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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A HORA DO VAMPIRO / Stephen King
A HORA DO VAMPIRO / Stephen King

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A HORA DO VAMPIRO

 

A cidadezinha de Jerusalem’s Lot, na Nova Inglaterra, sempre pareceu atrair o mal. No verão de 1939, um homem chamado Hubie Marsten cometeu ali um violento assassinato, e desde então sua mansão no alto da colina permanece vazia, sozinha no topo da cidade, como se a observasse. A Casa Marsten tornou-se, com o passar dos anos, um símbolo sinistro, irradiando lembranças de horror e morte.

Muitos anos se passaram, até que um dia três estranhos chegam a ’salem’s Lot. Ben Mears, um escritor que viveu alguns anos na cidade quando criança e está disposto a ajustar contas com o próprio passado; Mark Petrie, um menino obcecado por monstros e filmes de terror; e o Sr. Barlow, uma figura misteriosa que decide abrir uma loja na cidade.

Logo depois da chegada desses forasteiros, uma série de fatos inexplicáveis vem perturbar a rotina provinciana de ’salem’s Lot: uma criança é encontrada morta; habitantes começam a desaparecer sem deixar vestígios ou sucumbem a uma estranha doença; e a morte lança sua sombra gélida sobre a cidade. Ben e Mark escolhem o único caminho que resta aos sobreviventes da praga: fugir.

Mas os destinos de Ben, Mark, Barlow e Jerusalem’s Lot estão para sempre ligados. E é chegada a hora do inevitável acerto de contas...

 

Quase todos achavam que o homem e o menino fossem pai e filho.                          

Eles haviam cruzado o país seguindo um errante trajeto em direção ao sudoeste num velho sedan Citroën, mantendo-se quase todo o tempo em estradas secundárias, interrompendo e seguindo viagem. Pararam em três lugares pelo caminho antes de chegarem ao destino final: primeiro em Rhode Island, onde o homem alto de cabelo preto arranjara emprego numa fábrica de tecidos. Depois em Youngstown, Ohio, onde ele trabalhara durante três meses numa linha de montagem de tratores. E, finalmente, numa cidadezinha da Califórnia próxima à fronteira mexicana, onde trabalhou como frentista e mecânico de carros estrangeiros com um grau de sucesso que, para ele, era surpreendente e gratificante.                                                              

Onde quer que parassem, ele comprava um jornal do Maine chamado Press-Herald de Portland e o lia em busca de notícias concernentes a uma cidadezinha no sul do estado chamada Jerusalem’s Lot e a área ao redor. Tais notícias apareciam de tempos em tempos.                                                                  

Ele escrevera o esboço de um romance em hotéis de beira de estrada antes de chegarem a Central Falls, Rhode Island, onde o enviou a seu agente. Ele fora um romancista de sucesso moderado um milhão de anos antes, quando a escuridão ainda não se apossara de sua vida. O agente levou o esboço para seu último editor, que expressou um interesse polido, mas nenhuma disposição de ceder adiantamentos monetários.                                                                                                                          

“Por favor” e “obrigado”, ele disse ao menino enquanto rasgava a carta do agente, ainda eram de graça. Disse-o sem muita amargura, e deu continuidade ao livro mesmo assim.                                                

O menino não falava muito. Seu rosto guardava uma perpétua expressão aflita, e seus olhos eram escuros — como se estivessem sempre a sondar um lúgubre horizonte interior. Nas lanchonetes e postos de gasolina em que paravam pelo caminho, ele era educado e nada mais. Parecia não querer perder o homem de vista, e aparentava nervosismo até mesmo quando ele o deixava para ir ao banheiro. Recusava-se a falar sobre a cidade de Jerusalem’s Lot, embora o homem tentasse abordar o assunto de tempos em tempos, e não olhava para os jornais de Portland que o homem às vezes deixava deliberadamente a seu alcance.                                                                             

Quando o livro foi escrito, eles moravam numa casinha de praia perto da estrada, e ambos nadavam bastante no oceano Pacífico. Era mais quente que o Atlântico e mais amistoso. Não despertava lembranças. O menino começou a ficar muito moreno.                                                                               

Embora vivessem bem, fizessem três boas refeições por dia e tivessem um teto seguro, o homem começara a se sentir deprimido e a duvidar da vida que levavam. Ele dava aulas ao menino, e parecia que não ficava atrás da educação formal (o menino era esperto e amigo dos livros, como o homem alto também fora), mas não achava que obliterar ’salem’s Lot estivesse fazendo bem ao menino. Algumas noites, ele gritava durante o sono e atirava os cobertores no chão.

Uma carta chegou de Nova York. O agente do homem alto disse que a editora Random House oferecia um adiantamento de 12 mil dólares e que era quase certo que um clube do livro o aceitaria. Estava bem assim?

Estava.

O homem deixou o emprego no posto de gasolina, e ele e o menino cruzaram a fronteira.

 

Los Zapatos, que significa “os sapatos” (um nome que agradou imensamente ao homem) era um pequeno vilarejo próximo ao mar, desprezado pelos turistas. Não havia estradas boas, nem vista para o oceano (para isso, era preciso viajar oito quilômetros para o oeste), nem atrações históricas. Além disso, a cantina local era infestada de baratas e a única puta era uma avó de cinqüenta anos.

Ao deixarem os Estados Unidos para trás, uma calma quase sobrenatural tomou conta da vida deles. Poucos aviões passavam no céu, não havia rodovias expressas e ninguém tinha um cortador de grama elétrico (nem queria ter) em centenas de quilômetros. Eles tinham um rádio, mas até aquele barulho era desprovido de sentido. Os noticiários eram todos em espanhol, que o menino começava a entender, mas que permanecia — e sempre permaneceria — uma algaravia para o homem. A música parecia se limitar à ópera. Algumas noites, conseguiam pegar uma estação de música pop de Monterey, animada pelo frenético DJ Wolfman Jack, mas entrava e saía de sintonia. O único motor ao alcance do ouvido era um antigo e pitoresco Rototiller de um fazendeiro da região. Dependendo do vento, seu barulho irregular e soluçante se tomava fracamente audível, como um espírito inquieto. Eles puxavam água do poço manualmente.

Uma ou duas vezes por mês (nem sempre juntos) eles assistiam à missa na igrejinha da cidade. Nenhum dos dois entendia a cerimônia, mas iam assim mesmo. O homem às vezes cochilava no calor sufocante, ao som dos ritmos constantes e familiares e das vozes que lhes davam expressão. Um domingo o menino foi até a frágil varanda dos fundos, onde o homem escrevia um novo romance, e lhe disse que conversara com o padre sobre entrar para a igreja. O homem assentiu e perguntou se seu espanhol lhe permitia receber lições. O menino disse que achava que não haveria problema.

O homem viajava 65 quilômetros semanalmente para comprar o jornal de Portland, Maine, sempre datado de uma semana e às vezes amarelado pela urina de algum cachorro. Duas semanas depois que o menino lhe contara suas intenções, ele encontrou uma reportagem sobre ’salem’s Lot e uma cidade de Vermont chamada Momson. O nome do homem alto era mencionado ao longo da matéria.

Ele deixou o jornal à vista sem muita esperança de que o menino o lesse. O artigo o deixou perturbado por vários motivos. Ao que parecia, nada ainda acabara em ’salem’s Lot.

O menino o procurou um dia depois com o jornal aberto na mão, expondo a manchete: “Cidade-Fantasma no Maine?”

— Estou com medo — disse ele.

— Eu também — o homem alto respondeu.

 

Cidade-fantasma no Maine?

John Lewis

Editor de Reportagem do Press-Herald

Jerusalem’s Lote — Jerusalem’s Lot é uma cidadezinha ao leste de Cumberland e a 30 quilômetros ao norte de Portland. Não é a primeira cidade da história americana a sumir do mapa, e provavelmente não será a última, mas é uma das mais estranhas. Cidades-fantasma são comuns no sudoeste americano, onde comunidades nasceram quase da noite para o dia em torno de ricos filões de ouro e prata e depois desapareceram quase tão rapidamente quando os veios minerais se esgotaram, deixando lojas, hotéis e tabernas vazios, apodrecendo em silêncio.

Na Nova Inglaterra, o único outro caso além do misterioso esvaziamento de Jerusalem’s Lot, ou ’salem’s Lot, como preferem os moradores, parece ser o de uma cidadezinha em Vermont chamada Morrison. Durante o verão de 1923, Morrison aparentemente sumiu do mapa, assim como os seus 312 residentes. As casas e poucos prédios comerciais no centro da cidade continuam de pé, mas desde aquele verão há 52 anos, estão desertos. Em alguns casos os móveis foram levados, mas quase todas as casas permaneceram mobilia­das, como se no meio do dia um vento poderoso tivesse arrastado as pessoas. Numa casa, a mesa fora posta para o jantar, no centro um arranjo de flores murchas. Noutra, as cobertas haviam sido afastadas caprichosa­mente no quarto por alguém que se preparava para dormir. No armazém da cidade, um rolo de tecido de algodão fora encontrado sobre o balcão, e o preço, um dólar e 22 centavos, fora marcado na caixa registradora. Os investigadores acharam quase 50 dólares em caixa, intocados.

As pessoas da região gostam de divertir os turistas com a história, insinuando que a cidade é assombrada, o que explica o fato de nunca mais ter sido habitada. Um motivo mais plausível é que Momson fica numa região remota do Estado, longe de qualquer estrada importante. Nada existe lá que não possa ser reproduzido em centenas de outras cidades — exceto, é claro, o mistério do extraordi­nário sumiço de sua população.

Um caso muito semelhante é o de Jerusalem’s Lot.

No censo de 1970, ’salem’s Lot tinha 1.319 habitantes — exatamente 67 a mais do que no censo anterior, de dez anos antes. Era uma cidadezinha próspera e confortável, chamada carinhosamente de Lot pelos antigos moradores, onde jamais acontecia nada digno de nota. O único assunto que as pessoas de idade, que se reuniam no parque e ao redor do aquecedor do Mercado Agrícola de Crossen, tinham para discutir era o incêndio de 1951, quando o descuido de alguém ao jogar um fósforo aceso provocara um dos maiores incêndios florestais na história do estado.

Para quem queria saborear a aposentadoria numa cidadezinha rural, onde cada um cuidava de sua vida e o maior evento da semana podia ser o Chá da Associação de Senhoras, a cidade de Lot era uma boa escolha. Demograficamente, o censo de 1970 mostrou um quadro que tanto os sociólogos rurais quanto os antigos residentes de qualquer cidadezinha de Maine conheciam muito bem — muitas pessoas de idade, bastante gente pobre e muitos jovens que deixam a região com o diploma debaixo do braço, para nunca mais voltar.

Mas, há pouco mais de um ano, algo fora do comum começou a acontecer em Jerusalem’s Lot. As pessoas começaram a sumir. A maior parte delas, naturalmente, não desapareceu no sentido literal da palavra. O ex-chefe de polícia de Lot, Parkins Gillespie, mora com a irmã em Kittery. Charles James, dono do posto de gasolina em frente à farmácia, agora dirige uma oficina em Cumberland, uma cidade vizinha. Pauline Dickens mudou-se para Los Angeles e Rhoda Curless trabalha na Missão de São Mateus, em Portland. A lista dos falsos desaparecidos poderia se estender indefinidamente.

O que mais intriga nessas pessoas “encontradas” é a unânime recusa — ou incapacidade — de falar sobre Jerusalem’s Lot e o que aconteceu lá, se é que algo aconteceu. Parkins Gillespie simplesmen­te olhou para este repórter, acendeu um cigarro e disse: “Eu decidi ir embora, só isso.” Charles James afirma que foi obrigado a partir porque seu negócio se deteriorou com a cidade. Pauline Dickens, que trabalhara como garçonete no Excellent Café durante anos, não respondeu à carta enviada por este repórter. E a senhorita Curless se recusa a falar sobre ’salem’s Lot.

Alguns dos desaparecimentos podem ser explicados por suposições fundamentadas e um pouco de pesquisa. Lawrence Crockett, um corretor imobiliário, desapareceu com a mulher e a filha deixando vários empreendimentos comerciais e transações imobiliárias questionáveis, inclusive uma especulação com um terreno em Portland onde o shopping center de Portland está hoje em construção. O casal Royce McDougall, também entre os desaparecidos, perdera o filho pequeno no começo do ano, e não havia muito que os prendesse à cidade. Podem estar em qualquer lugar. Outros se encaixam na mesma categoria. “Mandamos investigadores atrás de muitos moradores de Jerusalem’s Lot”, disse Peter McFee, o chefe da polícia estadual. “Mas essa não é a única cidade do Maine onde as pessoas sumiram de uma hora para outra. Royce McDougall, por exemplo, devia para um banco e duas financeiras... na minha opinião, ele não passava de um caloteiro que quis se dar bem. Um dia desses, ele usará um dos cartões de crédito que tem na carteira e os credores vão cair em cima dele. Nos Estados Unidos, pessoas desaparecidas são a coisa mais comum do mundo. Vivemos numa sociedade comandada pelo automóvel. As pessoas fazem as trouxas e se mudam a cada dois ou três anos. Às vezes esquecem de deixar o endereço novo. Principalmente os pilantras.”

Mas, apesar do espírito prático do capitão McFee, perguntas continuam sem respostas em Jerusalem’s Lot. Henry Petrie desapareceu, assim como a mulher e o filho, e o Sr. Petrie, executivo de uma empresa de seguros consultiva, não tem exatamente o perfil de um caloteiro. O coveiro, o bibliotecário e a esteticista da cidade também estão no arquivo morto do correio. A lista é de uma extensão inquietante.

Nas cidades vizinhas, os boatos, que são a origem das lendas, já começaram. Comenta-se que ’salem’s Lot é mal-assombrada. Luzes coloridas já foram vistas sobre as linhas de transmissão de força que cruzam a cidade, e se alguém sugerir que os habitantes de Lot foram levados por OVNIs, ninguém achará graça. Já se comenta sobre uma “seita secreta” de jovens que praticavam a missa negra na cidade e teriam atraído a ira de Deus sobre essa homônima da cidade mais sagrada da Terra Santa. Outros, menos propensos ao sobrenatural, lembram-se dos jovens que “desapareceram” na região de Houston, Texas, há cerca de três anos, e foram descobertos em horrendas valas comuns.

Uma visita a ’salem’s Lot faz com que esses boatos pareçam menos fantasiosos. Não restou nenhum negócio aberto. O último a se render foi a Drogaria Spencer, que fechou as portas em janeiro. A Loja Agrícola Crossen, a casa de ferragens, a loja de móveis Barlow e Straker, o Excellent Café e até o Paço Municipal foram fechados. A nova escola primária está vazia, assim como o colégio que pertence ao distrito que reúne três municípios, construído em 1967. Os móveis e os livros da escola foram levados para instalações improvisadas em Cumberland à espera de um referendo nas outras cidades do distrito escolar, mas parece que nenhuma criança de ’salem’s Lot comparecerá quando o novo ano escolar começar. Não existem mais crianças — apenas lojas e estabelecimentos abandonados, casas desertas, gramados crescidos, ruas vazias e estradas secundárias.

Entre outros moradores que a polícia estadual gostaria de localizar ou pelo menos saber infor­mações a respeito estão John Groggins, pastor da Igreja Metodista de Jerusalem’s Lot; Donald Callahan, padre da paróquia de St. Andrew; Mabel Werts, uma viúva que participava ativamente de atividades sociais e religiosas; Lester e Harriet Durham, um casal que trabalhava na fábrica de tecidos Gates; Eva Miller, dona de uma pensão...

 

Dois meses depois que o artigo saiu no jornal, o menino foi aceito pela igreja. Confessou pela primeira vez. E confessou tudo.

 

O padre do vilarejo era um velho com cabelos brancos e rosto marcado por uma teia de rugas. Sob a testa curtida pelo sol, seus olhos examinavam o mundo com surpreendente vivacidade. Eram olhos azuis, irlandeses. Quando o homem alto chegou a sua casa, ele bebia chá na varanda. Um homem de terno formal estava de pé a seu lado. Seu cabelo, dividido ao meio com brilhantina, fazia lembrar retratos da década de 1890

O homem disse com rigidez:

— Sou Jesus de la rey Muñoz. O padre Gracon me pediu para ser seu intérprete, já que não sabe inglês. Ele prestou um grande serviço a minha família, que não posso mencionar. Da mesma forma, não revelarei nada do que ele deseja discutir com o senhor. Está de acordo?

— Estou. — Ele apertou a mão de Muñoz e depois a de Gracon. Este respondeu em espanhol e sorriu. Só lhe restavam cinco dentes, mas o sorriso era luminoso e alegre. Ele disse: — Aceita uma xícara de chá? É chá verde, muito refrescante.

— Com prazer.

Depois da troca de cortesias, o padre disse:

— O menino não é seu filho.

— Não.

— Ele fez uma estranha confissão. Para dizer a verdade, nunca ouvi uma confissão mais estranha em todos os meus anos de sacerdócio.

— Não estou surpreso.

— Ele chorou — disse o padre Gracon, sorvendo o chá. — Foi um pranto fundo e terrível. Veio das profundezas de sua alma. Devo fazer a pergunta que essa confissão despertou em meu coração?

— Não — disse o homem com voz inalterável. — Ele disse a verdade.

Gracon assentiu com a cabeça mesmo antes de Muñoz traduzir, e seu rosto assumiu uma expressão grave. Inclinou-se com as mãos unidas entre os joelhos e falou por muito tempo. Muñoz ouviu com atenção, o rosto cautelosamente inexpressivo. Quando o padre terminou, Muñoz disse:

— Ele disse que o mundo está cheio de coisas estranhas. Há quarenta anos, um lavrador de El Graniones lhe trouxe um lagarto que gritava como se fosse uma mulher. Viu um homem com os estigmas da paixão de Cristo, cujas mãos e pés sangraram na Sexta-feira Santa. Disse que esse é um caso terrível e sinistro. Grave para você e para o menino. Principalmente para o menino. Ele está sendo consumido. Diz que...

Gracon falou algo, brevemente.

— Perguntou se você compreende o que fez nessa Nova Jerusalém.

— Jerusalem’s Lot — disse o homem alto. — Sim, compreendo.

Gracon falou de novo.

— Ele perguntou o que pretende fazer a respeito.

O homem alto balançou a cabeça muito lentamente.

— Eu não sei.

Gracon falou de novo.

— Ele disse que rezará por vocês.

 

Uma semana depois, ele acordou de um pesadelo, suando, e chamou o menino.

— Vou voltar — disse ele.

O menino empalideceu, apesar da tez bronzeada.

— Você vem comigo? — o homem perguntou.

— Você me ama?

— Claro. Claro que sim...

O menino começou a chorar e o homem alto o abraçou.

 

Mesmo assim, o sono não lhe vinha. Rostos espreitavam na escuridão, indistin­tos, como numa tempestade de neve, e quando o vento empurrou um galho de uma árvore contra o telhado, ele deu um salto.

Jerusalem’s Lot.

Ele fechou os olhos, cobriu-os com o braço, e tudo começou a voltar. Quase podia ver o peso de papel feito de vidro, do tipo que cria uma pequena nevasca quando o balançamos.

’Salem’s Lot...

 

A CASA MARSTEN

Nenhum organismo vivo é capaz de manter a sanidade durante um longo tempo em condições de absoluta realidade; até mesmo cotovias e gafa­nhotos sonham, segundo alguns. A Casa da Coli­na, que perdera a sanidade, encostava-se sozinha aos montes, abrigando a escuridão; ficara assim oitenta anos, e podia ficar mais oitenta. Dentro dela, as paredes continuavam eretas, os tijolos encaixados, os chãos firmes, as portas sensata­mente fechadas. O silêncio repousava imper­turbável sobre a pedra e a madeira de Casa da Colina, e o que por lá andasse, andava só.

SHIRLEY JACKSON

A Assombração da Casa da Colina

 

BEN

Quando passou por Portland, seguindo ao norte pela estrada, Ben Mears começou a sentir um agradável frio na barriga. Era 5 de setembro de 1975, e o verão fazia sua última e grande festa. As árvores explodiam de tanto verde, o céu era de um azul suave e inebriante, e logo depois da divisa municipal de Falmouth, ele viu dois meninos andando por uma rua paralela à via expressa, com varas de pescar sobre os ombros como carabinas.

Ele passou para a pista direita, baixou a velocidade ao mínimo permitido e começou a buscar alguma coisa que despertasse lembranças. Não viu nada a princípio, e tentou se precaver contra uma decepção quase certa. Você tinha só sete anos. Vinte e cinco anos já passaram debaixo da ponte. Os lugares mudam. Como as pessoas.

Naquele tempo, a rodovia 295, de quatro pistas, ainda não fora construída. Quem queria ir de Lot a Portland precisava pegar a Rota 12 até Falmouth e depois continuar pela estrada número 1. O tempo passara.

Pare com isso, merda.

Mas era difícil parar. Era difícil parar quando...

Uma grande moto BSA com guidões levantados passou zunindo por ele, um garoto de camiseta dirigindo, uma garota de jaqueta vermelha e imensos óculos de sol espelhados na garupa. Eles o ultrapassaram muito bruscamente, e ele se assustou, enfiando o pé no breque e tocando a buzina com as duas mãos. A BSA acelerou, soltando fumaça azul pelo escapamento, e a menina virou-se para lhe mostrar o dedo médio.

Ele retomou a velocidade anterior, desejando um cigarro. Suas mãos tremiam levemente. A BSA quase sumira de vista, avançando veloz. Adolescentes. Malditos adolescentes. Lembranças começaram a assediá-lo, de origem mais recente. Ele as repeliu. Não subia numa motocicleta há dois anos. E nunca mais subiria.

Uma mancha vermelha à esquerda passou de relance, e quando olhou para ver o que era, ele sentiu uma onda de prazer e reconhecimento. Um grande celeiro vermelho se erguia sobre um monte no fim de um campo ascendente, coberto de capim e trevos, um celeiro com cúpula pintada de branco — mesmo àquela distância, ele podia ver o sol brilhando sobre o cata-vento. Continuava no lugar de sempre. Parecia exatamente igual. Talvez tudo desse certo, afinal. E então as árvores o ocultaram.

Quando a estrada entrou em Cumberland, mais e mais coisas lhe pareceram familiares. Passou sobre o rio Royal, onde pescara trutas e lúcios quando menino. Teve uma visão breve e oscilante de Cumberland Village através das árvores. À distância, viu a torre de água de Cumberland, com seus grandes dizeres pintados na lateral: “Proteja o Verde do Maine”. Tia Cindy sempre dizia que alguém devia escrever “Traga dinheiro” debaixo da frase.

A emoção cresceu e começou a se acelerar enquanto ele procurava a placa. Ela surgiu oito quilômetros depois, seu verde fosforescente reluzindo na distância.

 

Rota 12 Jerusalem’s Lot

Cumberland Distrito de Cumberland

 

Uma súbita melancolia o assaltou, extinguindo seu bom humor como a areia extingue o fogo. Ele estava sujeito a esses acessos desde que (sua mente tentou dizer o nome de Miranda, mas ele não deixou) aquilo acontecera. Estava acostumado a combatê-los, mas aquele o dominou com uma força selvagem e inquietante.

O que pretendia, voltando a uma cidade onde vivera durante quatro anos de sua infância, em busca de algo irremediavelmente perdido? Que magia ele esperava resgatar refazendo caminhos que percorrera quando menino e que provavelmente haviam sido asfaltados, aplainados, desmatados e cobertos com latas de cerveja deixadas por turistas? A magia se fora, tanto a branca quanto a negra. Tudo fora para o espaço naquela noite quando a motocicleta perdera o controle, e o caminhão amarelo de mudança aproximou-se veloz, crescendo no campo de visão, e o grito de sua mulher, Miranda, foi interrompido de modo súbito e final quando...

A entrada apareceu à direita, e por um momento ele pensou em passar direto e continuar até Chamberlain ou Lewiston, parar para almoçar e depois fazer o caminho de volta. Mas de volta para onde? Para casa? Que piada. Se ele tinha algum lar, era aquele. Mesmo que tivesse existido durante apenas quatro anos, era seu.

Ele deu sinal, diminuiu a velocidade do Citroën e subiu a rampa. Quase no alto, quando a rampa se unia à Rota 12 (que passava a se chamar avenida Jointner perto da cidade), ele olhou em direção ao horizonte. O que viu o fez afundar o pé no breque com toda a força. O Citroën parou bruscamente.

As árvores, pinheiros e abetos em sua maioria, erguiam-se em curvas suaves em direção ao leste, parecendo quase se colar ao céu no limite da visão. De lá a cidade não era visível. Apenas as árvores, e na distância, onde elas roçavam o céu, o telhado triangular e pontiagudo da Casa Marsten.

Ele o contemplou, fascinado. Emoções contraditórias cruzaram seu rosto com rapidez caleidoscópica.

— Continua lá — murmurou ele. — Santo Deus.

Ele olhou para os braços — arrepios os percorriam de cima a baixo.

 

Deliberadamente, ele contornou a cidade, cruzando Cumberland e en­trando em ’salem’s Lot pelo lado oeste, através da estrada Burns. Ficou surpreso ao ver quão pouco o cenário havia mudado. Havia algumas casas novas de que não se lembrava, uma taverna chamada Dell’s logo depois do limite municipal e duas pedreiras recém-abertas. Boa parte das árvores havia sido derrubada, mas a velha placa de estanho que indicava o caminho para o depósito de lixo ainda estava lá. A estrada continuava sem pavimentação, cheia de buracos e desníveis, e ele conseguiu ver o monte do Pátio do Colégio através da fresta nas árvores onde os postes da Central Elétrica do Maine se estendiam do noroeste para o sudeste. A fazenda Griffin continuava lá, embora o celeiro tivesse sido aumentado. Ele se perguntou se eles ainda engarrafavam e vendiam o leite que produziam. O logotipo era uma vaca sorridente debaixo da marca “Leite Saudável da Fazenda Griffin!”. Ele sorriu. Quantas vezes não tomara aquele leite junto com cereais na casa da tia Cindy.

Ele virou à esquerda na estrada Brooks, passou pelos portões de ferro forjado e o baixo muro de pedra que cercava o Cemitério Harmony Hill, desceu a íngreme ladeira e começou a subir a colina adiante, conhecida como monte Marsten.

No alto, as árvores rareavam dos dois lados da estrada. À direita, era possível ver a cidade de cima — a primeira visão que Ben tinha dela. À esquerda, erguia-se a Casa Marsten. Ele parou o carro e saiu.

Estava exatamente igual. Nada havia mudado. Era como se ele a tivesse visto ainda no dia anterior.

O gramado do jardim crescia alto e selvagem, obscurecendo os velhos ladrilhos, deslocados pela ação do gelo, que levavam à varanda. Grilos cantavam na grama, e ele viu gafanhotos saltando em erráticas parábolas.

A casa em si dava para a cidade. Era imensa, vergada e angulosa. As janelas, fechadas com tábuas a esmo, davam-lhe o ar sinistro das casas antigas desabitadas há tempos. A pintura desbotara, criando uma aparência cinzenta e uniforme. Tempestades haviam arrancado várias telhas, e uma forte nevasca afundara o canto direito do telhado principal, dando-lhe um aspecto abatido, encurvado. Uma gasta placa proibindo a entrada fora pregada ao pilar do corrimão direito.

Ele sentiu um forte impulso de subir por aquele gramado crescido, passando pelos grilos e gafanhotos que saltariam sobre seus sapatos, subir até a varanda e espiar entre as tábuas, para vislumbrar o corredor ou a sala da frente. Talvez tentar abrir a porta da frente. Se estivesse destrancada, entrar.

Ele engoliu em seco e ergueu os olhos para a casa, quase hipnotizado. Ela o olhou de volta com indiferença idiótica.

Você atravessaria o corredor, sentindo o cheiro de argamassa úmida e papel de parede putrefato, ratos saracoteando dentro das paredes. Ainda haveria muitas tralhas espalhadas por ali, e você pegaria algo, um peso de papel, talvez, e o enfiaria no bolso. Depois, no fim do corredor, em vez de continuar até a cozinha, você viraria à esquerda e subiria as escadas, os pés triturando o reboco que caíra do teto ao longo dos anos. Eram 14 degraus, exatamente 14. Mas o último era menor, desproporcional, como se tivesse sido agregado para evitar o número fatídico. Ao chegar ao patamar da escada, você estaria diante do corredor e de uma porta fechada. E, se você atravessasse o corredor em direção a ela, observando-a se aproximar e crescer no campo de visão como se fora de si mesmo, poderia estender a mão e pousá-la na maçaneta de prata embaçada...

Ele se afastou da casa, um suspiro seco escapando dos lábios. Ainda não. Depois, talvez, mas ainda não. Por enquanto, bastava saber que tudo aquilo continuava lá. Esperando por ele. Apoiou as mãos no capô do carro e contemplou a cidade. Tentaria descobrir lá embaixo quem cuidava da Casa Marsten, e talvez a alugasse. A cozinha daria um bom escritório, e ele poderia acampar no salão da frente. Mas não se permitiria subir as escadas.

A não ser que fosse preciso.

Entrou no carro, deu partida e desceu o morro em direção a Jerusalem’s Lot.

 

SUSAN

Ele estava sentado num banco do parque quando notou que a garota o observava. Era uma garota muito bonita, com um lenço de seda amarrado sobre os cabelos loiro-claros. Lia um livro naquele momento, mas tinha a seu lado um caderno de desenho e o que parecia um lápis de carvão. Era terça-feira, 16 de setembro, o primeiro dia de aula, e o parque magicamente se esvaziara dos mais arruaceiros. Restavam apenas algumas mães com bebês de colo, alguns velhos sentados ao lado do memorial de guerra e aquela garota, sob a sombra irregular de um velho e retorcido elmo.

Ela levantou a cabeça e o viu. Uma expressão de surpresa cruzou seu rosto. Olhou para o livro, depois de novo para ele e começou a se levantar. Hesitou, mudou de idéia e voltou a sentar.

Ele se levantou e se aproximou dela, trazendo seu próprio livro, um faroeste de capa mole.

— Olá — disse ele, de modo afável. — Nós já nos conhecemos?

— Não — disse ela. — Ou melhor... você é Benjamin Mears, certo?

— Certo — confirmou ele, erguendo as sobrancelhas.

Ela riu com nervosismo, sem lançar mais que um olhar fugaz para o rosto dele, tentando ler o barômetro de suas intenções. Era óbvio que não estava acostumada a falar com estranhos no parque.

— Pensei que estivesse vendo um fantasma. — Ela mostrou o livro que tinha no colo. Ele viu de relance que as palavras “Biblioteca Pública de Jerusalem’s Lot” estavam carimbadas na espessa extensão entre as capas. Era Air Dance, seu segundo romance. Ela lhe mostrou a foto dele na contracapa, uma foto que já tinha quatro anos. O rosto parecia jovem e de uma seriedade assustadora — os olhos eram como diamantes negros.

— De circunstâncias tão triviais, dinastias podem nascer — ele disse, e embora fosse apenas uma brincadeira sem maior importância, a frase pairou pesada no ar, como uma profecia. Atrás deles, crianças pequenas brincavam alegremente na piscininha, e uma mãe dizia a Roddy para não empurrar a irmã forte demais. A irmã subiu alto no balanço assim mesmo, o vestido esvoaçando, almejando o céu. Era um momento que ele lembraria durante muitos anos, como uma pequena e especial fatia do bolo do tempo. Se nada se acende entre duas pessoas, instantes como aquele simplesmente submergem nas. ruínas indistintas do tempo.

Ela riu e lhe estendeu o livro.

— Você não quer autografá-lo?

— Um livro de biblioteca?

— Eu compro outro e coloco no lugar.

Ele achou uma lapiseira no bolso da malha, abriu o livro na folha de guarda e perguntou:

— Como você se chama?

— Susan Norton.

Ele escreveu rápido, sem pensar: Para Susan Norton, a garota mais bonita do parque. Afetuosa­mente, Ben Mears. E acrescentou a data sob a assinatura.

— Agora, vai ter que roubá-lo — disse ele, devolvendo-lhe o livro. — Infelizmente, Air Dance está esgotado.

— Vou pedir um exemplar para aqueles sebos de Nova York. — Ela hesitou, e dessa vez olhou nos olhos dele um pouco mais longamente. — O livro é excelente.

— Obrigado. Quando o pego da prateleira e o leio, acho estranho que tenha sido publicado.

— Você o pega sempre?

— Pego, mas estou tentando parar.

Ela abriu um sorriso largo, os dois riram e esse riso tornou tudo mais natural. Mais tarde, ele lembraria como tudo acontecera de modo fácil e direto. Não era sempre uma idéia incômoda. Evocava uma imagem do destino, mas não cego, e sim equipado com sensível visão 20 por 20 e disposto a triturar indefesos mortais entre as mós do universo para fazer um obscuro pão.

— Li Conway’s Daughter também. Adorei. Mas você deve ouvir isso o tempo todo.

— Quase não ouço — disse ele, sinceramente. Miranda também adorara, mas a maioria dos seus amigos do café ficara reticente e a maioria dos críticos o massacrara. Bom, assim era a crítica. Enredo estava fora de moda, masturbação era a nova tendência.

— Bom, eu adorei.

— Você já leu o novo?

— Billy Said Keep Going? Ainda não. A Srta. Coogan, da padaria, falou que é bem picante.

— Imagine, é quase puritano — disse Ben. — A linguagem é forte, mas quando se escreve sobre rapazes rústicos do interior, não dá para... Ouça, posso lhe oferecer um milk-shake ou algo assim? Eu estava mesmo com vontade de tomar um.

Ela observou os olhos dele pela terceira vez. Depois sorriu, cordial.

— Claro, eu adoraria. O da Spencer’s é muito bom.

E foi assim que começou.

 

— Aquela é a srta. coogan?

Ben fez a pergunta em voz baixa. Olhava para uma mulher alta e magra, que usava um avental vermelho de náilon sobre o uniforme branco. Seus cabelos, tingidos de azul, estavam penteados em sucessivas camadas de ondas.

— É, ela mesma. Tem um carrinho que leva à biblioteca toda quinta de noite. Preenche toneladas de pedidos de reserva e deixa a Srta. Starcher louca.

Estavam sentados em bancos de couro vermelho na sorveteria. Ele bebia um milk-shake de chocolate. O dela era de morango. A Spencer’s também servia de estação de ônibus da cidade. De onde estavam, eles viam, depois de um antiquado arco ornamentado, a sala de espera, onde um solitário rapaz de uniforme da Força Aérea aguardava com ar taciturno, os pés plantados ao lado da mala.

— Ele não parece feliz em ir para onde está indo, não é? — disse ela, seguindo o olhar dele.

— A licença acabou, imagino — disse Ben. Agora ela vai me perguntar se eu já prestei serviço militar.

Mas, em vez disso, ela disse:

— Um dia pegarei esse ônibus das dez e meia. Adeus, ’salem’s Lot. Acho que vou ficar tão melancólica quanto aquele rapaz.

— E ir para onde?

— Para Nova York, acho eu. E ver se eu finalmente me torno auto-suficiente.

— Mas o que há de errado com este lugar?

— Com Lot? Adoro aqui. Mas são meus pais, sabe. Eles vão me vigiar para sempre. É um saco. E Lot não tem muito a oferecer a uma pessoa em início de carreira. — Ela encolheu os ombros e abaixou a cabeça para sugar o canudo. Seu pescoço era bronzeado, lindamente torneado. Seu vestido estampado e colorido insinuava um belo talhe.

— Que tipo de trabalho está procurando?

Ela deu de ombros.

— Tenho bacharelado pela Universidade de Boston. Nem vale o papel em que foi impresso. Em Artes Plásticas e Inglês. A original dupla maluca. Posso concorrer para a categoria de idiota culta. Não tenho qualificação nem para decorar um escritório. Algumas colegas minhas do colegial já recebem belos salários como secretárias. Já eu, nunca fui além de Datilografia I.

— Nesse caso, o que lhe resta?

— Bom... talvez uma editora — disse ela, vagamente. — Ou alguma revista... algo em publicida­de, talvez. Lugares assim sempre precisam de alguém que saiba desenhar sob encomenda. Isso eu sei fazer. Tenho um portfolio.

— Já recebeu alguma oferta de trabalho? — ele perguntou.

— Não... não, mas...

— Ninguém vai a Nova York sem ofertas — disse ele. — Pode, acreditar em mim, vai gastar a sola do sapato.

Ela sorriu com desconforto.

— Você deve saber.

— Já vendeu seu trabalho na região?

— Ah, já. — Ela deu um riso abrupto. — Minha maior venda até agora foi para o Grupo Cinex. Eles abriram um novo cinema triplo em Portland e compraram 12 pinturas de uma vez para pendurar no saguão. Pagaram setecentos dólares. Deu para eu dar entrada no meu carrinho.

— É melhor você ficar num hotel em Nova York durante uma semana ou dez dias — disse ele. — E leve seu portfolio a todas as editoras e revistas. Marque hora com seis meses de antecedência, para que os editores e o pessoal de recursos humanos não tenham outros compromissos. Mas, pelo amor de Deus, não vá de mala e cuia para a cidade grande.

— E você? — perguntou ela, largando o canudo e dando uma colherada no sorvete. — O que faz na próspera cidade de Jerusalem’s Lot, Maine, população 1.300 habitantes?

Ele encolheu os ombros.

— Estou tentando escrever um romance.

Ela logo ficou acesa.

— Em Lot? Sobre o que é? Por que aqui? Você...

Ele a olhou gravemente.

— Está pingando.

— Está? É mesmo, desculpe. — Ela enxugou a base do copo com um guardanapo. — Não quis ser intrometida. Geralmente não sou tão expansiva.

— Não precisa se desculpar — disse ele. — Todo escritor gosta de falar de seus livros. Às vezes, quando estou na cama à noite, imagino que a Playboy está me entrevistando. Pura perda de tempo. Eles só entrevistam autores que fazem sucesso na universidade.

O rapaz da Força Aérea se levantou. Um ônibus da Greyhound se aproximava, os freios de ar resfolegando.

— Morei em ’salem’s Lot durante quatro anos quando criança. Lá na via Burns.

— Na via Burns? Não tem nada lá agora, fora o pântano e um pequeno cemitério, o Harmony Hill.

— Morei com minha tia Cindy. Cynthia Stowens. Meu pai morreu, e minha mãe passou por um... por um tipo de colapso nervoso. E me mandou ficar com a tia Cindy enquanto tentava se recuperar. A tia Cindy me colocou no ônibus de volta para minha mãe, que morava em Long Island, apenas um mês depois do grande incêndio. — Ele olhou para o próprio rosto no espelho da sorveteria. — Chorei no ônibus ao me separar da minha mãe e chorei no ônibus ao me separar da tia Cindy e de Jerusalem’s Lot.

— Nasci no ano do incêndio — disse Susan. — Foi a coisa mais importante que já aconteceu nessa droga de cidade, e eu dormi o tempo inteiro.

Ben riu.

— Sendo assim, você tem sete anos a mais do que pensei no parque.

— Sério? — Ela pareceu satisfeita. — Obrigada... acho. A casa da sua tia deve ter se incendiado.

— Sim — disse ele. — A minha lembrança daquela noite é uma das mais nítidas que tenho. Homens com mangueiras nas costas bateram na porta e disseram que tínhamos de sair. Foi muito emocionante. A tia Cindy andou pela casa, toda trêmula, recolhendo as coisas e as colocando no seu Hudson. Meu Deus, que noite...

— Ela tinha seguro?

— Não, mas a casa era alugada, e conseguimos colocar quase tudo de valor no carro, fora a televisão. Tentamos levantá-la, mas ela nem se mexeu do chão. Era uma Vídeo King, com tela de sete polegadas e lente de aumento sobre o tubo de imagem. Um horror para a vista. Mas a gente só pegava um canal mesmo, com muita música Country, relatórios agrícolas e Kitty the Klown.

— E você voltou para escrever um livro — admirou-se ela.

Ben não respondeu de imediato. A Srta. Coogan estava abrindo pacotes de cigarro e enchendo o mostruário ao lado da caixa registradora. O farmacêutico, Sr. Labree, zanzava atrás do balcão de remédios como um fantasma pálido. O rapaz da Força Aérea esperava ao lado da porta do ônibus que o motorista voltasse do banheiro.

— Isso mesmo — disse Ben. Ele se virou e a olhou, diretamente no rosto pela primeira vez. Ela tinha um rosto muito bonito, com cândidos olhos azuis e testa alta, clara, tostada pelo sol.

— Passou a infância nesta cidade? — perguntou.

— Passei.

Ele assentiu com um gesto de cabeça.

— Então, você entende. Fui criança em ’salem’s Lot e fiquei obcecado pela cidade. Quando voltei, quase passei direto sem entrar porque tinha medo de que tivesse mudado.

— As coisas não mudam aqui — disse ela. — Não muito.

— Eu brincava de cabo-de-guerra com os filhos dos Gardener lá no pântano. De pirata no lago Royal. De esconde-esconde no parque. Minha mãe e eu passamos por maus bocados depois que deixei a tia Cindy. Ela se matou quando eu tinha 14 anos, mas muito antes disso o pó mágico já tinha saído da minha pele. O que havia dele estava aqui. E continua aqui. A cidade não mudou muito. Olhar a avenida Jointner é como olhar através de uma fina placa de vidro, como as que tirávamos do alto do tanque da cidade em novembro, quebrando as bordas antes; é como olhar através disso para a infância. A imagem fica trêmula e nebulosa e em alguns pontos dissolve-se em nada, mas a maior parte continua lá.

Ele parou, espantado. Acabara de fazer um discurso.

— Você fala igual aos seus livros — disse ela em tom reverente.

Ele riu.

— Nunca disse nada assim antes. Não em voz alta.

— O que você fez depois que sua mãe... depois que ela morreu?

— Andei por aí — limitou-se a dizer ele. — Tome seu sorvete.

Ela tomou.

— Algumas coisas mudaram — disse ela, após um momento. — O Sr. Spencer morreu. Lembra-se dele?

— Claro. Toda quinta à noite a tia Cindy vinha para a cidade fazer compras na loja Crossen e me mandava vir tomar uma soda limonada aqui. Naquele tempo era de pressão, a autêntica soda Rochester. Ela me dava uma moeda de cinco centavos amarrada num lenço.

— Custava dez centavos no meu tempo. Você se lembra do que ele sempre costumava dizer?

Ben se inclinou para frente, dobrou a mão como se tivesse artrite e curvou um canto da boca num esgar paralítico.

— Sua bexiga — sussurrou ele. — Esses refrigerantes vão acabar com sua bexiga, rapaz.

A risada dela elevou-se no ar em direção ao ventilador que girava lentamente no teto. A Srta. Coogan levantou os olhos desconfiados.

— Perfeito! — exclamou ela. — Só que ele me chamava de mocinha.

Eles se entreolharam, deliciados.

 — Escute, você quer ir ao cinema hoje à noite? — ele perguntou.

— Adoraria.

— Qual é o mais próximo?

Ela deu um risinho.

— O Cinex, em Portland, justamente. Cujo saguão foi decorado com as imortais pinturas de Susan Norton.

— Onde mais? De que tipo de filme você gosta?

— Dos emocionantes, com perseguição de carros.

— Está bem. Lembra-se do Nórdica? Ficava bem aqui, na cidade.

— Claro. Fechou em 1968. Quando eu estava no colégio, era lá que eu e minhas amigas íamos com os namorados. Jogávamos caixas de pipoca na tela quando o filme era ruim. — Ela riu. — E geralmente eram.

— Eles passavam aqueles velhos seriados da Republic — disse ele. — Rocket Man. The Return of Rocket Man. Crash Callahan and the Voodoo Death God

— Isso foi antes do meu tempo.

— O que aconteceu com o cinema?

— Hoje é a imobiliária de Larry Crockett. Foi o drive-in de Cumberland que acabou com ele, imagino. E a televisão.

Ficaram em silêncio um instante, cada um com seus pensamentos. O relógio da estação mostrava que eram 10h45.

— Ei, você lembra... — disseram em uníssono.

Eles se entreolharam e, dessa vez, a Srta. Coogan olhou para os dois quando explodiram em risos. Até o Sr. Labree olhou para eles.

Conversaram mais 15 minutos, até que Susan disse com relutância que tinha coisas a fazer, mas que, sim, estaria pronta às sete e meia. Quando se separaram, cada um se maravilhou com o encontro fácil e natural de suas vidas.

Ben caminhou pela avenida Jointner, parando na esquina da rua Brock para olhar casualmente para a Casa Marsten. Lembrou-se que o grande incêndio florestal de 1951 chegara quase até seu pátio antes que o vento mudasse.

Talvez devesse ter queimado, pensou ele. Talvez tivesse sido melhor.

 

Nolly Gardener saiu do paço municipal e sentou nos degraus ao lado de Parkins Gillespie, a tempo de ver Ben e Susan entrarem na Spencer’s juntos. Parkins fumava um Pall Mall e limpava as unhas amareladas com um canivete.

— Aquele é o tal do escritor? — perguntou Nolly.

— Era Susie Norton que estava com ele?

— Era.

— Interessante... — disse Nolly, apertando o cinto de couro. A estrela de vice-delegado brilhava com importância em seu peito. Ele a encomendara de uma revista policial; o município não fornecia distintivos aos próprios delegados. Parkins tinha uma, mas levava na carteira algo que Nolly nunca fora capaz de entender. É claro que todos em Lot sabiam que ele era o delegado, mas havia algo que se chamava tradição. Algo que se chamava responsabilidade. Quem era agente da lei precisava pensar em ambos. Nolly pensava em ambos com freqüência, embora só pudesse se dar ao luxo de ser vice-delegado em meio expediente.

O canivete de Parkins deslizou e cortou a cutícula de seu polegar.

— Merda — disse ele baixinho.

— Será que ele é um escritor de verdade, Park?

— Claro que é. Tem três livros dele aqui na nossa biblioteca.

— Histórias verdadeiras ou inventadas?

— Inventadas. — Parkins largou o canivete e suspirou.

— Floyd Tibbets não vai gostar que um cara fique de papo com sua mulher.

— Eles não são casados — retrucou Parkins. — E ela é maior de 18.

— Floyd não vai gostar.

— Estou pouco me lixando para Floyd — disse Parkins. Esmagou o cigarro no degrau, tirou uma caixa de pastilha do bolso, guardou o toco apagado dentro dela e voltou a guardá-la no bolso.

— Onde esse tal de escritor está morando?

— Na Eva — disse Parkins, examinando a cutícula ferida de perto. — Estava olhando a Casa Marsten outro dia, com uma expressão esquisita no rosto.

— Esquisita? Como assim?

— Esquisita, só isso. — Parkins tirou os cigarros do bolso. O sol em seu rosto era quente e gostoso. — Depois foi falar com Larry Crockett. Queria alugar a casa.

— A Casa Marsten?

— Pois é.

— Esse cara é louco?

— Talvez. — Parkins espantou uma mosca do joelho esquerdo e observou-a se afastar na manhã luminosa. — O velho Larry Crockett anda ocupado ultimamente. Ouvi dizer que vendeu a Lavanderia da Vila. Já faz algum tempo, na verdade.

— Como? Aquela lavanderia velha?

— Pois é.

— O que alguém pode querer colocar nela?

— Sei lá.

— Bom. — Nolly se levantou e deu outro apertão no cinto. — Acho que vou dar uma volta pela cidade.

— Faça isso — disse Parkins, e acendeu outro cigarro.

— Quer ir também?

— Não, acho que vou ficar sentado aqui um pouco.

— Então, até depois.

Nolly desceu os degraus, perguntando-se (não pela primeira vez) quando Parkins decidiria se aposentar, para que ele, Nolly, pudesse exercer a função em período integral. Como, em nome de Deus, ele iria combater o crime sentado na escadaria da Prefeitura?

Parkins observou-o partir com um certo alívio. Nolly era um bom rapaz, mas ansioso demais. Tirou o canivete do bolso, abriu-o e recomeçou a aparar as unhas.

 

Jerusalem’s Lot foi fundada em 1765 (duzentos anos depois, celebrou seu bicentenário com fogos de artifício e um desfile no parque; a fantasia de princesa índia da pequena Debbie Forester pegou fogo quando uma estrelinha caiu nela, e Parkins Gillespie teve de mandar seis sujeitos para a cadeia por se embriagarem em público), 55 anos antes de o Maine se tornar um estado graças ao Acordo do Missouri.

A cidade ganhou seu nome peculiar devido a uma circunstância bastante prosaica. Um dos primeiros residentes da região fora um austero e desajeitado fazendeiro chamado Charles Belknap Tanner. Era criador de porcos, e uma de suas enormes porcas se chamava Jerusalém. Um dia, Jerusalém escapou do chiqueiro na hora de comer e fugiu para a floresta próxima, onde se tornou brava e selvagem. Durante anos a fio, Tanner alertara as crianças para sair de sua propriedade inclinando-se sobre o portão e sussurrando em tom terrível e agourento: “Fiquem longe do lote da Jerusalém se não quiserem perder as tripas.” O aviso pegou, e o nome também. O fato não prova nada, a não ser que nos Estados Unidos até uma porca pode aspirar à imortalidade.

A rua principal, conhecida originalmente como rua Portland Post, mudou de nome em homena­gem a Elias Jointner em 1896. Jointner, membro da Câmara dos Deputados por seis anos (até sua morte, causada por sífilis, quando ele tinha 58 anos), era a única celebridade que a cidade podia ostentar — com a exceção de Jerusalém, a porca, e Pearl Ann Butts, que fugiu para Nova York em 1907 e virou uma vedete de Ziegfeld.

A rua Brock cruzava a avenida Jointner bem no centro e a ângulos retos, e a própria cidade era quase circular (embora um pouco plana ao leste, onde fazia fronteira com o serpenteante rio Royal). Num mapa, as duas ruas principais faziam com que a cidade se parecesse com uma mira telescópica.

O quadrante noroeste da mira era o norte de Jerusalém, a região mais arborizada da cidade. Era a parte alta, embora não parecesse muito alta a ninguém, exceto, talvez, a um habitante do Meio-Oeste. Os cansados e velhos morros, riscados por antigas estradas usadas por lenhadores, inclinavam-se gentilmente em direção à cidade, e a Casa Marsten ficava no último deles.

Boa parte do quadrante nordeste era campo aberto, coberto de feno, capim e alfafa. Era onde passava o rio Royal, um velho rio que desgastara suas margens quase até a base. Ele passava sob a pequena ponte de madeira da rua Brock e seguia para o norte em arcos planos e cintilantes até entrar no terreno próximo ao limite norte da cidade, onde granito sólido se escondia próximo ao solo fino. Lá ele formara penhascos de 15 metros ao longo de um milhão de anos. As crianças o chamavam de Salto do Bêbado, porque havia alguns anos Tommy Rathbun, o irmão beberrão de Virge Rathbun, despenca­ra de uma borda procurando um lugar para mijar. O Royal abastecia o Androscoggin, poluído pelas fábricas, mas ele mesmo nunca fora poluído. A única indústria que Lot já tivera fora uma serraria, mas fechara havia muito tempo. Nos meses de verão, era comum ver pescadores sobre a ponte da rua Brock. Eram raros os dias em que não conseguiam tirar do Royal tudo que podiam carregar.

O quadrante sudeste era o mais bonito. A terra se elevava de novo, mas não se viam as feias ruínas ou o solo crestado que são a herança de um incêndio. As terras de ambos os lados da rua Griffen pertenciam a Charles Griffen, o maior pecuarista ao sul de Machanic Falls. Do monte do Pátio do Colégio, via-se o enorme celeiro de Griffen, cujo telhado de alumínio brilhava ao sol como um monstruoso heliógrafo. Havia outras fazendas na região, e várias casas, que tinham sido compradas por executivos que trabalhavam em Portland ou Lewiston. Às vezes, no verão, podia-se subir ao topo do monte do Pátio do Colégio para sentir o aroma das queimadas e ver o pequenino carro do Corpo de Bombeiros Voluntários de ’salem’s Lot esperando para entrar em cena se algo saísse do controle. A população não esquecera as lições de 1951.

Foi na área sudoeste que os trailers se instalaram, com tudo que costuma acompanhá-los, como um cinturão de asteróides semi-rurais: carcaças de carros, pneus pendurados em cordas gastas, latas de cerveja jogadas no meio-fio, roupas rotas secando em varais improvisados, o forte odor de fossas abertas às , pressas. As casas na Curva estavam mais para barracos, mas reluzentes antenas de TV brotavam de quase todas, e a maioria das televisões dentro delas era em cores, compradas a crédito na Grant’s ou Sears. Os quintais dos casebres e trailers geralmente estavam cheios de crianças, brinquedos, camionetes, veículos para neve e motocicletas. Alguns cuidavam bem dos seus trailers, mas a maioria parecia achar que não valia a pena. O mato crescia à altura dos tornozelos. Perto do limite da cidade, onde a rua Brock virava a via Brock, ficava o Dell’s, onde uma banda de rock tocava às sextas e uma banda de música Country se apresentava aos sábados. O bar pegara fogo em 1971, mas fora reconstruído. Para os vaqueiros da região e suas namoradas, era o lugar certo para curtir uma cerveja ou uma briga.

A maioria das linhas telefônicas podia se conectar a mais duas, quatro ou seis linhas, e portanto os moradores sempre tinham de quem falar. Em cidades pequenas, o escândalo está sempre fervendo no fogão, como o feijão da tia Cindy. A Curva produzia a maior parte dos escândalos, mas de vez em quando alguém com um pouco mais de status contribuía com o caldo comunitário.

A cidade era governada por uma assembléia de eleitores. Cogitava-se desde 1965 a adoção do sistema de conselho municipal com audiências orçamentárias públicas bienais, mas a idéia não ganhou força. A cidade não crescia o bastante para tornar o antigo sistema realmente penoso, embora sua enfadonha e lenta democracia levasse alguns recém-chegados ao desespero. Havia três representantes municipais, o chefe de polícia, um inspetor para os pobres, um funcionário municipal (para registrar o carro era preciso ir até a via Taggart Stream e enfrentar dois cachorros bravos que corriam soltos no quintal) e o delegado escolar. O Corpo de Bombeiros Voluntários recebia uma verba simbólica de trezentos dólares por ano, mas era mais um clube para velhos pensionistas. Eles tinham sua dose de emoção durante a época das queimadas e passavam o resto do ano sentados ao redor do Reliable contando vantagem. Não havia Departamento de Obras Públicas porque não havia água, gás, energia elétrica ou saneamento público. Os postes de eletricidade atravessavam em diagonal a cidade de noroeste a sudeste, abrindo um enorme rasgo de 45 metros de largura na floresta. Um desses postes ficava perto da Casa Marsten, erguendo-se sobre ela como uma lúgubre sentinela.

Tudo que ’salem’s Lot sabia de guerras, incêndios e crises no governo era graças a Walter Cronkite na televisão. Ah, o filho dos Potter morrera no Vietnã e o filho de Claude Bowie voltara com um pé mecânico — pisara numa mina terrestre —, mas arrumou trabalho no correio ajudando Kenny Danles, e portanto tudo acabou bem. Os jovens estavam deixando os cabelos crescer e não faziam mais cortes comportados como os pais, mas ninguém ligava mais. Quando aboliram o uniforme do Colégio da cidade, Aggie Corliss escreveu uma carta ao Ledger de Cumberland, mas ela escrevia para o jornal semanalmente havia anos, sobre os malefícios da bebida e as maravilhas de receber Jesus Cristo no coração como nosso salvador.

Alguns jovens usavam drogas. O filho de Horace Kilby, Frank, compareceu diante do juiz Hooker em agosto e recebeu uma multa de cinqüenta dólares (o juiz deixou-o pagar a multa com o que ganhava entregando jornal), mas o álcool era um problema mais grave. Bandos de jovens se enfiavam no Dell’s desde que o limite de idade diminuiu para 18 anos. Voltavam a toda velocidade para casa como se quisessem arrancar o asfalto do chão, e às vezes alguém acabava morrendo. Como quando Billy Smith bateu numa árvore na estrada Deep Cut a 140 quilômetros por hora, matando a si mesmo e a namorada, LaVerne Dube.

Mas, fora isso, o conhecimento que Lot tinha das mazelas do país era acadêmico. Lá o tempo seguia outro ritmo. Nada de muito ruim podia acontecer numa cidadezinha tão aprazível. Não lá.

 

Ann Norton passava roupa quando a filha entrou de supetão com um saco de compras, mostrou-lhe um livro com um rapaz de rosto fino na sobrecapa e começou a tagarelar.

— Calma — disse ela. — Abaixe a televisão e me conte.

Susan interrompeu Peter Marshall, que distribuía milhares de dólares num programa de auditório, e contou a sua mãe como conhecera Ben Mears. A Sra. Norton assentia com calma e benevolência enquanto a história era despejada, apesar das luzes de alerta que sempre se acendiam quando Susan falava de um novo menino — homens, agora, pensou ela, embora fosse difícil imaginar que Susie já tivesse idade para isso. Mas as luzes se acenderam com um pouco mais de força na­quele dia.

— Que emocionante — disse ela, e colocou outra camisa do marido na tábua de passar.

— Ele foi muito legal — disse Susan. — Muito natural.

— Ai, meus pés — disse a Sra. Norton. Apoiou o ferro na tábua, que deu um assobio mal-humorado, e sentou-se na cadeira de balanço ao lado da janela panorâmica. Tirou um Parliament do maço sobre a mesa de centro e o acendeu.

— Tem certeza de que ele é uma boa pessoa, Susie?

Ela sorriu, meio na defensiva.

— Claro que tenho. Ele parece... ah, sei lá. Um professor de faculdade ou algo assim.

— Dizem que o Mad Bomber* parecia um jardineiro — disse a Sra. Norton, com ar pensativo.

 

 

 
   

 

 


George Meterky, o Mad Bomber, aterrorizou a cidade de Nova York por 16 anos, de 1940 a 1956, deixando inúmeros pacotes com bombas em lugares públicos (N. do E.)

— Papo-furado — disse Susan alegremente. Era um epíteto que sempre irritava sua mãe.

— Deixe-me ver o livro — disse ela, estendendo a mão.

Susan lhe deu o livro, lembrando-se de repente da cena de estupro homossexual na prisão.

— Air Dance — Ann Norton disse sonhadoramente, e começou a folhear as páginas a esmo. Susan esperou, resignada. Sua mãe o inspecionaria do começo ao fim, como sempre.

As janelas estavam levantadas, e uma preguiçosa brisa matutina ondulava as cortinas amarelas da cozinha — que a mãe insistia de chamar de “copa”, como se eles pertencessem à fina flor da sociedade. Era uma casa boa, de tijolos sólidos, um pouco difícil de aquecer no inverno, mas fresca como uma gruta no verão. Ficava sobre uma suave inclinação no extremo da rua Brock, e, da janela panorâmica onde a Sra. Norton estava sentada, via-se toda a cidade. A vista era agradável, e no inverno chegava a ser espetacular, com longos e cintilantes panoramas de neve ininterrupta e prédios diminutos à distância, lançando retângulos de luz amarela sobre os campos nevados.

— Acho que li uma resenha sobre este livro no jornal de Portland. Não era muito boa.

— Eu gosto — Susan disse com firmeza. — E gosto dele.

— Talvez Floyd também goste dele — observou a Sra. Norton casualmente. — Você devia apresentá-los.

Susan sentiu uma pontada de raiva, o que a consternou. Pensara que ela e a mãe já haviam superado a última das tempestades adolescentes e até mesmo os resquícios dela, mas lá estavam novamente. Retomaram a antiga disputa entre sua identidade e as experiências e crenças da mãe como quem retoma um velho tricô.

— Já conversamos sobre Floyd, mãe. Você sabe que não temos nada sério.

— O jornal também disse que tem cenas de prisão bastante chocantes. Rapazes dormindo com rapazes...

— Pelo amor de Deus, mãe. — Susan pegou um cigarro da mãe.

— Não precisa praguejar — disse a Sra. Norton, inabalável. Devolveu o livro à filha e bateu a longa cinza de seu cigarro num cinzeiro de cerâmica em forma de peixe. Fora presente de uma de suas amigas da Associação de Senhoras, e sempre causara uma vaga irritação em Susan. Havia algo de obsceno em bater as cinzas na boca de uma perca.

— Vou guardar as compras — disse Susan, levantando.

A Sra. Norton prosseguiu, tranqüilamente.

— Eu só quis dizer que, se você e Floyd Tibbits vão se casar...

A irritação transbordou e se converteu na velha e exaltada fúria.

— Posso saber de onde você tirou essa idéia? Alguma vez eu lhe falei isso?

— Eu presumi...

— Pois presumiu errado — disse ela, com mais ardor do que sinceridade. Mas ela vinha esfriando em relação a Floyd gradativamente nas últimas semanas.

— Presumi que quando uma moça sai com um rapaz durante um ano e meio — sua mãe continuou, com calma implacável —, o namoro já foi além do estágio de dar as mãos.

— Floyd e eu somos mais do que amigos — concordou Susan. Vamos ver o que ela concluí disso.

Uma conversa muda pairou entre elas.

Você está dormindo com Floyd?

Não é da sua conta.

O que esse Ben Mears significa para você?

Não é da sua conta.

Você vai se apaixonar por ele e fazer alguma bobagem?

Não é da sua conta.

Eu te amo, Susie. Seu pai e eu te amamos.

E para aquilo não havia resposta. Nunca havia. Por isso Nova York — ou qualquer outro lugar — era essencial. No final, ela sempre esbarrava nas barricadas silenciosas do amor dos pais, como paredes acolchoadas. A verdade do amor deles tornava impossível prosseguir a discussão de modo racional e esvaziava de sentido o que havia sido dito antes.

— Muito bem — disse a Sra. Norton. Apagou o cigarro na boca do peixe e o colocou de bruços.

— Vou subir — disse Susan.

— Está bem. Posso ler o livro quando terminar?

— Se você quiser.

— Gostaria de conhecê-lo — disse ela.

Susan encolheu os ombros.

— Vai chegar tarde hoje?

— Não sei.

— O que digo a Floyd se ele ligar?

