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A INSUSTENTAVEL LEVEZA DO SER / Milan Kundera
A INSUSTENTAVEL LEVEZA DO SER / Milan Kundera

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A INSUSTENTAVEL LEVEZA DO SER

 

O PESO E A LEVEZA

O eterno retorno é uma idéia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há‑de repetir outra vez e que essa repetição se há‑de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito! Que significado terá este mito insensato?

O mito do eterno retorno diz‑nos, pela negativa, que esta vida, que há‑de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido. Não vale mais do que uma guerra qualquer do século XIV entre dois reinos africanos, embora nela tenham perecido trezentos mil negros entre suplícios indescritíveis.

Mas algo se alterará nessa guerra do século XIV entre dois reinos africanos se, no eterno retorno, se vier a repetir um número incalculável de vezes?

Sem dúvida que sim: passará a erguer‑se como um bloco perdurável cuja estupidez não terá remissão.

Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa orgulhar‑se‑ia com certeza menos do seu Robespierre. Mas, como se refere a algo que nunca mais voltará, esses anos sangrentos reduzem‑se hoje apenas a palavras, teorias, discussões, mais leves do que penas, algo que já não aterroriza ninguém. Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos franceses.

Digamos, portanto, que a idéia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não nos aparecem como é costume, porque nos aparecem sem a circunstância atenuante da sua fugacidade. Essa circunstância atenuante impede‑nos, com efeito, de pronunciar um veredicto. Poderá condenar‑se o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina.


Não há muito, eu próprio me defrontei com o fato: parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi‑me com algumas das suas fotografias; faziam‑me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazistas, mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há‑de voltar?

Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

 

Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um número infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos têm o peso de uma insustentável responsabilidade. Era o que fazia Nietzsche dizer que a idéia do eterno retorno é o fardo mais pesado (das schwerste Gewicht).

Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar‑se em toda a sua esplêndida leveza.

Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?

O fardo mais pesado esmaga‑nos, verga‑nos, comprime‑nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado

for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.

Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá‑lo voar, afastar‑se da terra, do ser terrestre, torna‑o semi‑real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

Que escolher, então? O peso ou a leveza?

Foi a questão com que se debateu Parmênides, no século VI antes de Cristo. Para ele, o universo estava dividido em pares de contrários: luz‑sombra; espesso‑fino; quente‑frio; ser‑não ser. Considerava que um dos pólos da contradição era positivo (o claro, o quente, o fino, o ser) e o outro, negativo. Esta divisão em pólos positivos e negativos pode parecer de uma facilidade pueril. Exceto num caso: o que é positivo: o peso ou a leveza?

Parmênides respondia que o leve é positivo e o pesado, negativo. Tinha razão ou não? O problema é esse. Mas uma coisa é certa: a contradição pesado‑leve é a mais misteriosa e ambígua de todas as contradições.

 

Há vários anos que ando a pensar em Tomas, mas só à luz destas reflexões é que o vi pela primeira vez com toda a nitidez. Vejo‑o de pé, a uma janela da sua casa, a olhar fixamente para o prédio em frente do outro lado do pátio. Sem saber o que fazer.

Conhecera Tereza mais ou menos há três semanas numa cidadezinha da Boêmia. Só tinham passado pouco mais de uma hora juntos. Ela acompanhara‑o à estação e tinha esperado até ele entrar no comboio. Dez dias mais tarde, veio vê‑lo a Praga. Fizeram amor logo no próprio dia da sua chegada. Durante a noite, Tereza ficou cheia de febre e passou uma semana inteira com gripe em casa dele.


Sentiu então um amor inexplicável por essa rapariga que mal conhecia. Parecia‑lhe uma criança que alguém pusera numa cesta untada com pez e abandonara às águas de um rio para ele recolher na margem da sua cama.

Ficou uma semana em casa dele e, depois, uma vez curada, voltou para a cidade onde morava, a duzentos quilômetros de Praga. E é aqui que se situa o momento de que falei há pouco e onde vejo a chave da vida de Tomas: está de pé à janela a olhar fixamente para o prédio em frente do outro lado do pátio, e reflete: “Deve‑lhe propor que venha instalar‑se em Praga? É uma responsabilidade que o apavora. Se a convida agora a vir passar uns dias a sua casa, ela virá imediatamente oferecer‑lhe a vida inteira”.

Ou deve renunciar? Nesse caso, Tereza continuará a ser criada numa cervejaria daquele buraco de província e nunca mais a verá.

Quer que ela venha ter consigo ou não?

Olha para o pátio, tem os olhos fixos no prédio em frente e procura uma resposta.

Volta, ainda e sempre, à imagem daquela mulher deitada no seu divã; nunca conhecera ninguém assim. Não era nem uma amante nem uma esposa. Era uma criança que tirara de uma cesta untada com pez e que pousara na margem da sua cama. Ela adormecera. Ajoelhou‑se ao seu lado. O hálito febril acelerou‑se e ouviu um leve gemido. Encostou o rosto ao dela e soprou algumas palavras de repouso para dentro do seu sono. Um instante depois, pareceu‑lhe que a respiração de Tereza se acalmava e que o seu rosto se levantava maquinalmente em direção ao dele. Cheirava‑lhe nos lábios o cheiro um pouco acre da febre e aspirava‑o como se se quisesse impregnar da intimidade do seu corpo. Pôs‑se então a pensar que Tereza já lá morava em casa há muitos anos e que estava moribunda. De repente, tornou‑se‑lhe evidente que não sobreviveria à sua morte. Deitar‑se‑ia a seu lado para morrer também. Escondeu o rosto contra o dela na almofada e assim ficou por longo tempo.

Neste momento, está de pé à janela e invoca esse instante. O que seria que assim se dava a conhecer senão o amor?

Mas o amor era isso? Tinha‑se convencido de que queria morrer ao lado dela, e este sentimento era manifestamente excessivo: se era só a segunda vez que a via! Não seria antes a reação histérica de um homem que, ao aperceber‑se, no seu foro íntimo, da sua incapacidade para amar, começava a representar para si próprio a comédia do amor? Ao mesmo tempo, o seu subconsciente era de tal modo covarde que escolhia para essa comédia uma pobre criada de província que não tinha praticamente hipótese nenhuma de entrar na sua vida!

Olhava para as paredes sujas do pátio e percebia que não sabia se aquilo era histeria ou amor.

E, numa situação em que qualquer homem a sério saberia imediatamente como agir, censurava‑se intimamente por hesitar e por assim privar o momento mais belo da sua vida (ajoelhado à cabeceira da rapariga, convencido de que não sobreviveria à sua morte) de todo e qualquer significado.

Censurava‑se intimamente, mas acabou por pensar que, no fundo, não se saber o que se deve querer é normal:

“Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem retificada em vidas posteriores”.

É melhor ficar com Tereza ou ficar sozinho?

Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo ''esquisso'' é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.

Tomas repete em silêncio o provérbio alemão, einmal isr keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é pura e simplesmente como não viver.

 

Um dia, porém, num intervalo entre duas operações, uma enfermeira chamou‑o ao telefone. Era Tereza. Estava a telefonar‑lhe da estação. Ficou contente. Infelizmente, tinha um compromisso para essa noite e só no dia seguinte é que podia estar com ela. Mal desligou, arrependeu‑se de não lhe ter dito para vir imediatamente. Ainda estava a tempo de desmarcar o outro encontro! Ficou a pensar no que faria Tereza durante as longas trinta e seis horas que faltavam até estarem um com o outro e só tinha vontade de pegar no automóvel e de pôr‑se à procura dela pelas ruas da cidade.

Tereza apareceu no dia seguinte à noite. Trazia uma carteira presa a tiracolo com uma fita muito comprida e achou‑a mais elegante do que da última vez. Tinha um livro na mão. Ana Karenina de Tolstoi. Falava com jovialidade, talvez mesmo um pouco alto demais e esforçava‑se por mostrar que tinha vindo perfeitamente por acaso, devido a uma circunstância precisa: viera a Praga por motivos profissionais, talvez (dizia‑o de uma forma muito vaga) à procura de outro emprego.

Em seguida, encontraram‑se, nus e cansados, deitados lado a lado no divã. Já era de noite. Perguntou‑lhe onde é que estava porque podia levá‑la de carro. Com um ar aflito, Tereza respondeu que ia procurar um hotel e que deixara a mala depositada na estação.

Ainda na véspera receava que, se a convidasse a vir a Praga, ela viesse oferecer‑lhe a vida inteira. Agora, ao ouvi‑la dizer que a mala estava depositada na estação, pensou que Tereza metera a vida nessa mala e que a tinha deixado depositada na estação antes de lha oferecer.

Entrou com ela para o carro, estacionado à frente do prédio, foi à estação, levantou a mala (que era grande e pesadíssima) e levou‑a para casa juntamente com Tereza.

Como conseguiu decidir‑se tão depressa, depois de ter hesitado durante quase quinze dias sem lhe dar o mais pequeno sinal de vida?

O próprio Tomas se sentia admirado. Estava a ir contra todos os seus princípios. Há dez anos, quando se divorciara da primeira mulher, tinha vivido o divórcio com a mesma euforia com que outros celebram o casamento. Compreendera nessa altura que não fora feito para viver com uma mulher, fosse ela qual fosse, e que só poderia ser verdadeiramente ele próprio se vivesse sozinho. Assim, protegia a sua vida até ao mais ínfimo pormenor para que nenhuma mulher munida de uma mala pudesse um dia vir instalar‑se em sua casa. Era por isso que só tinha um divã. Embora o divã fosse bastante largo, dizia sempre às amigas que era incapaz de adormecer ao lado de outra pessoa e, depois da meia‑noite, levava‑as sempre a casa. Aliás, da primeira vez, quando Tereza lá ficou em casa com gripe, não dormiu com ela. Passou a primeira noite num sofá e, nas seguintes, dormiu no consultório do hospital onde tinha uma chaise longue para quando estava de serviço.

Desta vez, porém, adormeceu ao lado dela. De manhã, ao acordar, constatou que Tereza, ainda a dormir, lhe agarrava na mão. Teriam dormido toda a noite de mão dada? Custava‑lhe a acreditar.

Com uma respiração muito funda, Tereza continuava a dormir, sempre agarrada à sua mão (com tanta força que não conseguia desprender‑se). Ao lado da cama, a pesadíssima mala.

Não se atrevia a tirar a mão com medo de a acordar. Com mil cautelas, voltou‑se de lado para poder observá‑la melhor.

Mais uma vez, pensou que Tereza era uma criança que alguém pusera numa cesta untada com pez e abandonara às águas do rio. Pode lá deixar‑se à deriva das águas furiosas de um rio a cesta onde se abriga uma criança? Se a filha do faraó não tivesse retirado das águas a cesta de Moisés, nem o Antigo Testamento nem a nossa civilização existiriam! No começo de inúmeros mitos antigos, há sempre alguém que salva uma criança abandonada. Se Políbio não tivesse recolhido Édipo, Sófocles não teria escrito a sua tragédia mais bela!

  Tomas ainda não sabia que as metáforas são uma coisa perigosa. Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora.

 

Vivera pouco mais de dois anos com a primeira mulher. Tinham tido um filho. O juiz confiou a criança à mãe e condenou Tomas a dar‑lhes um terço do ordenado. Ao mesmo tempo, concedeu‑lhe o direito de ver o filho duas vezes por mês.

Mas sempre que o ia ver, a mãe adiava o encontro. Com certeza que se lhes tivesse comprado prendas caras, teria podido vê‑lo com mais facilidade. Percebeu que tinha de pagar o amor do filho à mãe, e pagá‑lo antecipadamente. Via‑se mais tarde a querer ingenuamente inculcar no filho as suas idéias, diametralmente opostas às da mãe. Só de pensar nisso, ficava cansado. Num domingo em que, como de costume, a mãe desmarcara o encontro à última da hora, decidiu nunca mais ver o filho em dias da sua vida.

Afinal por que se prenderia a essa criança mais que a qualquer outra? Não estavam ligados por nada, a não ser por uma noite imprudente. Depositaria escrupulosamente o dinheiro, mas que não viessem exigir dele que, em nome de vagos sentimentos paternos, disputasse a companhia do filho!

É evidente que ninguém estava preparado para aceitar tal raciocínio. Os seus próprios pais condenaram a atitude que tomara e declararam que se Tomas não se interessava pelo filho, também eles, pais de Tomas, deixariam de interessar‑se pelo seu. Continuaram portanto a manter com a nora relações de uma ostensiva cordialidade, gabando‑se a amigos e conhecidos da sua atitude exemplar e do seu alto sentido de justiça.

Num curto espaço de tempo, conseguiu, portanto, desembaraçar‑se de uma mulher, de um filho, de uma mãe e de um pai. Só lhe ficara o medo das mulheres. Desejava‑as, mas elas atemorizavam‑no. Entre o medo e o desejo, arranjara um compromisso; era aquilo a que chamava amizade erótica. Dizia peremptoriamente às amantes: só uma relação expurgada de todo e qualquer sentimentalismo, só uma relação em que nenhum dos parceiros se arrogue qualquer direito especial sobre a vida e a liberdade do outro, pode fazê‑los felizes a ambos.

Para se assegurar de que a amizade erótica nunca se deixaria vencer pela agressividade do amor, espaçava intencionalmente os encontros com as suas amantes permanentes. Tinha o método por perfeito e costumava apontar‑lhe as vantagens, dizendo aos amigos: ''Há que observar a regra dos três. A mesma mulher, num espaço de tempo muito curto, nunca mais de três vezes. Anos e anos, só se deixarmos passar pelo menos três semanas entre cada encontro.''

Este sistema dava‑lhe a possibilidade de nunca romper com as amantes e de tê‑las em abundância. Nem sempre era bem entendido. De todas as suas amigas, quem o entendia melhor era Sabina, uma pintora. Esta dizia‑lhe: ''Gosto muito de ti porque és precisamente o contrário do kitsch. No reino de kitsch, tu eras um monstro.

Num filme americano ou num filme russo nunca passarias de um caso repugnante. ''

Foi portanto a Sabina que pediu ajuda para arranjar trabalho em Praga para Tereza. Como exigiam as regras não escritas da amizade erótica, Sabina prometeu‑lhe fazer o melhor que pudesse e, efetivamente, não tardou a descobrir um lugar no laboratório de fotografia de um semanário. Era um trabalho que não exigia qualquer espécie de qualificação mas, de qualquer forma, Tereza abandonava a cervejaria para se integrar na corporação do pessoal da imprensa. A própria Sabina foi, em pessoa, apresentá‑la à redação e Tomas ficou a pensar que nunca tivera melhor amiga.

 

A convenção não escrita da amizade erótica implicava que Tomas excluísse o amor da sua vida. Se transgredisse esta condição, as suas outras amantes, a partir daí numa posição subalterna, revoltar‑se‑iam imediatamente.

Arranjou portanto um quarto para onde Tereza teve de levar a sua pesadíssima mala. Queria tomar conta dela, protegê‑la, gozar a sua presença, mas não sentia necessidade nenhuma de mudar de vida. Por isso não queria que se soubesse que ela dormia em sua casa. A partilha do sono era o corpo de delito do amor.

Com as outras mulheres nunca dormia. Quando ia a casa delas, era fácil, porque podia sair quando lhe apetecia. O caso era mais delicado quando eram elas que vinham a sua casa e lhes explicava que, depois da meia‑noite, tinha de levá‑las porque sofria de insônias e não conseguia dormir ao lado de outra pessoa. Esta explicação não andava longe da verdade, mas a razão principal era menos nobre e Tomas não se atrevia a confessar às companheiras que, nos momentos que se seguem ao amor, sentia um desejo imperioso de ficar sozinho. Era‑lhe profundamente desagradável acordar a meio da noite ao lado de uma criatura estranha; o despertar matinal do casal causava‑lhe repugnância; não tinha vontade nenhuma que o ouvissem a lavar os dentes na casa de banho e a intimidade do pequeno‑almoço a dois não lhe dizia nada.

Qual não foi, pois, a sua surpresa quando, ao acordar, percebeu que Tereza lhe agarrava a mão com toda a força! Olhava para ela sem conseguir perceber o que lhe tinha acontecido. Recordando as últimas horas, parecia‑lhe que se desprendia delas o perfume de uma felicidade desconhecida.

A partir de então, ambos sentiam antecipadamente um grande prazer na partilha do sono. Sinto‑me quase tentado a dizer que o que procuravam no ato sexual não era a volúpia mas o sono que se lhe segue. Sobretudo Tereza não podia dormir sem Tomas. Se ficava sozinha no estúdio (que era cada vez mais um mero álibi), não

conseguia pregar olho toda a noite. Mesmo presa da maior agitação, nos braços dele, a calma acabava sempre por chegar. Tomas contava‑lhe em voz baixa contos que inventava só para ela, pequenos nadas, coisas tranqüilizantes ou divertidas que ia repetindo num tom monocórdico. Na cabeça de Tereza as palavras transmutavam‑se em visões confusas que a transportavam ao primeiro sonho. Tomas tinha um poder absoluto sobre o seu sono e Tereza adormecia sempre no exato segundo que ele escolhera para isso.

Quando estavam a dormir, ela agarrava‑o como na primeira noite: segurava‑lhe com toda a força no pulso, num dedo ou no tornozelo. Quando Tomas queria afastar‑se sem que ela acordasse, tinha de valer‑se de uma artimanha. Desprendia o dedo (o pulso, o tornozelo), o que a fazia ficar meio acordada porque mesmo a dormir o

vigiava atentamente. Para a acalmar, em vez do pulso, metia‑lhe na mão um objeto qualquer (um pijama enrolado, uma pantufa, um livro) que ela passava a segurar com toda a força como se fosse uma parte do seu corpo.

Uma noite, acabara de a adormecer e Tereza encontrava‑se naquela antecâmara do primeiro sono de onde ainda lhe podia dar resposta. Disse‑lhe: ''Bom! Agora vou‑me embora. ‑ Para onde?, perguntou ela. ‑ Vou sair, respondeu com uma voz severa. – Vou contigo!, disse ela, pondo‑se de pé em cima da cama. ‑ Não, eu não quero. Vou‑me embora e nunca mais volto'', disse ele, saindo do quarto e passando para a entrada. Tereza levantou‑se e seguiu‑o até à entrada com os olhos a piscar. Só tinha vestida uma camisa muito curta. Tinha o rosto imóvel, sem expressão, mas o corpo movimentava‑se energicamente. Saiu de casa e fechou‑lhe a porta na cara. Tereza abriu‑a com um gesto brusco e seguiu‑o, ainda meio a dormir, convencida que Tomas queria ir‑se embora para não voltar e que tinha de retê‑lo. Desceu um andar, parou no patamar e esperou por ela. Tereza foi ter com ele, agarrou‑o pela mão e levou‑o para a cama, para o pé dela.

Tomas pensava consigo próprio que ir para a cama com uma mulher e dormir com ela são duas paixões não só diferentes como quase contraditórias. O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).

 

A meio da noite, Tereza começou a gemer. Tomas acordou‑a, mas, ao ver a sua cara, ela disse com ódio: ''Vai‑te embora! Vai‑te embora!'' Depois, contou‑lhe o sonho que tivera: Estavam ambos algures com Sabina. Num quarto enorme. Havia uma cama no meio, só parecia o palco de um teatro. Tomas mandou‑a ficar num canto e

pôs‑se a fazer amor com Sabina à frente dela. Ela olhava e o espetáculo causava‑lhe um sofrimento insuportável. Para abafar a dor da alma com a dor física, pôs‑se a enfiar agulhas por baixo das unhas. ''Doía‑me horrivelmente!'', disse, com os punhos fechados como se realmente tivesse as mãos magoadas.

Abraçou‑a e assim, muito devagar (porque Tereza não parava de tremer), ela voltou a adormecer.

No dia seguinte, ao pensar no sonho, lembrou‑se de uma coisa. Abriu a secretária e tirou um maço de cartas de Sabina. Pouco depois, deparou com a seguinte passagem: "Queria fazer amor contigo no meu atelier como se fosse o palco de um teatro. Estaria gente em toda a volta e ninguém teria o direito de se aproximar. Mas não conseguiriam despregar os olhos de nós...''

O pior era que a carta tinha data. Era uma carta recente, escrita numa altura em que Tereza vivia com Tomas já há bastante tempo.

Ralhou‑lhe: ''Andaste a vasculhar nas minhas cartas!''

Sem procurar desmenti‑lo, ela disse: ''Pois andei! Então porque é que não me pões na rua?''

Mas Tomas não a pôs na rua. Via‑a era a enfiar as agulhas debaixo das unhas, encostada à parede do atelier de Sabina. Pegou‑lhe nos dedos, fez‑lhes festas, levou‑os aos lábios e beijou‑os como se tivessem marcas de sangue.

A partir desse momento, tudo parecia conspirar contra ele. Não se passava praticamente um dia sem que lhe chegasse mais uma novidade sobre os seus amores clandestinos.

Primeiro, negava tudo. Quando as provas eram evidentes demais, tentava demonstrar que não havia contradição nenhuma entre a sua vida de polígamo e o seu amor por ela. Não era nada coerente: umas vezes, negava as infidelidades, outras, justificava‑as.

Um dia, estava a marcar um encontro pelo telefone com uma amiga e quando desligou pareceu‑lhe ouvir um barulho esquisito na outra divisão, o barulho de dentes a bater.

Tereza viera a casa por acaso e ele não dera por isso. Tinha um frasco de calmante na mão e, como estava a beber pelo gargalo e a mão lhe tremia, o vidro batia‑lhe contra os dentes.

Correu para ela como se fosse salvá‑la de morrer afogada. O frasco de valeriana caiu, fazendo uma grande nódoa no carpete. Tereza debatia‑se, queria escapar‑lhe. Teve de mantê‑la durante um quarto de hora numa espécie de colete‑de‑forças até que se acalmou.

Sabia que se encontrava numa situação injustificável porque baseada numa desigualdade absoluta.

Muito antes de Tereza ter descoberto a sua correspondência com Sabina, tinham ido a um cabaré com alguns amigos festejar o novo emprego de Tereza. Deixara o laboratório de fotografia porque a revista a aceitara como fotógrafa: Como Tomas não gostava de dançar, um dos seus colegas mais novos do hospital convidara Tereza. Deslizavam ambos sobre a pista e Tereza estava mais bonita do que nunca. Estupefato, via com que precisão e com que docilidade ela adivinhava uma fração de segundo antes a vontade do seu par. Tal forma de dançar parecia proclamar que a sua devoção, aquele seu ardente desejo de fazer o que lhe lia nos olhos, não estava necessariamente ligado à pessoa de Tomas e que podia perfeitamente ter respondido ao apelo de outro homem qualquer que lhe tivesse aparecido em seu lugar. Nada mais fácil do que imaginar Tereza e o seu jovem

colega como amantes. Era mesmo a facilidade com que o imaginava que mais o feria. O corpo de Tereza era perfeitamente imaginável unido a qualquer outro corpo masculino. A idéia pô‑lo maldisposto. Noite dentro, quando voltaram, confessou‑lhe que tinha ciúmes.

Estes ciúmes absurdos, causados por uma possibilidade absolutamente teórica, eram a prova de que a fidelidade dela era para ele um princípio intangível. Como censurá‑la então por ter ciúmes das suas amantes mais do que reais?

 

De dia esforçava‑se (mas, de fato, não conseguia) por acreditar no que Tomas dizia e por mostrar‑se alegre como sempre fora. Mas os ciúmes, contidos durante o dia, manifestavam‑se ainda mais violentamente nos sonhos que tinha e que acabavam sempre num gemido que Tomas só conseguia interromper se a acordasse.

Os sonhos repetiam‑se como temas com variações ou como episódios de uma telenovela. Sonhava, por exemplo, muitas vezes, com gatos a saltarem‑lhe para a cara e a cravarem‑lhe as garras na pele. Na verdade, este sonho tem uma explicação óbvia: é que em calão checo, quando se quer falar de uma rapariga jeitosa, diz‑se 'gato'. Tereza sentia‑se ameaçada pelas mulheres, por todas as mulheres. Todas as mulheres eram amantes potenciais de Tomas e ela tinha medo delas.

Num outro ciclo de sonhos, era condenada à morte. Numa noite em que acordara a gritar de terror, contou‑lhe o seguinte sonho: "Havia uma grande piscina coberta. Éramos mais ou menos vinte. Só mulheres. Estávamos todas completamente nuas e tínhamos de marchar a passo à volta da água. Havia uma cesta pendurada no teto e estava um homem lá dentro. Tinha um chapéu de abas largas que lhe escondiam a cara, mas eu sabia que eras tu. Davas‑nos ordens. Gritavas. Tínhamos que desfilar a cantar e a fletir os joelhos. Quando uma das mulheres não fazia bem a flexão, tu disparavas a pistola e ela caía morta na água. Nesse momento, as outras desatavam todas a rir e punham‑se a cantar ainda mais alto. E tu, tu não tiravas os olhos de nós; se alguma fazia um movimento de través, abatia‑la imediatamente. A água estava cheia de cadáveres a flutuar. E eu, eu sabia que já não tinha forças para fazer a flexão seguinte e que tu me ias matar!''

O terceiro ciclo de sonhos contava o que lhe acontecia depois de morrer.

Estava deitada num carro funerário tão grande como um caminhão de mudanças. À sua volta, só cadáveres de mulheres. Havia tantos que era preciso deixar a porta de trás aberta e algumas pernas de fora.

Tereza pôs‑se a gritar: “Olhem para mim! Eu não estou morta! Ainda sinto tudo!

‑ Também nós sentimos tudo”, diziam os cadáveres, entre risinhos.

Tinham exatamente a mesma maneira de rir que as mulheres vivas que dantes se divertiam a dizer‑lhe que era perfeitamente normal que um dia também tivesse os dentes estragados, doenças nos ovários e rugas, visto que elas também tinham os dentes estragados, doenças nos ovários e rugas. E agora, com o mesmo riso, explicavam‑lhe que estava morta e que isso era a ordem natural das coisas!

De repente, teve vontade de fazer xixi. Gritou: "Mas se eu tenho vontade de fazer xixi! Isso é a prova de que não estou morta!''

Desataram outra vez a rir às gargalhadas: "Ter vontade de fazer xixi é normal! Ainda vais sentir tudo durante muito tempo. É como as pessoas a quem amputaram uma mão e que ainda a sentem muito tempo depois. Nós, nós já não temos urina mas continuamos a ter vontade de mijar.''

Deitada na cama, Tereza chegava‑se para junto de Tomas, dizendo: "E tratavam‑me todas por tu, como se me conhecessem desde sempre, como se fossem minhas amigas, e eu tinha medo de ser obrigada a ficar com elas para sempre!''

 

Em todas as línguas derivadas do latim, a palavra compaixão forma‑se com o prefixo ''com'' e a raiz ''passio'' que, na sua origem, significa sofrimento. Noutras línguas, como, por exemplo, em checo, em polaco, em alemão, em sueco, a palavra traduz‑se por um substantivo formado por um prefixo equivalente seguido da palavra ''sentimento'' (em checo: sou‑cir; em polaco: wspol‑czucie; em alemão: Mit‑gefühl; em sueco: med‑känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que ninguém pode ficar indiferente ao sofrimento de outrem; ou, de outra maneira: sente‑se sempre simpatia por quem sofre. Outra palavra que tem mais ou menos o mesmo sentido, e que é piedade (em inglês pitv, em italiano pierà, etc.), chega até a sugerir uma espécie de indulgência para com o ser que sofre. Ter piedade de uma mulher é sermos mais favorecidos do que ela, é inclinarmo‑nos, baixarmo‑nos até ela.

 Por isso é que a palavra compaixão inspira geralmente uma certa desconfiança; designa um sentimento considerado como de segunda ordem e que não tem grande coisa a ver com o amor. Amar alguém por compaixão é de fato não amar essa pessoa.

Nas línguas em que a palavra compaixão não se forma com a raiz ''passio = sofrimento'' mas com o substantivo ''sentimento'', a palavra é empregue mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta da sua etimologia banha a palavra de uma outra luz

e dá‑lhe um sentido mais lato: ter compaixão (co‑sentimento) é poder viver com o outro não só a sua infelicidade mas sentir também todos os seus outros sentimentos: alegria, angústia, felicidade, dor. Esta compaixão (no sentido de soucit, wspolrzurie, Mitgefühl, medkänsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva, ou seja, a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.

             Sonhando que estava a enfiar agulhas por baixo das unhas, Tereza traía‑se a si própria porque revelava a Tomas que mexia às escondidas nas suas gavetas. Se fosse outra mulher, nunca mais lhe dirigiria palavra. Consciente disso, Tereza dissera‑lhe: ''Põe‑me na rua!'' Ora, ele não só não a tinha posto na rua como lhe pegara na mão e lhe beijara a ponta dos dedos, já que, nesse momento, sentia a mesma dor que ela por baixo das unhas, como se os dedos de Tereza estivessem diretamente ligados ao seu cérebro.

             Aquele que não possui o dom diabólico da compaixão (co‑sentimento) não pode senão condenar friamente o comportamento de Tereza, porque a vida privada do outro é sagrada e não se devem abrir as gavetas onde ele guarda a sua correspondência pessoal. Mas como a compaixão se tornara o destino (ou a maldição) de Tomas, parecia‑lhe que fora ele que se ajoelhara em frente da gaveta da secretária e ficara hipnotizado pelas frases escritas pela mão de Sabina. Compreendia Tereza e não só era incapaz de querer‑lhe mal como o seu gesto o fazia amá‑la ainda mais.

 

            Os gestos de Tereza eram cada vez mais bruscos e incoerentes. Há já dois anos que descobrira as infidelidades de Tomas e tudo ia de mal a pior. Era um caso insolúvel.

            Mas como? Tomas não podia acabar de vez com as suas amizades eróticas? Não, isso seria o seu fim. Não tinha força suficiente para refrear o seu apetite por outras mulheres. E depois, parecia‑lhe uma coisa supérflua. Ninguém melhor do que ele sabia que essas aventuras não punham Tereza minimamente em questão. Privar‑se

delas, porquê? Era uma eventualidade que lhe parecia tão absurda como renunciar a ir ao futebol.

            Mas ainda poderia falar‑se em alegria? Mal a deixava para ir ao encontro de uma das amantes, esta tornava‑se‑lhe indiferente e jurava a si próprio que era a última vez. A imagem de Tereza estava sempre a bailar‑lhe diante dos olhos e tinha que se embebedar imediatamente para deixar de pensar nela. Desde que a conhecia, era

incapaz de ir para a cama com outras sem a ajuda do álcool! Mas o cheiro a álcool era precisamente o indício através do qual Tereza ainda descobria com mais facilidade as suas infidelidades.

            A armadilha fechara‑se sobre Tomas: mal a deixava para ir ao encontro delas, o seu desejo desvanecia‑se, mas se passava um dia sem elas punha‑se logo a telefonar para marcar um encontro.

            Ainda era em casa de Sabina que se sentia melhor porque sabia que ela era discreta e que não havia razão para temer ser descoberto. No atelier, pairava como uma recordação a sua vida passada, a sua vida idílica de celibatário.

            Talvez ele não se desse conta de como mudara: tinha medo de voltar tarde para casa porque Tereza estava à espera. Uma vez, enquanto faziam amor, Sabina viu‑o espreitar para o relógio e percebeu que ele se esforçava por apressar a conclusão.

            Em seguida, pusera‑se toda nua a passear negligentemente pelo atelier e fora‑se postar diante de um cavalete onde estava um quadro inacabado, enquanto espiava Tomas a enfiar a roupa a toda a velocidade.

            Em breve este se encontrava outra vez vestido, mas com um pé descalço. Olhou em redor de si e depois pôs‑se de gatas debaixo da mesa com se estivesse à procura de qualquer coisa.

            Sabina disse: "Quando olho para ti, só sinto que estás a ficar cada vez mais parecido com o eterno tema dos meus quadros: o encontro de dois mundos. Uma dupla exposição. Por detrás da silhueta de Tomas, o libertino, transparece o incrível rosto do apaixonado romântico. Ou então, é precisamente o contrário: através da silhueta do Tristão que não pensa senão na sua Tereza, apercebe‑se o belo universo traído do libertino.''

            Tomas pusera‑se de pé e não prestava grande atenção ao que Sabina dizia.

"De que é que andas à procura?; perguntou ela.

‑ De uma meia.''

Inspecionou o quarto com ele e depois Tomas voltou a pôr‑se de gatas debaixo da mesa.

            ''Aqui não há meia nenhuma, disse Sabina. Já não a trazias, com certeza.

            ‑ Não a trazia, o quê?!, exclamou Tomas, olhando para o relógio. Não posso ter vindo só com uma meia!

            ‑ Não é de todo impossível. Andas tão distraído ultimamente... Estás sempre com pressa, passas a vida a olhar para o relógio... Não é de admirar que te esqueças de calçar uma meia...''

            Decidira‑se já a calçar o outro sapato sem meia.

            "Está frio lá fora, disse Sabina. Vou emprestar‑te uma meia!''

            E estendeu‑lhe uma meia enorme de rede branca à última moda.

            Tomas sabia perfeitamente que aquilo era uma vingança. Sabina escondera‑lhe a meia para o castigar de ter olhado para o relógio enquanto estavam a fazer amor. Mas com o frio que estava, não podia senão submeter‑se a ela. Entrou em casa com uma meia numa perna e, na outra, uma meia branca de mulher enrolada no tornozelo.

            Estava numa situação de onde não havia saída: aos olhos das amantes, marcado pelo selo infamante do seu amor por Tereza; aos olhos de Tereza, pelos estigmas das suas aventuras com as amantes.

 


            Para lhe minorar o sofrimento, casou-se com ela (puderam finalmente desistir do estúdio alugado onde Tereza já não vivia há muito) e arranjou‑lhe um cachorrinho.

            Era filho de uma cadela são‑bernardo de um colega de Tomas e do pastor‑alemão do vizinho. Ninguém queria os rafeiros e o seu colega sentia as entranhas revolverem‑se‑lhe só de pensar em mata ‑los.

            Tomas tinha de escolher um cachorro e sabia que os que não escolhesse seriam abatidos. Estava na mesma situação que um presidente da República quando há quatro condenados à morte e só pode agraciar um. Acabou por escolher um cachorro, uma fêmea, que parecia ter o corpo do pastor‑alemão e cuja cabeça fazia lembrar a do são‑bernardo. Levou‑o a Tereza. Esta pegou nele ao colo, apertou‑o contra os seios e o bicho fez‑lhe imediatamente xixi na blusa.

Depois, tiveram de batizá‑lo. Tomas queria que, pelo nome, se ficasse logo a saber que o cão era de Tereza e lembrou‑se do livro que ela trazia debaixo do braço no dia em que viera a Praga sem prevenir. Propôs que lhe chamassem Tolstoi.

''Não lhe podemos chamar Tolstoi, replicou Tereza, porque é uma menina. Vamos mas é chamar‑lhe Ana Karenina.

‑ Não lhe podemos chamar Ana Karenina, uma fuçazinha assim tão engraçada não é de mulher, disse Tomas. Karenine, sim. É isso mesmo. Foi sempre assim que o imaginei.

‑ Mas não achas que se se chamar Karenine pode ficar com a vida sexual perturbada?

‑ Não é de todo impossível que uma cadela que se habitue a responder por um nome de cão venha a ter tendências lésbicas...''

O mais curioso é que a previsão de Tomas veio a confirmar‑se. As cadelas gostam normalmente mais do dono que da dona, mas, com Karenine, passava‑se precisamente o contrário. Resolveu apaixonar‑se por Tereza e Tomas estava‑lhe reconhecido por isso. Fazia‑lhe festas na cabeça e dizia‑lhe: ''Tens razão, Karenine, era exatamente isso que eu esperava de ti. Já que não consigo sozinho, tu tens de me ajudar.''

Mas, mesmo com a ajuda de Karenine, não conseguiu fazê‑la feliz. Foi o que percebeu uns dez dias depois da ocupação do país pelos tanques russos. Estava‑se em Agosto de 1968 e o diretor de uma clínica de Zurique, que conhecera num colóquio internacional, todos os dias lhe telefonava da Suíça. Temia que lhe acontecesse qualquer coisa de mal e punha um lugar à sua disposição.

 

Se Tomas não hesitara sequer um minuto em recusar a oferta do médico suíço fora por causa de Tereza. Pensava que ela não devia querer ir‑se embora. Aliás, Tereza passou os sete primeiros dias da ocupação numa espécie de transe que quase se assemelhava à felicidade. Andava sempre na rua com a máquina fotográfica e distribuía os seus negativos por jornalistas estrangeiros que se disputavam entre si para os obter. Num dia em que fora um pouco longe demais e fotografara de perto um oficial a apontar a pistola às pessoas que iam numa manifestação, apreenderam‑lhe a máquina e obrigaram‑na a passar a noite no quartel‑general russo. Ameaçaram‑na com o pelotão de fuzilamento, mas, assim que se viu em liberdade, voltou a ir para a rua tirar fotografias.

Assim, qual não foi a surpresa de Tomas quando, no décimo dia da ocupação, ela lhe perguntou: ''Ora diz‑me, no fundo, por que é que tu não queres ir para a Suíça?

‑ E por que é que havia de ir?

‑ Aqui têm contas a ajustar contigo...

‑ Com quem é que não têm?, replicou Tomas, fazendo um gesto de resignação. Mas, e tu: eras capaz de viver no estrangeiro?

‑ E por que não?

‑ Depois de te ter visto pronta a dar a vida por este país, não percebo como é que agora te podias ir embora?!

‑ Desde que Dubcek voltou, tudo mudou'', disse Tereza.

Era verdade: a euforia geral só durara os sete primeiros dias de ocupação. Os homens de Estado tchecos tinham sido levados como criminosos pelas tropas russas, ninguém sabia do seu paradeiro, todos temiam pelas suas vidas e o ódio aos russos era inebriante como vinho. Era a exaltante festa do ódio. As cidades da Boêmia cobriam‑se de cartazes pintados à mão recheados de inscrições sarcásticas, epigramas, poemas, caricaturas de Brejnev e da sua tropa, de que todos faziam pouco como se ela não passasse de uma companhia de palhaços analfabetos. Mas não há festa que dure eternamente. Entretanto, os russos tinham forçado os representantes do

povo checo, seqüestrados a assinar um compromisso com Moscovo. Dubcek voltou para Praga com esse compromisso e fez um discurso pela rádio. Os seis dias de cárcere tinham‑no diminuído a tal ponto que mal podia falar: gaguejava e parava para tentar tomar fôlego, fazendo pausas intermináveis de quase meio minuto no meio das frases.

O compromisso salvou o país do pior: das execuções e das deportações em massa para a Sibéria que todos receavam. Uma coisa, porém, se tornou imediatamente clara: a Boêmia tinha de baixar‑se perante o conquistador. Daí em diante, e para todo o sempre, ia gaguejar, tartamudear, parar para tentar tomar fôlego como Alexandre Dubcek. A festa acabara. Passava‑se à banalidade da humilhação.

Tereza explicava tudo isto a Tomas e Tomas sabia que era verdade mas que, sob essa verdade, se escondia uma razão que explicava melhor a sua vontade de deixar Praga: é que, até aí, ela não fora feliz.

Vivera os dias mais belos da sua vida quando andara a fotografar soldados russos pelas ruas de Praga e se expusera a todos os perigos. Fora o único período em que a telenovela dos seus sonhos se interrompera e em que tinha tido noites serenas. Montados nos seus tanques, os russos tinham‑lhe trazido a harmonia. Agora, que a festa acabara, voltava a ter medo das suas noites e queria fugir antes que regressassem. Descobrira que havia circunstâncias em que podia sentir‑se forte e satisfeita e era na esperança de tornar a encontrá‑las que queria ir‑se embora para o estrangeiro.

''E não te importas que Sabina tenha emigrado para a Suíça?, perguntou Tomas.

‑ Genebra não é Zurique. disse Tereza. Deve incomodar‑me menos na Suíça do que em Praga.''

Quem quer deixar o lugar onde vive é porque não é feliz. O fato de Tereza querer emigrar foi como que um veredicto para Tomas. Submeteu‑se a ele e, pouco tempo depois, encontrava‑se, na companhia de Tereza e de Karenine, na maior cidade da Suíça.

 

Comprou uma cama para se poderem instalar numa casa vazia (ainda não tinham com que comprar mais móveis) e atirou‑se ao trabalho com toda a fúria possível num homem obrigado a encetar vida nova depois dos quarenta anos.

Falou várias vezes ao telefone com Sabina, que agora vivia em Genebra. Tinha tido tanta sorte que, oito dias antes da invasão russa, inaugurara‑se uma exposição sua naquela cidade e os apreciadores de pintura suíços, num movimento de simpatia para com o seu pequeno país, tinham‑lhe comprado os quadros todos.

"Enriqueci graças aos russos!'', disse‑lhe ao telefone, soltando uma gargalhada. Convidou‑o a ir ter com ela ao seu novo atelier, garantindo‑lhe que era igualzinho ao que Tomas conhecia em Praga.

Gostaria de ir vê‑la mas não conseguia arranjar pretexto nenhum para explicar a viagem a Tereza. Portanto, foi Sabina que veio a Zurique. Ficou num hotel. Tomas foi ter com ela quando saiu do hospital; fez‑se anunciar na recepção e subiu ao quarto. Sabina veio abrir a porta e, com as suas longas e belas pernas, postou‑se frente dele, quase despida, só de cuecas e soutien. Tinha um chapéu de coco encarrapitado na cabeça. Em silêncio e perfeitamente imóvel, olhou demoradamente para Tomas que também se conservava calado, sem fazer um gesto.  De súbito, percebeu que estava comovido. Tirou‑lhe o chapéu de coco da cabeça e pousou‑o na mesinha‑de‑cabeceira. Depois, sempre sem dizer palavra, fizeram amor.

Ao voltar para casa (que já se encontrava guarnecida há bastante tempo de uma mesa, de cadeiras, de sofás e de uma carpete) ia a pensar, o que lhe dava uma grande sensação de bem‑estar, que andava sempre com o seu modo de vida atrás como o caracol anda com a sua casota. Tereza e Sabina representavam os dois pontos da sua vida, dois pólos afastados, inconciliáveis, mas igualmente belos.

Mas como, fosse para onde fosse, levava sempre atrás de si o seu sistema de vida como um apêndice do corpo, Tereza continuava a ter os mesmos sonhos.

Já estavam em Zurique há seis ou sete meses quando, numa noite em que chegara bastante tarde a casa, encontrou uma carta em cima da mesa. Tereza anunciava‑lhe que voltara para Praga. Fora‑se embora por não ter força suficiente para viver no estrangeiro. Cabia que devia tê‑lo apoiado melhor em Zurique, mas também sabia que

não fora capaz. Pensara ingenuamente que a vida no estrangeiro poderia modificá‑la. Depois do que tinha vivido durante a invasão, pensara que nunca mais voltaria a ser mesquinha, que havia de ser adulta, ajuizada, corajosa. Mas sobrestimara‑se. Na realidade, tornara‑se um peso e era precisamente isso que não queria. Queria tirar todas as conseqüências disso, antes que fosse tarde de mais. E pedia‑lhe desculpa por levar Karenine.

Tomas tomou um sonífero fortíssimo mas só adormeceu de madrugada. Felizmente era sábado e podia ficar em casa. Pela centésima qüinquagésima vez pôs‑se a recapitular a situação: as fronteiras que separavam a Boêmia do resto do mundo já não estavam abertas como na época em que se tinham vindo embora. Nem o telégrafo nem o telefone poderiam trazer Tereza de volta. As autoridades já não a deixariam sair. Embora lhe parecesse incrível, Tereza fora‑se mesmo embora para não voltar.

 

Pensar que não podia fazer absolutamente nada mergulhou‑o num estado de grande estupor, mas, ao mesmo tempo, era uma idéia que o tranqüilizava. Não havia ninguém que o obrigasse a tomar uma decisão. Não era obrigado a contemplar a parede do prédio em frente e pensar se queria viver com Tereza ou não. Quem decidira

fora ela.

Foi almoçar fora. Sentia‑se triste, mas, durante a refeição, o desespero inicial pareceu atenuar‑se, como se tivesse perdido o vigor e dele não restasse senão a melancolia. Pensava nos anos que passara com Tereza e parecia‑lhe que aquela história não podia ter acabado melhor. Se fosse inventada, não podia acabar senão assim:

Um belo dia, de surpresa, Tereza viera para casa dele. Um belo dia, também de surpresa, partira. Chegara com uma mala pesadíssima. Com uma mala pesadíssima partira.

Pagou a conta, saiu do restaurante e foi dar uma volta, repleto de uma melancolia cada vez mais radiosa. Atrás de si, sete anos de vida em comum com Tereza para agora constatar que esses anos eram mais belos na memória do que no instante em que os vivera...

Belo, o amor deles certamente que o era ‑ mas também tão penoso: sempre a esconder qualquer coisa, sempre a dissimular, a fingir, a reparar, a levantar‑lhe o moral, a consolá‑la, continuamente a provar‑lhe que a amava, a ouvi‑la queixar‑se dos seus ciúmes, do seu sofrimento, dos seus sonhos, a sentir‑se culpado, a justificar‑se, a desculpar‑se. Agora, o esforço desaparecera e não ficara senão a beleza.

A noite de sábado estava a começar. Era a primeira vez que passeava sozinho a pé em Zurique. Pôs‑se a respirar fundo o perfume da liberdade. A aventura espreitava em cada esquina. O futuro tornava a estar envolto em mistério. Voltava à sua vida de celibatário, àquela vida a que, noutros tempos, sabia estar destinado porque era a única em que podia ser tal e qual como era.

Vivera sete anos acorrentado a Tereza que seguira constantemente com os olhos o seu mais ínfimo movimento. Era como arrastar as grilhetas que ela lhe pusera nos tornozelos. Agora, de súbito, o seu andar tornava‑se mais ligeiro. Quase voava. Estava no espaço mágico de Parmênides: saboreava a doce leveza do ser.

(Sentia alguma vontade de telefonar para casa de Sabina, em Genebra, ou de entrar em contato com uma das mulheres que conhecera em Zurique nos últimos meses? Não, nenhuma. Bem sabia que a partir do momento em que estivesse com outra, a memória de Tereza lhe faria sentir uma dor insuportável).

 

O seu estranho e melancólico encantamento durou até domingo à noite. Na segunda‑feira tudo mudou. Tereza irrompeu no seu pensamento: sentia agora o que ela sentira enquanto lhe escrevia a carta de despedida; sentia como as mãos lhe tremiam; via‑a, arrastando com uma mão aquela mala pesadíssima e com a trela de Karenine na outra; imaginava‑a a meter a chave na fechadura da casa de Praga e sentia no fundo de si próprio a desolação que lhe varrera o rosto quando abrira a porta.

Durante aqueles dois belos dias de melancolia, a sua compaixão (essa maldição da telepatia sentimental) estivera a descansar. A compaixão dormira como o mineiro dorme ao domingo, depois de uma árdua semana de trabalho, para poder voltar ao fundo na segunda‑feira.

Estava a observar um doente e quem via era Tereza. Ordenava a si próprio: Não penses nisso! Não penses nisso! Dizia para si mesmo: Estou doente de compaixão e por isso é bom que ela se tenha ido embora e que eu nunca mais a veja. Não é dela que tenho de me libertar, mas da minha compaixão, desta doença que dantes eu não sabia que existia e que ela me inoculou!

No sábado e no domingo sentira a doce leveza do ser vir‑lhe do fundo do futuro. Segunda‑feira sentiu‑se esmagado por um peso que até aí nunca tinha conhecido. As imensas toneladas de ferro dos tanques russos não eram nada comparadas com esse peso. Não há nada mais pesado do que a compaixão. Mesmo a nossa própria dor não é tão pesada como a dor co‑sentida com outro, por outro, no lugar de outro, multiplicada pela imaginação, prolongada em centenas de ecos.

Admoestava‑se a si próprio, intimava‑se a não ceder à compaixão e a compaixão ouvia‑o de cabeça baixa como um culpado. A compaixão sabia que estava a abusar dos seus direitos mas continuava discretamente a obstinar‑se, o que fez com que, cinco dias depois da partida de Tereza, Tomas anunciasse ao diretor da clínica (precisamente aquele que lhe telefonava todos os dias para Praga depois da invasão russa) que tinha de voltar imediatamente para o seu país. Sentia‑se envergonhado. Sabia que o diretor acharia a sua conduta irresponsável e imperdoável. Teve mil e uma vezes a tentação de contar‑lhe tudo e de falar‑lhe de Tereza e da carta que lhe deixara em cima da mesa. Mas acabou por não fazer nada disso. O médico não poderia encarar o procedimento de Tereza senão como um odioso comportamento de mulher histérica. E Tomas não queria que ninguém pensasse mal de Tereza.

O diretor ficou seriamente magoado.

Encolhendo os ombros, Tomas disse: ''Es muss sein. Es muss sein.''

Era uma alusão. O último andamento do último quarteto de Beethoven é composto a partir dos dois temas seguintes:

 

  Muss es sein?

  (Tem de ser?)

 

  Es muss sein! Es muss sein!

  (Tem de ser!) (Tem de ser!)

 

Para tornar o sentido destas palavras perfeitamente claro, Beethoven inscreveu no início do último andamento: ''Der schwer gefasste Entschluss'' ‑ a decisão gravemente pesada.

Para Tomas, a alusão a Beethoven era, na realidade, uma forma de referir‑se mais uma vez a Tereza, porque fora ela que o obrigara a comprar os discos com os quartetos e as sonatas de Beethoven.

Era uma alusão mais oportuna do que podia pensar porque o diretor da clínica era melómano. Com um sorriso sereno, disse suavemente, imitando com a voz a melodia de Beethoven:   Muss essein? Tem de ser?"

Tomas repetiu uma vez mais: ''Sim, tem de ser! Ja, es muss sein!''.

 

Ao contrário de Parmênides, parece que Beethoven considerava o peso como algo de positivo. Der schwer gefasste Entschluss, a decisão gravemente pesada está associada à voz do destino (Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa.

A origem desta convicção situa‑se na música de Beethoven e, sendo embora possível (senão provável) que seja mais da responsabilidade dos seus exegetas do que do próprio compositor, hoje quase todos nós a partilhamos: para nós, a grandeza de um homem reside no fato de carregar com o seu destino como Atlas carregava aos ombros a abóbada dos céus. O herói beethoveniano é um halterofilista de pesos metafísicos.

Tomas guiava em direção à fronteira suíça e eu imagino um Beethoven carrancudo e com a cabeleira em desordem a dirigir em pessoa a fanfarra dos bombeiros e a tocar, em homenagem ao seu adeus à emigração, uma marcha intitulada Es muss sein!

            Mais tarde, já depois de ter atravessado a fronteira checa, deparou‑se‑lhe uma coluna de tanques russos. Parou o carro num cruzamento e esperou meia hora até eles acabarem de passar. Um soldado russo, com um ar terrível e de uniforme preto, postara‑se no meio do cruzamento a dirigir o trânsito como se as estradas da Boêmia fossem todas propriedade sua.

            ''Es muss sein! Tem de ser!'', continuava Tomas a repetir de si para si, mas, dentro em pouco, começou a ter dúvidas: tinha mesmo de ser?

            Tinha. Seria insuportável ficar em Zurique e imaginar Tereza sozinha em Praga. Mas durante quanto tempo mais é que a compaixão havia de atormentá‑lo? Toda a vida? Um ano? Um mês? Ou só uma semana?

            Como sabê‑lo? Como verificá‑lo?

            Numa aula de trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer uma experiência para confirmar uma dada hipótese científica. Mas o homem, porque só tem uma vida, não tem qualquer possibilidade de verificar as hipóteses através da experiência e nunca poderá saber se teve ou não razão em obedecer aos seus sentimentos.

            Estava neste ponto das suas meditações quando abriu a porta do apartamento. Karenine saltou‑lhe para a cara, o que facilitou o reencontro. A vontade de atirar‑se para os braços de Tereza (que ainda sentia quando se metera no automóvel em Zurique) tinha pura e simplesmente desaparecido. Estava à sua frente no meio de uma planície nevada e ambos tremiam de frio.

 

            Desde o primeiro dia de ocupação que os aviões russos se cruzavam durante toda a noite no céu de Praga. Tomas desabituara‑se do barulho e não conseguia adormecer.

            Virava‑se na cama, ao lado de Tereza já a dormir, pensando no que ela lhe dissera há vários anos no meio de uma conversa banal. Estavam a falar de Z., um amigo de Tomas, e Tereza declarara: ''Se não te tivesse encontrado, tinha‑me apaixonado por ele.''

            Já na altura, essas palavras o tinham feito mergulhar numa estranha melancolia. Com efeito, compreendera de súbito que Tereza se apaixonara por ele e não por Z. perfeitamente por acaso. Que, para lá do seu amor por Tomas, já realizado, havia no reino dos possíveis um número infinito de amores não realizados por outros homens.

            Achamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pesa nada; supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é; que a nossa vida não era a mesma sem ele. Estamos todos convencidos de que o próprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu Es muss sein! em homenagem ao grande amor da nossa vida.

            Ao lembrar‑se do que Tereza dissera de Z., Tomas constatava que a história do grande amor da sua vida não estava marcada por um ''Es muss sein'', mas antes por um ''Es konnte auch anders sein'': podia muito bem ser de outra maneira...

            Sete anos antes, declarara‑se por acaso um surto muito grave de meningite no hospital da cidade de Tereza e o chefe do serviço onde Tomas trabalhava fora chamado de urgência. Mas, por acaso, o chefe do serviço estava com ciática e, como não se podia mexer, Tomas fora em seu lugar a esse hospital de província. Havia cinco

hotéis na cidade mas, por acaso, Tomas instalara‑se no hotel onde Tereza trabalhava. Por acaso, ficara com uns momentos livres antes de ir para o comboio e fora sentar‑se na cervejaria. Tereza estava, por acaso, de serviço e, por acaso, estava de serviço à mesa de Tomas. Fora portanto necessária toda uma série de seis acasos para fazer chegar Tomas até Tereza, como se, entregue a si próprio, nunca tivesse podido encontrá‑la.

            Regressara à Boêmia por causa dela. Uma decisão tão fatal tinha a sua raiz num amor a tal ponto fortuito que nem sequer existiria se, há sete anos, o chefe do serviço não estivesse com ciática. E essa mulher, essa encarnação do acaso absoluto, estava agora deitada a seu lado a dormir e a respirar profundamente.

            Era muito tarde. Tomas sentiu que o estômago lhe começava a doer como lhe acontecia sempre nos momentos de grande tensão.

            A respiração de Tereza transformou‑se por duas ou três vezes num leve ressonar. Tomas não sentia a mínima compaixão. Não sentia senão uma coisa: aquela pressão na boca do estômago e o desespero de ter voltado.

 

O CORPO E A ALMA

            É perfeitamente inútil o autor tentar convencer seja quem for de que as suas personagens alguma vez tiveram uma existência real. Na verdade, elas não nasceram de um corpo materno, mas do poder de evocação de algumas palavras ou de uma situação‑chave. Tomas, de um provérbio (einmal ist keinmal). Tereza, dos seus borborismos.

            Da primeira vez que foi a casa de Tomas, as suas vísceras puseram‑se a gorgolejar. Não era de admirar, pois não almoçara nem jantara, tendo‑se contentado com a sanduíche que engolira ao fim da manhã, já no cais, antes de entrar para o comboio. Estava tão concentrada na sua audaciosa viagem que se esquecera de comer. Mas, quanto menos nos preocupamos com o nosso corpo, mais depressa somos vítimas dele. Só a tortura de perceber que, no momento em que voltava a ver Tomas, eram as suas tripas que usavam da palavra! Sentia‑se à beira das lágrimas. Felizmente que alguns segundos depois já se encontrava nos braços de Tomas e pôde esquecer‑se das vozes da sua barriga!...

 

            Tereza nasceu, pois, de uma situação onde essa experiência humana fundamental que é a inconciliável dualidade do corpo e da alma se revela em toda a sua brutalidade.

            Noutras eras, há muito, muito tempo, o homem estranhava o martelar cadenciado que lhe vinha do fundo do peito e interrogava‑se sobre o seu significado. Não conseguia identificar‑se com essa coisa inquietante e desconhecida que era um corpo. O corpo era uma jaula dentro da qual se dissimulava algo que via, ouvia, se assustava, pensava e se espantava; essa coisa, esse relicário que, deduzindo o corpo, subsistia, era a alma.

            É claro que, hoje em dia, o corpo já não é um mistério. Todos sabemos que aquilo que nos bate no peito é o coração e que o nariz não é senão a extremidade de um tubo que sai cá de dentro para ir buscar oxigênio para os pulmões. O rosto não é senão o quadro de comando onde os mecanismos físicos vão dar: a digestão, a vista, o ouvido, a respiração, a reflexão.

            Desde que pode nomear todas as partes do seu corpo, o homem inquieta‑se muito menos com ele. Hoje em dia, todos sabemos também que a alma não é senão a atividade da matéria cinzenta do cérebro. Dantes, a dualidade da alma e do corpo ocultava‑se por detrás de termos científicos; hoje, não passa de uma crendice francamente ridícula.

            Mas basta alguém estar loucamente apaixonado e ouvir os seus próprios intestinos gorgolejar para que a unidade da alma e do corpo, essa ilusão lírica da era científica, se dissipe imediatamente.

 

            Tereza tentava ver‑se através do corpo. Por isso passava horas à frente do espelho. E, como tinha medo de ser apanhada pela mãe, os olhares que ia lançando traziam a marca de um vício secreto.

            Não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de lá descobrir o seu eu. Esquecia‑se de que o que tinha diante dos olhos era o quadro de comando dos mecanismos físicos. Parecia‑lhe que o que se lhe revelava sob os traços do rosto era a sua própria alma. Esquecia‑se de que o nariz é a extremidade do tubo que leva ar aos pulmões. O que nele via era a fiel expressão da sua natureza.

            Contemplava‑se longamente ao espelho e, por vezes, reconhecia, contrariada, os traços da mãe no seu próprio rosto. Quando isso acontecia, concentrava‑se melhor e fazia um grande esforço de vontade para se abstrair, para fazer tábua rasa da fisionomia da mãe e só deixar subsistir o que era verdadeiramente ela própria. Quando

conseguia, era um momento inebriante: a alma voltava a subir à superfície do corpo como a tripulação a sair do ventre de um navio, a invadir a ponte, a levantar os braços para os céus e a cantar.

 

            Tereza não só se parecia fisicamente com a mãe como, por vezes, chego mesmo a ter a impressão de que a sua vida não foi senão o prolongamento da vida da mãe, um pouco como a trajetória de uma bola de bilhar é o prolongamento do gesto executado pelo braço de um jogador.

            Onde e quando nascera esse gesto que viria mais tarde a transformar‑se na vida de Tereza?

            Sem dúvida que no instante em que a mãe ouvira pela primeira vez o pai, um comerciante de Praga, elogiar a sua beleza. A mãe tinha três ou quatro anos e o pai dissera‑lhe que só parecia uma madona de Rafael. Tinha apenas quatro anos, mas fixara bem aquelas palavras. Mais tarde, quando andava no colégio, em vez de ouvir o professor, entretinha‑se a pensar com que pintura é que se pareceria agora.

            Quando se tornou casadoira, teve nove pretendentes. Punham‑se todos de joelhos à volta dela. Ela ficava no meio, como uma princesa, sem conseguir decidir‑se por nenhum: o primeiro era mais bonito, o segundo mais espirituoso, o terceiro mais rico, o quarto mais desportivo, o quinto de melhores famílias, o sexto recitava‑lhe versos, o sétimo viajava pelo mundo inteiro, o oitavo tocava violino e o nono era o homem mais viril de todos. Mas ajoelhavam‑se todos da mesma maneira e todos ficavam com as mesmas bolhas nos joelhos.

            Acabou por escolher o nono, não por ser o mais viril, mas porque nos momentos em que, na cama, lhe segredava baixinho ao ouvido "tem cuidado! tem muito cuidado!'', ele fazia de propósito e não lhe ligava, de forma que tiveram de casar à pressa: não encontrara a tempo um médico que lhe fizesse um aborto. Assim nascera Tereza. A infindável família afluíra de todos os cantos do país, debruçara‑se sobre o berço e ceceara. A mãe de Tereza não ceceava. Só pensava nos outros oito pretendentes e achava‑os a todos melhores do que o nono.

            Tal como a filha, a mãe de Tereza também gostava de se mirar ao espelho. Um belo dia, constatou que tinha rugas à volta dos olhos e, pensou que o seu casamento fora um erro. Encontrou um homem nada viril, com várias falcatruas e dois divórcios no ativo. A mãe de Tereza detestava amantes com joelhos cheios de bolhas. Queria era ser ela a ajoelhar‑se. Caiu de joelhos aos pés do escroque e deixou o marido e a filha.

            O homem mais viril de todos tornou‑se no homem mais triste de todos. Tão triste que tudo passou a ser‑lhe indiferente. Dizia alto e bom som e em qualquer lado tudo o que pensava e a polícia comunista, indignada com as suas reflexões pouco ortodoxas, intimou‑o, condenou‑o e enfiou‑o na cadeia. Tereza, expulsa do apartamento selado, foi viver com a mãe.

            Ao fim de algum tempo, o homem mais triste de todos morreu na prisão e a mãe, acompanhada por Tereza, foi instalar‑se com o escroque numa pequena cidade do sopé de uma montanha. O padrasto era empregado de escritório, a mãe, empregada de balcão. Teve mais três filhos. Depois, um belo dia, quando uma vez mais se mirava ao espelho, percebeu que tinha envelhecido e se tornara feia.

 

            Ao constatar que tinha perdido tudo, pôs‑se à procura de um culpado. Culpados eram todos. Culpado era o primeiro marido, viril e mal‑amado, que lhe desobedecera quando ela lhe sussurrava ao ouvido para ter cuidado. Culpado era o segundo marido, pouco viril e bem‑amado, que a arrastara para fora de Praga, para uma cidadezinha provinciana onde andava atrás de tudo quanto era saia, não lhe deixando a ela nem aos seus ciúmes um minuto de sossego. Sentia‑se desarmada perante os seus dois maridos. O único ser humano que lhe pertencia e não podia escapar‑lhe, o refém que podia pagar pelos outros, era Tereza.

            Aliás, talvez Tereza fosse mesmo responsável pelo destino da mãe. Tereza: essa absurda união de um espermatozóide do homem mais viril de todos com um óvulo da mulher mais bonita de todas. Nesse segundo fatídico chamado Tereza, a mãe começara a maratona da sua vida em ruínas.

            Explicava e tornava a explicar a Tereza que ser mãe é sacrificar tudo. Eram palavras convincentes porque exprimiam a experiência de uma mulher que perdera tudo por causa da filha. Tereza ouvia‑a e ia‑se convencendo que o valor mais alto da vida é a maternidade e que a maternidade é um grande sacrifício. Se ser mãe é o Sacrifício por excelência, o destino de uma filha é a Culpa que nada nem ninguém poderá resgatar nunca.

 

            Tereza desconhecia, evidentemente, o episódio da noite em que a mãe dissera ao ouvido do homem mais viril de todos para ter cuidado. Sentia‑se culpada, mas de uma culpabilidade indefinível como o pecado original. Fazia tudo para expiá‑la. Como a mãe a tirara do colégio, desde os quinze anos que era criada e lhe dava tudo quanto ganhava. Estava disposta a tudo para merecer o seu amor. Tomava conta da casa, tratava dos irmãos e das irmãs, passava os domingos a esfregar e a lavar. Era pena, porque no liceu era a melhor aluna da turma. Queria elevar‑se, mas onde, naquela cidadezinha? Enquanto lavava a roupa tinha sempre um livro aberto ao lado da banheira. Quando virava as páginas, o livro ficava todo cheio de gotas de água.

            Em casa não havia pudor de espécie nenhuma. A mãe passeava‑se por todo o apartamento em roupa interior, às vezes sem soutien e até, outras vezes, no Verão, completamente nua. O padrasto não se passeava nu, mas esperava sempre que Tereza estivesse na banheira para ir à casa de banho. Por isso, um dia, fechou‑sé à chave, mas a mãe fez‑lhe logo uma cena: ''Quem é que tu pensas que és? Quem é que te julgas? Olha que ele não te come, essa tua beleza!''

            (Não pode querer‑se situação mais clara para mostrar que o ódio que a mãe tinha à filha era mais forte do que os ciúmes que o marido lhe inspirava. A culpa da filha era imensa, tão imensa que as próprias infidelidades do marido estavam lá contidas. Que o marido trouxesse Tereza debaixo de olho, ainda era admissível, mas o que não podia permitir era que a filha quisesse emancipar‑se e ousasse reivindicar alguns direitos, nem que fosse o de fechar‑se à chave na casa de banho!)

            Num certo dia de Inverno, a mãe pôs‑se a passear nua numa sala que tinha a luz acesa. Tereza apressou‑se a correr o estore para que os vizinhos da frente não vissem a mãe toda nua. Esta desatou a rir nas suas costas. No dia seguinte, a mãe teve visitas. Uma vizinha, uma colega da loja, uma professora primária do bairro e mais duas ou três mulheres que se encontravam regularmente. Tereza veio passar um bocadinho com elas, acompanhada por um rapaz de dezesseis anos, filho de uma das senhoras. A mãe aproveitou imediatamente para contar como Tereza quisera proteger o seu pudor. Pôs‑se a rir e todas as mulheres a imitaram. Depois, observou: ''A Tereza nunca mais se convence que o corpo humano é uma coisa que se mija e se peida!'' Tereza ficou coradíssima, mas a mãe continuou: ''Sim, que mal é que há nisso?...'' Em seguida, respondendo ela própria à pergunta, deu dois ou três peidos bem sonoros. As mulheres desataram todas a rir.

