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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MÃO DO PECADO / Tami Hoag
A MÃO DO PECADO / Tami Hoag

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Chegou a tua hora, cabra, no dia do teu aniversário! Aniversário. Trinta e seis anos. O aniversário que Ellen temera. De repente, trinta e seis anos afiguravam-se longe da mocidade.

Precipitou-se pela escada acima, tropeçou quando um salto se lhe prendeu na aresta de um degrau. Agarrou-se rapidamente ao corrimão, raspou a mão pelo estuque áspero da parede, partiu uma unha e esfolou os nós dos dedos.

O vão da escada era mal iluminado, desenhando nos cantos irregulares manchas luminosas provenientes das luzes dos patamares superiores e inferiores. Luzes de segurança. Não ofereciam segurança nenhuma. No subconsciente ouviu uma voz baixa, de fumador: O seu patrão precisa de ter uma conversa com alguém sobre segurança. O caso que têm entre mãos é explosivo. Tudo pode acontecer.

Chegou ao terceiro andar e encaminhou-se para a entrada, no lado este. Se conseguisse descer as escadas a este se conseguisse chegar à passagem entre os edifícios... Ele não ousaria tentar apanhá-la na passagem, com o gabinete do xerife uns metros adiante.

Agora apanhámos-te, cabra!

 

 

 

 

Havia telefones nos escritórios por que passava a correr. Os escritórios estavam fechados. O seu auto-eleito assassino seguia-a correndo, a rir. O som dos passos dele trespassava-a como uma lança, como a certeza de que ele a mataria. Persegui-la talvez não estivesse nos seus planos, mas tornara-se parte do jogo.

 

O jogo. A loucura de tudo aquilo era tão aterradora como a perspectiva da morte. Atacar o sistema. Destruir vidas. Acabar com vidas. Nada de pessoal. Apenas um jogo.

 

Passou a correr pela sala de tribunal do juiz Grabko e contornou a esquina que levava às escadas a sudeste. Um andaime ocupava o vão da escada, cortando-lhe o caminho da fuga. Um andaime para obras. Santo Deus, ia morrer por causa de um estúpido friso de estuque!

 

Xeque-mate, cabra esperta.

 

As escadas de nordeste pareciam a um quilómetro de distância. A meio caminho ficavam os portões de ferro que bloqueavam a via a céu aberto entre o tribunal e a cadeia. Precipitou-se para o alarme contra incêndios, na parede, agarrou o dispositivo de vidro que se quebraria e traria ajuda.

 

A placa estalou. Nada. Nenhum som. Nenhum alarme.

 

Não, meu Deus!

 

Deitou a mão ao quadro inútil. Malditas obras. Novos alarmes. Mais decorações.

 

Vá lá, Ellen. Sê uma cabra gentil e deixa-me matar-te. Agarrou o puxador da porta do cubículo da mangueira de incêndio e deu-lhe um safanão.

 

Tens de morrer, cabra. Nós temos de ganhar o jogo. A mão dele fechou-se sobre o seu braço.

 

Os dedos dela fecharam-se sobre o cabo do machado.

 

              

               ENTRADA NO DIÁRIO

 

Julgam que nos venceram no nosso próprio jogo.

 

Pobres de espírito. Todos os mestres de xadrez sabem que ao procurarem a vitória concedem pequenas derrotas.

 

Podem ter ganho uma jogada, mas o jogo está longe de ter acabado.

 

Pensam que nos venceram.

 

Nós sorrimos e dizemos:

 

Bem-vindos ao nível seguinte.

 

 

         Segunda-feira, 24 de Janeiro de 1994

 

Ele disse que era um jogo articulou ela, numa voz sussurrada e dolorida.

 

Está deitada numa cama de hospital, as nódoas negras da sua cara contrastam intensamente com a brancura dos lençóis e o branco-cinza da sua pele. O olho direito mal se abre de tão inchado, a carne tem a cor de uma ameixa demasiado madura. Circundam-lhe a garganta equimoses semelhantes a uma ligadura de cetim púrpura que lhe tivesse sido aplicada. Uma fina linha de pontos coze uma fenda no lábio.

 

A dor faz disparar relâmpagos de lembranças surpresa, violência, sons; tão aguda e intensa que traz em si som e sabor, o cheiro do medo, a presença do perigo.

 

Menina esperta. Julgas que te mataremos? Talvez.

 

Apertavam-lhe o pescoço mãos que não via. Nascia o instinto de sobrevivência. O medo da morte cavalgava a crista da onda.

 

Podíamos matar-te. A voz, um murmúrio doce. Não serias a primeira pessoa.

 

O ar atingiu-lhe os pulmões como dois punhos cerrados, escapou-se depois devagar por entre os dentes.

 

A assistente do delegado distrital Ellen North esperou que o momento passasse. Estava sentada num banco alto junto à cama, ao lado da qual, à sua direita, havia sobre uma mesa um bloco de apontamentos e um pequeno gravador de cassetes. Só há poucos dias conhecera Megan O’Malley. A impressão que lhe causara a agente superior do Bureau of Criminal Aprehension do Minnesota definia-se numa mão-cheia de adjectivos: inflexível, enérgica, capaz, determinada, uma mulher pequena com ferozes olhos verdes e muito irritável. A primeira mulher a penetrar nas fileiras masculinas dos agentes superiores do BCA. O seu primeiro dia no gabinete regional de Deer Lake fora o primeiro dia do rapto de Kirkwood. Doze dias atrás. Doze dias que haviam transformado aquela cidade inocente, pacata, rural e académica num profundo pesadelo.

 

Nos seus esforços para deslindar o caso, a irritação de Megan explodira. E a explosão atingira-a. Estivera muito perto de solucionar o puzzle. Por baixo da roupa da cama, elevava-se o seu joelho direito, magoado. Tinha a mão direita engessada. Estava muito ferida, segundo dizia o médico, que desesperava com a recuperação dos «pobres ossinhos», apesar dos meticulosos cuidados de um especialista.

 

A transferência de Megan do Hospital de Deer Lake para o Centro Médico de Hennepin em Minneapolis estava marcada para terça-feira, se o tempo o permitisse. Teria sido levada para lá naquela noite desgraçada, mas o Minnesota fora fustigado por um temporal de Janeiro. Dois dias mais tarde, Deer Lake começava a emergir sob novos vinte centímetros de neve.

 

Ele disse que era um jogo recomeçou Megan. Apanhar o Josh. Apanhar-me. Enganar toda a gente... Nós enganámo-los a todos, disse ele. Nós, sempre nós...

 

Houve algum momento em que ouvisse outra pessoa na sala?

 

Não. Tentou engolir; o rosto contraiu-se-lhe com novo acesso de dor.

 

Calculámos todas as jogadas, todas as opções, todas as possibilidades. Não podemos perder. Compreendes? Não podes vencer-nos. Somos muito bons neste jogo... Brilhantes e invencíveis.

 

Josh Kirkwood, de oito anos, desaparecera do ringue de patinagem aberto, o Gordie Knutson Memorial Arena, depois de um jogo de hóquei, numa noite normal de quarta-feira. Não ficara qualquer pista física útil. A única testemunha, uma mulher que casualmente olhara pela janela a meio quarteirão de distância, não vira nada de alarmante: um rapazinho a ser levado por alguém depois do treino; nenhum sinal de medo ou de violência. O único rasto que deixara fora o seu saco de lona com uma nota lá metida: desapareceu uma criança a ignorância não é inocência, mas PECADO

 

Um jogo. E ela fora usada como peão. Tal ideia provocou-lhe uma avalancha de emoções raiva, ultraje, uma odiosa sensação de vulnerabilidade. A única satisfação era eles terem falhado o coup de grace, e Garrett Wright estar agora fechado numa cela da cadeia da cidade de Deer Lake.

 

Garrett Wright. Professor de Psicologia na Universidade de Harris. O homem a quem os media tinham chamado «testemunha perita» para tentar explicar a intrincada mente que perpetrara o crime. O vizinho dos Kirkwood. Um respeitável membro da comunidade. Um conselheiro voluntário de delinquentes juvenis. Um homem acima de qualquer crítica.

 

No entanto, apesar de Wright ter sido apanhado, continuava a não haver sinais de Josh.

 

Foi vendada?

 

Fui.

 

Então não viu o Garrett Wright.

 

Vi-lhe os pés. Ele tinha o hábito de se baloiçar sobre os calcanhares. Reparei nisso quando o vi pela primeira vez. Fazia o mesmo nessa noite. Pude ver-lhe as botas quando esteve de pé perto de mim.

 

Não é exactamente o mesmo que uma impressão digital.

 

Megan franziu o sobrolho à assistente do delegado distrital; a sua irritação atravessava a neblina de medicamentos e dores. Malditos advogados. Garrett Wright drogara-a, aterrorizara-a, maltratara-a e humilhara-a. Talvez tivesse posto um fim à carreira que era tudo para ela. Uma década a aplicar a lei, uma graduação em Criminologia, um certificado da academia do FBI era uma excelente polícia, e no entanto Ellen North ali estava sentada, muito bem penteadinha, interrogando-a calmamente como se ela não passasse de mais um civil tão cego como a própria justiça.

 

Era ele, o filho da mãe. Sabia para onde eu ia. Sabia que estava muito perto de o apanhar. Apanhou-me ele, lixou-me, enrolou-me num lençol que prova que levou o Josh...

 

Ainda não sabemos o que provará o lençol interrompeu-a Ellen. Não sabemos de quem é o sangue que lá está. O laboratório pediu pressa, mas os testes de ADN levam semanas. O sangue pode ser ou pode não ser do Josh. Temos amostras de sangue dos pais dele. Se das análises de ADN se concluir que o sangue do lençol pode ser do filho do Paul Kirkwood e da doutora Hannah Garrison, teremos qualquer coisa palpável. Pode estar simplesmente a tentar enganar-nos. Faria mais sentido o raptor tentar afastar-nos da sua pista...

 

Faz sentido para ele argumentou Megan. Ele acredita que pode safar-se de qualquer maneira, mas subestimou-nos. Era ele, o filho da mãe... Estou-me nas tintas para os seus direitos. De que lado está você?

 

Você sabe de que lado eu estou, Megan. Quero ver o Wright punido, tanto quanto você...

 

Nem de perto nem de longe!

 

Não pôde argumentar. O ódio feroz que transparecia na voz de Megan era incomensurável. A emoção que Wright provocara e cravara nela era algo mais profundo do que Ellen podia sequer imaginar. Era a raiva de uma vítima civil misturada à humilhação de uma polícia orgulhosa. Ellen sabia que a sua fome de justiça, pessoal e moral, era, em comparação, uma pálida imitação.

 

Quero que seja condenado declarou. O caso contra ele tem de ser incontestável. Não quero que o advogado de defesa encontre a mínima fenda. Quanto mais fortes forem as nossas bases, maiores as nossas possibilidades de lhe arrancar a verdade. Poderia significar recuperar o Josh.

 

Ou encontrar o paradeiro do seu corpo.

 

Não expressou este pensamento. Todos os que estavam envolvidos no caso tinham consciência das probabilidades de encontrar Josh vivo. Wright e o seu cúmplice, quem quer que ele fosse, não se arriscariam a deixar partir uma pessoa que poderia identificá-los sem a mínima dúvida como sendo os raptores.

 

Se pudermos defrontar o Wright e o seu advogado com um caso suficientemente forte; se pudermos ameaçá-los com uma acusação de assassínio e levá-los a acreditar que temos como sustentá-la, apesar de não existir nenhum cadáver, então talvez o Wright nos dê o Josh. Podemos forçá-lo, se formos suficientemente cuidadosos e espertos.

 

Julgávamos que eras uma rapariga inteligente, mas afinal não passas de mais uma cabra estúpida! Uma voz separada do corpo. Nunca mais alta do que um murmúrio, mas tensa e pesada de fúria.

 

Ela tremeu. Cega. Impotente. Vulnerável. À espera. Então a dor atingiu-a de um lado, de outro, de outro ainda.

 

Um grito de dor, de fraqueza e de medo formou-se-lhe no coração e Megan debateu-se para o soltar.

 

Você está bem? perguntou Ellen verdadeiramente preocupada. Quer que chame uma enfermeira?

 

Não.

 

Talvez devamos parar por agora. Posso voltar daqui a meia hora...

 

Não.

 

Ellen não disse nada, dando-lhe a oportunidade de mudar de ideias, embora sem acreditar que tal acontecesse. Megan O’Malley não chegara ao ponto a que chegara no gabinete sem se expor. O BCA era a principal agência de delegados na zona norte do Midwest. Uma das melhores do país. E Megan era dos melhores entre os melhores. Uma óptima polícia, tenaz e fogosa como um touro.

 

Ellen contava com essa fogosidade. Tinha uma reunião com o delegado municipal dentro de uma hora. Precisava da declaração de Megan e de tempo para a inserir no esquema que formulara mentalmente.

 

Queria ter as ideias bem ordenadas quando se sentasse à mesa com o chefe. Rudy Stovich podia ser imprevisível, mas também podia ser induzido. Nos seus dois anos em Park County, Ellen apurara as suas habilidades de indução ao ponto de estas se tornarem instintivas, reflexas. Nem sequer sabia se queria o caso Wright e todavia já estava a delinear a sua estratégia.

 

Vai ocupar-se da acção judicial? perguntou Megan, que até para respirar fazia grande esforço. Uma fina camada de suor luzia-lhe na testa.

 

Farei decerto parte dela. O delegado municipal ainda não tomou uma decisão final.

 

Claro, que diabo, para quê apressar-se? Só passaram dois dias desde que fizemos a captura. O interrogatório preliminar é daqui a quantas horas?

 

A audiência preliminar é amanhã de manhã.

 

Ele será acusado ou irá ser presente a um júri?

 

É o que se verá.

 

Os media adoravam falar dos debates do grande júri. Como se «júri de acusação» significasse «o melhor» ou «o mais importante». A presença perante um júri de acusação era uma exibição dos promotores públicos apresentavam as provas sem nenhuma interferência, nenhum contra-interrogatório das suas testemunhas. Não era necessário provar nada para além de uma dúvida razoável. Tudo o que tinham de demonstrar era a causa provável para o réu ter cometido o crime. O júri de acusação usava essas provas. No estado de Minnesota só um júri de acusação podia fazer uma acusação formal de assassínio de primeiro grau. Mas, até então, não estavam a lidar com assassínio, e pensar em pôr a acusação nas mãos de duas dúzias de cidadãos alagava de suor as palmas das próprias mãos de Ellen.

 

Os membros de um júri de acusação podia fazer o que lhes apetecesse. Não eram obrigados a ter em conta os argumentos do promotor. Se não quisessem acreditar que Garrett Wright era capaz de um crime, ele sairia em liberdade. A única esperança dela era que o apelo do ego a um acto a solo perante um júri de acusação não suplantasse o senso comum de Rudy.

 

Stovich sobrevivera mais de uma década como delegado de Park County, não tanto pela sua capacidade jurídica como pela sua astúcia política. Mais à vontade com a lei civil do que com a lei criminal, escolhera os poucos casos de delitos punidos com a pena de morte de que se ocupara pelo seu peso político. O seu estilo em tribunal era antiquado e tosco, com toda a elegância de um artista de vaudeville. Mas os constituintes de Rudy raramente o viam num tribunal e, como anfitrião cordial e lambe-botas dos meandros políticos, não tinha rival

 

O Wright já disse alguma coisa? perguntou Megan, calmamente.

 

Nada que nos interesse. Insiste em que a sua detenção foi um erro.

 

Claro. O seu erro. Quem é o advogado dele?

 

Dennis Enberg, um jurista local.

 

É só um advogado, ou é um sacana de um advogado?

 

O Denny é bom respondeu Ellen, desligando o gravador. Fazia parte do sistema há tempo de mais para se deixar ofender. Ela própria fizera essa distinção ocasionalmente. E, oriunda de uma família de juristas, há muito que estava imunizada contra piadas e críticas a advogados.

 

Desceu do banco e agarrou a pasta. Megan parecia tombar novamente num estado de inconsciência. A exaustão e os medicamentos iriam pôr ponto final à entrevista, tivessem ou não acabado as suas perguntas.


É pau para toda a colher continuou Ellen. Trata dos delitos menores da cidade de Tatonka, é defensor público aqui de tempos a tempos, tem casos decentes por conta própria. Você sabe como funciona o sistema nestes distritos rurais.

 

Sei. Mayberry RDF. Então o que faz aqui, doutora? Metida no seu pesado casaco de lã, Ellen encolheu os ombros, enquanto ia enfiando os grandes botões de cabedal nas respectivas casas.

 

Eu? Estou cá unicamente para fazer justiça.

 

Amen!

 

Ellen passara os seus doze anos de carreira sempre ao serviço de um ou outro distrito. Para grande consternação dos pais, que queriam que lhes seguisse os passos na lucrativa via do direito fiscal. Hennepin County, que abarcava a cidade de Minneapolis e os seus saudáveis subúrbios ocidentais onde ela crescera, absorvera a primeira década da sua vida depois da Faculdade de Direito da Universidade Mitchell, em St. Paul. Mergulhara a fundo, ansiosa por acabar com o maior número que pudesse de delinquentes. Os veteranos do sobrecarregado tribunal de Hennepin tinham olhado o seu entusiasmo com o cepticismo experiente dos guerreiros cansados e especulado sobre o momento em que ela se queimaria.

 

Em dez anos, a sua tenacidade reafirmara-se, mas o seu entusiasmo esmorecera, corroído pelo verdete do cinismo. Ainda recordava nitidamente o dia em que parara no átrio do tribunal de Hennepin, gelada até aos ossos ao aperceber-se de que se habituara de tal forma a tudo aquilo que começava a ficar entorpecida perante a visão de vítimas, cadáveres e assassinos. Não era uma epifania agradável. Não se tornara advogada para criar imunidade ao sofrimento humano. Não se mantivera no sistema por querer atingir o ponto em que os casos pouco mais eram do que registos de julgamentos e modelos de sentenças. Tornara-se advogada por predisposição genética, condições ambientes e um desejo genuíno de lutar pela justiça.

 

A solução afigurou-se-lhe ser sair da cidade, ir para qualquer lugar mais são, onde gangs e crimes maiores fossem uma aberração. Um lugar onde sentisse que valia a pena e não se limitasse a tentar manter-se à tona nas águas de uma represa mal estruturada.

 

Deer Lake adequava-se perfeitamente. Uma cidade de quinze mil habitantes, suficientemente perto de Minneapolis para ser conveniente e suficientemente afastada para manter o seu carácter rural. A Universidade Harris garantia uma afluência de juventude e a sofisticação de uma comunidade académica. Um segmento crescente de funcionários provenientes de Twin Cities proporcionava uma base financeira saudável. O crime, embora aumentando, era regra geral insignificante. Assaltos, pequeno tráfico de droga, pancadaria sem o menor sentido entre trabalhadores da Fábrica de Queijo Buck Land depois de umas cervejas a mais na American Legion. Ali, as pessoas ainda haviam ficado profundamente chocadas com o rapto de Josh Kirkwood.

 

A pasta oscilava na mão enluvada e os saltos baixos das botas de cabedal soavam no soalho envernizado, enquanto Ellen atravessava o corredor do Hospital de Deer Lake. A maior parte da actividade de atendimento às cem camas parecia centrada na combinação sala de enfermeiros/balcão de recepção, na entrada principal, onde pessoas com marcações se queixavam da longa espera e pessoas sem marcações tentavam parecer mais doentes do que na realidade estavam na esperança de ser atendidas mais depressa.

 

Uma mão-cheia de jornalistas vagueando na periferia da zona dos doentes animou-se à vista de Ellen e precipitou-se para ela, de lápis e blocos a postos. Duas mulheres e quatro homens, um conjunto de casacos de lã caros e blusões de esqui desmazelados, bonés engomados e rabos-de-cavalo ensebados. Um fotógrafo apontou-lhe uma máquina, e ela virou a cabeça quando o flash disparou.

 

Miss North, tem algum comentário sobre o estado de saúde da agente O’Malley?

 

Miss North, há alguma verdade no boato que corre sobre o Garrett Wright ter maltratado sexualmente a agente O’Malley?

 

A segunda pergunta provocou um olhar irritado de Ellen.

 

Não ouvi semelhante boato retorquiu rispidamente, sem sequer abrandar o passo.

 

A chave para manter os media em frenesi: continuar a andar. Se se pára, eles precipitam-se como um enxame e devoram-nos para depois nos regurgitarem como cabeçalho de jornal ou como picadinho sonoro com imagens às dez horas.

 

Ellen sabia bem de mais como agir para se deixar apanhar. Aprendera a lição à sua custa, tendo sido uma vez atirada às hienas na qualidade de vítima como assistente mais nova de um processo.

 

 falta de uma resposta substancial parecia aguçar a fome dos repórteres. Dois barraram-lhe a esquerda. Dois corriam, recuando, à sua frente. Outro, à direita, saltitava a seu lado e o atacador sujo e desbotado do sapato batia no chão a cada passada.

 

Que fiança pedirá o delegado distrital?

 

Pode dar-nos uma ideia dos encargos calculados?

 

O delegado distrital dará uma conferência de imprensa no tribunal esta tarde declarou Ellen. Sugiro que guardem as vossas perguntas até lá.

 

Empurrou a porta da frente do hospital e passou para o frio. Um pálido raio de sol beijava debilmente a neve acumulada. No lado mais afastado do parque de estacionamento um tractor deslocava-se ruidosamente, empurrando a neve à sua frente.

 

Ellen atravessou o estacionamento em direcção ao seu Bonneville, consciente de que o par de sapatos que usava não era o único a escorregar na neve. Olhando pelo canto do olho, viu o atacador a baloiçar contra um velho sapato de corrida Nike.

 

Eu disse a verdade afirmou, tirando as chaves da algibeira do casaco. Não tenho nada a declarar.

 

A ausência de comentários não alimenta o buldogue. Olhou-o de soslaio. Devia ter saído há pouco do liceu; estava encharcado nas costas, tendo-se metido ao frio e à neve sem um fato apropriado. O rosto era delicado. O cabelo preto, com uma suspeita madeixa ruiva a cair-lhe sobre os estreitos olhos castanhos. Atirou-a para trás com impaciência. Jovem Keanu Reeves. Deus me defenda. Não muito mais alto do que o metro e cinquenta e cinco dela, tinha uma compleição de gato de telhado, esguio, ágil, com uma energia irrequieta. Parecia vibrar como se alguém o tivesse ligado a um gerador de alta voltagem.

 

Então, receio que o seu cão continue esfomeado, Mister...?

 

Slater. Adam Slater. Do Grand Folks Herald. Ellen abriu a porta do carro e atirou a pasta para o banco ao lado do condutor.

 

O jornal de Grand Forks mandou um repórter para aqui?

 

Sou ambicioso proclamou ele, erguendo e baixando os calcanhares como se tivesse de se manter a postos para começar a correr ao segundo aviso. Um repórter manhoso como uma raposa a tentar ultrapassar o magote voraz.

 

Você já tem idade para estar empregado? interrogou Ellen, entontecida pelo entusiasmo dele.

 

Você também era ambiciosa retorquiu o rapaz enquanto ela se sentava ao volante.

 

Ellen olhou-o, duvidosa de que ele soubesse alguma coisa a seu respeito.

 

Tenho alguns contactos em Hennepin County. Contactos. Pelo aspecto, os contactos seriam garotos que tivessem roubado o teste de Álgebra da secretária do professor.

 

Dizem que você era boa quando estava lá. Retrocesso.

 

Ainda sou boa, Mister Slater declarou Ellen, rodando a chave na ignição. Sou boa de acordo com qualquer código.

 

Sim, minha senhora gorjeou ele, saudando-a com o seu bloco-notas.

 

Minha senhora resmungou Ellen, pondo o carro em movimento e dirigindo-se para fora do estacionamento. Ao misturar-se com o tráfego da rua, olhou de relance o retrovisor. O jovem ambicioso de Grand Forks retomava o seu caminho de regresso à entrada do hospital. Vê se tens um dia um caso com uma mulher mais velha, burrinho. Dizem que você era boa... Eu ainda não perdi o jeito.

 

Não sabia ao certo se se referia às suas habilidades no tribunal ou aos seus encantos de mulher. Quando perdeu o jornalista de vista, contemplou o seu próprio reflexo. Tinha um rosto mais interessante do que bonito. Oval, com uma testa graciosa. Olhos cinzentos um pouco estreitos. Nariz um pouco achatado. Boca nada que inspirasse fantasias eróticas, mas não estava mal. Perscrutou qualquer sinal de envelhecimento e não gostou da profundidade das rugas de expressão que viu ao semicerrar os olhos. Por quanto tempo ainda as consideraria «rugas de expressão», antes de lhes chamar pés-de-galinha?

 

Avistava-se no horizonte um aniversário, qual nuvem negra, qual Hindenburg. Trinta e seis anos. Percorreu-a um arrepio. Decidiu que era do frio e aumentou o aquecimento do Bonneville. Trinta e seis era só um número. Um número mais próximo de quarenta do que de trinta, mas só um número, uma marca arbitrária da passagem do tempo. Tinha coisas mais importantes em que pensar tais como um rapazinho perdido e a entrega do seu raptor à justiça.

 

 

O tribunal de Park County era um pequeno monumento em calcário da região, com colunas dóricas e frontões gregos na fachada. Datava de finais do século xix, quando a mão-de-obra era barata e o tempo contava pouco. O interior exibia tectos altos, relevos e medalhões ornamentais de estuque que, sem dúvida, exigiam para a sua manutenção doações substanciais de conservadores de edifícios históricos. No terceiro andar decorriam obras de restauro: havia andaimes junto à parede nordeste, semelhantes a Tinkertoys gigantes.

 

As salas de tribunal do terceiro andar eram o género de salas que faziam pensar em Henry Clay e Clarence Darrow. Contando com os lugares dos juizes, as cadeiras do júri e os bancos dos espectadores, fora utilizada uma considerável floresta de carvalhos. Nos soalhos, manchas esbranquiçadas eram a consequência dos passos de advogados de várias gerações.

 

Salas de tribunal como aquela eram-lhe familiares, embora nunca tivesse estado em lugar algum perto de Deer Lake, Minnesota. Nem pensava voltar lá, uma vez cumprida a sua missão. Diabo de terra gelada!

 

Verdade seja dita, o tribunal de Park County raramente se mostrava tão agitado como naquele dia. Os átrios fervilhavam não de pessoal, mas de repórteres, operadores de câmara e fotógrafos de jornais, manobrando para conseguirem uma boa posição em frente de um pódio atulhado de microfones. Inclinou-se sobre o corrimão do segundo andar e olhou para baixo através das lentes escuras de um par de óculos de sol espelhados.

 

O rapto de Josh Kirkwood atraíra a atenção nacional.

 

A detenção do Dr. Garrett Wright contribuíra para aumentar ainda mais a febre geral. Todos os principais meios de comunicação estavam representados, sendo os seus enviados facilmente identificáveis. Uma multidão que rondava a periferia como hienas esfaimadas procurando roubar um pedaço gostoso ao grande grupo de leões. Os repórteres locais viam-se forçados a lutar por um bom ângulo para a câmara. Haviam sido empurrados para aquele enorme pântano e era óbvio que não pretendiam nadar com os peixes graúdos, mas tinha de ser. A história ultrapassava as sensibilidades de uma cidade diminuta. Era tão grande como a América e tão íntima como uma família.

 

Boa justaposição de imagens. Memorizou o ambiente.

 

A cena que via em baixo não deixava de evocar um cenário cinematográfico à espera da chegada das estrelas. Luzes, câmaras, cabos, técnicos, gente que maquilhava testas e narizes.

 

«O mundo é um palco», resmoneou com cinismo, na sua voz áspera devida aos cigarros a mais e ao sono a menos na noite anterior. O preço da popularidade. Untam-se as juntas com um bom uísque e conversa banal, sorrisos fáceis e charutos caros tudo a apagar na manhã seguinte com uma quantidade de aspirinas e uma grande chávena de café forte.

 

Virou-se devagar, deitou um olhar aos repórteres que aguardavam à porta do gabinete do delegado distrital, uns dez metros adiante, no átrio. Nenhum lhe prestou atenção. Não ostentava qualquer cartão de imprensa, mas não lhe solicitaram qualquer identificação. Podia ser qualquer um. Podia ser um atirador solitário; não havia detectores de metais às portas do tribunal de Park County. Outro pormenor a recordar para futura referência. O caso era o fundamental para todos os presentes, com exclusão de tudo o mais. O Elvis poderia estar a varrer os patamares que ninguém olharia duas vezes para ele.

 

Considerou tal facto tanto potencialmente útil como uma bênção para si. Não tinha de temer interferências ao ir para onde queria estar. Dentro. A visão geral, do poleiro. No meio dos trabalhadores do sistema de justiça da cidade pequena ocupada a tempo inteiro com um caso.

 

A porta do gabinete do delegado distrital abriu-se e os repórteres começaram a disparar perguntas, numa algazarra semelhante ao ladrar de uma matilha em perseguição da raposa.

 

Afastou-se do corrimão e encostou-se a um pilar de mármore, tendo o cuidado de ficar à sua sombra, com as mãos nas algibeiras da parka preta que comprara depois de sair do avião em Minneapolis.

 

Um xerife fardado abriu caminho, dirigindo-se ao homem que ele reconheceu como sendo Rudy Stovich. Alto, espadaúdo, com um rosto abatatado e cabelo hirsuto repuxado para trás e mantido ondulado por uma dose considerável de qualquer coisa oleosa. Stovich fora filmado para muitos noticiários por causa do caso, olhando carrancudo para a câmara e prometendo devotadamente perseguir os vilões até onde a lei lho permitisse. Seria interessante ouvir o que tinha para dizer agora que, ao que parecia, o vilão não era um qualquer vagabundo, um ex-condenado, alguém do lado errado da cidade, do último degrau da escala da evolução, mas um professor de Psicologia da própria e exclusiva universidade deles.

 

Garrett Wright era o nó para que a história fosse única, o isco que a tornava credível em vez de um mero lugar-comum.

 

Stovich entrou no átrio, furtando-se às perguntas disparadas, e assumindo uma exagerada expressão de impaciência. Uma mulher entrou a seu lado. Fria, calma, cabelo cor de ouro, feições mais interessantes do que perturbadoras. Ellen North, de quem se dizia ter ambiciosamente em mira o gabinete do delegado distrital. Passou pelos repórteres sem os olhar, numa ignorância soberana da presença das massas plebeias. Com classe, senhora de si, sem interesse pela atenção da imprensa. Intrigante.

 

Ele deixou-se estar onde estava, enquanto a turba se encaminhava para as escadas rumo ao primeiro andar. A hora do espectáculo.

 

Director algum poderia ter coreografado a cena com maior perfeição. Precisamente quando Stovich e os que o rodeavam chegavam ao primeiro andar, as portas principais do tribunal abriram-se e o delegado-geral do estado, William Glendenning, e os seus quadros fizeram a sua grande entrada. Penetraram no edifício envoltos numa corrente de ar gelado, sacudindo a neve dos sapatos, com as faces e os narizes vermelhos e luzidios do frio. Stovich e Glendenning apertaram-se as mãos enquanto clarões de flashes iluminavam a cena.

 

Glendenning adiantou-se. Um político experiente, com bom aspecto sólido, conservador, confíável. Uns óculos sem armação conferiam-lhe certa semelhança com Franklin Roosevelt, dando ênfase à verdade e aos valores ancestrais. Falou com uma voz forte, seguro de si. Banalidades e promessas de justiça, a garantia da sua confiança no sistema e em Rudy Stovich e no seu pessoal. Impressionava bem, embora na realidade dissesse muito pouco; um truque útil em ano de eleições.

 

Seguiu-se Stovich, impenetrável e sério, com os seus velhos óculos fumados às três pancadas, o fato parecendo ter sido tirado da cesta da roupa suja. A gravata era curta de mais. Declarou estar profundamente perturbado pelos acontecimentos que haviam agitado a sua comunidade. Não passava de um advogado de província que nunca imaginara ter de defrontar-se com um caso daquela natureza razão pela qual passava o fardo à assistente do delegado distrital, Ellen North. Ela possuía a experiência necessária. Era jovem e imparável na sua busca de justiça.

 

És matreiro, Rudy murmurou, debruçando-se uma vez mais no corrimão. Matreiro e desprezível, velha raposa dos campos.

 

Atirar-lhe a ela com o fardo era um risco controlado. Pintou-se a si próprio como um homem preocupado acima de tudo com a justiça, disposto a admitir que havia alguém melhor apetrechado para atingir os fins e uma mulher, nada menos, dando-lhe pontos de vantagem, dada a crescente facção de jovens profissionais esclarecidos no seu círculo eleitoral. Ao mesmo tempo, distanciava-se da acusação, desviava de si as críticas do público, não enfiando no assunto o seu nariz abatatado. Se Ellen North vencesse, Rudy seria visto como um génio esperto e humilde. Se perdesse, a culpa seria só dela.

 

Teria Stovich um respeito genuíno pela sua assistente ou estaria na realidade a lançá-la aos lobos? As duas possibilidades eram viáveis. Uma coisa foi perfeitamente clara quando Ellen subiu ao pódio: ela não temia nem a tarefa nem a imprensa.

 

A sua declaração foi breve e incisiva: tencionava ocupar-se do caso com agressividade e obter justiça para as vítimas. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance para tentar encontrar a resposta à pergunta final, dada a situação: o paradeiro de Josh Kirkwood. Recusou-se a responder a perguntas da imprensa, empurrando habilmente o patrão para as luzes da ribalta. Sempre grato por um contacto com os media em ano de eleições, Stovich agarrou a oportunidade, puxando consigo Glendenning. Fotos com o manda-chuva do sistema judicial do estado davam sempre óptimos cartazes de campanha.

 

Ellen North desencantou um delegado para se proteger e dirigiu-se para as escadas. Ele observou que vários jornalistas se separavam dos outros e a seguiam. Ellen deteve-os com um olhar e um ríspido «Sem comentários», nunca abrandando o passo.

 

Ah, Miss North resmungou ele baixinho enquanto ela subia os degraus, com a fímbria da saia verde a bater-lhe na barriga das pernas. Acho que a desejo.

 

Ellen chegou ao átrio, fazendo soar fortemente os saltos baixos das botas contra o soalho encerado, toda ela trabalho, nada de distracção; ocupavam-lhe o espírito outras coisas que não a noção de que alguém podia estar na sombra, a observá-la.

 

Não parecia o género de homem capaz de raptar uma criança e mergulhar uma comunidade num turbilhão de terror. Ellen encontrara Garrett Wright em várias funções civis nos últimos dois anos. Achara-o bastante simpático, não do tipo de chamar as atenções sobre si. Esfumar-se-ia na multidão se não fosse a quase beleza do seu rosto um fino rosto de alabastro, oval, com nariz pequeno e boca arredondada.

 

Sentou-se com a maior dignidade que pôde, tendo em conta a ruidosa quinquilharia que a polícia usara como acessório da fardamenta alaranjada da cadeia citadina.

 

Miss North disse ele, com um leve sorriso, eu diria que é um prazer voltar a vê-la, mas dadas as circunstâncias...

 

Encolheu os ombros, erguendo as mãos à laia de explicação suplementar, após o que as assentou delicadamente na mesa. Mãos macias, claras, sem arranhões, sem contusões, sem nenhum sinal óbvio de ter agredido repetidamente uma mulher. Ellen perguntou a si própria se ele não lhe pusera as mãos diante dos olhos sabendo que ela as observaria. Ergueu o olhar. Os olhos dele eram de um castanho profundo, insondável, grandes, quase sonolentos por detrás de umas pestanas que levariam a maioria das mulheres a deixar-se matar.

 

Não se trata de um encontro social, doutor Wright retorquiu ela, secamente. O prazer não faz parte dele.

 

Miss North ocupar-se-á da acusação explicou Dennis Enberg. Voltou-se para Ellen Ouvi dizer que o Rudy deu um bom espectáculo na conferência de imprensa.

 

Surpreende-me que você não estivesse lá. O delegado encolheu os ombros.

 

Não é o meu estilo. Era o circo do Rudy. Não havia lugar para controvérsias insignificantes.

 

Nos dois anos de relações com Dennis Enberg, Ellen teria dito que ele era exactamente do estilo de partir a louça toda se achasse que isso lhe seria útil. Não havia dúvida de que nunca lhe reconhecera hesitações por uma questão de boas maneiras. Na opinião de Ellen, tratava-se de um erro táctico. Fosse ela advogada de Wright e certamente teria feito tudo para travar os ímpetos de Rudy, nem que mais não fosse para provar superficialmente a inocência do seu cliente.

 

Denny, você conhece o Cameron Reed apresentou ela, indicando o jovem sentado à sua esquerda junto da mesa em imitação de madeira.

 

Os homens soergueram-se das cadeiras e apertaram as mãos. Enberg, trinta e sete anos, atarracado, cabelo castanho com grandes entradas, e Cameron Reed, vinte e oito e muitíssimo bem constituído, cabelo acobreado, sardento, saído há dois anos da Faculdade de Direito da Universidade Mitchell, arguto e ansioso por trabalhar, uma verdadeira anormalidade no gabinete de Park County. Como fora parar a Park County, Ellen não sabia... nem lhe interessava saber. Também ninguém esperaria que ela ali estivesse.

 

Doutor Wright, o seu interrogatório está marcado para as dez horas de amanhã comentou ela. Quero que se consciencialize do facto de que o estado tenciona desta vez acusá-lo de uma longa lista de delitos relativamente ao rapto de Josh Kirkwood e ao rapto e ataque à agente Megan O’Malley do BCA.

 

Olhou Wright por cima de uns óculos para ler que eram mais um escudo do que uma necessidade. O homem mostrava-se quase impassível e retribuiu-lhe o olhar com firmeza. Ninguém falou, e por alguns segundos Ellen teve a estranha sensação de que Cameron e Enberg se tinham alheado do assunto.

 

É suposto induzirem-me a confessar crimes que não cometi? perguntou Wright serenamente.

 

É a exposição de factos, doutor Wright. Quero que esteja perfeitamente a par da minha intenção de acusar.

 

Enberg franziu o sobrolho.

 

Ouvi falar de um júri.

 

Não preciso de um júri. É claro que, se o Josh Kirkwood não for entregue, é muito provável que eu convoque um júri para ponderar uma acusação de assassínio, com base nas provas que possuímos.

 

Assassínio! A exclamação fez Enberg saltar vários centímetros da cadeira. Jesus, Ellen! Isso não é um bocado prematuro?

 

Enquanto estamos aqui a falar, o laboratório criminal está a proceder a testes no lençol ensanguentado com que o seu cliente embrulhou a agente O’Malley. Provas, como ele próprio disse.

 

Isso é o que afirma uma mulher que, segundo ela própria admite, estava drogada e fora espancada até à perda de sentidos...

 

O laboratório confirmou que, além do sangue da agente O’Malley, há no lençol sangue do tipo AB. O tipo de sangue do Josh Kirkwood.

 

E de um milhão de outras pessoas!

 

Prova conclusiva de forte agressão continuou ela. Dessa prova poderemos deduzir que a razão por que a Polícia não encontra o Josh se liga ao facto de o Josh estar morto.

 

Ah, isso... replicou atabalhoadamente Enberg, duvidoso quanto a uma diatribe adequada. O vermelho do seu rosto alastrou até às orelhas. Aparentemente incapaz de se manter confinado a uma cadeira, levantou-se e começou a passear junto à extremidade da mesa.

 

Ellen já antes assistira à mesma cena e, francamente, ele havia sido mais convincente. Desta vez parecia forçado, como se lhe fosse difícil contestar a ofensa. Continuou no seu passarinhar, por trás de uma cadeira vazia e não de Garrett Wright, o que teria simbolizado o apoio ao seu cliente.

 

Eu não matei o Josh Kirkwood disse suavemente Garrett Wright.

 

Ellen susteve a respiração, expectante. O peso do silêncio de Wright prenunciava uma declaração. Deus, iria ele acabar por confessar? Assaltou-a momentaneamente o pensamento de que o homem ia sorrir; depois, num abrir e fechar de olhos a expressão desvaneceu-se e Ellen convenceu-se de que fora imaginação sua.

 

Sou um homem inocente, Miss North continuou ele. Não me canso de lho afirmar. O que poderia motivar-me a raptar uma criança da vizinhança? Admiro imenso a Hannah Garrison. A minha mulher e eu consideramos amigos a Hannah e o Paul. E quanto a raptar a Megan O’Malley, isso parece mais obra de um louco. Acha-me louco?

 

Não me compete avaliá-lo.

 

Não acredito nisso murmurou ele. Sou professor numa das mais prestigiadas universidades do distrito. Que alguém acredite que eu possa ter feito uma dessas coisas... não faz sentido.

 

Faz sentido para ele. Ellen via em espírito o rosto de Megan, agredido e com equimoses, o fogo do ódio que brilhava nos seus olhos. Era ele, o filho da mãe... Estou-me nas tintas para os seus direitos.

 

O meu dever é aplicar a lei àquilo que o senhor fez, doutor Wright, quer faça ou não sentido. Deixo aos sociólogos a tarefa nada invejável e pouco produtiva de o interpretar.

 

Eu não fiz nada.

 

Que estranho, então, que o chefe Holt o tenha capturado a fugir da cena do crime.

 

Wright deixou descair para trás a cabeça e suspirou ruidosamente.

 

Continuo a dizer-lhe, foi um erro. Eu acabara de chegar. Estacionei o carro na garagem e encaminhei-me para casa. Ouvi o que pensei serem tiros e parei junto à porta das traseiras para observar. Vi um homem a correr na minha direcção, vindo do quintal vizinho. Compreensivelmente assustado, voltei para a garagem com a intenção de entrar em casa para chamar a Polícia. Então a porta abriu-se e o Mitchell Holt agarrou-me.

 

Cameron inclinou-se para a frente, com os antebraços apoiados na mesa, os olhos azuis a brilhar.

 

Julgou ouvir tiros no quintal das traseiras e encaminhou-se para o exterior? Isso parece estranho, doutor Wright.

 

Acho que seria a última coisa que eu faria. Não teve medo de apanhar um tiro?

 

As pessoas não apanham tiros em Deer Lake ironizou Wright. Pensei que se tratava provavelmente de miúdos nas redondezas, em Quarry Hills Park, a atirar a coelhos ou coisa do género.

 

De noite, durante uma tempestade de neve?

 

Os músculos em redor da boca contraíram-se-lhe ligeiramente ao fitar Cameron Reed.

 

O homem que o Mitch Holt perseguiu entre a vegetação vestia de preto disse Ellen. O senhor quando foi capturado estava vestido de preto, com a respiração ofegante, até mesmo transpirado.

 

Se o Mitch Holt surgisse da sua garagem e a agarrasse, também você ficaria ofegante e transpirada argumentou Dennis, intrometendo-se na discussão com algum sarcasmo. Voltou a sentar-se na cadeira e cruzou os braços. O Mitch Holt nunca viu o rosto do homem que perseguia. A agente O’Malley nunca viu o rosto do homem que a torturou. Foi-me dito que o suspeito usava uma máscara de esqui. O meu cliente não tinha máscara de esqui nenhuma quando foi agarrado.

 

Mas foi encontrada uma nos arbustos do carreiro recordou-se Ellen.

 

E a arma? desafiou Enberg. O teste de parafina feito no sábado à noite revelou não haver vestígios de pólvora nas mãos do meu cliente.

 

Geralmente, as pessoas no Inverno usam luvas sugeriu Cameron, com uma ponta de sarcasmo.

 

Denny encolheu teatralmente os ombros.

 

Então, onde estão elas?

 

Deitadas fora durante a perseguição, tal como o chapéu disse Ellen. Serão encontrados.

 

Até lá, e até poder provar que estavam calçadas nas mãos do meu cliente, não existem.

 

Você pode pretender que não existam, Dennis. Tal como pode pretender que o seu cliente é inocente. O seu desmentido não altera o facto de ele ser culpado até à medula e, excluindo novos desenvolvimentos do caso, ir passar o resto da vida sem a mínima esperança de pôr os pés fora dos muros de uma prisão.

 

Voltou a ocupar-se de Garrett Wright, enquanto ordenava as suas anotações.

 

Quanto à sua história, doutor, já vi peneiras com menos buracos. Sugiro-lhe que pense maduramente esta noite. Apesar de eu querer fazer promessas, julgo poder dizer que o gabinete do delegado distrital veria a situação a uma luz mais agradável se o senhor decidisse dizer a verdade.

 

É realmente a verdade que quer, Miss North? interrogou ele, calmamente. Ou mais uma condenação para o seu currículo? Não é segredo que a senhora é muito ambiciosa.

 

Isso é sempre uma novidade para mim. Ellen fechou a pasta e ergueu-se, lançando-lhe um olhar gelado. O que eu quero, doutor Wright, é justiça. E não se deixe enganar... Obtê-la-ei.

 

Denny Enberg viu sair o par de acusadores; o estômago pesava-lhe como se tivesse engolido uma pedra. Não sabia se o que lhe causava náuseas era a perspectiva de perder a batalha que se avizinhava, ou a simples ideia de ter de a travar. Nem tinha a certeza de querer saber.

 

Podia sentir o pesado olhar do seu cliente fixo em si e achou-se obrigado a desencantar qualquer resquício de inteligência.

 

Sabe-se sempre aonde a Ellen se atira declarou, ocupado a agrupar as suas notas. Direita à jugular.

 

Pensa que sou culpado, Dennis? perguntou Wright. Enberg corou.

 

Sou o seu advogado, Garrett. Disse-lhe frontalmente: a única coisa que peço é que não me minta. Você concordou. Se me diz que é inocente, é inocente. Farei tudo o que puder para que também o tribunal acredite em si.

 

O guarda entrou, com uma expressão granítica, e conduziu Garrett até à porta que ligava às celas. Denny ficou a vê-lo ir, a ouvir o som das algemas das pernas; o nó que lhe apertava a garganta intensificou-se mais e mais.

 

Apresentava sempre a sua «grande regra» aos seus clientes com um ar enganador de sabedoria universal, como que a dizer-lhes que não valia a pena ocultarem a verdade porque ele cheirava uma mentira à distância. A maior parte deles acreditava. A maior parte deles consistia em patetas assustados que não teriam precisado da sua ajuda se tivessem dois dedos de caco. Mas a «grande regra» tinha enorme impacte, e ele sabia-o.

 

Se Garrett Wright era culpado, então era culpado de coisas horríveis, e mentir seria certamente a mais insignificante.

 

É uma historieta pouco convincente comentou Cameron quando ele e Ellen se encaminhavam para a porta de segurança no extremo do átrio. Poder-se-ia imaginar que um professor arranjasse qualquer coisa mais consistente.

 

Talvez seja esse o seu ponto de vista. Tão fraca que nos leve a acreditar que não pode deixar de ser verdade.

 

A porta foi aberta. Acenando ao guarda, viraram à direita e começaram a descer as escadas. Cameron consultou o relógio e fez uma careta.

 

Oh, diabo, estou atrasado. Tenho de me pôr a correr. Prometi ao Fred Nelson encontrar-me com ele às quatro e meia. Ele quer discutir aquele negócio do Canadá. Vai precisar de mim mais tarde?

 

Acho que não. A Phoebe esteve a dactilografar a queixa enquanto nós conversámos.

 

Ellen observou-o a descer os degraus dois a dois com a graciosidade do Baryshnikov. Seguiu-o, mas arrastando os pés, sentindo nos ombros o peso do dia.

 

Rudy passara-lhe o caso... ou descarregara-o nela. Ainda não estava certa de quem manipulara quem naquele encontro. A sua autoprotecção dizia-lhe que não queria nem por sombras o caso. Cheirava-lhe mal, afigurava-se-lhe repleto de ratoeiras, e os media iriam esquadrinhar cada um dos seus movimentos. Os estudantes da Universidade Harris haviam já começado a protestar contra a prisão de Wright, com piquetes de greve em frente do tribunal. Mas o seu sentido de justiça dizia-lhe que, precisamente para que alguma justiça fosse feita em relação a Josh Kirkwood e aos pais e a Megan O’Malley, teria de ser ela a ocupar-se do caso. Tratava-se de um facto que nada tinha a ver com o seu ego. Ela era, modéstia à parte, a melhor dos cinco promotores de justiça do gabinete de advogados de Park County.

 

E assim, livrar-se-ia das papeladas que tinha a seu cargo, passaria os casos mais recentes a Quentin Adler, na esperança de que ele os deslindasse sem fazer asneira. E ela concentrar-se-ia em meter o Dr. Garrett Wright na cadeia.

 

Não havia repórteres emboscados à sua espera. Mitch Holt correra com eles do City Center de Deer Lake. O encantador edifício novo de tijolo englobava a prisão da cidade e o departamento de polícia em metade dos seus dois andares em V e os gabinetes governamentais da cidade na outra metade.

 

O átrio no vértice do V era um amontoado de repórteres. Era o cenário do último grande espectáculo relacionado com o caso: uma entrevista ao vivo com um ultrajado Paul Kirkwood. O pai de Josh empalidecera perante a exigência de Mitch de que tirasse as impressões digitais, apesar de a exigência ser mais do que razoável. Mitch teria até tido autoridade para trazer Kirkwood como suspeito. Paul não informara a Polícia de que em tempos possuíra a carrinha pertencente a Olie Swain, um pedófilo recentemente condenado; de facto negara até conhecer o veículo, depois de uma testemunha ter vindo dizer que vira Josh entrar num veículo cuja descrição coincidia com a carrinha, na noite do seu desaparecimento.

 

Isso ainda aborrecia Ellen, como um espinho que não conseguia arrancar da pele. Porquê mentir acerca da carrinha? Porquê negar que a vendera a Olie Swain quando a prova da venda estava patente nos registos oficiais?

 

Infelizmente, Olie já não existia para ajudar a decifrar o mistério. Perante a perspectiva de certo tempo de prisão por violação da palavra dada, para não falar nas acusações possíveis relativas ao desaparecimento de Josh, Swain suicidara-se quando estava sob custódia. O BCA vasculhara ao pormenor a sua carrinha e não encontrara nada. Nem um cabelo, nem o fio de uma luva, nada que pertencesse a Josh. Olie protestara a sua inocência até ao fim, garatujara-o a sangue na parede da cela.

 

Atravessando o departamento de polícia, onde os papéis se empilhavam sobre as secretárias, e os telefones tocavam ininterruptamente, Ellen dirigiu-se ao gabinete de Holt. A porta da primeira sala estava aberta, mas mesmo assim Ellen parou no vestíbulo e bateu antes de meter a cabeça. A assistente de Mitch, Natalie Bryant, afastou-se dos armários de arquivo, com um ar carrancudo no seu rosto de mogno, e lançou um olhar furibundo através dos óculos de aros encarnados, como se quisesse comer o intruso. Descontraiu-se depois de tê-la reconhecido, demonstrando a mesma espécie de cansaço que Ellen estava a sentir.

