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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A INCENDIÁRIA / Stephen King
A INCENDIÁRIA / Stephen King

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "VT"

 

 

 

 

 

Nova York—Albany

— Papai, estou cansada — disse, irritada, a menininha de calça vermelha e blusa verde. — Não podemos parar?

— Ainda não, meu amor.

Ele era um homem, alto, de ombros largos. Vestia um casaco de veludo cotelê puído e surrado e calça marrom de sarja comum. Vi­nham de mãos dadas, ele e a menina, pela Thírd Avenue, em Nova York, andando depressa, quase correndo. Ele olhou para trás, por cima do ombro, e o carro verde ainda estava lá, deslizando lentamente junto ao meio-fio.

— Por favor, papai. Por favor.

Olhou para ela e viu como estava pálida. Olheiras escuras cer­cavam-lhe os olhos. Levantou-a e a pôs no colo, mas não sabia quanto tempo agüentaria. Ele também estava cansado, e Charlie já não era tão leve.

Eram cinco e trinta da tarde, e a Third Avenue estava engarra­fada. Cruzavam agora as últimas ruas de número 60, e as que deixa­vam para trás estavam mais escuras e com menos gente... E era isso que ele temia.

Esbarraram numa senhora que empurrava um carrinho cheio de compras.

— Olhem por onde andam, não enxergam? — exclamou ela, e foi-se embora, engolida pela multidão apressada.

Ele estava ficando com o braço cansado, e passou Charlie para o outro. Deu mais uma olhada para trás; o carro verde continuava ali, acompanhando-lhes os passos, cerca de meio quarteirão mais atrás. Havia dois homens no banco da frente, e parecia haver um terceiro no de trás.

O         que vou fazer agora?

Ele não tinha uma resposta para isso. Estava cansado e assus­tado, era-lhe difícil pensar. Tinham-no apanhado numa ocasião desfa­vorável, e os patifes provavelmente sabiam disso. Tudo o que ele queria era sentar-se no meio-fio sujo e gritar aos quatro ventos sua frustração e seu medo. Mas isso não era uma resposta. Ele era o adulto, teria que pensar pelos dois.

O         que vamos lazer agora?

Dinheiro, nenhum. Talvez fosse esse o maior problema, depois dos homens no carro verde. Nada se podia fazer sem dinheiro em Nova York. Lá as pessoas sem dinheiro simplesmente desaparecem; caem nas calçadas e ninguém mais as vê.

Ao olhar para trás por cima do ombro, viu que o carro verde estava um pouco mais perto, e o suor começou a escorrer-lhe ainda mais depressa pelas costas e pelos braços. Se eles soubessem tanto quanto ele suspeitava que sabiam — se soubessem o pouco que lhe restava de controle mental —, poderiam tentar pegá-lo naquela hora. Não lhe importava toda aquela gente em volta, tampouco. Em Nova York, se a coisa não está acontecendo com a gente, surge logo aquela estranha cegueira. Terão eles feito um inquérito a meu respeito?, cogitava Andy, desesperadamente. Se o fizeram, eles sabem, e nada mais há a fazer senão gritar. Se eles o tinham feito, conheciam o plano. Depois que Andy conseguira algum dinheiro, as coisas estra­nhas haviam parado de acontecer durante algum tempo. As coisas em que eles estavam interessados.

Continue andando.

Decerto, patrão. Sim, senhor, patrão. Onde?

Entrara no banco ao meio-dia porque o seu radar fora alertado — aquela suspeita estranha de que estavam de novo mais próximos. Havia dinheiro no banco, e ele e Charlie podiam continuar lá, se fosse preciso. E não era engraçado? Andrew McGee já não tinha conta no Chemical Allied Bank de Nova York, nem individual, nem da sociedade, e nem poupança. Tudo se evaporara, e foi então que ele percebeu que desta vez eles queriam realmente derrotá-lo. Teria tudo isso acontecido há apenas cinco horas e meia?

Mas talvez ainda lhe restasse algum poder de controle. Apenas um pouquinho. Passara-se cerca de uma semana desde a noite de quinta-feira, a última vez em que aquele suicida em potencial viera à sessão habitual de aconselhamento dos Associados de Confiança e começara a falar com arrepiante calma sobre a forma como He­mingway se suicidara. Ao sair, Andy passara o braço em torno dos ombros do pré-suicida, como por acaso, e o pressionara mentalmen­te. Agora, amargamente, esperava que isso tivesse valido a pena. Porque havia grande probabilidade de que ele e Charlie pagassem por isso. Quase desejou um eco... Mas não. Ele afastou essa idéia, horrorizado e desgostoso consigo mesmo. Não era coisa que se dese­jasse a ninguém.

Só um pequeno impulso, suplicava ele. Basta isso, meu Deus, apenas um empurrãozinho, só o bastante para livrar a mim e a Charlie desta dificuldade.

E, ó Deus, como pagarei... além de ficar como morto um mês, exatamente como um rádio que tem uma válvula queimada. Talvez seis semanas, ou talvez realmente morto, com os miolos inúteis saindo pelos ouvidos. E, então, o que acontecerá a Charlie?

     Aproximavam-se da Seventieth Street, e o sinal estava fechado para eles. O tráfego fluía no cruzamento, e os pedestres se acumu­lavam na esquina. Subitamente, ele soube que era ali que os homens do carro verde os pegariam. Vivos, naturalmente, se pudessem, mas se parecesse que haveria complicação eles provavelmente também teriam recebido instruções quanto a Charlie.

     Talvez eles lá não nos queiram vivos. Talvez tenham resolvido manter o status quo. O que vocês fariam com uma equação errada? Apagá-la-iam do quadro-negro.

     Uma facada nas costas, uma pistola silenciosa, possivelmente alguma coisa mais secreta, uma gota de veneno raro na ponta de uma agulha. Agitação na esquina da Third com a Seventieth. Guarda, este homem parece que sofreu um ataque cardíaco.

     Teria de tentar aquele resíduo de poder. Não havia outra alter­nativa. Eles já haviam alcançado os pedestres que esperavam na esquina. Ao atravessar a rua, NÃO ANDE com atitude e aparência de eterno. Olhou para trás. O carro verde parara. As portas ao lado da calçada abriram-se e dois homens de ternos de executivo saíram. Eram jovens e frajolas. Pareciam muito mais ousados do que Andy McGee.

     Ele começou a abrir caminho com os cotovelos entre os pedes­tres, procurando freneticamente com os olhos um táxi vazio.

     — O que é que há, homem?

     — Pelo amor de Deus, companheiro!

     — Por favor, o senhor está pisando no meu cão.

     — Desculpe-me... desculpe-me... — dizia Andy desespera­damente.

     Procurava um táxi. Não havia nenhum. Em qualquer outra ocasião, a rua estaria cheia deles. Podia sentir os homens do carro verde se aproximando, querendo pôr a mão nele e em Charlie para levá-los Deus sabe para onde, para a Oficina, para algum maldito lugar ou alguma coisa pior ainda.

     Charlie encostou a cabeça no ombro dele e bocejou. Andy viu um táxi vazio.

     — Táxi, táxi — gritou ele, agitando loucamente a mão livre. Atrás dele, os dois homens, abandonando toda a dissimulação, correram.

   O táxi aproximou-se.

     — Segurem-no! — gritou um dos homens. — Policia, policia!

     Uma mulher atrás da multidão, na esquina, gritou e então todos começaram a se espalhar.

     Andy abriu a porta de trás do táxi e empurrou Charlie para dentro, mergulhando atrás dela em seguida.

— Para o La Guardia, e pé na tábua — disse ele.

—        Segure-o, motorista. Polícia!

O         motorista virou a cabeça na direção da voz, e Andy usou seu poder mental muito delicadamente. Um punhal de dor fora cravado em cheio na testa de Andy, e depois, rapidamente retirado, deixando um vago ponto doloroso, como a dor de cabeça matinal, do tipo que se tem depois de dormir apoiado no pescoço.

— Acho que estão atrás daquele negro de boné xadrez — disse Andy para o motorista.

—        Certo — respondeu o motorista, afastando-se calmamente do meio-fio. Seguiram pela East Seventieth.

Andy olhou para trás. Os dois homens estavam parados sozi­nhos no meio-fio. Os demais pedestres nada queriam com eles. Um dos homens tirou um walkie-talkie do cinto e começou a falar. De­pois foram embora.

— Aquele negro — disse o motorista —, o que foi que ele fez? Assaltou um bar ou coisa parecida, não acha?

—        Não sei — disse Andy, tentando pensar como proceder em seguida para conseguir o máximo daquele chofer de táxi com o mí­nimo de esforço mental. Teriam eles anotado o número do táxi? Devia admitir que sim. Mas não haviam de recorrer à delegacia estadual ou à municipal; apanhados de surpresa, deviam ter ficado sem ação, durante alguns minutos.

— São todos um bando de marginais, os negros desta cidade —   disse o motorista. — Nem me fale, eu vou lhe contar.

Charlie adormecera. Andy tirou o casaco de veludo, dobrou-o e colocou-o debaixo da cabeça da menina. Começava a sentir uma pequena esperança. Se soubesse agir certo, talvez funcionasse. A sorte enviara-lhe o que Andy pensava ser (sem qualquer precon­ceito) um empurrãozinho. O motorista parecia ser do tipo mais fácil de receber um impulso: era branco (os orientais são mais reni­tentes, por alguma razão), bastante jovem (com pessoas idosas seria quase impossível) e de inteligência mediana (os inteligentes são mais fáceis de serem pressionados, os estúpidos, mais difíceis, e com débeis mentais seria impossível).

—        Mudei de idéia — disse Andy —, leve-nos para Albany, por favor.

—        Para onde? — O motorista fitava-o pelo espelho retrovisor. —         Patrão, eu não posso fazer uma corrida até Albany. O senhor perdeu a cabeça?

Andy tirou sua carteira, que continha apenas uma nota de um dólar. Agradeceu a Deus que o táxi não tivesse uma divisão à prova de bala, impedindo qualquer contato com o motorista, exceto atra­vês de uma fenda para passar o dinheiro. O contato aberto facilita o controle mental. Não conseguia imaginar se isso era psicológico ou não, àquela altura esse ponto já não importava.

— Vou lhe dar uma nota de quinhentos dólares — disse Andy calmamente —, para que você leve a mim e à minha filha para Albany, OK?

— Meu Deus, senhor...

Andy enfiou a nota na mão do motorista e, quando ele olhou para a nota, fez pressão mental, e com muita força. Durante um terrível momento, receou que não funcionasse, que simplesmente nada mais lhe restasse, pois desperdiçara sua última oportunidade quando fizera o motorista ver o inexistente negro do boné xadrez. Então lhe veio a sensação, como sempre acompanhada pela punha­lada de aço da dor. No mesmo instante, sentiu o estômago embru­lhado e os intestinos bloqueados, numa agonia de enjôos e cólicas. Levou a mão hesitante ao rosto; não sabia se ia vomitar.., ou morrer. Naquele momento desejou morrer, como sempre fazia quan­do abusava de seu poder. “Use, mas não abuse”, o slogan de algum antigo disc jockey ecoava morbidamente em sua cabeça. Era como se alguém furtivamente lhe colocasse uma pistola na mão.

Olhou então de lado para Charlie, que dormia; Charlie, que confiava nele para tirá-los daquela confusão, como ele sempre fizera, Charlie, que acreditava que ele estaria ali quando ela acordasse. Sim, todas as confusões, exceto que era sempre a mesma confusão, a mesma maldita confusão: e tudo o que estavam fazendo era fugir novamente. Um terrível desespero pressionava-lhe o fundo dos olhos.

A sensação passou... mas não a dor de cabeça, que ficaria cada vez pior, até se transformar num peso esmagador, que se espalharia pelo crânio e pelo pescoço a cada pulsação. Luzes brilhantes fariam seus olhos lacrimejar desesperadamente e lançariam flechas de aflição no cerne, por trás dos olhos. Suas narinas fechar-se-iam, e ele teria que respirar pela boca. Brocas perfurariam suas têmporas. Pequenos ruídos seriam amplificados; barulhos comuns ficariam in­tensos como os de perfuratrizes, e sons agudos tornar-se-iam insu­portáveis. A dor pioraria, até ele sentir como se sua cabeça estivesse sendo esmagada dentro de um capacete de tortura. Depois se estabilizaria nesse nível, durante seis, oito ou talvez dez horas. Dessa vez ele não sabia. Nunca tinha “pressionado” tanto estando tão perto da exaustão. Durasse o tempo que durasse, aquele sofrimento sob as garras da dor de cabeça o deixaria quase imprestável. Charlie teria que cuidar dele. Deus sabia como ela já o fizera antes... mas tinham tido sorte. Quantas vezes se pode contar com a sorte?

—        Meu Deus, patrão, não sei, não...

O         que significava que ele temia complicações com a lei.

—        Só faço o negócio se você não mencionar à minha filhinha — disse Andy. — Ela ficou comigo nas duas últimas semanas. Tem de estar de volta à casa da mãe amanhã de manhã.

— Direito de visita — disse o motorista. — Eu conheço bem essa história.

— Sabe, eu devia levá-la de avião.

—        Para Albany? Provavelmente Ozark, estou certo?

—        Certo. O problema é que tenho um medo mortal de avião. Sei que parece bobagem, mas é verdade. Habitualmente eu a levo de carro, mas desta vez a minha mulher veio para cima de mim... e não sei. — Na verdade Andy não sabia. Tinha inventado essa história na aflição do momento, e agora parecia-lhe estar indo direto para um beco sem saída, devido principalmente ao cansaço excessivo.

—        Então devo deixá-lo no velho aeroporto de Albany para que a mamãe pense que o senhor chegou de avião, certo?

—        Sem dúvida. — A cabeça latejava-lhe.

—        Também, como a mamãe quer, o senhor não é nenhum cangancheiro, não estou certo?

— Claro. — Cangancheiro? O que significaria aquilo? A dor estava piorando.

—        Cinco notas de cem para escapar de uma viagem de avião — cogitou o motorista.

—        Para mim vale o preço — disse Andy, e fez mais uma pe­quena pressão. Com voz muito calma, falando quase no ouvido do motorista, acrescentou: — E também deve valer para você.

—        Ouça — disse o motorista numa voz sonhadora. — Não pense que vou recusar quinhentos dólares. Imagine!

—        OK — disse Andy, e acomodou-se. O motorista ficou satis­feito. Não pensava na história malcontada de Andy. Não pensava que uma menininha de sete anos não poderia fazer uma visita ao pai por duas semanas no mês de outubro, época de aulas. Não pensava a respeito do fato de nenhum dos dois ter pelo menos uma maleta. Nada o preocupava. Tinha sido “pressionado”. Agora Andy prosseguiria e pagaria o preço.

Pousou a mão na perna de Charlie. Ela dormia profundamente. Tinham andado toda a tarde, desde que Andy a apanhara na escola e a tirara da classe da segunda série com uma desculpa de que mal se lembrava.., a avó estava muito doente... pedia que fosse para casa.., lamentava ter de tirá-la no meio do dia. E, por baixo de tudo isso, um grande e crescente alívio. Como temera olhar para a sala da Sra. Mishkin e ver o lugar de Charlie vazio, com os livros bem arrumados dentro da carteira: Não, sr. McGee... ela saiu com seus amigos há umas duas horas... trouxeram um cartão do senhor... algo errado? Lembrou-se de Vicky, do súbito terror da casa vazia naquele dia. Seu desespero em busca de Charlie. Porque já uma vez eles a tinham pegado, ah, sim! Mas Charlie estava lá. Teria sido por um triz? Teria passado à frente deles por meia hora? Quinze minutos? Menos? Não queria pensar nisso. Tinha almoçado com Charlie no Nathan e passado o resto da tarde apenas andando. Andy podia agora admitir que ficara num terror pânico, andando nos metrôs, ônibus, mas principalmente a pé. E agora Charlie estava exausta.

Lançou-lhe um longo olhar amoroso. O cabelo que lhe caía sobre os ombros era de um louro perfeito, e, no sono, ela tinha uma beleza calma. Parecia-se tanto com Vicky que até doía. Ele fechou os olhos.

No banco da frente, o motorista olhava espantado para a nota de quinhentos dólares que o camarada lhe dera. Enfiou-a num bolso especial do cinto onde guardava todas as gorjetas. Não pensou que era estranho aquele cara ter perambulado por Nova York com uma menininha e uma nota de quinhentos dólares no bolso. Não se preocupava em como acertaria com o dono da agência de táxis. Só pensava em como sua amiguinha Glyn iria ficar excitada. Glynis repetia sempre que dirigir táxi era um trabalho decepcionante, desanimador. Muito bem, ela que esperasse só para ver aquela nota decepcionante, desanimadora, de quinhentos dólares.

Sentado no banco traseiro, Andy repousara a cabeça no encosto e fechara os olhos. A dor de cabeça chegava como um inexorável cavalo negro sem cavaleiro, num cortejo fúnebre. Ele podia ouvir as batidas dos cascos desse cavalo nas têmporas: tam... tam... tam.

Estavam fugindo. Ele e Charlie. Tinha trinta e quatro anos e até o ano anterior fora professor de inglês no Harrison State College, em Ohio. Harrison era uma pacata cidadezinha universitária. A boa velha Harrison, no coração da América. O bom velho Andrew McGee, o jovem distinto, íntegro. Recordam-se daquela charada? Por que um fazendeiro é o pilar da comunidade? Porque ele sem­pre se destaca no seu campo.

Tam, tam, tam, o cavalo negro sem cavaleiro, de olhos verme­lhos, descia pelos canais da sua mente com os cascos de ferro, cavando moles torrões cinzentos de massa cerebral, deixando pegadas de cascos que se encheriam com místicos crescentes de sangue.

O motorista tinha sido facilmente persuadido. Sem dúvida. Um extraordinário motorista de táxi. Andy cochilou e viu o rosto de Charlie. E o rosto de Charlie transformou-se no rosto de Vícky.

Andy McGee e sua mulher, a bela Vicky. Tinham-lhe arrancado as unhas, uma por uma. Tinham-lhe arrancado quatro, e então ela falou. Essa pelo menos fora a dedução dele. Polegar, indicador, mediano, anular. Então: “Parem, eu vou falar. Eu lhes direi tudo o que quiserem saber, mas parem com essa tortura. Por favor”. E foi assim que ela falou. E então.., talvez tenha sido um acidente... então sua mulher morrera. Naturalmente algumas coisas são maio­res do que nós dois, outras coisas são maiores do que todos nós. Coisas como a Oficina, por exemplo.

Tam, tam, tam, o cavalo negro sem cavaleiro se aproxima, se aproxima, se aproxima: Olhem um cavalo negro!

Andy dormiu.

E recordou.

 

O         homem encarregado da experiência era o Dr. Wanless. Era gordo e meio calvo, e tinha pelo menos um hábito bastante es­tranho.

— Vamos dar em cada um de vocês, doze moças e rapazes, uma injeção — disse ele, esfrangalhando um cigarro no cinzeiro à sua frente. Com seus dedinhos rosados, pegou o fino papel do cigarro, espalhando os pequenos cones compactos de tabaco castanho-dou­rado. — Seis dessas injeções são de água. Seis contêm água mistura­da a uma quantidade mínima de um composto químico que chama­remos Lote 6. A exata natureza do composto está classificada, mas trata-se essencialmente de um hipnótico e alucinógeno brando. Vocês compreendem, naturalmente, que o composto será administrado pelo método duplo-cego... o que significa que nenhum de vocês ou de nós saberá quem recebeu e quem não recebeu uma dose neutra, até mais tarde. Vocês doze ficarão sob estrita vigilância durante quarenta e oito horas após a injeção. Alguma pergunta?

Houve várias, a maioria sobre a exata composição do Lote 6; a palavra “classificada” era como pôr detetives no rastro de um condenado. Wanless desviou-se das perguntas com grande habilidade. Ninguém fizera a pergunta que mais interessava ao jovem de vinte e dois anos, Andy McGee. Ele pensou em levantar a mão no silêncio que reinava na sala quase deserta do edifício que reunia os cursos de psicologia e sociologia de Harrison, para perguntar:

“Por favor, por que o senhor está desperdiçando desse modo cigar­ros em perfeito estado? Melhor seria não fazer isso. Melhor seria deixar a imaginação correr à rédea solta enquanto continuasse este tédio”. Estava tentando deixar de fumar. Os que têm fixação oral fumam; os que têm fixação anal destroem os cigarros. (Isso trouxe um ligeiro sorriso aos lábios de Andy, que o disfarçou com a mão.) O irmão de Wanless morrera de câncer pulmonar, e o médico estava simbolicamente liberando suas agressões contra as indústrias de cigarros. Ou talvez se tratasse apenas de um desses tiques espeta­culares que os professores de faculdade se sentem compelidos a exibir ao invés de suprimir. Andy tivera um professor de inglês no seu segundo ano em Harrison (felizmente, agora aposentado) que cheirava a gravata constantemente enquanto dava aula sobre o escritor e editor americano William Dean Howell e o surgimento do Realismo.

— Se não há mais perguntas, pediria que preenchessem estes formulários, e espero vê-los, às nove horas em ponto, na próxima terça-feira.

Dois professores assistentes distribuíram fotocópias com vinte e cinco perguntas ridículas para serem respondidas “sim”ou “não” .“Já foi submetido a aconselhamento psiquiátrico?” — número 8.

“Acredita ter tido alguma vez uma experiência psíquica autêntica?” — número 14. “Alguma vez usou drogas alucinógenas?” — número 18. Após ligeira pausa, Andy respondeu “não” nesse item, pensan­do: “Neste admirável ano de 1969*, quem não as usou?”

Fora levado a essa experiência por Quincey Tremont, seu com­panheiro de quarto na faculdade. Quincey sabia que a situação financeira de Andy não era nada boa. Estavam no mês de maio, no último ano da faculdade; ele ia se diplomar em quadragésimo lugar numa turma de quinhentos e seis alunos, e em terceiro lugar no curso de inglês. Mas isso não enchia barriga, como dissera a Quincey, que se especializava em psiquiatria. Andy tinha um lugar de assistente à sua espera a partir do outono, o que, juntamente com uma bolsa-empréstimo, seria apenas suficiente para a sua manutenção e para conservá-lo no curso de graduação de Harrison. Mas tudo isso era para o outono, e, entrementes, haveria o inter­valo do verão. O melhor emprego que pudera arrumar até então fora um cargo de responsabilidade num posto de gasolina, no turno da noite.

— O que acha de uns duzentos dólares de repente? — perguntara-lhe Quincey.

Andy afastara os longos cabelos escuros dos olhos verdes e mostrara os dentes num sorriso.

— Em que quarto masculino devo prestar meus serviços?

— Não, trata-se de uma experiência psíquica. Mas dirigida pelo Dr. Biruta. Fique prevenido.

 

* Alusão ao Admirável Mundo Novo, de A. Huxley. (N. da T.)

 

—        Quem é ele?

—        Wanless. O grande chefão da medicina dentro e fora do Departamento de Psicologia.

—        Por que o chamam de Dr. Biruta?

— Bem, ele é um homem de cobaias, e ao mesmo tempo um discípulo de Skinner. Um behaviorista. Atualmente os behavio­ristas não são precisamente os mais amados.

—        Oh! — exclamou Andy, confuso.

—        Além disso, ele usa óculos pequenos de lentes grossas, sem aro, que o tornam muito parecido com aquele cara que encolhia pessoas no Dr. Cyclops *. Você viu o filme?

Andy, que tinha o hábito de ver as sessões da meia-noite, sen­tiu-se em terreno mais seguro. Mas não estava certo de querer participar de qualquer experiência conduzida por um professor classi­ficado como a) homem de cobaias e b) Dr. Biruta.

— Mas eles não estão querendo encolher pessoas, estão?

Quincey riu animadoramente.

— Não, isso destina-se estritamente a pessoas que trabalham para o departamento de efeitos especiais dos filmes de horror classe B. O Departamento de Psicologia vem testando uma série de alu­cinógenos de baixa potência. Trabalha em conjunto com o serviço secreto americano.

— A CIA? — perguntou Andy.

—        Nem CIA, nem DIA*, nem NSA* — respondeu Quincey. —Ë de menor porte do que qualquer uma delas. Você já ouviu falar do grupo chamado Oficina?

— Talvez num suplemento de domingo ou coisa semelhante. Não tenho certeza.

Quincey acendeu o cachimbo.

— Essas coisas funcionam quase da mesma maneira em todos os cursos. Os rapazes da psicologia, da química, da biologia e até mesmo da sociologia recebem parte da grana. Alguns cursos são subvencionados pelo governo. Qualquer coisa desde o rito de aca­salamento da mosca tsé-tsé até a possível remoção da escória do plutônio usado. Uma organização como a Oficina tem de gastar todo o seu orçamento anual para justificar a mesma verba no ano se­guinte.

— Essa merda me perturba seriamente — disse Andy.

—Perturba qualquer indivíduo pensante — disse Quincey com um sorriso calmo, imperturbável. — Mas a gente vai levando.

O         que pode querer o nosso serviço secreto com esses alucinógenos

 

* Nome de um dos três titãs de um olho só da mitologia grega. (N. da T.)

* Defense Intelligence Agency. (N. da T.)

*          National Security Agency. (N. da T.)

 

de baixo teor? Quem sabe? Nem eu nem você sabemos. Provavel­mente eles também não. Mas os relatórios causam bom efeito nos comitês por ocasião da renovação de orçamentos. Eles têm seus prediletos em todos os departamentos. Em Harrison, Wanless é o preferido no Departamento de Psicologia.

— A administração não se importa?

— Não seja ingênuo, meu rapaz. — Sugava o cachimbo, para sua plena satisfação, e lançava ao ar grandes nuvens fedorentas de fumaça na sala de estar do apartamento bagunçado. Por isso, sua voz era mais fluente, mais cheia, mais no estilo de Buckley. — O que é bom para Wanless é bom para o Departamento de Psicologia de Harrison, que no próximo ano terá o seu próprio edifício; não haverá mais nenhuma promiscuidade com aqueles tipos da socio­logia. E o que é bom para a Psi é bom para a Faculdade Estadual de Harrison. E para Ohio, e todo esse blablablá.

— Você acha que é seguro?

— Não testariam a substância em estudantes voluntários se não fosse seguro — disse Quincey. — Quando têm alguma dúvida, testam-na em ratos e depois em condenados. Você pode estar certo de que aquilo que vão aplicar em você já foi experimentado antes em cerca de trezentas pessoas, cujas reações foram cuidadosamente controladas.

— Não gosto de me meter com a CIA.

— Oficina.

— Qual é a diferença? — perguntou Andy taciturnamente. Olhou para o pôster de Quincey que mostrava Richard Nixon de pé diante de um carro usado todo arrebentado. Nixon sorria abertamente, e exibia um tosco V da vitória em cada punho fechado. Andy ainda mal podia acreditar que o homem tivesse sido eleito presidente menos de um ano antes.

— Bem, eu pensei que você poderia aproveitar os duzentos dólares, é só.

— Por que pagam tanto? — perguntou Andy, com um ar des­confiado.

Quincey jogou as mãos para o ar.

— Andy, é a benevolência do governo. Você não compreende isso? Há dois anos a Oficina pagou perto de trezentos mil dólares por um estudo de viabilidade da produção em massa de bicicletas explosivas, e isso foi publicado no Sunday Times. Mais uma das coisas do Vietnam, acho eu, embora talvez ninguém saiba ao certo. É como o loroteiro McGee costuma dizer: “Parecia uma boa idéia na ocasião”. — Quincey esvaziou o cachimbo com gestos rápidos e nervosos.

— Para camaradas desse tipo, todo o campus universitário da América parece uma grande Macy’s *. Eles copiam um pouco aqui, examinam as vitrinas ali. Mas se você não quiser...

— Talvez eu tope. Você também vai entrar nessa?

Quincey sorriu. O pai dele tinha uma cadeia de lojas de roupas de homem extremamente bem-sucedida em Ohio e Indiana.

— Não estou tão necessitado de duzentos dólares — disse ele. — Além disso, detesto injeções.

— Ah!

— Olhe. Não estou fazendo propaganda do negócio, pelo amor de Deus, mas você parecia tão faminto! As chances de você ficar no grupo neutro são de cinqüenta por cento, de qualquer maneira. Duzentos dólares para lhe injetarem água. Não é sequer água da torneira, tome nota, mas água destilada.

— Você pode arranjar isso para mim?

— Vou marcar encontro com um dos professores assistentes de Wanless. Talvez haja cinqüenta candidatos, muitos deles puxa-sacos que querem fazer média com o Dr. Biruta.

—        Gostaria que você parasse de chamá-lo assim.

— Wanless, então — disse Quincey, rindo. — Ele cuidará para que os bajuladores sejam pessoalmente eliminados. E minha garota vai cuidar para que a sua candidatura seja aprovada. Depois disso, meu querido, o resto é com você.

Assim, ele já tinha pronto o seu requerimento quando o aviso da admissão de voluntários apareceu no quadro do Departamento de Psicologia. Uma semana depois de ter entregue a proposta, uma professora assistente (a garota de Quincey, ao que parecia) chama­ra-o ao telefone para fazer-lhe algumas perguntas. Ele lhe dissera que seus pais eram falecidos, que seu tipo de sangue era O, que nunca participara antes de experiências num Departamento de Psi­cologia, que estava de fato matriculado atualmente em Harrison no curso de graduação, isto é, classe de 69, tendo mais de doze créditos necessários para classificá-lo como estudante de tempo integral. E, de fato, já tinha mais de vinte e um anos e estava legal­mente apto a assinar qualquer contrato público ou particular.

Uma semana depois, recebia uma carta por intermédio do correio do campus, comunicando-lhe que fora aceito e pedindo-lhe que assinasse um documento de consentimento e, por favor, o le­vasse à sala número 100 do Jason Gearneigh Mali, no dia 6 de maio.

E ali estava ele, documento entregue, depois da saída do des­truidor de cigarros, Wanless (realmente ele se parecia um pouco com o médico biruta do filme Dr. Cyclops), respondendo às perguntas.­  

 

* Cadeia de lojas de departamentos em todo o território americano. (N. da T.)

 

a respeito das suas experiências religiosas, juntamente com outros onze estudantes de graduação. Tivera epilepsia? Não. Seu pai morrera subitamente de colapso cardíaco quando ele tinha onze anos. A mãe morrera em um acidente de carro quando ele tinha dezessete anos, uma coisa séria e traumática. Sua única ligação familiar próxima era com a irmã de sua mãe, tia Cora, que já estava bem velha. Ele seguiu a coluna das perguntas, registrando NÃO, NÃO, NÃO. Só respondeu SIM a uma pergunta. “Já sofreu alguma fratura ou entorse grave? Se SIM, especifique.” No espaço para a resposta escreveu como quebrara o tornozelo esquerdo ao escorregar na segunda base durante o jogo de beisebol da segunda divisão, doze anos antes.

Estava revendo de baixo para cima as respostas, passando de leve a ponta da esferográfica no papel, quando alguém lhe bateu no ombro e uma voz de moça, doce e ligeiramente rouca, perguntou:

— Pode me emprestar a caneta, se já acabou? A minha secou.

— Naturalmente — respondeu ele, virando-se para lhe dar a caneta. Que bela moça! Alta, cabelo castanho-acobreado, pele mara­vilhosamente branca. Usava um suéter azul-forte e saia curta. Belas pernas. Sem meias. Apreciação casual da futura mulher.

Passou-lhe a caneta, e ela sorriu-lhe em agradecimento. Quan­do ela se curvou novamente sobre seu formulário, a luz do teto lançou reflexos de cobre em seus cabelos, amarrados com natura­lidade com uma larga fita branca.

Ele levou seu questionário para o assistente que estava na porta da sala.

— Muito obrigado — disse o assistente, como se estivesse programado, como o robô Bobbie. — Sala 70, sábado de manhã, às nove horas. Por favor, chegue na hora.

— Qual é a contra-senha? — sussurrou Andy asperamente.

O assistente riu polídamente.

Andy deixou a sala de aula, atravessou o hall em direção às enormes portas duplas (lá fora, o pátio entre os edifícios estava verde com a aproximação do verão, e os estudantes perambulavam de um lado para outro) e, de repente, lembrou-se da caneta. Quase desistiu dela, afinal era apenas uma esferográfica barata, e ainda ti­nha que estudar para as provas preliminares. Mas a moça era bonita, talvez valesse a pena um papo com ela. Ele não tinha ilusões quanto a sua própria figura ou ao seu estilo, ou a respeito do provável estado da moça (comprometida ou noiva), mas fazia um dia bonito e ele sentia-se bem. Decidiu esperar. Pelo menos daria mais uma olhada naquelas pernas.

Três ou quatro minutos depois, ela apareceu, com alguns cadernos e um livro debaixo do braço. Era muito bonita, de fato, e Andy concluiu que as pernas tinham merecido a espera; eram mais do que belas, eram espetaculares.

—        Oh, você está aí — disse ela, sorrindo.

—        É, estou aqui — respondeu Andy. — O que você pensa desse negócio?

— Não sei — respondeu ela. — Minha amiga disse que essas experiências são sempre realizadas; ela participou de uma delas no último semestre, com aqueles cartões de J. B. Rhine ESP, e ganhou cinqüenta dólares, embora tenha faltado a quase todas as sessões. Então pensei apenas... — Terminou o pensamento com uma sacudidela de ombros, atirando para trás o cabelo cor de cobre.

—        Eu também — disse ele, recebendo a caneta de volta. —A sua amiga é do Departamento de Psicologia?

— Sim, e também o meu namorado. Ele está numa das classes do Dr. Wanless, e por isso não pôde participar. Conflito de interes­ses ou coisa parecida.

Namorado. Lógico que uma beleza daquelas, alta e de cabelos cobreados, tinha um namorado. Assim gira o mundo.

— E você? — perguntou ela.

— A mesma história. Amigo no Departamento de Psicologia. A propósito, sou Andy, Andy McGee.

— E eu sou Vicky Tomlinson. Estou um pouco nervosa com essa história, Andy. E se eu embarcar numa viagem errada ou coisa semelhante?

— A experiência me parece interessante. E mesmo que seja ácido.., o ácido de laboratório é diferente dessa droga que a gente consegue na rua, como tenho ouvido dizer. Muito suave, muito macio, e administrado em circunstâncias muito calmas. Pro­vavelmente eles tocam o disco do Jefferson Airplane * — Andy sorria abertamente.

— Você sabe muita coisa sobre LSD? — perguntou ela com um sorriso no canto da boca que muito lhe agradou.

— Muito pouco — admitiu ele. — Experimentei duas vezes, uma há dois anos e outra no ano passado. De certo modo, senti-me bem. Limpou-me a cabeça... pelo menos foi isso que senti. Depois, parece que parte do velho grilo desapareceu. Mas não gostaria de fazer disso um hábito. Não me agrada sentir-me tão fora de controle. Aceita uma Coca-Cola?

—        Aceito — concordou ela, e juntos contornaram o edifício da Faculdade de Serviço Social.

Finalmente ele acabou pagando duas Cocas e passando a tarde com ela. À noite, beberam juntos umas cervejas no bar local. Acon­tece que ela e o namorado tinham chegado a uma encruzilhada, e

 

*Grupo de rock. (N. da T.)

 

ela não sabia exatamente como resolver o caso. Ele começara a agir como se fossem casados, disse ela a Andy, e proibira-a termi­nantemente de participar da experiência de Wanless. Justamente por essa razão, ela tinha ido em frente e assinado a permissão de consentimento para realizá-la, embora estivesse um tanto apavorada.

— Wanless parece realmente um medico biruta, isso é verdade —            disse ela, rodando o copo de cerveja na mesa.

— O que você achou daquela história dos cigarros?

Vicky deu uma gargalhada.

— Estranho modo de deixar de fumar, não é?

Andy perguntou se podia ir apanhá-la no dia da experiência, e ela concordou, satisfeita.

—        Seria bom entrar nisso com um amigo — disse ela, fitan­do-o com seus expressivos olhos azuis. — Estou realmente um pouco assustada, sabe? George estava tão.., como direi, inflexível!

            — Por quê? O que foi que ele disse?

— Na verdade não me disse nada, exceto que não confiava em Wanless. E disse mais, que quase ninguém no departamento confia nele, mas que muitos se inscrevem nos seus testes porque ele é o encarregado do curso de graduação. Além disso, sabem que é seguro, porque ele os limpa de qualquer impureza após as expe­riências.

Andy estendeu o braço e tocou-lhe a mão do outro lado da mesa.

— De qualquer modo, vamos provavelmente receber a água destilada. Não se preocupe, garota. Tudo vai correr bem.

Mas o que aconteceu, afinal, nada teve de bom. Nada mesmo.

 

albany

aeroporto de Albany patrão

ei patrão, aqui estamos, já chegamos

A mão do motorista sacudiu-o. Fazia balançar-lhe a cabeça. Que terrível dor de cabeça, meu Deus! Dores martelantes, penetrantes.

Ei!, patrão, olhe aí o aeroporto.

     Andy abriu os olhos, mas fechou-os logo em seguida por causa da luz branca que descia de uma lâmpada de sódio. Sentia um gemido agudo e terrível crescendo, crescendo, que o fazia estremecer. Sentia como se agulhas de aço estivessem sendo enfiadas em seus ouvidos. Avião. Partida. Aquilo começou a entrar nele através da névoa vermelha da dor. Ah, sim, doutor, agora tudo está vol­tando!

— Patrão? — O motorista parecia preocupado. — O senhor está bem? — Dor de cabeça. — A voz parecia-lhe vir de muito longe, engolida pelo som do jato, que felizmente começava a diminuir. — Que horas são?

— Quase meia-noite. Que luta chegar até aqui. Nem me fale, eu vou lhe contar! Os ônibus não estão funcionando mais, se esse era o seu plano. O senhor acha mesmo que não posso levá-lo à sua casa?

Andy procurava lembrar-se da história que contara ao moto­rista. Era importante que se lembrasse, com ou sem a monstruosa dor de cabeça. Por causa da repercussão. Se de algum modo con­tra-dissesse a primeira história, poderia provocar um efeito de rico­chete na mente do motorista. Esse efeito poderia dissipar-se, e de fato provavelmente era isso o que aconteceria, mas também poderia não desaparecer. O motorista podia apanhar uma ponta da história e fixá-la; em pouco tempo perderia o controle, só poderia pensar naquilo; pouco depois sua mente se faria em pedaços. Isso já tinha acontecido antes.

—        Deixei meu carro no estacionamento. Tudo está sob con­trole.

—        Ah! — O motorista sorria, aliviado. — Glyn não vai acre­ditar nisso, sabe? Nem me fale, vou lhe contar.

—        Certamente que vai acreditar. Você acredita, não é?

O motorista sorriu abertamente.

— Tenho a grana alta para provar, patrão. Muito obrigado.

— Eu é que lhe agradeço — disse Andy. Esforce-se para ser polido. Esforce-se para continuar. Por Charlie. Se estivesse só já teria me matado há muito tempo. Um homem não é feito para suportar dores dessa natureza.

— O senhor está mesmo bem, patrão? O senhor está muito pálido.

—        Estou muito bem, obrigado. — Começou a sacudir Charlie. — Ei, meu bem. — Tomava cuidado para não falar o nome dela. Provavelmente não teria importância, mas a precaução vinha tão naturalmente como a respiração. — Acorde, chegamos.

Charlie resmungou e tentou virar-se para longe dele.

—        Vamos, minha boneca. Acorde, meu amor.

Charlie piscou e acabou abrindo aqueles expressivos olhos azuis que herdara da mãe; sentou-se e esfregou o rosto.

—        Papai, onde estamos?

— Albany, meu amor. No aeroporto. — E inclinando-se para mais perto murmurou: — Não diga nada por enquanto.

— OK. — Ela sorriu para o motorista, e o motorista sorriu-lhe de volta.

Charlie esgueirou-se para fora do táxi, e Andy seguiu-a, tentan­do não cambalear.

— Muito obrigado de novo, patrão — disse o motorista. —Escute aqui, grande corrida. Nem me fale, vou lhe contar!

Andy apertou a mão estendida.

— Tome cuidado.

— Vou tomar, mas Glyn não vai acreditar nesta história.

O         motorista voltou para o carro e afastou-se do meio-fio pin­tado de amarelo. Um outro avião estava decolando, o motor girava e girava antes de alçar vôo, e Andy sentiu que sua cabeça iria se partir em dois pedaços e cair no asfalto como uma cabaça vazia. Cambaleou um pouco, e Charlie segurou-o pelo braço.

— Oh, papai! — A voz de Charlie parecia vir de longe.

— Vamos para dentro. Preciso me sentar.

Entraram, a menininha de calças vermelhas e blusa verde e o homem alto de cabelos pretos, desgrenhados, e ombros caídos. Um guarda observou-os e pensou que era um verdadeiro pecado um homenzarrão daqueles estar fora de casa depois da meia-noite, parecendo estar bêbado como um lorde, e sua filhinha, que deveria estar na cama há muito tempo, ter de guiá-lo como um cão de cego. Pais como esse deveriam ser esterilizados, pensou o guarda.

Então eles passaram pelas portas controladas eletronicamente e o guarda esqueceu-se deles até uns quarenta minutos depois, quando o carro verde parou junto ao meio-fio e dois homens saíram para falar com ele.

 

Já era meia-noite e dez. O pessoal da madrugada acabara de tomar conta do hall do terminal: militares em final de carreira, mulheres que pareciam exaustas, guiando um bando heterogêneo de crianças ainda tontas de sono, homens de negócios com os olhos empapuçados de cansaço, jovens em trânsito com botas altas e cabelo comprido, alguns deles com bolsas às costas, um casal com raquetes de tênis encapadas. O alto-falante anunciava chegadas e partidas e chamava pessoas pelo nome como uma voz onipotente num sonho.

Andy e Charlie sentaram-se lado a lado, cada um a uma mesa com tevê presa a ela. As tevês, arranhadas e amassadas, estavam pintadas de preto. Para Andy pareciam cobras sinistras e futuristas. Ele enfiou suas duas últimas moedinhas dentro delas, para não serem solicitados a deixar seus lugares. Na tevê de Charlie estava passando uma reapresentação de The Rookies e na de Andy, Johnny Carson dirigia um programa cômico com Sonny Bono e Budy Hackett.

—        Papai, tenho que fazer aquilo? — perguntou Charlie pela segunda vez. Estava à beira das lágrimas.

—        Meu amor, estou exausto. Não temos dinheiro. Não pode­mos ficar aqui.

—        Aqueles homens maus estão chegando? — perguntou ela, e sua voz baixou para um sussurro.

—        Não sei. — Tam, tam, tam, na sua cabeça. Já não era um cavalo negro sem cavaleiro; agora eram sacos de correio cheios de pedaços pontiagudos de ferro que caiam sobre ele de uma janela do quinto andar. — Temos que admitir que podem chegar.

— Como posso conseguir dinheiro?

Ele hesitou e acabou dizendo:

—        Você sabe.

As lágrimas começaram a brotar e a escorrer-lhe pelas bo­chechas.

—        Não é direito. Não é direito roubar.

— Eu sei. Mas também não é direito eles continuarem atrás de nós. Já lhe expliquei isso, Charlie. Pelo menos, tentei.

— Aquilo de um pouco ruim e muito ruim?

—        Sim, mal menor e mal maior.

— A sua cabeça está doendo mesmo?

— Terrivelmente — disse Andy. Não adiantava dizer que dali a uma hora ou talvez duas estaria tão mal que já não consegui­ria pensar coerentemente. Não adiantava assustá-la mais ainda. Não adiantava dizer-lhe que ele achava que dessa vez não conseguiriam escapar.

—        Vou tentar — disse Charlie, e levantou-se da cadeira. — Coitadinho do papai — acrescentou, beijando-o.

Andy fechou os olhos. A tevê continuava funcionando diante dele, um falatório longínquo, sons em meio à dor de cabeça, que continuava aumentando. Quando ele abriu os olhos de novo, ela era apenas uma figurinha distante, muito pequena, vestida de vermelho e verde, como um enfeite de Natal abrindo caminho entre as pessoas dispersas no grande hall.

       Meu Deus, por lavar, que ela esteja bem, pensou ele. Não permita que alguém se meta com ela ou a assuste mais ainda. Por Iavor e obrigado, meu Deus, está bem?

Fechou os olhos de novo.

 

Uma menina de calça vermelha de malha e blusa verde de raiom. Cabelos louros pelos ombros. Ainda acordada a altas horas, aparentemente sozinha. Estava num dos poucos lugares em que uma menina sozinha podia passar despercebida depois da meia-noite. Passava pelas pessoas, mas na verdade ninguém a via. Se estivesse chorando, um guarda de segurança poderia ter aparecido para perguntar-lhe se estava perdida, se sabia para que vôo seu pai e sua mãe tinham comprado passagens, quais os nomes deles, para que pudessem ser chamados pelo alto-falante. Mas ela não estava chorando, e parecia saber para onde ia.

Na realidade não sabia, mas tinha uma idéia bastante certa do que estava procurando. Precisavam de dinheiro; fora o que o pai lhe dissera. Os homens ruins estavam chegando e o pai estava doente. Quando ele ficava atacado assim, era-lhe muito difícil pensar. Tinha que se deitar e ficar o mais quieto possível. Tinha que dormir até a dor passar. E os homens ruins podiam estar chegan­do... os homens da Oficina, os homens que queriam separá-los para apurar o que os fazia agir e que queriam descobrir se eles podiam ser usados para fazer certas coisas.

Ela viu um saco de papel de supermercado que se projetam para fora de uma cesta de lixo e pegou-o. Um pouco adiante, no grande hall, viu o que procurava: uma bancada de telefones que funcionavam com moedas. Olhou para elas; estava com medo. Tinha medo porque o pai lhe dissera muitas vezes que ela não devia fazer aquilo.., desde pequenina isso era a Coisa Ruim. Nem sempre conseguia controlar a Coisa Ruim. Podia machucar-se, machucar alguma outra pessoa, ou uma porção de gente. Naquele tempo

(ó, mamãe, eu estou triste pelo machucado, os curativos, os seus gritos, os gritos que ela soltou, eu fiz a minha mãe gritar e eu nunca.., nunca mais.., porque isso é uma Coisa Ruim)

na cozinha, quando era pequena.., mas doía pensar nisso. Era uma Coisa Ruim, porque quando se deixava solta, ela ia por toda parte. E isso dava medo.

 

E havia outras coisas. O poder mental, por exemplo, era como o pai chamava aquilo, a dominação. Só que ela tinha maior poder do que o pai e nunca tinha dores de cabeça depois. Mas, às vezes, depois.., havia incêndios.

A palavra para a Coisa Ruim ressoava-lhe na cabeça enquanto ela olhava, nervosa, para os fios do telefone: pirocinesia. “Não se importe com isso”, o pai lhe dissera quando ainda estavam em Port City, pensando, como idiotas, que estavam seguros. “Você e uma incendiária, querida. Exatamente como um grande isqueiro Zippo.” E naquela hora aquilo parecera-lhe engraçado, ela rira, mas agora não tinha graça nenhuma.

A outra razão pela qual ela não devia usar seu poder mental era que eles poderiam descobrir. Os homens ruins da Oficina. “Não sei quanto eles sabem a seu respeito agora”, dissera-lhe o pai, “mas não quero que descubram mais nada. Seu poder mental não é exatamente igual ao meu, querida. Você não pode fazer.., bem, fazer as pessoas mudarem de idéia, pode?” Ela dissera “Nããão...” E papai continuara: “Mas você pode fazer as coisas se mexerem. E se algum dia eles perceberem que é você que faz essas coisas, e o modo como você as faz, estaremos em situação ainda pior do que agora

Era roubo, e roubo também era uma Coisa Ruim.

Não importa. A cabeça do pai estava doendo, e eles tinham que encontrar um lugar quente e tranqüilo antes que a dor piorasse a ponto de ele não poder pensar. Charlie foi em frente.

Havia cerca de quinze cabinas ao todo, com portas circulares corrediças. Quando se entrava na cabina era como estar dentro de uma grande cápsula de plástico transparente de remédio, com um telefone dentro. A maioria das cabinas estavam às escuras, Charlie reparara nisso ao passar por elas. Numa havia uma senhora gorda, que vestia um conjunto de calça e casaco e falava, muito animada e sorridente. E, na antepenúltima cabina, estava um rapaz de uni­forme de soldado, sentado no banquinho, com a porta aberta e as pernas para fora. Falava depressa.

— Sally, escute, eu compreendo como se sente, mas posso ex­plicar tudo. Absolutamente tudo. Eu sei.., eu sei.., mas se você me deixar... — Levantou os olhos, viu que a menina o observava, recolheu as pernas e fechou a porta circular, num movimento só, como uma tartaruga que se encolhe dentro da carapaça. Estava brigando com a namorada, pensou Charlie. Provavelmente deixara-a esperando e não aparecera. Eu nunca deixarei um camarada fazer isso comigo.

O         eco de um alto-falante. O medo roendo-a por trás da cabeça como um rato. Todos os rostos eram estranhos. Sentiu-se só e muito pequena, triste e cheia de desgosto por causa da mãe, mesmo agora. Aquilo era roubo, mas que importava? Eles não tinham roubado a vida de sua mãe? Entrou na última cabina, com o saco de papel estalando. Levantou o fone do gancho e fingiu que falava

— “Alô, vovô. Papai e eu acabamos de chegar, estamos muito bem” — e olhou pelo vidro para ver se alguém a observava. Não havia ninguém. A pessoa mais próxima era uma mulher negra, que, de costas para Charlie, fazia seguro de vôo numa máquina automá­tica de moedas.

Charlíe olhou para o telefone automático e subitamente pres­sionou-o mentalmente.

Com o esforço, escapou-lhe um ligeiro gemido, e ela mordeu o lábio inferior. Achou agradável a maneira como ele se espremeu entre os dentes. Não, não sentiu dor alguma. Era bom pressionar as coisas, não havia razão para se assustar. E se ela começasse a gostar daquela coisa perigosa?

Charlie dirigiu novo impulso mental ao telefone, muito leve­mente dessa vez, e de repente uma onda de moedas jorrou da fenda de restituição. Tentou pôr o saco debaixo dela, mas, quando o con­seguiu, a maioria das moedas tinha se espalhado pelo chão. Curvou-se e varreu tudo o que pôde para dentro do saco, olhando repetidas vezes para fora através da janela. Depois que apanhou todas as moedas, ela dirigiu-se para outra cabina. O militar ainda estava falando. Voltara a abrir a porta e fumava.

— Sal, juro por Deus que fiz! Pergunte ao seu irmão, se você não acredita em mim! Ele...

Charlie empurrou a porta; ao fechá-la, cortou o som daquela voz um tanto lamurienta. Tinha apenas sete anos, mas sabia quando alguém passava a conversa no outro. Olhou para o telefone, que logo depois lhe entregava as moedas. Dessa vez colocara correta­mente o saco, e os níqueis cascatearam para dentro dele com um tinido musical.

Quando saiu da cabina, o militar já tinha ido embora, Charlie entrou na cabina que ele ocupara. O assento ainda estava quente e o ar cheirava desagradavelmente a fumaça de cigarro, apesar do ventilador. O dinheiro cascateou dentro do saco, e ela seguiu adiante.

Eddie Delgardo sentara-se numa cadeira torneada, de plástico duro. Olhava para o teto e fumava. Aquela vaca, pensava. Ela vai refletir duas vezes antes de ficar com aquelas danadas pernas fechadas da próxima vez. Eddie isto, e Eddie aquilo, Eddie, não quero vê-lo nunca mais, e Eddie, como você pôde ser tão crueeel? Mas ele mudara de opinião quanto àquela velha declaração de “nunca mais quero vê-lo”. Teria trinta dias de férias, iria para Nova York, a Big Apple*, para apreciar a paisagem e visitar os bares de solteiros. E quando voltasse, Sally em pessoa estaria como uma grande maçã madura, pronta para cair. Aquela conversa de “você não tem nenhum respeito por mim” desapareceria diante de Eddie Delgardo, de Marathon, Flórida.

Sally Bradford ia abortar. Se ela acreditara realmente naquela lorota de ele ter feito vasectomia, pior para ela. Ela que vá cor­rendo para aquele caipira do irmão dela, aquele mestre-escola, se ela quiser. Eddie Delgardo estaria dirigindo um caminhão de trans­porte do exército em Berlim Ocidental. Ele seria...

A seqüência do seu sonho acordado, meio ofendido, meio satisfeito, foi interrompida por uma sensação de calor vinda dos pés; era como se o chão subitamente tivesse ficado dez graus mais quente. E ao mesmo tempo havia um cheiro estranho mas não totalmente desconhecido... não de alguma coisa queimada... al­guma coisa chamuscada, talvez? Abriu os olhos, e a primeira coisa que viu foi à menininha que tinha andado por ali, diante das cabi­nas telefônicas, uma menininha de sete ou oito anos que parecia realmente esmolambada. Agora ela estava carregando um grande saco de papel, segurando-o pelo fundo como se estivesse cheio de mantimentos ou coisa parecida.

            Mas os pés dele eram o que importava. Já não estavam quen­tes, estavam pelando.

Eddie Delgardo olhou para baixo e gritou:

—        Meu Deus do céu!

Seus sapatos ardiam em chamas.

De um pulo, Eddie se pôs de pé. Olhares voltaram-se para ele. Algumas mulheres viram o que estava acontecendo e deram alarme aos gritos. Dois guardas de segurança que observavam um funcionário da Companhia de Aviação Allegheny acorreram para ver o que acontecia.

Nenhum deles significava nada para Eddie Delgardo. Os pensamentos sobre Sally Bradford e sua vingança de amor contra

 

* Apelido da cidade de Nova York. (N. da T.)

 

ela já não lhe ocupavam a cabeça. Os sapatos fornecidos pelo exérci­to estavam se queimando alegremente. As bainhas das suas calças verdes pegavam fogo. Ele atravessou o saguão numa corrida tão veloz quanto um rastro de fumaça, como se tivesse sido catapultado. O toalete das senhoras era o que estava mais perto; Eddie, cujo senso de auto-preservação se mostrou bem definido, abriu a porta com o braço estendido e entrou correndo sem a menor hesitação.

     Uma jovem estava saindo de um dos compartimentos, com a saia levantada para ajustar a roupa de baixo. Viu Eddie, uma tocha humana, e lançou um grito, enormemente ampliado pelo revestimento de azulejos do banheiro. Houve um zunzum, “O que foi?”, “O que está acontecendo?”, em alguns outros compartimen­tos ocupados. Eddie alcançou a porta automática antes que ela voltasse e se trancasse. Pendurou-se nas paredes do compartimento e enfiou os pés na privada. Ouviu-se um chiado, e uma grande onda de vapor se elevou.

     Os dois guardas de segurança irromperam pelo toalete.

     — Pare aí, você aí dentro — gritou um deles, puxando o revólver. — Saia daí com as mãos cruzadas sobre a cabeça.

     —  Você se importa de esperar até que eu tire os meus pés da água? — rosnou Eddie cinicamente.

 

       Charlie voltara e estava chorando de novo.

       — O que aconteceu, querida?

       — Eu consegui o dinheiro.., mas me descontrolei de novo, papai.., tinha um homem, um soldado.., não pude evitar...

     Andy sentiu crescer nele o medo que estivera abafado pela dor na cabeça e na nuca.

     —  Houve.., houve incêndio, Charlie?

     Ela não conseguia falar, mas concordou com a cabeça. As lá­grimas corriam-lhe pelas faces.

     —  Ah, meu Deus! — sussurrou Andy, e fez um esforço para se pôr de pé, o que acabrunhou Charlie completamente. Ela pôs as mãos no rosto e soluçou, desamparada, balançando-se para a frente e para trás.

       Formou-se um grupo de pessoas em torno da porta do toalete das senhoras. A porta estava aberta, porém Andy não conseguia ver.., mas de repente viu. Os dois guardas de segurança, que tinham chegado ali correndo, levavam um jovem de aspecto forte, com uniforme do exército, do toalete para a sala de segurança. O homem os xingava aos brados, e quase tudo o que lhes dizia era inventivamente irreverente.

—      Abaixo dos joelhos, o uniforme desaparecera quase completa­mente, e ele carregava nos pés dois objetos negros e molhados, que haviam sido sapatos algum dia. Entraram em seguida na sala, e a porta bateu atrás deles.

Um falatório espalhava-se pelo aeroporto.

Andy sentou-se de novo e passou o braço em torno de Charlie. Não conseguia pensar direito, seus pensamentos eram como peixi­nhos de prata nadando em espirais num grande mar negro de dor latejante. Mas teria de esforçar-se. Precisava de Charlie para saírem daquela situação.

—        Ele está bem, Charlie. Ele está bem. Só o levaram para a sala de segurança. Agora me diga, o que aconteceu?

Em meio às lágrimas que diminuíam, Charlie contou-lhe. Ou­vira por acaso o soldado ao telefone. Fizera uma idéia a seu respeito, tivera a impressão de que ele estava tentando tapear a moça com quem falava.

—        E então, quando voltava para cá, eu o vi... e, antes que pudesse me conter.., aconteceu. Escapou. Eu podia ter ferido ele, papai. Eu podia ter ferido muito ele. Eu pus fogo nele.

—        Fale baixo — disse Andy. — Quero que você me escute, Charlie. Acho que isso foi a coisa mais animadora que aconteceu ultimamente.

—        Acha, papai? — Ela olhava-o com franca surpresa.

—        Você disse que a coisa escapou de você — continuou Andy, forçando as palavras. — E assim foi, mas não como antes. Só um pouquinho. O que aconteceu foi perigoso, querida, mas.., você poderia ter posto fogo no cabelo dele. Ou no rosto.

Ela retraiu-se ante a idéia, horrorizada. Andy gentilmente virou o rosto dela de novo para si.

— É uma coisa subconsciente, e sempre se dirige a alguém de quem não se gosta — disse ele. — Mas você não feriu realmente aquele camarada, Charlie. Você... — Mas todo o resto da frase escapou, deixando apenas a dor. Ainda estaria falando? Por um momento nem ele mesmo sabia.

Charlie ainda podia sentir aquela coisa, a Coisa Ruim, girando dentro de sua cabeça, tentando escapar de novo e fazer mais algu­ma dessas coisas. Era como se fosse um animalzinho maldoso e tolo. Era preciso deixá-lo sair da gaiola para fazer alguma coisa, como, por exemplo, tirar dinheiro dos telefones... mas podia fazer outras coisas também, alguma coisa realmente ruim

       (como com a mamãe na cozinha, ó mamãe, desculpe)

       antes que se pudesse recolhê-lo de volta na gaiola. Mas agora não importava. Ela não pensaria nisso agora, não pensaria nisso

     (os curativos que mamãe teve de usar, porque eu a feri)

       agora. O que importava agora era o pai. Ele estava afundado na cadeira diante da tevê e tinha o rosto marcado pelo sofrimento, os olhos injetados, e estava branco como papel.

     Ó papai, pensou ela, eu trocaria facilmente de lugar com você, se pudesse. Você ficou com uma coisa que faz sofrer, mas nunca sai da gaiola. Eu fiquei com uma coisa maior, que não me faz mal, mas, às vezes, fico tão assustada!

     — Consegui o dinheiro. Não fui a todos os telefones, porque o saco estava ficando pesado e fiquei com medo de que se rom­pesse.

     Charlie olhava para ele ansiosamente.

     — Para onde podemos ir, papai? Você tem que se deitar. —Andy pegou o saco e começou a transferir lentamente punhados de moedas para os bolsos do casaco de veludo. Parecia-lhe que aquela noite jamais terminaria. Tudo o que ele queria era apanhar um outro táxi para ir a cidade e entrar no primeiro hotel ou motel que encontrasse.., mas tinha medo. O táxi podia ser seguido. E ele tinha a sensação de que o pessoal do carro verde estava bem perto, atrás deles.

     Procurou relembrar o que sabia do aeroporto de Albany. Em primeiro lugar, era o aeroporto do condado de Albany; na verdade não ficava exatamente em Albany, mas na cidade de Colonie. Terra de shakers *, não era o que o seu avô lhe dissera uma vez, que aquele era um país de shakers? Ou já teriam morrido todos? E quanto à estrada nacional? E a barreiras de pedágio? A resposta veio lentamente. Havia uma estrada... uma espécie de auto-estrada, Via Norte ou Via Sul, pensou. Abriu os olhos e olhou para Charlie.

     — Você acha que ainda pode andar, filhinha? Uns três quilô­metros, talvez?

     — Decerto. — Ela dormira, e sentia-se relativamente descan­sada. — E você?

     Essa era a questão. Ele não sabia.

     — Vou tentar — disse. — Acho que devemos caminhar até a estrada principal e lá procurar condução, meu bem.

     — Carona?

     Ele concordou com um gesto de cabeça.

   — Encontrar uma carona é difícil, Charlie. Se formos felizes, apanharemos uma carona e chegaremos a Buffalo pela manhã.

 

* Seita religiosa que sustenta que já se realizou o segundo advento de Cristo. (N. da T.)

 

E, se não tivermos sorte, pensou ele, estaremos parados no acostamento com nossos polegares levantados quando aquele carro verde chegar perto de nós.

—        Se você acha que está OK... — disse Charlie, em dúvida.

—        Vamos então, ajude-me.

Sentiu uma gigantesca pontada de dor quando se pôs de pé. Vacilou um pouco, fechou os olhos, abriu-os novamente. As pessoas pareciam-lhe pinturas surrealistas. As cores eram brilhantes demais. Uma mulher de saltos altos passou por eles, e cada pisada sua nos ladrilhos do aeroporto parecia o som de uma porta de casa-forte batida com violência.

—        Papai, você tem certeza de que vai poder andar? — Falava em voz baixa e estava muito assustada. Charlie, só Charlie, parecia bem.

—        Acho que posso. Vamos lá.

Saíram por uma porta diferente daquela por onde haviam entrado, e o guarda de segurança que os observara ao saírem do táxi estava ocupado, descarregando malas do bagageiro de um carro. Não os viu sair.

—        Para que lado, papai?

Ele olhou para os dois lados e viu que a Via Norte fazia adiante uma curva, passando por baixo e à direita do edifício do aeroporto. Como chegar lá — era a grande questão. Havia pistas por toda parte — por cima, por baixo, Não vire à direita, Pare ao sinal, Conserve a esquerda, Estacionamento proibido por qual­quer tempo. Os sinais de tráfego brilhavam na escuridão da madru­gada como espíritos angustiados.

—        Por aqui, parece-me — disse ele, e caminharam por toda a extensão do aeroporto, ao lado da estrada, onde havia sinais

EXCLUSIVAMENTE PARA CARGA E DESCARGA.

 

A calçada acabava no final do aeroporto. Um grande Mercedes prateado passou por eles, indiferente, e o reflexo brilhante das lâmpadas de sódio, ao incidir sobre a superfície do carro, provocou em Andy uma crispação nervosa.

Charlie olhou para ele interrogativamente. Andy fez-lhe um gesto afirmativo.

— Siga sempre tanto quanto possível pela beira da estrada. Você está com frio?

—        Não, papai.

—        Graças a Deus a noite está quente. Sua mãe... — Sua boca fechou-se sobre o que ia dizer.

Os dois entraram na escuridão, o homem alto e forte e a me­nininha de calça vermelha e blusa verde, que lhe segurava a mão como se o estivesse guiando.

 

O         carro verde apareceu uns quinze minutos depois e estacio­nou junto ao meio-fio amarelo. Dois homens desembarcaram, os mesmos que tinham perseguido Andy e Charlie em Manhattan. O motorista continuou sentado ao volante.

Um guarda do aeroporto aproximou-se.

—        O senhor não pode estacionar aqui — disse ele —, mas se avançar até ali...

— Certamente que posso — respondeu o motorista, mostran­do ao guarda a’ sua identidade. Serviço secreto. O guarda do aero­porto olhou para o cartão, para o motorista, e de novo para o retrato no cartão.

— Ah! — disse ele. — Desculpe-me. Trata-se de alguma coisa que devemos saber?

— Nada que afete a segurança do aeroporto — disse o moto­rista —, mas talvez vocês possam nos ajudar. Viram alguma dessas duas pessoas esta noite? — Entregou ao guarda uma fotografia de Andy e depois um retrato fora de foco de Charlie. O cabelo dela era mais comprido naquela época. No instantâneo estava preso num rabo-de-cavalo. A mãe ainda vivia. — A menina tem agora cerca de um ano mais — disse o motorista. — O cabelo dela está um pouco mais curto. Pelo ombro, mais ou menos.

O         guarda examinou os retratos cuidadosamente.

—        Sabe, acho que vi essa menininha. Cabelos louros quase brancos, não é? O retrato não ajuda.

— Cabelos louros, exatamente.

—        O homem é o pai?

— Não me faça perguntas, e eu não lhe direi mentiras.

O guarda do aeroporto sentiu uma onda de antipatia pelo jovem de rosto impassível que estava ao volante do carro verde. Lidara antes superficialmente com o FBI, a CIA e a organização que chamavam de Oficina. Seus agentes eram todos iguais, francamente arrogantes e com um tom protetor. Consideravam qualquer homem em uniforme azul um guarda ingênuo. Mas quando houvera aquele seqüestro ali, cinco anos antes, foram os ingênuos que tiraram do avião o camarada carregado de granadas, e ele estava sob custó­dia da polícia oficial quando se suicidou, abrindo a carótida com as unhas. Tudo bem, camaradas.

—        Olhe.., senhor. Perguntei se o homem era o pai dela para ver se havia alguma parecença de família. Estas fotografias não ajudam muito.

— Parecem-se um pouco. Mas a cor do cabelo é diferente.

Até aí eu sei, seu idiota!, pensou o guarda do aeroporto.

—        Eu vi os dois — disse o guarda ao motorista do carro verde. — Ele é um tipo alto, mais do que parece na fotografia. Tinha aspecto doente ou coisa parecida.

—        Verdade? — O homem ao volante parecia contente.

—        Tivemos uma noite terrível. E houve também um idiota que conseguiu pôr fogo nos próprios sapatos.

O         motorista endireitou-se, hirto por trás do volante.

—        O que foi que você disse?

O         guarda do aeroporto meneou com a cabeça, feliz de ter acabado com a fachada de tédio do motorista. Não teria ficado tão feliz se o motorista lhe tivesse dito que acabara de merecer uma sessão de interrogatórios nos escritórios da Oficina em Manhattan. Eddie Delgardo provavelmente lhe teria dado uma surra, pois, em vez de fazer a ronda pelos bares de solteiro (e os salões de massa­gens e lojas pornôs da Times Square), passaria todo o seu período de licença em estado de recordação total induzido por drogas, des­crevendo vezes seguidas o que acontecera antes que seus sapatos pegassem fogo.

 

Os outros dois homens do sedã verde falavam com o pessoal do aeroporto. Um deles descobriu o guarda que observara Andy e Charlie saindo do táxi e entrando no aeroporto.

— Eu vi, sim. Achei que era pura sem-vergonhice um homem bêbado como ele estar com uma menininha a essa hora da noite.

—        Talvez tenham tomado um avião — sugeriu um dos homens.

—        Pode ser — concordou o guarda. — Imagino só o que a mãe da criança poderá pensar. Será que ela sabe o que está acon­tecendo?

— Duvido que saiba — disse o homem de terno azul de con­fecção. Estava sendo muito sincero. — Você não os viu sair?

— Não, senhor. Que eu saiba, eles ainda estão por aqui, em algum lugar... exceto, é claro, se já tivessem chamado o vôo deles.

Os dois homens fizeram uma vistoria rápida na ala principal do aeroporto e nos portões de acesso, levando seus cartões de iden­tidade à vista, na mão, para que os guardas de segurança os vissem. Agora estavam junto ao balcão de passagem da United Airlines.

       — Nada — disse o primeiro.

       — Acha que tomaram um avião? — perguntou o segundo. Era o camarada de terno azul.

— Não acredito que esse sujeito tenha mais de cinqüenta dó­lares com ele.

       — Ë melhor inspecionarmos.

       — Certo. Mas depressa.

United Airlines, Allegheny, American, Braniff. As linhas do­mésticas. Nenhum homem de ombros largos, de aspecto doente, comprara passagens. O encarregado das bagagens da Albany Airlines achava, entretanto, que vira uma menininha de calça vermelha e blusa verde. Com um lindo cabelo louro pelos ombros. Os dois ho­mens encontraram-se outra vez junto às cadeiras de tevê em que Andy e Charlie tinham se sentado pouco tempo antes.

—        O que é que você acha? — perguntou o primeiro.

O         agente de terno azul parecia excitado.

— Acho que devemos vasculhar toda a área. Devem estar a pé.

Voltaram para o carro verde quase correndo.

 

Andy e Charlie continuavam andando no escuro pela suave lombada da estrada de carga e descarga do aeroporto. Ocasional­mente, um carro passava rápido por eles. Era quase uma hora da manhã. Cerca de um quilômetro e meio atrás deles, no aeroporto, os dois homens reuniram-se ao terceiro comparsa no carro verde. Andy e Charlie andavam agora paralelamente à Via Norte, que passava à direita e abaixo deles, iluminada pelo brilho das lâmpadas a vapor de sódio. Talvez fosse possível descer de quatro pela en­costa e tentar pedir uma carona no acostamento, mas, se um guarda surgisse, perderiam a mínima chance de escapar que ainda lhes restava. Andy imaginava quanto ainda teriam que andar para chegar até uma rampa. Todas as vezes que o pé lhe falhava, provocava um latejo que repercutia dolorosamente na cabeça.

— Papai, você ainda está se sentindo bem?

— Por enquanto, sim. — Mas não estava assim tão bem. Não se iludia, e duvidava de estar iludindo Charlie.

       — Quanto falta?

       — Você está ficando cansada?

—       Ainda não... mas, papai...

Ele parou e olhou solenemente para ela.

— O que foi, Charlie?

       — Sinto que aqueles homens maus estão por perto novamente — sussurrou.

       — Muito bem — disse ele —, acho melhor tomarmos um atalho, querida. Você é capaz de descer essa encosta sem cair?

Ela olhou para o declive coberto de grama seca do outono.

— Acho que sim — disse ela, em dúvida.

Andy passou a perna por cima das barras da cerca e ajudou Charlie a passar também. Como acontecia em momentos de extre­ma dor e cansaço, sua mente tentou fugir para o passado, para se livrar da tensão. Tinha havido alguns anos bons, algumas épocas boas antes que a sombra se insinuasse gradativamente em suas vidas, primeiro sobre ele e Vicky e depois sobre os três, encobrindo-lhes inexoravelmente a felicidade, gradativamente, como um eclipse da Lua. Tinha sido...

         — Papai! — gritou Charlie, subitamente alarmada. Escorre­gara. A grama seca era escorregadia, traiçoeira. Andy tentou segura-­la pelo braço, mas falhou e desequilibrou-se. Quando bateu no chão, o choque causou-lhe tal dor de cabeça que ele gritou alto. Então os dois rolaram encosta abaixo até a Via Norte, onde os carros passavam a tal velocidade que lhes seria impossível parar se um deles, ele ou Charlie, tombasse na pista.

 

O         professor assistente prendeu o elástico em torno do braço de Andy, acima do cotovelo, e disse:

— Feche o punho, por favor. — Andy obedeceu. A veia saltou com facilidade. Ele olhou para o lado, um pouco enjoado. Com ou sem duzentos dólares, não desejava ver a injeção intrave­nosa ser aplicada.

       Vicky Tomlinson estava no catre ao lado. Vestia uma blusa branca sem mangas e calça cinza. Deu-lhe um sorriso preocupado. Ele pensou de novo em como era lindo seu cabelo acobreado e como combinava com seus expressivos olhos azuis... então a dor da agu­lhada foi substituída por um calor entorpecente no braço.

       — Pronto — disse o assistente para confortá-lo.

       — Pronto para você — disse Andy, nada consolado.

       Estavam na sala 70 do Jason Gearneigh Hall, no andar su­perior. A enfermaria da faculdade emprestara doze catres, nos quais os doze voluntários estavam deitados, apoiados em travessei­ros de espuma hipo-alergênica, ganhando o seu dinheiro. O Dr. Wanless não aplicara pessoalmente qualquer das injeções, mas an­dava de um lado para outro entre os catres, dirigindo a cada um uma palavra de confiança e um sorriso ligeiramente gelado. A qual­quer momento vamos começar a encolher, pensou Andy morbida­mente.

       Wanless fizera um pequeno discurso quando todos se tinham reunido, e o que disse resumia-se essencialmente em: Não tenham receio. Vocês estão confortavelmente cobertos pelos braços da ciên­cia moderna. Andy não tinha muita fé na ciência moderna, que dera ao mundo a bomba H, o napalm e o fuzil laser, juntamente com a vacina Salk e o Clearasil contra a acne.

       O assistente agora pinçava a sonda intravenosa. O soro in­travenoso (iv) consistia em água com cinco por cento de dextrose, segundo Wanless dissera... o que ele chamava solução DSW. Abaixo do grampo saía uma pequena ponta da sonda iv. O Lote 6 seria administrado por essa ponta, se esse fosse o destino de Andy. Mas, se ficasse no grupo de controle, receberia apenas o soro glicosado. Cara ou coroa.

       Olhou novamente para Vicky.

       — Como está se sentindo, garota?

       — Bem.

       Wanless chegara. Parou entre eles, olhou primeiro para Vícky e depois para Andy.

       — Vocês sentem uma ligeira dor, não é verdade? — Ele não tinha sotaque algum, muito menos um sotaque regional, mas cons­truía as frases de uma forma que fez Andy pensar que o inglês era para ele uma segunda língua.

       — Pressão — disse Vicky. — Ligeira pressão.

       — Sim? Ela vai passar. — Sorriu benevolamente para Andy. Parecia muito alto em seu avental branco de laboratório. Seus óculos eram muito pequenos. O pequeno e o grande.

—       Quando começaremos a encolher? — perguntou Andy.

Wanless continuava sorrindo.

—       Você acha que vai encolher?

— Encoooolher — disse Andy, rindo tolamente. Alguma coisa estava lhe acontecendo. Por Deus, estava subindo! Estava escapando.

— Tudo vai correr bem — disse Wanless, sorrindo mais aber­tamente. Continuou andando. Tratador de cavalos.., não faz dife­rença para mim, pensou Andy, perturbado. Olhou novamente para Vicky. Como brilhavam seus cabelos! Por alguma razão maluca, lembravam-lhe fios de cobre na armadura de um novo motor... gerador.., alternador.., gozador...

Riu alto.

Sorrindo ligeiramente como se participasse da piada, o assis­tente pinçou a sonda e injetou mais um pouco do conteúdo do hipo-alergênico no braço de Andy, e retirou-se de novo. Andy podia ver agora a sonda iv. Não o incomodava agora. Eu sou um pinheiro, pensou. Vejam só minhas lindas agulhas. Riu novamente.

Vicky sorria para ele. Deus, como ela é linda! Queria dizer-lhe como ela era bonita, como o cabelo dela parecia cobre em chamas.

— Muito obrigado — disse ela. — Que cumprimento gentil! — Teria ela dito isso? Ou ele tinha imaginado?

Juntando os últimos cacos da mente, ele disse:

— Acho que não fui sorteado com a água destilada, Vicky.

— Eu também não — respondeu ela placidamente.

— Ótimo, não é?

— Ótimo — concordou ela sonhadoramente.

Em algum lugar alguém estava chorando. Balbuciando histeri­camente. O som elevava-se e diminuía em ciclos. Após o que lhe pareceram séculos de contemplação, Andy virou a cabeça para ver o que estava acontecendo. Era interessante. Tudo se tornara interessante. Tudo parecia estar acontecendo em slow motion*..., slomo, como o crítico cinematográfico de vanguarda do campus escrevia na sua coluna. “Neste filme, como em outros, Antonioni consegue alguns dos seus efeitos mais espetaculares com o seu hábito de cenas em slomo.” Que palavra interessante e realmente inteligente; tinha o som de uma cobra escapando de uma geladeira: slomo.

Vários assistentes corriam em slomo na direção de um catre colocado perto do quadro-negro da sala 70. O jovem que ocupava aquele catre parecia estar fazendo alguma coisa com os olhos. Sim, estava de fato fazendo alguma coisa com os olhos, porque engan­chava neles seus dedos, parecendo querer arrancar os globos ocula­res das órbitas. Suas mãos estavam recurvadas como garras e, dos

 

*“Câmara lenta.” (N. do E.)

 

olhos, espirrava sangue. Espirrava em slomo. A agulha escapou do braço em slomo. Wanless corria em slomo. Os olhos do rapaz no catre pareciam agora esbugalhados, observou Andy clinicamente. Sim, sem dúvida.

Depois todos os aventais brancos se reuniram em torno do catre; já não se podia ver o rapaz. Por trás dele pendia um mapa. Mostrava os quadrantes do cérebro humano. Andy olhou para ele com grande interesse por instantes. Muito interessante, como diria Arte Johnson em seu programa de tevê Laugh-In*..

A mão ensangüentada levantou-se entre os aventais brancos, como a de um homem que se afoga. Os dedos tinham riscos de sangue coagulado, e farrapos de tecido pendiam deles. A mão bateu no mapa, deixando uma mancha de sangue em forma de grande vírgula. O mapa se enrolou com estrépito em torno da vareta, fazendo um ruído de matraca.

Então o catre foi levantado (ainda era impossível ver o rapaz que arrancara os olhos) e rapidamente retirado da sala.

