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A FOTOGRAFIA MISTERIOSA / Erle Stanley Gardner
A FOTOGRAFIA MISTERIOSA / Erle Stanley Gardner

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A FOTOGRAFIA MISTERIOSA

 

Della Street abrira a porta do gabinete particular de Perry Mason.

O senhor J. R. Bradbury anunciou.

Entrou um homem que tinha cerca de quarenta e dois anos e possuía uns olhos cinzentos, muito vivos, que se pousaram em Perry Mason com instantânea amizade.

Como passa, senhor Mason? disse, estendendo a mão.

Perry Mason ergueu-se da cadeira giratória para apertar a mão que se lhe estendia. Della Street demorou-se um instante à porta, contemplando-os.

Perry Mason era mais alto do que Bradbury. Tinha mais peso, talvez, mas esse peso devia-se mais ao desenvolvimento dos ossos e dos músculos do que à gordura.

Havia algo de peremptório nos seus movimentos ao levantar-se da cadeira e apertar a mão do outro. O homem parecia compacto como uma massa de granito, e era, também, de áspero granito o aspecto do seu rosto, que se manteve completamente inexpressivo enquanto ele dizia:

Tenho prazer em conhecê-lo, senhor Bradbury. Queira sentar-se.

Os olhos de Della Street e os de Perry Mason encontraram-se.

O senhor precisa de alguma coisa? perguntou ela.

O advogado sacudiu a cabeça e, ao mesmo tempo que Della Street fechava a porta, voltou-se para o visitante.

O senhor disse à minha secretária que havia telegrafado, mas nos nossos arquivos não existe nenhum telegrama com o seu nome.

Bradbury riu e cruzou as pernas. Parecia muito à vontade.

Isto é fácil de explicar disse. Enviei o telegrama de uma agência onde o meu nome é conhecido. Como não queria revelar quem era, assinei Eva Lamont.

As feições de Perry Mason exprimiram súbito interesse.

Então o senhor é a pessoa que mandou aquela fotografia por avião ? A fotografia de uma rapariga ?

Bradbury assentiu com a cabeça e tirou um charuto no bolso do colete.

Não faz mal que eu fume ?

Perry Mason respondeu com outro gesto de cabeça.

Agarrou o receptor do telefone que tinha sobre a escrivaninha, e ao ouvir a voz de Della Street pediu:

Traga-me a fotografia que chegou ontem e também o telegrama assinado por «Eva Lamont».

Pôs o receptor no gancho e, enquanto Bradbury cortava a ponta do charuto, tirou um cigarro do «humidor» (1) que também se encontrava sobre a escrivaninha. Bradbury riscou um fósforo na sola do sapato e levantou-se vivamente para acender o cigarro de Perry Mason. Depois, ainda em pé, encostou a chama à ponta do seu charuto. Estava depositando no cinzeiro o fósforo apagado, quando Della Street abriu a porta, que dava para o escritório exterior, e veio colocar um envelope de ofício sobre a mesa de Perry Mason.

Nada mais ? perguntou.

O advogado abanou a cabeça.

(1) Caixa metálica para guardar cigarros, com um dispositivo para manter o ar suficientemente húmido no interior.

Della Street lançou um olhar avaliador àquele homem bem trajado que continuava em pé, tirando baforadas do charuto. Depois virou-se e saiu.

Quando a porta se fechou com um estalido do trinco, Perry Mason abriu o envelope e tirou uma fotografia de papel lustroso, o retrato de uma jovem, mostrando os ombros, as ancas, os braços e as pernas. O rosto não aparecia, mas a mocidade da fotografada patenteava-se na forma esbelta do corpo, no gracioso feitio das mãos e no contorno gentilmente audacioso das pernas.

Ás mãos seguravam bem alto o vestido, mostrando o par de membros delgados. Debaixo do retrato fora colada uma tira de papel, com esta legenda escrita à máquina:

À jovem das pernas da sorte».

Anexado à fotografia por um «clip», havia um telegrama que dizia :

Remeto correio aéreo entrega especial fotografia de extrema importância assunto lhe exporei guarde fotografia espere-me no seu escritório não faltarei Eva Lamont.

Bradbury aproximou-se da escrivaninha e fixou os olhos na fotografia.

Essa rapariga disse ele foi ludibriada, traída e roubada.

Ao invés de olhar para o retrato, Perry Mason considerou o rosto do homem com essa expressão atenta e perscrutadora que parece descobrir a verdade sob a capa de simulação mundana. Era a perquirição de um advogado que lida com todos os tipos de clientes e aprendeu a afastar calmamente, sem pressa, as camadas de fingimento para chegar à realidade dos factos.

Quem é ela ?

Chama-se Marjorie Glune.

Diz o senhor que foi ludibriada, traída e roubada ?

Sim.

E quem é o culpado de tudo isso ?

Frank Patton respondeu Bradbury.

Perry Mason designou com a mão a grande poltrona de couro que fazia face à sua escrivaninha.

Poderemos andar mais depressa se tiver a bondade de sentar-se e contar-me tudo desde o começo.

Uma coisa deve ficar entendida desde já disse Bradbury, sentando-se : tudo que eu lhe vou dizer ficará entre nós.

Sem dúvida.

O meu nome é J. R. Bradbury. Moro em Cloverdale.

Fui um forte accionista do Banco Nacional de Cloverdale e presidente durante muitos anos. Tenho quarenta e dois.

Aposentei-me recentemente para me dedicar a negócios particulares.

Sou um cidadão de alguma importância na minha terra e posso dar-lhe referências idóneas sobre quem quiser.

Bradbury articulava as palavras com a precisão de quem está ditando. O advogado observava-o com uns olhos que pareciam trespassar a alma humana como os raios X trespassam os tecidos do organismo.

Marjorie Clune prosseguiu Bradbury é uma rapariga bonita e de muito carácter. É órfã. Esteve empregada no meu banco como estenógrafa. Dentro de um mês teria, com toda a certeza, aceite o meu pedido de casamento. Foi então que apareceu na cidade Frank Patton, um contratador.

Dizia representar uma companhia cinematográfica e andar à procura de uma jovem dotada de beleza e personalidade, que consentisse em aparecer nos anúncios como «A jovem das pernas da sorte». Tencionavam pôr-lhe as pernas no seguro por dois milhões de dólares e fazer publicidade em torno delas como sendo as pernas mais bonitas de todo o país.

Patton dizia que estava autorizado a contratar em nome dessa companhia? inquiriu Mason.

Bradbury sorriu com ar fatigado, como se já tivesse repetido a história muitas vezes.

Levava consigo um contrato em branco, assinado por uma companhia produtora de filmes com sede aqui.

Patton tinha poderes para escolher o contratado. De acordo com o ajuste, a actriz trabalharia durante quarenta semanas no ano, recebendo um salário de três mil dólares semanais.

Havia, porém, uma cláusula insidiosa segundo a qual a companhia podia rescindir o contrato caso resolvesse interromper a filmagem da produção em que pretendia apresentar a estrela.

Quais eram os lucros de Patton nesse negócio ? perguntou Mason.

Fez dinheiro por intermédio da Junta Comercial, onde vendeu títulos acenando com a propaganda que representaria para Cloverdale a escolha de uma rapariga dali.

Vendia esses títulos aos comerciantes, e os comerciantes passavam-nos aos seus fregueses. O título dava ao possuidor o direito a um dividendo nos lucros do filme.

Espere um momento disse Perry Mason. Vamos tirar isto a limpo. Os possuidores de títulos tornavam-se sócios na produção do filme?

Não; apenas participavam dos lucros. A diferença é grande. Não compreendemos isso de começo. A actriz devia assinar um contrato com Patton, que seria seu empresário e receberia uma percentagem dos seus vencimentos. Esses vencimentos abrangiam uma parte dos lucros do filme, parte essa que Patton destinava aos possuidores de títulos.

E estes interviriam na escolha da estrela!

O senhor apanhou a ideia em síntese. Os títulos eram vendidos aos comerciantes, que os distribuíam como prémio aos fregueses. Os possuidores de títulos escolhiam a actriz por votação. Havia meia dúzia de candidatas. Mostravam-se em traje de banho, serviam de modelos nas lojas, exibiam-se nas vitrinas calçando meias, eram filmadas em «shorts» de propaganda e deixavam fotografar as pernas para que as fotografias fossem expostas nas vitrinas. Isso estimulava os negócios. Era, naturalmente, uma exploração a que estavam submetendo as raparigas. Patton ganhou rios de dinheiro.

E que sucedeu depois? perguntou Mason.

Marjorie Clune foi eleita como a mais bela das concorrentes ou candidatas, se prefere assim. Patton preparou-lhe uma esplêndida despedida. Houve um banquete em que o secretário da Junta Comercial lhe apresentou o contrato.

Foi assinado com uma caneta automática e esta colocada numa caixa de vidro, para ser conservada no palácio municipal. Cloverdale ia ganhar fama. Seria a cidade natal da maior actriz cinematográfica, da mais bela jovem dos Estados Unidos. Patton havia reservado um compartimento no comboio nocturno. Margy foi escoltada até lá, entre vivas, por mais de mil e quinhentas pessoas. O compartimento estava cheio de flores. Havia uma banda de música. O comboio partiu.

Bradbury fez uma pequena pausa e acrescentou em tom dramático:

E ninguém mais teve notícias de Marjorie!

Julga que ela tenha sido raptada ou coisa semelhante

? perguntou Mason.

Não. Foi burlada e o seu orgulho não lhe permitiu voltar. Tinha saído de Cloverdale para tornar-se uma grande estrela de cinema. Não tinha coragem de aparecer lá novamente e confessar que fora vítima de uma fraude legal.

Por que diz fraude legal

Porque é inatacável! Não foi feita nenhuma declaração falsa que justifique uma denúncia por parte do promotor público de Cloverdale. Ele escreveu à companhia de filmes e responderam-lhe que estavam de facto à procura de uma actriz; que tinham autorizado Patton, em cujo critério tinham inteira confiança, a arranjar-lhes essa actriz; que Marjorie Clune se apresentara nos estúdios e trabalhara durante dois dias na filmagem do drama, mas que tinham resolvido suspender essa filmagem, em parte, porque miss

Clune não se prestava para o cinema.

O contrato limitava-se a um só filme ? perguntou

Perry Mason.

À três filmes, mas todos dependiam do resultado satisfatório do primeiro.

E o título do primeiro era especificado no contrato, de forma que nada impedisse a companhia de abandonar a filmagem sob esse título, adoptando um outro e contratando uma nova estrela para a mesma produção?

O senhor agora tem uma ideia de conjunto disse

Bradbury.

E que quer que eu faça?

Quero meter Frank Patton na cadeia. Creio que ele foi muito bem aconselhado por algum advogado e também quero ter um que não seja menos astuto. Quero encontrá-lo e encontrar Marjorie Clune. Quero obrigá-lo a indemnizar a rapariga e, além disso, fazê-lo confessar a sua intenção fraudulenta.

Porquê ? inquiriu Perry Mason.

Porque assim, o promotor daqui accionará a companhia, e o promotor de Cloverdale accionará Patton. Mas eles dizem que é preciso provar de maneira incontestável a intenção fraudulenta. É um caso embrulhado. Se ele alegar boa fé não poderão condená-lo. Necessitam de uma confissão qualquer da sua parte.

Porque não a conseguem então?

O promotor de Gloverdale disse Bradbury não quer envolver-se na questão por qualquer motivo. O promotor daqui diz que não está disposto a lavar a roupa suja de Cloverdale; que se eu apresentar uma queixa fundamentada contra Patton ele está pronto a agir, mas que não gastará o tempo e o dinheiro do condado procurando resolver os assuntos de Gloverdale; que os roubados são cidadãos de Gloverdale e todas as queixas foram apresentadas lá.

Que mais deseja que eu faça?

Quero que o senhor me livre de ser preso por extorsão.

Quando descobrirmos Patton ?

Bradbury moveu a cabeça afirmativamente e puxou uma carteira do bolso.

Estou pronto a pagar mil dólares como sinal.

Perry Mason virou-se para ele.

Vai precisar de um bom detective. Paul Drake, chefe da Agência de Investigações Drake, é um grande amigo meu.

Vou dar-lhe um cartão de apresentação.

Pegou no telefone:

Della disse à secretária passe um recibo de mil dólares ao senhor J. R. Bradbury. Ligue para Paul Drake e depois para Maude Elton, a secretária do promotor público.

 

Maude Elton, a secretária do escritório do promotor público, gozava a reputação de conhecer a crónica dos processos criminais melhor do que qualquer pessoa no

Fórum. Ligeiramente pálida, tinha feições que dificilmente fariam o entusiasmo de um produtor de filmes; essas feições revelavam, porém, uma lépida vitalidade, uma atenta vigilância que a faziam parecer tão irrequieta quanto um canário aos saltos dentro da gaiola, os olhos brilhantes cravados no estranho que se houvesse aproximado demasiadamente.

Alô, senhor Mason disse.

Perry Mason sorriu para ela.

Depois de falar com certas criaturas desenxabidas que não sabem fazer outra coisa senão colocar pó de arroz no rosto, é um prazer encontrar um par de olhos espertos como os seus.

Com certeza pretende arrancar de mim alguma informação que ninguém mais lhe dará, aqui, no escritório ?

Creio que está denunciando a influência nefasta do meio tornou ele.

Como, do meio ?

Porque sempre vê a vida pelo lado mais feio. Esse é o resultado de lidar com velhacos e pessoas que têm sempre intenções ocultas. A missão com que venho hoje é a de um cidadão pacífico, de um contribuinte, digamos, que procura uma autoridade para solicitar informações lícitas.

Ela inclinou a cabeça um pouco para o lado enquanto o fitava.

Acredito mesmo que esteja dizendo a verdade...

E estou!

Não é brincadeira ?

Não, palavra de honra.

Tenho visto muita coisa interessante na minha vida, mas por esta é que não esperava! Que é que o senhor deseja ?

Desejo descobrir qual foi o auxiliar consultado por um homem chamado Bradbury, que veio de Cloverdale para tratar de uma vigarice de que foi vitima a Junta Comercial de lá.

Ela franziu a testa.

Bradbury ? Mas foi o doutor Doray que esteve aqui para tratar disso... Doutor Robert Doray.

Não disse ele. Estou interessado num tal Bradbury.

É assim mesmo que ele se chama J. R. Bradbury.

Espere um momento respondeu miss Elton. Vou procurar na agenda.

Correu o dedo pelas páginas do livro e fez um gesto afirmativo com a cabeça.

Sim, ele falou com Carl Manchester. Os dois falaram com Carl Manchester.

E como o doutor Doray é jovem, simpático e impressionável, a gente não precisa consultar os registos para se lembrar dele, enquanto que Bradbury, quarentão e gordo, é relegado ao esquecimento. Mais uma vez os factos dão razão aos psicólogos, quando dizem que nós recordamo-nos das coisas que nos interessam e...

O gabinete de Carl Manchester interrompeu ela fica na terceira porta à esquerda. Quer que o avise da sua chegada ? Se o senhor começar a sondar os segredos do meu coração eu prego-lhe com este livro na cabeça, e aí na sala de espera está um homem triste que foi roubado nas suas economias e que há-de considerar esse procedimento impróprio de uma senhora e tão deslocado como uma gaita num funeral.

Previna-o de que eu vou ter com ele disse Perry

Mason, sorrindo. E transpôs a portinhola que separava a sala de espera do longo corredor onde estavam os escritórios.

Carl Manchester, com um cigarro pendente dos lábios, levantou os olhos de um livro de direito quando Perry

Mason abriu a porta.

Dava ele a impressão de ter o corpo sempre colocado num ângulo de quarenta e cinco graus. Parecia passar a existência absorto no estudo de um livro de leis, e ocasionalmente olhando para qualquer intruso com o ar de quem espera que a interrupção não o faça perder o fio da leitura.

Alô, Perry disse ele. Que é que o traz por cá ?

Venho tratar dos interesses de um cliente.

Não me diga que os seus serviços foram contratados nesse caso do crime do martelo ! Temos um bom libelo contra a mulher, mas se o meu amigo se meter...

Não interrompeu Mason, desta vez estou a trabalhar numa causa comum.

Como assim ?

Bradbury esteve aqui para lhe falar sobre Frank

Patton, que fez uma extorsão em Gloverdale.

Não só ele como o doutor Doray respondeu Manchester.”Doray voltará dentro de meia hora.

Por que vai voltar ?

Eu disse-lhe que ia consultar o código.

E consultou ?

Não, mas isso o deixará mais conformado.

Noutras palavras, os senhores não querem intervir na questão ?

Claro! Não estamos dispostos a lavar a roupa suja de Cloverdale. Em Nova York não houve nada. Acontece apenas que a rapariga veio para cá.

A companhia cinematográfica também tem sede aqui replicou Mason.

E que tem isso ?

Nada, talvez. Mas também é possível que venha a mudar o aspecto do caso.

Trata-se do dinheiro de Cloverdale, e quem deve protestar são os comerciantes de lá. Já temos maçadas que cheguem aqui. Que pretende fazer, Perry ?

Depende do que eu puder fazer...

Que significa isso ?

Se eu obtivesse uma confissão de Patton, reconhecendo que tudo era um plano para ludibriar os comerciantes de Cloverdale, isso poderia mudar o carácter da situação.

Olhe disse Manchester; esse sujeito, o tal Patton,

é uma ’anta. Já sei o que ele vai fazer. Não vai confessar coisa alguma.

Isso depende.

Depende de quê ?

Da maneira como ele for abordado.

Carl Manchester lançou um olhar astuto ao advogado.

Depois tirou o cigarro dos lábios e esmagou a ponta num cinzeiro.

Começo a perceber a sua intenção.

Era o que eu esperava volveu Mason.

Manchester franzia a testa, pensativo.

Olhe, Mason disse afinal, brincando com as páginas do livro. Nós não vamos lavar a roupa suja de Cloverdale, mas isso não quer dizer que estejamos solidários com Patton.

Esse homem é um gatuno, não resta dúvida. Já estudei bastante o caso para me certificar disso. Não sei se poderemos provar alguma coisa e duvido que seja possível. O promoter de Cloverdale tirou o corpo fora, e isso é mau sinal. Não queremos meter-nos nessa história. Já temos bastante com que quebrar a cabeça e não vamos procurar novos aborrecimentos.

Mas se quer obrigar o sujeito a desembuchar, está com o caminho livre.

Até onde posso ir? perguntou Perry Mason.

Até onde muito bem quiser.

E se ele estrilar ?

 

Vamos pôr os pontos nos ii disse Manchester.

Eu conheço esse jogo. É uma das tais ratoeiras legalizadas.

Um advogado ensinou a Patton tudo o que se podia fazer sem ir dar com os costados na cadeia. Talvez o advogado tenha acertado, talvez não. Nesses casos o que importa é a intenção, e sabe tão bem como eu que é quase impossível demonstrar a intenção mediante uma predominância de provas, como se requer no processo civil, sem falar nas provas cabais exigidas no processo criminal. Mas se deseja encontrar

Patton para falar com ele em particular e ver se há alguma maneira de convencer o homem, tem carta branca.

Mas quais são os limites?

No que nos diz respeito, não há limites. Isto é, nós não poderíamos admitir lesões corporais. Não poderíamos deixar passar por alto uma sova de cacete, por exemplo, mas se usasse um tubo de borracha o caso seria diferente. Por outras palavras, se Patton vier aqui queixar-se de brutalidades ou violências da sua parte, nós esmiuçaremos a história com muito cepticismo e faremos uma porção de perguntas a respeito da profissão dele. A nossa atitude para com esse camarada não será muito amistosa.

É tudo o que eu queria saber, disse Mason, com a mão no trinco da porta. E não fale em mim a Doray, ouviu?

Arranque-lhe uma confissão, e então a gente de Gloverdale dará um destino ao homem gritou Manchester quando ele saiu para o corredor.

Quando eu o fizer confessar, respondeu Perry Mason em tom grave hei-de ter muito que lhes mostrar.

Fechou a porta, deteve-se para trocar algumas graço- letas com Maude Elton, deixou o Fórum e dirigiu-se de táxi para o seu escritório.

À loura que atendia à pequena charutaria do vestíbulo do edifício, abriu os lábios rubros num sorriso, e os seus belos dentes lampejaram.

Olá, senhor Mason.

Perry Mason parou e encostou-se ao balcão.

Malboro? perguntou ela.

Sim, um pacote.

Para pôr na conta?

Não, vou pagar-lhe.

Ele contou o dinheiro, pegou no maço de cigarros, ras- gou um canto do envólucro e apoiou o cotovelo sobre o mostruário de vidro.

Trabalha o dia todo ? perguntou.

Ela sorriu e abanou a cabeça.

Sei que trabalha à noite.

Sim respondeu a jovem. Venho à noite para aproveitar o movimento dos frequentadores de teatro.

E pela manhã e à tarde também?

Ela sorriu e tornou a abanar levemente a cabeça.

Que é que o senhor pretende? Quer deixar-me triste ?

Quando uma mulher tem uma filha para criar e uma mãe para cuidar, não tem remédio senão trabalhar. E ainda é muito feliz quando encontra trabalho.

Que idade tem a pequena agora ? quis saber Perry

Mason.

Ela riu.

A mesma idade da última vez que eu lhe disse: cinco anos e meio. O senhor pergunta-me isso regularmente, uma vez por mês.

Perry Mason sorriu, um pouco envergonhado.

Sempre me esqueço nos intervalos ...

Puxou a carteira e estendeu-lhe uma nota de vinte dólares.

Acrescente isto às economias da garota, sim,

Mamie?

As lágrimas acorreram prontas aos olhos da rapariga.

Escute, porque me dá sempre dinheiro ? Não gosto disso. Não posso recusar por causa da garota, mas ganho bastante aqui e...

É como eu lhe disse da última vez, Mamie tornou ele.

Superstição?

Os olhos dela ao fazer esta pergunta eram duros e brilhantes como os de um pato selvagem. Mason abanou afirmativamente a cabeça.

Creio que todos os jogadores acabam por ficar supersticiosos, Mamie, e eu sou um dos maiores jogadores do mundo. Não aposto em cartas, mas nas emoções do próximo. Todas as vezes que faço um pequeno depósito na conta da sua garota, isso dá-me sorte.

Ela estendeu a mão devagar e colheu a nota entre os dedos. Mais uma vez os seus olhos se encheram de lágrimas.

Está começando a convencer-me de que o faz realmente, por superstição. Isto mostra a sua bondade.

Perry Mason, que abrira a boca para falar, virou-se ao ouvir alguém chamá-lo pelo nome.

Paul Drake, o detective e J. R. Bradbury vinham entrando naquele momento.

Era Paul Drake um homem alto, de ombros vergados.

Andava com a cabeça um pouco curvada para a frente.

Tinha olhos vítreos e proeminentes e seu rosto contraía-se numa expressão de alegria faceta. Os olhos, porém, não exprimiam coisa alguma.

Olá, Perry disse ele. Ia sair ?

Mason consultou o relógio de pulso.

Vou entrar respondeu. Venho de uma palestra na promotoria. Vejo que você e Bradbury já estiveram a trocar ideias. Adiantaram o serviço ?

Os vivos olhos azuis de Bradbury luziram num assentimento.

É o que parece. Este homem conhece agora a história melhor do que eu.

Deu pela presença da loura sorridente atrás do balcão.

Boa noite. Quero comprar uns charutos. Vamos ver aquela caixa, ali no canto direito acrescentou, batendo com a ponta do dedo no mostruário.

Mamie tirou a caixa de charutos.

Já experimentou destes ? perguntou Bradbury.

É um bom charuto de vinte e cinco cents.

Mason sacudiu a cabeça e escolheu um charuto.

Tire dois disse Bradbury.

Mason tirou outro charuto.

Bradbury empurrou a caixa para Paul Drake.

Tire dois.

Drake tomou dois charutos e Bradbury outros dois, após o que fez retinir sobre o mostruário duas moedas de dólar.

Desejava falar consigo a respeito deste caso, Perry disse o detective enquanto Mamie procurava o troco na registadora.

Quando ? fez Mason.

Agora mesmo, se tem tempo.

Mamie estendeu o troco a Bradbury, que a olhou fito, o rosto contraído num sorriso de amizade.

Bonito dia disse ele.

A rapariga abanou a cabeça alegremente.

Perry Mason olhou para o relógio.

Está bem, acho que podemos subir ao escritório.

Bradbury afastou-se do balcão.

Vão precisar de mim lá ?

Não tornou Paul Drake, não será necessário. Só quero discutir alguns aspectos legais com o senhor Mason, para certificar-me da nossa posição no caso.

Por outras palavras, preferem que eu não esteja presente?

O senhor não precisa assistir e nada pode adiantar com a sua presença disse Paul Drake. Estou tão bem informado agora como o senhor, creio eu.

Pelo menos devia estar respondeu Bradbury, com um ligeiro riso. Fez-me bastantes perguntas.

Estendeu a mão e segurou Mason pela lapela, afastando-o do balcão e baixando a voz em tom de confidência.

Quero ficar certo de uma coisa disse.

Que é ? perguntou Mason.

Soube que Bob Doray está na cidade. Deve ficar entendido entre nós que o facto de eu ter contratado os seus serviços tira-lhe todo o direito de trabalhar para ele, a não ser com meu consentimento.

Quem é Bob Doray ?

É de Cloverdale. Um dentista jovem e bastante pobre.

Não gosto dele.

E que está fazendo em Nova York?

Veio atrás de Margy.

É amigo dela ? perguntou Mason.

Pretende ser.

E acha que ele virá solicitar os meus serviços?

Dificilmente. Sei que ele pediu emprestados duzentos e cinquenta dólares ao banco antes de vir. Não lhe foi fácil conseguir esse dinheiro.

”Mas o senhor disse acentuou Mason que não queria que eu trabalhasse para ele.

O que eu quero é que compreenda a situação. Se ele o procurar, o senhor deve lembrar-se de que está ao meu serviço. Talvez ele lhe faça alguma proposta.

Percebo. Por outras palavras, devo lembrar-me de que foi o senhor quem ajustou os meus serviços para miss

Clune, e as honras são exclusivamente suas. Acertei?

Bradbury franziu as sobrancelhas, agastado, mas a carranca logo se desfez num sorriso.

Isso é um modo um tanto cru de exprimir a coisa, mas o senhor apanhou a ideia.

Mason sacudiu a cabeça.

Há algo mais ?

Não. Dei todos os detalhes ao senhor Drake, um acervo completo de detalhes.

Paul Drake sacudiu a cabeça para Perry Mason, num gesto de confirmação.

Vamos disse o detective.

O senhor pode comunicar comigo em qualquer ocasião para o Mapleton Hotel tornou Bradbury. Estou no quarto 693. A sua secretária tomou nota do endereço e do número do telefone, senhor Mason. Drake também sabe.

Drake assentiu com a cabeça.

Vamos, Perry.

Os dois homens dirigiram-se para o elevador. Bradbury observou-os um instante, fez menção de voltar-se para a rapariga que estava ao balcão, correu os olhos pela fila de revistas, e depois saiu a passos lestos pela porta da frente.

Obrigado pela propina disse Paul Drake a Perry

Mason no elevador.

Bons honorários ?

Nada maus. Ele é meio seguro com o dinheiro, mas consegui fazer um bom negócio. Este caso é sopa.

Acha?

Tenho a certeza disse Drake enquanto Mason abria a porta do escritório. Esse tal Patton deu o mesmo golpe noutros lugares. Está muito bem estudado e funciona com muita perfeição para ter sido experimentado uma vez só. Não me preocuparei com Cloverdale. Tratarei de descobrir outras cidades... Alô, miss Street. Como está hoje.

Della Street sorriu para o detective.

Suponho que o senhor tenha vindo para ver essa fotografia.

Que fotografia ? perguntou Paul Drake, fazendo ar de inocente.

Ela riu.

Bem, já que estou aqui acho que posso olhá-la volveu Drake.

Está em cima da escrivaninha do senhor Mason informou a secretária.

Perry Mason levou-o ao seu gabinete particular, sentou-se na cadeira giratória e pegou no envelope de ofício que estava em cima da mesa. Estendeu-o ao detective. Este olhou a fotografia e assobiou.

Bem distinta!

Sim, esta é uma das qualidades de Patton. Tem bom gosto. Que assunto é esse de que me queria falar, Paul ?

Quero saber o que vai acontecer neste caso.

Nada de extraordinário respondeu Mason. Vai descobrir Patton, e vai descobrir Marjorie Glune. Nós conversaremos com eles. Faremos o homem confessar, e depois o promotor daqui denunciá-lo-á e o promotor de Cloverdale fará o mesmo.

Exposta assim em resumo, a coisa parece fácil observou Paul Drake, piscando os olhos inexpressivos.

É, eu acredito na acção rápida replicou Mason.

Creio que posso descobrir Frank Patton. Tenho bons sinais dele. É alto, forte, pomposo, tem cinquenta e dois anos, cabelos grisalhos e um bigode aparado, também grisalho.

Possui um sinal na face direita. Bradbury tem uma colecção do Cloverdale Independemt no seu quarto do hotel.

Há lá uns anúncios que serão apresentados em juízo e uma fotografia que nos prestará serviço. A minha teoria é que esse golpe está muito aperfeiçoado para ter sido empregado numa só cidade. Posso descobrir se o aplicaram noutros lugares, e por meio desses outros lugares encontrarei a pista de Patton.

Muito bem, mãos à obra disse Mason, acendendo um cigarro.

Mas que vai acontecer ? indagou o detective.

Que quer dizer com isso?

Até onde podemos ir ?

Foi para isso que estive na promotoria respondeu

Mason, mostrando os dentes num sorriso. Temos carta branca para fazer o que quisermos.

Devemos dizer isso a Bradbury ?

Não senhor! respondeu Mason, com ênfase. Não lhe diremos semelhante coisa. Quando tivermos localizado

Patton, não comunicaremos isso a ninguém. Conversaremos com ele, e depois de conversar diremos a Bradbury o que tivermos feito. Nunca devemos revelar-lhe o que pretendemos fazer.

Mas eu prometi fazer comunicações ao meu cliente disse Drake, inquieto. »

É fácil. Eu sou o advogado do seu cliente. Faça-me

: todas as comunicações, e eu assumo a responsabilidade.

O detective considerou pensativamente Perry Mason.

Ele estará por isso ?

Deixe-o por minha conta.

; E o promotor não se importa com o modo por que

( obtivermos a confissão?

Não. Compreende: a promotoria não pode empregar métodos impróprios, mas nós podemos empregar qualquer método.

Violência, então?

Há meios melhores. Podemos pô-lo numa situação em que se veja obrigado a falar. Depois far-lhe-emos crer, por sugestão, que se trata de uma acusação de fraude no contrato de filmagem, e ele será levado a admitir certas coisas com respeito à tal companhia cinematográfica.

; Porque motivo o promotor de Cloverdale não levou adiante a denúncia? perguntou Drake.

Em primeiro lugar, não tinha provas. Em segundo, as vítimas foram todos os grandes comerciantes de Clover- dale, e quanto mais fazia o promotor para esclarecer o caso, mas punha em evidência a credulidade desses homens de negócios do interior.

E não quer que Bradbury saiba o que fizermos ?

Só depois de termos terminado.

Por outras palavras, pretende aborrecer-se com ele ?

A resposta de Mason foi serenamente enfática.

Tem toda a razão em supor que eu pretendo aborrecer-me com ele.

 

O sol da tarde insinuava-se obliquamente pelas janelas do escritório de Perry Mason e fazia reduzir as portas de vidro das estantes quando o advogado entrou atirou uma pasta de couro sobre a mesa.

Fiz a defesa naquele caso das facadas. Em vez de agressão e tentativa de homicídio reduziram o delito para agressão simples, e eu aproveitei a oportunidade.

Pagaram-lhe ? perguntou Della Street.

Ele abanou a cabeça.

Não. Trabalhei de graça. Afinal de contas não se podia culpar a mulher. Exasperaram-na até fazê-la perder o tino. Depois, não tinha dinheiro nem amigos...

A secretária considerou-o com um ar de aprovação sorridente, e um brilho cálido nos olhos.

Já esperava por isso.

Alguma novidade ? perguntou ele.

Paul Drake chamou-o pelo telefone. Quer que o senhor ligue para lá assim que chegar.

Muito bem, faça a ligação. Há algo mais?

O resto é serviço de rotina. Só a chamada de Drake tem importância. Bradbury veio cá duas vezes, mas acho que foi só para saber como vão as investigações.

Arranje as coisas de forma que ele não tenha ligação comigo antes de eu ter falado com Paul Drake.

Entrou para o seu gabinete e nem bem se sentara quando a campainha do telefone retiniu. Num gesto vivo levou o receptor ao ouvido.

Descobri a pista de Frank Patton, Perry disse a voz de Paul Drake. Isto é, terei essa pista hoje às oito horas da noite, talvez um pouco antes. Posso dar uma corrida aí para lhe contar ?

Perfeitamente. Permaneça uns instantes ainda no aparelho.

Mason bateu o gancho do receptor até ouvir a voz de

Della Street.

É você, Della?

Sim.

Paul Drake está na linha. Ele vem cá para me falar sobre este caso Bradbury. Diz que obteve as informações que estamos a procurar. Não devo ser importunado por ninguém enquanto estiver conversando com Drake. Isto significa, em particular, que não quero falar com Bradbury.

Muito bem, chefe.

Não demore disse Mason a Drake; e pôs o receptor no lugar.

Dois minutos após, Paul Drake entrava impetuosamente no gabinete pessoal de Perry Mason.

Que foi que descobriu? perguntou o advogado.

Acho que tenho o fio da história, respondeu o detective acomodando-se na grande poltrona de couro e acendendo um cigarro. -Descobri que o tal Patton deu o mesmo golpe em Parker City. O interessante é que ele não mudou o nome... Além disso a companhia de cinema que assinou o contrato é a mesma que aparece no caso de Gloverdale.

Quem foi que ele ludibriou em Parker City? indagou

Perry Mason, curioso.

A trama foi a mesma: a Junta Comercial e os negociantes.

Não, não é isso. Quem foi a rapariga que ele logrou?

Ah, pois aí é que está a pista! É uma pequena chamada

Thelma Bell, e está a morar em Nova York. Dêscobrimos o endereço e o número do telefone. Ela mora no edifício St. James, uma casa de apartamentos baratos na

East Faulkner Street, e o telefone é Harcourt 63891. Alugou o apartamento 301, mas de momento não está em casa»

Estivemos a telefonar para ver se falávamos com ela. Temos certos indícios de que ela continua em comunicação com

Frank Patton.

Quando poderão falar com ela?

Hoje, por volta das oito horas. Ela trabalha, não sei bem onde. É corista e, pelo que me disseram, talvez a achemos um pouco dura de roer. Ganhou o concurso de pernas em Parker City e veio para cá com um contrato de filmagem, tal qual como Marjorie Clune. Quando viu que tinha sido enganada procurou trabalho como corista. Também tem servido de modelo para uns pintores e desenhistas.

E mantém-se em contacto com Frank Patton? perguntou

Perry Mason, franzindo o cenho.

Sim, parece ser dessas raparigas que aceitam as coisas como aparecem. Percebeu que Patton era um batoteiro e achou que o homem estava no seu direito. Exigiu que ele fizesse o possível para ajudá-la aqui na cidade. É assim que imaginámos as coisas, de acordo com o que nos contaram os amigos da pequena.

E estará em casa esta noite às oito horas?

Sim, ou talvez um pouco antes.

E acha que ela tem o endereço de Patton?

Tenho a certeza disso. Pus um homem de confiança

à sua espera para lhe falar assim que ela chegar. Ele vai dizer-lhe que quer impedir outras raparigas de serem atraídas para Nova York sob falsas promessas, e tal e coisa...

Bem disse Perry Mason, tirando um charuto do

«humidor» isto vai às maravilhas.

Não vai, não tornou o detective. Ainda não.

Que quer dizer ?

Quero saber exactamente o que vamos fazer quando tivermos encontrado Frank Patton.

Perry Mason encarou Paul Drake com a sua expressão fria e granítica.

Quando eu encontrar esse homem disse ele devagar hei-de domá-lo.

E como vai domá-lo ?

Não sei. Haverá na evolução do caso um elemento de surpresa. Você compreende, Paul: esse negócio da companhia de filmes pode ser lícito e pode não ser. É uma questão de intenção. Pois bem, é aí que muitos processos criminais esbarram sem poderem ir para a frente. Os promotores ficam apavorados quando é preciso provar a fraude ou a intenção de fraudar. É um elemento do crime. Por conseguinte, tem de ser estabelecido de forma que não dê margem a dúvidas. Já é bastante difícil determinar o que se passa no espírito de um homem pelos depoimentos dos outros quanto mais provar de maneira irrefutável uma intenção!

«Portanto, o que eu quero obter desse homem é uma confissão. Quero forçá-lo a denunciar-se, a reconhecer que tudo isso é uma ladroeira, que a sua intenção, de começo ao fim, é enganar os comerciantes com quem faz negócio e a rapariga a quem finge contratar para o cinema. Para isso, temos de cair sobre ele de surpresa. Temos de apanhá-lo desprevenido e fazê-lo perder a tramontana antes que tenha tempo de distinguir, no que dissermos, as petas daquilo que podemos provar.

E, se não me engano, o meu amigo não quer que

Bradbury esteja presente?

Perry Mason olhou de frente para o detective.

Que isto fique bem entendido, Paul: J. R. Bradbury não deve nem sequer saber o que estamos fazendo.

Soou a campainha do telefone e Perry Mason pegou no receptor.

J. R. Bradbury está a chamar anunciou a voz cautelosa de Della Street. Diz que sabe que o senhor veio do tribunal para o escritório e que se o senhor não o puder atender ao telefone ele vem cá.

Diga-lhe que eu estou a chegar neste momento, que estarei ocupado durante cinco minutos, e se ele tornar a chamar no fim desse tempo atendê-lo-ei; mas que não deve vir ao escritório enquanto eu não o chamar. Compreendeu?

Sim, chefe.

Mason soltou o receptor com violência e voltou-se para

Paul Drake.

Este homem pode tornar-se uma verdadeira praga para nós disse ele.

Bradbury ?

Bradbury.

Parece muito afável volveu o detective.

Mason sacudiu a cabeça em silêncio.

E se Bradbury me chamar ? perguntou Paul Drake.

Diga-lhe que me comunicou tudo detalhadamente e que tem ordem minha para não revelar a ninguém o que descobriu.

Quer dizer que eu não lhe devo contar nada ?

Sim, claro. Que mais havia eu de querer dizer?

Ele pode zangar-se.

Deixe isso comigo. Bem, o que eu desejo é o seguinte: você deve estar pronto para correr comigo a casa de Patton, logo que o localizarmos. Além disso, deve estar disposto a secundar-me, mas quem dirige sou eu.

Isso não me preocupa tanto como a situação em que me coloca perante o meu cliente disse Drake. Já obtive informações e não lhas comuniquei.

Comunicou-as a mim, e eu assumo a responsabilidade.

Soou novamente o telefone.

Mason fez uma carranca ao aparelho, pegou o receptor e perguntou:

Que temos agora ?

Sou eu que quero entrar. Posso? disse Della Street.

Venha, respondeu ele, repondo o aparelho no lugar.

E ficou imóvel, com os olhos fixos na porta do escritório exterior.

A porta abriu-se e Della Street insinuou-se no gabinete.

O doutor Doray está cá disse em voz baixa.

Insiste em falar com o senhor. Achei conveniente que o senhor soubesse disto antes de Bradbury tornar a chamar.

Perry Mason semicerrou os olhos, reflectindo, depois voltou-se vivamente para Paul Drake.

Há mais alguma coisa, Paul?

Não, disse o detective. Esta noite por volta das oito hei-de saber mais. O senhor estará aqui no escritório ?

Mason fez um gesto afirmativo com a cabeça.

Pode sair por essa porta que dá para o corredor.

Paul Drake retirou as pernas de cima do braço da poltrona, pôs-se em pé e caminhou para a porta.

Bradbury vai telefonar-me com toda a certeza lembrou o detective.

Diga-lhe isso mesmo que eu lhe disse.

E, voltando-se para Della Street, acenou com a cabeça para o escritório exterior.

Mande entrar o doutor Doray.

Paul Drake desapareceu pela porta do corredor e Della

Street abriu a outra, dizendo :

Pode entrar, doutor.

O doutor Doray era alto, tinha cabelos e olhos pretos, maçãs do rosto elevadas, boca sem forma e um maxilar saliente e agressivo. Parado à porta, dava mostras de singular hesitação.

Entre disse Perry Mason.

O dentista entrou e o advogado indicou-lhe a poltrona grande.

Enquanto Della Street fechava a porta, retirando-se, os olhos de Perry Mason percorreram a pessoa do doutor

Doray num exame que ele não se deu ao trabalho de disfarçar.

De que se trata ? perguntou.

O senhor é o advogado que se encarregou de descobrir o paradeiro de Marjorie Clune respondeu o Doutor

Doray sem rodeios.

Quem lhe disse isto ?

É uma coisa que não lhe posso revelar tornou o outro, remexendo-se desinquieto.

Perry Mason encarou-o.

E então ?

Eu queria pedir-lhe umas informações. Talvez entremos em acordo para que o senhor represente Margy... miss Glune, quero dizer... nesta questão. Não sei exactamente de que o encarregou Bradbury.

Infelizmente respondeu Perry Mason não posso trabalhar para o senhor. Entretanto, tenho interesse em saber como foi que o senhor teve conhecimento da minha participação no caso e o que o levou a pensar que eu estava ao serviço de Bradbury.

O Dr. Doray sorriu, mas os seus olhos continuaram negros, brilhantes e frios.

Não quer responder à pergunta ? volveu Perry

Mason.

O outro sacudiu a cabeça negativamente.

Nestas circunstâncias disse o advogado devagar arrisco a hipótese de que o senhor tenha dado uma caixa de bombons a miss Maude Elton, a secretária do escritório do promotor público.

O Dr. Doray corou e desviou apressadamente os olhos.

Perry Mason inclinou a cabeça.

Creio, doutor, que nós entendemo-nos perfeitamente.

Não estou certo disso. O que estou ansioso por saber é...

É, sem dúvida alguma, uma coisa que não lhe posso revelar retrucou o advogado.

O telefone retiniu duas vezes. Perry Mason pegou no receptor.

Desculpe um momento, disse ele ao visitante.

E, falando ao telefone Alô

Descobriu alguma coisa ? perguntou a voz de Bradbury

Sim respondeu Perry Mason em tom cauteloso creio que terei uma informação importante para o senhor, esta noite às oito horas. Quero que esteja no meu escritório

às oito e quinze, o mais tardar. E traga também a colecção de jornais que tem aí.

Já localizou Patton?

Ainda não.

Falou com o senhor Drake?

Falei.

Drake encontrou-o?

Não, mas diz que está fazendo progressos.

Não me pode dizer mais nada?

É só o que há. Quero que o senhor esteja no meu escritório às oito e um quarto e traga consigo aqueles jornais.

Não lhe posso falar antes dessa hora?

Não disse Perry Mason estou muito ocupado.

Ver-nos-emos esta noite.

Estará aí quando eu chegar?

Não sei. Se não estiver, o senhor deve esperar até que eu telefone, ou até que eu volte.

Mas eu quero falar-lhe em particular!

Poderá falar esta noite. Até logo.

E Mason desligou. Os olhos pretos de Doray luziam febrilmente.

Era Bradbury ? perguntou em voz rouca.

Perry Mason sorriu para ele.

Como ia dizendo, doutor, creio que nós entendemo-nos perfeitamente. Não lhe posso revelar coisa alguma.

Entretanto, o senhor podia dar o seu endereço à minha secretária.

Já dei. Ela exigiu o meu endereço antes de me anunciar ao senhor. Estou hospedado no Midwick Hotel. O número do telefone é Grove 36921.

Muito obrigado disse Perry Mason, levantando-se e indicando a porta que dava para o corredor. Pode sair por essa porta.

O Dr. Doray pôs-se em pé, hesitou um momento, abriu a boca como quem ia falar, depois mudou de ideia, virou-se e caminhou para a porta.

Boas tardes, senhor advogado.

Boas tardes, senhor doutor.

A porta bateu com força. Perry Mason pegou no receptor do telefone.

Della, quero que esteja aqui no escritório esta noite às oito e quinze; talvez um pouco mais cedo. Tenha muitos lápis à mão, bem aparados, e um bloco de notas novo. Pode ser necessário registar umas declarações.

Uma confissão ? perguntou ela.

É possível que sim respondeu ele, sorrindo gravemente enquanto repunha o telefone no gancho.

 

Perry Mason abriu a porta exterior do escritório e acendeu as luzes. Consultou o relógio de pulso. Eram precisamente sete e cinquenta. Deixou aberto o trinco da porta exterior, atravessou o escritório, entrou no seu gabinete particular e acendeu a luz. Sentou-se na beira da escrivaninha e pegou no receptor do telefone. Um zumbido participou-lhe que Della Street deixara o instrumento ligado para fora por meio do seu quadro de distribuição. Perry Mason marcou o número que a secretária havia registado na ficha relativa ao caso da fotografia misteriosa. Tinha uma memória quase fotográfica para números de telefone. Os seus dedos moveram-se rápidos e sem hesitar.

Atendeu uma voz de mulher.

Mapleton Hotel disse ela.

Desejo falar com o senhor J. R. Bradbury, de Cloverdale.

Um momento, faça favor.

Passaram-se alguns segundos, durante os quais Perry

Mason ouvia a telefonista cantarolar em voz baixa. Depois o estalido da ligação, e outra voz de mulher disse:

«Alô!»

Queria falar com o senhor Bradbury disse Perry

Mason.

Chame para o quarto 693 respondeu a mulher em tom irritado; e ouviu-se o som de um telefone desligado com violência na outra extremidade da linha.

Nesse momento a porta do escritório exterior abriu-se e tornou a fechar-se. Perry Mason ergueu os olhos. Continuavam as vocalizações no receptor. Uma sombra apareceu na linha luminosa que marcava a soleira da porta e esta abriu-se.

Perry Mason tornou a pôr o telefone no lugar,

Olá, Bradbury, estava a telefonar-lhe...

Bradbury entrou, suave e sorridente.

Vai dizer-me o que descobriu? perguntou.

Não descobri nada respondeu Perry Mason.

Ainda não?

Ainda não.

Chamei Paul Drake esta tarde. Ele disse-me que o senhor lhe tinha dado ordem para lhe comunicar todas as informações que obtivesse, pois seria responsável perante mim.

Perry Mason tamborilou levemente com os dedos sobre a mesa.

Vamos esclarecer isto uma vez por todas, Bradbury.

O senhor pagou-me para representar os seus interesses. Fui contratado como advogado e não como empregado. À minha situação assemelha-se à de um médico. Se chamasse um cirurgião para operá-lo, não tentaria ensinar-lhe como deve ser feita a operação.

