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A GUERRA DOS TRONOS / George R. R. Martin
A GUERRA DOS TRONOS / George R. R. Martin

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO

Livro I - Primeira Parte 

A GUERRA DOS TRONOS

 

- Deveríamos regressar - insistiu Gared quando os bosques começaram a escurecer ao re­dor do grupo. - Os selvagens estão mortos.

-              Os mortos o assustam? - perguntou Sor Waymar Royce com não mais do que uma suges­tão de sorriso no rosto.

Gared não mordeu a isca. Era um homem velho, com mais de cinquenta anos, e vira os nobres chegar e partir.

Um morto é um morto - respondeu. - Nada temos a tratar com os mortos.

Mas estão mortos? - perguntou Royce com suavidade. - Que prova temos disso?

-              Will os viu - disse Gared. - Se ele diz que estão mortos, é prova suficiente para mim.

Will já sabia que o arrastariam para a disputa mais cedo ou mais tarde. Desejou que tivesse sido mais tarde.

-              Minha mãe disse-me que os mortos não cantam - contou Will.

Minha ama de leite disse a mesma coisa, Will - respondeu Royce. - Nunca acredite em nada do que ouvir junto à mama de uma mulher. Há coisas a aprender mesmo com os mortos - sua voz gerou ecos, alta demais na penumbra da floresta.

Temos perante nós uma longa cavalgada - salientou Gared. - Oito dias, talvez nove. E a noite está para cair.

Sor Waymar Royce olhou o céu de relance, com desinteresse.

-              Isso acontece todos os dias por esta hora. Você perde a virilidade com o escuro, Gared?

Will via o aperto em torno da boca de Gared, a ira só a custo reprimida nos olhos que esprei­tavam sob o espesso capuz negro de seu manto. Ele passara quarenta anos na Patrulha da Noite, em homem e em rapaz, e não estava acostumado a ser desvalorizado. Mas era mais do que isso. Will conseguia detectar no homem mais velho algo mais sob o orgulho ferido. Era possível sentir-lhe o gosto: uma tensão nervosa que se aproximava perigosamente do medo.

Will partilhava o desconforto do outro homem. Estava havia quatro anos na Muralha. Da primeira vez que fora enviado para lá, todas as velhas histórias lhe tinham acorrido ao cérebro, e suas entranhas se tinham feito em água. Era agora um veterano de cem patrulhas, e a escura e infinita terra selvagem a que os sulistas chamavam floresta assombrada já não tinha terro­res para si.

Até aquela noite. Algo era diferente então. Havia naquela escuridão algo de cortante que lhe fazia eriçar os pelos da nuca. Cavalgavam havia nove dias, para norte e noroeste, e depois de novo para norte, cada vez para mais longe da Muralha, seguindo sem desvios a trilha de um bando de salteadores selvagens. Cada dia fora pior que o anterior. Aquele tinha sido o pior de todos. Um vento frio soprava do norte e fazia as árvores sussurrarem como coisas vivas. Durante todo o dia Will tivera uma sensação que era como se alguma coisa o estivesse observando, algo frio e im­placável que não gostava dele. Gared também sentira. Will nada desejava com tanta força como cavalgar a toda pressa de volta à segurança da Muralha, mas este não era um sentimento que se pudesse partilhar com um comandante.

Especialmente com um comandante como aquele.

Sor Waymar Royce era o filho mais novo de uma Casa antiga com demasiados herdeiros. Era um jovem bem-apessoado de dezoito anos, de olhos cinzentos, elegante e esbelto como uma faca. Montando em seu enorme corcel de batalha negro, o cavaleiro elevava-se bem acima de Will e Gared, montados nos seus garranos de menores dimensões. Trajava botas negras de couro, calças negras de lã, luvas negras de pele de toupeira e uma cintilante cota de malha negra e flexível por cima de várias camadas de lã negra e couro fervido. Sor Waymar era um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite havia menos de meio ano, mas ninguém poderia dizer que não se preparara para a sua vocação. Pelo menos no que dizia respeito ao guarda-roupa.

O manto constituía a consumação da sua glória; zibelina, espessa e negra, suave como pele. "Aposto que foi ele próprio quem as matou todas, ah, pois aposto", dissera Gared na caserna, en­tre os vapores do vinho, “torceu-lhes as cabecinhas e arrancou-as, o nosso poderoso guerreiro". A gargalhada fora partilhada por todos.

"É difícil aceitar ordens de um homem de quem nos rimos de copo na mão", refletiu Will, sentado, tremendo, sobre o dorso do garrano, Gared devia sentir o mesmo.

-              Mormont nos disse para os encontrarmos, e encontramos - disse Gared. - Estão mortos. Não voltarão a nos causar problemas, Temos uma dura cavalgada à nossa frente. Não gosto deste tempo. Se nevar, poderemos levar uma quinzena para regressar, e a neve é o melhor que podemos esperar. Alguma vez viu uma tempestade de gelo, senhor?

O nobre pareceu não ouvi-lo. Estudava o crepúsculo, o que aprofundava aquele seu modo meio aborrecido e meio distraído. Will já cavalgava com o cavaleiro havia tempo suficiente para compreender que era melhor não o interromper quando tinha aquela expressão.

-              Diga-me de novo o que viu, Will. Todos os detalhes. Não deixe nada de fora,

Will fora um caçador antes de se juntar à Patrulha da Noite. Bem, na verdade fora um caça­dor furtivo. Os cavaleiros livres de Mallister tinham-no apanhado com a boca na botija nos bos­ques do próprio Mallister, esfolando um dos seus gamos, e apenas pudera escolher entre passar a vestir-se de negro e perder uma mão. Ninguém era capaz de se mover pela floresta tão silen­ciosamente como Will, e os irmãos negros não tinham demorado muito tempo para descobrir seu talento.

-              O acampamento fica duas milhas mais à frente, para lá daquela cumeada, ao lado de um córrego - disse Will. - Cheguei o mais perto que me atrevi. Eles são oito, com homens e mulhe­res. Não vi crianças. Ergueram um abrigo contra a rocha. A neve já o cobriu bem, mas mesmo assim consegui descortiná-lo. Não vi nenhum fogo ardendo, mas a cova da fogueira ainda estava clara como o dia. Ninguém se movia. Observei durante muito tempo. Nunca um homem vivo ficou tão quieto.

Viu algum sangue?

Bem, não - admitiu Will.

Viu armas?

-              Algumas espadas, uns quantos arcos. Um homem tinha um machado. Com ar de ser pesa­do, duas lâminas, um cruel bocado de ferro. Estava no chão à seu lado, junto à sua mão.

-              Prestou atenção à posição dos corpos?

Will encolheu os ombros.

Um par deles está sentado junto ao rochedo. A maioria está no chão. Como caídos.

Ou dormindo - sugeriu Royce.

Caídos - insistiu Will. - Há uma mulher numa árvore de pau-ferro, meio escondida entre os ramos. Uma olhos-longos - ele deu um tênue sorriso. - Assegurei-me de que não me conseguiria ver. Quando me aproximei, vi que ela também não se movia - e sacudiu-se por um estre­mecimento involuntário.

Está enregelado? - perguntou Royce.

Um pouco - murmurou Will. - É o vento, senhor.

O jovem cavaleiro virou-se para seu grisalho homem de armas. Folhas pesadas de geada sus­piravam ao passar por eles, e o corcel de batalha movia-se de forma inquieta.

Que lhe parece que possa ter matado aqueles homens, Gared? - perguntou Sor Waymar com ar casual, ajustando a posição do longo manto de zibelina.

Foi o frio - disse Gared com uma certeza férrea. - Vi homens congelar no inverno passa­do e no outro antes desse, quando eu era pequeno. Toda a gente fala de neve com doze metros de profundidade, e do modo como o vento de gelo chega do norte uivando, mas o verdadeiro inimigo é o frio. Aproxima-se em silêncio, mais furtivo do que o Will. A princípio estremece-se e os dentes batem, e bate-se com os pés no chão e sonha-se com vinho aquecido e boas e quen­tes fogueiras. Ele queima, ah, como queima. Nada queima como o frio. Mas só durante algum tempo. Então, penetra no corpo e começa a enchê-lo, e passado algum tempo já não se tem força suficiente para combatê-lo. E mais fácil limitarmo-nos a nos sentar ou a adormecer. Dizem que não se sente dor alguma perto do fim. Primeiro, fica-se fraco e sonolento, e tudo começa a se des­vanecer, e depois é como afundar num mar de leite morno. Como que pacífico.

Quanta eloquência, Gared - observou Sor Waymar. - Nunca suspeitei que a tivesse den­tro de si.

Também tive o frio dentro de mim, nobre - Gared puxou para trás o capuz, oferecendo a Sor Waymar um longo olhar sobre os cotos onde as orelhas tinham estado. - Duas orelhas, três dedos dos pés e o mindinho da mão esquerda. Tive sorte. Encontramos meu irmão congelado no seu posto de vigia com um sorriso no rosto.

Sor Waymar encolheu os ombros.

-              Deveria vestir coisas mais quentes, Gared.

Gared lançou ao nobre um olhar feroz, e as cicatrizes em redor das suas orelhas ficaram ver­melhas de fúria nos locais onde o Meistre Aemon as cortara.

Veremos quão quente poderá se vestir quando chegar o inverno - puxou o capuz para cima e arqueou as costas sobre o garrano, silencioso e carrancudo.

Se Gared diz que foi o frio... - começou Will.

Você fez alguma vigia nesta última semana, Will?

Sim, senhor - nunca havia uma semana em que ele não fizesse uma maldita dúzia de vigias. Aonde o homem queria chegar?

E em que estado encontrou a Muralha?

Úmida - Will respondeu, franzindo a sobrancelha. Agora que o nobre o fizera notar, via os fatos com clareza. - Eles não podem ter congelado. Se a Muralha está úmida, não podem. O frio não é suficiente.

Royce anuiu.

-              Rapaz esperto. Tivemos alguns frios ligeiros na semana passada, e uma queda de neve rápida de vez em quando, mas com certeza não houve nenhum frio suficientemente forte para matar oito homens adultos. Homens vestidos de peles e couro, relembro, com um abrigo ali à mão e meios para fazer fogo - o sorriso do cavaleiro ressumava confiança. - Will, leve-nos lá. Quero ver esses mortos com meus próprios olhos.

E a partir desse momento nada mais havia a fazer. A ordem fora dada, e a honra os obrigava a obedecer.

Will seguiu à frente, com o pequeno garrano felpudo escolhendo com cuidado o caminho por entre a vegetação rasteira. Uma neve ligeira caíra na noite anterior, e havia pedras, raízes e covas escondidas por baixo da sua crosta, à espreita dos descuidados e dos imprudentes. Sor Waymar Royce vinha logo atrás, com o grande corcel negro de batalha resfolegando de impaciência. Aquele cavalo era a montaria errada para uma patrulha, mas tentem dizer isto ao nobre. Gared fechava a retaguarda. O velho soldado resmungava para si próprio enquanto avançava.

O crepúsculo aprofundava-se. O céu sem nuvens tomou um profundo tom de púrpura, a cor de uma velha nódoa negra, e depois se dissolveu em negro. As estrelas começaram a surgir. Uma meia-lua se ergueu. Will estava grato pela luz.

Podemos decerto avançar mais depressa do que isto - disse Royce depois de a lua se erguer por completo.

Com este cavalo, não - respondeu Will. O medo tornara-o insolente. - Talvez meu senhor deseje tomar a dianteira?

Sor Waymar Royce não se dignou a responder. Em algum lugar nos bosques um lobo uivou.

Will levou o garrano para baixo de uma velha e nodosa árvore de pau-ferro e desmontou.

-              Por que parou? - perguntou Sor Waymar.

-              É melhor ir o resto do caminho a pé, senhor. O lugar é logo depois daquela colina.

Royce fez uma pausa momentânea, de olhos presos na distância e o rosto pensativo. Um vento frio sussurrou por entre as árvores. O grande manto de zibelina agitou-se nas costas como uma coisa semiviva.

Há qualquer coisa de errado aqui - murmurou Gared.

O jovem cavaleiro dedicou-lhe um sorriso desdenhoso.

Aí há?

Não o sentiu? - perguntou Gared. - Escute a escuridão.

Will sentia. Em quatro anos na Patrulha da Noite, nunca estivera tão temeroso. O que era aquilo?

Vento. Ruído de árvores. Um lobo. Que som te apavora tanto, Gared? - como Gared não respondeu, Royce deslizou graciosamente da sela. Atou com segurança o corcel de batalha a uma ramada baixa, bem afastado dos outros cavalos, e retirou a espada da bainha. Jóias cintilaram no punho e o luar percorreu o aço brilhante. Era uma arma magnífica, forjada num castelo e, segundo aparentava, novinha em folha. Will duvidava que tivesse sido alguma vez brandida em fúria.

O arvoredo é espesso por aqui - preveniu Will. - Essa espada o atrapalhará, senhor. Uma faca é melhor.

Se precisar de instruções, eu as pedirei - disse o jovem senhor. - Gared, fique aqui. Guarde os cavalos.

Gared desmontou.

Precisamos de uma fogueira. Tratarei disso.

Quanta tolice tem nessa cabeça, velhote? Se houver inimigos nesta floresta, uma fogueira é a última coisa que queremos.

Há alguns inimigos que uma fogueira manterá afastados - disse Gared. - Ursos, lobos gigantes e... e outras coisas...

A boca de Sor Waymar transformou-se numa linha dura.

-              Não haverá fogo.

O capuz de Gared engolia-lhe o rosto, mas Will conseguia ver a cintilação dura nos olhos que se fixavam no cavaleiro. Por um momento, temeu que o homem mais velho puxasse a espada. Era uma coisa curta e feia, com o punho desbotado pelo suor e o gume denteado pelo muito uso, mas Will não daria um pendão de ferro pela vida do nobre se Gared a desembainhasse.

Por fim, Gared olhou para baixo.

Não haverá fogo - murmurou de forma quase inaudível. Royce tomou aquilo como aquiescência e virou-se.

Indique o caminho - disse a Will.

Will teceu um rumo através de um matagal, depois subiu o declive da colina baixa onde en­contrara seu ponto de vigia, por baixo de uma árvore sentinela. Sob a fina crosta de neve o solo estava úmido e lamacento, escorregadio, com rochas e raízes escondidas, prontas para provocar tropeços.

Will não fez nenhum som enquanto subia. Atrás de si ouvia o suave roçar metálico da cota de malha do nobre, o restolhar de folhas e pragas murmuradas quando ramos espetados se agarra­vam à espada e puxavam o magnífico manto de zibelina do outro homem.

A grande árvore estava mesmo no topo da colina onde Will sabia que estaria, com os ramos inferiores não mais que trinta centímetros acima do solo. Will deslizou por baixo, com a barriga apoiada na neve e na lama, e olhou a clareira vazia mais abaixo.

O coração parou no seu peito. Por um momento não se atreveu a respirar. O luar brilhava sobre a clareira, sobre as cinzas na cova da fogueira, sobre o abrigo coberto de neve, sobre o grande rochedo, sobre o pequeno riacho meio congelado. Tudo estava como estivera algumas horas antes.

Eles não estavam lá. Todos os corpos tinham desaparecido.

-              Deuses! - ouviu alguém dizer atrás de si. Uma espada golpeou um ramo quando Sor Way­mar Royce atingiu o topo da colina. Ficou em pé ao lado da árvore, de espada na mão, com o manto a ondular nas costas, soprado pelo vento que se levantava, nobremente delineado contra as estrelas para que todos o vissem.

Abaixem-se! - segredou Will com urgência. - Há algo de errado.

Royce não se moveu. Olhou para a clareira vazia e deu risada.

Parece que seus mortos levantaram acampamento, Will.

A voz de Will o abandonou. Procurou palavras que não vieram. Não era possível. Seus olhos percorreram para a frente e para trás o acampamento abandonado e pararam no machado. Um enorme machado de batalha de duas lâminas, ainda caído onde o vira pela última vez, intocado. Uma arma valiosa...

-              De pé, Will - ordenou Sor Waymar. - Não há ninguém aqui. Não quero vê-lo escondido por baixo de um arbusto.

Relutante, Will obedeceu.

Sor Waymar olhou-o com aberta desaprovação:

-              Não vou regressar a Castelo Negro com um fracasso na minha primeira patrulha. Vamos encontrar aqueles homens - olhou de relance em volta. - Suba na árvore. Seja rápido. Procure uma fogueira.

Will virou-se, sem palavras. Não valia a pena argumentar. O vento movia-se. Trespassava-o. Dirigiu-se para a árvore, uma sentinela abobadada cinzenta esverdeada, e começou a subir. Em breve tinha as mãos pegajosas de seiva e estava perdido entre as agulhas. O medo enchia-lhe o estômago como uma refeição que fosse incapaz de digerir. Murmurou uma prece aos deuses sem nome da floresta e libertou o punhal da bainha. Colocou-o entre os dentes para manter as mãos livres para a escalada. O sabor do ferro frio na boca o confortou.

Embaixo, o nobre de repente gritou:

-              Quem vem lá?

Will ouviu incerteza na chamada. Parou de escalar; escutou; observou. Os bosques deram resposta: um restolhar de folhas, o correr gelado do riacho, o pio distante de uma coruja das neves.

Os Outros não faziam som algum.

Will viu movimento com o canto do olho. Sombras pálidas que deslizavam pela floresta. Virou a cabeça, viu de relance uma sombra branca na escuridão. Logo depois ela desapareceu. Ramos agitaram-se gentilmente ao vento, coçando-se uns aos outros com dedos de madeira. Will abriu a boca para gritar um aviso, mas as palavras pareceram congelar na garganta. Talvez esti­vesse errado. Talvez tivesse sido apenas uma ave, um reflexo na neve, um truque qualquer do luar. Afinal, o que vira?

-              Will, onde está? - chamou Sor Waymar. - Vê alguma coisa? - o homem descrevia um círculo lento, de súbito cauteloso, de espada na mão. Deve tê-los pressentido, tal como Will os pressentia. Nada havia para ver. - Responda! Por que está tão frio?

E estava frio. Tremendo, Will agarrou-se com mais força ao seu poleiro. Apertou o rosto com força contra o tronco da árvore. Sentia a seiva doce e pegajosa na bochecha.

Uma sombra emergiu da escuridão da floresta. Parou na frente de Royce. Era alta, descarnada e dura como ossos velhos, com uma carne pálida como leite. Sua armadura parecia mudar de cor quando se movia; aqui era tão branca como neve recém-caída, ali, negra como uma sombra, por todo o lado sarapintada com o profundo cinzento esverdeado das árvores. Os padrões corriam como o luar na água a cada passo que dava.

Will ouviu a exalação sair de Sor Waymar Royce num longo silvo.

-              Não avance mais - preveniu o nobre. A voz estava quebrada como a de um rapaz. Atirou o longo manto de zibelina para trás por sobre os ombros, a fim de libertar os braços para a batalha, e pegou na espada com ambas as mãos. O vento parara. Estava muito frio.

O Outro deslizou para a frente sobre pés silenciosos. Na mão trazia uma espada que não era como nada que Will tivesse visto. Nenhum metal humano tinha entrado na forja daquela lâmina. Estava viva de luar, translúcida, um fragmento de cristal tão fino que parecia quase desaparecer quando visto de frente. Havia naquela coisa uma tênue cintilação azul, uma luz fantasmagórica que brincava com os seus limites, e de algum modo Will soube que era mais afiada do que qual­quer navalha.

Sor Waymar enfrentou o inimigo com bravura.

-              Neste caso, dance comigo.

Ergueu a espada bem alto acima da cabeça, desafiador. As mãos tremiam com o peso da arma, ou talvez devido ao frio. Mas naquele momento, pensou Will, já não era um rapaz, e sim um homem da Patrulha da Noite. O Outro parou. Will viu seus olhos, azuis, mais profundos e mais azuis do que quaisquer olhos humanos, de um azul que queimava como gelo. Will fixou-se na espada que estremecia, erguida, e observou o luar que corria, frio, ao longo do metal. Durante um segundo, atreveu-se a ter esperança.

Emergiram em silêncio, das sombras, gêmeos do primeiro. Três... quatro... cinco... Sor Waymar talvez tivesse sentido o frio que vinha com eles, mas não chegou a vê-los, não chegou a ouvi-los. Will tinha de chamá-lo. Era seu dever. E sua morte, se o fizesse. Estremeceu, abraçou a árvore e manteve o silêncio.

A espada clara veio pelo ar, tremendo.

Sor Waymar parou-a com o aço. Quando as lâminas se encontraram, não se ouviu nenhum ressoar de metal com metal, apenas um som agudo e fino, no limiar da audição, como um animal a guinchar de dor. Royce deteve um segundo golpe, e um terceiro, e depois recuou um passo. Ou­tra chuva de golpes, e recuou outra vez.

Atrás dele, para a direita, para a esquerda, em seu redor, os observadores mantinham-se em pé, pacientes, sem rosto, silenciosos, com os padrões mutáveis de suas delicadas armaduras a torná-los quase invisíveis na floresta. Mas não faziam um gesto para intervir.

Uma vez e outra, as espadas encontraram-se, até Will querer tapar os ouvidos, protegendo-os do estranho e angustiado lamento de seus choques. Sor Waymar já arquejava por causa do es­forço, e a respiração gerava nuvens ao luar. Sua lâmina estava branca de gelo; a do Outro dançava com uma pálida luz azul.

Então, a parada de Royce chegou um momento tarde demais. A espada cristalina trespassou a cota de malha por baixo de seu braço. O jovem senhor gritou de dor. Surgiu sangue por entre os aros, correu ao frio, e as gotas pareciam vermelhas como fogo onde tocavam a neve. Os dedos de Sor Waymar esfregaram o flanco. Sua luva de pele de toupeira veio empapada de vermelho.

O Outro disse qualquer coisa numa língua que Will não conhecia; sua voz era como o que­brar do gelo num lago de inverno, e as palavras, escarnecedoras.

Sor Waymar Royce encontrou sua fúria.

- Por Robert! - gritou, e atacou, rosnando, erguendo com ambas as mãos a espada coberta de gelo e brandindo-a num golpe lateral paralelo ao chão, carregado com todo seu peso. A parada do Outro foi quase displicente.

Quando as lâminas se tocaram, o aço despedaçou-se.

Um grito ecoou pela noite da floresta, e a espada quebrou-se numa centena de pedaços quebra­diços, espalhando os estilhaços como uma chuva de agulhas. Royce caiu de joelhos, guinchando, e cobriu os olhos. Sangue jorrou-lhe por entre os dedos.

Os observadores aproximaram-se uns dos outros, como que em resposta a um sinal. Espadas ergueram-se e caíram, tudo num silêncio mortal.

Era um assassinato frio. As lâminas pálidas atravessaram a cota de malha como se fosse seda. Will fechou os olhos. Muito abaixo, ouviu as vozes e os risos, aguçados como pingentes.

Quando reuniu coragem para voltar a olhar, um longo tempo se passara, e a colina lá embaixo estava vazia.

Ficou na árvore, quase sem se atrever a respirar, enquanto a lua foi rastejando lentamente pelo céu negro. Por fim, com os músculos cheios de cãibras e os dedos dormentes de frio, desceu.

O corpo de Royce jazia na neve de barriga para baixo, com um braço aberto. O espesso man­to de zibelina tinha sido cortado numa dúzia de lugares. Jazendo assim morto, via-se como era novo. Um rapaz.

Will encontrou o que restava da espada a alguns pés de distância, com a extremidade estilha­çada e retorcida, como uma árvore atingida por um relâmpago. Ajoelhou-se, olhou em volta com cautela e a apanhou. A espada quebrada seria sua prova. Gared saberia compreendê-la, e, se não soubesse, então haveria o velho urso do Mormont ou o Meistre Aemon. Estaria Gared ainda à espera com os cavalos? Tinha de se apressar.

Will endireitou-se. Sor Waymar Royce erguia-se sobre ele.

Suas belas roupas eram farrapos, o rosto, uma ruína. Um estilhaço da espada trespassara a pupila branca e cega do olho esquerdo.

O olho direito estava aberto. A pupila queimava, azul. Via.

A espada quebrada caiu de dedos despidos de força. Will fechou os olhos para rezar. Mãos longas e elegantes roçaram na sua bochecha e depois se fecharam em volta de sua garganta. Estavam enluvadas na mais fina pele de toupeira e pegajosas de sangue, mas seu toque era frio como gelo.


 

                   Bran

 

A manhã chegara límpida e fria, com uma aspereza que sugeria o fim do verão. Partiram ao nascer do dia para ir ver a decapitação de um homem, vinte ao todo, e Bran cavalgava com os outros, nervoso e excitado. Fora a primeira vez que se considerara que ele tinha idade sufi­ciente para ir com o senhor seu pai e os irmãos ver fazer-se a justiça do rei. Era o nono ano de verão, e o sétimo da vida de Bran.

O homem tinha sido capturado no exterior de um pequeno povoado nos montes. Robb pen­sava que se tratava de um selvagem, com a espada a serviço de Mance Rayder, o Rei-para-lá-da-Muralha. Pensar nisso fazia a pele de Bran formigar. Lembrava-se das histórias que a Velha Ama lhes contava à lareira. Os selvagens eram homens cruéis, dizia, escravagistas, assassinos e la­drões. Faziam amizade com gigantes e vampiros, raptavam meninas pela calada da noite e bebiam sangue por cornos polidos. E suas mulheres deitavam-se com os Outros durante a Longa Noite e geravam terríveis crianças meio humanas.

Mas o homem que encontraram amarrado pelos pés e mãos ao muro do povoado, à espera da justiça real, era velho e descarnado, não muito mais alto do que Robb. Perdera ambas as orelhas e um dedo, queimados pelo frio, e vestia-se todo de negro como um irmão da Patrulha da Noite, não estivessem as peles esfarrapadas e besuntadas de gordura.

As respirações de homens e cavalos misturavam-se em nuvens de vapor no ar frio da manhã quando o senhor seu pai ordenou que cortassem as cordas que prendiam o homem ao muro e o arrastassem até junto do grupo. Robb e Jon sentavam-se, altos e imóveis sobre os cavalos, com Bran entre eles, no seu pônei, tentando parecer ter mais do que os seus sete anos, e fingindo que já assistira antes a tudo aquilo. Um vento tênue soprava através do portão do povoado. Sobre suas cabeças agitava-se o estandarte dos Stark de Winterfell: um lobo gigante cinzento correndo por um campo branco de gelo.

O pai de Bran sentava-se solenemente sobre o cavalo, com longos cabelos castanhos a ondu­lar ao vento. A barba bem aparada estava salpicada de branco, fazendo-o parecer mais velho do que os seus trinta e cinco anos. Hoje tinha uma sombra severa sobre os olhos cinzentos, e pa­recia bem diferente do homem que se sentava em frente ao fogo, à noite, e falava suavemente da era dos heróis e das crianças da floresta. Tirara a cara de pai, pensou Bran, e colocara a de Lorde Stark de Winterfell.

Houve questões que foram postas e suas respostas dadas ali, ao frio da manhã, mas, mais tarde, Bran não recordaria muito do que fora dito. Por fim, o senhor seu pai deu uma ordem, e dois dos seus guardas arrastaram o homem esfarrapado até o toco de pau-ferro no centro da praça. Empurraram-lhe a cabeça à força contra a madeira dura e negra. Lorde Eddard Stark desmontou, e seu protegido, Theon Greyjoy, apresentou-lhe a espada. Chamavam Gelo àquela espada. Era larga como uma mão de homem e mais alta ainda do que Robb. A lâmina era de aço valiriano, forjado com feitiços e escuro como fumo. Nada mantinha o fio como o aço valiriano.

O pai de Bran descalçou as luvas e as entregou a Jory Cassei, o capitão da guarda de sua casa. Pegou Gelo com ambas as mãos e disse:

-              Em nome de Robert da Casa Baratheon, o Primeiro do seu Nome, rei dos Ândalos e dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do Domínio, pela voz de Eddard da Casa Stark, Senhor de Winterfell e Guardião do Norte, condeno-o à morte -e ergueu a espada bem alto sobre a cabeça.

O irmão bastardo de Bran, Jon Snow, aproximou-se.

-              Mantenha rédea curta sobre o pônei - sussurrou. - E não afaste os olhos. O pai saberá se assim fizer.

Bran manteve rédea curta sobre o pônei e não afastou os olhos.

Seu pai cortou a cabeça do homem com um único golpe, dado com segurança. O sangue bor­rifou a neve, tão vermelho como vinho de verão,

Um dos cavalos empinou-se e teve de ser segurado para que não fugisse. Bran não conseguia tirar os olhos do sangue. A neve que rodeava o poste bebia-o com sofreguidão, ficando cada vez mais vermelha enquanto ele observava.

A cabeça bateu numa raiz grossa e rolou. Parou perto dos pés de Greyjoy. Theon era um jo­vem esguio e escuro de dezenove anos que achava tudo divertido. Soltou uma gargalhada, pôs a bota sobre a cabeça e deu-lhe um pontapé.

-              Cretino - resmungou Jon, suficientemente baixo para que Greyjoy não ouvisse. Pôs uma mão no ombro de Bran, que olhava o irmão bastardo. - Esteve bem - disse-lhe Jon solenemente. Jon tinha catorze anos, já era experiente na justiça.

O tempo parecia mais frio durante a longa viagem de regresso a Winterfell, embora o vento tivesse caído e o sol estivesse mais alto no céu. Bran cavalgava junto aos irmãos, bem adiantados em relação ao resto dos cavaleiros, com o pônei esforçando-se ao máximo para acompanhar o ritmo dos outros cavalos.

O desertor morreu com bravura - disse Robb. Era grande e largo e crescia dia a dia, com as cores da mãe, a pele clara, os cabelos vermelho-acastanhados e os olhos azuis dos Tully de Correrrio. - Tinha coragem, pelo menos.

Não - disse Jon Snow calmamente. - Não era coragem. Este estava morto de medo. Podia--se ver em seus olhos, Stark - os de Jon eram de um cinzento tão escuro que pareciam quase negros, mas pouco havia que não vissem. Tinha a mesma idade que Robb, mas os dois não eram parecidos. Jon era esguio e escuro, enquanto Robb era musculoso e claro; este era gracioso e li­geiro; seu meio-irmão, forte e rápido.

Robb não estava impressionado.

Que os Outros levem seus olhos - praguejou. - Ele morreu bem. Fazemos uma corrida até a ponte?

Fazemos - disse Jon, impulsionando o cavalo em frente. Robb praguejou e seguiu-o, e galo­param pela trilha afora, com Robb aos gritos e assobios, e Jon silencioso e concentrado. Os cascos dos cavalos levantavam nuvens de neve por onde passavam.

Bran não tentou segui-los. Seu pônei não era capaz de acompanhá-los. Vira os olhos do homem esfarrapado, e estava agora pensando neles. Após algum tempo, o som das gargalhadas de Robb atenuou-se e os bosques ficaram silenciosos novamente.

Estava tão embrenhado nos seus pensamentos que não ouviu o resto do grupo, até que seu pai pôs o cavalo a par com sua montaria.

-              Está bem, Bran? - perguntou, não sem simpatia.

-              Sim, pai - disse Bran. Olhou para cima. Envolto em peles e couros, montado no grande ca­valo de guerra, o senhor seu pai pairava acima de si como um gigante. - Robb diz que o homem morreu bravamente, mas Jon disse que ele tinha medo.

E o que pensa você? - perguntou-lhe o pai.

Bran refletiu sobre o assunto.

Pode um homem continuar a ser valente se tiver medo?

-              Esta é a única maneira de um homem ser valente - seu pai respondeu. - Compreende por que o fiz?

-              Ele era um selvagem - disse Bran. - Eles roubam mulheres e vendem-nas aos Outros.

Seu pai sorriu.

-              A Velha Ama tem andado outra vez a lhe contar histórias. Na verdade, o homem era um insurreto, um desertor da Patrulha da Noite. Ninguém pode ser mais perigoso. O desertor sabe que sua vida está perdida se for capturado, e por isso não vacilará perante nenhum crime, por mais vil que seja. Mas você não me compreendeu bem. A pergunta não era sobre o motivo por que o homem tinha de morrer, mas sim por que eu tive de fazê-lo.

Bran não tinha resposta para aquilo.

-              O rei Robert tem um carrasco - respondeu, em tom incerto.

-              Tem - admitiu o pai. - E os reis Targaryen também tiveram antes dele. Mas o nosso cos­tume é o mais antigo. O sangue dos Primeiros Homens ainda corre nas veias dos Stark, e man­temos a crença de que o homem que dita a sentença deve manejar a espada. Se tirar a vida de um homem, deve olhá-lo nos olhos e ouvir suas últimas palavras. E se não conseguir suportar fazê-lo, então talvez o homem não mereça morrer. Um dia, Bran, será vassalo de Robb, mantendo um domínio seu para o seu irmão e o seu rei, e a justiça caberá a você. Quando esse dia chegar, não deve ter nenhum prazer na tarefa, mas tampouco deverá desviar os olhos. Um governante que se esconde atrás de executores pagos depressa se esquece do que é a morte.

Foi então que Jon reapareceu sobre o cume da colina à frente do grupo. Acenou e gritou-lhes:

Pai, Bran, venham depressa ver o que Robb encontrou! - e depois voltou a desaparecer. Jory pôs-se ao lado de Bran e do pai.

Problemas, senhor?

-              Sem nenhuma dúvida - disse o senhor seu pai. - Vamos, vamos ver que velhacaria desen­terraram agora os meus filhos - pôs o cavalo a trote. Jory, Bran e o resto do grupo seguiram-no.

Encontraram Robb na margem do rio, ao norte da ponte, com Jon ainda montado ao seu lado. As neves do fim do verão tinham sido pesadas naquela volta da lua. Robb estava enterrado em branco até os joelhos, com o capuz atirado para trás, e o sol brilhava nos seus cabelos. Aconche­gava alguma coisa no braço enquanto os rapazes conversavam em vozes excitadas, mas baixas.

Os cavaleiros escolheram o caminho com cuidado através dos detritos empilhados pelo rio, tateando em busca de apoio sólido no terreno escondido e irregular. Jory Cassel e Theon Greyjoy foram os primeiros a chegar perto dos rapazes. Greyjoy ria e gracejava enquanto se aproximava. Bran ouviu o fôlego sair-lhe do peito.

Deuses! - exclamou, lutando por manter o controle do cavalo enquanto levava a mão à espada. A espada de Jory já estava na mão.

Robb, afaste-se disso! - gritou, enquanto o cavalo empinava entre suas pernas.

Robb sorriu e ergueu o olhar do volume que tinha nos braços.

-              Ela não lhe pode fazer mal - disse. - Está morta, Jory.

Por aquela altura, Bran já ardia de curiosidade. Teria esporeado o pônei para avançar mais depressa, mas o pai os fez desmontar junto à ponte e aproximar-se a pé. Bran saltou do animal e correu.

Também Jon, Jory e Theon Greyjoy já tinham desmontado.

O que, pelos sete infernos, é isso? - disse Greyjoy.

Uma loba - disse Robb.

Uma aberração - disse Greyjoy. - Olha o tamanho da coisa.

O coração de Bran martelava-lhe no peito enquanto abria caminho através de uma pilha de detritos que lhe alcançava a cintura, até que chegou ao lado do irmão.

Meio enterrada na neve manchada de sangue, uma forma enorme atolava-se na morte. Em sua desgrenhada pelagem cinzenta formara-se gelo, e um tênue cheiro de putrefação impregnava-a como perfume de mulher. Bran viu de relance os olhos cegos repletos de vermes, uma grande boca cheia de dentes amarelados, Mas foi o tamanho da coisa que o fez ficar de boca aberta. Era maior que seu pônei, com o dobro do tamanho do maior cão de caça do canil de seu pai.

-              Não é aberração nenhuma - disse Jon calmamente. - Isso é uma loba gigante. Eles crescem mais do que os da outra espécie.

Theon Greyjoy disse:

Não é visto nenhum lobo gigante ao sul da Muralha há duzentos anos.

Vejo um agora - respondeu Jon.

Bran desviou os olhos do monstro. Foi então que reparou no fardo que estava nos braços de Robb. Soltou um grito de deleite e aproximou-se. O filhote era uma minúscula bola de pelo cinza-escuro, ainda com os olhos fechados. Batia cegamente com o focinho contra o peito de Robb, procurando leite nos couros que o cobriam, soltando um pequeno som lamentoso e triste, Bran estendeu uma mão hesitante.

-              Vá lá - disse-lhe Robb, - Pode tocá-lo,

Bran fez um afago rápido e nervoso no filhote e depois se virou quando Jon disse:

Ora, veja aqui - seu meio-irmão pôs um segundo filhote nos seus braços. - Há cinco ao todo - Bran sentou-se na neve e abraçou a cria de lobo, encostando-a ao rosto. O pelo do animal era suave e morno.

Lobos gigantes à solta no reino depois de tantos anos - murmurou Hullen, o mestre dos cavalos. - Não me agrada.

-              É um sinal - disse Jory.

O pai franziu a sobrancelha.

Isto é só um animal morto, Jory - disse, apesar de parecer perturbado. A neve rangia sob seus pés enquanto passeava ao redor do corpo. - Sabemos o que a matou?

Há qualquer coisa na garganta - disse Robb, orgulhoso de ter encontrado a resposta mes­mo antes de o pai ter perguntado. - Ali, por baixo da mandíbula.

O pai ajoelhou-se e tateou sob a cabeça do animal. Deu um puxão e ergueu a coisa para que todos a vissem. Trinta centímetros de um chifre estilhaçado de veado, com as pontas partidas, todo vermelho de sangue. Um silêncio súbito caiu sobre o grupo. Os homens olharam inquietos para o corno, mas ninguém se atreveu a falar. Mesmo Bran pressentia seu medo, embora não compreendesse.

O pai atirou o chifre para o lado e limpou as mãos na neve.

Surpreende-me que ela tenha vivido tempo suficiente para parir - disse, e sua voz quebrou o encantamento.

Talvez não tenha - disse Jory. - Ouvi histórias... talvez a loba já estivesse morta quando os filhotes chegaram.

Nascidos com os mortos - interveio outro homem. - Pior sorte.

-              Não importa - disse Hullen. - Não tarda e estarão mortos também. Bran soltou um grito inarticulado de desalento.

-              Quanto mais depressa, melhor - concordou Theon Greyjoy e puxou a espada. - Dê-me o animal, Bran.

A criaturinha enroscou-se nele, como se tivesse ouvido e compreendido.

-              Não! - gritou Bran ferozmente. - É meu.

-              Guarda a espada, Greyjoy - disse Robb, que por um momento soou tão autoritário como o pai, como o senhor que viria a ser um dia. - Vamos ficar com esses filhotes.

Não pode fazer isso, rapaz - disse Harwin, que era filho de Hullen.

Será misericordioso matá-los - disse Hullen.

Bran olhou o senhor seu pai em busca de salvação, mas só recebeu um franzir de cenho, uma testa cheia de sulcos.

Hullen fala a verdade, filho. É melhor uma morte rápida do que uma lenta, de frio e de fome.

Não! - sentia que lágrimas lhe brotavam dos olhos e afastou-se. Não queria chorar na fren­te do pai.

Robb resistia com teimosia.

-              A cadela vermelha de Sor Rodrik pariu de novo na semana passada - disse. - Foi uma ninhada pequena, só com dois cachorros vivos. Ela terá leite suficiente.

-              Ela os despedaçará quando tentarem mamar.

-              Lorde Stark - disse Jon. Era estranho ouvi-lo chamar o pai assim, de modo tão formal. Bran olhou-o com uma esperança desesperada. - Há cinco crias. Três machos e duas fêmeas.

-              E então, Jon?

-              O senhor tem cinco filhos legítimos - disse Jon. - Três filhos e duas filhas. O lobo gigante é o selo da vossa Casa. Os vossos filhos estão destinados a ficar com essa ninhada, senhor.

Bran viu o rosto do pai mudar e os outros homens trocarem olhares. Naquele momento, amou Jon de todo o coração. Mesmo com seus sete anos, Bran compreendeu o que o irmão fi­zera. A conta estava certa apenas porque Jon se omitira. Incluíra as moças e até Rickon, o bebê, mas não o bastardo que usava o apelido Snow, o nome que, pelo costume, devia ser dado a todos aqueles que, no Norte, eram suficientemente infelizes para não possuir um nome seu.

O pai também o compreendera.

-              Não quer uma cria para você, Jon? - perguntou brandamente.

-              O lobo gigante honra os estandartes da Casa Stark - Jon retrucou. - Eu não sou um Stark, pai.

O senhor seu pai o olhou, pensativo. Robb apressou-se a preencher o silêncio que ele deixara.

-              Cuidarei eu próprio dele, pai - prometeu. - Embeberei uma toalha em leite morno e assim lhe darei de mamar.

-              Eu também! - disse Bran num eco.

O senhor avaliou os filhos longa e cuidadosamente com os olhos.

-              É fácil dizer, mas é difícil fazer. Não quero vê-los desperdiçando com isto o tempo dos cria­dos. Se querem esses filhotes, vocês os alimentarão. Entendido?

Bran acenou com ardor. O animal contorceu-se nos seus braços e lambeu-lhe o rosto com uma língua morna.

Devem treiná-los também - disse-lhes o pai. - Devem ensiná-los. O mestre do canil não vai querer ter nada a ver com esses monstros, garanto a vocês. E que os deuses os protejam se negligenciarem, maltratarem ou treinarem mal esses animais. Esses não são cães que peçam festas ou se esquivem a um pontapé. Um lobo gigante é capaz de arrancar o braço de um homem com tanta facilidade como um cão mata uma ratazana. Têm certeza de que querem isto?

Sim, pai - disse Bran.

Sim - concordou Robb.

Os filhotes podem morrer de qualquer modo, apesar de tudo o que fizerem.

Eles não morrerão - disse Robb. - Não deixaremos que morram.

Fiquem então com eles, Jory, Desmond, recolham os demais. É tempo de regressarmos a Winterfell.

Foi só depois de terem montado e de se terem posto a caminho que Bran se permitiu sabo­rear o doce ar da vitória. Nessa altura, seu filhote estava aconchegado entre seus couros, quente contra seu corpo, a salvo durante a longa viagem para casa. Bran perguntava-se como haveria de chamá-lo.

No meio da ponte, Jon puxou subitamente as rédeas.

Que se passa, Jon? - perguntou o senhor seu pai.

O senhor não ouviu?

Bran ouvia o vento nas árvores, o ruído dos cascos nas tábuas de pau-ferro, os lamentos da cria faminta, mas Jon escutava outra coisa.

Ali - disse Jon. Fez o cavalo dar meia-volta e galopou pela ponte, pelo caminho por onde viera. Viram-no desmontar onde a loba gigante jazia morta na neve e ajoelhar-se. Um momento mais tarde, cavalgava de regresso, sorrindo. - Deve ter se afastado dos outros - ele disse.

Ou sido afastado - disse o pai, olhando a sexta cria. A pelagem desta era branca, enquanto a do resto da ninhada era cinzenta. Seus olhos eram tão vermelhos como o sangue do homem esfarrapado que morrera naquela manhã. Bran achou curioso que só aquele cachorro tivesse aberto os olhos, enquanto os outros ainda estavam cegos.

Um albino - disse Theon Greyjoy com um perverso divertimento. - Este ainda vai morrer mais depressa do que os outros.

Jon Snow deitou sobre o protegido de seu pai um olhar longo e gelado.

-              Penso que não, Greyjoy - disse. - Este me pertence.

 

                   Catelyn

Catelyn nunca gostara daquele bosque sagrado.

Nascera entre os Tully, em Correrrio, mais ao Sul, nas margens do Ramo Vermelho do Tri­dente. O bosque sagrado que lá havia era um jardim, luminoso e arejado, onde grandes árvores de pau-brasil espalhavam sombras sarapintadas por córregos que rumorejavam entre as margens, aves cantavam em ninhos escondidos e o ar era perfumado pelo odor de flores.

Os deuses de Winterfell mantinham um tipo diferente de bosque. Era um lugar escuro e primordial, três acres de floresta antiga, intocada ao longo de dez mil anos, enquanto o castelo se levantava a toda sua volta. Cheirava a terra úmida e a decomposição. Ali não crescia o pau-brasil. Aquele era um bosque de obstinadas árvores sentinelas, revestidas de agulhas cinza-esverdeadas, de poderosos carvalhos, de árvores de pau-ferro tão velhas como o próprio reino. Ali, espessos troncos negros enroscavam-se uns aos outros, enquanto ramos retorcidos teciam um denso dos­sel elevado e raízes deformadas batalhavam sob o solo. Aquele era um lugar de profundo silêncio e sombras meditativas, e os deuses que ali viviam não tinham nomes.

Mas ela sabia que naquela noite encontraria ali seu marido. Sempre que ele tirava a vida de um homem, procurava depois o sossego do bosque sagrado.

Catelyn fora ungida com os sete óleos e fora-lhe dado o nome no arco-íris de luz que enchia o septo de Correrrio. Pertencia à Fé, tal como o pai e o avô, e o pai deste antes dele. Seus deuses possuíam nomes, e seus rostos eram-lhe tão familiares como os de seus pais. O serviço religioso era um septão com um turíbulo, o cheiro do incenso, um cristal de sete lados animado com luz, vozes erguidas em canto. Os Tully mantinham um bosque sagrado, como todas as grandes casas, mas era apenas um lugar para passear, ler ou ficar deitado ao sol. A prece pertencia ao septo.

Por ela, Ned tinha construído um pequeno septo onde podia cantar às sete caras de deus, mas o sangue dos Primeiros Homens ainda corria nas veias dos Stark, e seus deuses eram os antigos, os deuses sem nome nem rosto da mata verde que partilhavam com os filhos desapare­cidos da floresta.

No centro do bosque, um antigo represeiro reinava pensativo sobre uma pequena lagoa onde as águas eram negras e frias. Ned chamava-lhe "a árvore-coração". A casca do represeiro era branca como osso e suas folhas, vermelhas como um milhar de mãos manchadas de sangue. Uma cara tinha sido esculpida no tronco da grande árvore, de traços compridos e melancólicos, com os olhos profundamente escavados, vermelhos de seiva seca e estranhamente vigilantes. Aqueles olhos eram velhos; mais velhos do que a própria Winterfell. Se as lendas falavam a verdade, tinham visto Brandon, o Construtor, assentar a primeira pedra; tinham visto as muralhas de granito do castelo crescer à sua volta. Dizia-se que os filhos da floresta tinham esculpido as caras nas árvores durante os séculos de alvorada, antes da chegada dos Primeiros Homens, vindos do mar estreito.

No sul, os últimos represeiros tinham sido derrubados ou queimados havia mil anos, exceto na Ilha das Caras, onde os homens verdes mantinham sua vigilância silenciosa e as coisas eram diferentes. Aqui cada castelo possuía seu bosque sagrado, e cada bosque sagrado tinha sua árvore--coração, e cada árvore-coração, seu rosto.

Catelyn encontrou o marido sob o represeiro, sentado numa pedra coberta de musgo. Tinha Gelo, a espada, pousada sobre as coxas, e limpava-lhe a lâmina naquelas águas, negras como a noite. Mil anos de húmus jaziam numa grossa camada no solo do bosque sagrado, engolindo o som dos pés da mulher, mas os olhos vermelhos do represeiro pareciam segui-la enquanto se aproximava.

Ned - ela chamou, com suavidade. Ele ergueu a cabeça para olhá-la.

Catelyn - disse. Sua voz era distante e formal. - Onde estão as crianças? Ele sempre lhe perguntava aquilo.

-              Na cozinha, discutindo nomes para as crias de lobo - ela estendeu o manto sobre o chão da floresta e sentou-se junto à lagoa, de costas voltadas para o represeiro. Podia sentir os olhos a observá-la, mas fez o melhor que pôde para ignorá-los. - Arya já está apaixonada, e Sansa, enfei­tiçada e apiedada, mas Rickon não está muito seguro.

-              Tem medo? - Ned perguntou.

-              Um pouco - admitiu ela. - Só tem três anos. Ned franziu as sobrancelhas.

Ele tem de aprender a enfrentar seus medos. Não terá três anos para sempre. E o inverno está para chegar.

Sim - concordou Catelyn. As palavras provocaram-lhe um arrepio, como sempre. As pala­vras Stark. Todas as casas nobres tinham as suas palavras. Lemas de família, pedras de toque, espécies de orações, que alardeavam honra e glória, prometiam lealdade e verdade, juravam fé e coragem. Todas, menos a dos Stark. O inverno está para chegar, diziam as palavras Stark. Refletiu sobre como aqueles nortenhos eram um povo estranho, e já não era a primeira vez que o fazia.

O homem morreu bem, posso lhe assegurar - disse Ned. Tinha na mão um bocado de couro oleado com o qual fazia percorrer com leveza a espada enquanto falava, polindo o metal até soltar um brilho escuro. - Fiquei contente por causa de Bran. Teria ficado orgulhosa dele.

Estou sempre orgulhosa de Bran - Catelyn respondeu, observando a espada enquanto ele a esfregava. Conseguia ver as ondulações profundas do aço, onde o metal fora dobrado sobre si próprio cem vezes durante a forja. Catelyn não sentia qualquer amor por espadas, mas não podia negar que Gelo possuía sua beleza. Tinha sido forjada em Valíria antes de a destruição ter caí­do sobre a antiga cidade franca, quando os ferreiros trabalhavam seus metais tanto com feitiços como com martelos. Tinha já quatrocentos anos, e era tão aguçada como no dia em que fora for­jada. O nome que ostentava era ainda mais antigo, um legado da era dos heróis, quando os Stark eram reis no Norte.

Foi o quarto este ano - disse Ned sombriamente. - O pobre homem estava meio louco. Algo lhe incutiu um medo tão profundo que minhas palavras não o alcançaram - suspirou. -Ben escreveu-me dizendo que a força da Patrulha da Noite já não tem mil homens. Não são só deserções. Tem também perdido homens nas patrulhas.

São os selvagens? - ela perguntou.

Quem mais poderia ser? - Ned ergueu Gelo e observou o aço frio ao longo de todo seu comprimento. - E só vai piorar. Pode chegar o dia em que eu não tenha escolha a não ser reunir os vassalos e marchar para o norte a fim de lidar de uma vez por todas com esse Rei-para-lá-da-Muralha.

Para lá da Muralha? - a idéia fez Catelyn estremecer.

Ned viu o terror no seu rosto.

Mance Rayder não é nada que devamos temer.

-              Há coisas mais escuras para lá da Muralha - ela olhou de relance a árvore-coração às suas costas, a casca clara e os olhos vermelhos, observando, escutando, pensando seus longos e lentos pensamentos.

O sorriso dele era gentil.

-              Você ouve em demasia as histórias da Velha Ama. Os Outros estão tão mortos como os filhos da floresta, desaparecidos há oito mil anos. Meistre Luwin lhe diria que nunca sequer chegaram a estar vivos. Nenhum homem vivo alguma vez viu um.

-              Até hoje de manhã, nenhum homem vivo tinha visto um lobo gigante - recordou Catelyn.

-              Já devia saber que não se pode discutir com uma Tully - ele disse com um sorriso triste e devolveu Gelo à sua bainha. - Não veio até aqui me contar histórias de embalar. Sei bem como gosta pouco deste lugar. Que se passa, minha senhora?

Catelyn tomou nas suas a mão do marido.

-              Hoje chegaram dolorosas novas, meu senhor. Não quis incomodá-lo até se ter purificado - não havia maneira de suavizar o golpe, e ela o disse sem rodeios. - Lamento tanto, meu amor. Jon Arryn está morto.

Os olhos dele encontraram os dela, e Catelyn viu como lhe custou, como sabia que custaria. Na juventude, Ned tinha sido acolhido no Ninho da Águia, e Lorde Arryn, que não tinha filhos seus, tinha se tornado um segundo pai para ele e para o seu outro protegido, Robert Baratheon. Quan­do o Rei Aerys n Targaryen, o Louco, exigira suas cabeças, o Senhor do Ninho da Águia erguera em revolta os seus estandartes da lua e do falcão em vez de entregar aqueles que jurara proteger.

E um dia, há quinze anos, seu segundo pai tinha se transformado também num irmão, quan­do ele e Ned se juntaram no septo de Correrrio para desposar duas irmãs, as filhas de Lorde Hoster Tully.

-Jon... - Ned disse. - Esta notícia é segura?

Trazia o selo do rei, e a carta vinha escrita na caligrafia do próprio Robert. Guardei-a para você. Diz que Lorde Arryn partiu depressa. Nem Meistre Pycelle pôde fazer alguma coisa, mas trouxe o leite da papoula, para que Jon não ficasse por muito tempo em sofrimento.

Isto foi uma pequena misericórdia, suponho - ele disse. Catelyn via o pesar em seu rosto, mas mesmo nesse momento seu primeiro pensamento era-lhe dedicado. - A sua irmã - disse Ned. - E o filho de Jon. Que notícias há deles?

-              A mensagem dizia apenas que estavam bem e que tinham regressado ao Ninho da Águia - ela respondeu. - Eu preferia que tivessem ido para Correrrio. O Ninho da Águia é um lugar alto e solitário, e sempre foi o lugar de Jon, não deles. A memória de Lorde Jon assombrará cada pedra. Conheço minha irmã. Ela precisa do conforto da família e dos amigos ao seu redor.

Seu tio espera no Vale, não é verdade? Ouvi dizer que Jon o nomeou Cavaleiro do Portão. Catelyn anuiu com a cabeça.

Brynden fará por ela e pelo rapaz o que puder. E algum conforto, mas mesmo assim...

-              Vá ter com ela - Ned tentou animá-la. - Leva as crianças. Encha aqueles salões de ruído, gritos e risos. Aquele rapaz precisa de outras crianças a sua volta, e Lysa não deve ficar só na sua dor.

-              Gostaria de poder fazer isso - disse Catelyn. - A carta trazia outras notícias. O rei viaja para Winterfell à sua procura.

Ned precisou de um momento para ver o sentido daquelas palavras, mas, quando as com­preendeu, a escuridão abandonou seus olhos.

-              Robert vem para cá? - quando ela anuiu, um sorriso abriu-se no seu rosto.

Catelyn desejou poder compartilhar da alegria do marido. Mas ouvira o que se dizia pelos pátios; um lobo gigante morto na neve, com um chifre partido na garganta. O terror retorcia-se no seu interior como uma serpente, mas forçou-se a sorrir para aquele homem que amava, aquele homem que não punha fé alguma nos sinais.

Sabia que te agradaria - disse. - Deveríamos enviar uma mensagem ao seu irmão, na Muralha.

Sim, claro - ele concordou. - Ben vai querer estar aqui. Direi a Meistre Luwin para enviar sua ave mais rápida - Ned ergueu-se e ajudou a esposa a pôr-se em pé. - Demônios, quantos anos já se passaram? E não nos dá mais notícias do que estas? A mensagem dizia quantos ho­mens traz na comitiva?

Penso que um cento de cavaleiros, pelo menos, com todos os seus servidores, e vez e meia este número de cavaleiros livres. Cersei e as crianças viajam com eles.

Robert virá em passo moderado por causa delas - disse Ned. - Ainda bem. Teremos mais tempo para nos preparar.

Os irmãos da rainha também vêm na comitiva - ela completou.

Ao ouvir aquilo, Ned fez um trejeito. Catelyn sabia que pouca simpatia havia entre ele e a família da rainha. Os Lannister de Rochedo Casterly tinham chegado tarde à causa de Robert, quando a vitória era praticamente certa, e ele nunca os perdoara por isso.

Bem, se o preço a pagar pela companhia de Robert é uma infestação de Lannister, que seja. Parece que Robert traz metade da corte.

Aonde o rei vai, o reino segue - ela respondeu.

Será bom ver as crianças. O mais novo ainda mamava da teta da Lannister da última vez que o vi. Agora deve ter o quê? Cinco anos?

O Príncipe Tommen tem sete anos. A mesma idade de Bran. Por favor, Ned, tenha tento na língua. Lannister é nossa rainha, e diz-se que seu orgulho cresce a cada ano que passa.

Ned apertou-lhe a mão.

-              Terá de haver um festim, bem-composto, com cantores, e Robert vai querer caçar. Enviarei Jory para o sul com uma guarda de honra ao seu encontro, a fim de escoltá-los no caminho até aqui pela estrada do rei. Deuses, como iremos alimentar a todos? Maldito seja o homem. Maldito seja o seu real couro.

 

                   Daenerys

O irmão ergueu o vestido para que ela o inspecionasse.

- Isto é uma beleza! Toque-o. Vamos. Acaricie o tecido,

Dany o tocou. O tecido era tão macio que parecia correr-lhe pelos dedos como água. Não conseguia se lembrar de alguma vez ter usado algo tão suave. Assustou-se. Afastou a mão.

-              É mesmo meu?

-              Um presente de Magíster Illyrio - disse Viserys, sorrindo. Seu irmão estava de bom humor naquela noite. - A cor realçará o violeta dos seus olhos. E você também terá ouro e jóias de todos os tipos. Illyrio prometeu, Esta noite deve se parecer uma princesa.

Uma princesa, pensou Dany. Já se esquecera de como aquilo era. Talvez nunca tivesse real­mente sabido.

Por que ele nos dá tanto? - ela perguntou. - O que quer de nós? - há quase meio ano que viviam na casa do magíster, comiam da sua comida, eram paparicados pelos seus criados. Dany tinha treze anos, idade suficiente para saber que tais presentes raramente vêm sem preço ali, na cidade livre de Pentos.

Illyrio não é nenhum tolo - Viserys respondeu. Era um jovem magro com mãos nervosas e um ar febril nos olhos de um tom claro de lilás. - O magíster sabe que não esquecerei os amigos quando subir ao trono.

Dany não disse nada. Magíster Illyrio era um comerciante de especiarias, pedras preciosas, ossos de dragão e outras coisas menos palatáveis. Tinha amigos em todas as Nove Cidades Li­vres, dizia-se, e mesmo para lá delas, em Vaes Dothrak e nas terras das fábulas junto ao Mar de Jade. Também se dizia que nunca tinha tido um amigo que não fosse capaz de vender alegremen­te pelo preço justo. Dany escutava o falatório nas ruas e ouvia essas coisas, mas também sabia que era melhor não questionar o irmão enquanto tecia suas teias de sonho. Quando era despertada, a ira de Viserys era algo terrível. Ele a chamava "o acordar do dragão".

O irmão pendurou o vestido ao lado da porta.

-              Illyrio enviará as escravas para lhe darem banho. Assegure-se de se livrar do fedor dos estábulos. Khal Drogo tem mil cavalos e hoje vem à procura de um tipo diferente de montaria - estudou-a criticamente. - Ainda tem as costas tortas. Endireite-se - pôs-lhe as mãos nos om­bros e puxou-os para trás. - Deixe-os ver que tem agora a forma de uma mulher - os dedos do irmão roçaram levemente seus seios em botão e apertaram num mamilo. - Não me falhará esta noite. Senão, será mau para você. Não quer acordar o dragão, quer? - os dedos torceram-se, um beliscão cruel e duro através do tecido grosseiro da túnica. - Quer? - ele repetiu.

-              Não - respondeu Dany docilmente.

O irmão sorriu.

-              Ótimo - tocou-lhe os cabelos, quase com afeição. - Quando escreverem a história do meu reinado, minha doce irmã, dirão que começou esta noite.

Quando ele saiu, Dany foi até a janela e olhou, melancólica, as águas da baía. As torres qua­dradas de tijolo de Pentos eram silhuetas negras delineadas contra o sol poente. Ela conseguia ouvir os sacerdotes vermelhos cantando, enquanto acendiam as piras noturnas, e os gritos de crianças esfarrapadas que jogavam para lá dos muros da propriedade. Por um momento desejou poder estar lá fora com elas, de pés nus, sem fôlego e vestida de farrapos, sem passado nem fu­turo, sem banquete para ir na mansão de Khal Drogo.

Em algum lugar para lá do pôr do sol, do outro lado do estreito mar, havia uma terra de co­linas verdes e planícies cobertas de flores e grandes rios caudalosos, onde torres de pedra negra se erguiam por entre magníficas montanhas azul-acinzentadas e cavaleiros de armadura caval­gavam para a batalha sob os estandartes dos seus senhores. Os dothrakis chamavam a essa terra Rhaesb Andahli, a terra dos ândalos. Nas Cidades Livres, falavam de Westeros e dos Reinos do Poente. O irmão tinha um nome mais simples. Chamava-lhe "nossa terra". Para ele, as palavras eram como uma prece, Se as dissesse o número de vezes suficientes, os deuses certamente ouvi­riam. "É nosso direito de sangue, usurpado por meios traiçoeiros. Não se rouba um dragão, ah, não. O dragão se lembra."

E o dragão talvez recordasse mesmo, mas Dany não. Nunca vira aquela terra que o irmão dizia que lhes pertencia, este domínio para lá do estreito mar. Aqueles lugares de que falava, Ro­chedo Casterly e o Ninho da Águia, Jardim de Cima e o Vale de Arryn, Dorne e a Ilha das Caras, para ela eram apenas palavras. Viserys era um rapaz de oito anos quando fugiram de Porto Real para escapar ao avanço dos exércitos do Usurpador, mas Daenerys não passava de uma partícula de vida no ventre da mãe.

Mesmo assim, por vezes, Dany conseguia visualizar os acontecimentos, tantas tinham sido as ocasiões em que ouvira o irmão contar as histórias. A fuga no meio da noite para a Pedra do Dragão, com o luar cintilando nas velas negras do navio. Seu irmão, Rhaegar, combatendo o Usurpador nas águas sangrentas do Tridente e morrendo pela mulher que amava. O saque de Porto Real por aqueles a quem Viserys chamava os cães do Usurpador, os senhores Lannister e Stark. A princesa Elia de Dorne suplicando misericórdia quando o herdeiro de Rhaegar lhe fora arrancado do seio e assassinado perante seus olhos. Os crânios polidos dos últimos dragões a olhar sem ver do alto das paredes da sala do trono quando o Regicida abrira a garganta do Pai com uma espada dourada.

Nascera em Pedra do Dragão quatro luas depois da fuga, durante a fúria de uma tempestade de verão que ameaçava destroçar a estabilidade da ilha. Diziam que aquela tempestade tinha sido terrível. A frota Targaryen fora esmagada enquanto estava ancorada e enormes blocos de pedra foram arrancados dos parapeitos e precipitados sobre as águas encapeladas do mar estreito. A mãe morrera ao dá-la à luz, e por este fato o irmão Viserys nunca a perdoara.

Tampouco se lembrava de Pedra do Dragão. Tinham fugido de novo, imediatamente antes de o irmão do Usurpador zarpar com sua nova frota. Por essa altura, dos Sete Reinos que ti­nham pertencido aos seus, apenas Pedra do Dragão restava, a antiga sede de sua Casa. Mas não por muito tempo, A guarnição estava preparada para vendê-los ao Usurpador, mas, uma noite, Sor Willem Darry e quatro homens leais invadiram o quarto das crianças, raptaram-nas e sua ama de leite, e zarparam sob a escuridão da noite em busca da segurança da costa bravosiana.

Lembrava-se vagamente de Sor Willem, um homem que mais parecia um grande urso cin­zento, meio cego, a rugir e berrar ordens de sua cama de doente. Os criados tinham vivido aterro­rizados por causa dele, que sempre fora bondoso para Dany. Chamava a "pequena princesa" e, por vezes, "minha senhora", e suas mãos eram suaves como couro velho. Mas nunca deixava a cama, e o cheiro da doença impregnava-o de dia e de noite, com um odor quente, úmido, de uma do­çura doentia. Nessa altura viviam em Bravos, na casa grande de porta vermelha, Dany tinha seu próprio quarto, com um limoeiro junto à janela. Depois da morte de Sor Willem, os criados rou­baram o pouco dinheiro que lhes restava e em breve os irmãos foram postos fora da casa grande, Dany chorara quando a porta vermelha se fechara às suas costas para sempre.

Desde então, tinham andado de um lado para outro, de Bravos para Myr, de Myr para Tyrosh e daí para Qohor, Volantis e Lys, sem nunca ficarem muito tempo no mesmo lugar. O irmão não permitia. Insistia que os traidores contratados pelo Usurpador viriam atrás deles, embora Dany nunca tivesse visto nenhum.

A princípio, os magísteres, arcontes e príncipes mercadores tinham se sentido felizes por dar as boas-vindas aos últimos Targaryen às suas casas e mesas, mas, à medida que os anos foram passando e o Usurpador continuou sentado no Trono de Ferro, as portas foram se fechando e suas vidas tornaram-se mais pobres. Anos antes, tinham se visto forçados a vender os últi­mos tesouros, e agora, até o dinheiro que tinham obtido pela coroa da mãe desaparecera. Nas vielas e tabernas de Pentos chamavam o irmão de "rei pedinte". Dany não queria saber do que a chamavam.

"Um dia teremos tudo de volta, minha doce irmã", prometia-lhe Viserys. Às vezes as mãos tremiam-lhe quando falava daquilo. "As jóias e as sedas, Pedra do Dragão e Porto Real, o Trono de Ferro e os Sete Reinos, tudo o que nos roubaram, teremos tudo de volta." Ele vivia para esse dia. Tudo o que Daenerys queria de volta era a grande casa de porta vermelha com o limoeiro em frente à janela do seu quarto, a infância que nunca conhecera.

Ouviu-se um suave toque na porta.

-              Entre - disse Dany, virando as costas à janela. As criadas de Illyrio entraram com reverên­cias e começaram a tratar de suas tarefas. Eram escravas, um presente de um dos muitos amigos dothrakis do magíster. A escravatura não existia na cidade livre de Pentos. E, no entanto, elas eram escravas. A mulher mais velha, pequena e cinzenta como um rato, nunca dizia uma palavra, mas a moça compensava. Era a favorita de Illyrio, uma jovem de dezesseis anos, cabelos claros e olhos azuis, que tagarelava sem cessar enquanto trabalhava.

Encheram a banheira com água quente trazida da cozinha e perfumaram-na com óleos odo­ríferos. A moça puxou a túnica de algodão grosseiro pela cabeça de Dany e a ajudou a entrar na banheira. A água escaldava, mas Daenerys não hesitou nem gritou. Gostava do calor. Fazia-a sentir-se limpa. Além disso, o irmão dissera-lhe com frequência que nunca nada estava quente demais para um Targaryen. "A nossa é a Casa do dragão", dizia. "O fogo está em nosso sangue."

A mulher mais velha lavou seus longos cabelos esbranquiçados e removeu suavemente os nós com uma escova, sempre em silêncio. A moça esfregou-lhe as costas e os pés e disse-lhe como tinha sorte.

-              Drogo é tão rico que até seus escravos usam colares de ouro. Seu khalasar tem cem mil ca­valeiros, e seu palácio em Vaes Dothrak, duzentos quartos e portas de prata sólida - e houve mais do mesmo gênero, muito mais; como o khal era um homem bonito, alto e feroz, destemido em batalha, o melhor cavaleiro que alguma vez montara um cavalo, um arqueiro demoníaco. Daene­rys nada disse. Sempre assumira que se casaria com Viserys quando chegasse à idade adulta.