Alguns minutos (horas, dias, anos?) depois, um dos assisten­tes veio até o catre de Andy, examinou sua perfusão e injetou um pouco mais de Lote 6 em seu cérebro.

—        Como é que você se sente, meu chapa? — perguntou o assistente graduado, mas evidentemente ele não era um assistente graduado, nem era estudante, nenhum deles era estudante. Primeiro, porque aquele sujeito parecia ter uns trinta e cinco anos, era um pouco velho demais para um estudante de graduação. Em segundo lugar, ele trabalhava para a Oficina. Andy soube disso inesperada­mente. Era absurdo, mas ele soube. E o nome do homem era...

Andy tentou descobrir e conseguiu. O nome do homem era Ralph Baxter. Ele sorriu. Ralph Baxter. Bom negócio.

—        Sinto-me ótimo — disse ele. — Como vai o outro cama­rada?

—        Que outro camarada, Andy?

— O que arrancou os olhos — disse Andy serenamente.

Ralph Baxter sorriu e deu uns tapinhas na mão de Andy.

— Bela alucinação, hein, camarada?

— Não, realmente — disse Vicky. — Eu também vi.

— Vocês pensam que viram — disse o assistente graduado que não era um assistente graduado. — Vocês estão compartilhando da mesma ilusão. Houve um camarada lá perto do quadro que teve um espasmo muscular.., coisa parecida com cãibra. Nenhum olho arrancado. Nada de sangue.

Ia afastar-se novamente.

Andy disse:

 

*“Ria conosco.” (N. da T.)

 

— Homem, é impossível compartilhar a mesma ilusão sem consulta prévia. — Sentia-se imensamente lúcido. A lógica era impecável, indiscutível. Pegara Ralph Baxter desprevenido.

Ralph retribuiu-lhe o sorriso, sem se deixar intimidar.

—        Com esta droga é bem possível — disse ele. — Volto já. OK?

— OK, Ralph — respondeu Andy.

Ralph parou e voltou atrás na direção do catre de Andy. Voltou em slomo. Olhou pensativamente para Andy. Andy sorriu-lhe, um sorriso amplo, idiota, drogado. Apanhei-o, Ralph, meu velho. Apa­nhei-o exatamente pelo seu ponto fraco. Subitamente, uma abundân­cia de informações sobre Ralph Baxter o inundou, toneladas de material: tinha trinta e cinco anos, trabalhava na Oficina há seis anos, antes disso estivera no FBI dois anos, ele...

Ele matara quatro pessoas durante a sua carreira, três homens e uma mulher. E abusara da mulher depois de morta. Ela era repre­sentante da Associated Press e descobrira que...

Essa parte não estava clara. E não importava. De repente, Andy não quis saber mais nada. O sorriso desapareceu-lhe dos lábios. Ralph Baxter ainda estava olhando para ele, e Andy lem­brou-se da terrível paranóia que sofrera nas suas duas viagens ante­riores com LSD... mas essa agora era mais profunda e muito mais assustadora. Não tinha a menor idéia de como pudera saber aquelas coisas a respeito de Ralph Baxter, ou mesmo o seu nome, mas, se dissesse a Ralph que sabia, ficaria com um medo terrível de desa­parecer da sala 70 do Jason Gearneigh com a mesma presteza com que o rapaz dos olhos arrancados sumira. Ou talvez aquilo tudo tivesse sido realmente uma alucinação, não parecia mais de todo real.

Ralph continuava olhando para ele. Pouco a pouco começou a sorrir.

— Está vendo? — disse ele em voz baixa. — Com o Lote 6 acontece toda sorte de coisas apavorantes.

Ralph foi-se embora. Andy deixou escapar um suspiro de alívio. Olhou para Vicky, que também olhava para ele com os olhos arre­galados e assustados. Ela está captando as minhas emoções, pensou ele. Como um rádio. Calma com ela! Lembre-se de que ela está numa alucinação, seja o que for esta porcaria de experiência.

Andy sorriu para ela e, após um momento, Vicky lhe retribuiu o sorriso com insegurança. Perguntou-lhe o que estava errado. Ele respondeu que não sabia, provavelmente nada.

(mas não estamos falando, a sua boca não se move)

(não é?)

(Vicky? é você?)

(é telepatia, Andy, não é?)

Ele não sabia. Era alguma coisa. Deixou os olhos se fecharem.

Esses caras são realmente assistentes diplomados?, perguntou ela, perturbada. Não parecem os mesmos. Será efeito da droga, Andy? Não sei, disse ele, com os olhos ainda fechados. Não sei quem são. O que aconteceu com o rapaz? Aquele que eles carrega­ram? Andy abriu os olhos de novo e olhou para ela, mas Vicky balançava a cabeça. Não se lembrava. Andy ficou surpreso e cons­ternado ao perceber que ele mesmo também mal se lembrava. Aquilo parecia ter acontecido anos antes. Ele teve uma cãibra, não foi? Um espasmo muscular, foi só. Ele...

Arrancou os olhos.

Mas que importa isso, realmente?

A mão emergindo acima do grupo de aventais brancos como a mão de um homem que se afoga...

Mas isso aconteceu há muito tempo. Talvez, no século XII.

Mão sangrenta. Batendo no mapa. O mapa enrolou-se na vareta com um som de matraca.

Ë melhor ir à deriva. Vicky parecia de novo perturbada. Subi­tamente uma música começou a jorrar dos alto-falantes no teto, e isso era bom.., muito melhor do que pensar em cãibras e globos oculares porejando. A música era ao mesmo tempo suave e majes­tosa. Muito depois, Andy concluiu (consultando Vicky) que fora Rakhmanínov. E desde então sempre que ouvia Rakhmanínov vi­nham-lhe vagas lembranças sonhadoras desse tempo interminável, intemporal, na sala 70 do Jason Gearneigh Hall.

Quantos daqueles fatos foram reais, quantos foram alucinação? Doze anos de pensamento ligado e desligado não tinham respondido à pergunta de Andy McGee. Num certo momento, parecera-lhe que objetos voavam pela sala, como se um vento invisível soprasse:

copos de papel, toalhas, uma braçadeira de pressão, uma saraivada de canetas e lápis. Noutro momento, um pouco mais tarde (ou teria sido mais cedo? não havia seqüência linear), um dos indivíduos testados sofrera uma crise muscular, seguida por uma parada cardía­ca, ou assim parecera. Fizeram-se esforços frenéticos para reanimá-lo, empregando a respiração boca a boca, seguida por uma injeção de algum preparado diretamente na cavidade torácica, e, finalmente, uma máquina que soltava um gemido alto e tinha duas ventosas negras ligadas a fios espessos. Andy parecia se lembrar de um dos “assistentes” ter gritado: “Acabem com ele! Acabem com ele! Ah, dêem-no para mim, seus idiotas!”

Num outro momento dormira, cochilando e acordando numa consciência crepuscular. Ele falou com Vicky, e contaram fatos sobre si mesmos. Andy falou do acidente de carro em que sua mãe per­dera a vida, e como passara o ano seguinte com uma tia, em crise seminervosa de desgosto. Ela contou-lhe que quando tinha sete anos um baby-sitter a violara, e agora sentia um medo horrível do sexo e mais medo ainda da possibilidade de ser frígida; era isso, mais do que tudo, que a levara a romper com o namorado. Ele estava sempre... pressionando-a.

Disseram-se coisas que um homem e uma mulher só falam de­pois de se conhecerem por muitos anos.., coisas que em geral homem e mulher nunca contam, nem mesmo na cama, no quarto escuro, depois de dezenas de anos de intimidade.

Mas eles falaram?

É o que Andy nunca soube dizer.

O         tempo parara, mas de algum modo passou.

 

Ele voltou da sonolência aos poucos. A música de Rakhmaní­nov desaparecera.., se é que alguma vez existira. Vicky dormia pacificamente no seu catre, ao lado do dele, com as mãos cruzadas entre os seios, as mãos puras de uma criança que adormece depois de fazer as orações da noite.

Andy olhou para Vicky e simplesmente ficou consciente de que se apaixonara por ela... Era uma sensação profunda e perfeita, acima (e abaixo) de qualquer dúvida.

Depois de algum tempo, olhou em torno. Vários catres vazios. Havia talvez ainda cinco pessoas que tinham sido testadas na sala. Algumas dormiam. Uma estava sentada no seu catre, e um assistente graduado, perfeitamente normal, de vinte e cinco anos talvez, fazia-lhe perguntas e tomava notas numa prancheta. Aparentemente o indivíduo testado dissera alguma coisa engraçada, porque os dois riram baixo de maneira respeitosa, cônscios de que outras pessoas dormiam em volta.

Andy sentou-se e fez um exame da sua situação. Sentia-se muito bem. Tentou um sorriso, e achou-o perfeitamente correto. Seus músculos estavam pacificamente nos seus lugares. Sentia-se animado e disposto, toda a sua percepção estava agudamente afiada e de certo modo inocente. Lembrava-se de ter tido essa sensação quando criança, ao acordar no sábado de manhã, sabendo que sua bicicleta estava na garagem e sentindo que todo o fim de semana se estendia à sua frente como um carnaval de sonhos, livre para qualquer passeio.

Um dos assistentes graduados aproximou-se dele e disse:

— Como se sente, Andy?

Andy olhou para ele. Era o mesmo sujeito que lhe aplicara a injeção. Quando? Um ano antes? Esfregou a palma da mão na face e ouviu o ruído áspero da barba crescida.

—        Sinto-me como Rip van Winkle * — disse.

O         assistente sorriu.

—        Foram só quarenta e oito horas e não vinte anos. Como se sente, realmente?

—        Ótimo.

—        Normal?

—        Seja qual for o significado dessa palavra, sim. Normal. Onde está Ralph?

—        Ralph? — O assistente franziu as sobrancelhas.

—        Sim, Ralph Baxter, que tem cerca de trinta e cinco anos. Um grandalhão de cabelo cor de areia.

O         assistente sorriu.

—        Você sonhou com ele — afirmou.

Andy olhou inseguro para o assistente.

—        Eu fiz o quê?

—        Sonhou. Uma alucinação. O único Ralph que conheço, que está de algum modo ligado ao teste do Lote 6, é um representante da Dartan Pharmaceutical chamado Ralph Steinham. E tem cinqüenta e cinco anos, mais ou menos.

Andy olhou para o assistente durante muito tempo sem nada. dizer. Ralph, uma ilusão? Bem, talvez fosse. Tratou de considerar todos os elementos paranóides de um sonho dopado, sem dúvida; Andy parecia lembrar-se de Ralph como uma espécie de agente se­creto que destruíra toda sorte de pessoas. Sorriu ligeiramente. O assistente respondeu com um sorriso, um pouco prontamente de­mais, na opinião de Andy. Ou isso também era paranóia? Certa­mente era. O camarada que estava falando quando Andy acordou agora saía escoltado da sala. Bebia suco de laranja num copo de papel. Cautelosamente Andy perguntou:

— Ninguém se feriu, não é?

— Feriu?

— Bem, ninguém teve convulsão, não é? Ou...

O         assistente curvou-se para a frente. Parecia preocupado.

— Olhe, Andy, espero que você não vá espalhar uma história dessas no campus. Isso seria um tremendo desastre para o progra­ma de pesquisa do Dr. Wanless. No próximo semestre teremos as experiências com o Lote 7 e o Lote 8, e..

— Houve alguma coisa?

 

* Personagem de uma lenda popular americana do século XVIII, que dormiu vinte anos: adormeceu súdito do rei da Inglaterra e acordou cida­dão americano. (N. da T.)

 

—        um rapaz teve um espasmo muscular sem importância, mas bastante doloroso — disse o assistente. — Tudo passou em menos de quinze minutos, sem qualquer dano. Mas existe uma atmosfera de caça às bruxas por aqui. Terminem com a convocação, acabem com o ROTC *, com os recrutadores de empregos da Dow Chemícal porque fabricam napalm... As coisas perdem suas devidas propor­ções, e eu acho que esta é uma pesquisa muito importante:

—        Quem era o camarada?

—        Não posso lhe dizer. Tudo o que digo é: por favor, lem­bre-se de que você estava sob a influência de um alucinógeno bran­do. Não vá misturar fantasias induzidas pela droga com a realidade e começar a espalhar essas histórias por ai.

—        Teria permissão para proceder assim? — perguntou Andy.

O         assistente parecia perplexo.

— Não sei como poderíamos impedi-lo. Todo programa expe­rimental da faculdade está à mercê dos voluntários. Em troca de uns míseros duzentos dólares, dificilmente poderíamos esperar que você assinasse um juramento solene, não acha?

Andy sentiu-se aliviado. Se esse camarada estivesse mentindo, representava maravilhosamente. Tudo devia ter sido uma série de alucinações. No catre, ao lado dele, Vicky começava a se mexer.

—        Como é, o que você achou disto tudo? — perguntou-lhe o assistente, sorrindo. — Parece-me que eu é que deveria fazer per­guntas.

E ele fez as perguntas. Quando Andy acabou de responder a elas, Vicky já estava bem acordada. Parecia descansada, calma, radiante, e sorria para ele. As perguntas eram detalhadas. Muitas delas eram as perguntas que o próprio Andy gostaria de fazer.

Então, por que ele tinha a sensação de que tudo era uma ence­nação?

 

* Reserve Officers’ Training Corps, CPOR, no Brasil. (N. da T.)

 

Na mesma noite, sentados no sofá de uma das menores salas de estar do conjunto de lazer da faculdade, Andy e Vicky compa­raram suas alucinações.Ela não tinha a menor lembrança da coisa que mais o pertur­bara: aquela mão agitada e trêmula acima dos aventais brancos, ba­tendo no mapa e depois desaparecendo. E Andy não se recordava do que mais a impressionara: um homem de cabelos louros com­pridos abrira uma mesa dobrável ao lado do seu catre, exatamente no nível dos olhos dela. Pôs uma grande série de enormes peças de dominó sobre a mesa e disse: “Derrube-as, Vicky. Derrube todas”. Ela erguera as mãos para virá-las, e o homem gentilmente, mas com firmeza, empurrara-lhe as mãos até o peito, dizendo: “Você não precisa das mãos, Vicky. Derrube-as simplesmente”. Então ela olha­ra para as peças de dominó e todas haviam caído, uma após outra. Uma dúzia, mais ou menos...

       — Isso me deixou muito cansada — disse ela a Andy, sorrin­do com aquele seu pequeno sorriso oblíquo. — E de certo modo tive a impressão de que estávamos discutindo sobre o Vietnam, sabe? Então eu disse alguma coisa como: “Sim, isso prova que, se o Vietnam do Sul for, todos irão também”. E ele sorriu e deu panca­dinhas na minha mão, dizendo: “Por que você não dorme um pouco, Vicky? Você deve estar cansada”. E assim fiz. — Ela sacudiu a cabeça. — Mas agora nada parece real. Acho que inventei tudo isso, ou criei uma alucinação em torno de um teste perfeitamente normal. Você não se lembra de ter visto esse homem, lembra-se? Um rapaz alto, de cabelos louros até os ombros e uma pequena cicatriz no queixo.

       Andy negou com a cabeça.

       — Mas ainda não compreendi como pudemos compartilhar algumas das mesmas fantasias, mesmo que fosse só uma — disse

       Andy —, a menos que eles tenham elaborado uma droga que seja ao mesmo tempo telepática e alucínógena. Sei que houve alguma discussão a esse respeito nestes últimos anos. . . parece que a idéia era de que os alucinógenos podem intensificar a percepção... — Ele levantou os ombros e em seguida sorriu. — Carlos Castaneda, onde está quando precisamos de você?

            — Não será provável que tenhamos discutido a mesma fan­tasia e depois esquecido essa discussão? — perguntou Vicky.

       Ele concordou que era uma possibilidade, mas continuava sen­tindo-se tranqüilo com a experiência toda. Teria sido, como eles dizem, um terrível erro? Tomando coragem, disse:

       — A única coisa de que tenho realmente certeza é que parece que estou ficando apaixonado por você, Vicky.

       Ela sorriu nervosamente e beijou-lhe o canto da boca.

Muito gentil, Andy, mas...

— Mas você está com medo de mim. Dos homens em geral, talvez.

       — Talvez esteja.

       — Tudo o que lhe peço é uma chance.

—        Você a terá. Eu gosto de você, Andy. Muito. Mas lembre-se, por favor, de que estou assustada. Às vezes eu simplesmente... fico com medo. — Tentou um ligeiro gesto de indiferença, que se transformou, contudo, em alguma coisa semelhante a um arrepio.

— Eu me lembrarei — disse ele, tomando-a nos braços e beijando-a.

Houve um momento de hesitação, e depois ela retribuiu-lhe o beijo, mantendo firmemente as mãos dele nas suas.

 

—        Papai! — gritou Charlie.

O         mundo girava estranhamente diante dos olhos de Andy. As lâmpadas de sódio, ao longo da Via Norte, apareciam abaixo dele, enquanto, loucamente sacudido, via o chão acima. Em seguida, ele caiu de nádegas e escorregou até a metade inferior da encosta como um garoto no escorregador. Charlie rolava abaixo dele, desamparada.

Oh, não, ela vai cair bem no meio do tráfego!

—        Charlie! — gritou ele com voz rouca, sentindo dor na gar­ganta e na cabeça. — Preste atenção!

Logo depois ela estava lá embaixo, de cócoras, soluçando no acostamento, banhada pelas luzes agressivas de um carro que passa­va. Um momento depois, ele aterrissava ao lado dela com um sonoro uap que ricocheteou por toda a espinha até a cabeça. As coisas se duplicaram diante dos seus olhos e, enfim, gradativamente se resta­beleceram.

Charlie estava sentada com as pernas encolhidas e a cabeça entre os braços.

—        Charlie — disse ele, tocando-lhe o braço. — Está tudo bem, querida?

— Eu queria ter caído na frente dos carros! — exclamou ela alto, com a voz vibrante e violenta, cheia de auto-agressão, o que fez doer o coração de Andy. — É o que eu mereço por ter posto fogo naquele homem.

—        Não diga isso, Charlie, você não deve pensar mais nisso.

Ele abraçou-a. Os carros passavam em disparada. Qualquer um deles poderia ser da polícia, e tudo estaria acabado. Aquela altura talvez fosse um alívio.

Os soluços de Charlie foram morrendo, pouco a pouco. Alguns, segundo ele percebia, eram de simples cansaço, o mesmo cansaço que agravava a sua dor, a ponto de ele querer gritar, trazendo-lhe aquele fluxo de recordações indesejáveis. Se ao menos eles pudessem chegar a algum lugar e se deitar...

       — Você pode ficar de pé, Charlie?

       Ela se pôs de pé lentamente, enxugando as últimas lágrimas. Seu rosto era uma luazinha pálida na escuridão. Olhando para ela, Andy sentiu uma punhalada aguda de culpa. Ela deveria estar confortavelmente aconchegada numa cama, numa casa com hipoteca quase amortizada, um urso de pelúcia debaixo do braço, pronta para voltar à escola na manhã seguinte e lutar por Deus, pelo país e pela segunda série. Em vez disso, ali estava ela de pé no acosta­mento de uma estrada de subúrbio de Nova York, à uma e quinze da manhã, em fuga, consumida de remorsos por ter herdado certa coisa da mãe e do pai, alguma coisa de que tinha tanta culpa como de ter herdado o azul expressivo de seus olhos.

       Como explicar a uma criança de sete anos que papai e mamãe em certa ocasião precisaram ganhar duzentos dólares e as pessoas com quem falaram lhes mentiram, dizendo-lhes que não havia mal nenhum nisso?

       — Vamos pedir carona — disse Andy, e ele nem mesmo podia dizer se passara os braços em torno dos ombros dela para confor­tá-la ou para se apoiar. — Vamos para um hotel ou um motel para dormir. Então pensaremos no que fazer em seguida. Está bem assim?

         Charlie concordou com a cabeça, apaticamente.

         — OK — disse ele, e levantou o polegar. Os carros passavam em disparada sem lhes dar atenção, e a menos de três quilômetros o carro verde vinha atrás deles novamente. Andy não sabia disso; sua mente atormentada voltara-se para aquela noite com Vicky na sala de estar da universidade. Ela morava num dos dormitórios, e ele a deixara lá, saboreando-lhe os lábios mais uma vez nos degraus, junto às portas duplas, e aquela moça que ainda era virgem passara os braços hesitantemente em torno do pescoço dele. Como eram jovens, meu Deus, como eram jovens!

       Os carros passavam em disparada; os cabelos de Charlie levan­tavam-se e baixavam a cada rajada de vento, e ele continuava pen­sando em tudo o que acontecera naquela noite, doze anos antes.

 

Depois de ver Vicky entrar no dormitório, Andy atravessou o campus, dirigindo-se para a estrada onde encontraria carona para a cidade. Embora só sentisse fracamente contra o rosto o vento de maio, este soprava bastante forte nos olmos ao longo da alameda, como se um rio invisível corresse pelo ar logo acima dele, um rio de que podia sentir apenas as mais longínquas e pálidas ondulações.

O Jason Gearneigh Hall ficava no seu caminho, e ele parou adiante daquele vulto escuro. As árvores que o rodeavam, com fo­lhagem nova, dançavam sinuosamente à corrente invisível desse rio de vento. Um calafrio gelado insinuou-se-lhe espinha abaixo e ins­talou-se no estômago, congelando-o ligeiramente. Ele tiritava, em­bora a noite estivesse quente. A lua, como uma grande moeda de prata, viajava através das volumosas massas de nuvens crescentes, barcos dourados correndo à frente do vento, correndo naquele rio escuro de ar. O luar refletia-se nas janelas dos edifícios, fazendo-as brilhar como desagradáveis olhos vazios.

Alguma coisa aconteceu aqui, pensou. Alguma coisa mais do que nos disseram ou em que nos fizeram crer. O que foi?

Recordou-se novamente daquela mão ensangüentada de afo­gado, só que dessa vez ele a viu bater no mapa, deixando uma mancha de sangue com a forma de uma vírgula.., e então o mapa enrolou-se para cima com um som de matraca.

Dirigiu-se ao edifício. Bobagem. Não vão me deixar entrar numa sala de aula depois das dez horas. E...

Estou apavorado.

Sim, era isso. Havia meias lembranças inquietantes demais. Persuadir-se de que tinham sido apenas fantasias seria demasiado fácil; Vicky já estava a caminho de perceber isso. Um dos indivíduos testados arrancando os olhos com as unhas. Alguém gritando que desejava morrer, que morrer seria muito melhor do que aquilo, mesmo indo para o inferno para arder por toda a eternidade. Outro sofrendo parada cardíaca, e em seguida sendo embrulhado com arrepiante profissionalismo. Porque, enfrentemos o problema, velho Andy, pensar em telepatia não o assusta. O que o assusta é a idéia de que uma dessas coisas talvez tenha acontecido.

Batendo os calcanhares, andou até a grande porta dupla e pro­curou abri-la. Fechada. Por trás dela podia ver o saguão vazio. Andy bateu à porta e, ao ver que alguém vinha saindo das sombras, quase fugiu. Quase fugiu porque o rosto que vinha surgindo dessas som­bras, flutuando, parecia ser o rosto de Ralph Baxter, ou então de um homem alto com cabelos louros até os ombros e uma cicatriz no queixo.

Mas não foi nenhum dos dois; o homem que veio à porta do saguão e a abriu, mostrando um rosto ranzinza, era um típico guarda de segurança da faculdade. Tinha cerca de sessenta e dois anos, faces e testa cheias de rugas, olhos prudentes, azuis, remelosos por causa de muita bebida. Trazia um grande relógio preso ao cinto.

—        O edifício está fechado!

—        Eu sei — respondeu Andy —, mas eu participei de unia experiência na sala 70, que terminou esta manhã, e...

—        Não importa! O edifício fecha às nove nos dias de semana, volte amanhã.

—        Eu acho que deixei o meu relógio lá — disse Andy. Ele não possuía relógio. — Ei, o que você acha? Só uma espiada rápida.

—        Não posso permitir — respondeu o guarda da noite, mas de repente pareceu estranhamente inseguro.

Sem qualquer premeditação, Andy disse com voz grave:

—        Decerto que pode. Vou só dar uma espiada e logo o dei­xarei em paz. Você nem vai se lembrar de que eu estive aqui, está certo?

Teve uma imediata sensação estranha na cabeça; era como se tivesse influenciado e pressionado aquele velho guarda noturno apenas com a cabeça, em vez das mãos. E o guarda recuou dois ou três passos, indeciso, e abriu a porta. Andy entrou. Estava preo­cupado. Sentiu subitamente uma dor aguda na cabeça, que se trans­formou num latejo fraco, que passou meia hora depois.

—        Ei, você está bem? — perguntou ele ao homem da se­gurança.

     — O          quê? Decerto, estou bem. — A suspeita do guarda desa­parecera. Ele sorriu para Andy, totalmente cordial.

—        Vá lá em cima e procure o seu relógio, se quiser. Não se apresse. Provavelmente nem vou lembrar que você esteve aqui.

E afastou-se.

Andy acompanhou-o com os olhos, incrédulo, e em seguida esfregou a testa inconscientemente, como para suavizar a ligeira dor que sentia. O que, em nome de Deus, ele fizera àquele pobre-diabo? Alguma coisa, isso era certo.

Virou-se, dirigiu-se às escadas e começou a subi-las. O hall superior era estreito e estava em completa escuridão; uma sensação importuna de claustrofobia o envolveu e parecia apertar-lhe a res­piração como uma coleira invisível; ali em cima o edifício tinha penetrado naquele rio de vento e o ar patinava por baixo das go­teiras com um fino sibilo. A sala 70 tinha duas portas duplas. As metades superiores eram dois quadrados de vidro fosco com dese­nho de bolinhas. Andy ficou do lado de fora, escutando o vento passar pelas velhas calhas e canos de escoamento das chuvas, raspando nas folhas enferrujadas. O coração batia-lhe com força no peito.

Naquele instante, quase se afastou; parecia-lhe subitamente mais fácil não saber, apenas esquecer. Em seguida, tocou a maça­neta da porta, dizendo a si mesmo que não havia nada com que se preocupar, porque, de qualquer modo, a desgraçada sala estaria trancada e ele ficaria livre daquilo.

Mas o caso é que não estava. A maçaneta girou facilmente. A porta se abriu. A sala estava vazia, iluminada apenas pelo luar hesi­tante através dos galhos balouçantes dos velhos olmos lá fora. Havia luz suficiente para que ele visse que tinham retirado os catres. O quadro-negro fora apagado e lavado. O mapa estava enrolado como uma veneziana, apenas o puxador balançava. Andy aproximou-se dele e, após um momento, pegou-o com a mão ligeiramente trêmula e puxou-o para baixo.

Quadrantes do cérebro; a mente humana apresentada e mar­cada como um diagrama de açougueiro. Só de olhar para ele, Andy teve outra vez aquela sensação de alucinação, como a de uma inje­ção de ácido. Nada divertido, provocava náuseas, e um gemido escapou-lhe da garganta, tão delicado como um fio prateado de teia de aranha.

Ali estava a mancha de sangue, uma vírgula preta à luz inquieta da lua. Um título impresso, que sem dúvida registrava CORPUS CALLOSUM antes da experiência daquele fim de semana, agora dizia COR OSUM. A mancha em forma de vírgula preenchia o in­tervalo.

Uma coisa tão pequena.

Uma coisa tão grande.

Permaneceu no escuro, olhando, e começou a tremer de ver­dade. Que fatos aquela mancha confirmava? Alguns? A maior par­te? Tudo? Nada do que acima foi dito?

Atrás de si ouviu, ou pensou ter ouvido, o ranger furtivo de um sapato. Tremeram-lhe as mãos, e uma delas bateu no mapa com aquele mesmo horrível som de estalo. O mapa enrolou-se com um ruído pavorosamente alto naquela fossa negra da sala.

Súbita pancada numa janela afastada que a lua esbranquiçava; um galho ou talvez dedos mortos, riscados de sangue coagulado e tecidos: deixem-me entrar, eu perdi os meus olhos ai’ dentro, oh, deixem-me entrar, deixem-me entrar...

Ele rodopiava num sonho em câmara lenta, um sonho em slomo, desanimadamente certo de que devia ser aquele rapaz, um espírito numa roupa branca, buracos negros pingando no lugar dos olhos. Sentia o coração como uma coisa viva na garganta.

Ninguém ali.

Nenhuma coisa ali.

 

Mas ele estava com os nervos alquebrados, e, quando aquele galho recomeçou suas pancadas implacáveis, ele fugiu sem se preo­cupar em fechar a porta da sala de aula. Atravessou aos pulos o estreito corredor e, subitamente, passadas o perseguiam, ecos dos seus próprios pés em fuga.

Desceu as escadas de dois em dois degraus e voltou ao saguão, respirando com dificuldade e com o sangue latejando-lhe nas têm­poras. O ar na garganta picava-o como feno recém-cortado.

Não viu o guarda de segurança em parte alguma. Ao sair, fechou atrás de si uma das grandes portas de vidro do vestíbulo e escapuliu pela calçada até o pátio, como o fugitivo que se tornaria mais tarde.

 

Cinco dias depois, e muito contra a vontade de Vicky Tomlin­son, Andy arrastou-a até o Jason Gearneigh Hall. Ela já decidira que nunca mais queria pensar na experiência. Tinha recebido o seu cheque de duzentos dólares do Departamento de Psicologia, deposi­tara-o no banco e queria esquecer a sua proveniência.

Ele persuadiu-a a ir com ele, usando uma eloqüência que des­conhecia. Foram na mudança de classes das duas e cinqüenta; os sinos da capela de Harrison vibravam no ar sonolento do mês de maio.

— Nada pode nos acontecer à luz do dia — disse ele constran­gidamente, recusando-se a esclarecer, até mesmo na sua própria mente, o que poderia estar lhe causando medo. — Não com deze­nas de pessoas à nossa volta.

—        Só que eu não quero ir — disse ela; mas foi.

Passaram por dois ou três garotos, que saíam da sala de aula com livros debaixo do braço. A luz do sol pintava as janelas de cor mais prosaica do que a poeira de diamantes de luar de que Andy se lembrava. Quando Andy e Vicky entraram, uns poucos se diri­giam para o seminário de biologia das três horas. Um deles começou a falar baixo e seriamente com alguns dos outros acerca de uma etapa final do ROTC que se realizaria naquele fim de semana. Nin­guém deu a menor atenção a Andy e Vicky.

— Muito bem — disse Andy, e sua voz estava abafada e ner­vosa. — Veja o que é que você pensa.

Puxou o mapa para baixo pelo anel balouçante. Surgiu a figura de um homem nu com os órgãos rotulados. Os músculos pareciam meadas de fio vermelho. Algum espirituoso o apelidara de Oscar Rabugento.

— Meu Deus! — disse Andy.

Nervoso, segurou Vicky pelo braço com a mão quente e suada.

— Andy — disse ela. — Por favor, vamos embora. Antes que alguém nos reconheça.

Naturalmente, ele estava pronto para ir embora. O fato de o mapa ter sido substituído assustou-o mais do que qualquer outra coisa. Soltou rápido o anel do cordão preso ao mapa e deixou-o subir. Ouviram aquele mesmo som de matraca.

Mapa diferente. O mesmo som. Doze anos depois ainda podia ouvir aquele som do mapa, quando a sua cabeça dolorida o per­mitia. Nunca mais entrara na sala 70 do Jason Gearneigh Hall de­pois daquele dia, mas reconhecia aquele som.

Ouvia-o freqüentemente em sonho.., e via aquela mão, bus­cando alguma coisa, afogando-se, manchada de sangue.

 

O carro verde deslizou pela estrada de carga, e descarga do aero­porto na direção da rampa de entrada da Via Norte. Por trás do vo­lante encontrava-se Norvile Bates, com as mãos firmemente apoiadas na posição de dez-para-as-duas. Do rádio FM vinha,uma música clás­sica em tom baixo e suave. Tinha agora os cabelos curtos e pentea­dos para trás, mas a pequena cicatriz semicircular no queixo ainda existia, no lugar em que se cortara com um caco de garrafa de Coca-Cola quando criança. Se Vicky estivesse viva o teria reco­nhecido.

— Temos uma unidade a caminho — disse o homem de terno azul. Chamava-se John Mayo. — O camarada é um representante temporário. Trabalha tanto para a DIA como para nós.

— Apenas um interesseiro venal — disse o terceiro homem, e os três riram de maneira nervosa. Sabiam que estavam perto, já quase podiam sentir o cheiro de sangue. O terceiro homem cha­mava-se Orville Jamieson, mas preferia ser chamado de OJ, ou, melhor ainda, “Suco”. Assinava OJ em todos os seus relatórios oficiais. Uma vez assinara Suco, e aquele patife do Cap lhe fizera uma censura. Não apenas oralmente; uma censura escrita, que fora registrada na sua ficha.

—        Vocês acham que foram para a Via Norte, não é? — per­guntou OJ.

Norville Bates deu de ombros:

—        Eles foram para a Via Norte ou se dirigiram para Albany. Deixei o caipira encarregado dos hotéis da cidade. Afinal, é a cidade dele, certo?

—        Certo — disse John Mayo. Ele e Norville davam-se bem. Vinham juntos de muito longe. Desde aquele dia na sala 70 do Jason Gearneigh Hall, e aquilo, meu amigo, era para ninguém mais perguntar se algum dia você tinha ficado horrorizado. John nunca mais queria passar por um horror daqueles. Fora ele quem fizera desaparecer o rapaz da parada cardíaca. Pertencera ao corpo médico nos primeiros tempos do Vietnam e sabia como lidar com o desfíbrilador, pelo menos em teoria. Na prática, não funcionara tão bem, e o garoto escapara-lhe das mãos. Doze jovens tinham rece­bido o Lote 6 naquele dia. Dois deles tinham morrido: o rapaz que tivera parada cardíaca e a moça que morreu seis dias depois, no dormitório, aparentemente de embolia cerebral súbita. Dois ha­viam ficado loucos incuráveis: o rapaz que se cegara a si mesmo e a moça que ficara paralítica do pescoço para baixo. Wanless dissera que era psicológico, mas como ele podia saber? Fora, sem dúvida, um belo dia de trabalho.

—        O caipira local leva a mulher consigo — disse Norville. —Ela fingirá que está procurando a neta. O filho fugiu com a meni­ninha. Caso nojento de divórcio, essa história. Ela não quer noti­ficar a polícia, a menos que seja preciso, mas tem medo de que o filho esteja ficando louco. Se ela representar bem, não haverá hotel na cidade em que um funcionário da noite não diga se os dois se registraram por lá.

—        Se ela representar bem — disse OJ. — Com esses agentes externos nunca se sabe.

—        Vamos tomar a rampa de acesso mais próxima, certo? —disse John.

—        Certo — respondeu Norville. — Apenas três ou quatro minutos mais.

—        Terão tido tempo de chegar até lá?

—        Tiveram se estavam com o rabo ardendo. Talvez a gente possa apanhar os dois tentando uma carona, aqui mesmo na rampa, ou talvez tenham tomado um atalho e atravessado a lombada até o acostamento. De qualquer modo, tudo o que nos resta a fazer é continuar patrulhando, até encontrá-los.

—        Para onde quer que você se dirija, entre logo — disse o Suco, rindo. Portava um Magnum 357 num coldre pendente do ombro debaixo do braço esquerdo. Chamava-o de Falcão.

—        Se eles já tiverem conseguido uma carona, teremos dado azar, Norv — disse John.

Norville encolheu os ombros.

—        Que porcentagem de chances eles têm? São uma hora e quin­ze da madrugada. Com o racionamento, o tráfego está mais fraco do que nunca. O que é que um executivo vai pensar ao ver um ho­mem alto com uma garotinha tentando conseguir uma carona?

—        Vai pensar que é encrenca pela frente — disse John.

—        Exatamente.

O         Suco riu de novo. Um pouco adiante, o semáforo da rampa da Via Norte brilhava no escuro. OJ pôs a mão no cabo de nogueira do seu Magnum, só por precaução.

 

O         caminhão passou por eles deixando um rastro frio.., e de­pois as luzes de freio brilharam, e ele entrou no acostamento, uns quarenta metros adiante.

—        Graças a Deus — disse Andy baixinho. — Vou passar a conversa nele, Charlie.

—        Está bem, papai — respondeu ela, apática. Tinham volta­do as olheiras negras debaixo dos olhos. O caminhão recuava en­quanto os dois se aproximavam. Andy sentia sua cabeça inchar lentamente como uma bola de chumbo.

Na lateral do caminhão estava pintada uma visão das Mil e uma noites, com califas, moças escondendo-se sob máscaras de gaze e um tapete mágico voando pelos ares. O tapete certamente devia ser vermelho, mas à luz das lâmpadas de sódio da estrada parecia marrom-escuro, como sangue coagulado.

Andy abriu a porta da cabina e içou Charlie para dentro. Se­guindo-a, disse:

—        Obrigado, chefe. Salvou as nossas vidas.

—        Foi um prazer — disse o motorista. — Oi, nenê.

—        Oi — respondeu Charlie, com voz fraca.

O         motorista olhou para o espelho retrovisor, saiu do acosta­mento, acelerando sempre, e, afinal, entrou na pista. Olhando por cima da cabeça ligeiramente inclinada de Charlie, Andy sentiu uma pontinha de remorso: o motorista era exatamente o tipo de jovem a que ele próprio não dava importância quando o via de pé no acostamento, com o polegar para cima. Alto, mas esguio, o moto­rista tinha uma barba preta cerrada que se encaracolava até o peito, e usava um grande chapéu de feltro que parecia o de um figurante num filme sobre os caipiras do Kentucky. Um cigarro que pa­recia ter sido enrolado por ele mesmo, no canto da boca, lançava baforadas em círculos. Mas era um cigarro comum, sem o cheiro doce da maconha.

—        Para onde vai, meu chapa? — perguntou o motorista.

—        Duas cidades adiante — disse Andy.

—        Hastings Glen?

—        Ë isso aí.

O         motorista concordou com a cabeça.

—        Fugindo de alguém, ao que parece.

Charlie ficou tensa, e Andy tranqüilizou-a passando-lhe a mão pelas costas, afagando-a suavemente até ela relaxar novamente. Não vislumbrara qualquer ameaça na voz do motorista.

—        Havia um oficial de justiça no aeroporto — disse Andy.

O         motorista sorriu, quase escondido pela barba selvagem, tirou o cigarro da boca e o expôs delicadamente ao vento que tudo sugava pelo quebra-vento semi-aberto. A corrente de ar arrebatou-o.

—        Alguma coisa a ver com essa menininha aí, imagino.

—        Não está longe da verdade — disse Andy.

O         motorista caiu em silêncio. Andy recostou-se e procurou acalmar a dor de cabeça. Ela parecia ter se estabilizado num agudo auge final. Teria sido assim tão ruim antes? Impossível dizer. Cada vez que ele exagerava, parecia-lhe sempre a pior de todas. Levaria mais de um mês para ousar novamente usar seu poder mental. Sabia que à distância até duas cidades adiante não seria longe o bastante, mas era tudo o que podia conseguir naquela noite. Estava prostrado. Hastings Glen teria que bastar.

—        Qual é o seu palpite, chefe? — perguntou o motorista.

—        O quê?

—        As finais do campeonato. Os Padres de San Diego no cam­peonato mundial, o que é que acha?

—        Formidável — concordou Andy. Sua voz parecia vir de longe, um sino tocando debaixo d’água.

—        Está se sentindo bem, meu chapa? Está tão pálido!

—        Dor de cabeça. Enxaqueca.

—        Pressão demais. Eu compreendo. Vai ficar num hotel? Pre­cisa de algum dinheiro? Posso lhe arrumar cinco dólares. Gostaria de poder oferecer-lhe mais, mas estou a caminho da Califórnia e tenho que controlar as despesas. Como os Joads em As vinhas da ira.

Andy sorriu, agradecido:

—        Acho que temos o suficiente.

—        Ainda bem. — Deu uma olhada para Charlie, que cochilava. — Linda menina, meu chapa! Você está cuidando bem dela?

—        O melhor que posso.

—        Ótimo. Ë bom ouvir isso.

 

Hastings Glen era pouco mais que um povoado à beira da estrada. Àquela hora, todos os semáforos da cidade eram inter­mitentes. O motorista barbudo de chapéu de montanhês tomou a rampa de saída da estrada, atravessou a cidade adormecida, des­ceu a Estrada 40 e levou-os ao Slumberland Motel, uma casa de sequóia que tinha ao fundo um campo de milho já colhido e, na fachada, um letreiro vermelho de néon que gaguejava no escuro o que não chegava a ser uma palavra, VA A CY. À medida que afun­dava no sono, Charlie escorregava cada vez mais para a esquerda, até que a sua cabeça pousou nos blue-jeans sobre a coxa do moto­rista. Andy fez menção de puxá-la, mas o motorista abanou a cabeça negativamente.

—        Ela está muito bem, deixe-a dormir.

—        Você se importaria de nos deixar um pouco além do hotel? — perguntou Andy. Era difícil pensar, mas essa precaução veio-lhe quase intuitivamente.

—        Não quer que o vigia da noite saiba que você não tem carro? — O motorista sorria. — Certamente. Mas num lugar destes não darão a menor atenção a alguém que chegue pedalando um mo­nocíclo. — Os pneus do caminhão rangeram no acostamento de cascalho. — Você não quer mesmo os cinco dólares?

—        Acho que vou aceitar — disse Andy relutantemente. — Por favor, escreva o seu endereço para mim. Eu devolverei o dinheiro pelo correio.

O         motorista sorriu de novo.

—        Meu endereço é “em trânsito — disse ele, tirando a car­teira. — Mas você ainda vai topar de novo com o meu rosto sorri­dente e feliz, certo? Quem sabe? Procure por Abe, homem. —Passou os cinco dólares para Andy e Andy começou a chorar, não muito, mas chorava”.

—        Não faça isso, homem — disse o motorista gentilmente.

     Tocou de leve a nuca de Andy. — A vida é curta e o sofrimento é longo, todos nós viemos a este mundo para ajudar uns aos outros. A filosofia de história em quadrinhos de Jim Paulson em poucas palavras. Tome cuidado com a nenezinha.

       — Certamente — disse Andy, esfregando os olhos. Guardou a nota de cinco dólares no bolso do seu casaco de veludo. — Charlie. Meu bem. Acorde. Agora só falta um pouquinho.

 

       Três minutos mais tarde, Charlie encostava-se, sonolenta, em Andy, enquanto ele observava Jim Paulson seguir pela estrada até um restaurante fechado, fazer a volta e passar de novo por eles na direção da estrada interestadual. Andy levantou a mão. Paulson também levantou a sua, em resposta. Um velho caminhão Ford com as noites da Arábia na lateral, gênios, um grão-vizir e um tapete mágico voando. “Espero que a Califórnia seja boa para você, compa­nheiro”, pensou Andy, e então os dois voltaram para Slumberland Motel.

         — Eu quero que você espere por mim aqui fora, sem ser vista —      disse Andy. — OK?

         — OK, papai. — Estava muito sonolenta.

         Deixou-a junto a um arbusto de sempre-vivas, andou até o escritório e tocou a campainha da noite. Dois minutos depois apare­cia um homem de meia-idade num roupão de banho, limpando os óculos. Abriu a porta e deixou Andy entrar sem dizer palavra.

         — Será que eu poderei ficar no quarto lá no fim da ala esquer­da? — disse Andy. — Eu estacionei daquele lado.

         — Nesta época do ano, o senhor pode ficar com toda a ala oeste, se quiser — disse o vigia, mostrando uma dentadura ama­relada num largo sorriso. Deu a Andy uma ficha impressa e uma caneta de propaganda. Um carro passou na estrada com faróis que aumentavam e diminuíam de intensidade.

         Andy assinou a ficha: Bruce Rozelle. Bruce dirigia um carro Vega 1978, licença LMS 240. Olhou para o espaço em branco do item ORGANIZAÇÃO / COMPANHIA por um momento e, num golpe de inspiração (tanto quanto a cabeça dolorida lhe permitia), escreveu “United Vending Company of America”. E registrou EM DINHEIRO como forma de pagamento.

       Um outro carro passou defronte ao motel. o funcionário rubricou a ficha e guardou-a.

—        São dezessete dólares e cinqüenta cents.

—        O senhor se importa de receber em moedas? — perguntou Andy. — Não tive tempo de depositar esse dinheiro, e estou carregando dez quilos de moedas. Detesto esses hábitos de regiões leiteiras.

—        Valem da mesma maneira. Eu aceito.

—        Obrigado. — Andy pegou a nota de cinco dólares no bolso do casaco e apresentou um punhado de moedas. Contou catorze dólares, apanhou mais algumas e completou o que faltava. O funcio­nário separou os níqueis em pilhas certinhas e os distribuiu pelos compartimentos adequados na gaveta do dinheiro.

—        Sabe — disse ele, fechando a gaveta e olhando esperan­çoso para Andy —, eu abateria cinco dólares da sua conta se você me consertasse a máquina de cigarros. Está enguiçada há uma se­mana.

Andy foi até a máquina, que estava encostada no canto, fingiu que estudava e voltou, dizendo:

—        Não entendo disso.

—        Ora, merda! Não faz mal. Boa noite, patrão. Se quiser, encontrará mais um cobertor na prateleira do armário.

—        Ótimo.

Andy saiu. A areia rangeu sob seus pés com um ruído terri­velmente ampliado que soou em seus ouvidos como se fossem grãos de cereal. Andou até o arbusto de sempre-vivas onde deixara Charlie, mas Charlie não estava lá.

—        Charlie?

Nenhuma resposta. Ele mudou de uma mão para a outra a chave do quarto presa na longa placa verde. Sentiu as mãos repen­tinamente suadas.

—        Charlie?

Continuava sem resposta. Recordando, parecia-lhe agora que o carro que passara enquanto ele preenchia a ficha de registro tinha diminuído a marcha. Talvez fosse um carro verde.

As batidas de seu coração aceleravam-se, lançando-lhe punhala­das de dor no crânio. Tentou pensar no que deveria fazer se Charlie tivesse ido embora, mas não conseguia pensar... A cabeça doía-lhe demais. Ele...

Do fundo da moita veio um som baixo de ressonar. Um som que ele conhecia muito bem. Deu um pulo naquela direção, espa­lhando o cascalho com os pés. Ramos rígidos de sempre-vivas rasparam-lhe as pernas e prenderam-se às abas de seu casaco de veludo.

Charlie estava deitada de lado na beira do gramado do motel, com os joelhos encolhidos quase chegando ao queixo, e as mãos entre eles. Dormia profundamente. Andy ficou com os olhos fechados por um momento, depois sacudiu-a para acordá-la, pela última vez nessa noite, segundo esperava. Aquela infindável noite.

Ela pestanejou, e olhou para ele.

— Papai? — perguntou com voz pastosa, ainda mergulhada em seus sonhos. — Eu fiquei fora de vista, como você falou.

— Eu sei, meu bem. Eu sei que você se escondeu. Agora vamos para a cama.

 

Vinte minutos depois estavam ambos deitados na cama de casal do quarto 16. Charlie dormia profundamente, com a respiração calma. Andy continuava acordado, mas escorregava para o sono, impedido apenas pelo constante latejar na cabeça. E pelas dúvidas.

Estavam fugindo há cerca de um ano. Era quase impossível acreditar nisso, talvez porque não parecesse tanto uma fuga, como quando tinham estado em Port City, na Pensilvânia, e ele participara do programa Perca Peso. Charlie freqüentava a escola de Port City. Como poderiam ser foragidos se ele mantinha um emprego e a filha estudava na primeira série da escola? Quase foram apanhados em Port City, não por terem se destacado especialmente (embora fossem perseguidos sem trégua, e isso muito assustara Andy), mas porque Andy cometera aquele erro crucial, permitira-se temporariamente esquecer que eram fugitivos.

Agora, isso nunca mais aconteceria.

A que distância eles estariam? Ainda em Nova York? Se ao menos ele pudesse acreditar que eles não tinham anotado o número do táxi... então eles ainda os estariam procurando por lá. Era mais provável que estivessem em Albany, esquadrinhando todo o aeroporto como moscas varejeiras num monte de restos de carne. Hastings Glen? Talvez pela manhã. Mas talvez não. Hastings Glen ficava a cerca de vinte e cinco quilômetros do aeroporto. Não havia motivo para deixar a paranóia suprimir o bom senso.

Eu mereço ser atropelada pelos carros por ter posto fogo na­quele homem! E sua própria voz respondia: Podia ter sido pior. Podia ter sido o rosto dele.

Vozes num quarto assombrado. Alguma coisa mais lhe veio à mente. Presumia-se que ele estivesse usando um carro Vega. Quando a manhã chegasse e o vigia da noite não visse Vega algum no esta­cionamento defronte ao quarto 16, poderia imaginar que o funcio­nário da United Vending Company tinha usado seu poder mental? Ou investigaria? Andy nada podia fazer agora. Estava completa­mente exausto.

Achei que havia alguma coisa estranha nele. Parecia pálido, doente. E pagou em moedas. Disse que trabalhava para uma com­panhia de máquinas automáticas, mas não conseguiu consertar uma máquina de cigarros no saguão.

Vozes num quarto assombrado.

Afastou-se mais para o seu lado na cama, ouvindo a respira­ção calma e lenta de Charlie. Pensara que a tinham levado, mas ela só se escondera dentro das moitas. Fora de vista. Charlene Norma McGee, Charlie, desde.., ora, desde sempre. Se eles tivessem pe­gado você, Charlie, não sei o que faria.

 

Uma última voz, a voz de seu companheiro de quarto, Quincey, seis anos antes.

Charlie tinha então um ano, e naturalmente eles sabiam que ela não era normal. Sabiam disso desde que, tendo ela apenas uma semana de vida, Vicky a trouxera para a cama deles, porque, sem­pre que a deixavam no berço, o travesseiro começava a... e isso aí, começava a queimar.

Na noite em que desistiram definitivamente do berço, uma noite de pavor, um pavor grande demais e estranho demais para ser articulado, o berço aquecera-se tanto que provocara na bochecha de Charlie uma bolha que a fizera gritar a noite toda, apesar da pomada calmante que Andy encontrara na caixa de remédios. Na­quele primeiro ano aquela parecia uma casa de loucos, eles não dor­miam e sentiam um medo infinito. Fogo nas cestas de papéis quando as mamadeiras atrasavam; uma vez as cortinas pegaram fogo, e se Vicky não estivesse no quarto...

Fora à queda de Charlie na escada que o levara a chamar Quin­cey. Ela então já engatinhava, conseguia subir e descer a escada de joelhos. Andy estava tomando conta dela naquele dia; Vicky tinha saído para fazer compras com uma amiga. Ela hesitara em sair, e Andy quase tivera de levá-la até o lado de fora da porta.. Nós últimos tempos, parecia muito esgotada e cansada. Havia uma fixi­dez no seu olhar que o fazia pensar naquelas histórias de fadiga de combate que se ouviam durante a guerra.

Ele estava lendo na sala de estar, perto da escada, e Charlie subia e descia. Havia um ursinho sentado na escada. Andy devia tê-lo tirado dali, naturalmente, mas, cada vez que Charlie subia, desvia­va-se do ursinho. Andy ficara entorpecido tal como em Port City, quando ele se iludira com o que aparentava ser uma vida normal.

Quando Charlie descia pela terceira vez, seus pés ficaram presos no urso, e ela rolou escada abaixo até o chão, aos trambolhões, cho­rando, gritando de raiva e medo. Como a escada era atapetada, ela não sofreu o menor arranhão; Deus velava pelos bêbados e pelas crianças, como dissera Quincey, e esse foi seu primeiro pensamento consciente naquele dia. Apesar disso, correu para ela, levantou-a, segurou-a e murmurou-lhe ao ouvido, carinhosamente, uma porção de bobagens, enquanto lhe fazia um exame rápido, procurando sinais de sangue, uma perna ou um braço deslocado, ou alguma concussão.

E aí...

Sentiu passar por ele, vinda da mente da filha, a invisível e inacreditável faísca da morte. Sentiu um deslocamento de ar quente como o que provoca no verão o metrô a toda a velocidade sobre os que porventura se aproximam demais da plataforma. Uma passagem suave e silenciosa de ar quente.., e num instante o ursinho estava em chamas.

O         urso magoara Charlie: Charlie magoaria o urso. As chamas subiram, e, enquanto o urso se carbonizava, Andy ficou olhando para os seus olhinhos de botão de sapato através de um lençol de chamas que se estendia ao carpete da escada onde ele caíra.

Andy pôs a filha no chão e correu até o extintor de incêndio, na parede perto da tevê. Ele e Vicky não falavam a respeito do que a filha podia fazer; houve momentos em que Andy desejou falar, mas Vicky não queria ouvir, evitava o assunto com uma teimosia histérica, dizendo que nada havia de errado com Charlie, nada de errado, mas extintores de incêndio tinham aparecido silenciosamen­te, sem discussão, quase da mesma maneira furtiva como floresciam os dentes-de-leão durante aquele período entre a primavera e o verão. Não falavam a respeito do que Charlie podia fazer, mas havia extintores de incêndio por toda a casa.

Ele apanhou um deles, e, sentindo o cheiro forte de carpete queimado, correu para a escada.., e ainda assim teve tempo de pen­sar naquela história que lera em criança, A vida é boa, de um tal Jerome Bixby, em que havia uma criança que escravizava os pais com um terror psíquico, um pesadelo de mil mortes possíveis, e nunca se sabia. . . nunca se sabia quando a criança ia ficar louca...

 

Charlie estava chorando, sentada perto da escada.

Andy apertou o botão do extintor de incêndio furiosamente e aspergiu espuma no fogo que se propagava, detendo-o. Apanhou o ursinho, cujo pêlo estava pontilhado de pingos, tufos e resíduos de espuma, e levou-o para baixo. Contra a sua vontade, embora reco­nhecendo que de certa forma primária tinha que proceder assim, e que um limite precisava ser traçado, que a lição tinha de ser apren­dida, ele quase enfiou o urso no rosto assustado e coberto de lágri­mas de Charlie. Oh, seu patife, pensava ele com desespero, por que você não vai até a cozinha, apanha uma faca aliada e faz um corte em cada uma das bochechas dela? E a mente dele fixou-se nessa idéia. Cicatrizes. Sim, era o que tinha de fazer. Marcar a filha com uma cicatriz. Fazer uma cicatriz a fogo na alma dela.

—        Você gosta de ver Teddy deste jeito? — rugiu ele. O urso estava todo queimado, preto, e Andy, segurando-o na mão, ainda o sentia morno, como um pedaço de carvão que começa a esfriar. — Você quer que Teddy fique todo queimado até que você não possa mais brincar com ele, Charlie?

Charlie chorava aos berros e soluços. Tinha a pele toda man­chada de um vermelho de febre e de uma palidez de morte; seus olhos nadavam em lágrimas.

—        Pa-a-a-a! Ted! Ted!

—        Sim, Teddy — disse ele severamente. — Teddy está todo queimado, Charlie. Você queimou Teddy. E se você queimou Teddy, poderá queimar mamãe, papai. Agora.., nunca mais faça isso! —Ele inclinou-se, e aproximou-se mais dela, mas não a tocou. —Nunca mais faça isso porque é uma coisa ruim.

—        Pa-a-a-a-a...

Era o máximo de desgosto que ele agüentava infligir-lhe, o máximo de horror, o máximo de medo. Então, pegou-a no colo e passeou com ela de um lado para outro, até que os soluços foram cedendo e se reduziram a um suspiro fundo e alguns resmungos. De repente, viu que ela dormia com o rosto contra o seu ombro.

Colocou-a no sofá, dirigiu-se ao telefone da cozinha e ligou para Quincey. Quincey não queria falar. Trabalhava para uma gran­de fábrica de aviões naquele ano de 1975. Nas notas que acompanhavam os cartões de Natal que anualmente mandava aos McGees, descrevera sua função como vice-presidente encarregado de facilitar as coisas. Os homens que fabricavam aviões deveriam se dirigir a Quincey quando tivessem problemas. Quincey ajudava-os a resol­vê-los, fossem eles quais fossem: sensação de alienação, crises de identidade, talvez apenas a sensação de que o trabalho os desumani­zava — eles voltavam para a linha de montagem com a certeza de que não poriam erradamente uma peça no lugar de outra, e, portan­to, os aviões não se espatifariam e o mundo continuaria seguro para a democracia. Para isso Quincey ganhava trinta e dois mil dólares por ano, dezessete mil mais do que Andy. “E não me sinto nada culpa­do”, escrevera. “Considero-o um salário baixo para conservar a América sã e salva.”

Assim era Quincey, sarcástico e engraçado, como sempre. Mas o caso é que ele não fora sarcástico nem engraçado naquele dia em que Andy lhe falara pelo telefone de Ohio, enquanto a filha dor­mia no sofá e o cheiro do urso queimado e do carpete chamuscado ainda lhe chegava às narinas.

— Ouvi falar em coisas — disse, finalmente, Quincey, quando viu que Andy não o largaria sem alguma resposta. — Mas às vezes há pessoas ouvindo na linha, meu velho. Estamos na era de Water­gate.

— Estou assustado — disse Andy. — Vicky está assustada, e Charlie também. O que é que você soube, Quincey?

—        Certa vez houve uma experiência de que participaram doze pessoas. Há cerca de seis anos. Você se lembra?

—        Eu me lembro — respondeu Andy, sério.

—        Não sobraram muitos desses doze. Da última vez que ouvi falar deles, quatro ainda viviam. E dois deles se casaram.

—        Sim — disse Andy, sentindo o horror crescer dentro dele. Só restavam quatro? De que estava falando Quincey?

—        Sei que um deles pode dobrar chaves e fechar portas sem tocá-las. — A voz de Quincey estava fraca, chegava-lhe de mais de três mil quilômetros de distância por cabo telefônico, passando por dispositivos elétricos automáticos de mudança, através de caixas de junção em Nevada, Idaho, Colorado, Iowa. A conversa poderia ser captada em um milhão de lugares.

—        Sim? — disse Andy, esforçando-se para manter o mesmo tom de voz.

E pensou em Vicky, que por vezes podia ligar o rádio ou desli­gar a televisão sem se aproximar dos aparelhos e aparentemente nem mesmo se mostrava consciente desse poder.

—        Oh, sim, ele é mesmo capaz disso — dizia Quincey. —Trata-se.., como dizer?.., de um caso documentado. Fica com dor de cabeça se fizer essas coisas muito freqüentemente, mas é capaz de fazê-las. Eles o trancaram numa cabina com uma porta que ele não podia abrir e um cadeado que ele não podia dobrar. Fizeram testes com ele. Ele dobra chaves. Fecha portas. E, segundo parece, está quase louco.

— Oh, meu Deus... — disse Andy com a voz tênue.

— Ele faz parte do movimento pela paz, de maneira que não importa que ele fique maluco — continuava Quincey. — Está fican­do maluco para que duzentos e vinte milhões de americanos possam estar seguros e livres. Você compreende?

— Sim — sussurrou Andy.

—        E a respeito das duas pessoas que se casaram? Nada. Tanto quanto se sabe, vivem pacificamente em algum Estado central do país, como, por exemplo, Ohio. Talvez os mantenham sob algum controle anual. Só para ver se fazem coisas como dobrar chaves ou fechar portas sem tocá-las, ou dão pequenas demonstrações engraça­das em festas de caridade locais. É bom que essas pessoas não sejam capazes de fazer tais coisas, não é, Andy?

Andy fechou os olhos e sentiu um cheiro de pano queimado. Por vezes Charlie abria a porta da geladeira, olhava para dentro e se afastava, engatinhando. E Vicky, que podia estar passando a ferro ou fazendo qualquer outra coisa, olhava para a porta da gela­deira e ela se fechava. Ela nem mesmo percebia que estava fazendo alguma coisa estranha. Mas nem sempre era assim. Às vezes a coisa parecia não funcionar, e ela deixava o ferro e ia fechar a geladeira (ou desligar o rádio, ou ligar a tevê). Vicky não sabia dobrar chaves, ler pensamentos ou voar, pôr fogo ou predizer o futuro. Por vezes conseguia fechar a porta do outro lado da sala, e essa parecia ser a distância máxima. Andy notara que, depois de ter feito várias dessas coisas, Vicky se queixava de dor de cabeça ou de perturbação no estômago, mas não sabia se era um espasmo físico ou uma espécie de aviso segredado do subconsciente. Essa sua capacidade talvez se tornasse um pouco mais forte por ocasião da menstruação, mas eram tão pequenas e tão pouco freqüentes que Andy acabou por considerá-las normais. Quanto a ele próprio.., é verdade que podia pressionar mentalmente as pessoas. Não havia nome para essa capa­cidade; talvez auto-hipnose fosse o mais próximo. E ele não podia usá-la com muita freqüência, por lhe provocar dores de cabeça. Na maior parte do tempo, podia esquecer que não era totalmente nor­mal, desde aquele dia na sala 70 do Jason Gearneigh.

Fechou os olhos, e no campo escuro dentro das suas pálpebras viu a mancha de sangue em forma de vírgula e os segmentos de palavras COR OSUM.

De fato é uma boa coisa — continuava Quincey, como se Andy tivesse concordado. — Senão eles poderiam pô-los em duas cabinas em que trabalhariam em tempo integral para conservar du­zentos e vinte milhões de americanos seguros e livres.

—        Uma boa coisa — concordou Andy.

—        Essas doze pessoas... — disse Quincey — talvez eles tenham dado a essas doze pessoas uma droga que não conheciam perfeitamente. Pode ter acontecido que alguém, um certo Dr. Biruta, os tenha iludido deliberadamente. Ou talvez ele tenha pensado que os estava iludindo e eles é que estivessem dirigindo. Não importa.

—        Não.

—        Aquela droga que lhes foi administrada talvez lhes tenha mudado um pouco os cromossomos. Ou muito. Quem sabe? Os dois que se casaram podem ter tido um filho, que talvez tenha herdado algo mais que os olhos dela e a boca dele. Não acha que eles ficariam interessados na criança?

— Certamente que sim — disse Andy, agora tão assustado que tinha dificuldade até de falar. Já decidira que nada diria a Vicky sobre o telefonema a Quincey.

— Ë como se de um lado se tivesse limão, que é muito bom, e de outro suspiro, que também é muito bom, e, juntando os dois, se obtivesse.., algo diferente e muito melhor. Aposto que eles gostariam de ver o que a criança seria capaz de fazer. Poderiam mesmo querer tomá-la e colocá-la numa cabina para ver se ela poderia tornar o mundo seguro para a democracia. Acho que é tudo o que tenho a lhe dizer, companheiro, a não ser... não levante a cabeça.

 

Vozes num quarto mal-assombrado.

Não levante a cabeça.

Virou a cabeça no travesseiro do motel e olhou para Charlie, que dormia profundamente. Charlie, minha filhinha, o que vamos lazer? Aonde podemos ir para que nos deixem em paz? Como isso tudo acabará? Nenhuma resposta para qualquer das perguntas. E finalmente ele adormeceu, enquanto não muito longe um carro verde patrulhava na escuridão, ainda na esperança de topar com um ho­mem alto de ombros largos e casaco de veludo cotelê e uma menini­nha de cabelos louros, calça vermelha e blusa verde.

 


Longmont, Virgínia:

A Oficina

Duas belas casas de fazenda do sul defrontavam-se, separadas por um gramado extenso e plano, cortado por pistas de bicicleta em graciosas curvas e uma pista dupla de saibro para carros, que passava por cima da colina, vinda da estrada principal. Um pouco distante de uma dessas casas havia um grande celeiro pintado de vermelho-vivo, com filetes de um branco imaculado. Perto da outra casa havia um grande estábulo, pintado com o mesmo vermelho bonito e filetes brancos. Algumas das melhores raças de cavalos do sul encontravam-se ali. Entre o celeiro e o estábulo, um amplo lago raso refletia calmamente o azul do céu.

Na década de 1860, os primeiros donos dessas duas casas tinham partido para a guerra e lá morrido; todos os sobreviventes das duas famílias também tinham falecido. As duas propriedades foram então reunidas numa propriedade governamental em 1954. Era a sede da Oficina.

Às nove e dez de um ensolarado dia de outubro, o dia seguinte àquele em que Andy e Charlie tinham deixado Nova York em dire­ção a Albany num táxi, um homem idoso, de olhos brilhantes e bondosos, usando um boné de motorista de lã inglesa, ia de bici­cleta em direção a uma dessas casas. Atrás dele, na segunda elevação do caminho, estava o posto de controle, pelo qual ele passou depois que um sistema ID de computador conferiu sua impressão digital. O posto de controle estava dentro de uma cerca dupla de arame farpado. A cerca externa, de dois metros e pouco de altura, tinha, a cada vinte metros aproximadamente, placas em que se lia: CUIDADO! PROPRIEDADE DO GOVERNO. CARGA ELETRICA BAIXA EM TODA A CERCA! Durante o dia a carga era baixa, naturalmente. À noite, o gerador particular da propriedade intensificava a carga para uma voltagem letal, e todas as manhãs uma equipe de cinco guardas fazia a ronda em pequenos carros elétricos de golfe, para apanhar os corpos torrados de coelhos, toupeiras, pássaros, marmotas, ocasio­nalmente um gambá, e, às vezes, algum veado. E, por duas vezes, seres humanos, igualmente queimados. O espaço entre as duas cercas de arame farpado era de aproximadamente três metros. Dia e noite cães de guarda cercavam a instalação nesse espaço. Eram dober­manns que tinham sido treinados para não se aproximarem da cerca eletrificada. Em cada canto da instalação havia torres de guarda, também construídas de tábuas pintadas de vermelho-vivo com filetes brancos. A guarnição era constituída de pessoal perito no uso de vários tipos de equipamento computadorizado para lidar com a morte. Todo o local era controlado por câmeras de tevê, e as ima­gens dessas televisões eram constantemente examinadas por compu­tador.

A instalação de Longmont era muito segura.

O         homem idoso continuava rodando de bicicleta, sorrindo para as pessoas por quem passava. Um velho calvo com boné de beisebol passeava numa potra de canelas finas. Levantou a mão e exclamou:

—        Alô, Cap, que dia lindo!

—        Abra os olhos — concordou o homem de bicicleta. — Bom dia para você, Henry.

Chegara diante da casa que ficava mais ao norte... Desceu da bicicleta e abaixou o apoio. Respirou profundamente o ar suave da manhã e subiu com agilidade os largos degraus do pórtico entre as grossas colunas dóricas. Abriu a porta e entrou no amplo hall de recepção. Por trás de uma escrivaninha estava sentada uma jovem de cabelo vermelho, com um livro de análise estatística aberto diante dela. Marcava a página com uma das mãos e com a outra tocava de leve, na gaveta de sua escrivaninha, um revólver Smith & Wesson 38.

— Bom dia, Josie — disse o cavalheiro idoso.

—        Oi, Cap! O senhor está um pouco atrasado, não está? — Bastava isso para que moças bonitas fossem despedidas; se fosse o dia de plantão de Duane na recepção, ele talvez não suportasse aquilo. Cap não apoiava a liberação das mulheres..

—        Minha máquina está com defeito numa das marchas, que­rida. — Ele pôs o polegar no botão certo. Houve um ruído surdo, e uma luz verde piscou, estabilizando-se em seguida no painel de Josie. — Seja boazinha, agora.

—        Está bem, vou tomar cuidado — disse ela maliciosamente, cruzando as pernas.

Cap riu alto e seguiu pelo hall. Ela observou-o por um mo­mento, em dúvida se lhe deveria ter dito que aquele arrepiante velho Wanless entrara vinte minutos antes. Ele o saberia logo, achava ela, e suspirou. Era assim que se estragava o início de um dia perfeitamente esplêndido: tendo de falar com um velho fan­tasma daqueles. Mas ela achava que uma pessoa como Cap, com uma posição de grande responsabilidade, tinha que aceitar o mel e o fel.

 

O         gabinete de Cap ficava nos fundos da casa. De uma grande janela com sacada tinha-se uma visão magnífica do gramado de trás, do celeiro e da lagoa dos patos, parcialmente cercada de amieiros. Rich McKeon encontrava-se a meio caminho do gramado, montado no minitrator de cortar grama. Cap ficou olhando para ele por um momento, com os braços cruzados atrás das costas, e dirigiu-se de­pois para a máquina automática de café. Serviu-se de café na sua xícara da marinha dos Estados Unidos, acrescentou creme e pres­sionou o botão do interfone.

— Oi, Rachel!

— Alô, Cap! O Dr. Wanless está...

—        Eu sabia, eu sabia. Pude sentir o cheiro desse velho puto no mesmo instante em que entrei.

— Devo dizer a ele que o senhor está muito ocupado hoje?

— Não lhe diga uma coisa dessas — disse Cap resolutamente. — Deixe-o sentado lá na sala de visitas amarela toda a manhã. Se ele não decidir voltar para casa, acho que poderei vê-lo antes do almoço.

— Muito bem, Cap. — Problema resolvido, pelo menos para Rachel, pensou Cap com algum ressentimento. Wanless não era realmente problema dela. O fato era que Wanless estava se tornando um estorvo. Sobrevivera tanto à sua utilidade como à sua influência. Bem, sempre havia o complexo de Mauí. E havia ainda Rainbird.

Cap sentiu um ligeiro estremecimento interior a essa idéia... e ele não era homem de tremer facilmente.

Pressionou de novo o botão do interfone.

—        Quero toda a documentação dos McGees mais uma vez, Rachel. E às dez e trinta quero ver Al Steinowitz. Se Wanless ainda estiver aí quando eu acabar com Al, pode mandá-lo entrar.

— Muito bem, Cap.

Cap recostou-se, esticou os dedos e olhou para o retrato de George Patton na parede, do outro lado da sala. Patton estava de pé, de pernas abertas, no topo de alçapão de um tanque, como se julgasse ser Duke Wayne * ou alguém como ele.

— uma vida dura, quando não se enfraquece — disse para a imagem de Patton, e tomou o café.

 

*John Wayne. (N. da T.)

 

Dez minutos depois, Rachel trazia a documentação num carri­nho de biblioteca de rodas silenciosas. Constava de seis caixas de papéis e relatórios, quatro caixas de fotografias e transcrições de telefonemas. O telefone dos McGees estava com dispositivo de escuta desde 1978.

— Obrigado, Rachel!

— Às suas ordens. O Sr. Steinowitz estará aqui às dez e trinta.

—        Certo. Wanless ainda não morreu?

— Receio que não — disse ela, sorrindo. — Está lá sentado, observando Henry lidar com os cavalos.

— Destruindo seus malditos cigarros?

Rachel cobriu a boca como uma colegial, rindo e concordando com a cabeça.

—        Já destruiu metade de um maço.

Cap rosnou. Rachel saiu, e ele virou-se para as fichas. Nos últi­mos onze meses, quantas vezes as teria estudado? Uma dúzia, duas dúzias de vezes. Conhecia os extratos quase de cor. E se Al estava certo, os dois McGees estariam nas suas mãos no fim da semana. Esse pensamento provocou-lhe uma ligeira sensação de excitação na barriga.

Começou a folhear ao acaso os documentos dos McGees, tiran­do uma folha aqui, lendo um trecho ali. Era a sua maneira de preen­cher as lacunas. Sua mente consciente achava-se em posição neutra, e o subconsciente a toda a força. O que ele queria agora não eram os detalhes, mas pôr a mão em tudo. Como dizem os jogadores de beisebol, precisava descobrir a brecha.

Ali estava uma nota do próprio Wanless, um Wanless mais jovem (ah! mas todos eles eram mais jovens então), datada de 12 de setembro de 1968. A metade de um parágrafo chamou a atenção de Cap:

“... de enorme importância no estudo continuado de fenôme­nos psíquicos controláveís. Mais testes com animais seriam contra-producentes (veja verso, número 1) e, como ressaltei do grupo neste verão, testes com condenados ou qualquer personalidade anormal pode levar a problemas muito palpáveis, se o Lote 6 for, mesmo que parcialmente, tão poderoso como suspeitávamos (veja verso, número 2). Eu continuo, portanto, recomendando...”

Você continua recomendando que o apliquemos a grupos con­trolados de estudantes universitários, segundo todos os planos de emergência para caso de fracasso, pensou Cap. Não houvera a menor indecisão da parte de Wanless, naqueles dias. De fato, não. Sua divisa, então, era: para a frente a toda a velocidade, e o diabo que fique com o último.

Tinham testado doze pessoas. Duas haviam morrido, uma du­rante o teste, a outra um pouco depois. Duas tinham ficado irrepa­ravelmente loucas, ambas inválidas: uma cega e outra com paralisia psicótica, ambas confinadas no complexo de Mauí, onde permane­ceriam até o fim de suas miseráveis vidas. Até ali, oito haviam sobrado. Uma delas morrera num acidente de carro em 1972, num acidente que com certeza não foi acidente, mas suicídio. Outra pulara do telhado do edifício dos Correios de Cleveland em 1973, e quanto a essa não houve qualquer dúvida, pois deixara um bilhete em que dizia que “não podia suportar mais as cenas que tinha na cabeça”. A polícia de Cleveland classificara o caso como de depres­são suicida e paranóia. Cap e a Oficina diagnosticaram ressaca letal do Lote 6. Assim, restavam ainda seis pessoas.

Três outras suicidaram-se entre 1974 e 1977, completando um número conhecido de quatro suicídios. Na verdade, eram cinco. Quase a metade da turma, poder-se-ia dizer. Os quatro suicídios comprovados pareceram perfeitamente normais, já que essas pessoas tinham usado arma de fogo, corda ou pulado de um lugar alto. Mas quem saberia o que tinham passado? Quem sabia realmente?

Assim, ficaram três. A partir de 1977, quando o projeto do Lote 6, por muito tempo adormecido, subitamente ganhou novo destaque, um rapaz chamado James Richardson, que passara a vi­ver em Los Angeles, foi colocado sob constante vigilância secre­ta. Em 1969, participara da experiência com o Lote 6, e durante o período de influência da droga demonstrara os mesmos talentos espantosos que os outros: telecinesia, transferência de pensamento, e talvez a mais interessante manifestação de todas, pelo menos do ponto de vista especializado da Oficina: dominação mental.

Mas, como acontecera com outros, os poderes de James Ri­chardson pareciam ter desaparecido completamente depois que ces­sou o efeito da droga. Entrevistas de acompanhamento de 1971, 1973 e 1975 nada tinham revelado. Até mesmo Wanless tivera que admiti-lo, e ele era fanático em relação ao assunto do Lote 6. Lei­turas constantes do computador em base randômica (elas foram bem menos randômicas, desde que o caso McGee começara a acon­tecer) não mostraram a menor indicação de que Richardson esti­vesse usando qualquer espécie de poder psíquico, consciente ou inconscientemente. Diplomara-se em 1971, deslocara-se para o oeste, onde tivera uma série de empregos administrativos de baixa cate­goria (nenhuma dominação mental, então), e agora trabalhava para a Telemyne Corporation. E era bicha.

Cap suspirou.

Continuavam vigiando Richardson, mas Cap estava pessoalmente convencido de que aquele homem era um fiasco. E assim ficaram somente dois, Andy McGee e sua mulher. Esse inesperado casamento, de certa forma casual, não escapara à Oficina, ou a Wan­less, que começou a bombardear o escritório com notas que suge­riam que qualquer rebento desse casal teria de ser vigiado de perto (contando os pintos antes de saírem da casca, por assim dizer). Em mais de uma ocasião Cap brincara com a idéia de dizer a Wanless que Andy McGee fizera vasectomia. Assim, teria calado o velho patife. Nessa ocasião, Wanless teve um derrame cerebral, que o deixou completamente inútil, na verdade nada mais do que um estorvo.

Tinha havido apenas uma experiência com o Lote 6. Os resul­tados tinham sido tão desastrosos que exigiram providências ma­ciças, completas.., e dispendiosas para encobri-los. Ordens supe­riores determinaram a suspensão de futuros testes por tempo inde­terminado. Wanless esbravejou nesse dia, lembrava-se Cap... e como gritou! Mas não houve qualquer sinal de que os russos ou outra potência mundial estivessem interessados em psiônicos indu­zidos por drogas, e os altos escalões militares concluíram que, ape­sar de alguns resultados positivos, o Lote 6 era um beco sem saída.

Estudando os resultados a longo prazo, um dos cientistas do projeto comparou-o a um motor a jato instalado num Ford velho. Disparara furiosamente... até encontrar o primeiro obstáculo.

— Dêem-nos mais dez mil anos de evolução — comentou ele — e tentaremos de novo.

Parte do problema fora que, quando os poderes psi induzidos pela droga se achavam no máximo, os indivíduos testados também estavam se desprendendo dos seus crânios. Não havia controle pos­sível. E, por outro lado, os chefões quase borraram as calças. En­cobrir a morte de um agente, ou mesmo de uma pessoa presente a uma operação, era uma coisa. Mas encobrir a morte de um estu­dante que sofrera um ataque cardíaco, o desaparecimento de dois outros, e traços persistentes de histeria e paranóia em outros mais, era coisa totalmente diferente. Todos eles tinham amigos e colegas, apesar de que uma das exigências para a escolha dos candidatos aos testes fosse a inexistência de parentes próximos. Os custos e os ris­cos foram enormes. Acarretaram quase setecentos mil dólares de verba secreta e o sacrifício de pelo menos uma pessoa, ó padrinho do rapaz que arrancara os próprios olhos. O padrinho não abandonava o caso, ia apurar a origem do problema. Mas o único lugar que ele encontrou foi o fundo da Baltimore Trench, onde presumivelmente ainda jaz, com dois blocos de cimento amarrados no que lhe resta das pernas.