Não estou reclamando tornou Bradbury com um sorriso. O senhor conhece o seu ofício Tomei informações completas a seu respeito antes de procurá-lo. Concordarei em tudo que resolver.

Perry Mason soltou um suspiro.

Isso simplifica as coisas...

Tirou um cigarro do «humidor» e estendeu a caixa a

Bradbury. Este abanou a cabeça e meteu dois dedos no bolso do colete.

Não, prefiro fumar um dos meus charutos.

Veio cedo disse o advogado.

Bradbury mostrou um exemplar do Liberty que trazia debaixo do braço esquerdo.

Comprei este número novo do Liberty no balcão, lá em baixo. Não quero incomodá-lo. Vou ficar a ler no escritório aí fora. Continue com o seu trabalho, seja qual for.

Perry Mason caminhou na direcção da porta.

Eu ia sugerir isso mesmo. Tenho uns assuntos que preciso resolver sem ser perturbado. Avisá-lo-ei logo que tiver terminado.

Bradbury inclinou a cabeça. Os seus agudos olhos cinzentos observavam Perry Mason.

Pensa que poderá reunir factos suficientes para iniciar uma acção penal? perguntou.

Não penso nada enquanto não tenho uma base para agir. não se pode construir um libelo sem factos. Ainda não tenho todos os que preciso.

Bradbury voltou para o escritório exterior. A porta fechou-se atrás dele com um estalido do trinco. Durante dez minutos Perry Mason esteve a ler uma cópia das Decisões da Corte Suprema. Ao cabo desse tempo encaminhou-se de mansinho, na ponta dos pés, para a porta que conduzia ao escritório exterior, abriu-a e olhou para fora.

Estava J. R. Bradbury sentado numa das cadeiras que ficavam à direita da secretária de Della Street, todo absorto na leitura da revista. Nem sequer levantou os olhos. Perry

Mason fez girar o trinco com os dedos enquanto fechava a porta, e ao mesmo tempo introduziu silenciosamente o ferrolho no encaixe.

Voltou para a mesa, pôs as Decisões de parte e ficou a esperar em silêncio.

O telefone retiniu.

Com um movimento rápido, Mason levou o aparelho ao ouvido.

Fala Mason disse.

Está tudo arranjado, Perry respondeu a voz de

Paul Drake. Recebi comunicação do homem que foi ao apartamento da mulher esperar pela volta dela. Ele conseguiu as informações.

Localizou Patton ?

Sim, nós encontrámo-lo e temos toda a certeza de que ele está em casa. Também descobrimos bastantes coisas a respeito dessa ladroeira dirigida por ele o suficiente para o processar, talvez.

«Está a morar no Edifício Holliday, na Maple Avenue número 3508. O seu apartamento é o 302.

«Estive a examinar a casa. É um edifício de aparta- mentos que pretende possuir serviço de hotel, mas não é grande coisa. Há um elevador automático e uma portaria.

Às vezes encontra-se ali um empregado, mas é muito raro.

Imagino que não teremos muita dificuldade em ir até lá sem sermos notados. Se submetermos o homem a um interrogatório rigoroso, provavelmente arrancar-lhe-emos uma confissão.

Muito bem disse Mason. Onde está agora?

Estou a telefonar de um drug store na esquina da

Nova Avenida e Olive Street. Estou pronto para acompanhá-lo quando quiser. Acho que seria bom trazer Della

Street consigo. Com certeza ele fará declarações.

Não, não quero levá-la já. Não quero que ela oiça o começo do interrogatório... Mas vou avisá-la para que tome um táxi logo que telefonarmos.

Então vem buscar-me aqui? perguntou Paul Drake.

Sim, espere aí. Estarei consigo dentro de dez ou quinze minutos, talvez menos.

Perry Mason depôs o telefone, deteve-se um instante enrugando a testa pensativamente, depois foi abrir a porta que dava para o escritório exterior.

Bradbury ergueu os olhos da revista com ar esperançoso.

Vai ainda demorar muito a atender-me?

Não muito... Vejo que Della Street ainda não chegou.

Bradbury olhou para A secretária vazia.

Eu não poderia ajudá-lo nalguma coisa? Disponha de mim para o que for necessário. Como sabe, eu...

De repente encarou Perry Mason com os olhos arregalados e uma expressão consternada.

Que foi ? perguntou o advogado.

Aqueles jornais! Caramba, pois não fui esquecê-los?

Perry Mason sacudiu a cabeça devagar.

Não faz mal. Eu gostaria de tê-los aqui, mas uma hora mais ou menos de demora não fará diferença. Quanto tempo lhe será preciso para ir buscá-los ?

Bradbury olhou o relógio.

Posso trazê-los talvez em meia hora. Um táxi levar-me-á ao hotel em cerca de quinze minutos e demorará outro tanto para voltar. Posso encontrá-los até no escuro.

Lembro-me de tê-los enrolado e deixado em cima da cama.

Pôs alguma cinta em volta?

Não, enrolei-os simplesmente e amarrei com um cordão.

Perry Mason abanou a cabeça em sinal de censura.

Nunca mais faça isso! Quando a gente começa a deitar a rede a um criminoso deve guardar com muito cui- dado as menores provas que tiver nas mãos. Esses jornais são instrumentos de convicção e se Patton souber que o senhor os tem consigo roubá-los-á.

Podíamos, é claro, recorrer às colecções da redacção do jornal, mas esta é uma colecção completa que podemos apresentar em juízo se for necessário.

Não é para apresentar em juízo respondeu Perry

Mason. O que eu quero é espalhar esses jornais diante daquele patife para ele ver em que está metido. Vá buscá-los.

Bradbury largou a revista e dirigiu-se para a porta.

Mas nesse momento a porta abriu-se e Della Street apareceu, sorrindo a ambos.

Estou atrasada? perguntou ela.

Não respondeu Mason. Nós é que estamos adiantados!

Vou sair agora, Della.

A secretária olhou significativamente para Bradbury.

O senhor Bradbury disse o advogado vai ao hotel buscar uns jornais de que se esqueceu. Voltará aqui com eles dentro de meia hora. Provavelmente terá notícias minhas daqui a meia hora... uma hora, no máximo. Espere aqui até eu chamar, e tenha um bloco de papel e alguns lápis à mão. O senhor Bradbury voltará ao escritório e aguardará instruções aqui.

O rosto de Bradbury tinha uma expressão ansiosa.

Julga que vai obter alguma coisa, senhor Mason?

Talvez.

Escute: eu vou telefonar logo que chegar ao hotel, de modo que o senhor pode deixar um recado para mim se souber de alguma coisa.

Perry Mason voltou levemente a cabeça, para que a sua piscadela só fosse visível a Della Street.

Perfeitamente disse ele. Pode ser que eu precise encontrar-me consigo nalgum lado.

Virou-se para a secretária e acrescentou:

Já vou.

A propósito disse Bradbury queria perguntar-lhe uma coisa.

Perry Mason, já na porta, voltou-se com impaciência.

O doutor Doray procurou-o ? disse Bradbury.

Procurou. Porquê ?

Não aceitou nenhuma proposta da parte dele ?

Não, claro que não. Era o que tínhamos combinado: eu não devia representar Doray em circunstância alguma.

Isto é, sem o meu consentimento acentuou Bradbury.

Mason sacudiu a cabeça.

Porquê ? perguntou.

Quero avisá-lo de que Doray é um indivíduo singular.

Não se esqueça disto se conseguir comunicar com Marjorie

Glune, e em circunstância alguma permita que Doray conheça o paradeiro de Patton, caso o encontre.

Porquê ? Tem medo que Doray cometa alguma violência?

Tenho toda a certeza de que o fará. Sei de certas coisas que ele andou dizendo.

Muito bem. Não há pressa, Bradbury. Acho que o senhor vai demorar meia hora para ir e voltar, mas conservar-me-ei em comunicação com o escritório. O senhor pode fazer o mesmo.

Saiu para o corredor e bateu a porta com força, deixando

Bradbury curvado sobre a secretária de Dela Street, a quem oferecia um cigarro com ar de grande solicitude.

 

Perry Mason desceu do táxi à esquina da Nona com

Olive.

Vou precisar de si durante algum tempo. Fique por aí disse ao motorista.

Atravessou a rua dirigindo-se para um drug store e encontrou Paul Drake encostado ao balcão de mármore dos refrescos, fumando um cigarro.

Demorou um bocado disse o detective.

Bradbury estava lá. Tinha uma porção de coisas para me contar a respeito de Doray. E depois ficou a oferecer um cigarro a Della Street. Fazia isso com um modo todo especial.

Os dois homens entreolharam-se e riram.

Bem, eu não sei o que pensa disso, mas quanto a mim não me incomoda que ele seja sensível aos encantos do belo sexo. Isso é que me dá a manteiga para o meu pão...

Pessoalmente, creio que ele tem a impressão de ser um conquistador irresistível. Notou a maneira como ele se derreteu para Mamie, a empregada que vende tabaco ?

Perry Mason inclinou a cabeça secamente.

Entretanto continuou Paul Drake não se pode censurar o homem por isso. É evidentemente um solteirão rico. Repare como ele se enfeita. A gravata deve ter custado mais de cinco dólares. A fatiota é uma obra de arte, e aquela tonalidade especial de marron foi escolhida com bastante cuidado. Isto percebe-se, porque lhe fica muito bem com a cor da pele. Além disso, ele usa meias, sapatos, gravata, camisa, tudo formando uma combinação de cores muito...

Perry Mason fez um gesto de repugnância.

Deixe lá isso. Vamos aos factos. Que sabe a respeito de Patton ?

Não sei muito mais do que lhe disse pelo telefone, mas preciso traçar um plano de campanha.

Muito bem, o plano é este. Tem aí o seu carro ?

Tenho.

Então dirija-se imediatamente para o Edifício Holliday.

Eu tenho um táxi à minha espera. Como pode andar um pouco mais depressa, convém que me dê uns cinco minutos de dianteira. Eu vou lá e inicio as negociações.

Você penetra no apartamento sem bater. Procurarei arranjar as coisas para que a porta fique aberta.

E que é que eu faço depois de entrar ?

Guie-se por mim. Começarei por intimidá-lo. Das duas uma: ou ele se assusta ou se indigna. O meu amigo saberá qual foi o efeito logo que abrir a porta. Pode fingir que não me conhece, se quiser. Ou então pode inventar o que lhe parecer melhor. Dentro de meia-hora Bradbury estará no meu escritório com uns jornais a que poderemos dar o uso que quisermos. Podemos dizer ao homem que parte das lista de subscrições publicadas nos jornais foi remetida pelo correio, e que portanto ele se utilizou do correio para fraudar.

A manobra é boa disse Drake. Devíamos levar os jornais connosco.

Eu sei, mas Bradbury esqueceu-se deles no hotel e eu não queria esperar. Della Street está no escritório, pronta para tomar um táxi e vir logo que nós o tivermos amansado um pouco. Provavelmente ele resistirá no começo, e não quero que Della oiça o que se vai passar.

«Bem, lembre-se de que eu assumo a direcção geral, mas nós temos vénia para fazer quase tudo o que nos parecer necessário. O promotor público não pode empregar métodos impróprios para obter uma confissão, mas quanto a nós, poucos são os recursos de que não podemos lançar mão. Depois confirmaremos essa confissão perante o promotor.

Pretende obrigar o homem a admitir a intenção fraudulenta ? perguntou o detective.

Esse é o miolo de toda a questão. Continuaremos a puxar por ele até fazê-lo confessar. Depois de conseguirmos a confissão, pouco nos importa o que vier a acontecer.

Muito bem, vamos. Vou dar-lhe cinco minutos de dianteira. Serão precisos quase vinte minutos para chegar lá.

Quinze, ou pouco mais replicou Mason. Siga-me ao cabo de cinco minutos e não se preocupe com a chegada.

Paul Drake inclinou a cabeça em sinal de assentimento e fez um sinal ao empregado do balcão.

Uma água mineral pediu.

Perry Mason chamou o táxi que estava encostado ao passeio fronteiro. Quando o veículo parou na sua frente após ter dado a volta, o advogado disse:

Edifício Holiday, Maple Avenue 3508. Depressa.

Reclinou-se nas almofadas do assento enquanto o carro se punha em movimento e acendeu um novo cigarro na brasa do primeiro. Estava perfeitamente calmo e senhor de si, sem o menor sinal de emoção ou nervosismo. Dava a impressão de um lutador disposto a negacear o adversário com toda a paciência, até chegar o momento de pôr fim ao encontro com um golpe fulminante.

Estava o cigarro quase no fim quando o táxi diminuiu a marcha e enviesou para a calçada.

Perry Mason inclinou-se para a frente e bateu com os dedos na janelinha de vidro; o motorista virou-se e ele abriu a janelinha.

Não pare diante da porta do edifício. É melhor parar um pouco mais adiante, deste lado da rua.

O condutor inclinou a cabeça, voltou numa esquina e encostou na calçada.

Que tal agora ?

Óptimo disse o advogado. Bem, é possível que eu me demore uma hora, talvez um pouco mais. Também pode ser que não precise mais de si, mas se precisar hei-de estar com pressa. Aqui estão dez dólares. Fique aqui perto e ligue o motor de cinco em cinco ou de dez em dez minutos para não esfriar. Talvez eu precise sair daqui com rapidez.

O motorista embolsou o dinheiro arreganhando os dentes.

Perry Mason desceu e avistou o sinal luminoso que marcava a entrada do Edifício Holliday. Encaminhou-se para lá a passos rápidos, resolutos, agressivos. Estava a seis metros da porta quando viu uma mulher jovem sair apressadamente.

Tinha pouco mais de vinte anos. Vestia casaco branco com gola de raposa, sapatos brancos e um chapéuzinho da mesma cor com uma borla vermelha no alto. Era uma figura elegante e graciosa e movia-se com uma agilidade subtil, como quem desliza sem esforço sobre patins.

Perry Mason entreviu um rosto muito pálido, um par de olhos azuis. No mesmo instante, porém, o rosto furtou-se precipitadamente às suas vistas e manteve-se voltado para o lado oposto enquanto a jovem cruzava por ele, os calcanhares fazendo toc-toc na calçada.

Perry Mason deteve-se para observá-la. Notara um medo quase pânico naqueles olhos azuis, e o rosto estava tão rigidamente desviado, que fazia crer que se tratasse de uma pessoa conhecida que não quisesse ser vista pelo advogado.

À capa caía-lhe bem nas costas e nas ancas, e Perry

Mason percebia debaixo do pano o jogo suave dos seus músculos ao caminhar.

Continuou a observá-la até que ela passou a esquina.

Entrou então no Edifício Holliday.

Havia uma portaria no vestíbulo, mas ninguém estava ali. Atrás do balcão estava um quadro de escaninhos, cada qual com o número de um quarto pintado na parte superior.

Alguns desses compartimentos continham chaves, outros papéis ou cartas.

Perry Mason procurou o número 302 e viu que tinham retirado a chave. Dirigiu-se para o elevador, abriu a porta, entrou naquela gaiola malcheirosa e apertou o botão correspondente ao terceiro andar. A máquina começou a subir vagarosamente, desengonçadamente.

Quando o elevador estacou, rangendo nas juntas, Perry

Mason abriu ambas as portas e saiu para o corredor. Numa intersecção em ângulo recto dobrou para a esquerda e foi até ao fundo, onde se encontrava o apartamento 302. Já se dispunha a bater com os nós dos dedos na porta, quando deu com os olhos num botão de campainha, ao lado direito.

Premiu esse botão e ouviu zumbir lá dentro uma surdina.

Ninguém se mexia.

Mason esperou um pouco e tornou a premir o botão.

Como não recebesse resposta novamente, bateu com mais força na porta. Notou que o apartamento estava iluminado e curvou-se para olhar pelo buraco da fechadura.

Esperou mais alguns segundos em silêncio e por fim, franzindo o sobrolho, experimentou o trinco. Este cedeu imediatamente e a porta abriu-se de golpe.

À sala em que ele entrou era uma combinação de saleta de jantar. À direita via-se uma pequena cozinha. À esquerda, uma porta fechada. O aposento estava vazio. Sobre a mesa via-se um chapéu de feltro de homem, uma bengala, um par de luvas e duas folhas de papel.

Perry Mason caminhou para a mesa e apanhou os papéis. Ambos eram anotações de telefonemas recebidos, e, evidentemente, tinham sido colocados no escaninho da portaria para serem entregues ao hóspede do apartamento

302 quando este fosse pedir a sua chave.

Um dos recados dizia simplesmente: «Sr. Patton: ligar para Harcourt 63861 e chamar Margy 1805.»

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O outro estava redigido assim: «Sr. Patton: dizer a

Thelma que Margy virá uns 20 minutos depois da hora marcada 20 h.»

Perry Mason considerou de cenho franzido as duas tiras de papel, tornou a colocá-las na mesa, apanhou o chapéu cinzento e procurou as iniciais na carneira. Eram F. A. P.

Fixou o olhar na porta fechada, à sua esquerda. Esteve uns instantes a tamborilar com os dedos naquela mesa manchada de hotel. Afinal, tomando uma decisão, encaminhou-se para a porta e abriu-a.

O quarto de dormir também estava iluminado. À esquerda via-se a porta da casa de banho aberta. No canto oposto havia uma cama e, adiante da cama, um toucador. O espelho deste móvel reflectia o canto que ficava além da casa de banho e que Perry Mason não podia ver directamente da porta onde se detivera.

O reflexo do espelho mostrava os pés de um homem, calçados de chinelas e formando um V. Além das chinelas avistava-se um trecho de perna nua e a bainha de um roupão de banho.

Perry Mason ficou absolutamente imóvel pelo espaço de um segundo ou dois, com os olhos cravados no espelho.

Volveu-os então para a cama e viu um casaco, camisa, gravata e calças de homem atirados para cima dela em completa desordem. O casaco estava enrugado e uma das mangas ficara parcialmente virada do lado do avesso. As calças formavam um monte. A camisa estava no canto oposto da cama.

Debaixo desta viam-se sapatos. O calçado era bege.

Mason olhou a gravata. Era gris, bem como o paletó e as calças.

Perry Mason entrou no quarto e deu volta ao canto da casa de banho.

Deteve-se, arregalando os olhos para o cadáver estendido no chão.

Era o corpo de um homem com cerca de cinquenta anos de idade, cabelos grisalhos, aparados curtos, bigode também grisalho e uma verruga na face direita.

Estava vestido com roupas de baixo, um roupão de seda lançado sobre os ombros, o braço direito enfiado na manga e o esquerdo nu. Uma das mãos estendia-se no soalho com os dedos enclavinhados; a outra descansava sobre o peito. O corpo estava deitado de costas, com os olhos vidrados entreabertos.

No mamilo esquerdo via-se um ferimento perfurante do qual o sangue havia jorrado e ainda continuava a escorrer, formando uma poça viscosa e espessa que tingia de vermelho-escuro o roupão e o tapete. A pouca distância do cadáver jazia no tapete uma longa faca, dessas que costumam ser usadas para cortar pão. A lâmina media três polegadas de largo na base e ia-se estreitando uniformemente na direcção da ponta. Tinha de comprimento umas nove polegadas. Estava coberta de sangue e fora, evidentemente, abandonada ali após ter sido arrancada do peito do homem.

Evitando cuidadosamente de pisar o sangue, Mason abaixou-se para tomar o pulso do homem. Não tinha pulsação, mas o corpo estava ainda quente.

O advogado olhou para as diversas janelas que o quarto possuía. Uma delas a que ficava perto da cama dava para uma escada de incêndio, e a cama apresentava uma ligeira depressão, como se alguém se tivesse deitado ou arrastado por cima dela. Mason experimentou a porta que comunicava o quarto de dormir com o corredor. Estava fechada à chave e aferrolhada. Tirou o lenço do bolso e limpou cuidadosamente o trinco que os seus dedos haviam tocado. Voltou à porta que conduzia da sala de entrada ao quarto de dormir e limpou o trinco desta porta com o lenço. O mesmo fez ao trinco da porta de entrada.

Enquanto o fazia, deu com os olhos num objecto que jazia no chão, próximo do canto da sala. Caminhou para ali. Era um casse-tête forrado de couro, com uma presilha do mesmo material para passar no pulso.

Curvou-se para examiná-lo, sem lhe tocar, e notou que havia sangue no casse-tête.

Estendido no chão, perto da mesa onde repousavam o chapéu, as luvas e a bengala, estava um pedaço de papel pardo de embrulho que não fora amarrotado e era suficientemente rígido para conservar a forma do objecto que envolvera.

Perry Mason notou que as dobras correspondiam nitidamente aos contornos da faca que tinha visto no outro aposento.

Abriu a porta que dava para o corredor, tendo o cuidado de cobrir as pontas dos dedos com o lenço antes de tocar no trinco. Começou a limpar o botão exterior deste, mas mudou de ideia. Saiu para o corredor e empurrou a porta, fechando-a sem evitar que os seus dedos tocassem no trinco.

Nesse momento ouviu bater a porta do elevador e uma voz de mulher que dizia:

...poderá ouvi-la assim que chegar diante da porta.

Ela ri e chora ao mesmo tempo, e diz qualquer coisa sobre umas «pernas da sorte»...

Passos pesados ressoaram no corredor e outra voz, uma voz grossa de homem, respondeu:

Com certeza é alguma mulher com um ataque de nervos por causa de amores.

Mas eu ouvi uma coisa cair, senhor guarda. Parecia um corpo humano. Foi um barulho horrível...

Perry Mason olhou para a outra extremidade do corredor.

Terminava numa parede lisa, sem janela. Depois voltou os olhos para o ângulo do corredor, tirou do bolso, rapidamente, um molho de chaves falsas, escolheu uma e inseriu-a na fechadura. A chave girou suavemente e o ferrolho penetrou no ’encaixe. Perry Mason estava a guardar a chave no bolso quando um polícia uniformizado surgiu no ângulo do corredor e estacou abruptamente ao ver aquele homem diante da porta do apartamento 302.

Perry Mason bateu com força na porta, com os nós dos dedos, sem voltar o rosto. Com o canto dos olhos viu o guarda estender a mão esquerda para deter uma mulher de meia idade, bastante corpulenta, que vinha atrás dele.

Perry Mason continuou a bater estrondosamente na porta. Depois apertou o botão da campainha.

Após um momento, voltou-se para se retirar com uma expressão descorçoada, ergueu os olhos e avistou, aparentemente pela primeira vez, o guarda e a mulher.

Encarou-os.

Um momento, amigo, disse o guarda, avançando.

Quero falar com o senhor.

Perry Mason imobilizou-se.

O guarda virou-se para a mulher.

-É este o apartamento?

A mulher fez que sim com a cabeça.

Perry Mason voltou-se para observá-la. Trazia um vestido bastante amarrotado e estava sem meias. O cabelo, em grande desalinho. Não tinha pintura no rosto.

Quem estava a procurar, amigo ?perguntou o guarda.

Perry Mason indicou com a cabeça a porta do apartamento

302.

Queria falar com o homem que mora aqui.

Quem é o homem que mora aqui ?

Chama-se Frank Patton, respondeu Perry Mason.

Isto é, tenho razões para crer que o seu nome seja esse.

Para que queria falar com ele ?

Para tratar de um negócio.

O guarda virou-se para a mulher.

A senhora conhece este homem ?

Não disse ela. Nunca o vi antes.

Perry Mason franziu o sobrolho, irritado.

Não é preciso fazer mistério em torno da minha pessoa.

Puxou do bolso uma carteira de couro, tirou um dos seus cartões comerciais e estendeu-o ao guarda.

Este leu o cartão, e havia um tom de respeito na sua voz quando ergueu os olhos para dizer:

Ah! o senhor é Perry Mason, o famoso advogado ?

Já o vi no tribunal. Lembro-me agora do senhor.

Mason inclinou a cabeça, sorrindo afavelmente.

Há quanto tempo está procurando entrar no apartamento

? perguntou o guarda.

Há um minuto, talvez um pouco mais.

Não está ninguém em casa?

Não ouvi o menor ruído, e isso é estranho porque tudo me fazia crer que Patton estivesse aí. Premi o botão e ouvi a surdina lá dentro. Depois bati com força na porta e não tive resposta. Julguei que ele estivesse num quarto afastado, mudando de roupa ou coisa semelhante, e assim esperei um pouco para começar a bater de novo. Tinha desistido quando o senhor apareceu na volta do corredor.

Esta mulher, disse o guarda ouviu uma rapariga com um ataque de nervos aí dentro, depois um baque, como se alguém tivesse caído no chão. O senhor não ouviu nada, por acaso ?

Eu não tornou Mason. E, voltando-se para a mulher: Quando foi isso?

Há pouco tempo. Eu estava deitada. Não me sentia bem e fui deitar-me cedo. Mas levantei-me, enfiei um vestido, pus os sapatos e saí para chamar o guarda. Trouxe-o aqui logo que o encontrei.

Não procurou abrir a porta ? perguntou o guarda.

Sacudi o trinco respondeu Perry Mason. Penso que está fechada à chave. Mas não dei volta ao trinco nem fiz força para abrir. Apenas sacudi. Devo dizer-lhe, guarda, que estou muito interessado. Tenho grande necessidade de falar com Frank Patton. Se ele está aí dentro, gostaria de vê-lo.

O polícia considerou a mulher com ar carrancudo, depois encaminhou-se para a porta e bateu violentamente no caixilho de madeira. Como não recebesse resposta, tirou o casse-tête do bolso e vibrou umas pancadas adicionais com a ponta do instrumento. Por fim experimentou o trinco.

Fechada à chave concluiu.

Afastou-se da porta e disse à mulher:

A senhora mora no apartamento ao lado ?

Ela abanou a cabeça afirmativamente.

Vamos lá. Quero falar com o gerente para ver se ele tem uma chave sobressalente e nos deixa entrar.

Perry Mason consultou com impaciência o relógio de pulso e encarou a mulher.

Deve ter sido há uns dez minutos que a senhora ouviu os ruídos aí dentro, não ?

Sim, mais ou menos isso.

Que foi exactamente o que ouviu?

Ouvi uma rapariga a soluçar. Repetia umas coisas a respeito de pernas da sorte, parecendo que falava nas suas próprias pernas.

Falava em voz alta ?

Sim, o senhor sabe como as mulheres falam quando estão assim. Soluçava e gritava umas palavras.

Não pôde distinguir todas as palavras ?

Não.

E que ouviu depois?

O baque de uma coisa que caía no chão.

Não ouviu ninguém entrar no apartamento ?

Não.

E ninguém sair ?

Não. Não sei se teria ouvido isso. O senhor compreende

: da maneira como estão dispostas as dependências do apartamento, eu posso ouvir os ruídos que vêm pela janela da casa de banho, mas não o que se passa lá dentro.

Mas ouviu o ruído de uma queda violenta ?

Sim, chegou a abalar os quadros na parede.

E ouviu essa rapariga soluçar e falar nas suas pernas da sorte ?

Sim.

Então ela devia estar na casa de banho.

Acho que estava.

Perry Mason volveu o olhar para o guarda.

Bem, creio que não tenho mais nada a fazer aqui.

Se havia uma mulher no apartamento, parece que já não está lá e, seja como for, era com um homem que eu queria falar. Tenho de voltar ao meu escritório.

O senhor encontra-se lá todos os dias ? perguntou o guarda. Talvez tenha de citá-lo como testemunha. Não sei o que houve aí dentro. Talvez não seja nada, mas não me cheira bem essa história do baque que fez abalar os quadros na parede.

Perry Mason moveu a cabeça em sinal de concordância e estendeu a mão com uma nota de cinco dólares dobrada entre os dedos, de maneira que a nota fosse visível ao guarda mas não à mulher.

Sim, senhor guarda, eu encontro-me no meu escritório todos os dias. Não sei de nada. Não ouvi ruído algum quando cheguei aqui. O apartamento estava tão silencioso como está agora.

O guarda retirou habilmente o dinheiro de entre os dedos de Perry Mason.

Muito bem, doutor, nós chamá-lo-emos se precisarmos do senhor. Vou arranjar uma chave para ver o que houve no apartamento.

A mulher tirou uma chave da bolsa e abriu a porta do apartamento que ficava em frente do 302. Depois que ela entrou o guarda seguiu-a, fechando a porta. Perry Mason afastou-se célere pelo corredor e não perdeu tempo a esperar pelo elevador. Encontrou a escada e desceu os degraus dois a dois. Ao atravessar o vestíbulo, entretanto o seu andar tornou-se calmo e compassado, se bem que não houvesse ninguém na portaria.

Perry Mason dirigiu-se rapidamente para o lugar onde o esperava um táxi.

Siga pela rua fora. Depois de andar um bocado trate de descobrir uma casa de onde eu possa telefonar. Não quero fazê-lo aqui nas vizinhanças.

O motorista inclinou a cabeça.

O motor está quente e pronto para arrancar disse ele, batendo a portinhola depois que o advogado se instalou nas; almofadas. O automóvel pôs-se em movimento quase imediatamente. Percorreu umas centenas de metros e diminuiu a marcha.

Há aquele drug store ali na esquina disse ele.

Muito bem.

O carro estacou junto a uma bomba de incêndio.

Vou ficar com o motor ligado disse o motorista.

Talvez tenha de esperar um pouco, informou

Mason; e entrou no drug store. Viu uma cabine telefónica, introduziu uma moeda na fenda e marcou o número do seu escritório.

Della Street atendeu a chamada.

Bradbury está aí, Della?

Neste momento não, mas deve chegar de um minuto para o outro. Falou do Mapleton Hotel para cá há cerca de um quarto de hora, dizendo que tinha consigo os jornais e outras coisas ainda, umas comunicações feitas à Junta

Comercial, contratos assinados pelos negociantes, algumas amostras de títulos e uma porção de papéis desse género.

Perguntou se eu achava que o senhor precisaria disso, além dos jornais. Disse que tinha tudo dentro da pasta.

E que foi que respondeu ?

A secretária riu.

Não sabia se o senhor precisaria ou não, mas para fazer o homem sossegar disse que sim, que trouxesse. Já devia estar aqui... Aí vem ele!

Chame-o ao telefone. Quero falar com ele.

Mason ouviu a voz de Della Street dizer, muito mais fraca:

O senhor Mason está ao telefone, senhor Bradbury, e quer falar consigo. Pode atendê-lo nesse telefone que está aí em cima da mesa.

Ouviu-se um estalido, e a voz ansiosa de Bradbury:

Alô? Que há?

Perry Mason falou alto e em tom incisivo.

Olhe, Bradbury: vou contar-lhe uma coisa e não quero que faça espalhafato.

Espalhafato! Que espalhafato?

Cale a boca enquanto eu lhe descrevo o que se passou.

Limite-se a responder sim ou não. Não quero que a minha secretária saiba o que estamos a dizer. Compreende?

Sim.

Esteve no hotel?

Sim.

Trouxe os papéis?

Sim.

Tem-nos ai consigo ?

Sim.

E trouxe também uma pasta com outros documentos?

Sim.

A pasta de que falou pelo telefone à minha secretária?

Sim.

Muito bem. Pois nós descobrimos Frank Patton há pouco.

Ah, sim ? exclamou Bradbury. Esplêndido! Já falou com ele?

Ele está morto.

O quê ? grunhiu Bradbury, excitadíssimo. Como foi? Quer dizer que o encontrou...

Cale a boca rosnou Perry Mason ao telefone.

Faça uso da inteligência. Eu disse-lhe para escutar e ficar calado. Não se ponha a exclamar.

Houve um breve silêncio e a voz de Bradbury disse mais baixo:

Sim, senhor Mason. Continue. Não tinha ouvido bem.

Preste muita atenção ao que eu vou dizer e não se espante. Nós localizámos Frank Patton. Está a morar no

Edifício Holliday, apartamento 302. Esse edifício fica na

Mapleton Avenue. Fui lá falar com ele. Queria arrancar-lhe uma confissão antes do senhor entrar em cena. Imaginei que a sua presença só poderia provocar discussões, sem proveito para ninguém. Pois bem, Frank Patton tinha sido assassinado cerca de dez minutos antes de eu chegar. Alguém lhe cravou no peito uma faca de cortar pão. Estava caído no apartamento, morto.

Santo Deus! disse Bradbury, e acrescentou logo:

Sim, senhor Mason. Eu estava a pensar noutra coisa. Continue, conte-me o resto.

Quando eu ia a entrar no edifício vi sair uma rapariga.

Tem vinte e um ou vinte e dois anos. Caminhava meneando os quadris e vestia uma capa branca com gola de raposa. Tinha sapatos brancos e um chapéuzinho branco, com uma borla vermelha no alto. Os olhos dela são muito azuis. Ela deu-me a impressão de estar fugindo. Pois bem, eu quero saber se essa rapariga era Marjorie Clune.

Perry Mason ouviu a respiração arfante de Bradbury na outra extremidade do fio.

Sim, sim disse ele os sinais correspondem.

Conheço a capa e o chapéu.

Muito bem, agora reflicta.

Que quer dizer?

Ela pode ter-se metido numa enrascada. ’’

Não entendo.

Ia a sair do edifício no momento em que eu chegava.

No apartamento do lado havia uma mulher que ouviu uma balbúrdia no quarto de Patton e foi chamar a polícia. Apareceu com o guarda cinco minutos depois de eu ter entrado lá. É muito possível que o guarda tenha visto Marjorie Glune. Também são capazes de descobrir que ela esteve no apartamento. A vizinha ouviu uma mulher com um ataque de nervos no quarto de banho, falando em altos gritos nas «pernas da sorte». Referia-se às suas próprias pernas, segundo entendeu a vizinha. Tudo isto faz parecer que se trata de Marjorie Clune. E agora, que quer que eu faça ?

Bradbury não pôde mais conter a sua excitação. ’

Que quero que faça ? gritou. Bem sabe o que eu quero. Continue o seu trabalho, defenda-a Não deixe acontecer-lhe mal algum. Frank Patton que vá para o diabo.

Pouco me importo com ele, mas Margy é tudo no mundo para mim. Se ela está em apuros, salve-a. A despesa não importa. Mande-me a conta que eu pago.

Espere um instante disse Perry Mason. Conserve a calma. Não comece a excitar-se. E, se depois de desligar o telefone Della Street se puser a fazer perguntas, não lhe diga nada. Eu disse-lhe que teria novidades para si dentro de uma hora, ou coisa parecida. Invente umas mentiras e mande-a esperar aí. Entendeu ?

Sim respondeu Bradbury, numa voz que ainda estava aguda de excitação.

O senhor espere também aí disse Perry Mason.

Aqui não! Vou para o hotel. Pode procurar-me no quarto. Sabe qual é : número 693. Não se esqueça de indicar o número do quarto. Lá estarei.

É melhor que espere aí no escritório.

Não, quero falar consigo em particular. Tenho muito que lhe dizer, e preciso saber de tudo o que está acontecendo.

Então vem ao meu quarto daqui a quinze minutos para me contar exactamente o que houve ?

Acabe duma vez com isso ! retorquiu Perry Mason.

Eu disse-lhe para não revelar nada. Estou ocupado e não tenho tempo para discutir consigo.

Desligou furiosamente o telefone e saiu do drug store.

Vamos para o Edifício St. James disse ao motorista.

Fica na East Faulkner Street, número 962. Siga com a maior velocidade possível.

CAPÍTULO VI

Perry Mason bateu à porta do apartamento 301, no

Edifício St. James.

Quase no mesmo instante ouviu alguém mover-se apressadamente no interior dos aposentos. Ressoaram passos no soalho e seguiu-se um silêncio: a pessoa que estava do outro lado da porta imobilizara-se, colando o ouvido ao caixilho de madeira para escutar.

Perry Mason tornou a bater.

Julgou distinguir o som de vozes femininas a cochichar animadamente. Houve um novo silêncio, e uma voz perguntou.

Quem é ?

Telegrama disse Perry Mason em voz grossa.

Para quem ? perguntou a voz feminina, mais forte e em tom mais confiante.

Thelma Bell.

Ouviu-se o som de um ferrolho que retiravam do encaixe. A porta abriu-se ligeiramente e pela fresta passou um braço nu, surgindo de uma manga larga.

Pode entregar disse a voz.

Perry Mason empurrou a porta e entrou no aparta- mento.

Alguém fez um movimento precipitado e saiu a correr.

Uma porta bateu antes que ele tivesse tempo de volver os olhos na direcção do ruído. A torneira do quarto de banho estava aberta e Perry Mason ouvia o escachoar ininterrupto da água na banheira.

A mulher vestida de quimono que parecia tê-lo enfiado à pressa ficara a encarar o intruso com um par de cálidos olhos castanhos em que se liam nesse momento cólera e desafio, bem como um quê de susto.

Devia ter uns vinte e cinco anos. Tinha aprumo e bonitas formas.

Perry Mason também a encarava.

Chama-se Thelma Bell ?

Quem é o senhor ?

Os olhos do advogado percorreram-na de alto a baixo, notando os cabelos finos, húmidos nas têmporas, os pés nus metidos à pressa nos chinelos, a pele rosada nos tornozelos.

É Thelma Bell ? repetiu.

Sim.

Quero falar com Marjorie Clune.

Quem é o senhor ?

Marjorie está aqui ? ’

Ela sacudiu a cabeça.

Há muito tempo que não vejo Marjorie!

Perry Mason continuava a observá-la em silêncio.

Tinham fechado a torneira da banheira e ouvia-se distintamente o som da água agitada por alguém a esfregar-se com vigor. Depois um par de pés nus pisou no pavimento de ladrilhos.

Os olhos risonhos de Perry Mason desmentiam a jovem, chamando-lhe a atenção para essa prova material e a sua falsidade.

Quem é o senhor ? tornou ela.

A menina é a própria Thelma Bell?

Ela fez que sim com a cabeça.

Sou Perry Mason, um advogado, volveu ele. Tenho imperiosa necessidade de falar com Marjorie Clune imediatamente.

Para quê ?

Explicarei isso a miss Clune.

E como soube que ela estava aqui?

É uma coisa que não lhe quero revelar de momento.

Não creio que miss Clune deseje vê-lo. Acho, mesmo, que ela não deseja ver ninguém.

Ouça insistiu Perry Mason eu sou advogado.

Estou aqui para defender miss Clune. Ela está em dificuldades e eu vou auxiliá-la.

Não está em dificuldade alguma, disse Thelma Bell.

Mas vai estar retorquiu o outro gravemente.

Thelma Bell ajustou o roupão ao corpo, foi até à porta do quarto de banho e bateu.

Margy!

Que é, Thelma ? respondeu uma voz, depois de um silêncio.

Está aqui um advogado que te quer falar.

Falar comigo ? volveu a voz atrás da porta.

Eu não preciso de advogado.

Sai disse Thelma Bell.

E, voltando-se para Perry Mason:

Ela não demora. Gostaria de saber como descobriu o senhor que Margy estava aqui. Ninguém sabia disso. Ela veio esta tarde.

Mason franziu o sobrolho, caminhou para uma cadeira sentou-se e acendeu um cigarro.

Vamos ao que importa. Eu conheço-a: é a jovem que venceu o concurso de pernas em Parker City. Patton trouxe-a para Nova York com um falso contrato de filmagem.

O seu amor próprio não a deixou voltar. Desde então, tem vivido da melhor maneira que pode. Conheceu Marjorie

Clune por intermédio de Frank Patton. Ela estava na mesma situação e a senhora quis ajudá-la.

«Marjorie Glune esteve no apartamento de Frank Patton esta noite. Tenho de falar com ela a respeito do que sucedeu lá, e preciso fazê-lo antes que venha a polícia.

A polícia? disse Thelma Bell, arregalando os olhos.

A polícia repetiu Perry Mason.

Abriu-se a porta da casa de banho e uma rapariga de olhos muito azuis saiu, enrolando-se num roupão de flanela.

Fitou os olhos em Perry Mason e susteve a respiração.

Ah, já me reconheceu! disse ele.

Marjorie Clune permaneceu calada.

Eu vi-a sair do Edifício Holliday tornou Perry

Mason.

Thelma Bell falou em voz rápida e positiva.

Não a viu sair do Edifício Holliday porque ela passou toda a tarde comigo não é verdade, Margy?

Marjorie Clune continuava a fitar Perry Mason, com uma expressão de susto nos grandes olhos azuis. Não falava, porém.

Imagine, vir aqui o senhor declarar semelhante coisa! prosseguiu Thelma Bell, alteando ainda mais a voz.

Que iria ela fazer ao apartamento de Frank Patton ? Mas,

Seja como for, esteve a tarde inteira comigo.

Perry Mason olhava firmemente para Marjorie Clune.

Escute, Marjorie disse em tom afectuoso eu vim aqui para defendê-la, pois está em maus lençóis. Se ainda não sabe disso, não tardará a saber. Eu sou advogado e pagaram-me para defender os seus interesses. Desejo fazer tudo quanto posso por si. Quero falar consigo. Falaremos agora, ou prefere esperar até que estejamos sós ?

Não respondeu ela. Falemos agora.

Bem, então pode vestir-se primeiro. E a senhora também acrescentou, voltando-se para Thelma Bell.

Havia no apartamento um pequeno quarto de vestir ao lado do espelho que girava sobre si mesmo, colocando em posição uma cama encaixada na parede. As duas raparigas entreolharam-se um instante e depois encaminharam-se para o quartinho.

Não se demorem muito a conversar disse Perry

Mason. Isso não lhes adiantará nada. Precisamos tratar do que nos interessa. A polícia poderá chegar de um momento para o outro. Sejam rápidas.

A porta do quartinho fechou-se com estrondo.

Perry Mason ergueu-se da cadeira em que estava sentado e circunvagou os olhos pelo apartamento. Dirigiu-se para o quarto de banho e abriu a porta. A água transbordava da banheira. O capacho de cortiça tinha marcas de pés molhados. Junto dele, uma toalha húmida fora negligentemente largada no chão. Perry Mason correu os olhos em volta de si. Não se viam roupas no quarto de banho. Tornou ao primeiro aposento e descobriu um armário, que abriu. Uma comprida capa branca, com gola de pele de raposa, estava pendurada atrás da porta. Perry Mason pegou na bainha da capa e percorreu-a cuidadosamente, de ponta a ponta.

Quando terminou o exame, tinha a testa franzida numa expressão de perplexidade. Tornou a pôr a capa no lugar e reparou numa prateleira cheia de sapatos, que foi pegando um a um. Não encontrou sapatos brancos.

Demorou-se ali um momento, com as pernas afastadas, o corpo levemente inclinado para a frente, os olhos vagos e pensativos, postos naquela capa branca com gola de raposa.

Ainda se encontrava na mesma posição quando se abriu a porta do quarto de vestir e Marjorie Clune apareceu, ajeitando o vestido. Passado um momento surgia também

Thelma Bell.

Quer falar em presença dela ? perguntou Perry

Mason, indicando com um aceno de cabeça a jovem de

Parker City.

Sim respondeu Marjorie. Não tenho segredos para Thelma Bell.

Vai ser franca e contar-me tudo ?

Sim.

Começarei por lhe dar explicações a meu respeito.

Sou advogado. Encarreguei-me aqui de algumas causas importantes e fui feliz. J. R. Bradbury está em Nova York,

à sua procura. Queria levantar um processo contra Patton e metê-lo na cadeia, se pudesse. Procurou o promotor público, mas esse não quis apresentar denúncia por falta de provas. Então ele dirigiu-se a mim. Queria, segundo penso, que eu arrancasse uma confissão qualquer a Frank Patton.

O promotor dissera-lhe, sem dúvida, que necessitava de uma confissão para denunciar.

Em todo o caso, chamei um detective e pusemo-nos em busca de Patton. Afinal encontrámos Thelma Bell, que nos indicou o paradeiro de Frank Patton.

Perry Mason voltou-se a seguir para Thelma Bell e disse-lhe:

A senhora falou esta noite com um homem da agência de investigações.

Ela inclinou a cabeça.

Não sabia que era um detective, nem qual era a sua intenção. Pediu-me umas informações e eu dei-as. Ignorava para que as queria.

Pois o caso é esse tornou Perry Mason. Fui contratado para defendê-la e para tratar de levar Patton ao tribunal. Fui ao apartamento de Patton quando soube o seu endereço pelo detective que tinha falado com Thelma Bell.

Vi-a sair do edifício, Marjorie.

As duas raparigas entreolharam-se vivamente.

Marjorie Clune respirou fundo e encarou Perry Mason com olhar firme.

Que foi que encontrou no apartamento de Frank

Patton, senhor Mason

Que foi que deixou lá, Marjorie ?

Não pude entrar respondeu ela.

Perry Mason sacudiu a cabeça silenciosamente, em ar de censura.

Não pude! exclamou ela com calor. Fui até à porta do apartamento e premi o botão da campainha. Como não me atendiam, voltei.

Procurou abrir a porta ?

Não.

Quando saiu do apartamento, uma mulher...

Já lhe disse que não estive no apartamento!

Bem, vá lá. Quando saiu do edifício, uma mulher tinha ido chamar a polícia. Ouviu uma balbúrdia no apartamento.

Ouviu uma rapariga falando a gritar nas suas «pernas da sorte», presa de um ataque de nervos. Depois ouviu o ruído de uma queda, uma queda violenta que abalou os quadros na parede.

Perry Mason calou-se e olhou para Marjorie Glune.

E depois ? perguntou ela, num tom de simples interesse polido...

E depois, o que eu quero saber é o seguinte: você não se cruzou com o guarda na rua ?

Porquê ?

Porque tinha um ar criminoso. Quando olhou para mim e viu que eu a estava observando, virou o rosto para o outro lado como se tivesse medo de que eu a agarrasse e a acusasse de ter roubado alguma coisa.

Perry Mason contemplava-a com olhos semi-cerrados, argutos.

A jovem mordeu o lábio.

Sim disse devagar, eu vi o guarda.

A que distância do Edifício Holliday ?

Bastante longe.

Ia a pé ?

Sim, ia a pé. Eu queria...

Faltou a voz a Marjorie.

Queria o quê? perguntou Perry Mason.

Queria andar a pé.

Continue.

É só isso.

Bom, viu o guarda. Mas que aconteceu então ?

Nada.

Ele olhou para si ?

Sim.

E que fez ? Estava a andar depressa ?

Não.

Torne a reflectir insistiu Perry Mason a Marjorie ia quase a correr quando eu a encontrei. Caminhava a toda a pressa. Tem a certeza de que não ia nesse passo quando foi vista pelo guarda ?

Tenho.

Porquê ?

Porque não estava a andar;

Ah, então tinha parado ?

Tinha.

Perry Mason olhou-a fixamente e disse devagar, num tom de simpatia :

Quer dizer que ao ver o guarda, de repente ficou gelada. Parou, talvez para levar a mão à garganta ou coisa semelhante. Depois virou-se para olhar alguma vitrina, não foi ?

Ela inclinou a cabeça.

Thelma Bell cingiu a amiga com o braço.

Deixe a pequena em paz !

Se faço isto, é para o bem dela replicou-lhe Perry

Mason. Compreende, não é verdade, Marjorie ? Deve compreender

Sou seu amigo e estou aqui para defendê-la.