 

            A mãe assoa‑se ruidosamente, descreve pormenorizadamente a sua vida sexual, exibe a dentadura postiça. Solta‑a com a língua com uma agilidade surpreendente, deixa cair a parte de cima sobre os dentes de baixo e ela abre‑se sozinha num largo sorriso; fica, de repente, com uma cara tão arrepiante que as pessoas têm um calafrio.

            Não é senão uma maneira de renegar brutalmente a sua juventude e a sua beleza. No tempo em que os nove pretendentes se ajoelhavam à volta dela, era extremamente ciosa da sua nudez. O preço do seu corpo era proporcional ao pudor que tinha dele. Se agora é impudica, é‑o radicalmente; com o seu despudor, passa um risco solene por cima da vida e grita bem alto que a juventude e a beleza, que tanto sobrestimou, não valem realmente nada.

            Tereza parece‑me ser o prolongamento desse gesto, desse gesto da mãe a expulsar para bem longe um passado de mulher jovem e bela.

             (E não é de admirar que Tereza também tenha modos nervosos e que aos seus gestos falte a graça da lentidão. Esse grande gesto da mãe, autodestruidor e violento, é ela, é a própria Tereza.)

 

            A mãe quer que lhe façam justiça e que o culpado seja castigado. Insiste para que a filha fique com ela no mundo impudico onde a beleza e a juventude não têm sentido, onde o universo não passa de um gigantesco campo de concentração de corpos idênticos com uma alma invisível.

            Podemos agora perceber melhor o sentido do vício secreto de Tereza, dos seus longos e freqüentes momentos em frente ao espelho. Era um combate contra a mãe. Era o desejo de não ser um corpo como os outros corpos e de ver subir à superfície do rosto a tripulação da alma vinda do ventre do navio. E isso não era fácil porque a alma, triste, receosa, amedrontada, escondia‑se bem lá no fundo das suas vísceras e tinha vergonha de se mostrar.

            Também foi assim no dia em que conheceu Tomas. Esgueirava‑se como podia por entre os bêbados do restaurante, com o corpo vergado pelo peso das canecas de cerveja que levava num tabuleiro e tinha a alma na boca do estômago ou no pâncreas. Foi nessa altura que Tomas chamou por ela. Era um acontecimento importante

porque quem estava a chamar por ela não conhecia nem a mãe nem os bêbados, que todos os dias a martirizavam com ditos obscenos e gastos. O seu estatuto de desconhecido elevava‑o acima dos outros.

            Mas havia mais uma coisa: um livro aberto em cima da mesa. Nunca ninguém abrira um livro numa mesa daquele café. Para Tereza, o livro era o santo e a senha de uma irmandade secreta. Para enfrentar o mundo grosseiro que a rodeava não tinha, com efeito, senão uma arma: os livros que ia buscar à biblioteca municipal e que eram sobretudo romances; lia‑os aos montes, de Fielding a Thomas Mann. Davam‑lhe uma oportunidade de evasão imaginária, arrancando‑a a uma vida que não lhe oferecia satisfação de espécie nenhuma, mas, enquanto simples objetos, também tinham um sentido. Gostava de andar na rua com livros debaixo do braço. Eram para ela o que a bengala era para os dandies do século passado. Distinguiam‑na dos outros.

            (A comparação entre o livro e a bengala elegante do dandy não é totalmente exata. A bengala era o distintivo do dandy, e tornava‑o uma personagem moderna e à última moda. O livro fazia Tereza distinguir‑se das outras raparigas, mas tornava‑a um ser antiquado. Também é certo que era nova demais para perceber o que é que estava fora de moda na sua pessoa. Aos adolescentes que passeavam à sua volta com transistores tonitruantes, achava‑os idiotas. Não percebia que eram modernos.)

            Em conclusão: o homem que acabara de chamar por ela era ao mesmo tempo desconhecido e membro de uma irmandade secreta. Falava de um modo delicado e Tereza sentiu a alma a lançar‑se‑lhe para a superfície através de todas as veias, de todos os capilares e de todos os poros para que ele a visse.

 


            Durante a viagem de regresso de Zurique para Praga, Tomas sentiu‑se invadir pelo mal‑estar quando pensou que o seu encontro com Tereza fora o resultado de seis acasos improváveis.

            Mas um encontro não é precisamente tanto mais importante e cheio de significação quanto mais depende de um grande número de circunstâncias fortuitas?

            Só o acaso pode ser interpretado como uma mensagem. O que acontece por necessidade, o que já era esperado e se repete todos os dias é perfeitamente mudo. Só o acaso fala. Nele é que deve tentar‑se ler, como as ciganas fazem com as figuras deixadas no fundo de uma chávena pela borra do café.

            Para Tereza, a presença de Tomas no restaurante foi a manifestação do acaso absoluto. Estava sentado sozinho a uma mesa com um livro aberto à frente. Levantou os olhos para ela e sorriu: ''Uma aguardente!''

            Nesse momento, a rádio estava a transmitir um programa de música. Tereza foi buscar a aguardente ao balcão e fez girar o botão do aparelho para ouvir melhor. Tinha percebido que era Beethoven. Ouvira pela primeira vez a sua música quando um quarteto de Praga que andava em digressão pelo país viera àquela cidadezinha. Tereza (que, como sabemos, aspirava a ''elevar‑se'') foi ao concerto. Sala vazia. Só ela, o farmacêutico e a mulher. Havia, portanto, um quarteto de músicos no palco e um trio de espectadores na sala, mas os músicos foram tão simpáticos que não anularam o concerto e tocaram só para eles durante uma noite inteira os três últimos quartetos de Beethoven.

            Em seguida, o farmacêutico convidara os músicos para jantar e pedira àquela espectadora desconhecida que os acompanhasse. A partir de então, Beethoven tornara-se para ela a imagem do mundo ''do outro lado'', a imagem do mundo a que aspirava. Agora, enquanto se afastava do balcão com a aguardente de Tomas, esforçava-se por ler nesse acaso: como explicar que, no preciso momento em que estava a servir uma aguardente àquele desconhecido que lhe agradava tanto, tivesse começado a ouvir Beethoven?

            O acaso tem destes sortilégios, a necessidade, não. Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis.

 

            Chamou‑a porque queria pagar. Fechou o livro (o santo e a senha de uma irmandade secreta) e Tereza ficou com curiosidade de saber o que é que ele estava a ler.

            "Pode juntar isto à minha conta do hotel?, perguntou o desconhecido.

            ‑ Com certeza. Que número é o seu quarto?''

            Ele mostrou‑lhe uma chave presa a uma placa de madeira com um seis pintado a vermelho.

            ''Que engraçado! Está no número seis!, disse ela.

            ‑ Engraçado, por quê?'', perguntou ele.

            Viera‑lhe à cabeça que, quando morava em Praga na casa dos pais, antes do divórcio deles, o prédio era o número seis. Mas disse uma coisa completamente diferente (e não podemos senão tirar‑lhe o chapéu): ''Está no quarto número seis e eu acabo de trabalhar às seis!

            ‑ Pois eu vou apanhar o comboio das sete'', disse o desconhecido.

            Não sabendo o que acrescentar, deu‑lhe a conta para ele assinar e levou‑a para a recepção. Quando acabou o trabalho, o homem já tinha saído da sala. Teria compreendido a sua discreta mensagem? Saiu toda nervosa do restaurante.

            Em frente, no meio daquela cidadezinha suja, havia um largo ajardinado, triste e ralo, que sempre fora uma ilha de beleza para ela: era um relvado com quatro álamos, bancos, um chorão e forsítias.

            O desconhecido estava sentado num banco amarelo de onde se via a entrada do restaurante. Era precisamente o banco onde estivera sentada na véspera com um livro ao colo! Compreendeu então (os pássaros do acaso reuniam-se-lhe nos ombros) que o desconhecido lhe estava predestinado. Ele chamou-a e convidou-a a sentar-se ao seu lado (Tereza sentiu a tripulação da alma a lançar-se para a ponte do corpo). Pouco depois, acompanhou-o à estação e, no momento em que estava a despedir-se dela, estendeu-lhe um cartão-de-visita com um número de telefone: ''Se, por acaso, for um dia destes a Praga...''

 

            Muito mais do que aquele cartão‑de‑visita dado à última da hora, foi o apelo dos acasos (o livro, a música de Beethoven, o número seis, o banco amarelo do largo) que encorajou Tereza a sair de casa e a mudar de vida. Foram talvez esses poucos acasos (aliás bem modestos e banais, realmente dignos de uma cidadezinha insignificante) que puseram o seu amor em movimento e se tornaram a fonte da energia onde, até ao fim, há‑de ir beber.

            A nossa vida quotidiana está sempre a ser bombardeada pelos acasos, mais exatamente por encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos, ou seja, por aquilo a que costuma chamar‑se coincidências. Há uma coincidência quando dois acontecimentos inesperados se produzem ao mesmo tempo, quando se encontram um com o outro: por exemplo, Tomas aparece no restaurante precisamente no momento em que a rádio está a dar Beethoven. Na sua imensa maioria, este tipo de coincidências passa totalmente despercebido. Se o homem do talho tivesse vindo sentar‑se a uma mesa do restaurante em vez de Tomas, Tereza não teria reparado que a rádio estava a dar Beethoven (embora o encontro de Beethoven com um homem do talho também não deixe de ser uma coincidência interessante). Mas o amor a nascer aguçou‑lhe o sentido da beleza e, por isso, nunca mais esquecerá essa música. Sempre que a ouvir, há‑de sentir‑se comovida. Tudo o que se passar à sua volta nesse instante ficará aureolado com o brilho dessa música e será belo.

            No começo do grosso volume que Tereza trazia debaixo do braço no dia em que veio a casa de Tomas, Ana vê pela primeira vez Vronsky em circunstâncias bastante estranhas. Estão ambos no cais de uma estação onde alguém acabara de cair para debaixo de um comboio. No fim do romance, é Ana que se atira para debaixo de um comboio. Esta composição simétrica, em que o mesmo tema aparece no princípio e no fim, pode parecer demasiado ''romanesca''. Estou disposto a admiti‑lo, mas só se romanesco não significar para os que me estão a ler algo de ''inventado'', ''artificial'', ''sem semelhança com a vida''. Porque a vida humana também é assim que é composta.

            É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura da sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a

ele, a repeti‑lo, a modificá‑lo, a desenvolvê‑lo, a transpô‑lo. Ana poderia ter posto termo à vida de outra maneira qualquer. Mas, no momento do desespero, foi atraída pela sombria beleza do tema da estação e da morte, desse tema inesquecível associado ao nascimento do amor. Mesmo nos momentos da mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida.

            Não há, portanto, razão nenhuma para censurar aos romances  o seu fascínio pelos misteriosos cruzamentos dos acasos (por exemplo o encontro de Vronsky, de Ana, do cais e da morte, ou o encontro de Beethoven, de Tomas, de Tereza e do copo de aguardente), mas há boas razões para censurar o homem por ser cego a esses acasos na sua vida quotidiana e assim privar a vida da sua dimensão de beleza.

 

            Incitada pelos pássaros dos acasos que se tinham reunido nos seus ombros, tirou uma semana de licença sem dizer nada à mãe e meteu‑se no comboio. Passou grande parte da viagem a ir aos lavabos ver‑se ao espelho e suplicar à alma que não abandonasse um só segundo que fosse a ponte do seu corpo nesse dia decisivo da sua vida. De repente, enquanto se olhava, encheu‑se de pânico: tinha a garganta irritada. Iria adoecer logo nesse dia fatídico?

            Mas já não podia recuar. Telefonou‑lhe da estação e, no momento em que a porta se abriu, inesperadamente, a sua barriga pôs‑se a emitir uns gorgolejos horríveis. Ficou cheia de vergonha. Era como ter a mãe na barriga e ouvi‑la a rir‑se maldosamente para lhe estragar o encontro.

            Primeiro, pensou que ele ia pô‑la na rua por causa desses barulhos tão despropositados, mas, em vez disso, ele tomou‑a nos braços. Reconhecida pela indiferença com que encarara os seus borborismos, com os olhos velados de bruma, beijou‑o ainda mais apaixonadamente. Um minuto depois, estavam a fazer amor. E enquanto

fazia amor, Tereza gritava. Já tinha febre. Estava com gripe. Tinha a extremidade do tubo de passagem do ar para os pulmões encaroada e tapada.

            Tempos depois, voltou com uma mala pesadíssima onde amontoara tudo o que possuía, resolvida a nunca mais regressar à sua cidadezinha provinciana. Tomas convidou‑a a ir no dia seguinte à noite a casa dele. Dormiu numa pensão barata. De manhã, depositou a pesadíssima mala na estação e passou o dia inteiro pelas ruas de Praga com Ana Karenina debaixo do braço. À noite, tocou à porta e ele veio abrir; o livro, não o largava. Como se fosse o seu bilhete para entrar no universo de Tomas. Sabia que o único passaporte que tinha era essa miserável senha e isso dava-lhe vontade de chorar. Para evitar chorar, mostrou-se volúvel, pôs-se a falar alto e a rir. Mas, como da outra vez, mal passou o limiar da porta, Tomas tomou-a nos braços e foram fazer amor. Deslizou para dentro de um nevoeiro onde não havia nada para ver, nada para ouvir, a não ser o seu grito.

 

            Não era o sopro de uma respiração ofegante, não era o sopro de uma respiração difícil, era mesmo um grito. Gritava tão alto que Tomas teve de afastar a cabeça da cara dela como se, perto dos ouvidos, o grito lhe furasse os tímpanos. Não era uma expressão de sensualidade. A sensualidade é a mobilização máxima dos sentidos: observa‑se o outro intensamente e escutam‑se todos os seus ruídos, mesmo os mais imperceptíveis. O grito de Tereza, pelo contrário, era para anestesiar os sentidos, para impedi‑los de ver e de ouvir. O que gritava nela era o idealismo ingênuo do seu amor que pretendia ser a abolição de todas as contradições, a abolição da dualidade do corpo e da alma e talvez mesmo a abolição do tempo.

            Tinha os olhos fechados? Não, mas os seus olhos não olhavam para lado nenhum, estavam pregados no vazio do teto e, por breves momentos, a sua cabeça virou‑se convulsivamente de um lado para o outro.

            Quando o grito se acalmou, adormeceu junto a Tomas, agarrando‑lhe na mão durante toda a noite.

            Já aos oito anos adormecia com as mãos uma na outra, imaginando que se agarrava ao homem que amava, ao homem da sua vida. Portanto, é perfeitamente compreensível que segure tão afincadamente a mão de Tomas sempre que está a dormir: foi para isso que se preparou, foi para isso que se treinou desde a infância.

 

            Uma rapariga que, em vez de ''se educar'', é obrigada a servir cerveja a bêbados e a passar os domingos a lavar a roupa suja dos irmãos e das irmãs, acumula dentro de si uma imensa reserva de vitalidade, inconcebível para os jovens que andam na faculdade e bocejam com um livro aberto à frente. Tereza lera mais do que eles, sabia mais da vida, mas nunca se aperceberia disso. O que distingue as pessoas que estudaram dos autodidatas não é o seu nível de conhecimento mas o grau de vitalidade e de confiança que têm em si próprios. O fervor com que Tereza, uma vez em Praga, se lançou na vida, era ao mesmo tempo voraz e frágil. Parecia ter medo que alguém lhe dissesse um dia:   0 teu lugar não é aqui! Volta para donde vieste! Toda a sua fome de viver estava suspensa de um fio: a voz de Tomas, que fizera subir às alturas a alma timidamente escondida nas vísceras de Tereza.

            Arranjou um lugar num laboratório de fotografia de uma revista, mas não podia contentar‑se com isso. Queria era ser fotógrafa. Sabina, uma amiga de Tomas, emprestou‑lhe algumas monografias de fotógrafos célebres, encontrou‑se com ela num café e, com os livros abertos à frente, explicou‑lhe porque é que aquelas fotografias eram originais. Tereza ouvia‑a em silêncio e com uma atenção que só muito raramente um professor consegue ver na cara dos alunos.

            Graças a Sabina, Tereza apercebeu‑se do parentesco existente entre a fotografia e a pintura e passou a obrigar Tomas a acompanhá‑la a todas as exposições. Em breve conseguiu publicar fotografias suas na revista e deixou o laboratório para se tornar fotógrafa profissional.

            Nessa noite, foram a um cabaré festejar com alguns amigos a promoção de Tereza; dançaram. Tomas foi ficando com um ar cada vez mais carrancudo e, como Tereza insistisse para lhe dizer o que tinha, quando chegaram a casa, confessou‑lhe que ficara com ciúmes por tê‑la visto a dançar com o colega.

            Fiz‑te mesmo ter ciúmes de mim?" Repetiu esta frase uma boa dúzia de vezes, como se Tomas lhe tivesse anunciado que tinha ganho o Prêmio Nobel e se recusasse a acreditar nisso.

            Agarrou‑o pela cintura e pôs‑se a dançar com ele no meio do quarto. Era muito diferente da dança mundana de há pouco, no bar. Era uma espécie de dança aldeã, era uma série de pulos extravagantes. Levantava as pernas muito alto, dava saltos enormes e desajeitados, arrastando‑o atrás dla para os quatro cantos do quarto.

            Mas, ai! Dentro de pouco tempo, quem tinha ciúmes era ela! E os seus ciúmes não foram o Prêmio Nobel para Tomas, mas um fardo de que só se libertaria um ou dois anos antes de morrer.

 

            Desfilava nua à volta da piscina no meio de uma multidão de outras mulheres, Tomas estava lá em cima, de pé, dentro de uma cesto pendurada na abóbada, a gritar, a obrigá‑las a cantar e a fletir os joelhos. Quando uma mulher fazia um movimento em falso, abatia‑a com um tiro de pistola.

            Gostava de voltar mais uma vez a este sonho: o horror não começava só no momento em que Tomas disparava pela primeira vez. Era um sonho atroz logo desde o princípio. Marchar nua, a passo militar, no meio de outras mulheres, era para Tereza a imagem‑tipo do horror. Quando morava com a mãe, estava proibida de se fechar à chave na casa de banho. Para a mãe, era uma maneira de lhe dizer: o teu corpo é igual a todos os outros corpos; não tens direito ao pudor; não tens nada que esconder uma coisa que existe de uma forma idêntica em milhões de exemplares. No universo da mãe, os corpos eram todos iguais e marchavam a passo uns atrás dos outros num interminável desfile. Desde a infância que a nudez era para Tereza a marca da uniformidade obrigatória do campo de concentração; a marca da humilhação.

            Ainda havia outra coisa horrível‑ logo no começo do sonho: as mulheres tinham todas que cantar! Com os corpos todos iguais uns aos outros, todos igualmente desvalorizados como simples mecanismos sonoros e sem alma, as mulheres ainda se regozijavam com isso! Era a jubilante solidariedade das desalmadas. Sentiam‑se felizes

por estarem libertas do fardo da alma, dessa ilusão da diferença, desse orgulho ridículo, e por serem todas iguais. Tereza acompanhava‑as no seu canto, mas sem qualquer alegria. Cantava porque tinha medo que as mulheres a matassem se não cantasse.

            Mas o que significava o fato de Tomas as abater com tiros de pistola e elas caírem mortas umas atrás das outras na piscina?

            Na realidade, aquelas mulheres que se regozijavam por serem exatamente iguais e indiferenciadas estavam era a celebrar a sua morte futura, que tornaria a sua semelhança ainda mais absoluta. O disparo não era, portanto, senão a feliz conclusão do seu macabro desfile. Desatavam alegremente a rir a cada tiro de pistola e,

enquanto os cadáveres se iam afundando, cantavam ainda mais alto.

            E porque é que quem disparava era Tomas? E porque é que ele também queria abater Tereza?

            Porque tinha sido ele quem a mandara para o meio das mulheres. Era o que o sonho estava encarregado de revelar a Tomas, já que Tereza não sabia como dizer‑lho diretamente. Tinha vindo viver com ele para o seu corpo se tomar único e insubstituível. Mas ele tinha traçado um sinal de igualdade entre ela e as outras: beijava‑as a todas da mesma maneira, prodigalizava‑lhes as mesmas carícias, não diferenciava em nada, mas em nada de nada, o corpo de Tereza dos outros corpos. Remetera‑a para o universo donde tinha pensado que se escapara. Mandara‑a desfilar nua para o meio de outras mulheres nuas.

 

            Tinha três séries sucessivas de sonhos. A primeira, onde havia gatos a serem torturados, dizia o que sofrera ao longo da vida. Outra mostrava, em múltiplas variantes, imagens da sua execução. A última falava da sua vida no além, onde a sua humilhação se tornara um estado eterno.

            Nos sonhos de Tereza não havia nada para decifrar. A acusação que faziam a Tomas era tão evidente que este não podia senão calar‑se e afagar, de cabeça baixa, a mão de Tereza.

            Para além da sua evidente eloqüência, os sonhos ainda por cima eram belos. Foi um aspecto que escapou a Freud na sua teoria dos sonhos. O sonho não é apenas uma comunicação (e eventualmente uma comunicação cifrada), é também uma atividade estética, um jogo da imaginação que tem um valor próprio. O sonho é a prova

de que imaginar, sonhar com o que nunca existiu, é uma das necessidades mais profundas do homem. Essa é a razão do pérfido perigo que se oculta no sonho. Se o sonho não fosse belo, podíamos esquecê‑lo depressa. Mas Tereza estava constantemente a lembrar‑se deles, a revivê‑los em pensamento, a transformá‑los em lendas. Tomas vivia sob o encanto hipnótico da angustiante beleza dos sonhos de Tereza.

            Tereza, minha querida Tereza, só parece que estás a afastar‑te de mim. Para onde queres ir? Sonhas todas as noites com a morte, como se quisesses mesmo ir‑te embora...ރ, disse‑lhe um dia em que estavam sentados à mesa de um bar.


            Era em pleno dia, a razão e a vontade tinham voltado aos comandos. Enquanto uma gota de vinho tinto deslizava lentamente pela superfície do copo, Tereza disse:   Não posso fazer nada, Tomas. Compreendo tudo. Sei que você me ama. E bem sei que suas infidelidades nada têm de dramático...

            Olhava para ele com amor, mas temia a noite que ia chegar, tinha medo de seus sonhos. Sua vida partira-se em duas. Ela era o joguete de uma luta entre a noite e o dia.

 

            E natural que quem quer elevar‑seu sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O yރe são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual,

logo a seguir, nos protegemos com pavor.

            O cortejo de mulheres nuas em torno da piscina, os cadáveres no carro funerário a manifestarem o seu contentamento por Tereza também estar morta, são o por baixoރ que a apavora, de onde já fugiu uma vez, mas que também a atrai misteriosamente. As suas vertigens: ouvir um suave (e quase alegre) apelo que a incita a renunciar ao destino e à alma. É o apelo à solidariedade das desalmadas. Nos momentos de desespero, tem vontade de lhe responder e de voltar para a mãe. Tem vontade de fazer retirar da ponte do seu corpo a tripulação da alma; de descer e de se sentar com as amigas da mãe a rir quando uma delas se peida ruidosamente; de desfilar nua com elas em torno da piscina e de cantar.

 

            É certo que, antes de deixar a família, Tereza já estava em guerra com a mãe, mas não nos esqueçamos que, ao mesmo tempo, tinha um amor bem infeliz por ela. Estava disposta a fazer tudo pela mãe, desde que ela lho pedisse com um tom de ternura. Foi por nunca ter ouvido esse tom que teve forças para se ir embora.

            Quando a mãe percebeu que a sua agressividade tinha perdido toda e qualquer influência sobre Tereza, passou a escrever‑lhe cartas lacrimejantes para Praga. Queixava‑se do marido, do patrão, da saúde, dos filhos e dizia que Tereza era o único ser que possuía à face da terra. Tereza julgou estar finalmente a ouvir a voz do amor materno de que, durante vinte anos, sentira saudades, e teve vontade de voltar. Tanto mais porque se sentia fraca. As infidelidades de Tomas tinham‑lhe revelado bruscamente a sua impotência e desse sentimento de impotência nasciam as vertigens, um imenso desejo de cair.

            A mãe telefonou‑lhe. Disse‑lhe que tinha um cancro. Que só lhe restavam alguns meses de vida. Ao ouvir isto, o desespero em que ficara com as infidelidades de Tomas transformou‑se em revolta. Censurava‑se por ter traído a mãe com um homem que não gostava dela. Estava pronta a esquecer o que a mãe lhe fizera. Agora já

podia compreendê‑la. Estavam ambas atoladas na mesma miséria. A mãe amava o marido como Tereza amava Tomas, e as infidelidades do padrasto torturavam a mãe exatamente como as de Tomas atormentavam Tereza. A mãe só tinha sido má para ela por ser muito infeliz.

            Falou a Tomas da doença da mãe e anunciou‑lhe que ia tirar uma semana de licença para poder ir vê‑la. Disse‑o com um certo tom de desafio na voz.

            Adivinhando que deviam ser as vertigens que estavam a atraí‑la para a mãe, Tomas desaconselhou a viagem a Tereza. Telefonou para o posto clínico da cidadezinha. Como na Boêmia os dossiês dos diagnósticos de cancro são extremamente minuciosos, facilmente pôde verificar que a mãe de Tereza não tinha o mínimo sintoma de cancro e, até, que há mais de um ano não ia ao médico.

            Tereza obedeceu‑lhe e não foi ver a mãe. Mas, nesse mesmo dia, deu uma queda na rua; passou a ter um andar hesitante; caía quase todos os dias, tropeçava nas coisas ou, na melhor das hipóteses, deixava cair os objetos que tinha na mão.

            Sentia um desejo imperioso de cair. Vivia numa vertigem contínua.

            Quem cai, quer dizer: ރLevanta‑me!ރ Com toda a paciência, Tomas levantava‑a.

 

            Queria fazer amor contigo no meu atelier como se fosse o palco de um teatro. Haveria gente em toda a volta e ninguém teria o direito de se aproximar, mas não conseguiriam despregar os olhos de nós... ރ

            À medida que o tempo ia passando, a imagem perdia a crueldade inicial e começava a excitá‑la. Várias vezes evocou a situação ao ouvido de Tomas enquanto faziam amor.

            Decidiu que havia uma maneira de se livrar da condenação que lia nas suas infidelidades: era levá‑la com ele! Era levá‑la a casa das amantes! Talvez assim, através desse desvio, o seu corpo voltasse a ser único e primeiro entre todos. O seu corpo seria o alter ego de Tomas, o seu ajudante e assistente.

            Enlaçados, Tereza sussurra‑lhe ao ouvido: "Despia‑tas, lavava‑tas na banheira e levava‑tas...ރ Queria que se transformassem os dois em hermafroditas e que os corpos das outras mulheres se tornassem no seu brinquedo comum.

 

            Servir‑lhe de alter ego na sua poligamia. Tomas não queria entendê‑lo, mas Tereza não conseguia deixar de pensar nisso e tentava aproximar‑se de Sabina. Disse‑lhe que queria fotografá‑la.

            Sabina convidou‑a a ir ao atelier. Tereza acabou finalmente por ver com os seus próprios olhos aquele divisão imensa, com o enorme divã quadrado ao meio, armado como um estrado.

            Que vergonha nunca teres cá vindo!ރ, disse Sabina, enquanto lhe mostrava os quadros arrumados de encontro à parede. Chegou mesmo a ir buscar uma tela muito antiga, pintada no seu tempo de estudante. Era uma pintura de altos‑fornos em construção. Tinha‑a feito numa época em que, na escola de Belas‑Artes, se exigia o realismo mais rigoroso (porque a arte não realista era então considerada como uma tentativa de subversão do socialismo) e Sabina, que gostava de levar as apostas até ao fim, esforçava‑se por ser ainda mais rigorosa do que os professores. Nessa altura, pintava de maneira a que o traço do seu pincel fosse perfeitamente imperceptível e os seus quadros pareciam autênticas fotografias a cor.

            Olha, este quadro, tinha‑o estragado. Caiu‑lhe tinta encarnada por cima. Ao princípio, fiquei furiosa, mas, a partir de certa altura, comecei a gostar da mancha porque parecia uma fissura, como se os fornos não fossem fornos verdadeiros, mas um velho cenário rasgado onde os fornos tivessem sido pintados em rrompe l'oeil. Comecei a brincar com a greta, a aumentá‑la, a imaginar o que estaria lá atrás. Foi assim que começou o meu primeiro ciclo de quadros. Chamei‑lhes cenários. É evidente que não podia mostrá‑los a ninguém. Expulsavam‑me logo da escola. Em primeiro plano, havia sempre um mundo perfeitamente realista, mas, um pouco mais longe, corro por detrás de um cenário de teatro rasgado, aparecia uma coisa diferente, uma coisa misteriosa ou abstrata.ރ

            Calou‑se por um momento e, depois, acrescentou: ރEm primeiro plano, era a mentira inteligível. Atrás, a incompreensível verdade.ރ

            Tereza ouvia‑a com aquela incrível atenção que só raramente um professor consegue ver na cara de um aluno, enquanto constatava que, de fato, todos os quadros de Sabina, tanto os antigos como os de agora, falavam sempre da mesma coisa, todos eram o encontro simultâneo de dois mundos, como fotografias que tivessem sido

submetidas a uma dupla exposição. Uma paisagem e, ao fundo, à transparência, um candeeiro de mesa‑de‑cabeceira aceso. Uma mão a rasgar por detrás uma idílica natureza‑morta com maçãs, nozes e árvore de Natal iluminada.

            Sentiu subitamente uma grande admiração por Sabina e, como a pintora se mostrava extremamente amigável, nenhum receio ou desconfiança se juntavam à sua admiração que, dentro em pouco, se tinha transformado em simpatia.

            Quase se esquecia que viera para lhe tirar fotografias. Sabina teve de lho lembrar. Ao desviar o olhar dos quadros, deparou‑se‑lhe, no meio da sala, o divã armado como um estrado.

 

            Havia uma mesa‑de‑cabeceira ao lado do divã e, em cima dela, um suporte em forma de cabeça, um expositor daqueles que os cabeleireiros usam para pôr perucas. Em casa de Sabina, a cabeça postiça não tinha uma peruca, mas um chapéu de coco. Com um sorriso, Sabina disse: ރHerdei este chapéu de coco do meu avô.ރ

            Chapéus como aquele, pretos, redondos, rígidos, Tereza nunca tinha visto senão no cinema. Charlie Chaplin usava sempre um.

Sorriu por seu turno, pegou no chapéu de coco e examinou‑o demoradamente. Depois, disse: ރQueres ficar com ele nas fotografias?ރ

            A resposta de Sabina foi uma grande gargalhada. Tereza puisou o chapéu de coco, pegou na máquina e começou a tirar fotografias.

            Ao fim de uma curta hora, disse: ރE se eu te tirasse fotografias nua?

            ‑ Nua?, perguntou Sabina.

            ‑ Sim, nua, disse Tereza, repetindo heroicamente a sua proposta.

            ‑ Para isso, primeiro é preciso beberރ, disse Sabina, indo abrir uma garrafa de vinho.

            Tereza sentia uma espécie de torpor e deixava‑se estar calada, enquanto Sabina passeava para trás e para diante, com um copo de vinho na mão, falando do avô que era presidente da câmara de uma cidadezinha de província; não chegara a conhecê‑lo. Tudo o que restava dele era o chapéu e uma fotografia onde se viam as

pessoas importantes da terra numa tribuna; um deles era o avô de Sabina; não se sabia muito bem o que lá estava aquela gente a fazer, mas talvez estivessem a inaugurar um monumento à memória de outra pessoa importante que, com certeza, também usava chapéu de coco nas ocasiões solenes.

            Sabina falou demoradamente do chapéu de coco e do avô. Depois do terceiro copo, disse:   Espera um instante!ރ e enfiou‑se na casa de banho.

            Voltou em roupão. Tereza pegou na máquina e ajustou‑a ao olho. Sabina abriu o roupão.

 

            A máquina servia a Tereza tanto de olho mecânico para observar a amante de Tomas como de véu para se esconder dela.

            Só depois de passado um bom momento é que Sabina se resolveu a tirar o roupão. A situação era mais complicada do que imaginara. Depois de posar alguns minutos, aproximou‑se de Tereza e disse‑lhe:   Agora, é a minha vez! Despe‑te!ރ

            Este   despe‑te!ރ, ‑que Sabina tantas vezes ouvira da boca de Tomas, tinha‑se gravado na sua memória. Era portanto a ordem de Tomas que a amante dava agora à mulher dele. As duas mulheres estavam assim unidas pela mesma frase mágica. Era o processo que Tomas usava para transformar uma conversa anódina numa situação erótica: fazia‑o não com carícias, toques, elogios ou súplicas, mas com uma ordem que proferia bruscamente, de improviso, com uma voz suave, embora enérgica e autoritária, e à distância. Nesse momento, nunca tocava na mulher a quem a dirigia. Mesmo à própria Tereza dizia, exatamente no mesmo tom:   Despe‑te!ރ. E embora falasse com suavidade, embora sussurrasse, tratava‑se realmente de uma ordem. Só por lhe obedecer, ela ficava logo excitada. Ora, acabara precisamente de ouvir essas mesmas palavras e desejava tanto mais submeter‑se a elas quanto é loucura obedecer a um estranho e, neste caso, loucura ainda mais bela por não terem sido proferidas

por um homem mas por uma mulher. Sabina tirou‑lhe a máquina das mãos para ela se poder despir. Tereza ficou de pé, nua e desarmada à sua frente. Literalmente desarmada porque privada da máquina de qe se servira para esconder a cara e que, momentos atrás, apontava a Sabina. Encontrava‑se à mercê da amante de Tomas. Essa docilidade enebriava‑a. Se os segundos em que está nua em frente de Sabina pudessem nunca mais acabar!

            Penso que também Sabina foi tocada pelo encanto insólito daquela situação em que, à sua frente, estranhamente dócil e tímida, se encontrava a mulher do amante. Disparou duas ou três vezes e, depois, como que assustada com a magia daquele encantamento e para dissipá‑la o mais depressa possível, desatou a rir muito alto.

            Tereza imitou‑a e ambas se foram vestir.

 

            Os crimes do Império Russo foram sempre perpetrados ao abrigo de uma discreta penumbra. Tanto da deportação de meio milhão de lituânios e da morte de centenas de milhares de polacos, como da liquidação dos tártaros da Criméia não restaram provas fotográficas nenhumas, ficando tais acontecimentos gravados apenas na memória como algo de indemonstrável que, mais cedo ou mais tarde, se faria passar como uma mistificação. A invasão da Tchecoslováquia em 1968 foi, pelo contrário, fotografada, filmada e arrumada nos arquivos do mundo inteiro.

Os fotógrafos e operadores de câmara tchecos souberam aproveitar a oportunidade que se lhes oferecia de fazer a única coisa que ainda podia ser feita: preservar para o futuro longínquo a imagem da violação. Tereza. passou esses sete dias na rua a fotografar soldados e oficiais russos nas mais diversas situações, todas comprometedoras. Os russos foram apanhados desprevenidos. Tinham recebido instruções precisas quanto à atitude a adotar no caso de serem atacados com armas ou com pedras, mas ninguém lhes indicara como reagir perante a objetiva de uma máquina fotográfica.

            Gastou centenas de negativos a tirar fotografias. Deu mais ou menos metade dos rolos a jornalistas estrangeiros (as fronteiras continuavam abertas, os jornalistas estrangeiros estavam sempre a chegar, pelo menos para uma curta estada quase só de ida e volta, e aceitavam reconhecidamente o menor documento). Muitas das fotografias de Tereza apareceram no estrangeiro, nos mais variados jornais: eram fotografias de tanques, de punhos ameaçadores, de prédios destruídos, de mortos cobertos com bandeiras tricolores, de jovens a andar de moto a toda a velocidade à volta dos carros de assalto, agitando grandes paus com bandeiras checas na ponta, e de rapariguinhas muito novas com minissaias incrivelmente curtas que provocavam os infelizes soldados russos sexualmente esfaimados, beijando, sob os seus narizes, o primeiro desconhecido que passasse. A invasão russa, voltamos a insistir, não foi apenas uma tragédia; foi também uma festa do ódio cuja estranha euforia nunca ninguém

poderá compreender.

 

             Levara para a Suíça umas cinqüenta fotografias, que ela própria revelou com toda a arte e todo o engenho de que era capaz. Foi oferecê‑las a uma revista de grande tiragem. O chefe de redação recebeu‑a amavelmente (em torno da fronte de cada checo brilhava a auréola da desgraça coletiva de um povo, coisa a que os suíços eram extremamente sensíveis), convidou‑a a sentar‑se num sofá, examinou as fotografias, elogiou‑as, para depois explicar que não tinham qualquer hipótese de publicação (ރpor muito bonitas que sejam!ރ). Já se passara tempo de mais sobre os acontecimentos.

            ރMas em Praga tudo continua na mesma!ރ, exclamou Tereza, com indignação, tentando explicar, no seu péssimo alemão, que, naquele preciso instante, no seu país ocupado, contra tudo e contra todos, se constituíam conselhos operários nas fábricas, os estudantes continuavam em greve e toda a população continuava a viver como muito bem entendia. Isso é que era incrível! E era precisamente isso que já não interessava ninguém!

            O chefe de redação sentiu um certo alívio quando, interrompendo a conversa, entrou na sala uma mulher enérgica. Estendeu‑lhe um dossiê, dizendo: "Trago‑te uma reportagem sobre uma praia de nudistas. ރ

            O chefe de redação tinha a subtileza suficiente para temer que aquela checa que tirava fotografias a tanques achasse as imagens de gente nua na praia um pouco frívolas de mais. Afastou o dossiê para a borda da secretária e apressou‑se a dizer à recém‑chegada: ރDeixa‑me apresentar‑te esta tua colega de Praga. Trouxe‑me umas fotografias esplêndidas.ރ

            A mulher apertou a mão a Tereza e pegou nas fotografias.

            "Enquanto eu vejo as suas, veja você também as minhas!ރ

            Tereza debruçou‑se sobre o dossiê e tirou as fotografias.


            Como que a desculpar‑se, o chefe de redação disse a Tereza:

            É exatamente o contrário daquilo que você fotografou!ރ

            Tereza respondeu‑lhe:   De forma nenhuma! É precisamente a mesma coisa!ރ

            Ninguém compreendeu estas palavras, e eu próprio sinto alguma dificuldade em entender que semelhanças podiam ter para Tereza uma praia de nudistas e a invasão russa. Pôs‑se a observar atentamente as provas, particularmente uma, onde se via uma família de quatro pessoas disposta em círculo: a mãe, toda nua, debruçada

sobre os filhos, com umas grandes mamas pendentes como as de uma cabra ou de uma vaca e, de costas, também debruçado para a frente, o marido, cujos testículos pareciam tetas em miniatura.

            Não gosta?ރ, perguntou o chefe de redação.

            ‑ Está muito bem tirada.

            ‑ Parece‑me que você a acha chocante, disse a fotógrafa. Só de olhar para si, adivinha‑se logo que nunca há‑de pôr os pés numa praia de nudistas.

            ‑Ai, de certeza que não!ރ, disse Tereza.

            O chefe de redação sorriu:   Vê‑se imediatamente de onde é que você vem. É incrível como os países socialistas são puritanos!ރ

            A fotógrafa acrescentou, com uma amabilidade maternal:

            Corpos nus. E então? É normal! Tudo o que é normal é belo!ރ

            Tereza lembrou‑se da mãe a passear nua pela casa. Ainda tinha nos ouvidos o riso que a acompanhara quando fora a correr baixar o estore para as pessoas não verem a mãe toda nua.

 

            A fotógrafa convidou Tereza a ir tomar um café ao bar.

            As suas fotografias são muito interessantes. Reparei que tem um jeito fantástico para tratar o corpo feminino. Sabe com certeza no que estou a pensar! Naquelas raparigas em poses tão provocantes!

            ‑ Nos casais a beijarem‑se à frente dos tanques russos?

            ‑ Isso mesmo. Você dava uma fotógrafa de moda notável. É evidente que, primeiro, tinha de trabalhar com um modelo. De preferência, com uma jovem estreante como você. Depois, podia fazer algumas fotografias e apresentá‑las a. uma agência. Mas uma carreira demora forçosamente um certo tempo a começar. Entretanto, talvez eu possa fazer alguma coisa por si. Vou apresentá‑la ao jornalista que dirige a rubrica   0 Seu Jardimރ. Talvez precise de fotografias. De cactos, de rosas, de coisas desse gênero.

            ‑ Fico‑lhe muito agradecidaރ, disse Tereza com toda a sinceridade, vendo que a mulher sentada à sua frente estava cheia de boa vontade.

            Mas, depois, perguntou a si própria: porque é que hei‑de tirar fotografias a cactos? Sentia uma espécie de enjôo ao pensar em voltar a fazer o mesmo que já fizera em Praga: bater‑se por um lugar, por uma carreira, por cada fotografia publicada. Nunca fora ambiciosa por vaidade. Tudo quanto queria era escapar ao mundo da mãe. Sim, via‑o agora de repente com toda a nitidez: tinha exercido a sua profissão de fotógrafa com grande fervor, mas teria posto exatamente o mesmo fervor noutra atividade qualquer, porque a fotografia não fora senão uma maneira de   elevar‑seރ e de viver com Tomas.

            Disse:   Sabe, o meu marido é médico e pode sustentar‑me. Não tenho necessidade nenhuma de trabalhar.ރ

            A fotógrafa respondeu‑lhe:   Não consigo perceber como é que pode renunciar à sua profissão depois de ter tirado fotografias tão bonitas!ރ

            Era verdade. As fotografias dos dias da invasão eram outra coisa. Essas, não as tirara para Tomas. Tirara‑as por paixão. Não por paixão pela fotografia, mas por paixão pelo ódio. Essa situação nunca mais se repetiria. Aliás, essas fotografias que tirara por paixão, também já ninguém as queria: tinham perdido a atualidade. Só um cacto é que é eternamente atual. Mas os cactos não lhe interessavam absolutamente nada.

            Disse: "Isso é muito simpático da sua parte. Mas prefiro ficar em casa. Não tenho necessidade nenhuma de trabalhar.ރ

            A fotógrafa disse:   E ficar em casa, satisfá‑la?ރ

            Tereza respondeu: aMais do que tirar fotografias a cactos."

            A fotógrafa disse:   Mas apesar de tirar fotografias a cactos tem uma vida sua. Se viver só para o seu marido, não tem uma vida sua. i

            De súbito, Tereza sentiu‑se irritada: cA minha vida é o meu marido, e não os cactos.ރ

            A fotógrafa também já falava com uma certa irritação:   Então quer dizer que você é feliz assim?ރ

            Tereza (sempre irritada) respondeu:   É claro que sou feliz!ރ

            A fotógrafa disse:   Uma mulher que diz uma coisa dessas é forçosamente muito...ރ Preferiu não continuar.

            Tereza completou :    Você quer dizer com certeza: forçosamente muito limitada.ރ

            A fotógrafa conteve‑se e disse:   Não, limitada não. Anacrônica.ރ

            Com um ar sonhador, Tereza disse:   Tem razão. É exatamente o que o meu marido diz de mim.

 

            Mas Tomas passava dias inteiros fechado na clínica e ela ficava sozinha em casa. Felizmente que ainda tinham Karenine para ela o levar a passear! Quando voltava para casa, sentava‑se diante de um manual de alemão ou de francês. Mas dava‑lhe uma grande tristeza e não conseguia concentrar‑se. Muitas vezes, punha‑se a pensar no discurso que Dubcek fizera na rádio depois de vir de Moscovo. Não se lembrava já de nada do que ele dissera, mas ainda tinha nos ouvidos aquela sua voz tão trêmula. Pensava nele: soldados estrangeiros tinham‑no feito prisioneiro no seu próprio país, a ele, chefe de um Estado soberano, tinham‑no levado, tinham‑no mantido seqüestrado durante quatro dias algures nas montanhas. da Ucrânia, tinham‑lhe dado a entender que iam fuzìlá‑lo como tinham fuzilado doze anos antes o seu precursor húngaro Imre Nagy, depois tinham‑no transferido para Moscovo, tinham‑no mandado tomar banho, fazer a barba, vestir‑se, pôr uma gravata, tinham‑lhe anunciado que já

não o destinavam ao pelotão de fuzilamento, tinham‑lhe ordenado que voltasse a considerar‑se como um chefe de Estado, tinham‑no feito sentar a uma secretária à frente de Brejnev e tinham‑no obrigado a negociar.

            Voltara humilhado e fizera o seu discurso a um povo humilhado. Estava tão humilhado que quase não conseguia falar. Tereza nunca mais há‑de esquecer as pausas atrozes que ele fazia no meio das frases. Estaria no limite das suas forças? Estaria doente? Tê‑lo‑iam drogado? Ou não era senão o desespero? Se não restasse mais nada de Dubcek, restavam pelo menos esses longos e atrozes silêncios durante os quais não era capaz de respirar, durante os quais tentava tomar fôlego perante um povo inteiro grudado aos aparelhos de rádio. Nesses silêncios, estava todo o horror que se abatera sobre o país.

            No sétimo dia de ocupação, ouvira aquele discurso na sala de redação de um jornal diário que se tornara durante esses dias no porta‑voz da resistência. Todos os que estavam naquela sala a ouvir Dubcek o odiavam nesse momento. Reprovavam‑lhe o mau compromisso ao qual dera o seu consentimento, sentiam‑se humilhados com a sua humilhação, e a sua fraqueza ofendia‑os.

            Mas agora, em Zurique, ao pensar nesses momentos, não sentia qualquer desprezo por Dubcek. A palavra fraqueza deixara de soar como um veredicto. Mesmo com um corpo de atleta como Dubcek, somos sempre fracos quando confrontados com uma força superior. Sentia‑se subitamente atraída por essa fraqueza que então lhe parecera insuportável, repugnante, e que a fizera deixar o seu país. Compreendia que fazia parte dos fracos, do campo dos fracos, do país dos fracos e que lhes devia fidelidade precisamente por serem fracos e tentarem tomar fôlego no meio das frases.

            Sentia‑se atraída por essa fraqueza como se tivesse vertigens. Sentia‑se atraída porque também ela se sentia fraca. Tinha outra vez ciúmes e as mãos a tremer. Apercebendo‑se disso, Tomas fez o gesto do costume: pegou‑lhe nas mãos para acalmá‑la com a pressão dos seus dedos. Ela escapou‑se‑lhe.

            "O que tens?

            ‑ Nada.

            ‑ O que queres que eu faça por ti?

            ‑ Quero que sejas velho. Que tenhas mais dez anos. Mais vinte anos! ރ

            Queria dizer com isso: quero que sejas fraco. Que sejas tão fraco como eu.

 

            Karenine nunca vira com bons olhos aquela ida para a Suíça. Karenine detestava as mudanças. Para os cães, o tempo não anda em linha reta, o curso do tempo não é um movimento contínuo sempre a direito, cada vez mais para diante, de uma coisa para a coisa seguinte. Para eles, o tempo descreve um movimento circular como o tempo dos ponteiros do relógio, porque os ponteiros também não andam sempre estupidamente a direito, mas à volta do mostrador, dia após dia, na mesma trajetória. Em Praga, bastava comprarem um sofá ou mudarem uma jarra de flores de sítio para Karenine se indignar. Ficava com o sentido do tempo perturbado. Um pouco como aconteceria aos ponteiros se lhes mudássemos os números do mostrador.

            No entanto, conseguiu em pouco tempo restabelecer no apartamento de Zurique a maneira como costumava empregar o tempo e os seus antigos rituais. De manhã, como em Praga, reunia‑se‑lhes de um salto na cama para inaugurar o dia, a seguir ia com Tereza fazer as primeiras compras da manhã e, como em. Praga, também passara a exigir que o levassem regularmente a passear.

            Karenine era o relógio da vida deles. Nos piores momentos de desespero, Tereza esforçava‑se por se convencer a si própria que tinha de agüentar por causa desse cão ainda mais fraco do que ela e talvez ainda mais fraco do que Dubcek e do que a sua pátria abandonada.

            Um dia, quando voltavam de um passeio, o telefone estava a tocar. Tereza levantou o auscultador.

            Era uma mulher que perguntou em alemão se Tomas estava. Mostrava‑se impaciente e Tereza pensou adivinhar‑lhe uma ponta de desprezo na voz. Quando respondeu que Tomas tinha saído e não sabia quando voltava, a mulher desatou a rir do outro lado e desligou sem se despedir.

            Tereza sabia que não devia dar qualquer importância ao caso. Era provavelmente uma enfermeira do hospital, uma doente, uma secretária ou outra pessoa qualquer. Mas sentia‑se tão perturbada que não conseguia concentrar‑se. Percebeu que perdera a pouca força que ainda tinha em Praga e que era absolutamente incapaz de

suportar um incidente, afinal de contas, bem fútil.

            Quem vive no estrangeiro deixa de ter por debaixo de si a rede de segurança que é; para todo o ser humano, o país natal, o país onde se tem a família, os colegas, os amigos e onde é fácil fazermo‑nos entender na língua que conhecemos desde crianças. É certo que em Praga dependia de Tomas ‑ mas só pelo coração. Aqui, dependia dele para tudo. Se ele a deixasse, o que lhe aconteceria a ela? Estava condenada a passar a vida inteira no terror de o perder?

            Punha‑se a pensar que aquela relação repousava num erro desde o princípio. Ana Karenina, o livro que levava bem apertado debaixo do braço naquele dia, era o bilhete de identidade falso de que se servira para enganar Tomas. Tinham feito a vida num inferno um ao outro embora se amassem muito. E era bem verdade que se amavam. Isso era a prova de que a culpa não era destes, dos seus comportamentos ou do seu sentimento lábil. A culpa era da incompatibilidade que havia entre eles por ele ser forte e ela fraca. Ela era como Dubcek a fazer pausas de meio minuto no meio das frases, era como a sua pátria a gaguejar, a tentar tomar fôlego sem conseguir falar.

            Mas era precisamente o fraco quem devia saber ser forte e partir quando o forte se encontrava demasiado fraco para poder sequer ofender o fraco.

            Era nisto que Tereza estava a pensar. Depois, apertando a cara contra a cabeça felpuda de Karenine, murmurou: ރNão te zangues, Karenine, mas acho que temos de mudar de casa outra vez.

 

            Com a sua pesadíssima mala por cima da cabeça e Karenine enroscado aos pés, Tereza seguia encolhida a um canto do comparti  mento. Pôs‑se a pensar no cozinheiro do restaurante onde trabalhava quando vivia com a mãe. Nunca perdia uma ocasião de lhe dar   uma palmada no rabo e dissera‑lhe por mais de uma vez à frente de

  toda a gente para ir para a cama com ele. Estranho era estar agora   a pensar nele! Era a encarnação de tudo o que lhe causava repugnância. Mas agora só tinha uma idéia fixa, que era ir ter com ele para   lhe dizer: "Dantes querias ir para a cama comigo. Pois aqui me tens!ރ

            Tinha uma vontade brutal de fazer qualquer coisa que a impedis  se de voltar atrás. Tinha vontade de anular brutalmente os últimos sete anos da sua vida. Eram as vertigens. Um inebriante, um incontrolável desejo de cair. Poderia talvez dizer que ter vertigens é embriagarmo‑nos com a, nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir‑lhe, queremos abandonar‑nos a ela. Embriagamo‑nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por

' terra, ainda mais abaixo do que a terra.

Estava convencida de que não ficaria em Praga e que deixaria de  ser fotógrafa. Voltaria para a cidadezinha de onde a voz de Tomas a   arrancara.

  Mas, uma vez chegada, tinha de ficar uns tempos em Praga para tratar de algumas coisas práticas. E, assim, ia adiando o momento da partida.

De forma que, ao fim de cinco dias, Tomas apareceu inesperada  mente em casa. Karenine saltou‑lhe para a cara, poupando‑os durante algum tempo à necessidade de falar.

Estavam os dois um de frete ao outro, no meio de uma planície gelada e tremiam de frio.

Depois, aproximaram-se como amantes que ainda não se beijaram.

            Perguntou ''Tudo bem?''

            - Sim.

            ‑ Foste ao jornal?

            ‑ Não, telefonei para lá.

            ‑ E então?

            ‑ Ainda não sei nada. Esperava.

            ‑ O quê?ރ

            Tereza não respondeu. Não estava à espera.

 

            Voltemos àquele momento já nosso conhecido. Tomas estava desesperado e com dor de estômago. Só adormeceu muito tarde.

            Alguns instantes depois, Tereza acordou. (Os aviões russos continuavam a cruzar‑se no céu de Praga e era difícil dormir com a barulheira.) O primeiro pensamento que teve foi: ele voltara por causa dela. Por causa dela, mudara de destino. Agora, já não era ele que era responsável por ela; daí em diante, ela é que era responsável

            Parecia‑lhe uma responsabilidade superior às suas forças.

            Depois, lembrou‑se ontem, Tomas aparecera à porta de casa e, alguns instantes depois, tinham dado seis horas numa igreja de Praga. Quando se encontraram pela primeira vez, ela tinha acabado de trabalhar às seis. Via‑o à sua frente, sentado num banco amarelo, e escutava o badalar dos sinos.

            Não, não era superstição, era o sentido da beleza que a libertava subitamente da angústia e lhe trazia um desejo renovado de viver. Uma vez mais, os pássaros do acaso tinham pousado nos seus ombros. Tinha os olhos marejados de lágrimas e a sua respiração tão próxima dava‑lhe uma sensação de infinita felicidade.

 

AS PALAVRAS MAL ENTENDIDAS

            Genebra é uma cidade de fontes e fontanários. Ainda hoje os seus jardins conservam os velhos coretos onde outrora as bandas de música tocavam. A própria universidade se encontra no meio de um parque. Franz, que acabara as aulas da manhã, saiu do edifício. Dos torniquetes das mangueiras jorrava uma poeira de água que se espalhava em gotas minúsculas pelo relvado. Sentia‑se extremamente bem‑disposto. Foi diretamente da universidade a casa da amiga que morava apenas a algumas ruas de distância.

            Ia freqüentemente a casa dela, sempre como amigo e nunca como amante. Se fizesse amor com ela no atelier, passaria no mesmo dia de uma mulher para outra, isto é, da esposa para a amante e vice‑versa. Como em Genebra marido e mulher dormem à francesa, na mesma cama, passaria portanto, num intervalo de poucas horas,

da cama de uma mulher para a de outra. Na sua opinião, isso era humilhar tanto a mulher como a amante e, em última análise, era humilhar‑se a si próprio.

            O amor que sentia pela mulher por quem se apaixonara há uns meses era algo de tão precioso que lhe arranjara engenhosamente um espaço autônomo, um território inacessível de pureza. As universidades estrangeiras convidavam‑no freqüentemente para proferir conferências; agora aceitava pressurosamente todos os convites. Como não eram suficientes para justificar aos olhos da mulher as suas inúmeras viagens, completava‑as com imaginários congressos e colóquios. A amiga, que era dona e senhora do seu tempo, acompanhava‑o. Fizera‑lhe assim descobrir num espaço de tempo recorde várias cidades européias e uma cidade americana.

            - Se não tiveres nada em contrário, daqui por uns dez dias podíamos ir a Palermo, disse.

            ‑ Prefiro Genebra. De pé, diante de um cavalete, ela examinava um quadro inacabado.

            Franz tentou gracejar: Como é que se pode viver sem conhecer Palermo?

            ‑ Já conheço Palermo, disse ela.

            ‑ Como?, perguntou‑lhe, num tom quase ciumento.

            ‑ Uma amiga minha mandou‑me um postal de lá. Colei‑o com fita‑cola na casa de banho. Não reparaste?

            Depois, acrescentou:  Vou contar‑te a história de um poeta do começo do século. Estava muito velho e era o secretário que o levava a passear. Um dia, este disse‑lhe: "Levante a cabeça, Mestre, e veja! Olhe o primeiro aeroplano a passar por cima da cidade! - Posso muito bem imaginá‑lo", replicou o Mestre, sem levantar os olhos. Ora muito bem! Também eu posso imaginar Palermo. Há lá exatamente os mesmos hotéis e os mesmos automóveis que nas outras cidades. Ao menos, no meu atelier, os quadros são sempre diferentes.

            Franz ficou contrariado. Estava tão habituado à ligação que havia entre a sua vida amorosa e as viagens que aquele seu Vamos a Palermo! continha uma inequívoca mensagem erótica. Responder "Prefiro Genebra! não podia querer dizer senão que à amiga já não lhe apetecia dormir com ele.

            Como explicar esta falta de segurança perante a amante? Não tinha razão nenhuma para duvidar a tal ponto de si próprio! Quem dera os primeiros passos fora ela e não ele. Era um homem interessante; estava no auge da sua carreira científica e os colegas chegavam a temê‑lo pela altivez e obstinação com que se engalfinhava nas

polêmicas da especialidade. Então porque é que pensava todos os dias que a amiga ia deixá‑lo?

            Só posso explicá‑lo dizendo que o amor estava para ele, não no prolongamento, mas nos antípodas da sua vida pública. O amor era para ele o desejo de abandonar‑se ao arbítrio e à mercê do outro. Quem se entrega ao outro como um soldado se deixa fazer prisioneiro tem de despojar‑se previamente de todas as armas. Vendo‑se sem defesas, não pode coibir‑se de estar sempre a pensar no momento em que o golpe fatal será dado. Posso portanto dizer que, para Franz, amar era estar constantemente à espera do golpe que iria atingi‑lo a qualquer minuto.

            Enquanto assim se deixara invadir pela angústia, a amiga pousara os pincéis e saíra da sala. Voltou trazendo uma garrafa de vinho. Abriu‑a em silêncio e encheu dois copos.

            Franz sentiu um peso enorme a sair‑lhe do peito e achou‑se ridículo. As palavras Prefiro Genebra! não significavam que ela já não queria fazer amor com ele mas, muito pelo contrário, que estava farta de confinar os momentos de intimidade a breves estadas em cidades estrangeiras.

            A amiga ergueu o copo e esvaziou‑o de um trago. Franz imitou‑a. Embora tivesse ficado extremamente satisfeito por constatar que a recusa de ir a Palermo era, na realidade, um convite ao amor, sentiu, pouco depois, uma certa pena; a sua amiga decidira infringir a regra de pureza que ele introduzira na relação; não entendia o

significado dos angustiados esforços que fazia para proteger o amor da banalidade e separá‑lo radicalmente do lar conjugal.      

Abster‑se de ir para a cama com a amante em Genebra era, de fato, uma punição que se infligia a si próprio para se castigar de ter casado com outra. Vivia esta situação como uma culpa ou uma tara. Da sua vida amorosa com a mulher não havia praticamente nada a dizer mas, apesar de tudo, sempre dormiam na mesma cama.

O ressonar de um acordava o outro e os miasmas do corpo de um eram aspirados pelo nariz do outro. É evidente que teria preferido dormir sozinho, mas o leito conjugal continuava a ser o símbolo do casamento e, como é sabido, nos símbolos não se toca.

            Sempre que se deitava ao lado da mulher, pensava na sua amiga a imaginá‑lo a deitar‑se ao lado da mulher. Sempre que o pensava sentia‑se envergonhado com a idéia: era por isso que queria criar a maior distância possível entre a cama onde dormia com a mulher e a cama onde dormia com a amante.

            Esta serviu‑se de outro copo, bebeu um golo e depois, sem dizer palavra, com uma estranha indiferença, como se Franz não estivesse lá, despiu lentamente a blusa. Comportava‑se como um aluno de arte dramática se comporta quando tem de fazer um exercício de improvisão para mostrar‑se tal e qual como é quando está sozinho e sem ninguém a ver.

            Ficou de saia e de soutien. Depois (como se se lembrasse de repente que havia alguém na sala), olhou demoradamente para Franz.

            Era um olhar que o incomodava porque não o compreendia. Entre todos os amantes estabelecem‑se rapidamente regras de jogo inconscientes mas com força de lei que não devem, portanto, ser transgredidas. Este olhar escapava a essas regras; não tinha nada de parecido com os olhares e os gestos que ela costumava fazer antes de irem para a cama. Neste olhar não havia nem provocação nem coquetterie, mas antes uma espécie de interrogação. Só que Franz não fazia a mínima idéia da pergunta de que se tratava.

            Ela despiu a saia. Agarrou‑o pela mão e fê‑lo rodopiar até junto de um grande espelho que, um pouco mais adiante, se encontrava encostado à parede. Sem lhe largar a mão, observava‑o no espelho com o mesmo olhar interrogativo de há pouco, que ia pousando ora nele, ora nela.

            No chão, ao pé do espelho, havia um velho chapéu de coco enfiado numa cabeça postiça. Baixou‑se, apanhou‑o e pô‑lo na cabeça. A imagem do espelho transformou‑se imediatamente: agora, era a imagem de uma mulher em roupa interior, bela, inacessível, fria, com um chapéu de coco completamente despropositado na cabeça. Estava de mão dada com um senhor de fato cinzento e de gravata.

            Mais uma vez, sentiu‑se admirado por conhecer tão mal a sua amante. Não se tinha despido para convocá‑lo ao amor, mas para lhe representar uma farsa bizarra, um happening íntimo só para dois. Fez um sorriso de compreensão e de assentimento.

            Pensara que ela também lhe ia sorrir, mas enganou‑se. Continuou de mão dada com ele a olhar ora para a imagem de um, ora para a imagem de outro.

            A duração do happening estava a ultrapassar os limites do razoável. Franz sentia que a farsa (embora, tinha que admiti‑lo, encantadora) se prolongava um pouco de mais. Pegou delicadamente com dois dedos no chapéu de coco, tirou‑o a sorrir da cabeça de Sabina e voltou a pô‑lo no suporte. Era como apagar os bigodes feitos por um miúdo rabino na imagem da Virgem Maria.

            Sabina ainda continuou imóvel a olhar‑se ao espelho durante mais alguns segundos. Depois, Franz cobriu‑a ternamente de beijos. Pediu‑lhe mais uma vez que o acompanhasse a Palerroo daí a uns dez dias. Desta vez, ela anuiu sem rodeios e Franz foi‑se embora.

            Recuperara o bom humor. Genebra, que toda a vida apelidara de metrópole do tédio, parecia‑lhe bela e cheia de aventuras. Voltou‑se para trás e olhou para cima, para a varanda envidraçada do atelier. Eram as últimas semanas da Primavera, estava calor, todas as janelas tinham toldos às riscas. Franz chegou a um jardim; ao longe, por cima das árvores, pairavam as cúpulas douradas da igreja ortodoxa, como balas de canhão rutilantes imobilizadas nas alturas por uma força invisível que as tivesse retido antes do impacto. Era muito bonito. Franz dirigiu‑se ao cais para apanhar um barco que o levaria à margem direita onde a sua casa ficava.

 

            Sabina ficou só. Voltou a instalar‑se à frente do espelho. Continuava em roupa interior. Tornou a pôr o chapéu de coco e passou um bom bocado a examinar‑se ao espelho. Era espantoso que, ao fim de tanto tempo, ainda se sentisse perseguida pelo mesmo instante perdido!

            Há vários anos, uma vez que Tomas viera a sua casa, ficara cativado com o chapéu de coco. Pusera‑o na cabeça e postara‑se à frente do grande espelho que, no estúdio de Praga, também estava encostado à parede. Queria ver a figura que faria se tivesse sido presidente da câmara de uma cidadezinha no século passado. Depois, quando Sabina começou vagarosamente a despir‑sé, pôs‑lhe o chapéu de coco na cabeça. Encontravam‑se de pé à frente do espelho. Era sempre aí que se despiam e espiavam as suas imagens. Sabina estava em roupa interior com o chapéu de coco na cabeça. De repente, percebeu que estavam ambos excitados com o quadro.

            Como era isso possível, se apenas alguns momentos antes o único efeito que o chapéu de coco tinha na sua cabeça era o de uma simples brincadeira'? Do cômico ao excitante, não haveria então senão um passo?

            Sim, era isso mesmo. Quando olhou para o espelho, primeiro não viu senão uma situação burlesca; mas, depois, o cômico foi afogado pela excitação: o chapéu de coco deixara de funcionar como um gag e passara a significar violência; violência sobre Sabina, sobre a sua dignidade de mulher. Via‑se a si própria com as pernas nuas e as cuecas quase transparentes através das quais o triângulo do sexo se lhe apercebia. A roupa interior sublinhava o encanto da sua feminilidade; o chapéu, masculino, de feltro rígido, negava‑a, violava‑a, ridicularizava‑a. Tomas encontrava‑se a seu lado, todo vestido, o que contribuía para que a cena que se lhes ia descobrindo aos dois no espelho não se revelasse, afinal, como um gag (para isso ele também teria de estar em roupa interior e de chapéu), mas como uma cena de humilhação. Em vez de rejeitá‑la, Sabina representava‑a, provocante e orgulhosa, como se se deixasse violar em público; por fim, quando já não podia mais, empurrou Tomas e arrastou‑o consigo para o chão. O chapéu de coco rolou para baixo da mesa enquanto os seus corpos se contorciam na carpete aos pés do espelho.

            Voltemos uma vez mais a esse chapéu de coco.

            Em primeiro lugar, era uma vaga recordação deixada por um antepassado esquecido que fora presidente da câmara de uma cidadezinha da Boêmia no século passado.

            Em segundo lugar, o chapéu pertencera ao pai de Sabina. Depois do enterro, o irmão apropriara‑se de tudo quanto era dos pais e, por orgulho, ela recusara‑se obstinadamente a lutar pelos seus direitos. Tinha declarado em tom sarcástico que ficava com o chapéu de coco, a única coisa que queria herdar do pai.

            Em terceiro lugar, era o acessório dos seus jogos eróticos com Tomas.