Assim, o projeto do Lote 6 fora arquivado, embora sua verba continuasse fazendo parte do orçamento anual. O dinheiro era usado para manter uma vigilância ocasional sobre os sobreviventes, se surgisse algum espécime.

Acabou surgindo um.

Cap procurou uma pasta com fotografias e chegou a uma cópia lustrosa e em preto e branco, de oito por dez, da menina. Tinha sido feita três anos antes, quando ela estava com quatro anos e freqüentava o jardim de infância público, em Harrison. Era uma telefotografia tirada dos fundos de um caminhão de padaria, pos­teriormente ampliada e recortada, para que se transformasse, de um bando de meninos e meninas brincando, no retrato de uma menina sorridente, com rabo-de-cavalo voando, e os punhos de uma corda de pular em cada mão.

Cap olhou sentimentalmente para essa fotografia por algum tempo. Depois do seu ataque, Wanless descobrira o medo. Achava que a menininha deveria ser eliminada. E embora Wanless estivesse agora afastado, outros concordavam com ele, os que se encontra­vam junto à cúpula. Cap esperava com o maior fervor que não se chegasse a tanto. Ele próprio tinha três netos, dois deles da idade aproximada de Charlene McGee.

Teriam que separar a menina do pai, naturalmente. Talvez para sempre. Ele teria que ser eliminado, quase seguramente... depois de ter servido à sua finalidade, é claro.

Eram dez e quinze. Ele tocou a campainha para chamar Rachel.

— Albert Steinowitz já está aí?

— Chegou agora mesmo, Cap.

— Muito bem. Mande-o entrar, por favor.

 

—        Quero que você se encarregue pessoalmente da jogada final, Ai.

—        Muito bem, Cap.

Albert Steinowitz era um homem pequeno de pele pálida, ama­relada, e cabelo muito preto; no passado fora confundido muitas vezes com o ator Victor Jory. Cap trabalhara com Steinowitz algumas vezes durante cerca de oito anos — na verdade, ambos tinham vindo juntos da marinha —, e, para ele, Al parecia sempre um homem moribundo, prestes a ser internado num hospital. Fumava sem parar, mas não ali, onde não era permitido. Seu caminhar lento e impo­nente dava-lhe uma espécie de dignidade; e uma dignidade impene­trável é atributo raro em qualquer homem. Cap, que vira todas as fichas médicas dos agentes do setor 1, sabia que o andar imponente de Al era fictício: sofria horrivelmente de hemorróidas, e fora ope­rado duas vezes. Recusara uma terceira operação porque significaria uma bolsa de colostomia presa à perna para o resto da vida. Sua maneira de andar sempre lembrava a Cap um conto de fadas da sereia que queria ser mulher, e o preço que pagara em troca de pernas e pés. Cap imaginava que o andar dela teria sido bastante digno.

— Qual é o tempo mínimo para você chegar a Albany? — perguntou a Al.

— Uma hora, partindo daqui.

—        Bem. Não vou prendê-lo aqui muito tempo. Como está a situação por lá?

Albert cruzou no colo as mãos pequenas e amareladas.

—        A policia estadual está cooperando maravilhosamente. To­das as estradas, que saem de Albany foram bloqueadas. Os bloqueios foram estabelecidos em círculos concêntricos, tendo o aeroporto do condado de Albany como centro, num raio de cinqüenta e poucos quilômetros.

— Você está admitindo que eles não conseguiram uma carona.

—        Temos que admitir — disse Albert. — Se eles pegaram carona com alguém que os tenha levado uns trezentos quilômetros adiante, teremos, naturalmente, que começar tudo de novo. Mas aposto que estão dentro desse círculo.

—        Sim? Por quê, Albert? — Cap curvou-se para a frente. Albert Steinowitz era, sem dúvida, o melhor agente, excetuando-se Rainbird, empregado da Oficina. Era brilhante, intuitivo e impla­cável, quando a tarefa assim o exigia.

—        Em parte, por pressentimento — disse Albert. — Em parte pelos dados obtidos do computador quando registramos nele tudo o que sabíamos sobre os últimos três anos da vida de Andrew McGee. Propusemos ao computador todos os exemplos que se aplicassem à capacidade que se presume que ele tenha.

—        Ele a tem, Al — disse Cap gentilmente. — Ë exatamente o que torna esta operação tão delicada.

—        Muito bem, ele tem essa capacidade. Mas o computador sugere que a capacidade dele para usá-la é extremamente limitada. Se abusar, fica doente.

— Certo. Estamos contando com isso.

—        Ele estava se dedicando a uma atividade em Nova York, no gênero da literatura popular de Dale Carnegie (tipo “como fazer amigos”).

Cap confirmou com a cabeça. Os Associados de Confiança, uma espécie de curso destinado principalmente a executivos tímidos. Era o bastante para manter a ele e à menina a pão e carne, ou pouco mais.

— Nós interrogamos seu último grupo — disse Albert Stei­nowitz. — Eram dezesseis pessoas e cada uma pagou uma quota inicial de cem dólares na inscrição, mais cem no decorrer do curso, desde que achassem que ele os estava ajudando. Todos pagaram, naturalmente.

Cap concordou. O talento de McGee prestava-se admiravel­mente a transmitir confiança às pessoas. Ele literalmente os pressio­nava para isso.

— Pusemos no computador as respostas do grupo a várias per­guntas-chave. As perguntas eram: “Você se sentiu melhor em rela­ção a si mesmo e ao curso dos Associados de Confiança em ocasiões especiais? Pode se lembrar de certos dias no trabalho, após encon­tros com os Associados de Confiança, em que se sentiu como um tigre? Pode...”

— Em que se sentiu como um tigre? — perguntou Cap. — Meu Deus, você perguntou se eles se sentiam como tigres?

— O computador sugeriu a palavra.

— OK, continue.

— A terceira pergunta era: “Você teve algum êxito significa­tivo específico na sua profissão desde que freqüentou esse curso dos Associados de Confiança?” Essa foi a pergunta a que puderam res­ponder com maior objetividade e confiança, porque as pessoas ten­dem a lembrar-se do dia em que ganharam uma promoção ou uma pancadinha nas costas do patrão. Estavam ávidos por falar. Eu achei tudo um tanto fantástico, Cap. Ele certamente fez o que prometera. Dos dezesseis, onze tiveram promoções, onze! Dos outros cinco, três encontram-se em empregos onde as promoções só ocorrem em prazos determinados.

— Ninguém mais discute a capacidade de McGee — disse Cap.

— OK. Voltando ao assunto, o curso foi de seis semanas. Usando as respostas às questões-chave, o computador apontou qua­tro dias de pique.., isto é, dias em que McGee provavelmente suplementou com uma boa pressão aquele negócio habitual de hip-hip-hurra-você-pode-fazer-isso-se-você-tentar. Os dias assinalados são: 17 de agosto, 10 de setembro, 19 de setembro e 4 de outubro.

— Isso prova o quê?

— Bem, ele pressionou aquele motorista na noite passada. Pressionou-o fortemente. Aquele cara ainda está perturbado e dese­quilibrado. Calculamos que McGee esteja prostrado. Doente. Talvez imobilizado. — Albert olhou para Cap firmemente. — O compu­tador deu-nos vinte e seis por cento de chance de ele estar morto.

—        O que?

—        Bem, ele já fez esse esforço excessivo uma vez e caiu de cama. Isso prejudica o seu cérebro... Deus sabe como! Provo­cando hemorragias diminutas, talvez. Pode ser um mal progressivo. O computador calcula que existe uma chance ligeiramente superior a um para quatro de que ele esteja morto, de ataque cardíaco ou mais provavelmente apoplexia.

—        Ele teve que usar sua capacidade antes que ela se tivesse recarregado — disse Cap.

Albert concordou com a cabeça e tirou alguma coisa do bolso. Estava fechada em plástico flexível. Passou-o para Cap, que olhou para o objeto e o devolveu.

—        O que é isso? — perguntou.

—        Não muita coisa — disse Al, olhando para a nota no seu envelope plástico, meditativamente. — Apenas a nota com que McGee pagou a corrida ao motorista.

—        Ele foi de Nova York para Albany só por uma nota de um dólar, não é? — Cap segurou-a de novo e examinou-a com reno­vado interesse. — O preço da corrida deveria ser.., que diabo! —Deixou cair em cima da mesa à nota fechada no plástico como se estivesse quente, e recostou-se, piscando.

—        Você também, hem? — disse Al. — Você viu?

—        Meu Deus, nem sei o que vi! — disse Cap, e apanhou a caixa de cerâmica em que guardava os seus neutralizadores de ácidos. — Por um segundo apenas ela não me pareceu uma nota de um dólar.

—        Mas agora parece?

Cap deu uma olhadela na nota.

—        Sim, sem a menor dúvida. Aí esta a cara de George Washington, tudo... Meu Deus! — Recostou-se para trás tão vio­lentamente que quase raspou a nuca no revestimento de madeira escura atrás de sua secretária. Olhou para Al. — O rosto na nota... pareceu mudar por um segundo. Ganhou óculos, ou alguma coisa assim. Seria um truque?

—        É um diabo de truque, e dos bons — disse Al, recolhendo a nota. — Eu também vi, mas não agora. Acho que já me adaptei a ela.., embora diabos me levem se sei como. É apenas uma espé­cie de alucinação. Mas até cheguei a ver o rosto. Era de Benjamim Franklin.

— Você conseguiu tirá-la do motorista? — perguntou Cap, olhando para a nota, fascinado, esperando que ela mudasse de novo. Mas era apenas George Washington.

Al riu.

—        É isso — disse ele. — Tomamos-lhe a nota e demos-lhe um cheque de quinhentos dólares. Ele saiu lucrando.

—        Por quê?

—        Ben Franklin não está na nota de quinhentos, está na nota de cem. Ao que parece McGee não sabia disso.

—        Deixe-me vê-la novamente.

Al restituiu a nota de um dólar a Cap, que a olhou fixamente por quase dois minutos. No momento de devolvê-la a figura vacilou, insegura. Mas dessa vez Cap sentiu que a vacilação estava, sem dúvi­da, em sua própria mente e não na nota, nem na superfície dela ou onde quer que fosse.

—        Vou lhe dizer mais uma coisa — disse Cap. — Não tenho certeza, mas acho que Franklin também não tinha óculos nessa figu­ra da nota. Aliás... — Sua voz se perdia, insegura para completar o pensamento. Uma idéia de algo muito misterioso veio-lhe à mente, e ele afastou-a.

— Sim — disse Al —, seja como for, o efeito está desapare­cendo. Esta manhã mostrei a nota a umas seis pessoas. Duas acha­ram ter visto coisas, mas não como o motorista e a moça que vive com ele.

—        Então você acha que ele usou uma pressão excessiva?

—        Acho. Duvido que ele possa continuar. Talvez os dois tenham dormido nos bosques ou num motel isolado. Podem ter se metido numa cabana de verão da região. Mas acho que estão por ali e que vamos poder pôr a mão neles sem muita dificuldade.

—        De quantos homens você precisa para isso?

— Já temos o suficiente. Contando com a polícia estadual, deve haver mais de setecentas pessoas nesta pescaria. Prioridade máxima. Vão de porta em porta, de casa em casa. Já inspeciona­mos todos os hotéis e motéis da região nas imediações de Albany, mais de quarenta deles. Estamos nos espalhando agora pelas cidades vizinhas. Um homem com uma menininha... não podem passar despercebidos. Vamos apanhá-los. Ou só a menina, se ele estiver morto. — Albert pôs-se de pé. — E acho que devo tomar parte nisso. Quero estar lá quando eles caírem na rede.

—        Claro que você quer. Traga-os até aqui.

— Vou trazê-los — disse Albert, retirando-se.

— Albert?

Ele virou-se. Era um homem pequeno, de pele amarela, doentia.

—        Quem está na nota de quinhentos dólares? Você verificou?

Albert Steinowitz sorriu.

— O presidente McKinley — respondeu. — Foi assassinado.

E foi embora, fechando delicadamente a porta atrás de si e deixando Cap pensativo.

 

Dez minutos depois, Cap apertava o botão do interfone nova­mente.

— Rainbird já voltou de Veneza, Rachel?

— Desde ontem — disse Rachel, e Cap podia perceber o desa­grado até mesmo no tom de sua voz cuidadosamente cultivado, próprio de uma secretária de chefão.

— Ele está aqui ou em Sanibel? — A Oficina mantinha uma instalação R-A-R* na ilha de Sanibel, na Flórida.

Houve uma pausa enquanto Rachel buscava confirmação no computador.

— Está em Longmont, Cap, desde ontem às dezoito horas. Talvez dormindo, devido à diferença de horário no vôo a jato.

— Mande alguém acordá-lo — disse Cap. — Gostaria de vê-lo quando Wanless tiver ido embora.., isto é, admitindo que Wanless ainda esteja aqui.

—        Há quinze minutos ainda estava.

— Muito bem... Vamos dizer, Rainbird ao meio-dia.

— Sim, senhor.

—        Você é uma boa moça, Rachel.

— Muito obrigada. — Ela parecia comovida. Cap gostava dela, gostava muitíssimo dela.

— Mande entrar o Dr. Wanless, por favor, Rachel.

Ele recostou-se, juntou as mãos diante de si e pensou: Pelos meus pecados.

 

*“Rest and Recuperation” (Descanso e recuperação),serviço das torças armadas. (N. da T.)

 

O Dr. Wanless sofrera um ataque de apoplexia no mesmo dia em que Richard Nixon anunciara sua renúncia à presidência, a 8 de agosto de 1974. Fora um acidente cerebral de gravidade moderada, do qual ele nunca se recuperara completamente. Nem do ponto de vista físico, nem mentalmente, na opinião de Cap. Foi só depois do ataque que o interesse de Wanless pela experiência com o Lote 6 e suas conseqüências tornou-se constante e obsessivo.

Ele entrou na sala apoiado numa bengala. A luz que vinha da janela da sacada atingia seus óculos redondos sem aro, fazendo-os brilhar sem expressão. A mão esquerda parecia uma garra caída. O canto esquerdo da boca torcia-se num desprezo glacial constante.

Rachel olhou com simpatia para Cap por cima do ombro de Wanless, e Cap, com um gesto de cabeça, dispensou-a. Ela saiu, fechando a porta silenciosamente.

—        O bom doutor! — disse Cap com desânimo.

— Como vai indo a coisa? — perguntou Wanless, sentando-se com um gemido.

— Privativo das autoridades — disse Cap. — Você sabe disso, Joe. O que posso fazer por você hoje?

— Estou reparando na atividade que há por aqui — disse Wanless, ignorando a pergunta de Cap. — Que mais poderia eu fazer enquanto esfriava meus calcanhares a manhã inteira?

— Se vem sem hora marcada...

— Você acha que quase os tem de novo nas mãos? Por que então precisa desse pistoleiro do Steinowitz? Bem, talvez você con­siga. Talvez desse jeito. Mas já pensou assim antes, não foi?

— O que você quer, Joe? — Cap não gostava que lhe recor­dassem as falhas passadas. Realmente, tinham pegado a menina por algum tempo. Os homens que haviam participado dessa operação ainda estavam fora de serviço e talvez permanecessem assim para sempre.

—        O que é que eu sempre quero? — perguntou Wanless, curvado sobre a bengala. O Deus, pensou Cap, a velha raposa está ficando retórica. — Por que continuo vivo? Para persuadi-lo a sacri­ficar os dois e também a James Richardson. Liquidar os que estão em Mauí. Pena máxima, capitão Hollister. Elimine-os. Varra-os da face da Terra.

Cap suspirou.

Wanless fez um gesto na direção do carrinho da biblioteca com a mão em forma de garra, dizendo:

—        Você andou estudando a documentação de novo, estou vendo.

—        Conheço-a quase de cor — disse Cap, sorrindo discreta­mente. Passara todo o ano anterior comendo e bebendo o Lote 6; ele fora um item constante na agenda em todos os encontros du­rante os dois anos precedentes. Assim, pelo visto, talvez Wanless não fosse a única personagem obsessiva por aquelas paragens.

A diferença é que eu sou pago para isso. Enquanto, com Wan­less, trata-se de um hobby. Um hobby perigoso.

— Você lê os documentos, mas não aprende. Dê-me mais uma vez a oportunidade de levá-lo ao caminho da verdade, capitão Hollister.

Cap começou a protestar, e então a lembrança de Rainbird e de sua entrevista para o meio-dia veio-lhe à mente e seu rosto desa­nuviou-se. Ficou calmo e até mesmo compreensivo.

—        Muito bem. Atire quando estiver pronto, Gridley *.

—        Você ainda acha que eu sou maluco, não é? Um lunático.

—        É você quem o diz, não eu.

—        Seria bom você se lembrar que fui o primeiro a sugerir um programa de testes com ácido lisérgico triplo.

—        Há dias em que desejo que você não o tivesse sugerido. — Ao fechar os olhos, ainda podia ver o primeiro relatório de Wan­less, um prospecto de duzentas páginas sobre uma droga conhecida de início como DLT, e entre os técnicos participantes como um ácido “intensificador” e, finalmente, Lote 6. O antecessor de Cap aprovara o projeto original; esse senhor fora enterrado em Arlington com todas as honras militares havia seis anos.

—        O que quero dizer é que minha opinião deve ter certo peso. — Wanless parecia cansado naquela manhã, as palavras lhe saíam lentas e abafadas. O canto esquerdo torcido da boca não se movia quando ele falava, sempre com ar de desprezo.

—        Estou ouvindo — disse Cap.

—        Tanto quanto eu saiba, sou o único psicólogo ou médico que ainda é ouvido por você. Sua gente ficou cega por uma coisa, e uma coisa apenas: o que esse homem e a garotinha podem significar para a segurança da América.., e possivelmente para o equi­líbrio futuro do poder. A partir do que nos tem sido possível per­ceber, ao seguir o rastro desse McGee, ele é uma espécie de Raspútin benigno. Ele pode...

Wanless continuava discursando, mas Cap perdera temporaria­mente o fio da conversa. Raspútin benigno, pensou. Por mais ela­borada que fosse a frase, gostava muito dela. Cogitava no que Wan­less diria se lhe contassem que o computador sugeria uma possibili­dade em quatro de McGee ter-se condenado à morte ao sair de Nova York. Provavelmente ficaria encantado. E se ele mostrasse a Wanless aquela estranha nota de um dólar? Provavelmente teria outro ataque, pensou Cap, e cobriu a boca para esconder um sorriso.

     — Estou preocupado, em primeiro lugar, com a menina — disse-lhe Wanless pela vigésima, trigésima, qüinquagésima vez. —McGee e Tomlinson casados... chance de mil para um. O casa­mento deveria ter sido evitado a todo o custo. No entanto, quem po­deria prever...

     —  Vocês todos foram a favor disso naquela ocasião — acres­centou Cap secamente. — Acho que você teria sido o padrinho da noiva, se lhe tivessem pedido.

— Nenhum de nós percebeu — murmurou Wanless. — Foi preciso o ataque cerebral para me fazer compreender. O Lote 6 não passava de uma cópia sintética do extrato hipofisário, afinal... um alucinógeno incrivelmente poderoso contra a dor, que não com­preendíamos então, e que não compreendemos agora. Sabemos, ou pelo menos temos noventa e nove por cento de certeza, que a con­trapartida natural dessa substância é responsável, de certo modo, pelos fluxos ocasionais de capacidade psíquica que quase todos os seres humanos demonstram de tempos em tempos. Uma faixa sur­preendentemente ampla de fenômenos de precognição, telecinesia, dominação mental, surtos de força sobre-humana, controle tempo­rário sobre o sistema nervoso simpático. Você sabia que a hipófise torna-se subitamente hiperativa em quase todas as experiências de bio/eedback?

 

* General americano, 1711-1796. (N. da T.) Alusão a Richard Gridley.

 

Cap sabia. Wanless lhe disse isso vezes sem conta. Mas não havia necessidade de responder, essa manhã a retórica de Wan­less estava no seu mais florescente desabrochar, o sermão, bem encadeado. E Cap estava disposto a ouvir.., pela última vez. Vamos passar a bola ao velho, é a vez dele. Para Wanless, era a gota d’água.

— Sim, isso é verdade — respondeu Wanless para si mesmo. — É ativa em biofeedback, e ativa no sono REM* , e as pessoas com lesão da hipófise raras vezes sonham normalmente. Entre as pessoas com hipófise lesada há uma tremenda incidência de tumo­res cerebrais e leucemia. A hipófise, capitão Hollister. Falando em termos de evolução, ela é a mais antiga glândula endócrina do corpo humano. No início da adolescência, ela descarrega muitas vezes seu próprio peso em secreções glandulares no fluxo sangüíneo. É uma glândula de enorme importância, uma glândula terrivelmente miste­riosa. Se eu acreditasse na alma humana, capitão Hollister, diria que ela reside na hipófise.

Cap resmungou.

— Nós conhecemos essas coisas — disse Wanless — e sabe­mos que o Lote 6 de certo modo mudou a composição física da hipófise dos que participaram da experiência. Mesmo daquele que você chama de “silencioso”, James Richardson. Mais importante ainda: podemos deduzir, quanto à menina, que isso também altera a estrutura dos cromossomos, de certo modo... e que a mudança da hipófise pode ser uma mutação genuína.

—        O fatør X foi transmitido.

Não. Essa é uma das muitas coisas que você não conseguiu

 

*“Rapid Eye Movements” (Movimentos rápidos dos olhos). Período do sono em que há maior incidência de sonhos. (N. da T.)

 

compreender, capitão Hollister. Andrew McGee tornou-se um fator X         na sua vida pós-experiência. Victoria Tomlinson tornou-se um fator Y, também afetado, mas não da mesma maneira que o marido. A mulher manteve o limiar baixo de poder telecinético. O homem reteve uma capacidade de nível médio de dominação mental. A menininha, no entanto.., a menininha, capitão Hollister... o que é ela? Realmente não sabemos. Ela é o fator Z.

— Pretendemos descobrir — disse Cap suavemente.

Agora os dois cantos da boca de Wanless expressavam sar­casmo.

— Vocês pretendem descobrir — repetiu, como um eco. — Sim, se vocês persistirem certamente poderão fazê-lo.., vocês, seus idiotas obsessivos e cegos. — Fechou os olhos por um momento, cobrindo-os com a mão. Cap observava-o calmamente.

Wanless disse:

— Uma coisa vocês já sabem: ela provoca incêndios.

— Sim.

— Você admite que ela tenha herdado da mãe a capacidade telecinética. De fato, você suspeita disso fortemente.

— Sim.

—        Quando era muito pequena, ela era totalmente incapaz de controlar esses.., esses talentos, na falta de palavra melhor.

— Uma criança pequena é incapaz de controlar os intestinos — disse Cap, usando um dos exemplos apresentados no extrato.

Mas à medida que ela cresce...

— Sim, sim, conheço bem a analogia. Mas uma criança maior pode sofrer acidentes.

Sorrindo, Cap respondeu:

— Vamos mantê-la num aposento à prova de fogo.

— Uma cela.

Ainda sorrindo, Cap disse:

— Se o senhor preferir.

— Ofereço-lhe esta dedução: ela não gosta de usar essa capa­cidade que a assusta. Esse medo lhe foi deliberadamente instilado. Vou lhe dar um exemplo paralelo. O filho de meu irmão. Havia fósforos na casa. Freddy queria brincar com eles. Acendê-los, depois jogá-los fora. Lindo, lindo, era o que ele dizia. Meu irmão resol­veu então estabelecer um complexo. Assustá-lo de tal maneira que ele jamais voltaria a brincar com fósforos. Disse a Freddy que as ca­beças dos fósforos eram de enxofre e que fariam seus dentes ficarem podres e caírem. Que olhar para um fósforo aceso poderia cegá-lo. E, finalmente, segurou a mão de Freddy por uns momentos sobre um fósforo aceso.

— Seu irmão — murmurou Cap — parece um verdadeiro prín­cipe entre os homens.

— É melhor ter um pontinho vermelho na mão do que estar numa unidade hospitalar para queimaduras, embrulhada em algo­dão, com queimaduras de terceiro grau em sessenta por cento do corpo — disse Wanless ameaçadoramente.

— Seria melhor ainda pôr os fósforos fora do alcance da criança.

—        Você pode pôr os fósforos de Charlene McGee fora de seu alcance? — perguntou Wanless.

Cap concordou lentamente com a cabeça.

— Você tem razão, de certo modo, mas...

— Imagine, capitão Hollister, o que deve ter sido a vida de Andrew e Victoria McGee quando essa criança era um bebê. Quan­do eles começaram a tirar as conclusões inevitáveis. A mamadeira está atrasada. O bebê chora. Ao mesmo tempo, um dos seus bichos de pano, ali mesmo no berço, junto dela, arde em chamas. Há qual­quer coisa de errado na fralda. O bebê chora. Um momento depois, as roupas sujas no cesto.., começam a arder espontaneamente. Você tem os registros, capitão Hollister, você sabe como era na­quela casa. Um extintor de incêndio e um detector de fumaça em cada aposento. E uma vez foi o cabelo dela, capitão Hollister; en­traram no quarto e encontraram-na de pé no berço, gritando, com o cabelo em chamas.

— Sim, eles devem ter ficado tremendamente nervosos.

— Assim, eles a treinaram para não fazer as necessidades na roupa.., e treinaram-na para não provocar fogo.

— Treinamento contra fogo — devaneou Cap.

— O que quero dizer é que, como meu irmão fez com Freddy, eles criaram nela um complexo. Você me citou essa analogia, capitão Hollister, então examinemo-la por um momento. O que é treina­mento de higiene? Não é criar um complexo pura e simplesmente? — E subitamente, espantosamente, a voz do velho elevou-se a um tom agudo, alto e trêmulo, a voz de uma mulher ralhando com um bebê. Cap olhou-o com um espanto enojado. — Você, seu bebê mau — gritava Wanless. — Olhe só o que você fez! É uma vergo­nha, seu sujo, yeja só como está sujo. É uma vergonha fazer isso nas calças. Você vê as pessoas grandes fazerem isso nas calças? Faça isso no peniquinho, no peniquinho.

— Por favor — disse Cap, incomodado.

— É a criação de um complexo. O treinamento da higiene focaliza a atenção da criança no seu próprio processo eliminatório de uma forma que não consideraríamos saudável se o objeto da fixação fosse outro. Você poderia perguntar: até que ponto é forte o com­plexo incutido na criança? Richard Damon, da Universidade de Washington, fez a si mesmo esta pergunta a realizou uma experiên­cia para encontrar a resposta. Anunciou que precisava de cinqüenta estudantes voluntários. Encheu-os de água, soda e leite até eles ficarem com vontade de urinar. Após certo tempo, disse-lhes que podiam aliviar-se, se fizessem nas calças.

— É repugnante — disse Cap, alto. Ficara chocado e enojado. — Isso não foi uma experiência, foi um exercício de degeneração.

— Veja como o complexo se instalou na sua própria mente —disse Wanless serenamente. — Você não achava isso tão repugnante quando tinha vinte meses. Naquele tempo, quando você sentia von­tade, fazia. E teria feito isso no colo de uma pessoa, se alguém o tivesse colocado ali quando você estivesse com vontade de urinar. A conclusão da experiência de Damon, capitão Hollister, é esta: a maioria dos estudantes não conseguiu. Compreenderam que as re­gras habituais de comportamento tinham sido postas de lado, pelo menos durante o curso da experiência; cada um estava sozinho em compartimento tão exclusivo quanto um banheiro comum... mas oitenta e oito por cento deles não conseguiram. Não importa a intensidade dessa necessidade física, o complexo instilado pelos pais foi mais forte.

—        Tudo isso não passa de divagação sem importância — disse Cap, brusco.

—        Não, não é, quero que você considere o paralelismo entre treinamento da higiene e o treinamento contra o fogo.., e a unica diferença significativa, que é o quantum de extensão entre a urgên­cia de realizar o primeiro e a de realizar o último. Se a criança apren­der lentamente o controle da higiene, quais serão as conseqüências? Desprazeres mínimos. O quarto ficará cheirando mal se não for are­jado constantemente. A mãe fica presa à máquina de lavar. Talvez seja preciso mandar lavar o tapete. E, na pior das hipóteses, o bebê poderá ficar com um exantema constante nas nádegas, mas isso só se ele tiver uma pele sensível ou se a mãe for muito desleixada. Mas as conseqüências para uma criança que pode pôr fogo nas coisas...

Seus olhos brilharam. O canto esquerdo de sua boca tinha aquela expressão de desdém.

—        Minha estima pelos McGees como pais é muito grande — disse Wanless. — De algum modo fizeram a menina atravessar essa fase. Imagino que tenham começado muito mais cedo do que os pais comuns costumam fazer com o treinamento para higiene, talvez até antes que ela tenha sido capaz de engatinhar. Nenê não deve fazer! Nenê faz dodói! Não, não. Menina ruim, menina ruim!

“Mas o seu próprio computador diz que ela está vencendo esse complexo: É jovem, e o complexo ainda não teve oportunidade de se instalar definitivamente. E tem o pai com ela! Você percebe o significado desse simples fato? Não, você não percebe. O pai é a imagem da autoridade. Segura as rédeas de toda a fixação na criança do sexo feminino. Oral, anal, genital; por trás de cada uma, como sombra por trás de uma cortina, está a imagem de autoridade do pai. Para uma menina, ele é Moisés; as leis são as dele. Ela não sabe como essas leis lhe são transmitidas, mas compete-lhe fazê-las cumprir. Talvez ela seja a única pessoa na Terra capaz de remover esse bloqueio. Nossos complexos, capitão Hollister, nos causam sem­pre maior aflição e desespero quando aqueles que no-los inculcaram morrem e ficam fora de discussão... e de complacência.

Cap deu uma olhada no relógio e viu que Wanless já estava ali havia quase quarenta minutos. Pareciam horas.

—        O senhor já está acabando? Tenho uma outra entrevista marcada.

— Quando os complexos cedem, vão rebentando como diques depois de chuvas torrenciais — disse Wanless em voz baixa. —Tivemos uma moça promíscua de dezenove anos. Já teve trezentos amantes. O corpo dela estava tão infectado de doenças venéreas como o de uma prostituta de quarenta anos. Mas até os dezessete anos fora virgem. O pai dela era pastor religioso e lhe dissera re­petidas vezes, quando ela ainda era menininha, que o sexo no casa­mento era um mal necessário, mas fora do casamento significava inferno e danação, que o sexo era a maçã do pecado original. Quan­do um complexo dessa natureza cede, rebenta como um dique. De início aparece uma rachadura ou outra, infiltrações de água tão pe­quenas que passam despercebidas. E de acordo com a informação do seu computador, é nesse ponto que está nossa menininha. Há sugestões de que ela usou suas capacidades para ajudar o pai, por solicitação dele. E então tudo vai ceder de uma vez, despejando milhões de litros de água, destruindo tudo na sua passagem, afogan­do todos no seu caminho, mudando a paisagem para sempre!

A voz áspera de Wanless elevara-se do seu timbre baixo inicial para o grito de uma voz alquebrada de velho, mas era mais irritada do que enfática.

—        Escute — disse para Cap; — Ao menos uma vez, ouça-me. Abra os olhos. O homem não é perigoso por si e em si mesmo. Tem um pequeno poder, um brinquedo, um jogo. Ele compreende isso. Não foi capaz de usá-lo para ganhar um milhão de dólares. Ele não governa homens nem nações. Usou seus poderes para ajudar mulhe­res gordas a perder peso. Usou-os para ajudar executivos tímidos a ganhar confiança. É incapaz de usar o poder amiúde, ou então... algum fator fisiológico interno o limita. Mas a menina é incrivel­mente perigosa. Está em fuga com o pai, defrontando uma situa­ção de sobrevivência. Está terrivelmente assustada. E ele também está assustado, o que o torna perigoso. Não por si mesmo, mas porque vocês o estão forçando a reeducar a menininha. Vocês o estão forçando a mudar seus conceitos sobre o poder que ela possui. Vocês o estão forçando a forçá-la a usar o poder.

Wanless respirava com dificuldade.

Estava terminando a sua dramatização. . . O fim estava à vista, agora. Cap disse calmamente:

— O que você sugere?

— O homem tem de ser morto. Depressa. Antes que possa exercer mais algum efeito destruidor sobre o complexo que ele e a mulher construíram dentro da menina. E a menina também deve ser morta, eu acho. No caso de essa destruição já se ter realizado.

— Ela é apenas uma menininha, afinal de contas. Pode desen­cadear incêndios, é verdade. Pirocinesia, como dizemos. Mas você está fazendo isso parecer o Armageddon.

— Talvez venha a ser — disse Wanless. — Você não deve deixar que a idade e o tamanho dela o iludam a ponto de esquecer o fator Z... exatamente o que vocês estão fazendo, é claro. E se provocar incêndios fosse apenas a ponta desse iceberg? E se o ta­lento dela aumentar? Ela tem sete anos. Quando John Milton tinha essa idade, talvez se esforçasse para escrever seu próprio nome em letras que seus pais pudessem compreender. Era um bebê. John Milton cresceu a ponto de escrever O paraíso perdido.

— Não sei de que diabo de coisas você está falando — disse Cap, sem rebuços.

— Estou falando do potencial de destruição. Estou falando de um talento ligado à hipófise, uma glândula quase adormecida numa criança da idade de Charlene McGee. O que acontecerá quando ela ficar adolescente e essa glândula acordar de seu sono e se tornar durante vinte meses a mais poderosa força do corpo humano, regu­lando tudo, desde a súbita maturação das características sexuais pri­márias e secundárias até a produção de visão erótica nos olhos? E se tivesse um filho capaz de um dia criar uma explosão nuclear simplesmente com a força de sua vontade?

— Isso é a coisa mais insana que jamais ouvi.

— É mesmo? Então deixe-me passar da insanidade à loucura rematada, capitão Hollister. Imagine que exista em algum lugar, esta manhã, uma menininha que tem dentro dela, adormecido, ape­nas por enquanto, o poder de algum dia partir o próprio planeta em dois, como um prato de porcelana num stand de tiro ao alvo.

Olharam-se em silêncio. E, de repente, o interfone zumbiu. Pas­sado um momento, Cap inclinou-se sobre o interfone e apertou o botão.

— Sim, Rachel? — Diabos, o velho quase o pegara por um momento. Ele era um corvo agourento, e essa era uma das razões por que Cap não gostava dele. Era um empreendedor, e, se havia uma coisa que ele não podia suportar, era um pessimista.

—        Há uma chamada para o senhor no fone com dispositivo contra escuta — disse Rachel. — Da área de serviço.

—        Muito bem, querida. Obrigado. Mantenha a ligação por alguns minutos, 0K?

—        Sim, senhor.

Recostou-se na cadeira.

—        Tenho que terminar esta entrevista, Dr. Wanless; pode ficar certo de que vou considerar com o maior cuidado tudo o que o senhor disse.

—        Vai mesmo? — O lado paralisado da boca de Wanless mostrava menosprezo, cinismo.

—        Sim.

—        A menina... McGee... e aquele rapaz, Richardson... são os três últimos termos de uma equação morta, capitão Holiister. Apague-os. Recomece. A menina é muito perigosa.

—        Vou considerar tudo o que o senhor disse — repetiu Cap.

—        Faça isso. — E finalmente Wanless começou a se esforçar por se pôr de pé, apoiado na bengala. Levou muito tempo para se levantar. — O inverno está chegando — disse ele para Cap. —Estes velhos ossos o temem.

—        O senhor vai ficar em Longmont esta noite?

—        Não, em Washington.

Cap hesitou e acabou dizendo:

—        Fique no Mayflower. Talvez precise entrar em contato com o senhor.

Havia alguma coisa nos olhos do velho. Seria gratidão? Sim, quase certamente era isso.

—        Muito bem, capitão Hollister — disse ele, indo com esforço até a porta, apoiado na bengala. Era um velho que certa vez abrira a caixa de Pandora e agora queria atirar em todas as coisas que voaram de lá em vez de pô-las para funcionar.

Quando a porta rangeu ao fechar-se atrás dele, Cap soltou um suspiro de alívio e pegou o fone especial.

—        Com quem estou falando?

—        Orv Jamieson, capitão.

—        Você os apanhou, Jamieson?

—        Ainda não, capitão, mas encontramos uma coisa interessante no aeroporto.

—        O quê?

— Todos os telefones automáticos estão vazios. Encontramos algumas moedas no chão em torno de alguns deles.

— Arrombados?

— Não, capitão. Foi por isso que lhe liguei. Eles não foram arrombados, estão apenas vazios. A companhia telefônica está fican­do doida.

— Está bem, Jamieson.

— Isso facilita as coisas. Estávamos imaginando que talvez o sujeito tivesse escondido a menina, registrando-se sozinho em algum motel. Agora estamos procurando um cara que tenha feito paga­mentos com muitas moedas miúdas.

— Desde que eles tenham estado em algum motel, e não numa cabana de acampamento de verão em algum lugar.

—        Sim, capitão.

—        Continue agindo, OJ.

—        Sim, senhor. Obrigado. — Ele parecia ridiculamente satis­feito de ter sido chamado por aquele apelido.

Cap desligou. Ficou ali sentado, com os olhos semicerrados, pensando durante cinco minutos. A suave lua de outono penetrava pela janela, iluminando o escritório e aquecendo-o. Em seguida, inclinando-se para a frente, ele chamou Rachel de novo.

— John Rainbird está aí?

— Está sim, Cap.

—        Dê-me mais cinco minutos e faça-o entrar. Quero falar com Norville Bates, na área de serviço. Ele é o chefe da operação até Al chegar lá.

—        Sim, senhor — disse Rachel, hesitante. — Tem de ser uma linha aberta. Ligação com walkie-talkie. Não é muito...

—        Sim, está bem — disse ele impacientemente.

Levou dois minutos. A voz de Bates era fina e rachada. Ele era um bom homem, não muito imaginativo, mas um diligente matador. A espécie de homem que Cap queria que segurasse a barra até Albert Steinowitz poder chegar lá. Finalmente, Norville estava na linha, e disse a Cap que a turma começava a se espalhar pelas cidades vizinhas, Oakville, Tremont, Messalonsett, Hastings Glen, Looton.

— Muito bem, Norville, bom trabalho. — Pensou em Wanless dizendo: Vocês o estão forçando a reeducar a menina. Pensou em Jamieson dizendo-lhe que todos os telefones estavam vazios. McGee não teria feito isso. A menina o fizera. E então, por estar ainda excitada, queimara os sapatos do soldado, provavelmente por aci­dente. Wanless ficaria contente ao saber que Cap iria afinal seguir cinqüenta por cento dos seus conselhos, o velho traste fora estupen­damente eloqüente naquela manhã.

— As coisas mudaram — disse Cap. — Temos que condenar o homenzarrão. Pena capital. Você entende?

— Pena capital — repetiu Norville com naturalidade. — Sim, senhor.

—        Muito bem, Norville — disse Cap em voz baixa. Pousou o fone e esperou que John Rainbird entrasse.

A porta abriu-se logo depois, e ali estava ele, tão grande como a vida e duas vezes mais feio. Era tão silencioso, aquele meio índio cherokee, que, se alguém estivesse olhando para a mesa, lendo ou respondendo à correspondência, não teria percebido absolutamente a presença de outra pessoa na sala. Cap sabia como isso era raro. A maioria das pessoas pode sentir que há alguém na sala. Wanless chamara uma vez essa capacidade, não de sexto sentido, mas o sen­tido do fundo do barril, um conhecimento nascido do impulso infi­nitesimal dos cinco sentidos normais. Mas em relação a Rainbird não se saberia dizer. Nem mesmo os fios sensórios, finos como bigo­des de gato, chegavam a vibrar. Steinowitz dissera certa vez uma coisa estranha a respeito de Rainbird, diante de cálices de vinho do Porto, na sala de estar de Cap: “Ele é o único ser humano que não desloca ar diante dele quando anda”. E Cap estava contente que Rainbird estivesse do lado deles, porque ele era o único ser humano que o aterrorizava completamente.

Rainbird era uma criatura sobrenatural, homem de muitas habi­lidades. Media quase dois metros e dez e usava o cabelo negro e lustroso puxado para trás e amarrado num curto rabo-de-cavalo. Dez anos antes, na sua segunda ida ao Vietnam, um Claymore estourara-lhe na cara, e agora seu rosto era como o das personagens de filmes de horror, com cicatrizes e sulcos na carne.

Perdera o olho esquerdo. No lugar dele, nada mais havia que um buraco. Recusara cirurgia plástica ou olho artificial porque, segundo dizia, quando passasse para o bom terreno de caçada no além, seria solicitado a mostrar suas cicatrizes de combate. Quando dizia essas coisas, ninguém sabia se devia acreditar ou não; não se sabia se ele falava a sério ou se estava brincando.

Durante anos, Rainbird fora um agente surpreendentemente bom, em parte porque a última coisa que ele parecia ser neste mundo era um agente e, principalmente, porque, por trás daquela máscara de carne, havia um cérebro competente, extremamente bri­lhante. Falava correntemente quatro línguas e compreendia mais outras três. Estava fazendo um curso de russo enquanto dormia. Falava com voz baixa, musical e civilizada.

— Boa tarde, Cap.

— Já é de tarde? — perguntou Cap, surpreendido.

Rainbird sorriu, mostrando uma fileira de dentes brancos per­feitos, dentes de tubarão, pensou Cap.

— Há catorze minutos disse ele. — Comprei um relógio Seiko digital no mercado negro, em Veneza. Ë fascinante. Numero­zinhos pretos que mudam constantemente. Um êxito da tecnologia. Amiúde eu penso, Cap, que combatemos na Guerra do Vietnam não para ganhá-la, mas para realizar êxitos de tecnologia. Combatemos para criar o relógio digital de pulso, o video-game, a calculadora de bolso. Olho para o meu novo relógio de pulso na escuridão da noite. Ele me diz que estou mais perto da morte, segundo por segundo. São boas notícias.

— Sente-se, amigo velho — disse Cap. Como sempre, quando falava com Rainbird, sua boca ficava seca, e ele tinha que controlar as mãos, para que elas não começassem a se torcer sobre a superfície polida da escrivaninha. Apesar disso, acreditava que Rainbird gos­tasse dele, se é que se podia dizer que Rainbird gostava de alguém. Rainbird sentou-se. Usava velhos blue jeans e camisa de cambraia desbotada.

—        Como estava Veneza? — perguntou Cap.

— Afundando.

—        Tenho um trabalho para você, se quiser. Ë pequeno, mas pode levar a um contrato que achará bem mais interessante.

—        Pode falar.

— Estritamente voluntário — observou Cap. — Você ainda está no Serviço de Descanso e Recuperação.

—        Pode falar — repetiu Rainbird delicadamente, e Cap falou. Estava com Rainbird havia apenas quinze minutos, mas parecia-lhe uma hora. Quando o grande índio saiu, Cap soltou um longo sus­piro. Wanless e Rainbird numa só manhã era de tirar a animação do dia a qualquer um. Mas a manhã acabara, ele realizara muita coisa, e quem sabe o que estaria para acontecer naquela tarde? Tocou a campainha para Rachel.

— Sim, Cap?

— Vou comer aqui mesmo. Você pode me arranjar alguma coisa da lanchonete? Qualquer coisa serve. Obrigado, Rachel.

Sozinho, afinal. O telefone especial jazia, silencioso, na sua volumosa base, cheia de microcircuitos e fichas memorizantes e só Deus sabe o que mais. Quando a campainha tocasse outra vez, seriam provavelmente Albert ou Norville para lhe comunicar que tudo terminara em Nova York, a menina fora agarrada e o pai es­tava morto. Seriam boas notícias.

Cap fechou de novo os olhos. Pensamentos e frases vagavam pela sua cabeça como papagaios de papel, grandes e preguiçosos. Dominação mental. Seus rapazes diziam que as possibilidades eram enormes. Imaginem alguém como McGee ao lado de Fidel Castro ou do aiatolá Khomeini. Imaginem-no suficientemente próximo desse esquerdista Ted Kennedy, para lhe sugerir em voz baixa, com convicção absoluta, que o suicídio é a melhor solução. Imaginem um homem como esse açulando os lideres dos vários grupos de guerrilha comunista. Era uma vergonha ter de perdê-lo. Mas.., o que se podia fazer acontecer uma vez podia se repetir mais vezes


       A menina. Wanless dizendo: O poder de algum dia partir o próprio planeta em dois, como um prato de porcelana num stand de tiro ao alvo.. . Ridículo, naturalmente. Wanless ficara tão doido quanto o menininho da história de D. H. Lawrence, o que era capaz de selecionar os vencedores na pista de corrida.

O Lote 6 transformara-se em ácido para Wanless; tinha corroí­do o bom senso do homem, cavando grandes lacunas. Ela era uma menininha, e não uma arma para o dia do Juízo. E eles não deviam largá-la, pelo menos durante o tempo suficiente para documentar o que ela era e classificar o que ela poderia vir a ser. Só isso já seria bastante para reativar o programa de testes do Lote 6. Se ela pudesse ser persuadida a usar os seus poderes para o bem do país, tanto melhor.

Tanto melhor, pensou Cap.

O         telefone especial emitiu um longo som áspero, com o cora­ção aos pulos, Cap pegou-o.

 

O incidente na Fazenda Manders

Enquanto Cap discutia o futuro da menina com Al Steinowitz em Longmont, Charlie McGee estava sentada na borda da cama no quarto 16 do Slumberland Motel, bocejando e espreguiçando-se. A luz do sol da manhã entrava obliquamente pela janela, o céu de outono era de um azul profundo, impecável. As coisas pareciam muito melhores à boa luz do dia.

Olhava para o pai, que não passava de uma corcova imóvel debaixo dos cobertores. Sobressaíam uns fiapos de cabelo preto e nada mais. Ela sorria. Ele sempre se esforçava ao máximo. Se esti­vesse com fome e ela também, e houvesse apenas uma maçã, ele só a mordiscava e dava o resto para ela. Quando estava acordado, sem­pre fazia o melhor que podia.

Mas quando dormia, roubava todos os cobertores.

Charlie foi ao banheiro, tirou a roupa de baixo e abriu o chu­veiro. Usou a privada enquanto a água aquecia, e pulou então para debaixo do chuveiro. A água quente a atingiu, e ela fechou os olhos, sorrindo. Nada melhor no mundo do que os primeiros minutos de um chuveiro quente.

(você foi ruim na noite passada)

Ela franziu as sobrancelhas.

(Não, papai disse que não.)

(pôs logo nos sapatos do homem, menina ruim, muito ruim, você gosta de ver o ursinho todo preto?)

A ruga entre as sobrancelhas se aprofundou. Ao mal-estar acres­centavam-se agora medo e vergonha. A idéia do seu ursinho nunca vinha completamente à tona, estava no subconsciente, e, como acon­tecia amiúde, a culpa parecia-lhe se resumir a um cheiro, cheiro de queimado, carbonizado.

Pano e recheio em combustão. E esse cheiro trazia-lhe à mente recordações vagas da mãe e do pai curvados sobre ela; eram gente grande, gigantes, e estavam assustados, zangados, vozes altas e racha­das como pedregulhos pulando e batendo montanha abaixo num filme.

(menina ruim, muito ruim, você não pode fazer isso, Charlie, nunca! nunca! nunca!)

 

Quantos anos teria então? Três? Dois? Até que ponto uma pessoa podia se lembrar do passado? Perguntara isso ao pai uma vez, e ele lhe respondera que não sabia. Ele lembrava-se de ter sido picado por uma abelha, e a mãe lhe dissera que ele tinha quinze meses quando isso aconteceu.

Era a sua recordação mais antiga: os rostos gigantescos curva­dos sobre ela e as altas vozes rolando como pedregulhos montanha abaixo; um cheiro como de waffle queimado. Esse cheiro era do seu cabelo. Pusera fogo ao próprio cabelo e o queimara quase todo. Foi depois disso que seu pai falou em “ajuda” e sua mãe ficou esquisita, primeiro rindo e logo chorando, depois rindo de novo tão alto e tão estranho que o pai lhe bateu no rosto. Lembrava-se disso porque tanto quanto soubesse fora a única vez que o pai fizera uma coisa dessas à mãe. Talvez tenhamos que pensar em obter “ajuda” para ela, dissera o pai. Estavam no banheiro e a cabeça de Charlie estava molhada, porque o pai a pusera debaixo do chuveiro. Ah, sim, disse sua mãe, vamos ver o Dr. Wanless e ele vai nos dar muita “ajuda”, exatamente como fez antes. . . Então vieram à risada, o choro, mais riso e a bofetada.

(você foi tão RUIM a noite passada)

— Não — murmurou ela debaixo do barulho do chuveiro. —Papai disse que não. Papai disse que poderia ter.., sido.., o rosto dele.

(VOCË FOI MUITO RUIM A NOITE PASSADA)

Mas eles tinham precisado dos níqueis dos telefones. Foi o que o papai disse.

(MUITO RUIM!)

E ela começou a pensar na mãe outra vez, no tempo em que ela tinha cinco anos, quase seis. Não gostava de pensar nisso, mas a recordação estava ali agora, e ela não podia afastá-la. Acontecera um pouco antes de os homens maus terem vindo e ferido a mãe

(mataram-na, esses malvados, eles a mataram)

sim, é claro, antes de eles a matarem e levarem Charlie. Papai a pôs no côlo para contar histórias, mas só que ele não tinha os livros de histórias habituais de Pooh e Tigre, do Senhor Sapo e do grande elevador de vidro de Willy Wonka. Em vez disso, tinha uma porção de livros grossos sem gravuras. Ela torceu o nariz, aborrecida, e pediu a história de Pooh.

— Não, Charlie — disse o pai. — Quero ler para você outras histórias e preciso que você escute. Agora você já é bastante grande e acho que sua mãe também pensa assim. As histórias podem assustá-la um pouco, mas são importantes. São histórias verdadeiras.

Lembrava-se dos nomes dos livros que o pai lia, porque as histórias a tinham assustado. Havia um livro chamado Veja!, escrito por Charles Fort; um livro chamado Stranger than science, de um escritor chamado Frank Edwards. Um livro chamado Night’s truth e ainda um outro chamado Pirocinesia: história de um caso. Mas a mãe não deixou o pai ler coisa alguma desse livro. “Mais tarde”, disse a mãe, “quando ela tiver muito mais idade, Andy.” Depois aquele livro desapareceu, e Charlie ficou contente.

As histórias eram assustadoras, sem dúvida. Uma era de um homem que se havia queimado até morrer, num parque. Outra era de uma senhora que se queimara completamente na saleta da sua moradia, num trailer, e nada ardera no local a não ser ela mesma e um pedacinho da cadeira onde estivera vendo tevê. Partes das histórias eram complicadas demais para ela compreender, mas lembrava-se de uma coisa, de um policial dizendo: “Não temos expli­cação para essa fatalidade. Nada sobrou da vítima, senão os dentes e alguns pedaços de ossos carbonizados. Teria sido preciso um maçarico para causar tanto estrago a uma pessoa, e nada em torno dela estava sequer chamuscado. Não podemos explicar como é que o trailer não voou pelos ares como um foguete”.

A terceira história era a respeito de um menino grande, de onze ou doze anos, que se queimara completamente na praia. O pai o tinha posto dentro da água, e ao fazer isso também se queimara, mas o menino continuou ardendo até se consumir completamente. E a quarta história falava de uma mocinha que se queimara com­pletamente enquanto contava os pecados ao padre no confessionário. Charlie sabia tudo a respeito do confessionário católico, porque sua amiga Deenie lhe contara. Deenie falou que se tinha de dizer tudo de errado que se fizera durante a semana. Deenie ainda não tinha se confessado porque não fizera a primeira comunhão, mas o seu irmão Carl, já. Ele estava na quarta série, e tivera de contar tudo, até mesmo a vez em que ele entrara sorrateiramente no quarto da mãe e tirara alguns dos chocolates que ela ganhara no aniversário. Porque, se não contasse tudo para o padre, não poderia ser lavado pelo SANGUE DE CRISTO e iria para o LUGAR QUENTE. Charlie não per­deu o sentido de todas essas histórias. Ficou tão assustada depois da história da menina do confessionário, que irrompeu em lágrimas.

— Será que vou me queimar toda? — Chorava. — Como quando era pequena e pus fogo nos cabelos? Será que vou me destruir queimada?

O pai e a mãe pareciam perturbados. A mãe ficou pálida e mordia os lábios, mas o pai pôs o braço em torno do pescoço dela, dizendo:

— Não, meu bem, se você se lembrar sempre de tomar muito cuidado e não pensar nessa coisa.., essa coisa que você faz às vezes, quando está perturbada e assustada.

—        O que é? — gritou Charlie. — O que é, diga-me o que é. Eu nem sei o que é. Nunca vou fazer isso, eu prometo!

A mãe explicou-lhe:

—        Tudo o que sabemos, querida, é que se chama pirocinesia. Quer dizer, o poder de atear fogo, às vezes, apenas pensando em fogo. Em geral acontece quando a pessoa está perturbada. Algumas pessoas têm isso aparentemente... esse poder... durante toda a vida e nem sequer sabem disso. E algumas pessoas tem esse... quero dizer, esse poder toma conta delas durante um minuto e elas... — Não conseguiu acabar a frase.

—        E se queimam totalmente — disse-lhe o pai. — Como daquela vez quando você era pequena e pôs fogo nos cabelos. Mas você pode conseguir controlar isso, Charlie. Você tem de con­trolar. E Deus sabe que não é culpa sua. — Enquanto o pai falava, seus olhos se cruzaram por um momento com os da mãe, e alguma coisa pareceu passar entre eles.

Abraçando-lhe os ombros, ele disse:

—        Às vezes você não pode evitar, eu bem sei. Ë um acidente, como quando você era pequena e se esqueceu de ir ao banheiro por­que estava brincando e molhou as calças. Nós costumávamos cha­mar a isso “um acidente”, você se lembra?

—        Eu nunca faço isso agora.

—        Claro que não. E em pouco tempo você também vai saber controlar essa outra coisa, do mesmo modo. Mas por enquanto, Charlie, você vai nos prometer não ficar perturbada, nunca, nunca, nunca dessa maneira, se você puder. Dessa maneira que faz com que você ponha fogo nas coisas. E se ficar perturbada e não puder impedir que a coisa aconteça, empurre-a para longe, para uma cesta de lixo ou um cinzeiro. Procure ficar de fora. Tente jogá-la na água, se houver alguma por perto.

—        Mas nunca numa pessoa — disse-lhe a mãe com o rosto calmo, pálido e sério. — Isso seria muito perigoso, Charlie. Você seria uma menina muito má. Porque você poderia... — lutava com as palavras — você poderia matar alguém.

E então Charlie chorou histericamente lágrimas de terror e de remorso, porque as duas mãos da mãe estavam com curativos, e ela sabia por que motivo o pai lera aquelas histórias assustadoras. Porque no dia anterior, quando a mãe lhe dissera que não podia ir para a casa de Deenie por não ter arrumado o quarto, Charlie ficara muito zangada e de repente o fogo estava ali presente, pulando de lugar nenhum, como sempre acontecia, como um palhaço malvado, cumprimentando e rindo, e ela ficara tão zangada que se desven­cilhara dele e o mandara para a mãe, e as mãos dela pegaram fogo. Não fora grave demais

(podia ter sido pior, podia ter sido o rosto)

porque a pia estava cheia de água e sabão para lavar os pratos. Não fora ruim demais, mas fora MUITO RUIM, e ela prometera aos dois que nunca, nunca...

A água quente tamborilava-lhe no rosto, no peito, nos ombros, envolvendo-a num invólucro quente como um casulo, liberando as recordações e a preocupação. O pai lhe disse que estava tudo bem. E se o pai falava que uma coisa era assim, é porque era mesmo. Ele era o homem mais inteligente do mundo.

Sua mente voltava-se do passado para o presente, e ela pensou nos homens que os perseguiam. Eram do governo, seu pai dissera, mas não a parte boa do governo. Trabalhavam para uma repartição do governo chamada Oficina. Os homens os perseguiam sem parar. Para qualquer lugar que fossem, depois de algum tempo aqueles homens da Oficina apareciam.

Será que eles gostariam que eu pusesse fogo neles?, uma parte dela perguntava friamente, e ela apertou os olhos com horror, cheia de culpa. Era horrível pensar dessa maneira. Era maldade.

Charlie estendeu a mão até a torneira de água quente e fechou-a com um giro rápido do pulso. Durante os dois minutos seguintes ficou tremendo, abraçada ao seu próprio corpo delgado, debaixo dos pingos de água gelada, aguçados, querendo sair mas não se permitindo.

Quando a gente tem maus pensamentos, tem de pagar por eles. Deenie o dissera.

 

Andy acordou aos pouquinhos, vagamente consciente do tam­borilar do chuveiro. A princípio fora parte de um sonho: estava em Tashmore Pond com o avô; voltara aos seus oito anos e tentava enfiar um inseto no anzol sem espetar o dedo. O sonho fora incri­velmente vívido. Podia ver o cesto de junco na proa do barco, as rodelas vermelhas de borracha nas botas verdes do avô McGee, sua primeira luva de beisebol velha e amarrotada. Ao olhar para ela, lembrara-se de que teria treino da segunda divisão no dia seguinte no Campo Roosevelt. Naquela noite, a última luz e a escuridão incipiente estavam em perfeito equilíbrio na cúspide do lusco-fusco, a lagoa estava tão quieta que se podiam ver as nuvenzinhas de mosquitos e outros insetos sobrevoando a superfície cor de cromo. Inúmeros relâmpagos brilhavam intermitentemente.., ou talvez fossem raios de verdade, porque chovia. As primeiras gotas escure­ceram a madeira do barco de pesca do avô, branco de tão batido pela intempérie de gotas do tamanho de moedas. Podiam ouvir a chuva batendo no lago, com um ruído baixo e misteriosamente sibi­lante, como.., como o som de um...

chuveiro, Charlie deve estar no chuveiro.

Abriu os olhos e olhou para um teto de traves pouco familiares.

Onde estamos?

Caiu na realidade aos poucos, mas houve um instante de queda livre assustadora, que provinha de terem estado em tantos lugares no último ano, ou de terem escapado por um fio muitas vezes, submetidos a uma pressão muito grande. Pensou nostalgicamente no seu sonho, e desejou poder voltar atrás com o avô McGee, que já morrera fazia vinte anos.

Hastings Glen. Ele estava em Hastings Glen. Eles estavam em Hastings Glen.

Pensava na sua cabeça, que ainda doía, mas não tanto como na noite anterior, quando aquele sujeito barbudo os deixara. A dor diminuíra para um latejar surdo e constante. Se tudo corresse como anteriormente, o latejar seria apenas uma dorzinha apagada essa noite, e no dia seguinte teria desaparecido.

O         ruído do chuveiro parou.

Ele sentou-se na cama e olhou para o relógio. Faltavam quinze para as onze.

—        Charlie?

Ela voltava para o quarto, esfregando-se vigorosamente com uma toalha.

—        Bom dia, papai.

—        Bom dia. Como você se sente?

—        Com fome. — Ela dirigiu-se à cadeira onde pusera as rou­pas e apanhou a blusa verde. Cheirou-a. Fez uma careta e disse: — Preciso mudar de roupa.

—        Você terá que ficar com essas mesmo, por enquanto, queri­da. Logo mais arranjarei alguma coisa para você.

—        Espero que não tenhamos que esperar tanto tempo para comer.

—        Vamos pegar uma carona e parar no primeiro botequim que aparecer.

—        Papai, quando eu fui para a escola, você me disse para nunca viajar com estranhos. — Ela estava de .calcinha e blusa verde, e olhava-o com curiosidade.

Andy levantou-se da cama, aproximou-se dela e pôs-lhe as mãos nos ombros.

—        O diabo que você não conhece é às vezes melhor do que aquele que você conhece. Sabe o que isso significa, menina?

Ela ficou matutando sobre a pergunta. Imaginou que o diabo que eles conheciam eram aqueles homens da Oficina. Os homens que os tinham perseguido na rua em Nova York, no dia anterior. O diabo que eles não conheciam...

— Acho que a maioria das pessoas que dirigem carros não trabalham para a Oficina.

Ele sorriu-lhe em resposta.

— Você entendeu! E o que eu disse antes ainda está valendo, Charlie: quando a gente está numa maré ruim, às vezes tem de fazer coisas que nunca faria se tudo estivesse indo bem.

O         sorriso de Charlie empalideceu. Ficou séria, atenta.

— Assim como tirar dinheiro dos telefones?

—        Exatamente.

—        E não foi errado?

— Não. Naquela circunstância, não foi errado.

—        Porque quando a gente está numa situação difícil, faz o que tem de ser feito para sair dela.

— Com algumas exceções.

—        Que exceções, papai?

Ele afagou-lhe os cabelos.

— Agora isso não importa, Charlie. Ânimo, menina.

Mas ela não se animava.

— Eu não tinha a intenção de pôr fogo nos sapatos do homem. Não fiz de propósito.

— Não, claro que não foi de propósito.

Então seu rosto se animou, e seu sorriso, tão parecido com o de Vicky, surgiu radiante.

—        Como é que está sua cabeça hoje, papai?

— Bem melhor, muito obrigado.

—        Que bom! — Ela olhou-o de perto. — Seu olho está es­quisito.

—        Que olho?

Ela apontou para o esquerdo.

— Este aqui.

— Está mesmo? — Ele foi até o banheiro e limpou um pedaço do espelho embaciado pelo vapor.

Olhou bastante tempo para o olho, e seu bom humor desapa­receu: o olho direito estava como sempre fora, verde-acinzentado, a cor do oceano num dia encoberto da primavera. O olho esquerdo também estava verde-acinzentado, mas o branco apresentava-se mui­to injetado de sangue e a pupila parecia menor do que a do olho direito. A pálpebra tinha uma queda peculiar que nunca notara antes.

A voz de Vicky soou-lhe subitamente na mente. Tão clara que ela poderia estar ali ao seu lado. As dores de cabeça me assustam, Andy. Você está fazendo alguma coisa contra você mesmo, tanto quanto às outras pessoas, quando usa essa dominação mental, ou como você queira chamá-la.

O         pensamento foi acompanhado da imagem de uma bola de gás inflando... inflando... e finalmente explodindo com um es­touro ruidoso.

Começou a apalpar cuidadosamente o lado esquerdo da face com as pontas dos dedos da mão direita. Parecia um homem num comercial de tevê admirando-se de como tinha escanhoado a barba. Encontrou três pontos, um abaixo do olho esquerdo, um no osso malar esquerdo e um logo abaixo da têmpora esquerda, onde não sentia nada. O medo insinuou-se pelos espaços vazios de seu corpo como a névoa de um crepúsculo tranqüilo. O medo não era tanto por ele, mas por Charlie. O que seria dela se ficasse entregue a si mesma?

—        Papai? — Ela parecia um pouco assustada. — Você está bem?

—        Muito bem. — Sua voz soava normal, sem tremor, sem excesso de confiança ou falsa animação. — Estou pensando apenas que preciso fazer a barba.

Ela pôs a mão na boca e deu uma risadinha.

—        Arranhando como palha de aço. Bobo, grandalhão.

Ele correu atrás dela no quarto e esfregou sua face áspera na dela, tão macia! Charlie dava risadas e pontapés.

 

Enquanto Andy fazia cócegas na filha com a barba hirsuta, Orville Jamieson, conhecido também como OJ, ou o Suco, e outro agente da Oficina chamado Bruce Cook desciam de um Chevrolet azul-claro defronte ao Restaurante Hastings.

OJ parou por um momento e olhou para a Main Street: seu estacionamento em diagonal, a loja de ferragens, a mercearia, os dois postos de gasolina, a única farmácia e o edifício de madeira da Câmara Municipal, que tinha na fachada uma placa comemorativa de algum evento histórico a que ninguém dava a mínima importân­cia. A Main Street era também a Estrada 40, e os McGees estavam a menos de seis quilômetros de onde se encontravam agora OJ e Bruce Cook.

     —  Olhe só este vilarejo — disse OJ, desdenhoso. — Criei-me perto daqui. Numa cidade chamada Lowville. Já ouviu falar em Lowville, no Estado de Nova York?

     Bruce Cook sacudiu a cabeça.

     —  Ë perto de Utica, também. Onde fabricam a cerveja Utica Club. Nunca fiquei tão feliz como no dia em que saí de Lowville.

— OJ pôs a mão por baixo do casaco e ajeitou o Falcão no coldre.

   — Olhe ali Tom e Steve — disse Bruce. Do outro lado da rua, um carro Pacer marrom-claro ocupou a vaga que um caminhão rural acabara de deixar. Dois homens de roupa escura desciam do Pacer. Pareciam banqueiros. Um pouco mais adiante, na rua, junto ao sinal intermitente, dois outros agentes da Oficina falavam com uma velha excêntrica que atravessava as crianças da escola na hora do almoço. Mostravam-lhe uma fotografia, e ela sacudia a cabeça. Dez agentes da Oficina estavam ali em Hastíngs Glen, todos coor­denados por Norville Bates, que ficara em Albany, esperando pelo inflexível agente pessoal de Cap, AI Steinowitz.

     — Sim, Lowville — suspirou OJ. — Espero que até o meio-dia tenhamos apanhado os dois. Espero que minha próxima tarefa seja em Karachi. Ou Islândia. Qualquer lugar, contanto que não seja no Estado de Nova York. Ë perto demais de Lowville. Perto demais para o meu gosto.

     — Você acha que ao meio-dia já os teremos encontrado?

     OJ encolheu os ombros.

     — Vamos encontrá-los antes do pôr-do-sol. Pode contar com isso.

     Entraram no restaurante, sentaram-se junto ao balcão e pediram café. Uma jovem garçonete de corpo elegante trouxe-lhes o café.

     — Há quanto tempo você está aqui, irmãzinha? — pergun­tou-lhe OJ.

     — Se você tem uma irmã, estou com pena dela — disse a garçonete. — Isto é, se houver parecença de família.

     — Não diga isso, irmãzinha — respondeu OJ, mostrando-lhe o seu cartão de identidade. Ela olhou para o cartão por bastante tempo. Por trás dela, um delinqüente juvenil já não muito novo, com jaqueta de motoqueiro, pressionava os botões de uma vitrola.

     Estou aqui desde os sete anos — respondeu ela. — Sempre a mesma coisa todas as manhãs. Provavelmente você quer falar com Mike, o dono. — Ia se virar, mas OJ pegou-lhe o punho e aper­tou-o. Não gostava de mulheres que riam do seu aspecto. De qual­quer modo, quase todas as mulheres eram umas putas, a mãe dele tinha razão nesse ponto, mesmo não tendo razão em muitos outros. A mãe certamente saberia o que pensar a respeito de uma vaca como aquela.

       — Eu disse que queria falar com o dono, irmãzinha?

Ela começava a ficar com medo, o que agradava a OJ.

      — N...ão

—        Muito bem. Porque quero falar é com você mesma, e não com um cara que fica na cozinha fazendo ovos mexidos e fritando hambúrgueres toda a manhã.

Tirou do bolso o retrato de Andy e Charlie e mostrou-o a ela, sem lhe soltar o punho.

—        Você os reconhece, irmãzinha? Talvez tenha lhes servido hoje o café da manhã, não?

—        Deixe-me, você está me machucando. — Empalidecera com­pletamente, exceto nas partes em que se pintara como uma pros­tituta. Provavelmente, fora uma animadora de torcida no secundário. A espécie de moça que rira de Orville Jamieson, quando lhe pediram que se retirassem porque ele era presidente do Clube de Xadrez em vez de quarto zagueiro no time de futebol. Bando de prostitutas baratas de Lowville. Deus, como odiava Nova York! Até mesmo a cidade de Nova York ficava perto demais.

—        Você vai me dizer se serviu, ou não, café a eles. Depois eu a solto, irmãzinha.

Ela olhou rapidamente para o retrato.

—        Não, não servi. Agora deixe-me.

—        Você não olhou bem, irmãzinha. É melhor olhar de novo.

Ela olhou outra vez.

—        Não! Não! — disse, alto. — Nunca vi essas pessoas. Sol­te-me, sim?

O         delinqüente juvenil aproximou-se devagar, fazendo balançar as argolas do zíper da jaqueta de couro comprada numa liquidação e com os polegares enfiados nos bolsos da calça.

—        Você está amolando a moça — disse ele.

Bruce Cook olhou para ele com os olhos arregalados de mani­festo desprezo.

—        Tome cuidado, senão podemos decidir amolar você, seu cara de pizza — disse ele.

—        Oh! — disse o tipo de casaco de couro, e de repente a sua voz baixou muito de tom. Saiu rápido, provavelmente lembrando-se de que tinha negócios urgentes na rua.

Num compartimento do bar, duas senhoras idosas observavam nervosamente aquela cena junto ao balcão. Um homenzarrão com roupa branca de cozinheiro razoavelmente limpa, Mike, presumivel­mente o dono, estava de pé na porta da cozinha e também olhava a cena. Tinha uma faca de açougueiro numa das mãos, mas não a segurava com muita firmeza.

—        O que é que vocês querem, camaradas? — perguntou ele.

       — Eles são tiras — disse nervosamente a garçonete. —Eles...

       — Você não os serviu mesmo? Tem certeza, irmãzinha? —perguntou OJ.

       — Tenho certeza. — Ela estava quase chorando.

       — É bom que tenha. Um erro pode lhe custar cinco anos de cadeia, irmãzinha.

       — Tenho certeza — murmurou. Uma lágrima pulou do canto de seu olho e escorreu-lhe pela face. — Por favor, deixe-me. Não me machuque mais.

       OJ apertou mais o pulso dela, gostando de sentir os frágeis ossos movendo-se sob sua mão, gostando de saber que ainda podia espremer mais e estála-los... e a seguir largou-a. Reinava silêncio no restaurante, exceto quanto à voz de Stevie Wonder vinda da vitrola, garantindo aos clientes assustados do Restaurante Hastings que tudo se acalmara. Nesse momento, as duas senhoras idosas levantaram-se e saíram apressadas.

       OJ apanhou a sua xícara de café, debruçou-se sobre o balcão, despejou café no chão e depois deixou cair a xícara, que se espati­fou. Grossos cacos de porcelana espalharam-se em todas as direções. Agora a garçonete chorava abertamente.

       — Que merda de boteco! — disse OJ.

       O proprietário fez um gesto sem muito animo com a faca, e o rosto de OJ pareceu iluminar-se.

       — Venha logo, homem — disse, meio risonho. — Venha logo. Vamos ver se você se atreve.

       Mike pousou a faca ao lado da assadeira e de repente vocife­rou, envergonhado e furioso:

       — Eu lutei no Vietnam, meu irmão, lutei no Vietnam! Vou escrever ao meu amigo no Congresso sobre isto. Espere e verá se não faço isso.

       OJ fitou-o. Pouco depois, Mike baixava os olhos, assustado.

       Os dois homens saíram.

       A garçonete abàixou-se e começou a apanhar os cacos da xíca­ra de café, aos soluços.

       Lá fora, Bruce disse:

       — Quantos motéis?

       — Três motéis, seis conjuntos de cabanas de turistas — res­pondeu OJ, olhando o sinal intermitente, que o fascinava. Na Lowville de sua juventude, havia um restaurante com uma tabuleta acima da chapa dupla quente no fogareiro de fazer café, onde estava escrito: Se você não gosta da nossa cidade, procure o horário das partidas. Quantas vezes desejara arrancar aquela tabuleta da parede e empurrá-la goela abaixo de alguém!

— Já temos agentes controlando esses motéis — disse ele, en­quanto voltavam para o Chevrolet azul-claro, parte de uma frota motorizada do governo, paga e mantida por dólares de impostos. —Vamos ter notícias em breve.

 

John Mayo estava com um agente chamado Ray Knowles. Iam a caminho do Slumberland Motel pela Estrada 40. Estavam num Ford marrom, modelo antigo, e quando ultrapassaram a última coli­na que os separava da visão do motel, um pneu estourou.

—        Merda de azar! — disse John quando o carro começou a pular e a desviar-se para a direita.

—        São essas drogas que o governo fornece para a gente! Mer­da de recauchutados. — Dirigiu o carro para o acostamento e acen­deu as luzes de alerta do Ford.

—        Vá a pé! — disse ele. — Eu mudo esse desgraçado des­se pneu.

—        Eu ajudo — disse Ray. — Não levará cinco minutos.

—        Não, vá em frente. É logo do outro lado desse morro, deve ser.

—        Você tem certeza?

—        Tenho. Eu o apanho no caminho. A menos que o estepe esteja vazio, o que não me surpreenderia.

Um barulhento caminhão passou por eles. Era aquele que OJ e Bruce tinham visto deixando a cidade, quando ainda estavam fora do Hastings.

Ray sorriu, malicioso.

—        É melhor que não seja verdade. Você teria que fazer uma requisição em quatro vias para conseguir um novo.

John não achou graça.

—        E eu não sei disso? — respondeu, soturno.

Deram a volta até o porta-malas e Ray abriu-o. O estepe estava em bom estado.

—        OK — disse John. — Vamos logo.

Realmente, não levariam mais de cinco minutos para mudar aquele pneu.

—        Decerto, e aqueles dois não estão neste motel. Mas vamos cumprir nossa obrigação. Afinal, eles têm de estar em alguma parte.

            — Naturalmente.    

John tirou o macaco e o estepe do porta-malas do carro. Ray Knowles observou-o por um momento e, em seguida, começou a caminhada ao longo do acostamento em direção ao Slumberland Motel.

 

Exatamente um pouco além do motel, Andy e Charlie McGee encontravam-se no acostamento da Estrada 40.

A preocupação de Andy de que alguém pudesse estranhar que ele não tivesse carro provara não ter fundamento; a mulher do escri­tório só estava interessada no pequeno aparelho Hitachi de tevê no balcão. Um Phil Donahue* em miniatura estava no vídeo, e a mu­lher o observava avidamente. Enfiou a chave que Andy lhe dava no compartimento da correspondência sem tirar os olhos da imagem.

—        Espero que tenham gostado da estada — disse. Estava comendo roscas de coco e chocolate que tirava de uma caixa já pela metade.

—        Certamente — disse Andy, e saiu.

Charlie esperava por ele do lado de fora. A mulher lhe dera uma cópia da conta, que ele enfiou no bolso do casaco de veludo, enquanto descia os degraus. As moedas dos telefones de Albany chocalhavam discretamente.

—        Tudo bem, papai? — perguntou Charlie, quando se afasta­vam para a estrada.

—        Parece que sim — respondeu Andy, passando o braço pelos ombros dela. À direita deles e atrás da colina, o pneu do carro de Ray Knowles e John Mayo acabava de furar.

—        Para onde vamos, papai?

—        Não sei.

—        Não estou gostando disso. Estou nervosa.

—        Acho que estamos bem à frente deles. Não se preocupe. Provavelmente ainda estão à procura do motorista que nos levou para Albany.

Mas dizia aquilo só para se animar; sabia disso, e Charlie tam­bém, provavelmente. Só por estar ali à beira da estrada já se sentia exposto como um presidiário de roupa listrada. Saia daqui, disse

 

* Animador de programas femininos. (N. da T.)

 

para si mesmo. Em pouco estará pensando que eles estão por toda parte, atrás de cada árvore, e um monte deles bem lá em cima da próxima colina. Não dizem que tanto a conscientização como a paranóia total são a mesma coisa?

—        Charlie... — começou ele.

—        Vamos para a casa do vovô — disse ela.

Ele olhou-a, perplexo. O sonho voltava-lhe à cabeça, o sonho de estar pescando na chuva, a chuva que se transformara no ruído do chuveiro de Charlie.

—        Por que você pensou nisso? — O avô de Andy morrera muito antes de Charlie nascer. Vivera toda a sua vida em Tashmore, em Vermont, uma cidade bem a oeste da fronteira de New Hamp­shire. Quando o avô morreu, a propriedade à beira do lago passou às mãos da mãe de Andy, e, quando esta morreu, para Andy. A cidade já a teria tomado há muito tempo, devido a impostos atra­sados, se o avô não tivesse deixado uma pequena quantia em custó­dia para cobri-los.

Andy e Vicky iam lá uma vez por ano nas férias de verão antes de Charlie nascer. Ficava a trinta e dois quilômetros da estra­da de duas pistas mais próxima, numa região de bosques pouco populosa. No verão havia toda espécie de gente em Tashmore Pond, que era realmente uma lagoa, estando a pequena cidade de Brad­ford, New Hampshire, no lado mais afastado. Mas nessa época do ano todos os acampamentos de verão deviam estar vazios. Andy duvidava até que, no inverno, o trator que afastava a neve chegas­se até lá.

—        Não sei. Surgiu na minha cabeça. Neste minuto. — Do outro lado da colina, John Mayo abria o porta-malas do Ford e fazia a inspeção no estepe.

—        Sonhei com o vovô esta manhã — disse Andy lentamente. — Foi a primeira vez que pensei nele neste último ano, ou mais. Acho que posso dizer, também, que me apareceu na cabeça.

—        Foi um sonho bom, papai?

—        Foi — respondeu ele, sorrindo ligeiramente. — Sim, foi.

—        E então, o que é que você acha?

—        Acho que é uma grande idéia. Podemos ir para lá e ficar um tempo pensando no que faremos. Em como vamos resolver esta parada. Estou pensando se não poderíamos contar a nossa história a um jornal, de modo que uma porção de gente soubesse, e eles teriam que nos largar.