Olhe que a polícia pode chegar antes de havermos terminado de conversar. É muito importante, por isso, que eu saiba exactamente o que aconteceu. É necessário que me diga a verdade.

Estou a dizer a verdade.

Não mentiu quando afirmou que não tinha entrado no apartamento ?

Naturalmente. Fui lá, mas não pude entrar.

Não ouviu nada lá dentro ? Ninguém a gritar ? Ninguém dizendo desatinos ? Ninguém falando em pernas da sorte?

Não.

Então desceu pelo elevador e saiu para a rua ?

Sim.

E positivamente não entrou no apartamento?

Positivamente.

Perry Mason suspirou e voltou-se para Thelma Bell.

E quanto a si, Thelma ?

Ela ergueu as sobrancelhas.

Eu? perguntou em tom de surpresa bem educada.

Sim retorquiu Perry Mason, com uma veemência selvagem na voz.

Ora essa, é boa! disse ela. Que há ?

Bem sabe o que eu quero dizer. Esteve no apartamento esta noite ?

Refere-se ao apartamento de Frank Patton ?

Sim.

Claro que não.

Perry Mason examinou-a calmamente, como a indagar consigo que impressão ela produziria no banco das testemunhas.

Conte-me mais qualquer coisa, Thelma pediu ele«

Saí com um rapaz amigo.

Perry Mason alçou as sobrancelhas.

Menina de juízo !

Que quere dizer ?

Voltou muito cedo para casa...

Isso é assunto meu retorquiu ela.

O advogado contemplou os bicos dos sapatos com negligente interesse.

Sim disse ele é assunto seu.

Houve um intervalo de silêncio. De súbito Perry Mason fez face a Marjorie Clune.

Não tinham um encontro marcado com Frank Patton esta noite? perguntou.

Elas entreolharam-se num ar de surpresa.

Um encontro com Frank Patton? repetiu Marjorie

Glune, como se não pudesse acreditar no que ouvia.

Perry Mason confirmou com a cabeça.

As duas jovens tornaram a olhar-se e começaram a rir.

Era um riso agudo e superior.

Não seja tolo ! disse Marjorie Glune.

Perry Mason reclinou-se na cadeira. O seu rosto não exprimia coisa alguma. Os olhos estavam calmos e serenos.

Muito bem, eu procurarei ajudá-las. Se recusam o meu auxílio não tenho mais nada a fazer senão ficar aqui em vossa companhia, à espera da polícia.

E mergulhou num silêncio tranquilo e meditativo.

Mas porque há-de vir aqui a polícia? perguntou

Thelma Bell.

Porque vão descobrir que Margy está aqui.

Como descobrirão ?

Do mesmo modo que eu.

E como foi que o senhor descobriu?

Ele bocejou, tapando a boca com quatro dedos, e batendo de leve nos lábios. Enquanto o fazia abanou a cabeça, mas não formulou resposta audível.

O olhar que Marjorie Glune lançou a Thelma Bell era positivamente alarmado.

Que vai fazer a polícia? disse Marjorie Clune.

Muito respondeu Perry Mason num tom grave.

Escute interpelou-o Thelma Bell de repente, o senhor não pode deixar esta pequena numa trapalhada destas!

Que trapalhada?

Envolvê-la num crime de morte e não tomar medida alguma para defendê-la.

Perry Mason despiu a máscara de paciente tranquilidade.

Agachou-se e os seus olhos tornaram-se duros, como os de um gato que dormita ao sol e de repente acorda vendo um passarinho pousar num ramo próximo.

Como sabe que se trata de um crime de morte,

Thelma? perguntou, tornando a endireitar-se na cadeira e voltando-se vivamente para fitá-la nos olhos.

Ela susteve a respiração, encolheu-se de leve e disse com os lábios trémulos:

Ora... mas... O senhor deu-me essa impressão.

Creio que foi por causa de qualquer coisa que disse.

Ele riu secamente.

Oiçam: ou terão de admitir esse facto perante mim, ou perante a polícia. As duas tinham encontro marcado com Frank Patton esta noite. Marjorie chamou para lá e deu o número do seu telefone. É o número deste aparelho.

A polícia vai descobri-lo e virá aqui. Além disso,

Margy tornou a telefonar dando um recado para Patton pouco antes de ele chegar ao apartamento. Pedia-lhe para avisar Thelma que ela chegaria uns vinte minutos atrasada.

Tanto uma como a outra venceram concursos organizados por Frank Patton; tanto uma como a outra foram eleitas como as donas das pernas mais bonitas nas suas respectivas cidades. Uma de vocês, pelo menos, andou nos jornais como «a jovem das pernas da sorte». Provavelmente, isso aconteceu com ambas. A imprensa local é orientada nesse sentido por Patton.

«Pois bem: alguém ouviu no quarto de banho de Frank

Patton uma rapariga presa de um ataque de nervos, a falar nas suas pernas. Empregou várias vezes a expressão «pernas da sorte».

«Eu vi Marjorie Clune sair do edifício dos apartamentos.

Ela afirma não ter falado com Patton. Pode ser que diga a verdade e pode ser que não. A polícia terá muito interesse em averiguar, e os seus métodos de averiguação não são muito agradáveis.

«No que toca a este assunto, sou o único amigo que vocês têm no mundo, minhas meninas. Estou procurando ajudá-las. Tenho experiência e conheço as leis. Mas não querem aceitar o meu auxílio. Ficam paradas aí a olharem-se com cara de espanto e a exclamar: «O quê? Nós, irmos à casa de Patton? Ah, ah, ah! Não seja tolo!»

«Além disso, quando cheguei aqui encontrei-as ocupadas numa barrela geral. Pareciam atacadas de mania de limpeza. Estavam doidas por se meterem na banheira. Mal sai uma, a outra salta para dentro.

Que mal há nisso? indagou Marjorie Clune agressivamente.

Então não podemos tomar banho quando nos apetece?

Oh sim, naturalmente! Acontece apenas que a polícia vai ver sinais de banho a esta hora da noite e perguntará consigo se não teriam alguma razão especial para se lavarem.

Que razão teríamos de tomar banho que pudesse interessar a polícia? perguntou Marjorie Clune no mesmo tom altivo de antes.

Perry Mason virou-se para ela com violência.

Muito bem, se quer que eu lho diga vou dizer!

A polícia pensaria que estavam a lavar-se de manchas de sangue. Manchas de sangue nas meias; sangue que lhes salpicou as pernas quando se aproximaram de Frank Patton caído no chão.

A jovem recuou como se lhe tivessem batido.

Perry Mason levantou-se da cadeira e postou-se diante delas, dominando-as com toda a sua estatura.

Meu Deus, será possível que eu tenha de atormentar duas mulheres para arrancar-lhes a verdade? Por que motivo não encontrei roupas no quarto de banho? Que fizeram das roupas que tiraram ? Oiça, Marjorie Clune, que fez do par de sapatos que calçava quando saiu do Edifício

Holliday?

Marjorie Clune fitou-o com olhos arregalados de medo.

Tremeram-lhe os lábios.

A pó... polícia, sabe disso?

A polícia vai saber de muita coisa ! Agora vamos ao que importa. Não sei de quanto tempo dispomos, mas será bom que enfrentemos a questão de maneira franca.

Thelma Bell falou em tom calmo e sem expressão.

Suponhamos que nós estivemos lá. Que diferença faz isso ? Não iríamos por certo matar o homem.

Não ? Não teriam motivos para isso, suponho ?

Virou-se novamente para Marjorie Clune.

Há quanto tempo estava aqui quando eu cheguei ?

Apenas um mi…mi… minuto tartamudeou ela. Não

To… tomei táxi, vim de carro.

Era a Marjorie que estava no quarto de banho de

Frank Patton, gritando desatinada e falando nas suas pernas da sorte ?

Ela abanou a cabeça em silêncio.

Escute acudiu Thelma Bell vivamente: a polícia saberá que ela esteve lá se o guarda que a viu na rua não desconfiar que ela tem alguma relação com o crime ?

Talvez não. Por que pergunta ?

Porque eu posso vestir aquela capa branca com gola de raposa. Posso pôr também o chapéuzinho de borla vermelha.

Jurarei de pés juntos que essa roupa me pertence.

Então quem ficará mal será a Thelma respondeu

Perry Mason. Provavelmente, o guarda não se lembrará tão bem das feições como da roupa. Ao ver a roupa, identificá-la-á como a pessoa que viu na rua.

É isso mesmo que eu quero disse Thelma Bell lentamente.

Porquê?

Porque eu não estive lá perto.

Pode prová-lo ?

Claro que posso provar tornou ela com violência.

Pensa que eu ia arriscar a minha pele se não pudesse provar que estava noutro lugar? Quero fazer alguma coisa por Marjorie, mas não sou tão idiota que vá comprometer-me para isso, num caso de assassínio. Vou vestir aquelas roupas, e a polícia que me identifique se quiser. O guarda que fazia a ronda pode jurar que eu sou a pessoa que ele viu sair do edifício. Depois provarei que eu não estava lá.

Onde estava então ?

Com um rapaz amigo.

Por que voltou tão cedo para casa?

Porque nos zangámos.

A respeito de quê ?

Isso é da sua conta ?

É.

Zangamo-nos por causa de Frank Patton.

Que havia com Frank Patton ?

O rapaz não gostava dele.

Porquê >. Tinha ciúmes ?

Não, ele sabia o que eu pensava de Frank Patton.

Disse que Frank Patton estava a perder-me.

De que maneira ?

Pelas relações que ele me arranjou.

Que relações, por exemplo ?

A gente para quem eu posava. Pintores, desenhadores, etc.

Isso não agrada ao seu amigo ?

Não.

Como se chama ele ? indagou Perry Mason.

Chama-se George Sanborne.

Onde mora ?

No Gilroy Hotel, quarto 925.

Oiça: não estará a tentar enganar-me ?

Tentando enganar o meu advogado ? Não diga tolices.

Eu não sou seu advogado. Sou advogado de Marjorie

Clune. Mas quero ajudá-la.

Ela indicou o telefone com um gesto.

O telefone está ai mesmo. Chame George Sanborne.

O número é Prospect 83945.

Perry Mason encaminhou-se para o aparelho e tirou o auscultador do gancho.

Dê-me Prospect 83945 disse ele quando a operadora do edifício perguntou o número. Enquanto falava, ouviu atrás de si rápidos cochichos femininos. Não se voltou, porém. Manteve o auscultador encostado ao ouvido, firmemente plantado no chão, com as pernas afastadas e o peito projectado para a frente. O telefone zumbiu, um estalido anunciou que alguém atendia a chamada no outro lado do fio, e uma voz feminina disse : «Gilroy Hotel».

Ligue-me para o senhor Sanborne, no 925 pediu

Perry Mason.

Um instante depois uma voz masculina dizia : «Alô!»

Thelma Bell feriu-se num acidente de automóvel, há cerca de uma hora disse Perry Mason. Está no Hospital de Pronto Socorro e encontramos o seu nome e endereço num cartão, dentro da bolsa dela. O senhor conhece-a?

Como ? perguntou a voz masculina.

Perry Mason repetiu o que dissera.

Mas que diabo de história é essa? disse a voz masculina. Por quem me está tomando?

Nós aqui no hospital julgámos que o senhor fosse amigo dela e se interessasse respondeu Mason

Qual Hospital! disse a voz masculina. Estive a passear com Thelma Bell esta noite. Há meia hora que nos separamos e ela não tinha sido ferida em acidente algum.

Muito obrigado tornou Perry Mason, desligando.

Virou-se para Marjorie Clune.

Escute, Marjorie: vamos deixar a conversa para outra ocasião. Há-de dizer consigo que Thelma Bell é a sua maior amiga, mas só uma pessoa deverá saber o que aconteceu realmente, e é o seu advogado. Compreende, não é verdade?

Ela inclinou a cabeça.

Se o senhor quer que seja assim...

Quero que seja assim. E, voltando-se para Thelma

Bell: Na verdade é uma amiga leal, mas é preciso que me compreenda. Tudo o que Marjorie Clune revelar poder-lhe-á ser arrancado a si no banco das testemunhas, mas o que ela me disser fica sob sigilo profissional, e não há poder neste mundo que me faça abrir a boca.

Entendo disse Thelma Bell, muito tesa e muito pálida.

Então quer ajudar Marjorie a sair desta dificuldade ?

Quero.

Vista aquela roupa. Vamos ver como lhe fica.

Ela dirigiu-se para o armário e tirou a capa. Vestiu-a e ajustou o chapéuzinho na cabeça.

Nada mau disse ele. Tem sapatos brancos ?

Não.

De qualquer modo, ele provavelmente não se lembrará dos sapatos. Quero que desça à rua e se ponha a caminhar na calçada da frente, Esta noite, mais cedo ou mais tarde, verá um carro da polícia parar diante deste edifício.

Poderá conhecê-lo pela placa, ou se não pelo aspecto do carro. Pode ser um carro da Secção de Segurança, e nesse caso desembarcarão dele três ou quatro homens espadaúdos, com aparência de guardas à paisana, ou da rádio-patrulha, e então será um automóvel comum de viagem, e só virão dois homens. Um deles descerá e o outro ficará no carro para receber as chamadas.

Acho que poderei reconhecê-lo perfeitamente, disse ela. Que devo fazer então ?

Logo que vir os polícias caminharem para este edifício, atravesse a rua como se voltasse para casa. Pode dizer que foi ao drug store comprar uma aspirina ou inventar outra coisa qualquer. Meta-se entre eles sem hesitação. Vão começar a fazer-lhe perguntas. Não diga logo que tem um

álibi. Finja que está confusa. Responda às perguntas de modo que desperte suspeitas. Enfureça-se com eles e diga que não tem de prestar contas a ninguém sobre o lugar onde esteve nem sobre o que andou a fazer.

«Se o procedimento de Margy pareceu suspeito ao guarda de ronda, ele há-de ter dado os seus sinais na Repartição

Central, É> provável que esses sinais se relacionem mais com a roupa do que com a pessoa. Ela viu o homem de uniforme e assustou-se. Parou e voltou-lhe as costas para olhar para uma vitrina. Provavelmente isso chamou a atenção do guarda no momento, mas como tinha sido chamado pela tal mulher para ir averiguar o que se estava a passar no apartamento, não deve ter pensado muito no encontro. Mas quando entrar no apartamento de Patton e descobrir aqueles recados telefónicos com os nomes de Margy e o seu, pôr-se-á a reflectir de novo e consultará as suas recordações para ver se se lembra de ter visto alguma mulher que procedesse como uma criminosa. É quase certo que se lembrará da capa e do chapéu.

«Bem, isso vai pô-la em evidência. Não será muito agradável.

O seu nome andará pelos jornais e terá de passar por muitos outros dissabores. Eis a questão: está disposta a enfrentar tudo isso ?

Estou, e é o que vou fazer.

Perry Mason virou-se para Marjorie.

Agarre em todas as coisas que estão neste apartamento e ponha-as na mala. Raspe-se daqui com quanta pressa puder. Vá para um hotel e dê o seu nome verdadeiro, mas de maneira que não seja fácil descobri-la. Qual é o seu segundo nome de baptismo?

Frances.

Muito bem, então registe-se como M. Frances Clune.

Além disso, tome o cuidado de não pôr Cloverdale como procedência. Faça de conta que reside na cidade.

Aqui tem um dos meus cartões profissionais. O número do telefone está aí: Broadway 39251. Chame para o meu escritório e peça para falar a miss Street, minha secretária.

Ela saberá de onde vem a chamada. Não mencione nomes pelo telefone. Diga simplesmente que falou comigo durante o dia e que eu lhe pedi para deixar o seu endereço. Diga o nome do hotel onde está hospedada e encerre-se no seu quarto. Não saia nem por um momento e não se afaste do telefone. É necessário que eu possa comunicar consigo a qualquer hora do dia ou da noite. Mande servir as refeições no quarto. Não procure falar comigo, a menos que aconteça algo de extraordinário. Se a polícia a descobrir, faça a sua cara mais inocente e não responda a uma só pergunta.

Limite-se a dizer que tem advogado, e que esse advogado sou eu. Peça permissão para comunicar comigo.

Marjorie fez um lento sinal de assentimento, com os olhos cravados nele.

Está tudo bem entendido ?

Acho que sim.

Então ponham-se a caminho disse Perry Mason.

E não esqueça: suceda o que suceder, não deve fazer declarações a ninguém antes de falar comigo. Não deve sequer responder às perguntas. Tão pouco lhes diga quem é nem de onde vem. Logo que for presa, peça para comunicar comigo. Mostre o cartão e exija permissão para me telefonar.

Se eles deixarem eu falarei consigo e recomendar-lhe-ei que não diga nada. Se não deixarem, faça-se amuada.

Diga-lhe que, como não quiseram atender o seu pedido, também não fará o que pedem; já que não a deixaram telefonar-me, não responderá às perguntas que lhe fizerem.

E todas as vezes que a interrogarem e a Marjorie não responder, use a mesma fórmula: que não responderá a pergunta alguma a menos que eles a deixem falar comigo.

Compreende ?

Compreendo.

Perry Mason encaminhou-se para a porta. Ao passar por Thelma Bell bateu-lhe no ombro.

Boa rapariga disse.

Saiu para o corredor e ouviu a porta fechar-se. O ferrolho penetrou no encaixe com um ligeiro estalido metálico.

 

J. R. Bradbury estava sentado no hall do Hotel Mapleton quando Perry Mason entrou pela porta giratória.

Bradbury tinha um ar tranquilo, capaz e eficiente no seu traje de tweed cinzento que combinava a cor dos seus olhos. Estava de camisa gris, gravata gris com pintas vermelhas, e sapatos de desporto brancos com guarnições pretas.

Estava a chupar meditativamente um charuto quando os seus olhos vivos pousaram no rosto de Perry Mason.

Bradbury pôs-se em pé e foi ao encontro do advogado.

Conte-me tudo pediu em voz rápida e ansiosa.

Como foi que isso aconteceu ? Já encontrou Marjorie ?

Que poderá fazer por ela ?

Devagar! Vamos para um lugar onde possamos conversar

à vontade. O seu quarto serve ?

Bradbury inclinou a cabeça afirmativamente e voltou-se para o elevador, mas de súbito parou.

Há aí na esquina um óptimo barzinho onde arranjaremos também de comer. Preciso ir lá porque estou sem bebidas no quarto.

Então leve-me disse Perry Mason.

Bradbury saiu à frente pela porta giratória e esperou

Perry Mason na calçada.

Há algum indício de que não seja Marjorie a culpada ? perguntou, levando o advogado pelo braço.

Não falemos agora nisso! Esperemos até estar em lugar seguro, e se no tal bar não ficarmos sós, iremos para outra parte.

Não se preocupe, nós conseguiremos um bom lugar reservado. É um local muito discreto. Tenho um cartão do mensageiro-chefe do hotel.

Dobrou a esquina, parou diante de uma porta e premiu um botão. Uma rótula rodou um pouco, um par de olhos pequenos examinaram Bradbury e o rosto do empregado desapareceu.

Ouviu-se o ruído de um ferrolho e a porta abriu-se.

Vamos já para cima disse Bradbury.

Perry Mason precedeu-o na escada atapetada. O maitre d’hotel curvou-se diante deles.

Queremos um reservado disse Mason.

Só para os senhores ? perguntou o homem.

Mason inclinou a cabeça.

O rapaz hesitou um momento, mas ante a firme insistência do olhar de Mason voltou-se e conduziu os fregueses para uma pequena sala de jantar atravancada de mesas, por uma diminuta sala de baile com soalho encerado e depois por um corredor atapetado. Ergueu uma cortina e Perry Mason entrou, instalando-se diante de uma mesa.

Bradbury sentou-se-lhe na frente.

Traga-me um bom vinho tinto e pão francês, quente, com muita manteiga pediu Perry Mason. É só.

Eu quero um whisky de centeio com ginja disse

Bradbury. Olhe, pode trazer whisky, um pouco de gelo e duas garrafas de ginja. O senhor Mason quererá provavelmente tomar um copo depois de beber o vinho.

Eu não atalhou Perry Mason. Só vinho e pão francês.

Bem, traga então só uma garrafa de ginja.

Quando a cortina se tornou a fechar, Bradbury olhou para o seu companheiro e ergueu as sobrancelhas.

Perry Mason inclinou-se para a frente, descansando os cotovelos na mesa, e falou em voz baixa e confidencial, mas rápida.

Descobri o paradeiro de Marjorie Clune. Fui lá. Ela está envolvida na história, mas não sei até que ponto. Estava com uma amiga, outra pequena chamada Thelma Bell.

Thelma Bell está livre de suspeitas. Tem um álibi e vai dar a mão a Marjorie.

A Marjorie não me contou tudo. Disse qualquer coisa, mas não ousei pedir-lhe a história completa diante de Thelma Bell, e não quis falar com ela noutro quarto porque tinha medo que a outra pensasse que nós estávamos tramando alguma traição. Thelma será leal a Marjorie. Não lhe posso dar todos os detalhes. Trata-se de um desses casos nos quais quanto menos se sabe melhor.

Mas Margy está bem? perguntou Bradbury. Você pode prometer-me que a livrará da polícia ?

Não posso prometer nada. Fiz tudo o que pude para descobri-la antes da polícia, e consegui.

Fale-me de Frank Patton. Como aconteceu isso?

Como aconteceu, não sei. Descobri a morada do homem e fui lá.

Como foi que descobriu ?

Pelo detective que o senhor contratou.

E quando foi que soube ?

Hoje de tarde.

Então já sabia onde ele morava quando saiu do seu escritório esta noite ?

Já.

Porque não me levou consigo ?

Porque não me convinha a sua companhia. Eu queria obter uma confissão qualquer de Frank Patton. Sabia que o senhor iria enfurecer-se e fazer uma porção de acusações que nada adiantariam. Queria conversar com ele e armar alguma esparrela para ver se ele caía. Depois lançaria mão de meios enérgicos e, quando ele tivesse cedido um pouco, chamá-lo-ia e à minha secretária. A minha secretária ia estenografar a conversa.

Bradbury assentiu com a cabeça.

O plano parece bom. De princípio fiquei um pouco ofendido.

Não há motivo para se ofender. Estou conduzindo este caso de maneira a satisfazer todos os interessados.

Deve ter confiança em mim, acredite.

Continue. Conte-me o que aconteceu.

Pois bem, cheguei lá e bati na porta do apartamento prosseguiu Mason. Não tive resposta. Abaixei-me e espreitei pelo buraco da fechadura. Havia luz lá dentro

Vi pela fechadura uma mesa com um chapéu, uma bengala e umas luvas em cima. Estava certo de que essas coisas pertenciam a Patton. Condiziam com a descrição que tínhamos dele.

«Tornei a bater na porta e depois premi o botão da campainha. Parava de vez em quando para escutar, mas não ouvi o menor ruído. Estava pronto para me retirar quando avistei um guarda no canto do corredor. Evidentemente estava a observar-me havia algum tempo não sei quanto.

«Imaginei logo que tivesse acontecido algo de anormal e que eu me houvesse comprometido, mas não podia fazer outra coisa senão enfrentar ousadamente a situação. Caminhei na direcção do polícia e ele fez-me parar, perguntando o que eu estava a fazer ali. Respondi que viera à procura de Frank Patton; tinham-me dito que ele morava naquele apartamento e eu julgara que ele estivesse em casa. Disse também ao polícia quem eu era e dei-lhe o meu cartão.

«Estava uma mulher com ele. Dizia morar no apartamento vizinho. Creio que ela era sincera. Tinha o ar de quem houvesse saltado da cama, vestindo-se à pressa. Disse que se havia deitado porque não se sentia bem Mas que de súbito uma mulher começou a fazer barulho no apartamento ao lado, gritando histericamente e referindo-se, entre outras coisas, a umas «pernas da sorte». Mas isso já eu lhe contei pelo telefone.

Que aconteceu então? perguntou Bradbury.

Então o guarda entrou no apartamento da mulher e tiveram uma conferência. Finalmente, ele conseguiu abrir a porta. Encontrou Patton apunhalado com uma faca grande de cortar pão, uma dessas facas compridas, de lâmina triangular.

Tratei de comunicar imediatamente consigo para saber o que queria que eu fizesse com respeito a Margy.

Como sabe que Margy estava metida nisso?

Eu vi-a e foi por isso que lhe telefonei. Ela ia sair do edifício quando eu entrei, e tinha um ar tão esquisito que me chamou a atenção. Não era tanto um ar de culpa como de pânico. O olhar estava assustado. Margy trazia aquela capa branca e o chapéuzinho branco de borla vermelha, mas o senhor não deve revelar a ninguém que está ao par disto. Veja lá, guarde segredo.

Claro que sim ! Mas por que não falou com ela ?

Não a conhecia... Só depois é que vim a saber quem ela era. Parecia aterrada quando passou por mim, e quando eu soube o que a tal mulher tinha dito ao polícia sobre a rapariga que estava com um ataque de nervos na casa de banho do apartamento, a falar nas suas pernas, imaginei que devia tratar-se de Margy.

Que estaria ela a fazer na casa de banho ?

Se o senhor não sabe, muito menos eu. Patton estava com um roupão de banho meio vestido, mas tinha tirado o resto da roupa. Há uma possibilidade de que ele tenha querido atrever-se com Marjorie e ela se tenha refugiado na casa de banho. É assim que eu imagino a coisa.

E depois Patton entrou na casa de banho atrás dela e ela apunhalou-o ?

Não, o corpo não estava na casa de banho. Estava num quarto de dormir, próximo da porta da casa de banho.

É possível que a rapariga estivesse encerrada lá e ele tentasse forçar a porta. Pode ter havido luta, matando-o ela em defesa própria. Há outra hipótese ainda: enquanto ela estava na casa de banho, onde se fechava à chave, alguém entrou no apartamento e apunhalou Patton.

A porta estava fechada à chave ? perguntou Bradbury.

Claro que estava. Eu não lhe disse que o polícia teve de desencantar um porteiro ou não sei quem para abri-la ?

Nesse caso, como podia uma terceira pessoa entrar no apartamento enquanto Margy estava na casa de banho ?

Isso é fácil de resolver. Quem o fez deve ter tido o cuidado de fechar a porta quando saiu.

Bradbury tornou a inclinar a cabeça.

E quanto ao detective, Paul Drake? Estava nas redondezas ?

Nós tínhamos combinado que ele me seguisse, dando-me cinco minutos de dianteira. Fui encontrar-me com ele na esquina da Nona Avenida com Olive Street, e isso levou algum tempo. Traçámos um plano de campanha.

Paul Drake devia partir daquela esquina cinco minutos depois de mim. Ele ia no carro dele e eu tinha tomado um táxi. Provavelmente Drake andaria mais depressa do que eu.

Ainda não tive ocasião de falar com ele. Imagino que, ao dirigir-se para o edifício ele tenha visto a mulher e o polícia entrarem. Adivinhou logo que havia novidade e escondeu-se para descobrir de que se tratava. É assim que eu julgo terem sucedido as coisas. Como lhe disse, ainda não consegui falar com ele.

À cortina abriu-se e o empregado depositou na mesa as coisas pedidas. Bradbury serviu-se de uma rija dose de whisky, pôs gelo no copo, acrescentou ginja, mexeu a mistura com uma colher e bebeu a metade em três valentes goles.

Perry Mason inspeccionou com ar crítico a garrafa de vinho, passou o gargalo sob o nariz, encheu um copo de vinho tinto, partiu um pedaço de pão quente, mordeu-o e sorveu o vinho.

Desejam mais alguma coisa? perguntou o rapaz.

Por enquanto basta disse Bradbury. Tocaremos a campainha quando quisermos a conta. Até lá, tome cuidado para que não sejamos incomodados.

O rapaz inclinou a cabeça.

Já lhe disse quase tudo que tinha para dizer informou

Perry Mason.

Bradbury fez um gesto de assentimento.

Quero falar um pouco agora disse.

Perry Mason relanceou-lhe os olhos.

Ah, sim?

Bradbury tornou a inclinar a cabeça.

Pois fale disse Mason.

O rapaz saiu e as cortinas voltaram à posição primitiva.

Em primeiro lugar disse Bradbury lentamente quero que compreenda uma coisa, Mason. Tratarei de salvar

Marjorie Clune, aconteça o que acontecer.

Ah, naturalmente tornou Mason, partindo mais um pedaço de pão Francês, com os dedos. Foi essa a impressão que sempre tive.

Mais ainda: hei-de salvar Marjorie, fira a quem ferir.

Sim, até agora ainda não me disse nada de novo...

Bradbury curvou o corpo para a frente e fitou em Perry

Mason um olhar intenso.

Procure compreender-me, senhor advogado. Não deve haver mal-entendidos nesta questão. Tratarei de livrar Marjorie

Clune da justiça, fira a quem ferir.

A sua voz tinha um tom de insistência firme e enérgica.

Perry Mason parou com o copo a meio caminho dos lábios e os seus olhos cravaram-se subitamente em Bradbury, com um lampejo de surpresa.

-Hem?

Marjorie Clune está em primeiro lugar disse Bradbury.

Eu amo-a mais do que à própria vida. Sou capaz de fazer tudo por ela. Por enquanto, não conheço os pormenores, nem o senhor tão pouco, mas quero deixar isto bem entendido: Marjorie Clune não deve correr perigo algum. Lutarei contra o mundo inteiro para defendê-la.

Não me importa contra quem tenha de lutar.

Continue disse Perry Mason, ainda com o copo no ar.

Gostaria de saber quanto tempo esteve a bater à porta antes de aparecer o guarda.

Um minuto ou dois. Porquê.

Lembra-se exactamente da hora a que ele chegou?

Não, eu não consultei o relógio.

Isso, naturalmente, é coisa que se pode averiguar.

Naturalmente disse Perry Mason, soltando o copo.

Continue, Bradbury. Estou a escutá-lo.

Estava a perguntar a mim próprio a que hora exacta teria sido cometido o crime, em relação à hora a que o senhor chegou ao apartamento. O elemento tempo pode ser importante no caso.

Pode ser confirmou Perry Mason.

Parece-me esquisito que tenha encontrado a porta fechada à chave, visto que Margy estava no quarto de banho e alguém assassinou Patton.

Porquê ?

Em primeiro lugar, não posso absolutamente acreditar que Marjorie tivesse uma chave do apartamento de Frank Patton.

É uma hipótese que está simplesmente fora de cogitação.

Prossiga. Estou escutando.

Na suposição de que Marjorie Glune se houvesse encerrado na casa de banho e Frank Patton tivesse arrombado a porta, seguindo-se uma luta em consequência da qual Marjorie o teria morto em defesa própria, ela seria a

última pessoa a sair pela porta.

Sim, e daí ?

Nessa hipótese a porta não estaria fechada, visto que Marjorie Clune não possuía a chave e visto que o morto dificilmente a iria fechar.

«Por outro lado prosseguiu Bradbury, os olhos cravados com inabalável insistência nos de Perry Mason se

Marjorie esteve na casa de banho e Patton tentou entrar ali mas foi impedido de fazê-lo por outra pessoa que entrou no apartamento e o matou, saindo depois da maneira que o senhor sugere, fechando a porta atrás de si, como poderia

Marjorie ter escapado ?

Perry Mason continuava a observá-lo, em silenciosa meditação.

Só resta uma solução possível disse Bradbury e é que Marjorie Clune tenha fugido do apartamento enquanto os dois homens estavam empenhados na luta isto é, enquanto Frank Patton lutava com o intruso que penetrara pela porta do apartamento. Nessa eventualidade.

Marjorie Clune teria visto o criminoso, e ou o teria reconhecido caso o conhecesse, ou senão poderia dar alguns sinais dele.

E então ?

Então, o criminoso teria apunhalado Patton e saído a correr do apartamento. Nesse caso deveria ter visto Marjorie

Clune, ou quando ela saiu da casa de banho, ou no corredor, ou no elevador.

O senhor também é um excelente detective, Bradbury.

Tirou as suas conclusões com muita clareza.

Apenas queria mostrar-lhe tornou Bradbury, falando devagar que o facto de eu morar numa cidade pequena não me impede de ser homem e de saber lutar quando se apresente a ocasião. Não quero que o senhor advogado faça pouco de mim.

O olhar de Perry Mason estava cheio de interesse e deixava transparecer um nascente respeito.

Não, com os diabos, não farei pouco de si, Bradbury.

Obrigado disse Bradbury, apanhando o seu copo.

Bebeu o resto do whisky misturado.

Perry Mason observou-o com atenção durante alguns instantes. Depois sorveu o vinho e tornou a encher o seu copo.

Já disse tudo o que tinha para dizer ?

Não, ainda há outro ponto que desejo acentuar. É o seguinte : estou convencido de que Marjorie viu o assassino e, se ela não gritou é porque o conhecia e queria protegê-lo.

Refere-se ao doutor Doray ? perguntou Perry Mason.

Exactamente respondeu o outro, num tom frio e categórico.

Olhe, talvez eu possa corrigir este engano seu, Bradbury.

Vi Marjorie Glune sair do edifício. Detive-me a observá-la enquanto ela percorria pouco mais de cinquenta metros, depois entrei no edifício. Subi pelo elevador. Ao sair fui pelo corredor, direito ao apartamento de Frank Patton.

Não notei ninguém mais que tivesse saído dali. Fiquei diante da porta até chegar o guarda, e ainda depois me demorei um pouco naquele lugar. O guarda não permitiria que ninguém deixasse o apartamento enquanto estava procedendo

à busca. Por conseguinte, parece certo que ninguém se encontrava no apartamento quando lá cheguei. Há, sem dúvida, a possibilidade do assassino ter descido pela escada enquanto eu subia pelo elevador. É uma mera possibilidade.

Eu conhecia o doutor Doray e, se o tivesse encontrado no edifício, havia de reconhecê-lo.

Que me diz das janelas? Não as havia lá?

Sim, há uma janela que dá para uma escada de incêndio disse o advogado, falando pausadamente.

Pois aí tem! tornou Bradbury em tom de triunfo.

Mas se o doutor Doray estava no apartamento e Marjorie saiu a correr da casa de banho e fugiu pela porta da frente, por que iria ele fechar à chave essa porta para depois escapar pela escada de incêndio?

Isso é uma das coisas que vamos averiguar.

Sim, havemos de averiguar muitas coisas quando conhecermos mais factos. Sabe que é completamente impossível reconstituir um crime, a menos que se possuam todos os factos ?

Sei disso muito bem, mas o ponto a que quero chegar

é o seguinte: os factos, tais como nós os conhecemos, não parecem ligar com certas coisas que devem ter-se passado.

Eis, justamente, um ponto que tomaremos em consideração quando formos a juízo e começarmos a analisar os elementos do processo.

Eu preferiria tomá-lo em consideração imediatamente.

Então pensa que o assassino é Bob Doray ?

Francamente, sou de tal opinião. Eu sempre lhe disse que esse homem é perigoso. Estou seguro de que ele é a pessoa implicada no crime, e não estou menos seguro de que Marjorie Glune tentará defendê-lo se isso lhe for possível.

Pensa que ela ama Doray?

Quanto a isso, não tenho a certeza. Creio que ela está fascinada por ele. É possível que Margy pense estar apaixonada pelo homem. Compreende que há certa diferença entre as duas coisas, senhor advogado.

Perry Mason observou com crescente respeito os olhos duros e brilhantes de J. R. Bradbury.

Compreendo, sim disse.

Além disso, na eventualidade de que Marjorie Clune tente sacrificar-se para salvar o doutor Doray, eu pretendo impedir que ela o faça. Fiz-me entender com bastante clareza neste ponto?

Com toda a clareza.

Bradbury tornou a servir-se generosamente de whisky de centeio, diluindo a aguardente em ginja.

Aconteça o que acontecer disse ele, não devemos permitir que Marjorie se sacrifique pelo doutor Doray.

Quer então que eu procure provar que Doray é o criminoso?

Pelo contrário respondeu Bradbury lentamente.

Quero convencê-lo disto, senhor advogado: se os factos me derem razão e o doutor Doray estiver implicado no crime> ou se vierem a descobrir que ele é o próprio assassino, creio que lhe darei instruções para defender o doutor Doray

Perry Mason ficou teso na cadeira.

O quê ? exclamou.

Bradbury inclinou lentamente a cabeça.

Eu pedir-lhe-ei que defenda o doutor Doray repetiu.

Se eu assumir a defesa dele, farei o possível para que o homem seja absolvido.

Justamente fez Bradbury.

Perry Mason parou de comer e pôs-se a tamborilar com os dedos na beira da mesa, enquanto olhava fixamente para

Bradbury.

Não disse devagar acho que nunca mais tornarei a fazer pouco de si, Bradbury.

Este sorriu.

E agora que nos compreendemos às maravilhas, senhor advogado, podemos continuar a comer, a beber e a tratar dos nossos negócios.

O senhor pode ficar aqui disse Mason arreganhando os dentes mas eu tenho de telefonar para o meu escritório, e desconfio que haja alguns detectives a rondar por lá.

Que quererão eles ?

Ora, hão-de ter descoberto que eu estive no apartamento e quererão saber o que fui lá fazer.

Que lhes vai dizer ?

Não lhes falarei em si, Bradbury. Pretendo conservá-lo no último plano.

Faz muito bem observou Bradbury.

E, se houver meio de fazer publicidade em torno de um idílio com o doutor Doray, eu tratarei de fazê-la.

Porquê ?

É inteligente, Bradbury, e eu posso ser franco consigo disse Mason olhando-o com firmeza. O senhor é muito mais velho do que Marjorie Glune, e tem dinheiro.

No caso de Marjorie se ver envolvida e os jornais começarem a apresentá-la como a vencedora de um concurso de pernas e, além disso, se se puseram a falar numa espécie de

«coronel» que veio à cidade para procurá-la, isso produzirá uma impressão bem diferente do que se a coisa for representada de outro modo.

Que outro modo ?

A teoria de que Marjorie Glune veio à cidade e sofreu uma amarga desilusão; de que o doutor Robert Doray, um jovem dentista, poucos anos mais velho do que ela, abandonou a sua clínica, arranjou emprestado todo o dinheiro que pôde e veio para Nova York, resolvido a encontrá-la.

Isso formará um quadro completamente diverso, um quadro de jovens apaixonados.

Percebo disse Bradbury.

No caso temos um empecilho, que é esse tal concurso de pernas. No momento em que os jornais descobrirem do que se trata, começarão a publicar fotografias de

Marjorie Clune, e essas fotografias, naturalmente, incluirão as pernas. Isso chamará a atenção dos leitores, mas não dará a Marjorie o género de publicidade que nós desejamos.

Bradbury inclinou lentamente a cabeça.

Há uma coisa sobre a qual estamos de acordo,

Mason.

Qual é ?

É que estamos decididos a não fazer pouco um do outro respondeu Bradbury, sorrindo. E nem por um instante pense que tem de justificar os seus actos perante mim, senhor advogado. Vá para diante e faça em torno do caso o género de publicidade que entender. Apenas acrescentou, fixando em Perry Mason os olhos que brilhavam numa fria perscrutação não vá pensar um só instante que eu esteja disposto a deixar que Marjorie Clune pague, sem lutar por ela com unhas e dentes. Para salvá-la sou capaz de meter qualquer pessoa nesta embrulhada. Qualquer pessoa, compreendeu ?

Perry Mason suspirou enquanto deitava o resto do vinho no copo e partia outro pedaço de pão, cobrindo-o com uma grossa camada de manteiga.

Sim, sim disse, de mau humor. Eu ouvi isso perfeitamente da primeira vez, Bradbury.

 

Perry Mason esperou que Bradbury entrasse no elevador do Mapleton Hotel e começasse a subir, antes de se dirigir para a cabine telefónica e marcar o número do seu escritório.

Della Street atendeu em voz baixa e cautelosa.

Que foi que houve ? perguntou ela.

Porque pergunta ?

Estão aqui dois detectives.

Está bem, mande-os esperar. Já lá vou.

O senhor está bem ?

Naturalmente.

Não aconteceu nada ?

Nada que dê motivo a inquietações.

A secretária passou a falar num cochicho rápido.

Eles estão desconfiados. Ouviram-me falar ao telefone e vão escutar no outro aparelho...

A seguir, acrescentou em voz mais alta:

...simplesmente não sei quando ele voltará. Penso que virá aqui esta noite, porque me mandou esperar até ter notícias dele. Até agora não tive notícia alguma. Sequer fazer o favor de deixar o seu nome, eu avisarei o senhor

Mason de que o senhor o chamou para cá; ou então deixe o número do seu telefone, que ele o chamará se quiser falar consigo.

Perry Mason disfarçou a voz para dizer: «Não, eu chamo depois», e desligou.

Após sair da cabine parou para acender um cigarro e contemplar meditativamente as espirais de fumo. Por fim, sacudindo a cabeça num gesto súbito como se houvesse tomado uma decisão, atravessou o vestíbulo, chamou um táxi e seguiu para o escritório. Estava sereno e despreocupado quando entrou, dizendo : «alô, Della !»

Estes dois cavalheiros... começou ela, indicando com a cabeça dois homens que estavam sentados, as cadeiras apoiadas nos pés detrás e os espaldares encostados à parede.

Um deles afastou a aba do paletó e puxou o suspensório para fora da cava do colete, o bastante para mostrar o distintivo, um escudo de oiro.

Queremos falar um instante consigo disse ele.

O rosto de Perry Mason iluminou-se num sorriso acolhedor.

Oh, vêm da Repartição Central ? óptimo. Julguei que fossem dois clientes e estou bastante cansado. Entrem.

Abriu a porta do gabinete particular e fez os dois homens entrar na frente. Ao fechar a porta notou o rosto pálido de Della Street, os olhos inquietos postos nele, e deu-lhe uma piscadela rápida. Voltando-se para os investigadores, indicou-lhes duas cadeiras, dirigiu-se para a sua giratória e sentou-se, pondo os pés sobre a secretária.

Então, de que se trata ? perguntou.

Eu chamo-me Riker disse um dos homens, e este é o Johnson. Trabalhamos na Secção de Segurança.

Querem fumar ? disse Mason, empurrando para eles um maço de cigarros que estava em cima da secretária.

Ambos se serviram.

Perry Mason esperou que eles acendessem os cigarros e repetiu a pergunta :

Então, de que se trata, rapazes ?

O senhor esteve a procurar um homem chamado

Frank Patton, no Edifício Holiday, Mapleton Avenue?

Mason inclinou a cabeça jovialmente.

Sim, fui lá, toquei à campainha, bati à porta, mas não me atenderam. De repente apareceu um agente de polícia, trazido por uma mulher que vinha com uma grande conversa a respeito duma pequena que estava com um ataque de nervos lá dentro. Imaginei que se tratasse de um colóquio amoroso e que o homem não queria ser incomodado.

Deu-se lá um assassínio disse Riker.

Mason respondeu com naturalidade.

Sim, ouvi dizer que o guarda arrombou a porta e descobriu que tinha havido crime. Não consegui informar-me sobre os detalhes. O homem estava caído no chão, dentro do quarto, não é verdade ?

Sim, encontraram-no morto. Estava com um roupão de banho meio vestido e tinha uma faca de trinchar cravada no coração.

Há algum indício?

Porque pergunta isso ? quis saber Johnson.

Mason riu.

Não me interpretem mal, rapazes. Esse homem não significa nada na minha vida. Apenas queria entrevistá-lo.

O facto é que a sua morte veio prestar-me um grande serviço.

Que quer dizer com isso? indagou Riker.

Poderão descobrir tudo o que diz respeito às minhas relações com Patton falando com Carl Manchester, nos escritórios do promotor público. Estávamos a trabalhar juntos no caso. Eu ia ser advogado de acusação num processo contra o Patton.

E qual era a queixa? perguntou Riker.

Qualquer que pudéssemos formular contra ele. E era aí que eu estava com os meus pauzinhos. Estava encarregado de encaixá-lo num artigo qualquer. Carl Manchester não tinha meios suficientes para isso.

Deixe lá o aspecto legal da história acudiu Johnson.

Dê-nos os factos simples.

Esse tipo era especializado num género de vigarice em que escolhia para vítimas as pequenas de pernas bonitas explicou Mason. Apanhava na ratoeira uma pequena de pernas bem feitas e deixava-a com as mãos a abanar. Dava o golpe nas cidades pequenas, aproveitando-se da Junta

Comercial do lugar.

Quer dizer que ele enganava a Junta Comercial ? perguntou Johnson.

Perry Mason inclinou a cabeça.

Sim, por que não?

Mas essa gente não passa por ser muito sabida?

Eles pensam que são, mas a verdade é que muitas vezes vão no embrulho. Se querem a minha opinião, são bastante fáceis de lograr.

Riker contemplou-o com um olhar astuto.

O senhor é um homem poderoso disse ele.

Que quer dizer com isso?

Quero dizer que os seus serviços custam dinheiro.

Felizmente, sim respondeu Mason, arreganhando os dentes.

Pois muito bem. Houve alguém bastante interessado para se dispor a pagar as despesas do processo.

Mason inclinou a cabeça.

Claro, isso está a ver-se.

Muito bem, quem é?

Mason abanou a cabeça e sorriu.

Mauzinho!

Que significa isto ? perguntou Riker.

Significa que fazem muito bem. Estão a tratar de ganhar a vida, tal como eu. Perguntaram-me uma coisa que talvez lhes interesse saber. Eu lhes diria talvez, se pensasse que isso tem alguma relação com o crime. Mas não tem relação alguma, e portanto não é da conta dos meus amigos. Ao dizer isto sorriu-lhes cordialmente.

Isso ajuda a estabelecer o motivo disse Riker.

Quem se dispôs a gastar o dinheiro para meter aquele homem na cadeia devia ter bons motivos para matá-lo.

Mason sorriu.

Depois de me pagar cinco mil dólares para processá-lo

? Se ele tencionasse matar o homem não teria largado os cinco pacotes. Não me teria passado os cobres para ir depois matar o homem, de modo que eu não tivesse de trabalhar para fazer jus aos meus honorários.

Johnson sacudiu lentamente a cabeça.

Isso é verdade.

Assim mesmo disse Riker, eu preferiria saber quem é esse seu cliente.

Não duvido tornou Mason, mas eu prefiro não lhe dizer, e dá-se o caso que, de acordo com a lei, essa é uma das coisas que constituem segredo profissional.

O senhor não pode citar-me como testemunha, e por conseguinte não pode obrigar-me a responder a qualquer pergunta.

Mas não deixaremos de ser amigos por isso.

Riker fitou as pontas dos sapatos com ar carrancudo.

Não estou muito seguro disso.

-, De quê ? perguntou Mason.

De que não deixemos de ser amigos.

Não meta os pés pelas mãos. Eu estou a ajudá-los.

Revelei-lhes tudo quanto podia, sem trair um segredo que não é meu.

Então ele andava a aproveitar-se das pequenas, hem? disse Johnson num tom de beligerância.

Perry Mason riu.

Vá perguntar a Manchester se não é verdade.

Riker encarou-o com ar sombrio.

E o senhor não nos quer auxiliar ?