 

Menina, diz-me que vais esborrachar aquele homem como a barata que ele é. Pago para ver disse, assentando o punho fechado numa anca bem torneada.

 

Farei o possível prometeu Ellen.

 

Eu gostaria de fazer-lhe o possível no alto da cabeça.

 

O Mitch está?

 

Ele pensou que tu ias aparecer. Entra.

 

Obrigada.

 

O chefe da Polícia de Deer Lake estava sentado atrás da sua secretária, assemelhando-se ao que para Ellen seria o Harrison Ford após uma semana inteira de festa: olhos castanhos inflamados e com profundas olheiras negras, o rosto magro sombreado pela barba por fazer. Desapertara o nó da gravata e penteara-se com os dedos, deixando tufos de cabelo aqui e além.

 

Bem, é oficial disse ela. Fui devidamente designada para matar o dragão.

 

Óptimo.

 

A sua resposta apelava a mais confiança do que a que Ellen conseguia sentir no momento. Passou os olhos pelo gabinete. Não havia parede alguma carregada com as medalhas e louvores que ele ganhara nos seus anos de polícia, embora ela soubesse que eram muitos. Fora um detective de topo nas forças de Miami durante uma dúzia de anos, tendo vindo para Deer Lake após a morte da mulher e do filho num assalto a um armazém. Escolhera Deer Lake como um santuário, num sentido mais verdadeiro do que na realidade tinha.

 

Tive um curto tête-à-tête com Wright e o seu advogado. Basicamente, intimei-o a confessar ou a explicar-se. Para seu bem.

 

Ah, belos dias os das mocas de borracha...

 

Sim concordou ela, numa voz arrastada. Os direitos humanos podem ser uma destas chatices!

 

Ele não está classificado como humano no meu ficheiro privado. E exclamou com uma sarcástica falsa esperança: Olha, um buraquinho! Talvez seja toda a defesa de que eu preciso!

 

Vou tentar falar com a mulher do Wright hoje à noite continuou Ellen. Ela ainda está em Fontaine?

 

Está. Os tipos do BCA continuaram hoje às voltas com o caso. Tivemos a Karen sob vigilância vinte e quatro horas, para a eventualidade de ela estar envolvida. Não creio que tenha a mínima ideia daquilo que o marido andou a fazer. Não é nenhuma luminária, para começar. Agora, está tão perturbada que mal funciona. Não cheguei a lado nenhum com ela, mas talvez você tenha mais sorte, de mulher para mulher.

 

Esperemos.

 

Ellen ouvia o telefone tocar no gabinete ao lado, mas nenhuma chamada era passada a Mitch. Natalie interpunha-se. As duas últimas semanas tinham sido diabólicas para ele. Como chefe de Deer Lake e o único detective na força de trinta homens, carregara o fardo da busca de Josh e de uma investigação que não passava virtualmente do mesmo. A sua vida profissional e privada estivera constantemente na mira da imprensa.

 

Falei com a Megan esta tarde disse Ellen quando ele se levantava e contornava a secretária para a acompanhar à porta. Meteu-se por um caminho tortuoso.

 

Pois meteu. Tentou uma expressão brincalhona, mas saiu-lhe um pouco forçada, deixando visível a sua preocupação. Mas ela é um osso duro de roer. Vai safar-se.

 

E você estará cá para a ajudar.

 

Se estiver na minha mão.

 

Ela está feliz por contar consigo. Você é um tipo às direitas, Mitch.

 

Ah, pois sou! O último dos tipos às direitas.

 

Não diga isso. Agrada-me pensar que há um par deles disponíveis para nós, mulheres solteiras. É essa esperança que nos leva a continuar a rapar as pernas, sabia?

 

A imprensa ou a perdera de vista ou se desinteressara dela nessa tarde. Acenavam-lhes com prazos-limites se Ellen North não o fizesse. Ele não tinha prazos limites, excepto o estatuto de limitações ao seu anonimato.

 

Parou mesmo à saída de uma porta das traseiras do City Center de Deer Lake, sentindo-se enregelar e maldizendo as severas leis antitabaco do Minnesota. No tempo que levava a fumar um cigarro, deixara de sentir os dedos dos pés.

 

Ela saiu do edifício por uma porta lateral, a resmungar com os seus botões, a cabeça baixa enquanto tirava as chaves da mala. Ele atirou a beata para um monte de neve.

 

Miss North? Dá-me uma palavrinha?

 

Ellen ergueu bruscamente a cabeça ao som da voz uma voz de pronúncia lenta, arrastada, do Sul. Malditos jornalistas. À cata das pessoas excepto sob os arbustos e
também aí os haveria, se os arbustos não estivessem enterrados num metro de neve. Este vinha ao seu encontro a passos largos, determinados, com a gola do casaco preto levantada, as mãos enfiadas nas algibeiras.

 

Não! Pronto, aí tem a sua palavra respondeu ela, azeda. Eu disse tudo o que tinha a dizer na conferência de imprensa. Se não ouviu, o problema é seu.

 

Continuou a andar, franzindo o sobrolho ao vê-lo mesmo à sua frente, caminhando a recuar.

 

Sorte a sua eu acreditar no controlo de armas de mão prosseguiu. Não sabe fazer nada de melhor do que aproximar-se sorrateiramente de uma mulher num parque de estacionamento às escuras?

 

Ele sorriu-lhe, um sorriso perverso de pirata, que lhe pôs uma mancha branca no rosto sombreado pela barba de um dia.

 

Não sabe fazer nada de melhor do que achar que um estranho que vem ao seu encontro num local escuro é um jornalista?

 

A pergunta feriu Ellen como a lâmina de uma faca afiada. O sol que iluminara o dia sumira-se, afastado por um emaranhado de nuvens e o cair da tarde. Embora houvesse uma força policial dentro do edifício de onde acabara de sair, não se via vivalma no parque de estacionamento. Ellen pensou em Josh Kirkwood, nos pais dele, em todos os habitantes de Deer Lake que se tinham julgado em segurança no local. Mesmo depois de tudo o que acontecera nas últimas duas semanas, ela continuara a sentir-se pessoalmente imune. Que estupidez! Que ingenuidade!

 

Uma imagem de Megan atravessou-lhe o espírito. Megan, com o rosto transformado numa amálgama de equimoses e edemas. Megan não vira o seu atacante. «Nós enganámo-los a todos, disse ele... Nós, sempre nós...

 

Mesmo à ténue luz dos candeeiros da rua, o homem não podia deixar de ver a cor esvair-se-lhe do rosto. O olhar dela fixou-se no carro, depois no edifício, atrás, calculando as distâncias enquanto abrandava o passo.

 

Não sou um meliante garantiu ele, algo divertido.

 

Eu seria idiota se acreditasse nisso, não seria?

 

Sim, minha senhora admitiu ele com um aceno de cabeça.

 

Minha senhora. Ellen rosnou por entre dentes, fazendo apelo à raiva para contrabalançar o súbito ataque de medo. Deu lentamente um passo para trás, na direcção do edifício. Agora, quem me dera ter uma arma.

 

Se eu viesse com fins perversos continuou o homem, avançando na sua direcção, seria tão descuidado que me aproximasse de si neste sítio?

 

Tirou da algibeira uma mão enluvada e apontou graciosamente o parque de estacionamento, como um mágico a chamar a atenção para o seu cenário.

 

Se eu quisesse fazer-lhe mal... Estava cada vez mais próximo... seria suficientemente esperto para a seguir, arranjaria maneira de me introduzir na sua casa ou na garagem, apanhava-a lá, onde seriam poucas as probabilidades de haver testemunhas ou interferências. Deixou que as imagens tomassem forma na mente dela. Era o que eu faria se pertencesse àquela espécie de patifes que atacam mulheres. Sorriu outra vez. E não pertenço.

 

Quem é você e o que quer? interrogou Ellen, desencorajada por uma parte do seu cérebro catalogar como encantadores os modos dele. Não, encantadores não. Sedutores. Perturbantes.

 

Jay Butler Brooks. Sou escritor. Crime autêntico. Posso mostrar-lhe a minha carta de condução, se quiser propôs, não fazendo qualquer gesto nesse sentido. Limitou-se a dar mais um passo na sua direcção, não permitindo nunca uma distância entre ambos suficiente para quebrar o clima eléctrico de tensão.

 

Gostava que se afastasse disse Ellen. Começou a erguer uma mão, num gesto de quem quer fazê-lo parar... ou num convite louco a que lhe agarrasse o braço. Recuando no gesto, tomou o peso da pasta que segurava na mão direita, calculando o seu potencial como arma ou escudo. Se pensa que vou ficar perto de si o bastante para me apanhar numa foto instantânea, deve estar maluco.

 

Bem, já fui acusado uma ou duas vezes, mas isso nunca me deteve. Quanto ao meu tio Hooter, a história é diferente. Posso contar-lhe mais coisas sobre ele. Ao jantar, talvez?

 

Talvez não.

 

Ele lançou-lhe um olhar sobranceiro, que não resultou, pois parecia mais divertido do que afrontado.

 

Depois de eu ter esperado por si aqui, com este frio?

 

Depois de você me perseguir e de se esconder cobardemente na sombra? corrigiu-o ela, recuando mais um passo. Depois de ter feito tudo para me assustar?

 

Assustei-a, Miss North? Não me parece o género de mulher que se deixe assustar facilmente. Não foi certamente essa a impressão que transmitiu na conferência de imprensa.

 

Julguei que tinha dito que não é jornalista.

 

Ninguém no tribunal perguntou confessou ele. Raciocinaram como você. Desculpe sublinhá-lo neste momento especial, mas os raciocínios podem ser coisas muito perigosas. O seu patrão precisa de ter uma conversa com alguém sobre segurança. O caso que têm entre mãos é explosivo. Tudo pode acontecer. As possibilidades são virtualmente ilimitadas. Gostaria de as discutir consigo. Diante de uma bebida sugeriu. Você bem parece precisar.

 

Se quer falar comigo, telefone para o meu gabinete.

 

Ah, eu quero falar consigo, Miss North murmurou ele, numa voz que era quase uma carícia. Mas não sou bom em encontros marcados. A preparação elimina a espontaneidade.

 

É esse o objectivo.

 

Prefiro apanhar as pessoas... desprevenidas admitiu ele. Revelam-se mais.

 

Não tenho a intenção de revelar-lhe nada. Interrompeu o seu recuo, enquanto um grupo de pessoas emergia da porta principal do City Center. Devia prendê-lo.

 

Ele arqueou uma sobrancelha.

 

Sob que acusação, Miss North? Atentado por iniciar uma conversa? Decerto vocês não são todos tão pouco hospitaleiros como o tempo aqui no Minnesota, pois não?

 

Ellen não lhe respondeu. As vozes das pessoas saídas do edifício subiam e baixavam de tom, só se ouvindo claramente palavras dispersas, conforme eles iam seguindo o seu caminho pelo passeio. Ellen virou-se e, quando os outros passaram por ela, misturou-se ao grupo.

 

Jay ficou a vê-la afastar-se, de cabeça erguida, queixo bem espetado, projectando uma vez mais uma imagem de frio controlo. Ela não gostava de ser apanhada desarmada. Ele apostaria que ela estabelecia listas e cumpria regras, o género de mulher que punha pontos em todos os seus II e traçava todos os seus TT uma segunda vez, a título de segurança.

 

Gostava de limites. Gostava de controlo. Não tinha a mínima intenção de lhe revelar o que quer que fosse.

 

Mas já revelou, Miss Ellen North disse ele, curvando os ombros quando o vento soprou mais forte e varreu pelo parque de estacionamento uma fria camada de neve. Já revelou.

 

 

O Hotel Fontaine ficava na esquina em frente do City Center, no lado oposto do parque do bairro antigo da cidade. Num dia vulgar, Ellen teria apreciado o passeio vivificante pelo parque até ao edifício do Fontaine, acolhedor e bem restaurado. Mas não era um dia vulgar. Estacionou o carro atrás do hotel e deixou-se ficar sentada com o aquecimento no máximo, como se o tremor dos seus braços e pernas tivesse a ver com o frio.

 

Gostava de considerar-se uma pessoa forte, esperta, sensata, capaz de lidar com qualquer situação. Numa questão de minutos, no decurso de meia dúzia de frases, um só homem fora capaz de sumariamente a enervar. Sem sequer lhe tocar com um dedo, sem sequer fazer uma ameaça verbal, mostrara-lhe a que ponto ela era realmente vulnerável.

 

Jay Butler Brooks. Vira a sua cara na capa da People quando estava na fila de pagamento do supermercado. Vira o seu nome na capa de livros, lembrava-se de ter passado a vista por um artigo a seu respeito numa edição recente da Newsweek.

 

Pertencia à classe dos «advogados-transformados-em-autores». Mas em vez de construir a sua fama com ficção jurídica, Brooks optara por se inspirar em crimes reais. Os seus livros vendiam milhões, e Hollywood abocanhava-os como se fossem chocolates Godiva.

 

A história deixara um gosto amargo na boca de Ellen. Achava o acto de transformar crimes em entretenimento retorcido e delicado, um voyeurismo que só contribuía para distorcer a linha entre realidade e fantasia e, além disso, habituava os americanos à violência. Mas o dinheiro falava, e falava alto. Jay Butler Brooks valia mais do que a maior parte dos países do Terceiro Mundo.

 

Prefiro apanhar as pessoas desprevenidas...

 

A lembrança do timbre da sua voz arrepiou-a. Profundo, quente, rouco. Sedutor. A palavra atravessou-lhe o espírito contra sua vontade, contra a lógica. Ele não dissera nada sedutor. Não houvera nada de sexual no encontro. A palavra, porém, persistia na sua mente como uma sombra. Sedutor. Perigoso.

 

Se eu quisesse fazer-lhe mal, seria suficientemente esperto para a seguir...

 

Saíam repórteres da entrada em madeira cor de mogno no momento em que ela pôs os pés no elegante átrio do Fontaine. Passou mesmo ao lado deles sem comentários e suspirou de alívio ao ver um polícia fardado de guarda ao elevador. O polícia baixou a cabeça quando ela entrou na cabina e fez parar os que a teriam seguido, exigindo-lhes que mostrassem as chaves dos quartos. Enquanto alguns remexiam nas algibeiras para as encontrar, a porta fechou-se.

 

Fora dado à esposa de Wright um quarto no segundo andar para desencorajar qualquer tentativa de a observar pela janela. A mulher que abriu a porta do quarto não era Karen Wright. O rosto aflito de Teresa McGuire assomou por trás da corrente de segurança, com os olhos apenas entreabertos, desconfiada, a boca cerrada.

 

Ellen! Graças a Deus! sussurrou, encostando a porta para retirar a corrente. Julguei que era a Paige Price. Acredita que ontem se convenceu de que podia fazer-me à força falar, só porque uma vez entrevistou uma amiga minha por causa de uma história qualquer de direitos da vítima? Aquela cabra! Eu não via o TV Sete nem que me apontassem uma arma à cabeça.

 

Ouvi dizer que ela fora cedida novamente para cobrir aquele desastre nos canos de esgoto em Minot, no Dakota do Norte comentou Ellen baixinho, pousando a pasta numa mesa. Passou imenso tempo a ir para a cama com o xerife para obter informações secretas.

 

Um arrepio de repulsa fez estremecer o corpo pequeno e rechonchudo de Teresa.

 

Que coisa tão ordinária! A Paige Price e o Russ Steiger. Seja quem for com o Russ Steiger. Você acha que ele muda alguma vez o unto daquele cabelo?

 

Tento não pensar nisso. Como vai Mistress Wright? Teresa lançou um olhar ao quarto de cama, separado da entrada por uma parede parcial.

 

Mal, coitada. Continua a dizer que tem de ser um engano. Foi-lhe dado um sedativo. Não sei a que ponto será útil para si.

 

Êllen despiu o casaco e pendurou-o no cabide.

 

Temos de continuar a tentar tirar dela o máximo. Ela pode ser a chave do problema todo.

 

Karen Wright estava sentada numa florida cadeira de chintz, com os olhos fixos na gravura emoldurada a dourado, pendurada por cima da cama: uma gata a lavar os seus gatinhos gorduchos, fofos, que brincavam com uma bola de lã. Enroscara-se na cadeira, com os pés no assento e os joelhos apertados nos braços. Uma variante de posição fetal. Era uma mulher encantadora, de feições delicadas e cabelo loiro-acinzentado a cair como seda num rabo-de-cavalo clássico. O único sinal de que passara ultimamente vários dias a chorar residia no vermellho que lhe circundava os grandes olhos amendoados e lhe tingia a ponta do nariz arrebitado. De certa maneira, o tom combinava com as perneiras cor-de-rosa e a camisola cinzento-claro que usava.

 

Karen? Eu sou a Ellen North, do gabinete do delegado distrital. Ellen puxou a cadeira da secretária e sentou-se. Gostava de falar consigo uns minutos, se puder ser.

 

Foi um engano disse Karen sem afastar o olhar da gravura. O Garrett nunca teve sequer uma multa de estacionamento.

 

Temos muitas provas contra ele, Karen contrapôs Ellen com delicadeza. Por lei, você não pode ser obrigada a testemunhar contra o seu marido, mas se souber a mais pequena coisa que possa ajudar a encontrar o Josh, diz-nos, não diz?

 

Karen mordiscou uma cutícula e evitou o olhar de Ellen.

 

Sabe de alguma razão para ele escolher os Kirkwood como vítimas, alguma razão para levar o Josh? O silêncio instalou-se por um, dois minutos. Isto deve ser duríssimo para si. Deve sentir-se traída, de certa forma talvez culpada.

 

Os sentimentos estariam decerto algures, bem no fundo. A mulher passara horas a meter em envelopes folhetos com pedidos de ajuda e a fotografia da criança no Centro de Voluntários Josh Kirkwood, estivera na casa dos Kirkwood como baby-sitter da irmã mais nova de Josh, enquanto o seu marido os envolvia a todos nas teias do medo. Enganara-a ele por completo ou saberia ela de tudo?

 

Karen, você tem de saber que pode ser considerada cúmplice continuou Ellen. Custa muito às pessoas acreditarem que você ignorava o que o Garrett andava a fazer.

 

Nem sinais de resposta. Karen atirou para trás da orelha uma madeixa de cabelo. Lentamente, um sorriso aflorou-lhe aos lábios.

 

A Lily é tão querida murmurou. Não me importo de tomar conta dela. O Garrett e eu não temos filhos. Encheram-se-lhe de lágrimas os olhos escuros. Suponho que a Hannah não vai mais deixar-me cuidar dela.

 

Encostou a cabeça aos joelhos e soluçou de mansinho, como se a perspectiva de não poder continuar a ser baby-sitter fosse de mais para si; mas a ideia de o marido ser um sociopata não teve nela o mínimo impacto. Ellen não sabia se havia de sentir simpatia ou horror. Foi de frustração o sentimento preponderante.

 

Karen, você tem de dar-me ouvidos. Inclinando-se para a frente, estendeu o braço e agarrou com firmeza o pulso da mulher. O Josh continua desaparecido, algures. Se tem alguma ideia do sítio para onde o Garrett possa tê-lo levado, tem de nos dizer. Pense na Hannah e na Lily. Pense em quanto sentem a falta do Josh.

 

E o Paul... murmurou Karen, erguendo um pouco a cabeça. O olhar fixou-se-lhe no candeeiro franjado da mesa-de-cabeceira. Ele tem uma família tão encantadora acrescentou, melancólica.

 

Sim, o Josh tem uma família encantadora e que sente muito a sua falta. Tem de ajudá-los se puder, Karen. Por favor.

 

Ellen suspendeu a respiração enquanto observava o jogo de emoções perpassar nos olhos de Karen Wright. Confusão, dor, medo. Medo do marido? Fizera-lhe ele alguma espécie de lavagem ao cérebro? Era professor de Psicologia, tinha de saber como manipular as mentes.

 

Não pode magoar-se, Karen. Só pode ajudar todos contando-nos o que sabe.

 

Devagar, Karen soltou o braço da mão de Ellen e desenroscou-se da cadeira florida. Abraçando-se a si própria, vagueou pelo quarto, parou defronte do toucador antigo e fitou a sua imagem no espelho oval que o encimava. Em gestos lentos, pegou numa escova e começou a escovar delicadamente o cabelo.

 

Um engano terrível... sussurrou. O Garrett nunca faria... Ele não me faria isso.

 

Ellen pôs-se em pé e encaminhou-se para a porta.

 

Deixo-lhe o meu cartão, Karen disse, pousando-o sobre a cómoda ao passar. Pode telefonar a qualquer hora do dia ou da noite. A qualquer hora em que lhe ocorra qualquer coisa que possa ser útil, ou se apenas quiser conversar.

 

Não. Não passa de um engano murmurou Karen para consigo, passando a escova pelo cabelo.

 

Ele viu Ellen North a sair do Hotel Fontaine, perguntando-se o que conseguira ela. Karen estava lá, observada por uma centena de olhos. Quereria ir ao seu encontro, falar com ela, mas isso não era possível. Ela nunca o trairia. Consolou-se com esse pensamento apesar de o medo crescer dentro de si como uma vaga de ácido.

 

A vida traíra-o uma e outra vez, levara-o a pensar que queria uma coisa quando afinal precisava de outra. O emprego, a casa, o carro, a noiva. De cada vez que obtinha um prémio, sentia que queria algo mais. A fome nunca se saciava, mudava simplesmente de aspecto.

 

Desejara alguém a quem culpar por isso, mas nunca via quem. Quando era mais novo, culpara os pais. O pai, um homem que valia menos do que a família merecia, e a mãe, uma mulher que vivia na sombra do marido. Mais tarde, atirara com as culpas para a Hannah. A sua carreira vinha em primeiro lugar, acima da família, acima dele. Ela nunca fora a sombra de homem nenhum. A sombra dela encobria-o. E odiou-a por isso.

 

Ironicamente, ninguém culpava Hannah de nada. Ao longo de toda aquela provação, haviam-na pintado como vítima, como uma personagem valente a esforçar-se por lutar. Pobre Hannah, a mãe cujo filho fora raptado. Pobre Hannah, ajudou tanta gente, não merecia este sofrimento.

 

Pobre Hannah, que deixara o filho no exterior do ringue de patinagem enquanto atendia às necessidades de outros no hospital. Pobre Hannah, sentada em casa à espera que o telefone tocasse, enquanto ele saíra e procurara nos arbustos com as equipas de busca e fizera apelos na televisão.

 

Ninguém dissera nunca: «Pobre Paul!» Graças àquela cabra da O’Malley do BCA, tinham-no olhado com olhares desconfiados por causa da maldita carrinha. Haviam tentado ligá-lo a Olie Swain, haviam tentado virar contra si tudo quanto ele fizera para tentar passar por herói.

 

Uma vítima, era o que na verdade era. Uma vítima das circunstâncias. Uma vítima do destino. Nem sequer tinha uma casa para passar a noite.

 

... Já não sei quem tu és, mas sei que estou farta das tuas mentiras e das tuas acusações. Estou farta de te ouvir censurares-me pelo desaparecimento do Josh, quando tu só pareces querer enterrá-lo e esperas que as câmaras da televisão, no funeral, te apanhem do lado que te favorece mais.

 

Não sou obrigado a ouvir estas coisas! Desviou o olhar do dela, para longe do desdém que lhe via nos olhos.

 

Não disse ela, pegando no casaco de Paul que se encontrava nas costas de uma cadeira e atirando-lho. A boca dela tremia de fúria e do esforço que fazia para não chorar. Já não precisas de me ouvir mais. E eu não preciso de aturar os teus modos e o teu ego masculino ofendido e as tuas estúpidas invejas. Estou farta disso! Estou farta de ti!... Tu já não moras aqui, Paul.

 

Reviu toda a cena. Sábado à noite. Mitch Holt viera dar-lhe a notícia da prisão de Garrett Wright.

 

Hannah iria divorciar-se dele. E toda a gente olharia para ela e diria: «Pobre Hannah.» Ninguém olharia para o que lhe havia sido tirado a ele. Ninguém diria: «Pobre Paul»... excepto Karen. Ninguém o compreenderia, excepto Karen.

 

Ellen abriu a boca num bocejo e espreguiçou-se. O espesso edredão que lhe cobria as pernas roçagou e o grande cão de caça atravessado aos pés da cama abriu um olho e fixou-a.

 

Eu sei que é tarde, Harry disse Ellen, empurrando para a testa os óculos de ler. Recostou-se no monte de almofadas, por entre pilhas de livros de leis, e bocejou de novo. O relógio quadrado sobre a mesa-de-cabeceira de cerejeira marcava meia-noite e vinte cinco. Estou a trabalhar para dar cabo do tipo que levou o Josh.

 

O cão ganiu como se, também ele, tivesse absorvido as horas de cobertura noticiosa relativa ao rapto.

 

Ellen deixou cair no regaço o livro que consultava sobre as leis do estado do Minnesota, porque lhe acudiu ao espírito uma imagem de Garrett Wright. A imagem que ele lhe transmitira na sala da entrevista pálido, cansado, delicado: uma vítima, não um monstro.

 

Embora houvesse gente pronta a atribuir os crimes a qualquer um, muitas pessoas em Deer Lake não queriam atribuí-los a Garrett Wright. Aquelas que tinham confiado nele, que o haviam respeitado e olhado com consideração. Os estudantes da Universidade Harris. As pessoas que apoiavam o programa a favor dos delinquentes juvenis que ele ajudara a criar. Devia até existir quem não quisesse acreditar, porque, se um homem como Garrett Wright podia ser culpado de uma coisa tão horrenda, então em quem confiar?

 

Em quem pode você confiar? A pergunta provocava arrepios. Evocativa de velho cinismo e difícil sensatez. Não confiar em ninguém.

 

Ellen não queria continuar a crer nisso. Passara o seu tempo entre casos de pura fumaça, onde nada era o que parecia, onde os inimigos sorriam e acariciavam com uma mão enquanto com a outra espetavam fundo uma faca.

 

Há muito tempo e muito longe... murmurou, palavras mágicas para afastar as recordações.

 

Podia ver Wright com um fundo negro. Fixando-a com olhos que eram buracos escuros, sem fim, sem alma, fixando-a, penetrando-a com o olhar. Os cantos da boca arreganhados num sorriso que lhe gelava o sangue. Ele conhecia algo que ela ignorava. O plano do jogo. O grande quadro. Penetrava-a com o olhar e ria-se de qualquer coisa que ela não podia ver.

 

Então a imagem de Wright fundiu-se noutra. Assustei-a, Miss North? Não me parece o género de mulher que se deixe assustar facilmente. Ele aproximou-se, chegou mais perto. Ela tentou recuar e sentiu-se presa, incapaz de se mexer. Sentia a energia que emanava dele. Sedutor. A palavra envolvia-a como espirais de fumo... raciocínios podem ser coisas muito perigosas...

 

Ellen arrancou-se à sonolência com um grito que levou Harry a levantar a cabeça. Batia-lhe forte o coração, os óculos estavam de banda. Tirou-os e pô-los de lado com a mão a tremer, enquanto tentava fazer funcionar o cérebro. Um som. Um som perceptível. Uma pancada ou um choque, não sabia bem.

 

Sustendo a respiração, pôs-se à escuta. Nada. Mas no recôndito da sua mente a voz abafada sussurrava: Se eu andasse atrás de si... seria suficientemente esperto para a seguir, arranjaria maneira de me introduzir na sua casa ou na garagem... apanhava-a lá, onde seriam poucas as probabilidades de haver testemunhas ou interferências.

 

Os implacáveis olhos azuis fitavam-na das páginas da Newsweek. Pegou na revista e fixou a imagem. Era uma foto cheia de sombras. Ele olhava a câmara, com ar duro, as mãos fincadas na barra de um parapeito de ferro forjado. Tinha cabelo castanho, curto, com uma pequena madeira levantada à frente. O rosto era másculo, angular, com o nariz fino, recto, e o queixo saliente. Em contraste, os lábios eram grossos, bem delineados, quase femininos, demasiado sensuais. O género de boca que sugeria talentos obscuros, secretos. Em título lia-se: «Senhor do Crime», em letras gordas. Na legenda: «O crime compensa muito para Jay Butler Brooks.»

 

Ellen franziu o sobrolho à fotografia.

 

Eu devia ter-te prendido.

 

Desgostosa consigo própria, atirou a revista para o lado e rastejou por debaixo das cobertas e dos livros. Tentando ignorar o mal-estar que a agitava, retirou de cima da mesa o copo meio vazio de vinho branco e desceu descalça para o tapete felpudo cor de marfim. As portas da casa estavam fechadas à chave. O sistema de alarme sobre a cama, protegendo-a.

 

Bebericando distraidamente o vinho, afastou a pesada cortina de renda creme da janela e olhou a noite. A neve recém-caída brilhava como um tapete de diamantes brancos à luz do quarto crescente. Belo. Sereno. Nenhum sinal da tempestade que se abatera sobre o Minnesota durante o fím-de-semana. Nenhum indício da violência que atirara Megan O’Malley para o hospital. Nenhum sinal de Josh Kirkwood. Apenas mais uma noite calma na zona junto do lago. A proximidade dos Kirkwood. A proximidade de Garrett Wright.

 

A casa dela ficava a menos de dois quarteirões das deles. Da sala via um canto do lago, a pouca distância de Quarry Hills Park, onde Mitch, Megan e Garrett Wright tinham representado um drama de vida e morte na noite de sábado. Ellen estivera em casa, sentada à lareira, a tomar cappuccino e a conversar com uma amiga, ignorante do que estava a passar-se a meia dúzia de passos de distância.

 

Harry ergueu bruscamente a cabeça, a rosnar baixinho. O cão saltou da cama e estacou, atento, à porta que dava acesso ao vestíbulo às escuras. Ellen, de pé no centro da sala, com o pulso acelerado, tentava recordar em pormenor o acto de fechar à chave as portas. Entrara na cozinha pela garagem. Punha sempre a tranca quando chegava à noite. Era um hábito. Saíra pela porta da frente para ir buscar o correio, voltara a entrar, dera a volta ao ferrolho enquanto lia as palavras VOCÊ PODE JÁ TER GANHO DEZ MILHÕES DE DÓLARES.

 

As portas estavam fechadas. Nenhum som estranho na sala. Segura disso, tomou coragem, passou pelo cão e entrou no vestíbulo. Com um ganido embaraçado, Harry seguiu-a, chocando contra as pernas de Ellen quando esta fez uma pausa no curto número de passos pela sala.

 

Ténues raios prateados infiltravam-se pelas frestas das persianas. Os confortáveis sofás e cadeiras eram manchas toscas no escuro. Nada mexeu. Ninguém falou. Sob a flanela quente do pijama, a pele de Ellen arrepiou-se. Os finos cabelos da nuca eriçaram-se-lhe quando novo grunhido se formou na garganta de Harry.

 

Soou a campainha forte do telefone. O som ecoou pela sala como um tiro de canhão. Harry descreveu, orgulhoso, um desajeitado círculo, acompanhado de latidos sonoros apenas dirigidos às fotografias emolduradas penduradas nas paredes. O telefone tocou de novo.

 

A última chamada que recebera a meio da noite fora de Mitch a dizer-lhe que Olie Swain morrera. Talvez Wright tivesse sido atingido pelo remorso e também se tivesse suicidado, mas ela duvidava. Dissera a Karen Wright que telefonasse a qualquer hora do dia ou da noite. Talvez a mulher de Wright tivesse encontrado o seu caminho por entre as renúncias.

 

Ellen North respondeu, adoptando automaticamente o tom de voz que usava no emprego.

 

Silêncio.

 

Está lá?

 

O silêncio pareceu adensar-se, pesado de expectativa.

 

Karen? É você?

 

Nenhuma resposta. Quem ligara continuava em linha, silencioso, à espera. Outro longo minuto se escoou no relógio.

 

Karen, se é você, não tenha medo de falar comigo. Estou aqui para a ouvir.

 

Nada, excepto a enervante certeza de alguém na outra extremidade do fio. A esperança de que esse alguém fosse Karen evaporou-se. Ellen aguardou; mais um minuto decorreu.

 

Ouça disse com aspereza, se nem sequer vai incomodar-se a dizer-me ordinarices, desligue e deixe a linha livre para alguém que saiba como se faz um telefonema obsceno.

 

Nem um som.

 

Ellen pousou com força o auscultador, afirmando a si própria que agira mais por um movimento táctico do que por nervos, afirmação penosamente desmentida pelo salto que deu quando o telefone tocou outra vez. Ficou a olhá-lo enquanto a campainha soava, uma segunda, terceira vez, após o que deu a si própria um safanão mental e atendeu.

 

Ellen North.

 

Ellen, é o Mitch. O Josh está em casa.

 

           ENTRADA NO DIÁRIO, 25 de Janeiro de 1994

 

                   Julgam que nos possuem

                   Culpados até à medula

                   Apanhados em flagrante

                   Mortos para os direitos

                   Estão muito enganados.

 

 

Josh, o homem magoou-te?

 

Josh não respondeu. Em vez disso, olhou para o póster na parede. Era o póster de um homem montado num cavalo cinzento, a saltar uma vala. Alegre e colorido. Josh pensou que gostaria de montar um cavalo como aquele, um dia. Fechou os olhos e tentou sonhar que cavalgava o cavalo cinzento na Lua.

 

O Dr. Robert Ulrich suspirou, lançou uma olhadela a Mitch, depois virou-se para Hannah.

 

Não encontro sinais de que tenha sido molestado sexualmente.

 

Hannah estava de pé junto à marquesa de exame onde se sentava Josh, vestido com uma fina bata azul de algodão. Era tão pequeno, tão indefeso! A crua luz fluorescente emprestava à sua pele uma palidez cadavérica. Colocara uma mão no braço dele, para lhe transmitir segurança, e a si própria também. Sendo médica, sabia que isso interferia com os procedimentos, mas não conseguia manter-se sentada na cadeira a um metro de distância. Não quebrara o contacto com ele desde que abrira a porta da frente e o encontrara parado no patamar, há duas horas.

 

Estivera a tentar dormir coisa que já não conseguia fazer. A cama parecia grande de mais, a casa calma de mais, vazia de mais. Mandara Paul embora no sábado à noite, mas perdera-o muito antes disso. A camaradagem feliz que em tempos haviam partilhado parecia uma recordação longínqua. Ultimamente, tudo o que tinham era tensão e azedume. O homem com quem há dez anos casara era meigo e gentil, cheio de esperanças e de entusiasmo. O homem que encarara há duas noites era rancoroso, mesquinho e ciumento, insatisfeito e emocionalmente desequilibrado. Já não o conhecia. Nem queria conhecer.

 

E assim, estendera-se sozinha na cama grande, contemplando o céu e o negrume da noite de Janeiro, interrogando-se sobre o que iria fazer. Como enfrentaria as dificuldades, quem iria ser. Uma pergunta premente: quem iria ela ser? Sem dúvida, não a mesma mulher de há duas semanas atrás. Sentia-se estranha a si própria. A única coisa clara era que lutaria, fosse como fosse. Tinha de fazê-lo por si e por Lily... e por Josh, pelo dia em que ele voltasse para casa.

 

E então, ele aí estava, parado no patamar da frente.

 

Receosa de que o encanto se quebrasse, não o largara até àquele momento. Os seus dedos tocavam a pele fina do braço do filho, assegurando-se de que ele era real e estava vivo.

 

Hannah? Está a ouvir-me?

 

Pestanejou e olhou o rosto quadrado de Bob Ulrich. Ulrich estava mais perto dos cinquenta do que dos quarenta. Era para ela um amigo desde o dia em que comparecera a uma entrevista para um lugar no Hospital Comunal de Deer Lake. Fora influente na recente decisão da direcção de a nomear chefe do ER. Fizera o parto de Lily e arrancara as amígdalas de Josh. Viera ao hospital nessa noite a pedido dela para examinar Josh. Agora, olhava-a, preocupado.

 

Estou respondeu Hannah. Desculpe, Bob.

 

Quer sentar-se? Parece um bocado atordoada.

 

Não.

 

Sem uma palavra, Mitch contrariou-a, empurrando um banco para junto dela e pressionando-lhe um ombro para a obrigar a sentar-se nele. Os seus olhos azuis estavam vidrados, o cabelo era uma massa de ondas douradas precipitadamente atadas atrás. As últimas semanas tinham-na marcado. Naturalmente esbelta, estava agora tão magra como se sofresse de anorexia. Mantivera-se de pé junto à marquesa durante todo o exame, segurando a mão de Josh, de olhar fixo no seu rosto, curvando-se para lhe beijar a testa. Parecia não se dar conta das lágrimas que lhe corriam pela cara abaixo. Mitch tirou um lenço da algibeira, meteu-lho na mão livre e perguntou a si próprio onde diabo estaria Paul.

 

Ele devia estar ali naquele momento, por Josh, por Hannah. Hannah tentara telefonar-lhe para o escritório, que era onde ele passava as noites, e respondera-lhe o atendedor de chamadas. Mitch mandara um carro da esquadra ao complexo do escritório. Cerca de duas horas mais tarde continuava a não haver sinais de Paul. E só Deus sabia o quanto, no dia seguinte, quando Josh fosse o centro das atenções da imprensa, ele vociferaria contra o departamento de polícia por não se ter apressado a chamá-lo para junto do seu filho.

 

Josh conservara-se absolutamente silencioso durante toda a consulta, não deixando escapar um só som de medo ou desconforto. Não respondera a nenhuma pergunta.

 

Mitch esperava que a situação fosse transitória. Havia já no caso demasiadas interrogações e respostas insuficientes. Embora o reaparecimento de Josh merecesse ser comemorado, vinha aumentar a coluna de perguntas. Com Garrett Wright numa cela de prisão, quem trouxera Josh para casa? Wright tinha um cúmplice? Tinham atribuído a Olie Swain muitas das provas encontradas. Olie assistira a algumas aulas de Wright na Harris. Olie possuía a carrinha que coincidia com a descrição da testemunha, mas a carrinha não lhes revelara nada e Olie Swain estava morto.

 

Não há qualquer sinal de penetração afirmou o Dr. Ulrich calmamente, a olhar Josh, que parecia ter adormecido sentado. Nenhuma vermelhidão, nenhuma violência.

 

Vamos ver o que dizem as análises comentou Mitch.

 

Aposto que estão boas.

 

O médico trouxera o equipamento habitual para os casos de violação, examinara Josh literalmente da cabeça aos pés à procura de qualquer sinal de abuso sexual. Amostras orais e rectais colhidas seriam analisadas para ver se havia fluido seminal. Mitch observara o exame atentamente e mantinha-se alerta como um falcão para ter a certeza de que Ulrich não omitia nada, plenamente consciente de que o médico tinha pouca experiência prática daquele género de procedimento. Mais um dos desafios da execução da lei fora das cidades, onde a violação não era um crime invulgar. O Hospital de Deer Lake nem sequer tinha uma lâmpada de Wood uma lâmpada fluorescente usada para esquadrinhar a superfície da pele e detectar sinais de fluido seminal. Não que uma lâmpada de Wood tivesse sido muito útil no caso de Josh. O rapaz estava bem esfregado e cheirava a sabonete e a champô. Qualquer prova que tivesse existido fora literalmente pelo cano abaixo.

 

E quanto ao braço dele? Acha que o drogaram?

 

Não há dúvida de que foi espetada uma agulha naquela veia respondeu Ulrich, puxando delicadamente para si o braço esquerdo de Josh a fim de examinar pela segunda vez as pequenas marcas e a ténue contusão da pele na parte anterior do cotovelo. Temos de esperar pelos resultados laboratoriais das análises de sangue.

 

Eles tiraram sangue murmurou Hannah, acariciando com a mão os emaranhados caracóis castanho-claros do filho. Eu disse-lhe, Mitch. Eu vi.

 

A expressão dele manteve-se impenetrável, dando-lhe educadamente a entender que não fazia comentários. Possivelmente pensava que ela enlouquecera de vez. Ela não podia censurá-lo, pois também nunca levara muito a sério os desvarios das pessoas que garantiam ver coisas em sonhos. Se tivesse sido chamada a fazer o diagnóstico de uma mulher na sua situação, teria provavelmente dito que o stress era demasiado, que a mente dela estava a tentar compensar. Mas no seu íntimo sabia o que vira naquele sonho da noite de sexta-feira: Josh sozinho, a pensar nela, com um pijama às riscas que nunca lhe conhecera. O mesmo pijama às riscas que trazia nessa noite e que Mitch Holt embrulhara para mandar para o laboratório do BCA.

 

Mitch inclinou-se até ficar ao nível de Josh.

 

Josh, podes dizer-me se alguém tirou sangue do teu braço?

 

Com os olhos fechados, Josh voltou-se para a mãe num apelo. Hannah puxou o banco até junto da criança.

 

Ele está exausto disse, com impaciência. E frio. Porque está este hospital tão gelado?

 

Tem razão, Hannah respondeu, calmo, Ulrich. Passa das duas. Fizemos tudo aquilo de que precisamos por agora. Vamos pô-los, a si e ao Josh, num quarto.

 

Hannah ergueu bruscamente a cabeça, alarmada.

 

Vão ficar com ele aqui?

 

Acho que é o mais sensato, dadas as circunstâncias. Para observação acrescentou, tentando acalmar o pânico dela. Está alguém a tomar conta da Lily, não está?

 

Bem, está, mas...

 

O Josh passou um mau bocado. Vamos mantê-lo vigiado um dia ou dois. De acordo, doutora Hannah?

 

Pronunciara a última frase para que ela se lembrasse de quem era, pensou Hannah. A Dra. Hannah Garrison sabia como se procede. Conhecia os ditames da lógica. Sabia como manter a serenidade e a objectividade. Era forte e dotada de bom senso, fria quando sob pressão. Mas deixara de ser a Dra. Hannah. Agora era a mãe de Josh, aterrada perante o que teria acontecido ao seu filho, com o coração despedaçado, atormentada por sentimentos de culpa.

 

O que te parece, Josh? perguntou Ulrich. Vais dormir numa daquelas camas eléctricas de hospital com comando à distância, e a tua mamã fica ao pé de ti, no quarto. O que pensas disso?

 

Josh encostou a cara ao ombro da mãe e abraçou-a com mais força. Não queria pensar em nada.

 

Ellen andava de cá para lá na sala de espera, como uma tia expectante.

 

Marty Wilhelm, o agente que o BCA mandara de St. Paul para substituir Megan, estava sentado no sofá, mudando de canal com o telecomando, aparentemente hipnotizado pelas alterações de cor e imagem. Tinha um ar jovem e estúpido. Tom Hanks sem miolos. Demasiado giro, de nariz pequeno e farta cabeleira ondulada.

 

Ellen antipatizou com ele à primeira vista, depois recriminou-se por isso. Não era culpa de Wilhelm que Paige Pride tivesse decidido fazer jogo sujo e chamar a atenção dos media para o relacionamento de Megan e Mitch. Nem Marty era culpado pelo facto de Megan possuir um temperamento irlandês quente e uma língua demasiado afiada e rápida para ser prudente. Megan tornara-se um problema de relações públicas que suplantara o seu valor como polícia, facto que nada tinha a ver com Marty.

 

Apesar de todas estas considerações, continuava a não gostar dele.

 

O rapaz olhou-a com uns olhos tão castanhos e inexpressivos como os de um spaniel e disse pela nona vez: «Estão a levar muito tempo.»

 

Ellen brindou-o com um olhar semelhante ao que teria lançado a garotos de liceu e continuou nas suas idas e vindas. A única outra pessoa na sala de espera, o padre Toral McCoy, levantou-se de uma cadeira de braços demasiado baixa para ele e esticou-se todo, para aliviar as costas. Sendo anglicana, Ellen só o conhecia de passagem e de nome. Tom McCoy era alto e bem-parecido, senhor de um porte atlético e de uns doces olhos azuis por trás de um par de óculos de aros dourados. Viera para o hospital com umas calças de ganga desbotadas e uma camisa de flanela que o faziam parecer mais um lenhador do que um padre.

 

Olhou Ellen interrogativamente, enquanto procurava moedas nos bolsos.

 

Café?

 

Não, obrigada, padre. Já bebi de mais.

 

Também eu admitiu ele. Do que preciso realmente é de uma bebida, mas não creio que haja na cafetaria uma máquina que sirva bom uísque escocês.

 

McCoy afastou-se e Wilhelm empertigou a cabeça.

 

Não se assemelha a nenhum padre que eu tenha conhecido. Onde está o seu cabeção?

 

De novo Ellen lhe lançou o tal olhar.

 

O padre Tom é não-conformista.

 

Foi o que eu pensei. Que opinião tem do diácono dele... O Albert Fletcher?

 

Não conheci o Albert Fletcher. Era, obviamente, um indivíduo muito perturbado.

 

Fletcher tornara-se suspeito relativamente ao rapto, dada a sua ligação a Josh através da igreja, na qualidade de instrutor religioso da classe de Josh e por o pequeno ajudar à missa. Obcecado com a igreja, Fletcher atravessara a fronteira entre o fanatismo e a loucura, o que não se notara até ter atacado o padre Tom e Hannah, na sexta-feira de manhã cedo, estando estes sentados a conversar na Igreja de St. Elysius, um templo católico. Pregara um susto ao padre Tom com um castiçal de latão. Mais tarde nessa manhã, restos mumificados da esposa há muito falecida de Fletcher haviam sido descobertos na sua garagem. O incidente desencadeara uma caça ao homem que terminara em tragédia durante a missa de sábado à tarde, quando Fletcher, declamando e com um olhar alucinado, se lançara para a morte do parapeito da janela. Se haveria ou não investigação posterior sobre a morte de Doris Fletcher, ainda não fora decidido.

 

Tantas coisas más tinham ocorrido em tão pouco tempo! Rapto, suicídio, loucura, escândalo. Dir-se-ia que um fio secreto da teia da vida cedera, permitindo que o diabo se infiltrasse em Deer Lake, vindo de um qualquer submundo obscuro. E se eles não descobrissem como capturá-lo, continuaria envenenando tudo e todos que tocasse. Perante tal pensamento, um calafrio percorreu Ellen.

 

O hospital estava calmo, os corredores fracamente iluminados. A notícia do regresso de Josh espalhara-se de boca em boca. O pessoal de serviço àquela hora da noite rodeava a secretária maior, conversando em voz baixa, olhando de quando em vez com preocupação para a sala de exames em cujo interior tinham desaparecido Hannah e Josh com Mitch e o Dr. Ulrich.

 

Ao ir buscar a lata de refrigerante morno que colocara sobre uma mesa, Ellen suspendeu o gesto, devido à porta da sala do exame se ter aberto e Mitch aparecido. Precipitou-se ao seu encontro.

 

Ele mencionou o Wright? interrogou. Cruzando os braços, Mitch encostou um ombro à parede.

 

Não mencionou ninguém. Não diz nada.

 

Nada de nada?

 

Nem uma palavra.

 

Afundou-se a convicção de Ellen. Uma reacção instintiva que nada tinha a ver com o seu sentido de compaixão. Eram entidades separadas a advogada e a mulher. A advogada pensava em termos de provas; a mulher pensava num rapazinho que passara sabe Deus por que tormentos nas duas últimas semanas.

 

Como está ele?

 

Fisicamente, parece tudo bem. Não há sinais de abuso sexual.

 

Graças a Deus.

 

Pode ter sido drogado e terem-lhe tirado sangue. O sangue de algum modo foi parar ao lençol, e ele não tem feridas. Saberemos mais quando vierem os resultados do laboratório.

 

Saberemos o quê? perguntou Wilhelm, pondo-se de pé, com a gravata atirada para cima do ombro.

 

Mitch olhou-o com desagrado.

 

Encontramo-nos no meu gabinete às sete horas e eu discuto tudo isto com vocês os dois.

 

E que tal interrogar o rapaz? sugeriu impensadamente Wilhelm, com o ar de quem se deslocou até ao Pólo Norte e descobriu que o Pai Natal não lhe concede uma audiência.

 

Isso terá de esperar.

 

Mas a mãe...

 

Está emocionalmente destroçada cortou Mitch, ríspido. Não viu ninguém, nenhum carro. Tudo o que sabe é que tem o seu filho de volta. Pode falar com ela de manhã.

 

Os olhos de Wilhelm brilharam de raiva, apesar de o seu sorriso de garoto se manter.

 

Ouça, chefe, o senhor não pode pôr-me de parte neste assunto. Eu tenho o poder...

 

Você não manda nada aqui, Marty. Está a perceber-me? Não me interessa que o BCA o tenha mandado para cá com uma coroa dourada e um ceptro. Tente pressionar-me neste caso e eu esmago-o como se fosse uma barata. Ninguém vê a Hannah ou o Josh até eles terem descansado um bocado.

 

Mas...

 

O protesto de Marty foi interrompido porque a porta exterior da sala de urgências se abriu para trás e Paul Kirkwood irrompeu como um vendaval, com um par de polícias fardados atrás de si. O vento afastara-lhe da cara magra e angular o cabelo castanho. O frio e a excitação avermelhavam-lhe o rosto. Enquanto atravessava o vestíbulo, os seus olhos muito fundos cravaram-se em Mitch:

 

Quero ver o meu filho.

 

A Hannah e o Josh estão a ser instalados num quarto.

 

A Hannah? estranhou, irritado. O que há com ela?

 

Nada que ter o Josh de volta não cure. Está apenas um pouco aturdida, é tudo.

 

E eu? Acha que não estou aturdido?

 

Não sei como você está, Paul retorquiu Mitch, exausto. Mais do que atrasado... isso é que está. Onde diabo se meteu? Olhou de raspão os polícias que se mantinham atrás do pai de Josh.

 

Apanhámo-lo quando vinha do escritório, chefe.

 

Apanharam-me? Estou aqui sob prisão? A voz de Paul vibrava de indignação. Deverei chamar o meu advogado?

 

Claro que não, doutor Kirkwood interveio Ellen, tentando abrandar a tensão crescente entre os homens. Quisemos dar-lhe conhecimento de que o Josh aparecera, mais nada. Também pensámos que podia querer estar com o seu filho durante o exame médico.

 

Andei por aí, de carro. A boca de Paul revelava mau humor. Não me tem sido fácil dormir, ultimamente. Como está o Josh? O que lhe fez o animal?

 

Está bem respondeu Mitch; depois, por uma questão de consciência, corrigiu a resposta seca: Parece bem, fisicamente. Eu vou consigo até ao quarto, para você entrar.

 

Começaram a atravessar o corredor, e Wilhelm seguiu-os. Ellen agarrou-o pela manga da camisa e puxou-o para trás. O agente do BCA rodou, direito a ela.