            Em quarto lugar, era o símbolo de uma originalidade que cultivava deliberadamente. Quando emigrara, não pudera trazer grande coisa e, para transportar esse objeto incômodo e sem utilidade nenhuma, tivera de renunciar a outras coisas bem mais úteis.

            Em quinto lugar, o chapéu de coco tornara‑se um objeto sentimental desde que vivia no estrangeiro. Quando fora ver Tomas a Zurique, levara‑o e pusera‑o na cabeça para lhe abrir a porta do quarto do hotel. Algo de inesperado acontecera então. O chapéu de coco já não lhes pareceu nem cômico nem excitante; tornara‑se um vestígio do passado. Ficaram ambos comovidos. Fizeram amor como nunca tinham feito: não havia lugar para qualquer jogo obsceno, porque aquele encontro não era o prolongamento dos jogos eróticos de outrora, onde havia sempre mais um vício a inventar, mas uma recapitulação do tempo, um hino à memória do passado dos dois, a recapitulação sentimental de uma história nada sentimental que se perdia na noite dos tempos.

            O chapéu de coco tornara‑se o tema da partitura musical que a vida de Sabina era. Um tema que estava constantemente a repetir‑se, mas sempre com uma significação diferente; todas passavam pelo chapéu de coco como a água pelo leito de um rio. E, posso dizê‑lo, era bem o leito do rio de Heráclito: cNão nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio!ރ O chapéu de coco era o leito de um rio e o que Sabina via correr era sempre outro rio, outro rio semântico: o mesmo objeto suscitava sempre outra significação, mas nessa significação repercutiam‑se (como um eco, como um cortejo de ecos) todas as significações anteriores. O vivido ia ressoando com uma harmonia cada vez mais rica. Em Zurique, no quarto do hotel, comoveram‑se com o chapéu de coco e fizeram amor quase à beira das lágrimas porque aquela coisa preta não era apenas uma recordação dos seus jogos amorosos, era também um rasto do pai de Sabina e do seu avô, que vivera no tempo em que não havia nem automóveis nem aviões.

            Sem dúvida que se percebe agora melhor o abismo que separava Sabins de Franz: enquanto falavam das suas vidas um ao outro, escutavam‑se com uma grande avidez. Compreendiam com toda a exatidão o sentido lógico das palavras do outro, mas não ouviam o murmúrio do rio semântico que corria através dessas palavras.

            Por isso Franz se sentiu incomodado como se estivessem a falar‑lhe numa língua desconhecida quando Sabina pôs o chapéu de coco na cabeça à sua frente. Não via nada de obsceno nem de sentimental no gesto, era apenas um gesto incompreensível que o desconcertava pela sua falta de significação.

            Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô‑las em conjunto e até trocarem temas (como Tomas e Sabina trocaram o tema do chapéu de coco). Porém, quando se conhecem numa idade mais madura, as suas partituras musicais já estão mais ou menos acabadas e cada palavra, cada objeto, tem um significado diferente na partitura de cada uma.

            Se eu recapitulasse todas as conversas que Sabina e Franz tiveram, a lista dos seus mal‑entendidos dava um dicionário bem volumoso. Mas contentemo‑nos com um pequeno léxico.

 

Pequeno léxico de palavras mal entendidas (primeira parte)

 

MULHER

            Para Sabina, o fato de ser mulher é uma condição que não escolheu. O que não é efeito de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou como fracasso. Sabina pensa que, face a um estado que nos é imposto, temos de saber adotar a melhor atitude possível. Parece‑lhe tão absurdo insurgir‑se contra o fato de ter nascido mulher como glorificar‑se com ele.

            Numa das primeiras vezes em que estiveram juntos, Franz disse‑lhe, com uma estranha entoação: "Sabina, você é uma mulher. ރ Não percebeu por que é que ele lhe estava a dar essa notícia com tanta solenidade como um Cristóvão Colombo que acabasse de divisar a costa da América. Só mais tarde veio a compreender que a palavra mulher, que Franz pronunciava com um ênfase especial, não era para ele a designação de um dos dois sexos da espécie humana, mas um valor. Nem todas as mulheres mereciam ser chamadas mulheres.

            Mas se, para Franz, Sabina é a mulher, o que será então Marie‑Claude, a sua esposa legítima? Uns vinte anos antes (conheciam‑se na altura há alguns meses), esta ameaçara suicidar‑se se ele a deixasse. Franz ficara maravilhado com a ameaça. Não gostava por aí além de Marie‑Claude, mas o amor dela pareceu‑lhe sublime. Achava‑se indigno de um tão grande amor e sentiu que devia curvar‑se humildemente perante ele.

            Curvara‑se, portanto, até ao chão, e casara‑se com ela. E embora Marie‑Claude nunca mais lhe tivesse manifestado a mesma intensidade de sentimentos que mostrara quando ameaçara suicidar‑se, continuava a sentir, bem lá no fundo, o imperativo de nunca fazer mal a Marie‑Claude e respeitar sempre a mulher que havia nela.

            Esta frase é curiosa. Não pensava: respeitar Marie‑Claude, mas: respeitar a mulher que havia em Marie‑Claude.

            Só que, sendo Marie‑Claude uma mulher, quem será essa outra mulher que se oculta dentro dela e que ele tem de respeitar? Não será a idéia platônica de mulher?

            Não. Essa mulher é a sua mãe. Nunca lhe passaria pela cabeça dizer que o que respeitava na mãe era a mulher. Adorava a mãe, não uma mulher qualquer que se ocultasse dentro dela. A idéia platônica de mulher e a sua mãe são uma e a mesma coisa.

            Franz tinha mais ou menos doze anos quando a mãe ficara sozinha com ele, porque um dia, inesperadamente, o pai tinha‑se ido embora. Franz suspeitou que estava a passar‑se qualquer coisa de grave, mas a mãe disfarçou o drama com uma conversa neutra e ponderada para não traumatizar o filho. Foi nesse dia que, ao saírem de casa para dar uma volta pela cidade, Franz percebeu que a mãe tinha dois sapatos desemparceirados. Ficou aflito e quis preveni‑la, mas teve medo de magoá‑la. Passou duas horas com ela na rua sem conseguir despregar os olhos dos seus pés. Foi então que começou a fazer uma ideia do que devia ser o sofrimento.

 

A FIDELIDADE E A TRAIÇÃO

            Amara‑a desde a infância até ao dia em que a acompanhara ao cemitério, e ainda continuava a amá‑la em recordações. Por isso pensava que a fidelidade é a virtude mais importante, que é a fidelidade que dá unidade à nossa vida, que, sem ela, se dispersaria em mil e uma impressões fugidias.

            Talvez por um cálculo inconsciente, Franz falava freqüentemente da mãe a Sabina: supunha que ela ficaria seduzida com a sua aptidão para a fidelidade, o que era uma boa maneira de guardá‑la ao pé de si.

            Só que o que seduzia Sabina era a traição e não a fidelidade. A palavra fidelidade fazia‑lhe lembrar o pai, provinciano puritano e pintor de domingo; os seus temas prediletos eram os pores do Sol

atrás da floresta e as jarras com ramos de rosas. Graças a ele, começou a desenhar muito cedo. Aos catorze anos, apaixonou‑se por um rapaz da sua idade. O pai teve medo e proibiu‑a de sair sozinha durante um ano. Um dia mostrou‑lhe algumas reproduções de pinturas de Picasso e fez muita troça delas. Sabina então pensou que, já que não podia amar um rapaz da sua idade, ao menos podia apaixonar‑se pelo cubismo. Depois de acabar o liceu, foi estudar para Praga com a reconfortante impressão de poder finalmente começar a trair a família.

            A traição. Desde crianças que ouvimos os nossos pais e os nossos professores repetir que é a coisa mais abominável que pode ser concebida. Mas o que é trair? Trair é sair da fila e partir em direção ao desconhecido. Para Sabina não há nada mais belo do que partir para o desconhecido.

            Inscreveu‑se na escola de Belas‑Artes, mas lá não lhe era permitido pintar à maneira de Picasso. Nessa altura, era obrigatório praticar aquilo a que chamavam realismo socialista e as Belas‑Artes eram uma fábrica de produzir retratos dos chefes de Estado comunistas em série. Não podia satisfazer o seu desejo de trair o pai porque o comunismo não era senão outro pai, igualmente severo e limitado, que lhe proibia não só o amor (era uma época de puritanismo) como também Picasso. Casou‑se com um ator medíocre de Praga, unicamente pela sua reputação de excêntrico e por ser totalmente inaceitável aos olhos dos seus dois pais.

            Depois, a mãe morreu. No dia seguinte, ao voltar a Praga depois do enterro, recebeu um telegrama: o pai matara‑se com o desgosto.

            Ficou cheia de remorsos: era assim tão mau o pai pintar jarras com rosas e não gostar de Picasso? Era assim tão censurável ter medo que a filha engravidasse aos catorze anos? Era assim tão ridículo não ter conseguido viver sem a mulher?

            Encontrava‑se de novo prisioneira do desejo de trair: tratava‑se agora de trair a sua traição original. Anunciou ao marido (tinha deixado de ver o excêntrico para só se sentir incomodada pelo bêbado) que ia deixá‑lo.

            Mas não se trai B., por causa de quem se traiu A., para nos irmos reconciliar com A. Depois do divórcio, a vida da pintora não passou a assemelhar‑se em nada à vida dos pais que traíra. A primeira traição é irreparável. Por reação em cadeia, provoca outras reações que fazem a pessoa afastar‑se cada vez mais do ponto da traição inicial.

 

A MÚSICA

            Para Franz, é a arte que se encontra mais perto da beleza dionisíaca concebida como embriaguez. Dificilmente perdemos o controlo com um romance ou. com um quadro, mas podemos embebedarmo‑nos com a Nona Sinfonia de Beethoven, com a Sonata para Dois Pianos e Percussão de Banok e com uma canção dos Beatles. Franz não faz qualquer distinção entre música erudita e música ligeira. Parece‑lhe uma distinção hipócrita e anacrÔnica. Gosta da mesma maneira de Mozart e de rock.


            Para ele, a música é libertadora: liberta‑o da solidão e da clausura, liberta‑o da poeira das bibliotecas e abre‑lhe portas no corpo por onde a alma pode sair e confraternizar. Gosta de dançar e tem pena que Sabina não partilhe essa sua paixão.

            Estão a jantar no restaurante do hotel e os altifalantes acompanham a refeição com música barulhenta e ritmada.

            Sabina diz: É um círculo vicioso. As pessoas estão a ficar surdas porque põem a música cada vez mais alto. Mas como estão a ficar surdas, o único remédio que têm é voltar a aumentar o som.

            ‑ Tu não gostas de música?, pergunta Franz.

            ‑ Não, responde Sabina. Depois acrescenta: Talvez se tivesse vivido noutros tempos... e fica a pensar na época de João Sebastião Bach, quando a música parecia uma rosa aberta na imensa planície nevada do silêncio.

            Sob a máscara da música, o ruído persegue‑a desde muito nova. Quando andava a estudar em Belas‑Anes, era obrigada a passar as férias nos Estaleiros da Juventude, como então se dizia. Os jovens ficavam alojados em barracões coletivos e tinham que trabalhar na construção de altos‑fornos. Das cinco da manhã às nove da noite, os

altifalantes vomitavam música em altos berros. Dava‑lhe vontade de chorar, mas a música era alegre e não se lhe podia escapar em sítio nenhum, nem na casa de banho nem na cama, nem mesmo debaixo dos cobertores, porque havia altifalantes por toda a parte. A música era como uma matilha de cães a persegui‑la.

            Pensava nessa altura que o universo comunista era o único onde essa barbárie da música reinava. No estrangeiro, acabara por constatar que a transformação da música em ruído é um processo planetário, que faz a humanidade entrar na fase histórica da fealdade total. A fealdade absoluta começou por manifestar‑se através da onipresença da fealdade acústica: carros, motorizadas, guitarras elétricas, escavadoras, altifalantes, sirenes. Não tardará a seguir‑se a onipresença da fealdade visual.

            Jantaram, subiram ao quarto, fizeram amor. A seguir, quase a adormecer, as idéias começaram a baralhar‑se na cabeça de Franz. Lembrou‑se da música barulhenta do restaurante e pensou: O ruído tem uma vantagem. É que as palavras não se ouvem.ރ Desde a juventude não fizera outra coisa senão falar, escrever, dar aulas, inventar frases, procurar fórmulas, corrigi‑las, de tal maneira que as palavras já não tinham nada de exato, o sentido esbatia‑se‑lhes, perdiam o conteúdo e só ficavam migalhas, moinhas, poeira, areia que lhe flutuava no cérebro e lhe fazia dor de cabeça, que era a sua insÔnia, a sua doença. Apeteceu‑lhe então, confusa e irresistivelmente, uma música enorme, um ruído absoluto, uma barulheira infernal que se espalhasse sobre todas as coisas, inundasse tudo, abafasse tudo, onde a dor, a vaidade e a mesquinhez das palavras perecessem para todo sempre. A música era a negação das frases, a música era a antipalavra! Apetecia‑lhe ficar enlaçado para sempre

com Sabina, apetecia‑lhe calar‑se, nunca mais pronunciar palavra e deixar o prazer confluir no clamor orgiástico da música. Foi nessa bem‑aventurada barulheira que adormeceu.

 

A LUZ E A OBSCURIDADE

            Para Sabina, viver significa ver. A visão encontra‑se limitada por duas fronteiras: uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma obscuridade total. Talvez seja daí que lhe vem a repugnância por todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado.

            Para Franz, a palavra luz não evoca a imagem de uma paisagem suavemente iluminada pelo sol, mas a fonte da luz enquanto tal: uma lâmpada, um projetor. Vêm‑lhe à cabeça as metáforas habituais: o sol da verdade, o brilho da razão, etc.

            É atraído pela luz como também o é pela obscuridade. Nos dias que correm, quem apaga a luz para fazer amor arrisca‑se a cair no ridículo; como ele tem consciência disso, deixa sempre uma luzinha acesa por cima 'da cama. No entanto, no momento em que penetra em Sabina, fecha os olhos. A volúpia que o invade exige a obscuridade. Uma obscuridade pura, absoluta, sem imagens nem visões, uma obscuridade sem fim, sem fronteiras, uma obscuridade que é o infinito que cada um de nós tem em si (sim, porque quem busca o infinito só tem .de fechar os olhos!).

            No momento em que sente a volúpia espalhar‑se‑lhe pelo corpo, Franz dissolve‑se no infinito da sua obscuridade, ele próprio se transforma em infinito. Mas quanto mais um homem cresce na sua obscuridade interior, mais diminuído fica na sua aparência física. Um homem de olhos fechados não é senão um rebotalho de si próprio. Como não quer assistir a isso, Sabina também fecha os olhos. Para ela, a obscuridade não é o infinito. Fecha os olhos porque quer separar‑se do que está a ver, porque quer negá‑lo. Recusa‑se a ver.

 

            Sabina deixara‑se convencer a ir a uma reunião de compatriotas seus. Uma vez mais, os presentes acabaram por pôr‑se a discutir se os Tchecos deviam ou não ter lutado contra os russos de armas na mão. Claro que ali, ao abrigo da emigração, toda a gente proclamava que sim. Sabina perguntou:   Então porque é que não voltam

para lá e lutam contra eles?

            Não era coisa que se perguntasse. Um senhor de cabeleira grisalha, frisada no cabeleireiro, apontou‑lhe o seu enorme indicador e disse:   Não diga uma coisa dessas. Somos todos responsáveis pelo que se passou. Você também. O que é que você fazia no nosso país para lutar contra o regime comunista? Pintava os seus quadros e

dava‑se por muito satisfeita...

            Nos países comunistas, a inspeção e o controlo dos cidadãos são atividades sociais permanentes e essenciais. Um pintor, para ser autorizado a expor, um simples cidadão, para obter um visto para passar férias à beira‑mar, um futebolista, para poder jogar na seleção nacional, têm primeiro que recolher os mais variados relatórios e certificados (da porteira, dos colegas, da polícia, da célula do partido, do comitê da empresa), que depois são amontoados, sopesados, lidos e relidos por funcionários especialmente afetos a essa tarefa. O que vem escrito nos atestados não tem absolutamente nada a ver com a competência de um cidadão para pintar ou jogar à bola ou com um estado de saúde que exija uma estada à beira‑mar. Só contêm informações a respeito de uma coisa que é o chamado   perfil políticoރ do cidadão (aquilo que o cidadão diz, aquilo que pensa, a maneira como se comporta, se vai ou não às reuniões e aos desfiles do 1.o de Maio). Como tudo (vida quotidiana, empréstimos, férias) depende da forma como se é classificado, todos os cidadãos são obrigados (para poderem jogar na seleção nacional, expor os  seus quadros ou passar férias à beira‑mar) a comportar‑se de maneira a serem bem classificados.

            Era isto que Sabina pensava enquanto o senhor de cabelos grisa  lhos falava. Ele estava‑se bem nas tintas para que os seus compatriotas jogassem bem futebol ou tivessem talento para pintar (nunca   nenhum checo se interessara pela sua pintura). Só tinha uma preocupação: apurar se eram opositores ativos ou passivos, opositores da primeira ou da última hora, opositores a sério ou só para dar bom aspecto.

            Como era pintora, Sabina tornara‑se uma boa fisionomista e Í aprendera em Praga a distinguir os homens com a paixão de inspecionar e classificar os outros. Tinham todos um indicador um pouco mais comprido do que o dedo médio e todos o apontavam aos seus interlocutores. Aliás, o presidente Novotny, que reinou catorze anos seguidos na Boêmia até 1968, tinha exatamente os mesmos cabelos grisalhos frisados no cabeleireiro e podia orgulhar  ‑se de possuir o maior indicador de todos os habitantes da Europa Central.

            Quando o emérito emigrante ouviu da boca daquela pintora, cujos quadros nunca vira, que era parecido com o presidente comunista Novotny, corou, empalideceu, voltou a corar, voltou a empalidecer, quis dizer qualquer coisa, não disse nada e acabou por cair num profundo silêncio. Todos os presentes fizeram o mesmo e Sabina acabou por levantar‑se e sair.

Sentia‑se penalizada, mas, uma vez na rua, pôs‑se a pensar: no fundo, porque é que tinha de conviver com tchecos? O que é que tinha em comum com eles? Uma paisagem? Se ainda há pouco alguém lhes tivesse perguntado o que é que a palavra Boêmia significava para eles, de certeza que perante os seus olhos se desenhariam imagens totalmente díspares e sem unidade nenhuma.

            A cultura? Mas o que é a cultura? A música? Dvorak e Janacek? Claro que sim. Mas se houver um checo que não gosta de música? A identidade checa desvanece‑se imediatamente.

            Os grandes homens? Jan Hus? Aquela gente nunca lera uma linha dos seus livros. A única coisa que era acessível a todos era a   fogueira, a glória da fogueira onde ardera por ser herege, a glória   das cinzas em que se transformara, de forma que, pensava Sabina, para eles a essência da alma checa não era senão um pequeno

  monte de cinzas e nada mais. Aquela gente só tinha em comum a derrota e as recriminações que faziam uns aos outros. Caminhava depressa. Mais do que a discussão com os emigrantes, o que a perturbava eram os seus próprios pensamentos. Sabia que estava a ser injusta. Sabia que havia mais tchecos para além daquele tipo do indicador desmesurado. O silêncio e o mal‑estar que se tinham seguido às suas palavras não significavam de forma

nenhuma que toda a assistência a reprovasse. As pessoas tinham ficado com certeza desconcertadas com aquela irrupção do ódio, com aquela incompreensão de que todos se tornam vítimas na emigração. Porque não lhe inspiravam então piedade nenhuma? Porque não os olhava então como pobres criaturas infelizes e abandonadas?

            Sabemos já qual é a resposta para estas perguntas: quando Sabina traíra o pai, a vida abrira‑se à sua frente como um longo caminho de traições e cada nova traição a atrai como um vício e como uma vitória. Não quer ficar na fila e não fica mesmo! Não ficará para sempre na mesma fila com as mesmas pessoas e com as mesmas palavras! Por isso é que se sente perturbada com a sua própria injustiça. Mas não é uma perturbação desagradável, muito pelo contrário, tem a impressão de ter alcançado uma vitória e de estar a ser aplaudida por uma personagem invisível.

            Mas, dentro em pouco, a embriaguez cedeu o lugar à angústia. Um dia haveria de chegar ao fim do caminho! Um dia haveria de acabar com as traições! Um dia haveria de parar de uma vez por todas!

            Era de noite e caminhava apressadamente pelo cais da estação. O comboio para Amsterdã já estava formado. Pôs‑se à procura da carruagem. Foi conduzida até à porta do compartimento por um revisor bem simpático. Abriu‑a. Franz estava sentado em cima da cama, que tinha os cobertores puxados. Levantou‑se para acolhê‑la; agarrou‑se a ele e cobriu‑o de beijos.

            Sentia uma vontade terrível de lhe dizer, como a mulher mais banal: não me abandones, deixa‑me ficar ao pé de ti, subjuga‑me, sê forte!

            Quando Franz se libertou, apenas lhe disse: cEstou tão contente por estar contigo!ރ A sua discrição habitual não a deixou dizer mais nada.

 

Pequeno léxico de palavras mal entendidas (continuação)

 

OS DESFILES

            Em Itália ou em França, o problema é fácil de resolver. Quando os pais obrigam os filhos a ir à igreja, os filhos vingam‑se e inscrevem‑se num partido (comunista, trotskista, maoísta, etc.). Só que o pai de Sabina começou por mandá‑la à igreja e a seguir, cheio de medo, obrigou‑a a aderir à Juventude Comunista.

            Nos desfiles do 1.o de Maio nunca conseguia acertar o passo e a rapariga de trás passava o tempo todo a insultá‑la e a pisar‑lhe os calcanhares. Quando era preciso cantar, nunca sabia a letra das canções, abria e fechava a boca como os atores do cinema mudo. Os colegas perceberam e denunciaram‑na. Desde a juventude que tinha

horror aos desfiles.

            Franz estudara em Paris e, como era excepcionalmente dotado, já aos vinte anos tinha a sua carreira científica assegurada. A partir dessa altura, sempre soube que havia de passar a vida fechado entre as paredes de um gabinete universitário, de algumas bibliotecas públicas e de dois ou três anfiteatros; só de pensar nisso ficava abafado. Dava‑lhe vontade de sair dessa sua vida como nos dá vontade de sair de casa para ir à rua tomar ar.

            Ainda morava em Paris e ia de bom grado às manifestações. Fazia‑lhe bem ir comemorar qualquer coisa, reivindicar qualquer coisa, protestar contra qualquer coisa, não ficar sozinho, ir para a rua para o meio de outras pessoas. As manifestações que percorriam o Boulevard Saint‑Germain ou iam da République à Bastilha fascinavam‑no. A multidão em marcha, gritando ritmicamente os seus slogans, era para ele a imagem da Europa e da sua história. A Europa é uma Grande Marcha. Uma Marcha de revolução em revolução, de combate em combate, sempre cada vez mais para a frente.

            Posso talvez dizê‑lo de outra maneira: para Franz, a vida no meio dos livros era uma vida irreal. Aspirava à vida real, ao contacto com outros homens e outras mulheres a marcharem lado a lado com ele, aspirava ao seu clamor. Não se dava conta de que aquilo que julgava irreal (o seu trabalho no isolamento das bibliotecas) era a sua vida real, enquanto as manifestações que tomava pela realidade não passavam de um espetáculo teatral, de uma dança, de uma festa, ou, por outras palavras, de um sonho.

            Enquanto estudante, Sabina morava numa residência universitária. No 1.o de Maio, eram todos obrigados a estar de madrugada nos pontos de concentração. Para que ninguém pudesse faltar, alguns estudantes, militantes remunerados, iam verificar se a residência tinha ficado completamente vazia. Sabina escondia‑se na casa de banho e só voltava para o quarto muito tempo depois de se terem ido todos embora. Reinava então um silêncio como nunca conhecera em dias da sua vida. Muito ao longe, ouvia‑se a música de uma marcha. Era como estar escondida dentro de uma concha e ouvir ao longe a ressaca de um universo hostil.

            Dois anos depois de ter deixado a Boêmia, encontrava‑se por mero acaso em Paris no dia do aniversário da invasão russa. Havia uma manifestação de protesto a que não pôde deixar de ir. Jovens franceses de punho erguido berravam palavras de ordem contra o imperialismo soviético. Eram palavras de ordem que lhe agradavam,

mas constatou com surpresa que era incapaz de as gritar em uníssono com os outros. Só conseguiu aguentar a manifestação durante alguns minutos.

            Contou esta experiência a uns amigos franceses. Espantados, estes perguntaram‑lhe: ރMas então tu não queres lutar contra a ocupação do teu país?ރ O que tinha vontade de lhes dizer era que o comunismo, o fascismo, todas as ocupações e todas as invasões ocultam o mesmo mal fundamental e universal; para ela, a imagem desse mal eram as manifestações com gente a desfilar de braço erguido e a gritar em uníssono as mesmas sílabas. Mas sabia que não poderia explicar isso aos seus amigos. Sentiu‑se aborrecida e preferiu passar a outro assunto.

 

A BELEZA DE NOVA IORQUE

            Passavam horas a andar a pé em Nova Iorque: como se seguissem por um caminho sinuoso numa paisagem montanhosa e fascinante, o espetáculo alterava‑se a cada passo: no meio do passeio, havia um rapaz ajoelhado a rezar; a dois passos dele, encostada a uma árvore, uma negra belíssima passava pelo sono; um homem de fato preto atravessava a rua a gesticular como se dirigisse uma orquestra invisível; a água caía nas bacias de um fontanário; mesmo ao lado, estavam uns operários sentados a almoçar. Escadarias metálicas trepavam pelas fachadas das casas de tijolo encarnado, casas que, de tão feias, até chegavam a parecer bonitas; mesmo ao lado, erguia‑se um gigantesco arranha‑céus de vidro por detrás do qual havia outro arranha‑céus que culminava num palaciozinho árabe com torres, galerias e colunas douradas.

            Era como as suas pinturas: nelas também havia coisas sem relação nenhuma umas ao lado das outras: altos‑fornos em construção

e, ao fundo, um candeeiro de petróleo; ou ainda mais outro candeeiro com o abajur antiquado de vidro pintado pulverizado em

pequenos fragmentos e, ao fundo, uma paisagem pantanosa e desolada.

            Franz disse: ރNa Europa, a beleza foi sempre premeditada. Havia sempre uma intenção estética e um projeto de grande fôlego; uma catedral gótica ou uma cidade renascentista que obedecessem a esse projeto demoravam séculos a construir. A beleza da Nova Iorque tem uma origem completamente diferente. É uma beleza involuntária. Nasceu sem que houvesse qualquer intenção por parte do homem, um pouco como uma gruta de estalactites. Formas que, isoladas, são horrorosas, encontram‑se aqui umas ao lado das outras numa vizinhança perfeitamente improvável, que inesperadamente as faz brilhar, com uma poesia mágica.ރ

            Sabina disse: ރA beleza involuntária. Claro. Mas também podia dizer‑se: a beleza por engano. Antes de deixar definitivamente o mundo, a beleza ainda há‑de subsistir alguns instantes, mas por engano. A beleza por engano é o último estádio da história da beleza. ރ

            Estava a pensar no seu primeiro quadro verdadeiramente bem conseguido; tinha‑lhe escorrido tinta por cima por engano. Sim, os seus quadros eram construídos a partir da beleza por engano e Nova Iorque era a verdadeira e secreta pátria da sua pintura.

            Franz disse: ރTalvez a beleza involuntária de Nova Iorque seja muito mais rica e muito mais variada do que a beleza demasiado austera e elaborada resultante de um projeto humano. Mas já não é a nossa beleza europeia. É um mundo estranho.ރ

            Mas como? Afinal, sempre concordam com alguma coisa?

            Não. Também aqui há uma diferença. A estranheza da beleza novaiorquina atrai loucamente Sabina. A Franz, fascina‑o, mas, ao mesmo tempo, assusta‑o: dá‑lhe saudades da Europa.

 

A PÁTRIA DE SABINA

            Sabina compreende bem as suas reticências em relação à América. Franz é a encarnação da Europa: a mãe era originária de Viena e o pai era francês. Franz, esse, é suíço.

            Em contrapartida, Franz sente uma grande admiração pela pátria   de Sabina. Quando ela fala do seu passado e dos seus amigos da Boêmia e as palavras prisão, perseguição, tanques na rua, emigração, panfletos, literatura proibida, exposições proibidas são pronunciadas, sente uma inveja estranha e mesclada de nostalgia.

            Confessa a Sabina: "Um dia, um filósofo escreveu que todas as minhas teses eram meras especulações impossíveis de demonstrar e qualificou‑me como "um Sócrates quase inverossímil". Senti‑me terrivelmente humilhado e respondi‑lhe com toda a violência. Imagina tu que este episódio grotesco é o conflito mais grave que vivi em toda a minha vida! Foi assim que a minha vida me revelou o máximo das suas potencialidades dramáticas! Tu e eu não vivemos na mesma escala. Apareceste na minha vida como Gulliver no país dos liliputianos. ރ

            Sabina põe‑se a protestar. Diz que os conflitos, os dramas, as tragédias não significam absolutamente nada, não têm valor nenhum, não merecem nem respeito nem admiração. O que toda a gente pode invejar a Franz é a paz que tem para trabalhar.

            Franz abana a cabeça: ރNuma sociedade rica, as pessoas não têm necessidade de trabalhar com as mãos e podem consagrar‑se a uma atividade intelectual. Há cada vez mais universidades e cada vez mais estudantes. Estes, para obterem os seus canudos, primeiro têm que fazer uma tese sobre um dado tema. E não é difícil arranjar um tema, porque basta glosar o que já foi dito. E como tudo pode ser glosado, há um número infinito de temas. E assim, cada vez há mais e mais resmas de papel enegrecido amontoadas em arquivos ainda mais tristes do que cemitérios, porque ninguém lá entra, nem mesmo no dia de Todos os Santos. A cultura está a desaparecer numa infinidade de produtos, numa avalanche de letras, na demência da quantidade. Acredita em mim: um único livro proibido no teu antigo país tem um significado infinitamente maior do que os milhões de palavras escarrados pelas nossas universidades.ރ

            É neste sentido que a fraqueza de Franz por todas as revoluções   pode ser entendida. Primeiro simpatizara com Cuba, depois com a China e a seguir, desgostado com a crueldade dos seus regimes, acabou por admitir que não lhe restava senão esse oceano de letras que não pesam nada e não são a vida. Foi ensinar para a Universidade de Genebra (onde não há manifestações) e, com uma espécie de abnegação (numa solidão de onde mulheres e manifestações estavam afastadas), publicou várias obras científicas que tiveram uma certa repercussão. Depois, um dia, Sabina surgiu como uma aparição; vinha de um país onde as ilusões revolucionárias tinham murchado há muito, mas onde subsistia aquilo que ele mais admirava nas revoluções: uma vida vivida à escala grandiosa do risco, da coragem e da proximidade com a morte. Sabina devolveu‑lhe a confiança que tinha outrora na grandeza do destino da humanidade. A sua silhueta recortava‑se sobre o drama de um país e, para ele, ela ainda era mais bela por causa disso. Mas, aí!, infelizmente, Sabina não vê esse drama com bons olhos. Para ela, as palavras prisão, perseguição, livro proibido, ocupação, blindado, não são senão palavras feias e sem romantismo nenhum. A única palavra que lhe retine suavemente aos ouvidos como a lembrança nostálgica do seu país é a palavra cemitério.

 

O CEMlTÉRlO

            Os cemitérios da Boêmia parecem jardins. Têm as campas cobertas de relva e de flores de cores garridas e os seus humildes jazigos espreitam por entre a verdura da folhagem. À noite, o cemitério fica cheio de velinhas acesas como se os mortos estivessem a dar um  baile infantil. Um baile infantil, sim, porque os mortos são inocentes como crianças. Por muito cruel que a vida seja, reina sempre a mesma serenidade no cemitério. Mesmo durante a guerra, mesmo  no tempo de Hitler, mesmo no tempo de Stalin, mesmo sob qual  quer outra ocupação. Quando se sentia triste, pegava no automóvel e ia para fora de Praga dar uma volta num dos seus cemitérios preferidos. Aqueles cemitérios campestres recortados sobre um fundo azulado de colinas eram belos como uma canção de embalar. Para Franz, um cemitério não é senão um imundo depósito de ossadas e cascalho.

 

            Nunca me hão‑de obrigar a entrar num automóvel! Terei sempre medo de ter um desastre! Mesmo quando não se morte, fica‑se traumatizado para a vida inteira!ރ, dizia o escultor, agarrando maquinalmente no indicador que quase serrara a esculpir madeira. Só por milagre é que os médicos tinham conseguido salvar‑lhe o dedo.

            Mas de maneira nenhuma!, proclamou uma Marie‑Claude em excelente forma. Quando eu tive o meu desastre foi magnífico! Como não conseguia pregar olho, lia ininterruptamente, de dia e de noite! ރ

            Todos olharam espantados para ela, o que lhe causou uma visível satisfação. Ao enjôo que Franz sentia (lembrava‑se que a mulher ficara extremamente deprimida depois do desastre e que passava o  tempo a queixar‑se) juntava‑se uma certa admiração (aquele dom que Marie‑Claude tinha de metamorfosear tudo o que vivia era bem o testemunho de uma incorrigível vitalidade).

            Marie‑Claude prosseguiu:   Foi no hospital que comecei a classificar os livros em duas categorias: os diurnos e os noturnos. E é mesmo verdade! Há livros para ler de dia, e outros que só se podem ler à noite.ރ

            Toda a gente manifestou o seu espanto e a sua admiração; só o escultor, que continuava agarrado ao dedo, tinha o rosto crispado pela sua dolorosa recordação.

            Marie‑Claude voltou‑se para ele: "Em que categoria é que tu incluías os livros de Stendhal?ރ

            O escultor não tinha ouvido e encolheu os ombros com um ar aborrecido. A seu lado, um crítico de arte declarou que, na sua opinião, Stendhal era para ler de dia.

            Marie‑Claude abanou a cabeça e proclamou com a sua voz tonitruante:   Mas de maneira nenhuma! Não, não e não! Não percebes mesmo nada disto! Stendhal é mas é um autor noturno!ރ

            Franz seguia muito de longe o debate sobre arte noturna e arte diurna, não pensando senão no momento em que Sabina faria a sua aparição. Tinham ambos passado vários dias a ponderar se ela devia

aceitar ou não o convite para o cocktail que Marie‑Claude dava em honra de todos os pintores e escultores que alguma vez tinham exposto na sua galeria privada. Desde que conhecera Franz, Sabina evitava a sua mulher. Mas, com medo de se trair, acabou por decidir‑se a aceitar porque isso era mais natural e menos suspeito.

            Enquanto ia deitando olhares furtivos para a entrada, apercebeu‑se que, no outro extremo da sala, perorava infatigavelmente a voz de Marie‑Anne, a sua filha de dezoito anos. Trocou o grupo onde a mulher oficiava pelo círculo onde a filha pontificava. Havia um sentado num sofá, outros de pé e Marie‑Anne estava sentada no chão. Franz tinha a certeza que, dentro em pouco, no extremo oposto da sala, seria a vez de Marie‑Claude se sentar na carpete. Nessa época, sentar‑se no chão à frente dos convidados era uma atitude

obrigatória em quem pretendia mostrar‑se natural, desinibido, progressista, sociável e parisiense. Marie‑Claude sentava‑se no chão com tanta paixão em todo e qualquer lugar que Franz às vezes receava ir encontrá‑la sentada no chão da loja onde ela costumava ir comprar ciganos.

            Em que é que andas a trabalhar agora, Alan'?ރ, perguntou Marie‑Anne ao homem aos pés do qual estava sentada.

            Alan, jovem ingênuo e honesto, quis responder com sinceridade à filha da dona da galeria. Começou por explicar‑lhe a sua nova maneira de pintar, que combinava a fotografia e a pintura a óleo. Mal pronunciara duas ou três frases, Marie‑Anne deu uma assobiadela. O pintor falava devagar, todo concentrado naquilo que estava a dizer; por isso, não deu pelo assobio.

            Franz perguntou‑lhe baixinho:   Podes dizer‑me porque é que assobiaste?

            ‑ Porque detesto ouvir falar de políticaރ, replicou‑lhe a filha, alto e bom som.

            Efetivamente, dois homens que faziam parte do mesmo grupo falavam, em pé um em frente do outro, das próximas eleições francesas. Marie‑Anne, que se sentia no dever de dirigir a conversa, interrompeu‑os para lhes perguntar se iam na próxima semana ao Grand‑Théâtre ouvir a companhia lírica italiana que lá estava cantar uma ópera de Rossini. Entretanto, Alan, o pintor, continuava obstinadamente à procura de fórmulas cada vez mais precisas para explicar a sua nova maneira de pintar, e Franz sentiu‑se envergonhado com a filha. Para a calar, disse que, quando ia à ópera, se aborrecia mortalmente.

            Não percebes nada disso, disse Marie‑Anne, tentando dar palmadinhas na barriga do pai sem ter que se levantar, o intérprete principal é tão giro! É um espanto! Vi‑o duas vezes e fiquei doida por ele!"

            Franz constatava mais uma vez que a filha era atrozmente parecida com a mãe. Porque é que não havia antes de se parecer com ele? Mas não, era um caso desesperado. Já ouvira milhares de vezes Marie‑Claude proclamar que estava apaixonada por este pintor ou por aquele, por um cantor, por um escritor, por um político e, uma vez até, por um ciclista. É claro que aquilo não passava de retórica de sociedade, mas às vezes vinha‑lhe à cabeça que vinte anos antes ela dissera exatamente o mesmo a seu respeito, brindando‑o ainda por cima com uma ameaça de suicídio.

            Nesse preciso instante, Sabina entrou. Marie‑Claude viu‑a e avançou ao seu encontro. A filha continuava a conversar sobre Rossini, mas Franz só tinha ouvidos para aquilo que as duas mulheres diziam. Depois de dar‑lhe educadamente as boas‑vindas, Marie‑Claude pegou com os dedos no medalhão de cerâmica que Sabina trazia ao pescoço e disse muito alto:   Mas que coisa horrorosa é esta?ރ

            Franz ficou fascinado com esta frase. Não fora pronunciada num tom agressivo porque, muito pelo contrário, a gargalhada tonitruante que se lhe seguira devia indicar imediatamente que a opinião de Marie‑Claude sobre o medalhão não fazia mexer uma palha na sua amizade pela pintora, mas, apesar de tudo, era uma frase que saía do tom habitual de Marie‑Claude com os outros.

            Fui eu que o fiz, disse Sabina.

            ‑ Sinceramente, acho‑o horroroso, repetiu muito alto Marie‑Claude. Não devias usá‑lo!ރ

            Franz sabia que para a mulher era perfeitamente indiferente que uma jóia fosse feia ou bonita. Feio era o que ela queria ver dessa maneira, e bonito também. As jóias das amigas eram, a priori, bonitas. Podia achá‑las feias, mas disfarçava cuidadosamente a sua opinião, já que a lisonja se tomara há muito a sua segunda natureza.

            Então porque é que teria decidido achar feia a jóia que Sabina tinha feito com as suas próprias mãos?

            Franz percebeu imediatamente porquê. Marie‑Claude declarara que a jóia de Sabina era feia porque podia permiti‑lo a si própria.

            Ou, ainda mais exatamente, Marie‑Claude proclamara que a jóia de Sabina era feia para deixar bem vincado que podia permitir‑se a si própria dizer a Sabina que a jóia dela era feia.

            No ano anterior, a exposição de Sabina não tivera grande sucesso e, portanto, Marie‑Claude não ficara nada interessada em conquistar a simpatia de Sabina. Sabina, pelo contrário, tinha todas as razões para tentar conquistar a simpatia de Marie‑Claude. Mas nada no seu comportamento o deixava transparecer. Sim, Franz compreendia‑o com toda a nitidez: Marie‑Claude tinha de aproveitar aquela ocasião para mostrar claramente a Sabina (e aos outros) qual era a verdadeira relação de forças que havia entre ambas.


 

Pequeno léxico de palavras mal entendidas (fim)

 

A VELHA CATEDRAL DE AMESTERDÃ

            De um lado ficam as casas e, através das janelas do rés‑do‑chão, tão grandes como montras, apercebem‑se os minúsculos quartinhos das putas. Estas estão em roupa interior, sentadas à janela em pequenos sofás cheios de almofadas. Só parecem grandes gatos entediados.

            O outro lado da rua é ocupado por uma gigantesca catedral gótica do século XIV.

            Como um rio a separar dois reinos, entre o mundo das putas e o mundo de Deus, paira o cheiro ácido da urina.

            Na parte de dentro da igreja, do antigo estilo gótico não restam senão as paredes, muito altas e despidas, as colunas, a abóbada e as janelas. Não há um único quadro, nem há imagens em sítio nenhum.

O interior da catedral está tão vazio como um ginásio. Tudo o que lá há são filas de cadeiras dispostas de maneira a formarem ao centro um grande quadrado, em torno de um estrado em miniatura sobre o qual se ergue a mesinha do pregador. Atrás das cadeiras, há camarotes de madeira destinados às famílias dos moradores mais ricos.

            As cadeiras e os camarotes estão dispostos sem qualquer respeito pela configuração das paredes ou pela disposição das colunas, como se assim manifestassem à arquitetura gótica a sua indiferença e o

seu desdém. Há vários séculos já que a fé calvinista transformou a igreja num simples hangar, cuja única função é proteger os fiéis da neve e da chuva.

            Franz estava fascinado: aquela sala gigantesca fora atravessada pela Grande Marcha da história.

            Sabina lembrou‑se que, depois do golpe de Estado comunista, todos os castelos e palácios da Boêmia tinham sido nacionalizados e transformados em centros de aprendizagem, casas de repouso ou até

em estábulos. Visitara uma vez um desses estábulos; nas paredes de estuque, havia ganchos com anéis de ferro aos quais estavam presas as vacas, que olhavam com um ar sonhador através das janelas para o jardim do palácio onde as galinhas corriam de um lado para o outro.

            Franz disse: "Sinto‑me fascinado com este vazio. Acumulam‑se os altares, os quadros, as esculturas, as cadeiras, os sofás, os tapetes, os livros e depois vem o momento de júbilo libertador em que tudo é varrido como as migalhas de cima de uma toalha. És capaz de imaginar a vassoura de Hércules com que esta catedral foi varrida?ރ

            Sabina apontou para um camarote de madeira. Os pobres ficavam de pé, e os ricos tinham camarotes. Mas o banqueiro e o pobre tinham uma coisa em comum. Era o ódio à beleza.ރ

            O que é a beleza?, perguntou Franz, e veio‑lhe imediatamente à cabeça a inauguração de uma exposição onde, daí a dias, tinha de acompanhar a mulher: a vacuidade dos discursos e das palavras, a

vacuidade da cultura, a vacuidade da arte.

            Na época em que, quando era estudante, trabalhava nos Estaleiros da Juventude e tinha na alma o veneno das alegres fanfarras que brotavam ininterruptamente dos altofalantes, Sabina saíra um domingo de motorizada. Percorreu vários quilômetros de floresta e parou numa aldeiazinha desconhecida, perdida no meio das colinas. Encostou a motorizada à igreja e entrou. Era precisamente a hora da missa. Nessa altura, a religião era perseguida pelo regime comunista e a maior parte das pessoas evitava as igrejas. Sentados nos bancos só havia velhos. Esses não tinham medo do Governo; só tinham medo da morte.

            Com uma voz melodiosa, o padre pronunciava uma frase e as pessoas repetiam‑na em coro logo a seguir. Era uma litania. As palavras, sempre as mesmas, voltavam continuamente, como um peregrino que não consegue arrancar os olhos da paisagem, como um homem que não consegue dizer adeus à vida. Sentou‑se num dos bancos de trás; às vezes fechava os olhos só para ouvir aquela música das palavras, depois voltava a abri‑los: imediatamente lhe aparecia a abóbada azul com grandes astros dourados pintados em cima. Cedia ao encantamento.

            O que encontrara inesperadamente naquela igreja não fora Deus, mas a beleza. Ao mesmo tempo, tinha perfeita consciência que aquela igreja e aquelas litanias não eram belas em si mesmas, mas que a sua beleza lhes vinha do contraste com os Estaleiros da Juventude onde os seus dias se passavam no meio da barulheira infernal das canções. A missa era bela por lhe ter aparecido súbita e clandestinamente como um mundo traído.

            Aprendeu nesse dia que a beleza é um mundo traído. Só podemos encontrá‑la quando aqueles que a perseguem a deixam por engano num sítio qualquer. A beleza esconde‑se atrás dos cenários de um desfile do 1´.o de Maio. Para dar com ela, primeiro é preciso furar a tela do cenário.

            Nunca tinha ficado fascinado com uma igreja, disse Franz. Não era nem o protestantismo nem a ascese que o entusiasmavam. Era outra coisa, qualquer coisa de muito pessoal e da qual não se atrevia a falar à frente de Sabina. Parecia‑lhe estar a ouvir uma voz que o desafiava a pegar na vassoura de Hércules para varrer da sua vida as inaugurações de Marie‑Claude, os cantores de Marie‑Anne, os congressos, os colóquios, os discursos inúteis e as palavras vãs. O enorme espaço vazio da catedral de Amsterdã acabava de lhe oferecer a imagem da sua própria liberdade.

 

A FORÇA

            Na cama de um dos inúmeros hotéis onde faziam amor, Sabina apalpava um braço a Franz e exclamava: ރTens uns músculos incríveis! >>

            Franz gostava de ouvir este elogio. Levantou‑se da cama, agarrou mesmo rente ao chão o pé de uma pesada cadeira de castanho e começou lentamente a tentar levantá‑la no ar. Enquanto isso, dizia para Sabina:

            Já não tens que ter medo de nada: agora tens‑me a mim para te defender! Fui campeão de judô na minha juventude!ރ

            Conseguiu endireitar o braço na vertical sem largar a cadeira e Sabina disse‑lhe: ރÉ bom saber que és tão forteރރ

            Mas, bem lá no fundo, acrescentou para si própria: Franz é forte, mas a força dele está unicamente voltada para fora. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama. é muito fraco. A fraqueza de Franz chama‑se bondade. Franz seria incapaz de dar uma ordem a Sabina. Nunca lhe ordenaria, como Tomas dantes fazia, que deitasse o espelho no chão e se pusesse a passear toda nua em cima dele. Não que a sensualidade lhe falte ‑ não tem é força para dar ordens. Há coisas que só se podem fazer com violência.

O amor físico é impensável sem violência.

            Sabina olhava para Franz a passear no quarto brandindo a sua cadeira bem lá no alto; a cena parecia‑lhe ridícula e sentiu‑se invadida por uma estranha tristeza.

            Franz pousou a cadeira e sentou‑se com o rosto voltado para Sabina.

            Não que eu não goste de ser forte, disse, mas para que é que me servem uns músculos destes em Genebra'? Uso‑os para me enfeitar. São penas de pavão. Nunca parti a cara a ninguém.ރ

            Sabina prosseguia as suas melancólicas reflexões. E se tivesse tido um homem que lhe desse ordens? Que tivesse querido dominá‑la. Durante quanto tempo suportaria isso? Nem durante cinco minutos! Portanto, não havia homem que lhe conviesse. Nem forte nem fraco.

            Então, perguntou a Franz: E porque é que de tempos a tempos não te serves da tua força contra mim?

            ‑ Porque amar é renunciar à força, disse Franz, com doçura.

            Sabina percebeu duas coisas: primeiro, que aquela frase era bela e verdadeira; segundo, que, com aquela frase, Franz acabara de se desvalorizar para sempre na sua vida erótica.

 

VIVER NA VERDADE

            É uma fórmula que Kafka utilizou no diário ou numa carta. Franz já não se lembra muito bem onde. Sente‑se seduzido por ela. O que será isso de viver na verdade? Uma definição negativa não é difícil: é não mentir, não esconder, não dissimular nada. Desde que conhece Sabina que vive na mentira. Fala à mulher de um imaginário congresso de Amsterdã ou de umas conferências de Madrid que nunca existiram, e em Genebra tem medo de andar na rua com Sabina. Mentir e esconder‑se são coisas que o divertem porque

nunca as tinha feito. Dão‑lhe a mesma sensação de prazer que a primeira gazeta ao melhor aluno da turma.

            Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos atos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo‑nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira. Sabina despreza aquele tipo de literatura em que o autor revela não só toda a sua intimidade, como também a dos amigos. Quem perde a sua intimidade, perde tudo, pensa Sabina. E quem renuncia voluntariamente a ela é um monstro. Por isso, Sabina não se importa de ter uma relação clandestina. Bem pelo contrário, para ela, é a única maneira de viver ރna verdadeރ.

            Mas Franz, quanto a ele, está seguro de que a divisão da vida em domínio privado e domínio público é a origem de toda a mentira: as pessoas são sempre diferentes em público e em privado. Para Franz,   viver na verdadeރ é abolir a barreira entre o privado e o público. Cita freqüentemente André Breton, quando este dizia que gostaria de ter vivido   numa casa de vidroރ aberta a todos os olhares e onde nada fosse secreto.

            Ao ouvir a mulher dizer a Sabina:   Que jóia horrorosa!ރ, compreendera que era incapaz de continuar a viver aquela vida dupla. Nesse momento, deveria ter acorrido em defesa de Sabina. Se não o

fizera, fora unicamente com medo de trair o seu amor clandestino.

            No dia seguinte ao do cocktail, estava de partida para Roma, para passar dois dias com Sabina. As palavras:   Que jóia horrorosa!ރ vinham‑lhe constantemente à cabeça e faziam‑lhe ver a mulher com outros olhos. Passara a ver uma mulher muito diferente daquela que julgara conhecer. A sua agressividade, invulnerável, espalhafatosa, dinâmica, aliviava‑o do peso da bondade que pacientemente carregara durante vinte e três anos de casamento. Lembrou‑se do imenso espaço interior da catedral de Amsterdã e voltou a sentir o entusiasmo incompreensível e singular que esse vazio lhe suscitava.

            Estava a fazer a mala quando Marie‑Claude entrou no quarto; falava dos convidados da véspera, aprovando energicamente certas opiniões que ouvira e condenarão acerbamente outras.

            Franz olhou demoradamente para ela e depois disse:   Não vai haver conferência nenhuma em Roma.ރ

            Marie‑Claude não entendeu:   Então para que é que lá vais?ރ

            Replicou‑lhe:   Tenho uma amante há sete ou oito meses. Não quero ter encontros com ela aqui em Genebra. Por isso é que tenho viajado tanto. Pensei que mais valia prevenir‑te.ރ

            Após ter dito estas palavras, foi assaltado pela dúvida: a coragem inicial começava a abandoná‑lo. Desviou os olhos para não ter de ver na cara de Marie‑Claude o desespero que as suas palavras não podiam deixar de causar‑lhe.

            Depois de uma curta pausa, ouviu:   Sim, eu também acho que vale mais estar prevenida.ރ

            Isto foi dito num tom de grande firmeza; Franz levantou os olhos: Marie‑Claude não estava minimamente perturbada. Continuava a ser a mulher que dizia com uma voz tonitruante:   Que jóia horrorosa! ރ

            Ela prosseguiu:   Visto que tens a coragem de me anunciar que me andas a enganar há sete ou oito meses, já agora também não posso ficar a saber com quem?ރ

            Sempre procedera de modo a não ofender Marie‑Claude e a respeitar a mulher que havia nela. Mas o que acontecera à mulher que havia em Marie‑Claude? Ou, por outras palavras, o que acontecera à imagem da mãe que associava sempre à da mulher? A sua mãe, a sua mãe triste e magoada, com dois sapatos desemparceirados nos pés, deixara de estar dentro de Marie‑Claude; e se calhar nem isso, porque, de fato, nunca lá devia ter estado. Quando o percebeu veio‑lhe o ódio ao de cima.

            Não tenho razão nenhuma para não te dizerރ, disse.

            Já que ela não ficara magoada por saber que ele a enganava, saber quem era a rival magoá‑la‑ia com certeza. Olhando‑a bem nos olhos, pronunciou o nome de Sabina.

            Pouco depois, foi ter com Sabina ao aeroporto. À medida que o avião ganhava altura, sentia‑se cada vez mais leve. Finalmente ao cabo de nove meses, podia começar a viver outra vez na verdade!

 

            Para Sabina, foi como se Franz forçasse a porta da sua intimidade. Era como se pelo postigo espreitassem a cabeça de Marie‑Claude, a cabeça de Marie‑Anne, a cabeça de Alan, o pintor e a cabeça do escultor sempre agarrado ao dedo, a cabeça de todos os seus conhecidos de Genebra. Sem querer, involuntariamente, ia tornar‑se na rival de uma mulher que lhe era perfeitamente indiferente. Franz divorciar‑se‑ia e ela iria ocupar o devido lugar a seu lado num grande leito conjugal. De perto ou de longe, todos os olhares estariam pregados nela; de uma maneira ou de outra, teria de estar sempre a representar; em vez de ser Sabina, ver‑se‑ia forçada a interpretar o papel de Sabina e, ainda por cima, a fazê‑!o da melhor maneira que conseguisse encontrar. Servido ao público como pasto, o amor ganharia cada vez mais peso e tornar‑se‑ia um fardo. Só de pensar nisso, sentia‑se já dobrar sob o peso desse fardo.

            Encontravam‑se a jantar num restaurante romano e a beber vinho. Sabina estava taciturna. ރA sério que não estás zangada?ރ, perguntou Franz. Garantiu‑lhe que não estava zangada. Sentia‑se confusa e não sabia se devia regozijar‑se ou não com a notícia. Pensava no encontro na carruagem‑cama do comboio de Amsterdã. Nessa noite, tivera vontade de lançar‑se aos seus pés, de suplicar‑lhe que a mantivesse sempre ao seu lado, nem que fosse pela força, e que a não deixasse nunca ir‑se embora.

Nessa noite, tivera vontade de acabar de uma vez por todas com essa perigosa viagem de traição em traição. Tivera vontade de parar.

            Agora, tentava com todas as suas forças voltar a sentir esse desejo, tentava invocá‑lo, apoiar‑se nele. Mas em vão. O enjôo era mais forte.

            Regressaram ao hotel por entre a animação das ruas. Os gritos, os gestos, os risos que havia em redor permitiam‑lhes seguir calados um ao lado do outro sem ouvir o seu próprio silêncio.

            Depois, Sabina demorou imenso tempo na casa de banho enquanto Franz esperava debaixo do lençol do grande leito matrimonial. Como sempre, havia uma luzinha acesa.

            Ao voltar da casa de banho, desligou o interruptor. Era a primeira vez que fazia tal coisa. Franz deveria ter desconfiado. Mas não deu qualquer importância ao caso porque, para ele, tanto lhe fazia que houvesse luz ou não. Como já sabemos, fazia amor de olhos fechados.

            É precisamente por causa desses olhos fechados que Sabina acaba de apagar a luz. Recusa‑se a ver, nem que seja por mais um segundo, essas pálpebras cerradas. Como costuma dizer‑se, os olhos são as janelas da alma. O corpo de Franz a debater‑se por cima de si de olhos fechados é para ela um corpo sem alma. É como um animalzinho ainda cego que, quando está com sede, emite uns sons de fazer dó. Quando Franz, com os seus músculos magníficos, fazia amor com ela só lhe parecia um cachorro gigante a amamentar‑se nos seus seios. E é bem verdade, ainda agora, com um dos seus mamilos na boca, ele parece mesmo que vai mamar! Pensar que Franz é um homem adulto por baixo, mas que em cima é um recém‑nascido a mamar e que, portanto, vai para a cama com um recém‑nascido é uma idéia que raia a esfera da abjecção. Não, nunca mais quer vê‑lo a debater‑se desesperadamente em cima de si, nunca mais lhe estenderá o peito como uma cadela ao filho, hoje é a última vez, hoje é irrevogavelmente a última vez!

            Sabia evidentemente que a sua resolução era o cúmulo da injustiça, que Franz era o melhor dos homens que alguma vez conhecera, que era inteligente, que compreendia os seus quadros, que era bom, honesto, bonito, mas quanto mais consciência tinha disso tudo, mais vontade lhe dava de violar essa inteligência, essa bondade de alma, essa força débil.

            Nessa noite, amou‑o com mais ardor do que nunca, excitada com a idéia de ser a última vez. Amava‑o e já lá não estava, já se encontrava muito longe dali. Já ouvia soar à distância as trombetas da traição e bem sabia que era incapaz de resistir a essa voz. Parecia‑lhe que, mais uma vez, se abria diante de si um imenso espaço de liberdade, e essa extensão enorme dava‑lhe uma grande exaltação. Amava Franz loucamente, ferozmente, como não o amara nunca.

            Franz soluçava sobre o seu corpo, pensava que agora já entendia tudo: Sabina pouco falara ao jantar e não lhe dissera nada a respeito da sua decisão, mas agora manifestava‑lhe a sua alegria, a sua paixão, o seu consentimento, o seu desejo de viver com ele para todo o sempre.

            Sentia‑se um cavaleiro a cavalgar num vazio soberbo, um vazio sem mulher, sem filha, sem casa, um vazio soberbo varrido pela vassoura de Hércules, um vazio soberbo que ele preenchia com o seu amor.

            Um por cima do outro, ambos cavalgavam. Ambos se encaminhavam para os horizontes longínquos pelos quais ansiavam. Ambos se aturdiam numa traição que os libertava. Franz cavalgava Sabina e traía a mulher, Sabina cavalgava Franz e traía Franz.

 

            Durante vinte anos, a mulher fora para ele a encarnação da mãe, um ser frágil que precisava de ser protegido; era uma idéia tão profundamente enraizada em si que não podia desembaraçar‑se dela em dois dias. Quando entrou em casa, vinha cheio de remorsos; talvez ela tivesse tido uma crise depois de ele ter saído, talvez fosse encontrá‑la abatida pela tristeza. Fez timidamente girar a chave na fechadura e foi para o quarto. Entrou com todo o cuidado para não fazer barulho e pôs‑se à escuta; sim, Marie‑Claude estava em casa. Hesitou durante um momento e depois foi ter com ela como de costume.

            Fingindo‑se surpreendida, Marie‑Claude levantou as sobrancelhas e perguntou: "Então sempre voltaste para cá?ރ

            Teve vontade de responder‑lhe (e o seu espanto era sincero):

"Para onde é que querias que fosse?ރ, mas não disse nada.

            Marie‑Claude voltou a insistir: ރPara que fique tudo bem claro entre nós, por mim, não há inconveniente .nenhum em mudares‑te já para casa dela.ރ

            Quando, no dia da partida, lhe confessara tudo, não tinha um plano concreto. Pensava que, quando" regressasse, poderiam discutir calmamente todos os pormenores para que as coisas se passassem da forma menos penosa possível para nela. Não previra de forma nenhuma que ela insistisse friamente para que se fosse embora.

            Era uma atitude que lhe facilitava a vida mas, inconscientemente, sentia‑se um pouco decepcionado. Toda a vida receara magoá‑la e fora unicamente por isso que se impusera a si próprio a disciplina voluntária de uma monogamia estupidificante. Agora, ao fim de vinte anos, constatava que essa atenção para com ela fora perfeitamente inútil e que se privara de dezenas de mulheres só por causa de um mal‑entendido!

            Depois das aulas da tarde, foi diretamente da universidade a casa de Sabina. Contava pedir‑lhe que lhe deixasse passar lá a noite. Tocou e ninguém abriu. Foi pôr‑se à espera no café da frente, sempre com os olhos pregados na entrada do prédio.

            As horas iam passando e não sabia o que fazer. Toda a vida dormira na mesma cama que Marie‑Claude. Se agora voltasse para casa, ainda teria de deitar‑se ao lado dela? Claro que também podia dormir no divã do quarto ao lado. Mas não seria um gesto um pouco ostensivo de mais? Não poderia ser interpretado como uma manifestação de hostilidade? Queria ficar amigo da mulher! Mas ir dormir para o pé dela também não podia ser. Já estava a ouvi‑la perguntar, cheia de ironia: Mas como? Afinal não preferia a cama de Sabina? Acabou por optar por um quarto de hotel.

            Passou todo o dia seguinte a tocar à porta de Sabina. Sempre em vão.

            No outro dia, foi a casa da porteira do prédio do atelier de Sabina. Esta não sabia de nada e remeteu‑o para a dona do atelier. Telefonou e disseram‑lhe que Sabina se mudara na antevéspera, pagando, como constava do contrato, o aluguer de mais três meses.

            Durante vários dias ainda tentou surpreender Sabina em casa, até que acabou por encontrar o apartamento aberto. Estavam três homens em fato‑macaco lá dentro a carregar os móveis e os quadros  para um grande camião de mudanças estacionado à frente do prédio. Perguntou‑lhes para onde é que iam levar a mobília. Os homens responderam que estavam formalmente proibidos de dar a morada.

            Encontrava‑se prestes a enfiar‑lhes algum dinheiro na algibeira, quando perdeu subitamente a coragem. Ficou completamente paralisado de tristeza. Não entendia nada, não conseguia encontrar qualquer espécie de explicação para o que se tinha passado. Só sabia que não esperava outra coisa desde o momento em que conhecera Sabina. Acontecera o que tinha de acontecer. Franz não se revoltava.

            Arranjou um pequeno apartamento na parte antiga da cidade. Numa altura em que tinha a certeza de não encontrar nem a mulher nem a filha, passou por casa para trazer o fato e alguns livros absolutamente indispensáveis. Teve o cuidado de não levar nada que pudesse fazer falta a Marie‑Claude.

            Um dia, divisou‑a através da montra de uma casa de chá. Estava com mais duas senhoras e no seu rosto, onde aquela infatigável mímica gravara há muito um não acabar de rugas, lia‑se uma viva animação. As senhoras ouviam‑na falar e não paravam de rir. Franz não pôde deixar de pensar que ela lhes devia estar a falar dele. Sabia com certeza que Sabina desaparecera de Genebra no preciso momento em que tinha decidido ir viver com ela. Era realmente uma história divertida! Não era de espantar que fosse o alvo predileto da chacota das amigas da mulher.

            Voltou para a sua casa nova, onde chegava o som dos sinos da catedral de São Pedro. Nesse dia, tinham vindo entregar uma mesa. Esqueceu‑se de Marie‑Claude e das amigas. E, por instantes, esqueceu‑se também de Sabina. Sentou‑se à mesa. Sentia‑se orgulhoso por ter sido ele a escolhê‑la. Durante vinte anos,

vivera rodeado de móveis que não escolhera. Marie‑Claude encarregava‑se de tudo. Pela primeira vez na sua vida, tinha deixado de ser um rapazinho e tornara‑se independente. No dia seguinte, devia vir um carpinteiro a quem ia encomendar as estantes. Passara vários dias a desenhar minuciosamente a biblioteca para que as formas e as dimensões ficassem bem claras e para que depois não houvesse problemas quando viessem montá‑la.

            Então, de repente, percebeu com espanto que não se sentia infeliz. A presença física de Sabina contava muito menos do que pensara. O que contava era o rasto doirado, o rasto mágico que traçara na sua vida e que nunca ninguém lhe poderia roubar. Antes de desaparecer do seu horizonte, ela tivera tempo de passar‑lhe para a mão a vassoura de Hércules com que varrera da sua existência tudo de que não gostava. Aquela inopinada felicidade, aquele bem‑estar, aquela alegria que a sua liberdade e a sua nova vida lhe davam, eram, afinal, um presente dela.

            Aliás, sempre preferira o irreal ao real. Tal como se sentia melhor nas manifestações (que, como já disse, não passam de um espetáculo e de um sonho) do que atrás da cátedra onde dava aulas, também era mais feliz com Sabina metamorfoseada em deusa invisível do que fora em companhia de Sabina enquanto percorriam mundo e ele tremia a cada passo pelo seu amor. Ela presenteara‑o com a súbita liberdade do homem só, ornara‑o com a aura da sedução. Tornava‑se um homem atraente para as mulheres; uma das alunas apaixonou‑se por ele.

            De repente, num espaço de tempo incrivelmente curto, todo o cenário da sua vida mudou. Há pouquíssimo tempo morava num grande apartamento burguês, com uma criada, uma filha e uma esposa; agora mora num estúdio da parte antiga da cidade e a sua jovem amiga dorme praticamente todas as noites lá em casa! Não têm qualquer necessidade de ir para o estrangeiro ou de dormir em hotéis; pode fazer amor com ela no apartamento que é bem seu, na cama que é bem sua, na presença dos seus livros e do seu cinzeiro pousado na mesa‑de‑cabeceira.

            A rapariga não era nem feia nem bonita, mas era muitíssimo mais nova do que ele. E sentia uma grande admiração por Franz, tal como Franz, pouco tempo antes, sentia uma grande admiração por Sabina. Isso não lhe desagradava nada. Embora talvez considerasse como uma pequena perda a substituição de Sabina pela universitariazinha de óculos enormes, a sua bondade velava para que ele a acolhesse com alegria e sentisse por ela um amor paternal que, aliás, comportando‑se Marie‑Anne não como sua filha mas como uma outra Marie‑Claude, nunca pudera satisfazer.

            Um dia, foi ver a mulher e disse‑lhe que queria voltar a casar‑se.

            Marie‑Claude abanou a cabeça.

            Mas se nos divorciarmos, fica tudo na mesma. Não te tiro nada. Deixo‑te tudo!

            ‑ Para mim, o dinheiro não, conta, disse ela.

            ‑ Então o que é que conta?

            ‑ O amor.

            ‑ O amor?ރ, perguntou Franz, admirado.

            Marie‑Claude sorria: c0 amor é um combate. Hei‑de lutar o tempo que for preciso. Até ao fim.