Durante séculos, os Targaryen tinham se casado irmão com irmã, desde que Aegon, o Conquis­tador, tomara as irmãs como noivas, Viserys dissera-lhe mil vezes que a pureza da linhagem devia ser mantida, que o sangue real era deles, o sangue dourado da antiga Valíria, o sangue do dragão. Os dragões não acasalavam com os animais dos campos, e os Targaryen não misturavam seu sangue com o de homens menores. E, no entanto, agora Viserys conspirava para vendê-la a um estranho, a um bárbaro.

Quando ficou limpa, as escravas ajudaram-na a sair da água e secaram-na com toalhas. A moça escovou-lhe os cabelos até fazê-los brilhar como prata derretida, enquanto a mulher mais velha a untava com o perfume de flores de especiarias das planícies dothrakianas, um salpico em cada pulso, atrás das orelhas, na ponta dos seios e, por fim, um refrescante, lá embaixo, entre as pernas. Vestiram-lhe a roupa de baixo que Magíster Illyrio lhe enviara e depois o vestido, de seda, com um profundo tom de ameixa para realçar o violeta dos seus olhos. A moça enfiou-lhe as sandálias douradas nos pés enquanto a mulher mais velha lhe fixava a tiara na cabeça e fazia deslizar pulseiras douradas incrustadas de ametistas em seus pulsos. O último adorno foi o colar, um pesado cordão de ouro torcido ornado com antigos glifos valirianos.

-              Agora, sim, se parece com uma princesa - disse a moça, sem fôlego, quando terminaram. Dany olhou de relance para sua imagem no espelho prateado que Illyrio tão previdentemente lhe fornecera. Uma princesa, pensou, mas lembrou-se do que a moça dissera, de como Khal Drogo era tão rico que até seus escravos usavam colares de ouro. Sentiu um súbito arrepio percorrer os braços nus.

O irmão a esperava na frescura do átrio, sentado na margem da fonte, arrastando a mão pela água. Pôs-se em pé quando ela surgiu e observou-a com olhos críticos.

Venha aqui - disse. - Vire-se. Sim. Ótimo. Você tem um ar...

Real - disse Magíster Illyrio, entrando por uma arcada. Movia-se com uma delicadeza sur­preendente para um homem tão corpulento. Sob vestimentas soltas de seda cor de fogo, nuvens de gordura oscilavam enquanto ele caminhava. Pedras preciosas cintilavam em todos os dedos, e seu criado oleara-lhe a barba amarela bifurcada até que brilhasse como ouro verdadeiro.

-              Que o Senhor da Luz a banhe em bênçãos neste tão afortunado dia, Princesa Daenerys - disse o magíster quando lhe tomou a mão. Inclinou a cabeça, mostrando um fino relance de dentes amarelos e tortos através do dourado da barba. - Ela é uma visão, Vossa Graça, uma visão - exclamou, dirigindo-se a Viserys. - Drogo ficará arrebatado.

É magra demais - disse Viserys. Seus cabelos, do mesmo tom louro-prateado dos dela, tinham sido puxados para trás e bem atados com uma presilha de osso de dragão. Era um visual severo que dava ênfase às linhas duras e magras de seu rosto. Pousou a mão no punho da espada que Illyrio lhe emprestara e disse: - Tem certeza de que Khal Drogo gosta das suas mulheres assim tão novas?

Ela já teve o seu sangue. Tem idade suficiente para o khal - respondeu Illyrio, e já não era a primeira vez que dizia aquilo. - Olhe para ela. Aqueles cabelos louro-prateados, aqueles olhos púrpuros... ela é do sangue da antiga Valíria, sem dúvida, sem dúvida... e bem-nascida, filha do antigo rei, irmã do novo, não é possível que não arrebate nosso Drogo - quando Illyrio largou sua mão, Daenerys percebeu que estava tremendo.

Suponho que sim - disse o irmão em tom duvidoso. - Os selvagens têm gostos estranhos. Rapazes, cavalos, ovelhas...

-              É melhor não sugerir isso a Khal Drogo - disse Illyrio.

A ira flamejou nos olhos lilás de Viserys.

-              Toma-me por tolo?

O magíster fez uma ligeira reverencia.

-              Tomo-o por um rei. Aos reis falta a cautela dos homens vulgares. Minhas desculpas se o ofendi - virou-se e bateu palmas para chamar os carregadores.

As ruas de Pentos estavam escuras como breu quando saíram na liteira elaboradamente escul­pida de Illyrio. Dois criados iam à frente para alumiar o caminho, transportando ornamentadas lanternas a óleo com vidraças de um vidro azul-claro, e uma dúzia de homens fortes conduziam a liteira aos ombros. O espaço lá dentro, por trás das cortinas, era quente e apertado. Dany conse­guia sentir o fedor da carne pálida de Illyrio sob seus pesados perfumes.

O irmão, esparramado em almofadas a seu lado, nada notava. Sua mente estava longe, do outro lado do mar estreito.

Não necessitaremos de todo o seu khalasar - disse Viserys. Os dedos brincavam no punho da lâmina emprestada, embora Dany soubesse que ele nunca usara uma espada a sério. - Dez mil serão suficientes, posso varrer os Sete Reinos com dez mil guerreiros dothrakis. O domínio se erguerá em nome do seu rei de direito. Tyrell, Redwyne, Darry, Greyjoy não sentem mais amor pelo Usurpador do que eu. Os homens de Dome ardem pela possibilidade de vingar Elia e os seus filhos. E as pessoas simples estarão conosco. Elas choram pelo seu rei - olhou ansioso para Illyrio. - Choram, não é verdade?

São o vosso povo, e o amam bastante - disse amavelmente Magíster Illyrio. - Em povoados por todo o território, os homens fazem brindes secretos à vossa saúde, enquanto as mulheres cosem estandartes do dragão e os escondem até o dia do vosso regresso do outro lado das águas - encolheu os maciços ombros. - Ou pelo menos é o que me dizem meus agentes.

Dany não tinha agentes, nenhuma maneira de saber o que alguém estaria fazendo ou pen­sando do outro lado do mar estreito, mas desconfiava das palavras doces de Illyrio do mesmo modo que desconfiava de tudo o que dizia respeito a ele. Mas o irmão acenava com ardor.

Matarei eu próprio o Usurpador - prometeu, ele que nunca matara ninguém -, tal como ele matou meu irmão Rhaegar. E também Lannister, o Regicida, pelo que fez ao meu pai.

Isso será muito adequado - disse Magíster Illyrio. Dany viu a minúscula sugestão de sor­riso que brincava nos lábios cheios do homem, mas o irmão não reparou em nada. Acenando, ele afastou uma cortina e perdeu o olhar na noite, e Dany soube que estava lutando de novo a Batalha do Tridente.

A mansão de nove torres de Khal Drogo erguia-se junto às águas da baía, com hera de tons claros cobrindo seus grandes muros de tijolo. Tinha sido oferecida ao khal pelos magísteres de Pentos, Illyrio lhes disse. As Cidades Livres eram sempre generosas com os senhores dos cavalos.

-              Não é que temamos esses bárbaros - explicava Illyrio com um sorriso. - O Senhor da Luz poderia defender nossas muralhas contra um milhão de dothrakis, ou pelo menos é isso que prometem os sacerdotes vermelhos... Mas para que correr riscos quando a amizade deles sai tão barata?

A liteira em que seguiam foi parada ao portão e as cortinas, puxadas rudemente para trás por um dos guardas da casa. Possuía a pele acobreada e os olhos escuros e amendoados de um doth-raki, mas tinha o rosto livre de pelos e usava o capacete guarnecido de pontas agudas dos Imacula­dos. Avaliou-os friamente. Magíster Illyrio rosnou-lhe qualquer coisa no rude idioma dothraki; o guarda respondeu-lhe no mesmo tom e lhes deu passagem com um gesto através dos portões.

Dany reparou que a mão do irmão estava cerrada com força no punho de sua espada empres­tada. Parecia quase tão assustado como ela se sentia.

-              Eunuco insolente - murmurou Viserys enquanto a liteira subia aos balanços até a mansão. As palavras de Magíster Illyrio eram mel.

Esta noite estarão muitos homens importantes no banquete. Homens assim têm inimigos. O khal deve proteger seus convidados, vós acima de todos, Vossa Graça. Não há dúvidas de que o Usurpador pagaria bem pela vossa cabeça.

Ah, sim - disse sombriamente Viserys. - Ele tentou, Illyrio, asseguro-lhe. Seus traidores contratados nos seguem para todo o lado. Sou o último dragão, e ele não dormirá descansado enquanto eu viver.

A liteira desacelerou e parou. As cortinas foram puxadas e um escravo ofereceu a mão para ajudar Daenerys a sair. Seu colar, reparou ela, era de bronze comum. O irmão a seguiu, com uma das mãos ainda cerrada com força no punho da espada. Foram precisos dois homens fortes para pôr Magíster Illyrio de pé.

Dentro da mansão, o ar estava pesado com o cheiro de especiarias, noz-de-fogo, limão-doce e canela. Foram levados através do átrio, onde um mosaico de vidro colorido retratava a Destruição de Valíria. Óleo ardia em lanternas negras de ferro dispostas ao longo das paredes. Sob uma ar­cada composta por folhas de pedra interligadas, um eunuco cantou a chegada:

-              Viserys da Casa Targaryen, o Terceiro de seu Nome - gritou numa voz doce e aguda -, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Rei dos Sete Reinos e Protetor do Território. Sua irmã, Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa de Pedra do Dragão. Seu honorável anfitrião, Illyrio Mopatis, Magíster da Cidade Livre de Pentos.

Passaram pelo eunuco e entraram num pátio orlado de pilares cobertos de hera clara. O luar pintava as folhas em tons de osso e prata enquanto os convidados vagueavam por entre elas. Mui­tos eram senhores dos cavalos dothrakis, grandes homens de pele vermelho-acastanhada, com os bigodes pendentes presos por anéis de metal e os cabelos negros oleados, trançados e atados a campainhas. Mas por entre eles moviam-se sicários e mercenários de Pentos, Myr e Tyrosh, um sacerdote vermelho ainda mais gordo que Illyrio, homens peludos vindos do Porto de Ibben e se­nhores das Ilhas do Verão com a pele negra como ébano. Daenerys olhou a todos maravilhada... e compreendeu, com um súbito sobressalto de medo, que era a única mulher ali presente.

Illyrio sussurrou-lhes:

-              Aqueles três são os companheiros de sangue de Drogo, ali - ele mostrou. - Junto ao pilar está Khal Moro com o filho Rhogoro. O homem de barba verde é irmão do Arconte de Tyrosh, e o homem que está atrás dele é Sor Jorah Mormont.

O último nome capturou a atenção de Daenerys.

Um cavaleiro?

Nem mais, nem menos - Illyrio sorriu sob a barba. - Ungido com os sete óleos pelo pró­prio Alto Septão.

Que faz ele aqui? - ela perguntou.

O Usurpador quis vê-lo morto - disse-lhes Illyrio. - Uma afrontazinha qualquer. Vendeu alguns caçadores furtivos a um negociante de escravos de Tyrosh em vez de entregá-los à Patru­lha da Noite. Uma lei absurda. Um homem deve ser autorizado a fazer o que bem entenda com seus bens.

Quero falar com Sor Jorah antes do fim da noite - disse Viserys.

Dany deu por si olhando com curiosidade o cavaleiro. Era um homem velho, com mais de quarenta anos e perdendo cabelo, mas mantinha-se forte e em forma. Em vez de sedas e algodão, trajava lã e couro. Sua túnica era verde-escura, bordada com a imagem de um urso negro em pé sobre duas patas.

Ainda observava aquele estranho homem vindo da pátria que nunca conhecera quando Ma-gíster Illyrio colocou a mão úmida em seu ombro nu.

-              Ali, doce princesa - sussurrou -, está o próprio khal.

Dany quis fugir e se esconder, mas o irmão a estava observando, e ela sabia que se lhe desagra­dasse acordaria o dragão. Ansiosa, virou-se e olhou o homem que Viserys esperava que pedisse para desposá-la antes de a noite acabar.

A jovem escrava não se enganara muito, pensou. Khal Drogo era uma cabeça mais alto do que o mais alto dos presentes na sala, mas de certo modo leve de pés, tão gracioso como a pantera que havia na coleção de Illyrio. Era mais novo do que ela pensara, não tinha mais de trinta anos. A pele era da cor de cobre polido, e o espesso bigode estava preso com anéis de ouro e bronze.

-              Devo ir fazer as minhas apresentações - disse Magíster Illyrio. - Esperem aqui. Eu o trarei até vós.

O irmão tomou-lhe o braço quando Illyrio se dirigiu, bamboleante, até o khal, e seus dedos apertaram-na com tanta força que a machucaram.

-              Vê a sua trança, querida irmã?

A trança de Drogo era negra como a meia-noite, pesada de óleo perfumado e repleta de mi­núsculas campainhas que tiniam suavemente quando ele se movia. Chegava-lhe bem abaixo do cinto, até mesmo abaixo das nádegas; a ponta roçava-lhe a parte de trás das coxas.

-              Vê como é longa? - continuou Viserys. - Quando os dothrakis são derrotados em com­bate, cortam as tranças em desgraça para que o mundo saiba da sua vergonha. Khal Drogo nunca perdeu um combate. É Aegon, o Senhor do Dragão regressado, e você será a sua rainha.

Dany olhou Khal Drogo. Seu rosto era duro e cruel, os olhos tão frios e escuros como ônix. O irmão às vezes a magoava, quando acordava o dragão, mas não a assustava como aquele homem.

Não quero ser sua rainha - ouviu sua voz dizer num tom fraco e agudo. - Por favor, por favor, Viserys, não quero. Quero ir para casa.

Para casa? - ele manteve a voz baixa, mas ela conseguia ouvir a fúria na entoação. - Como havemos de ir para casa, minha doce irmã? Eles roubaram nossa casa! - levou-a para as som­bras, para fora da vista dos convidados, com os dedos enterrados em sua pele. - Como havemos de ir para casa? - repetiu, referindo-se a Porto Real, à Pedra do Dragão e a todo o território que tinham perdido.

Dany se referira apenas aos seus quartos na propriedade de Illyrio, que certamente não seria uma casa verdadeira, mas era tudo o que possuíam; no entanto, seu irmão não quis ouvir assim, Ali não havia para ele uma casa. Mesmo a casa grande com a porta vermelha não tinha sido uma casa para ele. Seus dedos enterravam-se com força no braço dela, exigindo uma resposta.

Não sei... - Dany disse por fim, com a voz perdendo a firmeza. Lágrimas jorraram-lhe dos olhos.

Mas eu sei - disse ele com voz cortante, - Vamos para casa com um exército, minha doce irmã. Com o exército de Khal Drogo, eis como vamos para casa. E se para isso tiver de se casar com ele e com ele dormir, é isto o que fará. - sorriu-lhe. - Deixaria que todo o seu khalasar a fodesse se fosse preciso, minha doce irmã, todos os quarenta mil homens e também os seus ca­valos, se isto fosse necessário para obter o meu exército. Fique grata que seja só o Drogo. Com o tempo, pode até aprender a gostar dele. Agora seque os olhos. Illyrio o está trazendo para cá, e ele não vai vê-la chorar.

Dany virou-se e viu que era verdade. Magíster Illyrio, todo sorrisos e reverências, escoltava Khal Drogo em direção ao lugar onde se encontravam. Afastou com as costas da mão as lágrimas que não tinham saído dos seus olhos.

- Sorria - murmurou Viserys nervosamente, com a mão caindo sobre o punho da espada. - E fique ereta. Deixe que ele veja que você tem seios. Bem sabem os deuses que os tem bem pequenos.

Daenerys sorriu e se aprumou.

 

                     Eddard

Os visitantes entraram pelos portões do castelo como um rio de ouro e prata e aço polido, trezentos homens, um esplendor de vassalos e cavaleiros, soldados juramentados e cavaleiros livres. Sobre suas cabeças, uma dúzia de estandartes dourados abanavam de um lado para outro ao sabor do vento do Norte, adornados com o veado coroado de Baratheon.

Ned conhecia muitos dos cavaleiros. Ali vinha Sor Jaime Lannister com os cabelos tão bri­lhantes como ouro batido, e ali estava Sandor Clegane com a face terrivelmente queimada. O rapaz alto ao seu lado só podia ser o príncipe herdeiro, e aquele homenzinho atrofiado ao lado era certamente o Duende, Tyrion Lannister.

Mas o homem enorme que vinha à cabeça da coluna, flanqueado por dois cavaleiros que usavam os mantos brancos como a neve da Guarda Real, pareceu a Ned quase um estranho... Até saltar de cima de seu cavalo de guerra com um rugido familiar e o esmagar num abraço de partir ossos.

-              Ned! Ah, como é bom ver essa sua cara congelada - o rei o observou de cima a baixo e sol­tou uma gargalhada. - Não mudou nem um bocadinho.

Ned gostaria de poder dizer o mesmo. Quinze anos antes, quando tinham cavalgado jun­tos para conquistar um trono, o Senhor de Ponta Tempestade era um homem sem barba, de olhos claros e musculoso como um sonho de donzela. Quase com dois metros de altura, erguia-se acima dos outros homens e, quando punha a armadura e o grande capacete provido de chifres de sua Casa, transformava-se num autêntico gigante. Também tinha a força de um gigante, e sua arma predileta era um martelo de batalha com ponta aguçada que Ned quase não conseguia er­guer do chão. Nesses tempos, o cheiro do couro e do sangue aderia à sua pele como perfume.

Agora era perfume mesmo que aderia à sua pele, e ele tinha uma largura que se equiparava a altura. Ned tinha visto o rei pela última vez nove anos antes, durante a rebelião de Balon Greyjoy, quando o veado e o lobo gigante tinham se juntado para acabar com as pretensões do auto-proclamado Rei das Ilhas de Ferro. Desde a noite em que estiveram lado a lado no quartel-general caído de Greyjoy, quando Robert aceitara a rendição do senhor rebelde e Ned tomara seu filho Theon como refém e protegido, o rei ganhara pelo menos cinquenta quilos. Uma barba tão grosseira e negra como fio de ferro cobria-lhe a face, escondendo o duplo queixo e o descai­mento das reais bochechas, mas nada conseguia esconder seu estômago ou os círculos escuros sob os olhos.

Mas Robert era agora o rei de Ned, e não apenas um amigo; portanto, limitou-se a dizer:

-              Vossa Graça. Winterfell é vossa.

Por essa altura já os outros estavam também a desmontar, e avançavam moços de estreba­ria para lhes recolher as montadas. A rainha de Robert, Cersei Lannister, entrou a pé com seus filhos mais novos. A caravana em que tinham vindo, uma enorme carruagem de dois pisos feita de carvalho untado e metal dourado, puxada por quarenta cavalos de tração pesada, era larga de­mais para passar pelo portão do castelo. Ned ajoelhou-se na neve a fim de beijar o anel da rainha, enquanto Robert abraçou Catelyn como a uma irmã há muito perdida. Depois as crianças foram trazidas, apresentadas e aprovadas por ambas as partes.

Assim que aquelas formalidades de saudação se completaram, o rei disse ao anfitrião:

-              Leve-me à sua cripta, Eddard. Quero apresentar os meus respeitos.

Ned o adorou por isso, por se lembrar ainda dela, depois de tantos anos. Gritou por uma lan­terna. Não foram necessárias mais palavras. A rainha começara a protestar. Que tinham viajado desde a madrugada, que estavam todos cansados e com frio, que decerto deveriam descansar pri­meiro. Que os mortos podiam esperar. Não disse mais que isso; Robert olhou-a, o irmão gêmeo Jaime pegou-lhe calmamente no braço e ela não disse mais nada.

Desceram juntos para a cripta, Ned e seu rei, que quase não reconhecia. Os degraus de pedra em espiral eram estreitos. Ned seguiu à frente com a lanterna.

-              Já começava a pensar que nunca mais chegaríamos a Winterfell - queixou-se Robert en­quanto desciam. - No Sul, do modo como falam dos meus Sete Reinos, um homem se esquece de que a sua parte é tão grande quanto as outras seis juntas.

-              Espero que tenha apreciado a viagem, Vossa Graça. Robert resfolegou.

Lodaçais, florestas e campos, e quase sem uma estalagem decente a norte do Gargalo. Nun­ca vi um vazio tão vasto. Onde estão todas as suas gentes?

Provavelmente estavam muito acanhadas para sair - brincou Ned. Sentia o frio que su­bia as escadas, a respiração gelada vinda das profundezas da terra. - Os reis são uma visão rara no Norte.

Robert resfolegou.

O mais certo é que estivessem escondidas debaixo da neve. Neve, Ned! - o rei pôs a mão na parede para se manter firme enquanto descia.

As neves do fim do verão são bastante comuns - disse Ned. - Espero que não lhe tenham causado problemas. São geralmente suaves.

Que os Outros carreguem as suas neves suaves - praguejou Robert. - Como será este lugar no inverno? Estremeço só de pensar.

Os invernos são duros - admitiu Ned. - Mas os Stark os suportarão. Sempre os supor­tamos.

Tem de vir até o Sul - disse Robert. - Precisa experimentar o verão antes que ele fuja. Em Jardim de Cima há campos de rosas douradas que se estendem até perder de vista. Os frutos estão tão maduros que explodem na boca: melões, pêssegos, ameixas-de-fogo, nunca saboreou tamanha doçura. Verá, eu trouxe algumas. Mesmo em Ponta Tempestade, com aquele bom vento da baía, os dias são tão quentes que quase não conseguimos nos mexer. E precisa ver as vilas, Ned! Flores por toda parte, os mercados a rebentar de comida, os vinhos estivais tão bons e bara­tos que podemos nos embebedar só de respirar o ar. Toda a gente é gorda, bêbada e rica - soltou uma gargalhada e deu uma palmada no amplo estômago. - E as moças, Ned! - exclamou com os olhos faiscando. - Juro, as mulheres perdem toda a modéstia ao calor. Nadam nuas no rio, mes­mo por baixo do castelo. Até nas ruas está calor demais para lã ou peles, e elas andam por aí com aqueles vestidos curtos de seda, se tiverem prata, ou algodão, se não tiverem, mas é tudo igual quando começam a suar e o tecido lhes adere à pele, é como se andassem nuas - o rei riu, feliz.

Robert Baratheon sempre fora um homem de enormes apetites, um homem que sabia como conquistar seus prazeres. Essa não era uma acusação que alguém pudesse deixar à porta de Eddard Stark. No entanto, Ned não podia deixar de notar que esses prazeres estavam cobrando seu preço do rei. Robert respirava pesadamente quando chegaram ao fundo das escadas, e com a cara vermelha à luz da lanterna quando penetraram na escuridão da cripta.

-              Vossa Graça - disse Ned respeitosamente. Moveu a lanterna num largo semicírculo. As sombras moveram-se e balançaram. A vacilante luz tocou as pedras do chão e roçou numa longa procissão de pilares de granito que marchavam em frente a eles, dois a dois, na direção das trevas. Entre os pilares sentavam-se os mortos nos seus tronos de pedra apoiados nas paredes, de cos­tas voltadas para os sepulcros que continham seus restos mortais. - Ela está lá ao fundo, com o Pai e Brandon.

Indicou o caminho por entre os pilares e Robert seguiu-o sem uma palavra, estremecendo com o frio subterrâneo. Ali fazia sempre frio. Seus passos soavam nas pedras e ecoavam na abóbada que se erguia sobre suas cabeças enquanto caminhavam por entre os mortos da Casa Stark. Os Senhores de Winterfell viam-nos passar. Suas imagens tinham sido esculpidas nas pedras que selavam as tumbas. Sentavam-se em longas filas, olhos cegos virados para a escu­ridão eterna, enquanto grandes lobos gigantes de pedra se aninhavam junto aos seus pés. As sombras móveis faziam com que as figuras de pedra parecessem mover-se quando os vivos passavam por elas.

Seguindo um costume antigo, uma espada de ferro tinha sido colocada sobre o colo de todos os que tinham sido Senhores de Winterfell, a fim de manter os espíritos vingativos em suas crip­tas. A mais antiga já há muito enferrujara até a inexistência, deixando apenas algumas manchas vermelhas onde o metal tocara na pedra. Ned perguntou a si próprio se isso significava que aque­les espíritos estavam agora livres para passear pelo castelo. Esperava que não. Os primeiros Senhores de Winterfell tinham sido homens tão duros como a terra que governavam. Nos séculos anteriores à vinda dos Senhores do Dragão do outro lado do mar, não tinham jurado fidelidade a ninguém, fazendo tratar-se por Reis do Norte.

Ned parou, finalmente, e ergueu a lanterna de óleo, A cripta continuava à sua frente, mergu­lhando na escuridão, mas para lá daquele ponto as tumbas estavam vazias e por selar; buracos negros à espera de seus mortos, à espera dele e de seus filhos. Ned não gostava de pensar naquilo.

-              Aqui - disse ele ao seu rei.

Robert acenou em silêncio, ajoelhou-se e inclinou a cabeça.

Havia três tumbas, dispostas lado a lado. Lorde Rickard Stark, o pai de Ned, tinha um rosto longo e austero. O esculpidor conhecera-o bem. Estava sentado com uma calma dignidade, com os dedos de pedra agarrados com força à espada que tinha no colo, mas em vida todas as espadas lhe tinham falhado. Em dois sepulcros menores, de ambos os lados, estavam seus filhos.

Brandon morrera com vinte anos, estrangulado por ordem do Rei Louco Aerys Targaryen, poucos dias apenas antes de se casar com Catelyn Tully de Correrrio. O pai fora obrigado a vê-lo morrer. Era ele o verdadeiro herdeiro, o mais velho, nascido para governar.

Lyanna tinha apenas dezesseis anos, uma menina-mulher de inigualável encanto. Ned amara-a de todo o coração. Robert amara-a ainda mais. Ela estava destinada a ser sua noiva.

-              Era mais bela que isto - disse o rei após um silêncio. Seus olhos demoravam-se no rosto de Lyanna, como se pudesse trazê-la de volta à vida por um esforço de vontade. Por fim, ergueu-se, com o peso a torná-lo desajeitado. - Ah, maldição, Ned, tinha de enterrá-la num lugar como este? - sua voz estava enrouquecida com a lembrança do desgosto. - Ela merecia mais que trevas...

Ela era uma Stark de Winterfell - disse Ned calmamente. - Este é seu lugar.

Podia estar em algum lugar numa colina, sob uma árvore de fruto, com o sol e nuvens aci­ma dela e a chuva para lavá-la.

Eu estava com ela quando morreu - lembrou Ned ao rei. - Queria regressar à nossa casa para descansar ao lado de Brandon e do Pai - por vezes ainda conseguia ouvi-la. Promete-me, su­plicara, num quarto que cheirava a sangue e a rosas. Promete-me, Ned. A febre levara-lhe as forças e a voz era tênue como um suspiro, mas quando ele lhe dera sua palavra, o medo saíra dos olhos da irmã. Ned recordava o modo como então sorrira, a força com que seus dedos agarraram os dele quando ela desistira de se agarrar à vida, as pétalas de rosa que se derramaram de sua mão, mortas e negras. Depois daquilo, não se lembrava de mais nada. Tinham-no encontrado ainda abraçado ao seu corpo, silenciado pela dor. O pequeno cranogmano, Howland Reed, retirara a mão dela da dele. Ned nada recordava.

Trago-lhe flores sempre que posso - disse. - Lyanna era... amiga das flores.

O rei tocou o rosto da estátua, roçando os dedos na pedra áspera tão suavemente como se fosse carne viva.

Jurei matar Rhaegar pelo que lhe fez.

E foi o que Vossa Graça fez - lembrou-lhe Ned.

Só uma vez - disse Robert amargamente.

Tinham chegado juntos ao baixio do Tridente enquanto a batalha rugia em seu redor, Robert com seu martelo de batalha e seu grande elmo dos chifres de veado, e o príncipe Targaryen reves­tido de armadura negra. No peitoral trazia o dragão de três cabeças de sua Casa, todo trabalhado com rubis que relampejavam como fogo à luz do sol. As águas do Tridente corriam vermelhas sob os cascos de seus cavalos de batalha, enquanto eles andavam em círculos e entrechocavam as armas, uma e outra vez, até que, por fim, um tremendo golpe do martelo de Robert abriu um rombo no dragão e no peito que estava por baixo. Quando Ned finalmente chegou ao local, Rhaegar jazia morto na corrente, enquanto homens de ambos os exércitos escarafunchavam as águas rodopiantes em busca de rubis que se tivessem soltado de sua armadura.

-              Nos meus sonhos mato-o todas as noites - admitiu Robert. - Mil mortes ainda serão me­nos do que ele merece.

Não havia nada que Ned pudesse responder àquilo. Depois de uma pausa, disse:

Devemos regressar, Vossa Graça. Sua esposa está à espera.

Que os Outros carreguem minha esposa - murmurou Robert em tom azedo, mas enca­minhou-se com passos pesados na direção de onde tinham vindo. - E se ouvir mais alguma vez "Vossa Graça", enfio sua cabeça num espeto. Somos mais que isso um para o outro.

-              Não me esqueci - respondeu Ned calmamente. - Fale-me dejon. Robert sacudiu a cabeça.

Nunca vi um homem adoecer tão depressa. Organizamos um torneio no dia do nome do meu filho. Se tivesse visto Jon nesse dia, poderia jurar que viveria para sempre. Uma quinzena de­pois, estava morto, A doença foi como um incêndio em suas tripas. Queimou-o todo por dentro - fez uma pausa junto a um pilar, em frente à tumba de um Stark há muito morto. - Adorava aquele velho.

Ambos o adorávamos - Ned fez uma pausa momentânea. - Catelyn teme pela irmã. Como Lysa está suportando a dor?

A boca de Robert fez um trejeito amargo.

-              Não muito bem, na verdade - admitiu. - Penso que a perda de Jon levou a mulher à lou­cura, Ned. Levou o rapaz de volta para o Ninho da Águia. Contra os meus desejos. Tinha planejado criá-lo com Tywin Lannister em Rochedo Casterly. Jon não tinha irmãos nem outros filhos. Deveria eu deixá-lo ser educado por mulheres?

Ned mais depressa confiaria uma criança a uma víbora do que ao Lorde Tywin, mas guardou para si essa opinião. Algumas velhas feridas nunca chegavam a sarar de verdade, e voltavam a sangrar à primeira palavra.

A mulher perdeu o marido - disse cuidadosamente. - Talvez a mãe tema perder o filho. O rapaz é muito novo.

Tem seis anos, é enfermiço e Senhor do Ninho da Águia, que os deuses o salvem - prague­jou o rei. - Lorde Tywin nunca antes tinha tomado um protegido. Lysa devia se sentir honrada. Os Lannister são uma Casa grande e nobre. Ela recusou até ouvir falar do assunto. E, depois, foi-se embora na calada da noite, sem sequer um com-licença. Cersei ficou furiosa - soltou um pro­fundo suspiro. - O rapaz é meu homônimo, sabias? - "Robert Arryn". Jurei protegê-lo. Como poderei fazer isso se a mãe o rapta e o leva?

Posso tomá-lo como protegido, se assim desejar - disse Ned. - Lysa certamente consen­tirá. Ela e Catelyn eram próximas quando moças, e ela própria também será aqui bem-vinda.

Uma oferta generosa, meu amigo - disse o rei -, mas chegou tarde demais. Lorde Tywin já deu seu consentimento. Criar o rapaz em outro lugar seria uma grave afronta.

Preocupa-me mais o bem-estar do meu sobrinho que o orgulho de um Lannister - decla­rou Ned.

Isto é porque não dorme com uma Lannister - Robert soltou uma gargalhada, fazendo o som chocalhar por entre as sepulturas e ressoar no teto abobadado. - Ah, Ned, continua sério demais - pôs um braço maciço em torno dos ombros de Ned. - Tinha planejado esperar alguns dias antes de falar contigo, mas agora vejo que não há necessidade. Venha, acompanhe-me.

Os dois voltaram por entre os pilares. Olhos cegos de pedra pareciam segui-los quando por eles passavam. O rei manteve o braço ao redor dos ombros de Ned.

-              Deve estar curioso sobre o motivo que me fez finalmente vir para o norte até Winterfell depois de tanto tempo.

Ned tinha suas suspeitas, mas não disse nada.

Pela alegria da minha companhia, certamente - disse, com ligeireza. - E há também a Mu­ralha. Tem de vê-la, Vossa Graça, tem de caminhar entre suas ameias e falar com aqueles que a guarnecem. A Patrulha da Noite é uma sombra do que já foi. Benjen diz...

Sem dúvida que ouvirei o que diz seu irmão muito em breve - respondeu Robert. - A Mu­ralha está ali há, o quê?, oito mil anos? Pode esperar mais alguns dias. Tenho preocupações mais urgentes. Estes são tempos difíceis. Necessito de bons homens ao meu redor. Homens como Jon Arryn. Ele serviu como Senhor do Ninho da Águia, como Protetor do Leste, como a Mão do Rei. Não será fácil substituí-lo.

Seu filho... - começou Ned.

Seu filho herdará o Ninho da Águia e todos os seus rendimentos - disse Robert brusca­mente, - Nada mais.

Aquilo apanhou Ned de surpresa. Parou, surpreso, e virou-se para olhar o rei. As palavras saíram-lhe espontâneas:

-              Os Arryn sempre foram Protetores do Leste. O título vem com o domínio.

Talvez quando tenha idade a honraria lhe seja restaurada - disse Robert. - Tenho este ano e o seguinte para pensar no assunto. Um rapaz de seis anos não é um líder de guerra, Ned.

Em tempo de paz, o título é apenas uma honraria. Deixe que o rapaz o mantenha. Pelo seu pai, se não por ele. Decerto deve isto ajon pelos seus serviços.

O rei não estava contente. Tirou o braço dos ombros de Ned.

Os serviços de Jon constituíram seu dever para com seu senhor. Não sou ingrato, Ned. Você, de todos os homens, deveria sabê-lo. Mas o filho não é o pai. Um mero rapaz não pode defender o Leste - então o tom suavizou-se. - Basta disto. Há um cargo mais importante sobre que conversar, e não desejo discutir contigo. - Robert agarrou Ned pelo cotovelo. - Preciso de você, Ned.

Estou às vossas ordens, Vossa Graça. Sempre - eram palavras que tinha de pronunciar, e ficou apreensivo com o que poderia vir a seguir.

Robert quase não pareceu ouvi-lo.

-              Aqueles anos que passamos no Ninho da Águia... deuses, foram bons anos. Quero você de novo a meu lado, Ned. Quero-o lá embaixo, em Porto Real, e não aqui no fim do mundo, onde não tem utilidade para ninguém - Robert olhou a escuridão, por um momento tão melancólico como um Stark. - Juro-lhe, estar sentado num trono é mil vezes mais difícil que conquistar um. As leis são uma coisa entediante, e contar tostões é pior. E o povo... não tem fim. Sento-me na­quela maldita cadeira de ferro e ouço-os se queixarem até ficar com a mente embotada e o rabo em carne viva. Todos querem qualquer coisa, dinheiro, terra ou justiça. As mentiras que con­tam... e os meus senhores e senhoras não são melhores. Estou rodeado de aduladores e idiotas. Aquilo pode levar um homem à loucura, Ned. Metade deles não se atreve a me dizer a verdade, e a outra metade não é capaz de encontrá-la. Há noites em que desejo que tivéssemos perdido no Tridente. Ah, não, não de verdade, mas...

-              Compreendo - disse Ned com voz suave. Robert olhou para ele.

-              Penso que compreende. E se compreende, é o único, meu velho amigo - sorriu. - Lorde Eddard Stark, é meu desejo nomeá-lo a Mão do Rei.

Ned caiu sobre um joelho. A oferta não o surpreendera; que outra razão teria Robert para viajar até tão longe? A Mão do Rei era o segundo homem mais poderoso nos Sete Reinos. Falava com a voz do rei, comandava seus exércitos, esboçava suas leis. Por vezes até se sentava no Trono de Ferro para fazer a justiça do rei, quando este se encontrava ausente, ou doente, ou indis­posto de outra maneira qualquer. Robert agora oferecia uma responsabilidade tão grande quanto o próprio reino. Era a última coisa no mundo que desejava.

-              Vossa Graça, não sou merecedor de tal honra. Robert grunhiu com uma impaciência bem-humorada.

-              Se quisesse honrá-lo, deixaria que se aposentasse? Planejo fazê-lo gerir o reino e lutar as guerras enquanto eu como, bebo e fornico a caminho de uma cova antecipada - deu uma pal­mada no estômago e deu um sorriso. - Conhece aquele ditado sobre o rei e a sua Mão?

Ned conhecia o ditado:

-              Aquilo que o rei sonha a Mão constrói.

-              Uma vez dormi com uma peixeira que me disse que os de baixo nascimento têm uma ver­são mais refinada. O rei come, dizem eles, e a Mão recolhe a merda - atirou a cabeça para trás e rebentou em sonoras gargalhadas. Os ecos ressoaram pela escuridão, e, ao seu redor, os mortos de Winterfell pareceram observar com olhos frios e desaprovadores.

Por fim, o riso diminuiu e cessou. Ned continuava sobre o joelho, sem alegria nos olhos.

Que diabos, Ned - queixou-se o rei. - Podia ao menos brindar-me com um sorriso.

Dizem que fica tão frio por aqui no inverno que as gargalhadas dos homens congelam em suas gargantas e os sufocam até a morte - disse Ned em tom monocórdio. - Talvez seja por isso que os Stark possuem tão pouco humor.

Vem comigo para o Sul e o ensino de novo a rir - prometeu o rei. - Ajudou-me a ganhar este maldito trono, ajude-me agora a mantê-lo. Estamos destinados a governar juntos. Se Lyanna tivesse sobrevivido, teríamos sido irmãos, ligados pelo afeto e também pelo sangue. Pois bem, não é tarde demais. Eu tenho um filho. Você tem uma filha. Meu Joff e sua Sansa unirão as nossas Casas, como Lyanna e eu poderíamos ter feito em tempos.

Aquela oferta o surpreendeu.

-              Sansa tem apenas onze anos.

Robert fez um gesto impaciente com a mão.

Tem idade que chegue para ficar prometida. O casamento pode esperar alguns anos - ele sorriu. - Agora, ponha-se em pé e diz que sim, maldito.

Nada me daria maior prazer, Vossa Graça - respondeu Ned. Mas hesitou. - Todas estas honrarias são tão inesperadas. Posso ter algum tempo para refletir, Preciso contar à minha esposa...

Sim, sim, claro, conta a Catelyn, durma sobre o assunto se for preciso - o rei estendeu a mão, agarrou a de Ned e puxou-o rudemente, pondo-o em pé. - Basta que não me deixe à espera tempo demais. Não sou o mais paciente dos homens.

Por um momento Eddard Stark sentiu-se atacado por uma terrível sensação de mau pressá­gio. Aquele era seu lugar, ali no Norte. Olhou as figuras de pedra que o rodeavam, inspirou pro­fundamente no silêncio gelado da cripta. Conseguia sentir os olhos dos mortos. Sabia que todos eles escutavam. E o inverno estava a caminho.


 

                   Jon

Havia momentos - não muitos, mas alguns - em que Jon Snow ficava feliz por ser um bas­tardo. Enquanto enchia uma vez mais sua taça de vinho de um jarro que ia passando, deu-se conta de que aquele poderia ser um desses momentos.

Voltou a se instalar no seu lugar ao banco, entre os escudeiros mais novos, e bebeu. O sabor doce e frutado do vinho estival encheu-lhe a boca e trouxe-lhe um sorriso aos lábios.

O ar no Salão Grande de Winterfell estava nevoento de fumo e pesado com os cheiros de carne assada e pão acabado de cozer. As grandes paredes de pedra do salão estavam adornadas com estandartes. Bianco, dourado, carmesim: o lobo gigante de Stark, o veado coroado de Baratheon, o leão de Lannister. Um cantor tocava harpa e recitava uma balada, mas nesta ponta do salão quase não se conseguia ouvir sua voz acima do rugir do fogo, do clangor de pratos e taças de peltre, e do burburinho grave de uma centena de conversas ébrias.

Estava-se na quarta hora do banquete de boas-vindas oferecido ao rei. Os irmãos e irmãs de Jon tinham sido postos junto dos filhos do rei, por baixo da plataforma elevada onde o Senhor e a Senhora Stark recebiam o rei e a rainha. Em honra da ocasião, o senhor seu pai iria sem dúvida permitir a cada filho um copo de vinho, mas não mais que isso. Ali, nos bancos, não havia nin­guém para impedir que Jon bebesse tanto quanto sua sede exigisse.

E estava descobrindo que tinha uma sede de homem, para a áspera satisfação dos jovens que o rodeavam e que o incentivavam a cada vez que esvaziava um copo. Eram boa companhia, e Jon apreciava as histórias que contavam, histórias de batalha, de cama e de caça. Tinha certeza de que os companheiros eram mais divertidos do que a prole do rei. Saciou sua curiosidade a respeito dos visitantes quando estes entraram. A procissão passara a não mais de um pé do local que lhe fora atribuído no banco, e Jon deitara um forte e demorado olhar em todos eles.

O senhor seu pai viera à frente, acompanhando a rainha. Ela era tão bela como os homens diziam. Uma tiara cravejada de jóias brilhava entre os seus longos cabelos dourados, e as esme­raldas que continha combinavam perfeitamente com o verde de seus olhos. O pai de Jon a ajudou a subir os degraus que levavam ao tablado e indicou-lhe o caminho até seu lugar, mas a rainha nunca chegou sequer a olhar para ele. Mesmo com catorze anos, Jon era capaz de ver para lá do seu sorriso.

A seguir veio o próprio Rei Robert, trazendo a Senhora Stark pelo braço. O rei foi uma gran­de desilusão para Jon. O pai falara dele com frequência: o inigualável Robert Baratheon, demônio do Tridente, o mais feroz guerreiro do reino, um gigante entre os príncipes. Jon viu apenas um homem gordo, com o rosto vermelho sob a barba, transpirando através de suas sedas. Caminhava como um homem meio embriagado.

Depois vieram os filhos. Primeiro o pequeno Rickon, dominando a longa caminhada com toda a dignidade que um rapazinho de três anos era capaz de reunir. Jon teve de incentivá-lo a seguir quando parou ao seu lado. Logo atrás veio Robb, vestido de lã cinzenta ornamentada de branco, as cores dos Stark. Trazia pelo braço a Princesa Myrcella. Era uma pequena menina, com quase oito anos, o cabelo feito uma cascata de caracóis dourados sob uma rede cravejada de jóias, on reparou nos olhares acanhados que ela dirigia a Robb enquanto passavam por entre as mesas e no modo tímido como lhe sorria. Decidiu que a menina era insípida. Robb nem tinha o bom--senso de notar quão estúpida ela era, e sorria como um tolo.

Suas meias-irmãs acompanhavam os príncipes reais. Arya tinha como par o roliço jovem iommen, cujos cabelos louro-esbranquiçados eram mais longos que os dela. Sansa, dois anos mais velha, puxava o príncipe real, Joffrey Baratheon. Ele tinha doze anos, menos que Jon ou _-obb, mas era mais alto que qualquer um deles, para sua grande frustração. Príncipe Joffrey ti­nha os cabelos da irmã e os profundos olhos verdes da mãe. Uma espessa mata de caracóis louros caía para lá de sua gargantilha dourada e da alta gola de veludo. Sansa parecia radiante enquanto caminhava a seu lado, mas Jon não gostou dos lábios mal-humorados de Joffrey nem do modo aborrecido e desdenhoso com que avaliou o Salão Grande de Winterfell.

Interessou-lhe mais o par que veio a seguir: os irmãos da rainha, os Lannister de Rochedo Casterly. O Leão e o Duende; não havia forma de confundi-los. Sor Jaime Lannister era gêmeo oa Rainha Cersei; alto e dourado, com flamejantes olhos verdes e um sorriso que cortava como uma faca. Trajava seda carmesim, botas negras de cano alto, um manto de cetim negro. No peito da túnica, o leão de sua Casa estava bordado em fio de ouro, rugindo em desafio. Chamavam-lhe Leão de Lannister na sua presença e "Regicida" às suas costas.

Jon sentiu dificuldade em desviar o olhar do homem. É este o aspecto que um rei deve ter, pen­sou consigo mesmo quando o príncipe passou por ele.

Então viu o outro, bamboleando ao lado do irmão, meio escondido pelo seu corpo. Tyrion Lannister, o mais novo dos filhos de Lorde Tywin e de longe o mais feio. Tudo o que os deuses tinham dado a Cersei e Jaime negaram a Tyrion. Era um anão, com metade da altura do irmão, .utando para acompanhar seu passo sobre pernas atrofiadas. A cabeça era grande demais para o corpo, com uma cara animalesca esborrachada por baixo de uma sobrancelha saliente. Um olho verde e um negro espreitavam sob uma cascata de cabelos corredios e tão louros que pareciam brancos. Jon o observou fascinado.

O último dos grandes senhores a entrar foi seu tio, Benjen Stark, da Patrulha da Noite, e o protegido do pai, o jovem Theon Greyjoy. Benjen dirigiu a Jon um sorriso caloroso quando passou por ele. Theon o ignorou por completo, mas nisso nada havia de novo. Depois de todos se terem sentado, foram feitos brindes, dados e devolvidos agradecimentos e, então, deu-se início ao festim.

Jon começara a beber nesse momento e ainda não parara. Algo roçou sua perna sob a mesa. Ele viu olhos vermelhos que o encaravam.

- Outra vez com fome? - perguntou. Ainda havia meia galinha com mel no centro da mesa. Jon esticou o braço para arrancar uma perna, mas depois teve uma ideia melhor. Espetou uma faca na ave inteira e a deixou escorregar para o chão por entre as pernas. Fantasma a atacou em silêncio selvagem. Não tinham permitido aos irmãos e irmãs que trouxessem seus lobos para o banquete, mas naquela ponta do salão havia mais rafeiros do que Jon conseguia con­tar, e ninguém dissera uma palavra sobre seu cachorro. Disse a si próprio que também nisto era afortunado.

Seus olhos ardiam. Jon os esfregou furiosamente, amaldiçoando o fumo. Engoliu outro trago de vinho e observou seu lobo gigante devorando a galinha.

Cães moviam-se por entre as mesas, perseguindo as criadas. Um deles, uma cadela preta vira--lata com longos olhos amarelos, detectou o cheiro da galinha. Parou e meteu-se por baixo do banco para obter uma parte. Jon observou o confronto. A cadela soltou uma rosnadela profunda e aproximou-se. Fantasma ergueu os olhos quentes e rubros, em silêncio, e se fixou nela. A cadela soltou um desafio irado. Tinha três vezes seu tamanho, mas Fantasma não se afastou. Ergueu-se sobre ela e abriu a boca, mostrando as presas. A cadela ficou tensa, ladrou uma vez mais, e depois pensou melhor a respeito da luta. Virou-se e escapuliu, com um último latido desafiador para salvar o orgulho. Fantasma voltou a prestar atenção à refeição, Jon sorriu e esticou o braço para lhe acariciar o pelo branco. O lobo gigante olhou para ele, deu-lhe uma dentadinha gentil na mão e novamente pôs-se a comer.

-              Este é um dos lobos gigantes de que tanto ouvi falar? - perguntou perto dele uma voz familiar.

Jon ergueu seus olhos, feliz, quando tio Ben lhe pôs a mão na cabeça e desalinhou seus cabe­los tanto quanto ele fizera com os pelos do lobo.

-              Sim - disse. - Chama-se Fantasma.

Um dos escudeiros interrompeu a história obscena que estava contando para abrir lugar na mesa para o irmão de seu senhor. Benjen Stark escarranchou-se no banco com pernas longas e tirou a taça de vinho da mão de Jon.

-              Vinho de verão - disse depois de provar. - Não há nada tão doce. Quantas taças já bebeu, Jon?

Jon sorriu.

Ben Stark soltou uma gargalhada.

-              Tal como eu temia. Ah, bem, Acho que era mais novo do que você da primeira vez que fi­quei verdadeira e sinceramente bêbado - surrupiou de uma travessa próxima uma cebola assada que pingava molho de carne e mordeu-a. A cebola estalou.

O tio de Jon tinha feições angulosas e era descarnado como um penhasco, mas havia sempre uma sugestão de riso em seus olhos azul-acinzentados. Vestia-se de negro, como era próprio de um homem da Patrulha da Noite. Hoje trajava um rico veludo negro, com grandes botas de couro e um cinto largo com fivela de prata. Uma pesada corrente de prata curvava-se em torno do seu pescoço. Benjen observou Fantasma, divertido, enquanto comia a cebola.

-              Um lobo muito sossegado - observou.

Não é como os outros - disse Jon. - Nunca solta um som. Foi por isso que o chamei Fan­tasma. Por isso e porque é branco. Os outros são todos escuros, cinzentos ou pretos.

Ainda há lobos gigantes para lá da Muralha. Ouvimo-los nas nossas patrulhas - Benjen Stark olhou longamente para Jon. - Não costuma comer à mesa dos seus irmãos?

Na maior parte das ocasiões - respondeu Jon em voz monocórdia. - Mas hoje a Senhora Stark pensou que poderia ser um insulto para a família real se um bastardo se sentasse entre eles.

Estou vendo - o tio olhou por sobre o ombro para a mesa elevada na outra ponta do salão. - Meu irmão não parece muito festivo hoje.

Jon também notara. Um bastardo tinha de aprender a reparar nas coisas, a ler a verdade que as pessoas escondiam por trás dos olhos. Seu pai observava todas as cortesias, mas havia nele uma rigidez que Jon raramente vira antes. Pouco falava, olhando o salão com olhos cobertos, sem nada ver. A dois lugares de distância, o rei estivera toda a noite bebendo muito. O rosto largo estava corado por trás da barba negra. Fizera muitos brindes, rira sonoramente com todas as brincadeiras e atacara todos os pratos como um faminto, mas, ao seu lado, a rainha parecia tão fria como uma escultura de gelo.

-              A rainha também está zangada - disse Jon ao tio com uma voz calma e baixa. - Meu pai levou o rei às criptas esta tarde. A rainha não queria que ele fosse.

Benjen deitou ajon um olhar cauteloso e avaliador,

-              Não deixa passar muitas coisas, não é, Jon? Podíamos fazer uso de um homem como você na Muralha.

Jon inchou de orgulho.

Robb é um lanceiro mais forte que eu, mas sou melhor espadachim, e Hullen diz que me sento num cavalo tão bem como qualquer outro no castelo.

Notáveis realizações.

Leve-me consigo quando regressar à Muralha - disse Jon com súbita precipitação. - Meu pai me dará licença para ir se lhe pedir, eu sei que dará.

Tio Benjen estudou seu rosto com cuidado.

A Muralha é um lugar duro para um rapaz, Jon.

Sou quase um homem feito - Jon protestou. - Vou fazer quinze anos no próximo dia do meu nome, e Meistre Luwin diz que os bastardos crescem mais depressa que as outras crianças.

Isso é verdade - disse Benjen, retorcendo a boca para baixo. Tomou a taça de Jon, encheu-a de um jarro que encontrou ali perto e bebeu um longo gole.

Daeren Targaryen tinha só quinze anos quando conquistou Dorne - disse Jon. O Jovem Dragão era um dos seus heróis.

Uma conquista que durou um verão - o tio ressaltou. - Seu Rei Rapaz perdeu dez mil homens na conquista do lugar e outros cinquenta ao tentar mantê-lo. Alguém devia ter-lhe dito que a guerra não é um jogo - bebeu outro gole de vinho. - Além disso - disse, limpando a boca -, Daeren Targaryen tinha só dezoito anos quando morreu. Ou será que se esqueceu dessa parte?

Não me esqueço de nada - vangloriou-se Jon. O vinho o estava deixando ousado. Tentou sentar-se muito ereto para parecer mais alto. - Quero servir na Patrulha da Noite, tio.

Tinha refletido sobre o assunto longa e duramente, deitado na cama à noite enquanto os irmãos dormiam à sua volta. Robb um dia herdaria Winterfell, comandaria grandes exércitos enquanto Protetor do Norte. Bran e Rickon seriam vassalos de Robb e governariam castros em seu nome. As irmãs, Arya e Sansa, se casariam com os herdeiros de outras grandes Casas e iriam para o sul como senhoras dos seus próprios castelos. Mas a que lugar podia um bastardo aspirar?

Não sabe o que está pedindo, Jon. A Patrulha da Noite é uma irmandade juramentada. Não temos famílias. Nenhum de nós será algum dia pai. Somos casados com o dever. Nossa amante é a honra.

Um bastardo também pode ter honra - disse Jon. - Estou pronto para prestar o juramento.

Você é um rapaz de catorze anos - disse Benjen. - Não é um homem. Ainda não. Até ter conhecido uma mulher, não pode compreender o que estará deixando para trás.

Isto não me interessa! - Jon respondeu ardentemente.

Mas poderia se interessar se soubesse a que me refiro - disse Benjen. - Se soubesse o que o juramento lhe custará, estaria menos ansioso por pagar o preço, filho.

Jon sentiu a ira crescer no peito.

-              Não sou seu filho! Benjen Stark pôs-se em pé.

-              Maior é a pena - pôs uma mão no ombro de Jon. - Venha ter comigo depois de ter sido pai de alguns bastardos seus e veremos então como se sente.

Jon estremeceu.

-              Nunca serei pai de um bastardo - disse com cuidado. - Nunca! - cuspiu a palavra como se fosse veneno.

De súbito, percebeu que a mesa caíra em silêncio e que todos o estavam olhando. Sentiu que as lágrimas começavam a jorrar por trás de seus olhos e pôs-se em pé.

-              Devo me retirar - disse, com o resto de sua dignidade. Virou-se e fugiu antes que o vissem chorar. Devia ter bebido mais vinho do que se dera conta. Seus pés emaranhavam-se debaixo do corpo quando tentou sair do salão e cambaleou de lado, esbarrando numa criada, atirando ao chão um jarro de vinho com especiarias. Gargalhadas trovejaram por todo o lado à sua volta, e Jon sentiu lágrimas quentes nas bochechas. Alguém tentou equilibrá-lo, mas ele saiu com violên­cia daquelas mãos e correu meio cego para a porta. Fantasma o seguiu de perto para a noite.

O pátio estava silencioso e vazio. Uma sentinela solitária estava bem no alto, nas ameias da muralha interior, bem enrolada no manto contra o frio. O homem parecia aborrecido e infeliz ao apertar-se ali, sozinho, mas Jon teria rapidamente trocado de lugar com ele. Além da sentinela, o castelo estava escuro e deserto. Jon vira certa vez um castro abandonado, um lugar lúgubre onde nada se movia além do vento e as pedras mantinham o silêncio acerca de quem ali vivera. Hoje, Winterfell lembrava-lhe esse dia.

Os sons de música e cantos derramavam-se pelas janelas abertas em suas costas. Eram as últimas coisas que Jon queria ouvir. Limpou as lágrimas na manga da camisa, furioso por tê-las deixado fluir, e virou-se para ir embora.

-              Rapaz - chamou uma voz.

Jon voltou-se.

Tyrion Lannister estava sentado na saliência por cima da porta do grande salão, assemelhando-se por completo a uma gárgula. O anão sorriu-lhe.

Esse animal é um lobo?

Um lobo gigante - disse Jon. - Chama-se Fantasma - pôs-se a olhar o homenzinho, de súbito esquecido do desapontamento. - O que faz aí? Por que não está no banquete?

Está demasiado quente, demasiado ruidoso e bebi demasiado vinho - disse o anão. -Aprendi há muito que se considera má-educação vomitar por cima do irmão. Posso ver o seu lobo mais de perto?

Jon hesitou, mas depois concordou devagar.

Consegue descer daí ou devo ir buscar uma escada?

Ah, que se dane - disse o homenzinho. Atirou-se da saliência para o ar vazio. Jon sobressaltou-se, depois viu com um temor respeitoso como Tyrion Lannister rodopiou numa bola aper­tada, aterrissou ligeiro sobre as mãos e depois volteou para trás, caindo em pé.

Fantasma afastou-se dele com receio.

O anão sacudiu o pó e soltou uma gargalhada.

Creio que assustei seu lobo. Minhas desculpas.

Não está assustado - disse Jon. Ajoelhou-se e chamou seu lobo. - Fantasma, vem cá. Anda. Isso mesmo.

A cria de lobo aproximou-se e encostou o focinho no rosto de Jon, mas manteve um olho cui­dadoso em Tyrion Lannister, e, quando o anão estendeu a mão para lhe fazer uma festa, afastou-se e mostrou os caninos num rosnado silencioso.

-              É tímido, não é? - observou Lannister.

Senta, Fantasma - ordenou Jon. - Isso mesmo. Quieto - ergueu os olhos para o anão. - Pode tocá-lo agora. Ele não se mexerá até que eu lhe diga para fazê-lo. Eu o tenho treinado.

Compreendo - disse o Lannister. Esfregou o pelo branco como a neve entre as orelhas de Fantasma e disse: - Bonito lobo.

Se eu não estivesse aqui, ele rasgaria sua garganta - disse Jon. Ainda não era bem verdade, mas viria a ser.

Nesse caso, é melhor que fique por perto - disse o anão. Inclinou a cabeça grande demais rara um lado e observou Jon com seus olhos desiguais. - Chamo-me Tyrion Lannister.

Eu sei - disse Jon. Ergueu-se. Em pé, era mais alto que o anão. Mas isto o fazia sentir-se estranho.

E você é o bastardo de Ned Stark, não é?

Jon sentiu-se atravessado por uma sensação de frio. Apertou os lábios e não disse nada.

-              Eu o ofendi? - disse Lannister. - Perdão. Os anões não têm de ter tato. Gerações de bobos Tiriegados conquistaram para mim o direito de me vestir mal e de dizer qualquer maldita coisa que me venha à cabeça - ele sorriu. - Mas você é o bastardo.

-Lorde Eddard Stark é meu pai - admitiu Jon rigidamente. Lannister estudou-lhe o rosto.

Sim - disse. - Consigo ver. Você tem em si mais do Norte que seus irmãos.

Meios-irmãos - Jon corrigiu. O comentário do anão o agradara, mas tentou não mostrar.

Deixe-me lhe dar um conselho, bastardo - disse Lannister. - Nunca se esqueça de quem é, porque é certo que o mundo não se lembrará. Faça disso sua força. Assim, não poderá ser nunca a sua fraqueza. Arme-se com esta lembrança, e ela nunca poderá ser usada para magoá-lo.

Jon não estava com disposição de ouvir conselhos de ninguém.

Que sabe você de ser um bastardo?

Todos os anões são bastardos aos olhos dos pais.

Você é filho legítimo de Lannister.

Ah, sou? - respondeu o anão, sarcástico. - Vá dizer isso ao senhor meu pai. Minha mãe morreu ao dar-me à luz, e ele nunca teve certeza.

Nem sequer sei quem foi minha mãe - disse Jon.

Uma mulher qualquer, sem dúvida. A maior parte delas é isso - dirigiu a Jon um sorriso tristonho. - Lembre-se disto, rapaz. Todos os anões serão bastardos, mas nem todos os bastardos precisam ser anões - e, com aquelas palavras, virou as costas e regressou vagarosamente ao banquete, assobiando uma canção. Quando abriu a porta, a luz vinda de dentro atirou sua sombra bem definida pelo pátio afora e, só por um momento, Tyrion Lannister ergueu-se alto como um rei.

 

                   Catelyn

Entre todos os quartos da Torre Grande de Winterfell, os aposentos de Catelyn eram os mais freqüentes. Ela raramente tinha de acender uma fogueira. O castelo tinha sido construído sobre nascentes naturais de água quente, e as águas escaldantes corriam pelas suas paredes e quartos como sangue pelo corpo de um homem, afastando o frio dos salões de pedra, enchendo os jardins de vidro com um calor úmido, impedindo o congelamento da terra. Lagoas ao ar livre fumegavam noite e dia numa dúzia de pequenos pátios. Isso, no verão, era coisa pouca; no inverno, era a dife­rença entre a vida e a morte.

O banho de Catelyn era sempre quente e cheio de vapor, e suas paredes, mornas ao toque. O calor lembrava-lhe Correrrio, dias ao sol com Lysa e Edmure, mas Ned nunca conseguira se habituar. Os Stark eram feitos para o frio, dizia-lhe, e ela ria e respondia que neste caso tinham certamente construído seu castelo no lugar errado.

Por isso, quando terminaram, Ned rolou e saltou para fora da cama, como já fizera mil vezes antes. Atravessou o quarto, afastou as pesadas tapeçarias e abriu as altas e estreitas janelas uma a uma, deixando entrar o ar da noite.

O vento rodopiou à sua volta quando parou para olhar a escuridão, nu e de mãos vazias. Cate­lyn puxou as peles até o queixo e o observou. Parecia de certo modo menor e mais vulnerável, como o jovem com quem se casara no septo de Correrrio havia quinze longos anos. Seus rins ain­da doíam da urgência do amor. Era uma dor boa. Conseguia sentir a semente dele dentro de si. Rezou para que pudesse aí brotar. Tinham-se passado três anos desde Rickon. Ela não era velha demais. Podia lhe dar outro filho.

-              Vou dizer-lhe que não - disse Ned quando se voltou de novo para ela. Tinha os olhos as­sombrados por fantasmas e a voz espessa de dúvidas.

Catelyn sentou-se na cama.

Não pode. Não deve.

Meus deveres estão aqui no Norte. Não tenho nenhum desejo de ser a Mão de Robert.

Ele não o compreenderá. E agora um rei, e os reis não são como os outros homens. Se se re­cusar a servi-lo, ele quererá saber por que, e mais cedo ou mais tarde começará a suspeitar de que se opõe a ele. Não vê o perigo em que nos colocaria?

Ned abanou a cabeça, recusando-se a acreditar.

Robert nunca me faria mal, nem a nenhum dos meus. Éramos mais próximos que irmãos. Ele me adora. Se lhe disser que não, ele rugirá, praguejará e estrondeará, e uma semana mais tar­de estaremos juntos a rir do assunto. Conheço o homem!

Conhece o homem - disse ela. - O rei é um estranho para você - Catelyn recordava o lobo gigante morto na neve, com o chifre quebrado profundamente alojado na garganta. Tinha de fazê-lo compreender. - O orgulho é tudo para um rei, meu senhor. Robert percorreu toda esta distância para vê-lo, para lhe trazer estas grandes honrarias, não pode atirá-las à cara.

Honrarias? - Ned soltou uma gargalhada amarga.

Aos seus olhos, sim - disse ela.

E aos seus?

-              Aos meus também - exclamou ela, agora zangada. Por que ele não compreendia? - Oferece o próprio filho em casamento à nossa filha, que outro nome daria a isso? Sansa pode vir um dia a ser rainha. Os filhos deles poderão governar da Muralha até as montanhas de Dorne. O que tem isso de errado?

-              Deuses, Catelyn, Sansa tem só onze anos - Ned respondeu. - E Joffrey... Joffrey é... Ela acabou a frase por ele.

-              ... príncipe da coroa e herdeiro do Trono de Ferro. E eu só tinha doze anos quando meu pai me prometeu ao seu irmão Brandon.

Aquilo trouxe um trejeito amargo aos lábios de Ned.

Brandon. Sim. Brandon saberia o que fazer. Sabia sempre. Tudo estava destinado a Bran­don. Você, Winterfell, tudo. Ele nasceu para ser Mão do Rei e pai de rainhas. Eu nunca pedi para que este cálice me fosse transmitido.

Talvez não - disse Catelyn -, mas Brandon está morto, o cálice foi transmitido, e agora você deve beber dele, goste ou não.

Ned virou-lhe as costas, devolvendo o olhar à noite. E ficou observando talvez a lua e as estre­las, talvez as sentinelas na muralha.

Então Catelyn enterneceu-se ao ver sua dor. Eddard Stark casara com ela ocupando o lugar de Brandon, como mandava o costume, mas a sombra do irmão morto ainda pairava entre eles tal como a outra, a sombra da mulher que dera à luz seu filho bastardo.

Preparava-se para se aproximar dele quando alguém bateu à porta, sonora e inesperadamente. Ned virou-se, franzindo o olho.

-              Que é?

A voz de Desmond soou através da porta.

Senhor, Meistre Luwin está lá fora e suplica uma audiência urgente.

Disse-lhe que deixei ordens para não ser incomodado?

Sim, senhor. Ele insiste.

Muito bem. Mande-o entrar,

Ned atravessou o quarto na direção de um roupeiro e enfiou-se num roupão pesado. Catelyn subitamente percebeu como tinha ficado frio. Sentou-se na cama e puxou as peles até o queixo.

-              Talvez devêssemos fechar as janelas - sugeriu.

Ned anuiu de forma ausente. Meistre Luwin foi introduzido no aposento.

O meistre era um pequeno homem cinzento, como seus olhos, rápidos, que viam muito. Os cabelos, o pouco que os anos lhe tinham deixado, eram cinzentos. Sua toga era de lã cinza orna­mentada com pelo branco, as cores dos Stark. As grandes mangas pendentes tinham bolsos escon­didos no interior. Luwin passava a vida a enfiar coisas nessas mangas e a delas extrair outras mais: livros, mensagens, estranhos artefatos, brinquedos para as crianças. Com tudo o que mantinha escondido nas mangas, Catelyn surpreendia-se de o Meistre Luwin ser capaz de erguer os braços.

O meistre esperou até que a porta fosse fechada atrás de si antes de falar.

-              Meu senhor - disse a Ned -, perdoe-me por perturbar seu descanso. Foi-me deixada uma mensagem.

Ned parecia irritado.

-              Foi-lhe deixada? Por quem? Chegou um cavaleiro? Não fui informado.

-              Não houve nenhum cavaleiro, senhor. Apenas uma caixa de madeira esculpida, deixada sobre a mesa do meu observatório enquanto eu cochilava. Meus servos não viram ninguém, mas deve ter sido trazida por alguém da comitiva do rei. Não recebemos nenhum outro visitante vindo do Sul.

-              Uma caixa de madeira, você diz? - falou Catelyn.

-              Lá dentro vinha uma nova lente de qualidade para o observatório, aparentemente prove­niente de Myr. Os fabricantes de lentes de Myr não têm igual,

Ned franziu a testa. Catelyn sabia que ele tinha pouca paciência para aquele tipo de coisa.

-              Uma lente - disse. - Que tem isso a ver comigo?

-              Fiz-me a mesma questão - disse o Meistre Luwin. - Era claro que havia ali mais do que parecia.

Sob o peso de suas peles, Catelyn estremeceu.

-              Uma lente é um instrumento para auxiliar a visão.

-              De fato, é - o meistre levou os dedos ao colar da sua ordem; uma corrente pesada, apertada em torno do pescoço sob a toga, com cada elo forjado de um metal diferente.

Catelyn podia sentir o terror a agitar-se de novo dentro dela.

-              O que é que eles querem que vejamos mais claramente?

-              Foi isto mesmo o que me perguntei. - Meistre Luwin retirou um papel muito bem enro­lado de dentro da manga. - Encontrei a verdadeira mensagem escondida num fundo falso quando desmantelei a caixa em que a lente tinha vindo, mas não é para os meus olhos.

Ned estendeu a mão.

-              Então dê-me.

Luwin não se mexeu.

-              Meus perdões, senhor. A mensagem também não é para o senhor. Está marcada para os olhos da Senhora Catelyn, e apenas para ela. Posso me aproximar?