 

Gostava de ouvir uma explicação melhor sobre o sítio onde ele se encontrava esta noite.

 

Também eu. Ouvi-la-emos de manhã.

 

E se ele estiver envolvido? Se tiver sido ele quem levou o Josh para casa? Pode escapar-se.

 

Não seja estúpido retorquiu Ellen com impaciência. Se quisesse escapar-se, acha que largava o filho que raptara, andava depois duas horas de carro às voltas pela cidade, regressava ao escritório e então fugia?

 

Wilhelm agitou um dedo bem junto à cara dela.

 

Ele foi o dono da tal carrinha.

 

A tal carrinha que não nos adiantou nada.

 

Acho que devíamos levar Mister Kirkwood para a cidade e discutir as suas andanças desta noite.

 

Então, esteja à vontade, expresse a sua opinião ao chefe Holt. Pressione-o bastante e poderá interrogar o doutor Ulrich enquanto ele tentar pôr-lhe no lugar os ossos da cara. Pessoalmente, já tenho hospital que baste por hoje.

 

Faltavam menos de oito horas para o interrogatório relativo à fiança de Wright. Garrett Wright, que iria ser acusado do rapto de Josh Kirkwood. Josh Kirkwood, que fora entregue em casa, são e salvo, enquanto Garrett Wright se encontrava numa cela da prisão da cidade.

 

Hannah recusou a oferta de uma camisa de noite do hospital para dormir. Ignorou a cama de acompanhante que fora preparada para ela junto à de Josh. Tirou as botas e deitou-se sobre a cama do filho.

 

Josh brincou com o comando, subindo e descendo devagar a cabeceira da cama, dobrando-a a meio. O sobe-e-desce não deixava de se assemelhar ao das emoções por que Hannah passara nas duas últimas semanas. O sobe-e-desce que ainda atravessavam. A ideia de que Josh estava de regresso e a salvo era vertiginosamente positiva. O medo do que podia ter-lhe sido feito a nível mental, vertiginosamente negativo, um buraco negro. Os dois sentimentos entrechocavam-se no seu íntimo, subiam e desciam como a cama.

 

Deslizou o braço em redor de Josh e pôs a mão no comando.

 

Agora chega, meu querido. Estás a fazer-me enjoar murmurou. Sorriu docemente quando um caracol castanho-claro lhe fez cócegas no nariz. Lembras-te daquela vez em que saímos no barco do avô e o tio Tim enjoou, depois de se meter connosco, de nos chamar marinheiros de água doce?

 

Teve a esperança de que ele se virasse e lhe sorrisse, com o olhar brilhante, e ao sorriso se seguissem risadas. Rir-se-ia e contar-lhe-ia a história toda, ilustrada com efeitos sonoros, e ela seria banhada pela maior, pela mais incrível, viva e calorosa onda de amor e alegria. Mas ele não se virou e não se riu. Não se mexeu. Não falou. Limitou-se a continuar impassível. A onda de amor foi dolorosa. A alegria transformada em angústia.

 

A porta abriu-se e Paul assomou, mostrando-se simultaneamente ansioso e hesitante. Hannah renunciou às perguntas com que desejaria submergi-lo. Onde estivera? Porque não estivera ali, com Josh? Ninguém como ele para desaparecer nos piores momentos com que ela tinha de lidar e reaparecer depois do facto ocorrido. E que triste para o relacionamento de ambos o facto de que, nesse momento que deveria ter sido tão feliz para os dois, a primeira coisa que lhe apetecia fosse atacá-lo.

 

Paul entrou de rompante no quarto, com o olhar fixo no filho.

 

Oh, meu Deus sussurrou, numa luta visível com as suas emoções: descrença, alegria, incerteza. Josh!

 

Josh sentou-se e olhou-o, sem sorrir.

 

Tentei telefonar-te disse Hannah com suavidade. Tentei o teu escritório...

 

Tinha saído foi a resposta sucinta de Paul, sem tirar os olhos do filho. Esboçou um sorriso, mal conseguido. Josh, meu filho...

 

Josh atirou-lhe o comando e lançou-se a si próprio contra Hannah.

 

Josh! exclamou Hannah. A sua expressão de surpresa era dirigida a Paul.

 

Josh, sou eu, o pai. Josh, o que foi? Não me conheces?

 

A única resposta obtida foi um grito assustado quando Paul tentou de novo voltá-lo para si. O pequeno encostou-se mais a Hannah, empurrando-a para trás.

 

Paul, não tentes tocar-lhe! intimou-o ela. Não vês que só pioras as coisas?

 

Mas eu não fiz nada! Mesmo assim, Paul afastou-se da cama. Ele é meu filho, por amor de Deus! Quero vê-lo!

 

Não! O protesto de Josh foi abafado pelo corpo da mãe. Não! Não! Não!

 

Quietinho, querido murmurou Hannah. O pânico cresceu dentro dela.

 

O que se passa aqui? perguntou o Dr. Ulrich, vindo do corredor.

 

Quem me dera saber resmungou Paul.

 

O que fez o senhor que o agitou tanto?

 

Nada! Ele é meu filho! Ulrich ergueu a mão.

 

Acalme-se, Paul. Não estou a acusá-lo de nada disse, calmo, de costas para Josh e Hannah, ao passar entre eles e Paul. Mas acho que seria boa ideia ir-se agora embora e voltar de manhã, depois de o Josh ter tido tempo para repousar e recuperar as suas capacidades.

 

Está a pôr-me fora? vociferou Paul, incrédulo. Não acredito! Depois de tudo o que fiz para tentar trazer o meu filho de volta, Depois de tudo o que fiz através do...

 

Não é nada contra si, Paul interrompeu-o o Dr. Ulrich, em voz baixa. Compreendo que isto o incomode, ] mas sabe que temos de colocar o Josh em primeiro lugar. Temos de nos compenetrar de que vai levar algum tempo até compreendermos o que lhe aconteceu e como se sente ele por isso. Vamos os dois, você e eu, até à cafetaria para conversar. Paul sentiu-se escorraçado. Ulrich levava-o aos poucos a recuar até à porta, para longe de Josh e Hannah. Enxotava-o. Não era essa a história da sua vida? Tudo ia para Hannah a glória, a piedade... o filho deles. Jesus, Hannah disse, podias dar uma ajudinha.

 

O que queres que faça? Olhou-o como se ele fosse um estranho, alguém a temer, a manter bem longe. Ele ardia em ódio.

 

Algum apoio seria simpático!

 

Não! Não! rabujou Josh, aos pontapés aos cobertores.

 

O Dr. Ulrich deu mais um passo.

 

Vamos, Paul. Porque não vai andando para a cafetaria e pede um café? Eu vou ter consigo daqui a uns minutos e informo-o acerca do exame.

 

Não há razão nenhuma para ter medo de mim!

 

Paul, santo Deus, por favor suplicou Hannah.

 

Muito bem. Que diabo de regresso ao lar!

 

Tom McCoy observou do corredor Paul Kirkwood entrar e sair como um furacão do quarto de hospital do filho. A sua formação impunha-lhe que interviesse e suavizasse as coisas entre membros da família. A sua formação já não se aplicava ali. Não entre Hannah e Paul.

 

Tentara. Paul levara a mal as suas tentativas, considerara-as mais uma interferência do que uma ajuda. Os sentimentos de Tom para com Paul haviam-se tornado algo menos do que cristãos. Era-lhe difícil encontrar dentro de si compreensão para um homem que casara com uma jóia e a tratava como se fosse lixo. Paul Kirkwood possuía tanto e era tão cego relativamente ao que possuía dois lindos filhos, um lar acolhedor, uma carreira estável. Hannah.

 

Era aí que residia o nó do problema. Hannah.

 

Grato às sombras do corredor, Tom encostou-se à parede, o olhar perdido nas alturas, no céu. Não podia vê-lo, evidentemente. Havia obstáculos a mais pelo caminho física e metaforicamente.

 

Hannah virara-se para ele, a única pessoa em que pensava poder confiar absolutamente o seu padre. E o seu padre cometera um pecado primordial. De forma alguma admitia que o que acontecera estava errado. Não quebrara quaisquer votos. Guardara silêncio. Fechado a cadeado no seu coração estava o facto de se ter apaixonado por Hannah Garrison.

 

Bem me seria útil uma ajuda neste caso, Senhor murmurou. Mas ao olhar para cima, tudo o que viu foi uma mancha castanha desbotada no tecto, no sítio onde um cano de água em tempos provocara uma infiltração.

 

Com um suspiro cansado percorreu o corredor até ao quarto de Josh e entreabriu uns centímetros a porta. Um candeeiro do lado mais afastado da cama banhava o quarto de uma pálida cor de topázio. Josh, deitado de lado, encolhido, com o polegar na boca, dormia. Hannah estava estendida a seu lado, com o pequeno corpo do filho de costas e aninhado contra ela, rodeando-o com o braço. Parecia um anjo descido à terra, anéis de cabelo louro desalinhados beijavam-lhe a face.

 

O quadro provocou-lhe uma dor agridoce. Começava a afastar-se quando Hannah abriu os olhos e o fixou. E sentiu-se incapaz de andar ou de impedir as batidas do seu coração.

 

Só quis ver como estavam ambos, antes de me ir embora sussurrou, deslizando para dentro do quarto. O Josh parece muito calmo.

 

Um milagre dos modernos sedativos murmurou Hannah, soerguendo-se apoiada no cotovelo.

 

Como está a Hannah?

 

Tenho o Josh de volta. É tudo o que me interessa.

 

O Paul não ficou aqui...

 

Com cuidado para não incomodar Josh, Hannah sentou-se e dobrou as pernas por baixo do corpo.

 

O Josh não quis. Agiu como se tivesse medo.

 

As palavras tinham o sabor amargo da blasfémia, como se de certa forma traísse Paul ao pronunciá-las, embora exprimissem a pura verdade.

 

Meu Deus, odeio o Garrett Wright pelo que nos fez proferiu. Foi mais do que levar o nosso filho. Quaisquer que fossem os problemas que o Paul e eu tínhamos antes disso, pelo menos acreditávamos um no outro. Quando o Josh reagiu contra ele esta noite, eu olhei para o Paul como se nunca o tivesse visto antes, como se de facto acreditasse que ele podia ter... Não acredito... sussurrou, embora as dúvidas lhe atravessassem o espírito. As mentiras acerca da carrinha, as vezes em que desapareceu, o seu atendedor de chamadas no escritório a responder quando ele devia estar lá...

 

O padre Tom sentou-se na beira da cama, inclinando-se para lhe pegar na mão. Ela abandonou-lha e apertou a dele mais fortemente do que quereria, desejando de todo o coração que ele a enlaçasse, mesmo que por pouco tempo. A sua alma ansiava por conforto e amizade. Coisas que Tom McCoy ofereceria de bom grado sem qualquer contrapartida. Nunca ele suspeitaria de que os seus sentimentos se tinham tornado mais profundos, já que ela nunca lho diria. Não se arriscaria a perder o que tinham, pedindo-lhe mais do que ele podia dar-lhe.

 

Não acrescente mais culpas ao seu fardo, Hannah aconselhou-o ele, docemente.

 

Hannah ergueu a cabeça e olhou-o; o pulso acelerara-se-lhe perante a ideia absurda de que, de um modo qualquer, ele lera os seus pensamentos.

 

Não pode controlar-se uma reacção destas. Quem sabe a razão por que o Josh reagiu tão mal ao pai? Está assustado e confuso. Não sabemos pelo que passou. Não sabemos o que o Wright lhe terá inculcado na mente. O Josh reagiu e você, por seu turno, reagiu a isso. Tem todo o direito, é a mãe dele.

 

E o Paul é o pai. Não seria capaz de magoar o Josh mais do que me teria magoado a mim. O que fizera uma e outra vez; magoado de formas que não deixavam equimoses ou feridas óbvias. Ele não seria capaz de magoar o Josh.

 

Tenho a certeza que não.

 

Tom levantou a outra mão e limpou-lhe uma lágrima que lhe escorria pela face. Os dedos dele emaranharam-se na seda dourada do seu cabelo; Hannah virou a cabeça e encostou por um momento a face à mão de Tom. Susteve a respiração, como se assim pudesse captar esse momento.

 

Durma um pouco disse Tom baixinho, lutando contra o impulso de se inclinar e lhe depor um beijo na testa ou nos lábios. A mão dela continuava na sua. Apertou-a. Hannah correspondeu. Amanhã conversamos.

 

Obrigada por ter vindo hoje. O senhor deu-me o máximo que podia, em tudo isto.

 

Não. Você merece muito mais do que recebeu. E desejou ardentemente poder ser ele a dar-lhe tudo isso, mas não podia... ou dizia a si próprio que não podia. Abatido, virou-se e afastou-se.

 

E Hannah deitou-se para trás junto do filho, atenta ao ritmo da respiração dele e ansiando por coisas que nunca iriam acontecer.

 

 

Não houve maneira de esconder a notícia de que Josh Kirkwood regressara a casa. O pessoal do hospital contou aos amigos, que contaram a outros amigos que trabalhavam à noite e frequentavam o Big Steer, a paragem de camiões, na interestadual, para tomar um café e comer um bolo. O Big Steer servia de restaurante ao Motel Super 8, do qual quatro ou cinco quartos eram ocupados por jornalistas.

 

Estes estavam à coca, como uma alcateia de lobos, quando Ellen entrou no edifício do City Center às cinco para as sete. Ela prometeu dar-lhes alguma informação mais tarde e apressou-se a penetrar no prédio.

 

Encontraram-se numa sala de conferências que fora denominada «sala de guerra» nas primeiras horas da investigação do rapto de Josh. Preso a uma parede, um plano em que ia sendo anotado tudo o que acontecera relacionado com o caso. De uma via principal larga, a vermelho, saíam muitas outras, de várias cores. As notas sarcásticas deixadas pelo raptor, escarnecendo deles, destacavam-se numa folha branca de melamina, na letra carregada e inclinada de Mitch Holt. Um grande quadro de cortiça estava coberto com um mapa do Minnesota e outro da área dos cinco distritos, ambos cheios de alfinetes de cabeça colorida a marcar zonas de pesquisa.

 

Ellen tirou da máquina uma chávena de café e sentou-se à mesa perto de Cameron. Wilhelm sentou-se à sua frente, debatendo-se com uma ressaca de insónia idêntica à que ela combatia. O xerife Steiger exigira a cadeira do topo da mesa, um jogo de poder infantil numa progressiva e mesquinha contestação em relação a Mitch. Steiger tinha cinquenta anos, era magro e vigoroso, com cara estreita e uma compleição de couro velho. Um adesivo no nariz sugeria que perdera a última batalha da luta pela supremacia. Os olhares trocados entre ambos eram gelados.

 

Por muito que lhe desagradasse Steiger por ser o idiota machista que era, não deu a Ellen prazer algum a inimizade visível entre os dois homens. O sucesso de uma investigação, uma investigação que conduziria a uma condenação, exigia trabalho de equipa e linhas de comunicação francas entre todos os membros dessa equipa.

 

Mitch deambulava de um lado para o outro, enquanto os punha a par do resultado do exame a Josh e do que mais tarde ocorrera no quarto do rapaz.

 

Então o Paul Kirkwood continua a ser considerado suspeito declarou Wilhelm.

 

Suspeito é uma palavra demasiado forte retorquiu Mitch. A reacção do Josh pode ter sido causada por inúmeras razões, sem ser por culpa do Paul. Pode dever-se ao facto de o Paul se assemelhar fisicamente ao Wright. Ou talvez tenha sido pelo modo como o Paul se aproximou dele ou por qualquer coisa no seu tom de voz.

 

Temos de ir com muito cuidado. Ellen mostrava-se prudente. Mister Kirkwood já está hipersensível à atenção que desperta. Sente-se vítima do crime e da Polícia. Se conduzirmos isto mal e ele estiver completamente inocente, iremos defrontar-nos com procedimentos legais.

 

Vou estar com ele esta manhã disse Mitch. Serei a diplomacia personificada.

 

Sempre quero ver isso comentou Wilhelm.

 

Algum progresso quanto ao sítio onde o Wright agarrou a Megan? perguntou Ellen.

 

Sabemos que não foi na casa dele respondeu Wilhelm, tentando sem sucesso abafar um bocejo. Sabemos que não foi em casa do Christopher Priest, apesar de o ataque inicial ter ocorrido no pátio do Priest. O Wright levou-a de carro para um lugar qualquer.

 

Estamos a pesquisar num raio de oitenta quilómetros interrompeu Steiger. A tentar descobrir se o Wright é dono de qualquer outra propriedade na área.

 

Pode ter alguma noutro nome ou no nome de uma firma-fantasma sugeriu Cameron, desanimado. Ou pode a casa pertencer ao seu cúmplice, seja lá ele quem for.

 

Bem, agora sabemos que não pode ter sido o Olie Swain disse Mitch. E a Karen Wright estava fechada a sete chaves no Fontaine, a noite passada. Wilhelm ergueu o sobrolho.

 

Mas o Paul Kirkwood estava à solta, às voltas pela cidade de carro a meio da noite.

 

Talvez devamos procurar ligações entre o Kirkwood e o Wright. Dito isto, Cameron destapou uma caneta e tomou apontamentos no seu bloco-notas.

 

A sugestão não pareceu animar Mitch.

 

Que motivo poderia levar o Paul a conspirar com o Garrett Wright para raptar o seu próprio filho? É francamente estranho.

 

O mundo está cheio de tipos transviados e perversos, Holt retorquiu Steiger, a mascar um palito. Você devia saber isso.

 

A tensão na sala tornou-se pesada, como o ar que precede um trovão.

 

E quanto àquele aluno do Wright? lançou Ellen prontamente, repondo a discussão nos eixos. O Tood Childs?

 

Estamos a investigá-lo resmungou Steiger.

 

E o Priest? A ele também. O Priest passou num polígrafo recordou-lhe Mitch. Ele esteve em St. Paul no sábado. Confirmámos que passou a noite num motel por causa da tempestade. Dá a impressão de que o Wright mandou a Megan a casa do Priest sabendo que o professor não estaria lá. A localização isolada fazia dela o local perfeito para um ataque. E quanto ao terceiro professor envolvido com os SciFi Cowboys? quis Cameron saber. Phil Pickard esclareceu Mitch. Está a passar um ano de licença sabática em França. O Wright afirma que estava a trabalhar no Edifício Cray, na Harris, à hora a que o Josh foi raptado disse Ellen. Se conseguirmos encontrar alguém que o tenha visto sair do prédio antes de o Josh ser levado... O problema é que dificilmente alguém andaria na rua, por causa do mau tempo replicou Mitch. E há a| possibilidade de ter sido o cúmplice a apanhar o Josh. O Wright pode muito bem ter estado onde diz que esteve.

 

Agente Wilhelm, presumo que pôs alguém a averiH guar o passado do Wright? indagou Ellen.

 

O agente acenou afirmativamente e esfregou os olhos como uma criança ensonada.

 

E podemos ter a esperança de conhecer as provas dos peritos logo que eles encontrem alguma coisa no material que confiscaram em casa do Wright?

 

Sim.

 

Ellen olhou para o relógio e levantou-se, lutando também ela contra um bocejo.

 

Quero ser a primeira a saber.

 

E quanto ao Stovich? Steiger mostrava-se carrancudo perante a ideia de ter de prestar contas a uma simples mulher ou a alguém de segunda categoria, ou a ambos.

 

Ellen olhou-a nos olhos.

 

Este caso é meu, xerife. Trate comigo disse, fechando a sua pasta. Obrigada, meus senhores. Por aqui, é tudo. O que ouvimos chega para nos dar muito que fazer.

 

O bando transformara-se em magote. Ellen obrigou-os a segui-la todo o caminho até ao tribunal e só lhes deu algo nos degraus da frente, com a grande fachada da justiça assomando atrás de si.

 

Estamos radiantes com o regresso do Josh. Era por este desfecho que toda a gente rezava.

 

Em que é que isso afectará a acusação contra o Garrett Wright?

 

Não afectará em nada. As provas contra o doutor Wright são mais do que suficientes. Tudo o que isto nos demonstra é que ele não agiu sozinho, uma suspeita que sempre tivemos.

 

O Josh disse alguma coisa?

 

Identificou o Wright? Ellen esboçou um sorriso.

 

Estamos muito confiantes em relação a este caso. Voltou-se e afastou-se deles, com Cameron a seu lado.

 

Atravessaram a porta principal e começaram a subir as escadas para o segundo andar. Os jornalistas não hesitaram em segui-los, irrompendo pelo prédio como um tornado humano feito de ruído e movimento. Ellen não pôde deixar de pensar no que Brooks lhe dissera quanto à falta de segurança: «O caso que têm entre mãos é explosivo. Tudo pode acontecer...» Anotou mentalmente a necessidade de falar com Rudy sobre isso. Não fazia sentido correr riscos desnecessários.

 

Manteve-se imperturbável enquanto as perguntas dos jornalistas enchiam o cavernoso átrio e ecoavam no tecto alto, abafando o ruído das obras no terceiro andar. Deixou que tirassem do seu silêncio gelado as suas próprias conclusões, levando-os a pensar que tinha o caso no papo, à medida que as mesmas perguntas lhe eram lançadas como um par de dados. Iria Josh identificar Wright através de uma foto? Levá-lo-iam a falar sobre o que acontecera? Ou fora tão traumatizado que iria guardar para sempre o segredo dentro de si?

 

A senhora é dura, Miss North comentou Cameron com um sorriso quando entravam no refúgio do gabinete exterior.

 

Ellen olhou-o de esguelha.

 

Nunca os deixe perceber que está a suar, Mister Reed.

 

Respirou de alívio. Aquele era o seu torreão, a sua segunda casa, uma coutada de secretárias de madeira manchada e velhos armários de arquivo que cheiravam a óleo. Retratos de antigos delegados distritais pendiam das paredes beges desbotadas que aguardavam reparação. Quadros ostentavam notas e ordens de instâncias superiores e caricaturas relacionadas com o tribunal. Ouviam-se telefones a tocar incessantemente, ignorados pelos que chegavam ao trabalho e cuja ocupação imediata era despir a roupa que traziam da rua. Alguém encetara a primeira cafeteira de café Phoebe, a avaliar pelo aroma exótico que exalava.

 

A secretária que servia de assistente a Ellen fugia à vulgaridade em muitos aspectos, tendência óbvia pela sua escolha da roupa. A aparência habitual de Phoebe, no escritório, baseava-se em vestidos rústicos de algodão com sapatos Doc Marten e óculos com aros. Phoebe arranjava maneira de semelhante aspecto resultar. Rudy franzira-lhe o sobrolho mais do que uma vez, mas o seu trabalho era exemplar, e Ellen a sua mais firme advogada de defesa.

 

O que há esta manhã? perguntou esta, tirando a sua caneca da prateleira por baixo da cafeteira.

 

Praliné de canela respondeu Phoebe, com a voz abafada pelo grosso poncho de lã que estava a despir. Emergiu finalmente, com o comprido cabelo anelado numa negra nuvem desgrenhada. Uma criatura minúscula, sem peito, vestira-se nesse dia em camadas diáfanas uma túnica cor de beringela sobre uma saia cor de pó sobre um par de meias pretas e botas do exército. Atirou o poncho para cima da cadeira; os olhos castanhos, fixos em Ellen, brilhavam-lhe de excitação. É verdade? O Josh está de volta?

 

Apareceu em casa por volta da meia-noite.

 

Que maravilha! Encheram-se-lhe os olhos de lágrimas de alegria. Não demonstrou toda a sua emoção; mas só o peso das botas lhe mantinha os pés pregados ao chão. Ele está bem?

 

Ellen pesou as palavras, enquanto aquecia as mãos na caneca de café e deixava que o aroma de canela lhe entrasse pelas narinas.

 

«Bem» talvez seja dizer muito, mas parece em boa forma física.

 

Pobre criança. Phoebe desencantou um pedaço de tecido algures entre as suas camadas de roupa e passou-o por baixo do nariz encarniçado. Imagino quanto devia estar aterrorizado.

 

Podia ter sido pior disse Ellen.

 

Podia ter sido inenarrável. Outros casos de outros lugares atravessavam-lhe o espírito ao entrar no seu gabinete. Histórias horríveis de corpos encontrados aos pedaços arremessados para valas de esgoto ou abandonados nas matas com lixo para saciar a fome aos necrófagos. Tinham imensa sorte em ter Josh de volta, quer ele falasse ou não! Nem mesmo o sentimento inseguro de que tudo fazia parte do serpeante jogo de Wright conseguia refrear a sensação de alívio de Ellen.

 

Tentou ligar o interruptor do gabinete com o cotovelo, falhou e avançou. Pousando a pasta no chão junto à secretária, bebeu um gole de café e estendeu o braço para colocar a caneca na base de cortiça ao pé do mata-borrão. Em vez disso, a caneca embateu numa autêntica pilha de relatórios. Surpreendida, recuou.

 

Era fanática com a sua secretária. No seu primeiro ano em Deer Lake, Phoebe dera-lhe no Natal uma placa com os seguintes dizeres: Quem mexer nos objectos desta secretária será punido até onde a lei o permitir. A placa estava no seu lugar habitual, à frente do mata-borrão. As pilhas de papéis e fichas bem arrumadas, mas não exactamente onde as deixara. Todas as canetas se encontravam no seu recipiente de cabedal, mas o recipiente seis polegadas afastado do seu lugar.

 

Devia haver alguém novo no pessoal da limpeza, raciocinou enquanto deslocava os relatórios e descobria a base de cortiça. Mas quando despia o casaco para o pendurar no cabide do canto, aquela pronúncia arrastada sussurrou-lhe em espírito: «Os raciocínios podem ser coisas muito perigosas. O seu patrão precisa de ter uma conversa com alguém sobre segurança...

 

Um arrepio percorreu-lhe a nuca, qual dedo de aço.

 

As coisas tomaram um rumo muito interessante, não tomaram, Miss North?

 

Ellen rodou sobre si própria. Ele estava parado mesmo à entrada da porta, do lado de dentro. A luz que se filtrava pela janela era cinzenta e entrecortada. Banhava-o, brincando com o seu rosto anguloso. Não se dera ao trabalho de se barbear, parecia na verdade necessitado de ir para a cama.

 

Como entrou aqui?

 

Um sorriso astucioso arqueou o canto de uma boca que teria sido considerada perfeita numa prostituta cara e que nele era demasiado sensual.

 

A porta estava aberta. Ellen tomou a ofensiva.

 

Vê isto? Fechou o punho e ergueu a mão. Aqui, é costume usá-lo para bater numa porta ou no caixilho da porta antes de entrar na casa ou no gabinete de alguém. Chamamos-lhe bater à porta.

 

Tentarei lembrar-me comentou Brooks, dando uns passos para longe dela.

 

Iniciou um lento circuito da pequena sala, inteirando-se dos pormenores os diplomas emoldurados, a planta bem cuidada na credência, o pequeno leitor de CDs e o monte de CDs arrumados na estante entre os livros de leis. Tudo ordenado e meticuloso, como a própria Ellen North. Nem um cabelo fora do seu lugar, literalmente. Usava-o impecavelmente penteado, apanhado atrás, e os dedos dele vibravam de desejo de o soltar.

 

Posso ser-lhe útil, Mister Brooks? A pergunta foi feita num tom repleto de sarcasmo.

 

Vim para marcar uma entrevista.

 

Para isso, tenho uma assistente. E antes de passar pela secretária dela, o senhor passou pelo nosso recepcionista, que também teria podido ocupar-se de si. Aliás, podia ter evitado uma deslocação. Temos telefones.

 

Hoje, sempre ocupados. Olhou-a pelo canto do olho, enquanto andava às voltas por trás da secretária dela.

 

Era óbvio que lhe desagradava a sua intrusão. Manteve-se de pé, com os braços cruzados sobre o bonito fato negro, os lábios apertados desenhando uma linha fina, os olhos cinzentos semicerrados. O homem via formar-se uma onda de raiva, todavia contida num exterior bonito e bem-educado.

 

Segundo sei, o rapaz apareceu ontem à noite.

 

O nome dele é Josh.

 

Reapareceu como por magia, disseram-me.

 

Disseram-lhe, quem?

 

Optou por não responder. Desviando o olhar de Ellen, reparou na taça de cristal no canto superior direito da secretária, cheia de pastilhas de chocolate envoltas em papéis de tons pastel. Tirou uma verde e, quando a metia na boca, voltou a encará-la.

 

O interrogatório para a caução é esta manhã? Ellen teve de obrigar-se a desviar os olhos da boca dele,

 

mas olhar para cima foi um erro, porque lá estavam os seus olhos penetrantes, sem pestanejar... divertidos. Pegando na pasta, passou por ele.

 

Sim, o interrogatório é esta manhã. Estou muito ocupada. Se quer marcar uma entrevista, pare e faça-o ao sair.

 

Jay ignorou a despedida. Abandonou o espaço atrás da secretária e voltou à estante, examinando atentamente os títulos da colecção de CDs. Música calma, ordeira: Mozart, Vivaldi. Artistas new wave: Philip Aaberg, William Ackerman. Música de fundo. Nada que pudesse distraí-la do seu trabalho. Nada que pudesse desvendar a mulher por detrás da fachada fria. A falta de indícios ainda mais o intrigou.

 

Pode tratar-me por Jay propôs.

 

Também posso chamar o segurança e pô-lo daqui para fora.

 

A ameaça não resultou.

 

Acha que ele obtém fiança?

 

Não, se eu tiver uma palavra a dizer.

 

Ellen sentou-se na sua cadeira e pôs uns óculos de ver ao perto, muito colegiais. Se o seu intuito era esconder ou diminuir a sua feminilidade, falhou redondamente. Os óculos acentuavam mais do que disfarçavam o seu aspecto. O homem imaginou-se a inclinar-se sobre a impecável secretária, a retirar-lhos da cara ou a beijá-la observando a sua surpresa enquanto eles se enevoavam.

 

Assaltava-o a mais premente urgência de lhe dar um abanão, mas refreá-la-ia. Pelo menos de momento. Já desafiava de mais a sorte, embora pudesse argumentar que isso constituía uma parte vital do processo. Queria saber mais a seu respeito; não era o género de mulher que desvenda o seu íntimo por dá cá aquela palha. Por outro lado, seria essencial para ele obter a sua colaboração se decidisse fazer daquele caso o seu próximo best-seller.

 

O caso possuía todos os ingredientes um criminoso fascinante, vítimas simpáticas, um cenário que prenderia os leitores; um crime, com complicações, factos estranhos, extras, as histórias paralelas que o colocavam acima do nível das histórias de noticiário. Sobretudo, chamara-lhe a atenção mais do que qualquer outra coisa há muito tempo. Ainda não sabia qual o caminho a seguir ou mesmo se o seguiria. Tudo o que de momento realmente sabia era que queria saber mais, que precisava de distração... e de que maneira.

 

Instalou-se na cadeira das visitas.

 

Se ele ficar dentro, isso encurta o seu tempo de preparação para o interrogatório de causa provável.

 

Não me interessa.

 

Pegando num pisa-papéis de vidro que estava em cima de uma resma de relatórios, apertou-o na mão como se fosse uma bola de basebol e ele se preparasse para deslizar e arremessá-la. O arremesso em deslize era o seu preferido. Era como se a bola fosse numa direcção quando afinal tomava uma outra.

 

Você podia propor uma fiança aceitável sugeriu. Arranje um tempinho para si.

 

As sobrancelhas de Ellen elevaram-se acima dos aros dos óculos.

 

E deixo à solta um raptor, um homem que atacou brutalmente uma agente de polícia? Deve estar maluco.

 

Ele alegadamente cometeu esses crimes. Onde foi parar a presunção de inocência?

 

É para os jurados e os idiotas. E se citar o que acabo de dizer, processo-o. Não estou disposta a deixar o Garrett Wright fora da cadeia.

 

O que vai ele fazer se sair? - espicaçou-a Jay. Raptar outro miúdo? Não me parece. É mais esperto do que isso... se é que é mesmo o vosso homem.

 

É o nosso homem.

 

Então, quem levou o Josh para casa?

 

Ellen reprimiu a sua réplica. Ele lançava-lhe o anzol e ela, ali sentada, mordia-o. Ali, no seu próprio gabinete. Aliás, o que diabo fazia ele ali? Espremia-a para obter informações como se fosse parte do caso, como se fosse, ele, o advogado de Wright. Dennis Enberg poderia ter estado sentado naquela cadeira apresentando idênticos argumentos. Passou os olhos pelas notas com mensagens para ver se nalguma delas havia o nome do advogado de Wright. Em nenhuma.

 

Além de dar conselhos não pedidos, tem alguma razão para me maçar, Mister Brooks?

 

O trejeito de pirata alegrou-lhe a boca.

 

Maço-a, Miss North? Porquê?

 

Pode ter a ver com o facto de o senhor ser uma pessoa extremamente maçadora.

 

Brooks espalmou a mão no peito:

 

Quem, eu? A revista Time diz que sou adorado por milhões.

 

Também o McDonald’s, mas não me encontra a comer lá. Sou uma mulher de gosto apurado.

 

O trejeito transformou-se num sorriso que nada tinha de forçado ou de feroz. Levantou-se da cadeira e inclinou-se sobre a secretária, apoiando as mãos no mata-borrão.

 

Já percebi isso, Miss North disse, numa voz de veludo negro. Uma mulher de estilo e bom gosto incomparáveis. Língua afiada. Espertíssima. Leva-me a pensar no que está a fazer num lugar destes, num trabalho de nada como este.

 

Ellen resistiu ao impulso de empunhar a sua faca de papel e apunhalá-lo com ela. Por muita satisfação que lhe desse, tinha de preparar-se para o tribunal e não lhe sobrava tempo para perder com ninharias. Fitou-o friamente enquanto se levantava devagar da cadeira para atenuar a dramática vantagem em altura dele.

 

Não tenho de justificar a minha vida perante si. Nem tenho de o aturar, Mister Brooks. Se está aqui porque quer fazer um livro baseado neste caso, não tenho a intenção de cooperar. Peço-lhe que saia. Sugiro-lhe que o faça, ou eu chamo a segurança, e não creio que isso opere maravilhas Para a sua imagem de personalidade bem-amada: fotografias de primeira página consigo a ser arrastado para fora deste gabinete.

 

Em vez da esperada explosão de mau génio, Brooks recuou e fixou-a com um olhar que sugeria orgulho em relação a ela. Apeteceu a Ellen atirar-lhe com qualquer coisa.

 

Fico à espera de a ver no tribunal, Miss North. Marco a entrevista ao sair.

 

Quando Brooks saiu, foi como se toda a energia existente na sala tivesse desaparecido com ele. Sentindo-se sem forças, Ellen voltou a sentar-se na sua cadeira.

 

Phoebe irrompeu no gabinete, com os olhos fora das órbitas, as faces em fogo. Fechou a porta e encostou-se a ela.

 

Oh, meu Deus! ofegou. Estou apaixonada]

 

Outra vez?

 

Embateu numa cadeira e sentou-se nela de esguelha.

 

Sabe quem esteve aqui agora mesmo?

 

O Jay Butler Brooks.

 

O Jay Butler Brooks! É um destes gatos! Foi número dezasseis na lista da revista People das vinte pessoas mais intrigantes do ano. Levantou-se num repente, sem fôlego, franzindo o sobrolho como se o óbvio lhe ocorresse com atraso. O que fazia ele aqui? Chateava-me resmungou Ellen, remexendo na pásta os formulários de queixa contra Wright.!

 

Nem sequer vou tentar transformar isto numa referência sexual. Basta dizer que eu sentava-me muito quieta e deixava-o chatear-me o dia inteiro desde que pudesse limitar-me a olhar para ele. Phoebe, você surpreende-me queixou-se Ellen, examinando cuidadosamente as páginas do documento. Você, uma mulher inteligente, bem-falante, educada, a arfar i dessa maneira por causa de um homem que... é um gatão. Inteligência e hormonas não se excluem mutuamente, Ellen. Devia lembrar-se disso. O que quer dizer? | Phoebe absteve-se de qualquer comentário e marchou para a porta nas suas ruidosas botas. Ele marcou uma entrevista consigo, mais tarde. Está interessado no caso? Vai escrever um livro? Não sei e não quero saber respondeu Ellen, obstinada. Cancele a entrevista. Tenho a certeza de que terei qualquer coisa mais importante para fazer a essa hora. Não me parece que queira cancelar retorquiu a secretária.

 

E porquê?

 

Ele vai trazer consigo o delegado-geral do estado.

 

Não há dúvida de que nenhuma audiência de fiança na história de Park County, Minnesota, atraíra jamais tanta atenção. A sala de tribunal estava cheia, os observadores apinhavam-se nas bancadas como sardinhas em lata. Jay, atrás da multidão, controlara a sua hora de entrada de modo a que as atenções não se virassem para si. Com um boné de basebol enterrado na cabeça, infiltrou-se e tomou lugar na coxia. Os jornalistas saltaram-lhe por cima dos pés, esticando os pescoços para melhor olhar Garrett Wright quando este entrou com o seu advogado. Vinham acompanhados por um delegado e pelo próprio xerife de Park County, Russ Steiger.

 

Outro político à procura da oportunidade de uma foto. Nenhum xerife teria descido a escoltar um preso a menos que esperasse ganhar algo com a visibilidade do caso. Wright nem sequer era um problema de Steiger. Segundo o Minneapolis Star Tribune, o problema de Steiger dava pelo nome de Paige Price e não se importara de usar um pequeno truque para ver a sua história no noticiário da TV7.

 

Ellen North e o assistente Reed já tinham tomado lugar no banco da acusação. Ela não ergueu o olhar quando Wright entrou na sala, demonstrando não se dar ao trabalho de lhe dispensar a mínima consideração. Manteve-se concentrada nos papéis que revia à toa, só levantando deles os olhos quando o juiz chegou.

 

Todos na sala se puseram de pé quando o juiz Victor Franken ocupou o seu lugar. Franken era pequeno, calvo e deformado, com uma doentia pele amarelada. Parecia um boneco articulado de cem anos, metido na sua comprida toga preta, como moda de A Guerra das Estrelas. Bateu uma e outra vez com o martelo na mesa, parecendo secretamente agradado com o salto que, por reflexo, as pessoas davam ao ouvir as marteladas.

 

O Estado contra o doutor Garrett Wright pronunciou, com a voz enferrujada pela idade. Quem tenho aqui? Olhou de soslaio a defesa, como se não acabasse de passar meia hora no seu gabinete com os advogados envolvidos, e resmungou: Dennis Enberg. Virou a cara enrugada para a acusação. Ellen North. Quem é esse que está consigo? vociferou retirando as lunetas da mirrada protuberância vermelha que era o nariz e esfregando-as depois na toga.

 

Assistente do delegado distrital, Cameron Reed, Meritíssimo apresentou-se Reed em voz alta, soerguendo-se na cadeira.

 

Franken fez sinal ao assistente de Ellen para que se sentasse.

 

Vamos a isto, Miss North.

 

Wright e o seu advogado foram oficialmente informados da queixa. Jay sorriu para com os seus botões. Boa jogada, Miss North. Apresentar naquele momento a queixa significava que ela ficaria registada. A oficial de justiça do tribunal, uma matrona do género das que têm uma ninhada de filhos, leu as acusações: rapto, ignorância dos direitos parentais, rapto de um agente de polícia causando-lhe grandes danos físicos, tentativa de homicídio, assalto, assalto, assalto relatos e variantes de assalto suficientes para parecer que Wright atacara meia cidade.

 

Enquanto fazia o possível por manter a voz neutra, a oficial de justiça dava a impressão de se esforçar para não se lhe apertar a garganta nem fulminar com os olhos o acusado, ao ler a parte em que era referido o lençol manchado de sangue em que Megan O’Malley fora enrolada manchas de sangue que coincidiam com o tipo de sangue de Josh.

 

A primeira intervenção foi da acusação. Os elementos dos media absorveram-na todas as alegações sobrepondo-se umas às outras, o relato de Mitch Holt dos acontecimentos ocorridos no sábado à noite até, e inclusive, à perseguição e prisão de Wright.

 

A defesa não foi autorizada a refutar. Dennis Enberg sentou-se esfregando a manga do seu casaco de lã, com o ar de quem se bate numa batalha perdida e difícil de digerir.

 

Quando a oficial terminou a leitura, Franken fitou o acusado com um olhar penetrante.

 

Doutor Wright, compreende as acusações de que é alvo?

 

Sim respondeu Wright suavemente.

 

Não fale em surdina.

 

Sim, Meritíssimo.

 

Quero que saiba que, aos olhos do tribunal, é inocente até o Estado provar que é culpado sem qualquer dúvida razoável. O olhar parecia sugerir outra coisa, mas talvez fossem cataratas ou prisão de ventre a causa da expressão contraída do juiz. Terá a oportunidade de se declarar culpado ou não culpado. Terá direito a um julgamento. Se houver julgamento, terá o direito de ouvir as provas do Estado, de interrogar as testemunhas do Estado e de apresentar as suas próprias testemunhas. Pode testemunhar a seu favor ou manter-se silencioso. Já tem um advogado, portanto não precisamos de falar sobre isso. Percebeu tudo? gritou Franken.

 

Sim, Meritíssimo.

 

Ellen levantou-se. Jay inclinou-se para a direita para melhor olhar pela coxia. Mesmo através das grades da barra que mantinha os espectadores na sua secção, pôde ver de relance um bonito pedaço de perna. Ela nunca olhou para a galeria, dando a impressão de que eles nada significavam para si. O seu único interesse residia no seu trabalho: assentar o peso da justiça em pleno sobre a cabeça de Garrett Wright.

 

Com base na queixa e nas declarações dos funcionários envolvidos, Meritíssimo, o Estado requer que o acusado seja detido e marcada uma data para o interrogatório preliminar.

 

O objectivo do interrogatório preliminar, doutor Wright explicou Franken, é ouvir todos os pontos que possam ser debatidos antes do julgamento... apresentação de provas, moções prévias, e determinar se há ou não causa provável para o levar a julgamento.

 

Franken inspirou fundo, ofegante, para reabastecer os seus debilitados pulmões e desatou a tossir, quase desaparecendo atrás da mesa, curvado.

 

Na sala, todos sustiveram a respiração, à espera de ver voar a sua peruca branca de neve quando ele se estatelasse no chão. O meirinho contornou a mesa maciça. Franken endireitou-se de imediato, qual sempre-em-pé, e acenou com impaciência à oficial de justiça.

 

Interrogatório preliminar na terça-feira, um de Fevereiro? sugeriu ela.

 

Vejamos a questão da caução.

 

Excelência, dada a gravidade das acusações disse Ellen, o Estado requer uma caução no valor de um milhão de dólares.

 

Um sussurro perpassou pela assistência. Canetas riscavam papéis freneticamente. O murmúrio de vozes a ditar para minigravadores assemelhava-se ao zumbido de um motor ao ralenti. Franken bateu com o martelo.

 

Enberg saltou da cadeira.

 

Meritíssimo, isto é ultrajante! O meu cliente é professor numa das melhores universidades privadas do país. Trabalha com delinquentes juvenis. É um membro respeitado desta comunidade...

 

Que acontece estar acusado de crimes hediondos cortou Franken.

 

Há laços criados entre ele e a comunidade e as acusações são ridículas...

 

E foi apanhado depois de uma longa perseguição. Deixe isso para o interrogatório, Dennis ordenou Franken. Ele é um risco iminente. Fixo a caução em quinhentos mil dólares, a pronto. Interrogatório preliminar a... a... Apontou um dedo encurvado à oficial. Quando a Renée disse.

 

Terça-feira, um de Fevereiro.

 

O acusado será encarcerado, fotografado e ser-lhe-ão tiradas as impressões digitais ordenou Franken. E será submetido a um exame físico para ver se há arranhões, equimoses, etc., sendo-lhe também retiradas amostras de sangue e cabelo para análise e comparação com provas.

 

Bateu de novo com o martelo na mesa, a assinalar o fim dos trabalhos. Os jornalistas saltaram e entrechocaram-se na ânsia de alcançar a porta ou os advogados e Paul Kirkwood, o qual se posicionara mesmo atrás dos acusadores. Jay abandonou o seu lugar e colocou-se na cauda do magote.

 

Ele deveria apodrecer na prisão declarou Kirkwood. Depois daquilo por que fez passar o meu filho. E nos fez passar a todos.

 

Se o Garrett Wright é culpado, então quem devolveu o Josh? O seu filho identificou o Garrett Wright como seu raptor?

 

Há alguma verdade no boato de que a Polícia ainda vê em si um suspeito?

 

Kirkwood corou. Brilharam-lhe os olhos de ira.

 

Eu não tive nada a ver com o desaparecimento do meu filho. Sou cem por cento inocente. Qualquer acusação do contrário não passa de outro exemplo da incompetência do departamento de polícia de Deer Lake.

 

Vamos acabar com isto, amigos! pediu o meirinho. Temos trabalho a fazer neste tribunal!

 

O circo passou para o átrio, e Jay sentou-se, de cabeça baixa, enquanto tomava notas e evitava ser reconhecido. Por muito que gostasse da sua fama e da sua fortuna, o anonimato tinha as suas vantagens. Especialmente agora.

 

O caso trouxera-o ali. Queria ser capaz de absorvê-lo todo sem a interferência que a descoberta ocasionaria. Infelizmente, não iria obter o género de acesso que desejava sem usar o seu nome como um «abre-te Sésamo».

 

Lançou um último olhar a Ellen North, sentada em conferência com o seu assistente na mesa da acusação. Especulou sobre o que poderia obter dali, além de uma língua afiada e um ombro inóspito. Uma objecção, alguma introspecção, um pontapé no ego.

 

Sabia o que queria. E diabos o levassem se ela não ia dar-lho sem luta.

 

 

 

Os malditos advogados atacam outra vez.

 

Não posso crer que aquela cabra pedisse uma caução de um milhão de dólares. Um milhão de dólares! Gaita!

 

Miss North estava apenas a executar o seu trabalho disse Christopher Priest. De pé na sala de aulas, um homem pequeno com óculos grandes e mau gosto para se vestir. Às vezes os alunos metiam-se com ele por perpetuar a imagem estereotipada dos génios da informática, mas os comentários e sugestões deles caíam em saco roto. Havia certas vantagens na imagem. Suposições infundadas podiam ser uma coisa útil.

 

O seu trabalho... arremedou Tyrrell Mann. Até a sua postura era desrespeitosa. Esparramado na cadeira com os compridos braços cruzados sobre o seu blusão dos Chicago Bulis. O raio do trabalho dela é acusar seja quem for. Os estupores dos polícias deviam ter vontade de culpar um negro, mas não há quase nenhuns nesta lixada cidade de segunda.

 

Isso não é lógico, Tyrrell contestou Priest, nada afectado pela bravata ou pela linguagem. Ajudara a fundar os Sci-Fi Cowboys. Embora tivesse havido encorajamento para expandir o programa, mantiveram-se num nível controlável dez jovens de escolas oficiais da cidade de Minneapolis, adolescentes cujas escaramuças com a lei percorriam a escala desde ataques em bando até ao roubo de automóveis. O objectivo do programa era trazer à superfície as qualidades positivas de inteligência dos rapazes, interessá-los em ciências e mecânica através de projectos inovadores com computadores e robótica. Os rapazes tinham requerido a reunião de emergência uma dor de cabeça logística que exigira uma dúzia de telefonemas para escolas, para obter autorização de saída dos alunos a meio do dia, e para vigilantes de liberdade condicional para encontrar alguém disposto a conduzi-los até Deer Lake. Pelo menos, a camioneta simplificara um pouco as coisas. Fundos e contribuições haviam ajudado a pagar uma Ford usada, quatro anos antes.

 

Pensa prosseguiu Priest. Se as autoridades quisessem arranjar um bode expiatório, escolheriam um homem como o doutor Wright?

 

Raios, não, mas aquele desgraçado que eles apanharam no ringue de patinagem despachou-se sozinho...

 

  1. R. Enderson inclinou-se para a frente na cadeira. O seu cadastro incluía acusações de roubos de contas bancárias feitos electronicamente.

 

Professor, está a querer dizer que é lógico acreditar que o doutor Wright fez aquilo?

 

Do resto do grupo partiu uma explosão de gritaria. Priest esperou que a fúria acalmasse.

 

Claro que não. Estou a pedir-vos que olhem o sistema sem deixar que as emoções interfiram na vossa percepção. A Polícia prendeu uma pessoa que acreditam estar envolvida no crime. Levantou um dedo para impedir os protestos automáticos. Todos vocês estão conscientes de que o próximo passo do processo pertence ao gabinete do delegado distrital. É tarefa de Miss North.

 

Filha da mãe!

 

Tyrrell...

 

Tyrrell descruzou os braços e abriu-os.

 

Um milhão.

 

Uma lição de como negociar. Pede-se sempre mais do que se pensa poder obter. O juiz cortou o valor ao meio.

 

Quinhentos é imenso. Onde é que vamos arranjar essa massa?

 

Tenho a certeza de que o doutor Wright apreciará as vossas intenções disse Priest. Mas ninguém espera que vocês, rapazes, consigam esse dinheiro.

 

Eu podia arranjá-lo ofereceu-se J. R. com um sorriso retorcido, estalando intencionalmente os nós dos dedos.

 

O professor ignorou a inferência. O crime nunca era compensado no grupo de forma alguma, nem sequer como brincadeira.

 

Se querem demonstrar o vosso apoio, há coisas que podem fazer. Têm miolos. Usem-nos.

 

O nosso nome sugeriu J. R., de olhos fixos no professor. Somos um chamariz para os media.

 

Muito bem, J. R.

 

Podíamos abrir um fundo de defesa para o doutor.

 

E os jornalistas ouviriam falar nisso e tratariam de divulgar a notícia...

 

E o dinheiro começava a rolar.

 

Uma batida na porta desviou a atenção de Priest da conversa.

 

Professor? Ellen North entreabriu a porta. Desculpe incomodá-lo. Disseram-me que não dava aulas a esta hora.

 

Não dou. Saiu para o corredor e fechou a porta nas costas. Os Cowboys pediram uma reunião de emergência. Ficaram compreensivelmente preocupados com a prisão do Wright, depois ouviram as notícias desta manhã relativas à audiência para a caução...

 

Encolheu levemente os ombros, o que levou a sua enrugada camisola de lã a subir-lhe até ao diafragma. Como compreenderá, eles não acreditam no sistema.

 

Ellen absteve-se de comentar. Na sua perspectiva, o sistema não era o problema com os delinquentes juvenis, mas não viera à Universidade Harris para discussões filosóficas.

