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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A HORA SOMBRIA / Maya Banks
A HORA SOMBRIA / Maya Banks

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A HORA SOMBRIA

 

Ele esperava ter bebido bastante na noite anterior, assim poderia dormir direito hoje. Ao invés disso, seus olhos se abriram às 8 da manhã e a luz solar prontamente fritou suas retinas.

Ethan Kelly pôs um braço sobre o rosto e ficou lá, deitado, enquanto a realidade do dia o atingia como uma pedra no estômago.

16 de junho.

Ele poderia dizer algo incrivelmente sentimental como... 16 de junho, o dia em que seu mundo mudou irrevogavelmente. 16 de junho, o dia em que tudo foi para o inferno. A verdade era que tudo terminara muito antes.

O telefone tocou estridentemente sobre a mesinha de cabeceira, e ele suprimiu o desejo de esmagá-lo. Ao invés, escutou enquanto cada toque perfurava seu crânio como um picador de gelo.

Quando o telefone não deixou de tocar depois de um tempo razoável, esticou a mão e arrancou o fio da parede. Só poderia ser um bem intencionado membro de sua família, e a última coisa que Ethan queria hoje era a simpatia de alguém.

Se fosse seu pai, daria a Ethan um sermão sobre como Rachel não gostaria do homem no qual ele se transformou. Não, Rachel não gostava do homem que ele tinha sido. Havia uma enorme diferença. Ele não gostava do homem que ele tinha sido.

Frank Kelly continuaria falando que estava na hora de continuar com sua vida. Superar. Que ele já sofrera por tempo suficiente.

Se fosse um de seus irmãos chamando, o atormentariam sobre quando iria trabalhar para a KGI.

Tente nunca.

Sabendo que não existia nenhuma chance de voltar a dormir, com sua cabeça parecendo ter sido dividida em duas, lutou para chegar à extremidade da cama e fincou seus pés no chão.

Ele buscou o esquecimento, mas tudo que encontrou com a bebedeira foi que sua boca parecesse de algodão e um estômago que parecia ter ingerido chumbo.

E ainda tinha que enfrentar o dia de hoje.

Com os olhos fechados, apertou os dedos na têmpora e então cobriu seu rosto com as mãos. Com as palmas sobre as órbitas oculares, massageou-as como se assim pudesse apagar a nuvem que pairava em sua visão.

Rachel.

O nome sussurrou por sua mente cansada, evocando memórias das risadas, dos sorrisos de sua bonita esposa. Flutuavam ali como borboletas.

Mas rapidamente murcharam e se tornaram negras como se alguém tivesse queimado suas asas.

Rachel se foi.

Ela estava morta.

Não voltaria para casa.

Ele fez um esforço e saiu cambaleando da cama, em direção ao banheiro. Seu reflexo não o chocou, e não desperdiçou um momento espirrando água em seu rosto ou lavando a boca. Urinou e tropeçou para fora, a língua áspera raspando o céu da boca.

Precisava de uma bebida. De preferência algo que não o fizesse vomitar.

Mecanicamente, caminhou descalço através do chão de madeira para a sala de estar. Tudo estava da mesma maneira que ela deixou. A sala refletia sua personalidade. Tinha classe, era elegante e organizada.

Ele era um grosseirão, sem sofisticação.

Com um suspiro pesado, vagou para a cozinha, para fazer ele mesmo uma xícara de café. Talvez seu pai estivesse certo. Talvez estivesse na hora de deixar o passado para trás. Seguir em frente com sua vida miserável. Mas não estava certo se algum dia poderia perdoar-se por tê-la afastado.

Aguardou perto da cafeteira, esperando terminar de gotejar. Poderia vender a casa e se mudar para algo menor. Não fazia sentido mantê-la, uma vez que era só ele agora.

Precisava se mudar para algum lugar onde não se lembrasse dela em cada canto, entretanto, isto era parte de sua penitência. Ela não merecia ser esquecida e descartada, ainda que tenha sido isso o que ele fez.

Empurrou sua xícara adiante e despejou o café fumegante. Então se encaminhou lentamente para a mesa de vidro que ficava no deck de trás. Sentou-se e olhou para a paisagem que sofreu ao longo do ano passado. Rachel e a mãe dele planejaram meticulosamente cada detalhe, plantando e retirando as ervas daninhas por muitas horas. Ethan ajudava — quando estava em casa.

Frequentemente ficava fora por semanas a fio. As missões sempre inesperadas, secretas. Deixava Rachel sem que ela nunca soubesse para onde iria ou se retornaria. Não era uma boa maneira de se viver.

Ele pediu baixa de seu posto depois que Rachel perdeu o bebê. Durante os dois anos em que foram casados, falhou muito com ela, e jurou que não faria isto novamente. Mas ele o fez.

Esfregou seus olhos, em seguida deixou a mão descansar demoradamente sobre a barba de três dias que aparecia em seu queixo. Ele estava destroçado.

Um flash de pêssego chamou sua atenção. Olhou o vaso de rosas que comprou ontem. Eram as favoritas de Rachel. Não muito laranja, não muito rosa, ela sempre dizia. Um tom perfeito de pêssego. Deveria levá-las para o túmulo dela, mas não estava certo se poderia suportar estar sobre a fria laje de mármore e dizer-lhe pela quadragésima vez que sentia muito.

Tão rápido quanto o pensamento ardeu em sua mente, torceu seus lábios em desgosto. Ele iria. Era o mínimo que poderia fazer. Nas semanas que antecederam o aniversário de um ano de sua morte, ele evitou o cemitério. Não deveria surpreendê-lo estar disposto a fugir de suas responsabilidades. Ele tinha prática nisso.

Empurrou a xícara de café através da mesa, derramando o líquido sobre ela. Ignorando a bagunça, voltou ao quarto e pegou uma calça jeans e uma camiseta. Precisava de um banho e barbear-se, mas não perderia tempo fazendo nenhum dos dois. Se sua aparência afastasse as pessoas, melhor. Ficar de conversa fiada e trocar gentilezas não estavam em seus planos.

De volta à cozinha, parou em frente ao vaso de rosas. Com dedos trêmulos, tocou uma das suaves pétalas. Não comprava flores para Rachel havia muito tempo. Não desde o seu primeiro ano de casamento. O que isso dizia sobre ele as comprar agora?

O remorso era duro o bastante para um homem suportar, mas tolerar o conhecimento de que nunca poderia corrigir os erros era mais do que poderia aguentar.

Agarrou o vaso, o desgosto por si mesmo o deixou mais enjoado que o álcool azedo rodando por sua barriga. Agarrou as chaves e caminhou duramente em direção à porta da frente, determinado a ir ao túmulo dela, encarar o passado e fazer as pazes com o presente.

Quando abriu a porta, deu de cara com um entregador do FedEx[1]. Não estava certo de quem ficou mais surpreendido, ele ou o sujeito do FedEx, mas a julgar pela forma como o homem deu um passo para trás, Ethan achou que não parecia muito receptivo.

— Você é Ethan Kelly? — O sujeito perguntou nervosamente.

— Sim.

— Tenho um pacote para você.

— Só deixe por aí, — Ethan disse, gesticulando em direção à cadeira de balanço na varanda. Estava impaciente para ir e parecia bastante estúpido lá de pé, segurando um vaso de rosas.

— Eu, uh, preciso de sua assinatura.

Ethan capturou o grunhido antes dele escapar e pôs as flores na grade da varanda. Gesticulou impacientemente pedindo a caneta e rabiscou sua assinatura na unidade eletrônica de mão.

— Obrigado. E aqui está seu pacote.

O sujeito empurrou um envelope espesso na mão de Ethan e apressadamente desceu os degraus. Com um aceno, entrou no furgão de entrega e rugiu para fora do pátio.

Ethan relanceou o envelope, mas não viu imediatamente qualquer informação de identificação. Inclinou-se para dentro da casa e o lançou na pequena mesa do hall de entrada. Em seguida, bateu a porta e pegou o vaso.

Quando chegou à pequena igreja que sua família frequentava por décadas, seu estômago rebelou-se. Era velha, caiada[2] de branco e situada à beira da estrada de cascalho de caminho batido. O cemitério era adjacente à igreja e era onde seus antepassados estavam enterrados desde o final do ano de 1800.

Saiu de sua caminhonete, engoliu em seco e então seguiu pelo caminho desbastado até a cerca que separava o terreno do cemitério.

As rosas sacudiram em seu aperto, várias pétalas caíram e foram capturadas pela brisa. Rodaram loucamente e sopraram através da coleção de lápides de mármore.

Sua mãe esteve aqui. Provavelmente esta manhã. Havia flores frescas e a lápide de Rachel brilhava no sol do meio da manhã.

Rachel Kelly. Amada esposa, irmã e filha.

Eles a amavam. Sua família inteira a adorava. Seus irmãos costumavam importuná-lo, dizendo que se ele não fosse cuidadoso, eles a tirariam dele.

Sentiu seu estômago revirar. Ácido subiu, queimando por seu tórax. Por que pensou que poderia retornar ao lugar onde disse adeus para sua esposa? Sua família se reuniu a sua volta naquele dia, a mão de sua mãe em seu braço, seu pai de pé ao seu lado, parecendo a todo mundo que se quebraria e choraria a qualquer momento.

Ele odiava este lugar.

Abaixou-se e colocou as rosas próximas à lápide. Lágrimas queimavam seus olhos e ele cerrou a mandíbula, determinado a não se permitir dar rédea solta a suas emoções. Ele não chorou. Não desde que recebeu sua aliança de casamento pelo correio. Os únicos pertences pessoais recuperados do impacto. Um impacto que tomou as vidas do pequeno grupo de ajuda humanitária que voava para casa, voltando da América do Sul.

Não, não choraria novamente. Se começasse, nunca pararia, e ele bem poderia perder o tênue controle de sua sanidade, finalmente.  A frieza lhe convinha muito melhor. Sabia que sua família pensava que era insensível. Ele nunca permitiria que alguém visse como estava profundamente afetado pela morte de Rachel. A verdade era que não podia compartilhar suas lembranças com ninguém.

Ele ficou lá, mãos enfiadas nos bolsos, olhando fixamente para o lugar onde Rachel descansava. Sobre sua cabeça, o sol estava alto, batendo implacavelmente sobre ele. Mas sentia-se congelado.

— Sinto muito — ele sussurrou. — Se eu pudesse voltar atrás, eu o faria. Se eu tivesse apenas mais uma chance. Nunca deixaria passar um dia sem que te mostrasse o quanto eu te amo.

O conhecimento de que nunca teria outra chance o paralisava. O fato que ele tinha fodido a melhor coisa da sua vida... não tinha palavras para descrever a agonia.

Incapaz de permanecer ali outro minuto, virou-se e caminhou rigidamente de volta para sua caminhonete. A volta para casa foi tranquila. Ele bloqueou tudo, exceto a estrada a sua frente. O entorpecimento era algo com o qual podia lidar.

Caminhou de volta para casa, concentrado e ainda mais quieto enquanto fechava a porta. O pacote do FedEx abandonado, mas passou por ele, seu único desejo agora era tomar um banho e tirar de si o cheiro azedo da bebedeira.

Vinte minutos mais tarde, sentou-se na extremidade da cama e abaixou a cabeça enquanto tentava acalmar seu agitado estômago. O banho ajudou. Um pouco. Mas não o livrou da cabeça dolorida e do estômago doente.

Se não quisesse enfrentar sua mãe, tomaria um pouco de sua sopa. Ela não merecia vê-lo de ressaca e parecendo um merda. Isso a chatearia e faria com que seus pais ficassem ainda mais preocupados do que já estavam.

Caiu de volta sobre o colchão e fechou os olhos. Paz. Ele só queria paz.

 

Quando Ethan abriu novamente os olhos, o quarto estava escuro. Inspirou profundamente e testou a firmeza de seu estômago. Não sentiu vontade de vomitar imediatamente, assim considerou uma vitória.

Olhou brevemente a janela para ver que a noite havia caído. De alguma maneira conseguiu dormir a tarde inteira. Não que estivesse reclamando. Isso significava que estava mais próximo de deixar o dia 16 de junho para trás.

Seus músculos protestaram quando arrastou-se da cama. Alongou e rolou os ombros enquanto entrava na cozinha. Seu estômago rosnou, outra coisa que considerou como um sinal positivo.

Fez um sanduíche, encheu um copo de água e foi para a sala de estar. Não se incomodou em acender a luz, sentou-se no sofá e comeu na escuridão.

Brevemente considerou terminar a bebida alcoólica que comprou no dia anterior, mas significaria começar tudo de novo amanhã e, eventualmente, sua família ficaria cansada de seu afastamento e procuraria por ele.

Empurrou a última mordida de seu sanduíche na boca quando seu olhar encontrou o envelope do FedEx largado na mesa do pequeno hall de entrada. Fez uma carranca quando lembrou do encontro com o sujeito da entrega.

Deixando seu copo na mesa de café, caminhou para pegar o envelope pesado. Quando retornou ao sofá, rasgou o lacre. Acendeu a luz, voltou para o sofá e deslizou sua mão dentro do robusto envelope Tyvek[3].

Tirou uma pilha de papéis com diferentes tamanhos e formas. Alguns possuíam documentos de tamanho oficial, enquanto outros eram recortes de jornal. Também havia gráficos, coisas que pareciam imagens de satélite e coordenadas de GPS.[4]

Recebeu material da KGI por engano? Seguramente seus irmãos não cometeriam um erro desses. Ninguém que eles conheciam deveria sequer ter seu endereço, mas este material parecia oficial. Parecia militar.

Havia fotografias. Várias derramaram-se sobre seu colo e sobre o sofá. Quando escolheu uma, seu coração vacilou e toda a respiração deixou seu tórax com uma pressa dolorosa.

Era a fotografia de uma mulher, obviamente uma prisioneira, em algum buraco de merda de acampamento na selva. Se Ethan tivesse que adivinhar, colocaria suas apostas na América do Sul ou talvez Ásia. Algum buraco fodido como Camboja.

Dois homens flanqueavam a mulher na fotografia e ambos carregavam armas de fogo. Um deles agarrava seu braço, e ela parecia aterrorizada.

Não foi isso que explodiu em sua mente como uma serra elétrica.

A mulher se parecia com Rachel. Sua esposa Rachel. Rachel que estava morta. Rachel que ele acabara de visitar no fodido cemitério.

Que tipo de piada pervertida era aquela?

Vasculhou a pilha de papéis, à procura de algo que fizesse sentido. Talvez um bilhete ofensivo de algum pervertido procurando encrenca.

Quando topou com a pequena nota manuscrita, congelou. Todo o sangue deixou seu rosto.

Quatro simples palavras.

Sua esposa está viva.

Era um pontapé direto nas bolas. A ira surgiu em suas veias como lava borbulhante. Amassou a nota e lançou-a através da sala. Ela saltou pelo chão e aterrissou debaixo da televisão.

Quem diabos iria atacá-lo com um golpe como este e por quê?

Arrebatou novamente a fotografia e então mais uma. Reuniu todas, suas mãos tremiam tanto, que as fotos se espalharam como se fossem um castelo de cartas.

Amaldiçoando, ajoelhou-se para apanhá-las de debaixo da mesa de café. Algumas deslizaram sob o sofá, e muitas mais estavam presas entre as almofadas.

Também havia documentos dispersos por todos os lugares. Gráficos, mapas, um monte de porcaria que não fazia o menor sentido para ele.

Controle-se. Não deixe este merda chegar até você.

Embora dissesse a si mesmo que era alguma brincadeira mórbida, não podia controlar a raiva. Esperança. Medo. Ira. Fúria impotente. Esperança. Contra sua maldita vontade. Esperança.

Enrolou seus dedos em torno dos documentos, enrugando-os com a força de seu aperto. Os retratos o olhavam fixamente, zombando dele. Era Rachel. Todas eram de Rachel.

Mais magra, assustada. Seu cabelo estava mais curto, seus olhos mais vagos. Mas era Rachel. Um rosto e um corpo que lhe eram intimamente familiares.

Quem faria isto? Por que alguém faria uma brincadeira tão elaborada só para foder com ele no aniversário de um ano da morte dela? O que possivelmente podiam esperar ganhar?

Forçou-se a olhar além da mulher assustada e frágil do retrato, porque se continuasse olhando fixamente, e se pensasse que realmente era Rachel, sua esposa, ele iria vomitar.

Os outros documentos ficaram borrados em sua vista e ele enxugou furiosamente seus olhos, para que o que estava segurando pudesse fazer sentido. Forçou-se a ficar tranquilo. Esforçou-se ao máximo, mas desligou suas emoções e estudou os documentos com a frieza necessária para permanecer objetivo.

Apressadamente espalhou tudo na mesa de café, posicionando o que ele podia ajustar, e então enfileirou o resto sobre o sofá.

O mapa apontava para uma área distante da Colômbia, mais ou menos a cinquenta quilômetros da fronteira venezuelana. As fotografias de satélite mostravam a densa selva cercando a aldeia minúscula, se pudesse chamar aquilo de aldeia. Era nada além de uma dúzia de cabanas construídas com parte bambu e parte folhas de bananeira.

Atenção especial foi dada para as torres de guarda e para as duas áreas onde as armas eram armazenadas. Por que diabo um buraco assim necessitaria de torres de guarda e munição suficiente para sustentar um pequeno exército?

Cartel de Drogas.

Olhou novamente a fotografia da mulher.

Rachel.

Seu nome flutuou sorrateiramente em sua mente.

Parecia ela. Fazia sentido que pudesse ser ela. Se não fosse o fato que seus restos mortais foram transportados para casa junto com sua aliança de casamento.

Nenhum teste de DNA foi feito.

Náusea surgiu em sua barriga até que ele fisicamente sufocou.

Não. Nenhum jeito no inferno ele aceitaria cegamente a morte de sua esposa enquanto ela estava presa, suportando sabe-se lá Deus o que, de homens que não tinham nenhuma compunção sobre aterrorizar uma mulher inocente.

Ela foi identificada só pelos bens pessoais supostamente recuperados com seus restos mortais. O fogo tornou até a identificação pelo seu registro dentário um ponto discutível. A explosão incinerou tudo em seu caminho. Tudo exceto os anéis curvados, disformes e os restos chamuscados de sua mala. Metade de um passaporte derretido foi encontrado nos destroços. Seu passaporte. Era o voo que ela tomou e não existia nenhum sobrevivente. Ethan nunca pensou em questionar isto.

Jesus, ele não questionou a morte de sua esposa.

Agitou sua cabeça furiosamente. Caramba, estava se deixando levar. Tinha que ter alguma outra explicação. Alguém estava bagunçando com sua cabeça. Não sabia por quê. Não se importava.

Esquadrinhou o resto dos documentos. Horário da troca de guarda. Horário do carregamento de droga. Que diabo? Certamente parecia que alguém queria que eles fizessem o trabalho. Gritava “armação”.

Coordenadas de GPS. Fotografias de satélite. Mapas topográficos. Quem quer que os tenha enviado, eram completos.

Se isto fosse real, estas informações faziam desses idiotas alvos fáceis. Os Escoteiros poderiam montar um assalto ao acampamento que levaria apenas cinco minutos.

Sua esposa está viva.

Ele relanceou a sombra do pequeno pedaço de jornal enrolado que estava debaixo da televisão.

Quatro palavras. Somente quatro simples palavras.

Ele odiou a esperança daquela pulada de vida dentro dele. Seu coração batia como uma britadeira dentro de seu tórax. Sua pulsação corria tão rápido que ele se sentiu tonto, quase como na noite anterior quando apagou quaisquer pensamentos racionais com bebida alcoólica realmente barata.

Só que hoje à noite estava completamente sóbrio.

Não. De jeito nenhum. Não permitiria que o pequeno vislumbre de esperança abrisse seu caminho em meio a um ano de pesar. Esta merda não acontecia na vida real. Segundas chances não eram dadas às pessoas, de bandeja.

Ele rezou por um milagre por mais tempo do que se importava admitir, mas suas orações não tiveram resposta. Ou tiveram?

— Você está se perdendo, — ele murmurou.

Finalmente estava perdendo os últimos fragmentos de sanidade. Era assim que se sentia no fim da estrada? Tudo o que restava para ele era começar a latir para a lua?

Esfregou o rosto e então a parte de trás do pescoço. Então olhou fixamente para as informações espalhadas a sua frente como um mapa rodoviário. Um mapa para sua esposa.

Ele queria acreditar nisto. Seria o pior tipo de idiota se desse a isso qualquer credibilidade. Mas poderia descartar todas estas informações sem ao menos mostrá-las a seus irmãos?

Inferno, eles mantinham a KGI. Chutavam traseiros para viver. Não existia uma operação militar que não pudessem montar. Encontravam pessoas que não queriam ser encontradas. Salvavam pessoas de situações impossíveis. Livravam reféns. Seguramente, um minúsculo posto do cartel de drogas, no meio do nada, Colômbia, seria um passeio no parque para uma organização como a KGI.

Oh Deus, eles achariam que ele finalmente ficou louco. Eles o internariam.

Mas e se não for brincadeira?

O pensamento estava preso na garganta. Tinha dentes. Não se soltava.

Passou a noite inteira girando pelo material, documento após documento, mentalmente compilando as imagens em sua cabeça até que estivessem tão arraigadas que ele poderia ver a combinação em seu sono. O conhecia intrinsecamente, sabia onde cada cabana estava, onde as torres de guarda estavam posicionadas. Sabia quando mudariam a guarda, o horário de carregamento de droga. Até quando levariam sua prisioneira e a moveriam para uma cabana diferente.

Tinha que estar preparado. Seus irmãos poderiam pensar que estava louco. Não poderia realmente culpá-los se o fizessem. Uma coisa ele sabia com certeza. Com ou sem eles, iria atrás de sua esposa.

Se ela estivesse lá... se ela estivesse viva... ele a traria para casa.

 

Não existia roteiro para momentos como este. Nada em seus anos no exército o preparou para esta série de acontecimentos estranhos. Mesmo enquanto tentava por a esperança de lado em seu peito, ela vivia e respirava dentro de sua pele.

Ethan estacionou sua caminhonete na calçada da casa do lago de seu irmão Sam, então estendeu a mão sobre o banco para agarrar o envelope contendo todas as informações sobre o paradeiro de Rachel.

Eles ficariam surpresos ao vê-lo. De fato, Sam, Garrett e Donovan estariam lá dentro, provavelmente planejando uma incursão à casa de Ethan. Estavam atrás dele há meses, para que fizesse parte de seu grupo de operações especiais, KGI. Tudo em seu plano para empurrá-lo firmemente de volta a terra dos vivos.

Um pacote da FedEx fez o que seus irmãos não conseguiram fazer.

Pela primeira vez, sentia algo diferente, além de culpa ou pesar. Estava furioso. Muito, muito furioso.

Controlou aquela ira e a manteve próxima, precisando dela para a confrontação iminente. Seus irmãos iriam pensar que tinha ficado louco. Eles eram sua única esperança, portanto, teria que convencê-los que Rachel estava viva.

Saiu da caminhonete e olhou em direção ao lote adjacente onde o centro de comando estava localizado. A cabana de Sam, construída de tronco rústico, estava aconchegada as margens do Lago Kentucky. Era de última geração, completamente decorada, seiscentos metros quadrados. O edifício alojava os escritórios do Kelly Grupo Internacional (KGI).

Era onde Sam, Garrett e Donovan, irmãos mais velhos de Ethan, praticamente viviam. Eles dormiam no centro de comando mais frequentemente que em casa.

Ethan foi para lá primeiro. A última coisa que ficou sabendo, era que uma das equipes da KGI estava fazendo uma missão de reconhecimento, o que significava que seus irmãos não se aventurariam para longe da sala de comunicações.

A instalação era impenetrável, graças a um sistema de segurança de alta tecnologia. O local era gracioso e aparentemente inocente, e era por isso que Sam gostava tanto. Ninguém suspeitaria que operações militares eram planejadas e executadas na zona rural do Condado de Stewart.

Ethan parou em frente ao teclado e teve que pensar muito para lembrar do código de segurança. A última coisa que queria era digitar o código errado e ter seus irmãos em cima dele.

Depois que apertou uma série de códigos, a porta se abriu e ele entrou. Sam e Garrett estavam esparramados nos sofás no meio da sala, enquanto previsivelmente, Donovan estava operando o sistema de computador chamado Hoss.

Ethan andou a passos largos, mostrando determinação. Não ganharia nada parecendo um covarde, fraco. Sam olhou para cima quando ouviu Ethan, e seu olhar era de surpresa. Chutou a perna de Garrett que descansava na mesa de café e gesticulou em direção a Ethan.

— Já era hora de você tirar a sua carcaça daquela casa — Sam falou pausadamente.

Donovan rodou em sua cadeira, e seu olhar surpreso encontrou o de Ethan.

— Ei, cara, é bom ver você.

— Você parece uma merda ,— Garrett disse abruptamente. — Quando foi a última vez que dormiu?

Ethan ignorou as gentilezas e as observações de Garrett.

— Eu preciso da ajuda de vocês.

As sobrancelhas de Sam se juntaram e ele olhou fixa e atentamente para Ethan. Seu olhar o varreu de cima abaixo, assimilando cada detalhe de sua aparência. Quando falou, sua voz estava calma, mas firme.

— Você sabe que tudo que tem que fazer é pedir.

Ethan lambeu os lábios e controlou o desejo de soltar tudo de uma só vez.

— Eu preciso da ajuda da KGI.

Os pés de Garrett bateram no chão e ele levantou-se.

— O que está errado? Você está em algum tipo de dificuldade?

A confiança de Garrett imediatamente o irritou. Sam poderia ser o mais velho, mas Garrett era um urso super protetor quando se tratava da família. Ficaria louco quando soubesse sobre Rachel. Especialmente porque os dois eram muito próximos.

Ethan olhou para baixo, para o envelope espesso em sua mão, a dúvida nublando sua mente. Isto era loucura. Como poderia convencer seus irmãos quando ele quase não podia acreditar? Mas se fosse verdade... se existisse até a chance mais remota de que ela estivesse viva, teria que mover céus e terra para descobrir. Simplesmente não existia outra alternativa.

O nó em seu estômago ficou maior, e finalmente empurrou o envelope em direção a Garrett. Sam levantou-se rapidamente do sofá e o tomou antes de Garrett. Donovan e Garrett colaram em Sam para examinar, por cima de seu ombro, o material que Sam começou a puxar.

— Que diabo é tudo isso?— Sam exigiu enquanto embaralhava os gráficos, mapas e coordenadas de GPS. Quando alcançou as fotografias de Rachel, as expressões de Garrett e Donovan congelaram. A carranca de Sam aumentou, feroz, e ele olhou fixamente para Ethan.

— Onde conseguiu isto?

— Foi entregue ontem junto com uma nota dizendo que Rachel está viva.— Ethan apontou para a pilha de documentos e fotografias que Sam segurava. — Isso era a prova.

Maravilhou-se de como soava tranquilo. Tão composto. Como se ouvir que a mulher que acreditava estar morta, estava viva, fosse uma ocorrência comum.

Garrett xingou violentamente, e Donovan... ele olhou para Ethan com olhos tristes e compreensivos. Ethan odiou aquele olhar. Era como se lhe recomendasse um bom analista.

Sam estava ainda estudando as fotografias, sua sobrancelha enrugada em concentração.

— Se parece com Rachel,— ele disse devagar, como se fosse doloroso dizê-lo, admitir que talvez Ethan fosse insano.

— É Rachel,— Ethan disse, impaciente. — Acredite-me, eu já passei por tudo isso. Fiquei a noite toda em cima disso, dizendo a mim mesmo que era algum tipo de piada doentia. Mas e se não for? Posso jogar tudo isso fora e fingir que nunca os recebi? Meu Deus, se ela estiver viva... se esteve num buraco dos infernos por um ano...

Ele cessou bruscamente, seu tórax levantando como se tentasse recuperar o controle de si mesmo. Dobrou e desdobrou seus dedos pelo horror desse pensamento, repetindo em sua cabeça. Rachel. Viva. Mantida prisioneira e sujeita a sabe-se lá Deus o quê.

— Sam, você tem que me ajudar. Eu preciso da KGI para isso. Para quem mais vou pedir? Ninguém mais vai acreditar em mim. Você quer que eu venha trabalhar com você para sempre. Faça isto por mim, me ajude, e eu sou seu.

Sam amaldiçoou e agitou a cabeça. Garrett fez uma carranca. O rosto retorcido de Donovan parecia que tinha acabado de chupar um limão.

— Isto não é sobre você vir trabalhar conosco, cara, — Sam começou. — Eu não o manipularia assim. Merda, estou tentando conseguir entender tudo isso. Você sabe que parece muito improvável que Rachel esteja viva depois de todo esse tempo? Você sabe disso, certo, Ethan? Ainda não se convenceu de que ela esteja viva, não é?

Ethan lutou para manter sua expressão neutra. Ele queria rosnar, queria ficar irado, e maldição, queria ação. Queria tudo isso agora. Queria sair de sua pele. Como seus irmãos conseguiam ficar na frente dele tão tranquilos, tão racionais quando deveriam estar planejando o salvamento de Rachel?

— Cristo, você está,— Garrett murmurou.

— Ethan,— Donovan começou com sua voz calma. — Você tem que saber, isto é provavelmente só uma brincadeira. Alguma piada doentia. Poderia até ser alguém com um rancor contra a KGI. Que caminho melhor para nos colocar na linha de fogo que balançar Rachel na nossa frente desse jeito?

Sam severamente movimentou a cabeça.

— Nós certamente temos que tratar isto como uma possível ameaça.

Ethan explodiu em ira. Ele pegou Sam, agarrando sua camisa e colando em seu rosto.

— Esta é a minha esposa, lá em um buraco de merda. Não estamos conversando sobre algum refém sem nome ou algum político sem importância. Esta é Rachel. Com ou sem sua ajuda, vou buscá-la.

— Tire suas mãos de mim, Ethan, — Sam disse calmamente. Olhou fixamente de volta para Ethan, sua expressão ilegível. Não existia raiva ou julgamento em seus olhos, e talvez isso tenha aborrecido Ethan ainda mais.

Ethan lentamente abriu seus dedos e então empurrou Sam, soltando um som de desgosto. Começou a ir embora, mas se achou em uma chave de braço. O braço de Garrett apertava ao redor de seu pescoço, e arrastou Ethan de volta através da sala. Soltou seu aperto e o empurrou sobre o sofá.

Ethan tropeçou e caiu esparramado sobre as almofadas. Teria se levantado, mas Donovan prontamente se sentou em cima dele.

— Maldição, saia de cima de mim! — Ele queria bater em algo, em alguém. Deixou-se perder na ira que estava rapidamente estourando, perdendo o controle a cada segundo que passava.

Piscou quando o rosto de Sam entrou em foco, seus narizes separados por centímetros.

— Escute, irmãozinho. Se você pensa que nós vamos deixar Rachel naquele buraco de merda, pense novamente. Mas eu não vou arriscar minha equipe, meus irmãos, agindo prematuramente, sem nenhuma atividade de inteligência ou reforço, entendeu?

Ethan fechou os olhos. Não era estúpido. Desesperado, sim. Estúpido, não. Sabia que não podiam irromper tempestivamente numa floresta Sul-americana, atirando para todos os lados, e começar uma guerra, não importava que sua esposa estivesse cativa por um grupo de idiotas.

Confirmou com a cabeça e sentiu Sam mudar de lugar. Donovan liberou Ethan, que rolou para fora do sofá, sobre o chão, o tapete suave debaixo de seus joelhos.

— Eu conseguirei Steele para isso, — Garrett disse. — Ele e sua equipe estão acabando um reconhecimento na América do Sul. Posso conseguir imagens de satélite baseadas nas coordenadas que você tem. Se aqueles sujeitos fizerem xixi do lado de fora da cabana, poderemos dizer o tamanho de seus paus.

Sam assentiu.

— Precisamos de fotografias. Precisamos de números. Precisamos confirmar cada pedaço dessas informações. Não iremos até que eu esteja seguro de que não estamos indo precipitadamente para uma emboscada.

Ethan permaneceu lá, de joelhos, assistindo enquanto seus irmãos calmamente faziam o que faziam melhor — planejar uma operação militar. Só que desta vez não estavam salvando um refém sem nome ou recuperando um fugitivo.

O entorpecimento o agarrou. Tudo se movia ao seu redor em câmara lenta. Uma mão firme agarrou seu ombro e Ethan lentamente girou, seu rosto para cima, até que encontrou o duro olhar de Garrett.

— Se ela estiver lá, nós a tiraremos. Você sabe disso, cara.

— Sim, eu sei, — Ethan disse quase sussurrando. Então ficou quieto, irritado por sua paralisia. — O que eu posso fazer? — Ele exigiu. Precisava fazer algo ou ficaria louco.

Sam o olhou, seu comportamento tranquilo, mas seus olhos o traíram. Existia um severo cintilar. Raiva. Algo com o qual Ethan podia se identificar.

— Precisamos de um plano de extração. Por que você não segue com Van, pega alguns mapas e aprende tudo o que puder sobre o aspecto do terreno. Carregue imagens de satélite do Hoss enquanto eu pego pelos chifres alguns dos meus contatos. Tenho um sujeito no DEA[5] que deve ser capaz de me dizer se entraremos no meio de uma guerra de drogas.

Ethan contraiu os lábios e olhou lateralmente para Donovan.

— Você quer dizer que eu posso tocar no Hoss? — Ele relaxou um pouquinho. Tinha toda fé em Sam e na KGI. Empregavam algumas das mentes militares mais brilhantes do mundo. Podiam fazer isto. Logo Rachel estaria em casa. Em breve.

Donovan grunhiu.

— Não. Eu tocarei. Você só se senta e olha. Não quero você fodendo com meu computador.

— Isso é o mais próximo que ele chega de um caso amoroso —, Sam murmurou. — Acho que até gozou nas calças quando compramos a coisa.

— Ha, ha. Você é um ótimo comediante, — Donovan disse enquanto sacudia Sam. Ele se moveu até Ethan. — Vamos, irmãozinho. Mostrarei a você os reais cérebros por trás da KGI. Aquele estúpido ali não consegue nem limpar o traseiro sem que eu diga quando e como.

Ação. Algo para fazer. Algo para manter sua mente fora do fato que, agora mesmo, neste momento, Rachel estava apavorada e sozinha. E pior, pensando que ele nunca iria resgatá-la.

 

Trêsdias mais tarde, o centro de comando parecia justamente como seu nome sugeria. Havia imagens de satélites e mapas por todas as superfícies, inclusive no chão. Donovan sentado no computador, sua sobrancelha unida em concentração, enquanto Sam falava em tom baixo com Steele no link do satélite.

Garrett permanecia na mesa de planejamento de Ethan enquanto os dois estudavam as fotografias do acampamento que puseram junto com imagens de satélite e também com as fotografias tiradas por um de seus homens no chão.

Ethan olhou para Sam quando este caminhou de volta.

— E aí? Já fizeram uma identificação positiva?

Sam estava próximo a Garrett e levantou uma das fotografias.

— As coisas estão quietas lá. Muito quietas. Steele chegou lá dois dias atrás e tem feito a segurança em turnos com sua equipe. Eles viram a mulher em questão duas vezes.

Ethan inclinou-se para a frente, colocando suas palmas na mesa.

— Então ela está lá. Ela está viva.

Sam hesitou.

— Não é isso que estou dizendo, cara. Não sabemos se é ela.

— Besteira. Você está me dizendo que Rachel tem uma irmã gêmea no mesmo lugar em que foi fazer sua missão há um ano atrás?

Garrett e Sam trocaram olhares.

— Eu só não quero que você eleve suas expectativas, Ethan, — Sam disse. — Concordamos que quem quer que seja a mulher, é óbvio que não está lá por escolha, e o fato de que se assemelha fortemente a Rachel é suficiente para que a tiremos de lá.

Os ombros de Ethan afundaram em alívio.

— Quando? — Ele perguntou. Já gastaram três dias, três agonizantes e longos dias, esperando por informações, dados, fotografias de satélite e o reconhecimento de Steele.

E então outro pensamento o bateu.

— Você não vai me deixar fora disso. — Não era uma pergunta. Não existia nenhuma dúvida. Ele não ficaria aqui enquanto a KGI ia atrás de Rachel.

— Para sermos honestos pensamos sobre isto, — Garrett admitiu. — Mas também sei que se fosse minha esposa, de nenhum modo no inferno alguém me manteria fora da missão. Então sim, você irá, mas vai manter sua cabeça no lugar. Você ficou sem ação durante algum tempo e tem um interesse pessoal nisso.

Ethan assentiu, a adrenalina correndo em suas veias.

— Quando? — Ele perguntou novamente.

— Assim que estivermos seguros que sabemos exatamente no que estamos entrando, — Sam disse. — Steele está no terreno com sua equipe. Ele está posicionado, então temos uma circunferência apertada em torno do acampamento. Assim que eu tiver um helicóptero pronto para a extração e tudo estiver engrenado, pegaremos o jato para o México. Lá tomaremos o helicóptero para a Colômbia e cairemos na selva. Vai ser difícil, mas poderemos fazer.

Garrett apertou a mandíbula.

— Inferno sim, podemos.

— Acabei de receber um e-mail de Beavis e Butt-Head[6] — Donovan disse por cima do ombro. — Diremos a eles o que está acontecendo?

Ethan fez uma careta. Os dois irmãos mais jovens dos Kelly, Nathan e Joe, estavam ainda ativos no exército e atualmente posicionados no Afeganistão. Ethan estava certo que Sam e os outros provavelmente mantiveram os gêmeos atualizados nos assuntos da KGI, mas a última coisa que precisava era que os gêmeos se preocupassem e ficassem distraídos enquanto estavam lutando em uma zona quente.

— Não, — ele e Sam disseram ao mesmo tempo.

Sam olhou para Ethan e balançou a cabeça.

— Não há nenhuma razão para dar esperanças a alguém quando não temos certeza se Rachel está viva.

— Então o que vamos dizer ao Papai? — Garrett perguntou.

Donovan girou em sua cadeira para se sintonizar mais na conversa.

— Direi a ele que é uma missão secreta, — Sam disse com um encolher de ombros. — Não que não tenhamos uma dúzia dessas.

— Sim, mas o que vai dizer a ele quando notar que nosso desmancha-prazeres não está resistindo mais? — Donovan perguntou levantando seu dedo polegar em direção a Ethan.

Ethan virou-se desconfortavelmente quando todos os três irmãos enfocaram seus olhares nele.

— Diremos que ele não está resistindo mais,— Garrett disse. — Papai ficará contente em ouvir isto. Ele está preocupado com Ethan.

Donovan assentiu e voltou para o computador. O link do satélite bipou e Sam caminhou de volta para o receptor.

— Temos reforços? — Ethan perguntou a Garrett em voz baixa. Por mais que quisesse Rachel de volta, segura e em seus braços, não queria arriscar as vidas de seus irmãos com uma extração perigosa. As coisas podiam e davam errado o tempo todo.

Garrett grunhiu.

— Não mentirei para você, cara. Este tipo de operação normalmente precisa de muito mais planejamento. Não temos o apoio e a força de trabalho do governo para isso. Não é tão fácil levantar o telefone e pedir por merdas como essas, quando somos contratados pelo Tio Sam. Se começarmos uma maldita guerra com a fodida Colômbia, nossos traseiros estarão na mira e não existirá ninguém lá para nos resgatar.

— Eu sei que não deveria ter pedido, — Ethan disse quando olhou fixamente de volta para seu irmão. — Mas eu tinha que pedir. Não posso deixá-la lá.

Os olhos do Garrett ficaram frios.

— Inferno não, não a deixaremos lá. Nós a recuperaremos, Ethan. Ninguém fode com os Kelly.

Ethan abriu um sorriso e então bateu seu punho contra o de Garrett.

— Tudo certo, temos um horário de partida, — Sam disse quando retornou.

Donovan rodou em sua cadeira novamente.

— Estou carregando os mapas locais em nosso GPS junto com as imagens digitais que Steele capturou. Estou quase pronto.

Ethan se debruçou adiante.

— Quando?

Garrett e Donovan também olharam para Sam.

— Encontraremos com o cara do helicóptero no México em quarenta e oito horas. De lá voaremos para a Colômbia, caímos, pegamos Rachel, então caímos fora. Rio e sua equipe ainda estão na Ásia, mas estarão se dirigindo para a América do Sul o mais rápido possível. Ele será nosso reforço se precisarmos.

— Quantos teremos no local? — Ethan perguntou.

— Steele e sua equipe... e nós, — Garrett disse. — Mais que suficiente para acabar com esses idiotas.

Ethan se sentou novamente e soltou sua respiração frustrada. Quarenta e oito horas. Era toda uma vida e não era tempo suficiente, tudo de uma vez.

Medo pelo perigo em que colocara seus irmãos roía suas vísceras, mas ao mesmo tempo, faria qualquer coisa para resgatar Rachel.

— Você não está assustado por nós, não é? — Garrett perguntou a Ethan.

Ethan rapidamente olhou surpreso para seu irmão. Existia um cintilar nos olhos de Garrett. Um calculado cintilar que limitava com o desafio.

Ele encontrou o olhar fixo e autoconfiante de Garrett. KGI era a melhor no que faziam. Tinha toda confiança em suas habilidades para liderar a missão para salvar Rachel. Todos os seus irmãos serviram um tempo no exército, e não existiam combatentes lá fora que chegassem aos pés de seus irmãos.

— Hooyah[7], — Ethan disse suavemente.

Sam rolou os olhos.

— Não comece com aquela merda da marinha comigo, menino rã[8].

— Oohrah[9], — Garrett disse com um sorriso.

Donovan riu e ecoou com seu próprio oohrah.

Sam agitou a cabeça.

— Por que é que Nathan e Joe foram os únicos que mostraram bom senso seguindo meu exemplo na hora de se alistarem?

— Eles são umas bestas, — Ethan disse.

— Sim bem, qual é a sua desculpa? — Garrett exigiu. — Donovan e eu deixamos um exemplo tão bom para você com os marines[10]. Mas não, você tinha que ser um menino da marinha. Embora fique bem bonitinho no seu uniforme de marinheiro.

Donovan riu silenciosamente e Ethan golpeou Garrett no intestino. Garrett se dobrou enquanto deixava escapar uma risada.

— É bom ter você de volta, Ethan, — Sam disse, seu tom ficando sério.

Ethan olhou para Sam.

— Eu só a quero de volta, cara.

— Sim, eu sei, e nós a resgataremos. Eu prometo.

 

Aselva ao redor deles estava viva com centenas de criaturas. O ar era tão pesado e tão concentrado que até dava para nadar nas linhas perto dos olhos de Ethan. Respirar era quase impossível. O calor era tão opressivo que fazia com que parecesse que pesavam duas toneladas de concreto.

Discretamente, os homens, e a única mulher, moviam-se furtivamente pela selva, aproximando-se do objetivo.

P.J. Rutherford, a melhor atiradora entre eles, tomou posição e apontou seu rifle para as distantes torres de guarda. Ela levantou dois dedos para sinalizar que havia dois homens em cada um dos dois postos ocidentais.

David Coletrane, ou só Cole, estava a poucos metros diretamente na frente de P.J., posicionado para abater as duas torres do leste. Steele, líder da equipe de P.J. e Cole, levantou um punho sinalizando que estava pronto.

Donovan e Garrett desapareceram de vista enquanto manobravam para o Sul. Seu trabalho era fixar explosivos, fornecer distração e tirar qualquer um do caminho.

Steele e o resto de sua equipe tomariam o norte.

Sam e Ethan inspecionaram o acampamento acanhado na frente deles, observando cada cabana de palha. Sam levantou seus dedos fazendo o número três e os movimentou em direção ao norte e então apontou para Ethan e gesticulou em direção às quatro cabanas no perímetro meridional. Ethan assentiu e se agachou, esperando os fogos de artifício começarem.

Levou cada pingo de seu treinamento se sentar lá e não entrar a toda carga no acampamento, atirando, lançando granadas e destruindo tudo em seu caminho. Estava parado demais para o seu gosto. Estes bastardos não mereciam qualquer clemência. Se não fosse o fato de que não estavam certos onde Rachel estava alojada e que poderia ser pega no fogo cruzado, Ethan diria foda-se o plano e dizimaria a aldeia.

Sam verificou seu relógio e então sinalizou para Ethan que faltavam dois minutos.

Ethan olhou à deriva pelas folhas e emaranhado de vinhas, mas a única pessoa diferente que Sam podia ver era P.J. Faltando um minuto para entrar, ela derrubaria os guardas e então ela e Cole abateriam qualquer um no caminho de Ethan e Sam.

Ela era uma personagem interessante. Quando Sam lhe contou sobre ela, Ethan assumiu que seria uma mulher feia, de constituição atarracada, com um corte de cabelo masculino e tatuagens. Ao invés disso, era delicada e totalmente feminina. Que ela fosse uma assassina altamente qualificada era incongruente com a imagem que projetava.

Seu cabelo estava puxado em um rabo-de-cavalo, e seu rosto estava camuflado. Estava curvada acima de seu rifle, sua expressão era de uma concentração intensa quando achou seu objetivo.

Faltando um minuto para agir, só a leve mudança de seu corpo disse a Ethan que tinha dado o primeiro tiro. Depois de dois segundos, deu o segundo e então balançou seu rifle, mudando seu objetivo para a outra torre de guarda.

Ela deu mais dois tiros rápidos então levantou a mão para sinalizar seu sucesso.

Vinte segundos para agir.

P.J. se reposicionou, assim teria o caminho de Sam e Ethan dentro da mira de seu rifle. Cinco segundos. E ela estava de barriga, seu rifle em cima e fixo. Uma explosão estrondosa agitou o chão. Múltiplas bolas de fogo se erguiam pelas copas da selva, iluminando um caminho tímido em direção ao céu. Ethan avançou, sua arma pronta, enquanto corria através do emaranhado da selva para a clareira do acampamento.

Os tiros de metralhadoras estouravam em ambos os lados de Ethan enquanto ele se encaminhava em direção à primeira cabana. Não verificou o progresso de Sam, e só esperava que os atiradores de elite fizessem seu trabalho.

 

Elase amontoava na escuridão, abraçando seus joelhos. Balançava-se de um lado para outro, num movimento constante, enquanto esfregava as mãos para cima e para baixo em suas pernas.

Seu remédio. Ela precisava de seu remédio. Onde eles estavam? Se esqueceram? Fizera algo ruim? Estava sendo castigada? Precisava de seu remédio. A dor rastejava por sua carne, deixando uma trilha em chamas por seu corpo.

Fechou os olhos e se balançou mais forte. O suor banhava seus ombros, e ela tremia incontrolavelmente. O chão sujo estava duro e frio. Apesar do calor e da umidade opressivos, o frio infiltrava por seus ossos. Redemoinhos de frio apareceram inesperadamente na superfície de sua pele.

Rachel. Rachel. Rachel.

Ela dizia seu nome, uma litania em seus lábios. Se não dissesse isso, estava certa de que se esqueceria, e já tinha esquecido tanto...

Meu nome é Rachel.

Uma parte do pânico diminuía quando conseguia reter aquele pedaço vital de informação. Dor e náusea jorravam em seu estômago, torcendo-o como nós.

Inspirava profundamente e tentava focar seus pensamentos. Fechou seus olhos novamente para evocar a imagem que lhe trazia conforto nos longos meses em que viveu aqui.

Rachel não conseguia lembrar o nome dele. Sequer sabia se ele era real, mas enquanto pudesse vê-lo, podia acreditar que ainda existia esperança.

Seu anjo da guarda. Ele pairava nas margens de sua mente despedaçada. Grande, forte, um guerreiro. Seu protetor.

Onde ele estava?

Quantos dias se sentou aqui se perguntando se ele viria? Perdeu a conta há muito tempo, os arranhões na parede para marcar a passagem do tempo, há muito esquecidos.

Oh Deus, iria morrer. Não estavam trazendo seu remédio. Precisava dele. Não podia aguentar a dor. O medo se alojou em sua garganta, e tentou em vão respirar. Seu peito queimava pelo esforço.

Ela se balançou mais rápido.

Uma enorme explosão ecoou como um milhão de trovões. O chão tremeu embaixo dela e ela lançou os braços sobre a cabeça. O som de fogos de artilharia soou nitidamente em suas orelhas, e o medo a esmagou com dedos mortais.

A fechadura da porta de sua cabana sacudiu impacientemente, e então outro tiro, muito mais perto, perfurando sua audição. Olhou para cima no mesmo momento em que a porta se abriu. A luz solar a cegou, e ela abaixou a cabeça. Quando olhou novamente, mostrando a silhueta contra o brilho laranja, estava um homem.

Ele era grande e ameaçador, suas feições desenhadas o tornavam macabro pelo fogo e fumaça, e pela maior quantidade de luz solar que ela via em dias. Seu rifle varreu o quarto antes que ele focasse toda sua atenção nela.

Oh Deus, ele iria matá-la. O dia finalmente chegou. O grande dia com o qual eles tanto a provocavam.

Ela choramingou e envolveu os braços protetoramente ao redor de si mesma.

— Jesus, — o homem exclamou. — Rachel, querida, viemos resgatar você. Tudo vai dar certo.

Ela vacilou. Eles nunca usaram seu nome. Em seus momentos mais escuros, ela se perguntava se não o inventara.

O homem moveu a cabeça lateralmente e falou em algum tipo de receptor que estava usando.

— Eu a encontrei. Cabana três. Norte. Precisaremos de cobertura.

Ele olhou de novo para ela e começou a se aproximar.

Ela lançou os braços acima da cabeça e se encolheu o máximo que podia. Fechou seus olhos, assim não poderia ver o que estava por vir.

Acima dela, o homem amaldiçoou suavemente, mas parou. Não conseguia mais ouvir seus movimentos. Ela arriscou uma olhada por debaixo dos braços e o viu parado ladeando a porta. Estava olhando para fora, seu perfil iluminado pelo fogo.

Alguns segundos mais tarde, outro homem estourava pela porta, uma arma de fogo embalada em seus braços. Seu olhar imediatamente disparou para ela.

O segundo homem arrancou o capacete, e a boca dela abriu em choque. Conhecia este homem. Ela o viu tantas vezes em sua mente. Mas ele não era real, não é?

Ele se ajoelhou cautelosamente na sua frente e estendeu a mão.

— Rachel, sou eu, Ethan. Eu vim para levar você para casa.

Ele sabia seu nome. Seu anjo da guarda sabia seu nome. Ela começou a se balançar mais forte, seus dentes batendo ruidosamente em sua cabeça. A dor a roía incessantemente. Precisava de seu remédio.

— Remédio — ela resmungou. Machucava falar. Não falava em voz alta há muito tempo. —Preciso do meu remédio.

Ethan fez uma carranca e olhou para o outro homem. Então ele a alcançou e suavemente tocou seu braço. O primeiro homem se moveu da entrada de forma que a luz brilhou mais e ela se moveu para longe do clarão. Ethan virou seu pulso até que o interior de seu braço estivesse exposto.

Ele deixou sair um silvo de raiva.

Ela puxou seu braço e se encolheu do poder que ele emanava.

— Merda, Sam, — Ethan murmurou.

O homem que ele chamou de Sam ecoou o xingamento e então empurrou o dedo polegar acima de seu ombro.

— Temos que nos mover. Agora. Estamos a três quilômetros do helicóptero e ainda estamos levando tiros de todos os lados.

Ela olhou fixamente entre os dois homens, mistificada pelo que estava acontecendo. Onde a estariam levando?

Ethan tocou em sua bochecha e então a ergueu, puxando-a com ele. A dor estalava por seu corpo e ela estava banhada por um suor pesado. Ainda assim, nunca sentiu tanto frio em sua vida.

— Confie em mim, querida, — Ethan disse suavemente. — Vou tirar você daqui, mas preciso que faça como eu disser.

Ela apenas teve tempo para movimentar a cabeça antes que ele a levantasse e lançasse sobre o ombro numa manobra típica de bombeiros[11]. Ele apalpou nervosamente seu rifle com a mão livre e então a carregou porta afora atrás de Sam.

O chão girava debaixo dela e o ombro dele afundava dolorosamente em sua barriga até que a bílis começou a subir em sua garganta. Ao seu redor, o  mundo enlouqueceu. O fogo resplandecia um caminho através da aldeia e além. O fogo da artilharia perfurava o chão e as árvores ao seu redor, e estava certa que morreria. Agora, quando o salvamento era iminente, tudo isso seria para nada. Eles nunca a deixariam ir. Disseram-lhe isso tantas vezes.

De repente ela estava voando pelo ar. Golpeou as costas no chão com tal força que todo o ar saiu de seus pulmões. Ficou deitada lá, um musculoso braço apertava ao redor de sua cintura quando tentou respirar. Dor, tão constante, explodia em sua cabeça até que pontos pretos dançavam em seus olhos.

Tentou girar quando a náusea finalmente a subjugou, mas estava presa. Apavorada, chutou e bateu, mas o aperto só se intensificou.

— Shhh, querida. Eu estou aqui. Está tudo bem.

Sua voz a confortou, e ficou quieta embaixo dele. Ethan a puxou pelos pés, e ela piscou enquanto se ajustava à luz constante.

Tão repentinamente quanto a arrastou para cima, ele a empurrou de costas, cobrindo sua cabeça com seus grandes braços.

— Filho de uma cadela! Onde está a cobertura?

Ethan ficou deitado lá, esparramado em cima de Rachel enquanto esquadrinhava rapidamente a área. Maldição, Sam estava parado a vários metros de distância. Ethan olhou novamente na direção em que sabia que estava P.J. e para onde Garrett e Donovan seriam encontrados.

Não podia deixar Sam, mas tinha que proteger Rachel. Inferno de escolha. Seu irmão ou sua esposa.

Afastou o cabelo de Rachel do rosto e viu o terror em seus olhos.

— Escute-me, Rachel. Eu preciso que você faça exatamente como eu disser. Vê aquele caminho que leva para a selva?

Ele apontou e esperou que ela girasse a cabeça. Quando estava satisfeito por ela ter olhado o suficiente, ele murmurou novamente.

— Quando eu disser vá, quero que corra como o inferno. Diretamente para aquele caminho. Entre na selva e se esconda. Eu tenho pessoas lá. Eles a encontrarão.

Ela olhou fixamente para ele com horror, e ele se perguntou se absorvera suas instruções.

— Vamos, Rachel, diga algo. Diga-me que você entendeu. Eu tenho que ajudar Sam.

Lentamente ela assentiu com a cabeça. Ele saiu de cima dela e ela se ajoelhou, olhando cautelosamente para os arredores.

Ethan puxou o microfone para sua boca.

— Preciso de cobertura. Sam está em apuros. Estou enviando Rachel para você, P.J.

Em resposta, uma linha pesada de fogo pipocou a área além de Ethan. Ele empurrou Rachel adiante.

— Vá! Corra!

Ela não hesitou. Como um potro ficando em suas pernas pela primeira vez, tropeçou irregularmente e se jogou em direção a parte mais fechada da selva.

Ela olhou para trás, e ele se levantou o suficiente para que pudesse vê-la. Fogo queimou através de seu escalpo, e ele cheirou o odor inconfundível de cabelo e sangue queimado.

Rachel olhou fixamente para ele com horror enquanto ele sentia o deslizamento morno de sangue por seu pescoço.

— Vá! — Ele berrou.

Ele se abaixou e passou a mão sobre a área acima da orelha direita. Saiu manchada de sangue. Ainda tinha a maior parte de seu cabelo e não estava faltando nenhuma parte do corpo, então, não era obviamente sério.

Esperou só o tempo suficiente para ela desaparecer nas folhagens antes de girar para encontrar seu irmão.

Rastejou até ele e Sam lhe lançou um olhar descontente.

— Me poupe — Ethan disse brevemente. — Não vou deixar você.

— Você deveria estar cuidando de sua esposa, — Sam soltou. — Não ficar cuidando do meu traseiro.

Outra rodada de fogo bombardeou os barris de metal que usavam como cobertura.

— Malditos filhos da mãe — Sam disse. — Onde diabos estão Van e Garrett com todos os explosivos?

Uma explosão agitou o chão, e os dois homens cobriram suas cabeças com os braços por causa dos escombros que choviam ao redor deles.

Ethan sorriu.

— Aí mesmo, eu diria.

Outro estrondo balançou a área e Ethan e Sam se aproveitaram do caos para sair da cobertura. O receptor do microfone caiu da orelha de Ethan e, na frente dele, Sam amaldiçoou num fluxo interminável de palavras enquanto mergulhavam atrás de uma pilha de caixas.

— Cole foi atingido. Alguma fodida bala que, por sorte, ricocheteou. Steele está a caminho para pegá-lo. Dolphin e Renshaw estão fornecendo cobertura.

— E Rachel? — Ethan perguntou. — Garrett e Van já chegaram até ela? Onde infernos está P.J.?

Ele não percebeu que estava gritando no microfone até que Sam estremeceu.

— P.J. pediu para lhe dizer que está ocupada salvando seu traseiro. Nenhum sinal de Rachel. Van e Garrett estão procurando. Que diabo aconteceu com o seu receptor?

— Perdi.

— Merda, Ethan, você foi atingido. Está sangrando como um porco.

Ethan olhou para o irmão e torceu os lábios.

— O que você é, um maricas? Seus anos fora do exército transformaram você numa menina? Desde quando se preocupa com qualquer coisa que seja menos que um membro perdido?

Sam agitou a cabeça e então gesticulou por cima do ombro.

— P.J. já os tirou de lá? Eu estou ficando danado de cansado de ficar aqui deitado na sujeira.

Ethan ficou sobre seus cotovelos e varreu a área com seu rifle. Justo quando um dos idiotas pôs sua cabeça para fora dos barris, P.J. pôs uma bala entre seus olhos. Infernos, a mulher era boa.

— Eu preciso chegar até Rachel, — Ethan disse.

Sam assentiu.

— Em minha contagem.

Ethan rolou, ficando de joelhos.

— Um.

— Dois.

— Três.

Os dois homens mergulharam por detrás dos engradados, abaixaram-se e correram para a selva.

O mundo ao redor deles estava assustadoramente quieto quando alcançaram a área onde P.J. estava posicionada. Isso deixou Ethan inquieto.

Momentos mais tarde, Steele, Renshaw, e Baker cambalearam pela vegetação arrastando Cole entre eles. Ethan olhou ao redor para ver Sam com a mão na orelha enquanto ouvia atentamente a transmissão. Ele olhou para Ethan, sua expressão sombria.

— O quê? — Ethan exigiu. — Que diabo está acontecendo? Onde estão Van, Garrett, e Rachel?

Sam se moveu para se juntar aos outros, e o nó no estômago de Ethan ficou maior.

— Porra, Sam, fale.

Sam pediu silêncio.

— Certo, isto tem que ser rápido. Garrett e Van estão procurando por Rachel. Eles não acharam nada ainda. Renshaw, você e Baker peguem Cole e retornem para o helicóptero. O resto de vocês aprofundem a procura. Vamos achar Rachel e cair fora daqui.

 

Marlene Kelly saiu do banheiro e cruzou o quarto em direção à cama onde seu marido estava sentado, lendo. Quando se aproximou, ele abaixou o livro e tirou os óculos.

— Você parece preocupada, — ele observou.

Ela lhe dirigiu um sorriso lânguido, divertida pelo fato que depois de todos esses anos, ele ainda tinha um talento especial para declarar o óbvio. Ele não podia ser exatamente chamado de intuitivo quando ela lamentou-se pela casa o dia inteiro.

Puxou as cobertas e deslizou para debaixo dos lençóis. Quando se recostou contra os travesseiros, cruzou os braços acima do peito e suspirou.

— Estou preocupada.

Frank se virou para o lado e apoiou a cabeça na palma da mão.

— Sobre?

— Ethan.

Ele soltou a respiração.

— Eu pensei que tínhamos concordado que era bom que ele finalmente se juntasse a seus irmãos? Não faz bem a homem nenhum ficar trancafiado naquela casa com todas as coisas dela.

— Eu só me preocupo que ele não esteja pronto, — ela disse, infeliz. — A morte de Rachel o afetou muito.

— Nossos meninos cuidarão bem dele. Você sabe disso. Sam não o deixaria sair se não estivesse confiante em suas habilidades.

— Você está certo, eu sei. Só estou preocupada. Quero que ele seja feliz novamente.

Frank tocou em sua bochecha, seus dedos calosos traçando as rugas de preocupação de sua testa.

— Ele será. Levará um tempo.

Ela franziu a testa quando ouviu um som no andar de baixo. Se sentou, a mão de Frank correndo por sua pele. Então virou-se para seu marido.

— Você ouviu isto?

— Ouvi o quê?

Ela xingou em exasperação.

— Esse som. Veio da cozinha.

Ele se endureceu e pôs uma mão em seu braço quando ela começou a se levantar.