Catelyn anuiu, faltando-lhe a confiança necessária para falar. O meistre colocou o papel na mesa ao lado da cama. Estava selado com uma pequena gota de cera azul. Luwin fez uma reve­rência e começou a retirar-se.

Fique - ordenou-lhe Ned. Sua voz era grave. Olhou para Catelyn.

Que se passa? Senhora, está tremendo.

-              Tenho medo - ela admitiu. Esticou o braço e pegou na carta com mãos trementes. As peles caíram, revelando sua nudez olvidada. Na cera azul encontrava-se o selo do falcão e da lua da Casa Arryn, - É de Lysa - Catelyn olhou para o marido. - Não o deixará contente - ela disse ao marido. - Há dor nesta mensagem, Ned. Posso senti-la.

Ned franziu a sobrancelha, e uma sombra cobriu seu rosto.

-              Abra-a.

Catelyn quebrou o selo.

Seus olhos moveram-se sobre as palavras. A princípio pareceu não encontrar nenhum sen­tido. Mas depois se recordou.

Lysa não deixou nada ao acaso. Quando éramos meninas, tínhamos uma língua privada.

Consegue lê-la?

Sim - admitiu Catelyn.

Então nos conte o que diz.

Talvez deva me retirar - disse o Meistre Luwin.

-              Não - Catelyn pediu. - Precisaremos do seu aconselhamento - atirou as peles para o lado e saiu da cama. Ao caminhar pelo aposento, sentiu na pele nua o ar da noite, tão frio como uma sepultura.

Meistre Luwin afastou o olhar. Até Ned pareceu chocado.

Que está fazendo? - perguntou.

Estou acendendo o fogo - ela informou. Encontrou um roupão e encolheu-se para dentro dele, ajoelhando-se depois junto à lareira fria.

O Meistre Luwin... - começou Ned.

O Meistre Luwin pôs no mundo todos os meus filhos - disse Catelyn. - Isto não é hora para falsos pudores - enfiou o papel entre os gravetos e colocou os troncos mais pesados por cima.

Ned atravessou o quarto, agarrou-lhe o braço e a pôs de pé. Segurou-a assim, com o rosto a polegadas do dela.

Minha senhora, diga! O que era esta mensagem?

Catelyn ficou tensa sob o aperto.

Um aviso - disse com suavidade. - Se tivermos perspicácia para escutá-lo. Os olhos dele perscrutaram seu rosto.

Prossiga.

Lysa diz que Jon Arryn foi assassinado. Os dedos dele endureceram no seu braço.

Por quem?

Os Lannister - ela disse. - A rainha,

Ned largou o braço. Havia profundas marcas vermelhas na pele dela.

Deuses - murmurou. Sua voz estava rouca. - Vossa irmã está doente de dor. Não pode saber o que diz.

Mas sabe - disse Catelyn. - Lysa é impulsiva, sim, mas esta mensagem foi cuidadosamente planejada, e inteligentemente escondida. Ela sabia que, se a carta caísse nas mãos erradas, isto sig­nificaria a morte. Para arriscar tanto, deve ter mais que meras suspeitas - Catelyn olhou para o marido. - Agora realmente não temos escolha. Você tem de ser a Mão de Robert. Tem de ir com ele para o Sul e saber a verdade.

Viu de imediato que Ned tinha chegado a uma conclusão muito diferente.

-              As únicas verdades que conheço estão aqui. O Sul é um ninho de víboras que eu faria bem em evitar.

Luwin puxou a corrente de seu colar no local onde lhe irritara a pele suave da garganta.

-              A Mão do Rei possui grande poder, senhor. Poder para descobrir a verdade sobre a morte de Lorde Arryn, para trazer seus assassinos à justiça do rei. Poder para proteger a Senhora Arryn e seu filho, se o pior se confirmar.

Ned olhou desamparado em torno do aposento. O coração de Catelyn apiedou-se dele, mas sabia que ainda não podia tomá-lo nos braços. Primeiro a vitória tinha de ser conseguida, para o bem de seus filhos.

Você diz que ama Robert como a um irmão. Gostaria de ver seu irmão rodeado pelos Lannister?

Que os Outros levem os dois - murmurou Ned em tom sombrio. Virou-lhes as costas e foi até a janela. Ela nada disse, assim como o meistre. Esperaram, calados, enquanto Eddard Stark dizia um silencioso adeus à casa que amava. Quando por fim se afastou da janela, tinha a voz cansada, repleta de melancolia, e um leve brilho úmido nos cantos dos olhos. - Meu pai foi uma vez para o Sul, a fim de responder à convocatória de um rei. Nunca mais regressou para sua casa.

Um tempo diferente - disse Meistre Luwin. - Um rei diferente.

Sim - disse Ned com uma voz entorpecida. Sentou-se numa cadeira perto da lareira. -Catelyn, você ficará aqui em Winterfell.

As palavras foram como um sopro gelado que atravessava seu coração.

Não - respondeu, de súbito temerosa. Seria aquela a sua punição? Nunca voltar a ver o rosto dele, nem sentir seus braços em volta do seu corpo?

Sim - disse Ned, num tom de quem não toleraria discussões. - Deve governar o Norte em meu nome enquanto trato dos recados de Robert. Tem de haver sempre um Stark em Winter­fell. Robb tem catorze anos. Em breve será homem feito. Tem de aprender a governar, e eu não estarei aqui para ajudá-lo. Faça-o tomar parte dos conselhos. Ele tem de estar pronto quando sua hora chegar.

Que os deuses permitam que ela não chegue por muitos anos - murmurou Meistre Luwin.

Meistre Luwin, confio em vós como no meu próprio sangue. Dê à minha esposa a sua voz em todas as coisas grandes e pequenas. Ensine a meu filho aquilo que ele precisa saber. O inverno está para chegar.

Meistre Luwin anuiu com gravidade. Então caiu o silêncio, até Catelyn reunir coragem e colo­car a questão cuja resposta mais temia.

-              E as outras crianças?

Ned levantou-se e tomou-a nos braços, trazendo-lhe o rosto para junto do seu.

Rickon é muito novo - disse, com suavidade. - Deve ficar aqui contigo e com Robb. Os outros levarei comigo.

Eu não suportaria - disse Catelyn, tremendo.

Tem de suportar - disse ele. - Sansa deverá desposar Joffrey, isto é agora claro; não deve­mos lhes dar bases para suspeitar da nossa devoção. E já é mais que tempo de Arya aprender os costumes de uma corte do Sul. Dentro de poucos anos também ela estará em idade de casar.

Sansa brilharia no Sul, pensou Catelyn para si própria, e os deuses bem sabiam como Arya precisava de requinte. Relutantemente, abriu mão delas no coração. Mas Bran não. Bran nunca.

Sim - disse -, mas, por favor, Ned, pelo amor que me tem, deixe que Bran fique aqui em Winterfell. Ele só tem sete anos.

Eu tinha oito quando meu pai me enviou para ser criado no Ninho da Águia - ele respon­deu. - Sor Rodrik me disse que existem maus sentimentos entre Robb e o Príncipe Joffrey. Isto não é saudável. Bran pode construir uma ponte sobre essa distância. É um rapaz amável, rápido para rir, fácil de amar. Deixe que cresça com os jovens príncipes, deixe que se torne seu amigo como Robert se tornou meu. Nossa Casa ficará mais segura assim.

Ele tinha razão, e Catelyn sabia. Mas isto não tornava a dor mais fácil de suportar. Então perderia todos os quatro: Ned e ambas as meninas, e o seu doce, amoroso Bran. Só lhe restariam Robb e o pequeno Rickon. Já se sentia só. Winterfell era um lugar tão vasto.

-              Então mantenha-o longe das muralhas - ela disse com bravura. - Você sabe como Bran gosta de escalar.

Ned secou-lhe as lágrimas nos olhos com beijos, não lhes dando tempo de cair.

-              Obrigado, senhora minha - murmurou. - Isto é duro, bem sei.

-              E quanto ajon Snow, senhor? - perguntou Meistre Luwin.

Catelyn retesou-se ao ouvir a menção ao nome. Ned sentiu a ira nela e afastou-se.

Muitos homens eram pais de bastardos. Catelyn crescera com esse conhecimento. Não tinha sido surpresa para ela, no primeiro ano do casamento, saber que Ned fora pai de uma criança nascida de uma mulher qualquer, encontrada por acaso em campanha. Afinal de contas, tinha as necessidades de um homem, e os dois tinham passado aquele ano afastados, com Ned no Sul, na guerra, enquanto ela permanecia em segurança no castelo do pai, em Correrrio. Seus pensa­mentos iam mais para Robb, o bebê que amamentava, do que para o marido, que pouco conhecia. Qualquer consolo que ele encontrasse entre batalhas era-lhe indiferente, e se algum bebê vin­gasse, ela esperava que Ned assegurasse as necessidades da criança.

Ele fez mais do que isso. Os Stark não eram como os outros homens. Ned trouxe o bastar­do para casa consigo e chamou-o de "filho" para que todo o Norte ouvisse. Quando as guerras enfim terminaram e Catelyn viajou para Winterfell, Jon e sua ama de leite já tinham estabele­cido residência.

O golpe foi profundo. Ned não falava da mãe, nem uma palavra, mas um castelo não tem segredos, e Catelyn escutou suas aias repetirem histórias que tinham ouvido dos maridos sol­dados. Segredavam sobre Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã, o mais mortífero dos sete cavaleiros da Guarda Real de Aerys, e sobre o modo como seu jovem senhor o tinha matado em combate singular. E contavam como Ned levara depois a espada de Sor Arthur à bela jovem irmã que o esperava num castelo chamado Tombastela, na costa do Mar do Verão. A Senhora Ashara Dayne, alta e de pele clara, com assombrosos olhos cor de violeta. Levara uma quinzena para reunir coragem, mas, por fim, uma noite na cama, Catelyn perguntara ao marido se aquilo era verdade, confrontando-o com a história.

Fora a única vez em todos os anos passados juntos em que Ned a assustara.

-              Nunca me pergunte sobre Jon - ele dissera, frio como gelo. - É do meu sangue, e é tudo o que precisa saber. E agora vou saber onde ouviu esse nome, minha senhora - ela tinha jurado obedecer. Cumprira a promessa. E a partir daquele dia os segredos pararam, e o nome de Ashara Dayne nunca mais voltou a ser ouvido em Winterfell.

Quem quer que tivesse sido a mãe de Jon, Ned devia tê-la amado ferozmente, pois nada do que Catelyn dizia era capaz de convencê-lo a mandar o rapaz embora. Era a única coisa que nun­ca lhe perdoaria. Tinha acabado por amar o marido de todo o coração, mas nunca encontrara em si lugar para amar Jon. Por Ned, poderia ter ignorado uma dúzia de bastardos, desde que fossem mantidos longe de sua vista. Jon nunca estava longe da vista, e à medida que crescia ficava mais parecido com o pai do que qualquer um dos filhos legítimos que lhe dera. De algum modo isso tornava as coisas piores.

Jon tem de ir - ela dizia agora.

Ele e Robb são próximos - disse Ned. - Tive esperança...

-              Ele não pode ficar aqui - disse Catelyn, interrompendo-o. - É seu filho, não meu. Não o quero aqui - ela sabia que era duro, mas não menos verdade por isso. Ned não faria bem algum ao rapaz deixando-o em Winterfell.

O olhar que Ned lhe deitou foi de angústia.

-              Sabe que não posso levá-lo para o Sul. Não haverá lugar para ele na corte. Um rapaz com nome de bastardo... Sabe o que dirão dele. Será posto de lado.

Catelyn fortificou o coração contra o apelo mudo nos olhos do marido.

-              Diz-se que seu amigo Robert foi pai de uma dúzia de bastardos.

-              E nenhum deles foi algum dia visto na corte! - exclamou Ned. - A Lannister assegurou-se disso. Como pode ser tão cruel, Catelyn? Ele não passa de um rapaz. Ele...

Ele tinha a fúria no corpo. Poderia ter dito mais, e pior, mas Meistre Luwin intrometeu-se:

-              Outra solução se apresenta - disse, com voz calma. - O vosso irmão Benjen veio há alguns dias falar-me de Jon. Parece que o rapaz aspira a vestir negro.

Ned pareceu chocado.

-              Ele pediu para se juntar à Patrulha da Noite?

Catelyn nada disse. Que Ned trabalhe sozinho a ideia em sua mente; sua voz não seria agora bem-vinda. Mas de bom grado teria beijado o meistre naquele momento. Aquela era a solução perfeita. Benjen Stark era um Irmão Juramentado. Jon seria para ele um filho, o filho que nunca teria. E a seu tempo, o rapaz faria também o juramento. Não seria pai de filhos que poderiam um dia competir com os netos de Catelyn pela posse de Winterfell.

Meistre Luwin disse:

Existe grande honra no serviço na Muralha, senhor.

E mesmo um bastardo pode erguer-se a grande altura na Patrulha da Noite - refletiu Ned. Apesar disso, sua voz estava perturbada. - Jon é tão novo. Se o tivesse pedido depois de ter se tornado homem feito, seria uma coisa, mas um rapaz de catorze anos...

É um sacrifício duro - concordou Meistre Luwin. - Mas estes são tempos duros, senhor. O caminho dele não é mais cruel que o vosso ou o da vossa senhora.

Catelyn pensou nos três filhos que teria de perder. Não foi fácil se manter em silêncio. Ned virou-lhes as costas para olhar pela janela, com o longo rosto silencioso e pensativo. Por fim, suspirou e voltou a virar-se.

Muito bem - disse a Meistre Luwin. - Suponho que é o melhor. Falarei com Ben.

Quando devemos dizê-lo ajon? - perguntou o meistre.

Quando tiver de ser. Há que se fazer preparativos. Passará uma quinzena antes de estarmos prontos para partir. Prefiro deixar Jon usufruir destes últimos dias, O fim do verão já está pró­ximo, e o da infância também. Quando o momento certo chegar, comunicarei a ele eu próprio.

 

                   Arya

Os pontos de Arya estavam de novo tortos.

Franziu a sobrancelha, desapontada, e olhou de relance para onde a irmã Sansa estava entre as outras moças. Os bordados de Sansa eram magníficos. Todos assim diziam. "O trabalho de Sansa é tão belo como ela" dissera uma vez Septã Mordane à senhora sua mãe. "Ela tem mãos tão bonitas e delicadas." Quando a Senhora Catelyn lhe perguntara por Arya, a septã fungara: "Arya tem as mãos de um ferreiro".

Arya atravessou a sala com um olhar furtivo, com receio de que Septã Mordane pudesse ter lido seus pensamentos, mas hoje a septã não lhe prestava atenção. Estava sentada junto da Prin­cesa Myrcella, toda sorrisos e admiração. Não era frequente que a septã fosse privilegiada com a instrução de uma princesa real nas artes femininas, como ela própria afirmara quando a rainha trouxera Myrcella, A Arya pareceu que os pontos de Myrcella também estavam um pouco tortos, mas ninguém o adivinharia pelo modo como a Septã Mordane tanto elogiava.

Voltou a estudar o trabalho, procurando alguma maneira de salvá-lo, mas então suspirou e pousou a agulha. Olhou, carrancuda, para a irmã. Sansa tagarelava enquanto trabalhava, feliz. Beth Cassei, a filha mais nova de Sor Rodrik, estava sentada a seus pés, escutando cada palavra que ela dizia, e Jeyne Poole inclinava-se para lhe segredar qualquer coisa ao ouvido.

-              De que vocês falam? - perguntou Arya de súbito.

Jeyne olhou-a com ar sobressaltado, e depois soltou um risinho. Sansa pareceu atrapalhada. Beth corou. Ninguém respondeu.

-              Digam-me - disse Arya.

Jeyne olhou de relance para a Septã Mordane, a fim de se assegurar de que não a ouviria. Myrcella disse então qualquer coisa, e a septã riu como o resto das damas.

-              Estávamos falando do príncipe - disse Sansa, com a voz suave como um beijo.

Arya sabia a que príncipe se referia: Joffrey, claro. O alto e bonito. Sansa pudera sentar-se a seu lado no banquete. Arya tivera que se sentar ao lado do pequeno e gordo. Naturalmente.

-Joffrey gosta da sua irmã - segredou Jeyne, tão orgulhosa como se tivesse alguma coisa a ver com o assunto. Era filha do intendente de Winterfell e a melhor amiga de Sansa. - Disse-lhe que é muito bonita.

-              Vai casar com ela - disse a pequena Beth em tom sonhador, abraçando-se ao ar. - Depois Sansa será rainha de todo o reino.

Sansa teve a delicadeza de corar, E corava lindamente. Fazia tudo lindamente, pensou Arya com um ressentimento surdo.

-              Beth, não devia inventar histórias - Sansa a censurou, afagando-lhe suavemente os cabelos para retirar a rispidez das palavras. Olhou para Arya: - Que pensa do Príncipe Joff, irmã? E muito galante, não acha?

Jon diz que parece uma moça - Arya respondeu. Sansa suspirou enquanto dava um pesponto.

Pobre Jon. Ele tem ciúmes porque é um bastardo.

-              Ele é nosso irmão - disse Arya, alto demais. Sua voz cortou o sossego da tarde na sala da torre.

Septã Mordane ergueu os olhos. Tinha o rosto ossudo, olhos aguçados e uma fina boca sem lábios, feita para ser franzida. E agora assim estava.

-              Do que estão falando, crianças?

-              De nosso meio-irmão - respondeu Sansa, suave e precisa. Sorriu para a septã. - Arya e eu estávamos observando como é agradável termos a princesa hoje conosco - disse.

Septã Mordane acenou com a cabeça,

-              De fato. Uma grande honra para todas nós - a Princesa Myrcella recebeu o cumprimento com um sorriso pouco firme. - Arya, por que você não está trabalhando? - perguntou a septã. Pôs-se de pé, fazendo restolhar as saias engomadas ao atravessar a sala. - Deixe-me ver os seus pontos.

Arya quis gritar. Era mesmo do feitio de Sansa atrair a atenção da septã.

Aqui está - disse, entregando o trabalho. A septã examinou o tecido.

Arya, Arya, Arya - disse. - Isto não serve. Isto não serve de modo nenhum.

Todas estavam a olhá-la. Era demais. Sansa era demasiado bem-educada para sorrir da des­graça da irmã, mas havia o sorriso afetado de Jeyne no seu lugar. Até a Princesa Myrcella parecia ter pena dela, Arya sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas. Saltou da cadeira e correu para a porta.

Septã Mordane a chamou.

-              Arya, volte aqui! Nem mais um passo! A senhora vossa mãe saberá disto. E na frente da nossa princesa real! Envergonha-nos a todos!

Arya parou à porta e voltou-se, mordendo o lábio. As lágrimas corriam-lhe agora pelo rosto. Conseguiu fazer uma pequena reverência rígida a Myrcella.

-              Com a vossa licença, minha senhora.

Myrcella pestanejou e olhou para suas damas em busca de orientação. Mas onde faltava segu­rança à princesa, não faltava à Septã Mordane.

-              Exatamente aonde pensa que vai, Arya? - quis saber a septã. Arya lançou-lhe um olhar furioso.

-              Tenho de ir ferrar um cavalo - disse com doçura, obtendo uma breve satisfação da ex­pressão chocada no rosto da septã. Então rodopiou e saiu, correndo pelos degraus abaixo tão depressa quanto os pés a conseguiam levar.

Não era justo. Sansa tinha tudo. Sansa era dois anos mais velha; talvez, quando Arya nasceu, já nada restava. Era frequente sentir-se assim. Sansa era capaz de costurar, dançar e cantar. Escre­via poesia. Sabia como vestir-se. Tocava harpa e sinos. Pior: era bela. Sansa recebera as belas ma­çãs do rosto altas da mãe e os espessos cabelos arruivados dos Tully. Arya saía ao senhor seu pai. Os cabelos eram de um castanho sem lustro, e o rosto, longo e solene. Jeyne costumava chamá-la Arya Cara de Cavalo, e relinchava sempre que ela se aproximava. A única coisa que Arya fazia melhor que a irmã era andar a cavalo, e isso doía. Bem, andar a cavalo e gerir uma casa. Sansa nunca tivera grande cabeça para números. Se se casasse com o Príncipe Joff, Arya esperava, para o bem dele, que o príncipe tivesse um bom intendente.

Nymeria estava à sua espera na casa da guarda que se erguia na base da escadaria, e pôs-se em pé de um salto assim que a viu. Arya sorriu. A cria de lobo a amava, mesmo se ninguém mais o fizesse. Iam juntas para todo o lado, e Nymeria dormia no seu quarto, aos pés da cama. Se a Mãe não o tivesse proibido, Arya teria levado de bom grado a loba para a sala de costura. Gostaria de ver então Septã Mordane queixar-se de seus pontos.

Nymeria mordiscou-lhe a mão, ansiosa, enquanto Arya a desatava. O animal possuía olhos amarelos. Quando capturavam a luz do sol, cintilavam como duas moedas de ouro. Arya dera-lhe o nome da rainha guerreira dos roinares, que levara seu povo para atravessar o mar estreito. Também isso fora um grande escândalo. Sansa, naturalmente, chamara à sua cria "Lady". Arya fez uma careta e abraçou a lobinha com força. Nymeria lambeu-lhe a orelha e ela soltou um risinho.

Àquela altura, Septã Mordane já teria por certo mandado uma mensagem à senhora sua mãe. Se fosse para o quarto, a encontrariam. Arya não queria ser encontrada. Teve uma ideia melhor. Os rapazes estavam treinando no pátio. Queria ver Robb atirar o galante Príncipe Joffrey ao chão. "Anda", sussurrou a Nymeria. Levantou-se e correu, com a loba a morder-lhe os calcanhares.

Havia uma janela, na ponte coberta entre o armeiro e a Torre Grande, de onde se podia ver rodo o pátio. Foi para lá que se dirigiram.

Chegaram, coradas e sem fôlego, e foram encontrar Jon sentado no parapeito, com um joelho onguidamente erguido até o queixo. Observava a ação tão absorvido que pareceu não se dar conta da aproximação da irmã até que o lobo branco foi ao encontro delas. Nymeria aproximou-se em patas cautelosas. Fantasma, já maior que os companheiros de ninhada, farejou-a, deu-lhe uma dentada cuidadosa na orelha, e voltou a instalar-se.

Jon deitou-lhe uma olhadela curiosa.

Não devia estar trabalhando nos seus pontos, irmãzinha? Arya fez-lhe uma careta.

Queria vê-los lutar.

Ele sorriu.

Então vem para cá.

Arya trepou na janela e sentou-se ao lado do irmão, no meio de um coro de estrondos e gru­nhidos vindos do pátio, lá embaixo.

Para sua desilusão, eram os rapazes mais novos que se exercitavam. Bran estava tão almo­fadado que parecia que tinha se afivelado a um colchão de penas, e Príncipe Tommen, que já era naturalmente rechonchudo, parecia definitivamente redondo. Fanfarronavam, ofegavam e atacavam-se um ao outro com espadas almofadadas de madeira, sob o olhar vigilante de Sor Rodrik Cassei, o mestre de armas, um robusto homem em forma de barril, com magníficas suíças brancas. Uma dúzia de espectadores, homens e rapazes, os encorajavam, e, entre todas, a voz de Robb era a mais forte. Arya reconheceu Theon Greyjoy ao lado do irmão, de gibão negro orna­mentado com a lula gigante dourada de sua Casa, ostentando no rosto um ar de retorcido des­prezo. Ambos os combatentes cambaleavam. Arya concluiu que já lutavam havia algum tempo.

-              É um nadinha mais cansativo que o trabalho de agulhas - observou Jon.

-              É um nadinha mais divertido que o trabalho de agulhas - Arya retorquiu. Jon sorriu, es­ticou o braço e despenteou-lhe os cabelos. Arya corou. Sempre tinham sido próximos. Jon tinha o rosto do pai, tal como ela. Eram os únicos. Robb, Sansa, Bran e até o pequeno Rickon, todos saíram aos Tully, com sorrisos fáceis e fogo nos cabelos. Quando pequena, Arya tivera medo de isso querer dizer que também ela fosse bastarda. Fora a Jon que contara o medo, e fora ele quem a sossegara.

-              Por que não está no pátio? - perguntou-lhe Arya.

Ele lhe deu um meio sorriso.

Não se permite a bastardos danificar jovens príncipes - disse. - Quaisquer hematomas que recebam no pátio de treinos devem provir de espadas legítimas.

Ah - Arya sentiu-se envergonhada. Devia ter compreendido. Pela segunda vez naquele dia pensou que a vida não era justa.

Observou o irmão mais novo bater em Tommen.

-              Podia sair-me tão bem como Bran - disse. - Ele tem só sete anos, Eu tenho nove. Jon olhou-a com toda sua sabedoria de catorze anos.

-              Você é magra demais - disse. Pegou seu braço para apalpar o músculo. Então suspirou e abanou a cabeça. - Duvido até que conseguisse levantar uma espada, irmãzinha, quanto mais brandi-la.

Arya recolheu o braço e lançou-lhe um olhar furioso. Jon voltou a despentear-lhe os cabelos. Observaram Bran e Tommen, que andavam em círculos ao redor um do outro.

-              Vê o Príncipe Joffrey? - perguntou Jon.

Ao primeiro relance não o tinha visto, mas quando voltou a olhar, descobriu-o atrás dos ou­tros, à sombra do alto muro de pedra. Estava rodeado por homens que não reconheceu, jovens escudeiros com librés dos Lannister e dos Baratheon, todos eles estranhos. Havia entre eles al­guns homens mais velhos; cavaleiros, presumiu.

-              Olhe o brasão de sua capa - sugeriu Jon.

Arya olhou. Um escudo ornamentado tinha sido bordado na capa almofadada do príncipe. Não havia dúvida de que o bordado era magnífico. O brasão estava dividido ao meio: de um lado tinha o veado coroado da Casa real; do outro, o leão de Lannister.

-              Os Lannister são orgulhosos - observou Jon. - Seria de se pensar que a chancela real seria suficiente, mas não. Ele faz a Casa da mãe igual em honra à do rei.

A mulher também é importante! - protestou Arya. Jon soltou um risinho.

Talvez devesse fazer o mesmo, irmãzinha. Casa Tully e Stark no seu brasão.

-              Um lobo com um peixe na boca? - a idéia a fez rir. - Pareceria disparatado, Além disso, se uma moça não pode lutar, por que haveria de ter um brasão de armas?

Jon encolheu os ombros.

-              Às moças dão as armas, mas não as espadas. Aos bastardos dão as espadas, mas não as ar­mas, Não fui eu que fiz as regras, irmãzinha.

Ouviu-se um grito no pátio, embaixo. Príncipe Tommen rebolava na poeira, tentando sem sucesso pôr-se em pé. Todos aqueles almofadados faziam-no assemelhar-se a uma tartaruga vi­rada de costas. Bran estava sobre ele, com a espada de madeira erguida, pronto a bater-lhe de novo assim que se levantasse. Os homens desataram a rir.

-              Basta! - gritou Sor Rodrik. Ofereceu a mão ao príncipe e o pôs de novo em pé. - Uma boa luta. Lew, Donnis, ajudem-nos a tirar as armaduras - olhou em volta. - Príncipe Joffrey, Robb, querem mais um assalto?

Robb, já suado de uma luta anterior, avançou com ardor.

-              De bom grado,

Joffrey saiu para o sol em resposta à chamada de Rodrik. Seus cabelos brilharam como ouro tecido. Parecia aborrecido.

Este é um jogo para crianças, Sor Rodrik.

Theon Greyjoy soltou uma súbita gargalhada.

Vocês são crianças - disse, com ironia,

-              Robb pode ser uma criança - disse Joffrey. - Eu sou um príncipe. E já estou cansado de dar pancada nos Stark com uma espada de brincar.

Você levou mais pancada do que deu, Joff - disse Robb. - Será que tem medo?

Príncipe Joffrey olhou para ele:

Ah, estou apavorado - disse. - Você é tão mais velho - alguns dos Lannister deram risada. Jon afastou os olhos da cena com um olhar carrancudo.

-Joffrey é um verdadeiro merda - disse a Arya.

Sor Rodrik puxou, pensativo, pelas suíças brancas.

O que sugere? - perguntou ao príncipe.

Aço vivo.

Feito - disparou Robb em resposta. - Vai se arrepender!

O mestre de armas pôs a mão no ombro de Robb, tentando acalmá-lo.

-              Aço vivo é demasiado perigoso. Permitirei espadas de torneio, com gumes embotados.

Joffrey não disse nada, mas um homem que era estranho a Arya, um cavaleiro alto com cabelos negros e cicatrizes de queimaduras no rosto, avançou para a frente do príncipe.

Este é o seu príncipe, Quem é você para lhe dizer que não pode ter um gume na espada, sor?

Sou o mestre de armas de Winterfell, Clegane, e faria bem se não se esquecesse disto.

Está aqui para treinar mulheres? - quis saber o homem queimado. Era musculoso como um touro.

Treino cavaleiros - respondeu severamente Sor Rodrik. - Eles terão aço quando estiverem prontos. Quando tiverem idade.

O homem queimado olhou para Robb.

Que idade você tem, rapaz?

Catorze anos - disse Robb.

Matei um homem aos doze. E pode ter certeza de que não foi com uma espada sem fio. Arya conseguia ver que Robb se irritava. Seu orgulho estava ferido. Virou-se para Sor Rodrik.

Deixe-me fazê-lo. Posso vencê-lo.

Então, vença-o com uma lâmina de torneio - respondeu Sor Rodrik. Joffrey encolheu os ombros.

-              Venha ter comigo quando for mais velho, Stark. Se não já for velho demais - soaram garga­lhadas vindas dos Lannister.

As pragas de Robb ressoaram pelo pátio. Arya cobriu a boca, chocada. Theon Greyjoy agarrou o braço de Robb a fim de mantê-lo afastado do príncipe. Sor Rodrik coçou as suíças, consternado. Joffrey fingiu um bocejo e virou-se para o irmão mais novo.

-              Venha, Tommen - disse. - A hora da brincadeira terminou. Deixe as crianças com seus divertimentos.

Aquilo provocou mais risos entre os Lannister, e mais pragas de Robb. O rosto de Sor Ro­drik, por baixo do branco das suíças, estava vermelho como uma beterraba em fúria. Theon man­teve Robb preso com mão de ferro até que os príncipes e sua comitiva se fossem em segurança.

Jon observou-os partir, e Arya observou Jon. Seu rosto tinha ficado tão imóvel como a lagoa no coração do bosque sagrado. Por fim, ele desceu da janela.

-              O espetáculo acabou - disse. Dobrou-se para coçar Fantasma atrás das orelhas. O lobo branco pôs-se em pé e esfregou-se contra ele. - E melhor correr para o seu quarto, irmãzinha. Septã Mordane está sem dúvida à espreita. Quanto mais tempo ficar escondida, mais severa a penitência. Ficará a coser durante todo o inverno. Quando chegar o degelo da primavera, encon­trarão seu corpo ainda com uma agulha bem presa entre os dedos congelados.

Arya não achou graça.

Detesto costura! - disse com paixão. - Não é justo!

Nada é justo - disse Jon. Voltou a despentear-lhe os cabelos e afastou-se, com Fantasma a caminhar em silêncio ao seu lado. Nymeria também começou a segui-los, mas depois parou e regressou quando viu que Arya não ia.

Arya virou-se relutantemente na outra direção.

Foi pior do que Jon pensara. Não era Septã Mordane quem a esperava no quarto. Eram Septã Mordane e sua mãe.

 

                   Bran

Os caçadores partiram de madrugada. O rei desejava javali para o festim da noite. Príncipe Joffrey ia com o pai, e, por esse motivo, Robb foi também autorizado a juntar-se ao grupo. Tio Benjen, Jory, Theon Greyjoy, Sor Rodrik e até o pequeno e engraçado irmão da rainha iam com eles. Afinal, era a última caçada. Na manhã seguinte partiriam para o Sul.

Bran fora deixado para trás com Jon, as meninas e Rickon. Mas Rickon era só um bebê, as meninas eram apenas meninas, e não encontravam Jon e seu lobo em lugar nenhum. Bran não o procurou com muita força. Pensava que Jon estivesse zangado com ele. Por aqueles dias, Jon parecia estar zangado com todo mundo. Bran não sabia por quê. Ele ia com Tio Ben para a Mu­ralha, juntar-se à Patrulha da Noite. Isso era quase tão bom como ir para o Sul com o rei. Era Robb quem ia ser deixado para trás, não Jon.

Ao longo de vários dias, Bran quase não conseguia esperar pela partida. Ia percorrer a estrada do rei montado num cavalo seu, não um pônei, mas um cavalo verdadeiro. O pai seria Mão do Rei, e viveriam no castelo vermelho em Porto Real, o castelo que os Senhores do Dragão tinham construído. A Velha Ama dizia que havia lá fantasmas, e masmorras onde tinham sido feitas coisas terríveis, e cabeças de dragão nas paredes. Bran arrepiava-se só de pensar nisso, mas não tinha medo. Como podia ter? O pai estaria com ele, e também o rei, com todos os seus cavaleiros e homens de armas.

O próprio Bran um dia seria um cavaleiro, um membro da Guarda Real. A Velha Ama dizia que eram os melhores espadachins de todo o reino. Eram apenas sete, usavam armaduras brancas e não tinham esposas nem filhos, viviam apenas para servir o rei. Bran conhecia todas as histó­rias. Os nomes deles eram como música para os seus ouvidos. Serwyn do Escudo Espelhado; Sor Ryam Redwyne; Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão; os gêmeos, Sor Erryk e Sor Arryk, que tinham morrido pelas espadas um do outro havia centenas de anos, quando irmãos lutavam contra irmãs na guerra que os poetas chamavam a Dança dos Dragões; Touro Branco, Gerold Hightower; Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã; e Barristan, o Ousado.

Dois dos Guardas do Rei tinham vindo para o Norte com Rei Robert. Bran observara-os, fascinado, sem chegar a se atrever a dirigir-lhes a palavra. Sor Borós era um homem calvo com um maxilar largo, e Sor Meryn tinha olhos inclinados e uma barba cor de ferrugem. Sor Jaime Lannister parecia-se mais com os cavaleiros das histórias e também pertencia à Guarda do Rei, mas Robb dizia que ele tinha matado o velho rei louco e já não contava. O maior cavaleiro vivo era Sor Barristan Selmy, Barristan, o Ousado, o Senhor Comandante da Guarda do Rei. O pai prometera que conheceriam Sor Barristan quando chegassem a Porto Real, e Bran marcara a passagem dos dias na parede do quarto, ansioso por partir, por ver um mundo com que só so­nhara e começar uma vida que quase nem conseguia imaginar.

Mas agora que o último dia se aproximava, repentinamente Bran sentia-se perdido. Winterfell era a única casa que conhecera. O pai dissera-lhe que devia fazer hoje as suas despedidas, e ele ten­tou. Depois de os caçadores terem partido, vagueou pelo castelo com o lobo a seu lado, tencionando visitar aqueles que ficariam ali, a Velha Ama e o cozinheiro Gage, Mikken na sua forja, Hodor, o cavalariço que sorria tanto, cuidava de seu pônei e nunca dizia nada que não fosse "Hodor"; o homem nos jardins de vidro que lhe dava uma amora silvestre sempre que ia visitá-lo...

Mas foi inútil. Dirigiu-se primeiro ao estábulo e viu seu pônei na baia, mas já não era seu pô­nei, pois teria um cavalo verdadeiro e deixaria o pônei para trás, e de repente quis apenas sentar e chorar, Virou-se e fugiu dali antes que Hodor e os outros moços da estrebaria lhe vissem as lágrimas nos olhos. Foi o fim das despedidas. Em lugar delas, passou a manhã sozinho no bosque sagrado, tentando sem sucesso ensinar o lobo a buscar um pedaço de pau. O lobinho era mais inteligente que qualquer dos cães no canil do pai, e Bran juraria que entendia cada palavra que lhe era dita, mas mostrava muito pouco interesse em perseguir pedaços de pau.

Ainda andava à procura de um nome. Robb chamara ao seu cão Vento Cinzento porque ele corria muito depressa. Sansa chamara Lady ao seu, e Arya dera ao seu o nome de uma rainha qualquer feiticeira das canções, e o pequeno Rickon chamara ao seu Cão Felpudo, o que Bran jul­gava ser um nome bastante estúpido para um lobo gigante. O lobo de Jon, o branco, chamava-se Fantasma. Bran gostaria de ter pensado primeiro nesse nome, apesar de seu lobo não ser branco. Tentara cem nomes ao longo da última quinzena, mas nenhum lhe parecera ideal.

Por fim, cansou-se do jogo do pau e decidiu escalar. Havia semanas que não subia à torre que­brada, por causa de tudo o que acontecera, e aquela poderia ser sua última oportunidade.

Atravessou correndo o bosque sagrado, escolhendo o caminho mais longo a fim de evitar a lagoa onde crescia a árvore-coração. Ela sempre o assustara; as árvores não deveriam ter olhos, pensava Bran, nem folhas que se parecessem com mãos, O lobo corria junto aos seus calcanhares.

-              Fica aqui - disse ao animal na base da árvore sentinela que crescia ao lado da parede do armeiro. - Deita. Isso. Agora fica.

O lobo fez o que lhe foi ordenado. Bran coçou-o atrás das orelhas e depois se virou, saltou, agarrou um ramo baixo e içou-se. Estava no meio da árvore, deslocando-se com facilidade de ramo em ramo, quando o lobo se pôs em pé e começou a uivar.

Bran olhou para baixo. O lobo calou-se, olhando-o através das fendas de seus olhos amarelos. Um estranho arrepio o atravessou, mas recomeçou a trepar. Uma vez mais o lobo uivou.

-              Quieto - gritou. - Senta. Fica. Você é pior que a minha mãe - os uivos seguiram-no até o topo da árvore quando, por fim, saltou para o telhado do armeiro e para fora de vista.

Os telhados de Winterfell eram a segunda casa de Bran. A mãe dizia frequentemente que ele já era capaz de escalar antes de aprender a andar. Bran não se lembrava de quando começara a andar, mas tampouco se lembrava do momento em que começara a escalar; portanto, supunha que devia ser verdade.

Para um rapaz, Winterfell era um labirinto de pedra cinzenta, com paredes, torres, pátios e túneis que se estendiam em todas as direções. Nas partes mais antigas do castelo, os salões inclinavam-se para cima e para baixo, de modo que nem era possível saber ao certo o andar em que se estava. Meistre Luwin dissera-lhe uma vez que o edifício fora crescendo ao longo dos sé­culos como se fosse uma monstruosa árvore de pedra, com ramos nodosos, grossos e retorcidos, e raízes que se afundavam profundamente na terra.

Quando saía de baixo dessa espécie de árvore e subia até perto do céu, Bran conseguia ver todo Winterfell de um relance. E gostava do aspecto do lugar, estendido à sua frente, apenas com aves a rodopiar sobre sua cabeça enquanto toda a vida do castelo prosseguia lá embaixo, Bran podia ficar horas empoleirado entre as gárgulas sem forma, desgastadas pela chuva, que matutavam no topo da Primeira Torre, observando tudo: os homens que se exercitavam com madeira e aço no pátio, os cozinheiros que cuidavam de suas plantas no jardim de vidro, cães irrequietos que corriam para um lado e para outro nos canis, o silêncio do bosque sagrado, as moças que mexericavam junto ao poço das lavagens. Fazia-o sentir-se senhor do castelo, de um modo que nem mesmo Robb conheceria.

E também lhe revelava os segredos de Winterfell. Os construtores nem sequer tinham nivelado a terra; havia colinas e vales por trás dos muros de Winterfell. Havia uma ponte coberta que ligava o quarto piso da torre sineira ao segundo piso do aviário. Bran a conhecia. E também sabia que podia entrar na muralha interior pelo portão sul, subir três pisos e correr por todo Winterfell dentro de um túnel estreito aberto na pedra, e depois sair ao nível do chão no portão norte com trinta metros de muralha a elevar-se acima da sua cabeça. Bran estava convencido de que nem — esmo Meistre Luwin sabia disso.

A mãe andava aterrorizada com a possibilidade de Bran um dia escorregar de um muro e matar-se. Ele dissera-lhe que isso não aconteceria, mas ela nunca acreditou. Uma vez o fez prome­ter que permaneceria no chão. Ele conseguiu cumprir a promessa durante quase uma quinzena, infeliz todos os dias, até que uma noite saiu pela janela do quarto quando os irmãos estavam mergulhados no sono.

Confessou o crime no dia seguinte, num ataque de remorso. O Senhor Eddard ordenou-lhe que fosse se purificar no bosque sagrado. Foram destacados guardas para assegurar que Bran per­maneceria lá toda a noite, sozinho, a refletir sobre sua desobediência. Na manhã seguinte, Bran não se encontrava em lado nenhum. Foram finalmente encontrá-lo, profundamente adormecido, nos ramos superiores da mais alta árvore sentinela do bosque.

Por mais zangado que estivesse, o pai não conseguiu evitar uma gargalhada.

-              Você não é meu filho - disse a Bran quando o trouxeram para baixo -, é um esquilo. Que seja. Se tem de escalar, então escale, mas não deixe que sua mãe o veja.

Bran fez o melhor que pôde, embora achasse que nunca conseguira realmente enganá-la. Como o pai não o proibia, ela virara-se para outros lados. A Velha Ama contou-lhe uma história sobre um mau rapazinho que escalou alto demais e foi atingido por um relâmpago, e sobre o modo como os corvos vieram depois bicar-lhe os olhos. Bran não se impressionou. Havia ninhos de corvo no topo da torre quebrada, onde nunca ninguém ia, além dele, e às vezes enchia os bol­sos de milho antes de escalar até lá, e os corvos comiam de sua mão. Nenhum jamais mostrou alguma vez a mais leve intenção de lhe bicar os olhos.

Mais tarde, Meistre Luwin moldou um pequeno rapaz de barro, vestiu-o com as roupas de Bran e atirou-o do muro para o pátio a fim de demonstrar o que aconteceria a Bran se caísse. Foi divertido, mas depois da demonstração Bran limitou-se a olhar para o meistre e dizer:

-              Não sou feito de barro. E, seja como for, nunca caio.

Depois disso, durante algum tempo os guardas o perseguiam sempre que o viam nos telhados e tentavam puxá-lo para baixo. Foi a melhor época de todas. Era como brincar com os irmãos, exceto que naquele jogo era sempre Bran quem ganhava. Nenhum dos guardas era capaz de es­calar tão bem como Bran, nem metade, nem mesmo Jory. E, fosse como fosse, a maior parte das vezes nem sequer o viam. As pessoas nunca olhavam para cima. Era outra coisa que apreciava em escalar; era quase como ser invisível.

E também gostava da sensação de se içar por um muro acima, pedra a pedra, com os dedos das mãos e dos pés enterrando-se com força nas pequenas fendas que havia entre elas. Quando escalava, tirava sempre as botas e subia descalço; aquilo o fazia se sentir como se tivesse quatro mãos em vez de duas. Gostava da dor profunda e doce que sentia depois nos músculos. Gostava do sabor que o ar tinha lá em cima, doce e frio como um pêssego de inverno. Gostava dos pás­saros: os corvos na torre quebrada, os minúsculos pardais que faziam ninho nas fendas entre as pedras, a velha coruja que dormia no sótão poeirento que ficava por cima do antigo armeiro. Bran conhecia-os todos.

E acima de tudo gostava de ir a lugares onde ninguém mais podia ir e de ver a extensão cinzenta de Winterfell de um modo que nunca ninguém vira. Transformava todo o castelo no lugar secreto de Bran. Seu local favorito era a torre quebrada. Antigamente tinha sido uma torre de atalaia, a mais alta de Winterfell. Há muito tempo, cem anos antes mesmo que seu pai tivesse nascido, um relâmpago a incendiara. O terço superior da estrutura tinha tombado para dentro, e a torre nunca fora reconstruída. Por vezes, seu pai mandava caçadores de ratos até a base dela para limpar os ninhos que encontravam sempre por entre a confusão de pedras caídas e traves queimadas e podres. Mas agora nunca ninguém ia até o topo irregular da estrutura, salvo Bran e os corvos.

Conhecia duas maneiras de chegar lá. Podia-se ir diretamente, escalando o lado da própria torre, mas as pedras estavam soltas, a argamassa que as mantivera juntas havia muito que tinha se transformado em cinzas, e Bran nunca gostara de pôr todo seu peso em cima delas.

A melhor maneira era partir do bosque sagrado, escalar a grande sentinela, atravessar o ar­meiro e o salão dos guardas, saltando de telhado em telhado descalço, para que os guardas não ouvissem. Depois disso, estava-se no lado oculto da Primeira Torre, a mais antiga parte do cas­telo, uma fortaleza quadrada e atarracada que era mais alta do que parecia. Só ratos e aranhas ali viviam agora, mas as velhas pedras ainda davam uma boa escalada. Podia-se ir diretamente até o local onde as gárgulas se inclinavam, cegas, sobre o espaço vazio, e balançar de gárgula em gár­gula, uma mão depois da outra, até o lado norte. Daí, caso se esticasse bem, podia alcançar a torre quebrada e içar-se em direção a ela no lugar onde se inclinava para mais perto. A última parte era engatinhar pelas pedras enegrecidas até o ponto mais elevado, não mais que três metros, e então chegariam os corvos, para ver se tinha trazido milho.

Bran estava passando de gárgula em gárgula com a facilidade de uma longa prática quando ouviu as vozes. Ficou tão sobressaltado que quase perdeu o apoio. A Primeira Torre estivera va­zia toda sua vida.

Não estou gostando - uma mulher dizia. Havia uma fileira de janelas por baixo de Bran, e a voz saía da última janela daquele lado. - Você é que devia ser a Mão.

Que os deuses o proíbam - respondeu indolentemente uma voz masculina. - Não é honra que eu deseje. Dá um trabalho desmedido.

Bran ficou ali, pendurado, à escuta, com medo de prosseguir. Eles poderiam ver de relance seus pés se tentasse passar pela janela.

Não vê o perigo em que isto nos coloca? - disse a mulher. - Robert adora o homem como a um irmão.

Robert quase não tem estômago para os irmãos. Não que o censure. O Stannis seria sufi­ciente para dar uma indigestão a qualquer um.

Não se faça de tolo. Stannis e Renly são uma coisa, Eddard Stark é outra totalmente dife­rente. Robert escutará Stark. Malditos sejam ambos. Eu devia ter insistido para que ele o nomeasse, mas tinha certeza, de que Stark lhe diria não.

-              Deveríamos agradecer por nossa sorte - disse o homem. - O rei podia perfeitamente ter nomeado um de seus irmãos, ou mesmo o Mindinho, que os deuses nos protejam. Dê-me inimigos honrados em vez de ambiciosos e dormirei melhor à noite.

Bran compreendeu que falavam de seu pai. Quis ouvir mais. Mais alguns pés... mas o veriam se balançasse na frente da janela.

Teremos de vigiá-los cuidadosamente - disse a mulher.

Eu preferiria vigiar você - disse o homem, soando aborrecido. - Volte aqui.

Lorde Eddard nunca mostrou nenhum interesse em nada que acontecesse ao sul do Gar­galo - disse a mulher. - Nunca. Escute-me bem, ele planeja uma jogada contra nós. Por que turro motivo aceitaria abandonar a sede do seu poder?

Por cem motivos. O dever. A honra. Deseja escrever seu nome em letras grandes no livro rk História, fugir da mulher ou ambas as coisas. Talvez não queira mais do que estar quente por ama vez na vida.

A mulher é irmã da Senhora Arryn. É um milagre que Lysa não esteja aqui para nos rece­ber com suas acusações.

Bran olhou para baixo. Havia um estreito parapeito por baixo da janela, só com algumas po­legadas de largura. Tentou abaixar-se até lá. Estava longe demais. Nunca o alcançaria.

Aborrece-se em demasia. Lysa Arryn é uma vaca assustada,

Essa vaca assustada partilhava a cama dejon Arryn.

Se soubesse alguma coisa, teria ido falar com Robert antes de fugir de Porto Real.

Depois de já termos concordado em criar aquele fracote do seu filho em Rochedo Casterly? Não me parece. Ela sabia que a vida do rapaz ficaria refém do seu silêncio. Mas pode se tornar mais ousada, agora que está a salvo no topo do Ninho da Águia.

Mães - o homem fez a palavra soar como uma praga. - Acho que dar à luz faz qualquer coisa às vossas mentes. São todas loucas - ele riu, um som amargo. - Que a Senhora Arryn se torne tão ousada quanto desejar. Seja o que for que ela sabe, seja o que for que ela pensa que sabe, rio tem provas - fez uma pausa momentânea. - Ou será que tem?

Você julga que o rei precisará de provas? - disse a mulher, - Já te disse que ele não me ama.

E quem tem culpa disso, querida irmã?

Bran estudou o parapeito. Podia cair. Era demasiado estreito para aterrisar nele, mas se con­seguisse se segurar ao passar por ele e depois içar-se... Mas isso faria barulho e os traria até a ja­nela. Não tinha certeza do que estava ouvindo, mas sabia que não se destinava aos seus ouvidos.

É tão cego como Robert - dizia a mulher,

Se quer com isso dizer que vejo as mesmas coisas, então, sim - disse o homem. - Vejo um homem que mais depressa morreria do que trairia seu rei.

—Já traiu um, ou será que se esqueceu? - disse a mulher. - Ah, não nego que ele é leal ao Ro­bert, isto é óbvio. O que acontecerá quando Robert morrer e Joff subir ao trono? E, quanto mais depressa isso acontecer, mais seguros estaremos todos. Meu marido fica dia a dia mais inquieto. Stark a seu lado só o fará ficar pior. Ainda ama sua irmã, a insípida miudinha morta de dezesseis anos. Quanto tempo demorará para decidir me pôr de lado em favor de alguma nova Lyanna?

Bran ficou de súbito muito assustado. Nada mais desejava do que regressar pelo caminho de onde tinha vindo e ir à procura dos irmãos. Mas o que poderia dizer a eles? Compreendeu que tinha de se aproximar mais. Tinha de ver quem estava falando.

O homem suspirou.

Devia pensar menos no futuro e mais nos prazeres próximos.

Para com isso! - disse a mulher.

Bran ouviu o súbito som de carne batendo em carne, e em seguida o riso do homem. Bran içou-se, escalou a gárgula, rastejou para o telhado. Era a maneira mais fácil. Deslocou-se ao longo do telhado até a gárgula seguinte, que ficava mesmo por cima da janela do quarto onde os dois conversavam.

-              Todo este falatório está se tornando muito cansativo, irmã - disse o homem. - Venha cá e se cale.

Bran sentou-se na gárgula com uma perna para cada lado, apertou-as em redor dela e desli­zou até ficar de cabeça para baixo. Pendurou-se pelas pernas e esticou a cabeça lentamente até a janela. O mundo parecia estranho de pernas para o ar. Um pátio nadava vertiginosamente lá embaixo, com as lajes ainda úmidas da neve derretida.

Bran olhou pela janela.

Dentro do quarto, um homem e uma mulher lutavam. Estavam ambos nus. Bran não con­seguia ver quem eram. As costas do homem estavam voltadas para ele, e seu corpo ocultou a mulher quando ele a empurrou contra a parede,

Ouviam-se sons suaves e úmidos. Bran percebeu que se beijavam. Observou, assustado e de olhos esbugalhados, com a respiração apertada na garganta. O homem tinha uma mão entre as pernas da mulher, e a devia estar machucando, porque ela começou a gemer, com voz profunda.

-              Para - disse ela - para, para. Ah, por favor... - mas a voz era baixa e fraca, e ela não o em­purrava para longe. As mãos enterraram-se nos emaranhados cabelos dourados dele e puxaram--lhe o rosto para o peito.

Bran viu-lhe o rosto. Os olhos dela estavam fechados e a boca aberta, gemendo. Os cabelos moviam-se de um lado para o outro quando a cabeça dela se deslocava para a frente e para trás, mas, mesmo assim, reconheceu a rainha.

Deve ter feito algum ruído. De súbito, os olhos dela abriram-se e fitaram-no. Ela gritou.

Então, tudo aconteceu ao mesmo tempo. A mulher empurrou precipitadamente o homem, gritando e apontando. Bran tentou içar-se, dobrando-se sobre si próprio ao tentar alcançar a gár­gula. Mas o fez com muita pressa. A mão arranhou inutilmente a pedra lisa, e no seu pânico as pernas deslizaram e, de repente, viu-se caindo. Houve um instante de vertigem, um desamparo nauseante quando a janela passou por ele. Esticou a mão, agarrou o parapeito, perdeu-o, voltou a agarrá-lo com a outra mão. Bateu com força no edifício. O impacto tirou-lhe o fôlego. Bran ficou suspenso por uma mão, arquejando.

Rostos surgiram na janela acima dele,

A rainha. E agora Bran reconhecia o homem a seu lado. Eram tão parecidos como reflexos num espelho.

Ele nos viu - disse a mulher com voz esganiçada.

Pois viu.

Os dedos de Bran começaram a deslizar. Agarrou o parapeito com a outra mão. Suas unhas enterraram-se na pedra dura. O homem estendeu um braço.

-              Agarre a minha mão - disse. - Antes que caia.

Bran agarrou-lhe o braço com toda sua força. O homem o puxou até o umbral.

-              Que está fazendo? - quis saber a mulher.

O homem a ignorou. Era muito forte. Pôs Bran em pé sobre o parapeito.

-              Que idade tem, rapaz?

-              Sete anos - disse Bran, tremendo de alívio. Seus dedos tinham marcado profundas estrias no braço do homem. Largou-o, envergonhado.

O homem olhou para a mulher.

-              As coisas que faço por amor - disse, com repugnância. Deu um empurrão em Bran.

Gritando, Bran caiu da janela de costas para o vazio. Nada havia a que se pudesse agarrar. O pátio correu ao seu encontro.

Em algum lugar, ao longe, um lobo uivava. Corvos voavam em círculos sobre a torre quebrada, esperando por milho.

 

Tyrion

Em algum lugar no grande labirinto de pedra de Winterfell um lobo uivou. O som pairou sobre o castelo como uma bandeira de luto.

Tyrion Lannister ergueu os olhos dos seus livros e estremeceu, apesar de a biblioteca estar quente e aconchegante. Há algo no uivar de um lobo que tira um homem do seu aqui e agora e o deposita numa floresta escura da mente, correndo nu à frente da matilha.

Quando o lobo gigante voltou a uivar, Tyrion fechou o pesado livro encadernado a couro que estava lendo, um discurso com cem anos de um meistre há muito morto sobre a mudança das estações. Cobriu um bocejo com as costas da mão. Sua lanterna de leitura bruxuleava, com o óleo quase gasto, enquanto a luz da madrugada se esgueirava pelas janelas elevadas. Tinha pas­sado a noite inteira lendo, mas nada havia de novo. Tyrion Lannister não era homem de dormir muito.

Quando deslizou do banco, sentiu as pernas rígidas e doloridas. Devolveu-lhes alguma vida com uma massagem e mancou pesadamente até a mesa onde o septão ressonava baixinho, com um livro aberto a servir-lhe de almofada. Tyrion deitou um olhar de relance ao título. Não admi­rava: era uma biografia do Grande Meistre Aethelmure.

-              Chayle - disse, em voz baixa. O jovem ergueu-se de um salto, pestanejando, confuso, com o cristal de sua ordem balançando vigorosamente na ponta de sua corrente de prata. - Vou quebrar o jejum. Trate de pôr os livros de volta nas prateleiras. Tome cuidado com os rolos valirianos, porque o pergaminho está muito seco. O Máquinas de Guerra de Ayrmidon é bastante raro, e a sua é a única cópia completa que já vi - Chayle olhou-o de boca aberta, ainda meio adormecido. Pacientemente, Tyrion repetiu as instruções, depois deu ao septão uma palmada no ombro e o deixou com suas tarefas.

No exterior, Tyrion encheu os pulmões com o ar frio da manhã e começou sua laboriosa des­cida dos íngremes degraus de pedra que se enrolavam em torno do exterior da torre da biblioteca. Era um avanço lento; os degraus eram altos e estreitos, ao passo que as pernas eram curtas e torcidas. O sol nascente ainda não iluminava os muros de Winterfell, mas os homens já estavam muito ativos no pátio, lá embaixo. A voz áspera de Sandor Clegane vagueou até seus ouvidos.

-              O rapaz leva muito tempo para morrer. Gostaria que se fosse logo.

Tyrion olhou para baixo de relance e viu o Cão de Caça em pé ao lado de Joffrey, enquanto escudeiros formigavam em redor.

-              Pelo menos morre em silêncio - respondeu o príncipe. - E o lobo que faz barulho. Quase não consegui dormir esta noite.

Clegane lançou uma longa sombra sobre a terra bem batida quando seu escudeiro levantou o elmo negro sobre sua cabeça.

-              Posso silenciar a criatura, se o agraciar - disse através do visor aberto. O ajudante colocou-lhe uma espada na mão. Clegane testou o seu peso cortando o ar frio da manhã. Atrás dele, o pátio ressoava com o som estridente de aço a bater em aço.

A idéia pareceu encher o príncipe de prazer.

-              Mandar um cão matar um cão! - exclamou. - Winterfell está tão infestado de lobos que os Stark nunca se darão conta da falta de um.

Tyrion saltou do último degrau para o pátio.

-              Permita-me discordar, sobrinho - disse. - Os Stark são capazes de contar até seis. Ao con­trário de certos príncipes que eu poderia citar.

Joffrey teve pelo menos a educação de corar.

-              Uma voz vinda de lugar algum - disse Sandor. Espreitou através do elmo, olhando para um lado e para outro. - Espíritos do ar!

O príncipe riu, como ria sempre que o guarda-costas fazia aquela farsa de pantomimeiro. lyrion já estava habituado.

-              Aqui embaixo.

O homem alto espreitou para o chão e fingiu reparar nele.

O pequeno senhor Tyrion - disse. - As minhas desculpas. Não o vi aí,

Hoje não tenho disposição para a sua insolência - Tyrion virou-se para o sobrinho. - Joffrey, íá é mais que tempo de ir falar com Lorde Eddard e sua senhora para lhes oferecer seu consolo.

Joffrey pareceu tão petulante como só um jovem príncipe podia ser.

E que bem lhes faria o meu consolo?

Nenhum - disse Tyrion. - Mas espera-se que faça isto. Sua ausência foi notada.

-              O rapaz Stark não me é nada - disse Joffrey. - Não consigo suportar os choros das mulheres. Tyrion Lannister ergueu o braço e deu no sobrinho um forte tapa na cara. A bochecha do rapaz começou a corar.

Uma palavra - disse Tyrion -, e bato outra vez.

Vou contar para minha mãe! - exclamou Joffrey.

Tyrion bateu-lhe de novo. Agora ambas as bochechas ardiam.

-              Vai lá contar para ela - disse-lhe Tyrion. - Mas primeiro vá falar com o Senhor e a Semora Stark, ponha-se de joelhos e lhes diga o quanto lamenta e que está a seu serviço se houver alguma coisa que possa fazer por eles nesta hora desesperada, e que lhes dedica todas as suas preces. Compreende? Compreende?

O rapaz fez cara de quem ia chorar. Mas, em vez disso, deu um fraco aceno com a cabeça. Depois se virou e fugiu correndo do pátio, com as mãos cobrindo o rosto. Tyrion ficou vendo-o correr.

Uma sombra caiu-lhe sobre o rosto. Virou-se e deparou com Clegane, que se erguia acima ia sua cabeça como uma falésia. A armadura negra como fuligem do cavaleiro parecia embotar o sol. Ele tinha baixado o visor do elmo, moldado de forma a parecer-se com a cabeça de um cão de caça negro, de dentes arreganhados, assustador ao olhar, mas Tyrion sempre o considerara uma grande melhoria comparado à cara horrivelmente queimada de Clegane.

O príncipe se recordará disto, pequeno senhor - preveniu o Cão de Caça, e o elmo transformou sua gargalhada num estrondo oco.

Rezo para que se recorde - respondeu Tyrion Lannister. - Caso se esqueça, seja um bom cãozinho e o relembre - passou os olhos pelo pátio. - Sabe onde posso encontrar meu irmão?

-              Está no desjejum com a rainha.

-              Ah - respondeu Tyrion. Inclinou negligentemente a cabeça para Sandor Clegane e afastou-se, assobiando, com tanta vivacidade quanto suas pernas deformadas permitiam. Sentia pena do primeiro cavaleiro a medir forças hoje com o Cão de Caça. O homem tinha mau gênio.

Uma refeição fria e triste tinha sido servida na sala de estar da Casa de Hóspedes. Jaime esta­va sentado a uma mesa com Cersei e as crianças, conversando em voz baixa e abafada,

-              Robert ainda está deitado? - perguntou Tyrion ao sentar-se à mesa sem ser convidado.

A irmã o olhou com a mesma tênue expressão de desagrado que ostentava desde o dia em que ele nascera.

O rei não chegou a dormir - informou. - Está com Lorde Eddard. O desgosto do amigo o atingiu profundamente no coração.

Tem um grande coração o nosso Robert - disse Jaime com um sorriso indolente. Eram muito poucas as coisas que Jaime levava a sério. Tyrion conhecia essa característica do irmão, e o perdoava. Durante todos os terríveis longos anos da infância, só Jaime lhe mostrara o menor sinal de afeto ou respeito, e por isso Tyrion estava pronto a perdoar-lhe quase tudo.

Um servo aproximou-se.

-              Pão - disse-lhe Tyrion -, e dois daqueles peixinhos, e uma caneca daquela bela cerveja preta para empurrá-los para baixo. Ah, e algum bacon. Queime-o até ficar preto - o homem fez uma reverência e afastou-se. Tyrion voltou a virar-se para os irmãos. Gêmeos, um homem e uma mulher. E, naquela manhã, pareciam-se muito. Ambos tinham escolhido um verde profundo que combinava com seus olhos. Os caracóis louros eram em ambos uma confusão elegante, e orna­mentos de ouro brilhavam em seus pulsos, dedos e gargantas.

Tyrion perguntou a si próprio como seria ter um gêmeo, mas decidiu que preferia não saber. Já era suficientemente ruim encarar-se todos os dias no espelho. Outro dele era uma idéia terrível demais para imaginar.

Príncipe Tommen falou:

-              Tem notícias de Bran, tio?

Passei ontem à noite pela enfermaria - anunciou Tyrion. - Não havia alterações. O meistre acha que é sinal esperançoso.

Não quero que Brandon morra - disse Tommen timidamente. Era um bom rapaz. Não era como o irmão, mas também Jaime e Tyrion não eram propriamente a imagem um do outro.

Lorde Eddard tinha também um irmão chamado Brandon - meditou Jaime. - Um dos reféns assassinados por Targaryen. Parece ser um nome sem sorte.

Ah, certamente não é assim tão desafortunado - disse Tyrion. O servo trouxe-lhe o prato, e ele partiu um bocado de pão escuro.

Cersei o estava estudando com prudência.

-              O que quer dizer?

Tyrion deu-lhe um sorriso torto.

-              Ora, apenas que Tommen pode ver realizado seu desejo. O meistre pensa que o rapaz pode sobreviver - e bebeu um trago de cerveja.

Myrcella fez um arquejo de contentamento, e Tommen sorriu nervosamente, mas Tyrion não estava observando as crianças. O olhar que Jaime e Cersei trocaram não durou mais de um se­gundo, mas não lhe passou despercebido. Então, a irmã deixou cair seu olhar sobre a mesa.

-              Isto não é nenhuma misericórdia. Estes deuses nortenhos são cruéis ao deixar que crianças passem por tamanha dor.

-              Quais foram as palavras do meistre? - Jaime perguntou.

O bacon estalou ao ser mordido. Tyrion mastigou por um momento, pensativo, e disse:

Ele pensa que se o rapaz fosse morrer, já teria acontecido. E já se passaram quatro dias sem nenhuma alteração.

Será que Bran ficará melhor, tio? - perguntou a pequena Myrcella, que tinha toda a beleza da mãe, mas nada da sua natureza,

-              Ele quebrou a coluna, minha menina - informou Tyrion. - O meistre só tem esperança

-              Tyrion mastigou mais um pouco de pão. - Eu seria capaz de jurar que é aquele seu lobo que o mantém vivo. A criatura fica junto à sua janela dia e noite uivando. E sempre que o afugentam, ele volta. O meistre disse que uma vez fecharam a janela, para abafar o barulho, e Bran pareceu ficar mais fraco. Quando voltaram a abri-la, seu coração bateu com mais força.

A rainha estremeceu.

-              Há qualquer coisa que não é natural nesses animais - disse. - São perigosos. Não quero que nenhum deles venha para o Sul conosco.

Jaime interveio:

Teremos dificuldade em impedi-los de ir, irmã. Eles seguem aquelas moças para todo lado. Tyrion atacou o peixe.

Vão então partir em breve?

-              Não será breve o suficiente - disse Cersei.

Então franziu a sobrancelha. - Não vamos par­tir? - ela disse alto. - Então, e você? Deuses, não me diga que vai ficar aqui?

Tyrion encolheu os ombros.

-              Benjen Stark regressará à Patrulha da Noite com o filho bastardo do irmão. Penso em ir com eles e ver esta Muralha de que tanto ouvimos falar.

Jaime sorriu.

-              Espero que não esteja pensando em vestir o negro, querido irmão.

Tyrion soltou uma gargalhada.

-              O quê, eu, celibatário? As prostitutas passarão a pedintes entre Dorne e Rochedo Casterly. Não, só quero subir ao topo da Muralha e mijar do limite do mundo.

Cersei se pôs abruptamente em pé.

-              As crianças não têm de ouvir esta nojeira. Tommen, Myrcella, venham - Cersei saiu da sala re estar em passo vivo, seguida pela cauda do vestido e pelas crias.

Jaime Lannister observou o irmão, pensativo, com seus frios olhos verdes,

Stark nunca consentirá em abandonar Winterfell com o filho pairando sob as sombras da morte.

Ele consentirá se Robert ordenar - disse Tyrion. - E Robert ordenará. De qualquer forma, não há nada que Lorde Eddard possa fazer pelo filho.

Poderia pôr fim ao seu tormento - disse Jaime. - Era o que eu faria se fosse meu filho. Seria um ato de misericórdia.

-              Aconselho-o que não sugira essa idéia a Lorde Eddard, meu querido irmão - disse Tyrion.

-              Ele não a receberá de bom grado.

-              Mesmo que o rapaz sobreviva, será um aleijado. Pior que um aleijado. Uma coisa grotesca. Eu preferiria uma morte boa e limpa.

Tyrion respondeu com um encolher de ombros que acentuou o modo como eram torcidos.

-              Falando em nome das coisas grotescas - disse -, permito-me discordar. A morte é terrivel­mente final, ao passo que a vida está cheia de possibilidades.

Jaime sorriu.

Você é um duendezinho perverso, não é?

Ah, sim - admitiu Tyrion. - Espero que o rapaz acorde. E vou ficar muito interessado em ouvir o que ele pode ter a dizer.

O sorriso do irmão coagulou como leite azedo.

-              Tyrion, meu querido irmão - disse ele em tom sombrio -, há momentos em que você me dá motivo para duvidar de que lado esteja.

A boca de Tyrion estava cheia de pão e de peixe. Bebeu um trago da forte cerveja preta para empurrar tudo para baixo e dirigiu a Jaime um sorriso de lobo.