Um velho caminhão vinha chocalhando na direção deles, e Andy levantou o polegar. Do outro lado da colina, Ray Knowles caminhava pelo acostamento da estrada.

O         caminhão parou, e um camarada usando avental e boné de beisebol dos Mets de Nova York pôs a cabeça de fora.

—        Muito bem, veja só que linda mocinha — disse ele, sorri­dente. — Como você se chama, menina?

—        Roberta — respondeu Charlie rapidamente.

—        Muito bem, Beta, para onde vocês vão esta manhã? — perguntou o motorista.

—        Estamos a caminho de Vermont — disse Andy. — St. Johnsbury. Minha mulher estava visitando a irmã e teve um pro­bleminha.

—        Teve mesmo? — disse o fazendeiro, e nada acrescentou, mas lançou um olhar penetrante para Andy pelo canto dos olhos.

—        Parto — disse Andy, forjando um amplo sorriso. — Ela ganhou um irmãozinho. Hoje de madrugada, à uma e quarenta.

—        O nome dele é Andy — disse Charlie; — não é um bonito nome?

—        Acho formidável — disse o fazendeiro. — Pulem aqui para dentro; de qualquer modo, eu os deixarei a uns quinze quilô­metros de St. Johnsbury.

Eles entraram, e o caminhão, estralejando e sacudindo, voltou para a estrada, em direção à luz do sol brilhante da manhã. Nesse momento, Ray Knowles ultrapassava a colina. Viu uma estrada vazia que descia até o Slumberland Motel. Além do motel, viu o caminhão que passara pelo carro deles minutos antes, já desaparecendo de vista.

Não sentiu necessidade de correr.

 

O         nome do fazendeiro era Manders, Irv Manders. Acabara de levar uma carga de abóboras à cidade, onde fizera negócio com o camarada que dirigia o A & P. Disse-lhes que costumava trabalhar com o First National, mas o camarada de lá não entendia de abóbo­ras. Não passava de um açougueiro improvisado, na opinião de Irv Manders. O gerente da A & P, por outro lado, era excelente. Contou-lhes que a mulher dele dirigia uma espécie de loja para turistas na época do verão, e ele mantinha uma barraca de comida à beira da estrada. Os dois conseguiam uma boa grana.

—        Vocês não vão gostar que eu meta o nariz nos seus negó­cios — disse Irv Manders a Andy —, mas o senhor e a sua florzinha aqui não deveriam pedir carona. Por Deus que não deveriam. Não com a espécie de gente que ha pelas estradas nestes dias. Existe um terminal da Greyhound do lado de lá de Hastings Glen. É isso que lhes convém.

—        Claro — disse Andy. Estava perplexo, mas Charlie meteu muito bem a sua colher no momento certo.

—        Papai está desempregado — disse ela claramente. — Foi por isso que mamãe teve que ir para casa da tia Ema e ter o bebê. A tia Ema não gosta do papai. Por isso ficamos em casa. Mas agora vamos ver mamãe. Não é, papai?

—        Isso é assunto particular, Beta — disse Andy, em tom de quem se sente desconfortável. E ele sentia-se mal. Havia mil falhas na história de Charlie.

—        Não diga mais nada — disse Irv. — Sei o que são pro­blemas de família, e que às vezes são bem amargos. E sei o que é estar duro. Não é vergonha nenhuma. — Andy limpou a garganta, mas nada disse. Não conseguia pensar no que deveria dizer. Rodaram algum tempo em silêncio.

—        Olhem aqui, por que vocês dois não vêm à minha casa e almoçam comigo e com a minha mulher? — perguntou Irv subita­mente.

—        Oh, não, não poderíamos aceitar...

—        Ficaríamos contentes — disse Charlie. — Não é verdade, papai?

Ele sabia que em geral as intuições de Charlie eram boas, e estava tão desgastado mental e fisicamente que não podia ir contra ela naquele momento. Era uma menininha controlada e atirada, e mais de uma vez Andy se perguntara quem na verdade dirigia o espetáculo.

—        Se você tem certeza de que não vai fazer diferença... — disse Andy.

—        Sempre temos bastante comida — disse Irv Manders, enga­tando, finalmente, uma terceira. Iam matraqueando entre árvores em pleno outono: carvalhos, olmos e choupos. — É um prazer receber vocês.

—        Muito obrigada — respondeu Charlie.

—        O prazer é meu, florzinha — disse Irv — Para minha mulher também será, quando ela olhar para você.

Charlíe sorriu.

Andy esfregou as têmporas. Por baixo dos dedos da mão esquerda havia uma daquelas placas de pele em que os nervos pareciam ter morrido. De certo modo, estava preocupado com isso. Aquela sensação de que os homens estavam apertando o cerco ainda mais permanecia nele.

 

A mulher a quem Andy entregara a chave ao sair do Slumber­land Motel, não havia vinte minutos, estava ficando nervosa. Esque­cera-se completamente de Phill Donahue.

—        Você tem certeza de que esse era o homem? — Ray Knowles perguntava pela terceira vez. Ela não gostava daquele homem pe­queno, ataviado e um pouco tenso. Talvez trabalhasse para o gover­no, mas isso não era confortador para Lena Cunningham. Não gos­tava daquele rosto estreito, não gostava das linhas em torno daqueles olhos azuis e frios, e o que mais lhe desagradava era a maneira como ele continuava forçando aquele retrato debaixo do nariz dela.

—        Sim, era ele — respondeu de novo. — Mas não havia menina alguma com ele. Ë verdade, cavalheiro. Meu marido vai lhe dizer a mesma coisa. Ele trabalha à noite. Por isso quase não nos vemos, exceto na hora do jantar. Ele vai lhe dizer... — O outro homem tornou a entrar, e, cada vez mais alarmada, Lena viu que ele tinha um walkie-talkie numa das mãos e uma enorme pistola na outra.

—        Eram eles — disse John Mayo. Estava quase histérico de raiva e desapontamento. — Duas pessoas dormiram nesta cama. Cabelo louro num travesseiro, cabelo preto no outro. Desgraçado pneu furado! Que vá tudo para o diabo! Toalhas úmidas no banheiro. A droga do chuveiro ainda pingando. Nós os perdemos talvez por cinco minutos, Ray.

Enfiou a pistola no suspensório.

—        Vou chamar meu marido — disse Lena com uma voz apa­gada.

—        Não se importe — disse Ray. Segurou John pelo braço e levou-o para fora. John continuava blasfemando por causa do pneu.

—        Esqueça o pneu, John. Você falou com OJ na cidade?

—        Eu falei com ele, e ele com Norville. Norville está a cami­nho, e traz Al Steinowitz consigo.

—        Muito bem. Isso é bom. Escute, pense um minuto, Johnny. Eles devem ter pedido carona.

     —  Acho que sim. A menos que tenham roubado um carro.

     — O camarada é professor de inglês. Nem saberia como se rouba uma barra de chocolate num asilo de cegos. Eles estavam pedindo carona, nós sabemos. Vieram de carona de Albany a noite passada. E pediram carona hoje de manhã. Aposto com você um ano de salário que eles estavam ali, à beira da estrada, com o polegar levantado, enquanto eu subia aquela colina.

       — Se não fosse o maldito pneu... — Seu olhar era de infelicidade, por trás dos óculos com armação de metal. Via uma promo­ção fugir-lhe em asas lentas e preguiçosas.

—        Para o diabo com o pneu! — disse Ray. — O que foi que passou por nós? Depois que o pneu estourou, o que é que passou por nós?

John ficou pensando enquanto tornava a pendurar o walkie­talkie no cinto.

—        Um caminhão — disse ele.

—        É o que eu estou lembrando, também. — Olhou em torno e viu o largo rosto de lua de Lena Cunningham espiando-os da janela do escritório do motel. Percebeu que tinha sido vista e baixou

a cortina.

—        Um lindo caminhão caindo aos pedaços — disse Ray. — Se eles não saíram da estrada principal, seremos capazes de apa­nhá-los.

—        Vamos, então — disse John. — Podemos manter contato com Al e Norville por intermédio de OJ, pelo walkie-talkie.

Correram para o carro e entraram. Um momento depois o Ford marrom roncava ao sair do estacionamento, cuspindo saibro branco com os pneus traseiros. Lena Cunningham observou-lhes a partida com alívio. Gerir um motel já não era como antigamente.

Foi acordar o marido.

 

Enquanto o Ford com Ray Knowles ao volante e John Mayo de espingarda na mão descia roncando a Estrada 40 a mais de cem quilômetros (e enquanto uma caravana de dez ou onze modelos antigos de carros indefiníveis se dirigiam para Hastings Glen, par­tindo das áreas circundantes de busca), Irv Manders fazia com a mão sinal para a esquerda e tomava um trecho coberto de placas de alcatrão sem sinalização, que, saindo da estrada principal, se dirigia para o nordeste. O caminhão ia rateando e pulando pelo caminho. Por insistência de Manders, Charlíe cantara a maior parte do seu repertório de nove canções, incluindo grandes sucessos, como Parabéns pra você, Este bom velho, Jesus me ama e Corridas de Camptown. A esta última, Irv e Andy aderiram.

A estrada fazia um cotovelo, abrindo caminho por uma série de cristas cada vez mais cercadas de árvores, e começava a descer para uma região mais plana, cuja produção já fora colhida.

Em dado momento uma perdiz surgiu de um esconderijo de flores amarelas de feno seco à esquerda da estrada, e Irv gritou:

—        Pegue-a, Beta!

Charlie apontou o dedo, gritando bangue-bangue, e caiu na gar­galhada. Alguns minutos após, Irv tomou uma estrada de terra, e um quilômetro e meio depois chegavam a uma caixa de correio pintada de vermelho, branco e azul com o nome Manders escrito ao lado. Irv seguiu por uma rodeira de quase um quilômetro.

—        Que trabalho deve ter tido para manter este caminho livre da neve, no inverno! — disse Andy.

—        Sou eu mesmo que faço isso.

Chegaram a uma grande casa branca de fazenda, com três andares realçados por riscas de cor verde-hortelã.

Para Andy, aquele parecia ser o tipo de casa que começa bastan­te simples e se torna excêntrica à medida que os anos passam. Tinham construído dois alpendres ao fundo, um de cada lado. No lado sul, acrescentara-se uma estufa, no lado norte havia um grande pórtico emoldurado, como se fosse uma saia engomada.

Por trás da casa havia um celeiro vermelho que já conhecera melhores dias e, entre a casa e o celeiro, que os habitantes da Nova Inglaterra chamam de pátio de entrada, um terreiro onde alguns frangos cacarejavam e pavoneavam-se.

Quando o caminho matraqueou na direção dos frangos, eles fugiram, cacarejando e esvoaçando com suas asas inúteis, passando por um cepo de rachar lenha, com um machado enfiado nele.

Irv levou o caminhão para dentro do celeiro, que tinha um cheiro agradável de feno. Andy lembrou-se dos seus verões em Vermont. Quando Irv desligou o motor do caminhão, todos ouviram um mugido baixo, musical, vindo do fundo escuro do celeiro.

—        Você tem uma vaca — disse Charlie, e uma onda de encan­tamento veio-lhe ao rosto. — Eu ouvi a vaca.

—        Nós temos três — disse Irv. — Esta que vocês ouviram é a Patroa, um nome muito original, você não acha, florzinha? Ela acha que tem de ser ordenhada três vezes ao dia. Você vai vê-la logo mais, se seu pai deixar.

—        Posso, papai?

—        Acho que sim — disse Andy, cedendo mentalmente. De certo modo, tinham chegado à beira da estrada para obter uma carona e, em vez disso, tinham sido seqüestrados.

—        Venham para dentro conhecer a minha mulher.

Atravessaram o pátio de entrada e pararam para que Charlie pu­desse examinar o maior número possível de frangos de que conseguiu se aproximar. A porta dos fundos se abriu e uma mulher de quarenta e cinco anos presumíveis chegou até os degraus de cima. Com a mão, protegeu os olhos do sol e chamou:

     — É você, Irv? Quem é que trouxe?

       Irv sorriu.

     — Muito bem, a florzinha aqui é Roberta. Este camarada é o pai dela. Ainda não ouvi o nome dele, e por isso não sei se somos parentes.

Andy avançou e disse:

     — Sou Frank Burton, minha senhora. Seu marido nos convi­dou para o almoço, se a senhora estiver de acordo. Muito prazer em conhecê-la.

     — Eu também — disse Charlie, continuando mais interessada nos frangos do que na mulher.., pelo menos naquele momento.

     —  Eu sou Norma Manders — disse ela. — Entrem, vocês são bem-vindos. — Mas Andy percebeu o olhar surpreso que ela lançou ao marido.

     Entraram todos por uma passagem onde se empilhavam, na altura da cabeça, os canos do fogão. Dava para uma enorme cozi­nha, tomada por um fogão de lenha e uma comprida mesa coberta com uma toalha de plástico xadrez vermelho e branco. Sentia-se um leve cheiro de fruta e parafina no ar. Cheiro de enlatamento, pensou Andy.

     — Frank e a florzinha estão a caminho de Vermont — disse Irv. — Achei que não lhes faria mal uma refeiçãozinha no meio do caminho.

     —  Decerto que não — concordou ela, — Onde está o seu carro, sr. Burton?

     —  Bem... — começou Andy. Olhou para Charlie, mas parecia que ela não ia ajudar; andava pela cozinha a pequenos passos, olhando para tudo com a curiosidade franca de uma criança.

     —  Frank teve um pequeno problema — disse Irv, olhando diretamente para a mulher. — Mas não precisamos falar disso. Pelo menos agora.

     —  Muito bem — disse Norma. Tinha uma expressão doce e franca, uma bonita mulher habituada a trabalhos duros. Suas mãos eram vermelhas e gretadas. — Eu tenho um frango e posso acres­centar uma boa salada. E há muito leite. Você gosta de leite, Roberta? — Charlie não se voltou. Esquecera-se do nome, pensou Andy. Oh, Deus, estava ficando cada vez melhor!

       — Beta — disse ele bem alto.

       Ela, então, olhou em volta e sorriu um pouco exageradamente.

       — Ah, claro, adoro leite.

       Andy viu um olhar de aviso de Irv para a mulher. Nenhuma pergunta, não agora. Sentiu um desespero terrível. O que restava da história deles tinha acabado de se evaporar. Mas nada havia a fazer, a não ser sentar-se para o almoço e esperar para ver o que Irv Manders tinha na cabeça.

 

—        A que distância estamos do motel? — perguntou John Mayo.

Ray olhou para o odômetro.

—        Vinte e sete quilômetros — respondeu ele, parando à beira da estrada. — Bastante longe.

—        Mas talvez...

—        Não, se tivéssemos que apanhá-los já o teríamos feito. Vamos voltar e encontrar os outros.

John bateu no painel com o punho.

—        Eles viraram nalgum ponto. Maldito pneu. Este negócio foi azarado desde o começo, Ray. Um intelectual e uma menininha. E nós continuamos fracassando.

—        Não, acho que os apanhamos — disse Ray, pegando seu walkie-talkie. Puxou a antena e colocou-a fora da janela. — Em meia hora teremos um cordão em torno da área inteira. E aposto que não chegaremos a bater numa dúzia de casas até alguém por aqui identificar aquele caminhão International Harvester verde-escuro, do final dos anos 60, com dispositivos para afastar a neve na frente e estacas de madeira em torno da traseira do caminhão para segurar carga alta. Ainda acho que os apanharemos ao anoitecer. — Logo depois falava com Al Steinowitz, que se aproximava do Siumberland Motel. Al, por sua vez, informou seus agentes. Bruce Cook lembrava-se de ter visto o caminhão na cidade. OJ também. Tinha ficado estacionado diante da A & P.

Ai mandou-os de volta à cidade, e meia hora depois todos sabiam que o caminhão que quase certamente parara para dar caio­na aos dois fugitivos pertencia a Irving Manders, RFD número 5, Estrada de Baillings, Hastings Glen, Nova York.

Era exatamente meio-dia e meia.

O         almoço. foi muito bom. Charlie comeu como um cavalo. Serviu-se três vezes de frango com molho, comeu dois dos bolinhos quentes de Norma, um pratinho de salada e três dos seus picles de funcho feito em casa. Terminaram com torta de maçã guarnecida com fatias de queijo cheddar. Irv deu sua opinião: torta de maçã sem um pedaço de queijo é como um beijo sem um abraço apertado. Isso lhe valeu uma cotovelada amigável de sua mulher. Irv revirou os olhos e Charlie riu. O apetite de Andy surpreendia-o. Charlie arro­tou e cobriu a boca, envergonhada.

Irv sorriu-lhe:

—        Mais espaço aqui fora do que lá dentro, não é, florzinha?

—        Acho que se comesse mais explodia — respondeu Charlie.

— Era o que a mamãe sempre me dizia... Quer dizer, que ela sempre me diz.

Andy sorriu, cansado.

—        Norma — disse Irv, levantando-se —, por que você não vai com Beta dar de comer aos frangos?

—        Sim, mas a cozinha está toda desarrumada com o almoço — respondeu Norma.

—        Eu dou um jeito — disse Irv. — Eu queria ter uma con­versinha aqui com Frank.

—        Você gostaria de dar comida aos frangos, meu bem? — perguntou Norma a Charlie.

—        Gostaria muito. — Seus olhos faiscavam.

—        Então vamos lá. Você não tem um casaco? Está ficando um pouco frio.

—        Ui!... — Charlie olhou para Andy.

—        Posso lhe emprestar um — disse Norma. Aquele olhar pas­sou novamente entre ela e Irving. — Enrole um pouco as mangas e vai servir.

— OK.

Norma apanhou no cabide de entrada um velho casaco desbo­tado e um suéter branco puído em que Charlie ficou dançando, mes­mo com as mangas enroladas três ou quatro vezes.

—        Eles dão bicadas? — perguntou Charlie, um pouco nervosa.

—        Só na comida deles, meu bem.

Saíram, fechando a porta atrás delas. Charlie ainda estava taga­relando. Andy olhou para Irv Manders, que o fitou calmamente.

—        Você quer uma cerveja, Frank?

—        Não me chamo Frank, você já deve saber.

—        Acho que sei. Qual é o seu problema?

—        Quanto menos você souber, mais ficará fora disto.

—        Muito bem. Então vou chamá-lo mesmo de Frank.

Ouviam indistintamente Charlie gritar de prazer lá fora. Nor­ma disse alguma coisa com que Charlie concordou.

—        Acho que gostaria de tomar uma cerveja — disse Andy.

—        Ótimo.

Irv apanhou duas Utica Clubs na geladeira, abriu-as, colocou a de Andy na mesa e a sua no balcão. Pegou um avental do gancho da pia e vestiu-o. O avental era vermelho e amarelo e tinha um babado, mas de qualquer modo ele conseguiu evitar parecer ridí­culo.

—        Posso ajudá-lo? — perguntou Andy.

—        Não, conheço o lugar de cada coisa. Pelo menos de quase tudo. Ela muda as coisas todas as semanas. Mulher nenhuma quer que o homem se sinta à vontade na cozinha. Elas gostam da ajuda dos maridos, decerto, mas sentem-se melhor se eles tiverem que lhes perguntar onde se põe a travessa ou a esponja.

Lembrando-se do seu próprio tempo como aprendiz de cozinha de Vicky, Andy sorriu e concordou.

—        Meu ponto forte não é me meter nos negócios dos outros — disse Irv, enchendo a pia de água e acrescentando detergente. — Sou fazendeiro, como lhe disse, e minha mulher tem uma lojinha de quinquilharias lá onde a estrada Baillings corta a estrada de Albany. Estamos aqui há quase vinte anos. — Virou-se para Andy: — Mas eu soube que havia alguma coisa errada no momento em que vi vocês dois de pé na estrada, lá atrás. Um adulto com uma menininha não são o par que a gente está habituado a ver pedindo carona. Entende o que quero dizer?

Andy concordou com a cabeça e sorveu um gole de cerveja.

—        Além disso, pareceu-me que vocês tinham acabado de sair do Slumberland, mas não tinham apetrechos de viagem, nem mesmo uma sacola. Então resolvi passar direto por vocês. Mas depois pa­rei. Porque.., bem, há uma diferença entre não se meter nos ne­gócios dos outros e ver alguma coisa que parece muito mal e fechar os olhos.

—        É assim que lhe parecemos? Como quem vai indo muito mal?

—        Lá, sim, mas agora não. — Estava lavando cuidadosamente os velhos pratos descascados, enfiando-os no escorredor. — Agora não sei exatamente o que fazer com vocês dois. Meu primeiro pen­samento foi de que vocês deveriam ser as pessoas que os tiras estavam procurando. — Ele viu a mudança no rosto de Andy e a súbita maneira como ele pousou sua lata de cerveja. — Acho que é você — disse, baixinho. — Estava com esperança de que não fosse.

—        Que tiras? — perguntou Andy asperamente.

—        Eles bloquearam todas as estradas principais que dão acesso a Albany. Se tivéssemos andado mais uns dez quilômetros na Es­trada 40, teríamos esbarrado num desses bloqueios lá onde ela cruza com a Estrada 9.

—        E então por que você não foi adiante? — perguntou Andy — Seria o fim do problema para você. E ficaria fora disto.

Irv ia atacar as panelas, e procurava algo no armário acima da pia.

—        Está vendo o que eu queria dizer? Não consigo encontrar a esponja... Espere, está aqui... Por que eu não o levei estrada acima até os tiras? Vamos dizer que eu quisesse satisfazer a minha curiosidade.

—        Você quer me fazer algumas perguntas, não é?

—        Certo, muitas — disse Irv. — Um adulto com uma meni­ninha, pedindo carona, e a menininha não tinha uma sacola, e com os tiras atrás deles. Então tive uma idéia. Não fui buscá-la muito longe. Pensei que talvez fosse um pai que quisesse a custódia da sua florzinha e não a tivesse conseguido. E portanto talvez a tivesse raptado.

—        Parece muito rebuscado para mim.

—        É muito comum isso acontecer, Frank. E eu pensei comigo mesmo: a mãe não gostou muito disso e conseguiu uma ordem de captura para o pai. Isso explicaria todos os bloqueios da estrada. Só se dá uma cobertura dessa importância a um grande roubo, ou a... um seqüestro de criança.

—        Ela é minha filha, mas a mãe dela não pôs a polícia atrás de nós. Ela morreu há um ano.

—        Bem, de certo modo eu já tinha posto essa idéia de lado. Não é preciso muita perspicácia para ver que vocês dois se dão muito bem. Fosse o que fosse que estivesse acontecendo, você não a teria apanhado contra a vontade dela.

Andy nada disse.

—        É aqui que chegamos ao meu problema. Peguei vocês dois porque achei que a menininha talvez precisasse de ajuda. Agora não sei a quantas ando. Você não me dá a impressão de um tipo deses­perado. Mas, de qualquer modo, você e a menininha deram nomes falsos, contaram uma história tão transparente como papel fino, e você parece estar doente, Frank. Você parece estar muito doente mesmo, mal se mantém de pé. Essas são as minhas dúvidas. Tudo o que você puder responder será uma boa coisa.

—        Chegamos a Albany, vindos de Nova York, e pedimos uma carona até Hastings Glen hoje de madrugada. É ruim saber que eles já estão aqui, mas acho que eu já sabia, e Charlie também.

— Mencionara o nome de Charlie, e fora um erro, mas agora já não importava.

     — Por que eles procuram vocês, Frank?

     Andy pensou durante bastante tempo, e afinal fitou os olhos francos e cinzentos de Irv:

     — Você veio da cidade, não foi? Viu gente estranha lá? Gente da cidade? Usando aquelas roupas impecáveis saídas da loja, daquele tipo que a gente esquece logo que elas saem da nossa vista? Diri­gindo aqueles carros de modelos antigos, que não sobressaem no cenário?

     Era a vez de Irv ficar pensando.

       — Havia dois camaradas desse tipo na A & P. Falavam com Helga. Ela é uma das caixas. Pareçia que lhe mostravam alguma coisa.

       — Provavelmente o nosso retrato. São agentes do governo. Trabalham para a polícia, Irv. Para ser mais exato, deveria dizer que a polícia trabalha para eles. Os tiras não sabem por que somos procurados.

       — De que espécie de repartição do governo você está falan­do? Do FBl?

       — Não, da Oficina.

       — O quê? Aquela organização da CIA? — Irv parecia fran­camente descrente.

       — Não tem nada a ver com a CIA. A Oficina é, de fato, o DSI *, o Departamento de Informação Científica. Li num artigo, há uns três anos, que um sábio apelidara-a de Oficina no princípio dos anos 60, de acordo com uma história de ficção científica chamada As oficinas de armas de Ishtar. O autor era um camarada chamado Van Vogt, parece-me, mas isso não importa. Presume-se que se dedique a projetos científicos nacionais que podem ter apli­cação presente ou futura em assuntos de segurança nacional. Essa definição faz parte de seus estatutos, mas a Oficina está mais asso­ciada na idéia do público à pesquisa de energia, que ela está finan­ciando e supervisionando — material eletromagnético e energia nuclear. Na verdade, está implicada em muito mais coisas. Charlie e eu fazemos parte de uma experiência que aconteceu há muito tempo, antes mesmo de Charlie nascer. A mãe dela também parti­cipou da experiência. E foi assassinada. A Oficina foi a respon­sável pela sua morte.

       Irv ficou calado um tempo. Deixou a lavagem dos pratos, en­xugou as mãos, aproximou-se e começou a limpar a toalha de plás­tico que cobria a mesa. Andy pegou sua lata de cerveja.

       —            Não vou lhe dizer diretamente que não acredito em você — disse Irv, finalmente. — Isso não, depois das coisas que vêm acontecendo em segredo neste país e que por fim vêm à tona:

 

*Department of Scienti/ic Intelligence. (N. da T.)

 

camaradas da CIA que dão bebidas com LSD às pessoas, agentes do FBl acusados de matar pessoas durante as marchas pelos direitos civis, dinheiro de corrupção em sacos de papel e tudo o mais. Assim, não posso dizer de saída que não acredito em você. Diga­mos apenas que você não me convenceu.

—        Acho que nem sou eu quem eles querem realmente agora. Talvez tenha sido antes. Mas agora mudaram de alvo. É Charlie que eles buscam atualmente.

—        Você quer dizer que o governo nacional está atrás de uma menina de curso primário por razões de segurança nacional?

—        Charlie não é uma menina de segunda série primária comum. A mãe dela e eu recebemos a injeção de uma droga codificada como Lote 6. Até hoje não sei exatamente o que era. Uma espécie de secreção glandular sintética. Essa droga alterou os meus cromosso­mos e os da mulher com quem me casei. Nós transmitimos a Charlie esses cromossomos, que se misturaram de forma inteiramente nova. Se ela puder passá-los para os filhos, penso que poderá ser chama­da de “mutante”. Se por alguma razão ela não puder transmiti-los, ou se a alteração a tornar estéril, acho que ela poderá ser chamada de uma mutação ou uma híbrida. De qualquer modo, eles a que­rem. Querem estudá-la, ver se descobrem o que a leva a fazer o que ela pode fazer. E, ainda mais, acho que eles a querem para exibição. Querem usá-la para reativar o programa do Lote 6.

—        O que é que ela é capaz de fazer?

Pela janela da cozinha, viram que Norma e Charlie estavam voltando do celeiro. O suéter branco sacudia-se, desajeitado, e ba­lançava em torno do corpo de Charlie; a borda chegava até a barriga da perna. Estava com as faces coradas e falava com Norma, que sorria e concordava com a cabeça.

Andy disse em voz baixa:

—        Ela pode provocar incêndios.

—        E eu também — disse Irv, sentando-se novamente e olhan­do para Andy de um jeito precavido, peculiar. Da maneira como a gente olha para pessoas de quem se suspeita estarem loucas.

—        Ela pode fazer isso simplesmente pensando. O nome téc­nico dessa capacidade é pirocinesia. É um talento psicológico como a telepatia, a telecinesia ou a precognição; por falar nisso, Charlie também tem um pouco dessas coisas, mas a pirocinesia é muito mais rara... e muito mais perigosa. Ela tem muito medo disso, e com razão. Nem sempre pode controlar-se. Ela poderia queimar totalmente a sua casa, o celeiro ou o jardim, se se propusesse a isso. Ou poderia acender-lhe o cachimbo. — Andy sorriu penosa­mente. — Mas o caso é que, ao acender o cachimbo, poderia ao mesmo tempo queimar também sua casa, o celeiro e o jardim da frente.

Irv terminou a cerveja e disse:

—        Acho que você deveria chamar a polícia e entregar-se, Frank. Você precisa de ajuda.

—        Acho que tudo isso lhe parece loucura, não é?

—        Sim — disse Irv, sério. — Parece mais louco do que qual­quer outra coisa que eu jamais tenha ouvido. — Ele estava ligei­ramente tenso, e Andy pensou: Está esperando que eu faça alguma maluquice na primeira oportunidade.

—        Parece que já não tenho muito o que fazer — disse Andy. — Eles estarão aqui muito em breve. Acho que seria realmente melhor que fosse a polícia. Pelo menos a gente não se transforma numa pessoa inexistente logo que a polícia põe as mãos na gente.

Irv ia responder, quando a porta se abriu. Norma e Charlie en­traram. O rosto de Charlie brilhava, seus olhos cintilavam.

—        Papai, papai, dei comida aos... — interrompeu-se. A cor de suas faces desapareceu em parte, e ela olhou de perto para Irv Manders, para o pai, e de volta para Irv. A alegria apagou-se-lhe do rosto e foi substituída por um olhar de atribulada aflição. A mes­ma maneira como ela olhara na noite anterior, pensou Andy. A ma­neira como olhara quando ele a apanhara na escola; sempre, sem­pre, a mesma coisa. Quando haverá um final feliz para ela? ....

—        Você contou? — perguntou ela. — Ah, papai, por que você contou?

Norma deu um passo à frente e pôs um braço protetor em torno dos ombros de Charlie.

—        Irv, o que está acontecendo aqui?

—        Não sei. O que você acha que ele me contou, Beta?

—        Esse não é o meu nome — disse ela com lágrimas nos olhos. — Você sabe que esse não é o meu nome.

—        Charlie — disse Andy. — O Sr. Manders sabia que havia alguma coisa errada. Eu contei, mas ele não acreditou. Se você pensar bem, vai compreender por quê.

—        Não compreendo nada... — começou Charlie, elevando a voz estridentemente. Em seguida calou-se. Inclinou a cabeça em atitude de quem escuta, embora não houvesse som algum. Ninguém dizia nada. Os três a observavam, e viram o rosto de Charlie per­der a cor, como se um líquido colorido estivesse sendo despejado de uma jarra.

—        O que está acontecendo, meu bem? — perguntou Norma, lançando um olhar preocupado para Irv.

—        Eles estão chegando, papai — sussurrou Charlie. Seus olhos eram largos círculos de medo. — Eles estão chegando para nos buscar.

 

Tinham marcado encontro no cruzamento da Estrada 40 com o caminho asfaltado sem número onde Irv entrara, ë que nos mapas de Hastings Glen estava assinalado como Estrada Old Baíl­lings. Al Steinowitz finalmente alcançara o resto dos seus homens e assumira o comando rápida e decisivamente. Eram dezesseis ho­mens em cinco carros. Dirigindo-se estrada acima para o sítio de Irv Manders, pareciam uma veloz procissão fúnebre.

Duvidando da competência das polícias local e estadual, fora com verdadeiro alívio que Norville Bates passara as rédeas e a res­ponsabilidade da diligência a Al.

—        Por enquanto vamos conservar esta diligência em sigilo — disse Al. — Se nós os apanharmos, diremos aos homens que podem abandonar os bloqueios da estrada. Se não os apanharmos, diremos aos homens que comecem a se deslocar para o centro do círculo. Mas, cá entre nós, se não os pudermos apanhar com dezesseis homens, é que não podemos mesmo agarrá-los, Norv.

Norville sentiu a branda censura e nada mais disse. Sabia que seria melhor não haver interferência externa, porque Andrew Mc­Gee sofreria um lamentável acidente logo que o agarrassem. Um acidente fatal. E, sem policiais em torno deles, isso poderia acon­tecer muito mais cedo.

Adiante deles e de Al, as luzes dos freios do carro de OJ cintilaram rapidamente, e depois o carro virou numa estrada de terra. Os outros seguiram-no.

 

—        Não estou compreendendo nada — disse Norma. — Beta... Charlie acalme-se!

—        Você não compreende — disse Charlie com voz aguda e estrangulada. Só de olhar para ela, Irv ficou nervoso. Seu rosto parecia o de um coelho apanhado numa armadilha. Ela desvenci­lhou-se dos braços de Norma e correu para o pai. Andy apoiou as mãos nos ombros dela.

—        Acho que eles vão matar você, papai.

—        O quê?

—        Vão matar você — repetiu ela. Tinha os olhos arregalados e vidrados de pânico. Sua boca agitava-se freneticamente. — Temos que fugir. Temos que fugir.

Quente, quente demais aqui.

Andy olhou para a esquerda. Preso à parede, entre o fogão e a pia, havia um termômetro de interior, daquele que nos Estados Unidos se podem comprar pelo reembolso postal. Na base do termômetro, um demônio vermelho de plástico com um forcado ria e esfregava os olhos. E o dístico embaixo dos seus cascos fendidos dizia: QUENTE O BASTANTE PARA VOCÊ?

O         mercúrio do termômetro subia lentamente, era um dedo vermelho acusador.

—        Sim, é isso que eles querem fazer — disse ela. — Matar você, matar você, como fizeram com mamãe. Leve-me daqui. Eu não quero, não quero que isso aconteça, eu não vou deixar...

Sua voz se elevava. Elevava-se como a coluna de mercúrio.

—        Charlie! Atenção para o que você está fazendo!

Os olhos dela desanuviaram-se ligeiramente. Irv e a mulher se achegaram.

—        Irv... o quê..

Mas Irv vira o olhar de Andy na direção do termômetro e de repente acreditou: estava muito quente ali. Bastante quente para um suadouro. O termômetro marcava trinta e cinco graus.

—        Meu Deus! — disse ele com voz rouca. — Foi ela quem fez isso, Frank?

Andy ignorou-o, continuava com as mãos nos ombros de Char­lie. Olhava dentro dos olhos dela.

—        Charlie, você acha que é tarde demais? O que é que você acha?

—        Sim — disse ela. A cor desaparecera completamente do seu rosto. — Eles estão vindo pela estrada de terra agora. Ah, papai, estou com medo!

—        Você pode detê-los, Charlie — disse ele serenamente.

Ela olhou para Andy.

—        Sim — disse ele.

—        Mas, papai, isso é ruim. Eu sei que é. Poderia matá-los.

—        Sim — disse ele. — Talvez agora se trate de matar ou ser morto. Talvez tenhamos chegado a isso.

—        Não é ruim? — A voz dela era quase inaudível.

—        Sim, é ruim. Nunca se iluda com isso. E não o faça se você não agüentar. Nem mesmo por mim.

Olhavam um para o outro, olhos nos olhos, os de Andy can­sados, injetados e assustados; os de Charlie, arregalados, quase hip­notizados.

—        Se eu fizer.., alguma coisa.., você ainda vai gostar de mim?

A pergunta pendia entre eles, girando no ar, devagar.

—        Charlie. Eu vou gostar de você sempre. Não importa o que aconteça.

Irv fora até a janela, e agora atravessava a sala na direção deles.

—        Acho que devo pedir-lhe desculpas. Uma fila de carros está subindo a estrada. Ficarei ao seu lado, se você quiser. Tenho minha espingarda de caça. — .Mas subitamente pareceu assustado, quase nauseado.

Charlie disse:

—        Você não precisa de espingarda.

Soltou-se das mãos do pai e atravessou a sala em direção à varanda. No suéter branco tricotado por Norma Manders, parecia ainda menor do que era. Ela foi para fora.

Um momento depois, Andy voltou a si e foi atrás dela. Sentia o estômago congelado como se tivesse engolido um gigantesco sor­vete de creme em três bocadas. Os Manders ficaram para trás. Andy ainda teve uma última visão do rosto assustado e perplexo do homem, e um pensamento fortuito passou-lhe pela consciência: Com isso ele vai aprender a não dar caronas.

Postados na varanda, Andy e Charlie viram o primeiro dos carros surgir no longo caminho. As galinhas cacarejavam e esvoa­çavam. No estábulo, a Patroa mugiu novamente, pedindo que alguém a ordenhasse. O sol fraco de outubro descia sobre as colinas arbo­rizadas e sobre os campos de um castanho outonal daquele pequeno subúrbio de Nova York. Quase um ano de fuga, e Andy se surpreendia por sentir uma sensação estranha de alívio, misturada a um terror agudo. Ouvira dizer que, em situações delicadas, até mesmo um coelho por vezes se volta e enfrenta os cães, recuando para um estágio anterior, menos medroso, no instante em que está para ser despedaçado.

De qualquer modo, era bom não estar fugindo. Estava de pé ao lado de Charlie, com seu cabelo de um louro sazonado como raios de sol.

—        Ah, papai! — resmungou ela. — Eu mal me agüento de pé.

Ele passou o braço em torno dos ombros dela e puxou-a mais para si.

O         primeiro carro parou na frente do pátio de entrada, e dois homens desceram.

 

—        Oi, Andy — disse AL Steinowitz, sorrindo. — Oi, Charlie. — Tinha as mãos vazias, mas seu casaco estava aberto. Por trás dele, o outro homem mantinha-se alerta junto ao carro, com as mãos caídas. O segundo carro parou atrás do primeiro e despejou mais quatro homens. Os demais carros iam parando, e todos os homens saíam. Andy contou doze, e depois parou de contar.

—        Vão embora — disse Charlie, e sua voz soou fina e aguda naquele começo de tarde fria.

—        Vocês nos forçaram a uma busca e tanto — disse Al para Andy. Olhou para Charlie. — Meu bem, você não precisa...

—        Vão embora! — gritou ela.

Al deu de ombros e sorriu, desconcertado.

—        Receio não poder fazer isso, meu bem. Recebi ordens. Nin­guém quer fazer mal a você ou a seu pai.

—        Você é um mentiroso! Você tem ordem para matá-lo! Eu sei!

Ao falar, Andy ficou surpreso ao notar que sua voz estava bem firme:

—        Aconselho-o a fazer o que a minha filha diz. Certamente vocês receberam instruções e sabem o motivo por que eles a que­rem. Vocês conhecem a história do soldado no aeroporto.

OJ e Norville Bates trocaram um súbito olhar preocupado.

—        Se você quiser apenas entrar no carro, podemos discutir tudo isso — disse Al. — Por Deus, nada está acontecendo aqui, a não ser...

—        Sabemos o que está acontecendo — disse Andy.

Os homens que tinham vindo nos dois ou três últimos carros começavam a se espalhar e a andar como por acaso, na direção da varanda.

—        Por favor — disse Charlie para o homem de rosto estra­nhamente amarelo. — Não me leve a fazer alguma coisa.

—        Não adianta, Charlie — disse Andy.

Irv Manders veio até a porta.

—        Vocês estão cometendo uma infração — disse ele. — Quero que saiam da minha propriedade, com os diabos!

Três dos homens da Oficina tinham chegado até os degraus da varanda e estavam agora a menos de nove metros de Andy e Charlie, à sua esquerda. Charlie lançou-lhes um olhar desesperado de advertência, e eles pararam por um momento.

—        Somos agentes do governo, senhor — disse Al Steinowitz a Irv, em voz baixa e cortês. — Estas duas pessoas estão sendo solicitadas para interrogatório. Nada mais.

—        Não me importa que sejam procurados por terem assassi­nado o presidente — disse Irv com uma voz aguda, esganiçada. — Mostrem-me o mandado judicial ou dêem logo o fora da minha propriedade, pelo amor de Deus!

—        Não precisamos de mandado — disse Al. Sua voz tinha agora gumes de aço.

—        Precisam, sim, a menos que eu tivesse acordado esta manhã na Rússia — disse Irv. — Estou lhe dizendo para dar o fora, e é melhor que o faça imediatamente, senhor. Esta é minha última palavra.

—        Irv, venha para dentro — gritou Norma.

Andy podia sentir alguma coisa se formando no ar, crescendo em torno de Charlie, algo como uma carga elétrica. O pêlo dos braços dele começou subitamente a se agitar como uma alga sobre uma onda invisível. Olhou para ela, e viu-lhe o rosto, tão pequeno e agora tão estranho.

Está chegando, pensou ele, desamparado. Está chegando, ó meu Deus, está realmente chegando!

—        Vá-se embora — gritou ele para Al. — Você não com­preende o que ela vai fazer? Você não sente? Não seja idiota, homem!

—        Por favor — disse Al. Olhou para os três homens de pé na escada da varanda e fez-lhes um sinal imperceptível. Voltou a olhar para Andy. — Se pelo menos pudéssemos discutir o as­sunto...

—        Cuidado, Frank — gritou Irv Manders.

Os três homens que estavam na escada da varanda subitamente se precipitaram sobre eles, sacando as armas ao mesmo tempo.

—        Quietos, quietos — gritou um deles. — Não se mexam! Mãos para cima!

Charlie virou-se para eles. Ao fazê-lo, meia dúzia de outros homens, incluindo John Mayo e Ray Knowles, precipitaram-se para os degraus com as suas armas.

Charlie abriu os olhos um pouco mais, e Andy sentiu alguma coisa quente passar por ele, um sopro de ar quente.

Os três homens já estavam na metade do caminho quando seus cabelos pegaram fogo.

Um tiro de revólver ressoou, ensurdecedor, e uma lasca de madeira de uns vinte centímetros pulou de uma das vigas da va­randa.

Norma Manders gritou e Andy se encolheu. Mas Charlie, com o rosto sonhador e pensativo, parecia não ter notado... Um pequeno sorriso de Mona Lisa marcava-lhe os cantos da boca.

Ela está gostando disto, pensou Andy, com uma sensação de horror. Será por isso que ela se assusta tanto? Será que isso lhe agrada?

Charlie voltava-se de novo para Al Steinowitz. Os três homens da linha de frente que ele mandara contra Andy e Charlie tinham esquecido seu dever para com Deus, a pátria e a Oficina. Tentavam apagar as chamas da cabeça e gritavam. Subitamente, o cheiro pungente de cabelo queimado enchia a tarde.

Outra arma disparou. Uma janela estilhaçou-se.

—        Não na menina — gritou Al. — Não na menina!

Andy foi agarrado com brutalidade. A varanda vibrava com uma confusão de homens. Andy foi desordenadamente arrastado para a balaustrada. Então alguém tentou puxá-lo em outra direção. Sentiu como se fosse a corda em um cabo-de-guerra.

—        Soltem-no! — gritava Irv Manders com voz de trovão. —Soltem-no!

Ouviu-se um outro tiro, e de repente Norma gritava o nome do marido repetidas vezes.

Charlie fitava Al Steinowitz, e de súbito o olhar frio e seguro desapareceu do rosto de Al; ele estava apavorado. Sua pele amarela tinha positivamente o aspecto de queijo.

—        Não, não faça isso — disse ele em tom de conversa. — Não.

Era impossível dizer onde as chamas começaram. De repente as calças e o casaco esporte de Al ardiam. Seu cabelo era um bosque em chamas. Ele recuou, gritando, pulou para o lado do carro e virou-se parcialmente para Norville Bates, com os braços estendidos.

Andy sentiu de novo aquele leve sopro de calor, um deslo­camento de ar como o de uma bala quente, lançada com a veloci­dade de um foguete, que tivesse passado junto ao seu nariz.

O         rosto de Ai Steinowitz pegara fogo.

Num instante, ele gritava, sem palavras, sob um invólucro transparente de chamas. Em seguida seus traços se fundiram, mis­turando-se, escorrendo como sebo derretido. Norville afastou-se dele. Al Steinowitz era um espantalho em chamas. Cambaleou cegamente estrada abaixo, sacudindo os braços, e em seguida desmoronou, com o rosto no chão, ao lado do terceiro carro. Não parecia um homem, de modo algum; era um feixe de trapos em chamas.

O         pessoal na varanda congelara-se, olhando em silêncio a evo­lução inesperada daquele homem em chamas. Os três homens cujo cabelo Charlie incendiara conseguiram apagar o fogo. Todos pare­ceriam certamente estranhos no futuro (por mais breve que fosse); seus cabelos cortados curto, segundo o regulamento, pareciam agora placas negras de cinzas emaranhadas no topo da cabeça.

—        Vão embora! — disse Andy asperamente. — Vão embora depressa. Ela nunca tinha feito coisa semelhante antes, e eu não sei se ela é capaz de parar.

—        Eu estou bem, papai — disse Charlie com a voz calma, controlada e estranhamente indiferente. — Tudo está bem.

Foi então que os carros começaram a explodir.

Todos voaram pelos ares a partir da traseira; mais tarde, quan­do Andy reconstituiu mentalmente o incidente da Fazenda Manders, estava bastante certo disso. Todos explodiram primeiro na traseira, onde estavam os tanques de gasolina.

O         Plymouth verde-claro de Al foi o primeiro a explodir, com um som abafado: vromp... Uma bola de chamas elevou-se na traseira do Plymouth, tão luminosa que não se podia olhar para ela.

A janela de trás explodiu para dentro. O Ford em que tinham vindo John e Ray foi o seguinte, explodiu apenas dois segundos depois. Ganchos de metal voaram, sibilando pelos ares, batendo de volta no teto.

—        Charlie! — gritou Andy. — Charlie, acabe com isso!

Ela respondeu com a mesma voz calma:

—        Não consigo!

O         terceiro carro voou pelos ares.

Alguém correu. Alguém mais o seguiu. Os homens da varanda começaram a recuar. Andy foi novamente puxado, resistiu, e logo ninguém mais o segurava. E de repente todos corriam, com rostos pálidos, olhos fixos, cegos de pânico. Um dos homens de ca­belo carbonizado tentou pular por cima da balaustrada, prendeu o pé e caiu de cabeça numa pequena horta, onde Norma plantara feijão no princípio do ano. As hastes que sustentavam o feijão ainda estavam lá, e uma delas atravessou a garganta do camarada, saindo pelo outro lado com um som de perfuração úmida que Andy nunca esqueceu. O homem contorcia-se na horta como uma truta em terra, a estaca do feijão projetava-se do seu pescoço como a haste de uma flecha, e o sangue jorrava pela camisa, enquanto ele produ­zia fracos ruídos de gargarejo.

Os carros restantes explodiram como uma girândola de fogue­tes ensurdecedores. Dois dos homens que fugiam foram atirados para o lado, como bonecos de trapos, pela concussão. Um deles estava em chamas da cintura para baixo, e o outro, crivado de estilhaços do vidro de segurança.

Uma fumaça escura, oleosa, elevava-se no ar. Para além da estrada, as colinas e campos se deformavam e estremeciam ao clarão da explosão, como se encolhessem de horror. Frangos corriam lou­camente por toda parte, cacarejando como doidos. De repente, três deles explodiram em chamas e voaram como bolas de fogo com pés, indo cair no ponto mais distante do pátio de entrada.

—        Cbarlie, pare com isso imediatamente. Pare com isso!

Uma trincheira de fogo atravessava o pátio de entrada em diagonal; até mesmo a terra ardia numa linha reta, como se o fogo seguisse uma trilha de pólvora. A chama atingiu o bloco de rachar lenha em que estava cravado o machado de Irv, deu uma volta em torno dele e subitamente caiu-lhe em cima. O bloco crepitava numa chama só.

—        CHARLIE, PELO AMOR DE DEUS!

Algumas pistolas dos agentes da Oficina jaziam na borda da grama, entre o pátio e a fila de carros em chamas na estrada. Subi­tamente as cápsulas começaram a disparar numa série de explosões rápidas e estrepitosas. As armas saltitavam e se sacudiam estranhamente na grama.

Andy bateu no rosto de Charlie com a máxima força de que foi capaz.

A cabeça dela balançou para trás; seus olhos azuis estavam sem expressão. Em seguida Charlie olhou para ele surpresa, magoada, desorientada; de repente ele sentiu-se envolto numa cápsula de calor que crescia rapidamente. Inspirou um ar que parecia de vidro pesado. Os pêlos de suas narinas pareciam se encrespar.

Combustão espontânea, pensou ele. Vou explodir num surto de combustão espontânea.

E depois passou.

Charlie cambaleou e levou as mãos ao rosto. Então, através dos dedos, veio um grito progressivo, estridente, tão cheio de horror e consternação que Andy temeu que a mente dela se tivesse desorganizado.

—        PAAAAPAII...

Andy puxou-a para os seus braços e afagou-a.

—        Ah! — disse ele. — Ah, Charlie querida,...

O         grito estancou, e ela desmoronou nos braços do pai. Charlie desmaiara.

 

Andy apanhou-a nos braços, é a cabeça dela rolou inerte contra seu peito. O ar estava quente, cheirando fortemente a gasolina queimada. As chamas já tinham se alastrado pela grama, chegando à treliça de hera; línguas de fogo começavam a subir pela hera com agilidade de um rapaz numa aventura à meia-noite. A casa ia pegar fogo.

Irv Manders estava encostado à porta da cozinha com as pernas abertas. Norma ajoelhou-se ao seu lado. Ele fora atingido por um tiro acima do cotovelo, e a manga de sua camisa azul de trabalho estava vermelha de sangue. Norma arrancou uma tira comprida da ponta do vestido e tentava levantar a manga da camisa dele para ver se podia cobrir o ferimento. Irv tinha os olhos abertos, o rosto cinzento, os lábios arroxeados, e ofegava intensamente.

Andy deu um passo na direção deles, e Norma Manders recuou, protegendo o corpo do marido com o dela. Olhou para Andy com olhos brilhantes e austeros.

—        Vá-se embora — sibilou ela. — Pegue o seu monstro e desapareça.

 

OJ correu.

O         seu Falcão balançava debaixo do braço enquanto ele corria. Deixara a estrada e corria pelo campo. Caiu, levantou-se e continuou correndo. Torceu o tornozelo, talvez num buraco do chão, e tornou a cair, soltando um grito enquanto se esborrachava no chão. Le­vantou-se e continuou a correr. Por vezes parecia-lhe que estava correndo sozinho, e outras vezes parecia que alguém corria a seu lado. Não importava. O que importava era sair dali, afastar-se da­quele feixe de trapos em chamas em que se transformara Al Stei­nowitz dez minutos antes; afastar-se daquela fila de carros em cha­mas, afastar-se de Bruce Cook, que jazia no chão da pequena horta com uma vareta espetada na garganta. Ir para longe, longe, longe. O Falcão pulou do coldre, bateu dolorosamente no joelho de OJ e caiu num emaranhado de ervas. OJ chegou a um pequeno bosque. Tropeçou numa árvore caída e esparramou-se sobre ela. Ali ficou, respirando irregularmente, apertando com uma das mãos o lado do corpo, onde sentia uma pontada dolorosa, e chorando devido ao cho­que e ao medo. Pensou: Nenhum outro serviço no Estado de Nova York. Nunca mais. Ë isso aí, todo mundo fora da parada. Nunca mais ponho os pés em Nova York, nem que eu viva duzentos anos.

Passado certo tempo, OJ levantou-se e saiu mancando em di­reção à estrada.

 

—        Vamos tirá-lo da varanda — disse Andy. Depositou Charlie na grama além do pátio de entrada. Um lado da casa estava em chamas, e centelhas caíam na varanda como grandes pirilampos em movimentos lentos.

—        Vá-se embora — disse Norma asperamente. — Não toque nele.

—        A casa está pegando fogo, deixe-me ajudá-la.

—        Vá-se embora! O que você fez já basta.

—        Pare com isso, Norma. — Irv olhava para ela. — Nada do que aconteceu foi culpa deste homem. Portanto, cale a boca.

Norma olhou para ele como se tivesse muitas coisas a lhe dizer, e depois fechou a boca com um estalo.

—        Levante-me — disse Irv. — Ë como se minhas pernas fos­sem de borracha. Acho que urinei nas calças. Não ficaria surpreso com isso. Um desses patifes me acertou. Não sei qual foi. Dê-me sua mão, Frank.

—        Andy — disse ele, passando um braço em torno das costas de Irv. Aos poucos Irv se pôs de pé. — Não censuro sua mulher. Você devia ter-nos recusado carona hoje de manhã.

—        Se tivesse que recomeçar, faria tudo de novo; aqueles des­graçados entrando pela minha terra com pistolas! Aqueles patifes danados e aquele bando de miseráveis do governo e... ui-ui-ui, meu Deus!

—        Irv! — gritou Norma.

—        Cale-se, mulher. Agora a coisa está me pegando. Venha, Frank, ou Andy, ou seja qual for o. seu nome. Está ficando quente.

De fato, estava. Um sopro de vento levou um rolo de cente­lhas para a varanda depois que Andy arrastou Irv, degraus abaixo, até o pátio de entrada. O cepo de rachar lenha era agora um toco esturricado. Nada restava dos frangos a que Charlie ateara fogo, exceto uns ossos carbonizados e cinzas peculiares e densas do que deveriam ter sido as penas. Não tinham sido assados, mas crema­dos.

—        Ponha-me lá perto do estábulo — disse Irv, arquejando. — Quero falar com você.

—        Você precisa de um médico.

—        De acordo. Vou chamar o meu médico. E como está a sua menina?

—        Desmaiou.

Andy instalou Irv com as costas contra a porta do estábulo. Irv olhava para Andy. Voltara-lhe um pouco da cor do rosto, e aquele tom azulado dos lábios estava desaparecendo. Suava. Por trás

dele a grande casa branca de fazenda que fora construída na Estra­da Baillings em 1868 consumia-se em chamas.

—        Não devia ser possível a ser humano algum fazer o que ela faz.

—        Parece que não — disse Andy, desviando o olhar de Irv diretamente para o rosto empedernido, implacável, de Norma Man­ders. — Mas então também não deveria ser possível que ser humano algum sofresse de paralisia cerebral, ou atrofia muscular, ou leuce­mia. Mas acontece, e acontece a crianças.

—Não há como saber—concordou Irv.—Muito bem.

Ainda olhando para Norma, Andy disse:

—        Ela não é mais monstruosa do que uma criança num pulmão de aço ou numa casa para crianças retardadas.

—        Lamento ter dito isso — respondeu Norma, e seu olhar vacilou e desviou-se de Andy. — Estava dando comida às galinhas com ela. Observando como brincava com a vaca. Mas, senhor, minha casa está pegando fogo e algumas pessoas morreram.

—        Lamento muito.

—        A casa está no seguro, Norma — disse Irv, pegando a mão dela com a outra mão.

—        Mas isso não me devolve os pratos de minha mãe, que ela havia ganho da mãe dela — disse Norma —, ou minha linda escri­vaninha, ou os quadros que consegui na exposição de arte em Schenectady, em julho. — Uma lágrima escapou de um olho, e ela enxugou-a com a manga. — E todas as cartas que você me escreveu quando estava no exército.

—        E a sua menininha, vai ficar boa? — perguntou Irv.

—        Não sei.

—        Bem, escute. Há uma coisa que você pode fazer, se quiser. Atrás do estábulo há um velho jipe Willys.

—        Irv, não se afunde ainda mais nesse assunto.

Irv virou o rosto pálido e suado em direção a Norma. Por trás deles a casa queimava. O som das ripas estalando era como o de castanhas-da-índia numa fogueira de Natal.

—        Aqueles homens vieram sem credenciais nem mandado ju­dicial de qualquer espécie e tentaram levá-los da nossa propriedade. Pessoas que eu teria convidado para entrar na minha casa como se faz num país civilizado, com leis decentes. Um deles atirou em mim e outro tentou atirar em Andy. Não lhe acertou a cabeça por um triz.

Andy lembrou-se do primeiro estampido ensurdecedor e da lasca de madeira que pulara da viga da varanda. Teve um calafrio.

—        Eles vieram e fizeram essas coisas. O que é que você quer que eu faça, Norma? Que fique sentado aqui e os entregue à polícia secreta, se eles conseguirem recuperar coragem suficiente para voltar? Que eu seja um bom alemão?

—        Não — respondeu ela com voz rouca. — Acho que não.

—        Vocês não precisam... — começou Andy.

—        Eu sinto que preciso — disse Irv. — E quando eles vol­tarem... porque eles vão voltar, não vão, Andy?

—        Ah, sim! certamente. Você acabou de comprar ações de uma indústria em expansão, Irv.

Irv riu com um som sibilante, ofegante.

—        Está bem, muito bem. Então, quando eles aparecerem aqui, tudo o que sei é que você pegou meu Willis e nada mais. E eu lhe desejo tudo de bom.

—        Muito obrigado — disse Andy calmamente.

—        Temos que andar depressa — disse Irv. — A cidade fica longe, mas agora eles já devem ter visto a fumaça. Os carros de bombeiros devem estar a caminho. Você disse que você e a sua florzinha iam para Vermont. Era mesmo verdade?

—        Era.

Ouviram um resmungo à esquerda.

—        Papai...

Charlie estava sentada, com a calça vermelha e a blusa verde sujas de terra. Seu rosto estava pálido, seus olhos pareciam terri­velmente confusos.

—        Papai, o que é que está queimando? Estou sentindo cheiro de coisa queimada. Fui eu que fiz isso? O que está queimando?

Andy aproximou-se e a suspendeu do chão.

—        Tudo está bem — disse ele, pensando por que motivo se tem de falar assim às crianças, mesmo quando a gente sabe perfei­tamente que não é verdade. — Tudo está ótimo. Como é que você se sente, querida?

Charlie olhava por cima do ombro dele a fila de carros em chamas, o corpo convulsionado na horta e a casa dos Manders co­roada de fogo. O vento afastava o calor e a fumaça para longe, mas o cheiro de gasolina e telhas quentes era forte.

—        Fui eu que fiz isso — disse Charlie com uma voz pouco audível. Seu rosto começou a se contorcer e contrair de novo.

—        Menina! — disse Irv seriamente.

Charlie olhou para ele, através dele.

—        Eu — resmungou.

—        Sente-a aqui perto. Eu quero falar com ela — disse Irv.

Andy levou Charlie até onde Irv estava sentado, encostado na porta do celeiro, e sentou-a no chão.

—        Você vai me ouvir, florzinha — disse Irv. — Aqueles homens queriam matar seu pai. Você soube disso antes de mim, talvez antes dele, embora macacos me mordam se eu entendo como você consegue isso. Estou certo?

—        Está — respondeu Charlie. Continuava com os olhos fundos e infelizes. — Mas você não compreende. Foi como o soldado, mas pior. Eu não podia... não podia segurar mais. Estava indo para todo o lado. Queimei alguns dos seus frangos.., e quase queimei meu pai. — Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos infelizes, e ela desatou a chorar, desamparada.

—        Seu pai está muito bem — disse Irv. Andy calara-se. Lem­brava-se daquela súbita sensação estranha de ficar fechado numa cápsula de calor.

—        Nunca mais vou fazer isso — disse ela. — Nunca mais.

—        Muito bem — disse Andy pondo-lhe a mão no ombro. — Muito bem, Charlie.

—        Nunca mais — repetia ela, com uma ênfase tranqüila.

—        Você não precisa dizer isso, florzinha — disse Irv, olhando para ela. — Você não precisa se bloquear dessa maneira. Fará o que tem de fazer. Você fará o melhor que puder. E isso é tudo o que você pode fazer. Acho que a coisa de que o Deus deste mundo mais gosta é tentar as pessoas que dizem “nunca”. Você me com­preende?

—        Não — sussurrou Charlie.

—        Mas você vai compreender, acho eu — disse Irving, olhan­do para Charlie com tal compaixão, que Andy sentiu a garganta cheia de tristeza e temor. Então Irv lançou um olhar à mulher. — Traga-me esse graveto aí aos seus pés, Norma.

Ela trouxe-lhe o graveto e colocou-o nas mãos dele, dizendo-lhe que estava exagerando e precisava repousar.

Assim, só Andy ouviu Charlie repetir um “nunca mais” quase inaudível, abafado no peito como um juramento em segredo.

 

—        Olhe aqui, Andy — disse Irv, e traçou uma linha reta no chão. — Esta é a estrada de terra pela qual viemos, a Estrada Baillings. Se você rodar quatrocentos metros para o norte, encon­trará à sua direita uma trilha no meio do mato. Os carros não podem usar essa trilha, mas o Willys pode, se você o mantiver sempre acelerado e souber usar o pedal. Por vezes parece que a trilha acaba ali, mas se você continuar a apanhará de novo. Não aparece em nenhum mapa, entende? Não está em mapa algum.

Andy concordava com a cabeça, acompanhando o graveto tra­çar a trilha no mato.

—        Isso o levará até cerca de vinte quilômetros a leste, e, se você não ficar enguiçado ou perdido, chegará à Estrada 152, perto de Hoag Corners. Virando à esquerda para o norte e um quilô­metro e meio adiante na 152, você encontrará outro caminho no mato. É de terreno baixo, pantanoso, enlameado. O Willys poderá vencê-lo, mas talvez não possa. Há uns cinco anos mais ou menos que não ando por esse caminho. É o único que eu conheço na dire­ção de Vermont, e você não ficará sujeito ao bloqueio de estradas. Esse segundo caminho pelo bosque o levará à Auto-Estrada 22, ao norte de Cherry Plain e ao sul da fronteira de Vermont. A essa altura você já deverá estar livre do pior, embora eu acredite que eles já tenham divulgado seu nome e seus retratos. Mas nós lhe desejamos o melhor. Não é verdade, Norma?

—        Sim — disse Norma, e a palavra era quase um suspiro. Olhava para Charlie. — Você salvou a vida de seu pai, menininha. Disso é que você deve se lembrar.

—        Será? — disse Charlie com uma voz tão perfeitamente sem entonação, que Norma Manders ficou perplexa e um pouco assus­tada. Charlie tentou, então, um hesitante sorriso, que Norma lhe retribuiu, aliviada.

—        As chaves estão no Willys, e... — Inclinou a cabeça para o lado: — Escutem. — Era o som das sirenes, que crescia e dimi­nuía, em ciclos ainda fracos, mas que se aproximavam.

—        São os bombeiros — disse Irv. — É melhor você ir já, se e que vai.

—        Vamos, Charlie — disse Andy. Ela aproximou-se dele com os olhos vermelhos de choro. O ligeiro sorriso desaparecera como um raio de sol hesitante por trás das nuvens, mas Andy sentiu-se muito estimulado pelo fato de o sorriso pelo menos ter existido. O rosto dela era o de um sobrevivente, estava chocada e magoada. Nesse momento Andy desejou possuir aquele poder de Charlie; ele o usaria, e sabia contra quem.

—        Muito obrigado, Irv — disse Andy.

—        Desculpe — disse Charlie em voz baixa. — Por causa da sua casa, dos seus frangos e... tudo o mais.

—        Não foi sua culpa, florzinha, com toda a certeza — disse Irv. — Eles é que causaram tudo isso por eles próprios. Cuide de seu pai.

—        Eu prometo.

Andy tomou-lhe a mão, e rodearam o estábulo até onde se achava o Willys, sob uma lona presa a um poste.

 

As sirenes dos bombeiros já estavam bem perto quando ele deu a partida ao carro e atravessou o gramado em direção à estrada. A casa era agora um inferno. Charlie não queria olhar. A última coisa que Andy viu dos Manders, ao olhar pelo espelho retrovisor do jipe de teto de lona, foi Irv recostado contra o estábulo, com a tira de pano branco manchada de sangue amarrada ao braço fe­rido e Norma sentada ao seu lado. Com o braço bom dele enlaçava os ombros de Norma. Andy acenou, e Irv fez um gesto ligeiro com o braço machucado. Norma não acenou, talvez pensando na porcelana da mãe, na sua escrivaninha, nas cartas de amor e em todas as coisas que, como sempre, o seguro ignora.

 

Encontraram a primeira trilha exatamente onde Irv Manders dissera. Andy acionou a tração nas quatro rodas do Willys e entrou na trilha.

—        Segure-se bem, Charlie — disse ele. — Vamos balançar um pouco.

Charlie segurou-se; tinha o rosto pálido e apático, e olhar para ela deixava Andy nervoso. A casa de campo, pensou. A casa de campo do avô McGee em Tashmore Pond. Se ao menos conseguís­semos chegar lá e descansar... Ela se recuperaria, e então poderíamos pensar no que lazer. Vamos pensar nisso amanhã. Um novo dia, como disse Scarlett.

O         Wíllys rugiu e arquejou enquanto avançava pelo caminho, que nada mais era do que uma pista para duas rodas. Arbustos e até mesmo alguns pinheiros raquíticos cresciam ao longo da coroa do morro.

Aquela terra devia ter sido desmatada há dez anos, e Andy duvidava que alguém a tivesse usado desde então, a não ser algum caçador ocasional. Dez quilômetros adiante parecia subir e termi­nar, e Andy teve de parar duas vezes para remover árvores caídas. Da segunda vez, ao parar para descansar, com o coração e a cabeça latejando quase doentiamente devido ao esforço, viu uma grande corça olhando pensativamente para ele. Ela ficou quieta por um mo­mento, e desapareceu em seguida no bosque denso com um movi­mento súbito do seu rabinho branco. Andy olhou para Charlie, e viu que ela observava maravilhada a corrida da corça.., e ele se reanimou. Um pouco mais adiante encontraram novamente os sulcos de rodas, e por volta das três da tarde saíram no trecho da Estrada 152, de duas pistas asfaltadas.

 

Arranhado e enlameado, quase sem poder andar com o seu tornozelo machucado, Orville Jamieson sentou-se à beira da Estrada Baillings, a cerca de oitocentos metros da Fazenda Manders, e falou no seu walkie-talkie. Sua mensagem estava sendo retransmitida a um posto de comando volante instalado num caminhão estacionado na rua principal de Hastings Glen. O caminhão tinha equipamento de rádio com dispositivo eletrônico de escuta e um transmissor possante. O relato de OJ foi amplificado e enviado a Nova York, onde uma estação de telegrafia o captou e reenviou para Longmont, na Virgínia, onde Cap o ouvia, sentado no seu escritório.

O         rosto de Cap já não estava tão animado e confiante como naquela manhã, quando fora de bicicleta para o trabalho. O rela­tório de OJ era quase inacreditável: sabiam que a menina tinha alguma coisa, mas essa história de carnificina e súbita destruição era (pelo menos para Cap) como um raio num céu azul. De quatro a seis homens mortos, os outros desordenadamente precipitados nos bosques, meia dúzia de carros em chamas, uma casa queimada até os alicerces, um civil ferido e berrando para quem o quisesse ouvir que um bando de neonazistas tinha aparecido à porta de sua casa e tentado seqüestrar um homem e uma menininha que ele convi­dara para almoçar.

Quando OJ acabou seu relatório (ele realmente não o acabara, apenas começara a se repetir, numa espécie de semi-histeria), Cap pousou o fone, recostou-se na confortável cadeira giratória e tentou pensar. Não se lembrava de nenhuma operação secreta que tivesse sido tão desastrosa desde a expedição à baía dos Porcos, e essa fora em solo americano.

O         gabinete estava melancólico e cheio de sombras, espessas agora que o sol batia no outro lado do edifício, mas ele não acen­deu as luzes.

Rachel tinha-o chamado pelo interfone, e ele lhe dissera brus­camente que não queria falar com ninguém, com pessoa alguma.

Sentia.se velho.

Ouvia Wanless dizer: Estou falando no potencial de destrui­ção. Bem, agora já não se tratava de potencial, não é verdade? Mas nós vamos pegá-la, pensou ele, olhando no vazio através do quarto. Ah, sim, certamente vamos pegá-la!

Apertou o botão para chamar Rachel.

—        Quero falar com Orville Jamieson logo que ele possa ser trazido aqui de avião. Quero também falar com o general Brackman, em Washington, prioridade máxima. Estamos numa situação poten­cialmente embaraçosa no Estado de. Nova York, e quero que você lhe comunique isso imediatamente.

—        Sim, senhor — respondeu Rachel respeitosamente.

—        Quero uma reunião com os seis subdiretores às dezenove horas. Também prioridade máxima. Quero falar com o chefe da polícia estadual de Nova York. — Eles tinham participado da var­redura, e Cap queria especificar isso para eles. Se fossem jogar lama, queria estar certo de poder reservar-lhes um grande balde cheio. Mas também queria chamar a atenção para o fato de pode­rem sair dessa, de maneira bastante decente; se formassem uma frente unida. Hesitou, e depois disse: — Quando John Rainbird telefonar, diga-lhe que quero falar com ele. Tenho uma outra tarefa para ele.

—        Sim, senhor.

Cap soltou a alavanca do interfone. Recostou-se na cadeira, e ficou estudando as sombras.

—        Nada acontece que não possa ser reparado — disse para as sombras. Este fora o seu lema de toda a vida, não bordado em talagarça e pendurado, nem gravado numa placa de cobre na mesa, mas impresso no seu coração como uma verdade.

Nada que não possa ser reparado. Até aquela noite, até o relatório de OJ, ele acreditara nisso. Era uma filosofia que levara o filho de um pobre mineiro da Pensilvânia bem alto. E ele ainda acreditava nisso, embora estivesse momentaneamente abalado. Man­ders e sua mulher provavelmente tinham parentes espalhados desde a Nova Inglaterra até a Califórnia, e cada um deles era uma ala­vanca em potencial. Havia bastantes fichas altamente secretas ali mesmo em Longmont para assegurar que qualquer investigação no Congresso sobre os métodos da Oficina encontrasse... ouvidos moucos. Os carros e mesmo os agentes eram apenas instrumentos, embora fosse preciso bastante tempo para que ele pudesse real­mente se habituar ao desaparecimento de Al Steinowitz. Quem ali seria capaz de substituir Al? Aquela garotinha e o seu velho iriam pagar pelo que tinham feito a Al, se não por outras coisas. Ele cuidaria disso. Mas, e a menina? Seria possível repará-la?

Havia recursos, havia métodos de contenção.

As fichas de McGee ainda estavam no carrinho da biblioteca. Levantou-se, foi até lá e começou a folheá-las agitadamente. Ima­ginava onde John Rainbird poderia estar naquele momento.

Washington, D.C.


No momento em que Cap Hollister teve esse pensamento a seu respeito, John Rainbird estava sentado no seu quarto do May­flower Hotel vendo na televisão um programa chamado The Cross­wits*. Estava nu, descalço, sentado numa cadeira, com os pés jun­tos, assistindo ao programa. Esperava que escurecesse. Depois que ficasse escuro, começaria a esperar que ficasse tarde. Quando ficas­se tarde, começaria a esperar que a madrugada chegasse. Quando chegasse a madrugada e o movimento do hotel fosse mínimo, dei­xaria de esperar e subiria até o quarto 1217 para matar o Dr. Wan­less. Então desceria ao seu quarto e refletiria sobre o que Wanless lhe diria antes de morrer, e, nalgum momento depois que o sol se levantasse, dormiria um pouco.

John Rainbird era um homem de paz. Estava em paz com quase tudo. Com Cap, a Oficina, os Estados Unidos. Estava em paz com Deus, o Diabo e o universo. Se não estava ainda em com­pleta paz consigo mesmo, era porque sua peregrinação ainda não acabara. Recebera muitos ferimentos, muitas cicatrizes honrosas. Não lhe importava que as pessoas lhe virassem as costas por medo e repugnância. Não lhe importava ter perdido um olho no Vietnam. O que lhe pagavam também não importava. Recebia, e a maior parte do que recebia gastava comprando sapatos. Gostava muito de sapatos. Possuía uma casa em Flagstaff, e embora raramente a ocupasse, era lá que mandava ëntregar todos os sapatos. Quando tinha uma oportunidade de ir até sua casa, admirava os sapatos Gucci, Bally, Bass, Adidas, Van Donen. Sapatos. A casa era uma estranha .floresta, árvores de sapatos cresciam em todas as peças, e ele vagava de quarto em quarto, admirando os frutos de sapatos que nela cresciam. Mas quando estava só andava descalço. Seu pai, um autêntico cherokee, fora enterrado descalço. Alguém roubara­lhe os mocassins no enterro. Além dos sapatos, só mais duas coisas interessavam a John Rainbird. Uma delas era a morte. Sua própria morte, naturalmente; vinha se preparando para essa fatalidade

 

* “Espíritos cruzados”, literalmente. Programa de adivinhações na TV. (N. da T.)

 

há vinte anos ou mais. Lidar com a morte sempre fora o seu negó­cio, o único em que tivera sucesso. Tornara-se cada vez mais inte­ressado na morte à medida que envelhecia, como um artista se toma mais interessado na qualidade e na intensidade da luz, como os escritores se sentem em relação a personagens, como os cegos lendo em braile. O que mais lhe interessava era a separação, a verdadeira exalação da alma. . . a saída do corpo e do que os seres humanos chamam de vida e a passagem para uma coisa diferente. O que seria sentir-se deslizar para o além? Pensariam as pessoas ser um sonho do qual se acorda? Estaria o demônio dos cristãos ali, com o seu forcado, pronto a enfiá-lo na alma do morto aos gri­tos e levá-la para o inferno, como um pedaço de carne ou um shish kebab*? Haveria alegria? Saber-se-ia para onde se ia? O que é que os olhos dos moribundos viam?

Rainbird esperava ter oportunidade de descobri-lo por si mes­mo. No seu negócio, a morte era freqüentemente rápida e inespe­rada, acontecia num piscar de olhos. Quando sua morte viesse, esperava ter tempo para se preparar e sentir tudo. Cada vez mais, ultimamente, observava os rostos das pessoas que matava, tentando ver o segredo em seus olhos.

A morte interessava-lhe.

O         que também lhe interessava era a garotinha com quem todos estavam tão preocupados. Charlene McGee. Cap julgava que John Rainbird tivesse apenas um vago conhecimento dos McGees e nada soubesse a respeito do Lote 6. Na realidade, Rainbird sabia quase tanto quanto o próprio Cap, fato que, se fosse do conhecimento de Cap, lhe teria custado a extrema sanção. Suspeitavam que a menina tivesse algum poder extraordinário, talvez uma porção de poderes. Gostaria de conhecer essa menina para ver os poderes que ela tinha. Também sabia que Andy McGee era o que Cap chamava de um “dominador mental” em potencial, mas isso não preocupava John Rainbird. Ele ainda não encontrara um homem que o pudesse do­minar.

O         programa Crosswits terminara na tevê. Veio o noticiário. Nada de bom. John Rainbird ficou sentado sem comer, sem beber, sem fumar, limpo, vazio e despido, esperando a hora de matar.

 

* Prato de pedaços de carne condimentada e assada em espeto. (N. da T.)

 

Mais cedo nesse mesmo dia, Cap havia pensado, constrangido, em como Rainbird era silencioso. O Dr. Wanless nunca o ouviria. Acordou de um sono profundo. Acordou porque um dedo o cutu­cava abaixo do nariz. Acordou e viu o que parecia ser um monstro de pesadelo agigantando-se acima de sua cama. Um olho brilhou de leve à luz que vinha do banheiro, a luz que sempre deixava acesa quando estava num ambiente estranho. No lugar onde o outro olho deveria estar havia apenas uma cratera vazia.

Wanless abriu a boca para gritar, mas John Rainbird apertou-lhe as narinas com os dedos de uma das mãos e cobriu-lhe a boca com a outra. Wanless começou a se debater.

—        Psiu! — disse Rainbird. Falava com a feliz indulgência da mãe que muda a fralda do bebê.

Wanless lutava com mais força.

—        Se o senhor quiser viver, fique quieto e calado — disse Rainbird.

Wanless olhou para ele, respirou uma vez com dificuldade e depois ficou imóvel.

—        O senhor vai ficar quieto? — perguntou Rainbird.

Wanless concordou. Começava a ficar com o rosto muito ver­melho. Rainbird retirou as mãos, e Wanless passou a resfolegar rou­camente. Um fio de sangue escorria-lhe de uma das narinas.

—        Quem é você?... Cap... o mandou?

—        Rainbird — respondeu ele, sério. — Cap me mandou, é verdade.

Na escuridão, os olhos de Wanless eram enormes. Passava a língua pelos lábios como uma cobra. Deitado na cama, com os len­çóis jogados para baixo em volta dos tornozelos ossudos, parecia a criança mais velha do mundo.

—        Eu tenho dinheiro — sussurrou ele muito depressa. — Conta num banco da Suíça. Muito dinheiro. Ë todo seu. Nunca mais abrirei a boca. Juro diante de Deus.

—        Não é o seu dinheiro que eu quero, Dr. Wanless.

Wanless fitou-o com o lado esquerdo da boca levantado numa expressão de louco desprezo, a pálpebra esquerda caída e trêmula.

—        Se o senhor quiser estar vivo quando o sol nascer, vai ter que conversar comigo, Dr. Wanless. O senhor vai me ensinar. Será um seminário de uma só pessoa. Ficarei atento; um bom aluno. E o recompensarei com a vida, que o senhor viverá longe da vista de Cap e da Oficina. Compreende?

—        Compreendo — disse Wanless, rouco.

—        Concorda?

       — Sim... mas o que...?

Rainbird levou dois dedos aos lábios, e o Dr. Wanless calou-se imediatamente. Seu peito ossudo levantava-se e abaixava-se rapida­mente.

— Vou dizer duas palavras e depois sua aula vai começar. Diga tudo o que o senhor sabe, tudo de que o senhor suspeita, tudo o que teoriza. Está pronto para essas duas palavras, Dr. Wanless?

— Sim.