A raiva se apoderou dela de novo.

— Diga o que quiser. — Fez uma pausa. — É o que dirá de qualquer jeito.

— Susan!

Ela subiu as escadas sem olhar para trás.

A Sra. Norton permaneceu onde estava, olhando através da janela para a cidade, mas sem vê-la. No andar de cima, ouvia os passos de Susan e o ruído de seu cavalete sendo aberto.

Ela levantou e voltou ao ferro de passar. Quando achou que Susan já estava totalmente imersa no trabalho (embora não permitisse que essa idéia ocupasse mais que um canto de sua consciência), ela foi ao telefone na copa e ligou para Mabel Werts. Durante a conversa, comentou casualmente que Susie lhe contara que um escritor famoso estava na cidade, e Mabel fungou e disse, bom, você deve estar falando daquele homem que escreveu Conway’s Daughter, e a Sra. Norton disse, esse mesmo, e Mabel disse que aquilo não era literatura, mas um manual sexual, pura e simplesmente. A Sra. Norton perguntou se ele estava num hotel ou...

Na verdade, ele estava no centro, na casa da Eva, a única pensão da cidade. A Sra. Norton sentiu uma onda de alívio. Eva Miller era uma viúva honesta, que não toleraria nenhuma indecência. Suas normas em relação a mulheres nos quartos eram breves e objetivas. Se fosse mãe ou irmã, tudo bem. Caso contrário, tinha de esperar na cozinha. E a regra era inegociável.

A Sra. Norton desligou 15 minutos depois, tendo camuflado seu principal objetivo com a conversa fiada.

Susan, pensou ela, voltando para o ferro de passar. Ah, Susan, eu só quero o melhor para você. Será que você não percebe?

 

Eles voltavam de Portland pela 295, e não era nada tarde — passava um pouco das 11. O limite de velocidade da estrada quando saía da periferia de Portland era de 90 quilômetros por hora, e ele dirigia bem. Os faróis do Citroën cortavam a escuridão de modo contínuo.

Ambos haviam gostado do filme, mas com cautela, como pessoas que tateiam os limites uma da outra. A pergunta da mãe lhe ocorreu então, e ela disse:

— Onde você está hospedado? Alugou algum quarto?

— Estou num cubículo no terceiro andar da Pensão da Eva, na rua da Ferrovia.

— Que horror! Deve fazer 40 graus centígrados lá.

— Gosto do calor — disse ele. — Trabalho bem no calor. Tiro a camisa, ligo o rádio e bebo um galão de cerveja. Tenho escrito dez páginas por dia, inéditas. Além disso, tem uns velhos moradores interessantes lá. E quando finalmente saio para a varanda e sinto a brisa... é o paraíso.

— Mas, mesmo assim... — insistiu ela.

— Pensei em alugar a Casa Marsten — disse ele, em tom casual. — Cheguei até a indagar a respeito. Mas foi vendida.

— A Casa Marsten! — Ela sorriu. — Você deve ter confundido o lugar.

— Não. Ela fica naquele primeiro morro a noroeste da cidade. Na via Brooks.

— Foi vendida? Mas quem seria o louco...

— Pensei a mesma coisa. De vez em quando me acusam de ter um parafuso a menos, mas até mesmo eu só pensei em alugá-la. O corretor não quis me dizer. Parece que é um segredo sinistro e insondável.

— Pode ser que alguém de outro estado queira transformar a casa num hotel de verão — disse ela. — Seja quem for, é louco. Restaurar um casarão é uma coisa, e eu adoraria tentar, mas aquele está além de qualquer restauração. Já era um mausoléu quando eu era criança. Mas por que você ia querer ficar lá?

— Você chegou a entrar lá?

— Não, mas espiei pela janela para provar que tinha coragem. Você entrou?

— Entrei, uma vez.

— É de dar medo, não?

Eles ficaram em silêncio, cada um pensando na Casa Marsten. Mas essa recordação não tinha a nostalgia branda das outras. O escândalo e a violência associados à casa haviam ocorrido antes de nascerem, mas cidades pequenas têm memória longa, e passam seus horrores ritualmente de uma geração para outra.

A história de Hubert Marsten e sua mulher, Birdie, era a mancha da cidade, ou o que mais se aproximava disso. Hubie fora o presidente de uma grande companhia de transportes da Nova Inglaterra nos anos 1920 — uma companhia que, segundo as más línguas, conseguira seus maiores lucros depois da meia-noite, contrabandeando uísque canadense para Massachusetts.

Ele e a mulher se mudaram para ’salem’s Lot em 1928, donos de uma fortuna, mas perderam boa parte dela (ninguém sabia exatamente quanto, nem mesmo Mabel Werts) na quebra da bolsa de valores de 1929.

Nos dez anos entre a queda da bolsa e a ascensão de Hitler, Marsten e a mulher viveram como ermitãos. A única ocasião em que eram vistos era nas tardes de quarta, quando iam à cidade fazer compras. Larry McLeod, que era o carteiro naquela época, relatou que Marsten assinava quatro jornais diários, The Saturday Evening Post, The New Yorker e uma revista de ficção científica chamada Amazing Stories. Também recebia um cheque uma vez por mês da companhia de transportes, que era sediada em Fall River, Massachusetts. Larry disse que conseguia ver que era um cheque dobrando o envelope e espiando pelo espaço para o endereço.

Foi Larry que os encontrou no verão de 1939. Jornais e revistas haviam se acumulado durante cinco dias na caixa de correio até não caber mais nada. Larry atravessou a passarela com a intenção de deixar a correspondência entre a porta de tela e a porta principal.

Era agosto, o auge do verão e dos dias quentes, e a grama do jardim, verde e viçosa, chegava quase ao joelho. As madressilvas cresciam selvagens nas treliças do lado direito da casa, e gordas abelhas zuniam indolentemente em torno das flores, muito brancas e fragrantes. Naquele tempo, a casa ainda impressionava pela beleza, apesar da grama alta, e de modo geral todos concordavam que Hubie construíra a casa mais bonita de ’salem’s Lot antes de ficar de miolo mole.

Quando estava no meio da passarela, segundo a história que era contada em tom lúgubre a cada nova integrante da Associação de Senhoras, Larry sentiu um cheiro ruim, de carne estragada. Bateu na porta da frente, mas ninguém atendeu. Olhou pela porta, mas não conseguiu ver nada na densa obscuridade. Contornou a casa até os fundos em vez de entrar, o que foi sua sorte. O cheiro estava pior atrás. Larry tentou abrir a porta dos fundos, viu que estava destrancada e entrou na cozinha. Birdie Marsten estava estendida num canto, as pernas enviesadas, os pés descalços. Metade de sua cabeça fora destruída por um tiro à queima-roupa de uma arma calibre 36.

(“Moscas”, Audrey Hersey sempre dizia nessa hora, falando com calma autoridade. “Larry disse que a cozinha estava cheia de moscas. Zumbindo pela cozinha, pousando no..., você sabe, e voando de novo. Moscas.”)

Larry McLeod deu meia-volta e foi direto para a cidade. Buscou Norris Varney, que era o delegado na época, e três ou quatro dos desocupados que ficavam na loja Crossen — o pai de Milt ainda era o gerente naquela época. O irmão mais velho de Audrey, Jackson, era um deles. Voltaram para o morro no Chevrolet de Norris e no carro do correio de Larry.

Nenhum morador da cidade estivera na casa antes, e lhes pareceu a sétima maravilha do mundo. Depois que a poeira baixou, o jornal Telegram, de Portland, escreveu uma matéria sobre o caso. A casa de Hubert Marsten era um ninho de ratos, um amontoado confuso e atordoante de trastes, com passagens estreitas e espiraladas entre montes de jornais e revistas amarelados e pilhas de livros mofados e volumosos. A coleção completa de Dickens, Scott e Mariatt foram levados para a Biblioteca Pública de ’salem’s Lot pela antecessora de Loretta Starcher e continuavam nas prateleiras.

Jackson Hersey apanhou um Saturday Evening Post, começou a folheá-lo e não acreditou em seus olhos. Uma nota de um dólar fora colada com fita adesiva a cada página.

Norris Varney descobriu como Larry tivera sorte ao entrar pela porta dos fundos. A arma do crime havia sido amarrada a uma cadeira com o cano apontando direto para a porta da frente, mirando a altura do peito. A arma estava engatilhada, e um fio amarrado ao gatilho se estendia pelo corredor até a maçaneta.

(“E a arma estava carregada”, dizia Audrey nessa hora. “Um puxão e Larry McLeod teria ido direto para o paraíso.”)

Encontraram outras armadilhas, menos letais. Um pacote de jornais de vinte quilos fora pendu­rado sobre a porta da sala de jantar. Um dos espelhos da escada para o segundo andar fora empurrado, o que podia ter causado um tornozelo quebrado. Logo ficou claro que Hubie Marsten não só tivera miolo mole como fora um completo lunático.

Encontraram-no no quarto ao final do corredor do andar de cima, pendurado a uma viga.

(Susan e suas amiguinhas haviam sofrido deliciosas torturas com as histórias que ouviam dos mais velhos. Amy Rawcliffe tinha uma casa de bonecas no quintal, onde elas se trancavam no escuro, assustando umas às outras com histórias sobre a Casa Marsten, que fora eternizada com um nome próprio mesmo antes de Hitler invadir a Polônia, e as enfeitando com todos os detalhes arrepiantes que eram capazes de conceber. Mesmo hoje, 18 anos depois, apenas lembrar da Casa Marsten agia como um feitiço, evocando as imagens dolorosamente claras das meninas encolhidas na casa de bonecas de Amy, de mãos dadas, e de Amy dizendo em tom fantasmagórico: “O rosto dele estava inchado, a língua estava preta e saltada para fora, moscas rastejavam sobre ela. Minha mãe contou para a Sra. Werts”.)

— ...assustador.

— Como? Desculpe. — Ela voltou para o presente com um sobressalto. Ben saía da estrada e entrava na rampa de acesso a ’salem’s Lot.

— Eu disse que era um lugarzinho assustador.

— Conte como foi quando você entrou lá.

Ele deu uma risada triste e ligou os faróis altos. O asfalto de duas pistas passava por uma alameda de pinheiros e abetos, deserta.

— Começou com uma brincadeira de criança. Talvez não tenha sido mais do que isso. Não esqueça que era 1951, e as crianças tinham de fazer algo no lugar de cheirar cola de avião em sacos de papel, o que ainda não tinha sido inventado. Eu brincava bastante com os meninos da Curva, a maioria já deve ter se mudado daqui... o sul de ’salem’s Lot ainda é chamado de Curva?

— É.

— Eu brincava com Davie Barclay, Charles James, que as crianças chamavam de Sonny, Harold Rauberson, Floyd Tibbits...

— Floyd? — ela perguntou, espantada.

— É, você conhece?

— A gente namorava — disse ela, e, com medo que sua voz tivesse soado estranha, apressou-se a acrescentar. — Sonny James também continua por aqui. É gerente do posto de gasolina na avenida Jointner. Harold Rauberson morreu. De leucemia.

— Eram todos mais velhos do que eu, um ou dois anos. Tinham um clube. Era muito seleto. Só Piratas Sangrentos, com no mínimo três referências, podiam se candidatar. — Ele quis que soasse leve, mas uma ponta de amargura se escondia em suas palavras. — Mas fui persistente. A coisa no mundo que eu mais queria era ser um Pirata Sangrento... naquele verão, pelo menos.

— Eles finalmente cederam e me disseram que eu poderia entrar se passasse pela iniciação, que Davie inventou na hora. Todos iríamos para a Casa Marsten e eu teria de entrar e trazer algo de dentro. Como troféu de guerra. — Ele riu, mas sua boca estava seca.

— E o que aconteceu?

— Entrei por uma janela. A casa ainda estava cheia de tranqueiras, mesmo depois de 12 anos. Os jornais devem ter sido tirados durante a guerra, mas o resto continuava lá. Tinha uma mesa no corredor da frente com uma daquelas cúpulas de neve sobre ela, você sabe, não? Tem uma casinha dentro, e quando balançamos, cai neve. Coloquei-a no meu bolso, mas não saí. Queria provar que era corajoso. E subi até o quarto onde ele se enforcou.

— Meu Deus — disse ela.

— Abra o porta-luvas e pegue um cigarro para mim, por favor. Estou tentando parar, mas preciso de um para acabar a história.

Ela pegou um cigarro e apertou o isqueiro do painel.

— A casa fedia. Você não imagina o quanto. Mofo, estofados apodrecidos e um tipo de odor rançoso como de manteiga passada. E coisas vivas: ratos, marmotas ou outro animal que havia feito ninhos nas paredes ou hibernado no porão. Um cheiro amarelo, molhado.

— Subi as escadas. Era um menino de nove anos, morrendo de medo. A casa estalava e afundava ao meu redor, e eu ouvia coisas fugindo de mim do outro lado do reboco. Tinha a impressão de ouvir passos atrás de mim. Tinha medo de virar e ver Hubie Marsten me seguindo, com um laço de enforcado na mão e a cara toda preta.

Ele agarrava o volante com força. A leveza sumira de sua voz. A intensidade de suas recordações a assustava um pouco. Seu rosto, à luz do painel de instrumentos, tinha os longos sulcos de um homem que percorria um país odiado, que não conseguia abandonar.

— No alto das escadas, reuni toda minha coragem e corri pelo corredor até aquele quarto. Meu plano era entrar, pegar qualquer coisa e sumir de lá. A porta no final do corredor estava fechada. Eu a via se aproximando e notei que as dobradiças tinham afundado e a parte inferior encostava na base. Vi a maçaneta, prateada e um pouco embaçada pelo uso. Quando puxei a porta, a parte de baixo gemeu como um lamento de mulher. Se eu estivesse normal, acho que teria saído correndo nessa hora. mas eu estava cheio de adrenalina, e agarrei a maçaneta com as duas mãos e a puxei com toda força. A porta se escancarou. E lá estava Hubie, pendurado na viga, a silhueta recortada contra a luz da janela.

— Ben, pare... — disse ela, com nervosismo.

— Não, estou dizendo a verdade — insistiu ele. — A verdade que o menino de nove anos viu e que o homem recorda 24 anos depois. Hubie estava pendurado lá, e seu rosto não estava preto. Estava verde. Os olhos estavam inchados e fechados. Suas mãos estavam lívidas... medonhas, e então ele abriu os olhos.

Ben deu um enorme trago no cigarro e o jogou pela janela, na escuridão.

— Dei um grito que deve ter sido ouvido a quilômetros de distância. E saí correndo. Caí pelas escadas, levantei e saí correndo pela porta da frente e pela estrada. Os meninos me esperavam a uns quinhentos metros da casa. Foi quando notei que ainda estava com a cúpula de neve na mão. E ainda a tenho.

— Você não acha mesmo que viu Hubert Marsten, não é, Ben? — Na distância, ela viu a luz amarela que indicava o centro da cidade e sentiu alívio.

Ele demorou um momento para responder.

— Não sei — disse ele, com dificuldade e relutância, como se tivesse preferido dizer não e encerrar o assunto. — Provavelmente eu estava tão nervoso que tive uma alucinação. Por outro lado, pode haver alguma verdade na crença de que as casas absorvem as emoções vividas nelas, que contêm um tipo de... carga elétrica. Talvez certas personalidades, como a de um menino cheio de imaginação, possam agir como catalisadores dessa carga, fazendo com que produza uma manifestação ativa... de algo. Não estou falando de fantasmas, exatamente. Estou falando de uma televisão psíquica em três dimensões. Talvez até algo vivo. Um monstro, se você preferir.

Ela pegou um cigarro dele e o acendeu.

— Só sei que dormi com a luz acesa durante semanas depois disso, e sonhei que abria aquela porta em vários momentos ao longo da vida. Principalmente quando estou sob tensão.

— Isso é terrível.

— Não, não é — disse ele. — Não muito, de qualquer jeito. Todos temos nossos pesadelos. — Ele apontou com o polegar as casas silenciosas e adormecidas que passavam por eles na avenida Jointner. — Fico surpreso que as tábuas dessas casas não gritem com as coisas horríveis que acontecem nos sonhos. — Ele fez uma pausa. — Quer ir até a pensão da Eva e conversar um pouco na varanda? Não posso convidá-la para entrar, regras da casa, mas tenho umas cocas na geladeira e um Bacardi no quarto, se quiser tomar um drinque.

— Gostaria muito.                                              

Ele virou na rua da Ferrovia, desligou os faróis e entrou no pequeno estacionamento de terra da pensão. A varanda de trás era pintada de branco com frisos vermelhos, e suas três cadeiras de vime estavam viradas para o rio Royal. O rio estava deslumbrante. A lua tardia de verão, quase cheia, brilhava entre as árvores da margem e pintava um caminho prateado na água. Com a cidade silenciosa, ela ouvia o som espumante da água se precipitando pelos canais da represa.

— Sente-se. Já volto.

Ele entrou, fechando a porta de mansinho ao passar, e Susan sentou numa das cadeiras de balanço.

Ela gostava dele, apesar de seu jeito estranho. Não acreditava em amor à primeira vista, mas acreditava que o desejo instantâneo (chamado pelo nome mais inocente de “atração”) ocorria com freqüência. No entanto, ele não era o tipo de homem capaz de inspirar passagens arrebatadas num diário secreto. Era magro demais para sua altura, um pouco pálido. Tinha um rosto introspectivo e livresco, e seus olhos raramente revelavam o curso de seus pensamentos. Tudo isso coroado por uma densa cabeleira preta que parecia alinhada com os dedos, em vez de penteada.

E aquela história...

Nem Conway’s Daughter nem Air Dance indicavam uma mentalidade tão mórbida. O primeiro era sobre a filha de um pastor, que entra para a contracultura e faz uma longa e errante viagem de carona pelo país. O segundo era a história de Frank Buzzey, um prisioneiro fugitivo que começa vida nova como mecânico de carro em outro estado, até ser recapturado. Ambos eram livros cheios de vida e energia, e a sombra oscilante de Hubie Marsten, refletida nos olhos de um menino, não parecia pairar sobre eles.

Levada por esse pensamento, ela desviou os olhos do rio para o lado esquerdo da varanda, onde o último monte diante da cidade ocultava as estrelas.                                                             

— Tome — disse ele. — Espero que esteja bom.          

— Olhe a Casa Marsten — disse ela.

Ele olhou. Havia uma luz acesa lá em cima.                  

 

Já passava da meia-noite, e os copos estavam vazios. A lua quase sumira de vista. Eles haviam conversado sobre assuntos leves, quando ela disse, depois de uma pausa.

— Gosto de você, Ben. Muito.

— Também gosto de você. E estou surpreso... Não, não quis dizer isso. Lembra daquele comentário bobo que fiz no parque? É que tudo isso parece tão fortuito.

— Quero ver você de novo, se você quiser.

— Eu quero.

— Mas vá devagar. Lembre-se de que sou apenas uma moça do interior.

Ele sorriu.

— Isso é tão hollywoodiano. Mas no bom sentido. Devo beijar você agora?

— Sim — disse ela, seriamente. — Agora vem essa parte.

Ele estava sentado na cadeira de balanço ao lado dela e, sem interromper o lento movimento para frente e para trás, ele se inclinou e pousou os lábios sobre os dela, mas não tentou alcançar sua língua ou tocar seu corpo. Os lábios dele eram firmes com a pressão dos dentes retos, e ela sentiu um leve sabor-aroma de mm e tabaco.

Ela também começou a balançar, e o movimento tornou o beijo diferente. Aumentava e diminuía de intensidade, firme e depois leve. Ela pensou: “Ele está sentindo meu gosto.” A idéia despertou uma secreta excitação em seu íntimo, e ela interrompeu o beijo antes de ir longe demais.

— Uau — disse ele.

— Você quer jantar na minha casa amanhã? — perguntou ela. — Meus pais adorariam te conhecer. — No prazer e na serenidade daquele momento, ela decidiu dar uma sopa para sua mãe.

— Comida caseira?

— Mais caseira impossível.

— Eu adoraria. Tenho vivido à base de comida congelada desde que mudei para cá.

— Às seis horas? Jantamos cedo na roça.

— Está ótimo. E, falando em casa, é melhor eu te levar. Vamos.             

Eles não conversaram no caminho de volta até ela ver a luz brilhando no alto do monte, que sua mãe sempre deixava acesa quando ela saía.

— Quem será que está lá em cima? — ela perguntou, olhando para a Casa Marsten.

— O novo dono, provavelmente — disse ele, em tom neutro.

— Não parecia luz elétrica — refletiu ela. — Era amarela e fraca demais. Um lampião a querosene, talvez.

— Ainda não devem ter tido a chance de ligar a eletricidade.

— Talvez. Mas qualquer um com o mínimo de prudência teria ligado para a companhia elétrica antes de se mudar.

Ele não respondeu. Eles haviam chegado à entrada da casa dela.

— Ben — ela disse de repente. — Seu novo livro é sobre a Casa Marsten?

Ele riu e a beijou na ponta do nariz.

— Já está tarde.

Ela sorriu para ele.

— Não quis ser xereta.                                                                    

— Tudo bem. Mas talvez outra hora... à luz do dia.

— Está bem.

— É melhor entrar, menina. Às seis amanhã?

Ela olhou para o relógio.

— Às seis hoje.

— Boa-noite, Susan.

— Boa-noite.

Ela saiu e correu com leveza até a porta lateral, onde se virou e acenou enquanto ele se afastava. Antes de entrar, acrescentou creme de leite à lista do leiteiro. Com batatas assadas, daria um toque de classe ao jantar.

Ela se demorou mais um minuto antes de entrar, olhando a Casa Marsten.

 

Em seu quarto caixa-de-fósforo, ele se despiu com a luz apagada e deitou na cama nu. Ela era uma boa moça, a primeira desde que Miranda morrera. Ele esperava não tentar transformá-la em uma nova Miranda — seria doloroso para ele e terrivelmente injusto com ela.

Ele deitou e deixou seu pensamento vagar. Um pouco antes de o sono chegar, ele se apoiou no cotovelo, olhou além da sombra quadrada de sua máquina de escrever e da fina pilha de originais, pela janela. Ele pedira aquele quarto a Eva Miller após olhar muitos outros, porque dava diretamente para a Casa Marsten.

A luz continuava acesa.

Naquela noite ele teve o velho sonho pela primeira vez desde que chegara a Jerusalem’s Lot. Não o tivera com tanta nitidez desde os terríveis dias que se seguiram à morte de Miranda no acidente de motocicleta. A travessia do corredor, o horrível gemido da porta ao abrir, o vulto pendurado abrindo subitamente os medonhos olhos inchados, ele se virando para a porta com a lentidão pegajosa dos sonhos...

E a encontrando trancada.

 

A CIDADE

A cidade não tardava a despertar — as tarefas não esperavam. Ainda com o sol sob a linha do horizonte e a escuridão sobre a terra, as atividades já se iniciavam.

 

4h00.

Os filhos dos Griffen — Hal, de 18 anos, e Jack, de 14 — e os dois ajudantes haviam começado a ordenhar as vacas. O celeiro caiado brilhava de tão limpo. No centro, entre as passarelas impecáveis que davam para as baias dos dois lados, estendia-se um bebedouro de cimento. Hal ligou a água apertando um botão e abrindo uma válvula. A bomba elétrica que puxava água de um dos dois poços artesianos que abasteciam o local começou a funcionar com um murmúrio constante. Era um rapaz rude, taciturno, especialmente mal-humorado naquele dia. Havia tido uma briga com o pai na noite anterior. Hal queria parar de estudar. Odiava a escola. Odiava a chatice, a exigência de que ficasse parado por longos períodos de 55 minutos. E odiava todas as matérias, com a exceção de Marcenaria e Artes Gráficas. Inglês era irritante, história era uma estupidez, matemática era incompreensível. E não serviam para nada, aquilo era o pior. As vacas não se importavam se você falasse errado, não ligavam para quem era o comandante do maldito exército do Potomac durante a maldita Guerra Civil, e, quanto à matemática, seu próprio pai não conseguia somar dois quintos e uma metade nem com uma arma na cabeça. Por isso tinha um contador. Era um coitado. Fizera faculdade e ainda trabalhava para uma besta como o seu pai. E seu pai mesmo lhe dissera muitas vezes que estudar não era o segredo para ter um negócio de sucesso (e a pecuária era um negócio como qualquer outro), conhecer as pessoas era o segredo. Era mestre em falar bobagens sobre as maravilhas da educação, justo ele que parara na sexta série. Nunca lia nada além da Reader’s Digest, e a fazenda lucrava 16 mil dólares por ano. Conheça as pessoas. Aperte as mãos delas e pergunte pelas esposas pelo primeiro nome. Bom, Hal conhecia as pessoas. Havia dois tipos: as que se deixavam manipular e as que não se deixavam. As primeiras excediam em número as últimas numa proporção de dez a um.

Infelizmente, seu pai pertencia à segunda categoria.

Olhou por cima do ombro para Jack, que lenta e sonhadoramente tirava feno de um fardo e o colocava nas primeiras quatro baias. Lá estava o rato de biblioteca, o queridinho do papai. O merdinha.

— Vamos! — gritou. — Ponha logo esse feno.

Ele abriu os armários e tirou a primeira das quatro máquinas de ordenhar. Arrastou-a pelo corredor, franzindo a testa com fúria sobre a brilhante superfície de aço inoxidável.

Escola. Maldita e insuportável escola.

Os nove meses seguintes se estendiam diante dele como uma interminável tumba.

 

4h30.

Os frutos da ordenha do dia anterior haviam sido processados e voltavam para Lot, dessa vez em caixas de papelão e não em latas de aço galvanizado, com o rótulo colorido dos Laticínios Slewfoot Hill. O pai de Charles Griffen vendera seu próprio leite, mas aquilo não era mais viável. Os conglome­rados haviam devorado os últimos independentes.

O leiteiro da Slewfoot Hill na parte oeste de Salem, Irwin Purinton, começava seu trajeto pela rua Brock (conhecida na cidade como via Brock ou Aquela Maldita Buraqueira). Depois passava pelo centro da cidade e saía de novo dela pela via Brooks.

Win fizera 6l anos em agosto, e pela primeira vez sua aposentadoria parecia real e possível. Sua mulher, uma megera odiosa chamada Elsie, morrera no outono de 1973 (partir antes fora a única atenção que ela tivera com ele em 27 anos de casamento), e quando se aposentasse, ele pegaria o cachorro, um mestiço de cocker chamado Doc, e mudaria para Pemaquid Point. Planejava dormir até as nove todos os dias e nunca mais ver um nascer do sol.

Ele parou em frente à casa dos Norton e encheu seu cesto de metal com a entrega da família: suco de laranja, dois litros de leite, uma dúzia de ovos. Ao sair da perua, sentiu uma pontada no joelho, mas fraca. O dia seria bom.

Ele viu um acréscimo na encomenda habitual da Sra. Norton, escrito com a letra redonda e cultivada de Susan: “Por favor, deixe um creme de leite pequeno, Win. Obrigada.”

Purinton voltou à perua para buscar o creme, pensando que seria um daqueles dias em que todo mundo quer algo especial. Creme de leite! Provou o negócio uma vez e sentiu vontade de vomitar.

O céu começava a clarear no leste e, nos campos que se estendiam até a cidade, o denso orvalho brilhava como uma fortuna em diamantes.

 

5hl5.

Eva Miller já estava de pé há vinte minutos, usando um gasto vestido caseiro e frouxos chinelos cor-de-rosa. Preparava seu café da manhã — quatro ovos mexidos, oito fatias de bacon, uma porção de batatas fritas. Reforçava esse humilde repasto com duas torradas com geléia, um copo de suco de laranja e duas xícaras de café com creme para terminar. Era uma mulher grande, embora não exatamen­te gorda. Sempre trabalhara demais em sua pensão para chegar a ser gorda. Seu corpo tinha curvas heróicas, rabelaisianas. Vê-la em ação diante do fogão elétrico de oito bocas era como ver os movimen­tos agitados da maré ou a migração de dunas.

Ela gostava de fazer a refeição matinal em total solidão, planejando as tarefas do dia. E havia muito a fazer — quarta-feira era o dia de trocar as roupas de cama. Ela estava com nove pensionistas, contando o novo, o Sr. Mears. A casa tinha três andares e 17 quartos, e era preciso lavar os pisos, esfregar as escadas, encerar o corrimão e virar o tapete na sala comunitária. Pediria que Weasel Craig a ajudasse, se ele não estivesse curando uma bebedeira.

A porta de trás abriu no momento em que ela sentou à mesa.

— Oi, Win. Como vai?

— Mais ou menos. O joelho está incomodando um pouco.                                        

— Que pena. Quer deixar mais um litro de leite e quatro litros daquela limonada?

— Claro — disse ele, resignado. — Eu sabia que o dia seria assim.

Ela atacou os ovos, ignorando o comentário. Win Puriton sempre encontrava motivo para se queixar. E no entanto, era para ser o homem mais feliz do mundo desde que aquela bruxa com quem ele se juntara caiu da escada do porão e quebrou o pescoço.

Às 5h45, quando ela terminava a segunda xícara de café e fumava um Chesterfield, o Press-Herald foi jogado na parede da casa e caiu nas roseiras. Era a terceira vez naquela semana; o filho dos Kilby tinha dado para isso. Entregar jornais devia estar fazendo mal para sua cabeça. Ela deixaria o jornal lá por enquanto. A primeira luz da manhã, fino e precioso ouro, entrava, oblíqua, pelas janelas. Era a melhor hora do dia, e ela não perturbaria sua paz por nada.

Seus pensionistas podiam usar o fogão e a geladeira — estava incluído no aluguel, como a troca da roupa de cama — e em breve a paz seria interrompida quando Grover Verrill e Mickey Sylvester descessem para engolir o cereal com leite antes de partirem para a fábrica de tecidos em Gate Falls, onde trabalhavam.                                                                                            

Como se seus pensamentos tivessem evocado esse momento, a descarga do banheiro no segun­do andar foi acionada e Eva ouviu as pesadas botas de trabalho de Sylvester nas escadas.

Ela se levantou pesadamente e foi resgatar o jornal.

 

6h05.                                                                                    

O choro miúdo do bebê penetrou o sono superficial de Sandy McDougall, e ela levantou para ver o filho com os olhos ainda turvos e fechados. Bateu a canela na mesa-de-cabeceira e exclamou:

— Caca!

O bebê, ouvindo-a, chorou mais alto.

— Cale a boca! — gritou ela. — Já estou indo!                                          

Ela cruzou o estreito corredor do trailer até a cozinha, uma moça esguia que perdia a pouca e marginal beleza que um dia tivera. Tirou a mamadeira de Randy da geladeira, pensou em esquentá-la, mas mudou de idéia. Se você quer tanto, meu chapa, tome gelada mesmo.

Ela foi para o quarto do menino e o olhou com frieza. Tinha dez meses, mas era doentio e choroso. Engatinhava há apenas um mês. Talvez tivesse pólio ou algo assim. E agora tinha algo em suas mãos, e na parede também. Ela avançou, pensando o que ele andara aprontando, minha Nossa Senhora.

Ela tinha 17 anos, e havia completado um ano de casamento em julho. Quando se casara com Royce McDougall, grávida de seis meses e parecendo o dirigível da Goodyear, o casamento lhe parecera uma bênção, como dissera o padre Callahan — uma saída de emergência. Agora parecia apenas um monte de caca.

E era exatamente isso, ela notou com desespero, que Randy espalhara nas mãos, na parede e nos cabelos.

Ela ficou parada, olhando-o estupidamente, segurando a mamadeira gelada.

Fora por isso que ela desistira do colégio, dos amigos, da esperança de se tornar modelo. Por aquele trailer decrépito escondido na Curva, a fórmica já descolando em tiras dos balcões, por um marido que trabalhava o dia todo na fábrica e saía de noite para beber e jogar pôquer com os amigos vagabundos do posto de gasolina. Por um filho que se parecia com seu inútil pai e espalhava caca por toda parte.

Ele chorava a plenos pulmões.

— Cale a boca!— ela gritou de repente, e atirou a mamadeira de plástico no menino, atingin­do-o na testa. Ele caiu de costas no berço, berrando e agitando os braços. Um círculo vermelho brotou logo abaixo da linha dos cabelos, e ela sentiu na garganta um horrível misto de satisfação, piedade e ódio. Arrancou-o do berço como se fosse um pedaço de trapo.

— Cale a boca! Cale a boca! Cale a boca!— Deu-lhe dois murros antes de conseguir se controlar e os gritos de dor de Randy se tornarem altos demais. Ele jazia no berço, ofegante, o rosto arroxeado.

— Desculpe — murmurou ela. — Ai, meu Deus do céu. Desculpe. Você está bem, Randy? Espere, mamãe vai te limpar.

Quando ela voltou com um pano úmido, os olhos de Randy haviam inchado e perdiam a cor. Mas aceitou a mamadeira e, quando ela começou a limpar seu rosto com o pano, ele lhe abriu um sorriso sem dentes.

Direi a Roy que ele caiu da mesa de trocar, pensou ela. Ele vai acreditar. Meu Deus, ele tem que acreditar.

 

6h45.

A maioria da população operária de ’salem’s Lot estava a caminho do trabalho. Mike Ryerson era um dos poucos que trabalhava na cidade. No relatório anual do município, ele aparecia como zelador das áreas verdes, mas na verdade era responsável pelos três cemitérios da cidade. No verão, era quase um trabalho em período integral. Mas, mesmo no inverno, não era bolinho, como alguns, entre eles o presunçoso George Middler da loja de ferragens, pareciam pensar. Ele trabalhava meio-período para Carl Foreman, o agente funerário da cidade, e a maioria dos velhos batia as botas no inverno.

Ele seguia para a via Burns em sua camionete, levando podadeiras, um aparador movido a bateria, uma caixa de flâmulas, um pé-de-cabra para levantar lápides tombadas, uma lata com dez galões de gasolina e dois cortadores de grama Briggs & Stratton.

Ele cortaria a grama do cemitério Harmony Hill naquela manhã, e faria os consertos necessários nas lápides e no muro de pedra. À tarde, ele cruzaria a cidade até o cemitério do monte do Pátio do Colégio, onde professores às vezes iam estudar as lápides, devido a uma extinta colônia de Shakers que haviam enterrado seus mortos lá. Mas Harmony Hill era seu preferido entre os três. Não era tão velho como o cemitério do monte do Pátio do Colégio, mas era agradável e sombreado. Esperava um dia ser enterrado lá também — dali a uns cem anos, mais ou menos.

Ele tinha 27 anos, e fizera três anos de faculdade ao longo de uma carreira bastante diversificada. Esperava voltar um dia e terminar o curso. Era bonitão e, com seu jeito aberto e agradável, não tinha a menor dificuldade em conhecer mulheres nas noites de sábado no Dell’s ou em Portland. Algumas ficavam desiludidas com seu emprego, coisa que Mike sinceramente não entendia. Era um trabalho agradável, sem patrões o vigiando o tempo todo, e era ao ar livre, sob o céu azul. E daí se ele às vezes abria algumas covas ou dirigia o carro funerário de Carl Foreman? Alguém tinha de fazer isso. Na cabeça dele, a única coisa mais natural do que a morte era o sexo.

Cantarolando, ele virou na rua Burns e engatou segunda marcha para subir o morro. A poeira seca crescia atrás dele. Entre a vegetação sufocada pelo calor ao longo da estrada, ele via os troncos esqueléticos das árvores queimadas no grande incêndio de 1951, como velhos ossos em decomposição. Ele sabia que lá se escondiam armadilhas mortais, onde os mais descuidados podiam quebrar a perna. Mesmo passados 25 anos, as cicatrizes do grande incêndio permaneciam. Bom, era assim mesmo. Em plena vida, a morte nos cercava.

O cemitério ficava no alto do morro, e Mike embicou na entrada para carros, pronto para sair e abrir o portão... e brecou a camionete bruscamente.

O corpo de um cão fora pendurado de cabeça para baixo no portão de ferro forjado, e seu sangue enlameava a terra embaixo.

Mike saiu da camionete e correu para o cachorro. Tirou as luvas de trabalho dos bolsos traseiros e levantou a cabeça do animal, que cedeu com horrível flacidez, e ele viu os olhos vazios e vidrados de Doc, o vira-lata de Win Purinton. O cão fora espetado num dos altos espigões do portão, como um pedaço de carne num gancho de metal. Moscas, lentas no frescor da manhã, já rastejavam preguiçosa­mente sobre a carcaça.

Mike puxou o corpo do animal com dificuldade até arrancá-lo, nauseado pelos sons molhados que acompanharam seus movimentos. Vandalismo em cemitérios não era novidade para ele, principal­mente na época do Halloween, mas ainda faltava um mês e meio para a festa, e ele nunca vira nada parecido antes. Geralmente eles se contentavam em derrubar algumas lápides, pichar algumas obsceni­dades ou pendurar um esqueleto de papel no portão. Mas, se aquela carnificina fora obra de moleques, que bando de canalhas... Win ia ficar arrasado.

Ele ficou pensando se levava o cachorro logo para a cidade e o mostrava a Parkins Gillespie, mas concluiu que não valia a pena. Era melhor levar o pobre Doc de volta quando fosse almoçar — não que ele fosse ter muito apetite naquele dia.

Ele destrancou o portão e olhou para as luvas, cobertas de sangue. Teria de limpar as barras de ferro do portão, e não daria mais para ir ao monte do Pátio do Colégio naquela tarde. Ele entrou e estacionou, sem cantarolar. O prazer se esvaíra do dia.

 

8h00.

Os lentos ônibus escolares faziam seus trajetos de costume, apanhando crianças que esperavam em frente de casa segurando as lancheiras e fazendo travessuras. Charlie Rhodes era um dos motoristas, e seu trajeto cobria a rua Taggart Stream, no leste de ’salem, e a metade superior da avenida Jointner.

As crianças que andavam no ônibus de Charlie eram as mais bem-educadas da cidade — de todo o distrito escolar, aliás. Ninguém gritava, nem fazia traquinagens, nem puxava rabos-de-cavalo no ônibus 6. Ou ficavam quietinhas e comportadas ou andavam os três quilômetros até a escola primária da rua Stanley e se explicavam na secretaria.

Sabia o que achavam dele, e imaginava perfeitamente do que o chamavam pelas costas. Mas não importava. Ele não admitiria nenhuma peraltice nem porcarias no seu ônibus. Essa parte eles podiam guardar para os molengas dos professores.

O diretor da escola tivera a audácia de lhe perguntar se não agira “impulsivamente” quando suspendeu o filho dos Durham por três dias só por falar alto demais. Charlie se limitou a encará-lo, até que o diretor, um pirralho formado há apenas quatro anos, desviou os olhos. O responsável pela frota de ônibus escolares do Distrito Escolar 21, David Felsen, era um velho amigo seu — haviam lutado juntos na Coréia. Eles se entendiam. Entendiam o que acontecia no país. Sabiam que o menino que “apenas falara alto demais” no ônibus escolar em 1958 era o mesmo que mijara na bandeira em 1968.

Ele deu uma olhadela no amplo espelho retrovisor e viu Mary Kate Griegson passando um bilhete a seu amiguinho, Brent Tenney. Amiguinho... Agora as crianças começavam com a sacanagem já na sexta série.

Ele parou o ônibus, ligando o pisca-pisca. Mary Kate e Brent levantaram os olhos, amedrontados.

— Vocês têm muito o que conversar? — perguntou para o espelho. — Então, podem ir começando.

Abriu as portas dobráveis e esperou que os dois dessem o fora de seu ônibus.

 

9h00.

Weasel Craig rolou para fora da cama — literalmente. O sol que entrava pela sua janela no segundo andar era ofuscante. Sua cabeça latejava. No andar de cima o tal do escritor já estava martelando as teclas. Santo Deus, era preciso ser muito maluco para ficar naquele tec-tec-tec, dia após dia.

Ele levantou e procurou o calendário em sua blusa para ver se era o dia de pegar o cheque de seguro desemprego. Não. Ainda era quarta-feira.

A ressaca não estava tão forte como outras vezes. Ele ficara no Dell’s até fechar, à uma, mas levara apenas dois dólares e não conseguira filar muita cerveja depois de gastá-los. Estou perdendo minha lábia, pensou, esfregando o rosto.

Ele vestiu a camiseta térmica que sempre usava, fosse inverno ou verão, as calças verdes de trabalho, e depois abriu o armário e pegou o café da manhã — uma garrafa de cerveja quente para tomar no quarto e uma caixa de aveia doada pelo governo para comer lá embaixo. Ele odiava aveia, mas prometera à viúva que a ajudaria a virar o tapete, e ela devia ter planejado outras tarefas para ele.

Ele não se importava, não muito, mas era um declínio em relação ao tempo em que dormira com Eva Miller. O marido dela morrera num acidente na serraria em 1959, o que foi até engraçado, se é que dá para achar engraçado um acidente horrível como aquele. Naquele tempo, a serraria empregava sessenta ou setenta homens, e Ralph Miller estava cotado para a presidência da serraria.

O que acontecera com ele foi meio engraçado porque Ralph Miller não encostava numa máquina desde 1952, sete anos antes, quando fora promovido de capataz para administrador. Era gratidão empresarial, sem dúvida, e Weasel supunha que Ralph fizera por merecer. Quando o grande incêndio saíra dos pântanos e tomara a avenida Jointner impulsionado por um vento leste de 50 quilômetros por hora, todos pensavam que era o fim da serraria. Os corpos de bombeiros de seis cidades vizinhas tinham que tentar salvar a cidade, e não podiam gastar tempo nem homens com a Serraria de Jerusalem’s Lot. Ralph Miller organizou todos os operários do segundo turno e formou uma brigada de incêndio. Sob sua direção, eles molharam o teto e fizeram o que todos os bombeiros reunidos não haviam conseguido fazer a oeste da avenida Jointner — criaram uma barreira que deteve o fogo e o desviou para o sul, onde foi totalmente contido.

Sete anos depois, ele caiu numa trituradora enquanto conversava com alguns executivos de uma companhia de Massachusetts. Ele lhes mostrava as instalações, tentando convencê-los a comprar ações. Mas escorregou numa poça d’água e, por azar, caiu dentro da trituradora diante dos olhos deles. Obviamente qualquer possibilidade de um negócio foi para o brejo junto com Ralph Miller. A serraria que ele salvara em 1951 fechou para sempre em fevereiro de 1960.

Weasel olhou para o espelho salpicado de água e penteou os cabelos brancos, ainda revoltos e sexy aos 67 anos. Era a única parte dele que o álcool parecia conservar. Depois vestiu a camisa de trabalho cáqui, pegou a caixa de aveia e desceu.

E lá estava ele, quase 16 anos depois que tudo acontecera, trabalhando como um reles zelador para uma mulher com quem já deitara — uma mulher que ele ainda achava tremendamente atraente.

A viúva caiu em cima de Weasel como um abutre assim que ele entrou na cozinha ensolarada.

— Escute, será que você pode encerar o corrimão da frente depois de tomar café, Weasel? Você tem tempo? — Eles conservavam a delicada ficção de que ele fazia aquilo como favores, e não para pagar os 14 dólares por semana do aluguel do quarto.

— Claro, Eva.

— E o tapete da sala da frente...

— Precisa ser virado. Eu lembro.

— Como está sua cabeça hoje? — ela fez a pergunta de modo prático, evitando demonstrar qualquer sentimento de piedade, mas ele o percebeu assim mesmo.

— Está boa — disse, meio ofendido, fervendo água para o mingau de aveia.

— Você chegou tarde. Por isso estou perguntando.

— Está de olho em mim, não é? — Ele ergueu a sobrancelha com malícia e se alegrou ao ver que ela ainda era capaz de corar como uma colegial, mesmo que tivessem parado com gracinhas há quase nove anos.

— Ora, Ed...

Ela era a única que ainda o chamava assim. Para o resto dos habitantes de Lot ele era apenas o Weasel. Mas tudo bem. Eles podiam chamá-lo do que bem quisessem. O urso o pegara, com certeza.

— Deixe para lá — disse ele, bruscamente. — Acordei do lado errado da cama.

— Caiu dela, pelo barulho. — Eva falou mais rapidamente do que pretendera, mas Weasel apenas resmungou. Ele cozinhou e comeu o odioso mingau de aveia e saiu com a lata de cera para móveis e os trapos sem olhar para trás.

No andar de cima, o tec-tec da máquina de escrever continuava. Vinnie Upshaw, cujo quarto ficava em frente ao do escritor, disse que ele começava todas as manhãs às nove, parava ao meio-dia, recomeçava às três, parava às seis, começava de novo às nove e prosseguia sem parar até a meia-noite. Weasel não conseguia imaginar como alguém podia ter tantas palavras na cabeça.

No entanto, ele parecia um sujeito decente, e podia render algumas cervejas no Dell’s uma noite daquelas. Ouvira dizer que escritores bebiam como condenados.

Ele começou a lustrar o corrimão metodicamente, e seus pensamentos voltaram para a viúva. Ela transformara a casa numa pensão com o seguro de vida do marido, e se saíra muito bem. E por que não? Ela trabalhava como uma mula. Mas devia ter se acostumado a deitar todas as noites com o marido, e, depois que a dor passara, a necessidade continuara. Meu Deus, como ela mostrara gosto pela coisa!                                                                                                   

Naquele tempo, em 1961 e 62, as pessoas ainda o chamavam de Ed e não de Weasel, e ele ainda controlava a garrafa, e não o contrário. Tinha um bom emprego na B&M, e uma noite, em janeiro de 1962, acontecera.

Ele parou um pouco de lustrar a maçaneta e olhou, pensativo, pela estreita janelinha do patamar do segundo andar. Por ela entravam os últimos raios dourados e risonhos do verão, desafiando o frio outono e o rigoroso inverno que viriam depois.

Naquela noite, tanto ela como ele se quiseram, e depois, deitados na escuridão do quarto, ela começara a chorar e lhe dissera que haviam feito algo errado. Ele lhe dissera que fora certo, sem saber se fora certo ou não e sem se importar, e o vento norte uivara e gritara em torno do telhado, e o quarto dela era quente e seguro, e eles acabaram dormindo juntos, como talheres numa gaveta.

Ah, meu Menino Jesus, o tempo era como um rio, e ele se perguntou se o tal escritor sabia disso.

Voltou a lustrar o corrimão, com movimentos longos e impetuosos.

 

l0h00.

Era hora do recreio na escola primária da rua Stanley, o mais novo e imponente prédio escolar de Lot. Era uma construção baixa e vítrea, com quatro salas de aula, que o distrito escolar ainda estava pagando — tão luminosa, nova e moderna como a escola da rua Brock era velha e escura.

Richie Boddin, o valentão da escola (com muito orgulho) saiu para o pátio majestosamente, procurando pelo menino novo, um espertinho que sabia todas as respostas de matemática. Nenhum menino novo podia ir entrando na sua escola sem antes saber quem mandava lá. Principalmente um quatro-olhos puxa-saco e maricas como aquele.

Richie tinha 11 anos e pesava 70 quilos. Durante toda a vida, sua mãe chamara a atenção de todos para como seu filho era um menino enorme. E ele sabia que era grande. Às vezes lhe pare­cia sentir o chão tremer sob seus pés quando andava. E, quando crescesse, fumaria Camel, igualzinho a seu pai.

As crianças da quarta e quinta séries morriam de medo dele, e os menorezinhos o viam como um totem da escola. Quando ele passasse para a sétima série e fosse para a escola da rua Brock, o panteão deles perderia o demônio. Tudo isso o enchia de satisfação.

E lá estava o pequeno Petrie, esperando ser escolhido para um dos times de futebol.

— Ei! — gritou Richie.

Todos olharam, exceto Petrie. Cada par de olhos parecia vidrado e cada par de olhos revelou alívio quando viu que os de Richie não se fixavam neles.

— Ei, você, quatro-olhos!                                             

Mark Petrie virou-se e olhou para Richie. Seus óculos de aros de aço faiscaram no sol da manhã. Tinha a altura de Richie, sendo, portanto, mais alto do que os outros meninos da classe, mas era esguio e seu rosto parecia indefeso e letrado.

— Você falou comigo?

— “Você falou comigo?” — imitou Richie, em falsete. — Você parece uma bichinha falando, quatro-olhos. Sabia?

— Não, não sabia — disse Mark Petrie.

Richie deu um passo adiante.

— Aposto que você gosta de chupar, sabia, quatro-olhos? Aposto que você gosta de fazer chupeta.

— É mesmo? — Seu tom educado era enfurecedor.

— É, ouvi dizer que você gosta. E não só às quintas. Você não vive sem. É todo dia.

As crianças se aproximavam aos poucos para ver Richie massacrar o menino novo. A Srta. Holcomb, que supervisionava o pátio aquela semana, estava na frente, vigiando os pequenos nos balanços e gangorras.                         

— Qual é a sua? — Mark Petrie perguntou. Ele olhava para Richie como se tivesse descoberto um interessante besouro.

— “Qual é a sua?” — Richie imitou em falsete. — Não é da sua conta. Só ouvi dizer que você é uma bicha louca, só isso.

— Sério? — Mark perguntou, ainda educado. — E eu ouvi dizer que você é um cretino burro e desengonçado.

Silêncio total. Os outros meninos ficaram boquiabertos (mas interessados; era a primeira vez que viam alguém assinar sua própria sentença de morte). Richie, pego de surpresa, ficou tão atônito como os outros.

Mark tirou os óculos e os entregou ao menino a seu lado.

— Segure, por favor.

O menino os pegou e olhou para Mark em silêncio reverente.

Richie atacou. Foi um golpe lento e pesado, sem um pingo de graça ou sutileza. O chão tremeu sob seus pés. Ele estava cheio de confiança e de vontade de bater e quebrar. Armou o soco direitinho, de modo a acertar o quatro-olhos bem na boca e fazer seus dentes voarem como teclas de piano. Prepare-se para o dentista, florzinha. Lã vou eu.

Mark Petrie abaixou-se e desviou a tempo de fazer o soco passar por cima de sua cabeça. Richie se desequilibrou com a força de seu próprio golpe, e Mark só precisou estender o pé. Richie Boddin desabou no chão com um grunhido. A platéia de crianças fez “Aaah”.

Mark sabia muito bem que se o grandalhão recuperasse a vantagem, ele seria espancado. Era ágil, mas a agilidade não adiantava muito numa briga de colégio. Se fosse uma briga de rua, aquela seria a hora de correr, deixar o lento adversário para trás e depois virar e lhe mostrar a língua. Mas não estava na rua nem na cidade grande, e ele sabia que se não derrotasse aquele brutamontes cretino naquela hora, a perseguição não teria fim.

Esses pensamentos passaram por sua cabeça numa fração de segundo.

E ele saltou sobre as costas de Richie Boddin.

Richie grunhiu. A platéia fez “Aaah” de novo. Mark agarrou o braço de Richie, sobre a manga da camisa para que ele não escorregasse e se soltasse, e o torceu sobre suas costas. O grandalhão gritou de dor.

— Peça penico — disse Mark.

A resposta de Richie teria agradado a um marinheiro de vinte anos.

Mark puxou o braço de Richie até as omoplatas e ele gritou de novo. Estava cheio de indigna­ção, medo e perplexidade. Aquilo nunca lhe acontecera antes. Não podia estar acontecendo agora. Nenhum florzinha quatro-olhos podia estar sentado nas suas costas, torcendo seu braço e o obrigando a gritar diante de seus súditos.

— Peça penico — repetiu Mark.

Richie se ergueu penosamente sobre os joelhos. Mark apertou seus próprios joelhos ao redor do outro menino, como se montasse um cavalo a pêlo. Ambos estavam cobertos de poeira, mas p estado de Richie era bem mais lastimável. Seu rosto estava vermelho e tenso, seus olhos saltavam para fora e tinha um arranhão na bochecha.

Richie tentou derrubar Mark por cima dos ombros, mas o menino puxou seu braço para cima de novo. E dessa vez Richie não gritou — urrou.

— Peça penico, ou vou acabar quebrando seu braço.

A camisa de Richie escapara de dentro das calças. Sua barriga estava quente e arranhada. Ele começou a soluçar e a sacudir os ombros, tentando se libertar. Mas o detestável quatro-olhos continua­va em cima dele. Sentia o braço gelado, o ombro pegando fogo.

— Sai de cima de mim, seu filho-de-uma-puta! Você não briga limpo!

Uma explosão de dor.

— Peça penico.

— Não!

Ele perdeu o equilíbrio e caiu de cara na poeira. A dor em seu braço era paralisante. Ele comia poeira. Entrava terra em seus olhos. Ele agitava as pernas, impotente. Esquecera que era enorme. Esquecera que a terra tremia sob seus pés. Esquecera que fumaria Camel, igualzinho a seu pai, quando crescesse.

— Penico! Penico! Penico! — Richie gritou. Poderia gritar penico durante horas, dias, para libertar o braço.

— Diga, sou um cretino feio e burro.

— Sou um cretino feio e burro! — gritou Richie, com a boca contra o chão.

— Está bem.

Mark Petrie saiu de cima de Richie e, enquanto este se levantava, andou até uma distância segura. Suas coxas doíam de tanto que as havia apertado. Torcia para que Richie não tivesse mais forças para brigar. Caso contrário, seria esmagado.

Richie levantou. Olhou ao redor. Todos desviaram os olhos. Deram-lhe as costas e voltaram para aquilo que faziam antes. O miserável do Glick estava ao lado do florzinha, olhando-o como se fosse um deus.

Richie mal podia acreditar na rapidez com que a ruína se abatera sobre ele. Seu rosto estava coberto de poeira, com a exceção dos sulcos abertos por suas lágrimas de raiva e vergonha. Pensou em se lançar contra Mark Petrie, mas o vexame e o medo, imensos agora, não permitiram. Não ainda. Seu braço latejava como um dente cariado. Filho-de-uma-puta. Quando eu colocar as mãos em você...

Mas não naquele dia. Ele se virou, e quando se afastou, o chão não tremeu nem um pouco. Olhou pra baixo para não precisar olhar para ninguém.

Alguma menina soltou um riso — um som agudo e escarnecedor que se espalhou com cruel nitidez no ar da manhã.

Ele não levantou os olhos para ver quem era.

 

11h15

O Depósito de Lixo de Jerusalem’s Lot havia sido uma simples cascalheira até o solo argiloso ter aparecido e gerado lucros em 1945. Ficava no fim de um desvio que saía da estrada Burns três quilômetros depois do cemitério Harmony Hill.

Dud Rogers ouvia o distante resfolegar do cortador de grama de Mike Ryerson mais à frente. Mas aquele som logo seria abafado pelo crepitar das chamas.

Dud era o zelador do depósito desde 1956, e sua renomeação a cada ano na reunião de eleitores era rotineira e unânime. Ele morava num limpo galpão de encerado, com uma placa dizendo “Zelador” pendurada na porta inclinada. Conseguira arrancar um aquecedor portátil dos mesquinhos membros do conselho municipal três anos antes, e deixara seu apartamento na cidade para sempre.

Além de corcunda, sua cabeça se inclinava num ângulo peculiar, como se Deus tivesse lhe dado um último e atrevido puxão antes de colocá-lo no mundo. Seus braços, que pendiam de modo simiesco quase até os joelhos, eram espantosamente fortes. Fora preciso quatro homens para colocar o velho cofre da loja de ferragens no caminhão e levá-lo até o depósito quando o estabelecimento fora reformado. Os pneus do caminhão haviam afundado consideravelmente quando recebeu a carga. Mas Dud Rogers o tirara da carroceria sozinho, tendões se projetando do pescoço, veias inchando na testa, antebraços e bíceps como cabos azuis. E o empurrara para o fundo do depósito sozinho.

Dud gostava do depósito. Gostava de expulsar as crianças que iam até lá quebrar garrafas, gostava de dirigir o trânsito para o local onde estava sendo depositado o lixo em determinado dia. Gostava de remexer no lixo, que era seu privilégio como zelador. Supunha que riam dele, andando pelas montanhas de entulho com botas altas e impermeáveis e luvas de couro, a pistola no coldre, um saco sobre os ombros, o canivete na mão. Que rissem. Lá ele encontrava fios de cobre e às vezes motores inteiros com o revestimento de cobre intacto, e o metal alcançava um bom preço em Portland. Encontrava cômodas, cadeiras e sofás semidestruídos, que consertava e vendia para antiquários na Rota 1. Dud enganava os lojistas e estes, por sua vez, enganavam os turistas, o que provava como o mundo sabia dar suas voltas. Dois anos antes, ele encontrara uma antiga cama com detalhes em espiral, mas com o estrado quebrado, e a vendera para uma bicha de Wells por duzentos dólares. O veado entrara em êxtase, achando que fosse uma autêntica cama da Nova Inglaterra, sem desconfiar que Dud lixara cuidadosamente a inscrição Made in Grand Rapids de trás da cabeceira.

Nos fundos do depósito ficavam os carros velhos — Buicks, Fords, Chevrolets, tinha de tudo. Os donos os jogavam fora desprezando peças em ótimo estado. Os radiadores eram os melhores, mas um bom carburador de quatro canos rendia sete dólares depois de mergulhado em gasolina. Sem falar nas correias de ventilador, lanternas traseiras, capas de distribuidor, pára-brisas, volantes e tapetes.

Sim, o depósito era legal. Uma mistura de Disneylândia e Shangri-lá. Mas o melhor não era nem o dinheiro, guardado na caixa preta enterrada debaixo de sua poltrona.

O melhor eram as fogueiras — e os ratos.

Dud incendiava parte do depósito nas manhãs de domingo e quarta e nas tardes de segunda e sexta. As fogueiras noturnas eram as mais bonitas. Ele adorava o brilho rosado e fosco que escapava dos plásticos verdes de detritos, dos jornais e das caixas. Mas as fogueiras matinais eram melhores em termos de ratos.

Agora ele estava na poltrona, observando o fogo se expandir e começar a manchar o ar com sua viscosa fumaça preta, espantando as gaivotas. Segurava a pistola calibre 22 frouxamente e esperava a saída dos ratos.

Quando eles vinham, era em batalhões. Eram grandes, de um cinza sujo e olhos cor-de-rosa. Pequenas pulgas e carrapatos saltitavam em seu couro. Arrastavam as caudas como grossos fios rosados. Dud adorava atirar nos ratos.

— Você comprou uma bela carga de balas, Dud — George Middler, da loja de ferragens, dizia com sua voz pegajosa, empurrando as caixas de Remingtons para ele. — A prefeitura paga?

Era uma velha piada. Alguns anos antes, Dud fizera uma ordem de compra de dois mil cartuchos calibre 22 de ponta oca, e Bill Norton fechara a cara e o mandara às favas.

— Escute, George — dizia Dud —, você sabe que só estou prestando um serviço público.

Veja aquele gordão, mancando com a pata traseira. Aquele era George Middler. Tinha algo na boca que parecia um pedaço de fígado de galinha.

— Lá vai, George. Esta é para você — disse Dud, e apertou o gatilho. A explosão do 22 era curta e discreta, mas o rato rolou duas vezes e parou, se contorcendo. Balas de ponta oca, essas eram as melhores. Um dia ele compraria uma .45 ou uma .357 Magnum de diâmetro grande para ver o que fariam com aqueles viadinhos.

A próxima era aquela putinha da Ruthie Crockett, que não usava sutiã para ir à escola e vivia cutucando os amigos e dando risinhos quando ele passava. Bang. Tchauzinho, Ruthie.

Os ratos corriam loucamente para se proteger no outro lado do depósito, mas, antes que escapassem, Dud acertara seis deles — uma boa safra matinal. Se ele chegasse perto, veria os carrapatos fugindo dos corpos que esfriavam como... ora, como ratos fugindo de um navio afundando.

Ele achava aquele passatempo incrivelmente divertido, e atirou para trás a cabeça enviesada, recostou a corcunda e deu longas gargalhadas enquanto o fogo crepitava entre os detritos com ávidos dedos alaranjados.

A vida era mesmo uma festa.

 

12h00.

O apito da cidade soou ao meio-dia com alarde, anunciando a hora do almoço para as três escolas e inaugurando a tarde. Lawrence Crockett, o segundo membro do conselho de Lot e proprietá­rio da Imobiliária Southern Maine, largou o livro que estava lendo (As Escravas Sexuais de Satã) e acertou o relógio pelo apito. Foi até a porta e pendurou a placa “Volto à uma hora” na maçaneta. Sua rotina era sempre a mesma. Andava até o Excellent Café, comia dois cheeseburguers, tomava uma xícara de café e contemplava as pernas de Pauline enquanto fumava um William Penn.

Balançou a maçaneta para ver se a tranca fechara e seguiu para a avenida Jointner. Parou na esquina e olhou para a Casa Marsten. Havia um carro na entrada. Mal podia discerni-lo, brilhando na distância. A visão lhe causou um aperto no peito. Ele vendera a Casa Marsten e a extinta Lavanderia da Vila num só pacote havia mais de um ano. Fora o negócio mais estranho de sua vida, e olha que ele já fizera negócios bem esquisitos. O dono do carro era, com toda a certeza, um homem chamado Straker. R. T. Straker, de quem ele recebera uma correspondência naquela manhã mesmo.

Ele chegara ao escritório de Crockett numa ensolarada tarde de julho havia mais de um ano. Saiu do carro e ficou um instante na calçada antes de entrar. Era alto e vestia um sóbrio terno de três peças, apesar do calor. Era careca como uma bola de bilhar, e igualmente imune ao suor. Suas sobrancelhas eram um risco negro, e sob elas as órbitas dos olhos pareciam buracos escuros abertos em seu rosto angular com uma broca. Tinha consigo uma fina pasta preta. Larry estava sozinho no escritório. Sua secretária, uma moça de Falmouth com o mais belo par de peitos do mundo, trabalhava para um advogado de Gates Fall na parte da tarde.

O careca sentou-se na cadeira reservada ao cliente, pousou a pasta no colo e encarou Larry Crockett. Era impossível decifrar a expressão de seus olhos, e aquilo incomodou Larry. Gostava de conseguir ler as intenções das pessoas antes mesmo que elas abrissem a boca. Aquele homem não olhara as fotos das propriedades locais exibidas no mural, não estendera a mão e se apresentara — nem sequer dissera olá.