-              Ora, Jaime, meu querido irmão - disse -, assim você me magoa. Bem sabe como amo minha família.

 

                   Jon

Jon subiu os degraus devagar, tentando não pensar que aquela podia ser a última vez. Fantasma caminhava em silêncio ao seu lado. Lá fora, a neve rodopiava através dos portões do rasteio, e o pátio era um lugar de barulho e caos, mas dentro das espessas paredes de pedra ainda havia calor e silêncio. Muito silêncio para o gosto de Jon.

Chegou ao patamar e ficou ali por um longo momento, com medo. Fantasma encostou o foci­nho em sua mão e Jon conseguiu coragem por causa do contato. Endireitou-se e entrou no quarto.

A Senhora Stark estava lá, junto à cama. Estivera ali, noite e dia, ao longo de quase quinze dias. Nem por um momento abandonara a cabeceira de Bran. Ordenara que as refeições lhe fossem tra­zidas, e também os banhos e uma pequena cama dura para dormir, embora se dissesse que quase não tinha dormido. Ela própria o alimentava com a mistura de mel, água e ervas que lhe susten­tava a vida. Nem uma vez deixara o quarto. Por isso Jon mantivera-se afastado.

Mas agora não havia mais tempo.

Parou à porta por um momento, com medo de falar, de se aproximar. A janela estava aberta, embaixo um lobo uivava. Fantasma o ouviu e ergueu a cabeça.

A Senhora Stark olhou para ele. Por um momento não pareceu reconhecê-lo. Por fim, pes­tanejou.

-              O que você está fazendo aqui? - perguntou numa voz estranhamente monótona e despida de emoção.

-              Vim ver Bran - Jon respondeu. - Dizer-lhe adeus,

O rosto dela não se alterou. Seus longos cabelos ruivos estavam opacos e emaranhados. Pare­ra ter envelhecido vinte anos.

-              Acabou de dizer. Agora, vá embora.

Parte dele só desejava fugir, mas sabia que se o fizesse podia nunca mais ver Bran. Deu um nervoso passo para dentro do quarto.

-              Por favor - ele pediu.

Algo frio se moveu nos olhos dela.

-              Eu disse para sair. Não o queremos aqui.

Tempos atrás, aquilo o teria posto a correr, até talvez o tivesse feito chorar. Mas agora só o neixou zangado. Seria em breve um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite, e enfrentaria peri-ps maiores que Catelyn Tully Stark.

Ele é meu irmão - disse.

Terei de chamar os guardas?

-              Chame-os - disse Jon, em desafio. - Não pode me impedir de vê-lo - atravessou o quarto, mantendo a cama entre ele e a Senhora Stark, e olhou para Bran.

Ela segurava uma das mãos do filho. Parecia uma garra. Este não era o Bran de que Jon se lembrava. A carne tinha desaparecido toda. A pele esticava-se, apertada, sobre ossos espetados. Por baixo do cobertor, as pernas dobravam-se de uma maneira que o enchia de náusea. Os olhos estavam profundamente afundados em poços negros; abertos, mas nada viam. A queda de al­gum modo o encolhera. Quase parecia uma folha, como se o primeiro vento forte o fosse levar para a tumba.

E, no entanto, sob a frágil gaiola daquelas costelas estilhaçadas, o peito subia e descia a cada respiração pouco profunda.

-              Bran - disse Jon -, lamento não ter vindo antes. Tive medo - conseguia sentir as lágrimas rolarem pelo rosto. Já não se importava. - Não morra, Bran, Por favor. Estamos todos à espera que você acorde. Robb e eu, e as meninas, todos...

A Senhora Stark observava. Não tinha gritado pelos guardas, e Jon tomou o fato por aceitação. Fora da janela, o lobo gigante voltou a uivar. O lobo a que Bran não tivera tempo de pôr um nome.

-              Tenho agora de ir embora - disse Jon. - Tio Benjen está à espera. Vou para o Norte, para a Muralha. Temos de partir hoje, antes da chegada das neves - lembrou-se de como Bran estivera excitado com a perspectiva da viagem. O pensamento de deixá-lo para trás assim era mais do que conseguia suportar. Jon limpou as lágrimas, inclinou-se e deu um beijo ligeiro nos lábios do irmão.

-              Eu quis que ele ficasse aqui comigo - disse a Senhora Stark em voz baixa.

Jon a observou, desconfiado. Ela nem sequer o olhava. Não estava falando para ele, mas para uma parte de si, era como se ele nem estivesse no quarto.

-              Rezei para que isso acontecesse - disse ela em voz baça. - Ele era o meu rapazinho especial. Fui até o septo e rezei sete vezes aos sete rostos de deus para que Ned mudasse de idéia e o deixasse aqui comigo. Por vezes as preces são respondidas.

Jon não sabia o que dizer.

A culpa não foi da senhora - conseguiu falar, depois de um silêncio incômodo. Os olhos dela o encontraram. Estavam cheios de veneno.

Não me faz falta a sua absolvição, bastardo.

Jon baixou os olhos. Ela embalava uma das mãos de Bran. Ele pegou na outra e a apertou. Dedos como ossos de pássaro.

-              Adeus - ele se despediu.

Já tinha chegado à porta quando ela o chamou.

-              Jon - ele devia ter continuado a andar, mas ela nunca antes o chamara pelo nome. Virou-se e a viu olhando-o no rosto, como se o visse pela primeira vez.

-              Sim? - ele respondeu,

-              Deveria ter sido você - ela disse, e então voltou a virar-se para Bran e começou a chorar, todo o corpo a estremecer com os soluços, Jon nunca antes a vira chorar.

Foi uma longa descida até o pátio.

Lá fora, tudo era barulho e confusão. Carregavam-se carroças, homens gritavam, eram postas armaduras e selas em cavalos que eram tirados da cavalariça. Começara a cair uma neve ligeira, e toda a gente estava mergulhada no tumulto da partida.

Robb encontrava-se no meio da confusão, gritando ordens com os melhores desses homens. Parecia ter crescido ultimamente, como se a queda de Bran e o colapso da mãe o tivessem de al­gum modo tornado mais forte. Vento Cinzento estava a seu lado.

-              Tio Benjen anda à sua procura - ele disse a Jon. - Queria ter partido há uma hora.

Eu sei - Jon respondeu. - Em breve - olhou em volta, para todo o ruído e confusão. - Par­tir é mais difícil do que eu pensava.

Para mim também - disse Robb. Tinha neve nos cabelos, que derretia com o calor do corpo. - Você o viu?

Jon fez um aceno, por não confiar na voz.

Ele não vai morrer - disse Robb. - Eu sei.

Vocês, os Stark, são difíceis de matar - concordou Jon. A voz saiu sem entoação e cansada. A visita tinha levado toda sua força.

Robb percebeu que havia algo de errado.

-              A minha mãe,..

Ela foi... muito amável - disse-lhe Jon. Robb pareceu aliviado.

Ótimo - sorriu. - Da próxima vez que o vir, estará todo de negro. Jon forçou-se a devolver o sorriso.

Sempre foi a minha cor. Daqui a quanto tempo pensa que isso acontecerá?

-              Não muito - prometeu Robb. Puxou Jon para si e lhe deu um forte abraço. - Até a vista, Snow.

Jon devolveu o abraço.

-              Até a vista, Stark. Cuide de Bran.

-              Cuidarei - afastaram-se e olharam um para o outro, embaraçados. - Tio Benjen disse para mandá-lo para os estábulos se o visse - disse Robb por fim.

-              Tenho mais uma despedida a fazer - informou Jon.

-              Então não o vi - respondeu Robb. Jon o deixou ali, na neve, rodeado de carroças, lobos e cavalos. Era uma curta caminhada até o armeiro. Recolheu seu embrulho e dirigiu-se pela ponte coberta até a Torre.

Arya estava no seu quarto, enchendo uma arca de pau-ferro polido que era maior que ela. Nymeria a ajudava. Arya só tinha de apontar, e a loba atravessava o quarto de um salto, abo­canhava algum bocado de seda e o trazia de volta. Mas quando farejou Fantasma, sentou-se e soltou um ganido.

Arya olhou para trás, viu Jon e pôs-se em pé de um salto. Atirou-lhe os braços magros com torça ao pescoço.

-              Temia que já tivesse partido - ela disse, com um nó na garganta. - Não me deixaram sair para dizer adeus.

-              O que foi que você fez agora? - a voz de Jon soava divertida. Arya o largou e fez uma careta.

-              Nada. Estava de malas feitas e tudo - indicou com um gesto a enorme arca, que não estava mais que um terço cheia, e as roupas espalhadas por todo o quarto. - Septã Mordane diz que tenho de fazer tudo outra vez. Não tinha as coisas dobradas como deve ser, uma senhora respei­tável do Sul não se limita a atirar a roupa para dentro da arca como trapos velhos, ela me disse.

-              E foi isso o que você fez, irmãzinha?

Bem, a roupa vai ficar toda bagunçada de qualquer modo - disse Arya. - Quem se importa como está dobrada?

Septã Mordane - Jon respondeu. - E também não me parece que ela goste de ver Nymeria ajudando - a loba olhou-o em silêncio com seus escuros olhos dourados. - Mas ainda bem. Te­nho uma coisa que quero que leve contigo, e tem de ser muito bem embalada.

O rosto dela iluminou-se.

Um presente?

Pode dar-lhe esse nome. Feche a porta. Desconfiada, mas excitada, Arya verificou o átrio.

-              Nymeria, aqui. Guarda - deixou a loba do lado de fora a fim de avisá-los se intrusos se aproximassem e fechou a porta. Nessa altura, Jon tinha já removido os panos em que embrulhara a coisa. Apresentou-a à irmã.

Os olhos de Arya abriram-se muito. Olhos negros, como os dele.

-              Uma espada - disse ela numa voz baixa e segredada.

A bainha era de suave couro cinzento, tão maleável como o pecado. Jon desembainhou a lâ­mina devagar, para que ela visse o profundo brilho azul do aço.

Isto não é um brinquedo - disse-lhe. - Tenha cuidado para não se cortar. O gume é sufi­cientemente afiado para fazer a barba.

Moças não fazem a barba - disse Arya.

Mas talvez devessem. Já viu as pernas da septã?

Ela riu.

É tão fininha.

-              Tal como você - disse-lhe Jon. - Mandei Mikken fazer isto especialmente para você. Os espadachins usam espadas destas em Pentos, Myr e nas outras Cidades Livres. Não arrancará a cabeça de um homem, mas pode enchê-lo de buracos se for suficientemente rápida.

-              Eu posso ser rápida - disse Arya.

-              Terá de treinar todos os dias - colocou a espada em suas mãos, mostrou-lhe como pegar e deu um passo para trás. - Como você a sente? Gosta do equilíbrio?

Acho que sim - disse Arya.

Primeira lição - disse Jon. - Espete neles a ponta aguçada.

Arya deu-lhe uma pancada no braço com a parte plana da lâmina. O golpe doeu, mas Jon começou a sorrir como um idiota.

-              Eu sei qual é a ponta que se usa - disse Arya. Um olhar de dúvida atravessou-lhe o rosto. - Septã Mordane vai tirá-la de mim.

Não, se não souber que a tem - disse Jon.

Com quem hei de treinar?

-              Há de encontrar alguém - prometeu-lhe Jon. - Porto Real é uma verdadeira cidade, mil ve­zes maior que Winterfell. Até encontrar um parceiro, observe como lutam no pátio. Corra, ande a cavalo, fortaleça-se. E, faça o que fizer...

Arya sabia o que vinha a seguir. Os dois disseram ao mesmo tempo:

... não... conte... a... Sansa!

Jon afagou-lhe os cabelos.

Vou sentir sua falta, irmãzinha. De súbito, ela pareceu quase chorar.

Queria que viesse conosco.

-              Por vezes, estradas diferentes vão dar no mesmo castelo. Quem sabe? - estava se sentindo melhor agora. Não ia permitir a si próprio ficar triste. - Tenho de ir. Acabarei passando o pri­meiro ano na Muralha a despejar penicos se deixar Tio Benjen à espera mais tempo.

Arya correu para ele para um último abraço,

-              Largue a espada primeiro - Jon a preveniu, rindo. Ela pôs a arma de lado quase timida­mente e o encheu de beijos.

Quando ele se virou, já na porta, ela estava de novo com a espada na mão, testando seu equilíbrio.

Ia me esquecendo - disse. - Todas as melhores espadas têm nomes.

Como a Gelo - disse ela. Olhou a espada que tinha na mão. - E esta, tem nome? Ah, diga-me.

Não adivinha? - brincou Jon. - A sua coisa favorita.

Arya a princípio pareceu desorientada. Mas depois compreendeu. Era assim: rápida. Os dois disseram juntos:

-              Agulha!

A memória da gargalhada dela o aqueceu ao longo da demorada viagem para o Norte.

 

                   Daenerys

Targaryen desposou Khal Drogo com medo, e um esplendor bárbaro, num descampado para lá das muralhas de Pentos, pois os dothrakis acreditavam que todas as coisas importantes na vida de um homem deviam ser feitas a céu aberto.

Drogo chamou seu khalasar para servi-lo e eles vieram, quarenta mil guerreiros dothrakis e um número incontável de mulheres, crianças e escravos. Acamparam fora das muralhas da cidade com suas vastas manadas de gado, erguendo palácios de erva trançada, comendo tudo o que en­contravam e tornando o bom povo de Pentos mais ansioso a cada dia que passava,

Meus colegas magísteres duplicaram o tamanho da guarda da cidade - informou Illyrio cer­ta noite na mansão que pertencera a Drogo, entre bandejas de pato com mel e laranjas-pimenta. O khal juntara-se a seu khalasar, e sua propriedade fora oferecida a Daenerys e ao irmão até o casamento.

É melhor que casemos depressa a Princesa Daenerys, antes que entreguem metade da ri­queza de Pentos a mercenários e sicários - brincou Sor Jorah Mormont. O exilado pusera a espada a serviço do irmão de Dany na noite em que fora vendida a Khal Drogo; Viserys aceitara-a com avidez. Mormont tornara-se desde então uma companhia constante.

Magíster Illyrio soltou uma ligeira gargalhada através da barba bifurcada, mas Viserys nem sequer sorriu.

-              Pode tê-la amanhã, se assim desejar - disse o príncipe. Olhou de relance para Dany e ela abaixou os olhos. - Desde que pague o preço.

Illyrio ergueu uma mão lânguida, fazendo cintilar anéis nos seus gordos dedos,

Já lhe disse, tudo está acertado. Confie em mim. O khal lhe prometeu uma coroa, e a terá.

Sim, mas quando?

No momento que o khal escolher - Illyrio respondeu. - Ele terá primeiro a donzela, e de­pois do casamento terá de fazer sua procissão pela planície para apresentá-la a dosh khaleen em Vaes Dothrak. Talvez depois disso. Se os presságios favorecerem a guerra.

Viserys fervilhou de impaciência.

-              Eu cago nos presságios dothrakis. O Usurpador está sentado no trono de meu pai. Quanto tempo terei de esperar?

Illyrio encolheu os enormes ombros.

-              Já esperou a maior parte da vida, grande rei. Que são mais alguns meses, mais alguns anos? Sor Jorah, que viajara para o leste até Vaes Dothrak, concordou com um aceno.

-              Aconselho-o a ser paciente, Vossa Graça. Os dothrakis cumprem com a palavra dada, mas fazem as coisas ao seu próprio ritmo. Um homem inferior pode suplicar um favor ao khal, mas nunca deve ter a presunção de censurá-lo.

Viserys eriçou-se.

- Cuidado com a língua, Mormont, ou ainda acabará por ficar sem ela. Não sou nenhum homem inferior, sou o Senhor de direito dos Sete Reinos. O dragão não suplica.

Sor Jorah baixou respeitosamente os olhos. Illyrio deu um sorriso enigmático e arrancou uma asa do pato. Mel e gordura escorreram-lhe pelos dedos e pingaram-lhe na barba quando mor­discou a carne tenra. Já não há dragões, pensou Dany, de olhos fixos no irmão, embora não se atrevesse a dizê-lo em voz alta.

Apesar disso, naquela noite sonhara com um. Viserys batia nela, a machucava. Ela estava nua, atrapalhada de medo. Fugiu dele, mas o corpo parecia pesado e desajeitado. Ele bateu nela de novo. Ela tropeçou e caiu. "Você acordou o dragão", gritava ele enquanto lhe dava pontapés. Acordou o dragão, acordou o dragão." Tinha as coxas escorregadias de sangue. Fechou os olhos e choramingou. Como que em resposta, ouviu-se um hediondo som de rasgar e o estalar de um grande fogo. Quando voltou a olhar, Viserys tinha desaparecido, grandes colunas de chamas trguiam-se por toda a parte e, no meio delas, estava o dragão. Virou lentamente a grande cabeça, guando os olhos fundidos do animal encontraram os dela, acordou, tremendo e coberta por uma fina película de suor. Nunca tivera tanto medo...

... Até o dia em que seu casamento por fim chegou.

A cerimônia iniciou-se de madrugada e prosseguiu até o crepúsculo, um dia que parecia não ter fim de bebida, comida e luta. Um monumental talude de terra fora erguido entre os palácios de erva e Dany foi colocada ali sentada, ao lado de Khal Drogo, sobre o fervente mar de dothrakis. Nunca vira tantas pessoas no mesmo lugar, nem pessoas tão estranhas e assustadoras. Os senho­res dos cavalos podiam vestir tecidos ricos e usar doces perfumes quando visitavam as Cidades Livres, mas a céu aberto mantinham os velhos costumes. Tanto os homens quanto as mulheres trajavam vestimentas de couro pintado sobre os peitos nus e polainas de pelo de cavalo cilhadas por cintos com medalhões de bronze, e os guerreiros untavam suas longas tranças com gordura que tiravam de fossas abertas. Empanturravam-se de carne de cavalo assada com mel e pimentões, bebiam leite fermentado de égua e os vinhos delicados de Illyrio até cair e cuspiam ditos de espírito uns aos outros, por cima das fogueiras, com vozes ásperas e estranhas aos ouvidos de Dany.

Viserys estava sentado logo abaixo dela, magnífico numa túnica nova de lã negra com um oragão escarlate no peito. Illyrio e Sor Jorah sentavam-se ao seu lado. Era deles o lugar de maior honra, logo abaixo dos companheiros de sangue do khal, mas Dany percebia a ira nos olhos lilás do irmão. Não gostava de estar sentado abaixo dela, e exasperava-se sempre que os escravos ofere­ciam os pratos primeiro ao khal e à noiva, e lhe davam para escolher entre as porções que eles recusavam. Nada podia fazer além de embalar o ressentimento, e foi isso que fez, com o humor a tornar-se mais negro com o passar das horas e dos insultos à sua pessoa.

Dany nunca se sentira tão só como enquanto esteve sentada no meio daquela vasta horda. Seu irmão lhe dissera para sorrir, e portanto sorriu até lhe doer o rosto e as lágrimas lhe subirem ros olhos sem serem convidadas. Fez o melhor que pôde para escondê-las, sabendo como Viserys ficaria zangado se a visse a chorar, aterrorizado com a possível reação de Khal Drogo. Era-lhe trazida comida, peças fumegantes de carne, grossas salsichas negras, tortas dothraki de sangue, e mais tarde frutos, guisados de erva-doce e delicadas tortas doces vindas das cozinhas de Pentos, mas afastou tudo com gestos. Seu estômago dava voltas e sabia que não conseguiria manter nele qualquer alimento.

Não havia ninguém com quem falar. Khal Drogo gritava ordens e brincadeiras aos compa­nheiros de sangue, e ria de suas respostas, mas quase não olhava para o seu lado. Não tinham nenhuma língua em comum. O dothraki era incompreensível para ela, e o khal sabia apenas al­gumas palavras do valiriano adulterado das Cidades Livres, e nem uma única do Idioma Comum dos Sete Reinos. Ela até teria acolhido bem a conversa de Illyrio e do irmão, mas estavam dema­siado afastados para ouvi-la.

E assim ali ficou, sentada em suas sedas nupciais, embalando uma taça de vinho com mel, com medo de comer, falando em silêncio consigo mesma. Sou do sangue do dragão, disse a si pró­pria. Sou Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa da Pedra do Dragão, do sangue e semente de Aegon, o Conquistador.

O sol estava apenas no primeiro quarto do céu quando viu o primeiro homem morrer. Soa­vam tambores acompanhando algumas das mulheres que dançavam para o khal. Drogo assistia sem expressão, mas seus olhos seguiam-lhes os movimentos e, de vez em quando, atirava-lhes um medalhão de bronze para que elas o disputassem.

Os guerreiros também assistiam. Por fim, um deles entrou no círculo, agarrou uma dançarina pelo braço, atirou-a no chão e montou-a ali mesmo, como um garanhão monta uma égua. Illyrio dissera-lhe que aquilo poderia acontecer. "Os dothrakis acasalam como os animais de suas mana­das. Não há privacidade num khalasar, e eles não compreendem o pecado ou a vergonha como nós."

Dany afastou o olhar da união, assustada ao compreender o que estava acontecendo, mas um segundo guerreiro avançou, e um terceiro, e em breve não havia maneira de desviar os olhos. En­tão dois homens agarraram a mesma mulher. Ouviu um grito, viu um empurrão, e num piscar de olhos tinham sido empunhados os arakhs, longas lâminas afiadas como navalhas, meio espadas, meio foices. Começou uma dança de morte, e os guerreiros andaram em círculos, dando golpes, saltando um sobre o outro, fazendo rodopiar as lâminas sobre as cabeças, guinchando insultos a cada entrechocar de metal. Ninguém fez um gesto para interferir.

Acabou tão depressa como começou. Os arakhs estremeceram um contra o outro mais de­pressa do que Dany conseguia acompanhar, um dos homens falhou um passo, o outro brandiu a lâmina num arco horizontal. O aço mordeu a pele acima da cintura do dothraki e o abriu da es­pinha ao umbigo, derramando-lhe as entranhas na poeira. Enquanto o perdedor morria, o vence­dor agarrou-se à mulher mais próxima - nem sequer aquela por quem tinha lutado - e a possuiu ali mesmo. Escravos levaram o corpo para longe e a dança recomeçou.

Magíster Illyrio também prevenira Dany sobre aquilo. "Uma boda dothraki sem pelo menos três mortes é considerada aborrecida" dissera. O casamento dela devia ter sido especialmente aben­çoado; antes de o dia terminar, tinha morrido uma dúzia de homens.

A medida que as horas foram passando, o terror cresceu em Dany, até que se transformou em tudo o que a impedia de gritar. Tinha medo dos dothrakis, cujos modos pareciam estranhos e monstruosos, como se fossem animais em pele humana, e não verdadeiros homens. Tinha medo do irmão, do que ele poderia fazer se ela lhe falhasse. Acima de tudo, tinha medo do que poderia acontecer naquela noite, sob as estrelas, quando o irmão a desse ao pesado gigante que bebia a seu lado, com um rosto tão imóvel e cruel como uma máscara de bronze.

Sou do sangue do dragão, disse de novo a si mesma.

Quando o sol por fim baixou no céu, Khal Drogo bateu palmas, e os tambores, os gritos e o festim chegaram a um súbito fim. Drogo ergueu-se e pôs Dany de pé a seu lado. Tinha chegado o tempo dos seus presentes de noiva.

E ela sabia que depois dos presentes, depois do sol desaparecido no horizonte, chegaria o momento da primeira cavalgada e da consumação do casamento. Dany tentou afastar esse pensa­mento, mas ele não a abandonava. Apertou os braços contra o corpo, tentando evitar tremer.

O irmão Viserys ofereceu-lhe três aias. Dany sabia que nada lhe tinham custado, que sem dú­vida fora Illyrio quem tinha oferecido as mulheres. Irri e Jhiqui eram dothrakis de pele acobreada, cabelos negros e olhos amendoados, Doreah era uma jovem lysena de cabelos claros e olhos azuis.

-              Estas não são criadas comuns, minha doce irmã - disse-lhe o irmão enquanto as traziam uma por uma. - Illyrio e eu as selecionamos pessoalmente para você. Irri a ensinará a montar, Jhiqui a treinará na língua dothraki e Doreah a instruirá nas artes femininas do amor - ele deu um tênue sorriso. - É muito boa. Tanto Illyrio como eu podemos jurar.

Sor Jorah Mormont desculpou-se pelo presente.

-              É coisa pouca, minha princesa, mas é tudo aquilo de que um pobre exilado pode dispor

-              disse, ao pôr-lhe à frente uma pequena pilha de velhos livros. Viu que eram canções e histórias dos Sete Reinos, escritas no Idioma Comum. Agradeceu-lhe de todo o coração.

Magíster Illyrio murmurou uma ordem e quatro corpulentos escravos apressaram-se a avan­çar, trazendo entre eles uma grande arca de cedro com aplicações em bronze. Quando a abriu, en­controu pilhas dos mais finos veludos e damascos que as Cidades Livres podiam produzir... e, em cima de tudo, aninhados nos suaves panos, três enormes ovos. Dany ofegou. Eram as coisas mais belas que já vira, diferentes uns dos outros, com padrões de cores tão ricas que ela a princípio pensou que estivessem incrustados de jóias, e tão grandes que precisava de ambas as mãos para pegar num. Ergueu um delicadamente, à espera de encontrá-lo feito de algum tipo de fina por­celana ou delicado esmalte, ou até de vidro soprado, mas era muito mais pesado do que julgara, como se todo ele fosse rocha sólida. A superfície da casca estava coberta de minúsculas escamas, e quando rodou o ovo entre os dedos elas cintilaram como metal polido à luz do sol poente. Um ovo era de um verde profundo, com manchas de lustroso bronze que iam e vinham, dependendo do modo como Dany o virava. Outro era creme-claro listrado de dourado. O último era negro, tão negro como o mar da meia-noite, mas vivo, com ondulações e remoinhos escarlates.

O que são? - perguntou, com a voz baixa e maravilhada.

Ovos de dragão, vindos das Terras das Sombras para lá de Asshai - disse Magíster Illyrio.

— As eras os transformaram em pedra, mas ainda possuem uma beleza ardente e brilhante.

-              Serão preciosos a mim para sempre - Dany ouvira histórias sobre aqueles ovos, mas nunca vira nenhum, nem pensara chegar a vê-los. Era um presente realmente magnífico, se bem que ela soubesse que Illyrio tinha possibilidade de ser generoso. Ganhara uma fortuna em cavalos e escravos pelo papel que desempenhara na sua venda a Khal Drogo.

Os companheiros de sangue do khal ofereceram-lhe as três armas tradicionais, e que estu­pendas armas eram. Haggo deu-lhe um grande chicote de couro com cabo de prata; Cohollo, um magnífico arakh com relevos em ouro; e Qotho, um arco de dupla curvatura, feito de osso de uragão, mais alto que ela. Magíster Illyrio e Sor Jorah tinham-lhe ensinado a recusa tradicional daquelas oferendas.

-              Este é um presente digno de um grande guerreiro, ah, sangue do meu sangue, e eu não passo de uma mulher. Que o senhor meu marido o use em meu nome - e assim Khal Drogo também recebeu os seus "presentes de noiva".

Dany ainda ganhou uma profusão de outros presentes, oferecidos por outros dothrakis: chi­nelos, jóias e anéis de prata para o cabelo, cintos de medalhão, vestes pintadas e peles suaves, tecidos de sedareia e potes de perfume, agulhas, penas e minúsculas garrafas de vidro púrpuro, e um vestido feito da pele de mil ratos.

-              Um belo presente, khaleesi - disse Magíster Illyrio deste último, depois de lhe dizer o que era. - Muito afortunado.

Os presentes amontoavam-se em seu redor em grandes pilhas, mais presentes do que poderia imaginar, desejar ou usar.

E, no fim de tudo, Khal Drogo trouxe-lhe o seu próprio presente de noiva. Um silêncio de expectativa se alastrou a partir do centro do acampamento quando ele saiu do lado dela, cres­cendo até engolir todo o kbalasar, Quando regressou, a densa multidão de ofertantes abriu-se à sua frente, e ele levou o cavalo até ela.

Era uma potranca jovem, espirituosa e magnífica. Dany sabia apenas o suficiente sobre cava­los para reconhecer que aquele não era um animal vulgar. Havia algo nela que cortava a respira­ção. Era cinzenta como o mar de inverno, com uma crina que parecia fumo prateado.

Hesitante, estendeu a mão e afagou o pescoço do cavalo, fazendo correr os dedos pelo prateado da crina. Khal Drogo disse qualquer coisa em dothraki e Magíster Illyrio traduziu.

Prata para o prateado de vossos cabelos, disse o khal.

É belíssima - murmurou Dany.

-              É o orgulho do khalasar - disse Illyrio. - O costume decreta que a khaleesi deve conduzir uma montaria digna de seu lugar ao lado do khal.

Drogo avançou e pôs-lhe as mãos na cintura. Levantou-a com tanta facilidade como se fosse uma criança e a pousou sobre a fina sela dothraki, muito menor do que aquelas a que estava acostumada. Dany ficou ali sentada, por um momento, incerta. Ninguém lhe falara daquela parte.

O que devo fazer? - perguntou a Illyrio.

Foi Sor Jorah Mormont quem respondeu.

Pegue nas rédeas e cavalgue. Não precisa ir longe.

Nervosa, juntou as rédeas nas mãos e fez deslizar os pés para os pequenos estribos. Não pas­sava de uma cavaleira razoável; passara muito mais tempo viajando em navios, carroças e liteiras do que sobre o dorso de cavalos. Rezando para não cair e envergonhar-se, deu à potranca o mais tímido dos toques com os joelhos.

E pela primeira vez nas últimas horas esqueceu-se de ter medo. Ou talvez pela primeira vez desde sempre.

A potranca cinzenta prateada avançou com um porte suave e sedoso, enquanto a multidão abria alas para deixá-la passar, com todos os olhos postos nelas. Dany deu por si avançando mais depressa do que tencionara, mas isso, de algum modo, era excitante, em vez de aterrador. O ca­valo pôs-se a trote e ela sorriu. Os dothrakis precipitavam-se para abrir caminho. A mais ligeira pressão com as pernas, ao menor toque de rédeas, a égua respondia. Dany a colocara a galope, e agora os dothrakis assobiavam, gargalhavam e gritavam-lhe enquanto saltavam para longe do seu caminho. Quando virou para regressar, uma cova de fogueira surgiu-lhe à frente, diretamente em seu caminho. Estavam cercadas de ambos os lados, sem espaço para parar. Uma coragem que nunca conhecera encheu então Daenerys e ela deu liberdade à potranca.

O cavalo prateado saltou sobre as chamas como se tivesse asas.

Quando refreou o animal junto a Magíster Illyrio, disse:

-              Diga a Khal Drogo que me ofereceu o vento - o gordo pentoshi repetiu as palavras em dothraki enquanto afagava a barba amarela, e Dany viu o novo marido sorrir pela primeira vez.

A última fatia de sol desapareceu por trás das grandes muralhas de Pentos, para oeste. Dany perdera por completo a noção das horas. Khal Drogo ordenou aos companheiros de sangue para lhe trazerem o cavalo, um esguio garanhão vermelho. Enquanto o khal selava o cavalo, Viserys esgueirou-se até junto de Dany, enterrou os dedos em sua perna e disse:

-              Dê-lhe prazer, minha doce irmã, senão juro que verá o dragão acordar como nunca acor­dou antes.

O medo regressou com as palavras do irmão. Sentiu-se de novo uma criança, apenas com reze anos e completamente só, mal preparada para o que estava prestes a lhe acontecer.

Cavalgaram juntos sob as estrelas que surgiam, deixando para trás o khalasar e os palácios de erva. Khal Drogo não lhe dirigiu uma palavra, mas fez o garanhão atravessar a penumbra que se aprofundava num trote duro. As minúsculas campainhas de prata na longa trança ressoavam baixinho enquanto cavalgava.

-              Sou do sangue do dragão - murmurou ela enquanto o seguia, tentando manter a coragem. Sou do sangue do dragão. Sou do sangue do dragão - o dragão nunca tinha medo.

Mais tarde não soube dizer até que distância ou durante quanto tempo cavalgaram, mas a noite tinha já caído por completo quando pararam num gramado junto a um pequeno riacho. Drogo saltou do cavalo e a tirou do dela. Sentiu-se frágil como vidro nas mãos dele, com membros tão fracos como a água. Ficou ali, desamparada e tremendo sob as sedas nupciais enquanto ele prendia os cavalos. Quando Drogo se virou para olhá-la, ela começou a chorar. Khal Drogo ficou olhando as lágrimas, com o rosto estranhamente vazio de emoção.

Não - disse. Ergueu uma mão e limpou rudemente as lágrimas com um polegar calejado.

Fala o Idioma Comum - disse Dany, espantada.

Não - disse ele de novo.

Talvez soubesse apenas aquela palavra, pensou ela, mas era uma palavra, mais do que podia Kipor, e de algum modo a fez sentir-se um pouco melhor. Drogo tocou-lhe levemente os cabelos, fazendo deslizar as madeixas louras prateadas entre os dedos e murmurando suavemente em dothraki. Dany não compreendeu as palavras, mas havia calor na entoação, uma ternura que nunca esperara daquele homem.

Pôs um dedo sob seu queixo e ergueu-lhe a cabeça, para que ela o olhasse nos olhos. Drogo erguia-se acima dela como se erguia acima de toda a gente. Pegando-a agilmente por baixo dos braços, ergueu-a e sentou-a numa rocha arredondada ao lado do riacho. Depois, sentou-se no chão na frente dela, de pernas cruzadas sob o corpo, com os rostos por fim ao mesmo nível.

Não - disse ele.

Esta é a única palavra que conhece? - ela perguntou.

Drogo não respondeu. Sua longa e pesada trança estava enrolada na terra ao seu lado. Puxou-a por sobre o ombro direito e começou a remover as campainhas do cabelo, uma a uma. Depois de um momento, Dany inclinou-se para a frente para ajudar. Quando terminaram, Drogo fez um gesto. Ela compreendeu. Devagar, com cuidado, começou a desfazer-lhe a trança.

Levou muito tempo. E durante todo o tempo, ele ficou ali sentado em silêncio, observando-a. Quando acabou, ele abanou a cabeça e o cabelo espalhou-se pelas costas como um rio de escuridão, oleoso e cintilante. Nunca vira cabelos tão longos, tão negros, tão espessos.

Depois foi a vez dele. Começou a despi-la.

Seus dedos eram hábeis e estranhamente ternos. Removeu-lhe as sedas, uma por uma, com cuidado, enquanto Dany permanecia sentada, imóvel, silenciosa, a olhá-lo nos olhos. Quando desnudou seus pequenos seios, não conseguiu evitá-lo. Desviou o olhar e cobriu-se com as mãos.

-              Não - disse Drogo. Puxou-lhe as mãos para longe dos seios, com gentileza, mas firme­mente, e depois ergueu-lhe de novo o rosto para fazer com que o olhasse. - Não - ele repetiu.

-              Não - ela ecoou.

Então, ele a pôs de pé e a puxou, a fim de remover a última de suas sedas. Sentia o ar noturno frio na pele nua. Estremeceu, e um arrepio cobriu-lhe os braços e as pernas. Temia o que viria a seguir, mas durante algum tempo nada aconteceu. Drogo ficou sentado de pernas cruzadas, olhando-a, bebendo-lhe o corpo com os olhos.

Um pouco mais tarde, começou a tocá-la. A princípio ligeiramente, depois com mais força. Ela sentia o feroz poder de suas mãos, mas ele nunca chegou a machucá-la. Segurou uma mão na dele e afagou-lhe os dedos um a um. Correu-lhe a mão suavemente pela perna. Afagou-lhe o ros­to, delineando a curva de suas orelhas, percorrendo-lhe a boca gentilmente com o dedo. Tomou--lhe os cabelos com ambas as mãos e os penteou com os dedos. Virou-a de costas, massageou-lhe os ombros, deslizou o nó do dedo ao longo da coluna.

Pareceu que se passaram horas antes que as mãos dele se dirigissem por fim aos seus seios. Afagou a suave pele da base até deixá-la num torpor. Rodeou os mamilos com os polegares, beliscou-os entre o polegar e o indicador, depois começou a puxá-los, muito levemente a princí­pio, depois com maior insistência, até que enrijeceram e começaram a doer.

Então parou, e puxou-a para o seu colo. Dany estava corada e sem fôlego, com o coração a pal­pitar no peito. Ele envolveu seu rosto nas mãos enormes e ela o olhou nos olhos.

Não? - disse ele, e ela soube que era uma pergunta. Tomou-lhe a mão e a dirigiu para a umidade entre as coxas.

Sim - sussurrou ao introduzir o dedo dele dentro de si.

 

                   Eddard

A convocatória chegou na hora que precede a alvorada, quando o mundo estava quieto e cinzento. Alyn arrancou-o rudemente dos sonhos com um abanão, e Ned cambaleou para o frio da madrugada, tonto de sono, indo encontrar seu cavalo selado e o rei já montado. Robert vestia grossas luvas castanhas e um pesado manto de peles com um capuz que lhe cobria as orelhas, e estava igualzinho a um urso sentado em cima de um cavalo.

De pé, Stark! - rugiu. - De pé, de pé! Temos assuntos de Estado a tratar.

Com certeza - disse Ned. - Entre, Vossa Graça - Alyn ergueu a aba da tenda.

Não, não, não - disse Robert. Saía-lhe vapor da boca a cada palavra. - O acampamento está cheio de ouvidos. Além disso, quero afastar-me e saborear este seu país - Ned viu que Sor Borós e Sor Meryn esperavam atrás dele com uma dúzia de guardas. Nada havia a fazer a não ser esfregar o sono para longe dos olhos, vestir-se e montar.

Robert marcou o passo, puxando com seu enorme cavalo de batalha negro, enquanto Ned galopava ao seu lado, tentando acompanhá-lo. Gritou uma pergunta enquanto cavalgavam, mas o vento levou suas palavras para longe e o rei não o ouviu. Depois disso, Ned seguiu em silêncio. Em breve abandonavam a estrada do rei e avançavam por planícies onduladas escuras de névoa. A essa altura, a guarda tinha ficado uma pequena distância para trás, suficiente para não ouvi-los, mas mesmo assim Robert não abrandava.

A alvorada chegou quando subiam ao cume de uma pequena elevação, e o rei finalmente pa­rou. Nessa altura, estavam várias milhas ao sul do grupo principal. Robert estava corado e animado quando Ned puxou as rédeas do cavalo a seu lado.

-              Deuses - o rei praguejou, rindo -, faz bem sair e cavalgar como é suposto que um homem raça! Juro, Ned, este rastejar por aí é o suficiente para deixar um homem louco - Robert Barameon nunca fora um homem paciente. - Aquela maldita casa rolante, o modo como range e geme, subindo cada aclive na estrada como se fosse uma montanha... prometo-lhe que, se aquela miserável coisa partir mais algum eixo, queimo-a, e Cersei que ande!

Ned soltou uma gargalhada.

De bom grado acenderei a tocha por Vossa Graça.

Bom homem! - o rei deu-lhe uma palmada no ombro. - Parte de mim quer deixá-los todos para trás e simplesmente continuar a andar.

Um sorriso tocou os lábios de Ned.

E acho que fala a sério.

Falo, falo - disse o rei. - Que lhe parece, Ned? Só você e eu, dois cavaleiros vagabundos na estrada do rei, com as espadas ao nosso lado e só os deuses sabem o que à nossa frente, e talvez uma filha de lavrador ou uma rapariga de taberna para nos aquecer a cama esta noite.

Gostaria que fosse possível - disse Ned -, mas agora temos deveres, meu suserano... para com o reino, para com nossos filhos, eu para com a senhora minha esposa e vós para com a vossa rainha. Não somos os rapazes que fomos.

Você nunca foi um rapaz - resmungou Robert. - Maior é pena. E, no entanto, houve aquela ocasião... Como se chamava aquela plebeia que teve? Becca? Não, essa foi uma das minhas, que os deuses a adorem, de cabelos negros e aqueles doces olhos grandes, podia-se afogar neles. A sua chamava-se... Aleena? Não. Você me disse uma vez. Seria Merryl? Sabe a quem me refiro, a mãe do seu bastardo.

O nome era Wylla - respondeu Ned com fria cortesia -, e eu prefiro não falar dela.

Wylla. Sim - o rei sorriu. - Devia ser uma mulher incomum, pois foi capaz de fazer Lor­de Eddard Stark se esquecer de sua honra, ainda que por uma hora. Nunca me falou do seu aspecto...

A boca de Ned apertou-se em ira.

Nem o farei. Deixe este assunto, Robert, pelo amor que diz ter por mim. Desonrei-me e desonrei Catelyn, aos olhos dos deuses e dos homens.

Que os deuses sejam louvados, quase nem conhecia Catelyn.

Tinha-a tomado por esposa. Ela esperava meu filho.

É demasiado duro consigo, Ned. Sempre foi. Que diabo, nenhuma mulher quer ter na cama Baelor, o Bem-Aventurado - deu uma palmada no joelho. - Bem, não falarei mais no assunto se guarda sentimentos tão fortes a esse respeito, se bem que, juro, por vezes é tão espinhoso que devia adotar o ouriço como selo.

O sol nascente lançava dedos de luz através das pálidas neblinas brancas da alvorada. Uma larga planície estendia-se abaixo deles, nua e castanha, com a planura interrompida aqui e ali por longos outeiros baixos. Ned indicou-os ao seu rei.

As elevações tumulares dos Primeiros Homens. Robert franziu a sobrancelha.

Viemos dar em um cemitério?

No Norte há elevações tumulares por todo o lado, Vossa Graça - Ned informou. - Esta terra é antiga,

E fria - resmungou Robert, apertando melhor o manto em redor do corpo. A guarda tinha parado bem atrás deles, na base da elevação. - Bem, não o trouxe aqui para falar de sepulturas ou discutir sobre o seu bastardo. Chegou um mensageiro durante a noite com uma mensagem de Lorde Varys em Porto Real. Tome - o rei tirou um papel do cinto e o entregou a Ned.

Varys, o eunuco, era o mestre dos segredos do rei. Servia agora Robert da mesma forma que servira antes Aerys Targaryen, Ned desenrolou o papel, agitado, pensando em Lysa e sua terrível acusação, mas a mensagem não dizia respeito à Senhora Arryn.

Qual é a fonte desta informação?

Lembra-se de Sor Jorah Mormont?

Gostaria de poder esquecê-lo - disse Ned sem cerimônia. Os Mormont da Ilha dos Ursos eram uma Casa antiga, orgulhosa e honrosa, mas suas terras eram frias, distantes e pobres. Sor Jorah tentara encher os cofres da família vendendo alguns caçadores furtivos a um negociante de escravos tyroshi. Como os Mormont eram vassalos dos Stark, seu crime tinha desonrado o Norte. Ned fizera a longa viagem para o oeste até a Ilha dos Ursos só para descobrir, ao chegar, que Jorah havia zarpado, escapando do alcance de Gelo e da justiça do rei. Desde então tinham se passado cinco anos.

Sor Jorah está agora em Pentos, ansioso por ganhar um perdão real que lhe permita regres­sar do exílio - explicou Robert. - Lorde Varys faz bom uso dele.

Então o negociante de escravos transformou-se em espião - disse Ned com antipatia. De­volveu a carta ao rei. - Preferia que tivesse se transformado em cadáver.

Varys me disse que os espiões são mais úteis que os cadáveres - disse Robert. - Jorah à pane, que acha do relatório?

A Daenerys Targaryen desposou um senhor dos cavalos dothraki qualquer. E então? Devemos enviar-lhe um presente de casamento?

O rei franziu a sobrancelha.

-              Talvez uma faca. Uma boa faca afiada e um bom homem para manejá-la.

Ned não fingiu surpresa; o ódio de Robert pelos Targaryen era nele uma loucura. Lembra­m-se das palavras iradas que tinham trocado quando Tywin Lannister presenteara Robert com os cadáveres da esposa e dos filhos de Rhaegar em sinal de fidelidade. Ned chamara àquilo assas­sinato; Robert chamara-lhe guerra. Quando protestara que o jovem príncipe e a jovem princesa não eram mais que bebês, o recém-coroado rei respondera: "Não vejo bebês. Somente filho­tes de dragão". Nem mesmo Jon Arryn fora capaz de acalmar essa tempestade. Eddard Stark cavalgara para longe nesse mesmo dia, a fim de lutar sozinho as últimas batalhas da guerra no Sul. Fora preciso outra morte para reconciliá-los, a de Lyanna, e a dor que partilharam com o seu falecimento.

Desta vez, Ned resolveu dominar o gênio.

-              Vossa Graça, a moça é pouco mais que uma criança. Não é Vossa Graça um Tywin Lanniszer para chacinar inocentes - dizia-se que a filha de Rhaegar chorava quando a arrastaram de debaixo da cama para enfrentar as espadas. O rapaz não era mais que um bebê de peito, mas os soldados de Lorde Tywin arrancaram-no dos braços da mãe e esmagaram-lhe a cabeça contra uma parede.

E quanto tempo esta jovem permanecerá inocente? - a boca de Robert endureceu. - Esta criança irá em breve abrir as pernas e começar a parir mais filhotes de dragão para me atormentar.

Seja como for - disse Ned -, o assassinato de crianças... seria vil... inqualificável...

Inqualificável? - rugiu o rei. - O que Aerys fez ao seu irmão Brandon foi inqualificável. O modo como o senhor seu pai morreu, isso foi inqualificável. E Rhaegar... quantas vezes acha que ele violou sua irmã? Quantas centenas de vezes? - sua voz tornara-se tão alta que o cavalo que montava relinchou nervosamente. O rei puxou as rédeas com força, sossegando o animal, e apontou um dedo irado para Ned. - Matarei cada Targaryen em que puser as mãos até estarem tão mortos como os seus dragões, e então mijarei em suas tumbas.

Ned sabia que não era boa idéia desafiá-lo quando estava sob o domínio da ira. Se os anos não tinham amenizado a sede de vingança de Robert, nenhuma palavra sua poderia ajudar.

-              Mas não pode pôr as mãos nesta, está bem? - disse ele em voz calma. A boca do rei retorceu-se num trejeito amargo.

-              Não, malditos sejam os deuses. Um pustulento queijeiro pentoshi qualquer mantém, ela e o irmão, fechados em sua propriedade com eunucos de chapéus bicudos por todo o lado, e agora os entregou aos dothrakis. Devia ter mandado matá-los há anos, quando era fácil chegar até eles, mu Jon era tão mau como você. Maior tolo fui eu, por lhe dar ouvidos.

-              Jon Arryn era um homem sensato e uma boa Mão.

Robert resfolegou. A ira o estava deixando tão subitamente como tinha chegado.

-              Diz-se que este Khal Drogo tem cem mil homens em sua horda. O que diria Jon a isso?

-              Diria que mesmo um milhão de dothrakis não são ameaça para o reino desde que fiquem do outro lado do mar estreito - replicou Ned com calma. - Os bárbaros não têm navios. Odeiam e temem o mar aberto.

O rei moveu-se desconfortavelmente na sela.

Talvez. Mas podem obter navios nas Cidades Livres. Digo-lhe, Ned, este casamento não me agrada. Ainda há nos Sete Reinos quem me chame Usurpador. Esqueceu-se de quantas casas lutaram pelos Targaryen durante a guerra? Por enquanto esperam a sua hora, mas dê-lhes meia hipótese e me assassinarão no leito, e a meus filhos também. Se o rei pedinte atravessar o mar com uma horda dothraki atrás dele, os traidores a ele se juntarão.

Não atravessará - prometeu Ned. - E, se por algum azar atravessar, nós o atiraremos de volta ao mar. Uma vez escolhido um novo Guardião do Leste...

O rei soltou um gemido.

-              Pela última vez, não nomearei Guardião o rapaz Arryn. Sei que o rapaz é seu sobrinho, mas com os Targaryen usufruindo a cama dos dothrakis seria louco se deixasse um quarto do reino nas mãos de uma criança enfermiça.

Ned estava preparado para aquilo.

-              E, no entanto, ainda precisamos de um Guardião do Leste. Se Robert Arryn não serve, no­meie um dos seus irmãos. Stannis decerto provou seu valor no cerco à Ponta Tempestade.

Deixou o nome pairar por um momento. O rei franziu a testa e nada disse. Parecia descon­fortável.

-              Isto é - terminou Ned em voz baixa, observando -, a não ser que já tenha prometido a posição a outra pessoa.

Por um momento Robert teve a elegância de parecer surpreso. Quase no mesmo momento, o olhar passou a denotar aborrecimento.

E se o fiz?

É Jaime Lannister, não é?

Robert pôs de novo o cavalo em movimento com os calcanhares e desceu a colina em direção aos outeiros. Ned o acompanhou. O rei prosseguiu a cavalgada, com os olhos fixos em frente.

Sim - disse por fim. Uma única palavra dura para pôr uma pedra sobre o assunto.

O Regicida - retrucou Ned. Então os rumores eram verdadeiros. Sabia que trilhava agora terreno perigoso. - Um homem apto e corajoso, sem dúvida - disse com cuidado -, mas seu pai é Guardião do Oeste, Robert. A seu tempo Sor Jaime irá sucedê-lo neste título. Nenhum homem deve defender tanto o leste como o oeste - deixou de dizer sua real preocupação; que a nomeação iria pôr metade dos exércitos do reino nas mãos dos Lannister.

Tratarei dessa luta quando o inimigo aparecer no campo de batalha - disse o rei teimosa­mente. - De momento, Lorde Tywin paira eterno sobre Rochedo Casterly; portanto, duvido que Jaime lhe suceda em breve. Não me aborreça com isto, Ned, a pedra foi colocada.

Vossa Graça, posso falar com franqueza?

Pareço ser incapaz de te impedir - resmungou Robert. Cavalgavam através do mato alto e castanho.

Pode mesmo confiar em Jaime Lannister?

É irmão gêmeo de minha mulher, um Irmão Juramentado da Guarda Real, com a vida, a fortuna e a honra sujeitas às minhas.

Tal como estavam sujeitas às de Aerys Targaryen - Ned ressaltou.

-              Por que hei de desconfiar dele? Fez tudo o que lhe pedi. Sua espada ajudou a conquistar o trono em que me sento.

Sua espada ajudou a manchar o trono em que senta, pensou Ned, mas não permitiu que as palavras lhe atravessassem os lábios.

Fez o juramento de proteger a vida do rei com a dele próprio. Depois abriu a garganta desse mesmo rei com uma espada.

Pelos sete infernos, alguém teria de matar Aerys! - disse Robert, puxando as rédeas da sua montaria e fazendo-a parar abruptamente junto a um antigo outeiro. - Se Jaime não o tivesse feito, teríamos de ter sido você ou eu.

Nós não éramos Irmãos Juramentados da Guarda Real - Ned respondeu. Decidiu naquele local que tinha chegado o tempo de Robert ouvir toda a verdade. - Recorda-se do Tridente, Vossa Graça?

Conquistei aí a minha coroa. Como posso esquecê-lo?

Vossa Graça foi ferido por Rhaegar - recordou-lhe Ned. - E assim, quando a tropa Targaryen cedeu e fugiu, deixou a perseguição nas minhas mãos. O que restava do exército de Rhaegar apressou-se em regressar a Porto Real. Nós os seguimos. Aerys estava na Torre Vermelha com vários milhares de lealistas. Eu esperava encontrar os portões fechados às nossas forças.

Robert abanou impacientemente a cabeça,

E, em vez disso, descobriu que os nossos homens já tinham conquistado a cidade. E então?

Nossos homens, não - Ned disse pacientemente. - Os homens dos Lannister. Era o leão de Lannister que flutuava sobre os baluartes, e não o veado coroado. E eles conquistaram a cidade pela traição.

A guerra durara perto de um ano. Senhores, grandes e pequenos, tinham se agrupado sob os estandartes de Robert; outros tinham permanecido leais aos Targaryen. Os poderosos Lannister de Rochedo Casterly, os Guardiães do Oeste, tinham permanecido à margem da luta, ignorando os apelos às armas vindos quer dos rebeldes quer dos lealistas. Aerys Targaryen devia ter pensado que os deuses respondiam às suas preces quando Lorde Tywin Lannister apareceu perante os portões de Porto Real com um exército de doze mil homens, declarando-lhe lealdade. E, assim, o rei louco ordenou seu último ato de loucura. Abriu sua cidade aos leões que estavam à porta.

A traição era uma moeda que os Targaryen conheciam bem - disse Robert. A ira lhe subia novamente. - Os Lannister pagaram-lhes na mesma moeda. Não foi menos do que mereciam. Não será isso que perturba meu sono.

Você não estava lá - disse Ned, com amargura na voz. O sono perturbado não lhe era es­tranho. Vivera suas mentiras durante catorze anos, e à noite ainda o assombravam. - Não houve honra naquela conquista.

Que os Outros carreguem a sua honra! - praguejou Robert. - Quando foi que algum Targaryen conheceu a honra? Desça à sua cripta e interrogue Lyanna sobre a honra do dragão!

Vingou Lyanna no Tridente - disse Ned, parando ao lado do rei. Promete-me, Ned, sussurrara ela.

Isto não a trouxe de volta - Robert afastou o olhar para o horizonte cinzento. - Malditos iram os deuses. Foi uma vitória oca, a que me deram. Uma coroa... foi pela donzela que orei a eles. A sua irmã, salva... e minha de novo, como estava destinada a ser. Pergunto-lhe, Ned, de que serve usar uma coroa? Os deuses zombam tanto das preces de reis como das dos vaqueiros.

Não posso responder pelos deuses, Vossa Graça... só por aquilo que encontrei quando en­tre: na sala do trono naquele dia - disse Ned. - Aerys estava morto no chão, afogado no próprio sangue. Seus crânios de dragão observavam das paredes. Havia homens dos Lannister por toda parte. Jaime trajava o manto branco da Guarda Real por cima da armadura dourada. Ainda o vejo. Até a espada era dourada. Estava sentado no Trono de Ferro, bem acima dos cavaleiros, usando um elmo em forma de cabeça de leão. Como brilhava!

-              Isto é bem sabido - protestou o rei.

-              Eu ainda estava montado. Percorri todo o salão em silêncio, entre as longas fileiras de crâ­nios de dragão. De algum modo, parecia que me observavam. Parei em frente ao trono, olhando-o por baixo. Tinha a espada dourada pousada sobre as pernas, com a lâmina vermelha do sangue do rei. Meus homens começavam a encher a sala atrás de mim. Os de Lannister afastaram-se. Nunca disse uma palavra. Olhei-o, ali sentado no trono, e esperei. Por fim, Jaime soltou uma gargalha­da e se ergueu. Tirou o elmo e disse-me: "Nada tem a temer, Stark. Estava apenas mantendo-o quente para o nosso amigo Robert. Temo que não seja uma cadeira muito confortável".

O rei atirou a cabeça para trás e rugiu. Suas gargalhadas assustaram um bando de corvos que saltaram do meio da alta grama castanha num frenético bater de asas.

-              Pensa que devo desconfiar de Lannister porque se sentou no meu trono por momentos? - voltou a sacudir-se de riso. - Jaime não tinha mais de dezessete anos, Ned. Era pouco mais que um rapaz.

-              Rapaz ou homem, não tinha direito àquele trono.

-              Talvez estivesse cansado - sugeriu Robert. - Matar reis é trabalho pesado. Os deuses sa­bem que não há mais lugar nenhum onde descansar o traseiro naquela maldita sala. E ele falou a verdade: é uma cadeira brutalmente desconfortável. De todas as maneiras - o rei abanou a cabeça. - Bem, agora conheço o negro pecado de Jaime e o assunto pode ser esquecido. Estou mortalmente farto de segredos, questiúnculas e assuntos de Estado, Ned. É tudo tão entediante como contar moedas. Vem, vamos cavalgar, você costumava saber fazer isso. Quero voltar a sentir o vento nos cabelos - voltou a pôr o cavalo em movimento e galopou sobre o outeiro, fazendo saltar terra atrás de si.

Por um momento Ned não o seguiu. Tinha ficado sem palavras e sentia-se cheio de uma grande sensação de impotência. Uma vez mais perguntou a si próprio o que fazia ali e qual o motivo de ter vindo. Não era nenhum Jon Arryn, capaz de pôr freio à impetuosidade do rei e de lhe inculcar sabedoria. Robert faria o que lhe apetecesse, como sempre fizera, e nada do que Ned pudesse fazer ou dizer mudaria isso. Seu lugar era em Winterfell. Seu lugar era com Catelyn, na sua dor, e com Bran.

Mas um homem nem sempre podia estar no seu lugar. Resignado, Eddard Stark bateu com as botas no cavalo e foi atrás do rei.

 

                   Tyrion

O Norte parecia não ter fim.

Tyrion Lannister conhecia os mapas tão bem como qualquer outra pessoa, mas uma quinzena no trilho irregular que naquela região se passava pela estrada do rei bem incutira nele a lição de que o mapa era uma coisa, mas o terreno, outra bem diferente.

Tinham partido de Winterfell no mesmo dia que o rei, entre toda a agitação da partida real, saindo ao som dos gritos dos homens e do resfolegar dos cavalos, entre a algazarra das carroças e os gemidos da enorme casa rolante da rainha, enquanto uma neve ligeira caía ao redor. A es­trada do rei ficava logo à saída do castelo e da vila. Aí, os estandartes, as carroças e as colunas de cavaleiros da guarda e cavaleiros livres viraram para o sul, levando o tumulto com eles, enquanto Tyrion virava para o norte com Benjen Stark e o sobrinho.

Depois disso ficou mais frio, e muito mais silencioso.

À oeste da estrada estendiam-se colinas de sílex, cinzentas e escarpadas, com altas torres de vigia erguidas nos seus cumes rochosos. Para leste o terreno era mais baixo, achatando-se até se transformar numa planície ondulada que se estendia até onde a vista alcançava. Pontes de pedra transpunham rios rápidos e estreitos, e pequenas chácaras espalhavam-se em anéis em torno de rastros com fortificações de madeira e pedra. A estrada tinha muito tráfego, e à noite, para seu conforto, podia-se encontrar rudes estalagens.

Mas após três dias de viagem de Winterfell, as terras de cultivo deram lugar à densa floresta, e a estrada do rei transformou-se num lugar solitário. As colinas de sílex tornavam-se mais altas e lervagens a cada milha, até se terem transformado em montanhas pelo quinto dia, gigantes frios, azuis-acinzentados, com promontórios irregulares e neve sobre os ombros. Quando o vento soprava do norte, longas plumas de cristais de gelo voavam dos picos mais altos como se fossem estandartes.

Com as montanhas a fazer às vezes de muro, a oeste, a estrada desviava-se para nor-nordeste através da floresta, uma mistura de carvalhos com sempre-verdes e sarças negras, que parecia mais antiga e sombria que qualquer outra que Tyrion tivesse visto. "Mata de lobos" chamara-lhe Benjen, e, de fato, as noites do grupo eram animadas com os uivos de alcatéias distantes, e de outras não tanto assim. O lobo gigante albino de Jon Snow erguia as orelhas ao ouvir os uivos noturnos, mas nunca levantava a própria voz em resposta. Para Tyrion, havia qualquer coisa muito perturbadora naquele animal.

Aquela altura, o grupo era composto por oito membros, sem contar com o lobo, Tyrion via­jara com dois de seus homens, como era próprio a um Lannister. Benjen Stark tinha apenas o sobrinho bastardo e algumas montarias novas para a Patrulha da Noite, mas no limite da mata de lobos haviam passado uma noite protegidos pelos muros de madeira de um castro de floresta e juntou-se a eles outro dos irmãos negros, um tal Yoren. Yoren era corcunda e sinistro, e escondia as feições atrás de uma barba tão negra como as roupas que trajava, mas parecia resistente como uma velha raiz e duro como pedra. Com ele estava um par de jovens camponeses esfarrapados originários dos Dedos.

-              Violadores - disse Yoren com uma olhadela fria aos rapazes a seu cargo. Tyrion compreen­deu. Dizia-se que a vida na Muralha era dura, mas era sem dúvida preferível à castração.

Cinco homens, três rapazes, um lobo gigante, vinte cavalos e uma gaiola com corvos ofere­cidos a Benjen Stark pelo Meistre Luwin. Sem dúvida que constituíam uma irmandade incomum, para a estrada do rei ou para qualquer outra.

Tyrion reparou quejon Snow observava Yoren e os seus carrancudos companheiros com uma expressão estranha no rosto, que se parecia desconfortavelmente com desalento. Yoren tinha um ombro torcido e um cheiro fétido, os cabelos e a barba emaranhados, oleosos e cheios de piolhos, o vestuário era velho, remendado e raramente lavado. Os dois jovens recrutas cheiravam ainda pior, e pareciam tão estúpidos como cruéis.

Não havia dúvida de que o rapaz cometera o erro de pensar que a Patrulha da Noite era composta por homens como o tio. Se assim era, Yoren e os companheiros constituíam um rude acordar. Tyrion sentiu pena do rapaz. Escolhera uma vida dura... ou talvez fosse mais correto dizer que uma vida dura fora escolhida para ele.

Tinha bastante menos simpatia pelo tio. Benjen Stark parecia partilhar do desagrado do ir­mão pelos Lannister e não ficara contente quando Tyrion lhe declarara suas intenções.

Previno-lhe, Lannister, de que não irá encontrar estalagens na Muralha - dissera, olhando--o de cima de toda a sua altura.

Não duvido de que encontrará algum lugar onde possa me enfiar - respondera Tyrion. - Como talvez tenha notado, sou pequeno.

Não se dizia não ao irmão da rainha, claro, e isso pusera um ponto final no assunto, mas Stark não ficara feliz.

-              Não vai gostar da viagem, isso lhe asseguro - dissera ele de modo conciso, e desde o mo­mento da partida fizera tudo o que pôde para cumprir a promessa.

Pelo fim da primeira semana, as coxas de Tyrion estavam em carne viva devido à dura caval­gada, as pernas ardiam de cãibras e sentia-se congelando até os ossos. Não se queixou. Que fosse maldito se desse a Benjen Stark essa satisfação.

Obteve uma pequena vingança com a pele de montar, uma coçada pele de urso, velha e mal­cheirosa. Stark lhe oferecera num excesso de galanteria ao jeito da Patrulha da Noite, sem dúvida à espera de vê-lo declinar com elegância. Tyrion a aceitara com um sorriso. Ao partir de Winterfell, trouxera consigo suas roupas mais quentes, e em breve descobriu que não eram, nem de longe, suficientes. Ali em cima fazia frio, e estava esfriando ainda mais. De noite, a temperatura descia agora bem abaixo do ponto de congelamento, e quando o vento soprava era como uma faca a trespassar suas lãs mais quentes. Decerto que Stark já se tinha arrependido de seu impulso cavalheiresco. Talvez tivesse aprendido uma lição. Os Lannister nunca declinavam, com ou sem elegância. Os Lannister aceitavam o que lhes era oferecido.

As chácaras e os castros eram cada vez mais escassos e menores à medida que prosseguiam para o norte, penetrando cada vez mais profundamente na escuridão da mata de lobos, até que finalmente deixou de haver tetos onde pudessem se abrigar, e foram atirados para a necessidade de se valerem de seus próprios recursos.

Tyrion nunca fora de grande utilidade para montar ou desmontar um acampamento. Pequeno demais, manco demais, demasiado no caminho dos demais. E assim, enquanto Stark, Yoren e os outros erguiam rudes abrigos, tratavam dos cavalos e faziam uma fogueira, tornou-se seu hábito pegar a pele e um odre de vinho e afastar-se sozinho para ler.

Na décima oitava noite da viagem, o vinho era um raro âmbar doce das Ilhas do Verão que trouxera consigo ao longo de toda a viagem para o norte desde Rochedo Casterly, e o livro, uma meditação sobre a história e as propriedades dos dragões. Com a autorização de Lorde Eddard Stark, Tyrion pedira emprestados alguns volumes raros da biblioteca de Winterfell e os empaco­tara para a viagem ao norte.

Encontrou um lugar confortável para lá do ruído do acampamento, ao lado de um córrego rápido cuja água era transparente e fria como gelo. Um carvalho grotescamente antigo o abrigava do vento cortante. Tyrion enrolou-se na sua pele com as costas apoiadas no tronco, bebeu um gole de vinho e pôs-se a ler acerca das propriedades do osso de dragão. O osso de dragão é negro devido à grande quantidade de ferro que contém, dizia o livro. É forte como aço, mas é também leve e muito mais flexível, e, claro, completamente à prova âefogo. Os arcos de osso de dragão são muito apreciados pelos dothrakis, e sem surpresa. Um arqueiro assim armado pode alcançar mais longe do que com qualquer arco de madeira.

Tyrion sentia um fascínio mórbido por dragões. Quando chegara pela primeira vez a Porto Real para o casamento da irmã com Robert Baratheon, fizera questão de procurar os crânios de dragão que haviam decorado as paredes da sala de trono dos Targaryen. O rei Robert os substi­tuíra por estandartes e tapeçarias, mas Tyrion insistira, até que encontrou os crânios na cave úmida e fria onde tinham sido armazenados.

Esperava achá-los impressionantes, talvez mesmo assustadores, mas não belos. Porém, eram. Negros como ônix, polidos até ficarem lisos, o osso parecia tremeluzir à luz de seu archote. Sen­tiu que gostavam do fogo. Atirara o archote para dentro da boca de um dos crânios maiores e fizera as sombras saltar e dançar na parede atrás de si. Os dentes eram longas facas curvas de diamante negro. A chama do archote não era nada para eles; tinham-se banhado no calor de fogos muito maiores. Quando se afastou, Tyrion podia jurar que as órbitas vazias do animal o tinham visto partir.

Havia dezenove crânios. Os mais antigos tinham mais de três mil anos; os mais recentes, não mais de século e meio. Estes últimos eram também os menores: um par de crânios, não maiores que os de mastins, e estranhamente deformados, tudo o que restava das últimas duas crias nasci­das em Pedra do Dragão. Eram os últimos dos dragões Targaryen, talvez os últimos dragões em todo o mundo, e não tinham vivido muito tempo.

A partir desses dois crânios, os outros aumentavam em tamanho até os três grandes monstros das canções e das histórias, os dragões que Aegon Targaryen e as irmãs tinham soltado sobre os Sete Reinos de antigamente. Os poetas tinham-lhes atribuído nomes de deuses: Balerion, Meraxes, Vhaghar. Tyrion estivera entre suas maxilas escancaradas, sem palavras e cheio de respeitoso temor. Podia ter entrado a cavalo pela garganta de Vhaghar, embora não fosse possível voltar a sair, Meraxes era ainda maior. E o maior de todos, Balerion, o Terror Negro, podia ter engolido um auroque inteiro, ou até mesmo um dos mamutes peludos que diziam viver nas frias extensões para lá do Porto de Ibben.

Tyrion ficou naquela cave úmida durante muito tempo, de olhos fixos no enorme crânio de olhos vazios de Balerion, até o archote se gastar, tentando abarcar o tamanho do animal vivo, imaginar a aparência que podia ter tido quando estendia as grandes asas negras e varria os céus, a exalar fogo.