            ‑ O amor é um combate? Não tenho a mínima vontade de lutarރ, disse Franz, e saiu.

 

            Depois de quatro anos passados em Genebra, Sabina vivia em Paris e nunca mais se recompunha da sua melancolia. Se lhe perguntassem o que lhe acontecera, não teria palavras para o dizer. Pode sempre explicar‑se o drama de uma vida através da metáfora do peso. Costuma dizer‑se que nos caiu um fardo em cima. Carregamos com esse fardo, suportamo‑lo ou não o suportamos. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. Mas o que acontecera ao certo a Sabina? Nada. Deixara um homem porque queria deixá‑lo.  Esse homem tinha vindo atrás dela? Tinha querido vingar‑se? Não. O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.

            Até aqui, os momentos de traição exaltavam‑na e ficava sempre cheia de alegria só à idéia do novo caminho que se abria e da aventura sempre nova da traição que a esperava no fim da viagem. Mas que aconteceria se a viagem acabasse? Pais, maridos, amores, pátrias podem trair‑se, mas o que resta para trair quando já não houver pais, nem marido, nem amor, nem pátria?

            Sabina sentia um grande vazio em tomo de si. E se esse vazio fosse precisamente o fim de todas as traições?

            Até aqui, é claro que não tinha consciência disso, e é bem compreensível: o fim que se persegue está sempre oculto. Uma rapariga que quer um marido, quer uma coisa que desconhece completamente. O rapaz que anda em busca da glória não faz a mínima idéia do que a glória é. O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida. Também Sabina não sabe que fim se oculta no seu desejo de trair. A insustentável leveza do ser poderá ser considerada como um fim'? Desde que deixou Genebra, encontra‑se tremendamente próximo dela.

            Estava há três anos em Paris quando recebeu uma carta da Boêmia. Era uma carta do filho de Tomas. Tinha ouvido falar dela, procurara a sua direção e dirigia‑se‑lhe porque ela era ރa amiga mais chegadaރ do pai. Dava‑lhe a notícia da morte de Tomas e de Tereza. Segundo o que dizia na carta, tinham passado os últimos anos de vida numa aldeia onde Tomas era motorista de caminhão. Iam de vez em quando à cidade mais próxima e passavam a noite no hotel. A. estrada atravessava uma serra, tinha muitas curvas e o camião caíra numa ravina. Os corpos tinham ficado completamente desfeitos. A polícia constatara que os travões estavam em muito mau estado.

            Não conseguia recompor‑se do estado em que a notícia a deixara. Quebrara‑se o último laço que a unia ao passado.

            Como era seu hábito, tentou acalmar‑se com uma volta num cemitério. O cemitério mais próximo era o de Montpamasse. Era composto por delicadas construções em pedra, por capelas em miniatura erigidas ao lado das campas. Sabina não percebia como é que os mortos podiam gostar de ter aqueles falsos palácios por cima de si. Aquele cemitério era o orgulho feito pedra. Longe de recobrarem a razão depois de mortos, os moradores daquele cemitério ainda se cobriam mais de ridículo do que em vida. Escarrapachavam a sua importância em jazigos. Quem ali repousava não eram nem pais, nem irmãos, nem filhos, nem avós, mas funcionários públicos, e pessoas importantes, carregadas de títulos e de honrarias; ali, mesmo um simples empregado dos correios oferecia à admiração pública a sua classe, o seu posto, a sua posição social ‑ enfim, a sua dignidade.

            Quando percorria uma álea do cemitério, apercebeu‑se de que, pouco mais adiante, havia um enterro. O mestre‑de‑cerimônias tinha os braços carregados de flores e distribuía‑as aos parentes e amigos:

uma a cada uma das pessoas. Estendeu uma a Sabina. Esta juntou‑se ao cortejo. Era preciso contornar vários jazigos antes de chegar à cova de onde tinha sido retirada a pedra tumular. Debruçou‑se à beira dela. A cova era muito funda. Largou a flor. Descrevendo pequenas espirais, a flor lá foi caindo e acabou por bater no caixão. Na Boêmia, as covas não são tão fundas. Em Paris, as covas são tão fundas como as casas são altas. Os seus olhos pousaram na pedra que, ao lado da cova, continuava à espera. De repente, ficou aterrorizada com aquela pedra. Voltou para casa quase a correr.

            Pensou na pedra o dia inteiro. Porque é que a aterrorizara tanto?

            A resposta que achou foi a seguinte: é que se o túmulo está fechado com uma pedra, o morto nunca mais pode sair.

            Mas, seja como for, o morto nunca mais sairá da campa! Então tanto faz estar debaixo do barro como de uma pedra!

            Não, não é exatamente a mesma coisa: se a campa está fechada com uma pedra, é porque ninguém quer que o morto volte. Aquela pesada pedra está lá para lhe dizer: ރDeixa‑te estar onde estás!ރ

            Sabinz lembrava‑se da campa do pai. Por, cima do caixão havia barro, no barro cresciam flores e havia um bordo que estendia as suas raízes para o caixão: era como se o morto saísse da campa por aquelas flores e por aquelas raízes. Se o pai tivesse sido enterrado debaixo de uma pedra, nunca mais teria podido falar‑lhe, nunca teria ouvido a sua voz na folhagem da árvore a perdoar‑lhe.

            Então como seria o cemitério onde Tereza e Tomas repousavam`?

            Uma vez mais, voltara a pensar neles. Iam de vez em quando à cidade mais próxima e passavam a noite no hotel. Tinha reparado especialmente naquela passagem da carta. Atestava que eles eram felizes. Revia Tomas como se ele fosse um dos seus quadros: em primeiro plano, um Dom Juan pintado como um cenário falso pela mão de um pintor primitivo; através de uma fenda do cenário, apercebia‑se um Tristão. Morrera a fazer de Tristão, não de Dom Juan. Os pais de Sabina tinham morrido na mesma semana. Tomas e Tereza no mesmo segundo. De repente, apeteceu‑lhe estar com Franz.

            Quando lhe falara dos seus passeios pelos cemitérios, Franz tivera quase um vômito e comparara os cemitérios a depósitos de ossadas e de cascalho. Nesse dia, cavara‑se entre eles um abismo incompreensível. Só hoje, no cemitério de Montparnasse, é que acaba de compreender o que ele queria dizer. Tem pena de ter sido impaciente. Se tivessem ficado juntos mais tempo, talvez tivessem começado a pouco e pouco a compreender as palavras que pronunciavam.

            Os seus vocabulários ter‑se‑iam aproximado pudicamente, vagarosamente, como amantes muito tímidos, e a música de cada um teria começado a fundir‑se na música do outro.

            Mas, claro, é tarde demais e Sabina sabe que não ficará em Paris, que irá para longe, cada vez mais para longe, porque se ali morresse ficaria fechada debaixo de uma pedra, e uma mulher que não pode estar parada não suporta a idéia de que lhe acabem de uma vez por todas com a caminhada.

 

            Todos os amigos de Franz estavam ao corrente do que se passava com Marie‑Claude, e todos estavam ao corrente do que se passava com a universitariazinha dos óculos muito grandes. Só que a história de Sabina ninguém a sabia. Franz enganava‑se ao pensar que Marie‑Claude falava dela às amigas. Sabina era bonita e Marie‑Claude não queria que os seus rostos  pudessem ser mentalmente comparados.

            Com medo de ser descoberto, nunca lhe pedira nem um quadro nem um desenho, nem mesmo uma fotografia de passe. Ela desvanecera‑se portanto da sua existência. Passara com ela o ano mais belo da sua vida, mas não ficara com nenhuma prova palpável. Tudo isso só torna ainda maior o prazer de continuar a ser‑lhe fiel.

            Quando se encontram a sós no quarto, às vezes, a sua jovem amiga levanta a cabeça do livro e pousa um olhar interrogativo sobre ele: cEm que estás tu a pensar?ރ

            Franz está sentado num sofá com os olhos perdidos no teto. Responda o que responder, está certamente a pensar em Sabina.

            Quando publica um trabalho numa revista científica, a sua universitariazinha é sempre a primeira a lê‑lo e quer discuti‑lo imediatamente com ele. Mas ele, ele só pensa no que Sabina diria do texto. Tudo quanto faz, fá‑lo para Sabina e de uma forma de que Sabina gostasse.

            É uma infidelidade muito inocente, talhada à medida de Franz, que é incapaz de fazer mal à sua universitariazinha de óculos. O culto de Sabina que pratica tem muito menos a ver com o amor do que com a religião.

            Aliás, segundo essa teologia, a sua jovem amante foi‑lhe enviada por Sabina. Reina portanto uma concórdia perfeita entre o seu amor terreno e o seu amor extraterreno e se o seu amor extraterreno contém necessariamente (só pelo simples fato de ser extraterreno, uma grande dose de inexplicável e de ininteligível (não nos esqueçamos do léxico de palavras mal entendidas, dessa lista enorme!), o seu amor terreno, esse, repousa num verdadeiro entendimento.

            A estudante universitária é muito mais nova do que Sabina, a partitura musical da sua vida mal começou a ser esboçada e ela lá a vai compondo com os temas que tira a Franz. A Grande Marcha de Franz também é um artigo da sua fé. Para ela, tal como para ele, a música é uma embriaguez dionisíaca. Vão dançar muitas vezes. Vivem na verdade, não têm segredos para os outros. Procuram a companhia dos amigos, dos colegas, de estudantes e de simples desconhecidos, sentem‑se bem à mesa a beber e a conversar com eles. De vez em quando, vão em excursão aos Alpes. Franz dobra‑se para a frente, a rapariga salta‑lhe para as costas e ele leva‑a a galope através dos prados, declamando muito alto um longo poema

alemão que a mãe lhe ensinou quando era pequeno. A pequena ri às gargalhadas, e sente‑se orgulhosa das suas pernas, das suas costas e dos seus pulmões.

            A única coisa cujo sentido lhe escapa é a singular simpatia que Franz manifesta por todos os países sob dominação russa. No dia do aniversário da invasão, há uma cerimônia comemorativa levada a cabo por uma organização checa de Genebra. A sala está quase vazia. O orador tem cabelos grisalhos frisados no cabeleireiro. Lê um discurso muito comprido e consegue aborrecer mortalmente o punhado de entusiastas que ali vieram só para ouvi‑lo. Fala um francês impecável, mas com um sotaque terrível. De tempos a tempos, para sublinhar as palavras que profere, aponta com o indicador, como se estivesse a ameaçar as pessoas que estão sentadas na sala.

            A universitariazinha dos óculos enormes está sentada ao lado de Franz e reprime um bocejo. Mas Franz sorri beatificamente. Tem os olhos pregados no homem de cabelos grisalhos, acha‑lhe um ar simpático, com aquele seu indicador surpreendente. Imagina que aquele homem é um mensageiro secreto, um anjo que o mantém em comunicação com a sua deusa. Fecha os olhos e sonha. Fecha os olhos como sempre os teve fechados por cima do corpo de Sabina em quinze hotéis da Europa e num hotel da América.

 

O CORPO E A ALMA

            Tereza entrou em casa por volta da uma e meia da manhã, foi à casa de banho, enfiou um pijama e deitou‑se ao lado de Tomas. Este já dormia. No momento em que, inclinada sobre o seu rosto, lhe ia dar um beijo, percebeu que os cabelos deles tinham um cheiro esquisito. Manteve as narinas lá mergulhadas durante um bom bocado. Farejou‑o como um cão, até que acabou finalmente por perceber: aquilo era um cheiro de mulher, um cheiro a sexo.

            Às seis, ouviu‑se o toque do despertador. Era a hora de Karenine. O cão acordava sempre muito antes deles, mas não se atrevia a incomodá‑los. Esperava impacientemente pela campainha do despertador, porque sabia que só nessa altura é que tinha o direito de saltar para a cama dos donos, de pisar os seus corpos e de arranjar um lugar para meter o focinho. Ao princípio, tinham tentado contrariá‑lo e expulsá‑lo da cama, mas o cão era mais teimoso do que os donos e acabara por impor os seus direitos. Aliás, Tereza já

há algum tempo que achava que não era desagradável começar o dia ao toque de Karenine. Para ele, o momento de acordar era de uma felicidade sem mácula: estupidamente, ingenuamente, espantava‑se por ainda ser deste mundo e regozijava‑se sinceramente com isso. Tereza, em contrapartida, sentia‑se contrariada por acordar e com vontade de que a noite não acabasse. Não lhe apetecia nada ter de voltar a abrir os olhos.

            Agora, Karenine já estava à espera na entrada, com os olhos pregados no cabide onde a coleira e a trela estavam penduradas. Tereza pôs‑lhe a coleira e foram às compras. Comprou leite, pão, manteiga e, como sempre, um croissant para o cão. À volta, Karenine vinha ao seu lado, com o croissant na boca: todo inchado, olhava em torno de si, encantado por ser alvo das atenções gerais e por saber que as pessoas passavam o tempo a apontar para ele.

            Depois de chegar a casa, o cão ficava a espreitar à porta do quarto com o croissant na boca, à espera que Tomas se apercebesse da sua presença, se pusesse de gatas, começasse a rosnar e a fingir que queria tirar‑lho. Dia após dia, repetia‑se a mesma cena. Passavam uns cinco bons minutos a correr atrás um do outro pela casa toda, até que Karenine ia refugiar‑se debaixo da mesa para devorar o seu croissant a toda a velocidade.

            Desta vez, porém, foi em vão que esperou pela cerimônia matinal. Havia um transistor em cima da mesa e Tomas estava todo concentrado a ouvir.

 

            A rádio estava a dar um programa sobre a emigração checa. Era uma montagem de gravações clandestinas de conversas privadas feitas por um espião checo que se infiltrara entre os emigrantes e depois regressara em triunfo ao país. Eram conversas anódinas e entrecortadas, de quando em vez, por insultos contra o regime de ocupação e por frases em que os emigrantes se qualificavam uns aos outros como cretinos e impostores.

            A emissão insistia sobretudo nestas últimas passagens: com efeito, era preciso provar que aquela gente não só dizia mal da União Soviética (o que já não punha ninguém indignado) como também que não hesitava em mimosear‑se com os piores insultos. O que é curioso é que dizemos palavrões de manhã à noite, mas basta ouvirmos na rádio um tipo conhecido e respeitado pontuar o seu discurso com uns estou‑me bem a cagar para eles para, inconscientemente, nos sentirmos algo desapontados.

            A primeira vítima de uma coisa destas foi Prochazka!ރ, disse Tomas, sem deixar de prestar atenção àquilo que estava a ouvir.


            Jan Prochazka era um romancista checo de cerca de quarenta anos, forte como um touro, que, ainda muito antes de 1968, começou a criticar em voz alta a situação do país. Era um dos homens mais populares da Primavera de Praga, essa vertiginosa liberalização do comunismo que terminou com a invasão russa. Pouco depois da invasão, todos os meios de comunicação social lhe davam o toque de rendição, mas quanto mais encurralado se encontrava maior era a sua popularidade. Por isso, em 1970, a rádio começara a transmitir à maneira de um folhetim as conversas privadas que, dois anos antes (portanto, na Primavera de 1968). Prochazka tivera com um certo professor universitário. Nenhum dos dois suspeitava que havia um sistema de escuta montado em casa do professor e que, há muito tempo já, todos os gestos que faziam eram espiados até ao mais ínfimo pormenor! Prochazka punha sempre os amigos bem‑dispostos com as suas hipérboles e as suas ousadias. E, agora, essas suas inconveniências eram regularmente transmitidas pela rádio! A polícia secreta, que montara o programa, tivera o cuidado de dar um relevo especial a uma passagem em que o romancista fazia troça dos amigos, entre os quais se contava, por exemplo, Alexandre Dubcek. As pessoas não perdem uma ocasião de dizer mal dos amigos, mas, coisa curiosa, ficaram mais indignadas contra o seu bem‑amado Prochazka do que contra a polícia secreta unanimemente detestada!

            Tomas desligou o aparelho e disse:   Todos os países do mundo têm uma polícia secreta. Mas só cá é que ela transmite as gravações que faz pela rádio! É uma coisa inaudita!

            ‑ Não tanto como isso!, disse Tereza. Aos catorze anos, eu tinha um diário. Tinha medo que alguém o lesse. Escondia‑o no sótão. A minha mãe acabou por descobri‑lo. Um dia, ao almoço, enquanto estávamos a comer a sopa, tirou‑o da algibeira e disse: "Ora ouçam todos com muita atenção!", e pôs‑se a lê‑lo em voz alta, desmanchando‑se a rir a cada frase. Toda a família se desmanchou também a rir e se esqueceu de comer.

 

            No desistia de tentar convencê‑la a deixá‑lo tomar o pequeno‑almoço sozinho e a ficar deitada. Mas ela não lhe dava ouvidos. Tomas trabalhava das sete da manhã às quatro da tarde, e ela das quatro à meia‑noite. Se não tomasse o pequeno‑almoço com ele, só aos domingos é que poderiam falar um com o outro. Portanto, levantava‑se ao mesmo tempo do que Tomas e, depois de ele se ir embora, deitava‑se outra vez e passava pelas brasas.

            Nesse dia, porém, tinha medo de tornar a adormecer porque queria ir às dez horas à sauna da ilha de Sofia. Havia muitos interessados, poucos lugares e só com uma boa cunha é que se conseguia freqüentá-lo. Felizmente que a caixa era mulher de um professor que tinha sido expulso da universidade. O professor era amigo de um antigo doente de Tomas. Tomas falara ao doente, o doente falara ao professor, o professor à mulher e Tereza agora tinha lugar marcado uma vez por semana.

            Foi a pé. Detestava os elétricos sempre a abarrotar, onde as pessoas se apertavam rancorosamente umas de encontro às outras, se pisavam, arrancavam os botões dos respectivos casacos e se injuriavam.

            Caía uma chuva fininha. As pessoas andavam com um passo apressado, com os chapéus‑de‑chuva abertos por cima da cabeça e, de repente, dava‑se a grande confusão. Os chapéus‑de‑chuva chocavam uns com os outros. Os homens eram delicados e, ao passar por Tereza, levantavam os chapéus‑de‑chuva. Mas as mulheres não se desviavam um milímetro. Olhavam a direito, com um ar de ande dureza, sempre à espera que a outra se reconhecesse como mais fraca e capitulasse. O choque dos chapéus‑de‑chuva era uma prova de força. Ao princípio, Tereza desviava‑se, mas, quando percebeu que ninguém lhe retribuía a delicadeza, passou a segurar o chapéu‑de‑chuva com toda a força como as outras faziam. Por diversas

vezes, o seu chapéu‑de‑chuva chocou violentamente com outros, mas nunca ninguém pediu desculpa. A maior parte das mulheres continuava de dentes cerrados; só ouviu por duas ou três vezes: ރPuta!ރ ou   Merda!ރ

            Armadas com os seus guarda‑chuvas, havia mulheres de todas as idades, mas as novas contavam‑se entre as combatentes mais intrépidas. Tereza lembrava‑se dos dias da invasão. Raparigas de minissaia passavam e voltavam a passar com a bandeira nacional hasteada num pau. Era um atentado ao pudor dos soldados russos forçados há vários anos à ascese sexual. Em Praga, deviam julgar que estavam num planeta inventado por um romancista de ficção científica, um planeta povoado de mulheres incrivelmente elegantes a exibirem o seu desprezo do alto de pernas tão longas e esculturais como há cinco ou seis séculos a Rússia inteira não vira.

            Durante aqueles dias, Tereza fotografara essas mulheres com os carros de assalto a servirem de pano de fundo. Admirava‑as tanto nessa altura! E eram exatamente as mesmas mulheres que hoje via avançar ao seu encontro, quezilentas e vulgares. À laia de bandeira, erguiam um chapéu‑de‑chuva, mas continuavam a segurá‑lo com o mesmo orgulho. Afrontavam um exército estrangeiro tão encarniçadamente como o chapéu‑de‑chuva que lhes impedia a passagem.

 

            Agora está a chegar à praça da Cidade Velha, onde se ergue a catedral de Tyn e as rasas barrocas se dispõem num quadrilátero irregular. A antiga Câmara Municipal do século XIV, que antes ocupava um lado inteiro da praça, há vinte e sete anos que se encontrava em ruínas. A Segunda Guerra Mundial mutilou horrorosamente Varsóvia, Dresden, Colônia, Budapeste, Berlim, mas os seus habitantes reconstruíram‑nas e, de uma forma geral, capricharam em restaurar escrupulosamente os bairros históricos. Os habitantes de

Praga sentiam‑se inferiorizados com essas cidades. O único monumento que a guerra lhes destruiu foi a antiga Câmara Municipal. Decidiram portanto conservá‑la assim, com medo que o primeiro polaco ou o primeiro alemão que passassem os censurassem por não terem sofrido o suficiente. Diante desse ilustre entulho, encarregado de representar para toda a eternidade a condenação da guerra, ergue‑se uma tribuna de barras metálicas que se destina à manifestação a que o Partido Comunista conduziu ontem ou tornará a

conduzir amanhã o povo de Praga.

            Tereza olhava para os escombros da Câmara Municipal e, de súbito, aquele espetáculo fê‑la pensar na mãe: era a mesma necessidade perversa de expor as ruínas, de se gabar da fealdade, de exibir a miséria, de pôr o coto à mostra e obrigar toda a gente a ver. Nestes últimos tempos, tudo lhe fazia lembrar a mãe, como se o universo materno a que escapara uma dezena de anos antes tivesse vindo outra vez ao seu encontro e a cercasse por todos os lados. Era por isso que contara ao pequeno‑almoço que a mãe lhe lia o

diário íntimo no meio da galhofa geral. O fato de uma conversa de dois amigos diante de um copo ser transmitida pela rádio só pode significar uma coisa: é que o mundo se encontra transformado num campo de concentração.

            Tereza usava estas palavras quase desde a infância para exprimir a idéia que lhe dava a vida da família. O campo de concentração é um mundo em que as pessoas estão condenadas a viver perpetuamente, de dia e de noite, umas em cima das outras. As crueldades e as violências não são senão um aspecto secundário e perfeitamente dispensável. O campo de concentração é a liquidação total da vida

privada. Prochazka, que nem a discutir diante de um copo com um amigo na sua própria casa se encontrava abrigado, vivia (sem suspeitar disso, o que foi precisamente o seu erro fatal!) num campo de concentração. Quando Tereza vivia em casa da mãe, vivia num campo de concentração. Sabia desde esse tempo que o campo de concentração não é nada de excepcional, nada que nos deva surpreender, mas qualquer coisa de dado, de fundamental, qualquer coisa onde se chega quando se vem ao mundo e de onde não nos podemos evadir senão através de uma extrema tensão de todas as nossas forças.

 

            Sentadas em três bancos dispostos em socalcos, as mulheres apertavam‑se umas de encontro às outras. Uma rapariga de cerca de trinta anos, de feições delicadas e .bonitas, transpirava ao lado de Tereza. Um pouco abaixo dos ombros tinha dois seios incrivelmente volumosos pendurados, que ao menor movimento se punham logo a balançar. Quando se levantou, Tereza viu que atrás também parecia ter dois sacos enormes que não tinham nada a ver com o seu rosto.

            Quem sabe se aquela mulher também não passava longos momentos diante do espelho a olhar para o corpo e a tentar ver a alma à sua transparência, como Tereza fazia desde criança? Com certeza que também ela devia ter estupidamente julgado que o seu corpo havia de ser o brasão da sua alma. Mas se fosse parecida com aquele cabide com dois pares de sacolas penduradas, devia ser bem monstruosa, essa sua alma!

            Tereza levantou‑se para ir para o duche. Depois foi tomar ar. Continuava a chuviscar. Encontrava‑se num pontão lançado sobre uns poucos de metros quadrados do Vltava entre painéis de madeira muito altos que abrigavam as senhoras dos olhares da cidade. Ao baixar a cabeça, apercebeu à tona da água a cara da mulher em quem tinha estado a pensar.

            Ela sorria‑lhe. Tinha um nariz fino, grandes olhos castanhos e um olhar infantil.

            Subia a escada e, por debaixo daquele rosto delicado, voltaram a aparecer as duas sacolas a balançar e a projetar em redor minúsculas gotas de água fria.

 

            Foi‑se vestir. Tinha um grande espelho diante de si.

            Não, o seu corpo não tinha nada de monstruoso. Não tinha dois sacos pendurados abaixo dos ombros, mas uns seios relativamente pequenos. A mãe fazia pouco dela por eles não serem suficientemente grandes, por não serem tão grandes como os seios devem ser, o que fizera com que ganhasse complexos de que só Tomas acabara por livrá‑la. Agora, já aceitava perfeitamente as suas dimensões. Só não gostava daquelas auréolas grandes de mais e escuras de mais à volta dos mamilos. Se tivesse podido desenhar o seu próprio corpo, teria mas era uns mamilos discretos, delicados, pouco salientes em relação à curva do seio e de uma cor que mal se distinguisse da cor do resto da pele. Aqueles grandes alvos vermelho‑escuros pareciam‑lhe obra de um pintor de aldeia especializado em imagens obscenas para necessitados.

            Examinava‑se a si própria e ia imaginando o que aconteceria se o nariz lhe crescesse um milímetro por dia. Quanto tempo demoraria o seu rosto a ficar irreconhecível?

            E se todas as partes do corpo lhe começassem a crescer e a diminuir até deixar de ter qualquer semelhança com Tereza, ainda continuaria a ser a mesma, ainda haveria uma Tereza?

            Com certeza que sim. Mesmo supondo que Tereza passasse a ser completamente diferente de Tereza, lá dentro, a sua alma continuaria sempre a mesma e não poderia fazer nada senão assistir horrorizada ao que lhe estava a acontecer ao corpo.

            Mas, então, que relação haveria entre Tereza e o seu corpo? O seu corpo teria algum direito de se chamar Tereza? E se não tivesse, o que designaria então esse nome? Nada a não ser uma coisa incorpórea, intangível?

            (Desde a infância que as mesmas perguntas bailam na cabeça de Tereza. Porque as perguntas verdadeiramente importantes são as que uma criança pode formular ‑ e apenas essas. Só as perguntas  mais ingênuas são realmente perguntas importantes. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é um obstáculo para lá do qual não se pode passar. Ou, por outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência.)

            Tereza encontra‑se imóvel, como que enfeitiçada, em frente do espelho, e olha para o seu corpo como se este lhe fosse estranho; estranho, embora no cadastro dos corpos este seja o seu. Dá‑lhe vômitos. Não teve força suficiente para tornar‑se o único corpo da vida de Tomas. Foi enganada por aquele corpo. Durante uma noite inteira, tinha aspirado o cheiro íntimo de outra com que o cabelo do marido estava completamente impregnado!

            Apetece‑lhe, de repente, despedir aquele corpo como se despede uma criada. Apetece‑lhe não ser para Tomas senão uma alma e expulsar aquele corpo para bem longe, para ele passar a comportar‑se como os outros corpos femininos se comportam com os corpos masculinos! Já que o seu corpo não soube substituir todos os outros corpos para Tomas e perdeu a maior batalha da vida de Tereza, muito bem!, agora pode ir‑se embora!

 

            Voltou para casa e almoçou sem apetite, de pé, na cozinha. Às três e meia, pôs a trela a Karenine e (sempre a pé) foi com ele para o hotel onde trabalhava e que ficava num bairro suburbano. Quando fora despedida da revista, arranjara um lugar de criada de bar. A coisa passara‑se alguns meses depois de vir de Zurique; afinal, sempre tinham acabado por não lhe perdoar que tivesse fotografado ininterruptamente durante sete dias os tanques russos. Obtivera aquele emprego graças a uns amigos: outras pessoas que tinham perdido o emprego mais ou menos na mesma altura do que ela também lá encontraram refúgio. Na contabilidade, havia um antigo professor de teologia, na recepção, um antigo embaixador.

            Andava outra vez preocupada com as pernas. Dantes, quando era criada na província, ficava assustada quando via como as pernas das colegas estavam cobertas de varizes. Todas as raparigas que trabalhavam de pé, que passavam a vida a andar e a correr carregadas com pesos ficavam assim. De qualquer forma, aquele trabalho era menos duro que o outro. Embora antes de começar o serviço tivesse

de transportar as caixas de cerveja e de água mineral, o resto do tempo passava‑o atrás do balcão, a servir bebidas aos clientes e, nos intervalos, a lavar os copos num pequeno lava‑louça instalado na outra extremidade do bar.

            Já passava da meia‑noite quando acabou as contas e foi dar o dinheiro ao diretor do hotel. Depois, foi despedir‑se do embaixador que estava de serviço à noite. Atrás do longo balcão da recepção havia uma porta que dava para uma alcova onde se podia passar pelas brasas numa cama muito estreita. Por cima do divã, a parede estava coberta de fotografias emolduradas onde o embaixador se encontrava sempre acompanhado por pessoas que sorriam para a objetiva, lhe apertavam a mão, ou estavam sentadas a seu lado numa enorme secretária a assinar papéis. Em lugar de destaque, havia uma fotografia onde se reconhecia ao lado da cabeça do embaixador o rosto sorridente de John F. Kennedy.

            Não era com o Presidente dos Estados Unidos que ele estava a discutir nessa noite, mas com um sexagenário desconhecido que se calou quando Tereza entrou.

              É uma amiga, disse o embaixador. Podes falar à vontade.ރ      

Depois, voltando‑se para Tereza, explicou:   0 filho dele foi hoje mesmo condenado a cinco anos de cadeia.ރ

            Contaram‑lhe que, nos primeiros dias da invasão, o filho daquele senhor de idade e mais alguns amigos estavam de vigia à entrada de um prédio onde se encontrava instalada uma secção especial do exército russo. Qualquer checo que lá aparecesse era seguramente informador dos russos. Ele e os amigos seguiam‑nos, tiravam a matrícula dos automóveis e denunciavam‑nos aos jornalistas de uma emissora checa clandestina, que punham a população de sobreaviso. Uma vez com a ajuda dos amigos dera uma tareia num deles.

            O senhor de idade dizia:   A única prova material é esta fotografia. O meu filho negou sempre tudo até que lha mostraram.ރ

            Tirou um recorte de jornal do bolso de cima:   Veio publicada no Times, no Outono de 1968.ރ

            Na fotografia, via‑se um rapaz a agarrar um homem pelo pescoço. Havia gente à volta a ver. A legenda era: o castigo de um colaborador.

            Tereza ficou aliviada. Não, não fora ela que tirara aquela fotografia.

            Acompanhada por Karenine, voltou para casa pelo escuro das ruas de Praga. Pensava nos dias que passara a tirar fotografias a tanques. Como tinham sido ingênuos, todos eles! Convencidos que arriscavam a vida pela pátria, estavam mas era a facilitar a vida à polícia russa!

            Chegou a casa à uma e meia. Tomas já dormia. Dos seus cabelos, desprendia‑se um cheiro a mulher, um cheiro a sexo.

 

            O que é a coquetterie? Pode talvez dizer‑se que é um comportamento que deve sugerir que a aproximação sexual é possível, sem que essa eventualidade possa ser tida como certa. Ou, por outras palavras, a coquetterie é uma promessa de coito, mas uma promessa sem garantias.

            Tereza encontra‑se de pé atrás do balcão do bar e os clientes a quem serve bebidas passam o tempo a meter‑se com ela. Ser‑lhe‑á desagradável essa onda contínua de cumprimentos, de subentendidos, de anedotas pesadas, de convites, de sorrisos e de olhares? De forma nenhuma. Sente um desejo incontrolável de oferecer o corpo (aquele corpo estranho que gostaria de expulsar para longe), de oferecê‑lo a essa ressaca.

            Tomas não se cansa de insistir que, entre o amor e o ato de amor, há todo um universo. Tereza recusava‑se a admiti‑lo. Agora, está permanentemente rodeada de homens que não lhe inspiram a mínima simpatia. O que sentiria se fosse para a cama com um deles? Tem vontade de experimentar, pelo menos sob essa forma de promessa sem compromisso que é a coquerterie.

            Mas, não nos enganemos! Não procura vingar‑se de Tomas. Só procura uma saída para o labirinto onde se encontra perdida. Sabe que lhe é pesada: leva as coisas demasiado a sério, leva tudo para o trágico, não consegue compreender a leveza e a alegre futilidade do amor físico. Gostava tanto de aprender a leveza! Gostava tanto que lhe ensinassem a deixar de ser anacrônica!

            Se, para outras mulheres, a coquetterie é uma segunda natureza, uma rotina insignificante, para Tereza, daqui em diante ela será o campo de uma importante investigação que deve fazer‑lhe descobrir aquilo de que é capaz. Mas por ser assim tão importante, assim tão grave, a sua coquetterie perdeu toda a leveza, é forçada, expressamente convocada, excessiva. Rompeu-se o equilíbrio entre a promessa e a falta de garantias (no qual reside precisamente o autêntico virtuosismo da coqueterie!). Promete, mas sem a clareza suficiente, para fazer ver que a sua promessa não a compromete a nada. Ou, dito de outra maneira, todos julgam que é uma mulher extraordinariamente fácil. E depois, quando os homens reclamam o pagamento daquilo que pensam que lhes foi prometido, deparam com una resistência inesperada que só pode encontrar explicação na refinada crueldade de Tereza.

 

            Um adolescente veio sentar‑se num tamborete vago. Não teria mais de dezesseis anos. Proferiu alguns ditos provocantes que se incrustavam na conversa como, num desenho, se incrusta um traço em

falso tão impossível de prolongar como de apagar.

             Você tem umas lindas pernasރ, disse.

            Tereza empertigou‑se:   Como se elas se pudessem ver através do balcão!

            ‑ Já a conhecia. Costumo vê‑la na ruaރ, explicou o rapaz.

            Mas Tereza tinha‑se afastado e estava a atender outros clientes. O adolescente pediu uma aguardente. Ela disse que não lha servia.

              Já fiz dezoito anos, protestou o adolescente.

            ‑ Então deixe‑me ver o seu bilhete de identidade!

            ‑ Nem pensar nisso, replicou o adolescente.

            ‑ Como queira! Vou‑lhe servir uma limonada!ރ

            Sem acrescentar palavra, o adolescente levantou‑se do tamborete e saiu. Mais ou menos meia hora depois, voltou a entrar e a sentar‑se no bar. Fazia gestos muito exagerados e tresandava a álcool a três metros de distância.


              Uma limonada!

            ‑ Você está bêbado!ރ, disse ela.

            O adolescente apontou para um aviso pendurado na parede que ficava atrás de Tereza: É expressamente proibido servir bebidas alcoólicas a menores de dezoito anos.

            Está proibida de me servir bebidas alcoólicas, disse, apontando para Tereza com um gesto muito pronunciado. Mas não está escrito em sítio nenhum que eu não tenho o direito de estar bêbado neste bar.

            ‑ Onde, é que se foi pôr nesse lindo estado?

            ‑ Na tasca do outro lado!ރ, disse. Deu uma grande gargalhada e voltou a exigir uma limonada.

              Então porque é que não ficou lá?

            ‑ Porque quero olhar para si, disse o adolescente. Amo‑a.ރ

            E, ao dizê‑lo, tinha o rosto estranhamente crispado. Tereza não estava a entender: o rapaz estaria a gozar com ela? Aquilo seria uma proposta? Ou uma brincadeira? Ou ele estava simplesmente bêbado e não sabia o que dizia?

            Pousou‑lhe uma limonada à frente e foi atender outros clientes. A declaração de amor parecia ter esgotado todas as forças do adolescente. Não disse mais nada, pôs silenciosamente o dinheiro em cima do balcão e retirou‑se sem Tereza dar por isso.

            Mas, mal acabara de sair, um homenzinho careca, que já ia no terceiro vodka, tomou a palavra:   Minha senhora, não sabe que não pode servir bebidas alcoólicas a adolescentes?

            ‑ Más eu não lhe servi bebida alcoólica nenhuma! Ele só bebeu uma limonada!

            ‑ Vi muito bem o que é que lhe estava a deitar para dentro da limonada!

            ‑ O que é que está para aí a dizer?, exclamou Tereza.

            ‑ Outro vodka, ordenou o careca e acrescentou: "Já a trago debaixo de olho há muito tempo.

            ‑ Pois dê‑se por muito feliz por poder olhar para uma mulher bonita e cale mas é o bico!ރ, interveio um homem alto que, entretanto, se tinha aproximado do balcão e assistira à cena toda.

             Não tem nada que se meter onde não é chamado! Isto não é da sua conta!, berrou o careca.

            ‑ E você, pode‑me explicar o que é que tem a ver com isto?ރ, perguntou o homem alto.

            Tereza serviu ao careca o vodka que o careca tinha pedido. Ele bebeu‑o de um trago, pagou e saiu.

             Agradeço‑lhe muito, disse Tereza ao homem alto.

            ‑ Não tem de quêރ, disse o homem alto, que, por sua vez, também se foi embora.

 

            Alguns dias mais tarde, voltou a aparecer no bar. Ao vê‑lo, ela sorriu‑lhe como a um amigo: ރTenho que voltar a agradecer‑lhe. Aquele careca está cá sempre caído e é tremendamente desagradável.

            ‑ Não pense mais nisso!

            ‑ Porque é que no outro dia ele estaria a embirrar comigo?

            ‑ Não passa de um bêbado! Peço‑lhe mais uma vez: não pense mais nisso!

            ‑ Já que é você que mo pede, vou mesmo deixar de pensar.ރ

            O homem alto olhava‑a nos olhos: ރTem que me prometer.

            ‑ Prometo‑lhe.


            ‑ Gosto de a ouvir prometer‑me alguma coisaރ, disse o homem alto sem deixar de olhá‑la nos olhos.

            Estavam em plena coquetterie: aquele comportamento que deve sugerir que a aproximação sexual é possível, mesmo que se trate apenas de uma eventualidade sem garantias e absolutamente teórica.

            "o que é que uma mulher como você faz no bairro mais feio de Praga?, perguntou ele.

            ‑ E você? O que é que o traz aqui, ao bairro mais feio de Praga? ރ

            Ele disse‑lhe que morava perto, que era engenheiro e que da outra vez tinha entrado perfeitamente por acaso ao voltar do emprego.

 

            Ela olhava para Tomas. O seu olhar não se dirigia para os olhos dele, mas uns dez centímetros mais para cima, para os cabelos dele que cheiravam ao sexo de outra.

            Disse: <<Não posso mais, Tomas. Bem sei que não tenho o direito de me queixar. Desde que voltaste para Praga por minha causa proibi‑me a mim própria de ter ciúmes. Não quero ter ciúmes, mas não consigo dominar‑me, não tenho força suficiente. Ajuda‑me, por favor! ރ

            Ele deu‑lhe o braço e levou‑a a um largo onde, uns anos antes, costumavam ir passear. O largo tinha bancos: azuis, amarelos, vermelhos. Sentaram‑se e Tomas disse‑lhe:

            "Eu compreendo‑te. Sei o que é que tu queres. Já tratei de tudo. Agora, tens de ir ao Monte‑de‑Pedra.ރ

            Sentiu‑se imediatamente invadida pela angústia. ރAo Monte‑de‑Pedra? O que é que eu vou fazer ao Monte‑de‑Pedra?

            ‑ Sobes lá acima e logo vês.ރ

            Ela não tinha vontade nenhuma de ir‑se embora; o seu corpo estava tão fraco que não conseguia despregar‑se do banco. Mas não podia desobedecer a Tomas. Fez um esforço para se levantar.

            Voltou‑se para trás. Ele continuava sentado no banco e sorria‑lhe quase com alegria. Acenou‑lhe com a mão, certamente para lhe dar coragem.

 

            Ao chegar ao Monte‑de‑Pedra, uma colina verdejante que se ergue no centro de Praga, percebeu com espanto que não estava lá

ninguém. Era estranho porque habitualmente, e seja a que horas

for, as suas áleas estão sempre cheias de gente que lá vai apanhar

ar. Sentia‑se extremamente angustiada, mas o monte estava tão silencioso e o silêncio era tão tranqüilizante que se entregava confiadamente a ele. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás.

A seus pés, descobria‑se uma infinidade de torres e de pontes. Os

santos, com os seus olhos petrificados e postos nas nuvens, erguiam

ameaçadoramente os punhos. Era a cidade mais bonita do mundo.

            Chegou ao cimo. Por trás dos pavilhões onde habitualmente se

vendiam gelados, postais e bolos (naquele dia não havia vendedores), estendia‑se a perder de vista um enorme relvado pontuado, aqui e além, por algumas árvores. Viu lã alguns homens. Quanto mais perto estava deles, mais devagar andava. Eram seis. Ou estavam parados ou caminhavam lentamente de trás para a frente e da frente para trás, um pouco como se fossem jogadores de golfe a examinar o relevo do terreno, a tomar o peso ao taco e a concentrar‑se para o início do torneio.

            Por fim, sempre acabou por chegar ao pé deles. Tinha a certeza que três estavam ali exatamente para o mesmo que ela. Intimidados, davam a impressão de querer fazer uma data de perguntas, mas também de ter medo de incomodar, de forma que preferiam estar calados a olhar em torno de si com um ar perplexo.

            Dos outros três irradiava uma indulgente bonomia. Um destes três tinha uma espingarda na mão. Ao ver Tereza, fez‑lhe sinal e sorriu: Sim, é aqui.ރ

            Cumprimentou‑o com a cabeça e sentiu‑se terrivelmente mal.

            O homem acrescentou: "Para que não haja enganos, é mesmo de   sua vontade?ރ

            Era fácil dizer: cNão, não venho de livre vontadeރ; mas trair a   confiança de Tomas era uma coisa impensável. Que desculpa iria   invocar quando chegasse a casa? De modo que disse: cClaro. Evidentemente. É de minha livre vontade.ރ

            O homem da espingarda prosseguia: ރQuero que compreendam   porque é que eu lhes faço esta pergunta. Só fazemos isto quando   temos a certeza de que os que vêm ter conosco estão expressa  mente decididos a morrer. É um serviço que lhes prestamos.ރ

            O seu olhar interrogativo continuava pousado em Tereza e esta sentiu que tinha de voltar a confirmar‑lhes a sua resolução: ރNão, não tenham receio! Vim de livre vontade.

            ‑ Quer ir em primeiro lugar?ރ, perguntou ele.

            Ela queria retardar a execução, nem que fosse só por alguns instantes. Não, por favor, não quero. Se fosse possível, gostava de ir em último lugar.

            ‑ Como queiraރ, disse o homem, e aproximou‑se dos outros. Os seus dois assistentes não tinham arma nenhuma e só ali estavam para se ocupar das pessoas que iam morrer. Agarravam‑nas pelo braço e acompanhavam‑nas na sua caminhada pelo relvado. Era uma imensa superfície coberta de relva que se estendia a perder de vista. Os candidatos à execução podiam escolher a árvore que queriam para si. Paravam, olhavam demoradamente e não conseguiam tomar uma decisão. Por fim, dois escolheram plátanos, mas o terceiro, não encontrando árvore que fosse digna da sua morte, foi‑se afastando cada vez mais para longe. O assistente, que lhe agarrava displicentemente no braço, acompanhava‑o sem dar qualquer sinal de impaciência, mas em breve ele perdeu a coragem de avançar e parou perto de um bordo frondoso. Os assistentes vendaram os olhos dos três homens.

            No imenso relvado havia portanto três homens encostados a três  troncos de árvores, cada um deles com uma venda nos olhos e a cabeça voltada para cima.

            O homem da espingarda fez pontaria e disparou. A parte o canto dos pássaros, não 'se ouviu mais barulho nenhum. A espingarda estava munida com um silenciador. Só se via que o homem encostado ao bordo já não se agüentava em pé.

            Sem se afastar do local onde se encontrava, o homem da espingarda voltou‑se noutra direção e, por seu turno, a personagem encostada ao plátano começou a dobrar‑se sobre si própria no meio de um silêncio absoluto, e alguns instantes mais tarde (o homem da espingarda girava sobre si próprio) o terceiro candidato à tortura também caiu sobre a relva.

 

            Sem dizer palavra, um dos assistentes aproximou‑se de Tereza. Trazia uma venda azul escura na mão.

            Ela percebeu que ele lhe queria vendar os olhos. Abanou a cabeça e disse: "Não, eu quero ver tudo.ރ

            Mas na verdade não era por isso que não queria que lhe vendassem os olhos. Não tinha nada daqueles heróis que olham decididamente para o pelotão de fuzilamento de olhos nos olhos. Tentava era retardar um pouco o momento da morte. Estava convencida de que, a partir do instante em que tivesse os olhos vendados, se encontraria já na antecâmara da morte, donde já não haveria esperança de regresso.

            O homem não tentou forçá‑la e agarrou‑a pelo braço. Caminhavam pelo imenso relvado e Tereza nunca mais se decidia a escolher a árvore junto da qual morreria. Ninguém a obrigava a ter pressa, mas ela sabia que, acontecesse o que acontecesse, não podia escapar. Vendo à sua frente um castanheiro em flor, aproximou‑se dele. Encostou‑se ao tronco e levantou a cabeça: viu a folhagem atravessada pelos raios de sol e, muito ao longe, ouviu a cidade a murmurar debilmente, docemente, como se o seu murmúrio fosse o rumor de mil e um violinos a tocar:

            O homem ergueu a espingarda.

            Ela já tinha perdido a coragem toda. Sentia‑se desesperada com a sua fraqueza, mas não conseguiu dominá‑la. Disse: ރNão! Não é de minha livre vontade!ރ

            O homem baixou imediatamente o cano da espingarda e disse, com toda a calma: cSe não é de sua livre vontade, não podemos fazê‑lo. Não temos esse direito.ރ

            Sua voz era amável, como se pedisse desculpas de não poder matá-la contra sua vontade. Essa delicadeza cortava o coração de Tereza; ela virou o rosto de encontro à casca da árvore e explodiu em soluços.

 

            Com o corpo sacudido pelos soluços, abraçava‑se à árvore, como se aquilo não fosse uma árvore mas o pai que perdera, o avô que nunca conhecera, o bisavô, o trisavô, cm homem infinitamente 'velho, vindo das mais longínquas profundezas do tempo para lhe oferecer o seu rosto sob a máscara da casca rugosa de uma árvore.

            Voltou‑se. Os três homens já estavam longe, caminhavam para diante e para trás sobre o relvado como jogadores de golfe, e era isso mesmo, era exatamente um taco de golfe que fazia lembrar a espingarda na mão daquele que estava armado.

            Descia as áleas do Monte‑de‑Pedra e levava no fundo da alma a recordação nostálgica do homem que devia tê‑la fuzilado e não o fizera. Tinha necessidade dele. Tinha necessidade de alguém que pudesse ajudá‑la no fim! Tomas não a ajudaria. Tomas queria que ela morresse. Só outro homem podia ajudá‑la!

            Quanto mais perto estava da cidade, mais forte era essa sua espécie de nostalgia por aquele homem e mais forte era o medo que sentia de Tomas. Ele não lhe perdoaria não ter cumprido a sua promessa. Não lhe perdoaria ter perdido a coragem e tê‑lo traído. Já se encontrava na rua onde moravam e sabia que, de um momento para o outro, ele iria aparecer. Foi uma idéia que a pôs em pânico; deu‑lhe dores de estômago, deu‑lhe vontade de vomitar.

 

            O engenheiro convidara‑a para ir a casa dele. Já dissera que não duas vezes. Desta vez, aceitara.

            Almoçou, como de costume, em pé, na cozinha e saiu. Tinham acabado de dar duas horas.

            Aproximava‑se do sítio onde ele morava e sentia que as suas pernas, privadas do impulso da vontade, se punham por si sós a afrouxar a passada.

            Depois pensou que, na realidade, era Tomas que a fazia ir a casa desse tipo. Pois não era ele que passava o tempo a explicar‑lhe que o amor e a sexualidade não têm nada em comum? Só ia à procura da confirmação das suas palavras. Parecia‑lhe ouvir a voz dele a dizer‑lhe: <Eu compreendo‑te. Sei o que é que tu queres. Já tratei de tudo. Sobes lá acima e logo vês.ރ

            Sim, na verdade não fazia senão executar as ordens de Tomas.

            Não queria ficar senão um momento em casa do engenheiro, senão o tempo de tomar um café, senão o tempo de descobrir o que é que acontece quando se avança até à fronteira da infidelidade. Queria empurrar o corpo até essa fronteira, deixá‑lo lá, como num pelourinho, apenas por um instante e depois, no momento em que o engenheiro tentasse tomá‑la nos braços, diria, como dissera ao homem da espingarda no monte de pedra: ރNão, não! não é de minha livre vontade!ރ

            E o homem baixaria o cano da espingarda e diria com uma voz doce: <"Se não é de sua livre vontade, não podemos fazê‑lo. Não temos esse direito.ރ

            Virar‑se‑ia para o tronco da árvore e desataria a soluçar.

 

            Era um prédio do começo do século que ficava num bairro operário dos subúrbios de Praga. Penetrou num corredor de paredes caiadas e muito sujas. Subiu até ao primeiro andar pelos degraus usados de uma escada de pedra com corrimão de metal. Virou à esquerda. Era a segunda porta. Não tinha nem cartão‑de‑visita nem campainha. Bateu.

            Ele veio abrir.

            A casa compunha‑se de uma única divisão cortada por um cortinado a dois metros da porta para dar a ilusão de que havia outra sala à entrada; aí estavam uma mesa com um fogareiro e um pequeno frigorífico. Avançando para dentro, apareceu‑lhe o retângulo vertical da janela na extremidade de uma divisão estreita e comprida; de um lado, havia estantes, do outro, um divã e um único sofá.

            ރÉ tudo muito simples cá em casa, disse o engenheiro. Espero que não se importe.

            ‑ Claro que não>, disse Tereza com os olhos pregados na parede inteiramente coberta de estantes cheias de livros. O tipo não tinha sequer uma mesa digna desse nome, mas tinha centenas de livros. Foi uma coisa que acalmou Tereza; a angústia que a acompanhara até aqui começava a desvanecer‑se. Desde criança que via no livro o santo‑e‑senha de uma irmandade secreta. Quem tinha uma biblioteca assim não podia fazer‑lhe mal.

            Ele perguntou‑lhe o que é que lhe podia oferecer. Vinho?

            Não, ‑não; não queria vinho. Se tomasse alguma coisa, seria café.

            Ele desapareceu por trás do cortinado e ela aproximou‑se das estantes. Estava lá um livro que a fascinava. Era uma tradução do Rei Édipo de Sófocles. Era tão estranho encontrar esse livro em casa daquele desconhecido! Uns anos antes, Tomas oferecera‑o a Tereza pedindo‑lhe para o ler com toda a atenção, e falara‑lhe demoradamente dele. Publicara em seguida as suas reflexões num jornal e fora precisamente esse artigo que alterara radicalmente a vida de ambos. Olhava para a lombada do livro e ia‑se acalmando. Era como se Tomas ali tivesse deixado deliberadamente o rasto ou uma mensagem que significava que tinha sido tudo arranjado por ele. Pegou no livro e abriu‑o. Quando o homem alto voltasse, havia de perguntar‑lhe porque é que tinha esse livro, se já o tinha lido e o que é que pensava dele. Assim, através dessa artimanha, passaria do perigoso território da casa do desconhecido para o universo familiar

das idéias de Tomas.

            Sentiu uma mão no ombro. O homem tirou‑lhe o livro da mão, arrumou‑o em silêncio na biblioteca e conduziu‑a até ao divã.

            Voltou a pensar na frase que dissera ao homem do Monte‑de‑Pedra. Desta vez, pronunciou‑a em voz alta: ރNão, não! Não é de minha livre vontade!ރ

            Estava convencida de que aquilo era uma fórmula encantada que ia resolver imediatamente a situação, mas naquele quarto as palavras perderam o seu poder mágico. Por mim, penso mesmo que incitaram o homem a mostrar‑se ainda mais firme: apertou‑a contra ele e pôs‑lhe a mão sobre um seio.

            Coisa estranha: esse contacto libertou‑a imediatamente da angústia que sentia. Como se, com esse contacto, o engenheiro lhe tivesse mostrado o seu próprio corpo e ela tivesse compreendido que o que estava em jogo não era ela (ou seja, a sua alma), mas única e exclusivamente o seu corpo. Esse corpo que a traíra e que ela expulsara para longe de si, para junto dos outros corpos.

 

            O homem desabotoou‑lhe um botão da blusa e, com um gesto, mandou‑a continuar. Não obedeceu. Expulsara o seu corpo para longe de si, mas não queria assumir nenhuma responsabilidade por ele. Não se defendia, mas também não o ajudava. Era a sua alma que estava a mostrar .que, embora reprovando o que se estava a passar, decidira manter‑se neutra.

            Ele despia‑a e, enquanto isso, Tereza encontrava‑se quase inerte. Quando a beijou, os seus lábios não lhe responderam. Depois, apercebeu‑se subitamente e com consternação de que tinha o sexo molhado.

            Sentia‑se excitada e tanto mais excitada quanto era contra sua vontade. A alma dava já secretamente o seu aval a tudo o que estava a passar‑se, mas, ao mesmo tempo, também sabia que, para prolongar essa grande excitação, o seu assentimento deveria manter‑se tácito. Se tivesse dito sim em voz alta, se tivesse aceitado expressamente participar na cena de amor, a excitação teria desaparecido. Porque o que excitava a alma era precisamente ser traída pelo corpo que agia contra sua vontade, e, ao mesmo tempo, assistir a tal traição.

            Depois, o homem tirou‑lhe as cuecas; agora, estava completamente nua. A alma via o corpo desnudado nos braços do desconhecido e o espetáculo parecia‑lhe tão incrível como contemplar de perto o planeta Marte. Iluminado pelo inverossímil, o corpo perdia pela primeira vez a sua banalidade; pela primeira vez, olhava‑o com uma espécie de encantamento mágico, pois tudo o que constituía a sua singularidade e o tomava único e inimitável se encontrava projetado para primeiro plano. Deixara de ser o corpo mais vulgar de todos (era assim que o via até agora), para tornar‑se o mais extraordinário dos corpos. A alma não conseguia desprender os olhos da pinta acastanhada do sinal de nascença que tinha logo acima dos pêlos; via nesse sinal o selo com que ela própria (a alma) marcara o corpo, e o movimento do membro estranho tão perto desse estigma parecia‑lhe um sacrilégio.

            E quando levantou os olhos e viu a cara dele, lembrou‑se de que nunca aceitara que o corpo, onde a alma gravara a sua assinatura, pudesse encontrar‑se nos braços de alguém que não conhecesse e não quisesse vir a conhecer. Ficou aturdida de ódio. Puxou a saliva aos lábios para lhe cuspir na cara. Observavam‑se ambos com a mesma avidez; ele apercebeu‑se da cólera dela e precipitou os movimentos. Tereza, sentindo ao longe a volúpia a começar a invadi‑la, pôs‑se a gritar: <Não, não, nãoރ, resistia ao prazer que se aproximava e, ao resistir‑lhe, a volúpia reprimida irradiava longamente por todo o seu corpo, que não lhe deixava qualquer saída por onde se escapar; o prazer propagava‑se nela como morfina injetada numa veia. Debatia‑se nos braços do homem, batia às cegas no ar e cuspia‑lhe na cara.

 

            As privadas das casas de banho modernas erguem‑se do chão co; mo uma flor branca de nenúfar. Os arquitetos fazem os impossíveis   para que o corpo esqueça a sua miséria e para que o homem não   saiba o que acontece às dejeções das suas vísceras quando a água   do autoclismo, a gorgolejar, as expulsa da vista. Embora os seus   tentáculos se prolonguem até nossas casas, os canos de esgoto estão   sempre cuidadosamente disfarçados e por isso não sabemos absolutamente nada a respeito das invisíveis Venezas de merda sobre as quais se encontram construídas as nossas casas de banho, os nossos quartos, os nossos salões de baile e os nossos parlamentos.

            As casas de banho daquele velho prédio de um bairro operário   dos subúrbios de 'Praga eram menos hipócritas; do chão, de ladrilhos   cinzentos, erguia‑se, órfã e miserável, a privada. Não fazia lembrar

  uma flor de nenúfar, mas, pelo contrário, evocava o que, na realidade,   era: o sítio onde um cano terminava e o seu diâmetro se alargava. Nem sequer tinha um tampo de madeira e Tereza teve de sentar‑se diretamente na louça esmaltada. Sentiu um arrepio de frio.

            Estava sentada na privada e a vontade de esvaziar os intestinos que lhe , tinha dado de repente era o desejo de ir até ao extremo da humilhação, de   ser o mais possível e tão totalmente quanto possível um corpo, esse corpo   de que a mãe dizia sempre que só servia para digerir e evacuar. Tereza ; esvaziava os intestinos e sentia uma tristeza e uma solidão infinitas.

            Nada há de mais miserável que o seu corpo nu sentado na embocadura de um cano de esgoto. A alma perdeu já a sua curiosidade I de espectador, a sua malevolência e o seu orgulho; voltou a retirar  ‑se para o mais recôndito do corpo. Espera desesperadamente que voltem a chamar por ela.

 

            Levantou‑se da privada, puxou o autoclismo e voltou para a entrada da casa. A alma tremia dentro do corpo nu e rejeitado. Ainda sentia no ânus o contacto do papel com que se limpara.

            Aconteceu então qualquer coisa de inesquecível: teve vontade de ir ter com ele ao quarto e de ouvir a sua voz, o seu apelo. Se ele lhe falasse com uma voz doce e grave, a alma teria a ousadia de voltar à superfície do corpo, e ela desataria a chorar. Abraçar‑se‑ia a ele como se abraçara em sonhos ao tronco do castanheiro. Encontrava‑se na entrada e esforçava‑se por dominar aquele imenso desejo de se desfazer em lágrimas à frente dele. Se não o dominasse, sabia que aconteceria precisamente o que não queria. Apaixonar‑se‑ia.

            Nesse momento, uma voz vinda do fundo do estúdio chegou até ela. Ao ouvir essa voz desencarnada (em ver ao mesmo tempo o corpo alto do engenheiro), teve um sobressalto: era uma voz fininha e aguda. Como é que nunca tinha reparado nisso?

            Foi graças à impressão desconcertante e desagradável que a sua voz lhe causou que pôde vencer a tentação. Voltou para o quarto, apanhou o fato, vestiu‑se e saiu.

 

            Voltava das compras com Karenine, que trazia um croissant na boca. Estava uma manhã fria, com um bocado de geada. Caminhava ao longo de um bairro onde, entre as casas, havia enormes parcelas divididas em minúsculos campos cultivados e pequenos jardinzinhos. Karenine estacou; olhava fixamente numa certa direcção. Tereza olhou para esse lado mas não reparou em nada de especial. Karenine puxou‑a e ela deixou‑se levar. Por fim, acima do barro gelado de um canteiro vazio, viu emergir a cabecita preta de

uma gralha de bico comprido. A cabecita sem corpo agitava‑se debilmente e, de tempos a tempos, o bico emitia um som triste é roufenho.

            Karenine estava tão excitado que deixou cair o croissant. Para ele não fazer mal à gralha, Tereza prendeu‑o a uma árvore. Depois, ajoelhou‑se e tentou cavar a terra calcada à volta do corpo do pássaro enterrado vivo. Não era uma operação fácil. Partiu uma unha; ficou a sangrar.

            Nesse momento, caiu uma pedra ao seu lado. Levantou os olhos e viu dois garotos de pouco mais de dez anos na esquina de uma casa. Levantou‑se. Quando viram a sua reação e o cão atado à árvore, os miúdos fugiram.

            Voltou a ajoelhar‑se no chão para cavar o barro e sempre acabou por conseguir libertar a gralha da sua sepultura. Mas a ave estava paralisada e não conseguia andar nem voar. Envolveu‑a com o cachecol vermelho que trazia ao pescoço, pegou‑lhe com a mão esquerda e apertou‑a contra o corpo. Com a mão direita, desprendeu Karenine da árvore e teve de apelar para todas as suas forças para conseguir acalmá‑lo e mantê‑lo encostado às pernas.

            Como não tinha mão para tirar a chave do bolso, tocou à porta. Tomas veio abrir. Estendeu‑lhe a trela de Karenine. ރSegura‑o!ރ, ordenou‑lhe, e levou a gralha para a casa de banho. Pousou‑a no chão por baixo do lavatório. A gralha debatia‑se mas não se podia mexer. Escorria‑lhe do corpo um líquido espesso e amarelado. Para ela não sentir o frio dos mosaicos, Tereza fez‑lhe uma caminha com trapos velhos debaixo do lavatório. O pássaro agitava desesperadamente a asa paralisada; o seu bico erguia‑se como uma acusação.

 

            Estava sentada na borda da banheira e não conseguia despregar os olhos da gralha agonizante. A sua pobre solidão parecia‑lhe a imagem do seu próprio destino e só pensava: ރNão tenho ninguém

  no mundo, ninguém a não ser o Tomas.ރ


            Teria aprendido com o caso do engenheiro que as aventuras amorosas não têm nada a ver com o amor? Que são leves e não pesam nada? Sentir‑se‑ia mais calma? Longe disso. Havia uma cena que a obcecava: acaba de sair da casa de banho e o seu corpo está pregado ao chão da entrada, nu e abandonado. A alma, apavorada, treme‑lhe nas entranhas. Se, naquele instante, do fundo do quarto, o homem se tivesse dirigido à sua alma, teria desatado a soluçar, ter‑lhe‑ia caído nos braços. Pôs‑se a imaginar que, em vez dela, era uma amiga de Tomas que estava na entrada ao pé da casa de banho e que, em vez do engenheiro, era Tomas que estava no quarto. A uma palavra sua, a uma simples palavra sua, a mulher lançar‑se‑ia a chorar nos seus braços.

            E com isso que se parece, Tereza sabe‑o bem, o instante em que o amor nasce; a mulher não resiste à voz que chama pela sua alma apavorada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz. Tomas nunca estará livre de cair na armadilha do amor e hora a hora, minuto a minuto, Tereza não pode senão tremer por ele.

            Qual a sua única arma? A fidelidade. A sua fidelidade que lhe ofereceu desde o início, desde o primeiro dia, como se tivese percebido imediatamente que não tinha mais nada para lhe dar. O amor deles é uma arquitetura estranhamente assimétrica: repousa sobre a certeza absoluta da fidelidade de Tereza como um palácio gigantesco sobre um único pilar.

            Agora, a gralha deixara praticamente de agitar as asas; apenas agitava debilmente a sua pata martirizada e partida. Tereza não queria deixá‑la, era como estar a velar à cabeceira de uma irmã moribunda. Mas acabou por decidir‑se e foi almoçar à pressa à cozinha.

            Quando voltou, a gralha já tinha morrido.

 

            No primeiro ano da sua ligação com Tomas, enquanto fazia amor, Tereza gritava e, como já disse uma vez, esse grito era uma tentativa para cegar e ensurdecer os sentidos. Depois, passou a gritar menos, mas a sua alma continuava cega pelo amor e não via nada. Quando fora pára a cama com o engenheiro, como o amor não estava presente, a sua alma pudera finalmente ver claro.

            Voltara ao sauna e encontrava‑se de novo em frente do espelho. Olhava para si própria e revia mentalmente a cena de amor em casa do engenheiro. Lembrava‑se da cena, mas não do amante. Para dizer a verdade, não seria sequer capaz de descrevê‑lo, talvez nem tivesse reparado em como é que ele era todo nu. A única coisa de que se lembrava (e para a qual olhava agora com excitação em frente ao espelho) era do seu próprio corpo; dos pêlos do púbis e do sinal redondo logo acima deles. Esse sinal, que até agora nunca fora para ela senão um simples defeito cutâneo, tinha‑lhe ficado para sempre gravado na memória. Queria vê‑lo e tornar a vê‑lo na incrível proximidade do membro do estranho.

            Mas volto a sublinhá‑lo: não sentia qualquer vontade de ver o sexo do desconhecido. Queria era ver o seu púbis ao pé do membro estranho. Não desejava o corpo do amante. Desejava era o seu próprio corpo, subitamente revelado, tanto mais excitante quanto mais próximo e estranho.

            Olha para o corpo coberto das minúsculas gotas da água do duche, pensa que, mais dia menos dia, o engenheiro há‑de voltar a passar pelo bar. Apetece‑lhe que ele venha, apetece‑lhe que a convide para ir a casa dele! Ah! Como isso lhe apetece!

            O homem tentou prender o colar entre os dedos:   Lembre‑se que, cá, a prostituição é proibida!ރ

            Karenine pôs‑se de pé. apoiou as patas da frente na mesa e rosnou.

            Dia após dia, tinha medo de ver o engenheiro aparecer ao balcão e de não ter força suficiente para dizer   nãoރ. À medida que os dias iam passando, o receio de que ele aparecesse ia sendo substituído pelo receio de que afinal já não viesse.

            Já passara um mês e o engenheiro continuava a não dar sinal de vida. Tereza não sabia como explicar tal coisa. De súbito, deixou de ter qualquer espécie de desejo. Ficou inquieta: porque é que ele não

viria?

            Encontrava‑se a servir uns clientes. O careca que, na outra noite, a tinha acusado de servir bebidas alcoólicas a menores, estava lá outra vez. Contava alto e bom som uma história porca, uma história que ela já ouvira centenas de vezes na província na boca dos bêbados a quem servia cervejas. Sentindo‑se de novo assaltada pelo universo da mãe, interrompeu‑o brutalmente.

            O homem ficou humilhado:   Você não tem nada que me dar ordens! Deve dar‑se é por muito feliz por nós a deixarmos trabalhar neste bar.

            ‑ Nós? Mas nós, quem?

            ‑ Nós, disse o homem, e mandou vir outro vodka. E lembre‑se de que não vou aceitar insultos da sua parte.

            Depois, apontando para o pescoço de Tereza, que usava vários colares de perolas baratas: ''Donde vieram essas pérolas? É claro que são presente de seu marido, que é um lavador de janelas. Ele não lhe pode dar pérolas com o salário que ganha. São os fregueses que dão isso? Em troca de que, hein?