— Você fica aqui. Eu descerei.

— Deveríamos chamar a polícia, — ela silvou.

Ele lhe deu um olhar de aborrecimento enquanto ia em direção ao armário.

— Provavelmente é só um rato. Não tem nenhuma necessidade de chamar Sean aqui.

Ele desapareceu no armário e retornou segundos mais tarde com uma espingarda.

— Frank, não ouse estragar minha cozinha!

Ele acenou para ela e saiu. Marlene agarrou o telefone. Típico de um homem Kelly. Todas as coisas podiam ser resolvidas com armas. Não que tivesse qualquer coisa contra elas, mas não queria um buraco em suas paredes novas.

Agarrou o telefone, determinada a chamar Sean, dando a mínima se ele tivesse que sair da cama ou não.

— O que... ei, você, volte aqui! — Frank rugiu.

Marlene estremeceu quando um impacto soou. Seus dedos estavam batendo no teclado do telefone quando ouviu Frank novamente.

— Marlene, desça aqui, — ele gritou.

Ela voou fora da cama, o telefone em sua orelha. Quando chegou na parte inferior dos degraus e dobrou a quina para a cozinha, parou, olhando fixamente a cena estranha a sua frente.

— Saia de cima de mim!

Marlene olhou fixamente para baixo, para a menina que gritava, deitada de bruços, enquanto Frank se sentava sobre ela no meio do chão da cozinha. Ele estava esfregando a mão e xingando a plenos pulmões.

— Frank! O que diabos está acontecendo?

Frank olhou para ela.

— O que parece? Peguei esta pequena bruxa invadindo o refrigerador. Ela lançou o jarro de biscoito na minha cabeça e tentou correr. Chame Sean e diga para ele vir aqui.

Marlene olhou fixamente para a menina que ainda estava lutando. “A menina” era uma descrição apropriada. Por que ela não podia ter mais de dezesseis. Magra, parecia um palito debaixo de um pedregulho. Tudo que Marlene podia facilmente ver era um monte de cabelo rosa esticado em quarenta direções.

— Frank, saia de cima dela, — repreendeu enquanto se aproximava.

— O quê? Sair de cima dela? O inferno que irei. A louca mulher tentou me matar.

— Você é que a está matando, — ela assinalou. — Um homem do seu tamanho sentado em cima dela. Duvido que ela possa respirar.

Frank a olhou, empurrando a coronha da espingarda para baixo, assim poderia se levantar. Manteve a mão livre espalmada no meio da menina enquanto se erguia.

— Não tenha nenhuma ideia, garota. Não tenho nenhum pudor em encher sua pele de chumbo.

Marlene rolou seus olhos então empurrou o marido de lado.

— Não chegue muito perto dela, Marlene. Maldição, — Frank protestou. Ele tentou ficar entre ela e a menina, mas Marlene andou ao redor dele.

— Você pode se levantar agora, — Marlene disse intencionalmente. — Mas eu o faria muito lentamente se fosse você. Frank está morrendo de vontade de usar aquela espingarda.

A menina lentamente virou e rapidamente mascarou o medo em seus olhos, substituindo por desafio silencioso. Ela era suficientemente bonita, mas magra como um palito. Tinha sombra suficiente debaixo de seus olhos para Marlene perceber que não dormia provavelmente desde quando ficou sem comida.

Suas roupas, se pudesse chamá-las disso, ficavam penduradas e seu cabelo era provavelmente bonito debaixo de toda a tintura rosa.

Seu coração caiu por esta menina. Era óbvio que ela não era nenhuma criminosa perigosa. Claro que Frank riria dela e diria que era muito coração mole para seu próprio bem. Seus meninos rosnariam e diriam que ela ajudava muitos extraviados, e ela o fazia, mas normalmente eram da variedade animal.

— Você está com fome? — Marlene perguntou.

Os olhos da menina se estreitaram.

— Não, eu arrombei seu refrigerador para pegar gelo.

Marlene quase riu de seu desafio.

— Não tem nenhuma necessidade de ficar irritada comigo, mocinha. Posso assegurá-la que em meus anos como professora enfrentei maiores e mais malvados que você, e se não se importar que eu diga, não existe muito em você que intimide tanto quanto uma pulga.

A menina franziu o cenho, mas Marlene permaneceu firme, mãos nos quadris enquanto a olhava fixamente de cima abaixo.

— Agora, podemos fazer isso de dois modos. Você pode se sentar como se tivesse algumas boas maneiras, enquanto faço algo para você comer, ou podemos chamar o xerife e você vai passar a noite na cadeia. Você decide.

A chama de esperança nos olhos da menina quase quebrou o coração de Marlene. Então ela lançou um olhar cauteloso a Frank, que permanecia a alguns metros afastado, sua expressão agressiva.

— Não ligue para ele — Marlene disse com exasperação. — Seu latido é muito pior que a mordida. Agora, quer algo para comer ou não?

Lentamente ela movimentou a cabeça.

— Estamos resolvidas, então. Sente-se no balcão enquanto eu vejo o que temos de sobras do jantar. E Frank, pare de assustá-la. Ela não poderá engolir com você olhando-a com essa sua cara feia.

Frank suspirou mas abaixou a arma e tentou melhorar a cara. Seria difícil, porque todos os seus homens adoravam ficar de cara feia quando os repreendia. Uma coisa os meninos certamente conseguiram de seu pai.

A menina foi até um dos tamboretes do bar, seu olhar nunca deixando Marlene e Frank. Os olhava como se fosse voar a menor provocação.

— Agora, qual é o seu nome? — Marlene perguntou enquanto ia para o refrigerador.

— Rusty, — ela disse com uma voz que Marlene teve que se esforçar para ouvir.

— Como inferno passou pelo meu sistema de segurança? — Frank exigiu. — Meus meninos o instalaram três meses atrás.

Rusty deu a ele um sorriso triunfante.

— Foi fácil.

— Bem, maldição — Frank murmurou. — É um desperdício de dinheiro.

Rusty agitou a cabeça.

— Não para a maioria dos intrusos. Acontece que eu entendo de eletrônica, só isso.

— E por que estava invadindo a casa? — Frank suspeitosamente exigiu.

Rusty se remexeu desconfortavelmente e olhou para outro lado.

— Eu estava com fome, — murmurou. — Parecia que não ia fazer falta se eu pegasse um pouquinho

— Quero que saiba que trabalhei condenadamente duro para ter o que tenho. — Ele agitou um dedo em sua direção. — Este é o problema com os jovens de hoje.

— Frank, por favor, não comece — Marlene inseriu. — Você vai lhe dar indigestão.

Ela retirou vários recipientes e os jogou na mesa.

— Você quer algo também, querido?

Ele a olhou ferozmente como resposta.

Marlene voltou sua atenção para Rusty enquanto unia o pão dos sanduíches.

— Você tem um lugar para ficar, Rusty?

Rusty congelou, e o medo retornou a seus olhos.

— Sim, claro que tenho. Não sou uma sem teto ou algo assim.

— Só não tem comida neste lugar que você fica? — Marlene suavemente perguntou.

Os lábios de Rusty se uniram em uma linha firme. Marlene pôs dois sanduíches na sua frente e então alcançou o armário de cima para pegar um copo.

— Pegue gelo para mim, querido, — Marlene instruiu Frank.

Frank pareceu aborrecido, mas fez como ela pediu, retornando um segundo mais tarde com o copo. O gelo crepitou e estalou quando Marlene despejou chá, e empurrou o copo através da mesa para Rusty, que já estava devorando um dos sanduíches.

Marlene trocou olhares infelizes com Frank, que parecia tão comovido quanto ela.

— Por que você não fica aqui esta noite? — Marlene ofereceu.

Não estava certa de quem ficou mais chocado, Rusty ou Frank. Ela silenciou Frank com um olhar, então dirigiu seu olhar de volta a Rusty.

— Bem?

— Por que você quer que eu fique? — Rusty perguntou cautelosamente. — Eu tentei roubar você. Vocês dois não estão em qualquer coisa louca, não é?

Marlene piscou, surpresa, e então seu coração se quebrou quando percebeu no que Rusty estava pensando.

— Não, querida — ela disse suavemente. — Eu só estou oferecendo um lugar para você dormir e um bom café da manhã.

— Mas por quê? — Rusty deixou escapar.

Ela parecia que queria chorar, como se não tivesse nenhuma ideia de como lidar com a generosidade com que foi tratada. O que dizia a Marlene que tinha visto muito pouco disto.

— Porque parece que você poderia ter um pouco de descanso e outra boa refeição.

A ansiedade nos olhos de Rusty bateu em Marlene como um martelo. Senhor, ela sofria por esta criança.

— E o que acontecerá amanhã? Você vai chamar a polícia?

Marlene agitou a cabeça.

— Não, Rusty. Nada de polícia. A menos que tente nos roubar novamente. Se fizer isso, eu mesma chamarei Sean. Mas você é bem-vinda a ficar. E sobre o que acontecerá amanhã, por que não discutimos isso com uma xícara de café quente de manhã? Terá de me perdoar por dizer isso, mas parece morta de cansaço.

— Uh sim, certo, certo, — Rusty disse ao redor de um bocado de pão.

— Não pense que não estarei observando você, — Frank advertiu.

As narinas de Rusty se alargaram, mas ela não respondeu.

— Continue e termine sua comida, então mostrarei seu quarto. Você pode tomar banho e colocar algumas das roupas de Rachel que eu ainda tenho.

— Quem é Rachel? — Rusty perguntou.

Marlene pausou, a tristeza rastejando em sua alma.

— Ela era minha nora, — disse calmamente.

Rusty deve ter sentido seu passo em falso porque não aprofundou o assunto. Ao invés disso, vorazmente se abaixou à mordida restante e engoliu ruidosamente com o chá. Posteriormente, enxugou a boca com a parte de trás da manga.

Os olhos de Marlene se estreitaram, e Frank realmente sorriu. Se existia uma coisa que ela não tolerava, era falta de modos à mesa. Todos os seus meninos foram sujeitos a sua ira em um certo ponto ao longo dos anos, e como resultado, todos tinham modos impecáveis, ainda que sempre escolhessem não usá-los.

Ainda assim, ela não comentou. A pobre menina provavelmente não teve muitas refeições decentes, então modos à mesa não eram uma prioridade.

— Venha então. Vamos lá para cima. Pegarei alguns lençóis limpos enquanto estiver no chuveiro.

 

Rachel. Seu nome era Rachel. Ela tinha a prova agora. O estranho que apareceu de repente em sua cabana a chamou de Rachel, e então seu anjo da guarda, que ela temia ser uma invenção de sua imaginação, chegou para salvá-la. Finalmente.

Só que não se sentia segura. Estava assustadíssima e para todos os lados que olhava, existia só selva. Estava desesperadamente perdida e só.

Sozinha. Não em cativeiro.

A ideia lhe deu um prazer ardente enquanto se dava conta do que acontecia. Estava livre.

Caiu de joelhos, quase gritando quando seu estômago se revoltou e balançou. Suas palmas plantadas na terra úmida, ela se apoiou enquanto tinha ânsias.

Ao longe ouviu movimento, e imediatamente se levantou, segurando a respiração. Estavam vindo para levá-la de volta? Era tentador só ficar lá e deixá-los achá-la. Pelo menos então, conseguiria seu remédio e a dor horrível iria embora.

Lágrimas de ódio queimavam suas pálpebras. Não voltaria para lá. Morreria primeiro. Ethan foi atingido tentando salvá-la. O pensamento fez seu estômago se revirar de novo.

Tinha que cair fora. A ideia de ir mais fundo na selva, ao desconhecido, onde qualquer criatura a perseguiria e a teria como presa, a assustava de morte.

Ela se ergueu. Deu um passo. E então outro. O chão parecia morno e vivo debaixo de seus pés nus. Ganhou velocidade até que finalmente correu.

Dor. Medo. Não podia dizer qual sentia mais. Os dois a subjugavam. Rachel parou para descansar, debruçando-se contra uma árvore como apoio. Convulsionou quando a náusea subiu por seu estômago.

Cada terminação nervosa parecia ter sido atingida por uma sucessão aleatória. Uma agonia sem fim corria por suas veias. Sua pele coçou, e levou toda sua força de vontade para não arranhar furiosamente a carne.

Inspirando profundamente, suas narinas se abrindo com o esforço, procurou cobertura na selva densa. O pânico de sua impotência caiu sobre ela enquanto lágrimas juntavam-se em seus olhos. Não tinha ideia de para onde estava indo ou como sobreviveria.

Um arrepio vicioso varreu seu corpo quando registrou a umidade opressiva. Estava gelada por dentro, entretanto. Um som atrás de si a colocou em movimento. Girou ao redor, insegura de qual direção seguir. De onde viera?

A fadiga fez seus olhos se fecharem, mas piscou e se forçou a ir adiante. O limo e sabe Deus mais o que se enredavam em seus dedos do pé. Empurrou seu pé para cima quando algo escorregou através de seu tornozelo.

Pronta para gritar de pânico, frustração e medo, mergulhou em uma densa área de plantas. Sentiu uma pontada em seu ombro, e então a dor estourou como fogo pelos músculos que protestavam. Tirou seu ombro do lugar? Deitou-se lá, arquejando enquanto a agonia rasgava seu corpo.

Tinha que conseguir ir para mais longe.

As folhas estavam úmidas e arranhavam sua bochecha, deixando uma trilha fresca. Segurando seu braço ferido firmemente contra o tórax, caiu ao chão com a outra mão e rastejou para a frente até a cobertura das plantas tomarem conta dela.

Seus joelhos bateram em várias raízes de árvores, e ela apressadamente se escondeu contra o tronco, se amontoando à procura de calor e tentando aquietar sua trovejante pulsação.

Quieta, tinha que ficar quieta. Sua respiração soava como um rugido em suas orelhas até em meio à cacofonia da selva ao seu redor.

Cuidadosamente, puxou as pernas, prendendo seu braço ferido entre os joelhos e o peito. Se manteve tão quieta quanto possível.

Seus músculos tremiam e saltavam. Sua pele ondulava, e ela lutava contra o desejo de arranhar e esfregar, para se limpar das milhões de coisas que rastejavam por seu corpo. Manteve os olhos abertos, sabendo que não podia ver qualquer coisa rastejando lá, mas seu corpo se recusava a acreditar no que sua mente lhe dizia.

Pegou um movimento com o canto dos olhos e congelou. Seus olhos lentamente se moveram para sua esquerda, esquadrinhando a área. E então ela o viu.

Sua respiração se prendeu na garganta. Era a pessoa que estava com Ethan. Sam. Ele era grande e mau, e carregava um rifle. Seu olhar varreu a área, sua expressão feroz e concentrada.

Oh Deus, oh Deus. O que devia fazer? Ele a assustava. Ela não o conhecia. Não confiava nele. Ele sabia seu nome, entretanto. Será que a levaria de volta para a cabana agora que Ethan estava morto? Será que queria ajudá-la ou livrar-se dela?

Então à sua direita ela pegou outro flash. A princípio, pensou que tinha imaginado, mas quando olhou novamente, viu homens se movendo para a área. Eram quase imperceptíveis, sua roupa de camuflagem se mesclava com a cobertura densa.

Não importava o quanto temia Sam, tinha mais medo destes homens. Conhecia bem todos os seus rostos, os via diariamente pelo que pareceu uma eternidade. Bílis subiu por sua garganta, e se sacudiu tão fortemente que seus dentes batiam ruidosamente.

Ela estava fazendo uma aposta. Com Ethan fora do caminho, este Sam poderia não se importar com o que acontecesse com ela. Mas não tentou machucá-la, e não podia dizer o mesmo de seus captores.

O medo desesperado quase a paralisou, mas levantou-se sobre seus pés trêmulos, mesmo assim . Tinha que adverti-lo. Sam viu a ameaça?

— Sam, atrás de você!

Ele caiu como uma pedra. Tiros estouraram. Ela viu um dos homens cair. Uma sensação de satisfação selvagem a agarrou. Então mais tiros, desta vez por detrás dela.

Ela mergulhou para o chão, lançando seus braços acima da cabeça, sua mente gritando sem parar. Desesperada para se proteger enquanto a floresta se transformava em uma zona de guerra, se enrolou em uma bola apertada, tentando se fazer tão invisível quanto possível.

E então percebeu a estupidez de se enrolar em uma bola. Precisava cair fora. Já dera sua localização. Era só uma questão de tempo antes que viessem atrás dela.

Com o terror lhe dando força, levantou-se e começou a rastejar tão rápido quanto podia. Vacilou quando uma bala bateu em uma árvore logo acima de sua cabeça, e então deitou-se no chão mais uma vez.

Quando nenhuma outra bala estalou no chão ao seu redor, começou a ir adiante novamente, rezando por cada polegada ganha. Os tiros pararam, mas ao invés de se tranquilizar, inspirou ataques de pânico. Sem distração, iriam atrás dela.

Rastejou mais rápido, sua respiração saindo dolorosamente do peito. O suor corria por seu rosto, ou eram lágrimas?

Chocou-se com o corpo antes de vê-lo. Estava muito atordoada para gritar ou até mesmo processar que o homem estava morto. O sangue estava em todos os lados e o rifle que ele levava estava ainda firmemente em sua mão.

Ela conhecia este homem. O odiava. Não teve nenhuma condolência por sua morte. Com mais força que pensou possuir, arrancou o rifle de sua mão e rastejou para longe dele.

Eles não a levariam de volta. Os mataria — a todos eles.

Quando rastejou para tão longe do corpo quanto possível, parou para tomar fôlego. As laterais de seu corpo doíam, o ombro queimava e a vista estava borrada por lágrimas.

Um soluço subiu por sua garganta e rapidamente o tragou. Com medo de se trair, abaixou a cabeça, enterrando o rosto na mão livre. Precisava de um momento para descansar.

Vários minutos se passaram, ou talvez fossem segundos. Pareceu uma eternidade. E então ouviu seu nome. Um sussurro suave, carregado pela brisa. Rachel.

Ela estremeceu, mas se recusou a olhar para cima. Nunca a chamaram por seu nome.

— Rachel.

Muito perto desta vez.

Sua cabeça subiu, e ela agarrou o rifle. Rolou, apontando a arma em direção da voz. Um homem estranho a olhava fixamente, sua expressão vazia. Seus olhos azuis gelo eram ilegíveis quando calmamente a inspecionou. Não parecia aborrecido pelo fato de ela estar apontando uma arma para ele.

Ela tentou fugir, mas estava enrolada na vegetação. Empunhou melhor a arma, tentando pelo menos manter seu dedo no gatilho.

Por detrás do homem, outro apareceu. Sam. Ele não disse nada enquanto se colocava entre ela e o outro sujeito.

— Para trás, Steele, — ele murmurou.

Sam pôs uma mão apaziguadora para frente, com a outra segurava seu próprio rifle, entretanto não fez nenhum esforço para apontá-lo para ela.

— Rachel, me escute. Eu não machucarei você. Eu juro. Você precisa largar a arma e vir comigo, assim poderei levá-la de volta para Ethan.

As lágrimas imediatamente rolaram. Um nó se formou em sua garganta, e ela não conseguia engolir e desfazê-lo.

Ele podia não ser confiável. Estava mentindo para ela. Ethan estava morto. Ela viu o sangue. O viu cair logo depois de roucamente gritar para ela fugir.

Contendo o gesto de dor, conseguiu desajeitadamente ficar de pé. Sam relaxou e estendeu uma mão para ela, mas em vez de mover-se para ele, ela retrocedeu, seu olhar nunca o deixando ou o homem que ainda estava a alguns passos de distância.

Com as mãos tremendo, nivelou a arma entre eles, desejando que apenas fossem embora. As sobrancelhas de Sam uniram-se por um momento e então ele avançou.

— Não,— ela falou, enquanto apontava a arma em sua direção.

Ele levantou as mãos e retrocedeu, sua expressão cautelosa.

— Rachel, — ele disse ternamente. — Querida, eu estou aqui para te ajudar. Está na hora de você voltar para casa. Para as pessoas que te amam. Sua família.

Seu coração se apertou. Família? Não podia se lembrar de uma família. Tudo o que se lembrava era de Ethan e até essas lembranças eram vagas. Quando ela esqueceu? Tudo que podia lembrar era da dor e do medo infinito. A confusão causada pelas injeções impostas a ela, e necessidade arrastando-se quando esperavam muito tempo para dar sua outra dose.

Por um breve momento ela hesitou, atraída pela ideia de família. Uma casa. Pessoas que a amavam. Entretanto, ela lembrou. Ethan estava morto. Ele era tudo que ela tinha, tudo que podia se lembrar. Seguramente se lembraria se existissem outros. Teria esquecido sua família?

Você mal consegue se lembrar quem você é.

O pensamento flutuou pelas vias torcidas de sua mente, debochando e lembrando a ela do aperto tênue em sua sanidade.

Ela pegou o movimento nas proximidades e virou a cabeça para o lado para ver outro homem seguir em direção a Sam e Steele. Ele tinha uma carranca feroz enquanto seu olhar se detinha sobre ela. Era maior e parecia mais malvado que Sam, e devia tê-la amedrontado terrivelmente, mas existia algo familiar, algo estranhamente reconfortante sobre ele.

Estaria ficando louca?

Ele parou ao lado de Sam, e ela ainda olhava fixamente enquanto imagens relampejavam irregularmente em sua mente.

— Que diabo está acontecendo, Sam?— Ele perguntou num grunhido baixo. — Não temos tempo a perder. Vamos pegá-la e ir embora.

— Diga isto a ela,— Sam murmurou enquanto olhava fixamente para a arma que ela segurava. — Eu falei que ela não queria ir.

Como relâmpagos em um céu escuro, imagens se atiravam fortuitamente por sua mente quebrada. Memórias? O homem de pé ao lado de Sam, só que ele estava sorrindo, quase ternamente. Água. Um deque. Ele a ergueu e então a lançou no lago. Permaneceu rindo enquanto ela emergia cuspindo, e ela estava rindo também. Feliz. Ela estava feliz.

Outra memória, assombrante e doce. Uma igreja. Ela deslizando pelo corredor central. Ethan esperando... e este homem na frente dela... ele a escoltou. Sua mão agarrou apertado acima do braço dele. Ele sussurrou baixinho para ela não se preocupar, que ela era a noiva mais bonita no mundo e que seu irmão era o homem mais sortudo da Terra.

Garrett. Irmão de Ethan?

— Garrett? — Ela sussurrou.

Seu rosto imediatamente suavizou. A carranca desapareceu e algo que pareceu com alegria relampejou em seus olhos por apenas um momento.

— Sim, Rachel. Sou eu, Garrett.

Tomando uma decisão imediata, ela voou para seu lado, cuidadosamente colocando-o entre ela e os outros dois homens. Ele endureceu em surpresa mas colocou um braço ao redor dela. Ela se comprimiu ao lado dele e nivelou um cauteloso olhar para Sam.

— Deixe-me pegar a arma, docinho, — Garrett murmurou enquanto suavemente a pegava de seus dedos.

Ela vacilou quando ele olhou para seu ombro ferido, e sua respiração acelerou. Sam franziu a testa e fez um movimento em direção a ela, mas ela apressadamente se afastou, seus pés enroscando na vegetação rasteira. Ela caiu ao chão, aterrissando dolorosamente.

Garrett foi para o seu lado imediatamente, a mão tocando seu braço. Sam se ergueu, as sobrancelhas arqueadas.

— Você está bem, Rachel? Onde está machucada? — Garrett perguntou.

— Meu ombro, — ela disse. — Não posso mover meu braço. Dói muito.

— Provavelmente deslocou, — Sam disse severamente. — O ângulo está torto, e ela está contribuindo para que fique pior.

Ela se afastou quando Sam moveu para a frente novamente. Ele xingou e se deteve.

— Ela não se lembra de você, — Garrett disse.

— Sim, eu notei, — Sam murmurou. — Não fico surpreendido que se lembre de você, entretanto. Agradeça a Deus por isso, pelo menos.

— Ele mentiu, — Rachel sussurrou.

Os olhos de Garret se estreitaram.

— Quem mentiu?

— Sam.

A cabeça de Sam balançou para trás em surpresa.

— Eu?

A mão de Garrett terminou de afastar o cabelo de seu rosto.

— Sobre o que ele mentiu, docinho?

Lágrimas brotaram, e ela mordeu o lábio para conter o gemido de desespero.

— Ele disse que me devolveria para Ethan, mas Ethan está morto.

Garrett e Sam arregalaram os olhos em choque. Sam soltou sua respiração, então se agachou ao lado dela, ignorando seus esforços para se afastar.

— Por que você pensa que Ethan está morto?

— Eu o vi cair. Ele foi atingido. Ele me disse para fugir e então caiu. Eu vi.

Sam sorriu.

— Ele não está morto, Rachel. Seria necessário muito mais que aquilo para matar aquele bastardo genioso. Foi apenas um arranhão. Ele sangrou como um porco, mas está bem. Eu juro.

Ela olhou para Garrett para confirmação, a esperança batendo implacavelmente contra seu peito. Garrett deu um pequeno aceno com a cabeça.

— Ele está bem agora? — Ela perguntou com voz trêmula. — Onde está ele?

— Eu levarei você para ele, — Sam disse. — Mas nós temos que nos apressar.

O medo saltava em sua garganta, e ela começou a se agitar.

— Não deixe eles me levarem de volta. Por favor.

O rosto de Garrett ficou sombrio, e ela estremeceu com a violência crua em seu rosto. Por um momento, seus olhos frios se fixaram nela e então ele se abaixou ao seu lado. Não invadiu seu espaço. Acabou de se agachar olhando fixa e atentamente para ela.

— Você não me conhece, Rachel, — ele disse em uma voz calma. — Não tem nenhuma razão para acreditar em mim. Mas existe uma coisa que posso garantir a você. Não permitirei que aqueles bastardos a levem de volta. Levarei você e Ethan de volta para casa, onde vocês pertencem. Você entendeu?

Existia uma garantia segura em sua voz. Uma confiança inabalável, que apesar de seu medo e ansiedade, a acalmou.

Lentamente ela assentiu. Steele assentiu também e então se ergueu, colocando vários passos de distância entre eles.

— Isto pode doer, — Garrett disse. Ele se abaixou e colocou um braço debaixo de seus joelhos. Seu outro braço deslizou junto a suas costas, e cuidadosamente a pegou no colo, tentando não empurrar seu ombro machucado.

Ela lançou um cauteloso olhar para Sam, estudando-o na segurança dos braços de Garrett. Ele não se parecia com Ethan. Garrett sim, e talvez fosse por isso que se lembrou dele. Enquanto Ethan e Garrett eram homens grandes, cabelos pretos com corpos duros e rostos duros, Sam era mais magro mas não menos musculoso. Seu cabelo era castanho claro, mas seu queixo era quadrado e tinha um conjunto determinado que a enervava. Seus olhos eram de um azul frio. Um pouco como o de Steele. Gelo impenetrável.

Como se sentindo seu exame, ele olhou para cima. Como mágica, aqueles olhos duros se suavizaram e ficaram afetuosos. Ofereceu a ela um sorriso tentador.

— Eu não lembro de você, — ela disse suavemente. — Sinto muito.

Ele a alcançou e colocou uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.

— Tudo bem, querida. Você se lembrará. O importante é que conseguimos resgatá-la para Ethan e iremos para casa, onde todos faremos um rebuliço sobre você e você ficará bem.

Garrett começou a caminhar, empurrando-a ligeiramente enquanto caminhava pela selva emaranhada. Sam se movia rapidamente adiante, sua arma a postos enquanto espiava a área em rápida e metódica varredura. Steele vinha na retaguarda.

— Quem são todos? — Ela perguntou a Garrett em voz baixa.

— Shhh, não agora, — Garrett disse, entretanto, sua voz era regular e sem repreensão. — Prometo contar tudo quando estivermos fora desse buraco quente.

Ela dobrou a cabeça debaixo de seu queixo e descansou a bochecha contra o peito largo. E então à medida que se acomodava, a necessidade, severa e inexorável, bateu sobre ela. Ela começou a se agitar. Estava simultaneamente quente e então fria. O suor apareceu inesperadamente acima de sua pele, e ela estremeceu em espasmos contínuos.

Os braços de Garrett apertaram ao seu redor até a dor bater em seu braço. Ela ofegou, e ele imediatamente diminuiu seu aperto.

— Remédio, — ela ofegou. — Por favor, preciso do meu remédio. Eu vou morrer.

— Você não vai morrer, — Garrett sussurrou contra seu cabelo. — Não vou deixar você. Eu sei que machuca, querida, mas tem que lutar contra isto. Não os deixe ganharem. Pense em Ethan. Você estará com ele em breve.

Ela fechou os olhos como se mil insetos rastejassem por cima de seu corpo. Por cima de sua pele, escavando debaixo de sua roupa. Era tudo que ela podia fazer para não gritar e deitar-se no chão para bater neles, para arrancá-los de sua carne.

— Maldição, Sam, você tem um sedativo em sua mochila? — Garrett disse.

Ele parou de caminhar e a virou em seus braços. Alguns segundos mais tarde, ela sentiu uma picada afiada no braço. Levantou a cabeça, surpresa, e olhou fixa e silenciosamente para Garrett.

— Tudo certo, irmãzinha, — ele disse em uma voz grossa. — Feche seus olhos. Vai ficar melhor, eu prometo.

O rosto dele borrava diante de seus olhos.

— Ethan, — ela sussurrou. — Você prometeu.

— Quando você acordar, ele estará aqui, — Sam disse ao lado dela. — Relaxe e não lute contra isto.

Por um momento, ela continuou a lutar, muito submersa na onda de dor e a fome viciosa para simplesmente se soltar. O mundo ao seu redor desapareceu e seus olhos tremeram, mas ela agarrou-se tenazmente.

Uma mão quente acariciou sua bochecha e então o cabelo. Com um suspiro ansioso, ela se inclinou ao toque, dirigindo-se para o conforto que ele oferecia. A letargia inundou seu corpo, e ela ficou mole.

Ethan.

 

Marlene acordou cedo como era seu hábito. Muitos anos cuidando de crianças, levando-os onde precisavam estar e, em seguida, saindo cedo para seu próprio trabalho como professora. Frank não era diferente. Ele corria para a única loja de ferragens em sua pequena cidade nos últimos 30 anos, e abria as sete da manhã, seis dias por semana, chovendo ou fazendo sol.

Ela espiou Rusty, meio que esperando já não encontrá-la, mas o que encontrou foi um som de menina dormindo, as cobertas puxadas até o nariz. A expressão de Marlene suavizou-se enquanto observava da porta. Qualquer que fosse a situação da menina, não era feliz.

Calmamente, recuou para fora do quarto e fechou a porta atrás dela. Em seguida, desceu as escadas para começar o café da manhã. Colocou os biscoitos no forno, em seguida, começou a fritar o bacon e colocou o mingau para ferver. Um por um, quebrou os ovos e deixou-os cair em uma tigela.

Era estranho não ter pelo menos um dos seus meninos enfiando a cabeça em uma manhã de domingo. Eles estavam sempre famintos, e domingos eram os dias de grande café da manhã na casa dos Kelly. Ultimamente ficavam mais fora que em casa. Nathan e Joe estavam baseados no exterior, e Sam, Garrett e Donovan sempre pareciam estar fora em uma missão secreta para a KGI.

Ethan era o único rotineiramente em casa. Até agora. Ela suspirou enquanto batia os ovos um pouco mais vigorosamente. Ethan levava uma vida tranquila depois da morte de Rachel. Afastou-se da família. A única vez em que Frank o viu foi quando apareceu na loja de ferragens para ajudar, mas mesmo então, ele foi reservado.

E agora de repente ele estava fora em uma missão com Sam? Algo não estava certo com aquela imagem.

— E não pensem que não vou descobrir o que é, — ela murmurou.

Os meninos sempre pensavam que poderiam esconder algo dela, mas ninguém conseguia esconder nada por muito tempo.

Olhou para cima quando ouviu um som na escada. Rusty estava lá, com o jeans e camiseta de Rachel, os cabelos em desalinho e uma expressão reservada em seu rosto.

— Muito bom dia, — Marlene disse alegremente. — Está com fome?

Ainda olhando Marlene cautelosamente, Rusty seguiu até o balcão.

— Eu poderia comer.

— Muito bom. Frank estará aqui embaixo em breve e teremos uma boa refeição.

Rusty sentou-se à beira de um banco do balcão e observou enquanto Marlene derramava os ovos em uma frigideira. Ela virou o bacon e diminuiu o fogo do mingau para deixá-lo ferver.

— Eu não gosto de ovos.

— Eu odeio ouvir isso uma vez que é o que estou cozinhando. Espero que você coma ou vai passar fome.

— Você não quer saber quando irei embora? — Rusty disse em um tom beligerante.

— Desde que eu não lhe pedi para sair, não.

Rusty franziu a testa e se remexeu no banco.

— Então você não se importa se eu ficar?

— Estou preocupada que haja pessoas preocupadas com você. Parece-me que deveria deixar seu pessoal saber onde está, pelo menos.

Os olhos de Rusty congelaram e seu corpo todo enrijeceu.

— Eu não tenho qualquer pessoal. Nenhum que dá a mínima, de qualquer maneira.

Marlene tinha imaginado isso, mas não queria acolher esta menina se tivesse uma família preocupada com ela em algum lugar.

Nesse momento Frank desceu relaxadamente as escadas e entrou na cozinha. Parou para deixar cair um beijo na bochecha de Marlene antes de se voltar para o balcão. Olhou cautelosamente para Rusty, mas sentou-se sem comentários. Rusty não estendeu o tapete de boas vindas para ele também.

Postaram-se como dois animais prontos para atacar, cada um observando o outro para qualquer movimento inesperado.

— Então você está dizendo que quer ficar? — Marlene perguntou casualmente.

Rusty fez uma careta.

— Eu não disse isso.

Marlene virou-se enquanto pegava a frigideira e deslizou os ovos em um prato.

— Frank, será que você pode pegar os biscoitos por favor?

Ela colocou o bacon ao lado dos ovos e então pegou o mingau em uma tigela grande. Depois que tudo foi colocado no balcão, sentou-se em frente a Frank e Rusty, e gesticulou para avançarem.

— Você vai depois do café da manhã, então? — Marlene perguntou enquanto passava manteiga num biscoito.

Os lábios de Rusty se franziram com escárnio.

— Você quer que eu vá, não é?

— Se eu quisesse que você fosse, eu diria isso. Não sou de meias palavras.

— Muito direta, — Frank murmurou.

Ela lhe lançou um olhar sufocante. Algo que se assemelhava a um sorriso contornou a boca de Rusty.

— Gostaria que você ficasse se é isso o que quer, — disse Marlene para Rusty. — Mas se aceitar a minha oferta, terá que ser honesta comigo. Sobre tudo. E há regras.

Frank bufou e Marlene olhou para ele novamente.

— Não ligue sobre as regras, — Frank disse com um suspiro resignado. —Basta acenar com a cabeça e dizer “sim senhora”.

Marlene nivelou um olhar para Rusty.

— Isso soa como algo com o qual você pode viver?

Rusty se contorcia sob o escrutínio de Marlene. Ela pegou sua comida e brincou com um pedaço de bacon com o garfo.

— E se você mudar de ideia?

Marlene se controlava para não reagir ao medo e insegurança na voz da criança. E ela era uma criança. Uma criança tentando muito duramente ser um adulto, mas era um bebê, no entanto.

— Não vou mudar de ideia, Rusty. Enquanto você cumprir minhas regras e respeitar a minha casa, vamos conviver muito bem.

Por um longo momento Rusty fitou Marlene como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Então olhou de soslaio para Frank.

— Então vou ficar. Por enquanto, — acrescentou apressadamente.

 

Agradecido por perder o seu maldito fone de ouvido, Ethan emparelhou com Donovan enquanto procuravam pela vegetação rasteira. À frente, Donovan parou e segurou a mão na orelha.

— Diga de novo, Sam, o sinal está dispersando.

Donovan virou-se para Ethan enquanto ouvia atentamente.

— Entendido. Iremos ao seu encontro.

Donovan mexeu em seu GPS, olhou para baixo atentamente e depois para cima, como se determinando a direção para onde ir.

— Que diabos ele disse? — Ethan exigiu.

— Encontraram Rachel. Garrett está carregando-a de volta. Vão nos encontrar no helicóptero.

P.J. surgiu através de um emaranhado de folhas, seu rifle aparentemente grande demais para seu pequeno corpo.

— Vamos fazer trilhas, — disse ela. — O helicóptero está a dois quilômetros e meio acima do cume. Vai ser foda na nossa trajetória atual.

— Você tem uma maneira mais fácil? — Donovan perguntou.

— Não.

Ethan caminhou em frente, não esperando por eles para seguir a melhor rota.

— Espera, cara — Donovan chamou. — Já que sou o único com o GPS, você pode querer deixar-me assumir a liderança. Caso contrário vai acabar na Venezuela.

— Então vamos, — Ethan rosnou. — Já tivemos atrasos suficiente.

Seguiram através da selva, em silêncio, olhos e ouvidos atentos a qualquer barulho ou movimento.

Embora eles paralisaram a pequena aldeia com seu ataque surpresa, ainda estavam em menor número, e quando o inimigo tivesse tempo para se reagrupar, estariam atrás da KGI. Ethan queria muito estar fora da Colômbia com sua esposa bem antes que isso acontecesse.

Todo fôlego deixou seu peito, deixando-o murcho. Seu ritmo diminuiu enquanto os eventos do dia o envolviam. Ele ainda não tinha sido capaz de deleitar-se com a descoberta que Rachel estava viva antes de todo o inferno libertar-se. Mesmo agora, ela estava com seus irmãos, e ele dependia deles para levá-la com segurança para o helicóptero. Não que não confiasse neles. Confiou-lhes a sua vida e a de Rachel. Mas ansiava por ser o único com ela, oferecendo-lhe segurança.

Apertou o passo quando Donovan ganhou distância sobre ele. Não podia se dar ao luxo da mente vaguear assim. Poderia terminar com ele e seus companheiros mortos.

Olhou para P.J.. Ela manteve-se sem nenhum problema, e parecia imperturbável pela luta.

— Obrigado pela cobertura, — disse ele.

Ela pareceu espantada com o agradecimento. Seu rabo de cavalo balançava enquanto olhava de soslaio para ele.

— Sem problema. É o meu trabalho.

— É um trabalho no qual você é boa, — disse ele sinceramente.

— Para uma mulher, você quer dizer.

— Eu não disse isso.

Ele olhou para ver um sorriso cutucando os cantos da boca dela.

— Você está fazendo isso de propósito para me fazer sentir como um balde de lama, — ele acusou.

Ela encolheu os ombros.

— Você é um SEAL. Não está acostumado a entrar em combate com mulheres. Por isso está impressionado. Duvido que ficaria tão impressionado com Cole, e seu trabalho é o mesmo que o meu.

Ela o pegou.

— Ok, eu me rendo. Você está certa. Estou impressionado, porque você é uma mulher. Uma mulher muito pequena.

Donovan riu na frente deles.

— Cale-se enquanto estiver à frente, irmãozinho. Ela já atirou em bundas de pessoas por dizer menos que isso.

P.J. revirou os olhos para as costas de Donovan.

— Tem o tempo estimado de chegada, menino nerd?

— Ora, — disse Donovan. — Você me magoa com seus insultos. Meio quilômetro a mais. — Ele apontou para a inclinação à frente. — Logo depois do cume e estaremos olhando para o helicóptero.

— Então vamos fazer o que você disse, andar mais e falar menos, — disse ela enquanto saltava à frente.

E, novamente, sumariamente repreendido como um garoto errante. A mulher tinha um jeito de fazer um homem se sentir com um centímetro de altura.

Donovan e Ethan trocaram olhares divertidos e pegaram o ritmo.

Estavam sujos, molhados de suor, e Ethan tinha sangue seco endurecido no pescoço e na camisa, quando ultrapassaram a subida. Abaixo, o helicóptero estava coberto por uma rede de camuflagem.

Donovan falou baixinho em seu microfone, e, lentamente, os homens próximos ao helicóptero entraram no campo de visão.

Ethan, Donovan e P.J. apressaram-se e foram recebidos por Dolphin.

— Dê-me um relatório sobre Cole, — Donovan disse rapidamente.

— Ele está no helicóptero. Dei-lhe uma dose para aliviar a dor. Ricochete. Bala ainda está na perna. Teremos que parar na Costa Rica e deixar Maren examiná-lo e espero que possamos abastecer lá.

Donovan acenou com a cabeça e depois olhou para onde Baker e Renshaw estavam de pé, seus olhares cautelosos enquanto montavam guarda.

— Vocês estão bem? Qualquer outro ferimento?

— Só Dolphin, — disse Renshaw, sacudindo um dedo polegar na direção de Dolphin.

— Que diabos aconteceu com você? — Ethan perguntou.

Dolphin fez uma careta.

— Não é grande coisa. Provavelmente quebrei algumas costelas. Estava muito perto de uma das explosões.

— Isso mesmo — murmurou P.J.

— Sam, Garrett e Steele estão vindo com Rachel, — Donovan disse enquanto sua mão deixava o ouvido. — Retirem a cobertura do helicóptero. É hora de partir.

A equipe caiu em uma enxurrada de atividades. Ethan mergulhava para ajudar, embora sua mente gritasse para ir se encontrar com os outros. Forçou-se a conter a emoção aumentando dentro dele.

Rachel. Sua esposa. Ele iria levá-la para casa.

— Ethan, — P.J. murmurou ao lado dele.

Ele virou-se quando ela o cutucou, e ela fez um gesto para um ponto à distância. Ele seguiu o olhar e viu Garrett caminhando em direção ao helicóptero, Rachel em seus braços.

Ele esqueceu todo o resto. Indiferente de como parecia, começou a correr, ignorando a dor em sua cabeça e a dor de seus músculos. Tudo o que importava era chegar até ela.

Garrett parou e esperou Ethan chegar a ele. Sam e Steele passaram e Sam colocou uma mão no ombro de Ethan.

— Pegue-a e vamos, — Sam murmurou, antes de prosseguir.

— Ela está bem? — Ethan perguntou com um nó na garganta.

— Sam a sedou. Foi muito ruim, — disse Garrett depois de uma pausa.

Ethan pegou-a de Garrett, maravilhado com a sensação de tê-la em seus braços novamente, após tanto tempo. Neste momento ele absorveu a sensação, antes de jogá-la por cima do ombro para que pudessem ser rápidos.

— Vamos, vamos levá-la ao helicóptero, — disse Garrett.

Ethan a embalava em seus braços e caminhou para entrar no helicóptero enquanto estavam puxando a rede do rotor de cauda. Sentou-se enquanto os outros tomavam seus assentos e Donovan entrou na cabine do piloto.

Ethan olhou para o rosto delicado de Rachel e deu seu primeiro longo olhar para sua esposa desde que ele explodiu na cabana.

Suas roupas estavam rasgadas, o short fino e puído. Sua camiseta tinha inúmeros buracos e estava emaranhada com a sujeira. Ela não usava sapatos, e seu cabelo pendurava frouxamente em sua cabeça. Mas, para ele, nunca pareceu mais bonita.

A emoção tomou conta dele, sua garganta inchou e lágrimas queimaram suas pálpebras. Incapaz de pensar, de reagir, simplesmente apertou os lábios na testa dela e segurou-a tão firmemente quanto pôde.

— Tenho que admitir, eu estava cético, — Sam disse enquanto deslizava no chão ao lado de Garrett e na frente de Ethan.

Ethan olhou para cima para ver tristeza e arrependimento acesos nos olhos de seu irmão.

— Estou muito contente por a termos resgatado.

Ethan assentiu.

— Te devo uma, cara. Devo-lhe tudo.

— Besteira. Você não nos deve nada. Estou louco como o inferno por não poder ter estado aqui mais cedo, — Garrett rosnou

— Eu não entendo, — Ethan exclamou. — Por que? Por que ela? — Ele enterrou a cabeça em seu cabelo. — O que ela fez para merecer tudo disso?

Ele sugou em várias respirações firmes. Sentiu-se perto de ficar completamente insano, com raiva, dor e culpa. Como poderia não ter sabido que ela estava viva? Deveria ter exigido mais provas então. Em vez disso, aceitou cegamente a proclamação de que sua esposa não retornaria.

Sam se inclinou para frente para permitir que Steele passasse por cima dele.

— O importante é que você a tem de volta.

Sim. Ele a tinha de volta, e mataria qualquer filho da puta que tentasse tirá-la dele novamente.

— Ela está bem? — Steele perguntou enquanto tomava posição do outro lado de Sam.

Ethan notou o sangue no braço de Steele e o jeito com que ele fez uma careta quando sentou-se. Ethan olhou para Sam, que abanou a cabeça. Não era grave, mas Steele não parecia nem um pouco feliz com a lesão.

Ethan engoliu em seco e respondeu a pergunta de Steele.

— Não sei ainda. Acho que a viciaram em drogas.

Raiva apertou a mandíbula de Steele, e seus olhos azuis brilharam.

— Deveríamos apenas ter deixado cair um monte de explosivo C-4[12] e acabado com os idiotas.

P.J. deslizou ao lado de Ethan, enquanto Baker, Renshaw e Dolphin subiam atrás para estarem perto de Cole, que estava pálido como uma luz. Dolphin se esticou e soltou um gemido. Colocou a mão sobre as costelas.

— Cara, eu acho que estou ficando velho demais para essa merda.

Ethan sentiu um pouco da tensão deixá-lo. Começou a tremer enquanto a realidade o atingia.

— Quer que eu a leve? — Sam perguntou.

Ethan sacudiu a cabeça, apertando seu abraço sobre ela. Ela ainda não estava consciente, graças a Deus. O sedativo fizera seu trabalho.

— Obrigado, — disse Ethan alto o suficiente para que os outros ouvissem.

— Você teria feito o mesmo por um de nós, — Steele disse com um encolher de ombros. A ação o fez estremecer novamente, e ele segurou a mão no ombro. Ethan podia ver sangue infiltrar entre seus dedos. — E a verdade é que, quando você me disse o que tinha acontecido a Rachel, estava ansioso para chutar algum burro do cartel. Estou feliz por ela estar bem.

Ela estava bem? Essa era a pergunta de um milhão de dólares. Ela estava viva, mas quem realmente sabia como estava. Os bastardos a injetaram com drogas, Deus sabe por quanto tempo. Certamente tempo suficiente para deixá-la viciada. Ela estava no meio da abstinência quando Sam a encontrou. Ethan sequer queria deter-se sobre o que mais poderiam ter feito para ela.

Ele precisava levá-la a um médico, rápido. Mas primeiro tinham que dar o fora daqui. Vivos.

O zumbido das pás e o rugido do motor cortaram qualquer outra coisa que Ethan poderia ter dito. Em poucos segundos, Donovan levantou do chão e roçou junto às árvores. À distância, fumaça podia ser vista flutuando para o céu em uma corrente negra. As narinas de Ethan queimavam. Desejou que fizessem exatamente como Steele dissera e deixassem cair uma carga de C-4 e acabassem com tudo.

Ethan recostou-se e moveu Rachel, para que ela ficasse ainda mais perto dele. Não importava que ambos estivessem sujos, fedendo, e tivessem mais sujeira e lama endurecida sobre eles que um porco. Ela era dele. Ela era um milagre.

Fechou os olhos e escondeu o rosto nos cabelos dela. A ascensão e queda lenta de seu peito, o ligeiro movimento contra o seu corpo lhe deu a tranquilidade tão necessária. Beijou-a e manteve os lábios pressionados em sua cabeça. Não importa o que acontecesse, desta vez não iria cometer os mesmos erros que cometera antes. Ele valorizaria cada dia com ela. Só esperava que ela o perdoasse por seus passado.

 

— Acho que deveríamos ter chamado Sean para vir conosco, — Frank resmungou. — E o que você estava pensando, deixando Rusty sozinha em nossa casa? Teremos sorte se tivermos uma casa quando voltarmos. Ela provavelmente nos enviou em uma perseguição infrutífera. Como sabemos que estava nos dizendo a verdade?

A boca de Marlene se contraiu enquanto saiam da estrada do condado rural em um caminho de terra que era largo o suficiente para a caminhonete.

— É importante que eu lhe mostre confiança.

Frank bufou.

— Confiança. Você acabou de conhecer a menina na noite passada. A confiança é conquistada, Marlene. Você precisa tirar a cabeça das nuvens.

Ela suspirou enquanto chegavam a uma parada em frente de um trailer em ruínas e coberta de ervas daninhas e grama que não eram cortadas em anos.

— Você deveria ter pelo menos me deixado trazer a espingarda. Parece que essas pessoas querem companhia?

— Frank, pare. Olhe para este lugar. Rusty não pertence a este lugar. É de se admirar que ela fugiu?

Seu coração doía pela mágoa e desconfiança nos olhos da jovem. Olhos que estavam muito mais velhos que o resto dela.

— Vamos acabar com isso, — resmungou Frank. — E eu quero que você fique atrás de mim até que eu saiba se é seguro, ok?

Marlene assentiu e ambos saíram da caminhonete. Antes que pudesse fechar a porta, um homem saiu da porta de tela que estava pendurada por uma única dobradiça.

— Seja o que for que estiverem vendendo, não queremos nada, — ele falou em um tom beligerante. Pelo menos agora Marlene sabia onde Rusty o conseguiu.

Ela afastou-se da caminhonete e respondeu.

— Estamos aqui para falar com você sobre Rusty.

— O que aquela idiota fez desta vez? Não tenho nenhum dinheiro para ajudá-la a sair de problemas, então podem muito bem ir agora. Ela está por conta própria.

— Isso é muito evidente, — disse Marlene baixinho.

Frank entrou na frente dela e segurou sua mão para ela ficar parada. E silenciosa.

— Você é o pai dela? — Frank perguntou.

— Não vê que isso não é da sua conta?

— Bem, precisamos falar com o responsável por ela.

O homem olhou por um longo tempo, e então enfiou as mãos nos jeans rasgados e estufou o peito.

— Ela não é minha parente. Ela e a mãe estavam vivendo aqui comigo, mas a mãe dela partiu novamente. Sem dizer quando ou se vai voltar. A menina seguiu seus passos. Se foi faz uma semana.

Marlene fechou os olhos contra as lágrimas repentinas. Uma semana. Uma semana sozinha, sem comida, amedrontada e sem nenhum lugar para voltar. Rusty não mentiu sobre isso.

Ela pegou a mão de Frank e apertou com urgência. Ele pegou os dedos e deu um puxão em resposta.

— Então você não é o tutor legal.

— Claro que não. Deve ser a mãe nada boa. Eu lavei as minhas mãos sobre ambas. Mercadorias devolvidas, eu digo.

— Obrigado, — disse Frank. Virou-se e gesticulou para Marlene voltar a caminhonete.

— Quem vocês disseram que são? — o homem perguntou. — E o que aconteceu com Rusty?

Frank caminhou de volta para o carro e fez uma pausa na porta para olhar para o homem.

— Eu não disse. Agradecemos pelo seu tempo.

Entrou e ligou o motor. Afastaram-se dois quilômetros do trailer antes de dizer uma palavra. E então ele só falou para xingar longamente.

— O homem deveria ser baleado, — rosnou Frank.

Marlene lutou para conter o sorriso. Conhecia Frank muito bem. Ele podia ter uma aparência rígida, seu latido foi sempre pior que sua mordida, mas no fundo, tinha um coração tão mole, se não mais suave que o dela.

— Então, acho que você não vai se importar se ela ficar.

— Ela vai precisar de algumas roupas decentes. Talvez você possa levá-la para comprar em Clarksville. Não pode tê-la correndo nas roupas usadas de Rachel para sempre.

Marlene se aproximou e colocou a mão na dele.

 

Rusty estava sentada no mesmo banco do balcão em que estivera empoleirada quando Marlene e Frank saíram uma hora mais cedo. Sua postura era tensa, sua expressão pouco à vontade. Olhou para cima quando entraram , mas abaixou a cabeça, recusando-se a encontrar seus olhares.

Marlene queria desesperadamente abraçá-la. A criança provavelmente não recebia muitos abraços, mas não tinha certeza se Rusty os toleraria. Sua linguagem corporal gritava, não toque.

Em vez disso caminhou em torno do bar e colocou sua bolsa no balcão. Frank pairava no fundo como se quisesse dizer algo, mas então, soltou a respiração e afastou-se, deixando as duas mulheres sozinhas.

Como se não pudesse suportar o silêncio por mais tempo, Rusty cerrou os punhos e olhou para Marlene, com os olhos gritando em desafio. Usava seu melhor rosnado eu não dou a mínima.

— Bem, vocês falaram com Carl?

Marlene assentiu.

— Sim, falamos.

Rusty deu de ombros.

— Então acho que ele lhe disse que Sheila fugiu e que ele não dá a mínima para mim.

— Primeira regra. Cuidado com a boca. Não tolero esse tipo de linguagem de meus meninos, e não vou tolerá-lo de você.

Seus lábios se franziram em um sorriso de escárnio, mas ela não disse mais nada.

— Não vou mentir para você, Rusty. Carl disse exatamente o que você esperava que dissesse, mas eu precisava ouvi-lo com meus próprios ouvidos. Tinha que ter certeza que não estávamos entrando em uma bagunça legal, oferecendo-lhe um lugar para ficar.

— Sim, bem, a única forma de Carl dizer que se importava era se houvesse algo para ele. Se pensasse que vocês tinham dinheiro, ele me usaria para obtê-lo.

Marlene deu um suspiro.

— Você não precisa se preocupar mais com Carl. Eu lhe prometo isso. Há ainda a questão da sua mãe, mas vamos cruzar essa ponte quando e se chegarmos a isso. Por agora, você vai ficar aqui. A primeira coisa que vamos fazer é ir às compras de algumas roupas decentes.

Rusty olhou desconfiada para ela, mas Marlene ignorou e continuou.

— Há também a questão da escola. Espero que você frequente a escola  e termine a sua educação quando as aulas começarem em agosto.

— A escola é chata, — disse ela com um rolar de olhos.

— Para uma garota inteligente como você, eu não duvido, mas não se torna menos necessário. Nunca vai entrar na faculdade, se não terminar o ensino médio.

— Faculdade? — Ela riu, e parecia amarga e zombeteira. — O que uma garota como eu iria fazer na faculdade? Não posso bancar as despesas e nunca conseguiria, de qualquer maneira, com a minha ficha.

— Ficha?

— Sim, — ela murmurou. — Nada importante. Fui enviada para o reformatório uma vez.

— Por quê?

O queixo ergueu-se, e o fogo ardia em seus olhos.

— Prostituição.

Marlene fechou os olhos e desejou não desmoronar na frente desta criança. Quando os abriu, viu a raiva refletida no rosto de Rusty. Ela não gostou da piedade de Marlene.

— Bem, o que está feito está feito. Não podemos mudar o passado, mas podemos com certeza mudar o seu futuro. Você irá para a escola, e irá trabalhar duro. Sem desculpas.

Houve uma ligeira mudança e Rusty pareceu murchar um pouco. Marlene inclinou-se sobre o balcão e se arriscou a cobrir as mãos Rusty com as suas.

— Não duvido que você teve uma vida difícil e que muitas pessoas devem tê-la decepcionado. Você pode chafurdar na miséria e continuar a ser uma vítima, ou pode se encarregar do seu destino e mudar tudo por aí. A escolha é sua. Não posso fazer você segui-la, e não quero. Frank e eu lhe forneceremos a oportunidade, mas você tem que querer melhorar.

Rusty olhou para as mãos de Marlene, com os olhos brilhando com o que parecia ser lágrimas contidas com muito esforço.

— Por que está fazendo isso? O que espera em troca?

— Nem todos fazem algo para receber algo em troca, — disse Marlene suavemente. — Além disso, vê-la graduada, indo para a faculdade e fazendo algo para si mesma será o que ganharei em troca.

— Então eu posso ficar? — ela perguntou, esperançosa.

— Você pode ficar.

Marlene pegou a bolsa de novo e pegou as chaves de seu carro. Caminhou em direção à porta da garagem e então se virou e prendeu Rusty com um olhar.

— Bem, não fique sentada aí, vamos lá.

Rusty saltou do banquinho e esfregou as mãos nervosamente sobre as pernas da calça.

— Onde vamos?

— Comprar algumas roupas e sapatos para você. Talvez fazer alguma coisa com esse cabelo, enquanto estamos no assunto.

Rusty franziu a testa e passou a mão defensivamente sobre os fios longos.

— O que há de errado com o meu cabelo?

— Nada, se você não se importa de parecer um galo cor-de-rosa, — Marlene disse secamente. — Sei que as crianças nestes dias têm ideias estranhas sobre moda, mas confie em mim, essa aparência nunca é uma boa ideia.

 

Estava escuro quando voltaram para casa. Frank se encontrou com elas na porta e pegou as sacolas que carregavam. Fizera duas viagens quando viu Rusty.

Marlene sorriu e se virou para Rusty.

— Eu não disse que ele não iria reconhecê-la?

Rusty abaixou a cabeça, excessivamente consciente de sua aparência e parecia que queria que o chão a engolisse. Sua confiança estava na sarjeta, mas se Marlene tivesse chance, ela a construiria de volta.

— Você está bonita, — disse Frank rispidamente. — Como uma jovem senhorita em vez de alguma punk.

Rusty realmente sorriu para o elogio indireto.

— Há mais sacolas no porta-malas, — disse Marlene, enquanto caminhavam para a cozinha.

— Vocês compraram a loja toda? — Frank bufou.

— Quase. Eu não fazia muitas compras divertidas desde a época em que ia com  Rachel.

Sua boca tremeu quando as palavras escaparam antes que ela pensasse melhor. Frank apertou seu braço no caminho para fora da porta.

— O que aconteceu com Rachel? — Rusty perguntou. — Você a mencionou antes.

Marlene deu um suspiro.

— Ela era casada com meu filho Ethan.

— Eles se divorciaram?

— Não. Ela morreu um ano atrás, — ela respondeu suavemente.

Rusty se moveu desconfortavelmente.

— Desculpe!

Marlene sorriu.

— Não lamente. Digo a Ethan o todo o tempo que é hora de seguir com a vida, mas não sigo o meu próprio conselho.

— Você a amava muito.

Não era uma pergunta, mas uma constatação.

— Sim, eu a amava.

Frank apressou-se de volta com o resto das sacolas, e Marlene virou-se para Rusty.

— Bem jovem senhorita, você tem um monte de coisas para desembalar. Melhor subir e colocar tudo no lugar. O banheiro no final do corredor vai servir como seu. Com toda a maquiagem e outras coisas de cabelo que compramos, você estará organizando roupas e cosméticos, até a hora de deitar.

Por um momento, Rusty não se moveu. Ela se mexia desconfortavelmente, passando de um pé sobre o outro. Então olhou para Frank e, finalmente, para Marlene.

— Obrigada, uh, eu quero dizer... muito obrigada.

Marlene deu um tapinha em seu braço.

— Não tem de que.

 

Enquanto Donovan pousava o helicóptero sobre o caminho de solo nu ao lado de um edifício de pedra não identificado, uma mulher em um jaleco branco corria para fora, protegendo o rosto com a mão.

Ethan apertou Rachel ainda mais, enquanto Sam pulava e corria com a cabeça abaixada para a mulher. Dra. Maren Scofield. Ele ouviu falar dela por seus irmãos. A KGI a resgatou durante uma intensa crise de reféns. Foi a única sobrevivente. Depois ela deixou a África e estabeleceu sua clínica em uma região pobre e rural da Costa Rica.

Sam voltou com a Dra. Scofield um momento depois, e ela enfiou a cabeça dentro do helicóptero para o levantamento dos feridos. Apontou para Cole.

— Leve-o primeiro. Sala de exame da frente. — O seu olhar passou para Rachel e depois para Dolphin e Steele. Apontou primeiro para Steele. — Segunda Sala de exame. — Então fez um gesto para Dolphin. — Leve-o para a parte de trás. Tenho um aparelho portátil de raios-X. Vou ver se ele está com alguma costela quebrada.

Cole resmungou e balançou a cabeça. Dolphin também permaneceu imóvel.

— Atenda Rachel primeiro, — Steele disse com voz firme.

A Dra. Scofield olhou para Rachel, surpresa, depois olhou para os homens, como se conferindo sua determinação.

— Eu realmente acho que os ferimentos por arma de fogo devem ser atendidos em primeiro lugar.

Cole levantou a mão, a dor evidente no vinco de seu rosto.

— Rachel vem em primeiro lugar.

A Dra. Scofield deu de ombros e olhou para Ethan.

— Traga-a para dentro. — Ela virou-se para Sam. — Leve seus homens paras as salas de exame ou não lhes sobrarão nenhum membro. Se apodrecerem, não é culpa minha. O resto de vocês pode tomar banho na parte de trás, enquanto esperam.