Seu remoto antepassado, Rei Loren do Rochedo, tinha tentado lutar contra o fogo quando uniu forças com o Rei Mern, da Campina, a fim de se opor à conquista Targaryen. Isso aconte­cera havia perto de trezentos anos, quando os Sete Reinos eram reinos, e não meras províncias de um reino mais vasto. Entre ambos, os dois Reis tinham seiscentos estandartes, cinco mil cavaleiros montados e dez vezes esse número em cavaleiros livres e homens de armas. Diziam os cronistas que Aegon, o Senhor dos Dragões, possuía talvez um quinto dessa força, e que a maioria de seus homens tinha sido recrutada das fileiras do último rei que matara, homens de fidelidade incerta.

As tropas encontraram-se nas planícies da Campina, entre campos dourados de milho pronto para a colheita. Quando os dois reis se apresentaram, o exército Targaryen tremeu, estilhaçou-se e começou a fugir. Por alguns momentos, escreviam os cronistas, a conquista esteve por um fio... mas só por esses breves momentos, antes que Aegon Targaryen e as irmãs se jun­tassem à batalha.

Foi a única vez que Vhaghar, Meraxes e Balerion foram todos soltos ao mesmo tempo. Os poetas os chamaram o Campo de Fogo. Quase quatro mil homens morreram queimados naquele dia, e entre eles contava-se o Rei Mern da Campina, Rei Loren escapou e viveu tempo suficiente para se render, prestar vassalagem aos Targaryen e gerar um filho, fato que deixava Tyrion devi­damente grato.

-              Por que lê tanto?

Tyrion ergueu os olhos ao ouvir aquela voz. Jon Snow estava a alguns pés de distância, olhando-o com curiosidade. Fechou o livro sobre um dedo e disse:

-              Olhe-me e diga o que vê.

O rapaz olhou-o com suspeita.

-              Isto é algum truque? Vejo você. Tyrion Lannister.

Tyrion suspirou.

-              Você é notavelmente gentil para um bastardo, Snow. O que vê é um anão. Você tem o quê? Doze anos?

-              Catorze - disse o rapaz.

-              Catorze, e é mais alto do que alguma vez serei. Minhas pernas são curtas e tortas, e cami­nho com dificuldade. Necessito de uma sela especial para não cair do cavalo. Uma sela de minha própria concepção, talvez te interesse saber. Era isso ou montar um pônei. Meus braços são sufi­cientemente fortes, mas, uma vez mais, demasiado curtos. Nunca serei um espadachim. Se tivesse nascido camponês, provavelmente me teriam expulsado para que morresse, ou vendido para a coleção de aberrações de algum negociante de escravos. Mas, ai de mim! Nasci um Lannister de Rochedo Casterly, e as coleções de aberrações são das mais pobres. Esperam-se coisas de mim. Meu pai foi Mão do Rei durante vinte anos. Aconteceu que, mais tarde, meu irmão matou esse mesmo rei, mas minha vida está cheia dessas pequenas ironias. Minha irmã casou-se com o novo rei e o meu repugnante sobrinho será rei depois dele. Devo cumprir minha parte pela honra da minha Casa, não concorda? Mas como? Bem, poderei ter as pernas pequenas demais para o corpo, mas minha cabeça é grande demais, embora eu prefira pensar que tem o tamanho certo para minha mente. Possuo um entendimento realista das minhas forças e fraquezas. A mente é a minha arma. Meu irmão tem a sua espada, o Rei Robert, o seu martelo de guerra, e eu tenho a mente... e uma mente necessita de livros da mesma forma que uma espada necessita de uma pe­dra de amolar se quisermos que se mantenha afiada - Tyrion deu uma palmada na capa de couro do livro. - Ê por isso que leio tanto, Jon Snow.

O rapaz absorveu tudo aquilo em silêncio. Possuía o rosto dos Stark, mesmo que não tivesse o nome: comprido, solene, reservado, um rosto que nada revelava. Quem quer que tenha sido sua mãe, pouco dela havia ficado no rapaz.

E está lendo sobre o quê?

Dragões - disse-lhe Tyrion.

De que serve isso? Já não há dragões - disse o rapaz, com as fáceis certezas da juventude.

É o que dizem - respondeu Tyrion. - É triste, não é? Quando tinha a sua idade, costumava sonhar em ter um dragão meu.

Ah, sim? - perguntou o rapaz com suspeita na voz. Talvez pensasse que Tyrion estava zom­bando dele.

Ah, sim. Até um rapazinho enfezado, torcido e feio pode olhar o mundo de cima quando está sentado no dorso de um dragão - Tyrion afastou a pele de urso e pôs-se de pé. - Costumava acender fogueiras nas entranhas de Rochedo Casterly e ficar horas olhando as chamas, fazendo de conta que eram fogos de dragão. Por vezes imaginava meu pai a arder. Outras, minha irmã - Jon Snow olhava-o fixamente, submerso em partes iguais de horror e fascínio, Tyrion soltou uma gargalhada rude. - Não me olhe assim, bastardo. Conheço o seu segredo. Você sonhou o mesmo tipo de sonhos.

Não - Jon Snow rebateu, horrorizado. - Nunca sonharia...

Não? Nunca? - Tyrion ergueu uma sobrancelha, - Bem, sem dúvida que os Stark foram ótimos para você. Estou certo de que a Senhora Stark o trata como se fosse um de seus filhos. E seu irmão Robb sempre foi amável. Por que não? Ele fica com Winterfell e você com a Muralha. E seu pai... deve ter bons motivos para enviá-lo para a Patrulha da Noite...

Pare com isso - Jon Snow ordenou, o rosto escuro de ira. - A Patrulha da Noite é uma vocação nobre!

Tyrion deu uma risada.

Você é demasiado esperto para acreditar nisso. A Patrulha da Noite é uma pilha de estru­me para todos os inadaptados do reino. Vi-o olhando para Yoren e seus rapazes. São aqueles os seus novos irmãos, Jon Snow, que tal lhe parecem? Camponeses mal-humorados, devedores, ca­çadores furtivos, violadores, ladrões e bastardos como você acabam todos na Muralha, à espreita de gramequins e snarks e todos os outros monstros contra os quais a sua ama de leite lhe preve­niu. A parte boa é que não existem gramequins nem snarks e, portanto, o trabalho pouco perigo oferece. A parte má é que por causa do frio torna-se estéril, mas como, seja como for, não está autorizado a se reproduzir, suponho que isso não importa.

Pare com isso! - gritou o rapaz. Deu um passo em frente, com as mãos dobradas em punho, prestes a arrebentar em lágrimas.

De súbito, absurdamente, Tyrion sentiu-se culpado. Deu um passo em frente, tencionando dar ao rapaz uma palmada tranquilizadora no ombro ou murmurar uma palavra qualquer de desculpa.

Não chegou a ver o lobo, onde estava nem como se aproximou. Num momento caminhava para Snow e no seguinte estava caído de costas no duro chão pedregoso, com o livro a rodopiar para longe na queda, o fôlego a desaparecer com o súbito impacto, a boca cheia de terra, sangue e folhas apodrecidas. Quando tentou se colocar em pé, sentiu um doloroso espasmo nas costas. Devia tê-las torcido na queda. Rangeu os dentes com frustração, agarrou-se a uma raiz e conse­guiu puxar-se até uma posição sentada.

-              Ajude-me - pediu a Jon, estendendo uma mão.

E de repente o lobo estava entre eles. Não rosnou. A maldita coisa nunca soltava um som. Limitou-se a olhá-lo com aqueles brilhantes olhos vermelhos, mostrou-lhe os dentes, e isso foi mais que suficiente. Tyrion deixou-se cair de novo ao chão com um gemido.

-              Pronto, não me ajude. Fico aqui sentado até que vá embora.

Jon Snow afagou o espesso pelo branco de Fantasma, agora com um sorriso.

-              Peça-me com bons modos.

Tyrion Lannister sentiu a ira retorcer-se no seu interior, mas a esmagou com sua força de vontade. Não era a primeira vez na vida em que era humilhado, e não seria a última. Esta até talvez fosse merecida.

-              Ficaria muito agradecido pela sua amável assistência, Jon - ele disse com uma voz branda,

Para baixo, Fantasma - disse o rapaz. O lobo gigante sentou-se. Aqueles olhos vermelhos nunca deixaram Tyrion. Jon veio por trás do anão, passou as mãos por baixo de seus braços e o pôs em pé com facilidade. Então pegou o livro e o entregou.

Por que ele me atacou? - perguntou Tyrion com um olhar de relance ao lobo gigante. Lim­pou sangue e terra da boca com as costas da mão.

-              Talvez tivesse pensado que você fosse um gramequim.

Tyrion lançou-lhe um olhar penetrante. Depois riu, um grosseiro resfolego divertido que saiu de suas narinas completamente sem sua autorização.

-              Ah, deuses - ele disse, estrangulando o riso e abanando a cabeça. - Suponho que realmente me pareço bastante com um gramequim. O que ele faz aos snarks?

-              Não vai querer saber - Jon recolheu a pele de urso e a entregou a Tyrion.

Tyrion puxou a rolha, inclinou a cabeça e despejou um longo jorro de vinho na boca. O vinho era como fogo frio a gotejar pela garganta abaixo e aqueceu-lhe a barriga. Depois, apresentou o odre a Jon Snow.

-              Quer?

O rapaz pegou no odre e experimentou engolir um pouco, com cautela.

-              É verdade, não é? - disse, quando terminou. - O que disse da Patrulha da Noite. Tyrion anuiu.

Jon Snow fez da boca uma linha severa.

-              Se isso é o que ela é, então é isso que é. Tyrion deu um sorriso.

-              Isso é bom, bastardo. A maioria dos homens mais depressa nega uma verdade dura do que a enfrenta.

-              A maior parte dos homens - Jon respondeu. - Mas não você.

-              Não - admitiu Tyrion. - Eu não. Já raramente sonho com dragões. Não existem dragões - recolheu a pele de urso do chão. - Vem, é melhor regressarmos ao acampamento antes que seu tio chame os estandartes.

A caminhada era curta, mas o terreno que tinha sob os pés era irregular, e tinha as pernas cheias de cãibras quando regressaram. Jon Snow ofereceu-lhe uma mão para ajudá-lo a ultrapas­sar um espesso emaranhado de raízes, mas Tyrion recusou. Abriria seu próprio caminho, como fizera toda a vida. Apesar disso, ver o acampamento na sua frente foi agradável. Os abrigos ti­nham sido erguidos contra o muro em ruínas de um castro havia muito abandonado, um escudo contra o vento. Os cavalos tinham sido alimentados e uma fogueira feita. Yoren estava sentado numa pedra, esfolando um esquilo. O saboroso cheiro de guisado encheu as narinas de Tyrion.

Arrastou-se até onde um de seus homens, Morrec, estava cuidando da panela. Sem uma palavra, Morrec estendeu-lhe a concha. Tyrion provou e a devolveu.

-              Mais pimenta – disse.

Benjen Stark emergiu do abrigo que partilhava com o sobrinho.

Aí está você. Jon, que diabos, não desapareça sozinho dessa maneira. Pensei que os Outros o tivessem apanhado.

Foram os gramequins - disse Tyrion, rindo. Jon Snow também sorriu. Stark deitou um olhar severo a Yoren. O homem mais velho grunhiu, encolheu os ombros e regressou ao seu san­grento trabalho.

O esquilo emprestou algum corpo ao guisado e, naquela noite, comeram-no com pão escuro e queijo duro à volta da fogueira. Tyrion partilhou seu odre de vinho, fazendo até mesmo Yoren relaxar. Um a um, os homens e rapazes foram se retirando para os abrigos e para o sono, todos, menos Jon Snow, que ficara com a primeira vigia da noite.

Tyrion foi o último a se retirar, como sempre. Quando entrou no abrigo que seus homens tinham construído, parou e olhou para Jon Snow. O rapaz estava em pé junto à fogueira, com o rosto imóvel e duro, e os olhos perdidos nas profundezas das chamas.

Tyrion Lannister deu-lhe um sorriso triste e foi se deitar.

 

                   Catelyn

Ned e as meninas tinham partido havia oito dias quando Meistre Luwin veio ter com Catelyn uma noite, no quarto de doente de Bran, transportando uma candeia de leitura e os livros de contas.

-              Já é mais que tempo de rever os números, minha senhora - ele disse. - A senhora vai que­rer saber quanto nos custou esta visita real.

Catelyn olhou Bran em sua cama, afastou-lhe o cabelo da testa e percebeu que tinha crescido muito. Teria de cortá-lo em breve.

Não tenho nenhuma necessidade de olhar para números, Meistre Luwin - ela respondeu, sem nunca afastar os olhos de Bran, - Sei o que esta visita nos custou, Leve os livros daqui.

Minha senhora, a comitiva do rei tinha apetites saudáveis. Temos de voltar a fornecer os nossos armazéns antes que...

Ela o interrompeu.

-              Eu disse para levar os livros daqui. O intendente tratará das nossas necessidades.

-              Não temos intendente - lembrou-lhe Meistre Luwin.

Como uma pequena ratazana cin­zenta, pensou ela, o homem não a largava. - Poole foi para o Sul a fim de organizar a casa de Lorde Eddard em Porto Real.

Catelyn anuiu de forma ausente.

-              Ah, sim. Lembro-me - Bran parecia tão pálido. Perguntou a si própria se poderiam deslo­car a cama até junto da janela para que recebesse o sol da manhã.

Meistre Luwin depositou a candeia num nicho perto da porta e ajustou seu pavio.

-              Há várias nomeações que requerem a vossa atenção imediata, minha senhora. Além do inten­dente, precisamos de um capitão dos guardas para o lugar dejory, um novo mestre dos cavalos...

Os olhos dela dardejaram em redor e o encontraram.

Um mestre dos cavalos? - sua voz era um chicote.

O meistre ficou abalado.

Sim, minha senhora. Hullen foi para o Sul com Lorde Eddard, por isso...

-              Meu filho jaz aqui partido e morrendo, Luwin, e quer conversar sobre um novo mestre dos cavalos? Acha que me importa o que acontece nos estábulos? Acha que isso tem alguma impor­tância para mim? De bom grado mataria com as minhas próprias mãos os cavalos de Winterfell um a um se isso fizesse com que os olhos de Bran se abrissem. Compreende isso? Compreende?

Ele inclinou a cabeça.

Sim, minha senhora, mas as nomeações...

Eu farei as nomeações - disse Robb.

Catelyn não o ouvira entrar, mas ali estava ele, na soleira da porta, olhando-a. Compreendeu com um súbito ataque de vergonha que estava gritando. O que estava acontecendo com ela? Esta­va tão cansada, e sua cabeça doía constantemente.

Meistre Luwin desviou o olhar de Catelyn para o filho.

-              Preparei uma lista daqueles em que podemos querer pensar para os cargos vagos - disse, oferecendo a Robb um papel retirado de dentro da manga.

O filho de Catelyn olhou os nomes. Ela percebeu que ele viera de fora: tinha as bochechas vermelhas do frio e os cabelos desgrenhados pelo vento.

São bons homens - disse. - Falaremos deles amanhã - devolveu a lista de nomes.

Muito bem, senhor - o papel desapareceu dentro da manga.

-              Agora, deixe-nos - disse Robb.

Meistre Luwin fez uma reverência e partiu. Robb fechou a porta atrás dele e virou-se para ela. Catelyn reparou que o filho usava uma espada.

- Mãe, o que está fazendo?

Catelyn sempre achara que Robb se parecia com ela; tal como Bran, Rickon e Sansa, possuía as cores dos Tully, os cabelos ruivos, os olhos azuis. Mas agora, pela primeira vez, via algo de Eddard Stark no seu rosto, algo tão resistente e duro como o Norte.

Que estou fazendo? - respondeu num eco, confusa. - Como pode me perguntar isso? O que imagina que estou fazendo? Estou cuidando do seu irmão, Estou cuidando de Bran.

É esse o nome que dá a isto? Não saiu deste quarto desde que Bran se machucou. Nem sequer foi ao portão quando o Pai e as meninas partiram para o Sul.

Dei-lhes as minhas despedidas aqui e os vi partir daquela janela - ela suplicara a Ned que não partisse, não agora, não depois do que acontecera; tudo tinha mudado, ele não compreen­dia isso? Sem sucesso. Ele dissera-lhe que não tinha escolha, e então saíra, fazendo sua escolha. - Não posso deixá-lo, nem por um momento, quando qualquer momento pode ser o último. Tenho de estar com ele, se... se... - pegou na mão flácida do filho, deslizando seus dedos entre os dele, Ele estava frágil e magro, não lhe restava nenhuma força na mão, mas ainda podia sentir o calor da vida na sua pele.

A voz de Robb suavizou-se.

Ele não vai morrer, mãe. Meistre Luwin diz que o maior perigo já passou.

E se Meistre Luwin se enganar? E se Bran precisar de mim e eu não estiver aqui?

-              Rickon precisa da senhora - disse Robb em tom penetrante. - Só tem três anos, não com­preende o que está se passando. Pensa que todos o abandonaram, e por isso me segue para todo o lado, agarrando-se à minha perna e chorando. Não sei o que fazer com ele - fez uma pequena pausa, mordendo o lábio inferior como fazia quando era pequeno. - Mãe, eu também preciso da senhora. Estou tentando, mas não posso... não posso fazer tudo sozinho - sua voz quebrou-se com súbita emoção, e Catelyn lembrou-se de que ele tinha apenas catorze anos. Quis levantar-se e ir falar com ele, mas Bran ainda segurava sua mão, e não podia se mover.

Fora da torre, um lobo começou a uivar. Catelyn estremeceu, só por um segundo.

-              É o de Bran - Robb abriu a janela e deixou entrar o ar da noite no abafado quarto da torre. Os uivos ficaram mais fortes. Era um som frio e solitário, cheio de melancolia e desespero.

-              Não - disse ela. -Bran precisa ficar quente.

-              Ele precisa ouvi-los cantar - disse Robb. Em outro ponto, em Winterfell, um segundo lobo começou a uivar em coro com o primeiro. Depois um terceiro, mais perto. - Cão Felpudo e Ven­to Cinzento - disse Robb enquanto as vozes dos lobos se erguiam e caíam em conjunto. - É possível identificá-los se ouvirmos com atenção.

Catelyn estava tremendo. Era a dor, o frio, os uivos dos lobos gigantes. Noite após noite, os uivos, o vento frio e o vazio castelo cinzento continuavam, imutáveis, e o seu rapaz jazendo ali, quebrado, o mais doce dos seus filhos, o mais gentil, o Bran que gostava de rir, de escalar, de so­nhos de cavalaria, tudo agora desaparecido, nunca mais o ouviria rir. Soluçando, libertou sua mão da dele e cobriu os ouvidos contra aqueles terríveis uivos.

-              Faça-os parar! - gritou. - Não aguento mais, faça-os parar, faça-os parar, mate-os todos se for preciso, mas faça-os parar!

Não se lembrava de ter caído ao chão, mas era no chão que estava, e Robb erguia-a, segurando-a com braços fortes.

Não tenha medo, mãe. Eles nunca lhe fariam mal - ajudou-a a caminhar até sua estreita cama no canto do quarto de doente, - Feche os olhos - disse, em voz branda. - Descanse. Meistre Luwin disse-me que quase não tem dormido desde a queda de Bran.

Não posso - ela chorou. - Que os deuses me perdoem, Robb, mas não posso, e se ele morre enquanto durmo, e se ele morre, e se ele morre... - os lobos ainda uivavam. Ela gritou e voltou a tapar os ouvidos. - Ah, deuses, feche a janela!

Se me jurar que vai dormir - Robb foi até a janela, mas ao estender as mãos para os pos­tigos, outro som foi acrescentado ao fúnebre uivar dos lobos gigantes. - Cães - ele disse, escu­tando. - Os cães estão todos ladrando. Nunca antes tinham agido assim... - Catelyn o ouviu prender a respiração. Quando ergueu os olhos, o rosto estava pálido à luz da candeia.

 

Fogo - murmurou o jovem. Fogo, pensou ela e, em seguida, Branl

Ajude-me - disse, com urgência na voz, sentando-se. - Ajude-me com Bran. Robb não pareceu ouvi-la.

A torre da biblioteca está ardendo - ele disse.

Catelyn podia ver agora a tremeluzente luz avermelhada pela janela aberta. Recostou-se, ali­viada. Bran estava a salvo. A biblioteca ficava para lá do muro exterior do castelo, não havia ma­neira de o fogo chegar até ali.

-              Graças aos deuses - sussurrou.

Robb a olhou como se tivesse enlouquecido.

-              Mãe, fique aqui. Volto assim que o fogo estiver extinto - depois correu. Ela o ouviu gritar para os guardas que estavam do lado de fora do quarto, ouviu-os descer juntos as escadas em desenfreado ímpeto, saltando os degraus, dois ou três de cada vez.

Lá fora, ouviam-se berros de "Fogo!" no pátio, gritos, passos em corrida, os relinchos de ca­valos assustados e o frenético ladrar dos cães do castelo. Enquanto escutava aquela cacofonia, percebeu que os uivos tinham desaparecido. Os lobos gigantes tinham-se silenciado.

Catelyn rezou uma silenciosa prece de agradecimento às sete caras de deus quando se en­caminhou para a janela. Do lado de lá do muro do castelo, longas línguas de fogo jorravam das janelas da biblioteca. Viu a fumaça erguer-se para o céu e pensou com tristeza em todos os livros que os Stark tinham reunido ao longo dos séculos. Então fechou as janelas.

Quando virou as costas a janela, o homem estava no quarto com ela.

-              Não devia estar aqui - ele murmurou amargamente. - Ninguém devia estar aqui.

Era um homem pequeno e sujo, vestido com imundas roupas pardas, e fedia a cavalos. Cate­lyn conhecia todos os homens que trabalhavam nas cavalariças, e aquele não era nenhum deles. Era magro, com cabelos louros escorridos e olhos claros profundamente afundados num rosto ossudo, e trazia na mão um punhal.

Catelyn olhou para a faca, e depois para Bran.

Não - disse. A palavra ficou-lhe presa na garganta, um mero sussurro. Ele deve tê-la ouvido.

É uma misericórdia - disse. - Ele já tá morto.

-              Não - disse Catelyn, agora mais alto depois de ter reencontrado a voz. - Não, não pode - girou de volta à janela, a fim de gritar por ajuda, mas o homem se moveu mais depressa do que ela teria acreditado ser possível. Uma mão fechou-se sobre sua boca e atirou-lhe a cabeça para trás, a outra trouxe o punhal até sua traqueia. O fedor que o homem exalava era opressivo.

Ergueu ambas as mãos e agarrou a lâmina com todas as suas forças, afastando-a da garganta. Ouviu-o praguejar ao seu ouvido. Os dedos dela estavam escorregadios de sangue, mas não lar­gava o punhal. A mão sobre sua boca apertou-se mais, tirando-lhe o ar. Catelyn torceu a cabeça para o lado e conseguiu pôr um pouco da carne do homem entre os dentes. Mordeu-lhe a palma da mão com força. O homem grunhiu de dor. Ela fez mais força e rasgou-lhe a pele, e, de repente, ele a largou. O gosto do sangue do homem enchia-lhe a boca. Ela bebeu uma golfada de ar e soltou um grito, e ele agarrou-lhe o cabelo e a empurrou para longe, fazendo-a tropeçar e cair. Então, saltou sobre ela, respirando com força, tremendo. A mão direita do homem ainda agarrava com força o punhal, escorregadio de sangue.

-              Não devia estar aqui - repetiu, estupidamente.

Catelyn viu a sombra deslizar pela porta aberta atrás dele. Houve um ruído surdo e baixo, me­nos que um rosnado, o menor murmúrio de ameaça, mas ele deve tê-lo ouvido, porque começou a virar-se no preciso instante em que o lobo saltou. Caíram juntos, meio estatelados, sobre Ca­telyn, que continuava estendida onde tombara. O lobo o tinha preso nas maxilas. O guincho do homem durou menos de um segundo antes que o animal atirasse a cabeça para trás, arrancando--lhe metade da garganta.

O sangue dele foi como chuva quente quando se espalhou sobre o rosto de Catelyn.

O lobo a olhava. Suas maxilas estavam vermelhas e úmidas, e os olhos brilhavam, dourados, no quarto escuro. Catelyn percebeu que era o lobo de Bran. Claro que era,

-              Obrigada - sussurrou, com a voz tênue e aguda. Ergueu a mão, estremecendo. O lobo aproximou-se, farejou-lhe os dedos e pôs-se a lamber o sangue com uma língua úmida e áspera. Depois de limpar todo o sangue de sua mão, ele virou-se em silêncio e saltou para a cama de Bran, deitando-se a seu lado. Catelyn desatou a rir histericamente.

Foi assim que os encontraram, quando Robb, Meistre Luwin e Sor Rodrik entraram num rompante no quarto com metade dos guardas de Winterfell. Quando o riso finalmente lhe mor­reu na garganta, enrolaram-na em cobertores quentes e a levaram de volta para a Grande Torre, para seus aposentos. A Velha Ama a despiu, ajudou-a a entrar no banho quente e a lavou do sangue com um pano suave.

Mais tarde, Meistre Luwin chegou para fechar suas feridas. Os cortes nos dedos eram pro­fundos, quase chegavam ao osso, e tinha o couro cabeludo em carne viva e sangrando no lugar onde o homem lhe arrancara um tufo de cabelo. O meistre disse-lhe que a dor estava agora ape­nas começando, e deu-lhe leite de papoula para ajudá-la a dormir.

E ela, finalmente, fechou os olhos.

Quando voltou a abri-los, disseram-lhe que dormira durante quatro dias. Catelyn fez um ace­no com a cabeça e sentou-se na cama. Agora, tudo lhe parecia um pesadelo, tudo desde a queda de Bran, um terrível sonho de sangue e desgosto, mas tinha a dor nas mãos para lembrá-la de que era real. Sentia-se fraca e entontecida, mas estranhamente resoluta, como se um grande peso tivesse sido tirado de cima de seus ombros.

-              Tragam-me um pouco de pão e mel - disse às criadas - e mandem um recado a Meistre Luwin, dizendo que minhas ataduras precisam ser trocadas - olharam-na, surpresas, e correram para cumprir suas ordens.

Catelyn lembrava-se de como estivera antes, e sentiu-se envergonhada. Falhara para com to­dos, os filhos, o marido, a Casa. Não voltaria a acontecer. Ia mostrar àqueles nortenhos como uma Tully de Correrrio podia ser forte.

Robb chegou antes dos alimentos. Rodrik Cassei veio com ele, bem como o protegido do marido, Theon Greyjoy, e por fim Hallis Mollen, um guarda musculoso com uma barba castanha e quadrada. Era o novo capitão da guarda, disse Robb. Reparou que o filho vinha vestido com couro fervido e cota de malha, e que trazia uma espada à cintura.

Quem era ele? - perguntou-lhes Catelyn.

Ninguém sabe seu nome - informou Hallis Mollen. - Não era homem de Winterfell, se­nhora, mas há quem diga que foi visto aqui e nas imediações do castelo ao longo destas últimas semanas.

Então é um dos homens do rei - disse ela -, ou dos Lannister. Pode ter ficado para trás, à espreita, quando os outros partiram.

Pode ser - disse Hal. - Com todos aqueles estranhos a encher Winterfell nos últimos tem­pos, não há maneira de dizer a quem pertencia.

Ele esteve escondido nas cavalariças - disse Greyjoy. - Podia-se sentir o cheiro nele.

-              E como pôde passar despercebido? - disse ela em tom penetrante. Hallis Mollen pareceu atrapalhado.

Com os cavalos que o Senhor Eddard levou para o Sul e os que enviamos para o Norte para a Patrulha da Noite, as cavalariças ficaram meio vazias. Não seria grande truque se esconder dos moços da cavalariça. Pode ser que Hodor o tenha visto, dizem que o rapaz anda esquisito, mas simplório como é... - Hal abanou a cabeça.

Encontramos o lugar onde ele dormia - interveio Robb. - Tinha noventa veados de prata num saco de couro escondido debaixo da palha.

-              É bom saber que a vida do meu filho não foi vendida barato - disse Catelyn amargamente. Hallis Mollen a olhou, confuso.

-              As minhas desculpas, senhora, mas está dizendo que ele foi mandado para matar o seu rapaz?

Greyjoy mostrou dúvida.

-              Isso é uma loucura.

Ele veio por Bran - disse Catelyn. - Ficou o tempo todo resmungando que eu não devia es­tar ali. Provocou o incêndio da biblioteca pensando que eu correria para tentar apagá-lo, levando os guardas comigo. Se não estivesse meio louca de desgosto, teria funcionado.

Por que haveria alguém de querer matar Bran? - Robb perguntou. - Deuses, não passa de um rapazinho, indefeso, dormindo...

Catelyn lançou ao seu primogênito um olhar de desafio.

-              Se quiser governar o Norte, Robb, precisa analisar estas coisas até o fim. Responda à sua pergunta. Por que haveria alguém de querer matar uma criança adormecida?

Antes que Robb pudesse responder, as criadas regressaram com uma bandeja de comida fresca acabada de vir da cozinha. Havia muito mais do que ela pedira: pão quente, manteiga, mel e conservas de amoras silvestres, uma fatia de bacon e um ovo cozido, uma porção de queijo, um bule de chá de menta. E com os alimentos chegou Meistre Luwin.

-              Como está meu filho, Meistre? - Catelyn olhou toda aquela comida e descobriu que não tinha apetite.

Meistre Luwin baixou os olhos.

-              Sem alterações, minha senhora.

Era a resposta que ela esperava, nem mais, nem menos. As mãos palpitaram-lhe de dor, como se a lâmina ainda estivesse nelas, cortando-as profundamente. Mandou as criadas embora e vol­tou a olhar para Robb.

-Já tem a resposta?

-              Alguém tem medo de que Bran acorde - disse Robb -, medo do que ele possa dizer ou fazer, medo de qualquer coisa que ele sabe.

Catelyn sentiu orgulho do filho.

Muito bem - virou-se para o novo capitão da guarda. - Temos de manter Bran a salvo. Se existiu um assassino, poderá haver outros.

Quantos guardas serão necessários, senhora? - perguntou Hal.

Enquanto o Senhor Eddard estiver fora, é o meu filho quem governa Winterfell - ela respondeu.

Robb pareceu crescer um pouco.

Ponha um homem no quarto, de noite e de dia, um junto à porta, dois ao fundo das esca­das. Ninguém pode ver Bran sem minha autorização, ou a da minha mãe.

Certamente, senhor.

Trate disto já - sugeriu Catelyn.

E deixe que o lobo dele fique no quarto - acrescentou Robb.

-              Sim - disse Catelyn. E depois de novo: - Sim. Hallis Mollen fez uma reverência e deixou o quarto.

Senhora Stark - disse Sor Rodrik depois de o guarda sair -, teria a senhora, por acaso, reparado no punhal que o assassino usou?

As circunstâncias não me permitiram examiná-lo de perto, mas posso certificar que era afiado - respondeu Catelyn com um sorriso seco. - Por que pergunta?

Encontramos a faca ainda na mão do vilão. Pareceu-me uma arma boa demais para um ho­mem daqueles, e olhei-a longa e atentamente. A lâmina é de aço valiriano e o punho, de osso de dragão. Uma arma assim não tem nada a ver com um homem como ele. Alguém lhe deu.

Catelyn fez um aceno, pensativa.

-              Robb, feche a porta.

Ele a olhou de um modo estranho, mas fez o que lhe foi pedido.

O que vou dizer não deve sair deste quarto - ela avisou. - Quero que jurem. Se até mesmo parte daquilo de que suspeito for verdade, Ned e as minhas meninas viajaram para um perigo mortal, e uma palavra aos ouvidos errados poderá custar-lhes a vida.

Lorde Eddard é como um segundo pai para mim - disse Theon Greyjoy. - Presto esse juramento.

-              A senhora tem o meu juramento - disse Meistre Luwin.

E o meu também, minha senhora - ecoou Sor Rodrik. Ela olhou para o filho.

E você, Robb?

Ele consentiu com um aceno de cabeça.

-              Minha irmã Lysa acredita que os Lannister assassinaram o marido, Lorde Arryn, a Mão do Rei - informou Catelyn. - Ocorre-me que Jaime Lannister não se juntou à caçada no dia em que Bran caiu. Permaneceu aqui no castelo - o quarto estava num silêncio mortal. - Não me parece que Bran tenha caído daquela torre - disse ela para o silêncio. - Penso que foi atirado.

O choque era claro no rosto dos quatro homens.

Minha senhora, essa sugestão é monstruosa - disse Rodrik Cassei, - Até mesmo o Regi­cida hesitaria em assassinar uma criança inocente.

Ah, hesitaria? - perguntou Theon Greyjoy. - Tenho dúvidas.

Não há limites para o orgulho ou a ambição dos Lannister - disse Catelyn.

O rapaz sempre teve antes a mão segura - Meistre Luwin disse, pensativo. - Conhece todas as pedras de Winterfell.

Deuses - praguejou Robb, com o jovem rosto escuro de fúria. - Se isto for verdade, ele pa­gará - puxou a espada e a brandiu no ar. - Eu próprio o matarei!

Sor Rodrik irritou-se com ele.

-              Guarde isso! Os Lannister estão a cem léguas daqui. Nunca puxe a espada, a menos que tencione usá-la. Quantas vezes tenho de lhe dizer isto, meu tolo rapazinho?

Envergonhado, Robb embainhou a espada, subitamente transformado de novo numa criança. Catelyn disse a Sor Rodrik:

Vejo que meu filho agora usa aço. O velho mestre de armas respondeu:

Achei que era tempo, Robb a olhou ansiosamente:

-              Já era mais que tempo. Winterfell pode necessitar de todas as suas espadas em breve, e é bom que elas não sejam feitas de madeira.

Theon Greyjoy pôs a mão no punho de sua espada e disse:

-              Minha senhora, se chegar a tanto, minha Casa tem uma grande dívida para com a vossa. Meistre Luwin puxou a corrente do colar onde lhe irritava a pele do pescoço.

Tudo o que temos são conjecturas. Quem queremos acusar é o irmão querido da rainha. Ela não o aceitará de bom grado. Temos de encontrar provas, ou ficar em silêncio para sempre,

Sua prova está no punhal - disse Sor Rodrik, - Uma bela lâmina como aquela não pode passar despercebida.

Catelyn compreendeu que havia apenas um lugar onde a verdade podia ser encontrada.

Alguém tem de ir a Porto Real.

Eu vou - disse Robb.

Não - ela disse imediatamente. - Seu lugar é aqui. Deve haver sempre um Stark em Winterfell - olhou para Sor Rodrik com suas grandes suíças brancas, para Meistre Luwin com sua túnica cinzenta, para o jovem Greyjoy, magro, escuro e impetuoso. Quem enviar? Em quem acreditariam? Então soube. Catelyn esforçou-se por empurrar os cobertores, com os dedos tão rígidos e inflexíveis como pedra, e levantou-se da cama. - Devo ir eu mesma.

Minha senhora - disse Meistre Luwin -, será avisado? Decerto que os Lannister encararão a vossa chegada com suspeita.

E Bran? - perguntou Robb. O pobre rapaz parecia agora completamente confundido, - Não pode ter a intenção de abandoná-lo.

Fiz por Bran tudo o que podia fazer - ela disse, pousando sua mão ferida sobre o braço do filho. - Sua vida está nas mãos dos deuses e de Meistre Luwin. Tal como você mesmo me lem­brou, Robb, tenho agora outros filhos em que pensar.

Minha senhora vai precisar de uma forte escolta - lembrou Theon.

Enviarei Hal com um pelotão de guardas - disse Robb.

Não - Catelyn respondeu. - Um grupo grande atrai atenções indesejadas. Não quero que os Lannister saibam que estou a caminho.

Sor Rodrik protestou.

Minha senhora, deixe-me pelo menos acompanhá-la. A estrada do rei pode ser perigosa para uma mulher só.

Não irei pela estrada do rei - ela retrucou. Pensou por um momento e consentiu com a cabeça. - Dois cavaleiros podem deslocar-se tão depressa como um, e bastante mais depressa do que uma longa coluna sobrecarregada com carroças e casas rolantes. Aceito sua companhia, Sor Rodrik. Seguiremos o Faca Branca até o mar e alugaremos um navio em Porto Branco. Com ca­valos fortes e ventos vivos, deveremos chegar a Porto Real bem antes de Ned e dos Lannister - e então, pensou, veremos o que tivermos de ver.

 

                  Sansa

Septã Mordane informou Sansa, durante o desjejum, que Eddard Stark partira antes da madrugada.

O rei mandou chamá-lo. Outra caçada, creio. Dizem que ainda há auroques selvagens nes­tas terras.

Nunca vi um auroque - disse Sansa, dando uma fatia de bacon a Lady por baixo da mesa. A loba selvagem a tirou da mão tão delicadamente como uma rainha.

Septã Mordane fungou, desaprovando.

Uma senhora nobre não alimenta cães à mesa - repreendeu a menina, partindo outro bo­cado de favo e deixando o mel pingar em sua fatia de pão.

Ela não é um cão, é um lobo selvagem - Sansa a corrigiu enquanto Lady lhe lambia os dedos com uma língua áspera. - Seja como for, meu pai disse que podíamos mantê-los conosco se quiséssemos.

A septã não estava satisfeita.

Você é uma boa moça, Sansa, mas, juro, no que toca a essa criatura, é tão teimosa como a sua irmã Arya - franziu a sobrancelha. - E onde está Arya hoje?

Ela não tinha fome - Sansa respondeu, sabendo perfeitamente que a irmã tinha prova­velmente se esgueirado até a cozinha horas antes e convencido algum ajudante de cozinheiro a dar-lhe um café da manhã.

Lembre-a de que hoje deve se vestir bem. Talvez o vestido de veludo cinza. Estamos todas convidadas para acompanhar a rainha e a Princesa Myrcella na casa rolante real, e devemos apre­sentar nossa melhor aparência.

Sansa já apresentava sua melhor aparência. Escovara os longos cabelos ruivos até deixá-los brilhando e escolhera suas melhores sedas azuis. Esperava aquele dia havia mais de uma semana. Acompanhar a rainha era uma grande honra e, além disso, Príncipe Joffrey talvez lá estivesse. O seu prometido. Só de pensar nisso sentia uma estranha agitação no peito, ainda que não pudes­sem se casar antes de se passarem anos e anos, Sansa ainda não conhecia realmente Joffrey, mas já estava apaixonada por ele. Era tudo como sonhara que seu príncipe poderia ser: alto, bonito e forte, com cabelos que pareciam ouro. Eram-lhe preciosas as oportunidades de passar algum tempo com ele, por poucas que fossem, A única coisa que a assustava naquele dia era Arya. Arya tinha tendência para estragar tudo. Nunca se sabia o que ela poderia fazer.

Eu vou lhe dizer - disse Sansa, em voz incerta -, mas ela vai vestir o mesmo de sempre - esperava que não fosse muito embaraçoso. - Com a sua licença.

Com certeza - Septã Mordane serviu-se de mais pão e mel, e Sansa ergueu-se do banco. Lady a seguiu de perto quando saiu correndo da sala de estar da estalagem.

Lá fora, parou por um momento entre os gritos e pragas e o ranger de rodas de madeira e a confusão dos homens desmontando as tendas e pavilhões e carregando as carroças para mais um dia de marcha. A estalagem era uma vasta estrutura de pedra clara, com três andares, a maior que Sansa já vira, mas mesmo assim só tivera lugar para menos de um terço da comitiva do rei, que aumentara para mais de quatrocentas pessoas com a adição da comitiva do pai e os cava­leiros livres que a eles se juntaram na estrada.

Encontrou Arya na margem do Tridente, tentando manter Nymeria quieta enquanto limpava seu pelo de lama seca com a ajuda de uma escova. A loba gigante não parecia gostar. Arya vestia os mesmos couros de montar que vestira no dia anterior e no outro antes desse.

É melhor que vista alguma coisa bonita - disse-lhe Sansa. - Foi Septã Mordane que disse. Hoje vamos viajar na casa rolante da rainha com a Princesa Myrcella.

Eu não vou - disse Arya, tentando desfazer um nó no emaranhado pelo cinzento de Ny­meria. - Mycah e eu vamos subir a corrente e procurar no vau por rubis.

Rubis - disse Sansa, pensativa.

- Que rubis?

Arya a olhou como se ela fosse muito estúpida.

Os rubis de Rhaegar. Foi aqui que o Rei Robert o matou e conquistou a coroa. Sansa olhou sua magricela irmã mais nova, incrédula,

Não pode ir à procura de rubis. A princesa nos espera. A rainha nos convidou a ambas.

Não me importa - disse Arya. - A casa rolante nem sequer tem janelas, não se pode ver nada.

O que você poderia querer ver? - perguntou Sansa, aborrecida. Ficara excitada com o con­vite, e a estúpida da irmã ia estragar tudo, tal como temera. - Só há campos, fazendas e castros.

-           Não, não é só - Arya teimou. - Se viesse às vezes conosco, você veria.

-              Detesto andar a cavalo - Sansa respondeu com fervor. - Tudo o que isso faz é nos encher de terra, poeira e dores.

Arya encolheu os ombros.

-           Fica quieta - ordenou a Nymeria -, não estou te machucando - depois se dirigiu a Sansa: - Quando atravessamos o Gargalo, contei trinta e seis flores que nunca tinha visto antes, e My­cah me mostrou um lagarto-leão.

Sansa estremeceu. Tinham levado doze dias para atravessar o Gargalo, chacoalhando por um talude torto ao longo de um lodaçal preto sem fim, e ela detestara cada momento da travessia. O ar era úmido e pegajoso, o talude tão estreito que sequer podiam fazer um acampamento digno deste nome à noite, e tiveram de parar na própria estrada do rei. Densas matas de árvores meio submersas apertavam-se contra eles, com os ramos pingando sob o peso de cortinas de fungos pálidos. Enormes flores desabrochavam na lama e flutuavam em poças de água parada, mas havia areias movediças à espera para apanhar quem fosse suficientemente estúpido para deixar o talude e ir apanhá-las, e serpentes à espreita nas árvores, e lagartos-leões a flutuar, meio submersos na água, como troncos negros com olhos e dentes.

Nada daquilo parava Arya, claro. Um dia regressara com seu sorriso de cavalo, o cabelo todo emaranhado e as roupas cobertas de lama, agarrada a um rude buquê de flores purpúreas e ver­des para o pai. Sansa acalentou a esperança de que ele dissesse a Arya para se portar bem e agir como a senhora de boas famílias que era suposto ser, mas ele assim não fez, limitou-se a abraçá-la e a agradecer-lhe pelas flores. E isto só reforçou seus maus modos.

Então, descobriu-se que as flores purpúreas eram conhecidas por beijos de veneno, e Arya aca­bou com uma irritação nos braços. Sansa supôs que aquilo lhe ensinaria uma lição, mas Arya riu do assunto e no dia seguinte esfregou lama nos braços, de cima a baixo, como uma mulher igno­rante qualquer do pântano, só porque o amigo Mycah lhe dissera que faria desaparecer a comi­chão. Também tinha nódoas negras nos braços e ombros, vergões púrpuros escuros e manchas desbotadas verdes e amarelas; Sansa os viu quando a irmã se despiu para dormir. Como tinha arranjado aquilo, só os sete deuses sabiam.

Arya ainda continuava a falar sobre coisas que vira na viagem para o Sul enquanto desfazia com a escova os nós no pelo de Nymeria.

-           Na semana passada, encontramos uma torre de vigia assombrada e, no dia anterior, perse­guimos uma manada de cavalos selvagens. Devia tê-los visto correndo quando sentiram o cheiro de Nymeria - a loba retorceu-se e Arya ralhou com ela. - Para com isso, tenho de limpar o outro lado, você está cheia de lama.

-           Você não deve abandonar a coluna - relembrou-lhe Sansa. - Foi o que o pai disse. Arya encolheu os ombros.

-           Não fui longe. Seja como for, Nymeria sempre esteve comigo. E nem sempre saio da coluna. Às vezes é divertido cavalgar junto às carroças e conversar com as pessoas.

Sansa sabia tudo sobre o tipo de gente com quem Arya gostava de falar: escudeiros, cava­lariços e criadas, homens velhos e crianças nuas, cavaleiros livres de linguagem rude e nasci­mento incerto. Arya fazia amizade com qualquer um. Aquele Mycah era o pior; filho de um carniceiro, com treze anos e desenfreado, dormia na carroça das carnes e cheirava a matadouro. Bastava olhá-lo para Sansa sentir-se enjoada, mas Arya parecia preferir a companhia do rapaz à sua.

Sansa estava agora perdendo a paciência.

-           Você tem de vir comigo - disse firmemente à irmã. - Não pode dizer não à rainha. Septã Mordane conta contigo.

Arya a ignorou. Puxou com força a escova. Nymeria rosnou e rodopiou para longe, irritada.

-           Volta aqui!

Vai ter bolos de limão e chá - continuou Sansa, toda adulta e racional. Lady esfregou-se contra sua perna. Sansa coçou-lhe as orelhas do modo que a loba gostava, e Lady sentou-se ao seu lado, observando a perseguição entre Arya e Nymeria. - Por que motivo ia querer montar um velho cavalo malcheiroso e ficar toda dolorida e suada quando pode se encostar em almo­fadas de penas e comer bolos com a rainha?

Não gosto da rainha - Arya respondeu com indiferença. Sansa prendeu a respiração, choca­da por alguém, mesmo que fosse Arya, poder dizer uma coisa daquelas, mas sua irmã continuou a tagarelar, sem cuidado algum. - Ela nem sequer me deixa levar Nymeria - enfiou a escova no cinto e passou a perseguir a loba. Nymeria vigiava com prudência sua aproximação,

Uma casa rolante real não é lugar para um lobo - disse Sansa. - E você bem sabe que a Princesa Myrcella tem medo deles.

Myrcella é um bebezinho - Arya agarrou Nymeria pelo pescoço, mas no momento em que tirou a escova do cinto, a loba gigante libertou-se com uma contorção e saltou para longe dela. Frustrada, Arya atirou a escova ao chão. - Loba má! - gritou.

Sansa não conseguiu evitar um pequeno sorriso. O mestre do canil lhe dissera uma vez que um animal sai ao dono. Deu a Lady um pequeno e rápido abraço. Lady lambeu-lhe o rosto. Sansa soltou um risinho. Arya ouviu e deu meia-volta, olhando-a furiosa.

-           Não me interessa o que você possa dizer, eu vou montar - seu longo rosto de cavalo tinha a expressão teimosa que significava que faria algo de propósito.

-Juro pelos deuses, Arya, às vezes você não passa de uma criança - Sansa a repreendeu. - Sendo assim, vou sozinha. Vai ser muito mais agradável. Lady e eu vamos comer todos os bolos de limão e passar sem você o melhor dos dias. - Virou-se para se afastar, mas Arya gritou às suas costas:

-           Também não vão te deixar levar a Lady - e foi embora, antes de Sansa conseguir pensar numa resposta, perseguindo Nymeria ao longo do rio.

Só e humilhada, Sansa iniciou a longa caminhada de volta à estalagem, onde sabia que Septã Mordane estava à espera. Lady caminhava em silêncio ao seu lado. Estava quase chorando. Tudo o que desejava era que as coisas fossem agradáveis e bonitas, como eram nas canções. Por que Arya não podia ser doce, delicada e bondosa, como a Princesa Myrcella? Ela gostaria de uma irmã assim.

Sansa nunca conseguira compreender como era possível que duas irmãs, nascidas apenas com dois anos de diferença, pudessem ser tão diferentes. Teria sido mais fácil se Arya fosse bastarda, como o meio-irmão Jon. Ela até era parecida com Jon, com o rosto longo e os cabelos castanhos dos Stark, e nada de sua mãe no rosto ou nas cores. E a mãe de Jon fora uma mulher plebeia, ou pelo menos era isso que se segredava. Uma vez, quando era pequena, Sansa até chegou a pergun­tar à mãe se não teria havido algum engano. Talvez os gramequins tivessem roubado sua irmã verdadeira. Mas sua mãe limitara-se a rir, dizendo que não, que Arya era sua filha e irmã legítima de Sansa, sangue do sangue delas. Sansa não era capaz de imaginar um motivo que levasse a mãe a querer mentir sobre aquilo, e assim concluíra que tinha de ser verdade.

Ao se aproximar do centro do acampamento, sua aflição foi rapidamente esquecida. Uma multidão tinha se reunido em torno da casa rolante da rainha. Sansa ouviu vozes excitadas que zumbiam como uma colmeia. Viu que as portas tinham sido escancaradas e que a rainha estava no topo dos degraus de madeira, sorrindo para alguém. Ouviu-a dizer:

O conselho nos presta uma grande honra, meus bons senhores.

O que está acontecendo? - perguntou Sansa a um escudeiro seu conhecido.

-           O conselho enviou cavaleiros de Porto Real para nos escoltar pelo resto do caminho - in­formou o homem. - Uma guarda de honra para o rei.

Ansiosa por vê-los, Sansa deixou Lady abrir-lhe caminho através da multidão. As pessoas afastavam-se às pressas da loba gigante. Quando se aproximou, viu dois cavaleiros que se ajoelha­vam perante a rainha, usando armaduras tão boas e esplendorosas que a fizeram pestanejar.

Um dos cavaleiros usava um intricado conjunto de escamas brancas esmaltadas, brilhante como um campo de neve recém-caída, com relevos e fivelas de prata que brilhavam ao sol. Quan­do tirou o elmo, Sansa viu que era um homem idoso, de cabelos tão alvos como a armadura, mas, apesar disso, parecia forte e gracioso. De seus ombros pendia o manto de um branco puro da Guarda Real.

O companheiro era um homem com perto de vinte anos cuja armadura era uma placa de aço de um profundo verde-musgo. Era o homem mais bonito em que Sansa já pousara seus olhos; alto e de constituição poderosa, com cabelos negros como breu que lhe caíam sobre os ombros e rodea­vam um rosto escanhoado, e risonhos olhos verdes que combinavam com a armadura. Aninhado debaixo do braço, estava um elmo provido de chifres, cuja magnífica viseira brilhava de ouro.

A princípio, Sansa não reparou no terceiro estranho. Não estava ajoelhado como os outros. Estava em pé, ao lado, junto aos cavalos dos recém-chegados, um homem magro e sombrio que observava os acontecimentos em silêncio. Tinha o rosto sem barba, marcado pela varíola, olhos encovados e bochechas descarnadas, Embora não fosse velho, restavam-lhe poucas madeixas de cabelo, brotando por cima das orelhas, mas deixara-o crescer como o de uma mulher. Sua ar­madura era uma cota de malha de um tom cinzento de ferro, posta sobre camadas de couro fervido, simples e sem adornos, que revelava a idade e o uso duro. Sobre o ombro direito via-se o manchado punho de couro da lâmina que trazia atada às costas, uma espada de duas mãos, gran­de demais para ser presa ao flanco.

-           O rei foi caçar, mas sei que ficará feliz em vê-los quando regressar - dizia a rainha aos dois cavaleiros que se ajoelhavam perante ela, mas Sansa não conseguia tirar os olhos do terceiro homem. Ele pareceu sentir o peso do seu olhar. Lentamente, virou a cabeça. Lady rosnou. Um terror tão esmagador como qualquer outra coisa que Sansa Stark já sentira encheu-a de repente. Deu um passo para trás e foi de encontro a alguém.

Fortes mãos agarraram-lhe os ombros e, por um momento, Sansa pensou que era o pai, mas, quando se virou, foi a face queimada de Sandor Clegane que encontrou olhando-a de cima, com a boca torcida num terrível simulacro de sorriso.

-           Está tremendo, menina! - disse ele, com voz áspera. - Assusto-a tanto assim?

Assustava, e assustava desde que ela pusera pela primeira vez os olhos na ruína em que o fogo transformara seu rosto, embora agora lhe parecesse que não causava nem metade do terror daquela vez. Mesmo assim, Sansa desviou-se para longe dele. O Cão de Caça soltou uma garga­lhada, e Lady interpôs-se entre ambos, rugindo um aviso. Sansa caiu de joelhos e enrolou os braços em torno da loba. As pessoas reuniram-se em volta dela, de boca aberta. Sansa sentia os olhos postos nela, e aqui e ali ouvia comentários murmurados e farrapos de risos.

"Um lobo", disse um homem, e alguém ecoou "Pelos sete infernos, isto é um lobo gigante" e o primeiro homem perguntou "Que faz ele no acampamento?" e a voz áspera do Cão de Caça replicou: "Os Stark usam-nos como amas de leite" e Sansa compreendeu que os dois cavaleiros desconhecidos olhavam para ela e para Lady, com as espadas nas mãos, e então ficou novamente assustada e envergonhada. Lágrimas encheram-lhe os olhos.

Ouviu a rainha dizer:

-           Joffrey, vá falar com ela.

E ali estava seu príncipe.

-           Deixem-na em paz - disse Joffrey. Erguia-se acima dela, belo em sua lã azul e couro negro, com os caracóis dourados brilhando ao sol como uma coroa. Ofereceu-lhe a mão e a ajudou a ficar em pé. - Que se passa, querida senhora? Por que tanto medo? Ninguém lhe fará mal. Guar­dem as espadas, todos. O lobo é seu animal de estimação, não passa disso - olhou para Sandor Clegane: - E você, cão, desapareça daqui, está assustando minha prometida.

Cão de Caça, sempre fiel, fez uma vénia e esgueirou-se em silêncio através da multidão. Sansa lutou por firmar-se. Sentia-se tão pateta. Era uma Stark de Winterfell, uma senhora nobre, e um dia seria uma rainha.

Não foi ele, meu querido príncipe - ela tentou explicar. - Foi o outro.

Os dois cavaleiros desconhecidos trocaram um olhar.

Payne? - disse com um risinho abafado o homem mais novo, da armadura verde. O homem mais velho vestido de branco falou gentilmente a Sansa.

Por vezes, Sor Ilyn também me assusta, querida senhora. Tem um aspecto temível.

-           E assim deve ser - a rainha descera da casa rolante. Os espectadores afastaram-se a fim de lhe abrir caminho. - Se os malvados não temerem o Magistrado do Rei, isso quer dizer que o homem errado está no cargo.

Sansa finalmente encontrou o que dizer:

Então, com certeza Vossa Graça encontrou o homem certo - ela terminou o que dizia e uma rajada de gargalhadas explodiu à sua volta.

Bem dito, menina - disse o velho de branco, - Como é próprio de uma filha de Eddard Stark. Estou honrado por conhecê-la, por mais irregular que tenha sido o modo como nos encon­tramos. Sou Sor Barristan Selmy, da Guarda Real - o homem lhe fez uma reverência.

Sansa conhecia o nome, e agora as cortesias que Septã Mordane lhe ensinara ao longo dos anos vinham-lhe à memória.

-           O Senhor Comandante da Guarda Real - disse - e conselheiro do nosso rei Robert, e antes dele de Aerys Targaryen, A honra é minha, bom cavaleiro. Mesmo no longínquo Norte, os cantores gabam os feitos de Barristan, o Ousado.

O cavaleiro verde riu novamente.

-           Barristan, o Usado, a senhora quer dizer. Não o lisonjeie com tanta doçura, criança, pois eleja tem uma opinião grande demais de si próprio - e sorriu-lhe. - E agora, menina-lobo, se conseguir também encontrar um nome para mim, então terei de reconhecer que é, sim, filha da nossa Mão.

Joffrey empertigou-se a seu lado.

Tenha cuidado com o modo como se dirige à minha prometida.

Eu posso responder - disse Sansa depressa para aquietar a ira de seu príncipe. Sorriu para o cavaleiro verde. - Seu capacete tem chifres dourados, senhor. O veado é o selo da Casa Real. O rei Robert tem dois irmãos. Por sua extrema juventude, só pode ser Renly Baratheon, senhor de Ponta Tempestade e conselheiro do rei, e assim o nomeio.

Sor Barristan soltou um risinho.

-           Pela sua extrema juventude, só pode ser um arrogante empinado, e é assim que o nomeio eu.

Ouviu-se gargalhada geral, liderada pelo próprio Lorde Renly. A tensão de momentos antes tinha desaparecido, e Sansa começava a se sentir confortável... até que Sor Ilyn Payne abriu ca­minho entre dois homens à força de seu ombro e surgiu à sua frente, sem sorrir. Não disse uma palavra. Lady mostrou os dentes e começou a rosnar, um rugido baixo cheio de ameaças, mas desta vez Sansa silenciou a loba passando suavemente sua mão na cabeça dela.

-           Lamento se o ofendi, Sor Ilyn - disse.

Esperou por uma resposta, mas nenhuma veio. Enquanto o executor a olhava, seus olhos claros sem cor pareciam despi-la, inclusive a pele, deixando-lhe a alma nua à sua frente, Ainda em silêncio, o homem se virou e foi embora.

Sansa não compreendeu. Olhou para seu príncipe.

-           Disse algo de errado, Vossa Graça? Por que motivo ele não falou comigo?

-           Sor Ilyn não tem sido falador nestes últimos catorze anos - comentou Lorde Renly, com um sorriso irônico.

Joffrey lançou ao tio um olhar de pura repugnância, e depois tomou as mãos de Sansa nas suas.

-           Aerys Targaryen mandou arrancar-lhe a língua com tenazes quentes.

No entanto, fala de modo bem eloquente com a espada - disse a rainha -, e sua devoção pelo nosso reino está fora de questão - então, sorriu amavelmente e disse: - Sansa, os bons conselheiros e eu temos de conversar até que o rei regresse com seu pai. Temo que tenhamos de adiar seu dia com Myrcella. Transmita, por favor, as minhas desculpas à sua querida irmã. Joffrey, talvez possa ter a amabilidade de entreter a nossa convidada.

Com todo o prazer, mãe - disse Joffrey, muito formalmente. Tomou-a pelo braço e afastou--a da casa rolante, e o estado de espírito de Sansa levantou voo. Um dia inteiro com seu príncipe!

Olhou para Joffrey com adoração. Ele é tão galante, pensou. O modo como a salvara de Sor Ilyn e do Cão de Caça, ora, fora quase como nas canções, como daquela vez em que Serwyn do Escudo Espelhado salvou a Princesa Daeryssa dos gigantes, ou quando Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, defendeu a honra da Rainha Naerys contra as calúnias do malvado Sor Morgil.

O toque da mão de Joffrey em sua manga fez seu coração bater mais depressa.

-           O que gostaria de fazer?

Estar contigo, pensou Sansa, mas, em vez disso, respondeu:

O que quiser fazer, meu príncipe.

Joffrey refletiu por um momento.

Podíamos ir montar a cavalo.

Ah, eu adoro montar - ela exclamou.

Joffrey olhou de relance Lady, que os seguia de perto.

-           O lobo pode assustar os cavalos, e meu cão parece assustá-la. Deixemos ambos para trás e vamos os dois sozinhos, o que diz?

Sansa hesitou.

-           Se assim desejar - disse, incerta. - Suponho que poderia amarrar Lady - no entanto, não tinha certeza de ter compreendido. - Não sabia que tinha um cão...

Joffrey riu.

-           Na verdade, é da minha mãe. Ela o designou para me guardar, e é o que ele faz.

-           Fala do Cão de Caça... - Sansa entendeu. Quis bater em si própria por ser tão lenta. Seu príncipe nunca a amaria se parecesse ser estúpida. - É seguro deixá-lo para trás?

Príncipe Joffrey pareceu aborrecido por ela ter perguntado.

-           Nada tema, senhora. Sou quase um homem feito, e não luto com madeira como seus ir­mãos. Tudo de que necessito é isto - desembainhou a espada e a mostrou; uma espada longa destramente encolhida para se adequar a um rapaz de doze anos, aço azul brilhante, forjada em castelo e de duplo gume, com um punho de couro e um botão de ouro em forma de cabeça de leão. Sansa exclamou de admiração ao vê-la, e Joffrey pareceu satisfeito. - Chamo-a Dente de Leão - disse.

E assim deixaram para trás a loba gigante e o guarda-costas, e cavalgaram para leste ao longo da margem norte do Tridente sem outra companhia que não Dente de Leão.

Estava um dia glorioso, um dia mágico. O ar estava quente e pesado com o odor das flores, e os bosques tinham ali uma beleza suave que Sansa nunca vira no Norte. A montaria do Prín­cipe Joffrey era um corcel baio vermelho, ligeiro como o vento, e ele o montava com destemido abandono, tão depressa que Sansa teve dificuldade em acompanhá-lo em sua égua. Estava um dia para aventuras. Exploraram as grutas próximas da margem do rio e seguiram os rastros de um gato-das-sombras até sua toca, e quando ficaram com fome Joffrey localizou um castro pela sua fumaça e, ao chegar, ordenou que trouxessem comida e vinho para o príncipe e sua senhora. Jantaram trutas frescas do rio, e Sansa bebeu mais vinho do que alguma vez já bebera.

-           Meu pai só nos deixa beber uma taça, e apenas nos banquetes - confessou ao seu príncipe.

-           Minha prometida pode beber tanto quanto desejar - disse Joffrey, voltando a encher-lhe a taça.

Depois de comer, prosseguiram mais lentamente seu caminho. Joffrey cantou para ela en­quanto cavalgavam, com uma voz aguda, doce e pura. Sansa estava um pouco tonta do vinho.

-           Não devíamos regressar? - perguntou.

-           Em breve - ele respondeu. - O campo de batalha é logo ali à frente, na curva do rio. Foi ali que meu pai matou Rhaegar Targaryen, sabia? Esmagou-lhe o peito, crás, mesmo através da armadura - Joffrey brandiu um martelo de guerra imaginário para lhe mostrar como se fazia.

-           Depois, tio Jaime matou o velho Aerys e meu pai tornou-se rei. Que barulho é esse?

Sansa também o ouviu, flutuando através dos bosques, uma espécie de ruído de madeira, snac, snac, snac.

Não sei - ela respondeu, já nervosa. - Joffrey, vamos embora.

Quero ver o que é aquilo - Joffrey virou o cavalo na direção de onde vinha o som, e Sansa não teve escolha a não ser segui-lo. Os ruídos foram ficando mais fortes e mais distintos, o clac de madeira batendo em madeira, e quando se aproximaram ouviram também respirações pesadas e um gemido de vez em quando.

Tem alguém ali - Sansa disse ansiosamente. Deu por si pensando em Lady, desejando que a loba gigante estivesse ali.

Comigo está a salvo - Joffrey desembainhou sua Dente de Leão. O som do aço raspando em couro a fez tremer. - Por aqui - disse ele, levando o cavalo por entre um grupo de árvores.

Para lá delas, numa clareira aberta ao lado do rio, encontraram um rapaz e uma menina brin­cando de cavaleiros. Suas espadas eram paus, aparentemente cabos de vassoura, e eles corriam pela clareira, batendo-se com vigor. O rapaz era bem mais velho, uma cabeça mais alto, e muito mais forte, e era ele quem atacava. A menina, uma coisinha magricela vestida de couro manchado, esquivava-se e conseguia pôr sua "espada" no caminho da maior parte dos golpes do rapaz, mas não de todos. Quando ela tentou uma estocada, ele parou o pau dela com o seu, varreu-o para o lado e golpeou-lhe duramente os dedos. Ela gritou e deixou cair a "espada".

Príncipe Joffrey soltou uma gargalhada. O rapaz olhou em volta, com os olhos muito abertos e sobressaltado, e deixou cair a"espada" sobre a relva. A menina olhou para eles furiosa, chupando os nós dos dedos para afastar a dor, e Sansa ficou horrorizada.

Arya? - gritou, incrédula.

Vá embora - gritou Arya de volta, com lágrimas de fúria nos olhos. - O que você está fazendo aqui? Deixe-nos em paz.

Joffrey olhou de relance para Arya, depois para Sansa, e depois de novo para Arya.

-           É a sua irmã? - ela confirmou com um aceno, corando.

Joffrey examinou o rapaz, um jovem desajeitado com uma cara grosseira, sardenta, e espessos cabelos ruivos. - E quem é você, rapaz? - perguntou, num tom de comando que não dava qualquer importância ao fato de o outro ser um ano mais velho que ele próprio.

Mycah - o rapaz murmurou. Reconheceu o príncipe e desviou os olhos. - Senhor.

É o filho do carniceiro - disse Sansa.

É meu amigo - retrucou Arya em voz penetrante. - Deixem-no em paz.

Um filho de carniceiro que deseja ser cavaleiro, é isso? - Joffrey saltou da montada, de espada na mão. - Pegue a sua espada, filho de carniceiro - disse, com os olhos brilhantes de diver­timento. - Vamos lá ver como se comporta,

Mycah ficou imóvel, congelado de medo.

Joffrey caminhou na sua direção.

Vá lá, pega ela. Ou será que só luta com menininhas?

Ela me pediu, senhor - disse Mycah, - Ela pediu.

Sansa só teve precisou olhar para Arya e ver seu rosto corado para saber que o rapaz falava a verdade, mas Joffrey não estava com disposição de ouvi-lo. O vinho o deixara excitado.

Vai pegar sua espada?

Mycah abanou a cabeça.

É só um pau, senhor. Não é espada nenhuma, é só um pau.

-           E você é só o filho do carniceiro, não é nenhum cavaleiro - Joffrey ergueu Dente de Leão e pousou sua ponta na bochecha de Mycah, abaixo do olho, enquanto o filho do carniceiro per­manecia imóvel, tremendo. - Aquela em quem batia é a irmã da minha senhora, você sabe disso? - um brilhante botão de sangue rebentou onde a espada fazia pressão na pele de Mycah e uma lenta linha vermelha deslizou pela bochecha do rapaz.

Para com isso! - gritou Arya, e agarrou seu pau no chão.

Sansa sentiu medo.

Arya, mantenha-se fora disto.

-           Não vou machucá-lo... muito - disse o Príncipe Joffrey a Arya, sem desviar os olhos do filho do carniceiro.

Arya saltou sobre ele,

Sansa deslizou de cima da égua, mas foi lenta demais. Arya brandiu a "espada" com ambas as mãos. Ouviu-se um sonoro crac quando a madeira se quebrou contra a nuca do príncipe, e então tudo aconteceu ao mesmo tempo perante os horrorizados olhos de Sansa. Joffrey cambaleou e rodopiou, rugindo pragas. Mycah fugiu para as árvores tão depressa quanto as pernas podiam levá-lo. Arya atacou de novo o príncipe, mas desta vez Joffrey parou o golpe com a Dente de Leão e arrancou-lhe a "espada" das mãos. Tinha a nuca cheia de sangue e os olhos em fogo. Sansa gri­tava: - Não, não, parem, parem os dois, estão estragando tudo -, mas ninguém a ouvia.

Arya pegou uma pedra e atirou-a na cabeça de Joffrey. Em vez de atingi-lo, acertou o cavalo, e o baio vermelho empinou-se e partiu a galope atrás de Mycah. - Parem, não, parem! -, gritou Sansa novamente. Joffrey avançou em direção de Arya, espada em punho, gritando obscenidades, palavras terríveis, nojentas. Arya saltou para trás, agora assustada, mas Joffrey a seguiu, levando-a na direção do bosque, encurralando-a contra uma árvore. Sansa não sabia o que fazer. Ficou vendo, impotente, quase cega pelas lágrimas.

Então, uma mancha cinzenta passou por ela como um relâmpago e, de súbito, Nymeria es­tava ali, saltando, cerrando as mandíbulas em torno do braço de Joffrey que manejava a espada. O aço caiu-lhe dos dedos quando a loba o atirou ao chão, e rolaram na relva, com a loba rosnando e abocanhando o príncipe, que guinchava de dor.

