntando isso?

– Eu estava pensando...

– Desmond lhe disse alguma coisa?

– Desmond? Não, porquê?

– Estranho que você me pergunte isso justamente hoje.

– Olhe, Michael... – Melanie mordeu o lábio. – Foi Lydia. Lydia me contou.

– Da casa dos Bradbury?

– É. Ela sabia que não era hora de contar ainda, mas...

– Sei. – Michael estalou a língua, impaciente.

– Ah, mas não tem importância. – Melanie acariciou de leve o rosto dele. – Eu acho uma idéia maravilhosa. Sinto muito ter estragado as coisas com a minha insistência sobre Monkshood.

– Quer dizer... então... que você mudou de idéia? – Michael pegou a mão dela.

– Mudar de idéia? – repetiu Melanie, franzindo a testa.

– É. Sobre Monkshood.

– Ah, sei. É bobagem ficar com duas casas, não é? – Melanie suspirou.

– Não vamos poder ter duas casas – observou Michael, muito prático. – Além disso, as dez mil libras da venda de Monkshood vão quase inteiras na compra da casa dos Bradbury...

– Quer dizer que sou eu que vou comprar a casa dos Bradbury! – exclamou Melanie, sentindo todos os seus nervos tensos e afastando-se de Michael, horrorizada.

– Pelo amor de Deus, Melanie, o que é que você pensou?

– Você não pode estar falando sério! – Melanie encolheu-se no banco, a cabeça funcionando depressa, com incrível clareza. – Então foi por isso que escreveu a Sean Bothwefl? Foi por isso que entrou em contato com ele sem o meu conhecimento? Foi a casa de campo dos Bradbury que despertou seu interesse?

– Melanie, por favor, não vá fazer uma cena aqui. – Michael tentava pegar as mãos dela. – O motorista pode ouvir o que está dizendo!

– Eu não me importo! Acha que vou me importar com o que os outros pensam? Oh, Michael, eu tinha ficado brava com você antes, mas não foi nada em comparação com o que estou sentindo agora. Como pôde fazer isso? Como pôde?

– Melanie, está sendo melodramática! Quando nos casarmos, Monkshood vai pertencer a mim também, lembre-se disso!

– Mas nós não vamos nos casar, Michael! – Respirando com dificuldade, Melanie tirou o anel de noivado e atirou-o entre as mãos de Michael. – Tome o seu anel! Empenhe-o! Talvez lhe dê o suficiente para dar de entrada na casa dos Bradbury!

O rosto de Michael ficou muito vermelho. Melanie viu manchas escuras se formarem sobre a pele. Abriu a divisão de vidro do táxi e mandou o motorista parar. Antes que Michael tivesse tempo de se recompor, ela já estava na rua, indicando ao motorista que seguisse em frente. Quando Michael mandou parar o carro de novo, Melanie já tinha desaparecido numa ruazinha e ele não a encontrou.

Mais tarde, o telefone tocou insistentemente, mas Melanie recusou-se a atender. Estava de bruços na cama, chorando como nunca em sua vida.

De manhã tinha os olhos inchados e estava muito cansada, mas foi trabalhar assim mesmo. Desmond logo percebeu que algo não ia bem, chegou à mesa dela e delicadamente baixou os óculos escuros detrás dos quais ela tinha se escondido.

– Venha até a minha sala. Quero falar com você.

Melanie não estava a fim de conversa, mas não podia dizer não a Desmond.

– E então? – perguntou ele, acomodando-a numa poltrona e trazendo para ela uma xícara de café. – O que foi que aconteceu? Lydia me disse que tinha lhe contado tudo.

– Graças a Deus ela contou! – disse Melanie, ardente. – Ah, é melhor eu dizer tudo de uma vez. Michael chamou Bothwell porque queria o dinheiro de Monkshood para comprar a casa de campo dos Bradbury.

– O quê?

– Isso mesmo que você ouviu. Michael queria o dinheiro para um negócio dele, pessoal. Quando Lydia me contou, eu fiquei encantada! – Melanie riu tristemente. – Achei de início que ele queria comprar a casa para me fazer uma surpresa. Eu já estava até resolvendo vender Monkshood por causa disso. Podia guardar o dinheiro para emergências, essas coisas. Eu mal podia imaginar... – Melanie sacudiu a cabeça, incapaz de continuar.

– Entendo. – Desmond suspirou pesadamente, acendendo um cigarro. – Mas mesmo assim, Melanie...

– Mesmo assim, nada! Não quero nem falar no assunto.

– Está sem o seu anel.

– Eu rompi o noivado.

– Oh, não! – Desmond passou a mão pelos cabelos. – Olhe, Melanie, eu não consigo deixar de sentir que, de certa forma, isso tudo é culpa minha. Afinal, se eu não tivesse contado a Lydia que tinha visto Michael almoçando com Virgínia...

– Ora, Desmond, não fique se culpando. Eu até fiquei contente. Claro que não devo estar parecendo nada contente neste momento, mas... É que as coisas não têm ido muito bem entre Michael e eu desde que recebi Monkshood de herança. Nunca nos entendemos a respeito daquela casa.

– Mas Michael me disse ontem à noite que já tinham resolvido tudo em relação à casa...

– Não, não resolvemos. – Melanie tomou um gole de café. – Na verdade, eu... Bom, eu estava pensando em ir passar uns tempos lá.

– Moraria?

– Digamos... umas férias – explicou Melanie baixinho. – Olhe, Desmond, você entende, não é? Quer dizer... se eu ficar em Londres,

Michael vai tentar entrar em contato comigo. Ele não vai aceitar nunca que eu tenha desistido dele...

– E você desistiu?

– Está acabado – afirmou Melanie com firmeza. – Eu não pretendo voltar atrás.

– Mas, Melanie, se você ama Michael...

– É esse justamente o problema – interrompeu Melanie, com uma aguda percepção de si mesma. – Eu não o amo. Acho que nunca o amei. Acho que o usei, por assim dizer. E que ele me usou. Foi só isso o que houve...

– Oh, Melanie, você não pode estar falando sério! Eu os vi juntos tantas vezes. Formam um lindo casal!

– Talvez – Melanie sorriu, um tanto cínica. – Mas a gente não casa com alguém só porque fica bonita ao lado dele...

– Sei disso. O que eu queria dizer...

– Eu entendo o que queria dizer, Desmond. Sinto muito. Não vou voltar atrás. Acabou. E, sabe de uma coisa? No fundo, estou contente!

 

Melanie foi para a Escócia uma semana depois.

Tencionava partir antes, mas havia tanta coisa a fazer para poder ficar fora da cidade por um período indefinido, que ela nem conseguia imaginar. Estava grata a Desmond pela compreensão que demonstrara. Sabia que ele ainda se sentia culpado por tudo e que não conseguia aceitar que ela e Michael terminassem. Desmond esperava que, depois de algumas semanas na Escócia, ela voltasse correndo para retomar o noivado.