— Como posso servi-lo? — perguntou Larry.

— Fui incumbido de comprar uma residência e um estabelecimento comercial em sua aprazível cidade — disse o careca. Falava com uma voz plana e monótona que fazia lembrar as informações meteorológicas da companhia telefônica.

— Ora, com prazer — disse Larry. — Temos várias excelentes propriedades que talvez...

— Não é preciso — disse o careca, levantando a mão. Larry notou, fascinado, que os dedos dele eram incrivelmente longos, o dedo médio parecia ter mais de dez centímetros. — O estabelecimento comercial fica uma quadra depois do Paço Municipal, de frente ao parque.

— Pois não, podemos fazer negócio. Era uma lavanderia, mas faliu o ano passado. Pode ficar um imóvel muito bom se o senhor...

— A residência — interrompeu-o o careca — é a que os moradores chamam de Casa Marsten. Larry tinha experiência o bastante no ramo para disfarçar sua surpresa e perplexidade.

— É mesmo?

— É. Meu nome é Straker. Richard Throckett Straker. Todos os papéis estarão no meu nome.

— Está bem — disse Larry. O homem falava sério, não havia dúvida. — Meus clientes estão pedindo 14 mil pela Casa Marsten, mas acho que aceitam um pouco menos. Quanto à velha lavanderia...

— Nada feito. Fui autorizado a pagar um dólar.

— Um...? — Larry inclinou a cabeça para frente como se não tivesse ouvido direito.

— Sim. Um momento, por favor.

Os longos dedos de Straker abriram os fechos da pasta e tiraram vários papéis contidos numa pasta azul transparente.

Larry Crockett olhou-o, franzindo a testa.

— Leia, por favor. Assim pouparemos tempo.

Larry abriu a pasta plástica e olhou para a primeira folha com o ar de um homem que faz a vontade de um louco. Seus olhos foram de um lado para o outro por algum tempo, mas depois se fixaram em algo.

Straker esboçou um sorriso. Tirou do bolso do terno uma cigarreira dourada e pegou um cigarro. Bateu-o na mesa e o acendeu com um fósforo. O aroma forte do tabaco turco espalhou-se pela sala, movido pelo ventilador.

Fez-se um silêncio de dez minutos no escritório, interrompido apenas pelo murmúrio do venti­lador e pelo barulho surdo do tráfego na rua. Straker fumou o cigarro até o toco, esmagou as cinzas incandescentes e acendeu outro.

Larry levantou os olhos, o rosto pálido e abalado.

— Só pode ser uma piada. Quem o mandou? John Kelly?

— Não conheço nenhum John Kelly. E não sou de piadas.

— Esses papéis... documento de cessão... título de propriedade... Santo Deus, não sabe que aquele terreno vale um milhão e meio de dólares?

— Não o subestime — disse Straker com frieza. — Vale quatro milhões. E logo valerá mais, quando o shopping for construído.

— O que você quer? — perguntou Larry, com voz rouca.

— Já disse o que quero. Meu sócio e eu planejamos abrir um negócio na cidade. E morar na Casa Marsten.

— Que tipo de negócio? Assassinato e Companhia?

Straker abriu um sorriso frio.

— Uma loja de móveis perfeitamente normal. Com uma linha de antigüidades especiais para colecionadores. Meu sócio é especialista nessa área.

— Merda — disse Larry asperamente. — A Casa Marsten vocês podem levar por oito milhões e meio, a loja, por 16. Seu sócio deve saber disso. E os dois devem saber que esta cidade não vai sustentar uma loja chique de móveis e antigüidades.

— Meu parceiro é muito versado em todos os assuntos que lhe interessam — disse Straker. — Sabe que a cidade fica numa estrada usada por turistas e veranistas. É com essas pessoas que esperamos fazer o grosso dos nossos negócios. Mas isso não lhe diz respeito. Viu se os papéis estão em ordem?

Larry tamborilou na mesa com a pasta azul.

— Parece que estão. Mas você não vai me passar a perna, não importa o que diz querer.

— Não, claro que não. — A voz de Straker estava carregada de polido desdém. — O senhor tem um advogado em Boston, creio eu. Um tal de Francis Walsh.

— Como sabe disso? — vociferou Larry.

— Não importa. Mostre-lhe os papéis. Ele confirmará que são válidos. O terreno onde o shopping center será construído passará a ser seu sob três condições.

— Ah — disse Larry, aliviado. — Condições... — Ele recostou na cadeira e tirou um William Penn da charuteira de cerâmica que tinha sobre a mesa. Acendeu um fósforo na sola do sapato e deu uma baforada. — Agora estamos chegando a algum lugar. Pode falar.                                   

— Primeiro. O senhor me venderá a Casa Marsten e o estabelecimento comercial por um dólar. Seu cliente, no que diz respeito à casa, é uma corporação imobiliária em Bangor. O estabelecimento comercial pertence agora a um banco de Portland. Creio que as duas partes concordarão se o senhor pagar a diferença ao preço mais baixo possível. Fora sua comissão, é claro.

— Onde conseguiu essas informações?

— Isso não lhe diz respeito, Sr. Crockett. Segunda condição. O senhor não dirá nada sobre nossa transação. Nada. Se o assunto vier à tona, o senhor só sabe o que eu lhe disse: somos dois sócios que vão abrir um negócio destinado a turistas e veranistas. Isso é muito importante.

— Não sou fofoqueiro.

— Seja como for, quero enfatizar a importância dessa condição. Chegará um dia, Sr. Crockett, em que desejará contar a alguém sobre o negócio maravilhoso que fez hoje. Se contar, vou descobrir. E vou arruiná-lo. Entendeu?

— Você parece um personagem de um suspense barato — disse Larry. Parecia sereno, mas sentia um secreto tremor de medo. Ele dissera “vou arruiná-lo” como quem diz “boa-tarde”, e esse tom trivial deu à ameaça um sabor de verdade. E como aquele palhaço sabia de Frank Walsh? Nem sua mulher sabia de Frank Walsh.

— Entendeu, Sr. Crockett?

— Entendi — disse Larry. — Estou acostumado a não mostrar as cartas.

Straker abriu o mesmo sorriso tênue.

— Claro. Por isso estou negociando com você.

— A terceira condição?

— A casa precisará de certas reformas.

— É um modo gentil de dizer — disse Larry secamente.  

— Meu sócio pretende se encarregar disso pessoalmente. Mas o senhor será seu agente. De vez em quando, faremos pedidos. De vez em quando, precisarei dos serviços dos homens que costuma empregar para levar certas coisas até a casa ou até a loja. Não falará a ninguém desses serviços. Entendeu?

— Sim, entendi. Mas o senhor não é dessas bandas, não é?

— Isso tem alguma pertinência? — perguntou Straker erguendo as sobrancelhas.

— Claro que tem. Não estamos em Boston ou Nova York. Não adianta só eu ficar de bico calado. As pessoas vão comentar. Por exemplo, tem uma velha xereta na rua da Ferrovia, Mabel Werts, que passa o dia com um binóculo...

— Não estou interessado nos moradores. Meu sócio não está interessado nos moradores. Eles sempre comentam. São iguais aos pássaros sobre os fios telefônicos. Logo nos aceitarão.

Larry deu de ombros.

— A festa é sua.

— Exato — concordou Straker. — O senhor pagará por todos os serviços e guardará todas as contas e faturas. E será reembolsado. Concorda?

Larry estava, como dissera a Straker, acostumado a não mostrar as cartas, e tinha fama de ser um dos melhores jogadores de pôquer de Cumberland. Embora tivesse mantido uma fachada calma durante toda a conversa, ele queimava por dentro. O negócio que aquele louco lhe oferecia era do tipo que só aparecia uma vez na vida, quando aparecia. Talvez o patrão dele fosse um daqueles bilionários loucos e reclusos que...

— Sr. Crockett. Estou esperando.

— Eu também tenho duas condições — disse Larry.

— Sim? — Straker mostrou um interesse educado.

Ele agitou a pasta azul.

— Primeiro, esses papéis têm que estar corretos.

— É claro.

— Segundo, se pretendem fazer algo ilegal lá em cima, não quero ficar sabendo. Estou me referindo a...

Mas foi interrompido. Straker jogou a cabeça para trás e deu uma risada singularmente fria e sem emoção.

— Eu disse algo engraçado? — perguntou Larry, sem sombra de sorriso.

— Ah... claro que não, Sr. Crockett. Perdoe minha explosão. Achei seu comentário engraçado por razões próprias. O que ia dizendo?

— Sobre as reformas. Não vou lhe arranjar nada que me cause encrencas. Se está planejando fabricar bebida ilegal, LSD ou explosivos para algum grupo hippie radical, você que se arranje.

— Concordo — disse Straker. — O sorriso sumira de seu rosto. — Negócio fechado?

Com uma estranha relutância, Larry disse:

— Se estes papéis estiverem certos, acho que faremos negócio. Embora pareça que você fez toda a negociação e eu fiquei com todo o dinheiro.                                                       

— Hoje é segunda — disse Straker. — Posso passar na quinta à tarde?

— É melhor vir na sexta.

— Muito bem. — Ele levantou. — Bom-dia, Sr. Crockett.

Os papéis estavam corretos. O advogado de Larry disse que o terreno onde o shopping center de Portland seria construído fora comprado por um grupo chamado Imobiliária Continental, uma compa­nhia falsa com escritórios no prédio Chemical Bank, em Nova York. Não havia nada neles além de alguns arquivos vazios e muita poeira.

Straker voltara naquela sexta e Larry assinou a escritura do terreno. Mas o fez com um gosto amargo na boca. Ele abandonara sua própria máxima pela primeira vez na vida: nunca cuspa no prato que comeu. E, embora a recompensa fosse alta, ele percebeu, quando Straker guardou os documentos de posse da Casa Marsten e da antiga Lavanderia Village na pasta, que acabara de se colocar nas mãos daquele homem. E do seu sócio, o ausente Sr. Barlow.

O mês de agosto passara, e o verão se tornara outono, e o outono, inverno, e ele começara a sentir um indefinível sentimento de alívio. Na primavera, ele já quase esquecera o negócio que fizera para conseguir os papéis que agora jaziam em seu cofre em Portland.

E então as coisas começaram a acontecer.

Aquele escritor, Mears, procurou-o havia uma semana e meia perguntando se a Casa Marsten estava para alugar, e o olhara de um modo estranho quando lhe disse que fora vendida.

No dia anterior, encontrara um longo tubo em sua caixa de correio e uma carta de Straker. Um bilhete, na verdade, dizendo: ‘‘Por favor, prenda o cartaz que está recebendo na vitrine da loja. R. T. Straker.” O cartaz em si era bastante comum, e mais discreto que a maioria. Dizia apenas: “Abriremos em uma semana. Barlow & Straker. Móveis finos e antigüidades. Venha nos conhecer.” Ele chamou Royal Snow para colocá-lo imediatamente.

E agora havia um carro na entrada da Casa Marsten. Ele ainda a olhava quando alguém disse a seu lado:

— Está dormindo em pé, Larry?

Ele deu um salto e deu com Parkins Gillespie, ao seu lado, acendendo um Pall Mall.

— Não — disse ele, com um sorriso nervoso. — Estava só pensando.

Parkins olhou para a Casa Marsten, onde o sol fazia brilhar o cromo e o metal do carro, e depois para a velha lavanderia com o novo cartaz na vitrine.

— E você não é o único. É sempre bom receber gente nova na cidade. Você os conheceu, não é?

— Um deles, o ano passado.

— O Sr. Barlow ou o Sr. Straker?

— O Sr. Straker.

— Ele lhe pareceu um bom sujeito?

— Não deu para saber — disse Larry, com vontade de molhar os lábios. Mas não o fez. — Só falamos sobre negócios. Ele me pareceu decente.

— Ótimo. Venha, vou andar com você até o Excellent.

Cruzaram a rua, enquanto Lawrence Crockett pensava em pactos com o diabo.

 

13h00.

Susan Norton entrou no Salão de Beleza da Babs, sorriu para Babs Griffen (a irmã mais velha de Hal e Jack) e disse:

— Ainda bem que deu para você me atender, assim, em cima da hora.

— Não tem problema no meio da semana — disse Babs, ligando o ventilador. — Nossa, o tempo está fechando. Vai chover de tarde.

Susan olhou para o céu, de um azul imaculado.

— Você acha?

— Ahã. Como você quer, meu bem?

— Natural — disse Susan, pensando em Ben Mears. — Como se eu nunca tivesse vindo aqui.

— É o que todas dizem — suspirou Babs, aproximando-se de Susan.

O suspiro exalou um aroma de chiclete tutti frutti, e Babs perguntou se Susan tinha visto que iam abrir uma nova loja de móveis na antiga Lavanderia Village. Estava com jeito de ser cara, mas seria ótimo se eles tivessem um lampião com vela para combinar com o que ela tinha no apartamento, e por falar nisso, sair de casa e morar na cidade fora a melhor coisa que ela já fizera na vida, e o verão não estava uma delícia? Pena que tinha de acabar.

 

15h00.

Bonnie Sawyer estava deitada na grande cama de casal em sua casa na rua Deep Cut. Era uma casa normal, com alicerce e porão, e não um trailer ordinário. Seu marido, Reg, ganhava bem como mecânico na oficina de Jim Smith, em Buxton.

Estava nua, exceto por uma fina calcinha azul, e olhava com impaciência para o relógio na mesa-de-cabeceira: 15h02 — onde estaria ele?

Como se seus pensamentos o tivessem chamado, a porta do quarto abriu uma fresta, e Corey Bryant espiou para dentro.

— Posso entrar? — sussurrou. Corey tinha só 22 anos, trabalhava para a companhia telefônica há dois, e um caso com uma mulher casada, especialmente com um mulherão como Bonnie Sawyer, que fora Miss Cumberland em 1973, fazia com que se sentisse fraco, nervoso e excitado.

Bonnie sorriu para ele com seus lindos dentes restaurados.

— Se não pudesse, querido, você estaria com um buraco no peito tão grande que daria para ver televisão atrás.

Ele entrou na ponta dos pés, o cinto de ferramentas de guarda-fios balançando de modo ridículo.

Bonnie deu risada e abriu os braços.

— Gosto de você, Corey. Você é uma graça.

Os olhos de Corey deram com a mancha escura sob o justo náilon azul, e ele começou a se sentir mais excitado do que nervoso. Esqueceu-se do passo cauteloso e caiu nos braços dela, e, quando se uniram, uma cigarra começou a cantar em algum lugar no bosque.

 

l6h00.

Ben Mears afastou-se da escrivaninha, tendo terminado o trabalho da tarde. Havia renunciado a sua caminhada no parque para que pudesse ir jantar na casa dos Norton com a consciência tranqüila, e escrevera quase o dia todo sem descanso.

Ele se ergueu e se espreguiçou, ouvindo o estalo de sua coluna. Seu tronco estava molhado de suor. Foi até o armário na cabeceira da cama, pegou uma toalha limpa e foi tomar um banho antes que os outros moradores chegassem do trabalho e atravancassem o banheiro.

Jogou a toalha sobre o ombro, virou-se para a porta e depois voltou-se para a janela, onde algo chamara sua atenção. Não na cidade, que cochilava no calor da tarde sob um céu de um azul intenso típico da Nova Inglaterra em dias de verão.

De onde estava, seu olhar se estendia sobre os prédios baixos da avenida Jointner, de telhados planos e asfaltados, e sobre o parque onde as crianças, agora livres da escola, brincavam, andavam de bicicleta ou faziam arruaça, até a região noroeste da cidade, onde a rua Brock desaparecia atrás do flanco do primeiro morro florestado. Seus olhos seguiram com naturalidade até o intervalo na floresta onde a via Burns e a via Brooks se cruzavam formando um T — e até onde a Casa Marsten se erguia, contemplando a cidade.

De lá, parecia uma miniatura, reduzida ao tamanho de uma casa de bonecas. E ele a preferia assim. Daquele tamanho, ela podia ser confrontada. Bastava levantar a mão diante do rosto para eliminá-la.

Havia um carro na entrada da casa.

Ele ficou parado, com a toalha sobre o ombro, olhando para a casa, sentindo dentro de si uma ponta de terror que não tentou analisar. Duas das persianas caídas haviam sido trocadas, dando à casa um ar cego e sigiloso que ela não possuíra antes.

Seus lábios se moveram silenciosamente, como se formassem palavras que ninguém — nem ele mesmo — podia entender.

 

17h00.

Matthew Burke saiu da escola, levando a valise na mão esquerda, e cruzou o estacionamento vazio até seu velho Chevy Biscayne, que continuava com os pneus para neve do ano anterior.

Tinha 63 anos — faltavam dois para a aposentadoria compulsória — e ainda mantinha um grande número de aulas de inglês e de atividades extracurriculares. A atividade do outono era a peça escolar, e ele acabara de realizar os testes para uma farsa em três atos chamada O Problema de Charley. Havia aparecido a costumeira multidão de casos perdidos, talvez uma dúzia de candidatos passáveis, capazes pelo menos de memorizar suas falas (e depois dizê-las em tom trêmulo e monótono), e três garotos que mostraram algum talento. Ele os escalaria na sexta e começaria a marcação de cenas na semana seguinte. Ensaiariam até 30 de outubro, o dia da peça. Segundo a teoria de Matt, uma peça escolar devia ser como um prato de sopa de letrinhas Campbell: sem sabor, mas não totalmente repulsiva. Os parentes iriam adorar. O crítico de teatro do Ledger de Cumberland entraria em êxtase polissilábico, como era pago para fazer com qualquer peça local. A protagonista (Ruthie Crockett naquele ano, provavelmente) cairia de amores por algum membro do elenco e possivelmente perderia a virgindade depois da festa de estréia. E então ele voltaria para as discussões do Clube de Debates.

Aos 63 anos, Matt Burke ainda gostava de ensinar. Era péssimo como disciplinador, e por isso perdera todas as chances que um dia tivera de conseguir um cargo administrativo (tinha um jeito sonhador demais para ser eficaz como vice-diretor), mas sua falta de disciplina nunca o detivera. Ele lera os sonetos de Shakespeare em classes frias e barulhentas, entre aviõezinhos e bolinhas de papel, sentara sobre tachas e as afastara distraidamente enquanto dizia aos alunos para abrirem o livro de gramática na página 457, abrira gavetas para apanhar composições e descobrira grilos, sapos e uma vez até uma cobra preta de dois metros.

Ele percorrera de cima a baixo a língua inglesa como um solitário e estranhamente complacente Antigo Marinheiro, de Coleridge: primeiro período, Steinbeck; segundo período, Chaucer; terceiro período, sentença tópica, e a função do gerúndio um pouco antes do almoço. Seus dedos eram permanentemente manchados de giz em vez de nicotina, mas ainda assim era o resíduo de uma substância que vicia.

As crianças não o veneravam nem amavam — ele não era um Sr. Chips mofando num recanto rústico da América, esperando que Ross Hunter o descobrisse, mas muitos de seus alunos o respeita­vam, e alguns poucos aprendiam com ele que a dedicação, por mais excêntrica ou humilde, podia ser algo notável. Ele gostava de seu trabalho.

Ele entrou no carro, pisou fundo demais no acelerador e afogou o motor, esperou e começou de novo. Ligou o rádio numa estação de rock-and-roll de Portland e aumentou o volume quase até o ponto de distorção do alto-falante. Achava o rock uma música admirável. Saiu de ré de sua vaga no estacionamento, o carro morreu e ele voltou a dar partida.

Morava numa casinha na via Taggart Stream e recebia pouquíssimas visitas. Nunca havia se casado e não tinha parentes, fora um irmão que trabalhava numa refinaria de petróleo no Texas e nunca escrevia. Ele não sentia muita falta desses vínculos. Era um homem solitário, mas a solidão de modo algum o amargurara.

Ele parou na luz de alerta no cruzamento da avenida Jointner e da rua Brock e virou em direção a sua casa. As sombras se alongavam agora, e a luz ganhava uma coloração curiosamente cálida e dourada, como uma cena do impressionismo francês. Ele olhou de relance para a esquerda, viu a Casa Marsten e olhou de novo.

— As venezianas — disse ele em voz alta, contra o ritmo pulsante da música. — As venezianas foram recolocadas.

Olhou no espelho retrovisor e viu um carro parado na entrada da casa. Ele dava aulas em ’salem’s Lot desde 1952, e nunca vira um carro estacionado naquela entrada.

— Será que alguém está morando lá? — perguntou a si mesmo enquanto seguia em frente.

 

18h00.

O pai de Susan, Bill Norton, o primeiro membro do conselho municipal de Lot, ficou surpreso ao perceber que gostara de Ben Mears. E muito. Bill era um homem grande e robusto, de cabelos pretos, e que passara dos cinqüenta anos sem engordar. Trocara a escola pela Marinha no último ano do colegial, com a permissão do pai, e lutara pelo seu futuro a partir de então, conseguindo o diploma de segundo grau aos 24 anos por meio de um teste de nivelamento. Não se tornara um tipo antiintelectual e truculento, como outros trabalhadores quando não obtêm o nível de escolaridade de que são capazes, por obra do destino ou deles mesmos, mas não tinha paciência com os “intelectualóides”, que era seu epíteto para os rapazes cabeludos e de olhar mole que Susan trazia às vezes da escola. O cabelo e as roupas deles não o incomodavam, e sim o fato de que nenhum parecia ter intenções sérias. Não simpatizava, como sua mulher, com Floyd Tibbits, o rapaz com quem Susie saía desde que se formara, mas também não antipatizava. Floyd tinha um bom emprego de nível executivo no Falmouth Grant’s, e Bill Norton o considerava moderadamente sério. E era um rapaz da cidade. Mas aquele Mears também era, de certa maneira.

— Por favor, não o atormente com essa história de intelectualóide — disse Susan, levantando quando a campainha tocou. Usava um vestido de verão verde-claro, e prendera os cabelos “naturalmen­te penteados” para trás com uma fita de algodão verde.

Bill deu risada.

— Isso depende da cara dele, querida. Não vou envergonhá-la. Nunca envergonho, não é?

Ela lhe dirigiu um sorriso nervoso e foi abrir a porta.

O homem que voltou com ela era magricela e de aspecto ágil, dono de traços finos e espessos cabelos pretos que pareciam recém-lavados apesar da oleosidade natural. Bill aprovou suas roupas — jeans azul-claros, muito novos, e uma camisa branca arregaçada até os cotovelos.

— Ben, estes são meus pais, Bill e Ann Norton. Mãe, pai, Ben Mears.

— Oi, é um prazer conhecê-los.

Ele sorriu para a Sra. Norton com uma ponta de reserva, e ela disse:

— Olá, Sr. Mears. É a primeira vez que conhecemos um escritor de verdade. Susan ficou muito empolgada.

— Não se preocupem, não costumo citar passagens dos meus livros. — Ele sorriu de novo.

— Olá — disse Bill, e se levantou. Ele batalhara pela posição que ocupava no sindicato da zona portuária, e seu aperto de mão era firme e forte. Mas a mão de Mears não era mole nem frágil, como a daqueles “intelectualóides” de fundo de quintal, o que lhe agradou. E passou para a segunda fase do teste.

— Quer uma cerveja? Tem umas geladas lá atrás. — Ele fez um gesto em direção à churrasquei­ra, que ele mesmo construíra. Os intelectualóides geralmente diziam não. A maioria fumava maconha, e não podia desperdiçar sua preciosa consciência bebendo.

— Cara, eu adoraria uma cerveja — disse Ben, sorrindo francamente. — Duas ou três, até.

Bill deu sua risada estrondosa.

— Certo, você é dos meus. Vamos lá.

Ao som desse riso, uma estranha comunicação se deu entre as duas mulheres, que eram muito parecidas. A testa de Ann Norton se franziu, enquanto a de Susan se distendeu — o peso da preocupa­ção fora transferido como que por telepatia.

Ben seguiu Bill até o quintal. Havia um isopor de gelo sobre um banco, cheio de latas de Pabst. Bill puxou uma lata e a jogou para Ben, que a pegou com uma mão só, mas de leve, para não estourar.

— Gostoso aqui — disse Ben, olhando para a churrasqueira. Era uma construção baixa de tijolos, que emitia ondas trêmulas de calor.

— Fui eu que a construí — disse Bill. — Espero que preste.

Ben deu um longo gole e arrotou — outro ponto a seu favor.

— Susie gostou muito de você — disse Norton.

— Ela é uma ótima moça.

— E sensata — acrescentou Norton, dando um arroto pensativo. — Disse que você escreveu três livros. E os publicou também.

— É verdade.

— Foram bem?

— O primeiro foi — disse Ben, e parou por aí. Bill Norton assentiu com a cabeça, aprovando um homem que tinha o bom senso de não sair contando os detalhes da sua vida.

— Você me dá uma mãozinha com os hambúrgueres e os cachorros-quentes?

— Claro.

— É preciso cortar as salsichas para tirar o líquido de dentro, sabia?

— Sabia. — Ele simulou cortes diagonais no ar com o dedo indicador, e abriu um sorriso. Os cortes nas salsichas impediam que formassem bolhas.

— Estou vendo que você é dessas bandas — disse Bill Norton. — Muito bem. Pegue aquele saco de carvão enquanto eu busco a carne. Traga a cerveja.

— Ninguém me separa dela.

Bill hesitou antes de entrar e ergueu a sobrancelha para Ben Mears.

— Você é um sujeito sério? — perguntou.

Ben abriu um sorriso um pouco amargo.

— Isso eu sou.

— Ótimo — disse Bill, e entrou.

Babs Griffen errara ao prever chuva, e o churrasco correu bem. A brisa suave uniu-se à fumaça da churrasqueira para espantar os mosquitos de final de verão. As mulheres levaram os pratos de papel e condimentos e depois voltaram para beber cerveja e dar risada enquanto Bill, que conhecia as traiçoeiras correntes de vento, ganhou de Ben de 21 a 6 numa partida de badminton. Ben recusou uma segunda partida com pesar, apontando para o relógio.

— Estou com um livro no forno — disse ele. — E preciso escrever mais seis páginas. Se beber demais, amanhã não vou conseguir nem ler o que escrevi.

Susan o acompanhou até o portão — ele viera andando da cidade. Bill apagou o fogo com ar pensativo. Ele dissera que era sério, e Bill estava disposto a acreditar. Não chegara contando histórias para impressionar, mas um homem que trabalhava depois do jantar tinha grandes chances de deixar seu nome marcado em alguma página da história.

Ann Norton, no entanto, não se deixou conquistar.

 

19h00.

Floyd Tibbits entrou no estacionamento de pedra britada do Dell’s pouco depois de Delbert Markey, o dono e bartender, acender o novo luminoso cor-de-rosa do bar, que dizia DELL’S em grandes letras, com um copo alto no lugar do apóstrofo.

No céu, a luz do dia era afastada por um anoitecer púrpura, e logo a névoa começaria a se formar nas áreas mais baixas. Os clientes habituais começariam a aparecer dentro de uma hora.

— Oi, Floyd — disse Dell, tirando uma Michelob do refrigerador. — Como foi seu dia?

— Razoável. A cerveja está com uma cara boa.

Era um homem alto com barba loira e bem-aparada, que vestia calças de malha e uma jaqueta esporte — seu uniforme para trabalhar na Grant’s. Era o segundo encarregado do crédito, e gostava do emprego de um modo indiferente que podia se tornar tédio a qualquer momento. Sentia que estava perdendo tempo, mas a sensação não era de todo desagradável. E ele tinha Suze, uma boa moça. Ela logo mudaria de idéia quanto ao casamento, e então ele precisaria fazer algo da vida.

Ele deixou uma nota de um dólar no balcão, encheu o copo de cerveja, bebeu-o avidamente e o encheu novamente. Além dele, o único cliente do bar era um rapaz de macacão da companhia telefônica — o filho dos Bryant, pensou Floyd. Bebia cerveja em uma mesa enquanto ouvia uma melancólica canção de amor no jukebox.

— E então, quais são as novidades? — perguntou, já sabendo a resposta. Nunca havia novidades. Algum garoto podia ter aparecido bêbado na escola, mas nada mais.

— Bom, mataram o cachorro do seu tio. Isso é uma novidade. Floyd parou com o copo a caminho da boca.

— O quê? Doc, o cachorro do tio Win?

— Isso mesmo.                                                                   

— Foi atropelado?

— Pelo jeito, não. Mike Ryerson o encontrou. Foi cortar a grama do cemitério Harmony Hill e encontrou Doc pendurado nas lanças do portão, todo furado.

— Puta merda! — exclamou Floyd, atônito.

Dell assentiu gravemente, satisfeito com a impressão que causara. Ele tinha outra notícia quente que circulava pela cidade — a namorada de Floyd fora vista com aquele escritor que estava na pensão da Eva. Mas ele que descobrisse sozinho.

— Ryerson levou o corpo para Parkins Gillespie — continuou. — Ele achou que o cachorro já estava morto e uns moleques o penduraram de brincadeira.

— Gillespie não sabe nem em que ano a gente está.

— Pode ser. Mas vou lhe dizer o que eu acho. — Dell se apoiou nos grossos antebraços. — Acho que foram moleques, sim. Tenho certeza. Mas pode ser um pouco mais do que uma simples brincadeira. Dê uma olhada nisto. — Ele tirou um jornal debaixo do balcão e o abriu sobre ele.

Floyd o apanhou. A manchete dizia: adoradores de satã profanam igreja na Flórida. Passou os olhos pelo artigo. Dizia que uns garotos tinham invadido uma igreja católica em Clewiston, uma cidade da Flórida, depois da meia-noite e realizado ritos profanos. O altar fora violado, obsceni­dades haviam sido rabiscadas nos bancos, nos confessionários e na pia de água benta, e manchas de sangue haviam sido encontradas nos degraus que levavam à nave. Segundo a análise do laboratório, parte do sangue era animal (podia ser de cabra), mas a maioria era humano. O chefe de polícia de Clewiston admitiu que não tinha nenhuma pista do caso.

Floyd largou o jornal.

— Adoradores do demônio em Lot? Ora, Dell. Você está com minhocas na cabeça.

— A garotada está enlouquecendo — insistiu Dell. — Você vai ver. Daqui a pouco, vão fazer sacrifícios humanos no pasto do Griffen. Quer mais uma?

— Não, obrigado — disse Floyd, descendo do banco. — Vou ver como o tio Win está passando. Ele adorava aquele cachorro.

— Mande lembranças — disse Dell, guardando o jornal debaixo do balcão para exibi-lo a outros clientes. — Fiquei muito chateado com a notícia.

Floyd parou a caminho da porta e disse, como que para si mesmo:

— Penduraram ele nas barras, é? Meu Deus, como eu queria pegar os safados que fizeram isso.

— Adoradores do demônio — disse Dell. — Eu não ficaria nem um pouco surpreso. Não sei o que está dando nas pessoas ultimamente.

Floyd saiu. O filho dos Bryant colocou outra moeda no jukebox, e Dick Curless começou a cantar “Bury the Bottle with me”.

 

19h30.

— Não chegue tarde — Marjorie Glick disse ao filho mais velho, Danny. — Amanhã tem aula. E quero seu irmão na cama às nove e quinze.

Danny arrastou os pés.

— Não sei por que eu tenho que levar ele.

— Não precisa — disse Marjorie com ameaçadora amabilidade. — Você pode ficar em casa, se quiser.

Virou-se para a pia, onde limpava um peixe, e Ralphie pôs a língua para fora. Danny brandiu o punho para ele, mas seu irmãozinho nojento se limitou a sorrir.

— A gente não demora — murmurou ao sair da cozinha, seguido pelo irmão.

— Às nove.

— Está bem, está bem.

Na sala, Tony Glick estava sentado diante da TV com os pés para cima, assistindo ao jogo dos Red Sox contra os Yankees.

— Aonde vocês vão, meninos?

— Na casa daquele menino novo — disse Danny. — Mark Petrie.

— É — disse Ralphie. — Vamos ver seu... trenzinho.

Danny lançou um olhar sinistro para o irmão, mas o pai não notou nem a pausa nem a ênfase. Doug Griffen acabara de bater a bola.

— Voltem cedo — disse ele, distraído.

Quando saíram, o céu ainda guardava resquícios do dia. Enquanto cruzavam o quintal, Danny disse:

— Eu devia te dar uma surra, peste.

— Se você me bater — disse Ralphie, com presunção — eu conto por que você quer ir lá.

— Sua praga — disse Danny, desanimado.

No fim do quintal bem-aparado, uma trilha descia o monte e dava no bosque. A casa dos Glick ficava na rua Brock, e a de Mark Petrie, no sul da avenida Jointner. O atalho economizava bastante tempo para meninos de 12 e nove anos que se equilibravam com facilidade sobre as pedras do riacho Crockett. Folhas e ramos de pinheiro estalavam sob os pés deles. Em algum lugar na floresta, um pássaro cantou, e grilos chiavam em torno deles.

Danny cometera o erro de contar ao irmão que Mark Petrie tinha a coleção completa dos monstros plásticos Aurora — o lobisomem, a múmia, Drácula, Frankenstein, o cientista louco e até a Câmara de Horrores. A mãe deles não gostava dessas coisas, achava que faziam mal para a cabeça, e Ralphie logo passara para a chantagem. Ele era gosmento mesmo.

— Você é gosmento, sabia? — disse Danny.

— Eu sei — disse Ralphie com orgulho. — O que é “gosmento”?

— É gente verde e grudenta, que nem ranho.

— Vá pro inferno — Ralphie disse.

Eles andavam pela margem do riacho Crockett, que corria preguiçosamente sobre o leito de cascalho, mantendo um tom perolado na superfície. Dois quilômetros ao leste, ele se unia ao córrego Taggart, que por sua vez desaguava no rio Royal.

Danny começou a atravessar o riacho pelas pedras, apertando os olhos na penumbra para ver onde pisava.

— Vou te empurrar! — gritou Ralphie alegremente atrás dele. — Cuidado, Danny, eu vou te empurrar!

— E eu vou te empurrar na areia movediça, bobão. — disse Danny.

Chegaram à outra margem.

— Não tem areia movediça por aqui — zombou Ralphie, chegando perto do irmão por precaução.

— Não? — disse Danny em tom sinistro. — Um menino morreu na areia movediça não faz muitos anos. Ouvi aqueles velhos que ficam na loja comentando.

— É mesmo? — perguntou Ralphie, arregalando os olhos.

— É. Ele afundou gritando, sua boca encheu de areia e foi o fim dele. Ahhhhhhh!

— Vamos — disse Ralphie, inquieto. Já estava quase totalmente escuro no bosque, e sombras se moviam. — Vamos sair daqui.

Eles subiram a outra margem, escorregando de vez em quando nas folhas de pinheiro. O menino de quem Danny ouvira falar na loja era Jerry Kingfield, de dez anos. Se ele afundara na areia movediça gritando, ninguém o ouvira. Ele simplesmente desaparecera nos pântanos seis anos antes enquanto pescava. Alguns achavam que fora a areia movediça; outros, que um pervertido o matara. Havia pervertidos por toda parte.

— Dizem que o fantasma dele ainda assombra este bosque — disse Danny em tom solene, sem contar ao irmãozinho que os pântanos ficavam a cinco quilômetros ao sul.

— Pare, Danny — pediu Ralphie. — Não fale isso aqui no escuro.

As árvores rangiam ao redor deles. O pássaro noturno parara de cantar. Um galho estalou atrás deles, furtivamente. A luz do dia sumira quase totalmente do céu.

— De vez em quando — continuou Danny —, quando algum menininho chato sai no escuro, ele salta das árvores, com a cara toda gosmenta e coberta de areia...

— Danny, pare...

Danny ouviu um terror verdadeiro na voz do irmão, e parou. Quase assustara a si mesmo. As árvores escuras e volumosas os cercavam, balançando lentamente à brisa noturna, roçando umas nas outras e rangendo.

Outro galho estalou ao lado deles.

Danny subitamente desejou que tivessem pego a estrada.

Outro galho estalou.

— Danny, estou com medo — Ralphie sussurrou.

— Não seja bobo — disse Danny. — Venha.

Eles recomeçaram a andar. As folhas crepitavam sob os pés deles. Danny tentou se convencer de que não ouvira galho nenhum estalando. Não ouvira nada a não ser eles mesmos. O sangue latejava em suas têmporas. Suas mãos estavam frias. Conte os passos, disse a si mesmo. Vamos chegar à avenida Jointner daqui a duzentos passos. E na volta pegaremos a estrada, para que esse chorão não fique com medo... Daqui a um minuto vamos ver as luzes da rua e nos sentir idiotas, mas vai ser gostoso se sentir idiota, então conte os passos. Um... dois... três...

Ralphie soltou um grito.

— Estou vendo! Estou vendo o fantasma! Estou vendo!

O terror, como ferro quente, penetrou o peito de Danny. Fios elétricos pareciam subir por suas pernas. Ele queria virar e correr, mas Ralphie o agarrava.

— Onde? — ele sussurrou, esquecendo que ele inventara o fantasma. — Onde? — Olhou para a floresta, com medo do que pudesse ver, mas viu somente a escuridão.

— Não está mais aí, mas eu vi. Eu vi olhos. Ai, Dannee... — ele chorava.

— Não tem fantasma nenhum, seu bobo. Vamos.

Danny segurou a mão do irmão e eles começaram a andar. Parecia que suas pernas haviam virado borracha. Seus joelhos tremiam. Ralphie se apertava contra ele, quase o tirando da trilha.

— Ele está nos vigiando — Ralphie sussurrou.

— Ouça, não vou...

— Não, é verdade, Danny. Você não está sentindo?

Danny parou. E, como acontece com crianças, ele sentiu algo e percebeu que não estavam sozinhos. Um pesado silêncio caíra sobre a floresta, mas era um silêncio maligno. Sombras, movidas pelo vento, arrastavam-se ao redor deles.

E Danny sentiu um cheiro brutal, mas não com o nariz.

Fantasmas não existiam, mas existiam pervertidos. Vinham em carros pretos e te ofereciam doce ou ficavam nas esquinas ou... ou te seguiam na floresta...

E então...

E então eles...

— Corra — ele disse bruscamente.

Mas Ralphie tremia a seu lado, paralisado de medo. Agarrava sua mão com a força de uma tenaz. Seus olhos estavam fixos na mata, e começaram a se arregalar.

— Danny...

Um galho estalou.

Danny virou-se e olhou na mesma direção que o irmão.                           

E a escuridão se fechou sobre eles.

 

21h00.

Mabel Werts era uma mulher imensa de gorda. Completara 74 anos, e suas pernas ficavam cada vez menos confiáveis. Era a depositária da história e das fofocas da cidade, e sua memória abarcava cinco décadas de necrologia, adultério, roubos e insanidade. Era uma fofoqueira, mas não deliberadamente cruel (embora aqueles que ela manchara com suas histórias pudessem discordar). Simplesmente vivia na e para a cidade. De certo modo, ela era a cidade, uma viúva gorda que agora pouco saía e que passava quase o tempo todo na janela, usando uma camisola de seda que parecia um balão, os cabelos brancos amarelados arrumados numa coroa de tranças grossas, o telefone na mão direita e os potentes binóculos japoneses na mão esquerda. A combinação dos dois, e tempo de sobra para usá-los, fazia dela uma aranha benevolente, sentada no centro de uma rede de comunicações que se estendia da Curva ao leste de ’salem.

Ela vinha observando a Casa Marsten por falta de coisa melhor para olhar quando as venezianas do lado esquerdo da varanda se abriram, deixando escapar uma luminosidade dourada que não se parecia nada com luz elétrica. Ela teve um vislumbre do que podia ser a cabeça e os ombros de um homem recortados contra a luz, o que lhe causou uma emoção estranha.

Não vira mais nenhum movimento na casa.

Ela pensou: Que tipo de pessoas eram aquelas que só abriam a janela quando ninguém podia dar uma olhada decente nelas?                                                                                                         

Tirou os óculos e pegou o telefone. Duas vozes — ela logo as identificou como as de Harriet Durham e Glynis Mayberry — falavam sobre o cachorro de Irwin Purinton, encontrado por Mike Ryerson.

Ela ficou em silêncio, respirando pela boca, sem dar o menor sinal de sua presença na linha.

 

23h59.

O dia se aproximava do fim. As casas dormiam na escuridão. No centro da cidade, luzes na loja de ferragens, na Casa Funerária Foreman e no Excellent Café lançavam uma fraca luminosidade sobre a calçada. Alguns continuavam acordados — George Boyer, que acabara de entrar em casa depois de trabalhar das três às onze no Gates Mill, Win Purinton, que jogava paciência e pensava em Doc, cuja morte o abalara bem mais do que a da mulher — mas a maioria dormia o sono dos justos e trabalhadores.

No cemitério Harmony Hill, um vulto sombrio aguardava silenciosamente no interior dos portões a extinção do dia. Quando falou, sua voz era macia e cultivada.

— Pai, conceda-me seus favores. Senhor das Moscas, conceda-me seus favores. Eu lhe trago carne pútrida e malcheirosa. Ofereço esse sacrifício por seus favores e o trago com a mão esquerda. Dê-me um sinal neste terreno, consagrado em seu nome. Espero um sinal para iniciar sua obra.

A voz se calou. Um vento se elevou, suave, trazendo consigo o sussurro de galhos e folhas e um cheiro de carniça do depósito adiante.

Não se ouviu mais nada, fora o som da brisa. O vulto permaneceu silencioso e pensativo por um instante. Depois se inclinou e se ergueu com uma criança em seus braços.

— Trouxe-lhe isto. E o indizível se fez.

 

DANNY GLICK E OUTROS

Danny e Ralphie Glick saíram para visitar Mark Petrie com ordem de voltar às nove horas. Quando às dez horas eles ainda não haviam voltado, Marjorie Glick ligou para os Petrie. Não, disse a Sra. Petrie, os meninos não estavam lá. Não tinham estado. Era melhor o marido dela falar com Henry. A Sra. Glick passou o telefone para o marido, sentindo o medo gelar suas veias.

Os homens discutiram o caso. Sim, os meninos tinham ido pela trilha na mata. Não, o riacho estava baixo àquela época do ano, principalmente com o bom tempo que fazia. A água batia no tornozelo. Henry sugeriu partir do seu lado da trilha com uma lanterna de alta potência e que o Sr. Glick partisse do lado dele. Talvez os meninos tivessem encontrado uma toca de marmota ou se escondido para fumar cigarros. Tony concordou e pediu desculpas ao Sr. Petrie pelo incômodo. O Sr. Petrie disse que não era incômodo algum. Tony desligou e tentou tranqüilizar a mulher, que estava assustada. Decidiu mentalmente que nenhum dos filhos conseguiria sentar durante uma semana depois que os encontrasse.

Mas, antes mesmo de Tony alcançar a trilha depois do quintal, Danny saiu tropeçando da mata e desabou ao lado da churrasqueira. Estava aturdido e falava mole, respondendo às perguntas de modo penoso e desconexo. Tinha grama nas mangas e folhas outonais no cabelo.

Contou ao pai que ele e Ralphie haviam descido a trilha que cruzava a mata, atravessado o riacho Crockett pelas pedras e chegado à outra margem sem nenhum problema. Então Ralphie come­çou a falar de um fantasma no mato (não disse que fora ele quem colocara a idéia na cabeça do irmão) e disse que tinha visto um rosto. Danny começou a ficar com medo. Não acreditava em fantasmas e nem nessas criancices de bicho-papão, mas pensou ter ouvido algo na escuridão.

O que eles fizeram então?

Danny achava que tinham voltado a andar, de mãos dadas. Não tinha certeza. Ralphie choramin­gava por causa do fantasma. Danny mandou-o ficar quieto, porque logo conseguiriam ver as luzes da avenida Jointner. Faltavam só duzentos passos, talvez menos. Então, uma coisa ruim aconteceu.

Como? Que coisa ruim?

Danny não sabia.

Eles discutiram com ele, insistiram, repreenderam-no. Danny apenas balançava a cabeça de modo lento e confuso. Sim, ele sabia que precisava lembrar, mas não conseguia. Sinceramente, não conseguia. Não, ele não lembrava de ter tropeçado em nada. Só que... estava tudo escuro. Muito escuro. E depois disso só lembrava de ter acordado na trilha sozinho. Ralphie desaparecera.

Parkins Gillespie disse que não adiantava mandar homens para a mata naquela noite. Havia muitos locais traiçoeiros. Provavelmente o menino tinha apenas se desviado da trilha. Ele, Nolly Gardener, Tony Glick e Henry Petrie percorreram de cima a baixo a trilha e as encostas das ruas South Jointner e Brock, chamando com alto-falantes a pilha.

Logo cedo na manhã seguinte, a polícia estadual e a municipal de Cumberland deram início a uma busca na floresta. Como não achassem nada, ampliaram a busca. Procuraram durante quatro dias, e o Sr. e a Sra. Glick percorreram a mata e os campos, desviando-se das armadilhas deixadas pelo antigo incêndio, chamando o nome do filho com esperança dilacerante.

Como não encontrassem nada, o córrego Taggart e o rio Royal foram dragados. Mas nada apareceu.

Na manhã do quinto dia, Marjorie Glick acordou o marido às quatro horas, trêmula e descontro­lada. Danny havia desmaiado no corredor, aparentemente enquanto ia ao banheiro. Uma ambulância o levou ao Hospital Geral do Maine. O diagnóstico preliminar foi de choque emocional intenso e retardado.

O Dr. Gorby, o médico encarregado, chamou o Sr. Glick de lado.

— Seu filho já teve ataques de asma?                       

O Sr. Glick, piscando rapidamente, balançou a cabeça. Envelhecera dez anos em menos de uma semana.

— Algum antecedente de febre reumática?

— Danny? Não... nunca.

— Ele fez exame epidérmico de tuberculose este ano?

— Tuberculose? Meu filho tem tuberculose?

— Sr. Glick, só estamos tentando descobrir...

— Marge! Margie, venha aqui!

Marjorie Click levantou e atravessou lentamente o corredor. Tinha o rosto pálido, os cabelos penteados de qualquer jeito. Parecia uma mulher em meio a um intenso ataque de enxaqueca,

— Danny fez exame de tuberculose na escola este ano?

— Fez — disse ela estupidamente. — No começo das aulas. Não houve reação.

— Ele tosse à noite? — perguntou Gorby.

— Não.

— Queixa-se de dores no peito ou nas juntas?

— Não.

— Sente dor ao urinar?

— Não.

— Teve algum sangramento anormal? Sangra pelo nariz, apresenta sangue nas fezes ou uma quantidade anormal de arranhões ou contusões?

— Não.

Gorby sorriu e assentiu com a cabeça.

— Gostaríamos que ele ficasse para fazer alguns exames.

— Claro — disse Tony. — Tenho plano de saúde.

— As reações dele estão muito lentas — disse o médico. — Vamos fazer alguns raios X, exame de medula, contagem de glóbulos brancos...

Os olhos de Marjorie Glick foram se arregalando lentamente.

— Danny está com leucemia? — sussurrou.

— Sra. Glick, por enquanto...

Mas ela já desmaiara.

 

Ben Mears foi um dos voluntários que revistaram as matas de ’salem’s Lot em busca de Ralphie Glick, mas nada conseguira além de carrapatos nas barras das calças e uma forte febre do feno causada pelas plantas de fim de verão.

No terceiro dia da busca, ele entrou na cozinha da pensão planejando comer uma lata de ravióli e tirar um cochilo na cama antes de começar a escrever. Encontrou Susan Norton ocupada diante do fogão, preparando um tipo de ensopado de forno. Os homens que haviam acabado de chegar do trabalho estavam em volta da mesa, fingindo conversar, devorando-a com os olhos. Ela usava uma camisa xadrez desbotada amarrada na cintura e um short de veludo desfiado. Eva Miller passava roupa numa salinha ao lado da cozinha.

— Ei, o que você está fazendo aqui? — perguntou ele.

— Estou preparando algo decente para você comer antes que vire uma sombra — disse ela, e Eva deu uma risada estrondosa por trás da parede. Ben sentiu as orelhas arderem.

— Ela cozinha muito bem — disse Weasel. — Eu sei, estava olhando.

— Olhou tanto que só faltava os olhos caírem da cara — disse Grover Verrill, com uma gargalhada.

Susan cobriu a forma, colocou-a no forno e os dois foram esperar na varanda de trás. O sol baixava, vermelho e inflamado.

— Acharam alguma coisa?

— Não, nada. — Ele tirou um maço amassado do bolso da camisa e acendeu um cigarro.

— Parece que você tomou um banho de colônia de pinho — disse ela.

— E até parece que adiantou. — Ele esticou o braço e mostrou várias picadas de inseto e arranhões. — Mosquitos desgraçados, malditos arbustos de espinhos.

— O que acha que aconteceu com ele, Ben?

— Só Deus sabe. — Ele exalou fumaça. — Alguém pode ter chegado por trás do irmão mais velho, batido na cabeça dele com algo pesado e raptado o menino.

— Você acha que ele está morto?

Ben olhou-a para ver se esperava franqueza ou falsas esperanças. Entrelaçou os dedos aos dela.

— Sim, acho que ele está morto. Ainda não temos provas definitivas, mas acho que sim.

Ela balançou a cabeça lentamente.

— Espero que você esteja errado. Minha mãe e outras senhoras foram visitar a Sra. Glick. Ela está fora de si e o marido também. E o outro filho fica andando de um lado para outro como um fantasma.

— Hum-hum — disse Ben. Olhava para a Casa Marsten, sem prestar muita atenção. As vene­zianas estavam fechadas, mas abririam mais tarde. Depois que estivesse escuro. As venezianas se abriam no escuro. Ele sentiu um arrepio diante dessa idéia, quase encantatória.

— ...noite?

— Hã? Desculpe. — Ele se virou para ela.

— Eu disse que meu pai o convidou para ir lá em casa amanhã à noite. Você pode?

— Você vai estar lá?

— Claro — disse ela.

— Ótimo, vou sim.

Ele queria olhar para ela. Estava linda à luz do crepúsculo. Mas seus olhos eram atraídos para a Casa Marsten como que por um ímã.

— Ela te atrai, não é? — disse ela, lendo seus pensamentos, até mesmo a metáfora, de modo quase sobrenatural.

— É verdade.

— Ben, sobre o que é o novo livro?

— Ainda não — disse ele. — Eu lhe direi assim que puder. A idéia tem que... se desenvolver ainda.

Ela queria dizer eu te amo naquele exato instante, com a espontaneidade com que as palavras haviam emergido em sua mente, mas mordeu os lábios. Não queria dizê-las enquanto ele estivesse olhando... lá para cima.

— Vou ver o ensopado — disse ela, levantando.

Quando ela se afastou, ele fumava e olhava para a Casa Marsten.

 

Lawrence Crockett estava em seu escritório na manhã do dia 22, fingindo ler a correspondência enquanto espiava os peitos da secretária, quando o telefone tocou. Ele estivera pensando em sua carreira em ’salem’s Lot, sobre o carrinho que brilhava na entrada da Casa Marsten, sobre pactos com o demônio.

Mesmo antes de a transação com Straker ser consumada (que palavra, ele pensou, e seus olhos subiram pela blusa da secretária), Lawrence Crockett era, sem dúvida, o homem mais rico de ’salem’s Lot e um dos mais ricos do condado de Cumberland, embora nada em sua pessoa ou em seu escritório o indicasse. O escritório era velho, empoeirado, iluminado por dois lustres redondos e cheios de moscas. A escrivaninha antiga, de tampo corrediço, estava abarrotada de papéis, canetas e correspon­dência. De um lado via-se um pote de cola e de outro um peso de papel quadrado com fotos de sua família em cada uma das superfícies. Um aquário cheio de fósforos se equilibrava perigosamente sobre uma pilha de livros contábeis, e um rótulo na frente dizia: “Para nossos amigos apagados.” Exceto por três arquivos de aço à prova de fogo e a mesa da secretária no pequeno anexo, não havia móveis.

Mas havia fotos.

Viam-se instantâneos e fotografias por toda parte, presos com tachas ou fita adesiva em todas as superfícies disponíveis. Algumas eram novíssimas fotos Polaroid, outras eram tiradas com máquinas Kodak, outras ainda eram amareladas imagens em preto e branco, algumas batidas havia 15 anos. Sob cada uma, havia uma legenda datilografada, Linda Casa de Campo. Seis quartos. Ou Casa no alto do monte. Via do córrego Taggart, $32.0000, ocasião!, ou Viva como um nobre. Casa de fazenda com dez cômodos, via Burns. O aspecto era de uma firma obscura e pouco confiável, e fora assim até 1957, quando Larry Crockett, até então visto pela elite de Jerusalem’s Lot como um incompetente, decidiu que os trailers eram o futuro. Naquele tempo, as pessoas achavam que os trailers eram apenas charmosas caixas prateadas que você prendia na traseira do carro quando ia ao Parque Nacional de Yellowstone para tirar foto da mulher e dos filhos em frente ao Old Faithful. Naqueles tempos, quase ninguém — nem mesmo os próprios fabricantes de trailers — previa que as charmosas caixas prateadas seriam substituídas por carros de acampamento, que se ajustavam à traseira das camionetes ou até eram auto-suficientes e motorizados.

Mas Larry não precisara saber disso tudo. Sendo um visionário de terceira divisão, ele simples­mente foi até a prefeitura (naquele tempo ele não era membro do conselho municipal; naquele tempo, não teria sido eleito nem mesmo funcionário da carrocinha) e pesquisou as leis de zoneamento de Jerusalem’s Lot. Eram extremamente satisfatórias. Nas entrelinhas, ele vislumbrou milhares de dólares. A lei proibia a manutenção de uma zona pública de despejo ou a existência de mais de três carros abandonados no quintal, a não ser com a obtenção de uma licença de ferro-velho, e sanitários externos — um nome fresco para “casinha” —, a não ser que fossem aprovados pelo supervisor de saúde municipal. E mais nada.

Larry hipotecara tudo que tinha, fez empréstimos e comprou três trailers. E não eram charmosas caixas prateadas, mas monstros longos, luxuosos, descomunais, com revestimento de madeira plástica e banheiros de fórmica. Comprou lotes de meio hectare para cada um na Curva, onde a terra era barata, instalara-os sobre alicerces baratos e passou a tentar vendê-los. Conseguiu depois de três meses, vencendo a resistência das pessoas que achavam estranho morar numa casa que parecia um vagão de trem, e lucrou quase dez mil dólares. A onda do futuro chegara a ’salem’s Lot, e Larry Crockett estava na sua crista.

No dia em que R. T. Straker entrara em seu escritório, Crockett já tinha acumulado quase dois milhões de dólares, especulando terras em muitas cidades vizinhas (mas não em Lot; “não cuspa no prato em que come”, era o lema de Lawrence Crockett), com base na crença de que a indústria dos trailers cresceria como uma epidemia. Cresceu mesmo, e o dinheiro começou a chover.

Em 1965, Larry Crockett se tornou o sócio passivo de um construtor chamado Romeo Poulin, que construía um grande supermercado em Auburn. Poulin era hábil em se desviar da burocracia, e com seu conhecimento prático e o talento de Larry para números, eles ganharam 750 mil dólares cada e tiveram de declarar apenas um terço da bolada para o governo. Foi tudo extremamente satisfatório, e se o teto do supermercado estava cheio de goteiras, bom, era a vida.

Entre 1966 e 1968, Larry comprou o controle da maioria das ações de três empresas de trailers do Maine, recorrendo a todos os embustes para despistar o pessoal da receita. A Romeo Poulin, descreveu o processo como entrar no túnel de amor com a mulher A, transar com a mulher B no vagão de trás e terminar de mãos dadas com a mulher A do outro lado do túnel. Ele acabou comprando trailers para si mesmo, e esses negócios incestuosos eram tão lucrativos que quase davam medo.

Pactos com o demônio, pensou Larry, mexendo nos papéis. Quando lidamos com ele, as notas vencem em enxofre.

Os compradores dos trailers eram proletários, de classe média baixa, que não podiam dar entrada numa casa mais convencional, ou pessoas de idade tentando esticar a pensão. A idéia de uma casa de seis cômodos novinha em folha funcionava com essa gente. Para os idosos, havia outra vantagem, que os outros haviam ignorado, mas não o astuto Larry: os trailers tinham um só andar e não era preciso subir escadas.

O financiamento também era fácil. Uma entrada de quinhentos dólares geralmente bastava para começar o negócio. E nos tempos de financiamento predatório dos anos 1960, o fato de os outros 9.500 serem financiados a juros de 24% não parecia uma arapuca àquelas pessoas necessitadas de um teto.

E como choveu dinheiro!

O próprio Crockett mudara muito pouco, mesmo depois de brincar de vender a alma ao sinistro Sr. Straker. Nenhum decorador efeminado fora modernizar seu escritório. Ainda não trocara o ventilador elétrico por ar-condicionado. Andava com os mesmos ternos gastos ou paletós berrantes. Fumava os mesmos charutos baratos e ainda passava no Dell’s nas noites de sábado para tomar umas cervejas e jogar um bilhar com os amigos. Continuou controlando os negócios imobiliários da cidade, o que rendeu dois frutos: primeiro, a eleição como membro do conselho municipal; segundo, uma situação confortável com a receita, já que as operações visíveis de cada ano não chegavam a entrar na faixa de pagamento de imposto. Além da Casa Marsten, ele vendera mais de três dezenas de outras mansões decrépitas na região. Alguns negócios foram muito lucrativos, mas Larry não os forçou. O dinheiro, afinal de contas, chovia.

Dinheiro demais, talvez. Era possível alguém passar a perna em si mesmo. Entrar no túnel com a mulher A, transar com a mulher B, sair de mãos dadas com a mulher A, e no fim levar uma surra das duas. Straker dissera que entraria em contato, mas já haviam se passado 14 meses. E se...

Foi então que o telefone tocou.

 

— Sr. Crockett — disse a voz conhecida e monótona.

— É Straker, não?

— Eu mesmo.

— Estava pensando em você nesse instante. Acho que sou médium.

— Muito espirituoso, Sr. Crockett. Preciso de um favor.

— Foi o que pensei.

— Providencie um caminhão, por favor. Um caminhão grande, talvez de aluguel. Mande-o às docas de Portland hoje às 19 horas em ponto. À plataforma da alfândega. Dois carregadores serão suficientes.

— Certo.                               

Larry puxou um bloco de notas e rabiscou: H. Peters, R. Snow, caminhão de mudança do Henry, seis horas no máximo. Não parou para pensar como achava importante seguir as ordens de Straker ao pé da letra.

— Há 12 caixas a serem transportadas. Todas menos uma vão para a loja. A outra é um armário extremamente valioso, um Hepplewhite. Os carregadores o reconhecerão pelo tamanho. Esse vai para a casa. Ficou claro?                                                                                       

— Ficou.

— Os homens devem levá-lo ao porão. Diga-lhes para entrarem pelo tabique abaixo das janelas da cozinha. Ficou claro?

— Ficou. Agora, esse armário...

— Outro favor. Providencie cinco cadeados Yale bem fortes. Conhece a marca Yale?

— Quem não conhece? O que...

— Peça para os homens trancarem a porta traseira da loja ao saírem. Na casa, devem deixar as chaves dos cinco cadeados sobre a mesa do porão. Quando saírem da casa, deverão trancar com os cadeados a porta do tabique, as portas da frente e de trás e o galpão-garagem. Ficou claro?

— Ficou.

— Obrigado, Sr. Crockett. Siga todas as instruções cuidadosamente. Até logo.

— Espere...

Mas ele desligara.

 

Eram 19h02 quando o grande caminhão laranja e branco, com os dizeres “Cami­nhão do Henry” estampados nas laterais e na traseira, parou em frente ao barracão de aço corrugado no final da plataforma da alfândega, nas docas de Portland. A maré virava, agitando as gaivotas, que rodopiavam e gritavam contra o pôr-do-sol vermelho.

— Nossa, não tem ninguém aqui — disse Royal Snow, dando o último gole numa Pepsi e jogando a lata no chão da cabine. — Vamos ser presos por roubo.

— Tem alguém, sim — disse Royal. — Um policial.

Não era exatamente um policial, e sim um vigia noturno, que acendeu a lanterna na direção deles.

— Um de vocês é Lawrence Crewcut?

— Crockett — corrigiu Royal. — Viemos da parte dele para transportar umas caixas.

— Certo — disse o vigia. — Vamos para o escritório. Precisam assinar uma nota fiscal. — Fez um sinal para Peters, que estava ao volante. — Dê ré até aquelas portas com a luz acesa. Está vendo?

— Estou — ele deu ré com o caminhão.

Royal Snow entrou com o vigia no escritório, onde uma cafeteira borbulhava. O relógio acima do calendário de mulher pelada marcava 19h04. O vigia mexeu nuns papéis sobre a mesa e pegou uma prancheta.

— Assine aqui. Royal assinou.

— Tome cuidado quando entrar lá. Acenda a luz porque está cheio de ratos.

— Não tem rato que não tenha medo disto — disse Royal, mostrando a pesada bota de trabalho.

— São ratos das docas, filho — disse o vigia secamente. — Já puseram para correr homens maiores que você.

Royal saiu e andou até a porta do depósito. O vigia ficou na porta do barracão, observando-o.

— Cuidado — Royal disse a Peters. — O tio disse que tem ratos.

— Tá. — E ele riu consigo mesmo. — “Larry Crewcut”...

Royal achou o interruptor de luz na parede e a acendeu. Algo na atmosfera pesada, que cheirava a sal, madeira podre e mofo, tirava a vontade de rir. Além dos ratos...

As caixas estavam empilhadas no meio do depósito. Como não havia nada além delas, pareciam portentosas. A caixa com o armário, mais alta do que as outras, estava no centro, e era a única que não tinha escrito “Barlow e Straker, avenida Jointner, 27, Jer. Lot, Maine”.

— Até que está fácil — disse Royal. Consultou sua cópia da nota fiscal e contou as caixas. — Estão todas aí.

— Tem ratos mesmo — disse Hank. — Está ouvindo?

— É, odeio esses desgraçados.