Tirem-na daqui! - ele gritou. - Tirem-na daqui!

A voz de Arya estalou como um chicote.

Nymerial

A loba gigante largou Joffrey e foi até junto de Arya. O príncipe ficou estendido na relva, choramingando, agarrado ao braço retalhado. Sua camisa estava empapada de sangue. Arya disse:

-           Ela não te machucou... muito - ela ergueu Dente de Leão do lugar onde caíra e levantou-se sobre ele, segurando a espada com as duas mãos.

Joffrey soltou um som choroso e assustado quando olhou para cima, para Arya.

Não - disse -, não me machuque, Vou contar para minha mãe.

Deixe-o em paz! - gritou Sansa à irmã.

Arya girou e atirou a espada ao ar, colocando todo seu corpo no movimento. O aço azul re­lampejou à luz do sol quando a espada rodopiou sobre o rio. Atingiu a água e desapareceu com um borbulhar. Joffrey gemeu. Arya correu para seu cavalo, com Nymeria a trotar logo atrás.

Depois de terem desaparecido, Sansa foi até junto do Príncipe Joffrey, que tinha os olhos cerrados de dor, a respiração entrecortada, e ajoelhou-se a seu lado.

-Joffrey - soluçou. - Ah, veja o que eles fizeram, veja o que eles fizeram. Meu pobre prín­cipe. Não tenha medo. Eu vou a cavalo até o castro e lhe trarei ajuda - com ternura, ela estendeu a mão e afastou para trás os suaves cabelos louros.

Os olhos dele abriram-se de repente e olharam-na, e neles nada havia além de repugnância, nada além do mais vil desprezo.

- Então vai - ele cuspiu. - E não me toque.

 

                   Eddard

- Encontraram-na, senhor.

Ned pôs-se em pé de um salto.

Os nossos homens ou os dos Lannister?

Foi Jory - respondeu o intendente Vayon Poole. - Não lhe fizeram mal.

Graças aos deuses - Ned respondeu. Seus homens andavam à procura de Arya já há qua­tro dias, mas os homens da rainha também participavam da busca. - Onde ela está? Diga a Jory que a traga para cá imediatamente.

Lamento, senhor - disse Poole. - Os guardas do portão eram homens dos Lannister e in­formaram a rainha quando Jory a trouxe. Ela foi levada diretamente perante o rei...

Maldita seja aquela mulher! - Ned amaldiçoou, caminhando a passos largos para a porta. - Vá à procura de Sansa e a traga à sala de audiências. Sua versão pode ser necessária - desceu os degraus da torre submerso numa raiva rubra. Ele próprio dirigira as buscas durante os primeiros três dias, e quase não dormira uma hora desde o desaparecimento de Arya. Naquela manhã es­tivera tão desanimado e cansado que quase não conseguira se levantar, mas agora tinha no corpo sua fúria, enchendo-o de força.

Homens o chamaram quando atravessou o pátio do castelo, mas, em sua pressa, Ned os igno­rou. Teria corrido, mas ainda era a Mão do Rei, e uma Mão deve manter a dignidade. Estava cons­ciente dos olhares que o seguiam, das vozes murmuradas que interrogavam sobre o que ele faria,

O castelo era um modesto domínio a meio dia de viagem para sul do Tridente. A comitiva real impusera-se como um hóspede não convidado do senhor do domínio, Sor Raymun Darry, enquanto eram conduzidas as buscas por Arya e pelo filho do carniceiro em ambas as margens do rio. Não eram visitantes bem-vindos. Sor Raymun vivia sob a paz do rei, mas a família lutara no Tridente pelos estandartes do dragão de Rhaegar, e os três irmãos mais velhos tinham mor­rido ali, uma verdade que nem Robert nem Sor Raymun tinham esquecido. Com os homens do rei, os de Darry, os dos Lannister e os dos Stark, todos apinhados num castelo que era muito menor que o necessário para recebê-los juntos, as tensões ardiam quentes e pesadas.

O rei apropriara-se da sala de audiências de Sor Raymun, e foi aí que Ned os encontrou. A sala estava cheia de gente quando entrou num impulso. Demasiado cheia, pensou; a sós, ele e Robert poderiam ser capazes de tratar o assunto de forma amigável.

Robert estava afundado na cadeira alta de Darry, na extremidade mais distante da sala, com uma expressão fechada e carrancuda. Cersei Lannister e o filho encontravam-se em pé ao seu lado. A rainha tinha a mão pousada no ombro de Joffrey, Espessas ataduras de seda ainda co­briam o braço do rapaz.

Arya estava no centro da sala, só com Jory Cassei, com todos os olhos pousados nela.

-           Arya - chamou Ned em voz alta. E foi falar com ela, fazendo ressoar as botas no chão de pedra. Quando o viu, ela gritou e começou a soluçar.

Ned caiu sobre um joelho e a tomou nos braços. Ela tremia.

Lamento - soluçou -, lamento, lamento.

Eu sei - ele disse, Ela parecia tão minúscula nos seus braços, nada mais que uma meni­ninha magricela. Era difícil compreender como causara tantos problemas. - Está ferida?

Não - seu rosto estava sujo, e as lágrimas deixaram trilhos cor-de-rosa nas bochechas. - Tenho alguma fome. Comi umas frutinhas, mas não havia mais nada.

Em breve a alimentaremos - prometeu Ned, erguendo-se para encarar o rei. - O que sig­nifica isto? - seus olhos varreram a sala em busca de rostos amistosos. Sem contar com seus ho­mens, eram muito poucos. Sor Raymun Darry reservava bem a expressão. Lorde Renly ostentava um meio sorriso que podia significar qualquer coisa, e o velho Sor Barristan tinha uma expressão grave; o resto eram homens dos Lannister, hostis. Sua única sorte era que tanto Jaime Lannister como Sandor Clegane não se encontravam ali, porque ainda dirigiam buscas a norte do Tridente, - Por que motivo não fui avisado de que minha filha foi encontrada? - Ned exigiu saber, fazendo a voz ressoar. - Por que não me foi trazida de imediato?

Falava para Robert, mas foi Cersei Lannister quem respondeu.

-           Como ousa falar assim ao seu rei?

Ao ouvir aquilo, o rei agitou-se.

-           Silêncio, mulher - ele a silenciou. Endireitou-se no assento. - Lamento, Ned. Não quis assustar a menina. Pareceu melhor trazê-la aqui e despachar o assunto rapidamente.

-           E que assunto é este? - Ned tinha a voz gelada.

A rainha deu um passo à frente.

Sabe perfeitamente bem, Stark. Esta sua menina atacou meu filho. Ela e o filho de carni­ceiro. Aquele animal que ela tem tentou arrancar o braço de Joffrey.

Isso não é verdade - disse Arya em voz alta. - Ela só o mordeu um pouco. Ele estava fazendo mal a Mycah.

Joff contou-nos o que aconteceu - disse a rainha. - Você e o filho do carniceiro bateram nele com paus enquanto você atiçava o lobo.

Não foi assim que as coisas se passaram - disse Arya, de novo perto das lágrimas. Ned pôs-lhe a mão no ombro.

Foi, sim, senhora! - insistiu Príncipe Joffrey. - Todos me atacaram, e ela atirou a Dente de Leão ao rio! - Ned reparou que ele sequer olhava para Arya enquanto falava.

Mentiroso! - gritou Arya.

Cale-se! - gritou o príncipe.

Basta! - rugiu o rei, erguendo-se da cadeira, com a voz carregada de irritação. Caiu o silên­cio. Robert lançou um olhar ameaçador a Arya.

E agora, criança, vai me contar o que aconteceu. Vai contar tudo, e somente a verdade. Men­tir a um rei é um grande crime - depois olhou para o filho. - Quando ela acabar, será a sua vez. Até lá, tenha cuidado com a língua.

Quando Arya começou sua história, Ned ouviu a porta abrir atrás de si, olhou de relance por cima do ombro e viu Vayon Poole entrar com Sansa. Ficaram em silêncio no fundo da sala enquanto Arya falava. Quando chegou à parte em que atirava a espada de Joffrey no meio do Tridente, Renly Baratheon desatou a rir. O rei ficou irritado.

-           Sor Barristan, escolte meu irmão para fora da sala antes que se engasgue.

Lorde Renly abafou o riso.

-           Meu irmão é demasiado bondoso. Eu consigo encontrar a porta sozinho - fez uma reve­rência a Joffrey. - Talvez mais tarde tenha oportunidade de me contar como foi que uma menina de nove anos e do tamanho de um rato-dagua conseguiu desarmá-lo com um pau de vassoura e atirar sua espada ao rio - quando a porta se fechava atrás dele, Ned o ouviu dizer: - Dente de Leão - e soltar outra gargalhada.

Príncipe Joffrey estava pálido ao iniciar sua versão muito diferente dos acontecimentos. Quando o filho acabou de falar, o rei ergueu-se pesadamente da cadeira com uma expressão de quem queria estar em qualquer lugar, menos ali.

O que, com todos os sete infernos, devo eu pensar? Ele diz uma coisa e ela, outra.

Eles não eram os únicos presentes - disse Ned. - Sansa, venha cá - Ned ouvira sua versão da história na noite em que Arya desaparecera. Conhecia a verdade. - Conte-nos o que se passou.

A filha mais velha deu um passo hesitante à frente. Vestia veludo azul debruado de branco e usava uma corrente de prata em volta do pescoço. Os espessos cabelos ruivos tinham sido escova­dos até brilharem. Olhou para a irmã, e depois para o jovem príncipe.

Não sei - disse com voz chorosa, com uma expressão de quem queria fugir. - Não me lem­bro. Aconteceu tudo tão depressa, não vi...

Sua nojenta! - Arya guinchou. Saltou sobre a irmã como uma seta, atirando Sansa ao chão, enchendo-a de socos. - Mentirosa, mentirosa, mentirosa, mentirosa.

Arya, pare com isso! - Ned gritou. Jory a puxou de cima da irmã ainda agitando os braços. Sansa estava pálida e tremendo quando Ned a colocou de novo em pé. - Está machucada? - per­guntou, mas ela estava de olhos fixos em Arya e não pareceu ouvi-lo.

A menina é tão selvagem como aquele seu animal nojento - disse Cersei Lannister. - Robert, quero vê-la punida.

Sete infernos - praguejou Robert. - Cersei, olhe para ela. É uma criança. Que quer que eu faça, que a chicoteie pelas ruas? Com os diabos, as crianças lutam. Já acabou. Não foi feito nenhum mal duradouro.

A rainha estava furiosa.

-           Joff ficará com aquelas cicatrizes para o resto da vida.

Robert Baratheon olhou para o filho mais velho.

-           Pois que fique. Talvez lhe ensinem uma lição. Ned, trate de disciplinar sua filha. Eu farei o mesmo com meu filho.

De bom grado, Vossa Graça - Ned respondeu, bastante aliviado.

Robert começou a se afastar, mas a rainha ainda não tinha terminado.

E o lobo gigante? - ela gritou para suas costas. - E o animal que mordeu seu filho? O rei parou, virou-se, franziu a sobrancelha.

Tinha me esquecido do maldito lobo.

Ned pôde ver Arya ficar tensa entre os braços de Jory, que falou rapidamente.

Não encontramos nenhum sinal do lobo gigante, Vossa Graça.

O rei não pareceu infeliz com a notícia.

Não? Pois que assim seja.

A rainha ergueu a voz.

Cem dragões de ouro ao homem que me trouxer sua pele!

-           Uma pele bem cara - resmungou Robert. - Não tomarei parte disto, mulher. Bem pode comprar as suas peles com o ouro dos Lannister.

A rainha o olhou com frieza.

-           Eu não o imaginava capaz de tamanho avaro. O rei com quem pensei casar-me teria dispos­to uma pele de lobo sobre a minha cama antes de o sol se pôr.

O rosto de Robert escureceu de ira.

Isso seria um belo truque sem um lobo.

Nós temos um lobo - disse Cersei Lannister. Sua voz estava muito calma, mas seus olhos verdes brilhavam de triunfo.

Precisaram todos de um momento para compreender suas palavras, mas, quando consegui­ram, o rei encolheu os ombros, irritado.

-           Como quiser. Que Sor Ilyn trate do assunto.

-           Robert, não pode estar falando a sério - Ned protestou.

O rei não estava com disposição para mais discussões.

-           Basta, Ned, não quero ouvir mais nada. Um lobo gigante é um animal selvagem. Mais cedo ou mais tarde teria se virado contra sua filha tal como o outro se virou contra meu filho. Arranje-lhe um cão, ela ficará mais feliz assim.

Foi então que Sansa pareceu finalmente compreender. Seus olhos estavam assustados ao dirigi-los para o pai.

Ele não está falando da Lady, está? - ela viu a verdade no rosto de Ned.

Não - disse. - Não, a Lady não, a Lady não mordeu ninguém, ela é boa...

Lady não estava lá - gritou Arya em tom zangado. - Deixem-na em paz!

-           Impeça-os - suplicou Sansa. - Não deixe que façam isto, por favor, por favor, não foi a Lady, foi a Nymeria, foi Arya, não podem, não foi a Lady, não deixe que eles machuquem Lady, eu faço com que ela seja boa, prometo, prometo... - começou a chorar.

Tudo o que Ned pôde fazer foi tomá-la nos braços e consolá-la enquanto chorava. Olhou para o outro lado da sala, para Robert. Seu velho amigo, mais próximo que um irmão.

Por favor, Robert. Pelo amor que me tem. Pelo amor que tinha à minha irmã. Por favor. O rei olhou para eles por um longo momento, depois virou-se para a mulher,

Maldita seja, Cersei - disse com repugnância,

Ned pôs-se em pé, libertando-se gentilmente do abraço de Sansa. Todo o cansaço dos últi­mos quatro dias tinha regressado.

-           Então o faça, Robert - disse, numa voz fria e afiada como aço. - Pelo menos, tenha a cora­gem de fazê-lo.

Robert olhou para Ned com olhos baços e mortos, e saiu sem uma palavra, com passos pesa­dos como chumbo. O silêncio encheu a sala.

Onde está o lobo gigante? - perguntou Cersei Lannister quando o marido saiu. Ao seu lado Príncipe Joffrey sorria.

O animal está acorrentado ao lado da casa do portão, Vossa Graça - respondeu relutante­mente Sor Barristan Selmy.

-           Mande chamar Ilyn Payne.

-           Não - disse Ned. - Jory, leve as meninas para os quartos e me traga Gelo - as palavras tinham o gosto da bílis na garganta, mas ele as forçou sair. - Se tem de ser feito, eu o farei.

Cersei Lannister olhou-o com suspeita.

-           Você, Stark? Isto é algum truque? Por que faria uma coisa dessas?

Todos o olhavam, mas era o olhar de Sansa que cortava.

-           Ela pertence ao Norte. Merece mais que um carrasco.

Saiu da sala com os olhos ardendo e os lamentos da filha ecoando em seus ouvidos, e encontrou a cria de lobo gigante onde a tinham acorrentado. Ned sentou-se a seu lado por um momento.

-           Lady - disse, saboreando o nome. Nunca prestara grande atenção aos nomes que as crian­ças tinham escolhido, mas olhando-a agora compreendeu que Sansa tinha escolhido bem. Era a menor da ninhada, a mais bonita, a mais gentil e confiante. A loba o olhou com brilhantes olhos dourados, e ele afagou-lhe o espesso pelo cinzento.

Pouco tempo depois, Jory trouxe-lhe Gelo.

Quando acabou, disse:

Escolha quatro homens e ordene que transportem o corpo para o Norte. Enterrem-na em Winterfell.

Toda essa distância? - perguntou Jory, espantado.

-           Toda essa distância - Ned afirmou. - A mulher Lannister nunca terá esta pele. Regressava à torre para se abandonar por fim ao sono, quando Sandor Clegane e seus cavalei­ros atravessaram com estrondo o portão do castelo, regressando de sua caçada.

Havia algo atirado sobre a garupa de seu cavalo de batalha, uma forma pesada enrolada num manto ensanguentado.

-           Nenhum sinal da sua filha, Mão - disse o Cão de Caça com voz áspera -, mas o dia não foi um desperdício completo. Encontramos seu animalzinho de estimação - esticou o braço para trás e atirou o fardo de cima do cavalo, fazendo-o cair com um baque surdo à frente de Ned.

Dobrando-se, Ned afastou o manto, temendo as palavras que teria de encontrar para Arya, mas afinal não se tratava de Nymeria. Era o filho do carniceiro, Mycah, com o corpo coberto de sangue seco. Tinha sido quase cortado ao meio, do ombro à cintura, por um terrível golpe dado de cima.

-           Você o matou de cima do cavalo - disse Ned.

Os olhos do Cão de Caça pareceram cintilar através do aço daquele hediondo elmo em forma de cabeça de cão.

-           Ele fugiu - olhou para a cara de Ned e soltou uma gargalhada. - Mas não muito depressa.

 

                   Bran

Era como se estivesse caindo há anos.

Voe, sussurrou uma voz na escuridão, mas Bran não sabia voar e, portanto, tudo o que podia fazer era cair.

Meistre Luwin moldou um rapazinho de barro, cozeu-o até ficar duro e quebradiço, vestiu-o com a roupa de Bran e atirou-o de um telhado. Bran recordou o modo como se estilhaçara.

-           Mas eu nunca caio - disse, já caindo.

O chão estava tão longe que quase não conseguia distingui-lo através das névoas cinzentas que turbilhonavam à sua volta, mas podia sentir que caía muito depressa, e sabia o que o esperava lá embaixo. Mesmo nos sonhos, não é possível cair para sempre. Sabia que acordaria um instante antes de atingir o solo. Sempre se acorda um instante antes de atingir o solo.

E se não acordar?, perguntou a voz.

O chão estava agora mais perto, ainda distante, a um milhar de milhas de distância, mas mais perto do que estivera. Ali, na escuridão, fazia frio. Não havia sol, nem estrelas, apenas o solo, lá embaixo, que subia para esmagá-lo, e as névoas cinzentas, e a voz sussurrada. Desejou chorar.

Não chore. Voe.

-           Não posso voar - disse Bran. - Não posso, não posso...

Como sabe? Alguma vez já tentou?

A voz era aguda e fraca. Bran olhou em volta para ver de onde vinha. Um corvo descia com ele, em espiral, longe de seu alcance, seguindo-o na queda.

-           Ajude-me - disse.

Estou tentando, respondeu o corvo. Olha, tem algum milho?

Bran levou a mão ao bolso enquanto a escuridão girava, estonteante, à sua volta. Quando ti­rou a mão, grãos dourados deslizaram por entre os dedos, para o ar. E passaram a cair com ele. O corvo pousou em sua mão e pôs-se a comer.

É mesmo um corvo? - perguntou Bran.

Está mesmo caindo?, retorquiu o corvo.

É só um sonho - disse Bran.

- Será?, perguntou o corvo.

Eu acordo quando atingir o chão - Bran respondeu à ave.

Você morre quando atingir o chão, disse o corvo. Pôs-se de novo a comer milho.

Bran olhou para baixo. Conseguia agora distinguir montanhas, com picos brancos de neve, e as fitas prateadas de rios em bosques escuros. Fechou os olhos e começou a chorar.

Isso não serve para nada, disse o corvo. Já te disse, a resposta é voar, não chorar. Quão difícil pode ser? Eu estou voando. O corvo entregou-se ao ar e esvoaçou em torno da mão de Bran.

-           Você tem asas - fez notar Bran.

Talvez você também tenha.

Bran apalpou os ombros, à procura de penas.

Há diferentes tipos de asas, disse o corvo.

Bran olhava os braços e as pernas. Era tão magro, só pele, toda esticada por cima de ossos. Teria sido sempre assim tão magro? Tentou se lembrar. Um rosto nadou até ele, saído da névoa cinzenta, brilhando, luminoso, dourado.

-           As coisas que eu faço por amor - disse o rosto.

Bran gritou.

O corvo levantou vôo, grasnando.

Isso, não, guinchou para Bran. Esquece, não precisa disso agora, ponha-o de lado, faça-o desapa­recer. Pousou no ombro de Bran, deu-lhe bicadas, e o brilhante rosto dourado desapareceu.

Bran estava caindo mais depressa do que nunca. As névoas cinzentas uivavam em seu redor enquanto mergulhava para a terra, embaixo.

O que você está me fazendo? - perguntou ao corvo, choroso.

- Estou lhe ensinando a voar.

Não posso voar!

Está voando agora mesmo.

-           Estou caindo!

Todos os vôos começam com uma queda, disse o corvo. Olhe para baixo.

-           Tenho medo...

- OLHE PARA BAIXO!

Bran olhou para baixo e sentiu as entranhas se transformarem em água. O chão corria agora em sua direção. O mundo inteiro espalhava-se por baixo dele, uma tapeçaria de brancos, marrons e verdes. Via tudo com tanta clareza que, por um momento, se esqueceu de ter medo. Conseguia ver todo o reino e toda a gente que nele havia.

Viu Winterfell como as águias o viam, as grandes torres que pareciam baixas e atarracadas vistas de cima, as muralhas do castelo transformadas em simples linhas traçadas na terra. Viu Meistre Luwin em sua varanda, estudando o céu através de um tubo de bronze polido e franzindo a testa enquanto tomava notas num livro. Viu o irmão Robb, mais alto e mais forte do que se lembrava, praticando esgrima no pátio com aço verdadeiro nas mãos. Viu Hodor, o gigante sim­plório dos estábulos, transportando uma bigorna para a forja de Mikken, levando-a ao ombro com tanta facilidade como outro homem levaria um fardo de palha. No coração do bosque sa­grado, o grande represeiro branco pairava sobre o seu reflexo na lagoa negra, com as folhas a bater sob um vento gelado. Quando sentiu que Bran o observava, ergueu os olhos das águas paradas e devolveu-lhe um olhar sábio.

Olhou para leste e viu uma galé que se apressava através das águas da Dentada. Viu sua mãe, sentada, só, numa cabine, olhando para uma faca manchada de sangue pousada sobre a mesa à sua frente, enquanto os remadores puxavam pelos remos e Sor Rodrik se dobrava sobre uma amurada, tremendo com convulsões. Levantava-se uma tempestade à frente do barco, um vasto bramido escuro flagelado por relâmpagos, mas, de alguma maneira, eles não conseguiam vê-la.

Olhou para o sul e viu a grande corrente azul-esverdeada do Tridente. Viu o pai suplicar ao rei, com dor gravada no rosto. Viu Sansa chorar até adormecer, à noite, e Arya guardar seus se­gredos bem fundo no coração. Havia sombras a toda a volta. Uma das sombras era escura como cinza, com o terrível rosto de um cão de caça. Outra estava armada como o sol, dourada e bela.

Sobre ambas erguia-se um gigante numa armadura de pedra, mas, quando abriu a viseira, nada havia lá dentro a não ser escuridão e um espesso sangue negro.

Ergueu os olhos e viu com clareza para lá do mar estreito, viu as Cidades Livres, o mar verde dothraki e, mais além, até Vaes Dothrak, no sopé de sua montanha, até as terras fabulosas do Mar de Jade, até Ashhai da Sombra, onde se agitam dragões ao nascer do sol.

Finalmente olhou para o norte. Viu a Muralha brilhar como cristal azul, e o irmão bastardo Jon dormir sozinho numa cama fria, com a pele ficando branca e dura à medida que a memória de todo o calor ia escapando dele. E olhou para lá da Muralha, para lá de florestas sem fim sob um manto de neve, para lá da costa gelada e dos grandes rios azuis esbranquiçados de gelo e das planícies mortas onde nada crescia nem vivia. Olhou para o norte, e para norte, e para norte, para a cortina de luz no fim do mundo, e então para lá dessa cortina. Olhou para as profundezas do coração do inverno, e então gritou, com medo, e o calor das lágrimas queimou-lhe o rosto.

Agora você sabe, sussurrou o corvo ao pousar no seu ombro. Agora sabe por que deve viver.

-           Por quê? - disse Bran, sem compreender, e caindo, caindo.

- Porque o inverno está para chegar.

Bran olhou para o corvo em seu ombro, e o corvo devolveu-lhe o olhar. Possuía três olhos, e o terceiro estava cheio de uma terrível sabedoria. Bran olhou para baixo. Nada havia agora abaixo dele além de neve, frio e morte, um vazio gelado onde agulhas denteadas de gelo azul esbranqui­çado esperavam para abraçá-lo. Voavam em sua direção como lanças. Viu os ossos de mil outros sonhadores empalados em suas pontas. Sentia um medo desesperador.

-           Pode um homem continuar a ser valente se tiver medo? - ouviu sua voz dizer, uma voz pequena e distante.

E a voz de seu pai lhe respondeu.

-           Essa é a única maneira de um homem ser valente. E agora, Bran, insistiu o corvo. Escolhe. Voa ou morre. A morte estendeu as mãos para ele, gritando.

Bran abriu os braços e voou.

Asas invisíveis beberam o vento e encheram-se, e empurraram-no para cima. As terríveis agu­lhas de gelo afastaram-se lá embaixo. O céu abriu-se lá em cima. Bran pairou. Era melhor que escalar. Era melhor que qualquer outra coisa. O mundo encolheu por baixo dele.

-           Estou voando! - gritou, deliciado.

Já percebi, disse o corvo de três olhos. Levantou vôo, batendo as asas contra o rosto de Bran, reduzindo-lhe a velocidade, cegando-o. O rapaz hesitou no ar quando as asas da ave bateram no seu rosto. O bico do corvo apunhalou-o ferozmente, e Bran sentiu uma súbita dor cegante no meio da testa, entre os olhos.

-           O que está fazendo? - guinchou.

O corvo abriu o bico e grasnou, um estridente grito de medo, e as névoas cinzentas estreme­ceram, rodopiaram à sua volta e rasgaram-se como um véu, e ele viu que o corvo era na realidade uma mulher, uma criada com longos cabelos negros, e ele a conhecia de algum lugar, de Winterfell, sim, era isso, agora se lembrava dela, e então compreendeu que estava em Winterfell, numa cama, num quarto gelado qualquer, numa torre, e a mulher de cabelos negros deixara uma bacia de água estilhaçar-se no chão e corria pelos degraus abaixo gritando: "Ele está acordado, ele está acordado, ele está acordado".

Bran levou a mão à testa, entre os olhos. O lugar onde o corvo bicara ainda ardia, mas não havia nada, nem sangue, nem ferida. Sentiu-se fraco e tonto. Tentou sair da cama, mas nada aconteceu.

E então sentiu um movimento ao lado da cama, e algo pousou agilmente sobre suas pernas. Nada sentiu. Um par de olhos amarelos olhava os seus, brilhando como o sol. A janela estava aberta e fazia frio no quarto, mas o calor que vinha do lobo envolveu-o como um banho quente.

Bran compreendeu que se tratava de sua cria... ou não? O lobo estava tão grande. Estendeu a mão para lhe fazer uma festa, uma mão que tremia como uma folha.

Quando o irmão Robb entrou correndo no quarto, sem fôlego por causa dos degraus da torre acima, o lobo gigante lambia o rosto de Bran.

Bran ergueu os olhos calmamente.

- O nome dele é Verão - ele disse.

 

                   Catelyn

- Chegaremos a Porto Real dentro de uma hora. Catelyn afastou-se da amurada e forçou-se a sorrir.

-           Vossos remadores trabalharam bem por nós, capitão. Cada um receberá um veado de prata, em sinal da minha gratidão.

Capitão Moreo Tumitis concedeu-lhe uma meia reverência.

-           E demasiado generosa, Senhora Stark. A honra de transportar uma grande senhora como vós é toda a recompensa de que necessitam.

-           Mas mesmo assim receberão a prata.

Moreo sorriu.

-           Como desejar - falava a língua comum fluentemente, com não mais que um ligeiro sinal de sotaque tyroshi. Dissera-lhe que já percorria o mar estreito havia trinta anos, como remador, contramestre e, finalmente, capitão de suas próprias galés comerciais. O Dançarino da Tempes­tade era seu quarto navio, e o mais rápido, uma galé de dois mastros e sessenta remos.

Fora certamente o mais rápido dos navios disponíveis em Porto Branco quando Catelyn e Sor Rodrik Cassei chegaram do seu impetuoso galope ao longo do rio. Os tyroshis eram célebres pela sua avareza, e Sor Rodrik argumentara em favor de contratarem uma corveta de pesca vinda das Três Irmãs, mas Catelyn insistira na galé. Ainda bem. Os ventos tinham soprado contrários durante a maior parte da viagem, e sem os remos da galé ainda estariam tentando ultrapassar os Dedos, em vez de deslizarem em direção a Porto Real e ao fim da travessia.

Tão perto, pensou. Sob as ataduras de linho, seus dedos ainda latejavam nos lugares onde o punhal penetrara. Catelyn sentia a dor como seu chicote, que existia para que não esquecesse. Não conseguia dobrar os últimos dois dedos da mão esquerda, e os outros nunca mais seriam destros. Mas era um preço bem pequeno a pagar pela vida de Bran.

Sor Rodrik escolheu aquele momento para aparecer no convés.

Meu bom amigo - disse Moreo através da barba verde e bifurcada. Os tyroshis adoravam cores vivas, mesmo nos pelos faciais. - É tão bom vê-lo com melhor aspecto.

Sim - concordou Sor Rodrik. - Já há quase dois dias que não desejo morrer - fez uma reverência a Catelyn. - Minha senhora.

E estava com melhor aspecto. Um pouco mais magro do que era quando partiram de Porto Branco, mas quase ele próprio de novo. Os ventos fortes da Dentada e a dureza do mar estreito não se conjugavam com ele, e quase fora atirado borda afora quando a tempestade os apanhara inesperadamente ao largo de Pedra do Dragão, mas de algum modo conseguira agarrar-se a uma corda, até que três dos homens de Moreo lograram salvá-lo e o levaram em segurança para o interior do navio.

-           O capitão acaba de dizer-me que a nossa viagem está quase no fim - disse ela. Sor Rodrik conseguiu lhe dar um sorriso fatigado.

-           Tão depressa? - parecia estranho sem as grandes suíças brancas; de certo modo menor, me­nos feroz e dez anos mais velho. Mas na Dentada parecera prudente submetê-las à navalha de um tripulante depois de terem se sujado irremediavelmente, pela terceira vez, quando ele se inclinou sobre a amurada para vomitar contra os turbilhões de vento.

-           Vou deixá-los discutindo seus assuntos - disse o capitão Moreo. Fez uma vénia e afastou-se. A galé deslizava sobre a água como uma libélula, com os remos subindo e descendo em per­feita cadência. Sor Rodrik apoiou-se na amurada e observou a costa que ia passando.

-           Não tenho sido o mais valente dos protetores. Catelyn tocou-lhe o braço.

Estamos aqui, Sor Rodrik, e em segurança. É tudo o que realmente importa - sua mão tateou sob o manto, com os dedos rígidos e desajeitados. Ainda trazia o punhal junto a si. Desco­brira que precisava tocá-lo de vez em quando para se tranquilizar. - Agora temos de encontrar o mestre de armas do rei e rezar para que ele seja de confiança.

Sor Aron Santagar é um homem vaidoso, mas honesto - a mão de Sor Rodrik subiu ao rosto para afagar as suíças e descobriu uma vez mais que elas tinham desaparecido. Pareceu atra­palhado. - Ele pode conhecer a lâmina, sim..., mas, minha senhora, no momento em que desem­barcarmos, ficaremos em risco. E há quem, na corte, a reconheça à primeira vista.

A boca de Catelyn apertou-se.

-           Mindinho - murmurou. Seu rosto surgiu-lhe em frente aos olhos; um rosto de rapaz, em­bora já não o fosse. Seu pai morrera havia vários anos, e ele era agora Lorde Baelish, mas ainda o chamavam Mindinho. O irmão de Catelyn, Edmure, dera-lhe esse nome, há muito tempo, em Correrrio. Os modestos domínios da família de Petyr ficavam no menor dos Dedos, e ele tinha sido baixo e magro para sua idade.

Sor Rodrik limpou a garganta.

Uma vez, Lorde Baelish, ah... - seu pensamento partiu, incerto, em busca das palavras delicadas. Mas Catelyn parecia buscar mais que delicadeza.

Ele foi protegido de meu pai. Crescemos juntos em Correrrio. Eu pensava nele como um irmão, mas seus sentimentos por mim eram... mais do que fraternais. Quando foi anunciado que eu deveria me casar com Brandon Stark, Petyr lançou um desafio pelo direito à minha mão. Era uma loucura. Brandon tinha vinte anos, Petyr, pouco mais de quinze. Tive de suplicar a Bran­don que poupasse a vida de Petyr. Mas ele o deixou com uma cicatriz. Depois disso, meu pai o mandou embora. Nunca mais o vi - ergueu o rosto contra os borrifos das ondas, como se o vento fresco pudesse levar as recordações para longe. - Escreveu-me para Correrrio depois de Brandon ser morto, mas queimei a carta sem ler. Já então sabia que Ned casaria comigo no lugar do irmão.

Os dedos de Sor Rodrik tatearam uma vez mais em busca das suíças inexistentes.

Hoje Mindinho tem assento no pequeno conselho.

Eu sabia que ele iria longe - disse Catelyn. - Sempre foi inteligente, mesmo ainda rapaz, mas uma coisa é ser inteligente, e outra é ser sábio. Pergunto a mim mesma o que os anos lhe terão feito.

Bem acima de suas cabeças, os vigias cantaram do topo das velas. Capitão Moreo precipitou--se pelo convés, dando ordens, e o Dançarino da Tempestade rebentou numa atividade frenética enquanto Porto Real surgia à vista em cima de suas três grandes colinas.

Catelyn sabia que trezentos anos antes aquelas elevações estavam cobertas por florestas, e só um punhado de pescadores vivia na margem norte da Torrente da Água Negra, onde esse rio rá­pido e profundo desaguava no mar. Então, Aegon, o Conquistador, zarpara de Pedra do Dragão. Fora ali que seu exército desembarcara, e no topo da colina mais alta construíra seu primeiro e rude baluarte de madeira e terra.

Agora a cidade cobria a costa até tão longe quanto Catelyn conseguia ver; mansões, caraman­chões e celeiros, armazéns feitos de tijolo e estalagens e estábulos comerciais de madeira, taber­nas, cemitérios e bordéis, tudo empilhado, uns edifícios sobre os outros. Mesmo àquela distância, conseguia ouvir o clamor do mercado de peixe. Entre os edifícios, estendiam-se estradas largas debruadas de árvores, sinuosas ruas vazias e vielas tão estreitas que dois homens não poderiam nelas caminhar lado a lado. A colina de Visenya estava coroada pelo Grande Septo de Baelor, com suas sete torres de cristal. Do outro lado da cidade, na colina de Rhaenys, erguiam-se os muros enegrecidos do Poço dos Dragões, com sua enorme cúpula caída em ruína, as portas de bronze fechadas havia já um século. A Rua das Irmãs corria entre os dois edifícios, reta como uma seta. As muralhas da cidade erguiam-se a distância, altas e fortes.

Uma centena de desembarcadouros cobria a margem da cidade, e o porto estava repleto de navios. Barcos de pesca de águas profundas e correios do rio chegavam e partiam, barqueiros remavam de um lado para o outro na Torrente da Água Negra, galés comerciais descarregavam produtos vindos de Bravos, Pentos e Lys. Catelyn espiou a ornamentada barcaça da rainha, amar­rada ao lado de um gordo baleeiro vindo do Porto de Ibben, com o casco enegrecido de piche, enquanto a montante uma dúzia de esbeltos navios de guerra dourados repousava em suas docas, com as velas enroladas e os cruéis esporões de ferro a afagar a água,

E acima de tudo, lançando um olhar carrancudo da grande colina de Aegon, estava a Forta­leza Vermelha, sete enormes torres cilíndricas coroadas por baluartes de ferro, um imenso e sombrio contraforte, salões abobadados e pontes cobertas, casernas, masmorras e celeiros, ma­ciças muralhas de barragem cravejadas de guaritas para arqueiros, tudo construído de pedra vermelha-clara, Aegon, o Conquistador, ordenara sua construção. Seu filho, Maegor, o Cruel, a completara, E depois exigira a cabeça de todos os pedreiros, carpinteiros e construtores que nela trabalharam. Jurara que só o sangue do dragão podia conhecer os segredos da fortaleza que os Senhores do Dragão tinham construído.

E, no entanto, os estandartes que agora esvoaçavam em suas ameias eram dourados, não negros, e onde o dragão de três cabeças antes exalara fogo, agora curveteava o veado coroado da Casa Baratheon.

Um navio de grandes mastros das Ilhas do Verão estava saindo do porto com suas velas bran­cas enormes. O Dançarino da Tempestade passou por ele, aproximando-se firmemente da costa.

-           Minha senhora - disse Sor Rodrik -, enquanto estive acamado, planejei a melhor forma de proceder. Não deve entrar no castelo. Eu irei em vosso lugar e trarei Sor Aron até algum lugar seguro.

Ela estudou o velho cavaleiro enquanto a galé se aproximava do cais. Moreo gritava no valiriano vulgar das Cidades Livres.

-           Correrá tantos riscos como eu.

Sor Rodrik sorriu.

-           Julgo que não. Há pouco olhei meu reflexo na água e quase não me reconheci a mim mes­mo. Minha mãe foi a última pessoa a me ver sem suíças, e está morta há quarenta anos. Acredito que estou suficientemente seguro, minha senhora.

Moreo berrou uma ordem. Como se fossem um único, sessenta remos ergueram-se do rio, de­pois inverteram a rotação, e caíram. A galé perdeu velocidade. Outro grito. Os remos deslizaram para dentro do casco. No momento em que o navio esbarrava na doca, marinheiros tyroshis sal­taram para terra a fim de amarrá-lo. Moreo aproximou-se em grande azáfama, todo sorrisos.

Porto Real, minha senhora, tal como havia ordenado, e nunca nenhum navio fez viagem mais rápida e segura. Necessitará de assistência no transporte de vossas coisas para o castelo?

Não vamos para o castelo. Talvez me possa sugerir uma estalagem, um lugar limpo e con­fortável, e não muito longe do rio.

O tyroshi passou os dedos pela barba verde e bifurcada.

-           Com certeza. Conheço vários estabelecimentos que podem lhe convir. Mas primeiro, se me permite a ousadia, há o assunto da segunda parte do pagamento que acordamos. E, bem entendido, a prata extra que teve a bondade de prometer. Sessenta veados, julgo que era esse o montante.

-           Para os remadores - lembrou-lhe Catelyn.

Ah, com certeza - disse Moreo. - Embora eu talvez deva guardá-los para eles até regressar­mos a Tyrosh. Para o bem de suas esposas e filhos. Se a prata lhes for dada aqui, minha senhora, irão perdê-la para os dados ou gastá-la por completo numa noite de prazer.

Há coisas piores em que gastar dinheiro - interveio Sor Rodrik. - O inverno está para chegar.

Um homem deve fazer as suas próprias escolhas - disse Catelyn. - Eles ganharam a prata. Como a gastam não me diz respeito.

-           Como desejar, minha senhora - respondeu Moreo, fazendo uma reverência e sorrindo.

Para se assegurar de que o dinheiro chegaria ao destino, Catelyn pagou ela própria aos rema­dores, um veado para cada homem e uma moeda de cobre para os dois homens que transpor­taram suas arcas até o meio da encosta de Visenya, onde ficava a estalagem que Moreo sugerira. Era um velho edifício de perfil irregular que se erguia na Viela das Enguias. A dona era uma velha enrugada com um olho preguiçoso, que os mirou com suspeita e mordeu a moeda que Ca­telyn lhe ofereceu a fim de se certificar de que era verdadeira. Mas seus quartos eram grandes e arejados, e Moreo jurava que seu guisado de peixe era o mais saboroso em todos os Sete Reinos. O melhor de tudo era que não tinha nenhum interesse em seus nomes.

-           Julgo ser melhor que se mantenha afastada da sala comum - disse Sor Rodrik, depois de terem se instalado. - Mesmo num lugar como este, nunca se sabe quem pode estar à espreita - usava cota de malha, um punhal e uma espada sob um manto escuro com capuz que podia puxar sobre a cabeça. - Estarei de volta antes de cair a noite com Sor Aron - prometeu. - Agora descanse, minha senhora.

Catelyn estava cansada. A viagem fora longa e fatigante, e já não era tão jovem. As janelas de seu quarto davam para a viela e para telhados, com uma vista do Água Negra por cima deles. Observou Sor Rodrik partir e caminhar em passo vivo pelas ruas movimentadas até se perder na multidão, e depois decidiu seguir seu conselho. O colchão era de palha, não de penas, mas não teve dificuldade em adormecer.

Acordou com um toque na porta.

Catelyn sentou-se de repente. Da janela viam-se os telhados de Porto Real, vermelhos à luz do sol poente. Dormira durante mais tempo do que planejara. Um punho voltou a martelar na porta e uma voz gritou:

-           Abra, em nome do rei.

-           Um momento - ela gritou. Envolveu-se no manto. O punhal encontrava-se sobre a mesa de cabeceira. Agarrou-o antes de destrancar a pesada porta de madeira.

Os homens que entraram no quarto usavam a cota de malha negra e os mantos dourados da Patrulha da Cidade. Seu líder sorriu ao ver o punhal na mão de Catelyn e disse:

Não há necessidade disso, minha senhora. Temos ordens de escoltá-la até o castelo.

Sob autoridade de quem? - ela perguntou.

Ele lhe mostrou uma fita. Catelyn sentiu que sua respiração estava presa na garganta. O selo era um tejo, em cera cinzenta.

Petyr - disse. Tão depressa. Algo devia ter acontecido a Sor Rodrik. Olhou para o chefe dos guardas: - Sabe quem eu sou?

Não, senhora - disse ele. - O Senhor Mindinho só disse para levá-la até ele, e evitar que seja maltratada.

Catelyn anuiu.

-           Pode esperar lá fora enquanto me visto.

Lavou as mãos na bacia e enrolou-as em linho limpo. Sentiu os dedos grossos e desajeitados enquanto lutava para atar o corpete e prender um pesado manto marrom em torno do pescoço. Como podia Mindinho ter sabido que estava ali? Sor Rodrik nunca lhe diria. Podia ser velho, mas era teimoso e impecavelmente leal. Teriam chegado tarde demais? Teriam os Lannister che­gado a Porto Real antes deles? Não. Se fosse isso, Ned também estaria ali, e sem dúvida que viria vê-la. Como?...

Então pensou: Moreo, O maldito tyroshi sabia quem eles eram e onde estavam. Catelyn espe­rava que o homem tivesse obtido um bom preço pela informação.

Tinham lhe trazido um cavalo. Os candeeiros estavam sendo acesos ao longo das ruas por que caminhavam e Catelyn sentiu os olhos da cidade postos nela enquanto avançava, rodea­da pelos guardas de mantos dourados. Quando chegaram à Fortaleza Vermelha, a porta levadiça estava abaixada e os grandes portões trancados para a noite, mas as janelas do castelo mostravam-se vivas com luzes tremeluzentes. Os guardas deixaram as montarias fora da mu­ralha e escoltaram-na por uma estreita porta lateral, e depois ao longo de uma infinidade de degraus até uma torre.

Ele estava sozinho na sala, sentado a uma pesada mesa de madeira, com uma candeia de azei­te a seu lado enquanto escrevia. Quando a introduziram no aposento, pousou a pena e olhou-a.

Cat - disse em voz baixa.

Por que motivo fui aqui trazida desta maneira?

Ele se levantou e fez um gesto brusco para os guardas.

-           Deixem-nos - os homens partiram. - Não foi maltratada, espero - disse, depois de os ou­tros terem saído. - Dei instruções firmes - reparou nas ataduras. - Suas mãos...

Catelyn ignorou a pergunta implícita.

Não estou habituada a ser convocada como uma meretriz - disse com voz gelada. - Aindr: rapaz sabia o que significava cortesia.

Zanguei-a, minha senhora. Essa nunca foi minha intenção - parecia contrito. A expressão trouxe a Catelyn vivas memórias. Fora uma criança maliciosa, mas depois de suas travessuras parecia sempre contrito; era um dom que possuía. Os anos não o tinham mudado muito. Petyi tinha sido um rapaz pequeno, e crescera até transformar-se num homem pequeno, quatro ou cinco centímetros mais baixo que Catelyn, esbelto e rápido, com as feições inteligentes que ela recordava e os mesmos olhos risonhos cinza-esverdeados. Usava agora uma pequena barbicha pontiaguda, e tinha traços de prata no cabelo escuro, embora ainda não tivesse trinta anos. Com­binavam bem com o tejo de prata que prendia ao manto. Mesmo quando criança, sempre gostara de sua prata.

-           Como soube que eu estava na cidade? - ela perguntou.

-           Lorde Varys sabe tudo - disse Petyr com um sorriso malicioso. - Ele se juntará a nós em breve, mas eu quis vê-la a sós primeiro. Foi há tanto tempo, Cat. Quantos anos?

Catelyn ignorou a familiaridade do homem. Havia perguntas mais importantes.

-           Então foi a Aranha do Rei que me encontrou. Mindinho encolheu-se.

-           Não deve chamá-lo assim. Ele é muito sensível. Imagino que por ser um eunuco. Nada acon­tece nesta cidade sem que Varys fique sabendo. Por vezes, ele sabe das coisas antes de elas aconte­cerem. Tem informantes por todo o lado. Chama-os de seus passarinhos. Um de seus passarinhos ouviu falar da sua visita. Felizmente, Varys veio falar comigo primeiro.

-           Por que você?

Ele encolheu os ombros.

-           E por que não? Sou o mestre da moeda, o conselheiro do rei. Selmy e Lorde Renly foram para o Norte ao encontro de Robert, e Lorde Stannis partiu para Pedra do Dragão, deixando só Meistre Pycelle e eu. Era a escolha óbvia. Sempre fui amigo de sua irmã Lysa, e Varys sabe disso.

-           Saberá Varys sobre...

Lorde Varys sabe tudo... exceto o motivo de estar aqui - ergueu uma sobrancelha. - E por que motivo está aqui?

É permitido a uma esposa ansiar pelo marido, e se uma mãe precisar das filhas por perto, quem lhe dirá que não?

Mindinho soltou uma gargalhada.

-           Ah, muito bem, minha senhora, mas com certeza não espera que eu acredite nisso. Co­nheço-a bem demais. Como eram as palavras dos Tully?

A garganta dela estava seca.

-              Família, Dever, Honra - recitou rigidamente. Ele de fato a conhecia bem demais.

-           Família, Dever, Honra - repetiu ele. - E todas estas coisas requeriam que tivesse perma­necido em Winterfell, onde a nossa Mão a deixou. Não, minha senhora, algo aconteceu. Esta sua súbita viagem sugere certa urgência. Suplico-lhe, deixe-me ajudar. Os velhos amigos íntimos nunca deveriam hesitar em apoiar-se uns nos outros - ouviu-se uma suave batida na porta. - En­tre - disse Mindinho em voz alta.

O homem que atravessou a porta era roliço, perfumado, empoado e tão desprovido de cabelos como um ovo. Trajava uma veste de fio de ouro trançado sobre um vestido largo de seda púrpura e, nos pés, trazia chinelos pontiagudos de suave veludo.

-           Senhora Stark - disse, tomando-lhe uma mão nas suas -, vê-la de novo após tantos anos é uma grande alegria - sua pele era mole e úmida, e o hálito cheirava a lilases. - Ah, suas pobres mãos. Queimaduras, querida senhora? Os dedos são tão delicados... Nosso bom Meistre Pycelle faz um bálsamo maravilhoso, mando buscar um jarro?

Catelyn puxou a mão.

-           Agradeço-lhe, senhor, mas meu Meistre Luwin já tratou de minhas dores, Varys inclinou a cabeça.

- Fiquei atrozmente triste quando soube do que aconteceu ao seu filho. E ele tão jovem. Os deuses são cruéis.

-           Nisso concordamos, Senhor Varys - ela disse. O título não passava de uma cortesia que lhe era devida por ser membro do conselho; Varys não era senhor de coisa nenhuma, a não ser da teia de aranha; mestre de ninguém, a não ser de seus segredos.

O eunuco estendeu as mãos suaves.

-           Em mais do que isso, espero eu, querida senhora. Tenho grande estima pelo seu marido, nossa nova Mão, e sei que ambos amamos o rei Robert.

-           Sim - foi forçada a dizer. - Com certeza.

Nunca um rei foi tão amado como o nosso Robert - observou Mindinho, sorrindo mali­ciosamente. - Pelo menos ao alcance dos ouvidos do Senhor Varys.

Minha boa senhora - disse Varys com grande solicitude. - Há homens nas Cidades Livres com assombrosos poderes curativos. Basta que me diga uma palavra e mandarei chamar um para o seu querido Bran.

Meistre Luwin está fazendo tudo o que pode ser feito por Bran - ela informou. Não queria falar de Bran, não ali, não com aqueles homens. Confiava apenas um pouco em Mindinho, e abso­lutamente nada em Varys, Não queria deixá-los ver sua dor. - Lorde Baelish disse-me que é a vós que devo agradecer por me trazerem até aqui.

Varys soltou um risinho de moça,

-           Ah, sim. Suponho que sou culpado. Espero que me perdoe, bondosa senhora - instalou-se numa cadeira e juntou as mãos. - Pergunto a mim mesmo se podemos incomodá-la pedindo que nos mostre o punhal?

Catelyn Stark fitou o eunuco com uma descrença atordoada. Ele era uma aranha, pensou preci­pitadamente, um encantador, ou coisa pior. Sabia coisas que ninguém poderia de modo algum saber, a não ser que...

-           O que fez a Sor Rodrik?

Mindinho tinha perdido o fio da meada.

Sinto-me como o cavaleiro que chega ao campo de batalha sem sua lança. De que punhal estamos falando? Quem é Sor Rodrik?

Sor Rodrik Cassei é mestre de armas em Winterfell - Varys respondeu. - Asseguro-lhe, Senhora Stark, que absolutamente nada foi feito ao bom cavaleiro. Ele veio até aqui esta tarde. Visitou Sor Aron Santagar no armeiro, e conversaram sobre um certo punhal. Por volta do pôr do sol, saíram juntos do castelo e dirigiram-se àquele pavoroso casebre onde estão alojados. Ainda estão lá, bebendo na sala de estar, à espera do seu regresso. Sor Rodrik ficou muito aflito quando não a encontrou lá.

-           Como pode saber tudo isso?

-           Os sussurros de passarinhos - disse Varys, sorrindo. - Eu sei coisas, querida senhora. É essa a natureza dos meus serviços - encolheu os ombros. - Tem o punhal convosco, não é?

Catelyn puxou-o de dentro do manto e o atirou em cima da mesa à frente dele.

-           Aqui está. Talvez seus passarinhos possam segredar o nome do homem a quem pertence. Varys ergueu a faca com uma delicadeza exagerada e percorreu-lhe o gume com o polegar.

Jorrou sangue, e ele deixou escapar um guincho e largou o punhal sobre a mesa.

-           Cuidado - disse-lhe Catelyn -, é afiado.

-           Nada mantém o gume como o aço valiriano - disse Mindinho enquanto Varys sugava o polegar ferido e lançava a Catelyn um olhar de carrancuda advertência. Mindinho sopesou a faca com ligeireza, sentindo-a. Atirou-a ao ar, e voltou a apanhá-la com a outra mão. - Que belo equilíbrio. Quer encontrar o dono, é este o motivo desta visita? Não há necessidade de Sor Aron para isso, minha senhora. Devia ter me procurado.

-           E se o tivesse feito - disse ela -, o que me teria dito?

-           Teria dito que só existe uma faca como esta em Porto Real - pegou na lâmina com o po­legar e o indicador, ergueu-a sobre o ombro e atirou-a pela sala com uma torção hábil de pulso. O punhal atingiu a porta e enterrou-se profundamente na madeira de carvalho, estremecendo. - É minha.

-              Sua? - não fazia sentido. Petyr não estivera em Winterfell.

-           Até o torneio no dia do nome de Príncipe Joffrey - disse ele, atravessando a sala para arran­car o punhal da madeira, - Apostei em Sor Jaime na justa, tal como metade da corte - o sorriso acanhado de Petyr fazia-o parecer meio rapaz de novo. - Quando Loras Tyrell o fez cair do cavalo, muitos de nós ficamos um nadinha mais pobres. Sor Jaime perdeu cem dragões de ouro, a rainha perdeu um pendente de esmeralda, e eu perdi a minha faca. Sua Graça obteve a esmeralda de volta, mas o vencedor ficou com o resto.

-              Quem? - Catelyn exigiu saber, com a boca seca de medo. Seus dedos latejavam de dor.

-           O Duende - disse Mindinho enquanto Lorde Varys observava o rosto dela. - Tyrion Lannister.

 

                   Jon

O pátio ressoava com a canção das espadas.

Sob a lã negra, o couro fervido e a cota de malha, o suor corria gelado pelo peito de Jon, enquanto ele pressionava o ataque. Grenn cambaleava para trás, defendendo-se de forma desajei­tada. Quando ergueu a espada, Jon fez passar por baixo dela um golpe circular que se esmagou contra a parte de trás da perna do outro rapaz e o deixou mancando. A estocada baixa de Grenn respondeu com um golpe de cima que lhe abriu um corte no elmo. Quando o outro tentou um golpe lateral, Jon afastou sua lâmina e atingiu-lhe o peito com o braço envolto em cota de malha. Grenn desequilibrou-se e caiu com força, de traseiro na neve. Jon arrancou-lhe a espada dos dedos com um golpe no pulso que o fez gritar de dor.

Basta! - a voz de Sor Alliser Thorne tinha um gume que parecia feito de aço valiriano. Grenn agarrou-se à mão.

O bastardo quebrou meu pulso.

-           O bastardo o cortou, abriu-lhe esse crânio vazio e decepou-lhe a mão. Ou o teria feito, se essas lâminas tivessem gume. E sorte sua que a Patrulha precise tanto de moços de estrebaria como de patrulheiros - Sor Alliser fez um gesto para Jeren e para o Sapo. - Ponham o Auroque em pé, que ele tem preparativos funerários a fazer.

Jon tirou o elmo enquanto os outros rapazes puxavam Grenn. O ar gelado da manhã no ros­to lhe fez bem. Apoiou-se na espada, inspirou profundamente e permitiu-se um momento para saborear a vitória.

-           Isso é uma espada, não a bengala de um velho - repreendeu-o Sor Alliser com voz pene­trante. - Suas pernas doem, Lorde Snow?

Jon odiava aquele nome, uma zombaria que Sor Alliser pendurara nele no primeiro dia em que viera treinar. Os rapazes tinham-no adotado e agora o ouvia por todo lado. Enfiou a espada na bainha.

-           Não - respondeu.

Thorne caminhou em sua direção, com o duro couro negro sussurrando levemente enquanto se movia. Era um homem compacto de cinquenta anos, seco e duro, com algum cinza nos cabelos negros e olhos que eram como lascas de ônix,

Agora a verdade - ordenou.

Estou cansado - Jon admitiu. Seu braço ardia por causa do peso da longa espada, e agora que a luta tinha acabado começava a sentir as contusões.

Você é fraco,

Ganhei.

-           Não. O Auroque perdeu.

Um dos rapazes soltou um risinho abafado, Jon sabia que era melhor não responder. Vencera todos os que Sor Alliser enviara para lutar contra ele, mas nada ganhara com isso. O mestre de armas só oferecia escárnio. Thorne o odiava, concluíra Jon; e, claro, odiava ainda mais os outros rapazes.

-           Chega - disse-lhes Thorne. - Não suporto mais que certa quantidade de inépcia por dia. Se os Outros alguma vez nos atacarem, rezo para que tenham arqueiros, porque vocês só servem para alvos de palha.

Jon seguiu os outros de volta ao armeiro, caminhando só. Ali caminhava só com frequência. Havia quase vinte rapazes no grupo com quem treinava, mas a nenhum podia chamar de amigo. A maior parte deles era dois ou três anos mais velho, mas nenhum chegava a ser sequer metade do lutador que Robb fora aos catorze anos. Dareon era rápido, mas tinha medo de ser atingido. Pyp usava a espada como um punhal, Jeren era fraco como uma mulher e Grenn, lento e desas­trado. Os golpes de Halder eram brutalmente duros, mas atirava-se diretamente aos ataques do adversário. Quanto mais tempo passava com eles, mais Jon os desprezava.

No armeiro, Jon pendurou a espada e a bainha num gancho na parede de pedra, ignorando os outros à sua volta. Metodicamente, começou a despir a cota de malha, o couro e as lãs enchar­cadas de suor. Bocados de carvão ardiam em braseiros de ferro em ambas as extremidades da longa sala, mas Jon começou a tremer. Ali, o frio o acompanhava sempre. Dentro de alguns anos iria se esquecer de como era sentir-se quente.

O cansaço o atingiu subitamente enquanto vestia os rudes tecidos negros que eram seu ves­tuário de todos os dias. Sentou-se num banco, brincando com as ataduras do manto. Tanto frio, pensou, recordando os salões de Winterfell, onde as águas quentes corriam pelas paredes como sangue pelo corpo de um homem. Pouco calor se podia encontrar em Castelo Negro; ali, as pare­des eram frias, e as pessoas, mais frias ainda.

Ninguém lhe dissera que a Patrulha da Noite seria assim; ninguém, exceto Tyrion Lannister. O anão oferecera-lhe a verdade na estrada para o norte, mas então já era tarde demais. Jon per­guntava a si mesmo se o pai saberia como era a Muralha. Achava que tinha de saber; e isso só aumentava sua dor.

Até o tio o abandonara naquele lugar frio no fim do mundo. Ali, o genial Benjen Stark que conhecia se transformara numa pessoa diferente. Era Primeiro Patrulheiro, e passava os dias e as noites com o Senhor Comandante Mormont, o Meistre Aemon e os outros altos oficiais, ao passo que Jon fora entregue ao comando bem pouco afável de Sor Alliser Thorne.

Três dias depois da chegada, Jon ouvira dizer que Benjen Stark ia levar meia dúzia de homens numa patrulha pela Floresta Assombrada. Naquela noite, procurou o tio na grande sala de estar de madeira e pediu para ir com ele. Benjen recusou rudemente.

-           Isto não é Winterfell - disse-lhe, enquanto cortava a carne com um garfo e o punhal. - Na Muralha, um homem só obtém aquilo que ganha, Você não é um patrulheiro, Jon, não passa de um rapaz verde ainda cheirando a verão.

Estupidamente, Jon argumentou:

-           Farei quinze anos no dia do meu nome. Quase um homem feito.

Benjen Stark franziu a sobrancelha.

-           É e será um rapaz até que Sor Alliser diga que está apto para ser um homem da Patrulha da Noite. Se pensava que seu sangue Stark lhe traria favores fáceis, enganou-se. Quando fazemos nossos votos, pomos de lado as velhas famílias. Seu pai terá sempre um lugar no meu coração, mas meus irmãos agora são estes - indicou com o punhal os homens que os rodeavam, todos eles duros, frios e vestidos de negro.

Jon levantou-se no dia seguinte de madrugada para assistir à partida do tio. Um de seus ho­mens, grande e feio, cantava uma canção obscena enquanto selava um pequeno mas forte cavalo, com a respiração formando nuvens no ar frio da manhã. Ben Stark sorriu ao ouvi-lo, mas não teve sorrisos para o sobrinho.

-           Quantas vezes terei de lhe dizer que não, Jon? Conversaremos quando eu regressar. Enquanto observava o tio levar o cavalo para o túnel, Jon recordara as coisas que Tyrion Lannister lhe dissera na estrada do rei, e vira, com o olho da mente, Ben Stark morto, com o sangue vermelho na neve. O pensamento lhe provocou náusea. Em que estava se transformando? Mais tarde, procurou Fantasma na solidão da cela e enterrou a cara no espesso pelo branco do animal.

Se tinha de estar só, faria da solidão sua armadura. Castelo Negro não possuía um bosque sa­grado, apenas um pequeno septo e um septão bêbado, mas Jon não sentia vontade de rezar a deu­ses, fossem velhos ou novos. Se existissem, pensava, eram tão cruéis e implacáveis como o inverno.

Tinha saudade de seus verdadeiros irmãos: o pequeno Rickon, com os olhos inteligentes bri­lhando enquanto suplicava um doce; Robb, seu rival, melhor amigo e constante companheiro; Bran, teimoso e curioso, sempre querendo seguir Jon e Robb e juntar-se ao que quer que fosse que estivessem fazendo. Também sentia falta das meninas, até de Sansa, que nunca o chamava de outra coisa a não ser "o meu meio-irmão", pois já tinha idade para saber o que bastardo queria dizer. E Arya... tinha ainda mais saudades dela que de Robb, aquela coisinha magricela, sempre de joelhos esfolados, cabelos emaranhados e roupas rasgadas, feroz e voluntariosa. Arya nunca parecera ajustada, nunca mais do que ele..., mas conseguia sempre fazer Jon sorrir. Daria qual­quer coisa para estar agora com ela, despentear-lhe os cabelos uma vez mais e observá-la fazer uma careta, ouvi-la terminar uma frase com ele.

-           Quebrou meu pulso, bastardo.

Jon ergueu os olhos ao ouvir a voz carrancuda. Grenn erguia-se a seu lado, de pescoço grosso e rosto vermelho, com três dos amigos atrás dele. Reconheceu Todder, um rapaz baixo e feio com uma voz desagradável. Todos os recrutas o chamavam Sapo. Lembrou-se de que os outros dois tinham sido trazidos por Yoren, violadores apanhados nos Dedos. Esquecera-se de seus nomes. Quase nunca falava com eles, a não ser que não pudesse evitar. Eram brutos e rufiões, sem um resquício de honra entre os dois.

Jon ergueu-se.

-           E quebro-lhe o outro se pedir com jeitinho - Grenn tinha dezesseis anos e era uma cabeça mais alto que Jon. Todos os quatro eram mais altos que ele, mas não o assustavam. Batera-os todos no pátio.

-           Se nos for conveniente, podemos quebrar você - disse um dos violadores.

-           Tentem - Jon puxou a mão para trás em busca da espada, mas um deles agarrou-lhe o bra­ço e torceu-o atrás das costas.

-           Você nos faz parecer maus - queixou-se Sapo.

-           Você já parecia mau antes de conhecê-lo - disse-lhe Jon. O rapaz que agarrava seu braço deu-lhe um puxão para cima, com força. A dor assolou-o, mas Jon não queria gritar.

Sapo aproximou-se.

-           O fidalgote tem boa boca - disse. Tinha olhos de porco, pequenos e brilhantes. - É a boca da tua mamãe, bastardo? O que ela era, alguma rameira? Diga-nos seu nome. Talvez eu a tenha possuído uma vez ou duas - e riu.

Jon retorceu-se como uma enguia e esmagou um calcanhar no peito do pé do rapaz que o segurava. Ouviu-se um grito de dor, e Jon se livrou. Saltou sobre Sapo, atirou-o para trás por cima de um banco e pisou sobre seu peito, prendendo-lhe a garganta com ambas as mãos, e ba­tendo a cabeça dele na terra batida.

Os dois dos Dedos puxaram-no, atirando-o rudemente ao chão. Grenn começou a dar-lhe pontapés. Jon rolava, tentando afastar-se dos golpes, quando uma voz trovejante soou na obscu­ridade do armeiro.

-              PAREM COM ISTO JÁ!

Jon pôs-se em pé. Donal Noye os olhava furioso.

-           O local das lutas é o pátio - disse o armeiro. - Mantenham suas disputas longe do meu armeiro, ou as transformarei em minhas disputas. Não gostariam que isso acontecesse.

Sapo sentou-se no chão, tateando a nuca com cuidado. Os dedos voltaram cheios de sangue.

Ele tentou me matar.

Verdade. Eu vi - interveio um dos violadores.

-           Quebrou o meu pulso - disse de novo Grenn, mostrando-o a Noye. O armeiro deu ao pulso o mais breve dos olhares.

-           Uma contusão. Talvez um entorse. Meistre Aemon lhe dará um unguento. Vai com ele, Sapo, essa cabeça precisa ser tratada. Os outros voltem às celas. Você não, Snow. Você fica.

Jon sentou-se pesadamente no longo banco de madeira enquanto os outros saíam, indiferente aos olhares dos outros, às promessas silenciosas de futuras desforras. Sentia seu braço latejar.

-           A Patrulha necessita de todos os homens que consiga arranjar - disse Donal Noye quando ficaram a sós. - Mesmo de homens como o Sapo. Não ganhará honrarias se matá-lo.

A ira de Jon relampejou.

Ele disse que minha mãe era...

... uma rameira. Eu ouvi. E daí?

Lorde Eddard Stark não era homem de dormir com rameiras - disse Jon em tom gelado.

-           Sua honra...

... não o impediu de ser pai de um bastardo. Não é?

Jon estava gelado de raiva.

Posso ir?

Vai quando eu disser para ir.

Jon observou carrancudo o fumo erguendo-se do braseiro, até que Noye lhe tomou o queixo, com dedos grossos que lhe viraram a cabeça.

-           Olha para mim quando falo com você, rapaz.

Jon olhou. O armeiro tinha um peito que era como uma barrica de cerveja, e um estômago à al­tura. O nariz era largo e achatado, e parecia estar sempre precisando fazer a barba. A manga esquer­da de sua túnica de lã negra estava presa ao ombro com um alfinete de prata em forma de espada.

-           As palavras não farão da sua mãe uma rameira. Ela era o que era, e nada que Sapo diga pode mudar isso. Sabe, temos homens na Muralha cujas mães eram rameiras.

A minha mãe não, pensou Jon, teimosamente. Nada sabia da mãe; Eddard Stark não falava dela. Mas por vezes sonhava com ela, com tanta frequência que quase podia ver seu rosto. Nos sonhos, era bela, bem-nascida e tinha olhos bondosos.

-           Você pensa que tem azar por ser bastardo de um grande senhor? - prosseguiu o armeiro. - Aquele rapaz, Jeren, é descendente de um septão, e Cotter Pyke é filho ilegítimo de uma mu­lher de taberna. Hoje, comanda Atalaialeste do Mar.

Não me importa - disse Jon, - Não me importo com eles, e não me importo com você ou Thorne ou Benjen Stark, ou seja quem for. Detesto isto aqui. E muito... é frio.

Sim. Frio, duro e miserável, é assim a Muralha e assim são os homens que a percorrem. Nada como as histórias que sua ama de leite te contou. Pois bem, cague nas histórias e cague na sua ama de leite. É assim que as coisas são, e está aqui para a vida toda, tal como o resto de nós.

Vida - repetiu Jon amargamente. O armeiro podia falar da vida. Tivera uma. Só vestira o negro depois de perder um braço no cerco de Ponta Tempestade. Antes disso, fora ferreiro de Stannis Baratheon, o irmão do rei. Vira os Sete Reinos de uma ponta à outra, gozara de festins e mulheres, e lutara numa centena de batalhas. Dizia-se que fora Donal Noye quem forjara o mar­telo de batalha do Rei Robert, aquele que esmagara a vida de Rhaegar Targaryen no Tridente, Fizera tudo aquilo que Jon nunca faria, e depois, quando envelheceu, bem para lá dos trinta anos, recebeu um golpe de raspão de um machado, mas a ferida ulcerou até que todo o braço teve de lhe ser tirado. Só então, aleijado, é que Donal Noye viera para a Muralha, quando tinha a vida praticamente acabada.