Mas Melanie não tinha nenhuma dúvida a respeito. Por momentos, chegava mesmo a sentir um grande alívio por ser de novo uma mulher independente. E quando voltasse a Londres um dia, não seria para rever Michael.

Michael via a situação de maneira diferente. Achava que a briga devia-se apenas aos desentendimentos a respeito de Monkshood. Recusava-se a admitir que tinha agido mal. Mas, para Melanie, a atitude de Michael tinha servido para lhe abrir os olhos ao egoísmo dele. As pequenas dúvidas que a perturbavam antes tinham se transformado agora num profundo ressentimento.

Ele tinha telefonado regularmente, sobretudo para o escritório, uma vez que Melanie não respondia mais ao telefone em seu apartamento. Depois de uma tentativa frustrada de falar com ela em casa, Michael tinha ido até o escritório, mas Desmond esteve presente todo o tempo e Michael não era o tipo de homem de fazer uma cena em público.

Uma outra vez ele a esperou na saída do trabalho e foi impossível evitá-lo. Mas então Melanie já tinha compreendido que a única maneira de fazê-lo entender que estava perdendo tempo era conversar com ele.

Foram a um bar e, apesar de Melanie tomar apenas um suco de fruta, Michael tomou vários uísques e ficou bem alto. Ela sentiu pena dele, principalmente por ver aquela enorme segurança de sempre absolutamente

abalada.

Depois desse dia não tinha mais tentado encontrá-la e Melanie imaginava o que ele iria pensar quando soubesse que ela tinha saído de Londres. Talvez ficasse com Virgínia Bradbury, se ela estivesse

interessada nele. Segundo todo mundo, ela era muito bonita e tinha muitas ligações com o tipo de gente que interessaria aos negócios de Michael.

Não foi difícil dirigir na estrada desta vez, como tinha sido antes do Natal. A maior parte da neve tinha derretido e a estrada estava inundada em alguns pontos por causa disso. Melanie passou a noite em Glasgow e foi para Cairnside na manhã seguinte, sentindo-se cada vez mais animada.

Chegou ao Black Bull no fim da tarde. Parecia tudo diferente agora. As árvores tinham perdido aquela capa de neve e se recortavam, verdes, escuras, contra as montanhas ainda nevadas.

Teve de encher-se de coragem para estacionar o carro e entrar no hotel, sobretudo porque sabia que, se lhe recusassem acomodação, não teria outro lugar para ir. Monkshood não tinha eletricidade, nem aquecimento. E, além disso, onde iria dormir? Na cama de Angus Cairney?

O balcão de recepção estava vazio e, um pouco trêmula, tocou a campainha. Depois de alguns minutos a porta se abriu e Helen Bothwell apareceu. Arregalou os olhos assim que viu quem era que tocava e foi com relutância que chegou ao balcão.

– Sim?

– Preciso de um quarto... o meu quarto de novo – disse Melanie, apertando os lábios.

– Sei. Pretende ficar muito tempo?

– Ainda não sei. Depende. Qual é o problema?

– Talvez não tenha vaga – respondeu Helen secamente, folheando o livro de registro.

– Mas da última vez...

– Isso foi antes do Natal –- respondeu a moça. – Vou ter de dar uma olhada.

– Muito bem! – Melanie tentava controlar a própria impaciência. – Então vou até o bar beber alguma coisa. Posso?

– Claro – Helen respondeu, indiferente.

Melanie atravessou o hall e entrou pelas portas de vaivém. Jeffrey ainda estava em seu posto, polindo copos, e ficou absolutamente perplexo ao vê-la de novo.

– Olá! – exclamou, alegre e risonho. – Que colírio para os olhos!

– Obrigada. Fico contente. – Melanie subiu no banquinho e pediu um uísque com soda. Quando ele a serviu, perguntou: – Mas por que está ainda aqui? Pensei que a escola começasse de novo no fim de janeiro.

– E começou mesmo. Mas as coisas por aqui não vão muito bem e me ofereci para ficar.

– Entendo – disse Melanie, tomando um gole. – Mas o que é que aconteceu? Nada grave, espero.

– Lembra-se de Jennie? Jennifer Craig?

– Claro. O que foi que aconteceu?

– Bom, você sabe que ela não é muito forte. Quer dizer, nunca foi muito saudável. Sempre gripada, resfriada, essas coisas. Há umas três semanas ela ficou com bronquite. E a crise afetou o coração dela. Está de cama agora e não passa bem.

– Oh, não! – Melanie estava realmente surpresa. – Que pena! Seu irmão deve estar muito preocupado!

– Todos nós estamos. – Jeffrey suspirou. – Mas Sean está mais baqueado que os outros. Ele é muito ligado nela.

– É

Melanie sentiu uma pontada no estômago. Estava inquieta. Durante todo o trajeto, desde Londres, tinha sentido uma certa excitação e, apesar de não ter ligado isso diretamente a Sean Bothwell, sabia que tinha algo a ver com ele. Era bobagem tentar se iludir dizendo que Monkshood era a única razão de sua vinda a Caimside, mas agora estava decepcionada.

– Mas, diga lá – perguntou Jeffrey –, o que é que você veio fazer aqui de novo? Veio para ficar?

– Vou ficar uns tempos. – Melanie suspirou. – Pelo menos, são esses os meus planos. Pensei em ficar aqui até que Monkshood esteja habitável de novo e daí...

– Mas eu pensei que... – Jeffrey se interrompeu de repente e Melanie ouviu passos que chegavam até ela.

Voltou-se e deparou com o olhar firme de Sean Bothwell. Sentiu o sangue afluir às faces. Ele vestia uma calça escura muito justa e uma camisa azul-marinho, colarinho aberto revelando o seu pescoço forte e musculoso. Parecia muito irritado e ela tremeu diante da expressão daqueles olhos.

– O que é que está fazendo aqui?

Melanie apenas sacudiu a cabeça, incapaz de responder àquelas palavras amargas e grosseiras.

– Não vá me dizer que veio inspecionar sua propriedade novamente! Não depois de tudo o que conversamos em Londres!

– Na verdade, vim para morar aqui! – respondeu Melanie, descendo do banco.

– Morar aqui! – De pernas afastadas e mãos na cintura, a figura dele era dominadora. Levantou as sobrancelhas. – Que bobagem é essa? O seu noivo...

– Deixe o meu noivo fora disso – interrompeu Melanie, tensa. – O que eu faço é assunto meu. E só meu!

– Não quando envolve outras pessoas! – ele respondeu, irritado, tentando manter-se calmo. – OJhe, se quer ficar no hotel, muito bem, isso pode ser arranjado. Mas vamos deixar Monkshood de lado até você resolver por uma das minhas duas propostas.