Os dois ficaram em silêncio por um instante, ouvindo os guinchos e os movimentos rápidos que vinham das sombras.

— Bom — disse Royal. — Vamos colocar a grandona primeiro para não ficar no caminho quando chegarmos à loja.                                                     

— Certo.

Aproximaram-se da caixa, e Royal tirou o canivete do bolso. Com um gesto rápido, abriu o envelope marrom da nota fiscal colado com fita adesiva na lateral.

— Ei — disse Hank —, a gente não devia...

— Precisamos ter certeza de que pegamos a entrega certa. Se errarmos, Larry vai acabar com a nossa raça. — Ele puxou a nota fiscal e a leu.

— O que diz aí? — perguntou Hank.

— Heroína — Royal respondeu, com ar sério. — Cem quilos. E duas mil revistas pornográficas suecas, trezentas camisinhas francesas...

— Me dá aqui. — Hank pegou a nota. — É um armário, como Larry falou. De Londres, Inglaterra, para Portland, Maine. Camisinha francesa uma ova. Guarde isso.

Royal guardou.

— Tem algo engraçado aqui — disse ele.

— Tem, você. Estou morrendo de rir.

— Não, sério. Não estou vendo nenhum carimbo da alfândega. Nem na caixa, nem no envelope, nem na nota fiscal. Não tem carimbo.

— Eles devem usar aquela tinta que só aparece debaixo de uma luz negra especial.

— Não era assim quando eu trabalhava nas docas. Precisa ver, eles botavam uns noventa carimbos na carga. Não dava para pegar uma caixa sem ficar todo azul.

— Sério? Interessante. Mas minha mulher dorme cedo, e eu estava querendo tirar o atraso hoje.

— Vamos dar uma olhadinha dentro?

— Nada disso. Vamos, pegue.

Royal deu de ombros. Quando pegaram a caixa, algo pesado mudou de posição. A caixa era um inferno de carregar. Pelo peso, devia ser mesmo daqueles armários grandes e chiques.

Grunhindo, eles avançaram penosamente até o caminhão e largaram a caixa sobre o elevador hidráulico com exclamações simultâneas de alívio. Royal esperou enquanto Hank operava o elevador. Quando o nivelou com a carroceria, eles subiram e empurraram o armário para dentro.

Havia algo estranho naquela caixa, pensou Royal. E não era só a falta de carimbos. Algo indefinível. Observou-a até que Hank descesse do caminhão.

— Vamos pegar o resto — disse ele.

As outras caixas tinham carimbos da alfândega, exceto três, que haviam partido de locais nos próprios Estados Unidos. À medida que colocavam cada caixa no caminhão, Royal ticava a nota fiscal e a rubricava. Empilharam todas as caixas cujo destino era a nova loja perto da porta do caminhão, longe do armário.

— Agora, me diga quem vai comprar todas essas tralhas? — perguntou Royal quando termina­ram. — Uma cadeira de balanço polonesa, um relógio de parede alemão, uma roda de fiar... Minha nossa, devem custar uma fortuna.

— Turistas — disse Hank, com ar sábio. — Os turistas compram de tudo. Esse pessoal de Boston e Nova York é capaz de comprar merda de vaca se vier num saco antigo.

— E não estou gostando daquela caixa — continuou Royal. — Isso de não ter carimbo da alfândega é muito esquisito.

— Bom, vamos levar logo.

Voltaram para ’salem’s Lot em silêncio, Hank pisando fundo no acelerador. Queria acabar logo com aquele serviço. Como Royal dissera, era muito estranho.

Ele deu a volta até os fundos da nova loja. A porta estava destrancada, como Larry dissera. Royal acionou o interruptor de luz logo na entrada, em vão.

— Ótimo... — resmungou. — Vamos ter que descarregar toda essa porcaria no escuro. Ei, você não está sentindo um cheiro esquisito?

Hank farejou o ar. Sim, havia um cheiro desagradável, mas ele não sabia dizer exatamente qual. Era seco e queimava as narinas, como algo há muito apodrecido.

— É que esse lugar está fechado há muito tempo — disse ele, passeando a lanterna pelo cômodo longo e vazio. — Precisa de uma boa arejada.

— Ou de um bom fogo — disse Royal. Ele não estava gostando daquilo. Algo naquele lugar lhe dava arrepios. — Vamos. E não precisamos nos matar.

Descarregaram as caixas o mais rápido possível, colocando cada uma no chão com cuidado. Meia hora depois, Royal fechou a porta da loja com um suspiro de alívio e a trancou com um dos cadeados novos.

— Metade já foi — disse.

— A metade fácil — retrucou Hank. Olhou para a Casa Marsten, escura e toda fechada naquela noite. — Não estou gostando de ter de subir lá, e não tenho medo de dizer. Se existe uma casa mal-assombrada no mundo, é essa. Esses caras devem ser loucos, mudando para lá. Deve ser um casal de viados.

— Tipo aqueles decoradores — concordou Royal. — Devem querer transformar a casa numa atração turística. É bom para os negócios.

— Bom, já que a gente tem de ir, vamos logo.

Lançaram um último olhar para a caixa que continha o armário e Hank bateu a porta com força. Sentou atrás do volante e os dois subiram a avenida Jointner até a rua Brooks. Um minuto depois, a Casa Marsten assomava diante deles, escura e terrível, e Royal sentiu a primeira onda de verdadeiro medo insinuar-se em seu estômago.

— Credo, que lugar assustador — murmurou Hank. — Quem ia querer morar lá?

— Não sei. Está vendo alguma luz acesa atrás das venezianas?

— Não.

A casa parecia se curvar em direção a eles, como se os aguardasse. Hank aproximou-se da entrada e deu a volta até os fundos da casa. Nenhum dos dois quis ver o que a luz trêmula dos faróis revelava na grama espessa do quintal. Hank sentiu o medo gelar seu coração como não sentira nem no Vietnã, ele que passara a maior parte do tempo apavorado lá. Mas era um medo racional. Medo de pisar numa armadilha química e ver o pé inchando como um balão verde, medo de que um garoto cujo nome não dava nem para pronunciar estourasse seus miolos com um rifle russo, medo de pegar um comandante alucinado que mandasse você dizimar um vilarejo onde os vietcongs haviam estado uma semana antes. Mas o medo que ele sentia agora era infantil, nebuloso. Sem ponto de referência. Uma casa era uma casa — tábuas, dobradiças, pregos e soleiras. Não havia nenhuma razão para achar que cada estalido da madeira fosse causado por emanações malignas. Era pura estupidez. Fantasmas? Ele não acreditava em fantasmas. Muito menos depois do Vietnã.

Hank só conseguiu engatar a ré na segunda tentativa, e o caminhão sacolejante avançou até o tabique que levava ao porão. As portas enferrujadas estavam abertas e, à luz avermelhada das lanternas traseiras, os degraus de pedra pareciam levar ao inferno.

— Cara, não estou achando isso nada legal — disse Hank. Tentou sorrir, mas saiu uma careta.

— Nem eu.

Eles se olharam à luz pálida do painel, sentindo o medo pesar. Mas não eram mais crianças, e não podiam voltar antes da hora devido a um medo irracional. Que explicação dariam em plena luz do dia? Precisavam terminar o trabalho.

Hank desligou o motor, e eles se aproximaram da traseira do caminhão. Royal subiu, soltou a tranca e abriu a porta de correr.

A caixa esperava, ainda coberta de serragem, pesada e muda.

— Eu não quero levar esse troço lá para dentro! — Hank Peters exclamou, com uma voz que era quase um soluço.

— Vamos acabar logo com isso — disse Royal.

Arrastaram a caixa até o elevador e a baixaram ouvindo o assobio do ar que escapava. Quando chegou à altura da cintura, Hank soltou a alavanca e eles a agarraram.

— Devagar — grunhiu Royal, recuando em direção aos degraus. — Devagar e sempre...

À luz vermelha das lanternas traseiras, seu rosto estava contraído, as veias salientes, como um homem à beira de um infarto.

Ele desceu os degraus de costas, um de cada vez, sentindo o peso da caixa esmagar seu peito como uma laje de pedra. Era pesada, pensaria ele mais tarde, mas nem tanto. Ele e Hank já haviam transportado cargas maiores para Larry Crockett, mas havia algo na atmosfera daquele lugar que drenava as forças.

Os degraus eram lisos e viscosos, e ele quase perdeu o equilíbrio duas vezes, gritando com desespero:

— Cuidado, pelo amor de Deus!

Finalmente eles chegaram. O teto do porão era baixo, e eles tiveram de carregar a caixa curvados como velhas.

— Vamos deixar aqui — Hank disse, ofegante. — Não está dando mais.

Eles deixaram a caixa no chão com um baque surdo e se afastaram. Entreolharam-se e viram que o medo havia se transformado em quase terror por obra de uma secreta alquimia. O porão pareceu se encher subitamente de ruídos sussurrantes. Ratos, talvez, ou algo que era insuportável até de pensar.

De repente, eles saíram correndo, Hank primeiro e Royal logo atrás. Voaram pelos degraus do porão, e Royal bateu com força a porta do tabique sem olhar para trás.

Entraram na cabine do caminhão, e Hank deu partida e engatou a primeira. Royal agarrou seu braço, e na escuridão sua cara parecia ser só olhos, grandes e fixos.

— Hank, a gente não colocou os cadeados.

Os dois olharam para o embrulho com os cadeados no painel do caminhão, amarrado com um arame plástico. Hank apalpou o bolso da jaqueta e tirou uma argola com cinco novas chaves Yale, uma para o cadeado da loja, quatro para a casa. Todos estavam cuidadosamente rotulados.

— Ai, não — disse ele. — Olha, e se a gente voltasse amanhã bem cedo e...

Royal tirou a lanterna, encaixada debaixo do painel.

— Não dá — disse ele. — E você sabe disso.

Saíram da cabine, sentindo a fresca brisa noturna nas testas suadas.

— Cuide da porta de trás — disse Royal. — Eu cuido da porta da frente e do galpão.

Eles se separaram. Hank foi até a porta de trás, o coração batendo forte no peito. Com mãos trêmulas, passou o cadeado pelo ferrolho. Tão perto da casa, o cheiro de madeira velha e deteriorada era palpável. As histórias sobre Hubie Marsten, que eles contavam entre risos na infância, começaram a voltar, assim como a cançãozinha com que assustavam as meninas: Cuidado, cuidado, cuidado! Hubie vai te pegar se você não... tomar... cuidado!

Hank?

Ele se sobressaltou, deixando cair o outro cadeado. Abaixou para pegá-lo.

— Você não devia chegar de fininho e assustar os outros assim. Conseguiu...

— Consegui. Agora, quem vai voltar para o porão e deixar o chaveiro na mesa?

— Sei lá — disse Hank Peters. — Sei lá.

— Vamos tirar cara ou coroa?

— É, acho melhor.

Royal pegou uma moeda.

— Escolha quando eu jogar. — E jogou-a.

— Cara.

Royal pegou a moeda, bateu-a no antebraço e mostrou. Dera coroa.

— Ai, meu Deus — disse Hank, desolado, mas pegou o chaveiro e a lanterna e voltou a abrir a porta do tabique.

Obrigou as pernas a descerem os degraus, e, depois de passar pela saliência do teto, iluminou com a lanterna o porão, que fazia uma curva em L uns dez metros adiante e acabava Deus sabia onde. A luz da lanterna encontrou a mesa, coberta com uma toalha xadrez empoeirada. Havia um rato sobre ela, enorme, que não se moveu quando a luz o atingiu. Gordo e acocorado, parecia quase sorrir.

Ele passou pela caixa, em direção à mesa.

— Passa, rato!

O rato saltou e correu em direção à curva adiante. A mão de Hank tremia agora, fazendo o facho da lanterna oscilar de um lugar a outro, revelando um barril empoeirado, depois uma cômoda antiga, depois uma pilha de jornais velhos, depois...

Ele voltou o feixe de luz sobre os jornais e prendeu a respiração ao avistar algo do lado esquerdo...

Uma camisa... era uma camisa? Enrolada como um trapo. Algo atrás parecia jeans. E algo que parecia...

Ouviu um estalo atrás dele.

Em pânico, Hank atirou as chaves de qualquer jeito sobre a mesa e saiu correndo. Ao passar pela caixa, viu o que produzira o barulho. Uma das tiras de alumínio se soltara, e apontava para o teto baixo como um dedo.

Ele subiu os degraus aos trambolhões, bateu a porta do tabique (seu corpo inteiro estava coberto de arrepios; ele só perceberia mais tarde), prendeu o cadeado no ferrolho e correu para o caminhão. Sua respiração era curta e ofegante como a de um cão ferido. Ouviu vagamente Royal lhe perguntar o que havia acontecido, engatou a marcha e saiu a toda, dando a volta na casa sobre duas rodas, comendo a terra macia. Só desacelerou quando estavam na rua Brooks, em direção ao escritório de Lawrence Crockett. Foi então que começou a tremer com tanta força que quase precisou parar.

— O que tinha lá embaixo? — perguntou Royal. — O que você viu?

— Nada — disse Hank Peters, e a palavra saiu entrecortada, pois seus dentes batiam. — Não vi nada e nunca mais quero voltar a ver.

 

Larry Crockett se preparava para fechar o escritório e ir para casa quando ouviu uma batida mecânica na porta e viu Hank Peters entrar. Ainda parecia assustado.

— Esqueceu algo, Hank? — Larry perguntou.

Quando Hank e Royal haviam voltado da Casa Marsten, com cara de quem havia levado um belo chute no saco, ele dera a cada um mais dez dólares e duas caixas de uísque Black Label, insinuando que seria melhor que ninguém ficasse sabendo sobre a excursão daquela noite.

— Preciso lhe dizer, Larry — disse Hank. — Preciso, não tem outro jeito.

— Claro, Hank. — Larry abriu a última gaveta da escrivaninha, tirou uma garrafa de Johnnie Walker e serviu uma dose para cada um. — O que aconteceu?

Hank deu um gole, fez uma careta e o engoliu.

— Quando levei as chaves até o porão, eu vi umas coisas. Pareciam roupas. Uma camisa, acho, e calças jeans. E um tênis. Acho que era um tênis, Larry.

Larry encolheu os ombros e sorriu.

— E daí? — Parecia que um grande bloco de gelo oprimia seu peito.

— O filhinho dos Glick estava usando jeans. Foi o que eu li no Ledger. Jeans, uma camisa vermelha e tênis. Larry, e se...

Larry continuou sorrindo. Um sorriso congelado.

Hank deu um gole convulsivo.

— E se os sujeitos que compraram a Casa Marsten e a loja pegaram o menino?

Pronto. Estava dito. Hank engoliu o resto do líquido ardente.

— Você não viu um corpo também? — perguntou Larry, sorrindo.

— Não. Não, mas...

— Esse caso é para a polícia — disse Larry. Voltou a encher o copo de Hank, sem tremer a mão, fria e firme como uma pedra num rio congelado. — Eu o levaria agora mesmo para falar com Parkins. Mas sabe como é... — Ele balançou a cabeça. — Esse tipo de coisa pode dar muita encrenca. Como você e aquela garçonete do Dell’s. Jackie é o nome dela, não?

— Do que você está falando? — O rosto dele ficou branco como cera.

— E com certeza eles descobririam que você foi dispensado do exército por razões pouco nobres. Mas cumpra seu dever, Hank. Faça o que achar melhor.

— Não vi corpo nenhum — sussurrou Hank.                                      

— Ainda bem — disse Larry, sorrindo. — E acho que não viu nenhuma roupa também. Talvez fossem só... trapos.

— Trapos — repetiu Hank, estupidamente.

— Claro. Sabe como são essas casas velhas. Cheias de tranqueiras. Você deve ter visto uma camisa velha ou um pano que virou trapo de limpeza.

— Deve ser — disse Hank, e esvaziou o copo pela segunda vez. — Você tem um jeito bom de ver as coisas, Larry.

Crockett tirou a carteira do bolso, abriu-a e colocou cinco notas de dez dólares sobre a mesa.

— O que é isso?

— Esqueci de lhe pagar por aquele serviço da semana passada. Você tem de me lembrar, Hank. Sabe como sou esquecido.

— Mas você...

— Por exemplo — interrompeu Larry, sorrindo. — Você pode me contar uma coisa um dia e eu não lembraria de nada no dia seguinte. Não é terrível?

— É — murmurou Hank. Com mãos trêmulas, pegou as notas e as meteu no bolso do casaco de brim, como se não suportasse segurá-las. Levantou-se com tanta pressa e mau jeito que quase derrubou a cadeira.

— Preciso ir, Larry. Eu... eu não... Preciso ir.

— Leve a garrafa — ofereceu Larry, mas Hank já saía pela porta.

Larry voltou a sentar. Serviu-se de outra dose. Suas mãos continuavam firmes. Não fechou o escritório. Tomou mais uma dose, e mais outra. Pensou sobre pactos com o diabo. E finalmente o telefone tocou. Ele o atendeu. Ninguém disse nada do outro lado da linha.

— Já cuidei de tudo — disse Larry Crockett.

Ninguém disse nada. Ele desligou e colocou outra dose no copo.

 

Hank Peters acordou na madrugada seguinte de um pesadelo em que ratos gigantes saíam de uma cova aberta, que continha o corpo esverdeado e apodrecido de Hubie Marsten, com uma corda gasta ao redor do pescoço. Apoiou-se sobre os cotovelos, ofegante, o torso nu coberto de suor viscoso, e quando sua mulher tocou seu braço, soltou um grito.

 

O armazém de Milt Crossen ficava numa esquina do cruzamento da avenida Jointner com a rua da Ferrovia. Era o ponto de encontro dos velhos da cidade, quando chovia e o parque ficava inabitável. Nos longos invernos, eles eram parte constante do cenário.

Quando Straker chegou em seu Packard ano 39 — ou era 40? — caía apenas uma garoa. Milt e Pat Middler debatiam se a filha de Freddy Overlock, Judy, fugira de casa em 1957 ou 1958. Concorda­vam que ela fugira com o vendedor de saladeiras de Yarmouth, e que ele não valia o prato em que comia, nem ela, mas era o único consenso.

Mas todos se calaram quando Straker entrou.

Ele olhou para eles — Milt e Pat Middler, Joe Crane, Vinnie Upshaw e Clyde Corliss — e sorriu com frieza.

— Boa-tarde, cavalheiros.

Milt Crossen levantou, amarrando o avental na cintura quase que com recato,

— Pois não?

— Bom-dia — disse Straker. — Queira me servir alguns cortes de carne, por favor.

Ele comprou um rosbife, uma dúzia de costelas de primeira, carne para hambúrguer e dois quilos de fígado de vitela. Além disso, adquiriu alguns produtos secos — farinha, açúcar, feijão — e vários filões de pão.

A compra se deu no mais profundo silêncio. Os habitués da loja, em torno do grande fogão Pearl Kineo que o pai de Milt convertera em aquecedor, fumavam, olhavam para o céu e observavam o forasteiro de soslaio.

Quando Milt acabou de guardar as compras numa grande caixa de papelão, Straker pagou com dinheiro vivo — uma nota de vinte e outra de dez. Ele pegou a caixa, colocou-a debaixo do braço e abriu aquele sorriso rígido e frio para eles.

— Tenham um bom-dia, cavalheiros — disse ele, e saiu.

Joe Crane colocou um pouco de fumo Planter’s no cachimbo. Clyde Corliss se reclinou e cuspiu um misto de catarro e tabaco no balde amassado ao lado do fogão. Vinnie Upshaw tirou sua máquina de fazer cigarros do bolso do colete, espalhou uma fileira de tabaco e inseriu o papel com os dedos inchados pela artrite.

Observaram enquanto o forasteiro colocava a caixa no porta-malas. Todos sabiam que a caixa devia pesar 15 quilos com todas aquelas compras, e viram quando ele saíra com ela debaixo do braço como se fosse um travesseiro de penas. Ele entrou no carro e seguiu pela avenida Jointner. O carro subiu o monte, virou à esquerda na via Brooks, sumiu de vista e reapareceu atrás do biombo de árvores momentos depois, parecendo um brinquedo na distância. Entrou no jardim da Casa Marsten e desapareceu.

— Sujeito esquisito — disse Vinnie. Meteu o cigarro na boca, removeu alguns fios de tabaco da ponta e tirou um fósforo de cozinha do bolso do colete.

— Deve ser um dos donos da loja — Joe Crane disse.

— E da Casa Marsten também — concordou Vinnie. Clyde Corliss peidou.

Pat Middler cutucou um calo na palma da mão esquerda com grande interesse.

Cinco minutos se passaram.

— Será que eles vão vender bem? — Clyde perguntou a ninguém em particular.

— Talvez — respondeu Vinnie. — Pode ser que o negócio deslanche no verão. Não dá para saber hoje em dia.

Um murmúrio de aprovação, quase um suspiro.

— Sujeito forte — disse Joe.

— É — disse Vinnie. — Com um Packard 39, sem um sinal de ferragem.

— Era 40 — disse Clyde.

— O Packard 40 não tinha estribo — disse Vinnie. — Era 39.

— Aí que você se engana — disse Clyde.

Cinco minutos se passaram. Milt examinava a nota de vinte’ que Straker lhe dera.

— O dinheiro é falso, Milt? — perguntou Pat. — Aquele sujeito lhe deu dinheiro falso?

— Não, mas olhe. — Milt estendeu a nota e todos a olharam com interesse. Era bem maior do que as notas comuns.

Pat a examinou contra a luz e a virou do outro lado.

— É uma nota de vinte da série E, não é, Milt?

— É — disse Milt. — Pararam de fazer essas notas há 45 ou cinqüenta anos. Pode valer um bom dinheiro na loja de moedas antigas de Portland.

Pat passou a nota pelo grupo e cada um a examinou, segurando-a de perto ou de longe, dependendo do defeito na visão. Joe Crane a devolveu, e Milt a guardou sob a gaveta do caixa, junto com cheques pessoais e cupons.

— Esquisitão mesmo aquele sujeito — ponderou Clyde.

— É mesmo — disse Vinnie. — Mas era um Packard 39. Meu irmão Vic tinha um. Foi o primeiro carro dele. Comprou usado em 1944. Um dia ele deixou escapar o óleo e queimou os pistões.

— Acho que era 40 — disse Clyde —, porque lembro de um sujeito que trocava palha dos móveis perto do Alfred. Ele ia até a casa da gente de carro, e...

E a discussão prosseguiu, avançando mais no silêncio do que nas falas, como uma partida de xadrez jogada pelo correio. E o dia parecia imóvel e eterno para eles, e Vinnie Upshaw começou a enrolar outro cigarro com a lentidão mansa da artrite.

 

Ben escrevia quando bateram na porta, e ele marcou onde parara antes de levantar para abri-la. Passava um pouco das três do dia 24 de setembro, uma quarta-feira. A chuva dera fim aos planos de continuar a procurar Ralphie Glick, e era consenso que a busca terminara. O menino desaparecera. Para sempre.

Abriu a porta e deu com Parkins Gillespie, fumando um cigarro. Ele trazia um livro de capa mole, e Ben viu que era a edição da editora Bantam de Conway’s Daughter.

— Entre, delegado — disse ele. — Está chovendo aí fora.

— É, um pouco — disse Parkins, entrando. — Setembro é o mês da gripe. Sempre saio de galocha. Tem gente que acha graça, mas não pego uma gripe desde a batalha de St.-Lô, em 1944.

— Deixe seu casaco em cima da cama. Desculpe, mas não posso lhe oferecer um café.

— Não quero molhar sua cama — Parkins disse, e bateu a cinza no cesto de papéis. — E acabei de tomar o café da Pauline, lá no Excellent.

— Posso ser de alguma ajuda?

— Minha mulher leu este livro seu. — Ele mostrou o exemplar. — Soube que você estava na cidade, mas, como é muito tímida, quis que eu lhe pedisse um autógrafo ou algo assim.

Ben pegou o livro.

— Pelo que Weasel Craig disse, sua mulher morreu há 14 ou 15 anos.

— É mesmo? — Parkins não parecia nem um pouco surpreso. — Esse Weasel gosta de falar. Um dia desses vai acabar tropeçando na língua.

Ben não disse nada.

— Mas você podia autografar o livro para mim?

— Com prazer. — Ele pegou uma caneta sobre a mesa, abriu o livro na folha de rosto (“A vida em estado cru!” — jornal Plain Dealer, de Cleveland), e escreveu: Ao delegado Gillespie, com estima, Ben Mears, 24/9/75. E o devolveu.

— Muito obrigado — disse Parkins, sem ler o que Ben escrevera. Inclinou-se e apagou o cigarro na lateral do cesto de papéis. — É meu primeiro livro autografado.

— Você veio aqui para me interrogar, não é? — Ben perguntou, sorrindo.

— Você é bem esperto — disse Parkins. — Mas, já que tocou no assunto, gostaria de fazer umas perguntinhas. Esperei Nolly sair de perto. É um bom rapaz, mas também gosta de falar. É uma fofoca que não acaba mais.

— O que gostaria de saber?

— Primeiro, onde você estava na noite de quarta-feira.

— A noite em que Ralphie Glick desapareceu?

— Essa mesmo.

— Sou um suspeito, delegado?

— Não, imagine. Não tenho suspeitos. Um caso desse está fora do meu departamento. Meu negócio é multar gente por excesso de velocidade ou expulsar garotos do parque antes de começarem a fazer arruaça. Estou só xeretando.

— E se eu não quiser lhe dizer?

Parkins deu de ombros e pegou os cigarros.                                                           

— Aí é com você, filho.

— Jantei na casa de Susan Norton. Joguei badminton com o pai dela.

— E aposto que ele ganhou. Sempre ganha de Nolly. Nolly vive dizendo como queria ganhar de Bill Norton pelo menos uma vez. A que horas você saiu?

Ben riu, mas sem achar muita graça.

— Você vai direto ao assunto, não?

— Sabe — disse Parkins —, se eu fosse um daqueles detetives de Nova York que a gente vê na tevê, era capaz de pensar que você tem algo a esconder, do jeito que foge das perguntas.

— Não tenho nada a esconder — disse Ben. — Só estou cansado de as pessoas me acharem um forasteiro, apontarem para mim na rua, me tratarem mal na biblioteca. Agora você vem como quem não quer nada, tentando descobrir se estou com o corpo de Ralphie Glick no armário.

— Não é isso que eu acho. Não mesmo. — Ele olhou para Ben por cima do cigarro, os olhos subitamente duros. — Estou só tentando riscar você da minha lista. Se eu achasse que você tivesse alguma coisa a ver com a história, já estaria no xadrez.

— Tudo bem — disse Ben. — Saí da casa dos Norton por volta das sete e quinze. Dei um passeio até o monte do Pátio do Colégio. Quando ficou escuro demais para enxergar, voltei para cá, escrevi durante umas duas horas e fui dormir.

— Que horas chegou aqui?

— Umas oito e quinze, acho.

— É, isso não te inocenta tão bem como eu gostaria. Viu alguém?

— Não, ninguém.

Parkins resmungou qualquer coisa e andou até a máquina de escrever.

— Sobre o que está escrevendo?

— Não é da sua conta — disse Ben, agora com rispidez. — Agradeceria se ficasse longe do meu trabalho. A não ser que tenha um mandado de busca, é claro.

— Você é bastante sensível, para alguém que escreve livros para serem lidos.

— Depois de passar por três redações, revisão da editora, prova de paquê, tipo final e impres­são. Farei questão de lhe enviar quatro exemplares. E autografados. Por enquanto, estão na categoria de documentos particulares.

Parkins sorriu e se afastou.

— Tudo bem. Duvido muito que seja uma confissão assinada mesmo. Ben retribuiu o sorriso.

— Mark Twain disse que um romance era uma confissão de todos os crimes por um homem que nunca cometeu nenhum.

Parkins exalou fumaça e andou para a porta.

— Não vou mais molhar seu tapete, Sr. Mears. Muito obrigado pela atenção. E, só para constar, acho que você nunca nem viu o menino. Mas é meu trabalho fazer essas perguntas por aí.

Ben assentiu com a cabeça.

— Entendi.

— E você sabe como são as coisas em ’salem’s Lot, ou Milbridge, ou Guilford, ou qualquer cidadezinha pequena. Só se deixa de ser forasteiro depois de morar vinte anos na cidade.

— Eu sei. Desculpe se fui grosseiro. Mas depois de procurar uma semana pelo menino e não encontrar nada... — Ben sacudiu a cabeça.

— É — disse Parkins. — Está sendo difícil demais para a mãe. Terrível. A gente se vê por aí.

— Certo — disse Ben.

— Não ficou chateado comigo?

— Não. — E depois de uma pausa. — Pode me dizer uma coisa?

— Fale.

— Onde conseguiu esse livro? De verdade.

Parkins Gillespie sorriu.

— Tem um sujeito em Cumberland que tem uma loja de móveis usados. Um sujeito meio fresco, chamado Gendron. Vende livros usados por dez centavos, e tinha cinco deste.

Ben jogou a cabeça para trás e soltou uma risada, e Parkins Gillespie saiu, sorrindo e fumando. Ben ficou na janela até que o delegado saísse e atravessasse a rua, desviando cuidadosamente das poças d’água com as galochas pretas.                         

 

Parkins parou um instante para olhar a vitrine da nova loja antes de bater na porta. Nos tempos da Lavanderia Village, tudo que se via lá naquele lugar era um monte de gordas de bobes colocando alvejante ou trocando dinheiro na máquina da parede, mascando chicletes como vacas mastigando palha. Mas um decorador de Portland passara todo o dia anterior lá, e parte daquele dia também, e o lugar estava com outra cara.

Uma plataforma fora erguida atrás da vitrine e coberta com um carpete áspero verde-claro. Dois focos de luz invisíveis haviam sido instalados, e lançavam uma luminosidade suave sobre três objetos que haviam sido dispostos na vitrine: um relógio, uma roda de fiar e uma antiquada cômoda de cerejeira. Havia um pequeno cavalete diante de cada peça, com uma discreta etiqueta de preço. Minha nossa, quem em seu juízo perfeito pagaria seiscentos dólares por uma roda de fiar quando uma máquina Singer custava 48,95 na Value House?

Suspirando, Parkins bateu na porta.

Ela se abriu no segundo seguinte, como se o novo morador estivesse espreitando atrás dela, esperando que ele batesse.

— Inspetor! — disse Straker, com um sorriso fino e polido. — Que gentileza sua nos visitar!

— É só delegado mesmo — disse Parkins. Acendeu um Pall Mall e entrou. — Parkins Gillespie. Prazer em conhecê-lo.

Ele estendeu a mão, que foi apertada gentilmente por outra que lhe pareceu extremamente forte e muito seca.

— Richard Throckett Straker — disse o careca.

— Foi o que imaginei — disse Parkins, olhando ao redor.

A loja toda fora acarpetada e estava sendo pintada. O cheiro de tinta fresca era gostoso, mas Parkins sentiu outro cheiro por trás, desagradável, indefinível. Voltou a atenção para Straker.

— O que posso fazer pelo senhor neste esplêndido dia? — perguntou Straker.

— Nada, nada. Só vim saber como vai. Sabe como é, dar as boas-vindas e lhe desejar boa sorte.

— É muita atenção da sua parte. Quer um café? Um cálice de xerez? Tenho ambos lá atrás.

— Não, obrigado, não vou demorar. O Sr. Barlow está?

— Está em Nova York, fazendo compras para a loja. Não deve voltar antes de dez de outubro.

— Vai abrir sem ele, então? — disse Parkins, pensando que, pelos preços que vira na vitrine, a loja não ficaria exatamente lotada de clientes. — Falando nisso, qual é o primeiro nome do Sr. Barlow?

Straker voltou a abrir seu sorriso, fino como lâmina.

— Está fazendo essa pergunta oficialmente... delegado?

— Não, só por curiosidade.

— O nome completo do meu sócio é Kurt Barlow. Já trabalhamos juntos em Londres e Hamburgo. Isto que vê aqui — ele fez um gesto abrangendo o ambiente — é nossa aposentadoria. Modesta, mas de bom gosto. Não esperamos mais do que ganhar a vida. No entanto, ambos gostamos de objetos antigos, finos, e esperamos criar uma boa reputação na região. Quem sabe até em toda a linda Nova Inglaterra. Acha que será possível, delegado Gillespie?

— Tudo é possível — disse Parkins, procurando um cinzeiro. Como não viu nenhum, bateu a cinza do cigarro no bolso do casaco. — Seja como for, desejo boa sorte a vocês dois. E diga ao Sr. Barlow, quando falar com ele, que passarei para conhecê-lo.

— Farei isso — disse Straker. — Ele gosta de companhia.

— Que bom — disse Gillespie. Quando chegou à porta, parou e se voltou. Straker olhava atentamente para ele. — A propósito, o que está achando do velho casarão?

— Precisa de muitas reformas — disse Straker. — Mas temos tempo.

— É o que parece — concordou Parkins. — Diga, por acaso apareceram uns piás por lá?

— Piás? — repetiu Straker, franzindo as sobrancelhas.

— Crianças — continuou Parkins, pacientemente. — Eles gostam de infernizar moradores novos. De atirar pedras ou tocar a campainha e sair correndo, esse tipo de coisa.

— Não, não vi criança nenhuma — disse Straker.

— Uma criança está desaparecida.

— É mesmo?

— É — disse Parkins, com seriedade. — É mesmo. Estamos achando que ele não voltará a aparecer. Não com vida.

— Que pena — disse Straker, em tom distante.

— Realmente. Se o senhor vir qualquer coisa...

— Comunicarei imediatamente à sua delegacia. — E ele voltou a abrir seu sorriso glacial.

— Ótimo — disse Parkins. Abriu a porta e olhou com resignação para a chuva pesada. — Diga ao Sr. Barlow que estou querendo conhecê-lo.

— Certamente, delegado Gillespie. Adieu.

Parkins olhou para trás, surpreso.

— Como é que é?

O sorriso de Straker se alargou.

— Adieu, delegado Gillespie. É a conhecida palavra francesa para “adeus”.

— Ah, é? A gente aprende uma coisa nova a cada dia. Bom, tchau. — Ele saiu e fechou a porta. — Conhecida só para ele. — Seu cigarro estava ensopado. Ele o jogou fora.

Dentro da loja, Straker observou Parkins se afastar pela rua. Seu sorriso tinha desaparecido.

 

Parkins voltou a sua sala no Paço Municipal e chamou:

— Nolly? Você está aí, Nolly?

Ninguém respondeu. Parkins balançou a cabeça. Nolly era um bom rapaz, mas um pouco tapado. Ele tirou o casaco, desafivelou as galochas, sentou diante de sua mesa, procurou um número na lista telefônica de Portland e discou. Atenderam na primeira chamada.

— FBI, Portland. Agente Hanrahan.

— Aqui é Parkins Gillespie. Delegado da cidade de Jerusalem’s Lot. Um menino desapareceu aqui.

— Estou sabendo — respondeu Hanrahan. — Ralph Glick. Nove anos de idade, um metro e meio, cabelos pretos, olhos azuis. O que houve, um pedido de resgate?

— Não, nada disso. Queria só que verificassem uns nomes para mim.

Hanrahan murmurou afirmativamente.

— O primeiro é Benjamin Mears. M-E-A-R-S. Escritor. Escreveu um livro chamado Conway’s Daughter. Os outros dois estão associados. Kurt Barlow. B-A-R-L-O-W. O outro é...

— É Kurt com “c” ou “k”?

— Não sei.

— Certo, continue.

Parkins continuou, suando. Falar com verdadeiros agentes da lei sempre fazia com que se sentisse um bundão.

— O outro é Richard Throckett Straker. Throckett com dois “t” no final, e Straker do jeito que se fala. Esses dois trabalham com móveis e antigüidades. Acabaram de abrir uma loja aqui na cidade. Straker diz que Barlow está em Nova York, comprando mercadorias. E que os dois já trabalharam juntos em Londres e Hamburgo. E acho que é só isso.

— São suspeitos do crime?

— Por enquanto, não sei nem se foi um crime. Mas todos apareceram na cidade na mesma época.

— Acha que há alguma ligação entre esse Mears e os outros dois?

Parkins recostou na cadeira e olhou para a janela.

— Essa é uma das coisas que eu gostaria de descobrir.

 

Os fios de telefone produzem um murmúrio peculiar em dias claros e frescos, como se vibrassem com as fofocas transmitidas por eles. É um som que não se parece com nenhum outro — o solitário sussurro de vozes vagando no espaço. Os postes telefônicos são cinzentos e lascados, e as geadas do inverno lhes deram uma postura negligente e curvada. Não são sérios e militares, como os postes ancorados no concreto. Têm bases pretas de alcatrão quando ficam ao lado de estradas asfaltadas, e cobertas de poeira quando ladeiam estradas de terra. Antigas marcas de gancho apareciam na superfície, onde guarda-fios subiram para consertar algo em 1946, 1952 ou 1969. Pássaros — corvos, pardais, tordos, estorninhos — se empoleiram nos fios murmurantes, arqueados e silencio­sos, talvez ouvindo os estranhos sons humanos. Se ouvem, seus olhos não dão nenhuma indicação disso. A cidade tem um senso, não de história, mas de tempo, e os postes telefônicos parecem saber disso. Encostando a mão num deles, sentimos a vibração dos fios no interior da madeira, como almas aprisionadas lutando para sair.

“...e ele pagou com uma nota de vinte antiga, daquelas grandes, sabe, Mable? Clyde disse que não via uma daquelas desde a queda do Gates Bank and Trust em 1930. Ele estava...”

“...é, ele é um homem muito estranho, Ewie. Eu o vi com meus binóculos, circulando atrás da casa com um carrinho de mão. Será que ele está lá sozinho ou...”

“...Crockett pode saber, mas não quer abrir a boca. Sempre foi um...”

“...o escritor, hospedado na Eva. Será que Floyd Tibbits sabe que ele está...”

“...passa um tempo absurdo na biblioteca. Loretta Starcher disse que nunca viu alguém conhecer tantos...”

“...ela disse que ele se chama...”

“...isso, Straker. Sr. R. T. Straker. A mãe de Kenny Danle disse que passou pela loja nova no centro e que viu um autêntico armário DeBiers na vitrine, e custava oitocentos dólares. Você acredita? E eu disse...”

“...engraçado, é só ele chegar que o filho dos Glick...”

“...você acha...”

“...não, mas que é estranho, é. Por sinal, você ainda tem aquela receita de...”

Os postes murmuram. E murmuram. E murmuram.

 

23/9/75

NOME: Glick, Daniel Francis

ENDEREÇO: via Brock, n° 1, Jerusalem’s Lot, Maine 04270

IDADE: 12   SEXO: masculino    RAÇA: branca

DATA DA INTERNAÇÃO: 22/9/75

RESPONSÁVEL: Anthony H. Glick (Pai)

SINTOMAS: Choque, perda de memória (parcial), náusea, perda de apetite, constipação, falta de energia.

EXAMES (ver folha anexa):

1. Exame epidérmico de tuberculose: Neg.

2. Exame de tuberculose por saliva e urina: Neg.

3. Diabetes: Neg.

4. Contagem de glóbulos brancos: Neg.

5. Contagem de glóbulos vermelhos: 45% hemoglobina.

6. Exame de medula: Neg.

7. Raios X do peito: Neg.

POSSÍVEL DIAGNÓSTICO: Anemia perniciosa, primária ou secundária; exame anterior mostra 86% de hemoglobina. Anemia secundária é improvável; não tem história de úlcera, hemorróidas et al. Contagem diferencial de glóbulos neg. Anemia primária combinada com choque emocional é o mais provável. Recomenda-se clister de bário e raios X para eliminar hemorragia interna, mas o pai diz não ter havido acidentes recentes. Recomenda-se também uma dosagem diária de vitamina B12 (ver folha anexa).

Aguardando outros exames, o paciente receberá alta.

G. M. Gorby

Médico responsável

 

A uma da manhã do dia 24 de setembro, a enfermeira entrou no quarto de Danny Glick para lhe dar sua medicação. Parou na porta, franzindo a testa. A cama estava vazia.

Seus olhos resvalaram da cama para o estranho embrulho de roupas brancas no chão.

— Danny? — disse ela.

Ela avançou um passo, pensando: ele teve de ir ao banheiro e não agüentou, foi isso.

Virou-o delicadamente, e a primeira coisa que pensou antes de perceber que estava morto foi que a vitamina B12 estava fazendo efeito, pois ele nunca parecera tão bem desde que fora internado.

Quando ela sentiu o pulso frio e a falta de movimento nas veias azuis claras que apalpava, correu até a enfermaria para comunicar uma morte em sua ala.

 

BEN (II)

No dia 25 de setembro, Ben voltou à casa dos Norton para jantar. Era uma noite de quinta-feira, e a refeição foi tradicional — salsicha com feijão. Bill Norton grelhou as salsichas na churrasqueira, e Ann deixara os feijões cozinhando no melado desde as nove da manhã. Depois de comer na mesa de piquenique, os quatro ficaram fumando e conversando sobre as poucas chances que o Boston tinha de ganhar o campeonato.

O tempo mudara sutilmente — continuava agradável, mesmo de mangas curtas, mas dava para sentir um começo de frio. O outono aguardava nos bastidores, quase se deixando ver. O grande e antigo bordo em frente da pensão de Eva Miller já começara a avermelhar.

Nada mudara na relação de Ben com os Norton. O afeto de Susan por ele era claro, franco e natural. E ele gostava muito dela. Sentia em Bill uma simpatia crescente, contida por um tabu incons­ciente, comum a todos os pais na presença de homens que os visitavam por causa das filhas, e não por eles mesmos. Um homem, quando simpatiza com outro, fala abertamente, sobre mulheres e política, entre uma cerveja e outra. Mas é impossível se abrir totalmente com um homem que é, potencialmente, o deflorador da filha. Depois do casamento, o potencial se concretizava, refletiu Ben, e seria possível ser realmente amigo de um homem que penetrava sua filha noite após noite? Devia haver uma moral ali, mas Ben duvidava.

Ann Norton continuava fria. Susan lhe falara um pouco de Floyd Tibbits na noite anterior — que sua mãe achava que já havia encontrado nele um genro satisfatório. Floyd era um elemento previsível, confiável. Ben Mears, por outro lado, viera do nada e podia sumir de uma hora para outra, levando o coração da filha no bolso. Ela desconfiava de homens criativos com uma aversão instintiva e interiorana (que Edward Alington Robinson ou Sherwood Anderson conheciam muito bem). Ben suspeitava que ela tivesse um lema: ou eram bichas, ou eram mulherengos. Também podiam ser homicidas, suicidas ou loucos. Costumavam cortar as orelhas esquerdas para mandá-las a mocinhas. A participação de Ben na busca de Ralphie Glick parecia ter aumentado as suspeitas dela, em vez de aplacá-las, e ele começava a achar que conquistá-la seria um feito impossível. Será que ela sabia que Parkins Gillespie o visitara?

Era o que ele pensava preguiçosamente quando Ann disse:

— Terrível o que aconteceu com o filho dos Glick.

— Ralphie? É mesmo — disse Bill.

— Não, o mais velho. Morreu.

Ben teve um sobressalto.

— Quem? Danny?

— Morreu na madrugada de ontem. — Ann parecia surpresa com o fato de os homens não saberem. Não se falava de outra coisa.

— Ouvi uns comentários no Milt — disse Susan. Procurou a mão de Ben sob a mesa, e ele a segurou de bom grado. — Como estão os pais?

— Como eu estaria — limitou-se a dizer Ann. — Fora de si.

E com razão, pensou Ben. Dez dias antes a vida deles seguia um ciclo costumeiro e seguro; e agora a família estava destruída, em pedaços. Um calafrio o percorreu.                                   

— Você acha que o outro menino pode aparecer com vida? — Bill perguntou a Ben.

— Não. Acho que também está morto.

— Parece aquele caso em Houston, dois anos atrás — disse Susan. — Se ele estiver morto, eu quase torço para que não seja encontrado. Quem seria capaz de fazer algo assim com um menininho indefeso...

— A polícia deve estar investigando — disse Ben. — Procurando criminosos sexuais conhecidos, interrogando-os.

— Quando encontrarem o sujeito, deviam arrancar o couro dele — disse Bill. — Que tal uma partida de badminton, Ben?

— Não, obrigado — disse Ben, levantando. — Além do mais, parece que você está jogando buraco comigo no papel de morto. Obrigado pelo jantar delicioso. Ainda preciso trabalhar hoje.

Ann Norton ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada.

— Como vai o novo livro? — disse Bill, levantando.

— Bem — disse ele brevemente. — Quer descer comigo e tomar um refrigerante na Spencer’s, Susan?

— Não sei — Ann apressou-se a dizer. — Depois do que aconteceu com Ralphie Glick, eu ficaria mais sossegada se...

— Mãe, já estou grandinha — disse Susan. — E o monte Brock é todo iluminado.

— Vou trazê-la de volta, é claro — disse Ben, quase com formalidade. Ele deixara o carro na pensão para aproveitar o belo fim de tarde.

— Não tem perigo — disse Bill. — Você se preocupa demais, mãe.

— É, acho que sim. E os jovens sempre sabem de tudo, não é? — Ela deu um sorriso forçado.

— Vou só pegar uma jaqueta — Susan murmurou para Ben. Usava uma minissaia vermelha, e suas pernas ficaram ainda mais à mostra enquanto subia os degraus até a porta. Ben admirou-as, sentindo o olhar de Ann sobre si. Bill apagava o carvão da churrasqueira.

— Quanto tempo pretende ficar na cidade, Ben? — Ann perguntou, fingindo interesse educado.

— Pelo menos até acabar o livro — disse ele. — Depois, não sei. As manhãs aqui são lindas, o ar é uma delícia. — Ele sorriu para ela. — Pode ser que eu fique mais.

— Faz frio no inverno, Ben — disse ela, também sorrindo. — Um frio terrível.

Mas Susan já voltava, com uma jaqueta leve sobre os ombros.

— Pronto? Vou tomar um chocolate. É melhor minha pele ficar esperta.

— Sua pele vai sobreviver — disse ele, e se virou para o Sr. e a Sra. Norton. — Obrigado mais uma vez.

— Disponha — disse Bill. — Volte amanhã à noite e traga cerveja, se quiser. Vamos dar risada daquele maldito Yastrzemski.

— Ótimo — disse Ben. — Mas o que faremos se o jogo acabar no primeiro tempo?

A risada de Bill, forte e cordial, seguiu-os enquanto saíam da casa.

 

— Eu não queria ir à Spencer’s — disse ela enquanto desciam o monte. — Você não prefere ir ao parque?

— E os assaltantes, mocinha? — perguntou ele, imitando o sotaque do Bronx.

— Em Lot, todos os assaltantes precisam voltar para casa às sete. É lei municipal. E agora são exatamente oito horas e três minutos. — A escuridão caiu sobre eles enquanto desciam o monte, e suas sombras cresciam e encolhiam à luz dos postes.

— Os assaltantes daqui são muito comportados — disse ele. — Ninguém vai ao parque à noite?

— Às vezes alguns adolescentes, quando não têm dinheiro para o drive-in — disse ela, e piscou para ele. — Então, se você vir algum movimento nas moitas, olhe para o outro lado.

Entraram pelo lado oeste, que dava para o Paço Municipal. O parque estava sombrio e um pouco fantasmagórico, os muros de concreto se curvando sob as árvores pesadas, a piscina brilhando silenciosamente sob a luz refratada da rua. Se alguém estava lá, Ben não via.

Contornaram o Memorial da Guerra, com suas longas listas de nomes, os mais antigos da Guerra da Independência, os mais novos da Guerra do Vietnã, todos gravados sob a Guerra de 1812. Seis nomes haviam sido acrescidos após o conflito mais recente, as letras talhadas no latão fulgindo como feridas abertas. O nome desta cidade está errado, pensou ele. Devia ser Tempo. E, como se movido por esse pensamento, ele tentou avistar a Casa Marsten, mas o Paço Municipal a ocultava.

Ela seguiu o olhar dele e franziu a testa. Enquanto estendiam as jaquetas na grama e sentavam (haviam desprezado tacitamente os bancos do parque), ela disse:

— Mamãe disse que Parkins Gillespie foi procurar você hoje. É que nem o menino novo da escola, suspeito de roubar o dinheiro do leite.

— Ele é uma figura — disse Ben.

— Para minha mãe, você já estava julgado e condenado. — Ela disse com leveza, mas sem conseguir ocultar a seriedade.

— Sua mãe não gosta muito de mim, não é?

— Não — disse Susan, segurando a mão dele. — Foi um caso de antipatia à primeira vista. Eu sinto muito.

— Tudo bem — disse ele. — Um gol eu já marquei.

— Com meu pai? — Ela sorriu. — Ele sabe reconhecer quando alguém tem classe. — Ela ficou séria. — Ben, sobre o que é seu novo livro?

— É difícil dizer. — Ele tirou os sapatos e enfiou os dedos dos pés na grama orvalhada.

— É melhor mudar de assunto.

— Não, não me importo em lhe dizer. — E ele descobriu, com surpresa, que era verdade. Sempre comparara um livro em andamento a uma criança, uma criança fraca, que precisava ser protegida e acalentada. Excesso de atenção poderia matá-la. Ele não dissera uma palavra a Miranda sobre Conway’s Daughter e Air Dance, embora ela tivesse ficado louca de curiosidade. Mas Susan era diferente. Miranda ficava sempre lhe sondando, e suas perguntas pareciam mais um interrogatório.

— Deixe-me pensar como explicar — disse ele.

— Pode me beijar enquanto pensa? — ela perguntou, deitando na grama. Ele foi obrigado a notar como a saía dela era curta, e agora subira ainda mais.

— Acho que vai interferir no meu raciocínio — disse ele, suavemente. — Vamos ver.

Ele se inclinou e a beijou, apoiando a mão de leve em sua cintura. Ela se entregou ao beijo, fechando as mãos sobre as dele. Ele sentiu a língua dela pela primeira vez, e a envolveu com a sua. Ela mudou de posição para se oferecer mais ao beijo, e o roçar suave do algodão de sua saia era quase enlouquecedor.

Ele deslizou a mão para cima, e ela arqueou as costas, oferecendo-lhe o seio macio e cheio. Pela segunda vez desde que a conhecera, ele se sentia um impetuoso rapaz de 16 anos, com o mundo diante de si, nenhum obstáculo à frente.

— Ben?

— Sim.

— Faça amor comigo. Você quer?

— Eu quero.

— Aqui na grama — disse ela.

— Sim.

Ela olhava para ele, os olhos largos e escuros.

— Faça ser bom.

— Vou tentar.

— Devagar — disse ela. — Devagar. Aqui...

Eles se tornaram sombras na escuridão.

— Aí — disse ele. — Ah, Susan...

 

Eles andaran pelo parque, primeiro sem destino, depois com mais resolução em direção à rua Brock.

— Está arrependida? — perguntou ele.

Ela olhou para ele e sorriu, sem artifícios.

— Não. Estou contente.

— Que bom.

Eles andaram de mãos dadas, em silêncio.

— E o livro? — perguntou ela. — Você ia me falar sobre o livro quando fomos tão docemente interrompidos.

— O livro é sobre a Casa Marsten — disse ele, lentamente. — No começo, não era para ser, não totalmente. Achei que seria sobre a cidade. Mas acho que estou me enganando. Pesquisei Hubie Marsten, sabe. Ele era um mafioso. A transportadora era só uma fachada.

Ela o olhou, surpresa.

— Como descobriu?

— Uma parte com a polícia de Boston e o resto com uma mulher chamada Minella Corey, a irmã de Birdie Marsten. Está com 79 anos. Não se lembra do que comeu no café da manhã, mas nunca se esqueceu de uma coisa que aconteceu antes de 1940.

— E ela lhe contou...

— Tudo o que sabia. Está numa casa de repouso em New Hampshire, e acho que fazia anos que ninguém se dava ao trabalho de ouvi-la. Perguntei se Hubert Marsten fora mesmo um assassino profissional na região de Boston, como a polícia acreditava, e ela fez que sim. “Quantos ele matou?”, perguntei. Ela levantou os” dedos na frente do rosto e os balançou de um lado para outro e disse: “Quantas vezes consegue contar meus dedos?”

— Meu Deus.

— A organização em Boston começou a ficar muito apreensiva com Hubert Marsten em 1927 — continuou Ben. — Ele foi interrogado duas vezes, uma pela polícia municipal e outra pela polícia de Malden. O caso em Boston era um assassinato no submundo do crime, e ele foi solto depois de duas horas. Mas o caso em Malden não fora um acerto de contas. Um menino de 11 anos fora assassinado e eviscerado.

— Ben... — disse ela, com a voz nauseada.

— Os chefes de Marsten livraram a pele dele, provavelmente porque ele sabia onde alguns corpos haviam sido enterrados, mas estava acabado em Boston. Mudou-se discretamente para ’salem’s Lot, parecendo ser apenas um executivo aposentado que recebia um cheque todo mês. Não saía muito de casa. Pelo menos até onde sabemos.

— Como assim?

— Passei muito tempo na biblioteca, consultando números antigos do Ledger, de 1928 a 1939. Quatro crianças desapareceram nesse período. Isso não é muito raro numa zona rural. Muitas crianças se perdem e às vezes morrem de frio. Ou são soterradas em algum deslizamento numa pedreira. É horrível, mas acontece.

— Mas você não acha que foi isso que aconteceu.

— Não sei. Mas sei que nenhuma das quatro crianças jamais foi encontrada. Nenhum esqueleto nunca foi encontrado por caçadores nem por pedreiros pegando cascalho para fazer cimento. Hubert e Birdie moraram naquela casa durante 11 anos e as crianças desapareceram. É tudo que se sabe. Mas fico pensando naquele menino de Malden. Penso muito. Você conhece o livro A Assombração da Casa da Colina, de Shirey Jackson?                                                   

— Conheço.

— “E o que por lá andasse, andava só.” Você perguntou sobre o que é meu livro. Basicamente, é sobre o poder recorrente do mal.

Ela apoiou a mão no braço dele.

— Você não acha que Ralphie Glick...

— Foi engolido pelo espírito vingativo de Hubert Marsten, que volta à vida a cada três anos na lua cheia?

— Algo assim.

— Está falando com a pessoa errada, se quer ser tranqüilizada. Lembre-se de que eu fui a criança que abriu uma porta no andar de cima e o viu pendurado numa viga.

— Isso não foi uma resposta.

— Tem razão. Deixe-me contar mais uma coisa antes de lhe dizer exatamente o que penso. Minella Corey disse que havia homens maus no mundo, maus de verdade. Às vezes ouvimos falar deles, mas geralmente eles agem em total anonimato. Disse que fora condenada a conhecer dois homens assim em sua vida. Um era Adolf Hitler. O outro era seu cunhado, Hubert Marsten. — Ele fez uma pausa. — Ela disse que no dia em que Hubie matou sua irmã, ela estava a 500 quilômetros de distância, em Cape Cod. Trabalhava como governanta para uma família rica naquele verão. Às duas e quinze da tarde, ela preparava uma salada numa grande vasilha de madeira. Uma dor aguda, “como um raio”, disse ela, atravessou sua cabeça, e ela ouviu um tiro. E desmaiou. Quando voltou a se levantar sozinha (não tinha mais ninguém na casa), vinte minutos haviam se passado. Olhou para a vasilha de madeira e gritou. Parecia que estava cheia de sangue.

— Meu Deus — murmurou Susan.

— Um instante depois, tudo estava normal de novo. A dor tinha passado, não havia nada na vasilha além da salada. Mas ela disse que tinha certeza de que a irmã estava morta, assassinada com um tiro.

— É a versão dela?

— Não foi comprovada, mas ela não é uma loroteira. É uma velha que não tem mais cabeça nem para mentir. Mas essa parte não me incomoda. Não muito, pelo menos. Hoje existem muitos dados sobre poderes extra-sensoriais, que as pessoas racionais podem desprezar, se quiserem. É mais fácil para mim, acreditar que Birdie tenha comunicado sua morte a uma distância de 500 quilômetros por um telégrafo psíquico do que acreditar na face do mal, essa face monstruosa, que às vezes penso ver entre os contornos daquela casa.

“Você me perguntou o que acho. Vou lhe dizer. Acho que é relativamente fácil para as pessoas aceitarem coisas na telepatia e na parapsicologia, porque não lhes custa nada. Não lhes tira o sono à noite. Mas a idéia de que um homem pode morrer e deixar o mal como legado é muito mais perturbadora.”

Ele olhou para a Casa Marsten e falou lentamente.

— Acho que aquela casa pode ser o monumento ao mal deixado por Hubert Marsten, uma caixa de ressonância psíquica. Ou um farol guiando o sobrenatural. Talvez guardando, durante todos esses anos, a essência do mal que Hubie deixou em seus alicerces velhos e decrépitos.

— E agora voltou a ser ocupada.

— E outra criança desapareceu. — Ele se virou e segurou o rosto de Susan entre as mãos. — Não tinha contado com isso quando voltei para cá, entende? Achei até que a casa tivesse sido derrubada, mas nunca imaginei que alguém a compraria. Pensei em alugá-la e... sei lá, confrontar meus velhos medos. Dar uma de exorcista, talvez. “Desapareça em nome de todos os santos, Hubie.” Ou talvez só absorver a atmosfera do lugar e escrever um livro assustador a ponto de me render um milhão de dólares. Mas, seja como for, eu sentia que tinha controle da situação, e isso faria toda a diferença. Eu não era mais um menino de nove anos, que sairia correndo aos berros de uma imagem que talvez só tenha existido na minha imaginação. Mas agora...

— O quê, Ben?

— Agora a casa está ocupada! — ele exclamou, batendo com o punho na mão. — Não estou mais no controle da situação. Um menino desapareceu, e não sei o que pensar disto. Pode não ter nada a ver com a casa, mas... Eu não acredito. — As últimas palavras saíram a intervalos tensos.

— Está falando de fantasmas? Espíritos?

— Não necessariamente. Talvez um cara inofensivo, que admirava a casa quando criança, resolveu comprá-la e ficou... possuído.

— Você sabe alguma coisa sobre... — ela começou, alarmada.

— O novo morador? Não. Estou só supondo. Mas, se a casa estiver por trás de tudo isso, eu quase prefiro que seja possessão e não outra coisa.

— O quê?

— A casa pode ter chamado outro homem maligno — disse ele simplesmente.

 

Ann Norton olhava pela janela. Já havia ligado para a drogaria. Não, dissera a Srta. Coogan, quase com satisfação. Eles não haviam estado lá.

Onde você está, Susan? Onde?

Sua boca se curvou numa expressão de impotência.

Vá embora, Ben Mears. Vá embora e deixe-a em paz.

 

Quando deixou os braços dele, ela disse:

— Faça algo importante por mim, Ben.

— Tudo que eu puder.

— Não mencione o que me disse para ninguém na cidade. Ninguém.

Ele abriu um sorriso triste.

— Não se preocupe. Não quero que as pessoas comecem a achar que fiquei biruta.

— Você tranca seu quarto na pensão?

— Não.

— Eu trancaria. — Ela o olhou com seriedade. — Precisa lembrar que está sob suspeita.

— De sua parte também?

— Estaria, se eu não te amasse.

E então ela se afastou rapidamente em direção à estrada, deixando-o a olhá-la, espantado com tudo que dissera e mais espantado ainda com as cinco ou seis palavras que ela lhe dissera no final.

 

De volta à pensão, ele se deu conta de que não conseguiria nem escrever nem dormir. Estava agitado demais. Então entrou no Citroën e, após um instante de indecisão, partiu em direção ao Dell’s.

O bar estava lotado, barulhento e enfumaçado. Uma banda de música Country chamada The Rangers tocava uma versão de “You’ve never been this far before”, que compensava em volume o que perdia em qualidade. Uns quarenta casais giravam pelo salão, a maioria usando jeans. Ben sorriu, lembrando da dança que Edward Albee inventara em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Os bancos na frente do balcão eram ocupados por pedreiros e operários da fábrica, todos bebendo copos idênticos de cerveja e usando botas de trabalho idênticas, amarradas com couro cru.

Duas ou três garçonetes, com penteados bufantes e os nomes bordados com linha dourada nas blusas brancas (Jackie, Toni, Shirley), circulavam entre as mesas e reservados. Atrás do balcão, Dell tirava cerveja, e no outro lado, um homem parecido com um falcão, brilhantina no cabelo, preparava drinques. Seu rosto permanecia inalterável enquanto media as bebidas em copos de dose, jogava-as na coqueteleira prateada e adicionava os outros ingredientes.

Ben andava em direção ao balcão, contornando a pista de dança, quando alguém o chamou.

— Ben! Você por aqui! Tudo certo, amigo?

Ben olhou ao redor e viu Weasel Craig sentado a uma mesa perto do balcão, segurando uma cerveja pela metade.

— Oi, Weasel — disse Ben, sentando-se. Sentiu alívio ao ver um rosto conhecido, e gostava de Weasel.

— Decidiu curtir um pouco a noite, amigo? — Weasel sorriu e lhe deu um tapa no ombro. “O cheque dele deve ter saído”, pensou Ben. Só seu bafo era capaz de levar Milwaukee para os noticiários.

— Pois é — disse Ben. Tirou um dólar do bolso e o colocou sobre a mesa, coberta com os vestígios circulares dos muitos copos de cerveja que haviam estado lá. — E aí, tudo bem?

— Tudo ótimo. O que está achando desse conjunto novo? Bom, não?

— É razoável — disse Ben. — Termine logo essa cerveja antes que esquente. Hoje é por minha conta.

— Estou esperando alguém dizer isso a noite toda. Jackie!— ele berrou. — Traga uma jarra para o meu amigo aqui. Budweiser!

Jackie trouxe a jarra numa bandeja coberta de moedas molhadas de cerveja e a colocou sobre a mesa, seu braço direito se dilatando como o de um lutador. Olhou para o dólar como se fosse uma nova espécie de barata.

— Custa um dólar e quarenta — disse ela.

Bill colocou outra nota sobre a mesa. Ela pegou as duas, pescou sessenta centavos em meio às poças da bandeja, colocou as moedas na mesa e disse:

— Weasel Craig, quando você grita daquele jeito, parece que alguém está torcendo o pescoço de um galo.