Sim, vida - disse Noye, - Uma vida longa, ou curta, é contigo, Snow, Pelo caminho que está seguindo, um dos teus irmãos te abrirá a garganta uma noite.

Eles não são meus irmãos - Jon retorquiu bruscamente. - Odeiam-me porque sou melhor que eles.

Não. Odeiam-no porque age como se fosse melhor que eles. Olham para você e veem um bastardo educado num castelo que pensa que é um fidalgo - o armeiro se aproximou. - Não é fidalgo nenhum. Lembre-se disso. É um Snow, não um Stark. É um bastardo e um arruaceiro.

Um arruaceiro? - Jon quase se engasgou com a palavra. A acusação era tão injusta que lhe tirou a respiração. - Foram eles que me atacaram. Os quatro.

Quatro que você humilhou no pátio. Quatro que provavelmente o temem. Vi você lutar. Contigo não há treinos. Um bom gume na sua espada, e eles estão mortos; você sabe, eu sei, eles sabem. Não lhes deixa nada. Envergonha-os. Isso o deixa orgulhoso?

Jon hesitou. Sentia-se orgulhoso quando ganhava. E por que não havia de sentir? Mas o ar­meiro também estava lhe tirando isto, tentando convencê-lo de que estava fazendo algo de errado.

Eles são todos mais velhos que eu - disse, defensivamente.

Mais velhos, maiores e mais fortes, é verdade. Mas aposto que seu mestre de armas em Winterfell o ensinou a lutar contra homens maiores. Quem é ele, algum velho cavaleiro?

Sor Rodrik Cassei - disse Jon com prudência. Havia ali uma armadilha. Sentia-a fechar-se em seu redor.

Donal Noye inclinou-se para a frente, encarando Jon de perto,

Pense agora nisto, rapaz. Nenhum dos outros teve alguma vez um mestre de armas até Sor Alliser. Os pais deles eram lavradores, carroceiros e caçadores furtivos, ferreiros, mineiros e rema­dores numa galé mercantil. O que conhecem da luta aprenderam entre os conveses, nas ruelas de Vilavelha e Lanisporto, em bordéis e tabernas na estrada do rei. Podem ter dado uns golpes com uns paus antes de terem chegado aqui, mas garanto-lhe que nem um em cada vinte foi sufi­cientemente rico para possuir uma espada verdadeira - seu olhar era sombrio. - Então, que lhe parecem agora as suas vitórias, Lorde Snow?

Não me chame assim! - disse Jon em tom penetrante, mas sua ira perdera força. De re­pente, sentiu-se envergonhado e culpado. - Eu nunca... não pensei...

É melhor que comece a pensar - Noye o preveniu. - É isto, ou passar a dormir com um punhal na cabeceira. Agora vá.

Quando Jon saiu do armeiro era quase meio-dia. O sol rompera as nuvens. Virou-lhe as costas e ergueu os olhos para a Muralha, que ardia azul e cristalina à luz do sol. Mesmo depois de todas aquelas semanas, vê-la ainda o fazia arrepiar-se. Séculos de poeira soprada pelo vento tinham-na marcado e polido, cobrindo-a como uma película, e parecia frequentemente ser de um cinza-claro, da cor do céu nublado..., mas quando o sol caía sobre ela num dia luminoso, brilhava, viva de luz, um colossal penhasco azul-esbranquiçado que enchia metade do céu.

A maior estrutura alguma vez construída por mãos humanas, dissera Benjen Stark a Jon na estrada do rei quando, pela primeira vez, vislumbraram a Muralha a distância. "E, sem a menor dúvida, a mais inútil" acrescentara Tyrion Lannister com um sorriso, mas até o Duende se re­meteu ao silêncio quando se aproximaram. Podia-se vê-la de milhas de distância, uma linha azul--clara ao longo do horizonte norte, estendendo-se para leste e oeste e desaparecendo na distância longínqua, imensa e contínua. Isto é o fim do mundo, parecia dizer.

Quando finalmente viram Castelo Negro, suas fortificações de madeira e torres de pedra não pareciam mais que um punhado de blocos de brincar espalhados na neve sob a vasta muralha de gelo. A antiga fortaleza dos irmãos negros não era nenhum Winterfell, nem sequer era um cas­telo. Sem muralhas, não podia ser defendida, não pelo sul, leste ou oeste; mas era apenas o norte que preocupava a Patrulha da Noite, e para o norte erguia-se a Muralha. Erguia-se a cerca de du­zentos metros, três vezes a altura da mais alta torre do forte que defendia. O tio dissera-lhe que o topo era suficientemente largo para que uma dúzia de cavaleiros cavalgassem lado a lado vestidos de armadura. As esguias silhuetas de enormes catapultas e monstruosas gruas de madeira mon­tavam guarda lá em cima, como esqueletos de grandes aves, e entre elas caminhavam homens de negro, pequenos como formigas.

A porta do armeiro, olhando para cima, Jon sentiu-se quase tão esmagado como naquele dia na estrada do rei em que vira a Muralha pela primeira vez. A Muralha era assim. Por vezes quase conseguia se esquecer de que ela estava ali, do mesmo modo que uma pessoa se esquece do céu ou da terra que pisa, mas havia outras alturas em que parecia que nada mais existia no mundo. Era mais velha que os Sete Reinos, e quando Jon olhava para cima, sentia-se entontecido. Conseguia sentir o enorme peso de todo aquele gelo fazendo pressão sobre ele, como se estivesse prestes a ruir, e de algum modo Jon sabia que se a Muralha caísse, o mundo cairia com ela.

Faz-nos pensar no que está do outro lado - disse uma voz familiar. Jon olhou em volta.

Lannister. Não vi... quer dizer, pensei que estivesse sozinho.

Tyrion Lannister estava enrolado em peles tão grossas que parecia um urso muito pequeno.

Muito se pode dizer em defesa de apanhar as pessoas desprevenidas. Nunca se sabe o que se pode aprender.

Não aprenderá nada comigo - disse-lhe Jon. Pouco vira o anão desde o fim da viagem. Na qualidade de irmão da rainha, Tyrion Lannister era convidado de honra da Patrulha da Noite. O Senhor Comandante destinara-lhe aposentos na Torre Real - embora, apesar do nome, ne­nhum rei a tivesse visitado em cem anos -, e Lannister jantava à mesa de Mormont, passava os dias percorrendo a Muralha e as noites jogando dados e bebendo com Sor Alliser, Bowen Marsh e os outros oficiais de alta patente.

Ah, eu aprendo coisas onde quer que vá - o homenzinho indicou a Muralha com um ca­jado negro e nodoso. - Como estava dizendo... por que será que quando um homem constrói uma parede, o homem seguinte precisa imediatamente saber o que está do outro lado? - inclinou a cabeça e olhou Jon com seus olhos curiosos e desiguais. - Você quer saber o que está do outro lado, não quer?

Não é nada de especial - disse Jon. Desejava partir com Benjen Stark em suas patrulhas, penetrar profundamente nos mistérios da Floresta Assombrada, desejava lutar com os selvagens de Mance Rayder e defender o reino contra os Outros, mas era melhor não mencionar as coisas que desejava. - Os patrulheiros dizem que é só floresta, montanhas e lagos gelados, com montes de neve e gelo.

E os gramequins e os snarks - disse Tyrion. - Não nos esqueçamos deles, Lorde Snow, caso contrário, para que serve aquela grande coisa?

-           Não me chame Lorde Snow.

O anão ergueu uma sobrancelha.

-           Preferiria ser tratado por Duende? Se deixá-los perceber que suas palavras o magoam, nunca se verá livre da troça. Se lhe quiserem atribuir um nome, aceite-o, faça-o seu. Assim, não poderão voltar a magoá-lo com ele - fez um gesto com o cajado. - Vem, anda comigo. A esta altura devem estar servindo um guisado nojento na sala de estar, e não recusarei uma tigela de qualquer coisa quente.

Jon também tinha fome, e assim se pôs ao lado do Lannister e moderou o passo para ajustá-lo aos desajeitados e bamboleantes do anão. O vento estava aumentando, e ouviam os velhos edi­fícios de madeira estalarem em toda a volta, e, a distância, uma porta pesada bater, uma e outra vez, esquecida. A certa altura ouviu-se um tump abafado, quando uma camada de neve deslizou de um telhado e caiu perto deles.

Não vejo seu lobo - disse o Lannister enquanto caminhavam.

Amarro-o nos velhos estábulos quando estamos treinando. Agora alojam todos os cavalos nas cavalariças orientais e ninguém o incomoda. Durante o resto do tempo, fica comigo. Minha cela fica na Torre de Hardin.

Essa é a que tem a ameia partida, não é? Pedra estilhaçada no pátio abaixo e uma inclinação que parece o nosso nobre rei Robert depois de uma longa noite de bebida? Pensei que todos esses edifícios estivessem abandonados.

Jon encolheu os ombros.

-           Ninguém liga para onde dormimos. A maior parte das velhas torres está vazia, e pode-se escolher qualquer cela que se deseje - em outros tempos, Castelo Negro alojara cinco mil guer­reiros com todos os seus cavalos, servidores e armas. Agora era o lar de um décimo desse número, e partes do castelo estavam caindo em ruína.

A gargalhada de Tyrion Lannister evaporou como uma nuvem no ar frio.

-           Hei de dizer ao seu pai para prender mais alguns pedreiros, antes que sua torre caia.

Jon podia sentir a troça que havia naquelas palavras, mas não adiantava negar a verdade. A Patrulha construíra dezenove grandes fortes ao longo da Muralha, mas apenas três se mantinham ocupados: Atalaialeste, em sua costa cinzenta varrida pelo vento; a Torre Sombria, junto às montanhas onde a Muralha terminava; e, entre elas, Castelo Negro, na extremidade da estrada do rei. As outras fortificações, há muito desertas, eram lugares solitários e assombrados, onde os ventos frios assobiavam através de janelas negras e os espíritos dos mortos guarneciam os baluartes.

É melhor que eu esteja sozinho - disse teimosamente Jon. - Os outros temem o Fantasma.

Rapazes sensatos - disse o Lannister. Então, mudou de assunto. - Dizem que seu tio já está fora há tempo demais.

Jon recordou o desejo que tivera em sua ira, a visão de Benjen Stark morto na neve, e desviou o olhar rapidamente. O anão tinha maneiras de se aperceber das coisas, e Jon não queria que ele visse a culpa em seus olhos.

Ele disse que voltaria por volta do dia do meu nome - admitiu. O dia do seu nome chegara e partira, sem ser notado, havia uma quinzena. - Iam à procura de Sor Waymar Royce, cujo pai é vassalo de Lorde Arryn. Tio Benjen disse que poderiam ir à sua procura até tão longe como a Torre Sombria. Isso é todo o caminho até as montanhas.

Ouvi dizer que têm desaparecido muitos patrulheiros nos últimos tempos - disse o Lannister enquanto subiam os degraus que levavam à sala comum. Sorriu e abriu a porta. - Talvez os gramequins estejam com fome este ano.

Lá dentro, o salão era imenso e cheio de correntes de ar, mesmo com um fogo a rugir na grande lareira. Corvos faziam ninhos nas vigas do majestoso teto. Jon ouviu seus gritos, enquanto acei­tava uma tigela de guisado e uma fatia de pão preto dos cozinheiros do dia. Grenn, Sapo e alguns dos outros estavam sentados no banco mais próximo do calor, rindo e lançando pragas uns aos outros com vozes rudes. Jon os observou por um momento, pensativo. Depois, escolheu um local na ponta oposta do salão, bem afastado do resto dos presentes.

Tyrion Lannister sentou-se à sua frente, cheirando, desconfiado, o guisado.

Cevada, cebola, cenoura - murmurou. - Alguém deveria dizer aos cozinheiros que nabo não é carne.

É guisado de carneiro - Jon descalçou as luvas e aqueceu as mãos no vapor que subia da tigela. O cheiro lhe dava água na boca.

Snow.

Jon reconheceu a voz de Alliser Thorne, mas havia nela uma curiosa nota que não ouvira antes. Virou-se.

-           O Senhor Comandante deseja vê-lo. Já.

Por um momento, Jon ficou muito assustado para se mover. Por que ia querer o Senhor Comandante vê-lo? Tinham ouvido algo sobre Benjen, pensou, descontrolado. Estava morto, a visão tinha se tornado realidade.

É o meu tio? - proferiu atabalhoadamente. - Regressou em segurança?

O Senhor Comandante não está habituado a esperar - foi a resposta de Sor Alliser. - E eu não estou habituado a ver minhas ordens questionadas por bastardos.

Tyrion Lannister saltou do banco e pôs-se em pé.

Pare com isso, Thorne. Está assustando o rapaz.

Não se intrometa em assuntos que não lhe dizem respeito, Lannister. Não tem lugar aqui.

Mas tenho um lugar na corte - disse o anão, sorrindo. - Uma palavra ao ouvido certo e morrerá como um velho amargo antes que tenha outro rapaz para treinar. E agora diga ao Snow porque é que o Velho Urso precisa vê-lo. Há notícias do tio?

Não - Sor Alliser respondeu. - É um assunto totalmente diferente. Uma ave chegou esta manhã de Winterfell com uma mensagem sobre seu irmão - depois, corrigiu-se: - De seu meio-irmão.

Bran - disse Jon sem fôlego, pondo-se em pé de um salto. - Alguma coisa aconteceu a Bran.

Tyrion Lannister pousou-lhe a mão no braço.

Jon. Lamento muito,

Jon quase nem o ouviu. Afastou a mão de Tyrion e atravessou o salão a passos largos. Ao chegar às portas, já estava correndo. Precipitou-se na direção da Torre do Comandante, atraves­sando pequenas nuvens de neve velha soprada pelo vento. Quando os guardas o deixaram passar, subiu os degraus da torre dois a dois. Ao avançar pelo aposento do Senhor Comandante, tinha as botas empapadas, os olhos agitados, e arquejava.

-           Bran - disse. - Que diz a mensagem de Bran?

Jeor Mormont, o Senhor Comandante da Patrulha da Noite, era um homem áspero e velho com uma imensa cabeça calva e uma desgrenhada barba cinzenta. Tinha um corvo pousado no braço e alimentava-o com grãos de milho.

-           Ouvi dizer que sabe ler - sacudiu o corvo, e a ave bateu as asas e voou até a janela, onde pousou, observando Mormont tirar do cinto um rolo de papel e entregá-lo a Jon."Grão", resmun­gou o corvo em voz roufenha. "Grão, grão",

O dedo de Jon percorreu o contorno do lobo gigante de cera branca do selo quebrado. Re­conheceu a letra de Robb, mas as palavras pareciam sair de foco e fugir quando tentou lê-las. Percebeu que estava chorando. Então, através das lágrimas encontrou o sentido das palavras e ergueu a cabeça.

-           Ele acordou - disse. - Os deuses o devolveram.

-           Aleijado - disse Mormont. - Lamento, rapaz. Leia o resto da carta.

Olhou as palavras, mas não importavam. Bran ia sobreviver.

-           Meu irmão vai viver - disse a Mormont. O Senhor Comandante balançou a cabeça, reco­lheu um punhado de milho e assobiou. O corvo voou até seu ombro, gritando "Viver.' Viver.'".

Jon correu pela escada abaixo, com um sorriso no rosto e a carta de Robb na mão.

-           Meu irmão vai viver - disse aos guardas. Os homens entreolharam-se. Correu de volta à sala comum, onde encontrou Tyrion Lannister terminando sua refeição. Agarrou o homenzi­nho pelos sovacos, ergueu-o no ar e rodopiou com ele nos braços. - Bran vai viver! - berrou. Lannister pareceu alarmado. Jon o colocou no chão e pôs-lhe o papel nas mãos. - Está aqui, leia - disse.

Outros se juntavam e olhavam para ele com curiosidade. Jon jreparou em Grenn a poucos centímetros. Trazia uma atadura grossa de lã enrolada na mão. Parecia ansioso e desconfortável, nada ameaçador. Jon foi falar com ele. Grenn recuou e ergueu as mãos.

-           Fica longe de mim, bastardo.

Jon sorriu para ele.

-           Desculpe pelo pulso. Robb usou comigo o mesmo movimento uma vez, mas com uma lâ­mina de madeira. Doeu como os sete infernos, mas o seu deve ser pior. Olha, se quiser, posso lhe mostrar como se defender dele.

Alliser Thorne o ouviu.

-           Lorde Snow quer agora ocupar meu lugar - fez um sorriso de escárnio. - Mais facilmente ensinaria eu um lobo a fazer malabarismos do que você treinaria este auroque.

-           Aceito a aposta, Sor Alliser - disse Jon. - Adoraria ver o Fantasma fazer malabarismos. Jon ouviu Grenn prender a respiração, chocado. E o silêncio se fez.

Então, Tyrion Lannister soltou uma gargalhada. Três dos irmãos negros juntaram-se a ele numa mesa próxima. O riso espalhou-se pelos bancos, até que mesmo os cozinheiros riam. Os pássaros agitaram-se nas traves e, finalmente, até de Grenn saiu um risinho.

Sor Alliser não tirou os olhos de Jon. Enquanto as gargalhadas ressoavam à sua volta, seu rosto escureceu e a mão da espada fechou-se num punho.

-           Isso foi um enorme erro, Lorde Snow - disse, por fim, no tom ácido de um inimigo.

 

                   Eddard

Eddard Stark entrou a cavalo pelas grandes portas de bronze da Fortaleza Vermelha, dolorido, cansado, faminto e irritado. Ainda estava montado, sonhando com um longo banho quente, uma galinha assada e uma cama de penas, quando o intendente do rei lhe disse que o Grande Meistre Pycelle tinha convocado uma reunião urgente do pequeno conselho. A honra da presença da Mão era requisitada assim que fosse conveniente.

Será conveniente amanhã - exclamou Ned enquanto desmontava. O intendente fez uma reverência muito grande.

Transmitirei aos conselheiros as vossas desculpas, senhor.

Não, raios me partam - disse Ned. Não era boa ideia ofender o conselho ainda antes de come­çar. - Irei vê-los. Rogo que me concedam alguns momentos para vestir algo mais apresentável.

Sim, senhor - disse o intendente. - Se desejar, oferecemos os antigos aposentos de Lorde Arryn, na Torre da Mão. Mandarei que vossas coisas sejam levadas para lá,

Agradeço - disse Ned enquanto arrancava as luvas de montar e as enfiava no cinto. O resto de sua comitiva vinha entrando pelo portão atrás dele. Ned viu Vayon Poole, seu próprio inten­dente, e o chamou. - Parece que o conselho precisa urgentemente de mim. Certifique-se de que minhas filhas encontram seus quartos e diga a Jory para mantê-las lá. Arya não deve sair - Poole fez uma reverência. Ned voltou a virar-se para o intendente real. - Minhas carroças ainda estão vagando pela cidade. Necessitarei de vestimentas apropriadas.

-           Será um grande prazer - o intendente saiu.

E assim Ned entrara em passos largos na sala do conselho, cansado até os ossos e vestido com roupas emprestadas, e encontrara quatro membros do pequeno conselho à sua espera.

O aposento estava ricamente mobiliado. Tapetes myrianos cobriam o chão em lugar de estei­ras e, num canto, cem animais fabulosos saltavam em tintas vivas num biombo entalhado vindo das Ilhas do Verão. As paredes estavam cobertas por tapeçarias de Norvos, Qohor e Lys, e um par de esfinges valirianas flanqueava a porta, com olhos de granada polida ardendo em rostos de mármore negro.

O conselheiro de que Ned menos gostava, o eunuco Varys, o abordou no momento em que entrou.

Senhor Stark, fiquei imensamente triste ao saber de seus problemas na estrada do rei. Te­mos todos visitado o septo a fim de acender velas pelo Príncipe Joffrey. Rezo pela sua recuperação - sua mão esquerda deixou manchas de pó na manga de Ned, e exalava um odor tão repugnante e doce como flores numa sepultura.

Seus deuses ouviram suas preces - respondeu Ned, frio, mas delicado. - O príncipe fica mais forte a cada dia que passa - libertou-se do eunuco e atravessou a sala até onde Lorde Renly estava, junto ao biombo, conversando calmamente com um homem baixo que só podia ser Min­dinho. Quando Robert conquistara o trono, Renly não era mais que um rapaz de oito anos, mas transformara-se num homem tão parecido com o irmão que Ned o achava desconcertante. Sempre que o via, era como se os anos tivessem desaparecido e estivesse perante Robert, logo depois de obter a vitória no Tridente.

-           Vejo que chegou em segurança, Lorde Stark - disse Renly.

-           E você também - respondeu Ned. - Peço-lhe perdão, mas por vezes parece a mim a viva imagem de seu irmão Robert.

-           Uma má cópia - disse Renly com um encolher de ombros.

-           Se bem que muito mais bem-vestida - brincou Mindinho. - Lorde Renly gasta mais em vestuário que metade das senhoras da corte.

E era verdade. Renly vestia veludo verde-escuro, com uma dúzia de veados dourados bor­dados no gibão. Uma meia capa de fio de ouro estava atirada casualmente por sobre um ombro, presa com um broche de esmeralda.

-           Há crimes piores - disse Renly com uma gargalhada. - O modo como se traja, por exemplo. Mindinho ignorou a piada. Observou Ned com um sorriso nos lábios que beirava à insolência,

Há alguns anos que tenho alimentado a esperança de conhecê-lo, Lorde Stark. Certamente a Senhora Stark falou de mim.

Falou - respondeu Ned com gelo na voz. A astuta arrogância do comentário o inflamou. - Pelo que sei, também conheceu meu irmão Brandon.

Renly Baratheon soltou uma gargalhada. Varys arrastou os pés para mais perto a fim de escutar.

Bem demais - disse Mindinho. - Ainda carrego comigo um sinal de sua estima. Brandon também lhe falou de mim?

Com frequência, e com algum calor - disse Ned, esperando que a frase pusesse fim à con­versa. Não tinha paciência para aquele jogo, para aquele duelo de palavras.

-Julgava que o calor não se coadunava com os Stark - disse Mindinho. - Aqui no Sul, dizem que são todos feitos de gelo, e que derretem quando viajam para baixo do Gargalo.

-           Não pretendo derreter em breve, Senhor Baelish. Pode contar com isso - Ned dirigiu-se até a mesa do conselho e disse: - Meistre Pycelle, confio que esteja bem de saúde.

O Grande Meistre sorriu gentilmente no seu cadeirão numa extremidade da mesa.

Suficientemente bem para um homem da minha idade, senhor - respondeu -, mas receio que me canse facilmente - finos fios de cabelo branco rodeavam a larga cúpula calva da testa que se erguia sobre um rosto amável. Seu colar de meistre não era uma simples gargantilha de metal como o que Luwin usava, mas sim duas dúzias de pesadas correntes entretecidas num ponderoso colar de metal que o cobria da garganta ao peito. Os elos tinham sido forjados de todos os me­tais conhecidos do homem: ferro negro e ouro vermelho, cobre brilhante e chumbo baço, aço e estanho, prata, latão, bronze e platina. Granadas, ametistas e pérolas negras adornavam o metal, e aqui e ali se via uma esmeralda ou um rubi.

Talvez possamos começar em breve - disse o Grande Meistre, com as mãos entrelaçadas sobre a larga barriga. - Temo que adormeça se esperarmos muito mais tempo.

Como desejar - a cadeira do rei estava vazia à cabeceira da mesa, com o veado coroado dos Baratheon bordado a fio de ouro nas almofadas. Ned ocupou a cadeira ao lado, na qualidade de mão direita do rei. - Meus senhores - disse com formalidade -, lamento tê-los feito esperar.

-           Sois a Mão do Rei - disse Varys. - Nós servimos à vossa vontade, Lorde Stark.

Enquanto os outros ocupavam seus lugares habituais, Eddard Stark foi atingido violenta­mente pelo pensamento de o seu lugar não ser aquele, naquela sala, com aqueles homens. Recor­dou o que Robert dissera na cripta por baixo de Winterfell. Estou rodeado de aduladores e idiotas, ele insistira. Ned olhou a mesa do conselho e perguntou a si próprio quais seriam os aduladores e quais os idiotas. Pensou já sabê-lo.

Não somos mais que cinco - Ned observou.

Lorde Stannis viajou para Pedra do Dragão não muito tempo depois de o rei ter partido para o Norte - disse Varys -, e o nosso galante Sor Barristan acompanha o rei na travessia da cidade, como é próprio do Senhor Comandante da Guarda Real.

-           Talvez devêssemos esperar que Sor Barristan e o rei se juntassem a nós - sugeriu Ned.

Renly Baratheon riu em voz alta.

Se esperarmos que meu irmão nos agracie com sua real presença, poderá ser uma longa espera.

Nosso bom Rei Robert tem muitas preocupações - disse Varys. - Ele nos confia alguns assuntos de menor importância para lhe aliviar o fardo.

O que Lorde Varys quer dizer é que todas estas conversas sobre moeda, colheitas e justiça aborrecem meu real irmão de morte - disse Lorde Renly. - Por isso cai sobre nós o governo do reino. Ele nos envia uma ordem de vez em quando - retirou da manga um papel muito bem en­rolado e o pôs na mesa. - Esta manhã ordenou-me que avançasse à coluna a toda pressa e pedisse ao Grande Meistre Pycelle para convocar imediatamente este conselho. Tem para nós uma tarefa urgente.

Mindinho sorriu e entregou o papel a Ned. Trazia o selo real. Ned quebrou a cera com o polegar e alisou a carta para analisar a ordem urgente do rei, lendo as palavras com descrença crescente. Não haveria fim para a loucura de Robert? E fazer aquilo em seu nome era pôr sal sobre a ferida.

-           Que os deuses sejam bondosos - praguejou.

-           O que o Senhor Eddard quer dizer - anunciou Lorde Renly - é que Sua Graça nos dá ins­truções para organizarmos um grande torneio em honra de sua nomeação como Mão do Rei.

-           Quanto? - perguntou brandamente Mindinho.

Ned leu a resposta da carta.

Quarenta mil dragões de ouro para o campeão. Vinte mil para o homem que ficar em se­gundo lugar, outros vinte para o vencedor da luta corpo a corpo e dez mil para o vencedor da competição de arqueiros.

Noventa mil peças de ouro - Mindinho suspirou. - E não devemos negligenciar os outros custos. Robert certamente vai querer um banquete prodigioso. Isto significa cozinheiros, carpin­teiros, criadas, cantores, malabaristas, bobos...

-           Bobos temos com fartura - disse Lorde Renly.

O Grande Meistre Pycelle olhou para Mindinho e perguntou:

-           O tesouro suporta a despesa?

-           Que tesouro? - respondeu Mindinho com um trejeito de boca. - Poupe-me as tolices, Meistre. Sabe tão bem como eu que o tesouro está vazio há anos. Terei de pedir dinheiro empres­tado. Não há dúvida de que os Lannister o adiantarão. Devemos atualmente ao Senhor Tywin cerca de três milhões de dragões, que importam mais cem mil?

Ned ficou estupefato.

-           Está dizendo que a Coroa tem uma dívida de três milhões de peças de ouro?

-           A Coroa tem uma dívida de mais de seis milhões de peças de ouro, Lorde Stark. Os Lannis-ter são os maiores credores, mas também pedimos emprestado a Lorde Tyrell, ao Banco de Ferro de Bravos e a vários cartéis mercantis de Tyrosh. Nos últimos tempos, tive de me virar para a Fé. O Alto Septão é pior no regateio do que um pescador de Dorne.

Ned estava horrorizado.

Aerys Targaryen deixou um tesouro repleto de ouro. Como pôde deixar que isto acontecesse? Mindinho encolheu os ombros.

O mestre da moeda arranja o dinheiro. O rei e a Mão o gastam.

-           Não posso acreditar que Jon Arryn tenha permitido que Robert reduzisse o reino à miséria - exclamou Ned em tom acalorado.

O Grande Meistre Pycelle abanou a grande cabeça calva, fazendo tilintar as correntes suave­mente.

Lorde Arryn era um homem prudente, mas temo que Sua Graça nem sempre escute con­selhos sábios.

Meu real irmão adora torneios e festins - disse Renly Baratheon -, e abomina aquilo a que chama "contar cobres".

Falarei com Sua Graça - disse Ned. - Este torneio é uma extravagância que o reino não pode pagar.

Fale com ele como quiser - disse Lorde Renly -, mas ainda assim temos de fazer nossos planos.

Outro dia - disse Ned. Talvez de forma muito incisiva, a julgar pelos olhares que lhe lança­ram. Teria de se recordar de que já não estava em Winterfell, onde apenas o rei tinha uma posi­ção superior; ali, não era mais que o primeiro entre iguais. - Perdoem-me, senhores - disse, num tom mais suave. - Estou fatigado. Paremos por hoje e recomecemos quando estivermos mais descansados - não pediu o consentimento dos outros; em vez disso, levantou-se abruptamente, fez a todos um aceno e dirigiu-se à porta.

Lá fora, cavaleiros e carroças ainda jorravam através dos portões do castelo, e o pátio era um caos de lama, cavalos e homens gritando. O rei ainda não chegara, disseram-lhe. Desde os feios acontecimentos no Tridente, os Stark e sua comitiva tinham viajado bem à frente da coluna prin­cipal, a fim de se distanciarem dos Lannister e da crescente tensão. Robert quase não fora visto; dizia-se que viajava na enorme casa rolante, mais frequentemente bêbado que sóbrio. Se assim era, poderia estar várias horas atrasado, mas mesmo assim chegaria cedo demais para a vontade de Ned. Bastava-lhe olhar o rosto de Sansa para sentir a raiva retorcer-se de novo dentro de si. A última quinzena da viagem fora miserável. Sansa culpava Arya e dizia-lhe que devia ter sido Nymeria a morrer. E Arya estava desnorteada depois de saber o que havia acontecido ao seu amigo, filho do carniceiro. Sansa chorava até adormecer, Arya cismava em silêncio o dia inteiro, e Eddard Stark sonhava com um inferno gelado reservado para os Stark de Winterfell.

Atravessou o pátio exterior e passou sob uma porta levadiça, entrando no recinto do castelo, e, quando se encaminhava para aquilo que pensava ser a Torre da Mão, Mindinho apareceu à sua frente.

-           Está indo na direção errada, Stark. Venha comigo.

Hesitante, Ned o seguiu. Mindinho o levou até uma torre, desceram uma escada, atravessa­ram um pequeno pátio rebaixado e caminharam por um corredor deserto onde armaduras vazias montavam guarda ao longo das paredes. Eram relíquias dos Targaryen, de aço negro com esca­mas de dragão coroando os elmos, agora poeirentos e esquecidos.

Este não é o caminho para os meus aposentos - disse Ned.

E eu disse que era? Estou levando você para as masmorras, a fim de abrir sua garganta e selar seu cadáver atrás de uma parede - respondeu Mindinho, com a voz sarcástica. - Não temos tempo para isto, Stark. Sua esposa o espera.

Que jogo está jogando, Mindinho? Catelyn está em Winterfell, a centenas de léguas daqui.

Ah! - os olhos cinza-esverdeados de Mindinho cintilaram de divertimento. - Então parece que alguém conseguiu realizar uma espantosa imitação. Pela última vez, venha. Ou, então, não, e eu a guardo para mim - e apressou-se a descer a escada.

Ned o seguiu, desconfiado, perguntando a si mesmo se aquele dia chegaria ao fim. Não tinha nenhum gosto por aquelas intrigas, mas começava a compreender que para um homem como Mindinho elas eram naturais como o ar que respirava.

Onde os degraus terminavam havia uma pesada porta de carvalho e ferro. Petyr Baelish er­gueu a tranca e, com um gesto, indicou a Ned que a atravessasse. Saíram para o avermelhado brilho do crepúsculo, numa falésia rochosa bem acima do rio.

Estamos fora do castelo - Ned observou.

Você é um homem difícil de enganar, Stark - disse Mindinho com um sorriso afetado.

-           Foi o sol que o denunciou, ou terá sido o céu? Siga-me. Há vãos abertos na rocha. Tente não cair para a morte, Catelyn nunca compreenderia - e, ao acabar de falar, estava para lá do limite da falésia, descendo depressa como um macaco.

Ned estudou por um momento a face da escarpa, e depois o seguiu mais devagar. Os nichos estavam lá, tal como Mindinho prometera, ranhuras pouco profundas, invisíveis na parte de bai­xo, a menos que se soubesse onde procurá-las. O rio espraiava-se a uma longa e entontecedora distância lá embaixo. Ned manteve o rosto pressionado contra a rocha e tentou não olhar para baixo com mais frequência do que era obrigado.

Quando chegou finalmente ao fim da descida e a uma estreita trilha enlameada que seguia pela margem do rio, Mindinho espreguiçava-se encostado a uma rocha, comendo uma maçã, já no caroço.

-           Está ficando velho e lento, Stark - disse, atirando a maçã, com indiferença, para a corrente,

-           Não importa, o resto do caminho é a cavalo - tinha dois cavalos à espera. Ned montou e trotou atrás dele, ao longo da trilha, para a cidade.

Por fim, Baelish puxou as rédeas na frente de um edifício que ameaçava ruir, de três andares de madeira, com janelas que brilhavam com a luz das lâmpadas no lusco-fusco que se aprofun­dava. Os sons de música e risos rudes abriam caminho até o exterior e flutuavam por sobre a água. Ao lado da porta, uma ornamentada candeia de azeite oscilava na ponta de uma corrente pesada, com um globo de cristal de chumbo vermelho.

Ned Stark desmontou furioso.

-           Um bordel - disse, e agarrou Mindinho pelo ombro, obrigando-o a se virar. - Você me trouxe por todo este caminho para chegarmos a um bordel.

-           Sua esposa está lá dentro - disse Mindinho.

Aquilo foi o insulto final.

Brandon foi demasiado gentil com você - disse Ned, e atirou o homenzinho contra uma parede e encostou o punhal em sua garganta, sob a pequena barbicha pontiaguda.

Senhor, não - gritou uma voz. - Ele fala a verdade - ouviram-se passos vindo naquela direção.

Ned rodopiou, de faca na mão, enquanto um velho homem de cabelos brancos corria para eles. Estava vestido com tecido grosseiro marrom e a pele mole sob o queixo oscilava enquanto corria.

-           Isto não é assunto seu - começou Ned a dizer, mas então, de repente, ele reconheceu o ho­mem. Abaixou o punhal, espantado. - Sor Rodrik?

Rodrik Cassei confirmou com a cabeça..

-           Sua senhora o espera lá em cima.

Ned sentia-se perdido.

Catelyn está mesmo aqui? Isto não é uma estranha brincadeira de Mindinho? - embainhou a faca.

Bem gostaria que fosse, Stark - Mindinho respondeu. - Siga-me, e tente parecer um pouco mais devasso e um pouco menos como a Mão do Rei. Não será bom que seja reconhecido. Talvez possa acariciar um peito ou outro, só de passagem.

Entraram por uma sala de estar cheia, onde uma mulher gorda cantava canções obscenas en­quanto bonitas mulheres vestidas com camisas de linho e panos de seda colorida se encostavam nos amantes e eram embaladas em seus colos. Ninguém prestou a menor atenção em Ned. Sor Rodrik esperou embaixo enquanto Mindinho o levou até o terceiro andar por um corredor e através de uma porta.

Lá dentro, Catelyn esperava. Gritou quando o viu, correu para ele e o abraçou ferozmente.

Minha senhora - sussurrou Ned, assombrado.

Ah, muito bem - disse Mindinho, fechando a porta. - Conseguiu reconhecê-la.

Temi que nunca mais chegasse, senhor - sussurrou ela, apertada contra seu peito. - Petyr tem me trazido notícias. Contou-me os problemas com Arya e o jovem príncipe. Como estão minhas meninas?

Ambas de luto, e cheias de raiva - Ned respondeu. - Cat, não compreendo. O que faz em Porto Real? O que aconteceu? - perguntou Ned à mulher. - E Bran? Ele está... - morto foi a palavra que veio aos seus lábios, mas não podia dizê-la.

É Bran, mas não como pensa - disse Catelyn. Ned não compreendia.

Então como? Por que está aqui, meu amor? Que lugar é este?

Precisamente o que parece - disse Mindinho, deixando-se cair numa cadeira perto da janela. - Um bordel. Consegue imaginar um lugar onde seria menos provável encontrar uma Catelyn Tully? - ele sorriu. - Por acaso, sou dono deste estabelecimento específico, portanto, foi fácil fazer as combinações necessárias. Desejo muito impedir que os Lannister saibam da pre­sença de Cat aqui em Porto Real.

Por quê? - perguntou Ned. Então viu as mãos da esposa, o modo estranho como se dobra­vam, as cicatrizes de um vermelho cru, a rigidez dos últimos dois dedos da mão esquerda. - Você foi ferida - tomou as mãos nas suas e as virou. - Deuses, estes golpes são profundos... uma fe­rida de uma espada ou... como aconteceu isto, minha senhora?

Catelyn tirou o punhal de dentro do manto e o colocou na mão dele,

Esta lâmina estava destinada a abrir a garganta de Bran e derramar seu sangue. A cabeça de Ned ergueu-se abruptamente.

Mas... quem... por que faria...

Ela pousou um dedo em seus lábios.

Deixe-me contar tudo, meu amor. Será mais rápido assim. Escute.

E ele escutou-a contar-lhe tudo, do incêndio na torre da biblioteca a Varys, aos guardas e ao Mindinho. E quando terminou, Eddard Stark sentou-se atordoado junto da mesa, com o pu­nhal na mão. O lobo de Bran salvara a vida do rapaz, pensou sombriamente. Que tinha Jon dito quando encontraram os cachorros na neve? Seus filhos estão destinados a ficar com esta ninhada, senhor. E ele matara a loba de Sansa, por quê? Seria culpa o que sentia? Ou medo? Se os deuses tinham enviado aqueles lobos, que loucura ele tinha feito?

Dolorosamente, Ned forçou os pensamentos a regressar ao punhal e àquilo que significava.

O punhal do Duende - repetiu. Não fazia sentido. Sua mão dobrou-se em torno do suave cabo de osso de dragão, e ele bateu com a lâmina na mesa, sentindo-a morder a madeira. Estava ali zombando dele. - Por que ia querer Tyrion Lannister ver Bran morto? O rapaz nunca lhe fez nenhum mal.

Será que os Stark não têm mais que neve entre as orelhas? - perguntou Mindinho. - O Duende nunca teria agido sozinho.

Ned ergueu-se e pôs-se a percorrer o quarto de ponta a ponta.

Se a rainha teve um papel nisto ou, que os deuses não o permitam, o próprio rei... não, não acreditarei nisso - mas, mesmo enquanto dizia as palavras, recordou-se daquela manhã gelada nas terras acidentadas, e da conversa de Robert a respeito de enviar assassinos contratados no en­calço da princesa Targaryen. Lembrou-se do filho pequeno de Rhaegar, da ruína vermelha de seu crânio e do modo como o rei lhe virara as costas, tal como fizera na sala de audiências de Darry não há muito tempo. Ainda ouvia Sansa suplicando, como Lyanna suplicara tempos atrás.

O mais certo é que o rei não soubesse - disse Mindinho. - Não seria a primeira vez. Nosso bom Robert tem como prática fechar os olhos a coisas que prefere não ver.

Ned não tinha resposta para aquilo. O rosto do filho do carniceiro passou na frente dos olhos, quase rachado em dois, e depois o rei não dissera uma palavra. Sua cabeça latejava. Mindinho caminhou vagarosamente até a mesa e arrancou a faca da madeira.

-           Seja como for, a acusação constitui traição. Acuse o rei e dançará com Ilyn Payne antes de as palavras acabarem de sair de sua boca. A rainha... se forem apresentadas provas e se for possível fazer com que Robert escute, então, talvez...

-           Temos provas - disse Ned, - Temos o punhal.

-           Isto? -Mindinho atirou o punhal ao ar como se nada fosse. - Um belo bocado de aço, mas corta para dois lados, senhor. O Duende sem dúvida jurará que a lâmina foi perdida ou roubada enquanto permaneceram em Winterfell e, com o seu assassino morto, não haverá ninguém para desmenti-lo - atirou a faca com ligeireza a Ned. - Meu conselho é deixar isto cair no rio e esque­cer que chegou a ser forjada.

Ned o olhou com frieza.

Senhor Baelish, sou um Stark de Winterfell. Meu filho jaz aleijado, talvez à morte. Estaria morto, e Catelyn também, não fosse uma cria de lobo que encontramos na neve. Se realmente acredita que posso esquecê-lo, é um tolo tão grande hoje como quando empunhou uma espada contra meu irmão.

Talvez seja um tolo, Stark... e, no entanto, ainda aqui estou, ao passo que seu irmão se desfaz em pó na sua sepultura gelada já há catorze anos. Se está assim tão ansioso para apodrecer ao seu lado, longe de mim dissuadi-lo, mas preferiria não ser incluído na festa, muito obrigado.

Você seria o último homem que eu incluiria voluntariamente em qualquer festa, Lorde Baelish.

Fere-me profundamente - Mindinho pousou a mão no coração. - Por minha parte, sempre os considerei, aos Stark, gente cansativa, mas Cat parece ter se afeiçoado a você, por motivos que não sou capaz de entender. Tentarei mantê-lo vivo para o bem dela. Uma tarefa de tolo, admito, mas nunca fui capaz de recusar o que quer que fosse à sua esposa.

Contei a Petyr nossas suspeitas sobre a da morte de Jon Arryn - disse Catelyn. - Ele pro­meteu ajudá-lo a descobrir a verdade.

Não era uma notícia que agradasse a Eddard Stark, mas era bem verdade que necessitavam de ajuda, e há muito tempo Mindinho fora quase como um irmão para Cat. Não seria a primeira vez que Ned era forçado a fazer causa comum com um homem que desprezava.

Muito bem - disse, enfiando o punhal no cinto. - Você falou de Varys. O eunuco sabe de tudo isto?

Não dos meus lábios - disse Catelyn, - Você não se casou com uma tonta, Eddard Stark, Mas Varys tem maneiras de descobrir coisas que nenhum outro homem poderia conhecer. Ele possui alguma arte negra, Ned, sou capaz de jurar.

Ele tem espiões, isto é bem conhecido - disse Ned, desvalorizando o assunto,

É mais que isso - insistiu Catelyn. - Sor Rodrik falou com Sor Aron Santagar em comple­to segredo, e de algum modo a Aranha ficou sabendo da conversa. Aquele homem me dá medo.

Mindinho sorriu.

-           Deixe Lorde Varys comigo, querida senhora. Se me permitir uma pequena obscenidade. E que lugar melhor para uma que este? Tenho os bagos do homem na palma da mão - mostrou os dedos em taça, sorrindo. - Ou os teria, caso ele fosse um homem e tivesse bagos. Compreenda que, se destaparmos a gaiola, os pássaros começarão a cantar, e ele não gostaria de tal coisa. Em seu lugar, me preocuparia mais com os Lannister e menos com o eunuco.

Ned não precisava que Mindinho lhe dissesse aquilo. Recordava o dia em que Arya fora en­contrada, o olhar no rosto da rainha quando dissera: Nós temos um lobo, tão suave e calma. Pen­sava no rapaz Mycah, na morte súbita de Jon Arryn, na queda de Bran, no velho e louco Aerys Targaryen a morrer no chão de sua sala do trono, enquanto o sangue de sua vida secava numa lâmina dourada.

Minha senhora - disse, virando-se para Catelyn -, nada mais pode fazer aqui. Desejo que regresse a Winterfell imediatamente. Se houve um assassino, poderá haver outros. Quem quer que tenha ordenado a morte de Bran saberá em breve que o rapaz ainda vive.

Eu tinha esperança de ver as meninas... - disse Catelyn.

Isso seria muito insensato - interveio Mindinho. - A Fortaleza Vermelha está cheia de olhos curiosos, e as crianças falam.

Ele fala a verdade, meu amor - disse-lhe Ned, abraçando-a. - Leve Sor Rodrik e corra para Winterfell. Eu vigiarei as meninas. Vá para casa, para junto de nossos filhos, e mantenha-os a salvo.

Como quiser, senhor - Catelyn ergueu o rosto, e Ned a beijou. Os dedos estropiados dela apertaram as costas dele com uma força desesperada, como que para mantê-lo para sempre a salvo no abrigo de seus braços.

O senhor e a senhora vão querer um quarto? - perguntou Mindinho. - Devo preveni-lo, Stark, de que por aqui geralmente cobramos por esse tipo de coisa.

Um momento a sós, é tudo o que peço - Catelyn pediu.

Muito bem - Mindinho seguiu na direção da porta. - Sejam breves. Já passa da hora em que a Mão e eu deveríamos estar de volta ao castelo para que nossa ausência não seja notada.

Catelyn foi até junto dele e tomou-lhe as mãos nas suas.

-           Não me esquecerei da sua ajuda, Petyr. Quando seus homens vieram me chamar, não sabia se me levavam até um amigo ou um inimigo. Encontrei em você mais que um amigo. Encontrei o irmão que julgava perdido.

Petyr Baelish sorriu.

-           Sou desesperadamente sentimental, querida senhora. E melhor não contar a ninguém. Pas­sei anos convencendo a corte de que sou malvado e cruel, e detestaria ver todo esse árduo traba­lho dar em nada.

Ned não acreditou numa palavra daquilo, mas manteve a voz delicada para dizer:

-           Tem também os meus agradecimentos, Lorde Baelish.

-           Ora, está um tesouro - disse Mindinho, saindo do quarto.

Depois de a porta se fechar, Ned virou-se para a mulher.

Quando chegar em casa, mande uma mensagem a Heiman Tallhart e Galbart Glover com o meu selo. Eles devem recrutar cem arqueiros cada um e fortificar o Fosso Cailin. Duzentos arqueiros determinados podem defender a Garganta contra um exército. Diga a Lorde Manderly que deve fortalecer e reparar todas as suas defesas no Porto Branco e assegurar-se de que elas estão bem guarnecidas de homens. E a partir deste momento quero que uma vigilância cuidadosa seja mantida sobre Theon Greyjoy. Se houver guerra, teremos grande necessidade da frota de seu pai.

Guerra? - o medo era claro no rosto de Catelyn.

Não chegará a tal ponto - prometeu-lhe Ned, rezando para que fosse verdade, e voltou a tomá-la nos braços. - Os Lannister não têm misericórdia perante a fraqueza, como Aerys Targaryen aprendeu para sua desgraça, mas não se atreverão a atacar o Norte sem estarem susten­tados por todo o poder do reino, e não o terão. Devo representar este embuste como se nada houvesse de errado. Recorde o que me trouxe aqui, meu amor. Se encontrar provas de que os Lannister assassinaramJon Arryn...

Sentiu Catelyn tremer em seus braços. Suas mãos marcadas o agarraram.

-           Se isso acontecer - disse -, que acontecerá, meu amor?

Ned sabia que essa era a parte mais perigosa.

-           Toda a justiça parte do rei - disse-lhe. - Quando eu souber a verdade, terei de ir ter com Robert - e rezar para que seja o homem que penso que é, concluiu em silêncio, e não o homem em que temo que se tenha transformado.

 

                   Tyrion

- Está certo de que é preciso ir tão cedo? - perguntou-lhe o Senhor Comandante.

- Mais que certo, Lorde Mormont - respondeu Tyrion. - Meu irmão Jaime deve querer saber o que me aconteceu. Pode pensar que me convenceu a vestir negro.

-           Bem gostaria de fazê-lo. - Mormont pegou uma pinça de caranguejo e a rachou com a mão. Apesar de velho, o Senhor Comandante ainda possuía a força de um urso. - E um homem as­tuto, Tyrion. Homens assim fazem falta na Muralha.

Tyrion sorriu.

-           Então percorrerei os Sete Reinos em busca de anões e os enviarei para cá, Lorde Mormont - enquanto os outros riam, ele sugou a carne de uma perna de caranguejo e apanhou outra. Os caranguejos tinham chegado de Atalaialeste naquela manhã, acondicionados num barril de neve, e eram suculentos.

Sor Alliser Thorne foi o único homem da mesa que sequer esboçou um sorriso.

-           O Lannister zomba de nós.

-           Só do senhor, Sor Alliser - disse Tyrion. Daquela vez, o riso que percorreu a mesa tinha um tom nervoso e incerto.

Os olhos negros de Thorne fixaram-se em Tyrion com repugnância.

-           Tem uma língua ousada para alguém que é menos da metade de um homem. Talvez devês­semos visitar o pátio juntos, o senhor e eu.

-           Por quê? - perguntou Tyrion. - Os caranguejos estão aqui.

O comentário arrancou mais gargalhadas. Sor Alliser levantou-se, com a boca transformada numa linha apertada.

-           Venha fazer seus gracejos com o aço na mão.

Tyrion olhou com intenção para a mão direita.

-           Ora, mas eu tenho aço na mão, Sor Alliser, embora pareça ser um garfo para caranguejos. Fazemos um duelo? - saltou para cima da cadeira e pôs-se a espetar o peito de Thorne com o minúsculo garfo. Um rugido de gargalhadas encheu a sala. Bocados de caranguejo voaram da boca do Senhor Comandante quando começou a arfar e engasgar-se, Até seu corvo se juntou, grasnando sonoramente de seu poleiro por cima da janela. "Duelo! Duelo! Duelo!"

Sor Alliser Thorne saiu da sala tão rigidamente que parecia ter um punhal espetado no traseiro.

Mormont ainda arquejava, tentando recuperar o fôlego. Tyrion deu-lhe uma palmada nas costas.

-           Os despojos vão para o vencedor - gritou. - Reivindico a porção de caranguejos de Thorne.

Por fim, o Senhor Comandante venceu o engasgo.

-           É um homem maldoso para provocar Sor Alliser assim - censurou.

Tyrion sentou-se e bebeu um trago de vinho.

Se um homem pinta um alvo no peito, deve esperar que mais cedo ou mais tarde alguém lhe envie uma seta. Já vi mortos com mais humor que Sor Alliser.

Não é verdade - objetou o Senhor Intendente, Bowen Marsh, um homem redondo e ver­melho como uma romã. - Devia ouvir os nomes engraçados que dá aos rapazes que treina.

Tyrion ouvira alguns desses nomes engraçados.

Aposto que os rapazes também têm alguns nomes para ele - respondeu. - Arranquem o gelo dos olhos, meus bons senhores. Sor Alliser devia estar limpando o esterco das cavalariças, não treinando seus jovens guerreiros,

A Patrulha não tem falta de moços de estrebaria - resmungou Lorde Mormont. - Parece ser tudo o que nos mandam nos dias que correm. Moços de estrebaria, gatunos e violadores. Sor Alliser é um cavaleiro ungido, um dos poucos a vestir o negro desde que sou Comandante. Lutou bravamente em Porto Real.

Do lado errado - comentou secamente Sor Jeremy Rykker. - Eu sei, pois estava lá nas ameias ao seu lado. Tywin Lannister nos deu uma excelente escolha. Vestir o negro ou ver nossas cabeças espetadas em espigões antes do fim do dia. Não pretendo ofender, Tyrion.

Não me ofende, Sor Jeremy. Meu pai gosta muito de cabeças espetadas em espigões, espe­cialmente as de pessoas que o aborreceram de algum modo. E um rosto tão nobre como o seu, bem, sem dúvida que vos imaginou a decorar a muralha da cidade por cima do Portão do Rei. Penso que teria ficado impressionante lá em cima.

-           Obrigado - respondeu Sor Jeremy com um sorriso sardônico.

Senhor Comandante Mormont limpou a garganta.

-           Por vezes temo que Sor Alliser tenha visto a verdade em você, Tyrion. Realmente zomba de nós e do nosso nobre objetivo aqui.

Tyrion encolheu os ombros.

-           Todos precisamos ser alvo de zombaria de vez em quando, Senhor Mormont, para evitar que comecemos a nos levar muito a sério. Mais vinho, por favor - estendeu a taça.

Enquanto Rykker a enchia, Bowen Marsh disse:

-           Tem uma grande sede para um homem pequeno.

-           Ah, eu penso que o Senhor Tyrion é um homem bastante grande - disse Meistre Aemon da ponta mais distante da mesa. Falou em voz baixa, mas todos os grandes oficiais da Patrulha da Noite se calaram para ouvir melhor o que o ancião tinha a dizer. - Penso que é um gigante que surgiu entre nós, aqui no fim do mundo.

Tyrion respondeu com delicadeza.

-           Já me chamaram de muitas coisas, senhor, mas gigante raramente foi uma delas.

-           Apesar disso - disse Meistre Aemon enquanto seus olhos enevoados, brancos como o leite, se deslocavam para o rosto de Tyrion -, penso que é verdade.

Por uma vez na vida Tyrion Lannister deu por si sem palavras. Só conseguiu inclinar a cabeça polidamente e dizer:

-           É bastante amável, Meistre Aemon.

O cego sorriu. Era um homenzinho minúsculo, enrugado e sem cabelo, encolhido sob o peso de cem anos, de tal modo que seu colar de meistre, com elos de muitos metais, pendia solto em torno da garganta.

-Já me chamaram de muitas coisas, senhor - disse -, mas amável raramente foi uma delas - daquela vez foi o próprio Tyrion a liderar as gargalhadas.

Muito mais tarde, depois de acabar o assunto sério que era comer e de os outros se terem reti­rado, Mormont ofereceu a Tyrion uma cadeira junto à lareira e uma taça de uma bebida aquecida tão forte que lhe trouxe lágrimas aos olhos.

A estrada do rei pode ser perigosa aqui tão a norte - disse-lhe o Senhor Comandante en­quanto bebiam.

Tenho Jyck e Morrec - respondeu Tyrion -, e Yoren volta para o sul.

Yoren é apenas um homem. A Patrulha os escoltará até Winterfell - anunciou Mormont num tom que não admitia discussão. - Três homens deverão ser suficientes.

Se insiste, senhor - disse Tyrion. - Pode enviar o jovem Snow. Ele ficará feliz por ter a chance de rever os irmãos.

Mormont fez um olhar severo por cima da espessa barba cinzenta.

Snow? Ah, o bastardo Stark. Penso que não. Os jovens precisam esquecer da vida que deixaram para trás, os irmãos, as mães e isso tudo. Uma visita à casa só irá agitar sentimentos que é melhor deixar em paz. Eu sei destas coisas. Meus próprios parentes de sangue... minha irmã Marge governa agora a Ilha dos Ursos, desde a desonra de meu filho. Tenho sobrinhos que nunca vi - bebeu um trago. - Além disso, Jon Snow não passa de um rapaz. O senhor terá três espadas fortes para mantê-lo a salvo.

Sua preocupação toca-me, Senhor Mormont - a forte bebida estava deixando Tyrion ale­gre, mas não tão bêbado que não compreendesse que o Velho Urso queria qualquer coisa dele.

-           Espero que possa pagar sua bondade.

E pode - disse Mormont sem cerimônia. - Sua irmã senta-se ao lado do rei. Seu irmão é um grande cavaleiro e seu pai, o senhor mais poderoso dos Sete Reinos. Fale-lhes em nosso nome. Diga-lhes das nossas necessidades. O senhor as viu com seus próprios olhos. A Patrulha da Noite está morrendo, Nossa força é agora de menos de mil homens. Seiscentos aqui, duzentos na Torre Sombria, ainda menos em Atalaialeste, e só um escasso terço desses homens está pronto para o combate. A Muralha tem um comprimento de cem léguas. Pense nisso. Se um ataque vier, tenho três homens para defender cada légua de muralha.

Três e um terço - disse Tyrion com um bocejo.

Mormont pareceu quase não ouvi-lo. O velho aquecia as mãos no fogo.

-           Enviei Benjen Stark em busca do filho de Yohn Royce, perdido em sua primeira patrulha. O rapaz Royce estava verde como a relva de verão, mas insistiu na honra de seu próprio coman­do, dizendo que lhe era devido enquanto cavaleiro. Não desejei ofender o senhor seu pai e cedi. Enviei-o com dois homens que considerava dos melhores que temos na Patrulha. Mas fui tolo.

"Tolo", concordou o corvo. Tyrion ergueu o olhar. O pássaro o olhou com aqueles olhos ne­gros, pequenos e brilhantes, agitando as asas. "Tolo", gritou de novo. Sem dúvida, o velho Mor­mont levaria a mal se ele esganasse a criatura. Uma pena.

O Senhor Comandante não pareceu reparar na irritante ave.

-           Gared era quase tão velho como eu, e tinha mais anos de Muralha - prosseguiu -, mas pa­rece que abjurou e fugiu. Nunca teria acreditado, com ele, não, mas Lorde Eddard me enviou sua cabeça de Winterfell. De Royce não há notícias. Um desertor e dois homens perdidos, e agora também Ben Stark está desaparecido - soltou um profundo suspiro. - Quem hei de enviar em busca dele? Dentro de dois anos farei setenta. Estou demasiado velho e cansado para o fardo que carrego, mas, se o entregar, quem o assumirá? Alliser Thorne? Bowen Marsh? Teria de ser tão cego como Meistre Aemon para não ver o que eles são. A Patrulha da Noite transformou-se num exército de rapazes rabugentos e velhos cansados. Além dos homens que partilharam nossa mesa esta noite, tenho talvez vinte que sabem ler, e ainda menos capazes de pensar, planejar ou liderar. Antes a Patrulha passava os verões construindo, e cada Senhor Comandante erguia a muralha mais alta do que a encontrara. Agora, tudo o que podemos fazer é ficar vivos.

Tyrion percebeu que o outro estava sendo mortalmente sincero. Sentiu-se vagamente emba­raçado pelo velho. Lorde Mormont passara boa parte da vida na Muralha e precisava acreditar que aqueles anos teriam algum significado.

-           Prometo que o rei ouvirá falar de suas necessidades - disse Tyrion gravemente -, e também falarei ao meu pai e ao meu irmão Jaime - e falaria. Tyrion Lannister era um homem de palavra. Deixou o resto por dizer; que o Rei Robert o ignoraria, que Lorde Tywin perguntaria se ele tinha perdido o juízo, e que Jaime se limitaria a rir.

É jovem, Tyrion - disse Mormont. - Quantos invernos já viu?

Encolheu os ombros.

Oito, nove. Não me lembro.

E todos eles curtos.

É como disse, senhor - Tyrion nascera no auge do inverno, um inverno terrível e cruel que os meistres diziam que durara três anos, mas suas mais antigas memórias eram de primavera,

Quando eu era rapaz, dizia-se que um longo verão significava sempre que um longo inver­no se seguiria. Este verão durou nove anos, Tyrion, e um décimo chegará em breve. Pense nisso.

Quando eu era rapaz - respondeu Tyrion -, minha ama de leite me disse que um dia, se os homens fossem bons, os deuses dariam ao mundo um verão sem fim. Talvez tenhamos sido melhores do que pensávamos, e talvez tenha chegado, enfim, o Grande Verão - sorriu.

O Senhor Comandante não pareceu divertido.

-           Não é tolo o bastante para acreditar nisso, senhor. Os dias já estão ficando mais curtos. Não pode haver dúvida, Aemon recebeu cartas da Cidadela, com descobertas que estão de acor­do com as dele próprio. O fim do verão olha-nos nos olhos - Mormont estendeu um braço e agarrou com força a mão de Tyrion. - Tem de fazê-los compreender. Digo-lhe, senhor, a escuri­dão está chegando. Há coisas selvagens nos bosques, lobos gigantes, mamutes e ursos-da-neve do tamanho de auroques, e vi formas mais escuras nos meus sonhos.

Nos seus sonhos - repetiu Tyrion, pensando na urgência que tinha de outra bebida forte. Mormont estava completamente surdo à voz do anão.

Os pescadores da região de Atalaialeste vislumbraram caminhantes brancos na costa. Daquela vez, Tyrion não conseguiu segurar a língua.

Os pescadores de Lanisporto vislumbram sereias com frequência.

Denys Mallister escreve que o povo da montanha está se deslocando para o sul, passando pela Torre Sombria em maior número que em qualquer época. Estão fugindo, senhor..., mas fugindo de quê? - Lorde Mormont dirigiu-se à janela e olhou perdido para a noite. - Estes meus ossos são velhos, Lannister, mas nunca sentiram um arrepio como este. Conte ao rei o que eu digo, rogo-lhe. O inverno está para chegar, e quando a Longa Noite cair, só a Patrulha da Noite se erguerá entre o reino e a escuridão que vem do norte. Que os deuses nos protejam a todos se não estivermos preparados.

Que os deuses protejam a mim se não dormir um pouco esta noite. Yoren está decidido a partir ao raiar do dia - Tyrion pôs-se em pé, sonolento do vinho e farto de destinos lúgubres. - Agradeço-lhe por todas as cortesias que me concedeu, Senhor Mormont.

-           Diga-lhes, Tyrion. Diga-lhes e os faça acreditar. Este é todo o agradecimento de que preciso - assobiou e o corvo foi empoleirar-se em seu ombro. Mormont sorriu e deu à ave algum milho que tirou do bolso, e foi assim que Tyrion o deixou.

Estava um frio de rachar lá fora. Bem enrolado nas espessas peles, Tyrion Lannister calçou as luvas e acenou com a cabeça para os pobres desgraçados que montavam guarda à porta da Torre do Comandante. Atravessou o pátio na direção de seus aposentos na Torre do Rei, caminhando o mais vivamente que suas pernas permitiam. Aglomerados de neve rangiam debaixo dos seus pés quando as botas quebravam a crosta noturna, e a respiração condensava-se à sua frente como um estandarte. Enfiou as mãos embaixo dos braços e caminhou mais depressa, rezando para que Morrec se tivesse lembrado de aquecer sua cama com tijolos quentes retirados da lareira.

Por trás da Torre do Rei, a Muralha cintilava à luz da lua, imensa e misteriosa. Tyrion parou por um momento para olhá-la. As pernas doíam-lhe do frio e da pressa.

De repente, foi assaltado por uma estranha loucura, um desejo de olhar mais uma vez para lá do fim do mundo. Seria sua última oportunidade, pensou; no dia seguinte iria se dirigir para o sul, e não era capaz de imaginar um motivo para alguma vez querer regressar àquela gelada deso­lação. A Torre do Rei estava à sua frente, com sua promessa de calor e de uma cama suave, mas Tyrion deu por si caminhando para lá dela, na direção da vasta paliçada de cor clara da Muralha.

Uma escada de madeira subia a face sul, ancorada em enormes vigas rudemente talhadas, que penetravam profundamente no gelo. Ziguezagueava para um lado e para o outro, escalando a muralha tão torta como um relâmpago. Os irmãos negros tinham-lhe assegurado que era muito mais forte do que parecia, mas as pernas de Tyrion estavam com cãibras demais para que sequer pensasse em subi-la. Em vez disso, dirigiu-se à gaiola de ferro junto ao poço, pulou para dentro dela e puxou com força a corda do sino, três sacudidelas rápidas.

Teve de esperar o que pareceu ser uma eternidade ali, atrás das grades e com a Muralha nas costas. Tempo suficiente para começar a interrogar-se sobre o motivo que o levava a fazer aquilo. Estava quase decidido a esquecer aquele súbito capricho e ir para a cama quando a gaiola deu um solavanco e começou a subir.

Subiu lentamente, a princípio com paradas e arranques, mas depois mais suavemente. O chão desapareceu por baixo de seus pés, a gaiola oscilou e Tyrion enrolou as mãos nas grades de ferro. Conseguia sentir o frio do metal mesmo através das luvas. Percebeu, com aprovação, que Morrec tinha um fogo a arder no seu quarto, mas a torre do Senhor Comandante estava às escuras. Pare­cia que o Velho Urso tinha mais juízo do que ele.

E, então, viu-se acima das torres, ainda subindo lentamente. Castelo Negro jazia abaixo de si, delineado ao luar. Dali, via-se bem como era um lugar rígido e vazio, com suas torres sem janelas, muros em ruínas, pátios entupidos de pedra partida. Mais longe, conseguia ver as luzes da Vila da Toupeira, um pequeno povoado a meia légua para sul ao longo da estrada do rei, e aqui e ali a cintilação brilhante do luar na água onde córregos gelados desciam dos cumes das montanhas e cortavam as planícies. O resto do mundo era um vazio desolado de colinas varridas pelo vento e campos pedregosos manchados de neve.

Sete infernos, é o anão - disse por fim uma voz grossa atrás dele, e a jaula parou com um salto súbito e ali ficou, oscilando lentamente de um lado para o outro, com as cordas rangendo.

Tragam-no, raios - ouviu-se um grunhido e um sonoro gemido de madeira quando a gaio­la deslizou de lado e a muralha apareceu por baixo de seus pés. Tyrion esperou que a oscilação parasse antes de abrir a porta da gaiola e saltar para o gelo. Uma pesada figura vestida de negro apoiava-se no guincho, enquanto uma segunda segurava a gaiola com uma mão enluvada. Seus rostos estavam cobertos por lenços de lã que deixavam ver apenas os olhos, e estavam inchados com as camadas de lã e couro que traziam, negro sobre negro.

E o que o senhor há de querer a esta hora da noite? - perguntou o homem do guincho.

Um último olhar.

Os homens trocaram olhares carrancudos.

-           Olhe o que quiser - disse o outro. - Tenha apenas cuidado para não cair, homenzinho. O Velho Urso exigiria a nossa pele - uma pequena cabana de madeira erguia-se sob a grande grua. Tyrion viu o pálido brilho de um braseiro e sentiu uma breve lufada de calor quando os homens do guincho abriram a porta e voltaram para dentro. E então ficou só.

Estava um frio medonho ali em cima, e o vento o puxava pela roupa como uma amante insis­tente. O topo da Muralha era mais largo que a maior parte da estrada do rei, e Tyrion não tinha medo de cair, embora seus pés escorregassem mais do que gostaria. Os irmãos espalhavam pedra esmagada pelas passagens, mas o peso de incontáveis passos derretia a Muralha nesses locais e o gelo parecia crescer em torno do cascalho, engolindo-o, até que o caminho ficava de novo liso e era tempo de esmagar mais pedra.

Mesmo assim, não era nada com que Tyrion não conseguisse lidar. Olhou para leste e oeste, para a Muralha que se estendia à sua frente, uma vasta estrada branca sem princípio nem fim e um abismo escuro de ambos os lados. Oeste, decidiu, por nenhum motivo em especial, e come­çou a andar nessa direção, seguindo o caminho mais próximo da beira norte, onde o cascalho parecia mais recente.

As bochechas nuas estavam coradas de frio, e as pernas queixavam-se mais alto a cada passo, mas Tyrion as ignorou. O vento rodopiava em seu redor, a brita rangia sob as botas, enquanto à frente a fita branca seguia os contornos das colinas, erguendo-se cada vez mais alta, até se perder para lá do horizonte ocidental. Passou por uma maciça catapulta, alta como uma muralha de cidade, com a base profundamente afundada na Muralha. O braço lançador tinha sido removido para passar por reparos, e depois fora esquecido; jazia ali como um brinquedo partido, meio em­butido no gelo.

Do lado de lá da catapulta, uma voz abafada soltou um grito.

-           Quem vem lá? Alto!

Tyrion parou.

-           Se fizer alto por muito tempo, congelo, Jon - disse, enquanto uma hirsuta silhueta clara deslizava em silêncio na sua direção e farejava suas peles. - Olá, Fantasma.

Jon Snow se aproximou. Parecia maior e mais pesado dentro de suas camadas de peles e cou­ro e com o capuz do manto sobre o rosto.