– Pensei que, num momento como este, você não ia querer brigar – disse Melanie, encarando-o com toda a segurança que lhe restava. – Jeffrey me contou de Jennie. Eu sinto muito. Como é que ela está?

– Jennifer está muito doente – respondeu, frio, depois de lançar um olhar a Jeffrey. – Mas não deixe que isso altere os seus planos.

– Será que posso vê-la? – insistiu, a despeito da amargura que sentia na voz dele. – Eu gostaria...

– Talvez – respondeu Sean, depois de respirar fundo. – Helen me disse que você quer ficar no mesmo quarto.

– Se for possível.

– Dá-se um jeito. Claro que você já sabe o horário das refeições. – Sean recostou-se ao balcão e ficou olhando para ela.

Melanie não tinha terminado seu drinque, mas não tinha mais vontade de beber. Olhou para Jeffrey, insegura, e atravessou o bar em direção à porta, sentindo os olhos de Sean sobre ela o tempo todo.

Na manhã seguinte Melanie despertou com uma estranha sensação pairando sobre sua cabeça. Não conseguia definir o que era logo ao despertar, mas lentamente entendeu tudo com enorme clareza. Estava em Cairnside, no Black Buli, e sua depressão provinha do fato de, na noite passada, ter admitido a si mesma pela primeira vez que, apesar de tudo, estava apaixonada por Sean Bothwell.

Virando-se de bruços, afundou a cabeça no iravesseiro, tentando deter os pensamentos. Como tinha permitido que isso acontecesse? Como podia ter se apaixonado por um homem que a tratava continuamente sem um mínimo de decência ou respeito? Um homem que, além disso, via-a apenas como um obstáculo aos próprios planos?

Sentou-se na cama e afundou o rosto nas mãos. Tinha de se dominar. Não podia deixar que ele percebesse nada, senão se sentiria completamente degradada.

Levantou-se e caminhou até a penteadeira. O espelho lhe devolvia a imagem de dois grandes olhos um pouco desesperados. Deslizou a mão pelo ombro, baixando a camisola, e examinou a si mesma criticamente. O que é que havia nela que fazia com que Sean Bothwell a desprezasse tanto? Que é que tinha feito para que ele a odiasse a tal ponto? Afinal, era óbvio que ele gostava de Jennifer de uma maneira que nunca gostaria de nenhuma outra mulher. Por que então persistia em tratá-la de maneira ião rude e insensível?

Estava tão absorta em seus pensamentos que não ouviu quando bateram na porta de leve. Quando a porta se abriu, ela se voltou, surpresa, esperando encontrar Josie, a criada.

Mas não foi Josie quem entrou, fechando a porta atrás de si. Foi Sean Bothwell.

Melanie ficou paralisada um momento, enquanto os olhos cinzentos dele passeavam por seu corpo, coberto apenas pela camisola transparente. Perturbada, Melanie pegou o penhoar.

– Eu bati – disse ele, enquanto ela se vestia.

– O que é que você quer? – perguntou, nervosa, incapaz de dominar a indignação que sentia.

– Não precisa me tratar mal. Não há razão para isso.

– Não? – Melanie torceu as mãos. – Por que está aqui em meu quarto? Veio cobrar seus direitos de senhor? Será algum tipo de costume escocês?

– Pare de ser maldosa – ordenou Sean. – E não fale tão alto. Não quero que todo o hotel fique sabendo que estou aqui.

– É, acho que não, mesmo!

– Melanie, ouça primeiro, que droga! Eu não tenho muito tempo. Mas queria falar com você em particular antes de ver Jennie.

– Vou vê-la hoje?

– Vai. Estive lá ontem à noite e, quando contei que você estava aqui, ela ficou muito contente. Gosta muito de você.

– Sei. – Melanie voltou-se de novo para ele. – E você está com medo de que eu conte sobre o que aconteceu em Londres, é isso?

– Não. Não creio que você seja tão cruel. Apenas não quero que você diga a ela sobre nenhuma decisão final a respeito de Monkshood.

– Monkshood! – Melanie engoliu em seco. Claro. Então era para isso que Sean queria a casa. Para se casar com Jennie e ir morar lá,

– É – explicou Sean. – Se ela perguntar o que você veio fazer aqui, diga somente que veio inspecionar a casa. Não creio que ela vá insistir. Está muito fraca.

– Entendo – concordou Melanie. – Às vezes... às vezes chego a lamentar o fato de ter herdado esse lugar...

– Eu também – murmurou Sean pesadamente.

– Por que você desgosta tanto de mim? – perguntou Melanie, ferida pelas palavras dele.

– Desgostar de você? Desgostar? Meu Deus! Eu não desgosto de você – disse ele, os olhos ensombrecidos pela emoção. – Poderia usar outras expressões mais fortes, mas desgostar não é uma delas!

– O que é que eu devo entender disso? Não acha que é uma violência beijar e acariciar uma mulher que você obviamente... odeia?

– Fisicamente... – Sean avançou um passo e então se conteve. – Fisicamente eu a desejo. Ah, sim, eu admito isso. Todos os meus instintos me ordenam agora mesmo que eu tome aquilo que me é oferecido. Não acha que, quando a vi parada ali, envolta nesse pano transparente, senti vontade de possuí-la? Senti. Senti, não! Sinto. É por isso que a quero longe de Cairnside, longe de Monksnood, longe de mim!

– Por causa de... Jennifer! – Melanie falou docemente, cheia de sentimento.

– Por causa de Jennifer, sim! E porque você joga um jogo que não tem regras!

– O que quer dizer com isso? – Melanie encarou-o.

– Quero dizer aquele arremedo de noivado que mantém com Michael Croxley!

– Michael e eu não somos mais noivos! – respondeu com os lábios trêmulos.

– Não é verdade! – Os olhos dele se apertaram, incrédulos.

– É verdade. E você está certo. Era um mero arremedo.

– Oh, Melanie! – disse ele, atormentado. – Pelo amor de Deus, venda Monkshood para mim! Desfaça-se desse lugar de uma vez, para

sempre!

– Quer tanto que eu vá embora? – Melanie perguntou, apertando os braços junto ao peito.

Sean fechou os olhos por um momento, como se tentasse apagar de dentro deles a imagem de Melanie. Avançou até ela, tomou sua mão e levou-a aos lábios com a palma voltada para cima. A boca de Sean era quente e mais doce que nunca, e Melanie tremeu.

Com uma calma segurança, ele deslizou a mão pelo braço dela, por dentro da manga larga de sua roupa, acariciando-lhe a pele em movimentos rítmicos. Melanie abriu os olhos para olhar para ele. Os olhos cinzentos deslizaram por todo o corpo dela, vindo pousar finalmente em sua boca com uma intensidade tão grande que ela quase se sentiu beijada.