— Você é uma graça, amor — disse Weasel. — Este é Ben Mears. É escritor.

— Prazer — disse Jackie, e desapareceu nas sombras do bar.

Ben encheu um copo e Weasel fez o mesmo, enchendo o seu profissionalmente até o topo. A espuma ameaçou transbordar e depois recuou.

— A sua saúde, amigo.

Ben ergueu o copo e bebeu.

— E então, como vai o livro?

— Vai indo, Weasel.

— Vi você com a filha dos Norton. Ela é uma uva. Você não podia ter escolhido melhor.

— É, ela...

— Mott! — berrou Weasel, quase fazendo Ben derrubar seu copo. Nossa, pensou. Ele parece mesmo um galo sendo esganado.

— Matt Burke! — Weasel acenava freneticamente, e um homem de cabelos brancos cumprimen­tou-o com um aceno e abriu caminho entre a multidão.

— Você precisa conhecer o Matt — Weasel disse a Ben. — É um sujeito inteligente.

O homem que se aproximava parecia ter cerca de sessenta anos. Era alto, usava uma camisa de flanela limpa aberta no pescoço, e seu cabelo, branco como o de Weasel, tinha corte à escovinha.

— Olá, Weasel — disse ele.

— Tudo bem, amigo? — Weasel disse. — Quero te apresentar Ben Mears, que está hospedado na Eva. Ele é escritor, um sujeito muito decente. — Olhou para Ben. — Matt e eu crescemos juntos, só que ele pegou um diploma e eu peguei a enxada. — Weasel deu uma risada estridente.

Ben se levantou e apertou a mão de Matt Burke calorosamente.

— Como vai?

— Bem, obrigado. Li um de seus livros, Sr. Mears. Air Dance.

— Pode me chamar de Ben. Espero que tenha gostado.

— Gostei muito mais do que os críticos, ao que parece — disse Matt, sentando-se. — Mas acho que vai ganhar espaço com o tempo. Como vão as coisas, Weasel?

— Uma beleza. Não podiam estar melhores. Jackie!— berrou ele. — Traga um copo para o Matt!

— Espere um pouco, velho maluco! — gritou Jackie, provocando risos nas mesas próximas.

— Ela é um doce de menina — disse Weasel. — Filha da Maureen Talbot.

— Eu sei — disse Matt. — Ela foi minha aluna na turma de 71. A mãe dela era da turma de 51.

— Matt ensina inglês e literatura no colégio — Weasel disse a Ben. — Vocês dois devem ter muito o que conversar.

— Lembro de uma garota chamada Maureen Talbot — disse Ben. — Ela buscava a roupa lavada da minha tia e a trazia passada numa cesta de vime. A cesta só tinha uma alça.

— Então você é daqui, Ben? — perguntou Matt.

— Passei alguns anos aqui na infância. Com minha tia Cynthia.

— Cindy Stowens?

— Ela mesma.

Jackie voltou com um copo limpo e Matt o encheu.

— Como o mundo é pequeno. Sua tia estava no último ano quando comecei a ensinar em ’salem’s Lot. Como ela está?

— Morreu em 1972.

— Sinto saber.

— Ela teve uma morte muito tranqüila — disse Ben, voltando a encher o copo. A banda terminara de tocar, e os membros marchavam em direção ao bar. O volume das vozes baixou um pouco.

— Você veio a Jerusalem’s Lot para escrever um livro sobre nós? — perguntou Matt.

Um alarme soou na cabeça de Ben.

— De certo modo — disse ele.

— Esta cidade conseguiu um cronista melhor do que merece. Air Dance é um belo livro. Acho que pode haver outro belo livro nesta cidade. Um dia pensei em escrevê-lo.

— Por que não o escreveu?

Matt sorriu, um sorriso tranqüilo, sem amargura, cinismo ou malícia.

— Me faltou um ingrediente vital. Talento.

— Não acredite nele — disse Weasel, enchendo o copo com a espuma que restara na jarra. — O velho Matt tem talento para dar e vender. Ensinar é um trabalho maravilhoso. Ninguém dá valor aos professores, mas eles são... — Ele balançou um pouco na cadeira, buscando um final para a frase. Estava ficando muito bêbado. — O sal da terra — completou. Deu um grande gole na cerveja, fez uma careta e se ergueu. — Com a licença de vocês, vou mijar.

Ele se afastou, esbarrando nas pessoas e saudando-as pelo nome. Elas o deixavam passar com impaciência ou bom humor, e sua trajetória até o banheiro era como a de uma bola de fliperama descendo e se debatendo em direção aos botões da máquina.

— Lá vai o que restou de um bom homem — disse Matt, e levantou um dedo. Uma garçonete apareceu imediatamente e o tratou como Sr. Burke. Parecia um pouco escandalizada ao ver seu velho professor de literatura inglesa bebendo com gente como Weasel Craig. Quando ela se afastou para buscar outra jarra, Ben achou Matt um pouco absorto.

— Gosto de Weasel — disse Ben. — Tenho a sensação de que ele já teve muito potencial. O que aconteceu?

— Ah, não tem muito o que contar — disse Matt. — A garrafa tomou conta dele. Foi tomando mais a cada ano e agora o domina totalmente. Ganhou uma medalha por bravura na Segunda Guerra. Um cínico diria que sua vida teria sido mais significativa se ele tivesse morrido lá.

— Não sou um cínico — disse Ben. — E gosto dele assim mesmo. Mas acho melhor levá-lo para casa hoje.

— Seria uma boa ação. Venho aqui de vez em quando para ouvir música. Gosto de música alta. Mais ainda depois que comecei a ouvir mal. Soube que você está interessado na Casa Marsten. Seu livro é sobre ela?

Ben deu um salto na cadeira.

— Quem lhe disse isso?

Matt sorriu.

— Como é mesmo aquela velha música de Marvin Gaye? “I Heard it Trought the Grapevine”, uma expressão sedutora, viva, mas a imagem é um pouco obscura, pensando bem. Faz pensar num homem com o ouvido colado a uma garrafa de Concord ou Tokay... Estou divagando. Tenho divagado muito ultimamente, mas não tento mais evitar. Soube através do que a imprensa chamaria de “fonte informa­da”. Loretta Starcher, a guardiã de nossa cidadela de livros. Você esteve na biblioteca várias vezes para consultar artigos do Ledger de Cumberland relativos ao antigo escândalo, e ela também buscou para você dois livros com artigos sobre crimes. A propósito, o de Lubert é bom. Ele veio a Lot fazer uma pesquisa em 1946, mas o capítulo sobre Snow não passa de especulação.

— Eu sei — disse Ben, mecanicamente.

A garçonete trouxe uma nova jarra de cerveja, e Ben subitamente teve uma visão incômoda: um peixe nada livre e sem obstáculos, pairando sobre as algas e o plâncton. Mas, de longe, o quadro se revela — é um peixe num aquário.

Matt pagou a garçonete e disse:

. — Foi horrível o que aconteceu lá. Ficou no inconsciente da cidade. É claro que histórias de maldades e assassinatos são sempre passadas com deleite mórbido de uma geração a outra, enquanto os alunos reclamam quando precisam ler um George Washington Carver ou um Jonas Salk. Mas acho que é mais do que isso. Talvez se deva a uma excentricidade geográfica.

— É verdade — disse Ben, atraído a contragosto. O professor acabava de formular uma idéia que o assediava desde o dia em que chegara à cidade, talvez até mesmo antes. — Ela fica naquele monte, olhando para a cidade como... como uma espécie de ídolo sinistro. — Ele riu para que a comparação parecesse trivial. Temia ter dito algo muito íntimo e revelador sem refletir, abrindo uma fresta de sua alma a um estranho. E o súbito olhar atento que Matt Burke lhe dirigiu não colaborou para que se sentisse melhor.

— Isso é talento — disse ele.

— Como?

— Você usou a expressão exata. A Casa Marsten nos contempla há quase cinqüenta anos, testemunha de todos os nossos pequenos pecados e mentiras. Como um ídolo.

— Talvez tenha visto coisas boas também.

— O bem é escasso em cidadezinhas sedentárias. O que predomina é indiferença temperada com uma pitada de maldade inconsciente, ou pior, consciente. O tema rendeu a Thomas Wolfe boas páginas de literatura.

— Pensei que não fosse cínico.

— Você disse que não era, não eu.

Matt sorriu e bebericou a cerveja. A banda começou a deixar o balcão, com as camisas verme­lhas, os coletes e lenços de pescoço reluzindo. O cantor pegou o violão e começou a afiná-lo.

— Ainda não respondeu à minha pergunta. Seu novo livro é sobre a Casa Marsten?

— É, de certo modo.

— Estou sendo indiscreto. Desculpe.

— Não tem problema — disse Ben, pensando em Susan e se sentindo um pouco culpado. — Por que será que Weasel está demorando? Faz tempo que ele foi ao banheiro.

— Posso abusar de nossa pequena amizade e pedir um grande favor? Se recusar, entenderei perfeitamente.

— Claro, pode pedir.

— Dou aula de redação para uma turma — disse Matt. — São crianças inteligentes, que estão terminando o ensino médio, e gostaria de lhes apresentar alguém que ganha a vida escrevendo. Alguém que, como direi?, transformou o verbo em carne.

— Será um prazer — disse Ben, sentindo-se absurdamente lisonjeado. — Quanto tempo dura a aula?

— Cinqüenta minutos.

— Acho que não conseguirei entediá-los nesse espaço de tempo.

— Não? Eu consigo muito bem — disse Matt. — Mas tenho certeza de que você não irá entediá-los. Semana que vem?

— É só falar o dia e a hora.

— Terça, na quarta aula? Vai das onze até o meio-dia; Ninguém vai vaiá-lo, mas você ouvirá vários estômagos roncando.

— Levarei algodão para os ouvidos.

Matt riu.

— Fico muito contente. Posso encontrá-lo na secretaria, se preferir.

— Ótimo. Você...

— Sr. Burke? — Era Jackie, dos bíceps musculosos. — Weasel desmaiou no banheiro masculino. O senhor poderia...

— Meu Deus. Ben, vamos até lá?

— Claro.

Eles levantaram e atravessaram o salão. A banda recomeçara a tocar, uma música sobre como os garotos de Muskogee ainda respeitavam o reitor da faculdade.

O banheiro cheirava a urina e cloro. Weasel estava escorado contra a parede entre dois mictó­rios, e um sujeito de uniforme do exército mijava a cinco centímetros de sua orelha direita.

Sua boca estava aberta, e Ben reparou como ele parecia terrivelmente velho, velho e devastado por forças frias e impiedosas. A consciência de sua própria dissolução, que avançava a cada dia, veio-lhe de repente — não pela primeira vez, mas de modo chocante e inesperado. A piedade que lhe invadiu como águas turvas era tanto por ele mesmo como por Weasel.

— Pode passar o braço debaixo dele quando esse cavalheiro terminar de se aliviar? — disse Matt.

— Claro — disse Ben. Olhou para o homem de uniforme do exército, que sacudia as últimas gotas calmamente. — Dá para ir mais rápido, amigo?

— Para quê? Ele não está com pressa.

Assim mesmo, ele subiu o zíper e se afastou do mictório para que eles pudessem se aproximar.

Ben colocou o braço sob as costas de Weasel, segurou-o pela axila e o levantou. Pressionou o corpo contra a parede de azulejos e sentiu as pulsações do som da banda. Weasel, totalmente inconsciente, deixou-se suspender como um saco de farinha. Matt passou o outro braço de Weasel sobre os ombros, abraçou-o pela cintura e os dois o carregaram para fora.

— Lá vai o Weasel — alguém disse, e outros riram.

— Dell devia parar de servi-lo — disse Matt, ofegante. — Sabe como isso sempre termina.

Eles saíram até o vestíbulo e desceram os degraus de madeira que levavam ao estacionamento.

— Devagar — grunhiu Ben. — Não o derrube.

Desceram a escada, os pés inertes de Weasel se arrastando nos degraus como blocos de madeira.

— É o Citroën... na última fileira.

Eles o arrastaram até lá. O ar da noite estava mais cortante agora, e no dia seguinte as folhas sangrariam. Weasel começara a gemer fracamente, balançando a cabeça sobre o pescoço fino.

— Você consegue levá-lo para a cama quando chegarem na Eva? — perguntou Matt.

— Acho que sim.

— Ótimo. Olhe, dá para ver o telhado da Casa Marsten além das árvores.

Ben olhou. Matt tinha razão: o ângulo superior mal se deixava ver sobre o horizonte escuro do pinheiral, ocultando as estrelas na orla do mundo com a regularidade das obras humanas. Ben abriu a porta do passageiro e disse:

— Pronto, passe-o para mim.

Ben pegou o corpo pesado de Weasel, estendeu-o cuidadosamente no banco do passageiro e fechou a porta. A cabeça de Weasel rolou contra a janela, achatando-se de modo grotesco.

— Terça às onze?

— Pode contar comigo.

— Obrigado. E obrigado também por ajudar o Weasel. — Ele estendeu a mão e Ben a apertou.

Ele entrou, deu partida no Citroën e partiu em direção à cidade. Depois que o luminoso do bar desapareceu atrás das árvores, a estrada ficou deserta e escura, e Ben pensou: essas estradas estão assombradas agora.

Weasel soltou um ronco e um gemido no banco de trás e Ben deu um salto, perdendo por um breve instante o controle do carro.

Por que fui pensar aquilo?

Nenhuma resposta.

 

Ele abriu a janela de trás, para que o vento entrasse em cheio sobre Weasel, e quando parou no pátio de entrada da pensão, ele já atingira um estado de semiconsciência.

Ben o arrastou, meio aos tropeções, pela escada da varanda traseira e depois até a cozinha, fracamente iluminada pela luz do fogão.

Weasel gemeu e depois murmurou:

— Ela é um amor de garota, Jack, e as mulheres casadas sabem...

Uma sombra emergiu do corredor. Era Eva, imensa num velho penhoar acolchoado, os cabelos presos com bobes e cobertos com uma rede. O creme de beleza tornava seu rosto pálido e espectral.

— Ed — disse ela. — Ed... você não toma jeito, não?

Ele abriu um pouco os olhos ao som da voz dela, e esboçou um sorriso.

— Não tomo mesmo — balbuciou. — E você sabe melhor do que ninguém.

— Você consegue levá-lo até o quarto? — ela perguntou a Ben.

— Claro, sem problemas.

Ele apertou Weasel mais forte e arrastou-o escada acima e depois até o quarto. A porta estava destrancada, e ele o levou para dentro. Assim que o deitou na cama, os sinais de consciência cessaram e ele mergulhou num sono profundo.

Ben fez uma pausa e olhou ao redor. O quarto era limpo, quase asséptico, os objetos guardados com organização militar. Quando começou a desamarrar os sapatos de Weasel, Eva Miller disse da porta:

— Pode deixar, Sr. Mears. Pode subir, se quiser.

— Mas ele precisa...

— Eu tiro as roupas dele. — Seu rosto expressava uma tristeza digna e comedida. — E vou esfregar álcool em seu corpo para aliviar a ressaca de amanhã. Já fiz isso antes, várias vezes.

— Está certo — disse Ben, e subiu sem olhar para trás. Despiu-se lentamente, pensou em tomar um banho mas mudou de idéia. Deitou na cama e ficou olhando para o teto durante muito tempo, sem conseguir dormir.

 

A CIDADE (II)

Outono e a primavera chegam a Jerusalem’s Lot de modo tão súbito como a aurora e o crepúsculo nos trópicos. A linha de demarcação pode ser apenas um dia. Mas a primavera não é a estação mais bela na Nova Inglaterra — é curta e incerta demais, e pode ficar turbulenta de uma hora para outra. Mesmo assim, alguns dias de abril são tão inesquecíveis quanto o toque da pessoa amada, ou a sensação da boca desdentada do bebê sugando o seio. Mas, já em meados de maio, o sol emerge da névoa matinal com força e autoridade, e você sairá para a varanda às sete da manhã com sua marmita na mão, sabendo que o orvalho terá evaporado da grama às oito e que a poeira nas estradas de terra pairará imóvel no ar durante cinco minutos após a passagem de um carro, e que à uma da tarde fará 35 graus no terceiro andar da fábrica e o suor escorrerá pelos braços como óleo, fazendo a camisa grudar nas costas, formando um círculo molhado, como se fosse julho.

Mas depois de meados de setembro, o outono chega expulsando o traiçoeiro verão, e se instala por algum tempo como um velho e saudoso amigo, que senta na sua cadeira favorita, acende o cachimbo e enche a tarde com histórias dos lugares onde esteve e as coisas que fez desde sua última visita.

O outono fica durante todo o mês de outubro e, raramente, durante o mês de novembro. Dia após dia, o céu ganha um azul intenso e límpido, e as nuvens que deslizam por ele, sempre em direção ao leste, são navios calmos e brancos com quilhas cinzentas. O vento começa a soprar durante o dia e não pára mais, apressando as pessoas nas ruas e triturando as folhas caídas em espirais frenéticas e variadas. O vento causa uma ânsia profunda e ancestral. Talvez toque um ponto na alma, uma antiga memória coletiva que diz Migre ou morra, migre ou morra. Mesmo em sua casa, atrás de sólidas paredes, o vento açoita a madeira e o vidro e curva os beirais, obrigando-o a interromper o que está fazendo para ir olhar. E você pode sair até a varanda ou a porta da casa no meio da tarde e ver as sombras das nuvens correrem sobre o pasto dos Griffen e subirem o morro do Pátio do Colégio, clareando e sombreando a relva, como se alguém abrisse e fechasse as persianas do céu. As varas-de-ouro, essas tenazes, belas e perniciosas flores da Nova Inglaterra, curvam-se contra o vento como uma imensa e silenciosa congregação. E quando não há nem carros nem aviões, se ninguém estiver no bosque a oeste da cidade atirando numa codorna ou num faisão, se o único som for o lento bater de seu coração, você talvez escute outro som, o som da vida declinando rumo a seu fecho cíclico, aguardando a primeira neve do inverno para receber a extrema-unção.

 

Naquele ano, o primeiro dia do outono (do verdadeiro, não o do calendário) foi 28 de setembro, o dia em que Danny Glick foi enterrado no Cemitério Harmony Hill.

A cerimônia na igreja fora fechada, mas a do cemitério seria aberta, e um grande número de moradores compareceu, entre colegas de classe, curiosos e pessoas de idade, para quem os enterros vão se tornando uma compulsão à medida que são envolvidas pela mortalha do tempo.

O longo cortejo subiu a rua Burns, dobrando uma esquina e sumindo atrás do monte. Todos os carros estavam com os faróis acesos, apesar do esplendor do dia. À frente ia o carro fúnebre de Carl Foreman, a traseira cheia de flores; depois, o Mercury 1965 de Tony Glick, o velho amortecedor soltando gemidos e estouros. Atrás, nos quatro carros seguintes, vinham parentes de ambos os lados da família, de lugares tão distantes quanto Tulsa, Oklahoma. Outros participantes do longo desfile eram: Mark Petrie (o menino que Ralphie e Danny iam visitar na noite em que o primeiro desapareceu) com a mãe e o pai; Richie Boddin e família, Mabel Werts num carro junto com o Sr. e Sra. William Norton (sentada no banco de trás com a bengala plantada entre as pernas inchadas, ela falava ininterruptamente sobre outros enterros a que ela assistira desde 1930); Lester Durham e a mulher, Harriet; Paul Maybeny e a mulher, Glynis; Pat Middler, Joe Crane, Vinnie Upshaw e Clyde Corliss, todos num carro dirigido por Milt Crossen (Milt abrira a geladeira antes de partirem, e cada um tomou uma cerveja solenemente diante do fogão); Eva Miller seguia num carro ao lado das amigas Loretta Starcher e Rhoda Curless, ambas ainda donzelas; Parkins Gillespie e seu vice, Nolly Gardener, iam no carro de polícia de Jerusalem’s Lot (era o Ford de Parkins com uma estrela colada no painel); depois ainda vinham Lawrence Crockett e sua lívida mulher; Charles Rhodes, o rabugento motorista de ônibus, que compa­recia a todos os enterros por uma questão de princípio; a família de Charles Griffen, incluindo a mulher e os dois filhos, Hal e Jack, o único que ainda não saíra de casa.

Mike Ryerson e Royal Snow haviam aberto a cova de manhã, estendendo faixas de grama falsa sobre a terra fresca retirada do chão. Enquanto hasteava a Flâmula da Memória que os Glick haviam especificado, Mike notou que Royal estava diferente naquela manhã. Geralmente não parava de caçoar da tarefa reservada a eles (cantava, desafinado: “Eles te enrolam num lençol branco, e te enterram no fundo do barranco”), mas naquele dia ele estava estranhamente silencioso, quase emburrado. Pode ser ressaca, pensou Mike. Deve ter ido ao Dell’s com Peters, seu amigo cheio de músculos, e enchido a cara ontem à noite.

Cinco minutos antes, ele vira o carro fúnebre de Carl subindo o monte a uns dois quilômetros de distância e escancarara os portões de ferro, olhando para as altas lanças de ferro como sempre fazia desde que encontrara Doc espetado numa delas. Depois voltou até a cova recém-aberta, onde o padre Donald Callahan, responsável pela paróquia de Jerusalem’s Lot, esperava ao lado da sepultura. Usava uma estola sobre os ombros, e o missal em sua mão estava aberto no capítulo sobre funerais infantis. Era o que eles chamavam de terceira estação, Mike sabia. Primeira estação, a casa do falecido, segunda estação, a igrejinha católica de St. Andrew, e a última estação, cemitério de Harmony Hill. Desçam todos.

Um arrepio o percorreu e ele olhou para a vistosa grama plástica, perguntando-se por que era parte integrante de todo funeral. Era exatamente o que parecia: uma imitação barata da vida, mascarando a terra arrancada para abrir a morada final.

— Eles estão chegando, padre — disse ele.

Callahan era um homem alto, de penetrantes olhos azuis e tez avermelhada. Seus cabelos eram de um cinza metálico. Ryerson, que não pisava na igreja desde os 16 anos, gostava mais dele do que dos outros religiosos locais. John Groggins, o ministro metodista, era um velho chato e hipócrita, e Patterson, da Igreja dos Santos do Último Dia e Seguidores da Cruz, era louco de pedra. No funeral de um dos diáconos da igreja dois ou três anos antes, Patterson se jogara no chão e se pusera a rolar. Mas Callahan era um bom sujeito, apesar de papista, e seus funerais eram calmos, confortantes e sempre curtos. Ryerson duvidava que seu rosto tivesse ficado tão vermelho de tanto rezar, mas se tinha bebido um pouco na vida, quem podia condená-lo? Do jeito que o mundo estava, era um milagre que todos os sacerdotes não acabassem no hospício.

— Obrigado, Mike — disse ele, e olhou para o céu luminoso. — Este vai ser difícil.    

— Parece. Quanto tempo vai demorar?

— Dez minutos, no máximo. Não vou prolongar o sofrimento dos pais. Eles ainda terão muito pela frente.

— Ok — disse Mike, e andou em direção aos fundos do cemitério. Saltaria o muro de pedra e comeria seu almoço na floresta. Sabia de longa experiência que a última coisa que os parentes e amigos do falecido queriam ver na terceira estação era o coveiro com seu macacão manchado de terra. Era uma visão que interferia com a imagem do paraíso pintada pelo sacerdote.

Perto do muro, ele se curvou para examinar uma lápide que havia caído para frente. Endirei­tou-a e voltou a sentir um arrepio ao limpar a terra da inscrição:

HUBERT BARCLAY MARSTEN

6 de outubro de 1889

12 de agosto de 1939

O anjo da Morte

empunhando a brônzea Lâmpada

além dos portões dourados

levou-o a turvas Águas

E embaixo, quase apagadas por 36 estações de geadas, as palavras:

Que Deus o conserve lá

Ainda vagamente inquieto e ainda sem saber o porquê, Mike Ryerson entrou na mata para almoçar ao lado do riacho.

 

Nos primeiros anos de seminário, um amigo do padre Callahan lhe dera um álbum com bordados blasfemos que lhe causara acessos de riso horrorizado na época, mas que pareciam mais verdadeiros e menos sacrílegos com o passar do tempo: Deus, dai-me SERENI­DADE para aceitar o que não posso mudar, TENACIDADE para mudar o que posso e SORTE para não fazer muita merda. Isso escrito em caligrafia antiga e rebuscada, com um sol nascente ao fundo.

Agora, diante dos parentes e amigos de Danny Glick, a velha oração voltou a lhe ocorrer.

Os carregadores do caixão, dois tios e dois primos do menino, haviam pousado o ataúde no chão. Marjorie Glick, de casaco preto e chapéu preto com véu, o rosto se revelando por entre a rede, era amparada pelo braço protetor do pai e agarrava uma bolsinha preta como se fosse um salva-vidas. Tony Glick estava longe dela, o rosto chocado e distante. Várias vezes durante a cerimônia na igreja ele olhara ao redor, como para confirmar sua presença entre aquelas pessoas. Tinha a expressão de alguém preso num sonho.

A igreja não pode tirá-lo desse sonho, pensou Callahan. Nem toda a serenidade, tenacidade e sorte do mundo. A merda já tinha acontecido.

Ele espargiu água benta no caixão e no túmulo, santificando-os para todo o sempre.

— Rezemos, irmãos — as palavras escorreram melodiosas de sua boca como sempre, na alegria e na tristeza, na lucidez e na embriaguez. Os presentes inclinaram a cabeça.

— Senhor, graças a Vossa piedade, os que vivem na fé encontram a paz eterna. Abençoai esta sepultura e enviai um anjo para guardá-la. Recebei o espírito de Daniel Glick enquanto enterramos seu corpo, e que ele encontre a vida eterna em seu seio. É o que pedimos em nome de Jesus Cristo, Nosso Senhor, Amém.

— Amém — a congregação murmurou, e o vento levou a palavra para longe. Tony Glick olhava ao redor com olhos escancarados e aflitos. Sua mulher pressionava um Kleenex contra a boca.

— Com a fé em Jesus Cristo, trazemos humildemente o corpo desta criança para ser enterrado com suas imperfeições humanas. Rezemos, confiando em Deus, que dá vida a todos os seres, que ele atinja a perfeição na companhia dos santos.

Ele virou as páginas do missal. Uma mulher na terceira fileira do grupo que cercava o túmulo como uma ferradura começou a soluçar roucamente. Um pássaro gorjeou em algum lugar da floresta.

— Rezemos por nosso irmão Daniel Glick a nosso Senhor Jesus Cristo — prosseguiu o padre Callahan —, que nos disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que acredita em mim viverá ainda que morra e nunca conhecerá a morte eterna. Senhor, que chorastes na morte de Vosso amigo Lázaro, confortai-nos em nossa dor. Pedimos em nossa fé.”

— Senhor, ouvi nossa prece — os católicos responderam.

— Vós, que ressuscitastes os mortos, concedei ao nosso irmão Daniel a vida eterna. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece — responderam. Algo parecia estar despertando nos olhos de Tony Glick; uma revelação, talvez.

— Nosso irmão Daniel foi purificado pelas águas do batismo. Concedei-lhe um lugar entre os santos. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

— Ele comungou de vossa carne e vosso sangue. Concedei-lhe um lugar à mesa no Reino dos Céus. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

Marjorie Glick começara a balançar para a frente e para trás, gemendo.

— Consolai-nos em nossa dor pela morte de nosso irmão. Que nossa fé seja nosso consolo e a vida eterna nossa esperança. Pedimos em nossa fé.

— Senhor, ouvi nossa prece.

Ele fechou o missal.

— Vamos rezar a oração que o Senhor nos ensinou — disse ele serenamente. — Pai-Nosso que estais no céu...

— Não! — gritou Tony Glick, lançando-se para frente. — Ninguém vai jogar terra no meu filho!

Mãos tentaram detê-lo, mas foram afastadas. Ele cambaleou por um instante na beira da cova, e então a grama falsa cedeu. Tony caiu dentro do buraco, atingindo o caixão com um baque horrível.

— Danny, saia daí já! — berrou ele.

— Minha nossa — disse Mabel Werts, e apertou o lenço de seda preta contra os lábios. Seus olhos estavam ávidos e brilhantes, guardando a cena como um esquilo armazena nozes para o inverno.

— Danny, quer parar com essa molecagem!

O padre Callahan fez um sinal para dois dos carregadores, e eles avançaram, mas foram precisos mais três homens, inclusive Parkins Gillespie e Nolly Gardener, para conseguir tirar Glick da cova, chutando e gritando.

— Danny, pare com isso! Você assustou sua mãe! Vou esquentar seu traseiro! Me soltem! Quero meu filho... me soltem, seus cretinos.... ahhh... Meu Deus!

— Pai-Nosso que estais no céu — Callahan recomeçou, e outras vozes se juntaram à dele, elevando-se em direção à cúpula indiferente do céu.

— ...santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita...

— Danny, venha aqui, está me ouvindo? Está me ouvindo?

— ...assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai...

— Danneee!

— as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...

— Ele não está morto, ele não está morto, me soltem, seus desgraçados...

— e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, amém.

— Ele não está morto — soluçava Tony Glick. — Não pode estar. Ele tem só 12 anos, porra. — Ele começou a chorar convulsivamente, e se arrastou para frente, apesar do esforço dos homens que o retinham, o rosto contorcido e riscado de lágrimas. Caiu aos pés de Callahan e agarrou suas calças com as mãos enlameadas.                                                                                                       

— Por favor, devolva meu filho. Por favor, pare com essa brincadeira.

Callahan pegou a cabeça dele delicadamente entre as mãos.

— Rezemos — disse ele, e sentiu os soluços dilacerantes de Glick contra as coxas.

— Senhor, consolai este homem e sua mulher nesse momento de dor. Vós purificastes esta criança nas águas do batismo e lhe destes vida nova. Que um dia nós o encontremos e juntos gozemos da vida eterna. Pedimos em nome de Jesus. Amém.

Quando ergueu a cabeça, viu que Marjorie Glick desmaiara.

 

Quando todos haviam ido embora, Mike Ryerson voltou e sentou à beira da cova aberta para comer seu último meio sanduíche e esperar pela volta de Royal Snow.

O enterro fora às quatro horas, e já eram quase cinco. As sombras se alongavam e o sol já se escondia atrás dos altos carvalhos. Aquele malandro do Royal prometera que voltaria às l6h45 no máximo. Onde estaria ele?

O sanduíche era de bolonha e queijo, o seu preferido. Todos os sanduíches que ele comia eram seus favoritos; e essa era uma das vantagens de ser solteiro. Ele terminou e limpou as mãos, espalhando algumas migalhas sobre o caixão.

Alguém o vigiava.

De repente, veio-lhe essa certeza, e ele sondou o cemitério com olhos escancarados e aflitos.

— Royal? Você está aí, Royal?

Ninguém respondeu. O vento sussurrava misteriosamente entre as árvores. À sombra oscilante dos elmos além do muro de pedra, ele via a lápide de Hubert Marsten, e de repente pensou no cachorro de Win, empalado no portão de ferro.

Olhos. Imóveis e frios. Vigiando.

Não deixe a noite te pegar aqui.

Ele se levantou de um salto, como se a frase tivesse sido dita em voz alta.

— Royal, seu desgraçado — disse ele, mas não muito alto. Já não achava que Royal estivesse por perto nem que voltaria. Teria de fazer o trabalho sem ele, e levaria muito tempo sozinho.

Talvez até o anoitecer.

Ele se pôs a trabalhar, sem tentar entender o pavor que o dominava, sem se perguntar por que aquele trabalho, que nunca o incomodara antes, incomodava-o tanto agora.

Com gestos rápidos e econômicos, ele puxou as faixas de grama artificial de cima da terra fresca e as dobrou. Colocou-as sobre o braço e as levou à camionete, parada na frente do portão, e assim que saiu do cemitério, a horrível sensação de ser vigiado desapareceu.

Guardou a grama na traseira da camionete e pegou uma pá. Começou a voltar, mas hesitou. Olhou para a cova aberta, que parecia zombar dele.

Ocorreu-lhe que; a sensação de ser vigiado sumira assim que ele deixara de ver o caixão instalado no fundo da cova. E veio-lhe a súbita imagem de Danny Glick deitado sobre o pequeno travesseiro de cetim com os olhos abertos. Não, que bobagem. Eles fechavam os olhos dos defuntos com goma. Vira Carl Forman fazer isso várias vezes. Claro que fechamos os olhos, Carl dissera certa vez. Não queremos que o corpo pisque para a congregação, não é?

Encheu a pá e jogou a terra, que atingiu a superfície do caixão de mogno com uma pancada surda. Mike fez uma careta. O som o enjoou um pouco. Ele se endireitou e olhou nervosamente para as coroas de flores. Que desperdício. No dia seguinte as pétalas estariam espalhadas em flocos vermelhos e amarelos. Não entendia por que faziam aquilo. Se queriam gastar, por que não davam o dinheiro a alguma sociedade beneficente ou até mesmo à Associação de Senhoras? Pelo menos, assim serviria para alguma coisa.

Ele atirou outra pazada e descansou de novo.

O caixão era outro desperdício. Um lindo caixão de mogno, que custara no mínimo mil dólares, e lá estava ele o cobrindo todo de terra. Os Glick não tinham tanto dinheiro assim, e quem faz seguro de vida para crianças? Deviam ter se enterrado em dívidas, e tudo por um caixão que ficaria todo imundo e enlameado.

Ele se inclinou, voltou a encher a pá e jogou a terra com relutância. De novo aquele horrível baque agourento. A superfície do caixão estava toda salpicada de terra, mas o fino mogno lustrava por trás, quase com reprovação.

Pare de olhar para mim.

Ele encheu a pá, mas não muito, e jogou a terra.

Pá!

As sombras estavam muito longas agora. Ele parou, olhou para cima e viu a Casa Marsten, as persianas fechadas. O lado leste, o primeiro a se despedir da luz do sol, dava diretamente para o portão de ferro do cemitério, onde Doc...

Ele se forçou a pegar outra pazada de terra e atirá-la na cova.

Pá!.

A terra escorreu pelos lados, empilhando-se sobre as dobradiças de metal. Agora, se alguém o abrisse, ouviria um rangido áspero como a porta de uma tumba se abrindo.

Pare de olhar pra mim, cacete.

Ele começou a encher a pá, mas veio-lhe uma lembrança tão pesada que ele teve de descansar um pouco. Certa vez ele lera — no National Enquirer, achava — que um magnata do petróleo declarara no testamento que queria ser enterrado num Cadillac Coupe de Ville novo em folha. E foi o que fizeram. Abriram a cova com um trator e colocaram o carro no fundo com um guindaste. Tanta gente dirigindo carros velhos e caindo aos pedaços, e aquele porco milionário enterrado atrás do volante de um carro de dez mil dólares, com todos os acessórios e...

Ele de repente estremeceu e recuou um passo, cauteloso. Parecia que entrara numa espécie de transe. A sensação de ser vigiado estava muito mais forte agora. Olhou para o céu, alarmado ao ver como escurecera rápido. Só o andar superior da Casa Marsten estava em plena luz do sol agora. Seu relógio indicava 18hl0. Santo Deus, uma hora se passara, e ele não jogara nem meia dúzia de pazadas na cova!

Mike se atirou ao trabalho, tentando bloquear os pensamentos. Depois de algumas pazadas, o som de terra contra a madeira se tornou abafado — o alto do caixão fora coberto, e a terra escorria pelas laterais em riscos marrons, quase alcançando a tranca.

Ele jogou mais duas pazadas e parou.

Tranca?

Mas por que cargas d’água colocar uma tranca num caixão? Era para ninguém tentar entrar? Devia ser. Com certeza não era para que ninguém tentasse sair...

— Pare de me olhar — disse Mike em voz alta, e sentiu o coração se contrair no peito. Um súbito impulso de fugir daquele lugar, de correr pela estrada até chegar à cidade, tomou conta dele. Foi com muito custo que conseguiu se controlar. Era só um ataque de nervos. Quem, trabalhando num cemitério, não ficaria assim de vez em quando? Parecia um maldito filme de terror, ter de enterrar aquele menino, só 12 anos e os olhos arregalados...

— Droga, pare! — exclamou ele, e olhou com ansiedade para a Casa Marsten. Agora só o telhado ainda estava claro. Eram 18hl5.

Ele voltou a trabalhar com mais rapidez, jogando terra na cova e tentando manter a mente totalmente vazia. Mas a sensação de ser vigiado parecia crescer em vez de diminuir, e cada pazada de terra parecia mais pesada que a anterior. O topo do caixão estava coberto agora, mas ainda dava para ver seu contorno envolto em terra.

A oração fúnebre dos católicos começou a ecoar em sua mente por nenhum motivo, como costuma acontecer com essas coisas. Ouvira Callahan dizendo-a enquanto almoçava ao lado do riacho. Ouvira também os gritos desesperados do pai.

Rezemos por nosso irmão a nosso Senhor Jesus Cristo, que disse...

(Pai, conceda-me seus favores.)

Ele parou e olhou para a cova. Era funda, muito funda. As sombras da noite já começavam a se insinuar dentro dela, como algo vivo e viscoso. Ainda faltava muito. Ele nunca conseguiria enchê-la antes de escurecer. Nunca.

Sou a ressurreição e a vida. Aquele que acredita em mim viverá mesmo que mona...

(Senhor das Moscas, conceda-me seus favores.)

Sim, os olhos estavam abertos. Por isso ele se sentia vigiado. Carl não usara goma o bastante, e as pálpebras haviam subido como persianas. E agora, Danny olhava para ele. Aquilo não podia ficar daquele jeito.

...e quem acreditar em mim não conhecerá a morte eterna...

(Eu lhe trago carne pútrida e malcheirosa.)

Tirar a terra de cima. Era essa a solução. Tirar a terra, quebrar a tranca com a pá, abrir o caixão e fechar aqueles terríveis olhos fixos. Ele não tinha goma de coveiro, mas tinha duas moedas no bolso. Serviriam. Eram de prata. Sim, era de prata que o menino precisava.

O sol estava em cima do telhado da Casa Marsten agora, e apenas tocava os mais altos e antigos abetos no lado oeste da cidade. Mesmo com as persianas fechadas, a casa parecia olhar para ele.

Vós, que ressuscitastes os mortos, concedei ao irmão Daniel a vida eterna.

(Ofereço este sacrifício por seus favores e o trago com a mão esquerda.)

De repente, Mike Ryerson saltou dentro da cova e começou a trabalhar loucamente com a pá, jogando terra para cima e para fora em lampejos marrons. Finalmente a pá atingiu a madeira, e ele começou a tirar o resto da terra das laterais. Depois se ajoelhou sobre o caixão e começou a bater na tranca de metal com a pá.

As rãs do riacho haviam começado a saltar, um bacurau cantava nas sombras das árvores e, perto dali, curiangos começavam a soltar seu grito estridente.

18h50.

O que estou fazendo?, ele se perguntou. O que estou fazendo, meu Deus? Ajoelhado sobre o caixão, ele tentava refletir, mas algo no fundo da sua mente mandava-o se apressar, o sol estava se pondo... Não deixe o escuro te pegar aqui. Ele levantou a pá, bateu-a sobre a tranca mais uma vez e ouviu um estalo. Ela quebrara. Ele olhou para cima por um instante, num último vislumbre de sanidade, o rosto manchado de terra e suor, os olhos arregalados e salientes.

Vênus brilhou contra o manto do céu. Ofegando, ele deitou por inteiro no chão e tateou em busca das alças da tampa do caixão. Encontrou-as e puxou, A tampa se abriu, as dobradiças rangendo como ele imaginara, revelando primeiro apenas cetim rosa, e depois uma manga escura (Danny Glick fora enterrado com o terno da primeira comunhão), e depois... o rosto. A respiração ficou presa na garganta de Mike. Os olhos estavam abertos. Como ele sabia que estariam. Bem abertos e nem um pouco vidrados. Pareciam horrendamente vivos à luz agonizante do dia. Não havia nenhuma palidez mortal naquele rosto. As faces estavam rosadas, transbordando vitalidade. Tentou afastar os olhos daquele olhar reluzente e gelado, mas não conseguiu. — Meu Deus — murmurou. O arco decrescente do sol submergiu no horizonte.

 

Mark Petrie montava um modelo do monstro de Frankenstein no seu quarto e ouvia a conversa dos pais na sala. Seu quarto ficava no segundo andar da casa de fazenda que haviam comprado no sul da avenida Jointner, e embora fosse aquecida por uma moderna fornalha a petróleo, as grades do antigo aquecedor permaneciam. Antes, quando a casa fora aquecida por um fogão central na cozinha, as grades impediam que o segundo andar ficasse frio demais — mesmo assim, a primeira mulher que morara na casa de 1873 a 1896, com seu austero marido batista, dormia com um tijolo quente embrulhado numa flanela —, mas agora serviam a outro propósito. Eram excelentes condutoras de som.

Seus pais estavam na sala, mas parecia que conversavam bem em frente a sua porta.

Certa vez, quando o pegou ouvindo atrás da porta na outra casa — Mark tinha apenas seis anos na época —, seu pai lhe dissera um antigo provérbio inglês: Nunca ouça atrás da árvore para não se aborrecer. Ou seja, explicou o pai, você pode ouvir algo e não gostar. Havia outro ditado. Quem avisa amigo é. Aos 12 anos, Mark Petrie era um pouco menor do que os outros meninos e de aparência um pouco delicada. No entanto, movia-se com uma graça e flexibilidade que não era comum em meninos de sua idade, que pareciam ser todos joelhos, cotovelos e cascas de ferida. Sua tez era clara, quase leitosa, e seus traços, que seriam considerados aquilinos mais tarde, agora eram um pouco femininos. Isto lhe causara inconvenientes mesmo antes da briga com Richie Boddin no pátio da escola, e ele decidira resolver o problema sozinho. A maioria dos valentões, concluiu ele, eram grandes, feios e desajeitados. Assustavam as outras crianças porque eram capazes de machucá-las. Jogavam sujo. Logo, se você não tivesse medo de se machucar um pouco, e se estivesse disposto a jogar sujo, podia levar a melhor sobre o valentão. Richie Boddin fora a primeira confirmação de sua teoria. Ele e o valentão da Escola Primária Kittery haviam empatado (o que não deixara de ser uma vitória; o valentão, sangrando mas sem se curvar, proclamara para toda a platéia no pátio que ele e Mark eram amigos. Mark, que achava o valentão um cretino estúpido, não o contradisse. Sabia o valor da discrição). Conversas não adiantavam com valentões. A dor era a única linguagem que os Richie Boddins do mundo pareciam entender, e Mark supunha que por isso o mundo sempre tivera tanta dificuldade de comunicação. Ele fora mandado para casa naquele dia, e seu pai ficara muito zangado até que Mark, resignando-se a receber as rituais pancadas com uma revista enrolada, disse-lhe que Hitler fora no fundo um Richie Boddin. Isso fez seu pai cair na gargalhada, e até sua mãe rira baixinho. Conseguiu evitar a surra. Agora June Petrie dizia:

— Você acha que tudo isso o afetou, Henry?

— É difícil... dizer. — E Mark percebeu pela pausa que seu pai acendia o cachimbo. — Ele está com uma cara bem normal.

— Quem vê cara não vê coração. — Sua mãe estava sempre dizendo coisas como quem vê cara não vê coração ou é um caminho sem retorno. Ele amava os dois profundamente, mas às vezes pareciam tão graves como os livros da seção in-fólio da biblioteca... e igualmente empoeirados.

— Eles vinham visitar Mark para brincar com o trenzinho — ela continuou. — Agora um está morto e o outro, desaparecido! Não se engane, Henry. O menino deve estar sentindo alguma coisa.

— Os pés dele estão bem plantados no chão — disse o Sr. Petrie. — Seja quais forem suas emoções, tenho certeza de que ele as controla.

Mark colou o braço esquerdo do monstro de Frankenstein no ombro. Era um modelo Aurora especial, que tinha um brilho verde no escuro, como o Jesus de plástico que ele ganhara por memorizar o salmo 119 inteiro na escola dominical de Kittery.

— Às vezes acho que devíamos ter tido outro filho — disse seu pai. — Entre outras coisas, teria sido bom para Mark. — E sua mãe, em tom brejeiro:

— Não foi por falta de tentativas, querido.

Seu pai resmungou. Fez-se uma longa pausa na conversa. Mark sabia que o pai estava folheando o Wall Street Journal. Sua mãe devia estar com um romance de Jane Austen no colo, ou talvez de Henry James. Ela os lia e relia várias vezes, e Mark não conseguia entender o sentido de ler um livro mais de uma vez. A gente já sabia como terminava.

— Será que é seguro deixá-lo entrar na mata atrás da casa? — sua mãe perguntou. — Dizem que tem areia movediça na cidade...

— A quilômetros daqui.

Mark relaxou um pouco e colou o outro braço do monstro. Ele tinha uma mesa coberta de monstros Aurora, formando uma cena que ele mudava a cada vez que um novo membro era adicionado. Era uma bela coleção. E era o que Danny e Ralphie queriam ver naquela noite em que... deixa para lá.

— Acho que sim — disse o pai. — Não depois de anoitecer, é claro. Espero que aquele horrível enterro não lhe dê pesadelos. — Mark quase podia ver seu pai encolher os ombros. — Tony Glick... Que cena lamentável. Mas a morte e o sofrimento fazem parte da vida, e já está na hora de ele se acostumar com essa idéia.

— Talvez. — Outra longa pausa. O que ela dirá agora?, ele se perguntou. O menino de hoje é o homem de amanhã. Ou é de pequenino que se torce o pepino. Mark colou o monstro na base, um túmulo com uma lápide inclinada ao fundo. — A morte nos cerca em plena vida. Mas estou achando que eu vou ter pesadelos.

— Ah, é?

— Aquele Sr. Foreman deve ser um artista e tanto, por mais horrível que seja dizer isso. Ele realmente parecia que estava dormindo. Que a qualquer momento abriria os olhos, daria um bocejo e...

Não sei por que as pessoas insistem em se torturar deixando os caixões abertos nos velórios. É... bárbaro.

— Bom, acabou.

— É, parece. Ele é um bom menino, não, Henry?

— Mark? O melhor.

Mark sorriu.

— O que está passando na TV?

— Vou olhar.

Mark se desligou do resto; a discussão séria acabara. Colocou o modelo no parapeito da janela para secar e endurecer. Em 15 minutos sua mãe o chamaria lhe dizendo que era hora de dormir. Ele tirou os pijamas da cômoda e começou a se despir.

Na verdade, sua mãe se preocupava inutilmente com sua psique, que não era nada frágil, nem havia motivo para que fosse. Ele era um menino normal, apesar de sua graça e delicadeza. Sua família era de classe média alta e podia subir ainda mais, e o casamento dos pais era sólido. Eles se amavam de um modo intenso, embora um pouco maçante. Nunca houvera nenhum grande trauma na vida de Mark. As poucas brigas na escola não lhe deixaram marcas. Entendia-se com seus companheiros e, de modo geral, queria as mesmas coisas que eles.

Se havia algo que o destacava, era um certo distanciamento, um frio autocontrole. Ninguém lhe incutira isso; ele parecia ter nascido assim. Quando seu cachorrinho, Chopper, fora atropelado, ele in­sistira em ir com a mãe ao veterinário. E quando este dissera “Preciso colocar seu cachorro para dormir, rapazinho. Você entende por quê?”, Mark dissera “Você não vai colocar ele para dormir. Vai matá-lo com gás, não é?”. O veterinário disse que sim. Mark lhe disse para continuar, mas antes beijou Chopper. Sentiu tristeza, mas não chorou. Sua mãe chorara, mas três dias depois já havia esquecido Chopper. Mark nunca o esqueceria. E era esse o valor de não chorar. Chorar era como deixar vazar os sentimentos no chão.

Ele ficara chocado com o desaparecimento de Ralphie Glick, e depois com a morte de Danny, mas não sentira medo. Ouvira um homem na loja dizer que provavelmente um pervertido sexual pegara Ralphie. Mark sabia o que eram pervertidos. Faziam algo com você que os deixavam malucos e, quando acabavam, te estrangulavam (nas revistinhas, a pessoa estrangulada sempre dizia Arrrggh) e te enterravam numa cova ou sob as tábuas de um galpão deserto. Se um pervertido um dia lhe oferecesse doces, ele lhe chutaria o saco e sairia correndo como um raio.

— Mark? — era a voz da mãe, vinda da escada.

— Sou eu — disse ele, e sorriu de novo.

— Não se esqueça de lavar as orelhas quando tomar banho.

— Pode deixar.

Ele desceu para lhes dar um beijo de boa-noite, andando com leveza e agilidade, lançando um olhar para a mesa onde seus monstros se exibiam: Drácula com a boca aberta, mostrando os caninos, ameaçava uma moça deitada no chão, enquanto o Cientista Louco torturava uma mulher na maca e o Sr. Hyde espreitava um velho que caminhava para casa.

Se ele sabia o que era a morte? Claro. Era quando os monstros te pegavam.

 

Roy McDougall parou na entrada do seu trailer às oito e meia, acelerou o motor do seu velho Ford duas vezes e depois o desligou. O tubo do exaustor pifara, os faróis pisca-pisca não funcionavam e a inspeção seria no mês seguinte. Que beleza de carro. Que beleza de vida. O menino berrava dentro do trailer e Sandy gritava com ele. Que beleza de casamento.

Ele saiu do carro e tropeçou numa das lajes que comprara havia meses para o projeto, sempre adiado, de fazer uma passarela ligando o trailer à calçada.

— Merda — ele murmurou, lançando um olhar terrível para a laje e esfregando a canela.

Roy estava bêbado. Saíra do trabalho às três e desde então se pusera a beber no Dell’s com Hank Peters e Buddy Mayberry. Hank andava abonado e parecia disposto a beber todo o dinheiro extra, seja de onde viesse. Sabia o que Sandy achava de seus amigos. Ela que se danasse. Negar a um homem umas cervejinhas no sábado e domingo, depois de ele trabalhar a semana toda como um escravo na máquina de desatar fibras, e ainda fazendo hora extra no fim de semana? Quem era ela para reclamar? Passava o dia sem fazer nada além de limpar a casa, conversar com o carteiro e ver se o menino não entrava no forno. E nem cuidava bem dele ultimamente. Outro dia mesmo deixara-o cair da mesa de trocar.

O que você estava fazendo?

Eu estava segurando ele, Roy. É que ele não pára quieto,

Não pára quieto. Sei.

Ele andou até a porta, ainda bufando. A pancada na perna doía. Não que Sandy fosse se importar. E o que ela fazia enquanto ele suava feito um porco para aquele capataz cretino? Lia revistas de fofocas comendo bombons de cereja ou assistia a novelas comendo bombons de cereja ou tagare­lava com as amigas ao telefone comendo bombons de cereja. Estava ficando com espinhas não só na cara, mas na bunda. Logo não daria para saber qual era qual.

Ele abriu a porta e entrou.

A cena o atingiu com violência, apagando o fogo da cerveja como um balde de água fria: o bebê gritava, nu, sangue escorrendo pelo nariz; Sandy o segurava, a blusa manchada de sangue, olhando para o marido com o rosto contraído de surpresa e medo; a fralda no chão.

Randy, com marcas escuras em torno dos olhos, estendia as mãos como numa súplica.

— O que está acontecendo aqui? — Roy perguntou lentamente.

— Nada, Roy. Ele só...

— Você bateu nele — disse Roy, com voz monótona. — Ele não parava quieto para você pôr a fralda e você bateu nele.

— Não — ela disse rapidamente. — Ele rolou e bateu o nariz, só isso. Só isso.

— Eu devia arrancar seu couro — disse ele.

— Roy, ele só bateu o nariz...

Ele deixou cair os ombros.

— O que tem para comer?

— Hambúrgueres. Mas queimaram — disse ela com petulância, tirando a ponta da blusa de dentro dos jeans para limpar o nariz de Randy. Roy viu a baleia que ela estava virando. Nunca recuperara o corpo depois da gravidez. Nem tentara.

— Faça ele calar a boca.

— Ele não está...

— Faça ele calar a boca!— gritou Roy, e Randy, que na verdade já parara de chorar e fungava, voltou a gritar com força.

— Vou buscar a mamadeira — disse Sandy, levantando.

— E traga meu jantar. — Ele começou a tirar a jaqueta de brim. — Santo Deus, que bagunça que está este lugar. O que você faz o dia todo, fica tocando siririca?

— Roy! — exclamou ela, em tom ofendido. Depois deu um risinho. Sua louca explosão’ de raiva porque o bebê não parava quieto para que ela prendesse as fraldas começou a se tornar distante, nebulosa. Como se tivesse acontecido numa das novelas da TV.

— Traga meu jantar e depois arrume essa porcaria de lugar.

— Está bem, está bem... — Ela tirou uma mamadeira da geladeira e colocou Randy no chiqueirinho. Ele começou a sugar o leite com apatia, os olhos indo da mãe para o pai em círculos sem saída.

— Roy?

— Hum. Fale.

— Acabou.

— O quê?

— Você sabe. Você quer? Hoje?

— Claro — disse ele. — Claro. — E pensou de novo: Que beleza de vida. Que beleza de vida.

 

Nolly Gardener ouvia Rock-and-roll pela WLOB estalando os dedos quando o telefone tocou. Parkins deixou as palavras cruzadas de lado e disse:

— Abaixe um pouco.

— Claro, Park. — Nolly abaixou o rádio e continuou estalando os dedos.

— Alô? — disse Parkins.

— Delegado Gillespie?

— Eu mesmo.

— Aqui é o agente Tom Hanrahan. Tenho as informações que pediu.

— Obrigado pela rapidez.

— Mas não sei se vai adiantar muito.

— Tudo bem — disse Parkins. — O que descobriram?

— Ben Mears foi investigado devido a um acidente de moto fatal no norte de Nova York em maio de 1973. Não foi indiciado. A mulher dele, Miranda, morreu. As testemunhas disseram que ele ia devagar e o teste de álcool deu negativo. Parece que só escorregou no asfalto. Quanto à política, tende para a esquerda. Participou de uma passeata pacifista em Princeton em 1966. Falou num comício anti-guerra no Brooklyn em 1967. Participou de passeatas em Washington em 1968 e 1970. Foi preso durante uma passeata pacifista em San Francisco em novembro de 1971. E é tudo que sabemos dele.

— O que mais?

— Kurt Barlow, Kurt com “k”. É britânico, mas naturalizado. Nasceu na Alemanha e foi para a Inglaterra em 1938, ao que parece fugindo da Gestapo. Não tivemos acesso a seus registros anteriores, mas deve estar com uns setenta anos. Seu nome de batismo é Breichen. Trabalha com importação e exportação em Londres desde 1945, mas não aparece muito. Straker é seu sócio desde então, e parece que é ele que lida com o público.

— E ele?

— Straker é britânico nativo. Tem 58 anos. Seu pai era marceneiro em Manchester. Parece que deixou bastante dinheiro para o filho, que também se deu muito bem na vida. Os dois pediram vistos de estada prolongada nos Estados Unidos há 18 meses. É tudo que sabemos. E há suspeitas de que podem ser um casal.

— É — disse Parkins, e suspirou, — Foi o que eu pensei.

— Se precisar de mais informações, podemos entrar em contato com a Divisão de Investigação Criminal e a Scotland Yard.

— Não, não precisa.

— E não há nenhuma ligação entre Mears e os dois comerciantes. Só se for muito secreta.

— Certo. Obrigado.

— É para isso que estamos aqui. Se precisar de ajuda, ligue.

— Pode deixar. Obrigado mais uma vez.

Colocou o fone no gancho e o contemplou com ar pensativo.

— Quem era, Park? — perguntou Nolly erguendo o rádio.

— O Excellent Café. Acabou o sanduíche de presunto. Tem só salada de ovo e queijo quente.

— Tem bolo de framboesa na minha mesa, se quiser.

— Não, obrigado — disse Parkins, e suspirou de novo.

 

O depósito de lixo ainda estava em lenta combustão.

Dud Rodgers andava ao redor do lixão, saboreando o aroma de carne queimada. A cada passo, esmagava garrafas e fazia subir uma nuvem de cinzas. Na imensidão do depósito, o clarão das brasas aumentava e diminuía ao sabor do vento, como um imenso olho vermelho abrindo e fechando... o olho de um gigante. De vez em quando se ouvia um estrondo abafado quando uma lata de aerossol ou uma lâmpada explodiam. Um grande número de ratos havia saído do depósito quando ele o queimara naquela manhã, mais do que ele jamais vira. Ele matara pelo menos três dúzias, e sua pistola estava quente quando ele finalmente a guardou no coldre. Eram ratões grandes, alguns com até setenta centímetros. Engraçado como eles surgiam em maior ou menor quantidade, dependendo do ano. Devia ter algo a ver com o clima. Se continuasse assim, ele teria de começar a espalhar iscas envenenadas, algo que não precisava fazer desde 1964.

Lá estava outro, rastejando sob um dos cavaletes amarelos que serviam de barreiras antifogo.

Dud sacou a pistola, puxou o pino de segurança, apontou e disparou. O tiro atingiu a terra na frente do rato, salpicando seu pêlo. Mas, em vez de fugir, ele se ergueu nas patas traseiras e o encarou, os olhinhos vermelhos brilhando entre as brasas. Como alguns deles eram atrevidos!

— Tchauzinho, rato — disse Dud, apontando com cuidado.

Bum. O rato capotou, se contorcendo.

Dud andou até o animal e o empurrou com a pesada bota de trabalho. O rato mordeu fracamente o couro da bota, arquejando.

— Filho-da-mãe — Dud disse baixinho, e esmagou sua cabeça.

Ao se acocorar para examiná-lo, voltou a pensar em Ruthie Crockett, que nunca usava sutiã. Quando ela punha aqueles suéteres justos de cardigã, dava para ver os bicos contra o tecido, eretos devido à fricção contra a lã. Ele apostava que era só roçar um pouco naqueles peitos, só um pouco mesmo, para aquela putinha subir pelas paredes.

Ele pegou o rato pelo rabo e o balançou como um pêndulo.

— E se você encontrasse esse ratinho na sua latinha de salsicha, Ruthie?

Dud achou graça na idéia e seu inesperado duplo sentido, e deixou escapar um riso estridente, sacudindo a cabeça torta.

Jogou o rato para longe, no meio do depósito. Ao fazê-lo, girou e deu de cara com um vulto — uma silhueta alta e extremamente magra a cinqüenta passos dele.

Dud enxugou as mãos nas calças verdes, suspendeu-as e se aproximou.

— O depósito está fechado, senhor.

O homem se virou para ele. O rosto que o clarão vermelho das brasas iluminou era anguloso e pensativo. Os cabelos eram brancos, riscados de mechas cinzentas curiosamente másculas. O sujeito as afastara da testa ampla e pálida, como faziam os pianistas de concerto. Os olhos refletiam o fulgor vermelho das brasas e pareciam injetados de sangue.

— É mesmo? — perguntou o homem educadamente, revelando um leve sotaque em suas palavras, embora perfeitamente articuladas. Devia ser francês, ou talvez até mesmo russo. — Vim contemplar o fogo. É lindo.                                                                                              

— É — disse Dud. — O senhor é daqui?                                                               

— Sim, acabei de me mudar para sua aprazível cidade. Você mata muitos ratos?

— Bastante. Ultimamente apareceram milhões desses filhos-da-mãe. Escute, por acaso o senhor é o sujeito que comprou a Casa Marsten?

— Predadores — o homem disse, cruzando as mãos atrás das costas. Dud notou, surpreso, que ele estava todo arrumado, de terno com colete e tudo. — Adoro os predadores da noite. Os ratos... as corujas... os lobos. Existem lobos nesta região?

— Não — disse Dud. — Um cara em Durham pegou um coiote há uns dois anos. E um bando de cachorros do mato anda espantando os cervos...

— Cachorros... — o estranho disse, e fez um gesto de desprezo. — Animais inferiores que se encolhem e uivam ao ouvir passos estranhos. Servem apenas para choramingar e rastejar. Deviam ser todos estripados.

— Eu nunca tinha pensado nisso — disse Dud, recuando um passo. — É bom quando aparece alguém aqui para bater um papo, mas o depósito fecha às seis aos domingos, agora já passa das nove e...

— Certamente.

Mas o estranho não fez menção de ir embora. Dud pensava consigo mesmo que passara a perna na cidade. Todos estavam se perguntando quem estaria por trás daquele tal de Straker, e ele era o primeiro a saber — fora, talvez, Larry Crockett, que era uma raposa. Na próxima vez que fosse à cidade para comprar balas daquele santinho do George Middler, diria, como quem não quer nada: encontrei aquele sujeito outro dia. Quem? Aquele que comprou a Casa Marsten. Um sujeito decente. Tem um sotaque meio russo.

— Já apareceu algum fantasma naquela casa velha? — perguntou quando viu que o velho não ia mesmo se mandar dali.

— Fantasmas! — O velho sorriu de modo inquietante. Parecia o sorriso de um tubarão. — Não, fantasmas, não. — Ele enfatizou levemente a palavra, como se houvesse algo na casa que fosse ainda pior.

— Bom, está ficando tarde... É melhor ir agora, senhor...?

— Mas nossa conversa está tão agradável — disse o velho, e pela primeira vez virou-se para Dud e o olhou diretamente. Seus olhos, muito separados, refletiam o fogo mortiço do depósito. Era impos­sível parar de olhar para eles. — Vamos continuar um pouco mais.

— É, pode ser — disse Dud, e sua voz soou distante. Os olhos dele pareciam se expandir, crescer, até parecerem poços escuros rodeados de fogo, poços onde alguém podia se afogar.

— Obrigado — disse ele. — Diga-me... essa sua corcunda não o incomoda no trabalho?

— Não — disse Dud, ainda se sentindo distante. Pensou vagamente: aposto que ele está me hipnotizando. Que nem aquele sujeito da Feira de Topsham... como ele se chamava? Mr. Mephisto. Ele punha as pessoas para dormir e elas faziam um monte de coisas engraçadas, imitavam galinhas, corriam como cachorros ou lembravam coisas que tinham acontecido quando eram pequenas. Ele hipnotizou Reggie Sawyer, e como a gente riu...