— Charlene McGee — disse Rainbird, e o Dr. Wanless come­çou a falar. As palavras vinham-lhe lentamente de início, e depois tomaram-se mais rápidas. Falou. Deu a Rainbird uma história com­pleta do Lote 6 e da experiência final. Muito do que ele disse, Rainbird já conhecia, mas Wanless preencheu muitas lacunas. O professor repetiu o sermão inteiro com que presenteara Cap naque­la manhã e que aqui não caía em ouvidos moucos. Rainbird ouvia cuidadosamente, franzindo o sobrecenho, às vezes batendo palmas ou sorrindo de satisfação à metáfora de Wanless em relação ao trei­namento de hábitos de higiene. Isso animou Wanless a falar ainda mais depressa, e quando principiou a se repetir, como fazem os ve­lhos, Rainbird apertou-lhe novamente o nariz e cobriu-lhe a boca com a outra mão.

— Desculpe — disse Rainbird.

Wanless corcoveava e se deixava achatar sob o peso de Rain­bird, que aplicou maior pressão; quando Wanless começou a se debater menos, Rainbird retirou abruptamente a mão que mantinha o nariz de Wanless fechado. O som sibilante da respiração do bom doutor era parecido com o ar que escapa de um pneu furado por um grande prego. Rolava os olhos violentamente nas órbitas, como os olhos de um cavalo enlouquecido de medo... mas ainda estavam duros demais para serem enfrentados.

Rainbird segurou a gola do casaco do pijama do Dr. Wanless e deu-lhe um puxão para o lado da cama, de modo que a luz branca e fria do banheiro lhe batesse diretamente no rosto.

Então voltou a pinçar as narinas do médico.

Se se mantiver completamente imóvel, um homem pode sobre­viver até mais de nove minutos sem lesão cerebral permanente quando lhe cortam o ar. Uma mulher, que tem capacidade pulmo­nar um pouco maior e um sistema ligeiramente mais eficiente de eliminação do dióxido de carbono, pode agüentar de dez a doze minutos. Naturalmente, a luta e o terror reduzem bastante esse tempo de sobrevida.

Depois de lutar agitadamente durante alguns segundos, os es­forços do Dr. Wanless para se salvar começaram a ceder. Bateu com as mãos de leve no rosto de John Rainbird, que parecia de granito. Seus tornozelos bateram como o rufar de um tambor em retirada, abafado pelo tapete. Sua saliva escorria sobre a palma da mão cale­jada de Rainbird.

Esse era o momento.

Rainbird curvou-se para a frente e estudou os olhos de Wan­less com uma avidez infantil. Mas era sempre a mesma coisa, sem­pre a mesma. Os olhos pareciam perder o temor e se encher de uma grande perplexidade. Nenhuma dúvida, nenhuma compreensão nascente, percepção ou horror, apenas perplexidade. Por um mo­mento, aqueles dois olhos perplexos se fixaram no único olho de Rainbird, e Rainbird sabia que estava sendo olhado.

Vagamente talvez, e apagando-se à medida que o doutor se esvaía, mas ele estava sendo olhado. Em seguida só havia fixidez. O           dr. Joseph Wanless já não estava no Mayflower Hotel; Rainbird continuava sentado na cama, com um boneco em tamanho natural a seu lado.

Estava sentado, imóvel, com a mão ainda sobre a boca do bo­neco, a outra apertando fortemente as narinas do boneco. Era me­lhor, mais garantido. Ficaria assim ainda mais dez minutos. Pen­sava no que Wanless lhe dissera a respeito de Charlene McGee. Seria possível que uma criança pequena pudesse ter tamanho po­der? Achava que sim. Em Calcutá vira um homem espetar facas no corpo, pernas, barriga, peito, pescoço, e depois tirá-las sem deixar ferimentos. Podia ser possível. E certamente... era interessante.

Pensou nessas coisas e em seguida imaginou como seria matar uma criança. Que ele soubesse, jamais fizera isso. (embora uma vez tivesse colocado uma bomba num avião; ao explodir, matara as de­zessete pessoas a bordo, e talvez uma ou mais fossem crianças, mas não era a mesma coisa; fora impessoal). Naquele seu negócio não era comum pedir-se a morte de crianças. Afinal, eles não eram uma orga­nização terrorista como as da Irlanda ou da Palestina, embora certas pessoas, entre elas alguns covardes do Congresso, por exemplo, gos­tassem de acreditar que o fossem.

Eles eram, afinal, uma organização científica.

Talvez com uma criança o resultado fosse diferente. Talvez houvesse uma outra expressão nos olhos no final, alguma coisa além da perplexidade que o fazia se sentir tão vazio, tão triste.., era isso, na verdade.., tão triste.

Na morte de uma criança talvez pudesse descobrir parte do que queria saber.

Uma criança como Charlene McGee.

       — A minha vida é como as estradas retas do deserto — mur­murou John Rainbird. Olhava absorto para as duas bolas de gude embaciadas que tinham sido os olhos do Dr. Wanless. — Mas sua vida nada tem de estrada, meu amigo, meu bom amigo

       Beijou Wanless, primeiro numa face, depois na outra. Em se­guida puxou-o novamente para a cama e estendeu por cima dele um lençol, que baixou suavemente como um pára-quedas, delineando o saliente nariz de Wanless, agora sem palpitação, numa morta­lha branca.


 

Rainbird deixou o quarto.

Nessa noite, pensou na menina que alegavam provocar incên­dios. Pensou muito nela. Imaginou onde poderia estar, o que pen­sava, com que sonhava. Sentiu muita ternura por ela; sentiu-se mui­to protetor.

Quando mergulhou no sono, exatamente às seis da manhã, ti­nha uma certeza: a menina seria dele.

 

Tashmore, Vermont

Andy e Charlie McGee chegaram à casa de campo de Tashmo­re Pond dois dias depois do incêndio da Fazenda Manders. Para começar, o Willys não estava em muito boa forma, e o mergulho nas estradas lamacentas que Irv indicara não era a melhor coisa que lhes poderia ter acontecido.

Quando o crepúsculo baixou, naquele dia interminável que co­meçara em Hastings Glen, eles estavam a menos de dezoito metros do final da segunda trilha através do mato, e a pior dos caminhos. Abaixo deles, mas escondida por moitas fechadas, passava a Estra­da 22. Embora não a pudessem ver, podiam casualmente ouvir a zoada e o gemido dos carros e caminhões que passavam. Dormiram aquela noite no Willys, agarrados para se aquecerem. Na manhã seguinte puseram-se a caminho (isto é, na véspera da manhã) exata­mente às cinco da manhã, hora em que a luz do dia apenas surgia a leste, iium tom esbranquiçado.

Charlie estava pálida, apática e exausta. Não perguntara ao pai o que aconteceria se o bloqueio das estradas se tivesse deslocado pera leste. Isso não fazia diferença, porque se os bloqueios tivessem sido deslocados eles seriam apanhados, e isso era simplesmente tudo o que podia acontecer. Também nem se podia admitir deixar o Willys cair na vala; Charlie não estava em condições de caminhar, nem ele tampouco.

Assim Andy chegou até a auto-estrada. Durante todo aquele dia de outubro tinham dançado e pulado através de estradas secun­dárias sob um céu branco que prometia chuva mas não chegava a derramá-la. Charlie dormiu muito, e Andy estava preocupado com ela, preocupava-se com que ela estivesse usando o sono de maneira mórbida, para fugir ao que acontecera, em vez de enfrentar a situação.

Parou duas vezes em lanchonetes de beira de estrada para comprar hambúrgueres e batatas fritas. Da segunda vez usou a nota de cinco dólares que Jim Paulson, o motorista do caminhão, lhe dera. A maior parte das moedas dos telefones já acabara. Certa­mente perdera algumas delas, caídas dos bolsos durante aquela hora de loucura na Fazenda Manders. Alguma coisa mais desaparecera também; aqueles assustadores pontos insensíveis no seu rosto ti­nham desaparecido durante a noite. Estes, ele não se importava de perder.

A maior parte dos hambúrgueres e fritas destinados a Charlie permanecia intacta.

Na noite anterior tinham parado numa área de descanso da auto-estrada cerca de uma hora depois do escurecer. A área estava deserta. Era outono, e a temporada dos farofeiros já passara. Um aviso rústico gravado numa tábua dizia: NAO ACAMPE. NAO ACEN­DA FOGO. AMARRE O SEU CAO. MULTA DE $500 PARA QUEM DESPE­JAR LIXO.

 

—        Eles são realmente muito amáveis por aqui — resmungou Andy. Dirigiu o Willys ladeira abaixo, para além do estaciona­mento de cascalho, e entrou num bosque, ao lado de um pequeno regato cantante. Ele e Charlie desceram e, sem dizer palavra, foram até a água. O céu continuava toldado, mas suave; não se viam es­trelas, e a noite parecia extremamente escura. Sentaram-se por uns momentos e escutaram o regato contar a sua história. Andy segurou a mão de Charlie, e foi então que ela começou a chorar, em gran­des soluços dilacerantes, que pareciam parti-la.

Ele segurou-a nos braços e ninou-a.

—        Charlie — murmurou ele. — Charlie, Charlie. Não chore.

—        Por favor, papai, não me faça fazer aquilo de novo. — Ela chorava. — Porque se você me mandar eu vou fazer, e então acho que vou me matar, por favor.., por favor... nunca...

— Eu gosto de você. Fique calma e deixe de falar em se ma­tar. Isso é tolice.

—        Não, não é. Prometa, papai.

Ele pensou bastante tempo e depois disse lentamente:

— Não sei se vou conseguir, Charlie, mas prometo tentar. Isso bastará para você?

O silêncio perturbado dela foi uma expressiva resposta.

— Eu também fiquei com medo — disse ele baixinho. — Os pais  também têm medo. Passaram essa noite também na cabina do Willys. Às seis da manhã estavam de volta à estrada. As nuvens tinham se dispersado, e por volta das dez horas o dia estava perfeito, era um dia de verão de índio*, Pouco depois de terem atravessado a linha divisória do Estado de Vermont, viram homens montados em escadas grandes como mastros, sacudindo macieiras, e caminhões nos pomares cheios de grandes cestas de maçãs.

Às onze e meia deixaram a Estrada 34 e tomaram um caminho

 

*Expressão americana, período de tempo suave entre o outono e o inver­no. (N. da T.)

 

de terra sulcado por rodas, assinalado por uma placa, PROPRIEDADE PARTICULAR, e Andy sentiu um alívio no peito. Tinham conseguido chegar à casa do avô McGee.

Seguiram de carro lentamente, descendo até a lagoa, por uma distância de talvez uns dois quilômetros e meio. As folhas de outo­no, vermelhas e douradas, rodopiavam na estrada diante do nariz rombudo do Willys; exatamente quando reflexos de água começa­vam a aparecer através das árvores, a estrada bifurcava-se. Uma cor­rente de aço pesada atravessava o caminho mais estreito, e da cor­rente pendia um aviso em amarelo, manchado de ferrugem: PROI­BIDA A PASSAGEM POR ORDEM DO XERIFE. A maior parte da ferru­gem formara-se em torno de seis ou oito buracos no metal, e Andy imaginou que no verão um garoto tivesse passado alguns minutos, para aliviar seu tédio, furando o aviso com sua 22. Mas isso fora anos antes.

Saiu do Willys e tirou o chaveiro do bolso. Tinha uma plaqui­nha de couro no anel com as iniciais A. McG. quase apagadas. Vicky lhe dera aquela peça de couro num certo Natal, um Natal antes de Charlie nascer.

Ficou algum tempo parado junto à corrente, olhando para a placa de couro e depois para as chaves. Havia quase duas dúzias delas. As chaves são coisas engraçadas; pode-se seguir o curso de uma vida observando a maneira como elas se acumulam no chavei­ro. Ele imaginava que algumas pessoas, sem dúvida possuidoras de um grau mais elevado de organização do que ele, simplesmente jo­gavam fora suas velhas chaves, assim como tinham o hábito de lim­par suas carteiras a cada seis meses, mais ou menos. Andy nunca fizera qualquer das duas coisas.

Ali estava a chave que abria a porta da ala leste do Prince Hall em Harrison, onde tivera seu escritório, e a chave do próprio escritório. A chave do Departamento de Inglês. A chave da casa em Harrison que ele tinha visto pela última vez no dia em que a Oficina matara sua mulher e lhe seqüestrara a filha. Havia ainda duas ou três mais que não conseguiu identificar. As chaves eram realmente coisas engraçadas.

Sua visão toldou-se. Subitamente, sentia falta de Vicky, pre­cisava dela como nunca, desde aquelas negras semanas com Char­lie na estrada. Estava tão cansado, tão assustado, tão furioso!

Naquele momento, se tivesse todos os funcionários da Oficina formados em linha diante dele na estrada do avô, e se alguém lhe pusesse uma metralhadora Thompson...

— Papai? — Era a voz ansiosa de Charlie. — Você não achou a chave?

—        Achei, sim — disse ele. Estava com as outras, uma chavi­nha Yale na qual arranhara T.P., de Tashmore Pond, com o seu canivete. A última vez que tinham ido ali fora no ano em que Charlie nascera, e agora Andy teve que girar um pouco a chave até que o interior enrijecido da fechadura se movesse. Então o cadeado saltou e deixou cair a corrente no tapete de folhas secas.

Ele passou com o Willys e tornou a fechar o cadeado.

A estrada achava-se em mau estado. Andy ficou contente ao verificar isso. Quando vinham regularmente todos os verões, pas­savam ali três ou quatro semanas, e ele sempre arrumava alguns dias para trabalhar na estrada: conseguia um carregamento de sai­bro da jazida de Sam More e colocava-o nos sulcos mais fundos, cortava o capim e pedia ao próprio Sam que trouxesse seu velho trator para aplainar o caminho. A estrada para o camping era ou­tra, uma bifurcação mais larga que conduzia a quase duas dúzias de casas e cabanas de camping enfileiradas na orla da praia. Seus ocupantes tinham seu clube, despesas coletivas anuais, reunião para prestação de contas em agosto e tudo o mais (embora essa reunião fosse realmente apenas um pretexto para se embebedarem antes do Dia do Trabalho, que punha fim a mais um verão). Mas o sítio do avô era o único daquele lado, porque ele tinha comprado toda aquela terra por uma bagatela no ano crítico da Depressão.

Nos velhos tempos, ele tinha um furgão Ford. Andy duvidava que o velho carro fizesse aquele caminho agora. Até mesmo o Willys, que tem uma suspensão alta, batera no fundo uma ou duas vezes. Isso não lhe importava em absoluto. Significava que ninguém passara por ali.

—        Vamos ter eletricidade, papai?

— Não, nem telefone. Não vamos arriscar ligar a eletricidade, meu bem. Seria o mesmo que levantar um cartaz anunciando ESTA­MOS AQUI. Mas há lampiões de querosene e dois tambores de óleo para fogão. Isto é, se esse material não tiver sido roubado, natu­ralmente. — Isso o preocupava um pouco. Desde a última vez que tinham estado ali o preço do óleo subira tanto que valia a pena rou­bá-lo, pensou ele.

— Será que tem... — Charlie começou.

—Merda! — disse Andy, comprimindo os freios. Uma árvo­re havia caído e estava atravessada no caminho deles, uma grande e velha bétula, abatida por alguma tempestade de inverno. — Acho que vamos ter de seguir a pé daqui em diante. É só um quilômetro e meio, mais ou menos. — Depois teriam que voltar com a serra manual do avô e cortar a árvore. Ele não queria deixar o Willys de Irv parado ali. Ficaria muito exposto.

— Vamos! — disse ele, brincando com os cabelos de Charlie.

Saíram do Willys, e Charlie passou sem esforço por baixo da bétula, enquanto Andy se içava cuidadosamente por cima dela, pro­curando não se espetar em qualquer ponto sensível. À medida que caminhavam, as folhas estalavam agradavelmente debaixo de seus pés e os bosques exalavam aromas outonais. Um esquilo olhou para eles de cima de uma árvore e pôs-se a acompanhar de perto a sua marcha. Agora recomeçavam a ver nesgas brilhantes de azul através das árvores.

— O que é que você ia dizer quando demos com a árvore?

— Se haveria óleo para bastante tempo, no caso de passarmos o inverno aqui.

—        Não, mas há o suficiente para começar. E vou cortar muita lenha. E você também vai ter que ajudar a transportá-la.

Dez minutos depois, a estrada se abriu numa clareira: era a praia da lagoa Tashmore. Os dois pararam quietos por um momen­to. Andy não sabia o que Charlie estava sentindo, mas até ele chegava um fluxo de recordações por demais absoluto para poder ser chamado de simples nostalgia. Misturado às suas lembranças estava o sonho que tivera três noites antes: o barco, a lagarta se contor­cendo e até as botas do avô.

A casa do sítio tinha cinco quartos e era de madeira, sobre uma base de pedras. Uma passarela projetava-se na direção da la­goa, e um píer de pedra avançava água adentro. A não ser pelo acúmulo de folhas e pelos sedimentos acumulados durante três in­vernos, o sítio em nada se alterara. Quase esperava que o próprio avô viesse andando na direção deles com uma daquelas suas camisas de xadrez verde e preto, acenando e berrando para que ele se aproximasse e perguntando se ele já tinha obtido licença de pesca, porque ainda havia trutas dando sopa ao anoitecer.

Tinha sido um bom lugar, um lugar seguro. Para além da la­goa Tashmore, os pinheiros reluziam no seu verde-cinza à luz do sol. Árvores imbecis, dissera o avô certa vez, nem mesmo conhecem a diferença entre vergo e inverno. O único sinal de civilização mais próximo ainda era Bradford Town Landing. Ninguém instalara ali um shopping center ou um parque de diversões. Ali o vento ainda falava nas árvores. Os telhados verdes de madeira ainda tinham um aspecto musgoso e florestal, e as agulhas de pinheiro ainda se acumulavam nos ângulos do telhado e na calha de madeira. Viera muitas vezes àquele lugar quando criança, e o avô lhe ensinara como pôr a isca no anzol. Tivera ali seu próprio quarto de dormir, revestido de bom carvalho, onde sonhara sonhos de menino numa cama estreita e acordara ao som da água batendo no píer. Homem feito, amara Vicky na cama de casal que pertencera antes ao avô e à sua mulher, aquela mulher silenciosa e de certo modo sinistra, que era membro da Sociedade Americana de Ateístas e que expli­cana, se alguém lhe perguntasse, as Trinta Maiores Incongruências da Bíblia do Rei James ou, se preferissem, a Falácia Ridícula da Teoria Mola de Relógio do Universo, tudo com a estrondosa e irre­vogável lógica de um consagrado pregador.

— Você está com saudades da mamãe, não é? — disse Charlie com voz desesperada.

— Estou. Como estou!

— Eu também. Vocês se divertiram aqui, não foi?

— Foi, sim — concordou ele. — Vamos, Charlie.

Ela se deteve, olhando para ele:

—        Papai, algum dia tudo vai ficar normal para nós? Será que eu poderei ir à escola e essas coisas?

Ele pensou numa mentira, mas uma mentira não seria uma res­posta satisfatória.

—        Não sei — disse ele, tentando um sorriso, que não veio; percebeu que não conseguiria sorrir de forma convincente. — Não sei, Charlie.

 

As ferramentas do avô ainda estavam arrumadas numa pequena oficina no galpão do barco, e ali, no vão sob o galpão, Andy encon­trou uma dádiva que esperava encontrar, embora tivesse dito a si mesmo para não alimentar muitas esperanças: duas pilhas de ma­deira bem cortada e ressecada pelo tempo. A maior parte daquela lenha ele próprio talhara, e as toras ainda estavam debaixo da lona suja e rasgada que ele atirara por cima delas. Duas pilhas não bas­tariam para o inverno todo, mas quando ele tivesse acabado de cortar os galhos caídos pelo terreno, mais à bétula lá na estrada, eles estariam bem supridos.

Levou a serra manual até a árvore caída e cortou um pedaço suficiente para dar passagem ao Willys. A essa altura, quase escure­cera, e ele estava cansado e com fome. Ninguém se preocupara em explorar o belo estoque da despensa; se houvera vândalos ou la­drões por ali nos últimos seis invernos, deviam ter se limitado à extremidade sul mais populosa do lago. Havia cinco prateleiras cheias de sopa Campbeil, sardinhas Wyman, cozido de carne Dinty Moore e grande variedade de legumes enlatados. Havia ainda no chão quase a metade de uma caixa de alimentos Rival para cães, um legado do velho bom cão do avô, Bimbo, mas Andy considerou que não chegariam a necessitar dele.

Enquanto Charlie olhava os livros nas prateleiras da grande sala de estar, Andy foi até a pequena adega no porão, que ficava três degraus abaixo da despensa. Ali, riscou um fósforo numa das vigas, enfiou o dedo no orifício de um nó das tábuas que forravam as paredes do pequeno quarto de chão de terra e deu um puxão. A tábua se soltou, e Andy olhou para dentro do compartimento. Um momento depois, sorria. Dentro do escaninho, enfeitado com teias de aranha, havia quatro potes de barro cheios de um líquido com aspecto ligeiramente oleoso, um uísque ordinário branco, cem por cento puro, a que o avô chamava “coice de mula do papai”. O fósforo queimou-lhe os dedos. Andy atirou-o longe e acendeu ou­tro. Como os severos pregadores antigos da Nova Inglaterra (dos quais ela era descendente direta), Hilda McGee não tinha gosto, compreensão ou tolerância com os prazeres masculinos comuns e ligeiramente tolos. Fora uma ateísta puritana, e esse escaninho tinha sido o pequeno segredo do avô, que o compartilhara com Andy apenas um ano antes de morrer.

Além do uísque havia uma caixinha onde o avô guardava o dinheiro do pôquer. Andy puxou-a e sentiu a abertura na tampa. Ouviu um estalo e tirou um maço fino de notas, algumas de dez e de cinco dólares e algumas de um dólar. Talvez uns oitenta dólares, ao todo. Pôquer de sete cartas fora a fraqueza do avô, e aquele era o que ele chamava de seu “dinheiro de apoio”. O segundo fósforo queimou-lhe os dedos, e Andy lançou-o fora. Trabalhando no escuro, tornou a pôr no lugar a caixa do pôquer e o dinheiro. Era bom saber que estava ali. Recolocou a tábua no lugar e voltou à despensa.

— Que tal uma sopa de tomate? — perguntou ele a Charlie. Maravilha das maravilhas, ela encontrara todos os livros de Pooh numa das prateleiras, e agora estava com Pooh e Eeyore nalgum lugar do Bosque dos Cem Acres.

— Ótimo — disse ela sem levantar a cabeça.

Ele fez uma terrina de sopa de tomate e abriu uma lata de sardinhas para cada um. Após fechar cuidadosamente as cortinas, acendeu um dos lampiões de querosene e colocou-o no meio da mesa de jantar. Sentaram-se e comeram sem muita conversa.

Em seguida, ele acendeu um cigarro na chama do lampião e fumou-o. Charlie descobriu a gaveta dos baralhos no guarda-roupa Welsh da avó; havia oito ou dez baralhos, e em cada um deles faltava um valete, um 2 ou alguma outra carta, e ela passou o resto da noite arrumando-os e brincando com eles, enquanto Andy perambulava pelo terreno.

Mais tarde, ao cobri-la bem na cama, perguntou-lhe como se sentia.

 

— Segura — respondeu ela, sem a menor hesitação. — Boa noite, papai.

Se era bom para Charlie, também era bom para ele. Sentou-se ao lado dela por uns momentos, mas ela caiu no sono rapidamente e sem dificuldade, e ele saiu, deixando a porta aberta de modo a ouvir a filha se ficasse agitada à noite.

 

Antes de se recolher, Andy voltou à adega no porão, apanhou um dos potes de uísque, despejou um pouco num copo de refresco e saiu pela porta corrediça até a passarela. Sentou-se numa das cadeiras de lona (cheiro de mofo; e ele pensou logo no que se po­deria fazer para eliminá-lo) e ficou olhando para a água ondulante e escura da lagoa. Estava um pouco frio, mas uns pequenos goles do “coice de mula” do avô resolveram perfeitamente o problema. Pela primeira vez, desde aquela terrível perseguição na Third Ave­nue, ele também se sentiu seguro e em paz. Fumou e ficou olhando a paisagem além da lagoa Tashmore.

Seguro e em paz, mas não pela primeira vez desde Nova York. Pela primeira vez, sim, desde aquele terrível dia de agosto, catorze meses antes, quando a Oficina voltara a se meter em suas vidas. Desde então tinham vivido fugindo ou escondidos, e, de qualquer modo, não houvera paz.

Lembrou-se do dia em que falara com Quincey ao telefone, com o cheiro de tapete queimado nas narinas.. Ele em Ohio e Quin­cey lá na Califórnia, que ele, em suas poucas cartas, sempre chamara de Reino do Terremoto Mágico.

Sim, é uma boa coisa, dizia Quincey. Ou eles poderiam pô-los em duas cabinas, onde trabalhariam em tempo integral para manter duzentos e vinte milhões de americanos seguros e livres... Aposto que eles querem pegar a menina e colocá-la numa cabina e ver se isso poderia ajudar a manter o mundo seguro para a democracia. E acho que é só isso que quero dizer, meu velho colega, a não ser que... mantenha a cabeça baixa.

Achava que na ocasião ficara assustado. Mas até então não sabia o que era ficar assustado. Assustado realmente ficou no dia em que, ao chegar em casa, encontrou a mulher morta e com as unhas arrancadas. Tinham-lhe arrancado as unhas para descobrir onde estava Charlie. Charlie passara dois dias e duas noite na casa de sua amiga Terri Dugan. Tinham planejado receber Terri na casa deles por tempo igual, cerca de um mês depois. Vicky chamara a isso a Grande Troca de 1980.

Agora, sentado na passarela e fumando, Andy podia reconsti­tuir o que acontecera, embora tudo o que ele havia sentido tivesse sido uma névoa de desgosto, pânico e furor: fora a mais cega das boas sortes (ou talvez um pouco mais do que sorte) que o ti­nha capacitado a dominar a situação.

Naquela época, toda a família estava sob vigilância, e sem dú­vida já há algum tempo. E quando Charlie não voltou do acampa­mento diurno de verão para casa naquela quarta-feira à tarde, e também não apareceu na quinta, nem na quinta à noite, eles de­viam ter concluído que Andy e Vicky tinham de repente percebido a vigilância. Em vez de tentar descobrir que Charlie estava apenas passando uns dias na casa de amigos a menos’ de três quilômetros, deviam ter pensado que os pais tinham pegado a filha e sumido.

Foi um erro crasso e idiota, mas não o primeiro por parte da Oficina; de acordo com um artigo que Andy lera na Rolling Stone, a Oficina estava implicada num banho de sangue ocorrido durante um seqüestro de avião praticado por terroristas do Exército Ver­melho (o seqüestro fracassara e custara sessenta vidas), na venda de heroína à Organização em troca de informações sobre grupos cubanos-americanos em Miami, quase todos inofensivos; e ainda na tomada pelos comunistas de uma ilha do Caribe, que fora antes conhecida por seus caríssimos hotéis à beira-mar e por possuir uma população que praticava o vodu.

Por essa série de gafes colossais praticadas sob o comando da Oficina, não era difícil compreender como os agentes encarregados de tomar conta da família McGee tinham podido confundir duas noites passadas na casa de amigos da menina com uma fuga. Como Quincey diria (e talvez tenha dito), se os mais eficientes dos mil ou mais funcionários da Oficina tivessem que trabalhar no setor priva­do, eles estariam recebendo seguro-desemprego antes de terminado seu período de experiência.

Mas houvera erros idiotas dos dois lados, refletia Andy, e se a amargura desse pensamento se tornara um tanto vaga e difusa com o passar do tempo, certa vez fora bastante aguda para causar derra­mamento de sangue, uma amargura de muitas pontas, cada uma delas manchada com o curare da culpa. Ele ficara assustado com as coisas que Quincey admitira pelo telefone naquele dia em que Charlie tropeçara e caíra na escada, mas aparentemente ele não ficara verdadeiramente assustado. Se tivesse ficado, talvez tivessem sumido.

Descobrira tarde demais que a mente humana pode ficar hipno­tizada quando uma vida, ou a vida da família, começa a se afastar do âmbito da normalidade e cair num território ardente de fantasia, que se costuma aceitar apenas durante sessenta minutos na tevê ou talvez durante cento e dez minutos no cinema local.

Depois da conversa com Quincey, um sentimento peculiar começara a invadi-lo gradativamente: parecia-lhe estar constante­mente bêbado. Havia mesmo um barulhinho no telefone? As pes­soas observavam-no? Havia possibilidade de serem todos apanhados e jogados nos subterrâneos de algum complexo governamental? Ha­via uma tal tendência a dar um sorriso idiota e apenas observar como as coisas se agigantavam, tal tendência a fazer as coisas civili­zadamente e a caçoar dos próprios instintos...

Para além da lagoa Tashmore houve uma súbita e forte rajada de vento, e um bando de patos levantou vôo dentro da noite, na direção oeste. A meia-lua surgia, provocando um opaco brilho pra­teado na asa das aves. Andy acendeu um cigarro. Estava fumando demais. Mas muito em breve teria a oportunidade de experimentar uma longa abstinência; só lhe restavam quatro ou cinco cigarros.

Ë verdade que ele suspeitara haver um barulhinho no telefone. Por vezes havia um estranho estalo duplo quando ele erguia o fone e dizia alô. Uma vez ou duas, quando falava com um aluno que ligara para perguntar a respeito de uma tarefa, ou com um colega, a liga­ção fora misteriosamente interrompida. Chegou a suspeitar que houvesse dispositivos de escuta na casa, mas nunca revirara a casa para procurá-los (teria imaginado que os encontraria?). E várias vezes suspeitara — não, fora quase uma certeza — de que estavam sendo vigiados.

Viviam no bairro de Lakeland, em Harrison, o sublime arqué­tipo suburbano. Em noites de bebedeira, seus habitantes chegavam a rodar seis ou oito quarteirões durante horas, procurando a própria casa. Os vizinhos trabalhavam para a fábrica IBM, que ficava fora da cidade, para o Ohio Semi.Conductor, na cidade, ou lecionavam na faculdade. Se se traçassem duas linhas retas através da folha de rendimentos de uma família média — a linha inferior no nível de dezoito mil e quinhentos dólares, a linha superior, talvez de trinta mil dólares —, quase todo mundo em Lakeland estaria incluído na área intermediária.

Todos ali se conheciam. Cumprimentava-se na rua a Sra. Bacon, que perdera o marido e desde então se casara com a vodca — a lua­ de-mel com a tal personagem especial estava fazendo o diabo no seu rosto e no seu aspecto. Fazia-se um V com os dedos para as duas moças do Jaguar branco que alugavam a casa da esquina da Jasmine Street com a Lakeland Avenue, e imaginava-se como seria passar a noite com as duas. Falava-se de beisebol com o Sr. Ham­mond, enquanto ele aparava sem descanso as cercas. O sr. Hammond trabalhava na IBM (contava ele infinitas vezes, enquanto os apara­dores elétricos zumbiam e zuniam), era de Atlanta e fã exaltado do Atlanta Braves. Detestava a Grande Máquina Vermelha de Cincin­nati, o que não o fazia estimado pela vizinhança. Não que Hammond desse a menor importância a isso. Estava apenas esperando que a IBM o demitisse.

Mas ó Sr. Hammond não era o problema, nem a Sra. Bacon tampouco. Nem mesmo aqueles dois pêssegos deliciosos com o seu carro branco um pouco gasto. O importante era que, após um tem­po, a mente formava o seu próprio pequeno mundo subconsciente: gente que pertence a Lakeland.

Mas nos meses que precederam a morte de Vicky e o seqüestro de Charlie da casa dos Dugans, havia gente que não pertencia a esse pequeno mundo. Andy os pusera de lado, pensando consigo mesmo que seria bobagem alarmar Vicky só porque ficara paranóico com a conversa de Quincey.

E as pessoas no caminhão cinza-claro? O homem de cabelo vermelho que vira escarrapachado ao volante de um AMC Matador certa noite, e ainda ao volante de um Plymouth Arrow numa outra noite, cerca de duas semanas depois, e novamente atrás de um furgão cinza cerca de dez dias depois? O número de vendedores que batia à porta era excessivo. Houve noites em que de volta à casa, depois de um dia fora, ou de terem levado Charlie ao último filme de Disney, ele tivera a impressão de que alguém estivera na casa, remexendo coisas muito ligeiramente.

Havia aquela sensação de estar sendo vigiado. Mas não acre­ditava que eles fossem além da vigilância. Esse fora o seu erro absurdo. Ainda não se convencera de que tinha havido pânico da parte deles. Talvez estivessem planejando seqüestrar Charlie e ele próprio, e tivessem matado Vicky pelo fato de ela ser relativamente inútil; na verdade, quem iria querer um ente psíquico sem grande valor, cuja maior habilidade era fechar a porta da geladeira do outro lado da sala?

No entanto, a tarefa deles tinha um tal caráter de temeridade e urgência, que o fazia pensar que o desaparecimento inesperado de Charlie os fizera andar mais depressa do que pretendiam. Poderiam ter esperado, se fosse Andy que tivesse desaparecido, mas não fora ele. Fora Charlie, e ela era realmente a única que os interessava. Andy estava certo disso agora.

Levantou-se e espreguiçou-se, escutando o estalar dos ossos da espinha. Era hora de se deitar, hora de parar de ruminar aquelas velhas e penosas recordações. Não ia passar o resto da vida acusan­do-se da morte de Vicky. Fora apenas um acessório, afinal. Além disso, provavelmente ela não teria vivido muito mais tempo. A ação que se desenrolara na varanda de Irv Manders não passara desper­cebida a Andy McGee. Pretendiam eliminá-lo. Agora era só Charlie que eles queriam.

Deitou-se, e logo depois dormia. Seus sonhos não foram suaves. Via e revia aquela trincheira de fogo correndo pelo chão de terra do pátio de entrada, viu-a dividir-se para formar um anel mágico em torno do cepo de rachar lenha, viu os frangos voando pelos ares como chamas vivas. No sonho, sentiu a cápsula de calor formando-se e crescendo em torno dele.

Ela disse que não provocaria mais incêndios.

E talvez assim fosse melhor.

Lá fora, a lua fria de outubro brilhava na lagoa Tashmore, sobre Bradford, em New Hampshire e, além da água, em toda a Nova Inglaterra. Para o sul, brilhava sobre Longmont, na Virgínia.

 

Desde a experiência no Jason Gearneigh Hall, Andy McGee tinha sensações, premonições extremamente vividas. Não sabia se essas premonições eram uma espécie de precognição de baixo grau ou não, mas aprendera a confiar nelas quando as sentia.

Por volta do meio-dia naquele dia de agosto de 1980, teve um mau augúrio.

Começou durante o almoço na Sala Buckeye, da faculdade, no andar superior do edifício de serviços sociais. Podia até detalhar o momento exato. Estava comendo creme de galinha e arroz com Ev Q’Brian, Bill Wallace e Don Grabowskí, todos do Departamento de Inglês. Bons amigos, todos eles. E como de çostume alguém trouxera uma piada de polonês para Don, que as colecionava. Era uma piada de Ev, alguma coisa como ser capaz de diferenciar uma escada polonesa de uma escada comum, porque a escada polonesa tinha a palavra PARE no último degrau. Todos estavam rindo quando uma voz discreta falou calmamente dentro de Andy.

(há alguma coisa errada na sua casa)

Só isso. Mas foi o suficiente. Aquilo foi crescendo quaae da mesma maneira como as dores de cabeça quando ele abusava de sua capacidade de dominação mental. Só que aquilo não era çoisa da cabeça; todas as emoções pareciam-lhe entrelaçar-se quase preguiço­samente, como se fossem fios de linha, e como se algum gato de mau humor estivesse solto no seu sistema nervoso para brincar com eles e enrolá-los.

Ele começou a se sentir mal. Para começar, o creme de frango perdeu todo o atrativo, por pouco que tivesse. Começou a sentir flatulência no estômago, e seu coração passou a bater rapidamente, como se ele tivesse acabado de levar um grande susto. Os dedos da mão direita começaram a latejar como se tivessem sido apertados numa porta.

De repente, levantou-se. Um suor frio porejava-lhe na testa.

— Escutem, não estou me sentindo bem — disse. — Você podia ficar com a minha aula de uma hora, Bill?

— Aqueles poetas de grandes aspirações? Certamente. Nenhum problema. O que aconteceu?

— Não sei, talvez alguma coisa que comi.

— Você está tão pálido! — disse Don Grabowski. — Devia ir direto ao ambulatório, Andy.

— Talvez vá — respondeu Andy.

Saiu, mas sem a menor intenção de ir ao ambulatório. Era meio-dia e quinze; o campus, naquele final de verão, arrastava-se sonolento pela última semana do curso de verão. Levantou a mão num aceno para Ev, Bill e Don enquanto saía, apressado. Desde esse dia nunca mais viu qualquer um deles.

Parou no andar inferior, entrou numa cabina telefônica e ligou para casa. Não houve resposta. Não havia nenhuma razão para que alguém respondesse; como Charlie estava na casa dos Dugans, Vicky podia ter saído para fazer compras ou ir ao cabeleireiro, ou podia ter ido à casa de Tammy Upmore, ou mesmo ter saído para almoçar com Eileen Bacon. Contudo, seus nervos deram mais um nó. Agora quase gritavam.

Deixou o edifício e, ora andando, ora correndo, foi até a cami­nhonete estacionada no Prince Hall. Dirigiu através da cidade para Lakeland. Dirigia mal e desgovernadamente. Não obedeceu aos sinais. Aproximou-se tanto da traseira de uma Olimpia de dez marchas que o hippie que a dirigia quase foi atirado longe. O hippie fez-lhe um gesto obsceno com o dedo. Andy mal o notou. Seu cora­ção martelava com violência. Sentia como se tivesse tido um impul­so de velocidade. Moravam na Conifer Place. Em Lakeland, como em muitos bairros de subúrbio construídos nos anos 50, a maioria das ruas tinha nomes de árvores ou arbustos. No calor do meio-dia de agos­to, a rua parecia estranhamente deserta. Isso só aumentou sua sen­sação de que alguma coisa ruim acontecera. A rua parecia mais larga, com tão poucos carros estacionados ao longo do meio-fio. Nem mesmo algumas crianças que brincavam aqui e ali puderam anular aquela sensação estranha de abandono; a maioria das crianças estava almoçando ou brincando no playground. A Sra. Flynn, da Laurel Lane, passou levando uma bolsa de compras num carrinho. com sua barriga redonda e esticada como uma bola de futebol de­baixo da calça de malha cor de abacate. Ao longo de toda a rua, borrifadores de gramados revoluteavam preguiçosamente, espalhan­do água sobre a grama e criando arco-íris no ar.

Andy parou o carro com duas rodas sobre o meio-fio e puxou os freios com tanta força, que bloqueou por um momento seu cinto de segurança e fez a dianteira do carro baixar na direção da calçada. Desligou o motor com a marcha engatada, coisa que nunca fazia. Subiu o caminho de cimento rachado, que ele sempre pensava em consertar. Seus calcanhares batiam sem sentido. Observou que a veneziana sobre a grande janela emoldurada da sala de estar (janela mural, o corretor que lhes vendera a casa assim a chamara, aqui vocês têm uma típica janela mural) estava descida, dando à casa um aspecto fechado, secreto, que não lhe agradou. Será que Vícky habitualmente abaixava a veneziana para manter o mais possível o calor do verão fora de casa? Ele não sabia. Percebeu que havia muitas coisas na vida dela que ele não conhecia.

Tentou girar a maçaneta da porta, mas não, conseguiu; ela escorregou-lhe sob seus dedos. Será que ela fechava a porta à chave quando saía? Não acreditava nisso. Não era coisa de Vicky. Sua preocupação... não, agora era terror, aumentava. E, no entanto, houve um momento (que posteriormente ele próprio admitiria), um pequeno momento em que sentiu a premência de virar as costas àquela porta fechada. Apenas fugir. Não importavam Vicky, Charlie ou as fracas justificativas que poderiam vir depois.

Fugir apenas.

Em vez disso, pôs a mão no bolso à procura das chaves.

No seu nervosismo, deixou-as cair e teve que se curvar para apanhá-las: a chave do carro, a chave da ala leste do Prince Hall, a chave escurecida do cadeado com que fechava a porteira do sítio do avô no final de cada visita de verão. As chaves tinham uma maneira engraçada de se acumularem.

Separou a chave da casa e abriu a porta. Entrou e fechou-a atrás de si. A luz na sala de estar era fraca e de um amarelo desa­gradável. Fazia calor. Tudo quieto. Ah, Deus, estava tudo tão quieto!

—        Vicky?

Nenhuma resposta. A ausência de resposta significava simples­mente que ela não estava. Tinha calçado suas sapatrancas, como ela gostava de dizer, e saíra para fazer compras ou visitas. Mas o caso é que ela não estava fazendo nenhuma dessas coisas. Disso ele tinha certeza. E a mão, sua mão direita... por que seus dedos latejavam tanto?

— Vicky?

Foi até a cozinha. Havia ali uma mesa de fórmica com três cadeiras. Ele, Vicky e Charlie tomavam em geral o café da manhã na cozinha. Uma das cadeiras estava caída de lado, como um cão morto. O saleiro estava virado, e o sal, espalhado no tampo da mesa. Sem pensar no que fazia, Andy pegou um pouquinho do sal entre o indicador e o polegar da mão esquerda e jogou-o para trás por cima do ombro, murmurando para si, como o pai e o avô costuma­vam fazer: “Sal, sal, mal, mal, má sorte fique de fora”.

Havia uma panela de sopa no fogão. Estava fria. A lata de sopa vazia estava no balcão. Almoço para um. Mas onde estava ela?

— Vicky! — Desceu as escadas gritando. Estava escuro ali embaixo, inclusive a lavanderia e a sala íntima que acompanhavam o comprimento da casa.

Nenhuma resposta.

Olhou novamente na cozinha. Arrumada e limpa. Dois dese­nhos de Charlie, feitos no curso de férias que ela freqüentara em julho, estavam presos à geladeira por legumes de plástico com base magnética. Uma conta de eletricidade e outra de telefone estavam enfiadas no espeto com o dístico PAGUE ESTES ULTIMOS escrito na base. Cada coisa em seu lugar e um lugar para cada coisa.

Exceto a cadeira virada, exceto o sal espalhado.

Ele não sentia nenhuma saliva na boca, que estava seca e lisa como o couro num dia de verão.

Andy foi até o andar superior, olhou no quarto de Charlie, no quarto deles, no quarto de hóspedes. Nada. Voltou à cozinha, acen­deu a luz da escada, desceu. A máquina de lavar roupa estava aber­ta. A secadora fitava-o com o olho de vidro da porta. Entre elas, na parede, pendia um pano bordado que Vicky comprara em algum lugar. Dizia: QUERIDA, ESTAMOS BEM LAVADOS. Foi até a sala íntima, tateando desajeitadamente para encontrar o interruptor. Escorregava os dedos pela parede, ansiosamente certo de que a qualquer mo­mento dedos frios e desconhecidos segurariam os seus e os condu­ziriam ao interruptor. Afinal encontrou a placa, e os tubos fluores­centes instalados no teto brilharam, com vida.

Era uma boa sala. Ele passara muito tempo ali, consertando coisas, rindo de si mesmo todo o tempo, porque, no fim, ele viera a fazer todas aquelas coisas que eles, universitários, juravam que ja­mais fariam. Os três tinham passado bastante tempo ali. Havia uma tevê embutida na parede, uma mesa de pingue-pongue e um tabuleiro de gamão de tamanho excepcional. Havia outros jogos de tabuleiro em prateleiras contra a parede, e livros do tamanho de uma mesinha de café estavam alinhados numa mesa baixa que Vicky tinha cons­truído com uma tábua tosca. Uma parede fora revestida de brochu­ras. Pendendo das paredes havia vários tapetes retangulares afegãos emoldurados, tecidos por Vicky; ela costumava dizer que era formi­dável para fazer pequenos tapetes, mas simplesmente não :tinha ânimo para tecer um cobertor inteiro. Numa estante de tamanho especial para crianças, estavam os livros de Charlie, todos cuidado­samente arrumados em ordem alfabética, que Andy lhe ensinara numa tediosa noite de neve no inverno, dois anos antes, e que ainda a fascinava.

Uma boa sala.

Uma sala vazia.

Tentou sentir-se aliviado. A premonição, o aviso, ou o que quer que fosse, tinha falhado. Ela apenas saíra. Apagou a luz e voltou à lavanderia. A máquina de lavar, de porta lateral, ainda estava aber­ta. Fechou-a sem pensar, mais ou menos como jogara por cima do ombro uma pitada do sal entornado. Havia sangue no vidro da porta da lavadora. Não muito. Apenas três ou quatro gotas. Mas era sangue. Andy olhou, estarrecido. Estava mais frio ali, frio de­mais, parecia um necrotério. Olhou para o chão. Havia mais sangue no chão. Nem chegara a secar. Um som espremido, agudo, abafado, escapou-lhe da garganta.

Começou a andar em torno da lavanderia, que não passava de uma pequena alcova com paredes brancas de cal. Abriu a cesta de roupas. Estava quase vazia, tinhà apenas uma meia. Olhou no cubículo por baixo da pia. Nada além de vidros de produtos de limpeza. Olhou debaixo da escada. Ali só havia teias de aranha e a perna de plástico de uma das bonecas velhas de Charlie; aquele membro separado jazia ali pacientemente, à espera de ser redesco­berto, Deus sabe quando.

Abriu a porta entre a lavadora e a secadora, e a tábua de passar caiu com um assobio, um ruído de engrenagem e um craque. Ali, com as pernas amarradas de modo que os joelhos quase tocavam o queixo, com os olhos abertos, parados e mortos, estava Vicky Tomlinson McGee, com um pano de pó enfiado na boca. No ar, um cheiro espesso e enjoativo de óleo de lustrar móveis.

Ele fez um ligeiro ruído contido e recuou, cambaleando. Agitou as mãos como querendo afastar aquela terrível visão, e uma delas tocou no painel da secadora, fazendo-a funcionar com animação. As roupas começaram a bater e estalar dentro dela. Andy gritou. E depois correu, subiu a escada, tropeçou ao virar para a cozinha e caiu esticado, batendo com a testa no linóleo. Sentou-se, respirando com dificuldade. Tudo aquilo voltava-lhe à lembrança. Voltava em câmara lenta, como num lance de futebol em que se vê o quarto zagueiro vencido ou o passe certeiro flagrado. Tudo isso perseguira-­lhe os sonhos nos dias que se seguiram. A porta abrindo-se, a tábua de engomar caindo horizontalmente com um ruído de engrenagem, lembrando de certa maneira uma guilhotina, sua mulher comprimida nesse espaço, tendo na boca um pano de pó usado para polir móveis. Isso lhe voltava à cabeça numa espécie de recordação total, e ele sabia que ia gritar novamente, por isso levou o antebraço à boca, mordeu-o, e o som que saiu foi um uivo indistinto e bloqueado. Fez isso duas vezes, e ele ficou calmo. Era a falsa calma do choque, mas podia ser utilizada. O temor amorfo e o terror confuso cederam. O latejamento da mão direita desaparecera. E o pensamento que agora se insinuara em sua mente era tão frio como a calma que se instalara nele, tão frio como o choque, e esse pensamento era

CHARLIE.

 

Levantou-se, dirigiu-se ao telefone, e então voltou à escada. Ficou no andar de cima por um momento, mordendo os lábios para recuperar-se, e depois desceu. A secadora girava e girava. Nada havia lá dentro, a não ser uma calça blue jeans, e o grande botão de metal na cintura fazia um barulhinho quando a calça virava e caía. Andy desligou a secadora e olhou para o armário da tábua de engomar.

— Vicky — disse ele num sussurro.

Ela fitava-o com seus olhos mortos. Era sua mulher. Ele passea­ra com ela, segurara-lhe a mão, entrara no seu corpo na escuridão da noite. Lembrou-se de repente daquela noite em que ela bebera demais numa festa da faculdade, e ele ficara segurando-lhe a cabeça enquanto ela vomitava. E essa lembrança conduziu-o ao dia em que estivera lavando a caminhonete e entrara na garagem por um momento para, apanhar a lata de cera. Ela pegara a mangueira do jardim e correra atrás dele, enfiando-lhe a mangueira nos fundos da calça. Lembrava-se do casamento e de tê-la beijado na frente de todo mundo, apreciando aquele beijo, sua boca, sua macia boca madura.

— Vicky — disse ele de novo, deixando escapar um longo e trêmulo suspiro. Puxou-a dali e tirou-lhe o pano de pó da boca. A cabeça dela rolou inerte nos ombros. Viu que o sangue provinha da mão direita, onde algumas unhas tinham sido arrancadas. Havia um filete de sangue saindo de uma das narinas, mas mais nenhum vestígio em qualquer lugar. Tinham-lhe quebrado o pescoço com um único golpe violento.

— Vicky — sussurrou ele.

Charlie, sussurrava-lhe a mente, em resposta.

Na calma silenciosa que agora lhe enchia a cabeça, compreendeu que Charlie se tornara a coisa mais importante, a única coisa impor­tante. As recriminações ficariam para o futuro.

Voltou à sala íntima. Dessa vez, não se preocupou em acender a luz. Do outro lado da sala, perto da mesa de pingue-pongue, havia um sofá coberto por uma colcha. Pegou a colcha, voltou à lavan­deria e cobriu Vicky com ela. Aliás, sua forma imóvel, debaixo da colcha, era pior. Ficou quase hipnotizado. Jamais ela se moveria? Como era possível uma coisa dessas?

Descobriu-lhe o rosto e beijou-lhe os lábios. Estavam frios.

Arrancaram-lhe as unhas, constatava com espanto. Meu Deus, eles lhe arrancaram as unhas.

E ele sabia por quê. Queriam saber onde estava Charlie. De certo modo, tinham perdido sua pista quando ela fora para a casa de Terri Dugan em vez de voltar para casa, depois de um dia de acampamento. Ficaram em pânico, e agora a fase de vigilância ter­minara. Vicky estava morta de propósito ou porque um funcionário da Oficina exagerara seu zelo. Ajoelhou-se ao lado dela e pensou que, possivelmente induzida pelo medo, ela talvez tivesse feito alguma coisa mais espetacular do que fechar a porta da geladeira à distância. Talvez tivesse empurrado um deles para fora, ou jogado ao chão algum deles. Era pena que ela não tivesse tido bastante força para atirá-los contra a parede a uns oitenta quilômetros por hora, pensou ele.

Talvez soubessem o bastante para ficar nervosos. Talvez tivessem recebido ordens específicas: A mulher pode ser extrema­mente perigosa. Se ela fizer alguma coisa, qualquer coisa, para atra­palhar a diligência, livrem-se dela. Rápido.

Ou talvez eles apenas quisessem evitar testemunhas. Afinal, alguma coisa mais estava em jogo.

Mas o sangue. Ele pensou no sangue, que ainda não estava seco quando ele a descobriu. Eles não tinham partido há muito tempo.

Insistentemente, sua mente lhe dizia: Charlie!

Beijou a mulher novamente e disse:

— Vicky, vou voltar.

Mas nunca mais a viu.

Subiu ao andar superior para procurar o número do telefone dos Dugans no caderno de Vicky. Discou o número, e Joan Dugan respondeu.

— Alô, Joan — disse ele, e agora o choque ajudava-o: sua voz estava perfeitamente calma, uma voz de todos os dias. — Posso falar com Charlie por um momento?

— Charlie? — disse a Sra. Dugan em tom de dúvida. — Bem, ela foi com aqueles dois amigos seus. Aqueles professores. Não... devia ir?

Alguma coisa dentro dele subiu em parafuso e depois mergu­lhou. Talvez o coração. Mas de nada adiantava levar o pânico àquela simpática senhora, que ele só encontrara socialmente quatro ou cinco vezes. Não ajudaria a ele nem a Chanlie.

— Que azar — disse ele —, eu esperava apanhá-la aí. Quando eles saíram?

A voz da Sra. Dugan ficou um pouco abafada:

— Terri, quando foi que Charlie saiu?

Uma criança esganiçou alguma coisa. Ele não saberia dizer o quê. Ele suava entre as juntas dos dedos.

— Ela diz que saíram há uns quinze minutos. — Pedia des­culpas. — Eu estava na máquina de lavar e não tenho relógio. Um deles veio aqui embaixo e falou comigo. Está tudo certo, não é, Sr. McGee? Ele parecia muito bem...

Um ímpeto lunático lhe veio à cabeça, o de apenas rir ligeira­mente e dizer: A senhora estava lavando roupa? Minha mulher também. Encontrei-a comprimida debaixo da tábua de passar. A senhora teve muita sorte hoje, Sra. Dugan.

— Muito bem — disse Andy. — Eles estavam vindo para cá, não é?

A pergunta foi passada a Terri, que disse não saber. Extraor­dinário, pensou Andy. A vida de minha filha está nas mãos de uma outra menina de seis anos.

Ele se agarrou a uma esperança.

— Tenho que ir até o mercado na esquina — disse para a Sra. Dugan. — Por favor, pergunte a Terri se eles estavam com o carro ou com o furgão. Para o caso de eu os encontrar.

Dessa vez ouviu Terri:

— Estavam com o furgão. Foram num furgão cinza, igual ao do pai de David Pasioco.

— Muito obrigado — respondeu ele. A Sra. Dugan disse que não havia de quê. Voltou-lhe desta vez o ímpeto de lhe gritar pelo fio: Minha mulher está morta! Minha mulher está morta, e por que a senhora lavava roupa enquanto minha filha entrava num furgão cinza com dois homens estranhos?

Em vez de gritar isso ou qualquer outra coisa, ele desligou e saiu. O calor fustigava-lhe a cabeça, e ele cambaleou um pouco. Estaria assim quente quando ele chegara? Parecia-lhe muito mais quente agora. O carteiro viera. Projetando-se para fora da caixa do correio havia uma circular de propaganda da Woolco que não estava ali antes. O carteiro viera quando ele estava no andar de baixo com sua mulher morta nos braços, sua pobre Vicky, morta: tinham-lhe arrancado as unhas, e era engraçado, muito mais engraçado do que a maneira de as chaves se acumularem, realmente, o fato de a morte vir até nós por diversos lados e diferentes ângulos. Tentamos nos proteger por um lado e na verdade a morte irrompe exatamente do outro lado. A morte é um jogador de futebol, pensou ele, uma grande mãe. A morte é Franco Harris ou Sam Cunningham ou Mean Joe Green. * E continua atirando a gente de traseiro no chão, no final da contenda.

Vamos, mexa-se, pensou. Quinze minutos de distância não é tanto assim. Ainda não é uma pista fria. Não, a menos que Terri Dugan não conheça a diferença entre quinze minutos e duas horas. De qualquer modo, não importa. Saia atrás deles.

E saiu. Voltou à caminhonete, que estava parada metade na calçada e metade na rua. Abriu a porta do lado do motorista e lan­çou um olhar para a sua bonita casa suburbana, cuja hipoteca já estava paga pela metade. O banco permitia “férias de pagamento” dois meses por ano, se o comprador precisasse delas. Andy nunca precisara dessa concessão. Olhou para a casa adormecida ao sol, e de novo seus olhos chocados foram atraídos pelo brilho vermelho da circular da Woolco, saindo da caixa do correio, e vap! a morte o atingiu novamente, toldando-lhe os olhos, cerrando-lhe os dentes.

Entrou no carro e dirigiu-se para a rua de Terri Dugan, não acreditando que fosse capaz de descobrir-lhes a pista, mas guiado apenas por uma esperança cega. Nunca mais veria sua casa da Co­nifer Place, em Lakeland.

Dirigia melhor agora; agora que já sabia do pior, dirigia bem melhor. Ligou o rádio, e Bob Seger começou a cantar Still the same.

Atravessou Lakeland o mais depressa que pôde. Por um ino­mento terrível teve um branco na cabeça, esquecera-se do nome da rua, mas de repente ele voltou-lhe à memória. Os Dugans viviam na Blassmore Place. Ele e Vicky tinham brincado com isso: a Blass­more Place, com casas projetadas por Bill Blass. Chegou mesmo a sorrir ao se lembrar, e vap! a lembrança da morte de Vicky atin­giu-o novamente, entorpecendo-o.

Chegou lá em dez minutos. A Blassmore Place era uma peque­na área sem saída. Não havia saída para o furgão cinza; apenas um muro contra ventos fortes delimitava a Escola Secundária John Glenn Junior.

Andy estacionou a caminhonete no cruzamento da Blassmore Place com a Ridge Street. Havia uma casa verde e branca na esquina. Um borrifador de grama girava. No lado de fora da casa estavam duas crianças, uma menina e um menino de dez anos, mais ou me­nos. Alternavam-se num skate, a menina usava sborts e exibia várias cicatrizes nos dois joelhos. Andy saiu da caminhonete e dirigiu-se às crianças. Examinaram-no com cuidado.

— Oi! — disse ele. — Estou procurando a minha filha. Ela passou por aqui há meia hora mais ou menos, num furgão cinza. Ela estava.., bem, com uns amigos meus. Vocês viram passar um furgão cinza por aqui?

 

* Jogadores de futebol. (N. da T.)

 

O menino deu de ombros vagamente.

A menina disse:

— O senhor está preocupado com ela?

— Vocês viram o caminhão, não viram? — perguntou Andy gentilmente, e aplicou-lhe um impulso muito leve de dominação mental. Forte demais seria contraproducente. Ela veria em qualquer direção que ele quisesse, inclusive na do céu.

—. Sim, eu vi um caminhão — disse ela. Pisou no skate e deslizou até o hidrante na esquina, pulando fora em seguida. — Ele foi naquela direção. — Apontava para além da Blassmore Place. Dois ou três cruzamentos depois ficava a Carlisle Avenue, uma das avenidas de maior tráfego de Harrison. Andy conjeturara que esse seria o caminho seguido, mas era bom ter certeza.

— Muito obrigado — disse ele, voltando para o carro.

Você está preocupado com ela? — repetiu a menina.

— Sim, um pouco.

Deu a volta com o carro e dirigiu-se três quarteirões além da Blassmore Place, na junção com a Carlisle Avenue. Não havia espe­rança, nenhuma esperança. Sentiu um toque de pânico, apenas uma pontadinha quente, mas ela se espalharia. Procurou eliminá-la, esfor­çou-se para se concentrar em chegar à pista do furgão cinza. Se tivesse que usar sua capacidade de dominação mental, ele o faria. Poderia usar uma porção de pequenos impulsos mentais auxiliares sem se sentir doente. Agradeceu a Deus por não ter usado esse talento (ou maldição) durante todo o verão. Estava bem e com a carga completa, pronto para tudo o que valesse a pena.

A Carlisle Avenue tinha quatro pistas e era controlada ali por um semáforo. À direita havia um posto de lavagem de carros e à esquerda um botequim abandonado. Do outro lado da rua havia um posto de gasolina e a loja de máquinas fotográficas. Se tives­sem virado à esquerda, teriam se dirigido para o centro da cida­de. Para a direita teriam se dirigido para o aeroporto e a Estrada Interestadual 80. Andy entrou no posto de lavagem de carros. Um jovem, dono de uma incrível e espessa cabeleira de cerdas ruivas que se derramava pelo colarinho do seu macacão verde desbotado, disse alguma coisa incompreensível. Tomava um sorvete duplo.

— Nada posso fazer — disse ele, antes que Andy pudesse abrir a boca. — O aparelho de lavar pifou há uma hora. Expediente encerrado.

— Não quero lavar o carro — disse Andy. — Estou procuran­do um furgão cinza que passou neste cruzamento há talvez meia hora. Minha filha ia nele, e estou um pouco preocupado com ela.

— O senhor pensa que alguém a tenha raptado? — Ele con­tinuava a tomar o seu sorvete.

— Não, nada disso. Você viu o furgão?

— Um furgão cinza! Olhe aqui, meu chapa, você faz uma idéia de quantos carros passam por aqui numa hora? Ou em meia hora? É uma rua de muito movimento! A Carlisle é uma rua de muito movimento.

Andy levantou o polegar por cima do ombro.

— Veio da Blassmore Place, lá não tem muito movimento. —Estava prestes a lhe dar um impulsinho mental, mas não foi pre­ciso. De repente, os olhos do rapaz brilharam. Quebrou seu sorvete em dois como o ossinho da sorte do peito da galinha e aspirou todo o sorvete púrpura de um dos pauzinhos numa única e quase inacre­ditável bocada ruidosa.

— Ah, sim. 0K, certo. Eu vi o furgão. Vou lhe dizer por que o notei. Ele cortou por dentro da nossa pista interna para ultrapassar o sinal. Eu mesmo não me importo, mas o merda do meu patrão fica irritado quando eles fazem isso. Não que hoje faça diferença, com o lavador enguiçado. Ele é que precisa de alguma coisa mais para se irritar.

— Então o caminhão se dirigiu para o lado do aeroporto?

O rapaz confirmou com a cabeça, deu um piparote num dos pauzinhos de sorvete, por sobre o ombro, e começou a lamber o outro.

— Espero que encontre a menina, meu chapa. Se não se im­porta com um pequeno conselho de graça, você deveria chamar os tiras, se está realmente preocupado.

— Acho que não adiantaria muito nesse caso.

Voltou ao carro, passou, ele também, pela pista interna do posto e virou para a Carlisle Avenue. Dirigia-se agora para oeste. A área estava cheia de postos de gasolina, lavadores de carros, lan­chonetes de serviço rápido, vendedores de carros usados. Um drive-in anunciava entrada dupla dando direito aos filmes Os roedores de cadáveres e Os sanguinários mercadores da morte. Olhou para a marquise e ouviu a tábua de engomar cair desengrenada do seu armário como uma guilhotina. Ficou com o estômago embrulhado.

Passou por uma placa que ‘anunciava que se podia chegar à Interestadual 80 a uns dois quilômetros e meio mais a oeste, se se o quisesse. Mais adiante havia uma sinalização menor, com um avião ‘em cima. Muito bem, até ali ele chegara. E agora?

De repente, entrou no estacionamento de uma pizzaria. Não adiantava parar ali para perguntar. Como o camarada do posto de lavagem dissera, a Carlisle era uma rua de tráfego intenso. Ele poderia pressionar mentalmente as pessoas até seus miolos saírem pelo ouvido e só conseguiria ficar mais confuso. Seria a auto-estrada ou o aeroporto, de qualquer modo. Estava certo disso. Cara ou coroa?

Nunca tentara na vida provocar o aparecimento de uma pre­monição. Simplesmente aceitava-as como dádivas quando surgiam, e habitualmente agia de modo a respeitá-las. Recostou-se mais no assento da caminhonete, e tocou as têmporas com as pontas dos dedos, tentando fazer surgir alguma coisa. O motor estava em marcha lenta, o rádio continuava ligado. Os Rolling Stones. Dance, irmãzinha, dance.

Charlie, pensou ele. Ela fora para a casa de Terri com as roupas enfiadas na mochila que usava sempre. Isso talvez tivesse ajudado a iludir os camaradas. A última vez em que a vira estava usando jeans e uma blusa salmão, e seu cabelo geralmente estava amarrado num rabo-de-cavalo. Um adeusinho displicente e um beijo. Santo Deus, Charlie, onde você está agora?

Nada lhe veio à mente.

Não importa. Fique sentado aqui um pouco mais. Ouça os Stones. Pizza do Shakey. Pode escolher camada fina ou estalando. Você paga e pega o que quiser, como o avô McGee costumava dizer. Os Stones exortando a irmãzinha a dançar, dançar, dançar. Quincey dizendo que provavelmente a poriam numa cabina de modo que duzentos e vinte milhões de americanos pudessem ficar seguros e livres. Vicky. Ele e Vicky tinham tido um período difícil no co­meço. Ela ficara mortalmente assustada com o sexo. Você pode me chamar de frígida, dissera ela, em meio às lágrimas depois daquele tempo desagradável e infeliz de adaptação. Nada de sexo, por favor, somos britânicos. Aliás, a experiência do Lote 6 tinha ajudado nesse particular, pois o que tinham compartilhado era de certo modo um intercâmbio sexual. Ainda assim fora difícil. Um pouquinho de cada vez. Delicadeza. Lágrimas. Vicky começando a corresponder, e em seguida enrijecendo-se e gritando: Não, vai doer, Andy, pare com isso! E de certo modo fora a experiência com o Lote 6, aquela experiência em comum, que os capacitara a tentar, tal como um arrombador de cofre que sabe que existe um meio, sempre existe um meio. E então houve uma noite em que conseguiram. Depois uma noite em que tudo correu bem. E subitamente uma noite em que foi maravilhoso. Dance, irmãzinha, dance, irmãzinha. Estava junto dela quando Charlie nasceu. Um parto rápido e fácil.

Nada lhe surgia. A pista do furgão cinza estava ficando mais fria, e ele nada tinha em mente. O aeroporto ou a auto-estrada? Cara ou coroa?

Os Stones terminaram. Os irmãos Doobie vieram, querendo saber onde, sem amor, você estaria neste momento. Andy não sabia. O sol se punha. As linhas no estacionamento do Shakey eram recém-pintadas. Eram muito brancas e firmes contra o pavimento preto. Três quartas partes do estacionamento estavam ocupadas. Era hora do almoço. Teria Charlie almoçado? Dariam eles comida a Charlie? Talvez.

(talvez eles tenham estado numa dessas paradas de serviço, esses HoJos ao longo da estrada, afinal eles não podem rodar, rodar, rodar)

Para onde? Não podem rodar para onde?

(não podem rodar direto até a Virgínia sem fazer uma parada de descanso, não é? Uma garotinha tem de parar para fazer pipi, às vezes, não é?)

Ergueu-se com uma sensação imensa, mas nebulosa, de grati­dão. Viera.lhe à mente sem mais nem menos. Não para o aeroporto, que seria o seu primeiro palpite, se tentasse apenas adivinhar. Não para o aeroporto, mas para a auto-estrada; Não estava completa­mente certo de que a premonição merecesse confiança, mas parecia-lhe bastante seguro. E era melhor do que não ter idéia alguma.

Fez a caminhonete passar pela seta recém-pintada que apontava a saída e virou à direita novamente em direção à Carlisle Avenue. Dez minutos depois estava na auto-estrada, dirigindo-se para leste, com um bilhete de pedágio enfiado no volume usado e anotado do Paraíso perdido, que estava sobre o banco, ao lado dele. Dez minu­tos depois, Harrison, em Ohio, ficara para trás. Começara a viagem para leste que o levaria a Tashmore, em Vermont, catorze meses depois.

A calma continuava. Aumentou o volume do rádio, e isso o ajudou. Uma canção após outra e ele só reconhecia as mais antigas, porque nos últimos três ou quatro anos quase não ouvira música. Eles ainda estavam na dianteira, mas a calma, com a sua própria lógica, fria, insistia em que a dianteira não era muito aconselhável e que ele provocaria problemas se começasse a disparar a mais de cem quilômetros pela pista de ultrapassagem.

Fixou o velocímetro um pouco acima dos cem quilômetros horários, raciocinando que os homens que tinham pegado Charlie não quereriam passar o limite de velocidade. Poderiam mostrar suas credenciais, era verdade, mas talvez encontrassem certa difi­culdade em explicar a presença de uma menina de seis anos aos gritos. Isso os faria andar mais devagar e certamente lhes traria complicações com quem quer que fosse que estivesse puxando os cordéis daquele show.

Eles podiam tê-la drogado e escondido, sussurrou-lhe a mente. Então, se fossem detidos por correr a mais de cem ou mesmo a cento e trinta, bastar-lhes-ia mostrar os documentos e continuar cor­rendo. Será que um tira de Ohio era capaz de molestar o pessoal de um caminhão pertencente à Oficina?

Andy lutava com essa idéia quando passou pela estrada que ia para leste de Ohio. Em primeiro lugar, eles talvez tivessem medo de drogar Charlie. Entorpecer uma criança podia ser um negócio arriscado, a menos que se tivesse perícia.., e eles podiam não estar seguros sobre o que o entorpecimento causaria aos poderes que eles pretendiam investigar. Em segundo lugar, um tira estadual poderia deter casualmente o furgão, ou pelo menos retê-lo no acos­tamento enquanto confirmava a validez da identidade de seus ocupantes. Em terceiro lugar, por que estariam correndo? Não tinham a menor idéia de que alguém estivesse atrás deles. Ainda não era uma hora. Oficialmente, Andy estaria na faculdade até as duas horas. O pessoal da Oficina esperava que ele chegasse de volta a casa só depois das duas e vinte, mais ou menos. Só depois disso o alarme seria dado. Por que correr?

Andy começou a rodar um pouco mais depressa.

Passaram-se quarenta minutos, depois cinqüenta. Parecia mais tempo. Começava a suar ligeiramente; o gelo artificial da calma e do choque começava a derreter com a crescente preocupação. Esta­ria realmente o furgão em algum lugar à sua frente?

Viu dois furgões cinza. Mas nenhum se parecia com aquele que vira passando em Lakeland. Um deles era dirigido por um homem idoso, com os cabelos brancos ao vento. O outro estava cheio de malucos fumando maconha. O motorista viu que Andy os olhava com atenção e ofereceu-lhe uma ponta de cigarro de maconha. A moça ao lado dele levantou o dedo médio, beijou-o gentilmente e atirou o beijo na direção de Andy. Logo ficaram para trás.

A cabeça começava a doer-lhe. O tráfego era intenso, o sol brilhava. Todos os carros tinham muitos cromados, e cada peça cromada lançava raios de sol nos olhos dele. Ele passou por um letreiro que dizia: ÁREA DE DESCANSO SEISCENTOS METROS À FRENTE.

 

Tinha rodado na pista de ultrapassagem. Fez sinal à direita e voltou à pista de tráfego comum. Deixou cair a velocidade para setenta, depois para sessenta e cinco. Um pequeno carro esporte ultrapassou-o, e o motorista buzinou irritado para Andy ao passar.

ÁREA DE DESCANSO, anunciava a placa. Não era uma parada de serviços, simplesmente uma abertura da estrada com estaciona­mento enviesado, um bebedouro e banheiros. Havia quatro ou cinco carros ali parados, e um furgão cinza. O furgão cinza. Estava quase certo disso. Seu coração começou a bater contra as paredes do peito. Virou para o acostamento com um rápido movimento do volante, e os pneus rangeram discretamente.

Dirigiu lentamente pela pista de acesso na direção do fur­gão cinza, olhando em volta, para ver logo tudo. Havia duas mesas de piquenique, com uma família em cada mesa. Um grupo já estava se arrumando para partir; a mãe guardava o que sobrara numa bolsa laranja brilhante, o pai e os dois garotos levavam os restos para o cesto de lixo. Na outra mesa, um rapaz e uma moça comiam sanduíches e salada de batatas. Entre eles, um bebê dormia numa cadeirinha. Usava um macacão de veludo cotelê com uma porção de elefantes dançando. No gramado, entre dois grandes e belos olmos, duas moças de cerca de vinte anos também almoçavam.

Não havia sinal de Charlie ou de homens que parecessem bas­tante jovens e fortes para pertencerem à Oficina.

Andy desligou o motor da caminhonete. Podia sentir nos olhos as batidas do coração. O furgão parecia estar vazio. Ele desceu do carro.

Uma senhora idosa, usando bengala, saiu do toalete das senho­ras e andou lentamente até um velho carro Biscayne cor de vinho. Um cavalheiro mais ou menos da mesma idade saiu de trás do volante, deu a volta pela frente do carro, abriu a porta e ajudou-a a entrar no carro. Ele voltou ao volante do Biscayne; do cano de escapamento saiu um jato de fumaça oleosa azulada e o carro partiu.

A porta do banheiro dos homens se abriu, e Charlie saiu. Flanqueando-a de um lado e de outro, havia dois homens de cerca de trinta anos, com paletós esporte, camisas abertas no peito e calças escuras pespontadas. O rosto de Charlie parecia pálido e em choque. Olhava de um homem para o outro, e de novo para o primeiro. As tripas de Andy começaram a se enrolar em desespero. Ela carregava sua mochila. Caminhavam em direção do furgão; Charlie disse alguma coisa para um deles, que sacudiu a cabeça. Virou-se para o outro. Ele deu de ombros, depois disse alguma coisa para o parceiro por cima da cabeça de Charlie. O outro con­cordou com um gesto. Viraram-se e dirigiram-se para o bebedouro.

O coração de Andy batia mais depressa do que nunca. A adre­nalina espalhava-se pelo seu corpo num fluxo amargo e nervoso. Estava com medo, um medo total, mas alguma coisa irrompia den­tro dele: raiva, uma fúria total. A fúria ainda era melhor do que a calma. Parecia quase doce. Aqueles ali eram os dois homens que tinham matado sua mulher e roubado sua filha, e, se não estavam de bem com Deus, tinha pena deles.

Enquanto se dirigiram ao bebedouro com Charlie, os homens ficaram de costas para Andy. Ele saiu da caminhonete e foi para trás do furgão.

            A família que acabara de almoçar caminhava agora em direção a um Ford novo de tamanho médio. A mãe olhou para Andy sem a menor curiosidade, do jeito como as pessoas olham umas para as outras nas viagens longas, movendo-se lentamente pelo sistema di­gestivo americano de auto-estradas. Saíram, deixando ver a placa de Michigan. Havia agora três carros ali, além do furgão cinza e da caminhonete de Andy. Um dos carros pertencia às moças. Duas outras pessoas passeavam por ali, e havia um homem dentro da pequena cabina de informações, olhando para o mapa da Estrada Interestadual 80, com as mãos enfiadas nos bolsos de trás dos jeans.

Andy não tinha idéia alguma do que iria fazer exatamente.

Charlie acabara de beber água. Um dos homens curvou-se e tomou um gole. Depois dirigiram-se para o furgão. Andy olhava para eles do canto traseiro esquerdo do furgão. Charlie parecia assustada, realmente assustada. Tinha chorado. Andy tentou a porta de trás do furgão, sem saber por quê. Estava fechada.

Abruptamente, pulou à frente deles, inteiramente à vista.

Eles foram muito rápidos. Andy viu nos seus olhos que eles tinham o reconhecido imediatamente, antes mesmo que a felicidade inundasse o rosto de Charlie, afastando aquele aspecto lívido de choque e susto.

— Papai! — gritou ela estridentemente, fazendo o casal com o bebê olhar em torno. Uma das moças que estavam debaixo dos olmos fez sombra com a mão nos olhos para ver o que acontecia. Charlie tentou correr para ele, e um dos homens segurou-a pelo ombro e puxou-a contra si, quase arrancando-lhe a mochila das costas. Um instante depois, o homem tinha uma pistola na mão. Tirara-a de algum lugar debaixo do paletó esporte, como um mágico que faz um truque manhoso. Encostou o cano na têmpora de Charlie.

O outro homem começou a andar sem pressa para longe de Charlie e do seu parceiro, e em seguida na direção de Andy. Man­tinha a mão enfiada no paletó, mas sua mágica não funcionou tão bem como a do seu companheiro; estava com dificuldade para tirar a pistola.

— Afaste-se do furgão, se você não quiser que alguma coisa aconteça à sua filha — disse o homem da pistola.

— Papai! — gritou Charlie novamente.

Andy afastou-se lentamente do furgão. O outro camarada, prematuramente calvo, agora já tinha a pistola na mão. Apontou-a para Andy. Estava a menos de um metro e meio de distância.

— Recomendo-lhe muito sinceramente que não se mexa —disse em voz baixa. — Este Colt 45 faz um rombo gigantesco.

O rapaz que estava com a mulher e o bebê na mesa de pique­nique levantou-se. Usava óculos sem aro e parecia severo.

— O que é que está acontecendo aqui? — perguntou naquele tom arrastado e bem pronunciado de professor de faculdade.

O homem que segurava Charlie virou-se para ele. O cano da pistola desviou-se um pouco dela, de modo que o rapaz podia vê-lo.

— Ë assunto do governo — disse ele. — Fique exatamente onde está. Tudo vai bem.

A mulher do rapaz pegou-o pelo braço e puxou-o para que se sentasse.

Andy olhou para o agente calvo e disse em voz baixa e agra­dável:

— Essa pistola está quente demais para ser segurada.

O rapaz olhou para ele perplexo. Então, de repente, gritou, deixando cair a pistola, que bateu no chão e disparou. Uma das moças deixou escapar um grito de perplexidade e surpresa. O rapaz calvo segurava a mão e pulava. Bolhas brancas apareciam.lhe na palma da mão, crescendo como roscas fritas.

O homem que segurava Charlie olhou na direção do compa­nheiro, e por um momento desviou a pistola da cabecinha dela.

— Você está cego — disse Andy, e fez pressão mental com a máxima força que pôde. Uma dor súbita e profunda tomou conta de sua cabeça.

De repente o homem começou a gritar. Largou Charlie e levou as mãos aos olhos.

— Charlie — disse Andy em voz baixa, e a filha correu para ele, enroscando-se em suas pernas num trêmulo abraço de urso. O homem da cabina de informações saiu para ver o que estava acontecendo.

O rapaz calvo, ainda segurando a mão queimada, correu na direção de Andy e Charlie. Contorcia o rosto horrivelmente.

— Durma! — disse Andy sumariamente, e aplicou.lhe nova pressão mental. O rapaz caiu esparramado como se tivesse sido abatido por uma alabarda. Bateu a testa com força no chão. A jo­vem mulher do rapaz sério gemeu.