– Sabe – disse ele, baixinho e grave –, eu nem sempre sou um bruto. Tem medo de mim?

– De mim mesma, talvez – sussurrou ela.

– Você me assusta! – disse ele em voz mais dura. – É, Melanie, você me assusta! Quando estou com você, quero esquecer os meus deveres, esquecer o que se espera de mim. Sinto vontade de acreditar na minha alma imortal! – Tomado de emoção ele a empurrou, continuando rudemente enquanto caminhava para a porta: – Ouça o meu conselho! Vá embora daqui! Antes que aconteça alguma coisa de que vamos ambos lamentar depois!

– O que quer dizer com isso? – Melanie estava magoada e queria vingar-se, feri-lo também. – Tem medo de que a história se repita? Que eu saia daqui grávida, como Angus fez com sua mãe?

Ele voltou-se e encarou-a durante um longo momento de amargura. Depois, sem dizer mais nem uma palavra, saiu, batendo a porta.

Melanie caiu sentada na cama, afundando o rosto nas mãos. Por que tinha dito aquilo? Era imperdoável e Sean não iria se esquecer nunca. E muito menos perdoar. Limpou as lágrimas com dedos trêmulos. Tinha fugido de Londres por causa de uma situação que não conseguia sustentar. Como poderia fugir agora de Cairnside pelas mesmas razões? Teria de fugir para sempre?

Depois do café da manhã encontrou-se com Jeffrey no hall,

– Oi – disse ele. – Estava procurando você! Está pronta? – Pronta para quê? – perguntou Melanie.

– Para ir a Lochside, claro – disse Jeffrey, tocando-lhe o ombro numa palmada amigável.

– Lochside? – Melanie não compreendia.

– A casa de Jennifer. Lá do outro lado da aldeia. Sean me pediu para levá-la. Você quer ver Jennifer, não é?

Jennífer!

– É claro – disse, forçando um sorriso. – É que eu não sabia o nome da casa. Vamos agora?

– Pode ser. Tenho de estar de volta às onze e meia para abrir o bar.

– Está bem. Espere por mim.

Melanie correu ao seu quarto e vestiu o casaco. Não colocou nenhuma maquilagem e estava um tanto pálida. Mas Jeffrey pareceu nada notar e subiram no carro de Melanie para irem até a casa dos Craig.

Lochside era uma casa mais ou menos do mesmo tamanho de Monkshood, mas infinitamente mais confortável. Haviam instalado um aquecimento central e coberto todas as salas com carpetes. Ao entrarem no hall de madeira clara, uma mulher surgiu imediatamente para saudá-los. Melanie julgou que devia ter seus sessenta anos, mas o rosto parecia muito mais jovem.

Deve ser a mãe de Jennie, pensou, mas Jeffrey a surpreendeu ao

saudá-ta.

– Oi, mãe – disse ele. – Esta é Melanie Stewart.

 

Melanie ficou perplexa. Olhou a mulher de longos cabelos presos em coque na nuca, como se não pudesse acreditar nos próprios olhos.

– Então você é Melanie – disse a sra. Bothwell com um suave sorri­so. – Jennifer falou muito de você.

– Desculpe... sim, sim, eu sou Melanie – gaguejou, absolutamente perdida. – Desculpe se pareço tão surpresa, mas pensei que fosse a mãe de Jennifer.

– A mãe de Jennifer morreu há muitos anos – respondeu a sra. Bothwell. – Jeffrey, o sr. Craig está lá embaixo no ancoradouro. Está es­perando você.

– Está bem. Até mais, Melanie! – Jeffrey enfiou as mãos nos bolsos e retirou-se.

A mulher levou-a até um estúdio cujas paredes eram cobertas de estantes de livros.

– Acho que gostaria de um café antes de ver Jennifer – disse ela cal­mamente. – Com licença um instante, vou buscar a bandeja.

Melanie tornou a sorrir e a mulher saiu. Só então foi que pôde respirar de novo. Nunca tinha pensado que a mãe de Sean ainda estivesse viva. Ele nunca a tinha mencionado. Encontrá-la ali, na casa dos Craig, era mui­to desconcertante. Que faria ela ali?

O retorno da mulher interrompeu seus pensamentos. Melanie abriu espa­ço entre os papéis que cobriam a mesa e a sra. Bothwell pousou a bandeja com um bule de café e duas xícaras.

– Creme, açúcar? – ela perguntou.

– Só creme, por favor.

Melanie pegou a xícara e sentou-se. Pelas maneiras da sra. Bothwell, começou a desconfiar que aquele encontro era algo mais que uma mera gentileza.

– Sean me disse que pretende reabrir Monkshood,

– Sim – respondeu Melanie com cuidado, a xícara trepidando sobre o pires. – Eu escrevo, sabe. Na verdade, minha ocupação no momento não é a literatura, mas é isso que ambiciono fazer. Tenho a sorte de poder trabalhar em qualquer lugar.

– Entendo. – A sra. Bothwell estava pensativa. – E vai usar Monks­hood para isso?

– Sim.

– Tem certeza de que vai gostar de morar lá sozinha? É uma casa enorme para uma jovem como você.

– A solidão não me assusta. Será a minha primeira casa na vida. Es­tou ansiosa para me mudar.

– Não conheceu seu tio-avô, não?

– Não, não conheci.

– Mas descobriu algumas coisas a respeito dele desde que veio aqui

da última vez, não?

– Ah, sim. – Melanie estava inquieta na cadeira. – Esta sala é ado­rável. É aqui que o sr. Craig trabalha?

– É. Éo escritório dele. Ele cuida dos negócios dos moradores. O sr. Craig possui muitas casas – a sra. Bothwell respondeu mecanicamente e Melanie percebeu que os pensamentos daquela velha senhora não estavam no que dizia.

– Estava ótimo, sra. Bothwell – disse Melanie, terminando o café e pondo-se de pé. – Posso ver Jennifer agora?

– Acho... acho que sim – respondeu ela, pousando a xícara e pondo-se de pé também. – Por aqui, por favor.

Subiram a escada que saía do hall, chegando até um quarto no segundo andar. Lá dentro havia uma atmosfera que parecia de hospital, cheirando a anti-séptico. Havia muitos vidros de remédio na mesa-de-cabeceira ao la­do da grande cama onde, meio perdida entre os lençóis brancos, estava Jennifer.

Melanie achou que, desde a última vez que a vira, Jennifer parecia ter envelhecido muito, e aquela fragilidade que tinha notado antes havia au­mentado incrivelmente.

Mas ao enxergar Melanie, os olhos da moça se iluminaram e ela tentou levantar-se, apoiando-se num cotovelo.