Sam sorriu e fez sinal para Ethan sair.

— Vamos levá-los para dentro, Maren. Não fique muito agitada.

A Dra. Scofield fez uma careta para Sam, mas Ethan podia ver o carinho piscar em seus olhos.

Ethan desceu, segurando Rachel firmemente. A Dra. Scofield se inclinou enquanto caminhavam em direção à clínica e, em seguida, olhou para Ethan.

— Há quanto tempo ela está inconsciente?

— Nós lhe demos um sedativo, — disse Ethan. — Foi mais fácil dessa maneira.

A Dra. Scofield liderou o caminho em um dos quartos minúsculos, em seguida, fez sinal para que Ethan colocasse Rachel em cima da mesa de exame. Enquanto erguia o estetoscópio, a médica olhou para Ethan sobre os óculos.

— Preciso que você me dê um resumo da situação. Então poderá ir tomar banho com os outros enquanto eu termino.

Ethan hesitou. Não queria deixar Rachel aqui sozinha. E se ela acordasse e entrasse  em pânico?

A expressão da Dra. Scofield suavizou-se.

— Não vou demorar, e então você poderá voltar. Ela provavelmente não vai mesmo acordar.

Relutantemente, Ethan disse a ela tudo o que sabia sobre a condição de Rachel. O que não era muito. Quando terminou, a Dra. Scofield acenou e fez sinal para ele sair.

Ele saiu do quarto e encontrou Sam no corredor conversando com seu chefe de outra equipe, Rio.

— Ethan, — disse Rio, com um aceno de cabeça quando Ethan se aproximou. — Bom te ver.

Ethan apertou sua mão.

— Que diabos você está fazendo aqui?

— Estava justamente perguntando a mesma coisa, — Sam disse secamente.

Rio abriu um sorriso.

— Trouxe-lhes um presente, companheiros. Um novo helicóptero. O que está lá fora, vai chamar atenção que vocês não querem, com todos os buracos de bala. Para não mencionar o fato que o governo colombiano divulgou um comunicado dizendo que tal helicóptero é um item de interesse na segurança nacional.

Sam xingou.

— Eu tinha medo que isso acontecesse. Nossa partida foi muito confusa.

Rio encolheu os ombros.

— Fadado a acontecer quando você só tem três dias para planejar uma missão e está com pouca mão de obra. Deveriam ter esperado por mim e minha equipe para atacar. Significaria apenas mais um dia.

— Não podíamos esperar mais um dia, — Ethan interrompeu. — Eles estavam com a minha esposa.

Rio olhou para Ethan por um momento e depois assentiu.

— Entendo. Ainda assim, precisamos abandonar o helicóptero. Sem chance de alguém não notar, até mesmo nesta vila latrina, na selva da Costa Rica. Vou cuidar disso.

Sem outra palavra, ele se virou e afastou-se, desaparecendo tão depressa como apareceu.

Sam balançou a cabeça, em seguida, virou-se para Ethan.

— Rachel melhorou?

— A Dr. Scofield está examinando-a.

— Vamos tomar um banho então. Estamos cheirando como cabras.

Foram para a parte de trás da clínica onde a pequena sala abrigava dois chuveiros abertos. Lá não havia água quente, mas mesmo a morna fez Ethan se sentir bem. Lavou o sangue seco e sentiu a ferida ao longo de seu couro cabeludo. Tinha sorte de não estar morto.

— Os homens de Rio vieram com ele? — Ethan perguntou depois que tomaram banho e se secaram.

— Sim... onde Rio vai, assim o faz sua equipe. São um grupo reservado, antissocial para o núcleo. Provavelmente se ressentiram como o inferno por ter que sair de suas cavernas, mesmo que brevemente.

— Parecem com o meu tipo de pessoa, — Ethan disse com um sorriso breve.

Sam olhou para ele com espanto.

— Bem, eu estou muito ferrado. Você fez uma piada. Onde é que o mundo vai parar?

Ethan o bateu com uma toalha.

— Corte essa atitude brincalhona, grande irmão. Eu ainda posso chutar o seu traseiro esquelético.

Sam realmente sorriu. Então, sem aviso, pegou Ethan em um grande abraço de urso e bateu nas costas dele.

— É muito bom ter você de volta, irmãozinho.

— Deixe de ser sentimental, — Ethan resmungou enquanto se afastava.

— As garotas estão tendo uma festa de amor aqui atrás? — Donovan perguntou.

Ethan e Sam se viraram para ver Donovan e Garrett de pé na porta, sorrisos divertidos estampados em seus rostos.

Sam os despachou.

— Fiquem limpos antes que Maren jogue suas carcaças fedorentas para fora da clínica. Ethan e eu checaremos os outros, enquanto esperamos Maren acabar com Rachel.

Ethan entrou no quarto de Cole para encontrar seu companheiro de equipe deitado desajeitadamente em cima da mesa pequena demais, os olhos fechados e a testa enrugada com a tensão.

— Ei, cara, — Ethan disse calmamente.

Cole abriu os olhos e olhou para ele.

— Rachel?

— Nada ainda. A Dra. Scofield está examinando-a. Queria ver como você estava se sentindo.

— Já estive melhor. Já estive pior. Nada que eu não vou passar por cima com a ajuda de algumas boas drogas, — ele ofereceu ironicamente.

Ethan hesitou e engoliu desconfortavelmente.

— Algo errado? — Cole perguntou.

— Eu só queria dizer obrigado. Você arriscou sua vida para salvar Rachel. Nunca terei como retribuir. Tê-la de volta... Apenas obrigado. Apreciei sua ajuda.

Cole fez um barulho rude.

— Só não grite aquela merda de Semper Fi[13] senão o chamaremos da mesma coisa.

Ethan deu-lhe um olhar de falso horror.

— Hooyah[14], baby. Hooyah.

Cole sorriu.

— Em frente, irmão. Em frente.

Então, ele se deitou e gemeu.

— Se aqueles idiotas tivessem melhor pontaria, esta teria sido um entrar, limpar e sair.

— Sim, bem, se tivessem melhor pontaria, seu cérebro estaria respingado sobre a selva colombiana, — Ethan disse secamente.

Cole fechou os olhos, cansado.

— Isso é.

— Vou sair daqui. Vou dar uma olhada em Dolphin e Steele.

Cole abriu os olhos novamente e ergueu a cabeça.

— Não perca seu tempo com Steele, cara. E pelo Amor de Deus não lhe agradeça. Só vai irritá-lo.

Ethan riu.

— Eu me lembrarei disso. Experimente descansar um pouco. A doutora virá em breve.

— E você, cuide daquela sua garota. Você é um maldito homem de sorte. Nem todo mundo tem uma segunda chance

— Sim, — disse Ethan sobriamente. — Eu tenho sorte.

Ele se virou e caminhou para fora, ombros apertados, o peito ainda mais apertado. Uma porta abaixo, colocou a cabeça no quarto de Dolphin, apenas para ver Baker e Renshaw lá dentro. Ele acenou para Dolphin e continuou.

Steele estava sentado na mesa de exame, sua expressão cismada. Ele conectou olhares com Ethan e deu um aceno rápido de desprezo. Ethan pegou a dica e caminhou para a pequena área de recepção onde Sam estava sentado. Ethan largou-se em uma das pequenas cadeiras desconfortáveis e fechou os olhos.

A próxima coisa que percebeu, foi Sam cutucando-o para acordar. Ele piscou rapidamente enquanto a face da Dra. Scofield emergia.

— Ethan, — disse ela em voz baixa. — Você pode vir comigo?

Ele se levantou, esfregando o sono dos olhos enquanto seguia a médica para a sala de exames. A ansiedade o deixou nervoso, e esfregou as palmas úmidas em seu uniforme. Quando passaram direto pelo quarto de Rachel, atirou um olhar indagador para a médica.

— Pensei que poderíamos conversar em meu escritório, — disse ela, enquanto abria a porta e entrava. — Eis. — Seu braço varreu a sala que mais parecia um armário.

Papéis estavam empilhados em toda a superfície exposta e caixas cobriam as paredes de cada lado de sua mesa.

Ela empurrou uma pilha de envelopes da cadeira em frente e estendeu a mão para ele se sentar. Então, deu a volta para o outro lado e se sentou.

Não sendo capaz de suportar o suspense, ele deixou escapar:

— Como ela está?

— Está bem fisicamente. Há alguns ferimentos arroxeados em torno de seu ombro, mas não está deslocado. Ficará dolorido e imobilizado alguns dias, mas deverá recuperar seu pleno uso.

Ela tirou os óculos e passou a mão pelos cabelos loiros na altura dos ombros.

— Há muito com que você terá que lidar. Não vou suavizar para você. Ela está desnutrida e combatendo uma infecção. Em suma, está fatigada e vai precisar de um tempo para se recuperar adequadamente.

— Eles a machucaram? — Ethan perguntou em voz baixa. — Quero dizer, fisicamente?

Seu rosto se contorceu em simpatia.

— Não encontrei nenhuma evidência recente de trauma sexual. Ela estava em cativeiro há muito tempo, então é impossível dizer o que pode ter sofrido logo no início. Fiz exames de sangue, e farei o teste para doenças sexualmente transmissíveis.

Ethan engoliu e depois engoliu novamente. Queria vomitar ao pensamento do que esses bastardos sujos poderiam ter feito para ela. Estivera prisioneira, impotente, enquanto ele estava a um mundo de distância.

— Não vai fazer nenhum bem torturar-se, — a Dra. Scofield disse gentilmente. — E como eu disse, não há qualquer evidência recente de agressão sexual. Minha maior preocupação é a evidência do abuso de drogas.

— Eles a forçaram a usar, — Ethan disse ferozmente.

— Eu sei! Minha preocupação é em não saber o que lhe deram. Meu palpite seria obviamente cocaína, dada a acessibilidade na região geográfica onde ela foi mantida em cativeiro. E, de fato alguns dos seus sintomas coincidem com os de abstinência da cocaína. No entanto, por mais estranho que possa parecer, há evidências de que ela foi injetada rotineiramente com heroína.

Ethan fechou os olhos contra as arremetidas repentinas de raiva e dor.

— Muitos dos sintomas que ela apresentou são indicativos de abstinência de heroína. Em uma nota positiva, a abstinência de heroína não é tão longa ou tão abrangente como a de cocaína. É desagradável, enquanto dura, mas, felizmente, termina em alguns dias, ao contrário dos viciados em cocaína, que  têm seus desejos estendidos por meses, e às vezes até mais.

— E sua memória? Está danificada irreparavelmente? — Ethan perguntou.

— Não posso dizer com certeza médica. O cérebro humano é uma coisa fascinante. Imprevisível. As drogas poderiam ter causado danos ao seu cérebro. Se é permanente, não posso dizer. Poderia ser simplesmente uma questão de teias de aranha que ela não teve tempo para limpar ainda. Quanto mais tempo estiver fora das drogas, melhor chance terá do passado voltar para ela.

— Então o que eu faço?

A Dra. Scofield ofereceu-lhe um sorriso encorajador.

— Você a leva para casa e a faz se sentir melhor. Ela tem algum peso a ganhar. Mas o mais importante é sua saúde mental. Isto não vai ser fácil, Ethan. Sugiro que entre em contato com um terapeuta, logo que chegar em casa, e também faça o acompanhamento médico de sua saúde. Você terá que ser paciente e compreensivo, mesmo quando estiver no seu limite. Ela poderia muito bem se quebrar.

Ele soltou a respiração, assustado com o brilho das lágrimas que turvavam sua visão.

— E lembre-se que você precisa de ajuda também, — disse ela em voz baixa. — Não tenha medo de se apoiar em sua família. Sugiro que consulte um terapeuta também. Você não pode fazer tudo.

— Farei o que for preciso para que ela melhore.

Dra. Scofield assentiu.

— Ela está dormindo agora. Acordou brevemente, e depois que assegurei que estava segura e que você estava por perto, voltou a dormir. Está visivelmente em abstinência. Mesmo no sono, treme e tem tremores musculares.

Ethan se mexeu na cadeira e depois se inclinou para frente.

— Quando poderei levá-la para casa?

Ela bateu na mesa com a caneta por um momento.

— Ela não pode voltar para casa como está. Abstinência não é algo que pode usar uma varinha mágica ou dar-lhe alguns dias de fluidos intravenosos, boa nutrição, e ela se sentirá melhor. Normalmente eu recomendaria que ficasse em uma clínica de reabilitação até o pior da abstinência passar, mas reconheço que esta situação é diferente e você não quer chamar a atenção para si mesmo em um país estrangeiro. A próxima melhor coisa para ela é permanecer aqui onde eu posso acompanhar a abstinência, e ter certeza que ela recupere algumas das suas forças. Voltar para casa vai ser traumático para ela, então não deve ser empurrada para ir muito em breve.

Ethan balançou a cabeça em confusão.

— Traumática?

— Bem, sim. Esmagadora é uma palavra melhor, eu suponho. Acho que os seus irmãos devem ir em frente e suavizar as coisas para ela voltar ao lar. Manter tudo o mais tranquilo possível. Ela está em um estado muito delicado agora e você não quer empurrá-la muito duramente.

— Então ficaremos aqui, — disse Ethan lentamente. — É uma boa ideia? Quero dizer, para você?

— Fale sobre isso com Sam. Tenho certeza que uma vez que ele entenda a situação, irá concordar. Quanto a mim, tudo bem. Após a merda na África, nada me assusta mais. O governo faz merdas por aqui e me deixa sozinha para tratar os aldeões. Não sou vista como uma ameaça.

— Isso pode mudar com a nossa chegada, — Ethan salientou. Ele gostava da médica. Tinha um ar indiferente sobre ela que era atraente. Ou talvez fosse porque ela não suavizava as coisas quando se tratava de Rachel. Ele precisava de honestidade e franqueza, porque estava completamente perdido, pela primeira vez em sua vida. Mesmo quando estivera errado no passado, ele foi decidido. Brusco e rápido em tomar uma decisão. Na maioria das vezes, em seu detrimento.

Desta vez, iria agir lentamente e colocar as necessidades de Rachel antes das suas. Algo que não estivera disposto a fazer no passado.

— É um risco que estou disposto a assumir. A KGI arriscou muito por mim. É o mínimo que posso fazer. — Ela sorriu. — Agora, se você me dá licença, tenho outros pacientes para ver...

Ethan levantou-se.

— Obrigado, Dra. Scofield. Por tudo.

— Me chame de Maren, por favor.

— Obrigado, Maren.

— De nada.

Ela saiu do seu escritório e se dirigiu para a sala de exame de Cole, deixando Ethan em frente de sua mesa, o coração batendo um pouco mais rápido que antes.

 

Rachel abriu os olhos, piscando para ajustar-se à luz fraca. Depois de um momento conseguia ver claramente. As coisas tinham mudado desde a última vez que acordou. Já não estava em uma estreita mesa numa sala tão pequena que ela imediatamente começara a suar. Ao contrário, estava numa cama maior, mais confortável.

Olhou para baixo para ver uma linha intravenosa correndo de seu braço a um saco pendurado em um poste ao lado da cama. Por um momento, ela só ficou ali no silêncio e quietude, absorvendo o primeiro sentimento de paz que experimentava em mais tempo que sua mente abalada podia compreender.

Não havia fome. Não havia a necessidade esmagadora do veneno que infiltrava sua pele e se arrastava insidiosamente através de suas veias. Pelo espaço de alguns momentos não havia nenhuma dor. Apenas o doce silêncio. Um movimento à direita a assustou, e ela deixou escapar um suspiro. A sombra se moveu e luz suave correu sobre seus olhos.

— Rachel, sou eu, Ethan. Desculpe se eu a assustei.

Ele apareceu, de pé ao seu lado. Ela aproveitou a oportunidade para estudá-lo com emprestada clareza. Ele era grande, muito maior que os homens que assombravam seus pesadelos, e ainda assim, sabia instintivamente que ele não iria machucá-la, que estava segura com ele.

Cabelo liso, preto cortado curto. Militar. A palavra flutuou em sua mente inconscientemente. Surpreendentes olhos azuis, sérios e pensativos. Outra imagem piscou, os olhos brilhando de riso enquanto ele a girava e girava. Ela fechou os olhos, querendo mais da memória, mas tão rapidamente como veio, foi embora.

— Você está sentindo dor?

A voz urgente de Ethan atravessou o prazer de seus sonhos. Seus olhos se abriram novamente, e desta vez, ele estava encostado perto, os dedos alcançando hesitantemente seu rosto.

Em vez de responder, ela estendeu a mão e pegou seus dedos. Eram tão quentes e fortes ao redor dos dela. Ele esfregou o dedo na parte superior de sua mão e depois o trouxe até os lábios, um gesto de ternura que a tocou profundamente.

— Ei, — ele murmurou com uma voz hesitante. — Como você está?

— Ethan.

— Sim, querida, sou eu, Ethan. Você está segura agora. Você entende isso?

Ela assentiu, a garganta muito apertada para dizer qualquer coisa.

Ele se inclinou e apertou os lábios em sua testa, e depois afastou-se e cuidadosamente empurrou os cabelos dela para trás com os dedos.

— Há espaço para eu me sentar? — ele perguntou.

Ela olhou para onde o seu quadril encostava-se na cama e depois afastou-se apressadamente para o outro lado.

Ele se colocou em cima da cama, sua coxa pressionando a dela.

— Como está se sentindo?

Ela pensou por um momento. Como poderia explicar como se sentia?

— Livre, — ela finalmente disse.

Ele pegou suas mãos e puxou para dentro de seu alcance.

— Eu vou levá-la para casa em breve. A Dra. Scofield quer vê-la por alguns dias e verificar se está bem para sair, antes de irmos embora. Mas estarei com você o tempo todo.

Mais imagens assombravam sua memória. Nebulosas, penduradas na ponta de suas lembranças. Desta vez, ela viu o rosto de Ethan marcado pela raiva. Ele gritou e ela recuou pela sensação escura que varreu sobre ela.

— Rachel?

Ela voltou o olhar para o dele e tentou controlar sua respiração rápida.

— O que há de errado, querida?

Ela balançou a cabeça, incapaz de explicar o breve flash que a agitou.

Por um longo momento, ele simplesmente olhou para ela, seu olhar acariciando o rosto, tão certo como se estivesse acariciando-a com os dedos. Ela absorveu avidamente, querendo este contato, a sensação de segurança que ele incutia apenas com sua presença. Pela primeira vez em muito tempo, não estava sendo devorada viva pelo medo e pela dor.

Novamente ele levou as mãos dela à boca e segurou-as lá, sua boca pressionando os nós dos dedos. Ele tremia contra seus dedos enquanto os beijava.

— Eu só preciso te tocar, — disse ele. — Ter você aqui. Vê-la. Senti-la novamente. — A emoção enchia sua voz, tornando-a tensa e rouca. — Pensei que você estivesse morta. Disseram-me que estava morta. Eu a enterrei, fiz luto por você, tentei continuar a minha vida sem você. E agora aqui está você! É mais do que eu jamais esperava ou sonhava.

A respiração dela ficou presa e entrecortada em seu peito. Seu interior retorcido e espremido. Lágrimas queimavam como ácido.

— Esperei por você, — ela sussurrou. — Com o tempo, pensei que o imaginei. Quando esqueci tudo, menos meu nome, pensei que talvez eu tivesse imaginado você e que a esperança fosse proibida para mim. Eu sabia que você viria quando eu não sabia mais nada.

Ele abaixou a cabeça, aproximando-se até a sua testa tocar a dela.

— Eu amo você, Rachel. Muito, muito. Sei que temos muito a enfrentar, mas você não está mais sozinha. Você nunca vai estar sozinha novamente.

Ela fechou os olhos, saboreando sua promessa. Estava com medo de acreditar, de ter esperança que depois de tanto tempo seu pesadelo tivesse acabado.

— Há muitas coisas que não me lembro, — disse ela, hesitante. Será que isso o enraivecia, que ela só poderia lembrar-se de pedaços da vida deles em conjunto? Não só isso, mas ela mal conseguia se lembrar de si mesma.

Como se estivesse sentindo sua confusão, ele se afastou. Olhou para ela, de repente, seus olhos perturbados. Quase culpados. Seus olhos se estreitaram em perplexidade. O que ele teria para se sentir culpado?

— Vai ficar tudo bem, querida, — ele a acalmou. — Vai voltar com o tempo, e vamos enfrentá-lo juntos. O mais importante é que tenho você de volta.

— O que ela me deu? A médica. Eu me sinto...

— Está sentindo dor? Quer que eu pegue algo com ela?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Eu me sinto... — Ela examinou mentalmente seu estado físico. — Serena. Minha mente está serena. Minha pele não está mais formigando, apesar de saber que isso está lá, esperando para voltar.

Ele gentilmente tocou seu rosto, seus dedos deslizando sobre a bochecha e os lábios.

— Vamos vencer isto.

Ela fechou os olhos enquanto a tristeza se estabelecia, espessa e sufocante.

— O que eles fizeram comigo? Por que?

As mãos de Ethan pararam em seu rosto.

— Eu não sei por quê. — Raiva apertava sua voz. Ela abriu os olhos para ver a fúria refletida nos dele. — Não vou deixar acontecer novamente. Eu protejo o que é meu.

Uma pontada peculiar estremeceu em sua espinha, deixando um brilho quente em seu rastro. Seu peito inflou e algo dentro dela morto a muito tempo, despertou e desenrolou.

Ela pertencia a este homem. Ele a manteria segura.

— Conte-me sobre nós, — ela sussurrou.

Ele sorriu então, e transformou seu rosto. Foi-se o homem sério, áspero, substituído pelo charme pueril. Foi uma coisa maravilhosa de se ver.

— Nós nos casamos há três anos.

A testa dela enrugou.

— Oh, não faz muito tempo.

Os olhos dele perderam parte do brilho.

— Não, não faz muito tempo.

Se ela se concentrasse bastante, poderia convocar memórias distantes. Era estranho. Se pudesse lembrar-se delas, era como se pertencessem a outra pessoa. A conexão com ela não tinha sido forjada em sua mente esfarrapada.

—Garrett me entregou no nosso casamento?

Ethan se imobilizou e então lentamente assentiu.

— Eu me lembro que ele me disse que eu era a noiva mais bonita do mundo.

— E você era.

— Eu me lembro de vê-lo, esperando por mim.

Ethan hesitou por um momento.

— O que mais você lembra?

Ela suspirou.

— É uma espécie de confusão. Quer dizer, eu lembro de um monte de coisas aleatórias, mas não tenho uma lista cronológica clara dos acontecimentos. É como alguém fotografando fotos fora de ordem para mim.

— Não apresse. Você já passou por muita coisa. Quando eu levá-la para casa, você se sentirá segura novamente, e se lembrará.

Ela inclinou a cabeça para o lado por um momento.

— Quantos irmãos você tem? Eu só lembrei de Garrett. Sam... ele me assusta. E não há outro aqui? Donovan?

Ethan sorriu.

— Garrett é geralmente aquele que assusta as pessoas. Sam é o mais velho, mas você pensaria que Garrett o era.

— Garrett não iria me machucar.

— Nem Sam, — disse ele delicadamente. — Para responder à sua pergunta, há seis de nós ao todo. Nathan e Joe são irmãos gêmeos e estão destacados no Afeganistão.

— Eu tenho família? Parece estranho que me lembre de Garrett, mas não da minha própria família.

Ele balançou a cabeça.

— Você era apenas uma criança, e seus pais morreram em um acidente de carro vários anos atrás.

— Oh. — Ela não poderia segurar a decepção que acompanhou sua declaração.

— Você era muito próxima de minha mãe, no entanto. Ela e meu pai a amavam como uma filha. Você já era parte da família muito antes de eu me casar com você.

Ela relaxou e sorriu. Em seguida, a testa franziu enquanto se lembrava de um detalhe.

— Eles acham que estou morta. Como você achava.

Ethan suspirou e passou a mão pelos cabelos.

— Como você soube? Quero dizer, como me encontrou?

Ela tremia enquanto falava, e já podia sentir o rastreamento lento da necessidade fluir sobre ela.

— É uma longa história, querida e agora não é importante. O importante é que a encontrei. Você é um milagre para todos nós. Mamãe e papai vão ficar tão emocionados. Eu não sei ainda como vou dizer isso a eles. Eles vão pensar que estou louco.

— Eu estou com fome, — ela desabafou. Esfregou a mão sobre o braço, tentando fazer com que a coceira fosse embora. A fome batia por ela, mas não tinha certeza qual prevalecia: a fome de alimentos ou a fome da agulha.

Podia sentir o afundamento da agulha em sua carne, acolhendo-a, queria que a horrível dor fosse embora.

A mão de Ethan fechou calorosamente sobre a dela.

— Eu já volto.

Ele levantou da cama e saiu da sala depois de um rápido olhar para Rachel. Seja o que for que Maren deu a ela, o efeito estava acabando, e ela estava ficando agitada novamente.

Ele enfiou a cabeça na porta do quarto de Cole para vê-lo desmaiado. De lá, passou pelo quarto de Steele, apenas para encontrá-lo vazio, não que isso o surpreendesse. Quase esbarrou em Maren enquanto ela saía do quarto de Dolphin.

— Existe um lugar onde podemos conseguir alguma comida? — Ethan perguntou. — Rachel está com fome.

— Isso é bom. Ela precisa comer. Mas vá com calma. Não lhe dê nada depressa demais. Eu tenho uma cozinha pequena na parte de trás onde podemos esquentar uma sopa no micro-ondas.

Ela se virou e Ethan a seguiu pela área dos chuveiros até uma cozinha que tinha um fogão de duas bocas, um pequeno refrigerador e um micro-ondas.

— Todos os confortos de casa, — disse ela com tristeza.

— Você não vive aqui, não é?

— Sim e não. Quando estou ocupada ou tenho pacientes, durmo na sala aqui do fundo, mas não, eu tenho uma casa de campo a meio quilômetro da clínica. Não é muito, mas é seca e protege da chuva.

— Onde estão todos? — ele perguntou enquanto a olhava pegar uma tigela no refrigerador.

— Enviei-os para a casa de campo. Eles podem dormir, comer e, geralmente, ficar longe do meu cabelo lá. Sam pediu para lhe dizer que estaria de volta daqui a pouco. Por que você não volta para Rachel? Vou esquentar isso e estará pronto em poucos minutos.

— Obrigado, eu gostaria Maren.

Ela sorriu e fez um movimento espantando-o com a mão. Ethan se virou e caminhou de volta para o salão. Estava quase na porta de Raquel, quando ouviu um estrondo.

Saiu correndo e entrou pela porta para ver Rachel de pé ao lado da cama, o suporte do intravenoso derrubado. Ela puxava freneticamente a linha em seu pulso, e antes que ele pudesse reagir, arrancou a linha do cateter. Sangue derramava do cateter ainda inserido no seu braço para o chão e na camisola.

Ela ignorou-o, esfregando e batendo freneticamente os braços, peito e pernas. Sangue voava em todas as direções enquanto ela batia em objetos invisíveis.

Ele saltou sobre a cama e a agarrou contra ele. Estendeu a mão para o pulso dela para tentar parar o fluxo de sangue, mas ela lutava incansavelmente. Ela não estava ciente de sua presença.

— Rachel! Pare. Querida, pare!

— Tire-os! — ela gemia. — Deus, tire-os de mim!

Ele a segurou firmemente, subjugando os braços balançantes e todo o tempo tentando fazer com que sua mão parasse o jorro de sangue. Finalmente ele a abraçou, indefesa em seus braços, seu corpo junto ao dele, mas ainda assim ela se contorcia e gritava em angústia.

— Maren! — ele gritou. — Eu preciso de você aqui!

Rachel gritou de novo, um som agudo de terror. Ela arqueou o corpo, inclinando-se contra ele com uma força surpreendente.

— Rachel, querida, eu estou com você. Você está bem, eu juro.

— Eles estão em cima de mim, — ela lamentou. — Tire-os!

— Tirar o quê? Não há nada aqui.

Maren irrompeu na sala, seu jaleco esvoaçando. Ela deu uma olhada e partiu para a ação.

— Na cama, — ela ordenou. — Eu preciso colocar o intravenoso de volta.

Ethan a puxou para a cama e segurou-a enquanto ela chutava e lutava indefinidamente. Seus olhos estavam arregalados de medo, as pupilas fixas e dilatadas. O suor banhava seu rosto e o cabelo, e suas bochechas pareciam giz branco.

— Alucinação, — Maren disse severamente. Habilmente recolocou o intravenoso e, em seguida, puxou uma garrafinha de medicamentos do bolso. Com mãos firmes, encheu uma seringa e depois inclinou-se para injetá-la.

Quando terminou, colocou a mão sobre a testa de Rachel e gentilmente limpou o suor e afastou os cabelos emaranhados.

— Ouça-me, Rachel. Não é real. Tudo o que você está vendo, não é real. Olhe para mim!

Os olhos selvagens de Rachel incidiram sobre Maren, a boca aberta num grito silencioso.

— É isso. Agora me escute. Você está segura. É uma alucinação. Ethan está aqui. Eu estou aqui. Não vamos deixar nada acontecer com você. Você vai se sentir melhor em um minuto, eu prometo.

Rachel se desintegrou, com os olhos cheios de lágrimas. Soluços ásperos e despedaçados vieram do fundo de seu peito e sacudiam seu corpo inteiro, enquanto saiam de seus lábios. Como ela conteve isso todo esse tempo, Ethan não sabia.

Assim que Maren recuou, ele juntou Rachel em seus braços, segurando-a firme enquanto ela chorava. Ele acariciou seus cabelos, suas costas, cada parte de seu corpo que conseguia tocar.

Algo dentro dele quebrou. Ele queria bater em uma parede. Queria chorar com ela. Por ela. Por tudo o que ela sofreu.

O que esses bastardos fizeram com ela? Ela não se lembrava de quase nada e estava sofrendo indefinidamente em abstinência. E se as drogas houvessem destruído permanentemente sua mente?

Ele balançou a cabeça. Não, não aceitaria que sua Rachel tinha ido embora. Ela iria voltar para ele. Tinha que voltar. Só que ele precisava se certificar que quando ela o fizesse, quando se lembrasse do passado, ele conseguiria convencê-la que ele estava errado. Ele a amava. Pedir o divórcio foi o pior erro de sua vida, e era algo que iria se arrepender até o dia de sua morte.

Fechou os olhos e suportou, seu corpo balançando quase tanto quanto o dela.

— Eu sinto muito, querida, — sussurrou, sua voz embargada pela emoção. — Sinto muito por desapontá-la.

Por vários minutos, ele se ajoelhou na cama, os braços em torno dela até que finalmente percebeu que ela tinha se acalmado. Enquanto se afastava, a cabeça dela pendeu para o lado. Cuidadosamente, ele envolveu seu rosto e depois baixou-a de volta para o travesseiro. Seus cílios flutuavam delicadamente contra as bochechas enquanto se estabelecia no esquecimento.

— A maior parte do sangue está no chão e nas roupas dela, — disse Maren em voz baixa. — Mudaremos os lençóis depois. Deixe-a descansar. Limparei o que está no chão, e quando ela acordar, lhe darei uma camisola limpa.

— Posso ficar com ela? — perguntou ele, embora não tivesse intenção de deixá-la, nem por um minuto.

— Claro! Estarei fora do seu caminho em apenas um segundo. Deixei a sopa na mesa, mas ela provavelmente estará fora do ar por algumas horas. Quando ela acordar, certifique-se que coma. Eu vou ficar no meu escritório hoje à noite para monitorar Cole e Dolphin. Steele disse-me para eu me foder e saiu, — acrescentou ela com um brilho divertido nos olhos.

— Não leve para o lado pessoal. Ele gosta de todos praticamente do mesmo jeito.

Maren encolheu os ombros.

— Não me importo se ele gosta de mim. Fiz o que pude. O resto é com ele.

Cinco minutos depois, Maren terminou de limpar o sangue e então calmamente deixou o quarto, deixando Ethan sozinho com Rachel.

Ethan relaxou no travesseiro tanto quanto a incômoda posição permitia. Nunca estivera tão cansado até os ossos em sua vida, nem nunca se sentiu tão malditamente impotente. Ou com raiva.

Queria ser capaz de corrigir o que estava errado, mas não podia. Tudo o que podia fazer era ficar pronto enquanto Rachel tentava recolocar os pedaços despedaçados de si mesma.

— Eu te amo.

As palavras sopraram calmamente na testa dela, despenteando uma mecha de cabelo.

— Desta vez eu não vou desistir de nós, — ele prometeu.

 

— Olá, — Rio disse enquanto invadia a casa de Maren. Seus olhos escuros varreram o interior, onde Sam e os outros estavam esparramados a esmo no chão e sobre os móveis.

Sam se levantou para cumprimentar o chefe de sua equipe, estendendo um braço. Rio agarrou-o e deu-lhe uma firme aperto.

— Como estão Cole e Dolphin? — ele perguntou. Steele estava notavelmente ausente da preocupação de Rio.

— Dolphin arrebentou as costelas, Cole levou um tiro na perna e Steele levou uma bala naquela última troca de tiros.

— Cristo. Que baixa, deu tudo errado.

— Você conseguiu o helicóptero? Onde estão seus homens?

Rio sorriu, os dentes brancos aparecendo.

— Estão com o helicóptero. Eu o deixei a alguns quilômetros de distância, voltei a pé. Boa maneira de conhecer o terreno e descobrir o que estamos enfrentando.

— Reconectando com o seu povo, amigo? — Steele falou arrastado, enquanto se aproximava para se juntar a Rio e Sam.

— Foda-se, — disse Rio. Seu olhar varreu pelo braço enfaixado e amarrado de Steele, e ofereceu um sorriso zombador. — Feriu a si mesmo?

Sam balançou a cabeça. Existia uma fonte de irritação correndo entre Rio e Steele. Rio odiava a generalização bruta de juntar todas as pessoas de herança latina na mesma panela. Rio era brasileiro e Sam sequer sabia seu nome verdadeiro. Ele sempre foi chamado de Rio, abreviação de sua cidade natal.

Steele sorriu, mas era mais uma careta. Seus dentes apareceram enquanto olhava nos olhos do outro líder de equipe.

— Pelo menos eu estava lá e não fora em uma maldita missão na Ásia, e se não estou enganado, não é o lugar onde você ainda deveria estar?

— Justamente salvando seu traseiro. Não há nada novo sobre isso, — disse Rio rapidamente.

Antes que as coisas pudessem aumentar ainda mais, Sam se colocou entre eles.

— Eu gostaria de falar com ambos lá fora.

Ele olhou para trás, para Garrett e Donovan, que levantaram suas sobrancelhas em questionamento, mas Sam sacudiu a cabeça e, em seguida, fez sinal para Steele e Rio o seguirem para fora. Esse assunto não era algo no qual queria seus irmãos envolvidos.

— O que está acontecendo? — Steele perguntou na sua voz impaciente. Ele ajustou o braço, apenas um lampejo em seu olhos traindo a dor que deveria estar sentindo.

— Mandarei você para casa com os nossos feridos, — disse Sam a Steele.

Steele apertou os lábios.

— Está me deixando fora da ação?

— Cara, você foi baleado, — disse Rio. — Isso é o que normalmente acontece.

Sam levantou a mão. Então virou-se para Rio.

— O que estou pedindo que você faça está fora dos livros. Irá receber como sempre, mas não é oficial, e não tem que concordar.

Steele e Rio ficaram em silêncio enquanto olhavam para Sam.

— Ok, — Rio disse lentamente. — Do que estamos falando aqui?

— Quero você e seus homens de volta para a Colômbia. Cobertura profunda e de vigilância. Provavelmente a aldeia vai se mudar, agora que  sabemos sua localização. Quero todos os seus movimentos monitorados de perto. Vai exigir paciência. Quero relatórios, mas não quero que você se mova... ainda.

Rio assentiu.

— Ok, podemos fazer isso. Qual é o negócio grande e peludo? Agir assim é alta traição ou algo assim.

A mandíbula de Sam se contraiu enquanto ele tentava controlar o surto de raiva.

— Esta não é uma missão, Rio. Não é negócio. Isto é pessoal. Eu quero esses bastardos. Quero que paguem pelo que fizeram à minha família. Quero informações, e não me importo com o que teremos que fazer para obtê-las.

Steele e Rio ainda ficaram parados e Sam pode ver que finalmente entenderam onde ele queria chegar.

— Quero saber por que mantiveram Rachel viva. Por que o grande embuste. Por que nos fizeram acreditar que ela morreu e a mantiveram viva todo esse tempo?

— Entendo, — disse Rio uniformemente. — Vou conseguir as informações para você.

— Não apenas você, Rio. Eu também. Não posso e não quero lhe pedir para fazer algo assim sem mim. Vou para casa com a minha família. Eles precisam de mim agora. Quando eu tiver tudo resolvido, vou encontrar-me com você na Colômbia e nós entraremos.

— Você não fará isso sem mim, — Steele cortou.

Sam balançou a cabeça.

— Não. Você vai voltar com sua equipe. Eles são sua responsabilidade. Cole e Dolphin precisam do tempo de inatividade. Você conhece as regras. Trabalhamos como uma equipe. Vivemos como uma equipe. A equipe é tudo.

Steele praguejou baixinho.

— Eu não gosto disso, Sam. Você tem muito interesse pessoal nisso. Se não me quiser dentro, tudo bem. Deixe Rio liderar sua equipe.

Sam balançou a cabeça lentamente.

— Não posso pedir a ninguém para fazer o que devo fazer.

— Eu não gosto disso, — disse Rio. — Se você quer o trabalho feito, tudo bem. Vou levar a minha equipe e vamos juntos para cima da ralé. Vamos fazê-los falar. Mas acho que você deveria ir para casa com os outros. Sua família precisa de você agora.

— Vou cuidar da minha família, — Sam disse calmamente. — Mas depois eu voltarei. Eu quero o sangue deles. Não posso pedir que você ou qualquer outra pessoa faça o meu trabalho sujo para mim.

— Besteira, — Steele bufou. — Pense sobre isso, Sam. Use sua maldita cabeça. Você está tão emocionalmente envolvido como Ethan está. Você tomou essa merda pessoalmente. Alguém fodeu com a sua família e você quer vingança. Acha honestamente que Garrett vai calmamente para casa, enquanto você corre de volta para a selva? Acha que Ethan vai dizer tudo bem, enquanto você vai se vingar? O que você precisa fazer é ir para casa e levar seus irmãos com você. Você sabe que é a coisa certa a fazer ou não estaria esgueirando-se dos ouvidos de seus irmãos e tentando afastá-los.

— Isso é um monte de porcaria, não nos pedindo para fazer alguma coisa, — Rio cortou. — Estamos além das merdas. Isso não é a porra do Exército dos Estados Unidos. Vou levar minha equipe de volta. Steele pode voar para casa e você leve a sua família para casa. Eles vão precisar de você. Eu encontrarei suas respostas.

Sam hesitou, dividido entre sua necessidade de vingança e o conhecimento de que Rio e Steele estavam certos. Ethan precisava dele. As semanas seguintes seriam difíceis em sua família. Mas, ao mesmo tempo, obter respostas era muito importante. Ele precisava saber por que Rachel tinha sido levada. Por que sua família foi enganada. Por que a grande fraude? Nada daquilo fazia sentido.

— Deixe isso para nós, — Steele disse sem rodeios. — Eu sei que mata o excesso de controle em você, mas esta é uma missão da qual você precisa ficar longe. Vou organizar meus homens e o resto da minha equipe fornecerá apoio em terra para Rio e sua equipe.

Rio ergueu uma sobrancelha.

– Uau! O poderoso Steele vai atuar em um papel de apoio. — Ele agarrou seu peito e cambaleou para trás.

Steele o espetou com toda a força de seu olhar.

— E vocês querem saber porque tenho dificuldade em deixar as coisas com vocês, — Sam murmurou. Passou a mão pelos cabelos. — Olha, eu aprecio a preocupação. Mas me digam uma coisa. Se fosse a família de vocês. Se fosse alguém que amavam, que estivéssemos resgatando. Estariam dispostos a deixar outra pessoa voltar para obter vingança?

Rio bufou.

— Não. Eu não iria deixar.

Steele assentiu com a cabeça.

— Ok, então está resolvido. — Ele parou e olhou para a casa onde seus irmãos estavam descansando. — Isso precisa ficar entre nós por razões óbvias.

— Você é o chefe, — disse Rio.

Sam passou a mão sobre o rosto cansado.

— Descansem um pouco. Eu quero verificar Ethan e Rachel mais uma vez.

— Você vai entrar? — Steele perguntou enquanto Rio se virava na direção da casa.

— Não, vou voltar para o helicóptero. Voltarei em algumas horas.

Steele deu de ombros.

— Se cuida.

 

A mão fechou em torno do ombro de Ethan e gentilmente apertou, acordando-o. Ao seu lado, Rachel estava enrolada em seus braços. Ele virou a cabeça para ver Sam em pé sobre ele.

— O que diabos aconteceu? — Sam perguntou em um sussurro.

Ethan demorou alguns minutos para processar que Sam estava olhando para as roupas manchadas de sangue de Rachel.

Cuidadosamente, Ethan se afastou de Rachel e desajeitadamente se levantou da cama. Todos os músculos em seu corpo protestaram, e ele tinha um monstruoso torcicolo no pescoço por dormir em uma posição tão contraída.

— Conseguiu dormir? — Sam perguntou.

— Não muito. Rachel está em péssimo estado.

Sam colocou a mão no ombro de Ethan.

— Vamos levá-la para casa. Ela vai ficar bem. Ela é uma batalhadora. De que outra forma teria sobrevivido neste último ano?

— Ela não deveria ter passado por isso. Eu deveria ter estado aqui por ela.

— Besteira.

Ethan permaneceu em silêncio. Só ele sabia as profundezas de seu fracasso quando se tratava de Rachel. Não queria que Sam soubesse. Nunca. Não poderia suportar a decepção nos olhos de seu irmão mais velho. Seu pai sempre incutira um senso de honra neles. Fazer o bem por sua mulher. Os mais de trinta anos casado com sua mãe eram uma prova de que ele vivia com a sua palavra.

Ethan não só não fizera o bem para Rachel, mas se esquivou da responsabilidade, e colocou a culpa por sua própria infelicidade aos pés dela.

— Você não pode viver no passado, homem, — Sam disse, a voz quase um sussurro. — Rachel necessita de você. Supere sua culpa e seja forte para ela. Você tem alguns dias difíceis pela frente.

Ethan assentiu, embora duvidasse que Sam pudesse vê-lo na escuridão. Sam estava certo. Por qualquer motivo, foi concedido a ele uma segunda chance preciosa. Não, ele não merecia isso, mas não viraria as costas.

— Maren não acha que Rachel deva voltar para casa ainda, e depois do que aconteceu mais cedo, acho que concordo.

Mais uma vez o olhar de Sam sondou sobre a roupa de Ethan.

— O que diabos aconteceu?

Ethan explicou a alucinação de Rachel e disse a Sam o que Maren dissera sobre o monitoramento da abstinência de Rachel e sua preocupação com Rachel indo para casa, para uma família e uma vida que não poderia se lembrar.

— Ela está preocupada com a pressão que isso vai colocar em Rachel. Ela pensou que seria melhor você e os outros irem em frente e suavizarem as coisas, de modo que seu regresso para casa seja tão discreto quanto possível.

— Eu não gosto da ideia de deixar vocês para trás, — Sam murmurou.

— Eu vou ficar.

Ethan e Sam olharam para cima para ver Garrett de pé na porta.

Sam balançou a cabeça.

— Você não pode tomar todas as decisões, — disse Garrett uniformemente. — Vou ficar com Ethan e Rachel. Você pode levar os outros de volta. Cole, Dolphin e Steele precisam de cuidados médicos além dos que estão recebendo aqui. Você e Donovan podem dar a notícia à família. Assim que Rachel estiver bem o suficiente, Ethan e eu a levaremos para casa.

Ethan assentiu.

— Eu acho que é o melhor. Se eu ligar para mamãe e papai, isso só irá aborrecê-los. Nunca acreditarão que não estou delirando. Terão tempo para processar a notícia antes que Rachel volte. Não quero que ela fique sobrecarregada. Isso vai ser difícil o suficiente para ela como está.

Sam franziu a testa.

— Eu não gosto de deixar qualquer um de vocês para trás.

— Ethan e eu podemos lidar com isso, — disse Garrett.

Sam deixou escapar um suspiro.

— Tudo bem, — admitiu ele. — Isso é o que vamos fazer. Se Maren der o sinal verde para transportar os feridos, vamos sair de manhã. Eu quero um relatório a cada três horas. Terei um helicóptero retornando para buscar vocês assim que Rachel puder sair.

— E o que dizer de Maren? — Garrett perguntou. — Não acho que devemos apenas fazer as malas e deixá-la sem proteção.

— Ela não está sem proteção, desde sua saída da África, — disse Sam. — Ela é observada. Só não sabe disso.

Ethan assentiu. E de repente o pensamento de ir para casa não tinha o conforto que tivera antes.

— Algo errado, Ethan?

Ethan olhou para Garrett. Seus irmãos sempre o pegavam no seu humor. Qualquer alteração ou mudança, por menor que fosse. Às vezes era como viver sob um microscópio.

Suas mãos tremiam, traindo-o enquanto lutava para permanecer firme e inalterado. Como poderia ser a rocha de Rachel quando um vento mais duro o explodia completamente?

As palavras se prenderam na garganta, recusando-se a rolar por sua língua. Ele era um homem que viu e experimentou o pior que o mundo tinha a oferecer, e fizera isso estoicamente e sem medo.

Ele fechou os olhos.

— Estou com medo...

— Você tem todo o direito de estar, — Sam disse uniformemente.

Ethan balançou a cabeça.

— Não. É hora de eu assumir a responsabilidade. Ser o homem e o marido que Rachel merece. Posso não ter tido medo no passado, mas eu era um covarde de merda.

Seus irmãos se entreolharam e Garrett deu de ombros. Não, eles não saberiam sobre o que ele estava falando. Seu casamento com Rachel era um estúdio de segredos. Segredos que ela nunca divulgou. Ela nunca contou os problemas dos dois a família dele. Ele sabia disso e tirou vantagem.

— Tenho medo que ela nunca se lembre. E tenho medo que ela se lembre, — disse ele calmamente.

Um silêncio, distinto e incômodo se seguiu. Ethan olhou para baixo. Tinha falado demais. Dessa vez era mais difícil manter a calma, e talvez de uma forma distorcida, estivesse buscando a absolvição dos pecados do passado. Mas apenas Rachel podia conceder-lhe isso. Era a ela que ele tinha que compensar.

Garrett limpou a garganta.

— A melhor coisa que você pode fazer, cara, é levá-la para casa e cercá-la com todo o amor e apoio que puder. Todos iremos ajudar. Você não vai fazer isso sozinho.

Sam se inclinou para frente, sua expressão intensa.

— O importante é que você a tem de volta. Nada mais importa.

— Você está certo. Eu sei que você está certo. Eu só sinto que vou acordar e estar de volta em casa, na nossa cama. Sozinho. E isto terá sido um sonho.

— Eu sei que este ano não foi fácil para você, mas você recebeu uma nova chance que muitos matariam para ter. Não desperdice seu tempo lamentando os problemas. Desfrute de cada momento, porque de todas as pessoas, você sabe como tudo pode ser arrebatado rapidamente.

Ethan levantou o olhar assombrado para seu irmão.

— Sim, eu sei. E não vou deixar que aconteça novamente. Eu não vou perdê-la. Não uma segunda vez.

 

Na manhã seguinte, uma hora antes do amanhecer, a clínica de Maren estava movimentada com a atividade. Cole e Dolphin estavam encostados na parede na área de espera, enquanto aguardavam chegar o helicóptero que os levaria para o México. Maren dera a Cole um par de muletas, mas ele prontamente descartou-as com algumas palavras bem escolhidas.

Sam, Donovan e Garrett reuniram-se com Ethan dentro do quarto de Rachel. Ela estava descansando confortavelmente pela primeira vez em horas, e falavam em voz baixa para não perturbá-la.

— Maren está certa. É melhor irmos em frente e prepararmos a surpresa, para que todo mundo tenha a chance de se acostumar com a ideia antes de Rachel voltar para casa. Será esmagador o suficiente da maneira que é, — murmurou Donovan.

— Inferno, a nossa família me intimida metade do tempo, — resmungou Garrett.

Ethan meteu as mãos nos bolsos.

— Eu só não quero que isso preocupe mamãe e papai. Eles a amavam como uma filha. Sei que ficarão felizes, mas não sei o tipo de choque que será para eles.

— Deixe que nós nos preocuparemos com isso, — Sam disse. — Apenas cuide de Rachel e a leve para casa o mais rapidamente possível.

Ele bateu a mão nas costas de Ethan.

— Esta é a melhor notícia dessa família há muito tempo. Basta pensar em como será bom o Natal deste ano.

Por um momento, Ethan não pôde nem falar. Natal... Rachel era louca pelas festas de final de ano. Ela e sua mãe deixavam todos loucos a cada ano, decorando, comprando, fazendo com que todos os outros participassem das afetivas celebrações familiares. Ele não percebera o quanto gostava dessa época do ano até o ano passado, o primeiro Natal sem Rachel. Foi um feriado solene e angustiante.

Ele passou a Véspera de Natal sozinho em casa, com uma garrafa de bebida barata. No escuro. Nenhum festival de luzes de Natal ou as músicas que eram mais velhas que seus avós. Apenas a lembrança do sorriso de Rachel e a maneira que ela rasgava os presentes na manhã de Natal.

Teria dado qualquer coisa por apenas mais um Natal com ela, e agora seu desejo fora concedido.

— Deus nos ajude, — disse Donovan divertido. — Entre Rachel e mamãe, ninguém vai escapar com a sanidade intacta.

Garrett revirou os olhos.

— Ou sem um daqueles estúpidos chapéus de Papai Noel.

— O que me lembra, é a sua vez de ser o Papel Noel, — Sam disse a Garrett.

Todos eles caíram na gargalhada ao ver o olhar furioso que brilhou no rosto de Garrett. Deus, era bom rir de novo. Não se sentir como se nada de bom fosse acontecer.

Ethan abriu um largo sorriso, enquanto olhava para os irmãos. Sentira a falta deles também. O ano passado foi doloroso o suficiente sem Rachel, mas ele se afastou de sua família também. Este seria um regresso para casa para ele tanto quanto para Rachel.

— Vou deixá-las vestir-me como Rudolph se isso colocar um sorriso nos rostos delas, — disse Garrett, depois que lançou um rápido olhar para Rachel, que ainda estava dormindo profundamente.

— Amém a isso, — murmurou Donovan.

A expressão de Sam ficou séria quando ele olhou para Garrett e Ethan.

— Precisamos ir... Vocês dois fiquem em contato e sejam cuidadosos. Donovan e eu vamos dar a notícia para mamãe e papai e preparar as coisas para Rachel voltar para casa.

Ethan olhou para Sam e depois para Donovan e Garrett.

— Obrigado.

— Vamos, Van. Antes que Ethan fique molenga de novo, — disse Sam.

Ethan esmurrou Sam na barriga, enquanto caminhava pelo quarto e Sam inclinou-se em uma careta exagerada.

— Maricas, — Garrett murmurou.

Ethan voltou-se para Garrett.

— Você fica aqui no caso de Rachel acordar? Eu quero vê-los lá fora.

— Sim, claro. Vá em frente. Dê-lhes um beijo por mim, já que vai até lá.

Ethan sorriu e balançou a cabeça. Em seguida, apontou o seu dedo médio enquanto saia atrás de seus irmãos.

 

Rachel se mexeu e abriu os olhos sonolentamente. Então se lembrou das coisas... os insetos que rastejaram sobre seu corpo, e pousou o olhar nos braços, na barriga. Mas tudo o que viu foi a roupa manchada de sangue.

Franziu a testa enquanto lutava para lembrar tudo que aconteceu durante sua histeria. E depois, quando olhou para além da cama, viu Garrett largado em uma cadeira perto da janela.

Quando viu que ela estava acordada, imediatamente se levantou e se moveu para ficar ao lado da cama. Seu sorriso era suave, e sua voz baixa e macia.

— Oi docinho. Como você está?

Ela tentou sorrir, mas se sentia mais com vontade de chorar.

Garrett sentou na beirada da cama, como Ethan fizera na noite anterior.

— Ei, não fique assim.

— Estou ficando louca.

Sua voz saiu como um soluço, e ela a desprezou.

Ele tocou sua bochecha e afastou o cabelo do rosto.

— Você não está ficando louca, Rachel. Está se recuperando. Há uma diferença. Você já passou por um momento muito difícil. A maioria das pessoas não teriam sobrevivido, mas você sobreviveu. Não se menospreze.

Lágrimas juntaram-se em seus olhos, e ele gentilmente as afastou, quando escorreram pelo rosto dela.

— Onde está Ethan?

— Ele voltará em breve. Quer que eu vá buscá-lo?

Ela balançou a cabeça. Ela o queria, mas odiava o jeito que parecia se apegar a ele. Certamente poderia sobreviver alguns momentos sozinha. Mas não estava sozinha. Garrett estava aqui, e ele tinha sido seu amigo. Ela sabia muito bem disso.

— Você me levou ao altar no meu casamento, — ela sussurrou.

Ele sorriu.

— Sim, eu a levei. Foi realmente um fenômeno imprevisível. Papai queria muito a honra.

Ela inclinou a cabeça para o lado.

— Então por que ele não me levou?

— Porque você me pediu, — ele disse simplesmente.

— Ethan disse que eu não tinha família, que eu era uma parte da sua antes de nos casarmos. — Era mais uma pergunta e não uma declaração.

— Isso é verdade. Mamãe lecionou para você na escola. Você sempre foi uma de suas alunas favoritas. Depois que seus pais morreram, ela praticamente a adotou entre os Kelly.

— Então, Ethan e eu nos conhecíamos? Quero dizer, antes de nos envolvermos? — Então, franziu a testa. — Envolvermos, soou tão... impessoal.

Garrett sorriu.

— Estou bastante certo que ele sempre notou você, mas só depois que ele chegou em casa, quando estava de folga e descobriu que nosso irmão mais novo, Joe, a convidou para sair que ele se mexeu.

A testa dela franziu em concentração. Por mais que tentasse, não poderia convocar uma imagem mental de Joe ou de Nathan.

— Ethan me disse que Nathan e Joe são gêmeos, mas não me lembro de nenhum deles.

— Talvez quando você os vir, tudo vá voltar, e se isso não acontecer, não há pressa, — disse ele docemente.

— Por que não me lembro deles? Ou de Sam ou Donovan? — Ela balançou a cabeça em confusão. — Não me lembro de seus pais também, e parece que eu era próxima de sua mãe.

— Dê um tempo, docinho. Você tem todo o tempo do mundo agora. Não tem nada para se preocupar além de descansar e deixar todos nós cuidarmos de você.

— Eles não... — Ela parou e olhou para baixo.

— Eles não o que?

—Sam não está exasperado, porque não consigo me lembrar dele? Ou Donovan?

Garrett pegou sua mão na dele, deixando seus dedos entre os dele, muito maiores.

— Ninguém está exasperado com você. Todos nós a amamos. Sam e Donovan também. Eles só querem você em casa, onde estará segura e saudável.

— Eu quero ir para casa. É tão difícil acreditar que tenho uma casa. Eu costumava sonhar. Até pensei que criei as memórias, mas agora sei que realmente aconteceu.

— Que tipo de coisas? — Garrett perguntou.

Ela franziu os lábios, concentrando-se nas imagens ao acaso dançando em sua mente.

— Há um lago e uma doca. Estou com os pés descalços e vestindo short. Você está em pé na minha frente e Ethan logo trás. Eu corro para você pensando que vai me salvar de Ethan, mas você me pega e me joga na água.

Um sorriso caloroso transformou a seriedade de suas feições, ela olhou para ele, fascinada.

— Você não sorri muito.

Ele deu-lhe um olhar assustado.

— Eu sei disso, — disse ela, — e também sei que você sorri para mim. Eu me lembro. Eu me lembro que consigo fazer você rir e que todos gozam de você sobre ser tão rabugento.

Ele riu levemente.

— Sim, eu sou ranzinza e sim, você sempre consegue me fazer rir. Sim, eu a joguei na água quando deveria estar salvando-a de Ethan. Você me retribuiu mais tarde, entretanto.

— Oh? — Ela inclinou-se na cama em sua excitação. Informação. Detalhes. Ansiava por eles tanto quanto seu corpo ansiava pelas drogas.

— Você enganou Sam, Donovan, Joe e Nathan para reuni-los e me jogar no lago. Precisou dos quatro, eu poderia acrescentar, mas você teve a sua vingança. Eu levei dois comigo, — acrescentou presunçosamente.

Ela sorriu, sentindo a maravilha das suas palavras iluminar sua alma. Era como se ela tivesse família, como se fossem todos uma família.

E então franziu a testa novamente.

— Por que estou com tanto medo de Sam? Parece que eu tinha um bom relacionamento com ele.

— Porque você não pode se lembrar dele ainda. Você teme o desconhecido. Lembra-se de mim e de Ethan, então, sente-se confortável com a gente. Quanto mais a sua memória retornar, mais se lembrará de como se sentia confortável com todos nós.

Ela assentiu, agarrando-se a sua explicação, trazendo conforto a ideia de que ela não seria este rato amedrontado para sempre. E então teve um pensamento inquietante. E se sempre tivesse sido tão tímida?

Garrett riu, e ela percebeu que expressou a pergunta em voz alta.

— Você sempre foi calma e tímida, particularmente em torno de novas pessoas, mas eu nunca a chamei de tímida. Você se encaixa em nossa família como se tivesse nascido uma Kelly, e nunca perturbou ninguém. Ninguém poderia sobreviver a nossa família por um período prolongado, se fossem tímidos. Falamos alto, somos barulhentos...

— Mas nós protegemos os nossos, — ela disse como se repetisse as palavras de outra pessoa.

— O mantra Kelly. Veja, você se lembra mais do que pensa.

— Não foda com os Kelly, — disse ela, e então seus olhos se arregalaram enquanto o palavrão saia de sua língua. Bateu a mão sobre a boca e olhou para Garrett com olhos chocados.

Ele jogou a cabeça para trás e riu.

— Falou um palavrão, docinho. Eu não poderia ter dito melhor.

Ethan ficou do lado de fora da porta, escutando a conversa de Garrett e Rachel. Em seguida, ouviu o riso de Garrett e, depois, surpreendentemente o de Rachel também. O som bateu onde ele estava, colocando um aperto em torno de sua garganta até que ele lutava para respirar. Não havia um som mais bonito que o riso dela, mas ele não era o único a persuadi-la a rir. Garrett também conseguiu. Como sempre.

Queria que a amargura, os velhos sentimentos de insegurança e ciúme o deixassem. Nunca lhe trouxeram nada, além de tristeza. Para ele e Rachel. Ele não podia, não permitiria que voltassem para suas vidas. Jurou sobre o túmulo de Rachel, que se tivesse uma chance de fazer tudo novamente, não iria ceder ao ciúme que quase o comeu vivo durante o casamento.

— Por que tenho sangue na minha roupa? — ela perguntou, quando o riso morreu.

— Só um acidente com o intravenoso, — Garrett respondeu. — Quer que eu pegue algo limpo para você vestir?

Houve uma breve hesitação, e Ethan não poderia ficar de fora por mais tempo. Ele entrou no quarto, certificando-se que seu rosto não refletisse a seriedade de seus pensamentos.

Quando ela olhou para cima, ele esqueceu tudo, exceto a forma como ela se iluminou quando o viu. Garrett saiu da cama e virou o rosto para Ethan.

— Vou pegar outra roupa para ela usar, se você quiser.

— Obrigado, eu apreciaria. Verifique com Maren. Ela disse que tinha uma camisola limpa, que ela poderia usar quando acordasse.

Garrett assentiu e começou a passar por ele, mas Ethan o deteve.

— Obrigado, cara.

Garrett não reagiu, apenas balançou a cabeça e passou como se fosse nada. Como se o riso de Rachel não tivesse colocado Ethan de joelhos.

Ethan avançou para o lugar de Garrett sobre a cama.

— Garrett cuidou bem de você? — perguntou, enquanto se estabelecia no lugar.

Ela sorriu e assentiu.

— Ele disse que você não demoraria muito.

— Eu não teria ido, mas precisava ver Sam e Donovan antes de saírem.

— Saírem? Eles foram embora?

Ele assentiu.

— Eles foram antes de nós. Cole e Dolphin precisavam de cuidados médicos, e Sam e Donovan vão dar a notícia para mamãe e papai. Assim que Maren der o sinal verde para você viajar, voltaremos também.

— Eu quero ir para casa, — disse ela em voz baixa. — Não gosto daqui.