— Então o atrapalha de outras maneiras?

— Não... bom... — Dud olhava para os olhos dele, fascinado.

— Vamos, vamos — o velho o induziu gentilmente. — Somos amigos, não é? Pode me dizer.

— Bom, as mulheres... você sabe...

— Claro que sei — disse o velho, compreensivo. — As mulheres riem de você, não é? Não conhecem sua masculinidade. Sua força.

— Isso mesmo — sussurrou Dud. — Elas riem. Ela ri.

— Ela, quem?

— Ruthie Crockett. Ela... ela... — O pensamento lhe escapou. Ele permitiu. Não importava. Nada importava a não ser aquela paz. Aquela paz repousante e completa.

— Ela faz gracejos quando você passa? Ri escondido? Cutuca os amigos?

— Isso...

— Mas você a deseja — insistiu a voz. — Não é mesmo?

— É.

— Você a terá. Tenho certeza.

Havia algo... agradável naquela situação. Na distância, ele parecia ouvir vozes suaves cantando palavras obscenas. Um tocar de sinos... rostos brancos... a voz de Ruthie Crockett. Ele quase podia vê-la, as mãos erguendo os peitinhos, fazendo-os surgir sobre o V do seu suéter em maduros círculos brancos, e sussurrando: Beije eles, Dud... morda eles... chupe eles...

Era como se afogar. Se afogar nos círculos vermelhos em torno dos olhos do velho.

E quando ele se aproximou, Dud entendeu tudo e aceitou, e quando a dor veio, era doce como prata, verde como a água parada nas profundezas,

 

As mãos dele tremiam. Quando tentou pegar a garrafa, derrubou-a da mesa para o chão, e o uísque de primeira se espalhou sobre o carpete de lã verde.

— Merda! — disse o padre Donald Callahan, e abaixou-se logo para apanhá-la antes de desperdiçar mais. Na verdade, já não havia muito. Ele voltou a colocar a garrafa sobre a mesa (bem longe da borda) e foi até a cozinha buscar um trapo e um detergente debaixo da pia. Não podia deixar a Sra. Curless encontrar uma mancha de uísque perto da mesa do escritório. O olhar dela, bondoso e penalizado, era duro de suportar nas longas e ásperas manhãs quando ele se sentia um pouco...

De ressaca, você quer dizer.

Sim, de ressaca. Vamos admitir a verdade, pelo amor de Deus. Conheça a verdade, e a verdade te libertará. Viva a verdade.

Ele encontrou uma garrafa de algo chamado E-Vap e a levou para o escritório. Seu andar não estava trôpego. Nem um pouco. Olhe, seu guarda, vou andar por cima da faixa branca até o sinal vermelho.

Callahan impressionava aos 53 anos, com seu tipo irlandês, os cabelos prateados, os olhos azuis e diretos — cercados por rugas miúdas —, os lábios firmes, o queixo furado. Certas manhãs, quando se olhava no espelho, ele pensava em largar a batina e ir para Hollywood arranjar um papel de Spencer Tracy quando fizesse sessenta anos.

— Padre Flanagan, onde está quando preciso de você? — murmurou, acocorando-se para limpar a mancha. Apertou os olhos, leu as instruções no rótulo do frasco e colocou duas tampinhas de E-Vap sobre a mancha. O local imediatamente embranqueceu e começou a borbulhar. Callahan se alarmou um pouco e voltou a consultar o rótulo.

— Para manchas muito resistentes — leu ele em voz alta, a voz forte e melodiosa que o tornara tão querido na paróquia, acostumada aos longos sermões acompanhados por um bater de dentaduras do velho padre Hume. — Deixe agir de sete a dez minutos.

Ele foi até a janela do escritório, que dava para a rua Elm e a igreja de St. Andrew.

Muito bem, pensou ele, mais uma bebedeira dominical.

Abençoai-me, Pai, porque pequei.

Bebendo devagar enquanto trabalhava (em suas longas e solitárias noites, o padre Callahan produzia suas Notas. Trabalhava nelas havia quase sete anos, supostamente para um livro sobre a Igreja Católica na Nova Inglaterra, mas ele suspeitava às vezes que o livro nunca sairia. Na verdade, as Notas e seu alcoolismo haviam começado ao mesmo tempo. Genesis 1:1, “No começo havia o scotch”, e o padre Callahan disse “Que se façam as Notas.”), mal dava para notar a progressão lenta da embriaguez. E era possível treinar a mão para não sentir o peso da garrafa diminuindo.

Faz pelo menos um dia que não me confesso.

Eram onze e meia. Olhando pela janela, ele via uma escuridão uniforme, rompida apenas pelo círculo projetado pelo poste de luz em frente à igreja. A qualquer momento, Fred Astaire saltaria para dentro do círculo e dançaria, de cartola, smoking, polainas e sapatos brancos, girando uma bengala. Ginger Rogers se juntaria a ele e os dois valsariam pela noite.

Ele encostou a testa no vidro, e o rosto bonito, que até certo ponto fora sua perdição, assumiu uma expressão de cansaço e desalento.

Sou um padre bêbado e imprestável, Pai.

Com os olhos fechados, ele via a escuridão do confessionário, os próprios dedos abrindo a janela e desvendando todos os segredos do coração humano, sentia o cheiro de verniz e veludo velho dos genuflexórios e o suor de gente velha; vestígios de sal em sua saliva.                   .     

Abençoai-me, Pai...

(Eu quebrei a carroça do meu irmão, eu bati na minha mulher, eu espiei pela janela da Sra. Sawyer enquanto ela tirava a roupa, eu menti, eu enganei, eu tive pensamentos pecaminosos, eu...)

porque pequei.

Ele abriu os olhos e viu que Fred Astaire ainda não aparecera. Talvez à meia-noite. A cidade dormia. Com a exceção...

Ele levantou os olhos. Sim, lá em cima as luzes estavam acesas.

Lembrou daquela menina, sobrenome Bowie — não, era McDougall agora —, dizendo em sua voz fina e ofegante que batia no filhinho, e quando ele perguntara com que freqüência, ele pressentiu (quase ouviu) as rodas girando na mente dela, multiplicando cinco por 12, ou cem por 12. Pobre projeto de ser humano. Ele batizara o bebê. Randall Fratus McDougall. Concebido no banco traseiro do carro de Royce McDougall, provavelmente durante um filme no drive-in. Pequena e sofredora criatura. Será que ela sabia que ele gostaria de passar os braços pela janelinha e apertar sua alma até lhe arrancar um grito? Sua penitência são seis tapas na cabeça e um bom chute na bunda. Vá embora e não peque mais.

— Que tédio.

Mas o confessionário não era apenas tedioso. Não era só ele que o nauseava e o empurrava para um clube cada vez mais populoso, a União dos Padres Católicos da Garrafa e do Cutty Sark. Era o motor uniforme e contínuo da igreja, abafando todos os pecados humanos em sua interminável busca do paraíso. Era o reconhecimento protocolar do mal por uma igreja mais preocupada com as mazelas sociais e com velhas beatas cujos pais falavam línguas européias. Era a presença efetiva do mal no confessionário, real como o cheiro de veludo velho.

Mas era um mal inconsciente e estúpido, para o qual não havia nem piedade nem alívio. O rosto do bebê agredido, o pneu cortado com um canivete, a briga no bar, as lâminas inseridas em maçãs de Halloween, as soluções insípidas que a mente humana, em suas voltas labirínticas, era capaz de engendrar. Senhoras e senhores, a solução é melhorar as prisões. Melhorar a polícia. Melhorar os serviços sociais. Melhorar o controle da natalidade. As técnicas de esterilização. Os abortos. Senhoras e senhores, se tirarmos o feto do útero, ele nunca crescerá e matará uma mulher a golpes de martelo. Senhoras e senhores, se prendermos esse homem a uma cadeira elétrica e o fritarmos como uma costela de porco, ele nunca mais terá a chance de torturar meninos até a morte. Cidadãos, se a lei da eugenia for aprovada, garanto que vocês nunca mais...

Merda.

A verdade vinha se tornando cada vez mais clara para ele nos últimos três anos. Ganhara clareza e resolução como um filme fora de foco sendo ajustado, até definir cada linha. Ele ansiava por um Desafio. Os novos padres tinham causas como a democracia racial, igualdade de direitos para as mulheres, até mesmo para os gays, a luta contra a pobreza, a insanidade, a ilegalidade. Eles o incomodavam. Os únicos padres socialmente conscientes com quem ele se sentia à vontade eram os que haviam militado contra a guerra do Vietnã. Agora que a luta acabara, eles ficavam lembrando das passeatas e comícios como casais de idade se lembram da lua-de-mel. Mas Callahan não pertencia a nenhuma dessas categorias. Era um tradicionalista que já não conseguia acreditar em seus postulados. O que ele queria era liderar uma divisão do exército de Deus — ou do bem, da virtude, eram sinônimos — numa batalha contra o MAL, Queria combater, e não ficar na porta dos supermercados distribuindo panfletos sobre o boicote à alface ou a greve dos vinicultores. Ele queria ver o MAL sem seus sudários de dissimulação, mostrando todos os traços de sua cara. Queria lutar corpo a corpo com o Mal, como Muhammad Ali contra Joe Frazier, os Celtics contra os Knicks, Jacó contra o Anjo. Queria que sua luta fosse pura, livre da política que se colava a todas as questões sociais como um irmão siamês deforma­do. Era por isso que quisera ser padre. Sentira a vocação aos 14 anos, quando ouvira a história de Santo Estevão, o primeiro mártir cristão, que fora apedrejado até a morte e vira Cristo pouco antes de morrer. O paraíso não era nada comparado a lutar — e talvez perecer — servindo a Deus.

Mas não havia batalhas. Apenas embates destituídos de convicção. E o MAL não tinha apenas uma cara, mas várias, a maioria delas inexpressivas. De fato, ele se via obrigado a concluir que não existia o MAL, mas apenas o mal, ou o (mal), talvez. Nesses momentos, ele suspeitava que Hitler não passara de um burocrata atormentado e o próprio Satã era um débil mental com péssimo senso de humor, do tipo que acha engraçado dar bombinhas enroladas em pão a gaivotas.

As grandes batalhas sociais, morais e espirituais de toda a História se resumiam a Sandy McDougall espancando seu bebê ranhento às escondidas, e este cresceria e também espancaria seu filho em segredo, aleluia, irmãos

Era mais do que tedioso. Trazia terríveis conseqüências para o conceito de vida plena, e até de paraíso. O que seria? Eternos bingos, parques de diversões e pistas de corrida?

Ele olhou para o relógio na parede. Era meia-noite e seis minutos, e nem sinal de Fred Astaire e Ginger Rogers. Nem sequer de Mickey Rooney. Mas o detergente já devia ter agido. Agora ele passaria o aspirador no carpete, e a Sra. Curless não o olharia com aquela expressão de pena. E a vida continuaria. Amém.

 

MATT

Na terça-feira, depois da terceira aula, Matt foi até a secretaria, onde Ben Mears o aguardava.

— Oi — disse Matt. — Chegou adiantado.

Ben se ergueu, e os dois apertaram as mãos.

— Acho que é mal de família. Escute, seus alunos não vão me comer vivo, não é?

— Relaxe — disse Matt. — Venha.

Estava um pouco surpreso ao ver que Ben vestira um blazer bem-cortado e calças cinza de jérsei. E sapatos bons, com pouco uso. Matt já convidara outros escritores para suas aulas, e a maioria viera com roupas descuidadas ou esdrúxulas. No ano anterior, ele pedira a uma celebrada poeta de quem lera os poemas na Universidade do Maine, em Portland, que desse uma palestra sobre poesia a seus alunos no dia seguinte. Ela apareceu de fuseau e salto alto. Parecia um modo subliminar de dizer: “Vejam, venci o sistema no campo dele. Faço o que me dá na telha.”

A comparação aumentou sua admiração por Ben. Depois de mais de trinta anos de ensino, ele concluíra que ninguém conseguia derrotar o sistema e vencer o jogo, e só cretinos se acreditavam livres.

— Que prédio bonito — disse Ben, enquanto atravessavam o corredor. — É totalmente diferente do colégio em que estudei. Lá as janelas mais pareciam frestas numa fortificação.

— Primeiro erro — disse Matt. — Nunca diga “prédio”, e sim “espaço educacional”. Não é lousa, mas “apoio visual”. E os estudantes são “o corpo estudantil homogêneo e misto”.

— Que ótimo para eles... — ironizou Ben.

— É mesmo, não é? Você fez faculdade, Ben?

— Tentei fazer ciências humanas. Mas todos pareciam correr uma maratona intelectual em busca de um tesouro, capaz de torná-los famosos e amados. E abandonei o curso. Quando vendi Conway’s Daughter, eu trabalhava como carregador da Coca-Cola.

— Conte aos alunos. Eles vão se interessar.

— Você gosta de lecionar? — perguntou Ben.

— Claro que sim. Teriam sido quarenta anos insuportáveis se eu não gostasse.

O sinal tocou, ecoando com estridência pelo corredor, vazio, com a exceção de um estudante que passava ociosamente sob uma placa com uma seta e a inscrição “Marcenaria”.

— E a questão das drogas por aqui? — perguntou Ben.

— Tem de tudo, como em todas as escolas do país. Mas aqui o problema maior é o álcool.

— E não maconha?

— Não considero maconha um problema, nem os diretores, como admitem extra-oficialmente depois de umas doses de uísque. Nosso orientador pedagógico, um dos melhores em sua área, não se nega a fumar um baseado e ir ao cinema. Eu mesmo já experimentei. O efeito é gostoso, mas me deu indigestão.

— Você?

— Shhh — disse Matt. — O Grande Irmão ouve tudo. Além disso, chegamos.

— Minha nossa...

— Não fique nervoso — disse Matt, entrando na sala. — Bom-dia, pessoal — disse ele aos vinte e poucos adolescentes, que olharam para Ben com interesse. — Este é Ben Mears.

 

A princípio, ben pensou que errara de casa.

Quando Matt Burke o convidara para jantar, tinha certeza de que ele dissera que era a casinha cinza depois da universidade, mas ele ouvia rock-and-roll a todo volume dentro daquela.

Bateu com a argola embaçada da porta e, como ninguém respondeu, bateu de novo. Dessa vez a música baixou, e uma voz que só podia ser de Matt gritou:

— Entre! Está aberta!

Ele entrou, olhando ao redor com curiosidade. A porta dava direto para uma pequena sala de estar decorada no melhor estilo brechó, tendo ao meio uma tevê Motorola incrivelmente antiga. Um aparelho de som KLH com alto-falantes quad era a fonte da música.

Matt saiu da cozinha com um avental de xadrez vermelho e branco, seguido pelo aroma de molho de espaguete.

— Desculpe pela barulheira — disse ele. — Sou um pouco surdo.

— Excelente música.

— Sou fã de rock desde Buddy Holly. Adoro as músicas dele. Está com fome?

— Estou. Mais uma vez, obrigado pelo convite. Desde que voltei para ’salem’s Lot, tenho jantado fora mais do que nos últimos cinco anos.

— É uma cidade simpática. Espero que não se importe em comer na cozinha. Um antiquário passou por aqui há uns dois meses e me ofereceu duzentos dólares pela minha mesa de jantar. Ainda não tive tempo de comprar outra.

— Não me importo. Comer na cozinha é uma antiga tradição de família.

A cozinha estava impecavelmente limpa. No pequeno fogão, uma panela com molho de tomate fervia em fogo brando e um escorredor com espaguete fumegava. Uma pequena mesa dobrável estava arrumada com pratos que não combinavam e copos com personagens de quadrinhos ao redor das bordas — copos de geléia, pensou Ben, sorrindo. A última gota de embaraço por estar na companhia de um estranho se foi, e ele começou a se sentir em casa.

— Tem uísque e vodca no armário em cima da pia — disse Matt, apontando. — E ingredientes para drinques na geladeira. Nada muito sofisticado.

— Uísque com água de torneira está bom para mim.

— Fique à vontade. Vou servir essa gororoba.

— Gostei de seus alunos — disse Ben, enquanto preparava uma bebida. — Fizeram boas perguntas. Difíceis, mas boas.

— Como “de onde vêm suas idéias?” — disse Matt, imitando o sexy ceceio de menininha de Ruthie Crockett.

— Ela é uma garota e tanto.

— É mesmo. Tem uma garrafa de vinho Lancers na geladeira, atrás das fatias de abacaxi. Comprei especialmente para hoje.

— Não precisava...

— Ora, Ben. Não vemos autores famosos em Lot todos os dias.

— Que extravagância.

Ben terminou a bebida, pegou um prato de espaguete que Matt lhe deu, cobriu-o de molho e enrolou a massa no garfo contra a colher.

— Fantástico — disse ele. — Mamma mia.

— Fique à vontade — disse Matt.

Ben olhou para o prato, que esvaziara com incrível rapidez. Limpou a boca, sentindo-se um pouco culpado.                                                               

— Quer mais?

— Só meio prato, por favor. Está uma delícia.

Matt encheu todo o prato de Ben.

— Se não comermos, meu gato comerá. É um sem-vergonha. Pesa dez quilos e anda como uma pata choca.

— Nossa, como é que eu não o vi?

Matt sorriu.

— Ele está na farra. Seu novo livro é um romance?

— É romanceado — disse Ben. — Para falar a verdade, estou querendo ganhar dinheiro. A arte é algo maravilhoso, mas uma vez na vida eu gostaria de acertar na loteria.

— E as perspectivas?

— São sombrias — disse Ben.

— Vamos para a sala — disse Matt. — As poltronas são velhas, mas um pouco mais confortáveis do que esses bancos de cozinha. Está satisfeito?

— Nem me fale...

Na sala, Matt empilhou vários discos na vitrola e se dedicou a acender um enorme cachimbo de cabaça. Quando o achou a contento, depois de formar uma nuvem de fumaça, olhou para Ben.

— Não — disse ele. — Não dá para ver daqui.

Ben, que estava na janela, se virou bruscamente.

— O quê?

— A Casa Marsten. Aposto cinco centavos que era o que estava procurando.

Ben deu uma risada constrangida.

— Nada de apostas.

— Seu livro se passa numa cidade como ’salem’s Lot?

— É sobre a cidade e seus habitantes — disse Ben. — Acontece uma série de crimes sexuais e mutilações. Abrirei com um deles e o descreverei do começo ao fim, nos mínimos detalhes. Esfregarei o crime na cara do leitor. Estava esboçando essa parte quando Ralphie Glick desapareceu, e foi... bom, foi bastante desagradável.

— Está baseando o livro nos desaparecimentos que ocorreram na região nos anos 1930?

Ben o olhou com atenção.

— Você sabe disso?

— Claro. E vários dos moradores mais velhos também. Eu ainda não estava na cidade, mas Mabel Werts, Glynis Mayberry e Milt Crossen estavam. Alguns já fizeram a ligação.

— Que ligação?

— Ora, Ben. A ligação é óbvia, não?

— Bastante. Na última vez que a casa foi habitada, quatro crianças desapareceram num período de dez anos. Agora voltou a ser ocupada após 36 anos, e Ralphie Glick desapareceu sem mais nem menos.

— Acha que é coincidência?

— Suponho que sim — disse Ben com cuidado, tendo em mente o alerta de Susan. — Mas é engraçado. Pesquisei os exemplares do Ledger de 1939 a 1970 só para comparar. Três crianças desapareceram nesse período. Uma fugiu e depois foi encontrada trabalhando em Boston. Tinha 16 anos e parecia mais velho. Outro foi retirado do rio Androscoggin um mês depois. E outro foi encontrado enterrado à beira da Rota 116, em Gates, depois de ser atropelado. Tudo explicado.

— Talvez o desaparecimento de Ralphie também seja explicado.

— Talvez.

— Mas você não acredita nisso. O que sabe sobre esse tal de Straker?

— Absolutamente nada — disse Ben. — Nem sei se quero conhecê-lo. Estou desenvolvendo um livro em torno de uma certa concepção da Casa Marsten e seus habitantes. Constatar que Straker não passa de um negociante totalmente normal, como certamente é o caso, pode me tirar da trilha.

— Não acho que seria assim. Ele abriu a loja hoje, você sabe. Ouvi dizer que Susie Norton e a mãe passaram por lá. Mas todas as mulheres da cidade deram pelo menos uma espiada. Segundo Dell Markey, uma fonte incontestável, até Mabel Werts se arrastou até lá. Parece que o homem impressiona. Bem-vestido, cortês, totalmente careca. E encantador. Soube que chegou a vender umas peças.

Ben sorriu.

— Que maravilha. E alguém já viu o outro sócio?

— Parece que está viajando a negócios.

— Por que “parece”?

Matt encolheu os ombros.

— Não sei. Deve ser um negócio perfeitamente honesto, mas a casa me deixa nervoso. Parece que esses dois foram atraídos por ela. Como você disse, é como um ídolo, plantado no alto do monte.

Ben assentiu com um gesto de cabeça.

— E, se não bastasse tudo isso, outra criança desapareceu. E Danny, o irmão de Ralphie, morreu aos 12 anos. Causa da morte, anemia perniciosa.

— O que há de estranho nisso? É uma desgraça, mas...

— Meu médico é um rapaz chamado Jimmy Cody, Ben. Foi meu aluno. Era uma praga na época, mas um bom médico agora. O que vou lhe dizer é só um boato.

— Ok.

— Fui ao hospital para um check-up, e comentei que era uma lástima o que acontecera com Danny, que era uma catástrofe para os pais, depois do desaparecimento do outro. Jimmy disse que discutira o caso com George Gorby, o médico responsável. O menino estava anêmico mesmo. Disse que a contagem de glóbulos vermelhos de um menino da idade de Danny varia de 85% a 95%. Danny tinha 45%.

— Nossa — exclamou Ben.

— Estava recebendo injeções de vitamina B12 e fígado de vitela, e tudo parecia ir bem. Receberia alta no dia seguinte. E então, bum, caiu morto.

— Não deixe Mabel Werts ouvir isso — disse Ben. — Ela começaria a ver índios com zarabatanas no parque.

— Não falei disso a ninguém, fora você. E nem falarei. A propósito, Ben, é melhor não divulgar o assunto de seu livro. Se Loretta Starcher perguntar sobre o que está escrevendo, diga que é sobre arquitetura.

— Já me deram o mesmo conselho.

— Foi Susan Norton, sem dúvida.

Ben olhou para o relógio e levantou.

— Falando em Susan...

— O macho abre as plumas para a corte — disse Matt. — Na verdade, preciso ir até a escola. Estamos ensaiando o terceiro ato da peça escolar, uma comédia de grande significado social chamada O Problema de Charley.

— E qual é o problema dele?

— Espinhas — disse Matt, rindo.

Andaram até a porta juntos. Matt parou para vestir uma desbotada jaqueta esportiva da escola. Parecia mais um técnico de futebol maduro do que um professor de inglês sedentário, refletiu Ben. Sem levar em conta o rosto, que era inteligente, sonhador e um pouco inocente.

— Escute — disse Matt, enquanto saíam. — Quais são seus planos para a noite de sexta?

— Não sei — disse Ben. — Acho que Susan e eu vamos ao cinema. Parece que não há muito mais a fazer por aqui.

— Tenho outro programa — disse Matt. — Que tal formarmos um comitê, irmos à Casa Mastern e nos apresentarmos ao novo proprietário? Em nome do município, é claro.

— Boa idéia — disse Ben. — Um simples gesto de cortesia, não é?

— Uma rústica expedição de boas-vindas — concordou Matt.

— Falarei com Susan hoje. Acho que ela vai topar.

— Ótimo.                                                                                                          

Matt acenou enquanto o Citroën de Ben se afastava. Ben respondeu com dois toques na buzina, antes que seus faróis traseiros desaparecessem atrás do monte.

Matt permaneceu no alpendre ainda algum tempo, as mãos nos bolsos da jaqueta, os olhos voltados para a casa no topo do monte.

 

Não havia ensaio da peça na noite de quinta, e Matt partiu para o Dell’s por volta das nove horas para tomar algumas cervejas. Se aquele chato do Jimmy Cody não lhe dava remédios para insônia, ele mesmo se medicaria.

O Dell’s não enchia muito nas noites em que não havia música ao vivo. Matt avistou apenas três conhecidos: Weasel Craig, segurando uma cerveja num canto, Floyd Tibbits, com expressão que anunciava chuvas e trovoadas (falara com Susan três vezes naquela semana, duas pelo telefone e uma pessoalmente, na casa dela, e nenhuma das conversas fora bem) e Mike Ryerson, sentado num dos reservados mais afastados, contra a parede.

Matt andou até o balcão, onde Dell Markey enxugava copos enquanto assistia a Ironside numa TV portátil.

— Oi, Matt. Como vão as coisas?

— Tudo bem. Está sossegado aqui hoje.

Dell encolheu os ombros.

— É. Estão passando filmes sobre motos no drive-in de Gates. Isso não é páreo para mim. Quer um copo ou uma jarra?

— Pode ser uma jarra.

Dell puxou a cerveja, tirou o excesso de espuma e encheu mais um pouco. Matt pagou e, depois de hesitar um instante, aproximou-se do reservado de Mike. Ele passara pelas salas de aula de Matt, como a maioria dos jovens de Lot, e causara boa impressão. Tirara notas acima da média mesmo tendo uma inteligência mediana, porque se esforçava e perguntava tudo que não entendia até que entrasse em sua cabeça. Além disso, tinha um senso de humor espontâneo e um agradável individualismo que fizeram dele um dos favoritos da classe.

— Oi, Mike — disse ele. — Posso sentar com você?

Quando Mike Ryerson levantou os olhos, Matt sentiu um choque violento o percorrer. Sua primeira reação: Drogas. Drogas pesadas.

— Claro, Sr. Burke. Sente-se. — Sua voz era apática. Sua pele, de um branco horrível e pastoso, escurecia ao redor dos olhos. Os olhos em si estavam escancarados e febris. Suas mãos moviam-se lentamente sobre a mesa, como fantasmas na obscuridade da taverna. Um copo de cerveja permanecia intocado diante dele.

— Como vai, Mike? — Matt encheu um copo de cerveja, controlando as mãos para não tremerem.

Sua vida sempre fora docemente equilibrada, um gráfico com moderados altos e baixos (e mesmo esses haviam se tornado relativos após a morte de sua mãe, 13 anos antes), e uma das coisas que mais mexiam com ele era ver o triste fim que alguns de seus alunos encontravam. Billy Rokyo, que morrera num acidente de helicóptero no Vietnã dois meses antes do cessar-fogo; Sally Greer, uma das alunas mais brilhantes e vivazes que ele já tivera, morta pelo namorado bêbado quando lhe disse que queria terminar; Gary Coleman, que uma misteriosa degeneração do nervo óptico cegara; Doug, o irmão de Buddy Mayberry, o único bom menino daquele clã obtuso, afogado na praia Old Orchard. E as drogas, que são pequenas mortes. Nem todos que bebiam da Fonte do Esquecimento acabavam mergulhando nela, mas muitos jovens estavam se alimentando de sonhos letais.

— Como vou? — disse Mike lentamente. — Não sei, Sr. Burke. Não muito bem.

— Que porcaria você tomou, Mike? — perguntou Matt, delicadamente. Mike o olhou sem entender.

— Que droga? — disse Matt. — Anfetamina? LSD? Cocaína? Ou é...

— Não estou drogado — disse Mike. — Acho que estou doente.

— Está falando a verdade?

— Nunca usei drogas pesadas na vida — disse Mike, formando as palavras com muito esforço. — Só maconha, mas não fumo um baseado faz quatro meses. Estou doente... desde segunda, eu acho. Adormeci no cemitério Harmony Hill na noite de domingo. Só acordei na manhã da segunda. — Ele balançou a cabeça lentamente. — Estou um lixo desde então. E parece que pioro a cada dia. — Ele suspirou, o sopro de ar o sacudiu, como uma folha morta no inverno.

Matt inclinou-se para frente, preocupado.

— Isso aconteceu depois do enterro de Danny Glick?

— Foi. — Mike o olhou de novo. — Voltei para terminar o serviço depois que todos haviam ido embora, mas aquele maldito... desculpe, Sr. Burke. Mas Royal Snow não apareceu. Esperei por ele bastante tempo, e acho que foi aí que comecei a ficar doente, porque tudo depois disso... Estou com dor de cabeça. Não consigo pensar.

— Do que você se lembra, Mike?

— Do que me lembro? — Mike olhou para as profundezas douradas de seu copo, para as bolhas que se destacavam das laterais e flutuavam para a superfície. — Lembro de uma canção. Da canção mais doce que já ouvi. E da sensação... de me afogar. Mas era gostoso. Fora os olhos. Os olhos...

Ele cruzou os braços e estremeceu.

— Que olhos? — perguntou Matt, inclinando-se.

— Eram olhos vermelhos, assustadores.

— De quem eram?

— Não lembro. Não vi olho nenhum. Foi tudo um sonho. — Ele afastou a imagem de si, de um modo quase visível para Matt. — Não lembro de mais nada que aconteceu no domingo à noite. Acordei na segunda deitado no chão, e no começo nem consegui levantar de tão cansado. Mas finalmente consegui. O sol estava alto e fiquei com medo de me queimar. E fui para a beira do riacho, no bosque. Estava cansado. Muito cansado. E voltei a dormir. Dormi até... sei lá, quatro ou cinco horas. — Ele deu uma risada fraca. — Acordei coberto de folhas, mas me sentia um pouco melhor. Levantei e voltei para minha camionete. — Passou a mão lentamente pelo rosto. — Devo ter acabado o serviço de Danny Glick na noite do domingo. Engraçado, Não me lembro.

— Acabado?

— A cova estava cheia. Com a grama por cima e tudo. Um trabalho caprichado, mas não me lembro de ter feito. Acho que eu estava doente mesmo.

— Onde passou a noite de segunda?

— Em casa. Onde mais?

— Como se sentiu na terça de manhã?

— Não acordei na terça de manhã. Dormi o dia inteiro. Só acordei na terça à noite.

— E como se sentiu então?

— Horrível. Minhas pernas pareciam de borracha. Tentei beber água e quase caí. Tive de ir para a cozinha me agarrando aos móveis. Estava fraco como um gatinho. — Ele franziu a testa. — Meu jantar era um cozido enlatado, mas não consegui comer. Só de olhar para o negócio fiquei enjoado. Parecia que eu estava de ressaca.

— Você não comeu nada?

— Tentei, mas vomitei. Mas me senti um pouco melhor. Saí e dei uma volta. Depois, voltei para a cama. — Ele acompanhava com os dedos os círculos deixados pelos copos de cerveja na mesa. — Fiquei com medo antes de dormir. Como uma criança com medo do bicho-papão. Olhei se todas as janelas estavam trancadas e fui dormir com todas as luzes acesas.

— E ontem de manhã?

— Hã? Não... só acordei às nove da noite ontem. — Ele deu a mesma risada frouxa. — Lembro que pensei que, se continuasse assim, dormiria 24 horas por dia. E é o que acontece quando a gente morre.

Matt o olhava com preocupação. Floyd Tibbits levantou, colocou uma moeda no jukebox e começou a selecionar músicas.

— Engraçado — continuou Mike. — A janela do meu quarto estava aberta quando eu acordei. Eu mesmo devo ter aberto. Tive um sonho... alguém estava na janela... e eu levantei e abri a janela para ele. Como se fosse um velho amigo, que a gente deixa entrar porque está com frio ou... ou com fome.

— E quem era?

— Foi só um sonho, Sr. Burke.

— Mas, no sonho, quem era?

— Não sei. Eu tentei comer, mas só de pensar na idéia fiquei com vontade de vomitar.

— O que você fez?

— Vi tevê até acabar o programa do Johnny Carson. Eu me sentia bem melhor. Depois, fui dormir.

— Trancou as janelas?

— Não.                                             

— E dormiu o dia todo?

— Acordei quando estava anoitecendo.

— Sentia-se fraco?

— Muito. — Ele passou a mão pelo rosto. — Estou tão mal! Deve ser só gripe, não é, Sr. Burke? Não estou doente de verdade, não é?

— Não sei — disse Matt.

— Achei que umas cervejas me animariam, mas não consigo beber. Dei um gole e quase engasguei. A semana passada... parece um pesadelo. E estou com medo. Morrendo de medo. — Ele cobriu o rosto com as mãos magras, e Matt viu que chorava.

— Mike?

Ele não respondeu.

— Mike. — Ele puxou delicadamente as mãos de Mike, descobrindo-lhe o rosto. — Quero que vá para casa comigo hoje e durma no quarto de hóspedes. Pode ser?

— Pode ser, tanto faz. — Mike enxugou os olhos com lentidão letárgica.

— E amanhã vamos falar com o Dr. Cody.

— Tudo bem.

— Então, vamos embora.

Matt pensou em ligar para Ben Mears, mas desistiu.

 

Matt bateu na porta trazendo um pijama.

— Entre — disse Mike.

— Acho que vai ficar um pouco grande, mas...

— Não precisa, Sr. Burke. Eu durmo de cueca.

Era como ele estava. Matt viu que seu corpo todo estava terrivelmente pálido. As costelas se projetavam em sulcos circulares.

— Vire a cabeça, Mike. Para este lado.

Mike virou a cabeça obedientemente.

— Que marcas são essas?

Mike tocou o pescoço abaixo do maxilar.

— Não sei.

Matt andou até a janela. Estava bem trancada, mas mesmo assim ele voltou a abrir e fechar o trinco com mãos nervosas. A escuridão da noite parecia pressionar a vidraça.

— Me chame se você precisar de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Até se tiver um pesadelo. Certo, Mike?

— Certo.

— Estou falando sério. Meu quarto fica no fim do corredor.

— Está bem.

Hesitando, sentindo que ainda faltava fazer algo, Matt saiu do quarto.

 

Matt não pregou o olho, e só não ligou para Ben Mears porque sabia que estavam todos dormindo na pensão da Eva. Muitos inquilinos eram idosos, e quando o telefone tocava no meio da noite, pensavam que alguém tinha morrido.

Ficou deitado, inquieto, vendo os ponteiros luminosos do despertador avançarem para o número 12. Fazia um silêncio sobrenatural, talvez porque seus ouvidos estivessem atentos ao menor ruído. A casa era velha, mas sólida, e suas tábuas não rangiam. Os únicos sons eram o do relógio e do vento lá fora. Não passava nenhum carro na via Taggart Stream nas noites de semana.

O que você está pensando é uma loucura.

Mas o pensamento voltava com insistência. É claro que, sendo um literato, fora a primeira coisa que passara por sua cabeça quando Jimmy Cody descrevera o caso de Danny Glick. Ele e Cody riram da hipótese. Talvez estivesse sendo punido por rir.

Aquelas marcas não eram arranhões. Eram furos.

Todos sabiam que tais coisas não existiam. O poema “Cristabel” de Coleridge e o romance de Bram Stroker eram apenas frutos de imaginações refinadas. Claro que existiam monstros, mas eram os controladores de bombas termonucleares, os seqüestradores, os assassinos em massa, os molestadores de crianças. Mas aquilo era absurdo. A marca do demônio no seio de uma mulher não passava de uma pinta, o homem que se ergueu dos mortos e voltou para casa apenas sofria de ataxia, o bicho-papão à espreita no canto do quarto nada mais era que cobertores empilhados. Até Deus já estava morto, segundo alguns.

Tiraram-lhe quase todo o sangue.

Nenhum som vinha do corredor. Ele dorme como uma pedra, pensou Matt. E por que não? Não fora para isso que o convidara? Para que dormisse bem, sem ser interrompido por... pesadelos? Ele saiu da cama, acendeu o abajur e foi até a janela. De onde estava, via apenas a ponta do telhado da Casa Marsten, congelado pelo luar.

Estou com medo.

Mas era pior. Ele estava apavorado. Enumerou mentalmente os talismãs contra uma doença indizível: alho, água benta, crucifixo, rosas, água corrente. Ele não tinha nenhum objeto santificado. Era metodista não-praticante, e achava John Groggins o maior cretino do mundo ocidental.

O único artefato religioso que tinha em casa era...

Então ele ouviu as palavras, ditas em voz baixa e sonolenta por Mike Ryerson, mas claramente audíveis na casa silenciosa.

Pode entrar.

Matt segurou a respiração, e então o grito preso em sua garganta saiu na forma de um silvo. Sentiu uma vertigem de medo. Seu estômago se congelou. Seus testículos se retraíram. Quem, em nome de Deus, fora convidado para entrar em sua casa?

Ouviu o trinco da janela do quarto de hóspedes se abrir furtivamente. Depois, o roçar da madeira, quando a janela foi levantada.

Ele podia descer as escadas correndo, pegar a Bíblia que estava na cômoda da sala de jantar, voltar, escancarar a porta, empunhar a Bíblia e gritar: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ordeno que se afaste...

Mas quem estava lá?

Me chame se precisar de qualquer coisa.

Mas não posso, Mike. Sou um velho. Estou com medo.

A noite invadiu seu cérebro formando um círculo de imagens aterrorizantes, que apareciam entre sombras. Rostos pálidos, de olhos imensos, dentes afiados, vultos que estendiam as longas mãos brancas em direção a...                                                                                                

Ele deixou escapar um gemido trêmulo e cobriu o rosto com as mãos.

Não posso. Estou com medo.

Não teria se mexido nem se a maçaneta de sua própria porta tivesse começado a girar. Estava paralisado de medo, desejando loucamente não ter ido ao Dell’s naquela noite.

Estou com medo.

E, no pesado silêncio da casa, sentado impotente na cama, o rosto entre as mãos, ele ouviu o riso alto e maligno de uma criança...

...e o som da sucção.

 

O REI DO SORVETE

Chame o enrolador de grandes charutos,

Aquele musculoso, e mande-o bater

Libidinosos coalhos em xícaras de cozinha.

Que as moças passeiem com a mesma roupa

Que estão acostumadas a usar, e que os meninos

Tragam flores enroladas em jornais do mês passado.

Que o ser seja o final do parecer.

O único rei é o do sorvete.

Tire da penteadeira de pinho,

Onde faltam os três puxadores de vidro, aquele lençol

Onde ela um dia bordou três vistosos pombos

E estenda-o de modo a cobrir seu rosto.

Se seus pés unhudos ficarem de fora, é para

Mostrar como ela está fria, e muda.

Deixe a lâmpada fixar seu lume

O único rei é o do sorvete.

WALLACE STEVENS

A coluna tem um

Buraco. Vês

A Rainha dos Mortos?

GEORGE SEFERIS

 

BEN (III)

Alguém devia estar batendo na porta há muito tempo, porque o som parecia ecoar nas alamedas do sono enquanto ele se esforçava para despertar. Estava escuro na rua. Ele se virou para pegar o relógio e o derrubou no chão, sentindo temor e confusão.

— Quem é? — gritou.

— É a Eva, Sr. Mears. Telefone para o senhor.

Ele levantou, enfiou as calças e abriu a porta, sem camisa. Eva Miller vestia um roupão felpudo de algodão e tinha a expressão vulnerável de quem ainda não acordou direito. Trocaram um olhar aflito, enquanto ele pensava: Quem está doente? Quem morreu?

— É interurbano?

— Não, é Matthew Burke.

A informação não o aliviou como ela esperava.

— Que horas são?

— Quatro e pouco. O Sr. Burke parece muito nervoso.

Ben desceu e pegou o telefone.

— É o Ben, Matt.

Matt arquejava ao telefone.

— Você pode vir aqui, Ben? Agora mesmo?

— Claro. O que houve? Você está doente?

— Não posso falar pelo telefone. Venha logo.

— Estarei aí em dez minutos.

— Ben?

— Diga.

— Você tem um crucifixo? Uma medalha de São Cristóvão? Qualquer coisa assim?

— Não. Eu sou, era, batista.

— Tudo bem. Venha logo.

Ben desligou e subiu as escadas correndo. Eva esperava, preocupada e indecisa — por um lado, queria saber o que estava acontecendo; por outro, não queria se meter na vida do seu inquilino.

— O Sr. Burke está doente, Sr. Mears?

— Disse que não. Só me pediu... por acaso a senhora é católica?

— Meu marido era.

— A senhora tem um crucifixo, um rosário ou uma medalha de São Cristóvão?

— Bom, o crucifixo do meu marido está no quarto... O senhor quer...

— Quero, por favor.

Ela subiu o corredor, arrastando os chinelos felpudos pelo carpete desbotado. Ben entrou no quarto, vestiu a camisa do dia anterior e calçou rapidamente os sapatos. Quando saiu de novo, Eva estava ao lado da porta, segurando o crucifixo, que refletia um brilho prateado.

— Obrigado — disse ele, pegando-o.

— O Sr. Burke lhe pediu isso?

— Pediu.

Ela franzia a testa, mais desperta agora.

— Ele não é católico. Acho que não vai à igreja.

— Ele não me explicou o motivo.

— Ah. — Ela fingiu entender com um gesto de cabeça. — Por favor, tome cuidado com ele. É muito precioso para mim.

— Entendo. Pode deixar.

— Espero que o Sr. Burke esteja bem. É um bom homem.

Ele saiu da pensão. Não conseguia segurar o crucifixo e procurar as chaves do carro ao mesmo tempo e, em vez de mudá-lo de mão, pendurou-o no pescoço. A prata pousou sobre sua camisa, e ele entrou no carro, vagamente consciente da segurança que o objeto lhe transmitia.

 

Todas as luzes do andar inferior da casa de Matt estavam acesas, e logo que Ben parou na entrada e seus faróis iluminaram a fachada, Matt abriu a porta.

Ben estava pronto para tudo, mas assim mesmo a expressão de Matt o chocou. Estava de uma palidez mortal, os lábios tremiam, os olhos arregalados não piscavam.

— Vamos para a cozinha — disse ele.

Ben entrou, e a luz do corredor iluminou a cruz sobre seu peito.

— Você trouxe.

— É de Eva Miller. O que houve?

— Na cozinha — repetiu Matt. Quando passaram pela escada, ele olhou para o andar de cima e se encolheu.

A mesa onde eles haviam comido o espaguete estava vazia, com a exceção de três objetos: uma xícara de café, uma antiquada Bíblia com fecho e um revólver calibre 38.

— Agora fale, Matt. Você está com uma cara horrível.

— Pode ter sido apenas um sonho, mas graças a Deus você veio. — Ele apanhara o revólver e o manuseava com agitação.

— Conte o que foi. E pare de mexer com isso. Está carregado?

Matt largou a pistola e passou a mão pelos cabelos.

— Sim, está. Mas acho que não adiantaria muito. A não ser que eu o usasse contra mim mesmo. — Ele soltou uma risada áspera e doentia.

— Pare com isso.

O tom firme de Ben dissolveu o olhar fixo e vidrado de Matt. Ele sacudiu a cabeça, como um animal sacode o pêlo ao sair da água gelada.

— Há um morto lá em cima.

— Quem?       

— Mike Ryerson. Um funcionário público, cuida das áreas verdes do cemitério.

— Tem certeza de que está morto?

— Meus instintos dizem que sim, mas ainda não fui olhar. Não tive coragem. Porque pode ser que ele não esteja nada morto.

— Matt, isso não faz sentido.

— Você acha que eu não sei? Estou falando absurdos e pensando loucuras. Mas eu não podia chamar ninguém, a não ser você. Em toda a cidade, você é, o único que pode... que pode... — Ele sacudiu a cabeça e recomeçou. — É que conversamos sobre Danny Glick.

— Sim.

— E que ele teria morrido de anemia perniciosa... O que nossos avós chamavam de “fraqueza”.

— Sim.

— Foi Mike quem o enterrou. E encontrou o cachorro de Win Purinton empalado no portão do cemitério Harmony Hill. Encontrei Mike Ryerson no Dell’s ontem, e...

 

— ... e não consegui entrar no quarto — terminou ele. — Não consegui. Fiquei sentado na minha cama durante quase quatro horas. Depois desci pé ante pé como um ladrão e liguei para você. O que acha?

Ben tirara o crucifixo. Agora brincava com a corrente amontoada sobre a mesa com ar pensativo. Eram quase cinco horas. A leste, a aurora já pintava o céu de rosa.

— Acho melhor olharmos o quarto de hóspedes. Por enquanto, é tudo que consigo pensar.

— Tudo isso parece o pesadelo de um louco, agora que o dia está nascendo. — Ele deu uma risada trêmula. — E espero que seja. Espero que Mike esteja dormindo como um bebê.

— Bom, vamos ver.

Matt firmou os lábios com esforço.

— Ok. — Olhou para a mesa e em seguida para Ben, interrogativamente.

— Claro — disse Ben, e passou a corrente com o crucifixo pelo pescoço de Matt.

— Na verdade, ele faz com que eu me sinta melhor. — Riu, envergonhado. — Será que vão me deixar usá-lo quando me despacharem para Augusta?

— Quer a arma? — perguntou Ben.

— Acho que não. Eu acabaria guardando na calça e estourando meu saco.

Eles subiram, Ben na frente. Em cima, um corredor levava a duas direções. De um lado, a porta do quarto de Matt estava aberta, deixando escapar um pálido feixe de luz sobre o carpete laranja.

— Do outro lado — disse Matt.

Ben atravessou o corredor e parou diante da porta do quarto de hóspedes. Não acreditava na atrocidade que Matt insinuara, mas mesmo assim foi tomado por uma onda de medo como nunca sentira antes.”

Quando abrir a porta, ele estará pendurado na viga, a cara inchada e escura, e então os olhos se abrirão, saltando das órbitas, e ele o verá, e ficará satisfeito por ter vindo.

A lembrança emergiu com força num paralelo sensorial, paralisando-o por um instante. Ele quase sentia o cheiro de argamassa e de animais hibernando. Parecia-lhe que a porta simples e envernizada do quarto de hóspedes interpunha-se entre ele e os segredos do inferno.

Então ele girou a maçaneta e empurrou a porta. Matt estava logo atrás, agarrando o crucifixo de Eva.

A janela do quarto clava diretamente para leste, e o sol começava a clarear o horizonte. Os primeiros raios cristalinos do sol entravam pela janela, iluminando partículas douradas ao incidir sobre o lençol de linho branco que cobria Mike Ryerson até o peito.

Ben olhou para Matt.

— Ele está bem — sussurrou. — Está dormindo.

— A janela está aberta. Estava fechada e trancada. Eu mesmo a tranquei.

Ben olhou para a bainha do lençol de uma brancura impecável que cobria Mike. Viu uma única mancha de sangue sobre ela, seca e escura.

— Acho que ele não está respirando — disse Matt.

Ben avançou alguns passos e parou.                                                                   

Mike? Mike Ryerson? Acorde, Mike!

Não houve resposta. Os cílios de Mike se destacavam contra a tez suave. Seus cabelos estavam desalinhados sobre a testa, e Ben achou que, à luz delicada da manhã, ele estava belo como uma estátua grega. Suas faces estavam rosadas, e seu corpo não tinha nada da palidez mortal que Matt mencionara.

— Claro que está respirando — disse com um pouco de impaciência. — Está num sono profundo. Mike... — Ele o sacudiu delicadamente. O braço esquerdo do rapaz, antes pousado natural­mente sobre o peito, tombou inerte ao lado da cama, raspando o chão com um som sobrenatural.

Matt curvou-se e pegou o braço imóvel, pressionando o indicador sobre o pulso.

— Nada.

Ia soltar o braço, mas, lembrando-se do som fantasmagórico da mão raspando o chão, decidiu colocá-lo de novo sobre o peito de Mike. O braço começou a resvalar de novo, e ele o firmou fazendo uma careta.

Ben não acreditava. O rapaz só podia estar dormindo. O rubor saudável, o vigor dos músculos, os lábios entreabertos como se para absorver o ar... uma sensação de irrealidade o tomou. Apalpou o ombro de Mike. A pele estava fria. Molhou o dedo e o colocou diante dos lábios entreabertos. Nada. Nem sinal de respiração.

Ele e Matt se entreolharam.

— E as marcas no pescoço? — perguntou Matt.

Ben pegou o queixo de Ryerson e o virou suavemente. O movimento deslocou o braço esquer­do, que voltou a cair e raspar o chão.

Não havia marca nenhuma no pescoço dele.

 

Eles estavam de volta à mesa da cozinha. Eram 5h35. À distância, ouviam o mugido das vacas de Griffen enquanto entravam no pasto na base do monte, além do matagal que ocultava o riacho Taggart.

— Segundo a lenda, as marcas desaparecem — disse Matt de repente. — Quando a vítima morre, as marcas desaparecem.

— Eu sei — disse Ben. Lembrava-se tanto de Drácula de Bram Stoker quanto dos filmes da Hammer, estrelados por Christopher Lee.

— Temos que atravessar seu coração com uma estaca.

— Pense bem — disse Ben, dando um gole no café. — Isso não seria nada fácil de explicar a um legista. No mínimo, você seria preso por profanar um cadáver. Ou iria para o hospício.

— Acha que estou louco? — perguntou Matt serenamente.

— Não — respondeu Ben, sem hesitação aparente.

— Acredita no que eu disse sobre as marcas no pescoço?

— Não sei. Acho que devo acreditar. Por que mentiria para mim? Não ganharia nada com isso. A não ser que o tenha matado.

— Então, vamos supor que o matei — disse Matt, observando-o.

— Há três argumentos contra essa tese. Primeiro, qual seria seu motivo? Desculpe, Matt, mas você é velho demais para os motivos clássicos como ciúme ou dinheiro. Segundo, qual foi seu método? Não pode ter sido veneno, porque a aparência dele está muito serena.

— E o terceiro argumento?

— Nenhum assassino em seu juízo perfeito inventaria uma história como a sua para ocultar um crime. Seria uma insanidade

— Voltamos a falar de minha saúde mental — disse Matt. — Eu sabia.

— Eu não acho que esteja louco — disse Ben, enfatizando a primeira palavra. — Você parece bem lúcido.

— Mas você não é médico, certo? E muitos loucos conseguem fingir sanidade com bastante sucesso.

Ben concordou.

— Então, onde ficamos?                                                                               

— Na estaca zero.                                                   

— Não. Não podemos nos dar a esse luxo, porque há um morto lá em cima, e logo teremos de prestar contas disso. O delegado, o legista, o chefe da polícia estadual, todos vão querer uma explica­ção. Matt, será que Mike não passou a semana doente com algum vírus e acabou morrendo na sua casa?

Pela primeira vez desde que haviam descido, Matt se mostrou agitado.

— Ben, você sabe o que ele me disse! Vi as marcas no pescoço dele! E o ouvi convidando alguém para entrar na minha casa! Depois eu ouvi... Meu Deus, ouvi aquele riso! — Seus olhos voltaram a ficar fixos e aterrados.

— Está bem — disse Ben. Levantou-se e foi até a janela, tentando organizar as idéias. Aquilo não ia bem. Como dissera a Susan, tudo parecia querer fugir ao controle. Olhou em direção à Casa Marsten.

— Matt, você sabe o que vai acontecer se contar a mais alguém o que me contou, não é?

Matt não respondeu.

— As pessoas vão bater na testa e sacudir a cabeça quando você passar. As crianças vão persegui-lo nas ruas com máscaras de Halloween. Seus alunos rirão de você. Seus colegas começarão a olhá-lo de modo estranho. Receberá telefonemas anônimos de gente dizendo ser Danny Glick ou Mike Ryerson. Sua vida vai virar um pesadelo. Seria expulso da cidade em seis meses.

— Não, os moradores me conhecem.

Ben virou-se para ele.

— Quem eles conhecem? Um velho excêntrico que mora sozinho numa casa afastada. Só por não ser casado, acharão que tem um parafuso a menos. E que apoio posso lhe dar? Vi o corpo e nada mais. E, mesmo que eu tivesse visto mais, eles diriam que não passo de um forasteiro. Diriam até que somos um casal de bichas e que essa é uma de nossas taras.

Matt o olhava com crescente horror diante daquele quadro.

— Uma palavra, Matt. Basta uma palavra para destruí-lo em ’salem’s Lot.

— Então, nada pode ser feito.

— Pode, sim. Você tem uma teoria sobre quem, ou o quê, matou Mike Ryerson. É relativamente simples provar ou refutar essa teoria. Estou numa sinuca de bico. Não acredito que você esteja louco, mas não consigo acreditar que Danny Glick ressuscitou dos mortos e sugou o sangue de Mike Ryerson durante uma semana antes de matá-lo. Mas vou testar sua teoria, e você vai me ajudar.

— Como?

— Ligue para o seu médico. Chama-se Cody, não é? Depois ligue para Parkins Gillespie e ponha a engrenagem em movimento. Faça de conta que não ouviu coisa alguma durante a noite. Você foi ao Dell’s e encontrou Mike. Ele disse que não se sentia bem desde domingo. Você o convidou para dormir na sua casa. Foi ver como ele estava por volta das três e meia, não conseguiu acordá-lo e me ligou.

— Só isso?

— Só. Quando falar com Cody, nem diga que ele está morto.

— Não?

— Como ter certeza de que ele está? — explodiu Ben. — Você não conseguiu encontrar o pulso. Eu não percebi sinais de respiração. Se soubesse que alguém podia me enterrar com base só nisso, eu ficaria preocupado. Principalmente se eu estivesse com um ar saudável como o dele.

— Isso também o incomoda, não é?

— É, incomoda — admitiu Ben. — Ele parece uma estátua de cera.

— Certo, o que você diz faz sentido, na medida em que é possível numa situação como essa. Nesse ponto, acho que pareci um louco.

Ben começou a protestar, mas Matt o interrompeu com um gesto.

— Mas suponha... é só uma hipótese... suponha que minha primeira suspeita esteja correta. Será que não existe sequer uma remota possibilidade? De que Mike... volte?

— Como eu disse, é fácil provar ou refutar essa teoria. Mas não é isso que me incomoda, nessa história.

— E o que é?

— Espere, uma coisa de cada vez. Para provar ou refutar essa teoria, não basta um exercício de lógica. É preciso excluir possibilidades. Primeira: Mike morreu de alguma doença, causada por um vírus ou algo assim. Como confirmar ou descartar isso?

Matt encolheu os ombros.

— Com um exame médico.

— Exato. É o mesmo método para confirmar ou excluir a hipótese de assassinato. Se alguém o envenenou ou lhe deu um tiro ou um bolo com cacos de vidro...

— Nem sempre assassinatos são detectados.

— Eu sei. Mas vamos apostar no médico legista.

— E se o veredicto dele for “causa desconhecida”?

— Então — disse Ben com decisão —, visitaremos o túmulo depois do enterro e veremos se ele sairá de lá. Se sair, o que me parece inconcebível, teremos certeza. Se não sair, enfrentaremos a questão que me incomoda.

— Minha insanidade — Matt disse lentamente. — Ben, juro em nome da minha mãe que vi as marcas, que ouvi a janela ser levantada, que...

— Acredito em você — disse Ben.

Matt parou. Tinha a expressão de alguém que se preparara para uma pancada que não viera.

— Acredita? — perguntou, incerto.

— Melhor dizendo, recuso-me a acreditar que você está louco ou teve uma alucinação. Também tive uma experiência... uma experiência ligada àquela maldita casa... que me torna extremamente solidário com pessoas cujas histórias parecem insanas à luz da razão. Um dia lhe contarei.

— Por que não agora?

— Não temos tempo. Você tem telefonemas a fazer. E eu tenho mais uma pergunta. Pense bem antes de responder. Você tem algum inimigo?

— Nenhum que aprontaria algo assim.

— Algum ex-aluno ressentido, talvez?

Matt, que sabia exatamente até que ponto influenciara a vida de seus alunos, riu educadamente.

— Está bem, acredito em sua palavra. — Ben sacudiu a cabeça. — É terrível. Primeiro aquele cachorro no portão do cemitério. Depois Ralphie Glick desaparece, seu irmão morre, e agora Mike Ryerson. Talvez haja alguma ligação. Mas não posso acreditar nisso.

— Vou ligar para a casa de Cody — disse Matt, levantando. — Parkins também deve estar em casa.

— Ligue para a escola e diga que está doente.

— Certo — disse Matt com uma risada triste. — Será a primeira vez que isso acontece em três anos. Uma ocasião histórica.

Ele foi para a sala e começou a fazer as ligações, esperando longamente que os toques arrancassem alguém do sono. A mulher de Cody aparentemente lhe deu o telefone da recepção do hospital, porque ele voltou a discar, pediu para falar com ele e lhe contou brevemente a história combinada. Desligou e gritou para Ben, ainda na cozinha.

— Jimmy chegará em uma hora.

— Ótimo — disse Ben. — Vou subir.

— Não encoste em nada.

— Pode deixar.

Quando chegou ao patamar do andar de cima, Ben ouviu Matt falar ao telefone com Parkins Gillespie. As palavras se dissolveram num murmúrio indistinto enquanto ele atravessava o corredor.

A sensação de um terror entre a lembrança e a imaginação o dominou de novo enquanto contemplava a porta do quarto de hóspedes. Mentalmente, ele se viu avançando, abrindo-a. O quarto parece maior, visto da perspectiva de uma criança. O corpo está como antes, o braço esquerdo pendurado ao lado da cama, o rosto contra o travesseiro. Os olhos de repente se abrem, cheios de vigor inumano e visceral. A porta se fecha com um baque. O braço esquerdo se ergue, os lábios formam um sorriso vulpino e exibem dentes incisivos extraordinariamente longos e afiados...

Ele avançou e abriu a porta com cuidado. As dobradiças rangeram levemente.

O corpo estava como antes, o braço esquerdo caído, o rosto contra a fronha do travesseiro...

— Parkins está vindo — disse Matt no corredor, e Ben quase deu um grito.

 

Ben pensou que sua frase fora bastante apropriada: coloque a engrenagem em movimento. Era mesmo uma engrenagem, como as complicadas engenhocas alemãs feitas com dentes e peças de relógio, movendo-se lentamente.

Parkins Gillespie chegou primeiro, usando uma gravata verde presa com um broche dos vetera­nos de guerra. Seus olhos ainda estavam sonolentos. Disse que já notificara o médico-legista do condado.

— Ele mesmo não virá, o filho-da-mãe — disse Parkins, metendo um Pall Mall no canto da boca. — Mas vai mandar um assistente e um sujeito para tirar fotos. Vocês encostaram no defunto?

— O braço caiu do lado da cama — disse Ben. — Tentei colocá-lo de volta, mas não parou. Parkins o olhou de cima a baixo, mas não disse nada. Ben lembrou do som sobrenatural que a mão fizera ao raspar no chão do quarto e sentiu um riso irracional se formar na garganta. Mas ele logo o engoliu.

Matt subiu na frente, e Parkins andou ao redor do corpo várias vezes.

— Vocês têm certeza de que ele está morto? — finalmente perguntou. — Tentaram acordá-lo?

O doutor James Cody chegou depois, tendo acabado de fazer um parto no hospital. Depois da troca de cortesias, Matt subiu mais uma vez com o grupo. Se cada um tocasse um instrumento, pensou Ben, o rapaz teria um belo bota-fora musical. O riso voltou a coçar sua garganta.

Cody puxou os lençóis e olhou o corpo, franzindo a testa. Com uma calma que surpreendeu Ben, Matt disse:

— Lembrei do que você disse sobre Danny Glick, Jimmy.

— Foi um comentário confidencial, Sr. Burke — disse Jimmy Cody, brandamente. — Se os pais de Danny descobrirem que você disse isso, podem me processar.

— E ganhariam?

— Creio que não — disse Jimmy, e suspirou.

— O que tem Danny Glick? — perguntou Parkins, franzindo a testa.

— Nada — disse Jimmy. — Não há nenhuma ligação. — Utilizou o estetoscópio, levantou uma pálpebra e iluminou o globo ocular com uma pequena lanterna.

Ben viu a pupila se contrair e exclamou:

— Meu Deus!

— É um reflexo interessante, não? — disse Jimmy. Soltou a pálpebra, que voltou a se fechar com lentidão grotesca, como se o cadáver piscasse para eles. — David Prine, da Universidade Johns Hopkins, notou contrações pupilares em cadáveres até nove horas após a morte.

— Agora virou um erudito — provocou-o Matt. — Antes, só tirava C em Redação Dissertativa.

— É que você não gostava de textos sobre dissecação, seu implicante — retrucou Jimmy distraidamente, e pegou um pequeno martelo. Muito bem, pensou Ben. Ele mantém a compostura mesmo quando o paciente era um defunto, como diria Parkins. Ele voltou a sentir um desejo despro­positado de rir.

— Está morto? — perguntou Parkins, e bateu a cinza do cigarro num vaso de flores vazio. Matt fez uma careta.

— Ah, sim — respondeu Jimmy. Ele se ergueu, descobriu os pés de Ryerson e bateu com o martelinho no joelho direito. Os dedos dos pés continuaram imóveis. Ben notou que Mike tinha calos amarelos nas plantas dos pés, o que lhe trouxe à mente o poema de Wallace Stevens sobre a mulher morta.

— “Que seja o final de parecer” — citou, algo erroneamente. — “O único rei é o do sorvete.”

Matt lhe lançou um olhar penetrante, e por um momento seu autocontrole fraquejou. 

— Que negócio é esse? — perguntou Parkins.

— É de um poema — disse Matt. — De um poema sobre a morte.

— Parece mais um sorveteiro falando. — disse Parkins, e voltou a bater a cinza no vaso.

 

— Já fomos apresentados? — perguntou Jimmy, olhando para Ben.

— Foram, mas de passagem — disse Matt. — Jimmy Cody, médico do corpo, esse é Ben Mears, médico da alma. E vice-versa.

— Ele sempre foi espertinho — disse Jimmy. — Foi assim que ficou rico desse jeito.

Os dois apertaram as mãos sobre o cadáver.

— Ajude-me a virá-lo, Sr. Mears.

Sentindo um pouco de náusea, Ben o ajudou a virar o corpo de bruços. Estava frio, mas ainda não rígido. Jimmy o observou atentamente e puxou a cueca, revelando as nádegas do morto.

— Para que isso? — perguntou Parkins.