– Melanie! – exclamou quase sem forças. – Veio me visitar! Que bom! Sente, sente. Naomi, traga uma cadeira para Melanie, por favor.

– Bom, não fale muito, Jennifer, ou vai começar a tossir de novo – disse a sra. Bothwell, atenciosa. – Vou buscar uma cadeira para srta. Ste-wart. Quer mais alguma coisa?

Jennifer fez que não com a cabeça e a sra. Bothwell tocou o braço de Melanie, indicando a cadeira que estava atrás dela. Então, com um olhar preocupado à doente, retirou-se do quarto, fechando a porta atrás de si.

– Como vai? – perguntou Melanie, curvando-se para a mocinha.

– Vou indo – disse Jennifer, encolhendo os ombros. – E você? Parece ótima. Fiquei surpresa e muito contente quando Sean me disse que ti­nha voltado. Veio para ficar em Monkshood?

– Não... não, estou no hotel – Melanie mordeu o lábio. – Eu... eu queria apenas ver se estava tudo bem por aqui.

– Sei. E seu noivo, veio junto?

– Não – respondeu depois de suspirar, hesitando quanto ao que res­ponder. – Não, Michael ficou em Londres. Nós... ahn... estamos tendo algumas dificuldades. Não... não sei mais se vamos nos casar. – Mela­nie sentia que era melhor parecer absolutamente indefinida do que provo­car muitas perguntas.

– Ah, que pena! – Jennifer apertou a mão dela, interessada. – Mas no fim há de dar tudo certo.

Melanie sorriu. Assim era melhor.

– Acha que vai ficar mesmo com Monkshood? – perguntou Jennifer, retomando o assunto que Meianie mais queria evitar. – Queria lhe falar a esse respeito.

– Acha que deve? Quer dizer, acha que deve falar tanto? Conte-me de você. O que é que tem feito?

– Nada importante. – Jennifer suspirou. – Melanie, por favor, eu preciso mesmo falar de Monkshood. Alguém tem de lhe falar sobre isso.

Melanie virou a cabeça, incapaz de desviar o assunto diante da insistên­cia da outra.

– Sean não vai contar nunca – prosseguiu a garota –, e Naomi, mes­mo que tente, não vai conseguir explicar direito.

– Eu sei... sei que meu tio-avó era pai de Sean.

– Sei que sabe disso. Sean me contou. Mas acho que não sabe os deta­lhes da história.

– Acha que deve me contar uma coisa que... bem, que não me diz res­peito? – perguntou Melanie, apesar de estar interessadíssima em saber mais.

– Mas lhe diz respeito, sim! – exclamou Jennifer. – Aí é que está. Antes de mais nada, a mãe de Sean não é essa que você conheceu.

– Como? – Meianie estava mais confusa que nunca.

– Naomi é mãe de Jeffrey e de Helen. Era a segunda mulher de An-drew Bothwell, que se divorciou da mãe de Sean depois que ele nasceu. Ela ainda está viva, mas não mora aqui. Mora em Edimburgo.

– Quer dizer que Andrew Bothwell se divorciou da mãe de Sean por causa do nascimento dele? – perguntou, absolutamente absorta pela histó­ria.

– Sim. Quer dizer, sim e não... – Jennifer tossiu um pouco e Mela­nie ajudou-a a tomar água. – Sabe, foi durante a guerra e Angus Cairney era oficial da Marinha. Ele só voltava para cá por curtos períodos, quando estava de licença, e uma dessas vezes ele e a mãe de Sean se conheceram e se apaixonaram. Mas ela era casada. É verdade que não tinha filhos, mas era esposa de Andrew Bothwell. Quando Angus voltou para o mar. Linda, Linda era o nome dela, descobriu que estava grávida. Acho que fi­cou apavorada, como qualquer mulher ficaria no lugar dela, sobretudo sen­do Andrew um homem tão austero. Ele não podia ter sido o pai, entende

o que quero dizer?

Melanie fez que sim com a cabeça, absolutamente interessada.

– Bom, talvez tenha sido bobagem dela, mas o fato é que Linda não escreveu contando para Angus. Quando Andrew descobriu, deixou todo mundo na aldeia pensar que era filho dele. Daí, Sean nasceu... – Jenni­fer sorriu suavemente, – Mas acho que quando ele viu aquela criança, que podia ser filho dele, o velho Andrew ficou meio louco. Acusou Linda de adultério da forma mais cruel do mundo e tirou a criança dela. Linda não podia provar que ele não era o pai. Só se envolvesse Angus, e ele esta­va a milhares de quilômetros de distância e podia até já ter morrido na

guerra.

– Então Andrew Bothwell ficou com o filho? – perguntou Melanie, olhando para Jennie.

– Ficou. – Ela mexeu os dedos, nervosa. – Qualquer tribunal teria feito a mesma coisa naquela época. Linda foi praticamente banida da cida­de.

– Mas quando Angus voltou da guerra, ele não descobriu?

– Angus só voltou seis anos depois – prosseguiu Jennifer, depois de suspirar. – E nessa época Linda já era enfermeira num hospital de Edim­burgo. Sean era filho de Andrew para todos os efeitos. Ele não sabia de nada, entende? Só foi descobrir muito tempo depois.

– Como?

– As pessoas começaram a notar a semelhança física – disse Jenni­fer, sorrindo tristemente. – Angus Cairney era igualzinho a Sean, o mes­mo corpo, o mesmo jeito. As pessoas começaram a murmurar, Andrew fi­cou possesso e contou tudo.

– Entendo. – Meianie sacudiu a cabeça. – E aí ele já tinha se casa­do de novo e tinha mais dois filhos.

– Isso. Pode imaginar o que Sean sentiu. Ficou absolutamente perple­xo. Foi procurar a mãe, claro, e, apesar de todos os anos que tinham se passado, deram-se muito bem.

– E Andrew Bothwell?

– Ele manteve Sean como filho legítimo e, ao morrer, há três anos, deixou-lhe sua herança. Mas aí, Angus e Sean já eram bons amigos e, ape­sar de não haver mais nenhuma possibilidade de Angus e Linda tornarem a se aproximar, havia enorme afinidade entre os três.

– Então foi por isso que Angus fez aquele testamento! Deve ter sido antes de ele descobrir.

– Isso mesmo. Melanie, você pode imaginar o sofrimento por que Lin­da passou? Ser privada do próprio filho dessa maneira, praticamente des­de que ele nasceu!

– Deve ter sido horrível – comentou Melanie, sacudindo a cabeça.

– Foi mesmo. E Sean compreendeu isso. – Jennifer arrumou melhor o travesseiro. – Por isso é que eu queria que você soubesse da história to­da. É para isso que Sean quer tanto Monkshood. Linda nunca quis voltar para cá, não enquanto Angus estava vivo. E, mesmo depois da morte de­le, ela se recusa a morar no hotel, que era de Andrew. Mas na casa de An­gus, a casa onde Sean foi concebido, isso muda tudo.