— Eu sei, querida. Quero você em casa também. Não pode imaginar o quanto a quero de volta em nossa casa, onde poderei abraçá-la e cuidar de você.

Ela olhou para ele com os grandes olhos castanhos. Havia uma certa ansiedade em seu olhar, e ela lambeu os lábios como se estivesse lutando com o que queria dizer.

— Há algo errado? — ele perguntou.

Ela fez um pequeno movimento negativo com a cabeça. E então, as palavras tão doces como a fria brisa soprando do norte do lago.

— Você poderia me abraçar agora.

Era quase a sua ruína.

— Ah querida.

Ele se virou e encostou ao lado dela até que estava reclinada firmemente contra seu peito. Então, passou os braços em volta dela, um deslizando por baixo da cabeça enquanto a aproximava mais.

O coração dela batia contra seu peito, vibrando como um bebê pássaro. Ela deu um suspiro contente que ele sentiu por todo o caminho para sua alma.

A vida não poderia ser melhor neste momento. Nunca seria mais doce, e ele nunca sentiria fome de algo mais.

Garrett entrou um segundo mais tarde, mas quando os viu, deixou cair a camisola na beirada da cama e rapidamente saiu.

Ela poderia se trocar mais tarde. Por enquanto, Ethan estava relutante em perturbar a maravilha de ter sua esposa aninhada profundamente em seus braços.

 

Marlene acabara de colocar a mesa do jantar quando ouviu a porta da frente abrir e as mais doces palavras encheram seus ouvidos.

— Mãe, estamos em casa! Onde você está?

Ela virou-se justo quando Joe e Nathan viravam a quina, ambos sorrindo como idiotas, com as mochilas penduradas nos ombros. Eles as deixaram cair no chão ao mesmo tempo em que a boca dela fez o mesmo.

— Nathan! Joe!

Ela deixou cair a caçarola em cima da mesa e voou para abraçá-los. Joe a abraçou e girou com ela nos braços, e foi prontamente arrastada para Nathan assim que Joe a soltou.

— Meus meninos, oh meu Deus, o que vocês dois estão fazendo em casa?

— Ei, pai, — disse Nathan enquanto Frank levantava-se.

Frank envolveu os meninos em um abraço caloroso. Quando se afastou, seus olhos estavam suspeitosamente molhados.

— O que diabos vocês dois estão fazendo em casa? Por que não ligaram para nós?

— Não tínhamos certeza se conseguiríamos a licença, — disse Joe. — Tentamos chegar em casa para...

— Tínhamos esperança de chegar em casa no dia dezesseis, — Nathan disse calmamente.

— Bom, — disse Marlene. — Tenho certeza que Ethan teria apreciado.

— Onde está Ethan? Paramos em sua casa no caminho, mas ninguém estava em casa.

Marlene trocou um olhar com Frank.

Nathan e Joe não perceberam.

— O que está acontecendo, mamãe? — Nathan perguntou.

E então pela primeira vez, ele e Joe pareceram notar Rusty, que estava sentada à mesa parecendo que queria se afundar no chão.

— Meninos, quero que vocês conheçam Rusty. Ela vai ficar aqui por um tempo.

Como Marlene esperava, ambos fecharam a cara e imediatamente olharam para o pai. Para seu crédito, Frank não tentou recuar.

— Rapazes, digam olá para Rusty, — disse ele numa voz rouca.

— Olá, Rusty, — disse Nathan. Joe apenas balançou a cabeça e depois deu um olhar interrogativo para a mãe.

— Sentem-se, sentem-se, — ela insistiu. — Vocês chegaram na hora de comer. Provavelmente estão morrendo de fome.

— Não teria importância se não estivéssemos, — Joe disse com um sorriso. — Faz tanto tempo que comemos comida caseira, que eu comeria mesmo se estivesse prestes a soltar os intestinos.

Marlene conseguiu levá-los para a mesa, e serviu porções generosas. E deu um tapinha tranquilizador na mão de Rusty ao passar-lhe um prato. Era inevitável que ela encontrasse todos os meninos em algum momento. Melhor que isso acontecesse em etapas ao invés de todos de uma só vez. Marlene sabia que seus filhos eram apenas espaçosos, e mesmo ela ficava sobrecarregada quando todos eles se reuniam.

— Agora, qual é a história com Ethan? — Joe perguntou depois que as coisas se acalmaram um pouco.

— Ele passou a trabalhar com seus irmãos, — disse Frank. — Só isso.

Marlene apertou os lábios, mas não disse uma palavra.

— Uh-huh, ok, por que você está prestes a estourar um vaso sanguíneo mamãe? — Nathan perguntou.

Ela suspirou e olhou para seu filho mais novo. Nunca poderia enganar qualquer um deles, não mais do que poderiam enganá-la.

— Realmente não sei, — ela admitiu. — Somente algo está errado sobre a coisa toda. Seu pai chamou Ethan na manhã do dia 16, e Ethan parecia horrível. A próxima coisa que ficamos sabendo, foi que Sam, Donovan e Garrett estariam fora em alguma missão confidencial. Com Ethan.

Joe franziu o cenho.

— Todos eles?

As sobrancelhas de Frank se juntaram.

— Você sabe que eu sequer considerei isso. Eles nunca vão todos juntos. Sam é inflexível sobre isso.

Marlene acenou com a cabeça vigorosamente.

— Estão vendo, não sou louca. Há algo acontecendo. Não gosto disso nem um pouco.

Joe virou-se para Nathan.

— Você disse que Van lhe enviou e-mail há poucos dias. Ele disse alguma coisa?

Nathan balançou a cabeça.

— Só para falar a besteira usual.

— Tem um bando de espiões ou algo assim? — Rusty deixou escapar.

Joe e Nathan se sobressaltaram como se tivessem esquecido que ela estava lá. Não era difícil, já que ela não deu um pio durante todo o tempo.

O canto da boca de Joe apareceu.

— Não, não espiões. Militares.

Rusty olhou desconfiada para ele.

— Espiões militares?

Nathan riu.

— Se lhe dissermos, então teríamos que matá-la.

Rusty revirou os olhos e voltou para sua comida, murmurando algo baixinho.

— Há quanto tempo eles foram? — Joe perguntou.

O cenho de Frank vincou em concentração por um momento.

— Poucos dias. Partiram cerca de uma semana depois do dia 16.

— Bem, inferno, deveriam estar na fase de planejamento quando Van mandou o e-mail falando que estavam fazendo absolutamente nada e que as coisas estavam tranquilas.

— Provavelmente não queriam preocupá-los, — Marlene disse suavemente.

— Isso, apenas isso. — Nathan ressaltou. — Eles nunca se preocuparam com a merda que nos contavam antes. Por que começariam agora, ironicamente, quando Ethan se arrasta para fora do buraco?

— Não gosto disso, — Joe resmungou. — A regra número um de Sam é nunca ir todos juntos em uma mesma missão.

Marlene arrastou seu olhar preocupado para Frank.

Ele se esticou e colocou a mão sobre a dela.

— Não se preocupe, querida. Você sabe que nossos rapazes podem lidar com isso. — Mas ela não perdeu a inquietação em seus olhos.

Ela suspirou e voltou sua atenção para os meninos que não via a quase um ano. Não iria deixar que sua preocupação ofuscasse o regresso dos gêmeos.

— Comam, — ela ordenou. — Juro que vocês dois estão muito magros. O exército não os alimenta?

Ambos sorriram para ela.

— Não tão bem como você, Mamãe, — disse Nathan.

— Oh, estou tão feliz por ver vocês, — disse ela. — Ficarão aqui já que seus irmãos não estão em casa, certo?

Joe levantou a sobrancelha na direção de Rusty.

— Tem quarto disponível?

Marlene bufou.

— Quarto? Esqueceu que todos os seis meninos cresceram nesta casa? Rusty vai ter que se acostumar com o caos, mais cedo ou mais tarde.

Ela viu Nathan e Joe trocarem olhares. Estavam em silêncio por enquanto, mas fariam muitas perguntas mais tarde, quando Rusty estivesse fora do alcance.

— Então me digam o que está acontecendo com vocês, — disse Frank. — Eu sei que enviam e-mail toda semana, mas não é o mesmo que ouvi-los em suas próprias palavras.

— Nosso trabalho terminou, — disse Joe.

Marlene engasgou.

— Sério? Pensei que tivessem mais três meses. Oh, isso é maravilhoso!

— Saímos antes do previsto.

— Quanto tempo ficarão em casa? — Frank perguntou.

— 10 dias. Então voltaremos para Fort Campbell, — disse Nathan.

Marlene bateu palmas. Lágrimas saiam de suas pálpebras.

— Isso é fantástico. Vai ser tão bom ter vocês perto de casa novamente.

— Vamos ajudar sua mãe a limpar a mesa e depois iremos para a sala tomar uma cerveja, — disse Frank, quando se levantou.

Nathan e Joe sorriram abertamente, então levantaram e levaram seus pratos para a pia. Marlene os observou, o peito prestes a explodir de orgulho. Ela se sentia assim em relação a todos os seus meninos. Parecia que durante o ano passado eles se espalharam ao vento, cada um indo em uma direção  diferente. Só não era o mesmo depois da morte de Rachel.

Seu coração se apertou, e ela repreendeu-se mentalmente por permitir que a tristeza invadisse seu tempo com Nathan e Joe. Eles estavam em casa, e ela iria aproveitar cada minuto. E iria empurrar sua preocupação com seus filhos mais velhos para fora de sua mente.

Rusty ficou mais perto de Marlene, enquanto Frank e os garotos entraram na sala de estar. Não era preciso ser um gênio para descobrir que Rusty ficou intimidada por Nathan e Joe, mas pelo menos, eles em grande parte a ignoraram. Não era a coisa mais educada, mas Marlene não podia culpá-los. E a alternativa teria colocado Rusty sobre a borda.

— Vamos, querida. Você terá que enfrentá-los algum dia. — Ela fez um gesto para Rusty segui-la para a sala, onde a TV já estava ligada e, tipicamente, os homens estavam discutindo sobre esportes.

Nathan e Joe cederam espaço entre eles no sofá e prontamente cada um colocou um braço em torno de Marlene quando ela sentou-se. Foi recebida com um grande beijo molhado de ambos, e sorriu e acariciou suas bochechas em troca.

Rusty se sentou na cadeira ao lado de Frank e tentou se misturar com os estofos.

Estava barulhento e caótico, do jeito que Marlene gostava. Suspirou de contentamento e deu um tapinha nas pernas dos meninos. Não importava que estavam se aproximando dos trinta anos. Ainda eram seus bebês.

O som da porta da frente batendo a fez sentar-se ereta. Frank ouviu também, porque imediatamente apertou o botão mudo do controle remoto.

— Mamãe, papai? Vocês estão em casa?

— Sam, — Marlene suspirou.

Ela olhou para cima para ver Sam entrar na sala, seguido por Donovan. Eles estavam totalmente desarrumados. Calças, botas, e camisas sujas e rasgadas, e pareciam que não tomavam banho em dois dias. Nunca voltaram para casa assim.

Um suave gemido escapou dos lábios dela. Ethan e Garrett não estavam com eles.

 

Sam estava parado na porta da sala, chocado ao ver seus irmãos mais novos sentados no sofá ao lado de sua mãe.

— Nathan? Joe? O que diabos vocês estão fazendo em casa? Algo errado?

— Isso é o que quero lhe perguntar,— Nathan disse enquanto se levantava. Joe também se levantou, e os dois homens olharam com cautela para seus irmãos mais velhos.

— Van, — Joe disse com um aceno na direção de Donovan.

— O que está acontecendo? — Frank bradou. — Vocês estão parecendo um bando de estranhos, e maldição, estão assustando sua mãe até a morte.

Donovan sorriu abertamente e atravessou a sala. Parou na frente de Nathan e depois jogou-o para baixo em um movimento rápido. Nathan pousou no chão com um baque enquanto o riso explodia de seu peito.

— Maldito seja, Van, saia de cima de mim.

Joe passou os braços musculosos em torno de Donovan e levantou-o do chão. Donovan pode ter tido o elemento surpresa quando se aproximou de Nathan, mas ser o menor dos irmãos Kelly colocou-o em uma grande desvantagem.

Sam finalmente conseguiu livrar-se do choque de ver Nathan e Joe. Levantou as mãos e bradou uma ordem para seus irmãos se acalmarem.

Nathan e Joe olharam com surpresa. Sua mãe e seu pai olharam para Sam com olhos preocupados.

Sam atravessou a sala e pegou os dois irmãos mais novos em um abraço rude.

— É muito bom tê-los em casa.

— Onde estão Ethan e Garrett? — Joe perguntou com  voz firme enquanto  se afastava.

De repente ocorreu a Sam o que todos deveriam estar pensando depois que ele e Van explodiram em casa parecendo que tinham passado por maus pedaços e sem seus outros dois irmãos.

Ele e Donovan trocaram olhares rápidos.

— Diga-me, — Marlene exigiu.

Sam ergueu as mãos em um movimento suave.

— Eles estão bem, mãe. Eu juro.

— Quer nos contar o que está acontecendo, meu filho? — seu pai disse.

Donovan falou.

— Acho que todos deveriam sentar-se. Ethan e Garrett estão bem, mas há algo que temos que lhes dizer.

— É uma boa notícia, mãe, — disse Sam, rapidamente para acalmar suas feições assustadas.

Sua preocupação voltou-se para todos com perplexidade enquanto lentamente tomaram seus assentos. Foi então que Sam notou uma jovem amontoada em um lugar próximo da cadeira de seu pai. Ele levantou uma sobrancelha para que seu pai o olhasse.

— Nos preocuparemos com isso mais tarde, — disse Frank, impaciente. — Agora conte-nos o que está em sua mente antes que sua mãe exploda.

Sam passou a mão pelo cabelo. Não havia nenhuma maneira fácil de explicar tudo o que aconteceu. Ele poderia enrolar em torno do assunto e levar para sempre ou poderia simplesmente colocá-lo para fora.

— Rachel está viva, — Donovan falou antes que Sam pudesse fazê-lo.

Silêncio mortal caiu sobre a sala. Ninguém se mexeu. Ninguém disse uma palavra. O rosto de sua mãe estava congelado em estado de choque. O pai deles simplesmente parecia que não ouvira corretamente, enquanto Nathan e Joe tinham os rostos escurecidos com fúria.

Nathan lançou-se do sofá.

— Que diabos, Van?

— Nathan, sente-se, — Sam disse.

Os olhos de Nathan se arregalaram com a autoridade na voz de Sam.

— Sam, o que está acontecendo? — sua mãe perguntou com a voz trêmula.

— É melhor ter um motivo muito bom para voltar para casa e dizer esse tipo de coisa para sua mãe, — Frank rosnou.

Sam suspirou e sentou-se sobre os degraus que levavam para a sala.

— Ethan conseguiu provas no dia dezesseis de alguém dizendo que Rachel estava viva.

— E a partir daí você vem e dá a sua mãe uma esperança falsa? — Frank exigiu.

— Pai, ouça-o, — Donovan cortou.

— Ele veio para a casa com fotos. De Rachel.

— Oh, Sam, como alguém poderia fazer isso com ele? — Marlene chorou. — Com qualquer um de nós?

Sam nivelou um olhar para sua mãe.

— Mãe, ela está viva. Eu a vi, a segurei. Assim como Donovan. Ethan está com ela agora, e Garrett também.

Marlene engasgou. Frank ficou completamente branco. Nathan e Joe olharam para Sam com as bocas abertas.

— Mas como? — Marlene finalmente conseguiu falar.

— Meu Deus, Sam, onde ela esteve durante um ano? Ela fugiu? Ela o deixou?

Sam respirou fundo, sabendo que o que tinha a dizer, não seria fácil para a família ouvir.

— A missão em que nós fomos — em que todos fomos — foi para resgatá-la. Ela foi mantida como prisioneira na América do Sul por todo o ano passado.

— Ai, meu Deus.

A sala inteira irrompeu num coro de desmentidos, de exclamações e demandas por mais informação. Nathan e Joe se levantaram enquanto Marlene escondia o rosto nas mãos. Frank segurou os lados de sua cadeira com os nós dos dedos brancos. Somente a jovem garota assistia a tudo com desinteresse.

— O que quer dizer, mantida como prisioneira? — Nathan exigiu. — Que porra está acontecendo, Sam?

Pela primeira vez, sua mãe não ameaçou lavar sua boca com sabão. Sam duvidou que ela ainda ouvisse o que Nathan dizia. Seus traços pareciam em estado de choque.

— Ela está bem, Sam? — sua mãe perguntou.

— Ela não está, mas ela ficará, — Donovan disse suavemente. — Vai levar tempo.

— Ela está muito frágil, — Sam disse severamente. — É por isso que viemos na frente para dar a notícia e esperar que as coisas estejam calmas no momento em que Ethan a trouxer para casa.

— Acalmar? — Marlene perguntou. — Acalmar? Como posso me acalmar? Você me diz que a filha do meu coração está viva depois que lamentamos sua morte por todo o ano passado e eu tenho que ficar calma? Quando ela voltará para casa, Sam, e o quanto sua situação é ruim?

— É isso mesmo, mãe. Temos que ter calma. Ela não pode suportar a agitação. Ela está... está em abstinência. Eles a mantiveram fortemente medicada, durante seu cativeiro. Não sabemos tudo o que ela suportou. Ela está à beira da ruptura, por isso, absolutamente, não podemos sobrecarregá-la quando ela voltar para casa.

— Há outra coisa que vocês devem saber, — Donovan disse calmamente.

Todos os olhos se voltaram para ele.

— Ela não se lembra muito de sua vida.

— O quê? — Marlene engasgou. Lágrimas lotaram os olhos e derramaram por seu rosto. — Meu bebê não se lembra de nós?

— Ela se lembra de Ethan. E de Garrett. Não muito mais. Eu a assustei, e Donovan pode muito bem ser um estranho, — Sam disse severamente.

— Senhor, tenha piedade, — disse Frank com voz trêmula. — Aquela pobre criança. — Ele olhou para Sam, com os olhos apertados e com raiva. — Por que? Por que fizeram isso com ela?

— Eu não sei, pai. Mas pretendo descobrir.

— Puta merda, — Joe arfava. — Isso é coisa pesada. — Então, olhou para Sam. — Cartel de drogas?

Sam assentiu.

Nathan xingou.

— O que diabos aconteceu? Ela viu algo ali que não devia? E se for sim, por que a grande charada? Por que simplesmente não a mataram e acabaram com tudo?

— Nathan! — sua mãe exclamou num sussurro chocado.

— Ele está fazendo uma pergunta válida, Marlene, — disse Frank. — Não está dizendo que deveriam tê-la matado, mas parece muito estranho o maldito nos enviar seus anéis e nos dizer que ela estava num avião em que ela, obviamente, nunca pisou.

— Você tem certeza que é Rachel? — Joe perguntou.

Ambos, Donovan e Sam, assentiram.

— Graças a Deus. Graças a Deus, — Marlene estava sufocada. — É um milagre. Ela está viva. — Pela primeira vez a alegria brilhou em seus olhos quando finalmente entendeu que Rachel estava viva. — Que presente maravilhoso. Ethan deve estar fora de si.

Donovan soltou sua respiração.

— Não vai ser fácil para qualquer um deles. Eles irão precisar muito de nossa ajuda. A melhor coisa que podemos fazer é não sufocá-los e deixá-los encontrar seu caminho de volta em seus próprios termos.

— Quando voltarão? — Marlene exigiu. — Preciso ir lá e limpar a casa e deixar tudo pronto para eles. Não há mantimentos, preciso comprar. Ela vai precisar de roupas novas.

Sam levantou a mão.

— Uma coisa de cada vez, mamãe, — disse ele calmamente. — Vai ser em poucos dias. Ela está sendo tratada, e a médica queria que esperasse alguns dias antes de viajar. Você está certa. Ela vai precisar de roupas novas. Ela está mais magra. Voltar para uma casa com um monte de roupas que não lhe servem pode ser perturbador, por isso seria bom se você pudesse fazer compras para ela.

Marlene se iluminou.

— Rusty e eu podemos comprar para ela, não podemos, Rusty?

Ela se virou para onde a menina estivera sentada, momentos antes, mas agora sua cadeira estava vazia. Marlene piscou, surpresa. Ninguém a viu sair.

— Quem é Rusty? — Donovan perguntou.

— Alguém que vai ficar aqui por algum tempo, — Marlene disse, quase beligerante.

Sam trocou olhares magoados com seus irmãos. O tom defensivo de sua mãe só poderia significar uma coisa. Ela tinha adotado outro ser da rua. Só que desta vez era um ser humano.

— Mãe... — Joe começou.

— Não comece com “Mãe” para mim, rapaz, — disse ela com firmeza. — Rusty é uma convidada aqui, e você vai tratá-la como um membro da família, ouviu?

Então sua expressão suavizou.

— Ela precisa de nós, rapazes. A coitadinha. Vocês não podem imaginar a vida que ela teve.

Sam soltou sua respiração, frustrado. A última coisa que precisava agora era uma rebelde adolescente que conseguiu que sua mãe, coração mole, abrisse a porta da casa.

Com isso, Marlene se levantou e bateu palmas. Os irmãos olharam um para o outro, e gemeram. Não era de admirar que gravitassem em direção ao militar. Sua mãe rivalizava com qualquer sargento que já encontraram.

— Temos muito a fazer e não temos muito tempo para fazer tudo, — disse ela com firmeza. Prendeu o olhar de Nathan e Joe, com o seu. — Quero que vocês dois vão e deixem o quintal de Ethan em ordem. Frank e eu abordaremos o interior, e então farei compras de mantimentos e as coisas que Rachel vai precisar.

Sam olhou-a com indulgência.

— E Donovan e eu?

Seu olhar suavizou-se, e ela se aproximou e puxou-o até ficar na frente dela. Então o envolveu em seus braços e o abraçou com força.

— Quero que você e Van vão para casa e fiquem limpos e durmam por cerca de 24 horas direto. Vocês parecem com o inferno.

Abraçou suas costas e permitiu as primeiras cepas de emoção escapar. Sua família sofreu múltiplas perdas no último ano, e tinham algumas questões difíceis de encarar, mas pela primeira vez num longo tempo, iriam todos ficar juntos novamente.

— Por mais que eu adoraria fazer apenas isso, Van e eu temos muito a fazer. Nossa missão não terminou, e temos prejuízos para investigar.

— Algo que podemos fazer, Sam? — Nathan perguntou.

Era um fato, ele agradecia a ajuda de seus irmãos mais novos, mas não estava prestes a tirá-los da casa de sua mãe em seu primeiro dia.

Como se sabendo a direção de seus pensamentos, Marlene deixou escapar um suspiro e se afastou.

— Se você precisar, eles são seus, Sam. Quanto mais rápido você começar seu negócio de quartel general, mais rápido poderei ter minha família junto sob o mesmo teto.

— Fico feliz por ser dispensado tão facilmente, — Joe falou lentamente. — Isto parece com o maldito exército.

— Bem, se falaram sério sobre a oferta de ajuda, Van e eu poderíamos usá-los. Estou aguardando relatórios a cada três horas de Garrett, e Rio está de volta no chão. Cole e Dolphin estão em Fort Campbell, mas não espero ficar mais de 24 horas antes que eles exijam que eu os tire do inferno de lá. Steele, Renshaw e Baker estão querendo ação, e estou inclinado a deixá-los, porque Rio está sem qualquer tipo de apoio.

— Nathan e eu.

— Nem mesmo digam, — Donovan cortou. — Vocês dois cabeças ocas não nos pertencem. Pertencem ao Tio Sam, e ele fica muito irritado quando seus recrutas aparecem em países estrangeiros em missões particulares.

— O melhor que podem fazer é voltar para casa e ajudar com as comunicações, enquanto Van e eu tiramos uma soneca. Não consigo me lembrar a última vez que consegui fechar os olhos.

— Espero todos vocês aqui para o almoço de amanhã, — Marlene disse com firmeza.

— Frango frito? — Donovan perguntou esperançosamente.

Marlene deu um tapinha na bochecha dele e depois o abraçou como fizera com Sam.

— Qualquer coisa que você quiser. Agora vá para casa e descanse.

 

— Rachel. Rachel, querida, acorde.

Rachel levantou-se do vazio profundo do sono e passou a mão cansada nos olhos. Então ficou vesga enquanto a luz solar nublava sua visão.

O avião parou e o zumbido dos jatos cessou. Ao lado dela, Ethan acariciava gentilmente os dedos em sua bochecha.

Foi então que percebeu que já haviam pousado.

Ela sentou-se, em seguida, balançou precariamente, pois moveu-se muito rápido. Ethan pegou seus braços e estabilizou-a. Passando por eles, Garrett soltou-se e foi abrir a escotilha.

— Você está pronta? — Ethan perguntou.

— Onde estamos?

— Acabamos de desembarcar no aeroporto do Condado de Henry. Estamos a cerca de 40 minutos de casa.

Ela o deixou ajudá-la e guiá-la em direção à saída. Garrett estava lá para pegar sua mão enquanto ela descia. As sandálias que pegara emprestado da Dra. Scofield deslizavam para cima e para baixo em seus pés, enquanto lutava para se manter em pé. As roupas, como os sapatos, eram grandes demais, mas ela estava limpa e confortável, o que era mais do que poderia dizer que estivera por muito tempo.

Sam ficou alguns passos afastado. Ela quase não o reconheceu no jeans desbotado e camiseta branca que usava. Ele parecia muito mais acessível fora do modo guerreiro camuflado. Até sua expressão era suave, menos ameaçadora, quase não era amedrontador.

Ele ficou com os braços cruzados, olhando enquanto desciam do jato. Reclinou-se calmamente contra o SUV, e sorriu quando a viu.

Determinada a se mostrar o mais corajosa possível, ela endireitou os ombros e se soltou do apoio de Garrett e Ethan. Cada passo em frente, longe de seu apoio, sentia como se andando no vazio, mas forçou-se, assim mesmo, até que estava apenas a um passo de Sam.

— Olá, Sam, — disse em voz baixa, mas firme.

O sorriso dele se aprofundou, e ele abriu os braços, mas não fez nenhum movimento em direção a ela. Coube a ela aceitar o gesto. Respirando fundo, ela caminhou para seu abraço. Seus braços a envolveram enquanto ele a abraçava firmemente.

— Olá, querida, — disse contra o seu ouvido. — Bem-vinda ao lar.

Lágrimas ardiam em seus olhos, e ela enterrou o rosto em seu pescoço. Ele cheirava como Ethan. Forte e Firme.

Ele beijou o cabelo dela e simplesmente segurou-a até que finalmente ela se afastou. A mão dele colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha num gesto terno.

— Como está se sentindo? — ele perguntou.

— Não sei, — disse ela honestamente. — Eu estou... Estou um pouco assustada.

As mãos de Ethan deslizaram sobre seus ombros, e ela virou-se instintivamente para o abrigo de seus braços. Ele pressionou um beijo na sua têmpora.

— Não há necessidade de estar receosa, querida. Você está em casa agora, com as pessoas que te amam.

— Vamos lá. Eu tenho uma caminhonete à espera, — disse Sam.

Rachel observou enquanto ele e Garrett pegavam as poucas mochilas que Ethan e Garrett trouxeram com eles, e então se dirigiram para o SUV estacionado a alguns passos de distância. Ethan deu-lhe um aperto e depois lhe pediu para ir em frente.

Ela caminhou quase mecanicamente, incapaz de processar o sentimento bizarro de que isto tudo era normal, ou deveria ser. Após meses e meses de medo e cativeiro, estava livre. De volta ao mundo normal. Retomaria sua vida como se não tivesse estado em espera pelo ano passado. Como se as pessoas que a amavam não tivessem seguido em frente com suas vidas sem ela.

Garrett se colocou no banco dianteiro, enquanto Ethan a levava para trás e, em seguida, arrastou-se ao seu lado. Sam se posicionou no banco do motorista e se afastou da pequena pista de pouso.

Dificilmente poderia ser chamado de aeroporto. Era uma pista pequena no meio de hectares de terra agrícola. Havia apenas dois hangares, um maior e outro menor, e eram apenas edifícios de estanho.

A caminhonete levantou uma nuvem de poeira enquanto se afastavam. Momentos depois, Sam entrou em uma estrada pavimentada e acelerou. Rachel olhou curiosamente para fora de sua janela, esperando algo, qualquer coisa que a fizesse recordar.

Depois de vários quilômetros, desistiu. Parecia com qualquer lugar. Ela poderia estar em qualquer lugar.

Rachel inclinou-se na curva do braço de Ethan, e ele imediatamente apertou os braços ao seu redor.

— Você está bem? — murmurou.

Ela assentiu. Ela não afastara completamente os efeitos da abstinência. Os últimos dias foram angustiantes, uma experiência que nunca mais queria repetir. Havia ainda uma dor vazia, um vazio oco implorando para ser preenchido, mas era mais suportável agora. E ela se recusava a fraquejar. Não seria a única fraca em meio a esses fortes guerreiros.

Ethan permaneceu ao seu lado, ele e Garrett. Fizeram turnos segurando-a enquanto ela gritava e chorava, enquanto implorava por socorro. Em seu momento de maior desespero, pediu para Ethan buscar drogas para ela.

Ele ficou com ela, completamente vestido, no chuveiro, quando estivera convencida que estava coberta de aranhas. Ainda estremecia com a lembrança das terríveis criaturas, centenas delas movendo-se por seu corpo.

Depois de vários dias aparentemente intermináveis, o pior estava terminado. Estava exausta, e sabia que Ethan e Garrett não se sentiam muito melhor.

— Para onde estamos indo, exatamente? — ela perguntou. Era bobagem perguntar. Ethan e Garrett tinham dado os detalhes da volta ao lar numerosas vezes, mas não podia controlar a ansiedade que nadava através de sua mente.

Não percebeu que suas mãos estavam juntas, os dedos entrelaçados de forma que as pontas estavam brancas, até Ethan cuidadosamente soltá-los e prender os dedos com os dele.

— Estamos indo para casa. A nossa casa, querida.

Ela tentou duramente trazer uma imagem de sua casa à mente. Apenas um breve relance, algo para dizer que ela tinha uma conexão com o lugar em que vivera com seu marido.

— Não consigo lembrar, — disse frustrada.

Garrett virou em seu assento, se moveu para tocá-la no joelho, e como fizera tantas vezes nos últimos dias, ofereceu conforto com apenas algumas palavras bem colocadas.

— Você está tentando demasiadamente duro, docinho. Relaxe e deixe vir até você. Mesmo se não lembrar agora, provavelmente quando caminhar dentro seu próprio lugar, tudo virá até você. E se não vier? E daí? Você tem todo o tempo do mundo.

Ela largou a mão de Ethan e agarrou a de Garrett, apertando com toda sua força.

— Obrigada. Eu amo você.

Ela ofegou, completamente mortificada com as palavras que escaparam. Ethan enrijeceu ao seu lado. Ela largou a mão de Garrett e ergueu os dedos à boca, horrorizada com o que disse.

Garrett olhou para ela, nenhum indício de emoção ou julgamento em seus olhos. Apenas uma paciente compreensão e amor correspondido. Por que não disse essas palavras a Ethan? Por quê a Garrett?

Seu olhar voou para Ethan, as desculpas gravadas em cada superfície de seu rosto. Ela queria gritá-las, mas estava muito envergonhada.

Não havia raiva nos olhos de Ethan, apenas um retesamento, como se ele lutasse contra alguma reação desconhecida. Um som vindo da frente a fez se afastar. Era Sam. Rindo.

Sam olhou no espelho retrovisor, um sorriso largo em seus lábios.

— Estou vendo mais e mais da Rachel que conhecemos e amamos o tempo todo. Você sempre foi a mulher mais adorável e expansiva que conheci.

Ethan sorriu e pareceu relaxar contra ela. Mas ela estava muito enraizada no arrependimento para sentir que o momento inábil havia passado. Fechou os olhos e afastou-se, pela primeira vez negando a si mesma o conforto de seu abraço.

— Rachel.

A voz profunda de Garrett percorreu como água quente sobre seus ouvidos.

Lentamente, ela olhou para cima até que encontrou os olhos dele.

— Amo você também, docinho. Todos nós amamos.

Ela sorriu tremulamente e assentiu. A mão de Ethan rastejou por cima da sua e ele deu-lhe um pequeno aperto. Reunindo coragem, ela o olhou, quase com medo do que poderia ver em seus olhos.

Suspirou no choque de emoção que encontrou. Crua, abrasadora. Ela não conseguia respirar.

Ele tocou seu rosto, deslizou o dedo por baixo da orelha e nuca, e em seguida puxou-a cuidadosamente para frente até os lábios estarem a apenas um fôlego longe dela.

— Eu amo você, — ele sussurrou.

— Eu...

As palavras a sufocaram, e antes que pudesse tentar novamente, os lábios dele tocaram seu rosto. Pouco exigente e tão terno, quase como se estivesse com medo de que a menor pressão a faria dobrar.

O nó na garganta cresceu mais, assim como o pânico. Por que a ideia de dizer as palavras que chegaram tão naturalmente apenas um momento antes, instilavam um medo tão angustiante?

Ela afastou-se, torcendo em seu assento enquanto engolia em seco por ar. Ethan tocou seu ombro, terno e preocupado, mas ela se encolheu à distância. Ela ia ficar doente.

— Sam, pare a caminhonete, — Ethan bradou.

Ele pegou seu braço enquanto Sam saia da rodovia. Alguns segundos depois, a porta se abriu e ela se ergueu. Sam a pegou enquanto seus joelhos dobravam e ela caia no chão.

— Respire fundo, — Sam murmurou. — Tenha calma.

Ela tremia da cabeça aos pés. Estava ao mesmo tempo quente e fria. Suor molhava a espessura de suas roupas e ainda assim ela estremecia. Imagens rápidas, duras e implacáveis, martelavam sua mente.

Ethan de cara dura e transtornado pela raiva. Gritando. Exigindo. Acusações. Ela tapou os ouvidos e sacudiu a cabeça, tentando calar a feiura.

— Rachel.

A voz de Ethan, tão longe...

— Rachel, o que está errado?

Garrett desta vez, mais perto.

— Ele me odeia, — ela sussurrou enquanto as lágrimas escorreriam por sua face.

Dois conjuntos de braços a rodearam. Mãos alisavam seu cabelo para trás e limpavam as lágrimas em seu rosto.

— Ninguém odeia você, querida.

Ethan parecia tão feroz, como se fosse afugentar todos os seus demônios com as próprias mãos.

Lentamente, a escuridão desapareceu. As vozes pararam seu ataque e a frieza se dissipou, deixando o calor.

Ela cedeu, com a cabeça caindo para frente. Dedos fortes tocaram seu pescoço, enquanto outras mãos apoiavam os ombros.

— Vamos levá-la de volta à caminhonete, — disse Garrett.

Antes que pudesse responder, Ethan pegou-a e a aninhou. O peito arfava, e ela abriu os olhos para ver tanta dor refletida em seu rosto. Ele parecia... torturado.

— Estou cansada, — sussurrou enquanto encostava a cabeça em seu pescoço.

— Então durma, querida. Eu a acordarei quando chegarmos em casa.

Ethan a abaixou na parte de trás e colocou-a no assento. Recuou, fechando a porta, e depois caminhou para o outro lado. Subiu e colocou sua cabeça em seu colo.

O bater das portas da frente sinalizou a entrada de Sam e Garrett, e então veio o rugido do motor e o zumbido baixo debaixo dela, enquanto Sam manobrava de volta para a estrada.

Eu realmente estou ficando louca. Talvez eu já esteja. Talvez eu nunca mais me recupere.

Fechou os olhos enquanto mais lágrimas se derramavam e corriam silenciosamente por seu rosto.

Ethan assistia impotente, enquanto, as trilhas úmidas prateadas marcavam um caminho sobre sua pele pálida. O que ela quis dizer? O que ela lembrou? Sua mente estava torturada com as memórias do casamento deles? Ela já as juntou tão cedo?

Ele me odeia.

Ele queria vomitar. Do que ela estava falando? Que Deus não permita ser ele. Não permita que ela acredite que ele a odiava. Morreria antes mesmo de deixá-la pensar isso, mesmo por um momento.

Eu amo você.

As palavras que ela disse tão facilmente a Garrett o perseguiram. Ele queria desesperadamente ouvi-las de seus lábios. Dirigidas a ele. Queria voltar no tempo quando não se passava um dia em que não lhe dissesse o quanto o amava.

Mas uma mulher cansa de colocar o seu coração na linha sem receber nada em troca. Se ao menos ele tivesse respondido, Eu também te amo, querida... Apenas no início ele correspondera. Mais tarde, ele sequer assentia ou sorria. No final, sequer fazia isso. Sentia-se muito culpado. As palavras que eram tão doces no início tornaram-se punhais que deslizavam insidiosamente entre suas costelas e nos órgãos vulneráveis abaixo delas. Sentia-se como o pior tipo de hipócrita, e então permaneceu em silêncio, até que finalmente ela parou de dizer qualquer coisa.

Isso foi o pior. Ele viveu cada dia na esperança de ouvir essas palavras novamente, só para ficar com raiva e ressentido quando elas não vieram. Ele a puniu por algo que era sua própria culpa.

— Ethan.

Ethan olhou para cima para ver Sam estudando-o no espelho retrovisor.

Sam suspirou.

— Eu gostaria de saber o que dizer, cara. Sei que não é fácil para você.

— Isto não é sobre mim, — ele falou taciturno. — É sobre ela. É tudo sobre ela. Ela é a única coisa que importa.

Sam balançou a cabeça.

— Eu sei disso. Mas você está sofrendo também. Você não é uma máquina. Não pode simplesmente fechar-se, porque não quer sentir a dor.

— Eu posso lidar com qualquer coisa, contanto que eu a tenha de volta, — Ethan disse em voz baixa, desesperada.

Nisso, Garrett virou, seu olhar indagador e pensativo.

— Você a tem de volta, cara. Do que tem tanto medo?

Ethan engoliu em seco. Nunca iria admitir a seus irmãos o papel que desempenhou para Rachel estar no avião para a América do Sul, como ele a afastou, rejeitando-a e ao seu amor.

Como poderia dizer-lhes que o que mais temia era perdê-la... novamente... depois de tê-la de volta?

 

— Rusty se foi! — Marlene disse enquanto agitava as mãos freneticamente.

— Calma mãe, se acalme, — Joe disse suavemente.

Ela lançou a Joe um olhar feroz.

— Eu não vou me acalmar. Estou cansada dos meus filhos me dizendo para me acalmar.

— O que quer dizer com ela se foi? — Nathan perguntou.

Marlene ergueu as mãos até que observou três de seus filhos enquanto eles se espreguiçavam na sala de estar. Nenhum deles parecia um pouco preocupado que Rusty tivesse fugido. Rusty estava quieta desde que a notícia da volta ao lar de Raquel surgiu, mas Marlene não esperava que ela desaparecesse no dia em que Rachel estava para chegar.

— Às vezes me pergunto se todo o senso comum não foi entregue muito antes de vocês dois chegarem, — ela murmurou.

Nathan fez uma careta.

— Ai, mãe. Isso não era necessário.

Donovan pulou. Mas antes que pudesse emitir uma resposta mal-humorada, Marlene o parou com uma careta e o olhar arguto.

— Eu quero que todos vocês levantem seus traseiros e me ajudem a encontrá-la. Não posso lidar com isso agora. Rachel está chegando em casa a qualquer momento e Rusty se foi.

— Alguma vez lhe ocorreu que ela quisesse ir embora? — Donovan disse com cuidado. — Não pode fazê-la ficar, mãe. Ela é uma garota problemática. Você não pode salvar a todos.

— Não me importo se ela quer ir embora, não que eu acredite que ela queira estar sozinha por um minuto. Ela precisa ter seu traseiro de volta a esta casa. Não tenho ideia do que aconteceu, mas a menos que eu ouça isso de seus próprios lábios, vamos tratar como um membro da família em necessidade. Você ficaria sentado aqui discutindo se eu lhe dissesse que um de seus irmãos desapareceu? Certamente não perdeu tempo antes de ir atrás de Rachel quando soube que ela estava em apuros.

Nathan fez uma careta e se levantou.

— Agora espere um minuto, mãe. Você não pode comparar esta garota com Rachel. Ela só está usando você e papai.

Os lábios de Marlene se apertaram.

— Quero que todos os três vão procurar por ela. Não se atrevam a voltar sem ela. Vou encontrar o seu pai e vamos pegar a caminhonete. Me chamem no minuto em que a encontrarem, ouviram?

Joe suspirou e revirou os olhos.

— Isso é muito desrespeito de sua parte, meu jovem, — ela retrucou.

— Sim, senhora, — disse ele humildemente.

Todos tinham aparência descontente, mas se ergueram do sofá e saíram pela porta da frente.

Nathan entrou em sua caminhonete Dodge e deu a seus irmãos um olhar de simpatia pela janela, enquanto subiam em seus veículos. Quando a mãe saia em uma de suas tangentes, não havia como escapar. Ela colocaria Stewart County de cabeça para baixo à procura desta garota, Rusty.

Voltou para a estrada e para o oeste. Pegou a estrada do condado que acompanhava o lago, e deixaria Dover para seus irmãos.

Dirigia um pouco mais rápido que o necessário, mas a impaciência queimava nele. Estava muito mais interessado em ouvir que Ethan e Rachel chegaram em casa, e estava ansioso para ver Garrett e obter um relatório. Não poderia fazer isso muito bem quando estava a serviço atrás de alguma tola, para sua mãe equivocada.

O que não era inteiramente justo, ele supunha, mas sua irritação não permitia mais pensamentos caridosos. Ela tinha o coração mais suave que qualquer um que conhecia. Muito mole. E uma vez que decidia algo, nada e ninguém mudavam isso.

Por meia hora tomou caminhos sinuosos fora da 232 e, em seguida, fez a volta enquanto continuava mais ao sul ao longo do lago. Acabara de cruzar a Leatherwood Creek quando fez a curva e viu uma figura solitária andando pela beira da rodovia. Rusty.

Reduziu e abriu a janela do passageiro, enquanto se aproximava dela. Ela olhou com cautela para ele quando parou ao seu lado, e então se enrijeceu quando o reconheceu.

— Alguma razão particular para você estar andando sozinha pela estrada quando a minha mãe está prestes a ficar louca se preocupando com você? — ele perguntou.

Ela olhou para frente e continuou andando, com os ombros rígidos e seu queixo erguido.

— Ela não se importa comigo, — murmurou Rusty.

— Ah, sério? Acho que é por isso que ela pegou você, te alimentou, te vestiu, lhe deu um lugar para ficar e está realmente deixando o resto de nós insanos exigindo que a aceitemos, não digamos uma maldita mínima palavra para você e mandou todos saírem à sua procura agora, quando preferimos estar focados na volta de Rachel.

Ela fez uma parada abrupta, seus lábios curvando em um rosnado.

— Rachel. Eu estou tão farta de ouvir falar de Rachel. Rachel é tão maravilhosa. "A filha do meu coração." Todo mundo ama Rachel. Marlene não precisa de mim agora que sua filha de verdade está de volta.

Apesar de sua irritação, Nathan amoleceu, enquanto olhava para a menina. Ela estava sofrendo, e estava fazendo tudo ao seu alcance para não deixá-lo ver o quanto.

— Suba, — disse ele.

Ela balançou a cabeça.

— Vamos lá. Nós vamos dar um passeio. Se você não quer ir para casa, tudo bem, vamos passear.

Ela hesitou, e seus lábios tremiam. Ele estendeu a mão e abriu a porta, empurrando-a para fora. Ela deu um suspiro profundo e subiu no banco do passageiro.

— Cinto de segurança, — disse ele pacientemente.

Ela fez uma careta, mas passou o cinto de segurança em torno de si e o clicou no lugar.

Ele voltou para a estrada, assim ela saberia que  não a estava levando para casa imediatamente.

— Agora, presumo que me dirá por que acha que algo tão maravilhoso como Rachel voltando para casa e para nós mudaria a maneira como minha mãe se sente sobre você?

— Eu não sou ninguém, — disse ela sombriamente. — Sou apenas alguém que sua mãe ficou com pena. Ela estava se sentindo triste por causa de Rachel, e acho que pensou que eu poderia preencher esse vazio.

— E ela lhe disse isso?

Rusty hesitou.

— Hum... Não.

— Talvez você ouviu isso.

Mais uma vez ela sacudiu a cabeça, franzindo a testa enquanto entendia onde ele estava querendo chegar.

— Ou talvez minha mãe fez algo para fazer você pensar que ela não é muita sincera e adora manipular adolescentes que estão em apuros.

— Você sabe que ela não faz isso, — Rusty murmurou.

— Hmm, bem, bem, estou fora de palpites. Talvez você deveria apenas me explicar. Os garotos podem ser lentos.

Ela ficou em silêncio por muito tempo enquanto estudava as mãos no colo.

— Eu apenas pensei... Presumi que já que Rachel estava voltando, ela não iria me querer mais.

Nathan se aproximou e segurou sua mão, ignorando seu estremecimento de surpresa.

— Eu entendo porque você pode ter se sentido assim. Mas uma coisa que precisa entender é a capacidade ilimitada de minha mãe de cuidar. Ela lecionou por anos, e ainda pode dizer os nomes de todos os alunos que passaram por sua sala de aula.

Ele deu uma risada suave.

— Por isso, tente ser sua filha mais nova, com cinco irmãos mais velhos. Se alguém deve se sentir excluído e esquecido, esse alguém sou eu. Mas de alguma forma ela consegue fazer cada um de nós se sentir especial, como se fôssemos a única pessoa no mundo que importa para ela. Não me interprete mal. Ela não é uma pessoa fraca, e quando decide que fará alguma coisa, é como um jacaré com carne fresca.

Seus lábios tremeram, e ela puxou a mão das dele.

— Eu não estou acostumada que alguém se importe comigo.

— Bem, talvez seja a hora de se acostumar a isso, — disse simplesmente.

Seus lábios torceram novamente enquanto, aparentemente, erguia suas defesas.

— O que você acha? Você e seus irmãos não gostam de mim. Preferem que eu vá de qualquer maneira.

— Isto não é sobre mim ou meus irmãos, por isso não faça assim. Minha mãe se preocupa com você. Nós não a conhecemos. Estamos preocupados que esteja se aproveitando da nossa mãe? Inferno sim. E pode apostar que estaremos observando, e se der um passo errado, vamos estar em você como um pato em um besouro. Mas contanto que não estrague tudo, não tem nada com que se preocupar.

— Você está dizendo que quer que eu volte? — Perguntou desconfiada.

Ele suspirou.

— Deixe de torcer as minhas palavras e confie, Rusty. Você é capaz de tomar suas próprias decisões e assumir a responsabilidade por elas. Se quiser voltar, então, pare de desperdiçar tanto de nosso tempo e diga a palavra. Vou levá-la para casa, sem fazer perguntas. Se não quiser ir, tudo bem, mas vai contar para minha mãe encarando-a, em vez de esgueirar-se como uma ingrata covarde.

Sua boca abriu em estado de choque, e então inesperadamente ela sorriu, e transformou toda a sua face. Substituindo o olhar tristonho e derrotado, existia uma menina jovem, vibrante, que era realmente muito bonita.

— Eu gosto de pessoas que não mentem e dizem as coisas como elas são.

Nathan riu.

— Então você vai se dar muito bem com o clã Kelly. Agora, vamos para casa ou não?

A faísca acendeu os olhos dela, e ela parecia... esperançosa. Animada mesmo. Então de repente, como se a felicidade tivesse queimado, a chama morreu e olhou apreensiva para ele.

— Tem certeza? Tem certeza que ela me quer?

Ele olhou para ela um longo tempo e deu graças por nunca ter se sentido indesejado em sua vida.

— Sim, Rusty. Eu tenho certeza.

 

Rachel olhou a casa pela janela do SUV enquanto Sam contornava o pátio. Esperou que o reconhecimento batesse nela, mas olhava entorpecida como se fosse a casa de outra pessoa. Não dela.

Era uma bela casa, e certamente poderia vê-la como um lugar que teria adorado. Uma casa de madeira de cipreste com um alpendre rústico completo, com balanço e samambaias em vasos.

Ethan lhe dissera que viviam não muito longe do lago.

— Há quanto tempo vivemos aqui? — ela sussurrou.

— Três anos, — respondeu Ethan. — Nós nos mudamos logo depois de nossa lua de mel.

Ela inclinou a cabeça para o lado e olhou curiosamente para ele.

— Onde fomos em nossa lua de mel?

Ele pareceu momentaneamente surpreso e então sorriu, o calor inundando seus olhos.

— Fomos para a Jamaica e passamos uma semana na praia. Eu não acho que você usou muito mais do que um biquíni o tempo todo que estivemos lá.

Um rubor coloriu ainda mais suas bochechas, e ela abaixou a cabeça.

— Pronta? — ele perguntou solenemente.

Ela respirou fundo e assentiu. Ele abriu a porta e saiu, depois fez a volta e ofereceu-lhe a mão. Ela deslizou os dedos nos dele e deixou-o puxá-la do veículo. Sam e Garrett já tinham saído e estavam de pé no caminho para a porta da frente.

Ela não percebeu o quanto estava tremendo até que Ethan passou um braço ao seu redor para firmá-la enquanto caminhavam para seus irmãos.

— Você quer que fiquemos, Ethan? — Sam murmurou.

Ethan parou nos degraus da porta da frente e apertou seu abraço em volta da cintura dela.

— Não, nós ficaremos bem. Diga a mamãe que ligarei para ela mais tarde.

— Ok, cara. Chame se precisar de alguma coisa. — Sam bateu nas costas de Ethan e começou a voltar para a caminhonete.

Garrett hesitou um segundo e depois estendeu a mão para tocá-la no ombro.

— Tome cuidado, docinho.

Ela se afastou de Ethan e jogou os braços ao redor da cintura de Garrett. Ele deu um passo atrás, surpreso, mas depois envolveu os braços em volta dela e devolveu seu abraço.

— Você voltará, não é? — ela sussurrou.

— Eu nunca me afastarei, — ele murmurou. — Se precisar de mim, estarei aqui. Prometo.

Relutante, ela libertou-se de seu abraço. Garrett sorriu para ela e, em seguida, virou-se para o irmão.

— Grite se precisar de alguma coisa.

— Vamos ficar bem, — Ethan disse suavemente.

Garrett andou a passos lentos e subiu na caminhonete ao lado de Sam. Ambos acenaram enquanto se afastavam da casa.

— Tudo bem? — Ethan perguntou enquanto se virava para a porta.

Ela olhou para os degraus, quase temendo o que estava lá dentro. Por que isso a assustava tanto? Por que era tão covarde?

— Vamos fazê-lo, — disse ela.

Ethan colocou a chave na fechadura e abriu a porta. Ar frio soprou sobre seu rosto enquanto entravam. Ela se preparou para o surto de memórias, mas enquanto se movia mais para dentro, só foi atingida por um sentimento de estranheza.

Suas mãos subiram para os braços e os esfregou distraidamente enquanto seu olhar viajava pela sala de estar. Parecia tão... quieta. Organizada. Até mesmo tranquila. A tranquilidade estava refletida na decoração, desde o piano no canto da lareira de pedra, à arte emoldurada nas paredes.

Como esta casa poderia ser dela quando cada parte de sua mente gritava caos?

— Querida... Você está bem?

Ethan tocou seu braço, e ela interrompeu seu escrutínio.

— Eu... eu estou bem.

— Algo parece familiar?

Ela balançou a cabeça, precariamente perto de fugir tão duro e tão rápido desta casa quanto podia.

— O que está incomodando você? — ele perguntou suavemente.

Ela virou-se em um círculo apertado. As paredes, os móveis pareciam fechar-se sobre ela e zombar. A chamavam de fraude e diziam que ela não pertencia a este lugar.

— Tem certeza que eu pertenço aqui?

— Venha aqui, — disse ele enquanto a puxava para seus braços. Segurou-a firmemente, apoiando o queixo no topo de sua cabeça. — Você pertence onde quer que eu esteja. Você pertence a mim. Sempre. Eu sei que tem sido esmagador para você, mas vamos passar por isso. Só me prometa que quando algo assustá-la, vai me dizer para que eu possa ajudar.

Ela apertou-o, segurando-o tão apertado quanto pôde. Inalou o cheiro dele e sentiu o equilíbrio, a reconfortante batida de seu coração contra o rosto. Eles poderiam fazer isso. Ela poderia fazer isso.

Finalmente, se afastou e, em seguida, estendeu a mão para ele, enlaçando seus dedos.

— Mostre-me tudo?

— Eu ficaria feliz.

Enquanto andavam pela casa, a frustração de Rachel crescia. Não sentiu nenhuma afinidade com este lugar.

— Este é o nosso quarto e aquela porta é o banheiro principal, — disse Ethan enquanto caminhavam em um quarto espaçoso.

O mobiliário parecia feminino. Até a cama era um dossel com uma colcha de babados. Era difícil imaginar Ethan em tal cenário.

— Não se parece com você, — disse ela lentamente.

Ele sorriu.

— Tenho o senso de decoração de uma mula.

— Mas não parece comigo, também, — disse ela, impotente.

— É exatamente como você. Calma, organizada. Feminina e bonita.

Ela balançou a cabeça, odiando essas palavras. Palavras que ela usou para descrever a sala de estar, exatamente. Eles não eram dela. Caminhou cegamente em direção ao banheiro, querendo apenas uma fuga.

O banheiro era grande, com uma banheira de hidromassagem e ducha separada. Tinha seu próprio armário pequeno e havia duas pias, uma para ele e outra para ela. Mas seu olhar travou na banheira.

A memória distante flutuava por sobre uma nuvem, preguiçosa e sem pressa. O esguicho de água. Sentada na banheira, a água até os seios. Ethan. Ela piscou enquanto a imagem ficava mais acentuada, entrando em foco.

Ela estava nos braços dele, inclinando-se contra seu peito enquanto a água batia sobre os seios. As mãos dele os envolveram, roçando os polegares sobre os mamilos firmes. Um arrepio correu por seu corpo.

E depois, os dedos por seus cabelos enquanto soltavam as tranças longas. Suas mãos automaticamente foram para a cabeça, para seus cabelos tosquiados. Seu cabelo era muito mais longo antes.

— Você vai tomar banho comigo? — ela deixou escapar.

Ele piscou, surpreso, e por um longo momento não disse nada. Parecia lutar com exatamente o que dizer, como reagir.

— Você costumava lavar meu cabelo. Eu lembro de você me tocando.

Fogo encheu seus olhos, provocando o azul até que se assemelhava a uma tempestade.

— Você tem certeza, querida? Não quero fazer nada que a faça se sentir desconfortável.

Ela encolheu os ombros, odiando o constrangimento de pedir que seu marido, seu marido, fosse íntimo com ela novamente.

— Eu só quero que você me abrace.

Ele puxou-a em seus braços, e para sua surpresa, ele tremia contra ela. Estaria à deriva tanto quanto ela? De certa forma tinha que ser ainda mais difícil para ele. Ele tinha as memórias que ela não tinha. Conseguia se lembrar de como era entre eles e lamentar o que perderam.

— Sente-se na cama. Vou abrir a água e então vamos tirar a roupa juntos, ok? Mamãe comprou algumas roupas novas e deixou-as na cama, então poderá escolher algo para vestir enquanto a água está enchendo.

Ela assentiu e se retirou para o quarto. Havia várias sacolas de compras em cima da cama, e ela se sentou e abriu uma. Jeans, tops, meias e até mesmo um novo par de tênis. Havia também um sutiã e vários pares de roupa íntima.

Olhou para baixo auto conscientemente enquanto percebia que não usava um sutiã por mais tempo que conseguia se lembrar. Ou roupa íntima.

Espontaneamente a imagem de um homem que tirava sua roupa e sua calcinha brilhou em sua mente. E, em seguida, outro homem pisando entre ele e ela, empurrando seu agressor. Ela ficou encolhida, nua sobre o chão de terra da cabana enquanto eles argumentaram, em seguida, seu salvador empurrara sua roupa esfarrapada de volta para ela, menos suas roupas íntimas irrecuperáveis.

Não pensara ou lembrara disso até agora. Seu agressor estava morto. Mas e seu salvador? Quem era ele e por que se importava com o que o outro homem fazia com ela?

Com dedos nervosos, tirou a calcinha rendada e o sutiã, que de alguma forma pareciam muito grandes para seus pequenos seios. Como pareceria neles agora? Mesmo que soubesse que estava mais magra. De repente, a ideia de tomar banho com Ethan não parecia tão atraente.

Agarrou a roupa contra ela e esperou Ethan sair, com medo crescente. Poucos momentos depois, ele apareceu na porta, sua linguagem corporal tão tensa quanto a dela.

— A água está no ponto. Você está pronta?

Ela levantou-se e encontrou seu olhar.

— Talvez eu devesse ir primeiro. Pode... você pode me dar alguns minutos para entrar na banheira antes de entrar?

— Absolutamente, querida. Demore o tempo que precisar.

Ele gesticulou para ela entrar, e quando passou por ele, silenciosamente fechou a porta atrás dela. Andou até a pia e colocou a roupa sobre o balcão.

Quando olhou para cima, pegou o primeiro olhar de si mesma no espelho. Ficou momentaneamente assustada. A mulher olhando para ela com olhos arregalados e assustados não se parecia com ela.

Cabelo enrolado frouxamente na nuca e nas orelhas. Suas bochechas estavam finas e afundadas, seus ossos mais pronunciados. Até mesmo sua garganta parecia pequena demais, e seus ombros estavam angulares, não suavemente arredondados.

Seu olhar caiu até a cintura estreita e os quadris. Juvenil. Não parecia haver nenhuma suavidade nela. O que poderia Ethan possivelmente ver nela? Sempre tivera essa aparência?

Paralisada pela estranha no reflexo, tirou a roupa. Logo estava nua, e olhou com indiferença clínica para seus seios. Apesar de pequenos, ainda pareciam muito grandes para sua estrutura fina. Muito cheios.

Procurou por qualquer imperfeição, virando-se lateralmente para estudar o seu perfil. A bunda dela estava lá, pálida, despretensiosa, não muito grande, não muito pequena. Apenas uma bunda.

Ergueu o braço e passou os dedos sobre a pele lisa raspada sob ele. Maren lhe ofereceu o uso de uma navalha para raspar as pernas e sob seus braços, mas se recusou a sair enquanto Rachel os usava.

Um riso suave escapou. Regra número um ao lidar com pessoas loucas. Nunca deixá-las sozinhas com objetos cortantes.

Não havia nada lá para inspirar um homem à luxúria, mas também não havia nada que o enviasse correndo para as colinas! Sentindo-se um pouco melhor, moveu-se para a banheira e entrou na água vaporosa.

A água deslizou sobre sua pele como seda, e ela soltou um profundo suspiro de prazer enquanto se afundava na banheira. Um prazer tão simples, mas agora não trocaria isso por nada no mundo.

Reclinou-se para trás, permitindo que a água atingisse o queixo. Fechou os olhos e permitiu que a paz a envolvesse em seu abraço doce.

Um momento depois, ouviu a porta abrir. Automaticamente, sentou-se novamente, e encolheu os joelhos para frente em um esforço insignificante para proteger seu corpo dos olhos dele.

Ethan se aproximou e sentou-se, ainda completamente vestido, na borda da banheira.

— Diga-me como você quer que eu faça isso, querida. Posso entrar com meus short se isso fizer você se sentir mais confortável, ou posso deixá-la sozinha, se isso é o que você quer.

Ela emitiu uma risada trêmula.

— Se você começar a me ver nua, eu começarei a vê-lo nu.

Ele se inclinou para frente e enfiou um dedo sob o queixo dela.

— Você pode me ver do jeito que quiser, sempre que quiser.

Com isso, levantou-se e lentamente tirou a camiseta sobre a cabeça. Seu peito e braços ondulavam com músculos, e observou, fascinada, os declives e curvas que viajavam por sua pele esticada.

Ele tinha o corpo de um guerreiro. Não havia um centímetro de carne sobressalente em seu corpo. Cada parte abaulada com músculo e pele tinha um estudo em contornos fascinantes.

Suas mãos viajaram até a cintura estreita e chegaram em seu jeans. O zíper abriu e em seguida, o denim trabalhou lentamente seu caminho ao longo dos quadris.

Não sendo capaz de olhar tão avidamente, olhou para baixo, desconcertada com o calor em seu rosto. Este era seu marido. Por que estava com vergonha de olhar? Queria desesperadamente reaver todas as nuances de seu relacionamento com ele. Queria a volta da intimidade que ele parecia insinuar. A proximidade de seu amor.

Quando a calça jeans bateu no chão, ele subiu ao longo da borda da banheira e gentilmente a empurrou para frente para que pudesse posicionar-se atrás dela.