Riker respondeu Mason devagar, eu gostaria de ajudá-los nas suas pesquisas, mas não lhes posso revelar o nome do homem que me contratou. Acho que não estaria certo. Mas posso dizer o seguinte...

Interrompeu-se tamborilando com os dedos na secretária.

Vamos lá, diga tornou Riker.

Perry Mason deu um profundo suspiro.

Há uma pequena que veio de Cloverdale... a última vítima de Patton... uma pequena chamada Marjorie Clune.

Está aqui na cidade.

Onde ?

Não lhes sei dizer.

Está bem, continue disse Johnson. Que há então ?

Não sei muita coisa a seu respeito, mas estou informado disto: ela tem um namorado que veio de Cloverdale, um tal doutor Robert Doray. Ele hospedou-se no Midwick

Hotel, que fica na East Faulkner Street. É um rapaz sério, e tenho a certeza de que ele não seria capaz de alimentar ideias de homicídio. Mas se tivesse encontrado Frank Patton, pode ser que lhe ministrasse uma sova de criar bicho.

Agora é que o senhor nos está a dar uma pista disse Riker.

Mason arregalou os olhos, numa expressão de inocência infantil.

Sim, é verdade. Como lhes disse, estou pronto a ajudá-los no que me for possível. Que diabo, afinal, trabalham para ganhar a vida, tal como eu. A verdade é que eu nunca vou contra a polícia nos meus processos. A polícia prepara as suas provas da melhor maneira que pode e eu vou ao tribunal para tratar de demoli-las. São negócios... Se não conduzissem as suas diligências de modo a poderem efectuar a prisão, não me seria possível ganhar o meu dinheiro defendendo o réu. Ninguém paga a um advogado antes de se ver às voltas com a polícia.

Riker inclinou a cabeça.

É facto.

Pode dizer-nos mais alguma coisa sobre essa Marjorie

Glune? perguntou Johnson.

Perry Mason tocou a campainha chamando Della Street.

Della, dê-me aquela ficha do caso da fotografia misteriosa, sim ?

A rapariga inclinou a cabeça, dirigiu-se aos arquivos e um momento depois voltou trazendo um envelope de ofício.

Está bem disse Perry Mason.

Ela fechou a porta do escritório exterior, batendo-a com uma violência indignada.

Perry Mason tirou a fotografia do envelope.

Bem, rapazes, aqui está a fotografia de Marjorie

Clune. Acham que a reconheceriam se a vissem na rua ?

Riker deu um assobio.

Os dois homens ergueram-se e aproximaram-se para olhar mais de perto a fotografia.

Uma pequena com pernas assim proclamou Johnson nasceu para causar transtornos. Aposto como ela está envolvida nesse crime.

Mason encolheu os ombros.

Por meu intermédio é que os amigos não poderão prová-lo disse alegremente. Eu fui pago para processar

Patton. Visto que ele morreu, não tenho mais que fazer.

Podem comprovar as minhas declarações falando com Manchester.

Nesse meio tempo, seria bom que averiguassem o que está fazendo o tal doutor Doray. Quando os jornais derem a notícia, Doray poderá convencer-se de que nada mais o retém aqui e voltar para Gloverdale.

Eu pensei que ele tinha vindo procurar a rapariga disse Riker.

Mason alçou as sobrancelhas.

Ah, veio ?

Não foi o que o senhor disse ?

Acho que não.

Pois foi a impressão que tive.

Mason suspirou e fez um gesto expressivo com as mãos.

Oiçam, rapazes: não poderão provar nada por meu intermédio. Já lhes contei tudo o que sabia do caso isto

é, tudo o que não constitua violação de sigilo profissional.

Agora podem ficar conversando até às duas horas da manhã, que não obterão mais nada de mim.

Riker riu e pôs-se em pé. Depois de hesitar um momento,

Johnson também recuou a sua cadeira.

Podem sair por aqui disse Mason, abrindo a porta que dava para o corredor.

Quando ouviu enfraquecer ao longe o som dos passos dos dois investigadores, que tinham dobrado o ângulo do corredor a caminho do elevador, Mason bateu a porta, certificou-se de que esta ficara bem fechada, dirigiu-se para a outra porta, abriu-a e sorriu para Della Street.

Que foi que aconteceu ? perguntou ela, com a voz presa na garganta.

Patton foi assassinado.

Antes do senhor ir lá, ou depois?

Antes. Se fosse depois eu estaria envolvido.

E não está ?

Ele sacudiu a cabeça negativamente, sentou-se na beira da secretária de Della e suspirou.

Isto é, não sei se estou disse.

Della estendeu a mão serena e competente e pousou-a sobre a do advogado.

Não me pode dizer ? indagou em voz baixa.

Paul Drake telefonou-me pouco antes de chegar e deu-me o endereço de Patton. Morava no Edifício Holliday.

Fui lá. Combinei com Drake para que me seguisse cinco minutos depois. Quando ia entrar no edifício vi uma pequena bonita que ia a sair. Trazia uma capa branca e chapéu branco com uma borla vermelha: os sapatos também eram brancos. Tinha olhos azuis, e um olhar assustado. Reparei nela especialmente porque tinha um ar de culpa e parecia presa de um medo mortal. Depois, subi ao apartamento e bati à porta. Não me atenderam. Toquei à campainha. Nadai

Então experimentei o trinco e a porta abriu-se.

Fez uma breve pausa, com a cabeça curvada para a frente. A mão de Della premiu levemente a sua.

E então ? perguntou ela.

Então entrei. Aquilo tudo parecia-me suspeito. O primeiro compartimento era uma sala de estar, e encontrei nela um chapéu, uma bengala e um par de luvas. Tinha visto esses objectos pelo buraco da fechadura antes de entrar. Isso fazia-me crer que alguém estivesse em casa.

Mas por que foi entrar?

Queria um motivo para acusar Patton. Como ele não respondeu, pareceu-me que isso podia ser uma oportunidade.

Continue.

Na sala não havia nada, mas quando entrei no quarto de dormir encontrei Patton estendido no chão morto.

Tinha sido apunhalado com uma faca. Um espectáculo medonho.

Porquê?

Ele morreu instantaneamente, mas a ferida era enorme. Tinha cortado uma artéria logo acima do coração e esses ferimentos jorram muito sangue, como sabe.

Ela reprimiu um espasmo de horror que ameaçava contrair-lhe as feições e disse:

Sim, bem posso imaginar. E depois ?

Isso é mais ou menos tudo. Havia um casse-tête no chão, no outro quarto. Até agora não consegui explicar isso.

Mas, se ele foi morto com uma punhalada, que estava fazendo lá o casse-tête ?

Isso é que eu não sei. É bastante esquisito.

Avisou a polícia?

Foi aí que a sorte se virou contra mim. Limpei com o lenço os trincos para tirar as minhas impressões digitais e saí. Sabia que Paul Drake iria chegar dentro de cinco minutos e queria reservar-lhe a surpresa de encontrar o cadáver. Eu tinha outras coisas a fazer. Sabia que Drake avisaria a polícia.

«Quando ia saindo do apartamento ouvi bater a porta do elevador e umas vozes a falar. Uma mulher estava a falar duma rapariga com um ataque de nervos, e pelo que ela disse, deduzi que estava a dirigir-se a um polícia. Imaginei instantaneamente o que devia ter acontecido. Se me vissem sair do apartamento em que o homem fora assassinado, estava metido numa entaladela dos diabos. Se eu assumisse uma atitude defensiva e contasse ali mesmo o que tinha acontecido, ninguém me acreditaria. Não que fossem forçadamente acusar-me do crime, mas as aparências fariam crer que algum dos meus clientes cometera o assassínio, telefonando-me depois, que eu correra lá para eliminar certos indícios ou coisa parecida. Compreende em que camisa de onze varas isso me ia meter. Imaginei que alguma das pessoas por quem eu tinha sido pago para representar legalmente, estivesse envolvida no caso. Depois se o polícia me visse sair do apartamento, ou parado diante da porta como quem acabava de sair dali, eu não poderia mais defender pessoa alguma acusada do crime, porque o júri iria supor que o meu cliente era culpado e me contara o que havia acontecido.

Que foi que fez, então ? perguntou ela com vivo interesse. O senhor estava realmente numa situação difícil.

Só havia uma decisão a tomar, segundo me pareceu.

Era preciso reflectir depressa. Talvez pudesse ter agido de outro modo, não sei... Foi um desses momentos em que temos de tomar uma decisão sem perda de tempo. Tirei do bolso uma chave falsa e fechei a porta. Era uma fechadura simples. Depois, fingi ignorar que havia um guarda nas proximidades e pus-me a bater na porta com toda a força.

O polícia dobrou o canto do corredor e viu-me parado diante da porta, batendo estrondosamente. Premi uma ou duas vezes o botão da campainha, depois fiz um gesto de desânimo e voltei-me para me ir embora. Foi então que fingi avistar pela primeira vez o polícia.

Muito hábil! exclamou ela.

Até aí saí-me bem tornou Perry Mason judiciosamente, como se estivesse comentando uma partida de bridge em que tomara parte. Mas depois cometi o erro mais grave da minha vida.

O quê ? fez ela, arregalando um pouco os olhos e encarando-o.

Desdenhei da inteligência de J. R. Bradbury.

Oh ! murmurou ela, evidentemente aliviada; e, após um momento, acrescentou : Ele possui alguma ?

Ora se possui !

Uma coisa sei que ele tem: olhos travessos e ideias de jovem, Estava a oferecer-me um cigarro quando o senhor saiu, lembra-se ?

Sim. ..

Inclinou-se para me dar lume.

Não tentou beijá-la?

Não disse ela devagar e isso é que é esquisito.

Pensei que ele fosse fazê-lo. Ainda creio que tinha essa intenção, mas qualquer coisa fê-lo mudar de ideia.

Que foi ?

Não sei. ,

Terá pensado que você me iria contar?

Não, acho que não foi isso.

Mas que foi que ele fez?

Inclinou-se muito sobre mim para me acender o cigarro, Depois endireitou o corpo e caminhou para o fundo do escritório. Pôs-se a olhar-me como se eu fosse um quadro, ou melhor, como se procurasse encaixar-me num quadro imaginário. Foi um olhar todo especial. Estava a olhar-me, e ao mesmo tempo não estava.

E depois ?

Depois ele mudou repentinamente de expressão, riu-se e disse que achava melhor ir buscar duma vez os jornais e a pasta.

E foi-se ?

Sim.

A propósito, que fez ele dessas coisas ?

Deixou-as aqui.

Falou na pasta quando saiu ?

Não. Foi até para falar nisso que ele telefonou do hotel.

Onde foi que a Della pôs tudo ?

Ela fez um gesto indicando o armário.

Perry Mason levantou-se, dirigiu-se para o móvel, abriu a porta, tirou uma pasta de couro e uma pilha de jornais.

Examinou o que estava em cima. Era um número do

Cloverdale Independem e datava aproximadamente de dois meses atrás.

Tem a chave do armário ? perguntou Mason.

Sim, está aí.

Vamos ter estas coisas fechadas à chave enquanto as tivermos aqui!

Não prefere pô-las no cofre ?

Não me parecem assim tão importantes. Em todo o caso, gostaria de tê-las no seguro.

Ela caminhou para o armário, colocou a chave na fechadura e fez correr a lingueta.

O senhor ainda não me disse, lembrou ao advogado como foi que desdenhou da inteligência de Bradbury.

Tinha visto uma rapariga sair do edifício. Supus que ela estivesse envolvida de qualquer modo no crime, mas não sabia exactamente qual era o seu papel nos acontecimentos.

Isso não me interessava muito, a menos que se tratasse de Marjorie Glune. Mas, como queria certificar-me, telefonei a Bradbury.

E disse-lhe que Patton tinha sido assassinado?

Sim. Depois pedi informações sobre Marjorie Glune.

Sabia que, se fosse Marjorie Clune quem eu tinha visto sair do edifício, seria preciso agir depressa e chegar antes da polícia.

Mas era a única coisa que o senhor podia fazer, não

é assim ? Tinha de saber de quem se tratava e também o que resolvia Bradbury.

Creio que sim.

Eu bem desconfiei que havia coisa. Ele fez uma cara tão espantada quando o senhor telefonou! Não sei o que o senhor disse, mas pareceu-me que lhe causava um choque ...

Pensei que ele fosse largar o telefone. Começou a respirar pela boca e os olhos ficaram tão salientes que se podiam arrancar com uma caneta.

Pois essa é a situação em resumo disse Perry

Mason.

E qual é a sua dificuldade ?

A minha dificuldade é que não me atrevo a revelar à polícia que estive no apartamento. Se eu dissesse a verdade agora, iriam provavelmente suspeitar de mim. Tenho de sustentar a história da porta fechada. Por outro lado, esse pormenor da porta fechada pode adquirir, no caso, uma importância que não me convém.

Mas enfim, é à polícia que compete esclarecer isso, não é ?

Quem sabe ?... De uma coisa estou certo: Bradbury será um antagonista perigoso.

Antagonista! Como, se ele é um cliente? Por que havia de converter-se num antagonista ?

Pois essa é que é a questão. Foi aí que o cálculo me saiu furado.

Como assim ?

A pequena que vi sair do edifício era, de facto, Marjorie

Glune. Está de qualquer modo envolvida na história.

Não sei até que ponto. Bradbury tem uma paixão doida por ela e avisou-me que se Marjorie se vir em maus lençóis ele está disposto a sacrificar qualquer pessoa. Vai tratar de salvá-la a todo o custo.

Della Street olhou para cima pensativamente.

De repente, estendeu a mão para a agenda.

O senhor estava à espera dum recado duma rapariga que tinha prometido chamá-lo para dar o endereço ?

Sim, é Marjorie Clune. Ia mudar-se para um hotel onde eu pudesse conversar com ela. Ainda não tive ocasião de lhe falar e de saber o que aconteceu. Durante todo o lapso de tempo que estive com ela havia outra pessoa a escutar-nos.

Pouco antes do senhor entrar uma rapariga chamou pelo telefone e disse : Avise o senhor Mason que eu estou no Bostwick Hotel, quarto 408, e diga-lhe que verifique aquele álibi».

Só isso ?

Só isso.

Verificar que álibi ?

Não sei. Imaginei que o senhor soubesse.

Só há uma pessoa que tenha álibi neste caso, e esse

álibi já o verifiquei.

Quem é ?

Thelma Bell. Esteve a passear com um tal Sanborne, e eu comprovei isso antes de ela comunicar com ele.

Talvez seja esse o álibi a que a rapariga se referia.

Pois já o verifiquei.

Perry Mason olhou para a secretária franzindo pensativamente a testa, depois abanou a cabeça devagar.

Só podia referir-se a isso. Tornarei a verificar logo que tiver falado com Paul Drake, Ele há-de estar à minha espera. Ficamos de nos encontrar no apartamento de Patton, mas ele farejou os acontecimentos e pôs-se na sombra.

Quer que eu espere ? perguntou ela.

Não. Pode ir para casa.

Enquanto Della punha o chapéu e o casaco, passava com a borla de pó de arroz no rosto e dava uns toques de baton nos lábios, Perry Mason enfiou os polegares nas cavas do colete e pôs-se a caminhar de um lado para o outro.

Que há ? perguntou a secretária, voltando as costas ao espelho para observá-lo.

Estava a pensar no casse-tête.

Que tem ele ?

Quando me explicar por que motivo um homem mata outro com uma facada e depois passa para o quarto contíguo e atira um casse-tête para um canto, ter-me-á dado a solução de toda esta história.

Talvez se trate de um desses casos em que o criminoso forja indícios falsos. Podia levar um casse-tête com as impressões digitais de outra pessoa de uma pessoa que ele quisesse comprometer no crime. As impressões podiam estar no casse-tête há meses, e então...

E então ele certamente teria morto a vítima com o casse-tête. Não havia um só sinal na cabeça de Patton. Foi morto com uma facada, e morto instantaneamente. Aquele casse-tête tinha tanta relação com a morte do homem como o revólver que está aí na gaveta da minha secretária.

Então porque o deixaram lá ?

- Isso é que eu queria saber.

De repente, Mason deu uma risada.

Já tem bastante assunto em que pensar, e eu estou aqui a querer fazê-la detective!

Ela deteve-se com a mão no trinco da porta e contemplou-o com ar curioso.

Porque não faz como os outros advogados ?

Forjando provas falsas e subornando testemunhas?

Não, não me refiro a isso. Porque não fica a descansar no seu escritório, à espera de que as causas venham ter

às suas mãos ? Deixe a polícia tratar das investigações, e quando o libelo estiver pronto basta-lhe ir ao tribunal e tratar de destruí-lo. Por que há-de sempre querer ir para a linha de fogo e envolver-se pessoalmente no caso ?

Ele sorriu para a secretária.

Não sabe ? Pois eu também não. Só sei que sou feito assim. Muitas vezes consegue-se demover os jurados de condenarem um réu, porque a sua culpabilidade não está provada de maneira irrefutável. Mas eu não gosto desses veredictos. Gosto de provar cabalmente a inocência do acusado. Gosto de lidar com factos. Tenho a mania de meter-me na situação quando, justamente, o caso está mais aceso, no intuito de procurar avaliá-la antes que a polícia o faça. Quero ser o primeiro a descobrir os factos reais.

E finalmente, proteger algum desamparado disse ela.

Sim, claro. Isso faz parte do jogo.

Della sorriu-lhe da porta e disse:

Boa-noite.

 

Perry Mason marcou o número do escritório de Paul

Drake e ouviu a voz do detective dizer em tom cauteloso:

«Alô!»

Se não está só, não mencione nome algum. Aqui a costa está livre.

Estarei aí dentro de uns dez minutos. Pode esperar ?

Sim.

O advogado repôs o telefone no gancho, inclinou para trás a cadeira giratória e acendeu um cigarro. Depois tirou-o da boca e pôs-se a contemplar a fumaça que subia em lentas volutas. Estava completamente imóvel e a expressão de seus olhos era um tanto sonhadora. Já o cigarro ia pelo meio quando ele balançou devagar a cabeça, como se houvesse tomado uma decisão; tornou, então, a pô-lo na boca.

Fumou até terminar o cigarro, largou-o no cinzeiro e consultou o relógio.

Foi nesse momento que ouviu sacudir o trinco da porta que dava para o corredor.

Perry Mason caminhou para a porta e deteve-se com a mão no trinco.

Quem é ? perguntou.

Abra, Perry disse a voz de Paul Drake.

Perry Mason abriu e deixou entrar o detective.

Esteve lá ? perguntou.

Sim, imaginei que quisesse que eu observasse.

Como foi que soube do acontecido ?

Em primeiro lugar, fui retardado por um pequeno desarranjo do motor. O arranque enguiçou. Parecia que todo o motor estava emperrado. Eu não fazia ideia de qual seria o defeito. Comecei a fazer força ora na manivela, ora no arranque, mas de repente apareceu um homem que entendia do riscado. Disse que um dos carretos tinha saído do lugar. Que se eu engrenasse o carro em terceira e começasse a sacudi-lo para a frente e para trás o motor funcionava.

Segui o conselho: dito e feito!

Perry Mason considerava-o atentamente.

Continue disse.

Estou apenas a explicar-lhe porque me atrasei um pouco.

Quanto tempo se atrasou ?

Não sei. Cheguei lá justamente quando o meu amigo ia a sair de táxi. Passou por mim. Parecia estar com pressa.

Calculei que tivesse acontecido alguma coisa inesperada, que talvez houvesse um recado para mim no apartamento de Patton, ou que tivesse alguma surpresa. Subi com cautela.

Um polícia estava a dar instruções para abrirem a porta quando dobrei o canto do corredor.

Não se deu a conhecer ?

Não. Podiam precisar de mim para um álibi. Havia uma roda de curiosos, moradores do próprio edifício, e eu misturei-me com eles.

Não entrou ?

No apartamento de Patton, quer dizer ?

Sim.

Não. Não pude entrar. O carro de Segurança chegou logo. Mas eu tinha relações com um ou dois daqueles rapazes, e além disso havia os fotógrafos da imprensa.

Fiquei ao par de tudo.

Conte-me então o que soube disse Perry Mason.

Antes de continuar quero saber uma coisa: não tem nada para me contar?

Apenas que eu também me atrasei um pouco, e quando cheguei lá encontrei a porta fechada à chave. Olhei pelo buraco da fechadura e vi um chapéu, uma bengala e um par de luvas. Bati à porta e...

Conheço toda a história que contou aos guardas.

E que mais poderia haver ?

Drake sacudiu os ombros.

Que sei eu ?

Pois se conhece a história que eu contei, já sabe de tudo.

A história é muito aceitável disse Paul Drake; e ao cabo de um momento acrescentou: excepto num ponto.

Que ponto é esse ?

Vou referir-lhe os factos. Depois ligue-os entre si.

Vejamos tornou o advogado, laconicamente.

Paul Drake descansou as pernas num dos braços da ampla poltrona de couro. O outro braço serviu-lhe de travesseiro para a nuca.

Um chapéu, um par de luvas e uma bengala em cima da mesa da sala de estar. Eram de Patton. Uma mulher a que encontrou no corredor, e que por sinal se chama Sarah

Fieldman mora no apartamento da frente e ouviu uma rapariga com um ataque de nervos. Calculou que os ruídos viessem da casa de banho. Acha que a rapariga tinha-se encerrado ali e talvez algum homem estivesse a procurar entrar. O corpo estava caído no quarto de dormir, vestido com roupas de baixo, e tinha nos ombros um roupão de banho com uma manga enfiada e a outra não. A morte foi quase instantânea. Um único ferimento perfurante, produzido por uma grande faca de cortar pão. A faca era nova.

O homem foi apunhalado logo acima do coração. Um crime brutal; sangue espalhado por toda a parte. As duas portas fechadas à chave, a do quarto de banho aferrolhada pelo lado de dentro. Uma janela aberta, dando para uma escada de incêndio; sinais na cama, a indicar que um homem passara por cima dela, talvez, dirigindo-se para a escada de incêndio ou vindo dali.

«No quarto de banho a polícia encontrou um lenço de mulher, todo molhado como se tivesse servido de esfregão, ou como se tivesse caído no sangue e depois procurassem lavá-lo. Havia pingos de água misturada com sangue nas bordas do lavatório. Tinham feito o serviço à pressa. Dá a impressão de que uma mulher procurou limpar as manchas  de sangue da roupa, sem a tirar, e que não foi muito bem sucedida. Na sala de entrada a polícia encontrou um casse-tête.

Um momento interrompeu Mason. O meu amigo diz que a faca era nova. Como foi que a polícia verificou isso?

Vestígios do preço marcado a giz na lâmina. Além disso, levaram a faca para o apartamento envolta em papel, e esse papel parece ser o mesmo com que a embrulharam quando foi comprada. A polícia descobriu umas impressões digitais no papel, mas não prestam: quase está borrado.

As maçanetas das portas interiores não têm impressões.

Parece que alguém teve o cuidado de apagá-las. A maçaneta de fora tem demasiadas impressões para poder prestar algum serviço: as do polícia, da senhora Fieldman, as suas, talvez, e muitas outras.

Há suspeitas? perguntou Perry Mason.

Em que sentido?

Foi visto alguém a sair do apartamento?

Paul Drake considerou-o com uma expressão brincalhona no rosto, mas os seus olhos continuavam vítreos e absolutamente inexpressivos.

Por que pergunta isso?

Uma simples pergunta da praxe disse Perry Mason.

O guarda que estava de ronda falou numa mulher que procedeu de modo suspeito. Havia em cima da mesa dois recados telefónicos mandados por mulheres. A polícia teria dado mais importância a eles se não fosse uma coisa.

Se não fosse o quê,?

O seu amigo doutor Doray. O carro dele estava encostado ao passeio, defronte do edifício, quando se deu o crime.

Como é que a polícia sabe isso?

O carro estava diante duma bomba de incêndio e o agente do tráfego multou-o. Reparou que o carro era de

Cloverdale. Quando o crime foi participado à Secção de Segurança, ligaram para o escritório do promotor público, e algum menino inteligente de lá lembrou-se de que Carl

Manchester tinha tratado de um caso em que estava envolvido um homem chamado Patton. Então conseguiram falar com o próprio Manchester, descobriram que se tratava do mesmo homem, que o meu amigo estava interessado no caso, e que Bradbury e um tal doutor Doray também estavam interessados.

Por que não procuraram Bradbury ?

Porque Doray parecia ser uma pista mais prometedora.

Falaram com o agente que tomou nota do número do carro.

Perry Mason olhou para cima, pensativamente.

Mais alguma coisa?

Agora vou tocar no detalhe que me fez parecer um tanto esquisita a história que me contou.

Qual é?

A gerência do Edifício Holliday procura induzir os inquilinos a deixarem as suas chaves na portaria quando saem para a rua. Com esse fim, prendem à chave uma tabuleta de tamanho regular, com uma porção de escritos recomendando que se envie a chave pelo correio, selado, quando por inadvertência o indivíduo a leva consigo depois de se mudar.

Sim, já tenho visto coisas desse género.

Pois a polícia encontrou a chave do apartamento no bolso do paletó de Frank Patton. Evidentemente, o homem tinha aberto a porta e depois pusera a chave no bolso. Talvez se tivesse fechado por dentro, talvez não. A polícia acredita que não, e diz que se ele tivesse fechado a porta por dentro teria deixado a chave na fechadura. Julgam que

Patton tinha marcado um encontro com uma mulher talvez com duas mulheres, e que deixou a porta aberta para que elas entrassem sem bater.

Quem foi então que fechou a porta, na opinião da polícia ?

Paul Drake considerou Mason com os olhos vítreos e sem expressão. As suas feições permaneceram contraídas naquele semi-sorriso de humor malicioso que lhe era característico.

A polícia é de opinião disse ele que foi o assassino quem fechou a porta ao sair.

O assassino podia ter entrado pela escada de incêndio e saído pelo mesmo caminho.

Nesse caso, quem foi que fechou a porta ? perguntou

Paul Drake.

O próprio Patton.

Então por que não deixou ele a chave na fechadura, do lado de dentro ?

Porque a pôs maquinalmente no bolso.

Paul Drake encolheu os ombros.

Não acha que isto é plausível ? disse Perry Mason.

Muitas vezes nós fechamos uma porta por dentro e pomos a chave no bolso,

Não precisa argumentar comigo. Guarde o seu argumento para o júri. Eu apenas estou a contar-lhe o que há.

Quanto tempo se passou entre o ruído do corpo a cair no soalho e a chegada do guarda ?

Dez minutos, talvez. A mulher levantou-se, vestiu alguma roupa, desceu pelo elevador, viu o guarda, contou-lhe o que havia, convenceu-o de que ele devia ir averiguar e levou-o ao apartamento. Houve depois aqueles instantes em que estiveram falando consigo, e quando você se retirou o guarda foi buscar uma chave. Uns quinze minutos ao todo, talvez; mais ou menos dez minutos até ao momento em que o meu amigo se encontrou com o guarda no corredor.

Pode-se fazer muita coisa em dez minutos disse

Mason.

Não quando se trata de limpar manchas de sangue.

Foi preciso fazer aquilo muito à pressa comentou o outro.

A polícia tem o endereço de Bradbury ?

Não creio que a polícia vá preocupar-se muito com

Bradbury. Não sabem onde ele está hospedado, mas será fácil descobri-lo perguntando nos hotéis. Carl Manchester sabe perfeitamente que se pode descobrir o paradeiro do homem por seu intermédio.

Além disso, eu tratei de conservá-lo na sombra para que o nome de Doray entre primeiro em evidência. Quero que os jornais falem nos jovens namorados e não no velho.

O detective inclinou a cabeça.

A campainha do telefone retiniu prolongadamente.

Mason franziu o sobrolho.

Alguém sabe que você está aqui ? perguntou a

Drake.

O detective fez um gesto negativo.

Perry Mason estendeu a mão para o receptor, mas deteve-a por um instante no ar, enquanto reflectia. Depois, num gesto súbito, pegou no telefone e encostou-o ao ouvido.

Sim, alô ! Aqui fala Perry Mason.

Tenho um telegrama para o senhor Perry Mason disse uma voz feminina. Quer que o leia ?

Sim.

O telegrama foi passado nesta cidade. Diz:

«VERIFIQUE ÁLIBI ANTES QUE ELA POSSA FAZER QUALQUER COISA».

Está assinado com a simples inicial «M», de «melado» acrescentou a voz da operadora.

Muito obrigado disse Perry Mason.

Quer que mande uma cópia ao seu escritório ?

Sim, pela manhã tornou ele. E, sem largar o telefone, comprimiu o gancho para desligar.

Isto é uma coisa muito esquisita comentou vagarosamente.

Por que havia ela de me telegrafar, e por que havia de ser um telegrama desta espécie ?

Estendeu a mão que segurava o telefone e marcou rapidamente o número do Bostwick Hotel Execter 93821.

O detective observava-o com uma curiosidade despreocupada, quase indolente.

Bostwick Hotel disse uma voz.

Quer fazer o favor de ligar para o quarto 408? pediu Perry Mason.

A voz da telefonista respondeu imediatamente:

A hóspede do quarto 408 retirou-se há poucos minutos.

Tem a certeza ?

Absoluta certeza.

Ela estava à espera duma chamada minha disse

Perry Mason. Será demasiado pedir-lhe que ligue para o quarto ?

Vou ligar, mas não há lá ninguém. Ela retirou-se, como eu já lhe disse.

Perry Mason esperou alguns instantes, depois ouviu a voz a confirmar a afirmação anterior: ninguém respondia.

Comprimiu mais uma vez o interruptor e deixou-se ficar com os olhos fitos no telefone. Estava ainda a contemplá-lo quando a campainha rompeu em novo alarido.

Esta é a noite das telefonadelas... comentou Paul

Drake.

Perry Mason tirou o dedo do gancho e disse: «Alô» numa voz áspera, rápida e nervosa.

Era Della Street.

Felizmente encontrei-o ! Está sozinho aí ?

Sim, a não ser Paul Drake. Que se passa ?

Preste atenção, porque o caso diz-lhe respeito. Acabam de sair daqui dois investigadores. Quiseram chamar-me a contas. Foram muito brutos.

Porquê, Della?

Afirmam que eu telefonei ao doutor Doray para avisá-lo de que a polícia andava a procura dele e lhe disse que se fosse embora.

De onde vem essa ideia ?

Escute e trate de compreender bem porque parece-me que eles vão a caminho para interrogá-lo. Dizem que alguém telefonou ao doutor Doray, no Midwick Hotel, esta noite entre as nove e quinze e nove e meia, e me contou que tinham morto Patton; que Doray ia ser perseguido como suspeito, e que havia indícios contra ele e contra Marjorie Glune; que Marjorie se escondera e ia continuar escondida.

Por outras palavras, que a rapariga ia raspar-se e que seria um grande desgosto para ela se a polícia prendesse Bob Doray. Recomendaram-lhe que saísse da cidade e evitasse de ser interrogado pela polícia.

Perry Mason franziu o sobrolho para o telefone.

Por que julgaram que nós tínhamos relação com isso?

Porque a voz era de mulher. A telefonista do Midwick

Hotel escutou a conversa, e a pessoa que estava a falar disse que era Della Street, a secretária de Perry Mason.

Os olhos do advogado fizeram-se duros como dois globos de vidro esmerilado.

Diabo !

Pois foi assim... E não se esqueça que dois detectives vão a caminho do escritório. Prepare-se para recebê-los.

Obrigado, Della. Eles trataram-na com brutalidade?

Tinham essa intenção.

Não houve nada?

Não. Eu neguei em tom peremptório e indignado, e isso foi tudo o que conseguiram tirar de mim. Mas tenho medo do que eles possam fazer-lhe.

Porquê ?

Porque... o senhor sabe o que eu quero dizer.

Está bem. Vá dormir, Della, e deixe-os por minha conta.

Acha que tudo correrá bem?

Ele riu baixo, em tom tranquilizador.

Está claro que sim! Passe bem a noite.

Tornou a por o telefone no gancho e virou-se para Paul

Drake.

Aqui temos uma coisa para você deslindar. Uma mulher telefonou ao doutor Doray, no hotel, e disse ser Della Street, secretária de Perry Mason. Avisou-o que Frank

Patton foi assassinado no apartamento, que Marjorie Clune está comprometida no crime e que a polícia anda à procura dela; que Doray deve deixar a cidade enquanto é tempo; que, se os detectives descobrirem onde ele está e o interrogarem, isso pode tornar-se perigoso para Marjorie; que

Perry Mason será o advogado de Marjorie e quer que Doray se afaste de Nova York.

Paul Drake soltou um assobio.

E além disso prosseguiu Perry Mason estão a caminho daqui dois detectives para me submeter a um interrogatório. Faça ideia dos encantadores aspectos que este caso vai tomar.

A que horas foi esse telefonema ?

Por volta das nove entre as nove e nove e um quarto. Doray tinha acabado de chegar quando o chamaram.

Paul Drake olhou para Perry Mason.

Mas como diabo podia a sua secretária saber a essa hora que Frank Patton tinha sido morto ? A polícia mal tinha descoberto o crime!

Perry Mason devolveu-lhe o olhar com igual firmeza.

Esta, Paul, é uma das perguntas que os detectives me vão fazer.

Paul Drake consultou nervosamente o seu relógio.

Não se inquiete disse Perry Mason. Não deixarei que os investigadores o encontrem aqui.

E vai esperá-los?

As feições enérgicas do advogado continuaram sem expressão. Pareciam, de certo modo, um bloco de granito açoitado pelas intempéries. Os seus olhos pacientes não se moviam, cravados nos de Paul Drake.

Paul, vou ser franco consigo. Essa é uma coisa a respeito da qual não posso, de momento, suportar uma inquirição.

Empurrou para trás a cadeira giratória e puxou a aba do chapéu para os olhos.

Os dois homens saíram calados pela porta que dava para o corredor. Perry Mason apagou as luzes e a porta fechou-se com um estalido do trinco atrás deles.

Onde poderemos ir ? perguntou Perry Mason. Ao seu escritório ?

Paul Drake parecia inquieto e contrafeito.

Que é isso ? perguntou o outro. Está com medo?

Nós dois temos enfrentado juntos situações mais difíceis.

Agora procede como se eu estivesse com a varicela. Então, só porque dois detectives querem fazer-me uma pergunta que eu não tenho a menor intenção de responder, estou impossibilitado de ir ao seu escritório para cavaquear consigo

Se eles o encontrassem no meu gabinete o perigo talvez não seria muito grande, mas sem dúvida não vão incomodá-lo se me encontrarem no seu.

Não é isso. Eu tenho uma confissão a fazer. Ia falar quando tocou o telefone.

Uma confissão ?

Paul Drake confirmou com a cabeça e desviou o olhar.

Perry Mason deu um suspiro.

Muito bem. Vamos chamar um táxi e dar umas voltas.

 

Perry Mason fez o detective entrar primeiro no táxi.

Ande um bocadinho, depois dê umas voltas em roda do quarteirão disse ele ao motorista.

O homem observou-os um momento com curiosidade, depois pôs o carro em andamento. Perry Mason voltou-se para Paul Drake.

E então?

É uma situação muito especial começou o outro.

Quero que compreenda uma coisa, Perry. Eu não seria capaz de traí-lo, e muito menos iria trair um cliente. Procurei comunicar consigo e não pude. Falei com Bradbury, que é o meu verdadeiro cliente. A coisa vai render-me duzentos dólares e eu preciso do dinheiro. Os negócios têm andado um pouco parados e...

Deixe para depois as lamentações. Continue, diga-me o que aconteceu e ande depressa porque eu tenho que fazer.

Foi assim tornou Paul Drake, falando com rapidez.

Logo depois de averiguar o que se tinha passado fui ao meu escritório para esperar por si. Enquanto esperava esteve lá uma mulher. É uma rapariga bem vestida, simpática, com um olhar muito especial. Não posso explicar bem.

É uma expressão que não me agrada muito. Ela disse que sabia da morte de Frank Patton e...

Um momento. Como diabo essa mulher podia saber a tais horas que Patton tinha sido assassinado?

Não sei. Estou a repetir-lhe o que ela me disse.

Não lhe perguntou?

Perguntei.

Que disse ela?

Riu-se na minha cara e disse que o meu papel era dar informações e não pedi-las.

Como se chama ela?

Tem o nome de Vera Cutter, mas não quer dizer onde mora. Diz que comunicará comigo quando quiser notícias, mas que eu não devo procurá-la. Afirma saber que

Marjorie Clune está envolvida num crime de morte, que é amiga de Marjorie e que...

Espere aí. Vamos tirar isso a limpo. É uma mulher de vinte e quatro ou vinte e cinco anos, com olhos castanhos vivos, cabelos cor de mogno, pele tostada pelo sol e...

Não, não é Thelma Bell, se é a ela que você se refere. Eu conheço os sinais de Thelma Bell. Lembre-se que mandei um homem esperá-la no apartamento dela, para conseguir o endereço de Frank Patton. Não, esta mulher tem uns vinte e quatro anos, mas é francamente morena.

Tem olhos pretos, mãos compridas e finas que parecem muito desinquietas, pele branca e baça...

E as pernas? indagou Perry Mason repentinamente.

Paul Drake encarou-o.

Que quer dizer ?

Ela tem pernas bonitas e gosta de mostrá-las?

Os olhos de Paul Drake pareciam examinar meditativamente o rosto do advogado. Havia uma centelha adormecida sob a sua opacidade vítrea.

Um momento disse Perry Mason. Estou falando sério.

Por quê ?

Todas as mulheres relacionadas com Patton que nós conhecemos, são mulheres seleccionadas pela beleza das pernas. Ela utiliza-as para fins de publicidade. O que eu pergunto é se essa mulher não estaria relacionada com

Patton, em vez de Marjorie Clune.

Percebo. Sim, ela tem pernas bonitas. Cruza-as quando se senta e deixa ver um bom palmo de meia.

Continue.

Pois bem, ela queria que eu me encarregasse de zelar pelos interesses de Marjorie Clune. Parece conhecer o caso bastante bem, por dentro. Não me quis dizer por que estava tão bem informada. Diz que o doutor Doray tem um génio dos diabos; que ele tinha ciúmes de Patton quando este esteve em Cloverdale, e que Doray veio a Nova York, não para salvar Marjorie, mas para matar Patton.

Perry Mason olhou para o detective.

E telefonou a Bradbury?

Sim, liguei para o hotel e encontrei-o. Expliquei a situação e perguntei se podia aceitar o serviço. No começo ele disse que não, que eu devia trabalhar exclusivamente para ele, e não queria que eu andasse fazendo diligências para uma mulher e apresentando informações a ela. Vera

Cutter ouviu a conversa e disse que eu podia fazer todas as comunicações a Bradbury; que só queria que se fizesse justiça e estava disposta a ficar sem informações.

Você transmitiu isso a Bradbury ?

Sim.

Que disse ele?

Isso mudava o aspecto da situação no que lhe dizia respeito. Respondeu que se eu quisesse podia aceitar.

Você expôs-lhe a teoria da mulher sobre o caso ?

Expus.

Perry Mason pôs-se a tamborilar com as pontas dos dedos na janela do táxi. Subitamente, virou-se para Paul

Drake.

Está aí a explicação.

Explicação de quê ?

Daquela denúncia sobre o carro de Doray.

O detective teve um arranco de surpresa, mas dominou-se e ficou rigidamente imóvel.

Como sabe que se trata de uma denúncia ?

Essa história da Secção de Segurança ter comunicado com o auxiliar do promotor público e tudo mais, parece ser coisa demasiado rápida e eficiente para a polícia. Você sabe tão bem como eu que a eficiência da polícia, pondo de parte os trabalhos de rotina, baseia-se quase sempre em denúncias espontâneas ou forçadas. Ora bem: quem foi que o informou de que o carro de Doray estava parado nas cercanias ?

Para falar verdade e, a propósito, Perry Mason, este

é o único detalhe que eu guardei para mim foi essa mulher que me disse que o carro do doutor Doray foi visto perto do edifício na hora do crime, que estava encostado diante de uma bomba de incêndio e que o agente do tráfego o tinha multado.

Os olhos de Perry Mason luziam de excitação.

Diga-me: esse carro tinha alguma coisa de especial?

Sim, ao que me disseram. É um carro leve de viagem, mas tem uma porção de peças suplementares, como buzinas complicadas, faróis, etc. O doutor Doray acha que é uma boa propaganda ter um automóvel assim. Como você sabe, Cloverdale é uma cidade pequena e...

Perry Mason bateu no vidro para chamar o chauffeur.

Vou descer aqui disse.

E, voltando-se para Paul Drake :

Vai voltar ao seu escritório, Paul ?

Vou.

E essa mulher ainda está lá ?

Sim, estava comigo quando você telefonou. Disse que ia esperar pelo meu regresso.

O motorista encostou o táxi na calçada e abriu a portinhola.

Perry Mason desceu.

Ouça, Perry disse o outro, lamento muito esta história. Se lhe causar transtorno eu devolver-lhe-ei os duzentos dólares e pô-la-ei fora do escritório. Preciso do dinheiro, mas...

Perry Mason sorriu.

Está com remorsos, Paul ? Então pode pagar a corrida por mim.

Saiu do carro, fechando a porta e ficou a olhar o automóvel enquanto este dobrava a primeira esquina. Dirigiu-se então para um restaurante nocturno que tinha avistado, e onde uma pequena placa esmaltada indicava a existência de um telefone público. Correu para o telefone e marcou um número.

Escritório Cooperativo de Investigações disse uma voz de mulher.

Quem está tomando conta do escritório esta noite ? perguntou Perry Mason.

O senhor Samuels.

Faça o favor de chamá-lo. Quem fala aqui é Mason, o advogado. Perry Mason... Ele conhece-me bem.

Um momento depois ouviu o estalido da ligação e a voz untuosa de Samuels disse:

Boa-noite, senhor doutor. Em que poderemos servi-lo esta noite ? Estávamos esperando ansiosamente que nos desse algum trabalho...

Muito bem atalhou Perry Mason vou dar-lhes trabalho. A melhor maneira de mostrarem que merecem a minha preferência é executar este serviço bem e depressa.

Lá na Agência de Investigações Drake há uma mulher. Está falando com Paul Drake neste momento. Tem vinte e quatro ou vinte e cinco anos, é esbelta e bonita, com uma carinha nada repugnante. É morena, tem olhos cor de azeviche e cabelos pretos. Provavelmente sairá do escritório daqui a pouco. Quero saber para onde ela irá e o que vai fazer.

Não quero que a percam de vista, nem de noite nem de dia.

Arranje quantos homens forem precisos para o serviço. Não se importe com as despesas. Não faça comunicações pelo correio. Telefonarei para aí quando quiser saber alguma coisa. Guarde segredo e mexa-se.

A voz na outra ponta do fio tornou-se viva e eficiente.

Vinte e quatro ou vinte e cinco anos, esbelta, morena, olhos pretos. Na Agência de Investigações Drake.

Está bem. Seja rápido.

Desligou e correu para a rua, onde distinguiu no meio do tráfego as luzes de um táxi que andava à cata de fregueses.

Acenou com a mão e o carro encostou na calçada.

Leve-me ao Gilroy Hotel, depressa.

O movimento de veículos não era grande e a maior parte das sinaleiras estavam abertas, de maneira que o táxi chegou em pouco tempo ao Gilroy Hotel.

Fique por aí disse Perry Mason ao chauffeur.

Vou precisar de si. Talvez saia com pressa e não encontre outro carro. Se eu não aparecer dentro de dez minutos ponha o motor a trabalhar.

Penetrou no vestíbulo, cumprimentou com a cabeça o porteiro sonolento e tomou o caminho dos elevadores.

Nono andar disse ao empregado.

Quando o elevador parou, Perry Mason perguntou:

De que lado fica o 927 ?

O empregado apontou numa direcção, dizendo:

O primeiro para cá da luz da escada de incêndio.

Perry Mason enveredou pelo corredor, martelando o tapete com as suas passadas vigorosas. Encontrou o quarto

927 no sítio indicado. Girou sobre os calcanhares e avistou o número 925 sobre uma porta do outro lado do corredor.

Bateu com força nessa porta.

A bandeira estava aberta e a porta era de madeira fina.

Perry Mason ouviu ranger o lastro de uma cama. Tornou a bater. Passado um momento, pés nus ressoaram no soalho uma voz de homem disse atrás da porta:

Quem é ?

Abra tornou Perry Mason em voz áspera,

Que deseja ?

Desejo falar consigo,

A respeito de quê ?

Abra, já lhe disse!

O ferrolho correu e a porta abriu-se. Um homem de pijama, pálpebras inchadas pelo sono, uma expressão de surpresa e susto estampada na fisionomia, acendeu as luzes e encarou o visitante, pestanejando estonteado.

Perry Mason encaminhou-se para a janela, por onde entrava o vento fazendo ondular as cortinas. Baixou o caixilho, correu um rápido olhar pelo quarto e indicou o leito.

Deite-se de novo. Não faz mal que me fale da cama.

Quem é o senhor ? perguntou o homem.

Sou Perry Mason, o advogado. Conhece o meu nome?

Sim, li qualquer coisa a seu respeito.

Estava à minha espera?

Não, por quê ?

Pensei que talvez estivesse. Onde esteve esta noite das sete horas em diante ?

Isso interessa-lhe ?

Sim.

Faça o favor de dizer por quê.

Perry Mason encarou-o.

O senhor já deve saber que Thelma Bell foi presa e acusada de assassínio, não ?

O rosto do homem contraiu-se expressivamente.

Presa ?

Sim.

Quando ?

Há pouco tempo.

- Não, disse o homem eu não sabia.

Chama-se George Sanborne ?

Sim.

Esteve com Thelma Bell esta noite ?

Estive.

- Quando ?

Mais ou menos das sete e quinze, ou sete e meia, até

às nove horas.

Onde foi que se separaram ?

Na casa de apartamentos onde ela mora... Edifício

St. James, East Faulkner Street número 962.

Por que a deixou a essa hora ?

Zangámo-nos.

Porque motivo ?

Por causa de um homem chamado Frank Patton.

Foi sob a acusação de ter morto esse homem que a prenderam.

A que horas se deu o crime ? perguntou Sanborne.

Cerca das oito e quarenta.

Não pode ter sido ela.

Tem a certeza ?

Tenho.

Pode provar que ela estava com o senhor ?

Sim, creio que posso.

Aonde foram ? Que fizeram ?

Saímos por volta das sete e vinte, acho eu, e pensámos ir a um cinema. Resolvemos ir à segunda sessão.

Enquanto esperávamos fomos a um speakeasy e ficámos sentados a palestrar. De repente arma-se uma briga. Tínhamos tomado uns drinks. Creio que me exaltei. Andava aborrecido com essa história do Patton. Ela estava a deixar-se arrastar. O homem só pensava no corpo de Thelma. Ela tinha ganho um concurso de pernas e Patton falava nisso a toda a hora. Quem o ouvisse diria que as pernas eram a

única qualidade da pequena. Não há futuro nenhum em trabalhar como corista, como modelo de pintores ou em posar para fotografias de reclame que só aparecem em almanaques.