            - Cale a boca, e já! gritou Tereza.

            O homem tentou segurar o colar entre os dedos: ''Lembre-se de que, cá, a prostituição é proibida!”

            Karenine pôs-se de pé. apoiou as patas da frente na mesa e rosnou.

 

            O embaixador disse: “Era um policial”

            ‑ Se é um policial, tinha obrigação de ser mais discreto, fez notar Tereza. Para que é que serve uma polícia secreta que já não se esconde?ރ

            O embaixador sentou‑se no divã com os pés debaixo do traseiro como aprendera no ioga. Na parede, Kennedy sorria da sua moldura e conferia às suas palavras uma espécie de consagração.

            cSenhora D. Teresa, disse num tom paternal, os policiais têm diversas funções. A primeira é clássica. Ouvem o que as pessoas dizem e relatam‑no aos seus superiores.

            cA segunda é uma função de intimidação. Mostram‑nos que nos têm à sua mercê e querem que nós tenhamos medo. Era o que o seu careca pretendia.

            cA terceira função consiste em encenar situações que nos podem comprometer. Acusar‑nos de conspirar contra o Estado já não interessa a ninguém porque só conseguiriam tornar‑nos mais populares.

Preferem encontrar haxixe nas nossas algibeiras ou provar‑nos que violamos uma rapariguinha de doze anos. Hão‑de arranjar sempre uma miúda que lhes sirva de testemunha.ރ

            Tereza lembrou‑se do engenheiro. Como explicar que nunca mais tivesse voltado?

            O embaixador continuava: ރFazem uma pessoa cair numa armadilha para ficarem com ela na mão e poderem utilizá‑la para montar uma armadilha a outra, e sempre assim por diante, até transformarem a pouco e pouco um povo inteiro numa imensa organização de denunciantes.ރ

            Tereza estava obcecada pela idéia de que o engenheiro tinha sido mandado pela polícia. E quem seria aquele estranho rapaz que tinha ido embebedar‑se para a tasca do outro lado da rua e voltara para lhe fazer declarações de amor? Por sua causa é que o policial se tinha posto a embirrar com ela e que o engenheiro a tinha defendido. Todos os três tinham desempenhado um papel numa peça preparada com antecedência para a fazer simpatizar com o homem que estava encarregado de a seduzir.

            Como é que ainda não tinha pensado nisso? Aquela casa tinha algo de equívoco e destoava completamente do dono. Porque é que um engenheiro tão bem vestido havia de morar numa casa tão miserável? Mas ele seria mesmo engenheiro? Se fosse, como é que podia não estar no emprego às duas horas da tarde? E como é que um engenheiro pode ler Sófocles? Não, aquilo não era uma biblioteca de engenheiro! Aquele quarto parecia mas era uma casa confiscada a um intelectual pobre que tivesse sido preso. Quando tinha dez anos, o seu pai fora preso e também lhe confiscaram o apartamento e a biblioteca. Vá‑se lá saber para que é que a casa tinha servido depois!

            Agora, percebia claramente porque é que ele nunca mais voltara. Já tinha cumprido a sua missão. E que missão era essa? Fora o que, sem querer, o policial careca revelara quando dissera: cCá, agora, a prostituição é proibida, lembre‑se bem disso!ރ O suposto engenheiro testemunharia que tinha ido para a cama com ela e que ela lhe pedira dinheiro! Ameaçá‑la‑ia com um escândalo e obrigá‑la‑ia a denunciar as pessoas que vinham embebedar‑se ao‑ bar.

            O embaixador tentava tranqüilizá-la: ރCá por mim, não acho a sua aventura nada perigosa.

            ‑ Talvez nãoރ, disse Tereza, com a voz estrangulada, e, na companhia de Karenine, saiu para o escuro das ruas de Praga.

 

            A maior parte das vezes, para escapar ao sofrimento refugiamo‑nos no futuro. Julgamos que a pista do tempo tem uma linha marcada para lá da qual o sofrimento presente há‑de cessar. Mas Tereza não conseguia ver essa linha à sua frente. Só olhando para trás descobria alguma consolação. Era mais uma vez domingo; meteram‑se no automóvel para sair de Praga.

            Tomas ia ao volante ao lado de Tereza e Karenine no banco de trás, sentado; de vez em quando, chegava‑se para a frente para lhes lamber as orelhas. Ao fim de duas horas, chegaram a umas termas onde tinham passado alguns dias juntos há cinco ou seis anos. Tencionavam dormir lá.

            Estacionaram o carro na praça e saíram. Estava tudo na mesma. Em frente, com a sua velha ti ia à entrada, ficava o hotel onde se tinham hospedado nesse ano. Para a esquerda do hotel estendiam‑se velhas

arcadas em madeira e uma fonte com uma bacia de mármore. Tal como dantes, havia pessoas lá debruçadas, cada uma com o seu copo na mão.

            Tomas apontava para o hotel. Afinal, sempre tinha mudado qualquer coisa. Dantes, aquilo era o Grande Hotel e agora, conforme indicava o letreiro, era o Hotel Baikal. Olharam para a placa da esquina: aquela era a Praça de Moscovo. Em seguida (com Karenine sozinho atrás, sem trela) percorreram todas as ruas que conheciam para saber como é que se chamavam agora: havia a Rua de Estalinegrado, a Rua de Leninegrado, a Rua de Rostov, a Rua de Novossibirsk, a Rua de Kiev, a Rua de Odessa, e havia a casa de repouso Piotr Tchaïkovski, a casa de repouso Tolstoï, a casa de repouso Rimski‑Korsakov, havia o Hotel Suvarov, o Cinema Gorki e o Café Puchkine. Eram só nomes russos ou alusivos à história da Rússia.

            Tereza lembrava‑se dos primeiros dias da invasão. As pessoas tinham roubado as placas de todas as ruas e os sinais de todas as estradas. O país tornara‑se anônimo numa só noite. Durante sete dias, o exército russo errara por todo o país sem saber onde estava. Os oficiais queriam ocupar as sedes dos jornais, da televisão, da rádio, mas não conseguiam localizá‑las. Perguntavam às pessoas, mas as pessoas encolhiam os ombros ou indicavam moradas falsas e apontavam numa direção errada.

            Com o passar dos anos, parecia que esse anonimato se tomara perigoso para o país. Mas nem as ruas nem as casas voltaram a recuperar os seus nomes originais. Assim, uma estação termal da Boêmia tomara‑se, da noite para o dia, numa pequena Rússia imaginária, e Tereza via‑se forçada a constatar que o passado que ali tinham ido procurar lhes fora confiscado. Impossível dormir em tal Sítio.

 

            Voltavam em silêncio para o carro. Tereza ia a pensar que agora tudo lhes aparecia debaixo de um disfarce: a velha cidadezinha da Boêmia cobrira‑se de nomes russos; os tchecos que tinham corajosamente fotografado a invasão estavam de fato a prestar um serviço à polícia secreta russa; o homem que queria que ela morresse aparecera‑lhe disfarçado com a máscara de Tomas; o polícia fizera‑se passar por engenheiro, e o engenheiro queria desempenhar o mesmo papel que o homem do Monte‑de‑Pedra. O livro que lá estava no apartamento era um sinal mentiroso; era só para despistar.

            Agora, ao pensar no livro que tivera na mão em casa daquele tipo, lembrou‑se subitamente de uma coisa que a fez corar. O engenheiro tinha‑lhe dito que ia fazer café. Ela aproximara‑se da estante e tirara o Rei Édipo de Sófocles. A seguir, o engenheiro voltara. Mas sem café nenhum!

            Examinava e tornava a examinar o que se tinha passado: quanto tempo se demorara ele fora do quarto quando desaparecera com o pretexto de ir fazer café? Um minuto, pelo menos, talvez dois, talvez mesmo três. O que poderia ele ter estado a fazer durante tanto tempo naquela minúscula entrada? Teria ido à casa de banho? Tereza tentava lembrar‑se se tinha ouvido a porta a fechar‑se ou o autoclismo a funcionar. Não, não tinha ouvido o autoclismo porque, se tivesse, de certeza que se lembrava. E também tinha quase a

certeza de não ter ouvido o barulho da porta. Então o que é que ele estaria a fazer na entrada?

            Tudo se tornava de súbito muito claro. Claro de mais, até. Para a apanharem na armadilha, o depoimento do engenheiro não era suficiente. Precisavam de uma prova irrefutável. Durante aquela longa ausência, longa de mais para não levantar suspeitas, ele instalara uma câmara na entrada. Ou então, o que era mais plausível, abrira a porta a um tipo munido de uma máquina fotográfica que depois, escondido atrás do cortinado, os tinha fotografado.

            Ainda há tão poucas semanas fizera pouco de Prochaska por ele não saber que vivia num campo de concentração onde a vida privada não é possível. Mas ela? Depois de deixar a casa da mãe, julgara, como uma pobre idiota, que passaria a ser de uma vez por todas dona e senhora da sua vida privada. Mas a casa da mãe estendia‑se pelo mundo inteiro e apanhava‑a em todo o lado. Tereza não poderia nunca escapar‑lhe em parte nenhuma.

            Desceram uma escadaria que havia no meio dos jardins, para voltarem à praça onde o carro estava estacionado.

            ރO que tens tu?ރ, perguntou Tomas.

            Antes de ter tempo de lhe responder, houve um homem que se aproximou deles e cumprimentou Tomas.

           

            Era um homem de cerca de cinqüenta anos com a cara burilada pelo vento, um camponês que Tomas tinha operado em tempos. A partir dessa operação, os médicos mandavam‑no todos os anos fazer

uma cura de águas àquelas termas. Convidou Tomas e Tereza para irem beber um copo. Como os cães não podiam entrar em recintos públicos, Tereza foi pôr Karenine ao carro e os dois homens ficaram à sua espera sentados a uma mesa do café. Quando Tereza voltou, o homenzinho estava a dizer: ރLá na minha terra, esteve sempre tudo muito calmo. Imagine que há dois anos eu até fui eleito presidente da cooperativa!

            ‑ Os meus parabéns!, disse Tomas.

            ‑ Como sabem, vivo numa zona rural. As pessoas querem todas sair de lá. Os que estão no poleiro têm de se dar por muito contentes quando ainda há gente que quer ficar. Não podem dar‑se ao luxo de nos expulsarem dos empregos!

            ‑ Era o sítio ideal para nós, disse Tereza.

            ‑ Minha querida senhora, havia de se aborrecer muito por lá. Não há nada para fazer, nada com que uma pessoa se entretenha. Absolutamente nada.ރ

            Tereza examinava atentamente aquela cara burilada pelo vento. Sentia uma viva simpatia pelo camponês. Até que enfim que encontrava alguém simpático! Começou a desenhar‑se‑lhe perante os olhos uma cena campestre: uma aldeia com o seu campanário, campos lavrados, florestas, uma lebre a escapar‑se por um rego, um guarda‑florestal de chapéu verde na cabeça. Nunca tinha vivido no campo. Construíra aquela imagem a partir do que as pessoas lhe tinham contado. Ou a partir dos livros que lera. Ou a partir daquilo que antepassados longínquos lhe tinham inscrito no subconsciente. E, no entanto, tinha essa imagem dentro de si, nítida e eloqüente como a fotografia de uma bisavó num álbum de família, ou como uma velha gravura.

            ރAinda tem dores?ރ, perguntou Tomas.

            O camponês apontou para o sítio onde o crânio se liga à coluna vertebral na parte de trás do pescoço: ރÀs vezes dói‑me aqui.ރ

            Sem se levantar da cadeira, Tomas apalpou o sítio que ele lhe acabara de mostrar e fez mais algumas perguntas. Depois disse: ރEu já não posso passar receitas. Mas, quando voltar para casa, diga a

um médico que falou comigo e que eu lhe recomendo que tome isto.ރ Tirou um bloco do bolso e arrancou uma folha onde escreveu o nome do remédio em maiúsculas.

 

Iam de regresso a Praga.

Tereza pensava na fotografia onde o se? corpo estava nu entre os braços do engenheiro. Tentava acalmar-se: mesmo admitindo que tal fotografia existisse, Tomas nunca a veria. Só tinha utilidade para eles se tencionassem pôr Tereza a denunciar pessoas. Se a mandassem a Tomas, perderia todo e qualquer valor.

Mas o que se passaria se os policiais decidissem que não tinham tempo a perder com Tereza? Nesse caso, a fotografia não seria para eles senão um motivo de risota e, se a um lhe apetecesse gozar, ninguém podia impedi-lo de a meter num envelope e de a mandar para a morada de Tomas. 0 que se passaria se Tomas recebesse uma fotografia como aquela?

Pô-la-ia na rua? Talvez não. Com certeza que não. Mas o frágil edifício do amor deles desmoronar-se-ia imediatamente porque esse edifício repousava sobre o pilar único da sua fidelidade e os amores são como os impérios: desaparecendo a idéia sobre a qual estão construídos, também eles desaparecem. Tinha uma imagem a bailar-lhe diante dos olhos: uma lebre a escapar-se por um rego, um guarda-florestal de chapéu verde na cabeça e o campanário de uma igreja a despontar por cima da floresta. Queria dizer a Tomas que deviam ir-se embora de Praga. Ir para longe das crianças que enterram gralhas vivas, para longe dos polícias, para longe das raparigas armadas de chapéus-de-chuva. Queria dizer-lhe que deviam ir viver para o campo. Que era a única salvação possível.

            Virou a cabeça. Mas Tomas continuava calado, com os olhos pregados na estrada. Ela sentia‑se incapaz de vencer o muro de silêncio que se erguia entre ambos. Estava exatamente no mesmo estado do dia em que voltara do Monte‑de‑Pedra. Tinha dores de estômago e vontade de vomitar. Tinha medo dele. Tomas era forte de mais para ela, e ela era fraca de mais. Só lhe dava ordens que ela não percebia. Bem se esforçava por executá‑las, mas não era capaz.

            Queria voltar ao Monte‑de‑Pedra e pedir ao homem da espingarda para a deixar pôr a venda nos olhos e encostar‑se ao tronco do castanheiro. Tinha vontade de morrer.

 

            Acordou e viu que estava sozinha em casa.

            Saiu e dirigiu‑se para os cais. Queria ver o Vltava. Queria ir para a beira do rio olhar para a água porque ver água a correr acalma e cura. O rio corre de século para século e as histórias dos homens desenrolam‑se nas suas margens. Amanhã ninguém se lembrará delas e, por sua causa, o rio não deixará nunca de correr.

            Apoiada na balaustrada, olhava para baixo. Encontrava‑se nos subúrbios de Praga, o Vltava já atravessara a cidade, deixando para trás de si o esplendor do palácio e das igrejas, como uma actriz depois da representação, lassa e pensativa. Corria entre margens sujas, entaipado por palissadas e muros; atrás havia fábricas e campos de jogos abandonados.

            Olhou durante muito tempo para a água que aqui ainda parecia mais triste, ainda mais sombria; depois, de repente, no meio do rio, viu aparecer um objeto estranho, um objeto vermelho, sim, era isso, era mesmo um banco. Um banco de madeira com pés de metal, como há tantos nos jardins de Praga. Vinha a flutuar lentamente pelo meio do Vltava. E atrás vinha outro banco. Depois outro, depois mais outro e Tereza acabou por perceber que estava a ver os bancos dos jardins públicos de Praga a sair da cidade ao sabor da corrente. Eram muitos, eram cada vez mais, flutuavam nas águas como as folhas no Outono quando as águas as levam para longe das florestas, e havia bancos vermelhos, havia bancos amarelos, havia bancos azuis.

            Voltou‑se para trás para perguntar às pessoas o que seria aquilo. Porque é que os bancos dos jardins públicos de Praga se iriam embora ao sabor da corrente? Mas as pessoas, com um ar indiferente, para elas pouco importava q um rio corresse, se século em século, no meio da sua efêmera cidade.

            Voltou a contemplar a água. Sentia-se infinitamente triste. Compreendia q o q via era um adeus. Um adeus à vida, q se despedia com o seu cortejo de cores.

            Os bancos tinham desaparecido do seu campo de visão. Ainda viu mais alguns, os últimos retardatários, depois ainda houve um banco amarelo, depois ainda outro, azul, o último.

 

O PESO E A LEVEZA

 

            Como já referi na primeira parte, quando Tereza veio a casa de Tomas sem prevenir, mal tinha acabado de chegar, já ele estava a fazer amor com ela. Depois, a rapariga ficou de cama com febre e Tomas postara‑se à sua cabeceira, convencido que ela era uma criança que alguém pusera numa cesta para lhe ser enviada ao sabor das águas.

            A partir de então, afeiçoara‑se à imagem da criança abandonada e pensava freqüentemente nos mitos antigos onde ela aparece. Foi com certeza por esse motivo que, um dia, pegou numa tradução do Rei Édipo de Sófocles.

            A história de Édipo é sobejamente conhecida: tendo encontrado um recém‑nascido abandonado, um certo pastor levou‑o ao rei Políbio que o criou. Já adulto, Édipo cruzou‑se um dia numa estrada de montanha com um carro de cavalos onde viajava um príncipe desconhecido. Gerou‑se uma discussão e Édipo matou o príncipe. Mais tarde, desposou a rainha Jocasta e tornou‑se rei de Tebas. Não fazia a mínima idéia que o homem que um dia matara nas montanhas era seu pai e a mulher com quem dormia, sua mãe. E, no entanto, o destino encarniçava‑se contra os seus súbditos, cobrindo‑os de pragas. Quando Édipo percebeu que o culpado dos seus males era ele, vazou os olhos com alfinetes e, cego para todo o sempre, deixou Tebas.

 

            Quem pensa que os regimes comunistas da Europa Central são exclusivamente obra de criminosos deixa na sombra uma verdade fundamental: é que os regimes comunistas não foram edificados por criminosos, mas por entusiastas, convencidos de que tinham descoberto a única via possível para o paraíso. E defendiam essa via com unhas e dentes, chegando inclusivamente a mandar matar muito boa

gente por causa disso. Mais tarde, tomou‑se claro como a luz do dia que o paraíso não existia e, portanto, que os entusiastas eram assassinos.

            Então todos caíram em cima dos comunistas: eles é que eram responsáveis pela desgraça do país (que se encontrava pobre e arruinado), pela perda da independência nacional (o país tinha caído sob a alçada dos russos), pelos homicídios judiciais!

            Os acusados respondiam: não sabíamos! Fomos enganados! Acreditávamos! Somos inocentes do fundo do coração!

            O debate resumia‑se, portanto, a uma questão: os comunistas não saberiam mesmo? Ou estavam só a fingir que não sabiam de nada?

            Tomas ia seguindo o debate (como outros dez milhões de tchecos), convencido que tinha forçosamente de haver comunistas ao corrente de alguma coisa (apesar de tudo, sempre deviam ter ouvido

falar dos honores que se tinham produzido e continuavam a produzir‑se na Rússia pós‑revolucionária). Mas também achava provável que a grande maioria não estivesse realmente ao corrente de nada.

            E pensava que a pergunta que devia ser feita não era: afinal, os comunistas sabiam ou não? Mas: alguém pode estar inocente só por não saber? Um imbecil sentado num trono pode ser desculpado de tudo só pelo fato de ser imbecil?

            Admitamos que o procurador checo, que no início dos anos cinqüenta pedia a pena de morte para um inocente, tenha sido de fato enganado pela polícia secreta russa e pelo Governo do seu país. Mas agora que toda a gente sabia que as acusações eram absurdas e que os supliciados estavam inocentes, como é que exatamente o mesmo procurador podia defender a brancura da sua alma e bater com a mão no peito, protestando: eu tenho a consciência limpa, eu não sabia, eu não acreditava! Não era exatamente no seu   Eu não sabia! Eu não acreditava!ރ que residia a sua culpa irreparável?

            Então, Tomas lembrou‑se da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com a própria mãe, mas, no entanto, quando compreendeu o que lhe tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar o espetáculo da desgraça que causara com a sua ignorância, vazou os olhos e, cego para todo o sempre, deixou Tebas.

            Tomas ouvia os comunistas a defender aos berros a brancura das suas almas e pensava: por causa da vossa inconsciência, talvez este país tenha ficado privado de liberdade por vários séculos e ainda se põem a berrar que estão inocentes? Como é que ainda podem olhar para aquilo que vos rodeia? Como é que não ficam apavorados? Ainda são capazes de ver? Se ainda tivessem olhos, deviam mas era vazá‑los e sair de Tebas!

            A comparação agradava‑lhe tanto que recorria freqüentemente a ela quando discutia com os amigos, exprimindo‑a através de fórmulas cada vez mais elegantes e aceradas.

            Como todos os intelectuais da época, costumava ler um semanário da União dos Escritores Tchecos com qualquer coisa como trezentos mil exemplares de tiragem. A publicação tinha ganho uma autonomia considerável no interior do regime e falava de assuntos que os outros jornais não se atreviam sequer a abordar. Chegava mesmo a trazer artigos onde se perguntava quem eram os culpados, e em que medida, dos homicídios judiciais cometidos quando dos processos políticos dos primeiros anos do regime comunista.

            Em todas as discussões, acabava sempre por vir ao de cima aquela velha questão! Eles sabiam ou não sabiam? Julgando‑a uma questão secundária, Tomas um dia passou para o papel as suas reflexões sobre Édipo e mandou‑as para o semanário. Um mês depois, recebeu uma resposta. Pediam‑lhe para passar pela redação. Quando lá chegou, foi recebido por um jornalista baixinho, hirto como uma tábua, que lhe propôs uma alteração na sintaxe de uma frase. O texto apareceu pouco depois, na antepenúltima página, entre outras   cartas do leitorރ.

            Tomas ficou muito pouco satisfeito com ele. Para lhe pedirem para modificar um pequeno pormenor de sintaxe, tinham‑se dado ao trabalho de chamá‑lo ao jornal, mas depois, sem pedirem sequer a sua opinião, tinham‑lhe cortado tanto o texto que as suas reflexões ficavam reduzidas a uma tese fundamental (demasiado esquemática e demasiado agressiva) e já não lhe davam satisfação nenhuma.

            Tudo isto se passava na Primavera de 1968. Alexandre Dubcek subira ao poder e rodeara‑se de comunistas que tinham algumas culpas na consciência e estavam dispostos a fazer qualquer coisa para reparar os erros cometidos. Mas os outros comunistas, os que se punham a berrar que estavam inocentes, temiam que a ira popular os viesse a obrigar a responder perante a justiça. Iam todos os dias queixar‑se ao embaixador da Rússia e implorar o seu auxílio. Quando a carta de Tomas apareceu no jornal, as suas vozes ergueram‑se em uníssono: vejam bem ao que já chegamos! Já têm o descaramento de escrever num jornal que deviam furar‑nos os olhos!

            Dois ou três meses mais tarde, os russos decidiram que discutir em liberdade era uma coisa inadmissível numa província sua e mandaram o seu exército ocupar no espaço de uma noite o país de Tomas.

 

            Depois de vir de Zurique, Tomas fora ocupar o lugar que tinha anteriormente no mesmo hospital de Praga. Pouco tempo mais tarde, foi convocado pelo chefe do serviço, que lhe disse:

            cAfinal de contas, meu caro colega, você não é nem escritor, nem jornalista e, muito menos, o messias do povo. O que você é, é um médico e um homem de ciência! Não gostava mesmo nada de

perdê‑lo e estou disposto a tudo para conservá‑lo cá. Mas você tem de se retratar daquele seu artigo sobre Édipo. É assim uma coisa tão preciosa para si?ރ

            Lembrando‑se que lhe tinham cortado um terço do texto, Tomas respondeu:

            cPelo contrário, chefe, é a coisa que me interessa menos neste mundo!

            ‑ Você tem bem consciência daquilo que está em jogo?ރ, perguntou o chefe do serviço.

            Tomas sabia que estavam duas coisas, uma em cada prato da balança. Uma era a sua honra (que lhe exigia que não desmentisse o que escrevera) e a outra, aquilo que se habituara a considerar como o sentido da sua vida (o seu trabalho como homem de ciência e como médico).

            O chefe do serviço prosseguiu: "É perfeitamente medieval exigir a um homem que se retrate daquilo que escreveu. O que significa uma pessoa "retratar‑se"? Nos tempos de hoje, ninguém pode retratar‑se de uma idéia, uma idéia só pode ser refutada. E, meu caro colega, como retratar‑se de uma idéia é uma coisa impossível, uma coisa puramente verbal, formal, mágica, não vejo porque é que não há‑de fazer o que lhe pedem. Numa sociedade regida pelo terror, as declarações não comprometem ninguém porque são extorquidas pela violência e todo o homem honesto tem o dever de não lhes prestar atenção, de nem sequer as ouvir. Meu caro colega, no meu e no interesse dos seus doentes volto a repetir‑lhe: você  tem de conservar o seu lugar!

            ‑ Com certeza que sim, chefe, disse Tomas, com um ar infeliz.

            ‑ Mas...?, adiantou o chefe do serviço, esforçando‑se por adivinhar o que o outro estava a pensar.

            ‑ Tenho medo de ter vergonha.

            ‑ De quem? Tem assim em tão alta consideração os que o rodeiam para se incomodar com aquilo que eles pensam?

            ‑ Não, disse Tomas.

            ‑ Aliás, prosseguiu o chefe do serviço, já me garantiram que não se trata de uma declaração pública. São meros burocratas. Precisam de ter nos dossiês qualquer coisa que prove que você não é contra o regime, para poderem defender‑se se alguém vier acusá‑los de o terem deixado ficar no mesmo lugar. Prometeram‑me que a sua declaração ficaria só entre si e as autoridades e não encaram a possibilidade de ela poder ser publicada.

            ‑ Conceda‑me uma semana de reflexãoރ, disse Tomas, rematando a conversa.

 

            Era considerado o melhor cirurgião do hospital. Já se dizia que o chefe do serviço, que estava à beira da reforma, lhe cederia dentro em pouco o lugar. Quando se espalhou o boato de que as altas autoridades lhe exigiam uma declaração de autocrítica, ninguém duvidou que cederia.

            Foi a primeira coisa que o apanhou de surpresa: embora não tivesse feito nada para justificar tal suposição, os outros apostavam muito mais na sua desonestidade do que na sua verticalidade.

            Outra coisa surpreendente eram as reações das pessoas perante o seu presumível comportamento. De um modo grosseiro, poderia reparti‑las por duas categorias:

            O primeiro tipo de reação era o daqueles que (ou eles ou os seus próximos) tinham renegado qualquer coisa, tinham sido obrigados a declarar publicamente que estavam de acordo com o regime de ocupação ou iam fazê‑lo em breve (a contragosto, é claro, porque ninguém faz uma coisa dessas com alegria).

            Esses faziam‑lhe um estranho sorriso, que nunca tinha visto em dias da sua vida: era o tímido sorriso de uma cumplicidade secreta. Era o sorriso que dois homens passam a trocar depois de se encontrarem por acaso num bordel; sentem uma certa vergonha, mas, ao mesmo tempo, dá‑lhes prazer que a vergonha seja recíproca. Ficam ligados por uma espécie de laço de fraternidade.

            O sorriso ainda era mais significativo na medida em que Tomas nunca tivera fama de conformista. A sua presumível anuência à proposta do chefe do serviço era, portanto, a prova de que a cobardia se ia tornando lenta mas seguramente uma regra de conduta e deixaria em breve de ser considerada como aquilo que de fato era. Esses nunca tinham sido seus amigos. Tomas sentia‑se arrepiado ao pensar que, se de fato confeccionasse a declaração que lhe exigiam, eles o convidariam para tomar um copo em suas casas e procurariam ter relações mais chegadas com ele.

            O segundo tipo de reação era a daqueles que (ou eles ou os seus próximos) eram perseguidos, se recusavam a aceitar um compromisso qualquer com as forças de ocupação, ou então aqueles a quem ninguém exigia compromisso ou declaração de espécie nenhuma (talvez por serem novos de mais e nunca terem estado metidos em nada), mas que estavam convencidos que jamais cederiam.

            Um deles, S., um médico ainda jovem mas bastante competente, perguntou um dia a Tomas: "Então, lá escreveste aquilo?

            ‑ Queres fazer o favor de me explicar a que é que te estás a referir?

            ‑ À tua autocríticaރ, disse S. Não o disse com maldade. Até estava a sorrir. No rico herbário dos sorrisos, aquele era um sorriso completamente novo. O sorriso da superioridade morar satisfeita.

            "Ouve lá, perguntou Tomas, o que é que tu sabes sobre a minha autocrítica? Leste‑a?

            ‑ Não, respondeu S.

            ‑ Então o que é que estás para aí a dizer?ރ

            S. continuava a exibir o mesmo sorriso de satisfação: ރOra essa! Toda a gente sabe como é que essas coisas se passam. A pessoa faz a sua autocrítica numa carta dirigida ao senhor diretor‑geral, ao senhor ministro ou a outra excelência qualquer, que promete que a carta não será publicada para o autor não se sentir humilhado. É assim ou não é?ރ

            Tomas encolheu os ombros e esperou pelo resto. ރA seguir, arquivam cuidadosamente a autocrítica, mas o autor sabe que, a qualquer momento, a podem publicar. Nessas condições, nunca mais poderá criticar nada, nunca mais poderá protestar contra nada porque a sua autocrítica será imediatamente publicada e ele sentir‑se‑á desonrado aos olhos de toda a gente. No fim de contas, acaba por ser um método simpático. Podia ser pior.

            ‑ Tens razão, é um método muito simpático, disse Tomas. Mas o que eu gostava de saber era quem é que te disse que comigo deu bons resultados.ރ

            O colega encolheu os ombros, mas o sorriso não lhe desapareceu da cara.

            Tomas compreendeu uma coisa estranha. Todos lhe sorriam, rodos desejavam que se retratasse por escrito, se se retratasse faria o gosto a todos. Uns regozijavam‑se porque a inflação de cobardia banalizava a sua própria conduta e lhes devolvia a honra perdida. Os outros tinham‑se acostumado a ver na sua honra um privilégio especial a que não queriam renunciar por nada deste mundo. Por isso nutriam um secreto amor pelos cobardes. Sem eles, a sua coragem seria apenas um esforço banal pela qual ninguém sentiria qualquer admiração especial.

            Tomas não podia com aqueles sorrisos e já os via em todo o lado, mesmo na própria cara de certos desconhecidos com quem se cruzava na rua. Não conseguia dormir. Mas como? Ligava assim tanto a essas pessoas? De forma nenhuma. Não pensava bem de nenhuma delas e censurava‑se a si próprio por se deixar perturbar pelos seus olhares. Era uma coisa completamente incoerente. Como é que alguém que tinha tão pouca consideração pelos outros podia depender tanto da sua opinião?

            Talvez a profunda desconfiança que o gênero humano lhe inspirava (a forma como duvidava do seu hipotético direito de decidir do seu destino e de o julgar) já tenha pesado bastante na sua opção por uma profissão abrigada aos olhos do público. Quem escolhe, por exemplo, uma carreira política, escolhe deliberadamente o público para seu juiz, com a ingênua e confessa certeza de poder ganhar os seus favores. A eventual hostilidade das massas incita‑o depois a fazer representações cada vez mais exigentes, da mesma forma que Tomas se sentia estimulado pela dificuldade de um diagnóstico.

            O médico (ao contrário do político ou do ator) não é julgado senão pelos seus doentes e pelos confrades mais próximos, ou seja, entre quatro paredes e de homem para homem. Confrontado com os olhares daqueles que o julgam, pode responder logo na altura, explicar‑se ou defender‑se. Agora (e pela primeira vez na sua vida), Tomas tinha tantos olhares postos em cima de si que era impossível distingui‑los uns dos outros. Não podia responder‑lhes nem com o seu próprio olhar nem com palavras. Estava à sua mercê. Falava‑se dele no hospital e fora do hospital (Praga tinha os nervos à flor da pele e as notícias dos que fraquejavam, denunciavam, colaboravam, circulavam pela cidade com a extraordinária velocidade do tantã africano), ele tinha consciência disso e não podia impedi‑lo. Ele próprio se sentia admirado por perceber a que ponto isso lhe era insuportável e em que estado de pânico o mergulhava. O interesse que

todos demonstravam por ele fazia‑o sentir tão mal como os empurrões de uma multidão ou, como num pesadelo, o contacto físico com pessoas que estivessem a arrancar‑lhe o fato.

            Foi ter com o chefe do serviço e disse‑lhe que não assinava coisa nenhuma.

            O chefe do serviço apertou‑lhe a mão muito mais energicamente do que o costume e disse que não esperava outra coisa dele. Tomas respondeu‑lhe:

            Chefe, mas mesmo sem autocrítica, talvez me pudesse deixar cá ficar!ރ, querendo dar‑lhe a entender que bastava que todos os seus colegas ameaçassem demitir‑se se o obrigassem a ir‑se embora.

            Mas ninguém se lembrou de apresentar a demissão e, pouco depois, Tomas (o chefe do serviço apertou‑lhe a mão ainda mais energicamente do que da última vez ‑ até ficou com nódoas negras) teve de deixar o lugar que tinha no hospital.

 

            Primeiro, arranjou emprego numa clínica a oitenta quilômetros de Praga. Ia e vinha todos os dias de comboio e chegava sempre mortalmente cansado a casa. Um ano depois, conseguiu arranjar um lugar mais cômodo, embora absolutamente subalterno, num posto clínico suburbano. Aí, já não podia operar e só fazia clínica geral. A sala de espera estava sempre a abarrotar, tinha pouco mais de cinco minutos para cada doente, receitava‑lhes aspirinas, passava‑lhes atestados médicos para os empregos e mandava‑os para consultas de serviços especializados. Sentia que deixara de ser médico para passar a empregado de escritório.

            Um dia, no fim da consulta, teve uma visita; era um senhor de cerca de cinqüenta anos, suficientemente bem nutrido para ter um ar sério. O senhor apresentou‑se dizendo que era chefe de um serviço no Ministério do Interior, e convidou Tomas a ir com ele até ao café que havia do outro lado da rua.

            Mandou vir uma garrafa de vinho. Tomas disse que não podia beber e explicou‑lhe: cÉ que ainda tenho que guiar. Se a polícia me apanha, fico sem carta." O homem do Ministério do Interior disse, com um sorriso: cSe lhe acontecer alguma coisa, diga que é meu conhecido, e estendeu‑lhe um cartão‑de‑visita onde, além do nome (falso, com toda a certeza), havia o número de telefone do Ministério.

            Depois, expôs demoradamente a Tomas a consideração que tinha por ele. No Ministério, toda a gente lamentava que um cirurgião da sua craveira 'estivesse reduzido a receitar aspirinas num posto clínico

dos subúrbios. Chegou mesmo a insinuar que, sem poder dizê‑lo em voz alta, a polícia não concordava que os especialistas fossem afastados de uma maneira tão sumária dos seus empregos.

            Como já há muito tempo não ouvia ninguém elogiá‑lo, Tomas prestava uma atenção extraordinária ao que aquele homenzinho barrigudo dizia e constatava com surpresa que estava extremamente bem informado sobre a sua carreira, que conhecia em todos os seus pormenores. Como a lisonja nos apanha desprevenidos! Tomas não conseguia deixar de levar a sério o que o homem do Ministério lhe dizia.

            Mas não era só por vaidade. Era sobretudo por inexperiência. Quando nos encontramos perante uma pessoa que se mostra amável, deferente e cortês para conosco, é muito difícil estar sempre a pensar que nada do que está a dizer é verdadeiro, que nada é sincero. Para duvidar dela (contínua e sistematicamente, sem a menor hesitação), é preciso fazer um esforço gigantesco, e também ter algum treino, ou seja, estar‑se habituado a interrogatórios da polícia. Era esse treino que faltava a Tomas.

            O homem do Ministério prosseguia, dizendo: ރSenhor doutor, sabemos que tinha uma excelente situação em Zurique. Apreciamos muito que tenha voltado. Foi uma coisa que lhe ficou bem. O senhor bem sabia que o seu lugar era aqui.ރ Depois acrescentou, como se Tomas é que tivesse a culpa: ރMas o seu verdadeiro lugar é na sala de operações!

            ‑ Concordo consigoރ, disse Tomas.

            Depois de uma curta pausa, o homem do Ministério retomou a conversa, com uma voz um pouco enervada: ރMas ora diga‑me: o senhor doutor acha mesmo que é preciso vazar os olhos aos comunistas? Não acha estranho ser precisamente o senhor que o diz, o senhor que já devolveu a saúde a tanta gente?

            ‑ Mas as suas palavras não têm sentido nenhum, protestou Tomas. Leu o meu artigo?

            ‑ Li, disse o homem do Ministério num tom que pretendia exprimir a sua desolação.

            ‑ E então acha que eu disse que era preciso vazar os olhos aos comunistas?

            ‑ Foi o que toda a gente percebeu, disse o homem do Ministério, num tom cada vez mais desolado.

            ‑ Se tivesse lido o meu texto na íntegra, tal como eu o escrevi, nunca poderia pensar uma coisa dessas. O meu texto foi cortado.

            ‑ Como?, disse o homem do Ministério, apurando o ouvido. Aquilo que foi publicado não era o seu texto?

            ‑ Encurtaram‑no.

            ‑ Muito?

            ‑ Tiraram‑lhe mais ou menos um terço.

            O homem do Ministério parecia sinceramente indignado. <Não foi nada leal da parte deles.ރ

            Tomas encolheu os ombros.

            Mas devia ter‑se defendido! Devia ter exigido imediatamente uma retificação!

            ‑ O que é que quer?! Os russos vieram logo a seguir! Tínhamos todos mais que fazer..., disse Tomas.

            ‑ Mas então porque é que continua a deixar que as pessoas pensem que um médico como o senhor quer que outros homens percam a vista?

            ‑ É preciso ver as coisas como elas são! O meu artigo apareceu misturado com outras cartas. Ninguém deve ter reparado nele. Exceto, é claro, na Embaixada da Rússia: dava‑lhes jeito...

            ‑ Não diga uma coisa dessas, senhor doutor! Olhe que até eu o discuti com muita gente que o tinha lido e nunca tinha pensado que o senhor pudesse escrever uma coisa daquelas. Mas agora já percebo tudo melhor, sobretudo desde que me explicou que o artigo que foi publicado não era exatamente aquele que tinha escrito. Alguém lhe sugeriu que o escrevesse?

            ‑ Não, disse Tomas. Fui eu que o mandei sem ninguém mo pedir.

            ‑ Conhece essa gente?

            ‑ Quem?

            ‑ Os que lhe publicaram o artigo?

            ‑ Não.

            ‑ Então nunca falou com eles?

            ‑ Só os vi uma vez. Pediram‑me para passar pelo jornal.

            ‑ Porquê?

            ‑ Por causa desse artigo.

            ‑ E com quem é que falou?

            ‑ Com um jornalista.

            ‑ Como é que ele se chamava?ރ

            Tomas compreendeu finalmente que aquilo era um interrogatório. Apercebeu‑se que cada uma das suas palavras podia pôr uma pessoa em perigo. Claro que sabia o nome do jornalista, mas disse:

            ރNão sei.

            ‑ Oh senhor doutor!, disse o homem, altamente indignado com tanta falta de sinceridade. Então ele não se apresentou?ރ

            É quase tragicômico que o melhor aliado da polícia seja precisamente a nossa boa educação. O imperativo "É preciso dizer sempre a verdade!ރ que nos foi inculcado pelos pais faz com que tenhamos automaticamente vergonha de mentir, mesmo ao polícia que nos está a interrogar. É mais fácil discutir com ele, insultá‑lo (o que não serve absolutamente para nada), do que mentir‑lhe descaradamente (que é a única coisa que se deve fazer).

            Ao ouvir o homem do Ministério censurá‑lo pela sua falta de sinceridade, Tomas sentiu‑se quase culpado; teve de superar uma espécie de bloqueio moral para poder continuar a insistir na sua mentira: cClaro que deve ter‑se apresentado, disse, mas, como o nome dele não me dizia nada, esqueci‑me imediatamente.

            ‑ Como é que ele era?ރ

            O jornalista em causa era baixo e tinha cabelo loiro cortado à escovinha. Tomas tentou escolher características diametralmente opostas:   Era alto. Tinha cabelos compridos, pretos.

            ‑ Ah! Ah!, exclamou o homem do Ministério. E queixo de rabeca?

            ‑ Isso mesmo, disse Tomas.

            ‑ Um tipo um bocado curvado.

            ‑ Isso mesmoރ, voltou a repetir Tomas, e percebeu que o homem do Ministério tinha acabado de identificar alguém. Tomas não só denunciara um desgraçado jornalista, como ainda por cima o fizera com uma mentira.

            "Mas porque é que ele lhe pediu para passar por lá? De que é que falaram?

            ‑ Queriam modificar a sintaxe de uma frase.ރ


            Esta frase soou como um subterfúgio ridículo. O homem do Ministério voltou a revoltar‑se por Tomas se recusar a contar a verdade: ރÓ senhor doutor! Depois de me dizer que lhe cortaram um terço do texto, quer‑me convencer que só falaram de sintaxe! Olhe que isso não tem lógica nenhuma!ރ

            Desta vez, Tomas pôde responder com toda a facilidade porque aquilo era pura e simplesmente a verdade: ރNão é nada lógico, mas é mesmo assim, disse, a rir. Pediram‑me autorização para mudar a sintaxe de uma frase e depois cortaram‑me um terço do artigo.ރ

            O homem do Ministério voltou a abanar a cabeça como se um comportamento tão imoral fosse inadmissível, dizendo: ރEssa gente não foi nada correta consigo.ރ

            Esvaziou o copo e concluiu: "Senhor doutor, o senhor foi vítima de uma manipulação. Era pena que, no fim de contas, fosse o senhor e os seus doentes que acabassem por pagar. Apreciamos muito as suas qualidades, senhor doutor. Veremos o que se pode fazer. ރ

            Estendeu a mão a Tomas e despediu‑se cordialmente. Saíram ambos do café e dirigiram‑se para os respectivos automóveis.

 

            O encontro pôs Tomas de muito mau humor. Censurava‑se intimamente por se ter deixado levar pelo tom jovial da conversa. Já que não se tinha recusado a falar com o polícia (não estava preparado para uma situação como aquela e não sabia o que a lei lhe permitia ou não), pelo menos devia ter‑se recusado a acompanhá‑lo ao café e a beber um copo como se ele fosse seu amigo! E se alguém, alguém que conhecesse o 'polícia, os tivesse visto juntos? Tinha pensado, com certeza, que Tomas trabalhava para a polícia! E que necessidade tivera de contar àquele policial que lhe tinham cortado o artigo? Porque é que, sem ter razão nenhuma para isso, lhe tinha dado essa informação? Sentia‑se extremamente descontente consigo

próprio.

            Uns quinze dias mais tarde, o homem do Ministério voltou. Propôs que fossem ao café como da última vez, mas Tomas preferiu ficar no consultório.

            "Compreendo a sua atitude, senhor doutorރ, disse o outro, com um sorriso.

            Tomas ficou a matutar nesta frase. O homem do Ministério acabara de exprimir‑se como o jogador de xadrez que confirma ao adversário o erro que cometeu na jogada precedente.

            Estavam sentados um em frente do outro, apenas separados pela secretária de Tomas. Ao fim de dez minutos, em que o tema da conversa foi a epidemia de gripe que grassava na altura, o homem disse: ރSenhor doutor, refletimos sobre o seu caso. Se fosse só o senhor que estivesse em causa, era tudo muito mais fácil. Mas temos que ter em conta a opinião pública. Quer queira quer não, o seu artigo contribuiu para aumentar a histeria anticomunista. Não lhe quero ocultar que nos chegaram mesmo a sugerir que devíamos, fazê‑lo prestar contas à justiça por causa do seu artigo. Há uma disposição do código penal para isso. Incitação pública à violência.ރ

            O homem do Ministério do Interior fez uma pausa e olhou Tomas de olhos nos olhos. Tomas encolheu os ombros. O homem disse então, com o ar de quem queria sossegá‑lo: ރMas afastamos tal idéia. Seja qual for a sua responsabilidade, a sociedade exige que exerça funções onde as suas capacidades possam render o máximo. O seu antigo chefe de serviço tem muita estima por si. E também tiramos informações junto dos seus doentes. O senhor é realmente um grande especialista, senhor doutor! Ninguém pode exigir que um médico perceba de política. Deixou que o ridicularizassem, senhor doutor. Temos de remediar isso. É por isso que lhe queríamos propor o texto de uma declaração que, na nossa opinião, o senhor devia pôr à disposição da imprensa. Depois, cá nos arranjávamos para a fazer publicar na devida alturaރ, e estendeu um papel a Tomas.

            Tomas leu‑o e teve um choque. Era bem pior do que o que o seu antigo chefe de serviço lhe exigira dois anos antes. Já não se tratava apenas de uma simples autocrítica por causa do artigo sobre Édipo. Havia várias referências ao seu amor pela União Soviética e à sua fidelidade ao Partido Comunista, era uma condenação dos intelectuais que, como lá se dizia, queriam pôr o país à beira da guerra civil, mas, o que era pior, era uma denúncia da redação do semanário dos escritores e do jornalista alto e curvado (Tomas nunca o vira, mas conhecia‑o de nome e já vira fotografias suas) que abusara deliberadamente dele ao deformar‑lhe o sentido do artigo de forma a convertê‑lo num autêntico apelo contra‑revolucionário; eram

demasiado cobardes (estava lá escrito) para fazer um artigo daqueles e tinham querido esconder‑se por trás de um médico ingênuo.

            O homem do Ministério apercebeu‑se do assombro que perpassava pelos olhos de Tomas. Debruçando‑se para a frente, deu‑lhe uma palmadinha amigável no joelho, por baixo da secretária: Senhor doutor, isto é só um borrão! O senhor agora vai refletir e se quiser alterar uma fórmula ou outra, com certeza que havemos de nos entender. No fim de contas, o texto é seu..

            Tomas devolveu o papel ao polícia como se receasse continuar com ele na mão nem que fosse por mais um segundo. Pouco faltou para imaginar que haviam de lá ir tirar‑lhe as impressões digitais.

            Fingindo‑se surpreendido, em vez de pegar no papel, o homem do Ministério abriu os braços (só parecia o papa a abençoar os fiéis do alto da sua varanda):   Mas, oh senhor doutor, porque é que mo quer dar? O senhor é que deve ficar com ele. Em casa vai ter mais sossego para refletir.ރ

            Continuando pacientemente com o papel na mão estendida, Tomas abanava a cabeça. O homem do Ministério parou de imitar o Santo Padre a abençoar os fiéis e teve de resignar‑se a pegar no papel.

            Tomas tencionava deixar bem vincado que nunca escreveria nem assinaria nada: Mas, no último momento, mudou de tom. Aparentando uma grande calma, disse: "Eu não sou analfabeto. Porque é que hei‑de assinar uma coisa que não fui eu que escrevi?

            ‑ Mas, senhor doutor, é claro que podemos fazer ao contrário. O senhor escreve primeiro qualquer coisa e em seguida vemo‑la os dois. O que lhe mostrei pode pelo menos servir‑lhe de modelo.ރ

            Porque é que Tomas não recusou categoricamente a proposta do polícia logo naquela altura?

            Porque fez rapidamente o seguinte raciocínio: para além de que declarações do gênero daquela desmoralizavam a nação inteira (e toda a estratégia dos russos ia nesse sentido), com certeza que, no seu caso, a polícia tinha um objetivo mais preciso: talvez estivesse em preparação um processo contra os jornalistas do semanário para onde Tomas mandara o artigo. Se assim fosse, a sua declaração seria não só uma prova mas também uma peça importante da campanha de imprensa que desencadeariam contra os jornalistas. Recusando logo, firme e categoricamente, arriscava‑se a que a polícia publicasse o texto previamente preparado apondo‑lhe fraudulentamente a sua assinatura. Nenhum jornal publicaria depois o seu desmentido! Ninguém acreditaria que não fora ele que escrevera e assinara o artigo! Já tivera tempo para perceber que as pessoas se regozijam de mais com a humilhação moral de outrem para deixar que lhes estraguem esse gosto com explicações.

            Alimentando na polícia a esperança de que ele próprio acabaria por escrever um texto, estava a ganhar tempo. No dia seguinte, demitiu‑se. Supunha (e com razão) que, uma vez que tivesse descido voluntariamente para o degrau mais baixo da escala social (como milhares de outros intelectuais de outras disciplinas já tinham feito), a polícia deixaria de ter qualquer poder sobre a sua pessoa e desistiria de se interessar por ele. Nessas condições, já não podiam publicar a declaração com a sua assinatura porque ninguém acreditaria que fosse verdadeira. As ignóbeis declarações públicas do gênero daquela são sempre acompanhadas pela promoção do signatário, não pela sua queda.

            Mas, como na Boêmia os médicos são funcionários públicos, o Estado pode dispensá‑los, mas é sempre livre de não o fazer. O funcionário com quem Tomas discutiu a sua demissão já tinha ouvido falar dele e tinha‑o em elevada estima. Tentou convencê‑lo a não deixar o lugar. Tomas percebeu que não tinha a certeza de que aquela fosse a melhor decisão, mas, sentindo‑se já ligado à sua resolução por uma espécie de juramento de fidelidade, obstinou‑se nela e tornou‑se lavador de janelas.

 

            Alguns anos antes, ao volante do automóvel que o trazia de volta de Zurique para Praga, Tomas ia repetindo baixinho: ރes muss sein!ރ, a propósito do seu amor por Tereza. Depois da fronteira, começou a duvidar que tivesse mesmo de ser: percebeu que tudo o que o tinha feito chegar a Tereza não fora mais do que uma série de acasos ridículos que se tinham produzido sete anos antes (tinham começado com a crise de ciática do chefe do serviço) e que agora o empurravam para uma prisão de onde nunca mais conseguiria sair.

            Dever‑se‑á então concluir que não havia qualquer ރes muss sein!ރ, qualquer grande necessidade na sua vida? Penso que não; na minha opinião, havia uma. Não era o amor, mas a profissão. O que o levara a ser médico não fora nem o acaso nem um cálculo racional, mas um profundo desejo interior.

            Se há algo que nos permite classificar os homens em categorias, é com certeza o desejo profundo que os guia para um dado tipo de atividade que exercerão toda a vida. Os Franceses são todos diferentes uns dos outros. Mas todos os atores do mundo se parecem ‑ os de Paris, os de Praga e mesmo os que trabalham no mais modesto dos teatros de província. Ator é aquele que, desde a infância, aceita expor toda a sua vida ao público anônimo. Sem este assentimento fundamental, que não tem nada a ver com o talento e

que é algo de muito mais profundo do que o talento, ninguém pode tornar‑se ator. Do mesmo modo, o médico é aquele que aceita ocupar‑se durante toda a vida, com todas as conseqüências que isso implica, de corpos humanos. É este sim fundamental (e não o talento e a habilidade) que lhe permite entrar no primeiro ano numa sala de anatomia e, seis anos mais tarde, sair médico da Faculdade.


            A cirurgia eleva o imperativo fundamental da profissão de médico àquele extremo limite onde o humano se confunde quase com o divino. Quando se dá ma pancada com toda a força na cabeça de uma pessoa, ela fica estendida por terra e pode deixar de respirar de uma vez por todas. Mas, mais dia menos dia, sempre acabaria por deixar de respirar. O crime só antecipa aquilo de que o próprio Deus em pessoa se encarregaria um pouco mais tarde. E Deus, podemos supô‑lo, previu o homicídio, mas não a cirurgia. Nunca lhe passou pela cabeça que, um belo dia, o homem se atrevesse a meter as mãos no mecanismo que ele inventara e cuidadosamente embalara, selara e fechara com pele para melhor o furtar aos seus olhos. Quando Tomas pousou pela primeira vez o bisturi na pele de um homem anestesiado, e depois a rasgou com um golpe enérgico e a descoseu com uma incisão regular e precisa (como um bocado inanimado de pano, um sobretudo, uma saia, um cortinado), foi acometido por uma curta mas intensa sensação de sacrilégio. Mas com certeza que era precisamente isso que o atraía! Era uma necessidade, um ރes muss sein!ރ profundamente enraizado nele, ao qual não chegara nem por acaso, nem devido à ciática do chefe do serviço, nem a outra coisa qualquer que lhe fosse exterior.

            Como explicar então que se tenha desligado tão depressa, tão resolutamente e com tanta facilidade de qualquer coisa de tão profundo?

            Ele responder‑nos‑ia que o seu ato se destinava a impedir que a polícia abusasse dele. Mas, francamente, embora, em teoria, isso fosse sempre possível (porque houve de fato casos do gênero), na

verdade, não corria praticamente risco nenhum que a polícia fizesse publicar uma declaração falsa com a sua assinatura.

            Claro que temos sempre o direito de precaver‑nos contra todos os perigos, mesmo os mais improváveis. Admitamos também que estava irritado consigo próprio, com a falta de habilidade que revelara

e queria evitar novos contactos com a polícia, contactos que não fariam senão exacerbar a sua sensação de impotência. Admitamos ainda que já renunciara de fato à sua profissão, porque o trabalho mecânico que tinha no posto clínico, a receitar aspirinas, não tinha nada a ver com aquilo que a profissão de médico era para ele. Mesmo assim, uma decisão tão brusca ainda continua a parecer‑me estranha. Não esconderá algo de mais profundo, algo que escapava à sua reflexão racional?

 

            Tomas começara a gostar de Beethoven por causa de Tereza, mas não era um fanático da música e duvido mesmo que conhecesse a história que está na origem do ilustre tema beethoveniano do   muss es sein? es muss sein!ރ

            A coisa passou‑se assim: um certo senhor Dembscher devia cinqüenta florins a Beethoven, e o compositor, sempre falido, foi pedir‑lhos. "Es muss sein?, tem de ser?ރ, suspirou o pobre Dembscher, ao que Beethoven replicou num tom jocoso: "Es muss sein!, tem de ser!ރ, imediatamente anotou as palavras no seu caderninho e compôs a partir desse tema realista uma pequena peça a quatro vozes: três cantam <es muss sein, já, já, já, tem de ser, tem, tem, temރ e a quarta acrescenta: aheraus mit dem Beutel! puxa da bolsa!ރ.

            Esse mesmo tema tomar‑se‑ia mais tarde o núcleo central do quarto andamento do último quarteto opus 135. As palavras "es muss sein!" adquiriam para ele uma tonalidade cada vez mais solene, como se tivessem sido proferidas pelo Destino. Na língua de Kant, mesmo um simples   bom dia!, quando convenientemente articulado, pode parecer uma tese metafísica. O alemão é uma língua de palavras pesadas.   Es muss sein! deixara de ser uma brincadeira para tornar‑se   der schwer gefasste Entschluss; atem de ser tornara‑se a decisão gravemente pesada.

            Beethoven transformara, portanto, uma inspiração cômica num quarteto sério, uma brincadeira numa verdade metafísica. É um exemplo interessante de passagem do leve ao pesado (portanto, segundo Parmênides, de transformação do positivo em negativo). E, coisa curiosa, essa mutação não nos surpreende. Pelo contrário, ficaríamos era indignados se Beethoven tivesse passado da seriedade do seu quarteto para a leveza do cânone a três vozes sobre a bolsa de Dembscher. E, no entanto, teria agido em perfeita consonância com o espírito de Parmênides: teria mudado do pesado para o leve, ou seja, do negativo para o positivo! No começo, teria havido (sob a forma de um esboço imperfeito) uma grande verdade metafísica e, no fim (como obra acabada), a mais leve das brincadeiras. Só que já não sabemos pensar como Parmênides.

            Estou convencido de que, no fundo, Tomas já há muito que não podia ouvir aquele agressivo, solene e austero   es muss sein!ރ e que tinha um secreto desejo de fazer o pesado tornar‑se leve, segundo a via de Parmênides. Lembremo‑nos que, noutros tempos, lhe bastou pouco mais de um minuto para decidir que nunca mais veria a primeira mulher e o filho e que recebera com alívio a notícia de que os pais tinham cortado relações com ele. Seria algo mais do que um gesto repentino e não muito racional, com o qual se desembaraçava daquilo que queria impor‑se‑lhe como uma pesada obrigação, como um   es muss sein!ރ?

            Claro que então se tratava de um   es muss sein!ރ exterior, imposto pelas convenções sociais, enquanto que o   es muss sein!ރ do seu amor pela medicina era uma necessidade interior. Mas, precisamente por isso, ainda era pior. p imperativo interior ainda é mais forte e, portanto, ainda incita mais fortemente à revolta.

            Ser cirurgião é abrir a superfície das coisas e espreitar para o que lá está escondido. Talvez tenha sido esse desejo que fez com que Tomas ficasse com vontade de ir ver o que havia do outro lado, para lá do   es muss sein!ރ; ou, por outras palavras, de ir ver o que resta da vida quando um homem deixa tudo aquilo que, até então, pensara que era a sua missão.

            No entanto, quando foi apresentar‑se à afável diretora das empresas de lavagem de vidros e vitrinas de Praga, o resultado da sua decisão apareceu‑lhe bruscamente diante de si em toda a sua irrevogável realidade, e quase teve medo. Viveu nesse susto os primeiros dias que passou no seu novo emprego. Mas uma vez habituado (o que demorou mais ou menos uma semana) à espantosa estranheza

da sua nova vida, percebeu de repente que estava a começar umas longas férias.

            Fazia coisas a que não ligava importância nenhuma, e isso era bom. Compreendia finalmente a felicidade daqueles (que. até agora, nunca lhe tinham inspirado senão piedade) que exercem uma profissão que não escolheram auxiliados por um   es muss sein!ރ interior e da qual se esquecem mallargam o local de trabalho. Nunca sentira essa bem‑aventurada indiferença. Dantes, quando uma operação não tinha corrido bem, tinha uma crise de desespero e não conseguia dormir. Chegava mesmo a perder o gosto pelas mulheres. O   es muss sein!ރ da sua profissão era como um vampiro que lhe sugava o sangue.

            Agora, percorria as ruas de Praga com a sua grande vara de lavar montras e constatava com surpresa que se sentia dez anos mais novo. As empregadas de balcão dos grandes armazéns tratavam‑no

por   senhor doutorރ (o tantã de Praga funcionava na perfeição) e consultavam‑no sobre as suas constipações, as suas dores lombares ou o atraso das suas menstruações. Tinham quase vergonha quando

o viam molhar o vidro das montras, montar a escova na ponta da vara e começar a lavar a fachada. Se pudessem plantar os clientes ao chão da loja, de certeza que lhe tirariam a vara das mãos e iriam lavar as montras em vez dele.

            Tomas trabalhava sobretudo nos grandes armazéns, mas, por vezes, a empresa também o mandava a casas particulares. Nessa época, as pessoas ainda viviam as perseguições em massa contra os intelectuais tchecos numa espécie de euforia da solidariedade. Quando os doentes de Tomas souberam que ele agora era lavador de janelas, puseram‑se a telefonar para a empresa a reclamar os seus serviços. Recebiam‑no com uma garrafa de champanhe ou de aguardente, escreviam na folha que Tomas lhes tinha lavado treze janelas e depois passavam duas horas a conversar e a beber com ele. Quando saía em direção a outras casas particulares ou a outra loja, sentia‑se numa forma esplêndida. As famílias dos oficiais russos estavam instaladas no país, a rádio transmitia os discursos intimidatórios dos funcionários do Ministério do Interior que tinham ido ocupar os lugares dos jornalistas despedidos, e ele, ele titubeava entre dois copos pelas ruas de Praga, com o estado de espírito de alguém que anda de festa em festa. Eram as suas férias grandes.

            Voltara à época da sua vida de celibatário. Porque, de repente, via‑se sem Tereza. Só a encontrava à noite, quando ela voltava do bar e ele, já no primeiro sono, entreabria um olho, e depois de manhã, quando era ela que estava ensonada e ele tinha de se despachar para chegar a horas. Tinha dezesseis horas só para ele e isso era um espaço de liberdade que inopinadamente lhe era oferecido. Para ele, desde a mais remota juventude, um espaço de liberdade queria dizer: mulheres.

 

            Quando os amigos lhe perguntavam quantas mulheres tinha tido, respondia de forma evasiva e, se insistiam em saber, dizia: cMais ou menos duzentas.ރ Os invejosos afirmavam que estava a exagerar

com certeza. Defendia‑se, dizendo: ރNem tanto como isso. Tenho relações com mulheres mais ou menos há vinte e cinco anos. Ora experimentem a dividir duzentos por vinte e cinco. Hão‑de ver que dá mais ou menos oito mulheres novas por ano. Não são assim tantas. ރ

            Mas, desde que vivia com Tereza, a sua atividade erótica esbarrava com várias dificuldades de organização; não lhe podia reservar senão uma estreita faixa de tempo (entre a sala de operações e a chegada a casa) que, embora explorada intensivamente (como o montanhês faz com a sua estreita parcela), estava longe de poder comparar‑se com o espaço de dezesseis horas com que subitamente se via presenteado. (E digo dezesseis porque mesmo as oito horas que passava a lavar vidros lhe ofereciam mil e uma oportunidades de fazer novos conhecimentos com empregadas de balcão, caixeiras ou donas de casa e de marcar encontros com elas.)

            O que procurava em todas essas mulheres? O que é que o atraía? O amor físico não é sempre a eterna repetição do mesmo?

            De forma nenhuma. Há sempre uma pequena percentagem de inimaginável. Quando via uma mulher vestida, embora, evidentemente, pudesse fazer mais ou menos uma idéia de como seria depois de despida (aqui a sua experiência de médico completava a do amante), restava sempre um pequeno intervalo de inimaginável entre a inexatidão da idéia e a precisão da realidade, e era precisamente essa lacuna que lhe tirava o sossego. E, depois, a busca do inimaginável não termina com a descoberta da nudez; vai para além

dela: que caras fará enquanto se despe? o que dirá enquanto faz amor? em que tom suspirará? que ricto se imprimirá no seu rosto no momento da volúpia?

            O que o eu tem de único encontra‑se precisamente naquilo que o ser humano tem de inimaginável. Só consegue imaginar‑se o que é idêntico em todos, o que é comum a todos. O ރeuރ individual é aquilo que se distingue do geral, e é, portanto, aquilo que não pode ser adivinhado nem calculado antecipadamente, aquilo que primeiro é preciso desvendar, descobrir, conquistar no outro.

            Tomas, que nos últimos dez anos da sua atividade profissional se ocupara exclusivamente do cérebro, sabia que nada é mais difícil de distinguir do que o eu. Entre Hitler e Einstein ou entre Brejnev

e Soljenitsyne há muito mais semelhanças do que diferenças. Dizendo‑o por números, entre eles há um milionésimo de diferente e novecentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e nove milionésimos de semelhante.

            Tomas vivia obcecado pelo desejo de descobrir esse milionésimo e de apoderar‑se dele, e esse era o sentido que dava à sua obsessão por mulheres. Não vivia obcecado pelas mulheres, vivia era obcecado pelo que cada uma delas tem de inimaginável ou, por outras palavras, vivia obcecado por esse milionésimo de diferente que faz com que uma mulher se distinga das outras.

            (Talvez fosse aí que‑a sua paixão de cirurgião se encontrava com a sua paixão de sedutor. Nunca largava o seu bisturi imaginário, mesmo quando estava com as amantes. Desejava apoderar‑se de qualquer coisa que estava profundamente enterrado nelas e por causa da qual tinha de rasgar os seus invólucros superficiais.)

            Claro que temos o direito de perguntar por que é que era na sexualidade que ia procurar esse milionésimo de diferente. Não poderia antes encontrá‑lo, por exemplo, na maneira de andar, nos gostos culinários ou nas preferências estéticas de cada uma?

            O milionésimo de diferente está presente em todos os aspectos da vida humana, mas é publicamente desvendado em todo o lado, não precisa de ser descoberto, não é preciso nenhum bisturi para chegar a ele. O fato de uma mulher gostar mais de queijo do que de doces e de outra detestar couve‑flor é com certeza um sintoma de originalidade, mas também se torna imediatamente evidente que

essa originalidade é insignificante e vã e que não seria senão uma perda de tempo alguém interessar‑se por ela e conferir‑lhe algum valor.

            Só na sexualidade é que o milionésimo de diferente aparece como uma coisa preciosa, porque não é publicamente acessível e tem de ser conquistado. Ainda há meio século, este tipo de conquista exigia que se lhe dedicasse muito tempo (várias semanas e, às vezes, alguns meses) e o valor do objeto conquistado era proporcional ao tempo consagrado à sua conquista. Mesmo nos dias que correm, embora o tempo da conquista tenha diminuído consideravelmente, a sexualidade é para nós como que o cofrezinho das jóias onde se encontra guardado o mistério do eu feminino.

            Não era, portanto, de forma nenhuma, o desejo da volúpia (a volúpia aparecia por assim dizer como brinde), mas o desejo de apoderar‑se do mundo (de abrir com o bisturi o corpo jazente do mundo) que o fazia andar atrás das mulheres.

 

            Os homens que têm a mania das mulheres dividem‑se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a idéia que eles próprios têm da mulher tal como ela lhes aparece em sonhos, o que é algo de subjetivo e sempre igual. Aos outros, move‑os o deseja de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objetivo.

            A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher dá, ao mesmo tempo, uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.

            A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projeta nas mulheres um ideal subjetivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi‑lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão).

            Como o femeeiro lírico gosta sempre do mesmo tipo de mulheres, quase nem se repara quando tem uma amante nova; os amigos causam‑lhe sérios embaraços porque nunca vêem que a sua companheira já não é a mesma e tratam as suas amantes sempre pelo mesmo nome.