– Quer dizer que Sean quer Monkshood para a mãe dele? – Meanie pôs-se de pé, trêmula.

– Isso mesmo.

– Mas... mas se ele tivesse me contado...

– Ele nunca contaria. Eu sabia disso – respondeu Jennifer, muito fra­ca. – Ele não pede nunca, é o jeito dele. Queria forçá-la a uma decisão sem nenhuma pressão sentimental. Mas eu... eu não podia deixar isso acontecer. Tinha de tentar lhe explicar...

– Foi bom ter me contado. – Melanie estava perplexa. – Eu devia ter adivinhado que havia alguma razão mais forte para ele querer tanto aquela casa. Não se preocupe. A casa será dele.

– Quer dizer que... – Jennifer parecia esgotada.

– Não vou contar que você me contou, não. Fique sossegada, eu não vou trair sua confiança.

– Muito obrigada! – Jennifer parecia infinitamente aliviada.

– Mudando de assunto... – Melanie perguntou, meio sem jeito – por que é que a sra. Bothwell está aqui?

– A mãe de Jeffrey? Ela é governanta de papai. Quando Andrew mor­reu e Sean herdou o hotel, ela precisava de um lugar para morar. A gente precisava de uma governanta... foi a solução ideal.

– E ela...

– Se ela sabe da história? Ah, sabe, sim – disse Jennifer. – Ela e Linda são da mesma idade. Acho que às vezes ela se sente muito mal com essa história também.

De repenle a porta se abriu e Naomi Bothwell apareceu.

– Acho que já chega agora, Jennifer. Desculpe, srta. Stewart – disse ela gentilmente –, mas o médico pediu para limitar as visitas.

– Tudo bem, Naomi. – Jennifer sorriu, contente. – Melanie e eu já terminamos a nossa conversa, não é, Melanie?

– É. Claro. É melhor eu ir embora. Volto outro dia, Jennifer!

– Volte mesmo – respondeu a garota, cansada.

Melanie acompanhou a senhora escada abaixo, até o hall. Jeffrey esta­va esperando. Naomi parecia desapontada por não ter podido fazer mais perguntas à visitante, mas Melanie estava aliviada por isso. Não sentia ne­nhuma vontade de falar mais nada sobre Monkshood.

No carro, voltando para o hotel, Jeffrey a estudou durante algum tem­po.

– Parece... chocada – disse ele. – O que foi que aconteceu? Jenni­fer piorou? Acho que eu devia ter subido para visitá-la, mas não gosto muito dessas coisas.

– Não... não, Jennifer está na mesma – disse Melanie, procurando se controlar. – Acho que... estou com frio, só isso.

Depois do almoço, Meianie retirou-se para seu quarto. A conversa com os quatro hóspedes permanentes do hotel a tinha deixado cansada física e mentalmente. Precisava de tempo para pensar, também. Tempo para resol­ver o que ia fazer e para onde iria se saísse de Cairnside.

Ficou à janela, olhando para fora, concentrada. A única coisa a fazer, para não perder o respeito por si mesma para o resto da vida, era retornar a Londres. Qualquer outro lugar seria impossível. Tinha vindo até ali para escapar à insistência de Michael, mas, comparado com o clima que havia ali, a atitude de Michael parecia muito mais fácil de controlar.

Por vários motivos, era uma decisão que lhe agradava. Afinal, depois de ter descoberto a força de seus sentimentos por Sean Bothwell, não era justo para nenhum dos dois que ela continuasse ali. Mesmo que se mudas­se para Monkshood, estaria próxima demais. Qual seria o significado do que ele tinha dito, pedindo a ela que fosse embora imediatamente? Que não confiava em si mesmo por aquelas razoes? Ou estaria ele lançando mão de todos os meios disponíveis para se livrar dela e ficar com a casa?

Melanie não sabia. E não tinha como descobrir. E no momento, pelo menos, ele não poderia abandonar Jennifer.

Ao entardecer daquele dia terrível, Melanie telefonou para os advoga­dos em Fort William e marcou um encontro para a manhã seguinte. De­pois arrumou as malas, deixando de fora apenas coisas que iria precisar até o dia seguinte e desceu para jantar. Partiria logo de manhã, depois do café, evitando assim as explicações cansativas. Os advogados se encarre­gariam de dar as explicações.

Mal conseguiu comer e ficou à mesa, numa estranha letargia, até que a criada veio tirar os pratos. Sorriu para ela, levantou-se e foi para o hall. Sean estava entrando no hotel, vestindo um blusão grosso, azul, os cabe­los cheios de flocos de neve.

– Está nevando outra vez – disse ele, olhando Melanie de uma forma que a fez estremecer. – Quer guardar seu carro na garagem?

– Ahn... não, obrigada – gaguejou ela, pensando que não poderia partir em segredo na manhã seguinte se o carro ficasse trancado.

– É melhor – insistiu Sean, curioso. – Se ficar ao relento pode não funcionar amanhã.

– Não se preocupe, sr. Bothwell. – Melanie torcia as mãos. – Eu sempre o deixo fora em Londres e nunca acontece nada.

– Melanie! – Sean chamou, quando ela já caminhava para os de­graus.

– Que foi?

– Foi ver Jennifer hoje de manhã?

– Fui. Jeffrey me levou.

– Eu sabia, fui eu que pedi. – O rosto de Sean estava tenso, os mús­culos todos aparentes. – Que foi que achou dela?

– Fiquei... chocada com a aparência dela. – Melanie sentiu-se enru­bescer.

– Ela falou alguma coisa de Monkshood?

– Falou. – Melanie ficou ainda mais vermelha.

– E você? O que disse?

– Disse que tinha vindo dar uma olhada na casa. – Melanie suspirou. – Conforme você pediu.

– Contou que rompeu com o seu noivo?

– Não exatamente. – Melanie agarrou-se ao corrimão. – Olhe, pode ficar descansado. Não disse nada que não devia.

– Venha. Vamos tomar um drinque. – Sean tirou o casaco.

– Não, obrigada. – Melanie engoliu em seco.

– Por quê? – Ele foi até ela. – Não tenho segundas intenções. Já es­tou renunciando a tantas coisas. Tenho sempre de implorar por aquilo que quero?

– Tenho umas coisas para fazer – disse Melanie, voltando-se para o outro lado.

– Foi visitar a casa hoje?

– Não! – A palavra saiu como que arrancada de dentro dela.

– Não está interessada?

– Oh, Sean, por favor! – Melanie não podia mais suportar aquilo sem revelar a ele que sabia de tudo, sem revelar quanto o amava. E se per­mitisse que Sean soubesse de tudo, cairia para sempre no conceito dele.