Foi esse o motivo da briga ? perguntou Perry Mason.

Foi.

Depois foram para casa ?

Fomos.

Conhece alguém no speakeasy?

Não.

Onde fica essa casa?

Sanborne desviou o olhar.

Eu não gostaria de comprometer o dono de um bar clandestino...

Perry Mason teve um riso seco.

Não se inquiete com isso. São ossos do ofício...

Todas essas casas dão «bola» à polícia. Trata-se de um crime de morte. Vamos, onde fica o tal bar?

Na rua 5, junto à esquina da Elm Street.

O senhor conhece o porteiro?

Conheço.

Ele lembrar-se-á de tê-lo visto?

Acho que sim.

Conhece o garçon ?

Não me lembro bem do garçon.

Tinha bebido antes de lá ir?

Não.

Que foi que pediram logo depois de se sentarem?

Tomámos um cocktail.

Que espécie de cocktail ?

Não sei, um cocktail...

De que espécie? Martini, Manhattan, Havaí ?...

Martini.

Os dois tomaram Martinis?

Sim.

E depois?

Depois tomámos outro.

E depois?

Depois comemos qualquer coisa... Uma sanduíche, parece-me.

Que espécie de sanduíche?

De presunto.

Os dois pediram sanduíches de presunto?

Sim.

E depois?

Creio que passámos a tomar whiskies misturados.

Não sabe ao certo?

Sei, sim.

Que espécie de whisky ? Whisky de centeio? Scotch

Bourbon ?

De centeio.

Tomaram os dois centeio?

Sim.

Com ginger ale ?

Com ginger ale.

Os dois?

Os dois.

Perry Mason suspirou com asco, pôs-se em pé e fez uma careta.

Eu devia ter suspeitado disto!

Que quer dizer?

É evidente que Thelma Bell tinha-lhe passado a coisa antes de eu telefonar esta noite. Quando eu disse que falava do Hospital de Pronto Socorro você mostrou-se à altura. Agora está a portar-se como um colegial.

Que quer dizer?

Essa história dos dois terem pedido a mesma coisa,

Os dois tomaram Martinis. Os dois comeram sanduíches de presunto. Os dois tomaram whisky de centeio com ginger ale. Bonita testemunha daria para estabelecer um álibi num crime de morte!

Mas eu estou a dizer-lhe a verdade!

O riso de Mason foi frio.

Sabe o que Thelma Bell contou à polícia?

Sanborne abanou a cabeça.

Interrogaram-na sobre os drinks continuou o advogado.

Ela disse que tinham ido a um speakeasy; que você tomou um Manhattan e ela um old fashioned; que tinham jantado antes, os dois; que não comeram nada no bar; só pediram uma garrafa de vinho com dois copos, depois brigaram e foram para casa.

Sanborne passou os dedos pelo cabelo desgrenhado.

Eu não sabia que eles iam fazer tantas perguntas sobre as bebidas...

Perry Mason dirigiu-se para a porta.

Não faça uso do seu telefone antes de amanhecer.

Compreende ?

Compreendo, sim, mas não seria bom que eu chamasse.

Ouviu bem o que eu disse ? Não faça uso do seu telefone antes de amanhecer.

Abriu a porta com um movimento vigoroso, bateu-a com força atrás de si e seguiu pelo corredor estreito em direcção ao elevador. Tinha as costas levemente curvadas, numa atitude de desânimo. O rosto, todavia, continuava sem expressão. O olhar era de fadiga.

A gaiola veio subindo a matraquear. Parou, e Perry

Mason entrou.

Encontrou a pessoa? perguntou o rapaz do ascensor.

Encontrei.

Se precisa de alguma coisa tornou o rapazito eu posso...

Não pode, não replicou Perry Mason quase com furor; e, após um momento, acrescentou com sombrio humorismo: Prouvera a Deus que pudesse !

O rapaz levou a gaiola para baixo e ficou a olhar curiosamente para Perry Mason enquanto este atravessava o vestíbulo a passos resolutos.

Edifício St. James, East Faulkner Street 962 disse

Mason numa voz levemente fatigada, ao abrir a portinhola do táxi.

 

Perry Mason transpôs a porta giratória do Edifício St. James. Atrás do Balcão da portaria estava sentado um negro, com os pés para cima, a cadeira inclinada de encontro à parede, a boca aberta. Roncava.

O advogado passou silenciosamente por ele e desprezou o elevador para subir a escada. Subiu os três lances num passo regular, lento e pesado, sem se deter para descansar.

Bateu com os nós dos dedos na porta do apartamento de Thelma Bell. Da terceira vez ouviu ranger a cama.

Abra, Thelma disse.

Ouviu-a aproximar-se da porta e puxar o ferrolho.

Thelma estava diante dele, fitando-o com olhos muito surpreendidos.

Que é ? Houve alguma coisa ?

Nada. Estou apenas procedendo a umas averiguações.

Que aconteceu com os guardas ?

Não repararam na capa nem no chapéu. Vieram aqui interrogar-me sobre um encontro que eu tinha marcado com Frank Patton. Não deram a entender que ele estava morto, e eu não dei a entender que sabia. Disse-lhes que tinha marcado um encontro com ele para as nove horas da manhã e que a minha amiga, Marjorie Clune, iria lá à mesma hora; que havia algum tempo que eu não via Marjorie; que não sabia onde ela estava a morar nem como poderia encontrá-la.

E depois ?

Andei caminhando aí pela rua para que eles vissem a capa e o chapéu, mas ninguém pareceu prestar atenção.

Perry Mason enviesou os olhos, reflectindo.

Vou explicar-lhe o que aconteceu. Eles vieram aqui porque viram aquele recado em cima da mesa, no apartamento de Patton. Queriam averiguar por seu intermédio.

Ainda não tinham esmiuçado os acontecimentos com o guarda da ronda. Mas eles fá-lo-ão mais tarde, e então alguém há-de lembrar-se dessa capa branca e do chapéu, e hão-de voltar aqui.

O senhor acha isso ? perguntou ela.

Mason balançou a cabeça, taciturno, e fitou-a bem nos olhos.

O seu álibi não a deixa inquieta ?

Oh, não! O álibi é correcto. Já lhe disse que não estive lá. Eu não seria capaz de mentir em tal assunto.

Conhecia bem a Margy ?

Não muito bem, isto é: faz apenas umas duas semanas que a conheço. Simpatizei muito com a pequena e procurei fazer o que pude por ela.

Não procuraria livrá-la de uma acusação de assassínio comprometendo-se a si mesma ?

Thelma Bell sacudiu a cabeça.

De assassínio, não. Ah, isso não !

Havia um recado no apartamento de Patton, para ele chamar Margy pelo telefone Harcourt 63891. É o número desse aparelho. Eu gostaria de saber se os investigadores...

Ah, eu já expliquei isso. Disse-lhes que Margy veio visitar-me aí pelas seis horas e eu não estava em casa; que encontrei um bilhete dela debaixo da porta.

Eles pediram para ver o bilhete ?

Pediram, sim.

Que foi que lhes disse ?

Disse que o tinha posto na bolsa e depois, como não precisava dele para nada, rasguei-o não sei bem onde, mas lembrava-me de que eu estava num speakeasy, aonde tinha ido com o meu noivo.

E eles receberam bem essa explicação ?

Sim, não pareciam importar-se absolutamente comigo.

Estavam interessados mas era em Margy e na história das pernas. Queriam saber se eu já a tinha ouvido chamar-se

«A Jovem das pernas da Sorte».

E que lhe respondeu ?

Respondi que sim, naturalmente.

Não sabiam que a Thelma venceu um concurso em

Parker City ?

Não. A meu respeito pouco sabiam. Queriam saber se eu conhecia bem Frank Patton. Disse que o conhecia muito pouco; que lhe tinha sido apresentada por Margy e que nós duas tínhamos combinado ir a casa dele; que Patton tinha trabalho para nós. Disse também que não iria lá se houvesse alguma razão para deixar de ir. Eles continuaram conversando ainda por algum tempo, e afinal disseram que havia uma razão para eu não ir lá, e era que Patton estava morto. Olharam-me bem para ver como eu recebia a notícia.

E como a recebeu?

Disse que não era surpresa para mim. Ouvira dizer que ele tinha o coração fraco e levava uma vida desregrada.

Então disseram que Patton tinha sido assassinado. Encarei-os, e disse: «Deus meu !» e sentei-me na cama. Arregalei muito os olhos e disse ainda; «Imaginem, e eu que tinha um encontro marcado com ele para amanhã! Meu Deus!

Que aconteceria se fosse ao apartamento sem saber de nada!»

E eles responderam alguma coisa ?

Não. Deram uma vista de olhos pelo quarto e foram-se embora.

E a Thelma estava com a capa e o chapéu ?

Estava.

Perry Mason enfiou os polegares nas cavas do colete e pôs-se a percorrer de alto a baixo o soalho atapetado.

Thelma Bell estava vestida com uma camisa de dormir e um roupão. Olhou para os pés nus e encolheu-os.

Estou com frio nos pés. Vou agasalhar-me.

O advogado abanou a cabeça.

Vai mas é vestir-se.

Para quê ?

Acho que deve ir viajar.

Mas porquê ?

Por causa da polícia.

Mas eu não quero!

Ser-lhe-ia muito conveniente.

Mas isso vai fazer com que eles desconfiem de mim.

Não tem um álibi ?

Tenho disse ela, devagar e com alguma hesitação.

Então não há motivo para recear.

Mas porque ir-me embora, se eu tenho um álibi ?

Tudo bem considerado, acho que seria muito conveniente.

Quer dizer que será conveniente para Marjorie?

Talvez.

Se é para ajudar Marjorie volveu ela, numa rápida decisão eu vou. Farei tudo por ela.

Acendeu uma lâmpada de leitura à cabeceira da cama, ajustou melhor o roupão na cintura e perguntou:

Quando é que eu devo ir ?

Agora mesmo, logo que estiver vestida.

Para onde vou ?

Ainda não sei bem.

O lugar faz diferença ?

Creio que sim.

Quer dizer que vai escolher o lugar para onde eu irei?

Sim.

Por quê ?

Quero tê-la ao alcance da mão.

Falou com Margy ? perguntou Thelma, fitando nele os olhos cálidos e inocentes.

E a Thelma, falou ?

Eu não ! tornou ela num tom de pronta surpresa.

Claro que não !

Perry Mason fez ponto abruptamente nas suas caminhadas.

Postou-se com as pernas afastadas e a mandíbula projectada para a frente, em atitude belicosa. Enxotou a fadiga que lhe fazia vergar os ombros e fixou na mulher os olhos animosos, em que se notava um lampejo sombrio.

Não me minta ! exclamou com violência selvagem.

A Thelma falou com Marjorie Clune depois dela ter saído daqui!

Os olhos de Thelma Bell fizeram-se maiores e tomaram uma expressão ofendida.

Ora, senhor Mason! exclamou ela em tom de censura.

Deixe-se desses fingimentos. Falou com Marjorie

Clune depois de eu ter falado com ela.

Thelma abanou a cabeça numa negação muda.

Falou com ela prosseguiu Mason com a mesma violência e disse-lhe que tinha conversado comigo; que eu tinha dado ordem para ela se afastar da cidade ou coisa parecida. Preveniu-a para que saísse de Nova York, ou contou qualquer coisa que a fez ir-se embora.

Não contei, não! retrucou Thelma, indignada.

Não disse coisa alguma. Foi ela que me avisou...

Ah! Foi ela que a avisou de quê?

Thelma Bell baixou os olhos. Volvido um momento, respondeu em voz baixa:

Que se ia embora.

Disse para onde ia?

Não.

Nem quando ia?

Tencionava partir à meia-noite.

Perry Mason consultou o relógio.

Há uns três quartos de hora...

Sim, mais ou menos isso.

Quando foi que conversaram ?

Aí pelas onze horas, creio eu.

Ela informou-a donde estava morando?

Não, apenas disse que tinha de ir-se embora.

E que mais ?

Agradeceu-me simplesmente.

Agradeceu-lhe o quê ?

Por ter procurado ajudá-la vestindo as roupas dela.

Não falou nalgum recado para mim?

Não. Disse que o senhor tinha feito recomendações para ficar aqui na cidade e não sair do seu quarto no hotel, mas tinham surgido circunstâncias que a impossibilitavam de atender o seu pedido.

Não precisou que circunstâncias eram essas?

Não.

Nem deu a entender nada?

Nem isso.

Não estará a mentir-me ?

Não estou, não disse ela, desviando, porém, o olhar.

Perry Mason ficou a contemplar a rapariga com ar sombrio.

Como sabia que a minha secretária se chama Della

Street ? perguntou à queima-roupa.

Mas eu não sabia!

Sabia, sim! Telefonou ao doutor Doray e fez-se passar por Della Street. Disse-lhe que era Della Street, a secretária de Perry Mason, e que ele devia ir-se embora.

Não disse tal coisa!

A Thelma telefonou-lhe.

Não telefonei!

Sabe onde ele está hospedado?

Ouvi Marjorie falar. Parece que é num hotel...

O Midwick Hotel, se não me engano.

Sim, parece ter muito boa memória disse Perry Mason.

O senhor não tem o direito de me fazer essas acusações! tornou ela, encolerizando-se subitamente, com os olhos a chispar. Eu não telefonei ao doutor Doray.

Ele chamou-a?

Não.

Não recebeu nenhum recado dele?

Não.

Marjorie não falou nele?

Ela tornou a baixar os olhos.

Não.

O doutor Doray gostava de Marjorie? Perguntou Perry Mason.

Acho que sim.

E ela gosta dele?

Não sei.

Gosta de Bradbury?

Não sei.

Ela não falava sobre os seus assuntos consigo?

Que assuntos ?

Assuntos de amor. Nunca lhe disse de quem gostava ?

Não, nós não tínhamos muita intimidade. Ela falava quase sempre de Gloverdale e da situação em que se metera por causa de Frank Patton. Dizia que tinha medo de voltar para Gloverdale, medo e vergonha; que não poderia mais levantar a cabeça diante daquela gente.

Perry Mason indicou o compartimento interior.

Vá vestir-se.

Não posso esperar pela manhã ?

Não. É possível que a polícia ainda venha aqui esta noite.

Mas o senhor não queria que eu falasse com a polícia.

Eu não devia fazê-los acreditar que era a rapariga de capa branca que o guarda viu sair do edifício?

Mudei de ideia. Vá vestir-se,

Ela pôs-se em pé, deu dois passos na direcção do guarda-roupa e subitamente voltou-se para enfrentá-lo.

É preciso que compreenda uma coisa, Perry Mason disse em tom vibrante. Eu sei que posso confiar no senhor. Sei que o senhor é dedicado aos seus clientes. Só tenho uma razão para fazer o que estou fazendo, e é ajudar

Marjorie. Quero proceder bem com essa rapariga.

Mason inclinou a cabeça gravemente.

Deixemo-nos disso agora. Vá vestir-se.

Voltou a caminhar de um lado para o outro no quarto enquanto Thelma Bell mudava de roupa. Quando ela apareceu, completamente vestida e trazendo uma maleta na mão, Perry Mason olhou para o relógio.

Não acha que uma pequena refeição lhe faria bem ?

Mason segurou-a pelo braço e tirou-lhe a maleta das mãos.

Então vamos.

Deixaram o apartamento. O negro da portaria estava acordado quando saíram. Encarou-os com olhos arregalados de curiosidade, mas o seu rosto tinha ainda um ar estremunhado e o olhar era de quem não compreendia.

Mason fez sinal ao seu táxi.

Siga a direito por esta rua, pare diante do primeiro restaurante que encontrar aberto e fique à espera.

O chauffeur encontrou um restaurante a poucos metros dali. Perry Mason entrou com Thelma Bell, pediu presunto com ovos para ele e, como a jovem fizesse um gesto de assentimento, mandou trazer para dois. O criado empurrou por cima do balcão um espesso copo cheio de água e pôs os talheres.

De súbito, Perry Mason fez um gesto de surpresa culpada.

A minha carteira ! exclamou.

Que tem ?

Não a tenho aqui. Com certeza deixei-a no seu apartamento.

Não me parece disse Thelma. O senhor não a tirou do bolso, pois não ?

Tirei, sim. Estava a procurar um endereço. Trago nela os meus cartões. Não quero que a polícia saiba que estive lá. Dê me as suas chaves. Vou buscá-la numa corrida.

Eu mesmo posso ir.

Não. Espere aqui. Não quero que volte àquele apartamento.

A polícia pode aparecer lá em qualquer instante.

Que acontecerá se eles encontrarem o senhor no meu apartamento ?

Direi que estava à sua procura.

Mas como explicará a chave ?

Só entrarei lá se a zona estiver livre.

Thelma deu-lhe a chave. Perry Mason fez um sinal ao criado.

Traga o presunto com ovos só para um, com bastante café. Suspenda o outro pedido até à minha volta.

Saiu rapidamente do restaurante e disse ao chauffeur do táxi:

Volte ao Edifício St. James o mais depressa que puder.

O homem deu uma volta completa com o carro ) e este ganhou velocidade. Em poucos instantes percorreu a rua deserta e parou diante do St. James. Perry Mason entrou a correr no vestíbulo. Desta vez o porteiro preto encarou-o com uma expressão de grande interesse. Mason subiu no elevador ao terceiro andar, abriu a porta do apartamento, fechou-a, aferrolhou-a depois de entrar, e começou a dar uma rápida busca nos aposentos. Não procurou nas gavetas, nem na cómoda da parede, nem nos lugares mais óbvios.

Vasculhou os cantos escuros do armário. Não lhe foram necessários mais que alguns segundos para encontrar uma chapeleira escondida atrás de uma pilha de roupas.

Tirou-a do armário, puxou o fecho e levantou a tampa.

Continha uma saia de mulher, um par de meias e alguns sapatos brancos. Esses objectos tinham sido lavados e estavam ainda molhados. A humidade embebera a própria Caixa, da qual se desprendeu um cheiro desagradável ao ser aberta.

As meias estavam limpas, mas havia na saia uma ou duas manchas que não tinham conseguido desaparecer, e os sapatos mostravam inconfundíveis nódoas pardas.

Perry Mason tornou a fechar a tampa da chapeleira e saiu do apartamento.

Mora aqui ? perguntou o negro quando ele passou.

Perry Mason passou-lhe um dólar de prata por cima do balcão.

Não, estou apenas ocupando por hoje o apartamento dum amigo.

Que número é ?

506 disse Perry Mason. E tratou de sair antes que o outro fizesse mais perguntas. Deu a chapeleira ao chauffeur.

Leve-me novamente ao restaurante, depois vá à

Estação Central, compre uma passagem para College City, despache esta chapeleira para o mesmo destino, traga-me a passagem e a senha e entregue-mas de maneira que a rapariga que está comigo não veja. Entendeu bem?

O motorista inclinou a cabeça.

Perry Mason estendeu-lhe uma nota de vinte dólares.

Carregue no acelerador.

Mason tornou a entrar no restaurante. Thelma Bell ergueu os olhos do prato de presunto com ovos.

Encontrou ?

Ele fez um gesto afirmativo com a cabeça.

Caiu-me do bolso quando estava sentado. Foi uma sorte tê-la encontrado. Estava bem à vista. A polícia iria apanhá-la e eu ver-me-ia entalado para explicar como apareceu lá a carteira, porque teria de afirmar e sustentar que não estive no seu apartamento.

O criado enfiou a cabeça por um buraco, da parede que comunicava com a cozinha e mugiu:

Deite esses ovos na frigideira e apronte o presunto!

Perry Mason sentou-se diante do balcão e mexeu o café que o criado pôs na sua frente.

Estava lá alguém ? perguntou Thelma.

Não, mas a todo o momento podem chegar.

Parece ter muita certeza disso.

E tenho.

Sabe disse ela, parando com um pedaço de presunto a caminho da boca : aconteça o que acontecer, nós temos que proteger Marjorie.

É para isso que me estão pagando, respondeu Perry

Mason

Houve um silêncio. O criado trouxe o presunto com ovos para Mason, que os devorou, terminando ao mesmo tempo que Thelma.

Muito bem, jovem. Agora vamos viajar.

Pode dizer-me aonde vamos ?

A qualquer lugar que não fique muito longe.

Tenho compromissos para posar amanhã e depois»

Mande-os à fava.

Não tenho dinheiro.

Mas terá.

Perry Mason terminou a última chícara de café, limpou os lábios com o guardanapo e olhou para ela.

Está pronta ?

Estou.

Tomou-lhe o braço e conduziu-a até à porta do restaurante.

O táxi estacou junto à calçada no momento em que eles saíam.

Aí tem, patrão disse o chauffeur, estendendo a mão com a palma voltada para baixo.

Perry Mason pôs no bolso a passagem e a senha.

Que é isso ? perguntou Thelma Bell, desconfiada.

Um recado que o chauffeur fez para mim.

E, falando ao homem :

O dinheiro que lhe dei chega para cobrir as despesas ?

Chega e sobra respondeu o motorista. E acrescentou ousadamente: Ainda me fica uma bonita gorjeta.

Mason pousou um olhar atento em Thelma Bell.

Posso confiar em si ?

Se é para bem de Margy, pode.

Mason tornou a tirar do bolso do colete a passagem que o chauffeur tinha comprado para ele e estendeu-a a Thelma.

Aqui está uma passagem simples para College City.

Vá para lá e hospede-se num hotel. Ponha o seu nome verdadeiro no registo. Se alguém fizer averiguações, diga que foi trabalhar como modelo, e nada mais, Se a coisa se complicar comunique comigo, mas não diga nada enquanto eu não lhe tiver dado instruções.

Isto é, se eu me vir às voltas com a lei ?

Sim, se se vir às voltas com a lei.

Haverá comboios a esta hora da noite?

Mason consultou o relógio.

Há um que sai daqui a vinte minutos. Tem tempo para apanhá-lo.

Passou a maleta ao chauffeur e ajudou Thelma Bell a embarcar.

Boa-noite, e seja feliz. Telefone para o meu escritório ou mande-me um telegrama. Dê-me o nome do hotel onde estiver e não vá pisgar-se.

Pisgar-me ? perguntou ela.

Não vá fugir. Preciso tê-la aqui perto.

Thelma estendeu a mão e sorriu para ele.

Por Margy sou capaz de tudo.

Perry Mason estreitou-lhe a mão. As pontas dos dedos estavam geladas. O chauffeur tomou a direcção do carro.

E não quer que eu diga a ninguém onde estive com

George Sanborne ?

Perry Mason sacudiu a cabeça e sorriu paternalmente.

Não, nós vamos guardar isso para surpresa... uma grande surpresa.

O chauffeur abriu a descarga. Perry Mason bateu a por- tinhola e ficou à beira do passeio olhando o automóvel que se afastava, até que a luzinha pálida desapareceu na volta de uma esquina. Voltou então ao restaurante.

Onde está o telefone ? perguntou.

O criado indicou um aparelho público, no canto mais afastado do salão.

Perry Mason dirigiu-se para lá, introduziu uma moeda na fenda, marcou o número do Escritório Cooperativo de Investigações e ao ouvir a voz da telefonista disse:

Quem fala é Mason. Ligue para o senhor Samuels, se ainda estiver aí.

Passado um instante ouviu a voz sonora e cordial de

Samuels.

Mason? Fizemos o que o senhor pediu. Encontrámos a mulher e não a perdemos de vista nem um momento.

Onde está ela agora ?

Há dez minutos que os meus homens comunicaram pelo telefone. Ela saiu do escritório de Paul Drake cerca de meia hora depois do senhor ter falado para cá. Foi ao

Montmartre Hotel, onde está hospedada sob o nome de

Vera Cutter, de Detroit, Estado de Michigan. Mas quando se registou não deu nenhuma indicação sobre a rua em que morava. Tomou um quarto no hotel a noite passada, cedo isto é, mais ou menos às nove e meia. Há uma circunstância interessante: as malas da mulher são bastante novas e marcadas com as iniciais E. E L. Uma das malas é de certo luxo, com um monograma de prata, e as letras do monograma são E. L. Isto revela-lhe alguma coisa?

Por ora, não, mas continuem a vigiá-la.

O senhor telefona-nos a pedir notícias ?

Sim. Certifique-se de quem está falando antes de prestar informações. Sempre que eu chamar fale um minuto comigo para ter a certeza de que não é outra pessoa a dar o meu nome, e não perca a mulher de vista um só instante.

Quero saber de tudo o que lhe diz respeito. É melhor pôr mais dois homens de serviço, e, se alguém for procurá-la no hotel, eles devem segui-la até descobrir de quem se trata. Oiça: e quanto às chamadas pelo telefone ? Não pode entrar em combinação com a telefonista do Montmartre

Hotel para que ela os deixe escutar as conversas?

Um dos meus homens já está a tratar disso. Naturalmente vai ser um pouco difícil, mas...

Passe por cima das dificuldades. O mundo está cheio delas. Eu também vivo a lutar com dificuldades. Escute essas conversas pelo telefone. Quero saber de tudo.

Muito bem, senhor Mason. Faremos o possível.

Perry Mason desligou com o dedo médio da mão esquerda, procurou outra moeda no bolso e chamou a Agência Drake.

Foi o próprio Paul quem atendeu.

Está aí à espera das chamadas, Paul ?

Drake riu.

Você quase adivinhou.

Tem alguma coisa para comunicar?

Tenho muita coisa para comunicar. Creio que pode ir para casa dormir, Perry.

Por quê ?

O mistério do crime está deslindado.

Como ?

A polícia encontrou a pista da faca.

Refere-se à faca com que o homem foi apunhalado?

Sim.

Que foi que descobriram?

O homem que a comprou.

Identificaram esse homem?

Sim, virtualmente. Obtiveram sinais que correspondem em todos os pontos essenciais.

Quem foi que comprou a faca ?

O seu amigo, o doutor Robert Doray, de Cloverdale replicou Paul Drake com alguma afectação.

Continue. Conte-me o resto.

Isso é mais ou menos tudo. A polícia seguiu a pista da faca. Têm trabalhado nisso desde que o cadáver foi encontrado e viram aqueles vestígios do preço marcado na lâmina. Não sei se sabe que além do preço de venda estava marcado o de custo. Houve uma alta nos preços desse artigo, e pelo preço de custo eles verificaram que a faca pertence a um stoque recente, que foi comprado já mais caro, visto que ela não tinha outra marca mais antiga, nem sinal algum de que houvessem apagado tal marca.

Continue disse Mason.

Primeiro imaginaram que a faca tinha vindo de uma loja de ferragens. O papel de embrulho era um pouco mais grosso do que o usado nos armazéns comuns. Tiraram da cama os principais comerciantes de ferragens, fizeram-nos chamar os seus vendedores pelo telefone para ver se descobriam um fiscal que use um código semelhante àquele.

As probabilidades de êxito pareciam muito fracas, mas a sorte ajudou-a. Quase às primeiras tentativas encontraram um negociante que conhece uma casa de varejo da Belmont

Street, onde se usa aquele código. O negociante lembrava-se de que essa casa tinha comprado uma dúzia de facas iguais

àquela, há menos de dez dias. A polícia comunicou com o proprietário, e este lembrou-se de ter vendido a faca e deu sinais muito precisos do freguês. São os sinais do doutor

Doray. A polícia foi às redacções dos jornais, descobriu uma que possui uma colecção dos jornais de Cloverdale, e esteve a folhear essa colecção até encontrar um retrato do doutor Doray. Ele tinha sido funcionário da Caixa de Beneficência e o seu retrato apareceu na imprensa. Era uma dessas fotografias de cliché, mas bastante clara para a identificação. O negociante identificara-o de maneira conclusiva.

Não tinha dúvidas de que o doutor Doray fora o comprador da faca. A polícia convenceu-se de que efectuou um trabalho brilhante e está a deitar a rede para apanhar o doutor Doray. Ele parece ter-se raspado, e incidentalmente isso pô-lo a si numa situação difícil.

Porquê? perguntou Mason.

Por causa daquele telefonema procedente do seu escritório, e em que avisaram o doutor Doray do que estava acontecendo. A polícia descobriu essa história. Aqui entre nós, previno-o que vai ver-se em palpos de aranha, e acho que o Bradbury também não está muito contente.

Quero que Bradbury vá para o diabo. Eu não telefonei a Doray, nem ninguém mais telefonou do meu escritório.

Bem, se afirma que não telefonou e se Della Street afirma a mesma coisa, a polícia não poderá fazer nada a menos que prendam Doray e ele conte uma história diferente.

Isso não modificaria em nada a situação. Doray, sem dúvida alguma, não conhece a voz da minha secretária suficientemente para tê-la reconhecido, ou para poder jurar que era ela. Ele só sabe que se tratava de uma mulher, que disse ser Della Street. Isso é a coisa mais fácil do mundo.

Eu podia telefonar a Bradbury, dizendo ser Paul Drake, e dizer-lhe para fugir para o estrangeiro.

Paul Drake não Parecia estar de muito bom humor.

Bem, eu perderia tempo se me metesse a discutir questões legais consigo. Mas há um ponto em que deve ter cuidado.

Qual é?

Marjorie Glune.

Que há?

A polícia averiguou que Marjorie Clune e o doutor Doray estiveram juntos nas proximidades da casa dela. Descobriram um homem que tem uma pequena confeitaria defronte da bomba de incêndio à qual Doray encostou o carro. Ele lembra-se de ter visto o carro parar e saírem um homem e uma mulher. Os sinais do homem são os do doutor Doray, e os da mulher correspondem com os de Marjorie Glune. O confeiteiro é um desses que gozam com os infortúnios alheios. Tem visto muita gente encostar o carro junto daquela bomba de incêndio e serem multados.

Gosta de ver a cara do indivíduo quando volta e encontra o aviso pendurado ao volante, e foi assim que observou bem de perto o nosso Doray e Marjorie Clune.

A polícia já encontrou alguma explicação para aquele casse-tête ?

Não, e provavelmente não vão estudar o caso muito a fundo.

Porquê ?

Porque não foi esse o instrumento do crime. O casse-tête tem tanta relação com o assassínio como a bengala que estava em cima da mesa menos ainda, porque a bengala pertencia a Patton, ao passo que ninguém sabe de quem era o casse-tête.

Por outras palavras, a polícia entende que o caso está encerrado, não é verdade?

Mais ou menos.

E o meu amigo pensa que eu estou enrascado?

Só quero avisá-lo. Sei que esteve a investigar as relações de Marjorie Clune com o caso. Não desejaria que se visse acusado de suborno e cumplicidade ou de favorecer a fuga do criminoso.

Já que estamos tratando disso, Paul, vou lembrar-lhe uma pequena lei: não se pode ser cúmplice de um crime que não foi cometido. Por outro lado, não há favorecimento criminoso quando se ajuda um inocente. Se o meu cliente não é culpado, eu tão pouco posso sê-lo.

Pensa que Marjorie Clune está inocente? Perguntou Drake.

Marjorie Clune replicou Perry Mason com grave dignidade é minha cliente. Posso saber de que está à espera, Paul ?

Que quer dizer ?

Você estava aí sentado junto do telefone. Está à espera de qualquer coisa. Posso saber o que é?

O detective respondeu em tom ofendido:

Oiça, Perry: eu disse-lhe que não aceitaria nenhum serviço contrário aos seus interesses. Tive esse entendimento com Bradbury, e parece-me que consigo também.

A incumbência que me foi dada por essa rapariga não vai de encontro ao trabalho de que você e ele me encarregaram.

Até me pareceu que as duas coisas combinavam muito bem.

Ela afirma que Marjorie Clune está inocente, mas que Doray

é o assassino; que Marjorie Clune quis proteger Doray e...

Já sei de tudo isso. Mas continuo sem saber de que está à espera.

Já lá ia chegar. Fui informado pela polícia que os detectives tinham interrogado Thelma Bell nas primeiras horas desta noite. Na ocasião não imaginavam que ela estivesse bastante envolvida no caso para que fosse preciso tomar alguma providência, mas acho que já mudaram de pensar a esse respeito. Acreditam que ela ocultou, ou que poderia prestar, alguma informação importante. Sei que vão prendê-la e estou à espera de que me comuniquem o que ela tiver revelado. Tem alguma objecção contra isso ?

Absolutamente nenhuma, meu bom rapaz. Continue

à espera de que a polícia a apanhe.

E, sorrindo brandamente, Perry Mason tornou a colocar o receptor no gancho.

 

O sol matutino inundava as ruas da cidade quando Perry Mason se levantou do canapé no estabelecimento de banhos turcos. Tinha a vista firme e clara. Acabava de ser barbeado e no rosto não se viam sinais de fadiga.

De uma cabine telefónica que existia no estabelecimento ligou para a Agência de Investigações Drake. Foi a secretária quem atendeu.

Paul Drake está aí ? perguntou ele.

Não, o senhor Drake saiu há meia hora, mais ou menos.

Sabe aonde ele foi ?

Foi para casa dormir.

Aqui fala Mason. Pode dizer-me quanto tempo ele passou aí esta noite ?

Oh, ficou até há pouco, quando saiu. Estava à espera dum telegrama. Contava receber alguma informação importante.

E recebeu ?

Não. Esperou a noite inteira e afinal resolveu ir dormir. Deixou-me um recado dizendo que o chamasse se aparecessem novidades no caso Patton. Ele está trabalhando para o senhor nesse caso, não é ?

Para mim e para os outros disse Mason com um sorriso.

Quer telefonar para o apartamento dele ? Vou dar-lhe o número.

Não, eu sei o número. Só queria ver se ele ainda estava aí. Não é nada de importante.

Desligou e, com a fisionomia aberta num vasto sorriso, dirigiu-se para o aposento onde havia deixado a roupa.

Vestiu-se, foi buscar os objectos de valor depositados na portaria e consultou o relógio. Eram oito horas e trinta e cinco minutos.

Voltou à cabine telefónica e marcou o número do seu escritório.

Bom dia, aqui é a secretária de Perry Mason disse

Della Street ’numa voz viva, fresca e eficiente.

Não cite nomes advertiu Perry Mason. Aqui é o prefeito de Podunk. Queria falar sobre o plano de pôr em circulação uns títulos para...

Oh, que sorte o senhor ter telefonado ! disse ela num tom aliviado.

Que há de novo ?

Uma porção de coisas.

Pode falar ?

Sim, aqui não há ninguém a não ser o senhor Bradbury, que eu pus na biblioteca de obras legais.

Que coisas são essas que tem para me Contar ? Fale com cuidado.

Tudo que diz respeito a Bradbury respondeu a secretária.

Que há ?

Precisa falar com o senhor, e já.

Mas eu não preciso falar com ele!

Pode ser que o senhor se engane. O homem está um pouco mudado. Lembro-me do que o senhor disse a respeito dele, e acho que tem razão. É um homem que tem de ser levado em conta, e está decidido a falar consigo. Diz que se não o vir dentro de meia hora isso poderá ser muito prejudicial para o senhor; e que, se o senhor me telefonasse, eu devia informá-lo disto. Encarregou-me também de lhe dizer que ele não está disposto a permitir que ameacem a segurança da mulher a quem quer bem.

Houve um intervalo de silêncio. Perry Mason franziu o sobrolho pensativamente.

Percebe o que ele quer dizer com isso ? perguntou Della.

Percebo, e acho que tanto faz ter uma explicação com esse camarada agora, como mais tarde. Vou acabar com essas imposições.

Suspeito que há detectives a vigiarem o escritório.

Sim, nem é para menos. Eles querem deitar-me a unha. Vou dizer-lhe o que terei a fazer, Della. Estou nos banhos turcos da avenida. Tome um táxi com Bradbury e venha cá. Vou ficar à espera na porta e seguirei com os dois.

Acha que não será perigoso eu sair com ele? Não lhe parece que os detectives vão desconfiar?

Não creio respondeu Mason. Além disso, preciso de uma testemunha. Convém que traga um lápis, e também um bloco de notas para o caso de ser necessário.

Vou entender-me com Bradbury agora mesmo.

Muito bem. Estaremos aí dentro de dez minutos.

Mas por favor, seja cauteloso.

Perry Mason ainda tinha a testa meditativamente franzida quando pôs o receptor no gancho. Saiu da casa dos banhos, subiu alguns degraus e mergulhou no tépido sol da manhã. Recuou para o vão duma casa e ficou a observar os apressados caminhantes que martelavam o passeio a caminho dos escritórios do centro comercial.

Os seus olhos perscrutavam os rostos com esse interesse vivo e agudo do homem que aprendeu a avaliar os caracteres num relance e é suficientemente curioso da natureza humana para dedicar-se a ler as histórias impressas nas fisionomias da multidão que se acotovela nas ruas da grande cidade.

De quando em quando, alguma mulher jovem e atraente, sentindo A força daquele olhar, lançava uma olhadela furtiva ou franca aos seus olhos penetrantes. Por vezes um homem, notando a perscrutação de Mason, fazia uma carranca de desagrado ou virava-se para fitá-lo de um modo que notava assaz claramente que o homem pensava ter surpreendido um detective em trabalho.

Havia talvez cinco minutos que Mason permanecia imóvel quando uma jovem loira se aproximou a passos apressados.

Sentiu-lhe intuitivamente o olhar e levantou os olhos.

De repente, sorriu. Perry Mason ergueu o chapéu.

Era a rapariga que atendia no balcão de charutos no vestíbulo do edifício.

Virou-se abruptamente para ele.

Por que está tão pensativo, senhor Mason?

Procurando resposta para uma pergunta, Mamie. Por que anda com tanta pressa?

A velha lida. .

Quer fazer-me um favor, Mamie ?

Pois não.

Se alguém lhe perguntar, esqueça que me viu aqui.

Fugindo dos clientes? Ou será da polícia?

De ambos respondeu ele, mostrando os dentes num sorriso.

Não o censuro por fugir ao seu novo cliente.

Perry Mason encarou-a.

Qual deles ?

O que anda sempre de fato castanho, gravata castanha e camisa castanha...

Refere-se a Bradbury ?

Sim, aquele que comprou os charutos que o senhor não fumou. Obrigado, senhor Mason. Eu sabia que o senhor não fumava charuto.

Ele riu.

Não podemos deixar escapar esse dinheiro que vem de fora, Mamie. Qual é o motivo da sua antipatia por

Bradbury ?

Nada. Apenas porque ele me parece um Don Juan de cidade pequena.

Que é que lhe dá essa impressão ?

Ora a maneira como ele procede... Fala-me todas as vezes que entra no edifício, e está sempre a fingir-se íntimo.

Refere-se ao que ele diz?

Oh, não! Não é tanto o que ele diz; é no tom da voz e nos olhares que se faz íntimo. Uma rapariga sabe sempre quando um homem tem interesse pessoal por ela.

Perry Mason considerou-lhe a figura esbelta com um olhar de aprovação.

Não posso censurá-lo por isso...

Ela sorriu-lhe francamente e disse:

Não me interprete mal, senhor Mason. Eu gosto que eles me olhem. Isso lisonjeia-me a vaidade e favorece o negócio. Mas do que não gosto são desses senhores de balcão que se julgam no direito de marcar encontros connosco, deixar pacotes para guardarmos e depois pensarem compensar o nosso tempo perdido com a compra de uma revista de cinco cêntimos.

Um táxi parou junto à calçada.

Lembre-se do que eu lhe disse, Mamie recomendou

Perry Mason, tirando o chapéu e dirigindo-se para o veículo.

Deus louvado! disse a rapariga. O homem mudou de fantasia hoje. Está todo de cinzento... E olhe para aquele sorriso de palerma. Ele pensará que nós viemos de alguma festa?

Perry Mason não deu atenção ao comentário. Tinha os olhos postos em Bradbury enquanto caminhava para a portinhola do táxi, abria-a e entrava.

Siga por esta rua fora, até encontrar uma boa travessa sem muito movimento. Então vire e pare quando encontrar um lugar.

Sorriu para Della Street e, enfrentando o olhar fixo de Bradbury:

O senhor é um tipo insistente, Bradbury.

O outro continuou a olhá-lo firme.

Sou um lutador, Mason observou em tom macio.

Mason estudou os frios olhos cinzentos, a mandíbula resoluta, e balanceou a cabeça num gesto de admissão.

Tirou do bolso um maço de cigarros, ofereceu um a Della

Street e viu Bradbury abanar a cabeça a recusar e puxar por um charuto. Depois, como Mason também se servisse de um cigarro, o outro riscou um fósforo na sola do sapato.

Mason acendeu igualmente um fósforo. Della Street agradeceu a Bradbury com um olhar e aceitou o fósforo de

Mason. Franzindo o sobrolho, Bradbury aplicou a chama ao seu charuto. Perry acendeu o seu cigarro depois de ter dado lume a Della e disse a Bradbury:

Então, que barulho temos agora? Ouvi dizer que ia fazer uma porção de coisas se não falasse comigo.

Tenho de fazer certas coisas respondeu Bradbury lentamente. Acho que tenho direito a uma conferência com um advogado que eu ajustei prontificando-me a remunerá-lo bem.

Não vamos discutir esse ponto. Obteve a sua conferência.

Que deseja ?

Desejo que defenda o doutor Doray da acusação de ter assassinado Frank Patton.

Mas não queria que eu defendesse Marjorie Clune?

Sim, mas também quero que defenda o doutor Doray.

Pensa que os dois vão ser pronunciados ?

Ambos foram formalmente acusados de homicídio.

Tive a notícia esta manhã. Formulou-se contra eles uma denúncia em regra e expediu-se mandato de prisão.

Que quer exactamente que eu faça?

Quero que defenda o doutor Doray respondeu Bradbury, separando as frases e que consiga a sua absolvição.

Talvez seja difícil fazer qualquer dessas coisas disse Perry Mason devagar, contemplando meditativamente a fumaça que se desprendia em espirais do seu cigarro.

Se os dois forem acusados como coopartícipes num caso de homicídio, é possível que por certas razões de ética eu não possa ser o representante legal de ambos. Por outras palavras, pode dar-se o caso de que Doray procure defender-se atacando Marjorie Glune, ou vice-versa.

Deixe-se de tecnicalismos, senhor advogado. A situação é crítica. É preciso tomar providências e sem perda de tempo. Quero que o doutor Doray seja absolvido. Você sabe tão bem como eu que não haverá nenhum conflito de interesses. A única possibilidade de estabelecer-se um conflito é que cada um procure assumir a culpa a fim de salvar o outro. Essa é a única coisa contra a qual tenho de me prevenir. Quero que defenda ambos para que isso não venha a acontecer.

Bem, nós discutiremos esses pontos de ética quando chegar a ocasião apropriada. Que eu saiba, nenhum deles ainda foi preso.

Isso é verdade.

Conhece todas as provas que a polícia tem em mãos?

Tem provas muito fortes disse Bradbury. Muito fortes contra o doutor Doray, mas duvido que o mesmo se dê com relação a Marjorie Glune.

E quer que eu consiga a absolvição de Doray ?

É o que tem simplesmente de fazer !

Suponhamos que se torne necessário nomear advogados diferentes para cada um dos réus ? disse Perry Mason, entrecerrando os olhos e encarando Bradbury com tão intensa concentração que eles pareceram adquirir, nas suas profundezas, um brilho de aço. Qual dos dois quer que eu defenda?

Tal coisa não será necessária, e eu não desejo discutir essa particularidade. Vou insistir para que defenda ambos, senhor advogado, e, como parte da defesa, esclareça a questão da porta.

Os olhos de Perry Mason estreitaram-se ainda mais.

As pálpebras quase chegaram a tocar-se.

A que porta ? perguntou ele.

A porta do apartamento de Patton, que estava fechada à chave. Há certos assuntos que eu não preciso esmiuçar, senhor Mason. Não sou exactamente um imbecil.

Aprecio o que fez. Reconheço que o fez no interesse de todos, tal como o entendia na ocasião. Entretanto, penso que a polícia estará em condições de provar que Marjorie Glune se encontrava no apartamento por volta da hora em que o crime foi cometido. Se a porta do apartamento não estava fechada, Marjorie podia ter entrado, encontrando o cadáver e fugindo tomada de pânico. Nesse caso, não seria culpada de crime algum, a não ser o de ter deixado de avisar a polícia. Se a porta do apartamento estava fechada, isso significaria que Marjorie Clune devia possuir uma chave e que ela teve bastante domínio sobre as suas faculdades para deter-se e fechar a porta quando saiu do apartamento.

Isso seria prejudicial para Marjorie prejudicial à sua causa e à sua reputação.

Mas tornou Perry Mason, falando devagar suponhamos que Marjorie Glune estivesse na casa de banho, fora de si. Suponhamos que alguém tivesse ouvido os seus gritos e tivesse entrado, matando Frank Patton?

Nesse caso disse Bradbury sem hesitar e num tom de voz que mostrava ter ele examinado cuidadosamente essa hipótese Marjorie Clune seria ainda a última pessoa a deixar o apartamento, a menos que ela tivesse saído da casa de banho enquanto o assassino se encontrava lá. Descobrir um cadáver e não dar alarme constitui, talvez, violação de algum artigo da lei. Mas surpreender um assassino em flagrante delito e ajudá-lo a fugir, isso já seria cumplicidade.

Não quero que ela seja acusada de cumplicidade.

O que se depreende de tudo isso, senhor advogado, é que a tal questão da porta fechada adquire uma importância cada vez maior.

Della Street remexeu-se, inquieta.

O táxi dobrou para uma rua tranquila e, depois de percorrer dois ou três quarteirões, parou junto ao passeio.

Está bem assim ? perguntou o chauffeur.

Está óptimo, respondeu Mason. A sua voz era igual e sem inflexão, como se estivesse a falar em sonhos. Os olhos contemplavam Bradbury com uma fixidez hipnótica.

Lentamente, acrescentou, no mesmo tom inexpressivo:

Entendamo-nos, Bradbury, Quer que eu defenda Marjorie

Glune e o doutor Doray.

Sim.

Serei pago por esse serviço.

Sim.

E, além disso, insiste numa absolvição.

Insisto numa absolvição volveu Bradbury. Nas presentes circunstâncias, senhor advogado, creio que tenho direito a isso. Se não houver absolvição ver-me-ei forçado a revelar certos factos que não preciso mencionar neste momento, mas que no meu modo de ver constituem um indício veemente de que a porta foi fechada por alguém depois que Marjorie Clune e o assassino deixaram o apartamento onde foi cometido o crime.

E isso é um ultimato disse Perry Mason.

Se prefere exprimir-se assim, é um ultimato. Não quero ser brutal, senhor advogado. Não deve pensar que eu o esteja atrapalhando, mas por Deus que hei-de lavar de toda a suspeita o nome de Marjorie Clune! Já debatemos tudo isto antes.

E quanto a Bob Doray ?

Espero a absolvição do doutor Roberto Doray.

Não dá conta disse Mason lentamente de que quase todos os factos deste caso se voltam positivamente para a culpabilidade do doutor Doray?

Está claro que dou conta. Por quem está a tomar-me?

Por um imbecil?