            Na sua caça ao conhecimento, os femeeiros épicos (e é evidentemente a esta categoria que Tomas pertence) afastam‑se cada vez mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e acabam infalivelmente como colecionadores de curiosidades. Têm consciência de tal coisa, envergonham‑se um pouco dela e, para não incomodar os amigos, nunca aparecem em público com as amantes.

            Já andava a lavar janelas mais ou menos há dois anos quando foi chamado a casa de uma cliente nova. Assim que a viu à porta do apartamento, achou‑a estranha. Era uma estranheza discreta, reservada, contida nos limites de uma agradável banalidade (o gosto de Tomas pelas curiosidades não era de modo nenhum um gosto por monstros à Fellini): a mulher era extraordinariamente alta, ainda mais alta do que ele, tinha um nariz afilado e muito comprido, e o seu rosto era a tal ponto insólito que, embora fosse impossível dizer que era bonita (esta afirmação seria acolhida por um coro de protestos), não era totalmente desprovida de beleza (pelo menos aos olhos de Tomas). Estava de calças e tinha uma blusa branca ‑ dir‑se‑ia que era o estranho produto do cruzamento entre um grácil rapazinho, uma girafa e uma cegonha.

            Olhou‑o demoradamente com um olhar atento e perscrutador onde não faltava sequer um lampejo de ironia inteligente.

            ރEntre, senhor doutor, disse ela.

            Percebeu que a mulher sabia quem ele era. Para não o dar a entender, perguntou: Onde é que posso ir buscar água?ރ

            Ela abriu‑lhe a porta da casa de banho. À sua frente estavam o lavatório, a banheira, a privada; aos pés da banheira, aos pés do lavatório e aos pés da privada encontravam‑se dispostos pequenos tapetes cor‑de‑rosa.

            A mulher metade girafa metade cegonha sorria‑lhe franzindo os olhos e tudo o que dizia parecia impregnado de uma ironia ou de um sentido ocultos.

            “A casa de banho está à sua inteira disposição, senhor doutor, disse. Sirva‑se dela para o que bem entender.

            ‑ Mesmo para tomar banho?

            ‑ Gosta de tomar banho?ރ, perguntou ela.

            Encheu o balde de água quente e voltou para a sala. ރPor onde é que quer que eu comece?

            ‑ O senhor é que sabe. disse ela, encolhendo os ombros.

            ‑ Posso ver as janelas das outras divisões?

            ‑ Quer que lhe mostre a casa toda?ރ Sorria, como se a lavagem das janelas fosse apenas um capricho de Tomas, um capricho a que não dava importância nenhuma.

            Tomas entrou no quarto que ficava ao lado. Tinha uma grande janela, duas camas encostadas uma à outra e um quadro com uma paisagem outonal de bétulas ao sol‑poente.

            Quando voltou à sala, havia uma garrafa de vinho aberta em cima da mesa e dois copos. "Não quer retemperar as forças antes de prosseguir os seus rudes trabalhos?, perguntou ela.

            ‑ Com muito gosto, disse Tomas, sentando‑se.

            ‑ Deve ser interessante para si andar assim por casa das pessoas, disse ela.

            ‑ Não posso dizer que seja mau, respondeu Tomas.

            ‑ Está sempre a apanhar mulheres sozinhas em casa, com os maridos nos empregos...

            ‑ Nem por isso. O que eu apanho sobretudo são avós e sogras, disse Tomas.

            ‑ E a sua antiga profissão não lhe faz falta?

            ‑ Diga‑me mas é como é que soube disso.

            ‑ O seu patrão tem muito orgulho em si, disse a mulher‑cegonha.

            ‑ Ainda?, disse Tomas, espantado.

            ‑ Quando telefonei a pedir uma pessoa para me lavar as janelas, perguntaram‑me logo se não era você que eu pretendia. Parece que dantes você era um grande cirurgião e que o expulsaram do hospital. Pode crer que fiquei interessada!

            ‑ Você é, de fato, muito curiosa, disse Tomas.

            ‑ Nota‑se assim tanto?

            ‑ Pela sua maneira de olhar.

            ‑ E o que é que a minha maneira de olhar tem de especial?

            ‑ Está sempre a franzir os olhos e fez‑me uma data de perguntas.

            ‑ E você não gosta de me responder?ރ

            Graças a ela, a conversa caíra logo num tom de grande intimidade. Nada do que ela dizia tinha a ver com o mundo exterior. As palavras que se pronunciavam eram só a respeito deles e de mais nada. Com uma conversa assim, uma conversa que os elegera a ambos para tema principal, nada mais fácil do que completar as palavras com um contacto físico, e Tomas assim fez, acariciando‑lhe os olhos enquanto lhe dizia que ela os franzia. E a mulher respondia a cada carícia com uma carícia. Não agia espontaneamente, mas como se obedecesse a uma lógica consciente, como se estivessem a brincar ao   tudo o que tu me fazes, também eu to faço. Estavam sentados um em frente do outro, ambos com as mãos no corpo do outro.

            Quando Tomas tentou meter‑lhe a mão entre as coxas, a mulher começou finalmente a defender‑se. Tomas não percebeu se era mesmo a sério, mas já tinha passado bastante tempo e o seu próximo cliente esperava‑o daí a dez minutos.

            Levantou‑se e explicou que tinha de ir‑se embora. A mulher tinha a cara a arder.

            Tenho que lhe assinar o papel, disse ela.

            ‑ Mas eu não fiz nada, protestou Tomas.

            ‑ Por minha causaރ, disse ela, acrescentando depois com uma voz doce, arrastada, inocente:   Vou ter que mandá‑lo cá vir outra vez para você poder acabar aquilo que nem sequer chegou a começar por minha causa.ރ

            Como Tomas se recusasse a dar‑lhe o papel para assinar, a mulher disse ternamente, num tom de quem está a pedir que lhe façam alguma coisa:   Faça o favor de me dar issoރ e, franzindo os olhos, acrescentou:   Não sou eu que pago, é o meu marido e não é a você que se paga, é ao Estado. Essa transação não diz respeito a nenhum de nós.ރ

 

            Só de pensar na curiosa dissimetria da mulher metade girafa metade cegonha, ficava excitado: a coquetrerie aliada aos seus modos desajeitados; um desejo sexual inequívoco acompanhado por um sorriso irônico, a vulgar banalidade do apartamento e a singularidade da sua proprietária. Como ficaria ela a fazer amor? Tentava imaginá‑lo, mas não era fácil. Foi a sua única preocupação durante vários dias.

            Quando ela o convidou pela segunda vez, a garrafa de vinho e os dois copos já estavam à 'sua espera em cima da mesa. Mas, desta vez, correu tudo muito depressa. Em breve estavam à frente um do

outro no quarto (com o Sol a pôr‑se sobre uma paisagem de bétulas brancas) e se beijavam. Tomas pronunciou o seu habitual   Dispa‑se! ރ, mas, em vez de obedecer, ela retorquiu‑lhe:   Não, primeiro, despe‑se você!ރ

            Não estava habituado a isso e ficou um pouco perturbado. A mulher começou a desabotoar‑lhe as calças. "Dispa‑se!ރ, voltou a ordenar‑lhe várias vezes (sempre com o mesmo cômico insucesso), mas não lhe restava senão aceitar um compromisso; segundo as regras do jogo que ela já lhe impusera da outra vez (  tudo o que tu me fazes, também eu to façoރ), enquanto ela lhe tirava as calças, ele despia‑lhe as calças, enquanto ela lhe tirava a camisa, ele despia‑lhe a blusa, até que ficaram ambos nus um em frente do outro.

Tomas tinha a mão pousada no sexo úmido da mulher e fez deslizar os dedos para o orifício anal, o sítio que preferia em 'todas as mulheres. O desta era extremamente protuberante, sugerindo distintamente a idéia de que um longo tubo digestivo aí terminava numa ligeira saliência. Apalpava aquele anel firme e saudável, aquele que era o mais belo dos anéis e ao qual a medicina chamava esfíncter, quando sentiu de repente os dedos da mulher‑girafa no mesmo sítio do seu traseiro. Ela repetia todos os seus gestos com a precisão de

um espelho.

            Embora, como já referi, Tomas tivesse tido cerca de duzentas mulheres (número que aumentara consideravelmente desde que lavava janelas) nunca lhe acontecera que uma mulher mais alta do que ele se postasse à sua frente a franzir os olhos e a apalpar‑lhe o ânus. Para vencer a perturbação, empurrou‑a com toda a força para cima da cama.

            A brusquidão do gesto apanhou‑a desprevenida. O seu enorme corpo caiu para trás com o rosto coberto de manchas vermelhas e o ar assustado de quem perdeu o equilíbrio. Como estava de pé à frente dela, agarrou‑a por debaixo dos joelhos e levantou‑lhe muito alto as pernas, mantendo‑as ligeiramente afastadas. Assim, de repente, pareciam os braços de um soldado perdido de medo a render‑se perante uma arma apontada.

            Os modos desajeitados aliados ao fervor, o fervor aliado aos modos desajeitados, provocavam uma excitação magnífica em Tomas. Fizeram amor durante muito tempo. Ia observando o seu rosto coberto de manchas vermelhas, sempre à procura da expressão de susto que uma mulher faz quando lhe pregam uma rasteira e cai, a inimitável expressão que acabara de fazer subir‑lhe à cabeça o fluxo da excitação.

            Depois de acabarem, foi lavar‑se à casa de banho. A mulher foi ter com ele e explicou‑lhe demoradamente onde é que o sabão estava, onde é que a luva do banho estava e como é que se punha a

água quente a correr. Achava curioso que ela lhe explicasse coisas tão simples com tantos pormenores. Disse‑lhe que já percebera e que queria ficar sozinho na casa de banho.

            :Não me vai deixar assistir à sua toilette?ރ, suplicou ela.

            Conseguiu, por fim, pô‑la fora da casa de banho. Lavou‑se, urinou para o lavatório (prática corrente dos médicos tchecos), sempre com a impressão de que ela andava de trás para a frente e da frente para trás ao pé da porta da casa de banho, à procura de um pretexto para entrar. Quando fechou as torneiras, reparou que reinava um silêncio absoluto em todo o apartamento e pensou que ela o estava a espreitar. Tinha quase a certeza de que a porta tinha um buraco contra o qual a mulher tinha o seu belo olho franzido encostado.

            Ao deixá‑la, sentia‑se extremamente bem‑disposto. Tentava rememorar o essencial, condensar a recordação numa fórmula química que permitisse definir o que ela tinha de único (o seu milionésimo de diferente). Acabou por chegar a uma fórmula composta por três elementos:

            l. Os modos desajeitados aliados ao fervor;

            2. O rosto assustado de quem perde o equilíbrio e cai;

            3. As pernas levantadas como os braços de um soldado a render‑se perante uma arma apontada.

            À medida que repetia para si próprio esta fórmula, ia sendo invadido pela agradável impressão de que uma vez mais se apoderara de um fragmento do mundo; uma vez mais cortara com o seu bisturi imaginário uma estreita tira no tecido infinito do universo.

 

            Eis o que lhe aconteceu mais ou menos na mesma época. Tinha tido vários encontros com uma rapariga num apartamento que um velho amigo lhe emprestava todos os dias até à meia‑noite. Ao fim de um mês ou dois, a rapariga recordou‑lhe um dos encontros: tinham feito amor na carpete debaixo da janela enquanto lá fora os relâmpagos e os trovões estalavam. Tinham feito amor durante todo o tempo que a tempestade durara e isso fora, segundo a rapariga, de uma beleza inesquecível.

            Tomas ficou surpreendido com as palavras dela. Lembrava‑se de que tinham feito amor na carpete (no estúdio do amigo só havia um divã muito estreito onde não se sentia nada à vontade), mas tinha‑se esquecido completamente da tempestade! Era estranho: conseguia lembrar‑se de todas as vezes que estivera com ela, lembrava‑se até da maneira como tinham feito amor (ela recusava‑se a fazer amor por

trás), lembrava‑se das palavras que ela pronunciara enquanto faziam amor (pedia‑lhe sempre para a estreitar de encontro a ele e protestava se ele se punha a olhar para ela) e até se lembrava do corte da sua roupa interior ‑ mas tinha‑se esquecido completamente da tempestade.

            Das duas aventuras amorosas, a sua memória só registrava o estreito e escarpado caminho da conquista sexual: a primeira agressão verbal, o primeiro contacto físico, a primeira obscenidade que lhe dissera a ela e que ela lhe dissera a ele, todas as pequenas perversões a que a fora obrigando e as que ela recusara. Tudo o resto (com um cuidado quase pedante) estava excluído da sua memória. Esquecia‑se mesmo do sítio onde encontrara pela primeira vez esta mulher ou aquela, porque esse momento se situava antes da conquista sexual propriamente dita.

            A rapariga falava da tempestade com o rosto banhado por um sorriso sonhador, e ele olhava para ela com espanto, quase com vergonha: ela vivera algo de belo e ele não o vivera com ela. A reação dicotômica das suas memórias à tempestade noturna exprimia toda a diferença que pode haver entre o amor e o não‑amor.   Ao falar de não‑amor, não quero dizer que Tomas se tenha comportado como um cínico com a rapariga, que, como costuma dizer‑se, não tenha visto nela senão um objeto sexual: pelo contrário, gostava dela como amiga, apreciava‑lhe o caráter e a inteligência, estava pronto a ajudá‑la sempre que precisasse. Não era ele que se portava mal com ela: era a sua memória que, sem que ele pudesse dizer palavra, a excluíra da esfera do amor.

            Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar‑se memória poética e que registra aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua

beleza própria. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma mulher tinha o direito de deixar qualquer marca, por mais efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro.

            Tereza ocupava despoticamente a sua memória poética e varrera de lá as marcas de todas as outras mulheres. Isso era injusto porque, por exemplo, a rapariga com quem fizera amor na carpete durante a tempestade não era menos digna de poesia do que Tereza. Gritava‑lhe:   Fecha os olhos, agarra‑me pelas ancas, aperta‑me com força!ރ Não suportava que Tomas ficasse com os olhos abertos, atentos e perscrutadores enquanto faziam amor, e que o seu corpo, ligeiramente soerguido sobre o dela, não aderisse à sua pele. Não queria que ele a estudasse com os olhos. Queria arrastá‑lo com‑ ela para a torrente de encantamento onde só se entra de olhos fechados. Recusava‑se a pôr‑se de gatas porque, nessa posição, os seus corpos mal se tocavam e Tomas podia observá‑la a uma distância de quase meio metro. Detestava esse afastamento. Queria confundir‑se com ele. Por isso lhe afirmava obstinadamente de olhos nos olhos que não tinha prazer nenhum, embora a carpete estivesse toda molhada com o seu orgasmo: "Não ando à procura de volúpia, ando é à procura da felicidade e a volúpia sem felicidade não é volúpia.ރ Ou, por outras palavras, batia ao portão da sua memória poética. Mas o portão estava fechado. Não havia lugar para ela na memória poética de Tomas. Só havia lugar para ela na carpete.

            A aventura de Tomas com Tereza começara exatamente onde as suas aventuras com as outras mulheres acabavam. Desenrolava‑se do outro lado do imperativo que o levava à conquista das mulheres.

Não queria desvendar nada em Tereza. Já a encontrara desvEndada. Fizera amor com ela sem conceder a si próprio o tempo necessário para pegar no bisturi imaginário com que abria o corpo jazente do mundo. Sem conceder a si próprio o tempo necessário para pensar em como seria ela a fazer amor, já a amava.

            A história de amor só começara depois: Tereza ficara com febre e ele não a pudera levar a casa como fazia com as outras mulheres. Ajoelhara‑se à sua cabeceira e viera‑lhe à cabeça a idéia de que ela

lhe fora enviada numa cesta ao sabor das águas. Fiz já notar como as metáforas são perigosas. O amor correra com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.

 

            Tereza não tardou a reimprimir a sua marca: como todas as manhãs, fora buscar leite e, quando ele lhe abriu a porta, trazia apertada ao peito uma gralha enrolada no seu cachecol encarnado. É assim que as ciganas trazem os filhos. Nunca mais esquecerá o imenso bico acusador da gralha junto ao rosto dela.

            Encontrara‑a meio enterrada. Era assim que, outrora, os cossacos tratavam os inimigos que faziam prisioneiros. ރ imagina tu que foram uns miúdos>>, disse ela. Era mais do que uma simples constataÇão, era a expressão de um repentino nojo pelo gênero humano. Lembrava‑se que ela lhe dissera recentemente: ރComeço a estar‑te agradecida por nunca teres querido filhos.ރ

            Na véspera, queixara‑se de ter sido insultada por um homem no bar onde trabalhava. O homem tinha‑se agarrado ao seu colar de pérolas falsas afirmando que ela o devia ter ganho prostituindo‑se. Estava completamente transtornada com aquilo. Mais do que o caso merecia, pensava Tomas. De repente, sentiu‑se extremamente mal por pensar que há dois anos que a via tão pouco que até deixara de ter tempo para lhe agarrar nas mãos e as impedir de tremer.

            Era o que ia pensando a caminho do escritório, onde uma empregada lhes dava quotidianamente o trabalho, a ele e aos colegas. Um cliente particular exigira expressamente que lhe mandassem Tomas para lhe lavar as janelas. De mau humor, dirigiu‑se à morada indicada, receando que, mais uma vez. se tratasse de uma mulher. Estava todo entregue às suas reflexões sobre Tereza e não se sentia tentado por aventuras.

            Quando a porta se abriu, ficou aliviado. à sua frente encontrava‑se um homem alto e um pouco encurvado. O homem tinha queixo de rabeca e fazia‑lhe lembrar alguém.

            Sorria‑lhe:   Entre, doutorރ, disse e guiou‑o até à sala.

            Tinha lá um rapaz à espera. De pé, com o rosto escarlate. Olhava para Tomas e esforçava‑se por sorrir.

             A vocês dois, parece‑me que não vale a pena apresentá‑los, disse o homem.

            ‑ Claro que nãoރ, disse Tomas sem sorrir, e estendeu a mão ao rapaz. Era o seu filho.

            O homem de queixo de rabeca acabou finalmente por se apresentar.

              Eu bem sabia que você me fazia lembrar alguém!, disse Tomas. Como é que não havia de o conhecer? De nome, claro.ރ

            Distribuíram‑se os três pelos sofás que havia na sala e entre os quais se encontrava uma mesa baixa. Tomas pensou que aqueles dois homens que estavam à sua frente eram criações suas, embora

involuntárias. Tinha tido um filho porque a mulher o obrigara, e fora também obrigado que traçara o retrato daquele rapaz alto e encurvado ao polícia que o interrogava.

            Para afastar tais pensamentos, disse:   Ora muito bem! Por que janela é que querem que eu comece?ރ

            Os dois homens que tinha sentados à sua frente desataram a rir.

            Sim, era evidente que não era de janelas que se tratava. Não o tinham mandado vir por causa das janelas, tinham‑no apanhado numa armadilha. Nunca tinha falado com o filho. Era a primeira vez que lhe apertava a mão. Só o conhecia de vista e não queria conhecê‑lo de outra maneira. Não queria saber nada dele e só esperava que o filho pensasse o mesmo em relação ao pai.

            Belo cartaz, não é verdade?ރ, perguntou o jornalista, apontando para um grande desenho emoldurado que estava pendurado na parede oposta a Tomas.

            Pela primeira vez desde que entrara, Tomas levantou os olhos. As paredes estava cobertas de quadros bem interessantes, de fotografias e de cartazes. O desenho que o jornalista mostrara tinha aparecido em 1969 num dos últimos números do semanário, antes de este ter sido proibido pelos russos. Era a imitação de um célebre cartaz da guerra civil russa de 1918, apelando à população para se alistar no Exército Vermelho: um soldado com um boné enfeitado com uma estrela vermelha e com um olhar extraordinariamente severo olhava‑nos de olhos nos olhos com o indicador apontado na nossa direção. O texto russo original dizia:   Cidadão, ainda não te alistaste no Exército Vermelho?ރ Tinha sido substituído pelo seguinte texto, em checo:   Cidadão, tu também assinaste o manifesto das 7duas mil palavras?ރ

            Era um excelente achado! O manifesto das duas mil palavras fora o primeiro manifesto da Primavera de 1968 e exigia uma democratização radical do regime comunista. Tinha sido primeiro assinado por um não acabar de intelectuais e depois tanta gente o assinara que se tinha tornado impossível contar as assinaturas. Quando o Exército Vermelho invadiu a Boêmia e as purgas políticas começaram, uma das perguntas que se faziam ao cidadão era:   Também tu assinaste o manifesto das duas mil palavras?ރ Os que confessavam que sim, eram imediatamente despedidos.

             Belo desenho. Lembro‑me bem deleރ, disse Tomas.

            O jornalista sorriu.   Esperemos que o soldado do Exército Vermelho não esteja a ouvir‑nos.ރ

            E acrescentou com um ar sério:   Para que tudo fique bem claro, doutor, devo dizer‑lhe que esta casa não é minha. É de um amigo meu. Portanto, não podemos ter a certeza de estar a ser ouvidos neste momento pela polícia. Talvez sim, talvez não. Se fosse em minha casa, era mais do que certo.ރ

            Depois, acrescentou num tom mais leve:   Mas eu parto do princípio que não temos nada a esconder a ninguém. Aliás, imagine só a sorte que os historiadores tchecos do futuro terão! Encontrarão nos arquivos da polícia a vida de todos os intelectuais gravada em fita magnética! Já pensou bem no esforço que deve representar para um historiador da literatura a reconstituição da vida sexual de um Voltaire, de um Balzac ou de um Tolstoi? No caso dos escritores tchecos, não haverá lugar para dúvidas. Está tudo gravado. Até ao

mais ínfimo suspiro.ރ

            Depois, voltando‑se para os imaginários microfones escondidos na parede, levantando a voz, disse:   Meus senhores, hoje como sempre quero dar‑vos uma palavra de encorajamento e expressar‑vos tanto os meus agradecimentos como os dos historiadores do futuro.ރ

            Riram‑se os três, e depois o jornalista falou demoradamente das circunstâncias que tinham rodeado o encerramento do seu semanário, daquilo que fazia atualmente o desenhista que tivera a idéia da caricatura e daquilo que faziam atualmente os outros pintores, filósofos e escritores tchecos. A seguir à invasão russa tinham sido afastados do seu trabalho normal e eram lavadores de janelas, guardas de parques de automóveis, porteiros de hotel à noite, guardas das caldeiras dos edifícios públicos ou ainda, na melhor das hipóteses, porque isso já implicava alguns apoios, motoristas de táxi.

            O que o jornalista dizia não era desinteressante, mas Tomas não conseguia concentrar‑se nas suas palavras. Pensava no filho. Lembrava‑se que, desde há uns meses, tinha passado a encontrá‑lo na rua. Não era evidentemente por mero acaso. Sentia‑se espantado era de vê‑lo agora na companhia do jornalista perseguido. A primeira mulher de Tomas era uma comunista ortodoxa, e Tomas deduzira automaticamente que o filho vivia sob a sua influência. Não sabia nada dele. Claro que podia perfeitamente perguntar‑lhe como é que eram as suas relações com a mãe, mas a pergunta parecia‑lhe descabida ali, à frente de um estranho.

            O jornalista chegou finalmente ao cerne da questão. Disse que havia cada vez mais gente na cadeia, só por ter defendido as suas opiniões, e terminou com as seguintes palavras: "Pensamos, portanto, que tinha chegado a altura de fazer qualquer coisa.

            ‑ O que é que querem fazer?ރ, perguntou Tomas.

            Nesse momento, o filho interveio. Era a primeira vez que lhe ouvia a voz. Constatou com surpresa que ele gaguejava.

            ރPelo que sabemos, disse, os presos políticos são maltratados. Há alguns em estado crítico. Sendo assim, pensamos que seria bom fazer uma petição que fosse assinada pelos intelectuais tchecos mais conhecidos, cujo nome ainda tem algum peso.ރ

            Não, aquilo não era gaguez. Era uma espécie de soluço que lhe fazia arrastar a fala, de modo que cada palavra que pronunciava saía involuntariamente martelada e sublinhada. Era claro que tinha consciência disso porque, depois de ter voltado ao normal, corara de novo.

            ރQuerem que vos indique pessoas da minha especialidade com quem possam ir ter?, perguntou Tomas.

            ‑ Não, disse o jornalista com um sorriso. Não queremos conselhos seus. Queremos é a sua assinatura!ރ

            Uma vez mais, sentia‑se lisonjeado. Uma vez mais, sentia‑se feliz por alguém não se ter esquecido que ele era cirurgião! Só por modéstia é que se defendeu: ރMas ora ouçam! Não foi por me terem posto na rua que me tomei um grande médico!


            ‑ Não nos esquecemos do que escreveu no nosso jornal, disse‑lhe o jornalista.

            ‑ Pois não!, sussurrou o filho com um entusiasmo que talvez tenha escapado a Tomas.

            ‑ Mas o que não percebo é a que título é que o meu nome pode ajudar os presos políticos, disse Tomas: Quem devia assinar são aqueles que ainda não caíram em desgraça e que ainda gozam de alguma influência junto do poder!

            ‑ Claro que deviam!ރ, disse o jornalista, rindo para dentro.

            Também o filho de Tomas riu, com o riso de alguém que já sabe uma data de coisas: ރSó que esses não vão assinar nada!ރ

            O jornalista prosseguiu: ރO que não quer dizer que não tentemos! Não somos suficientemente bondosos para poupá‑los a essa ginástica, disse. Só gostava que ouvisse as desculpas que inventam para nos dar. São magníficas!ރ

            O filho de Tomas deu uma gargalhada de aprovação.

            O jornalista continuou, dizendo: cClaro que todos afirmam que estão de acordo conosco em tudo, só que acham que deveríamos agir de outra maneira, com mais táctica, com mais subtileza, com mais inteligência, com mais discrição. Têm medo de assinar, mas, ao mesmo tempo, também têm medo do mal que ficamos a pensar deles por não assinarem. ރ

            O filho de Tomas e o jornalista riram em uníssono.

            O jornalista estendeu a Tomas uma folha de papel na qual havia um pequeno texto onde, num tom relativamente cortês, se pedia ao presidente da República para anistiar os presos políticos.

            Tomas tentou refletir rapidamente. Tratava‑se então de anistiar os presos políticos? Concordava com isso. Mas seriam os presos políticos anistiados porque algumas pessoas expurgadas pelo regime (portanto, presos políticos em potência) o pediam ao presidente da República? O único resultado que uma petição daquele gênero podia ter era os presos políticos não serem anistiados, mesmo se, por acaso, estivessem para sê‑lo!

            Os seus pensamentos foram interrompidos pelo filho, que disse:

            0 que é importante é que se fique a saber que neste país ainda há um punhado de homens e de mulheres sem medo. Mostrar quem está com quem. Separar o trigo do joio.ރ

            Tomas pensava: Sim, tens razão, mas o que é que os presos políticos têm a ver com isso tudo? Das duas, uma: ou se trata de obter uma anistia, ou se trata de separar o trigo do joio. São coisas diferentes.

            cEstá hesitante, doutor?ރ, perguntou o jornalista.

            Sim, estava hesitante. Mas tinha medo de o dizer. À sua frente, na parede, estava a imagem ameaçadora do soldado com o dedo apontado, que ora perguntava: ރAinda hesitas em alistares‑te no

Exército Vermelho?ރ, ora perguntava: ރTu ainda não assinaste o manifesto das duas mil palavras?>, ora perguntava: ރTambém tu assinaste o manifesto das duas mil palavras?ރ, ora perguntava: cTu

não queres assinar a petição da anistia?ރ. Fosse o que fosse, era sempre uma ameaça.

            O jornalista já expressara a opinião que tinha daqueles que, embora pensando que os presos políticos deviam ser anistiados, invocavam mil e uma razões para não assinar a petição. Segundo ele, não eram senão pretextos para disfarçar a sua cobardia. Que poderia então dizer Tomas?

            O silêncio ia‑se prolongando, mas, desta vez, foi Tomas que o interrompeu com uma risada. Apontando para o desenho, disse: "<Olhem‑me bem para aquele tipo que só sabe ameaçar‑me e perguntar se vou assinar ou não. É difícil pensar com alguém a olhar assim para nós!ރ

            Riram‑se os três.

            A seguir, Tomas disse: "Mas muito bem. Vou refletir. Podemos voltar a encontrar‑nos nos próximos dias?

            ‑ Tenho sempre muito gosto em vê‑lo, disse o jornalista, mas já não nos resta muito tempo para a petição. Queríamos entregá‑la amanhã ao presidente.

            ‑ Amanhã?ރ

            Tomas lembrou‑se do policial gordo que lhe estendera um papel com o qual devia precisamente denunciar o jornalista de queixo de rabeca. Toda a gente queria obrigá‑lo a assinar textos que não fora

ela que escrevera.

            "<Num caso como este, nem sequer é preciso refletir!ރ, disse o seu filho.

            Eram palavras agressivas, mas foram ditas quase como uma súplica. Desta vez olharam‑se diretamente nos olhos e Tomas viu que, quando concentrava o olhar em qualquer coisa, o filho ficava com a parte esquerda do lábio superior ligeiramente levantada. Era um ricto que conhecia bem porque costumava vê‑lo no seu próprio rosto quando verificava ao espelho se estava bem barbeado. Não pôde reprimir a sensação de mal‑estar que lhe dava vê‑lo agora no rosto de outra pessoa.

            Quando se viveu sempre com os filhos, habituamo‑nos a essas parecenças, achamo‑las normais e, se alguém repara nelas, até nos divertimos com isso. Mas Tomas estava a falar com o filho pela primeira vez em toda a sua vida! Não tinha ganho o hábito de se ver confrontado com o seu próprio rosto!

            Ora suponham que vos amputaram uma mão para a enxertarem noutra pessoa. Um belo dia, está alguém sentado à vossa frente a gesticular com essa mão mesmo por baixo do vosso nariz. De certeza que ficam a pensar que é um fantasma. E embora a conheçam intimamente, embora seja a vossa rica mão, ficam cheios de medo que ela vos toque.

            O filho de Tomas prosseguia, dizendo: ރMas tu também foste perseguido! ރ

            Durante todo o tempo que a conversa durara, Tomas perguntara a si próprio se o filho o iria tratar por tu ou por senhor. Até agora, dirigira‑se‑lhe sempre de maneira a tornear a questão. Mas, desta vez, escolhera. Tratava‑o por tu e Tomas percebeu de repente com toda a nitidez que, na realidade, aquela cena não tinha absolutamente nada a ver com a anistia dos presos políticos, porque o que estava em jogo eram as suas relações com o filho: se assinasse a petição, os seus destinos cruzar‑se‑iam e Tomas seria mais ou menos forçado a aproximar‑se do filho. Se não assinasse, voltaria a não haver qualquer espécie de relação entre ambos, mas agora já não por sua vontade, mas por vontade do filho, que, por causa da cobardia do pai, o regeneraria.

            Estava na situação do jogador de xadrez que já não pode fazer nada para evitar a derrota e se vê forçado a desistir da partida. No fim de contas, assinar ou não assinar vinha a dar exatamente no mesmo. Nem o seu destino nem o destino dos presos políticos sofreriam qualquer alteração.

            ރDêem‑me issoރ, disse, e agarrou no papel.

 

            Como se quisesse recompensá‑lo pela decisão que tomara, o jornalista exclamou: ރAquele seu artigo sobre Édipo era realmente muito bom!ރ

            O filho estendeu‑lhe a caneta e acrescentou: cHá idéias que são autênticos atentados!ރ

            Sentiu‑se lisonjeado com as palavras do jornalista, mas achou a metáfora do filho enfática e despropositada. Disse: ރInfelizmente, a única vítima desse atentado fui eu. Por causa desse artigo, fiquei

impossibilitado de operar os meus doentes.ރ

            As suas palavras produziram uma certa impressão de frieza, quase até de hostilidade.

            Para apagar essa pequena dissonância, o jornalista observou (com o ar de quem está a apresentar as suas desculpas): "Mas olhe que o seu artigo ajudou muito boa gente!ރ

            Para Tomas, a expressão "ajudar alguémރ identificava‑se, desde a infância, com uma única atividade: a medicina. Alguma vez algum artigo de jornal ajudara alguém'? O que é que aqueles dois lhe

queriam impingir, aqueles dois que reduziam o conjunto da sua vida a uma miserável reflexão sobre Édipo ou, ainda a menos do que isso, ao único não que pronunciara abertamente contra o regime?

            Disse (sempre com a mesma frieza, embora involuntária): ރNão sei se o meu artigo ajudou alguém ou não. O que sei é que enquanto fui médico salvei a vida a muita gente.ރ

            Seguiu‑se outra pausa. O filho acabou por interrompê‑la. dizendo: ރAs idéias também podem salvar a vida.ރ

            Tomas via a sua própria boca na cara do filho e pensava: que coisa mais esquisita, ver a nossa própria boca a gaguejar!

 

            "<O teu artigo tinha uma coisa realmente formidável: era a recusa de todo e qualquer compromisso. Aquela faculdade, que nós temos vindo a perder aos poucos, de distinguir claramente o bem e o mal. Deixamos de saber o que é sentirmo‑nos culpados. Os comunistas arranjaram uma boa desculpa: foram enganados por Stalin. O assassino desculpa‑se dizendo que a mãe não gostava dele e que era um frustrado. E, de repente, vieste tu e disseste:   Não há justificação nenhuma. Ninguém pode estar mais inocente no seu íntimo do que Édipo estava. E, no entanto, Édipo castigou‑se a si próprio quando percebeu o que tinha feito.ރ

            Tomas fez um esforço para desviar o olhar do seu próprio lábio estampado na cara do filho e tentou concentrar toda a sua atenção no jornalista. Estava irritado e com vontade de os contradizer. Disse: ރSabem, tudo isso não passa de um simples mal‑entendido. A fronteira entre o bem e o mal é muito pouco nítida. Eu não pedi o castigo de ninguém, longe de mim ter essa intenção! Castigar alguém que não sabia o que estava a fazer é uma pura barbaridade. O mito de Édito é um belo mito. Mas utilizá‑lo dessa maneira...ރ

            Ia acrescentar mais qualquer coisas mas lembrou‑se que a conversa talvez estivesse a ser gravada. Não sentia a menor ambição de ser citado pelos historiadores do futuro. Tinha era medo de ser citado pela polícia. Porque o que ela lhe exigira fora precisamente que condenasse o artigo nos termos em que o estava a fazer agora. Não lhe agradava nada que, ao fim e ao cabo, a estivesse agora a ouvir da sua própria boca. Sabia que cada frase que se pronunciava naquele país podia um dia ser transmitida pela rádio. Calou‑se.

            <"O que é que o levou a mudar de opinião?ރ, perguntou o jornalista.

            ‑ Eu gostava era de saber o que me levou a escrever o artigoރ, disse Tomas, mas, nesse preciso instante, lembrou‑se: ela viera encalhar na margem da sua cama como uma criança abandonada numa cesta ao sabor das águas. Sim, por causa disso é que tinha ido buscar aquele livro com as lendas de Rômulo, de Moisés, de Édipo. E, de repente, ela estava ali, à sua frente, com a gralha enrolada no cachecol vermelho apertada contra o peito. A imagem reconfortava‑o. Era como se tivesse vindo dizer‑lhe que Tereza estava viva, que nesse instante se encontrava na mesma cidade que ele e que nada mais tinha importância.

            O jornalista quebrou o silêncio: ރCompreendo as suas palavras, doutor. Também eu não gosto que se castiguem pessoas. Mas nós não estamos a reclamar por castigo. Só vamos pedir a remissão do castigo.

            ‑ Eu seiރ. disse Tomas. Aceitava a idéia de que, dentro de alguns segundos, iria fazer uma coisa talvez generosa, mas, de certeza absoluta, perfeitamente inútil (porque não ajudaria em nada os presos políticos) e que lhe era pessoalmente desagradável (porque agira em circunstâncias que lhe eram impostas).

            O filho de Tomas ainda disse (quase em tom de súplica): ރO teu dever é assinar!ރ

            O teu dever? O filho atrevia‑se então a chamá‑lo ao seu dever? Era a pior coisa que lhe podiam ter dito! A imagem de Tereza com a gralha apertada entre os braços voltou a aparecer‑lhe diante dos olhos. Lembrava‑se agora que ela lhe tinha dito que na véspera tinha ido um policial ao bar provocá‑la. As suas mãos tinham recomeçado a tremer. Envelhecera. A não ser ela, já nada tinha importância para ele. Ela, que nascera de seis acasos, ela, a flor que desabrochara da ciática do chefe do serviço, ela, que estava para lá de todos os ces muss sein!", ela, a única coisa que realmente contava.

            Mas então porque é que hesitava? Não havia senão um critério para todas as suas decisões: não fazer nada que pudesse prejudicar Tereza. Não podia salvar os presos políticos, mas podia fazer Tereza

feliz. Não, nem mesmo disso era capaz. Mas, se assinasse a petição, tinha quase a certeza de que os chuis viriam importuná‑la ainda mais vezes e que as suas mãos ainda ficariam a tremer mais.

            Disse: <<É muito mais importante desenterrar uma gralha enterrada viva do que mandar uma petição ao presidente.ރ

            Sabia que a frase era incompreensível, mas isso só lhe dava satisfação. Sentia‑se invadir por uma embriaguez súbita e inesperada. A mesma negra embriaguez do dia em que dissera à mulher que nunca mais queria vê‑los, a ela e ao filho. A mesma negra embriaguez do dia em que deitara na caixa do correio a carta com a qual renunciara para sempre à sua profissão de médico. Não tinha a certeza de estar a proceder bem, mas tinha a certeza de estar a proceder segundo a sua vontade.

            Peço desculpa, disse, mas não vou assinar.ރ

 

            Alguns dias mais tarde, todos os jornais falavam da petição.

            Naturalmente, nenhum dizia que era um humilde requerimento a favor dos presos políticos e que o que se pedia era a sua libertação. Nenhum jornal citava a mais pequena frase daquele texto, já de si tão sucinto. Aquilo de que se falava, em termos vagos e ameaçadores, era de um apelo subversivo que devia funcionar como trampolim para um novo combate contra o socialismo. Os signatários eram todos nomeados, e os seus nomes cobertos de injúrias e calúnias arrepiantes.

            Evidentemente que era previsível. Naquela época, qualquer ação pública (uma reunião, uma petição, uma manifestação) que não fosse organizada pelo Partido Comunista era considerada como ilegal e punha em perigo todos os que tivessem participado nela. Todos tinham consciência disso. Tomas ainda estava com certeza mais arrependido por não ter assinado a petição precisamente por causa disso. Mas, ao certo, porque é que não assinara? Já nem sequer percebia muito bem quais tinham sido os motivos da sua decisão.

            E, ainda uma vez mais, vejo‑o tal como me apareceu no começo deste romance. À janela, a olhar para o prédio em frente do outro lado do pátio.

            Foi dessa imagem que Tomas nasceu. Como já disse, as personagens não nascem de um corpo materno como os seres vivos nascem, mas de uma situação, de uma frase, de uma metáfora que contém

em germe uma possibilidade humana fundamental, que o autor pensa que nunca ninguém descobrira antes dele ou então que nunca ninguém tratara de modo a dizer algo de essencial sobre ela.

            Mas não se costuma dizer que um autor não pode falar senão de si próprio?

            Olhar com angústia para um pátio sem conseguir tomar uma decisão; ouvir o gorgolejar obstinado da nossa própria barriga num minuto de exaltação amorosa; trair e não saber parar na estrada tão bela das traições; erguer o punho na manifestação da Grande Marcha; exibir o nosso bom humor perante os microfones invisíveis da polícia: eu mesmo vivi e conheci todas estas situações; porém, de nenhuma delas saiu a personagem que eu próprio sou no meu curriculum vitae. As personagens do meu romance são as minhas próprias possibilidades não realizadas.. É o que faz com que goste igualmente de todas elas e também com que todas elas me assustem igualmente um pouco. Todas, sem exceção, atravessaram uma fronteira que eu só contornei. O que me atrai precisamente é essa fronteira que elas atravessaram (a fronteira para lá da qual acaba o meu eu). Do outro lado, começa o mistério que o romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que a vida humana é nesta armadilha em que o mundo se converteu. Mas chega por agora. Voltemos a Tomas.

            Está à janela a olhar para a parede suja do prédio em frente, do outro lado do pátio. Pensa com uma espécie de nostalgia naquele tipo alto com queixo de rabeca e nos seus amigos que não conhece, e no número dos quais ele próprio não se inclui. É como se se tivesse cruzado com uma mulher muito bela no cais de embarque de uma estação e que, antes mesmo de poder abordá‑la, ela tivesse subido para o comboio de Lisboa ou de Istambul.

            Pôs‑se de novo a refletir: o que é que devia ter feito? Mesmo abstraindo de tudo quanto tinha a ver com sentimentos (como a admiração que sentia pelo jornalista e a irritação que o filho lhe causava), ainda não estava completamente convencido de que devia ter assinado o texto que lhe fora apresentado.

            Levantarmos a voz quando alguém tenta reduzir um homem ao silêncio será uma atitude correta? Com certeza que sim.

            Mas, por outro lado, porque é que os jornais consagravam tanto espaço à petição? A imprensa (inteiramente manipulada pelo Estado) podia muito bem não ter deixado passar uma única palavra e nunca ninguém saberia de nada. Se falava dela, era porque dava jeito aos senhores do país! Para eles, a petição era uma autêntica dádiva dos céus, e, como tal, serviam‑se dela para justificar e desencadear uma nova vaga de perseguições.

            Então, o que é que devia ter feito? Devia ter assinado ou não?

            A questão também pode ser formulada noutros termos: Será preferível dar um grito que apresse o nosso próprio fim ou ficar calado e comprar uma agonia mais lenta?

            Estas perguntas só terão uma resposta?

            E veio‑lhe de novo à cabeça uma idéia já nossa conhecida: a vida humana só acontece uma vez e nunca podemos verificar qual era a boa e qual era a má decisão porque, em toda e qualquer situação, só podemos decidir uma vez. Não nos é concedida nem uma segunda, nem uma terceira, nem uma quarta vida para podermos comparar as diversas decisões.

            A história é como a vida do indivíduo. Os Tchecos não têm senão uma história. Tal como a vida de Tomas, um dia acaba, sem que seja possível repeti‑la uma segunda vez.

            Em 1618, tomando‑se de brios, a nobreza da Boêmia decidiu defender a sua liberdade religiosa e, furiosa com o imperador sentado no trono de Viena, precipitou de uma janela do palácio abaixo dois dos seus mais eminentes representantes. Foi assim que a Guerra dos Trinta Anos começou, guerra essa que quase levou à destruição total do povo checo. Os Tchecos deviam nessa altura ter sido mais prudentes e menos corajosos? A resposta parece fácil, mas não é.

            Trezentos e vinte anos mais tarde, em 1938, a seguir à Conferência de Munique, o mundo resolveu sacrificar o país dos Tchecos a Hitler. Deveriam nessa altura ter tentado lutar sozinhos contra um inimigo oito vezes mais numeroso? Ao contrário do que fizeram em 1618, foram mais prudentes do que corajosos. A sua capitulação marcou o início da Segunda Guerra Mundial, que se saldou pela perda definitiva da sua liberdade enquanto nação por vários decênios ou por vários séculos. Deveriam nessa altura ter sido mais corajosos do que prudentes? Que deveriam ter feito'?

            Se a história checa se pudesse repetir, seria interessante experimentar caso a caso a outra eventualidade e depois comparar os resultados. Como tal experiência não é possível, todos os raciocínios

se reduzem a um mero jogo de hipóteses.

            Einmal ist keinmal. Uma vez não conta. Uma vez é nunca. A história da Boêmia não há‑de repetir‑se segunda vez, a história da Europa também não. A história da Boêmia e a história da Europa são dois esquissos que a inexperiência da humanidade traçou. A história é tão leve como a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pena, como poeira 'ao vento, como uma coisa que há‑de desaparecer amanhã.

            Tomas voltou a pensar uma vez mais com uma espécie de nostalgia, quase com amor, no jornalista alto e curvado. Era alguém que se comportava como se a história não fosse um esquisso, mas um quadro acabado. Comportava‑se como se tudo o que fazia tivesse de repetir‑se um número incalculável de vezes no eterno retorno, com a certeza de nunca se enganar nos seus atos. Estava convencido que tinha razão, o que para ele não era um sintoma de estreiteza de espírito, mas uma marca de virtude. Era um homem que vivia numa história completamente diferente da de Tomas: numa história que não era (ou que não tinha consciência de ser) um esquisso.

 

            Pouco depois, ainda fez a reflexão que menciono a seguir para melhor esclarecer o capítulo precedente: suponhamos que havia no universo um planeta onde pudéssemos vir ao mundo pela segunda

vez. Ao mesmo tempo, lembrar‑nos‑íamos perfeitamente da vida passada na Terra, de toda a experiência já adquirida.

            E talvez houvesse outro planeta onde viéssemos à luz pela terceira vez com a experiência das duas vidas anteriores.

            E talvez fosse havendo sempre mais planetas onde a espécie humana fosse renascendo sempre um grau mais acima na escala da maturidade.

            Era assim que Tomas via o eterno retorno.

            "Vós, cá na Terra (no planeta número um, no planeta da inexperiência), não podemos ter senão uma idéia muito vaga do que aconteceria ao homem nos outros planetas. Tornar‑se‑ia mais sábio? Poderá alguma vez ter a maturidade ao seu alcance? Poderá ele chegar a ela através da repetição?

            Só na perspectiva desta utopia é que as noções de pessimismo e de otimismo têm sentido. Otimista é quem pensa que a história humana será menos sangrenta no planeta número cinco. Pessimista,

quem não acredita nisso.

 

            Um célebre romance de Júlio Verne, de que Tomas gostava muito em criança, intitula‑se Dois Anos de Férias. e é, de fato, bem certo que a duração máxima das férias são dois anos. Ia fazer daí a pouco três anos que Tomas lavava janelas.

            Durante essas semanas compreendeu (com tristeza, e também com um sorriso sereno) que começava a cansar‑se fisicamente (todos os dias travava um e às vezes dois combates amorosos) e que, embora o seu desejo não tivesse diminuído, só conseguia possuir as mulheres à custa de uma última tensão das suas forças. (Eu acrescento: não das suas forças sexuais, mas das suas forças físicas; não tinha dificuldades com o sexo, mas com a respiração, e era precisamente isso que lhe parecia um bocado cômico.)

            Tentava, um belo dia, marcar um encontro para a tarde, mas, como às vezes acontece, nenhuma das suas amigas atendia o telefone e a tarde arriscava‑se a ficar em branco. Sentia‑se desamparado. Telefonou uma boa dezena de vezes para casa de uma rapariga encantadora, estudante de teatro, cujo corpo, dourado ao sol de alguma praia de nudistas da Iugoslávia, se encontrava coberto de um halo perfeitamente uniforme, como se tivesse estado a girar lentamente num espeto regulado por um mecanismo espantosamente preciso.

            Telefonou‑lhe de todos os armazéns onde trabalhava. Sempre em vão. Por volta das quatro horas, tendo acabado o serviço, dirigia‑se para o escritório para entregar as folhas preenchidas quando, numa rua do centro de Praga, uma desconhecida pôs‑se a chamar por ele. Com um sorriso, a rapariga perguntou: ރDoutor, então por onde é que tem andado escondido? Nunca mais lhe pus a vista em cima!ރ

            Tomas esforçava-se por lembrar-se de onde é que a conhecia. Seria uma das suas antigas doentes? Ela comportava-se como se já tivessem sido amigos íntimos. 'Tentou responder-lhe sem dar a entender que não se lembrava dela. Já pensava em como é que havia de convencê-la a ir com ela ao estúdio do amigo, cuja chave tinha no bolso, quando uma observação inesperada lhe revelou quem era essa mulher: era a estudante de arte dramática com um corpo magnificamente bronzeado a quem passara o dia inteiro a telefonar!

            Esta triste aventura divertia-o mas ao mesmo tempo assustava-o. Estava cansado, não só fisicamente mas também mentalmente; os dois anos de férias não podiam prolongar-se indefinidamente.


 

            As férias longe da sala de operações também eram férias sem Tereza: passavam dias inteiros sem se ver, e ao domingo, finalmente reunidos, repletos de desejo, mas afastados um do outro como na noite em que Tomas voltara de Zurique, tinham um longo caminho a percorrer antes de poderem tocar‑se, antes de poderem beijar‑se. O amor físico dava‑lhes prazer mas não lhes trazia consolação nenhuma. Ela não gritava como gritava dantes e, quando da volúpia, a sua máscara parecia exprimir dor e uma estranha ausência. Ternamente unidos, só de noite, a dormir. Continuavam a dormir de mãos dadas, e ela esquecia o abismo (o abismo da luz do dia) que havia entre eles. Mas, para Tomas, só as noites não chegavam para poder continuar a protegê‑la e a tomar conta dela. De manhã, quando olhava para Tereza, sentia o coração apertar‑se‑lhe e ficava a tremer por ela: a mulher andava com um ar triste e doente.

            Um domingo, ela propôs‑lhe que fossem de automóvel ao campo. Foram a umas termas onde constataram que todas as ruas tinham sido batizadas de novo com nomes russos e onde encontraram um antigo doente de Tomas. Esse encontro deixou‑o bastante perturbado. De um momento para o outro, voltavam a falar‑lhe como se fala a um médico e, durante alguns minutos, pensou que tinha reencontrado a sua vida de outrora, com a sua reconfortante regularidade, com as horas das consultas, com o olhar confiante dos doentes ao qual ele parecia não ligar importância nenhuma mas que lhe dava uma satisfação bem real e que lhe era extremamente necessário.

            No caminho de regresso, Tomas, ao volante, repetia de si para si que deixar Zurique tinha sido um erro catastrófico. Mantinha os olhos convulsivamente fixos na estrada para não ver Tereza. Achava‑a culpada. A sua presença ali ao lado aparecia‑lhe em toda a sua insustentável contingência. Porque é que ela estava ali ao seu lado'? Quem é que a pusera na cesta e a abandonara ao sabor das águas? E que necessidade tivera de ir acostar precisamente à margem da cama de Tomas?' Porquê ela e não outra qualquer'?

            Continuavam o seu caminho; durante todo o trajeto nem um nem outro descerraram os dentes.

            Uma vez em casa, jantaram em silêncio.

            O silêncio erguia‑se entre eles como a infelicidade. De minuto a minuto, tornava‑se cada vez mais pesado. Para se verem livres dele, foram deitar‑se muito cedo. Durante a noite, acordou‑a para ela deixar de chorar.

            Tereza contou‑lhe: "Eu estava enterrada. Desde há muito tempo. Tu vinhas ver‑me uma vez por semana. Batias na cova e eu saía. Tinha os olhos cheios de terra.

            ރTu dizias: 'Assim não vês nada,, e tiravas‑me a terra dos olhos.

            E eu respondia‑te: 'Seja como for, não vejo nada. Tenho buracos em vez de olhos.,

            ރDepois, estiveste muito tempo sem aparecer e eu sabia que tu estavas com outra. As semanas passavam e tu sempre sem apareceres. Já não conseguia dormir porque tinha medo que tu viesses e eu

não desse por isso. Um dia, acabaste por voltar e bateste na cova, mas eu estava tão cansada por ter estado um mês inteiro sem dormir que mal tinha forças para me levantar e sair lá para fora. Quando acabei finalmente por conseguir, tu ficaste com um ar desiludido. Disseste‑me que eu estava com má cara. Sentia que te desagradava, que tinha a cara cavada, que fazia gestos incoerentes.

            Para me desculpar, disse‑te: Perdoa‑me: é que não preguei olho durante este tempo todo.

            "E tu disseste, com uma voz que era para me tranqüilizar mas que soava a falso: Vês? Tens que descansar. Devias tirar um mês de férias.'

            ރE eu sabia perfeitamente o que querias dizer quando me falavas em férias! Sabia que tu querias ficar um mês inteiro sem me ver porque estavas com outras. Foste‑te embora e eu voltei para o fundo da cova. e sabia que ia estar outra vez um mês inteiro sem dormir para não faltar ao nosso encontro, e que, quando voltasses, ao fim de um mês, ainda estaria mais feia e tu ainda ficarias mais desiludido.ރ

            Tomas nunca ouvira nada tão pungente. Apertava Tereza de encontro a si, sentia‑lhe o corpo a tremer e pensava que já não tinha forças para carregar o amor que sentia por ela.

            Que o planeta vacilasse sob as deflagrações das bombas, que a pátria fosse cada novo dia pilhada por um novo intruso, que todos os habitantes do bairro fossem obrigados a comparecer perante o pelotão de execução, tudo isso suportaria mais facilmente do que se atrevia a confessar. Mas a tristeza de um só sonho de Tereza era‑lhe perfeitamente insuportável.

            Voltava para dentro do sonho que ela lhe acabara de contar. Acariciava‑lhe a face e, muito discretamente, para ela não perceber, tirava‑lhe a terra das órbitas. Depois ouviu‑a pronunciar esta frase,

a mais pungente de todas: ރSeja como for, não vejo nada. Tenho buracos em vez de olhos.ރ

            Sentiu‑se à beira do enfarte.

            Tereza voltara a adormecer; agora era ele que não conseguia dormir. Imaginava‑a morta. Ela estava morta e tinha sonhos horríveis; mas, como estava morta, ele não podia acordá‑la. Sim, a morte era isso: Tereza a dormir e a ter sonhos atrozes e ele sem poder acordá‑la.

 

            Cinco anos depois de o exército russo ter invadido o país de Tomas, Praga estava muito diferente: as pessoas com quem Tomas se cruzava na rua já não eram as mesmas de dantes. Metade dos seus amigos tinha emigrado e metade dos que ficaram tinha morrido. É um fato que não será assinalado por historiador nenhum: os anos que se seguiram à invasão russa foram um período de enterros; nunca houve tantos óbitos. E não falo só dos casos (afinal de contas bastante raros) em que as pessoas foram encurraladas e empurradas pára a morte como Jan Prochazka. Quinze dias depois de a rádio ter começado a transmitir quotidianamente a gravação das suas conversas privadas, deu entrada no hospital. De súbito, o cancro que, por certo, já dormitava discretamente há algum tempo no seu corpo, floriu como uma rosa. A operação teve lugar na presença da polícia e esta, quando constatou que o escritor estava condenado, deixou de interessar‑se por ele e permitiu‑lhe morrer nos braços da mulher. Mas a morte também atingia aqueles que não eram diretamente perseguidos. Infiltrando‑se através da alma, o desespero que tomara conta do país apoderava‑se dos corpos e fazia‑os cair por terra. Alguns fugiam desesperadamente para evitar os favores do regime que queria cumulá‑los de honrarias e obrigá‑los a aparecer em público com os novos dirigentes. Foi assim que o poeta Frantisek Hrubine morreu: a fugir do amor do Partido. O ministro da Cultura, ao qual tentara com todas as suas últimas forças escapar, acabou por apanhá‑lo no caixão. Fez‑lhe um discurso sobre a campa, um discurso que versava sobre o amor do poeta à União Soviética. Talvez tenha proferido tal ignomínia para acordar o poeta. Mas o mundo estava tão feio que ninguém se queria levantar de entre os mortos.

            Tomas foi à câmara crematória assistir às exéquias de um célebre biólogo expulso da Universidade e da Academia das Ciências. Para evitar que a cerimônia se transformasse em manifestação, tinham proibido que a hora viesse indicada nas participações e os parentes só à última da hora é que souberam que o defunto seria incinerado às seis e meia da manhã.

            Ao penetrar na câmara crematória, Tomas não conseguiu logo perceber o que estava a passar‑se: a sala estava iluminada como um estúdio de cinema. Surpreendido, olhou em torno de si e constatou que havia câmaras de filmar instaladas nos três ângulos da sala. Não, não era a televisão, mas a polícia que filmava o enterro para poder identificar quem lá estava. Um antigo colega do sábio falecido, que ainda era membro da Academia das Ciências, teve a coragem de pronunciar algumas palavras ao pé do caixão. Nunca pensara vir assim a tornar‑se uma estrela de cinema.

            Depois da cerimônia, enquanto os presentes cumprimentavam a família do defunto, Tomas viu, num canto a sala, um pequeno grupo, onde reconheceu o jornalista alto e curvado. Continuava a pensar com uma espécie de nostalgia naquelas pessoas que não têm medo de nada e se ligam com uma forte amizade umas às outras. Aproximou‑se dele, sorriu‑lhe, quis cumprimentá‑lo, mas o homem alto e curvado disse: <Atenção, doutor, é melhor não se aproximar. ރ

            Era uma frase ambígua. Podia tomá‑la como um aviso sincero e amigável (ރTenha cuidado, estamos a ser filmados, se nos dirige a palavra é meio caminho andado para novo interrogatórioރ), mas

também não era de excluir que encerrasse uma certa ironia (ރJá que não teve a coragem de assinar uma petição, seja coerente e não tenha mais contactos conosco!ރ). Fosse qual fosse a interpretação, Tomas obedeceu e eclipsou‑se. Tinha a impressão de que a bela desconhecida com quem se cruzara no cais de embarque da estação subia para a carruagem‑cama de um rápido e que, no momento em que estava quase a dizer‑lhe que a admirava, ela punha um dedo nos lábios para impedi‑lo de falar.

 

            À tarde, teve um encontro interessante. Estava a lavar a montra de uma loja quando um homem ainda novo parou a dois passos dele. O homem debruçou‑se para examinar as etiquetas.

            cEstá tudo cada vez mais caro!ރ, disse Tomas, sem parar de esfregar a esponja no vidro molhado.

            O homem virou a cabeça. Era um colega do hospital, aquele a que chamei S., e que sorria com indignação à idéia de que Tomas pudesse fazer a sua autocrítica. Tomas sentia‑se feliz com o encontro (não era senão o prazer ingênuo que o inesperado nos traz), mas percebeu no olhar do colega (logo no primeiro segundo, enquanto S. ainda não tinha tido tempo de controlar a sua reação) uma expressão de desagradável surpresa.

            "Como estás?ރ, perguntou S.

            Antes mesmo de dar uma resposta, Tomas compreendeu que S. tinha ficado com vergonha da pergunta. Um médico que continuava a exercer a sua profissão perguntar a um médico que lavava janelas ރcomo estás?ރ era evidentemente uma gafe terrível.


            "Melhor do que nuncaރ, respondeu Tomas com o ar mais contente do mundo, para lhe aliviar o mal‑estar, mas sentiu imediatamente que esse ރmelhor do que nuncaރ podia, contra sua vontade, ser interpretado (por causa do tom enfático com que o dissera) como uma amarga ironia.

            "Que novidades me contas do hospital?, apressou‑se a acrescentar.

            ‑ Nenhumas, corre tudo normalmenteރ, respondeu S.

            Mesmo esta resposta, que ele pretendia que fosse perfeitamente neutra, não podia ser mais despropositada; ambos o sabiam e pressentiam que o outro também sabia: como é que tudo podia correr

normalmente quando um dos médicos lavava montras?

            ރE o chefe do serviço?, perguntou Tomas.

            ‑ Deixaste de o ver'?, interrogou S.

            ‑ Deixeiރ, disse Tor'ias.

            Era verdade. Desde que saíra do hospital nunca mais vira o chefe do serviço, embora outrora fossem excelentes colaboradores e quase tivessem tendência para se considerar amigos. Embora não fosse de propósito, o ރdeixeiރ que acabara de pronunciar tinha qualquer coisa de triste e Tomas sentia que S. estava arrependido de lhe ter feito a pergunta, já que ele próprio, S., tal como o chefe do serviço, nunca viera saber notícias de Tomas e perguntar‑lhe se precisava de alguma coisa.

            A conversa entre os dois antigos colegas estava a tornar‑se impossível, embora ambos, sobretudo Tomas, o lamentassem.

            Não queria mal aos colegas por se terem esquecido dele.

            Tê‑lo‑ia explicado de boa vontade, e logo de seguida àquele jovem médico. Tinha vontade de lhe dizer: ރNão fiques com esse ar incomodado. É normal e está perfeitamente na ordem natural das coisas que vocês não me procurem! Não tenhas complexos por causa disso! Para mim, foi um verdadeiro prazer encontrar‑te!ރ, mas, mesmo isso, tinha medo de lho dizer porque até agora nenhuma das suas palavras soara com o sentido que lhes queria dar e o seu antigo colega podia suspeitar que, por detrás dessas frases e por muito sinceras que elas fossem, podia esconder‑se um sarcasmo.

            ރDesculpa, disse por fim S., estou com pressaރ, e estendeu‑lhe a mão. "<Depois telefono.ރ

            Dantes, quando os colegas o desprezavam por causa da sua suposta cobardia, todos lhe sorriam. Agora, que já não podiam desprezá‑lo, que eram mesmo forçados a respeitá‑lo, evitavam‑no.

            Aliás, os seus antigos doentes também já não lhe faziam convites para bebericar champanhe. A situação dos intelectuais despromovidos já não tinha nada de excepcional; era um estado permanente cujo espetáculo incomodava.

 

            Entrou em casa, deitou‑se e adormeceu mais depressa do que o costume. Mais ou menos uma hora depois, acordou com dores de estômago. Era uma maleita antiga que voltava sempre que estava deprimido. Abriu o armário dos remédios e pôs‑se a praguejar. Não havia medicamentos. Tinha‑se esquecido de os arranjar. Tentou debelar a crise pela força de vontade, e quase conseguiu, mas não tornou a adormecer. Quando Tereza chegou a casa, por volta da uma e meia da manhã, apeteceu‑lhe conversar com ela. Contou‑lhe o enterro, o que acontecera com o jornalista que se tinha recusado a falar‑lhe e o seu encontro com o colega S.

            “ Praga está a tornar‑se uma cidade muito feia, disse Tereza.

            ‑ É verdadeރ, respondeu Tomas.

            Alguns segundos depois, Tereza disse em voz baixa: ރO melhor era irmo‑nos embora.

            ‑ Também acho, disse Tomas. Mas não temos para onde ir.ރ

            Estava sentado em cima da cama, de pijama; ela veio sentar‑se a seu lado e passou‑lhe o braço por baixo da cintura.

            ރ Vamos para o campo, disse Tereza.

            ‑ Para o campo?, perguntou ele, surpreendido.

            ‑ Lá, podíamos estar sozinhos. Não tinhas de ver nem o jornalista nem os teus colegas. Lá, há outras pessoas, e há a natureza que ainda está como dantes.ރ

            Nesse momento, Tomas ainda teve uma dor indefinida no estômago; sentia‑se velho e tinha a impressão de não querer mais nada senão um bocadinho de paz e tranqüilidade.

            "<Talvez tenhas razãoރ, disse com dificuldade, porque lhe custava respirar quando tinha dores.

            Tereza voltou a insistir: ރPodíamos ter um casibeque com um jardinzito. Karenine havia de sentir‑se nas suas sete quintas.

            ‑ Pois haviaރ, concordou Tomas.

            Depois, tentou imaginar como seria se realmente fossem viver para o campo. Numa aldeia, era com certeza muito difícil ter uma mulher nova todas as semanas. Era o fim das suas aventuras eróticas.

            <<Só que, no campo, te chateavas de morte por só me teres a mim... >>. disse Tereza, adivinhando‑lhe os pensamentos.

            A dor de estômago aumentava. Já não conseguia falar. Pensou que andar atrás das mulheres também era um ރes muss sein!ރ para ele, um imperativo que o reduzia à escravatura. Apetecia‑lhe ter

férias. Mas férias absolutas, férias em que dissesse adeus a todos os imperativos, a todos os ރes muss sein!ރ. Se tinha conseguido livrar‑se da sala de operações do hospital, porque é que não havia de conseguir livrar‑se da sala de operações do mundo onde o seu bisturi imaginário passava o tempo a abrir a misteriosa caixinha das jóias do eu feminino para pôr à mostra a sua ilusória milionésima parte de diferença?

            cDói‑te o estômago?ރ, percebeu finalmente Tereza.

            Disse‑lhe que sim.

            "Já tomaste a injeção?ރ

            Abanou a cabeça. ރEsqueci‑me de comprar remédios.ރ

            Tereza censurou‑o pela sua negligência e acariciou‑lhe a testa perlada de suor.

            cJá me sinto melhor, disse.

            ‑ Deita‑teރ, disse ela, pondo‑lhe o cobertor por cima. Foi à casa de banho e, passados instantes, veio deitar‑se ao seu lado.

            Voltou a cabeça sobre a almofada para o lado dela e foi assaltado pelo pânico: a tristeza que emanava dos olhos de Tereza era insuportável.

            Disse‑lhe: ރOuve, Tereza! O que é que tu tens? Há já algum tempo que te acho estranha. Sinto‑o. Sei‑o.ރ

            Ela abanou a cabeça: ރNão, não tenho nada.

            ‑ Não digas que não!

            ‑ É a mesma coisa de sempreރ, disse Tereza.

            <<A mesma coisa de sempreރ queria dizer que ela tinha ciúmes e que ele continuava a traí‑la.

            Mas Tomas voltou a insistir: cNão, Tereza. Agora é diferente. Nunca te vi em tal estado. ރ

            Tereza replicou‑lhe: <Ora muito bem! Já que mo pedes, vou mesmo dizer‑te: vai lavar a cabeça!ރ

            Tomas não percebia.

            Ela disse‑lhe tristemente, sem agressividade e quase com ternura: <<É que já há alguns meses que trazes um cheiro insuportável nos cabelos. Tresandam a sexo. Não to queria dizer. Mas já perdi a conta às noites em que me tens obrigado a respirar o cheiro do sexo das tuas amantes!ރ

            Ao som destas palavras, voltaram a dar‑lhe as cãibras no estômago. Era desesperante! Esfregava escrupulosamente o corpo todo, as mãos, a cara, para tirar toda e qualquer réstea de cheiros desconhecidos. Nas casas de banho alheias, evitava sempre os sabonetes. Andava munido com um sabão de seda. Mas tinha‑se esquecido do cabelo. Não, nos cabelos nunca tinha pensado!