 

Queria encontrar-se e falar com os amigos e colegas de Wright, cara a cara, para ver se descortinava neles qualquer sinal de dúvida ou de mal-estar. Parecia impossível que Wright fosse tão manhoso sem que disso se apercebessem pessoas tão próximas de si. Mas não era o que toda a gente em Deer Lake queria pensar? Que um monstro tinha de parecer um monstro e andar como um monstro e falar como um monstro, para que pudessem ver o monstro aproximar-se? Se o diabo andasse bem vestido e fosse bonito, então o diabo podia ser qualquer pessoa em qualquer sítio.

 

Gostava de lhe fazer meia dúzia de perguntas acerca da noite em que o Josh Kirkwood desapareceu disse. Não leva muito tempo, mas se preferir que eu volte... Ouvi dizer que regressou ileso. Priest levantou uma mão ossuda para coçar o queixo. Uma reviravolta fascinante dos acontecimentos. Obviamente e em primeiro lugar, não foi o doutor Wright quem devolveu o Josh, e eu não acredito que ele o tenha raptado.

 

Nós achamos o contrário, professor.

 

Ele inclinou um pouco a cabeça e olhou-a como se fosse um andróide tentando desvendar os ilógicos meandros da mente humana.

 

Acham mesmo, ou estão a seguir o caminho mais fácil?

 

Acredita que acusar um membro respeitado da comunidade é o caminho mais fácil?

 

Contudo é ele o pássaro na mão, por assim dizer.

 

Só porque ainda há um outro a voar, isso não significa que este não seja culpado ripostou Ellen. Priest olhou-a rapidamente, franzindo o sobrolho. Como provavelmente o franzia a alunos que não compreendiam a mais recente linguagem de computador.

 

Preciso de clarificar uns pontos sobre essa noite. O senhor disse à Polícia que esteve aqui, a trabalhar.

 

No centro de computadores, sim. O Garrett e eu temos um grupo de alunos a trabalhar em conjunto num projecto que envolve aprendizagem e percepção. Um desses estudantes esteve cá comigo.

 

O Mike Chamberlain. Que o senhor mandou sair para um recado por volta das cinco horas... Recado esse que ele não chegou a fazer porque esteve envolvido num acidente de automóvel.

 

Exactamente.

 

O acidente que manteve a Hannah Garrison no hospital à hora a que devia ter ido buscar o Josh ao ringue de patinagem.

 

Priest, de olhar perdido no vazio, confirmou, em voz baixa:

 

Sim. Se eu não tivesse mandado sair o Mike naquele preciso momento, talvez nada disto tivesse acontecido. Pode imaginar como o facto me faz sentir. Penso na Hannah. Foi um tal alívio saber que já tinha o Josh de volta... e ileso.

 

O professor corou ao falar de Hannah Garrison. Interessante. E um pouco esquisito. Não parecia do género de alimentar paixões românticas. Ou talvez o olhar envergonhado, fixo nos sapatos, significasse qualquer outra coisa.

 

Megan O’Malley não acreditava minimamente que o dito acidente tivesse sido mesmo um acidente, mas sim o primeiro lance do jogo do rapto. O envolvimento do aluno de Priest na batida do carro teria sido acidental, ou de facto tudo faria parte do plano? Se um professor podia estar envolvido, porque não dois?

 

Depois de o Mike Chamberlain sair, ficou aqui sozinho?

 

Os olhos de Priest estreitaram-se levemente. Endireitou os ombros magros.

 

Pensei que não necessitava de um álibi, Miss North. Submeti-me voluntariamente a um teste no detector de mentiras, no domingo.

 

Tenho conhecimento disso, professor disse Ellen, sem se desculpar. Viu o doutor Wright aqui naquela noite?

 

Não. Gostaria de poder dizer que sim, mas eu estava na sala das máquinas, no centro de computadores, e o Garrett encontrava-se no seu gabinete.

 

É o que ele afirma.

 

Só os culpados vivem as suas vidas com álibis em mente.

 

O senhor e o doutor Wright são amigos. Trabalham juntos, fundaram juntos os Sci-Fi Cowboys. Não acontece possuírem em conjunto qualquer propriedade, não? Uma cabana, talvez?

 

Somos amigos e colegas, Miss North, não somos marido e mulher.

 

A porta atrás dele abriu-se e um jovem alto de olhar colérico olhou por cima da cabeça do professor.

 

Há algum problema consigo, professor?

 

Não, Tyrell. Não há problema nenhum respondeu Priest calmamente.

 

Tyrell manteve o olhar fixo em Ellen.

 

Ei... você não é aquela cabra da advogada...

 

Tyrell...

 

Priest voltou-se e tentou conter a balbúrdia da sala de aula, um esforço tão vão quanto tentar tornar a meter a rolha numa garrafa de champanhe. A porta abriu-se de par em par e mais dois membros dos Sci-Fi Cowboys saíram, arrogantes e indignados e suficientemente grandes para levantar ao ar o seu mentor e pô-lo para o lado como uma criança.

 

O doutor Wright está inocente!

 

Ele vai dar-lhe um pontapé no cu no tribunal!

 

Rapazes! Por favor, voltem para os vossos lugares! ordenou Priest. Olharam-no como se ele fosse invisível, com a atenção posta na mulher que, nos seus espíritos, era um inimigo.

 

Ellen não arredou pé. Lidara com um número suficiente de criminosos endurecidos de dezasseis e dezassete anos para conhecer as regras. Não mostrar medo. Não mostrar emoção. Com hormonas em efervescência, a emoção dos miúdos era bastante para toda a gente... emoção negativa, pronta a degenerar em violência.

 

O doutor Wright terá a oportunidade de provar a sua inocência no tribunal.

 

Pois, pois!

 

O tribunal não me deu oportunidade nenhuma. Lixou-me.

 

Priest olhou-a de sobrolho franzido.

 

Já o ocupei bastante, professor. Vou deixá-lo. Se lhe ocorrer qualquer coisa que possa ajudar ao caso, por favor telefone-me, a mim ou ao chefe Holt.

 

Quando as galinhas tiverem dentes, grande vaca! gritou-lhe o que se chamava Tyrell, enquanto ela começava a afastar-se.

 

A localidade situada a sul da Universidade Harris fora em tempos uma cidade de pleno direito. Harrisburg competira com Deer Lake em comércio e população durante a última parte do século xix. Mas Deer Lake ganhara o caminho-de-ferro e o título de sede de distrito e Harrisburg perdera a sua identidade. Até certo ponto, o que dela restara fora anexado pela municipalidade de Deer Lake, e alguém lhe pusera a alcunha de Dinkytown.

 

Os velhos edifícios que haviam resistido eram ocupados por comércio, frequentado pelas pessoas da universidade. Os prédios estavam em péssimo estado, mas os letreiros eram apelativos e artísticos: o Clip Joint Hair and Tanning, um salão de beleza, o Tome Bookstore, o Leaning Tower of Pizza, o Green World, uma loja de produtos naturais e new age, o Café Leaf and Bean, uma mistura de bares, restaurantes e galerias de arte.

 

Ellen encaminhou-se para um velho edifício no extremo norte. O Pack Rat era uma loja de artigos em segunda mão a abarrotar de uma espantosa colecção de velharias. Filas de latos de adolescentes das décadas de sessenta e setenta enchiam a parte da frente da loja. Encimava-os um letreiro pintado à mão onde se lia Sopro do Passadol Ellen franziu a testa ao pensar que fosse o que fosse que tivesse usado no liceu pertencia agora à esfera do nostálgico.

 

Recuou através de uma desarrumação de livros antiquados e memoriais da Harris, sem dúvida negociados por bacharéis que os haviam retirado das suas caves e sótãos para arranjar espaço para lixo mais | actualizado. ( A empregada atrás do balcão era uma rapariga avantajada com cabelo vermelho-púrpura, olhos sombreados a preto, e um rubi a enfeitar-lhe um lado do nariz. Conversava animadamente com um rapaz alto e magro como um espeto, de ombros curvados e cabelo cor de ferrugem, com uns pêlos eriçados no queixo que passavam por barba e a chupar muito compenetradamente um cigarro. O par apercebeu-se de Ellen em simultâneo e deitou-lhe um olhar que sugeria estarem mais interessados na tagarelice do que em dinheiro.

 

Ando à procura do Todd Childs disse Ellen.

 

Eu sou o Todd. Sacudiu a cinza do cigarro para um pequeno cinzeiro que tinha empoleirada na borda uma dançarina de hula.

 

Ellen North. Trabalho no gabinete do delegado distrital. Gostava que me concedesse uns minutos do seu tempo.

 

O rapaz inspirou uma última fumaça e expirou o fumo pelas narinas com um suspiro entediado.

 

Ia-me precisamente embora. Tenho uma aula daqui a meia hora.

 

Eu não o demoro muito.

 

Observou-lhe o rosto enquanto ele avaliava se devia ou não negar-se. Trocou um olhar com a Vampira, atrás do balcão. Por trás dos óculos de aros redondos tinha as pupilas dilatadas, grandes pontos pretos rodeados por estreitas linhas coloridas. Steiger chamava-lhe «esponja». O odor mais forte que se misturava com o fumo do cigarro era inconfundível. Mas fumar um pouco de erva estava muito longe de ser um acessório do género de crimes que Garrett Wright cometera.

 

O relógio está a andar disse ela, com um sorriso artificial.

 

Todd suspirou de novo:

 

Está bem, seja. Vamos para o escritório.

 

Guiou-a através daquela confusão até uma sala do tamanho de uma arrecadação, onde se sentou na secretária, entre pilhas de velharias. O único assento era uma saca verde, empoeirada. Ellen olhou-a dubiamente e encostou um ombro à ombreira da porta.

 

O aluno de Wright tomou a ofensiva.

 

As acusações contra o doutor Wright são tão falsas!

 

A polícia apanhou-o a fugir do local do crime.

 

O rapaz abanou a cabeça, tirando um Marlboro da algibeira da sua camisa de flanela.

 

Nem pensar. Estava a fazer qualquer trabalho ou coisa no género.

 

Conhece assim tão bem o doutor Wright?

 

Sou licenciado em Psicologia respondeu ele, de cigarro na boca. Passei os dois últimos anos da minha vida imerso nos meandros da mente humana.

 

Então é o próximo Sigmund Freud ou o próximo Cari Jung?

 

Sem a desfitar, Childs acendeu o cigarro e puxou a primeira fumaça.

 

O Freud era um perverso. O Garrett Wright não é.

 

Admiro a sua lealdade, Todd, mas temo que seja mal empregue.

 

Todd abanou a cabeça, manifestando a sua obstinação por um trejeito da boca, um hífen apertado circundado pela barba rala:

 

Ele teria de ser um sociopata para fazer o que a senhora diz que fez. Nem pensar. Nós teríamos sabido.

 

Isso não faz parte do comportamento sociopático? A habilidade de enganar quem os rodeia, levando-os a pensar que são perfeitamente normais?

 

A mão que segurava o cigarro não se mostrava perfeitamente firme. Outra fumaça, e o olhar desviou-se.

 

Tome nota de que há uma forte possibilidade de ser chamado a testemunhar no interrogatório da próxima semana informou-o Ellen.

 

Oh, diabo!

 

Você estava com o doutor Wright no sábado de manhã quando a agente O’Malley foi ao gabinete dele. Entrou na conversa quando o doutor Wright e a agente O’Malley discutiam a ida dela a casa do Christopher Priest. Disse à Polícia que saiu do gabinete do doutor Wright pela uma e quinze e não voltou a vê-lo nesse dia. Vai ter de dizer isso em tribunal.

 

Todd cingiu com o braço a magra cintura como se tivesse sentido de repente uma dor de estômago:

 

Gaita!

 

A verdade é a verdade, Todd murmurou Ellen, dividida entre a simpatia e a suspeita. Estaria ele relutante por Wright ser o seu mentor ou por Wright ser seu parceiro no crime e ver agora toda a trama a desenrolar-se, enredando-os? Pense nisto assim: você não estará na realidade a testemunhar contra o doutor Wright. Não é como se o tivesse visto cometer um crime... pois não, Todd?

 

A resposta levou muito tempo a chegar. Todd fixou o olhar na parede, num calendário do Magic Eye que parecia algo para onde tivesse sido esguichado ketchup e mostarda criando um desenho indecifrável. Ellen gostaria de saber se ele entendia a horrorosa pintura. Ela, não. Só o culpado conhecia o segredo. Só o culpado podia captar o desenho através do caos.

 

Não disse ele por fim.

 

Vou deixá-lo ir para a sua aula. Desencostou-se da porta e começou a voltar-se; depois, olhou para trás, para ele. Pode dizer-me onde estava na noite passada, pela meia-noite?

 

Na cama. Sozinho. Atirou o cigarro meio fumado para uma chávena de café abandonada. E a senhora, onde estava?

 

Ellen esboçou um sorriso.

 

Um dos encantos do meu trabalho é que sou eu que faço todas as perguntas.

 

O odor a cigarro ficou-lhe agarrado ao casaco. Ellen cheirou a lapela e franziu o sobrolho, enquanto se dirigia à secretária de Phoebe.

 

A vossa geração não poderia ter a esperteza de não fumar cigarros? queixou-se.

 

Podia, mas temos falta de objectivos e estamos desiludidos com os tempos que correm... Por isso... Encolheu os ombros, com uma expressão de desculpas no seu rosto de duende.

 

Certifique-se de que o Todd Childs recebe uma intimação. E por favor telefone ao Mitch e diga-lhe que, se voltar a interrogar o Childs, eu quero assistir.

 

Entendido. Como uma imagem de caleidoscópio, as feições de Phoebe reordenaram-se e explodiram numa expressão excitada. Tem uma casa cheia disse, apontando o gabinete de Ellen.

 

A recordação actuou como um soco no estômago. Hora da entrevista.

 

Oh, santo Deus! resmungou. Muito perversa devo ter sido numa vida passada!

 

Bem gostava eu de ter uma vida perversa neste momento disse Phoebe. Se quiser, pode passar esta informação ao senhor dos fabulosos olhos azuis.

 

A abanar a cabeça, Ellen entrou no seu gabinete. A sala parecia pequena de mais para o tamanho das personalidades presentes. Teve a fantástica sensação de que, se abrisse a janela para aliviar a pressão, seria sugada e atirada para a neve, dois andares abaixo.

 

Desculpem o meu atraso disse, pousando a pasta e tirando o casaco. Tenho imensas diligências a fazer antes do interrogatório da próxima semana.

 

Não podia mandar o Reed ocupar-se disso? resmungou Rudy.

 

Sou o acusador principal. Gosto de saber com quem estou a lidar.

 

Brooks sorriu-lhe, um sorriso cúmplice, daqueles que os apaixonados partilham. Ellen franziu-lhe o sobrolho e sentou-se à secretária.

 

Compreendemos perfeitamente, Ellen afirmou, magnânimo, Bill Glendenning.

 

O delegado-geral do estado sentou-se numa das cadeiras das visitas. O olhar por trás dos óculos podia ser confundido com gentileza, mas ela não se deixava enganar. Bill Glendenning era um homem astuto, com gosto pelo poder. Admirava-o e respeitava-o mas tinha o cuidado de temperar essa admiração com bom senso. Ele estava no topo da pirâmide; não chegara aí por ser benevolente.

 

Rudy deambulava por trás dele, demasiado tenso para se sentar embora houvesse uma cadeira livre. Incapaz de conter a sua excitação face à presença de Glendenning, andava de cá para lá, com o rosto vermelho de entusiasmo ou de febre. Tirou um lenço amarrotado do bolso das calças e limpou a testa.

 

Tenho a certeza de que não preciso de dizer-lhe, Elen, que nos deparamos neste caso com uma situação muito POUCO comum acrescentou Glendenning em tom paternal.

 

Não, não precisa de dizer-mo. Sentiu-se ofendida com toda aquela representação, mas teve o cuidado de não deixar aflorar o ressentimento na sua resposta. Em vez disso, levantou-se da cadeira; queria contrariar a impressão de ser uma criança de escola a aprender. Movimentando-se normalmente, rodeou a secretária e encostou-se-lhe, deixando-se ficar de pé, de braços cruzados.

 

O próprio rapto foi uma aberração prosseguiu Glendening. Coisas dessas não acontecem em Deer Lake... Pelo menos é o que todos nós gostamos de pensar. O facto de ter acontecido aqui atraiu a atenção do país. Vêem isto como uma metáfora dos nossos tempos. Não é assim, Jay?

 

Jay estremeceu ao ouvir o seu nome, saindo do transe em que caíra ao contemplar as pernas de Ellen North. A senhora tinha uma bela quantidade de atractivos infinitamente mais merecedores da sua atenção do que o fraseado insípido de Bill Glendenning. O delegado-geral estava metido no caso só por si, pura e simplesmente. Tinha perfeita consciência de que o nome de Jay era fogo e, como qualquer político, Bill Glendenning teria todo o prazer em aquecer-se, se pudesse. Queria parte da acção, todos os créditos, e tanta publicidade quanta pudesse granjear. Uma metáfora dos nossos tempos.

 

É um facto concordou Jay.

 

É uma história maior do que Deer Lake, maior do que todos nós continuou Glendenning, plagiando sem pudor as palavras que Jay trocara com ele há duas noites, entre uísques e charutos. Ellen, você compreende isso, parte da razão por que Rudy lhe confiou este caso.

 

Rudy sorriu à menção do seu nome, sorriso que se desfez no instante seguinte.

 

Eu fui ensinada a ver os casos de forma imparcial disse Ellen. Não vou tratar este de modo diferente por causa das circunstâncias ou porque o homem que continua a ser o acusado é uma pessoa de que ninguém teria suspeitado.

 

A impaciência espelhou-se por trás dos óculos à Roosevelt que Glendenning usava.

 

Estou a fazer o meu trabalho continuou Ellen calmamente. O meu trabalho consiste em pôr o Garrett Wright fora de circulação. Não posso permitir-me perder esse meu objectivo ou ser distraída por um cenário maior. Não posso impedir que as pessoas se interessem pelo caso ou o apelidem de metáfora dos nossos tempos, mas não posso deixar que isso se torne parte da minha agenda.

 

Os olhos de Rudy, de pé, atrás de Glendenning, esbugalhavam-se, de chocado que estava.

 

Mas, Ellen...

 

Tem toda a razão interveio Jay em voz pausada, sorrindo interiormente perante as reacções. Ellen mostrava-se prudente, Glendenning lutava por um reajustamento. Atrás dele, Rudy Stovich simulava um ataque de tosse. A justiça é cega... Não pretende que as câmaras captem o seu melhor ângulo.

 

Exactamente o que eu penso disse Glendenning, inclinando-se para Jay. É precisamente por isso que a Ellen é a pessoa indicada para tratar deste caso.

 

Foi por isso que a escolhi interpôs Rudy, metendo um dedo no colarinho e lutando com o nó da gravata. Desde o princípio que soube que ela era a pessoa certa.

 

Em vez de rolar os olhos, Ellen consultou o seu relógio de pulso.

 

Desculpem a minha rudeza, mas tenho de estar no tribunal daqui a pouco. O que há nisto que tenha a ver com Mister Brooks?

 

Os olhos azuis cintilaram, num divertimento disfarçado. Um canto da boca ergueu-se. Estava sentado com as pernas esticadas e cruzadas nos tornozelos. Fizera concessões para aquela entrevista. As calças de ganga e a camisa de sarja haviam sido substituídas por uma camisa azul e calças de caqui. Aparka, por um blazer azul-escuro que lhe realçava os ombros. Mas continuava por barbear, e a gravata de seda estava lassa no pescoço. No conjunto, dava a impressão de ter sido assaltado e passado por um misturador quando vinha de casa.

 

Como tenho a certeza que sabe perfeitamente, Ellen disse Glendenning, Mister Brooks é uma pessoa permanentemente ligada aos best-sellers sobre crimes reais. As suas capacidades de autor falam por si mesmas.

 

Estou certa de que falam replicou Ellen secamente.

 

. -Homicídio Justificável lançou Rudy, tentando remtroduzir-se na conversa. É o meu preferido.

 

Glendenning fuzilou-o com um olhar dominador por cima do ombro.

 

Todos nós estamos familiarizados com a obra de Mister Brooks.

 

Por acaso, eu não estou mentiu Ellen. Como advogada de acusação, acho que a mania crescente dos crimes verdadeiros perturbadora e espalhafatosa. Endereçou a Jay um sorriso de falsas desculpas. Sem ofensa, Mister Brooks.

 

Este levou a mão à boca para disfarçar a vontade de rir.

 

Ora essa, Miss North.

 

Os maxilares de Bill Glendenning comprimiram-se graniticamente. Por detrás dele, Rudy mostrava-se horrorizado.

 

O Jay interessou-se por este caso explicou Glendenning, como uma história que tocará os corações e as mentes das pessoas em toda a parte. Expressou um interesse especial em apresentá-lo do nosso ponto de vista.

 

Ellen fitou Jay Butler Brooks, interiormente repugnada. Estava sentado ao lado do delegado-geral do estado. Bill e Jay, que dois! Jay Butler Brooks, querido dos media, um homem com dinheiro, um homem com peso no mundo editorial e em Hollywood; um homem em quem as pessoas confiariam apenas por terem lido algo a seu respeito na People e na Vanity Fair e chegado à ridícula conclusão de que o conheciam. Bill Glendening, a quem muito agradaria usar a publicidade proporcionada por uma tal associação para o ajudar a catapultar-se para o gabinete do governador.

 

Lentamente, passou para trás da secretária com a desculpa de meter uns papéis na pasta. «O nosso ponto de vista.» O que se entenderia por isso?

 

Brooks endireitou-se na cadeira e inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços nas coxas.

 

O sistema judicial de uma pequena cidade ocupa-se de um grande caso. declarou. O último bastião de decência na América é tomado de assalto pelo demónio venenoso da nossa sociedade moderna. O caso despertou a atenção e a imaginação de milhões. É um facto que ele me intriga.

 

Ellen engoliu uma dúzia de observações sarcásticas. O caso intrigava-o e, se o intrigasse o suficiente, tiraria dele bom proveito. De repente, os jornalistas que tinham andado a alimentar-se daquela tragédia não passavam de peixe miúdo. O tubarão acabara de entrar na água.

 

Notícias eram uma coisa. Que Jay Butler Brooks as transformasse em passatempo e com isso fizesse uma fortuna, era indescritivelmente repreensível. Queria dizer-lho, mas ali estava ele sentado com o seu grande amigo, o delegado-geral, e atrás deles a passear de cá para lá, o seu chefe imediato o rapaz ingénuo autorizado a juntar-se aos tipos corajosos por causa da sua utilidade potencial.

 

O que tem isso a ver comigo? perguntou ela num tom firme.

 

Ah, intriga-me particularmente o seu papel em tudo isto, Miss North respondeu-lhe ele. A advogada Ellen North a chefiar a acusação, em prol da justiça.

 

Ellen atirou a cabeça para trás e fitou-o, enquanto todos os seus alarmes internos disparavam. O sorriso lento dele ficaria perfeito com penas de canário espetadas nos cantos da boca.

 

Estou apenas a fazer o meu trabalho, Mister Brooks. Não sou nenhuma Joana d’Arc.

 

É tudo uma questão de perspectiva.

 

Mesmo assim, não me agrada a analogia.

 

Ellen, você é modesta de mais interveio Glendenning.

 

Sentiu-se tentada a lembrar-lhe que Joana fora queimada na fogueira, mas existia a probabilidade de ele já o saber. As implicações inerentes enojaram-na vagamente.

 

O Jay expressou interesse em seguir o caso pela perspectiva da acusação acrescentou Glendenning. Garanti-lhe que você colaboraria.

 

Como? Colaboraria, em que sentido?

 

Então, Ellen... Retomou o tom paternalista que a fazia ranger os dentes. Não estamos a sugerir nada contra a ética. O Jay não será inteirado de nada sensível. O que ele pretende é simplesmente uma oportunidade de observar o seu trabalho. Não precisa do nosso ámen para isso, mas mesmo assim pediu-o, por gentileza.

 

Por uma gentileza que o faria cair nas boas graças do delegado-geral do estado, o que lhe garantiria acesso. Não, ele não precisava de autorização para observar o caso à distância, mas passar a mão pelo pêlo a Glendenning abriria caminhos de que nenhum jornalista sonharia sequer aproximar-se, e isso colocava Ellen na insustentável posição de ter de agir como hospedeira gentil ou correr o risco de enfurecer os poderes que puxavam os cordelinhos no seu emprego.

 

A complexidade e a qualidade diabólica da jogada puseram-lhe os nervos em franja. Irritada, cerrou os dentes perante a necessidade de deixar correr as coisas. Deliberadamente devagar, fechou a pasta, o clique de cada fechadura ecoando como um tiro no silêncio da sala.

 

Dirigiu a Jay Butler Brooks um olhar que reduziria a cinzas muito boa gente.

 

Não, é óbvio que o senhor não precisa da minha autorização, Mister Brroks. E isso é bom, porque eu teria corrido consigo num abrir e fechar de olhos. E, com um aceno superficial a Glendenning e a Stovich, anunciou: Esperam-me no tribunal. Queiram desculpar-me, meus senhores.

 

Ficou à espera de uma reprimenda, mas saiu do gabinete sem nada ouvir. Ou talvez tal se devesse simplesmente ao facto de a pressão sanguínea nos seus ouvidos a ensurdecer.

 

Phoebe saltou da secretária, de olhos muito abertos, abandonando Quentin Adler a meio de uma queixa.

 

Phoebe! lamentou-se ele.

 

Ao ouvi-lo, Phoebe encarou-o mas ignorando-o, toda a sua atenção concentrada em Ellen.

 

O que queriam eles?

 

Transformar a minha vida num inferno respondeu Ellen rispidamente.

 

A frase atraiu Quentin como a campainha atraía os cães de Pavlov.

 

Com uma carreira periclitante no sistema de Park County, Quentin era um homem cuja ambição ultrapassava as suas capacidades uma verdade que lhe punha em permanência um travo amargo na boca. Aos cinquenta e tal anos, mantinha-se rigidamente erecto, sem se descontrair e respirando com dificuldade devido a uma cinta apertadíssima que parecia empurrar-lhe toda a gordura para o rosto corado. A sua última batalha contra o avanço da idade residia numa permanente colorida que o deixava com o aspecto de ter a cabeça coberta de pêlos púbicos transformação coincidente com rumores de um caso entre Quentin e Janis Nerhaugen, uma secretária do gabinete do assessor distrital.

 

Ellen, tenho de falar consigo acerca dos casos que você descarregou para cima de mim disse ele.

 

Não posso pôr-me à conversa, Quentin. Tenho de ir para o tribunal. Se não os quer, fale com o Rudy.

 

Mas, Ellen...

 

Phoebe intrometeu-se à sua frente, tirando de um bolso da túnica uma mão-cheia de notas em papel cor-de-rosa.

 

Tenho recados para si. Todos os jornalistas do hemisfério ocidental querem uma entrevista e o Garrett Wright dispensou o seu advogado.

 

Aí está uma grande surpresa resmungou Ellen. Desde o princípio que Dennis Enberg não se entregara ao caso de alma e coração. Ellen perguntava a si própria se Wright de facto o despedira ou se ele se afastara permitindo a Wright que dissesse o que quisesse de modo a não prejudicar o seu caso aos olhos da imprensa. Poderia telefonar a Dennis mais tarde para ficar a saber o que pudesse, embora não esperasse obter grande coisa. O que se passava entre um cliente e o seu advogado era confidencial; o corte de uma relação não alterava isso. Há algum rumor sobre quem fica no lugar dele?

 

Ainda não. Phoebe baixou a voz, conspiratória. Ele tem uma aura realmente volátil.

 

Quem? O Dennis?

 

O Jay Butler Brooks. Sugere turbulência interna e sexualidade em bruto.

 

Ellen, isto é importante lamentou-se Quentin.

 

Diga-o ao juiz Franken quando ele me intimar por desrespeito retorquiu Ellen, devolvendo as mensagens a Phoebe. A aura dele sugere intolerância. Tenho de ir.

 

Miss Bottoms pronunciou, ofegante, o juiz Franken. Entende as acusações dirigidas contra si?

 

Ellen suspeitava que grande parte da vida era um mistério para Loretta Bottoms. De pé, a mulher olhava embasbacada para o juiz, com o ar de um peixe fora de água. Dançarina exótica cujo nome artístico era Lotta Bottom, Loretta fizera o circuito dos clubes de strip interestaduais entre Dês Moines e Minneapolis. Declarava estar «no caminho de regresso a casa» quando foi presa por interpelação na paragem de camionetas de Big Steer, nos subúrbios de Deer Lake.

 

Apresentou-se no tribunal com um vestido de malha listrado que lhe marcava bem as formas do corpo. Com uma compleição de ampulheta, baloiçava sobre uns saltos de nove centímetros e os seios erguiam-se-lhe no decote como um par de enormes pêssegos firmes. Franken estava hipnotizado pelo que via. Quando falou, foi aos seios que se dirigiu. E Ellen pensou que tinha tantas probabilidades de obter uma resposta inteligente deles como de qualquer outra parte de Loretta.

 

Miss Bottoms, discutiu as acusações com o seu advogado? interrogou o juiz.

 

Sim.

 

E...?

 

E o quê? Loretta afundou uma longa unha encarnada no cabelo descolorado para coçar a cabeça. Não percebo.

 

A seu lado, o advogado, Fred Nelson, revirou os olhos e socou com o punho fechado um lado da cabeça, como se tentasse expulsar os pedregulhos que poderiam explicar porque aceitara Loretta como cliente.

 

Loretta... Falava-lhe como se se tratasse de uma criança atrasada mental que tivesse perguntado «porquê» pelo menos dez vezes. Nós ouvimos o relatório da Polícia. O agente disse-nos que a apanhou na casa de banho dos homens da paragem de Big Steer a praticar um acto sexual, com uma nota de vinte dólares.

 

Loretta apoiou as mãos nas ancas amplas.

 

Eu não estava a praticar um acto sexual com uma nota de vinte dólares. O nome dele era Tater.

 

Os espectadores deram uma gargalhada. Ellen mordeu o lábio.

 

O juiz Franken bateu com o martelo na mesa. A sua pequena cabeça deformada ficou acastanhada um sinal de que a sua calma descera ao máximo e a pressão arterial se elevava proporcionalmente.

 

Como se declara, Miss Bottoms? perguntou-lhe.

 

Bem, aqui o Freddy diz-me para me declarar culpada, mas eu não vejo porquê. Ninguém tem nada a ver com o penduricalho que eu tinha na boca.

 

Franken martelou fortemente para acalmar a nova vaga de hilaridade.

 

Já passámos por isto três vezes, Miss Bottoms resmungou, trémulo de frustração. A senhora não tem de se declarar culpada se não quiser. Pode declarar-se não culpada, mas nesse caso teremos de voltar a Dês Moines para obter provas. Quer que sejam obtidas provas?

 

Bem, na verdade não quero, mas...

 

Então quer declarar-se culpada?

 

Não.

 

Fred Nelson cerrou fortemente os olhos.

 

Meretissimo, eu tratei isto com a minha cliente. Discutimos a possibilidade de Miss Bottoms se declarar não culpada, marcando o tribunal uma data para julgamento e fiança de aproximadamente duzentos e cinquenta dólares, a pronto. Miss Bottoms poderá então ir para casa e pensar melhor no assunto.

 

Duzentos e cinquenta dólares era um pedido normal e ninguém esperava ou tinha interesse em que Loretta Bottoms voltasse a Park County para ser julgada. Ellen e Fred tinham ajustado o acordo no gabinete do juiz. O distrito obteria o seu dinheiro de Loretta sob a forma de fiança a pronto; seria essa a penalidade por ela não aparecer e Loretta ficaria calmamente liberta. Tratava-se de um bom acordo para qualquer pessoa que não Loretta. O processo já levava meia hora a mais do que deveria, porque eles não podiam expor o acordo perante Deus e o tribunal e a necessidade de discrição deixara Loretta confusa. Franken afundava-se cada vez mais atrás da sua mesa. Mais um minuto e só a sua testa franzida seria visível.

 

É isso o que quer fazer, Miss Bottons? perguntou ele entre dentes.

 

Loretta bateu as pestanas falsas.

 

Isso, o quê?

 

Ninguém susteve os suspiros, incluindo Franken. O seu foi o mais forte. A cabeça emergiu subitamente e ele suspirou de novo, ruidosamente, com os olhos arregalados pela estupefacção. E voltou a desaparecer da vista, sendo um desiludido baque surdo o único indício de que estava atrás da mesa.

 

Por um momento ninguém se mexeu ou falou, pois todos aguardavam que o juiz se endireitasse como um boneco. Mas o momento prolongou-se. Ellen olhou para o meirinho, que se dirigiu à mesa do juiz. Renée, a oficial de justiça, empurrou-o e desapareceu por seu turno atrás da mesa. No segundo seguinte o seu grito cortou o ar como uma lâmina.

 

Ele está morto!

 

Ellen saltou da cadeira e circundou a mesa junto à qual a oficial estava ajoelhada, a soluçar histericamente e a puxar pela toga de Franken.

 

Chamem uma ambulância! gritou Ellen, e o meirinho precipitou-se para o gabinete do juiz. Enquanto pedia ajuda, Ellen inclinava para trás a cabeça do juiz e procurava encontrar-lhe pulso.

 

Sente-lhe o pulso? perguntou uma pessoa.

 

Não.

 

Então, deixe-me actuar, Miss North.

 

A voz era sacudida. Ellen ergueu a cabeça e viu Brooks posicionar as mãos sobre o esterno de Franken.

 

Por muito que eu preferisse que você pusesse sobre os meus esses lábios adoráveis sussurrou Brooks, penso que o juiz está mais necessitado.

 

Era um bom juiz murmurou Ellen, a olhar pela janela do gabinete de Franken.

 

Avistava-se o parque e um muro cheio de estudantes do liceu, a protestar. As imitações de candeeiros a gás tremeluziam. A vida continuava. O mundo ainda girava.

 

A última hora fora uma balbúrdia de paramédicos e gente apressada a entrar e a sair do tribunal. Jornalistas que deambulavam pela rotunda haviam irrompido na sala para assistir ao último acto e formara-se um tumulto quando alguém reconhecera Brooks, tumulto que culminara com um delegado a evacuar a sala e a calar o som dos altifalantes. Agora, o silêncio era bem-vindo e simultaneamente esquisito.

 

Era firme e justo continuou Ellen, a pensar em Victor Franken. Queria recordá-lo tal como o conhecera nos últimos dois anos, não como um fardo amarrotado no chão da sua sala de tribunal, a toga negra que tanto prezara aberta, pondo a nu o peito magro, encovado, de um homem muito velho. Tinha senso comum e sentido de humor.

 

Conhecia-o bem? perguntou Jay em voz baixa.

 

Observava-a da sua cadeira à ponta da secretária de carvalho maciço de Franken. Eram as únicas pessoas na sala que fora o gabinete e o santuário do juiz. Estantes cobriam as paredes de todo o compartimento, com as prateleiras completamente repletas. A mobília tinha um ar tão antigo que parecia enraizada no soalho. Os fetos em vasos, espalhados por toda a sala, eram enormes. Sendo a luz esverdeada do candeeiro de secretária a única acesa, o ambiente era quase semelhante ao de uma floresta.

 

Ellen ergueu um ombro.

 

Sei que perdeu a mulher há anos. Vivia sozinho. Gostava de jardinar. Passou os dedos pela folhagem de um feto colocado no parapeito da janela. O tribunal era a sua vida. E agora desapareceu. Assim, muito simplesmente.

 

Limpou uma lágrima, sem que a importunasse tê-la deixado correr em frente de um estranho. Um homem bom acabava de ser banido da vida. Não era vergonha nenhuma chorá-lo. Mesmo assim, respirou fundo e recompôs-se, fitando Jay com dignidade.

 

Obrigada pela ajuda.

 

Ele recusou o agradecimento, franzindo a testa.

 

Não tem de me agradecer. Jesus, o facto de eu estar Presente transformou tudo num circo dos diabos. Lamento-o.

 

Também eu. Ele merecia uma morte mais digna, embora o tenha ouvido dizer mais do que uma vez que queria morrer à sua secretária do tribunal. Encolheu uma vez mais os ombros e usou de algum cinismo, como uma carapaça de protecção. Ele teve realizado o seu desejo, e o senhor, alguma publicidade. Não foi um mau negócio, se o olharmos por este prisma.

 

Não vim à procura de publicidade.

 

Não. Veio à procura de uma história.

 

Butler afastou-se da secretária e atravessou a sala devagar, com um olhar avaliador, perscrutante. A sensação que transmitia era perturbadora, mas Ellen recusou-se a fugir dessa perturbação. Retomou a regra que aplicara aos Sci-Fi Cowboys: não mostrar medo. Jay Butler Brooks não representava uma ameaça física, era uma ameaça noutros sentidos, um perigo nítido e presente a outros níveis: profissional, ideológico.

 

Percebeu que perdera um ponto quando ele parou demasiado perto. À luz mortiça que entrava pela janela estreita, os olhos de Jay eram prateados.

 

Está bem? inquiriu ele, meigo.

 

O cabelo de Ellen desprendera-se quando esta tentava reanimar o juiz; caíam-lhe para a cara algumas madeixas, que o levaram a imaginar como seria ela com todo o cabelo solto. Mais jovem, mais doce, vulnerável traços que não se coadunavam com a sua imagem profissional. Mas naquele momento a imagem profissional esbatia-se. Os óculos de intelectual tinham-se ido, juntamente com o casaco do fato cinzento-escuro. O botão de cima do impecável camiseiro branco estava desabotoado, permitindo a Jay um vislumbre da concavidade onde o pescoço se encontra com as clavículas. A couraça dava de si. Ellen parecia incapaz de decidir quem ser naquele momento Ellen North, a profissional assumida, ou Ellen North, a mulher.

 

Uma oportunidade para ele. A razão pela qual deambulara por ali enquanto os paramédicos arrumavam as suas coisas e fechavam o saco preto que continha Franken, disse para consigo. Assim, podia tirar vantagem do desamparo dela. Assim, talvez fosse capaz de ver qualquer coisa que de outro modo ela nunca lhe teria mostrado.

 

Que tipo que tu és, Brooks! Príncipe dos idiotas.

 

Estou óptima declarou ela, embora fosse óbvio que não estava. A mão que levantou para passar para trás da orelha as madeixas soltas tremia.

 

Dá-me a impressão de que lhe faria bem uma bebida. A mim, fazia admitiu ele. Nunca morreu nenhum juiz à minha frente... embora admita que o desejei algumas vezes.

 

É verdade, o senhor era advogado antes da chegada da fama e da fortuna.

 

Brooks encolheu os ombros, ignorando a ferroada contida na frase.

 

Passei o meu tempo como assistente menor, angariei um ou dois processos de indemnização, tentei um pouco disto e um pouco daquilo, sendo a palavra de ordem «pouco», segundo a minha ex-mulher. Coube-lhe ser a primeira mulher da história a desejar para o marido semanas de oitenta horas.

 

Ainda hoje conseguia ouvir as críticas de Christine. Haviam cavado uma vala na sua memória como água correndo sobre pedra; e os anos aprofundavam-na. Porque é que não trabalhas mais? Porque não és o sócio mais novo? Porque não entras para afirma da família? Nunca chegarás a parte nenhuma da forma como saltitas de um lado para o outro.

 

Bem, acabou por lhe levar a melhor comentou Ellen. Homicídio Justificável: um jovem advogado sobrecarregado de trabalho é incriminado pelo assassínio brutal da sua intrigante ex-mulher. E a dedicatória do livro: «Para a Christine que, digo-o com prazer, nunca verá um tostão dos direitos de autor.» Um sentimento encantador.

 

E bem merecido, garanto-lhe. E, com um sorriso trocista: Julguei que a minha obra não lhe era familiar, Miss North.

 

Menti confessou Ellen sem remorsos. Li o artigo na Newsweek.

 

E o que pensou?

 

Acho que já dei claramente a minha opinião: não gosto daquilo que o senhor faz.

 

Apresento aos meus leitores casos actuais, aterrorizantes, de um modo que pode levá-los a uma compreensão mais aprofundada do que aconteceu, porque aconteceu, como actuou o sistema de justiça... ou, nalguns casos, como não actuou. Dou-lhes discernimento. Dou-lhes uma conclusão. O que há de errado nisso?

 

É um explorador mercenário, não melhor do que um vampiro. Um observador rotineiro que rouba as vidas e a dor das vítimas para compensar a falta de uma verdadeira imaginação. Alimenta os medos e as curiosidades mórbidas das pessoas e contribui para a obsessão pouco saudável deste país pelo sensacionalismo contrapôs Ellen. Não tente dar a isso uma imagem nobre. O seu negócio é o entretenimento... nas suas próprias palavras.

 

Tudo o que eu digo pode e será usado contra mim ripostou ele secamente.

 

Nega-o?

 

Não. Não sou um jornalista. As pessoas sabem as notícias por um jornal ou pela TV. Não confundem vinte livros da livraria com uma versão compacta na Time. As pessoas lêem crimes reais para se evadirem... Razão por que lêem seja o que for.

 

E não acha isso, pelo menos, um pouco... retorcido? Evadir-se graças à tragédia real da vida de alguém?

 

Não mais do que ler um romance do Stephen King ou um policial da Agatha Christie. Para o leitor, o meu livro é apenas uma história, algo para se distrair e reflectir; tanto mais interessante por ter realmente acontecido.

 

Ellen afastou-se dele, abanando a cabeça, desagradada.

 

Óptimo. Vá falar com a Hannah Garrison sobre aquilo por que passou e está a passar, e não se esqueça de lhe dizer que tudo não passa de uma história. Será tão reconfortante para ela!

 

Jay seguiu-a pela sombria sala até à secretária, reagindo automaticamente à sua justa indignação. Por natureza, gostava de contrariar os outros, como que nascido para tomar a posição oposta pelo prazer de uma discussão. Não era fúria o que tinha pela frente; era excitação, adrenalina.

 

Ora essa, eu não altero o que aconteceu por fazer de uma história uma história. Existe, aconteceu, é história.

 

E então faz dela um livro? Tirou o casaco das costas da cadeira de Franken e vestiu-o.

 

Se eu não o fizer, outro o fará.

 

Ah, pois... E isso coloca-o dentro da razão.

 

Eu não inventei o jogo, doutora.

 

Não, mas está disposto a ganhá-lo, não está? Ir direito ao topo, arrastando consigo o Glendenning. De toda a porcaria...

 

Porcaria, não corrigiu Jay, de dedo espetado.

 

Trabalho difícil, e é assim que pratico este jogo. Persigo o que quero e obtenho-o.

 

A declaração ecoou no ar entre ambos, um desafio que se acentuou quando Ellen ergueu o olhar para ele. Parara de novo próximo de mais. Ellen quase se lhe encostara. Os escassos centímetros que os separavam afiguravam-se demasiado estreitos e um sexto sentido adormecido ganhou vida no seu íntimo, subindo à superfície como bolhas de ar na água. Atenta, não a um adversário num duelo de perspicácia, mas a algo muito mais fundamental.

 

Eu persigo aquilo que quero, Ellen North sussurrou ele uma vez mais, passando-lhe a mão sob o queixo. O seu polegar roçou-lhe o lábio inferior. E obtenho-o. Lembre-se disso.

 

Que o senhor é implacável? murmurou Ellen, pensando que tinha mesmo de se lembrar.

 

Diga antes... determinado.

 

Perigoso, foi a palavra que lhe ocorreu. Perigoso para ela num sentido em que jamais imaginara que um homem pudesse ser.

 

Cos diabos, gosto da forma como luta, doutora. O que me diz à tal bebida?

 

O convite explícito na sua expressão era muito mais íntimo do que o oferecimento de um copo de brande. Passava facilmente da intenção à sedução, como se não lhe interessasse o que ela pensava a seu respeito, ou o facto de a perturbar.

 

Só por discordarmos, isso não significa que não possamos ser civilizados continuou. Gosto de si, Ellen. É esperta, arguta, não tem medo de dizer o que sente. Riu-se. Julguei que o velho Rudy ia ter um ataque no seu gabinete. E você manteve-se firme, fria como o gelo. O que acha de procurarmos um bar simpático e calmo, com lareira, e ficarmos lá a discutir o resto da tarde? Acompanhou a sugestão de um sorriso capaz de arrancar freiras aos seus hábitos.

 

Por isso era uma celebridade, concluiu Ellen, em vez de um mero nome numa sobrecapa empoeirada. Até o ar que o envolvia vibrava de sex appeal.

 

Acho que não, Mister Brooks. Assemelhar-se-ia a confraternizar com o inimigo. E afastou-se, pondo os óculos... escudando-se contra o encanto dele.

 

Eu não sou o inimigo. Sou apenas um observador.

 

Pode não ser o inimigo, mas é mesmo assim um inimigo. Não sei distinguir entre quem o senhor é e o que é, Mister Brooks. Olhou-o de frente. Talvez a sua consciência o deixe discernir o que aconteceu nesta cidade... ou talvez não tenha consciência. Seja como for, não lho perdoo e não quero imiscuir-me no assunto.

 

Dito isto, afastou-se dele pela segunda vez nesse dia.

 

Jay encostou-se à secretária do juiz, com um assobio quase inaudível. Já lhe tinham fechado portas na cara. Não era nada de novo. Dependia do local. Por vezes as pessoas queriam colaborar com ele numa história e por vezes não queriam. Se ele desejava intensamente a história e a porta da frente se lhe fechava, tentava a das traseiras. Se a das traseiras se fechava, usava uma janela. Se não podia entrar pela janela, servia-se da cave. Se desejava o suficiente a história, obtê-la-ia. Não precisava da cooperação de Ellen North. Podia escrever aquela história sob uma dúzia de ângulos diferentes.

 

No entanto, queria a cooperação de Ellen North. Com mil raios, queria Ellen North.

 

Tinha por de mais consciência do que significava envolver-se com uma fonte de informações. Pisar o risco era como entrar num ninho de vespas um convite ao fracasso. Comprometeria a sua credibilidade, ensombraria a sua percepção da história.

 

Ao praticar o seu jogo, jogava-o com regras. Já quebrara uma: envolver-se num caso actual. Era procurar complicações. Evidentemente, como o tio Hooter dizia sempre, ele podia não procurar as complicações, mas quando estas surgiam nunca ficava de fora.

 

Aquele caso empolgara-o e mantinha-o preso. Queria estar por dentro, queria saber porque ocorrera e quais as suas consequências nas pessoas que tocara. Queria observá-lo no seu todo o julgamento, a estratégia por detrás da acusação e da defesa, as reacções do público às posições assumidas. Algo importante estava a acontecer ali. Não era apenas mais um crime; era uma encruzilhada, uma crise para uma pequena cidade da América. Sentia a necessidade de captar tudo isso.

 

E distanciar-se a si próprio de outra crise, admitiu-o num recanto obscuro da sua mente... afastar-se antes que ela o engolisse. Este caso era o seu alvo. O truque consistia em entrar nele mantendo todavia toda a distância emocional. Insinuou-se o pensamento de que uma parte de si não desejava distância nenhuma da advogada de acusação.

 

Acontecia, porém, ser Ellen North a manter a distância em seu lugar. Impressionava-a tanto a sua mala de truques como se impressionaria um céptico ao olhar os espelhos mágicos numa feira. Não ligava nenhuma importância à credibilidade do seu nome, nem ao facto de a sua última obra ter estado no topo das listas de best-sellers do país durante três meses inteiros, ou que Tom Cruise tivesse aceite o papel principal da versão cinematográfica de Justiça para Ninguém. Não lhe importava quem ele era, importava-lhe o que ele era, e basear-se-ia nisso.

 

O diabo é que, provavelmente, ela estava certa.

 

O diabo é que, fosse como fosse, ele queria-a.

 

Mitch sentou-se ao volante do seu Explorer, com os ossos doridos. A maior parte do dia fora passada a seguir a busca das luvas desaparecidas que Garrett Wright deitara fora durante a perseguição na noite da sua captura. Os homens de Mitch e os técnicos do BCA haviam levado dois dias a esquadrinhar o caminho da perseguição através dos arbustos de Quarry Hills Park, ao longo das pistas de esqui que acompanhavam as bermas do parque, nas proximidades de Lakeside, e nos pátios das casas contíguas ao parque.

 

Mais sete polegadas de neve recém-caída haviam coberto os vestígios da perseguição, e cada passo dado por um detective ou agente tinha potencial para enterrar nova prova, que não voltaria a ser vista até Abril. Haviam remexido o solo com pás e ancinhos, usado ferramentas de jardim para as áreas demasiado pequenas para outros utensílios. E apesar disso fora, por fim, um estúpido caso que dera algum resultado. Lonnie Dietz deixara-se cair sobre um cepo, cansado e frustrado, e, ao baixar o olhar para uma fenda da árvore morta, algo lhe chamara a atenção. Um pedacinho de tecido branco a etiqueta indicando o tamanho cosida ao forro de uma luva de pele preta.

 

As luvas tinham sido enviadas para o laboratório do BCA em St. Paul. Houvera então que lidar com a sempre presente imprensa, a multidão de jornalistas já em frenesi desde a audiência da caução. E constantemente, como pano de fundo no espírito de Mitch, o pensamento em Megan.

 

A rapariga fora transferida para o Centro Médico de Hennepin County, em Minneapolis, nessa manhã e submetida a uma intervenção cirúrgica às três horas. Ele quereria estar lá com ela, mas o caso sobrepunha-se. Megan sabia isso.

 

Fora a primeira a dizê-lo. Era uma polícia, compreendia as prioridades. Também era uma vítima, o que lhe dava uma motivação acrescida para querer ver a investigação terminada.

 

E também estava sozinha e com medo. O prognóstico de recuperação do uso total da mão era bom. Se não pudesse servir-se da mão direita, não poderia empunhar uma arma, não poderia defender-se, não poderia voltar ao género de trabalho que fora toda a sua vida. Tudo o que sempre desejara: ser uma boa polícia.

 

E tudo o que Mitch desejava de momento era ser capaz de a apoiar. Não foi com prazer que pensou numa hora de condução, e sentiu-se culpado face à ideia de deixar a filha com os avós mais uma noite, mas ligou o motor e concentrou-se em Megan. A última coisa que esperava encontrar no pesadelo do rapto de Josh Kirkwood era amor, e nunca imaginara que o amor chegassse através duma orgulhosa e dura mulher-polícia irlandesa, com uma capacidade de luta do tamanho de Gibraltar; mas fora o que acontecera.

 

Retirou o carro do estacionamento, lutando contra a vontade de carregar no acelerador e mandar à sua vida os repórteres que o tinham seguido. Acenou-lhes para que se afastassem, embora tivesse preferido dar-lhes um murro, e enfiou pela Oslo Street. Estava a meio quarteirão da interestadual quando o seu telemóvel tocou, no bolso do casaco.