A cabeça de Andy doía-lhe agora terrivelmente. Ele alegrava.se que fosse verão e não tivesse usado pressões mentais talvez desde maio, nem mesmo para influenciar um estudante que estava dei­xando escapar sua formatura sem uma razão importante. Estava com uma boa carga, mas, com carga ou não, só Deus sabia o que ele teria de pagar pelo que estava fazendo naquela tarde quente de verão.

O homem cego cambaleava na grama, com as mãos no rosto e gritando. Esbarrou num cesto verde que tinha um letreiro ao lado, PONHA O LIXO NO DEVIDO LUGAR, caiu e derrubou uma mistura de sanduíches, latas de cerveja, pontas de cigarro e garrafas vazias de soda.

— Oh, papai! Como eu estava com medo! — disse Charlie, e começou a chorar.

— A caminhonete está ali mesmo. Está vendo? — Andy ouvia-se falar. — Entre nela e eu estarei lá num momento.

— Mamãe está aqui?

— Não. Entre, Charlie. — Não podia cuidar disso agora. Tinha que lidar com as testemunhas, de alguma maneira.

— Que inferno é esse? — perguntou, perplexo, o homem da cabina de informações.

— Meus olhos — gritava o homem que pusera a pistola na cabeça de Charlie. — Meus olhos. Meus olhos. O que foi que você fez aos meus olhos, seu filho da puta? — Levantou-se. Um saco de sanduíches estava preso numa de suas mãos. Começou a tatear na direção da cabina de informações, e o homem de blue jeans recuou para dentro.

       — Vá, Charlie.

       — Você vem, papai?

       — Vou num segundo. Agora vá.

       Charlie foi, com seu louro rabo-de-cavalo balançando e a mo­chila ainda enviesada nas costas.

       Andy passou pelo agente da Oficina que dormia, pensou na pistola dele e chegou à conclusão de que não a queria. Foi até os jovens na mesa de piquenique. Não exagere, disse para si mesmo. Facilite. Tapinhas. Não provoque ecos. O objetivo não é lesar as pessoas.

         A jovem apanhou bruscamente o bebê na cadeirinha, acordan­do-o. Ele começou a chorar.

Não se aproxime de mim, seu louco — disse ela.

     Andy olhou para o jovem e sua mulher.      

       — Nada disso é muito importante — disse ele, pressionando-os mentalmente.

       Nova dor instalou-se em sua cabeça como uma aranha.., e aprofundou-se.

       O jovem parecia aliviado.

       — Bem, graças a Deus!

       A mulher tentou sorrir. A pressão não fizera tanto efeito nela, sua maternidade fora alertada.

       — Que lindo bebê a senhora tem—disse Andy. —Um me­nino, não é?

       O  homem cego pisou fora do meio-fio, precipitou-se para a frente e bateu com a cabeça na ombreira da porta do Ford verme­lho, que provavelmente pertencia às duas moças. Ele uivou, e o sangue fluiu-lhe da têmpora.

       — Estou cego! — gritou novamente.

       O esboço de sorriso da moça tornou-se radiante.

       — Sim, um menino. O nome dele é Michael.

       — Olá, Mike — disse Andy. Afagou a cabeça do bebê quase calvo.

       — Não tenho a menor idéia de por que ele está chorando —disse a jovem. — Estava dormindo tão bem até há pouco! Deve estar com fome.

— Certamente — disse o marido.

       — Desculpem-me. — Andy caminhou para a cabina de infor­mações. Não havia tempo a perder agora. Alguém poderia chegar a qualquer momento.

— O que foi, homem? — perguntou o camarada de blue jeans. — Foi um assalto?

— Não, não aconteceu nada — disse Andy, e fez mais uma pressãozinha. Agora começava a sentir-se doente. Sentia a cabeça martelar e latejar.

— Ah! — disse o camarada. — Bem, estava justamente vendo como chegar a Chagrin Falls. Desculpe-me. — E lentamente voltou para a cabina de informações.

As duas moças tinham se retirado para a cerca de segurança que separava aquela área da fazenda vizinha. Fitavam-no com olhos arregalados. O homem cego estava agora arrastando os pés em círculo no chão, com os braços rigidamente estendidos diante dele. Praguejava e chorava.

Andy aproximou-se lentamente das moças, com as mãos esten­didas, para mostrar que nada tinha nelas. Falou-lhes. Uma delas fez-lhe uma pergunta, e ele falou de novo. Em pouco tempo as duas começavam a sorrir, aliviadas, e a concordar com a cabeça. Andy acenou-lhes, e elas retribuíram-lhe o gesto. Depois seguiu rapidamente pela grama na direção da caminhonete. Em sua testa porejava um suor frio e seu estômago estava convulso. Só podia rezar para que ninguém entrasse ali antes que ele e Charlie tivessem saído, porque nenhuma força lhe restava. Sentia-se completamente esgotado. Esgueirou-se por trás do volante e pôs a chave na ignição.

— Papai! — disse Charlie, atirando-se a ele e escondendo o rosto no seu peito. Ele afagou-a rapidamente e saiu do estaciona­mento. Mover a cabeça era para ele uma agonia. O cavalo negro! Posteriormente, este era o pensamento que sempre lhe ocorria. Ele deixara o cavalo negro sair da sua baia em alguma parte da cocheira escura do seu subconsciente, e o animal ia desmantelando tudo dentro de sua mente. Precisava chegar a algum lugar e se deitar. Depressa. Não agüentaria dirigir o carro por muito tempo.

— O cavalo negro — disse ele pastosamente. Estava chegan­do. Não.., não. Não estava chegando, já estava ali. Tão. . . tão... tão. Sim, ele estava ali. Estava solto.

— Papai, preste atenção! — gritou Charlie.

O homem cego cambaleava exatamente na frente da passagem deles. Andy freou. O cego começou a bater no capô da caminhonete e a gritar por socorro. À direita deles, a jovem mãe começara a ama­mentar o bebê. O marido lia um livro. O homem da cabina de informações fora conversar com as duas moças do Ford vermelho, talvez esperando a oportunidade de alguma aventura rápida bastan­te marota que descreveria na coluna Forum da revista Penthouse. Esparramado no chão, o rapaz calvo ainda dormia.

O funcionário continuava a bater no capô da caminhonete repetidamente, gritando:

— Ajudem-me! Estou cego. Aquele patife sujo fez alguma coisa nos meus olhos! Estou cego!

— Papai — gemeu Charlie.

Por um instante de loucura, Andy quase apertou o acelerador. Dentro de sua cabeça dolorida, podia ouvir o som que os pneuma­ticos fariam, podia sentir o bater surdo das rodas depois de terem passado pelo corpo. Aquele homem seqüestrara Charlie e apontara uma pistola para a cabeça dela. Talvez tivesse sido ele quem enfiara o pano de pó na boca de Vicky para ela não gritar, quando lhe arrancaram as unhas. Seria tão bom matá-lo. .. mas, então, em que seria diferente deles?

Em vez disso, tocou a buzina. O som provocou-lhe uma nova punhalada de agonia na cabeça. O homem cego pulou para longe do carro, como se tivesse sido mordido. Andy virou o volante e passou ao largo do homem. A última coisa que viu pelo espelho retrovisor, enquanto se dirigia para o caminho que levava à estrada, foi o homem cego sentado no chão, com o rosto retorcido de raiva e terror... e a jovem levando placidamente seu bebê ao ombro para ele arrotar.

Entrou no fluxo do tráfego da auto-estrada sem olhar. Uma buzina berrou; pneumáticos rangeram. Um grande Lincoln ultra­passou a caminhonete e o motorista levantou o punho para eles.

— Papai, você está bem?

     — Vou ficar — disse ele. Sua voz parecia vir de muito longe. Charlie, olhe para o bilhete do pedágio e veja onde é a próxima saída.

O tráfego toldava-se diante de seus olhos. Via duplo, triplo, tudo se juntava novamente, depois desviava-se em fragmentos pris­máticos de novo. O sol refletia-se nos cromados brilhantes em toda parte.

— E coloque seu cinto de segurança, Charlie.

A saída seguinte era Hammersmith, cerca de trinta quilômetros mais adiante. De algum modo, ele conseguira.

Posteriormente concluiu que fora apenas a consciência da pre­sença de Charlie sentada ao seu lado que o mantivera na estrada. Exatamente como Charlie o faria passar por todas as coisas que vieram depois, a consciência de que Charlie precisava dele. Charlie McGee, cujos pais um dia tinham precisado de duzentos dólares.

Havia um hotel da cadeia Best Western no sopé da ladeira de Hammersmith. Andy conseguiu se registrar lá, usando nome falso. Pediu um quarto longe da estrada.

— Eles vão nos perseguir, Charlie — disse ele. — Eu preciso dormir. Mas só até o escurecer podemos nos permitir esse des­canso... e o máximo que podemos arriscar. Acorde-me quando ficar escuro.

Ela disse mais alguma coisa, mas Andy já estava caindo na cama. O mundo se confundiu num ponto cinzento, e depois até mesmo o ponto desapareceu e tudo virou escuridão, onde a dor não poderia alcançá-lo.

Ali não havia dor e não havia sonhos. Às sete e quinze daquela noite quente de agosto, quando Charlie o sacudiu para acordá-lo, o calor no quarto era sufocante e suas roupas estavam encharcadas de suor. Ela tentou ligar o ar-condicionado, mas não conseguiu acertar os controles.

—        Está bem — disse ele. Pôs os pés no chão e as mãos nas têmporas, apertando a cabeça para ela não explodir.

—        Não está melhor, papai? — perguntou ela, ansiosa.

—        Um pouquinho — disse ele. E estava.., mas apenas um pouquinho. — Vamos parar daqui a pouco para comer alguma coisa. Isso vai nos ajudar.

—        Para onde vamos?

Ele sacudiu a cabeça para a frente e para trás. Só tinha o dinheiro com que saíra de casa naquela manhã, cerca de dezessete dólares. Tinha o seu cartão de professor... e seu cartão de crédito, mas não os usou, pagou o quarto com as duas notas de vinte que sempre guardava no fundo da carteira (meu dinheiro para fugir, dizia ele por vezes a Vicky, brincando, sem imaginar como isso seria terrivelmente verdadeiro).

Usar qualquer dos dois cartões seria escrever numa placa: POR

AQUI FUGIRAM O PROFESSOR DE FACULDADE E SUA FILHA. Com os dezessete dólares comprariam alguns hambúrgueres e encheriam o tanque de gasolina uma vez. Depois disso, estariam totalmente duros.

—        Não sei, Charlie. Só sei que vamos para longe.

—        Quando vamos apanhar mamãe?

Andy olhou para ela, e a dor de cabeça piorou. Pensou nas gotas de sangue no chão e no vidro da porta da máquina de lavar. Pensou no cheiro de óleo de lustrar móveis.

—        Charlie... — e não conseguiu dizer mais nada. De qual­quer modo, não havia necessidade.

Ela olhou para ele com olhos que lentamente se arregalavam. Levou a mão até a boca trêmula.

—        Oh, não, papai.., por favor, diga que não é verdade!

—        Charlie...

Ela gritou:

—        Ah, por favor, diga que não!

—        Charlie, esse pente que...

—        Por favor, diga que ela está bem, ela está bem, diga que ela está bem!

O quarto estava muito quente com o ar-condicionado desligado, era só isso, mas estava tão quente, sua cabeça doía, o suor rolava pelo rosto, não suor frio agora, mas quente, como óleo quente...

—        Não — dizia Charlie —, não, não, não, não. — Sacudia a cabeça. Seu rabo-de-cavalo voava para a frente e para trás, fazen­do Andy se lembrar absurdamente da primeira vez em que ele e Vicky a tinham levado ao carrossel, no parque de diversões.

Não era a falta do ar-condicionado.

—        Charlie — gritou ele. — Charlie, a banheira! A água!

Ela gritava. Virou a cabeça para a porta aberta do banheiro e, subitamente, surgiu ali um facho azul como de uma lâmpada que se queima. O crivo do chuveiro caiu da parede e bateu dentro da ba­nheira, torcido e negro. Vários azulejos azuis partiram-se em frag­mentos.

Andy mal pôde apanhá-la quando ela caiu, soluçando.

—        Papai, desculpe, desculpe.

—        Está tudo bem — disse ele, abalado. abraçando-a. No bannheiro, uma fumaça fina escapava da banheira derretida. Todas as superfícies de porcelana estalaram instantaneamente. Era como se todo o banheiro tivesse atravessado um forno poderoso, mas defei­tuoso. As toalhas fumegavam.

—        Está bem — disse ele, segurando-a, embalando-a. — Tudo vai ficar bem, Charlie, eu lhe prometo.

—        Eu quero a mamãe — soluçava ela.

Ele concordou, também ele a queria. Apertou Charlie contra si, e sentiu cheiro de ozônio e da porcelana e das toalhas Best Western queimadas. Ela quase fritara a ambos.

—        Tudo vai ficar bem — disse-lhe, embalando-a. Não acreditava realmente nisso, mas era a ladainha, o salmo, a voz do adulto chamando o manancial negro dos anos para o poço triste da infância aterrorizada; era o que se dizia quando as coisas corriam mal; era a luz da noite que não pode eliminar o monstro do banheiro, mas que talvez possa detê-lo ao largo, pelo menos por algum tempo; era a voz sem poder, mas que tem de falar assim mesmo.

—        Tudo vai ficar bem — dizia-lhe ele, sem realmente acreditar no que dizia, sabendo como todo adulto sabe, no íntimo de seu coração, que nada está realmente bem, nunca.

—        Tudo vai ficar bem.

Ele chorava. Não podia evitar. As lágrimas corriam-lhe num fluxo, e ele apertava a filha contra o peito.

—        Charlie, eu lhe juro, tudo vai ficar bem.

 

A única coisa que não foram capazes de pendurar-lhe ao pes­coço, como gostariam, foi o assassinato de Vicky. Em vez disso, preferiram simplesmente apagar o que acontecera na lavanderia. Menos complicações para eles. Por vezes, não com muita freqüên­cia, Andy imaginava o que seus vizinhos de Lakeland poderiam ter especulado. Cobradores de contas? Problemas conjugais? Talvez um vício em drogas ou um incidente por abusar de criança? Não tinham conhecido ninguém na Conifer Place bastante bem para que houvesse mais do que uma conversa neutra em torno da mesa, ou uns dez dias de cogitações, rapidamente esquecidas, quando o banco que tinha a hipoteca da casa a liberou.

Sentado agora no portão de Tashmore e olhando para a escuri­dão, Andy pensou que talvez naquele dia tivesse tido mais sorte do que imaginava (ou estava em condições de apreciar). Chegara tarde demais para salvar Vicky, mas partira antes que o pessoal da remoção chegasse.

Nada saíra nos jornais, nem mesmo um comentário a respeito de uma coisa estranha: um professor de inglês chamado Andrew McGee e a família tinham simplesmente desaparecido. Talvez a Ofi­cina tivesse se encarregado disso. Certamente ele fora declarado desaparecido. Um ou todos os camaradas que tinham almoçado com ele naquele dia deviam ter se alarmado. Mas nada chegara aos jor­nais e, naturalmente, os cobradores de contas não anunciam nos jornais.

—        Eles teriam posto a culpa em mim, se pudessem — disse ele, sem perceber que falara alto.

Mas não tinham podido. O médico legista poderia ter determi­nado a hora da morte, e Andy, que estivera bem à vista de alguns alunos, isto é, de pessoas neutras (e no curso Eh-116, o Estilo e o Conto, das dez às onze e trinta, de outras vinte e cinco pessoas neutras), durante todo aquele dia, não podia ser indiciado e preso. Mesmo que não tivesse sido capaz de fornecer justificativas para seus movimentos durante a hora crítica, faltava-lhe um motivo.

Assim, os dois homens tinham matado Vicky e depois corrido atrás de Charlie, mas não sem antes notificar o que Andy pensava ser o pessoal da remoção (e ele até podia imaginar como eram, homens de bom aspecto, bem-vestidos, com macacões brancos). Em algum momento depois que ele correra atrás de Charlie, talvez menos do que cinco minutos, mas certamente não mais de uma hora, o pessoal da remoção devia ter parado o carro à sua porta. Enquanto a Conifer Place dormitava durante a tarde, Vicky tinha sido removida.

Eles talvez tivessem raciocinado, corretamente, que uma mulher desaparecida seria um problema maior para Andy do que uma mu­lher comprovadamente morta.

Ausência de cadáver, nenhuma estimativa da hora da morte. Não havendo estimativa da hora da morte, não haveria álibi. Ele seria observado, cuidado, polidamente amarrado. Naturalmente, eles deviam ter divulgado a descrição de Charlie pelo telex, e a de Vicky também, pela mesma razão, mas Andy não estaria livre para pro­curar por si mesmo. Assim, ela fora removida, e agora ele nem sabia onde a teriam enterrado. Ou talvez cremado. Ou.

Ah, merda, por que me atormentar?

Ele levantou-se de um salto e despejou o restante do “coice de mula” do avô sobre a balaustrada do portão...

Tudo era passado; nada podia ser alterado; era hora de parar de pensar nisso.

Seria uma boa mágica, se o conseguisse.

Olhou para as formas escuras das árvores, apertou o copo fortemente com a mão direita, e de novo aquele pensamento atra­vessou-lhe a mente:

Charlie, juro que tudo vai ficar bem.

 

Naquele inverno em Tashmore, tanto tempo depois daquele despertar triste no motel de Ohio, parecia-lhe que finalmente sua predição desesperada se cumpria.

Não foi um inverno idílico para eles. Pouco depois do Natal, Charlie apanhou um resfriado, espirrou e tossiu até o princípio de abril, quando finalmente ficou boa de vez. Durante algum tempo, teve febre. Andy deu-lhe aspirina em meios comprimidos, dizendo com os seus botões que, se a febre não passasse em três dias, teria que levá-la ao médico no outro lado da lagoa, em Bradford, não importando as conseqüências. Mas a febre passou, e durante o resto do inverno o resfriado foi apenas uma amolação constante para ela. Andy tivera apenas um ligeiro problema de úlcera, causado pela geada, numa ocasião memorável de março, e quase queimou a ambos, numa noite de frio penetrante, abaixo de zero, em fevereiro, por ter sobrecarregado a lareira com madeira. Ironicamente, foi Charlie quem acordou no meio da noite e descobriu que a casa estava quente demais.

Em dezembro, festejaram o aniversário dele, e no dia 24 de março, o de Charlie. Ela estava com oito anos, e por vezes Andy olhava para ela com uma espécie de espanto, como se a estivesse vendo pela primeira vez. Ela já não era uma menininha. Chegava acima do cotovelo dele. Seu cabelo crescera novamente, e ela come­çara a trançá-lo para que não lhe caísse nos olhos. Ia ser bonita. Já era, com nariz vermelho e tudo.

Estavam sem carro. O Willys de Manders tinha congelado irremediavelmente em janeiro, e Andy achava que o motor estava perdido. Tinha-o ligado todos os dias, mais por senso de responsa­bilidade do que por outra coisa, porque nem mesmo com tração nas quatro rodas ele os teria tirado do sítio do avô depois do Ano-Novo. A neve chegava a meio metro de altura, e nela só se viam as pegadas de esquilos de várias espécies, alguns veados e um persistente guaxinim, que passavam por ali na esperança de farejar uns restos na lixeira.

Havia antiquados esquis de campo no pequeno abrigo por trás da casa: três pares, mas nenhum servia para Charlie. Não fazia diferença. Andy conservava-a dentro de casa o maior tempo possível. Podiam conviver com o resfriado dela, mas ele não queria que a febre voltasse.

Embaixo da mesa em que antigamente o velho aparelhava venezianas e fazia portas, numa caixa de papel higiênico, Andy encontrou um velho par de botas para esqui do avô; estavam em­poeiradas e desgastadas pelo tempo. Andy passou óleo nelas, cal­çou-as e verificou que não conseguia enchê-las sem completar a biqueira com enchimento de papel de jornal. Havia alguma coisa engraçada nisso, mas ele também achou que havia alguma coisa sinistra. Pensou muito a respeito do avô durante aquele longo inverno, e imaginava o que ele teria feito naquelas condições difí­ceis em que se encontravam.

Uma meia dúzia de vezes naquele inverno ele tirou o esqui do gancho (não dispunha dos modernos fixadores, apenas um emara­nhado confuso e irritante de tiras e anéis) e atravessou a grande parte congelada da lagoa até o ancoradouro de Bradford. Dali, uma pequena estrada sinuosa levava à vila, lindamente enfiada nas co­linas, pouco mais de três quilômetros a leste da lagoa. Ele sempre partia antes das primeiras luzes da manhã, com a mochila de alpi­nista do avô, e nunca voltava antes das três da tarde. Numa das vezes, escapou por pouco de uma tempestade de neve uivante que o teria deixado cego e perdido, vogando em cima do gelo. Charlie chorou de alivio quando ele voltou, e em seguida teve uma longa e alarmante crise de tosse.

As viagens a Bradford se destinavam a conseguir suprimentos e roupas para ele e Charlie. Ele tinha dinheiro da reserva do avô, e posteriormente assaltou três das maiores cabanas à margem da lagoa Tashmore e roubou dinheiro. Não se orgulhava disso, mas considerava uma questão de sobrevivência. As cabanas que ele escolhera deviam ter sido vendidas no mercado de imóveis por oitenta mil dólares cada uma, e ele achava que seus donos podiam agüentar a perda dos trinta ou quarenta dólares em trocados que havia na terrina, exatamente onde a maioria deles os guardavam. A única outra coisa que roubou naquele inverno estava num grande tambor de óleo que havia atrás de uma ampla e moderna casa de campo chamada de “Acampamento Bagunça”. Desse tambor, tirou cerca de cento e cinqüenta litros de óleo.

Ele não gostava de ir a Bradford. Não gostava por saber que as pessoas mais velhas, sentadas em torno do fogão bojudo perto da caixa registradora, falavam sobre o estranho que estava morando do outro lado da lagoa, num dos sítios. As histórias se espalhavam e por vezes entravam em ouvidos errados. Não era preciso muito, apenas um rumor, para que a Oficina descobrisse uma ligação inevitável entre Andy, seu avô e o sítio em Tashmore, Vermont. Mas ele, simplesmente, não tinha alternativa. Tinha de comer, não podiam passar todo o inverno vivendo de sardinhas enlatadas. Char­lie precisava de frutas frescas, pílulas de vitaminas e roupas. Che­gara lá apenas com a roupa do corpo, uma blusa suja, a calça ver­melha e uma única calcinha. Não havia um bom remédio para a tosse, não havia legumes frescos e, incrivelmente, era difícil arranjar fósforos. Todas as cabanas que assaltara tinham lareira, mas en­contrara apenas uma caixa de fósforos.

Andy poderia ter ido além, havia outras cabanas e casas, mas muitas das outras áreas eram cultivadas e patrulhadas pela polícia de Tashmore. E em muitas estradas havia pelo menos um ou dois residentes fixos. Na grande loja de Bradford ele conseguiu comprar todas as coisas necessárias, incluindo três calças grossas e três cami­sas de lã aproximadamente do tamanho de Charlie. Não havia rou­pas de baixo para meninas, e ele teve que se contentar com cuecas de tamanho 8. Isso tanto aborreceu como divertiu Charlie.

Percorrer a distância de ida e volta, de nove quilômetros e meio, até Bradford nos velhos esquis do avô era ao mesmo tempo uma maçada e um prazer para Andy. Não gostava de deixar Charlie sozinha, não porque não confiasse nela, mas porque vivia sempre com medo de voltar e ela ter partido... ou estar morta. As velhas botas provocavam-lhe bolhas nos pés, mesmo estando protegidos por vários pares de meias. Se tentasse andar muito depressa, ficava com dor de cabeça, que o fazia recordar-se dos pequenos pontos entorpecidos no rosto, e ver seu cérebro como um velho pneumático careca, um pneu tão usado que ficara parcialmente na lona. Se ele tivesse um ataque naquela lagoa desgraçada, e congelasse até a morte, o que seria de Charlie?

Mas era durante essas viagens que ele pensava melhor. O silên­cio fazia com que sua mente se desanuviasse. A lagoa Tashmore não era propriamente larga, e, embora a distância de leste a oeste fosse de pouco mais de um quilômetro, a travessia era demorada. Com a neve um metro e pouco acima do gelo, em fevereiro, Andy por vezes parava a meio caminho e olhava lentamente para a direita e para a esquerda. A lagoa parecia-lhe então um longo corredor recoberto de brilhantes ladrilhos brancos, limpos, intactos, esten­dendo-se nas duas direções a perder de vista. Pinheiros cobertos de poeira de açúcar a cercavam. Acima, o céu de inverno, de um azul fascinante, ou então o humilde branco indefinido da neve imi­nente. Podia-se ouvir o chamado longínquo de um corvo ou o esta­lido do gelo distendendo-se, mas era só isso. O exercício tonificava-lhe o corpo. Ele sentia brotar-lhe um suor morno entre a pele e a roupa, e achava bom transpirar e depois enxugar o suor da testa. Aliás, havia esquecido essas sensações quando ensinava Yeats e Williams e corrigia cadernos de exercícios.

Naquele silêncio e com o esforço duro exigido do corpo, seus pensamentos tornavam-se claros e ele procurava resolver o problema que tinha na mente. Alguma coisa tinha de ser feita, já devia ter sido feita há muito tempo, mas isso era passado. Tinham chegado ao sítio do avô para o inverno, mas ainda estavam fugindo. A sen­sação de mal-estar diante daqueles velhos sentados em torno do fogão com seus cachimbos e olhos .perscrutadores era suficiente para lembrá-lo desse problema. Ele e Charlie estavam encurralados; de­via haver algum meio de sair dali.

Ele ainda estava irritado porque isso não era justo. Eles não tinham esse direito. Andy e sua família eram cidadãos americanos, que viviam numa sociedade considerada aberta; no entanto, sua mulher fora assassinada, a filha, seqüestrada, os dois eram caçados como coelhos numa moita.

Pensou novamente que se pudesse transmitir a história para uma ou várias pessoas ela poderia ser trazida à tona. Não fizera isso antes porque continuava dominado por aquela estranha hipno­se, a mesma espécie de hipnose responsável pela morte de Vicky. Não queria que sua filha crescesse como um ente anormal exibido num show. Tampouco queria que ela fosse criada numa instituição, nem para o bem do país, nem para seu próprio bem. E, pior de tu­do, ele continuava mentindo a si mesmo. Mesmo depois de ver sua mulher comprimida no armário da tábua de engomar na lavanderia, com aquele pano na boca, continuava mentindo a si mesmo, dizendo que mais cedo ou mais tarde seriam deixados em paz. Ë apenas uma brincadeira, dizia-se às crianças. No um todo mundo devolve o dinheiro. Mas acontece que já não eram crianças, não estavam brincando de faz-de-conta, e ninguém ia devolver nada a ele nem a Charlie, quando o jogo terminasse. Aquele jogo era para sempre.

No silêncio, começou a compreender certas verdades dolorosas.

De certo modo Charlie era anormal, não muito diferente dos bebês da talidomida dos anos 60 ou daquelas meninas cujas mães tinham tomado DES (dietilstribesterol, um anticoncepcional); os mé­dicos apenas não sabiam que aquelas meninas desenvolveriam tu­mores vaginais em número anormal catorze ou dezesseis anos depois. A culpa não era de Charlie, mas isso não alterava o fato. Sua estra­nheza, sua anormalidade, era interior. O que ela fizera na Fazenda Manders fora aterrorizador, totalmente aterrorizador, e desde então Andy imaginava até que ponto iria a capacidade dela, que ponto poderia atingir. Lera bastante da literatura parapsicológica durante o ano em que estiveram escondidos, o bastante para saber que se suspeitava de que tanto a pirocinesia como a telecinesia estavam ligadas a glândulas sem ductos ainda mal conhecidas. Suas leituras também o informaram de que as duas formas desse talento estavam intimamente relacionadas, e que a maioria dos casos documentados girava em torno de meninas que não tinham mais idade do que Charlie.

Ela, com sete anos, fora capaz de provocar aquela destruição na Fazenda Manders. Tinha quase oito anos, agora. O que poderia acontecer quando tivesse doze e entrasse na adolescência? Talvez nada, talvez muito. Ela disse que não usaria mais aquele poder; mas, e se fosse forçada a usá-lo? O que aconteceria se aquele poder começasse a surgir espontaneamente? O que aconteceria se ela co­meçasse a provocar incêndios durante o sono, corno parte de sua própria puberdade estranha, uma ígnea contrapartida das poluções noturnas que muitos adolescentes masculinos experimentam? O que aconteceria se a Oficina resolvesse afinal soltar seus cachorros. . . e se Charlie fosse seqüestrada por alguma potência estrangeira?

Perguntas, perguntas.

Durante suas travessias da lagoa, Andy tentava enfrentar esses problemas; com uma certa relutância, chegou a acreditar que Charlie talvez tivesse que se submeter a uma espécie de custódia pelo resto da vida, mesmo que fosse apenas para sua própria proteção. Talvez isso fosse necessário para ela, tal como as cruéis presilhas das pernas o eram para as vítimas de atrofia muscular, ou as estranhas próteses para os bebês da talidomida.

E depois havia a questão do próprio futuro dela. Ele lembra­va-se dos pontos entorpecidos no rosto e do olho injetado. Ninguém quer acreditar que sua sentença de morte esteja assinada e datada, e Andy não acreditava totalmente nisso; estava, porém, consciente de que mais dois ou três esforços intensos de dominação mental poderiam matá-lo, e percebia que sua expectativa normal de vida tinha sido consideravelmente reduzida. Alguma provisão deveria ser feita para Charlie para o caso de acontecer o pior.

Mas nunca do jeito da Oficina.

Não a cabina. Ele não permitiria que isso acontecesse.

Assim, ponderou demoradamente e finalmente tomou uma dolo­rosa decisão.

 

Andy escreveu seis cartas. Eram quase idênticas. Duas destina­vam-se a senadores dos Estados Unidos por Ohio. Uma era para a mulher que representava o distrito de Harrison na Câmara dos Esta­dos Unidos. Uma era para o New York Times. Uma para o Tribune de Chicago e uma para o Toledo Blade. As seis cartas contavam a história do que tinha acontecido, desde a experiência no Jason Gearneigh Hall até o isolamento forçado dele e de Charlie em Tashmore Pond.

Quando terminou, deu uma das cartas para Charlie ler. Ela examinou-a lenta e cuidadosamente durante quase uma hora. Era a primeira vez que conhecia toda a história do princípio ao fim.

— Você vai pôr essas cartas no correio? — perguntou ela, quando acabou.

— Vou. Amanhã. Acho que amanhã será a última vez que me atreverei a atravessar a lagoa. — O tempo começava afinal a aque­cer um pouco. O gelo ainda estava sólido, mas agora estalava cons­tantemente, e não se sabia por quanto tempo ainda a travessia seria segura.

— O que vai acontecer, papai?

Ele sacudiu a cabeça.

— Não tenho certeza. Tudo o que posso fazer é esperar que, uma vez conhecida a história, essa gente que vem nos perseguindo desista.

Charlie concordou sobriamente.

— Você deveria ter feito isso antes.

— Sim — disse ele, sabendo que ela estava pensando no quase cataclismo no sítio dos Manders em outubro último. — Talvez devesse, mas nunca tive tempo para pensar nisso, Charlie. Só tinha tempo para pensar na fuga. E como se pode pensar direito quando se está em fuga? Bem, só se tem idéias bobas. Fiquei esperando que eles desistissem e nos deixassem em paz. Foi um erro terrível.

— Eles não vão me obrigar a ir embora, vão? — perguntou Charlie. — Quero dizer, ficar longe de você. Nós podemos ficar juntos, não podemos, papai?

— Sim — respondeu ele, não querendo lhe dizer que tinha uma idéia tão vaga quanto a dela do que poderia acontecer depois que as cartas fossem enviadas. Era apenas “depois”.

— Essa é a única coisa que me importa. E não vou mais pro­vocar incêndios.

— Muito bem — disse ele, tocando.lhe o cabelo.

De repente, sentiu a garganta espessa, um sinal premonitório de uma ameaça, e lembrou-se subitamente de algo que acontecera perto dali, algo em que não pensava havia muitos anos. Tinha saído com o pai e o avô, e o avô lhe dera sua espingarda 22, que ele cha­mava de rifle feroz. Andy vira um esquilo e queria acertá-lo. O pai tentou protestar, e o avô o fez calar-se com um estranho sorrisinho. Andy mirou da maneira que o avô lhe ensinara; apertou o gatilho, em vez de apenas puxá-lo para trás (como o avô também lhe ensi­nara), e atirou no esquilo: ele despencou do galho como um brin­quedo empalhado, e Andy correu, excitado, para apanhá-lo, depois de ter devolvido a arma ao avô. Ao se aproximar do esquilo, ficou mudo de choque com o que viu. De perto o esquilo não era um brinquedo cheio de palha. Não estava morto; tinha recebido o tiro nos quadris e jazia ali, agonizante, banhado em poças de seu sangue rubro, com os olhos pretos despertos e vivos, cheios de um horrível sofrimento. As pulgas, já sabedoras da verdade, abandonavam apressadamente o corpo.

A garganta fechou.se-lhe num estalo; aos nove anos, Andy expe­rimentava pela primeira vez o vivo sabor da auto-aversão.

Fitava, atônito, o morticínio desastrado, consciente de que o pai e o avô estavam por trás dele; suas sombras se projetavam sobre ele, três gerações de McGees contemplavam um esquilo assassinado nos bosques de Vermont. E atrás dele o avô disse suavemente:

“Bem, você o pegou, Andy. Como é que se sente?” Lágrimas brotaram de repente de seus olhos, lágrimas quentes de horror diante da percepção de que tudo, uma vez feito, estava feito. Subitamente, jurou que nunca mais mataria o que quer que fosse com uma arma. Jurou diante de Deus.

Eu não vou provocar incêndios nunca mais, dissera Charlie, e Andy se recordava da resposta do avô no dia em que abatera o esquilo, no dia em que jurara a Deus que nunca mais faria coisa semelhante. Nunca diga isso, Andy, Deus gosta de fazer um homem quebrar seu juramento. Isso o mantém humilde, consciente de seu lugar no mundo, e atento a seu autocontrole. Mais ou menos o que Irv Manders dissera a Charlie.

Charlie encontrara no sótão uma série completa dos livros de Bomba, o Garoto das Selvas, e os estava explorando lenta, mas fir­memente. Agora, ao olhar para ela, sentada sob um raio empoeirado de sol na velha cadeira de balanço escura, justamente onde a avó sempre se sentava, em geral com uma cesta de costura entre os pés, Andy lutou com a ânsia de lhe dizer que retirasse aquele jura­mento enquanto ainda era tempo, de dizer-lhe que ela não com­preendia a terrível tentação; se a arma fosse deixada ali bastante tempo, mais cedo ou mais tarde a gente ia pegá-la de novo.

Deus gosta de fazer o homem quebrar seus juramentos.

 

Ninguém viu Andy pôr as cartas no correio, exceto Charles Payson, o camarada que se mudara para Bradford em novembro e que desde estão procurava ganhar a vida com a velha loja Bradford Notions & Novelties. Payson era um homem pequeno, de expressão triste, que chegara a oferecer um drinque a Andy numa de suas visitas à localidade. Na cidade, a expectativa era de que, se Payson não conseguisse vencer a luta durante o verão entrante, por volta de 15 de setembro a Notíons & Novelties teria na vitrina um cartaz de VENDE-SE OU ALUGA-SE. Ele era um rapaz bastante agradável, mas lutava com dificuldades. Bradford já não, era como antigamente.

Deixando os esquis pousados na neve na cabeceira da rua que descia para a Bradford Town Landing, Andy subiu a rua e chegou à loja principal. Dentro, os velhotes observavam-no com um inte­resse moderado. Tinha havido bastantes fofocas sobre Andy naquele inverno. O consenso a respeito daquele forasteiro era de que ele estava fugindo de alguma coisa, talvez de um processo de falência ou de divórcio. Talvez de uma mulher furiosa a quem tivesse rou­bado a custódia da garotinha: as roupas de criança que Andy com­prara não lhes tinham passado despercebidas. O consenso era tam­bém de que ele e a criança talvez tivessem invadido algum acampa­mento do outro lado da lagoa e estivessem passando o inverno por lá. Ninguém levara essa suspeita ao chefe de polícia de Bradford, um recém-chegado que vivia na cidade só havia doze anos e pensava ser o dono do lugar. Aquele forasteiro vinha do outro lado da lagoa Tashmore. Nenhum dos velhotes que se sentavam em torno do foga­reiro de Jake Rowley na loja principal de Bradford gostava muito da administração de Vermont, com seu imposto de renda, sua pre­tensiosa lei da garrafa e aquele patife russo instalado na sua casa como um czar, escrevendo livros que ninguém compreendia. Dei­xassem o povo de Vermont tratar dos seus próprios problemas, era a opinião unânime, embora não declarada.

— Ele não vai continuar atravessando a lagoa por muito tempo mais — disse um deles. Deu mais uma mordida no seu tablete de chocolate e começou a mastigá-lo.

— Realmente, a menos que consiga um par de bóias — res­pondeu outro, e todos riram.

— Não vamos vê-lo por muito mais tempo — disse Jake, satis­feito, quando Andy se aproximava da loja. Andy usava o velho casa­co do avô e tinha um cachecol de lã azul puxado por cima das orelhas; alguma recordação, talvez uma parecença familiar com o pró­prio avô de Andy dançou fugidiamente na mente de Jake e logo esvaiu-se.

— Quando o gelo começar a derreter, ele vai levantar acampa­mento e desaparecer. Ele e quem mais estiver lá com ele.

Andy parou do lado de fora, desprendeu a bolsa e dela tirou várias cartas. Depois entrou. Os homens ali reunidos examinaram suas próprias unhas, seus relógios, e até mesmo o velho fogareiro. Um dos velhotes abriu um gigantesco lenço estampado azul e nele escarrou ruidosamente.

Andy olhou em volta.

— Bom dia, senhores.

— Bom dia — disse Jake Rowley. — Deseja alguma coisa?

— O senhor vende selos aqui, não é?

— Certamente, até esse ponto, o governo confia em mim.

— Quero seis selos de quinze cents, por favor.

Jake apanhou-os, destacando-os cuidadosamente de uma das folhas do seu velho livro de correio.

— Mais alguma coisa hoje?

Andy pensou e depois sorriu. Era dia 10 de março. Sem res­ponder a Jake, foi até a estante de cartões-postais ao lado do moinho de café e escolheu um grande cartão de aniversário, onde se lia:

PARA VOCÊ, MINHA FILHA, NO SEU DIA ESPECIAL. Trouxe-o ao balcão e pagou por ele.

— Obrigado — disse Jake, registrando a quantia na máquina.

De nada — respondeu Andy, saindo.

     Observaram-no enquanto ajeitava o cachecol e em seguida co­lava os selos nas cartas, uma por uma. A respiração saía-lhe das narinas como fumaça. Viram-no dar a volta ao prédio e caminhar para onde se achava a caixa do correio, mas nenhuma daquelas pes­soas que estavam sentadas em torno do fogareiro poderia testemu­nhar em tribunal se ele pusera ou não aquelas cartas no correio. Ele voltou a ser visto pondo sua bolsa no ombro.

— Lá vai ele — observou um dos velhotes.

— Um camarada muito civilizado — disse Jake, encerrando o assunto. A conversa passou para outros temas.

Charles Payson estava na porta da sua loja, que não faturara trezentos dólares em todo o inverno, e observava os passos de Andy. Payson poderia testemunhar que ele pusera as cartas no correio; vira-o enfiar um maço delas na fenda da caixa.

Quando Andy desapareceu de vista, Payson voltou para dentro da loja, passou pela porta atrás do balcão, onde ele vendia balas de um cent e chicletes de bola, e dirigiu-se à moradia atrás da loja. Seu telefone tinha um dispositivo contra escuta. Payson ligou para a Virgínia em busca de instruções.

 

Não havia e ainda não há agências dos correios em Bradford, New Hampshire (ou tampouco em Tashmore, Vermont); as duas cidades eram muito pequenas. A agência mais próxima de Bradford ficava em Teller, em New Hampshire. As treze e quinze daquele dia 10 de março, o caminhãozinho postal de Teller parou diante da loja principal de Bradford. Um funcionário do correio esvaziou o conteúdo da caixa que ficava perto de onde Jake tivera um posto de gasolina até 1970. A correspondência nela depositada consistia nas seis cartas de Andy e num cartão-postal que a Sra. Shirley Devi­ne, uma solteirona de cinqüenta e cinco anos, enviava à sua irmã em Tampa, na Flórida. Do outro lado da lagoa, Andy McGee tirava uma soneca e Charlie fazia um boneco de neve.

O carteiro Robert Everett pôs a correspondência num saco, jogou-o dentro do seu caminhãozinho azul e branco e dirigiu-se .para Williams, uma outra cidadezinha de New Hampshire que ficava dentro da área de código postal de Teller. Fez uma volta em U no meio da rua, que os residentes de Williams chamavam, por caçoada, de Rua Principal, e voltou para Teller, onde toda a correspondência seria selecionada e expedida aproximadamente às três horas daquela mesma tarde. A oito quilômetros dali, um Chevrolet Caprice bege parou atravessado na estrada, bloqueando as duas pistas estreitas. Everett estacionou na encosta de neve e saiu do caminhão para ver se podia ajudar.

Dois homens aproximaram-se dele, enquanto saía do carro. Mostraram-lhe suas credenciais e explicaram o que queriam.

— Não. — disse Everett. Tentou rir, mas o riso saiu-lhe sem convicção, como se alguém lhe tivesse dito que iam abrir a praia de Tashmore para natação naquela mesma tarde.

— Se você duvida que sejamos o que dizemos ser... — co­meçou a dizer um deles. Era Orville Jamieson, conhecido como OJ ou como Suco. Não se incomodava de lidar com aquele rústico carteiro. Não se incomodava com nada, contanto que as ordens rece­bidas não o levassem a menos de cinco quilômetros daquela meni­ninha infernal.

— Não é isso; não é nada disso — disse Robert Everett, assus­tado, tão assustado como qualquer pessoa que se vê subitamente confrontada com a força do governo, quando a cinzenta burocracia executiva subitamente adquire um rosto real, como alguma coisa sinistra e sólida que emerge de uma bola de cristal. No entanto, ele estava determinado. — Mas o que eu tenho aqui é correspondência. A correspondência dos Estados Unidos. Vocês têm que compreen­der isso.

— É uma questão de segurança nacional — disse OJ. Depois do fiasco de Hastings Glen, tinham mandado colocar um cordão de proteção em torno da Fazenda Manders. Os terrenos e remanescentes da casa tinham passado pela operação pente-fino. Com essa provi­dência, OJ recuperara o Falcão, seu revólver, que agora repousava confortavelmente no lado esquerdo do seu peito.

— É o que você diz, mas não me convence — disse Everett.

OJ desabotoou o casaco de modo que Everett pudesse ver o Falcão. Everett arregalou os olhos, e QJ sorriu ligeiramente.

— E agora? Você não quer que eu tire isto, não é?

Everett não podia acreditar no que estava acontecendo. Tentou uma vez mais.

— Vocês sabem qual é a penalidade por roubar a mala postal dos Estados Unidos? Eles vão pô-los em Leavenworth, no Kansas, por causa disto.

— Você pode discutir o caso com seu chefe quando voltar para Teller — disse o outro homem, falando pela primeira vez.

     — Agora vamos acabar com esta conversa fiada, 0K? Dê-nos o saco da correspondência das pequenas localidades.

       Everett deu-lhes o saquinho de correspondência de Bradford e Williams. Abriram-no ali mesmo, na estrada, e examinaram-no im­pessoalmente. Robert Everett sentiu raiva e uma espécie de vergo­nha doentia. O que eles estavam fazendo não era correto, nem mes­mo que os segredos da bomba nuclear estivessem ali dentro. Abrir a correspondência dos Estados Unidos à beira da estrada não era correto. Ridiculamente, pensou que se sentiria assim se um estranho entrasse em sua casa e tirasse as roupas de sua mulher.

—        Vocês vão ter que responder por isto — disse ele com a voz engasgada e assustada. — Vocês vão ver.

—        Aqui estão elas — disse o outro cara para OJ. Passou-lhe as seis cartas, todas endereçadas pela mesma mão cuidadosa. Everett reconheceu-as perfeitamente. Tinham vindo da caixa de Bradford. OJ pôs as cartas no bolso, e os dois voltaram ao carro, deixando o saco aberto na estrada.

—        Vocês vão responder por isto — gritou Everett, com a voz conturbada.

Sem olhar para trás, OJ disse:

—        Fale com o chefe da sua agência antes de falar com mais alguém, se quiser conservar seu salário, 0K?

E partiram. Everett observou-os se afastarem. Estava furioso, assustado, enojado. Finalmente, apanhou o saco de correspondência e jogou-o de novo no caminhão.

—        Roubado — disse ele, surpreso de perceber que estava qua­se chorando. — Roubado, fui roubado, ah, que vão para o inferno, eu fui roubado!

Dirigiu-se a Teller o mais depressa que as estradas lamacentas de neve lhe permitiam. Falou com o chefe da agência, como os homens lhe tinham sugerido. O chefe da agência de Teller era Bill Cobham, e Everett ficou no gabinete de Cobham mais de uma hora. Por vezes, podiam-se ouvir pela porta do gabinete suas vozes altas e zangadas.

Cobham tinha cinqüenta e seis anos. Trabalhava nos Correios havia trinta e cinco anos e estava extremamente assustado. Final­mente conseguiu transmitir seu pavor a Everett. E Everett nunca disse uma palavra, nem mesmo à mulher, a respeito do dia em que fora roubado na estrada de Teller, entre Bradford e Williams. Mas nunca esqueceu o fato, e nunca perdeu completamente aquela sensação de raiva, vergonha.. . e desilusão.


Por volta das duas e meia, Charlie acabara seu boneco de neve e Andy, um pouco descansado pela soneca, se levantou. Orville Ja­mieson e o seu novo companheiro, George Sedaka, viajavam num avião. Quatro horas depois, enquanto Andy e Charlie, sentados) jogavam uma partida de trinca, já com os pratos do jantar lavados e secando no escorredor, as cartas de Andy enviadas pelo correio esta­vam em cima da mesa de Cap Hollister.

Cap e Rainbird.

 

CAP E RAINBIRD

       A 24 de março, dia do aniversário de Charlie McGee, Cap Hollister, sentado diante da sua mesa, sentia um extremo e indefi­nido mal-estar. A razão desse mal-estar não era indefinida; esperava John Rainbird dentro de menos de uma hora, e isso equivalia a esperar o Diabo para regatear, por assim dizer. Pelo menos o Diabo mantinha o negócio firmado, se se acreditasse em suas declarações à imprensa. Cap, porém, sentia que havia algo fundamentalmente incontrolável na personalidade de John Rainbird. Tudo dito e feito, ele não passava de um bom homem ferido, e os homens feridos sempre se autodestroem, mais cedo ou mais tarde.

       Cap sentia que, quando Rainbird se fosse de vez, isso se daria com uma explosão espetacular. O que saberia ele exatamente sobre a operação McGee? Não mais do que devia, certamente, mas... isso o enervava. Não era a primeira vez que ele cogitava se, terminado o            caso McGee, não seria prudente providenciar um acidente para aquele índio grandalhão. Nas memoráveis palavras do pai de Cap, Rainbird era um homem tão louco que era capaz de comer excre­mentos de rato e chamá-los de caviar.

       Suspirou. Lá fora a chuva fria batia contra a vidraça, impulsio­nada por um forte vento. Seu gabinete, tão claro e agradável durante o verão, estava agora cheio de cinzentas sombras movediças. Não eram boas para ele, enquanto estava ali, sentado junto ao carrinho da biblioteca que continha a documentação do caso McGee. O in­verno envelhecera-o; já não era o mesmo homem desenvolto que pedalara sua bicicleta até a porta de entrada, naquele dia de outubro em que os McGees mais uma vez tinham lhe escapado, deixando uma tempestade de fogo atrás de si. As rugas de seu rosto, apenas per­ceptíveis então, tinham se aprofundado em sulcos. Tinha sido for­çado à humilhação das lentes bifocais — óculos de velho, como os considerava — e acomodar-se a elas o tinha deixado enjoado duran­te as primeiras seis semanas de uso. Esses eram os símbolos externos da maneira como as coisas se tinham tornado enlouquecedoramente erradas. Era dessas pequenas coisas que ele se queixava, porque todo o seu treinamento e sua formação o tinham ensinado a não prague­jar contra assuntos graves, que ficam muito perto da superfície.

Como se aquela maldita menina fosse um mau agouro, as úni­cas duas mulheres que lhe importavam profundamente, desde a morte da mãe, tinham ambas morrido de câncer naquele inverno: sua mulher Georgia, três dias depois do Natal; e sua secretária particular, Rachel, havia pouco mais de um mês.

Ele sabia que Georgia estava gravemente doente, claro; uma mastectomia quatro meses antes da sua morte tinha retardado o progresso da doença, mas não a eliminara. A morte de Rachel fora uma surpresa cruel. Ele podia se recordar (como por vezes pare­cemos imperdoáveis em retrospecto) de ter brincado com ela, di­zendo que precisava engordar um pouco e de Rachel ter rebatido com uma brincadeira.

Agora tudo o que lhe restava era a Oficina, e possivelmente não a teria por muito tempo. Uma espécie de câncer insidioso também o tinha invadido. Como chamá-lo? Câncer de credibilidade? Alguma coisa assim. E nos escalões mais elevados essa espécie de doença era quase sempre fatal. Nixon, Lance, Helms... todos vítimas do câncer da credibilidade.

Abriu o fichário McGee e tirou as últimas adições, as seis cartas que Andy pusera no correio havia duas semanas. Folheou-as sem as ler. Todas eram essencialmente a mesma carta, e ele conhecia seu conteúdo quase de cor. Por baixo delas havia fotografias lus­trosas, algumas tiradas por Charles Payson, algumas por outros agentes em Tashmore. Havia fotos de Andy andando pela rua prin­cipal de Bradford. Fotos de Andy comprando na loja principal e pagando as compras. Fotos de Andy e Charlie de pé, ao lado do galpão do barco no acampamento, tendo atrás deles o Willys de Manders. com o capô coberto de neve. Uma foto de Charlie desli­zando numa caixa de papelão achatada por uma rampa de crosta de neve dura e cintilante, com o cabelo esvoaçando por debaixo de uma boina de tricô grande demais para ela. Nessa foto o pai apare­cia em pé atrás dela, com as mãos enluvadas nos quadris, a cabeça atirada para trás numa gargalhada estrondosa. Cap olhara repetidamente para essa foto, e mantinha-se controlado, mas por vezes se surpreendia com o tremor das mãos quando a guardava. A vontade de tê-los era tamanha! Levantou-se e foi até a janela por um mo­mento. Naquele dia Rich McKeon não estava aparando a grama. Os amieiros estavam sem folhas e esqueléticos; o lago dos patos entre as duas casas era uma amplidão nua cinza-azulada. Havia dúzias de itens importantes em pauta na Oficina naquele começo de prima­vera, um verdadeiro smorgasbord *, mas para Cap havia realmente um só item: o caso de Andy McGee e sua filha Charlene.

O fiasco nos Manders tinha feito grandes estragos. A Oficina

 

* Refeição sueca que apresenta vários pratos, como um bufê. (N. da T.)

 

se safara desse fracasso, e ele também, mas começara a se formar uma grande onda de crítica que não tardaria a arrebentar. O centro crítico dessa onda era a maneira como tinham lidado com os McGees desde o dia em que Victoria McGee fora morta e a filha raptada — embora por pouco tempo. Muitas das críticas tinham a ver com o fato de um professor universitário que sequer servira no exército ser capaz de recuperar sua filha de dois agentes treinados da Ofici­na, deixando um deles louco e outro em estado de coma por seis meses. Este último nunca mais serviria para qualquer coisa; se alguém falasse a palavra “durma” ao alcance do seu ouvido, ele caía desmaiado, todo mole, e podia ficar assim de quatro horas até um dia inteiro. De certa forma, chegava a ser engraçado.

A outra crítica importante era o fato de os McGees terem se mantido um passo à frente deles por tanto tempo. Isso fazia a Ofi­cina parecer incompetente. Fazia-os passar por idiotas.

Mas o grosso da crítica era reservado ao próprio incidente no sítio dos Manders, porque isso quase expusera toda a repartição. Cap sabia que os murmúrios tinham começado. Os murmúrios, os memorandos, talvez até o testemunho nos inquéritos ultra-secretos do Congresso. Nós não queremos vê-lo obsedado dessa maneira, como Hoover. O negócio de Cuba fracassou completamente porque ele não podia tirar a cabeça daquele maldito relatório McGee. A mulher dele morreu muito recentemente, vocês sabem. Grande lás­tima! Abalou-o muito. Todo esse caso McGee não passa de um catá­logo de inépcias. Talvez um homem mais jovem...

Mas nenhum deles compreendia contra o que lutavam. Pensa­vam que sabiam, mas não sabiam. Muitas e muitas vezes haviam re­jeitado o simples fato de a menina ser pirocinética, incendiária. Dúzias de relatórios sugeriam claramente que o fogo no sítio dos Manders tinha começado devido a gasolina entornada, ao fato de a mulher ter quebrado uma lâmpada de querosene, à maldita combus­tão espontânea, e só Deus sabe quantas outras bobagens. Alguns desses relatórios provinham de pessoas que tinham estado lá.

De pé à janela, Cap percebeu que perversamente desejava que Wanless estivesse ali. Wanless o compreenderia. Ele poderia falar com Wanless a respeito... dessa cegueira perigosa.

Voltou à mesa. Não tinha sentido iludir-se; uma vez posto em andamento o processo de solapamento, não havia meio de detê-lo. Era realmente como um câncer. Podia retardar-lhe o crescimento recorrendo à proteção (e Cap apelara para seus dez anos de serviço, apenas para se manter no cargo naquele último inverno); talvez pudesse até forçar uma reabilitação. Mais cedo ou mais tarde, po­rém, teria de ir embora. Sentia que poderia se agüentar até julho, se seguisse as regras do jogo, e talvez até novembro se resolvesse realmente firmar-se mais e ficar mais duro. Isso, contudo, podia significar o desmantelamento da repartição, o que ele não queria. Não queria destruir uma coisa na qual investira metade da vida. Mas o faria, se fosse obrigado a isso: levaria aquele caso até o fim.

O fator que lhe permitira continuar no controle foi a rapidez com que localizaram novamente os McGees. Cap ficou contente de lhe terem creditado essa façanha, porque isso ajudava a firmar-lhe a posição, mas realmente só fora preciso usar o computador. O tem­po em que trataram desse assunto fora bastante para lhe dar a opor­tunidade de explorar o campo dos McGees de fio a pavio. Estavam registrados no computador fatos sobre mais de duzentos parentes e quatrocentos amigos ao redor da árvore genealógica McGee-Tom­linson. Essas amizades estendiam-se até a melhor amiga de Vicky na primeira série, uma moça chamada Kathy, agora Sra. Frank Worthy, de Cabral, na Califórnia, que provavelmente não se lembrara de Vicky Tomlinson uma vez sequer nos últimos vinte anos.

O computador prontamente produzira uma lista de probabili­dades. Encabeçando a lista aparecia o nome do avô falecido de Andy, que possuía uma casa de campo em Tashmore Pond, em Vermont, cuja posse passava a Andy depois de sua morte. Os McGees já tinham passado férias lá; a casa ficava a uma distância razoável da Fazenda Manders por estradas secundárias. O computador sentiu que, se Andy e Charlie estivessem em algum lugar co­nhecido, esse seria o lugar.

Menos de uma semana depois de Andy e Charlie terem che­gado ao sítio, Cap sabia que estavam lá. Um frouxo cordão de agentes foi instalado em torno da casa de campo. Providenciaram a compra da Bradford Notions & Novelties, visto que qualquer com­pra de que precisassem seria provavelmente feita em Bradford.

Vigilância passiva, nada mais. Todas as fotografias tinham sido tomadas com teleobjetivas sob ótimas condições de disfarce. Cap não tencionava arriscar outra tempestade de fogo.

Poderiam ter apanhado Andy calmamente numa de suas viagens através do lago. Poderiam ter alvejado os dois com tiros, tão facil­mente como tinham tirado as fotos de Charlie deslizando na caixa de papelão. Mas Cap queria a menina, e agora acreditava que, se pretendiam ter algum controle real sobre ela, precisavam também do pai.

Depois de localizá-los de novo, o principal objetivo passou a ser assegurar-se de que eles se manteriam calados. Cap não preci­sava de computador para saber que, à medida que Andy ficasse mais assustado, aumentariam as chances de ele procurar ajuda ex­terna. Antes do caso Manders, qualquer coisa que escapasse na imprensa seria resolvida ou controlada. Depois daquele fato, a inter­ferência da imprensa tornou-se um caso completamente diferente. Cap tinha pesadelos só em pensar no que aconteceria se o New York Times tivesse conhecimento de uma história como aquela.

Por um breve período, durante a confusão que se seguiu ao incêndio, Andy poderia ter mandado suas cartas. Mas aparentemente os McGees tinham vivido sua própria confusão. A oportunidade de Andy enviar cartas ou dar telefonemas passara sem ser utilizada... e podia muito bem não ter levado a nada, de qualquer modo. O mundo está cheio de excêntricos hoje em dia, e o pessoal da im­prensa está tão cínico quanto os demais. A profissão deles tornou-se uma ocupação glamourosa. Estão mais interessados no que as estre­las Margaux, Bo e Suzanne e Cheryl fazem. Ë mais seguro. Agora os dois estavam num dilema. Cap tivera o inverno inteiro para con­siderar suas alternativas. Até mesmo no funeral da mulher ele as estudava. Gradativamente, fixou um plano de ação, e agora achava-se preparado para executá-lo. Payson, o homem deles em Bradfotd, informou que o gelo estava prestes a ceder na lagoa Tashmore. E McGee finalmente postara as cartas. Já devia estar impaciente por uma resposta, e talvez começando a suspeitar de que as cartas não tivessem chegado a seu destino. Devia estar se aprontando para mudar; entretanto, Cap gostaria que eles ficassem exatamente onde estavam.

Por baixo das fotos havia um grosso relatório datilografado, mais de trezentas páginas numa capa azul, com as palavras ABSOLU­TAMENTE SECRETO. Onze médicos e psicólogos tinham reunido rela­tórios e planos sob a direção geral do Dr. Patrick Hockstetter, um psicólogo e psicoterapeuta clínico. Na opinião de Cap, ele era uma das dez ou doze maiores inteligências à disposição da Oficina. Con­siderando os oitocentos mil dólares que custara ao contribuinte o relatório completo, ele diria mesmo ser inteligente. Folheando o relatório, Cap imaginava o que Wanless, aquele velho agourento, teria feito com ele.

Sua própria intuição de que precisavam de Andy vivo estava confirmada ali. O postulado em que a equipe de Hockstetter se baseara era a idéia de que todos aqueles talentos que lhes interessavam eram exercidos voluntariamente, tendo como causa primeira a vontade do possuidor... a palavra chave era vontade.

Os talentos da menina, em que a pirocinesia era apenas a pedra de toque, tinham uma tendência a sair do controle ou pular agil­mente por cima das barreiras da sua vontade. Mas o estudo, que incorporava todas as informações disponíveis, indicava que era a própria menina que escolhia se dava ou não andamento às coisas, como fizera na Fazenda Manders, quando percebera que os agentes da Oficina pretendiam matar seu pai.

Folheou a recapitulação da experiência do Lote 6. Todos os gráficos e leituras de computador concluíam sempre a mesma coisa: vontade como causa primeira.

Usando a vontade como base para tudo, Hockstetter e seus colegas tinham estudado um espantoso catálogo de drogas, antes de se decidirem por Torazina para Andy e por uma nova droga cha­mada Orazina para a menina. Setenta páginas de jargão burocrático do relatório levavam à conclusão de que as drogas os fariam se sentir aéreos, sonhadores, vagos. Nenhum deles seria capaz de con­trolar suficientemente a própria vontade para escolher entre choco­late escuro ou branco, quanto mais iniciar incêndios ou convencer pessoas de estarem cegas ou qualquer outra coisa. Poderiam manter Andy McGee constantemente drogado. Não tinham um uso concreto para ele; tanto o relatório com a intuição de Cap sugeriam que ele era um caso terminal, um caso liquidado. A menina é que lhes inte­ressava. Dêem-me seis meses, pensava Cap, e nos bastará. Exata­mente o suficiente para mapear o terreno dentro daquela estranha cabecinha. Nenhum subcomitê da Câmara ou do Senado seria capaz de resistir à promessa de poderes psíquicos induzidos, e às enormes implicações que eles teriam na corrida armamentista, se aquela me­nina tivesse até mesmo a metade dos poderes que Wanless suspei­tava que tivesse.

E havia outras possibilidades. Não estavam no relatório de capa azul por serem por demais explosivas mesmo para um DOCUMENTO SECRETO. Hockstetter, cada vez mais excitado à medida que o qua­dro tomava forma diante dele o do seu comitê de peritos, mencio­nara uma dessas possibilidades a Cap havia apenas uma semana.

— Esse fator Z — disse Hockstetter. — Você considerou algu­mas das implicações que poderão advir se se descobrir que essa criança não é uma híbrida, mas uma genuína mutação?

Cap já pensara nisso, embora nada dissesse a Hockstetter. Le­vantara a interessante questão da eugenia.., a questão potencialmente explosiva da eugenia, com as suas persistentes conotações de nazismo e raças superiores, que os americanos tinham combatido na Segunda Guerra Mundial. Mas uma coisa era perfurar um poço filosófico e produzir um jato de bosta na intenção de usurpar o poder de Deus, e outra coisa muito diferente era obter uma com­provação laboratorial de que os filhos das pessoas submetidas ao Lote 6 podiam ser tochas humanas, levitadores, telepatas ou sabe Deus o que mais. Era fácil manter os ideais enquanto não houvesse sólidos argumentos para derrubá-los. E se houvesse, o que aconte­ceria? Fazendas de criação de seres humanos? Por mais louca que tal coisa parecesse, Cap podia visualizá-la. Poderia ser a chave de tudo. Paz mundial ou dominação mundial, e quando a gente se livrava daqueles espelhos falsos da retórica bombástica, não eram ambas a mesma coisa?

Era uma lata inteira de vermes. As possibilidades estendiam-se por doze anos no futuro. Cap sabia que o máximo com que realisti­camente poderia contar era um período de seis meses, talvez o sufi­ciente para fazer um plano de ação: estudar o terreno onde os trilhos seriam colocados e o trem iria rodar. Seria o seu legado ao país e ao mundo. Comparada a isso, a vida de um professor fugitivo e de sua filha esfarrapada era menos do que poeira ao vento.

A menina não poderia ser testada e observada com qualquer grau de validade se estivesse constantemente drogada, mas o pai seria uma coisa secundária, não imprescindível. E nas poucas oca­siões em que quisessem fazer testes com ele, valeria o reverso. Era simplesmente um sistema de alavancas. E como Arquimedes obser­vara, uma alavanca longa o bastante moveria o mundo.

O interfone tocou.

— John Rainbird está aqui — disse a nova secretária. Seu habitual tom suave de recepcionista era transparente o bastante para revelar o medo subjacente.

Por esse eu não vou censurá-la, brotinho, pensou Cap.

— Mande-o entrar, por favor.

 

O mesmo Rainbird de sempre.

Entrou lentamente, vestindo um casaco de couro marrom liso sobre uma camisa xadrez desbotada. Velhas e gastas sapatrancas apareciam por debaixo da bainha dos seus jeans desbotados, de per­nas retas. O cocuruto da sua enorme cabeça parecia quase roçar o teto. O aspecto de sangue coagulado na órbita vazia fez Cap estre­mecer por dentro.

— Cap — disse ele, sentando-se —, estive tempo demais no deserto.

— Ouvi falar da sua casa em Flagstaff — disse Cap — e da sua coleção de sapatos.

John Rainbird apenas o fitou sem pestanejar, com o olho são.

— Como é possível que eu nunca o veja com outra coisa que não sejam essas chuteiras? — perguntou Cap.

Rainbird sorriu de leve e nada disse. O velho mal-estar invadiu Cap, que cogitava de novo em quanto Rainbird saberia, e por que isso o aborrecia tanto.

—        Tenho uma tarefa para você — disse ele.

—        Ótimo. Será que eu quero?

Cap olhou para ele surpreso, pensativo, e então disse:

—        Acho que sim.

—Então fale, Cap.

Cap delineou o plano que traria Andy e Charlie McGee a Longmont. Não precisou de muito tempo.

—        Você sabe usar a pistola? — perguntou, depois de ter ter­minado.

—        Posso usar qualquer pistola. E o seu plano é bom. Vai ser bem sucedido.

— Você é muito gentil de me dar sua aprovação — disse Cap. Pretendia uma leve ironia, mas só conseguiu parecer petulante. Que aquele homem se danasse, era o que ele queria.

— E eu dispararei a pistola — disse Rainbird. — Com uma condição.

Cap levantou-se, pousou as mãos na mesa, que estava coberta com o material do relatório de McGee, e inclinou-se na direção de Rainbird.

—        Não — disse ele. — Você não me impõe condições.

—        Dessa vez, sim. Mas você vai achá-la fácil de cumprir, eu penso.

—        Não — repetiu Cap. Subitamente o coração bateu-lhe no peito como um martelo, embora não soubesse se era de medo ou de raiva. — Ë um mal-entendido da sua parte. Eu sou encarregado desta repartição e destas instalações. Sou seu superior. Acho que você passou bastante tempo no exército para compreender o con­ceito de oficial superior.

—        Sim — disse Rainbird, sorrindo. — Eu torci o pescoço de um ou dois, nos meus tempos. Uma vez diretamente por ordens da Oficina. Suas ordens, Cap.

—        Isso é uma ameaça? — gritou Cap. Uma parte dele estava consciente de que reagia exageradamente, mas parecia incapaz de se controlar. — Vá para o diabo, isso é uma ameaça? Se é, acho que você perdeu completamente o juízo. Se eu decidir que não quero que você saia deste edifício, basta-me apertar um botão! Existem trinta homens que sabem atirar com essa arma.

—        Mas nenhum sabe dispará-la com a segurança deste negro vermelho zarolho. — Seu tom amável não se alterara. — Você pensa que já os tem na mão, Cap, mas eles são como fogo-fátuo. Os deuses, sejam quais forem, podem não querer que você os pegue. Podem não querer que você os coloque lá nas suas salas diabólicas e vazias. Você já pensou que os tinha agarrado antes. — Apontou para o material do fichário amontoado no carrinho da biblioteca e depois para o relatório de capa azul. — Eu li esse material, e li o relatório do seu Dr. Hockstetter.

—        Diabos, você leu! — exclamou Cap, mas podia ver a verda­de no rosto de Rainbird. Ele lera. De algum modo, lera. Quem lho teria dado? Quem?

—        Ah, sim! — disse Rainbird. — Eu tenho o que quero, quando eu quero. As pessoas me dão. Acho.., que deve ser por causa do meu lindo rosto. — Abriu um sorriso que de repente se tornou terrivelmente predatório. O olho bom rolava-lhe na órbita.

—        O que é que você está me dizendo? — perguntou Cap. Sentia necessidade de um copo de água.

—        Apenas que fiquei muito tempo passeando no Arizona e cheirando os ventos que sopram.., e para você, Cap, o cheiro é amargo como o vento de um charco de álcalis. Tive tempo de ler muito e de pensar muito. E penso que talvez eu seja o único homem em todo o mundo capaz de trazer aqueles dois até aqui. E talvez seja eu o único homem em todo o mundo capaz de fazer alguma coisa com a menininha, quando ela estiver aqui. Seu gordo relatório, sua Torazina e sua Orazina. . . talvez haja mais coisas neste caso do que essas que as drogas podem resolver. Mais perigos do que você imagina.

Ouvir Rainbird era o mesmo que ouvir o fantasma de Wanless, e Cap estava com tanto medo e tanta fúria que nem conseguia falar.

—        Vou fazer tudo isso — disse Rainbird gentilmente. — Vou trazê-los aqui, e você fará todos os seus testes. — Parecia um pai dando permissão ao filho para brincar com um brinquedo novo. —Com a condição de você me entregar a menina, para eu a eliminar quando você tiver acabado com o que lhe interessa nela.

—        Você está louco — sussurrou Cap.

—        Você tem toda a razão — disse Rainbird, rindo. — E você também está completamente louco. Você fica aí sentado e faz planos para controlar uma força acima da sua compreensão. Uma força que pertence só aos próprios deuses. . . e àquela meninazinha.

—        E o que me impedirá de eliminar você? Aqui mesmo e agora?

—        Dou-lhe a minha palavra — disse Rainbird — de que, se eu desaparecesse, correria pelo país, dentro de um mês, uma tal onda de choque, de irritação e indignação que, em comparação, Watergate pareceria o furto de uma jujuba de um centavo. Dou-lhe a mi­nha palavra de que, se eu desaparecer, a Oficina deixara de existir dentro de seis semanas, e que dentro de seis meses você estará diante de um juiz que o sentenciará por crimes graves o bastante para mantê-lo por trás das grades pelo resto da vida. — Sorria novamente, mostrando seus dentes tortos como lápides. — Não duvide de mim, Cap. Meus dias nesta vinha fétida e pútrida foram longos, e a vindima teria que ser de fato amarga.

Cap tentou rir. O que saiu foi um resmungo estrangulado.

—        Durante mais de dez anos fui guardando minhas nozes e forragens — disse Rainbird —, como um animal que conheceu o inverno e se lembra dele. Eu tenho uma tal coleção, Cap, fotos, cassetes, cópias xerox de documentos, que faria gelar o sangue do nosso bom amigo público.

—        Nada disso é possível — disse Cap, mas ele sabia que Rain­bird não estava blefando, e sentiu como se uma invisível mão fria lhe fizesse pressão no peito.

—        Ah, é possível, sim! — disse Rainbird. — Nos últimos três anos mantive-me num estado de recolhimento de informações, por­que nos últimos três anos pude usar o seu computador sempre que quis. Num regime de co-participação de tempo, naturalmente, é dis­pendioso, mas eu pude pagar. Meus salários foram muito bons, e, com investimentos, cresceram. Eu estou de pé diante de você, Cap, ou sentado, o que é a realidade, embora menos poético, como um exemplo triunfante da livre empresa americana em ação.

—        Não!

—        Sim. Eu sou John Rainbird, mas também sou o Departa­mento de Aprendizagem Geológica dos Estados Unidos. Verifique se quiser. Meu código no computador é AXON. Verifique os códigos de participação de tempo no seu terminal principal. Tome o eleva­dor, eu esperarei. — Rainbird cruzou as pernas, e a bainha da perna direita de sua calça se virou, revelando um rasgão e uma saliência na costura de um dos sapatos. Parecia um homem capaz de esperar por séculos, se necessário.

A mente de Cap era um turbilhão.

—        Acesso ao computador num regime de co-participação de tempo.., é possível. Mas ainda assim você não poderia ficar por dentro...

—        Vá ver o Dr. Noftzieger — disse Rainbird amavelmente. —Pergunte-lhe quantas maneiras há de desviar informações de um computador quando se tem acesso a ele num regime de co-partici­pação de tempo. Há dois anos um inteligente garoto de doze anos ligou-se ao computador da USC *, E por falar nisso, eu conheço o seu código de acesso, Cap. Ë BROW, este ano. No ano passado era RASP *, Achei esse muito mais apropriado.

Cap sentou-se e olhou para Rainbird. Sua mente se dividira, parecia-lhe que se transformara num circo de três picadeiros. Parte dela se maravilhava por nunca ter ouvido John Rainbird dizer tanta

 

* Código dos Estados Unidos. (N. da T.)

* “Raspar”, “irritar”. (N. da T.)

 

coisa de uma só vez; outra tentava admitir a idéia de que esse maníaco ­conhecia todos os casos da Oficina. Uma terceira parte lem­brava toda praga chinesa, uma praga que parecia enganosamente agradável, até a pessoa se sentar para realmente pensar a respeito dela. Que você viva tempos interessantes. No último ano e meio vivera tempos extremamente interessantes. Sentia que bastava ape­nas mais uma coisa interessante para ele ficar totalmente insano.

       Então pensou novamente em Wanless com um horror monó­tono, incipiente. Sentia quase como se... como se... ele estivesse se transformando em Wanless. Estava assediado por demônios por todos os lados, mas desamparado para lutar contra eles ou até mes­mo para solicitar ajuda.

       — O que é que você quer, Rainbird?

       — Já lhe disse, Cap. Só quero a sua palavra de que o meu envolvimento com essa menina, Charlene McGee, não vai terminar com a pistola, mas começar com ela. Eu quero... — O olho de Rainbird escureceu e ficou pensativo, taciturno, introspectivo. — Quero conhecê-la intimamente.

       Cap olhou para ele estarrecido de horror.

       Rainbird logo compreendeu e sacudiu a cabeça com desprezo para Cap.

         — Não dessa intimidade. Não no sentido bíblico. Mas quero conhecê-la. Ela e eu vamos ser amigos, Cap. Se ela for tão poderosa como tudo indica, ela e eu vamos ser grandes amigos.

       Cap produziu um som de humor, não um riso exatamente; era mais um som estrídulo, uma risadinha.

       A expressão de desprezo do rosto de Rainbird não se alterou.

       — Não, certamente você pensa que não será possível. Você olha para mim e vê um monstro. Olha para as minhas mãos e as vê cobertas do sangue que você me mandou derramar. Mas eu lhe digo, Cap, que isso vai acontecer. A menina não tem tido amigos nos últimos dois anos. Teve o pai, e foi só. Você a vê como vê a mim. Essa é a grande falha. Você olha e vê um monstro. Só que, no caso da menina, você vê um monstro útil. Talvez por você ser um homem branco. Os brancos vêem monstros em toda parte. Os bran­cos olham para os seus próprios pênís e vêem monstros. — Rainbírd riu de novo.

       Cap começou afinal a se acalmar e a pensar sensatamente.

       — Por que deveria eu permitir-lhe isso, mesmo sendo verdade tudo o que você diz? Seus dias estão contados, como nós dois sabe­mos. Você esteve perseguindo sua própria morte durante vinte anos. Tudo o mais foi casual, apenas um hobby. Você vai descobrir isso muito em breve. E depois tudo termina para nós. Portanto, por que deveria eu lhe dar o prazer de ter o que você quer?

       — Talvez seja como você diz. Talvez eu tenha perseguido a minha própria morte, uma frase mais brilhante do que eu esperaria de você, Cap. Talvez você devesse invocar com mais freqüência o temor de Deus.

—        Você não é a minha idéia de Deus.

Rainbird riu.

—        Mais parecido com o Demônio cristão, certamente. Mas vou lhe dizer uma coisa: se realmente eu tivesse estado caçando a minha própria morte, acho que a teria encontrado muito antes. Talvez eu a tenha perseguido de brincadeira. Mas não tenho desejo algum de abatê-lo ou à Oficina, ou ao serviço secreto dos Estados Unidos. Não sou idealista. Só quero a menininha. E talvez você descubra que precisa de mim. Talvez você descubra que sou capaz de realizar coisas de que todas as drogas do gabinete do Dr. Hockstetter não são capazes.

—        E em troca?

—        Quando o caso dos McGees terminar, o Departamento de Aprendizagem Geológica dos Estados Unidos deixará de existir. Seu chefe de computação, Noftzieger, vai poder mudar todas as suas codificações. .E você, Cap, voará para o Arizona comigo num avião comercial. Desfrutaremos de um bom jantar no meu restaurante favorito em Flagstaff e depois iremos para a minha casa, e atrás dela, no deserto, faremos uma fogueira particular e queimaremos uma grande quantidade de papéis, fitas e filmes. Até lhe mostrarei a minha coleção de sapatos, se você quiser.

Cap pensou no assunto. Rainbird dava-lhe tempo. Continuava calmamente sentado.

Finalmente Cap disse:

—        Hockstetter e os colegas dele sugerem que talvez sejam necessários dois anos para vencer completamente a resistência da menina. Depende da profundidade das suas inibições protetoras.

—        E você estará fora disso em quatro ou seis meses.

Cap sacudiu os ombros.

Rainbird tocou no lado do nariz com o indicador e virou a cabeça, num gesto grotesco de conto de fadas.

—        Acho que podemos mantê-lo no seu posto muito mais tempo do que isso, Cap. Entre nós dois, sabemos onde centenas de corpos estão enterrados, tanto no sentido literal como no figurado. E du­vido que sejam necessários anos. No fim, nós dois alcançaremos o que desejamos. O que me diz?

Cap pensou no que ouvia. Sentia-se velho e cansado, completa­mente à deriva.

—        Acho que você fez um pacto consigo mesmo.

—        Muito bem — disse Rainbird bruscamente. — Eu serei o faxineiro da menina, espero. E de modo nenhum serei uma pessoa no esquema estabelecido. Será importante para ela. E naturalmente ela nunca saberá que fui eu quem disparou a pistola. Isso seria um dado perigoso, não é? Muito perigoso.

—        Por quê? — disse Cap finalmente. — Por que você se es­tendeu a toda essa insanidade?

—        Parece insano? — perguntou Rainbird suavemente. Le­vantou-se e pegou uma das fotografias da mesa de Cap. Era a de Charlie escorregando na rampa de neve crestada, na caixa de pape­lão achatada, rindo.