            E lembrou‑se daquela mulher que se punha a cavalo na sua cara e que lhe exigia que fizesse amor com a cara e com o alto da cabeça. Como a detestava agora! Que idéias tão parvas as suas! Via que não podia desmentir nada e que só podia pôr‑se estupidamente a rir e depois ir à casa de banho lavar a cabeça.

            Tereza voltou a acariciar‑lhe a testa. ރDeixa‑te estar deitado. Já não vale a pena. Estou habituada.ރ

            Doía‑lhe o estômago e não queria senão calma e tranqüilidade.

            Disse‑lhe: cVou escrever àquele meu doente que encontramos nas termas. Tu conheces a região onde a aldeia dele fica?

            ‑ Nãoރ, disse Tereza.

            Tomas já só falava com grande dificuldade. Apenas conseguiu articular: ރFloresta... colinas...

            ‑ Sim, é isso mesmo. Vamo‑nos embora. Mas agora cala‑ter, e continuava a acariciar‑lhe a testa. Estavam deitados um ao lado do outro em silêncio. Lentamente, a dor ia recuando. Em breve, ambos adormeceram.

 

            Acordou a meio da noite e constatou com surpresa que tinha tido sonhos extremamente eróticos. Só se lembrava com nitidez do último: havia uma mulher gigante a nadar toda nua numa piscina, uma mulher umas boas cinco vezes maior do que ele, com a barriga totalmente coberta por uma espessa crina, que lhe ia das pernas ao umbigo. Observava‑a da borda e estava extraordinariamente excitado.

            Como é que podia excitar‑se com o corpo tão debilitado pelas dores de estômago'? E como é que podia excitar‑se com uma mulher que, se estivesse acordado, não lhe inspiraria senão nojo?

            Pôs‑se a pensar: Há duas rodas dentadas a girar em sentido contrário no relógio do nosso cérebro. Numa, há as visões, na outra, as reações do corpo. O dente que tem a visão de uma mulher nua gravada engrena no dente oposto, onde está inscrito o imperativo da ereção. Quando, por qualquer razão, o mecanismo se avaria e o dente da excitação entra em contacto com o dente no qual está pintada a imagem de uma andorinha a voar, o nosso sexo levanta‑se só por ver a andorinha.

            Tinha, aliás, conhecimento de um estudo no qual um dos seus colegas, especialista do sono, afirmava que um homem a sonhar está sempre em ereção, seja qual for o seu sonho. A associação da ereção com uma mulher nua não era senão a maneira que Deus escolhera de entre as mil e uma possíveis de regular o mecanismo do relógio da cabeça do homem.

            E que tem o amor a ver com isso? Nada. Basta que uma roda da engrenagem se desvie de uma fracção de milímetro na cabeça de Tomas para ele ficar excitado por ver uma andorinha, mas isso não altera em nada o seu amor por Tereza.

            Se a excitação é um mecanismo que depende de um capricho do Criador, o amor é, pelo contrário, aquilo que só nos pertence a nós e através do qual escapamos ao Criador. O amor é a nossa liberdade. O amor está para lá da necessidade, para lá do ރes muss sein!ރ.

            Mas a verdade também não é ainda bem essa. Mesmo que o amor seja algo de muito diferente do mecanismo de relógio da sexualidade que o Criador imaginou para sua alta recreação, ele encontra‑se sempre ligado a ela, como uma delicada figura de mulher nua ao pêndulo de um enorme relógio de sala.

            Tomas disse de si para si: Ligar o amor à sexualidade foi realmente uma das idéias mais bizarras do Criador.

            E ainda pensou o seguinte: A única maneira de salvar o amor da estupidez da sexualidade era regular de outra maneira o relógio da nossa cabeça e fixar excitado por ver uma andorinha.

            Com este doce pensamento, sentiu‑se mais relaxado. E, à beira do sono, no espaço encantado das visões confusas, convenceu‑se que acabara de descobrir a solução de todos os enigmas, a chave do mistério, uma nova utopia, o Paraíso: um mundo em que se fica em ereção por ver uma andorinha e onde é possível amar Tereza sem ser importunado pela estupidez agressiva da sexualidade.

            Voltou a adormecer.

 

            À sua volta rodopiavam mulheres meio despidas, e sentia‑se cansado. Para lhes escapar, abriu a porta que dava para o quarto ao lado. Viu uma rapariga deitada num divã. Também se encontrava quase nua, pois só tinha umas cuecas vestidas; estava deitada de lado. apoiada num cotovelo. Olhava para ele e sorria, como se já estivesse à sua espera.

            Aproximou‑se. Sentia‑se inundado por uma imensa felicidade, porque finalmente a encontrara e podia estar com ela. Sentou‑se a seu lado, disse‑lhe algumas palavras, e, por sua vez, também ela lhe disse algumas palavras. Irradiava dela uma calma enorme. Os gestos que fazia com a mão eram lentos e suaves. Toda a vida desejara a paz daqueles gestos. Era aquela calma feminina que lhe faltara toda a vida.

            Mas em breve passou do sono para o estado de semiconsciência. Encontrava‑se naquele no man's land onde já se não está a dormir e ainda se não está acordado. Tinha medo de perder aquela rapariga de vista e pensava: Meu Deus! Agora não a posso perder! Tentava lembrar‑se com todas as suas forças de onde é que a conhecia, daquilo que tinha vivido com ela. Como é que podia não se lembrar se a conhecia tão bem? Prometeu a si próprio que, mal pudesse, havia de telefonar‑lhe. Mas logo se pôs a tremer: como é que podia telefonar‑lhe se não se lembrava do nome dela? Como é que tinha podido esquecer‑se do nome de alguém que conhecia tão bem? A seguir, quase completamente acordado, com os olhos abertos, pensou: Onde é que eu estou? Em Praga, claro, mas aquela rapariga será de Praga? Não a terei encontrado noutro lado? Não a terei conhecido na Suíça? Foi preciso um bom minuto para compreender que não conhecia a rapariga, que ela não era nem de Zurique nem de Praga, que fora o seu sonho que a criara e que ela não era de parte nenhuma.

            Ficou tão perturbado que se sentou à beira da cama. Tereza dormia com uma respiração muito funda ao seu lado. Dizia para si próprio que a rapariga do sonho não era parecida com nenhuma das mulheres que encontrara na sua vida. Aquela rapariga que lhe parecera tão familiar era, de fato, uma desconhecida. Mas era ela que sempre desejara. Se um dia encontrasse o seu paraíso pessoal. se é que tal coisa existe, era com essa rapariga que lá havia de viver. A rapariga do sonho era o ރes muss sein!ރ do seu amor.

            Lembrou‑se do célebre mito do Banquete de Platão: dantes, em tempos muito recuados, os humanos eram hermafroditas e Deus separou‑os em duas metades, que, desde então, erram pelo mundo à procura uma da outra. Amar é desejar essa metade perdida de nós próprios.

            Admitamos que assim seja; que cada um de nós tenha algures no mundo um par com o qual constituía em tempos um único corpo. A outra metade de Tomas é a rapariga com quem ele sonhou. Mas

nunca ninguém há‑de encontrar a outra metade de si próprio. Em vez dela, mandam‑lhe uma Tereza dentro de uma cesta ao sabor das águas. Mas o que acontecerá depois, se encontrar realmente a mulher que lhe estava destinada, a outra metade de si próprio? Qual é que deve preferir? A mulher que encontrou numa cesta ou a mulher do mito de Platão?

            Põe‑se a imaginar que vive num mundo ideal com a mulher que lhe apareceu em sonhos. E Tereza, um dia, passa por baixo das janelas da casa onde eles vivem. Está sozinha, pára no passeio e olha‑o de longe com um olhar infinitamente triste. E ele, ele não consegue suportar esse olhar. Uma vez mais, sente a dor de Tereza no âmago do seu próprio coração! Uma vez mais, é presa da compaixão e encontra‑se profundamente mergulhado na alma de Tereza. Salta pela janela. Mas ela diz‑lhe com amargura que a única coisa que tem a fazer é ficar onde se sente feliz, e di‑lo com aqueles gestos incoerentes que sempre o irritaram e sempre achou feios. Agarra‑lhe nas mãos, naquelas suas mãos tão nervosas, e aperta‑as nas suas para as acalmar. E sabe que está pronto a deixar a qualquer momento a casa da sua felicidade, que está pronto a deixar a qualquer momento o paraíso onde vive com a rapariga dos seus sonhos, que vai trair o ރes muss sein!ރ do seu amor para se ir embora com Tereza, essa mulher nascida de seis acasos grotescos.

            Sentado na cama, olhava para a mulher deitada a seu lado, que lhe apertava a mão a dormir. Sentia por ela um amor inexprimível. Nesse momento, ela devia estar com um sono muito leve porque abriu as pálpebras e olhou para ele com um ar assustado.

            ރPara onde é que estás a olhar?ރ, perguntou ela.

            Sabia que não devia acordá‑la e que devia voltar a conduzi‑la para o sono; tentou responder‑lhe com palavras que lhe acendessem na cabeça a fagulha de um novo sonho.

            ރEstou a olhar para as estrelas, disse. ele.

            ‑ Não me mintas, tu não estás a olhar para as estrelas, tu estás a olhar para baixo.

            ‑ Mas, como vamos num avião, as estrelas estão por baixo de nós.

            ‑Ah!ރ, disse Tereza. Apertou ainda com mais força a mão de Tomas e voltou a adormecer. Tomas sabia que, agora, Tereza estava a olhar pela janela de um avião que voava tão alto que ia por cima das estrelas.

 

A GRANDE MARCHA

            Só em 1980, através de um artigo publicado no Sunday Times, se ficou a saber em que circunstâncias morreu Iakov, o filho de Stalin. Prisioneiro de guerra durante a Segunda Guerra Mundial, encontrava‑se detido num campo onde também havia oficiais ingleses. As latrinas eram comuns. O filho de Stalin deixava‑as sempre sujas. Os ingleses não gostavam de ver as suas latrinas cheias de merda, mesmo que a merda fosse do filho daquele que era então o homem mais poderoso do universo. Ralharam com ele. O filho de Stalin ficou ofendido. Os oficiais ingleses voltaram a repreendê‑lo e obrigaram‑no a limpar as latrinas. Zangou‑se, discutiu com eles e agrediu‑os. Por fim, pediu para ser recebido pelo comandante do campo. Queria que ele arbitrasse o diferendo. Mas o alemão estava demasiado imbuído da sua importância para deixar‑se envolver numa discussão sobre merda. O filho de Stalin não pôde suportar tal humilhação. Lançando aos céus as pragas russas mais tremendas, correu em direção ao arame farpado e eletrificado que cercava o campo. Atirou‑se contra os fios. Aí ficou suspenso o corpo que

nunca mais havia de sujar as latrinas britânicas.

 

            O filho de Stalin não teve uma vida fácil. O pai engendrou‑o cm uma mulher que, conforme tudo indica, acabou por mandar fuzilar. O jovem Stalin era, portanto, ao mesmo tempo, filho de Deus (porque o seu pai era venerado como Deus) e maldito por ele. As pessoas temiam‑no duplamente: podia prejudicá‑los tanto pelo poder que ainda tinha (sempre era o filho de Stalin) como pela sua amizade (o pai podia mandar castigar os amigos em vez do filho).

            Maldição e privilégio, felicidade e infelicidade ‑ nunca ninguém sentiu tanto na própria pele o ponto a que essas oposições são intermutáveis e como é estreita a margem entre os dois pólos da existência humana.

            Logo no princípio da guerra foi capturado pelos alemães e eis que outros prisioneiros, membros de uma nação pela qual sempre sentira uma antipatia visceral, porque lhe parecia incompreensivelmente fechada, o acusavam de ser porco. Ele, que carregava às costas o drama mais sublime que possa ser concebido (ser ao mesmo tempo filho de Deus e anjo caído em desgraça), tinha agora que suportar ser julgado, e não por coisas nobres (a respeito de Deus ou dos anjos), mas por causa da merda? O drama mais nobre e o incidente mais trivial estarão assim tão vertiginosamente próximos um do outro?

            Vertiginosamente próximos? Então a proximidade também pode causar vertigens?

            Claro que pode. Quando o pólo norte se aproximar do pólo sul quase a ponto de o tocar, o nosso planeta desaparecerá e o homem terá à sua volta um tal vazio que ficará aturdido e cederá à sedução da queda.

            Se a maldição e o privilégio são uma e a mesma coisa, se não há diferenças entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado por causa da merda, a existência humana perde as suas dimensões e torna‑se de uma leveza insustentável. Então, o filho de Stalin corre em direção ao arame farpado para lançar contra ele o corpo, como se estivesse a lançá‑lo para o prato de uma balança que miseravelmente subisse soerguido pela infinita leveza de um mundo sem dimensões.

            O filho de Stalin deu a vida pela merda. Mas morrer pela merda não é uma morte absurda. Os alemães que sacrificaram a vida para aumentar o território do império para leste, os russos que morreram para que o poder do seu país se estendesse mais para ocidente, esses sim, morreram por um disparate e a sua morte não tem nem qualquer espécie de sentido nem de valor geral. Em contrapartida, a morte do filho de Stalin foi a única morte metafísica no meio da estupidez universal da guerra.

 

            Quando eu era pequeno, punha‑me a olhar para uma imagem de Deus Nosso Senhor de pé, em cima de uma nuvem que havia no Antigo Testamento, contado às crianças e ilustrado com gravuras de Gustavo Doré, que costumava folhear. Era um senhor bastante velho, com olhos, nariz, uma grande barba, e eu achava que, como tinha boca, também devia comer. E, se comia, também devia ter intestinos. Mas ficava logo assustado com a ideia porque, embora a minha família fosse quase ateia, percebia bem a blasfêmia que era pensar que Deus Nosso Senhor tinha intestinos.

            Sem a mínima preparação teológica, com toda a espontaneidade, a criança que eu era então já compreendia, portanto, a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Das duas, uma: ou o homem foi criado à imagem de Deus e Deus tem intestinos, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.

            Os gnósticos antigos sentiam‑no tão claramente como eu, aos cinco anos. Para acabar de uma vez por todas com este maldito problema, Valentino, grão‑mestre da Gnose do século i, afirmava que Jesus comia, bebia, mas não defecavaރ.

            A merda é um problema teológico mais difícil do que o mal. Deus ofereceu a liberdade ao homem e, Portanto, pode admitir‑se que ele não é responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela existência da merda incumbe inteiramente àquele que criou o homem, e só a ele.

 

            São Jerónimo rejeitava categoricamente, no século v, a possibilidade de que Adão e Eva alguma vez tivessem dormido um com o outro no Paraíso. João Escoto Erígena, ilustre teólogo do século ix, defendia precisamente o contrário. Mas, na sua opinião, Adão podia levantar o seu membro mais ou menos como nós levantamos um braço ou uma perna, ou seja, quando queria e como queria. Não tentemos descortinar por detrás desta idéia o eterno sonho do homem obcecado com o pesadelo da impotência. A idéia de Escoto Erígena tem um significado completamente diferente. Se o membro viril se levanta a uma simples ordem do cérebro, é porque a excitação é dispensável. O membro não se levanta por estar excitado, mas porque obedece a uma ordem. O que o grande teólogo julgava incompatível com o Paraíso não era o coito e a volúpia que lhe está associada. O que era incompatível com o Paraíso era a excitação. Fixemo‑lo bem: no Paraíso, havia volúpia, mas excitação, não.

            O raciocínio de Escoto Erígena pode constituir a chave de uma justificação teológica (ou, por outras palavras, de uma teodiceia) da  merda. Enquanto foi permitido ao homem viver no Paraíso, ou ele não defecava (tal como Jesus Cristo, segundo Valentino) ou, o que parece mais plausível, a merda não era tida como algo de repugnante. Ao expulsar o homem do Paraíso, Deus revelou‑lhe tanto a sua natureza imunda como o nojo. O homem começou a esconder aquilo de que se envergonhava e quando afastava o véu quase ficava cego com o brilho de uma grande luz. Assim, logo a seguir a ter descoberto o imundo, também descobriu a excitação. Sem a merda (no sentido literal e no sentido figurado da palavra), o amor sexual não seria nunca tal como nós o conhecemos: com o coração a martelar e uma grande cegueira dos sentidos.

            Na terceira parte deste romance, evoquei Sabina seminua, com o chapéu de coco na cabeça, de pé, ao lado de Tomas, todo vestido. Mas há uma coisa que ocultei. Enquanto se viam ao espelho e ela se sentia excitada com o ridículo da situação, imaginava que, tal como estava, com o chapéu de coco na cabeça, Tomas a obrigava a sentar na privada e a esvaziar os intestinos à sua frente. O coração começou a bater‑lhe mais depressa, as idéias a turvarem‑se‑lhe; empurrou Tomas para cima da carpete; no minuto seguinte, estava a gritar de prazer.

 

            O debate entre aqueles que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que ninguém o criou tem como objeto algo que ultrapassa o nosso entendimento e a nossa experiência. Bem mais real é a diferença entre aqueles que contestam o ser tal como foi dado ao homem (pouca importa como e por quem) e aqueles que a ele aderem sem reservas de espécie nenhuma.

            Todas as crenças européias, sejam elas religiosas ou políticas, têm por detrás de si o primeiro capítulo do Gênesis, do qual se infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser é bom e, por conseqüência, que procriar é uma coisa boa. Chamemos a esta crença fundamental acordo categórico com o ser.

            Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por três pontinhos, não era seguramente por uma questão de moral. Apesar de tudo, ninguém pode pretender que a merda seja imoral! O desacordo com a merda é metafísico. O instante da defecção é a prova quotidiana do caráter inaceitável da criação. Pás duas, uma: ou a merda é aceitável (então porque é que se fecham na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram é que é inadmissível.

            Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. Esse ideal estético chama‑se kitsch.

            É uma palavra alemã que apareceu em meados do século XIX sentimental e que depois se vulgarizou em todas as línguas. Mas a sua utilização freqüente fê‑la perder todo o valor metafísico original: o kitsch é, por essência, a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado, o kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.

 

            A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo não teve uma conotação ética, mas estética. Mais do que a fealdade do mundo comunista (os palácios convertidos em estábulos, por exemplo), o que lhe causava repugnância era a máscara de beleza com que ele se cobria, ou, por outras palavras, o kirsch comunista. O modelo mais acabado desse kitsch é a chamada festa do 1.o de Maio.

            Ainda assistira aos desfiles do 1.o de Maio numa época em que as pessoas se entusiasmavam com eles ou, pelo menos, se esforçavam por mostrá‑lo. As mulheres iam vestidas com camisas vermelhas, brancas ou azuis e desfilavam em conjuntos que, vistos das janelas e das varandas, formavam estrelas de cinco pontas, corações e letras. Entre as diversas secções, intercalavam‑se pequenas orquestras que ritmavam a marcha. Quando o cortejo já estava perto da tribuna, mesmo os rostos mais sombrios se iluminavam com um sorriso, como se as pessoas quisessem provar que, como não podia deixar de ser, se regozijavam ou, melhor, que, como não podia deixar de ser, estavam de acordo. E não se tratava de um simples acordo político com o comunismo, mas de um acordo com o ser enquanto tal. A festa do 1.o de Maio ia beber diretamente na fonte profunda do acordo categórico com o ser. A palavra de ordem tácita e

invisível do desfile não era ރViva o comunismo!ރ, mas ރViva a vida!ރ. A força e a astúcia da política comunista consistiu em apoderar‑se dessa palavra de ordem. Era precisamente essa estúpida tautologia (ރViva a vida!ރ) que empurrava para o desfile comunista

muita gente que era perfeitamente indiferente ao comunismo.

 

            Uma dezena de anos mais tarde (já vivia na América), encontrava‑se no enorme automóvel de um senador americano, amigo de uns amigos seus, que a tinha levado a dar uma volta. No banco de trás, iam quatro crianças apertadas umas contra as outras. O senador parou o carro; as crianças saíram, atravessaram a correr um enorme relvado e entraram num estádio onde havia um rinque de patinagem no gelo. O senador continuava ao volante e olhava com ar sonhador para as quatro figurinhas que corriam; voltou‑se para Sabina e disse, enquanto descrevia com a mão um círculo que englobava o estádio, o relvado e as crianças: ރOlhe bem para eles! Para mim, a felicidade é isto!ރ.

            As suas palavras não eram só uma expressão da alegria por ver as crianças a correr e a relva a crescer; eram também uma manifestação de compreensão para com uma mulher vinda de um país comunista onde, estava ele convencido, a relva não cresce e as crianças não correm.

            Mas, nesse momento, Sabina imaginou o mesmo senador posto numa tribuna de uma praça de Praga. Tinha no rosto exatamente o mesmo sorriso que os homens de Estado comunistas faziam, do alto

da sua tribuna, aos cidadãos igualmente sorridentes que desfilavam em cortejo a seus pés.

 

            Como é que o senador podia dizer que as crianças eram a felicidade? Lia‑lhes na alma? E se, mal acabassem de sair do seu campo de visão, três de entre elas se atirassem à quarta para lhe dar uma tareia?

            O senador não tinha senão um argumento a favor da afirmação que fizera: a sua sensibilidade. Quando o coração falou, não convém que a razão levante objeções. No reino do kirsch, exerce‑se a ditadura do coração.

            Claro que é necessário que os sentimentos suscitados pelo kitsch possam ser partilhados pelo maior número possível de pessoas. Assim, o kitsch não apela para o insólito; apela, isso sim, para algumas

imagens‑chaves profundamente enraizadas na memória dos homens: a filha ingrata, o pai abandonado, as crianças a correr num relvado, a pátria traída, a recordação do primeiro amor.

            O kitsch faz‑nos vir duas lágrimas de emoção aos olhos, uma logo a seguir à outra. A primeira diz: Que coisa bonita, crianças a correr num relvado!

            A segunda diz: Que coisa bonita, comovermo‑nos como toda a humanidade se comove quando há crianças a correr num relvado!

            Só esta segunda lágrima é que faz com que o kitsch seja o kitsch.

            A fraternidade de todos os homens nunca poderá repousar em nada senão no kitsch.

 

            Os políticos sabem‑no melhor do que ninguém. Mal vêem uma máquina fotográfica nas proximidades, precipitam‑se para a primeira criança que esteja ao pé, põem‑na ao colo e pespegam‑lhe um beijo na bochecha. O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os partidos e de todos os movimentos políticos.

            Numa sociedade onde coexistem várias correntes políticas cuja influência se anula ou se limita reciprocamente, sempre se vai conseguindo escapar à inquisição do kitsch; o indivíduo ainda pode salvaguardar a sua individualidade e o artista criar obras inesperadas. Mas, nos países onde um único partido detém todo o poder, não há escapatória possível ao império do kitsch totalitário.

            Se digo totalitário, é porque tudo quanto pode fazer perigar o kitsch é banido da vida: não só toda e qualquer manifestação de individualismo (a mais pequena discordância é um escarro cuspido em plena cara da risonha fraternidade), toda e qualquer manifestação de cepticismo (quem começa por pôr um pequeno detalhe em dúvida, acaba por pôr em dúvida a própria vida), toda e qualquer manifestação de ironia (porque no reino do kitsch é tudo para levar a sério), mas também a mãe que deixou a família ou o homem que gosta mais de homens do que de mulheres e constitui uma ameaça para o sacrossanto <<amei‑vos e multiplicai‑vosރ.

            Deste ponto de vista, aquilo a que costuma chamar‑se “gulag” pode ser considerado como a fossa séptica para onde o kitsch totalitário despeja a porcaria.

 

            Os dez anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial foram a época em que o terror stalinista se mostrou mais feroz. Foi nessa época que o pai de Tereza foi preso por uma coisa de nada e a miúda de dez anos que ela era se viu posta fora de casa. Sabina tinha, na altura, vinte anos e estudava em Belas‑Artes. O professor de marxismo explicava‑lhes, a ela e aos colegas, o seguinte postulado da arte socialista: a sociedade soviética era uma sociedade tão avançada que a sua contradição fundamental tinha deixado de ser entre o bem e o mal para passar a ser entre o bom e o melhor. A merda (ou seja, o que é essencialmente inaceitável) não podia existir senão ރdo outro ladoރ (por exemplo, na América) e era só a partir daí, a partir do exterior, e só como um corpo estranho (por exemplo, sob a forma de um espião) que podia penetrar no mundo ރdos bons e dos melhoresރ.

            Com efeito, nesse tempo cruel como nunca, os filmes soviéticos que inundavam as salas de cinema dos países comunistas estavam impregnados de uma inocência incrível. O conflito mais grave que podia haver entre dois russos era o mal‑entendido amoroso: ele pensa que ela já não o ama e ela pensa o mesmo dele. No fim, caem nos braços um do outro com o rosto banhado em lágrimas de felicidade.

            É convenção aceite, hoje em dia, que esses filmes estavam encarregados de pintar o ideal comunista quando a realidade era bem mais sombria.

            Sabina revoltava‑se com esta interpretação. Só de pensar que o universo comunista algum dia pudesse tomar‑se uma realidade concreta, onde fosse obrigada a viver, ficava toda arrepiada. Preferia de longe o regime comunista real, com todas as suas perseguições e bichas à porta dos talhos. No mundo comunista real, ainda é possível viver. No mundo do ideal comunista feito realidade, nesse mundo de risonhos cretinos com os quais não poderia trocar uma palavra, tinha a certeza que, ao fim de uma semana, já tinha rebentado de horror.

            Na minha opinião, o sentimento que o kitsch soviético despertava em Sabina é semelhante ao terror que Tereza teve daquela vez que sonhou estar a desfilar à volta de uma piscina com outras mulheres nuas e era obrigada a cantar alegres canções. Havia cadáveres a flutuar dentro de água. Não havia uma única mulher a quem Tereza pudesse dirigir uma simples palavra, fazer uma simples pergunta. A única resposta que ouviria seria a estrofe seguinte. Não havia nenhuma a quem pudesse piscar discretamente o olho. Seria imediatamente apontada ao homem que estava por cima da piscina, de pé, dentro de um cesto, para que ele abrisse fogo.

            O sonho de Tereza diz‑nos qual é a verdadeira função do kitsch: o kitsch é um biombo atrás do qual se esconde a morte.

 

            No reino do kitsch totalitário, as respostas já estão sempre preparadas e excluem toda a pergunta que seja realmente nova. Donde se infere que o verdadeiro adversário do kirsch totalitário é o homem que pergunta. A interrogação é como uma faca que rasga a tela do cenário para permitir que se veja o que está atrás. Foi precisamente esse o sentido que Sabina deu aos seus quadros numa conversa com Tereza: à frente, a mentira inteligível, e, por detrás, a incompreensível verdade.

            Só que aqueles que combatem contra os chamados regimes totalitários não podem combater com interrogações e com dúvidas. Também eles precisam da sua certeza e da sua verdade simplista, que também têm de ser acessíveis ao maior número possível de pessoas e capazes de provocar uma boa secreção lacrimal coletiva.

            Um dia, um certo movimento político organizou uma exposição de pinturas de Sabina na Alemanha. Ao pegar no catálogo, Sabina viu uma fotografia sua na capa com fios de arame farpado pintados por cima. Nas páginas de dentro, a sua biografia parecia a hagiografia de um mártir ou de um santo. Tinha sofrido muito, tinha combatido a injustiça, tinha sido forçada a abandonar o seu país martirizado, mas continuava a lutar. "Com os quadros que pinta, luta pela felicidadeރ, dizia a última frase do texto.

            Protestou, mas não havia ninguém que a compreendesse.

            Mas, afinal, não era verdade que o comunismo perseguia a arte moderna?

            Respondeu, cheia de raiva: ao meu inimigo não é o comunismo! É o kitsch!ރ

            A partir de então, passou a rodear a sua biografia de mistificações e mais tarde, na América, conseguiu mesmo ocultar que era checa. Era um esforço desesperado para escapar ao kitsch que as pessoas queriam fabricar com a sua vida.

 

            Está de pé diante de um cavalete com um quadro inacabado. Atrás dela, sentado num sofá, encontra‑se um velho que segue atentamente com os olhos cada uma das suas pinceladas.

            Depois, o homem olha para o relógio e diz: ރParece‑me que são boas horas de irmos jantar.ރ

            Pousa a paleta e vai lavar‑se à casa de banho. O velho levanta‑se do sofá e baixa‑se para pegar na bengala que estava encostada a uma mesa. O atelier dá diretamente para um relvado. A noite cai. Do outro lado, mais ou menos a vinte metros, há uma casa branca de madeira com as janelas do rés‑do‑chão iluminadas. Sabina comove‑se ao ver aquelas duas janelas a brilhar no crepúsculo.

            Toda a vida afirmou que o seu maior inimigo é o kitsch. Mas não o trará ela no fundo de seu ser? O seu kitsch é a imagem de uma casa calma, doce, harmoniosa, onde reina uma mãe carinhosa e um pai repleto de sabedoria. É uma imagem que se formou dentro dela depois da morte dos pais. A vida que teve, bem diferente desse belo sonho, só lhe serviu para se tornar ainda mais sensível ao seu encanto e já chegou mesmo a sentir, por mais de uma vez, os olhos molhados enquanto, num filme sentimental da televisão, uma filha ingrata estreitava nos braços um pai abandonado, e, no crepúsculo, brilhava a luz das janelas da casa habitada por uma família feliz.

            Conhecera o velhote em Nova Iorque. Era rico e gostava de pintura. Vivia numa casa isolada no campo com a mulher, tão idosa como ele. Em frente da casa, no mesmo terreno, erguia‑se o edifício de um antigo estábulo. O velho transformara‑o em atelier, oferecera‑o a Sabina e, desde então, passava os dias a seguir os movimentos do seu pincel.

            Agora, estão os três a jantar. A velha trata Sabina por ރminha filhinhaރ, mas tudo indica o contrário: Sabina é que parece uma mãe com dois filhos sempre agarrados às suas saias, dois filhos que sentem uma grande admiração por ela e que, por muito que não lhe apeteça dar ordens, estão sempre prontos a obedecer‑lhe.

            Terá ela encontrado à beira da velhice os pais a quem se arrancara quando era nova? Terá ela por fim encontrado os filhos que nunca teve?

            Sabina bem sabe que aquilo. é uma ilusão. A estada em casa daquele velhotes encantadores não é mais do que uma suspensão temporária na sua caminhada. O velho está gravemente doente e quando a mulher se vir sem ele irá viver para o Canadá para casa do filho. Sabina retomará o caminho das traições e, de tempos a tempos, no mais fundo de si própria, cintilará na insustentável leveza do ser uma ridícula canção sentimental que fala de duas janelas iluminadas atrás das quais vive uma família feliz.

            A canção comove‑a, mas Sabina não leva a sua emoção a sério. Sabe perfeitamente que essa canção não passa de uma linda mentira. No momento em que é reconhecido como mentira, o kitsch passa

a situar‑se no contexto do não‑kitsch. Perde o seu poder autoritário e torna‑se comovente como qualquer outra fraqueza humana. Porque nenhum de nós é o super‑homem e escapa totalmente ao kitsch. Por muito que o desprezemos, o kirsch não deixa de ser parte integrante da condição humana.

 

            A fonte do kirsch é o acordo categórico com o ser.

            Mas qual é o fundamento do ser? Deus? A humanidade? A luta? O amor? O homem? A mulher?

            Como, para esta pergunta, há as mais variadas respostas, assim também há as mais variadas espécies de kitsch: o kitsch católico, o protestante, o judaico, o comunista, o fascista, o democrático, o feminista, o europeu, o americano, o nacional, o internacional, etc., etc.

            Desde a época da Revolução Francesa que metade da Europa diz que é a esquerda. enquanto a outra metade recebeu a denominação de direita. Tanto uma noção como a outra são praticamente impossíveis de definir a partir dos princípios teóricos sobre os quais se apoiariam. Não é de admirar: os movimentos políticos não repousam sobre atitudes racionais, mas sobre representações, imagens, palavras, arquétipos, que, no seu conjunto, constituem um dado kitsch político.

            A idéia da Grande Marcha, com a qual Franz gosta de se inebriar, é o kitsch político que une todas as pessoas de esquerda de todos os tempos e de todas as tendências. A Grande Marcha é aquela soberba caminhada sempre em frente, a caminhada em direção à fraternidade, à igualdade, à justiça, e ainda mais para lá, apesar de todos os obstáculos, porque para a marcha ser a Grande Marcha é preciso que haja obstáculos.

            Ditadura do proletariado ou democracia? Rejeição da sociedade de consumo ou aumento da produção? Guilhotina ou abolição da pena de morte? Não. faz diferença. Aquilo que faz de um homem de

esquerda um homem de esquerda não é uma dada teoria, mas a sua capacidade de fazer com que toda e qualquer teoria se tome parte integrante do kitsch chamado a Grande Marcha sempre em frente.

 


            Claro que Franz não é o homem do kitsch. A idéia da Grande Marcha desempenha na sua vida mais ou menos o mesmo papel que a canção sentimental das duas janelas iluminadas desempenha na vida de Sabina. Em que partido político votaria Franz? Receio bem que não votasse em nenhum e que, no dia das eleições, preferisse fazer uma excursão aos Alpes. O que não quer dizer que a Grande Marcha tenha deixado de comovê‑lo. É belo sonhar que se faz parte de uma multidão em marcha, que avança através dos séculos, e Franz nunca esqueceu esse belo sonho.

            Um dia, uns amigos seus de Paris telefonaram‑lhe. Estavam a organizar uma marcha até ao Camboja e convidaram‑no a juntar‑se‑lhes.

            Nessa época, o Camboja tinha atrás de si uma guerra civil, os bombardeamentos americanos, as atrocidades perpetradas pelos comunistas locais, que tinham dizimado um quinto da população desse pequeno país, e finalmente a ocupação levada a cabo pelos seus vizinhos vietnamitas, cujo governo não passava então de um mero vassalo da Rússia. No Camboja havia fome e as pessoas morriam sem assistência médica. As organizações internacionais de médicos já tinham pedido diversas autorizações para entrar no país, mas os vietnamitas tinham‑se sempre recusado a isso. Assim, alguns dos intelectuais mais conhecidos do mundo ocidental decidiram organizar uma marcha até à fronteira do Camboja para, com esse

grande espetáculo a que todo o mundo assistiria, forçarem a admissão dos médicos no país ocupado.

            O amigo que telefonara a Franz era um daqueles ao lado de quem desfilava outrora pelas ruas de Paris. Ficou imediatamente entusiasmado com o convite, mas logo os seus olhos foram pousar na universitariazinha de óculos. A rapariga estava sentada à sua frente num sofá e os seus olhos ainda pareciam maiores por trás das lentes redondas. Teve a sensação que eles lhe imploravam que não fosse.

            Mas, mal desligou, começou a ficar arrependido. Atendera os votos da sua. amante terrena, mas negligenciara o seu amor celeste. O Camboja não era afinal uma variante da pátria de Sabina? Não era um país ocupado pelo exército comunista de um país vizinho? Um país sobre o qual se tinha abatido o punho da Rússia? De repente, pensou que aquele seu amigo de quem quase estava já esquecido lhe tinha telefonado a um secreto sinal de Sabina.

            As criaturas celestes sabem tudo e vêem tudo. Se participasse na marcha, Sabina vê‑lo‑ia e ficaria contente. Compreenderia que lhe continuava a ser fiel.

            ‑Ficavas muito zangada comigo se eu sempre fosse?ރ, perguntou à sua amiga de óculos, para quem cada dia sem ele era um tormento, mas que também não sabia dizer‑lhe que não a nada.

            Alguns dias mais tarde, encontrava‑se dentro de um grande avião no aeroporto de Paris. Entre os passageiros, contava‑se uma vintena de médicos escoltados por meia centena de intelectuais (professores, escritores, deputados, cantores, atores e presidentes de câmaras) e quatro centenas de jornalistas e fotógrafos que os acompanhavam.

 

            O avião aterrou em Bangcoque. Os quatrocentos e setenta médicos, intelectuais e jornalistas encaminharam‑se para o salão de um hotel internacional, onde já eram esperados por outros médicos, atores, cantores e filólogos, acompanhados por outras tantas centenas de jornalistas munidos dos seus blocos, gravadores, máquinas fotográficas e câmaras de filmar. No fundo da sala, havia um estrado e, em cima do estrado, uma mesa muito comprida por detrás da qual estava sentada uma vintena de americanos que já começava a dirigir a reunião.

            Os intelectuais franceses aos quais Franz se juntara sentiam‑se marginalizados e humilhados. A marcha até ao Camboja era uma idéia deles e eis que os americanos, com uma admirável naturalidade, estavam a tomar conta das operações e, para cúmulo dos cúmulos, se punham a falar em inglês sem sequer lhes ter passado pela cabeça que podia haver um francês ou um dinamarquês que não os entendesse. É claro que os dinamarqueses se tinham já esquecido há muito que foram outrora uma nação, de forma que, de todos os europeus presentes, só os franceses é que pensaram em protestar. Gente com princípios como eram, recusavam‑se a protestar em inglês e dirigiam‑se na sua língua materna aos americanos sentados na

tribuna. Não entendendo uma única palavra, os americanos respondiam‑lhes afavelmente com sorrisos de aprovação. Por fim, os franceses não tiveram outro remédio senão formular as suas objeções em inglês. ރPorque é que se fala em inglês nesta sala? Também estão cá franceses!ރ

            Os americanos mostraram‑se bastante espantados com esta objeção, mas não deixavam de sorrir e concordaram com que todos os discursos fossem traduzidos. Passou‑se um bom bocado à procura de um intérprete para a reunião poder continuar. Depois disso, como era preciso ouvir cada frase primeiro em inglês e depois em francês, a reunião durou o dobro do tempo previsto ou, a bem dizer, mais do dobro, porque todos os franceses sabiam inglês, interrompiam o intérprete, corrigiam‑no e discutiam com ele palavra por palavra.

            Com a aparição de uma estrela americana no estrado a reunião atingiu o apogeu. Por sua causa, irromperam pela. sala dentro mais fotógrafos e cameramen e cada sílaba que a atriz pronunciava era saudada por uma salva de disparos. A atriz falava sobre as crianças martirizadas, sobre a barbárie da ditadura comunista, sobre o direito do homem à segurança, sobre as ameaças que pesam sobre os valores tradicionais das sociedades civilizadas, e referia como o presidente Carter se sentia incomodado com o que estava a passar‑se no Camboja. Disse as últimas palavras a chorar.

            Nesse momento, um jovem médico francês de bigodes ruivos levantou‑se e pôs‑se a vociferar: ރSe aqui estamos é para salvar moribundos! Não estamos aqui para maior glória do presidente Carter!

Esta manifestação não pode degenerar num circo de propaganda americana! Não viemos aqui para protestar contra o comunismo, mas para tratar doentes!

            Outros franceses se juntaram ao médico de bigodes. O intérprete estava com medo e não se atrevia a traduzir o que eles diziam. Como há pouco, os vinte americanos do estrado olhavam para eles com um sorriso cheio de simpatia e alguns deles faziam um sinal de aprovação com a cabeça. Um chegou mesmo a levantar o punho porque sabia que os europeus têm a mania de fazer esse gesto nos momentos de euforia coletiva.

 

            Como é que intelectuais de esquerda (porque o médico do bigode era um intelectual de esquerda) se dispõem a integrar uma manifestação contra um país comunista quando o comunismo sempre fez parte integrante da esquerda?

            Na altura em que os crimes perpetrados pelo país batizado com o nome de União Soviética se tornaram escandalosos de mais, o homem de esquerda ficou perante uma alternativa: ou renegar a sua vida anterior e renunciar a desfilar, ou (com maior ou menor dificuldade) arrumar a União Soviética entre os outros obstáculos à Grande Marcha e continuar a desfilar.

            Já disse uma vez que o que faz com que a esquerda seja a esquerda é o kitsch da Grande Marcha. A identidade do kitsch não é determinada por uma estratégia política, mas por imagens, por metáforas, por certo vocabulário. Portanto, é possível transgredir o hábito e desfilar contra os interesses de um país comunista. Mas não é possível substituir as palavras por outras palavras. Pode erguer‑se o punho contra o exército vietnamita. Mas não gritar‑lhe: ރAbaixo o comunismo!> Porque cAbaixo o comunismo!> é a palavra de ordem dos inimigos da Grande Marcha, e quem não quer perder a vergonha tem de continuar fiel à pureza do seu próprio kirsch.

            Não digo isto senão para explicar o mal‑entendido entre o médico francês e a estrela americana que, no seu egocentrismo, julgava estar a ser vítima de invejosos ou misógenos. Na realidade, o médico francês dava provas de uma grande sensibilidade estética: as palavras ރo presidente Carterރ, ރos nossos valores tradicionaisރ, ރa barbárie do comunismoރ faziam parte do kitsch americano e não tinham nada a ver com o kitsch da Grande Marcha.

 

            No dia seguinte, pela manhã, subiram todos para as camionetas nas quais teriam de atravessar a Tailândia antes de chegar à fronteira do Camboja. À noite, pararam numa pequena aldeia, onde lhes estavam reservadas umas casas construídas sobre pilares. O rio, que tinha cheias muito perigosas, obrigava a população a morar lá em cima, enquanto em baixo, ao pé das estacas, ficavam os porcos. Franz dormiu com mais quatro professores universitários. Vindos de baixo, chegavam‑lhe aos ouvidos oS grunhidos dos porcos, enquanto, a seu lado, ressonava um ilustre matemático.

            De manhã, toda a gente voltou .para os autocarros. O trânsito estava proibido a dois quilômetros da fronteira. Só havia uma estrada muito estreita que ia até ao posto fronteiriço defendido pelo exército. Ao descer, os franceses constataram que tinham sido mais uma vez ultrapassados pelos americanos, que já os esperavam à cabeça do cortejo. Foi o momento mais delicado. O intérprete teve que intervir outra vez e a discussão lá prosseguiu ao ritmo do costume. Chegaram finalmente a um compromisso: um americano, um

francês e o intérprete iam à frente. Logo a seguir, vinham os médicos e, na cauda, os outros; era também aí que devia incorporar‑se a estrela americana.

            A estrada era muito estreita e ladeada de campos de minas. De dois em dois minutos, deparava‑se‑lhes uma chicana: dois blocos de betão coroados de arame farpado apenas deixavam no meio uma passagem muito acanhada. Tiveram de seguir em fila indiana.

            Mais ou menos cinco metros à frente de Franz, marchava um célebre poeta e cantor pop alemão que tinha no ativo novecentas e trinta canções a favor da paz e contra a guerra. Na ponta de uma comprida haste, levava uma bandeira branca, que lhe ficava a matar com a enorme barba preta' e, ao mesmo tempo, servia para distingui‑lo dos demais.

            Fotógrafos e cameramen corriam para trás e para diante ao longo do cortejo. Com os aparelhos a disparar e a ronronar, lançavam‑se para a frente, paravam, recuavam, punham‑se de cócoras, e logo voltavam a correr para a frente. De tempos a tempos, pronunciavam aos gritos o nome de uma celebridade; 'o interpelado voltava‑se maquinalmente na sua direção e nesse preciso instante carregavam no botão.

 

            Cheirava a acontecimento. As pessoas diminuíam o ritmo da passada e voltavam‑se para trás.

            A estrela americana, que fora colocada na cauda do cortejo, recusava‑se a suportar por mais tempo tão grande humilhação e decidiu passar ao ataque. Era como nos cinco mil metros, quando um corredor, que veio a poupar forças na cauda do pelotão, avança para a frente e ultrapassa todos os adversários.

            Os homens sorriam com um ar incomodado e afastavam‑se para permitir a vitória da ilustre sprinter, mas houve mulheres que se puseram aos gritos: ‑‑Volte imediatamente para o seu lugar! Isto não é um manifestação para estrelas de cinema!ރ

            A atriz não se deixou intimidar e continuou a correr para a frente, seguida por cinco fotógrafos e dois cameramen. Uma francesa, professora de lingüística, agarrou a atriz pelos pulsos e disse‑lhe (num péssimo inglês): ‑‑Quem vem aqui a desfilar são médicos que querem salvar a vida aos cambojanos! Isto não é um show de estrelas de cinema!ރ

            A atriz tinha o pulso preso numa espécie de torniquete e não tinha força suficiente para se libertar.

            Disse (num excelente inglês): ‑‑Vá‑se foder! Já participei em milhares de desfiles! As estrelas de cinema são sempre bem acolhidas! É o nosso trabalho! É o nosso dever moral!ރ

            ‑ Merda>, disse a professora de lingüística (num excelente francês). A estrela americana percebeu e desfez‑se em lágrimas.

            ‑‑Deixe‑se estar assim mesmoރ, gritou um cameraman ajoelhado à frente dela.

            A estrela fixou longamente a objetiva; as lágrimas corriam‑lhe pela cara abaixo.

 

            A professora de lingüística sempre acabou por largar o pulso da estrela americana. O cantor alemão da barba preta e da bandeira branca desatou aos gritos a chamar por ela.

            A estrela nunca tinha ouvido falar dele, mas, nesse momento de humilhação, mostrou‑se mais sensível do que p costume às manifestações de simpatia e lançou‑se na sua direção. O poeta‑cantor pôs

o pau de bandeira na mão esquerda para poder passar o braço direito pelos ombros da atriz.

            Fotógrafos e cameramen saltitavam em torno da atriz e do cantor. Um célebre fotógrafo americano queria apanhar as duas caras e a bandeira ao mesmo tempo, o que não era fácil por causa da altura do pau. Pôs‑se a recuar a toda a velocidade no arrozal. Calcou uma mina. Ouviu‑se uma explosão e o seu corpo desfeito em pedaços voou pelos ares, aspergindo com uma chuvada de sangue a intelligentsia internacional.

            O cantor e a atriz ficaram apavorados e pregados ao mesmo lugar. Ambos ergueram os olhos para a bandeira. Estava toda salpicada de sangue. Primeiro, o espetáculo não serviu senão para ficarem ainda mais aterrorizados. Depois, a pouco e pouco, começaram timidamente a levantar os olhos e a sorrir. Sentiam um estranho orgulho, um orgulho que até então desconheciam, por levarem uma bandeira santificada pelo sangue. Voltaram a pôr‑se em marcha.

 

            A fronteira era constituída por um ribeiro que não se via, porque estava tapado a todo o comprimento com um muro de metro e meio de altura, em cima do qual havia sacos de areia para os atiradores tailandeses se protegerem. Só não havia muro no sítio em que uma ponte em arco atravessava o rio. Mas ninguém devia aproximar‑se dela. Embora se não vissem, havia tropas vietnamitas de ocupação

perfeitamente camufladas do outro lado do rio. Ninguém duvidava que os invisíveis vietnamitas começariam imediatamente a disparar assim que qualquer pessoa tentasse atravessar a ponte.

            Alguns membros do cortejo chegaram ao pé do muro e, apoiando‑se nele, içaram‑se no bico dos pés. Franz apoiou‑se num intervalo aberto entre dois sacos e tentou ver alguma coisa. Mas não conseguiu ver nada porque foi imediatamente empurrado por um fotógrafo que achava que tinha o direito de lhe tirar o lugar.

            Voltou‑se para trás. Como gralhas gigantes com os olhos fixos na outra margem, havia sete fotógrafos pousados nos ramos de uma árvore solitária.

            Nesse momento, o intérprete que ia à cabeça do desfile aplicou os lábios a um megafone e pôs‑se a gritar para a outra margem, em kmer: há aqui médicos que exigem que lhes dêem autorização para entrar em território cambojano para prestar assistência médica. Isto não é uma ingerência política. Só vêm guiados pelo amor à vida humana!

            A resposta da outra margem foi um silêncio incrível. Um silêncio tão absoluto que todos se sentiram presa da angústia. Só os disparos das máquinas fotográficas continuavam a soar no meio daquele silêncio como o canto de um inseto exótico.

            Franz teve bruscamente a impressão de que a Grande Marcha estava a chegar ao fim. As fronteiras do silêncio voltavam a fechar‑se sobre a Europa, e a Grande Marcha já não desfilava senão em cima de um pequeno estrado no centro do planeta. As multidões que outrora se acotovelavam ao pé do estrado tinham partido há muito e a Grande Marcha continuava sozinha e sem espectadores. Sim, pensava Franz, a Grande Marcha continua, apesar da indiferença do mundo, mas está a tornar‑se nervosa, febril, ontem contra a ocupação do Vietnam pelos americanos, hoje contra a ocupação do Camboja pelos vietnamitas, ontem para apoiar Israel, hoje pelos palestinos, ontem para apoiar Cuba, amanhã contra Cuba, e sempre contra a América, sempre contra os massacres e sempre em apoio a outros massacres, continua a Europa sempre a desfilar, e para poder acompanhar o ritmo dos acontecimentos sem falhar um único acelera cada vez mais o passo, de modo que a Grande Marcha já só é um cortejo de gente apressada a desfilar a galope, e a cena cada vez se encolhe mais, até ao dia em que finalmente há‑de tornar‑se apenas um ponto sem dimensões.

 

            O intérprete voltou a fazer o apelo com o megafone. Como da primeira vez, a única resposta que obteve foi um enorme silêncio, um silêncio infinitamente indiferente.

            Franz olhava em torno de si. Toda a gente sentia aquele silêncio como uma bofetada na cara. O próprio cantor da bandeira branca e a própria atriz americana se mostravam incomodados e hesitantes.

            Franz teve subitamente consciência do ridículo daquela gente toda, mas isso não o distanciava deles, não lhe inspirava ironia nenhuma; muito pelo contrário, sentia por eles um imenso amor, como o amor que se tem por condenados. Sim, a Grande Marcha chegou ao fim, mas isso é uma razão suficiente para Franz a trair? A própria vida dele também não está a chegar ao fim? Deverá achar apenas irrisório o exibicionismo daqueles que acompanharam até à fronteira alguns médicos corajosos? Poderão todos eles fazer outra coisa senão dar espetáculo? Resta‑lhes algo de melhor?

            Franz tem razão. Faz‑me pensar naquele jornalista que andava a organizar em Praga uma campanha de assinaturas para conseguir a anistia dos presos políticos. Tinha perfeita consciência de que a campanha não ajudaria os presos. O seu verdadeiro objetivo não era libertar presos, mas mostrar que ainda havia gente sem medo. Dava espetáculo, mas não podia fazer outra coisa. Não podia escolher entre a ação e o espetáculo. Só tinha uma escolha: dar espetáculo ou não fazer nada. Há situações em que o homem está condenado a dar espetáculo. A sua luta contra o poder silencioso (contra o poder silencioso do outro lado do ribeiro, contra a polícia metamorfoseada em microfones mudos escondidos na parede) é

como um grupo de teatro a fazer frente a um exército.

            Franz viu o seu amigo da Sorbonne erguer o punho e ameaçar com ele o silêncio da outra margem.

 

            Pela terceira vez, o intérprete lançou o apelo com o seu megafone.

            E de novo apenas o silêncio lhe respondeu, transformando subitamente a angústia de Franz numa raiva frenética. Encontrava‑se a uma dúzia de passos da ponte que separava a Tailândia do Camboja e tinha uma vontade enorme de precipitar‑se para ela, de lançar aos céus injúrias tremendas e de morrer sob a barulheira infernal das rajadas de metralhadora.

            Este repentino desejo de Franz faz‑nos lembrar qualquer coisa; sim, faz‑nos lembrar o olho de Stalin a lançar‑se de encontro ao arame farpado e eletrificado porque não podia suportar que os pólos da existência humana estivessem próximos a ponto de se tocar, a ponto de já não haver diferença entre o nobre o objeto, entre o anjo e a mosca, entre Deus e a merda.

            Franz não podia admitir que a glória da Grande Marcha se reduzisse afinal à cômica pretensão de pessoas a desfilar e que a grandiosa barulheira da história européia desaparecesse num silêncio infinito, num silêncio tão grande que já não há diferença nenhuma entre a história e o silêncio. Poria a sua própria vida na balança para provar que a Grande Marcha pesa mais do que a merda.


            Mas uma coisa dessas não se pode provar. Quando num dos pratos da balança havia a merda, o filho de Stalin atirou‑se com todo o peso do seu corpo para cima do outro prato e a balança nem sequer se mexeu.

            Em vez de correr para a morte, Franz baixou a cabeça e voltou em fila indiana com os outros para o ônibus.

 

            Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver.

            A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anônimos ou, por outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e quando o semanário foi proibido pelos russos teve a impressão de ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir os olhos anônimos. Sentia‑se quase a sufocar, até que um dia percebeu que a polícia lhe seguia todos os passos, que o seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos anônimos a acompanharem‑no: já podia voltar a respirar! Interpelava num tom teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na polícia o público que julgava ter perdido para sempre.

            Na segunda categoria, incluem‑se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da

primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Os desta segunda categoria, estes sim, acabam sempre por conseguir arranjar os olhares de que precisam. Marie‑Claude e a filha são deste gênero.

            Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. É neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas.

            Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi até à fronteira cambojana unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada tailandesa faz balouçar violentamente, só sente o seu longo olhar pousado em si.

            O filho de Tomas pertence à mesma categoria. Chamar‑lhe‑ei Simão. (Vai com certeza gostar de ter um nome bíblico como o pai.) O olhar a que aspira, é o olhar dos olhos de Tomas. Por ter‑se comprometido com a campanha de assinaturas, foi expulso da faculdade. Namorava a sobrinha de um pároco de aldeia. Casou‑se com ela, tornou‑se motorista de trator numa cooperativa, católico praticante e pai de família. Soube que Tomas também vivia no campo e ficou feliz com isso. Afinal o destino tomara as suas vidas simétricas! Foi o que o incitou a escrever‑lhe uma carta. Não pedia resposta. Não queria senão uma coisa: que Tomas pousasse o olhar dele sobre a sua vida.

 

            Franz e Simão são os sonhadores deste romance. Ao contrário de Franz, Simão não gostava da mãe. Desde a infância que andava à procura do pai. Sempre esteve pronto a acreditar que a injustiça que o pai lhe fizera fora forçosamente provocada por uma ofensa qualquer. Nunca lhe quisera mal por causa disso, recusando‑se sempre a aliar‑se à mãe, que passava o tempo a dizer mal de Tomas.

            Viveu com ela até aos dezoito anos e, depois de acabar o liceu, foi estudar para Praga. Nessa altura, já Tomas andava a lavar janelas. Simão tentou variadíssimas vezes provocar um encontro fortuito na rua com ele. Mas o pai nunca parava.

            Se se ligara ao jornalista de queixo de rabeca fora unicamente porque este lhe lembrava o destino do pai. O jornalista nem sequer sabia o nome de Tomas. O artigo sobre Édipo tinha caído no esquecimento e só se lembrou da sua existência quando Simão lhe pediu para ir com ele propor ao pai que assinasse a petição. O jornalista aceitou apenas para ser agradável ao rapaz, de quem gostava bastante.

            Quando pensava nesse encontro, Simão tinha vergonha do seu nervosismo. Com certeza que o pai não gostara dele. Em contrapartida, o pai tinha‑lhe agradado bastante. Lembrava‑se de tudo quanto ele dissera, palavra por palavra, e cada vez lhe dava mais razão. Tinha sobretudo uma fase gravada na memória: ރCastigar os que não sabiam o que estavam a fazer, é pura barbaridade." Quando o tio da namorada lhe pôs uma Bíblia entre as mãos, saltou‑lhe logo aos olhos o pedido de Jesus: ރPerdoai‑lhes, que eles não sabem o que fazem.ރ Bem sabia que o pai era ateu, mas a semelhança das duas frases funcionou para ele como um sinal secreto: o pai aprovava a via que ele escolhera.

            Morava no interior já há dois anos, quando recebeu uma carta de tomas convocando-o para visitá-lo. o encontro foi amistoso, Simão sentia-se à vontade, e não gaguejava mais. Provavelmente não chegou a perceber que não se compreendiam muito bem. Uns quatro meses depois recebeu um telegrama dizendo que tomas e sua mulher haviam morrido esmagados sob um caminhão. Foi nessa ocasião que ouviu falar de uma mulher que fora amante de seu pai e que vivia na franca. Procurou seu endereço. Como precisava desesperadamente de um olho imaginário que continuasse a observar sua vida, de vez em quando escrevia-lhe longas cartas.

 

            Até ao fim dos seus dias, Sabina nunca mais deixará de receber cartas desse triste epistológrafo aldeão. Muitas não serão sequer abertas, porque o país de onde é originária lhe interessa cada vez menos.

            O velhote morreu e Sabina foi viver para a Califórnia. Sempre mais para ocidente, sempre cada vez mais longe da Boêmia.

            Os seus quadros têm boa aceitação e ela gosta bastante da América. Mas só à superfície. Por baixo, há todo um mundo que lhe é estranho. Sob aquela terra, não tem nem antepassados, nem tios. Tem medo que a encerrem dentro de um caixão e a enterrem debaixo dela.

            Fez, portanto, um testamento onde estipula que o seu corpo deverá ser queimado e as suas cinzas deitadas ao vento. Tereza e Tomas morreram sob o signo do peso. Ela quer morrer sob o signo da leveza. Será mais leve do que o ar. Segundo Parmênides, é a transformação do negativo em positivo.

 

            A camioneta parou finalmente diante de um hotel de Banguecoque. Já ninguém tinha vontade de fazer reuniões. As pessoas espalharam‑se em pequenos grupos pela cidade, uns para visitar templos, outros para irem aos bordéis. O amigo da Sorbonne propôs a Franz que passassem a noite juntos, mas Franz preferia ficar sozinho.

            Caía a noite quando saiu. Pensava continuamente em Sabina e sentia pousado em si o seu longo olhar, sob o qual começava sempre a duvidar de si próprio, porque nunca sabia o que Sabina de fato pensava. Mais uma vez esse olhar começava a confundi‑lo. Não estaria ela a fazer troça dele? Não acharia estúpido aquele culto que lhe votava? Não quereria dizer‑lhe que já era tempo de comportar‑se com adulto e consagrar‑se por inteiro à namorada que ela própria lhe enviara?

            Tentou imaginar‑lhe o rosto com os seus enormes óculos redondos. Agora, sim, avaliava bem quanto era feliz com a sua universitariazinha. A viagem ao Camboja parecia‑lhe de súbito ridícula e insignificante; No fundo, porque é que ali estava? Agora já sabia. Tinha sido preciso aquela longa viagem para compreender finalmente que a sua vida verdadeira, a sua única vida real, não eram nem os desfiles, nem Sabina, mas a sua universitariazinha de óculos! Tinha sido preciso aquela longa viagem para entender que a realidade é mais do que o sonho, mesmo bem mais do que o sonho.

            Depois, emergiu da sombra uma figura que lhe dirigiu algumas palavras numa língua desconhecida. Observava‑a com uma mescla de espanto e compaixão. O desconhecido curvava‑se, sorria e não se cansava de algaraviar. O que estaria ele a dizer‑lhe? Pareceu‑lhe que estava a pedir‑lhe que o seguisse. O homem pegou‑lhe na mão e arrastou‑o atrás de si. Franz pensou que alguém devia precisar da sua ajuda. Afinal, talvez aquela viagem não tivesse sido de todo inútil. Afinal, talvez ali estivesse para responder ao apelo de alguém.

            De súbito, surgiram outros dois tipos ao lado do homem que continuava a algaraviar e um deles ordenou em inglês, a Franz, que lhe desse dinheiro.

            Nesse momento, a rapariga dos óculos desvaneceu‑se do campo da sua consciência. Era de novo Sabina que olhava para ele, aquela irreal Sabina com o seu destino grandioso, aquela Sabina diante da qual se sentia sempre pequenino. Tinha os olhos postos nele, coléricos e descontentes: mais uma vez se tinha deixado enganar? Mais uma vez abusavam da sua estúpida bondade?

            Com um gesto brusco, desembaraçou‑se do homem que o agarrava pela manga. Sabia que Sabina sempre gostara da sua força. Agarrou no braço com que o segundo homem o ameaçara. Apenou‑o com força e, executando um golpe de judô perfeito, fê‑lo revoltear sobre a cabeça.

            Agora, sim, sentia‑se contente consigo próprio. Os olhos de Sabina não o largavam. Nunca mais o veriam ser humilhado! Nunca mais o veriam recuar! Franz nunca mais havia de ser fraco e piegas.

            Sentia um ódio quase alegre por aqueles homens que tinham querido aproveitar‑se da sua ingenuidade. Mantinha‑se ligeiramente dobrado e não os largava de vista. Mas, de repente, bateram‑lhe com uma coisa pesada na cabeça e ele caiu ao chão. Percebeu vagamente que o levavam para um sítio qualquer. Depois, atiraram com ele para o vazio. Sentiu um choque violento e perdeu os sentidos.

            Acordou muito mais tarde num hospital de Genebra. Marie‑Claude estava debruçada sobre a cama. Quis dizer‑lhe que não queria vê‑la ao pé de si. Queria que alguém fosse prevenir imediatamente a universitariazinha de óculos. Só pensava nela e em mais ninguém. Queria gritar que não podia ver mais ninguém à sua cabeceira. Mas constatou com pavor que não conseguia falar. Olhava para Marie‑Claude com um olhar transbordante de ódio e queria virar‑se para a parede para não ser obrigado a vê‑la. Mas não conseguia mexer‑se. Tentou voltar a cabeça. Mas nem com a cabeça podia fazer o menor movimento. Fechou os olhos para não ver a mulher.

 

            Finalmente, depois de morto, Franz pertence à sua esposa legítima como nunca lhe pertenceu em vida. De tudo Marie‑Claude se encarrega: organiza as obséquias, põe participações no correio, encomenda coroas de flores e manda fazer um vestido preto que, na realidade, não é senão um vestido de casamento. Sim, para a esposa, o enterro do marido é finalmente o seu verdadeiro casamento com ele! O apogeu da sua vida! A recompensa de todos os seus sofrimentos!

            Aliás, o próprio pastor o compreende e, sobre a campa de Franz, fala do indefectível amor conjugal que, embora sujeito a duras provas, permaneceu sempre para o defunto, até ao fim dos seus dias, um porto seguro onde encontrou abrigo no último momento. Mesmo o colega de Franz, a quem Marie‑Claude pediu para pronunciar umas breves palavras, presta sobretudo homenagem à corajosa esposa do defunto.

            Muito mais atrás, toda encolhida, amparada por uma amiga, encontra‑se a rapariga dos enormes óculos redondos. Engoliu tantas lágrimas e tomou tantos comprimidos que, antes do fim da cerimônia, é acometida de convulsões. Agarrada à barriga, toda curvada, tem de sair do cemitério ajudada pela amiga.

 

            Assim que recebeu o telegrama do presidente da cooperativa, saltou para a motorizada e fez‑se ao caminho. Foi ele que se encarregou do enterro. Mandou gravar no jazigo a seguinte inscrição, mesmo por baixo do nome do pai: Ele queria o reino de Deus sobre a Terra.

            Sabia perfeitamente que o pai nunca empregaria tais palavras para exprimir aquela idéia. Mas tinha a certeza que elas exprimiam exatamente o que o seu pai queria. O reino de Deus significa justiça. Tomas tinha sede de um mundo onde reinasse a justiça. Simão tinha ou não o direito de exprimir a vida do pai no seu próprio vocabulário? Desde tempos imemoriais, não é precisamente esse o direito dos herdeiros?

            Após um longo desvario, o regresso, lê‑se no jazigo de Franz. Esta inscrição pode ser lida como um símbolo religioso: o desvario na vida terrestre, o regresso aos braços de Deus. Mas os iniciados sabem que a frase também tem um sentido totalmente profano. Aliás, Marie‑Claude todos os dias se refere a ele.

            Franz, o seu querido Franz, o seu bom Franz, não suportou a crise dos cinqüenta anos. Caiu nas garras de uma pobre rapariga. Ela nem sequer era bonita (repararam bem naqueles enormes óculos por detrás dos quais ela mal se vê?). Mas um homem de cinqüenta anos (como todos nós sabemos) chega a ser capaz de vender a alma por um pedaço de carne tenra. Só a sua própria mulher sabe o que isso o fez sofrer! Aquilo era uma autêntica tortura moral para ele! Porque, bem lá no fundo, Franz era um homem bom e honesto. Que mais pode explicar essa viagem absurda e desesperada àquele canto perdido da Ásia? Foi lá à procura da morte. Sim, Marie-Claude esta certa. Franz procurou deliberadamente a morte. Em seus últimos dias, quando estava agonizando e não precisava mais mentir, só queria vê-la. Não podia falar, mas agradecia-lhe pelo menos com os olhos, seus olhos pediam-lhe perdão, e ela lhe perdoou.

 

O que restou dos moribundos do Camboja?

            Uma grande fotografia da estrela americana com um bebê amarelo nos braços.

            O que restou de Tomas?

            Uma inscrição: Ele queria o reino de Deus sobre a Terra.

            O que restou de Beethoven?

            Um homem carrancudo com uma cabeleira inverossímil a pronunciar solenemente um:  Es muss sein!ރ

            O que restou de Franz?

            Uma inscrição: Após um longo desvario, o regresso.

            E sempre assim por diante. E sempre assim por diante. Antes de nos esquecerem, hão‑de transformar‑nos em kitsch. O kitsch é a estação de correspondência entre o ser e o esquecimento.

 

O SORRISO DE KARENINE

            A janela dava para uma encosta onde aqui e além despontavam os corpos retorcidos das macieiras. Por cima da encosta, a floresta adensava o horizonte e, mais ao longe, perdiam‑se na distância as curvas das colinas. Ao fim da tarde, aparecia no pálido céu uma Lua branca e esse era o momento que Tereza escolhia para vir à porta. A Lua, assim suspensa no céu ainda claro, era como um candeeiro que se tivessem esquecido de apagar de manhã e que continuasse aceso durante todo ó dia no quarto dos mortos.