 

O que temos agora, santo Deus? resmoneou, encostando à berma.

 

Com o motor a trabalhar, pegou no aparelho e abriu-o, dizendo para consigo que podia ser Megan ou podia ser Jessie para saber onde estava o pai.

 

Mitch Holt.

 

O silêncio fê-lo pensar que o interlocutor desistira enquanto ele se debatia com as luvas e o forro da algibeira tentando agarrar o maldito telemóvel, mas manteve-o junto ao ouvido, tomado por uma sensação sinistra.

 

Está lá? Quem fala?

 

O motor do carro ronronava. Lá fora, a escassa distância da interestadual, reinava um calmo crepúsculo. As pessoas encontravam-se nas suas casas a jantar e a ver os noticiários enquanto a noite começava a cair em seu redor. Era a hora da tarde a que Josh desaparecera.

 

Arrepiava-o essa lembrança, quando a voz chegou pelo telefone. Um sussurro:

 

A ignorância não é inocência mas pecado. A ignorância não é inocência mas pecado. A ignorância não é inocência mas pecado.

 

A ligação foi cortada.

 

Mitch ficou imóvel, com o coração prestes a saltar-lhe do peito. A ignorância não é inocência mas pecado. A mensagem no bilhete deixado no local do rapto de Josh. Conhecimento geral, disse para consigo. A imprensa divulgara-a profusamente. Mesmo assim, não conseguia afastar a desagradável sensação de temor. Tremiam-lhe os músculos. Apertavam-se-lhe os poros como se a temperatura da cabina do carro tivesse descido abaixo de zero.

 

Passou um minuto. Passaram cinco. O telemóvel tocou outra vez, Mitch contraiu-se todo.

 

Mitch Holt.

 

Chefe, é a Natalie. Acabámos de receber uma chamada do xerife. Está em Campion. Têm uma criança desaparecida... e um bilhete.

 

Josh estava sentado no chão da sala de sua casa, de pernas cruzadas, a olhar as chamas da lareira. Um caderno de desenhos gigante e uma caixa nova de marcadores jaziam a seu lado, intocados. Passava no vídeo Aladino, mas o desenho animado não o interessava. A sua irmã pequena, Lily, estava porém deliciada e bamboleava pela sala, a cantar e a dançar com um almofadado Barney, o Dinossauro.

 

Josh deixara de apreciar desenhos animados. Não queria brincar. Não queria falar. Fixava o fogo e imaginava-se um bombeiro em Marte, onde estava sempre quente e não havia crianças.

 

Hannah entrou na sala vinda da cozinha, a esfregar loção nas mãos. A mesa para o jantar estava posta copos para refresco e pratos para piza do leaning Tower of Pizza. A preferida de Josh. Ao diabo com a nutrição saudável. Naquela noite, pedira uma piza média de pepperoni e cogumelos e ia dar bolinhos de chocolate como sobremesa. Não fora ela que os fizera, apenas escolhera os melhores de entre os que amigos, vizinhos e estranhos tinham mandado durante a ausência de Josh.

 

Trouxera o filho para casa nesse mesmo dia. Contra a vontade de Bob Ulrich. Contra a opinião da assistente dos Serviços Sociais de Park County. Todos queriam continuar, as observações, como se Josh fosse uma aberração de circo. Mas ele estava em perfeitas condições físicas e Hannah argumentara que a sua indisponibilidade para falar fosse com quem fosse não era razão para o manter preso a uma cama de hospital. Chegara o momento de ir para casa, onde as coisas lhe eram familiares e se sentia em segurança. Também ela era médica; se Josh desse sinais de problemas físicos, seria a primeira a aperceber-se.

 

E assim tinham vindo para casa, onde jornalistas obstruíam o caminho de entrada e amigos cheios de boa vontade enchiam a casa. A casa, onde tudo parecia familiar, mas nada voltaria nunca a ser o mesmo.

 

Hannah afastou tal pensamento. Mandara embora os amigos, e a Polícia expulsara os jornalistas. Encomendara piza, acendera a lareira e pusera no vídeo um dos filmes predilectos de Josh. Tudo o mais normal que pudera fazer, dadas as circunstâncias.

 

Lily ergueu os braços ao vê-la, toda ela sorrisos e bochechas coradas, e ofereceu-lhe o seu Barney, Hannah pegou-lhe e abraçou-a com força.

 

Mamã, o Josh! anunciou Lily, apontando para o irmão.

 

Pois, o Josh está em casa. Fez-nos falta, não fez, minha querida?

 

Josh! Josh! Josh! cantou Lily, eufórica com o regresso do irmão. Josh fora sempre encantador com ela, meigo, gentil, amoroso. Lia-lhe histórias para adormecer e brincavam juntos.

 

Não lhe dissera uma palavra desde que regressara a casa. Ignorava os seus esforços para o levar a brincar. Olhava através dela como se ela não estivesse ali. Felizmente, Lily mostrava-se demasiado excitada para notar que o irmão não lhe retribuía os gestos de ternura. Teria partido o coração de Hannah se houvesse ressentimentos.

 

Sentou-se no sofá com a bebé ao colo enquanto o filme chegava ao fim. Lily virou-se, com os caracóis louros a balançar.

 

Mais?

 

Vamos perguntar ao Josh disse Hannah, de olhos Postos no filho. Josh, querido, queres que volte a passar o filme?

 

Josh não respondeu, não a olhou. Sentado como sempre estivera durante a última hora, fitando o fogo. Não tocara no caderno de desenho nem nos marcadores.

 

A assistente recomendara que o mantivessem ocupado, que o encorajassem a desenhar, na esperança que ele desse a conhecer as suas experiências com os raptores através dos desenhos. Até agora, a única marca no caderno era a que a própria assistente fizera tentando pintar o próprio Josh a brincar. Josh guardava ciosamente as suas experiências e simultaneamente as suas emoções. Além da violenta reação ao pai, não reagira a nada nem a ninguém.

 

Mais, mais, mamã! insistiu Lily.

 

Esta noite não, meu amor murmurou Hannah. São horas de ver uma coisa calma para nos prepararmos todos para ir para a cama.

 

Lily protestou, pegou no Barney e mudou-se para o lugar ao lado.

 

Onde está o papá?

 

Hoje o papá fica noutro sítio respondeu Hannah, observando Josh para ver se este reagia à menção do pai. Não reagiu.

 

Estava furiosa com Paul por não estar ali, apesar de na realidade não desejar a sua presença. Irritara Josh; não queria uma repetição do sucedido. Nem queria que as tensões entre ela e Paul fossem percebidas pelas crianças.

 

Mesmo assim, uma parte dela queria que Paul impusesse os seus direitos de pai, fizesse qualquer coisa para impedir o desfazer do casamento. Queria o homem com quem casara, o homem que amara; mas perdera-o. Era como se ele tivesse sido uma aberração, sobretudo porque nos primeiros tempos do casamento Paul fora um óptimo marido; por razões que ela não entendia, decaíra lentamente até um ponto a que ela não podia chegar, mal conseguindo reconhecê-lo. Assustava-a o facto de ter pensado que o conhecia bem e agora não o conhecer minimamente.

 

Suspirando, fez um zapping pelos diversos canais de televisão, à procura de qualquer coisa sem sexo, violência ou realidades, detendo-se numa estação independente de Minneapolis que passava The Parent Trap pela milionésima vez. Hayley Mills numa aventura amalucada de irmãs gémeas. Uma chachada clássica dos anos sessenta, quando o mundo se apegava ainda às suas últimas partículas de inocência.

 

Os anos noventa não tardaram a intrometer-se, sob a forma de noticiário. Uma assistente social de ar severo e cabeleira vermelha cheia de laca enchia meio ecrã, enquanto a fotografia de um rapazinho aparecia a um canto sob uma manchete que o anunciava desaparecido.

 

Oh, meu Deus! murmurou Hannah.

 

«As autoridades da pequena cidade de Campion, em Park County, estão a levar esta noite a cabo uma procura minuciosa de Dustin Holloman, de oito anos, raptado de um parque da cidade onde, à tarde, brincava com amigos, depois da escola. O rapto apresenta grandes semelhanças com o caso de Josh Kirkwood, de Deer Lake, também em Park County. Josh, raptado a doze de Janeiro, foi devolvido à família ileso a uma hora avançada da noite passada. Tudo o que resta à família de Dustin Holloman é esperar uma sorte igual.

 

Dustin tem oito anos, cabelo louro e olhos azuis. Quando foi visto pela última vez vestia calças de ganga, um kispo preto e amarelo e boné cor de laranja. Pede-se a quem julgar possuir informações acerca de Dustin Holloman que contacte imediatamente com o gabinete do xerife de Park County.»

 

Josh voltou-se lentamente e olhou para o ecrã do televisor que transmitia a imagem sorridente, levemente desfocada, de Dustin Holloman e os números de telefone contactáveis. Levantou-se e caminhou até ficar de pé exactamente diante do ecrã, olhando inexpressivamente o rapaz dado como desaparecido.

 

Josh murmurou Hannah, erguendo-se do sofá e aproximando-se dele. Ajoelhou no chão a seu lado.

 

Josh fitava a fotografia do rapazinho e levantou um dedo, apontando-o:

 

Oh, oh! disse baixinho. É um «extinto».

 

Vai revelar o conteúdo do bilhete?

 

Em que medida isto afecta o caso contra o doutor Wright?

 

Acredita que é obra do mesmo raptor?

 

Ainda acredita que o Wright tinha um cúmplice, ou acha que pôs o homem errado na cadeia?

 

Quando revelará o conteúdo do bilhete?

 

A que ponto isto altera a sua estratégia?

 

As perguntas ecoavam na cabeça de Ellen, atravessavam-na, giravam-lhe à volta. E o mesmo acontecia com os rostos dos jornalistas. Alguns eram familiares, alguns famosos, muitos obscuros. Todos queriam o mesmo. O furo jornalístico, a citação impressiva, o pitéu exclusivo. Depois de duas semanas às voltas com o rapto de Josh Kirkwood, passavam para Dustin Holloman tão vorazes como sempre, movidos pela ambição de arrebanhar todos os pormenores que pudessem.

 

Eu sou ambicioso, proclamara Adam Slater na véspera, à saída do hospital. Ellen avistara-o no meio do mar de caras, a um canto, à margem do magote, com os olhos jovens a brilhar enquanto absorvia tudo o que se passava.

 

Ambicioso. Ou talvez «desesperado» fosse a palavra certa. Desesperado por respostas. Desesperado por qualquer pista que o levasse à razão pela qual o tecido daquele pacato distrito rural estava a desfiar-se. Era isso o que Ellen sentia: uma sensação aguda, chocante, de desespero, o género de pânico que ameaçava expandir-se e paralisá-la. Era tão intensa agora, quando entrava no caminho para casa, quanto o fora quando se afastara dos jornalistas em Campion.

 

Campion era uma comunidade rural de dois mil habitantes.

 

Um lugar simples, calmo, que fazia com que Deer Lake, a meia hora de carro, parecesse uma agitada metrópole. Como localidade demasiado pequena e demasiado insignificante para necessitar de um departamento de polícia próprio, tinha um acordo com o distrito de modo a que um serviço de agentes mantivesse as coisas em ordem. Os habitantes de Campion tinham visto as notícias da noite em que Josh Kirkwood fora levado e haviam pensado que o mundo em seu redor era um lugar cada vez mais perigoso. Graças a Deus viviam em Campion, onde todos estavam a salvo. Até àquela tarde.

 

A notícia de que uma criança fora levada deixara a cidade estonteada, estupefacta e confusa. Era um déjà vu para os voluntários que afluíam de Deer Lake. Tendo passado anteriormente por tudo aquilo, organizaram rapidamente equipas de busca e instalaram um posto de comando na sede dos Filhos da Noruega, por ser o único local da cidade com espaço suficiente. Mas, tal como acontecera duas semanas atrás, pouco havia para fazer avançar a investigação.

 

Testemunhas? Ellen correu para Mitch, levantando a gola do casaco por causa do vento agreste.

 

Nenhuma respondeu ele, quase aos gritos para se fazer ouvir através do barulho das pás dos helicópteros.

 

Batedores estatais haviam já iniciado as buscas, deslocando-se de um lado para o outro na cidade num raio cada vez mais alargado, enquanto helicópteros das estações de televisão de Twin Cities sobrevoavam o local do crime como abutres. Campion Civic Park transformara-se num surrealista terreno de circo, com as suas árvores estéreis e o alto manto de neve iluminados por holofotes portáteis e os «pirilampos» dos carros da Polícia. Fitas amarelas que delimitavam o local do crime tinham-se enrolado em arbustos e esvoaçavam ao vento como bandeiras.

 

Era suposto o irmão mais velho do rapaz estar a tomar conta dele disse Mitch quando Ellen chegou perto de si. Estavam todos a patinar no ringue descoberto, aqui. Os rapazes mais velhos foram jogar hóquei e puseram fora os mais pequenos. Segundo parece, o Dustin foi para longe. Tirou uma mão enluvada do bolso da parka e afastou um emaranhado de ramagens para Ellen passar. Não se preocupe com o sítio onde põe os pés. O caminho que o rapaz tomou foi já pisado por sessenta ou setenta pares de botas.

 

Desceram uma pequena rampa que Ellen pôde facilmente imaginar como uma rampa para trenós preferida pelas crianças mais novas. Na base havia moitas, atrás das quais estacionavam carros de polícia com as luzes a girar, lançando feixes coloridos sobre uma rua ventosa onde a casa mais próxima ficava a quase cem metros. Na rua que saía do parque, viam-se ruínas do que em tempos haviam sido casas de quintas pardacentas e desertas, com portas abertas e janelas sem vidraças escancaradas como feridas negras em decomposição.

O estômago de Ellen deu uma volta perante a ideia de alguém com oito anos se encontrar naquele local solitário, sabendo-se prestes a ser levado por um estranho.

 

Se é que o raptor era um estranho. Teriam de interrogar os Holloman e os Kirkwood, à procura de quaisquer coincidências. Josh não fora levado por um estranho. Se, de facto, Garrett Wright tivesse sido o raptor.

 

Suspirou profundamente, invadida por dúvidas. Acreditava que Wright era culpado, mas mesmo assim assaltavam-na agora novos pensamentos. A imprensa teria campo de manobra e turvaria as águas em que viria nadar um potencial júri.

 

Ele disse que era um jogo. A recordação das palavras de Megan provocava-lhe arrepios que nada tinham a ver com a descida da temperatura. Se tudo aquilo era um jogo para ele, então apanhar Dustin Holloman era uma jogada brilhante e implacável. Além de trazer interrogações à imprensa, a busca da segunda criança desaparecida teria prioridade e gastaria horas de energia a duas instituições que já investigavam o rapto de Kirkwood: o BCA e o departamento do xerife de Park County. A Polícia de Deer Lake ver-se-ia envolvida, dada a possível conexão com o seu próprio caso. Seria forçada a alargar a investigação, tendo em conta o envolvimento de todo um novo grupo de pessoas os Holloman e os seus amigos e associados e os inimigos. Numa só jogada, o adversário dominara a equipa contrária e dispersara-a.

 

Foi daqui que eles partiram informou Mitch, mostrando o seu distintivo aos delegados que observavam um arbusto nu na avenida.

 

Ellen deixou que ele a conduzisse para o centro do grupo, dominada por maus pressentimentos.

 

Atado ao ramo do arbusto, um cachecol lilás. Tricotado por alguém que amava Dustin. Provavelmente recebera-o no Natal... e provavelmente teria preferido um brinquedo. Esvoaçava no ramo, uma fita grande que era uma pista terrível. E preso ao cachecol, o bilhete: mas triste como anjos pelo PECADO do homem bom, chora ao recordar e envergonha-se por se entregar.

 

Ellen estremeceu. Não conseguia tirar da cabeça a visão do cachecol. Um pequeno símbolo de uma criança pequena apanhada no jogo de um louco, com um objectivo que só este conhecia.

 

Ele disse que era um jogo.

 

Mas com que regras e com que meta e com que motivo? E com que jogadores? Em princípio, todas as pessoas de Deer Lake que alguma vez haviam conversado com Garrett Wright tinham sido interrogadas. Os seus conhecidos eram profissionais respeitados, aturdidos pelo curso dos acontecimentos que o tinham atirado para a cadeia. Os seus alunos uniam-se para o apoiar. A Universidade Harris não nutria por ele senão respeito. Ninguém divulgara ou insinuara que Garrett Wright fosse outra coisa que não o que aparentava ser. Nenhuma predilecção secreta por pornografia infantil. Nenhuma ligação ao submundo do crime. Nenhuma vida escondida ou ocupação satânica.

 

Mas alguém trouxera Josh Kirkwood para casa e alguém levara Dustin Holloman.

 

Naquela noite, Ellen estava demasiado estafada para tentar tirar conclusões.

 

Ao pegar no controlo remoto da porta da garagem, algo bateu no vidro da janela do condutor com a violência de uma pedrada. Atirando-se para o lado, com um grito irreprimível de surpresa, virou os olhos, muito abertos, e deparou com Jay Butler Brooks a fitá-la.

 

Vai ficar aí sentada toda a noite ou sai do carro e convida-me a tomar um café? Estou a gelar, aqui fora.

 

Ellen respondeu-lhe com um olhar severo. Era tarde, estava cansada e ainda tinha trabalho a fazer antes de cair na inconsciência por umas horas. Porém, enquanto ela metia o Bonneville na garagem, Brooks seguia a seu lado como se tivesse todo o direito de estar ali.

 

O Glendenning não pode forçar-me a «receber hóspedes» na minha própria casa disse Ellen, tirando a pasta do carro. Por muito que de vez em quando possa parecer, não sou uma escrava.

 

Eu levo ofereceu-se Jay, tentando pegar na pasta. Era de cabedal antigo, do tamanho de uma pequena construção e pesava como se ela a tivesse enchido com blocos de granito.

 

Não, não é preciso. E Ellen encaminhou-se para a porta da casa.

 

Jay saltou para junto dela no patamar e segurou o puxador da porta enquanto ela andava às voltas com as chaves.

 

Ellen, gostava de falar consigo.

 

E eu gostava de ir para a cama.

 

Jay inclinou-se para a frente e brindou-a com um sorriso suave, sexy e bem-humorado.

 

Podemos conversar depois disso?

 

Ellen disse para consigo que era aversão o que a levava a atrapalhar-se com as chaves e a deixá-las cair e não a imagem de Jay Butler Brooks na sua cama vestido apenas com uma camisa... e aquele sorriso.

 

Não estou com disposição para esse tipo de humor e já tive a minha quota de discussões por hoje disse, entrando no vestíbulo onde Harry, enroscado na sua almofada, soltou um latido de boas-vindas e depois saltou para chamar a atenção, batendo sinais morse com as patas no chão de vinil. Ellen fez-lhe distraidamente uma festa, sempre de sobrolho franzido em relação ao homem que parecia disposto a invadir a sua vida. Porque não vai para o sítio de onde veio?

 

Vim de Campion respondeu Jay, entrando insidiosamente antes que ela pudesse fechar-lhe a porta na cara.

 

Dava um óptimo agente de vendas resmungou Ellen, tirando as botas que colocou sobre o tapete junto à porta.

 

Já fui. Tirou as luvas e meteu-as nos bolsos do casaco. A minha velha e respeitável família sulista gastou todo o seu velho e respeitável dinheiro sulista muito antes de eu entrar na faculdade.

 

Estendeu a mão a Harry. O cão cheirou-a, depois passou a sua grande língua rosada pelos nós dos dedos de Jay. Ellen fixou o animal como quem olha um traidor e encaminhou-se para a cozinha.

 

Portanto, a sua curiosidade mórbida conduziu-o a Campion. Não me surpreende. O enredo avoluma-se, para si. Observou bem e de perto a mãe do rapaz? Sugiro que a Kathy Bates interprete o papel dela no filme. Acho grande a semelhança... mas, quando a vi, ela soluçava, por isso é difícil de dizer.

 

Não me aproximei da mulher. Jay parou à entrada da porta entre a cozinha e a sala de jantar. Aflige-me pensar que outra criança vai sofrer. Eu não sou um vampiro, Ellen, a insinuação magoa-me.

 

Ellen pousou a pasta numa mesa de cerejeira com umas graciosas pernas, de estilo Queen Anne.

 

Lamento. Não lhe pedi que viesse aqui. Não o convidei para minha casa. E, francamente, não estou com disposição para anfítriã.

 

Vim para ver como estava. Teve um dia dos diabos.

 

Num relancear de olhos viu toda a sala de jantar paredes estampadas em amarelo-claro, decoradas com candeeiros de latão, e retratos antigos de gente do século xvi. De bom gosto, simples, com classe. Substituía a parede do fundo uma janela de sacada, cuja secção central era uma porta que provavelmente abriria para uma varanda ou um pátio. No lado oposto, um corrimão de dois metros e meio ou três metros de comprimento, um ponto gracioso para olhar a sala comum, num nível inferior.

 

Vê como me julgou mal? Desceu os degraus atapetados até à sala comum. Com um estalido de interruptor, os candeeiros de mesa de latão inundaram a sala de uma luz difusa. Vim cá por preocupação consigo. Quero eu dizer, partilhámos uma experiência de certa forma conjunta esta tarde, você e eu. Tentar arrancar alguém à morte é uma experiência bem intimidante.

 

Pois, somos praticamente irmão e irmã de sangue ironizou Ellen secamente. Despiu o casaco e pendurou-o nas costas de uma cadeira, cuidadosamente atenta ao homem que estava a imiscuir-se não apenas na sua casa, mas no seu caso. Ele deambulava pela sala como um gato irrequieto, passando a mão pelos móveis, dir-se-ia que a marcar o território. E além da sua enorme preocupação comigo continuou, descendo os degraus, não teve a mínima intenção, ao vir aqui, de tentar obter umas informaçõezitas sobre o rapto do Dustin Holloman?

 

Posso obter essas informações de outras fontes. Fontes melhores, se quer que seja sincero. Pressionou um interruptor junto da lareira e logo chamas irromperam numa pilha de toros artificiais. Asseado, perfeito, sem desordem. Virou as costas ao fogo, pressionando as mãos contra o anteparo para absorver o calor, que era real por muito que os toros o não fossem.

 

Ellen mantinha-se de pé do outro lado da sala, junto a uma pesada cadeira estofada. Era óbvio que não estivera em casa antes de ser chamada para a crise em Campion. Vestia ainda o fato cinzento que usara na audiência de caução de Wright e aquando da morte do juiz Franken. O cabelo soltara-se e caía-lhe como seda pura até aos ombros. A sua maquilhagem há muito que se havia desvanecido. Mostrava-se exausta, irascível e decididamente intratável.

 

Todavia, apesar de notar tudo isso, Jay recordava o modo como ela entrara no posto de comando na sede dos Filhos da Noruega, em Campion: trémula, receosa. O mau da fita atirara-lhes uma bola enviesada e ninguém estava preparado para tal.

 

O juiz do seu caso morre-lhe nos braços, outra criança é raptada enquanto o seu mau da fita está atrás das grades. Ao falar, ia-se aproximando lentamente dela. É muita coisa junta.

 

É, e agora tenho de me haver consigo retorquiu Ellen, cruzando os braços. E tentar perceber se está a memorizar cada uma das minhas palavras ou se meteu um gravador na algibeira.

 

É tremendamente desconfiada.

 

Não lhe confiaria mais do que aquilo que pudesse confiar-lhe.

 

Depois de eu vir observá-la e convencer-me por mim próprio do seu bem-estar?

 

Pois, pois!

 

Pode troçar de mim, se isso lhe agrada... O seu tom de voz era rouco, cavo, sexy. Mas informo-a desde já: não há gravador nenhum na minha algibeira.

 

Aceito a sua palavra. Agora já viu que ainda estou inteira. Afastou os braços do corpo, a título de confirmação do facto. Já fez o seu acto de bom samaritano da década. Está livre.

 

Ignorando a sugestão de não ser bem-vindo, Jay sentou-se no grosso braço da cadeira estofada. Podia ser deliberadamente estúpido como uma porta. Era uma arte que lhe fora útil como advogado e ainda mais como escritor.

 

Persistência era o nome do jogo quando se tratava de obter informações.

 

Acha que faz parte do plano do Wright? Uma manobra de diversão? Eu teria pensado que trazer o miúdo Kirkwood de volta bastava para tanto.

 

Mas não abriu a defesa resmungou Ellen mais para si do que para Jay.

 

Não percebo.

 

Uma analogia de futebol. Tive um professor de Direito que jogava nos Vikings.

 

Ah! Eu jogo basebol.

 

A equipa atacante apresenta uma formação que leva a equipa defensiva a espalhar-se por todo o campo, criando inevitavelmente aberturas por onde o ataque se infiltre.

 

Envolver todo um novo conjunto de vítimas noutra cidade força a investigação a alargar-se em vez de se concentrar no Wright e no cúmplice secreto do Wright deduziu Jay, assentindo com a cabeça. Bem pensado, doutora.

 

Isso não passa de conjectura e especulação replicou ela, enquanto caminhava para a porta. Tanto quanto sei, o rapto do Dustin Holloman não está relacionado com o rapto do Josh Kirkwood.

 

Jay pensou no que nessa noite vira e sentira em Campion. O sabor metálico do medo, a sensação de que o lugar deslizara de certa forma para um universo alternativo. Perigo. Estivera tão presente quanto a Polícia e a imprensa. Parecia penetrar na noite, escurecendo-a, tornando cortante o vento. E a esvoaçar, garrido, no negrume, um cachecol lilás atado ao ramo nu de uma pequena árvore morta pelo Inverno.

 

Lembrou-se de ter pensado: Jesus, Brooks, porque te meteste nisto?

 

Mais do que esperara.

 

Acho que ambos sabemos mais disse para Ellen, levantando-se devagar do braço da cadeira. A questão é esta: até que ponto será afectada a acusação contra o Wright?

 

Ellen respirou fundo e ruidosamente, encostou-se à parede, demasiado fatigada para se manter de pé.

 

Sabe, tem razão, foi um dia longo, ainda tenho trabalho a fazer e não há razão nenhuma para a sua presença, Porque não vou partilhar nada consigo...

 

Do caso ou de si?

 

De ambos.

 

Consigo não saio vencedor, pois não? Fingiu-se frustrado e uniu os sobrolhos. Mas, como sempre, com um olhar estranhamente divertido.

 

Ellen manteve-se firme.

 

Nem no seu melhor dia.

 

Jay avaliou a sensatez de tentar pressionar para obter algo mais, mas decidiu não desafiar a sorte. Queria vencê-la, não humilhá-la. Já se via obrigado a sair de uma espécie de buraco depois da derrota de Glendenning, que era forçado a admitir ter sido um erro grave da sua parte. Em vez de lhe aplainar o caminho, trazer Glendenning tivera o efeito de um desafio perdido. Fora o que ganhara ao meter-se naquela embrulhada... mas agora estava metido, era participante. Fora esse o objectivo: introduzir-se.

 

Boa noite, Mister Brooks despediu-se Ellen, abrindo a porta.

 

Brooks meteu as mãos nas algibeiras do casaco e curvou os ombros à mera ideia do frio, deitando um prolongado olhar à lareira. O cão desceu ruidosamente os degraus e passou por ele, a abanar a cauda mas sem se deter no seu caminho para um cantinho quente diante do aquecimento. A familiaridade da cena tocou-o mais do que poderia supor.

 

Bem disse em voz arrastada, encaminhando-se para a porta aberta, pelo menos o cão gosta de mim.

 

Não valorize o facto aconselhou Ellen. Ele bebe água da sanita, também.

 

Jay parou em frente dela. Suficientemente perto para que, ao olhá-lo nos olhos, lhe parecesse ler neles um toque de velhice e tristeza, como que pena. Patetice, disse para consigo. Não era o género de homem que sente pena. Ia atrás do que queria e obtinha-o; e ela duvidava de que alguma vez olhasse para trás.

 

Boa noite, Ellen murmurou ele, num tom tão íntimo como se toda a vida se tivessem conhecido. Descanse. Merece-o.

 

Com os olhos postos nos dela, inclinou-se e beijou-a na face. Não um beijo rápido, impessoal, mas uma pressão suave, quente e íntima dos seus lábios contra a pele dela; apeteceu a Ellen virar-se, num convite a um beijo nos lábios. Tal ideia provocou-lhe tremores e desencadeou um fluxo de interrogações proibidas. Como seria sentir aquela boca incrível...

 

Afastou mentalmente a ideia, retornou ao momento presente, surpresa por um simples beijo na face lhe acelerar o pulso e anular a sensatez. O ar de bom entendedor de Brooks era suficiente para desejar atirar-lhe com a porta à cara.

 

Sonhos cor-de-rosa, Ellen. E Jay embrenhou-se na noite.

 

Ellen ficou na soleira da porta, encolhida por causa do frio, a vê-lo atravessar a rua e entrar num jipe Cherokee escuro. O motor roncou e ele partiu; a desconfortável inquietação que nela despertara permaneceu.

 

Desorientava-a... Num dado momento, encantador, preocupado no seguinte, depois sedutor, depois mercenário. Até o artigo que lera a seu respeito aludia às «contradições nele existentes dificilmente conciliáveis». Pensou na avaliação de Phoebe relativa à sua aura turbulenta, evidenciando um forte tumulto interno e sexualidade em bruto. Perguntou-se quem era ele na realidade e respondeu a si própria que não precisava de o saber. Só precisava de saber uma coisa: não devia confiar nele.

 

Em quem podemos confiar?

 

Em ninguém.

 

Não confiar em ninguém. Tal ideia deixava-a vazia e doente. Era confiante por natureza. Queria sentir-se segura. Queria crer que isso ainda era possível, mas a evidência não a apoiava. Outra criança desaparecera e Ellen via-se subitamente rodeada por pessoas a quem não ousava virar as costas: Brooks, Rudy, Glendenning, Garrett Wright.

 

Inesperadamente, a morte do juiz Franken assumiu proporções simbólicas. Era o último homem honrado. Era a jusuça, e a sua morte a morte de uma era.

 

Santo Deus, Ellen. Censurou-se pelo seu pendor melodramático, mas dentro de si persistia o medo de que o seu mundo tivesse mudado e não retrocedesse.

 

Para se distrair saiu para a varanda em meias e foi buscar o correio à caixa junto à porta. Contas, concursos, um cartão de Natal da irmã Jill, um mês atrasado, mais concursos. Lixo.

 

Os seus dedos tocaram em qualquer coisa que ficara presa ao fundo da caixa. Com uma careta, torceu a mão para a apanhar e agarrou a ponta de um papel. Puxou-o, à espera de mais publicidade. O que viu gelou-lhe o sangue nas veias.

 

Uma tira amarrotada de papel branco escrita a preto: não acabará até ter acabado.

 

Ele cita Oliver Wendell Holmes, Robert Browning, William Blake, Thomas Campbell e Yogi Berrai comentou Cameron, instalando-se numa cadeira à longa mesa, com passas numa mão e um café de Phoebe na outra. Não liga. Tem de ser um macaco de imitação.

 

Às oito da manhã a sala de conferências estava fria como gelo. Num rasgo de responsabilidade financeira, os comissários distritais tinham determinado ser desnecessário manter a temperatura do tribunal acima dos cinco graus durante a noite. Levava metade do dia a aquecer o edifício. Todos os que se encontravam na sala aqueciam as mãos nas canecas de café.

 

Ou um dos apoiantes do Wright sugeriu Rudy. Exigira para si a cabeceira da mesa. Depois de passar dois dias na esteira da poderosa aura de Bill Glendenning, sentia aumentar a sua própria sensação de poder. Estava nas boas graças de Glendenning, relativamente seguro quanto às linhas secundárias deste caso, e Victor Franken dera finalmente a alma ao Criador, ficando portanto vago o seu lugar. Talvez nem tudo corresse bem no mundo, mas Rudy Stovich não tinha pessoalmente muito de que se queixar.

 

Podia ter sido um dos alunos do Wright opinou Mitch, com uma ausência de inflexão que traía as suas dúvidas. Declinara a oferta de uma cadeira, optando por deambular devagarinho ao longo da mesa. Mal dormido e com muito stress, aguentava-se à custa de imensa cafeína e donuts açucarados. Ellen, você disse que teve ontem uma briga com os Si-Fi Cowboys. O que acha?

 

Não sei. Pegou num biscoito de mirtilo. Estava exausta. Com um total de oito horas de sono em duas noites, as suas ideias eram pesadas e lentas, como se o ar que a rodeava tivesse a densidade da água. O correio de ontem estava por cima na caixa, por isso eu diria que o bilhete foi lá metido antes das duas da tarde de ontem. Repetia a teoria que na noite anterior expusera a um polícia e depois a outro e outro. Se fosse um dos Cowboys, teria tido de correr direito à minha casa logo depois de eu estar com eles.

 

Os meus homens indagarão esta manhã junto dos seus vizinhos se houve quem visse alguém a rondar a sua casa ontem.

 

E provavelmente não ficariam a saber nada. Os vizinhos dela eram trabalhadores, com empregos de dia na cidade, na Harris ou em Minneapolis. Havia sempre a possibilidade de alguém ter ficado em casa por causa da gripe que grassava e ter olhado pela janela no momento certo, mas Ellen não tinha a mínima esperança nisso. O que tinha era uma sensação de inquietude que germinava desde segunda-feira.

 

Continuava a vir-lhe à memória a noite de segunda-feira o súbito acordar, o rosnar de Harry, o telefonema silencioso, depois a chamada a informá-la de que Josh estava em casa.

 

Relatou tudo a Mitch, passo a passo, algo embaraçada por estar a contá-lo. De uma perspectiva objectiva, racional, nada acontecera. Não houvera intrusos na sua casa. O telefonema fora provavelmente um número errado. Mas o timing de todo esse «nada» causava-lhe mal-estar.

 

Mitch interrompeu o seu vaivém e encarou-a, apoiando as mãos espalmadas na mesa.

 

O seu número de casa vem na lista?

 

Nas minhas iniciais: E. E. North.

 

Recebi uma chamada a noite passada confessou ele. No meu telemóvel, um número que apenas poucas pessoas conhecem. O interlocutor sussurrou: «A ignorância não é inocência mas pecado.» Logo a seguir ao telefonema, eu soube do rapto em Campion.

 

Rudy mostrou-se alarmado.

 

Quer dizer que esse maluco é alguém que você conhece?

 

Não. Mitch abanou a cabeça, franziu os lábios. O nosso rapaz teve a lata de telefonar à minha sogra e arrancar-lhe o número. Estava a pensar que, se ele tivesse levado alguém à certa para conseguir o número da Ellen, teríamos, duas pessoas que possivelmente seriam capazes de identificar a sua voz.

 

Cameron olhou para Ellen, preocupado.

 

Porque é que não disse nada ontem sobre esse telefonema?

 

Achei que era nervosismo meu. O Josh voltou para casa. Não pensei mais no assunto... até encontrar o bilhete. Mesmo agora, não tenho a certeza de que tivesse qualquer significado. Quero dizer, você tem provavelmente razão... Yogi Berra não é decerto o estilo do Wright.

 

Mas podia ser o estilo do seu parceiro argumentou Mitch. Ou podia ser a sua ideia de uma piada. Não sou perito, mas esse bilhete assemelha-se aos outros.

 

Todavia a imprensa tornou público o facto de os bilhetes serem em papel vulgar e provirem de uma impressora a laser sublinhou Cameron, pondo-se automaticamente na pele de advogado do diabo. Qualquer idiota com acesso a uma impressora a laser podia fazê-lo.

 

É verdade, mas a imprensa não viu os bilhetes, o tipo usado, a preferência por letras minúsculas. Afastou-se da mesa, tirando a parka das costas da cadeira onde a deixara. Veremos o que têm a dizer os rapazes do laboratório. Entretanto, ocupar-nos-emos dos seus vizinhos disse a Ellen. Um deles pode ter visto um raptor.

 

Não parecia mais esperançado do que ela, pensou Ellen. A esperança tornara-se um luxo raro.

 

Qual são as últimas notícias de Campion?

 

Ajudem! respondeu ele, enfiando o casaco. Não têm indício nenhum a que se agarrar. Pusemos uma equipa de várias jurisdições a trabalhar em conjunto: os meus homens, do gabinete do Steiger e do BCA. Até agora, não há nada. Os Holloman não conhecem os Kirkwood, a Hannah não é médica deles nem o Paul é o seu contabilista, os miúdos nunca se viram. O Dustin e o Josh partilham alguns traços físicos: cabelo claro, olhos azuis, a mesma idade. Isso seria mais significativo se se tratasse de uma coisa sexual, mas não parece sê-lo. É uma espécie de um raio de jogo de xadrez.

 

Rudy empurrou a cadeira para trás e ergueu-se, puxando Para cima as calças, pelo cinto.

 

Não deixe de nos manter a par do que se for passando, Mitch disse, com ar importante.

 

Não deixo. Se houver alguma coisa. Ellen, quero que telefone ao departamento se lhe acontecer mais qualquer coisa esquisita. Pode ser o nosso homem ou não. O Wright tem imensos apoiantes. Podem não confinar todos eles a sua fúria ao piquenique em frente do tribunal. Você é uma espécie de alvo.

 

Obrigada por mo recordar respondeu Ellen ironicamente. E depois, lembrou-se de Megan. Megan, deitada numa cama de hospital por causa daquele caso. Se o bilhete viera do cúmplice de Wright, então isso podia significar que ela fora seleccionada para inclusão no jogo, tal como Megan o fora.

 

Alguém vos disse que a Karen Wright foi para casa ontem? perguntou Mitch, de costas para a porta.

 

Para casa... para o quarteirão abaixo do dos KirkB wood? exclamou Cameron, aterrorizado. É a única casa que ela tem retorquiu Mitch. O BCA deu por findo o exame do local, e a junta administrativa estava a fazer barulho com o custo de a manter no Fontaine, por isso levaram-na para casa.

 

E quanto ao cúmplice? interrogou Cameron. Se a Karen sabe qualquer coisa, pode estar em perigo.

 

O BCA tem um homem a vigiá-la. Grande sorte teríamos se esse cretino fosse suficientemente estúpido para se mostrar..

 

Preocupa-me a saúde mental dela disse Ellen.! Está sozinha? Tem amigos a olhar por ela, e a Teresa McGuire, coordenadora do acompanhamento a vítimas e testemunhas! acompanha-a e relata tudo ao meu gabinete. Ainda espera» que ela se vire contra o Wright? Pode ter um rebate de consciência.

 

Eu não contava com isso, doutora. Cameron voltou-se para Rudy, enquanto Mitch saía e Ellen metia a cabeça de fora da porta para pedir mais café.

 

Alguma informação sobre quem ficará com o caso agora que o Franken desapareceu? Ainda nada. Pode ser que adiem tudo até ser nomeado um substituto respondeu Rudy, após o que franziu o sobrolho, preocupando-o de súbito o facto de a sua ligação ao caso, por muito que tentasse minimizá-la, poder de qualquer modo pôr em risco as suas possibilidades de nomeação para o lugar de Franken.

 

- Se isso acontecer, podemos contar com uma peixeirada do advogado do Wright comentou Ellen.

 

Voltou para a mesa devagar, a olhar as montanhas de papel a que o caso já dera azo pilhas de declarações, mandados de busca, ordens de prisão, relatórios da Polícia. Ela e Cameron haviam requisitado aquela sala de conferências para sua «sala de guerra», para poderem expor tudo e estudá-lo.

 

No meio de um monte de recortes de notícias estava o matutino Star Tribune aberto numa foto de Jay Butler Brooks a olhar carrancudo a câmara. No título lia-se: «O Patrão do Crime Luta para Salvar Juiz.» Ellen atirou-o para a credência. Atrás dela, o ar quente empoeirado dos ventiladores espalhou-se pela velha janela, pela qual oitenta por cento do calor se escapava.

 

Por lei, o Wright tem direito à audiência sem atrasos disse ela. Aposto que vão negligenciar o Witt e o Grabko para o lugar do juiz Franken e atirar outro juiz para aqui para aguentar a carga até o governador nomear um substituto.

 

Rudy suspirou de alívio:

 

Quem é agora o advogado do Wright? Cameron encolheu os ombros.

 

Ellen abanou a cabeça.

 

Vou estar com o Dennis mais tarde. Talvez ele saiba alguma coisa que nós não sabemos.

 

Pode apostar que ele sabe alguma coisa que nós não sabemos disse Cameron sombriamente. Diz-se que teve uma longa conversa com o seu cliente depois da audiência de caução de ontem e que parecia aborrecido ao sair da cadeia.

 

Acabava de perder um cliente e uma oportunidade de obter uma enorme publicidade sublinhou Rudy.

 

Cameron não comentou, de olhar fixo em Ellen.

 

Hei-de descobrir tudo o que puder afirmou esta. Mas até que ponto pode ele contar-me alguma coisa sem quebra da ética?

 

E até que ponto pode calar-se sem quebra da decência?

 

Informe-me do que souber ordenou Rudy. Como é que estamos em relação à audiência?

 

Obtivemos as declarações do Mitch e da Megan O’Malley relativamente ao rapto dela e a todo o drama esclareceu Cameron. Não teremos o resultado do teste de ADN do sangue do lençol em que o Wright a enrolou nessa noite, mas já obtivemos os tipos de sangue... um dos quais é igual ao da O’Malley e outro condiz com o do Josh.

 

Quanto à situação da O’Malley interveio Ellen, como sabe, o Wright foi apanhado a rondar a cena. Parafraseando a Megan, que se danem os seus direitos.

 

Mas quanto ao caso do miúdo? Até agora, temos uma vítima que não fala.

 

Temos a Ruth Cooper, a testemunha que identificou o Wright na formação como sendo o homem que viu em Ryan’s Bay no dia em que o casaco do Josh Kirkwood foi encontrado disse Cameron.

 

Rudy deixou escapar da garganta um som que podia significar contentamento ou mucosidade.

 

Eu estava lá. Os homens na formação usavam parkas e óculos de sol. Um bom advogado de defesa anula esse testemunho com uma perna às costas.

 

O visual pode ser duvidoso admitiu Ellen, mas decerto se lembra de que Mistress Cooper também fez uma identificação de voz. As duas em conjunto serão difíceis de anular.

 

Também temos o testemunho da agente O’Malley sobre o que o Wright lhe confessou a respeito do Josh sublinhou Cameron.

 

Ele disse, ela disse resmungou Rudy, descontente.

 

Ela é uma agente da Polícia.

 

E é uma vítima. Dificilmente uma testemunha imparcial.

 

Talvez sim, talvez não. Eu penso que as suas credenciais terão bastante peso.

 

O Wright conhece a família Kirkwood continuou Cameron. E tem um álibi pouco sólido para a hora a que o Josh desapareceu. Diz que ficou no seu escritório a trabalhar nessa noite, mas até agora é só a sua palavra.

 

E qual o motivo dele? perguntou Rudy.

 

Não temos nenhum, a não ser que está a jogar um qualquer jogo doentio respondeu Ellen. De momento, tudo o que há a fazer é mantê-lo fora de circulação. Não precisamos de motivo até ao julgamento. Temos de ter bem presente que o Wright nem sequer era um suspeito até sábado à noite. Na verdade, a investigação está apenas a começar.

 

Rudy deslocou-se até à janela e olhou para baixo, para o grupo mais próximo de contestatários, no passeio.

 

Dá a impressão de que tem tudo sob controlo, Ellen disse, olhando-a pelo canto do olho.

 

Há meses que corria o boato de que os yuppies de Park County tinham em vista corrê-lo do gabinete e substituí-lo por Ellen North. Quando se mudasse para a cadeira de Franken, o caminho ficaria aberto para ela. Ela e os seus apoiantes pareciam ver este caso-como a sua oportunidade de subir à ribalta, mas a ribalta não seria a única coisa a que subiria. Rudy inspirou profundamente e anteviu o seu cargo de juiz tão próximo que conseguia sentir a nova toga preta a envolver o seu corpo.

 

Vocês sabem que eu no fundo não passo de um velho advogado de província disse. Quando cheguei a este lugar, não havia aqui casos importantes. O povo local não fechava as portas à chave. Deixavam os filhos correr toda a cidade sem se preocuparem com eles. Deer Lake era o género de cidade que supostamente existe em toda a América.

 

Ellen reconheceu de imediato o discurso. Ele usara-o na sua alegação final de um julgamento relacionado com drogas, há dezoito meses. Soltou um suspiro exagerado e afivelou uma expressão de palhaço triste.

 

Faça o seu melhor, Ellen instruiu-a. E que os seus constituintes saibam sempre que fez o seu melhor.

 

Rudy, já lho disse uma centena de vezes: não tenho a mínima intenção de candidatar-me ao seu gabinete.

 

E pela centésima primeira vez ele não prestou atenção. A ironia era demasiada. A ambição dela projectara-a para onde estava. Não tinha ambições políticas, pensara que abandonar Hennepin County fora disso uma afirmação clara. Mesmo assim, no confortável lugar que atingira, era constantemente observada com olhares suspeitos como sendo uma mulher ambiciosa, com voos mais altos em mira.

 

Sim, bem... Rudy aprestava-se para sair. Quando ele abria a porta, entrou Phoebe com a cafeteira do café na mão.

 

O Garrett Wright tem um novo advogado. Resplandecia-lhe o rosto, excitada com tudo aquilo. Pousou a cafeteira na mesa, incapaz de transmitir a informação sem fazer uso das mãos. Uma pessoa muito, muito importante acrescentou, fazendo tilintar as pulseiras. Anthony Costello.

 

Cameron assobiou baixinho.

 

Ena! Onde foi o Wright arranjar tanto dinheiro? O preço dos serviços do Costello é mais do que ganha num ano um professor da Harris.

 

Também pensei isso concordou Phoebe, deixando-se cair na cadeira a seu lado e preparando-se para um bocado de especulação judiciosa.

 

Não interessa quem é o advogado dele. Rudy jorrava falsa confiança como uma fonte, a antevisão do lugar de juiz emprestava-lhe magnanimidade. Temos equipa para o vencer. Não é verdade, Ellen? Ellen?

 

Ellen voltou a cabeça na direcção de Rudy, sentindo-se desfalecer.

 

Sim, claro.

 

A sua própria voz soava-lhe longínqua, como se viesse de alguém no corredor. Pressionava as mãos nas costas de uma cadeira, com as unhas cravadas no estofo.

 

O Wright pode trazer o seu imponente advogado de Twin Cities. Nós temos a Ellen declarou Rudy, enquanto saía para o corredor, agradecendo a Deus a ideia que tivera de atirar a batata quente para Ellen.

 

Alguma vez teve o Costello como opositor quando estava em Hennepin County? quis saber Cameron.

 

Algumas vezes.

 

Imaginou que, se se olhasse num espelho, se veria pálida e de olhos arregalados, mas nem Phoebe nem Cameron pareciam notar nada de estranho no seu aspecto ou nos seus modos. Puxou a cadeira e sentou-se. Dir-se-ia que o seu corpo agia independentemente do espírito, graças a Deus. Em espírito, tropeçava, atabalhoada, desequilibrada por um tiro inesperado.

 

Não esperara ouvir nunca, naqueles gabinetes, o nome de Tony Costello. Tony Costello era dinheiro graúdo, estilo e pompa, um dos advogados de defesa de primeira em Twin Cities e fazia rapidamente nome em larga escala. O que, obviamente, se passaria com o caso Garrett Wright: absorveria publicidade como uma esponja, posando para as câmaras e debitando a sua propaganda de justiça para o homem comum.

 

Fora para isso que aceitara como cliente Garrett Wright, disse Ellen com os seus botões. Não tinha nada a ver com o facto de ser ela a acusação, e decerto não tinha nada a ver com o facto de em tempos terem sido amantes.

 

Garrett Wright não podia ter sabido nada sobre o seu passado com Tony Costello. Era apenas uma coincidência o facto de ele ter escolhido o advogado de defesa do estado que a conhecia melhor do que qualquer outro, o que escapara à sua vigilância e a apunhalara pelas costas.

 

Embora tentasse acalmar-se, a onda de mal-estar que a acompanhava desde segunda-feira à noite avolumou-se um pouco mais.

 

Calculámos todas as jogadas, todas as opções, todas as possibilidades, sussurrara Garrett Wright a Megan. Não podemos perder.

 

Não podemos perder declarou Anthony Costello, em voz nítida e forte, a olhar para as câmaras. O doutor Wright é um homem inocente, erradamente acusado e erradamente preso.

 

Estalaram obturadores. Zumbiram motores. As câmaras adoravam o seu rosto quadrado, austero, absolutamente másculo, permanentemente bronzeado. Tinha olhos cor de café, profundos sob a saliência das sobrancelhas. Há muito que aperfeiçoara um olhar fixo penetrante que levava as testemunhas a vacilar e o júri a ceder.

 

Parou nos degraus da frente da sede dos Filhos da Noruega, em Campion, com o vento a agitar-lhe o cabelo negro. As câmaras tinham de disparar para cima para o captar, um ângulo que o fazia parecer mais alto do que o seu metro e oitenta e realçava o seu corpo bem constituído e o excelente corte do seu sobretudo preto de lã. Teria preferido fazer as suas primeiras declarações à imprensa a propósito do novo cliente diante do tribunal de Park County porque gostava do simbolismo de tomar de assalto as salas da justiça, mas a imprensa estava em Campion a cobrir o rapto de uma segunda criança, por isso fora parar ao Plano B. Era apanágio de um bom advogado de defesa ser flexível, adaptável. Tinha de ser capaz de seguir a corrente, não perder o pé.

 

Começara a formular uma estratégia para a defesa no momento em que aceitara Garrett Wright como cliente. Queria chamar rápida e energicamente a atenção dos media e mantê-la na mão. O rapto de Dustin Holloman era uma tragédia terrível, mas Costello vira-o imediatamente como a oportunidade que era. Naturalmente, lamentava a família no sentido em que podem lamentar-se seres fictícios num filme. Não permitiria que o sentimento se tornasse mais pessoal do que isso. Era essencial para si ver a tragédia deles numa perspectiva de que o seu cliente viesse, potencialmente, a beneficiar.

 

O meu cliente está na cadeia, com a reputação mais afectada a cada hora que passa, enquanto um louco persegue as crianças de Park County declarou. A investigação do rapto em Deer Lake foi mal conduzida desde o início. Daí resultou que houve mortes desnecessárias, um homem inocente foi encarcerado, e agora outra família foi dilacerada.

 

Os jornalistas clamavam pela sua atenção, gritando perguntas, elevando microfones até junto dele. Costello deu a resposta que quis dar, sem lhe importar que a pergunta tivesse ou não sido feita.