Sem nada dizer, voltou-se e subiu a escada depressa, deixando-o para­do, olhando para ela.

Na manhã seguinte, naquelas horas frias que precedem o amanhecer.

Melanie deixou o hotel. Para seu grande alívio o carro deu partida sem ne­nhuma dificuldade. Bem devagar deu a volta ao hotel e foi embora sem olhar para trás, quase sufocada pelo aperto que sentia no coração.

De volta a Londres, mergulhou no trabalho tentando esquecer as ten­sões emocionais que às vezes ameaçavam destruí-la.

Mas mesmo assim, no silêncio de seu apartamento, era impossível es­quecer e ela sabia que só o tempo apagaria a intolerável solidão que a en­volvia.

Depois de ter deixado a Escócia não tinha mais tido notícias de Cairnsi-de. A caminho de Londres tinha parado para ver os advogados em Fort William, tratando da transferência de Monkshood para o nome de Sean Bothwell. Tinha certeza de que eles deviam ter achado que estava louca, dando assim de presente uma propriedade tão valiosa para alguém que não era nem parente, mas nada disseram.

Por algumas semanas Melanie esperou que Sean mandasse uma carta, ao saber o que tinha feito, mas como ele não escreveu ela disse a si mes­ma que era melhor assim. Dessa forma, nada restaria do passado e seria mais fácil conviver apenas com lembranças.

Michael ela viu pouco. Desmond a levava para jantar fora de vez em quando. Numa dessas vezes, ela o encontrou no mesmo restaurante com um cliente, e tempos depois, de novo, acompanhado de Virgínia Bradbury.

Depois disso ele a esperou um dia à saída do trabalho e foram tomar um drinque. Michael queria explicar por que estava acompanhado de ou­tra mulher. Foi então que Melanie deixou absolutamente claro, com sua in­diferença, que não havia mais nada entre eles. Michael entendeu.

 

Por volta das seis horas Melanie chegou em casa. Estava subindo os degraus, procurando as chaves na bolsa, quando um ruído chamou a sua atenção. Olhou para cima e viu um vulto escuro no alto da escada. Achou que estava tendo uma alucinação e estacou.

– Quem está aí? Quem é?

A sombra saiu da penumbra dos degraus e entrou na área iluminada. Os olhos de Melanie se arregalaram. Só podia ser uma alucinação. Não podia ser Sean, não podia!

Voltou-se, sem fôlego, e desceu correndo, o ruído de passos chegando cada vez mais perto.

Já estava novamente no primeiro degrau quando ele a segurou fortemente pelo pulso.

– Pelo amor de Deus, Melanie – disse ele, também sem fôlego –, o que está fazendo?

Melanie recuou, libertando o braço, ainda sem acreditar que aquilo estivesse acontecendo de fato e não apenas em sua mente.

Mas ao olhar para ele percebeu imediatamente que aquele não era o Sean Bothwell que ela conhecera. Seu rosto e seu corpo estavam muito mais magros e havia rugas em torno dos olhos, que pareciam encovados. Os cabelos estavam longos e mal cuidados como se ele só tivesse tempo de penteá-los com os dedos. Alguns fios brancos brilhavam aqui e ali, onde não existiam antes.

E, no entanto, continuava o mesmo homem, capaz de, com sua mera presença, reduzi-la a uma massa trêmula de nervos, emoções e desejo...

– Sean... – disse ela finalmente, olhando dentro daqueles olhos que pareciam mais amargos que nunca – Sean, o que está fazendo aqui?

– Vim vê-la – disse, soltando seu braço e enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo. – Quero respostas para algumas perguntas.

– Parece tão amargo. Tente entender o que eu senti agora há pouco. Pensei que você fosse uma alucinação. Não podia acreditar que estivesse aqui, nos degraus.

– Espera que eu acredite nisso?

– É verdade, Sean, acredite! – Ela tocou a manga dele. – O que é que quer perguntar?

– Talvez seja melhor falar com os seus advogados – respondeu, passando a mão pelos cabelos.

– Sei. – Melanie sentiu um frio na barriga. – Não quer entrar? Acho... acho que precisa de um drinque.

– Não sei – disse ele. – Talvez não seja boa idéia. Você está bem? Trabalhando muito?

– Estou. – Melanie odiava aquelas observações curtas e secas. – Oh, Sean, por favor, entre! Desculpe se pensou que eu... bem, que eu estava sendo boba. Mas eu tive um dia difícil. Estou cansada, é só isso.

– Então é melhor eu ir embora, não é?

– Sean, por favor! Não fale assim comigo. – A voz de Melanie tornou-se incerta. – Por favor, estou pedindo, não vá embora...

Sean olhou para ela por longos momentos e então foi como se o autocontrole ferrenho que ele tinha se imposto por tanto tempo quebrasse de repente. Ele a puxou para si e buscou os lábios dela, apaixonadamente.

Melanie agarrou-se a ele, correspondendo sem pensar nem um segundo em nada que não fosse Sean e naquela urgência que sentia dele.

Mas então, através de sua mente tortuosa e torturada, surgiu claramente a idéia de que Sean devia estar se contendo por causa de Jennifer e sentiu remorso. Com um soluço, afastou-se dele.

– Oh, Sean – disse ela, passando as mãos no rosto para enxugar as lágrimas que não tinha conseguido conter. – Não podemos fazer isso! Por que é que você veio?

– Melanie, pelo amor de Deus! – exclamou ele, respirando pesadamente. – Não brinque comigo, não agora!

Melanie engoliu em seco. Era o momento da verdade e ela não conseguia encará-lo. Não podia permitir que ele fizesse uma coisa da qual a culparia pelo resto da vida. Desejava-o, oh, como desejava aquele homem. Queria toma-lo entre os braços, alisar todas aquelas rugas de cansaço do rosto de Sean, sentir a paixão urgente do desejo dele e satisfazê-lo, entregando-se inteiramente. Queria tudo isso, mas não às custas de Jennifer.

E como era covarde, fugiu de novo, subiu correndo as escadas para o seu apartamento e parou no meio da sala, odiando a si mesma.

Mas Sean a seguiu desta vez e, quando fechou a porta, ela entendeu imediatamente que não poderia mais fugir.

– Melanie... – perguntou ele, muito tenso – Melanie, por que você transferiu Monkshood para o meu nome?

– Isso imporia? É sua agora... – Metanie eslava entrando em pânico. – Eu não a quero. Não a quero nem um pouco.

– Acha que eu podia aceitar, assim, sem mais nem menos?

– O que quer dizer?

– Por que você fugiu?

– Tantas perguntas! – exclamou Melanie, amarga. – Sean, você não tem o direito de estar aqui.

– Por quê? – A expressão dele era sombria ao atravessar a sala, parando a apenas alguns centímetros do corpo dela. – Diga-me, por quê? Diga que o que aconteceu agora, ali embaixo nos degraus, era só brincadeira, e eu lhe provo que não era.