Seu pênis roçou ao longo de sua espinha quando ele se abaixou, e ela segurou-se rígida, não se movendo. Ela iria mantê-los juntos. Ela  conseguiria.

Finalmente, estava acomodado, e então passou os braços em torno dela com cuidado e puxou-a de encontro ao peito. O cabelo macio em sua virilha, amolecido pela água, roçou o alto de suas nádegas, mas ela relaxou, apesar disso, e deixou-o abraçá-la.

Colocou a cabeça contra a clavícula dele, e ele beijou sua têmpora. Para sua surpresa, sentiu um estremecimento através do corpo dele quase ao mesmo tempo em que registrou umidade contra sua pele. Lágrimas. As lágrimas dele.

Começou a se virar, mas ele a apertou ainda mais.

— Fique, — disse com a voz embargada. — Apenas me deixe segurar você, querida. Apenas deixe-me segurá-la.

Ela deixou-se relaxar novamente em seus braços e descansou a cabeça na curva do seu pescoço. Tremores continuaram a correr através do corpo dele, e pequenos suspiros soaram em seus ouvidos.

Segurou-a firmemente, uma riqueza de emoção esticando os músculos que ela admirava. Em vez de ser tranquilizada por saber que alguém a amava profundamente, se sentia vulnerável. Assustada. E talvez um pouco indigna.

Depois de um tempo, Ethan pareceu se recompor. Seu aperto afrouxou e  encheu de água suas mãos em concha para molhar o cabelo dela. Em seguida, colocou xampu em sua cabeça e enfiou seus dedos no couro cabeludo, esfregando e acariciando.

Ela gemeu e fechou os olhos em êxtase absoluto.

— Está bom? — ele sussurrou em seu ouvido.

Ela queria chorar. Tanta ternura era estranha. Não conseguia se lembrar disso, e doeu ainda mais que não pudesse trazer tal sensação à mente.

— Por que não consigo lembrar? — perguntou com a voz embargada. — Eu quero lembrar. Eu quero.

As mãos dele pararam por um momento, e então continuou com as carícias suaves e adoráveis enquanto fazia espuma.

— Você vai se lembrar, Rachel. Você vai.

Depois de um momento, as mãos caíram até seus ombros, acariciando e massageando seus músculos tensos. Moveram mais abaixo, pairando sobre seus seios e depois mergulharam na água. Ela segurou a respiração, mas ele não envolveu seus seios. Seus dedos deslizaram sobre as ondas suaves, mas foram rapidamente passando para sua barriga, onde pararam, para descansar em sua cintura.

— Deslize para baixo para que eu possa enxaguá-la.

Ela ficou mole e deslizou seu corpo. Ele levantou uma mão para envolver e levantar o queixo, para que seu rosto ficasse fora da água, com a cabeça reclinada. Em seguida, cuidadosamente enxaguou seu cabelo.

Quando terminou, pressionou um beijo em sua testa, enquanto ela olhava para ele, e então colocou as mãos por baixo e levantou os braços até que ela estava de pé novamente. Seus dedos, mais uma vez roçaram em seus seios quando ele moveu as mãos, mas como antes, ele não se demorou.

— Rachel.

O nome dela saiu, quase uma súplica, expulso em uma respiração longa e macia, uma que beirava a dor.

Ela silenciou, à espera do que ele queria perguntar.

— Você se lembra muito sobre o seu cativeiro?

Ela endureceu, e sua respiração palpitou. As mãos dele alisaram seus ombros, acariciando de maneira suave.

Lentamente, ela balançou a cabeça.

— Alguma coisa. Não tudo. As coisas... as drogas que me deram deixaram as coisas confusas.

— O que consegue se lembrar? Pode me falar sobre isso?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Eu não quero pensar nisso.

Suas mãos apertaram os ombros dela.

— Eles te machucaram?

Ela murchou contra ele, murchando como um balão furado. Em torno dela a água estava esfriando, e um arrepio explodiu sobre sua pele. Ethan amaldiçoou baixinho e tateou com o pé sobre o ralo.

— Vamos sair e conversar no quarto. Podemos descansar um pouco e seria bom segurá-la por um tempo.

Ele se apoiou nas laterais e empurrou-se para cima. Água chovia para todos os lados, uma vez que derramava de seu corpo. Ele saiu e pegou uma toalha. Desta vez, ela olhou descaradamente enquanto ele se enxugava.

Quando terminou, pegou outra toalha e colocou-a de lado. Então estendeu a mão para as mãos dela e puxou-a para ficar em pé. Quando ela saiu, envolveu a toalha em volta dela e puxou-a contra seu corpo nu.

Ele esfregou e a secou da cabeça aos pés e depois enxugou seu cabelo.

— Eu sei que eu lhe disse para colocar uma roupa, mas lhe darei uma das minhas camisas, e quando acordarmos mais tarde você poderá se vestir. Ou talvez ficaremos na cama até amanhã.

Ela ofereceu um sorriso trêmulo.

— Isso soa agradável. Estou tão cansada.

Ele beijou seus lábios, em seguida, recuou.

— Fique aí. Vou me vestir e pegar uma camisa para você.

Retornou um segundo depois vestindo short de ginástica e carregando uma camiseta para ela. Colocou-a sobre sua cabeça, que caiu por seu corpo até os joelhos. Ela olhou para baixo e depois de volta para ele.

— Essa camisa nunca pareceu tão bem em mim, — disse ele com um sorriso. Então pegou a mão dela. — Pronta?

Ela colocou os dedos nos dele e assentiu.

 

Uma cama normal. Parecia quente, macia e convidativa, e ela mergulhou debaixo do monte de cobertores. Os mais simples prazeres, aqueles que seriam tão fáceis de tomar por certo na vida cotidiana, eram agora mais doces. Um banho quente. Uma cama confortável. Todas as coisas que lhe foram negadas por um ano.

— Serei capaz de encontrá-la debaixo de todas essas cobertas? — Ethan brincou quando se arrastou para a cama.

— Acho que vou ficar aqui por uma semana, — disse, pensativa.

— Eu poderia ser persuadido, — disse ele enquanto se instalava ao seu lado.

Estava deitado de lado e apoiava a cabeça na palma da mão enquanto enfiava o cotovelo entre os travesseiros. Ela olhou para ele, estudando sua expressão, os diferentes reflexos de seus olhos.

— Seus olhos são mais escuros que os de Sam, — ela meditou. — Você se parece muito com Garrett. Acha que é por isso que me lembro dele?

Ele piscou como se não esperasse os pensamentos aleatórios que ela jogou em sua direção.

Sua testa enrugou enquanto ela se lembrava do rosto de Donovan.

— Donovan tem olhos verdes, mas a resto de vocês têm olhos azuis.

Ethan sorriu e tocou seu rosto.

— Devagar, querida. Deixe-me acompanhar.

Ela se enfiou um pouco mais fundo no cobertor e reprimiu um bocejo quando olhou para ele. Amava o contraste entre os lençóis brancos e sua pele bronzeada. Ele era uma coisa bonita para contemplar, e ela comeu-o com os olhos.

Teria sempre olhado para ele com tal adoração? Por que não podia se lembrar? Uma faísca de emoção. Qualquer coisa.

As trevas subiram novamente, insidiosas e sem serem convidadas. O medo tomou conta. O medo do desconhecido, mas havia também um medo de lembrar. Por quê? Que segredos sombrios esta casa aparentemente perfeita escondia?

— A maioria de nós têm olhos azuis. Meu pai tem olhos azuis e minha mãe castanhos. Van tem olhos verdes, enquanto Nathan e Joe tem os olhos castanhos da mamãe.

— Eu pensei que castanhos eram sempre dominantes sobre o azul, — disse ela com uma careta.

— Você está pedindo a um soldado militar burro para explicar genética?

— Você não é burro, — ela disse ferozmente.

Ele sorriu e alisou o polegar sobre os lábios dela.

— Ainda fica mal-humorada como sempre quando se trata de defender aqueles que ama. De qualquer forma, meu avô do lado materno tinha olhos azuis, assim mamãe obviamente, carrega o gene ou seja lá como você chama isso. Puxa, eu não vejo os estúpidos quadros de genes desde o colegial. E sim, eu me pareço mais com Garrett, mas você e Garrett foram... próximos. Provavelmente é por isso que se lembra dele.

— Eu não me lembro dos seus outros irmãos. Ou da sua mãe. — Ela suspirou. — Como posso encarar todos eles, quando serão estranhos para mim?

Ethan mudou o peso um pouco, e deslizou mais abaixo na cama até que seus narizes estavam apenas a um sopro de distância.

— Isto não é sobre eles. A questão é você. Eles não vão ficar com raiva. Tristes? Provavelmente, mas é porque eles te amam e odeiam o que aconteceu com você. Querem que você seja feliz. Querem que tenha sua vida de volta, sua saúde e suas memórias.

Sua respiração escapou em um soluço instável.

— Ethan?

Ele colocou uma mecha de cabelo atrás de sua orelha em um gesto de amor.

— Sim, querida?

Ela lambeu os lábios.

— Eu não me lembro muito sobre o que aconteceu. Quer dizer, eu lembro pedaços, como quando um dos homens tentou... — Apertou os lábios por um momento, mas depois afastou a vergonha e a relutância. Ela não tinha nada para se envergonhar. Nada. Eles tentaram levar tudo dela. Não fizera nada para atrair suas ações.

Os dedos de Ethan paralisaram em sua bochecha, mas ela mais sentiu do que viu o estremecimento rolar por suas grandes formas.

— O que ele tentou? — ele perguntou em voz baixa.

— Ele tentou me machucar, — disse ela vagamente. —mas um outro homem o deteve. Não sei porquê, mas ele tirou o homem de cima de mim e devolveu minha roupa.

O rosto de Ethan era uma pedra, rígido e imóvel. Apenas os olhos traíam a pura emoção queimando dentro dele.

— Ele tentou novamente?

— Não acho que fui estuprada, — ela sussurrou. Olhou para ele indagadoramente. — Será que eu não saberia? Como eu poderia ser capaz de esquecer algo tão terrível? Lembro-me de tudo o mais, quero dizer, sobre o que eles fizeram.

— O que eles fizeram? — ele perguntou suavemente. Suas mãos tremiam contra seu rosto e seus olhos estavam tão intensos, tão focados que ela se sentiu... acarinhada.

Ela franziu a testa enquanto algumas das memórias revertiam através das sombras.

— Eles me disseram que eu nunca iria para casa. Que eu estava servindo a um propósito. Uma apólice de seguro. O que queriam dizer, Ethan? Não entendo.

Sua respiração soprou para fora, e seus dedos se imobilizaram contra seu rosto.

— Eu não sei. Mas vou descobrir. Eu juro.

— Uma vez, quando tentei escapar, eles me colocaram numa... gaiola. Era uma caixa no meio do acampamento. A caixa quente, era como a chamavam. Um pequeno buraco na parte superior para deixar o ar entrar, mas por outro lado era escuro e muito quente. Assei dentro dele.

Ela estremeceu involuntariamente, e Ethan a tomou em seus braços, puxando-a para perto de seu peito. Seus batimentos cardíacos batiam contra seu ouvido, e ela podia sentir a raiva crescendo dentro dele.

— Depois disso, começaram com as drogas. Eu odiava. Elas me assustaram tanto, mas depois comecei a precisar delas, e só me sentia bem quando me davam outra injeção. Eu os odiava por isso, por me fazer depender de um medicamento para manter minha sanidade mental quando, na verdade, eu estava perdendo minha sanidade, de qualquer maneira.

— Não, querida, não, — protestou ele.

— Usaram as drogas para me controlar depois disso, — disse ela, seguindo em frente, recordando o ódio amargo e a necessidade incessante que até agora ainda rastreava através de seu corpo. — Suspendiam as drogas, sabendo o que faria para mim. Mantiveram-me num estado constante de abstinência até que finalmente eu me odiava mais do que os odiava.

— Deus.

Seu corpo tremia contra ela. Seus ombros soltaram, e ela pensou que ele poderia estar chorando, mas ela estava com medo de olhar para cima, com medo de sua própria aderência tênue sobre suas emoções. Se ele desmoronasse a sua frente , ela simplesmente quebraria.

— Nós vamos vencer isso, Rachel, — disse ele ferozmente. — Você já está quase lá.

Ela não podia dizer-lhe que agora, queria mais a agulha do que queria viver. E não poderia dizer-lhe que venderia sua alma por um doce momento de esquecimento. Então, ficou em seus braços e não disse nada e orou para que o desejo incessante, de alguma forma fosse embora, se ela dormisse.

 

Ethan pegou o telefone quando ele tocou, esperando que não perturbasse Rachel. Ela estava enrolada no sofá, um cobertor dobrado até o queixo, e estava dormindo pacificamente. Talvez o descanso mais tranquilo que tinha em três dias, desde que chegaram em casa.

— Alô, — disse em voz baixa enquanto caminhava em direção à cozinha.

— Você sabe que se tivesse ligado o maldito celular, poderia colocá-lo no modo de vibração e não precisaria se preocupar que alguém acordasse Rachel, — Sam resmungou em seu ouvido.

— Por que eu deveria facilitar para o resto de vocês entrarem em contato comigo? — Ethan devolveu.

— Como ela está? — Sam perguntou, ignorando as provocações de Ethan.

Ethan ficou sério e lançou um olhar na direção de Rachel.

— Está melhorando. Tem sido difícil. Ela não está dormido bem. Entre os efeitos remanescentes da abstinência e seus pesadelos, não estamos tendo muito descanso.

— Você parece desanimado, — disse Sam, a preocupação sangrando em sua voz.

— Nada que eu não possa lidar.

— Mamãe está ficando impaciente. Fiz tudo o que pude para mantê-la longe.

Ethan suspirou.

— Eu sei que é difícil para todos. Não há nada que eu gostaria mais que vê-la novamente com todos. Inferno, estou esperando que ela se lembre de algo ou alguém, uma vez que estiver reunida com a família, mas ela está tão frágil, Sam. Está gastando toda sua energia somente tentando manter-se de pé.

— Você já a levou ao médico daqui?

— Sim, foi praticamente a primeira coisa que fiz. Peguei o nome de um terapeuta em Clarksville eu marcarei assim que Rachel se sentir pronta. Ela parece disposta o suficiente para falar comigo, mas até agora se recusa a falar com mais alguém.

— O que o médico disse sobre sua condição física?

— O mesmo que disse Maren. Ela está extremamente frágil. Subnutrida. Suas reservas estão extremamente esgotadas. Ele a colocou em um regime vitamínico e eu a estou alimentando com três boas refeições por dia com lanches entre elas.

— E a abstinência?

Ethan passou a mão pelos cabelos e soltou a respiração.

— Ela ainda está nervosa como um inseto em junho, as vezes. Sei que isso a consome mais do que ela admite. Ela é tão estoica e eu não consigo descobrir se tem vergonha e não quer que eu veja seu estado ou se está, de alguma forma, tentando proteger-me da agressividade do que está passando.

— Isso é um inferno, — Sam murmurou.

— Nem me fale. Eu deveria estar protegendo-a.

Ethan virou quando uma batida soou na porta da frente.

— Merda, eu preciso ir, Sam. Alguém está à porta.

Sam fez uma pausa.

— Provavelmente é Garrett. Você tinha que saber que ele iria verificar como você e Rachel estão.

— Sim... Falarei com você mais tarde, Sam.

Ethan desligou e foi para a porta da frente. De fato, era Garrett, em pé com as mãos dentro dos bolsos. Ele olhou para Ethan e deu um passo a frente.

— Posso entrar?

Ethan abriu mais a porta.

— Certamente. Basta ficar quieto. Rachel está dormindo no sofá.

— Como estão as coisas? — Garrett perguntou enquanto seguia Ethan para dentro da casa.

Ethan encolheu os ombros.

— Estamos nos aproximando.

— Você parece cansado, cara. Por que não pediu a qualquer um de nós para vir ajudar?

A questão saiu suavemente, mas para Ethan ainda soava como uma acusação. Inferno, ele provavelmente, merecia, mas como deveria explicar a alguém como se sentia? Ele a tinha perdido. Por um ano inteiro ele existiu com o conhecimento de que estava morta. E agora, por algum milagre a tinha de volta.

Garrett entrou na sala e olhou para o sofá, para Rachel. Seu olhar suavizou e ele cuidadosamente tocou seu rosto. Então olhou novamente para Ethan.

— Acho que você deveria ir ver mamãe e papai. Inferno, eu nem sei se alguém lhe disse que Joe e Nathan estão em casa. Eles estão ansiosos como o inferno para te ver.

— Sam me disse, — Ethan disse em voz baixa. — Eu não vou deixá-la sozinha. Sei que todos querem vê-la. Acredite em mim, eu entendo, mas tenho que fazer o que é melhor para Rachel, e estou preocupado em bombardeá-la com a família agora.

— Não estava sugerindo que você a leve. Concordo que não deve sobrecarregá-la. Mas acho que deveria passar na casa de mamãe. Ela está preocupada com você. E o papai, também.

— Eu não posso deixá-la, — disse Ethan, incrédulo.

— Eu ficarei com ela. Ela está dormindo. Você precisa sair, cara. Respirar ar fresco. Respirar um pouco. Não pode continuar assim ou vai desmoronar, e então o que de bom você vai fazer por ela?

Cristo. Ethan engoliu. Garrett fazia todo o sentido do mundo, mas porra, não queria deixar Rachel. Nem por um minuto. Como poderia explicar o puro pânico que sentia com a ideia? E se ele fosse para a casa de seus pais e descobrisse que tudo isso era alguma fantasia bizarra?

Garrett se aproximou e colocou a mão no ombro de Ethan.

— Olha, do jeito que eu vejo, você tem duas escolhas. Coloca o seu traseiro em sua caminhonete e vai ver a mãe e o pai por algumas horas. Ou, eu posso chamar Sam, Van, Nathan e Joe, mandá-los vir e transportá-lo para fora à força. De qualquer maneira, você ficará fora de casa por um tempo.

Ethan cerrou os dedos em um punho apertado. Nunca quis bater em alguém como queria bater em Garrett agora. E Garrett sabia, mas ele só ficava ali, braços para baixo, não fazendo nenhum esforço para se defender.

— Você precisa de sua família agora, — Garrett disse suavemente. — E Rachel precisa de você.

Ethan fechou os olhos.

— Certo. Eu vou. Jure que vai ligar se ela precisar de mim. Às vezes, quando acorda, ela se esquece... ela esquece onde está. Você precisa estar lá para que ela não entre em pânico.

Garrett interrompeu-o antes que ele pudesse ir mais longe.

— Vá. Eu posso lidar com isso. Vou vigiá-la para você.

Ethan respirou fundo e, em seguida, virou-se para procurar as chaves. Quando as encontrou, caminhou até o sofá, onde Rachel estava tranquila. Por um momento, observou seu peito erguer e abaixar suavemente. Um vinco marcava sua testa, e ela parecia preocupada, mesmo no sono. Ele se curvou e a beijou na testa.

— Durma bem, querida, — sussurrou. — Eu vou voltar.

 

Ethan saiu de sua caminhonete, bateu a porta, em seguida, respirou fundo antes de ir para a porta da frente da casa de seus pais. Por mais que estivesse ansioso para ver Nathan e Joe, estar longe de Rachel, mesmo por alguns minutos, deixava-o no limite.

A porta se abriu, logo que subiu os degraus, e sua mãe correu para cumprimentá-lo, os braços abertos. Embora ele fosse muito maior, ela o abraçava e apertava com mais força que ele.

Lágrimas caiam de suas pálpebras, e ele respirou fundo para detê-las.

— Ethan, graças a Deus você e Rachel estão em casa, — disse sua mãe. Ela inclinou-se para cima, envolveu o rosto dele e beijou-o mesmo enquanto enxugava as lágrimas de suas próprias bochechas.

Ela pegou suas mãos e as apertou, em seguida puxou-o para a porta.

— Nathan e Joe estão aqui? — Ethan perguntou enquanto entrava.

Ela balançou a cabeça.

— Não, estão fora ajudando Sam e Donovan. Entre, sente-se e deixe-me olhar para você.

Ela instalou-o em uma cadeira na mesa da cozinha e ficou olhando para ele, todo o amor de uma mãe brilhando em seus olhos.

— Você parece que passou um inferno, — ela repreendeu. Então, afundou-se em uma cadeira de frente para ele e apertou-lhe a mão nas dela. — Como ela está?

Ele engoliu o nó na garganta.

— Ela está bem. Eu a deixei dormindo. Garrett está lá.

— Como ela está realmente? — ela perguntou em voz baixa.

Ele fechou os olhos.

— Ela está frágil, Mãe. Aqueles bastardos... aqueles bastardos a mantiveram prisioneira por um ano. Um ano. Um ano em que ela precisou de mim, onde ela passou por Deus sabe o quê.

Ele sufocou um soluço, envergonhado de desmoronar na frente de sua mãe, pelo amor de Deus.

Ela se levantou e ele estava de volta em seus braços, os braços apertados em torno de seus ombros, e ele se virou para ela da maneira que fazia quando era criança, sua tristeza abafada pela camisa dela.

— Você deveria ter vindo mais cedo, — ela o acalmou. — Isso é demais para você suportar sozinho, filho. Nós queremos ajudá-lo, mas você tem que permitir.

— Ela precisa de mim, — disse ele com voz rouca. — Eu já falhei com ela. Eu não vou fazer isso de novo.

— Você falha com ela saindo um momento para ver sua mãe que está doente de preocupação com você, enquanto Garrett toma conta dela?

— Ele ligou para você.

— Sim, ele disse que você estava chegando. E era o momento. Você acha que iremos invadir o castelo ou não entender se ainda não pode trazê-la para nós? Estamos muito preocupados com você também, Ethan. Quero tanto vê-la, que eu sofro. Quero segurá-la em meus braços novamente. Quero ver minha filha. Mas posso esperar!

— Ethan, você está em casa.

Ethan olhou para cima, então, apressadamente se afastou, enquanto seu pai entrava na cozinha. Sua explosão emocional era ruim o bastante na frente de sua mãe, mas desmoronar na frente de seu pai era mais que podia suportar.

Esse pensamento fugiu no momento em que seu pai puxou-o e esmagou-o em seu abraço forte. Seu pai chorou abertamente, o corpo tremendo tão convulsivamente que arrancou grandes soluços de seu peito.

— Graças a Deus, graças a Deus você está em casa. Sua mãe e eu estávamos tão preocupados. E então Sam e Van voltaram para casa, sozinhos. Você nunca vai saber o que foi vê-los entrar pela porta, tão sujos e abatidos e não ver você e nem Garrett. Foi tão mau como o dia em que nos disseram que Rachel morreu.

— Sinto muito, — disse Ethan enquanto envolvia a parte de trás da cabeça de seu pai. — Eu nunca quis assustar você ou a Mamãe. Mas não podíamos lhes dizer. Não até que tivéssemos certeza. Eu nunca iria criar suas esperanças assim.

— Então é realmente ela? Ela está em casa? — seu pai perguntou com voz rouca.

— Ela está em casa, — disse Ethan, permitindo que a alegria da declaração inundasse seu peito.

Agora, os olhos de sua mãe se encheram de lágrimas novamente, e ela levantou as mãos trêmulas ao rosto.

— Traga-a para nós em breve, Ethan. Para jantar, como nos velhos tempos. Não vamos pressioná-la, eu juro. Apenas nos deixe vê-la. Todos nós a amamos muito.

Ethan enxugou os olhos com as costas da mão e pegou a mão dela.

— Eu a trarei, Mãe. Domingo, ok? Jantar de domingo como nos velhos tempos. A família estará junta novamente.

— Louvado seja Deus, — ela suspirou. — Oh, Ethan, é um milagre. Você recebeu um precioso presente.

Ele sorriu para ela, tocando seu rosto úmido com os dedos.

— Eu sei! Eu não vou estragar tudo desta vez.

Ela franziu a testa para isso, mas ele se virou para seu pai antes que pudesse questionar seu significado.

— Eu realmente sinto muito termos assustado você. As coisas aconteceram muito rápido. Se fosse Rachel, teríamos que entrar em ação rapidamente, e se não fosse, não queríamos que vocês tivessem expectativa para perder tudo de novo.

— Está tudo bem, filho. O importante é que meus meninos e minha filha estão em casa novamente, onde pertencem. Não posso pedir mais que isso.

— Deixe-me preparar algo para você comer, — disse Marlene, enquanto se movimentava ao redor do balcão em direção à geladeira. — Você pode levar o restante para casa, para Rachel.

Ele se esquivou, verificando o relógio. Ele saíra a meia hora.

— Ela vai ficar bem com Garrett, — sua mãe disse em uma voz calma de compreensão. — Você precisa de uma pausa, Ethan. Deixe-me alimentá-lo. Provavelmente não tem comido as coisas que eu envio desde que vocês voltaram.

— Quando eu já recusei a sua comida, mãe?

Ela sorriu quando ele abriu um sorriso.

— Assim é melhor. Agora sente-se. Converse com seu pai, enquanto preparo a ceia. Garrett vai chamar, se ela precisar de você e poderá estar em casa em menos de cinco minutos.

 

O sonho era o mesmo. Ethan estava com raiva, suas feições desenhadas em uma nuvem escura. O desespero a percorria em ondas, e um sentimento de desamparo a agrediu. Mais poderoso que o medo de seus captores. Não, isso foi no passado. Agora, ela enfrentava algo pior.

Era um pesadelo? Alguma imagem terrível alimentada por seus medos e inseguranças, ou estava se lembrando mais sobre sua vida com Ethan?

Ela torceu, presa no cativeiro de seus sonhos. Um gemido torturado escapou várias vezes, e tudo que conseguia pensar era que Ele não ama você. Não é real.

— Rachel. Rachel. Acorde, docinho. Você está sonhando. Volte para mim.

Ela se afastou do sussurro macio, e seus olhos se abriram. Piscou rapidamente quando o rosto de Garrett entrou em foco. Alívio a percorreu, e sentiu-se mal por ver que Ethan não estava ajoelhado ao lado do sofá.

Pegou a mão dele e apertou com força, seu coração batendo e ameaçando sair do peito.

— Ei, você está bem?

Ela assentiu, mas manteve os dedos entrelaçados e apertados ao redor de suas mãos enquanto lutava para sentar-se.

Garrett a ajudou e depois deslizou para o sofá para se sentar ao lado dela, seu braço pendia frouxamente em seus ombros.

— Ethan está com a minha mãe, mas estará de volta em breve. Posso chamá-lo se você precisar dele.

Ela balançou a cabeça.

— Não. Eu estou bem. Sério.

— Quer que eu pegue alguma coisa? Está com fome?

— Água.

Ele se levantou e com um olhar preocupado em direção a ela, entrou na cozinha. Alguns segundos depois voltou com um copo de água. Ela o pegou de sua mão estendida, e bebeu com avidez.

Depois de alguns momentos, a escuridão de seus sonhos recuou, e conseguia respirar melhor. Segurou o copo com as palmas das mãos e o descansou na base no joelho, enquanto olhava para a frente, tentando coletar seus pensamentos dispersos.

— Rachel? Tem certeza que está tudo bem? Parecia um sonho muito ruim.

Sua boca levantou em um meio sorriso. Então olhou para ele, aliviando um pouco mais a preocupação em seus olhos.

— Conte-me sobre Ethan, — ela disse suavemente.

As sobrancelhas de Garrett se juntaram, em confusão.

— Sobre mim e Ethan, — ela corrigiu. — Fomos felizes? Ele... ele me amava?

Garrett respirou fundo e então se reclinou no sofá. Estendeu os braços para ela.

— Venha aqui.

Ela foi por vontade própria, buscando o seu conforto, querendo a verdade, mas também esperando que aliviasse sua mente.

Quando ela estava na dobra do braço, ele acomodou sua cabeça até que fez seu ombro de travesseiro.

— Ethan é um filho da puta teimoso. Nunca houve dúvida sobre isso. Ele dá suas cabeçadas com cada um de nós. Com você, inclusive. Mas ele a amava, ele ama você. Nunca duvide disso. Você foi a pessoa certa para ele. Não existe nenhuma outra maneira de colocar isso. Você era calma quando ele tinha a tendência a extrapolar todas as coisas. Você o deixa centrado.

— Meu pesadelo foi sobre nós, — ela admitiu. — Nele, ele estava com raiva. Realmente irritado. Eu não sei sobre o quê. Mas eu estava... com medo. Assustada. Não por que ele me machucasse fisicamente, mas por que ele não me amava, por que não me queria. Por que eu sonharia com algo assim?

Ele a apertou e beijou o topo de sua cabeça.

— Você está assustada, docinho. Somos um bando de estranhos para você. De repente foi empurrada de volta para um mundo que não consegue se lembrar. Posso apenas imaginar como  isso pode ser assustador. Eu ficaria impressionado se você não estivesse tendo pesadelos sobre todos nós.

Ela suspirou, o peito sentindo um pequeno alívio. Fazia muito sentido.

— Mas há algo que precisa saber, — continuou ele. — Ethan ficou arrasado quando a perdeu. Não se passou um só dia em que ele não lamentasse sua perda. Certamente não parou de te amar. Ele está com medo também, Rachel. Medo em sua mente, que ele vá fazer ou dizer a coisa errada, que vai feri-la ou que, Deus me livre, vai perdê-la novamente.

— Eu não sou a única sofrendo, — ela murmurou.

— Não, — ele concordou.

— Obrigada, — disse ela simplesmente. — Eu me lembrarei disso. Fico feliz que ele foi ver sua mãe. Ela deveria estar preocupada com ele.

— Nós todos estamos. Estamos preocupados com vocês dois.

Suas mãos tremiam, e ela apertou-as mais apertado em torno do copo de água para controlar seus nervos.

— Você vai me levar para ele? — ela perguntou.

Garrett hesitou.

— Eu não tenho certeza se é uma boa ideia. Ele não vai demorar muito. Posso chamá-lo e ele estará de volta em apenas cinco minutos.

Ela deu-lhe um olhar perplexo. As sobrancelhas arqueadas enquanto o estudava.

— Por que não?

— Não queremos sobrecarregar você muito rápido. Ethan tem uma grande família. Há um monte de nós, — ele disse com muito tato. — Pode ser avassalador.

— Eu estou bem, — ela insistiu. — Eu quero... Eu quero vê-los. Talvez eu me lembre de algo. Além do mais, não quero manter Ethan longe de sua família, porque ele se preocupa que eu vou surtar. Eu só posso imaginar como toda essa gente esteve preocupada com ele.

— E com você, docinho, — Garrett disse gentilmente. — Estamos mais preocupados com você.

— Você vai me levar para ele?

Ele inalou pelo nariz, o peito grande soprando para fora, e depois lançou seu hálito em um expirar longo, o peito afundando.

— Okay. Eu a levarei. Ethan pode chutar minha bunda por isso.

Ela olhou-o desconfiada.

— Você é maior que Ethan.

Seus dentes brilharam enquanto ele sorria.

— Mas Ethan é mais malvado.

Ela levou a mão aos lábios enquanto o riso fluía. Então seus olhos se arregalaram de surpresa ao ouvir o som.

— Ahh, docinho, que belo som. Vamos lá. Mamãe e papai vão ficar tão felizes em te ver. Se tivermos sorte, o resto do clã ainda estará na minha casa, assim não estará sujeita a todos de uma vez.

 

Eles não tiveram tanta sorte.

Garrett suspirou quando entrou na garagem de sua mãe e de seu pai para ver que o pátio se assemelhava a um estacionamento de caminhões usados. Não só Nathan e Joe estavam de volta, mas parecia que trouxeram Sam e Donovan com eles.

Olhou para Rachel, que estava sentada quieta e pálida no banco do passageiro. Seus dedos estavam encolhidos e apertados no colo, e fitava a porta da frente como se esperasse que ela explodisse. E inferno, talvez fosse.

Depois de parar atrás da caminhonete de Ethan, Garrett desligou o motor, em seguida, estendeu a mão para tomar o punho de Rachel. Cuidadosamente ele mexeu os dedos de Rachel até que se abrissem e acariciou sua mão tranquilizadoramente. Ele não tinha certeza se ela sequer notou.

— Eu posso virar e levá-la de volta para casa, — ele ofereceu.

Finalmente ela se virou para olhar para ele, seus olhos profundos e assombrados.

— Não. Eu posso fazer isso. Talvez eu lembre de algo.

Ele teve que admirar sua coragem. Sua família era o suficiente para fazê-lo correr gritando como uma menina em um bom dia. Enfrentá-los quando eram completos estranhos? Corajosa.

Teatralmente ele suspirou e fez um movimento de rolar os ombros.

— Pronta?

Um sorriso vacilou nos lábios dela.

— Pronta.

Ele abriu a porta e deu a volta enquanto ela saia da caminhonete. Estendeu a mão e ela a enfiou confiante na dele.

Quando se aproximaram da porta, ele parou e apertou-lhe os dedos.

— Apenas lembre-se que eles te amam.

Ela sorriu bravamente e ele abriu a porta.

Ar frio caiu sobre ele enquanto entrava no saguão. À distância, podia ouvir a TV e o murmúrio de vozes. Todos estavam na sala.

Por mais que saboreasse a ideia de reintroduzir Rachel em sua família, sabia que isso deveria ser decisão de Ethan. Seu irmão iria ficar puto. Mas, então, não foi Ethan quem enfrentou a expressão de súplica de Rachel. Garrett nunca foi capaz de lhe dizer não, uma aflição que Ethan certamente compartilhava.

Parou na sala de jantar, apenas a uma curta distância das escadas que conduziam a sala de estar. Rachel colidiu contra ele e ele sentiu seu tremor. Apertou a mão dela mais uma vez, mas a manteve solidamente atrás dele enquanto começava a avançar novamente.

No topo da escada, parou novamente e suavemente limpou a garganta.

Todos os olhos se voltaram em sua direção. Ethan foi o primeiro a reagir. Ele se ergueu, seu rosto uma nuvem de raios. Sua mãe levantou uma sobrancelha e então franziu o cenho. Ele reconheceu aquele olhar. A reprimenda estava prestes a sair. Ele quase sorriu. A mulher podia fazê-lo sentir-se com cinco anos de idade novamente, somente  com um olhar.

Nathan e Joe olharam para cima com apenas um suave interesse. Sam franziu a testa e Donovan apenas olhou. E ainda havia Van. Calmo e sem julgamento.

— Você deveria estar com Rachel, — Ethan explodiu. — Droga!

— Ethan, — sua mãe o repreendeu. — Preste atenção a sua boca.

Em resposta, e porque no momento ele queria sobreviver com seu couro intacto, puxou Rachel para sair de trás dele. Ela estava dura como uma tábua, e seus olhos pareciam selvagens.

A sala irrompeu em caos. Ergueu a mão para silenciá-los antes que Rachel fugisse.

— Calem a boca! — ele gritou acima do barulho.

Ethan se moveu rapidamente, seus olhos nunca deixando Rachel. Sua preocupação era evidente porque ele nem mesmo ameaçou chutar o traseiro de Garrett. Ele sequer olhou para Garrett.

— Rachel, querida, — Ethan disse suavemente. — Você está bem? Me desculpe, eu não estava lá quando você acordou. Eu não deveria ter saído.

Atrás de Ethan, Nathan e Joe se levantaram, seus olhares fixos em Rachel, a descrença absoluta gravada em suas expressões. Garrett não podia culpá-los. Até que realmente visse Rachel, ele duvidou de sua existência. Coisas como essa só aconteciam no cinema. Ela morreu, ou todos eles pensaram isso, e agora ela estava de volta.

Sua mãe levou as duas mãos à boca, lágrimas fluindo sem controle por seu rosto. Mesmo seu grande e robusto pai parecia pálido e abalado.

Como era seu hábito quando a família estava reunida, Rusty ficava à distância, o olhar cintilante desapaixonado sobre o burburinho. Uma vez que repousou sobre Rachel, seus olhos se estreitaram antes que ela rapidamente desviasse o olhar. Garrett fez uma careta. A última coisa que Rachel precisava era de um dissidente solitário. Especialmente alguém que não pertencia à família. Quando Rusty olhou para Garrett, ele fechou a cara para ela, deixou toda a força de sua desaprovação à mostra em sua expressão. Rusty empalideceu e olhou para suas mãos, recusando-se a erguer a cabeça novamente.

— Eu queria vir, — Rachel disse com a voz calma e trêmula. — Eu pedi a Garrett para me trazer. Não se zangue com ele.

Ethan tocou seu rosto.

— Eu não estou zangado. Apenas preocupado com você.

Ela ofereceu um sorriso trêmulo. Garrett afastou-se lentamente, deixando-a ali com Ethan. Atirou a sua mãe e seu pai um olhar de advertência, e sua mãe fez uma careta como se dissesse que ela não era uma idiota.

Rachel olhou em torno de Ethan e nervosamente observou os ocupantes da sala. Reconheceu Donovan e Sam, é claro. O casal de idosos deviam ser a mãe e o pai de Ethan, o que deixou os outros dois homens serem Nathan e Joe. Havia uma jovem sentada longe deles, e Rachel procurou na sua memória por qualquer menção a um membro feminino da família Kelly. Mas tudo estava em branco.

O desapontamento subiu sobre ela. Ela não os reconheceu. Lágrimas encheram suas pálpebras, mas mordeu o lábio para contê-las. Estava muito cansada de ser tão chorona.

— Rachel?

A mãe de Ethan atravessou a sala para ficar ao lado de Ethan. Rachel engoliu a dor na garganta. Podia ver a esperança nos olhos dessa mulher. O amor. E Rachel não se lembrava de nada. Não foi possível conjurar a mesma memória de amor e carinho.

— Minha querida, — a mãe dele cantava, e gentilmente envolveu Rachel em seu abraço.

Rachel engoliu em respirações firmes, mas Deus, queria desmoronar e chorar como um bebê. Havia alguma coisa melhor que o amor de uma mãe? Esta não era sua mãe. Ela não tinha uma, mas se pudesse acreditar em Ethan e Garrett, Marlene Kelly era uma mãe para ela como era para seus próprios filhos.

— Graças a Deus você está em casa conosco, — Marlene murmurou contra seu cabelo.

Ela se afastou e depois beijou a face de Rachel. Sua mão acariciava os cabelos, e deu a Rachel um sorriso úmido.

— Você a monopolizou o suficiente, Marlene. Deixe-a respirar um minuto para que eu possa abraçar minha filha.

A voz rouca a fez pular, mas imediatamente relaxou quando viu Frank Kelly parar ao lado de Marlene. Sorriu timidamente para o homem grande, e para sua surpresa, o rosto desmoronou e grossas lágrimas rolaram pelo rosto enrugado.

Ela olhou em choque quando ele ergueu os braços para ela. Não se moveu para ela como Marlene fizera, e talvez estivesse preocupado que ela fosse rejeitá-lo ou estivesse com medo.

Por mais ansiosa que estivesse, ela queria confortá-lo.

Depois de apenas uma breve hesitação, entrou em seu abraço e colocou os braços ao redor de sua cintura. Sua advertência a Marlene para deixá-la respirar a fez sorrir. Ele estava apertando-a tão forte que ela mal conseguia puxar ar para seus pulmões.

Fechou os olhos e inalou o cheiro dele. Antiga loção pós-barba. Fez pensar em vovôs. Couro e o cheiro irresistível de conforto. Casa.

— Ei, não monopolize.

Rachel abriu os olhos para ver um rosto sorridente próximo ao ombro de Frank.

— Qual deles é você? — ela perguntou.

Seus dentes brilharam em um amplo sorriso.

— Eu sou Joe. O bonitão.

Incapaz de resistir, ela também sorriu, assim que Frank a soltou. Joe puxou-a nos braços e levantou-a.

— Ei, pare com isso, idiota, — Ethan rosnou.

Joe ignorou e a girou. Quando olhou em seus olhos, uma lembrança tão tonta quanto a que ele estava atualmente fazendo com ela deslizou através de sua mente. Apenas um breve relance. Mas era Joe, de pé nervosamente em frente dela. Ele estava mais jovem. O mesmo corte curto de cabelo, mas estava de uniforme. Uniforme do Exército. Botas.

Sua sobrancelha franziu enquanto ela procurou agarrar. Joe cuidadosamente a abaixou, e ela piscou enquanto ele olhava para ela com preocupação.

— Ei, você está bem? Desculpe, não quis deixá-la  agitada.

— Você me convidou para sair, — ela desabafou.

Joe lançou um olhar nervoso para Ethan, em seguida, sorriu para ela.

— Sim... Bem, não recentemente.

Sam deu um passo adiante, e ela se segurou para não recuar.

— Você se lembra dele, Rachel? — Sam perguntou.

Ela levou a mão à testa e apertou seu olho direito, de repente ciente do ligeiro pulsar. As mãos de Ethan deslizaram sobre seus ombros e a massageou, uma mensagem silenciosa de apoio. Lembrando-a de sua presença. Afundou-se contra ele, cansada, mas sem medo. Podia não lembrar-se destas pessoas, mas não poderia refutar o amor em seus olhos.

Olhou para Joe novamente, buscando as imagens vagas para algo que fizesse sentido.

— Você estava em pé na minha frente. Usava seu uniforme. E estava nervoso.

Joe sorriu.

— Inferno, sim. Eu estava convidando uma linda mulher para sair.

Ela inclinou a cabeça.

— Eu aceitei?

Joe adotou uma expressão exagerada e cabisbaixa.

— Não. Você me decepcionou muito, porém. — Ele apertou seu coração e cambaleou um passo para trás. — Eu me recuperei. Eventualmente.

Ela riu de suas travessuras. Então seu olhar dirigiu-se para o homem que deveria ser Nathan. Ele estava de pé, um leve sorriso curvando seus lábios.

— Vocês não parecem iguais, — disse ela.

— Graças a Deus, — murmurou Nathan.

— Sim, eu tenho todos os olhares. Ele tem... Bem ele não tem muita coisa, — disse Joe.

Nathan revirou os olhos, em seguida, empurrou Joe.

— Tem um abraço para mim?

Ela foi voluntariamente, seu mal-estar desaparecido. Seu corpo tremia de emoção, e percebeu que apesar das brincadeiras de Joe, eles estavam tão comovidos como o resto da família.

Quando ele a soltou, ela deu um passo atrás, colocando uma distância suficiente entre ela e os demais, para que pudesse estudar seus rostos.

— Eu realmente tenho uma família, — disse ela com admiração.

A dor brilhou nos olhos de Ethan. Ela não tinha a intenção de machucá-lo. Por que suas palavras o machucavam?

— Sim, docinho, — disse Garrett. — Você tem uma família. Você tem todos nós, todo o pacote, sem esconder as partes menos atraentes.

Ethan moveu-se para ela novamente. Sua mão deslizou para o lado do pescoço e mais acima até envolver seu maxilar. Seu polegar roçou sem descanso em seu rosto, e ela inclinou o queixo para que pudesse olhar em seus olhos.

— Você está bem, querida?

Todos os outros pareceram desaparecer. Seu rosto abaixou precariamente perto dela. Ele ainda não a beijara. Não como um marido. Era tão cuidadoso com ela. Compreensivo.

Ela lambeu os lábios, ao mesmo tempo em que percebeu que ele queria beijá-la. Aqui! E então seu olhar patinou para os lados, a família toda lá. Assistindo.

Ela abaixou a cabeça e deu um passo para trás, a mão de Ethan caindo. Mas ela estendeu a mão para pegá-la, querendo manter contato com ele.

Ele sorriu e entrelaçou os dedos com os dela, em seguida, puxou-a para seu lado.

— Está com fome? — Marlene perguntou.

Ethan riu.

— A resposta de mamãe para tudo. Comida.

Marlene pigarreou, mas seus olhos brilhavam.

— Você não recusa uma refeição quente.

— Eu não sou idiota.

Donovan falou.

— Ei, se ela não está com fome, eu estou.

Rachel se virou na direção de sua voz. Ele sorriu e acenou com a cabeça, mas manteve distância, quase como se soubesse como ela estava sobrecarregada.

— Você é o calmo, não é?

Os olhos de Donovan se arregalaram um pouco, mas suas bochechas coraram ligeiramente.

— Se você está perguntando se eu sou uma tagarela irritante como todos os meus outros irmãos, a resposta é não.

— Eu dancei com você em meu casamento, — ela disse, enquanto dançava a música em sua cabeça, assim como eles fizeram. — Eu o provoquei e disse que era o único de seus irmãos que não pisou em meus dedos do pé.

Seu sorriso iluminou o rosto.

— Sim... Eu sempre disse que eles eram mamutes rudes.

Risos ecoaram sobre a sala, e ela percebeu que era um som que ouvira muitas vezes em seu passado. Olhou cada rosto, seu coração inchado e doendo com a verdade irrefutável. Ela estava em casa. Tinha uma família. Ela era amada.

 

Levou um tempo para Rachel se acostumar não só a dormir no maravilhoso luxo de uma cama, mas também a dormir com Ethan. Não que tivesse alguma dificuldade em fazer a transição. Na verdade, estava geralmente tão colada a ele no meio da noite que estava surpresa por ele não empurrá-la. Mas ele parecia tão contente quanto ela por dormirem tão grudados.

A parte que tinha que se acostumar, era viver sem o medo de ele ter ido embora quando ela acordava. Ele nunca saia da cama antes que ela o fizesse e sempre se certificava que estaria lá, segurando-a, quando ela acordava.

Algumas manhãs ficavam lá preguiçosamente, membros entrelaçados, e ele esfregava uma mão para cima e para baixo em seu braço enquanto o sol se levantava mais, enchendo o quarto deles com luz.

Esta manhã não foi exceção. Ela realmente acordou antes de Ethan, e ficou lá observando-o dormir. Ele parecia quase vulnerável neste estado desprotegido, e ela achou o contraste fascinante. Ele era tão duro e resistente, muito protetor com ela, e ainda assim, nesse momento, queria tocá-lo, aliviar a preocupação que muitas vezes via em seus olhos.

Perguntou-se o que ele faria se o beijasse. Embora fosse carinhoso com ela, e a tocasse com frequência, não fizera qualquer esforço para beijá-la, realmente beijá-la. Havia beijos leves na testa. Um beijo nos lábios. Às vezes, um roçar em seu rosto. Mas não a beijou como um amante.

Parte dela estava curiosa para ver se lembrava-se da paixão que outrora existiu entre eles, mas outra parte estava morrendo de medo. E se ela não reagisse adequadamente? E se não pudesse lembrar de seus sentimentos por ele. Pior, e se ela não sentisse nada se tentassem fazer amor?

Franziu o cenho. Não, isso não poderia ser possível. Era muito consciente dele fisicamente.

Aconchegou-se um pouco mais perto dele, até que sua boca estava pairando apenas uma polegada da dele. Seu pulso acelerou, e censurou-se por estar tão ridiculamente nervosa. Era apenas um beijo. Eles se beijaram muitas vezes antes.

Lambeu os lábios e, então, cuidadosamente pressionou a boca contra a dele. O beijo foi muito leve e mesmo assim deu-lhe uma emoção vertiginosa. Afastou-se rapidamente, preocupada que o acordasse. Mas ele não se moveu.

Encorajada pela sensação de calor por todo o caminho até os dedos dos pés, moveu-se para frente novamente. Desta vez, beijou apenas o canto da boca e apreciou a sensação áspera da sombra de sua barba matinal contra o rosto.

Ganhando coragem e confiança, deslizou a boca completamente sobre ele e beijou-o novamente. Seus lábios entreabriram, e ofegou, surpresa. Afastou-se para vê-lo olhando para ela através dos olhos entreabertos.

— Bom dia, — ele murmurou.

O fogo queimou seu rosto. Sentia-se como uma adolescente errante roubando seu primeiro beijo.

— B-bom dia.

Ele sorriu e correu o dedo pelo nariz dela.

— Eu gosto da sua maneira de dizer bom dia.

Suas bochechas apertaram e ela abaixou a cabeça.

— Ei, — ele disse suavemente. — Eu gostei. Sabe quantas noites eu sonhei em acordar desse jeito? Com você em meus braços, seus lábios nos meus.

Ela sorriu timidamente.

— Eu me sinto tão idiota. Nós beijamos tantas vezes, mas para mim parece a primeira vez.

Ele deslizou a mão por trás de seu pescoço e aninhou sua cabeça na palma da mão.

— Então, vamos fazê-lo perfeito! — Ele abaixou a boca e apertou quente e doce contra a dela.

Seu coração acelerou e virou como se alguém tivesse soltado um frasco cheio de borboletas no peito.

Ele foi extremamente sensível. Tão reverente que trouxe lágrimas aos seus olhos. Beijou os lábios e em seguida, começou em um canto de sua boca e beijou o caminho para o outro lado.

Sua língua deslizou sensualmente sobre o seu lábio superior e, em seguida, lábio inferior, e então suavemente, deslizou entre a abertura para seus avanços. Com um suspiro, ela concordou, e suas línguas se encontraram, saboreando uma a outra, explorando. Avançando e depois recuando.

Realizaram uma dança delicada, suas línguas duelando, lentamente no início e depois mais rápido. Suas respirações aceleraram e desaceleraram, dando e depois tomando. Compartilharam cada sopro de ar, saboreando antes de exigir mais.

Ela realmente pensou que não responderia a ele? Ela ardia por ele. Tudo o que queria era perder-se nele. Enrolar-se apertadamente dentro dele, para nunca ficar sem sua força, sem seu amor.

O pensamento a sacudiu até os ossos. Como ele poderia amá-la quando ela esqueceu o passado deles? Como poderia amá-la quando pensou que estava morta no último ano? E como ela poderia esperar amá-lo quando tudo o que tinha eram pedaços de sua vida juntos?

Por que não podia se lembrar?

Ethan se afastou e moveu a mão de sua nuca para baixo até colocar nas costas dela.

— O que você está pensando?

Ela sorriu trêmula, com os lábios inchados de seus beijos.

— Eu gostaria de lembrar. Quero lembrar como era. Era sempre assim? Era tão doce? Era melhor?

— Acho que fica melhor a cada dia que passamos juntos, — disse ele. — Acho que daqui a vinte anos, vamos olhar para trás e rir da ideia de que não poderia ficar melhor ou que de alguma forma teríamos alcançado uma paralisação. Não é o caminho que deveria ser?

Ela voltou a se aninhar em seus braços e encostou o rosto contra o peito largo.

— Espero que você esteja certo.

— Desta vez eu estou, — ele murmurou.

Ela se inclinou para trás, intrigada com sua resposta, mas ele a beijou novamente, e ela esqueceu tudo, menos o calor de seus lábios nos dela.

— Eu tinha uma ideia de algo para fazer hoje, — disse ele, quando se afastou novamente.

Ela levantou uma sobrancelha inquiridora.

— Pensei que poderíamos ir para a casa de Sam para nadar na doca. Você se lembrou de alguns instantes de estar lá, e pensei que poderia ajudar estar em um lugar que você se lembre que foi feliz.

A excitação borbulhava. Trechos aleatórios rechearam sua mente, enchendo até que a sobrecarregou.

— Eu adoraria. Quando poderemos ir?

Ele sorriu para o seu entusiasmo.

— Assim que levantarmos nossos traseiros preguiçosos e formos para lá.

— Sam não vai se importar? — ela perguntou ansiosamente.

Ethan riu.

— Você, minha querida esposa, tem todos os meus irmãos enrolados em seu dedo mindinho. Você pode não se lembrar, mas isso não muda o fato. Eles não vão se importar se nos apossarmos.

Sua testa enrugou.

— Oh, é mesmo. Eu tinha esquecido que você me disse que Garrett e Donovan vivem lá também.

— Não fique tão preocupada. Vai dar tudo certo. Você vai ficar bem.

Apertou a mão dela para dar ênfase, e ela se inclinou para frente para dar-lhe um beijo rápido, encantada que pudesse ser carinhosa com ele espontaneamente, sem constrangimento. Era um começo.

 

Rachel olhou ansiosamente para fora da janela quando pararam o carro no caminho de cascalho da casa de Sam. A casa era bonita, e o estacionamento era enorme. Um edifício separado, maior que a casa, estava situado à direita, e ela o fitou intensamente, mas não houve lampejo de reconhecimento.

— O que é aquilo? — ela perguntou, apontando para o edifício.

Era estranho por que não se parecia com uma casa. Não poderia remotamente ser considerado como uma casa. Era um edifício quadrado de pedra cinza com o que pareciam ser portas de aço. Parecia um abrigo antibombas ou o que ela assumia se parecer com um.

— Essa é a atual sede da KGI. Sam está trabalhando em um lugar muito maior. Ele tem essa ideia na cabeça de que a família Kelly inteira viverá trancada em um complexo que serve como sede. Faça o que fizer, não pergunte a ele sobre isso. Ele vai encher sua cabeça.

Ela riu.

— Sério? Toda a família?

Ethan suspirou.

— Sim... Ele tem um bom argumento, não me interprete mal. KGI fez inimigos, e isso não vai parar. Só vai piorar. Ele quer várias centenas de acres, de modo que não tenha que confiar em qualquer fonte externa para transporte ou suprimentos. Se e quando tiver isso instalado e funcionando, terá sua própria pista de pouso, heliporto e campo de treinamento para as equipes.

Os olhos dela se arregalaram.

— Eu sei. Quer dizer, eu vi os soldados que estavam com você quando foi me resgatar, mas... Bem, eu não sei o que pensar. São todos da KGI?

Ele assentiu.

— E mais. Acho que não viu Rio ou sua equipe. Sam está procurando adicionar mais equipes, mas isso leva tempo e treinamento. Ele é muito seletivo, e quer que os recrutas sejam treinados por Steele ou Rio. Para que isso aconteça, precisa de mais mão de obra e mais ativos.

Estava esquentando agora que Ethan desligara o motor, então Rachel abriu a porta para deixar entrar a brisa. Ainda assim, estava curiosa sobre a KGI e por que Ethan não trabalhava com eles. O que ele fez quando deixou os SEALs? Falando nisso, por que ele saiu?

— Parece que tudo isso gastaria muito dinheiro, — disse ela, em dúvida quando Ethan deu a volta para buscá-la.

O canto da boca Ethan se levantou.

— Sam ganhou muito dinheiro desde que saiu do exército. Trabalhou como um cachorro por isso, e tudo volta para a KGI. Garrett e Donovan também são parceiros, e investem tudo de volta para a empresa também, daí a razão de todos ainda viverem juntos na mesma casa.

Ele pegou sua mão e puxou-a para o sol quente. Ela jurou que se tivesse chance, nunca viveria onde era quente. Foi um voto que fez durante os dias longos e insuportáveis na caixa quente em sua prisão. Mas isto era diferente. Não estava assando em um buraco escuro. Estava no sol, os raios dourados se espalhando, tanto quanto os olhos podiam ver. Estava livre.

Por um momento ficou lá, resistindo ao seu tenso aperto, enquanto virava o rosto para o sol e fechava os olhos. Nunca a liberdade pareceu tão doce como agora.

Quando abriu os olhos, olhou para o sutiã do biquíni, para o short com as cordinhas do biquíni penduradas no cós e para os chinelos. Estava vestindo apenas mais do que usava durante o cativeiro, mas esta era a sua própria vida e isso trouxe-lhe conforto. Quantas vezes usara essas roupas para nadar no deque de Sam?

Se fechasse os olhos novamente, sabia que poderia lembrar-se das brincadeiras. Garrett jogando-a na água. Ela subindo à superfície com a boca cheia de água do lago e gritando de indignação e, finalmente, rindo desamparada.

Ethan mergulhava atrás dela. Então corria do cais em direção ao meio do lago, onde a corrente era mais forte. Os muitos churrascos no deque de madeira gasta. Assistindo o por do sol depois de longos dias de verão.

— Rachel, você está bem?

A voz de Ethan penetrou através das memórias nebulosas, e por um momento ela não gostou da intrusão. Então sorriu e olhou para ele.

— Eu estava me lembrando. Este lugar me faz feliz. Há um monte de lembranças felizes aqui. É bom ser capaz de agarrar algumas delas, saber que são reais e não alguma fantasia que conjurei em um estado alucinógeno.

Ele puxou-a para ele, colocando a mão por trás do seu pescoço enquanto a inclinava ao encontro de seu beijo. Não estava mais tão reservado quanto estivera antes. Não desde que ela beijou-o esta manhã na cama. Talvez estivesse esperando que ela desse o primeiro passo.

— Estou feliz que você tenha boas lembranças. Que tal criarmos algumas novas? Posso até deixar você me jogar dentro da água.

Ela sorriu e, em seguida, disparou em torno dele, instintivamente descendo o caminho de pedra que rodeava a casa. Queria lhe perguntar por que ele saíra do SEALs e por que não estava trabalhando para a KGI, mas agora recusava-se a arruinar o humor alegre em que se encontravam.

Quando virou a quina e se dirigiu para o deque, parou diante da belíssima vista diante dela. Não era de admirar que adorasse tanto esse lugar. A água brilhava como um milhão de diamantes sob o brilho da luz do sol. Um rico tom de azul com uma franja branca no topo das ondas gentis. Parecia convidativo, e de repente não podia esperar para mergulhar.

Olhou para Ethan e mordeu o lábio para manter o sorriso malicioso escondido. Tirou os chinelos e depois correu pela rampa em direção ao cais.

— O último a pular é um ovo podre!

Não conseguia se lembrar a exata profundidade da água do deque, só que se jogou de lá mais vezes do que podia contar, então saiu correndo e pulou, caindo com um splash a vários metros de distância.

O frio a fez estremecer e surpreendeu-a. Emergiu com falta de ar e gritou contra o frio.

— Bem feito para você, — Ethan falou do cais.

Ela olhou para cima para vê-lo tirar o tênis. Ela teve um pequeno arrepio e então começou a voltar para o deque. Ele tirou a camisa, e ela teve um vislumbre da silhueta de seu peito contra a luz solar.

Ele era, em uma palavra, magnífico.

Em seguida, ele executou um mergulho perfeito na água ao lado dela. Apenas uma ondulação perturbou a superfície. Nadou vários metros e sacudiu as gotas de seu cabelo curto. Seus dentes brancos brilharam em um largo sorriso. Mergulhou novamente, e a próxima coisa que soube, era que estava sendo levantada no ar.

Ela riu enquanto ele a segurava acima da água enquanto nadava.

— Como você é capaz de fazer isso?

Ele a jogou na água com um outro splash, e quando ela voltou à tona, juntou-se a ela.

— Sou um SEAL, lembra? Fazemos o impossível, e o fazemos na água.

Ela revirou os olhos e então a pergunta voltou em sua mente. Colocando a cabeça de lado para deixar a água escorrer para fora do ouvido, ela o olhou por debaixo dos cílios.

— Por que você saiu do SEALS? Acho que você não me contou. Quer dizer,  tenho certeza que contou, — acrescentou apressadamente. — Simplesmente não consigo lembrar.

A escuridão cintilou nos olhos dele, afastando momentaneamente os raios do sol.

— Você precisava de mim. Eu precisava estar aqui.

— Por que não foi trabalhar com a KGI? Foi por isso que saiu, para que pudesse trabalhar com seus irmãos?

Ele balançou a cabeça e depois mergulhou abaixo da superfície. Ela assistiu ao redemoinho de água que sinalizava sua presença subaquática e seguiu-o a uma boa distância do cais.

De alguma forma ela tropeçou em território indesejável. Ou ele estava infeliz com sua decisão de sair ou havia algum outro motivo que ela não sabia. Mais do que nunca, a falta de memória a frustrava. Como deveria forjar um futuro quando o passado ficava em silêncio?

Determinando que o dia não seria arruinado por coisas além de seu controle, nadou atrás de Ethan, colidindo com ele no meio do caminho em um emaranhado de braços e pernas.

Rindo em meio a bocados de água, ela bateu em seus ombros.

— Você planejou isso!

— Vocês estão se divertindo?

Rachel olhou para o cais para ver Sam, olhando-os com olhos divertidos. Hoje, não conseguia se lembrar por que estivera tão reticente perto dele, e deixou o bom humor assumir.

— Venha, — disse ela com um aceno. — A água não está muito fria.

— Eu sei exatamente como malditamente fria...

Foi cortado no meio da frase, quando foi lançado para dentro da água. Rachel olhou em choque enquanto Garrett se dobrava de rir no final da doca, de onde ele acabara de empurrar Sam.

Sam emergiu cuspindo, e soltou um grito na direção de Garrett.

— Seu filho de uma cadela. Vou pegar você por isso. Lema Kelly número dois. Não fique bravo, se vingue.

Garrett apenas riu ainda mais alto. Donovan se aproximou atrás dele e os dois irmãos deram um curioso olhar .

— Cara, é melhor usar sunga. Ficar com jeans molhado é uma droga.

— Oh foda-se, Van, — Sam resmungou.

Rachel não conseguiu controlar-se por mais tempo. Risos borbulhavam e transbordavam. Ela riu tão forte, que abaixava o tronco para envolver a barriga e cuspia quando sua cabeça caia na da superfície e entrava água em sua boca.