 

Estou aqui em Park County para que seja feita justiça. Estou aqui em Campion como emissário do meu cliente para expressar o meu mais profundo pesar à família do pequeno Dustin Holloman. Sei que o doutor Wright quereria que eu fizesse um apelo pessoal aos raptores para que devolvam o Dustin ileso.

 

Não sabia semelhante coisa, evidentemente. Ainda não falara com Garrett Wright. Era improvável que este tivesse ouvido falar no rapto. Tanto quanto Costello sabia, Wright era um filho da mãe de coração empedernido que não teria sentido um segundo de piedade se todas as crianças de Campion fossem arrancadas às famílias e expedidas para campos de concentração. Não importava. A partir daquele momento, a imprensa veria o seu cliente como um homem compassivo, com um profundo, um permanente respeito pelas famílias, pela lei, pela América.

 

Quem é que o senhor censura por ter conduzido mal a investigação Kirkwood?

 

Franziu o sobrolho na direcção do jornalista que lançara a pergunta.

 

Acho que há o suficiente para censurar muita gente, não lhe parece?

 

Não tendo prestado grande atenção ao caso desde o princípio, passara seis horas da noite anterior a analisar excertos de notícias dos dois principais jornais de Minneapolis e de St. Paul. Vira vídeos de noticiários e entrevistas, absorvendo tudo o que pudera acerca dos principais intervenientes, embora não estivesse ainda apto a seleccionar um e atirá-lo às feras.

 

A agente do BCA dormia com o chefe de polícia. Um pedófilo condenado trabalhara no ringue de patinagem e depois matara-se quando estava sob custódia. Um cadáver mumificado fora encontrado na garagem de um diácono da igreja que escapara à captura durante dois dias e depois se matara antes de poder ser apanhado. Havia enredo suficiente para uma novela e fora exactamente isso que atraíra a atenção das redes de noticiário e dos tablóides. Imunes aos crimes quotidianos, procuravam o sensacional, o género de coisa para que os escritores eram pagos em Hollywood. Saía muito mais barato obtê-la da vida real.

 

Mas embora tenha sido grande o malogro da justiça prosseguiu Costello, quero deixar claro que o doutor Wright não guarda qualquer rancor. Continua a ter confiança no nosso sistema judicial e fé em que a verdade virá à tona e ele será ilibado... tal como todos nós devemos ter fé em que o raptor de Dustin Holloman e Josh Kirkwood será encontrado e punido; em que a justiça será rápida e eficaz.

 

Após esta empolgante tirada, Costello desceu do seu pódio improvisado e passou rapidamente pela multidão a caminho do Lincoln Town preto que o esperava, com o seu pessoal a abrir-lhe o caminho. Trouxera consigo um dos seus associados, um assistente legal e um assistente pessoal que era também o seu motorista. Outro dos seus sócios fora mandado à frente para Deer Lake com o propósito de alugar um escritório. Seria de longe inferior aos seus escritórios na Torre IDS em Minneapolis, mas serviria para os fins em vista. Acreditava na importância de marcar presença, tal como se exibem os músculos antes de uma luta. Também seria mais fácil ter uma base de operações na cidade do que tentar fazer tudo à distância. No fim do dia, o escritório de Deer Lake teria um complemento total de máquinas e uma das suas secretárias trabalharia activamente.

 

Excelente apresentação, doutor Costello comentou Dorman.

 

Estudante de Purdue, Dorman tinha vinte e sete anos, era astuto mas não ambicioso, mais interessado em segurança do que em fama; confortável para estar à mão de Costello, trabalhando como um mouro e não ficando com quaisquer louros tudo condições para fazerem dele o homem ideal para o lugar.

 

Costello escolhia a sua gente cuidadosamente, com umas tantas coisas em mente. Não aceitava sócios formados na Ivy League porque ele próprio não fora capaz de se formar lá, e não queria garotelhos nascidos em berço de ouro que sentiam ser socialmente superiores a ele. Nem queria que o seu gabinete projectasse uma imagem de elitismo. Ele próprio era produto da classe média e orgulhava-se disso.

 

Ao escolher associados, empregava em primeiro lugar homens de família, nenhum mais alto do que ele. Sensível à mania corrente em sociedade da correcção política, salpicara o seu pessoal com um sortido de mulheres e minorias. Levine, a assistente legal que se sentava na cadeira em sua frente, constituía uma igualdade de oportunidades tripla mulher, negra e judia. Era cauteloso na escolha de mulheres para o pessoal, que não deixassem de ser atractivas mas não fossem demasiado bonitas.

 

Tudo no gabinete de Anthony Costello das plantas ao pessoal fora seleccionado por Costello para realçar Costello. Era assim que se construía a imagem, e no mundo de hoje a imagem era tudo. A imagem era entendida como sucesso. Sucesso gerava maior sucesso. Sucesso abria as portas da oportunidade que conduz à fama. A oportunidade tinha de ser avaliada e aproveitada por tudo aquilo que valia. Levine voltou-se para o lado na sua cadeira e entregou-lhe um exemplar bem dobrado do St. Paul Pioneer Press. Aqui está o artigo sobre a morte do juiz Franken, doutor Costello. A história vinha logo por baixo da continuação da peça da primeira página relativa ao interrogatório de Garret» Wright, como se um assunto estivesse ligado ao outro. Uma fotografia do tamanho de um selo retratava Franken de toga. Parecia um boneco com cabeça de maçã em putrefacção. Uma segunda foto, muito maior, mostrava o caos na sala do tribunal onde Franken morrera, um grupo de pessoal amontoado sobre uma forma indistinta no chão. O foco do retrato era um rosto familiar que se virara para olhar, irado as câmaras. Jay Butler Brooks. Costello tomou boa nota. Um sorriso felino arreganhou-lhe os cantos da boca. Telefonei informou Dorman para saber com que espécie de adiamento podemos contar.

 

Não seja passivo, Dorman ripostou Costello.

 

Não vamos contar com um adiamento. Exigiremos que não haja nenhum.

 

As sobrancelhas do sócio ergueram-se, um par de hífens mal perceptíveis no seu tom de pele.

 

Podíamos aproveitar o tempo extra para nos prepararmos.

 

A acusação aproveitaria o tempo extra para se preparar clarificou Costello. O Wright foi preso no sábado à noite. Antes de ser preso, não era suspeito. Posso garantir-lhe que o gabinete de advogados distrital está a fazer tudo para arquitectar este caso. Devemos conceder-lhes tempo extra para isso, doutor Dorman?

 

Não, senhor.

 

Não, senhor ecoou ele, com o olhar perdido para lá da janela, a memória perdida no tempo passado. Chega-lhes forte, chega-lhes depressa murmurou. Teremos este caso encerrado antes de a Ellen North poder chegar perto.

 

«Mas embora tenha sido grande o malogro da justiça, quero deixar claro que o doutor Wright não guarda qualquer rancor. Continua a ter confiança no nosso sistema judicial e fé em que a verdade virá à tona e ele será ilibado... tal como todos nós devemos ter fé em que o raptor de Dustin Holloman e Josh Kirkwood será encontrado e punido; em que a justiça será rápida e eficaz.»

 

Jay desligou o televisor a cores de dezanove polegadas e sentou-se na caixa em que ele viera. Costello desapareceu mas o cheiro do seu jogo perdurou como o de um gás nocivo. Jay conhecia bastante bem o plano do jogo. Ele próprio o usara na sua curta carreira de advogado de defesa. Costello atacaria onde e quando quisesse, criaria oportunidades se necessário. Pintaria um esplendoroso retrato do seu cliente que só vagamente se pareceria com o homem e criticaria a acusação de todas as formas que lhe ocorressem. Um jogo de diversão que muito se assemelharia ao dos raptores. Bela coincidência, jogarem todos na mesma equipa.

 

Inspirou uma profunda fumaça do seu cigarro e atirou a beata para o fogão de sala, cinzento do pó das cinzas há muito varridas.

 

A sua peregrinação inesperada para Deer Lake deixara-o sem grandes opções quanto à acomodação. Não havia um quarto de hotel num raio de milhas; todos estavam ocupados por jornalistas. Apartamentos mobilados eram do domínio dos alunos da Universidade Harris, que acabavam de regressar à aulas depois das férias de Inverno. Impaciente e indiferente ao preço, alugara aquela casa.

 

Precisava de trabalhar, de se integrar num mundo que nada tinha a ver com a vida que tão abruptamente deixara em Alabama. Não importava o que lhe custava em termos de dinheiro. Teria pago fosse quanto fosse para transformar as memórias recentes em esquecimento. Lobotomia e alcoolismo, conquanto certamente entorpecessem a dor, não eram alternativas viáveis. O trabalho era a melhor coisa a que podia ater-se. A razão por que escolhera aquele caso específico para nele se perder era uma questão que preferia ignorar.

 

E não acha isso, pelo menos, um pouco retorcido? Evadir-se graças à tragédia real da vida de alguém?

 

É apenas uma história. Repetiu a si próprio a resposta que dera a Ellen, sabendo que havia mais. Mesmo assim, agarrou-se à mentira para seu próprio bem.

 

O caso era oportuno e fascinante. Escrever sobre ele constituía a sua profissão, e era muito bom nela. E assim, viera parar a Deer Lake...

 

Com uma pressa tão cega e desesperada que pouco mais emalara do que uma muda de roupa interior.

 

Afastando a tentação de se auto-analisar, voltou a sua atenção para o que o rodeava. Sobrevalorizada para o nível de Deer Lake, a casa estivera por alugar o tempo suficiente para que os proprietários aceitassem agradecidos três meses de renda exorbitante e entregassem as chaves e o fardo de aquecer o local.

 

Até agora, não tivera sucesso em aquecê-la. Mesmo com o termostato nos dezassete, os quartos pareciam frios, como se mobiliário e família fossem exigidos para o calor se instalar em vez de se infiltrar pelo telhado e ser avidamente engolido pelo frio. Só ocupava a sala de estar, porque a grande lareira de pedra pelo menos sugeria calor. Infelizmente, os proprietários tinham achado legítimo levar consigo todos os apetrechos e equipamentos que a ela pertenciam. Nem sequer havia um fósforo de lareira ou de cozinha, só fora deixada uma pilha de toros de madeira falsos prontos a ficar incandescentes ao clique de um interruptor.

 

De pé, esticou-se para aliviar os maus jeitos nas costas provocados pelo facto de ter dormido num saco-cama no chão. Passeou lentamente o olhar pela sala, comparando-a automaticamente com a acolhedora salinha de Ellen. Ali, só havia vazio e impermanência. Em vez de cadeiras de braços bem estofadas, só cadeiras de juta de jardim que tinham sido deixadas na garagem. Em vez de uma mesa de café em cerejeira, um par de mesas portáteis articuladas de madeira sintética. Em vez de artesanato e plantas em vasos, equipamento de escritório uma impressora a laser, uma copiadora, um fax. As mesas estavam cobertas de pastas de arquivo e recortes de notícias. O seu computador portátil estava aberto e a postos, com o ecrã em branco, à espera de que ele o enchesse com as palavras que dariam vida à sua história para as centenas de milhar de pessoas que liam os seus livros.

 

Foi à cozinha buscar uma chávena de café, a máquina encontrava-se ainda ao lado da caixa em que viera. Abastecera os armários com pratos e chávenas de papel, o frigorífico com cerveja, o congelador com refeições congeladas. Desde o seu divórcio há cinco anos, deixara a cozinha aos chefes de restaurante. Cozinhar uma refeição só para si recordava-lhe que não tinha com quem a partilhar.

 

Não que sentisse a falta de Christine. Ocasionalmente, lamentava a perda da rapariga que ela em tempos fora, bonita, meiga, nada exigente. A esposa que o deixara era um outro assunto. Em retrospectiva, tinham sido inadequados um para o outro desde o início. Christine necessitava profundamente de estabilidade; ele era impetuoso e irreflectido. O amor apaixonado que brotara entre eles depressa esfriara e passara a frustração. A frustração criara ressentimento. O ressentimento gerara dor. Com a dor, viera a desilusão.

 

E ódio. Ela deve ter-me odiado. Ainda deve odiar-me.

 

O pensamento de que estivera a tentar manter-se à distância na última semana insinuou-se. Era um pensamento que nunca andava longe quando ele estava cansado. Amaldiçoou a ex-mulher por voltar a intrometer-se na sua vida na última semana, por muito ocasional que tivesse sido o encontro de ambos. Há muito que acabara com Christine, mas não sabia que alguma vez teria de passar pelo que ela lhe fizera sem o seu acordo ou conhecimento.

 

Com os olhos da mente, viu o rapaz ao lado dela, com o seu farto cabelo castanho e olhos azul-celeste.

 

Ela deve ter-me odiado. Ainda deve odiar-me.

 

Sorvendo o café, suficientemente forte para que o seu aroma se espalhasse para além da cozinha, atravessou a sala de jantar vazia até à sua base de operações.

 

Com quatro quartos de cama, três casas de banho e uma sala comum com um tecto de catedral de dois andares, a casa era sem dúvida mais do que aquilo de que precisava, mas não mais do que aquilo a que estava acostumado. A sua casa na periferia de Eudora tinha o dobro do tamanho, reproduzia uma mansão da época das plantações e fazia com que a casa ancestral dos Brooks parecesse um bangaló andrajoso. Construíra-a para impressionar, para causar inveja e para atirar à cara dos que sempre o tinham rotulado de «mau» Brooks da sua geração, predestinado à incúria e à embriaguez. Vivia numa parte dela e a ostentação do lugar nada significava para si a nível pessoal. Tê-lo-ia satisfeito de igual modo viver num apartamento de duas divisões.

 

Não tinha a certeza do que tal queria dizer, uma vez que nunca se sentira satisfeito. Sempre no seu íntimo houvera inquietação, desde a adolescência e até antes. Toda a sua vida a mãe se deleitara em queixar-se do quanto ele fora um bebé irrequieto, tão impaciente por nascer que viera com duas semanas de avanço e não se dera ao incómodo de esperar pelo médico.

 

Embateste no chão a correr, rapaz dizia muitas vezes o tio Hooter.

 

Infelizmente, em toda a sua sabedoria de Johnnie Walker, nunca o tio Hooter dera qualquer indicação de para onde ou para quê era suposto ele correr. Problemas fora o consenso geral e Jay confirmara-o bastante bem. Fora um fardo e uma ovelha ranhosa para o nome da família Brooks mais vezes do que as que conseguia contar, e no entanto dera sempre a volta de modo a sair-se às mil maravilhas, transformando as calamidades em ironia.

 

Fora o Brooks que quebrara janelas, desrespeitara leis menores e tradições maiores. Aquele que renunciara a Auburn a alma mater da família Brooks dado que Cristo não tinha qualquer grau universitário por uma bolsa de estudo de basebol em Purdue. Fora aquele que virara as costas à venerável prática da lei da família Brooks, aquele cuja mulher o deixara. Mas era também o Brooks cortejado por Nova Iorque e Hollywood e o que tinha o rosto impresso na capa ou no interior de todas as revistas conhecidas da América. Era a ovelha negra cujas proezas a família tivera prazer em criticar, cuja fama aceitaram de má vontade, cujo dinheiro recebiam sem escrúpulos.

 

Havia por ali algures um livro, mas ele não tinha o mínimo desejo de o escrever. Preferia procurar esqueletos nos armários de estranhos, tentando dar um sentido às reviravoltas e dificuldades das suas vidas.

 

E assim chegara a Deer Lake.

 

... é um explorador mercenário, não melhor do que um vampiro... um observador rotineiro que rouba as vidas e a dor das vítimas para compensar a falta de uma verdadeira imaginação.

 

As palavras de Ellen ressoavam-lhe nitidamente no espírito. Disse a si próprio que não lhe interessavam, que o que ela pensava não podia interessar-lhe porque não podia permitir-se envolver-se com ela. Estava ali com um objectivo, e esse objectivo não era ter sexo com Ellen North.

 

Deixou-se ficar de pé frente às grandes janelas, muito altas, da parede principal da sala, a contemplar a paisagem branca e agreste. Ryan’s Bay, chamara-lhe o agente imobiliário, embora não houvesse baía nenhuma mas sim uma zona de charcos na berma de nada, a oeste da parte de Deer Lake conhecida pelos habitantes locais como Dinkytown. Qualquer que fosse a água da «baía», espraiava-se secreta por sob as dunas de neve, um deserto gelado, ermo e inóspito. Ervas amarelas e caules nus irrompiam por entre os montes de neve e agitavam-se ao vento brusco.

 

A casa mais próxima ficava a quatrocentos metros para norte, escondida por um cerrado grupo de pinheiros. Para leste, avistava o último arrabalde de Deer Lake, esparso à beira do pântano e das quintas, pequenas casas quadradas com fumo a sair em espiral das chaminés e a perder-se no céu esbranquiçado de Inverno. Os pináculos da Igreja de St. Elysius ultrapassavam os telhados, um par de lanças apontadas aos céus. Pareciam muito longe do sítio onde ele se encontrava, embora calculasse que ficavam a pouco mais de um quilómetro. Ali, o sentimento de isolamento pouco tinha a ver com a distância.

 

O casaco de Josh Kirkwood fora achado ali fora, preso nuns arbustos mesmo ao lado de um carreiro usado para deslizar na neve e esquiar nos campos. Uma mulher idosa chamada Ruth Cooper saíra de casa para passear o cão, apesar de o vento gelado desse dia estabilizar o termómetro nos quinze graus abaixo de zero. O cão puxara o casaco dos arbustos e Ryan’s Bay passara a ser um alvo das buscas e dos media.

 

Jay recordava perfeitamente a imagem de Paul Kirkwood no noticiário, caindo de joelhos na neve, com o casaco do filho amachucado nas mãos e a soluçar: Oh, meu Deus, Josh! Josh! Oh, meu Deus! Não!

 

Ainda ouvia a angústia daquela voz, sentia-a percorrê-lo como um espinho. Por um breve momento entrou na pele de Paul Kirkwood e imaginou o pânico desmedido e terrível que o teria avassalado se tudo o que restasse do seu próprio filho fosse um casaco e a confusa mensagem de um louco.

 

A emoção tomou-o, fisicamente, punitiva, esmagadora. Dez vezes mais aguda do que a dor que carregava consigo ao vir para ali. Afastou o pensamento, repreendendo-se pelo seu masoquismo. Não tinha de sentir o que essa gente sentia, só lhe cabia transmiti-lo ao papel.

 

Com essa ideia firmemente arraigada na mente, pôs de lado o café, pegou no casaco e encaminhou-se para a porta.

 

A firma de contabilidade de Christiansen e Kirkwood tinha sede num edifício novo de tijolo de dois andares cujo imponente nome era «The Omni Complex». De acordo com a lista de inquilinos, o prédio albergava também uma agência imobiliária, uma agência de seguros e um par de pequenas firmas de advogados.

 

Jay subiu, encontrou a porta de carvalho com a respectiva chapa e entrou no escritório de entrada, semelhante a milhares de outros escritórios onde já estivera paredes brancas com pseudo-artesanato do Sudoeste, a eterna palmeira num vaso, mobiliário de carvalho indefinível e estofos cor de aveia. Uma secretária de cabelo ruivo flamejante levantou interrogativamente o olhar do computador e sacudiu ao de leve a cabeça em sinal de reconhecimento.

 

Mister Kirkwood está? perguntou Jay, esboçando um sorriso. O meu nome é Jay Butler Brooks. Gostaria que ele me concedesse um minuto ou dois do seu tempo, se estiver livre.

 

A secretária arquejou, os olhos azuis redondos destacando-se como dólares de prata na face sardenta. Aparentemente muda, saltou da cadeira e desapareceu no gabinete de Paul Kirkwood. Jay reparou no pequeno sofá que dava a imPressão de ter sido adquirido mais pela decoração do que Pelo conforto. O seu próprio rosto olhou-o da capa de uma velha revista People pousada na mesa de café de carvalho. Mister Brooks. Com um sorriso encantador, Paul Kirkwood surgiu do seu gabinete. É um prazer conhecê-lo.

 

Jay encurtou a distância entre ambos.

 

- Tenho o lamentável hábito de incomodar as pessoas. Espero que a hora não seja inconveniente.

 

- Não, de forma alguma. - Kirkwood apertou automaticamente a mão estendida de Jay, mas foi um aperto inseguro. - Entre no meu gabinete. Aceita um café, Mister Brooks?

 

- Não, obrigado.

 

Enquanto Paul dava instruções à secretária para que não o interrompessem, Jay aproveitou para observar rapidamente a sala, à procura de pistas deixadas pelo pai de Josh. Tal como no gabinete de entrada, os móveis eram de carvalho em suaves linhas modernas, arredondadas. De uma parede verde-escura pendia um quadro emoldurado com patos de madeira. Numa outra, diplomas e certificados. O gabinete estava bem arranjado e limpo - compulsivamente arranjado e limpo. Se não fosse o classificador aberto sobre a secretária, Jay julgaria ter entrado na exposição de um armazém de móveis. O único sinal de que Paul Kirkwood vivia ali era a manta de xadrez verde cuidadosamente dobrada sobre o sofá.

 

- Li no jornal a sua actuação junto do juiz Franken disse Paul, entrando no gabinete e fechando a porta atrás de si. Estava bem barbeado, a sua camisa branca bem engomada, as calças perfeitamente vincadas. - Deve ter sido um acontecimento estranho e desagradável.

 

- Imagine como o juiz deve ter-se sentido - replicou Jay secamente.

 

Uma fotografia sobre a estante atraiu a sua atenção: Josh com um equipamento de basebol demasiado grande, Paul ajoelhado a seu lado com um sorriso orgulhoso e idiota a iluminar-lhe o rosto magro e simpático. A imagem apanhou Jay desprevenido.

 

- O Josh é mesmo um pequeno atleta, hem? - comentou, apontando para a foto. - Basebol, hóquei. Era o hóquei, no dia em que foi raptado, não era?

 

- Era. Joga como avançado na sua equipa do Squirts. A Hannah devia ir buscá-lo nessa noite, mas ficou retida no hospital...

 

Falava com cautela, tentando evitar um tom acusatório, mas era perceptível uma pontinha de acusação, como uma nódoa de café impossível de tirar por completo de uma camisa. O sentimento fora suprimido da construção da frase.

 

- Lamento o seu sofrimento. Mal posso imaginar o golpe que tudo isto foi para si e para a sua mulher. E depois vir a saber que a pessoa em questão era alguém que conheciam e em quem confiavam... Deve ter sido um choque dos diabos.

 

- Não sabe nem metade - murmurou Paul.

 

- Deixe-me dizer-lhe o que estou aqui a fazer, Mister Kirkwood.

 

Jay passou por detrás da secretária e olhou para fora pela janela estreita de onde se via o parque de estacionamento cheio de carros imersos na neblina invernal.

 

- O que se passa aqui, o que vai passar-se aqui quando este caso for julgado, atraiu a atenção do país - continuou, voltando-se. - Um crime destes numa pequena cidade complica com os nervos. Se um tal crime pode acontecer aqui em Deer Lake, Minnesota, então pode acontecer em qualquer sítio. As pessoas querem sentir que percebem o que se passa e o que devem fazer para o evitar.

 

- O senhor quer escrever um livro sobre o rapto do Josh.

 

- Possivelmente. Provavelmente. É uma história intrigante. Complicada. Constrangedora. Imagino que haverá mais do que o que o julgamento demonstrará.

 

- E gostaria de fazer uma espécie de acordo?

 

Jay deixou de examinar os objectos meticulosamente ordenados sobre a secretária. Havia um brilho de dólares nos profundos olhos cor de avelã de Paul Kirkwood.

 

- Acordo? - Fazia-se de parvo. Kirkwood encolheu os ombros.

 

- A Inside Edition ofereceu-me cem mil.

 

E estás à espera de que eu suba o lance, pensou Jay. Já passara por aquilo. Às vezes as vítimas punham-no fora das suas casas, ultrajadas pela simples ideia de um livro acerca do seu drama, e outras vezes queriam que ele as compensasse pelo sofrimento, como se fosse ele a ter perpetrado o crime com o objectivo único de transcrever a cena num livro. Paul Kirkwood escorria lodo pelos poros, como suor. E a Ellen acha que sou eu o explorador.

 

- Eu não faço acordos, Mister Kirkwood. O que escrevo não é uma biografia. Esta história envolverá muita gente. Se eu conceder a cada pessoa um bocado do livro, corro o risco de a história ser o reflexo das suas maneiras de ver as coisas. Contrariamente ao que alguns podem crer, eu tenho sentido de ética e uso-o. E a sua «ética» não inclui partilhar os milhões que fará com o livro? Paul franziu-lhe o sobrolho, numa expressão mais petulante do que ameaçadora. Não vejo como pode publicar um livro sobre acontecimentos da vida de alguém sem compensar esse alguém. É assim, Mister Kirkwood: o crime, os julgamentos são do domínio público. Se decidir falar comigo, então pensa só incluir o seu ponto de vista. Se optar por não falar, sou forçado a formar opiniões baseado no testemunho de outros! e nos registos existentes. É consigo. É a minha vida afirmou Paul, brusco. Eu mereço... Jay semicerrou os olhos. O Josh é meu filho emendou. Merece mais do que isso. Jay já se preparara para tal reacção antes ainda de planear vir a Minnesota. Asseguraria um crédito para Josh, como fizera para com outras vítimas cujas histórias contara. Uma parte considerável do adiantamento sobre o livro e sobre os direitos de autor. Era a sua forma de agir usual, uma prática que mantinha absolutamente ignorada da imprensa, por razões óbvias. Optou por manter também Paul Kirkwood na ignorância do seu hábito. Paul não passara no teste. É a minha vida... I Eu mereço... A inside Edition ofereceu-me... Bem, deixe-me dizer-lhe, Mister Kirkwood, que o Josh merece sem dúvida mais do que o que tem. Deixando a frase a pairar no ar, atravessou devagar a sala e parou com a mão na maçaneta da porta. Vou deixar o meu número à sua secretária. Pode pensar um pouco no assunto e telefonar-me, se quiser... se conseguir arranjar tempo entre a Hard Copy e a Oprah. Í| Paul viu-o sair sentindo a raiva crescer dentro de si. Filho da mãe. Podia pagar adulação à ética e á integridade da história, mas não pagaria a pronto, iria ganhar cinco milhões e apesar disso tinha o descaramento de zombar do homem cujo sofrimento seria parte integrante do que lhe proporcionaria tamanha fortuna. Eu mereço... Paul recusava-se a sentir-se culpado por pensá-lo. Ele merecia qualquer coisa. Também era uma vítima. Embora uma parte de si insistisse nessa designação, outra parte pensava em Josh no hospital, enquanto outra ainda produzia as imagens daquela noite de há duas semanas. Tudo girou no seu íntimo até se sentir como que apanhado num remoinho que o puxasse para baixo e o afogasse em pânico e remorso.

 

A palavra «Não», frenética e repetidamente gritada por Josh, ecoava nos seus ouvidos. Apertou-os com as mãos. Mesmo com os olhos fortemente cerrados, via o filho aos pontapés à cama de hospital, como se cada pontapé o atingisse no ventre.

 

Com um grito abafado, deixou-se cair na cadeira da secretária, sobre a qual se dobrou. Todo o seu corpo tremia. Abria a boca; o caos na sua mente concentrou-se num único pensamento: meu filho, meu filho, meu filho, meu filho... Veio então a culpa. Uma imensa culpa. Foi a culpa que o levou a abrir a gaveta de baixo da secretária. Foi a culpa que o levou a guardar a microcassete do atendedor de chamadas desde aquela terrível noite. Guardava-a no microgravador que comprara para ditar cartas mas nunca utilizara. Colocou sobre a secretária o pequeno rectângulo preto, pressionou o botão de reprodução. E a voz de Josh falou-lhe da encruzilhada que transformaria todas as suas vidas num caminho escuro.

 

Estou aqui em Park County para que seja feita justiça. Ellen ruminava as palavras de Tony Costello enquanto ia conduzindo pela cidade.

 

Como se o estado fora da área metropolitana fosse uma fronteira de ausência de lei queixou-se Cameron. E ele é o Wyatt Earp, que vem para nos trazer justiça.

 

Faz tudo parte do espectáculo murmurou Ellen, virando para Lakeshore Drive.

 

Não a chateia?

 

Claro que sim. Usar o rapto do Holloman é um anzol para publicidade... bera de mais para merecer comentários. Mas você não pode permitir que o Tony Costello o domine, como não pode deixar que o dominem o Dennis Enberg ou o Fred Nelson, Cameron. Ele não passa de mais um mercenário.

 

Um mercenário vestido por Armani.

 

É o que o sucesso lhe compra na grande cidade, Cam. Se estiver disposto a pagar o preço.

 

Não estou interessado em transformar-me no próximo Anthony Costello.

 

Agrada-me ouvir isso. O mundo tem mais Tony Costellos do que precisa.

 

Ele não me impressiona.

 

Pois bem, devia impressionar disse Ellen, entrando no carreiro da casa dos Kirkwood. É extremamente bom naquilo que faz. Não o subestime e não o deixe entrar-lhe no sangue.

 

Desligou o motor do Bonneville e ficou um momento sentada a olhar para a casa dos Kirkwood, uma casa de cedro, em vários níveis, que se enquadrava graciosamente nos arredores arborizados. Construída no último grande lote de terreno à beira da rua, tinha uma vista ilimitada sobre o lago para oeste. A norte e a leste, a arborização cerrada de Quarry Hills Park conferia à propriedade uma sensação de isolamento que devia ter custado uma boa maquia. No quintal da frente, um inacabado castelo de neve testemunhava a normalidade da vida na casa antes de um raptor a aniquilar. Demorou o olhar na casa dos Wright, duas portas abaixo. Suspirou.

 

Bem, vamos a isto.

 

Hannah abriu a porta, pálida e magra. O sorriso com que os convidou a entrar foi débil e fugaz.

 

Hannah, este é o meu assistente e sócio, Cameron Reed. Ellen tirou as luvas e meteu-as nos bolsos do casaco.

 

Sim, acho que nos encontrámos no Verão passado por causa de um desacato no futebol disse Hannah, apertando a mão de Cameron.

 

Este sorriu calorosamente.

 

Eu recuperei totalmente e a senhora tinha razão... a cicatriz é de facto um quebra-gelos no ginásio. O seu sorriso desvaneceu-se. Não sei como dizer-lhe o quanto lamento tudo aquilo por que a senhora e a sua família passaram, doutora Garrison.

 

Obrigada respondeu Hannah automaticamente. Dêem-me os vossos casacos.

 

Como vai o Josh? inquiriu Ellen. O sorriso débil acendeu-se e apagou-se.

 

É bom tê-lo em casa.

 

Ele disse alguma coisa? Deu alguma indicação sobre quem o levou e para onde foi levado?

 

Hannah olhou para a sala familiar. O olhar de Ellen seguiu o seu, à procura. Josh não estava visível.

 

Não respondeu por fim Hannah. Não disse uma palavra a esse respeito. Entrem. Vou buscar um café, se quiserem.

 

Seguiram-na pela confortável sala de estar, com o seu robusto mobiliário de estilo rústico e brinquedos espalhados, e subiram os três degraus para a cozinha espaçosa.

 

Ouvi falar do miúdo de Campion comentou Hannah enquanto ia buscar canecas e tratava do café. Não desejo a ninguém um tal inferno. Estou solidária com a família.

 

O maior incentivo para nós é construir um caso sólido explicou Cameron. Quanto maior pressão pudermos fazer sobre o nosso homem, maiores são as probabilidades de ele se dispor a denunciar o seu cúmplice.

 

Estreitaram-se os olhos de Hannah. Tremiam-lhe as mãos ao deitar o café nas canecas:

 

Não vão fazer um acordo com ele, pois não? Depois de tudo o que ele fez?

 

Não garantiu Ellen. Nada de acordos. Ele vai pagar por tudo. Esperamos que o Josh seja capaz de nos ajudar a agarrá-lo. Como lhe expliquei ao telefone, Hannah, queremos que o Josh veja aquilo a que chamamos uma foto de formação em linha. Se ele identificar nela o nosso homem, seguir-se-á uma formação na esquadra de polícia. Achamos que seria menos traumatizante para ele começar pelas fotografias. Não queremos apoquentar o Josh, mas a sua capacidade de identificar o seu raptor seria sem dúvida um ponto essencial para a nossa acusação.

 

Ele terá de testemunhar no tribunal?

 

Isso depende daquilo de que se lembra ou está disposto a dizer respondeu Cameron.

 

Se o Josh for capaz de testemunhar, faremos tudo o que pudermos para que não fique assustado acrescentou Ellen.

 

Hannah brincou nervosamente com um brinco.

 

Ele não podia testemunhar em vídeo? Já vi isso na televisão.

 

Possivelmente disse Ellen. Há precedentes. Eu falarei com o juiz quando for o momento, mas por agora tudo o que queremos é que o Josh olhe para fotografias. Pode trazê-lo aqui?

 

Quando Hannah saiu da cozinha, Cameron abriu a pasta, tirou uma página plastificada de um álbum de fotografias e colocou-a sobre a mesa.

 

Ela não está a aguentar-se bem murmurou.

 

Tenho a certeza de que nem imaginamos pelo que está a passar disse Ellen, atenta ao regresso de Hannah. Ouvi dizer que o casamento deles está por um fio.

 

O Garrett Wright tem muito por que responder.

 

Hannah trouxe Josh para a cozinha. Josh olhou-os, circunspecto. Parecia um impostor em relação ao rapaz que surgia no póster de «desaparecidos», este com o seu sorriso aberto e o uniforme dos Cub Scout. A semelhança física com esse rapaz era notória, mas sem a vivacidade, sem a alegria dele. Os olhos de Josh acusavam cem anos.

 

Olá, Josh, o meu nome é Ellen. Baixou-se até ficar ao seu nível. E este é meu amigo, o Cameron. Gosta de jogar futebol, no Verão. Tu sais para jogar futebol?

 

Josh fitou-a, silencioso. A mãe passou-lhe a mão pelo cabelo encaracolado.

 

O Josh joga basebol no Verão. Não é, meu querido? Josh olhou para Ellen, de Ellen para Cameron, após o que se virou para o frigorífico, contemplando as fotografias e os desenhos infantis presos à porta com íman. Hannah ajoelhou a seu lado.

 

Josh, a Ellen e o Cameron querem que olhes para umas fotos que trouxeram com eles. Querem que vejas se o homem que te levou para longe de nós é algum dos homens das fotos. És capaz disso?

 

Josh não respondeu, não reagiu minimamente. Ela voltou-o para a mesa pelos ombros, com delicadeza.

 

Olha só para elas, Josh instruiu-o Ellen, empurrando para ele a folha com as fotos. Leva o tempo que quiseres e olha para todos os homens. Se vires o homem que te levou, tudo o que tens a fazer é apontar para ele.

 

Ellen susteve a respiração quando ele inclinou a cabeça para os retratos, fixando um rosto, depois outro. Eram fotos de caras, algumas de criminosos, algumas de agentes da Polícia. A de Garrett Wright ocupava a divisória superior direita. Josh olhou para todas, deteve-se na de Wright, depois passou adiante.

 

Tudo o que tens a fazer é apontar para ele, Josh murmurou Ellen. Ele não vai fazer-te mal. Vamos lutar para que nunca mais te faça mal, nem a nenhuns outros meninos.

 

O olhar de Josh deslizou pelos diversos rostos; depois, o pequeno afastou-se e regressou ao frigorífico, fixando um boneco de neve feito de papel.

 

Josh, tens a certeza de que não viste o homem? Perguntou Hannah, com desespero na voz. Talvez devesses olhar outra vez. Anda...

 

Ellen levantou-se e segurou-a gentilmente pelo braço antes de ela poder arrastar Josh para a mesa.

 

Não há problema, Hannah. Talvez apenas ele ainda não esteja preparado para olhar. Tentaremos noutro dia.

 

Mas... Os olhos de Hannah iam do filho ao retrato de Wright.

 

Está tudo bem disse Ellen, desejando sentir-se tão despreocupada quanto aparentava. Quando ele estiver preparado, falará no assunto. Acontece que ainda não está.

 

E se nunca estiver? sussurrou Hannah.

 

Seguiremos em frente com o caso prometeu Ellen. Mas enquanto se afastavam da casa dos Kirkwood, perguntava a si própria se poderia cumprir a promessa.

 

Josh era a única testemunha apta a identificar Wright e o seu cúmplice. Josh vira a pessoa que o levara do ringue de patinagem. A testemunha, Helen Black, olhara de relance pela janela nessa noite e vira um rapazinho que podia ser Josh a subir voluntariamente para uma carrinha. Ele tinha de ter visto quem o conduzia.

 

Talvez tivesse sido o cúmplice a pegar nele sugeriu Cameron. Talvez nunca tenha visto o Wright.

 

Talvez.

 

Cameron guiou em silêncio meio quarteirão, passando por um Kwik Trip e uma mercearia vietnamita.

 

E se não tivermos a afirmação do Josh, o Costello dirá que ele não identificou o Wright, porque não foi o Wright.

 

Então, atiramo-nos em força ao Costello por ele ser um filho da mãe sem coração contrapôs Ellen. Dizemos que não pomos o Josh a testemunhar porque o pequeno foi suficientemente traumatizado e maltratado. Não queremos fazê-lo passar pela provação de um contra-interrogatório, para já não falar em ter de encarar o Wright no tribunal.

 

Com um aceno de cabeça, Cameron concordou; viraram para Oslo e dirigiram-se para a rampa de acesso ao tribunal. Passaram pelo grupo de contestatários no passeio e rumaram ao departamento do xerife, contornando as traseiras do edifício.

 

Pobre criança comentou Cameron. Cabe-nos a nós obter justiça para ela.

 

O juiz Rudy Stovich. Rudy pronunciou o título alto para lhe testar a sonoridade. Soava bem.

 

Ocupara o seu escritório do canto no segundo andar do tribunal de Park County uma dúzia de anos. A credência de carvalho estava atulhada de pastas de arquivo e livros de leis jamais consultados. A sua secretária inundada de cangalhada, as decorativas balanças da justiça desequilibradas com bolas de golfe. Encostado a um canto escuro da sala, um conjunto de tacos à espera da viagem anual de Fevereiro a Phoenix. Uma viagem que de bom grado adiaria para se mudar para os velhos aposentos de Franken.

 

Juiz Rudy Stovich ecoou Manley Vanloon. Tirou uma avelã de um prato sobre a secretária e partiu-a com um quebra-nozes disfarçado de pato-real zangado. Pequenos estilhaços de casca caíram como salpicos de tabaco na sua camisola de lã acastanhada. Tinha a configuração de um buda, uma barriga enorme e rosto arredondado sorridente. Sobre os olhos estreitos, as sobrancelhas arquearam-se.

 

Talvez devesses optar por Rudolph. É mais imponente. Rudy balouçou a cadeira para trás e para a frente, num movimento de centrifugadora que separasse as boas das más decisões.

 

Soa pretensioso. O povo gosta da minha imagem de advogado de província.

 

Bem pensado. Manley mordiscou a sua avelã, de olhar fixo e especulativo, a imaginar o seu camarada com as vestes de juiz. Ele e Rudy eram amigos desde a noite dos tempos, apoiando-se mutuamente em negócios e campanhas políticas. Quanto tempo leva o governador a decidir-se?

 

Ah, terá de dar um intervalo decente a partir do enterro do velho Franken. Mais ou menos uma semana, penso eu. A propósito, o velório é amanhã, na Oglethorpe’s. O funeral na sexta-feira, às três e meia, na Graça Luterana.

 

Na Graça Luterana? Pensei sempre que ele era metodista. Dava-me a impressão de metodista. Sacudiu os pedacinhos de casca de avelã do casaco de malha e pegou numa noz. Jantamos depois do funeral? À sexta-feira há peixe de todas as maneiras no Café Scandia House.

 

Sim, está bem concordou Rudy entre dentes, imaginando-se a fazer o elogio fúnebre perante uma congregação que incluiria juizes e advogados e políticos de todo o estado. Franken vivera uma longa vida, acumulando uma comprida lista de amigos e colegas. O funeral seria um momento adequado para Rudy os impressionar a todos com a sua eloquência e sinceridade.

 

O intercomunicador zumbiu e dele irrompeu a voz de Alice Zymanski, qual relâmpago:

 

A Ellen está aqui para falar consigo. Eu vou-me embora.

 

Mande-a entrar. Rudy obrigou-se a levantar-se, embora a hora fosse demasiado tardia para delicadezas. Uma vez firmemente anichado na sua qualidade de juiz, poria ponto final às delicadezas.

 

Ellen entrou e esboçou um sorriso a Manley Vanloon. Manley amealhara uma pequena fortuna em bens imobiliários durante a depressão da agricultura dos anos setenta, comprando quintas nos arrabaldes de Deer Lake e dividindo os terrenos em lotes de alto preço destinados ao afluxo de yuppies de Twin Cities. Comprara então um trio de negócios de revenda de carros e fizera outra fortuna atraindo compradores citadinos com a sua imagem de campónio e depois esvaziando-lhes as carteiras.

 

Olá, Ellen. Manley soergueu-se levemente na cadeira e voltou à sua tarefa de descascar a noz. Como se porta esse Bonnevillel. É um raio de um bom carro.

 

Muito bem, Manley. Concentrou a sua atenção no chefe. Acabo de receber um telefonema. Vão entregar o Garrett Wright ao juiz Grabko. Achei que o senhor quereria saber.

 

Está de acordo com a escolha? Ela encolheu os ombros.

 

Podia ser pior.

 

Vai recusar?

 

E deixar Tony Costello lançar um ataque público pelo facto de a acusação protelar o direito do seu cliente a um julgamento rápido, para já não falar na alusão à manobra como táctica de quem tem um caso fraco? Já fizera barulho acerca de ambos os pontos na sua conferência de imprensa das quatro horas na rotunda do tribunal.

 

Ellen mandara Phoebe à conferência de imprensa como espia, recusando-se a mostrar-se ela própria e fornecer a Tony a oportunidade dourada de a comprometer nalgum desafio improvisado. Quando depois ele subiu para o gabinete do advogado distrital, com jornalistas a reboque, mandou a recepcionista mentir e dizer que ela estava fora, com o único propósito de frustrar o seu grande momento de confronto.

 

Essa pequena vitória fora saborosa, mas o facto de permitir que Costello afectasse a decisão que tomara irritou-a profundamente. Estratégia, disse para consigo. Tinha de pensar em termos de estratégia e não em termos de estar a ser manipulada. É sempre preciso pôr um acento positivo numa possibilidade negativa. Controlo era o nome do jogo.

 

Não, não recusarei o Grabko. Sabe o que faz. É justo. Nunca tive grandes queixas dele, para além da sua tendência para ser pretensioso.

 

Rudy lançou a Manley um olhar de «eu-bem-te-disse», que lhe contraiu os lábios como se arrotasse.

 

Ainda estou espantado com o facto de o Wright ir buscar o Costello para o representar disse Rudy.

 

Gostava de saber como tal aconteceu replicou Ellen. Quem o chamou? O Wright não está autorizado a fazer telefonemas de longa distância da cadeia. Duvido que o Dennis Enberg tivesse a gentileza de contactar o seu próprio sucessor. Quem nos fica?

 

A mulher do Wright.

 

Que mal funciona. Eu própria a vi na noite passada. A menos que tudo fosse uma representação, não era mais capaz do que o meu cão de ter uma conversa coerente com o Tony Costello. Isso deixa-nos o cúmplice do Wright.

 

O que poderia significar o Costello ter estado em contacto com o raptor do pequeno de Campion conjecturou Rudy.

 

É uma boa possibilidade de o levarmos a dizer-nos qualquer coisa.

 

Rudy emitiu um som sério, contemplativo, compondo uma expressão que achou que pareceria judicial.

 

Sim, sim, faça o que puder, Ellen. Confio em que saberá manipular o Costello.

 

Ellen tomou a banalidade por aquilo que ela valia, e que era nada. Deixou Rudy entregue à sua maquinação para o lugar de Franken no foro e encaminhou-se para o seu próprio gabinete. O pessoal dava por findo o dia de trabalho. Sig Iverson e Quentin Adler saíam a porta, com as cabeças inclinadas uma para a outra como se discutissem qualquer assunto legal ou um mexerico. Phoebe punha o poncho sobre o vestido com malmequeres e as polainas térmicas. A sua cabeça emergiu da abertura e ela soltou a massa de cabelo eriçado.

 

Pus um monte de mensagens na sua secretária disse, ajustando os óculos. O doutor Costello voltou a telefonar. O Mitch ligou para dizer que falta de notícias são más notícias e que vai para Minneapolis esta noite.

 

Ia ver a Megan. O pensamento aqueceu Ellen e simultaneamente transmitiu-lhe uma ligeira sensação de vazio. Encostou um ombro à porta do gabinete e pousou a mão na maçaneta.

 

Obrigada, Phoebe. Até amanhã. A secretária franziu-lhe o sobrolho.

 

Não fique até muito tarde. Tem um ar cansado.

 

Estou óptima.

 

Phoebe não acreditou, mas fez de conta. Ellen entrou no gabinete e pegou na pilha de recados. Notou que não havia nenhum de Jay Butler e disse para consigo que isso lhe agradava. No entanto, deu por si a recordar o momento anterior àquele em que ele saíra de sua casa na noite anterior, quando estivera demasiado perto dela e haviam trocado um olhar prolongado de mais.

 

Não podes evitar-me eternamente.

 

Rodou sobre os calcanhares, numa semiexpectativa de deparar com Brooks, mas o timbre de voz marcou a diferença um segundo antes de os seus olhos se deterem no homem parado do lado de dentro da porta. A luz do gabinete de entrada mostrou-o em relevo, um vulto negro e ameaçador. Tony Costello era uma sombra do seu passado que regressava para a assombrar. Acendeu o candeeiro da secretária para quebrar o feitiço.

 

Evitar-te, Tony? Como sempre, o teu ego exagera. Nunca te ocorreu que sou uma mulher ocupada com coisas mais importantes na minha agenda do que desempenhar um papel amável na tua representação mediática?

 

Espírito de contradição, como sempre, não é? disse ele, de modo agradável, fechando a porta. Estava com medo que o facto de eu estar a viver nas redondezas te amadurecesse.

 

Ellen sentou-se na sua cadeira, pôs os óculos e fingiu prestar atenção às mensagens que continuava a ter na mão.

 

Amadureceu. Olhou-o por cima dos óculos. Se me tivesses aparecido assim, sorrateiramente, quando eu trabalhava em Hennepin County, tinha-te esmurrado o nariz. Deixei adormecer por completo os meus reflexos de autodefesa.

 

Uma sorte para mim.

 

Sorriu, um sorriso que Ellen percebeu que ele considerava o mais encantador sorriso do seu arsenal. Recordava-o bem: aberto e muito branco em contraste com a pele escura do rosto. Um sorriso que exibira para o acordo de quinze mil dólares, ao hipotecar a casa que os pais lhe haviam deixado. Considerara tratar-se de um investimento comercial. Mostrava-se em tão boa forma e tão adestrado como um cavalo de feira. O fato de hoje era de um azul pouco mais escuro do que o azul-marinho, talhado de modo a realçar o corpo que ele moldava num ginásio particular com um treinador pessoal. Desapertou despreocupadamente os botões do casaco traçado e sentou-se com à-vontade na cadeira dos visitantes.

 

Em que posso ser-te útil, Tony? perguntou Ellen, com indiferença suficiente para o irritar.

 

Ignorando a pergunta, olhou-a fixamente.

 

Passou muito tempo.

 

Não o bastante.

 

A dor parecia sincera, mas também os seus sentimentos para com ela o tinham sido, em tempos.

 

Ainda me censuras pelo que aconteceu com o Fitzpatrick. Tinha a esperança de que o tempo te tivesse proporcionado outra perspectiva.

 

A minha perspectiva sobre a moderação criminal num caso não é susceptível de se alterar numa vida inteira.

 

Ele abanou a cabeça, franzindo o sobrolho.

 

Como pudeste pensar que eu faria isso, Ellen? Ética à parte, como pudeste acreditar que eu me viraria contra ti dessa maneira depois de tudo o que tínhamos sido um para o outro?

 

Ética à parte. Ellen soltou uma gargalhada áspera e pôs-se de pé, com os músculos tensos de raiva; passou por trás da secretária. Alguém colhe informações contra o Fitzpatrick, praticamente na minha secretária. O caso rebenta, e a primeira coisa que vejo és tu e o advogado do Fitzpatrick a saciar-se nas redondezas.

 

Estávamos a jantar. Isso não é contrário à lei.

 

Não é certamente contrário à tua lei.

 

Oh! Jesus, Ellen resmungou Tony, levantando-se. Foi um jantar de negócios...

 

Tenho a certeza de que foi. Ellen avançou para ele. Ele passou-te as trinta moedas de prata por baixo da mesa, ou mandou o criado entregá-las numa bandeja?

 

Havia imensa gente no teu próprio gabinete com acesso a essa informação. O Fitzpatrick podia ter comprado alguma delas.

 

Claro. Mas sabes, Tony, nenhuma delas passou subitamente a guiar um Porsche ou a mostrar-se no Goodfellows com o Gregory Eagleton...

 

E, claro, nunca te ocorreu que o teu caso foi ao ar porque o Fitzpatrick estava inocente retorquiu ele. Nunca te ocorreu que a rapariga estava a mentir, a incriminá-lo depois de ele se ter recusado a ceder à sua chantagem.

 

O argumento fez Ellen ver tudo vermelho. Tony não negava as suas acusações; desviava a atenção, tentava atirar com as culpas para outrem. Incriminar a vítima era de mais. Quase colada a ele, espetou o dedo na sua direcção.

 

O Art Fitzpatrick violou aquela rapariga porque acreditou que o seu dinheiro e a sua posição lhe permitiam fazer tudo o que lhe apetecesse. E o que me põe doente... é que tinha razão. Ele safou-se de uma condenação, e tu... tu vendeste-te às suas boas graças.

 

Então, prova-o! gritou Tony. Não negou. Nunca o fizera. i Tinham discutido tanto aquele assunto que o haviam reduzido a pó. Ellen sabia que não podia provar nada contra ele. Tudo o que possuía eram peças de um quebra-cabeças e uma forte convicção íntima. Nenhuma prova decisiva. Nada que pudesse levar ao advogado distrital ou à barra do tribunal. Na época, dera voltas à cabeça tentando encontrar um meio de o castigar, de o queimar publicamente, de o fazer suspender, de o mandar para a cadeia. Mas acabara por chegar à conclusão única de que qualquer tentativa se viraria contra si. Seria ela a publicamente humilhada, escarnecida e profissionalmente arruinada. Seria a acusadora suficientemente parva para se envolver com um advogado de defesa ambicioso.