— Nós todos guardamos nossas nozes e nossa forragem para o inverno nesse negócio, Cap. Hoover* assim o fez. Assim fizeram os diretores da CIA em grande escala.. Assim fez você, ou já estaria aposentado agora. Quando comecei, Charlene McGee ainda não tinha nascido, e eu estava apenas me defendendo na vida.

—        Mas por que a menina?

Rainbird não respondeu durante muito tempo. Olhava cuida­dosamente para a fotografia, quase com ternura. Tocou-a.

—        Ela é muito bonita. É muito jovem. No entanto, dentro dela existe o seu fator Z. O poder dos deuses. Eu e ela seremos íntimos. — Seu único olho tinha uma expressão sonhadora. — Sim, muito íntimos.

 

* Ex-chefe da CIA. (N. da T.)

 

Num dilema

No dia 27 de março, Andy McGee decidiu abruptamente que não deviam continuar em Tashmore. Tinham se passado mais de duas semanas desde que pusera as cartas no correio, e se alguma coisa pudesse resultar delas, já teria acontecido. O próprio silêncio permanente em torno do sítio do avô o angustiava. Imaginava que ele talvez tivesse sido simplesmente abandonado, sem mais nem menos, como pessoa demente, mas... não acreditava nisso.

Acreditava, sim, naquilo que sua mais profunda intuição lhe sussurrava, que as cartas tinham sido desviadas, de algum modo.

O que significaria que eles sabiam onde ele e Charlie estavam.

— Nós vamos partir — disse a Charlie. — Vamos juntar nossas coisas.

Ela apenas olhou para Andy com olhos atentos, ligeiramente assustados, e nada disse. Não lhe perguntou para onde iam, nem o que fariam, o que o deixou nervoso. Encontrara num dos escaninhos duas malas velhas, com decalques colados, de antigas férias em Grand Rapids, Niagara Falls, Miami Beach, e os dois começaram a escolher o que levariam e o que deixariam.

Os raios brilhantes e ofuscantes do sol atravessavam as vidra­ças do lado leste da casa.

A água pingava e gorgolejava nas calhas. Na noite anterior, ele quase não dormira; o gelo derretia, e ele ficara deitado, desper­to, escutando aquele som agudo, etéreo, e de certo modo soturno do gelo amarelado e velho estalando e descendo em lento movi­mento em direção ao desfiladeiro do lago, onde o rio Great Hancock corria para leste através de New Hampshire e todo o Maine, tor­nando-se cada vez mais fétido e poluído até vomitar, barulhento e pútrido, no Atlântico. O som era como o de uma prolongada nota cristalina, talvez como o de um arco tocando sem parar uma corda aguda de violino, um constante zzziiinnnggg aflautado que se insta­lava nos terminais nervosos e os fazia vibrar. Nunca antes estivera ali nessa época de degelo, e duvidava que desejasse algum dia estar outra vez. Havia alguma coisa de terrível e sobrenatural nesse som, quando vibrava entre as paredes silenciosas de sempre-verdes na­quela baixa e erodida depressão nas colinas.

Andy sentia que eles estavam de novo muito perto, como o monstro apenas entrevisto num pesadelo. No dia seguinte ao do aniversário de Charlie, numa de suas caminhadas com os esquis de campo amarrados desconfortavelmente nos pés, defrontara-se com uma fileira de pegadas de botas para neve que iam até uma bétula alta. Havia buraquinhos na crosta, pontos onde as botas deviam ter sido tiradas e jogadas dentro da neve. A neve estava revolta no local em que o dono das botas as amarrara de novo (canoas de lama, como seu avô sempre as chamava, considerando-as com desprezo por alguma razão pessoal e desconhecida). Na base da árvore Andy encontrara seis pontas de cigarro e a embalagem vazia, amarela e amassada de um filme fotográfico. Mais aflito do que nunca, tirara os esquis e subira à árvore. A meia altura, percebeu que dali se avistava a casa do avô, a um quilômetro e meio de dis­tância. Era pequena e, aparentemente, estava vazia. Mas com uma teleobjetiva...

Não mencionou seu achado a Charlie.

As malas estavam prontas. O permanente silêncio dela força­va-o a falar nervosamente, como se ela, ao não dizer nada, o esti­vesse acusando.

— Vamos pedir uma carona até Berlin — disse ele. — E então apanharemos um ônibus Greyhound de volta para Nova York. Vamos aos escritórios do New York Times...

— Mas, papai, você mandou uma carta para eles.

— Querida, eles podem não a ter recebido.

Ela olhou para ele em silêncio por um momento e disse:

— Você acha que eles a apanharam?

— De certo modo n... — Sacudiu a cabeça e recomeçou a falar. — Charlie, não sei de nada.

Charlie não respondeu. Ajoelhou-se, fechou uma das malas e começou a lutar desajeitada e ineficientemente com os fechos.

— Deixe-me ajudá-la, querida.

— Eu sei fazer isso — gritou ela, e desatou a chorar.

— Charlie, não faça isso. Por favor, querida. Tudo está acabado.

— Não, não está — disse ela, chorando ainda mais. — Nunca vai acabar.

Havia bem uma dúzia de agentes em torno da casa do avô McGee. Tinham tomado suas posições na noite anterior. Todos estavam disfarçados em roupas mosqueadas de branco e verde. Ne­nhum deles estivera na Fazenda Manders, e ninguém estava arma­do, a não ser John Rainbird, que levava uma espingarda, e Don Jules, que portava uma pistola 22.

— Não vou me arriscar a que alguém entre em pânico por causa do que aconteceu lá em Nova York — dissera Rainbird a Cap. — Aquele Jamieson ainda parece ter os testículos pendurados nos joelhos.

Do mesmo modo, ele não queria ouvir falar de agentes arma­dos. As coisas têm um jeito de acontecer, e ele não queria sair daquela diligência com dois cadáveres. Escolheu a dedo todos os agentes, e o designado para pegar Andy foi Don Jules. Jules era pequeno, tinha por volta de trinta anos, era calado e taciturno. Rainbird sabia por que Jules tinha sido escolhido para trabalhar com ele mais de uma vez. Era rápido e prático. Não atrapalhava nos momentos críticos.

— Durante o dia McGee sairá alguma vez — dissera-lhes Rainbird quando dera as instruções. — A menina em geral sai, mas McGee sai sempre. Se ele sair sozinho, eu o atinjo. Jules o agarra e o retira rapidamente da vista, em silêncio. Se a menina vier para fora sozinha, a mesma coisa. Se saírem juntos, eu apanho a menina, e Jules, McGee. Os outros ficam apenas na expectativa, vocês com­preenderam? — O olho de Rainbird brilhava por cima deles. —Vocês ficam aqui para o caso de acontecer algo errado, e é só. Naturalmente, se alguma coisa sair errada, quase todos vocês irão correndo para o lago com as calças pegando fogo. Vocês estão aqui para o caso, numa chance em cem, de acontecer alguma coisa que vocês possam consertar. Naturalmente, fica entendido que vocês também estão aqui como observadores e testemunhas, se eu me estrepar.

Com isso, soltara um risinho discreto e nervoso.

Rainbird levantara um dedo.

— Se algum de vocês entrar mal no negócio e fizer um gesto precipitado, eu me encarregarei pessoalmente de enviá-los para a mais miserável selva da América do Sul que eu puder encontrar, com um furo no traseiro. Podem crer, senhores. Vocês são figuran­tes no meu show. Lembrem-se disso.

Posteriormente, no seu campo de operações, num motel aban­donado em St. Johnsbury, Rainbird chamou Jules de lado.

— Você leu a ficha desse homem? — perguntou Rainbird.

Jules estava fumando.

— Li.

— Você sabe o que é dominação mental?

— Sim.

— Você compreendeu o que aconteceu aos dois homens em Ohio? Os homens que tentaram tirar-lhe a filha?

— Eu trabalhei com George Waring — disse Jules, indiferen­te. — Aquele era capaz de queimar a água ao fazer chá.

— Para esse homem isso não é tão incomum. Mas uma coisa precisa ficar bem clara: você terá de ser muito rápido.

— Sim, OK.

— Ele teve um inverno inteiro para descansar. Se tiver tempo de lhe dar um impulso, você será um bom candidato a passar os próximos três anos de sua vida num quarto acolchoado, pensando que é um pássaro, um nabo ou coisa que o valha.

— Tudo bem.

— Tudo bem o quê?

— Vou ser rápido. Fique tranqüilo, John.

— Ë muito provável que saiam juntos — disse Rainbird sem lhe dar atenção. — Você vai ficar por trás do canto da varanda, fora da vista de quem sair pela porta. Espere eu pegar a menina. O pai irá na direção dela. Você estará por trás dele. Golpeie-o na nuca.

— Certo.

— Não falhe, Don!

Jules sorriu ligeiramente, deu uma baforada e disse:

— Não falharei.

 

As malas estavam prontas. Charlie vestiu o casacão e as calças de neve. Andy enfiou sua jaqueta, puxou o zíper e apanhou as malas. Não se sentia bem. Estava excitado. Uma de suas premonições.

— Você também está sentindo isso, não é? — perguntou Charlie. Seu rosto miúdo estava pálido e inexpressivo.

Relutantemente, Andy concordou com a cabeça.

Que faremos?

     — Esperemos que a sensação seja um pouco prematura — disse ele, embora no íntimo não sentisse isso. — Que mais pode­mos fazer?

— Que mais podemos fazer? — repetiu ela como um eco.

Ela aproximou-se de Andy e levantou os braços para que ele a pusesse no colo, coisa que não fazia havia muito tempo, que ele se lembrasse, talvez dois anos. Ë espantoso como o tempo passa, com que rapidez uma criança pode mudar diante dos olhos da gente com uma discrição quase terrível.

Ele pousou as malas, levantou-a no colo e afagou-a. Ela beijou-o na face e abraçou-o novamente bem apertado.

— Você está pronta? — perguntou ele, pousando-a no chão.

— Acho que sim — disse Charlie. Estava quase chorando de novo. — Papai, eu não vou provocar incêndios. Nem mesmo se eles chegarem antes de a gente poder sair.

— Sim — respondeu ele. — Está muito bem, Charlie, eu compreendo.

     — Eu gosto de você, papai! Ele concordou com a cabeça.

— Eu também gosto de você, querida.

Andy foi até a porta e abriu-a. Por um momento, a luz do sol era tão brilhante que ele nada podia ver. Suas pupilas se contraíram e o dia ficou claro diante dele, brilhante com a neve que se derretia. A sua direita estava a lagoa Tashmore, ofuscante, com placas irre­gulares de água azul surgindo entre os pedaços flutuantes de gelo. Bem em frente, bosques de pinheiros. Através deles ele mal podia ver o telhado verde de tabuinhas da cabana vizinha, livre de neve, afinal.

Os bosques estavam silenciosos, e a sensação de inquietação de Andy intensificou-se. Onde estava o canto dos pássaros que os sau­dava todas as manhãs, desde que a temperatura começara a subir? Nenhum pássaro cantava, nesse dia.., só se ouvia o pingo da neve derretendo dos galhos das árvores. Desejou desesperadamente que seu avô tivesse mandado instalar um telefone ali. Teve que contro­lar a necessidade premente de gritar Quem está aí? com toda a força dos pulmões. Mas isso só assustaria mais Charlie.

— Tudo parece bem — disse Andy. — Acho que ainda esta­mos na dianteira deles.., se é que vão mesmo vir.

— Que bom! — disse ela sem expressão.

— Vamos até a estrada, menina — disse Andy, e pensou pela centésima vez: Que mais se pode fazer? e novamente pensou em como os odiava.

Charlie atravessou a sala na direção dele, passando pelo escorre­dor cheio de pratos que tinham lavado naquela manhã depois do café. Toda a casa estava exatamente como a tinham encontrado, perfeitamente em ordem. O avô teria ficado contente.

Andy passou o braço pelos ombros de Charlie e deu-lhe mais um rápido abraço. Apanhou as malas, e os dois saíram juntos ao sol da primavera incipiente.

 

John Rainbird estava a meia altura de uma grande bétula a uma distância de cento e cinqüenta metros. Usava pontas de ferro nos pés e um cinto de segurança que o mantinha firme contra o tronco da árvore. Quando a porta da casa de campo se abriu, colo­cou a espingarda no ombro e firmou-a bem. Uma calma total o cobriu como uma capa de confiança. Tudo se tornou surpreendente-mente claro diante do seu único olho bom. Desde que perdera o outro olho, sua percepção visual em profundidade fora perturbada, mas em momentos de extrema concentração, como aquele, sua anti­ga visão clara voltava; era como se o olho destruído pudesse se recuperar por breves intervalos.

Não seria um tiro a grande distância, e ele não desperdiçaria um instante de preocupação se fosse com uma bala que ele tencionas­se atravessar o pescoço da menina, mas ele estava lidando com algo muito mais delicado, uma coisa que aumentava dez vezes o elemento risco. Fixada dentro do tambor de sua espingarda, havia uma flecha cuja ponta tinha uma ampola de Orazina, e àquela distância haveria sempre a possibilidade de ela cair ou desviar-se. Felizmente, quase não havia vento naquele dia.

Se for a vontade do Grande Espírito e dos meus ancestrais, rezava Rainbird em silêncio, guiai minhas mãos e meu olho para que o tiro seja certeiro.

A menina saiu com o pai ao seu lado: Jules teria o seu papel, portanto. Vista pela lente telescópica a menina parecia tão grande como uma porta de celeiro. Seu casacão de neve azul-brilhante destacava-se contra as tábuas gastas da casa de campo. Por um se­gundo, Rainbird notou as malas nas mãos de McGee, e compreen­deu que eles tinham chegado na hora certa.

O capuz da menina estava abaixado, e o zíper fora puxado só até o peito, de modo que o casaco abria-se ligeiramente no pescoço. O dia estava morno, e isso também o favorecia.

Ele preparou o gatilho e mirou os fios do retículo na base da garganta dela.

Se for da vontade...

Apertou o gatilho. Não houve explosão, apenas um som oco e uma pequena espiral de fumaça que saíram da culatra da espingarda.

 

Estavam na borda dos degraus quando Charlie parou de repen­te e emitiu um som abafado. Andy deixou cair as malas imediata­mente. Nada ouvira, mas havia alguma coisa terrivelmente errada. Alguma coisa mudara em Charlie.

— Charlie? Charlie?

Ele a olhava fixamente. Charlie estava tão quieta como uma estátua, incrivelmente bonita contra o brilhante campo de neve. Incrivelmente pequena. E subitamente ele percebeu qual fora a mudança. Era tão fundamental, tão horrível, que ele não fora capaz de compreendê-la de início.

Uma espécie de agulha, longa, estava espetada na garganta de Charlie, logo abaixo do pomo-de-adão. Com a mão enluvada, ela tateara, encontrara-a e virara-a num ângulo novo, grotesco, voltado para cima. Um fino fio de sangue começava a fluir da ferida, escor­rendo pelo lado da garganta. Uma flor de sangue pequena e delicada manchou a gola de sua blusa e apenas tocou a borda de pelúcia que rodeava o zíper do seu casaco de neve.

— Charlie!

Ele pulou para a frente e agarrou-lhe o braço no momento em que os olhos dela reviravam e ela mergulhava no chão. Andy deixou-a cair na varanda, gritando-lhe o nome repetidas vezes. A flecha em sua garganta brilhava, cintilante, ao sol. Seu corpo parecia frouxo, sem ossos, como se fosse uma coisa morta. Ele pegou-a, ninou-a e dirigiu o olhar para os bosques ensolarados, que pareciam tão vazios e onde não havia pássaros cantando.

—        Quem fez isso? — exclamou ele. — Quem fez isso? Apa­reça para que eu possa ver!

Don Jules saiu de trás do canto da varanda. Usava tênis. Segurava a pistola 22 na mão.

—        Quem atirou na minha filha? — gritava Andy. Alguma coisa em sua garganta vibrava dolorosamente com a força do grito. Ele segurava Charlie contra si; ela estava terrivelmente mole, era como se não tivesse ossos, dentro de seu casaco de neve azul. Os dedos de Andy dirigiram-se para a flecha e retiraram-na, fazendo escorrer um novo fio de sangue.


     Leve-a para dentro, pensou ele. Tem de levá-la para dentro. Jules aproximou-se e golpeou-o na nuca, mais ou menos como o ator Booth atirara no presidente Lincoln. Por um momento Andy ergueu-se nos joelhos num movimento súbito, apertando Charlie ainda mais contra si. Depois caiu para a frente por cima dela.

Jules olhou para ele de perto, em seguida acenou para os homens nos bosques.

“Uma barbada”, disse consigo mesmo, enquanto Rainbird se aproximava da casa de campo pela neve derretida e pegajosa do final de março.

“Uma barbada. Por que então esse espalhafato todo?”

 

O “blackout”

A cadeia de eventos que culminou naquela destruição e perda de vidas começou com uma tempestade de verão e o enguiço de dois geradores.

A tempestade ocorreu no dia 19 de agosto, quase cinco meses depois que Andy e Charlie foram apanhados na casa de campo do avô dele, em Vermont. Durante dez dias o tempo estivera úmido e parado. Naquele dia de agosto, nuvens pesadas começaram a se acumular pouco depois do meio-dia, mas ninguém que trabalhava nos terrenos das duas bonitas casas coloniais que se defrontavam, separadas por um extenso gramado ondulado e canteiros de flores bem-tratados, acreditou que aquelas nuvens prenunciavam tempes­tade; nem tampouco os homens montados nos seus carrinhos de cortar grama, nem a mulher encarregada das subseções A-E do computador (bem como a moça do café da sala do computador), que pegou durante a hora de almoço um dos cavalos e galopou gostosamente ao longo das pistas de equitação; e certamente nem Cap, que comia um sanduíche enorme no seu gabinete com ar-con­dicionado, enquanto se dedicava à elaboração do orçamento do ano seguinte, esquecido do calor e da umidade do lado de fora.

No complexo da Oficina em Longmont, nesse dia, talvez a única pessoa convencida de que realmente iria chover era aquela que tinha chuva no nome*. O enorme índio chegara de carro às doze e trinta; estava adiantado, só marcaria o ponto à uma hora. Os ossos e o oco do olho esquerdo doíam-lhe quando ia chover.

Dirigia um Thunderbird muito velho e enferrujado com um D em decalque no pára-brisa, que indicava a sua área de estaciona­mento. Vestia um uniforme branco. Antes de sair do carro, colocou uma venda bordada sobre a órbita vazia. Usava-a quando estava a trabalho por causa da menina, mas só nessa ocasião. Incomodava-o. A venda era a única coisa que o fazia lembrar-se do olho perdido.

 

*Referência a Rainbird. “Rain” significa “chuva”. (N. do E.)

 

Havia quatro áreas de estacionamento dentro do enclave da Oficina. O carro pessoal de Rainbird, um Cadillac novo, amarelo, movido a óleo diesel, trazia um decalque A. A área A era do esta­cionamento vip, localizado no ponto mais ao sul das duas casas antigas de fazenda. Um túnel subterrâneo ligava a área vip direta­mente à sala do computador, às salas de chefia, à grande biblioteca da Oficina e às salas de informações, e naturalmente aos aposentos dos visitantes, um nome indefinido para o complexo de laboratórios e apartamentos próximos onde Charlie McGee e seu pai se achavam sob guarda.

A área B era destinada a funcionários do segundo escalão e ficava mais distante. A área C do estacionamento era para secretá­rias, mecânicos, eletricistas e semelhantes, e ficava ainda mais distante. A área D era para os funcionários não especializados, os “figurantes”, como dizia o próprio Rainbird. Ficava a cerca de oito­centos metros de qualquer coisa e estava sempre repleta de uma triste coleção de ferros velhos de Detroit, a um passo da pista de corrida de carros comuns de Jackson Plains.

A hierarquia burocrática do mais forte, pensou Rainbird en­quanto fechava o seu desconjuntado Thunderbird, virando a cabeça para olhar os cúmulos precursores de trovoada. A tempestade aproximava-se. Chegaria lá pelas quatro horas, calculava ele.

Começou a andar na direção da pequena cabana lá no fundo, agradavelmente cercada por um bosque de árvores de folhas perma­nentes, onde os empregados de baixo nível, das classes V e VI, batiam o cartão de ponto. A roupa branca de Rainbird voava ao redor do seu corpo. Um jardineiro passou raspando por ele num dos doze ou mais cortadores de grama motorizados do departamento de conservação do local. Um guarda-sol alegremente colorido vogava acima do jardineiro, que não deu a menor atenção a Rainbird; isso também fazia parte da hierarquia burocrática do mais forte. Para alguém da classe IV, a classe V nem existia, era invisível. Nem mesmo o rosto meio destruído de Rainbird provocava comentários; como todas as repartições do governo, a Oficina contratava bastan­tes veteranos para melhorar sua imagem. Max Factor pouco tinha a ensinar ao governo dos Estados Unidos a respeito de cosméticos. E nem era preciso dizer que um veterano com algum defeito visível, um braço artificial, numa cadeira de rodas motorizada ou com o rosto desfigurado, valia por três outros de aspecto normal. Rainbird conhecia homens que tinham ficado com a sua mente e as faculdades tão prejudicadas quanto o própria rosto dele, devido à Guerra do Vietnam, e que ficariam felizes se encontrassem um emprego para trabalhar em televisão. Mas eles não pareciam corretos. Não que Rainbird tivesse qualquer afinidade com eles. De fato, achava todo aquele negócio um tanto estranho.

Nem ele era reconhecido por quaisquer das pessoas com quem trabalhava agora como antigo agente e carrasco da Oficina; teria jurado que assim era. Até dezessete semanas antes, fora apenas uma sombra por trás do pára-brisa polarizado do seu Cadillac amarelo, apenas mais um de classificação A.

— Você não acha que está exagerando um pouco com esse negócio? — perguntou Cap. — A menina não tem qualquer ligação com os jardineiros ou a sala de estenografia. Você é o único que lida com ela.

Rainbird sacudiu a cabeça.

— Bastaria um simples deslize. Uma pessoa que mencionasse, por acaso, que o simpático funcionário de rosto destroçado esta­ciona seu carro na área dos vips e veste um uniforme branco no banheiro dos executivos. O que estou procurando criar é um senti­mento de confiança, confiança baseada na idéia de que nós dois somos de fora, ambos anormais, se você quiser, enterrados nos in­testinos do ramo americano do KGB.

Cap não gostou do comentário; não gostava que fizessem ca­çoada dos métodos da Oficina, especialmente naquele caso, em que os métodos eram reconhecidamente extremos.

— Ora, você está fazendo dessa tarefa um inferno — respon­deu Cap.

E para isso não havia resposta satisfatória, porque, de fato, ele não estava fazendo daquela tarefa um inferno. A menina nem mes­mo acendera um fósforo durante todo o tempo de sua estada ali. E o mesmo se poderia dizer do pai, que não demonstrara sequer o mais leve sinal de qualquer capacidade de dominação mental, se é que ele ainda possuía essa capacidade. Já se começava a duvidar de que ele a tivesse.

A menina fascinava Rainbird. No primeiro ano em que traba­lhara na Oficina, tinha seguido uma série de cursos que não cons­tam de currículo universitário algum: desvio de fios para escuta, roubo de carros, investigações reservadas e uma dúzia de outros. O único curso que prendeu completamente a atenção de Rainbird foi o de arrombamento de cofres, dado por um assaltante chamado G. M. Rammaden. Rammaden viera de uma casa de correção de Atlanta com a finalidade específica de ensinar essa técnica aos novos agentes da Oficina. Era tido como o melhor na sua especialidade, coisa de que Rainbird não teria duvidado, embora acreditasse que agora estava no mesmo nível de Rammaden.

Rammaden, que morrera havia três anos (Rainbird enviara flo­res por ocasião de seu funeral; que comédia é a vida, às vezes!), ensinara-lhe a abrir fechaduras Skidmore e cofres de portas quadra­das, e dispositivos secundários que podiam paralisar permanente­mente as tranquetas de um cofre se o disco do segredo fosse arre­bentado com martelo e talhadeira; ensinara-lhe tudo acerca de co­fres cilíndricos, cabeças-de-negro, cortes de chaves, os múltiplos usos da grafite, como tomar a impressão de uma chave com uma esponja de aço, como fazer nitroglicerina na banheira e como cortar a cha­pa de um cofre pelo lado de trás, uma camada por vez.

Rainbírd reagira a G. M. Rammaden com um entusiasmo frio e cínico. Rammaden disse-lhe uma vez que os cofres eram como as mulheres: dispondo-se do instrumento apropriado e de tempo, qual­quer cofre podia ser aberto. Havia, dizia ele, violações resistentes e violações fáceis, mas não violações impossíveis. A menina era resistente.

De início, tiveram que alimentar Charlie por via intravenosa para impedi-la de jejuar até a morte. Depois de algum tempo ela compreendeu que recusar comida não a beneficiaria em nada, que isso somente lhe acarretaria feridas nos braços; e começou a co­mer, não com entusiasmo, mas simplesmente porque usar a boca era menos doloroso.

Leu alguns livros que lhe deram, pelo menos folheava-os, e por vezes ligava a televisão colorida do seu quarto, para desligá-la logo em seguida. Viu uma apresentação local do filme Beleza negra, durante todo o mês de junho, e, uma ou duas vezes, O mundo maravilhoso de Walt Disney. E foi só. Nos relatórios semanais sobre seu estado, a frase “afasia esporádica” vinha aparecendo cada vez mais amiúde.

Rainbird procurou o termo no dicionário médico e compreen­deu-o imediatamente; graças às suas próprias experiências como índio e guerreiro, talvez o tenha compreendido melhor do que os próprios médicos. Por vezes a menina ficava sem palavras. Ficava simplesmente de pé ali, nem um pouco perturbada, com a boca se movendo sem emitir som. E por vezes usava uma palavra comple­tamente sem nexo, aparentemente sem perceber: “Eu não gosto deste vestido, preferia o feno”. Por vezes ela própria, com uma expressão ausente, corrigia: “Quero dizer, verde”, mas era mais fre­qüente que o engano lhe passasse despercebido.

De acordo com o dicionário, afasia era o esquecimento causado por algum distúrbio cerebral. Os médicos começaram imediatamente a atrapalhar-se com a medicação. Substituíram a Orazina por Valium sem qualquer alteração apreciável para melhor. Tentaram Orazina e Valium simultaneamente, mas uma interação imprevisível entre as duas drogas fizera-a chorar monotonamente e sem parar até a dose ser eliminada. Uma droga novíssima, combinação de um tran­qüilizante e um alucinógeno leve, foi experimentada e pareceu aju­dar por algum tempo. Em seguida, ela começou a gaguejar e teve um surto de ligeiro prurido. No momento voltara à Orazina, mas era controlada de perto, já que a afasia podia piorar.

Tinham-se enchido resmas de papel a respeito da delicada con­dição psicológica da menina e a respeito do que os psiquiatras chamavam de seu “conflito de fogo básico”, uma maneira fanta­siosa de dizer que o pai lhe recomendara não provocar incêndios, enquanto o pessoal da Oficina dizia-lhe para ir em frente.., tudo isso complicado por seu sentimento de culpa adquirido no incidente da Fazenda Manders.

Rainbird não aceitava nada disso. Não eram as drogas, não era por estar presa e sempre vigiada, não era por estar separada do pai.

Era apenas a sua resistência, só isso.

Ela tinha resolvido, em certo momento desse período, que não cooperaria, fosse no que fosse. E fim, c’est fini. Os psiquiatras iam circular por ali mostrando suas manchas de tinta até a lua ficar azul, os médicos podiam brincar com seus medicamentos e resmungar sobre as dificuldades de drogar com êxito uma menina de oito anos. Os papéis podiam se acumular e Cap podia continuar a delirar com eles.

Charlie McGee continuaria simplesmente mantendo sua resis­tência.

Rainbird sentia isso com tanta certeza como sentia a chega­da da chuva naquela tarde. E admirava-se com isso. Ela mantinha todo aquele bando rodando atrás de seus próprios rabos, e se o caso fosse deixado com eles, ainda estariam do mesmo jeito quando o Dia de Ação de Graças e o Natal chegassem. Mas eles não anda­riam atrás dos seus rabos para sempre, e isso, mais do que qualquer outra coisa, preocupava Rainbird.

Rammaden, o arrombador de cofres, contara-lhe uma história di­vertida a respeito de dois ladrões que tinham assaltado um supermer­cado numa sexta-feira à noite, sabedores de uma tempestade de neve que tinha impedido o caminhão Wells Fargo de chegar para apa­nhar e levar ao banco a volumosa receita de fim de semana. O cofre era cilíndrico. Experimentaram acertar o segredo do cofre sem êxito. Tentaram perfurar a chapa do cofre, mas não conseguiram recurvar um canto para poderem começar. Finalmente, explodiram-no. Foi um êxito total. Explodiram completamente o cofre, de tal maneira que todo o dinheiro que havia dentro dele ficou destruído. O que sobrou parecia aquele dinheiro esfarrapado que por vezes se vêem nessas prisões modernas.

— A questão — dizia Rammaden na sua voz seca e espremida —            é que esses dois ladrões não venceram o cofre. O jogo está em vencer o cofre. A gente não vence o cofre se não consegue apanhar o que está dentro dele em condições de uso, entende o que quero dizer? Eles sobrecarregaram o cofre com nitroglicerina. Mataram o dinheiro. Foram uns idiotas, o cofre os venceu. Rainbird entendeu o que ele queria dizer.

Havia mais de sessenta graduados da universidade naquele ne­gócio, mas ainda assim se relutava em arrombar o cofre. Tinham tentado descobrir o segredo da menina com as suas drogas; tinham psiquiatras em número suficiente para formar um time de beisebol, e esses psiquiatras todos se esforçavam ao máximo para resolver “o conflito de fogo básico”; e o que fazia ferver toda essa massa especial de bosta de cavalo era que estavam tentando arrombar o cofre por trás.

Rainbird entrou na pequena cabana, pegou da prateleira seu cartão de ponto e bateu-o no relógio. T. B. Norton, o supervisor dos turnos de pessoal, levantou os olhos do livro que estava lendo.

— Não se paga tempo extra por bater o ponto mais cedo, índio.

— Ah, é? — disse Rainbird.

— É. — Norton fitou-o, desafiador, cheio de uma segurança irritante, quase sagrada, que freqüentemente acompanha a pequena autoridade.

Rainbird baixou os olhos e passou a olhar o quadro do bole­tim. O time de boliche dos funcionários inferiores ganhara na noite anterior. Alguém queria vender duas máquinas de lavar de segunda mão, em bom estado. Uma notícia oficial proclamava: TODOS OS OPERÁRIOS DE W-1 A W-6 DEVEM LAVAR AS MAOS ANTES DE DEIXAR ESTE ESCRITÓRIO.

— Parece que vai chover — disse ele, por cima do ombro, para Norton.

— Nunca, índio — disse Norton. — Por que não some? Você está empestando o lugar.

— Certo, patrão — disse Rainbird. — Só me falta bater o ponto.

— Da próxima vez bata o ponto na hora certa.

— Certo, patrão — disse Rainbird de novo, lançando ao sair um olhar para o lado do pescoço vermelho de Norton, o ponto macio logo abaixo do maxilar. Será que você teria tempo de gritar, patrão? Será que você teria tempo de gritar se eu enfiasse o meu indicador pela sua garganta bem nesse ponto? Exatamente como um espeto que atravessa um pedaço de carne, patrão?

Ele voltou para o ar quente e úmido lá de fora. As nuvens prenunciadoras estavam mais próximas, moviam-se lentamente, cur­vadas para baixo ao peso da chuva. Ia ser uma tempestade brava. O trovão roncava ainda distante.

A casa estava fechada agora. Rainbird teria que dar a volta até a entrada lateral, que antigamente era a copa, e tomar o elevador C, quatro andares abaixo no subsolo. Naquele dia tinha por tarefa lavar e encerar o chão de todos os aposentos da menina; isso lhe daria uma boa oportunidade. E não era que ela não quisesse falar com ele, não era isso. Era apenas porque ela estava sempre muito distante. Ele tentava furar a chapa do cofre à sua maneira; se conseguisse fazer com que ela risse, com que ela risse pelo menos uma vez, compartilhasse com ele uma piada à custa da Oficina, seria como enfiar uma alavanca naquele canto vital. Teria um espaço para enfiar a sua talhadeira. Bastaria aquela única risada. Isso os uniria, faria deles um comitê em sessão secreta. Dois contra a casa.

Mas até então não conseguira obter aquele riso, e Rainbird a admirava por isso.

 

Rainbird bateu seu cartão no espaço certo e foi até a sala de estar dos funcionários para beber uma xícara de café antes de en­trar. Não queria o café, mas ainda era cedo. Não queria revelar sua avidez; já era bem ruim que Norton a tivesse notado e comentado.

Serviu-se de um pouco do café requentado que estava na chapa e sentou-se. Pelo menos nenhum dos outros ainda tinha chegado. Sentou-se no sofá cinzento arrebentado, com as molas de fora, e bebeu o café. Seu rosto terrível (Charlie só mostrara um interesse passageiro por ele) estava calmo e impassível. Deixou seus pensa­mentos correrem, analisando a situação.

A equipe encarregada do caso parecia-se com os arrombadores de cofres da história de Rammaden. Estavam tratando a menina com luvas de pelica, mas não faziam isso por amor a ela. Mais cedo ou mais tarde concluiriam que as luvas de pelica não os levavam a nada, abandonariam as opções “macias” e decidiriam arrombar o cofre. Se assim fizessem, Rainbird estava quase certo de que eles “matariam o dinheiro”, como na frase pungente de Rammaden.

Já vira a expressão “tratamento de choque ligeiro” em dois dos relatórios dos médicos, e um dos médicos fora Pynchot, que tinha prestígio junto a Hockstetter. Lera um relatório escrito num jargão tão absurdo que era quase uma língua diferente. Traduzido, o que resultava era um recurso à violência: se a menina visse o pai sofrendo muito, sua resistência cederia. Na opinião de Rainbird, o que a menina faria se visse o pai dependurado numa bateria elétrica, dançando uma rápida polca com os cabelos em pé, seria voltar calmamente para o quarto, quebrar um copo e engolir os cacos.

Mas ele não podia lhes dizer isso. A Oficina, como o FBI e a CIA, era perita em “matar o dinheiro”. Se não puder conseguir o que quer com a ajuda de fora, vá com algumas submetralhadoras Thompson e Gelignite e assassine o patife. Ponha um pouco de cianeto nos charutos de Castro. Era loucura, mas não se podia dizer isso a eles. Tudo o que eles sabiam ver era RESULTADOS, brilhando e piscando como uma máquina caça-níqueis de Las Vegas. Eles “matavam o dinheiro” e ficavam com uns farrapos de notas entre os dedos, perguntando-se que diabo teria acontecido.

No momento começavam a chegar outros funcionários, brin­cando e dando beliscões nos braços uns dos outros, falando dos pontos que tinham ganho e dos que tinham perdido no boliche na noite anterior, falando de mulheres, falando de carros, falando de estar na merda. Sempre as mesmas velhas bobagens até o fim do mundo, aleluia, amém. Eles evitavam Rainbird. Nenhum deles gos­tava de Rainbird. Ele não jogava boliche, nem gostava de falar do seu carro, e parecia um refugiado saído de um filme de Franken­stein. Ficavam nervosos com a presença de Rainbird. Se um deles o tivesse beliscado na parte gorda do braço, Rainbird o teria jogado longe.

Ele sacou um pacote de fumo, uma folha de papel e fez um cigarro rapidamente. Sentou-se e ficou fumando, à espera da ho­ra de descer para os aposentos da menina. Levando tudo em consideração, sentia-se melhor, mais vivo do que nunca. Percebia isso e estava grato à menina. De certo modo, ela nunca saberia que lhe restituíra a vida por algum tempo, a vida de um homem que tinha sensibilidade e aspirava às coisas com intensidade, isto é, um homem com preocupações vitais. Era bom que ela fosse dura. Com o tem­po, chegaria até ela (arrombamentos resistentes, arrombamentos fáceis, mas nenhum impossível); ele a faria executar a sua dança para eles, qualquer que fosse seu preço; quando a dança tivesse sido executada, ele a mataria e olharia dentro dos olhos dela, espe­rando captar aquela centelha de compreensão, aquela mensagem, quando ela passasse para o outro lado, fosse qual fosse.

Entrementes, ele viveria.

Esmagou o cigarro e levantou-se, pronto para o trabalho.

 

As nuvens precursoras de tempestade acumulavam-se cada vez mais. Às três horas da tarde as nuvens acima do complexo de Longmont estavam baixas e negras. Os trovões ribombavam cada vez mais pesadamente, ganhando firmeza, fazendo crédulos entre as pes­soas lá embaixo. Os encarregados de cuidar dos jardins recolhe­ram os cortadores de grama. As mesas nos pátios das duas casas foram recolhidas. Nos estábulos, dois cavalariços procuravam acal­mar os cavalos nervosos que se agitavam, aflitos, a cada ribombo dos céus.

A tempestade surgiu às três e meia; veio tão subitamente como o disparo de um pistoleiro e com fúria total. Começou com uma chuva que rapidamente se transformou em chuva de pedra. O vento, que soprava de oeste para leste, subitamente virou para a direção exatamente oposta. Os relâmpagos brilhavam em rajadas azuis e brancas, que deixavam o ar com cheiro de gasolina fraca. Os ventos começaram a girar em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. O noticiário meteorológico da noite mostrou o filme de um pequeno tornado que passara justamente à margem do centro de Longmont, arrancando o telhado de um shopping center ao passar.

A Oficina suportou bem o grosso da tempestade. Duas vidraças caíram para dentro com a chuva de pedra, e a ventania fustigou uma cerca baixa de ripas que circundava o pequeno e exótico belvedere na ponta extrema do lago dos patos, lançando-o a uns cinqüenta metros, mas esse foi todo o estrago que houve (além de alguns galhos que voaram e alguns canteiros destroçados, o que significava mais trabalho para os encarregados do jardim). Os cães de guarda corriam como loucos entre a cerca interna e a externa no auge da tempestade, mas se acalmaram rapidamente quando ela começou a declinar.

O maior prejuízo foi causado pela tempestade elétrica que sobreveio à chuva de pedra, ao aguaceiro e ao vento. Regiões do leste da Virgínia ficaram sem energia até a meia-noite em conseqüência dos raios nas estações elétricas de Rowantree e Briska. A área ser­vida pela estação de Briska incluía a sede da Oficina.

No seu escritório, o capitão Hollister ficou aborrecido quando as luzes se apagaram e o zumbido constante e discreto do ar-condi­cionado cessou. Houve talvez cinco segundos de uma semi-escuridão causada pela interrupção da energia e pelas pesadas nuvens de tem­pestade, uma interrupção bastante demorada para que Cap ficasse murmurando “Diabo!” à medida que respirava e se perguntava que diabo teria acontecido ao sistema elétrico de reserva.

Ele olhou pela janela e viu os raios faiscando quase continua­mente. Naquela noite, uma das sentinelas da casa de guarda con­tou à mulher ter visto uma bola de fogo que parecia ter o tama­nho de duas bandejas de restaurante e que pulava da cerca exterior, fracamente eletrificada, para a cerca interior, sobrecarregada, e nova­mente de volta.

Quando Cap pegou o telefone para se informar a respeito da eletricidade, as luzes se acenderam novamente. O ar-condicionado recomeçou o seu zumbido e, em vez do fone, ele pegou o lápis.

Então as luzes se apagaram novamente.

— Merda! — disse Cap. Atirou o lápis e pegou o telefone, afinal, desafiando as luzes para que não se acendessem de novo antes de ele ter a chance de passar um carão em alguém. As luzes recusaram o desafio.

As duas graciosas casas, uma defronte à outra, separadas por um gramado ondulado, tendo abaixo delas todo o complexo da Ofi­cina, eram servidas pela Eastern Virginia Power Authority, mas havia dois sistemas de reserva alimentados por geradores diesel. Um sistema alimentava as “funções vitais”: a cerca eletrificada, os terminais do computador (uma falha de energia podia representar inacreditável perda de dinheiro em termos de tempo do compu­tador) e a pequena enfermaria. Um segundo sistema alimentava as funções menos importantes do complexo: luzes, ar-condicionado, elevadores e tudo o mais. O sistema secundário fora instalado para entrar em função se o sistema primário mostrasse sinais de sobrecar­ga, mas o sistema primário não poderia substituir o sistema secun­dário.

No dia 19 de agosto os dois sistemas ficaram sobrecarregados. O sistema secundário entrou em funcionamento quando o sistema primário começou a ficar sobrecarregado, exatamente como os pla­nejadores do sistema elétrico tinham calculado (embora, na verda­de, nunca tivessem calculado que o sistema primário ficaria sobre­carregado em primeiro lugar); em conseqüência disso, o sistema primário operou durante setenta segundos mais do que o sistema secundário. Aí os geradores dos dois sistemas explodiram, um de­pois do outro, como uma série de tiros de festim. Só que esses tiros de festim custaram cerca de oitenta mil dólares cada um.

Posteriormente, um inquérito de rotina trouxe o sorridente e benigno veredicto de “falha mecânica”, embora uma conclusão mais apurada pudesse indicar “ambição e venalidade”. Quando os gera­dores de reserva tinham sido instalados, em 1971, um senador conhe­cedor das cifras baixas aceitáveis da proposta nessa pequena operação (tanto quanto dezesseis milhões de dólares de outras construções para a Oficina) deu uma gorjeta ao seu cunhado, consultor de en­genharia elétrica. O consultor achou que se poderia facilmente acei­tar a menor proposta, cortando alguma coisa aqui e outra ali.

Tratava-se apenas de um favor numa área que vivia de favores e informações por baixo da mesa, e era notável só por ser o primei­ro elo na cadeia que levava à destruição final e à perda de vidas. O sistema de reserva só fora usado parcialmente durante todos aque­les anos, desde que fora construído. No seu primeiro teste impor­tante, durante a tempestade que pôs fora de ação a estação de energia de Briska, falhou completamente. Nessa ocasião, natural­mente, o consultor de engenharia elétrica já progredira e subira; estava ajudando a construir um balneário de muitos milhões de dólares na praia Coki, em St. Thomas.

O fornecimento de energia só foi restabelecido na Oficina quando a estação da Briska voltou a funcionar.., isto é, ao mesmo tempo em que no resto do leste da Virgínia, por volta de meia-noite.

Nessa ocasião, os elos seguintes já tinham sido determinados. Em conseqüência da tempestade e do blackout, alguma coisa terrível aconteceu a Andy e Charlie McGee, embora nenhum deles tivesse a menor idéia do que estava acontecendo ao outro.

Após cinco meses de êxtase, as coisas tinham começado a acon­tecer novamente.

 

Quando a energia cessou, Andy McGee estava vendo o Clube PTL na tevê. PTL significava “Praise the Lord” *. Numa das esta­ções da Virgínia, o Clube PTL ia ao ar continuamente, vinte e qua­tro horas por dia. Talvez não fosse assim, mas as percepções de tempo de Andy tinham ficado tão confusas que era difícil saber.

Ele ganhara peso. Por vezes, quando estava em pé, ao ver o seu reflexo no espelho, pensava em Elvis Presley e na maneira co­mo ele engordara no fim da vida. Outras vezes, pensava num gato que tivesse sido castrado, tornando-se gordo e preguiçoso.

Ainda não estava gordo, mas chegaria lá. Em Hastings Glen ele estava pesando setenta e dois quilos, pela balança do banheiro do Slumberland Motel. Nos últimos dias, chegara a oitenta e seis quilos. Suas bochechas estavam mais cheias, e começavam a surgir um queixo duplo e aquilo que o seu velho instrutor de ginástica da escola secundária costumava chamar (com o máximo desprezo) de “seios de homem”. E mais do que uma suspeita de barriga. Não havia muito exercício sob o efeito de uma dose elevada de Torazina, e a comida era ótima.

Ele não se preocupava com o peso quando estava drogado, e isso acontecia quase todo o tempo. Quando eles se aprontavam para fazer alguns dos seus testes inúteis, mantinham-no sem remédios por

 

* “Louvado seja o Senhor.” (N. da T.)

 

dezoito horas. Um médico testava suas reações físicas, o EEG a que era submetido confirmava que suas ondas cerebrais estavam perfei­tas e bem definidas, e em seguida ele era levado para um cubículo de testes, um quarto mínimo de paredes recobertas de cortiça.

Os testes tinham começado em abril, utilizando voluntários. Diziam-lhe o que tinha de fazer e que, se o fizesse com excessivo entusiasmo — como, por exemplo, cegar alguém — sofreria por isso. E, como subtônica para essa ameaça, sugeriam que ele talvez não sofresse sozinho. Essa ameaça Andy considerava vazia; não acreditava que fizessem mal a Charlie. Ela era a aluna premiada deles. Ele era muito mais da categoria B do programa.

O médico encarregado de testá-lo era um homem chamado Herman Pynchot. Tinha uns trinta e tantos anos e era perfeitamente comum, exceto quanto ao fato de rir demais. Por vezes todo aquele riso dava nos nervos de Andy. Ocasionalmente aparecia um médico mais velho chamado Hockstetter, mas na maioria das vezes era Pynchot.

Pynchot lhe dissera, quando eles abordaram o primeiro teste, que havia uma mesinha no quarto de testes. Nessa mesa havia uma garrafa de vinho rotulado TINTA, uma caneta-tinteiro numa prate­leira, um bloco de papel para anotações, um jarro de água e dois copos. Pynchot disse-lhe que o voluntário não teria qualquer idéia de que houvesse outra coisa senão tinta na garrafa. Pynchot disse também a Andy que ficariam gratos se ele exercesse pressão mental sobre o voluntário para que ele se servisse de um copo de água, em seguida acrescentasse uma boa quantidade de “tinta” no copo e de­pois bebesse rapidamente aquela mistura.

— Muito bem — disse Andy. Mas ele não estava se sentindo assim tão bem. Sentia falta da Torazina e da paz que ela lhe trazia.

— Muito bem — disse Pynchot. — Você faria isso?

— Por que o faria?

— Você ganhará alguma coisa em troca. Alguma coisa boa.

— Seja um bom rato e ganhará o queijo, certo?

Pynchot sacudiu os ombros e riu. Seu avental estava extraordi­nariamente limpo e correto.

— Muito bem — disse Andy. — Eu desisto. Qual seria o meu prêmio por fazer esse pobre-diabo beber tinta?

— Bem, você poderá voltar a tomar as suas pílulas ...

Subitamente ele sentiu uma certa dificuldade para engolir; ficou imaginando se a Torazina deixava as pessoas viciadas e, nesse caso, se o vício era psicológico ou fisiológico.

— Diga-me, Pynchot. Como é que uma pessoa se sente por ter a capacidade de dominar as outras mentalmente? Cabe isso no jura­mento de Hipócrates?

Pynchot levantou os ombros e riu.

— Você também poderá sair ao ar livre um tempo. Acho que mostrou interesse nisso.

Realmente tinha. Seus aposentos eram confortáveis, tão confor­táveis que por vezes quase podia esquecer que não passavam de uma cela de prisão acolchoada. Dispunha de três quartos, um banheiro e uma tevê colorida equipada com vídeo-cassete. Ele podia escolher três filmes recentes a cada semana. Um daqueles faladores, talvez Pynchot, deveria ter ressaltado que não adiantava tirar-lhe o cinto, dar-lhe lápis de cera para escrever ou colheres de plástico para comer. Se ele quisesse se suicidar não haveria meio de evitá-lo. Se exercitasse sua dominação mental com bastante intensidade e por bastante tempo, simplesmente estouraria os miolos como se fossem um pneu velho.

Assim, o local tinha todas as amenidades, incluindo mesmo um forno de microondas na kitchenette. Fora todo decorado; havia um tapete felpudo espesso na sala, os quadros eram todos de boas gravuras. Mas, apesar de tudo isso, um excremento de cão coberto de glacê não é um bolo de noiva, é simplesmente excremento de cão, e nenhuma das portas de saída daquele belo apartamento tinha maçanetas do lado de dentro. Havia olhos-mágicos espalhados aqui e ali pelo apartamento, aquele tipo de olho-mágico que se vê nas portas dos quartos de hotel. Havia um até no banheiro, e Andy achava que estavam projetados para que se tivesse uma boa visão de todos os pontos do apartamento. Andy imaginava que haveria dispositivos para controle pela tevê, provavelmente equipados com infravermelho, de modo que não se podia nem evacuar com relativa privacidade.

Ele não sofria de claustrofobia, mas não gostava de ficar en­clausurado por longos períodos de tempo. Isso o deixava nervoso mesmo com as drogas. Era um nervosismo pouco intenso, habitualmente evidenciado por longos suspiros e períodos de apatia. Ele pedira realmente para sair ao ar livre. Queria ver de novo o sol e a grama verde.

— Sim — disse ele em voz baixa a Pynchot. — Eu mani­festei o desejo de sair.

Mas não conseguiu sair.

De início, o voluntário estava nervoso, sem dúvida esperando que Andy o fizesse andar de cabeça para baixo e cacarejar como um frango, ou alguma coisa igualmente ridícula. Era fã de futebol. Andy fez com que o homem, cujo nome era Dick Albright, o pusesse a par do. campeonato anterior.

Albright disparou. Passou os vinte minutos seguintes revivendo todo o período, e foi perdendo gradativamente o nervosismo. Es­tava no ponto do nojento juiz que permitira aos Pats triunfarem sobre os Delfins na final do campeonato quando Andy lhe disse:

— Beba um copo de água, se quiser. Você deve estar com sede.

Albright deu-lhe uma olhadela.

— Sim, estou com bastante sede. Diga-me... estou falando demais? Isso vai atrapalhar os testes deles, não acha?

— Não, acho que não — disse Andy. Observou Dick Albright se servir de um copo de água da jarra.

— Você quer um pouco? — perguntou Albright.

— Não, não quero — respondeu Andy, e aplicou-lhe logo forte pressão mental. — Ponha um pouco de tinta dentro, por que não?

Albright olhou para ele, fez o gesto na direção da garrafa de tinta, apanhou-a, examinou-a, e pousou-a novamente.

— Pôr tinta no copo? Você deve estar biruta.

Pynchot riu, tanto depois como antes do teste, mas não ficou contente. Nada contente. Andy também não estava contente. Quando fez pressão sobre Albright, não teve aquela sensação de estar res­valando... aquela sensação curiosa de duplicação, que habitual­mente acompanhava a pressão. E nenhuma dor de cabeça. Concen­trara toda a sua vontade para sugerir a Albright que pôr tinta na água seria uma coisa perfeitamente razoável, e Albright tivera uma reação perfeitamente racional: achou que Andy estava louco. Apesar de toda a dor que o seu talento já tinha lhe causado, sentiu um toque de pânico à idéia de que ele o tivesse abandonado.

— Por que você quer conservar seu poder abafado? — per­guntou-lhe Pynchot. Acendeu um cigarro e riu. — Não o com­preendo, Andy. Que bem isso lhe faz?

— Pela décima vez — respondeu Andy —, eu não estava retendo nada. Não quis ilu4ír ninguém. Fiz a máxima pressão que pude. Nada aconteceu, foi só isso. — Andy queria a pílula, sen­tia-se deprimido e nervoso. Todas as cores pareciam-lhe brilhantes demais, a luz, forte demais, as vozes, agudas demais. Tudo ficava melhor com as pílulas. Com as pílulas, o vão desespero pelo que acontecera, a falta que sentia de Charlie e a preocupação com o que lhe podia estar acontecendo, todas essas coisas se tornavam mais suportáveis.

— Receio não poder acreditar nisso — disse Pynchot, e riu. — Pense bem nisso, Andy. Não lhe estamos pedindo que faça al­guém despencar de um rochedo ou dar um tiro na cabeça. Acho que você não deseja esse passeio ao ar livre tanto quanto pensa.

Levantou-se como para se retirar.

       — Escute — disse Andy, incapaz de esconder todo o deses­pero de sua voz. — Gostaria que me desse uma daquelas pílulas.

       — Gostaria? — retrucou Pynchot. — Bem, talvez lhe interesse saber que vou diminuir a dose.., talvez a Torazina tenha interfe­rido em sua capacidade. — Seu riso desabrochou novamente. —Naturalmente, se sua capacidade voltasse subitamente...

— Existem umas certas coisas que o senhor deveria saber — disse-lhe Andy. — Em primeiro lugar, o cara estava nervoso, espe­rando alguma coisa. Em segundo lugar, ele não era assim tão inteligente. É bem mais difícil pressionar pessoas idosas e pessoas com QI baixo ou abaixo da média. Pessoas inteligentes reagem mais facil­mente.

— È mesmo? — perguntou Pynchot.

— È.

— Então por que você não me pressiona para lhe dar uma pílula agora mesmo? O meu QI é 153.

Andy tentou, sem qualquer resultado.

Finalmente conseguiu o seu passeio ao ar livre, e por fim au­mentaram também a dose das pílulas, depois de se convencerem de que ele não estava mentindo, de que procurava de fato, desespe­radamente, pressionar, mas sem êxito. Independentemente de ambos, tanto Andy como o Dr. Pynchot, começaram a admitir que Andy se tivesse destruído definitivamente durante a fuga com Charlie de Nova York, até o aeroporto de Albany, até Hastings Glen, se é que seu talento não tinha simplesmente se esgotado. E ambos pensaram que podia haver uma espécie de bloqueio psicológico. O próprio Andy chegou a acreditar que ou o talento se evaporara ou se tra­tava simplesmente de uma espécie de mecanismo de defesa: sua mente estaria se recusando a usar o talento porque isso poderia matá-lo. Não se esquecia das manchas na face e no pescoço e do olho injetado.

De qualquer modo, dava no mesmo, isto é, um zero total.

Pynchot, sentindo evaporarem-se seus sonhos de se cobrir de glória como o primeiro homem a conseguir dados empíricos com­prováveis sobre a dominação mental psíquica, aparecia cada vez menos.

Os testes continuaram durante os meses de maio e junho, pri­meiro com mais voluntários e, depois, com indivíduos que não sus­peitavam estarem sendo testados. Usar este processo não era pre­cisamente ético, como Pynchot fora o primeiro a admitir, mas os primeiros testes com LSD tampouco tinham sido precisamente éticos. Andy admirava-se que, pondo na cabeça esses dois erros em equa­ção, Pynchot parecesse chegar à conclusão de que tudo estava em ordem. Mas isso não fez diferença, porque Andy não teve sucesso com quaisquer dos indivíduos testados.

Um mês antes, exatamente depois do 4 de Julho, começaram a testá-lo com animais. Andy protestou que fazer pressão sobre um animal era ainda mais impossível do que tentar pressionar uma pessoa pouco inteligente, mas Pynchot e sua equipe não deram ouvidos aos seus protestos, pois estavam apenas seguindo as etapas de uma investigação científica.

E assim, uma vez por semana Andy se encontrava sentado num quarto com um cão, um gato ou um macaco, sentindo-se a personagem de uma novela absurda. Lembrava-se do motorista de táxi que olhara para a nota de um dólar e vira uma nota de qui­nhentos. Lembrava-se dos tímidos executivos que ele conseguira influenciar gentilmente no sentido de que adquirissem maior con­fiança e determinação. Antes deles, em Port City, na Pensilvânia, tinha havido aquele programa de emagrecimento, com turmas fre­qüentadas principalmente por donas-de-casa gordas, solitárias, viciadas em bolinhos, Pepsi-Cola e qualquer coisa entre duas fatias de pão. Essas coisas enchiam de certo modo o vazio de suas vidas. Tratava-se simplesmente de fazer um pouco de pressão, porque a maioria queria realmente perder peso. Ajudara-as a consegui-lo. Pensou também no que acontecera aos dois durões da Oficina que tinham raptado Charlie.

Ele tivera essa capacidade, mas já não a tinha. Era-lhe difícil até mesmo lembrar exatamente como se sentira. Assim, ficava sen­tado no quarto com cães que lhe lambiam as mãos, gatos que ronro­navam e macacos que coçavam tristemente o traseiro e por vezes mostravam os dentes em risos apocalípticos, dentes obscenamente parecidos com os do Dr. Pynchot, e naturalmente nenhum dos ani­mais fez qualquer coisa fora do comum. A seguir ele era levado de volta a seu apartamento sem maçanetas nas portas; haveria uma pílula azul num prato branco no aparador da kitchenette, e um pou­co depois deixaria de se sentir nervoso e deprimido. Começaria a se sentir muito bem novamente. E veria em casa um dos filmes de sucesso na tevê a cabo, como aqueles com Clint Eastwood, ou algum outro bom programa, talvez o Clube PTL. Não se aborrecia tanto por ter perdido seu talento e se tornado uma pessoa supérflua.

 

Na tarde da grande tempestade, ele estava sentado vendo o Clube PTL. Uma mulher com um penteado que parecia uma col­méia contava ao animador como o poder de Deus a curara da doen­ça de Bright. Andy estava completamente fascinado pela mulher. O cabelo dela brilhava, sob a iluminação do estúdio, como uma perna de mesa envernizada. Parecia uma viajante no tempo, do ano de 1963. Esse era um dos fascínios que o Clube PTL exercia sobre ele, juntamente com os descarados pedidos de dinheiro em nome de Deus. Andy ouvia esses apelos apresentados por jovens em roupas caras e pensava, perplexo, em como Cristo tinha ex­pulsado os mercadores do templo. E todas as pessoas do PTL pare­ciam viajantes no tempo.

A mulher terminou sua história de como Deus a salvara de se sacudir até cair aos pedaços. Antes, no programa, um ator famoso no princípio da década de 50 contara como Deus o salvara da bebedeira. Agora a mulher com cabelo em forma de colméia co­meçou a chorar e o ator outrora famoso a abraçava. A câmera se aproximou para um close-up. No fundo os cantores do PTL começa­ram a cantar num murmúrio. Andy mudou um pouco de posição na cadeira. Já era quase hora da pílula.

De maneira mais ou menos obscura percebia que a medicação era só parcialmente responsável pelas mudanças peculiares que lhe tinham ocorrido nos últimos cinco meses, alterações em que o seu aumento de peso era apenas um sinal externo. Ao lhe tirar Charlie, a Oficina tinha lhe tirado da vida o único e sólido esteio restante. Após a partida de Charlie — ah, certamente ela não devia estar lon­ge, mas bem podia estar na Lua —, parecia não haver mais razão para se manter vivo.

Ainda por cima, toda a seqüência da fuga tinha-lhe causado uma espécie de neurose de guerra. Vivera na corda bamba tanto tempo que, quando finalmente caiu, o resultado foi uma letargia total. De fato, acreditava ter sofrido uma espécie de colapso nervoso muito brando. Se ele visse Charlie, nem estava certo de que ela o reconheceria como a mesma pessoa, e isso o entristecia.

Nunca se esforçara para iludir Pynchot ou trapacear nos testes. Não acreditava realmente que seu comportamento repercutisse sobre Charlie, mas não correria nem o mais remoto risco de que tal coisa acontecesse. E era mais fácil fazer o que eles queriam. Tornar-se passivo. Gritara a sua última raiva na varanda da casa do avô, en­quanto ninava a filha com a flecha espetada no pescoço. Não restava mais qualquer raiva dentro dele. Ele esgotara essa capacidade.

Esse era o estado mental de Andy McGee quando se sentou diante da tevê naquele dia 19 de agosto, enquanto a tempestade rondava pelas colinas lá fora. O apresentador do PTL fez um anúncio de doação e depois apresentou um trio evangélico. O trio co­meçou a cantar, e subitamente as luzes se apagaram.

A tevê também se apagou, tendo sua imagem diminuído até o ponto brilhante. Andy continuou sentado sem se mexer, não sa­bendo ao certo o que acontecera. Teve apenas tempo suficiente para registrar a assustadora totalidade da escuridão, e novamente as luzes se acenderam. O trio evangélico reapareceu cantando: “Recebi um telefonema do Céu, e Jesus estava na linha”. Andy soltou um sus­piro de alívio, e as luzes apagaram-se novamente.

Ele ficou ali sentado, agarrando-se aos braços da cadeira como se fosse voar pelos ares se se deixasse ir. Conservou os olhos deses­peradamente fixos no ponto brilhante de luz da tevê, mesmo saben­do que estava desligada, e ficou vendo apenas uma persistente ima­gem na retina.., ou pensando positivamente.

A luz vai voltar num segundo ou dois, disse consigo mesmo. Há geradores de reserva em algum lugar. Não se pode confiar apenas na corrente externa para fazer funcionar um lugar como este.

Ainda assim, estava assustado. De repente, recordou-se das his­tórias de aventuras da sua infância. Em mais de uma delas, houvera um incidente em alguma caverna com as luzes ou velas apagadas. E parecia que o autor se estendia longamente para descrever a escuri­dão como “palpável”, “extrema” ou “total”. Havia mesmo aquela velha expressão comprovada e sempre à mão, “A escuridão viva”, como em “a escuridão viva engoliu Tom e seus amigos”. Se tudo isso fora destinado a impressionar o menino de nove anos Andy McGee, não surtira efeito. Se ele quisesse ser “engolido pela escuri­dão viva”, bastava ir até o seu quarto e pôr um cobertor ao longo da fresta embaixo da porta. Escuridão, afinal, era escuridão.

Agora ele percebia que se enganara. Essa não era a única coisa a respeito de que se enganara quando criança, mas talvez fosse a última a ser descoberta. A escuridão não era escuridão. Nunca esti­vera antes numa escuridão como essa na sua vida. Se não fosse a sensação de ter uma cadeira debaixo das mãos, poderia estar flutuan­do em um escuro abismo fantástico entre as estrelas. Levantou uma das mãos e balançou-a diante dos olhos. Embora pudesse sentir a palma da mão tocar-lhe ligeiramente o nariz, não podia vê-la.

Afastou a mão do rosto e agarrou novamente o braço da cadei­ra. Seu coração começou a bater fraco e rápido dentro do peito. Lá fora alguém gritou asperamente: “Richie! Onde, diabos, você está?”, e Andy aninhou-se com medo na cadeira, como se estivesse sendo ameaçado. Lambeu os lábios.

Vai voltar num segundo ou dois, pensou, mas uma parte assus­tada de sua mente, que se recusava a se consolar com meros raciocí­nios, perguntou: Quanto dura um segundo ou dois, ou um minuto ou dois, na escuridão total? Como se mede o tempo na escuridão total?

Do lado de fora, mais além do seu “apartamento”, alguma coisa caiu e alguém gritou de surpresa e dor. Andy aninhou-se de novo e resmungou, trêmulo. Não estava gostando daquilo. Não era bom.

Bem, se eles levarem mais de alguns minutos para consertar isso, para ligar os geradores ou o que seja, eles virão me tirar daqui. Terão de fazer isso.

Mesmo a parte assustada de sua mente, que estava a um passo de se descontrolar, reconheceu a lógica desse pensamento e ele relaxou um pouco. Afinal de contas, era apenas a escuridão; era só isso, apenas ausência de luz. Não havia monstros nem coisa parecida na escuridão.

Ele estava sentindo muita sede. Perguntava-se se ousaria levan­tar-se e buscar uma garrafa de soda na geladeira. Chegou à conclusão de que seria capaz disso, se fosse cuidadoso. Levantou-se, deu duas passadas, arrastando os pés, e logo bateu com a canela na quina da mesa do café. Curvou-se e esfregou o local, com os olhos cheios de lágrimas.

Isso também lembrava-lhe a infância. Tinha brincado de cabra-cega como todas as crianças fazem. Tinha-se de tentar passar de uma ponta à outra da casa com uma venda ou coisa parecida nos olhos. E todos os outros se divertiam a valer quando a cabra-cega caía sobre uma almofada ou tropeçava no degrau entre a sala de jantar e a cozinha. A brincadeira podia ensinar à criança uma lição dolorosa sobre até que ponto as pessoas se lembram realmente da disposição das coisas na própria casa, que se pensa muito familiar e também o quanto se confia mais nos olhos do que na memória. E o jogo pode fazer imaginar que horror seria se se perdesse a vista.

Mas eu vou fazer tudo certo, pensou Andy. Tudo certo, basta agir devagar e sem aflição.

Deu a volta na mesa do café e começou a arrastar os pés lentamente através do espaço aberto na sala, com as mãos esticadas para a frente. Ë engraçado como um espaço livre pode se tornar ameaça­dor na escuridão. Provavelmente as luzes vão retornar agora mesmo e eu vou dar uma boa gargalhada para mim mesmo. Apenas uma boa g...

—        Ui!

Seus dedos estendidos esbarraram na parede e dobraram-se com a dor. Alguma coisa caíra. O quadro do estábulo e do campo de feno no estilo de Wyeth, que estava pendurado perto da porta da cozinha, imaginou ele. Passara rente a ele, que soou temerosamente, como o ruído da lâmina de uma espada cortando o ar no escuro, e bateu no chão. O choque foi terrivelmente barulhento.

Ele ficou imóvel, segurando os dedos doloridos, sentindo a canela ferida latejar. Estava mudo de medo.

—        Ei! — gritou ele. — Ei, não se esqueçam de mim, caras!

Esperou, à escuta. Não houve resposta. Ainda ouvia sons e vozes, mas estavam agora mais distantes. Se eles se afastassem mais, o silêncio seria total.

Esqueceram-se completamente de mim, e seu medo cresceu.

Seu coração disparou. Ele podia sentir o suor frio nos braços e na testa, e se lembrou do dia na lagoa Tashmore em que ele avan­çara demais, ficara cansado e começara a se agitar e a gritar, certo de que ia morrer...mas, quando baixou os pés, o fundo estava ali, a água subiu-lhe apenas até o meio do peito. Onde estava o fundo agora? Ele lambeu os lábios secos, mas sua língua também estava seca.

— Ei! — gritou ele, forçando os pulmões ao máximo. O som de terror na própria voz amedrontou-o mais ainda. Precisava con­trolar-se. Estava agora à beira do pânico total, atirando-se desatinado e sem pensar pela sala, berrando o mais alto que podia. Tudo por­que um fusível se queimara.

Maldição! Por que isso tinha que acontecer na hora da minha pílula? Se eu tivesse tomado a pílula, tudo estaria bem. Eu estaria bem, então. Meu Deus, sinto como se a minha cabeça estivesse cheia de cacos de vidro.

Permaneceu ali, respirando com dificuldade. Pretendeu diri­gir-se à porta da cozinha, mas errou o caminho e esbarrou na pare­de. Estava totalmente desorientado; nem mesmo podia se lembrar se aquele estúpido quadro com o estábulo ficava pendurado à direita ou à esquerda da porta. No auge da infelicidade, desejou ter perma­necido na cadeira.

— Controle-se — resmungou alto —, controle-se.

Não era apenas pânico, sabia disso. Era porque não tinha toma­do a pílula... a pílula da qual passara a depender, Não era justo que aquilo tivesse acontecido exatamente na hora da pílula.

— Controle-se — resmungou novamente.

Uma soda. Levantara-se para buscar uma soda e, por Deus, iria buscá-la! Tinha que se fixar em alguma coisa. Afinal, isso é que importava, e tanto serviria a bebida como qualquer outra coisa.

Começou outra vez a se mover para a esquerda, e logo esbarrou no quadro que despencara da parede. Gritou e caiu, bracejando vio­lenta e inutilmente para se equilibrar. Bateu com a cabeça na parede e gritou de novo.

Agora estava apavorado. Ajudem-me, pensava ele. Ajudem-me, tragam-me uma vela, por amor de Deus, alguma coisa, estou assustado.

Começou a chorar. Seus dedos tateantes sentiam nervosamente um líquido espesso ao lado da cabeça; era sangue, e, com um terror paralisante, ele ficou imaginando até que ponto estaria ferido.

— Onde estão vocês? — gritou. Não houve resposta.

Ouviu, ou pensou ouvir, um único grito longínquo, e depois veio o silêncio. Seus dedos encontraram o quadro no qual ele tro­peçara; atirou-o para o outro lado da peça, furioso com ele por tê-lo ferido. O quadro bateu na ponta da mesa ao lado do sofá, e o aba­jur, agora inútil, caiu. A lâmpada explodiu com um som oco, e Andy vociferou novamente. Apalpou o lado da cabeça. Agora havia mais sangue ali; escorria por sua face em pequenos fios.

Resfolegando, ele começou a engatinhar, com uma das mãos à frente para sentir a parede. Quando a solidez da parede terminou abruptamente no vazio, ele retraiu a respiração e a mão, como se esperasse que alguma coisa pegajosa rastejasse na escuridão e o pe­gasse. Um ligeiro silvo escapou-lhe dos lábios. Por apenas um segun­do, toda a sua infância voltou-lhe, e ele podia ouvir o silvo dos diabinhos das cavernas, caminhando, unidos e entusiasmados, em direção a ele.

— Foi só a porta da cozinha, com os diabos! — resmungou. — Apenas isso.

Engatinhando, passou pela porta. A geladeira estava à sua direi­ta; ele começou a se dirigir para esse lado, rastejando lentamente e respirando rápido, sentindo as mãos frias ao tocar os ladrilhos.

Em algum lugar acima de sua cabeça, no andar acima, alguma coisa caíra com enorme estrondo. Andy se pôs de joelhos. Seus nervos não agüentaram, e ele se desorientou. Começou a gritar: Socorro! Socorro! Socorro! repetidas vezes, até ficar rouco. Não fazia a menor idéia de há quanto tempo estava gritando de quatro na cozinha escura.

Por fim parou e procurou controlar-se. Sentia-se desamparado; tremiam-lhe as mãos e os braços, a cabeça doía-lhe por causa da pancada, mas o sangue parecia ter estancado. Isso já era um tanto confortador. Sentia a garganta quente e irritada de tanto gritar, o que o fez pensar novamente na soda.

Recomeçou a engatinhar e achou a geladeira sem mais tropeços. Abriu-a (esperando, ridiculamente, que a lâmpada interna surgisse com o habitual brilho fosco) e tateou no escuro até achar uma lata com um anel no cimo. Andy fechou a porta da geladeira e encos­tou-se nela. Abriu a lata e bebeu a metade num gole só. A garganta agradeceu-lhe por isso.

Então um pensamento veio-lhe à cabeça, congelando sua gar­ganta:

O local está em chamas, dizia-lhe sua mente com uma calma falsa. Ë por isso que ninguém vem me buscar. Estão evacuando a casa. E agora eu, agora... eu sou dispensável.

Esse pensamento levou-o a um terror extremo, a uma claustrofobia muito além do pânico. Ele simplesmente encolheu-se junto à geladeira, com os lábios retraídos contra os dentes, numa careta. A força fugiu-lhe das pernas. Por um momento, ele chegou a imaginar que sentia o cheiro de fumaça, e o calor parecia invadi-lo. A lata de soda escapou-lhe dos dedos, entornando o conteúdo aos gorgolejos e molhando-lhe as calças.

Andy sentou-se no chão, molhado, gemendo.

 

John Rainbird pensou posteriormente que as coisas não podiam ter funcionado melhor se tivessem sido planejadas ... e se aqueles psicólogos valessem um tostão furado, eles teriam planejado aquilo. Mas aquele blackout ocorreu por acaso, um feliz acaso que lhe per­mitiu finalmente enfiar a sua talhadeira por baixo de um çanto do aço psicológico que revestia Charlie McGee. Sorte e, também, sua própria intuição.

Ele entrara nos aposentos de Charlie às três e meia, exatamente quando a tempestade começava lá fora. Empurrava à sua frente um carrinho que não era diferente daqueles que a maioria dos empre­gados de hotéis e motéis levam de um quarto a outro. Continha lençóis limpos e fronhas, material para polir móveis, um preparado para tirar manchas de tapetes. Havia um balde e um esfregão para lavar o chão. E um aspirador de pó estava preso a uma extremidade do carrinho.

Charlie estava sentado no chão, diante do sofá, usando apenas uma malha azul de ginástica. Tinha cruzado as pernas numa posição de lótus. Ficava sentada dessa maneira muito tempo. Um estranho poderia pensar que ela estivesse drogada, mas Rainbird sabia que não era isso. Ainda recebia doses leves de medicamento, mas a dose atual era pouco mais que um placebo. Todos os psicólogos concor­davam, desapontados, em que ela pretendia fazer o que dizia, isto é, nunca mais provocar incêndios. As drogas destinavam-se originalmente a impedir que ela conseguisse fugir em meio ao fogo, mas agora parecia certo que ela não iria fazer isso.. . nem qualquer outra coisa.

—        Ei! menina — disse Rainbird, soltando o aspirador de pó.

Ela lançou-lhe um olhar, mas não respondeu.

Ele ligou o aspirador, e, quando o pôs para funcionar, ela se levantou graciosamente e foi para o banheiro, fechando a porta.

Rainbird continuou passando o aspirador no tapete. Não tinha plano algum em mente. Pretendia apenas manter-se atento a peque­nos incidentes e sinais, apanhando-os e seguindo-os. Sua admiração pela menina continuava inalterada. O pai dela se transformara num gordo pudim apático; os psicólogos tinham seus termos peculiares para isso: “choque de dependência”, “perda da identidade”, “fuga mental” e “leve distorção da realidade”, mas tudo significava apenas que ele desistira e podia agora ser retirado da equação.

Com a menina não acontecia o mesmo. Ela simplesmente se escondia. E Rainbird nunca se sentira tão índio como quando estava com Charlie McGee.

Passava o aspirador e esperava que ela saísse, talvez. Achava que agora ela saía do banheiro mais freqüentemente. De início, ficava escondida lá até ele ir embora. Agora, às vezes ela saía e observava-o. Talvez fizesse isso naquele dia. Talvez não. Ele espe­raria e ficaria atento aos sinais.

 

Charlie ficou sentada no banheiro com a porta fechada. Poderia trancá-la, se quisesse. Antes de o faxineiro vir limpar os aposentos, ela fizera alguns exercícios simples que encontrara num livro. O faxineiro viera para manter a limpeza. Agora o assento do toalete parecia-lhe frio. A luz branca dos tubos fluorescentes em volta do espelho do banheiro fazia tudo parecer frio e brilhante demais.

De início, tinham-lhe arranjado uma “companheira” para morar com ela, uma mulher de uns quarenta e cinco anos. Queriam que ela fosse “maternal”, mas a “companheira maternal” tinha olhos verdes duros, com pequenas manchas. As manchas pareciam de gelo. Aquela gente matara-lhe a mãe verdadeira e agora queria que ela morasse ali com uma “companheira maternal”. Eles sorriram. Então Charlie deixou de falar, e não disse uma palavra até que a “compa­nheira maternal” saiu, levando consigo os seus olhos verdes com manchas de gelo. Fizera um trato com aquele homem, Hockstetter: ela responderia às perguntas dele, e só às dele, se ele mandasse em­bora aquela “companheira maternal”. A única companhia que ela desejava era a do pai, e, se não podia ficar com ele, preferia ficar só.

Charlie sentia que os últimos cinco meses (eles é que lhe ti­nham dito que eram cinco meses; para ela, não lhe pareciam nada) tinham sido um sonho. Não havia maneira de distinguir o tempo, rostos apareciam e se iam sem deixar recordações, sem corpo, como bolas de gás, a comida não tinha qualquer gosto particular. Por vezes ela também se sentia como uma bola de gás. Era como se estivesse flutuando. Mas de certo modo sua mente lhe dizia, com perfeita certeza, que tudo aquilo era justo. Ela era uma assassina. Faltara ao mais grave dos dez mandamentos e certamente estava condenada ao inferno.

Pensara nisso naquela noite, sob as luzes fracas, de modo que até o apartamento parecia um sonho. Ela reviu tudo. Os homens na varanda com coroas de fogo na cabeça. Os carros explodindo. Os frangos pegando fogo. O cheiro de queimado que era sempre o cheiro de estofo em combustão, o cheiro do seu ursinho.

(e ela gostara daquilo)

Era isso, esse era o problema. Quanto mais fizesse, mais gos­taria; quanto mais fazia, mais podia sentir aquele poder, aquela coisa viva, tornar-se cada vez mais forte. Era como uma pirâmide invertida, pousada no seu vértice. Quanto mais fazia aquilo, mais difícil era parar. Doía parar

(e era engraçado)

e portanto nunca mais ia fazer aquilo. Ela morreria ali, mas não faria aquilo. Talvez até desejasse morrer ali. A idéia de morrer num sonho não era nada assustadora. Os dois únicos rostos que não estavam totalmente dissociados eram o de Hockstetter e o do faxi­neiro que vinha todos os dias limpar o apartamento. Charlie pergun­tou-lhe por que tinha que vir todos os dias, já que ela não era desordeira.

John, era o nome dele, tirou um velho bloco barato do bolso de trás de uma esferográfica comum do bolso da camisa. Disse alto:

— Ë o meu ofício, menina. — E no papel escreveu: Porque eles estão cheios de merda, senão, por que seria?

Ela quase riu, mas deteve-se a tempo, pensando nos homens coroados de fogo, homens que cheiravam a ursinhos em combustão. Rir teria sido perigoso. Assim, simplesmente fingiu que não vira a nota ou não a compreendera. O rosto do faxineiro era uma confu­são. Usava uma venda num dos olhos. Ela tinha pena dele, e uma vez quase lhe perguntara o que lhe acontecera, se tinha sofrido algum acidente de carro ou coisa que o valha, mas isso ainda seria mais perigoso do que rir da sua observação escrita. Ela não sabia por quê, mas era assim que se sentia.