— Estou tentando determinar a hora da morte pela coloração da pele — disse Jimmy. — O sangue desce ao nível mais baixo quando o bombeamento cessa, como qualquer líquido.

— Que nem no comercial do desentupidor Drãno. Mas isso não é trabalho do legista?

— Ele vai mandar Brent Norbert, você sabe. E ele nunca foi de rejeitar uma mãozinha dos amigos.

— Norbert não sabe nem onde está o próprio nariz — disse Parkins, e jogou o toco do cigarro pela janela. — A tela desta janela caiu, Matt. Vi em cima da grama quando cheguei.

— Ah, é? — disse Matt, controlando a voz.

— É.

Cody tirara um termômetro da maleta e o introduzia no ânus de Ryerson. Pousou o relógio sobre o lençol branco, e o metal refletiu a forte luz do sol. Eram 18h45.

— Vou descer — disse Matt, com a voz levemente alterada.

— Vocês todos podem ir — disse Jimmy. — Ainda vou demorar um pouco. Você não quer fazer um café, Sr. Burke?

— Claro.

Eles saíram, e Ben fechou a porta, olhando uma última vez para a cena: o quarto inundado pelo sol, o lençol limpo afastado, o relógio de ouro projetando riscos luminosos sobre a parede, e o próprio Cody, com os flamejantes cabelos ruivos, sentado ao lado do corpo como uma gravura em aço.

Matt fazia café quando Brenton Norbert, o assistente do médico-legista, chegou num velho Dodge cinzento. Entrou com outro homem, que trazia uma grande máquina fotográfica.

— Onde está? — perguntou Norbert.

Gillespie fez um gesto com o polegar em direção à escada.

— Jim Cody está lá em cima.

— Que ótimo... — disse Norbert. — O defunto já deve estar virado do avesso. — E subiu com o fotógrafo.

Parkins Gillespie colocou creme no café até transbordar no pires, testou-o com o dedo, limpou o dedo na calça, acendeu outro Pall Mall e disse:

— Como se meteu nessa história, Sr. Mears?

Ben e Matt recitaram a versão que haviam combinado. Nada do que disseram era exatamente mentira, mas o que não disseram os unia numa teia de cumplicidade. Ben se perguntou, inquieto, se não estava sendo cúmplice de uma inocente maluquice ou de algo mais sério e macabro. Matt lhe dissera que o chamara porque era a única pessoa em ’salem’s Lot que daria ouvidos a uma tal história. Matt podia não estar batendo muito bem, mas com certeza sabia interpretar personalidades. E isso também era enervante.

 

À 21hH30, tudo já estava acabado.

O carro funerário de Carl Foreman já levara o corpo de Mike Ryerson, e sua morte passou a ser assunto da cidade. Jimmy Cody voltara a seu consultório, e Norbert e o fotógrafo retornaram a Portland para conferenciar com o médico-legista.

Parkins Gillespie, um cigarro entre os lábios, saiu para o alpendre enquanto o carro funerário se afastava lentamente.

— Mike dirigiu tanto esse carro, e aposto que nem imaginava que logo estaria andando na traseira. — Voltou-se para Ben. — Você não vai embora da cidade já, não é? Queria que testemunhasse para o júri legista, se não se importa.

— Não, vou ficar.

O delegado o examinou com os olhos azuis descorados.

— Verifiquei sua ficha com a polícia federal e estadual, em Augusta — disse ele. — Está limpa.

— É bom saber — disse Ben.

— Ouvi dizer que está de caso com a filha de Bill Norton.

— Você me pegou.

— Ela é uma boa moça — disse Parkins, sério. O carro fúnebre já sumira de vista. Nem o som do motor era mais audível. — Acho que ela não tem saído mais com Floyd Tibbits.

— Você não tem que cuidar da papelada, Park? — cutucou Matt.

Parkins suspirou e jogou fora o toco do cigarro.

— Nem me fale, Tudo em duas ou três vias, carimbadas, seladas e assinadas. Estou tendo um trabalho de cão nas últimas semanas. Até parece maldição daquela Casa Marsten.

Ben e Matt não esboçaram reação.

— Bom, já vou indo. — Ele puxou a calça para cima e andou até o carro. Ao abrir a porta, olhou para eles. — Vocês dois não estão escondendo nada de mim, não é?

— Parkins — disse Matt —, não há nada para esconder. Ele morreu.

O delegado os examinou com os penetrantes olhos descorados durante mais alguns instantes e suspirou.

— Certo. Mas é esquisito pra diabo. O cachorro, o filho dos Glick, depois o outro filho dos Glick e agora Mike. É coisa pra mais de ano numa cidadezinha pacata que nem a nossa. Minha avó falava que as coisas ruins vinham em três, não em quatro.

Ele entrou no carro, ligou o motor e deu ré. No instante seguinte ele se afastava monte acima, despedindo-se com um toque na buzina.

Matt suspirou, aliviado.

— Acabou.

— Acabou — disse Ben. — Estou exausto. E você?

— Eu também. Mas me sinto... bizarro. Do jeito como os jovens usam essa palavra.

— Sei.

— Eles têm outro termo: chapado. Como depois de uma viagem de ácido ou anfetamina, quando até ficar normal é esquisito. — Ele passou a mão no rosto. — Meu Deus, você deve me achar um lunático. Tudo parece o delírio de um louco à luz do dia, não é?

— Sim e não — disse Ben, colocando a mão no ombro de Matt. — Mas Gillespie tem razão. Algo está acontecendo aqui. E cada vez tenho mais certeza de que tem a ver com a Casa Marsten. Fora eu, eles são os únicos novos moradores da cidade. E eu sei que não fiz nada. Nosso passeio até lá ainda está de pé? A expedição de boas-vindas?

— Se você quiser...

— Eu quero. Agora, entre e durma. Falarei com Susan e viremos buscá-lo de noite.

— Está bem. — Ele fez uma pausa. — Tem outra coisa, que está me incomodando desde que você falou de autópsias.

— O quê?

— A risada que ouvi, ou pensei ouvir, era de uma criança. Horrível e cruel, mas de uma criança. Depois do que Mike disse, isso não faz pensar em Danny Glick?

— Claro que sim.

— Você sabe como é o processo de embalsamento?

— Não exatamente. Tiram o sangue do cadáver e o substituem por um tipo de líquido. Antes era formaldeído, mas hoje os métodos devem estar mais sofisticados. E o corpo é eviscerado.

— Será que fizeram tudo isso com Danny? — disse Matt.

— Conhece Carl Foreman bem o bastante para lhe fazer essa pergunta?

— Sim, acho que eu posso dar um jeito de perguntar.

— Então, faça isso.

— Pode deixar.

Eles se olharam mais um instante, e o olhar que trocaram era amigável mas indefinível. Da parte de Matt, o desconforto do homem racional que fora obrigado a dizer irracionalidades. E da parte de Ben, um vago medo de forças que ele ainda não era capaz de definir.

 

Eva passava roupa e assistia a “Dialing for Dollars” quando Ben chegou. O prêmio estava em 45 dólares, e o apresentador sorteava números de telefone, tirando-os de um grande vaso de vidro.

— Ouvi dizer — disse ela, enquanto ele abria a geladeira e pegava uma Coca. — Que horror! Coitado do Mike.

— É mesmo. — Ele tirou o crucifixo e a corrente do bolso.

— Já sabem o que...

— Ainda não — disse Ben. — Estou muito cansado, Sra. Miller. Vou dormir um pouco.

— Claro, vá. O quarto de cima é muito quente a essa hora, mesmo nessa época do ano. Durma no quarto do corredor de baixo, se quiser. Os lençóis estão limpos.

— Não, tudo bem. Conheço todos os rangidos do quarto de cima.

— É verdade, a gente se acostuma com o nosso quarto — ela disse, em tom casual. — Mas por que o Sr. Burke queria o crucifixo de Ralph?

Ben parou a caminho da escada, procurando o que dizer.

— Acho que ele pensou que Mike Ryerson fosse católico.

Eva colocou mais uma camisa sobre a mesa de passar.

— Ele devia saber. Afinal, foi professor de Mike. A família dele era luterana.

Para isso, Ben não tinha resposta. Subiu, tirou a roupa e deitou na cama. O sono veio rápido e pesado. E sem sonhos..

 

Quando acordou, eram 16h15. Seu corpo estava coberto de suor, o lençol fora chutado para longe. Mas ele sentia-se lúcido novamente. Os eventos daquela manhã pareciam vagos e distantes, e as fantasias de Matt Burke haviam perdido o impacto. Naquela noite, tentaria fazer com que ele as esquecesse.

 

Decidiu ligar para susan da Spencer e pedir que o encontrasse lá. Iriam ao parque e ele lhe contaria tudo do começo ao fim. Queria ouvir a opinião dela antes de chegarem à casa de Matt e ele contar sua versão. De lá, iriam à Casa Marsten, pensou ele, sentindo um arrepio na espinha.

Estava tão perdido nesses pensamentos que não notou que já havia alguém em seu carro. Quando abriu a porta, um vulto alto saltou para fora. Por um momento, o espanto o deixou sem ação. Primeiro pensou ser um espantalho. O sol delineava a figura com nitidez e crueldade — o chapéu velho enterrado na cabeça, os óculos escuros, o casaco surrado com a gola erguida, as luvas industriais de borracha verde nas mãos.

— Quem... — foi tudo que Ben teve tempo de dizer.

A figura se aproximou, fechando os punhos. Ben sentiu um aroma de coisas velhas e amarela­das, e percebeu que era naftalina. Ouviu uma respiração pesada.

— Você é o filho-da-mãe que roubou minha namorada — disse Floyd Tibbits com voz rouca e monótona. — Vou te matar.

E, enquanto Ben tentava entender a situação, Floyd Tibbits atacou.

 

SUSAN (II)

Susan chegou de Portland pouco depois das três. Entrou em casa com três sacolas marrons de uma loja de departamentos. Vendera dois quadros por um total de oitenta dólares e resolvera se dar alguns presentes — duas saias novas e uma blusa de lã.

— Suze? — gritou a mãe. — É você?

— Cheguei. Eu...

— Venha aqui. Precisamos conversar.

Ela reconheceu o tom de voz na hora, embora não o ouvisse com aquela intensidade desde o tempo do colégio, quando as discussões sobre namorados e saias curtas eram sofridas e diárias.

Susan largou as sacolas e entrou na sala. Sua mãe rejeitava cada vez mais seu namoro com Ben, e devia estar pronta para dar sua palavra final. Encontrou-a sentada na cadeira de balanço ao lado da janela, tricotando. A televisão estava desligada. Eram indícios de tempestade.

— Acho que não ouviu a última — disse a Sra. Norton, movendo as agulhas rapidamente, transformando a lã verde-escura em pontos exatos. Devia estar fazendo um cachecol para alguém. — Você saiu muito cedo.

— A última?

— Mike Ryerson morreu na casa de Matthew Burke ontem à noite. E quem estava ao lado do leito de morte, se não seu amigo escritor, Ben Mears?

— Mike... Ben... como assim?

A Sra. Norton abriu um sorriso severo.

— Mabel me ligou cedo e me contou. O Sr. Burke diz que encontrou Mike na taverna de Delbert Markey na noite passada, agora, me diga o que um professor fazia num lugar como aquele, e o levou para casa porque o rapaz não parecia bem. E morreu durante a noite. Mas o que ninguém consegue entender é o que o Sr. Mears estava fazendo lá.

— Eles se conhecem — disse Susan, com o olhar perdido. — Ben me disse que eles se deram muito bem... O que aconteceu com Mike, mãe?

Mas a Sra. Norton se recusou a mudar de assunto.

— Seja como for, tem gente achando que a cidade ficou agitada demais desde que Ben Mears deu as caras por aqui.

— Isso é bobagem — disse Susan, exasperada. — Mas o que houve com Mike?

— Ainda não sabem — disse a Sra. Norton, soltando o fio do novelo de lã. — Alguns acham que ele pegou alguma doença de Danny Glick.

— Mas, então, por que ninguém mais pegou? Nem os pais dele?

— Alguns jovens acham que sabem tudo — observou a Sra. Norton, movendo agulhas.

— Acho que vou sair e ver se... — disse Susan, levantando.

— Sente um pouco — disse a mãe. — Ainda não acabei de falar.

Susan sentou, a expressão neutra.

— Mas às vezes os jovens não sabem de tudo — disse Ann Norton, com um falso tom carinhoso que deixou Susan desconfiada.

— Do que está falando, mãe?                                     

— Ao que parece, o Sr. Ben Mears sofreu um acidente de moto há alguns anos, logo depois da publicação do seu segundo livro. Estava bêbado, e sua mulher morreu.

Susan levantou.

— Não quero ouvir mais nada.

— Estou lhe dizendo para o seu próprio bem — disse a Sra. Norton, calmamente.

— Quem lhe contou? — perguntou Susan. Não sentia mais a raiva impotente, a vontade de fugir daquela voz calma e dominadora e chorar no quarto. Sentia-se fria e distante, como se flutuasse no ar. — Foi Mabel Werts, não foi?

— O que importa é que é verdade.

— Claro. Assim como ganhamos a guerra do Vietnã e Jesus Cristo passeia pelo centro da cidade todos os dias de tarde.

— Mabel achou que já tinha visto a cara dele — disse Ann Norton. — E olhou os números antigos de sua caixa de jornais um por um.

— Aqueles jornais de fofoca? Especializados em astrologia, fotos de acidentes e modelos peladas? Ah, são fontes muito fidedignas...

— Não precisa ser grosseira. A matéria estava lá, preto no branco. A mulher dele, se é que eram mesmo casados, estava na garupa. Ele derrapou no asfalto e bateu na lateral de um caminhão de mudança. O artigo diz que ele fez o teste do bafômetro na mesma hora. Na mesma horinha — ela enfatizou cada palavra batendo a agulha de tricô no braço da cadeira.

— Então, por que não está preso?

— Essa gente famosa sempre conhece pessoas influentes — disse ela, com uma calma certe­za. — Quem tem dinheiro sempre dá um jeitinho. É só ver o caso dos Kennedy.

— Ele foi julgado?

— Já disse, ele fez o teste...

— Eu sei, mas ele estava bêbado?

— Já disse que estava! — Manchas vermelhas começavam a se formar no rosto dela. — Eles não fazem teste do bafômetro em quem está sóbrio. A mulher dele morreu. É igualzinho àquele caso em Chappaquiddick! Igualzinho!

— Vou mudar para a cidade — Susan disse lentamente. — Estava para contar para vocês. Já devia ter mudado há muito tempo, mãe, para o bem de todos nós. Babs Griffen me disse que viu uma casinha de quatro cômodos na rua Sister...

— Agora ela ficou ofendida! — disse a Sra. Norton. — Alguém acabou de estragar sua linda imagem do maravilhoso Ben Mears e ela ficou tão brava que está cuspindo fogo. — Essa frase costumava ser especialmente eficaz no passado.

— Mãe, o que aconteceu com você? — perguntou Susan, um pouco desolada. — Você não costumava... jogar tão baixo.

Ann Norton estremeceu. Deixou cair o tricô, levantou e sacudiu Susan pelos ombros.

— Escute aqui! Não vou deixar você andar por aí como uma rameira com um escritorzinho efeminado que encheu sua cabeça de ilusões! Ouviu bem?

Susan lhe deu um tapa em pleno rosto.

Ann Norton piscou e depois arregalou os olhos, incrédula. Elas se olharam, chocadas, durante um longo instante. Susan começou a dizer algo, mas parou.

— Vou subir — terminou dizendo. — Terça-feira, no máximo, estou saindo daqui.

— Floyd veio aqui — disse a Sra. Norton, seu rosto ainda tenso. As marcas dos dedos da filha delineavam-se em sua pele como pontos de exclamação.

— Não tenho mais nada com Floyd — disse Susan. — Acostume-se com a idéia. Pode contar àquela jararaca da Mabel. Talvez aí você comece a acreditar.

— Floyd te ama, Susan. Tudo isso está... acabando com ele. Ele me contou tudo. Abriu o coração para mim. — Os olhos dela brilharam. — No fim, ele chorou como um bebê.

Aquela cena não combinava com Floyd, pensou Susan. Olhou para a mãe para ver se estava mentindo, mas percebeu por seu olhar que não.                                                                 

— É isso que você quer para mim, mãe? Um bebê chorão? Ou está louca para ter netos loiros? Sou um problema para você. Só sentirá seu dever cumprido quando eu me casar com um bom homem que você possa dominar. Alguém que me engravide e me transforme numa matrona num piscar de olhos. É essa a jogada, não? E o que eu quero, não conta?

— Susan, você não sabe o que quer.

Ela disse isso com uma certeza tão absoluta que, por um momento, Susan quase acreditou. Veio-lhe à mente a imagem dela e de sua mãe, como estavam naquele momento, a primeira na cadeira e a segunda perto da porta, mas ligadas por um fio de lã verde, um cordão que ficara puído e gasto depois de tantos puxões. Essa imagem foi substituída por outra de sua mãe com chapéu de palha, tentando desesperadamente pescar uma enorme truta de vestido amarelo. Tentava puxá-la pela última vez e jogá-la na cesta de vime. Mas para quê? Para dominá-la? Comê-la?

— Não, mãe. Sei exatamente o que eu quero. Ben Mears.

Ela lhe deu as costas e subiu para o quarto. Ann correu atrás dela e gritou com voz estridente.

— Você não pode nem alugar um quarto! Com que dinheiro?

— Tenho cem dólares na conta corrente e trezentos na poupança — Susan respondeu calma­mente. — E posso trabalhar na Spencer. O Sr. Labree já me convidou várias vezes.

— Ele só quer olhar suas pernas — disse Ann, mas sua voz baixara uma oitava. Parte da raiva fora substituída por medo.

— Ele que olhe — disse Susan. — Vou usar ceroulas.

— Querida, não fique brava. — Ela subiu dois degraus. — Só quero o que é melhor...

— Poupe-se, mãe. Desculpe pelo tapa. Foi horrível da minha parte. Amo vocês dois, mas vou me mudar. Já passou da hora. Vocês sabem disso.

— Pense bem — disse a Sra. Norton, agora arrependida, além de assustada. — Mas acho que não falei nada despropositado. Já vi tipos metidos como esse Ben Mears antes. Ele só está interessado em...

— Não, chega — disse Susan, dando-lhe as costas.

Sua mãe subiu mais um degrau e gritou:

— Floyd saiu daqui arrasado. Ele...

Mas Susan fechou a porta do quarto, cortando suas palavras.

Ela deitou na cama, que não fazia muito tempo fora decorada com bichos de pelúcia e um cachorrinho com um rádio na barriga, e olhou para o teto, tentando não pensar. Havia alguns pôsteres da organização ambiental Sierra Club na parede, mas antes ela colava pôsteres que tirava das revistas Rolling Stone, Cream e Crawdaddy, de ídolos como Jim Morrison, John Lennon, Dave van Ronk e Chuck Berry. Os fantasmas daquele tempo a atormentavam como fotografias mentais de má qualidade.

Ela quase podia ver a manchete, saltando do jornal sensacionalista. Jovem escritor iniciante e sua mulher envolvidos em acidente fatal. E a matéria cheia de insinuações discretas. Talvez com uma foto do local do acidente, sangrenta demais para os grandes jornais, mas perfeita para o tipo que Mabel consumia.

E o pior era que uma semente de dúvida fora plantada. Bobagem. Por acaso ela achava que ele chegara à cidade puro e casto? Embrulhado em celofane higiênico como um copo de motel? Bobagem. Mas a semente fora plantada. E por isso ela sentia mais do que rancor adolescente contra a mãe. Sentia algo que beirava o ódio.

Ela afastou os pensamentos, colocou o braço sobre o rosto e caiu num sono superficial, que foi interrompido pelo toque estridente do telefone e pela voz mais aguda ainda de sua mãe no andar de baixo.

— Susan! É para você!

Ela desceu, notando que eram 17h30. O sol já se punha. Sua mãe estava na cozinha, começando a preparar o jantar. Seu pai ainda não chegara.

— Alô?

— Susan? — A voz era familiar, mas ela não a reconheceu de imediato.

— Sim, quem é?

— Eva Miller. Tenho más notícias.

— Aconteceu algo com Ben? — Sua boca ficou seca, e ela levou a mão ao pescoço. A Sra. Norton saiu da cozinha com uma espátula na mão e a observou.

— Aconteceu uma briga. Floyd Tibbits apareceu aqui esta tarde...

— Floyd!

A Sra. Norton contraiu o rosto.

— Eu disse que o Sr. Mears estava dormindo. Ele disse que tudo bem, educado como sempre, mas estava com umas roupas muito esquisitas. Perguntei se ele se sentia bem. Usava um casaco antiquado e um chapéu estranho, e não tirava as mãos dos bolsos. Nem pensei em dizer isso ao Sr. Mears quando ele acordou. Depois de um dia tão agitado...

— O que aconteceu? — Susan quase gritou.

— Floyd lhe deu uma surra — disse Eva, penalizada. — Bem no meu estacionamento. Sheldon Corso e Ed Craig tiveram de tirá-lo de cima dele.

— E Ben? Como ele está?

— Nada bem.

— O que houve? — Ela apertava o telefone com força.

— No fim Floyd jogou o Sr. Mears em cima do carrinho importado dele, e ele bateu a cabeça. Carl Foreman o levou para o hospital de Cumberland. Ele estava desmaiado. Não sei de mais nada. Se você quiser...

Ela desligou, correu para o armário e tirou o casaco.

— Susan, o que foi?

— Floyd, aquele anjo de rapaz... — disse ela, mal percebendo que chorava —, mandou Ben para o hospital.

E saiu correndo, sem esperar uma resposta.

 

Ela chegou ao hospital e esperou numa desconfortável cadeira plástica, olhan­do estupidamente para um exemplar de Casa e Decoração. Só eu vim, pensou ela. Era desolador. Pensou em ligar para Matt Burke, mas desistiu quando lembrou que o médico podia chegar e não encontrá-la.

Os minutos se arrastavam no relógio da sala de espera. Às 18h50, um médico com um maço de papéis na mão entrou e disse:

— Srta. Norton?                                                 .                   .

— Isso mesmo. Como está Ben?

— Ainda não posso responder. — Ele viu o temor no rosto dela e acrescentou. — Ele parece estar bem, mas precisa ficar internado mais dois ou três dias. Está com uma fratura pequena, várias contusões e um olho bem roxo.

— Posso vê-lo?

— Hoje, não. Ele foi sedado.

— Só um minuto. Por favor...

Ele suspirou.

— Pode ir até o quarto, se quiser. Deve estar dormindo. Não fale nada a não ser que ele fale com você.

Ele a levou para o terceiro andar e depois para um quarto no fim do corredor que cheirava a remédios. O outro paciente lia uma revista e os olhou com indiferença.

Ben estava deitado de olhos fechados, o lençol puxado até o queixo. Estava tão pálido e imóvel que, por um momento de pânico, Susan achou que tivesse morrido enquanto ela e o médico conver­savam. Depois notou a respiração lenta que movia seu peito e sentiu um alívio tão intenso que chegou a cambalear. Olhou para o rosto dele atentamente, mal notando os ferimentos. “Efeminado”... Susan entendia de onde sua mãe tirara aquela idéia. Seus traços eram fortes, mas delicados (ela procurou uma palavra melhor do que “delicado”, que se aplicava mais ao bibliotecário da cidade, que escrevia pomposos sonetos spenserianos no tempo livre, mas era a única que se encaixava). Só os cabelos eram viris no sentido tradicional. Negros e densos, pareciam flutuar sobre seu rosto. O curativo branco na têmpora esquerda se destacava com nítido contraste.

Eu amo esse homem, pensou ela. Melhore, Ben. Melhore e termine seu livro para que possamos ir embora de Lot juntos, se você me quiser. A cidade se tornou um lugar ruim para nós dois.

— É melhor você ir agora — disse o médico. — Talvez amanhã...

Ben se mexeu e emitiu um som gutural. Suas pálpebras abriram lentamente, fecharam e voltaram a abrir. Seus olhos estavam sedados, mas notaram a presença de Susan. Pousou a mão sobre a dela. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela sorriu e apertou a mão dele.

Ele moveu os lábios e ela se inclinou para ouvir.

— O pessoal dessa cidade é de matar, não?

— Ben, eu sinto tanto...

— Acho que quebrei dois dentes dele antes de ele me derrubar — sussurrou Ben. — Nada mau para um escritorzinho.

— Ben...

— Agora, chega, Sr. Mears — disse o médico. — A cola do avião precisa secar.

Ben olhou para o médico.

— Só um minuto.

O médico girou os olhos para cima.

— Foi o que ela disse.

As pálpebras de Ben caíram e voltaram a se erguer com dificuldade. Ele disse algo ininteligível. Susan inclinou-se mais.

— O que foi, querido?

— Já escureceu? — Já.

— Você pode ir à casa de...

— Matt?

Ele assentiu com a cabeça.

— Diga-lhe que... eu quero que você saiba de tudo. Pergunte se ele... conhece o padre Callahan. Ele vai entender.

— Pode deixar — disse Susan. — Darei seu recado. Agora, durma, Ben.

— Certo. Eu te amo. — Ele murmurou outra coisa, duas vezes, e depois fechou os olhos e começou a respirar mais pesado.

— O que ele disse? — perguntou o médico.

Susan franziu a testa.

— Acho que foi “tranque as janelas” — disse ela.

 

Eva Miller e Weasel Craig estavam na sala de espera quando ela voltou para buscar o casaco. Eva usava um antiquado casaco com uma gola de pele puída, obviamente reservado para grandes ocasiões, e Weasel parecia sumir dentro de uma jaqueta de motoqueiro grande demais para ele. Susan se alegrou ao vê-los.

— Como ele está? — perguntou Eva.

— Acho que vai ficar bom. — Ela repetiu o diagnóstico do médico, e o rosto de Eva relaxou.

— Que bom. O Sr. Mears parece ser um homem muito bom. Nunca aconteceu nada assim na minha pensão. Parkins Gillespie teve de trancar Floyd no xadrez dos bêbados. Mas ele não parecia bêbado. Só... abobado e confuso.                                     

Susan sacudiu a cabeça.

— Floyd não é assim Não mesmo.

Um momento de silêncio se seguiu.

— Ben é um ótimo sujeito — disse Weasel, dando um tapinha na mão de Susan. — Ele vai ficar bom logo, logo. Você vai ver.

— Vai, sim — disse Susan, apertando a mão dele entre as suas. — Eva, Callahan é o padre da igreja St. Andrew?

— E, por quê?

— Nada, curiosidade. Ouçam, obrigada por virem. Se puderem voltar amanhã...

— Vamos voltar — disse Weasel. — Claro que vamos, não é, Eva? — Ele passou o braço pela cintura dela, embora fosse difícil para ele abarcá-la em toda a sua extensão.

— Vamos, sim.

Susan andou até o estacionamento com eles e depois dirigiu de volta a Jerusalem’s Lot.

 

Quando ela bateu, Matt não abriu a porta nem gritou Entre!, como era seu costume. Em vez disso, uma voz cuidadosa que ela mal reconheceu disse: “Quem é?”, baixinho do outro lado da porta.

— Susie Norton, Sr. Burke.

Matt abriu a porta e ela sentiu um choque ao ver como ele mudara. Parecia velho e abatido. Em seguida ela notou que ele usava um pesado crucifixo dourado. Era tão estranho e ridículo ver aquele objeto cafona e barato por cima da camisa xadrez dele que ela quase riu — mas se conteve.

— Entre. Onde está o Ben?

Ela lhe contou o que houvera e ele sacudiu a cabeça, preocupado.

— Justo Floyd Tibbits resolveu dar uma de amante traído? Não podia ter acontecido em pior hora. Mike Ryerson foi trazido de Portland no fim da tarde para os preparativos fúnebres. E acho que nosso passeio até a Casa Marsten terá de ser adiado...

— Que passeio? E o que tem Mike?

— Você quer um café? — ele perguntou, desatento.

— Não. Quero saber o que está acontecendo. Ben disse que você pode me contar.

— Uma missão ingrata. É fácil para Ben pedir isso. Difícil é fazer. Mas vou tentar.

— O que...

Ele ergueu a mão.

— Antes, uma pergunta. Você e sua mãe foram à loja nova outro dia, não foram?

Susan franziu a testa.

— Fomos. Por quê?

— Diga-me o que achou do lugar e, mais especificamente, do dono.

— O Sr. Straker?

— Sim.

— Bom, ele é muito cortês — disse ela. — “Palaciano” talvez seja um termo mais preciso. Elogiou o vestido de Glynis Mayberry, e ela corou como uma colegial. Interessou-se pelo curativo no braço da Sra. Boddin, que se queimou com óleo quente, e lhe deu a receita de um cataplasma. Escreveu para ela e tudo. E quando Mabel entrou... — Ela riu ao lembrar.

— Sim?

— Ele buscou uma cadeira para ela — continuou Susan. — Não uma cadeira qualquer. Parecia mais um trono, todo de mogno e decorado. Ele foi buscar sozinho nos fundos sem parar de sorrir e conversar com as outras senhoras. Mas devia pesar uns 150 quilos. Ele depositou a cadeira no meio da loja e conduziu Mabel até ela, pelo braço. E ela dava risinhos. Quem já viu Mabel dar risinhos, já viu tudo. Depois, ele serviu café. Muito forte, mas excelente.

— Você gostou dele? — perguntou Matt, olhando-a com atenção.                              

— Tudo isso está relacionado, não é? — perguntou ela.

— Pode ser que sim.

— Certo, vou lhe dar o ponto de vista feminino. Gostei e não gostei. Senti atração por ele de modo vagamente sexual. Um homem mais velho, urbano, muito cortês e refinado. Dava para ver que ele saberia o que pedir num restaurante francês e que vinho escolher, a safra e a vinícola. O oposto dos tipos que temos por aqui. Mas sem ser efeminado. Ágil, como um bailarino. E um homem tão despudoradamente careca sempre tem algo de atraente. — Ela sorriu, meio na defensiva, sabendo que estava vermelha, com medo de ter falado demais.

— Mas também não gostou — disse Matt.

Ela encolheu os ombros.

— Isso é mais difícil de definir. Acho... acho que senti um certo desprezo sob aquela fachada. Um certo cinismo. Como se ele estivesse interpretando um papel, e interpretando bem, mas sabendo que não teria de se esforçar demais para nos enganar. Um ar um pouco superior. — Ela pareceu incerta. — E senti um toque de crueldade nele. Não sei bem o porquê.

— Alguém comprou alguma coisa?

— Quase nada, mas ele não se importou. Mamãe comprou uma estante iugoslava para colocar bibelôs e a Sra. Petrie comprou uma linda mesinha dobrável, mas foi só. Ele não se importou. Só pediu que falássemos da loja aos amigos e que voltássemos sempre. O velho charme europeu.

— E acha que ele agradou?

— De modo geral, sim — disse Susan, comparando o entusiasmo de sua mãe por R. T. Straker com a antipatia imediata que sentira por Ben.

— Viu o sócio dele?

— O Sr. Barlow? Não, ele está em Nova York, fazendo compras.

Será que está mesmo?, disse Matt para si mesmo.

— Não sei. O misterioso Sr. Barlow.                         

— Sr. Burke, não é melhor me contar o que está acontecendo?

Ele deu um longo suspiro.

— Acho que devo tentar. O que você me contou agora é muito preocupante. Muito. Encaixa perfeitamente com...

— Com o quê?

— Preciso começar contando meu encontro com Mike Ryerson no Dell’s ontem à noite... que parece ter sido há um século.

 

Eram 20h20 quando ele terminou, depois de cada um ter tomado duas xícaras de café.

— Acho que isso é tudo — disse Matt. — E agora devo imitar Napoleão Bonaparte? Ou lhe contar minhas conversas astrais com Toulouse-Lautrec?

— Não seja bobo — disse ela. — Algo está acontecendo, mas não o que o senhor pensa. Deve saber disso.

— Sabia até a noite de ontem.

— Se ninguém tem nada contra o senhor, como Ben sugeriu, então Mike pode ter feito aquilo consigo mesmo. Talvez estivesse delirando. — Ela sabia que não fora convincente, mas continuou assim mesmo. — Ou talvez tenha dormido sem perceber e sonhado tudo isso. Já me aconteceu isso antes.

Ele encolheu os ombros, cansado.

— Como dar um testemunho que nenhuma pessoa racional vai aceitar? Eu sei o que ouvi. Não estava dormindo. E agora estou muito preocupado. Segundo a literatura gótica, vampiros não podem ir entrando na casa de alguém para sugar seu sangue. Precisam ser convidados. Mike Ryerson convidou Danny Glick para entrar ontem à noite. E eu convidei Mike!

— Matt, Ben lhe falou sobre seu novo livro?

Ele brincou com o cachimbo, mas não o acendeu.

— Muito pouco. Só que tinha ligação com a Casa Marsten.

— Ele não contou que teve uma experiência muito traumática na Casa Marsten quando era criança?

Matt ergueu os olhos, surpreso.

— Na própria casa? Não.

— Ele queria ser aceito por um clube de meninos, e como prova de coragem teve de entrar na Casa Marsten e trazer algo de dentro. Ele entrou e, antes de sair, foi até o quarto no segundo andar, onde Hubie Marsten se enforcou. Quando abriu a porta, viu Hubie pendurado. Ele abriu os olhos, e Ben fugiu. Isso o perseguiu durante 24 anos. Agora voltou a Lot para tentar exorcizar esse fantasma através da escrita.

— Santo Deus — disse Matt.

— Ele tem... uma certa teoria sobre a Casa Marsten, que nasceu em parte de sua experiência e em parte de uma incrível pesquisa que ele fez sobre Hubert Marsten.

— Sobre sua tendência a adorar o demônio?

— Como sabe? — ela perguntou, surpresa.

Ele sorriu com melancolia.

— Nas cidades pequenas, nem todas as fofocas são públicas. Algumas são secretas. E uma delas dizia respeito a Hubie Marsten. Hoje só um punhado de pessoas mais velhas conhece essa história. Mabel Werts é uma delas. Mas nem mesmo ela a comenta com ninguém fora de seu círculo íntimo. Todos falam do suicídio, do assassinato. Mas se alguém perguntar sobre os dez anos em que ele morou com a mulher naquela casa, fazendo Deus sabe o quê, um pacto de silêncio se instala, talvez a coisa mais próxima de um tabu que a civilização ocidental conhece. Houve até boatos de que Hubert Marsten raptou e sacrificou crianças pequenas a seus deuses infernais. Estou surpreso que Ben tenha descoberto tudo isso. O sigilo em torno desse aspecto de Hubie e sua mulher é quase tribal.

— Ele não descobriu em Lot.

— Então está explicado. Desconfio que a teoria dele seja um velho clichê parapsicologico. Que os seres humanos fabricam o mal assim como produzem muco, excremento ou outras secreções. E que permanece no lugar. É como se a Casa Marsten tivesse se tornado uma pilha carregada de mal, uma bateria maligna.

— Isso mesmo, foram esses os termos que ele usou — disse ela, espantada.

Ele deu uma risada seca.

— Nós lemos os mesmos livros. Mas o que você acha, Susan? Sua filosofia vai além do céu e da terra?

— Não — disse ela com firmeza. — Casas não passam de casas. O mal só existe enquanto é perpetrado.

— Está sugerindo que posso arrastar Ben junto comigo para o caminho da loucura?

— Não, claro que não. Não acho que esteja louco, Sr. Burke, mas deve saber que...

— Silêncio!

Ele inclinou a cabeça, atento. Ela parou de falar e prestou atenção. Não ouviu nada, exceto talvez o rangido de uma tábua. Ela o olhou interrogativamente, mas ele sacudiu a cabeça.

— O que você dizia?

— Que infelizmente esse é um mau momento para Ben exorcizar demônios da infância. Tenho ouvido muitos boatos mesquinhos na cidade desde que a Casa Marsten voltou a ser habitada e que a loja abriu. E também ouvi boatos sobre Ben. Ritos de exorcismo às vezes saem do controle e se voltam contra o exorcista. Acho que Ben precisa sair desta cidade e que o senhor precisa passar uns tempos fora dela, Sr. Burke.

Ao falar de exorcismo, Susan lembrou que Ben lhe pedira que falasse do padre católico para Matt. Obedecendo a um impulso, ela decidiu não fazê-lo. O motivo do pedido se tomara claro, mas ela não queria colocar mais lenha numa fogueira que, na sua opinião, já estava alta demais. Se Ben lhe perguntasse, ela diria que esquecera.

— Sei que deve parecer uma loucura — disse Matt. — Até para mim, que ouvi a janela se abrindo, a risada, e vi a tela da janela no jardim esta manhã. Mas, para tranqüilizá-la, devo dizer que a reação de Ben a tudo isso foi bastante sensata. Sugeriu que agíssemos como se fosse uma teoria a ser provada ou refutada, começando por... — Ele parou de falar outra vez e prestou atenção.

Dessa vez o silêncio se estendeu, e quando ele voltou a falar, a certeza serena na voz dele a assustou.

— Tem alguém lá em cima.

Ela prestou atenção. Nada.

— E imaginação.

— Conheço minha casa — disse ele. — Tem alguém no quarto de hóspedes. Agora, ouviu?

E daquela vez ela ouviu. Uma tábua rangendo, um som típico de casas velhas. Mas que pareceu a Susan furtivo e secreto.

— Vou subir — disse ele.

— Não! — exclamou ela impulsivamente, e pensou: Agora quem começou a acreditar em fantasmas?

— Tive medo ontem à noite e não fiz nada. E as coisas pioraram. Agora vou subir.

— Sr. Burke...

Os dois falavam a meia-voz. A tensão corria nas veias dela, enrijecendo os músculos. Talvez houvesse mesmo alguém lá em cima. Um ladrão.

— Depois que eu sair, continue falando — disse ele. — Sobre qualquer coisa.

E, antes que ela pudesse protestar, ele levantou e se dirigiu para o corredor com uma agilidade espantosa. Olhou para trás, mas ela não conseguiu interpretar seu olhar. E começou a subir a escada.

Susan sentiu uma aura de irrealidade com aquela súbita reviravolta. Dois minutos antes, eles discutiam a situação calmamente, sob a luz racional das lâmpadas. E agora ela sentia medo. Pergunta: se um psicólogo ficasse numa sala com um homem que acredita ser Napoleão durante um ano (ou dez ou vinte), qual seria o resultado final? Dois cientistas ou dois homens com a mão no peito da camisa?

Ela se pôs a falar:

— Ben e eu íamos até Camden no domingo. Sabe, onde filmaram A Caldeira do Diabo. Mas agora acho que teremos de esperar. Tem uma igrejinha linda lá, e...

Ela falava com desenvoltura, embora suas mãos estivessem contraídas sobre o colo. Sua mente estava clara, não tendo sido afetada por aquela conversa de vampiros e mortos-vivos. Era de sua espinha dorsal, de uma rede muito mais primitiva de nervos e gânglios, que o terror emanava em ondas.

 

Subir a escada foi a coisa mais difícil que Matt Burke fizera na vida. Nada mais sequer se comparava. A não ser, talvez, uma coisa.

Aos oito anos, ele fizera parte de uma equipe de escoteiros. A sede ficava a um quilômetro de distância, e a ida pela estrada era tranqüila, enquanto o sol da tarde ainda brilhava. Mas na volta a noite começava a cair, liberando as sombras que cruzavam a estrada em longas formas. E quando as reuniões eram mais animadas e acabavam tarde, ele precisava voltar no escuro, Sozinho.

Sozinho. Sim, é essa a palavra mais terrível de todas. “Assassinato” não chega aos pés, e “inferno” é apenas um sinônimo inferior.

Havia uma igreja metodista abandonada no caminho, que se erguia em ruínas no atol de um gramado coberto de geada. E quando ele passava pelas janelas silenciosas que o observavam, seus passos pareciam ficar mais altos, o assobio morria em seus lábios, e ele pensava como devia ser lá dentro — os bancos virados, os hinários apodrecidos, o altar decrépito onde apenas ratos ainda se reuniam, e se perguntava o que haveria lá além de ratos — loucos, monstros. Talvez eles o espiassem com olhos amarelos de répteis. E talvez uma noite não se contentassem em espiar, e aquela porta lascada e torta subitamente se abriria, e ele veria algo que o enlouqueceria na mesma hora.

Ele não podia explicar aquilo aos pais, que eram criaturas da luz. Assim como não podia lhes explicar que, aos três anos, o cobertor aos pés do berço se transformava em cobras que o observavam com olhos fixos e sem pálpebras. Nenhuma criança consegue vencer esses medos, pensou ele. Nin­guém supera medos que nunca foram articulados. E os temores presos nas mentes infantis são grandes demais para caber em palavras. Com o tempo, todos se acostumam a passar na frente de casarões abandonados. Até aquela noite. Naquela noite, ele descobriu que seus velhos medos não haviam morrido. Permaneciam vivos, guardados nos baús da infância.

Ele não acendeu a luz. Subiu um a um os degraus, evitando o sexto, que rangia. Agarrava o crucifixo com a mão suada e trêmula.

Chegou ao alto e se virou em silêncio para o corredor. A porta do quarto de hóspedes estava aberta. Ele a deixara fechada. Do andar de baixo, vinha o som constante da voz de Susan.

Andando com cautela para não fazer barulho, ele foi até a porta e parou diante dela. A base de todos os medos humanos, pensou ele. Uma porta entreaberta.

Ele a empurrou.

Mike Ryerson estava deitado na cama.

O luar entrava pelas janelas, tornando o quarto um lago prateado. Matt sacudiu a cabeça, tentando clareá-la. Parecia que ele voltara no tempo, para a noite anterior. Desceria e ligaria para Ben, porque ele ainda não fora para o hospital, e...

Mike abriu os olhos.

Eles cintilaram por um momento à luz do luar, prateados entre círculos vermelhos. Estavam inexpressivos e sem vida. Não havia nada de humano neles. Os olhos são as janelas da alma, dissera Wordsworth. Se era verdade, aquelas janelas davam para um cômodo vazio.

Mike sentou, derrubando o lençol e descobrindo o peito, e Matt viu os pontos grosseiros com que o patologista fechara o corte da autópsia.

Mike sorriu, mostrando os caninos e os incisivos brancos e afiados. O sorriso não passava de uma flexão de músculos. Não afetava o olhar, que mantinha uma inexpressividade mortal.

Mike disse com muita clareza.

— Olhe para mim.

Matt olhou. Sim, os olhos estavam vazios, mas muito profundos. Dava quase para ver pequenos camafeus de si mesmo nos poços daqueles olhos, boiando docemente, tornando o mundo sem impor­tância, os medos sem importância...

Ele recuou um passo e gritou:

— Não! Não!

E estendeu o crucifixo.

A criatura que seria Mike Ryerson silvou como se tivesse recebido água fervente no rosto. Levantou os braços num gesto de defesa. Matt avançou um passo, fazendo Ryerson recuar.

— Saia daqui! — bradou Matt. — Eu retiro meu convite!

Ryerson gritou, um som agudo e ululante, cheio de ódio e dor. Deu quatro passos vacilantes para trás. As pernas encostaram no peitoril da janela aberta, e ele cambaleou, perdendo o equilíbrio.

— Você dormirá o sono dos mortos, professor.

E ele caiu de costas na escuridão, com as mãos estendidas sobre a cabeça, como um mergulha­dor, o corpo pálido feito mármore contrastando com os pontos pretos que cruzavam seu tronco formando um Y.

Matt soltou um grito aterrorizado e correu até a janela. Não conseguiu ver nada na noite enluarada, a não ser partículas móveis que podiam ser de poeira, suspensas no ar sob a janela e sobre o quadrado de luz da sala. Elas rodopiaram, uniram-se formando um vulto humanóide e depois desapareceram no nada.

Matt se virou para correr dali, e foi então que a dor atravessou seu peito e o fez cambalear. Ele levou a mão ao coração e se dobrou. A dor parecia subir pelo seu braço em ondas pulsantes. O crucifixo oscilava sob seus olhos.

Saiu do quarto com os braços cruzados sobre o peito, ainda agarrando a corrente do crucifixo, ainda pensando em Mike Ryerson suspenso na escuridão como um lívido mergulhador.

— Sr. Burke!

— Meu médico é James Cody — disse ele entre lábios frios como neve. — Está na agenda. Acho que estou tendo um infarto.

E ele desabou no meio do corredor.

 

Ela discou o número marcado ao lado das palavras Jimmy Cody, charlatão. As palavras estavam escritas com a clara letra de forma que ela lembrava tão bem de seus tempos de colégio. Uma voz feminina atendeu, e Susan disse:

— O médico está? É uma emergência!

— Está — disse a mulher calmamente. — Um segundo.

— Aqui é o Dr. Cody.

— Aqui é Susan Norton. Estou na casa do Sr. Burke. Ele teve um infarto.

— Quem? Matt Burke?

— Sim. Ele está inconsciente. O que devo...

— Chame uma ambulância — disse ele. — Em Cumberland, o número é 841-4000. Fique ao lado dele. Cubra-o com um cobertor, mas não o tire do lugar. Entendeu?

— Sim.

— Chegarei em vinte minutos.

— Você vai...

Mas ele desligara, e ela ficou sozinha.

Ligou para a ambulância e depois voltou a ficar sozinha, diante da missão de subir até onde Matt estava.

 

Ela olhou para a escada com um temor que lhe pareceu incrível. Desejava que nada daquilo tivesse acontecido, não pelo bem-estar de Matt, mas para não ter de sentir aquele medo doentio. Não acreditara naquela história espantosa, e interpretara o que Matt lhe contara em termos puramente racionais. Mas a firme descrença que a sustentara até então começava a se esvair, e ela se sentia em queda livre.

Ouvira a voz de Matt e depois um terrível augúrio: Você dormirá o sono dos mortos, professor. A voz que dissera aquelas palavras não tinha nada de humana.

Ela voltou a subir, obrigando-se a vencer cada degrau. A luz do corredor não ajudava muito. Matt estava onde ela o deixara, o rosto virado de lado contra o carpete gasto do corredor, respirando de modo ofegante e entrecortado. Ela abriu os dois botões superiores da camisa, e a respiração pareceu melhorar um pouco. Depois entrou no quarto de hóspedes para pegar um cobertor.

O quarto estava frio, a janela, aberta. A cama estava despida, exceto pelo revestimento do colchão, mas havia uma pilha de cobertores na última prateleira do armário. Quando se virou para voltar ao corredor, algo no chão perto da janela brilhou ao luar. Ela parou para apanhar o objeto e o reconheceu imediatamente. Era um anel do Colégio de Cumberland. As iniciais gravadas no interior eram M.C.R.

Michael Corey Ryerson.

E por um momento, na escuridão, ela acreditou. Acreditou em tudo. Um grito nasceu em sua garganta e ela o sufocou, mas derrubou o anel, que caiu no chão perto da janela, brilhando sob o luar de outono.

 

A CIDADE (III)

A cidade conhecia a escuridão.

Conhecia a escuridão que cobria a terra quando o sol se escondia e também a escuridão da alma humana. A cidade era a soma de três partes que, juntas, eram maiores do que suas divisões. A cidade era seus moradores, os prédios onde moravam ou trabalhavam e a terra. Os moradores eram de origem anglo-escocesa e francesa. Havia outras descendências, mas não muitas — como um punhado de pimenta jogado num imenso caldeirão. Mas os ingredientes nunca se misturaram muito bem. Os prédios eram, quase todos, feitos de madeira. Muitas das casas antigas tinham o tradicional estilo da Nova Inglaterra, e a maioria das lojas tinha fachada falsa, embora ninguém soubesse o motivo. Os moradores sabiam que não havia nada por trás dessas fachadas, assim como sabiam que Loretta Starcher usava sutiã com enchimento. A terra tinha uma camada de granito coberta por outra, arável, mas que rachava facilmente. A lavoura era uma atividade sofrida, cansativa, ingrata. O rastelo atingia grandes pedaços da camada de granito e quebrava. Em maio, o lavrador saía com a camionete tão logo o chão secava. Com a ajuda dos filhos, retirava as pedras do solo e as transportava até a grande pilha que era formada desde 1955, quando aquele tormento começara. Depois, com os dedos sujos, inchados e entorpecidos de tanto carregar pedras, ele prendia o rastelo ao trator. Mas, mal começava a abrir os sulcos no solo, uma lâmina se quebrava numa pedra que passara despercebida. E, quando se abaixava para trocar a lâmina, pedindo para um dos filhos levantar a máquina, ouvia o primeiro mosquito da estação passar zumbindo, sedento de sangue — o mesmo som que os loucos deviam ouvir antes de matar os filhos, ou de fechar os olhos e pisar fundo no acelerador na rodovia, ou de apertar o gatilho da espingarda contra a cabeça. E os dedos suados do filho deixavam a máquina escorregar, e uma das lâminas redondas caía esfolando seu braço, e, ao olhar ao redor naquele instante desesperado e cruel, quando dava vontade de largar tudo e se afundar na bebida, ou de ir até o banco onde hipotecara as terras e declarar falência, nesse instante de ódio àquela terra que o prendia por uma força maior do que a da gravidade, ele também percebia que a amava, e que ela conhecia a escuridão e sempre a conhecera. Ele estava preso à terra, assim como à casa, à mulher por quem havia se apaixonado no colegial, aos filhos que haviam sido feitos na velha e lascada cama de cabeceira. Estava preso ao banco, assim como à concessionária de carros, à loja Sears de Lewinston e a John Deere em Brunswick. Mas, acima de tudo, estava preso à cidade porque a conhecia como conhecia o seio da própria esposa. Sabia quem fora despedido e estaria matando tempo na loja de Crossen, sabia quem estava sendo traído mesmo antes de o próprio interessado saber — como acontecia com Reggie Sawyer, porque o garoto da telefônica estava de caso com Bonnie Sawyer. Sabia o trajeto das estradas e, nas tardes de sexta, onde parar o carro com Hank e Nolly Gardener para tomar umas cervejas. Conhecia os acidentes do terreno e como atravessar o pântano em abril sem molhar o alto das botas. Sabia tudo. E a terra sabia tudo dele. Sabia como sua virilha doía depois de um dia sentado no banco do trator, e que o caroço em suas costas era apenas um cisto, e o médico dissera para não se preocupar, e como ele se afligia com as contas que chegavam na última semana do mês. A terra sabia quando mentia, até para si mesmo, quando dizia que levaria a mulher e as crianças à Disneylândia no ano seguinte ou no próximo, e que conseguiria comprar uma nova tevê em cores se cortasse madeira no outono, e, de modo geral, que tudo daria certo. Morar na cidade era uma contínua relação sexual, tão completa que aquilo que ele e sua mulher faziam na cama à noite parecia um aperto de mão. Morar na cidade era prosaico, sensual, inebriante. E à noite, a cidade era dele e ele era da cidade, e dormiam juntos como os mortos, ou como as pedras da plantação. Lá não existia vida, mas a lenta morte dos dias. E, quando o mal se instalou na cidade, o fato pareceu quase programado e natural. Era quase como se a cidade soubesse que o mal chegaria e a forma que assumiria.

A cidade tinha seus segredos, e sabia guardá-los. Os moradores não conheciam todos. Sabiam que a mulher do velho Albie Crane fugira com um viajante de Nova York — ou achavam que sabiam. Mas Albie rachara o crânio dela depois que o viajante a abandonara, prendera um bloco de cimento nos pés do cadáver e o derrubou no velho poço, e vinte anos depois Albie morreu serenamente enquanto dormia, assim como seu filho Joe morrerá mais tarde nesta história, e quem sabe um dia um garoto passará pelo poço escondido por trepadeiras e afastará a tampa desgastada pelo tempo e verá o velho esqueleto no fundo de pedra, o colar dado pelo viajante ainda pendurado, coberto de musgo, sobre a caixa torácica.

Sabiam que Hubie Marsten matara a mulher, mas não sabiam o que a obrigara a fazer antes, ou o que aconteceu entre eles naquela cozinha assombrada pelo sol momentos antes de ele atirar na cabeça dela, enquanto o opressor cheiro de madressilvas os envolvia com a doçura doentia de uma câmara mortuária. Não sabiam que ela implorara por aquele tiro.

Algumas velhas da cidade — Mabel Werts, Glynis Mayberry, Audrey Hersey — lembravam-se que Larry McLeod encontrara papéis carbonizados na lareira, mas não sabiam que eram os restos da correspondência de 12 anos entre Hubie Marsten e um pitoresco nobre austríaco chamado Breichen, nem que essa correspondência começara através de um singular livreiro de Boston, que tivera uma morte horrorosa em 1933, nem que Hubie queimara cada uma das cartas antes de se enforcar. Jogou-as no fogo uma a uma, e as chamas escureceram o papel cor de creme e a elegante e fina caligrafia. Não sabiam que ele sorria nesse momento, assim como Larry Crockett sorri ao pensar nos fabulosos títulos de propriedade guardados em seu cofre no banco de Portland.

Sabiam que Coretta Simons, a viúva do velho Jumpin’ Simons, agonizava lentamente devido a um câncer de intestino, mas ninguém sabia que mais de 30 mil dólares em dinheiro estavam escondidos atrás do cafona papel de parede da sala, resultado de uma apólice de seguro que ela recebeu, mas nunca investiu. E dos quais se esquecera completamente em suas horas finais.

Sabiam que um incêndio queimara metade da cidade em setembro de 1951, mas não sabiam que fora provocado, e que o garoto que o provocou foi o orador na formatura da turma de 1953 e que ganhou 100 mil dólares em Wall Street. E, mesmo que soubessem, não entenderiam a compulsão que o levara a esse ato nem o remorso que o devorou durante os vinte anos seguintes, até que uma embolia cerebral o matou aos 46 anos.

Não sabiam que o reverendo John Groggins acordava à meia-noite com horríveis pesadelos ainda vividos em sua cabeça careca — sonhos em que pregava para as meninas do Curso Noturno nu em pêlo, e elas se abriam para ele;

nem que Floyd Tibbits perambulou durante toda a sexta-feira num transe doentio, sentindo o sol castigar sua pele estranhamente pálida, lembrando-se vagamente de ter ido à casa de Ann Norton, esquecendo-se totalmente da agressão contra Ben Mears, mas recebendo com gratidão o frescor do pôr-do-sol, que trazia a expectativa de algo bom e formidável;

nem que Hall Griffen escondia no fundo do armário seis revistas pornográficas que usava para se masturbar sempre que podia;

nem que George Middler tinha uma mala cheia de combinações, sutiãs, meias e calcinhas de seda, e que às vezes fechava as venezianas de seu apartamento sobre a loja de ferragens, trancava bem a porta e se postava em frente ao espelho do quarto, até que começava a ofegar, caía de joelhos e se masturbava;

nem que Carl Foreman tentara gritar e não conseguiu quando Mike Ryerson começou a se mexer sobre a mesa de metal na sala sob o necrotério, mas o grito se congelou em sua garganta quando o defunto abriu os olhos e sentou;

nem que Randy McDougall, aos dez meses, nem sequer resistiu quando Danny Glick entrou pela janela do quarto, tirou-o do berço e enterrou os dentes no pescoço ainda roxo devido aos golpes da mãe.

Esses eram os segredos da cidade. Alguns serão conhecidos um dia, outros nunca serão revela­dos. A cidade guardava a todos com suprema indiferença.

A cidade zelava mais pelas obras do demônio do que pelas obras divinas ou humanas. Conhecia a escuridão. E a escuridão lhe bastava.

 

Sandy McDougall sabia que algo estava errado, mesmo antes de levantar, mas não sabia o quê. O outro lado da cama estava vazio — era o dia de folga de Roy, e ele fora pescar com uns amigos. Voltaria por volta do meio-dia. Nada estava queimando e ela não sentia nenhuma dor. Então, o que podia estar errado?

O sol. O sol estava errado.

Já estava alto e projetava sobre o papel de parede a sombra da árvore logo ao lado da janela. Mas Randy sempre a acordava antes de o sol subir e lançar a sombra da árvore na parede...

Assustada, ela olhou para o relógio sobre a cômoda. Eram 9hl0.

O medo fechou sua garganta.

— Randy? — ela gritou, a camisola inflando enquanto ela corria pelo curto corredor do trailer. — Randy, querido...

O quarto do bebê estava banhado pela luz que entrava pela única e pequena janela sobre o berço... que estava aberta. Mas ela a fechara quando fora dormir. Sempre a fechava.

O berço estava vazio.

— Randy — ela sussurrou.

E então o viu.

O pequeno corpo, ainda com o macacãozinho desbotado, fora atirado a um canto como um traste. Uma perna se erguia grotescamente, como um ponto de exclamação invertido.

— Randy!

Ela caiu de joelhos ao lado do corpo, o rosto deformado pelo choque. Tomou a criança nos braços, sentindo a frieza da pele.

— Randy, meu benzinho. Acorde, Randy. Acorde.

As contusões haviam desaparecido. Sumiram da noite para o dia, e o rostinho estava incólume e perfeito. Estava corado. Pela primeira vez desde seu nascimento ela o achou lindo, e gritou diante daquela visão, um grito horrível e desamparado.

— Randy! Acorde! Randy! Randy!

Ela se levantou com o menino nos braços e correu pelo corredor, uma alça da camisola caindo do ombro. O cadeirão ainda estava na cozinha, a tampa salpicada com os restos do jantar da criança. Ela colocou Randy na cadeira, que estava no centro de uma poça de luz. A cabeça do menino caiu sobre o peito, e ele escorregou de lado lentamente até ficar alojado entre a tampa e um dos braços da cadeira.

— Randy? — disse ela, sorrindo, os olhos saltando das órbitas como bolas de gude azuis. Deu tapinhas no rosto dele. — Acorde, Randy. Vamos tomar café da manhã. Não está com fominha? Não, meu Deus, por favor...

Ela abriu um armário sobre o fogão e começou a remexer dentro dele, derrubando uma caixa de arroz instantâneo, uma lata de ravióli pronto, uma garrafa de óleo Wessel. A garrafa de óleo quebrou, espalhando o líquido viscoso pelo fogão e depois pelo chão. Ela encontrou um potinho de creme de chocolate Gerber e pegou uma colher de plástico do escorredor de louça.

— Olha, Randy. Você adora. Acorde pra comer o creme. É de chocolate, Randy. Chocolatinho gostoso. — O terror e a fúria a sacudiram. — Acorde! — ela gritou, atingindo com gotículas de saliva o rosto translúcido do menino. — Acorde! Acorde, pelo amor de Deus, seu merdinha! Acorde!

Ela tirou a tampa do pote e encheu a colher com o creme de chocolate. Sua mão, que já sabia a verdade, tremia tanto que derrubou quase todo o creme. Empurrou o que restara entre os pequenos lábios flácidos, e mais caiu sobre a tampa da cadeira. A colher bateu contra os dentes do menino.

— Randy! — suplicou ela. — Pare de enganar a mamãe.

Ela puxou o queixo do bebê com a outra mão e meteu o resto da calda em sua boca.

— Pronto — disse Sandy McDougall, abrindo um sorriso de louca esperança. Sentou na cadeira da cozinha, relaxando os músculos. Agora tudo daria certo. Ele teria certeza de que ela ainda o amava e pararia com aquela brincadeira cruel.

— Está bom? — murmurou ela. — O chocolatinho está bom, Randy? Dá um sorriso para a mamãe. Seja bonzinho e dá um sorriso para a mamãe.

Ela estendeu a mão trêmula e empurrou o canto da boca de Randy.

O chocolate caiu na bandeja — plop.

Ela começou a gritar.

 

Tony Glick acordou na manhã de sábado quando sua mulher, Marjorie, caiu na sala.

— Margie? — chamou ele, colocando os pés no chão. — Marge?

Depois de um longo intervalo, ela respondeu.

— Está tudo bem, Tony.

Ele sentou na beira da cama, olhando fixamente para os pés. Usava só as calças do pijama listrado, cujos cordões pendiam entre as pernas. Seu cabelo estava emaranhado. Seus dois filhos haviam herdado seu cabelo preto e espesso. Muita gente pensava que ele era judeu, mesmo com aquele cabelo mediterrâneo revelando suas origens. O nome de seu avô era Gliccucchi. Quando lhe disseram que sua vida seria mais fácil com um nome americano, curto e grosso, ele o mudou legalmente para Glick, sem saber que passava de uma minoria real para outra disfarçada. O corpo de Tony Glick era forte e moreno, torneado por músculos. Seu rosto tinha a expressão aturdida de alguém que levou um soco ao sair do bar.

Tirara uma licença do trabalho e não parara mais de dormir a semana toda. A dor passava quando dormia. Não tinha sonhos. Deitava-se às 19h30 e acordava às l0h00, e tirava um cochilo das l4h00 às 15h00. O tempo que transcorrera desde a cena que fizera no enterro de Danny e aquela ensolarada manhã de domingo parecia nebuloso e irreal. Os amigos lhes levavam comida — ensopa­dos, conservas, bolos, tortas. Margie dizia que não sabia o que fazer com tudo aquilo. Nenhum dos dois tinha fome. Na noite de quarta, quando ele tentou fazer amor com ela, ambos começaram a chorar.

Margie não parecia nada bem. Seu método de suportar a dor era limpar a casa de cima a baixo, com um zelo obsessivo que não a deixava pensar. A trilha sonora daqueles dias era o bater dos baldes de lata e o zumbido do aspirador de pó. O ar tinha o cheiro permanente de amoníaco e Lysol. Ela mandara todas as roupas e brinquedos, em caixotes bem-arrumados, para o Exército da Salvação e instituições de caridade. Quando ele levantara na quinta-feira de manhã, encontrara todos os caixotes enfileirados perto da porta da frente, cuidadosamente etiquetados. Ele nunca vira nada tão horrendo como aqueles caixotes mudos. Ela arrastara todos os tapetes para o quintal, pendurara-os nos varais e batera neles sem perdão. E até Tony, em sua exaustão, percebera como ela estava pálida desde terça ou quarta-feira. Até os lábios haviam perdido a cor natural, e ela ganhara olheiras escuras.

Esses pensamentos passaram por sua cabeça sem que ele os articulasse, e já estava a ponto de desabar de novo na cama quando ouviu a mulher mais uma vez. Dessa vez, ela não respondeu a seu chamado.