Ethan a puxou de volta para cima e segurou-a pelo braço enquanto ela ria e cuspia ao mesmo tempo.

Garrett sorriu para Sam.

— Há. Tinha que valer a pena o mergulho inesperado.

Sam sorriu com bom humor.

— Sim, você me pegou. Apenas, da próxima vez, poderia fazê-la rir fora da água.

Disto ela conseguia se lembrar. Todos rindo e brincando. Bons tempos no verão. Todos nadando até tarde da noite. Tomando uma cerveja na doca com os pés pendurados balançando. Assistindo o entardecer no final da primavera.

Aqui, a felicidade não parecia tão distante. Não era algum ponto  distante que imaginava nunca poderia alcançar. A felicidade estava presente. Estava em toda parte. A esperança estava viva dentro dela. Não queria que o hoje acabasse.

— Não tem que acabar, — Ethan murmurou.

Ela percebeu que havia dito em voz alta.

— Podemos fazer isso muitas vezes. Você vai ver, Rachel. Podemos ter nossa vida de volta. Só precisamos de tempo .

Ela entrelaçou os braços em volta do pescoço dele, momentaneamente esquecendo seus irmãos, enquanto eles discutiam e brincavam à distância.

— Você realmente acha isso, Ethan? Às me preocupo que nunca poderemos voltar ao passado. Outras vezes, como hoje, fico mais esperançosa. Odeio não lembrar. Eu odeio.

Ele olhou para ela tão sério que ela ficou em silêncio.

— O passado... é o passado, Rachel. Tudo o que podemos fazer é ir em frente. O passado não importa. Apenas o aqui e agora, hoje e amanhã. Você recordará o passado. Está se lembrando mais a cada dia que passa, mas o importante para nós é o amanhã.

Ela sorriu e o abraçou, empurrando-os para baixo. Ele riu e lutaram por um momento enquanto ele tentava mantê-los à tona.

— Tentando me afogar, mulher?

— Não posso afogar um SEAL, — ela provocou. — Imagine como seria embaraçoso?

— Deus, sim, — ele murmurou. — Atire em mim, me enforque, me deixe morrer de infecção por causa de uma unha encravada, mas não me deixe morrer na água. Eles me mandariam para o inferno, por princípio.

— Vocês querem algo para comer? — Garrett gritou da doca.

Ethan mandou-o embora.

— Vá embora. Estou prestes a beijar a minha esposa.

E então abaixou a cabeça e fez exatamente isso.

 

— Tem certeza que se sente bem com isto? Sempre podemos ignorá-los e ficar em casa esta noite.

Rachel olhou para cima para ver o reflexo de Ethan no espelho, em seguida, largou a  escova.

— Não, eu quero ir, — disse com a voz calma. Entendia a preocupação de Ethan. Até achava cativante, mas sua frustração estava crescendo a cada dia que passava.

Ele olhou desconfiado para ela, mas para seu crédito, não discutiu.

— Tudo bem, mas quero que me prometa que, se começar a ser demais, você me dirá imediatamente.

Ela assentiu e sorriu.

— Certo. Mas Ethan, não posso me manter escondida nesta casa.

As paredes estavam se fechando sobre ela, e o que não lhe disse foi que, se não saísse, iria ficar tão louca como todo mundo provavelmente já pensava que estava.

Marlene planejou uma festa de boas-vindas, e apesar das observações resmungadas de Ethan, Rachel imaginava que o evento evoluíra para além de uma simples reunião de família. Em seus devaneios mais mórbidos, Rachel pensou que deveria ser uma festa de bem-vinda dos mortos.

Ainda a deixava perplexa que todos pensaram que estava morta pelo ano inteiro em que esteve fora. Em muitas maneiras, supunha que era a melhor coisa que poderiam ter pensado. Eles choraram. Seguiram em frente. Saber que estava viva e em cativeiro só os teria feito sofrer. Tanto quanto ela sofreu.

Seus dedos tremeram quando tentou agarrar o pincel novamente, e se atrapalhou desajeitadamente para evitar deixá-lo cair.

A ânsia batia nos momentos mais estranhos. Às vezes, poderia passar dias e esquecer o veneno que surgia em suas veias com a regularidade de um relógio. Outras vezes, ansiava pela droga mais do que queria a próxima respiração. Mas ela nunca disse isso a Ethan. Como poderia?

Ele se preocupava o suficiente sem que ela acrescentasse ainda mais.

Mãos fortes deslizaram sobre seus ombros nus e os apertaram. Ela olhou para cima para vê-lo em pé atrás dela no espelho.

Havia tanto calor em seu toque. Um conforto que ela precisava tanto, quanto às vezes precisava das drogas.

Suspirou e recostou-se nele, olhando para cima enquanto o fazia. Seus dedos deslizaram do pescoço até a coluna delgada da garganta e da mandíbula. Então ele se inclinou e beijou sua testa.

Apenas um beijo, breve e suave.

Ela fez um som de frustração quando ele se afastou, e ele franziu a testa.

— Algo errado?

Ela se levantou e se virou, inclinando o pescoço para que pudesse olhar para ele.

— Quero que você me beije, Ethan. Um beijo real. Eu quero tanto que me esmaga. Quero me sentir como uma esposa de verdade, não uma fraude sobre a qual você não se sente seguro. Você não me beijou novamente desde aquela manhã, quando eu o beijei.

Enquanto falava, colocou as mãos sobre o peito dele e enfatizou suas palavras com um empurrão firme. Ele pegou suas mãos e segurou-as sobre seu coração.

— Deus, Rachel, eu também quero. Quero tanto que até dói. Mas estou com medo, maldição. Tenho medo de dizer ou fazer a coisa errada. Estou com medo de assustar você, só porque quero tocá-la mais do que quero respirar.

Ela tremia, mas não de medo. Uma sensação estranha correu até sua espinha, espalhando-se em um brilho quente que a fez apertar os músculos e seus mamilos empinarem. Foi então que percebeu que o que sentia era desejo, e ela quase riu.

Esquecera-se como era sentir tal prazer, experimentar a antecipação do toque do marido. Passou-se um longo tempo desde que seu pulso acelerou com um simples olhar. Ela sentia falta. Deus, sentia falta disso.

A agitação do desejo começou na manhã em que o acordou beijando-o. Ela sentiu a dor inconfundível da conscientização, mas isso, isso era tão intenso que pensou que poderia enlouquecer se a dor não fosse apaziguada.

— Beije-me, — ela implorou em uma voz tão baixa que era quase inaudível.

Com um gemido, ele a puxou até que seu peito foi esmagado novamente contra ele. Suas mãos, — ele tinha mãos maravilhosas e fortes que deslizaram pelos braços e depois para cima de seu pescoço até que envolveu seu rosto.

Então abaixou a boca para a dela. Pouco antes que seus lábios se tocassem, ouviu sua respiração acelerada, e ele segurou-a.

O choque quente de sua boca sobre a dela era a sensação mais prazerosa que sentiu em suas dispersas memórias incompletas. Teria sido sempre assim? Teria vivido tais intimidades quando estavam casados ou ela tomou como exemplo a forma que a maioria dos casais fazia?

Ela saboreava cada momento e os mantinha. Sabia por experiência própria como as coisas poderiam mudar rapidamente, como a vida poderia ser abalada facilmente.

Ansiosa para ser uma participante ativa no beijo, roçou sua língua na dele, e suspirou enquanto ele ternamente sondava sua boca.

Suave e gentilmente, ele aprofundou o beijo, enfiando os dedos em seu cabelo, se embrenhando enquanto a puxava para ainda mais perto.

Ele balançou contra ela, seu peito latejando com emoção fortemente reprimida. Ficava maravilhada por este homem desejá-la tão profundamente, que ele estivesse tão ávido quanto ela e, aparentemente, tão desesperado pelo seu toque como ela estava pelo dele.

Estendeu a mão e acariciou timidamente a lateral de seu pescoço e, em seguida, sua mandíbula barbeada. Queria tocar todo seu corpo, reaprender todos os seus contornos. E queria ver e tocar, explorar e reivindicar o que era dela.

Estava na ponta da língua dizer-lhe que não queria ir para a casa dos pais dele, no final das contas.

Com um suspiro áspero ele se afastou e depois voltou, pressionando beijos rápidos e ofegantes em sua boca, no canto de seus lábios e em seu queixo.

— Diga-me o que você precisa, Rachel. Juro que lhe darei. Qualquer coisa.

Precisou de toda a sua coragem para dizer o que ela mais queria. Ele fez todos os sacrifícios até o momento. Ele foi paciente, compreensivo. Ele merecia tanto. Merecia a sua coragem.

— Você vai fazer amor comigo? Esta noite?

O fogo ardia em seus olhos, transformando-os em um tom brilhante de azul. Ele abriu a boca e com a mesma rapidez fechou-a. As narinas infladas com o esforço de sua respiração, e quando finalmente falou, sua voz era rouca.

— Eu vou fazer amor com você, querida. Farei o que você quiser.

Ela passou a mão sobre sua face, a necessidade de tocá-lo uma coisa viva, respirando.

— Você me quer? Eu quero dizer, como mulher.

As palavras saíram rapidamente, e ela gaguejou ao dizer as últimas. Não percebeu que estava prendendo a respiração até que ela escapasse em uma explosão.

Ele pegou sua mão e colocou a boca na palma. O beijo enviou um arrepio sobre sua pele, elevando calafrios em seu caminho.

— Querer você? Eu a quero tanto que dói. Não há um momento em que eu não a deseje. Mas quero muito mais que você se sinta segura e protegida. Eu nunca faria nada para assustá-la, mas me preocupo que eu a assuste, mesmo involuntariamente. Não posso suportar a ideia de estragar tudo e ferir você.

O rosto dele se contorceu de dor, e o coração dela disparou, vibrando tão selvagemente que teve dificuldade em controlar a respiração.

— Ethan.

Era tudo o que poderia dizer. Sua garganta doía.

Levantou-se na ponta dos pés e o beijou. Duro, com toda a paixão que tivera medo de mostrar. E a paixão borbulhou, subindo acentuadamente até que pensou que poderia muito bem explodir.

Não houve finesse, nenhuma dúvida da habilidade de sua sedução. Suas mãos tocaram desajeitadamente em seu rosto e, finalmente, acabaram entrelaçadas em volta do pescoço, os dedos brincando com os cabelos curtos em sua nuca.

Quando seus pulmões sedentos exigiram que ela se afastasse, ambos estavam ofegantes e puxando grande bocados de ar.

— Você não vai me machucar, Ethan. Eu realmente me sinto segura com você. Soube no momento em que você apareceu naquela cabana que eu estava salva. Sonhei com você. Você era tudo que eu lembrava da minha vida anterior. Eu me agarrei a isso quando tudo caiu.

Ele abaixou a cabeça até que sua testa descansou contra a dela. Seus lábios estavam tão perto que podia sentir cada uma de suas respirações.

— Eu sinto tanto por não estar lá antes, — disse ele dolorosamente.

Ela sorriu e inclinou o queixo apenas o suficiente para que seus lábios se roçassem novamente.

— Você veio. Isso é tudo que importa.

Ele suspirou e se afastou.

— Tem certeza que quer ir para a casa da mamãe? Eu posso cancelar.

Ela balançou a cabeça.

— Não, ela está planejando isso há dias. Não quero magoá-la. Nathan e Joe estão em casa esta noite, e ela parecia tão feliz por ter todos juntos ao mesmo tempo. Percebi que isso é uma ocorrência incomum.

Ele sorriu.

— Além do Natal, e mesmo assim nem sempre é possível, é difícil conseguir todos juntos. Todos nós servimos no exército, e estarmos de folga, ao mesmo tempo é praticamente impossível. Ficou um pouco mais fácil quando Sam e Garrett formaram a KGI. O que só deixou Nathan e Joe alistados.

— Talvez possamos estar todos juntos neste Natal, — disse ela. E percebeu que realmente esperava ansiosamente pelas árvores de Natal, as  músicas natalinas e os encontros de grande família. A ideia a encheu de anseio, de tal forma, que sabia que era algo que ela deveria adorar.

Com relutância, ela se voltou para verificar seu cabelo novamente. Não havia muito a fazer, levando em conta o comprimento, mas usou um aparelho de ondulação para dar um pouco de volume nas pontas e parecia ter um estilo definido agora, em vez do trabalho de açougueiro feito por seus captores.

— Você está linda, — disse Ethan.

Ela sorriu brilhantemente para ele.

— Você sempre sabe o que dizer e quando dizer. Admito que estava me sentindo um pouco triste com minha aparência. Só de olhar para as fotos e ver que o meu cabelo costumava ser muito maior e que estou muito mais magra agora do que era antes.

— Seu cabelo vai crescer, e se mamãe agir como sempre, você ganhará o seu peso de volta em pouco tempo.

Ela teve que rir com isso. Marlene levava a sério seu papel a esse respeito. Não se passava um dia sem que não enviasse alguém com alimentos ou apenas exigisse a presença de Rachel e Ethan para as refeições em sua casa.

— Ok, vamos antes que eu perca todos os nervos.

Ethan pegou a mão dela e apertou.

— Você vai fazer tudo certo.

 

A festa foi uma chatice, mas ela não esperava que os Kellys arrebentassem com uma verdadeira festa. Rusty sentou-se no canto e observou os acontecimentos com tédio mal reprimido.

O que precisavam era boa música e álcool decente, e não a cerveja light do caralho que alguns homens estavam bebendo. Ela daria seu braço direito por um cigarro agora. Considerou seriamente contrabandear um pacote, mas Marlene teria feito um escândalo se descobrisse, e apesar de estar despreocupada sobre as regras, Rusty gostava dela. E não queria estragar a primeira casa decente que tinha.

Então, sentou-se como uma boa menina, com suas roupas de boa-garota e seu corte de cabelo de menina do bem.

— Você é um dos membros da família?

Ela girou e fez uma careta para o homem que se esgueirou para cima dela.

— O que “membro da família” significa para você?

Ele levantou uma sobrancelha e a diversão iluminou seus olhos.

— Só queria fazer algumas perguntas sobre o regresso de Rachel, mas queria perguntar a um membro direto da família.

Um sentimento peculiar se instalou na boca do estômago. Para sua surpresa a ideia de que ela era da família ou até poderia ser considerada como tal, enviou uma onda de prazer através de suas veias.

— Sou tão próxima quanto eles, — disse alegremente. — Eu moro aqui, afinal de contas. — Ela acenou com a mão para algum dos irmãos Kelly reunidos em um grupo do outro lado da sala. — Nenhum deles mora mais.

— Ah, bom, então você é justamente a pessoa com quem quero falar. Se importa se eu sentar?

 

Rachel agarrou seu copo e ficou com um sorriso congelado no rosto. Sequer sabia o que tinha  no copo, e não tinha provado.

Quem eram essas pessoas? Ela conhecia todos os Kellys, ou pelo menos os que eram considerado da família, os irmãos de Ethan e seus pais. Mas a casa estava repleta de pessoas que ela nunca vira antes em sua vida.

Fez uma careta. É claro que os tinha visto. Simplesmente não se lembrava deles. Era difícil sorrir e fingir quando todos conversavam com ela como se a conhecessem desde sempre. Vários até citaram casos específicos sobre os quais ela não tinha sequer uma lembrança.

Mas assentiu com a cabeça nos momentos apropriados e sorriu até que seus dentes doessem. Depois que a sexta pessoa se aproximou, ela perdeu o controle de nomes e rostos.

Ethan permaneceu ao seu lado a noite inteira, mas ela sentiu a necessidade de escapar por apenas alguns minutos, então virou-se e colou um sorriso tranquilizador em seus lábios.

— Preciso ir ao banheiro. Estarei de volta em um minuto, ok?

Ele assentiu e ela se afastou, perfurando seu caminho através da sala lotada. Em vez de ir ao banheiro, passou pela cozinha, na esperança de que Marlene estivesse ocupada em outro lugar. Fez um sinal de alívio quando viu que a costa estava limpa.

Abriu a porta de vidro que dava para o jardim dos fundos e entrou no ar da noite. Seus pulmões encheram com a fragrância de dezenas de flores diferentes, todas plantadas em caixas e vasos de tijolos ladeando a passarela.

Marlene dissera que as duas passaram horas projetando o jardim perfeito e então voltaram a atenção para a casa de Rachel e de Ethan.

Não querendo ir longe, caso alguém procurasse por ela, tomou assento no banco de madeira que dava para a piscina dos pássaros e concentrou-se em cada respiração. Para dentro e para fora. Depois de alguns minutos, o aperto no peito aliviou e começou a relaxar.

Seus dedos esticaram, e colocou as palmas das mãos sobre o acabamento liso do banco. Frank o fizera. Aquela memória lhe veio à cabeça, e ela sorriu, acolhendo a informação como uma velha amiga. Procurou por mais em sua memória, e pequenos pontos se filtraram, espalhados em pontinhos.

Frank era dono de uma loja de ferragens. Ela sabia disso hoje. Mas também era bom com as mãos. Amava ferramentas. Quando Marlene perdeu  as esperanças que ele um dia construísse o banco que ela queria, ela foi para o Walmart do outro lado do lago, em Paris, e comprou um banco de jardim simples.

Frank se ofendera imediatamente e presenteou-a com um banco robusto construído em três dias. Marlene presunçosamente contou a Rachel que guardara o recibo e nunca tirou o banco para fora da garagem. Seu marido era previsível, se nada mais.

Rachel sorriu para a memória e manteve-a perto de si, saboreando os pedaços de informação que lhe diziam de onde vinha e onde ela pertencia.

Estava tão arraigada em suas memórias que não percebeu que não estava mais sozinha, até alguém, a sua esquerda, limpar a garganta.

Assustada, sentou-se ereta, girando a cabeça cautelosamente, para enfrentar sua companhia.

Um homem saiu da sombra, e ela viu seu uniforme e a arma na cintura.

— Desculpe se a assustei.

Seu sotaque macio era mais pronunciado que o de Ethan ou dos outros Kellys. Tinha um sotaque de Deep South. Também parecia jovem, mas não muito.Talvez vinte e poucos anos.

Ela não o encontrara ainda, mas presumiu que era o suplente de xerife a quem os Kellys eram tão afeiçoados.

— Você é Sean?

Então percebeu seu erro. Se ele fosse Sean, sem dúvida, ela o conheceu antes. Não sabia o quanto Marlene contara a todos. Pelo que imaginava, todos sabiam que ela estava doida e não tinha memória de sua vida anterior.

Ele sorriu e deu um passo mais longe do brilho da lâmpada. Tinha a bondade nos olhos, o que surpreendia devido a sua profissão. Tinha cabelos loiros escuros cortados curtos, muito parecido com os cortes militares que os Kellys usavam. Mas usava um cavanhaque que emoldurava sua boca e lhe dava a aparência de um homem mais velho, apesar de Rachel saber sua idade.

— Sim, — disse ele. — Cansou-se de ficar lá dentro?

Ela suspirou e decidiu não mentir.

— É um pouco esmagador.

Sean fez um gesto para o local ao seu lado.

— Se importa se eu sentar?

Ela cedeu espaço a ele, em resposta, e ele se instalou ao lado dela.

— Eu não sou uma pessoa de multidão, mas Marlene pregaria minha pele na parede, se eu perdesse uma de suas reuniões. Como você, sou praticamente um adotado dos Kelly. Ela pode não ter-me dado à luz, mas isso não a impediu de organizar a minha vida, sempre cuidando de mim maternalmente e adicionando-me a cada reunião de família que já aconteceu.

Rachel riu.

— Ela é algo mais, não é?

— Ela é a melhor, — disse ele em uma voz sincera. — Mas fico mais confortável com as pessoas que encontro no trabalho. Não tenho a pretensão de ser social quando vou prender alguém, e não tenho que me preocupar com bate-papo sem sentido e com conversa fiada.

A careta em seu rosto a fez sorrir novamente.

— Coitadinho. Estas coisas devem ser um inferno para você.

— Vamos apenas dizer que fiquei feliz em ver que não era o único correndo para se esconder. Agora, se perguntarem, posso por a culpa da minha ausência em você.

— Ah bom, — disse ela secamente.

Ele riu.

— Então, como você está? Algum problema com a burocracia, que eu possa ajudar?

Ela torceu a boca em uma careta triste.

— É muito mais fácil ficar morta do que voltar dos mortos. Ethan tentou fazer tudo calmamente. A última coisa que queremos são algumas histórias de interesse humano correndo por aí. A carteira de motorista não foi muito difícil de arranjar, mas a questão do seguro social é um pouco mais difícil.

Sean deu um tapinha em seu joelho.

— Você vai resolver tudo. Nesse meio tempo, se houver algo que eu possa fazer, é só me avisar. Eu a conheço desde que estava no colégio. Você se formou dois anos à minha frente.

Ela estremeceu.

— Desculpe, eu não me lembro.

— Ei, não se preocupe com isso. Você recuperará tudo. E quando o fizer, vai se lembrar que me deve cinco dólares.

Assustada, ela inclinou a cabeça para o lado.

A travessura brilhava em seus olhos verdes.

— Você perdeu uma aposta. Apostou comigo que o Tennessee batia o LSU. Como se isso fosse acontecer.

— Ahh, Louisiana, então? Pensei que seu sotaque soava um pouco diferente.

— Nascido e criado.

Ele ficou em silêncio e virou-se bruscamente, uma carranca substituindo o seu sorriso.

— Rusty, é você?

Rachel virou-se em busca da jovem que Marlene tinha acolhido. Rusty não tinha muito a dizer a Rachel desde que ela voltou para casa, mas Nathan insinuou que ela se sentia um pouco ameaçada pelo regresso de Rachel.

Rachel só desejava que houvesse algo que pudesse dizer ou fazer para aliviar os temores da garota. Marlene tinha sido brusca sobre a situação de Rusty.

Rusty entrou no jardim, vindo da passarela que levava à frente da casa.

— Sim, Cooper, sou eu.

— Com quem você estava conversando? — Sean exigiu.

Sua voz mudara do tom amistoso e provocativo para o completamente sério. Ele poderia muito bem estar interrogando um suspeito com todo o aço em suas palavras.

— Não sabia que eu tinha que obter permissão para ter uma conversa por aqui, — Rusty falou brava. — Pare de criticar, homem rosquinha. Não estou bebendo ou fumando, ou me aproveitando da hospitalidade de Marlene.

Sean amaldiçoou em voz baixa, e seus dedos flexionaram ao seu lado. Abriu a boca para falar, mas Rusty desapareceu para dentro de casa.

— Juro que essa menina me deixa louco, — resmungou Sean. — Ela é tão beligerante. Adoraria ensinar-lhe um pouco de respeito, e umas poucas boas  maneiras, enquanto posso. Se algum dia pegá-la falando com Frank ou Marlene assim, vou colocá-la por cima do meu joelho. Alguém deveria ter feito isso há muito tempo.

— Essa idade é difícil, — disse Rachel, surpresa com a necessidade de defender Rusty. — Pelo que Marlene disse, ela teve uma vida dura. Além disso, eu nunca ouvi falar que ela fosse qualquer coisa, além de respeitosa com Frank e Marlene. Todos os outros, embora...

— Sim, conte-me sobre isso. Ela realmente me adora, já que sou um policial, e tenho a impressão de que passou por uma ou duas rodadas com a polícia antes. Marlene me disse que tinha uma passagem na polícia, mas proibiu-me—no estilo verdadeira mamãe—de procurar por isso. Ela não quer que eu seja influenciado pelo passado de Rusty. Pelo amor de Deus.

Rachel sorriu diante  do desgosto na voz de Sean. E então percebeu que passou muito tempo fora.

— Provavelmente devo voltar para dentro. Eu disse a Ethan que estava indo ao banheiro.

— Ah, olhe o grupo de busca chegando, — Sean falou arrastado enquanto Garrett saia.

— Tudo bem, docinho? — Garrett perguntou enquanto se aproximava.

— Sim. Apenas conversava com Sean e pegava um pouco de ar fresco.

Garrett enfiou as mãos nos bolsos.

— Quer dizer que você está se escondendo aqui com este maricas, que está aqui pela mesma razão.

Sean grunhiu.

— Sim, a mesma exata razão pela qual você correu para fora como uma maldita menina.

Garrett sorriu.

— Tem gente pra caramba! Mamãe adora essa merda, mas eu juro que deixa o resto de nós loucos.

— Em que ponto ela descobre que já fugimos do local? — Rachel perguntou. A última coisa que queria era ferir os sentimentos de Marlene.

— Não se preocupe. Mamãe está bem acostumada a ter que nos procurar. Ela geralmente nos dá dez minutos ou mais para tirarmos o olhar louco de nossos olhos, e então sairá toda doce, mas com um brilho nos olhos que sabemos que é melhor ignorar.

— E nesse ponto, ela nos arrasta para dentro pelas orelhas, — Sean terminou.

— Sam deve aparecer em breve, — disse Garrett. — Ele ficou preso na saída. Todos nós deixamos Ethan respondendo perguntas sobre Rachel. Pobre coitado.

— Oh, — disse Rachel. — Talvez eu deva voltar para dentro. Não tinha a intenção de deixá-lo preso respondendo perguntas sobre mim a noite toda.

Garrett balançou a cabeça.

— Não se preocupe. Ele merece isso por ter empurrado Tia Edna em mim no dia de Ação de Graças. A mulher falou na minha orelha por quase uma maldita hora, enquanto Ethan escapava. O resto dos bastardos ficaram do lado de fora da janela rindo da minha cara.

Risos borbulhavam e derramavam de seus lábios. Conseguia imaginá-los em sua mente, e quanto mais imaginava, mais forte ela ria.

— Então, vocês estão aqui, seus  idiotas, — Sam rosnou enquanto fechava a porta do pátio atrás dele. — Embora eu não ache que estamos longe o suficiente da casa para nosso próprio bem. Mamãe vai nos deixar em paz enquanto estiver preocupada com outras coisas. No momento em que perceber que saímos, estamos fritos.

Rachel se aproximou um pouco mais perto de Sean e então percebeu o que fez. Por que diabos Sam ainda a intimidava? Para todos os efeitos, Garrett deveria assustá-la mais. Sam não era tão grande ou assustador quanto Garrett, mas algo parecido com pânico tomava conta dela cada vez que Sam se aproximava. Talvez fosse porque ele tinha sido o primeiro a entrar na cabana naquela noite, e estivera convencida que estava lá para matá-la.

Não importa como isso parecia estúpido agora, ela não conseguia livrar-se da memória dele de pé sobre ela, grande e ameaçador, segurando uma arma.

Para seu crédito, Sam parecia muito consciente do seu medo, e sempre fez questão de ser cauteloso ao seu redor. Mesmo agora, seus olhos se suavizaram e ele não parecia ferido por seu desconforto evidente.

Como se percebesse sua súbita rigidez, Sean casualmente descansou a mão em seu joelho. Deu-lhe um aperto suave e não desviou o olhar de Garrett e Sam.

— É difícil fugir de mamãe em sua própria casa, — Garrett disse, resignado. — Ela só vai nos caçar e dar-nos “o olhar”.

Sam riu.

— É uma maldita vergonha quando homens crescidos são reduzidos a um monte de gatinhos por sua mãe.

A porta do pátio abriu e Ethan enfiou a cabeça para fora, sua expressão sombria.

— Ei vocês, viram Rachel?

— Estou olhando para ela, — disse Sam.

Ethan saiu, e o alívio caiu sobre seu rosto. Parou ao lado de Garrett e olhou entre Rachel e Sean e depois para os outros.

— Você está bem? — ele perguntou.

Ela sorriu, não querendo que ele se preocupasse.

— Estou bem. Saí para tomar ar fresco, não percebendo que esta era uma antiga tradição de escapar das reuniões de Marlene.

Ethan relaxou e enfiou os polegares nos ganchos do cinto.

— Sim, tornou-se algo como rivais nos jogos de guerra. Aquele que sobrevive mais tempo sem ser levado de volta pela mamãe, vence.

Enquanto olhava para ela, sabia que ele estava pensando em sua conversa anterior, quando se beijaram, e o que ela lhe pediu para fazer. Seu olhar caiu sobre sua pele, quente e eletrizante.

Ela estremeceu, e não estava com frio. O ar no final do verão era úmido e quente, ao ponto de ser desconfortável, mas tudo o que podia sentir era o calor do seu olhar, e a promessa em seus olhos.

— Você acha que sua mãe se importaria se fôssemos embora?

Sua voz soou rouca, e ela engoliu as borboletas que dançavam em seu estômago e se levantou como se perseguindo uma rota de fuga.

— Se você sair agora, ela não vai saber até que seja tarde demais, — Garrett sorriu.

— Boa ideia, — disse Sean.

Ethan balançou a cabeça e pegou a mão de Rachel.

— Eles estão certos. Podemos nos esgueirar pela parte da frente, e se ninguém nos bloquear, poderemos ir embora antes que alguém soe o alarme. E eles sempre soam. Tenho certeza que Garrett não esqueceu o incidente com Tia Edna.

— Se não fosse pelo fato de que Rachel quer ir, eu já teria soado o apito em seu traseiro, — Garrett disse desgostoso.

Ethan puxou-a até ficar ao lado dele e ergueu-lhe o queixo.

— Sugiro irmos agora, antes que ele mude de ideia.

Ela se virou e se inclinou para beijar Sean na bochecha.

— Foi muito bom reencontrar você. Obrigada por me fazer companhia.

Ele pareceu surpreso e satisfeito com o gesto. Então ela virou-se para Garrett e deu-lhe um abraço rápido. Determinada a não agir como uma tola, aproximou-se desajeitadamente de Sam.

— Boa noite, Sam, — disse quase formalmente.

Ele abriu os braços e simplesmente esperou. Respirando rapidamente, ela foi para frente e abraçou-o. Ele a deixou tocá-lo e devolveu seu abraço levemente. Ela se afastou e deu-lhe um sorriso genuíno.

Uma pessoa que fosse tão solícita com os sentimentos dela, certamente não era um cara mau.

Ele voltou a sorrir e tocou seu rosto brevemente.

— Vejo você mais tarde, Rachel.

Com um pequeno aceno, ela seguiu Ethan do jardim para o caminho que levava até a frente do quintal. Enquanto caminhavam em direção a caminhonete de Ethan, ele passou o braço em volta dela e puxou-a para perto de seu corpo.

Sua pulsação poderia cortar um bloco de concreto. Estava ansiosa para fazer amor com Ethan. E estava tão nervosa como o inferno, talvez mais nervosa que já estivera por estar com ele, mas não deixaria que isso a impedisse.

Já era tempo de recuperar seu casamento e seu marido.

 

Ethan agarrou o volante enquanto parava do lado de fora da casa. Por um longo momento olhou para frente, e então percebeu que estava prendendo a respiração como um adolescente em seu primeiro encontro. De certa forma, era. Seu primeiro encontro. Com sua esposa. Deus. Ele ainda não conseguiu superar a ideia de que tinha Rachel de volta. Que lhe foi concedida uma segunda chance.

Com a pulsação batendo em seus ouvidos, desligou o motor e virou-se para olhar para Rachel. Ela parecia tão nervosa quanto ele. Seu peito cedeu um pouco diante da mordida corajosa de seus lábios.

— Rachel. Querida... Você ainda quer que eu faça amor com você?

As palmas de suas mãos estavam úmidas e deslizaram sobre o volante. Antes que perguntasse, ele não tinha ideia do medo que estava sentindo que ela voltasse atrás. Ele entenderia. Esperaria para sempre se preciso fosse, mas queria ser capaz de tocá-la novamente, mais do que já quisera qualquer outra coisa.

Ela se virou, e seus olhos brilhavam suavemente sob o conjunto de luz fraca da varanda. Havia muito refletido em seus olhos. Medo, hesitação, esperança e desejo. Determinação.

— Venha para dentro comigo, Ethan.

A voz rouca enviou uma onda de choque sobre sua pele. Sua virilha apertou até que ele se moveu para aliviar o desconforto. Ela pegou sua mão, os dedos tremendo contra os dele.

Entrelaçou os dedos com os dela, enroscando-os bem e apertando tranquilizadoramente. Finalmente, levou a mão aos lábios para beijar cada junta.

— Vamos, — ele sussurrou.

Ambos abriram suas portas e correram para a varanda. Quando ele se atrapalhou desajeitadamente na maçaneta, Rachel inclinou-se contra a porta de entrada e dissolveu-se em risos.

Surpreso ao ouvir o som festivo, ele parou quando a porta estalou. Os olhos dela brilhavam alegremente e engasgou para respirar enquanto segurava a barriga.

— Que par nós somos. Era assim que agíamos quando namoramos? Nervosos como dois gatos e tão ansiosos para ir para a cama que nos atrapalhávamos dessa forma?

Ethan sorriu, e depois uma risada escapou, seguida por gargalhadas sem rodeios. A tensão evaporou, e ele inclinou-se contra a porta enquanto limpava os olhos.

— Acho que parecemos um pouco desesperados. Bem, eu estou. Um homem fica todo impaciente quando sexo é mencionado.

Ela sorriu novamente e empurrou o cabelo para longe de sua face.

— Bem, estou feliz por você ser um rapaz normal. Seria difícil seduzi-lo se nunca tivesse sexo na cabeça.

Incapaz de resistir a ela por mais tempo, puxou-a em seus braços e colocou a cabeça dela sob o queixo. Ela apenas parecia... certa. Se ao menos tivesse visto isso antes.

Fechou os olhos e afugentou as memórias. Não esta noite. Não quando tudo poderia ser tão perfeito novamente.

Empurrando com o ombro, abriu a porta e puxou-a com ele. Ciente de seu desconforto com o escuro, imediatamente estendeu a mão para o interruptor, inundando a sala de estar com luz.

Ele a tocou de novo, mais para tranquilizar-se do que a ela. As pontas dos dedos roçaram sua bochecha e depois sua mandíbula.

— Espere aqui. Voltarei para você em poucos minutos. Quero que seja perfeito para você.

Ela inclinou a cabeça para o lado e olhou para ele em confusão.

Ele sorriu e se inclinou para beijá-la no nariz.

— Satisfaça-me. Deixe-me tentar ser romântico e todas as coisas que as mulheres supostamente adoram.

A confiança em seus olhos escuros o humilhou. O fez querer ser melhor. Ser digno. Não desapontá-la, maldição.

Ele se virou e correu para o quarto. Parou no meio do espaço e virou em vários círculos, procurando, inseguro do que queria ou onde encontrá-lo.

Velas. Rachel adorava velas. Sempre tinha várias espalhadas pela casa.

Onde diabos elas estavam agora? Ele não jogou nada fora, mas sua mãe viera e encaixotara um monte de coisas. De maneira nenhuma queria remexer na garagem quando Rachel estava esperando por ele.

O armário.

Abriu a porta e acendeu a luz. Várias caixas estavam empilhadas na parte de trás. Esperando que as velas estivessem em uma delas, arrastou a de cima para baixo e arrancou a tampa.

Bufou de frustração quando descobriu bugigangas sortidas, então abriu a segunda caixa. Um leve aroma floral flutuou logo que a tampa se abriu. Dentro havia várias velas em tamanhos variados. Perfeito!

Agarrou todas que poderia carregar, em seguida, voltou para o quarto e colocou-as estrategicamente ao redor do ambiente. Satisfeito com a colocação, voltou para a cozinha para pegar os fósforos.

Alguns minutos depois, o quarto estava iluminado pelo brilho de uma dúzia de velas. Não era a configuração mais perfeita, mas serviria.

Agora, trazer Rachel.

Arrastando uma mão sobre o cabelo e, em seguida, na frente de sua camisa, respirou fundo para firmar sua pulsação disparada e caminhou de volta para a sala, onde Rachel estava na porta de vidro olhando para a noite.

Ele veio por trás dela e deslizou as mãos sobre seus braços e ombros. Seu cabelo flutuou e pegou a luz. Ele olhou por um momento e então se inclinou para baixo, afastando o cabelo para o lado com a boca, enquanto se aconchegava em seu pescoço.

Seus suspiros suaves de contentamento enviaram uma onda de satisfação até ele. Adorava a suavidade de seu pescoço e os curtos cabelos sedosos em sua nuca. E o seu cheiro. Tão feminino e suave. Inalou profundamente e beijou a área logo atrás da orelha, desfrutando de sua traidora contração.

— Vem para o quarto comigo?

Ela se virou e colocou os braços em volta de seu pescoço, inclinando-se na ponta dos pés para que sua boca estivesse perto da dele.

— Estou muito nervosa, — ela admitiu. — Quero que saiba disso. Não tenho medo. Sei que você não vai me machucar! Eu nem tenho certeza de por que estou tão ansiosa. Eu quero tanto isso, mas meu estômago está vibrando como um louco.

Ele acariciou seu rosto, traçando as linhas de sua mandíbula e lábios.

— Estou nervoso também, querida. Estaremos nervosos juntos. É um momento importante. Nós dois queremos tanto. Só precisamos relaxar e ir devagar. Iremos juntos.

— Oh, eu gosto disso, — ela arfou. — Juntos. Faça amor comigo, Ethan.

Ele pegou a mão dela e puxou-a para o quarto. Quando entrou, ela parou e virou em um círculo, os olhos arregalados diante de todas as velas tremeluzentes.

Ele se inclinou para acariciar seu ouvido.

— Achei que você aprovaria.

Ela suspirou e se inclinou ao seu toque.

— Não precisava fazer tudo isso.

— Mas eu queria. Eu quero que seja perfeito.

Rachel virou-se e deslizou as mãos pelo peito dele até os ombros. Amava os contornos duros de seu corpo, as leves depressões, as elevações. Perfeito! Como poderia ser qualquer outra coisa? Isto era o que ela esperava.

— Será, Ethan.

Ele abaixou a cabeça. Ela inclinou a dela para o lado. Suas bocas estavam a apenas uma polegada de distância. O primeiro toque de seus lábios enviou um arrepio na espinha.

Leve. Requintadamente terno. Envolveu as mãos atrás do pescoço dele e puxou-o para mais perto. Dessa vez, ela aprofundou o beijo, ela exigiu mais.

Sentia-se deliciosamente devassa, e pela primeira vez em mais tempo que conseguia se lembrar, sentiu-se bonita e desejável.

As mãos de Ethan correram pelas costas, então mais abaixo, até que ele espalmou seu traseiro. Apertou levemente, espremeu e amassou sua bunda.

Adorava o sabor que ele tinha. Era difícil colocar um rótulo nele. Parte disso era o cheiro. Forte e masculino. Ela beijou a linha ao longo de sua mandíbula, em seguida, puxou a cabeça mais abaixo para que pudesse provar seu pescoço.

Quando encontrou o lóbulo de sua orelha, ele soltou um silvo longo. Com um sorriso, ela chupou o lóbulo entre os dentes e brincou com sua língua.

— Você percebe que eu supostamente deveria seduzir você, — ele rosnou.

Ela riu e simplesmente deixou a alegria do momento correr sobre ela.

— Que tal um seduzir o outro?

Ele capturou seus lábios novamente.

— Eu posso trabalhar com isso.

Seus beijos se tornaram mais quentes, mais ofegantes, menos provocantes. O desejo enrolou profundamente em sua barriga, mais e mais, se espalhando em ondas.

— Primeira regra da sedução. Pelo menos um de nós tem de ficar nu. De preferência você, — ele murmurou.

A apreensão nervosa foi substituída pela excitação. O que era bobagem. Ele já a vira nua. Muitas vezes. Fizeram amor antes. Mas, para ela, era como a primeira vez, novamente.

— Ei, — ele disse suavemente. Afastou-se e colocou um dedo sob o queixo dela, fazendo-a olhar para ele. — Faremos tão lentamente quanto você precisar. Se eu pudesse fazer amor com você totalmente vestida, eu faria isso, mas acho que nós dois sabemos que não é uma opção.

Ela riu e sentiu um pouco de seu mal-estar abandoná-la.

— Não vamos ser muito lentos ou estaremos velhos e decrépitos antes que façamos amor.

— Mmm, pretendo fazer amor com você até que me coloquem na sepultura. É para isso que fazem o Viagra.

Ela se inclinou para ele e abraçou-o ferozmente enquanto outra risada escapava.

— Faço um trato com você. Nós nos despiremos juntos. O último a ficar nu é um ovo podre.

Ela se afastou enquanto falava e imediatamente começou a tirar as roupas.

— Oh inferno não, — ele gaguejou. — Talvez você não se lembre em qual família competitiva entrou.

— Enquanto você está falando, eu estou ficando nua, — ela provocou.

Um brilho malvado acendeu em seus olhos.

— Eu nãoconsigo ver como eu perderei, de uma ou outra maneira.

Para sua surpresa absoluta, ele estava fora de sua roupa antes que ela conseguisse tirar o jeans.

Toda a respiração deixou seu corpo enquanto ela olhava, hipnotizada, os contornos de seu corpo musculoso. Quadris estreitos, ombros largos, um tórax rígido. Em sua virilha, um ninho de cabelo escuro cercava sua sobressaltada ereção.

Sua boca se abriu e ela olhou com fascínio descarado.

— Inferno, Rachel, você já me viu antes, — ele murmurou.

Ela engoliu em seco e olhou para o rosto dele. Para sua surpresa havia um toque de estranheza em seus olhos. Ela sorriu.

— Como você saiu de sua roupa tão rápido? Eu tinha uma cabeça de vantagem.

Ele sorriu, seus ombros relaxando.

— Você esqueceu que estive na Marinha. Você tem que ser capaz de se despir e dançar muito rápido.

— Mas não tem toda a porcaria que nós, mulheres, temos que usar, — ela resmungou.

— Eu ficaria mais que feliz em ajudar, — disse ele inocentemente.

Ela deslizou o sutiã e a calcinha de seu corpo.

— Fique à vontade.

Ele se aproximou, e ela olhou uma vez mais para seu pênis. Queria tanto tocá-lo, e então percebeu que não havia uma boa razão para que ela não pudesse.

Enquanto ele pressionava contra ela, ela se abaixou e circulou seu pênis com os dedos.

Ele gemeu.

— Você não joga limpo.

Fascinada pelas sensações duplas de dureza e maciez, ela acariciou, espantada quando ele cresceu e ficou ainda mais duro em seu aperto.

— Você gosta disso? — ela perguntou.

— Inferno. Sim.

— Eu ainda estou vestida, — lembrou a ele.

— Não por muito tempo.

Apoiou-a na cama, suas mãos deslizando pelas laterais de seu corpo em direção aos quadris. Seus polegares enfiaram-se no cós de sua calcinha e ele puxou.

Uma mão deslizou para a parte de trás de suas costas e, em seguida, mergulhou no local onde a calcinha cobria um pouco acima da fenda de seu traseiro. Acariciou e depois deslizou os dedos mais abaixo, ao longo da costura, e ela estremeceu de prazer.

Ele obviamente sabia todos os seus pontos quentes. Na verdade, estava ansiosa para descobri-los novamente com ele. Como era estranha a sensação de fazer amor com um homem que se lembrava de seus pontos de prazer, quando ela mesma não lembrava.

— Eu amo a sua bunda. Eu seria um homem feliz se você nunca a cobrisse.

Ela corou com sua declaração, mas uma onda de prazer por sua aprovação correu acaloradamente através de suas veias.

— Eu poderia arranjar para descobri-la para você regularmente, — ela ofereceu.

— Mmm, você o fará.

A calcinha caiu pelas pernas e agrupou em seus pés. A boca dele encontrou seu pescoço, e ela inclinou-se para o lado para lhe dar melhor acesso. Enquanto ele beijava uma linha abaixo dos ombros, movia as mãos para as alças do sutiã e puxou-as para baixo dos braços.

Quente e afetuosa, sua boca trabalhou mais abaixo, logo acima do formato de seus seios. Seus dedos se atrapalharam com o fecho do sutiã e, finalmente, abriu, expondo os seios à boca dele.

Ela prendeu a respiração e segurou-a quando seus lábios pairaram perigosamente perto de seu mamilo.

Ela se ergueu, querendo aquele contato íntimo. Seus mamilos se enrugaram e formaram pontos rígidos e sensíveis.

E então a boca dele se fechou em torno de um pico distendido.

Seus joelhos dobraram, e ela se agarrou desesperadamente nos ombros dele, em um esforço para permanecer de pé. Ele chupou fortemente e esfregou a ponta com a língua.

O prazer passou como um raio agudo através de sua virilha. Sua pélvis apertou insuportavelmente, e seu clitóris inchou e se contorceu. Ela queria que ele a tocasse lá, para aliviar a pressão insuportável que crescia com cada golpe de sua língua.

Por um momento, perdeu o senso de tempo e lugar. Sentimento, sensação, coisas que tinha sentido vazios por muito tempo, vieram correndo para ela de todas as direções. Ele a assustava e emocionava em partes iguais. Por muito tempo as únicas coisas que sentiu foi medo e ódio. Quanto mais poderosas eram as sensações de ser amada e estimada?

E então ele gentilmente a envolveu em seus braços, quase como se soubesse como ela estaria fora de controle rapidamente. Ele era uma âncora em uma violenta tempestade. Sua rocha. Sua proteção. Ela derreteu-se sobre ele, segurando-o com o que só poderia considerar como desespero.

Ele a ergueu. Seus pés deixaram o chão, e ele levou-a para trás até que o colchão aparou suas pernas. Então a abaixou, sempre muito cuidadosamente. Seus olhos perfurando-a. Sua expressão era uma demonstração de sua feroz concentração. E determinação.

Suas costas encontraram a suavidade dos felpudos lençóis. Estremeceu quando, por um momento, ele a deixou. Imediatamente sentiu-se destituída de seu calor.

Mas ele voltou, arrastando-se até a cama. Pairou sobre ela, seu olhar tão intenso que ela sentiu calor até os dedos dos pés.

— Eu me pergunto se você sabe o quanto você é linda para mim, — ele sussurrou enquanto montava sobre ela.

Lágrimas súbitas nadavam em seus olhos, e ela sorriu para ele. Estendeu a mão para tocar seu rosto, os dedos tremendo com a força de suas emoções.

— Agora, eu me sinto bonita.

Ele capturou a mão dela e apertou em seus lábios.

— Não quero que se passe um dia sem que você se sinta tão bonita como está se sentindo agora. É minha obrigação lembrá-la a cada oportunidade.

Seu coração derreteu.

Ele pegou suas mãos e, lentamente, baixou-as para o colchão. Deslizou-as para cima, logo acima da cabeça, até que olhou para ela, e ela estava deitada debaixo dele, completamente vulnerável.

O pensamento devia assustá-la. Logicamente. Mas nunca me sentiu mais segura. Sorriu e arqueou o corpo em um convite.

Com um gemido torturado, ele a beijou com fome, perdendo o seu controle mantido rigidamente. Não apenas a beijava, ele devastava sua boca.

Quente. Profundo. Tão ofegante que ela nunca poderia alcançar. Sua língua deslizou sobre a dela, saboreando, mergulhando até que tudo que podia sentir era o gosto dele. Tudo o que podia sentir era ele.

Seu corpo desceu sobre o dela, a sua dureza fundindo com suas curvas mais suaves. Sua ereção cutucou impacientemente a junção de suas coxas, mas ele não avançou. Ela envolveu seu pênis, a deliciosa sensação dele deslizando sobre sua carne mais tenra, tão erótica, tão imensamente prazerosa.

Ela abriu as pernas e seu pênis saltou, colidindo contra o clitóris latejante e inchado. Gemia baixinho e se retorcia sem descanso debaixo dele. Ele engoliu os sons que ela fazia. Devorou-os e a ela com sua boca faminta.

O ano passado saiu de sua mente. Havia apenas o agora. Apenas o sentimento indescritível de estar de volta nos braços de seu marido. Ele moveu-se sobre ela, grande e persistente. Ela se sentia pequena debaixo dele, mas muito protegida e acarinhada.

Ele a consumia. Nenhuma parte dela foi deixada intocada. Suas mãos deslizaram para baixo da cintura, para os quadris. Os dedos enrolaram debaixo de seu bumbum, e ele segurou-a enquanto inseria sua coxa entre as dela para abri-la mais.

Então deslizou uma mão entre eles e ternamente empurrou o dedo entre suas dobras. A ponta tremulava em seu clitóris, e ela reagiu de imediato, arqueando-se. Um gemido escapou de sua boca.

Ele se apoiou em uma mão enquanto cuidadosamente explorava os tecidos delicados de sua feminilidade. Deslizou um dedo dentro dela, testando sua disposição.

Foi quase o suficiente para mandá-la completamente para fora do limite. Apertou-se em torno de seu dedo, seu corpo tão tenso que temia estourar.

Ele trabalhou com o polegar sobre o nó firme escondido dentro de suas dobras, enquanto deslizava outro dedo dentro dela.

— Ethan, por favor.

Não soava como ela. Esta mulher carente e irracional não era ela, era? Queria implorar. Queria forçá-lo a pressionar dentro dela. Ela o queria mais do que imaginava querer alguma outra coisa.

Como se estivesse sentindo como ela já estava longe, ele moveu seu corpo outra vez e posicionou o membro em sua abertura. Acariciou-a com os dedos, mais uma vez, antes de mover a mão para enlaçar seus dedos com os dela.

— Avise-me se eu machucá-la, — disse com voz rouca. — Quero você comigo todo o caminho, querida. Se qualquer coisa que eu fizer assustá-la, me diga. Eu vou parar.

Em resposta, ela levantou os quadris, querendo que ele deslizasse para dentro.

Ele fechou os olhos, como se lutando por controle, e avançou para frente. Ela arfou com a sensação dele abrindo-a, de seu corpo se estendendo para acomodá-lo. Era a sensação mais magnífica e esmagadora que já sentiu.

Seus olhos se arregalaram, e sua respiração prendeu na garganta quando ele penetrou mais fundo.

Ele parou e olhou para ela, os olhos preocupados.

— Tudo bem?

Ela assentiu, muito excitada e sem sentido para formar uma resposta coerente. As unhas cavaram em seus ombros enquanto pedia silenciosamente que ele se apressasse.

Finalmente ele se moveu. Em um impulso forte, ele foi fundo. Sua boca se abriu em uma exclamação silenciosa. Sua visão turvou. Tremia descontroladamente e segurou-o apertado. Ela não iria durar. Foi a gota d’água. Fazia muito tempo.

— Por favor, — ela implorou.

Ela arqueou, torceu, se contorceu. Ele a envolveu e começou a empurrar forte e rápido. Oh Deus, sim. Finalmente...

Ele havia sido terno. Ele queria ser terno, mas agora ela precisava que ele fosse forte. Duro. Feroz. Para lembrá-la de tudo o que ela tinha perdido.

Seu protetor. Seu guerreiro.

Ela jogou a cabeça para trás, apertou os olhos e agarrou seus ombros tão apertado que estava certa que deixaria marcas.

O atrito era tão maravilhosamente torturante que era quase demais para suportar. Ele estava grosso e duro. Tão duro. Ele a encheu de novo e de novo, seu corpo dirigindo inexoravelmente para dentro dela.

A tensão crescia. Ambos arfaram e se apertaram.

— Venha comigo, — Ethan sussurrou. — Fique comigo. Me ame!

As palavras suaves foram um bálsamo para sua alma. Fechou os olhos, aconchegando-se a ele e simplesmente se soltou.

Seus quadris moviam contra os dela. Ele ficou tenso contra ela e agarrou-a tão fortemente quanto ela o prendeu. Seus corpos estavam entrelaçados com tanta força que não havia um centímetro entre eles. Seus braços e pernas estavam entrelaçados enquanto seus quadris ondulavam em ritmo frenético.

Ele enterrou o rosto em seu pescoço e sussurrou seu nome.

— Rachel.

Ela voou. Era a única palavra para descrevê-lo. Ela disparou. Eufórica, tão leve. Quase podia sentir a adrenalina do vento no rosto. Levantou o rosto para o sol e sentiu o calor em sua pele depois de tanto tempo no escuro.

E então flutuou para baixo, e Ethan estava lá para pegá-la. Flutuou preguiçosamente, encontrando o lar em seus braços. Casa. Finalmente em casa.

Seus lábios encontraram os dela. Beijou-a longa e docemente. Lágrimas quentes escorreram pelo rosto dela, misturado-se em suas línguas.

— Você está bem? — ele perguntou.

Ela o beijou de novo, muito satisfeita para dizer qualquer coisa. Não tinha certeza se tinha palavras para descrever o que estava sentindo. Então não disse nada e balançou a cabeça.

— Eu te amo, querida. Nunca duvide disso.

Ela tocou seu rosto, acariciando seu queixo firme.

— Não duvidarei.

Com cuidado, se retirou de seu corpo e rolou para o lado. A trouxe para perto, tão perto que podia sentir cada batida do seu coração.

— Obrigada, — ela sussurrou.

Ele enrijeceu, um pouco surpreso. Seus olhos ficaram intrigados quando olhou para ela.

— Pelo quê?

— Por me fazer sentir o amor novamente.

Encostou a testa na dela e passou os dedos através dos fios de seu cabelo.

— Você nunca vai conhecer outra coisa novamente, — ele prometeu.

 

O sonho era escuro e feio. Ele bateu em um profundo nível emocional que a assustava. Ethan estava lá, mas ele não era o confortador ou o guerreiro que ela tinha imaginado durante tanto tempo. Ele estava furioso com ela.

O desespero que tomou conta dela nasceu do conhecimento que o que eles foram uma vez um para o outro, estava muito longe, enterrado sob a confiança quebrada.

Ela o encarou, assustada, sabendo que era isso. O fim de seu casamento, do seu amor. Ela não era forte o suficiente para enfrentá-lo, mas ele não lhe deu nenhuma escolha. Ele queria que ela soubesse. Por que foi ele tão inflexível?

Os olhos que tanto amava não estavam cheios de calor e apoio. Estavam duros e resolutos.

— Não, — ela sussurrou. Ela não queria vê-lo desta forma. Era apenas um sonho. Um pesadelo. Ele não era real. Era?

Você é uma fraude. Seu casamento é uma fraude. Ele não ama você.

A voz sussurrou na parte mais vulnerável de sua alma. Torceu e girou os caminhos, espalhando desespero em sua esteira.

— Não. Não!

— Rachel. Rachel, acorde, querida. É apenas um sonho. Volte para mim.

Mãos suaves acariciavam seu rosto, enxugando as lágrimas em suas bochechas. Seus olhos se abriram e ela piscou para se ajustar à escuridão.

— Ei, — Ethan disse suavemente. — Está tudo bem. Você está segura, Rachel.

Ele a envolveu em seus braços e abraçou-a contra o peito. Seu coração batia incansavelmente contra o peito dele, e ela lutou contra o pânico ainda à margem da sua consciência.

Por que estava tendo esse sonho? Estava cada vez mais forte, não mais fraco. O seu pânico não deveria ir embora, quanto mais tempo passasse após seu cativeiro? E por que estava sonhando com Ethan desta maneira?

Um terapeuta, provavelmente argumentaria que a linha sobre seus medos inconscientes estavam deixando sua cabeça confusa quando ela estava mais vulnerável.

Ela se aconchegou mais perto de Ethan, segurando-o tão apertado quanto poderia, como se pudesse apontar e dizer: Vê? Ele não me odeia. Ele está aqui. Ele me ama.

Ele beijou o topo de sua cabeça e acariciou sua pele gelada. Ela não usava nada após fazerem amor, e suas mãos deveriam parecer mágica em sua pele. Em vez disso, ficou tensa, o medo enchendo-a.

Talvez realmente estivesse louca.

— Querida, fale comigo, — murmurou Ethan. — Do que tem tanto medo? Pode contar sobre o sonho?

Ela fechou os olhos novamente. O que poderia dizer? Poxa, Ethan, sonhei que você era um verdadeiro bastardo e que me odiava. Isso certamente o faria sentir-se bem.

Mas precisava contar a alguém.

A ideia de ir ao terapeuta de quem Ethan conseguiu informações, a assustou. Isso a fez se sentir fora de controle e indefesa. Mas talvez fosse hora. Talvez não pudesse fazer isso sozinha.

 

— Mas que porra é essa?

Sam parou de despejar o cereal em sua boca o tempo suficiente para lançar um olhar de suspeita para Garrett, que estava lendo o jornal.

Garrett bateu o jornal no balcão com força suficiente para chapinhar leite ao lado da tigela de Sam.

— Fica frio, cara. Quem deu um nó em sua calcinha esta manhã?

Garrett fez uma careta para Sam, suas sobrancelhas desenhadas em uma nuvem irritada. Oh sim, Garrett estava irritado. Estava além de seu comportamento mal-humorado usual.

Garrett inspirou várias vezes para se acalmar. Preocupado agora, Sam empurrou a tigela para o lado e estendeu a mão para o jornal.

— Despeje, pelo amor de Deus.

— Página três, — Garrett fervilhava.

Sam manuseou até a página em questão e rapidamente examinou o conteúdo. Parou quando viu o nome Kelly em destaque predominante na manchete.

— Oh!

— Sim, — disse Garrett em desgosto. — Leia.

Sam leu o artigo anunciando o milagroso retorno de Rachel dos mortos. Quando chegou a parte sobre o papel da KGI na história, os dedos apertaram até que as bordas do papel amassarem em suas mãos.

— Maldição.

— Continue lendo, — Garrett disse severamente.

Nada foi deixado ao acaso. O vício de drogas de Rachel foi mencionado, mas nada dizia que as drogas foram forçadas a ela. Só que estava lutando contra os efeitos da cocaína e heroína. Chegava mesmo a sugerir que sua perda de memória não era real, que era um ardil para incitar simpatia.

Sam não conseguia pensar além da raiva crescendo.

— Quem diabos contou a eles toda essa porcaria?

Garrett pegou o papel e, em seguida, apontou um dedo para uma parte do artigo.

— Leia.

As palavras vacilaram para frente e para trás até que Sam agarrou o pulso de Garrett para deixar o papel estável. O artigo citava um membro próximo da família como fonte.

— Isso é besteira, — Sam explodiu. — De jeito nenhum, porra. Não há nenhuma maldita maneira de um de nós ter vendido Rachel desse jeito.

Levantou-se, batendo o assento, e caminhou para frente e para trás na cozinha, tão furioso que queria quebrar alguma coisa. Voltou seu olhar para Garrett, que parecia ainda mais irritado.

— Quem você acha que fez isso?

— Não fui eu. E com certeza não foi você. Não foi mamãe ou papai. E com maldita certeza não foram Van, Nathan ou Joe. Quem falou sobre isso? Ninguém sabe este tipo de merda. Como diabos saberiam tanto sobre a KGI?

— Sean sabe, — Sam murmurou.

Os dois irmãos trocaram olhares e ambos chegaram à mesma conclusão.

— De jeito nenhum ele faria isso, — Garrett disse. — Ele ama mamãe e papai. É praticamente da família.

Sam olhou para Garrett enquanto uma compreensão repentina o varreu.

— Rusty.

— Filha da puta, — jurou Garrett. — Eu vou matá-la. Mamãe não pode salvar seu traseiro desta vez.

— Isso vai machucar mamãe, — Sam disse.

— O que a pequena cadela pensou que estava fazendo?

Sam suspirou.

— Rusty viu Rachel como uma ameaça desde o início. Ela é jovem e confusa e se ressentiu da atenção que Rachel conseguiu quando voltou para casa. Acho que essa é sua maneira de rebaixá-la um grau ou dois.

— Ela vai pagar, — Garrett disse friamente. — Ninguém trai a família assim. Não me importo com o que mamãe diz. Quando o papai descobrir, ele vai concordar. Rachel vai ficar arrasada quando ler isso.

— Preciso ligar para Ethan. Ele precisa saber, e vai querer enfrentar Rusty com a gente.

Garrett assentiu, seus lábios ainda uma linha apertada de fúria.

— Dia, — Donovan falou enquanto entrava na cozinha.

Ele olhou Sam e Garrett suspeitamente enquanto abria a geladeira e pegava o suco de laranja.

— Se interrompi a violência, por todos os meios, voltarei atrás. É sempre bom ver o primeiro derramamento de sangue da manhã.

— Rusty entregou Rachel, — Sam disse sem rodeios. — Está tudo no jornal.

Donovan franziu a testa, fechou a geladeira e se aproximou para pegar o jornal. Enquanto lia, o franzido em sua testa se aprofundava.

— Filha da mãe!

— Sim, — disse Garrett.

— O que é que você está segurando? — Sam perguntou a Donovan, notando pela primeira vez, os papéis na mão esquerda de Donovan.

Donovan olhou para baixo como se tivesse esquecido.

— Um e-mail que imprimi. Possível trabalho. Sei que dissemos que estávamos parados por um tempo, até as coisas ficarem bem aqui com Rachel, e Cole e Dolphin terem tempo para sarar.

— Mas? — Sam perguntou. — Eu ouvi um definitivo “mas”, lá dentro.