 

Avançara para o caso com prudência, convencida de ter a esperteza necessária para o resolver. Saíra com a sua auto-estima de rastos. Ele diminuíra-a, seduzira-a, ao ponto de acreditar na sua integridade. E, mal ela baixara a guarda, traíra-a.

 

Quase três anos haviam passado e Ellen continuava a desejar arrancar-lhe o coração. Não por tê-lo amado, mas porque ele a usara, se rira dela, troçara do sistema que ela tanto prezava.

 

Afastou-se de Tony e esfregou a cara com as mãos, numa tentativa de afastar qualquer resquício de emoção. Não queria sentir nenhuma. Não queria, sobretudo, senti-la na presença dele. Controlo. Não acabara precisamente de o dar como conselho? Não dissera a Camerom que não deixasse Costello entrar-lhe no sangue? E ali estava ela, a explodir como uma bomba quando ele punha pela primeira vez os pés no seu gabinete.

 

Preocupei-me contigo, Ellen murmurou ele.

 

Bem, tudo isso é pretérito perfeito, não é? E sentou-se na sua cadeira. História antiga.

 

Tony tomou o seu lugar na cadeira das visitas. Como pugilistas refugiando-se nos seus respectivos cantos, pensou ela. A tensão desceu a um nível tolerável.

 

É evidente que nunca quis correr contigo da cidade.

 

Não te vanglories, Tony. Tu foste apenas um sintoma de um problema muito maior. Saí de Hennepin County porque estava pelos cabelos com todo aquele jogo sujo. Obviamente, não te contentas em contaminar apenas os distritos judiciais metropolitanos. Decidiste trazer o teu espectáculo para a estrada.

 

Represento o Garrett Wright.

 

Já me constou. Ellen fitou-o com fixidez. E como aconteceu isso?

 

É um caso fascinante.

 

Com grande contorno, queres tu dizer. O que eu quero saber é como vieste a ser advogado do Garrett Wright. Quem te contactou? Ou vieste a farejar?

 

Estás a acusar-me de solicitar um cliente? Mostrava-se saudavelmente afrontado.

 

Não, nunca serias estúpido a esse ponto. Portanto, quem te chamou? Sei que não foi nem o próprio Garrett Wright nem o Dennis Enberg.

 

Também sabes que não discutirei isso contigo retorquiu ele, impenetrável. É um privilégio meu.

 

Ellen inclinou-se para ele, com os braços cruzados sobre a secretária.

 

Achas que sim? Se foi o cúmplice do Garrett Wright quem te contactou... se podes revelar-nos a identidade do raptor do pequeno Holloman e não o fazes... acuso-te de obstrução e deixo-te incapaz de respirar.

 

Costello sorriu como um amante, com os olhos escuros a brilhar.

 

Ah, ainda és a Ellen do meu coração... ou, deverei dizer, da minha garganta?

 

Eu nunca te pertenci, Tony. Apenas dormi contigo. Acredita-me, não foi grande coisa.

 

Ai! Retraiu-se. Um golpe abaixo da cintura. Nem pareceu teu.

 

O que posso eu dizer? Pões-me fora de mim. Vais dar-te mal se estás a ajudar ou a ser cúmplice de um raptor.

 

Tu partes do princípio de que o meu cliente é culpado. Eu considero-o inocente, por isso não posso ter conhecimento de um cúmplice. Não sei evidentemente nada do rapto do Holloman.

 

Deus te ajude se estás a mentir-me, Tony. Pode estar em jogo a vida de uma criança.

 

Eu sei o que está em jogo, Ellen. Eu sei sempre o que está em jogo.

 

Abriu a sua pasta de cabedal Louis Vuitton pousada na cadeira a seu lado e tirou para fora um maço de documentos.

 

Pedido de busca a Discovery. Enquanto que tu não tens virtualmente nada em que fundamentar o teu caso, eu espero que o desfecho não tarde.

 

Tivemos mais do que o suficiente para a audiência. O teu pequeno empreendimento «corrida para a justiça» vai apenas dificultar os teus esforços, Tony, não os meus. Manda um dos teus lacaios amanhã à tarde buscar os papéis.

 

Passo eu próprio disse ele, vestindo o sobretudo. O juiz Grabko vai receber o meu pedido de redução da caução. Admirável o modo como o distrito se esforça por manter em movimento as rodas da justiça, não é?

 

Suponho que estás a tentar obter crédito. Ellen esforçou-se por parecer aborrecida. Como se alguém neste distrito pudesse interessar-se menos por quem tu és.

 

Costello semicerrou os olhos. Tinha um ar cruel e ela sabia-o com potencial para o ser.

 

Acho que devias preocupar-te menos, Ellen aconselhou ele, em voz baixa. Esperemos, para bem do caso, que não deixes o teu espírito de vingança nublar o teu raciocínio. Não quero que ninguém diga que não foi uma luta leal.

 

Apeteceu a Ellen agarrar no pisa-papéis e atirar-lho para cima, mas ele estava fora de alcance e o autodomínio ditou uma resposta mais fria.

 

Porque não ofereces ao teu ego um belo jantar, Tony? A energia que ele consome deve ser tremenda.

 

Tony esboçou um breve sorriso.

 

De facto, vou jantar. Convidar-te-ia a acompanhar-nos, mas...

 

Tenho outros planos.

 

Até amanhã.

 

À luz esbatida do corredor, voltou-se e olhou-a.

 

Sabes, Ellen disse suavemente, apesar das circunstâncias, é realmente bom voltar a ver-te.

 

Ellen não respondeu nada. Quando ele desapareceu, passou as mãos pelo cabelo e deixou escapar um suspiro, enquanto se lhe descontraíam os músculos. Uma avaliação lógica da conversa de ambos dizia-lhe que não fora um fracasso total. Ela marcara alguns pontos, aguentara-se bem. Para além da lógica, sentiu-se nua e vulnerável.

 

Tony encontrara maneira de a ferir anteriormente quando ela pensava ser invulnerável. Optara por afastar-se, mas aí estava ele de novo, a invadir a sua vida. Nenhum argumento lógico podia dissipar o seu mal-estar.

 

E no âmago da inquietação não estava Tony Costello, mas Garrett Wright.

 

Porque escolhera ele Costello? Como teria conhecido o homem que ela menos queria enfrentar, em tribunal ou fora dele? Quem contactara Costello em nome dele?

 

Quem era a outra parte de nós.

 

De facto, vou jantar. Convidar-te-ia a acompanhar-nos...

 

Na sua cabeça as possibilidades brotavam como cogumelos. Ele podia estar a falar de membros do seu pessoal, mas podia referir-se à pessoa que o contactara da parte de Garrett Wright.

 

Pegando no casaco e na pasta, apressou-se a sair do gabinete. Os fornecedores de justiça tinham fechado a loja por essa noite, e nos corredores fracamente iluminados ecoava o som surdo e isolado de um único par de saltos. Desceu depressa as escadas, atravessou a rotunda e encaminhou-se para a porta lateral mais próxima do parque de estacionamento. Encolheu-se por causa do frio e empurrou a porta; parou no patamar.

 

Perscrutou o parque de estacionamento, à procura de Costello, na esperança de o avistar a afastar-se ao volante.

 

Mas não viu ninguém. Praguejando entre dentes, dirigiu-se para o seu carro. Talvez ele tivesse ido primeiro ao escritório. Se o apanhasse lá e pudesse segui-lo até ao restaurante...!

 

Miss North? A forma negra emergiu das sombras como um fantasma.^

 

Ellen pulou para o lado, partiu um salto, torceu o tornozelo. Aos tropeções, deixou cair a pasta. Adam Slater ficou imóvel, de olhos esbugalhados, a observá-la. O vento atirou-lhe o cabelo para os olhos e ele empurrou-o para trás, impaciente.

 

Céus, Miss North, eu não queria assustá-la. Peço imensa desculpa.

 

Ellen franziu-lhe o sobrolho. Apanhou o salto solto do sapato e meteu-o na algibeira do casaco.

 

Mister Slater... Tentava mostrar-se paciente. Não há realmente necessidade de se precipitar sobre uma pessoa quando é o único jornalista por perto.

 

Ele contorceu o rosto magro numa diversidade de expressões envergonhadas.

 

Lamento muito sinceramente. É só porque eu queria apanhá-la antes de... bem... de se ir embora.

 

Porque não está em Campion com o resto da horda? Não se passa lá grande coisa. Quer dizer, há a busca, mas eles não encontraram o miúdo, nem coisa nenhuma. Um magote de pessoas veio aqui por causa da conferência de imprensa do Anthony Costello, mas voltaram para Campion para a vigília de oração. Decidi passar por aqui, a ver se podia obter um comentário seu.

 

É melhor que nada, hem? Sim... quero dizer... é alguma coisa. Quero dizer, o que acha do facto de o doutor Wright ir buscar um mercenário como o Costello? Puxou do bloco-notas da algibeira do casaco e ficou com o lápis no ar.

 

O bafo de Ellen formou uma nuvem transparente que se dissipou no escuro. As lâmpadas do parque de estacionamento acenderam-se. Uma incidiu no Bonneville, sendo o único carro a ficar iluminado num raio de vinte metros. A sensação de urgência esvaiu-se.

 

O Garrett Wright tem direito a um advogado respondeu ela mecanicamente. O doutor Costello é muito bom naquilo que faz.

 

Pensa que isso significa que o Wright é culpado?

 

Que sente que vai precisar de um advogado melhor do que o que poderia encontrar em Deer Lake, para o livrar?

 

Não estou dentro do segredo dos seus pensamentos. Quem me dera estar. Facilitar-me-ia a tarefa. Inclinou-se e apanhou a pasta, balouçando sobre o pé direito para compensar o salto perdido. Eu acho que o Garrett Wright é culpado. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para provar isso e condená-lo. Não me importa quem é o seu advogado.

 

O Costello não a intimida?

 

Nem por sombras.

 

Apesar de ele a ter batido quase sempre quando a senhora se lhe opôs como acusadora em Hennepin County?

 

Onde ouviu isso? Slater encolheu os ombros:

 

A minha fonte no sistema.

 

Cada caso é um caso replicou Ellen, a coxear rumo ao seu carro. Tenho confiança no nosso contra o Garrett Wright. Farei também tudo o que puder para ajudar à captura e julgamento do seu cúmplice.

 

Tem alguns indícios de quem possa ser? perguntou Adam Slater, arrastando os pés ao lado dela. Algumas pistas quanto ao motivo?

 

Não posso comentar.

 

Eu não cito o seu nome prometeu ele. Chamar-lhe-ei «uma fonte bem colocada do gabinete do advogado distrital».

 

Há apenas cinco advogados entre o pessoal, Mister Slater. Isso não asseguraria exactamente o meu anonimato.

 

Ele recuou com a audaciosa elasticidade da juventude e saltou para a pergunta seguinte.

 

Não foi dito nada acerca do motivo. O que pensa ser a razão de tudo isto? O crime é sempre por qualquer coisa: sexo, poder, dinheiro, drogas. Ora, de um ponto de vista existencial, cósmico, este caso tem na realidade apenas a ver com o bem e o mal, não é verdade?

 

Ellen olhou-o, olhou a luz ávida dos seus olhos enquanto esperava uma resposta, um pitéu sumarento, sensacional, que os seus leitores de Grand Forks pudessem ingerir com os cereais do pequeno-almoço. Ela vira graus de bem e de mal por toda a parte através daquela provação: sombras e mais sombras, pequenos pontos brilhantes de esperança na humanidade. Se Brooks não tivesse razão em mais nada, tinha-a numa coisa: o drama que se representava à roda deles era, sob muitos aspectos, uma metáfora dos tempos. Mas Ellen não pretendia entrar em filosofias com um repórter que crescera com reprises de Brady Bunch e era demasiado jovem para se lembrar dos Beatles.

 

Eu não sou existencialista, Mister Slater. Sou realista. E realisticamente acredito que posso ganhar este caso. Não serei assombrada por um advogado que gasta mais em fatos do que aquilo que eu ganho num ano ou pela noção irracional de que estamos a lutar contra uma entidade maligna cujo génio diabólico é mais forte do que todos nós juntos. Quando se pensa normalmente no assunto, o Garrett Wright é apenas mais um criminoso. Não lhe dou mais crédito do que aquele que ele merece.

 

Soava bem, pensou ela ao guiar para fora do parque de estacionamento.

 

Hannah vagueava sozinha pela tranquila casa, tendo por única companhia música suave da sua aparelhagem estereofónica. Lily dormia no seu berço, Josh adormecera no sofá a ver Regresso ao Futuro.

 

Hannah deixara o vídeo ligado desde a noite anterior. Não queria que Josh visse os noticiários. Justificara-se intimamente com o receio de que isso pudesse incomodá-lo, mas a verdade é que a sua reacção sobre o rapto de Holloman a incomodara a ela. Tentara conversar com Josh sobre o assunto, mas após o seu comentário arrepiante o pequeno nada mais tivera a dizer.

 

Josh, sabes quem poderia ter levado aquele rapaz para longe da família?

 

Ele encolheu os ombros, indiferente, e desviou a atenção para a sua caixa de marcadores, pegando em cada um deles e submetendo-o a um rigoroso escrutínio.

 

Querido, a família daquele rapazinho deve estar preocupadíssima por causa dele, tal como nós estivemos por tua causa. E ele provavelmente está assustado, também, tal como tu deves ter estado. Se pudesses ajudar a encontrá-lo, ajudavas, não ajudavas?

 

Josh tirou da caixa um marcador vermelho e segurou-o esticando o braço, fazendo-o subir e descer no ar como se fosse um avião.

 

Refugiara-se uma vez mais na sua imaginação, a que Hannah não sabia como arrancá-lo, nem sequer se devia tentar fazê-lo. Talvez o melhor fosse deixá-lo ser ele próprio a decidir-se, dar-lhe simplesmente amor, apoio e paciência. Pensava então na mãe de Dustin Holloman, conhecendo por experiência própria os temores por que esta estava a passar, e achava que devia forçar uma conclusão, que devia falar a Mitch e contar-lhe o que Josh dissera, que devia tê-lo contado a Ellen North, que devia arrastar imediatamente Josh ao psiquiatra que o vira na manhã desse dia e aliviar a sua responsabilidade.

 

Os argumentos entrechocaram-se no seu espírito e na sua consciência. Em última análise, sentiu que não faria nada, e achou-se egoísta, fraca e errada por tomar aquela posição. Porém, no fundo do seu coração, o que queria em primeiro lugar e acima de tudo era proteger Josh, guardá-lo a salvo a seu lado, na esperança de que todo o horror tivesse terminado.

 

Baixou o olhar para ele, profundamente adormecido, e cada fibra do seu ser lhe doeu. Houvera uma vez em que não o protegera. Não queria de novo que tal acontecesse, mas agia às cegas e sentia-se muito só. Era como se tivesse sido arrancada ao mundo que conhecia, aquele em que estava segura do seu papel e da sua competência, e fosse atirada para um mundo alheio cuja língua ou usos não entendia.

 

Até ao rapto de Josh, nunca enfrentara uma verdadeira adversidade na sua vida pessoal. Nunca adquirira o calo necessário para lutar contra ela. Mesmo agora, quando contra vontade o ia adquirindo, lidava com a adversidade desajeitadamente, indecisa. Sentia-se desamparada e sabia que o que lhe faltava era o apoio do marido. Ela e Paul tinham sido uma equipa durante muito tempo, antes de tudo baloiçar e começar a afundar-se. Estar sem ele era ficar de repente amputada.

 

Do outro lado da cozinha, a porta entre a garagem e a arrecadação abriu-se e fechou-se. Hannah rodou sobre os calcanhares, colocando-se automaticamente entre o intruso invisível e o filho. Então, a porta da cozinha escancarou-se e Paul entrou.

 

Podias ter telefonado primeiro disse Hannah, zangada.

 

Ainda é a minha casa replicou Paul na defensiva. Hannah tomou fôlego para noVo ataque, mas conteve-se.

 

Tornara-se um hábito o impulso e a defesa, numa guerra verbal. Nem perdiam já tempo a cumprimentar-se. Tinham partilhado uma década das suas vidas, posto duas crianças no mundo, e estavam reduzidos àquilo.

 

Assustaste-me admitiu ela.

 

Desculpa. Um pedido de desculpas de má vontade. Acho que devia ter percebido melhor. Não pensei que te habituasses tão depressa à minha ausência.

 

Não é isso.

 

Ele ergueu ironicamente uma sobrancelha.

 

Ah, então decidiste que afinal talvez houvesse qualquer razão para ter medo de mim?

 

Oh, Santo Deus! Pressionou os olhos com os punhos fechados. Eu estou a tentar ser civilizada, Paul. Não podes pelo menos fazer outro tanto?

 

Foste tu que me puseste fora.

 

Mereceste-o. Pronto. Estás feliz agora? Fomos suficientemente horríveis um para o outro?

 

Paul desviou o olhar, fixando-o no frigorífico e nas notas, fotos e desenhos que cobriam a porta. A evidência da vida deles como uma família.

 

Vim ver o Josh disse, serenamente.

 

Está a dormir.

 

Então, não posso assustá-lo, não é?

 

Hannah absteve-se de responder. Não sabia bem o que ele queria que fizesse ou que devia fazer. Não queria pensar que Josh tivesse qualquer razão para temer o pai. A lógica dizia-lhe que não havia razão alguma, que Garrett Wright era o homem a culpar. Garrett Wright estava na cadeia.

 

E outra criança fora levada.

 

E fora Paul quem provocara uma reacção tão violenta de Josh.

 

Adormeceu no sofá disse e, virando-se, encaminhou-se para a sala de estar.

 

Paul seguiu-a, de mãos nos bolsos, arrastando os pés pelo tapete berbere. Por cima das costas do sofá olhou o filho, com uma emoção imensa patente no rosto.

 

Como vai ele?

 

Não sei.

 

Fala?

 

Hannah hesitou uma fracção de segundo, com vontade de desabafar, mas percebendo que não desejava confiar em Paul.

 

Não. De facto, não.

 

Quando volta ao psiquiatra?

 

Amanhã. A Ellen North e o Cameron Reed, do gabinete do delegado distrital, vieram cá ontem com a foto de uma formação em linha para ele olhar e ver se apontava o Garrett Wright.

 

A expectativa aguçou-lhe a expressão.

 

E...?

 

E nada. Olhou e afastou-se. Parece estar a bloquear tudo. O doutor Freeman diz que pode levar muito tempo até ele enfrentar o ocorrido. O trauma foi forte de mais para ele. Provavelmente, foi-lhe dito que não falasse no assunto. Ameaçado. Só Deus sabe.

 

Deus e o Garrett Wright.

 

Paul inclinou-se e tocou no cabelo de Josh. Um caracol enrolou-se-lhe no dedo e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Hannah deixou-se ficar onde estava, consciente de que há não muito tempo ter-se-ia aproximado dele, tê-lo-ia abraçado e compartilhado a sua dor. Já não o fazer provocou-lhe uma imensa tristeza. Como podia o amor deles ter desaparecido tão completamente? O que poderiam ter feito para o impedir de morrer?

 

Quem me dera que pudéssemos voltar atrás murmurou Paul. Quem me dera... Quem me dera...

 

A cantilena era-lhe tão familiar como as batidas do seu próprio coração. Hannah perdera a conta aos desejos sem significado, às preces sem resposta. A mais importante concretizara-se ter Josh de volta, mas trouxera consigo todo um novo conjunto de necessidades, anseios e perguntas para as quais não estava certa de querer respostas.

 

Quem me dera que pudéssemos voltar atrás... àquele tempo das suas vidas que parecia um distante conto de fadas. Era uma vez, tinham sido tão felizes... Agora, havia apenas amargura e dor. Felizmente, o depois estava tão fora do alcance deles como as estrelas.

 

Eu levo-o para a cama sussurrou Paul.

 

Hannah começou a dizer não, receosa de que Josh acordasse e entrasse em pânico à vista do pai. Mas calou-se a tempo e pediu a Deus uma pequena ajuda. Fosse o que fosse que tivesse corrido mal entre os dois, não queria ver Paul ferido a tal ponto. Não queria acreditar que ele o merecesse.

 

Seguiu-os pelo curto lanço de escadas e ficou à porta do quarto de Josh enquanto Paul o acomodava na caminha baixa e o tapava. Paul beijou as pontas dos dedos e pousou-as ao de leve na face de Josh, depois atravessou o corredor e foi espreitar Lily.

 

Ela pergunta por ti admitiu Hannah.

 

O que lhe disseste?

 

Que estás noutro sítio por algum tempo.

 

Mas não é só por algum tempo, pois não, Hannah? Havia na sua voz mais acusação do que esperança. Tu não precisas de mim.

 

Eu não preciso disto retorquiu ela rispidamente, enquanto voltavam para a sala de estar. A perseguição constante, as observações falsas, a sensação de que tenho de andar em bicos de pés em redor do teu ego. Dava tudo para que conseguíssemos dar a volta para bem do Josh, mas tu não pareces capaz disso.

 

Eu! Paul bateu no peito. Claro, sou eu o culpado. Uma treta. És tu que...

 

Pára por aí! exigiu Hannah. Não vou voltar a ouvir o mesmo. Entendes-me, Paul? Estou cansada das tuas censuras. Censuro-me o suficiente pelos dois. Estou a fazer o melhor que sei. Não posso falar por ti; ignoro o que andas a fazer. Nem sequer já sei quem és. Não és o homem com quem casei. Não és ninguém com quem me apeteça estar.

 

Muito bem, muito bem zombou. Vou-me embora.

 

E assim se completou outra vez o círculo vicioso, pensou Hannah quando a porta bateu. Tinham dançado tantas vezes a mesma dança que só de pensar nela a entontecia.

 

Exausta, deixou-se cair numa poltrona e pegou no telefone portátil que estava sobre a mesa. Precisava de uma âncora, de um amigo, de alguém que se sentisse segura por amar embora ele nunca pudesse retribuir-lhe esse amor.

 

No outro extremo da linha, o telefone tocou uma, duas vezes.

 

Brigada de Deus. Salvação grátis. Hannah esboçou um sorriso.

 

Temos um serviço de penitência especial esta noite: três rosários pelo preço de dois.

 

E quanto a ombros para chorar? interrogou ela. O silêncio foi caloroso e acolhedor.

 

Compre um, leve outro grátis respondeu com doÇura o padre Tom.

 

- Posso usufruir da oferta?

 

Quando quiser, Hannah sussurrou ele. Quando quiser.

 

Paul seguiu o seu caminho, ladeando os arbustos que orlavam o Quarry Hills Park. O luar era intermitente, ia e vinha consoante a deslocação de nuvens negras quais rolos de fuligem no céu nocturno. Conhecia bem o caminho. O carreiro, destinado a esquiadores de corta-mato, fora pisado por inúmeras botas nos últimos dias porque a Polícia esquadrinhara a encosta da colina à procura de provas. Tiras esfarrapadas de plástico amarelo, colocadas para delimitar o local do crime, pendiam de troncos de árvores.

 

Tentou ignorá-las e não pensar na razão por que lá estavam. Precisava de amor. Merecia algo melhor do que Hannah a correr com ele. Ela devia ter sido capaz de ver a pressão que o oprimia. Se tivesse sido uma verdadeira esposa, ele estaria essa noite a dormir na sua cama. Em vez disso, pretendia encontrar a esposa de outro homem.

 

O facto de esse homem estar na prisão, acusado de ter raptado Josh, despertou nele um conjunto de emoções. Nenhuma delas o levou a arrepiar caminho.

 

A luz da cozinha da casa dos Wright estava acesa. Dos arbustos, o que via do interior eram imagens abstractas um rectângulo de cozinha, um quadrado de parede e de tecto da casa de banho, um triângulo do quarto através do V invertido formado pelos cortinados abertos.

 

Karen estava em casa. Telefonara-lhe de uma cabina e desligara quando ela respondeu, com receio de que o telefone dela estivesse sob escuta. Não havia carros na entrada da casa, nenhum sinal de visitantes.

 

Precaução, cobardia e sentimento de culpa pregavam-no ali, junto aos arbustos. A necessidade acabou por fazê-lo avançar.

 

Atravessou o pátio das traseiras até à porta da garagem e entrou, como já fizera muitas vezes. O Saab de Garrett fora confiscado pela Polícia e levado, deixando o Honda de Karen a ocupar apenas uma fracção do espaço disponível. Fora aí que Mitch Holt capturara Garrett Wright. Por segundos, Paul quase ouviu os sons do tumulto, o tom pausado da voz de Holt a recitar os direitos.

 

Paul mal conhecia Garrett Wright. Eram vizinhos, mas não daqueles que partilham divertimentos de Verão e churrascos. Wright mantinha-se à parte, superior. A sua vida era o seu trabalho na faculdade, olhava as pessoas que o rodeavam como se fossem espécimes a estudar e isolar. Dava um certo prazer amargo pensar nele metido na cadeia. A que ponto se sentiria agora superior?

 

Paul?

 

Karen, de pé, atrás da porta de protecção, mostrava-se frágil e assustada. Emoldurava-lhe o rosto o fino cabelo louro-acinzentado. Uma rosa enfeitava a frente da sua camisola larga, cor de marfim. Feminina. Delicada. Tudo o que ele pretendia numa mulher.

 

Paul, o que fazes aqui?

 

Precisava de te ver respondeu ele, abrindo a porta. Posso entrar?

 

Não devias. Mas, apesar disso, recuou para o quarto de lavagens.

 

Tinha de saber como vais. Não te via desde que o Garrett...

 

Foi um erro. Abanou a cabeça, sem olhar para ele. O Garrett não devia ter sido preso. Nunca foi preso.

 

Ele levou o Josh, Karen.

 

Isso é engano retorquiu ela, enfiando um dedo no cabelo. Ele nunca... me magoaria a esse ponto.

 

Ele não te ama, Karen. O Garrett não te ama. Eu amo-te. Lembra-te disso.

 

Não gosto do que está a acontecer. As palavras eram um gemido trémulo. Acho que devias ir-te embora, Paul.

 

Mas eu preciso de estar contigo insistiu ele. Não podes imaginar pelo que tenho passado, a pensar em ti... a pensar se estás bem, a pensar se a Polícia te interrogou. Tenho-me preocupado seriamente. Ergueu uma mão para lhe tocar a face. Senti a tua falta sussurrou docemente. Ela era tão doce. A necessidade fez-lhe doer. Precisava de ser consolado. Merecia consolo. Fico acordado todas as noites, desejando que estejas comigo. Penso em nós dois juntos... realmente juntos. Isso pode acontecer agora. A Hannah e eu acabámos. O Garrett vai para a prisão.

 

Não acredito murmurou ela.

 

Vai. De qualquer modo, tu não o amas, Karen. Ele não pode dar-te aquilo de que tu precisas. Tu amas-me. Diz que me amas, Karen.

 

Karen susteve a respiração e as lágrimas molharam-lhe as pestanas:

 

Amo-te, Paul.

 

Paul baixou a boca para a beijar, mas ela virou a cara. Empurrou-o, com as pequenas mãos espalmadas no casaco dele.

 

Karen? murmurou, confuso, aniquilado. Eu preciso de ti.

 

A mulher abanou a cabeça, com as lágrimas a escorrer-lhe pela cara abaixo, o lábio inferior a tremer.

 

Lamento. Foi tudo um erro. Deixou-se deslizar devagar ao longo da parte da frente da máquina secadora até ficar sentada no chão. Enlaçou as pernas com os braços, apoiou a cabeça nos joelhos e chorou suavemente... um erro terrível.

 

Cometi um erro. A frase acendia-se e apagava-se na cabeça de Dennis Enberg como um anúncio de néon. Acende e apaga, acende e apaga, implacável como a tortura chinesa da gota de água.

 

Tu devias estar feliz, Dennis resmungou, servindo-se de um pouco mais de Cuervo. Estás fora disso. Estás fora do anzol.

 

Nunca esperara cair de imediato no anzol. Deer Lake não era um lugar de mexericos. Os seus clientes eram geralmente gente vulgar, com problemas insignificantes. Tinha uma vida calma, decente, embrutecida pela rotina. Havia a sua prática da lei, a sua caça e a sua pesca, a sua esposa Vicki, que trabalhava à noite na casa de repouso e frequentava a Universidade Harris para vir a ser professora do curso elementar. Haviam falado em adoptar um bebé, mas tinham decidido esperar até Vicki acabar o curso.

 

O Cuervo desceu como fumo líquido. As arestas começavam a enevoar-se e a arredondar-se, ao olhar o seu escritório, a «Caverna do Homem Viril», como Vicki lhe chamava. O lugar onde estava autorizado a pendurar os seus trofeus de caça, a guardar as suas armas e a jogar póquer com os companheiros uma vez por mês. As paredes eram de pinho nodoso, o chão coberto com um tapete forte cor de pó. A sua secretária deixava o aspirador à porta às sextas-feiras. Ele usava-o uma vez por mês.

 

O prédio onde tinha o seu modesto escritório confinava com um parque de estacionamento numa alameda estreita, e em tempos fora uma lavandaria. Agora, a outra metade era ocupada por um dentista que fizera um acordo com ele e lhe indicava clientes que tivessem dado cabo dos dentes em acidentes de viação e rixas de bar. O género de clientes com que melhor lidava nada complicados. Cometi um erro.

 

Deixa andar, Dennis resmungou, fixando o olhar no outro lado da sala, no gamo pendurado por cima da espingarda. Podes vencê-los a todos.

 

Fora o que dissera a Ellen North quando ela fizera uma pausa na tentativa de obter informações. Não fui suficientemente agressivo. Deixei mal o meu cliente. Ele despediu-me. Acontece.

 

O caso poderia ter-lhe dado dinheiro, fama, mas agora fora-se, e boa viagem. Não lhe agradava a pressão, não gostava dos segredos.

 

Parece distraído, Dennis disse Ellen.

 

Sim, bem, era um grande caso. Eu poderia ter aproveitado os negócios que me traria. Mas, ao diabo! Quem precisa de dores de cabeça?

 

Não me pareceu ter-se-lhe entregue de alma e coração...

 

Não? Pois... A Vicki não gostou da ideia de eu defender o Wright.

 

Ela pensa que ele é culpado?

 

Pergunta ardilosa.

 

Retiro-a disse ela com um aceno de cabeça.

 

De qualquer maneira, as chamadas enigmáticas estavam a tornar-se aborrecidas.

 

Quais chamadas? Ele encolheu os ombros.

 

As variantes habituais: «Você é um advogado de trampa.» Há pessoas que acham que ele é culpado. Agora, o Costello que se preocupe com isso. Eu estou fora.

 

Ellen preparou-se para partir, voltando-se para ele à porta, com uma expressão pensativa.

 

Você sabe que eu nunca lhe pediria que violasse os seus princípios éticos, Dennis. Mas confio em que fará o que está certo. Se o Garrett Wright é o monstro que pensamos que ele é, tem de ser detido. O seu cúmplice tem de ser detido. Se você pudesse fazer alguma coisa para os deter, sei que o faria. Tomaria a decisão certa. Não tomaria, Dennis?

 

Fazer a coisa certa.

 

Cometi um erro.

 

Esvaziou para o copo a garrafa de Cuervo.

 

Josh sentou-se na cama e olhou o mostrador luminoso do relógio da sua mesa-de-cabeceira. Meia-noite. A mãe deixara-lhe acesa uma luz de presença, embora ele já fosse crescido de mais para isso. A mãe não poderia nunca compreender a idade que agora tinha, por razões que não poderia nunca explicar.

 

Deslizou de debaixo dos cobertores e foi até à janela de onde via o lago. Ao luar, parecia um deserto branco ou a superfície de um planeta longínquo. As cabanas de pesca agrupadas na zona da linha costeira podiam ser uma aldeia de extraterrestres.

 

Saiu do quarto e seguiu pelo corredor para espreitar a mãe. A porta do quarto dela estava aberta. A mãe dormia na cama, embora Josh soubesse por experiência que o mínimo som podia acordá-la. Não faria barulho. Era capaz de comportar-se como um fantasma, andar por toda a parte, estar em toda a parte, e ninguém o ver ou ouvir. O silêncio morava na sua mente e ele podia torná-lo enorme e inserir-se nele como numa gigantesca bola de sabão.

 

Afastou-se da porta, seguiu pelo corredor até à casa de banho, cuja janela dava para o pátio das traseiras. Trepou para o cesto da roupa e afastou as cortinas. A neve era prata, a mata do outro lado uma renda preta com raios de luar a brilhar aqui e além por entre os ramos nus das árvores invernais. A mística e a magia do cenário chamavam-no. A sensação assustou-o um pouco, mas puxava-o como um par de mãos gigantes invisíveis. Queria estar lá fora, sozinho, onde ninguém o observasse como que à espera de que ele explodisse, e ninguém lhe fizesse perguntas a que não devia responder.

 

Foi buscar à arrecadação as botas de neve e calçou-as, pôs a camisola nova vermelha dos Vikings que Natalie Bryant lhe comprara e o casacão novo de Inverno que lhe dera a mãe. As pessoas tinham-lhe comprado imensas coisas, como se fosse Natal ou outra coisa festiva. Só que, quando lhas dera, a mãe parecia triste e ansiosa, em vez de estar feliz.

 

Josh sabia ser a causa desses sentimentos. Bem desejava aquietar-lhe o coração. Quereria endireitar de novo o mundo, mas não podia.

 

O que está feito está feito, mas ainda não acabou.

 

Não gostava de pensar nisso, mas tinha-o na cabeça; lá metido por alguém contra quem ele não ousava ir. O Captor. O Captor de que ele não devia falar; se não, aconteceriam coisas más, e por isso ele não falou, embora mesmo assim coisas más parecessem estar a acontecer. Josh mantinha-se fechado em si próprio, apesar de esse ser um lugar solitário. No entanto, era o sítio mais seguro para se estar.

 

Silencioso como um rato, saiu para o exterior.

 

A chamada chegou às duas horas e dois minutos, arrancando Ellen a um sono agitado. Sentou-se como uma flecha na cama, espalhando os arquivos e documentos que adormecera a ler. O gordo dossier que era a sua bíblia para o caso Wright caiu ao chão com estrondo. Fixou o telefone, a raciocinar como na noite de segunda-feira. O telefonema relacionava-se provavelmente com trabalho. Um polícia a precisar de uma autorização legal. Havia outros casos em curso em Park County além do rapto de Holloman. Ou talvez fosse acerca do caso Holloman. Talvez fosse Karen Wright, a confessar os pecados do marido.

 

Não se resolvia, contudo, a pegar no auscultador. Harry levantou a cabeçorra do cobertor e emitiu um som de descontentamento pela perturbação do seu sono.

 

Ellen North respondeu ela. Um silêncio pesado na outra extremidade da linha. Está lá?

 

Quando a voz se fez ouvir, parecia um suave murmúrio, andrógino, um espírito desencarnado que lhe provocou arrepios.

 

A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis...

 

A ligação foi cortada, mas as palavras flutuaram e ecoaram, apertando-lhe com dedos ossudos a garganta. Ellen puxou para cima os cobertores e sentou-se a tremer, na expectativa, enquanto a noite em seu redor sustinha a respiração.

 

               ENTRADA NO DIÁRIO

 

26 de Janeiro de 1994

 

Eles correm em círculos perseguindo as caudas.

 

Nós jogamos o jogo das conchas com mentes luminosas.

 

Onde está o Dustin? Onde está o Demónio?

 

Quem é demoníaco?

 

Quem não é?

 

O Dennis Enberg morreu.

 

O qu... o quê? Ellen estava literalmente à entrada da porta. Tinha o casaco meio abotoado. As luvas caíram-lhe das mãos.

 

... parece ser suicídio disse Mitch... No seu escritório... a noite passada...

 

As frases chegavam-lhe fragmentadas, como se a ligação telefónica fosse má.

 

A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.

 

Oh, meu Deus! murmurou ela, nauseada, com o frugal pequeno-almoço de torrada e chá às voltas no estômago.

 

Mesmo depois de ter comunicado o excêntrico telefonema e ter recebido a garantia de que o comando nocturno enviaria um carro-patrulha para perto de sua casa, mal dormira. Sonhos de perigos e medos concebidos nas profundezas do seu subconsciente enredaram-na num limbo exaustivo.

 

Que raio de maneira de começar o dia resmoneou Mitch. O Dennis era um tipo decente, para advogado.

 

Ellen tentou reprimir a respiração, obscuramente consciente de estar hiperventilada. Uma camada de suor cobriu-lhe a pele.

 

Não mexam em nada disse, desesperada.

 

O quê?

 

Não mexam em nada. Eu vou já para aí. Acho que ele pode ter sido assassinado.

 

Um rio caudaloso de tráfego terrestre fluía entre a Donut Hut, à esquina, e o escritório de Dennis Enberg, na orla do Centro Comercial de Southtown. A imprensa, como um enxame de moscas, andava para a frente e para trás, impaciente por as notícias lhes serem negadas por portas fechadas e polícias corpulentos. Alguns reconheceram o carro de Ellen e precipitaram-se para ela quando entrava no parque de estacionamento. Ellen fingiu não os ver, deixando-os tratar da vida e dispersar enquanto os ultrapassava e entrava no círculo interno de carros de polícia verdes e brancos. Abriu a porta, mal estacionou, e apressou-se a penetrar no edifício, como se ainda pudesse evitar o que já acontecera.

 

O escritório de entrada estava apinhado de gente. A esposa de Dennis, Vicki, e a secretária dele acotovelavam-se no pequeno sofá, a soluçar, amparando-se mutuamente, entrelaçando a dor de ambas num dueto de sofrimento. O ar estava pesado de fumo de cigarros e do cheiro acre de suor de corpos com roupa a mais e de nervos em franja.

 

Ellen puxou a manga verde-escura de uma parka sem se incomodar em ver a quem pertencia:

 

Onde está o Mitch?

 

Lá atrás. Não vai gostar de lá ir.

 

É o meu trabalho retorquiu ela bruscamente, afastando-se. Mas algo mais a empurrava pelo curto corredor até ao gabinete particular de Dennis. A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.

 

Vindo da porta aberta, o cheiro atingiu-a como uma vaga encapelada de doze pés. Morte violenta. Um miasma pútrido de sangue, vesícula e intestinos. Espesso, sufocante, nojento, sublinhado pelo odor incisivo, ácido, do vómito. Ellen tentou respirar pela boca. Lutando contra a vontade de se amordaçar, entrou no gabinete e procurou Mitch.

 

A sala estava quente e demasiado cheia. Pendurados nas paredes apaineladas, animais mortos olhavam com os seus olhos de vidro muito fixos um veado, um peixe gigantesco com dentes sujos presos ao isco que fora a sua ruína nalgum lago do Norte, uma diversidade de aves imobilizadas em voo para a eternidade. Um rádio tocava música popular enquanto rádios portáteis da polícia debitavam mensagens dificilmente audíveis. As vozes dos homens presentes, investigadores boquiabertos, misturavam-se num murmúrio indecifrável.

 

A palidez de Marty Wilhelm, que comprimia fortemente a boca, era de um doentio cinzento-pérola. Um agente fardado sentava-se no sofá baixo de vinil preto com a cabeça entre os joelhos e uma poça de vomitado entre as botas. Ellen fugiu a tal visão, agoniada. Mitch avistou-a.

 

Aqui disse ele, passando-lhe um pequeno frasco com uma substância mentolada. Tem a certeza de que quer passar por isto. Ellen? Ele usou uma espingarda. É um espectáculo deveras macabro.

 

Já vi outros antes respondeu ela, untando o nariz com mentol.

 

Sim, mas não era provavelmente alguém que encontrava no tribunal todos os dias.

 

Vai correr tudo bem.

 

Olhe que pode desmaiar resmungou ele. Está branca como a cal da parede.

 

Quem o encontrou?

 

A mulher. Chegou a casa, do trabalho, pelas sete e um quarto da manhã. Nenhum sinal do Dennis, nenhum indício de que tivesse ido a casa na noite anterior. Ela tentou telefonar-lhe para aqui e não obteve resposta. Preocupada, veio até cá.

 

O chefe Holt diz que você tem razão em crer que o Enberg pode ter sido assassinado. Wilhelm meteu-se na conversa, suficientemente perto para que todos soubessem que ele era um dos espectadores que perdera o seu pequeno-almoço perante o que vira. Ellen sorveu energicamente e serviu-se de nova porção de mentol.

 

Recebi uma chamada ontem à noite disse, dirigindo-se a Mitch. uma voz que não reconheci.

 

Homem ou mulher?

 

Não tenho a certeza. Homem, julgo.

 

O que disse ele?

 

Citou Shakespeare. «A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.»

 

Na sua cabeça ecoava a voz sem corpo, o tom melífluo e arrepiante da pronúncia.

 

Que horas eram? perguntou Mitch.

 

Passava pouco das duas. Eu comuniquei, mas o que podia alguém fazer? Pensei que podia ser uma ameaça dirigida a mim. O vosso comando de vigilância mandou uma patrulha ao local. Nunca imaginei... Nunca me ocorreu...

 

Não podia ter sabido, Ellen acalmou-a Mitch. Ainda não pode saber.

 

Tem toda a aparência de um suicídio opinou WiIhelm. Não há sinais de entrada forçada, nem de luta. A arma era dele. Pôs cordel no gatilho.

 

Vi-o precisamente na noite passada disse Ellen. Estava distraído, um pouco abatido, talvez, mas não à beira do suicídio.

 

Acabara de perder um cliente num caso muito importante acentuou Wihelm.

 

Mas ele nunca gostara do caso insistiu ela. Penso que ficou tão aliviado quanto desapontado. Contou-me que recebera telefonemas bizarros.

 

Ameaçadores? interrogou Wilhelm.

 

Descreveu-os como do género «seu advogado de trampa».

 

As pessoas desprezavam-no por ele estar a defender o Wright disse Mitch. Portanto, porque iria uma delas matá-lo depois de ele ter sido corrido do caso?

 

Wilhelm abanou a cabeça.

 

Não parece lógico. Por que razão o fariam?

 

Isso é verdade concordou Ellen, mas ele podia ter interpretado mal. Pelo que sabemos, recebeu uma chamada igual à minha.

 

Não posso basear uma investigação em algo tão vago, Miss North.

 

Mitch ignorou a exibição de poder do agente.

 

Então o que acha? Que o Wright o pôs com dono por estar a trabalhar mal e o cúmplice deu cabo dele para o impedir de falar de coisas que podem ter sido ditas entre o advogado e o cliente?

 

Um advogado não pode revelar esse tipo de informações argumentou Wilhelm. É contra a ética. Seria corrido do foro.

 

Mitch lançou-lhe um olhar impaciente.

 

Nunca ouviu falar de dicas anónimas? Céus, Wilhelm, o que se passa consigo? Nasceu ontem?

 

O agente do BCA corou de indignação.

 

O Wright despediu o Enberg na terça-feira. Porquê esperar vinte e quatro horas completas para o liquidar? Não liga, e as provas não o confirmam.

 

Porque para eles é um jogo rugiu Mitch. O Wright e o seu camarada gostam de gozar com as mentes das pessoas. O Wright pode ter confessado qualquer coisa ao Enberg antes de o despedir, apenas pelo prazer de conhecer o homem que carregaria um peso na consciência tentando decidir o que fazer. Como arrancar as asas às moscas... o raio do filho da mãe...

 

A ideia gelou o sangue nas veias de Ellen. Mas fez o seu melhor para agrupar os restos da dura concha que desenvolvera ao trabalhar na cidade e de que lá se desembaraçara há dois anos.

 

Vamos em frente com isto disse entre dentes. Mitch abanou a cabeça, deferente.

 

Se assim o quer.

 

Conduziu-a na direcção da secretária de Dennis Enberg. Mantém-te calma, mantém-te desprendida, ordenou Ellen a si própria, apelando a velhos artifícios enferrujados por falta de uso. Era essa a chave, não pensar no corpo como um ser humano que tinha uma esposa sentada na recepção. Era apenas um corpo, a prova de um crime, não um homem com o qual ainda na noite anterior conversara, naquela mesma sala.

 

Você sabe que eu nunca lhe pediria que violasse os seus princípios éticos, Dennis. Mas confio em que fará o que está certo. Se o Garrett Wright é o monstro que pensamos que ele é, tem de ser detido. O seu cúmplice tem de ser detido. Se você pudesse fazer alguma coisa para os deter, sei que o faria. Tomaria a decisão certa. Não tomaria, Dennis?

 

Nunca o saberiam. A consciência de Dennis Enberg partira, juntamente com a maior parte da sua cabeça. O corpo jazia, estatelado, na cadeira da secretária, a arma usada para o matar repousava entre as suas pernas abertas, com o cano virado para cima. Massa encefálica, fragmentos de ossos e sangue haviam explodido do corpo, indo colar-se, macabramente, às paredes com painéis de pinho e ao revestimento acústico do tecto.

 

Stuart Oglethorpe, médico legista de Park County e director da Casa Funerária Oglethorpe, olhou fixamente o que restava de Dennis Enberg.

 

Bem, ele matou-se declarou, enojado.

 

Talvez.

 

Oglethorpe olhou Mitch por cima dos óculos.

 

O quê? É claro e simples!

 

Nada é simples. Wilhelm suspirou.

 

Repare, chefe, ele está sentado na sua cadeira da secretária, não há qualquer indício de luta. Acha que ele se limitou a ver aproximar-se o assassino e abriu gentilmente a boca para ele lá meter o cano da espingarda? Mitch afastou-se, mal o ouvindo.

 

Não deixou nenhum bilhete resmoneou. Tirou um lápis de um porta-lápis junto ao mata-borrão ensopado de sangue e usou-o para bater na garrafa vazia de Cuervo. Esteve a beber murmurou. Não sabemos quanto.

 

A garrafa estava meio cheia quando aqui estive disse Ellen.

 

Que horas eram?

 

Sete, sete e meia.

 

E só aqui há um copo comentou Mitch. É muita tequilla. O toxicólogo pode dizer-nos quanta. Se ele bebeu o suficiente para se passar, isso explicaria a ausência de luta.

 

E quanto ao cordel no gatilho? opôs Wilhelm. A arma estava montada...

 

Mitch olhou-o carrancudo.

 

Por amor de Deus, Wilhelm, se você quisesse que um assassínio parecesse um suicídio, não teria a esperteza de aldrabar a maldita arma? Ergueu uma mão e rolou os olhos. Não responda. E, virando-se para Oglethorpe: Logo que tudo esteja em ordem, metemo-lo no saco e você pode transportá-lo para o CMHC. Quanto mais depressa obtivermos amostras de tecidos do laboratório, melhor.

 

Uma autópsia? resmungou o médico legista. Uma vez um corpo transportado para o Centro Médico de Hennepin County, não havia garantia do seu regresso à Casa Funerária Oglethorpe para a preparação para o outro mundo, e portanto nenhuma garantia de lucro.

 

Eu telefonei a pedir o laboratório móvel. O tom de voz de Wilhelm demonstrava quanto ele considerava demasiado o incómodo.

 

Já agora, peça uma atitude nova ordenou Mitch. Se acha que os crimes deviam ser cometidos ordeiramente, cada um a uma hora que se ajustasse ao seu esquema, arranjou o emprego errado, agente Wilhelm.

 

Ellen mal se deu conta da troca de palavras. A sua atenção concentrava-se na mão de Dennis Enberg, gelada devido ao rigor mortis, pousada no braço da cadeira. Com uma palma larga e dedos curtos, arredondados nas extremidades. O aro de ouro no seu anelar cintilava.

 

Apenas um homem vulgar, com uma prática decente da lei e uma mulher que trabalhava de noite. Uma vida boa, calma, banal, que lhe fora arrancada à força. Se o que ela suspeitava era verdade, fora usado como um peão: tinham brincado com ele e depois haviam-no destruído como se não passasse de uma peça do jogo.

 

Eu próprio falarei com a secretária afirmou Mitch, conduzindo-a até à porta. Para saber se ele tinha entrevistas marcadas para a noite. Não espero que um assassino deixasse o nome, mas podíamos conseguir delimitar o tempo livre. Podíamos mesmo ter sorte e encontrar uma testemunha. Ele não lhe falou de ninguém, pois não, Ellen?

 

Não. Nem vi nada de anormal. Eu só pensava no nosso caso. Mas faça-me a vontade e procure saber o que estavam a fazer ontem à noite o Rodd Childs e o Christopher Priest, sim?

 

Estão na minha lista.

 

E o Paul Kirkwood acrescentou Wilhelm. As feições de Mitch endureceram.

 

Não podemos ignorá-lo, Mitch murmurou Ellen, desculpando-se com um olhar.

 

Sim, eu sei respondeu ele, sarcástico. Ele é do BCA.

 

Ela quer dizer... o Kirkwood resmungou Marty. Ao entrar no corredor, Ellen consultou o seu relógio de pulso.

 

Tenho de me ir embora. Tenho um encontro às dez, e, se não tomar um duche e mudar de roupa, o juiz Grabko pode olhar para mim com um certo desprezo... Olhou Mitch com gratidão. Obrigada por me dar ouvidos, chefe. Se o assunto estivesse nas mãos do agente Wilhelm e do nosso caro médico legista, o Dennis estaria numa mesa de embalsamamento esta tarde.

 

Penso que o Wilhelm apanhou um pouco mais do que esperava com esta colocação. Chega aqui a meio de um rapto. Ainda não passada uma semana, há outro, e agora um possível homicídio. Antes de tudo terminado, vai desejar que lhe fosse possível devolver o emprego à Megan.

 

Como vai ela?

 

Mitch desviou o olhar, contraindo os maxilares.

 

Tão bem quanto pode esperar-se. Infelizmente, ninguém espera muito... excepto a própria Megan. Para seu bem, é de uma obstinação dos diabos.

 

É uma lutadora.

 

É. O que me preocupa... é o que acontecerá se não puder vencer esta batalha.

 

A crueldade do jogo de Wright continuava a espraiar-se como uma mancha de tinta, aniquilando a carreira de Megan, a inocência de Josh, o futuro de Dustin Holloman, a vida de Dennis Enberg. Tocara a própria vida de Ellen, com um simples e fácil telefonema.

 

A primeira coisa que faremos será matar todos os homens de leis.

 

Mitch retrocedeu pelo corredor; alguém o chamava do escritório de Dennis.

 

Falo-lhe mais tarde.

 

Ellen acenou afirmativamente e agitou a mão em despedida. Por um momento estava sozinha, a meio caminho entre o cenário da morte e os que choravam Dennis. Teria de parar e apresentar as suas condolências à esposa de Dennis; depois, seria obrigada a abrir caminho por entre a multidão dos media para chegar ao seu carro.

 

Tudo o que queria era uma vida agradável, calma, bem ordenada... como Dennis Enberg... como os Kirkwood e os Holloman.