O rosto dele era terrível de se olhar, mas ele parecia uma pessoa agradável, e o seu rosto não era pior do que o do pequeno Chuckie Eberhardt, lá de Harrison. Um dia, quando tinha três anos, Chuckie puxara uma panela cheia de gordura quente sobre sua cabeça e quase morrera. Depois as outras crianças o chamavam de Chuckie Hambúrguer e Chuckie Frankensteín, e ele chorava. Aquilo era mesquinho. As outras crianças não pareciam compreender que uma coisa dessas podia acontecer a qualquer um. Quando se tem três anos não se tem muita esperteza na cachola.

O         rosto de John era todo arrebentado,’mas não a assustava. O rosto de Hockstetter é que a assustava, e era um rosto comum, como o de todo mundo, exceto quanto aos olhos. Os olhos dele eram ainda piores do que os da “companheira maternal”. Estavam sempre olhando-a, à espreita. Hockstetter queria que ela provocasse incên­dios. Pediu-lhe isso repetidas vezes. Levava-a para um quarto, onde às vezes havia pedaços de papel de jornal amassado, às vezes prati­nhos de vidro cheios de óleo, e às vezes outras coisas ainda. Mas apesar de todas as perguntas e toda aquela falsa simpatia, acabava sempre na mesma coisa: “Charlie, faça isto pegar fogo!” Hockstetter a assustava. Charlie percebia que ele tinha toda sorte de... de

       (coisas)

       que ele podia usar nela para fazê-la provocar incêndios. Mas ela não os provocaria, embora tivesse medo de provocá-los sem que­rer. Hockstetter usaria qualquer coisa. Ele não jogava limpo, e uma noite ela sonhou, e no sonho pôs fogo em Hockstetter. Acordou com as mãos sobre a boca para reprimir um grito.

         Um dia, para adiar o pedido inevitável, ela lhe perguntou quando poderia ver o pai. Nunca deixara de pensar nisso, mas não lhe perguntara porque já sabia qual seria a resposta. Mas nesse dia estava se sentindo especialmente cansada e desanimada, e a pergun­ta lhe escapou.

         — Charlie, acho que você sabe qual é a resposta — disse Hockstetter. Apontou para a mesa no quarto diminuto. Em cima da mesa havia uma bandeja de aço, cheia de aparas de madeira enroscadas. — Se você acender isso, eu a levarei imediatamente até seu pai. Em dois minutos você estará ao lado dele. — Por baixo dos seus ‘olhos observadores, frios, a boca de Hockstetter abria-se num largo riso de “bons camaradas”. — E agora o que você me diz?

     —  Se me der um fósforo — respondeu Charlie, sentindo que as lágrimas a ameaçavam —, eu acendo.

     — Você pode acender apenas com o pensamento. Você sabe disso.

     —  Não, não posso, e mesmo que pudesse, eu não o faria. Isso é errado. Hockstetter olhou para ela tristemente, já sem o sorriso de bons camaradas.

     — Charlie, por que você se magoa desse modo? Você não quer ver seu pai? Ele quer vê-la. Ele me pediu que lhe dissesse não haver mal nisso.

     E então ela chorou, chorou forte e por muito tempo, porque ela queria ver o pai e nem por um minuto, naqueles dias, ela dei­xara de pensar nele, de sentir a falta dele, de desejar seus braços fortes em torno dela. Hockstetter observava-a chorar sem que seu rosto expressasse qualquer tristeza ou bondade. Fazia-o, conto­do, calculadamente. Como ela o odiava!

     Isso acontecera três semanas antes. Desde então, teimosamente, ela não mencionava o pai, embora Hockstetter lhe acenasse com ele, constantemente, dizendo-lhe que o pai estava triste, que o pai lhe dissera que não havia mal em provocar incêndios, e, pior de tudo, que ele confessara a Hockstetter que desconfiava que Charlie não gostava mais dele.

Ela olhou seu próprio rosto, pálido, no espelho do banheiro, enquanto escutava o zumbido constante do aspirador de pó de John. Quando ele acabasse com aquilo, mudaria os lençóis da cama dela. Em seguida limparia o pó. E depois iria embora. Subitamente, Charlie desejou que ele não fosse embora, queria ouvi-lo falar.

De início, ela ia sempre para o banheiro e ficava lá até ele se retirar, e certa vez ele desligara o aspirador e batera na porta do banheiro, chamando-a, preocupado.

— Menina, você está bem? Você não está doente, está?

A voz dele era tão amável, e a amabilidade, a boa e simples amabilidade era tão rara ali, que ela teve que lutar para manter a voz calma e fria, porque as lágrimas a ameaçavam de novo.

— Sim, eu estou bem.

Ela esperou, imaginando se ele tentaria avançar mais, se ten­taria se intrometer como os outros faziam, mas ele simplesmente fora embora, ligando o aspirador de novo. De certo modo, ela ficara desapontada.

Uma outra vez ele estava lavando o chão quando ela saiu do banheiro e lhe disse, sem olhar para ela:

— Preste atenção ao chão molhado, garota. Você não quer quebrar o braço, não é? — Foi só isso, mas ela se surpreendera de ficar à beira das lágrimas. . . era preocupação, tão simples e direta por ser inconsciente.

Ultimamente ela saía cada vez mais do banheiro para vê-lo. Para vê-lo e ouvi-lo. Às vezes ele lhe fazia perguntas, mas nunca eram ameaçadoras. Ainda assim, na maioria das vezes ela não respondia, só por princípio. Isso não impedia John de falar. Ele conti­nuava falando. Ele falava dos pontos que ganhava no jogo de boli­che, do seu cão, da sua tevê quebrada, e que levaria semanas até que conseguisse que ela fosse consertada, porque cobravam muito caro por aqueles tubinhos mínimos.

Charlie imaginou que ele fosse solitário. Com um rosto como aquele, provavelmente ele não tinha mulher ou qualquer outra companhia. Ela gostava de ouvi-lo, porque ele era como um túnel secreto para o mundo exterior. A voz dele era baixa, musical, por vezes flutuante. Nunca era aguda ou interrogativa, como a de Hocks­tetter, e aparentemente ele não esperava qualquer resposta.

Ela levantou-se do assento do toalete e dirigiu-se à porta, e foi então que as luzes se apagaram. Ela ficou ali, perplexa, com a mão na maçaneta da porta e a cabeça inclinada para o lado. Imediatamente ocorreu-lhe que aquilo fosse alguma armadilha. Podia ouvir o gemido do aspirador se apagando e John exclamando:

— Bolas, que diabo é isto?

Depois as luzes voltaram, mas Charlie não saiu. O aspirador recomeçou a funcionar. Passos aproximaram-se da porta, e John disse:

—        A luz também apagou aí dentro?

—        Sim.

—        Acho que é a tempestade.

—        Que tempestade?

— Parecia que ia haver uma tempestade quando eu vim tra­balhar. Grandes nuvens de chuva.

Parecia que ia haver uma tempestade lá fora.

Ela desejou poder ir lá fora e ver as grandes nuvens carregadas. Sentir aquele cheiro estranho do ar antes das tempestades de verão, um cheiro úmido, chuvoso. Tudo parecia cinza...

As luzes se apagaram novamente. O aspirador parou. A escuri­dão era total. Sua única ligação com o mundo era a sua mão na maçaneta de cromo polido. Pensativa, ela começou a passar a língua no lábio superior.

—        Garota?

Ela não respondeu. Uma armadilha? Uma tempestade, John dissera. Ela acreditava em John. Era surpreendente e assustador descobrir que acreditava em alguma coisa que lhe diziam, depois de todo aquele tempo.

—        Garota? — Era ele novamente. E dessa vez parecia ... assustado.

Seu próprio medo da escuridão, que começava a invadi-la, subli­mara-se no medo dele.

—        John, o que está acontecendo? — Ela abriu a porta e apal­pou o ar diante de si. Não saiu, ainda não. Tinha medo de tropeçar no aspirador.

—        O que aconteceu? — Agora havia um som de pânico na voz dele. Ela se assustou. — Onde está a luz?

—        Sumiu — disse ela. — Você disse ... a tempestade...

—        Eu não agüento escuridão. — Havia terror na voz dele e uma espécie de desculpa grotesca. — Você não compreende. Eu não posso.., tenho que sair ... — Ela ouviu-o precipitar-se numa súbita corrida doida pela sala e, em seguida, um esbarrão estrondoso e assustador, quando ele caiu em cima de alguma coisa, a mesa do café, provavelmente. Ele gritou desamparadamente, assustando-a ainda mais.

—        John, John, você está bem?

—        Eu tenho que sair — gritou ele. — Mande eles me deixa­rem sair, garota!

—        O que é que há de errado?

Não houve resposta, mas não por muito tempo. Ela ouviu um som abafado e compreendeu que John estava chorando.

—        Ajude-me — disse ele, enquanto Charlie permanecia na porta do banheiro, tentando se decidir. Parte do seu medo se trans­formara em compaixão, mas a outra parte continuava questionando com firmeza e inteligência.

—        Ajude-me. Ah, alguém me ajude — disse ele em voz baixa, tão baixa, tão baixa, que era como se esperasse que ninguém o ouvisse. E isso a fez decidir-se. Lentamente, ela começou a tatear o caminho através da sala na direção dele, com as mãos estendidas para a frente.

 

Rainbird ouviu-a chegar e não pôde conter um riso no escuro, um esgar endurecido e sem humor, que encobriu com a palma da mão, para o caso de a energia voltar naquele instante preciso.

—        John?

Ele fez uma voz de tensa agonia em meio ao riso.

—        Desculpe, garota. Eu apenas .. é por causa do escuro. Não suporto escuridão. Parece o lugar em que me puseram quando fui capturado.

—        Quem lhe fez isso?

—        Os vietcongues.

Ela estava mais perto agora. O riso desapareceu-lhe do rosto e ele começou a assumir a representação. Apavorado. A gente fica apavorado porque o vietcongue pós a gente num buraco no chão, depois que uma das suas minas fez explodir quase todo o rosto da gente.., e eles mantêm a gente ali.., e agora a gente precisa de um amigo.

De certo modo, a representação foi natural. Bastava fazê-la acre­ditar que a sua excitação extrema com aquela oportunidade inespe­rada era um medo extremo. E naturalmente ele estava com medo, com medo de perder aquela oportunidade. Aquilo fazia o tiro dis­parado da árvore, com a ampola de Orazina, parecer um brinquedo de criança.

As intuições de Charlie eram terrivelmente agudas. Uma perspi­ração nervosa fluía dele em rios.

—        Quem são os vietcongues? — perguntou ela, agora muito perto. Passou a mão ligeiramente pela face dele, e ele segurou-a. Charlie arquejou nervosamente.

—        Ei, não fique com medo .— disse ele. — Ë apenas...

—        Você.., isso dói. Você está me machucando. — Esse era exatamente o tom certo. Ela também estava assustada, assustada com a escuridão, assustada com ele... mas também preocupada com ele. Ele queria que ela se sentisse agarrada por um homem que está se afogando.

—        Desculpe, garota. — Afrouxou a sua pressão, mas não a largou. — Apenas... será que você pode se sentar ao meu lado?

—        Posso. — Ela sentou-se, e ele estremeceu ao ouvir o brando ruído do corpo dela ao tocar o chão. Lá fora, muito longe, alguém gritou alguma coisa para outra pessoa.

—        Deixem-nos sair — gritou Rainbird imediatamente. — Dei­xem-nos sair. Tem gente aqui dentro!

—        Pare com isso — disse Charlie, alarmada. — Nós estamos bem.., quero dizer, não estamos?

A mente dele, aquela máquina perturbada, estava funcionando bem e a grande velocidade, escrevendo o roteiro sempre três ou quatro linhas adiante, o bastante para ter segurança, não o bastante para destruir sua espontaneidade. Acima de tudo, ele imaginava quanto tempo teria, quanto tempo antes que as luzes voltassem. Acautelou-se para não esperar ou confiar demais. Tinha enfiado a talhadeira por baixo da borda do cofre. Qualquer movimento mais seria perigoso.

—        Sim, acho que estamos — disse ele. — Foi só a escuridão, foi só isso. Eu nem mesmo tenho uma merda de fósforo ou... Oh! Ei, garota, desculpe. Escapou-me.

—        Tudo bem. Às vezes papai diz essa palavra. Uma vez ele estava consertando meu carrinho na garagem, machucou a mão com o martelo e disse isso cinco ou seis vezes. E outras palavras também.

— Esse fora de longe o mais longo discurso que ela jamais fizera na presença de Rainbird. — Será que eles vão vir logo para nos deixar sair?

—        Não podem vir até que a energia volte — disse ele, mos­trando-se desamparado por fora, embora estivesse muito satisfeito por dentro. — Essas portas têm fechaduras elétricas. Foram construídas para se fecharem solidamente se a energia falhar. Eles a puseram num... puseram-na numa cela, garota. Parece um apar­tamento bonitinho, mas é a mesma coisa que estar na prisão.

—        Eu sei — disse ela calmamente. Ele ainda lhe segurava a mão firmemente, e ela parecia não se importar tanto com isso agora.

       — Mas você não deveria dizer isso. Eles podem ouvir.

Eles!, pensou Rainbird, e um fluxo quente de alegria triunfante o atravessou. Estava vagamente consciente de que não sentira essa intensidade de emoção nos últimos dez anos. Eles, ela está falando neles!

Sentiu a sua talhadeira insinuar-se mais adiante no canto do cofre que era Charlie McGee, e involuntariamente apertou-lhe nova­mente a mão.

—Ui!

—        Desculpe, garota — disse ele, soltando-a. — Estou farto de saber que eles escutam. Mas agora não estão ouvindo, com a eletri­cidade desligada. Ah, garota, eu não gosto disto, eu tenho que sair daqui! — Começava a tremer.

—        Quem era o vietcongue?

—        Você não sabe?... Não, você é muito jovem, é claro! Era a guerra, garota. A Guerra do Vietnam. Os vietcongues eram os homens ruins. Usavam pijamas pretos. Na selva. Você ouviu falar da Guerra do Vietnam, não ouviu?

— Sabia... vagamente.

— Estávamos numa patrulha e caímos numa armadilha.

Até ali era verdade, mas dali em diante John Rainbird e a verdade se separavam. Não havia necessidade de confundi-la dizendo que todos eles estavam drogados, a maioria deles fumava maconha do Camboja comunista, e o tenente de West Point que os coman­dava estava apenas a um passo da fronteira entre a sanidade e a loucura, graças aos grãos de mescalina que ele sempre mastigava quando saíam em patrulha. Rainbird vira uma vez aquele tenente atirar numa mulher grávida com um rifle semi-automático, vira o feto de seis meses ser retirado em pedaços do corpo da mulher, um aborto à West Point, como o tenente dissera mais tarde. Na verda­de, aquele dia eles estavam voltando para a base e tinham caído numa armadilha, só que ela fora armada pelos próprios camaradas, ainda mais drogados do que eles próprios, e quatro caras tinham voado pelos ares. Rainbird não via necessidade de contar tudo isso a Charlie, ou que a arma Claymore que lhe tinha destroçado metade do rosto fora fabricada numa indústria de munições de Maryland.

—        Só seis dos nossos saíram de lá! Corremos.. Corremos pela selva, e acho que tomei a direção errada. Caminho errado? Caminho certo? Naquela guerra maluca não se sabia qual era o lado certo, porque não havia linhas reais. Fiquei isolado dos meus companhei­ros. Estava ainda tentando encontrar alguma coisa conhecida, quando pisei numa mina de terra. Foi isso o que aconteceu ao meu rosto.

—        Sinto muito.

—        Quando acordei, eles me agarraram — disse Rainbird, já agora na Terra do Nunca, no terreno da ficção total. Na verdade chegara ao hospital do exército em Saigon com uma perfusão intra­venosa no braço. — Não me dariam qualquer tratamento, nem nada, a menos que eu respondesse às suas perguntas.

Agora muito cuidado. Se ele agisse com bastante cautela, tudo sairia bem; podia sentir isso.

Levantou a voz, perplexo e amargo.

       — Perguntas, todo o tempo perguntas. Queriam saber dos movimentos das tropas.., dos suprimentos... do desdobramento da infantaria ligeira.., tudo. Nunca desistiam. Estavam sempre em cima de mim.

       — Sim — disse Charlie com veemência, e o coração dele se alegrou.

       — Continuei dizendo a eles que não sabia de nada, não podia contar nada, que eu não passava de um pobre recruta, apenas um número com uma mochila nas costas. Não acreditaram em mim. Meu rosto.., a dor.., caí de joelhos e supliquei por morfina eles disseram “depois”.., depois que eu contasse podia ganhar a morfina. Poderia ser tratado num bom hospital.., mas só depois que lhes contasse tudo.

       Agora era Charlie quem apertava com força a mão de John. Pensava nos olhos cinzentos e frios de Hockstetter, em Hockstetter apontando para a bandeja cheia de lascas de madeira enroladas.

Eu acho que você sabe a resposta... se você acender isso, você vai ver seu pai imediatamente.

Você pode estar ao lado dele dentro de dois minutos.

O coração dela comovia-se com aquele homem de rosto horrivelmente ferido, aquele homem adulto

que tinha medo do escuro. Ela achava que podia entender aquilo por que ele passara. Conhecia seu

sofrimento. E, no escuro, ela desatou a chorar em si­lêncio por ele, e de certo modo as lágrimas

eram por ela também todas as lágrimas não derramadas nos últimos cinco meses. Eram lágrimas de

dor e raiva por Rainbird, pelo pai, pela mãe, por ela própria. Queimavam e castigavam.

       As lágrimas não eram tão silenciosas que Rainbird não as ouvisse com suas orelhas de radar. Teve de lutar para reprimir mais um sorriso. De fato, a talhadeira estava bem plantada. Resis­tência forte, resistência fraca, mas não resistência invencível.

       — Eles nunca acreditaram em mim. Finalmente, me atiraram num buraco no chão, que estava sempre escuro. Era um pequeno... quarto, como você diria, com raízes saindo pelas paredes de terra... e por vezes eu podia ver um pouco da luz do sol três metros acima. Eles vinham, e o comandante, acho que era, me perguntava se eu já estava pronto para falar. Disse que eu estava ficando pálido lá embaixo, pálido como um peixe. Que meu rosto estava infectado, que eu ia ficar com gangrena no rosto, e ela me invadiria os miolos e os apodreceria até me enlouquecer, e depois eu morreria. Ele me perguntava se eu queria sair do escuro e ver a luz do sol de novo. E eu suplicava.., implorava.., jurava pelo nome da minha mãe que não sabia de nada. E então eles riam e punham as tábuas de novo, cobrindo-as com terra. Era como se eu estivesse enterrado vivo. O escuro.., como isto aqui...

Ele soltou um som abafado, e Charlie apertou-lhe mais a mão para mostrar-lhe que estava ali.

— Havia aquele espaço e um pequeno túnel de cerca de dois metros. Eu tinha que ir até o final do túnel para... você sabe. E o ar era ruim, e eu continuava pensando que ia apodrecer... ali naquela escuridão, que ia sufocar com o cheiro da minha própria m... — Deu um gemido. — Desculpe. Não é coisa que se conte a uma garota.

— Não tem importância. Se isso o faz sentir-se melhor, tudo bem.

Ele ponderou e resolveu ir um pouco mais adiante.

— Fiquei lá cinco meses até eles me trocarem.

— O que é que você comia?

— Eles jogavam arroz podre lá dentro. E às vezes aranhas. Aranhas vivas, das grandes, umas três aranhas, calculo eu. Eu as procurava no escuro, você sabe, depois as matava e comia.

— Ah, que nojo!

— Eles fizeram de mim um animal! — Ele ficou em silencio por um momento, resfolegando. — Você tem mais sorte do que eu, garota, mas vem a dar na mesma. Um rato na ratoeira. Você acha que eles vão acender as luzes logo?

Ela nada disse por um longo espaço de tempo, e ele ficou frio de medo de ter ido longe demais. Então Charlie disse:

— Não importa, nós estamos juntos.

— Está certo — disse ele, e em seguida, rapidamente: — Você não vai contar nada a eles, vai? Eles me mandariam embora por falar essas coisas. Eu preciso deste emprego. Quando se tem uma cara como a minha, precisa-se de um bom emprego.

— Não, eu não vou contar.

Ele sentiu que a talhadeira se insinuara mais um ponto adiante. Agora tinham um segredo entre eles.

Tinha-a nas mãos.

Na escuridão, pensou em como seria se ele passasse as mãos em torno do pescoço dela. Esse era o seu alvo final, naturalmente, não os estúpidos testes deles, aquelas brincadeiras de criança. Em torno do pescoço dela.., e talvez dele mesmo, também. Ele gostava dela, gostava realmente. Podia até estar se enamorando dela. Chegaria o dia em que ele a despacharia, contemplando-lhe cuidadosamente os olhos todo o tempo. E então, se os olhos dela lhe dessem aquele sinal pelo qual suspirava havia tanto tempo, talvez ele a seguisse. Sim, era isso. Talvez fossem juntos para a verdadeira escuridão.

Lá fora, do outro lado da porta fechada, turbilhões confusos passavam para cima e para baixo, às vezes perto, às vezes longe.

Mentalmente, Rainbird cuspiu nas mãos e continuou a traba­lhar a menina.

Não passou pela cabeça de Andy que eles não tinham ido bus­cá-lo porque a falta de energia fechara automaticamente as portas. Estava ali sentado, meio desmaiado de pânico, por um tempo igno­rado, imaginando o cheiro de fumaça; sem dúvida, o local estava em chamas. Lá fora a tempestade passara e a luz do sol da tarde tendia para o lusco-fusco. Subitamente, o rosto de Charlie lhe veio à mente, tão claro como se estivesse ali diante dele.

(ela está em perigo. Charlie está em perigo)

Era uma das suas premonições, a primeira desde aquele último dia em Tashmore. Pensava ter perdido essa faculdade juntamente com o poder de dominação mental, mas ao que parecia não era assim, porque nunca tivera uma premonição mais clara do que essa, nem mesmo no dia em que Vicky fora morta.

Significaria isso que a faculdade de pressionar mentalmente ainda existia? Não teria desaparecido, mas apenas se escondera?

(Charlie está em perigo)

Que espécie de perigo?

Ele não sabia. Mas esse pensamento e o medo puseram clara­mente diante dele o rosto de Charlie, delineado na escuridão em todos os detalhes. E a imagem de seu rosto, com seus olhos azuis separados e o cabelo louro e fino, trouxe-lhe um duplo sentimento de culpa. Sentimento de culpa era uma expressão branda demais para o que sentia; era alguma coisa parecida com horror. Tinha estado num pânico louco desde que as luzes haviam se apagado, e o pânico era só em relação a ele. Em nenhum momento lhe ocorrera que Charlie também estivesse no escuro.

Não, eles virão buscá-la, provavelmente já vieram e a levaram para fora há muito tempo. Ë Charlie que eles querem. Charlie é o seu ganha-pão.

Isso tinha sentido, mas ainda assim ele sentia aquela certeza sufocante de que ela estava em perigo.

O medo por ela teve o efeito de varrer o pânico por si próprio, ou pelo menos torná-lo mais suportável. Sua consciência voltou-se para o exterior, e ele ficou mais objetivo. A primeira coisa que lhe veio à consciência foi que estava sentado numa poça de soda. Suas calças estavam molhadas e pegajosas, e ele gemeu de nojo.

Mover-se, mover-se seria a cura para o medo.

Ele pôs-se de joelhos, tateou à procura da lata de soda vi­rada e atirou-a longe. Ela tamborilou no chão de ladrilho. Ele pegou outra lata da geladeira; sua garganta continuava seca. Puxou a argolinha, deixou-a cair dentro da lata e bebeu. A argolinha tentou enfiar-se dentro de sua boca, mas ele cuspiu-a distraidamente, sem parar para refletir que apenas um momento antes isso já teria sido desculpa para mais quinze minutos de medo e tremores.

Começou a tatear o caminho para sair da cozinha, deslizando a mão livre ao longo da parede. Naquele pavimento o silêncio era completo agora, e, embora ele ouvisse ocasionalmente um chamado longínquo, parecia-lhe não haver nenhuma desordem ou pânico na­quela voz. O cheiro de fumaça fora uma alucinação. O ar estava um pouco viciado porque todos os aparelhos de circulação de ar tinham cessado de funcionar devido à falta de energia, mas era só isso.

Em vez de cruzar a sala, Andy virou à esquerda e engatinhou em direção ao quarto de dormir. Apalpou cuidadosamente o cami­nho até a cama, pousou a lata de soda na mesa-de-cabeceira e des­piu-se. Dez minutos depois, estava vestindo uma roupa limpa, o que o fez sentir-se muito melhor. Ocorreu-lhe que fizera tudo isso sem qualquer dificuldade especial, enquanto, logo que as luzes tinham se apagado, atravessar a sala de estar tinha sido como cruzar um campo minado:

(Charlie... que havia de errado com Charlie?)

Mas não era realmente a sensação de que havia alguma coisa errada com Charlie, apenas a sensação de que ela estava em perigo. Se pudesse vê-la, poderia perguntar-lhe o que era.

Riu amargamente na escuridão. Sim, certo. E os porcos asso­biarão e os mendigos cavalgarão. Era o mesmo que desejar a lua numa jarra de cerâmica. Era o mesmo que...

Por um momento seus pensamentos estancaram completamente, e depois moveram-se, mais lentamente, porém, e sem amargura.

Poderia desejar que os executivos ganhassem mais auto-confiança.

Poderia desejar que senhores gordos ficassem mais magros.

Poderia desejar que um dos seqüestradores de Charlie ficasse cego.

Poderia igualmente desejar que seu poder de dominação mental voltasse.

Tocava a colcha da cama, puxando-a, amassando-a, tateando-a, como se sentisse uma necessidade, quase inconsciente, de alguma espécie de estímulo sensório constante. Não tinha sentido esperar que seu poder de dominação mental voltasse. Fora-se. Já não podia fazer pressão para se comunicar com Charlie, como também não podia fazer propaganda a favor dos comunistas. Já não tinha mais esse poder.

(realmente?)

Subitamente, já não tinha certeza disso. Parte dele, uma parte muito profunda, talvez tivesse chegado à conclusão de que sua deci­são consciente de seguir o caminho da menor resistência e dar a eles tudo o que quisessem não compensava. Talvez uma parte profunda dele tivesse decidido não se entregar.

Estava sentado, sentindo a colcha da cama, passando a mão repetidas vezes por ela.

Seria aquilo verdade ou apenas uma crença naquilo que se dese­ja, trazida por uma premonição súbita e improvável? A própria premonição podia ter sido tão falsa quanto a fumaça que ele pensara sentir, provocada apenas pela simples ansiedade. Não havia meio de averiguar a premonição, e certamente não havia ninguém que ele pudesse pressionar.

Bebeu a sua soda.

E se a faculdade tivesse voltado? Não era uma panacéia uni­versal; ele, mais do que ninguém, sabia disso. Poderia fazer uma porção de pequenas pressões ou três ou quatro pressões fortes antes de se esgotar. Ele podia chegar até Charlie, mas não teriam a míni­ma chance de sair dali. O máximo que podia conseguir era pressio­nar a si mesmo até a morte por hemorragia cerebral (e, quando pensou nisso, levou os dedos automaticamente ao rosto, onde sen­tira os pontos dormentes).

E depois havia aquela história da Torazina que lhe estavam administrando. A falta dela.., o atraso da dose devida tinha sido responsável por grande parte de seu pânico quando as luzes haviam se apagado. Ele sabia disso. Mesmo agora, que se sentia mais con­trolado, ele queria aquela Torazina. De início, conservaram-no sem Torazina durante dois dias antes de o testarem. O resultado fora um nervosismo constante e uma depressão, como nuvens espessas que pareciam nunca se levantar. . . e voltar, pois ele não sentia uma coisa pesada, como agora.

— Enfrente isso, você é um viciado — sussurrou.

Ele não sabia se isso era verdade ou não. Sabia que havia vícios físicos como o da nicotina e da heroína, que provocavam alterações físicas no sistema nervoso central. E havia ainda os vícios psicoló­gicos. Um de seus colegas professores, um camarada chamado Bill Wallace, ficava muito nervoso sem três ou quatro Cocas por dia; e seu velho colega de faculdade, Quincey, era viciado em batatas fritas. Fazia questão de uma marca especial da Nova Inglaterra; sustentava que nenhuma outra qualidade o satisfazia. Andy consi­derava que esses vícios podiam ser classificados como psicológicos. Não sabia se aquela sua ansiedade pela pílula era física ou psicoló­gica; só sabia que precisava dela. Só de ficar ali sentado, pensando na pílula azul, no prato branco, sentia-se de novo como se estivesse drogado. Eles já não o deixavam sem a droga durante quarenta e oito horas antes de testá-lo, embora ele não soubesse se era porque achavam que ele não podia ficar tanto tempo sem receber aquelas bolinhas ou porque estavam apenas seguindo as etapas habituais de testes. O resultado era um problema insolúvel, cruelmente claro: ele não era capaz de exercer pressão mental sob o efeito da Tora­zina, e, no entanto, simplesmente não tinha energia para recusá-la (e, naturalmente, se o pegassem recusando-a, isso levantaria novas suspeitas para eles, não é verdade? — verdadeiros répteis notur­nos). Quando lhe trouxessem a pílula azul num prato branco, de­pois que aquela escuridão cessasse, ele a tomaria. E pouco a pouco ele abriria calmamente o caminho de volta para o estado de equi­líbrio apático em que se achava quando a eletricidade cessara. Tudo isso agora era apenas uma pequena excursão extra-fantasmá­tíca. Voltaria a assistir aos programas do Clube PTL e de Clint Eastwood na têve a cabo, petiscando fartamente do que houvesse na geladeira, sempre bem suprida. Voltaria a engordar.

(Charlie, Cbarlie está em perigo. Charlie está com toda espécie de problemas, está num mundo de sofrimento)

Se assim era, não havia nada que ele pudesse fazer. E mesmo que houvesse, mesmo que ele conseguisse superar o vício e tirá-los dali — porcos assobiarão, e mendigos cavalgarão, e por que diabo não? —, qualquer solução definitiva para o futuro de Charlie estava tão distante quanto antes.

Estendeu-se na cama com os braços abertos.

O pequeno setor da sua mente que lidava agora exclusivamente com a Torazina continuava a clamar com impaciência.

Não havendo solução no presente, ele desviou o pensamento para o passado. Viu Charlie e ele fugindo pela Third Avenue numa espécie de pesadelo em câmera lenta, um homem alto num casaco de veludo cotelê puído e uma menininha de vermelho e verde. Viu Charlie com o rosto tenso, lágrimas correndo-lhe pelas faces, depois de ter apanhado todas as moedas dos telefones automáticos no aero­porto... apanhara as moedas e ateara fogo aos sapatos de um militar.

Seu pensamento recuou ainda mais, para a orla marítima em Port City, na Pensilvânia, para a Sra. Gurney. A triste e gorda Sra. Gurney que procurara o curso para perder peso numa roupa verde, atraída pelo slogan primorosamente escrito, que fora, na verdade, idéia de Charlie: Você perderá peso ou nós pagaremos suas com­pras no supermercado nos próximos seis meses.

A Sra. Gurney dera ao marido, motorista de caminhão, qua­tro filhos, entre 1950 e 1957, que agora, já crescidos, estavam aborrecidos com ela. O marido também estava desgostoso com ela, e procurava outra mulher, o que ela podia compreender, porque Stan Gurney ainda era um homem viril, de bom aspecto e muita vida aos cinqüenta e cinco anos, enquanto ela ganhara lentamente setenta e dois quilos nos anos que se sucederam à partida para a universidade do penúltimo filho. Passara de sessenta e poucos qui­los, que pesava ao se casar, para cento e trinta e seis.

Ela entrara, macia, monstruosa e desesperada na sua roupa verde; seu traseiro era quase tão largo quanto a mesa de um presi­dente de banco. Quando baixou a cabeça para procurar na carteira o talão de cheques, seus três queixos se transformaram em seis.

Ele pusera-a num grupo com outras três mulheres gordas. Fa­ziam exercícios e seguiam uma dieta suave, coisas que Andy pesqui­sara na Biblioteca Pública. Havia leves conversas animadoras que ele chamava de “aconselhamento”, e de vez em quando ele lhes aplicava uma pressão mental média.

A Sra. Gurney baixara de cento e trinta e seis para cento e vinte e dois quilos, confessando, com um misto de medo e prazer, que já não desejava repetir os pratos. A repetição parecia-lhe não ter bom gosto. Antes ela guardava tigelas e tigelas de comidinhas na geladeira (e roscas na caixa de pão, e dois ou três pedaços de queijo no congelador) para comer enquanto assistia tevê à noite, mas agora não sabia como.., bem, parecia quase maluquice, mas... ela esquecera que essas coisas estavam lá. Sempre ouvira dizer que, quando se faz dieta, só se pensa em comida. Só sabia dizer que aquela falta de apetite não ocorrera quando ela experimentara os Vigilantes do Peso.

As outras três mulheres do grupo reagiram ardorosamente da mesma maneira. Andy ficava só observando-as, sentindo-se ridi­culamente paternal. As quatro se espantavam e se deliciavam com o prosaísmo das suas experiências. Os exercícios tonificantes que sempre lhes haviam parecido cacetes e incômodos agora eram quase agradáveis. Houve então aquela misteriosa compulsão para andar a pé. Todas concordavam em que se não andassem um bom trecho, no final do dia sentiriam mal-estar e inquietação. A Sra. Gurney confessou que adquirira o hábito de ir a pé até o centro da cidade e voltar, todos os dias, apesar de o percurso ser de mais de três quilô­metros. Antes sempre tomava o ônibus, que era sem dúvida o mais sensato, já que a parada ficava exatamente diante da casa dela.

Mas um dia, ao tomar o ônibus, porque os músculos da coxa lhe doíam muito, começou a sentir mal-estar e inquietação e teve de descer na segunda parada. As outras concordaram. E todas exalta­vam Andy McGee por isso, apesar dos músculos doloridos e de tudo o mais.

O         peso da sra. Gurney caíra para cento e três quilos na sua terceira pesagem, e quando o curso de seis semanas terminou, ela só tinha cem quilos. Disse que o marido ficara estarrecido com o que acontecera; especialmente depois dos inúmeros programas dieté­ticos fracassados. Queria que ela consultasse um médico, receava que estivesse com câncer. Não acreditava que fosse possível perder trinta e quatro quilos em seis semanas por meios naturais. Ela mos­trou-lhe os dedos vermelhos, cheios de calos da agulha com que ti­nha que apertar as roupas. E depois se atirou a ele, abraçou-o (quase lhe quebrando a espinha) e chorou agarrada ao seu pescoço.

Esses clientes em geral voltavam, tal como os seus alunos mais bem-sucedidos da faculdade, pelo menos uma vez, alguns para agradecer, outros simplesmente para exibir seu êxito diante dele, para de fato lhe dizerem: “Olhe aqui, o aluno ultrapassou o profes­sor. . . “, coisa que dificilmente seria tão pouco comum como pare­ciam acreditar, cogitava Andy, às vezes.

Mas a Sra. Gurney voltara para cumprimentá-lo e agradecer-lhe apenas uns dez dias antes de Andy começar a se sentir nervoso e vigiado em Port City. E antes do final daquele mês, mudara-se para Nova York.

A Sra. Gurney ainda era uma mulher gorda; só quem a tivesse conhecido antes notaria a espantosa diferença, como naqueles anún­cios de “antes e depois” das revistas. Da última vez que viera vê-lo, tinha baixado para oitenta e oito quilos e setecentos gramas. Mas não era exatamente o seu peso que importava, é claro. O importante era ela estar perdendo peso no mesmo ritmo de dois quilos e sete­centos gramas por semana, com uma diferença para mais ou para menos de um quilo, e ela continuaria perdendo peso num ritmo decrescente até chegar a cinqüenta e nove quilos. Não ocorrera nenhuma descompressão explosiva nem qualquer seqüela persistente de horror aos alimentos, tipo de coisa que por vezes leva à anorexia nervosa. Andy queria ganhar algum dinheiro, mas sem matar ninguém.

— O senhor devia ser declarado um patrimônio nacional pelo que está fazendo — declarou-lhe a Sra. Gurney, depois de contar a Andy que conseguira uma reaproximação com os filhos e que suas relações com o marido estavam melhorando. Andy sorrira e agra­decera-lhe; mas agora, deitado na cama na escuridão, ainda sono­lento, refletia que era aproximadamente o que acontecia a ele e a Charlie, ambos considerados patrimônios nacionais.

Não, aquele seu talento não era de todo ruim. Não quando podia ajudar alguém como a Sra. Gurney.

Sorriu.

E sorrindo adormeceu.

Nunca pôde lembrar depois os detalhes do sonho. Tinha estado à procura de alguma coisa. Estivera numa confusão labiríntica de corredores, iluminados, apenas por sombrias luzes vermelhas de emergência. Abrira portas para quartos vazios e as fechara nova­mente. Alguns quartos estavam cheios de bolas de papel amassado, e num deles havia um abajur de mesa e um quadro caído, pintado no estilo de Wyeth. Sentiu que estava numa espécie de instalação que fora fechada e esvaziada, um inferno de fúria despedaçante.

E, no entanto, ele encontrara afinal aquilo que procurava. Era.., o quê? Uma caixa? Um cofre? Fosse o que fosse, era terri­velmente pesado e tinha estampado em branco, com estêncil, um crânio e dois ossos cruzados, como um jarro contendo veneno de rato, guardado numa prateleira alta da adega. De algum modo, ape­sar do peso (pelo menos tão grande como o da sra. Gurney), ele conseguira levantá-lo. Podia sentir todos os seus músculos e tendões distenderem-se, mas não havia dor.

Naturalmente, não há dor, disse consigo mesmo. Não há dor porque isto é um sonho. Você pagará por isso depois. Você sentirá dor depois.

Carregava a caixa para fora do quarto onde a encontrara; tinha de levá-la para algum lugar, mas não sabia qual.

Você vai saber quando o vir, sussurrava-lhe sua mente.

Assim, ele carregou a caixa ou cofre para cima e para baixo por corredores intermináveis; o peso estirava-lhe os músculos sem dor, enrijecia-lhe a nuca; embora os músculos não lhe doessem, começava a sentir dor de cabeça.

O cérebro é um músculo, ensinava-lhe a mente, e a instrução transformava-se em canto, como uma cantiga de criança, uma canção infantil. O cérebro é um músculo que pode mover o mundo. O cérebro é um músculo que pode mover...

Agora todas as portas eram como portas de metrô equipadas com grandes janelas; todas elas tinham cantos redondos. Por essas portas (se fossem portas), ele via uma confusão de cenas. Num quarto o Dr. Wanless tocava um enorme acordeão. Parecia o maes­tro Lawrence Welk enlouquecido, com um copo de metal cheio de lápis diante dele e um aviso em torno do pescoço que dizia:

NAO HÁ PIOR CEGO DO QUE AQUELE QUE NAO QUER VER. Por outra janela, não podia ver uma moça com um cafetã branco esvoaçante, gritando, correndo para fora das paredes, e Andy passou rapida­mente por ela.

Por outra janela, viu Charlie, e novamente se convenceu de que estava tendo uma espécie de sonho de pirata — com tesouro enterrado, gritos de yo-ho-ho e tudo o mais —, porque Charlie parecia estar falando com Long John Silver. Esse homem tinha um papagaio no ombro e uma venda no olho. Ria para Charlie numa espécie de falsa amizade que fez Andy ficar nervoso. Como confirmação disso, o pirata caolho insinuou um braço em torno dos om­bros de Charlie e gritou com voz rouca: “Nós ainda vamos pegá-los, garota!”

Andy queria parar ali e bater na janela até atrair a atenção de Charlie, mas ela fitava o pirata como que hipnotizada. Andy queria verificar se ela via através daquele homem estranho, se ela com­preendia que o homem não era aquilo que parecia.

Mas não podia parar. Tinha aquela maldita

(caixa, cofre?)

para

     (???)

para quê? Que raio de coisa deveria ele fazer com aquilo?

Saberia quando chegasse a hora.

Continuou passando por dúzias de outros quartos, não podia se lembrar de todas as coisas que vira, e então encontrou-se num longo corredor vazio, que terminava numa parede branca. Mas não inteiramente branca; exatamente no centro, havia um grande retân­gulo de aço, como uma fenda de caixa de correio.

Viu então a palavra impressa nela em letras salientes e com­preendeu.

Lixo, era o que estava escrito.

Subitamente, a Sra. Gurney estava ao lado dele, uma Sra. Gurney esbelta e bonita, com um corpo bem-formado e pernas gar­bosas, que pareciam feitas para dançar a noite inteira, dançar num terraço até as estrelas ficarem pálidas e a aurora se levantar no leste como uma música suave. Ninguém adivinharia, pensou ele, perplexo, que as roupas dela antigamente eram feitas por Omar, o fabricante de tendas. Tentou levantar a caixa, mas não conseguiu. Ficara de repente pesada demais. A dor de cabeça piorava. Era como o cavalo negro, o cavalo sem cavaleiro, de olhos vermelhos; com crescente horror, percebeu que o cavalo estava solto, estava em algum lugar naquela instalação abandonada e vinha na direção dele, batendo as patas, batendo...

— Vou ajudá-lo — disse a Sra. Gurney. — O senhor ajudou-me, agora eu o ajudarei, o senhor é um patrimônio nacional, e não eu.

— A senhora está tão bonita! — disse ele, e sua voz parecia vir de longe, através da dor de cabeça que aumentava.

— Eu me sinto como se tivesse sido libertada da prisão — respondeu a Sra. Gurney. — Deixe-me ajudá-lo.

— É só a minha cabeça que dói...

— Naturalmente que dói. Afinal, o cérebro é um músculo.

Ela o tinha ajudado, ou ele o teria feito por si só? Não podia se lembrar. Mas lembrava-se agora de ter pensado que compreendera o sonho, era da capacidade de pressionar que ele estava se desfa­zendo, de uma vez por todas. Lembrava-se de ter virado a caixa contra a fenda em que se via a palavra Lixo, despejando-a e imagi­nando como seria quando dela saísse aquela coisa que se instalara em seu cérebro desde os seus dias de faculdade. Mas não foi aquela capacidade que saiu; sentiu ao mesmo tempo surpresa e temor quando a tampa se abriu. O que se projetou de dentro da abertura foi um fluxo de pílulas azuis, as suas pílulas, e ele ficou assustado, naturalmente; ele estava, como dizia seu avô McGee, subitamente assustado o bastante para evacuar moedas.

— Não! — gritou ele.

— Sim — respondeu firmemente a sra. Gurney. — O cérebro é um músculo que pode mover o mundo.

Ele viu então a maneira como ela sentia o problema.

Parecia que quanto mais despejava, mais a cabeça lhe doía, e quanto mais a cabeça lhe doía, maior era a escuridão, até não haver luz alguma. A escuridão era total, uma escuridão viva, todos os fusíveis tinham se queimado e não havia luz, nem caixa, nem sonho, apenas a sua dor de cabeça e o cavalo sem cavaleiro, de olhos ver­melhos, aproximando-se, aproximando-se.

Tam, tam, tam...

 

Ele já devia estar acordado havia muito tempo quando perce­beu que realmente tinha acordado. A ausência total de luz tornava difícil traçar a linha divisória. Alguns anos antes, lera sobre uma experiência em que vários macacos tinham sido colocados em am­bientes destinados a amortecer-lhes os sentidos. Todos os macacos ficaram loucos. Ele compreendia por quê. Não tinha idéia de por quanto tempo dormira, nenhum estímulo concreto, exceto...

— Ó, meu Deus!

Apenas sentar-se provocara a sensação de dois monstruosos parafusos de dor no crânio. Levou rapidamente as mãos à cabeça e balançou-a para a frente e para trás, e aos poucos a dor foi regre­dindo a um nível mais suportável. Nenhum estímulo sensório concreto, exceto aquela desgraçada dor de cabeça. Devo ter dormido apoiado no pescoço ou coisa pare­cida, pensou ele. Deve ter sido...

Não. Oh, não! Ele conhecia aquela dor de cabeça, conhecia-a muito bem. Era a espécie de dor de cabeça causada por uma pressão mental de intensidade média.. . mais forte do que a que dera às senhoras gordas e aos executivos tímidos, mas não tão intensa quanto a que aplicara aos camaradas na parada de descanso na auto-estrada, quando Charlie fora seqüestrada.

Andy pôs as mãos no rosto e apalpou-o todo, da testa ao queixo. Não havia pontos de entorpecimento. Quando sorriu, os dois cantos da boca se levantaram como sempre faziam. Desejou que Deus lhe trouxesse luz para que pudesse ver os próprios olhos no espelho do banheiro, para ver se algum deles mostrava aquela mancha de sangue reveladora...

Pressionar? Fazer pressão?

Isso era ridículo. Quem havia ali para ser pressionado? Quem, a menos que...

Sua respiração ficou mais lenta até parar na garganta. Recupe­rou-se vagarosamente. Pensara nisso antes, mas nunca tentara. Pen­sara que isso seria sobrecarregar um circuito, fazendo uma ciclagem de carga ininterrupta. Tivera medo de experimentar.

Minha pílula, pensou ele. Já passou a hora da pílula e eu a quero... Realmente eu a quero, realmente preciso dela. A pílula deixará tudo bem.

Era apenas um pensamento. Não trazia qualquer desejo arden­te. A idéia de tomar uma Torazina tinha o mesmo conteúdo emo­cional de passe-me a manteiga, por favor. O fato era que, exceto quanto à maldita dor de cabeça, sentia-se muito bem. Era um fato também que já tinha sentido dores de cabeça muito piores do que essa, por exemplo, a dor de cabeça no aeroporto de Albany. Essa era um bebê comparada àquela.

Pressionei a mim mesmo, pensou ele, intrigado.

Pela primeira vez, podia realmente compreendër como Charlie se sentia, porque pela primeira vez ele se assustara com seu próprio talento psicológico. Pela primeira vez, compreendia realmente como entendia pouco do que era aquilo, e o que podia causar. Por que aquilo passara? Não sabia. Por que voltara? Também não sabia. Teria alguma coisa a ver com seu intenso medo do escuro? Com aquela sensação súbita de que Charlie estava ameaçada (tivera uma lembrança fantasmagórica do homem caolho com aspecto de pirata, que logo se tornara vaga e desaparecera) e com a triste auto-incul­pação pela maneira como se esquecera dela? Com a batida na cabeça que sentira ao cair?

Ele não sabia, sabia apenas que pressionara a si mesmo.

O         cérebro é um músculo que pode mover o mundo.

Subitamente, ocorreu-lhe que, quando ele estava dando peque­nas cutucadas em executivos e senhoras gordas, poderia ter se cons­tituído, sozinho, num centro de reabilitação de drogados, e foi tomado de um êxtase trêmulo de incipientes conjecturas. Ador­mecera pensando que um talento que poderia ajudar a pobre e gorda Sra. Gurney não devia ser completamente ruim. E que tal um talento que pudesse liquidar o problema de droga que afligia todos os infelizes viciados da cidade de Nova York? O que acham disso, fãs do esporte?

— Meu Deus! — murmurou. — Estarei realmente livre do entorpecente? — Não havia um desejo ardente. A Torazina, a ima­gem da pílula azul no prato branco, esse pensamento tornara-se inconfundivelmente neutro.

— Eu estou limpo — respondeu a si mesmo.

A própria pergunta seria: podia permanecer livre da droga?

Todavia, mal formulara essa pergunta a si mesmo, outras per­guntas afluíram em quantidade. Poderia ele descobrir o que exata­mente estava acontecendo com Charlie? Usar o talento de pressio­nar a si mesmo no sono, como uma espécie de auto-hipnose? Pode­ria ele usá-lo em outros, enquanto acordado? Naquele Pynchot, com seu riso interminável e repulsivo, por exemplo? Pynchot deve­ria saber o que estava acontecendo a Charlie. Seria possível fazê-lo falar? Poderia ele talvez conseguir até mesmo tirá-la dali, afinal? Haveria um meio de fazer isso? E se eles conseguissem sair dali, o que fariam depois? Em primeiro lugar, não queria mais fugas. Não era a solução. Deveria haver um lugar para onde ir.

Pela primeira vez em meses, sentiu-se excitado, esperançoso. Começou a tentar esboços de planos, aceitando, rejeitando, questio­nando. Pela primeira vez em meses, sentiu-se em paz com sua pró­pria cabeça, vivo e vital, capaz de agir. E acima de tudo o mais, havia isto: se ele conseguisse iludi-los para que acreditassem em duas coi­sas — que ele ainda estava drogado e que ainda era incapaz de usar seu talento de dominação mental —, poderia, então, poderia ter uma chance de fazer. .. fazer alguma coisa.

Continuava virando e revirando a idéia com a mente inquieta quando as luzes voltaram. No outro quarto, a teve começou a decla­mar o mesmo Jesus-tomará-conta-de-você, tomará-conta-do-seu-talão-de-cheques.

Os olhos, os olhos elétricos! Eles estão observando você, ou muito em breve estarão. .. Não se esqueça disso!

Por um momento tudo voltou ao seu pensamento, os dias e semanas de subterfúgios que certamente teria pela frente se quisesse ter alguma chance, e a quase certeza de que seria apanhado em algum ponto. A depressão acenou.., mas não trouxe qualquer desejo ar­dente da pílula, o que o ajudou a controlar-se.

Pensou em Charlie, e isso o ajudou mais.

Levantou-se lentamente da cama e foi até a sala de estar.

— O que aconteceu? — gritou ele. — Eu estava assustado! Onde está o meu remédio? Alguém me traga o remédio!

Sentou-se defronte da tevê, com o rosto caído, apagado e pesa­do. E por trás daquele rosto desanimado, seu cérebro, aquele músculo que podia mover o mundo, agia cada vez mais depressa.

 

Como o pai não podia se lembrar do sonho que tivera na mes­ma ocasião, Charlie também não conseguia se lembrar dos detalhes da sua longa conversa com John Rainbird, só dos pontos importan­tes. Não sabia ao certo como chegara a despejar a história de como viera parar ali, ou a falar da sua intensa solidão, por falta do pai, e do terror de que eles achassem algum meio de forçá-la a usar sua capacidade pirocinética novamente.

Aquilo se devia em parte ao blackout, sem dúvida, e à cons­ciência de que eles não a estavam ouvindo. E em parte ao próprio John, que se insinuara tanto e ficara tão pateticamente assustado com a escuridão e com as recordações daquele buraco terrível em que os vietcongues o tinham enfiado. Ele lhe perguntara, de forma quase apática, por que a tinham enclausurado, e ela começara a falar apenas para distraí-lo. Mas, rapidamente tornara-se mais do que isso. Começava a vir à tona, cada vez mais depressa, tudo o que ela mantivera guardado, até que as palavras se atropelavam umas nas outras desorientadamente. Uma ou duas vezes chorara, e ele a segurara desajeitadamente. Era um homem amável.., que de várias maneiras lembrava-lhe o pai.

— Agora, se eles descobrirem que você sabe tudo isso — disse ela —, provavelmente vão trancá-lo também. Eu não devia ter lhe contado.

— Eles me trancariam, sem dúvida — disse John, animado. — Eu tenho um posto de categoria D, garota. Isso me autoriza a abrir latas de cera e só isso. — Ele riu. — Nós ficaremos bem, se você não revelar que me contou.

— Não vou falar nada — disse Charlie com vivacidade. Ela própria se sentira um pouco preocupada, pensando que, se John contasse, eles poderiam usá-lo contra ela como uma alavanca. — Estou morrendo de sede. Tem água gelada na geladeira. Você quer também?

— Não me deixe — disse ele imediatamente.

— Então vamos juntos. Vamos de mãos dadas.

Ele fingiu estar pensando na proposta.

— Muito bem — disse, então.

Foram juntos até a cozinha, arrastando os pés e com as mãos fortemente apertadas.

— É melhor não contar nada, especialmente isto. Um índio grande com medo do escuro. Os caras ririam na minha cara e me colocariam na rua.

— Eles não ririam se soubessem...

— Talvez sim, talvez não. — Ele riu levemente. — Mas eu preferia que eles não descobrissem. Só agradeço a Deus por você estar aqui, garota.

Ela ficou tão comovida que seus olhos marejaram novamente e ela teve que fazer força para se controlar. Ao chegarem à geladeira, ela encontrou o jarro de água gelada pelo tato. Já não estava muito gelada, mas aliviou-lhe a garganta. Preocupava-se em saber por quanto tempo tinha falado, e não sabia. Mas contara... tudo. Até mesmo as partes que pretendia omitir, como o que acon­tecera na Fazenda Manders. Naturalmente, as pessoas como Hock­stetter sabiam, mas ela não se incomodava com eles... Preocupa­va-se com John... e com a opinião dele a seu respeito.

Mas falara. Ele fizera uma pergunta que de certo modo pene­trou direto no cerne do assunto e... ela contara, muitas vezes com lágrimas. E em vez de mais perguntas, interrogatórios cruzados e desconfianças, tinha havido aceitação e uma calma harmonia. Ele parecia entender o inferno pelo qual ela passara, talvez por ele pró­prio ter passado por coisa semelhante.

— Aqui está a água — disse ela.

— Obrigado. — Ouviu-o beber, e depois ele colocou o copo de novo nas mãos dela. — Muito obrigado.

Ela pousou o copo.

— Vamos voltar para o outro aposento — disse ele —, estou imaginando que podem ligar as luzes de novo. — Agora estava impaciente para que elas voltassem. Tinham ficado desligadas mais de sete horas, calculava ele. Queria sair dali e pensar em tudo aquilo. Não no que ela lhe contara, já sabia de tudo, mas em como usá-lo.

— Estou certa de que vão acender logo — disse Charlie.

Arrastando os pés, voltaram até o sofá e sentaram-se.

— Eles não contaram nada a você sobre o seu velho?

— Apenas que ele está bem.

— Acho que vou conseguir vê-lo — disse Rainbird, como se essa idéia lhe ocorresse naquele momento.

— Você poderia? Você acha realmente que poderia?

— Eu poderia alternar com Herbie, um dia destes. Vou ver o velho. Dizer-lhe que você está bem. Não vou poder falar com ele, naturalmente, mas poderia passar-lhe um bilhete ou alguma coisa.

— Não seria perigoso?

— Seria perigoso fazer disso uma complicação, garota. Mas eu lhe juro uma coisa: vou ver como ele está.

Ela jogou os braços em torno dele no escuro e beijou-o. Rain­bird deu-lhe um abraço afetuoso. Ele gostava dela à sua maneira, agora mais do que nunca. Ela agora era sua, e ele achava que era dela. Por algum tempo.

Sentaram-se juntos sem falar muito, e Charlie cochilou. Ele então disse alguma coisa que a acordou de modo tão súbito e total como um esguicho de água fria no rosto.

— Merda, você devia provocar um daqueles malditos incên­dios, se é que é capaz. — Charlie reteve a respiração, chocada, como se de repente ele a tivesse golpeado.

— Eu contei para você — disse ela. — É como deixar.., um animal selvagem sair da jaula. Prometi a mim mesma que jamais faria aquilo de novo. Aquele soldado no aeroporto... aqueles homens na fazenda... eu os matei.., queimei-os totalmente. — Ela estava novamente à beira das lágrimas, com o rosto afogueado, quei­mando.

— Da maneira como você contou, parece que estava querendo se defender.

— Sim, mas isso não é desculpa para...

— Mas talvez você tenha salvado a vida do seu velho.

Silêncio de Charlie. Mas ele podia sentir a perturbação, a con­fusão e o desespero saindo dela por ondas. Apressou-se, não queren­do que ela se lembrasse exatamente agora que também quase matara o pai.

— Quanto àquele camarada Hockstetter, tenho-o visto por aí. Vi pessoas como ele na guerra. Todos eles são oficiais improvisa­dos, Reis da Merda da Montanha de Excrementos. Se não conseguir o que ele quer de você de uma maneira, tentará de outra.

— É isso o que me assusta — admitiu ela em voz baixa.

— Além disso existe um cara que mereceria um hotfoot *.

Charlie ficou chocada, mas deu uma gargalhada, pelo mesmo motivo que uma piada suja podia fazê-la rir mais, exatamente por­que era tão desagradável dizê-la. Passada a gargalhada, ela disse:

— Não, eu não vou provocar um incêndio. Eu já prometi. É ruim e eu não vou fazer isso.

Era o bastante, era hora de parar. Sua intuição lhe dizia que ele poderia continuar, mas reconheceu que aquela talvez fosse uma sensação falsa. Estava cansado, agora. Lidar com a menina tinha sido tão exaustivo a cada momento como lidar com um cofre de Rammaden. Seria bem fácil continuar, mas ele poderia incorrer num erro que talvez nunca mais fosse desfeito.

— Sim, OK, acho que você tem razão — disse John.

— Você vai realmente ver o meu pai?

— Vou tentar, garota.

— Tenho pena de você por ter ficado preso aqui comigo, John. Mas também estou muito contente.

— Sim.

Falaram de coisas inconseqüentes, e ela encostou a cabeça no braço dele. Ele sentiu que ela estava cochilando de novo, já era muito tarde, e quando as luzes voltaram, cerca de quarenta minutos depois, ela dormia profundamente.

A luz no rosto a fez mexer-se e virar a cabeça para o lado es­curo. John olhou pensativamente para a haste fina de salgueiro que era o pescoço dela e para a curva macia do seu crânio. Tanto poderio naquele berço de ossos tão pequeno e delicado. Seria verdade? Sua mente ainda rejeitava essa idéia,mas seu coração lhe dizia que assim era. Ao mesmo tempo aquela sensação de se encontrar tão dividido era ao mesmo tempo estranha e maravilhosa. O coração dele sentia que era verdade, numa extensão que eles não acreditariam, verdade talvez até o ponto dos delírios daquele louco Wanless.

Levantou-a nos braços e colocou-a na cama, entre os lençóis.

Ao puxar os lençóis até o queixo, ela se mexeu, meio acordada. John curvou-se impulsivamente sobre ela e beijou-a.

— Boa noite, garota.

— Boa noite, papai — disse ela numa voz indistinta, adorme­cida. Virou-se e ficou imóvel.

Ele contemplou-a por alguns minutos ainda e depois voltou à sala de estar. Hockstetter em pessoa entrou afobado dez minutos depois.

— Falha de energia — disse ele. — Tempestade. Diabo de fechaduras eletrônicas, tudo trancado. Ela esta.

— Ela estará bem se você baixar essa sua maldita voz — disse Rainbird baixinho. Suas enormes mãos se projetaram e pegaram Hockstetter pela gola do avental branco de laboratório, puxaram-no para si, de modo que o rosto subitamente apavorado de Hockstetter ficou a poucos centímetros do dele. — E se você se comportar de novo como se me conhecesse aqui, se alguma vez se comportar comigo como se eu não fosse apenas um funcionário da limpeza de classe D, eu o mato, e o corto em pedaços, o cozinho e transformo em comida de gato.


Hockstetter, impotente, lançava perdigotos. O cuspe borbulha­va-lhe pelos cantos da boca.

—        Você compreende? Eu o mato. — Sacudiu Hockstetter duas vezes.

—        E-e-e-eu compreendo.

—        Então vamos sair daqui — disse Rainbird, e empurrou Hockstetter, pálido e de olhos arregalados, para o corredor.

Deu ainda uma última olhadela em torno, saiu rodando com seu carrinho e fechou a porta automática por trás dele. No quarto, Charlie continuava dormindo, mais pacificamente do que o fizera em meses. Talvez anos.

 

* Brincadeira de por um palito de fósforos entre a sola e a parte superior do sapato e acende-lo para ver a pessoa pular de dor quando o fogo atinge o pé. (N. da T.)

 

Pequenos incêndios, o Grande Irmão


         A tempestade violenta passara. O tempo passara, três semanas. O verão úmido e opressivo ainda imperava no leste da Virgínia, mas as escolas reabriam e os ônibus escolares amarelos circulavam para cima e para baixo nas estradas rurais bem conservadas da região de Longmont. Não muito distante, em Washington D.C., um novo ano de legislação, rumores e insinuações estava começando, marcado pela habitual atmosfera de exibições extravagantes engendradas pela televisão nacional, planejadas inconfidências de informação e pode­rosas nuvens de vapores de uísque.

       Nada disso conserva muita impressão nos apartamentos con­trolados das duas casas coloniais e nos corredores e pavimentos do subsolo cheios de cubículos. A única diferença era que Charlie McGee também estava indo para a escola. Fora idéia de Hock­stetter que ela tivesse professores particulares; Charlie recusara-se obstinadamente a isso, mas John Rainbird a convencera.

       — Que mal pode haver nisso? —perguntou ele. — Não tem sentido uma menina inteligente como você ficar para trás. Merda... desculpe, Charlie, mas às vezes confesso a Deus que gostaria de ter ido além da oitava série. Não estaria lavando chão agora, você pode apostar. Além disso, ajuda a passar o tempo.

       Ela concordara graças a John. Os professores vieram: um jo­vem que ensinava inglês, uma mulher de mais idade que ensinava matemática, uma mulher mais jovem com óculos de vidros grossos que começou a lhe ensinar francês, e o homem da cadeira de rodas que ensinava ciências. Ela ouvia-os, e achava que aprendia, mas fazia tudo isso por John.

       Em três ocasiões John arriscara seu emprego ao passar recados ao pai de Charlie; ela sentia-se culpada, e, portanto, com mais von­tade ainda de agradá-lo. E John trouxe notícias do pai: ele estava bem, ficara aliviado ao saber que Charlie passava bem, e estava cooperando com os testes. Isso a afligira um pouco, mas já tinha bastante idade para compreender, um pouco pelo menos, que o que era melhor para ela podia não ser sempre o melhor para o pai. E recentemente começara a cogitar cada vez mais se John não saberia, mais do que ela própria, o que era bom para ela. Na sua maneira séria e divertida (sempre praguejando e logo depois pedindo descul­pas), ele era muito persuasivo.

Quase dez dias já se haviam passado depois do blackout, e ele nada dissera sobre provocar incêndios. Só falavam dessas coisas na cozinha, onde, segundo ele, não havia aparelhos de escuta, e sempre falavam em voz baixa.

Naquele dia ele disse:

— Você nunca mais pensou naquele negócio de fogo, Charlie? — Agora sempre a chamava de Charlie em vez de garota, a pedido dela.

Charlie começou a tremer. Só o fato de pensar em provocar incêndios causava esse efeito, desde aquele episódio na Fazenda Manders. Ficou fria, tensa e trêmula; nos relatórios de Hockstetter isso era chamado “reação fóbica branda”.

— Eu já lhe disse. Não posso fazer isso e não vou fazer.

— Agora, não poder e não querer não são a mesma coisa — disse John.

Estava lavando o chão, muito lentamente, porém, para poder falar com ela. O esfregão rangia no chão. Ele falava como os conde­nados conversam na prisão, mal movendo os lábios.

Charlie não respondeu.

— Eu tenho umas idéias sobre isso — disse ele — mas se você não quer ouvir, se já está com a cabeça assentada, eu calo a boca.

— Não, não — respondeu Charlie polidamente, mas na reali­dade preferia que ele calasse a boca, não falasse, nem mesmo pen­sasse naquela coisa, porque aquilo a fazia sentir-se mal. Mas John fizera tanto por ela que Charlie não queria de modo algum ofen­dê-lo ou magoá-lo. Precisava de um amigo.

— Bem, estava só pensando que eles devem saber como aquilo ficou fora de controle naquela fazenda — disse ele. — Eles prova­velmente serão bem cuidadosos. Acho que não seriam capazes de testar você num quarto cheio de papel e trapos com óleo, não acha?

— Não, mas...

Ele levantou um pouco a mão do esfregão.

— Escute-me aqui, escute-me aqui.

— De acordo.

— Certamente eles sabem que essa foi a única vez em que você causou uma verdadeira.., que foi mesmo.., uma conflagra­ção. Pequenos incêndios, Charlie. Essa é a solução. Pequenos incên­dios. E se alguma coisa acontecesse, o que eu duvido, porque acho que você se controla melhor do que pensa, mas digamos que alguma coisa aconteça. Quem é que eles vão acusar, hein? Acusar você?

Depois que aqueles malucos passaram meio ano torcendo o seu braço para fazer isso? Ora, que diabo, desculpe-me.

As coisas que ele dizia assustavam-na, mas ainda assim ela tinha que pôr as mãos na boca e dar gargalhadas pela expressão desgostosa no rosto dele.

John também riu um pouco e depois deu de ombros.

— E outra coisa em que estive pensando foi que não se pode aprender a controlar alguma coisa a menos que se pratique, e muito.

— Não me importa se vou controlar ou não, porque eu não vou fazer mesmo isso.

— Talvez sim, talvez não — disse John, teimoso, espremendo o esfregão: Colocou-o no canto e depois despejou a água com sabão na pia. Começou a encher o balde com água limpa para enxaguar o chão. — Você talvez se surpreenda ao usá-lo.

— Não, acho que não.

— E se você apanhar uma febre ruim? De gripe, de crupe ou o diabo, eu não sei, alguma espécie de infecção. — Essa era uma das poucas orientações aproveitáveis que Hockstetter lhe sugeria tentar. — Você nunca fez operação de apendicite, Charlie?

— Nããããoooo...

John começou a enxaguar o chão.

— Meu irmão foi operado, mas o apêndice rebentou antes e ele quase morreu. Isso aconteceu porque nós éramos índios da reserva e ninguém dava.., ninguém se preocupava muito se nós vivêssemos ou morrêssemos. Ele teve febre alta, quarenta graus, me parece, e ficou delirando, dizendo pragas horríveis, falando com pessoas que não estavam ali. Você sabe que ele pensou que o nosso pai fosse o Anjo da Morte ou coisa parecida, que fora buscá-lo, e tentou espetá-lo com uma faca que estava na mesa-de-cabeceira? Eu já tinha lhe contado essa história, não tinha?

— Não — disse Charlie num sussurro, não porque temesse ser ouvida, mas porque estava fascinada pelo horror. — Verdade?

— Verdade — respondeu John, torcendo o pano. — Não era culpa do meu irmão, é a febre que faz isso. As pessoas são capazes de dizer ou fazer qualquer coisa, quando deliram. Qualquer coisa.

Charlie compreendeu o que ele estava querendo dizer e sentiu um medo desanimador. Era alguma coisa em que nunca pensara.

— Mas se tivesse controle desse piro-não-sei-o-quê...

— Como poderia ter controle, se estivesse delirando?

— Só porque você tem. — Rainbird voltava à metáfora origi­nal de Wanless, a que tanto desgostara Cap havia quase um ano. — É como o treinamento para higiene, Charlie. Uma vez tendo controle dos intestinos e da bexiga, você está de fato controlada para sempre. Pessoas em delírio ficam às vezes com a cama molha­da de suor, mas raramente urinam na cama.

Hockstetter ressaltara que isso nem sempre era verdade, mas Charlie não sabia disso.

— Bem, de qualquer modo, tudo o que quero dizer é que se você tem o controle, entende?, não terá que se preocupar mais com isso. Teria liquidado o problema. Mas para ter controle é preciso praticar e praticar sempre. Da mesma maneira como você aprende a amarrar os sapatos ou escrever as letras no jardim de infância.

— Eu... eu não quero provocar incêndios! E não vou fazer isso! Não vou!

— Veja só, eu vim perturbar você — disse John, aflito. —Eu não tinha a intenção de fazer isso. Desculpe, Charlie. Não vou falar mais. Eu e esta minha grande boca.

Mas na vez seguinte, ela própria levantou o assunto.

Foi três ou quatro dias depois; Charlie tinha pensado com muito cuidado nas coisas que ele dissera.. . e acreditava ter encon­trado a única falha.

— Nunca mais acabaria — disse ela. — Eles vão querer sem­pre mais e mais. Se você pelo menos soubesse como eles nos per­seguiram, eles nunca vão desistir. Uma vez que eu comece, eles vão querer fogueiras maiores, e depois ainda maiores, e depois incêndios, e depois.., eu não sei.., mas tenho medo.

John admirou-a mais uma vez. Ela tinha uma intuição e uma perspicácia incrivelmente aguçadas. Ele imaginava o que pensaria Hockstetter quando ele, Rainbird, lhe dissesse que Charlie McGee tinha uma idéia extraordinariamente correta do plano absolutamente secreto deles. Todos os seus relatórios sobre Charlie expunham teo­rias de que a pirocinesia era apenas a peça central de muitos talen­tos psíquicos relacionados, e Rainbird acreditava que a intuição de Charlie fosse um deles. O pai dela dissera muitas e muitas vezes que Charlie soube que Al Steinowitz e os outros estavam chegando à Fazenda Manders antes de eles chegarem. Esse era um pensamento assustador. Se ela tivesse uma das suas divertidas intuições sobre a autenticidade dele.., bem, diziam que o inferno não tem a fúria de uma mulher menosprezada, e se metade do que ele acreditava a respeito de Charlie fosse verdade, então ela era perfeitamente capaz de produzir o inferno, ou um fac-símile bem razoável. Ele poderia até sentir-se subitamente muito quente. Isso acrescentaria um certo tempero ao processo.., um tempero que vinha faltando há muito tempo.

— Charlie — disse ele. — Eu não estou dizendo que você devia fazer qualquer dessas coisas de graça.

Ela olhou-o, perplexa.

John suspirou.

— Não sei como lhe explicar isso. Acho que gosto de você um bocado. Você é como a filha que nunca tive, e a maneira como eles estão guardando você aqui engaiolada, não a deixando ver o seu papai e tudo o mais, nunca deixando você sair, sem ter todas aquelas coisas que as outras meninas têm... isso é que me deixa doente.

Agora ele deixara escapar um olhar excitado com o olho bom, assustando-a um pouco.

— Você podia conseguir todas as espécies de coisas apenas concordando com eles.., e amarrando algumas cordinhas.

— Cordinhas — disse Charlie, extremamente desorientada.

— É isso aí. Você podia fazer que eles a deixassem sair para apanhar sol, eu aposto. Talvez mesmo ir a Longmont para comprar coisas. Você podia sair desta maldita gaiola e ir para uma casa comum. Ver outras crianças e.

— E ver o meu pai?

— Certamente, isso também. — Mas essa era uma coisa que nunca iria acontecer, porque se os dois juntassem suas informações perceberiam que John, o faxineiro amigo, era bom demais para ser verdade. Rainbird nunca passara um único recado para Andy McGee. Hockstetter achava que com isso correriam um risco sem qualquer vantagem, e Rainbird, que achava Hockstetter um maldito idiota em quase tudo, concordara.

Uma coisa era iludir uma menininha de oito anos com histórias de fadas, de não haver aparelhos de escuta na cozinha e de como eles podiam falar baixinho para não serem ouvidos, mas seria coisa muito diferente iludir o pai da menina com a mesma história de fadas, embora ele estivesse fisgado da cabeça aos pés. McGee podia não estar suficientemente fisgado para deixar escapar o fato de eles estarem agora fazendo pouco mais do que brincar de mocinho e bandido com Charlie, uma técnica usada pela polícia para vencer criminosos famosos havia centenas de anos.

Assim, ele fingia estar enviando as mensagens dela para Andy, assim como continuava mantendo muitas outras ficções. Era verdade que ele via Andy com bastante freqüência, mas via-o apenas pelas tevês de controle. Era verdade que Andy estava cooperando com os testes, mas também era verdade que ele estava incapacitado, não con­seguia nem pressionar uma criança para que comesse uma guloseima. Transformara-se num grande e gordo zero, preocupado só com o que passava na tevê e quando viria a próxima pílula, nunca pedia para ver a filha. Encontrar o pai face a face e ver o que tinham feito dele poderia enrijecer-lhe a resistência de novo, e John estava agora muito perto de quebrar-lhe a vontade; ela já estava querendo ser convencida. Não, todas as coisas eram discutíveis, menos essa. Charlie McGee jamais voltaria a ver o pai. Não demoraria muito para que, segundo Rainbird supunha, Cap pusesse McGee num avião da Oficina e o enviasse para o complexo de Mauí. Mas a me­nina não precisava saber disso também.

— Você acha que eles vão mesmo me deixar ver papai?

— Sem a menor dúvida — respondeu ele, com naturalidade. — Não logo, claro; ele é o trunfo deles em relação a você, e eles sabem disso. Mas se você chegar a um certo ponto, e aí disser que vai suspender a colaboração a menos que a deixem ver seu pai... — Deixou a coisa pendente nessa altura. A isca fora lançada, uma grande e cintilante tentação arrastada devagar pela água. Estava cheia de anzóis, mas isso era uma outra coisa que aquela franguinha não sabia.

Ela olhava para ele pensativamente. Nada mais se disse a esse respeito naquele dia.

Agora, uma semana depois, Rainbird mudava o jogo abruptamente. Não fazia isso por qualquer razão concreta, mas porque sua intuição lhe dizia que não conseguiria mais nada por argumentação. Era hora de implorar, como o Irmão Coelho pedira à Irmã Raposa para não ser atirado naquele espinheiral.

— Você se lembra do que estávamos falando? — Foi assim que ele iniciou a conversa. Estava passando cera no chão da cozinha. Ela fingia se demorar na escolha de uma comida da geladeira. Um pé limpo, cor-de-rosa, estava levantado por trás de outro, de modo que ele podia ver-lhe a sola, uma posição que ele achava curiosamente evocativa da meia infância. Era de certo modo pré-erótica, quase mística. O coração dele batia de novo por ela. Naquele mo­mento Charlie olhou para trás, por cima do ombro, na direção dele, indecisa. Seu cabelo, amarrado num rabo-de-cavalo, pousava-lhe num dos ombros.

— Sim — disse ela. — Eu me lembro.

— Bem, estive pensando e comecei a me perguntar o que faz de mim um perito em conselhos — disse ele. — Eu não posso nem sequer conseguir um empréstimo de mil dólares num banco para comprar um carro.

— Oh, Jhon.. isso não significa nada...

— Significa, sim. Se eu soubesse alguma coisa, eu seria como um desses caras, como Hockstetter. Com curso de universidade.

Com grande desdém, ela respondeu:

— Meu pai diz que qualquer bobo pode comprar um diploma universitário em algum lugar.

O coração dele exultou.

 

Três dias depois, o peixe mordeu a isca.

Charlie disse-lhe que decidira deixá-los fazer os testes, mas que seria cautelosa. E faria com que eles fossem cuidadosos, se eles não soubessem como. O rosto dela estava abatido, aflito e pálido.

— Não faça isso, se você não pensou bem em tudo.

— Já pensei — disse ela num sussurro.

— Você está fazendo isso por eles?

—        Não!

— Ótimo! É por você, então?

— Sim, por mim e por meu pai.

— Tudo bem, Charlie. E obrigue-os a fazer como você quer. Compreende? Você já lhes mostrou como sabe ser forte. Não mos­tre nenhuma fraqueza, agora. Se isso acontecer, vão querer usá-la. Seja valente. Você entende o que quero dizer?

— Acho que sim.

— Eles ganham alguma vantagem, você ganha alguma vanta­gem. Todas às vezes, e nunca de graça. — Os ombros dele caíram um pouco. A animação deixou o seu olhar. Ela detestava vê-lo assim, com um aspecto deprimido, vencido. — Não deixe que a tratem como me trataram. Eu dei ao meu país quatro anos da minha vida e um dos meus olhos. Um desses anos, passei num buraco comendo insetos e com febre, cheirando a minha própria merda todo o tempo e catando piolhos do meu cabelo. E quando eu saí, eles me disseram “muito obrigado, John”, e puseram um esfregão na minha mão. Eles me roubaram, Charlie. Compreendeu? Não deixe que façam isso com você.

— Compreendi — disse ela solenemente.

John se animou um pouco e depois sorriu.

— Então, quando vai ser o grande dia?

— Eu vou ver o Dr. Hockstetter amanhã. Vou lhe dizer que decidi cooperar.., um pouco. E vou.., vou lhe dizer que eu quero.

— Bem, mas não peça demais logo da primeira vez. É exata­mente como o carnaval no meio da quaresma, Charlie. Você tem de exibir alguma arte antes de tomar-lhes o dinheiro.

Ela concordou.

— Mas você vai lhes mostrar quem está montado na sela, certo? Mostre a eles quem é o patrão.

— Certo.

Ele sorriu mais abertamente.

— Boa menina.

 

Hockstetter estava furioso.

— Que diabo de jogo você está fazendo? — gritou ele para Rainbird. Estavam no gabinete de Cap. Ousava gritar, pensou Rain­bird, porque Cap estava ali para servir de juiz. Rainbird lançou então mais um olhar a Hockstetter, a seus olhos azuis excitados, às faces ruborizadas, às juntas brancas dos dedos, e admitiu que prova­velmente estava errado. Ousara abrir caminho pelos portões até o jardim sagrado de privilégios de Hockstetter. A sacudidela que lhe administrara depois de terminado o blackout fora uma coisa; Hockstetter falhara perigosamente e sabia disso. Mas agora era uma coisa totalmente diferente, pensava ele.

Rainbird apenas fitava Hockstetter.

— Você estabeleceu tudo cuidadosamente em torno de uma impossibilidade. Você está farto de saber que ela não vai ver o pai. Eles ganham uma vantagem, você ganha uma vantagem. — Hock­stetter, furioso, fazia a pantomima. — Seu idiota.

Rainbird continuava a fitar Hockstetter.

— Não torne a me chamar de idiota — disse ele com uma voz perfeitamente neutra. Hockstetter titubeou, mas apenas um momento.

— Por favor, senhores — disse Cap, agastado. — Por favor.

Havia um gravador na mesa del