Lannister - disse, soltando o lenço para descobrir a boca. - Este é o último lugar em que esperaria vê-lo - carregava uma pesada lança com ponta de ferro, maior que ele, e da cintura pen­dia uma espada numa bainha de couro. Atravessado no peito trazia um cintilante corno de guerra negro com faixas de prata.

Este é o último lugar onde esperaria ser visto - admitiu Tyrion. - Fui tomado por um ca­pricho. Se tocar no Fantasma, ele arranca minha mão?

-           Comigo aqui, não - Jon assegurou.

Tyrion coçou o lobo branco atrás das orelhas. Os olhos vermelhos observaram-no, impassí­veis. O animal já lhe chegava ao peito. Mais um ano e Tyrion tinha a sensação sombria de que teria de olhar para cima se quisesse ver sua cabeça.

-           Que faz aqui esta noite? - perguntou. - Além de congelar seus órgãos viris?

-           Calhou-me a guarda noturna - Jon respondeu. - Outra vez. Sor Alliser tratou gentilmente de arranjar as coisas de modo que o comandante da guarda ganhasse um especial interesse por mim. Parece pensar que, se me mantiverem acordado metade da noite, acabarei dormindo du­rante o exercício da manhã. Até agora o tenho desapontado.

Tyrion mostrou os dentes.

E o Fantasma já aprendeu a fazer malabarismos?

Não - disse Jon, sorrindo -, mas hoje de manhã Grenn conseguiu aguentar Halder, e Pyp já não deixa cair a espada tantas vezes como deixava.

-Pyp?

Seu verdadeiro nome é Pypar. O rapaz pequeno com grandes orelhas. Ele me viu traba­lhando com Grenn e me pediu ajuda. Thorne nunca sequer lhe tinha mostrado a maneira certa de segurar uma espada - virou-se para olhar o norte. - Tenho uma milha de Muralha para guardar. Caminha comigo?

Se caminhar devagar - disse Tyrion.

O comandante da guarda diz que devo caminhar para impedir o sangue de congelar, mas nunca me disse nada sobre a velocidade.

Puseram-se a caminho, com Fantasma caminhando ao lado de Jon como uma sombra branca.

Parto de manhã - disse Tyrion.

Eu sei - Jon soava estranhamente triste.

Pretendo parar em Winterfell a caminho do sul. Se houver alguma mensagem que deseje que eu entregue...

Diga a Robb que vou comandar a Patrulha da Noite e mantê-lo a salvo, e, portanto ele bem pode aprender a tricotar com as moças e dar a espada a Mikken para que a derreta para ferraduras.

Seu irmão é maior que eu - disse Tyrion com uma gargalhada. - Declino a entrega de qualquer mensagem que possa me matar.

Rickon perguntará quando volto para casa. Tente lhe explicar onde estou, se for possível, Diga-lhe que pode ficar com todas as minhas coisas enquanto eu estiver fora; ele gostará disso,

Tyrion pensou que as pessoas pareciam estar lhe pedindo muitas coisas naquele dia.

Sabe que pode pôr tudo isso numa carta, não sabe?

Rickon ainda não sabe ler. Bran... - parou subitamente. - Não sei que mensagem enviar a Bran. Ajude-o, Tyrion.

Que ajuda eu poderia lhe dar? Não sou nenhum meistre para lhe atenuar as dores. Não possuo feitiços para lhe devolver as pernas.

Ajudou-me quando precisei - disse Jon Snow.

Não te dei nada - Tyrion respondeu. - Palavras.

Nesse caso, dê também a Bran as suas palavras.

Você está pedindo a um coxo que ensine um aleijado a dançar - Tyrion retrucou. - Por mais sincera que seja a lição, é provável que o resultado seja grotesco. Mas sei o que é amar um irmão, Lorde Snow. Darei a Bran qualquer pequena ajuda que esteja ao meu alcance.

-           Obrigado, meu senhor de Lannister - Jon tirou a luva e ofereceu a mão nua. - Amigo. Tyrion deu por si estranhamente comovido.

-           A maior parte de meus parentes são bastardos - disse com um sorriso cansado -, mas você é o primeiro que tive como amigo - descalçou uma luva com os dentes e agarrou a mão de Snow, carne contra carne. A mão do rapaz era firme e forte.

Depois de voltar a calçar a luva, Jon Snow virou-se abruptamente e caminhou até o baixo e gelado parapeito norte. Para lá dele a Muralha caía bruscamente, havia apenas escuridão e regiões selvagens. Tyrion o seguiu, e lado a lado ergueram-se no limite do mundo.

A Patrulha da Noite não permitia que a floresta se aproximasse mais de uma milha da face norte da muralha. Os matagais de pau-ferro, árvores sentinelas e carvalhos que em outros tem­pos cresceram ali, havia séculos tinham sido abatidos para criar uma vasta extensão de terreno aberto através do qual nenhum inimigo poderia esperar passar sem ser visto. Tyrion ouvira dizer que em outros locais da Muralha, entre as três fortalezas, a floresta viera se aproximando ao lon­go das décadas, que havia locais onde sentinelas cinza-esverdeadas e represeiros esbranquiçados tinham criado raízes à sombra da própria Muralha, mas Castelo Negro tinha um prodigioso apetite por lenha, e ali a floresta ainda era mantida afastada pelos machados dos irmãos negros.

Mas nunca estava longe. Dali, Tyrion podia vê-la, as árvores escuras que se erguiam para lá da extensão de terreno aberto, como uma segunda muralha construída em paralelo com a primeira, uma muralha de noite. Poucos machados tinham alguma vez sido brandidos naquela floresta negra, onde até o luar não conseguia penetrar o antigo emaranhado de raízes, espinhos e ramos. Lá onde as árvores cresciam enormes, e os patrulheiros diziam que pareciam meditar e que não conheciam os homens. Pouco surpreendia que a Patrulha da Noite lhe chamasse a Flo­resta Assombrada.

Ali, em pé, olhando para toda aquela escuridão sem um fogo a arder onde quer que fosse, com o vento soprando e o frio que era como uma lança nas entranhas, Tyrion Lannister sentiu que quase podia acreditar na conversa sobre os Outros, os inimigos da noite. Suas brincadeiras sobre gramequins e snarksji. não lhe pareciam assim tão engraçadas.

-           Meu tio está ali - disse Jon Snow em voz baixa, inclinando a lança enquanto mantinha os olhos fixos na escuridão. - Na primeira noite em que me mandaram aqui para cima, pensei que Tio Benjen voltaria, eu seria o primeiro a vê-lo e sopraria o corno. Mas ele não veio. Nem nessa noite nem em nenhuma das outras.

-           Dê-lhe tempo - disse Tyrion.

Longe, para norte, um lobo começou a uivar. Outra voz juntou-se ao chamado, e depois uma terceira. Fantasma inclinou a cabeça e escutou.

-           Se ele não regressar - prometeu Jon Snow -, Fantasma e eu vamos à sua procura - pousou a mão na cabeça do lobo gigante.

-           Acredito - disse Tyrion, mas o que pensou foi: E quem irá à sua procura? Estremeceu.

 

                   Arya

Seu pai tinha estado outra vez lutando com o conselho. Arya podia ver isto em seu rosto quando chegou à mesa, de novo atrasado, como acontecia tantas vezes. O primeiro prato, uma espessa sopa suave feita com abóbora, já fora levado quando Ned Stark entrou a passos lar­gos no Pequeno Salão. Chamavam-no assim para distingui-lo do Grande Salão, onde o rei podia dar um banquete para mil pessoas, mas era uma sala comprida com um teto alto e abobadado, e lugar para duzentos convivas às mesas.

Senhor - disse Jory quando Stark entrou. Pôs-se de pé, e o resto da guarda ergueu-se com ele. Todos os homens usavam mantos novos, de pesada lã cinzenta com uma borda de cetim branco. Uma mão feita de prata batida se agarrava às dobras de lã dos mantos e marcava quem os usava como membro da guarda pessoal da Mão. Eram só cinquenta, e a maior parte dos bancos encontrava-se vazia.

Sentem-se - disse Eddard Stark. - Vejo que começaram sem mim. Agrada-me ver que ainda há alguns homens de bom-senso nesta cidade - fez sinal para a refeição prosseguir. Os criados começaram a trazer bandejas de costeletas assadas em crosta de alho e ervas.

-           Dizem no pátio que vamos ter um torneio, senhor - disse Jory quando voltou a se sentar.

-           Dizem que virão cavaleiros de todo o reino para ajusta e para um banquete em honra da vossa nomeação como Mão do Rei.

Arya percebeu que seu pai não estava muito feliz com aquilo.

Também dizem que isto é a última coisa no mundo que eu desejaria? - o pai falou, e os olhos de Sansa se esbugalharam.

Um torneio - suspirou. Estava sentada entre Septã Mordane e Jeyne Poole, o mais longe de Arya que podia sem receber uma reprimenda do pai. - Vão nos deixar ir, pai?

Conhece os meus sentimentos, Sansa. Parece que devo organizar os jogos de Robert e fin­gir estar honrado com eles. Isso não quer dizer que deva submeter minhas filhas a esta loucura.

-           Ah, por favor - Sansa pediu. - Eu quero ver.

Septã Mordane interveio.

-           A Princesa Myrcella estará lá, senhor, e é mais nova que a Senhora Sansa. Num grande evento como este, espera-se a presença de todas as senhoras da corte, e como o torneio é em vossa honra, parecerá estranho se vossa família não comparecer.

O pai fez uma expressão sentida.

-           Suponho que sim. Muito bem, arranjarei um lugar para você, Sansa - ele olhou para Arya.

-           Para as duas.

-           Não me interessa o estúpido torneio deles - disse Arya. Sabia que Príncipe Joffrey estaria lá, e ela o odiava.

Sansa ergueu a cabeça.

-           Será um evento magnífico. Não a quererão lá.

Um relâmpago de ira surgiu no rosto do pai.

-              Basta, Sansa. Diga mais uma coisa dessas e mudo de idéia. Estou cansado de morte desta guerra sem fim que vocês duas travam. São irmãs. Espero que se comportem como tal, entendido?

Sansa mordeu o lábio e anuiu. Arya baixou o rosto para o prato e fitou-o, carrancuda. Sentia lágrimas a arder-lhe nos olhos. Esfregou-as, zangada, determinada a não chorar. O único som que se ouvia era o ruído das facas e dos garfos.

-           Por favor, desculpem-me - anunciou o pai à mesa. - Descobri que esta noite tenho pouco apetite - e saiu do salão.

Depois de ele partir, Sansa trocou segredos comjeyne Poole. Ao fundo da mesa, Jory riu de uma piada e Hullen começou a falar de cavalos.

-           Seu cavalo de guerra, preste atenção, pode não ser o melhor para a justa. Não é a mesma coisa, ah, não, não é de todo a mesma coisa - os homens tinham ouvido tudo aquilo antes; Desmond, Jacks e o filho de Hullen, Harwin, gritaram-lhe em uníssono que se calasse, e Porther pediu mais vinho.

Ninguém falou com Arya. Ela não se importou. Gostava das coisas assim. Teria feito suas refeições sozinha no quarto se lhe fosse permitido. E por vezes permitiam, quando o pai tinha de jantar com o rei, com algum senhor ou com os enviados deste ou daquele lugar. No resto do tem­po, comiam no seu solar, só ele, ela e Sansa. Era então que Arya mais sentia saudades dos irmãos. Queria provocar Bran, brincar com o bebê Rickon e fazer com que Robb lhe sorrisse. Queria que Jon despenteasse seu cabelo, chamasse-a de "irmãzinha" e acabasse as frases junto com ela. Mas estavam todos longe. Não tinha ninguém, a não ser Sansa, e Sansa nem sequer lhe falava, a não ser que o pai a obrigasse.

Em Winterfell, quase metade das refeições era feita no Salão Grande. O pai costumava dizer que um senhor devia comer com seus homens se esperava conservá-los. Arya um dia o ouviu dizer a Robb: "Conheça os homens que o seguem e deixe que eles o conheçam. Não peça aos seus homens para morrer por um estranho". Em Winterfell tivera sempre um lugar extra à sua mesa, e todos os dias um homem diferente era convidado a juntar-se a eles. Uma noite seria Vayon Poole e a cohversa versaria sobre cobres, reservas de pão e criados. Na próxima seria Mikken, e o pai o ouviria discorrer sobre armaduras e espadas, quão quente devia estar uma forja e qual a melhor maneira de temperar o aço. Outro dia seria Hullen com sua infinita conversa de cavalos, ou Septão Chayle da biblioteca, ou Jory, ou Sor Rodrik, ou até a Velha Ama com suas histórias.

Não havia nada que Arya mais gostasse do que se sentar à mesa do pai e ouvi-los falar. Tam­bém gostava de ouvir os homens que se sentavam nos bancos: cavaleiros livres, duros como couro; cavaleiros cortesãos; jovens e ousados escudeiros; velhos e grisalhos homens de armas. Costumava atirar-lhes bolas de neve e ajudá-los a roubar tortas da cozinha. As mulheres desses homens ofereciam-lhe bolinhos de aveia e trigo e ela inventava nomes para os seus bebês e brincava com seus filhos de monstros e donzelas, ou busca do tesouro, ou vem ao meu castelo. Gordo Tom costumava chama-lá de "Arya Debaixo dos Pés", porque dizia que era aí que ela estava sempre. Gos­tava muito mais desse nome do que de "Arya Cara de Cavalo".

Mas isso era Winterfell, a um mundo de distância, e agora tudo mudara. Aquela era a pri­meira vez que tinham comido uma refeição com os homens desde a chegada a Porto Real. E Arya detestou. Agora detestava o som de suas vozes, o modo como riam, as histórias que contavam. Tinham sido seus amigos, tinha se sentido segura junto deles, mas agora sabia que isso era uma mentira. Tinham deixado a rainha matar Lady, e isso já fora suficientemente horrível, mas depois o Cão de Caça encontrara Mycah. Jeyne Poole dissera a Arya que o tinha cortado em tantos pe­daços que o devolveram ao carniceiro dentro de um saco, e a princípio o pobre homem pensara tratar-se de um porco morto. E ninguém levantara uma voz ou puxara uma espada ou qualquer coisa, nem Harwin, que falava sempre tão ousadamente, nem Alyn, que ia ser um cavaleiro, ou Jory, que era capitão da guarda. Nem mesmo seu pai.

-           Ele era meu amigo - sussurrou Arya para o prato, tão baixo que ninguém a ouviu. Suas costeletas estavam ali, intocadas, esfriando, uma fina película de gordura solidificando por baixo delas no prato. Arya as olhou e se sentiu mal. Afastou a cadeira da mesa.

-           Perdão, onde pensa que vai, jovem senhora? - perguntou Septã Mordane.

-           Não tenho fome - Arya sentia dificuldade em lembrar-se da boa educação. - Com a sua licença - recitou rigidamente.

-           Não a tem - disse a septã. - Quase não tocou na comida. Sente-se e limpe o prato.

-           Limpe-o você! - antes que alguém pudesse detê-la, Arya saltou para a porta enquanto os homens riam e Septã Mordane a chamava sonoramente, com a voz cada vez mais aguda.

Gordo Tom estava em seu posto, guardando a porta da Torre da Mão. Pestanejou ao ver Arya correr em sua direção por entre os gritos da septã.

-           Ora bem, pequena, espera - começou a dizer, estendendo a mão, mas Arya deslizou entre suas pernas e precipitou-se pelos degraus em espiral da torre acima, com os pés martelando a pedra enquanto Gordo Tom bufava de irritação atrás dela.

Seu quarto era o único lugar de que Arya gostava em todo o Porto Real, e aquilo de que gos­tava mais nele era a porta, uma maciça prancha de carvalho escuro com reforços negros de ferro. Quando batia aquela porta e deixava cair a pesada tranca, ninguém podia entrar naquele quarto, nem Septã Mordane, nem Gordo Tom, nem Sansa, nem Jory, nem o Cão de Caça, ninguém! E a batia.

Depois de a tranca cair, Arya sentiu-se por fim suficientemente em segurança para chorar. Foi até o assento junto à janela e sentou-se ali, fungando, odiando todos e a si mesma acima de tudo. Era tudo culpa sua, tudo o que acontecera. Era o que Sansa dizia, e Jeyne também.

Gordo Tom estava a batendo à porta.

-           Menina Arya, o que se passa? - gritou. - Está aí?

-              Não! - gritou Arya. As batidas pararam. Um momento mais tarde, ouviu-o partir. Gordo Tom era sempre fácil de enganar.

Arya dirigiu-se à arca que tinha aos pés da cama. Ajoelhou-se, abriu o tampo e começou a tirar a roupa lá de dentro com ambas as mãos, agarrando a mãos-cheias seda, cetim, veludo e lã e atirando-as ao chão. Ali estava, no fundo da arca, onde a escondera. Arya ergueu-a quase com ternura e tirou a estreita lâmina de sua bainha.

Agulha.

Pensou de novo em Mycah e os olhos se encheram de lágrimas. Culpa sua, culpa sua, culpa sua. Se nunca lhe tivesse pedido para brincar de espadas com ela... Ouviu-se uma batida na porta, mais alta que antes.

Arya Stark, abra esta porta imediatamente, está ouvindo? Arya rodopiou, com Agulha na mão.

É melhor não entrar aqui! - preveniu, e golpeou o ar ferozmente.

A Mão ouvirá falar disto! - encolerizou-se Septã Mordane.

Não me importa - gritou Arya. - Vá embora.

-              Vai se arrepender deste comportamento insolente, senhorita, é uma promessa que lhe faço - Arya escutou à porta até ouvir o som dos passos da septã se afastando.

Regressou para junto da janela, com Agulha na mão, e olhou o pátio lá embaixo. Se ao me­nos fosse capaz de escalar como Bran, pensou; sairia pela janela e desceria a torre, fugiria da­quele lugar horrível, de Sansa, da Septã Mordane e do Príncipe Joffrey, de todos eles. Roubaria alguma comida da cozinha e levaria Agulha, botas boas e um manto quente. Poderia encontrar Nymeria nos bosques selvagens abaixo do Tridente e regressariam juntas a Winterfell, ou cor­reriam até Jon, na Muralha. Deu por si a desejar que Jon estivesse ali consigo. Então talvez não se sentisse tão só.

Um suave toque na porta atrás dela fê-la virar as costas à janela e aos seus sonhos de fuga.

-           Arya - soou a voz do pai. - Abre a porta. Temos de conversar.

Arya atravessou o quarto e ergueu a tranca. O pai estava só. Parecia mais triste que zangado, fazendo Arya sentir-se ainda pior.

Posso entrar? - Arya fez que sim com a cabeça e depois abaixou os olhos, envergonhada. O pai fechou a porta. - De quem é essa espada?

Minha - Arya quase esquecera que tinha Agulha na mão.

Dê-me.

Relutantemente, Arya entregou a espada, perguntando a si mesma se voltaria algum dia a pegar nela. O pai a fez rodar sob a luz, examinando ambos os lados da lâmina. Testou a ponta com o polegar.

-           Uma lâmina de espadachim - disse, - No entanto, parece-me que conheço esta marca de fabricante. Isto é trabalho de Mikken.

Arya não podia mentir para o pai. Abaixou os olhos.

Lorde Eddard Stark suspirou.

-           Minha filha de nove anos é armada pela minha própria forja, e eu nada sei sobre o assunto. Espera-se que a Mão do Rei governe os Sete Reinos, mas parece que nem sequer é capaz de go­vernar sua casa. Como foi que se tornou dona de uma espada, Arya? Onde arranjou isto?

Arya trincou o lábio e nada disse. Não queria trair Jon, nem mesmo ao pai. Depois de algum tempo, o pai disse:

Não me parece que realmente importe - olhou gravemente para a espada que tinha nas mãos. - Isto não é brinquedo para uma criança, e muito menos para uma menina. Que diria Septã Mordane se soubesse que está brincando com espadas?

Não estava brincando - insistiu Arya. - Odeio Septã Mordane.

Basta - a voz do pai soou seca e dura. - A septã não faz mais que o seu dever, embora os deuses bem saibam que você o transformou numa luta para a pobre mulher. Sua mãe e eu a en­carregamos da tarefa impossível de transformar você numa dama.

Eu não quero ser uma dama! - inflamou-se Arya.

Devia partir este brinquedo no joelho aqui e agora, e pôr fim a este disparate.

Agulha não se partiria - disse Arya em desafio, mas a voz traiu-lhe as palavras.

Ah, até tem nome? - o pai suspirou. - Ah, Arya. Tem um ardor dentro de si, criança. Meu pai costumava chamá-lo "o sangue do lobo". Lyanna tinha um pouco, e meu irmão Brandon, mais que um pouco. Este levou ambos a uma sepultura precoce - Arya ouviu tristeza na voz dele; não era frequente falar do pai ou do irmão e da irmã que tinham morrido antes de ela nascer. - Lyanna poderia ter usado uma espada, se o senhor meu pai o tivesse permitido. Você por vezes me faz lembrar dela. Até se parece com ela.

Lyanna era linda - disse Arya, surpresa. Todos diziam aquilo. E não era algo que alguma vez se dissesse de Arya.

Pois era - concordou Eddard Stark -, linda e voluntariosa, e morta antes do tempo - er­gueu a espada, segurou-a entre os dois. - Arya, o que pensa fazer com esta... Agulha? Quem planeja espetar nela? Sua irmã? Septã Mordane? Sabe alguma coisa sobre esgrima?

Apenas conseguiu lembrar-se da lição que Jon lhe dera.

Espeta-se com a ponta aguçada - proferiu.

O pai respondeu com uma gargalhada.

Esta é a essência da coisa, suponho.

Arya queria desesperadamente explicar, para que ele compreendesse.

-           Eu estava tentando aprender, mas... - seus olhos se encheram de lágrimas. - Pedi a Mycah para praticar comigo - o desgosto assaltou-a por inteiro. Virou-se, tremendo: - Eu lhe pedi - cho­rou. - Foi culpa minha, fui eu...

De súbito, os braços do pai estavam à sua volta. Abraçou-a gentilmente quando ela se virou e desatou a soluçar contra seu peito.

Não, querida - murmurou. - Chore pelo seu amigo, mas nunca se culpe. Você não matou o filho do carniceiro. Esse assassinato cabe ao Cão de Caça, a ele e à mulher cruel que serve.

Odeio-os - confidenciou Arya, com o rosto vermelho, fungando. - Ao Cão, à rainha, ao rei e ao Príncipe Joffrey. Odeio-os todos. Joffrey mentiu, as coisas não se passaram como ele disse. E também odeio Sansa. Ela se lembrava, só mentiu para que Joffrey gostasse dela.

Todos mentimos - seu pai disse. - Ou será que pensa mesmo que acreditei que Nymeria tinha fugido?

Arya corou.

-           Jory prometeu não contar,

Jory manteve a promessa - confirmou o pai com um sorriso. - Há certas coisas que não preciso que me sejam ditas. Até um cego podia ver que aquele lobo nunca te deixaria de boa vontade.

Tivemos de atirar-lhe pedras - disse ela em tom infeliz. - Eu lhe disse para fugir, para ser livre, que já não a queria. Havia outros lobos com quem brincar, ouvíamos seu uivo, e Jory disse que os bosques estavam cheios de caça, e ela teria veados para caçar. Mas ela continuava a nos seguir, e por fim tivemos que lhe atirar pedras. Atingi-a duas vezes. Ela gemeu e olhou para mim, e eu me senti tão envergonhada, mas foi a coisa certa a fazer, não foi? A rainha a teria matado.

Foi a coisa certa a fazer - seu pai respondeu. - E mesmo a mentira foi... algo com certa honra - Ned colocou Agulha de lado para abraçar Arya. Depois, voltou a pegar a arma e cami­nhou até a janela, onde parou por um momento, olhando para além do pátio. Quando se voltou virando, tinha os olhos pensativos. Sentou-se no assento de janela, com Agulha pousada nas co­xas. - Arya, sente-se. Tenho de tentar lhe explicar algumas coisas.

Ela empoleirou-se ansiosamente na beira da cama.

-           Você é nova demais para ser sobrecarregada com todos os meus problemas - disse-lhe -, mas também é uma Stark de Winterfell. Conhece o nosso lema.

-           O inverno está para chegar - sussurrou Arya.

-           Os tempos duros e cruéis - disse o pai. - Provamo-los no Tridente, filha, e quando Bran caiu. Você nasceu durante o longo verão, querida, e nunca conheceu nada além dele, mas agora o inverno está realmente chegando. Lembra-se do selo da nossa Casa, Arya?

O lobo gigante - ela respondeu, pensando em Nymeria. Abraçou os joelhos contra o peito, de repente sentindo medo.

Deixe-me lhe dizer algumas coisas acerca de lobos, filha. Quando as neves caem e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre, mas a alcateia sobrevive. O verão é o tempo das picui­nhas. No inverno, devemos proteger uns aos outros, nos manter quentes, partilhar nossas forças. Por isso, se tiver de odiar, Arya, odeie aqueles que realmente nos querem fazer mal. Septã Mordane é uma boa mulher, e Sansa... Sansa é sua irmã. Vocês podem ser tão diferentes como o Sol e a Lua, mas o mesmo sangue corre pelos seus corações. Você precisa dela, tal como ela precisa de você... e eu preciso de ambas, que os deuses me protejam.

Seu pai soava tão cansado que fez Arya sentir-se triste.

Eu não odeio Sansa - disse-lhe. - Não de verdade - era só meia mentira.

Não quero assustá-la, mas também não vou mentir. Viemos para um lugar escuro e perigo­so, filha. Isto não é Winterfell. Temos inimigos que nos desejam mal. Não podemos travar uma guerra entre nós. Essa sua obstinação, as fugas, as palavras zangadas, a desobediência... em casa, eram só os jogos de verão de uma criança. Aqui e agora, com o inverno para chegar em breve, as coisas são diferentes. É tempo de começar a crescer.

Eu cresço - prometeu Arya. Nunca o amara tanto como naquele instante. - Também pos­so ser forte. Posso ser tão forte como Robb.

Ele lhe estendeu Agulha, entregando-lhe o cabo.

-           Toma.

Ela olhou para a espada com espanto nos olhos. Por um momento teve medo de tocá-la, medo de que, se estendesse a mão, ela lhe seria de novo arrebatada, mas então o pai disse:

Vá lá, é sua - e ela pegou na arma.

Posso ficar com ela? - perguntou. - De verdade?

De verdade - ele sorriu. - Se a tirasse de você, não tenho dúvidas de que em menos de uma quinzena encontraria uma maça escondida debaixo da sua almofada. Tente não apunhalar sua irmã, seja qual for a provocação.

Não apunhalo. Prometo - Arya apertou Agulha com força contra o peito enquanto o pai se retirava.

Na manhã seguinte, ao desjejum, pediu desculpa à Septã Mordane. A septã a olhou com sus­peita, mas o pai acenou com a cabeça.

Três dias mais tarde, ao meio-dia, o intendente do pai, Vayon Poole, mandou Arya até o Sa­lão Pequeno. As mesas tinham sido desmanteladas e os bancos, arrumados junto às paredes. O salão parecia vazio, até que uma voz que não lhe era familiar disse:

Está atrasado, rapaz - um homem franzino com uma cabeça calva e um nariz que mais parecia um grande bico saiu das sombras segurando um par de estreitas espadas de madeira. - Amanhã deve estar aqui ao meio-dia - seu sotaque tinha a entoação das Cidades Livres, talvez Bravos, ou Myr.

Quem é o senhor? - perguntou Arya.

Sou seu mestre de dança - atirou-lhe uma das armas de madeira.

Ela tentou agarrá-la no ar, falhou, e a ouviu cair com estrondo no chão.

Amanhã você a agarrará. Agora, apanhe-a.

Não era apenas um pau, mas uma verdadeira espada de madeira completa, com punho, guar­da e botão. Arya a apanhou e a agarrou nervosamente com ambas as mãos, erguendo-a à sua frente. Era mais pesada do que parecia, muito mais pesada do que Agulha.

O homem calvo fez estalar os cientes.

Não é assim, rapaz. Isto não é uma espada longa, que precisa de duas mãos para ser bran­dida. Pega na arma com uma mão.

É pesada demais - Arya justificou.

É tão pesada quanto precisa ser para deixá-lo forte e para o equilíbrio. Um buraco aí dentro está cheio de chumbo exatamente para isso. Agora, uma mão é tudo o que é preciso, Arya tirou a mão direita do punho e limpou a palma suada nas calças. Segurou a espada com a mão esquerda. Ele pareceu aprovar.

A esquerda é boa. Tudo o que seja invertido atrapalhará mais seus inimigos. Mas está na posição errada. Vira o corpo de lado, isso, assim. Você é magro como o cabo de uma lança, sabia? Isso também é bom, o alvo é menor. Agora, o modo de agarrar. Mostre-me - aproximou-se e espiou-lhe a mão, afastando-lhe os dedos, rearranjando-os. - Assim mesmo, sim. Não aperte com muita força, não, deve segurá-la de forma hábil, delicada.

E se a deixar cair? - perguntou Arya.

O aço deve fazer parte do seu braço - disse-lhe o homem calvo. - Pode deixar cair parte do seu braço? Não. Durante nove anos, Syrio Forel foi primeira-espada do Senhor do Mar de Bravos, ele sabe destas coisas. Escute-o, rapaz.

Era a terceira vez que o homem a chamava "rapaz".

Sou uma menina - objetou Arya.

Rapaz, menina - disse Syrio Forel. - É uma espada, é tudo - fez estalar os dentes. - Isso mesmo, é assim que se segura. Não está segurando um machado de batalha, mas uma...

... agulha - terminou Arya por ele, ferozmente.

Isso mesmo. Agora começamos a dança. Lembre-se, criança, não é a dança de ferro de Westeros que estamos aprendendo, a dança dos cavaleiros, que corta e bate, não. Esta é a dança do espadachim, a dança da água, rápida e súbita. Todos os homens são feitos de água, sabia disto? Quando os perfura, a água jorra e eles morrem - deu um passo para trás, ergueu a própria lâ­mina de madeira. - Agora tente me atingir.

Arya tentou atingi-lo. Tentou durante quatro horas, até ficar com cada músculo do corpo dolorido, enquanto Syrio Forel fazia estalar os dentes e lhe dizia que fazer. No dia seguinte, começou o verdadeiro trabalho.

 

                   Daenerys

O Mar Dothraki - disse Sor Jorah Mormont ao puxar as rédeas do cavalo e parar ao lado dela no topo da colina.

A seus pés, a planície estendia-se imensa e vazia, uma vasta extensão plana que atingia e ultrapassava o horizonte distante. Foi um mar, pensou Dany. Para lá do lugar onde estavam não havia colinas nem montanhas, nem árvores, cidades ou estradas, apenas a mata sem fim, cujas folhas altas ondulavam como ondas quando o vento soprava.

-           É tão verde - ela admirou.

-           Aqui e agora - concordou Sor Jorah. - Tem de vê-lo quando floresce, flores vermelhas escuras de horizonte a horizonte, como um mar de sangue. E quando chega a estação seca, o mundo fica da cor de bronze velho. E isto é apenas a hranna, menina. Há ali cem tipos de plantas, amarelas como limão-siciliano e escuras como índigo, azuis e cor de laranja, e as que são como arco-íris. E dizem que nas Terras das Sombras, para lá de Asshai, há oceanos de erva-fantasma, mais alta que um homem a cavalo e com caules tão claros como vidro leitoso. Mata todas as ou­tras plantas e brilha no escuro com os espíritos dos condenados. Os dothrakis dizem que um dia a erva-fantasma cobrirá o mundo inteiro, e então toda a vida terminará.

Essa idéia fez Dany se arrepiar.

-           Não quero falar disso agora - ela retrucou, - Isto aqui é tão lindo que não quero pensar na morte de tudo,

-           Como desejar, Khaleesi - Sor Jorah disse respeitosamente.

Dany ouviu o som de vozes e virou-se para olhar para trás. Ela e Mormont tinham se distan­ciado do resto da comitiva, e agora os outros vinham subindo a colina lá embaixo. Os movimentos da criada Irri e dos jovens arqueiros de seu khas eram fluidos como centauros, mas Viserys ainda lutava com os estribos curtos e a sela plana. O irmão era infeliz ali. Nunca deveria ter vindo. Magíster Illyrio insistira com ele para que esperasse em Pentos, oferecera-lhe a hospitalidade de sua mansão, mas Viserys nem quisera ouvir falar do assunto. Queria ficar com Drogo até que a dívida fosse paga, até ter a coroa que lhe fora prometida. "E se ele tentar me enganar, aprenderá, para sua desgraça, o que significa acordar o dragão", ele garantira, pousando a mão na espada em­prestada. Illyrio pestanejara ao ouvir aquilo e lhe desejara boa sorte.

Dany percebeu que naquele momento não desejava ouvir nenhuma das queixas do irmão. O dia estava bastante perfeito. O céu era de um azul profundo, e muito acima deles um falcão caça­dor voava em círculos. O mar de plantas oscilava e suspirava a cada sopro do vento, o ar batia-lhe morno no rosto, e Dany sentia-se em paz. Não deixaria que Viserys estragasse tudo.

-           Espere aqui - disse Dany a Sor Jorah. - Diga a todos para ficar. Diga que eu estou orde­nando.

O cavaleiro sorriu. Sor Jorah não era um homem bonito. Tinha pescoço e ombros de touro e rudes pelos negros cobriam-lhe os braços e o pescoço de uma forma tão densa que nada restava rara a cabeça. Mas seus sorrisos davam conforto a Dany.

Está aprendendo a falar como uma rainha, Daenerys.

Uma rainha, não - ela respondeu. - Uma khaleesi - fez girar o cavalo e galopou sozinha rela encosta abaixo.

A descida era íngreme e rochosa, mas Dany cavalgou destemidamente, e o júbilo e o perigo daquilo eram uma canção no seu coração. Por toda sua vida Viserys lhe dissera que era uma prin­cesa, mas só quando montou sua prata é que Daenerys Targaryen se sentira como uma.

A princípio não fora fácil. O khalasar levantara o acampamento na manhã seguinte ao casa­mento, dirigindo-se para leste em direção a Vaes Dothrak, e no terceiro dia Dany pensou que ia morrer. Feridas provocadas pela sela abriram-se no seu traseiro, hediondas e sangrentas. As coxas ficaram em carne viva, as rédeas fizeram nascer bolhas nas mãos, e os músculos das pernas e das costas estavam de tal forma doloridos que quase não era capaz de se sentar. Quando caía o crepúsculo, as criadas tinham de ajudá-la a desmontar,

Nem mesmo as noites traziam alívio. Khal Drogo ignorava-a enquanto viajavam, tal como a ignorara durante o casamento, e passava o começo da noite bebendo com seus guerreiros e com­panheiros de sangue, competindo com seus melhores cavalos, vendo mulheres dançar e homens morrer. Dany não tinha lugar naquelas partes de sua vida. Era abandonada para jantar sozinha ou com Sor Jorah e o irmão, para depois chorar até adormecer. Mas todas as noites, em algum momento antes da alvorada, Drogo vinha à sua tenda e a acordava na escuridão para montá-la tão implacavelmente como montava seu garanhão. Possuía-a sempre por trás, à moda dothraki, e Dany sentia-se grata por isso; dessa maneira, o senhor seu marido não podia ver as lágrimas que lhe molhavam o rosto, e podia usar a almofada para abafar seus gritos de dor. Quando acabava, ele fechava os olhos e começava a ressonar baixinho, e Dany se deitava ao seu lado, com o corpo dolorido e machucado, com dores demais para dormir.

Os dias seguiram-se a outros, e as noites seguiram-se a outras, até Dany compreender que não conseguia suportar aquilo nem mais um momento. Uma noite decidiu que preferia se matar em vez de continuar...

Mas, quando conseguiu adormecer nessa noite, voltou a sonhar o sonho do dragão. Daquela vez Viserys não estava nele. Só ela e o dragão. Suas escamas eram negras como a noite, mas luzi­dias de sangue. Dany sentiu que aquele sangue era dela. Os olhos do animal eram lagoas de magma derretido, e, quando abriu a boca, a chama surgiu, rugindo, num jato quente. Dany podia ouvi-lo cantar para ela. Abriu os braços ao fogo, acolheu-o, para que ele a engolisse inteira e a lavasse, tem­perasse e polisse até ficar limpa. Podia sentir sua carne secar, enegrecer e descamar-se, sentia o san­gue ferver e transformar-se em vapor, mas não havia nenhuma dor. Sentia-se forte, nova e feroz.

E no dia seguinte, estranhamente, pareceu-lhe que não doía tanto. Foi como se os deuses a tives­sem escutado e se tivessem apiedado. Até as criadas repararam na mudança.

Khaleesi - disse Jhiqui -, que se passa? Está doente?

Estava - ela respondeu, em pé junto aos ovos de dragão que Illyrio lhe oferecera quando se casara. Tocou um deles, o maior dos três, fazendo correr a mão sobre a casca. Negro e escarlate, pensou, como o dragão no meu sonho, A pedra parecia estranhamente quente sob seus dedos... ou estaria ainda sonhando? Retirou a mão, nervosamente.

Daquela hora em diante, cada dia foi mais fácil que o anterior. As pernas ficaram mais fortes; as bolhas arrebentaram e as mãos ganharam calos; as moles coxas enrijeceram, flexíveis como couro.

O khal ordenara à criada Irri que ensinasse Dany montar à moda dothraki, mas sua verdadeira professora era a potranca. A égua parecia conhecer-lhe os estados de alma, como se partilhassem uma mente única. A cada dia que passava, Dany sentia-se mais segura sobre a sela. Os dothrakis eram um povo duro e sem sentimentalismos, e não tinham o costume de dar nomes aos animais; portanto, Dany pensava no animal apenas como a prata. Nunca amara tanto coisa alguma.

À medida que a viagem foi deixando de ser uma provação, Dany começou a reparar nas be­lezas da terra que a rodeava. Cavalgava à frente do khalasar com Drogo e seus companheiros de sangue, e assim encontrava todas as regiões frescas e intactas. Atrás deles, a grande horda podia rasgar a terra e enlamear os rios e levantar nuvens de pó que dificultavam a respiração, mas os campos à sua frente estavam sempre viçosos e verdejantes.

Atravessaram as colinas onduladas de Norvos, deixando para trás fazendas de campos amu­rados e pequenas aldeias onde o povo observava ansioso, de cima de muros brancos de estuque. Atravessaram pelo vau três largos rios plácidos e um quarto que era rápido, estreito e traiçoeiro, acamparam ao lado de uma grande catarata azul e rodearam as ruínas tombadas de uma vasta cidade morta, onde se dizia que os fantasmas gemiam por entre enegrecidas colunas de mármore. Correram por estradas valirianas com mil anos de idade, retas como uma seta dothraki. Ao longo de meia lua, atravessaram a Floresta de Qohor, onde as folhas formavam uma abóbada dourada muito acima deles e os troncos das árvores eram tão largos como portões de uma cidade. Havia grandes alces naqueles bosques, tigres malhados e lémures de pelo prateado e enormes olhos púr­puros, mas todos fugiram antes que o khalasar se aproximasse e Dany não chegou a vislumbrá-los.

Por essa altura, sua agonia era uma memória que se desvanecia. Ainda sentia-se dolorida de­pois de um longo dia de viagem, mas, de algum modo, a dor incorporava agora certa doçura, e ela subia de boa vontade para a sela todas as manhãs, ansiosa por saber que maravilhas a esperavam nas terras que se estendiam à frente. Começou a encontrar prazer até mesmo nas noites, e em­bora ainda gritasse quando Drogo a possuía, nem sempre era de dor.

Na base da colina, as plantas ergueram-se à sua volta, altas e flexíveis. Trotando, Dany pene­trou na planície, deixando-se perder na relva, abençoadamente só. No khalasar nunca estava só. Khal Drogo só vinha encontrá-la depois de o sol se pôr, mas as criadas a alimentavam, a banha­vam e dormiam junto à porta de sua tenda; os companheiros de sangue de Drogo e os homens de seu khas nunca estavam muito distantes, e o irmão era uma sombra indesejada, dia e noite. Dany conseguia ouvi-lo no topo da colina, com a voz esganiçada de raiva enquanto gritava a Sor Jorah. Ela avançou, submergindo-se mais profundamente no Mar Dothraki.

O verde a engoliu. O ar estava enriquecido com os odores da terra e das plantas, misturados com o cheiro do cavalo, do suor de Dany e do óleo em seu cabelo. Cheiros dothrakis. Pareciam pertencer àquele lugar. Dany respirou tudo aquilo, rindo. Teve uma súbita vontade de sentir o chão debaixo dos pés, de fechar os dedos sobre aquele espesso solo negro. Desmontando, deixou a prata pastando enquanto descalçava as botas de cano alto.

Viserys chegou junto dela tão subitamente como uma tempestade de verão, com o cavalo se empinando quando puxou as rédeas com demasiada força.

- Como se atrevei - ele gritou com ela. - Dar ordens a mim? A mim? — saltou do cavalo, tro­peçando ao pisar no chão. Seu rosto estava corado quando se pôs em pé. Agarrou-a e a sacudiu, - Esqueceu-se de quem é? Olhe para você. Olhe para você!

Dany não precisava se olhar. Estava descalça, com o cabelo oleado, usando couros dothrakis de montar e um vestido pintado que lhe fora dado como presente de noivado. Parecia pertencer àquele lugar. Viserys estava sujo e enodoado, vestido com suas sedas citadinas e cota de malha.

Ele ainda gritava.

-           Você não dá ordens ao dragão. Entende isto? Eu sou o Senhor dos Sete Reinos, não rece­berei ordens de uma puta qualquer de chefe de horda, está ouvindo? - introduziu a mão sob o ferido dela, enterrando dolorosamente os dedos no seio. - Está ouvindo?

Dany o afastou com um forte empurrão.

Viserys a fitou, com os olhos lilás incrédulos. Ela nunca o desafiara. Nunca lutara. A raiva distorceu-lhe as feições. Ela sabia que ele agora a machucaria, e muito. Crac.

O chicote fez um som de trovão. A ponta enrolou-se no pescoço de Viserys e o atirou para trás. Ele se estatelou na relva, atordoado e estrangulado. Os cavaleiros dothrakis gritavam en­quanto ele lutava por se libertar. O dono do chicote, o jovem Jhogo, arriscou uma pergunta. Dany não compreendeu suas palavras, mas então Irri chegou, com Sor Jorah e o resto de seu khas,

-Jhogo pergunta se deve matá-lo, Khaleesi - disse Irri.

-           Não - Dany respondeu. - Não.

Jhogo compreendeu aquilo. Um dos outros ladrou um comentário, e os dothrakis riram. Irri disse a Viserys:

-           Quaro pensa que deve cortar uma orelha para lhe ensinar respeito.

O irmão estava de joelhos, com os dedos enterrados sob os anéis de couro, gritando incoerentemente, lutando por ar. O chicote enrolava-se apertado na traqueia,

-           Diga-lhes que não o quero ferido - disse Dany.

Irri repetiu suas palavras em dothraki. Jhogo deu um puxão no chicote, sacudindo Viserys como uma marionete na ponta de uma corda. Ele se estatelou de novo, livre do abraço de couro, com uma fina linha de sangue sob o queixo, no local onde o chicote cortara profundamente a pele.

Eu o preveni do que aconteceria, senhora - disse Sor Jorah Mormont. - Disse-lhe para ficar na colina, conforme havia ordenado.

Eu sei que sim - respondeu Dany, observando Viserys, que jazia no chão, inspirando rui­dosamente ar, corado e soluçando. Era uma coisa digna de pena. Sempre fora. Por que nunca antes tinha compreendido? Havia um lugar oco dentro dela, o lugar onde estivera seu medo.

Tome o cavalo dele - ordenou Dany a Sor Jorah. Viserys a olhou de boca aberta. Não conseguia acreditar no que ouvia; e Dany tampouco conseguia acreditar bem no que dizia. No entanto, as palavras vieram. - Que meu irmão caminhe atrás de nós até o khalasar - entre os dothrakis, o homem que não monta a cavalo não é homem nenhum, o mais vil dos seres vis, sem honra nem orgulho. - Que todos o vejam tal como é.

Não! - Viserys gritou. Virou-se para Sor Jorah, suplicando na língua comum, com palavras que os cavaleiros não compreenderiam, - Bata-lhe, Mormont. Fira-a. É seu rei que está orde­nando. Mate estes cães dothrakis e dê-lhe uma lição.

Os olhos do cavaleiro exilado saltaram de Dany para o irmão; ela de pés nus, com terra entre os dedos dos pés e óleo no cabelo, ele com suas sedas e seu aço. Dany conseguiu ver a decisão no rosto do homem.

-           Ele andará, Khaleesi - Sor Jorah decidiu. Agarrou as rédeas do cavalo do irmão, enquanto Dany montava sua prata.

Viserys o olhou de boca aberta e sentou-se na terra. Manteve-se em silêncio, mas recusou-se a andar, e seus olhos estavam cheios de veneno ao vê-los se afastar. Em breve estava perdido por entre as plantas altas. Quando deixaram de vê-lo, Dany ficou com receio.

Ele conseguirá descobrir o caminho de voltai - perguntou a Sor Jorah enquanto cami­nhavam,

Mesmo um homem tão cego como seu irmão deve ser capaz de seguir nosso rastro - res­pondeu o cavaleiro.

-           Ele é orgulhoso. Pode se sentir muito envergonhado para regressar.

Jorah soltou uma gargalhada.

-           Para onde mais pode ir? Se não conseguir encontrar o khalasar, certamente o khalasar o encontrará. É difícil morrer afogado no Mar Dothraki, menina.

Dany compreendeu a verdade daquelas palavras. O khalasar era como uma cidade em marcha, mas não marchava às cegas. Batedores patrulhavam o terreno bem à frente da coluna principal, alerta a qualquer sinal de caça ou inimigos, enquanto os outros guardavam os flancos. Não dei­xavam passar nada, especialmente ali, naquela terra, naquele lugar que lhes dera origem. Aquelas planícies eram uma parte deles... e agora também dela.

-           Eu bati nele - disse ela, com espanto na voz. Agora que o confronto terminara, parecia um estranho sonho que tinha tido, - Sor Jorah, pense... ele estará tão zangado quando regressar... - estremeceu. - Acordei o dragão, não acordei?

Sor Jorah resfolegou.

-           E capaz de acordar os mortos, pequena? Seu irmão Rhaegar foi o último dragão e morreu no Tridente. Viserys é menos que a sombra de uma serpente.

Aquelas palavras bruscas sobressaltaram-na. Era como se tudo aquilo em que sempre acredi­tara fosse subitamente posto em causa.

-           O senhor... lhe prestava vassalagem...

-           É verdade, pequena - disse Sor Jorah. - E se seu irmão é a sombra de uma serpente, em que é que isso transforma os seus servos? - a voz dele soava amarga.

-           Ele ainda é o verdadeiro rei. Ele é...

Jorah puxou as rédeas do cavalo e olhou para ela.

Agora a verdade. Gostaria de ver Viserys sentado num trono? Dany refletiu sobre a ideia.

Não seria um rei lá muito bom, não é?

-Já houve piores..., mas não muitos - o cavaleiro esporeou o cavalo e retomou a viagem. Dany seguiu logo atrás dele.

Mas, mesmo assim - disse -, o povo o espera. Magíster Illyrio diz que o povo borda estan­dartes do dragão e reza para que Viserys regresse através do mar estreito para libertá-lo.

O povo reza por chuva, filhos saudáveis e um verão que nunca termine - disse-lhe Sor Jorah. - Não lhe interessa se os grandes senhores lutam suas guerras de tronos, desde que seja deixado em paz - encolheu os ombros. - E nunca é.

Dany seguiu em silêncio durante algum tempo, trabalhando as palavras do companheiro como se fossem um quebra-cabeça. Pensar que o povo podia se importar tão pouco se seu so­berano era um rei verdadeiro ou um usurpador ia contra tudo o que Viserys lhe dissera. Mas quanto mais refletia sobre as palavras de Jorah, mais lhe soavam a verdade.

E por quem reza o senhor, Sor Jorah? - perguntou.

Pela pátria - disse ele, a voz carregada de saudade.

-           Eu também rezo pela pátria - disse ela, acreditando no que dizia.

Sor Jorah soltou uma gargalhada.

-           Então olhe em volta, Khaleesi,

Mas não foram as planícies que Dany viu então. Foi Porto Real e a grande Fortaleza Verme­lha que Aegon, o Conquistador, tinha construído. Foi Pedra do Dragão, onde nascera. No olho de sua mente, esses lugares ardiam com mil luzes, um fogo em brasa em cada janela. No olho de sua mente, todas as portas eram vermelhas.

-           Meu irmão nunca recuperará os Sete Reinos - ela disse, compreendendo que já sabia disso havia muito. Soubera-o por toda a vida. Nunca se permitira dizer as palavras, nem mesmo num sussurro, mas dizia-as agora para que Jorah Mormont e todo mundo as ouvisse.

Sor Jorah enviou-lhe um olhar avaliador.

-           Pensa que não?

-           Ele não lideraria um exército mesmo se o senhor meu marido lhe oferecesse - Dany res­pondeu. - Não tem nem uma moeda, e o único cavaleiro que o segue o insulta dizendo que é me­nos que uma serpente. Os dothrakis zombam de sua fraqueza. Ele nunca nos levará para casa.

Criança sensata - o cavaleiro sorriu.

Não sou criança nenhuma - disse-lhe com ferocidade.

Apertou com os calcanhares os flancos de sua montaria, pondo a prata a galope. Correu mais e mais depressa, deixando Jorah, Irri e os outros muito para trás, com o vento quente no cabelo e o sol que se punha vermelho no rosto. Quando alcançou o khalasar, o crepúsculo já chegara.

Os escravos tinham erguido sua tenda junto à margem de uma lagoa alimentada por uma nascente. Ouviam-se vozes rudes vindas do palácio de folhas trançadas, na colina. Em breve se ouviriam gargalhadas, quando os homens de seu khas contassem a história que acontecera na base da colina. Quando Viserys chegasse, coxeando, todos os homens, mulheres e crianças do acampamento o reconheceriam como um caminhante. Não havia segredos no khalasar.

Dany entregou prata aos escravos para que dela tratassem e entrou em sua tenda. Sob a seda fazia frio, e estava escuro. Ao deixar cair a porta de pano atrás das costas, Dany viu um dedo de poeirenta luz vermelha estender-se para tocar os ovos de dragão do outro lado da tenda. Por um instante, mil gotículas de chama escarlate nadaram perante seus olhos. Pestanejou, e elas desa­pareceram.

Pedra, disse a si própria. São apenas pedra, até Illyrio lhe dissera, os dragões estão todos mortos. Pousou a palma da mão no ovo negro, com os dedos suavemente espalhados pela curva da casca. A pedra estava morna. Quase quente.

-           O sol - sussurrou Dany. - O sol os aqueceu durante a viagem.

Ordenou às criadas que lhe preparassem um banho. Doreah fez uma fogueira fora da tenda, enquanto Irri e Jhiqui foram buscar a grande banheira de cobre - outro presente de noivado -, montadas em cavalos de carga, e trouxeram água da lagoa. Quando o banho começou a fumegar, Irri a ajudou a entrar e também entrou logo a seguir.

-Já viu alguma vez um dragão? - perguntou, enquanto Irri lhe esfregava as costas e Jhiqui lhe lavava abundantemente o cabelo com água para tirar a areia. Ouvira dizer que os primeiros dragões tinham vindo do leste, das Terras das Sombras para lá de Asshai e das ilhas do Mar de Jade. Talvez alguns ainda aí vivessem, em reinos estranhos e selvagens.

Dragões já não há, Khaleesi - disse Irri.

Estão mortos - concordou Jhiqui. - Há muitos, muitos anos.

Viserys dissera-lhe que os últimos dragões Targaryen não tinham morrido há mais de século e meio, durante o reinado de Aegon ui, conhecido como Desgraça dos Dragões. E, para ela, não parecia tanto tempo assim.

Em toda a parte? - perguntou, desapontada. - Mesmo no leste? - a magia morrera no Oeste quando a Perdição caíra sobre Valíria e as Terras do Longo Verão, e nem o aço forjado com feitiços, nem os cantores de tempestade, nem os dragões conseguiram afastá-la, mas Dany sem­pre ouvira dizer que o leste era diferente. Diziam que manticoras[1] percorriam as ilhas do Mar de Jade, que basiliscos infestavam as selvas de Yi Ti, que encantadores, feiticeiros e aeromantes praticavam abertamente suas artes em Asshai, ao passo que magos negros e de sangue construíam terríveis feitiçarias na escuridão da noite. Por que não haveria de ter também dragões?

Dragão, não - disse Irri. - Bravos homens os matam, porque dragões são terríveis, animais malvados. É sabido.

É sabido - concordou Jhiqui.

Um mercador de Qarth disse-me uma vez que os dragões vinham da Lua - disse a loura Doreah enquanto aquecia uma toalha perto da fogueira.

Jhiqui e Irri eram da mesma idade de Dany, jovens dothrakis tomadas como escravas quando Drogo destruiu o khalasar do pai delas. Doreah era mais velha, com quase vinte anos. Magíster Illyrio a encontrara num palácio dos prazeres em Lys.

Molhados cabelos prateados caíram-lhe em frente aos olhos quando Dany virou a cabeça, curiosa.

Da Lua?

Ele disse-me que a Lua era um ovo, Khaleesi - respondeu a jovem lysena. - Antes havia duas luas no céu, mas uma delas se aproximou demais do Sol e rachou com o calor. Mil milhares de dragões jorraram de dentro dela e beberam o fogo do Sol. É por isso que os dragões exalam chamas. Um dia esta Lua também beijará o Sol, e então rachará e os dragões regressarão.

As duas jovens dothrakis riram.

É uma tola escrava de cabelos de palha - disse Irri. - Lua não é ovo. Lua é deus, mulher esposa do Sol. Todos sabem.

Todos sabem - Jhiqui concordou.

A pele de Dany estava corada e cor-de-rosa quando saiu da banheira. Jhiqui a deitou para olear seu corpo e limpar os poros. Depois disso, Irri aspergiu-a com flor-de-especiaria e canela. Enquanto Doreah lhe escovava o cabelo até brilhar como seda fiada, Dany refletiu sobre a Lua, os ovos e os dragões.

O jantar foi uma simples refeição de frutas, queijo e pão frito, com um cântaro de vinho com mel para acompanhar.

-           Doreah, fique e coma comigo - ordenou Dany quando mandou embora as outras criadas. A lysena tinha cabelo da cor de mel e olhos que eram como o céu do verão.

Ela abaixou os olhos quando ficaram sós.

-           Honra-me, Khaleesi - disse, mas não era honra alguma, apenas serviço. Ficaram sentadas, juntas, até muito depois de a lua nascer, conversando.

Naquela noite, quando Khal Drogo chegou, Dany o esperava. Ele parou à porta da tenda e a olhou, surpreso. Ela se levantou devagar, abriu suas sedas de dormir e as deixou cair ao chão.

-           Esta noite, devemos ir lá para fora, meu senhor - disse-lhe, pois os dothrakis acreditavam que todas as coisas com importância na vida de um homem devem ser feitas a céu aberto.

Khal Drogo a seguiu para a luz cio luar, com os sinos no cabelo a tilintar baixinho. A alguns metros da tenda havia uma cama com um mole colchão de ervas, e foi para lá que Dany o puxou. Quando ele tentou virá-la, ela pôs-lhe a mão no peito.

-           Não. Esta noite quero olhá-lo no rosto.

Não há privacidade no coração do khalasar, Dany sentiu olhos sobre ela enquanto o despia, ouviu vozes baixas enquanto fazia as coisas que Doreah lhe dissera para fazer. Não tinha impor­tância. Não era a khaleesi? Os dele eram os únicos olhos que importavam, e quando o montou viu algo neles que nunca vira antes. Cavalgou-o com tanto vigor como já cavalgara a sua prata, e quando chegou o momento do prazer, Khal Drogo gritou seu nome.

Estavam no lado mais distante do Mar Dothraki quando Jhiqui afagou com os dedos o suave inchaço na barriga de Dany e disse:

Khaleesi, está à espera de um bebê.

Eu sei - Dany respondeu.

Isso aconteceu no décimo quarto dia do seu nome.

 

                   Bran

No pátio, lá embaixo, Rickon corria com os lobos.

Bran observava, sentado em frente à janela. Onde quer que seu irmão fosse, Vento Cinzento estava lá primeiro, saltando na frente para lhe cortar o caminho, até que Rickon o via, gritava de alegria e desatava a correr em outra direção. Cão Felpudo corria logo atrás dele, rodopiando e mordendo se os outros lobos se aproximassem demais. Seu pêlo tinha escurecido até se tornar todo negro, e seus olhos eram fogueiras verdes.

O Verão, de Bran, vinha por último. Era prata e fumo, com olhos amarelo-ouro que viam tudo, mas era menor que Vento Cinzento, e também mais cauteloso. Bran o achava o mais inteli­gente da ninhada. Ouvia o riso sem fôlego do irmão, enquanto corria pela terra batida com suas pequenas pernas de criança.

Seus olhos começaram a arder. Queria estar lá embaixo, rindo e correndo. Zangado com aquele pensamento, Bran esfregou as lágrimas antes que tivessem tempo de cair. O oitavo dia do seu nome tinha chegado e partido. Era agora quase um homem feito, velho demais para chorar.

Era só uma mentira - ele falou amargamente, lembrando-se do corvo de seu sonho. - Não posso voar. Sequer posso correr.

Os corvos são todos mentirosos - concordou a voz da Velha Ama da cadeira onde trico­tava. - Conheço uma história sobre um corvo.

Não quero mais histórias - Bran exclamou, com petulância na voz. Antes, ele gostava da Velha Ama e de suas histórias. Antes. Agora era diferente. Agora a deixavam junto dele o dia inteiro, para vigiá-lo, limpá-lo e evitar que se sentisse só, mas ela só tornava as coisas piores. - Detesto suas histórias estúpidas.

A velha mulher mostrou-lhe um sorriso sem dentes.

-           Minhas histórias? Não, meu pequeno senhor, minhas, não. As histórias são, antes de mim e depois de mim, e antes de você também.

Ela era uma velha muito feia, pensou Bran rancorosamente; encolhida e enrugada, quase cega, demasiado fraca para subir escadas, sem lhe restarem mais que alguns fios de cabelo branco para cobrir um couro cabeludo cor-de-rosa e pintalgado. Ninguém sabia bem que idade tinha, mas o pai dizia que já a chamavam Velha Ama quando ele próprio ainda era rapaz.

Certamente era a pessoa mais velha de Winterfell, e talvez dos Sete Reinos. A Ama viera para o castelo como ama de leite de um Brandon Stark cuja mãe morrera ao dá-lo à luz, talvez o irmão mais velho de Lorde Rickard, o avô de Bran, ou o irmão mais novo, ou um irmão do pai de Lorde Rickard. Às vezes a Velha Ama contava a história de uma maneira, às vezes, de outra. Mas em to­das o rapazinho morrera aos três anos de um resfriado de verão, mas a Velha Ama permanecera em Winterfell com seus próprios filhos. Perdera ambos os rapazes na guerra em que Rei Robert conquistara o trono, e o neto fora morto nas muralhas de Pyke durante a rebelião de Balon Breyjoy. As filhas já tinham se casado havia muito tempo, ido viver longe e morrido, Tudo o que restava de seu sangue era Hodor, o gigante simplório que trabalhava nas cavalariças, mas a Velha Ama vivia e continuava a viver, com suas agulhas e suas histórias.

Não me interessa saber de quem são as histórias - Bran respondeu -, eu as detesto - não queria as histórias e não queria a Velha Ama. Queria a mãe e o pai. Queria correr com Verão aos saltos a seu lado, subir a torre quebrada e dar milho aos corvos, voltar a montar seu pônei com os irmãos, e que tudo fosse como antes.

Sei uma história sobre um rapaz que detestava histórias - a Velha Ama insistiu com seu sorrisinho estúpido, enquanto as agulhas se moviam, clic, clic, clic, e Bran sentiu-se capaz de gritar com ela.

Sabia que as coisas nunca voltariam a ser como antes. O corvo o levara para voar, ledo engano, mas, quando acordou, estava quebrado, e o mundo mudado. Tinham-no abandonado todos, o pai, a mãe, as irmãs e até o irmão bastardo Jon. O pai prometera levá-lo para Porto Real montado num cavalo verdadeiro, mas tinham partido sem ele. Meistre Luwin enviara uma ave com uma mensagem para Lorde Eddard, outra para a mãe, e uma terceira para Jon, na Muralha, mas não houve respostas. "Muitas vezes as aves se perdem, criança", dissera-lhe o meistre. "Há muitas mi­lhas e muitos falcões daqui a Porto Real, e a mensagem pode não ter chegado." Mas, para Bran, era como se tivessem todos morrido enquanto dormia... ou talvez ele tivesse morrido e todos o tinham esquecido. Jory, Sor Rodrik e Vayon Poole também tinham partido, e Hullen, Harwin e Gordo Tom, e um quarto da guarda.

Só restavam Robb e o bebê Rickon, e Robb estava mudado, era agora o Senhor, ou tentava sê-lo. Usava uma espada verdadeira e nunca sorria. Passava os dias exercitando a guarda e praticando esgrima, fazendo o pátio ressoar com o som do aço, enquanto Bran observava, desam­parado, da janela, A noite fechava-se com Meistre Luwin, conversando, ou revendo os livros de contas. Por vezes saía a cavalo com Hallis Mollen e permanecia longe durante dias, visitando for­tificações distantes. Sempre que estava longe por mais de um dia, Rickon chorava e perguntava a Bran se o irmão regressaria. E mesmo quando estava em Winterfell, Robb, o Senhor, parecia ter mais tempo para Hallis Mollen e Theon Greyjoy do que para os irmãos.

-           Eu podia lhe contar a história de Brandon, o Construtor - disse a Velha Ama. - Esta sem­pre foi a sua favorita.

Milhares e milhares de anos antes, Brandon, o Construtor, erguera Winterfell e, segundo al­guns diziam, a Muralha. Bran conhecia a história, mas nunca fora sua favorita. Talvez um dos ou­tros Brandons tivesse gostado dela. Por vezes a Ama falava com ele como se fosse o seu Brandon, o bebê que amamentara há tantos anos, e por vezes o confundia com o tio Brandon, que tinha sido morto pelo Rei Louco antes de Bran nascer. Ela vivera tanto tempo, dissera-lhe sua mãe uma vez, que todos os Brandons Stark se tinham transformado numa só pessoa em sua cabeça.

Esta não é a minha favorita - Bran respondeu. - Minhas favoritas são as assustadoras - ou­viu uma agitação qualquer lá fora e voltou a se virar para a janela. Rickon corria para a guarita, com os lobos atrás, mas a torre ficava fora de seu campo de visão, por isso não podia ver o que estava acontecendo, e socou sua coxa, frustrado, mas não sentiu nada.

Ah, minha querida criança de verão - disse a Velha Ama em voz baixa -, que sabe de medo? O medo pertence ao inverno, meu pequeno senhor, quando as neves se acumulam até três metros de profundidade e o vento gelado uiva do norte. O medo pertence à longa noite, quando o sol esconde o rosto durante anos e as crianças nascem, vivem e morrem sempre na escuridão, enquanto os lobos gigantes se tornam magros e famintos, e os caminhantes brancos se movem pelos bosques.

-           Você está falando dos Outros - Bran falou, como que se lamentando.

-           Os Outros - concordou a Velha Ama. - Há milhares e milhares de anos, caiu um inver­no que era mais frio, duro e infinito que qualquer outro na memória do homem. Chegou uma noite que durou uma geração, e tanto tremeram e morreram os reis em seus castelos como os criadores de porcos em suas cabanas. As mulheres preferiram asfixiar os filhos a vê-los passar fome, e choraram, e sentiram as lágrimas congelarem em seu rosto - a voz e as agulhas calaram--se, ela olhou Bran com seus olhos claros e velados e perguntou: - Então, criança? Este é o tipo de história de que gosta?

-           Bem... - disse Bran com relutância - sim, só que...

A Velha Ama acenou com a cabeça.

-           Nessa escuridão, os Outros vieram pela primeira vez - a velha começou, enquanto as agu­lhas faziam clic, clic, clic. - Eram coisas frias, mortas, que odiavam o ferro, o fogo, o toque do sol e todas as criaturas com sangue quente nas veias. Arrasaram fortificações, cidades e reinos, derrubaram heróis e exércitos às centenas, montando seus pálidos cavalos mortos e liderando hostes de assassinados. Nem todas as espadas dos homens juntas logravam deter seu avanço, e até donzelas e bebês de peito neles não encontravam piedade. Perseguiam as donzelas através de florestas congeladas e alimentavam seus servos mortos com a carne de crianças humanas.

A voz da Ama tinha se tornado muito baixa, quase um sussurro, e Bran deu por si inclinando-se para a frente para ouvir.

-           Esses foram os tempos antes da chegada dos ândalos, e muito antes de as mulheres terem fugido das cidades do Roine através do mar estreito, e os cem reinos desses tempos eram os rei­nos dos Primeiros Homens, que tinham tomado estas terras dos filhos da floresta. Mas aqui e ali, nos bosques mais densos, os filhos ainda viviam em suas cidades de madeira e colinas ocas, e os rostos das árvores mantinham-se vigilantes. E assim, enquanto o frio e a morte enchiam a terra, o último herói decidiu procurar os filhos da floresta, na esperança de que sua antiga magia pudesse reconquistar aquilo que os exércitos dos homens tinham perdido. Partiu para as terras mortas com uma espada, um cavalo, um cão e uma dúzia de companheiros. Procurou durante anos, até perder a esperança de chegar algum dia a encontrar os filhos da floresta em suas cidades secretas. Um por um os amigos morreram, e também o cavalo, e por fim até o cão, e sua espada congelou tanto que a lâmina se quebrou quando tentou usá-la. E os Outros cheiraram nele o san­gue quente e seguiram-lhe o rastro em silêncio, perseguindo-o com matilhas de aranhas brancas, grandes como cães de caça...

De repente a porta se abriu com um bang, e o coração de Bran saltou-lhe até a boca num medo súbito, mas era apenas Meistre Luwin, com Hodor parado na escada atrás dele.

-           Hodor! - anunciou o cavalariço, como era seu costume, com um enorme sorriso para todos.

Meistre Luwin não estava sorrindo.

Temos visitantes - anunciou -, e sua presença é solicitada, Bran,

Mas agora estou ouvindo uma história - o menino protestou,

-           As histórias esperam, meu pequeno senhor, e quando regressar, elas estarão aqui - disse a Velha Ama. - Os visitantes não são assim tão pacientes, e muitas vezes trazem suas próprias histórias.

Quem é? - Bran perguntou a Meistre Luwin.

Tyrion Lannister e alguns homens da Patrulha da Noite, com notícias de seu irmão Jon. Robb os está recebendo. Hodor, ajude Bran a descer até o salão?

Hodor! - o moço concordou alegremente e abaixou-se para passar sua grande cabeça des­grenhada pela porta, Hodor tinha quase dois metros e quinze. Era difícil acreditar que fosse pa­rente da Velha Ama. Bran perguntou a si mesmo se, quando en