Donovan corou de culpa.

— Eu poderia ter dito a eles que aceitaria, de qualquer maneira.

— Que porra é essa? — O rosto de Garrett ficou vermelho e tenso, como se fosse tudo o que podia fazer para não explodir. — Eu sou o único idiota que ainda acha que isto é uma parceria por aqui?

Sam levantou uma mão antes que Garrett estivesse completamente furioso. A culpa o corroia. Garrett teria um enfarte se soubesse o que Sam ordenou que Rio fizesse,  e que Sam voltaria à América do Sul.

— Okay, conte, Van. Qual o show e por que você já concordou com ele?

— É uma criança,— Donovan disse dolorosamente. — um caso de sequestro. Os pais estão desvairados. Nenhum resgate foi pedido. A polícia esgotou todas as linhas. A esposa está convencida que foi seu ex-marido, uma equipe de policiais prosseguiram mas ficaram sem saída. O ex está vivendo fora do país, então ela quer alguém para quem isso não representaria um problema.

Sam soprou sua respiração num exalar longo enquanto ele e Garrett trocavam olhares resignados. Se envolvia uma criança, Donovan era um caso perdido. De nenhuma maneira ele teria recusado.

— Okay, Van, você precisa nos dar detalhes e então precisa me dizer como diabos vamos compartilhar isso.

Donovan encostou no balcão e cruzou os braços sobre o peito, os papeis ainda apertados em sua mão.

— Rio está livre. Ele não pegou nenhuma missão, além da maldita missão de reconhecimento na qual o enviamos. Steele está pouco se importando com aquilo.

Sam sacudiu a cabeça.

— Rio e sua equipe não podem fazer isso.

Garrett se virou.

— Por que diabos não podem?

Sam ignorou.

— Metade da equipe de Steele está fora do serviço por enquanto, e eu ainda acho que não é uma boa ideia todos nós sairmos quando Ethan e Rachel vão precisar de todo apoio, particularmente após as notícias desta manhã.

Donovan sentou-se no assento e pôs os cotovelos no balcão.

— Tudo bem, posso levar PJ, Renshaw e Baker. Você e Garrett podem ficar aqui e dar uma olhada em Cole e Dolphin.

Sam olhou para Garrett, que não parecia inteiramente feliz com o arranjo, mas esse era Garrett. Não gostava de nada em que ele não estivesse dentro e no planejamento desde o início. E Garrett ainda estava olhando para Sam, o que lhe dizia que ainda não encerraram a questão sobre Rio.

— Deixe-me ver o e-mail, — Garrett grunhiu.

Os cantos dos lábios de Donovan se franziram, mas ele tirou o sorriso forçado de seu rosto, o que foi bom, já que isso apenas teria irritado Garrett ainda mais.

Enquanto Garrett lia, soltou uma maldição.

— Cristo, uma criança de apenas quatro anos. Você deixou de mencionar que o ex é um molestador de crianças convicto.

Donovan deu de ombros.

— Quer ele seja ou não, ainda quero ir atrás da criança. A mãe está louca. O marido atual adotou a filha. Ele a criou desde que ela era uma garotinha. Está destruído pelo fato de ninguém poder lhes ajudar. Somos sua última alternativa. Eu não poderia dizer "não".

— Sabe onde ele se esconde, Van? — Sam perguntou.

— Tenho uma boa ideia. Fiz algumas investigações. Hackeei suas finanças. Ele está vivendo em algum maldito buraco no México. Podemos entrar. Nunca saberá o que o atingiu. Acho que conseguiremos pegar a criança e estar de volta em 48 horas.

— É melhor você falar com Steele e o deixar a par do caso. Ele vai querer ir. Deixe claro que ele está fora das missões por um tempo. Vai irritá-lo que você esteja levando sua equipe, mas ele vai superar. Você precisará de tempo para acertar tudo, obter as informações que precisa e reunir seus homens. Você não irá às cegas, Van. Espere até termos todas as informações e então poderá ir.

— Sim, sim, entendi. Se você dois terminaram de serem maternais comigo, irei fazer algumas chamadas enquanto saem e descobrem onde Rusty se escondeu. Desculpem, mas eu passo essa tarefa.

Sam assistiu seu irmão sair da cozinha, os papéis firmemente apertados na mão.

— Van.

Donovan parou e virou, a sobrancelha arqueada em questionamento.

— Mantenha-se afastado, okay? Vou puxar o plugue sobre isso em um nano segundo se eu achar que sua cabeça está se envolvendo mais que deveria.

Os lábios de Donovan se franziram em desconfiança.

— Eu não lhe digo como lidar com sua merda, Sam. Acalme-se! Steele e eu podemos lidar com isto dormindo.

— Muito bem...

Sam virou para Garrett após Donovan ter saído.

— Você vai ligar para Ethan ou eu ligo?

— Nenhum de nós vai ligar para ele ainda. Não até me dizer que porra está acontecendo com Rio, — Garrett disse.

— Ele está ocupado, — Sam disse brevemente.

— Sim... Com o quê?

Sam bufou.

— Maldição, Garrett.

— Não minta para mim, — Garrett rosnou. — Que diabos está acontecendo com você e Van tomando decisões unilaterais por aqui?

— O enviei de volta para a Colômbia, — Sam disse firmemente. — Vou me reunir a ele em alguns dias e iremos atrás daqueles bastardos. Quero informações, e não importo como as obteremos.

Os olhos de Garrett brilharam com raiva.

— Você o enviou de volta. Sem me dizer. Você vai voltar sem mim?! Que outra coisa está fazendo sem mim, Sam?

— Corte o sermão, Garrett. Foi precisamente por isso que não contei a você. Você teria irritado a todos nós e não iria querer ir conosco.

— Maldição. É claro que eu iria.

Garrett levantou e bateu as mãos na mesa.

— Esta não é apenas sua família, Sam. Você não é o patriarca sozinho do clã. Eu já entendi. Você quer proteger a todos e assumir a responsabilidade como um bom soldado. Bem, adivinhe? Essa não é a maneira como funciona. Somos uma equipe. Lembra? Vivemos e morremos pela equipe. Suas palavras. Não minhas. Ou acha que essas regras se aplicam a todos , exceto você? 

— Tomei uma decisão. Eu vou assumir.

— Estou me fodendo para o que você decidiu. Se acha que vou deixá-lo sair  em alguma missão prematura de vingança, você está louco.

Sam também levantou e encarou Garrett.

— Precisamos de informações, Garrett. Precisamos saber porque diabos mantiveram Rachel como uma maldita prisioneira e a trataram como um animal, durante um ano.

Garrett fungou e não recuou. Ficaram nariz a nariz, encarando um ao outro.

— Não contesto que precisamos de informações. Você gosta de rodar através dessa palavra sem dar nada de si mesmo. Pense, Sam. Use sua maldita cabeça por um minuto. Você iria voltar à América do Sul sem nos dizer merda nenhuma. Iria acabar em merda. Que diabos eu deveria dizer a mamãe e papai? O que diabos eu deveria fazer quando sequer saberia onde procurar por você? É estupidez e você sabe ou não estaria escondendo de mim.

— É vingança. É confuso. Não é honroso, e não posso pedir a você ou a alguém nesta família para fazer o que eu tenho que fazer, — Sam disse com raiva.

— Sempre o maldito Capitão America, — Garrett disse zombando. — E sobre Ethan e o que ele tem de fazer? Rachel é sua esposa. Por que você está lutando suas batalhas por ele?

— Porque ele é meu irmão.

Garrett o olhou nos olhos. Ele não estava recuando, mas havia compreensão lá, onde antes havia apenas raiva.

— Você não vai sozinho.

— Você não vai, Garrett.

— Tente me impedir.

Sam rangeu os dentes em frustração.

— Maldição, Garrett.

— Eu vou ou tirarei Rio da missão agora.

Sam levantou uma mão à cabeça.

— Tirá-lo? Quando precisamos das informações? Você está louco? Temos que descobrir porque pegaram Rachel. Há uma ameaça lá fora para minha família.

— Nossa família, — Garrett corrigiu. Enfiou seu dedo no peito de Sam para pontuar sua afirmação — Nossa Família.

A intensidade na expressão de Garrett acalmou um pouco o nervosismo de Sam. Ele sabia que se as situações fossem inversas, ele estaria tão irritado e determinado quanto Garrett. Isso não tornava mais fácil capitular para nenhum dos dois.

— Filho da puta, — Sam xingou. Conteve algumas frases mais coloridas antes de Garrett girar nos calcanhares, e exibir triunfo no rosto.

— Te peguei!

— Está bem, está bem. Não espalhe isso.

Garrett deu de ombros.

— Agora, você vai ligar para Ethan ou eu ligo?

 

Por uma questão de hábito, Geron Castle tinha uma variedade de jornais locais de todo o estado do Tennessee entregue em seu escritório a cada manhã. Era sua prática beber duas xícaras de café enquanto olhava as histórias de interesse humano.

Como político, olhava para qualquer ângulo para explorar, e pomposamente considerava que mantinha contato com seu constituinte.

Olhava os de Knoxville, Nashville e Memphis primeiro. Então focava nas publicações menores e bocejava através das pequenas cidades. Essas pessoas não tinham vidas. Gado, cavalos, caça e pesca. Era tudo para o que pareciam viver. Era uma maravilha a taxa de suicídio não ser superior neste estado onde Judas perdeu as botas.

Consolou-se com o fato que estes ignorantes, rústicos do sertão foram quem o colocaram no Senado, e seriam indiretamente os responsáveis por ele agitar a sujeira de Polk County de seus pés quando fizesse o salto à Casa Branca.

Estava bebericando sua segunda xícara e ociosamente contemplando suas férias iminentes quando seu olhar brilhou sobre o artigo sobre uma residente de County Stewart, declarada morta e que miraculosamente retornara após ter sobrevivido a um suposto acidente de avião na selva Sul-americana.

Ele engasgou com seu café e salpicou tudo no colo quando leu o nome da mulher. Rachel Kelly.

Ficou de pé, batendo as calças enquanto o calor chamuscava as porções mais tenras de sua anatomia. Soltou uma série de maldições que teriam feito sua mãe lavar sua boca com sabão. Ela era uma mulher devota, religiosa, e não tinha tolerância para comportamento herege.

Passara metade de sua vida seguindo seus ditames e exemplos. Outra metade passara desviando tão longe do caminho da retidão quanto um homem poderia.

Não estava orgulhoso de seus pecados, mas tampouco estava arrependido.

E agora parecia que seus pecados estavam voltando para assombrá-lo.

Atirou a xícara para o lado, ignorando a mancha no tapete e a linha de líquido sobre sua mesa. Arrebatou o papel de volta e leu o artigo na sua totalidade.

Era um desastre. Não apenas desastre, mas o fim de sua carreira. O final de sua presidência antes que ela sequer começasse.

Como diabos a putinha estava viva?

O maldito cartel de drogas ferrou com ele. Qual a possível motivação que tiveram para renegarem o fim de seu acordo, ele não sabia, mas não ficariam longe disso.

Agarrou o telefone e começou a discar, e então colocou-o no gancho, balançando a cabeça por sua estupidez. Este lugar não era seguro para fazer uma ligação tão importante. Tampouco poderia usar seu telefone celular.

A impaciência e o pânico competiam por igual atenção. Arremessou sua cadeira para trás e correu de seu escritório, passando por sua secretária assustada, que provavelmente viu a bagunça que fizera em sua roupa.

Então ele se forçou a se acalmar. Nada de bom aconteceria se atraísse  atenção indesejada. Forçou um sorriso para sua secretária e lhe disse que estava indo para casa trocar de roupa. Um pequeno acidente, ele disse com um sorriso falso.

Dirigiu para fora da cidade, dando graças por não estar em Washington quando o artigo foi lançado. Nem sempre obtinha os jornais em sua residência ou no seu escritório. O que teria acontecido se tivesse perdido isso?

No primeiro posto de gasolina com um telefone público ele voltou a si, saltou e se certificou que ninguém estava perto o suficiente para ouvir sua chamada. Então, deu um telefonema. Suas instruções foram claras.

O cartel estava ferrado. Ele não precisava de testemunhas. Qualquer um que pudesse ligá-lo ao tráfico de drogas tinha que morrer.

E Rachel Kelly precisava voltar para a sepultura.

 

Rachel desligou o telefone com as mãos trêmulas, e então virou-se para Ethan, rezando para não parecer tão doente quanto se sentia. Seu estômago se agitou, e estava eternamente grata por ter recusado o café da manhã.

— Ela vai me ver de imediato, — disse em voz baixa.

Ethan diminuiu a distância entre eles e puxou-a para seus braços. Ela se agarrou a ele, sua âncora, a única coisa em seu mundo que fazia sentido agora.

— Você quer que eu vá?

Ela hesitou, porque mais que qualquer coisa, queria que ele fosse com ela. Estava com medo e não queria fazer isso sozinha. Mas pior que seu medo de estar sem Ethan, era seu medo que ele descobrisse porque ela finalmente concordou em ir ao terapeuta. Como poderia encará-lo e relatar as coisas horríveis que sonhou à noite, quando ele tinha sido tão absolutamente maravilhoso para ela?

— Não, preciso fazer isso sozinha.

Seus lábios tremiam tanto que mal conseguia começar a soltar as palavras sem desejar vomitar. O pensamento de ir a uma estranha e colocar sua alma  para fora, a aterrorizava.

Ele se inclinou e roçou os lábios nos dela. Então, aprofundou o beijo, buscando e explorando sua boca.

Quando ele se afastou, os dois estavam respirando com dificuldade, e os lábios dela estavam inchados e formigando.

Enfiou a mão no bolso e tirou um celular, e o colocou no balcão ao lado dela.

— Este é seu. Eu programei o meu número, assim como todos os outros da família. Sean, o xerife, e todos os assistentes. Qualquer um que consegui pensar que você poderia precisar. Se mudar de ideia, me chame. Estarei lá assim que puder.

Ela sorriu e se inclinou para ele, circundando sua cintura com os braços. Apertou-o, contente por poder sentir e agir de forma tão carinhosa com ele depois do terror dos seus sonhos na noite anterior. À luz do dia, eles desapareceram e a fizeram se sentir boba e conservadora.

O telefone tocou, assustando-a. Raramente recebiam chamadas, e tinha certeza que era por que a família de Ethan estava respeitando sua privacidade.

Tentativamente alcançou-o para atendê-lo, lembrando que esta casa era sua também. Realmente sorria quando levou o telefone ao ouvido. Sua casa. Seu telefone.

— Alô?

Houve uma pausa curta e então a voz de Sam soou em seu ouvido.

— Ei, Rachel, como vai?

Seu tom era gentil como sempre, e lembrando quão abrupto e desbocado ele era com seus irmãos, ela sorriu. Por uma vez o pensamento do grande homem não a intimidava.

— Oi, Sam. Estou bem.

— Isso é ótimo, querida. Ethan está por perto? Preciso falar com ele por apenas um minuto.

— Certamente. Ele está logo aqui.

Ela se virou e passou o telefone para ele.

Ele lhe deu um beijo rápido e então pegou o telefone.

— Alô?

Rachel se moveu para dar-lhe espaço, mas mesmo do outro lado do quarto, sentiu a raiva súbita emanar dele.

— Que diabos? Você está me irritando.

Ela estremeceu e ficou preocupada ao ver o rosto de Ethan nublado em fúria.

— Você terá de vir aqui me pegar, preciso de uma carona. Rachel vai levar a caminhonete. Ainda não comprei um carro novo para ela.

Olhou para ela enquanto falava e fez um esforço para relaxar sua expressão.

— Sim, me dê meia hora, okay? Você não vai ferrar ninguém lá sem mim.

Ele desligou o telefone e enrolou o punho em uma bola apertada. Parecia olhar para o mundo como se quisesse esmagar algo, mas estava lá, inspirando e expirando, ao invés disso.

— Ethan? — ela perguntou com cautela.

Ele lentamente relaxou seu punho e olhou para ela. Até tentou sorrir.

— Está tudo bem, querida. De alguma forma Rusty aprontou alguns estúpidos ardis. Sam quer ir lá e dar-lhe o castigo. É tempo de mamãe perceber. Esta menina é problemática, e desta vez foi longe demais.

Rachel franziu a testa, infeliz.

— Oh, isso é muito ruim. Tente não ser muito duro com ela ou sua mãe. Rusty teve momentos tão ruins. Ela parece tão frágil.

Para sua surpresa, Ethan sorriu, tanto que iluminou seu rosto inteiro. Cruzou o quarto e tomou seus ombros nas mãos.

— Deus, você soa como você. Tão compreensiva e sempre olhando para os desafortunados.

— Estou tentando, Ethan. Realmente estou. Quero ser a Rachel que todos conheciam. Apenas tenho que me lembrar dela primeiro.

— Eu sei, querida. Eu sei! Você deve pegar a estrada. Quero que seja cuidadosa, e se alguma coisa assustá-la ou se apenas chegar lá e mudar de ideia, me chame. Eu irei imediatamente.

Ela levantou-se na ponta dos pés para beijá-lo.

— Certo. Eu prometo.

 

Rusty se sentou na beirada da cama olhando para os dedos que tinham perdido a sensação cinco minutos atrás. Os nós dos dedos estavam brancos, mas não diminuiu o seu aperto sobre eles.

Mesmo com a porta fechada, podia ouvir as vozes subindo pelas escadas da sala de estar. Sam, Garrett e Ethan estavam lá, junto com Nathan e Joe, Marlene e Frank. Uma reunião família regular. As únicas pessoas faltantes eram Donovan e Rachel.

Rusty franziu a testa, infeliz. Dessa vez, ela estava ferrada. E o pior era que não foi sua intenção. Entretanto, nunca acreditariam nela. Eles queriam chutá-la, porque ninguém permitiria que nada perturbasse a pobre e miserável Rachel.

Ela devia começar a empacotar suas coisas, mas não possuía nada quando chegara aqui. Tudo fora comprado por Marlene e não sentia-se no direito de levá-los.

O nó foi crescendo em seu estômago. Estúpida, estúpida, estúpida. Não era a primeira vez que era enganada por um rosto amigável. Quando iria aprender que ninguém jamais seria agradável com ela sem um motivo oculto? Exceto Marlene. Rusty ainda não descobrira qualquer motivo para a mulher ser tão boa com ela, além do fato de querer ser.

Ela gostava dos irmãos Kelly porque eles não fingiam. Eles não gostavam dela, não a aprovavam, e não faziam segredo disso. Poderia lidar com esse tipo de aspereza. A verdade era que ela também não era louca por nenhum deles, apesar de admirá-los de uma maneira meio torcida.

Ela admirava todos os Kelly. Eles eram ferozmente leais uns aos outros. Ela queria isso. Queria ser parte de algo grande e maior que a vida.

— Vai sonhando, — ela murmurou. Depois de hoje, estaria de volta às ruas tentando descobrir de onde viria sua próxima refeição.

Passos pesados nas escadas a fizeram encolher-se. Apertou as mãos mais fortemente, determinada a não deixar ninguém ver seus tremores traidores.

Sem bater. Sem dúvida, perdeu todos os privilégios que podia ter conquistado nesta casa. A porta se abriu, e Nathan estava ali, sua expressão solene. Bem, pelo menos, seus olhos não soltavam faíscas de ódio. Ela sabia que devia correr tão logo enfrentasse a pequena brigada protetora de Rachel.

— Mamãe quer ver você lá embaixo, Rusty.

Ela piscou um olhar ressentido em sua direção.

— Você na verdade quer dizer, que você e seus irmãos querem gritar comigo?

Nathan encostou-se na moldura da porta e a estudou com aquele olhar perturbador, que lhe dizia que a entendia demasiadamente bem.

— Você não acha que eles têm razão?

Ela começou a esboçar alguma observação vulgar, mas fechou a boca. Ela não tinha defesa, e ambos sabiam. Com um suspiro resignado, levantou-se de seu poleiro na cama. Melhor apenas acabar logo com isso.

— Leve-me para enfrentar o fuzilamento, — murmurou.

Pior que Nathan tomando essa tarefa, era ele permanecer silencioso. Apenas a olhou com aqueles olhos que viam demais. Preferia que ele rosnasse para ela ou dissesse que ela era estúpida.

Injetando aço em sua espinha, de repente gelatinosa, desceu as escadas rigidamente, temendo o final com cada passo. Estavam todos reunidos na sala de estar. Ótimo.

Desceu pesadamente as escadas, sem olhar para ninguém. Parada, podia sentir seus olhares coléricos, sentir a raiva saindo deles em ondas. Pior, podia sentir a profunda decepção proveniente de Marlene.

Ela mudou o olhar para Frank, e seu coração afundou quando não viu raiva, apenas tristeza.

Renunciando a um assento perto de qualquer um deles, empoleirou-se na lareira de tijolos. Podia ouvir a ingestão de respiração enquanto se preparavam para lançar em um discurso retórico como ela era malvada.

— Olha, — ela falou sem pensar. — Eu não queria fazê-lo. Sei que todos me odeiam. Eu entendi. Estou fodida.

— Olhe a boca, mocinha, — Marlene disse em seu tom rude e maternal que Rusty amava tanto. Talvez porque sua mãe nunca falara com ela desse jeito. Como uma verdadeira "Mãe".

— Eu só quero saber por que você fez isso, — Ethan exigiu.

Rusty olhou para cima e desejou não ter olhado. Ethan estava entre Sam e Garrett, e todos a estava assustando terrivelmente. Eles estavam putos. Okay, ela entendia. Tinham o direito de estar.

Sua garganta inchou e ela engoliu irritadamente. Maldição se eles a fariam chorar. Ninguém poderia fazê-la chorar. Nem sua mãe louca e burra. Nem o estúpido marido de sua mãe que se autodenominava padrasto de Rusty. Todos podiam ir direto para o inferno.

Surpreendentemente, Nathan veio em seu auxílio.

— Parem o interrogatório, — ele disse a seus irmãos. — Deixem-na contar o que aconteceu. Vocês já julgaram e a condenaram. — Então ele se virou para Rusty. — Tudo bem, vamos ouvi-la.

Algo em sua expressão a fez querer se explicar. Ele a fez querer lutar por seu lugar nesta família onde antes estivera preparada para dizer fodam-se todos vocês, e pegar a estrada novamente. Ela não tinha nenhuma experiência em como as pessoas a viam quando olhavam para ela, mas podia jurar que era... confiança.

Olhou para onde Marlene e Frank se sentavam. O rosto de Marlene traía uma doída expressão. Merda, ela parecia ter chorado. Frank... ele apenas parecia desapontado. Rusty preferiria fincar um picador de gelo através de seus olhos que colocar esse olhar no rosto dele.

Então ela se virou de volta para Ethan, Sam e Garrett, e finalmente percebeu por que ela os odiava tanto. Eles estavam putos além da razão porque Rusty fizera algo que feriu Rachel. Rachel, Rachel, Rachel. Rusty não a odiava, mas ela a invejava tanto que era como veneno em seu sangue. Ela queria que alguém se importasse tão fortemente com ela. Queria irmãos, uma família, que a amassem e a protegessem de toda a merda ruim no mundo. Assim como estavam fazendo por Rachel. Rachel, que estivera no inferno e não merecia qualquer mordacidade de Rusty.

— Eu só queria ser... um de vocês, — ela falou sufocada.

Uma lágrima rolou por seu rosto, e ela deu um tapa com as costas de sua mão contra ela, mortificada que a vissem chorando como um bebê.

Os olhos de Sam piscaram, e seus braços encolheram em sua posição sobre o peito.

— Pode explicar isso? Como é que você está fazendo um trabalho de machado em Rachel e coloca a KGI sob os holofotes vai nos fazer acreditar que gostaria de fazer parte dessa família?

— Eu não sabia que ele era um repórter, — disse ela miseravelmente. — Ele estava na festa, então eu supus que era alguém que todos conheciam ou confiavam. Ele foi legal e engraçado e parecia genuinamente interessado no que eu tinha a dizer. Ele queria falar com um membro da família e me senti tão bem, por apenas um minuto, por fingir que eu era.

— Oh, querida, — Marlene sussurrou.

— Mas por que você disse essas coisas sobre Rachel? — Ethan exigiu. — Tem alguma ideia do que isso vai fazer com ela quando ler sobre isso? Ela está no terapeuta, esta manhã, Rusty. Ela está lá porque está prestes a desmoronar. Ela tem pesadelos. Tem medo de estar perdendo a sanidade, e sua família é o porto seguro que ela deve ter, acima de tudo. Por que você tentaria estragar isso?

Rusty abaixou a cabeça, não mais tentando esconder as lágrimas quentes que salpicavam suas mãos.

— Eu não a odeio. Não queria machucá-la, eu juro. Simplesmente tudo saiu. Eu invejava a maneira que todos pareciam se unir em torno dela. Estava com medo, agora que ela está de volta, que Marlene não quisesse mais que eu ficasse. Pensei que talvez eu fosse uma fraca substituição para Rachel.

— Rusty.

Ela girou a cabeça rapidamente na direção da voz grave de Frank. Até os outros pararam o que quer que fossem dizer. Era óbvio que respeitavam o pai. O amavam e ele influenciava seus filhos.

— Venha aqui, — ele ordenou enquanto empurrava sua cadeira para a frente.

Comas pernas trêmulas, ela se dirigiu para a lareira e ficou a poucos passos de onde ele estava sentado. Sim! Deus, se ele a condenasse na frente de todos, iria matá-la.

Não conseguia olhar para ele. Não poderia ficar para ver o julgamento em seus olhos.

Ao contrário, ele pegou a mão dela na sua, muito maior, enrugada e desgastada pela idade. Apertou confortavelmente, e seu olhar atônito voltou-se para encontrar o dele.

— Você nunca foi uma substituta para Rachel. Marlene, abençoado seja seu coração, decretou que você é parte do clã Kelly. Deus a ajude. Isso significa que para o melhor ou pior, você é parte da família. Agora, nem todo mundo tem que gostar. Eu não posso protegê-la disso. Você tem que ganhar o seu lugar nesta família. Não receberá automaticamente o respeito ou privilégio. Deve conquistá-lo.

Seu queixo caiu. Ela não tinha nenhuma resposta, nenhuma defesa para a aceitação e o perdão que via em seus olhos. Ela não merecia isso, mas ela queria. Oh Deus, queria tanto que poderia sentir seu sabor.

Ouviu um protesto estrangulado atrás dela, mas um olhar de desaprovação de Frank silenciou-o imediatamente.

— Você deve a Rachel um pedido de desculpas, — disse ele severamente. — Também deve a meus meninos um pedido de desculpas por expor seus negócios.

— S-sim, senhor.

Ele balançou a cabeça em aprovação. Então seu olhar suavizou até que as linhas nos cantos dos olhos enrugaram e se espalharam.

— Esta não será a última vez que você estraga algo. Só não faça disso um hábito. Por aqui, nos responsabilizamos por nossos erros. Nós não nos escondemos deles. Entendido?

— Sim, senhor, — disse ela novamente, mais forte desta vez.

 

Rachel tropeçou para fora do consultório da terapeuta, inalando o cheiro de tinta nova, parede de gesso nova. O pequeno edifício inteiramente elegante era brilhante de novo. Era um escritório lindo. Do tipo que você não se preocupa de ficar sentado enquanto espera horas para ser atendido. Só que ela mal podia esperar para sair. As paredes estavam se fechando em torno dela e por isso o seu pânico.

— Rachel.

A voz da terapeuta deslizou como arame farpado sobre seus nervos. Kate... Kate Waldruff. Ou algo assim. Perfeitamente legal. Compreensiva. Profissional. Apropriadamente simpática. Era tudo que Rachel poderia fazer para não colocar as mãos sobre as orelhas infantilmente.

Em vez disso, parou e virou-se para enfrentar a expressão preocupada da terapeuta. O coração de Rachel batia tão dolorosamente contra o peito que colocou uma mão sobre seu peito, como se para segurá-lo lá dentro.

— Eu gostaria que me deixasse chamar alguém para você, pelo menos. Você está transtornada.

Rachel tentou sorrir.

— Estou bem. Juro. Eu só quero ir para casa. Obrigada por tentar ajudar.

Kate suspirou.

— Eu não posso fazer milagres em uma única sessão, Rachel. Pense um pouco. Chame-me de volta quando estiver pronta. Irei ajudá-la, não importa o que aconteça.

Rachel balançou a cabeça e fugiu do prédio de escritórios estéril, a luz do sol brilhante que quase a cegou. Entrou no SUV de Ethan antes que cedesse para a coceira horrível.

Sentia a pele em carne viva. Formigas. Insetos. Milhares deles. Invadiram sua circulação sanguínea, e havia apenas uma coisa que ela sabia que iria fazê-los ir embora.

Ela lambeu os lábios. Daria qualquer coisa por uma agulha. Qualquer coisa. Isso a envergonhou, mas o desespero compunha muita vergonha.

A sessão a devastou. A fez se sentir tão nua, vulnerável e indefesa. Deus, odiava o desamparo acima de tudo. Intelectualmente ela sabia, sabia que uma sessão não a curaria de tudo. Mas de alguma forma, esperava por algum milagre, a terapeuta podia ouvi-la matraquear sobre absolutamente nada e, em seguida, oferecer uma solução satisfatória. Então ela poderia ir para casa, retomar sua vida e viver feliz para sempre.

A necessidade, dura e nervosa, levantou-se até que pensou que poderia enlouquecer com ela. Agarrou o volante e olhou ao longo do estacionamento para a pequena mercearia do outro lado da rodovia. Havia um adolescente fazendo acrobacias em seu skate.

Ele saberia como conseguir o que ela tanto precisava? Como ela abordaria tal assunto? Ei, garoto, sabe onde eu posso conseguir drogas?

A porta estava aberta e as pernas balançando para que seus pés encontraram o pavimento antes que ela percebesse o que estava fazendo. Ficou parada, blindada pela janela, olhando com horror para o menino. Apenas uma criança. Alguém a quem ela estava perfeitamente disposta a pedir para quebrar a lei.

Apertou o punho à boca para sufocar o soluço que saía das profundezas de sua alma. O que estava pensando? Ela honestamente saíra da caminhonete com a intenção de comprar drogas?

Gostaria de dizer a si mesma, de jeito nenhum, nem no inferno, mas sabia que não era bem assim. Se ele estivesse mais perto, se tivesse mais coragem, se ela não tivesse medo de arruinar o que restava de sua vida, estaria lá em um batimento cardíaco, enfrentando tudo para o alívio temporário da dor agarrando tão profundo que nunca poderia ser capaz de amenizá-la.

Antes que pudesse fazer alguma coisa incrivelmente estúpida, jogou-se de volta na caminhonete e acionou a ignição. Com movimentos bruscos, colocou a caminhonete em marcha e acelerou para fora do estacionamento em direção à casa.

Tremia da cabeça aos pés, as mãos batendo contra o volante. Lágrimas escorrendo dos olhos até que mal podia ver a estrada à sua frente.

Sua vida chegou a isso? Ela finalmente chegou em casa, um lugar que se convenceu que realmente não existia naqueles dias longos e angustiantes em cativeiro, somente para desperdiçar qualquer chance que tinha de uma vida normal?

Por que estava tentando destruir sua própria vida? Estava fazendo o seu melhor para pensar o pior do seu casamento, do homem que arriscou tudo por ela. Tinha uma família que a amava e a apoiava incondicionalmente, e estava preparada para arruinar, não só sua vida, mas a vida de um garoto que ela nem conhecia, e destruir as pessoas que a amavam.

Talvez estivesse tão louca quanto secretamente temia. Talvez os bastardos que a prenderam, a destruíram, depois de tudo.

Sentia-se completa e totalmente destruída.

Não tinha ideia dos quilômetros que percorreu, só que estava dirigindo muito rápido e de forma imprudente. Algo profundo desmoronou e ela se sentiu precariamente suave. O som de uma buzina retumbando arrancou-a de sua desolação tempo suficiente para desviar-se e voltar a pista.

Puxou o ombro e desligou o motor, sabendo que não poderia dirigir nem mais um quilômetro. Agarrou o volante na parte superior e escondeu o rosto contra os pulsos e chorou.

 

Sean Cameron chegou ao topo das colinas e automaticamente diminuiu quando viu o SUV parado. Nenhum pisca estava ligado, apesar de conseguir ver alguém no banco do motorista. Franziu a testa. Parecia muito com o veículo de Ethan. Mas o motorista era muito pequeno para ser Ethan. Parecia mais com uma mulher. Ou um homem realmente baixo.

Ao se aproximar, passou a placa pelo rádio e ficou atrás do veículo. Não teve que esperar que o despachante retornasse. Definitivamente era a caminhonete de Ethan.

Verificando o tráfego próximo, saiu e cautelosamente se aproximou. No espelho lateral pegou a imagem de uma mulher inclinada sobre o volante. Rachel.

Ele tirou a mão do coldre e correu para frente. Ele podia ver seus ombros tremendo através da janela, mas ela sequer registrou sua presença.

Sem querer assustá-la, cuidadosamente bateu no vidro. Ela reagiu violentamente, erguendo-se, seu rosto devastado pelas lágrimas, olhando para ele. Suas pupilas dilatadas, com medo? Seu peito se apertou com a ideia que ele, inadvertidamente, a assustou.

— Abra a porta, Rachel, — ele disse, alto o suficiente para que ela pudesse ouvir através do vidro.

Por um momento pensou que ela fosse recusar, e depois seus olhos embotados em resignação, e ela hesitantemente abriu uma fresta da porta.

Ele arrancou a porta de seus dedos e depois ficou sobre um joelho.

— O que está errado, Rachel? Você está bem? Teve um acidente?

Ele não podia ver qualquer dano ao veículo, mas não o contornara para uma inspeção completa.

Um soluço baixo brotou de sua garganta e mais lágrimas escorreram pelo rosto.

— Você deveria me prender, Sean.

De todas as coisas que ele pensava que ela poderia dizer, isso não era uma delas. Ele balançou, completamente atordoado por seu comunicado.

Olhou o tráfego com preocupação. Este não era o melhor lugar para conversar sobre porque Rachel pensava que deveria prendê-la, e era óbvio que isto não era algo que seria resolvido em um ou dois minutos.

Ele se ergueu e alcançou delicadamente o cotovelo dela.

— Vamos sentar no meu carro comigo. Eu me sentiria melhor se nos afastássemos da linha de tráfego. Então poderá me contar o que a está incomodando.

Ela parecia tão malditamente infeliz que o derrotou. Inferno, ele lidou com mulheres em várias formas de aflição o tempo todo, através de seu emprego. Ele as prendeu, lhes deu más notícias, tomou relatórios das abusadas, mas não conhecia nenhuma delas.

Ela olhou para frente, mordendo o lábio inferior como se não pudesse decidir o que deveria fazer.

— Venha, querida, — disse ele um pouco mais vigorosamente. — Vamos falar sobre isso e então eu a levarei para casa.

Ela virou seu olhar para ele e seus olhos se encheram de lágrimas novamente.

— Não posso ir para casa, Sean.

Inferno. O que se supunha ele deveria dizer? E onde diabos estava Ethan?

Ele levantou o braço dela, esperando que não lutasse com ele. Se abaixou para destravar o cinto e a levantou de seu assento. Ela tropeçou enquanto saía, e ele envolveu um braço em torno da cintura para apoiá-la enquanto andavam em direção ao carro de polícia.

— Não, não na parte traseira, — ele disse quando ela foi nessa direção.

Andou para o assento do passageiro dianteiro e a conduzia para dentro. Então ele se apressou para o lado do condutor e deslizou ao lado dela.

Bateu seus polegares no volante por um momento e então abordou o assunto de frente.

— Por que você acha que eu a levaria presa?

Ela levantou a mão trêmula para a testa e fechou os olhos. Ele podia ver a dor profunda sulcada em sua testa.

— Deus, Sean. Sabe o que eu quase fiz? Saí do consultório da terapeuta. — Ela parou e riu, um som duro, quebradiço. — eu praticamente corri para fora do consultório. Tudo que eu conseguia pensar era que bagunça minha vida é e como eu queria mais a agulha do que eu queria viver. Olhei e vi um garoto andando com seu skate no estacionamento da mercearia. Um garoto, Sean. E eu imaginei se ele saberia como encontrar uma dose. Saí da caminhonete antes mesmo de perceber o que estava fazendo.

Ela murchou no assento, toda a luta completamente desaparecida. Havia um desespero tão grande em seus olhos que o fez querer chorar como um maldito bebê.

— Maldição, Rachel. Você deveria ter me chamado. Ou Ethan. Ou alguém.

Ela ergueu a cabeça, os olhos avermelhados de exaustão e dura auto recriminação em suas feições.

— O que eu deveria dizer? Que estou na maior merda do mundo? Que estou tentando meu melhor para ferrar minha vida agora que a recuperei? Você tem alguma ideia do quanto eu me odeio?

Sean a puxou para seus braços e acariciou seus cabelos.

— Se dê uma pausa. Você não fez isso. Está me ouvindo? Você não fez isso. Pode ter sentido vontade, mas nada que possa me dizer irá me convencer que teria ido até o fim com isso. E eu, certo como inferno, não poderia prender alguém por querer cometer um crime, pelo amor de Deus. Se fosse esse o caso, todo o maldito mundo iria estar na cadeia, incluindo você, verdadeiramente.

Seu riso abafado soou ínfimo, mas pelo menos ela parou de chorar.

— Estou prestes a ficar louca, — disse contra a camisa dele.

Ele podia sentir o corpo suave dela estremecer e sabia que ela sofria. Como ela suportou durante tanto tempo era um mistério para ele.

— Não tenho certeza se tenho uma mente ainda, — acrescentou.

Ele a segurou por um minuto e distraidamente correu a mão por seus cabelos.

— Você vai ficar bem. Provavelmente insistiu para ir sozinha esta manhã quando deveria estar disposta a pedir ajuda. Está cercada por pessoas que largam tudo no momento que percebem que você precisa deles. Precisa estar disposta a usar isso. Somos sua família. Isso é o que as famílias fazem. É o que você costumava fazer por todos. Agora é nossa vez de recompensá-la. Entendeu? Não tem que fazer isso sozinha. Precisar de ajuda não faz de você uma fraca. Você não se lembra, mas quando eu trabalhei na primeira vez, levei um tiro porque fiz realmente uma coisa estúpida. Eu era um recruta. Segunda semana de trabalho e pensei que sabia tudo. Entrei numa situação sem apoio porque estava confiante que não precisava da ajuda de ninguém. Tenho sorte de não ter morrido.

— Durante minha recuperação você e Marlene se revezaram cozinhando para mim. Você limpou minha casa. Fez minhas compras de mantimentos. Assegurou que todas as minhas contas fossem pagas. E me repreendeu interminavelmente para se assegurar que eu nunca faria algo tão estúpido novamente. Agora, me diga se isso é diferente do que está acontecendo com você. Você precisa de ajuda. Tem uma família que morre para mimá-la e estragá-la interminavelmente. Nem todos são tão afortunados em ter uma família como a sua.

Ela se afastou e olhou para ele, um olhar confuso no rosto.

— Acho que estou sendo muito estúpida. Me sinto tão envergonhada. Me mata que não posso simplesmente desligar essa necessidade. Na maioria dos dias estou bem, mas então, em dias como hoje, preciso tanto, que sinto que vou morrer sem ela.

— Esses são os dias em que você precisa mais de sua família, — disse ele delicadamente.

Ela soprou uma respiração longa e vergou contra o assento.

— Vou levar você para casa. Ethan pode pedir a um dos seus irmãos para voltar e pegar a caminhonete. Você não deve dirigir agora. Teve muita sorte de não estar enrolada num poste de telefone.

Ela se ergueu e o abraçou tão apertado que ele ficou sem fôlego.

— Obrigada, — ela suspirou. — Muito obrigada.

Ele se afastou tempo suficiente para dar um duro olhar para ela.

— Prometa-me algo, Rachel. Prometa-me que se você se encontrar nessa situação novamente, vai me chamar imediatamente. Não me faça responder a uma chamada porque você se envolveu com a pessoa errada e terei que ser aquele a dizer a Ethan que você está morta.

Ela estremeceu e seus olhos se arregalaram, mas ele não se arrependeu nem por um minuto de amedrontá-la dessa vez.

— Prometo, — disse ela em voz baixa.

— Tudo bem, então vamos levá-la para casa.

 

— Deixe isso com papai para fazer todos nós nos sentirmos como merda — Ethan resmungou.

Sam riu e Garrett apenas fez uma careta.

Os irmãos estavam fora com Nathan e Joe, enquanto lá dentro, a mãe deles estava ocupada enxugando as lágrimas de Rusty e estabelecendo a ordem. Novamente.

— É tão estúpido . Ela deveria ser mais esperta, — Garrett rosnou.

— Ela é uma criança, — Nathan disse em sua defesa. — Uma criança assustada e tensa que nunca teve ninguém que desse nada por ela. Dê-lhe uma folga. Todos nós fizemos alguma bela merda estúpida quando estávamos na idade dela.

— Fale por você, — Joe disse zombando. — Eu era um anjo.

As narinas inflaram.

— Onde está Van hoje, afinal? — Nathan perguntou. — Queria vê-lo antes de Joe e eu voltarmos para Fort Campbell.

Sam e Garrett trocaram olhares e Ethan se inclinou para frente, interessado. O mesmo fizeram Nathan e Joe.

— Pesquisando para uma missão que ele aceitou, — Sam disse.

A testa de Joe se arqueou.

— Ele aceitou? Aceitou sem você aprovar?

Garrett fez um som rude.

— Ele vai liderar o trabalho com parte da equipe de Steele. Sam e eu apenas não iremos juntos.

Nathan fez uma expressão exagerada de choque.

— Você? O senhor Tenho que estar Envolvido em Tudo?  Não vai?

Garrett ergueu o dedo médio.

— Vá se foder!

O telefone celular de Ethan tocou e ele rapidamente o tirou do bolso. Todos com quem teria quaisquer negócios estavam com ele. Exceto Rachel.

Olhou para o visor de LCD e franziu o cenho. Sean? Abriu o flip do telefone e o colocou no ouvido.

— Oi, cara.

— Ethan, oi. Olhe, estou levando Rachel para casa, mas preciso que um de seus irmãos vá pegar sua caminhonete. Está no acostamento da 79 logo na saída da cidade.

Ethan sinalizou para seus irmãos ficarem quietos.

— Que diabos? O que aconteceu? Por que Rachel está com você?

— Ela está bem, Ethan. Relaxe. Não quero falar disso por telefone. Estou à caminho. Estaremos em sua casa em cerca de dez minutos. Apenas queria ter certeza que você estaria lá.

Ethan segurou o telefone em choque quando a chamada foi encerrada. Que porra é essa? Sangue corria martelando em seus ouvidos. Porque ela não ligou para ele, e por que diabos sua caminhonete estava no acostamento da Autoestrada. Ele iria acertar o traseiro de Sean por isto.

— O que aconteceu? — Sam perguntou.

Ethan guardou o telefone de volta no bolso.

— Olha, algum de vocês pode ir buscar minha caminhonete? Sean disse que está estacionada na 79, logo fora da cidade. Ele está levando Rachel para casa.

— Merda, — Garrett xingou. — Rachel está bem?

— Sean disse que estava, mas não quis dizer mais nada. Preciso ir para casa. Ele disse que estaria lá em dez minutos.

— Venha, — Sam disse em seu jeito de comando. — Garrett e eu levaremos você para casa. Nathan? Pode ir com Joe pegar a caminhonete de Ethan e levá-la de volta para a casa dele?

— Sim, claro. Sem problema! — Nathan olhou na direção de Ethan. — Espero que esteja tudo bem, cara.

Ethan não estava prestando atenção. Já estava subindo na caminhonete de Sam.

O percurso para casa foi silencioso, exatamente como queria. Ethan não tinha nenhum desejo de falar ou especular. A preocupação estava fazendo um buraco em seu estômago. Nunca deveria ter deixado Rachel ir sozinha, não importa o que ela afirmou. Ela teria sofrido um acidente? A consulta com o terapeuta teria sido demais?

— Pare de se debater, — Garrett disse em voz baixa. — Você sequer sabe o que, e se algo aconteceu. Se acalme.

Ethan soltou sua respiração em frustração e não respondeu.

Quando entraram na entrada da garagem, o carro patrulha de Sean já estava estacionado em frente. Ninguém estava nele, e tão logo Sam parou ao lado dele, Ethan saltou e se apressou à porta da frente.

— Rachel? — Ele chamou tão logo entrou. — Querida, onde está você?

Irrompeu na sala de estar para ver Rachel sentada no sofá, o rosto pálido e marcado, seus olhos vermelhos e inchados de chorar. Sean estava sentado ao lado dela, e o alívio brilhou sobre seu rosto quando olhou até ver Ethan. Ele se levantou e avançou para encontrá-lo.

O estômago de Ethan caiu enquanto olhava para Rachel. Passou por Sean, ignorando tudo, exceto o olhar no rosto de Rachel. Ela parecia... perdida.

Sean voltou ao sofá e se inclinou onde Rachel podia ouvi-lo.

— Lembre-se de sua promessa. E conte tudo a Ethan. Vai ficar tudo bem, eu juro.

Ela concordou, mas desviou o olhar, como se estivesse tentando se segurar, sua compostura se deteriorando rapidamente.

Sean tocou Ethan no ombro e, em seguida, atravessou a sala para onde Sam e Garrett estavam agora. Ethan se virou o suficiente para ver Sean levar seus irmãos para fora, e então ele e Rachel ficaram sozinhos.

Algo na expressão de Rachel o impedia de ir até ela e tomá-la em seus braços. Havia algo de tenebroso e terrível em seus olhos, e pela primeira vez desde que ela voltou para casa, sentiu medo, real e tangível. Do que, ele não tinha certeza.

Oh, havia muitas coisas que ele tinha medo. Mas poderia dar nome a elas. Ainda estava assustado que ela se lembrasse do otário que ele tinha sido, que ele pediu o divórcio, que fez acusações terríveis e que fizera tudo em seu poder para afastá-la.

Mas isto. Isto era diferente e o medo o paralisava.

— Rachel.

O nome dela saiu num coaxar, e ele limpou a garganta, envergonhado que não pudesse ser mais forte para ela.

— Sean disse que eu deveria saber mais sobre apoio em minha família, — disse ela, surpreendendo-o. — Que eu não devo ter vergonha de pedir ajuda ou informá-lo quando as coisas estão... ruins.

Ethan se sentou ao lado dela, ainda com medo de tocá-la. Havia um olhar tão ferido em seus olhos. E se ela tivesse lembrado coisas sobre o passado? O casamento deles? Que completo bastardo ele foi?

— Ele está certo! Não é para isso que estamos aqui? Nós amamos você.

Ela sorriu trêmula.

— Eu disse a ele que ele deveria me prender.

Ethan enrijeceu da cabeça aos pés.

— Que diabos?

— Eu estava muito confusa após a consulta da terapeuta, — ela disse, a voz trêmula com emoção. — Não sei o que eu esperava. Bem, eu sei, mas foi estúpido e irreal. Eu queria que ela agitasse uma varinha mágica e me curasse. Eu me senti tão impotente e com raiva. Deus, eu estava com tanta raiva. Pensei que poderia explodir com ela. E então saí e eu precisei... Eu queria uma agulha tanto, tanto que era tudo no que eu poderia focar.

Ela desviou o olhar, seus olhos caindo enquanto se enchiam de vergonha.

— Eu quase perguntei a um garoto se ele sabia como conseguir drogas, Ethan. Um garoto. Meu Deus, o que eu me tornei? Eu era uma professora. E estava disposta a arruinar a vida de um garoto, arrastando-o para o meu vício. Estava disposta a estragar a minha vida, o que sobrou dela.

Raiva súbita se alastrou por seu rosto, deixando-o vermelho enquanto seus olhos se acenderam.

— Deus, pareço tão patética. Droga, Ethan, estou cansada de soar tão lamentável. “O que sobrou da minha vida”. Basta! Basta, basta, basta — ela entoou. — Eu tenho muita sorte. Tive uma segunda chance e tentei estragar tudo. O quanto isso é imperdoável? Tenho um marido e uma grande família que me amam, e estava disposta a jogar tudo isso fora porque uma mulher me fez perguntas que me fizeram sentir impotente e inferior. — Ela se levantou, agitada, com as mãos em punhos apertados e curvadas nas laterais do corpo.

— Bem, eu acabei com isso, — ela disse ferozmente. — Você me ouviu, Ethan? Eu terminei. Esta necessidade dentro de mim está me matando, mas não vou permitir. Você está me ouvindo? Eu não vou deixar. Posso estar louca, mas não vou deixar você ou minha família caírem. Eu não vou me deixar cair.

Os ombros se soltaram, e por Deus, ela estava magnífica. Seus olhos estavam inchados, tingidos de vermelho, e sua respiração saia em curtos, erráticos ofegos, mas era o mais animado, o mais forte que a tinha visto, desde que ela voltou para ele.

— Venha aqui, — ele sussurrou, incapaz de obter as palavras ao redor do enorme nó em sua garganta.

Nunca em sua vida se sentiu mais indigno dela. Se ele tivesse coragem, contaria tudo a ela. Contaria a dura verdade e imploraria seu perdão. Imploraria pela chance de fazer as coisas direito.

Mas tudo o que podia fazer era segurá-la em seus braços e abraçá-la bem apertado. Ela balançou contra ele, e ele percebeu que era a raiva rolando através de suas veias. Nenhuma lágrima.

Era engraçado. Ele sabia o que fazer com a Rachel frágil e chorosa. Poderia segurá-la, confortá-la, deixá-la inclinar-se sobre ele quando ela não tinha forças para ficar sozinha. Mas com ela irritada e resolvida, ele estava perdido. Então, tudo o que podia fazer era segurar firme.

— Nunca tenha medo de me dizer nada, — ele sussurrou contra seus cabelos. — Não importa quanta vergonha você possa sentir. Nunca irei julgá-la, Rachel. Eu te amo.

Suas palavras ecoaram em seus ouvidos. Ásperas? Tudo o que ele lhe disse era verdade e fazia dele o pior hipócrita. O que ele esperava dela, ele mesmo não estava disposto a dar. A verdade.

Fechou os olhos e escondeu o rosto no cabelo dela. Estava vivendo em um tempo emprestado. Ela se lembraria. Não era uma questão de se, mas quando. Cada dia ela se lembrava mais. Pequenos fragmentos. Memórias que empurravam para a superfície. Quanto tempo poderia esperar para manter a verdade longe dela?

— Sinto muito, Ethan, — disse ela.

Ela se afastou e recostou-se em seu abraço, envolvendo os braços em volta do pescoço dele.

— Eu estava um pouco louca. Odeio a maneira como me senti, — ela sussurrou. — Por quanto tempo mais vou viver com o vício? Já não foi o suficiente? Eu estou bem e então bum, do nada minha pele é arrastada e eu quero alívio tão fortemente que acho que farei de tudo para obtê-lo.

— Vou levá-la de volta ao médico. Vamos lidar com isso, Rachel. Eu juro. Se você não quiser voltar para o terapeuta, vamos descobrir outra coisa. Juntos, podemos fazer isso.

Ela sorriu, e tirou seu fôlego. A esperança brilhou em seus olhos pela primeira vez desde que ele entrou pela porta para vê-la tão devastada.

— Você está certo. Sean está certo. Podemos fazer isso, juntos. Eu vou fazer melhor, Ethan. Eu só quero as coisas de volta do jeito que eram antes, — disse ela, pensativa.

Do jeito que eram antes. Deus. Se ela soubesse. Era a última coisa que ele queria. Ele queria que as coisas fossem diferentes. Nunca quis voltar para as coisas como eram antes que ela partisse, antes que ele pensasse que ela estava morta.

Ele queria um novo começo para os dois. Mas para ter esse novo começo, teriam que enfrentar o passado.

 

Ethan lançou um olhar sobre Rachel para ver como ela estava lidando com a sala lotada. A família se reuniu na casa de Nathan e Joe na noite passada por um tempo. Eles partiriam para uma missão de treinamento em dois dias, e sua mãe precisava de uma desculpa para juntar a ninhada.

A noite deveria pertencer a Nathan e Joe, mas Rusty tomara o centro do palco com muitos pedidos de desculpas moderadas. A reação de Rachel foi difícil de avaliar. Ethan não queria que ela soubesse o que Rusty tinha feito, mas foi impossível esconder dela diante da exigência do pedido de desculpas públicas de Rusty. Rachel permaneceu calma e passiva enquanto Rusty fazia isso.

A coisa era, Rusty parecia sincera. Mesmo agora, a menina estava de pé, afastada, pálida, linhas de preocupação em torno de seu rosto jovem. Inferno, em sua idade, tudo o que ela deveria se preocupar era com meninos e toques de recolher.

Ethan suspirou e fechou os olhos brevemente. Estava muito cansado e se preocupar se Rusty ia ou não ia dar a volta por cima não estava em sua lista de prioridades.

— Ei, você está bem, cara?

Ethan abriu os olhos para ver Donovan em pé ao lado dele, uma carranca no rosto.

— Sim, eu estou bem. Você não ia se dirigir em missão?

Donovan acenou com a cabeça.

— Amanhã de manhã. Tenho que acompanhar Nathan e Joe até a saída.

— Tem certeza que você não precisa de ajuda?

Não que Ethan quisesse deixar Rachel sequer por um minuto, mas não estava confortável com a ideia de Sam e Garrett ficarem para trás, especialmente quando tinha certeza que estavam grudando ao redor por sua causa.

— Não, eu estou legal. Vai ser fácil. O idiota nunca vai saber o que o atingiu. Além disso, Rachel precisa de você. Sua única preocupação é ter certeza que ela está bem cuidada.

Ethan roubou outro olhar sobre Rachel, que estava calmamente ao lado de Marlene, enquanto ela abraçava Nathan e Joe. De repente ele se viu erguendo-se, enquanto Donovan segurava seu braço.

— Que diabos?

Donovan não falou muito. Ele só arrastou Ethan em direção à porta traseira, o que era muito risível dado que Ethan tinha pelo menos treze quilos e cinco centímetros a mais que seu irmão mais velho.

Ainda assim, ele não lutou. O que quer que fosse que mordeu Van, Ethan percebeu que precisava ser encaminhado antes que ele partisse na manhã seguinte.

— Okay, desembuche, — disse Donovan severamente quando estavam do lado de fora.

— Desembuchar o quê?

Donovan suspirou e apertou o dedo no peito de Ethan.

— Qualquer que seja o inferno que está incomodando você. Cara, você parece uma merda. Provavelmente não dorme há dias. Fica o tempo todo olhando para Rachel com este olhar de cachorrinho doente.

— Cristo, — Ethan murmurou. Ele certamente não percebera que estava sendo tão malditamente óbvio.

— Que diabos está acontecendo? — Donovan perguntou em voz baixa.

Ethan passou a mão cansada sobre o rosto. Não queria envolver seu irmão. Não queria envolver ninguém. Abriu a boca para dizer, nada, mas Donovan fez uma careta dirigida a ele. Van não abordava muitas coisas. O homem era um modelo de descontração. Agora parecia tão determinado quanto um pit bull mordendo um pedaço nobre de sua bunda. Ethan quase esfregou seu traseiro com a imagem.

Olhou ao redor para se certificar de que ele e Donovan eram os únicos lá fora. Só porque estava derramando suas entranhas a seu irmão não queria dizer que queria transmitir para o mundo ouvir. Um era ruim o suficiente.

— Você se lembra de como as coisas estavam difíceis quando cheguei em casa. Depois do aborto de Rachel.

— Sim, você demitiu-se do serviço militar. Foi um grande ajuste para você. Para os dois.

Ele sorriu para a demonstração de lealdade de Van. Realmente não a merecia, mas o fez se sentir melhor.

— Eu fui um burro, — Ethan admitiu. — Fiz tudo que podia para afastar Rachel. Inferno, eu não sei por que ela ficou comigo por tanto tempo, como ficou.

Donovan franziu a testa, as sobrancelhas se unindo em confusão. E então seus olhos se arregalaram enquanto finalmente entendia que havia muita coisa que o resto da família não sabia.

— Rachel lembra de algo disso?

Ethan estremeceu pelo impacto direto. Então, balançou a cabeça.

Donovan soltou a respiração e enfiou as mãos nos bolsos.

— O quanto é ruim o que estamos falando aqui, Ethan?

— Eu disse a ela que queria o divórcio logo que terminasse sua viagem humanitária.

— O quê? Você disse a ela o quê? — Donovan fitou-o em estado de choque total.

— Eu soube no momento em que ela me deixou que não era o que eu queria, — Ethan disse cansadamente. Como se isso fosse uma defesa para as coisas que dissera. — Tinha planos grandiosos de me jogar a seus pés no momento em que ela chegasse em casa. Dizendo-lhe que sentia muito e implorando outra chance. Deus, eu nunca tive a chance.

— Puta merda, cara. Eu nunca imaginei. Quero dizer,  o que diabos você vai fazer agora? Quero dizer... — Ele olhou para Ethan por um longo momento, como se lutasse com o que estava prestes a perguntar. — Você se sente preso? Quero dizer, você quer deixá-la?

Por um momento, tudo o que Ethan podia fazer era olhar. Era uma pergunta justa à luz do que acabou de contar a Donovan, mas o simples pensamento de sair da relação enviou um calafrio na espinha.

— Não. Não! Deus não. Estou preocupado, Van. Estou preocupado com o dia em que ela se lembrar do bastardo que eu fui com ela. Eu... eu a amo.

— Você contou isso a mais alguém?

Ethan balançou a cabeça.

— Eu estava muito envergonhado. Estou fodido. Realmente fodido.

A mão de seu irmão caiu sobre seu ombro. Donovan apertou, e a simpatia brilhou em seus olhos.

— Você cometeu erros, Ethan. Todos nós cometemos. O que importa agora é como você vai seguir em frente. Você conversou com ela sobre isso?

Conversar. Se fosse tão fácil. Fechou os olhos e engoliu contra a raiva impotente queimando em seu intestino.

— Ela está no limite, Van, — disse ele em voz baixa. — Não posso forçá-la muito mais. Nesse momento a única coisa que ela sabe, é que eu a amo. Eu não posso fazê-la duvidar disso nem por um momento.

— Merda, — Donovan arfou. — Eu sinto muito. Não sei o que dizer.

— Nada a dizer. Fiz minha cama e agora tenho que deitar nela e esperar no inferno que eu não a perca depois que a tive de volta novamente.

— Você pretende dizer alguma coisa?

Ethan balançou a cabeça.

— Não, e eu prefiro continuar assim.

— Você vai conseguir. — Havia preocupação nos olhos de Donovan e talvez uma pequena dúvida. Isso atingiu Ethan duramente na barriga. — É óbvio que você a ama.

— Eu nunca deixei de amá-la, — Ethan disse calmamente. — Mas estou preocupado que, quando ela recuperar a memória, perceba que ela deixou de me amar há muito tempo.

Os lábios de Donovan apertaram em uma linha inflexível.

— De jeito nenhum eu acredito nisso. Ela te ama. Eu aposto minha vida nisso. Com memória ou sem memória. Esse tipo de amor não acaba porque você foi um bastardo!

Um riso áspero passou através dos lábios de Ethan.

— Obrigado, eu acho. Estou contente por um de nós estar confiante.

— Se houver algo que eu possa fazer...

Ethan assentiu.

— Eu sei, cara. E aprecio isso. Mais do que você pode imaginar.

Estendeu a mão e Donovan fechou a sua para batê-la contra a de Ethan.

— Boa sorte amanhã, — Ethan disse. — E tome cuidado. Garrett está prestes a ter um ataque ao pensamento de você ir sozinho.

Donovan bufou.

— Ele apenas está chateado porque está fora de ação. Será bom para ele ter que sentar-se e aguardar. O homem trabalha demais, demais. Terá uma úlcera antes dos quarenta. Se viver tanto tempo.

— Meeerda. Não diga isso a mamãe. Ela perturbaria Garret até a morte.

Os dois homens pararam e olharam um para o outro imaginando a cena. Sorrisos lentamente espalharam por suas faces e eles caíram na gargalhada.

— Oh, inferno. Garrett nos matará por isso, mas vai valer a pena, — Donovan gargalhou.

— Você quer dizer a ela ou eu digo? — Ethan perguntou enquanto seus ombros tremiam.

Sua mãe em uma missão era uma visão assustadora de se ver. Qualquer dica que um dos seus pintinhos não estava como deveria estar, resultaria numa ação imediata.

— Não, eu digo a ela quando estiver de saída. Isso vai distraí-la da palestra, que ela com certeza vai me dar.

Ethan bateu em Donovan nas costas. Era bom estar de volta entre os seus irmãos, mesmo quando eles o irritavam além da conta. Já se sentia melhor. Alguns dos pesados mantos do fracasso foram retirados e ele não se sentia tão pesado pelo medo e pela ansiedade.