Muito longe disso volveu Mason num tom de certo respeito. Estava apenas a observar que a sua ordem é bastante espinhosa.

Bradbury puxou uma carteira do bolso.

Agora que já discutimos esse aspecto da situação, reconheço de muito bom grado que a ordem é espinhosa, mas estava preparado para pagar bem. Já lhe dei um depósito de mil dólares. Vou confiar agora à sua secretária mais a importância de quatro mil dólares. Pretendo remunerá-lo novamente quando o júri der a absolvição.

Com a destreza e a proficiência de um banqueiro, Bradbury contou as notas e passou-as a Della Street.

Esta olhou para Mason com expressão interrogativa.

Perry Mason fez um gesto de assentimento.

Muito bem disse ele em todo o caso nós entendemo-nos.

Isto já é um consolo. Mas quero que compreenda uma coisa, Bradbury. Eu tratarei de defender o doutor Doray e Marjorie Glune. Tratarei de conseguir a absolvição de ambos. Quero chamar-lhe a atenção, contudo, para a mesma coisa que me fez notar no tocante a si mesmo. Se é um lutador, eu sou outro. O senhor luta por si, eu luto pelos meus clientes. Quando começar a lutar por Marjorie Clune e pelo doutor Doray, lutarei, de facto. Não usarei de meias medidas.

O rosto de Bradbury continuou impassível, sem que um só músculo se contraísse.

Não me importa com o que fizer nem os meios de que lançar mão. O que eu quero é estar seguro de que essas duas pessoas serão absolvidas.

Não me passou de todo despercebida a alusão feita pelo senhor, disse Della Street, falando com veemência.

Acho-o abominável. O senhor Mason fez todo o possível por proteger a pessoa que o senhor o tinha encarregado de proteger. Ele fez coisas que...

Calma, Della advertiu Perry Mason.

Della notou-lhe o olhar e calou-se repentinamente.

Estou a ver que ela já sabe disse Bradbury.

Não está a ver coisa alguma, tornou Mason, soturno.

E convém que lhe diga desde já, Bradbury, que favorecerá muito mais a sua causa e a dos seus protegidos se não meter a sua colher na sopa. Nós entendemo-nos, e isto basta.

Isto basta repetiu Bradbury.

Além disso, não consinto que continue com essas ameaças veladas à minha secretária. Não quero que procure intimidá-la para obter novas entrevistas comigo.

Não lhe pedirei mais entrevistas. Já lhe apresentei o meu ultimato, e ele fica de pé. Quanto aos métodos, não farei comentário algum. Pretendo responsabilizá-lo estritamente pelos resultados.

Della Street abriu a boca para falar, aspirando o ar com força; vendo, porém, o rosto sombrio de Perry Mason, calou-se.

Mason olhou para Bradbury.

Muito bem, vou descer aqui. Pode levar Della Street ao escritório. Pague o automóvel.

Bradbury fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Dê-lhe um recibo do dinheiro depositado, disse Mason.

Não é preciso lembrar que o tempo vale ouro tornou Bradbury. A polícia está a reunir indícios muito perigosos para o doutor Doray.

Sabia que o tinham identificado como sendo o comprador da faca?

Surpresa e consternação estamparam-se na fisionomia de Bradbury.

Como? Está provado que foi ele quem comprou a faca com que mataram Patton?

Sim.

Deus meu! exclamou Bradbury. E derreou-se molemente nas almofadas do táxi, fitando no outro os olhos arregalados, com o queixo caído e os lábios entreabertos.

Sabia que descobriram o carro dele parado nas vizinhanças do local do crime?

Sim, sabia disso. Foi por essa razão que julguei perigosos os indícios reunidos contra ele. Mas esta prova agora, meu Deus... esta é concludente, não é ?

Perry Mason sacudiu os ombros.

Posso saber o motivo desta sua súbita ansiedade por ver Doray absolvido?

Isso é assunto que só me diz respeito.

Eu supunha que o doutor Doray era seu rival nas afeições de miss Glune, e que você não lhe tinha muita amizade.

Os meus sentimentos para com o doutor Doray não têm relação alguma com o nosso assunto observou Bradbury num tom de voz que sem dúvida pretendia ser de censura.

Você é advogado. Tem por profissão defender pessoas acusadas de ter cometido crimes e obter a sua absolvição. Como lhe disse, eu conto com a absolvição do doutor Doray, não menos que a de Margy. Se eles não forem absolvidos em virtude das provas apresentadas pela polícia, tenciono recorrer a outro advogado e apelar da sentença, chamando a atenção da justiça para os verdadeiros acontecimentos.

Os acontecimentos relativos à porta fechada, suponho.

Exactamente.

Em todo o caso, o senhor fala com bastante clareza disse Mason.

E, dirigindo um sorriso tranquilizador a Della Street:

Não se preocupe, Della. Já me tenho visto em apuros maiores.

Mas tornou a secretária, indignada como pode ele?...

Mason franziu o sobrolho e abanou a cabeça.

Della, o tempo está magnifico.

Sim? fez ela.

Sempre que conversar com Bradbury, desejo que fale sobre o tempo. O tempo é, em todas as ocasiões, um assunto interessantíssimo e praticamente inesgotável. Trate de fazer com que Bradbury se limite a falar nele.

Não se inquiete disse Bradbury, cujos lábios se entreabriram subitamente num sorriso franco. Eu sou um lutador, Mason. Não escolho mulheres para minhas adversárias. Mas não pude deixar de observar que a sua secretária conhecia perfeitamente o ponto a que me referi.

Isso parece indicar que...

Perry Mason atalhou-o em tom firme e insistente.

O tempo, senhor Bradbury, está delicioso para esta época do ano. Faz um calor desacostumado.

Bradbury inclinou a cabeça.

E, como ia acrescentar, não procurarei voltar contra si qualquer coisa que miss Street venha a dizer ou fazer.

Perry Mason abriu a portinhola do táxi, desceu para a calçada e considerou atentamente o céu límpido. Depois tirou o chapéu.

Pode ser que o tempo fique ainda nublado esta tarde disse ele.

Bradbury dispôs-se a dizer alguma coisa, mas a portinhola bateu cortando-lhe a frase ao meio. Perry Mason já se afastava na direcção da avenida.

 

Perry Mason tomou um táxi e mandou seguir para o aeroporto. Dez minutos após lá chegar, a rapariga encarregada da secção de informações punha-o em contacto com um aviador disposto a alugar à hora o seu veloz aparelho de cabina. O advogado examinou o piloto com um olhar aprovador. Puxou da carteira, tirou duas notas novas, e estendeu-as ao rapaz.

Está pronto para largar ?

Serão precisos uns poucos minutos para esquentar o motor disse o aviador. Está tudo pronto, isto é, os tanques estão cheios de gasolina e o avião foi inspeccionado.

Então vamos.

O piloto sorriu.

O senhor ainda não me disse aonde pretende ir.

Eu dir-lhe-ei isso quando estiver a aquecer o motor.

Saíram pela ampla faixa de cimento em direcção ao aparelho, um pequeno avião de cabina, de nariz rombudo, que rebrilhava ao sol.

Aí está ele disse o piloto.

Perry Mason considerou a máquina enquanto dois mecânicos a colocavam em posição, inseriam cunhas sob as rodas e se punham a aquecer o motor.

Há um avião de carreira que parte daqui mais ou menos à meia-noite, disse Mason. Quero seguir esse avião.

O piloto arregalou os olhos.

Mas nunca conseguiremos alcançá-lo ! A estas horas ele deve estar perto de...

Eu não quero alcançá-lo, só quero segui-lo. Qual é a primeira escala ?

Summerville.

Quanto tempo levaremos para chegar lá ?

Cerca de uma hora.

Essa será também a nossa primeira escala disse

Perry Mason. Talvez não seja preciso ir mais adiante, mas também pode ser que sim.

O piloto abriu a porta da pequena cabina.

Suba e sente-se. Já esteve no ar alguma vez ?

Mason fez um gesto afirmativo.

- Não se preocupe com os solavancos advertiu o aviador. Não têm nenhuma importância. Os novatos às vezes impressionam-se.

Deu uma volta em redor do aeroplano enquanto Mason se instalava no assento. Depois, subiu para o comando, fechou cuidadosamente a porta da cabina e fez um aceno aos mecânicos, que retiraram as cunhas das rodas. O piloto abriu a válvula e o avião rolou com estrondo.

Durante a hora que se seguiu, Perry Mason permaneceu quase imóvel no assento. Os seus olhos observavam o panorama com o mesmo interesse abstracto que ele punha às vezes na contemplação das volutas de fumo lançadas pelo seu cigarro.

Uma ou duas vezes, o aviador deitou um olhar intrigado ao passageiro pensativo. Conservou-se calado, porém.

Aí está Summerville disse afinal.

Perry Mason considerou o aeroporto com atenção e contentou-se em sacudir levemente a cabeça.

O piloto virou o bico do avião para baixo e o aparelho desceu rapidamente. Quando as rodas tocaram no chão,

Perry Mason gritou-lhe:

Não pare muito perto do hangar.

O piloto fechou a válvula e o aeroplano rolou, zumbindo.

Por fim parou. Dois homens aproximaram-se caminhando no duro chão asfaltado que servia de pista.

Perry Mason desceu do avião, foi ao encontro dos homens, examinou-os num relance e perguntou abruptamente :

Algum dos senhores estava de plantão quando passou por aqui o avião de carreira aquele que chega mais ou menos à uma hora da manhã ?

Estava eu disse o mais alto.

Mason chamou-o de parte e baixou a voz.

Estou procurando uma rapariga que viajou nesse avião. Tem vinte e poucos anos, olhos muito azuis, corpo esbelto e bem feito, e...

Não havia rapariga nenhuma no avião disse o homem em tom positivo. Os únicos passageiros eram dois homens. Um deles desembarcou aqui, o outro seguiu viagem.

Perry Mason fixou o homem e uma ruga se formou na sua testa. Os olhos do advogado tinham um brilho duro que fizeram o mecânico desviar os seus por um instante.

Dê-me os sinais desses homens, sim ?

Um deles era um sujeito gordo e careca. Calculo que tenha uns cinquenta anos. Esse camarada estava com uma camoeca... Tinha os olhos meio vidrados e é só do que me lembro. Seguiu para diante. O outro, o que desceu, era um rapaz e usava uma fatiota azul-marinho. Tinha cabelo e olhos pretos. Perguntou se chegaria outro avião antes de amanhecer. Eu disse que não. Ele pareceu hesitar um pouco, depois perguntou como podia arranjar condução para ir ao Riverview Hotel.

Os olhos de Perry Mason desviaram-se da fisionomia do mecânico e fixaram-se ao longe. Esteve alguns segundos absorto nos seus pensamentos. Depois tirou do bolso uma nota de cinco dólares.

Poderá arranjar-me um táxi ?

Há um à espera. Venha por aqui.

Mason voltou-se para o aviador.

Passe uma vistoria no seu avião. Esteja pronto para partir.

Em que direcção ? perguntou o homem.

Não sei ainda. Espere, que lhe direi quando voltar.

Seguiu o mecânico, que o conduziu ao táxi.

Riverview Hotel disse Perry Mason ao chauffeur.

Enquanto o automóvel corria, o advogado permaneceu reclinado nas almofadas, os olhos imóveis, pacientes, sem prestar nenhuma atenção aos edifícios que deslizavam à direita e à esquerda. Quando o táxi parou defronte do Riverview

Hotel, Perry Mason pagou ao chauffeur, entrou na portaria e dirigiu-se ao empregado.

Estou numa situação bastante crítica disse-lhe.

Devia encontrar-me com um homem aqui, para uma conferência de negócios. O homem veio de Nova York no avião que chega à uma hora e vinte da manhã. Nunca tive boa memória para nomes e esqueci-me de trazer a correspondência relativa ao negócio. O chefe de vendas vai pôr-me na rua se souber disto. O senhor não me poderia ajudar ?

O empregado consultou o registo.

Creio que sim. Demos um quarto, por volta da uma e meia a um senhor Charles B. Duncan.

Que quarto ? perguntou Perry Mason.

É o apartamento dos noivos... o 601, respondeu-lhe o empregado, sorridente.

Perry Mason ficou a considerá-lo com um olhar firme e sério, durante um segundo ou dois. Os seus olhos calmos e pacientes perfuravam os do outro.

Só o diabo se lembraria desta disse ele, voltando-se para o elevador.

Saiu no sexto andar, perguntou a direcção e encaminhou-se para o 601. Dispunha-se a bater imperiosamente na porta, quando uma ideia súbita lhe deteve a mão alçada.

Estendeu os dedos e bateu docemente, imitando as pancadas tímidas de uma mulher.

Passos rápidos ressoaram atrás da porta. Um ferrolho correu, a porta abriu-se de golpe e Perry Mason viu diante de si os olhos sôfregos do Dr. Doray.

O rosto passou por uma gama de emoções decepção, temor, cólera.

Perry Mason entrou e fechou a porta com o pé.

Doray deu dois ou três passos para trás, com os olhos cravados no rosto de Perry Mason.

O apartamento dos noivos, hem ? disse este.

O Dr. Doray sentou-se repentinamente na beira do leito, como se os seus joelhos tivessem perdido a força.

Então ? disse Perry Mason.

O homem ficou calado.

Perry Mason voltou à carga, com uma nota de impaciência na voz.

Vamos, fale duma vez !

A respeito de quê?

Conte toda a história.

O Dr. Doray tomou uma respiração profunda e fixou

O advogado.

Não tenho nenhuma história para contar.

Que está a fazer aqui?

Fugi. A situação parecia estar a tornar-se perigosa para mim. Recebi o seu recado e vim para cá.

Que recado?

O que a sua secretária me transmitiu, dizendo-me que saísse da cidade e me conservasse escondido.

De modo prosseguiu Perry Mason em tom sarcástico que o senhor embarcou no avião da meia-noite, veio para este hotel e tomou o apartamento dos noivos !

É verdade respondeu Doray obstinadamente.

Registei-me no apartamento dos noivos.

Porque razão Marjorie Clune não veio ter consigo?

O Dr. Doray pôs-se em pé.

O senhor não pode falar assim! Isso é um insulto a Marjorie! Ela não é dessas. Nem lhe passaria pela ideia semelhante coisa.

Oh, então não iam casar? Eu pensava que pretendiam casar-se e passar a lua de mel aqui.

O outro corou.

Convença-se que eu não sei nada da vida de Marjorie Clune. Vim para cá porque as coisas me pareciam estar mal paradas. Não houve combinação alguma para que ela viesse ter comigo.

Eu bati à porta tornou Perry Mason devagar com as polpas dos dedos, e tão de leve como uma mulher segura de conhecer a pessoa que virá atendê-la. Você correu para a porta cheio de ansiedade, e quando me viu mostrou-se grandemente desapontado.

Tive um choque. Ignorava que a minha presença aqui fosse conhecida por alguém.

Perry Mason enganchou os polegares nas cavas do colete e, projectando um pouco a cabeça para a frente, pôs-se a caminhar de um lado para outro.

Já lhe disse que o senhor está completamente enganado continuou o Dr. Doray. Concebeu uma ideia errada a respeito...

Cale a boca retrucou Perry Mason, calmamente, sem emoção. Estou a reflectir. Não me interrompa.

Caminhou pelo quarto em silêncio, durante mais de três minutos. Depois virou-se subitamente para enfrentar o outro. Tinha ainda os polegares nas cavas do colete; a cabeça estava atirada para a frente, o queixo protuberante.

Fui um idiota em vir aqui.

Sim ? fez o Dr. Doray, surpreso.

Perry Mason inclinou a cabeça.

Já estou bastante enfronhado neste caso. Vim sobretudo porque esperava encontrar Marjorie Clune. Queria dar-lhe uma ajuda. Sabe Deus quanto ela vai necessitar disso! Por que razão Marjorie não veio consigo no avião da meia-noite ?

Já lhe disse que não sei dela. Não a vi nem lhe falei.

Perry Mason abanou a cabeça com alguma tristeza.

Raciocinemos disse. Nenhum dos amigos de Marjorie tem notícias dela. Você alarmou-se. Bradbury, igualmente. Os dois amam-na. Bradbury tem dinheiro e é mais velho. Mas o doutor aproxima-se mais da idade dela.

Há um ano que exerce a clínica de dentista e não juntou muito dinheiro. Teve de pagar as suas instalações e está formando clientela. Pediu emprestado o que pôde e veio

à cidade procurar Marjorie. Além disso, queria entregar

Patton às mãos da justiça.

«Veio no seu automóvel de Cloverdale. É um carro que dá nas vistas. Comunicou com Marjorie Clune de que modo, não sei. Soube por ela onde Patton vivia. Ignorava isso quando falou comigo. Por conseguinte, deve ter falado com ela depois dessa ocasião. Não conhecia nenhum meio de comunicar com Patton, a não ser por intermédio de Marjorie Clune. Não tinha dinheiro para pagar a detectives.

Marjorie Clune tinha marcado um encontro com Patton.

O seu carro foi multado por estar estacionado junto a uma bomba de incêndio. É caso para apostar que conduziu Marjorie Clune ao encontro com Patton.

«Encontraram Patton assassinado. O instrumento do crime foi uma faca. A polícia seguiu a pista dessa faca.

Descobriram a loja de ferragens onde ela foi comprada.

O dono dessa loja identificou a sua fotografia como sendo a do homem que comprou a faca.

Doray empalideceu subitamente.

Não vou declarar nada disse.

Não é preciso tornou Mason num tom calmo e deliberado. Quem faz as declarações sou eu. Encontrei Marjorie Clune. Fiz com que ela se mudasse para um hotel e registasse o seu nome verdadeiro. Disse-lhe que esperasse por uma chamada minha. Ela não devia sair do quarto.

Dava a impressão de ser uma mulher que cumpre o que promete.

«Sucedeu qualquer coisa que fez quebrar a promessa.

Fugiu-me. Ora, eu sigo-lhe os passos e descubro que ela tencionava tomar o avião da meia-noite. Sigo o avião da meia-noite e descubro que o doutor viajou nele. Deduz-se daí, naturalmente, que o senhor foi a causa de Marjorie ter violado a promessa que me fez. Muito bem: qual foi o argumento que empregou ?

Não empreguei argumento algum. Já lhe disse e tornarei a dizer que nada sei a respeito de Marjorie Clune.

Então ela não ficou de vir ter consigo aqui ?

Não.

Não lhe falou pelo telefone?

Não.

Mason encarou-o com olhos brilhantes e ferozes.

Como é tolo! Um dentista duma cidade pequena, que exerceu a sua profissão durante uns três ou quatro anos, pensar que pode passar por cima num caso de assassínio, da minha especialidade! Por muito jovem e estúpido que seja, eu não me lembraria de discutir consigo sobre a maneira de obturar um dos meus dentes. E no entanto, o senhor tem a audácia de me fazer frente e pôr em perigo a liberdade da mulher que ama, enquanto procura mentir-me !

Não estou a mentir-lhe, já disse !

Bagas de suor luziam na testa e no nariz de Doray.

Perry Mason respirou fundo.

Marjorie Clune pareceu-me uma menina boa e honesta, vítima das circunstâncias. Resolvi prestar-lhe toda a ajuda possível. Não fiquei sentado no meu escritório, esperando que a prendessem para depois ir ao tribunal e defendê-la.

Marchei para a linha de fogo e arrisquei a minha segurança para auxiliá-la. Queria pô-la em condições de fazer frente à polícia. Queria habilitar-me para examinar a fundo o seu caso e descobrir o que havia nela de perigoso o que ela devia esquecer e o que precisava acentuar. Queria instruí-la sobre o que a polícia iria fazer quando a apanhasse. Mandei-a para um lugar onde me seria possível fazer tudo isso.

Mas eis que o senhor aparece e dissuade a pequena, simplesmente porque queria trazê-la a Summerville para divertir-se com ela!

Doray fez um movimento para levantar-se da cama.

Perry Mason estendeu o braço e, com rudeza, fê-lo voltar à posição primitiva.

Sente-se, e bico calado! Ainda não terminei de falar.

Ela ficou de viajar consigo no avião da meia-noite. Não veio. Bem pode imaginar o que isso significa. Significa que a polícia a apanhou nalguma parte e que a tem presa. Provavelmente «enterraram-na» nalguma cidade do interior.

Isso quer dizer que nós não teremos nenhuma pista para encontrá-la, enquanto a polícia não a tiver feito passar por toda a sorte de interrogatórios violentos que se possam imaginar. Vão empregar todos os recursos que conhecem.

«E quando ela falar, não terá papas na língua. Há-de revelar tudo, inclusive que o senhor está aqui em Summerville, registado no hotel sob o nome de Charles B. Duncan.

Isto significa que pode esperar a chegada da polícia a qualquer momento. Agora ria, se puder.

O Dr. Doray tirou um lenço do bolso e enxugou o suor da testa.

Meu Deus ! exclamou.

Perry Mason ficou calado.

Mason descansou os cotovelos nos joelhos. As suas mãos penderam molemente entre estes, a cabeça inclinou-se para a frente, os olhos fixaram-se no tapete.

Posso afirmar-lhe uma coisa, sob minha palavra de honra: eu não a persuadi a vir para cá. Foi...

Foi o quê ? perguntou Mason vivamente.

Doray recobrou o domínio de si.

Foi uma ideia absolutamente errada que o senhor teve. Marjorie Glune não prometeu vir ter comigo aqui.

Ela não sabe onde eu estou. Não faz ideia onde me poderá encontrar. Não comuniquei com ela desde que vim de Cloverdale.

Só para lhe mostrar que triste mentiroso é... começou Perry Mason.

Nesse momento soaram passos rápidos no corredor e alguém bateu à porta.

O Dr. Doray cravou em Perry Mason um olhar cheio de consternação.

Perry Mason abriu de golpe a porta, sem que Doray tivesse tempo sequer de fazer um movimento.

Marjorie Clune surgiu diante dele, com profunda emoção no olhar.

O seu rosto tomou uma expressão de susto e incredulidade quando viu o advogado.

O senhor ! exclamou.

Perry Mason inclinou a cabeça e afastou-se um pouco para o lado. Marjorie avistou o Dr. Doray.

Bob, que foi que aconteceu? gritou ela.

Doray alcançou a porta em quatro largas passadas, tomou a jovem nos braços e estreitou-a contra o peito.

Perry Mason dirigiu-se para a janela, no outro lado do quarto, e, metendo as mãos nos bolsos do casaco, pôs-se a olhar taciturnamente para a rua.

Porque não tomaste o avião, querida? murmurou o Dr. Doray. Pensámos que tinhas sido presa.

Houve um acidente no táxi. Perdi o avião. Vim no primeiro comboio.

Ainda de costas para eles e o rosto voltado para a janela, Perry Mason gritou por cima do ombro:

Por que não seguiu as minhas instruções, Marjorie?

Por que não ficou no seu quarto ?

Não pude disse ela.

Porquê ?

Não posso explicar muito bem.

Acho muito importante que me diga respondeu ele, sempre de costas.

Houve um curto silêncio. O Dr. Doray começou a cochichar ao ouvido da rapariga.

Perry Mason ouviu sibilar os ss e virou-se repentinamente.

Acabe com isso disse ao Dr. Doray. E fixando os olhos nos olhos azuis de Marjorie, acrescentou: Seja franca, Marjorie. Isso é importante.

Ela abanou a cabeça, pálida até aos lábios.

Perry Mason observou-a com ar astuto.

Muito bem, então sou eu quem vai falar. A Marjorie telefonou ao doutor Doray. Ele convenceu-a a vir cá, em sua companhia. Das duas uma : ou combinaram casar e fazer frente juntos ao perigo, ou queriam esconder-se aqui. Qual é a verdade ?

Não disse ela em voz firme e resoluta está enganado, senhor Mason. Nenhuma das suas suposições é verdadeira.

Fui eu que telefonei ao doutor Doray, lembrando que viéssemos para cá. Liguei para o hotel dele. Já se tinha ido embora. Deixei uma mensagem, pedindo que me viesse ver no Bostwick Hotel. Ele tinha saído do Midwick, mas telefonou para lá e recebeu o recado. Então telefonou-me. Eu perguntei-lhe se queria vir passar uma semana aqui. Alugaríamos o apartamento dos noivos e ficaríamos todo esse tempo juntos.

Depois eu entregar-me-ia à polícia.

Aqui? perguntou Perry Mason.

Não, naturalmente que não. Não revelaríamos a ninguém onde tínhamos estado, íamos voltar para a cidade.

E ambos se entregariam à polícia?

Ela fez que sim com a cabeça.

Porque razão quebrou a promessa que me tinha feito e fez esta viagem?

Ela fitou-lhe um olhar firme e franco.

Porque queria passar uma semana com Bob respondeu.

Perry Mason considerou pensativamente aqueles olhos inflexíveis.

Eu sei que a Marjorie não é daquelas raparigas capazes de fazerem isso. Tem-se encontrado muitas vezes com o doutor Doray, no decurso de meses, e contudo nunca mostrou o desejo de passar um fim de semana com ele pelo menos, creio que não. Agora, de repente, quer conceder-lhe uma semana inteira e pouco se lhe dá o que possa acontecer depois...

Ela chegou-se a Perry Mason e pousou-lhe as mãos nos ombros. Os seus lábios estavam pálidos e trémulos.

Por favor, não lhe diga. O senhor vai compreender.

Por favor, cale-se. Logo compreenderá se tiver tempo para pensar.

Perry Mason franziu o sobrolho para ela e os seus olhos semicerraram-se.

Por Deus, creio que compreendo! disse.

Por favor, não lhe diga pediu Marjorie Glune.

Perry Mason afastou-se da rapariga, caminhou para a janela e deixou-se ficar de mãos enterradas nos bolsos.

Ouviu o Dr. Doray correr para Marjorie e apertá-la entre os braços.

Que é, meu amor ? Por favor, Dize-me.

Não, Bob. Vais fazer-me chorar. Lembra-te da nossa promessa. Dar-te-ei uma semana, mas não deves perguntar nada. Prometes que... Parecia a voz de um speaker comunicando as últimas notícias.

A voz de Perry Mason interrompeu-lhes abruptamente a conversa em voz baixa.

Um automóvel acaba de parar no outro lado da rua disse ele. Um homem alto, com um chapéu preto de abas largas, está a descer neste momento. É um característico xerife do interior. Há outro homem que está a descer do lado oposto. Veste uniforme e tem na cabeça um boné de polícia com galão de oiro. Parece ser um chefe de polícia.

Os dois homens estão a conversar e a olhar cá para o hotel.

O quarto ficou silencioso de súbito, atrás de Perry Mason. Este continuou, no mesmo tom de voz impassível:

Estão a atravessar a rua na direcção do hotel. Não tenho dúvidas de que eles foram informados e vieram procurá-los aos dois ou, pelo menos, um. Talvez tenham seguido a pista de Marjorie. Talvez tenham descoberto que o doutor Doray veio para cá de avião.

Mason girou sobre os calcanhares para fazer face aos dois.

O Dr. Doray estava muito direito, o rosto branco como cal. Tinha Marjorie Clune ao seu lado. Os lábios da rapariga estavam firmes, os olhos cravados em Perry Mason.

Muito bem disse ela se não há outro remédio, vamos oferecer o peito às balas. O senhor encarrega-se de nos defender, senhor Mason. Está entendido, não é verdade?

Está entendido tornou Perry Mason. E vou fazê-lo à minha maneira.

Como ? perguntou ela.

Os olhos de Perry Mason pousaram-se no Dr. Doray.

Terá de fazer o papel de homem. Vou atirá-lo aos lobos, e tem que aceitar a coisa de bom grado. Vai prometer-me uma coisa. Será a tarefa mais difícil que já fez na sua vida, mas fá-la-á.

É para ajudar Marjorie? perguntou Doray calmamente.

Sim.

E o que é ?

Vai conservar-se absolutamente calado.

E que mais ?

Perry Mason teve um riso grave.

Isso já é muito. Eles vão lançar mão de todos os ardis que conhece a psicologia policial. Vão dizer-lhe que Marjorie Clune se confessou culpada do crime; que o fez porque o ama e quer salvá-lo. Farão com que acredite nisso! São capazes até de lhe mostrar uma declaração assinada, que dirão ter sido entregue por ela. Eles perguntar-lhe-ão se é homem, ou se prefere esconder-se atrás das saias dela e deixar que ela pague com a vida um crime que você cometeu. Tentarão tudo que puderem imaginar para obrigá-lo a falar. Quero que prometa o seguinte : não procure reflectir se se trata ou não de fantasias. Prometa que deixará a questão da defesa de Marjorie inteira e absolutamente entregue a mim; que; se conservará calado, digam eles o que disserem. Dir-lhes-á que eu sou o seu advogado e que deseja falar comigo. Fará isso?

Farei.

Perry Mason virou-se para Marjorie.

Onde está a sua mala ?

Deixei-a na estação. Queria certificar-me primeiro de que Bob estava aqui.

Bravo! Venha comigo.

Doray cingiu-a com os braços e estreitou-a sofregamente contra si. Buscou-lhe os lábios.

Perry Mason abriu a porta bruscamente.

Não há tempo para carinhos. Venha, Marjorie.

Ela prendeu-se ainda um momento ao Dr. Doray. Depois correu para o advogado.

Feche a porta à chave, Doray disse este. Não tenha pressa de abri-la.

Segurou a rapariga pelo braço e ambos saíram correndo pelo corredor. Perto do lugar onde este fazia cotovelo, PerryMason bateu a uma porta. Alguém se moveu no interior do aposento.

Esconda-se depressa! disse Mason, empurrando

Marjorie para trás da parede.

Foi bater a outra porta. Não obteve resposta. Tirou do bolso um molho de chaves falsas e inseriu uma na fechadura.

A porta abriu-se e ele conservou-a aberta.

Entre disse a Marjorie.

A rapariga transpôs o limiar. Acabava de entrar quando a porta do elevador se abriu com ruído e dois homens, um deles com o uniforme da polícia e boné agaloado de oiro, o outro com um chapéu preto de abas largas, vieram pelo corredor na direcção de Perry Mason.

Este moveu-se calma e pausadamente. Entrou no quarto, colocando-se de maneira que as suas amplas espáduas, ocultassem Marjorie Clune à vista dos polícias. Devagarinho procurou a porta com o pé, deu-lhe um impulso e fechou-a.

Dentro do armário há uma tabuleta, Marjorie. É de papelão, com as palavras: «PEDE-SE O FAVOR DE NÃO INCOMODAR». Vá buscá-la para mim.

Ela abriu o armário, encontrou a tabuleta e estendeu-lha sem falar.

Perry Mason estava junto à porta, com a cabeça levemente inclinada para o lado, na atitude de quem escuta.

Pela bandeira aberta vinham os sons de uma conversação.

Depois os sons tornaram-se mais indistintos ainda e acabaram por desvanecer-se de todo.

Perry Mason abriu a porta, pendurou o cartaz de papelão no botão exterior do trinco, tornou a fechar a porta e aferrolhou-a. Inspeccionou o quarto.

Está desocupado. Provavelmente ninguém virá perturbar-nos aqui durante algum tempo.

Que vai fazer? perguntou Marjorie.

Procurarei safar-me daqui e levá-la para a cidade, de onde você não devia ter saído. Esteja quieta. Não diga nada. Sente-se naquela cadeira.

Ela obedeceu.

Perry Mason deixou-se ficar encostado à porta, escutando.

Decorreram alguns minutos.

Finalmente, uns passos fortes ressoaram no corredor.

Perry Mason trouxe uma cadeira para junto da porta, subiu e aproximou o ouvido da bandeira aberta.

Vozes ergueram-se, numa inflexão interrogativa. A cada pergunta seguia-se uma pausa. Nada de resposta...

Perry Mason suspirou aliviado, desceu da cadeira e sorriu para Marjorie Clune.

É possível que ele seja bastante homem para aguentar o repuxo.

Oh se é! disse a jovem.

 

Perry Mason tinha os olhos fitos em Marjorie Clune.

Sentada na funda poltrona, incómoda pelo excesso de estofo, ela devolvia-lhe o olhar sem pestanejar.

A Marjorie resolveu casar com Bradbury disse ele devagar porque pensava que Bob Doray tinha cometido o crime.

A rapariga não respondeu.

E Bradbury continuou Perry Mason devia entrar com o dinheiro para a defesa de Doray. Não é assim ?

Naturalmente. Estava com medo que o senhor deixasse escapar alguma palavra que o fizesse compreender tudo. Ele seria capaz de enfrentar dez condenações à morte, mas não me deixaria fazer esse sacrifício.

E por que o fez ?

Porque era o único meio de arranjar dinheiro para a defesa de Bob.

E parece-lhe que ele precisa tanto de que o defendam?

Claro que sim, O senhor, que é advogado, deve saber.

Então prosseguiu Perry Mason lentamente Bradbury comunicou consigo depois que nós dois falámos e a Marjorie prometeu-lhe que ficaria à espera no Bostwik Hotel.

Ela continuou a olhá-lo firmemente, sem dizer nada.

Chamou Bradbury, ou foi ele que lhe telefonou?

Esta é uma pergunta à qual não posso responder disse ela.

Porquê ?

Simplesmente porque não posso.

Por outras palavras, prometeu não responder ?

Nem isso lhe direi tão pouco.

Perry Mason meteu os polegares nas cavas do colete e pôs-se a caminhar pelo quarto.

A polícia prendeu Bob Doray e está a tentar fazê-lo  falar neste momento. Se querem que eu o defenda, é da mais alta importância que eu conheça todos os factos. Não os quere revelar ?

Quero...

Muito bem, então comece.

Ela falou em tom baixo e firme. Uma ou duas vezes prendeu-se-lhe a voz na garganta, mas os seus olhos mantiveram-se secos e ela dominou-se até ao fim.

Fiquei orgulhosa, naturalmente, quando venci o concurso em Gloverdale. Já me imaginava uma grande estrela de cinema. Creio que tudo aquilo me subiu à cabeça. Afinal, sou ainda nova. Estranho seria se não me envaidecesse.

«Fui para Nova York cercada de um resplendor de glória. Descobri então que tinha caído numa armadilha.

Naturalmente o meu amor próprio não permitiu que eu escrevesse para casa explicando o que acontecera. Convenci-me de que tinha qualidades para vencer e resolvi ficar em Nova York. Patton tinha-me enganado, persuadindo-me de que eu seria uma estrela de cinema. Pois bem, eu mandá-lo-ia para o diabo e tornar-me-ia estrela por minha própria conta.

Perry Mason fez um gesto de compreensão.

Eu ignorava prosseguiu ela -,- o que tinha pela frente. O senhor deve saber como são essas coisas, porque mora na cidade. Depois de ter recorrido a tudo conheci

Thelma Bell, por intermédio de Frank Patton. Eu mantinha-me em relações com Frank Patton porque esperava obter dele algum auxílio financeiro. Os meus recursos estavam a acabar-se e eu precisava de dinheiro para continuar em Nova York.

Siga atalhou Perry Mason. Eu sei de tudo isso, ou posso imaginar. Conte o que aconteceu.

Eu tinha marcado um encontro com Frank Patton na noite em que ele foi morto. Era para as oito horas.

Naquela tarde vi Bob Doray na rua, guiando o carro dele.

Só o avistei de relance, mas fiquei sabendo que ele estava em Nova York. Comecei a telefonar para todos os hotéis, perguntando se havia lá um doutor Doray. Aquilo parecia interminável. Utilizei-me do telefone de uma amiga que o pagava ao mês. Não lhe direi o nome dela porque não quero comprometê-la. Passei a tarde inteira telefonando.

Afinal descobri onde ele estava: no Midwick Hotel. Deixei um recado para que ele me telefonasse ao chegar. Quando

Bob me telefonou eu disse onde estava e ele veio buscar-me com o carro.

«Eu estava radiante com o encontro. Chorei, e acho que fiz uma cena. Sentia-me tão feliz que as lágrimas me corriam pelo rosto.

«Ele descobriu que eu tinha marcado hora para ir ao apartamento de Frank Patton. Não queria que eu fosse.

Jurou que havia de matar Patton. O senhor deve compreender que ele não dizia isto a sério; era um modo de falar apenas.

E, como Marjorie se calasse, olhando-o com ansiedade

Continue disse Perry Mason.

Bob tinha trazido aquela faca no carro. Só Deus sabe o que o levou a fazer tal coisa. Devia estar meio transtornado. Eu queria falar com Patton, mas não queria que Bob me levasse lá. Bob insistiu, e finalmente fizemos um acordo. Consenti que ele me levasse até à rua em que ficava o edifício. Então eu subiria para romper definitivamente com Patton e participar-lhe que ia casar com Bob.

Bob voltaria para o hotel dele. Não lhe dei o endereço exacto de Frank Patton, só disse aonde me devia levar.

Quando chegámos pedi a Bob que se fosse embora e prometi ir procurá-lo ao hotel.

Bob não quis deixar-me. Insistia em ir comigo ao apartamento de Patton. Fiquei aterrada. Bob encostou o carro, creio que diante de uma bomba de incêndio. Estava tão agitado que com certeza não reparava no que estava a fazer; nem eu tão-pouco. Disse-lhe que estava com sede e ele levou-me a tomar um sorvete. Entrei no toucador e fiquei à espera... Pedi à empregada para ver se Bob ainda lá estava. Estava na verdade. Então mandei a mulher avisá-lo que eu tinha saído pela porta do fundo.

Não havia porta no fundo, mas eu queria ver-me livre dele.

E continuou a esperar no toucador ? perguntou Perry Mason.

Continuei.

Por quanto tempo ?

Não sei. Cinco minutos, talvez mais.

E depois ?

Depois, quando vi que o caminho estava livre, saí para a rua. Não vi sinal de Bob. Fui ao apartamento de Patton o mais depressa que pude.

Espere um momento. Antes disso tinha telefonado e deixara um recado dizendo que chegaria atrasada?

Sim. O senhor compreende: Bob e eu estávamos tão contentes por nos termos encontrado, que custava separar-me dele. Sabia que ia atrasar-me um pouco.

E Thelma Bell também tinha um encontro com

Frank Patton naquela noite ?

Sim, à mesma hora do que eu.

Muito bem. Agora sim, a coisa está a caminhar.

Continue, conte-me o que aconteceu.

Atravessei o vestíbulo do edifício e subi no elevador.

Bati à porta do apartamento, mas não tive resposta. Maquinalmente, experimentei o trinco. Ele deu volta e a porta abriu-se. Entrei no apartamento. Notei que as luzes estavam acesas e o chapéu, as luvas e a bengala de Patton estavam em cima da mesa. Gritei: «Ó senhor Patton» ou coisa parecida, e caminhei para o quarto de dormir. Então encontrei-o.

Um instante disse Perry Mason. A porta do quarto de banho estava aberta ou fechada?

Estava aberta.

E ele estava morto quando a Marjorie entrou no quarto de dormir?

Naturalmente. Estava estendido no chão, e o sangue espalhado por toda a porta. Uma coisa horrorosa!

Que aconteceu depois?

Nada. Voltei-me e saí imediatamente. Fechei a porta ao passar. Não a fechei à chave, porque não tinha chave nenhuma. Estava aberta quando entrei, e assim ficou. Desci pelo elevador; não havia ninguém no vestíbulo. Quando ia a sair do edifício encontrei-me com o senhor. Olhou-me de um modo esquisito, como se quisesse descobrir alguma coisa, e isso assustou-me. Só então percebi que eu estava de certo modo envolvida no crime.

De que modo ?

Oh, estava sujeita a ser chamada como testemunha, por exemplo. O senhor sabe, essas coisas que vêm nos jornais.

Eu podia ser interrogada pelos juízes, o meu retrato sairia no jornal, e talvez pusessem em dúvida as minhas declarações.

Estava de sapatos brancos naquela noite. Onde estão esses sapatos ?

Thelma ficou com eles.

- Porquê ?

Porque tinham manchas de sangue, naturalmente.

Notou isso na ocasião?

Na ocasião, não. Só notei depois de voltar ao apartamento.

Thelma viu o sangue nos sapatos.

Como foi que se sujou ?

Pisei o sangue e ele salpicou-me os sapatos.

Não havia sangue na sua capa ?

Não. Nas meias também não havia nada. Só nos sapatos.

Tem a certeza instou Mason de que não havia sangue nas meias?

Claro que tenho!

Nem no vestido ?

Claro que não ! Como podia haver sangue no meu vestido, se não havia na capa?

Perry Mason inclinou lentamente a cabeça.

Isso parece razoável. Agora conte-me com mais pormenores porque deixou o Botswick Hotel, em vez de ficar lá como eu lhe tinha dito.

Já expliquei isso. Saí porque queria estar em companhia de Bob.

Quando foi ver Patton tencionava romper com ele para sempre e avisá-lo que ia casar com Bob Doray ?

Sim, respondeu ela, após um momento de hesitação.

Ainda tinha o mesmo pensamento quando eu falei consigo no apartamento de Thelma Bell ?

Naquela ocasião eu estava horrivelmente assustada.

Assim que viu o sangue nos meus sapatos, Thelma compreendeu o que tinha acontecido. Eu contei-lhe tudo conforme pude. Thelma ficou com medo de que eu me visse envolvida.

Disse-lhe isso ?

Sim.

Ela também tinha marcado um encontro com Frank

Patton naquela noite ?

Tinha, mas não foi. Fazia isso muitas vezes. Naquela noite estava com o noivo e ele não a deixou sair. Chama-se George Sanborne. Ela contou-lhe tudo a si. Lembra-se ?

O senhor telefonou a Sanborne e convenceu-se de que era verdade.

De momento não entraremos nessa questão. O que interessa agora é o seguinte: ainda tinha a intenção de casar com Doray quando eu falei consigo no apartamento de Thelma ?

Acho que sim. Naquela hora eu não pensava muito no casamento. Estava assustada, principalmente depois do senhor entrar.

Mas ainda desejava casar com Bob Doray?

Se eu pensasse nisso, acho que desejaria.

Muito bem. Antes da meia-noite resolveu casar com Bradbury. Por quê ?

Porque era o único meio de conseguir dinheiro para salvar Bob.

Acredita que Bob seja o assassino ?

Não quero pensar nisso. Só sei que ele precisa ter a melhor assistência legal que for possível.

Quando encontrou o corpo, viu a faca que estava no chão ao lado dele ?

Vi.

Reconheceu essa faca?

Que quer dizer ?

Sabia que Bob Doray tinha comprado uma faca ?

Sim, eu tinha-a visto no automóvel.

Sabia o que ele tencionava fazer com ela?

Sim. Ele disse-me.

Essa era uma das razões do seu receio de informar

Bob da maldade de Frank Patton ?

Era.

Então, ao ver a faca deve ter concluído imediatamente que o assassino era Bob Doray.

Que conclusão tiraria o senhor em tais circunstâncias - perguntou ela.

Bem, vejamos. Os dois entraram juntos na confeitaria.

Você foi ao toucador e lá ficou, convencendo o doutor

Doray de que tinha saído pela porta de trás ?

Sim.

Ele deve ter saído uns cinco minutos antes de si.

Creio que sim.

Quanto tempo havia que Patton estava morto quando você entrou? Faz alguma ideia?

Não podia fazer muito tempo. Um minuto ou dois... oh, que cena horrível!

Ainda se mexia?

Não.

Estava correndo sangue da ferida ?

Aos jorros disse ela, estremecendo.

Por conseguinte, você concluiu logo que Doray tinha assassinado o homem. Pensou que, como ao invés de voltar, mandara apenas um recado dizendo que já tinha seguido para o apartamento de Patton, Doray enfureceu-se.

Sim.

Perry Mason considerou-a pensativamente.

Sabe o que eu vou fazer consigo ?

Que quer dizer ?

Vou arriscar toda a minha carreira profissional, fiado apenas na impressão que tenho de si, além de certas coisas que observei com referência a este caso. Você está sendo procurada como pessoa envolvida num crime de homicídio. Vou ajudá-la a escapar. Se me apanharem poderão acusar-me. Em outras palavras, serei cúmplice num caso de assassínio.

Ela manteve-se calada.

Eu não tenho no doutor Doray a mesma confiança que tenho em si, prosseguiu Mason. Foi por isso que o deixei lá para fazer frente às bombas. Sabia que, se a polícia encontrasse o quarto vazio, procuraria dar uma busca ao hotel. Podiam ignorar a sua presença aqui, e, se o doutor

Doray se negasse a falar, eles continuariam ignorando.

Fiei-me nessa possibilidade.

Mas eles não estarão vigiando o hotel quando sairmos ?

Exactamente. É por isso que temos de imaginar um meio de nos salvarmos. Nós dois corremos perigo agora.

Foi até à janela e pôs-se novamente a olhar para fora com ar sombrio.

Você não me quer dizer o que a fez mudar de ideia entre a hora em que conversámos e a meia-noite, e por que se decidiu tão repentinamente a casar com Bradbury?

Já lhe expliquei: eu sabia que não havia outro meio de obter dinheiro para a defesa de Bob. Também sabia que se Bob não tivesse um bom advogado seria condenado.

Comecei a reflectir. O senhor tinha-me dito que Bradbury o ajustara para ser meu representante legal. Pensei que ele também o encarregaria de defender Bob se soubesse que eu consentia em casar com ele.

Os olhos de Perry Mason lampejaram.

Era justamente isto o que eu estava esperando!

O quê?

Ouvi-la dizer que ele pagaria a defesa de Doray se soubesse que você consentia em casar com ele.

Ela mordeu o lábio sem falar.

Perry Mason contemplou-a durante alguns momentos, em silenciosa meditação.

Vou lutar por si, e quando eu faço isso, faço-o deveras.

Ela observou-o com um olhar ansioso.

Dispa-se e deite-se disse Perry Mason.

Marjorie nem sequer pestanejou.

Que roupa quer que eu tire ?

Quero que a sua saia esteja em cima de uma cadeira e os sapatos debaixo da cama. Convém pôr as meias no pé da cama. Quero que tire também a blusa.

E depois ?

Depois farei com que um homem entre neste quarto e olhe para si. Você vai proceder como a espécie de mulher por quem eu quero que ele a tome.

Marjorie levou a mão ao fecho do lado da saia.

O senhor vai lutar por mim, e eu vou mostrar-lhe que tenho toda a confiança em si.

Bravo ! Tem um chiclet aí?

Não.

Sabe mexer com o queixo como se estivesse mascando chiclet?

Creio que sim. Que tal ?

Ele observou-a com ar crítico.

Torça o queixo um pouco para o lado quando o baixar. Faça uma espécie de movimento circular.

Vai dar-me um aspecto bem ordinário.

É justamente o que eu quero.

Que tal agora?

Está muito melhor. Continue, tire a roupa.

Encaminhou-se mais uma vez para a janela e ficou a olhar para a rua até ouvir ranger o lastro da cama.

Pronto?

Pronto.

Ele voltou-se e examinou-a A saia estava no espaldar de uma cadeira, as meias atiradas para cima do pé da cama e os sapatos debaixo desta.

Vejamos de novo o que lhe ensinei sobre a arte de mascar disse ele.