            As macieiras, com os seus corpos retorcidos, tinham cada uma o seu lugar na encosta e nenhuma delas poderia deixar nunca o sítio onde criara raízes, tal como Tereza e Tomas nunca mais poderiam deixar a aldeia. Tinham vendido o automóvel, o aparelho de televisão, o rádio, para poderem comprar uma casita com jardim a um camponês que fora instalar‑se na cidade.

            Ir viver para o campo era a única possibilidade de evasão que lhes restava porque, embora lá se fizesse sentir permanentemente uma grande falta de braços, as casas nunca faltavam. Ninguém se interessava pelo passado político de quem se sujeitava a ir trabalhar para o campo ou para as zonas florestais e também ninguém os invejava.

            Tereza sentia‑se feliz por ter deixado a cidade e por se encontrar longe não só do bar e dos bêbados como também das desconhecidas que impregnavam com o cheiro dos seus sexos o cabelo de Tomas. A polícia desistira de se interessar por eles e como a história do engenheiro se confundia na sua memória com o episódio do Monte‑de‑Pedra, mal distinguia já o sonho da realidade. (Aliás, o engenheiro estaria realmente ao serviço da polícia secreta? Talvez sim, talvez não. O que não faltam são homens para pedir apartamentos emprestados para as suas entrevistas íntimas e que não gostam de ir para a cama mais de uma vez com a mesma mulher.)

            Portanto, Tereza era feliz e sentia que as coisas quase se passavam tal e qual como sempre tinha querido: Tomas e ela estavam os dois juntos e sozinhos. Sozinhos? Sou forçado a ser um pouco mais exato: aquilo a que chamo solidão é ao fato de terem cortado todas as relações com amigos e conhecidos. Tinham cortado a vida deles como se corta um bocado de fita. Mas sentiam‑se bem na companhia dos camponeses com quem trabalhavam, a casa de quem iam de   tempos a tempos e que também convidavam para vir a sua casa.

            No dia em que travara conhecimento com o presidente da cooperativa, nas termas cujas ruas tinham sido todas batizadas com nomes russos, Tereza descobrira de repente dentro de si própria a imagem do campo que as leituras e os antepassados lá tinham deixado gravada. Um universo harmonioso, cujos membros são uma grande família com os mesmos interesses e os mesmos hábitos: a missa ao domingo, a estalagem onde os homens vão sozinhos, e o salão dessa mesma estalagem onde, ao sábado, há um grupo musical e toda a gente da aldeia vai dançar.


            Com o comunismo, a aldeia passou a ser completamente diferente desta imagem secular. A igreja era na outra freguesia e ninguém lá ia, a estalagem fora aproveitada para os serviços administrativos, os homens deixaram de ter um 'sítio para se encontrar e beber uma cerveja, a gente nova deixara de ter um sítio para dançar. As festas religiosas foram proibidas e as festas oficiais não interessavam a ninguém. O cinema mais próximo era na cidade, a vinte quilômetros de distância. Depois de acabado o dia de trabalho, durante o qual as pessoas se interpelavam alegremente e aproveitavam os intervalos para conversar, os camponeses fechavam‑se dentro das quatro paredes das suas casitas decoradas com mobiliário moderno, de onde o mau gosto soprava como uma corrente de ar, e por lá se deixavam ficar parados, de olhos postos no écran da televisão. Não iam a casa uns dos outros e só de tempos a tempos saíam para dar um dedo de

conversa ao vizinho antes da ceia. Todos sonhavam em ir para a cidade. O campo não oferecia nada daquilo que poderia dar um bocadinho de interesse à vida.

            Talvez por ninguém querer fixar‑se no campo é que o Estado perdeu toda e qualquer autoridade sobre ele. Tendo passado de proprietário de um naco de terra a simples operário do campo, o agricultor deixou de sentir qualquer espécie de ligação com a paisagem e com o trabalho, deixou de ter qualquer coisa a perder, deixou de ter qualquer coisa que possa ter medo de perder. Graças a essa indiferença, o campo manteve uma margem considerável de autonomia e de liberdade. O presidente da cooperativa não é alguém imposto de fora (como todos os responsáveis o são na cidade), mas é eleito pelos camponeses e é sempre um deles.

            Como toda a gente queria ir‑se embora, Tereza e Tomas estavam numa posição excepcional porque tinham vindo de livre vontade. Enquanto os outros aproveitavam sempre a mais pequena oportunidade para passar um dia nas terras das redondezas, Tereza e Tomas não queriam senão ficar onde estavam e não tardaram a conhecer melhor os habitantes da aldeia do que eles próprios se conheciam entre si.

            O presidente da cooperativa tornou‑se mesmo um amigo íntimo. Tinha mulher, quatro filhos e um porco amestrado como um cão. O porco chamava‑se Mefistófeles e era a glória e a principal atração da aldeia. Obedecia ao que lhe diziam, era cor‑de‑rosa, andava sempre todo bem asseado e lá se ia equilibrando em cima dos seus cascozitos como uma mulher de pernas gordas em cima dos saltos altos. A primeira vez que Karenine viu Mefistófeles ficou todo desconcertado e passou um bom bocado a farejá‑lo. Mas em breve se tomou de amizades pelo porquito e passou a dar‑se melhor com ele do que com os cães da aldeia, pelos quais sentia um desprezo soberano por estarem sempre presos às suas casotas, a ladrar estupidamente sem razão para isso. Karenine sabia apreciar as raridades pelo seu justo valor e quase me sinto tentado a dizer que tinha um certo orgulho naquela sua amizade com o porco.

            O presidente da cooperativa sentia‑se ao mesmo tempo feliz por poder ajudar o médico que o operara e infeliz por não poder fazê‑lo melhor. Tomas era motorista de caminhão, levava os agricultores para

o campo ou transportava‑lhes o material.

            A cooperativa tinha quatro grandes edifícios destinados ao gado e ainda um pequeno estábulo com quarenta vitelas. Estas tinham sido confiadas a Tereza, que as levava a pastar duas vezes por dia. Como os prados mais próximos e acessíveis se destinavam à produção de feno, Tereza tinha de levar o rebanho para os montes. As vitelas iam pastando a erva de prados cada vez mais afastados e, assim, Tereza ia percorrendo com elas ao longo de todo o ano os campos que rodeavam a aldeia. Como dantes costumava fazer na sua cidadezinha, andava sempre com um livro na mão; uma vez nas pastagens, abria‑o e punha‑se a ler. Karenine ia sempre com ela. Tinha aprendido a ladrar às vitelas mais tontas que queriam afastar‑se das outras; era bem evidente o prazer que isso lhe dava. Dos três, o cão era o mais feliz. Nunca a 'sua função de ރchanceler do relógioރ fora tão respeitada como aqui, onde não havia lugar para qualquer improvisação. Aqui, o tempo em que Tomas e Tereza viviam aproximava‑se da regularidade do tempo de Karenine.

Um dia, a seguir ao almoço (era nessa altura que ambos tinham uma hora livre), foram dar um passeio com Karenine pela encosta que ficava atrás da casa.

            cNão estou a gostar nada da maneira como ele está a correrރ, disse Tereza.

            Karenine coxeava da pata esquerda. Tomas baixou‑se e apalpou‑lhe a pata. Descobriu um pequeno caroço na coxa.

            No dia seguinte, sentou‑o ao seu lado no caminhão e levou‑o a um veterinário de uma aldeia vizinha. Tornou a passar por lá uma semana mais tarde e, quando voltou, anunciou que Karenine tinha um cancro.

            Três dias depois, ele e o veterinário operaram‑no. Quando o trouxe para casa, Karenine ainda não tinha acordado depois da anestesia. O cão estava deitado com os olhos abertos e gemia. Tinha os pêlos da coxa rapados e uma cicatriz com seis pontos.

            Pouco tempo depois, tentou levantar‑se. Mas em vão.

            Tereza teve medo: e se ele nunca mais pudesse andar?

            Não tenhas medo, ele ainda está sob o efeito da anestesiaރ, disse Tomas.

            Ela tentou levantá‑lo, mas Karenine cerrou os maxilares. Era a primeira vez que tentava mordê‑la!

            Não sabe quem tu és. Não te reconheceރ, disse Tomas.

            Estenderam‑no ao pé da cama e, em breve, ele ficou sossegado. Por seu turno, também Tomas e Tereza adormeceram.

            Acordou‑os de repente, por volta das três da manhã. Estava em cima deles, com o rabo a abanar. Esfregava‑se neles selvaticamente, incansavelmente.

            Também era a primeira vez que os acordava! Esperava sempre que um dos dois acordasse antes de saltar para a cama.   Mas, desta vez, não se contivera quando, de repente, a meio da noite, ficara finalmente acordado de todo. De que longínquas paragens voltaria? Que espectros teria enfrentado? E agora, ao perceber que estava em casa, ao reconhecer os seres que lhe eram mais familiares, não conseguiu conter‑se e teve de comunicar‑lhe a sua terrível alegria, a alegria que lhe dava estar de regresso e ter nascido outra vez.

 

            Logo no começo do Gênesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. É claro que o Gênesis é obra do homem e não do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa


que a humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras mais sangrentas.

            É um direito que só nos parece natural porque quem está no topo da hierarquia somos nós. Bastava que entrasse mais outro parceiro no jogo, por exemplo um visitante vindo de outro planeta cujo Deus tivesse dito ރTu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelasރ, para que todas a evidência do Gênesis ficasse logo posta em questão. Talvez depois de um marciano o ter atrelado a uma charrua ou enquanto estivesse a assar no espeto de um habitante da Via Láctea, o homem se lembrasse das costeletas de vitela que costumava comer e apresentasse (tarde de mais) as suas desculpas à vaca.

            Tereza lá vai caminhando com o seu rebanho, lá vai obrigando as vitelas a seguirem à sua frente, lá vai ralhando ora com uma, ora com outra, porque as vaquinhas estão todas bem‑dispostas e passam o tempo a fugir do caminho para irem correr para os campos. Karenine também lá vai caminhando. Há mais de dois anos que vai todos os dias atrás dela para as pastagens. Costuma divertir‑se imenso a disciplinar as vitelas, a ladrar‑lhes e a injuriá‑las (o seu deus encarregou‑o de reinar sobre as vacas e ele tem muito orgulho nisso). Mas hoje, como tem uma ferida a sangrar numa pata, lá vai saltitando com grande dificuldade nas outras três. De dois em dois minutos, Tereza baixa‑se para lhe fazer festas nas costas. Quinze dias depois da operação, é cada vez mais evidente que o cancro não foi irradiado e que Karenine não tem cura.

            A meio do caminho, encontram uma vizinha que vai para o estábulo, calçada com as suas botas de borracha. A vizinha pára para perguntar a Tereza: "O que é que o seu cão tem? Parece que vai a coxear!ރ Tereza responde: ރTem um cancro. Só lhe resta muito pouco tempo de vidaރ, e sente a garganta tão apertada que mal consegue falar. A vizinha apercebe‑sé das lágrimas de Tereza e põe‑se quase a ralhar com ela: ރSanto Deus! Não me diga que se vai pôr a chorar só por causa de um cão!ރ É uma boa mulher. Não o disse por maldade, mas para tentar consolar Tereza. Tereza tem consciência disso e já vive há tempo suficiente na aldeia para saber que, se os camponeses gostassem tanto dos seus coelhos como ela gosta de Karenine, não matariam nenhum e não tardariam também a morrer de fome rodeados de bichos por todos os lados. No entanto, sente o que a vizinha lhe disse como uma hostilidade. ރEu seiރ, responde ela sem protestar, mas despede‑se rapidamente e prossegue o seu caminho. Sente‑se sozinha com o seu amor pelo seu cão. Pensa, com um sorriso melancólico, que tem de disfarçá‑lo melhor do que se tivesse de esconder uma infidelidade. Ter amor por um cão é uma coisa escandalosa. Se, em vez disso, a vizinha tivesse sabido que andava a enganar Tomas, só teria recebido uma palmada cúmplice nas costas!

            Prossegue; portanto, caminho com as suas vitelas, que lá vão com os flancos a roçar, e mais uma vez pensa com os seus botões que aqueles bichos são realmente muito simpáticos. Mansos, sem malícia, às vezes de uma alegria pueril: só parecem cinqüentonas gordas a armarem‑se às meninas de quatorze anos. Nada mais tocante do que vacas a brincar. Tereza olha para elas com ternura e pensa (é uma ideia que a assalta irresistivelmente de há dois anos para cá) que a humanidade é um parasita da vaca, tal como a tênia é um parasita do homem: está presa às suas tetas como uma sanguessuga. O homem é um parasita da vaca ‑ seria certamente a definição que a zoologia de um não‑homem daria do homem.

            Pode não ver‑se nesta definição mais do que uma simples brincadeira, merecedora apenas de um sorriso de indulgência. Mas se Tereza a levar a sério, arrisca‑se a encetar uma queda vertiginosa: é um pensamento perigoso que pode afastá‑la da humanidade. Já no Gênesis, Deus encarregou os homens de reinar sobre os animais, mas isso pode explicar‑se dizendo que esse poder apenas foi emprestado. O homem não era o proprietário, mas um simples gerente do planeta; mais dia menos dia, teria de prestar contas pela sua gestão. Descartes deu o passo decisivo: fez do homem ރdono e senhor da naturezaރ. O que não deixa de ser uma coincidência interessante é o fato de ser precisamente esse mesmo Descartes que nega categoricamente que os animais tenham alma. O homem é proprietário, e dono, enquanto, segundo Descartes, o animal não passa   de um autômato, de uma ރmachina animataރ, ou seja, de uma má  quina animada. Quando o animal geme, não quer dizer que se queixe: só quer dizer que tem uma peça a ranger. Quando a roda de um   carro de cavalos chia, isso não quer dizer que a charrete tenha uma  dor: é só falta de óleo. As queixas dos animais devem ser interpretadas da mesma maneira, e é perfeitamente estúpido lamentar a sorte de um cão dissecado em vida num laboratório.

            Enquanto as vitelas pastam, Tereza senta‑se num tronco e Karenine deita‑se ao pé dela, com a cabeça pousada no seu colo. Tereza lembra‑se de uma notícia de duas linhas que vinha há uma dúzia de

anos no jornal e que dizia que, numa certa cidade da Rússia, todos os cães tinham sido abatidos. Tal notícia, discreta e aparentemente insignificante, fizera‑lhe sentir pela primeira vez todo o horror que emanava desse vizinho desmesurado.

            Era uma simples antecipação de tudo quanto veio a acontecer depois, porque nos dois anos a seguir à invasão ainda não podia falar‑se propriamente de terror. Como quase toda a nação estava contra o regime de ocupação, os russos tinham de arranjar primeiro homens novos a quem pudessem confiar o poder. Mas onde encontrá‑los, já que a fé no comunismo e o amor pela Rússia eram letra morta? Entre aqueles que nutriam dentro de si o desejo de vingar‑se da vida. O que era preciso era consolidar essa agressividade,

alimentá‑la, mantê‑la em estado de alerta. Era preciso primeiro treiná‑la contra um alvo provisório. Esse alvo, foram os animais.

            Os jornais começaram a publicar artigos em série e a organizar campanhas concertadas sob a forma de .avalanches de cartas dos leitores. O que se exigia era, por exemplo, o extermínio dos pombos nas cidades. E os pombos foram mesmo exterminados. Mas a campanha visava sobretudo os cães. O país ainda estava traumatizado com a catástrofe da ocupação, mas nos jornais, na rádio, na televisão, só se falava na falta de higiene dos passeios e dos jardins públicos por causa dos cães, da ameaça que eles constituíam para a saúde das crianças, só se dizia que eram animais sem utilidade nenhuma e que, para cúmulo, as pessoas ainda tinham de lhes dar de comer. Fabricou‑se uma autêntica psicose, e Tereza chegou mesmo a temer que a população, excitada, se virasse um dia contra Karenine. Um ano depois, o ódio acumulado (e que tinha sido primeiro experimentado nos animais) foi apontado para o seu verdadeiro alvo: o homem. Começaram os despedimentos, as prisões e os processos. E, finalmente, os animais puderam respirar, aliviados.

            Tereza acaricia a cabeça de Karenine mansamente deitada no seu colo. Faz mais ou menos o seguinte raciocínio: Não há mérito nenhum em portarmo‑nos bem com os nossos semelhantes. Tereza é

forçada a ser correta com os outros habitantes da aldeia, porque senão deixaria de poder lá viver, e, até com o próprio Tomas, é obrigada a portar‑se como uma esposa desvelada porque ela precisa dele. Será sempre impossível determinar com um mínimo de segurança em que medida é que as nossas relações com outrem resultam dos nossos sentimentos, do nosso amor, do nosso desamor, da nossa benevolência ou do nosso ódio, e em que medida é que estão previamente condicionadas pelas relações de forças existentes entre os indivíduos.

            A verdadeira bondade do homem só pode manifestar‑se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o

teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros.

            Uma vitela=novilha aproxima‑se de Tereza, estaca ao pé dela e fica a observá‑la demoradamente com os seus grandes olhos castanhos. Tereza conhece‑a bem. Chama‑lhe Margarida. Gostava de ter batizado todas as vitelas, mas não conseguiu. Não havia nomes que chegassem. Há trinta anos, pelo menos, com certeza que ainda era assim, com certeza que todas as vacas da aldeia tinham nome. (E se

o nome é sinal da alma, pode bem dizer‑se, custe o que custar a Descartes, que as vacas tinham alma.) Mas, depois, a aldeia tornou‑se uma fábrica cooperativa e as vacas nunca mais saíram, durante toda a vida, dos seus dois metros quadrados de estábulo. Deixaram de ter alma e passaram a não ser mais do que ރmachinae animataeރ. O mundo deu razão a Descartes.

            Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada num tronco, a afagar a cabeça de Karenine e a meditar no fracasso da humanidade. Ao mesmo tempo, aparece‑me outra imagem: a de Nietzsche a sair de um hotel de Turim. Vê um cocheiro a vergastar um cavalo. Chega‑se ao pé do cavalo e, sob o olhar do cocheiro, abraça‑se à sua cabeça e desata a chorar.

            A cena passava‑se em 1889 e Nietzsche, também ele, já se encontrava muito longe dos homens. Ou, por outras palavras, foi precisamente nesse momento que a sua doença mental se declarou. Mas, na minha opinião, é justamente isso que reveste o seu gesto de um profundo significado. Nietzsche foi pedir perdão por Descartes ao cavalo. A sua loucura (e portanto o seu divórcio da humanidade) começa no instante em que se põe a chorar abraçado ao cavalo.

            E é desse Nietzsche que eu gosto, tal como gosto da Tereza que tem ao colo a cabeça de um cão mortalmente doente e que a afaga. Ponho‑os um ao lado do outro: tanto um como o outro se afastam da estrada em que a humanidade, ރdona e senhora da naturezaރ, prossegue a sua marcha sempre em frente.

 

            Karenine dera à luz dois croissants e uma abelha. Olhava espantado para a sua estranha progenitora. Os croissants estavam quietos, mas a abelha, toda tonta, titubeava; em breve levantou voo e desapareceu.

            Era um sonho que Tereza acabara de ter. Quando acordou, contou‑o a Tomas e ambos o viram como uma consolação: o sonho transformara a doença de Karenine em gravidez e o drama do parto acabara de uma forma ao mesmo tempo cômica e enternecedora: com dois croissants e uma abelha.

            Tereza voltou a sentir uma esperança absurda. Também na aldeia começava o dia por ir às compras: ia à mercearia comprar leite, pão e croissants. Mas, nesse dia, quando chamou Karenine para ele ir com ela, o cão mal levantou a cabeça. Era a primeira vez que se recusava a participar na cerimônia que sempre reclamara tiranicamente.

            Portanto, foi‑se embora sozinha. ރOnde está Karenine?ރ, peruntou a vendedora que já tinha um croissant preparado para ele. I desta vez, foi Tereza que trouxe o croissant no cabaz. Mal entrou em casa, tirou‑o para Karenine o ver. Queria que ele fosse buscá‑lo. Mas Karenine ficou deitado sem se mexer.

            Tomas via como Tereza estava triste. Agarrou o croissant com a boca e pôs‑se de gatas à frente de Karenine. Depois foi‑se aproximando lentamente dele.

            Karenine olhava para ele, parecia acender‑se‑lhe nos olhos um brilho de interesse, mas não se levantava. Tomas pôs a cara ao pé do focinho dele. Sem mexer o corpo, o cão apoderou‑se com a boca de um bocado de croissant que saía para fora da boca de Tomas. Depois, Tomas largou o resto do croissant para Karenine ficar com ele todo inteiro.

            Sempre de quatro, Tomas recua, encolhe‑se sobre si próprio e põe‑se a rosnar. Finge que está a disputar o croissant. O cão responde ao dono a rosnar. Até que enfim! Era isso mesmo que eles esperavam! Karenine estava com vontade de brincar! Karenine ainda tinha gosto pela vida.

            Esse rosnar era o sorriso de Karenine e eles queriam fazer durar esse sorriso tanto tempo quanto possível. Tomas, sempre de gatas, voltou a aproximar‑se do cão e agarrou com os dentes a extremidade do croissant que lhe saía para fora da boca. Como estavam muito perto um do outro, Tomas aspirava o hálito do cão e os pêlos muito compridos que Karenine tinha à volta do focinho faziam‑lhe cócegas no rosto. O cão voltou a rosnar e sacudiu o focinho. Ficou cada um com metade do croissant presa nos dentes. Karenine voltou a cometer o mesmo erro de sempre. Largou a sua metade e quis apoderar‑se do pedaço que o dono tinha na boca. Como sempre, esqueceu‑se que Tomas não era um cão e tinha mãos. Tomas não largou o pedaço de croissant que tinha na boca e apanhou a metade que estava no chão.

            ރTomas, não lhe tires o croissant.ބ., gritou Tereza.

            Tomas deixou cair as duas metades à frente de Karenine, que engoliu uma rapidamente, mas conservou ostensivamente a outra durante muito tempo na boca para mostrar aos dois donos, todo vaidoso, que tinha ganho.

            Estes olhavam para ele e pensavam que Karenine estava a sorrir e que, enquanto sorrisse, ainda tinha uma razão para viver.

            No dia seguinte, parecia melhor. Foram almoçar. Era a altura em que ambos tinham uma hora livre e costumavam levar o cão a dar um passeio. Karenine sabia disso e, alguns minutos antes, punha‑se a saltar à roda deles com um ar inquieto, mas, desta vez, quando Tereza foi buscar a coleira e a trela, o cão olhou demoradamente para eles e não se mexeu. Estavam especados à frente dele e esforçavam‑se por parecer alegres (por causa dele e de propósito para ele) a fim de lhe comunicarem um pouco da sua boa disposição. Passado um momento, como se tivesse tido pena deles, o cão aproximou‑se a coxear nas três patas e deixou que lhe pusessem a coleira.

            cTereza, embora saiba que estás zangada com a máquina fotográfica, por favor, trá‑la hoje!ރ, pediu Tomas.

            Tereza obedeceu. Abriu um armário onde a máquina devia estar arrumada a um canto. Tomas voltou à carga: ‑‑Um dia, ainda havemos de sentir‑nos muito contentes por ter estas fotografias. Karenine era uma parte da nossa vida.

            ‑ Era'' , perguntou Tereza como se tivesse sido picada por uma cobra. Tinha a máquina mesmo diante dos olhos, no fundo do armário, mas não fazia um gesto para tirá‑la. ‑‑Não quero pensar que

Karenine alguma vez possa deixar de estar aqui. Tu já falas dele no passado!

            ‑ Não te zangues!, disse Tomas.

            ‑ Eu não estou zangada, disse Tereza baixinho. Quantas vezes é que eu também já dei por mim a pensar nele no passado! Quantas vezes já me censurei a mim própria por causa disso! Por isso é que não vou levar a máquina.ރ

            Iam a caminhar pela estrada, sem falar. Não falar era a única maneira de não pensar em Karenine no passado. Não tiravam os olhos de cima dele e estavam constantemente com ele. Só estavam à espera do momento em que ele começasse a sorrir. Mas ele não sorria; não fazia senão caminhar, sempre só com três patas.

            Só o faz por nossa causa. Não tinha vontade nenhuma de sair. Só veio porque sabia que nós gostávamos, disse Tereza.

            O que ela dizia era triste, mas, apesar disso e sem se darem conta, eles eram felizes. Se eram felizes, não era apesar da tristeza, mas graças à tristeza. Iam de mãos dadas e ambos tinham a mesma imagem diante dos olhos: um cão que encarnava dez anos da sua vida em comum.

            Ainda andaram mais um bocado. Depois, para sua grande desilusão, Karenine parou e deu meia volta. Tiveram de voltar para casa.

            Talvez ainda nesse dia, ou então no dia seguinte, ao entrar sem avisar no quarto de Tomas, Tereza reparou que ele estava a ler uma carta. Quando ouviu bater a porta, meteu a carta no meio de outros papéis. Tereza percebeu. E também viu que ele, quando saiu do quarto, escondeu uma carta na algibeira. Mas esqueceu‑se do envelope. Quando se viu sozinha em casa, foi inspecioná‑lo. A direção estava escrita com uma caligrafia desconhecida, muito clara, e que lhe pareceu tipicamente feminina.

            Mais tarde, quando voltou a vê‑lo, perguntou‑lhe, como quem não quer a coisa, se tinha havido correio.

            Não, disse Tomas, e Tereza sentiu‑se invadir pelo desespero, um desespero tanto mais cruel quanto já se tinha desabituado dele. Não, Tomas não podia encontrar‑se às escondidas com uma mulher.

Era praticamente impossível. Mas devia ter deixado em Praga uma mulher em quem continuava a pensar, que era importante para ele e que lamentava que agora já não pudesse deixar‑lhe o cheiro do sexo no cabelo. Não receava que Tomas a deixasse por causa dessa mulher, mas tinha a sensação que, corno dantes, a felicidade daqueles dois últimos anos passados no campo estava aviltada pela mentira.

            Veio‑lhe de novo à cabeça uma idéia: a casa dela não era Tomas, mas Karenine. Quem daria corda ao relógio dos seus dias quando ele já não estivesse presente?

            Tereza já se encontrava em pensamento no futuro, num futuro sem Karenine, num futuro onde se sentia abandonada.

            Karenine encontra‑se deitado, a gemer, a um canto. Tereza vai ao jardim. Observa o estado da erva entre duas macieiras e decide que Karenine há‑de ser enterrado nesse sítio. Traça um retângulo na erva com o salto do sapato. É o desenho da campa.

            "O que estás a fazer?ރ, perguntou‑lhe Tomas, que a apanhou tão inopinadamente como ela o apanhara a ele umas horas antes a ler uma carta.

            Não lhe respondeu. Tomas viu que ela tinha as mãos a tremer; já há muito tempo que isso não lhe acontecia. Agarrou‑lhas. Ela libertou‑se.

            cÉ a campa de Karenine?ރ

            Não lhe respondeu.

            Tomas começou a ficar irritado com o silêncio dela. Explodiu: ‑‑Censuraste‑me por eu já estar a pensar nele no passado. E tu, o que é que estás a fazer? Já o queres enterrar!ރ

            Ela virou‑lhe as costas e voltou para casa.

            Tomas foi para o quarto e bateu com a porta.

            Tereza abriu‑a e disse: cEra bem melhor que em vez de só pensares em ti, também pensasses nele agora. Estava a dormir e tu acordaste‑o. Vai pôr‑se a gemer outra vez.ރ

            Tereza sabia que estava a ser injusta (o cão não estava a dormir), sabia que estava a comportar‑se como uma mulherzinha vulgar que quer magoar alguém e sabe qual é a melhor maneira de o fazer.

            Tomas entrou em bicos de pés no quarto onde Karenine estava deitado. Mas ela não queria deixá‑lo sozinho com ele. Estavam ambos debruçados sobre o cão, cada um por seu lado. Esse movimento comum não era um gesto de reconciliação. Bem pelo contrário. Ambos estavam sozinhos. Tereza com o seu cão. Tomas com o seu cão.

            Tenho medo é que fiquem assim com ele até ao último momento. os dois separados. os dois sozinhos.

 

            Por que é a palavra idílio uma palavra tão importante para Tereza?

            Nós, que fomos educados na mitologia do Antigo Testamento, podíamos talvez dizer que o idílio é a imagem que nos ficou gravada na lembrança como representação do Paraíso. A vida no Paraíso não era uma caminhada sempre em linha reta para o desconhecido, não era uma aventura. Movia‑se em círculo, entre as coisas conhecidas. A sua monotonia não era tédio, mas felicidade.

            Enquanto viveu no campo, no meio da natureza, rodeado de animais domésticos, embalado pelas estações e pela sua repetição, o homem ainda tinha pelo menos um reflexo desse idílio paradisíaco. Assim, Tereza, no dia em que encontrou o presidente da cooperativa nas termas, viu desenhar‑se à sua frente uma imagem do campo (do campo onde nunca tinha vivido, que não conhecia) e ficou maravilhada com ela. Era como olhar para trás, era como olhar para o Paraíso.

            No Paraíso, quando Adão se debruçava nas fontes, ainda não sabia que estava a ver a sua própria imagem. Não teria compreendido Tereza que, quando era pequena, se plantava diante do espelho e se esforçava por ver a alma através do corpo. Adão era como Karenine. Às vezes, para se divertir, Tereza punha‑o à frente do espelho. O cão não reconhecia a imagem do espelho e olhava para ela com um ar distraído, com uma indiferença incrível.

            A comparação de Karenine com Adão leva‑me a pensar que, no Paraíso, o homem ainda não era bem o homem. Para ser mais exato: o homem ainda não se tinha lançado na trajetória do homem. Pela nossa parte, há muito que estamos lançados nessa trajetória e voamos no vazio de um tempo que corre sempre a direito. Mas ainda existe em nós um fino cordão a ligar‑nos ao longínquo Paraíso enevoado onde Adão se debruçava sobre a fonte e, ao contrário de Narciso, não fazia a menor idéia de que a pálida mancha amarela

que lá via era a sua imagem. A nostalgia do Paraíso é o desejo que o homem tem de não ser homem.

            Quando Tereza era pequena e via os pensos higiênicos da mãe sujos de sangue menstrual, ficava cheia de nojo e detestava a mãe por não ter sequer o pudor de escondê‑los. Mas Karenine, que era uma

cadela, também tinha menstruações. Tinha uma de seis em seis meses, durante quinze dias. Para ele não sujar a casa, Tereza punha‑lhe um grande bocado de algodão entre as pernas e vestia‑lhe umas cuecas velhas que lhe atava engenhosamente ao corpo com uma fita muito comprida. Passava quinze dias divertida a vê‑lo com essa fatiota.

            Como explicar que as menstruações de uma cadela despertassem em si uma tal ternura, quando até pela sua própria menstruação tinha repugnância? A resposta parece‑me fácil: é que o cão nunca foi expulso do Paraíso. Karenine desconhece totalmente a dualidade do corpo e da alma e não sabe o que é ter repugnância. Por isso Tereza se sente tão bem e tão calma ao pé dele. (E por isso é que é tão perigoso transformar o animal em máquina animada e tornar a vaca um autômato de produzir leite: ao fazê‑lo, o homem está a cortar o cordão que o ligava ao Paraíso e a privar‑se da única coisa que pode obrigá‑lo a parar e dar algum conforto ao seu vôo através do vazio do tempo. j

            Do caos confuso destas idéias, nasce no espírito de Tereza um pensamento blasfemo de que não consegue livrar‑se: o amor que a une a Karenine é melhor do que o amor que existe entre ela e Tomas. Melhor, e não maior. Tereza não quer culpar nenhum dos dois, nem Tomas nem ela, não quer dizer que eles poderiam amar‑se mais. Parece‑lhe é que o casal humano foi criado de tal forma que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior àquela que pode ter (pelo menos na melhor das suas variantes) o amor entre o homem e o cão, essa estranha coisa dá história do homem que o Criador certamente não previu.

            É um amor desinteressado: Tereza não quer nada de Karenine. Nem sequer exige que ele a ame. Nunca se atormentou com as perguntas que torturam os homens e as mulheres: Gostará ele de mim? Já terá amado alguém mais do que me ama a mim? Amar‑me‑á mais do que eu o amo? Todas essas interrogações que questionam o amor, que o medem, o perscrutam, o inspecionam, não se arriscarão a matá‑lo na casca? Se somos incapazes de amar, talvez   seja por desejarmos ser amados, ou seja, por querermos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem   reivindicações e não querermos senão a sua simples presença.

            E ainda há mais uma coisa: Tereza aceitou Karenine tal e qual como ele é, não tentou modificá‑lo, deu a sua anuência prévia ao seu universo de cão, não quer confiscar‑lho, não tem ciúmes das suas tendências secretas. Se o educou, não foi com a intenção de modificá‑lo (como um homem quer sempre modificar a sua mulher e uma mulher o seu homem), mas simplesmente para lhe ensinar a língua elementar que havia de permitir‑lhes compreenderem‑se e viverem os dois juntos.

            E também: o seu amor pelo cão é um amor voluntário, ninguém a obrigou a isso. (Tereza pensa uma vez mais na mãe, e tem muita pena dela: se a mãe fosse uma daquelas desconhecidas da aldeia, talvez a sua jovial grosseria lhe parecesse simpática! Ah! se ao menos a mãe fosse uma estranha! Tereza sempre teve desde criança uma grande vergonha por a mãe ter ocupado os traços do seu rosto e confiscado o seu eu. E o pior é que o imperativo milenar que nos manda amar pai e mãe a forçava a aceitar essa ocupação, a chamar amor a essa agressão! A mãe não é culpada de Tereza ter rompido com ela. Não rompeu com a mãe por ela ser como era, mas por ser sua mãe. )

            Mas sobretudo: nenhum ser humano pode presentear outro com um idílio. Só o animal pode fazê‑lo porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dilacerantes, sem evolução. Karenine ia traçando em torno de Tereza e de Tomas o círculo da sua vida fundada na repetição e também esperava o mesmo deles.

            Se, em vez de ser um cão, Karenine fosse um ser humano, certamente que já teria dito a Tereza há muito tempo: ރOuve lá, já estou farto de vir todos os dias com um croissant na boca. Não és capaz de me arranjar outra coisa?ރ Nesta frase, encontra‑se resumida toda a maldição do homem. O tempo humano não anda em círculo, mas avança em linha reta. Por isso o homem não pode ser feliz: a felicidade é desejo de repetição.

            Sim, é verdade, a felicidade é desejo de repetição, pensa Tereza.

            Quando o presidente da cooperativa levava Mefistófeles a dar uma volta depois do trabalho e encontrava Tereza, nunca se esquecia de dizer: ރSenhora Dona Tereza! Se eu ao menos o tivesse conhecido há mais tempo! Tínhamos andado os dois atrás das mulheres! Não há mulher que resista a dois porcos juntos!ރ Ao ouvir estas palavras, o porquito soltava um grunhido, porque tinha sido amestrado para isso. Tereza ria‑se, embora já soubesse há mais de um minuto aquilo que o presidente da cooperativa lhe ia dizer. A repetição não tirava encanto nenhum à brincadeira. Pelo contrário. No contexto do idílio, o próprio humor obedece à doce lei da repetição.

 

            O cão, que quando comparado com o homem não tem privilégios nenhuns, tem, no entanto, um que não é para desprezar: no seu caso, a eutanásia não é proibida por lei e o animal tem direito a uma morte misericordiosa. Karenine só podia andar com três patas e passava cada vez mais tempo deitado a um canto. Gemia muito. Tereza e Tomas estavam perfeitamente de acordo sobre uma coisa: não tinham qualquer direito de deixá‑lo sofrer inutilmente. Mas este acordo de princípio não poupava nenhum deles a uma incerteza angustiante. Como saber em que momento é que o sofrimento se torna inútil? Como determinar o momento em que estar vivo deixa de valer a pena?

            Se ao menos Tomas não fosse médico, ainda poderiam proteger‑se com uma terceira pessoa. Ainda poderiam ir ter com o veterinário e pedir‑lhe para dar uma injeção ao cão.

            É tão difícil assumirmos nós próprios o papel da morte! Tomas rejeitara energicamente durante muio tempo a idéia de ser ele a dar‑lhe a injeção, dizendo que chamariam um veterinário. Mas acabou por perceberque, pelo menos, lhe poderia conceder um privilégio que nenhum ser humano pode ter: a morte disfarçar‑se‑ia sob a máscara daqueles que amava.

            Karenine passara a noite inteira a gemer. De manhã, depois de auscultá‑lo, Tomas disse a Tereza: <Não se deve esperar mais tempo.ރ

            Estavam ambos para ir trabalhar. Tereza foi buscar Karenine ao quarto. Até aí, ele mantivera‑se deitado na mais perfeita indiferença (há pouco, nem sequer dera por Tomas enquanto este estava a examiná‑lo), mas agora, ao ouvir o barulho da porta, levantou a cabeça e olhou para Tereza.

Esta não pôde suportar aquele olhar e quase teve medo dele. Nunca olhava para ninguém dessa maneira, nem mesmo para Thomas. Só para ela é que olhava assim. Mas nunca com a intensidade ' com que o fazia hoje. Não, não era um olhar desesperado ou triste. Era um olhar de uma arrepiante, de uma insustentável credulidade. Aquele olhar era uma pergunta ávida. Durante toda a vida, Karenine esperara que Tereza lhe respondesse e o que lhe dava agora a conhecer (ainda muito mais insistentemente do que dantes) era que continuava à espera de saber a verdade por seu intermédio (porque, para ele, o que lhe chega por intermédio de Tereza é sempre a verdade: os seus ރsentado!ރ ou ރdeitado!ރ são verdades a que adere por inteiro e que dão sentido à sua vida). Aquele olhar de uma arrepiante credulidade foi extremamente breve. O cão voltou logo a pousar a cabeça em cima das patas. Tereza tinha consciência de que nunca mais ninguém olharia para ela assim. Nunca lhe davam guloseimas, mas Tereza, há alguns dias, tinha ido comprar tabletes de chocolate. Tirou‑lhes a prata, partiu‑as em bocadinhos muito pequenos e pô‑los à volta dele. Pôs também uma tigela com água para que, durante as horas em que ia ficar sozinho

  em casa, não lhe faltasse nada. Mas ele parecia ter ficado extenuado com o olhar que pousara nela. Embora estivesse rodeado de bocados de chocolate, não voltou a levantar a cabeça.

Deitou‑se no chão ao pé dele e abraçou‑o. O cão farejou‑a mui  to devagar e lambeu‑a uma ou duas vezes com um grande cansaço. Recebeu a carícia de olhos fechados, ‑‑.mo se quisesse ficar com ela

  gravada para sempre na memória. Virou a cara para ele lha lamber do outro lado. Depois. teve de ir tratar das vitelas. Só voltou a casa a seguir ao almoço. Tomas ainda não tinha chegado. Karenine continuava deitado, todo rodeado de pedacinhos de chocolate, e já nem sequer levantou a cabeça ao ouvir os passos de Tereza. Tinha a perna doente inchada e o tumor rebentara noutro sítio. No meio dos pêlos, havia uma gota de um vermelho claro, que não parecia uma gota de sangue.

            Como ainda há pouco, deitou‑se no chão encostada a ele. Passou‑lhe um braço em torno do corpo e fechou os olhos. Depois, alguém bateu com os dedos na porta. ރSenhor doutor, senhor doutor! Aqui tem o porco e o seu presidente!ރ Sentia‑se incapaz de falar fosse com quem fosse. Não se mexeu e continuou de olhos fechados. Ainda se ouviu outra vez: ރSenhor doutor, os porcos vieram fazer‑lhe uma visita!ރ, e depois tudo voltou a ficar silencioso.

            Tomas chegou meia hora mais tarde. Sem dizer palavra, foi à cozinha preparar a injeção. Quando voltou ao quarto, Tereza já estava de pé e Karenine fez um esforço para se levantar. Quando viu Tomas, abanou levemente o rabo.

            ރOlha!, disse Tereza, ele ainda sorri!ރ

Disse‑o num tom de voz suplicante, como se estivesse a pedir um pequeno adiamento, mas não voltou a insistir nisso. Muito devagar, estendeu um lençol em cima da cama. Era um lençol banco, semeado de florzinhas cor de violeta. Aliás, ela já tinha tudo preparado, já tinha pensado em tudo, como se tivesse andado a imaginar com vários dias de antecedência a morte de Karenine. (Ah! Que horror! Imaginamos com antecedência a morte daqueles que amamos!) O cão já não tinha forças para saltar para cima da cama.

Pegaram‑no ambos ao colo e levantaram‑no. Tereza deitou‑o de lado e Tomas examinou‑lhe a pata. Procurava um sítio em que a veia fosse saliente e se visse com nitidez. Cortou os pêlos desse sítio com a tesoura. Tereza estava ajoelhada aos pés da cama e segurava com as mãos a cabeça de Karenine, à qual tinha a cara encostada. Tomas pediu‑lhe para apertar com toda a força a pata de trás logo acima da veia, porque esta era fininha e a agulha custava a entrar. Segurou na pata de Karenine, mas não afastou a cara da cabeça dele. Não parava de lhe falar com uma voz muito doce e ele não pensava em mais nada senão nela. O cão não estava com medo.

Lambeu‑lhe mais duas ou três vezes a cara. E Tereza segredava‑lhe: ރNão tenhas medo, não tenhas medo, lá já não te dói nada, lá vais sonhar com esquilos e com lebres, e Mefistófeles também há‑de lá estar, não tenhas medo...ރ

            Tomas enfiou a agulha na veia e pressionou o êmbolo. A pata de Karenine foi percorrida por um leve estremecimento, a respiração acelerou‑se‑lhe e depois parou de repente. Tereza continuava ajoelhada no chão aos pés da cama, com o rosto apertado de encontro à sua cabeça.

            Tiveram ambos de voltar para o trabalho e o cão ficou deitado em cima da cama, em cima do lençol branco com flores cor de violeta.

            Voltaram ao fim da tarde. Tomas foi ao jardim. Encontrou, entre duas macieiras, os quatro riscos do retângulo que Tereza tinha desenhado com o salto alguns dias antes. Pôs‑se a cavar. Observou rigorosamente as dimensões indicadas. Queria que tudo se passasse como Tereza desejava. Esta ficara em casa com Karenine. Tinha medo que o cão ainda estivesse vivo quando fossem enterrá‑lo. Encostou‑lhe o ouvido ao focinho e teve a impressão de sentir um leve sopro. Afastou‑se dele e constatou que o peito ainda se mexia um bocadinho. (Não, ela não ouviu senão a sua própria respiração. Esta imprime um movimento imperceptível ao seu próprio corpo, mas a ela parece‑lhe que é o peito do cão que está a mexer‑se!)

            Achou um espelho na carteira e encostou‑o ao nariz do cão. O espelho estava tão sujo que lhe pareceu que tinha lá ficado uma marca. ރTomas, ele ainda está vivo!ރ, gritou, quando Tomas voltou do

jardim com os sapatos cheios de lama.

            O marido baixou‑se e fez que não com a cabeça.

            Um de cada lado, agarraram no lençol sobre o qual repousava Karenine. Tereza, do lado das patas, Tomas, do lado da cabeça. Levantaram‑no e levaram‑no para o jardim.

            Tereza sentiu o lençol molhado nas mãos. Quando veio, trouxe‑nos um laguinho, agora que se vai, deixa‑nos outro, pensou ela. Estava contente por sentir debaixo dos dedos aquela umidade, o último adeus do seu cão.

            Levaram‑no para o pé das macieiras e depuseram‑no no fundo da cova. Tereza debruçou‑se para arranjar o lençol de forma a tapá‑lo todo. Não podia pensar que a terra que lhe iam deitar por cima lhe caísse em cima do corpo nu.

            Depois, foi a casa buscar a coleira, a trela e uma mão‑cheia de bocadinhos de chocolate, que desde a manhã tinham ficado no chão, intactos. Deitou tudo para dentro da cova.

            Ao lado, estava um monte de terra fresca. Tereza pegou na pá.

            Tereza lembrava‑se do sonho que tivera e no qual Karenine dava à luz dois croissants e uma abelha. Subitamente, estas palavras pareciam‑lhe um epitáfio. Pôs‑se a imaginar um jazigo entre as macieiras, com a seguinte inscrição: ރAqui jaz Karenine. Deu à luz dois croissants e uma abelha.ރ

            No jardim, a penumbra ia‑se adensando, de forma que já não era dia e ainda não era noite; havia uma luz pálida no céu, como um candeeiro que tivesse ficado esquecido no quarto dos mortos.

            Tinham ambos os sapatos cheios de terra e tornaram a pôr a pá e a enxada no alpendre, ao pé dos restantes utensílios: ancinhos, picaretas e sachos.

 

            Estava sentado à mesa do quarto, que era onde costumava instalar‑se para ler. Quando Tereza vinha ter com ele, aproximava‑se por detrás, debruçava‑se e apertava os seus dois rostos um contra o outro. Ao fazê‑lo, nesse dia, viu que Tomas não estava a ler um livro. Tinha uma carta diante de si. Embora só lá houvesse umas cinco linhas datilografadas, se tanto, Tomas olhava fixamente para ela e nem desviou o olhar quando se apercebeu da presença de Tereza.

            ރO que é?ރ, perguntou ela, angustiada.

            Sem se voltar, Tomas pegou na carta e deu‑lha. Dizia que, nesse mesmo dia, tinha de ir ter ao aeródromo da cidade mais próxima.

            Quando acabou finalmente por voltar‑se para Tereza, esta leu‑lhe nos olhos o mesmo pavor que também ela acabara de sentir.

            ރ Vou contigoރ, disse ela.

            Tomas fez que não com a cabeça: ރSó me mandam ir a mim.ރ

            Tereza voltou a repetir: ރNão, eu também vou contigo.ރ Subiram para o caminhão e, alguns momentos depois, chegavam ao campo de aviação. Havia nevoeiro. As silhuetas dos aviões mal se divisavam. Percorreram‑nos todos, mas as portas de todos aqueles aviões estavam fechadas, não havia maneira de lá entrar. Acabaram por encontrar um com a porta da frente aberta e uma escada encostada. Subiram dois ou três degraus e, à porta, apareceu um steward que lhes fez sinal para continuarem. Era um avião pequeno, de uns trinta lugares, completamente vazio. Sempre agarrados um ao outro, avançaram pelo corredor, sem prestarem grande atenção ao que se passava à sua volta. Sentaram‑se um ao lado do outro e Tereza encostou a cabeça ao ombro de Tomas. O horror inicial dissipava‑se e transformava‑se em tristeza.

            O horror é um choque, um instante de absoluta cegueira. O horror é totalmente desprovido de beleza. Não se vê senão a luz violenta do acontecimento desconhecido que se espera. A tristeza, pelo contrário, implica que se saiba. Tomas e Tereza sabiam o que os esperava. O clarão do horror tinha‑se encoberto e o mundo agora aparecia a uma luz azulada e suave, que tornava as coisas mais belas do que antes.

            No momento em que lera a carta, Tereza não sentira amor por Tomas. Só pensara que não devia deixá‑lo, um só segundo que fosse: o horror abafa todos os outros sentimentos, todas as outras sensações. Agora, abraçada a ele (o avião voava por entre as nuvens), o pavor passara e já podia sentir o amor que lhe tinha e sabia que aquele era um amor sem limites e sem medida.

            O avião acabou finalmente por aterrar. Levantaram‑se e dirigiram‑se para a porta que o steward abrira. Sempre enlaçados pela cintura, encontravam‑se no alto da escada. Em baixo, estavam três homens com carapuças na cabeça e espingardas na mão. Era perfeitamente inútil hesitar porque não havia escapatória possível. Desceram muito devagar e, quando puseram o pé na pista, um dos homens levantou a espingarda e fez pontaria. Não se ouviu nenhuma detonação, mas Tereza sentiu que Tomas, que um segundo antes se encostava a ela e lhe enlaçava a cintura, já não se agüentava nas pernas.


            Quis mantê‑lo encostado a si, mas não conseguiu. Tomas caiu em plena pista de cimento. Baixou‑se. Queria deitar‑se por cima dele, cobri‑lo com o seu próprio corpo, mas algo de muito estranho

aconteceu então: o corpo de Tomas começou a encolher a toda a velocidade debaixo dos seus olhos. Era um espetáculo tão incrível que ficou como que petrificada no mesmo sítio. O corpo de Tomas cada vez encolhia mais, não se parecia já nada com Tomas, só restava uma coisinha minúscula, e essa coisinha ínfima começou a mexer‑se e depois a correr e a fugir pelo campo de aviação fora.

            O homem que tinha disparado tirou a máscara e sorriu para Tereza com um ar afável. Depois, virou‑se e lançou‑se em perseguição daquela coisinha minúscula que corria para ali e para acolá como se

quisesse evitar alguém e procurasse desesperadamente um abrigo. Andaram assim atrás um do outro durante alguns instantes, depois o homem atirou‑se bruscamente ao chão e a perseguição acabou.

            O homem levantou‑se e veio ter com Tereza. Trazia‑lhe a coisinha nas mãos. A coisinha tremia de medo. Era uma lebre. Deu‑a a Tereza. Então, o pavor e a tristeza desapareceram e ela ficou contente por ter aquele animalzinho ao colo, aquele animalzinho que era dela e que ela pedia apertar contra o corpo. Desfez‑se em lágrimas de felicidade. Chorava, não conseguia parar de chorar, as lágrimas não a deixavam ver nada, e levava a lebre para casa pensando que já estava quase mesmo no fim, que estava onde queria estar, no sítio de onde já não se pode escapar.

            Seguiu caminho pelas ruas de Praga e deu facilmente com a sua casa. Vivera lá com os pais quando era pequena. Nem o pai nem a mãe já lá viviam. Foi recebida por dois velhotes que nunca tinha visto, mas ela sabia que eram o seu bisavô e a sua bisavó. Ambos tinham a cara enrugada como a casca de uma árvore e Tereza sentia‑se contente por viver com eles. Mas, por agora, queria estar sozinha com o seu animalzinho. Achou sem dificuldade o quarto onde dormira a partir dos cinco anos de idade, quando os pais tinham

decidido que ela merecia ter um quarto só para ela.

            O quarto estava mobiliado com um divã, uma mesinha e uma cadeira. Havia um candeeiro aceso em cima da mesa, à sua espera há todo aquele tempo. E em cima do candeeiro estava pousada uma borboleta de asas abertas e enfeitadas com dois grandes olhos pintados. Tereza sabia que estava a chegar ao fim. Deitou‑se no divã e apertou a lebre contra o rosto.

 

            Estava sentado à mesa onde se instalava sempre para ler. Tinha diante de si um sobrescrito aberto e uma carta. Disse para Tereza: ރDe tempos a tempos, tenha recebido umas cartas de que não tencionava falar‑te. São do meu filho. Sempre fiz tudo para evitar qualquer contacto entre a vida dele e a minha. E olha como o destino se vingou de mim. Há uns anos, expulsaram‑no da faculdade. Agora é motorista de tractor numa aldeia. A verdade é que, embora não haja qualquer contacto entre as nossas vidas, elas vão as duas lado a lado na mesma direção como retas paralelas.

            "E por que é que não tencionavas falar‑me dessas cartas? perguntou Tereza, profundamente aliviada.

            ‑ Não sei. Não me apetecia.

            ‑ Ele escreve‑te muitas vezes?

            ‑ De tempos a tempos.

            ‑ E para te falar de quê?


            ‑ Dele.

            ‑ E diz coisas interessantes?

            ‑ Diz. Como tu sabes, a mãe era uma comunista feroz. Deixou de dar‑se com ela há muito tempo. Ligou‑se a pessoas que tinham uma situação igual à nossa e que tentavam exercer uma actividade política. Alguns foram presos. Mas também se pegou com eles. Distanciou‑se. Trata‑os de `eternos revolucionários.

            ‑ Espero bem que não se tenha reconciliado com o regime...

            ‑ Não, nem pensar nisso. Agora acredita em Deus e pensa que isso é a solução para todos os problemas. Segundo ele, devemos é ir vivendo a vida de todos os dias conforme manda a religião e não

ligar ao regime. Devemos ignorá‑lo. Segundo ele, se acreditarmos em Deus, somos capazes de instaurar através da nossa conduta, e seja lá bem onde for, aquilo a que ele chama o `reino de Deus sobre a Terra'. Diz‑me que a Igreja é a única associação voluntária que há no nosso país, e também a única que escapa ao controlo do Estado. O que eu gostava de saber é se ele é religioso só para resistir ao regime ou se, de facto, acredita mesmo em Deus.

            ‑ Então porque é que não lhe perguntas?ރ

            Tomas prosseguiu: ރSempre admirei as pessoas que acreditam em Deus. Achava que tinham o dom estranho de uma percepção para‑sensorial que a mim me é negada. Um pouco como os videntes. Mas agora, com o exemplo do meu filho, percebo que não é difícil acreditar. Quando se viu em dificuldades, os católicos tomaram conta dele e assim, de um momento para o outro, descobriu a fé em Deus. Talvez tenha sido a gratidão que o levou a decidir‑se. As decisões humanas são assustadoramente fáceis de tomar.

            ‑ Nunca lhe respondeste?

            ‑ Não tenho a direção dele. Ele não ma mandou.ރ

            Depois acrescentou: ރClaro que o carimbo do correio tem o nome da terra. Bastava mandar a carta para a cooperativa.ރ

            Tereza sentia‑se envergonhada das suspeitas que tivera e queria reparar o erro com uma súbita demonstração de generosidade para com o filho dele. ރEntão porque é que tu não lhe escreves? Porque

é que não lhe dizes para vir visitar‑nos?

            ‑ É que ele é muito parecido comigo. A falar, faz exatamente o mesmo que eu com o lábio de cima. Acho um bocado esquisito ver a minha própria boca a falar do reino de Deus...ރ

            Tereza desatou a rir.

            Tomas também..

            Tereza exclamou: "Tomas, não sejas criança! É uma história tão antiga! Essa tua história com a tua primeira mulher... O que é que ele tem a ver com isso? Lá por teres mau gosto quando eras novo, ainda é preciso que haja alguém a sofrer com isso?

            ‑ Para dizer a verdade, só de pensar no encontro, fico logo nervoso. É sobretudo por causa disso que não me apetece vê‑lo. Não consigo perceber porque é que fui tão teimoso. Um belo dia, sem saber muito bem como, toma‑se uma decisão, e depois essa decisão ganha a sua inércia própria. Cada ano que passa é um bocadinho mais difícil mudá‑la.

            ‑ Diz‑lhe para vir fazer‑nos uma visita!ރ, disse ela.

             À tarde, ao voltar do estábulo, ainda vinha na estrada e já ouvia vozes. Quando chegou ao pé de casa. viu o caminhão. Tomas estava a mudar uma roda, todo debruçado para a frente. À sua volta,  formara‑se um pequeno grupo de gente a ver, à espera que Tomas acabasse a reparação.


Tereza ficou parada, sem conseguir tirar os olhos dele. Parecia‑lhe velho. Tinha os cabelos grisalhos e a dificuldade com que se desembaraçava do caso não era aquela falta de jeito desculpável num médico convertido em motorista de caminhão, mas a que é pró  paria de alguém que já não é novo.

Lembrava‑se de uma conversa que tivera há pouco tempo com o presidente. Este dissera‑lhe que o caminhão de Tomas estava num estado miserável. Não estava de forma nenhuma a queixar‑se. Dissera  ‑o em jeito de brincadeira, mas, mesmo assim, andava preocupado com aquilo. ރTomas conhece melhor o corpo humano do que as peças do motorރ, disse ele. Depois, contou‑lhe em segredo que já  tentara várias vezes convencer a administração a deixá‑lo exercer medicina na região. Tinham‑lhe respondido que a polícia nunca autorizaria tal coisa.

Escondeu‑se atrás de uma árvore para os outros homens não darem por ela, mas não tirava os olhos dele. Estava cheia de remorsos. Por sua causa é que ele deixara Zurique e voltara para Praga. Por sua causa é que ele deixara Praga. E, mesmo ali, ainda continuava a atormentá‑lo, mesmo com Karenine a morrer, ainda fora capaz de torturá‑lo com as suas suspeitas inconfessáveis.

Sempre censurara Tomas em pensamento por não gostar suficientemente dela. O seu amor, esse sim, estava acima de toda e qualquer suspeita, mas o dele nunca passara de uma simples condescendência.

Apercebia‑se agora de como tinha sido injusta: se realmente lhe tivesse um grande amor, teria ficado com ele no estrangeiro! Lá, ele era feliz e tinha uma vida nova diante de si! Mas ela, ela deixara‑o, ela viera‑se embora! É claro que se convencera que estava a praticar um ato de generosidade, que só se vinha embora por não querer ser um peso para ele! Mas seria essa sua generosidade mais do que um subterfúgio? Na realidade, ela bem sabia que ele havia de voltar, que havia de vir ter com ela! Chamara por ele, arrastara‑o consigo cada vez mais para baixo, como as fadas atraem os camponeses para as turfeiras e lá os deixam morrer afogados. Aproveitara um momento em que o apanhara com dores de estômago para arrancar‑lhe a promessa de que iriam viver para o campo! Como fora manhosa! Fora‑o sempre atraindo atrás de si, sempre para pô‑lo à prova, sempre para se assegurar do seu amor, e fora‑o atraindo sempre até ali, até ao estado em que o vê agora: grisalho e cansado, com os dedos meio mutilados, dedos que nunca mais poderão pegar num bisturi.

            Tinham os dois chegado ao fim. Para onde poderiam agora ir‑se embora? Para o estrangeiro? Nunca lhes dariam autorização. Para Praga? Ninguém lhes daria emprego. Para outra aldeia qualquer? Mas a que propósito?

            Santo Deus! Tinha sido mesmo necessário chegarem ali para ter a certeza de que ele a amava!

            Tomas acabou finalmente por conseguir montar a roda. Os homens saltaram para a parte de trás do camimhão e o motor começou a roncar.

            Entrou em casa e foi tomar banho. Estava deitada na água a escaldar e pensava que toda a vida se servira da sua própria fraqueza contra Tomas. Todos temos tendência para culpar a força e ver na fraqueza uma vítima inocente. Mas, Tereza dava‑se agora bem conta disso, no caso deles era precisamente o contrário! Até os seus próprios sonhos, como se adivinhassem qual era a única fraqueza daquele homem forte, lhe ofereciam o espetáculo do sofrimento de Tereza para forçá‑lo a recuar! A fraqueza de Tereza era uma fraqueza agressiva perante a qual ele fora sempre obrigado a capitular, sempre até ao momento em que deixara de ser forte e se metamorfoseara ao seu colo uma lebre. Passava o tempo a pensar nesse sonho.

            Saiu da banheira e foi buscar um vestido de toilette. Queria vestir o seu fato mais bonito para lhe agradar, para lhe dar prazer.

            Acabara de abotoar o último botão quando Tomas irrompeu ruidosamente pela casa dentro, seguido pelo presidente da cooperativa e por um camponês novo, visivelmente pálido.

            ރDepressa!, gritou Tomas. Traz aguardente, traz qualquer coisa bem forte!ރ

            A correr, Tereza foi buscar uma garrafa de aguardente de ameixa. Encheu um copo e o rapaz esvaziou‑o de um trago.

            Entretanto, explicaram‑lhe o que tinha acontecido: o rapaz estava a trabalhar e deslocara o ombro. Uivava de dor. Ninguém sabia o que fazer. Tinham chamado Tomas que, com um simples gesto, lhe tinha voltado a pôr o braço no sítio certo.

            O rapaz engoliu o segundo copo e disse para Tomas:

            ރA tua mulher está bestialmente bonita hoje!

‑ Ó meu grande idiota, exclamou o presidente, a D. Tereza é   sempre bonita!

             ‑ Eu bem sei que ela é bonita, disse o rapaz, mas hoje ainda está mais bonita do que o costume. Pôs, um vestido todo elegante.

            A gente nunca a tinha visto com ele. Vão fazer alguma visita?

            ‑ Não. Vesti‑me assim só por causa do Tomas.

            ‑ Tu és mesmo um homem de sorte, ó doutor!, exclamou o presidente. Havia de ser a minha patroa que havia de se pôr toda fina só para me agradar!...

            ‑ Por isso é que quem tu trazes à rua é o porco e não a tua mulher, disse o rapaz, que riu durante um bom bocado.

            ‑ Por onde é que andará o Mefistófeles?, perguntou Tomas. Já não lhe ponho a vista em cima pelo menos há... (e fingiu que estava a pensar) uma boa hora!

            ‑ Está farto de me aturar, respondeu o presidente.

            ‑ Com esse vestido tão bonito, só me está a dar vontade de ir dançar contigo, disse o rapaz para Tereza. Ó doutor, tu deixa‑la dançar comigo?

            ‑ Vamos todos dançar, disse Tereza.

            ‑ Também vem?, perguntou‑lhe o rapaz.

            ‑ Mas onde é que havemos de ir?>, perguntou Tomas.

            O rapaz disse que numa terra das redondezas havia um bar e uma pista de baile num hotel.

ރTu também vens conoscoރ, disse o rapaz para o presidente, num tom que não admitia qualquer réplica, e como já ia no terceiro copo de aguardente, acrescentou: ރE se o Mefistófeles ficar chateado, também vem conosco! É a maneira de levarmos dois porcos! As miúdas vão todas cair para o lado quando virem chegar dois porcos! ރ E voltou a rir às gargalhadas.

            Se o Mefistófeles não vos incomodar, eu também vou com vocêsރ, disse o presidente, e subiram todos para o caminhão de Tomas.

            Tomas sentou‑se ao volante, Tereza a seu lado e os outros dois homens saltaram para a parte de trás, com meia garrafa de aguar  dente. Já estavam fora da aldeia quando o presidente reparou que tinham esquecido Mefistófeles em casa. Deu um berro a Tomas para este dar meia volta.

ރNão vale a pena, um porco bastaރ, disse o rapaz, e o presidente acalmou‑se.

O dia declinava. A estrada subia em zigue-zague.

Chegaram à cidade e estacionaram à frente do hotel. Tereza e Tomas nunca lá tinham ido. Descia‑se por uma escada para a cave, onde havia um balcão, uma pista e algumas mesas. Um sexagenário tocava num piano vertical e uma senhora da mesma idade tocava violino. Tocavam músicas de há quarenta anos. Havia quatro ou cinco pares a dançar.

            O rapaz percorreu a sala toda com o olhar. cNão há uma única boa para mim!ރ, exclamou, e convidou imediatamente Tereza para dançar.

            O presidente sentou‑se com Tomas numa das mesas livres e mandou vir uma garrafa de vinho.

            "Eu não posso beber. Vou a guiar!, protestou Tomas.

            ‑ E depois?, perguntou o presidente. Vamos passar cá a noite. Vou mandar guardar dois quartos.ރ

            Quando Tereza voltou mais o rapaz, foi a vez do presidente ir dançar com ela; só depois é que, finalmente, foi dançar com Tomas.

            Enquanto dançavam, disse‑lhe: ރEu é que fui culpada de todo o mal que te aconteceu na vida, Tomas. Foi por minha causa que vieste para aqui. Fui eu que te fiz descer tão baixo que já não há sítio para onde irmos.

            ‑ Deixa‑te de disparates, replicou Tomas. Em primeiro lugar, o que é que isso quer dizer, tão baixo?

            ‑ Se tivéssemos ficado em Zurique, podias continuar a operar os teus doentes.

            ‑ E tu, tu podias continuar a fazer fotografia.

            ‑ Não há comparação possível!, exclamou Tereza. Para ti, o teu trabalho era a coisa mais importante do mundo. A mim, a mim tanto se me dá fazer isto como aquilo. Eu não perdi nada. Tu é que perdeste tudo.

            ‑ Tereza, disse Tomas, mas tu ainda não reparaste que eu sou feliz aqui.

            ‑ Mas operar era a tua verdadeira missão!

            ‑ Missão, qual missão? Missão é uma palavra parva. Eu não tenho missão nenhuma. Ninguém tem missão nenhuma. E é um alívio enorme uma pessoa perceber que é livre, que não tem missão nenhuma.ރ

            A maneira como o dizia não deixava pairar qualquer dúvida sobre a sua sinceridade. Tereza voltou a rever a cena de ainda há pouco: ele a arranjar o caminhão e ela a achá‑lo velho. Tinha chegado onde queria chegar. Sempre desejara que ele fosse velho. Pensou mais uma vez na lebre que estreitava contra a cara no seu quarto de criança.

            O que significa alguém transformar‑se em lebre? Significa que se esquece a força que se tem. Significa que, daí em diante, teriam tão pouca força um como o outro.

            De cá para lá, iam desenhando os passos da dança ao som do violino e do piano; Tereza tinha a cabeça pousada no seu ombro. Como no avião que os levava aos dois através da bruma. Sentia a mesma estranha felicidade, a mesma estranha tristeza. A tristeza queria dizer: estamos na última paragem. A felicidade queria dizer: estamos os dois juntos. A tristeza era a forma, e a felicidade era o conteúdo. A felicidade preenchia o espaço da tristeza.

            Voltaram para a mesa. Ela ainda dançou duas ou três vezes com o presidente e uma vez com o rapaz, já tão bêbado que tropeçou e caiu por cima dela.

            Depois subiram os quatro para os quartos.

            Tomas fez girar a chave na fechadura e acendeu o lustre. Tereza viu duas camas encostadas uma à outra e, ao lado de uma delas, uma mesinha‑de‑cabeceira com um candeeiro. Assustada com a luz, uma enorme borboleta noturna levantou vôo do abajur e começou a rodopiar pelo quarto. De baixo, vinha o som abafado do violino e do piano.

 

                                                                                            Milan Kundera

 

 

                      

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