— Tenha cuidado, okay? Quero você de volta inteiro.

Donovan revirou os olhos.

— Tudo bem, mamãe.

— Ethan?

Os dois homens se viraram ao som da voz suave flutuando pela porta dos fundos. Rachel estava meio-dentro, meio-fora, olhando-os com uma expressão defensiva. Ethan teria dado qualquer coisa para ser capaz de eliminar a incerteza em seus belos olhos.

— Ei, doçura, — Donovan disse suavemente.

Ela sorriu, e apagou as sombras, iluminando seus olhos.

— Oi, Donovan. Ouvi que vai partir amanhã. Espero que seja cuidadoso.

— Sempre. Estarei de volta antes que você perceba.

— Você precisa de alguma coisa, querida? — Ethan perguntou.

Ela franziu a testa por um momento e puxou o lábio inferior com os dentes, como se procurasse na memória o porquê de ela estar ali fora.

Então levantou o olhar novamente, seus olhos brilhando com o reconhecimento.

— Nathan e Joe estão quase saindo. Vocês devem entrar e se despedir.

Ethan e Donovan foram em direção a porta dos fundos, onde Rachel estava. Ethan não pôde resistir a soltar um beijo em seus lábios arrebitados. Ela sorriu debaixo da boca dele e ele devorou seu sorriso, o mais profundamente que conseguiu. Ele vivia por seus sorrisos. Ele não os apreciou por mais tempo do que poderia se lembrar.

Ela enfiou a mão na dele e caminharam de volta para a sala, onde Nathan e Joe estavam sendo abraçados fortemente por seu pai.

— Ei, aqui estão vocês, — Joe disse quando olhou para cima. — Pensei que talvez você e Van já tivessem fugido.

— Se eu achasse que Mamãe nos deixaria fugir... — Ethan começou.

Nathan bufou e prontamente envolveu Ethan em um abraço. Bateram nas costas uns dos outros e arremessaram alguns insultos. Sim, a vida era boa de novo.

— Seja cuidadoso, — Ethan advertiu. — Traga seu traseiro de volta aqui inteiro.

— Sempre.

Ethan virou-se para Joe, enquanto Van e Nathan faziam a sua festa de insulto mútuo.

— Você, cuide da nossa menina, — Joe disse numa voz grave enquanto se afastava do abraço de Ethan.

— Sempre, — Ethan disse, ecoando o voto de Nathan.

— Okay, cara, — Nathan chamou Joe. — Vamos pegar a estrada.

Os dois homens ergueram as mãos e acenaram enquanto saiam pela porta da frente. A família seguiu atrás, amontoando no pátio da frente enquanto os gêmeos subiam na caminhonete.

Ethan passou seu braço sobre os ombros de Rachel enquanto os assistia saírem.

— Alguém está pronto para um churrasco esta noite? — Sam perguntou. — Eu indico Garret como voluntario para cozinhar.

— Legal, seu idiota, — Garrett murmurou.

Donovan riu.

— Eu estou dentro, poderia comer um bife grande e grosso. Tenho que manter a minha força em dia.

— Eu vou pegar a carne enquanto você e Ethan vão comprar a cerveja, — Sam disse a Donovan. — Mãe? Papai? Vocês tem algo contra?

Marlene se esticou e apertou Sam na bochecha.

—Bom você perguntar, mas acho que vou erguer meus pés e descansar um pouco. Rusty disse que iria cozinhar o jantar hoje à noite e pretendo deixá-la assumir.

Ethan olhou para ver o rosto de Rusty se tornar vermelho brilhante. Ela não estava satisfeita que Marlene espalhasse a pequena fofoca. Garota resistente. Nem um grama de suavidade nela. Pelo menos não onde alguém poderia ver facilmente.

Ele passou o braço apertado em torno de Rachel e sorriu para ela.

— O que você diz? Quer ir em busca da cerveja comigo e Van?

Ela sorriu enquanto olhava entre ele e todos os seus irmãos.

— Tem certeza que me deseja junto? Esta parece ser uma daquelas coisas de união masculina. Eu poderia ir para casa e deixar vocês fazerem suas coisas.

Sam e Garrett pareceram afrontados.

— Bendito inferno, Rachel. Cravou um punhal em nossos corações. Você sempre costumava sair conosco. Testosterona demais, se não fosse, — disse Sam.

O sorriso dela ampliou.

— Um bife realmente soa bom. — Ela olhou para Ethan. — Você se importa se eu for para casa para mudar de roupa?

Ele tocou seu rosto.

— De maneira alguma. Quer que eu vá junto?

— Não. Vá com Donovan. Não vou demorar.

Pegou as chaves do bolso e balançou-as nas pontas de seus dedos. Ela as alcançou e calor espalhou-se no braço dele enquanto a mão fechava em torno da dele. O surpreendeu que mesmo depois de tanto tempo ela o afetasse com algo tão simples como seu toque.

Indiferente aos seus irmãos de pé ao redor assistindo, curvou-se para beijá-la, capturando sua boca com a dele. Ela tinha sabor delicado e feminino. Perfeito! Era um sabor com o qual sonhara à noite quando ficava deitado na cama deles, sozinho, ansiando por ela.

Ela se afastou enquanto arfava como ele, os olhos ligeiramente vitrificados. Foi então que percebeu que ela não olhava para ele como olhava antes de seu desaparecimento. Naquela época, ela se resguardava com ele, nunca lhe permitindo ver o que estava pensando. Era uma medida de autoproteção que ele forçou a ela com sua frieza. Agora ela o olhava com calor. Com amor. Ela não disse as palavras, mas ele se sentia mais à vontade, mais confiante do seu carinho agora do que em muito, muito tempo.

— Arrumem um quarto, — Garrett sorriu.

Ethan ergueu o dedo médio atrás das costas de Rachel. Sam e Donovan riram enquanto Ethan beijava Rachel novamente.

— É melhor ir agora, querida, — ele murmurou. — Senão eu vou para casa com você.

As bochechas delas enrubesceram enquanto se afastava, mas seus olhos riam para ele. Cara, ele sentia falta disso.

— Eu amo você, — ele sussurrou, mais para si mesmo que para ela.

Ela sorriu, os dentes brilhando, os olhos faiscando com felicidade. Tirou cada parte de sua respiração.

— Não vou demorar, — ela prometeu.

Então se ergueu nas pontas dos pés para lhe oferecer outro beijo.

 

A excitação enrolava o estômago de Rachel enquanto deslizava na caminhonete de Ethan. Confortável agora num short jeans e uma camiseta, estava ansiosa para chegar à casa de Sam no lago.

Suas roupas velhas cabiam melhor agora. Os shorts ainda estavam largos na cintura e a camiseta ficava pendurada sobre os ombros e folgada em torno dos seios. Graças às refeições incontáveis que Marlene trazia e a imperturbável e irritante atenção de Ethan para ela comer mais e melhor, estava ganhando peso. Sua cor estava melhor. Seus olhos estavam mais brilhantes. Até seu cabelo recuperou o brilho.

Agora só precisava se livrar dos efeitos prolongados das drogas e recuperar completamente a memória do seu passado. Era a única peça que faltava para o quebra-cabeça.

Ela atravessava a ponte sobre o Lago Kentucky. A água tremeluzia e se esparramava por quilômetros de cada lado da ponte. Era um dia calmo, e o sol ainda brilhava. Dia perfeito para um churrasco.

Reflexivamente, reduziu quando chegou ao topo, onde a proteção lateral de concreto foi atingida uma semana antes por um reboque trator de naufrágio. Cones laranja estavam estrategicamente na borda, mas não havia proteção entre a estrada e a beirada.

A faixa da direita foi fechada e o tráfego redirecionado para a faixa da esquerda de modo que ninguém se aventurasse em perigo. Enquanto se aproximava, ela acelerou, apenas querendo estar além do local assustador.

Um forte impacto a mandou para frente no volante. Seu cinto de segurança repuxou em reação e puxou suas costas contra o assento. Alguém bateu em sua traseira! Pior, a golpearam no para-lama esquerdo, girando-a para que enfrentasse o buraco no lado da ponte.

Rodopiou em seu assento para olhar para trás quando foi golpeada novamente. O som repugnante de metal raspando agrediu seus ouvidos. A caminhonete deu uma guinada para frente, e ela gritou enquanto disparava em direção à borda.

Seu pé bateu no freio, e colocou todo seu peso sobre ele como se só isso a salvasse de despencar para o lado.

Seu pescoço estalou para frente enquanto, novamente, era atingida por trás. Gritou quando a frente da caminhonete mergulhou, enquanto deixava a superfície da ponte. Ela fechou os olhos, preparando-se para sentir o impacto da água e o frio a envolverem.

Após vários segundos, cautelosamente abriu os olhos novamente para ver a luz solar ainda tremulando através do para-brisa. O para-brisa acenava precariamente para cima e baixo.

Oh Deus. Estava pendurada sobre a borda, balançando suavemente para cima e para baixo. Qualquer movimento poderia derrubá-la.

Ela não se moveu. Estava com medo de respirar. Apenas seus olhos se moviam, rapidamente, de um lado para outro, enquanto tentava descobrir como sairia. Suas mãos enrolaram ao redor do volante, segurando tão firmemente que os nós dos dedos estavam brancos. Seu cinto de segurança ainda estava preso, e não ousou soltar o volante para desafivelá-lo.

E então sentou-se, aterrorizada, enquanto a caminhonete fazia um movimento suave de gangorra na brisa. Em torno dela, ouvia vozes gritando para ela, mas não conseguia nem virar a cabeça. Olhou em frente e se perguntou se sobreviveria à queda da ponte.

Ethan foi treinado na água. Viveu na água durante seus anos com os SEALs. Freneticamente procurou em suas memórias por qualquer coisa que pudesse ajudá-la agora. Um riso histérico escapou. Escapar de um veículo submerso não surgiu em nenhuma de suas conversas. Tinha certeza.

As vozes estavam mais perto agora. Certamente não tentariam puxá-la. Pânico explodiu em seu estômago. Lenta e cuidadosamente virou-se apenas para que pudesse olhar pela janela pelo do canto do olho.

Dois homens estavam de pé a poucos metros gritando com ela. O que estavam dizendo? Se o zumbindo em seus ouvidos diminuísse tempo suficiente, talvez ela soubesse.

Inspirou várias vezes, firmemente, e se forçou a relaxar.

Não se mexa. Fique aí.

Certo, ela ouviu. Não se preocupem. Ela não iria a lugar nenhum. Exceto, talvez, para baixo.

Um momento depois, ouviu o lamento das sirenes. Seu peito apertou em alívio. Certamente saberiam como tirá-la de lá.

A ansiedade estava deixando-a doente. Náuseas jorraram em seu estômago até que tivesse certeza que iria vomitar. A única coisa que a mantinha calma era o conhecimento que se ela se permitisse ficar doente, provavelmente rolaria para a direita ao longo da borda.

— Rachel! Rachel!

O alívio a encheu. Sean. Tentou virar a cabeça para vê-lo.

— Não. Não se mova, doçura. Sente-se firme, okay? Só quero que você saiba que estamos aqui. Vamos começar a tirá-la disso, okay? Apenas não se mova, pelo amor de Deus.

A preocupação em sua voz nada fez para acalmar seus nervos em frangalhos. O calmo e inabalável Sean tinha uma ponta na sua voz que soava como pânico.

Um gemido baixo escapou antes que pudesse fechar os lábios em torno dele. Era sufocante dentro do caminhão. O suor rolava por seu pescoço e entre os seios. Sua respiração era superficial e rápida, e a fez se sentir fraca, tola e delirante.

Memórias daquela odiosa caixa quente e fechada voltaram a sua mente. Os dias sangravam um depois do outro. A única maneira que ela sabia que era noite era porque a temperatura passava de insuportável a ligeiramente menos. E então começava tudo novamente.

Suas mãos tremeram apesar de seus melhores esforços para permanecer calma. Não podia voltar para lá. E não voltaria. Fechou os olhos contra as memórias porque agora tudo parecia demasiadamente real. Talvez ela sonhou tudo. Uma alucinação provocada pela abstinência e dias assando no calor da odiada prisão.

A mão esquerda deixou o volante e flutuou até a janela. Ar. Ela precisava de ar.

A caminhonete balançou precariamente, e a janela deslizou, deixando entrar uma rajada de ar fresco.

— Rachel, não! Maldição, não se mova!

Ela tinha que sair. Ela não queria morrer.

— Maldição, apresse-se e fique segura! — Sean gritou.

Ela soltou um lamurio baixo. Sua garganta apertou até não conseguir respirar. Podia ouvir Sean falando com ela, sua voz baixa e tranquilizadora. Podia ouvir o ruído em torno dela, os homens apressados para segurar a parte traseira da caminhonete para que pudessem puxá-la de volta.

— Okay, Rachel, ouça-me.

Ela se virou apenas o bastante para poder fitá-lo. Ele estava apenas a um passo de distância da caminhonete. Suficientemente perto para tocar, mas nem ele nem ela fizeram qualquer movimento para isso. Suas feições estavam apertadas e preocupadas, mas seus lábios estavam fixos em uma linha determinada. Ele não iria deixá-la morrer.

Um pouco de seu pânico amainou. Não, Sean não deixaria nada acontecer com ela. Sua determinação a emocionou, e ela a agarrou com ambas as mãos. Estava igualmente determinada, ela não sobreviveu um ano no inferno, só para voltar para casa e deixar um idiota forçá-la para fora de uma ponte.

Sean se aproximou, até que estava a polegadas da caminhonete. Ele se inclinou, assim seus olhos estavam no mesmo nível.

— Vamos puxar o caminhão, okay? Preciso que permaneça calma. Deixe-nos fazer nosso trabalho. Vamos tirar você em segurança. Não vamos deixá-la. Preciso que confie em mim, Rachel.

Ela deu um aceno lento para deixá-lo saber que ouviu e compreendeu. Houve um ligeiro choque por trás, e agarrou o volante novamente enquanto seu coração acelerava muito próximo do peito.

— Devagar. — Sean rosnou. Então se voltou para Rachel. — Okay, doçura, fique comigo aqui. Vamos conseguir.

Novamente ela assentiu. Engoliu o pânico. Sean estava aqui. Ele não deixaria nada acontecer com ela. Mas ela queria Ethan. Precisava dele aqui.

— Ethan, — ela sussurrou roucamente.

— Ele está vindo, Rachel. Estará aqui a qualquer minuto, okay? Prometo.

O metal do caminhão rangeu e gemeu em protesto. Guinou de volta, estalando seu pescoço para frente. Houve um guincho protestando e então ela viu o capô começar a mover sobre a borda.

Então houve um estalo alto e um estrondo, e a caminhonete mergulhou para frente. Ela gritou e então sua porta se abriu. Sean a alcançou, arrancou o cinto dela, então a arrastou para fora do assento.

Eles caíram no chão, ela esparramada sobre ele. Ela olhou para trás apenas a tempo de ver a caminhonete mergulhar sobre a ponte. Horrorizada, ouviu a explosão de água e sentiu o spray, enquanto água subia pelos ares e caía sobre eles.

— Filho da puta, — Sean murmurou debaixo dela.

Entorpecida, ela encarou o local vazio onde a caminhonete de Ethan estivera momentos antes. E não poderia entender o que aconteceu. Havia pessoas por toda parte. Caminhões dos bombeiros, ambulâncias, carros de polícia. Cercaram toda a área e as pessoas do resgate correram até a borda e ficaram olhando com expressões de assombro. Então olharam novamente para ela.

Ela começou a tremer. Não importa que tentasse duramente se controlar, cada músculo em seu corpo se agitou. Era pior que a abstinência.

Sean passou os braços sobre ela, abraçando-a junto a ele.

— Você está bem? — ele perguntou gentilmente.

Ela não conseguia nem responder. Seus dentes batiam dolorosamente. Levou uma mão a boca, mas seus dedos também tremiam violentamente.

Sentaram na superfície dura da estrada, suas pernas espalhadas sobre as dele enquanto ele a segurava. Tudo o que ela podia fazer era fitar o espaço vazio na ponte.

— Oh meu Deus, — ela finalmente disse. — A caminhonete de Ethan.

— Não se preocupe com a caminhonete. Ethan ficará contente simplesmente pelo fato de você estar viva, — Sean tranquilizou.

— Rachel!

Ela se virou na direção da voz de Ethan, e um momento depois, ele estourou pela multidão, afastando as mãos que tentavam contê-lo.

Finalmente seu olhar brilhou sobre ela, e o alívio que ela viu foi desconcertante. Correu e caiu de joelhos ao lado dela e de Sean. Então puxou-a para seus braços, seu abraço tão apertado que ela não podia respirar.

— Oh Deus, querida. Você me assustou. Inferno Santo, nunca faça isso comigo novamente. Você está bem? Está machucada?

Enquanto divagava, puxou-a para trás e correu as mãos sobre seu corpo.

— Estou bem, — ela coaxou. — Sean me salvou.

— Graças a Deus, graças a Deus, — ele disse repetidamente enquanto a apertava em seus braços.

— Sua caminhonete, — ela falou — Ela se foi! Desculpe...

Ele envolveu o rosto dela nas mãos e a olhou ferozmente.

— Não dou a mínima. Você é tudo que importa para mim.

Garrett, Sam e Donovan, vieram correndo e vacilaram até parar onde ela, Ethan e Sean ainda estavam esparramados no chão. Sam se aventurou em direção à borda onde outros tantos estavam e espiou sobre ela.

— Jesus, — ele murmurou enquanto se afastava novamente.

Rachel se virou para Sean, que ainda estava pálido e respirava erraticamente.

— Obrigada. Você arriscou sua vida para me salvar quando a caminhonete estava caindo.

— Estou contente por isso, mas Rachel? Pode nunca fazer isso novamente?

Ela exibiu um sorriso e se esticou para apertar a mão dele.

— Eu prometo.

Sam e Donovan se abaixaram para levantar Sean. Garrett se curvou e gentilmente ajudou Rachel a erguer-se enquanto Ethan também se levantava.

— Você está bem, docinho? — Garrett perguntou.

Ela assentiu.

— Graças a Sean.

Ela olhou para as mãos que não paravam de tremer. Vergou-se cansadamente contra Ethan e agarrou na cintura dele.

— Podemos ir para casa?

Ethan olhou para Sean, cujos lábios torciam em arrependimento.

— Você está bem para responder algumas perguntas para mim, Rachel? Preciso saber o que aconteceu aqui.

Um medo frio subiu por sua espinha enquanto sua mente voltava àquele momento antes do impacto. Era estranho como tudo estava claro em sua mente. O breve vislumbre no espelho retrovisor. O sentimento do impacto. E o segundo. Ela franziu a testa.

— Alguém tentou me jogar para fora da ponte, — ela deixou escapar.

Ethan enrijeceu ao lado dela. O rosto de Garrett atraiu uma nuvem de tempestade enquanto Sam e Donovan franziram as testas em confusão.

Sean franziu o cenho, então gesticulou em direção a uma ambulância esperando.

— Porque você não se senta e deixa o paramédico examiná-la. Podemos falar enquanto ele está dando uma olhada em você.

Ela olhou para baixo. Não estava machucada. Então olhou para todos os rostos olhando para ela. Profunda preocupação estava gravada em suas expressões. Certo, estava tremendo como uma folha, mas ela parecia tão ruim?

Ethan a guiou até onde um paramédico esperava. A primeira coisa que ele fez foi envolver um cobertor em torno dos seus ombros, e então Ethan a ergueu para sentá-la na traseira da ambulância.

Obedientemente, ela escutou as instruções do médico, e franziu a testa quando tremeu ainda mais forte.

— Choque, — ouviu alguém murmurar. Bem, dã. Ela quase caiu de uma ponte.

— Agora, me diga o que aconteceu, — Sean disse com voz calma.

Ela encolheu os ombros.

— Eu realmente não sei. Um minuto eu estava olhando para onde o último acidente aconteceu e então ele bateu em minha traseira.

— Ele?

As sobrancelhas delas se juntaram.

— Bem, suponho que também poderia ser uma mulher. Eu não vi. É apenas uma suposição.

— Certo. O que aconteceu então?

— Ele me bateu à esquerda, para que eu girasse para a parte da ponte que estava faltando. Em seguida, me bateu em cheio. Empurrou-me mais perto da ponte. Eu praticamente fiquei sobre os freios, mas ele me bateu pela terceira vez, e foi isso que me empurrou sobre a borda.

Sean trocou olhares com Ethan e seus irmãos. Ela não poderia dizer se ele estava preocupado com a ideia que alguém iria tentar empurrá-la de uma ponte ou se estava preocupado que ela estava enlouquecendo.

— Eu não estou louca, — disse ela em voz baixa.

Ethan enrolou a mão em torno dela.

— Shhh, querida. É claro que não está.

— Alguma testemunha, Sean? — Garrett perguntou.

— Estão sendo interrogados agora. Nenhum sinal do outro veículo. Estamos procurando. Sem placas, nem mesmo parcial. Provavelmente o cara entrou em pânico e fugiu do local. Vamos encontrá-lo. Não poderia ter ido longe. Tem que haver danos substanciais à sua frente.

— Posso levá-la para casa agora? — Ethan perguntou sobre a cabeça dela.

— Sim, claro. Eu vou acompanhar mais tarde, mas, sim, pode levá-la para casa. Ela parece precisar.

— Venha, vou lhes dar uma carona, — disse Garrett. — Sam, você precisa levar Donovan de volta para casa para que ele possa partir.

Ethan ajudou Rachel a descer enquanto o paramédico sorria encorajador para ela. Apesar de Ethan tampar um amplo espaço ao redor do buraco no lado da ponte, ela sabia o que estava lá embaixo, e não conseguia afastar a sensação desconfortável que quem havia batido nela fizera isso com um único propósito em mente. Sua morte.

 

Ethan estava deitado no sofá, e esfregava os dedos para cima e para baixo em um padrão calmante sobre o braço de Rachel. Ela estava encolhida ao seu lado, seu corpo quente e doce contra o dele.

Ambos estavam sem sapatos, e ela tinha as pernas entrelaçadas com as suas e seus pés dobrados entre os dele. Estavam envolvidos como insetos no ritual de acasalamento, e era difícil para ele lembrar de uma época em que fora mais feliz.

— Eu poderia ficar assim para sempre, — ela murmurou.

Ele tinha sido tão transparente? Estava pensando exatamente a mesma coisa. Parecia estranho que ela parecesse tão feliz quanto ele.

Ele continuou acariciando o braço dela, simplesmente desfrutando a sensação de tocá-la. Ela se aconchegou um pouco mais em seu abraço, e ele sorriu enquanto o cabelo dela caia sobre seus lábios e nariz.

— Sentindo-se melhor agora? — ele perguntou.

— Ainda um pouco nervosa, mas, sim, muito melhor agora que estou aqui com você.

Uma onda de prazer percorreu seu peito. Ele não lhe disse, mas o seu interior estava muito admirado. Estava surpreso, que pudesse ficar deitado aqui, tão calmo e abraçando-a, quando ainda estava gritando Que porra é essa em sua cabeça.

Nunca queria reviver o momento terrível quando Sean telefonou para ele para dizer que Rachel estava em perigo de voar pela ponte. Nunca. E saber que só as ações rápidas de Sean para retirá-la rapidamente do caminhão a salvaram, ainda tinham o poder de deixá-lo de joelhos.

Ela se mexeu e se ergueu para que pudesse olhar para ele de cima. Seu cabelo crescera nas últimas semanas, e graças a uma visita ao estilista com a mãe dele, as extremidades foram cortadas e camadas foram adicionadas.

Suas mãos pequenas espalharam sobre seu peito e ela alisou-o para cima até os ombros.

— Ethan?

Ele olhou para ela, sabendo que neste momento ela poderia pedir-lhe qualquer maldita coisa e ele diria que sim.

— Você se importaria terrivelmente se eu fizesse amor com você?

Ele engoliu em seco e engoliu novamente. Aqui estava uma mulher bonita, uma mulher que ele amava mais que qualquer coisa. A mulher com quem ele se casou e perdeu. Agora ela estava aqui, como num sonho, pedindo-lhe docemente se poderia fazer amor com ele.

Querido Deus, sim. Sim. Sim. Sim.

— Eu adoraria muito, — ele conseguiu sussurrar. Soava melhor que oh infernos sim, sim, apesar de ser isso o que o seu pênis estava gritando.

Ela sorriu, e seus olhos se tornaram sensuais. O medo e a ansiedade foram substituídos por um brilho aconchegante e mundano que causou arrepios na sua espinha.

Ele adorava quando ela tomava a iniciativa na cama, mas isso tinha parado quando ele começou a se afastar dela. Não demorou muito para ficar abatido antes que ela parasse de fazer o esforço.

Seu corpo reagiu, saltando para a vida com a promessa de sedução no seu olhar. Ele deixou suas mãos demorarem-se nos braços dela enquanto ela se movia mais para que pudesse subir sobre ele no sofá.

Algumas das mágoas da experiência brutal tão predominante em seus olhos foram substituídas por uma luz quase lúdica. Ele poderia se afogar naquele olhar.

— Eu quero tocar em você, — ela sussurrou.

— Oh Deus, querida. Eu quero que você me toque também.

— Você vai se despir para mim?

Havia uma timidez agora em seu olhar, e ela o deixou cair lentamente, se recusando a encontrar seus olhos. Ele pegou suas mãos e as levou à boca. Beijou cada dedo e depois com cuidado passou por baixo dela.

Ele rolou, colocando os pés no chão para se levantar do sofá. Então se virou para ela e alcançou o zíper da calça jeans. Havia uma centelha de curiosidade em seus olhos, junto com o desejo.

Estava tão excitado por seu escrutínio que teve dificuldade para descer o jeans sobre a sua ereção. Quando ficou livre, suspirou um som audível de alívio.

Os olhos dela arregalaram em apreciação, e ele endureceu ainda mais, até que seu pênis esticou dolorosamente para cima em direção ao umbigo. Abandonando a ideia de ser lúdico e provocante, tirou a camiseta sobre a cabeça e atirou-a de lado. Então parou diante dela nu, querendo-a tanto, que era tudo o que podia fazer para não atirá-la no sofá e montá-la longa e duramente.

Ela parecia incerta e nervosa.

— Diga-me o que você quer que eu faça, querida, — ele encorajou.

Em vez de dirigir-se a ele, ela apressou-se para a frente do sofá, a camiseta que tinha trocado pendurada em volta dos joelhos. Olhou para ele uma vez e depois chegou hesitante até seus dedos o circularem.

Ele soltou um gemido enquanto as pontas dos dedos dançavam sobre sua ereção, acariciando, afagando levemente. Suor escorria em sua testa quando ela envolveu suas bolas, apertando com pressão suficiente para deixá-lo insano.

Ele não sobreviveria a isso. Ele estava tentando ser bom. Paciente e compreensivo quando todos os instintos gritavam para tomar sua mulher e fazer amor com ela até que esquecessem seus nomes.

Em seguida, seus lábios o encontraram e ele esqueceu de tudo, menos dela. Foi apenas um beijo suave. E então uma lambida brincalhona. Ela ficou mais ousada e ele mais duro.

Seus dedos se enroscaram em punhos apertados na lateral do corpo. Ele apertou e soltou, até que perdeu todos os sentidos em torno dos dedos dela.

— Você tem um gosto bom, — ela murmurou.

Ah inferno.

Ela lambeu um círculo ao redor da cabeça, com especial atenção para o vinco na parte de trás e para a fenda na parte superior. Estava deixando-o louco. Absolutamente jogo ganho.

— Rachel, querida, Deus...

Provocando, ela deslizou sua língua para cima do eixo e, em seguida, para baixo, para que pudesse chupar suavemente em seu saco. Seus dedos enrolaram no tapete e ele ficou tenso, querendo mais daquela deliciosa boca.

Ela agarrou-o apertado com a mão e rolou para fora, seguindo seus lábios de volta até a ponta. Mais uma vez lambeu delicadamente, e em seguida, sem aviso, chupou-o, tomando-o profundamente.

— Ahhhh!

Ele afundou-se no aperto de veludo quente de sua boca. Sua língua raspou ao longo da parte inferior, a fricção deliciosa e insuportável. Quando ele chegou ao fundo de sua garganta, ela chupou suavemente e depois com mais força.

Seus dedos passaram desajeitadamente através do cabelo até que ele segurou o topo de sua cabeça. Ele balançou nos dedos dos pés e depois para frente, empurrando mais fundo. Estava prestes a rastejar para fora de sua pele. Era tenso, vivo, e o mais extraordinário  e torturante prazer que ele já experimentou em sua vida.

— Querida, você precisa parar, — ele gemeu. — Eu vou gozar. Não posso segurar por mais tempo.

Ela se afastou cuidadosamente e recostou-se, olhando-o enquanto lambia os lábios como uma gata satisfeita. Jesus, era tudo que podia fazer para não atirar o seu jato aqui e agora. Ele se abaixou e apertou a cabeça de seu pênis entre os dedos e tentou afastar as imagens eróticas que flutuavam em sua cabeça.

— Se você gozar agora, estará esgotado para a noite? — ela perguntou, curiosa.

— Querida, do jeito que você está olhando para mim, acho que ficarei duro novamente em cinco minutos.

Provavelmente não era verdade, mas porra, ele não acreditava em como estava excitado.

— Então eu definitivamente quero que você goze agora.

O timbre rouco de sua voz correu em cima dele. Seu pênis pulou em sua mão, como se para dizer-lhe para se afastar e deixar a mulher fazer o manuseio. E ele estava muito disposto a deixá-la fazer.

A mão dela substituiu a dele, fresca e macia. Por um momento acariciou, explorando as linhas, traçando um caminho para suas bolas e depois voltando novamente.

Ele precisava de sua boca. Iria gozar em breve, e queria na boca dela, queria estar fundo com os lábios dela circundando a base, as bolas dele descansando em seu queixo.

Assim que ela abriu seus lábios para levá-lo para dentro, ele empurrou duro e fundo. Ela suspirou em torno dele, um som doce e rouco de satisfação que enviou cacos de prazer todo o caminho até os dedos dos pés.

Devia ser ele fazendo amor com ela. Devia ser ele deitando-a e beijando cada centímetro de seu corpo. Mas Deus, ele precisava tanto dela. Ele sentiu falta disso, sentiu falta de sua receptividade. Ele nunca a apreciou até que fosse tarde demais, e agora estava determinado a viver cada momento e nunca passar por isso novamente.

O fogo começou a baixar em sua pélvis. Suas bolas apertaram e seu pênis inchou até que ele sentiu como se estivesse se abrindo nas emendas. Ela estava tão em sintonia com seu corpo. Ele adorava isso. Ela instintivamente apertou mais, dando-lhe que a pressão extra que ele precisava.

Em cima e para baixo, ela trabalhou com a mão, duro e apertado. Chupou fundo, afundando suas bochechas.

O mundo ao seu redor turvou. Tudo o que podia processar era a sensação de sua boca quente e úmida envolvida em torno do seu pênis. Era o céu e o inferno, tudo em um.

— Eu vou gozar, querida, — alertou. Ele até tentou se afastar para que não derramasse em sua boca, mas ela não permitiria isso.

Ela segurou-o no fundo da garganta e engoliu. Era tudo o que podia suportar.

Com um grito rouco, ele começou a gozar. O primeiro jato explodiu de seu pênis, doloroso, quase excruciante em intensidade.

Ela engoliu rapidamente e chupou-o mais fundo, trabalhando a mão para cima e para baixo.

Ele pulsou uma segunda e uma terceira vez e depois novamente. Jogou a cabeça para trás e fechou os olhos enquanto se forçava para frente. Suas mãos emaranhadas nos cabelos dela, puxando-a mais próxima até que sentiu as bolas roçarem seu queixo.

Ele nunca tinha gozado tão duro e tanto em sua vida.

Quando recuperou os sentidos, olhou para baixo para ver as mãos enterradas nos cabelos dela. Imediatamente a soltou, preocupado se foi muito áspero, mas ela permaneceu onde estava, na ponta do sofá, a boca suavemente o acariciando no orgasmo mais intenso que ele já experimentou.

— Isso foi incrível, — disse sem fôlego.

Ela se afastou, a mão ainda envolvendo-o, e olhou para ele, seus olhos brilhando com desejo. Inferno, talvez ele não tivesse mentido sobre ser capaz de excitar-se novamente tão cedo. Se ela ficasse olhando para ele com aqueles olhos sedutores, ficaria duro como madeira e do tamanho de um tronco de árvore.

— Venha aqui, — ele murmurou enquanto se abaixava para enganchar as mãos por baixo dos braços dela.

Ele a puxou para cima e em seus braços. Ela rapidamente lambeu os lábios, removendo o sêmen de sua boca, pouco antes de ele esmagar seus lábios nos dela.

— É a minha vez, — respondeu roucamente enquanto mordiscava os lábios polpudos.

Sua boca inteira estava vermelho cereja e deliciosamente inchada da atenção que ela lhe deu. Ele estava determinado a dar-lhe cada bocado de prazer que ela lhe deu. Queria vê-la gritando seu nome quando gozasse.

Ele se abaixou e deslizou suas mãos por baixo da camiseta, puxando impaciente. Ela deu um passo atrás e permitiu que ele a puxasse sobre sua cabeça.

Todo o ar deixou seus pulmões quando ela esteve diante dele usando apenas uma simples calcinha branca. Como ela conseguia fazer um pedaço de algodão parecer tão, tão erótico?

Seu olhar viajou para os seios cheios, e não conseguiu resistir ao impulso de tocá-los, medindo o peso e o tamanho em suas mãos.

Eles eram perfeitos. Como ela. Macia e incrivelmente sedosa contra seus dedos. Roçou as pontas de seus polegares sobre as pontas inchadas e observou fascinado enquanto franziam em firmes picos.

— Diga que você me quer, Rachel. Diga que precisa de mim, — ele implorou suavemente.

Ela circulou o pescoço dele com os braços e inclinou-se em seu corpo, o rosto virado para cima, os olhos brilhando com desejo.

— Eu preciso de você, Ethan. Tanto. Me ame, por favor.

Ele a abraçou e deixou suas mãos deslizarem para baixo para a curva de seu traseiro. Adorava tocá-la, adorava como ela reagia à mais simples carícia.

Acariciou o traseiro bem torneado, em seguida, traçou um dedo para cima da fenda na base de suas costas e riu quando ela estremeceu.

— Você costumava amar quando eu era o herói e a levava para minha caverna.

Ela fez um som de zumbido suave que lhe disse que não era contra a ideia.

Ele mordiscou sua orelha e passou a língua na concha, sabendo que iria conseguir outro arrepio de corpo inteiro dela. Ela cedeu contra ele e ele sorriu quando provou a suavidade de seu pescoço.

Descendo, enganchou seu braço por baixo dos joelhos e ergueu-a contra o peito. Ela se posicionou contra ele. Um ajuste perfeito. Como se nunca tivesse saído. Como se ele nunca a tivesse feito deixá-la.

A esperança batia tão forte em seu peito que ele podia sentir cada explosão dolorosa. Que isto fosse para eles. Ele não podia perdê-la novamente.

Gargalhadas derramaram-se de seus lábios, despreocupadas e bonitas enquanto ele caminhava para o quarto. Quando chegou à cama, virou-se com ela em seus braços, simplesmente desfrutando a alegria em seus olhos.

Quando ambos estavam tontos, ele a deixou em cima da cama, e ela deitou de costas, seus olhos ainda rindo para ele.

— Tire a calcinha, — ele rosnou.

Rindo, ela colocou seus polegares na peça, mas depois parou e olhou desobediente para ele.

— Se me quer sem elas, tire você.

Ele levantou uma sobrancelha, e ficou parado, as mãos nos quadris.

— Ficando impertinente, moça?

Ela sufocou o riso com a mão, mas seus ombros tremeram e seus seios se balançaram excitantemente.

Ele se arrastou para a cama e pairou sobre as mãos e joelhos. Plantou uma palma próxima a lateral do corpo dela e chegou com a outra mão para deslizar os dedos no cós da calcinha.

Sua paciência se foi, ele puxou, arrastando o tecido delicado sobre seus quadris até a carne macia de sua boceta encher sua visão. Ele a deixou livre da calcinha, e então passou os dedos pelo interior de sua perna até que o tufo macio de pelos sussurrou sobre as pontas.

Com a ponta do polegar, acariciou as dobras cheias. Seu calor líquido cercava seus dedos enquanto mergulhava para além dos lábios macios. Ela arqueou e gemeu, um som tão carente que enviou um raio diretamente até seu pênis.

Ficando de joelhos, empurrou as pernas dela, afastando-as até que a carne rosada brilhava na pouca luz. Engoliu em seco, em seguida, se abaixou para que pudesse perder-se em sua doçura.

— Ethan, — ela sussurrou, enquanto sua boca a encontrava.

Ele preguiçosamente passou a língua nela, tomando seu tempo e provocando delicados pequenos arrepios com cada lambida. Seu clitóris enrugou e inchou contra seus lábios. Ele circulou, deixando um rastro molhado enquanto acariciava um trêmulo e apertado botão.

Não esquecera como dar prazer a ela. Conhecia seu corpo melhor que o dele. Não fora sempre um bastardo egoísta, e agora se deliciava em reaprender todos as suas favoritas maneiras de agradá-la.

Um dedo escorregou dentro da entrada. Ela agarrou-o, seus músculos em convulsão úmida. Ele retirou-se, sugou a umidade de seu dedo e, em seguida, investigou sua abertura com a língua.

Ela se ergueu da cama, ofegando seu nome. Seus quadris erguendo, e seus dedos se enroscaram nos lençóis. Seu peito arfava com cada respiração e os mamilos estavam apertados em pequenos nós.

— Goze na minha boca assim como eu gozei na sua, — disse ele com voz rouca.

Seus olhos brilhavam e seu rosto estava vermelho de emoção e excitação. Ele abaixou a cabeça novamente e chupou o clitóris. Segurou-o entre os lábios e deslizou a língua sobre a ponta com força suficiente para fazê-la contorcer-se descontroladamente.

Suas pernas tremiam incontrolavelmente. Ela arqueou, todos os seus músculos tensos contra ele. Ela estava perto… tão perto.

Ele chupou mais forte, tomando cuidado para não cruzar essa linha delicada entre dor e prazer. Quando ela soltou um gemido, ele moveu-se rapidamente para baixo, cobriu a abertura com a boca e chupou duramente.

Seu gosto explodiu na língua dele enquanto o orgasmo dela rolou como uma força da natureza através de seu corpo. Ela torceu e se contorceu debaixo dele, mas ele segurou seus quadris firmemente enquanto bebia cada pedacinho de sua essência.

Sedoso e doce como madressilva.

Antes que ela acabasse de gozar completamente, ele abriu suas pernas ainda mais, em seguida, subiu pelo corpo dela até que seu pênis esticado pressionava urgentemente onde seus lábios acabaram de sair.

Escorregou para dentro, tomando cuidado para não machucá-la. Ela o tomou com facilidade, e ele deslizou sobre seus tecidos inchados, absorvendo a sensação de seu calor e umidade em torno dele.

Calor líquido. Veludo. O céu.

As pernas dela se erguerem e se envolveram em torno dele, segurando-o profundamente. Ele abaixou-se sobre ela, descendo como um cobertor. Ela embalou-o, tomando o seu peso, e ele ficou ali por um longo momento apenas apreciando sua conexão.

As mãos dela percorreram suas costas, até os ombros e depois o pescoço, e envolveram sua mandíbula. Ela levantou a boca e esmagou a dele.

Quente. Selvagem. Incrivelmente doce. Ela segurava tanto poder, e ele duvidava que sequer percebesse isso. Ele era dela. Pertencia completa e totalmente a ela.

Erguendo-se um pouco para fora dela, ajustou a sua posição e se acomodou mais confortavelmente entre suas coxas. Ela levantou os quadris e ele foi mais fundo.

Com um gemido ele se retirou e depois empurrou para frente novamente. Ela estendeu a mão e colocou os braços ao redor dele. Seu corpo inteiro estava enrolado em torno dele. Ele abrigou-a. Era exatamente da maneira que deveria ser.

— Ethan, — ela sussurrou novamente.

Ele nunca se cansaria de ouvir seu nome nos lábios dela.

Moveu-se dentro dela, seus sentidos desfocando. Ela estava aqui. Em seus braços. Segura.

Mais rápido. Mais forte! Ela tomava tudo o que ele lhe dava. Seus dedos cravados nos ombros e as pernas tremiam ao seu redor.

Ela estava tão apertada, tão inchada ao redor dele. Cetim líquido. Ele estava fora de si.

— Rachel. Querida...

As palavras escorregaram de seus lábios enquanto todos os músculos de seu corpo ficavam tensos. Seu orgasmo brilhou, muito mais rápido e mais intenso que antes. Não houve suspense, apenas uma explosão instantânea, tão vívida que ele perdeu-se por vários momentos.

Quando se recuperou, pelo menos, uma semelhança de consciência, olhou para baixo para ver Rachel olhando para ele com o coração nos olhos. Sua respiração ficou presa na garganta. Então, ela disse.

— Eu te amo, Ethan.

Lágrimas turvaram sua visão, nítidas e pungentes. Ele não tinha palavras. Não poderia falar, nem se quisesse. O nó na garganta ameaçava sufocá-lo. Tentou respirar em torno dele e encontrou-se fechado.

— Oh Deus, querida. Eu também te amo. Muito, muito.

Abaixou a testa para a dela, e os dois peitos tocaram um contra o outro enquanto tentavam recuperar o atraso.

Após alguns segundos, ele se perguntou se sonhara com isso, se sua necessidade de ouvir se manifestara em fantasia.

— Diga novamente, — ele sussurrou.

Os olhos dela ficaram suaves, e ela emoldurou o rosto dele com as mãos. Por um momento acariciou preguiçosamente os contornos de sua mandíbula e olhou para ele com muita emoção refletida em seu olhar.

— Eu te amo. Eu te amo tanto, Ethan. Posso não me lembrar de tudo, mas isso parece certo. Somos certos um para o outro. Estou tão certa disso como nunca estive de qualquer coisa em minha vida.

Uma lágrima salpicou seu rosto. Ele sequer a sentiu cair. Sua respiração ia e vinha enquanto ele tentava segurar a emoção. Era como uma quebra da barragem, no entanto. Simplesmente a acolheu em seu braços, seus corpos ainda unidos, e se agarrou a sua preciosa vida.

 

O fedor da morte estava pesado no ar. Rio levantou a mão para deter seus homens e, em seguida, sinalizou para que se espalhassem em círculo. Seu instinto estava gritando que isso não estava certo. Nada disso.

O ar cheirava a sangue. Sangue fresco. Suas narinas inflaram e tremeram quando se posicionou dentro do denso matagal. Misturou-se com perfeição ao ambiente, mais camaleão que humano. Com movimentos lentos e cuidadosos, avistou, com a mira de seu rifle, o acampamento abaixo e fez uma varredura.

Mentalmente fez o sinal da cruz. Jesus, Maria e José, era uma visão brutal, e ele já vira tudo que havia para ver quando se tratava de morte e assassinato.

O que viu não era uma zona de morte eficiente. Era uma mensagem. Uma mensagem sangrenta. Corpos foram espalhados sobre a área, como lixo em um acampamento.

Quem realizou o massacre saiu a pelo menos 12 horas. Rio não conseguiu detectar nenhum movimento, nenhum sinal de vida na aldeia silenciosa. Mas não quis correr nenhum risco com os seus homens até que se soubesse ao certo que a área estava limpa.

Pacientemente, esperou e observou. Os carniceiros não tinham encontrado os corpos frescos ainda, e na selva, a limpeza era, por vezes, a diferença entre a vida e a morte.

Cuidadosamente se moveu de sua posição e chamou seus homens  silenciosamente para convergir para o acampamento. Seguiram em uma circunferência apertada, os rifles para cima, olhando cautelosamente da esquerda para a direita, à procura do menor sinal que não estavam sozinhos.

Homens mortos não faziam nenhum som, e todos os que foram deixados aqui estavam mortos.

Rio passou por cima de dois corpos na beira da clareira, onde os barracos começavam e a selva dava lugar ao acampamento. Rachel Kelly estivera presa durante um ano em um lugar como este. Raiva ardia em suas veias. Não era um lugar para uma mulher. Não havia como saber o que o animais fizeram a ela.

Observou com sombria satisfação que o babacas foram atingidos sem confronto. Os coitados provavelmente nunca souberam o que os atingiu. Quem realizou o ataque veio com poder de fogo para rivalizar com um exército.

Terrence entrou no centro da aldeia e olhou em direção a Rio. Então, sinalizou toda a clareira. Um por um, seus homens saíram da selva, suas expressões duras enquanto estudavam a carnificina.

— Alguém fez o nosso trabalho para nós, pelo que vejo, — Terrence disse enquanto Rio se aproximava dele.

— Homens mortos não falam, — Rio disse com aversão.

Terrence assentiu.

— Talvez seja por isso que foram mortos.

— É muito coincidência que depois de alguns dias que esses caras montaram um novo acampamento, após o velho ser destruído no resgate de Rachel, alguém aparece por aqui e arrasa toda a aldeia, e eu não acredito em coincidência.

— Sim, muito conveniente, se você me perguntar, — Terrence concordou. — Quem fez isso não queria pontas soltas, isso está claro.

Rio fez uma careta. Sam não ficaria feliz. Inferno, ele não estava feliz. Estava ansioso para chutar alguns traseiros do cartel. Utilizar mulheres na guerra era para os covardes. Teria sido divertido ver se os imbecis se sentiriam tão duros quando não estivessem lutando contra uma mulher indefesa.

Olhou ao redor enquanto seus homens caminhavam cuidadosamente através do campo de corpos. Que inferno estavam cobrindo aqui? A "Morte" de Rachel foi cuidadosamente orquestrada. Ela foi levada de sua família e mantida em uma merda desgraçada como esta. Por quê? Nada disso fazia sentido, e agora alguém veio a esse inferno, causando um monte de problemas, para se certificar que nenhuma pergunta fosse respondida.

— Então, e agora? — Terrence perguntou enquanto olhava para os corpos espalhados a esquerda e a direita.

— Eu, com certeza não vou enterrá-los, — Rio murmurou. — E com certeza não vou dizer qualquer Ave-Maria. Deixem queimar no inferno.

Ele parou quando um som baixo foi trazido pelo vento a alguns metros de distância. Rio e Terrence ergueram seus rifles e apontaram na direção de um dos homens "mortos". Só que ele não estava morto.

— Ele ainda está respirando, — Terrence murmurou.

Rio correu, e depois de ter certeza que não estava indo para uma armadilha suicida, abaixou um joelho ao lado do homem gravemente ferido.

— Habla Español[15]? — Rio perguntou.

Os olhos do homem abriram em fendas estreitas.

— Inglês, — ele sussurrou. — Eu falo Inglês.

Rio e Terrence trocaram olhares. Que porra esse americano estava fazendo misturado num cartel de drogas colombiano?

O homem tossiu, e um fluxo de sangue respingou de sua boca. Ele concentrou seu olhar vidrado sobre Rio.

— Eu não tenho muito tempo. — Cada palavra parecia sair dele com excruciante precisão. Sua respiração era tão difícil que seu peito subia e descia drasticamente. — Eu tentei ajudá-la, eu a protegi tanto quanto eu podia. Não se pode escolher uma pessoa sobre o bem da missão. Você sabe disso... Você é um soldado.

— Que porra você está dizendo? — Rio rosnou. — Você é algum tipo de maldito agente do governo e ficou sentado enquanto Rachel Kelly era torturada e mantida em cativeiro por um ano?

O homem fechou os olhos e mais sangue escorreu do canto de sua boca.

— Não havia escolha. Eu fiz o que pude. Drogá-la foi a melhor coisa que podiam fazer com ela. Enviei informações para sua família na esperança de que viessem atrás dela.

— Sim, bem, eles vieram, — Rio falou. — Você escolheu a mulher errada para foder. — Seu olhar varreu a vila destruída e todos os corpos no chão. — Quem fez isso? Não fomos nós.

O homem balançou a cabeça.

— Ele sabe. Tem que saber agora. Não teria permitido que ninguém que ele atingiu permanecesse com vida. — Ele fechou os olhos e fez um som peculiar de asfixia.

— Quem sabe? — Rio exigiu. Ele balançou o ombro do homem para trazê-lo de volta à consciência. —Quem está por trás de tudo isso?

Os olhos do homem piscaram e se abriram mais uma vez.

— Ela não está segura. Ele irá atrás dela em seguida.

Então seus olhos ficaram brancos e sua cabeça pendeu para o lado, o olhar fixo na morte.

— Merda, — Terrence rosnou. — Isso não nos diz absolutamente nada.

Rio levantou-se e franziu a testa. Ele não gostou nada disso.

— Vamos dar o fora daqui, então poderei relatar o que aconteceu para Sam.

— Steele vai se decepcionar, — Terrence disse com um sorriso irônico. — Já o irritou que não o esperamos para entrar.

— Foda-se Steele. Ele não faz parte da minha equipe. Ele precisa cuidar de seus ferimentos antes de se preocupar com o que estamos fazendo.

— Vamos dizer agora para ele não fazer a viagem, ou vamos deixar que venha aqui antes de contar que a missão foi abortada?

Rio sorriu enquanto ele e Terrence trocaram olhares astutos. Provocar Steele era uma das melhores diversões que tinham naqueles dias.

— Reúna todos e vamos fazer trilhas. Não quero estar aqui caso quem sangrou a selva decida voltar.

A mão de Terrence balançou no ar, mas ele sorria levemente. Nada foi decidido sobre Steele, mas ambos sabiam que o deixariam vir quente e depois tirariam o vento de suas velas.

Eles teriam diversão onde poderiam obtê-la.

 

O sonho a atormentava. Era mais vivo dessa vez. Mais real. Mesmo que ela ainda estivesse abrigada no desenrolar da cena diante dela, ela lutou, não querendo reviver todo o pesadelo mais uma vez.

Ethan estava de pé na sala de estar. Seu rosto estava marcado por duras linhas de raiva. Ele estava gritando e ela estava de pé, atordoada, toda a luta desaparecida.

Então ele virou-se para a estante. Sua estante de livros que abrigava incontáveis volumes de literatura, seus manuais de ensino, seus romances que ela tanto amava. Puxou um maço de papéis de entre dois livros e empurrou-os para ela.

Eles tinham importância, mas qual?

Podia sentir-se quebrando. Podia sentir o desespero que a envolvia.

Ela despertou do sono e se sentou na cama, seu coração batendo descontroladamente. Olhou para baixo para ver Ethan ainda dormindo solidamente ao lado dela, e colocou a mão em seu braço para tranquilizar-se.

Ainda assim, a sensação de mal estar dentro dela inflamou. Por que estava tendo esses sonhos? Estaria tão insegura que seus medos de perdê-lo inseriram-se em seu subconsciente?

Ou eram lembranças?

O pensamento se chocou contra ela com intensidade dolorosa. Claro, ela se lembrava mais de sua vida todo dia. Pequenas coisas. Pedaços e fragmentos que eventualmente formariam o quebra-cabeça inteiro.

Rolou para fora da cama, náuseas se formando em sua barriga. Ethan a amava. Ela o amava. Ele não lhe deu nenhuma razão para acreditar de forma diferente.

Calafrios correram até suas pernas nuas, e ela rapidamente vestiu uma calça de moletom e agarrou outra camiseta de Ethan da gaveta dele.

A estante. Certamente iria provar ou não se isso tudo era pesadelo ou se era de fato uma memória fugaz.

Deus, talvez realmente estivesse ficando louca. Poderia culpar o estresse de seu acidente. E estava tendo delírios paranoicos. Primeiro alguém estava atrás dela para matá-la, e agora seu marido estava escondendo documentos misteriosos entre livros.

Entrou na sala escura e olhou temerosamente para a estante. Como ela deveria saber onde, entre quais livros? Ela tinha seis estantes e mais livros que poderia contar.

Acendeu o abajur na mesa e então olhou para os livros. Fechou os olhos e tentou se lembrar do sonho. Ele estava de pé entre duas e na frente de uma, de modo que era a do meio. De que lado?

Enciclopédias. Nível do ombro para ele, de modo que um pouco mais alto para ela.

Atravessou a sala e levantou-se na ponta dos pés para retirar uma das enciclopédias. Surpresa! Surpresa, nada lá. Ela desceu a linha, sentindo-se mais idiota  a cada volume que puxava para fora.

Estava pronta para desistir quando chegou ao terceiro da última estante e um conjunto de papéis dobrados caiu no chão, quando puxou o livro.

Seu coração caiu e ela olhou, em seguida, como se fossem uma criatura horrenda que queria tirar sua perna.

Cuidadosamente, recolocou a enciclopédia e se afastou, ainda olhando para baixo. Se abaixando, pegou os papéis e voltou até a mesa para que pudesse ver na luz do abajur.

Desdobrou os papéis e, a princípio não conseguiu entender o que eram. Eram documentos legais, era tudo que sabia. Até que leu a primeira página pela terceira vez e entendeu do que se tratava.

O choque bateu nela com a força de um trem em alta velocidade. Divórcio. Ethan tinha pedido o divórcio.

Colocou uma mão sobre seu estômago enquanto náuseas borbulhavam e ferviam fundo em sua barriga. Oh Deus.

Fechou os olhos enquanto fragmentos e pedaços daquele dia terrível voltavam para ela. Muito ainda era nebuloso, mas não conseguia tirar o rosto furioso de Ethan de sua cabeça.

Ele a odiava. Queria sair do casamento. Deus, as coisas que ele a acusou.

Sua mão voou para a boca. Ele a acusou de ter um caso com Garrett. O que disso era realidade? Deus, ela não conseguia se lembrar!

Afundou-se na cadeira e escondeu o rosto entre as mãos enquanto aquele dia a bombardeava. Ethan dissera que estava cansado de viver dessa maneira. Não queria que ela fosse em sua missão humanitária na América do Sul. Dissera que havia muito o que consertar aqui em casa então por que ela iria para alguma merda em alguma missão benfeitora?

Era mais que isso. Seu tipo de infelicidade não aconteceu da noite para o dia, e ela podia se lembrar da própria tristeza, a sensação de que não importava o que ela fizesse, nunca consertaria essa situação. Que não havia esperança para seu casamento. E mesmo assim, ele a destruiu quando puxou aqueles papéis.

Ele a odiava. Ele não a amava mais. E depois ela morreu. Ele ficou feliz? Por que a grande farsa agora? Será que se sentia culpado?

A família dele não sabia. O pensamento veio à sua cabeça. Lembrou-se como sentira-se em uma armadilha, porque não sentia que poderia ir até a família dele, ela morreria antes de permitir que soubessem a extensão de seus problemas conjugais. Ethan não contara nada a eles também, então eles não sabiam como as coisas estavam terríveis.

Oh Deus, então era por isso que ele agora estava agindo como se ela fosse o amor da sua vida? Por quê? Deus. Por que?

Havia muita coisa que ela não sabia, que precisava saber. Tinha que sair desta casa antes que gritasse até derrubar as paredes.

Garrett. Ele sempre esteve ao seu lado. Sempre. Mas eles traíram Ethan? Não. Não era possível. Ela amava Ethan. Ficou devastada quando ele pediu o divórcio, não, exigiu o divórcio.

Mas Garrett saberia. Ele teria algumas das respostas. O tempo para ela ficar em silêncio e manter tudo para si mesma terminou. Ela não tinha mais ninguém. Apenas Ethan, e agora ela sabia que sequer o tivera.

Sufocou um soluço quando se levantou. Garrett deixara as chaves de sua caminhonete na mesa da cozinha. Sam veio buscá-lo para que ela e Ethan tivessem transporte até a substituição da caminhonete de Ethan.

Estava incrivelmente escuro lá fora quando ela correu para a caminhonete de Garrett. Não se preocupou em verificar a hora e, agora, enquanto dirigia em direção à mesma ponte da qual quase caiu, o pânico tomou conta dela.

As palmas das mãos estavam escorregadias de suor, e sua respiração era tão rasa que sentiu-se tonta. Enquanto se aproximava da ponte, reduziu e quase parou ao lado. Ela tinha um telefone celular. O número de Garrett estava programado. Ele poderia vir buscá-la.

Com um grunhido de desgosto, pisou no acelerador e avançou na ponte. Manteve-se na faixa mais distante e não poupou um olhar sobre toda a fita da polícia e as barricadas erguidas ao redor do buraco.

Ninguém pode salvá-la agora, apenas você, — entoou para si mesma. Talvez se dissesse isso muitas vezes acreditasse.

Dez minutos depois, entrou na passagem de cascalho da casa do lago de Sam e estacionou a caminhonete de Garrett ao lado da de Sam. Com Donovan saindo tão tarde— ou cedo— eles provavelmente não teriam adormecido e agora ela estava entrando.

Procurou em suas memórias esfarrapadas por alguma ideia que estivesse enganada sobre seu relacionamento com Garrett, mas tudo o que podia lembrar era o sentimento de uma estreita amizade.

Na porta, hesitou e passou vários segundos reunindo sua coragem. Esfregou as úmidas palmas nas calças de moletom e mentalmente repreendeu-se por ser covarde.

Com as mãos apertadas, bateu e depois revirou os olhos. Como ouviriam isso? Apertou a campainha várias vezes e esperou, a ansiedade fazendo um buraco no estômago.

A porta escancarou, e ela, instintivamente, deu um passo para trás enquanto olhava cautelosamente para Sam. Ele usava short de ginástica, sem camisa, e tinha uma cara tão fechada que a fez engolir em seco.

A carranca desapareceu quando ele olhou para ela. A preocupação instantaneamente substituindo sua irritação, e ele também deu um passo para trás para não parecer ameaçador.

— Rachel? Querida, está tudo bem?

Ela não iria chorar. Não choraria. Fez dolorosas contorções faciais para manter sua compostura quando olhou para ele.

— Eu preciso ver Garrett, — disse hesitante.

Sam abriu mais a porta, em seguida, estendeu a mão para o braço dela.

— Eu vou chamá-lo. Entre e sente-se. Onde está Ethan? Há algo errado?

Mais uma vez a ameaça de lágrimas quase a desfez. Expulsou o fôlego em empurrões vacilantes, e mordeu o lábio inferior, enquanto o seguia para dentro.

— Ethan está em casa, — ela disse suavemente. — Ele está bem.

O olhar agudo de Sam cintilou sobre ela, e era óbvio que ele percebeu que ela deixou a si mesma fora da equação "está bem". Ele fez sinal para ela se sentar no sofá, mas ela não podia. Ela iria ficar louca.

Ele saiu da sala, e apenas alguns momentos depois, Garrett veio correndo para a sala, o cabelo despenteado, a preocupação vincando sua testa. Sam seguia atrás, agora vestindo uma camisa e jeans.

Não sendo capaz de controlar a onda de emoção, ela lançou-se em Garrett e enterrou o rosto em seu peito. Lágrimas infiltravam em sua camisa e agarrou-se a ele enquanto toda a angústia que tentou tão duramente conter se derramava.

— Ei, o que está errado, docinho?

Ele passou os braços em volta dela e segurou-a enquanto acariciava seu cabelo. Depois de sua primeira pergunta, ele não disse nada. Apenas esperou que ela chorasse em cima dele.

Quando finalmente conseguiu o controle de si mesma e os soluços foram reduzidos a fungadas, ele cuidadosamente puxou e inclinou seu queixo para cima, para que olhasse para ele.

— O que está errado, Rachel? Você pode se sentar e contar-me sobre isso? Onde diabos está Ethan?

Com o nome de Ethan, ela fechou os olhos e piscou para conter mais lágrimas.

— Ah, merda, — Sam murmurou por trás deles. — Diga-me que o cabeça oca não fez algo idiota...

Ela deixou Garrett guiá-la para o sofá e sentá-la. Instalou-se ao lado dela, empoleirado na borda e virou-se em sua direção. Ela agarrou suas mãos, com medo de soltar, com medo de desmoronar novamente e nunca ter qualquer uma de suas perguntas respondidas.

— Você quer algo para beber? — Garrett perguntou.

Ela balançou a cabeça e lambeu os lábios, querendo saber como iria abordar este assunto com ele. Respirou fundo e levantou o olhar para encontrar o de Garrett.

— Eu preciso perguntar uma coisa, — ela falou dolorosamente. — Preciso da verdade.

Ele passou a mão sobre a face dela e depois enfiou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Qualquer coisa.

Ela engoliu em seco e depois colocou para fora.

— Nós, você e eu, já tivemos um... caso?

Os olhos de Garrett se arregalaram com o choque. Sam soltou uma exclamação, mas ela se concentrou exclusivamente em Garrett. Se a reação dele fosse uma indicação, ela estava muito, muito fora da base, e agora se sentia como a pior idiota.