A jovem começou a mover o queixo regularmente.

Bem. Quando o homem olhar para você não baixe os olhos. Não vá parecer envergonhada. Devolva-lhe o olhar com uma expressão convidativa. É capaz de fazer isso?

Quem vai ser esse homem ?

Ainda não sei. Provavelmente o carregador do hotel.

Ele não fará mais que olhar para você, mas quero que seja boa actriz.

Farei o possível prometeu ela.

Perry Mason aproximou-se e sentou-se na beira do leito. Os olhos azuis de Marjorie conservaram-se firmes sob o exame atento do advogado.

Havia bastante sangue nos sapatos brancos ?perguntou ele.

Havia.

Thelma Bell também tinha sapatos brancos ?

Não sei.

E ela tirou-lhe os sapatos para limpá-los ?

Sim.

Que estava ela fazendo quando você chegou?

Tinha acabado de tomar banho. Olhou para os meus sapatos e disse-me que os tirasse imediatamente, que despisse a roupa para tomar um banho e me certificasse de que não havia sangue nos meus pés ou nos tornozelos.

Olhou para as suas meias ?

Não. Mandou-me andar depressa.

Você tomou um carro para ir ao apartamento ?

Tomei.

E quando se estava preparando para entrar no banho eu bati à porta ?

Sim.

Então não sabe que destino Thelma deu aos sapatos?

Não.

Perry Mason virou-se, e estendeu a perna esquerda por cima da cama, descansando o cotovelo sobre o joelho.

Margy, você está a dizer-me a verdade ?

Estou.

E se eu lhe disser que dei uma busca no apartamento de Thelma ; que encontrei uma chapeleira no guarda-roupa; que essa chapeleira estava cheia de roupas lavadas e ainda húmidas ; que algumas das peças de roupa mostravam sinais evidentes de terem sido lavadas para apagar manchas de sangue; que entre elas havia um par de sapatos brancos, um par de meias e uma saia ?

Os olhos azuis encararam-no numa mirada fixa e intensa.

De repente, Marjorie Glune soergueu-se na cama.

Quer dizer que a saia e as meias tinham manchas de sangue ?

Sim.

E tinham sido lavadas ?

Lavadas muito à pressa. E essas manchas de sangue tinham a forma de salpicos, tais como os que produziria uma punhalada.

Deus do céu !

E depois, alguém estava no quarto de banho falando, aos gritos, em «pernas de sorte». Uma de vocês deve estar mentindo. Ou era você quem estava no quarto de banho, ou era Thelma.

Podia ter sido outra pessoa.

Mas você não conhece outra pessoa que possa ter estado lá?

Não.

Não creio que fosse outra disse Perry Mason devagar.

Marjorie Glune piscou os olhos lenta e pensativamente.

Bem, vamos a outro aspecto do caso tornou ele.

Você conhece uma pequena chamada Eva Lamont?

Conheço, sim, naturalmente.

Eva Lamont tem pernas notáveis?

Que quer dizer ?

Pernas que possam vencer um concurso ?

Mas não venceram disse Marjorie.

Então entraram num concurso ?

Entraram.

Em poucas palavras, ela foi uma das concorrentes?

Foi.

Onde ?

Em Gloverdale.

Eva Lamont é uma rapariga de cabelo preto e olhos pretos geniosos, de corpo mais ou menos como o seu?

Marjorie inclinou a cabeça.

Por que pergunta?

Porque tenho todas as razões para crer que ela está em Nova York, que se registou num hotel com o nome de

Vera Cutter e que mostrou um interesse extraordinário pelo inquérito policial em torno deste homicídio.

Os olhos de Marjorie estavam arregalados de surpresa.

Bem, agora diga-me como ela ganha a vida.

De muitos modos volveu Marjorie com ironia

Trabalhou algum tempo como caixeira de bar. Era essa a profissão dela quando Frank Patton apareceu lá e organizou o tal concurso. Então Eva começou a evidenciar-se. Tinha facilidades para mostrar as pernas e arranjou muitos admiradores.

Disse que viria para Nova York e entraria no cinema, quer ganhasse o concurso quer não.

E depois que você ganhou o concurso?

Então ela jurou que vinha para a cidade e havia de fazer um sucesso que eclipsaria o meu. Dizia que eu tinha ganho o concurso porque adulava Frank Patton e era protegida dele.

Era verdade?

Não.

Você não me está informando bem a respeito de Eva Lamont, e é importante que eu conheça mais factos.

Não gosto dela.

Não faz diferença. Trata-se de um caso de homicídio.

Que sabe no que lhe diz respeito a ela ?

O que sei é pouco, mas ouvi dizer muita coisa.

Como por exemplo ?

Oh, tanta coisa !

Sabe se ela procurou Frank Patton depois de vir para a cidade ?

Não me admiraria disse Marjorie devagar. Ela é desse tipo.

Essa mulher tem alguma razão para lhe guardar rancor, Marjorie?

A jovem cerrou os olhos, tornou a mergulhar nas cobertas e puxou-as para cima.

Ela apaixonou-se loucamente por Bob Doray disse.

E Doray está apaixonado por si?

Sim.

Perry Mason tirou do bolso o maço de cigarros, extraiu um e estava levando-o aos lábios quando caiu em si e estendeu o maço a Marjorie Clune.

O senhor quer que eu fume ?

Como quiser...

Não, quando esse homem entrar. Ou será preferível que eu esteja fumando?

Não, prefiro que esteja mascando chiclet. Não seria muito verosímil que fizesse as duas coisas ao mesmo tempo.

Então vou fumar agora.

Tirou um cigarro. Perry Mason trouxe um cinzeiro de cima da mesa-toucador, instalou-o na cama entre os dois e acendeu o cigarro de Marjorie.

Dê-me o outro travesseiro, Marjorie.

Ela estendeu-lhe o travesseiro e Perry Mason ajeitou-o no pé da cama para se encostar.

Vou pensar disse e não quero ser perturbado.

Tirou umas poucas de fumaças do cigarro e depois segurou-o no ar, observando o fumo que subia em espirais, com olhos que pareciam embaciados na sua sonhadora abstracção. A brasa do cigarro já quase lhe tocava nos dedos quando ele inclinou devagar a cabeça e fitou vivamente os olhos em Marjorie Glune.

Esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro, saltou em pé e puxou para baixo as pontas do colete.

Muito bem, Marjorie disse em voz afectuosa creio que já tenho a resposta.

Resposta de quê ?

De tudo. E saiba, Marjorie, que de certo modo fui um grandíssimo idiota.

Ela encarou-o, estremecendo ligeiramente.

O senhor parece tão frio quando me olha assim!

Dá a impressão de que é capaz de tudo.

Talvez eu seja realmente capaz de tudo respondeu Mason.

Tirou outro cigarro do bolso, dirigiu-se para a mesa-toucador, partiu o cigarro em dois, apanhou alguns fios de tabaco, descaiu a pálpebra inferior do olho esquerdo e inseriu os fios de tabaco debaixo dela. Repetiu a operação no olho direito e depois esfregou ambos os olhos com os nós dos dedos.

Marjorie soergueu-se no leito para olhá-lo, fascinada.

As lágrimas escorriam pelas faces de Perry Mason.

Caminhou para o lavatório às apalpadelas, banhou os olhos com água fria, secou-os com uma toalha e foi olhar-se no espelho.

Estava com os olhos injectados e vermelhos.

Moveu a cabeça num gesto de satisfação. Molhou então os dedos na água da torneira e passou-os pelo lado interno do colarinho, até deixá-lo húmido e amarrotado. Para rematar, entortou a gravata e mais uma vez observou o efeito no espelho.

Óptimo, Marjorie! Espere pela minha volta e não se esqueça de mascar chiclet.

Dirigiu-se para a porta, abriu-a, saiu para o corredor e, sem olhar para trás, fechou a porta.

 

Perry Mason andou por todo o corredor, procurando o elevador de serviço. Afinal sempre o encontrou.

Premiu o botão e esperou que a desengonçada máquina subisse até o sexto andar. Entrou e apertou o botão marcado com o letreiro «DEPÓSITO DAS BAGAGENS».

O grande elevador desceu lentamente pelo poço, e finalmente parou. Perry Mason abriu as duas portas e penetrou no depósito das bagagens. O carregador uniformizado, sentado diante de uma escrivaninha, pousou nele um olhar interrogativo e pouco cordial.

Perry Mason cambaleou, bateu de encontro à porta do elevador, deu dois passos bordejando, parou, tomou uma respiração profunda e sorriu imbecilmente para o homem de uniforme.

Vim buscar a minha mala disse ele.

Que mala ? perguntou o homem em tom hostil.

Perry Mason arreganhou os dentes e pôs-se a remexer nos bolsos, de onde acabou tirando um maço de notas.

Escolheu uma nota de dólar e dirigiu-se cambaleando para o carregador. Estendeu a nota, mas no momento em que o outro lhe ia pegar retirou subitamente a mão.

Isto não chega disse.

Tirou do maço uma nota de cinco dólares, examinou-a pensativamente, abanou a cabeça numa negação solene, deu uma busca ao maço de notas e puxou uma de vinte.

O carregador estendeu avidamente a mão e segurou a nota com os dedos crispados. O seu rosto já não tinha a mesma expressão de fria hostilidade. Pôs o dinheiro no bolso e levantou-se com um sorriso amável.

Tem aí a cautela?

Perry Mason sacudiu a cabeça.

Não a posso achar.

Que espécie de mala é a sua ?

Uma mala grande, bem grande. Mala de caixeiro-viajante.

Trago toda a mercadoria dentro dela. Preciso dessa mala. Já estou com dois dias de atraso.

O carregador dirigiu-se para uma pilha de malas. Perry Mason tornou-se loquaz.

Dois dias de atraso, e a patroa vem aí. Imagine ! Um amigo avisou-me ainda há pouco que a patroa saiu da cidade para me vir buscar. É capaz de lançar um detective na minha peugada para saber da minha vida. Tenho uma amiguinha muito camarada. Não quero que ela se meta nestes sarilhos.

O carregador apontou para uma mala grande.

Perry Mason fez um gesto negativo com a cabeça.

O carregador seguiu adiante.

Esta foi deixada aqui...

A fisionomia de Perry Mason desfez-se em sorrisos.

É essa mesmo disse ele. Vamos indo.

Qual é o número do seu quarto? perguntou o outro.

Já levo lá.

Tem que trazer já, já, insistiu Perry Mason. Pode ser que haja algum detective vigiando o hotel.

O carregador mostrou simpatia.

Está bem, então vamos já. Afinal, não é justo uma mulher andar espreitando o marido se ele vive viajando.

Um homem assim tem direito a desfrutar os seus prazeres de vez em quando.

Perry Mason bateu-lhe no ombro.

Amigo, você disse uma grande verdade. Uma paródiazinha de tempos a tempos não faz mal a ninguém.

O carregador foi buscar um carrinho de mão, colocou nele a mala e transportou-a para o elevador de serviço.

Perry Mason subiu com ele, e com ele se encaminhou para o 642. Abriu a porta e afastou-se para deixar passar o carrinho.

Vendo aparecer o carregador, Marjorie Glune voltou o rosto para ele e pôs-se a mascar em seco.

O homem relanceou-a de soslaio e logo desviou os olhos.

Vou pôr meia caixa de whisky dentro desta mala disse Perry Mason, acenando a mão vagamente, na direcção da secretária. Deixe em qualquer lugar. Vou sair daqui a um quarto de hora ou dez minutos, pode ser. A patroa é capaz de ter mandado um detective vigiar o hotel. Arranje um táxi e mande esperar na entrada de serviço, sim ?

E, mais uma vez, levou a mão ao bolso das calças.

O senhor já me deu...começou o carregador; mas resolveu calar-se quando viu Perry Mason tirar o maço de notas, escolher uma de vinte dólares e depositar-lha na palma da mão.

Quando estiver pronto, é só tocar a campainha disse ele. O táxi estará à espera.

Dirigiu-se para a porta e parou com a mão no trinco para lançar mais um olhar à rapariga que estava deitada na cama.

Marjorie encontrava-se alerta. Devolveu-lhe o olhar com um outro, convidativo.

O homem passou para o corredor e cerrou a porta.

Muito bem disse Perry Mason. Saia da cama e vista-se.

Marjorie saltou para o chão e vestiu-se à pressa. O advogado tirou do bolso o molho de gazuas e começou a experi- mentar a fechadura da mala.

Ainda não a tinha aberto, e Marjorie já estava vestida, penteada e empoada. Encontrou a mala cheia de vestidos, cada um no seu cabide, com o preço e o número do catálogo assinalados numa etiqueta. Perry Mason tirou os vestidos para fora e atirou-os a Marjorie.

Ponha estas coisas no guarda-roupa e depois feche a porta.

Ela apanhou as roupas em silêncio e, em meia dúzia de idas e voltas, transferiu-as todas para o armário. Perry Mason examinou o interior da mala.

! Não vai ser muito cómodo, mas você terá de aguen- tar firme. Provavelmente receberá algumas contusões. Vai achar abafado também, mas a coisa não durará muito.

Então tenho de entrar aí?

Tem de entrar aí, e de muito bom grado. Poderá sentar-se no fundo, dobrando bem as pernas. Vou dizer ao carregador que pus meia caixa de whisky aí dentro, para que ele maneje a mala com cuidado e a conserve de pé.

Há um táxi à espera na entrada de serviço. A mala será amarrada com correias em cima do estribo. Mandarei o chauffeur levar-me a outro hotel. Vou alugar um quarto e mandar subir imediatamente a mala. Darei gorjetas a todo o mundo para que a carreguem com jeito. Mas com tudo isso você será sacudida, e um pouco amachucada. Em suma, vai passar um mau quarto de hora.

E depois, que acontecerá ?

Logo que levar a mala para dentro do quarto, no outro hotel, eu a tirarei daí. Depois chamaremos um carro e iremos ao aeroporto. Tenho um avião rápido de cabina à minha espera lá. Tomaremos esse avião.

Para onde ?

Para a cidade.

Que faremos na cidade ?

Uma vez lá, daremos uma solução ao nosso caso.

Ela pousou-lhe a mão no braço.

Aquelas roupas ! Aquelas coisas de Thelma que estavam manchadas de sangue ! Sabe onde estão?

Sei.

Onde ?

Tenho-as à mão, para quando precisar delas. E Thelma Bell também.

A descoberta dessas coisas pela polícia teria tanta importância para Bob ! O senhor sabe que Bob era meu namorado. Podem imaginar que ele tinha algum motivo para matar Frank Patton. Mas Sanborne era namorado de

Thelma, e tinha muito mais razões para isso do que Bob.

Compreende: Patton era...

Marjorie calou-se.

Era o quê ? perguntou Perry Mason.

Nada. Isso não vem ao caso. Estava pensando naquelas roupas.

Perry Mason indicou a mala com um gesto.

Entre.

 

Quando o avião começou a baixar na direcção do aeródromo, Perry Mason virou-se para Marjorie Clune e fez porta-voz com as mãos para gritar :

Há um posto de automóveis no lado norte do campo.

Vá directamente lá, entre num táxi e diga ao motorista que me espere. Tenho de fazer umas chamadas pelo telefone.

Não quero que você seja muito vista. Trate de não chamar a atenção. Não olhe para ninguém. Entendeu ?

Marjorie fez que sim com a cabeça.

Não demorarei mais de dez minutos, talvez nem tanto ajuntou ele.

O avião descreveu uma ligeira curva, endireitou o rumo, baixou e as suas rodas roçaram de leve na pista asfaltada.

Quando os patins da cauda tocaram no solo o piloto fechou a válvula reguladora e o aparelho rodou em direcção aos hangares.

É só isto ? perguntou ele depois que o motor parou.

Perry Mason fez um sinal afirmativo, tirou a carteira do bolso e estendeu uma nota ao aviador. Acenou a Marjorie.

Vá para o táxi. Estarei consigo dentro de dez minutos.

Dirigiu-se para a cabine telefónica e ligou para o seu escritório. A voz de Della Street soou-lhe no ouvido.

Está só, Della? Pode falar, ou há perigo de alguém ouvir o que diz ?

Um momento volveu ela. Vou ver o que está atrapalhando a ligação. O senhor diz que é na biblioteca?

Então deve ser o auscultador fora do lugar.

E acrescentou em voz baixa:

Fique esperando, por favor.

Perry Mason esperou.

Passado um momento, tornou a ouvir a voz da secretária.

Vim para a biblioteca, chefe. Havia dois detectives no meu escritório, e Bradbury está à sua espera.

Não há ninguém na biblioteca?

Ninguém.

Muito bem. Vamos aos factos. Recebeu notícias de College City?

Um telegrama que diz só: «Estou no College City

Hotel. Vem assinado com as iniciais T. B.

Nada mais?

Nada, a não ser os detectives que andam rondando o escritório. Já estiveram duas vezes aqui.

Que é que Bradbury quer ?

Não sei. Está zangado por alguma razão. Perdeu aquele jeito afável e ficou mau de lidar.

Eu também vou mostrar que não sou de brincadeira, se ele se virar contra mim.

Tenho um palpite que é isso o que vai acontecer disse Della. E o senhor, está bem ?

Às maravilhas.

Paul Drake é que está muito misterioso. Veio cá uma ou duas vezes. Ao que parece, ele pensa que o senhor se meteu nalguma horrível embrulhada, e não quer comprometer-se.

Mais alguma coisa?

Não, creio que é tudo.

Muito bem, Della. Convém tomar nota do seguinte:

Telefonar a Thelma Bell, no College City Hotel. Não deve chamar do escritório. Use um dos aparelhos internos, ou vá a uma cabina pública. Diga-lhe quem é. Diga também que eu preciso muito saber se Marjorie Clune recebeu uma chamada telefónica no apartamento dela depois que eu saí de lá, na noite do crime. Avise que isso é muito importante.

E depois?

Se ela recebeu a chamada, pegue o Código de Processo

Civil e ponha em cima da sua secretária, junto do quadro de ligações. Se Marjorie não teve tal conversa, ponha o seu tinteiro em vez do Código. Caso não houver nada junto do quadro de ligações, isso quererá dizer que você não pôde falar com Thelma Bell.

Chefe disse Della Street numa voz perturbada o senhor não fez desaparecer Thelma Bell? não se meteu nisso, não é verdade?

Depois falaremos a esse respeito.

Mas, chefe, a polícia está..

Depois trataremos disso, Della.

Está bem, chefe.

Pode levar Bradbury para a biblioteca. Diga-lhe que espere. Pode dizer-lhe também, em segredo, que talvez eu apareça lá dentro de uma hora.

Muito bem.

E quanto aos investigadores: eles continuam a ir aí amiúde?

Estiveram aqui duas ou três vezes. Estão procurando saber se o senhor pretende vir ainda hoje ao escritório. Volta e meia perguntam se eu tive notícias suas.

São os mesmos que estiveram a outra noite? Chamavam-se

Riker e Johnson, se não me engano.

Sim, são os mesmos.

Acha que não vão ficar?

Acho que não. Eles vêm, ficam aqui alguns minutos, fazem perguntas e depois vão-se embora É a terceira vez que vêm hoje.

Sabe se há investigadores vigiando o edifício ?

Creio que não.

Tire vinte dólares da gaveta e desça à cave no elevador.

Diga a Frank, o porteiro, que eu estou trabalhando num caso movimentado e que uns detectives particulares me estão seguindo as pegadas. Não esqueça de dizer que são detectives particulares. Que eu quero entrar no escritório sem ser visto, e peço para ele se pôr de guarda à porta do quarto do aquecimento. Quando eu chegar de táxi, ele abre a porta e manda descer um dos elevadores à cave.

Diga-lhe que combine tudo com o rapaz do elevador, para que eu seja levado ao sexto andar sem estorvos.

Muito bem. Mais alguma coisa ?

Creio que é tudo. Estarei..

A voz de J. R. Bradbury ressoou no auscultador com firme insistência:

Senhor advogado, faço questão de falar consigo imediatamente!

Quem está falando ? perguntou Perry Mason.

Bradbury.

De onde fala ?

Do seu gabinete particular.

Como diabos conseguiu meter-se na ligação ?

Eu mesmo me meti na ligação, se quer saber. E guarde os seus diabos para si, entendeu ?

Perry Mason ouviu o som de uma respiração arfante.

Ainda está na linha, Della ? perguntou em voz baixa.

Sim, chefe.

Está falando da biblioteca ?

Sim.

Como soube que era eu que estava no telefone

Bradbury ?

Eu não sou tolo respondeu Bradbury. Já em duas ocasiões procurei convencê-lo disso.

Que é que você quer ?

Quero que o doutor Doray se confesse culpado e seja condenado à prisão perpétua.

Olhe, eu não posso falar consigo ao telefone. Vou voltar ao escritório. Espere-me na biblioteca. E oiça,

Bradbury : deixe de se imiscuir nos meus assuntos particulares, entende ? Não gosto que você ande mexendo nos meus telefones e sei dirigir o meu escritório sem precisar da ajuda de ninguém. Faça o favor de não andar metendo o nariz e de não interromper as minhas ligações.

Escute, eu tenho de conversar consigo antes que qualquer outra pessoa o faça. Qualquer outra, compreende?

Falaremos quando eu chegar ao escritório.

Não, temos de falar agora. Preciso contar-lhe o que aconteceu. À polícia anda atrás de si. Descobriram o seu táxi.

Que táxi ?

Aquele que você tomou para ir à esquina da Nova Avenida com Olive Street, onde se encontrou com Paul Drake. Depois você foi nesse táxi directamente ao Edifício Holliday, para falar com Frank Patton. Quando saiu, tomou o mesmo carro, foi a um drug store de onde me telefonou, e dali seguiu para o Edifício St. James, onde falou com Marjorie Clune e a avisou para que se escondesse. Foi um erro que você cometeu, e a polícia vai apontá-lo como responsável. Isso faz parecer ainda mais criminosa a fuga de Marjorie.

Perry Mason apertou o auscultador até que a dura ebonite se tornou viscosa com o suor da sua mão.

Já que disse tanto, continue, diga o resto.

Quero que você salve Marjorie. Aconteça o que acontecer, ela não deve ser incriminada. Sondei o pessoal da promotoria pública por intermédio de alguns amigos influentes. O promotor acredita que Doray é o culpado.

Se Doray confessar o crime e o seu depoimento inocentar Marjorie, eles cancelarão a denúncia contra ela.

E que farão com Doray ?

Vão condená-lo à prisão perpétua. Com a confissão ele livrar-se-á da pena de morte. Realmente, está no interesse dele fazer isso.

Sou eu quem determina quais são os interesses do doutor Doray.

Não senhor retrucou Bradbury você está trabalhando sob as minhas ordens.

Estou defendendo o doutor Doray.

Está defendendo-o porque eu o ajustei para isso.

Pouco me importa quem me ajustou. O homem de quem sou o representante legal é quem mais merece a minha atenção.

A voz de Bradbury fez-se fria e insistente.

Você é um homem de carácter forte, Perry Mason, mas eu também tenho muita força de vontade. A polícia está interessadíssima em saber a quem você telefonou daquele drug store, e o que foi que disse. A caminho do escritório, seria bom que você reflectisse sobre a situação à luz destes novos factos.

Muito bem, falarei consigo quando lá chegar. Até logo.

Até logo disse Bradbury.

Perry Mason esperou que ele desligasse para perguntar em voz baixa:

Ainda está aí, Della ?

Sim, chefe , respondeu a secretária.

Ouviu o que ele disse ?

Sim, tenho tudo estenografado.

Bravo ! Leve-o para a biblioteca. Estarei aí dentro de uma hora. Não deixe Bradbury fazer outra destas. Conserve-o na biblioteca e vigie o telefone. É evidente que ele sabe manejar o quadro de ligações. Com certeza desconfiou que você estava falando comigo, fez a ligação para o meu gabinete e foi escutar lá.

Essa história da polícia e do táxi é verdade? perguntou Della.

Perry Mason arreganhou os dentes para o telefone.

A esse respeito você está tão bem informada quanto eu, Della. Por que não trata de sondar Bradbury ?

Mas é que se isso for verdade a sua situação é muito perigosa, chefe!

Sempre me meto em situações perigosas antes de resolver os meus casos, mas saio sempre das dificuldades.

Daqui a pouco nos veremos, Della. Adeus.

Pôs o auscultador no descanso e marcou o número da Agência Cooperativa de Investigações.

Aqui fala Mason disse. Não têm mais nada que me comunicar sobre Vera Cutter ?

Espere um momento respondeu a telefonista.

Uma voz de homem ocupou a linha.

Quem está falando ?

Perry Mason.

Conhece o senhor Samuels ?

Conheço.

Qual é o primeiro nome dele ?

Jack.

Quando foi que o conheceu ?

Há mais ou menos um ano, quando ele veio ao escritório oferecer-me os seus serviços.

Que foi que o senhor lhe disse ?

Disse que era cliente da Agência Drake, mas que os procuraria se houvesse algum serviço de que os outros não se pudessem encarregar.

Muito bem disse a voz creio que é realmente o senhor Mason. Esta é a última notícia: Vera Cutter está no seu quarto, no Montmartre Hotel. É o quarto número 503.

De vez em quando telefona para a Agência Drake. Não conseguimos ouvir os telefonemas. Ela não fala com mais ninguém, mas de tempos a tempos um dos meus homens chama para lá e pergunta por ela.

Está no quarto agora?

Está.

Então, basta-me isso! Vou lá ter uma palestra com ela. Diga aos seus detectives que não percam tempo seguindo-me quando eu sair de lá. Irei acompanhado de uma rapariga.

Desligou e dirigiu-se para o táxi onde Marjorie o esperava, rígida, os olhos fixos na frente.

Margy perguntou ele, você seria capaz de reconhecer a voz de Eva Lamont?

Creio que sim.

Mason fez um aceno ao chauffeur e disse:

Montmartre Hotel.

Sentou-se nas almofadas, ao lado de Marjorie.

Que é que Eva Lamont está fazendo aqui? perguntou esta.

Se for efectivamente Eva Lamont (e eu creio que é), está fazendo todo o possível para comprometer Bob Doray no crime.

Por que fará isso?

Por uma de duas razões respondeu Perry Mason, enviesando os olhos pensativamente.

E que razões são essas?

O advogado estava olhando para fora da janela do táxi e observava a paisagem com ar meditativo.

Não, Margy, eu não vou importuná-la com estes complicados problemas. Quero apenas que me prometa uma coisa: se a polícia lhe deitar a mão, não diga nada.

Há muito que resolvi fazer isso respondeu ela.

Perry Mason calou-se e continuou a observar o movimento das ruas. O chauffeur dirigiu o carro para a calçada à direita.

Paro diante da porta do hotel? perguntou ele.

Sim, é lá que vamos.

Pagou a despesa, tomou o braço de Marjorie e conduziu-a até ao elevador do hotel.

Quinto andar, disse ao empregado.

Ao saírem do elevador, Perry Mason inclinou-se de modo que os seus lábios quase tocassem no ouvido de Marjorie.

Vou entrar no quarto e provocar uma discussão qualquer com essa mulher. Tratarei de fazer com que ela levante a voz. Você fique escutando junto à porta e veja se reconhece a voz dela. Se reconhecer, muito bem. Se não, bata na porta que eu a abrirei.

Se for Eva Lamont, ela reconhecer-me-á.

Não faz mal, isso é uma das coisas com que teremos de nos conformar. Mas tenho absoluta necessidade de saber se se trata de Eva Lamont.

Levou Marjorie até o ângulo do corredor.

É aqui disse. É melhor você ficar escondida neste lugar, encostando-se à parede. Vou ver se a faço falar enquanto a porta estiver aberta. Receio que você não consiga ouvir através da porta fechada.

Perry Mason foi bater à porta. Esta abriu-se um pouco muito pouco.

Quem é? perguntou uma voz baixa de mulher.

Um detective da Agência Drake respondeu Mason.

Não se ouviu mais nada. A porta abriu-se de todo e uma mulher em traje de passeio sorriu com afabilidade para ele.

Perry Mason entrou no quarto.

Então, parece que se estava preparando para nos deixar, hem?

A mulher encarou-o e depois seguiu a direcção do seu olhar. Perry Mason contemplava a mala-armário que estava ao lado da cama, com alguns vestidos já guardados, a maleta aberta em cima da cama, e outra fechada, colocada sobre o assento duma cadeira.

A mulher olhou para a porta aberta e, sem dizer palavra, foi fechá-la à chave.

Que deseja ? perguntou ela.

Queria saber por que razão a senhora se registou com o nome de Vera Cutter, enquanto que a sua bagagem tem as iniciais E. L.

Isso é simples.. Minha irmã chama-se Edith Loring.

E a senhora é de Cloverdale ?

Sou de Detroit.

Perry Mason dirigiu-se para a mala-armário, tirou uma saia de um cabide de madeira e virou este, mostrando a marca gravada: «LAVANDARIAS E TINTURARIAS REUNIDAS DE GLOVERDALE».

Os olhos pretos brilharam malévolos.

Minha irmã mora em Cloverdale disse ela.

Mas a senhora é de Detroit ?

Enfim, quem é o senhor ? tornou a mulher numa voz que se fizera subitamente ríspida. Não pertence à Agência Drake.

Perry Mason sorriu.

Isso foi um simples pretexto para conversar consigo.

O que eu lhe queria perguntar na realidade era...

Ela recuou e ficou a fitá-lo, pálida, os olhos lampejantes e cautelosos, a mão segurando a guarda da cama de ferro.

O que eu queria especialmente saber concluiu Perry Mason é onde estava a senhora quando mataram Frank Patton.

Por mais de dez segundos ela continuou a olhá-lo, imóvel e calada. A expressão de Perry Mason era acusadora.

O senhor é da polícia ? perguntou ela afinal, em voz baixa e gutural.

É preferível que responda primeiro à minha pergunta.

Depois responderei às suas.

Vou chamar o meu advogado.

Ah, então tem advogado?

Naturalmente que tenho! Não pense que eu vou deixar um tipo qualquer vir aqui e começar a importunar-me a respeito de um assunto como esse. Não sei nada sobre a morte de Frank Patton, a não ser o que li nos jornais. Mas se você pensa que pode vir cá e falar grosseiramente comigo, aviso-o de que vai sair com uma cara deste tamanho.

E não me pode dizer onde estava quando mataram Frank Patton ?

Não direi.

E se eu a levasse à Repartição Central, que faria a senhora ?

À guisa de resposta ela dirigiu-se para o telefone, apanhou o receptor e pediu o número do escritório de Perry Mason. Houve um breve silêncio. Depois uma voz pôs-se a grazinar no telefone, e a mulher disse, num tom frio e altaneiro:

O senhor Mason está? Eu desejava falar com o senhor Mason. Diga-lhe que é Vera Cutter.

Perry Mason estudava a fisionomia da mulher, mas não conseguiu notar a menor mudança de expressão. Volvido um momento, ela arrulhou:

Oh, boa tarde, senhor Mason. Aqui é Vera Cutter de novo. O senhor recomendou-me que o chamasse se alguém me viesse interrogar sobre o motivo da minha presença na cidade. Está aqui no hotel um homem que diz ser da polícia e... Como é ?

Os mesmos ruídos repetiram-se no telefone.

O rosto de Vera Cutter abriu-se num sorriso.

Muito agradecida, senhor Mason, Então, se ele é da polícia deve ir ao seu escritório, e se não é eu devo notificar a Esquadra e mandá-lo prender ? Muito obrigada, senhor Mason. Sinto tê-lo incomodado novamente, mas foram instruções suas : chamá-lo se alguém me interrogasse.

Mil vezes obrigada.

Pendurou o auscultador e virou-se para Perry Mason com expressão triunfante.

Com certeza conhece Perry Mason, um dos mais importantes advogados da cidade. É o meu representante legal durante a minha permanência aqui, e diz que se o senhor não é da polícia ele vai mandá-lo prender pelo crime de se fazer passar falsamente por uma autoridade. Mas se for mesmo um investigador, pode ir ao escritório e falar com ele pessoalmente.

A senhora falou com Perry Mason em pessoa ?

Naturalmente que sim. Depois de ter pago tanto dinheiro como depósito, eu não iria perder o meu tempo falando com auxiliares de escritório.

É interessante disse Mason. Eu mesmo precisava de falar com ele. Não há mais de dez minutos que chamei para lá e disseram-me que ele não voltaria hoje.

A mulher teve um sorriso protector.

Ah, mas isso sempre depende da pessoa que procura falar com Perry Mason. É um homem muito ocupado e não pode atender detectives baratos e vendedores ambulantes.

Então a senhora não me quer dizer por que se estava preparando para sair da cidade ? volveu Perry Mason, indicando as malas.

Ela riu em tom zombeteiro.

Olhe, meu caro, eu não lhe direi nada, a não ser que vá embora. Desapareça imediatamente! Se é da polícia, pode entender-se com Perry Mason; se não, ponha-se na rua.

Bateram à porta. Perry Mason virou-se.

Não se atreva a abrir essa porta! disse Vera Cutter em tom imperioso.

Ela mesma o fez, dando de rosto com Marjorie.

Como tem passado, Eva Lamont ? perguntou esta.

Eva Lamont ficou alguns instantes com os olhos cravados nela.

Então o seu nome é Eva Lamont? fez Perry Mason.

Num gesto rígido, a mulher apontou para o advogado e gritou:

Você está de parceria com ele, não ?

Marjorie olhou interrogativamente para Perry Mason, mas antes que este tivesse tempo de fazer um sinal, Eva

Lamont correu para o telefone.

Um momentinho, querida, disse por cima do ombro.

Conheço um homem que te está procurando para saber como foi aquele teu bonito contrato para trabalhar no cinema.

E, tirando vivamente o receptor do gancho:

Esquadra de polícia ! gritou Esquadra de polícia!

Ligue imediatamente para a esquadra de polícia!

Perry Mason segurou Marjorie pelo braço e puxou-a violentamente para a porta. Saíram os dois a toda a pressa pelo corredor, ouvindo às suas costas os guinchos de Eva Lamont: «Esquadra de polícia! É da polícia que estão falando ?»

Desceram ao quarto andar pela escada e ali tomaram o elevador.

Calma ! recomendou Perry Mason a Marjorie.

Conduziu-a através do hall, retendo-a, porque a jovem fazia menção de deitar a correr.

Domine-se ! dizia ele em voz baixa.

Na calçada, fez sinal a um táxi.

Mapleton Hotel disse ao chauffeur. Ao sentar-se no carro, Perry Mason ofereceu um cigarro a Marjorie.

Quer fumar ?

Ela aceitou o cigarro, que o advogado acendeu, fazendo o mesmo ao seu.

Recoste-se no assento e trate de pensar em assuntos estranhos a este caso. Serene os nervos o mais possível. Não me interrompa. Vou reflectir. Quanto a você não procure pensar porque isso aumentaria a sua inquietação. Pense em outra coisa. Acalme-se e repouse. Você vai passar um quarto de hora difícil.

Nós vamos à polícia ? indagou ela.

Perry Mason respondeu em tom grave:

Se eu puder impedi-lo, não.

O resto do caminho foi feito em silêncio. Perry Mason mandou o motorista esperar, disse a Marjorie que ficasse no carro, furtando-se às vistas o mais possível. Um porteiro de uniforme abriu a portinhola do táxi e o advogado entrou pela porta giratória do hotel a passos rápidos e resolutos.

Tem aqui um senhor J. R. Bradbury, hospedado no quarto 693 ? perguntou, dirigindo-se à empregada da portaria.

A empregada alçou as sobrancelhas interrogativamente.

Que há ?

Sou advogado dele. Pode ser que tenhamos de nos ausentar juntos da cidade, para tratar de um negócio importante.

Quero deixar a conta do senhor Bradbury saldada, a fim de que ele esteja em condições de viajar se for preciso.

O senhor vai fazer a retirada em nome dele ?

Não, apenas quero pagar a conta até esta data.

Ela abriu um ficheiro, retirou uma folha de papel, foi fazer a adição numa máquina de calcular e trouxe o resultado a Perry Mason.

A conta importa em oitenta e três dólares e noventa e cinco cêntimos.

A conta do 693 ? perguntou Perry Mason.

Agora está só no 693, mas antes tinha comunicação com o 695 e pagava a diária dos dois quartos.

Perry Mason passou uma nota de cem dólares pelo guichet. A caixeira examinou a nota, fazendo-a estalar entre os dedos ágeis, e dirigiu-se para a registadora. A máquina marcou a quantia e a empregada trouxe o troco, acompanhado do recibo.

Mason examinou a conta.

Estes telefonemas são comuns ou inter-urbanos? perguntou, indicando uma série de itens.

Os inter-urbanos estão marcados. Os outros são locais.

Gostaria de ter uma relação especificada destes telefonemas locais. A senhora percebe: estou pagando a conta pelo senhor Bradbury. Quanto às outras parcelas, não há dificuldade; ele não pode reclamar. Mas seria muito conveniente que me desse uma relação especificada destas chamadas locais.

Ela franziu a testa, reflectindo, e disse:

Posso arranjar isso. Vai dar um pouco de trabalho e demorará alguns minutos.

Quer ter a bondade de registá-los no verso da conta? pediu Perry Mason, sorrindo.

A empregada pegou na conta, dirigiu-se para a mesa da telefonista e falou com esta. Volvido um momento trouxe consigo um livro de registo encadernado em couro, abriu-o e pôs-se a escrever com agilidade. Terminado o trabalho devolveu a conta a Perry Mason.

Os telefonemas estão todos marcados aí disse ela.

Perry Mason agradeceu, dobrou a conta sem se dar ao trabalho de estudá-la, meteu-a no bolso e voltou-se para a porta.

Obrigado, mil vezes obrigado disse.

 

Perry Mason empurrou a porta do seu escritório e arredou-se para dar entrada a Marjorie.

Della Street, que estava sentada diante da sua escrivaninha, junto ao quadro de ligações, saltou em pé e o seu olhar passou de Perry Mason para os olhos azuis da rapariga.

Della, disse o advogado aqui está Marjorie Clune, a jovem das «pernas da sorte». Margy, esta é Della Street, minha secretária.

Della Street pareceu não ter ouvido a apresentação.

Estava com os olhos fixos em Marjorie. Finalmente volveu-os para o rosto de Mason.

O senhor trouxe-a aqui? O senhor?!

Perry Mason abanou a cabeça.

Mas os investigadores têm estado aí, e ainda voltarão!

O edifício está sendo vigiado. O senhor conseguiu entrar mas não poderá sair, e Marjorie Clune está sendo procurada por crime de homicídio. O senhor, assim, expõe-se à acusação de favorecer a culpada!

Marjorie agarrou-se ao braço de Mason.

Oh, perdoe-me! E, voltando-se para Della Street:

Se eu soubesse, não teria feito isto por nada deste mundo.

A secretária adiantou-se para ela rapidamente e cingiu-lhe os ombros com o braço.

Está bem, querida, está bem. Não se aflija. A culpa não é sua. Ele sempre gostou de fazer essas coisas. Está sempre a arriscar-se demasiadamente.

E atalhou Perry Mason, sorrindo sempre me livro das dificuldades. Por que não lhe diz isto também, Della?

Porque um dia o senhor não conseguirá livrar-se!

Perry Mason lançou-lhe um olhar significativo.

Leve-a para o meu gabinete particular, Della, e espere lá.

Della Street abriu a porta do gabinete.

Pobrezinha! disse em tom maternal. Tudo isto tem sido horrível, não é verdade? Mas não se aborreça.

Agora o caso vai ter uma solução.

Marjorie deteve-se no limiar da porta.

Por favor! disse a Perry Mason. Por favor !

Eu não quero que o senhor corra perigo por minha causa.

Della Street apertou-lhe os ombros de leve e conduziu-a para o gabinete interior, onde a fez sentar numa grande poltrona de couro, ao lado da secretária de Perry

Mason.

Espere aqui e trate de repousar. Pode deitar-se na poltrona, encolhendo as pernas e descansando a cabeça nas almofadas.

Marjorie dirigiu-lhe um sorriso de gratidão.

Della Street voltou ao escritório exterior.

Mason caminhou para a porta do corredor e travou o trinco.

Não quero ser perturbado durante alguns minutos.

Onde está Bradbury? Na biblioteca?

Della Street abanou a cabeça afirmativamente e olhou para a porta do gabinete particular de Perry Mason.

Onde foi que a encontrou?

Aposto que você não adivinha.

Onde foi, chefe ?

Em Summerville.

Como foi ela lá ter ?

De comboio. Mas eu cheguei antes.

Ah, sim ?

Sim. Estava seguindo outra pessoa.

Quem ?

O doutor Doray. Foi para lá no avião da meia-noite.

E os dois estavam lá ?

Perry Mason fez que sim com a cabeça.

Juntos, chefe?

Perry Mason puxou o maço de cigarros e olhou para ele com expressão pesarosa.

Só restam dois...

Eu tenho um maço disse ela.

O advogado acendeu um cigarro e tirou uma vasta baforada.

Eles estavam juntos? tornou a perguntar Della

Street.

No apartamento dos noivos respondeu o advogado.

Está casada, então ?

Não, não casaram.

Iam casar?

Não, ela ia casar com Bradbury.

Então... quer dizer que... que...

Isso mesmo. Ela ia casar com Bradbury porque Bradbury a tinha metido numa situação que não lhe deixava outra alternativa. Mas antes disso queria conceder uma semana da sua vida a Bob Doray.

Della Street fez um gesto indicando o livro que se achava junto ao telefone.

Sim, já vi disse Perry Mason. Notei o sinal assim que cheguei. Isso tinha grande importância. Era uma coisa que eu precisava saber, mas receava encontrar investigadores aqui e não queria que você me dissesse na frente deles.

Pois é assim. Marjorie recebeu um telefonema cinco minutos antes de sair do apartamento de Thelma Bell.

Thelma Bell sabe quem foi a pessoa que telefonou?

Não, ela diz que Marjorie esteve falando durante alguns minutos e finalmente disse que tornaria a telefonar daí a uma hora. Diz também que Marjorie não parecia nada contente com o telefonema. Estava de sobrecenho carregado quando desligou.

Perry Mason estudava com um olhar pensativo as volutas de fumo do seu cigarro.

E quanto a Bradbury ? perguntou a secretária.

Vai seguir as instruções dele?

Que o diabo o leve. Quem dirige a dança sou eu.

A porta da biblioteca abriu-se sem ruído e J. R. Bradbury entrou no escritório, o rosto pálido e contraído, os olhos frios e resolutos.

Você pode pensar que está dirigindo a dança, mas sou eu quem manda! Então essa cadelinha fingida queria passar-me a perna, hem ? Tomou o apartamento dos noivos com Doray, hem? Raios os partam! Eu vou mostrar-lhes quem sou!

Perry Mason considerou-o com tranquila curiosidade.

Estava escutando no buraco da fechadura ou trouxe uma cadeira para ouvir pela bandeira da porta?

Se isso lhe interessa replicou Bradbury com uma raiva fria eu estava escutando pela bandeira, que abri para poder ouvir.

Della Street volveu o olhar indignado de Bradbury para Mason. Tomou fôlego como quem ia falar, mas, notando o relance de olhos do seu chefe, permaneceu calada.

Perry Mason estava indolentemente sentado na secretária, bamboleando a perna.

Parece que chegou a hora de pôr as cartas na mesa, Bradbury.

Bradbury sacudiu a cabeça afirmativamente.

Não me interprete mal, Mason. Você é um lutador e eu tenho-lhe muito respeito, mas eu também o sou, e acho que você não me considera com o respeito devido.

A sua voz era tensa, áspera e monótona.

Os olhos de Perry Mason continuavam firmes, calmos e pacientes.

Não, Bradbury, você não é um lutador. Você pertence ao tipo dos que tiram partido dos erros alheios. Tem a mentalidade do banqueiro. Põe-se de parte, e quando a ocasião lhe parece azada, salta. Não é assim que eu luto.

Eu vou para o largo, procurando criar as minhas próprias oportunidades e expondo-me ao perigo. Você não se expõe.

Busca sempre as posições seguras. Nunca arrisca a sua pele.

Houve uma rápida mudança de expressão nos olhos de Bradbury.

Não pense que eu nunca arrisco a minha pele.

Arrisco-me, e muito, mas sou bastante esperto para saltar sempre por cima do perigo.

O olhar de Perry Mason era paciente e meditativo.

Nisso você tem razão, em parte disse ele. Talvez eu deva emendar o que disse.

Mas tudo isto não nos adianta nada, Mason. Eu julgava que nós dois nos compreendíamos perfeitamente.

Estou acostumado a fazer as coisas a meu modo. Consigo o que quero a bem ou à força, mas sempre consigo. Sou odiado por muita gente. Muitos dizem que a minha táctica é desleal, mas todos têm de reconhecer que, quando eu digo que vou fazer uma coisa, faço-a mesmo.

O olhar de Della Street passava de um para o outro.

Perry Mason continuava a fumar em silêncio.

Eu disse-lhe prosseguiu Bradbury que queria uma confissão por parte de Bob Doray.

Não foi o que me disse de começo.

Mudei de ideia e, consequentemente, de plano. Se não lhe disse isto no começo, estou dizendo agora.

Mason cerrou os lábios pensativamente, olhou para Della Street e depois para Bradbury.

Eu não teria aceito o ajuste se soubesse que esta ia ser uma das condições, Bradbury. Lembre-se de que me forçou a defender os interesses do doutor Doray. E eu preveni-o que, se o defendesse, havia de fazê-lo com toda a minha capacidade; que lutaria por ele, e que só tomaria em consideração os seus interesses e os interesses de Marjorie Glune

O que você disse não importa! exclamou Bradbury com impaciência. O tempo está ficando escasso.

Temos de agir, e...

A porta exterior do escritório rangeu sob o peso de um corpo que se apoiava nela, e no vidro opaco desenharam-se as silhuetas de dois homens. Tornaram a sacudir o trinco, e pancadas imperiosas soaram na porta.

Perry Mason acenou com a cabeça para Della Street.

Abra, Della.

Entendamo-nos, Mason disse Bradbury à pressa.

A minha resolução neste ponto é inflexível. Você está trabalhando para mim e vai cumprir as minhas ordens.

Estou trabalhando pelos interesses dos meus clientes replicou Mason. Aceitei o ajuste sob a estipulação de que eu ia obter justiça completa e...

Interrompeu-se vendo Della Street abrir a porta vivamente, num largo movimento.

Riker e Johnson entraram no escritório.

Até que afinal o encontrámos ! disse o primeiro.

Estavam a procurar-me ?perguntou Mason com ironia.

Johnson riu-se.

Oh não ! disse com espesso sarcasmo. De modo algum! Só queríamos pedir o seu parecer sobre uma pequena questão legal.

Riker fez um gesto indicando Bradbury.

Quem é esse homem ?

Um cliente respondeu o advogado.

Que está ele fazendo aqui ?

Por que não pergunta a ele próprio ? No que me toca, é segredo profissional.

Bradbury ficou a olhar os dois homens sem dizer nada.