Ele deslizou a mão pelo ombro dela, repousando-a em seu pescoço.

– Que pele macia! – murmurou, rouco. – Sabe que quase fiquei louco de tanto pensar em você todas estas semanas?

– Sean! – ela implorou, voltando o rosto.

– O que foi? – Os olhos dele se apertaram, perscrutadores. – Croxley de novo?

– Não, não! – Melanie estava desesperada, torcia os dedos presos entre os dele, incapaz de resistir por muito tempo mais. – Eu... eu não sou o tipo de mulher que você imagina. Quero que vá embora.

– E que tipo de mulher é que eu imagino que você seja? – ele perguntou baixinho. – Oh, Melanie, estou começando a achar que não pode ser verdade. Diga-me só uma coisa... Por que você fugiu? Foi porque ia me dar Monkshood de presente? Ou foi porque, depois de tudo o que tinha acontecido entre nós, você não queria mais saber de mim?

– Sean – Melanie franziu a testa, torturada –, você tem de saber que foi Jennifer que...

– Foi Jennifer – ele disse pesadamente, a expressão se abrandando subitamente. – Melanie, Jennifer morreu.

– O quê?!

– Jennifer morreu. Há seis semanas.

– Então é por isso... – Ela mordeu o lábio. – Você emagreceu... essas rugas... eu pensei...

– Melanie, se eu emagreci, se tenho rugas no rosto, isso não é só por causa de Jennifer – disse ele, segurando-a pelos ombros e olhando-a com intensidade. – Faz seis semanas que ela morreu. Seis semanas em que eu sofri mais que qualquer outro homem no mundo. Você tem idéia do que fez quando fugiu de mim? Me fez perceber todas as coisas maldosas e egoístas que eu tinha feito e dito a você. E isso iria me atormentar pelo resto da minha vida e eu nunca poderia lhe dizer... É como você diz. Havia Jennifer e eu não podia abandoná-la.

– Sean....

– Espere um pouco. Tem mais ainda. As razões do meu envolvimento com Jennifer não eram inteiramente pessoais. Há poucos dias eu descobri que você sabia de minha mãe, de toda aquela história. Por causa disso tudo eu sentia que tinha uma dívida com os Craig. Quando minha mãe foi ultrajada por meu... por Andrew Bothwell, foram Adrian Craig e a mulher dele que a ajudaram. Foram eles que arranjaram uma casa para ela em Edimburgo e eles que a sustentaram até que pudesse ganhar a vida sozinha. Sentia que tinha uma dívida de gratidão para com eles. Eu era responsável. Oh, eu entendo agora que eu não era moralmente responsável pelo que tinha acontecido, mas sem mim a vida de minha mãe teria sido muito mais fácil. Jennifer Craig e eu sempre nos demos bem, e, quando eu descobri que era filho de Angus, fiquei achando que nenhuma garota decente haveria de querer se casar comigo. Eu era apenas um menino naquela época e foi muito importante saber que Jennifer me dava seu carinho e afeição. Dá para entender? Eu não podia nunca trair esse amor.

Melanie sacudiu a cabeça sem nada dizer.

– Mas depois da sua chegada e de toda a história com Monkshood, comecei a entender que meus sentimentos por você eram motivados não por ódio, mas por aquela outra emoção que pode tão facilmente ser confundida com ódio: o amor!

– Mas... mas... você esperou todo este tempo. Você... não podia ter me contado que Jennifer tinha morrido? Seria uma coisa que eu podia repartir com você. Gostava muito de Jennifer, apesar de conhecê-la pouco.

– É. Foi uma tragédia. Apesar de ela nunca ter sido forte, e dessa ultima doença tê-la enfraquecido muito, sua morte foi um choque para todos nós. Eu me senti culpado também. Por causa da enorme necessidade que tinha de você. Só fiquei mais tranquilo quando os médicos explicaram, depois, que ela sofria de uma insuficiência pulmonar incurável.

Melanie sacudiu a cabeça pensando um momento na suave intensidade da moça que conhecera.

– Jennifer lhe contou sobre minha mãe, não? – perguntou Sean. – Se eu soubesse! Pensei... ah, nem sei mais o que eu pensei. Acho que no momento em que descobri que você tinha me abandonado, eu realmente a odiei.

– Mas como foi que descobriu que eu sabia de tudo? – Melanie estava intrigada.

– Naomi me contou. Jennifer disse a ela que tinha lhe contado, depois que você saiu. Mas ela tinha jurado segredo e foi só por acaso que eu ouvi Jeffrey falando com a mãe dele sobre o assunto. Eles estavam preocupados comigo, acho, pela minha reação ao saber que você tinha passado a casa para o meu nome.

– Como foi?

– Como você acha? Eu não podia aceitar, você devia saber disso.

– Mas por quê? – Melanie arregalou os olhos curiosos e perturbados.

– A casa é muito valiosa. Não tão valiosa quanto Croxley queria me fazer acreditar que fosse, mas mesmo assim... E, como já disse antes, eu quero comprar a casa de você. É por isso que estou aqui.

– Só por isso?

– O resto depende de você. – Sean estava controlado.

– Como?

– Pelo amor de Deus, Melanie, quer que lhe implore de joelhos? Que diga que a adoro, que a amo, que não posso viver sem você?

Melanie sentiu os lábios tremerem ao imaginar a cena. Aquele escocês arrogante de joelhos diante dela, implorando, quando na verdade tudo o que tinha de fazer era ordenar.

– Oh, Sean... – murmurou ela, rouca. – Só me pegue entre os braços e me ame. Não sei como pôde pensar que eu sentiria diferente.

Sean olhou para ela um instante mais e então pressionou-a contra si, as mãos nos quadris de Melanie, a boca procurando a dela, explorando-a com enorme intensidade.

– Melanie – disse ele, afastando-se um pouco dela depois do beijo terminado –, eu sou apenas um homem. E a quero muito, muito. Mas não aqui... não assim. Quero que se case comigo!

– E se eu recusar?

– Você não vai recusar. – Os olhos dele brilharam.

– Eu faço uma troca – murmurou ela. – É sobre a nossa propriedade mútua. Se você...

– Oh, Melanie! – Ele pousou a testa na dela. – Está bem, está bem. Minha mãe irá morar em Monkshood, exatamente como eu tinha planejado. Acha que consegue morar no Black Bull até podermos comprar a nossa casinha?

– Acho que sim – ela respondeu, sentindo um arrepio de satisfação, tocando o rosto dele com as mãos.

Era como Desmond tinha dito uma vez. Quando a gente se casa com a pessoa que ama, todo o resto parece sem importância...

 

 

                                                                  Anne Mather

 

 

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