Ele levantou, foi até a sala e a viu deitada no chão, respirando lentamente, os olhos vidrados fixos no teto. Ela mudara os móveis da sala de lugar, e nada estava na posição habitual, dando ao ambiente um ar estranho e deslocado.

O estado de Marjorie piorara durante a noite, e seu aspecto era tão preocupante que o despertou de seu torpor como um banho de água fria. Ainda estava vestindo seu roupão, que se abrira revelando as pernas. Estavam brancas como mármore, tendo perdido todo o bronzeado das férias de verão. Suas mãos moviam-se como fantasmas. Abria a boca, como se não conseguisse respirar direito, e ele notou os dentes estranhamente proeminentes, mas não deu atenção. Podia ser o ângulo da luz.

— Margie? Meu bem...

Ela tentou responder, mas não conseguiu. Movido pelo medo, ele levantou para chamar o médico. Pegava o telefone quando ela disse, com dificuldade:

— Não... não...

Conseguira se sentar, e sua respiração laboriosa era audível na casa quieta e ensolarada.

— Ajude-me... a levantar... o sol está tão quente...

Ele correu para ela e a levantou, chocado com sua leveza. Estava leve como um punhado de gravetos.

— No sofá...

Ele a deitou no sofá, com as costas apoiadas no braço do móvel. Fora do feixe de luz que passava pela janela formando um quadrado no tapete, a respiração dela pareceu melhorar. Ela fechou os olhos, e mais uma vez a brancura dos dentes em contraste com os lábios o impressionou. Sentiu um impulso de beijá-la.

— Deixe-me chamar o médico — disse ele.

— Não, estou melhor. O sol estava... me queimando. Senti tontura, mas estou melhor agora.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Está trabalhando demais, querida.

— Eu sei — disse ela, com olhos desatentos.

Ele passou as mãos pelos cabelos.

— Temos de reagir, Margie. Precisamos. Você está... — ele fez uma pausa, sem querer magoá-la.

— Estou horrível — disse ela. — Eu sei. Olhei no espelho do banheiro ontem, antes de dormir, e parecia que eu era transparente. Por um minuto, eu... — Ela esboçou um sorriso. — Achei que dava para ver a banheira atrás de mim. Parecia que eu estava sumindo, e o que restava estava... tão pálido...

— Vou chamar o Dr. Reardon.

Mas ela não o escutava.

— Tive um sonho maravilhoso nas últimas três ou quatro noites. Era tão real, Tony. Danny apareceu para mim no sonho. Disse: “Mamãe, estou tão feliz por estar em casa!” E depois ele disse...

— O quê? — perguntou ele delicadamente.

— Ele disse... que era meu bebê de novo. Meu filho queria meu peito de novo. Eu lhe dei e... tive uma sensação doce e dolorida ao mesmo tempo, como era quando os dentes dele estavam começando a nascer, e ele mordia... Que horror! Você deve estar achando que é conversa para um psiquiatra.

— Não — disse ele. — Não.

Ele ajoelhou ao lado da mulher, que abraçou seu pescoço e chorou baixinho. Tinha os braços frios.

— Por favor, não chame o médico, Tony. Vou repousar hoje.

— Está bem — cedeu ele, mas com preocupação.

— É um sonho tão lindo, Tony — disse ela, com o rosto contra o seu pescoço. Os movimentos de seus lábios, a dureza dos dentes por trás deles, tudo isso lhe pareceu extremamente sensual. Ele começou a ficar excitado. — Queria que o sonho voltasse esta noite.

— Talvez volte — disse ele, acariciando-lhe os cabelos. — Talvez volte.

 

— Meu Deus, você está ótima — disse Ben.

De fato, em contraste com os anêmicos tons brancos e verdes do hospital, Susan Norton estava radiante. Usava uma blusa amarela com listras pretas verticais e uma minissaia de brim azul.

— Você também — disse ela, e atravessou o quarto em direção a ele.

Ben lhe deu um longo beijo, escorregando a mão até a curva do quadril dela.

— Ei — disse Susan, interrompendo o beijo. — Vão expulsar alguém por causa disso.

— Eu, não.

— Não, eu.

Eles se olharam.

— Eu te amo, Ben.

— Eu também te amo.

— Se eu pudesse, pulava na cama com você.

— Espere, vou puxar a manta.

— E o que vou dizer às enfermeiras?

— Que está me dando a comadre.

Ela sacudiu a cabeça, sorrindo, e puxou uma cadeira.

— Muita coisa tem acontecido na cidade, Ben.

Ele ficou sério.

— O quê?

Ela hesitou.

— Nem sei como lhe contar, ou em que acreditar. Estou confusa, no mínimo.

— Fale tudo e deixe que eu me viro.

— Qual é seu estado, Ben?

— Estou sarando. O médico de Matt, James Cody...

— Estou falando de sua mente. Até que ponto acredita nessa história de conde Drácula?

— Ah, bom. Matt te contou tudo?

— Matt está aqui no hospital. No andar de cima, na UTI.

— O quê? — Ele se apoiou nos cotovelos. — O que aconteceu com ele?

— Teve um infarto.

— Um infarto!

— O Dr. Cody disse que ele está estável. Classificaram seu estado como grave, mas isso é obrigatório nas primeiras 48 horas. Eu estava lá quando aconteceu.

— Conte-me tudo, Susan.

O prazer se esvaíra de seu rosto. Estava atento, concentrado, abatido. Entre as paredes brancas, os lençóis e o avental branco do hospital, ele mais uma vez pareceu a Susan um homem à beira de um precipício, segurando-se a uma corda frágil.

— Não respondeu à minha pergunta, Ben.

— Sobre o que achei da história de Matt?

— É.

— Deixe-me responder dizendo o que você acha. Acha que a Casa Marsten me perturbou a tal ponto que estou vendo fantasmas onde só existem sombras. Estou correto?

— Acho que sim, mas não havia pensado em termos tão... cruéis.

— Sei disso, Susan. Deixe-me descrever a progressão de meus pensamentos. Será bom para mim examiná-los. Vejo pela sua cara que algo também a impressionou muito. Estou certo?

— Está, mas não acredito. Não posso...

— Espere. Essa frase, “não posso”, bloqueia tudo. Era o que me atrapalhava. O tom categórico dessa frase. Não posso. Eu não podia acreditar em Matt, porque essas coisas não existem. Mas não conseguia encontrar um furo na história dele, por mais que tentasse. A conclusão mais óbvia era que ele enlouquecera de alguma forma, certo?                                                                      

— Certo.

— Ele lhe pareceu louco?

— Não, não, mas...

— Pare — disse ele, levantando a mão. — Você está pensando em termos de não posso, não é?

— Acho que sim — disse ela.

— Ele também não me pareceu louco nem irracional. E nós dois sabemos que fantasias paranói­cas e manias de perseguição não aparecem da noite para o dia. Vão se desenvolvendo com o tempo. Já ouviu alguém dizer que Matt tinha um parafuso a menos? Já ouviu Matt dizer que alguém queria matá-lo? Ele já se envolveu em causas duvidosas ou fanáticas? Já mostrou interesse fora do comum por assuntos místicos, como sessões espíritas ou reencarnação? Já foi preso?

— Não — disse ela. — Não a todas as perguntas. Mas Ben... não queria dizer isso sobre Matt, mas algumas pessoas enlouquecem serenamente. Enlouquecem por dentro.

— Não concordo — disse ele. — Sempre há sinais. Às vezes não os percebemos na hora, só depois. Se você fizesse parte de um júri, acreditaria no testemunho de Matt em relação a um acidente de carro?

— Acreditaria.

— Acreditaria se ele lhe dissesse que viu um ladrão matar Mike Ryerson?

— Acho que sim.

— Mas não acredita no que ele lhe disse.

— Ben, não posso...

— Pronto, de novo essa frase. — Ele viu que ela protestaria, e ergueu a mão. — Não estou defendendo a versão dele, Susan. Só estou mostrando minha linha de raciocínio, certo?

— Certo, continue.

— Minha segunda hipótese era que alguém tivesse armado tudo isso para incriminá-lo.

— Isso também me ocorreu.

— Matt disse que não tem inimigos. Acredito nele.

— Todos têm inimigos.

— Mas há graus. Não esqueça o mais importante, um homem foi morto. Se alguém queria acabar com a vida de Matt, precisou matar Mike Ryerson para isso.

— Por quê?

— Porque toda essa confusão não faz sentido sem um corpo. Mas Matt disse que encontrou Mike totalmente por acaso. Ninguém o levou ao Dell’s na noite de quinta. Não recebeu telefonemas anôni­mos, bilhetes, nada. A coincidência do encontro já basta para descartar uma armadilha.

— O que resta em termos de explicações racionais?

— Que Matt sonhou que ouviu a janela se abrindo, a risada e o som de sucção. E Matt morreu de causas naturais, mas desconhecidas.

— Mas você também não acredita nisso.

— Não acredito que ele sonhou com a janela se abrindo. Estava aberta. E a tela externa estava no jardim. Eu notei e Parkins Gillespie também. E notei outra coisa. As telas da casa de Matt são do tipo que tem o trinco para fora, não para dentro. Não dá para tirá-las de dentro, a não ser com uma chave de fenda ou um formão. Mesmo assim, seria trabalhoso e deixaria marcas. Não vi nenhuma marca. E outra coisa: o chão do jardim é relativamente macio. Para tirar a tela do segundo andar, seria preciso uma escada, que deixaria marcas. Não vi nenhuma. É isso o que mais me incomoda. Uma tela no segundo andar tirada de fora e nenhuma marca de escada no chão.

Eles trocaram um olhar sombrio.

— Era o que eu estava raciocinando esta manhã — retomou ele. — E, quanto mais eu pensava, mais plausível se tornava a versão de Matt. Então, resolvi arriscar. Esqueci da frase não posso. Agora, conte-me o que aconteceu na casa dele ontem. Se explicar tudo que tem acontecido, ninguém ficará mais feliz do que eu.

— Não explica — disse ela, desanimada. — Apenas piora. Ele tinha acabado de me contar o que aconteceu com Mike Ryerson quando disse que tinha ouvido alguém no andar de cima, Estava apavorado, mas subiu. — Ela dobrou as mãos sobre o colo e as apertou com força, como se pudessem fugir. — Por alguns instantes, nada aconteceu. Depois Matt gritou algo, tipo que retirava o convite. Depois... não sei bem como...

— Continue. Não fique enrolando.

— Acho que alguém, outra pessoa, fez um som parecido com um silvo. Ouvi uma pancada, como se alguém tivesse caído. — Ela o olhou, desolada. — E então uma voz disse: Você dormirá o sono dos mortos, professor. Foi assim, palavra por palavra. E quando entrei mais tarde para pegar um cobertor para Matt, encontrei isto.

Ela tirou o anel do bolso da blusa e entregou a Ben. Ele o virou na direção da janela para que a luz iluminasse as iniciais.

— M.C.R. Mike Ryerson?

— Mike Corey Ryerson. Eu o deixei cair e me obriguei a pegá-lo de novo. Achei que você ou Matt gostariam de vê-lo. Pode ficar com ele, não quero de volta.

— Faz com que se sinta...

— Mal. Muito mal. — Ela ergueu a cabeça num gesto de desafio. — Mas tudo isso é anti-racional, Ben. Prefiro acreditar que Matt por algum motivo matou Mike e inventou toda essa história maluca de vampiros por motivos próprios. Pode ter armado a tela para que caísse. Deu uma de ventríloquo no quarto de hóspedes, deixou o anel de Mike à vista e...

— E provocou um infarto em si mesmo para ficar ainda mais realista — replicou Ben. — Ainda não desisti das explicações racionais, Susan. Estou torcendo, quase rezando, para que haja uma. Os monstros no cinema são divertidos porque sabemos que não estão soltos por aí. Concordo com você que a tela poderia ter sido armada. Bastaria uma corda e um gancho preso ao telhado. Mas continue­mos. Matt é um cara culto. Alguns venenos devem causar os sintomas que Mike teve. Talvez venenos indetectáveis. Mas essa hipótese é um pouco remota, porque Mike comeu tão pouco...

— Só Matt sabe disso — ela observou.

— Ele não mentiria, sabe que o legista não deixaria de examinar o estômago da vítima. E injetar o veneno deixaria marcas. Mas vamos supor que isso pudesse ser feito. E ele pode ter tomado algo para simular um ataque cardíaco. Mas que motivo teria?

Ela sacudiu a cabeça, perdida.

— Mesmo que exista um motivo misterioso, por que ele faria algo tão absurdo e inventaria uma história tão extravagante para encobrir o crime? Ellery Queen poderia encontrar uma explicação, mas a vida não é um livro de Queen.

— Mas essa outra explicação é uma loucura, Ben.

— Sim, como Hiroshima.

— Pare com isso! — ela exclamou de repente. — Não dê uma de intelectual, não combina com você! Estamos falando de histórias fantásticas, pesadelos, psicose, seja o que for que...

— Bobagem — disse Ben. — Faça as correlações. O mundo está despencando ao nosso redor e você está chocada com um punhado de vampiros.

’Salem’s Lot é minha cidade — disse ela, com teimosia. — Se alguma coisa está acontecendo aqui, tem a ver com a realidade, e não com especulações filosóficas.

— Concordo totalmente — disse ele, e levou a mão ao curativo na cabeça. — Seu ex-namorado tem um soco de direita bem real.

— Desculpe. Eu não conhecia esse lado de Floyd. Não entendo essa atitude.

— Onde ele está agora?

— Na cadeia da cidade. Parkins Gillespie disse para minha mãe que o entregaria à polícia do condado, ao delegado McCaslin. Mas resolveu esperar para ver se você daria queixa.

— Você se importaria?

— Nem um pouco — disse ela com firmeza. — Ele saiu da minha vida.

— Não vou dar queixa.

Ela ergueu as sobrancelhas.                                               

— Mas quero falar com ele.

— Sobre nós?

— Quero saber por que ele me procurou usando um sobretudo, chapéu, óculos escuros... e luvas de borracha Playtex.

— O quê?

— Bom — disse ele, olhando-a nos olhos. — O sol brilhava. Bem em cima dele. E acho que ele não estava gostando.

Eles se entreolharam em silêncio. Parecia não haver mais nada a dizer.

 

Quando Nolly levou a Floyd o café da manhã que trouxera do Excellent Café, encontrou-o dormindo profundamente. Nolly considerou uma maldade acordá-lo só para comer os dois ovos fritos e os seis pedaços de bacon gorduroso, e decidiu dar um fim na refeição ele mesmo em sua sala. E tomou o café também. Pauline Dickens fazia um café delicioso, ninguém podia negar. Mas quando levou o almoço de Floyd e o encontrou dormindo, ainda na mesma posição, ficou um pouco assustado. Colocou a bandeja no chão e bateu nas grades com uma colher.

— Ei, Floyd! Acorde! Trouxe o almoço!

Floyd não acordou, e Nolly tirou sua chave do bolso para abrir a porta do xadrez. Mas hesitou antes de inserir a chave. O episódio de A Morte Tem Seu Preço da semana anterior fora sobre um valentão que se fingira de doente para derrubar o carcereiro. Nolly nunca achara Floyd Tibbits um va­lentão, mas por outro lado fizera um belo estrago no escritor.

Ele hesitou, com a colher numa mão e a chave na outra, um homem grande cujas camisas brancas estavam sempre manchadas de suor nas axilas nos dias quentes. Pertencia à liga de jogadores de boliche e freqüentava bares nos fins de semana, tendo na carteira uma lista de inferninhos e motéis de Portland ao lado do calendário de bolso luterano. Era um homem simples, o típico bode expiatório, que demorava para reagir e se zangar. Além disso, não tinha muita agilidade mental. Ficou parado vários minutos sem saber o que fazer, chamando Floyd com a colher na mão, desejando que ele se mexesse, roncasse, fizesse algo. Estava justamente pensando em ligar para Parkins e pedir instruções quando o próprio Parkins apareceu na porta do escritório.

— O que você está fazendo, Nolly? Chamando os porcos?

O rapaz ficou vermelho.

— Floyd não se mexe. Acho que ele está... sei lá, doente.

— E você acha que bater nas grades com a colher vai fazer ele melhorar? — Parkins se aproximou e abriu a cela.

— Floyd? — Ele sacudiu Floyd pelo ombro. — Tudo bem com...

Floyd rolou da cama para o chão.

— Caramba — disse Nolly. — Ele está morto, não está?

Mas Parkins não ouviu. Olhava para o rosto estranhamente sereno de Floyd, e lentamente seu próprio rosto foi se enchendo de pavor.

— O que aconteceu, Park?

— Nada. É só que... vamos dar o fora daqui — E continuou, para si mesmo. — Não devia ter encostado nele.

Nolly olhou para o corpo de Floyd sentindo uma ponta de terror.

— Mexa-se — disse Parkins. — Temos de buscar o médico.

 

No meio da tarde, Franklin Boddin e Virgil Rathbun passaram pelo portão de tábuas no final da bifurcação da via Burn, três quilômetros depois do cemitério Harmony Hill. Estavam na picape Chevrolet ano 57 de Franklin, um veículo que já fora branco marfim no primeiro ano do segundo mandado de Eisenhower, mas que agora era cor de bosta misturada com vermelho. A picape estava cheia do que Franklin chamava de “tranqueiras”. Uma vez por mês, ele e Virgil levavam as “tranqueiras” para o depósito de lixo, sendo que a maior parte consistia em garrafas e latas de cerveja, barris de chope, garrafas de vinho e de vodca Popov.

— Fechado — disse Franklin, franzindo os olhos para ler a placa presa ao portão. — Mas que merda... — Deu um gole na cerveja encaixada entre suas pernas, perto da virilha, e enxugou a boca com o braço. — Hoje é sábado, não é?

— Claro que é — disse Virgil. Não tinha idéia se era sábado ou terça. Estava tão bêbado que não sabia nem que mês era.

— O depósito não fecha aos sábados, não é? — perguntou Franklin. Ele via três placas em vez de uma. Franziu os olhos de novo. As três placas diziam “Fechado”. A tinta vermelha só podia ser da lata que Dud Rogers guardava em sua cabana.

— Nunca fecha aos sábados — disse Virgil. Levantou sua garrafa de cerveja, errou a boca e derrubou o líquido no ombro esquerdo.

— Fechado — repetiu Franklin com crescente irritação. — Aquele filho-da-mãe deve estar atrás de mulher, isso sim. Ele vai ver. — Ele colocou a primeira marcha e apertou o acelerador. A cerveja transbordou da garrafa e molhou suas calças.

— Pé na tábua, Franklin! — gritou Virgil, e soltou um arroto gigantesco quando a picape arrombou o portão, derrubando-o sobre o acostamento entulhado de latas. Franklin trocou para a segunda e subiu a estrada esburacada. A picape se sacudia ruidosamente sobre as molas gastas. Garrafas caíram da traseira e se espatifaram no chão. Gaivotas alçaram vôo gritando.

Trezentos metros depois do portão, a via Burns terminava em uma ampla clareira, que era o depósito em si. O bosque cerrado de carvalhos e bordos se abria revelando uma grande área plana de terra vermelha, que fora sulcada pelo uso constante da velha escavadeira, agora estacionada ao lado da cabana de Dud. Depois da área plana ficava a cascalheira onde o lixo era depositado. O entulho, cintilante com suas garrafas e latas de alumínio, amontoava-se em dunas gigantescas.

— Maldito corcunda imprestável, parece que ele não queimou lixo a semana toda — disse Franklin. Meteu os dois pés no breque, que afundou até o piso com um grito mecânico. Depois de alguns segundos, a picape parou. — Deve estar de ressaca, isso sim.

— E Dud nem é de beber muito — observou Virgil, jogando a garrafa vazia pela janela e tirando outra do saco marrom no chão. Abriu-a no trinco da porta, e o líquido espumante transbordou sobre sua mão.

— Todos os Corcundas bebem — disse Franklin com ar sábio. Cuspiu pela janela, descobriu que estava fechada e passou a manga da camisa no vidro riscado e embaçado. — Vamos procurar ele. Pode valer alguma coisa.

Ele deu ré com a picape fazendo uma grande trajetória circular e parou com a traseira virada para a última pilha de lixo. Quando desligou a ignição, o silêncio subitamente pesou sobre eles. Era completo, com a exceção dos gritos inquietos das gaivotas.

— Como tudo está quieto! — murmurou Virgil.

Eles desceram da picape e foram até a traseira. Franklin soltou as travas da tampa, que desceu com um estrondo. As gaivotas que se alimentavam do outro lado do depósito levantaram vôo numa ruidosa nuvem.

Os dois subiram na carroceria sem dizer palavra e começaram a descarregar o lixo. Sacos plásticos verdes voavam pelo ar e se abriam ao cair. Era uma tarefa habitual para eles. Ambos eram uma parte da cidade que os turistas raramente viam, ou queriam ver — primeiro, porque a cidade os ignorava, tacitamente. E segundo, porque haviam criado uma coloração protetora própria. Um morador que visse a picape de Franklin na estrada esquecia-a assim que sumia do espelho retrovisor. Se avistasse a cabana deles, com a chaminé de lata lançando uma fina fumaça no céu, ignorava-a. Se encontrasse Virgil saindo de uma loja em Cumberland com uma garrafa de vodca barata num saco marrom, cumprimentava-o sem saber direito quem era — o rosto era familiar, mas o nome não vinha à mente. Derek Boddin, pai de Richie (imperador deposto da escola elementar da rua Stanley), era irmão de Franklin, mas praticamente se esquecera que ele ainda vivia na cidade. Passara do estágio de ovelha negra para o de uma sombra.

Depois de esvaziar a picape, Franklin chutou uma última lata — clink! — e suspendeu as calças verdes de trabalho.

— Vamos visitar o Dud — disse ele.

Quando desceram da carroceria, Virgil tropeçou num dos próprios cadarços de couro cru e caiu sentado no chão.

— Que droga de cadarço — murmurou indistintamente.

Eles se aproximaram da cabana de Dud. A porta estava fechada.

— Dud! — berrou Franklin. — Ei, Dud Rogers! — Ele socou a porta, e toda a cabana tremeu. O fecho de ilhós da porta se rompeu, dando passagem. A cabana estava vazia, mas emanava um cheiro adocicado e nauseante. Eles se entreolharam com uma careta, justo eles, veteranos de bares e seus cheiros insalubres. Franklin pensou em picles guardados num pote durante muitos anos, até o líquido ficar branco.

— Filho-da-mãe — disse Virgil. — Fede mais que gangrena.

Mas a cabana estava impecavelmente limpa. A segunda camisa de Dud estava pendurada num cabide sobre a cama, a cadeira lascada fora encostada à mesa da cozinha e a cama em si estava arrumada em estilo militar. A lata de tinta vermelha, com gotas recentes nas laterais, estava sobre um jornal dobrado atrás da porta.

— Vou vomitar se a gente não sair daqui — disse Virgil, com o rosto esverdeado.

Franklin, também enjoado, recuou e fechou a porta.

Lançaram um olhar ao depósito de lixo, deserto e estéril como as montanhas da lua.

— Ele não está por aqui — Franklin disse. — Deve estar escondido no mato.

— Frank?

— O quê? — retrucou Franklin, irritado.

— A porta estava trancada por dentro. Se ele não está lá, como foi que saiu?

Alarmado, Franklin se virou e olhou para a cabana. Pela janela, ele ia dizer, mas desistiu. A janela não passava de um quadrado recortado na lona e fechado com plástico impermeável. Não era grande bastante para que Dud passasse por ela, ainda mais com a corcunda.

— Deixe para lá — disse Franklin, mal-humorado. — Se ele não quer dividir com a gente, dane-se. Vamos embora.

Enquanto voltavam para a picape, Franklin sentiu algo atravessar a membrana protetora da embriaguez — algo de que não lembraria mais tarde, nem desejaria lembrar: uma sensação arrepiante, de que algo lá estava terrivelmente errado. Era como se o depósito tivesse um coração, que pulsava com lenta e terrível vitalidade. De repente, ele desejou sumir dali o quanto antes.

— Onde estão os ratos? — disse Virgil de repente.

Não havia nenhum à vista. Apenas gaivotas. Franklin tentou se lembrar se alguma vez levara o lixo para o depósito e não vira ratos. Não se lembrou de nenhuma. Era muito esquisito.

— Ele deve ter espalhado veneno, não é, Frank?

— Vamos logo — disse Frank. — Vamos embora desta droga de lugar.

 

Depois do jantar, o médico deixou Ben subir e visitar Matt Burke. Foi uma visita curta, pois Matt dormia. Mas o balão de oxigênio fora removido, e a enfermeira-chefe disse a Ben que provavelmente Matt despertaria na manhã seguinte e poderia receber visitas breves.

Ben achou o rosto dele cansado e cruelmente envelhecido, pela primeira vez o rosto de um velho. Imóvel, com a pele flácida do pescoço acima do avental hospitalar, ele parecia vulnerável e indefeso. Se for tudo verdade, pensou Ben, os médicos não estão fazendo nada para ajudá-lo. Se for tudo verdade, estamos na cidadela da descrença, onde os pesadelos são eliminados com bisturis e quimioterapia, ao invés de estacas, bíblias e cabeças de alho. Eles confiam em seus aparelhos, injeções e clisteres cheios de solução de bário. Se a muralha da razão tiver um furo, eles não sabem nem querem saber.

Ele se aproximou da cama e virou a cabeça de Matt delicadamente. Não havia marcas no pescoço. A pele estava intacta.

Ele hesitou, depois foi até o armário e o abriu. Lá estavam as roupas de Matt e, pendurado num gancho, o crucifixo que ele usava quando Susan o visitou. Sua corrente filigranada brilhava suavemente à luz branda do quarto.

Ben o pegou e o pendurou no pescoço de Matt.

— Ei, o que você está fazendo?

Uma enfermeira entrara com um jarro d’água e uma comadre decorosamente coberta com uma toalha.

— Estou colocando o crucifixo no pescoço dele.

— Ele é católico?

— Agora, é — respondeu Ben em tom sombrio.

 

Já era noite quando alguém bateu de mansinho na porta de trás da casa dos Sawyer, na via Deep Cut. Bonnie Sawyer, com um sorrisinho nos lábios, foi atender. Usava um avental curto amarrado na cintura, salto alto e mais nada.

Quando ela abriu a porta, Corey Bryant arregalou os olhos e deixou cair o queixo.

— Mas... — disse ele. — Mas... Bonnie...

— Qual é o problema, Corey? — Ela apoiou a mão na maçaneta, empinando os seios nus. Ao mesmo tempo, cruzou os pés, modelando as pernas para ele.

— Cruzes, Bonnie, e se fosse...

— O homem da companhia telefônica? — disse ela, com um risinho. Pegou a mão dele e a levou ao seio direito. — Quer ler meu medidor?

Com um gemido de exasperação, ele a puxou contra si e agarrou suas nádegas nuas, amassando ruidosamente o avental engomado.

— Puxa — disse ela, roçando-se nele. — Você vai testar meu fone, Sr. técnico? Estou esperando um telefonema importante...

Ele a levantou do chão e chutou a porta atrás de si. Não precisou que ela lhe mostrasse o caminho do quarto.

— Você tem certeza de que ele não vai chegar?

Os olhos dela brilharam na escuridão.

— De quem está falando, Sr. técnico? Do meu maridinho? Ele está em Burlington, Vermont.

Ele a deitou de viés na cama, com as pernas para fora.

— Acenda a luz — disse ela, com a voz lenta e arrastada. — Quero ver o que vai fazer.

Ele acendeu o abajur e olhou para Bonnie. O avental fora puxado para o lado. Seus olhos estavam lânguidos e quentes, as pupilas grandes e brilhantes.

— Tire esta coisa — disse ele, apontando para o avental.

— Tire você — disse ela. — Sei que entende de nós e fios, Sr. técnico.

Ele se inclinou para obedecer à ordem. Ela sempre fazia com que ele se sentisse como um garoto sedento bebendo da fonte pela primeira vez, e suas mãos sempre tremiam na presença dela, como se aquele corpo transmitisse uma corrente elétrica para a atmosfera ao redor. Ela nunca deixava sua mente por completo. Estava alojada lá dentro como uma ferida na boca, que a língua não consegue deixar de visitar e testar. Ela até passeava por seus sonhos com sua pele dourada, perversamente sedutora. Tinha uma imaginação infinita.                                                                          

— Não, de joelhos — disse ela. — Ajoelhe-se para mim.

Corey se ajoelhou desajeitadamente e rastejou até Bonnie, estendendo a mão para o laço do avental. Ela colocou os pés, calçados com saltos altos, sobre os ombros do rapaz. Ele se inclinou e beijou a parte interna da coxa dela, sentindo a carne firme e morna.

— Isso mesmo, Corey. Continue subindo, continue....

— Mas que beleza...

Bonnie Sawyer gritou.

Corey Bryant olhou para cima, piscando em sua confusão.

Reggie Sawyer estava encostado na porta do quarto. Trazia uma espingarda casualmente apoiada no antebraço, os canos apontando para o chão.

Corey sentiu um jorro quente quando sua bexiga se soltou.

— Então, é verdade — admirou-se Reggie, sorrindo. Entrou no quarto. — Ora, vejam só. Preciso pagar uma caixa de Budweiser para aquele bebum do Mickey Sylvester. Caramba...

Bonnie recuperou a voz primeiro. — Ouça, Reggie. Não é o que você está pensando. Ele invadiu a casa, parecendo um louco, e ele...

— Cale a boca, vagabunda. — Ele ainda sorria. Era um sorriso cordial. Ele era enorme. Ainda usava o mesmo terno cinzento de quando ela lhe dera um beijo de adeus duas horas antes.

— Ouça — disse Corey debilmente, sentindo a boca cheia de saliva. — Por favor, não me mate. Eu sei que eu mereço, mas não vai querer acabar na cadeia por causa disso. Pode me bater, mas por favor, não...

— Levante-se, Perry Mason — disse Reggie Sawyer, ainda com seu sorriso cordial. — Seu zíper está aberto.

— Ouça, Sr. Sawyer...

— Ora, pode me chamar de Reggie. Somos amigos do peito. Tenho até ficado com seus restos, não é?

— Reggie, não é o que você está pensando. Ele me estuprou...

Reggie olhou para Bonnie com seu sorriso cordial e bondoso.

— Se disser mais uma palavra, vou enfiar isto na sua bunda e lhe dar um presentinho especial.

Bonnie começou a gemer. Seu rosto ficara da cor de iogurte natural.

— Sr. Sawyer... Reggie...

— Seu sobrenome é Bryant, não? O nome de seu pai é Pete Bryant, não é?

Corey assentiu com gestos frenéticos.

— Isso mesmo, isso mesmo. Ouça...

— Eu lhe vendia querosene número dois quando era motorista de Jim Webber — disse Reggie, com um sorriso de boas lembranças. — Isso foi quatro ou cinco anos antes de eu conhecer esta vagabunda. Seu pai sabe que está aqui?

— Não, ele ficaria arrasado. Pode me bater, senhor, eu mereço, mas se me matar, meu pai vai morrer de desgosto, e o senhor será responsável por duas...

— É, aposto que ele não sabe. Vamos até a sala um pouco. Precisamos discutir isso. Venha. — Ele sorriu gentilmente para Corey, mostrando que não lhe faria mal, e depois se voltou para Bonnie, que o olhava com olhos arregalados. — Não saia daqui, mulher, ou nunca saberá como acaba a novela. Venha, Bryant. — Ele fez um gesto com a espingarda em direção à porta.

Corey andou até a sala adiante de Reggie, arrastando os pés. Suas pernas haviam virado borracha. Um ponto entre suas espáduas coçava loucamente. É aí que ele vai apontar, pensou ele. Será que vou viver bastante para ver minhas tripas na parede?...

— Vire-se — mandou Reggie.

Corey se virou. Começou a chorar. Não queria, mas não conseguia evitar. E tanto fazia se chorasse ou não. Já molhara as calças mesmo.

A espingarda já não estava apoiada casualmente sobre o braço de Reggie. Os canos duplos apontavam diretamente para o rosto de Corey. Seus círculos negros pareciam se alargar como poços sem Rindo.

— Você sabe o que andou fazendo? — perguntou Reggie. — O sorriso desaparecera. Sua expressão era muito grave.

Corey não respondeu. Era uma pergunta estúpida. Mas continuou tremendo e chorando.

— Você dormiu com a mulher de outro, Corey. É esse o seu nome?

Corey fez que sim, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Sabe o que acontece com gente que faz isso quando é pega em flagrante?

Corey fez que sim.

— Segure o cano da espingarda, Corey. Bem de leve. Coloquei três cartuchos nela. Finja... finja que está segurando os peitos da minha mulher.

Corey estendeu a mão trêmula e a colocou sobre o cano da espingarda. Sentiu o metal frio contra sua pele quente. Um gemido longo e doloroso saiu de sua garganta. Não havia mais o que dizer. Nem súplicas a fazer.

— Ponha na sua boca, Corey. Os dois canos. Isso... calma. Pronto, está vendo? Cabe na sua boca. E você entende bem disso, não é?

Corey não podia abrir mais os maxilares. Os canos da espingarda chegavam quase ao seu palato, e seu estômago se contraía em ânsias de terror. Sentia o aço oleoso contra os dentes.

— Feche os olhos, Corey.

Corey continuou a olhar para ele, com olhos imensos e líquidos como poças.

O sorriso bondoso voltou aos lábios de Reggie.

— Feche esses olhinhos azuis, Corey.

Corey os fechou.

Seu esfíncter cedeu — ele só se apercebeu vagamente do fato.

Reggie puxou os dois gatilhos. Os cães da arma fizeram um duplo clique nas câmaras vazias.

Corey caiu no chão desmaiado.

Reggie olhou para ele por um momento, sorrindo bondosamente, e depois virou a espingarda para baixo. Dirigiu-se ao quarto.

— Aqui vou eu, Bonnie, queira ou não.

Bonnie Sawyer começou a gritar.

 

Corey Bryant cambaleava pela via Deep Cut, onde estacionara o caminhão da companhia telefônica. Cheirava mal. Seus olhos estavam injetados e vítreos. Um grande galo crescera em sua cabeça depois que caíra no chão desmaiado. Arrastava as botas lentamente pelo acostamento. Tentava se concentrar apenas no som que elas faziam e em mais nada, para não pensar na súbita e total ruína de sua vida. Eram 20hl5.

Reggie Sawyer ainda sorria gentilmente quando empurrou Corey para fora da casa. Os soluços uniformes e dilacerantes de Bonnie vinham do quarto, pontuando as palavras dele: “Agora seja um bom menino e vá embora. Pegue seu caminhão e volte para a cidade. Um ônibus chega de Lewiston e sai para Boston às 21h45. De lá você pode pegar um ônibus para qualquer lugar do país. O ônibus sai da Spencer’s. É melhor pegá-lo, porque, se eu botar os olhos outra vez em você, eu te mato. Ela vai ficar boa. Vai ter que usar calças e blusas de mangas compridas durante umas semanas, mas não deixei marcas no rosto. Saia logo de ’salem’s Lot, antes de se limpar e começar a achar que é um homem de novo.”

E lá estava ele, andando naquela rua, prestes a fazer o que Reggie Sawyer lhe dissera. Podia ir de Boston... para qualquer lugar. Tinha pouco mais de mil dólares no banco. Sua mãe sempre dizia que ele era muito econômico. Podia sobreviver com o dinheiro até arranjar um emprego e começar a longa tarefa de esquecer aquela noite — o gosto do cano da espingarda, o cheiro da própria merda amontoada nas calças.

— Olá, Sr Bryant.

Corey sufocou um grito e olhou para a escuridão, sem ver nada de início. O vento sacudia as árvores, projetando sombras dançantes sobre o asfalto. De repente ele distinguiu uma sombra mais sólida, ao lado do muro de pedra entre a estrada e o pasto de Carl Smith. A sombra parecia ser de um homem, mas havia algo... algo...

— Quem é você?

— Um amigo muito observador, Sr. Bryant.

O vulto se mexeu e se destacou das sombras. À luz pálida, Corey viu um homem de meia-idade, com bigode preto e olhos fundos e brilhantes.

— Você foi maltratado, Sr. Bryant.

— Como sabe da minha vida?

— Eu sei muito. É minha obrigação saber. Cigarro?

— Obrigado. — Corey aceitou o cigarro com gratidão e o meteu entre os lábios. O estranho acendeu um fósforo, e, ao brilho da chama, Corey viu que ele tinha maçãs do rosto altas e eslavas, testa branca e ossuda, cabelos pretos penteados para trás. A chama se apagou e Corey tragou a fumaça áspera. Era um cigarro gringo, mas qualquer cigarro estava bom. Começou a se sentir um pouco mais calmo.

— Quem é você? — perguntou de novo.

O estranho deu uma risada surpreendentemente larga e robusta, que foi levada pela brisa como a fumaça do cigarro de Corey.

— Nomes! — exclamou ele. — Como os americanos são obcecados por nomes! Sou Bill Smith, compre meu carro! Coma tal produto! Veja tal programa de televisão! Meu nome é Barlow, se isso o tranqüiliza. — E ele soltou outra gargalhada, os olhos cintilando. Corey sentiu um sorriso repuxar seus lábios, e mal pôde acreditar. Seus problemas pareciam distantes e triviais em comparação ao humor sarcástico daqueles olhos escuros.

— Você é estrangeiro, não é? — perguntou Corey.

— Sou de muitos lugares, mas para mim este país... esta cidade... parece cheia de estrangeiros. Entendeu? Hein? — Ele deu outra gargalhada exuberante, e dessa vez Corey não se conteve e o acompanhou. O riso escapava de sua garganta quase com histeria.

— Sim, estrangeiros — continuou o outro. — Mas belos, sedutores, sangüíneos, explodindo de vitalidade. Você sabia como são belas as pessoas de seu país e de sua cidade, Sr. Bryant?

Corey apenas riu, um pouco constrangido. Mas não tirou os olhos do rosto do estranho. Ele o extasiava.

— O povo deste país não sabe o que é passar fome e necessidade. Há duas gerações que não conhecem nada parecido, e, mesmo quando conheceram, era apenas um eco distante. Acham que sabem o que é tristeza, mas é a tristeza de uma criança que derrubou o sorvete na grama. Mas elas não têm nenhuma... como é a palavra em sua língua... contenção. Derramam o sangue umas das outras com grande vigor. Você não concorda? Não vê?

— Vejo — disse Corey. E, de fato, dentro dos olhos do estranho ele via muitas coisas, todas maravilhosas.

— Este país é um fascinante paradoxo. Em outras terras, quando um homem come até se fartar dia após dia, esse homem fica sonolento, preguiçoso. Mas, aqui, parece que quanto mais vocês têm, mais agressivos ficam. Como o Sr. Sawyer. Tem tanto e se recusa a dar algumas migalhas de sua mesa. Como uma criança numa festa, que empurra outra, mesmo não conseguindo comer mais. Não é mesmo?

— É — disse Corey. Os olhos de Barlow eram tão grandes, tão compreensivos. Era tudo uma questão de...

— É tudo uma questão de perspectiva, não é?

— Isso! — exclamou Corey. O homem encontrara a palavra exata, perfeita. O cigarro caiu de sua mão sem que ele notasse.

— Eu poderia ter ignorado uma cidade rústica como esta — continuou o estranho, pensativo. — Poderia ter escolhido uma das grandes e fervilhantes cidades de seu país. Bah! — Ele se endireitou subitamente, e seus olhos faiscaram. — O que sei sobre cidades? Seria atropelado por uma carruagem ao atravessar a rua! Sufocaria com o ar fétido! Entraria em contato com diletantes sofisticados, com intenções... como vocês dizem?... hostis em relação a mim. Como um pobre rústico como eu poderia enfrentar o refinamento vazio de uma grande cidade... mesmo sendo americana? Não e não! Eu cuspo nas grandes cidades deste país!

— Isso mesmo... — murmurou Corey.

— Então vim para cá, para uma cidade que foi mencionada para mim por um homem brilhante, um antigo morador, que lamentavelmente faleceu. As pessoas daqui ainda são saudáveis e vitais, ainda cheias da agressão e da cegueira tão necessárias para... não existe palavra em sua língua para isso. Pokol; vurderlak; eyalik. Está entendendo?

— Estou — murmurou Corey.

— As pessoas não se separaram da vitalidade que flui da mãe-terra com uma carapaça de concreto e cimento. Têm as mãos mergulhadas nas águas da vida. Extraíram a vida da terra, íntegra e pulsante! Não é verdade?

— É, sim!

O estranho deu uma gargalhada bondosa e apoiou a mão no ombro de Corey.

— Você é um bom rapaz. Bom e forte. Não deve querer deixar esta cidade tão perfeita, não é?

— Não... — murmurou Corey, mas ficou em dúvida. O medo retomava. Mas não tinha importân­cia. Aquele homem não deixaria que nada de mau lhe acontecesse.

— E não sairá. Nunca mais.

Corey tremia, preso ao chão, quando Barlow inclinou a cabeça em direção a ele.

— E há de se vingar daqueles que se fartam deixando outros à míngua.

Corey Bryant mergulhou num grande rio de esquecimento, e esse rio era o tempo, e suas águas eram vermelhas.

 

Eram nove da noite. O filme de sábado passava na televisão do hospital quando o telefone ao lado da cama de Ben tocou. Era Susan, com a voz descontrolada.

— Ben, Floyd Tibbits morreu ontem à noite, na cela. O Dr. Cody disse que foi anemia aguda. Mas eu conhecia Floyd! Ele tinha pressão alta. Por isso o exército não o aceitou.

— Calma — disse Ben, soerguendo-se na cama.

— E tem mais. Um bebê de dez meses morreu. A família dele morava na Curva. A mãe, a Sra. McDougall, foi levada amarrada.

— Sabe como o bebê morreu?

— Minha mãe disse que a Sra. Evans ouviu Sandra McDougall gritando, foi até lá e chamou o velho Dr. Plowman. O médico não disse nada, mas a Sra. Evans contou para minha mãe que não tinha nada de errado com o bebê... só que estava morto.

— E os dois malucos da cidade, Matt e eu, estamos fora de ação — disse Ben, quase consigo mesmo. — Parece que foi planejado.

— E tem mais.

— O quê?

— Carl Foreman está desaparecido. Assim como o corpo de Mike Ryerson.

— Então é isso mesmo — ele se ouviu dizendo. — Tem de ser isso. Saio daqui amanhã.

— Eles já vão deixar você sair?

— Ninguém vai poder dizer nada — disse ele, distraidamente. Sua cabeça já estava em outro lugar. — Você tem um crucifixo?

— Eu? — perguntou ela, achando graça. — Não. Que pergunta...

— Não estou brincando, Susan. Nunca falei tão sério. Tem algum lugar onde possa conseguir um a essa hora?

— Bom, Marie Boddin deve ter um. Posso ir...

— Não, não saia. Fique dentro de casa. Faça um você mesma, nem que tenha de colar dois pedaços de pau. Deixe ao lado da cama.                                                                                   

— Ben, ainda não acredito nisso. Pode ser algum louco, que acha que é um vampiro, mas...

— Acredite no que quiser, mas faça a cruz.

— Mas...

— Você vai fazer? Mesmo que seja só para me agradar?

Ela hesitou um pouco.

— Vou, Ben.

— Pode vir ao hospital amanhã lá pelas nove?

— Claro.

— Ótimo, assim colocaremos Matt a par da situação juntos. Depois vamos conversar com o Dr. James Cody.

— Ele vai achar que você é louco, Ben. Você sabe disso, não é?

— Acho que sei. Mas tudo fica mais real à noite, não é?                

— É — disse ela, baixinho. — E como...

Por algum motivo ele pensou em Miranda, em como ela morrera: a moto entrando no trecho molhado, derrapando, o grito dela, o pânico brutal que ele sentiu, o caminhão se precipitando velozmente em direção a eles.

— Susan?

— Sim.

— Cuide-se bem. Por favor.

Em seguida, ele colocou o telefone no gancho e olhou para a tevê, sem ver a comédia com Doris Day e Rock Hudson que começara a passar. Sentia-se nu, vulnerável. Não tinha nenhuma cruz. Voltou os olhos para a janela, que mostrava apenas a escuridão da noite. O medo das trevas, antigo e infantil, começou a dominá-lo, e ele olhou para a televisão, onde Doris Day dava um banho de espuma num cachorro felpudo.

 

O necrotério de Portland era um lugar frio e antisséptico, totalmente reves­tido de azulejos verdes. O piso e as paredes eram de um verde-escuro, e o teto era de um tom mais claro. Portas quadradas que pareciam grandes armários de rodoviária se estendiam pelas paredes. Lâmpadas tubulares de néon lançavam uma luz clara e neutra sobre o ambiente. Não era uma decoração muito vibrante, mas a clientela nunca reclamara.

Às 21h45 daquela noite de sábado, dois funcionários empurravam numa maca o corpo de um jovem homossexual que fora baleado num bar no centro da cidade. Era o primeiro corpo que recebiam naquela noite. Os acidentes fatais na rodovia geralmente aconteciam entre uma e três da manhã.

Buddy Bascomb interrompeu uma piada sobre um francês e olhou, boquiaberto, para a fileira de armários que iam de M a Z. Dois deles estavam abertos.

Ele e Bob Greenberg deixaram o recém-chegado e correram até os armários. Buddy conferiu a etiqueta na primeira porta, enquanto Bob se aproximava da outra.

Tibbets, Floyd Martin

Sexo: M

Entrada: 4/10/75

Data da autópsia: 5/10/75

Declarante: J. M. Cody, médico.                  

Ele puxou a alça interior, e a laje correu sobre roldanas silenciosas.

Vazia.

— Ei! — gritou Greenberg. — Esta merda está vazia! Quem teve a idéia infeliz de...

— Fiquei na recepção o tempo todo — disse Buddy. — Ninguém passou por mim. Tenho certeza. Deve ter acontecido no turno de Carty. Qual o nome desse aí?

— McDougall, Randal Fratus. O que significa “b”?

— Bebê — disse Buddy, lentamente. — Minha nossa, acho que estamos numa fria.

 

Algo o acordara.

Ele continuou deitado no escuro, olhando para o teto.

Um barulho. Mas a casa estava silenciosa.

Mais uma vez. Alguém arranhava a janela.

Mark Petrie virou-se na cama, olhou pela janela e viu Danny Glick, olhando-o fixamente do outro lado do vidro, pálido como a morte, os olhos vermelhos e brutais. Uma substância escura manchava seus lábios e queixo, e, quando viu que Mark o olhava, ele sorriu e mostrou dentes horrivelmente longos e afiados.

— Deixe-me entrar — a voz sussurrou, sem que Mark soubesse se as palavras haviam chegado até ele ou só existiam em sua mente.

Percebeu que estava apavorado — o corpo o avisara antes de sua mente. Nunca sentira tanto medo, nem quando não agüentava mais nadar voltando da bóia na praia Popham e achou que fosse se afogar. Sua mente, ainda de uma criança, fez uma avaliação precisa da situação em poucos segundos. Corria risco, e não só de vida.

— Deixe-me entrar, Mark. Quero brincar com você.

A medonha entidade não tinha nada em que se apoiar. A janela do quarto ficava no segundo andar e não tinha nenhuma saliência. Mas estava suspensa no espaço... ou se agarrava às telhas como um inseto nefasto.

— Mark... eu finalmente cheguei. Por favor, deixe-me entrar.

É claro. Eles só entram se forem convidados. Lera nas revistas de monstros, as mesmas que sua mãe achava que lhe fariam mal.

Levantou da cama e quase caiu. Percebeu que “medo” era uma palavra muito branda. Nem “terror” era capaz de expressar o que sentia. O rosto pálido do outro lado da janela tentou sorrir, mas já não se lembrava como, depois de tanto tempo na escuridão. Mark viu apenas um esgar trêmulo, uma máscara trágica e sangrenta.

No entanto, quando olhava para os olhos dele, não era tão ruim. Não sentia mais tanto medo, e via que tinha apenas de abrir a janela e dizer: “Entre, Danny.” E depois não sentiria mais nenhum medo, porque estaria próximo de Danny e de todos eles, e dele. Estaria...

Não! É assim que eles pegam a gente!

Mark obrigou-se a desviar os olhos, mas precisou de toda a sua força de vontade para isso.

— Mark, deixe-me entrar! Eu ordeno! Ele ordena!

Mark começou a andar em direção à janela. Não tinha alternativa. Não havia como se opor àquela voz. Quando ele se aproximou do vidro, o malévolo rosto infantil começou a se crispar de avidez. As unhas, sujas de terra, arranhavam a vidraça.

Pense em outra coisa! Rápido!

— Na Espanha — sussurrou ele roucamente. — Na Espanha chove principalmente nas planícies. Em vão esmurrou a amurada, pois ainda via o fantasma.

Danny Glick gritou com voz rouca:

— Mark! Abra a janela!

— Batatinha quando nasce...

— A janela, Mark! Ele ordena!

— ...esparrama pelo chão.

Ele fraquejava. A voz sussurrante penetrava sua barricada mental, o comando era irresistível. Mark olhou para a escrivaninha, coberta pelos monstros de montar, agora tão tolos e infantis...

Seus olhos se fixaram subitamente numa parte do cenário. O monstro de plástico andava por um cemitério, e um dos monumentos era em forma de cruz.

Sem parar para pensar e ponderar (atitude que teria arruinado um adulto, como seu pai, por exemplo), Mark agarrou a cruz com força e disse em voz alta:

— Entre, então.

O rosto foi tomado por uma expressão de triunfo voraz. Danny abriu a janela, entrou e avançou dois passos. O cheiro que exalava daquela boca era indescritivelmente fétido: de restos apodrecendo num sepulcro. Mãos frias e escorregadias pousaram nos ombros de Mark. A cabeça se inclinou, como a de um cão, e o lábio superior descobriu os brilhantes caninos.

Mark levantou a cruz bruscamente e a pressionou contra o rosto de Danny Glick.

O grito foi medonho, sobrenatural... e silencioso. Ecoou apenas nos labirintos da mente de Mark. O sorriso de triunfo da criatura se tornou uma horrível careta de agonia. Fumaça começou a sair da carne pálida, e por um instante, antes de a criatura recuar e fugir pela janela, Mark sentiu a pele ceder como água.

E estava tudo acabado, como se nunca tivesse acontecido.

Por um momento, a cruz brilhou com uma luz vivida, como se estivesse acesa por dentro. Depois se apagou, deixando apenas um vago fulgor azulado.

Através da grade no chão, ele ouviu o inconfundível clique do abajur do quarto debaixo e a voz do pai:

— Que diabo foi isso?

 

A porta do quarto abriu dois minutos depois, tempo suficiente para que Mark colocasse tudo em ordem.

— Filho? — Henry Petrie chamou baixinho. — Está acordado?

— Acho que sim — Mark respondeu com voz sonolenta.

— Você teve um pesadelo?

— Acho... que sim. Não lembro.

— Você gritou enquanto dormia.

— Desculpe.

— Não precisa pedir desculpa. — Ele hesitou, lembrando-se de como era seu filho no passado, um menino de macacãozinho azul, que dava muito mais trabalho mas era infinitamente mais fácil de entender. — Quer um copo d’água?

— Não, obrigado, pai.

Henry Petrie examinou o quarto rapidamente, sem conseguir entender a sensação de pavor mortal que o despertara, e que ainda permanecia com ele — uma premonição de perigo iminente. Tudo parecia bem. A janela estava fechada. Nada estava fora do lugar.

— Mark, alguma coisa está errada?

— Não, pai.

— Bom... Então, boa-noite.

— Boa-noite.

A porta se fechou de mansinho, e Mark ouviu o pai descer as escadas. Sentiu o corpo todo amolecer de alívio. Um adulto teria tido um ataque histérico nesse momento, assim como uma criança um pouco mais nova ou mais velha. Mas Mark sentiu o terror se esvair de maneira quase imperceptível, uma sensação semelhante à do vento na pele depois de nadar num dia frio. A sonolência foi aos poucos tomando o lugar do medo.

Antes de mergulhar no sono, ele refletiu — não pela primeira vez — sobre como os adultos eram curiosos. Tomavam álcool, laxantes ou soníferos para espantar os medos e conseguir dormir, mas eram medos mansos e domésticos: trabalho, dinheiro, o que a professora vai pensar se eu não vestir Jennie melhor, será que minha mulher ainda me ama, quem são meus verdadeiros amigos. Eram suaves comparados aos medos que toda criança enfrenta a cada noite na escuridão do quarto, sem esperar que ninguém a entenda a não ser outra criança. Não existe terapia em grupo, nem psiquiatra, nem assistente social para a criança que tem de lidar com a coisa debaixo da cama ou dentro do porão todas as noites, a coisa que a ameaça e provoca além do limite da visão. A mesma batalha é travada noite após noite, e a única cura é a eventual ossificação da imaginação, que também se chama idade adulta.

De uma maneira mais simples e sucinta, esses pensamentos passaram pela mente de Mark. Na noite anterior, Matt Burke enfrentara essa coisa malévola, e o medo lhe provocara um ataque cardíaco. Mark Petrie também a enfrentara, e dez minutos depois dormia profundamente, ainda segurando a cruz de plástico como um bebê segura um chocalho. Essa era a diferença entre homens e meninos.

 

BEN (IV)

Eram 9h10 da manhã de domingo — uma manhã luminosa e ensolarada. Ben começava a se preocupar seriamente com Susan quando o telefone ao lado da cama tocou. Ele o agarrou rapidamente.

— Onde você está?

— Relaxe. Estou no andar de cima com Matt Burke, que gostaria de ter o prazer de sua companhia assim que você puder.

— Por que não veio...

— Passei por aí ainda há pouco. Você dormia como um bebê.

— Eles sedam a gente à noite para roubar nossos órgãos e vendê-los a pacientes bilionários. Como está Matt?

— Suba e veja você mesmo.

Mal ela desligara, ele já vestia o roupão e saía do quarto.

 

Matt estava bem melhor, quase rejuvenescido. Susan, de vestido azul-turquesa, estava sentada ao lado dele. Quando Ben entrou, saudou-o com um aceno de mão e disse:

— Puxe uma pedra.

Ben puxou uma das cadeiras extremamente desconfortáveis do hospital e sentou.

— Como está se sentindo?

— Muito melhor, mas ainda um pouco fraco. Tiraram o soro ontem à noite e me deram um ovo poché no café da manhã. Ahrg. Preâmbulos do asilo para idosos.

Ben beijou Susan de leve e notou uma serenidade forçada em seu rosto, como se seu controle estivesse por um fio.

— Alguma novidade desde que você me ligou ontem à noite?

— Não soube de mais nada. Mas saí de casa às sete, e a cidade acorda um pouco mais tarde no domingo.

Ben olhou para Matt.

— Está disposto a conversar sobre isso?

— Acho que sim — disse ele. A cruz dourada que Ben colocara em seu pescoço cintilava sobre seu peito. — A propósito, obrigado pela cruz. Ela me passa muita segurança, mesmo tendo-a comprado no balcão de saldos da Woolsworth’s na tarde da sexta.

— Como você está?

— “Estabilizado” foi o termo pomposo que o Dr. Cody usou quando me examinou ontem à tarde. Segundo o eletrocardiograma, foi um ataque cardíaco menor, sem formação de coágulo. Espero, pelo bem dele, que tenha sido — resmungou. — Como aconteceu só uma semana depois do check-up que fiz com ele, eu o processaria por quebra de promessa. — Olhou para Ben. — Ele disse que casos assim podem ser causados por um grande choque emocional. Fiquei de bico calado. Fiz bem?

— Claro que sim. Mas a situação evoluiu. Susan e eu vamos falar com o Dr. Cody e contar tudo. Se ele não me der alta imediatamente, vamos mandá-lo falar com você.

— E vou lhe encher os ouvidos — disse Matt, mal-humorado. — O metido me proibiu de encostar no cachimbo.

— Susan já lhe contou o que aconteceu em Jerusalem’s Lot desde a noite de sexta?

— Não, ela preferiu esperar você chegar.

— Antes, gostaria de saber exatamente o que aconteceu na sua casa.

A expressão de Matt se fechou, e por um instante a máscara da convalescença caiu, e Ben voltou a ver o velho que encontrara dormindo no dia anterior.

— Se não estiver disposto...

— Não, claro que estou. Preciso estar, se metade das minhas suspeitas for verdadeira. — Ele abriu um sorriso amargo. — Sempre me considerei um livre-pensador, alguém que não se choca facilmente. Mas é incrível como a mente bloqueia algo que considera ameaçador. Como as lousas mágicas que tínhamos quando crianças. Se a gente não gostasse do desenho, era só puxar a superfície superior para que desaparecesse.

— Mas o contorno ficava no material debaixo para sempre — disse Susan.

— Isso mesmo. — Matt sorriu para ela. — Uma bela metáfora da interação entre consciente e inconsciente. É uma pena que Freud tenha preferido falar de cebolas. Mas estamos divagando. — Ele olhou para Ben. — Susan já lhe contou o que houve?

— Já, mas...

— Claro. Eu só queria saber se podia pular os antecedentes.

Ele contou a história com voz monótona, quase sem inflexão, parando apenas quando uma enfermeira entrou com passos sussurrantes para saber se ele queria um copo de ginger ale. Matt aceitou, e terminou a história enquanto sorvia o líquido pelo canudo. Ben notou que, quando ele chegou à parte em que Mike caía da janela de costas, os cubos de gelo tilintaram levemente no copo. Assim mesmo, a voz dele não se alterou — manteve a mesma tonalidade serena e modulada que ele devia usar na sala de aula. Ben pensou, e não pela primeira vez, que ele era um homem admirável.

Fez-se um silêncio depois que Matt terminou, e ele mesmo se interrompeu.

— E então? — disse ele. — Vocês que não viram nada com seus próprios olhos, o que acham dessa história?

— Falamos bastante sobre isso ontem — disse Susan. — Deixarei que Ben lhe conte.

Com certa timidez, Ben expôs cada uma das explicações razoáveis, descartando-a logo em seguida. Quando falou da tela que fechava por fora, da terra mole, da ausência de marcas de escada, Matt o aplaudiu.

— Bravo, detetive!

Matt olhou para Susan.

— E você, Srta. Susan, que escrevia redações tão bem organizadas, com parágrafos como tijolos e subtítulos como cimento? O que acha?                                                            

Ela olhou para as mãos, que seguravam uma prega da saia, e voltou a olhar para ele.

— Ontem Ben me deu uma aula sobre o sentido lingüístico da expressão não posso, e não vou usá-la. Mas é muito difícil para mim acreditar que vampiros estejam perambulando por ’salem’s Lot, Sr. Burke.

— Se pudermos dar um jeito de fazer isso discretamente, concordo em passar por um detector de mentiras — disse Matt baixinho.

Susan corou um pouco.

— Não, não me entenda mal. Estou convencida de que algo está acontecendo na cidade. Algo... horrível. Mas... isso...

Ele pousou a mão sobre a dela.

— Entendo, Susan, mas faça uma coisa por mim.

— Se eu puder...                                                                                                 

— Vamos raciocinar sob a premissa de que tudo isso é real. Vamos mantê-la até que algo prove sua falsidade. É o método científico. Ben e eu já discutimos como testar essa premissa. E ninguém deseja mais do que eu que seja descartada.

— Mas não acha que será, não é?

— Não — disse ele, serenamente. — Após uma longa conversa comigo mesmo, cheguei a uma decisão. Acredito no que vi.

— Vamos esquecer essas questões de crença ou descrença por um minuto — propôs Ben. — Por enquanto são controvertidas.

— Concordo — disse Matt. — Como acha que devemos prosseguir?

— Bom — disse Ben. — Quero indicá-lo como pesquisador-chefe. Com sua formação, é o mais preparado para essa função. E assim não precisará se deslocar.

Os olhos de Matt brilharam, como quando lembrou a perfídia de Cody por proibir seu cachimbo.

— Ligarei para Loretta Starcher assim que a biblioteca abrir. Ela me trará os livros nem que seja de carrinho de mão.

— Hoje é domingo — lembrou Susan. — A biblioteca está fechada.

— Ela terá de abri-la para mim — declarou Matt. — Ou terá de se explicar.

— Peça tudo que tenha a ver com o assunto — disse Ben. — Nas áreas de psicologia, patologia e mito. Entendeu? O pacote completo.

— Vou anotar tudo num caderno — disse Matt. — Deixe comigo! — Ele olhou para os dois. — Desde que acordei neste hospital, pela primeira vez me sinto um homem. E o que você vai fazer?

— Primeiro, falar com o Dr. Cody. Ele examinou Ryerson e Floyd Tibbits também. Podemos tentar convencê-lo a exumar Danny Glick.

— Será que ele fará isso? — Susan perguntou a Matt.

Matt deu um gole na ginger ale antes de responder.

— O Jimmy Cody que foi meu aluno faria sem hesitar. Era um menino imaginativo e de mente aberta, que detestava falsos dogmas. Até que ponto a faculdade de medicina o tornou um empirista, isso eu já não sei.

— Tudo isso me parece muito tortuoso — disse Susan. — Principalmente procurar o Dr. Cody e arriscar ouvir um não. Por que Ben e eu não vamos até a Casa Marsten e acabamos logo com isso? Era nosso plano semana passada.

— Vou lhe dizer o porquê — disse Ben. — Porque estamos trabalhando com a premissa de que tudo isso é verdadeiro. Quer mesmo colocar sua cabeça na boca do leão?

— Achei que vampiros dormissem durante o dia.

— Straker pode ser muitas coisas, mas não um vampiro — disse Ben. — A não ser que as antigas lendas estejam totalmente erradas. Ele tem se mostrado de dia constantemente. Na melhor das hipóteses, seríamos presos como invasores de propriedade privada. Na pior, ele nos subjugaria e manteria lá até o anoitecer. Um lanchinho para quando o Conde acordasse.

— Barlow? — perguntou Susan.

Ben encolheu os ombros.

— Por que não? Essa história de que está em Nova York fazendo compras para a loja é certinha demais para ser verdade.

Susan continuou com uma expressão obstinada, mas se calou.

— O que vai