Pedem a sua presença na Repartição Central para lhe fazerem umas perguntas informou Johnson.

Acontece porém tornou Mason que eu passei algum tempo sem vir ao escritório e tenho negócios a que atender. Desculpem, mas de momento não posso ir à polícia.

O senhor ouviu bem: precisamos de si na Repartição

Central para o interrogar.

Trouxe o mandato de prisão ?

Não volveu Riker em tom soturno, mas podemos trazê-lo num abrir e fechar de olhos.

Óptimo, então vá buscá-lo.

Olhe, Mason disse Johnson, não adianta fazer-se tolo. Você bem sabe que nós podemos levá-lo à esquadra.

Se faz questão podemos trazer o mandato, mas então terá de responder a processo. Você está de tal modo envolvido neste caso que parece ter-se exposto a uma queixa-crime.

O chefe quer dar-lhe uma oportunidade. Consentirá em ouvir as suas explicações antes de apresentar os autos do inquérito ao promotor. É uma porta aberta para si. Se conseguir convencer a autoridade, muito bem. A nós tanto faz uma coisa como a outra. Temos ordem para levá-lo, nada mais.

Vocês disseram que vinham pedir um parecer legal.

Parece que tinham razão e que precisam mesmo do meu parecer. Poderão levar-me à Repartição Central se tiverem um mandato de prisão contra mim. De contrário, não.

Se vamos a isso, podemos levá-lo agora mesmo redarguiu Johnson.

Perry Mason considerou-o com uma expressão belicosa no olhar.

Bem talvez possam e talvez não...

Que demónio! disse Riker. Vá ao telefone e ligue para a Esquadra.

Perry Mason olhou para os dois investigadores e teve um sorriso sarcástico.

Acabemos com esta comédia, rapazes. Vocês não estão falando com um banana que não conhece os seus direitos. Estão falando com um advogado. Se tivessem contra mim provas que justificassem um mandato de prisão, teriam trazido esse mandato consigo. Vocês não o têm nem vão consegui-lo, pelo menos por agora. Talvez o júri de instrução cometa uma calinada e me pronuncie, ou talvez encontrem alguém bastante tolo para assinar uma queixa, mas o que vocês estão procurando agora é fazer com que eu me ponha na defensiva para poderem investigar os meus assuntos privados. Fiquem certos de que não o conseguirão.

Aí está o telefone. Podem chamar a Repartição Central.

E, voltando-se para Della Street:

Desmascare-os, Della. Faça a ligação com a polícia.

A secretária segurou o telefone e ligou num gesto decidido.

Esquadra de polícia pediu.

Perry Mason arreganhou os dentes para os investigadores.

Quando eu estiver pronto para ir à Esquadra, irei.

Se quiserem prender-me, prendam-me, mas tomem o cuidado de fazê-lo legalmente.

Bem, oiça disse Johnson : nós temos muitas coisas contra você, Mason, e essas coisas têm de ser explicadas.

Você está envolvido nesse caso do princípio ao fim.

Logo de saída meteu os pés pelas mãos, ocultando Marjorie Clune.

Têm a certeza de que eu a ocultei ?

Foi de táxi ao apartamento dela, e pouco depois de você se retirar ela mudou-se.

Realmente ? fez Perry Mason. Que feliz circunstância!

Da Esquadra de polícia, estão ao telefone disse

Della Street.

Johnson olhou para Riker e exclamou :

Deixe lá. Para o diabo com isso!

Pode desligar, Della disse Mason.

Della Street fez estalar o gancho, cortando a ligação.

Ainda assim prosseguiu Johnson, dirigindo-se ao advogado eu aposto cinco dólares em que nós estaremos aqui com um mandato de prisão dentro de quarenta e oito horas.

Está apostado ! tornou Perry Mason, sorrindo.

Deposite dinheiro.

Vamos, Johnson disse Riker.

Os dois homens viraram-se para a porta.

Bradbury olhava fito para o advogado.

Um momento, Mason disse ele. Você vai seguir as minhas instruções neste assunto !

Mason deu dois passos na direcção dele e ficou a encará-lo com uma insistência ameaçadora. Riker parou com a mão no trinco e Johnson voltou-se para olhar atentamente os dois.

Meta isto na cabeça disse Perry Mason a Bradbury e faça-o de uma vez por todas porque eu não quero estar a repetir sempre a mesma coisa. O papel que você desempenha neste caso é o de Papá Natal e nada mais.

Você é o homem que entra com o dinheiro. Fora isso não tem nada que ver com o assunto, ouviu? Ab-so-lu-ta-men-te nada!

Bradbury virou-se para os investigadores.

Cavalheiros, se abrirem a porta desse gabinete particular encontrarão escondida aí dentro Marjorie Clune, uma foragida da justiça.

Perry Mason girou nos calcanhares e enfrentou os polícias.

Se se atreverem a abrir essa porta sem um mandato de prisão, eu parto-lhes a cara !

Os investigadores olharam um para o outro e depois para Bradbury.

Sei o que estou a dizer declarou ele. Ela está aí dentro, e se não andarem depressa escapará pela porta do corredor.

Os dois homens arremessaram-se para a porta do gabinete.

Perry Mason pôs-se em guarda com a graciosa agilidade de um pugilista. Bradbury saltou-lhe em cima, por trás, rodeando-lhe a cintura com as pernas e prendendo-lhe os braços. Mason perdeu o equilíbrio e cambaleou um pouco. Riker atirou-se a ele, e Mason e Bradbury caíram escarrapachados no tapete. Della Street soltou um grito agudo. Johnson abriu violentamente a porta do gabinete particular.

Marjorie Clune estava lutando com a fechadura da porta que dava para o corredor.

Pare, senão atiro ! berrou Johnson.

Marjorie virou-se para encará-lo. Estava imóvel, pálida, e os seus olhos arregalados, muito azuis e cheios de susto, fitavam os dois investigadores.

Caramba! disse Johnson à meia-voz. É ela mesmo ! É Marjorie Clune !

Perry Mason pôs-se em pé. Bradbury estava sacudindo cuidadosamente o pó dos joelhos. Riker tirou do bolso um par de algemas.

Chama-se Marjorie Glune ? perguntou ele.

Os olhos da rapariga continuavam fitos no polícia com uma curiosidade impassível.

Se tem perguntas para fazer, faça-as ao meu advogado, Perry Mason disse ela.

Perry Mason fez um sinal a Della Street.

Chame a Repartição Central, Della.

 

Johnson estava pondo as algemas em Marjorie. Perry

Mason segurou-o pelo ombro.

Não precisa fazer isso, seu animal!

Johnson virou-se para ele, com um olhar lampejante de ódio.

Só porque é advogado, você pensa que pode fazer o que muito bem entende. Há pouco disse que nós não podíamos prendê-lo, e tinha razão. Nós sabíamos disso. Não tínhamos motivos suficientes para justificar a prisão. Mas agora a situação mudou. Agora podemos prendê-lo !

Quer escutar-me por um momento ?

Ah, você quer falar? observou Riker. A situação tornou-se algo diferente. Está aflito por falar, hem ?

Della Street entrou no gabinete particular e esperou que o advogado olhasse para ela.

A Repartição Central está ao telefone avisou.

Diga ao inspector O’Malley que, se ele quiser vir ao meu escritório nestes dez minutos, eu tenho algumas revelações a fazer a respeito do caso Patton.

Della Street inclinou a cabeça.

O’Malley não vem cá disse Johnson. Diga-lhe que espere na Esquadra.

Sem lhe prestar atenção, a secretária voltou ao escritório exterior.

Com um sorriso frio de triunfo, J. R. Bradbury tirou um charuto do bolso, cortou a ponta e acendeu-o.

Este homem disse Perry Mason, indicando Bradbury foi quem me ajustou para defender Marjorie Glune.

Foi ele quem me deu instruções para agir antes da polícia e tirar a rapariga de dificuldades.

Não fiz tal coisa retrucou Bradbury.

Foi ele quem me pediu para defender o doutor Doray.

Não pedi tal coisa fez Bradbury.

Que nos importa o que você ou ele fizeram ? disse Riker. Nós apanhamo-lo e apanhamos esta menina, que está sendo procurada por crime de morte. Você sabia disso.

A notícia saiu nos jornais. Você tinha-a aqui no escritório e estava-a escondendo. Isso torna-o um cúmplice pessoal da indiciada. É portanto um delinquente, e não precisamos de ordem escrita para o prender. Foi surpreendido em flagrante delito.

Se quiserem ouvir-me, eu lhes explicarei toda a situação disse Perry Mason.

Pode explicar ao juiz tornou Johnson. Estou farto de andar nas suas pegadas, Perry Mason. Há muito tempo que você nos vem iludindo e ridicularizando. Agora vai connosco. Ponha-lhe as algemas, Riker.

Perry Mason olhou firme para os dois polícias.

Quero falar disse.

E que tenho com isso? retrucou Johnson.

Quando chegarmos à Esquadra eles me perguntarão o que eu tenho para dizer e eu responderei que estava a ponto de fazer uma confissão completa, mas que vocês, seus imbecis, não me deixaram falar; que agora eles se arranjem por si e tratem de provar a minha culpabilidade, se puderem.

Johnson voltou-se para Riker.

Feche à chave aquela porta. Se o homem quer confessar o caso é diferente.

Você quer confessar ? perguntou o outro.

Sim disse Perry Mason.

Confessar o quê ?

Certas coisas que serão apontadas no decorrer da confissão.

Riker abriu a porta que dava para o escritório exterior.

Venha cá disse a Della Street e estenografe o que este camarada vai dizer.

Mas é a secretária dele! objectou Johnson.

Não faz mal. Ela vai fazer tudo direitinho se ele mandar. E se ele não mandar, nós não o deixaremos falar.

Mason riu.

Não pensem que me logram. Sucede apenas que eu desejo que as minhas declarações sejam estenografadas.

Della, faça o favor de registar tudo o que se disser neste gabinete, palavra por palavra. Quero um registo completo de tudo o que for dito, e de quem disse.

Vamos, comece o discurso tornou Johnson, encrespando ligeiramente os lábios.

O meu primeiro contacto com este caso foi quando J. R. Bradbury, o cavalheiro que aí está, veio solicitar os meus serviços. Tinha estado na promotoria pública, mas lá não puderam fazer nada por ele. Queria que eu descobrisse o paradeiro de Frank Patton e o processasse. Por minha indicação, ele recorreu à Agência de Investigações Drake encarregando-a de procurar Patton.

Isso não se parece com uma confissão observou Riker.

Perry Mason fixou-lhe um olhar frio.

Quer escutar, ou prefere que eu me cale?

Deixe-o continuar, Riker disse Johnson.

Quero deixar bem entendido que eu não admito como verdadeiro nada do que esse homem diz declarou Bradbury.

Cale a boca volveu Johnson.

Não calo a boca enquanto não houver expressado o meu pensamento. Eu conheço os meus direitos!

Riker estendeu o braço e segurou Bradbury pela gravata.

Escute, nós estamos aqui para ouvir a confissão dele e não o seu gramofone. Fique sentado e cale o bico.

E empurrou Bradbury para cima de uma cadeira. Depois virou-se para Mason.

Continue. Você queria falar. Pois bem, fale.

Bradbury veio ao meu escritório. Antes disso, porém, eu tinha recebido um telegrama assinado por Eva Lamont.

Bradbury disse que fora ele o remetente do telegrama em que pedia para me encarregar de um caso no qual estava envolvida Marjorie Clune. Bradbury expôs-me a questão em linhas gerais. Marjorie Glune fora vítima de uma vigarice de Frank Patton e ele queria que eu procurasse Patton e lhe movesse um processo. Por intermédio de Drake descobri onde morava Patton. Nessa ocasião travámos conhecimento com uma rapariga chamada Thelma Bell, que mora no Edifício

St. James, na East Faulkner Street. O número do seu telefone era Harcourt 63891, Tenho uma memória incrível para números de telefone...

«Na noite em que Drake descobriu o endereço de Patton eu estava no meu escritório, esperando um telefonema de Drake. Tínhamos combinado ir juntos ao apartamento de

Patton para ver se lhe arrancávamos uma confissão. Bradbury apareceu no escritório e eu disse-lhe que esperasse, mandando-o para o gabinete no escritório exterior. Depois veio a chamada de Drake e eu disse-lhe que me esperasse.

Tomei um táxi para ir lá. Entretanto tinha mandado Bradbury de volta ao seu hotel, para ir buscar uns jornais. Ele está hospedado no Mapleton Hotel. Calculou que levaria meia hora para ir e voltar. O cálculo estava certo. Devia demorar mais ou menos esse tempo.

-Você não vai confessar perguntou Bradbury em tom trio e acusador que entrou no apartamento de Patton antes da polícia e que fechou a porta à chave quando saiu?

Johnson virou-se para Bradbury.

Que sabe a esse respeito ?

Sei que foi isso o que ele fez respondeu Bradbury.

Como sabe ?

Porque tornou o outro, com um sorriso triunfante para o advogado, este homem telefonou-me para cá, pouco depois das nove horas, e deu-me todos os pormenores do crime. Disse-me de que modo a coisa se havia passado.

A própria polícia ignorava tudo àquela hora. Eu pedi-lhe que fizesse o possível para proteger Marjorie Glune. Referia-me, está claro, a métodos estritamente legais.

Johnson e Riker entreolharam-se.

Foi essa a chamada que Perry Mason fez do drug store ? perguntou Riker. Seguimos as evoluções do táxi que ele tomou, daqui à esquina da Nona Avenida com Olive, de lá ao apartamento de Patton, do apartamento de Patton a um drug store de onde ele telefonou, e do drug store ao Edifício St. James.

Foi para mim que ele telefonou nessa ocasião, disse Bradbury. Peço para não esquecerem que eu fiz esta declaração perante testemunhas e logo depois de saber que

Perry Mason procedeu de maneira ilegal. Não quero incidir, por simples negligência, em qualquer artigo do Código.

Riker olhou para Della Street e perguntou:

Escreveu isso ?

Escrevi.

Continue disse Johnson a Bradbury.

Ele que continue tornou Bradbury, indicando o advogado com um movimento de cabeça.

Fui ao apartamento de Patton disse Mason.

Bati à porta. Ninguém atendeu. Como visse que a porta não estava fechada à chave, abri e entrei. Encontrei o cadáver de Patton, que tinha sido apunhalado. Vi um casse-tête a um canto da sala. Quando ia saindo, ouvi um agente da polícia aproximar-se pelo corredor. Não queria que me vissem saindo do apartamento, nem parado diante da porta aberta. Tinha uma gazua no bolso. Fechei a porta e pus-me a bater. Disse ao guarda que acabava de chegar e estava batendo para que me viessem abrir.

Perry Mason calou-se. O silêncio que se fez no escritório tornou audíveis o arranhar da pena de Della Street no bloco-borrão e o arfar soluçante da sua respiração.

Você é um bonito advogado! disse Riker em tom de mofa. Essa confissão, mais a confirmação de Bradbury, vão metê-lo na cadeia para o resto da vida.

Em cima da mesa, prosseguiu Mason, sem dar ouvidos ao comentário , estavam dois recados telefónicos. Um deles dizia que Thelma Bell chegaria ao encontro marcado.

O outro pedia a Patton que ligasse para o telefone Harcourt 63891 a fim de falar com Marjorie. Eu vi esses dois recados. Lembrei-me de que era o número do telefone de Thelma Bell. Como já disse, tenho uma memória fotográfica para essas coisas. Deduzi, portanto, que Marjorie Clune podia ser encontrada no apartamento de Thelma Bell. Telefonei a Bradbury para lhe pedir instruções. Ele disse-me que eu devia proteger Marjorie Clune sem olhar aos meios nem às circunstâncias.

Isso é mentira disse Bradbury. Eu contratei os seus serviços como advogado. Não esperava que você recorresse a meios ilegais. Não tenho nada com isso.

Deixemos esse ponto. Continue, Mason disse Riker.

Fui ao apartamento de Thelma Bell e encontrei Marjorie Clune. Estava tomando banho. Thelma Bell também acabava de sair da banheira. Ela disse-me que tinha marcado um encontro com Frank Patton, mas faltara; que tinha saído com uma pessoa amiga. Telefonei a essa pessoa, que confirmou.

«Recomendei então a Marjorie Clune que se mudasse para um hotel, registando-se sob o seu nome verdadeiro, que me telefonasse para dar o endereço e que não saísse do hotel. Ela prometeu fazê-lo. Telefonou depois para o meu escritório dizendo que estava no Bostwick Hotel, no quarto 408. O número do telefone era Exeter 93821. Procurei Bradbury e contei-lhe o que havia acontecido, excepto a circunstância de eu ter entrado no apartamento de Patton e fechado a porta à chave quando saí. Bradbury avisou-me nessa ocasião que eu devia encarregar-me da defesa do doutor Doray, bem como de Marjorie Clune. Concordei com isso.

«Falei com Bradbury no hotel dele porque não quis ficar no meu escritório. Ele tinha voltado aqui com os jornais que eu o mandara buscar ao Mapleton Hotel. Voltou mais ou menos à hora em que telefonei. Creio que acabava de entrar no escritório quando chamei para cá, daquele drug store próximo ao apartamento de Patton.

Havia também uma pasta observou Bradbury.

Sim, você telefonou a Della Street perguntando se era preciso trazer também a pasta. Ela respondeu-lhe que não seria mau trazê-la junto com os jornais.

Telefonei do meu quarto no hotel explicou Bradbury aos investigadores.

Posteriormente, telefonei a Marjorie Clune continuou Perry Mason. Ela havia deixado o hotel. Uns investigadores interrogaram Della Street, acusando-a de ter telefonado ao doutor Doray para lhe advertir que fosse para o estrangeiro. Na realidade, Della Street não fez tal coisa.

Isso diz você comentou Bradbury.

Cale a boca, Bradbury fez Riker.

Informaram-me que Marjorie Clune pretendia tomar o avião da meia-noite continuou Mason. Aluguei um aparelho e segui o itinerário desse avião. Chegando a Summerville, na primeira paragem descobri que o doutor Doray havia desembarcado ali. Fui ao Riverview Hotel e soube que Doray estava hospedado no apartamento dos noivos. Ele começou por dizer que não conhecia o paradeiro de Marjorie Clune, mas enquanto falávamos Marjorie Clune em pessoa entrou no quarto. Tinha perdido o avião e fora de comboio. Pouco depois apareceu a polícia para prendê-los. Dei fuga a Marjorie Clune e trouxe-a para cá.

Ah, você fez isso? disse Riker. »

Fiz tornou Mason.

E o idiota ainda confessa ! comentou Johnson.

Perry Mason fixou-lhes um olhar frio e desdenhoso.

Se os cavalheiros -estão interessados na minha confissão, convém que fiquem calados para que eu a possa concluir.

Deixe-se de humorismo e continue volveu Johnson.

Perry Mason olhou fixamente para este. Depois virou-se, fazendo frente a Della Street.

Se os senhores dois fizerem uso do raciocínio interveio Bradbury compreenderão que essa história da porta fechada à chave tem uma importância vital no caso.

Se a porta estava aberta, é quase certo que o assassino foi Robert Doray. Se estava fechada, porém, isso significa que Frank Patton foi morto por...

Pode guardar as suas deduções para si atalhou Johnson. O senhor terá a sua oportunidade de falar depois dele. O senhor também andou brincando com a lei.

Tenho a impressão de que esteve procurando intimidar Perry Mason com as informações que possui. Não julgue que possa fazer isso impunemente.

Não admito que me fale nesse tom ! replicou Bradbury, erguendo-se da cadeira.

Acomode-o, Riker disse Johnson.

Riker segurou novamente Bradbury pela gravata e fê-lo sentar-se à força.

Fique sentado aí, e bico calado!

Ouviram-se umas pancadas imperiosas na porta de entrada do escritório.

Deve ser o inspector O’Malley observou Perry Mason.

Johnson remexeu-se um pouco, impaciente, e disse:

Faça entrar, Riker.

Riker foi abrir a porta. Um indivíduo pançudo, bastante baixo, com uma face redonda de querubim e uns olhos claros que pareciam absolutamente inexpressivos, entrou a passos rápidos e elásticos e atravessou o escritório anterior, dirigindo-se para o gabinete particular de Perry Mason. Deteve-se diante do pequeno grupo.

Olá, O’Malley disse Perry Mason.

Que foi que vocês arranjaram aqui ? perguntou O’Malley.

Esta mulher é Marjorie Glune, procurada por homicídio apressou-se Johnson a dizer. Perry Mason estava-a escondendo no escritório. Também andou a escondê-la no interior do país.

Os olhos de O’Malley volveram-se rápidos para Marjorie Glune, desta para Perry Mason e finalmente para Johnson.

Quando Mason faz uma coisa, tem geralmente uma razão para isso. É necessário algemar a mulher?

Trata-se de um crime de morte, e Perry Mason está fazendo uma confissão disse Johnson.

Fazendo o quê ? fez O’Malley.

Uma confissão.

Que está ele confessando ?

Está confessando que entrou no apartamento de Patton, encontrou o homem morto, raspou-se antes que a polícia chegasse, fechou a porta à chave e depois mentiu dizendo que não tinha estado lá dentro.

O’Malley olhou para Perry Mason com a testa franzida numa expressão de perplexidade. E, considerando Della Street:

Você está escrevendo isso, Della?

A secretária fez que sim com a cabeça.

O inspector tornou a volver os olhos para Mason.

Que ideia é esta, Perry?

Estou procurando fazer uma confissão, mas sou constantemente interrompido.

Então está-se confessando culpado de um delito, e manda a sua secretária estenografar a confissão? Perguntou O’Malley, numa voz cheia de pasmo e incredulidade.

Quando eu tiver terminado, se me permitirem terminar respondeu Mason, a confissão falará por si.

O’Malley virou-se para Bradbury.

Quem é este camarada?

J. R. Bradbury disse o advogado. Ajustou-me para defender Doray e Marjorie” Clune. É quem marcha com o dinheiro nesta história.

Continue, termine a sua confissão.

Quero explicar as minhas relações com... começou Bradbury.

Cale a boca retrucou O’Malley, voltando-se para ele.

Perry Mason voltou à sua exposição:

Evidentemente, Frank Patton foi morto com uma faca. O casse-tête não desempenhou papel algum no crime.

Também é evidente que o assassino atirou o casse-tête a um canto, depois do acto. Enquanto falava com Marjorie Clune, ela contou-me que Doray a tinha levado no seu carro particular a um ponto próximo do edifício onde morava Patton. Doray comprara a faca e tinha formulado ameaças contra Patton. Tencionava matá-lo. Por essa razão, Marjorie não lhe quis dizer onde estava Patton. Entrou numa confeitaria para contemporizar, foi ao toucador e mandou dizer a Doray que se tinha escapado pela porta de trás. Era falso. Estava escondida no toucador. Cinco minutos depois que Doray se retirou, ela também saiu e dirigiu-se para o apartamento de Patton. Afirma tê-lo encontrado morto. Cruzei com ela quando vinha saindo do apartamento.

«Procurei Thelma Bell e auxiliei-a a fugir. Comprei-lhe uma passagem para College City. Ela foi e registou-se num hotel.

«Inventei um pretexto para voltar ao apartamento de Thelma. Dei uma busca e descobri uma chapeleira em que estavam guardados um par de sapatos brancos, meias e um vestido. Todos esses objectos tinham sido manchados de sangue e lavados à pressa. Os sapatos brancos pertenciam a Marjorie Clune, mas as outras coisas eram de Thelma Bell. Despachei a chapeleira para College City e fiquei com a senha. Depois dei a passagem a Thelma, de modo que ela viajou com a passagem correspondente à senha.

Procurou no bolso do colete, tirou um rectângulo numerado de papelão e estendeu-o ao inspector O’Malley.

Aí está a senha da chapeleira.

Então só os sapatos pertenciam a Marjorie Clune ? perguntou O’Malley.

Só os sapatos.

Isso é o que ela afirma.

É o que eu afirmo ! corrigiu Mason.

Você é um advogado das dúzias disse Bradbury.

Está traindo a confiança de um cliente. Está divulgando comunicações feitas sob sigilo profissional. Você é...

Se ele não quiser calar-se disse O’Malley a Riker, você pode fazê-lo calar à força.

Riker aproximou-se da cadeira de Bradbury.

Você não é surdo, hem, amigo? perguntou, fechando o punho direito.

Não pense que me assusta tornou Bradbury, com um olhar frio e desdenhoso.

Mason continuou a falar, impedindo assim que as atenções se localizassem sobre Bradbury e o investigador.

Tornei a verificar o álibi de Thelma Bell e descobri que não tinha base alguma. Estou convencido de que o álibi foi forjado, com pouca habilidade aliás. Era um álibi de amor, e preparado à pressa ainda por cima. Thelma Bell estava no banho quando Marjorie Clune voltou ao apartamento.

Para mim, não há dúvida de que ela tomou esse banho para lavar as manchas de sangue.

Houve um instante de silêncio.

Quer dizer que foi Thelma Bell quem matou o homem ? perguntou O’Malley.

Perry Mason fez um gesto recomendando-lhe silêncio.

Quando Bradbury me procurou, não sabia onde estava

Patton nem Marjorie Clune. Quando me separei de Marjorie

Glune no apartamento de Thelma Bell, ela pretendia casar com o doutor Doray. Gostava dele. Em Summerville, descobri que tinha mudado de propósito, pois queria casar com Bradbury. Não que tivesse deixado de amar Doray. Ia, mesmo, casar com Bradbury por amor a Doray. Sabia que Doray estava em maus lençóis. Ele tinha comprado a faca e mostrara a intenção de matar Patton. Essa faca foi o instrumento usado na perpetração do crime. No íntimo, ela estava certa de que Doray era o assassino. Sabia que Bradbury pagaria a um advogado para defender Doray se ela concordasse em casar com ele.

«Antes de me encontrar com Marjorie em Summerville, mas depois de ela ter saído do Bostwick Hotel, falei com Bradbury. Bradbury ordenou-me que me encarregasse da defesa de Doray, bem como de Marjorie Glune, e conseguisse a absolvição dele. Posteriormente, telefonei para o meu escritório, e disse à minha secretária que procurasse comunicar com Thelma Bell para saber se Marjorie Clune tinha falado pelo telefone antes de deixar o apartamento de Thelma. Bradbury escutou essa minha conversa com Della Street. Tinha tomado a liberdade de entrar no meu gabinete particular e de mexer no quadro de ligações. Meteu-se na conversa e ordenou-me que fizesse Doray confessar-se culpado para ser condenado a prisão perpétua.

Ora, é claro que o doutor Doray não levava a faca consigo quando entrou na confeitaria com Marjorie Clune.

Também é evidente que, na ocasião, ele não conhecia o endereço de Patton. Saiu da confeitaria cinco minutos antes de Marjorie Clune. Mesmo admitindo-se que ele pudesse ter ido ao seu automóvel buscar a faca, dirigindo-se depois para o apartamento de Patton, matando-o e pondo-se em fuga, tudo isso no espaço de cinco minutos, a questão fica de pé: como foi que ele descobriu o apartamento de Patton?

Marjorie Clune parece pensar que Doray lhe seguiu os passos, mas esquece que ela chegou ao apartamento depois, e não antes, de ter sido cometido o crime.

«Quando veio ao meu escritório na noite do crime, Bradbury não sabia onde morava Patton e tão pouco conhecia o paradeiro de Marjorie Clune. Entretanto, depois do assassínio ele falou com Marjorie. Esta é a única explicação que se pode encontrar para o facto de ele me ter mandado defender Doray. Marjorie Clune não podia ter outro motivo para consentir em casar com ele e para desobedecer às minhas recomendações de que ficasse no hotel, indo a Summerville passar uma semana com o homem que amava.

Marjorie Glune não sabia que Bradbury estava na cidade; por sua vez, Bradbury ignorava o endereço de Marjorie Glune. E contudo, alguém telefonou a Marjorie Clune no apartamento de Thelma Bell, e foi em consequência desse telefonema que Marjorie mudou de plano. Portanto, deve ter sido com Bradbury que ela falou. Ela não quis admiti-lo, mas creio que isso é uma conclusão lógica dos factos.

Perry Mason virou-se para Bradbury.

Você chamou-a pelo telefone ? perguntou.

Suponhamos que eu o tenha feito. Que se segue ?

Estou simplesmente procurando concatenar as circunstâncias do crime e averiguar qual a razão que levou Marjorie Clune a não ligar importância às minhas instruções para que ficasse no Bostwick Hotel. Faço-lhe esta pergunta de maneira directa e franca, Bradbury, e aviso-o de que, se mentir, isso será considerado um indício de culpa.

Culpa de quê ? fez Bradbury.

Perry Mason deu de ombros.

Você gostaria que eu mentisse, não? volveu o outro.

A mim pouco me importa o que você possa fazer.

Os olhos de Bradbury pousaram-se em Marjorie e por alguns instantes consideraram-na fixamente. Depois disse, em tom pausado e enfático :

Agora percebo a sua intenção, Mason. Marjorie Clune é capaz de tudo para salvar Doray. Você tem bastante inteligência para tirar proveito de um pequeno facto como essa chamada telefónica, dar-lhe uma importância exagerada e dramática na sua defesa e, instruindo Marjorie para que me desminta, fazer aparentar que eu fui apanhado numa armadilha.

Quando houver terminado, quer fazer o favor de responder à minha pergunta? volveu Mason friamente.

Você chamou-a pelo telefone, ou não ?

Não chamei.

Previno-o mais uma vez de que uma declaração falsa será tomada como indício de culpa. Chamou ou não chamou?

Continue disse Bradbury com um sorriso sardónico.

Seja o mais dramático que puder. Acentue e exagere a importância dessa mentira que Marjorie Clune vai dizer. Empregue toda a sua habilidade de advogado experiente para rodear de uma atmosfera dramática o falso testemunho de Marjorie Clune, e, quando houver terminado, continuará de pé a minha afirmação: eu não telefonei a Marjorie Clune naquela noite.

Telefonou, sim replicou Mason calmamente.

Dentro em pouco provarei isso. Entretanto surge uma questão: como sabia você que podia falar com Marjorie Clune naquele número ?

Bradbury fez menção de responder, mas conteve-se.

Estou esperando a resposta disse Mason.

Pois fique esperando.

Perry Mason virou-se para O’Malley.

Ele sabia que podia falar com Marjorie naquele número porque tinha lido o recado que estava em cima da mesa, no apartamento de Frank Patton. Leu esse recado na ocasião em que matou Patton.

Della Street levantou os olhos da mesa. Marjorie Clune suspendeu a respiração. O’Malley pousou em Bradbury um olhar atento e cauteloso. Bradbury manteve-se absolutamente imóvel pelo espaço de cinco segundos. Finalmente, sorriu com ar protector.

Não se esqueçam de que, em primeiro lugar, eu não sabia onde morava Frank Patton; de que você teve muito cuidado em não me informar disso, Mason; de que, além disso você mesmo me mandou buscar uns jornais ao hotel.

Eu fiz a viagem de ida e volta em trinta e cinco minutos exactos. Isso representa o tempo necessário, em média, para ir lá e voltar. Não podia tê-lo feito em menos de vinte e cinco minutos, nem que fosse para salvar a minha vida.

Precisava de meia hora, pelo menos, para ir ao apartamento de Patton e regressar. Nestas condições, acho que você terá de inventar outro método para desacreditar o meu testemunho, e será preciso descobrir um meio menos drástico de vingança.

Você sabia onde Patton morava replicou Mason porque escutou a minha conversa com Paul Drake pelo telefone.

A sua habilidade em manejar o quadro de ligações demonstra que você podia tê-lo feito. Além disso, o facto de ter ido ao apartamento de Patton e lido o recado que dava o número do telefone de Marjorie Glune demonstra que você o fez. Quanto a esse álibi do Hotel, há uma circunstância que revela a premeditação e o plano cuidadosamente traçado: é que você não esqueceu em absoluto os jornais. Trouxe-os consigo, bem como a pasta. Aquele telefonema foi um pequeno toque artístico. Você telefonou das cercanias do apartamento de Patton e disse a Della Street que estava falando do seu quarto no Hotel. Naturalmente ela não tinha razões para duvidar disso, mas ao entrar neste edifício você tinha deixado os jornais e a pasta, tudo embrulhado num pacote, na cesta de Mamie, a rapariga que vende charutos no vestíbulo.

«Você levava um casse-tête consigo. Precisava de uma arma silenciosa, Sabia que poderia matar Patton impunemente, se me fizesse ir ao apartamento dele, convencido de que você estava tratando de outra coisa e não sabia onde Patton morava. Fingiu sair do escritório muito descansadamente, demorando-se um instante a flirtar com Della Street. Mas quando saiu, fê-lo à pressa. Tomou um táxi e apeou-se nas proximidades do apartamento de Patton. Teve, então, o que se lhe afigurou uma sorte extraordinária. Descobriu o carro do doutor Doray parado junto à calçada.

Mandou embora o seu táxi, foi examinar o carro e encontrou a faca. Apoderou-se dela, foi ao apartamento de Patton, apunhalou-o e fugiu.

«Thelma Bell estava no quarto de banho, fora de si quando você chegou. A porta não estava fechada à chave.

Você abriu-a e entrou. Patton tentara entrar no quarto de banho. Só tinha no corpo a roupa de baixo, mas quando o viu tratou de vestir o roupão. Você caminhou para ele sem dizer uma palavra e cravou-lhe a faca no coração.

No momento em que se virava para ganhar a porta, lembrou-se do casse-tête. Já não necessitava dele. Pensou que poderiam revistá-lo e não queria que o soubessem possuidor dessa arma. Tirou-a do bolso e atirou-a ao chão. Correu para a rua e tomou um táxi. Parou um ou dois quarteirões adiante para telefonar a Della Street, dizer-lhe que estava telefonando do seu quarto no hotel e perguntar se era preciso trazer a pasta junto com os jornais. Depois seguiu o caminho para cá, pediu o pacote a Mamie no vestíbulo, rasgou o invólucro e entrou muito calmamente no meu escritório, com os jornais e a pasta debaixo do braço, no momento exacto em que eu estava telefonando para saber se você já tinha voltado e para o informar do crime.

«Thelma Bell ouviu o baque do corpo de Patton ao cair. Abriu a porta do quarto de banho e saiu. Inclinou-se sobre o corpo, e um pouco de sangue salpicou-lhe os sapatos, as meias e o vestido. Como não estava de sapatos brancos, o sangue não aparecia muito e ela pôde disfarçá-lo com pasta de sapatos. Mas as meias e a saia ficaram cobertas de sangue. Ela limpou-se como pôde no quarto de banho, depois voltou directamente para o seu apartamento e tomou um banho. Foi de táxi. Tinha saído do banho quando Marjorie Clune entrou. Sabendo que Marjorie tinha marcado um encontro com Patton, examinou-a para ver se trazia manchas de sangue na roupa. Encontrou algumas nos sapatos e fê-la tomar um banho. Não queria que Marjorie se visse envolvida no crime. Por outro lado, ela também não queria comprometer-se. Logo que chegara ao apartamento tinha chamado George Sanborne, seu amigo, e com ele combinara um álibi à pressa. À razão do álibi ser tão imperfeito é que foi fixado pelo telefone.

Perry Mason cessou de falar e Bradbury teve um riso escarninho.

Seria demasiado pedir-lhe que apresente outras provas, além das suas deduções coxas ?

O sorriso de Mason foi frígido.

Na manhã seguinte falei com Mamie disse o advogado e ela contou-me o caso do pacote. Mencionou o facto de você andar sempre vestido de cinzento. Lembrei-me então de que você tinha fato cinzento naquela noite. Entretanto, estava com outro fato quando o fui procurar no hotel. Tinha corrido do meu escritório para o hotel e mudara de traje. Eu gostaria de saber o motivo disso. Não seria porque o seu fato cinzento tinha manchas de sangue ?

Naturalmente, as manchas não seriam muito visíveis à luz artificial, mas era preciso desembaraçar-se do vestígio. Desconfio que tenha achado bastante difícil a empreitada e que a roupa ainda esteja escondida no seu quarto.

«Além disso, para levar a cabo a execução do seu plano, era preciso fazer com que o doutor Doray saísse do país.

Com o fim de aterrá-lo, você mandou Eva Lamont telefonar-lhe, dizendo-se Della Street, minha secretária, e ela aconselhou a Doray que fugisse para o estrangeiro.

«Doray abandonou o hotel mas continuou a comunicar-se com ele para saber se não havia chegado correspondência.

Foi assim que recebeu o recado de Marjorie. Telefonou-lhe, e ela consentiu em ir com ele a Summerville.

Quem é Eva Lamont ? perguntou O’Malley.

É a mulher que até ontem esteve hospedada com Bradbury no Mapleton Hotel. Depois, com o dinheiro de Bradbury e seguindo as suas instruções, mudou-se para o Montmartre Hotel, registou se sob o nome de Vera Cutter e deu a Paul Drake certos informes que comprometeram

Doray no crime mais cedo do que seria de esperar.

«Quando falei com Bradbury no meu escritório, contando-lhe a morte de Patton, ele quase teve um ataque ao fingir surpresa. Esse é o erro dos amadores. Sempre se excedem. A surpresa converte-se em consternação e a consternação em terror.

«Mas, voltando a Eva Lamont: Bradbury utilizou-se dela para comprometer Doray. Naturalmente, quanto eram mais fortes os indícios contra Doray, mais disposta estaria Marjorie Clune a fazer tudo para obter a sua absolvição.

«Ao escutar no telefone esta tarde, Bradbury ouviu-me dar instruções a Della Street para indicar sobre as chamadas telefónicas que Marjorie Glune houvesse recebido antes de deixar o apartamento de Thelma Bell, e compreendeu que eu estava na pista certa. Mudou, pois, de plano imediatamente e mandou que eu fizesse Doray confessar-se culpado e aceitar a prisão perpétua. Tomou essa resolução porque percebeu que eu estava começando a ter uma noção do que se passara na realidade. Tentou, então, obter a condenação de Doray e envolver-me a mim também, para salvar a sua pele.

«Esta, senhores, é a minha confissão concluiu Perry Mason.

E atravessou o gabinete para sentar-se numa cadeira.

Bradbury enfrentou o olhar acusador do inspector O’Malley.

Tudo isso são mentiras, abomináveis mentiras! Desafio-o a que apresente uma prova sequer.

Creio, O’Malley disse Perry Mason, que se derem uma busca ao quarto dele, no Mapleton Hotel, encontrarão o tal fato. E, se compararem as suas impressões digitais com as que estão na faca, verão que elas coincidem. Além disso, só para lhes mostrar como esse sujeito mente, ouçam o seguinte : Estive esta tarde no Mapleton e paguei a conta dele. Ao fazê-lo pedi uma relação particularizada dos números de telefone que ele tinha chamado. Tenho a lista aqui.

Por ela verão que Bradbury telefonou para Harcourt 68891 na noite do crime. Depois chamou Grove 86921, que é o número do Midwick Hotel, onde estava o doutor Doray.

Verão também que ele pagou as diárias de dois quartos até esta manhã ; que a hóspede do outro quarto era Eva Lamont.

Se os seus homens forem depressa ao Montmartre Hotel, acharão Eva Lamont registada sob o nome de Vera Cutter, e Paul Drake a identificará como sendo a fornecedora das informações que lhe permitiram denunciar Doray à polícia.

Perry Mason tirou do bolso a conta do hotel e entregou-a ao inspector O’Malley. Depois virou-se para encarar Bradbury.

Eu avisei-o, Bradbury, que não mentisse a respeito do seu telefonema a Marjorie Glune. Disse-lhe que isso importaria numa confissão de culpa.

Bradbury tinha os olhos cravados nele. Estava pálido como um lençol.

Raios o partam ! disse, numa voz baixa e vibrante de ódio.

O’Malley acenou com a cabeça para Riker e Johnson.

Vamos à Esquadra.

E, voltando-se para Della Street:

Quer fazer o favor de ligar para a Repartição Central de Polícia? Vou mandar uns homens deter Eva Lamont e dar uma busca ao quarto de Bradbury, no Mapleton Hotel.

Perry Mason saudou-o com uma reverência.

Obrigado, inspector.

Virou-se para Bradbury e fez um amplo gesto.

Como você observou com tanta agudeza, Bradbury, nós entendemo-nos perfeitamente. Somos ambos lutadores.

Apenas, usamos armas diferentes.

 

Um grupo de repórteres fazia semi-círculo à porta do gabinete particular de Perry Mason. Os fotógrafos tinham câmaras e projectores na mão. Perry Mason estava sentado atrás da secretária, na vasta cadeira giratória. De pé, atrás dele, Della Street sorria com o seu olhar mais cálido.

O Dr. Doray estava na poltrona de couro, em cujo braço se empoleirara Marjorie Clune. não podem aproximar mais um pouco as cabeças ( perguntou um dos repórteres aos dois namorados.

Incline-se um pouco, miss Clune. Doray, faça o favor de levantar os olhos para ela e sorrir...

Estou sorrindo disse o Dr. Doray.

Isso é um sorriso forçado replicou o outro. Nós queremos uma expressão mais apaixonada, a expressão de quem se sente muito feliz.

Marjorie Clune baixou o olhar para ele.

Perry Mason observava-os com um sorriso indulgente.

Um dos repórteres virou-se para o advogado. não nos poderia dizer, senhor Mason, como teve a primeira suspeita de que Bradbury era o criminoso?

Convenci-me disso respondeu Perry Mason quando me certifiquei de que Bradbury havia comunicado com Marjorie, pouco depois do crime e antes da meia-noite.

Eu sabia que Marjorie não podia tê-lo chamado, pois ignorava onde ele estava. Portanto, devia ter sido ele quem telefonou. Depois de ela se mudar para o Bostwick Hotel, isso era impossível. Logo, foi enquanto estava no apartamento de Thelma Bell. Como podia ele saber que Marjorie estava lá ? Devia ter obtido essa informação antes de eu lhe dar a notícia do assassínio. A única explicação que encontrei foi que ele tinha visto o número no recado telefónico.

De modo que lhe preparou uma armadilha? perguntou o repórter.

Não foi bem isso. Comecei a concatenar os factos e lembrei-me de que ele tinha entrado no meu escritório com o último número do Liberty, e esse número acabava de ser posto à venda. Ele tinha-o comprado na tabacaria aquela noite. Posteriormente, quando a empregada me disse que

Bradbury deixara um pacote com ela e comprara a revista, deduzi que ele devia tê-lo feito na primeira vez em que entrou no meu escritório aquela noite, e contudo ocultou-me esse facto. Pus-me então a averiguar outros pormenores e compreendi que não só ele podia ter sido o criminoso, mas que isso era quase certo. Precisava verificar para que números ele havia telefonado. Não sabia como o conseguiria, mas depois lembrei-me de que o hotel conservava um registo dos telefones. Daí por diante a coisa tornou-se simples.

E como soube que Eva Lamont também tomou parte no caso?

Porque o primeiro telegrama que recebi com relação a essa história estava assinado por Eva Lamont. Parece que Bradbury tencionava utilizar-se dela para levar a cabo os seus planos. Mas depois ficou com medo de que a mulher não se mostrasse à altura e reteve-a consigo como auxiliar, com o fim de comprometer Doray. Naturalmente, ela ignorava o que tinha acontecido na realidade. Bradbury só lhe confiava os factos dos quais lhe convinha informá-la. Ela fez tudo o que ele mandou, e portou-se com bastante habilidade.

Executou à risca as suas instruções e mistificou Paul Drake. Por meio dela Bradbury pôde lançar a polícia no rastro de Doray muito mais cedo do que o teria justificado a sequência natural dos factos.

Quando julga que a ideia de matar Patton tenha ocorrido pela primeira vez a Bradbury?

Há já algum tempo. Ele não tinha traçado o plano pormenorizado, está claro. Só o fez quando os factos tomaram tal feição que lhe permitiram urdir um plano inteligente. Não se enganem com Bradbury. Ele é um homem arguto, e além disso foi ajudado pelo acaso. Quase conseguiu levar o doutor Doray à cadeira eléctrica.

«Nenhum tribunal acreditaria que Doray dizia a verdade ao afirmar que a faca desaparecera misteriosamente do seu automóvel, estacionado nas proximidades do edifício onde morava Patton. Acresce que Doray se confessaria criminoso se viesse a persuadir-se de que Marjorie tinha matado o homem.

E o senhor tirou todas essas conclusões sem precisar das declarações completas de Thelma Bell?

Imaginei o que devia ter sucedido. Thelma Bell nunca me falou a verdade. Só vim a conhecer a sua história completa quando li a entrevista que ela deu aos jornais, referindo com exactidão os acontecimentos. Como sabem, Patton, embriagado, tentara fechá-la à chave no quarto de dormir. Ela refugiou-se no quarto de banho, onde se abandonou a uma crise de nervos. Começava a compreender que Patton estava a arrastá-la, pouco a pouco para a perdição, com aquela exploração da sua beleza física. Estava cansada, nervosa, e perdeu o domínio de si.

Bradbury, naturalmente, ouviu-lhe os gritos ao aproximar-se do apartamento. Abriu a porta sem bater e entrou.

A ocasião e o lugar eram ideais para o seu propósito.

Mas, senhor Mason disse um dos repórteres, não é verdade que o senhor confessou ter fechado a porta à chave, fazendo depois declarações falsas à polícia ?

Perry Mason arreganhou os dentes, com um lampejo nos olhos.

É verdade.

Isso não é um crime ?

Não, senhor. Um homem pode mentir quanto quiser à polícia ou a outra pessoa qualquer. Se essa mentira tende a furtar um criminoso à acção das autoridades, ele é culpado de cumplicidade. Se mente no tribunal, sob juramento, incide em falso testemunho. Mas neste caso, meus senhores, as mentiras tinham por fim apanhar um assassino na rede.

Mas o senhor não se arriscava ? frisou o repórter.

Perry Mason empurrou para trás a cadeira, pôs-se em pé e, perfilando os ombros, postou-se diante dos jornalistas com um olhar em que havia uma centelha de ironia e de outra coisa também. Foi em tom quase desdenhoso que falou:

Cavalheiros, eu arrisco-me sempre. Esse é o meu sistema e gosto dele.

A campainha do telefone pôs-se a retinir com insistência.

Della Street pegou no auscultador, escutou alguns instantes e saiu do gabinete, Perry Mason voltou-se para os repórteres.

Creio que já lhes disse tudo que desejavam. Vamos fazer ponto final na entrevista. Estou muito cansado.

Perfeitamente. Nós compreendemos respondeu um deles.

Perry Mason olhou um momento para Marjorie Clune e Bob Doray, como se fossem dois estranhos. Indicou a porta com um aceno de cabeça.

Que fazem ainda aqui ? O seu caso está terminado.

Vão embora. Vocês já passaram para o arquivo. «O Caso da Fotografia Misteriosa» está encerrado!

Adeus, senhor Mason, disse Marjorie com brandura.

Nunca poderei agradecer-lhe suficientemente, bem sabe.

 

                                                                                            Erle Stanley Gardner  

 

                      

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