 

De repente, sentiu a necessidade de respirar algo que não cheirasse a morte, deixar que o ar frio lhe aliviasse a cabeça. Virou à direita, atravessou o curto corredor e saiu pelas traseiras do prédio.

 

Um vento cortante bateu-lhe na cara. Abriu a boca e sorveu-o. Encostada ao edifício, deixou-se abater pela perda de uma vida e a perda de algo menos tangível paz e segurança, a sensação de imunidade em que as pessoas se deixavam envolver, como se de um quente cobertor de lã se tratasse.

 

Saíra de Minneapolis, mas não fugira de lá, quer Tony Costello acreditasse nisso ou não. Escolhera ir para ali, escolhera aquela cidade e a vida que nela levava. Se tivesse de lutar por isso, tê-lo-ia feito por todos os meios.

 

Inspirou profundamente uma última vez e voltou a entrar para enfrentar a viúva de um colega e os espectadores que relatariam ao mundo aquela última tragédia.

 

Gorman Grabko possuía uma larga colecção de laços. Quando aluno do segundo ano de Direito, ficara impressionado com a ideia de que todos os homens memoráveis criavam a sua própria imagem. Nesse ano, começara a usar laço em vez de gravata. Agora, havia trinta e três anos que o fazia. Sempre discretos e de bom gosto. Nunca variedades da moda.

 

Naquele dia, optara por um cinzento sobre cinzento que complementava a cor de aço da barba bem aparada «sal e pimenta», que usava para encobrir as antigas crateras do acne juvenil. O cabelo nos lados da cabeça quase quadrada era mais escuro, com áreas prateadas nas têmporas. No topo do crânio não havia qualquer guarnição capilar. A calvície constituíra uma característica distinta dos Grabko masculinos desde séculos, que ele usava com tanto orgulho como a sotaina de juiz e o fato da Brooks Brothers por baixo dela.

 

Estava perfeitamente ciente de que havia magistrados nos distritos rurais que ligavam pouca importância ao estilo. Aceitara o facto como a sua missão em padrões seculares. Tinha formaturas do Noroeste, leccionara na Faculdade de Direito Drake, era patrono das artes e aspirava a, um dia, sentar-se no supremo tribunal.

 

Acalentava igualmente a esperança de essa data não distar muito no futuro, embora fosse difícil a um juiz distinguir-se num lugar como Park County. Na sua maioria, os crimes aí eram insignificantes, os julgamentos simples e os advogados carentes de inspiração. As possibilidades de se registar um processo como O Estado contra o Dr. Garrett Wright eram extremamente raras, e Gorman Grabko preparara-se devidamente para isso.

 

Sentava-se atrás da sua imaculada secretária com os ares de um monarca benevolente e sorria cordialmente a Anthony Costello.

 

É um prazer e uma honra, doutor Costello declarou. Não acontece todos os dias receber um advogado da sua reputação no tribunal de Park County. Não é verdade, Ellen?

 

Esta efectuou um pequeno movimento com os lábios, a que ninguém poderia chamar sorriso. Queria dizer a Grabko que devia estar grato, mas, em todo o caso, não era esse o comentário que ele queria ouvir. De qualquer modo, a pergunta era unicamente retórica. O magistrado prosseguiu sem aguardar a sua opinião, isolando-a essencialmente do pequeno ritual laudatório. Ela assumiria melhor o comando da situação se Cameron estivesse presente, mas tinha um teste de apetência na sala de audiências do juiz Witt, naquela manhã, pelo que Ellen devia, por assim dizer, navegar pelos seus próprios meios.

 

Ouvi dizer que se formou na Purdue continuou Grabko.

 

Costello exibiu um sorriso.

 

Espero que, como aluno da Universidade do Noroeste, não considere o facto um óbice contra mim.

 

O juiz sorriu igualmente, sem dúvida enaltecido pelo facto de o outro estar ao corrente de dados biográficos a seu respeito.

 

São ambas lugares de ensino privilegiados. E você tornou-se motivo de orgulho para a sua, com a reputação que adquiriu proclamou com ares importantes, como se as altas esferas lho tivessem recomendado e não fosse motivado pela simples inveja.

 

Bem, na verdade não me tenho mantido inactivo. Ellen esforçou-se por não deixar transparecer o assombro que a falsa modéstia de Costello lhe provocava.

 

O doutor Wright teve sorte em poder contar consigo entre dois julgamentos disse ela.

 

Sim, as coisas chegam a assumir um aspecto quase caótico em Twin Cities admitiu ele, com uma mirada de advertência. Mas você estava ao corrente disso, hein, Ellen? É compreensível que se tornasse impressionante para algumas pessoas.

 

Fazia as palavras soar como se tivesse cedido à pressão e sido expedido para o campo para viver em vergonha e segredo. Grabko inclinou a cabeça um pouco para o lado e olhou-a com uma expressão levemente desconfiada, enquanto ela semicerrava as pálpebras e contemplava Costello.

 

«Doentio» parece-me o termo mais apropriado, embora algumas pessoas não se importem de chafurdar no lixo. Ela exibiu um sorriso delico-doce em direcção a Grabko. Mas não devemos fazer perder tempo ao nosso anfitrião com reminiscências. Como sabemos, tem uma agenda muito preenchida.

 

Interessa-me sobretudo a sua vinda, doutor Costello disse o magistrado. Devo depreender que deseja a audiência global adiada?

 

De modo algum, Meritíssimo. A defesa estará devidamente a postos para seguir em frente. Com ansiedade, permita-me que acrescente. Cada dia que passa com essas acusações suspensas sobre a cabeça do doutor Wright representa mais vinte e quatro horas para macular desnecessariamente o seu carácter.

 

O advogado enfrentou o largo sorriso do interlocutor com a sua expressão de jogador de póquer: hermética, directa, intensa.

 

O meu dever fundamental para com o constituinte consiste em rectificar a injustiça que lhe foi feita esta semana, quando o falecido juiz Franken estabeleceu uma fiança muito além das suas possibilidades.

 

O homem foi detido quando fugia da cena de um crime interpôs Ellen.

 

Presumivelmente.

 

Agrediu com brutalidade um agente do BCA...

 

Presumivelmente.

 

E fez os maiores esforços para se pôr em fuga. Constitui um risco de fuga óbvio...

 

Costello levantou-se bruscamente e levou a mirada de Grabko consigo. Acercou-se das janelas, onde a claridade leitosa penetrava através dos estores.

 

O doutor Wright tem direito à presunção de inocência declarou. Na verdade, é um homem inocente. Segundo as leis deste estado, tem direito a uma fiança razoável, designação que nem a maior boa vontade pode atribuir a meio milhão de dólares.

 

Grabko cofiou a barba.

 

Nem o rapto de uma criança de oito anos ou torturar uma mulher pode incluir-se entre o significado de semelhante vocábulo.

 

Costello voltou-se repentinamente para dentro.

 

Deixe-se de fantasias, Ellen. Não acredito que julgue o Garrett Wright capaz de tudo isso. É um professor respeitável...

 

Sei exactamente o que ele é, doutor Costello. Levantou-se igualmente e pousou as mãos na cintura esbelta. Trata-se de um homem acusado de diversos delitos, que fez o possível por se esquivar à captura.

 

Não discuto que o assaltante fugiu do local dos eventos. Ponho apenas em causa que o meu cliente seja esse assaltante.

 

Então, como se explica que fosse o único capturado?

 

Capturaram-no de facto, mas isso não indica que fosse o autor das ocorrências.

 

As provas apontam para o contrário.

 

Isso ainda resta esclarecer, doutora advertiu Costello, calmamente. Se as coisas chegarem a esse ponto...

 

Ellen cruzou os braços e conservou-se de pé, enquanto Tony voltava a afundar-se na cadeira e traçava a perna, ao mesmo tempo que ajeitava o casaco para evitar rugas. Apresentava uma expressão serena, como um jogador de cartas com um ás na manga, e ela quase ponderou a ideia de lhe indicar que mostrasse o seu jogo. O seu silêncio durou o tempo suficiente para o levar a assumir uma atitude.

 

Meritíssimo, tencionamos apresentar o pedido para retirar a acusação com base em detenção ilegal. A Quarta Emenda proíbe a Polícia, salvo circunstâncias que o exijam ou consentimento do próprio, de se introduzir no domicílio de um suspeito para proceder a uma detenção. O facto figura no processo de Payton contra Nova Iorque.

 

Por favor! Ellen fungou com desdém e colocou-se ao lado da secretária de Grabko. O homem fugia à detenção, armado e perigoso. Não considera isso circunstâncias justificativas? A situação satisfaz todos os critérios. Começou a enumerá-las com os dedos. Estava envolvido num delito grave, supunha-se que o suspeito se achava armado, havia fortes possibilidades de uma tentativa de fuga... Não só havia motivos para crer que se encontrava no local, como o Mitch Holt o seguiu virtualmente através da porta!

 

Virtualmente, mas não na realidade. Costello orientou a sua atenção para o juiz, disposto a não consumir energias ou argumentos com ela. Era o juiz que lhe interessava convencer. A verdade da situação consiste em que o suspeito que o chefe Holt perseguia usava uma máscara de esqui. Em momento algum lhe viu o rosto, nem dispunha de qualquer razão para depreender que o homem na sua mira era o doutor Wright. Segundo a sua própria confissão, perdeu-o de vista numerosas vezes durante a caçada, chamemos-lhe assim, inclusive antes de irromper na garagem do alvo em questão. Julgou conveniente introduzir uma pausa. É nossa convicção que o chefe Holt perdeu de facto o seu suspeito de vista por um lapso de tempo demasiado longo para continuar no seu encalço nessa garagem sem o apoio de um mandado.

 

Ellen não se esforçou minimamente para conter a risada sarcástica.

 

Nunca ouvi um chorrilho de disparates tão...

 

Basta, Ellen determinou o juiz, com firmeza. Ela comprimiu os lábios e sentou-se.

 

Tenho de ser eu a decidir acrescentou Grabko. Preencha a petição, Mister Costello. A sua argumentação tem mérito. Merece consideração.

 

Mas, Meritíssimo...

 

Terá oportunidade de se manifestar, Miss North lembrou o magistrado, enquanto escrevia algo num bloco-notas. Dá-me a impressão de que a detenção roçou esses limites. Convença-me do contrário. De qualquer modo, trata-se de um assunto para os trâmites usuais, e creio que estamos aqui para discutir a questão da fiança.

 

Depois de marcar um ponto, Costello respirou fundo com satisfação e inclinou-se para a frente, com a expressão «somos todos amigos» firmemente desenhada no semblante.

 

Meritissimo, atendendo aos laços do doutor Wright com a comunidade, a sua ausência de cadastro e aquilo a que se pode chamar provas ténues contra ele, solicitamos a redução da fiança.

 

Grabko voltou-se para Ellen, com as sobrancelhas arqueadas.

 

Creio que o juiz Franken foi extremamente justo e razoável, atendendo ao peso das acusações.

 

O juiz reclinou-se na cadeira e pousou os dedos num ponto branco da barba.

 

Não lhe parece, Ellen, que a fiança no valor de meio milhão de dólares representa, para onde quer que uma pessoa se volte, a própria negação dela própria? perguntou no seu tom de voz de catedrático.

 

Ela guardou silêncio, reconhecendo intimamente que constituía essa negação. Pensava em Josh Kirkwood, que quase não pronunciara uma única palavra desde o seu regresso. Em Megan, aniquilada, perseguida, com a sua carreira provavelmente terminada pela brutalidade implacável de Garret Wright. Em Dennis, o cheiro da sua morte parecendo deslizar-lhe pelo fundo da garganta abaixo. No próprio Wright, imaginando que sentia o seu olhar penetrante perfurá-la, como acontecera naquele dia, na sala de interrogatórios.

 

Acho-a extrema insistiu Grabko. Estou ao corrente da reputação do doutor Wright e do seu programa sobre a delinquência juvenil e, a avaliar pelo que sei dele, tenho sérias dificuldades em o ver como alguém capaz de se pôr em fuga neste ponto do processo.

 

Mas é aí que reside o busílis, Meritíssimo! volveu Ellen. Não é o professor universitário que enfrentamos. Depara-se-nos uma faceta do Garrett Wright capaz de tudo. O homem é uma criatura maligna.

 

Costello fez rolar os olhos.

 

Não será um ponto de vista um tanto melodramático?

 

Duvido que pensasse assim se estivesse no gabinete do seu predecessor, esta manhã.

 

Teve o desplante de permitir que uns borrifos de divertimento lhe colorissem a surpresa.

 

Atribui a culpa da morte de Enberg ao meu cliente? Seria uma proeza digna de larga publicidade, se nos lembrarmos de que, na altura, se encontrava preso.

 

Grabko enrugou a fronte ao virar-se para ela e fazer deslizar o polegar ao longo do queixo.

 

Cem mil dólares, em dinheiro ou títulos de crédito.

 

Que aspecto da história tenciona explorar, Mister Brooks?

 

Jay franziu o sobrolho para os repórteres que o rodeavam, depois de acudirem à sala de audiências para recolher as últimas novidades do processo. Anthony Costello ia solicitar a redução da fiança. Mas as estrelas do espectáculo ainda não haviam aparecido no palco, e os membros da imprensa tinham-se tornado tão impacientes como crianças na igreja. Um grupo delas acudira em volta de Paul Kirkwood, que se colocara na primeira fila atrás da área da acusação. Com a capacidade de um escritor de escutar e manter uma conversa ao mesmo tempo, captou a essência da declaração de Paul justiça, direitos da vítima, o estilo americano.

 

Não sei se haverá um livro declarou, abanando a cabeça. Encontro-me aqui apenas como observador. Vocês é que estão a trabalhar no caso.

 

Era o mesmo que se acabasse de se declarar ditador e governante absoluto do estado do Minnesota. Eles ouviam o que lhes interessava e ignoravam o resto.

 

Trabalhará com a família, ou é a história do doutor Wright que lhe interessa?

 

Nada a comentar, rapazes. O interpelado coloriu as palavras com um sorriso. Obrigam-me a falar como um advogado. Isso corresponde a muito mais trabalho do que tenciono executar.

 

Os olhos dos repórteres iluminaram-se como lâmpadas de árvore do Natal, e ele compreendeu que cometera um erro grave. Uma loira munida de um microfone aproximou-se.

 

Como antigo advogado de defesa, Mister Brooks, qual é a sua opinião sobre o despedimento do Dennis Enberg, o qual presumivelmente se suicidou esta manhã, e a chegada do seu substituto, Mister Anthony Costello?

 

Um homem fizera saltar os miolos, e a loira abordava o esquema das coisas como se não passasse de mais um ponto de interesse secundário na sua reportagem. A ideia enojava-o profundamente, embora a repugnância o divertisse de uma forma retorcida. Ellen teria dito que não o achava melhor que aquela mulher, com o seu apetite por arranjar material para uma reportagem. Aparentemente, ele acudira ali pela mesma razão. Na verdade, dispunha de outras mais profundas, mas poderiam na realidade ser piores.

 

A auto-animosidade levou-o a torcer a boca num sorriso de amargura.

 

Há muito tempo que não exerço a advocacia, minha senhora explicou. Aliás, se tivesse algum jeito para isso, continuaria a exercê-la, não lhe parece? Não descortino como a minha opinião possa ter a mínima importância.

 

Em todo o caso, não hesita em tomar partido nos seus livros. Ela não parecia disposta a renunciar. Segundo os seus críticos... entre os quais figuram proeminentes advogados de defesa... tem uma visão penetrante da interpretação da lei, e as suas análises dos julgamentos lembram intervenção de cirurgia com raios laser.

 

Na parte da frente da sala, a porta do gabinete do juiz abriu-se e, acto contínuo, as atenções gerais convergiram para lá. Ellen foi a primeira a surgir, de expressão furiosa. Jay não teve dificuldade em determinar que se esforçava por aparentar indiferença, porém o corpo parecia tenso como um punho cerrado e os olhos brilhavam com o mesmo fogo que lhe destinara duas ou três vezes.

 

Costello vinha imediatamente atrás dela, descontraído, confiante, e dirigiu o olhar para o sector destinado aos membros da imprensa. O herói conquistador. O defensor do homem comum... desde que este pudesse satisfazer a conta que lhe apresentaria.

 

O juiz, o Meritíssimo Gorman Grabko, subiu os degraus de acesso ao seu poiso e sentou-se. Afectado era o primeiro adjectivo que acudia à mente. Parecia o género de indivíduo capaz de calçar sapatos feitos por medida e untar com cera a parte calva do crânio. Constava que se cingia rigorosamente ao estipulado legalmente e tendia a inclinar-se para a defesa, sem desvirtuar o respeito que a acusação lhe merecia. A avaliar pelo aspecto geral do pequeno grupo, Ellen perdera a partida, sem dúvida árdua.

 

Em seguida, abriu-se uma porta lateral e Garrett Wright surgiu escoltado por dois guardas, que o fizeram sentar à mesa da defesa.

 

Tudo terminou em poucos minutos. A escaramuça desenrolara-se no gabinete do magistrado, como acontecia na maioria dos casos. A actual representação destinava-se às formalidades em público, onde se encontravam os espectadores vindos para assistir ao desenrolar do drama.

 

Costello expôs formalmente o seu pedido, e Ellen apresentou os seus argumentos contrários, mas a decisão de Grabko já estava tomada.

 

Fica estabelecida a fiança de cem mil dólares, em dinheiro ou títulos de crédito anunciou o juiz.

 

Isso é uma afronta! vociferou Paul Kirkwood, levantando-se de um salto, o rosto corado como sangue ressequido e uma veia proeminente num dos lados do pescoço. Esse animal raptou o meu filho, e deixam-no sair em liberdade!

 

Um guarda corpulento avançou no corredor, pousou-lhe a mão no ombro e obrigou-o a sentar-se.

 

Arruinaste-nos a vida! persistiu Kirkwood, agitando o punho cerrado na direcção de Wright.

 

Grabko bateu com o martelo no tampo da mesa, ao mesmo tempo que se levantava e chamava mais guardas. A sala encheu-se de gritos, guinchos e sons abafados de luta física. Surgiram mais guardas, três dos quais dominaram Kirkwood e o arrastaram para a saída mais próxima, enquanto este se voltava para trás e bradava:

 

Quero que se faça justiça! Quero que se faça justiça! Os repórteres correram no seu encalço. Os guardas que restavam impeliram Wright e Costello por uma porta lateral. Por seu turno, Grabko meneou a cabeça, voltou a bater com o martelo e declarou a sessão da manhã suspensa. A sala ficou vazia em poucos segundos, pois todos correram para as portas, a fim de assistirem à continuação da atitude de revolta de Paul Kirkwood. Todos à excepção de Ellen.

 

Conservava-se sentada à mesa, com um dos braços dobrado sobre o regaço e o outro erguido, como um apoio do queixo. Fixava o olhar na sua frente, como se tentasse submeter à sua vontade a figura da justiça. Jay encontrava-se um pouco atrás, com o seu olhar fixo nela. Devia achar-se no corredor. A propensão de Paul Kirkwood para as atitudes teatrais intrigava-o. Havia algo de deslocado nelas, algo que se lhe afigurava calculado, pouco sincero. Mas não conseguia reunir vontade suficiente para sair.

 

Ao invés, impeliu a cancela e entrou na parte oficial da barra, explicando a si próprio que queria inteirar-se da reacção de Ellen. Nada mais. Não por lhe parecer desamparada, ali sentada sem companhia. Ou por o impressionar particularmente o facto de encarar a derrota com amargura.

 

É só a fiança lembrou.

 

Vá dizer isso ao Paul Kirkwood murmurou ela. Meta-se no carro, siga para Lakeside e comunique a novidade à mãe do Josh. Ou talvez queira telefonar à Megan

O’Malley, no hospital, e elucidá-la.

 

Simulou um encolher de ombros de indiferença e voltou-se na cadeira para o encarar.

 

Pois, é só a fiança. Porque não há-de o Garrett Wright dispor de inteira liberdade para percorrer as ruas e entrar em contacto com o cúmplice, que pode ter praticado um homicídio, a noite passada? O qual talvez esteja neste momento a fazer só Deus sabe o quê ao Dustin Holloman. Ele acercou-se mais e enfiou as mãos nos bolsos das calças. Despira o casaco algures, e uma gravata de seda reluzente pendia do colarinho da camisa amarrotada. O nó estava solto e o botão de cima desabotoado, como se não conseguisse suportar o simbolismo de um laço em torno do pescoço e, apesar disso, se sentisse obrigado a manifestar alguma formalidade.

 

Perdeu o assalto e não o combate salientou, encostando a coxa ao canto da pesada mesa de carvalho, não sem roçar a mão de Ellen.

 

O contacto revestiu-se da qualidade de um choque eléctrico. Ela tentou dissimular a reacção involuntária mudando de posição e estendendo a mão para afastar uma madeixa que tombara para a fronte.

 

Não é um combate.

 

Claro que é. Executou-o milhares de vezes. Conhece as regras. E as estratégias. Cedeu alguns pontos. Não é o fim do mundo.

 

Fitou-o com uma expressão intensa, a indignação a arder através da bruma da derrota.

 

Um homem sacrificou a vida, ontem à noite. Quantos pontos vale isso? perguntou amargamente, pondo-se de pé. Que vale para si? Mais um capítulo? Uma página? Um parágrafo?

 

Não o matei, nem posso fazê-lo regressar à vida. Apenas tentar colocar o facto no contexto geral. Não é o que pretende fazer? Extrair disso algum sentido, compreendê-lo?

 

Compreendo-o bem. Agora, deixe ser eu a colocá-lo num contexto que você possa entender. Sim, é um combate, um jogo, se preferir, Mister Brooks. O Dennis Enberg era uma peça de que eles já não precisavam, e agora morreu e o seu substituto limitou-se a puxar do cartão que diz «Saída da Prisão» para o filho da mãe do seu cliente de mente retorcida, e eu não consegui evitar que isso acontecesse!

 

A fúria e a mágoa fervilhavam no íntimo dela e ultrapassavam o rebordo do recipiente do seu controlo. Voltou as costas a Jay e cobriu o rosto com as mãos espalmadas, revoltada consigo própria. Supusera que conseguia dominar as suas emoções, mesmo que fosse a única coisa neste mundo de loucura. Jurara a si mesma travar aquela batalha, mas não contara com a possibilidade de um desaire prematuro. Pensava na ameaça de Costello de suspender a detenção, e a hipótese deixara-a abalada. Se conhecera a derrota naquela batalha, o mesmo poderia acontecer na outra. Tratava-se de uma vulnerabilidade que a aterrorizava.

 

Jay observava-a, enquanto procurava dominar os seus sentimentos, as costas empertigadas e ombros tensos, para evitar a possibilidade de tremer. Apesar de todo o tempo que passara a trabalhar no sistema, ela lograra conservar-se apegada a uma noção de direito e honra. Lutava com empenho e aceitava as derrotas com amargura. O cinismo não embotara a lâmina da justiça para si, como acontecera a numerosas pessoas. A ele próprio, por exemplo. Parecia apenas que a tornara mais claramente consciente do seu lugar no esquema das coisas.

 

Não supunha que poderia acontecer aqui, hem? murmurou ele, aproximando-se por detrás.

 

Não devia acontecer aqui replicou Ellen, no mesmo tom. As crianças deviam encontrar-se em segurança. O Dennis Enberg ainda devia estar vivo. O Garret Wright e quem quer que seja o outro louco que pratica este jogo deviam ver a sua actividade interrompida para sempre.

 

Foi por isso que abandonou a cidade?

 

Ele achava-se agora suficientemente perto para o perfume dela lhe alcançar as narinas, levando-o quase a inclinar a cabeça para baixo. A nuca dela encontrava-se a escassos milímetros: tentadora e demasiado inevitável.

 

Ele desejava-a e sabia que não devia ceder àquela necessidade sedutora. Ela fazia parte da história. Fora para conseguir a história que viera afundar-se nela, perder-se nela, fugir da sua própria dor e dissecar a de outrem.

 

A recordação fez-lhe acudir à boca um sabor amargo de auto-animosidade. A cólera tornava-o cruel.

 

Foi por isso que partiu, Ellen? Porque não queria travar essa espécie de luta? Foi disso que fugiu?

 

Ela voltou-se e Jay segurou-lhe os braços, antes que conseguisse esbofeteá-lo.

 

Não fugi de nada.

 

Figurava na pequena lista de recém-chegados a Minneapolis persistiu ele, provocando-a propositadamente. De repente, via-se entre bêbedos e falhados em Mayberry.

 

Afastei-me voluntariamente. Queria uma vida mais sã. Fiz uma opção de que não tenho de lhe dar a mínima satisfação.

 

Não há nada de são no que se passa actualmente aqui observou ele.

 

Ellen não sabia se se referia ao caso corrente ou ao calor existente entre ambos naquele momento. Jay achava-se demasiado perto, as mãos excessivamente apertadas nos seus braços, a boca a escassos centímetros da sua.

 

Largue-me ordenou, sacudindo-se.

 

A porta do corredor abriu-se de rompante, para dar passagem ao repórter do Minneapolis Star Tribune, o qual fitou Ellen com intensidade através das lentes bifocais dos óculos.

 

Tenciona fornecer-nos algum comentário? perguntou-lhe. Ou prefere que tracemos as nossas próprias conclusões?

 

Saio já prometeu ela.

 

E, sem um simples olhar a Jay, pegou na pasta e saiu.

 

Ele seguiu-a a alguma distância, aguardando que os repórteres se concentrassem nela, antes de sair para o corredor. O momento proporcionou-lhe igualmente um pretexto para desanuviar as ideias. Reconhecia que, desta vez, se encontrava entre a espada e a parede.

 

Era a recompensa por chafurdar num caso excitante. Normalmente, tinha sensatez suficiente para entrar em cena após os factos consumados, depois de a parte mais intensa das emoções imediatas se dissipar e as pessoas envolvidas disporem de uma perspectiva sobre o crime que lhes afectara as vidas. Naquele caso, porém, não havia perspectiva alguma. O assunto estava tão escaldante como um ferro em brasa... e não menos perigoso.

 

Scuttlebutt mandara remover o corpo de Dennis Enberg a fim de ser examinado por peritos. Ellen dissera praticamente que estava persuadida de que o advogado havia sido assassinado, embora o rumor oficial se inclinasse para o suicídio.

 

Jay ouvira as chamadas no scanner da polícia, dirigira-se ao Centro Comercial de Southtown e aguardara na atmosfera relativamente quente da sua viatura, até que os repórteres perderam o interesse na cena e se separaram em busca de fontes susceptíveis de prestar declarações interessantes. Ficara apenas um guarda uniformizado à entrada do edifício.

 

Jay moveu-se ociosamente de um lado para o outro, fumou lentamente um cigarro e ficou para conversar, como se não tivesse mais nada que fazer. O guarda, jovem e pouco acostumado ao espectáculo de uma morte de características macabras, acabara por deixar transpirar os pormenores da cena. As mãos tremiam-lhe tanto que tinha dificuldade em levar o cigarro aos lábios.

 

Uma pessoa está habituada a ver coisas destas no cinema, mas isto era real articulou entre dentes.

 

Do outro lado da rua, havia meia dúzia de carros estacionados diante da Snyder’s Drug. Acudia gente para comprar paus de chocolate e remédios para as dores de cabeça, ignorantes da circunstância de, a uma centena de metros, um homem ter o cérebro disperso nas paredes do seu escritório.

 

É um cenário desagradável para o estômago admitiu Jay. Aqui para nós, vi muitos homens devolverem ao exterior o conteúdo total da sua última refeição em situações similares. Sim, são coisas que revolvem o estômago mais resistente.

 

De facto, foi o que me aconteceu reconheceu o jovem, observando o interlocutor pelo canto do olho. Acredito que você tenha assistido a muitos casos como este. Li Partidas do Destino, uma das obras mais sinistras que conheço.

 

Sem a menor dúvida. Nunca pára de me surpreender a violência que um ser humano pode manifestar para com um semelhante.

 

Pois é... Chupou o seu Winston até ao filtro, com a cinza ao rubro quando deitou fora o morrão. Os olhos tinham uma expressão distante, como que para dentro, onde as pessoas guardam os seus temores mais sombrios e raramente os contemplam. Não consigo imaginar-me a introduzir o cano serrado de uma caçadeira na boca de alguém e puxar o gatilho.

 

Homicídio. Como se o caso não fosse já suficientemente sinistro.

 

Jay dirigiu uma mirada furtiva ao grupo originado pela conferência de imprensa não convocada de Ellen. O batido jornalista de sobrancelhas de escaravelho que os abordara vociferou:

 

Diga-me uma coisa, Miss North, qual é a sua reacção à liberdade do Garrett Wright, se pagar a fiança?

 

Escusado será dizer que me sinto profundamente desapontada. Voltara a assumir o perfeito comando dos nervos, como se os breves momentos de perturbação no tribunal nunca houvessem existido. No entanto, o juiz Grabko ouviu ambas as partes, tomou uma decisão e agora há que viver com ela. É assim que o nosso sistema funciona.

 

O que equivalia essencialmente a dizer que desta vez não funcionara.

 

O doutor Wright regressará à sua residência nos arrabaldes de Lakeside... praticamente a poucos metros da dos Kirkwood?

 

Não sei, mas espero que não, por causa da família.

 

Que me diz sobre os rumores de que o corpo do Dennis Enberg foi transportado para o Centro Médico de Hannepin County para ser autopsiado?

 

Mister Enberg sucumbiu a uma morte violenta e inesperada. Assim, as autoridades da cidade e do distrito têm a obrigação de a investigar para determinar, sem margem para a menor dúvida, se foi ou não auto-infligida.

 

Havia algum bilhete indicativo de suicídio?

 

Não comento isso.

 

Estando o Garrett Wright preso na altura, decerto não há a mínima possibilidade de suspeitar do seu envolvimento tanto na morte de Mister Enberg como no rapto do Dustin Holloman?

 

Não tenho nada a comentar sobre investigações em curso.

 

A muralha de pedra fora afastada. Ellen vincara o seu ponto de vista sobre a libertação de Wright e o resto não passava de fogo-de-vista. A inabalável delegada mostrava ao mundo que a pequena derrota não a afectara. Nenhum daqueles jornalistas vira as suas lágrimas ou escutara as palavras de auto-recriminação.

 

Todavia, Jay vira e escutara. E o facto preocupava-o de um modo que era claramente desaconselhável.

 

Desviou os olhos dela e continuou a esquadrinhar a multidão. Havia pessoal do tribunal nas proximidades do grupo dos media, com curiosidade para ver a delegada distrital, alegadamente ambiciosa, em acção. Até ao primeiro rapto, as conferências de imprensa constituíam uma raridade naquele local.

 

A aparição momentânea do brilho de uma cabeleira ruiva no seu campo visual despertou-lhe a curiosidade. O homem movia-se lentamente no corredor, na periferia da multidão, como um caçador empenhado em não assustar uma presa desconfiada.

 

Todd Childs focara a sua atenção em Ellen, sem que, contudo, os olhos atrás das lentes dos óculos deixassem transparecer curiosidade especial. Conservou-se semioculto por uma coluna de mármore, envolto numa longa gabardina de lã cor de azeitona que parecia ter servido de pasto de traças num armário durante anos. Aluno de Wright na Harris, fora mencionado nos noticiários subsequentes ao incidente de O’Malley, no sábado. Um dos canais da televisão local incluíra uma fotografia de Childs e um comentário sobre a inocência do Dr. Wright, na sua reportagem de domingo.

 

Jay acercou-se dele e, num tom conspiratório, observou:

 

Ela é das frias, hem?

 

Diga antes uma cabra replicou o outro a meia voz. No instante imediato, porém, desviou o olhar de Ellen para o fixar em Jay, como se se lhe afigurasse que fora ludibriado. É repórter?

 

Eu? Que ideia! Apenas um curioso. E você? Coçou a barba de bode e fungou desdenhosamente.

 

Também. O doutor Wright é uma espécie de meu mentor. Acho-o um homem brilhante.

 

Pois sim, mas culpado.

 

Childs cravou os olhos em Jay. Embora a iluminação não fosse famosa naquela secção do corredor, as pupilas assemelhavam-se a minúsculos pontos negros, o que sugeria que se permitira consumir uma substância diferente da que utilizava normalmente, cujo odor se entranhara na gabardina como o das bolas de naftalina.

 

Sim, é simplesmente brilhante insistiu, martelando as sílabas. As acusações que lhe movem não têm pés nem cabeça. Dirigiu um olhar turvo a Ellen. Ela vai arrepender-se amargamente de se ter metido nisto.

 

Afastou-se da coluna e voltou-se na direcção dos degraus ao fundo do corredor. A súbita mescla de vozes a falar simultaneamente indicou a Jay que a conferência de imprensa tinha terminado. Em vez de procurar Ellen, decidiu acompanhar Todd Childs. Conservando a cabeça inclinada para baixo, enveredou pela primeira secção de degraus e alcançou-o no patamar do primeiro piso.

 

Está envolvido no protesto lá de fora? perguntou, enquanto seguiam em direcção ao piso térreo.

 

Estou. Childs lançou-lhe um olhar de través. O senhor faz muitas perguntas. Quem é você?

 

James Butler mentiu Jay, sem pestanejar. Dedico-me a um trabalho de consulta independente junto do gabinete de auditoria do distrito. Você decerto já calculava que eu não era destas paragens. Vi-me por mera casualidade no meio de tudo isto... Assim como quando se entra num cinema a meio do filme.

 

Sim, compreendo. Sabe o que se costuma dizer... A verdade é mais estranha que a ficção.

 

Com estas palavras, Childs impeliu uma das pesadas portas e avançou diagonalmente em relação aos degraus, a abundante cabeleira a ondular como uma cauda de raposa no centro das costas. Jay contemplava-o em silêncio, o seu sexto sentido em actividade incessante.

 

Você não é o Jay Butler Brooks? proferiu uma voz a seu lado. Adam Slater, do Grand Forks Herald. Posso fazer-lhe duas ou três perguntas?

 

Suponho que sim assentiu o interpelado, sem desviar os olhos de Todd Childs, que se aproximava do grupo de manifestantes, agora a celebrar a libertação do seu mentor, e prosseguiu em frente, como se não existissem.

 

A notícia da libertação de Garrett Wright sob fiança varreu Deer Lake e Campion como um vento ciclónico. As linhas telefónicas do tribunal e do centro dos serviços da ordem achavam-se saturadas de chamadas de indignação do sector da população que o considerava culpado. Em Campion, as diligências para encontrar Dustin Holloman continuavam sem o menor resultado, e os repórteres perderam o interesse em consagrar mais espaço a voluntários de expressões sombrias que continuavam a procurar através da neve. O boato de que Anthony Costello pronunciaria uma declaração formal diante do tribunal de Park County sobre a libertação do seu cliente despertou a curiosidade dos media, que trataram de acudir ao local.

 

O passeio defronte do tribunal assumiu a atmosfera carnavalesca de uma campanha política transportada na onda da vitória. Os estudantes da Universidade Harris que haviam protestado contra a detenção do Dr. Wright optaram por palavras de ordem eufóricas. Os Sci-Fi Cowboys tinham montado um posto de vendas e ofereciam, por preços módicos, T-shirts, a fim de angariar fundos para custear a defesa do professor. Um sistema sonoro vociferava música rap, com base em temas enérgicos sobre a injustiça e a opressão. Os nativos de Deer Lake observavam as festividades com desconfiança da varanda da frente do Café Scandia House. Em obediência ao temperamento típico que vigorava no Minnesota, todas as manifestações de emoção ruidosas e/ou espectaculares eram consideradas suspeitas.

 

Ellen contemplava as actividades da janela da sala de reuniões. A tendência geral movia-se no sentido favorável a Wright. Poucos dias antes, ela dominava as operações. Agora a sua influência era-lhe retirada a pouco e pouco.

 

Acha que eles têm autorização para vender aquelas T-shirts, perguntou Cameron.

 

Têm aquiesceu Phoebe, segurando os óculos na ponta do nariz, enquanto olhava para baixo. Tratei de me certificar. E não podemos impedir o doutor Costello de falar nos degraus de acesso ao tribunal.

 

Utilizaria o facto contra nós, se procurássemos impedi-lo resmungou Ellen.

 

Voltou-se da janela e encarou a sua equipa. Mitch sentara-se numa das extremidades da mesa. Steiger postara-se no lado oposto, de pé, com uma das botas sujas pousada numa cadeira. Wilhelm sentava-se a meia distância entre ambos, como que aturdido, de olhar vítreo. O sorriso de imbecil que exibira em Deer Lake, uma semana atrás, dissipara-se notavelmente nos últimos dias. Entre os desenvolvimentos do caso Kirkwood, o rapto de Dustin Holloman e a morte de Dennis Enberg, as horas haviam sido infernais, a pressão imensa e as pistas inexistentes.

 

Estou familiarizada com as tácticas do Costello explicou ela. Acredita que a melhor defesa é o ataque e envidará todos os esforços para nos desacreditar.

 

Quer dizer que atirará toda a merda que puder à parede, na esperança de alguma ficar lá colada? sugeriu o xerife, sem rodeios.

 

Duvido que ele expusesse os seus intentos como refere, mas a ideia fundamental é essa. Emprega as tácticas futebolísticas da primeira liga.

 

É um forasteiro cretino. Steiger fungou com desdém. Lá porque vem de Twin Cities, julga que temos de nos borrar pelas pernas abaixo ao vê-lo. Não passa de mais um advogado oportunista.

 

Cameron fez rolar os olhos e Phoebe dirigiu ao xerife um olhar que tresandava, como se já tivesse enfrentado Costello e correspondesse à sua ideia dele.

 

Este cretino, como lhe chama, equivale a termos um enorme tubarão-branco que mergulhasse na nossa piscina, xerife volveu Ellen. Não o subestime.

 

Dispõe de um investigador privado interpôs Mitch. O Raymond York. O tipo andou a farejar em St. Elysius, hoje. O padre Tom telefonou a queixar-se.

 

E?... Steiger enrugou a fronte.

 

Esse tipo trabalhará como um escravo para desencantar alguma coisa para limpar o Wright definitivamente, enquanto nós moirejamos para encontrar o Dustin Holloman, apurar se o Dennis Enberg se suicidou ou não e espiolhar todas as pistas que se nos forem deparando.

 

O caso Holloman e a morte do Dennis complicaram a nossa situação admitiu Ellen. Mas se continuarmos a partir do princípio de que estão relacionados com a questão do Josh Kirkwood e o jogo continua sob a égide de um cúmplice do Wright, o nosso objectivo fundamental persiste em ser a culpabilização deste último.

 

Pode tratar-se de um princípio perigoso, se não corresponder à verdade salientou Wilhelm.

 

Mas corresponde asseverou Mitch. Sabemos que os raptos estão relacionados. Do que não podemos ter a certeza é o Enberg. A autópsia está marcada para segunda-feira. Com um pouco de sorte, receberemos informações sobre impressões digitais no mesmo dia.

 

A secretária do Dennis sabia alguma coisa sobre encontros a altas horas da noite? perguntou Ellen.

 

Mitch abanou a cabeça.

 

Disse que foi um dia de agenda pouco carregada. Três encontros com clientes e dois repórteres empenhados em obter declarações. Não havia nada marcado para depois das cinco e ele informou-a de que ficaria até tarde a despachar algum expediente. Incumbi pessoal de se avistar com esses clientes, a fim de obterem indicações sobre o estado de espírito do Dennis. A Barb, a secretária, disse que estava acabrunhado devido ao caso Wright, mas absteve-se de trocar impressões com ela.

 

E a respeito de testemunhas na área do centro comercial? quis saber Cameron, ao mesmo tempo que tamborilava com a esferográfica no seu bloco-notas, ansioso por uma pausa.

 

Até agora, nada, mas ainda não conseguimos localizar o pessoal nocturno da Donut Hut. Foram passar o dia a Mankato... para esquiar.

 

Bem, ao menos sabemos uma coisa disse Wilhelm. Não foi o Wright que o matou. Na altura, ainda se encontrava atrás das grades.

 

O Grabko remediou essa situação resmungou Mitch.

 

O facto de se encontrar em liberdade sob fiança talvez nos venha a ser útil aventurou Cameron. Se pudermos mantê-lo sob vigilância, subsistirá a possibilidade de nos conduzir ao cúmplice ou ao Dustin Holloman e oferecer-nos o esclarecimento de tudo numa bandeja.

 

Não sei porquê, mas palpita-me que não se mostrará atencioso a esse ponto comentou Mitch. Em todo o caso, já incumbi alguém à paisana de o manter debaixo de olho, para a eventualidade de afinal Deus existir.

 

Também recorri a um agente da equipa de vigilância informou Marty Wilhelm, sem entusiasmo.

 

Depreendo que não resultou nada de positivo da vistoria à residência do Wright? perguntou Ellen.

 

Ele meneou a cabeça.

 

Nada fora do que seria de esperar. Até parece que está inocente.

 

Mitch dirigiu-lhe uma mirada capaz de congelar o fogo.

 

Pois eu não acho que o esteja, agente Wilhelm. E o seu predecessor tão-pouco. E aconselho-o a não considerar sequer a inocência do homem.

 

Mas tenho uma situação a andar em Campion...

 

O Garrett Wright não é uma situação a andar cortou Ellen, em tom incisivo, obrigando Wilhelm a concentrar-se de novo nela. Temos uma audiência de causa provável dentro de menos de uma semana e um juiz com a máxima «Inocente até Se Provar a Culpabilidade» bordada na roupa interior. Preciso, pois, de todas as migalhas de informação possíveis sobre o Wright. O Costello disparou hoje o seu primeiro tiro. A seguir, tentará obter a anulação da detenção do seu constituinte.

 

Que se lixe! Mitch pôs-se de pé de um salto. Isso queria ele, mas...

 

Ela interrompeu-o com um gesto.

 

Eu disse que tentará. Mas não o conseguirá, se nos opusermos eficazmente. Não acredito que ele logre convencer o Grabko, mas, entretanto irá debitando as suas teorias à imprensa e contaminando o círculo do júri.

 

Um fuinha filho da mãe... grunhiu Steiger. Ellen voltou-se de novo para Wilhelm.

 

Tem alguém a trabalhar no equipamento de computadores confiscados em casa do Wright?

 

Tenho, mas nada será encontrado, como todos sabemos perfeitamente.

 

As notas sobre os raptos do Josh e do Dustin Holloman tiveram origem em computador e foram registadas numa impressora laser. Ora, o Garrett Wright possui uma impressora laser.

 

Mas o aparelho não tem memória. Não existe qualquer maneira de determinar se as notas provieram dessa impressora argumentou o outro. E, até agora, não descobrimos uma disquete de computador com a indicação «Ameaças Terroristas e Poesia Sinistra». O Wright não é suficientemente estúpido para conservar em seu poder material que o incrimine.

 

Bem, você deve saber mais sobre a estupidez do que qualquer de nós observou Mitch, secamente. No entanto, posso afirmar o seguinte: os tipos como o Wright podem tornar-se maníacos. E, com as manias, surgem os descuidos.

 

Ele disse à Megan que não era a primeira vez que procedia assim lembrou Ellen. Garantiu-lhe que haviam recorrido ao homicídio. Se isso corresponde à verdade, deve ter deixado um indício algures. E, se se orgulha dos seus actos, custa-me a crer que não conservasse alguma recordação. Não apareceu nada de prometedor nas pesquisas para determinar a existência de outro domicílio na área?

 

Absolutamente nada garantiu Steiger. Pelo menos, em seu nome ou da esposa. Nada em nome de Priest ou Childs.

 

Ela voltou-se mais uma vez para Wilhelm.

 

Não encontrou nada nos seus antecedentes?

 

Ele abriu uma pasta de plástico na sua frente e extraiu uma folha dactilografada.

 

Foi escuteiro. Cameron pegou no papel.

 

Obteve alguma medalha por comportamento cruel ou invulgar?

 

-Não vi nada de extraordinário. Os pais separaram-se quando era miúdo, e foi criado pela mãe, directora de pessoal numa fábrica de calçado em Mishawaka, Indiana. Pertenceu à Sociedade de Honra Nacional no liceu, formou-se com distinção na Bali State e obteve o doutoramento na Universidade do Ohio. Wilhelm recitava os dados biográficos em tom enfastiado, com olhares ocasionais ao relógio. Veio da Universidade da Virgínia, antes do que esteve na da Pensilvânia.

 

Consultou o NCIC? inquiriu Ellen. Aí podem utilizar os dados básicos, para se certificarem se cometeu crimes similares em alguma outra parte do país.

 

O homem não tem o mínimo cadastro, Miss North.

 

Isso significa que nunca foi apanhado em falso sentenciou Mitch, começando a percorrer a sala em vaivém. Se não lhe interessa o trabalho, Wilhelm, eu próprio contactarei com o NCIC!

 

O visado fixou o olhar embaraçado no tampo da mesa, ao mesmo tempo que corava.

 

Estou a ocupar-me daquilo que me compete, chefe Holt. Não posso é fazer tudo ao mesmo tempo.

 

Começo a perguntar-me se consegue andar e mascar uma pastilha elástica ao mesmo tempo.

 

Terminou a sessão! exclamou Ellen, levantando-se, enquanto os homens a olhavam com surpresa e contrariedade por ter interrompido a troca de palavras. Temos um processo para organizar. Vocês podem arrancar-se mutuamente os fígados fora das horas de serviço.

 

Isso não tem pés nem cabeça disse Steiger, acenando na direcção dos dois interlocutores. Antes que pudesse retirar o pé de cima da cadeira, soou um bip, e todos, à excepção de Phoebe, puxaram de um pager. É o meu anunciou, estendendo a mão para o telefone sobre a mesa.

 

A tensão quase se tornou palpável quando premiu um botão e aguardou. Ninguém pronunciou uma única palavra. Ellen sabia que todos pensavam o mesmo: receavam o pior e acalentavam a esperança do melhor.

 

Steiger! bradou o xerife para o bocal. Um músculo começou a latejar na face, como se marcasse o compasso, à medida que recebia a informação. Quatro segundos... cinco... O ar silvava entre os dentes, levando a cor consigo. Gaita. Não deixem transpirar nada. Sigo já para aí. Pousou o auscultador ruidosamente. Era de Campion. Encontraram a bota do rapaz, com um bilhete dentro. «O mal acontece a quem o procura.»

 

Os três polícias enfiaram os casacos e encaminharam-se para a porta, de expressões carregadas e silenciosos.

 

Estarei lá assim que puder prometeu Ellen. Cameron fechou a porta atrás deles e uniu as mãos sobre a cabeça.

 

Merda, merda e... merda!

 

Phoebe impeliu os óculos para o cabelo e cobriu os olhos com os dedos.

 

Ellen afundou-se na cadeira e, com um olhar de inteligência a Cameron, disse:

 

Repare-se na oportunidade do momento. Precisamente quando o Costello se prepara para iniciar a sua conferência de imprensa, com o Garrett Wright a seu lado, aparece um indício num caso idêntico a trinta quilómetros de distância.

 

Crê que o Costello sabe?

 

Tony deixara transparecer as suas cores noutras ocasiões, mas poderia ser tão frio, tão implacável? Poderia conhecer o nome da pessoa que tinha o destino de Dustin Holloman nas suas mãos e guardar silêncio?

 

Não faço a menor ideia admitiu ela.

 

Coitado do rapaz gemeu Phoebe, por detrás das mãos.

 

O melhor que podemos fazer por ele é cumprir a nossa missão declarou Ellen, esforçando-se por dominar a fadiga e incerteza mentais. Cameron, quero que escreva um resumo sobre as circunstâncias exigentes e causa provável referentes à Quarta Emenda. Não vamos permitir que o Wright se safe com base num pormenor técnico.

 

É para já.

 

Quero igualmente que pressione o agente Wilhelm. Insista em que vasculhe os antecedentes do Wright. Deve incumbir disso um homem a tempo inteiro. Se não conseguirem descobrir e capturar o cúmplice, o seu passado será a nossa porta de entrada.

 

Vou fazer alguns telefonemas. Deslizou para a sua cadeira e começou a tomar apontamentos.

 

Cabe-lhe dirigir a interferência, Phoebe. Ellen pegou num dos pulsos da jovem e afastou-o suavemente do rosto alterado. Está a ouvir?

 

Es... estou.

 

Sei que costuma permitir o livre acesso de advogados da defesa a ficheiros e informação. Sempre observámos uma política de porta aberta. Prepare-se para a fechar na cara do Tony Costello. Se ele pretender alguma coisa deste gabinete, terá de a solicitar por escrito. Torne a pretensão tão desconfortável quanto possível. Quando telefonar, eu nunca estarei. Só poderá apresentar-se na minha presença com marcação Prévia. Entendido?

 

Phoebe assentiu com uma inclinação de cabeça e fez baixar os óculos do cabelo para o nariz, após o que fungou, empertigou-se na cadeira e assumiu a expressão mais apropriada para cumprir as suas obrigações.

 

Agora, ligue a televisão acrescentou Ellen, indicando o aparelho instalado no topo de um ficheiro. O noticiário do Canal Onze apresentava o rosto bem-parecido de Costello. Segundo as palavras do xerife Steiger, vejamos que merda está a lançar à parede.

 

Um homem inocente acaba de regressar à liberdade começou o advogado, e soaram exclamações de apoio de um grupo de estudantes reunidos no passeio atrás dos membros da imprensa. Depois de analisar as circunstâncias e factos do caso, o juiz Grabko considerou viável conceder ao doutor Wright uma nova fiança e rectificar assim a injustiça imposta pela acusação e o falecido juiz Franken.

 

Entretanto o dia declinava, com a promessa da noite e mais neve. Projectores portáteis tinham sido instalados nos degraus de acesso ao tribunal para iluminar os intérpretes daquele melodrama. O operador de câmara achava-se posicionado ao fundo desses degraus e filmava para cima. O efeito era dramático, com as colunas do edifício como fundo de cenário. Costello parecia poderoso, com os ombros a encherem o ecrã em grande plano, e o rosto tão varonil e clássico como uma escultura romana. Garrett Wright conservava-se a seu lado como uma sombra pálida, com o contraste da sua constituição e coloração a proporcionar-lhe uma imagem de delicadeza e serenidade.

 

Hannah fitou-o de olhos arregalados, enquanto a câmara se concentrava no rosto. Via a conferência de imprensa na televisão da cozinha a um canto do balcão. Os ingredientes para a lasanha achavam-se dispersos em volta. Na sala de estar, Lily dançava ao som de uma melodia proveniente do candelabro falante de A Bela e o Monstro.

 

Josh ignorava o televisor, sentado num banco alto diante da janela panorâmica, em contemplação do lago. Habituara-se a levar a mochila consigo pela casa, como se sentisse a necessidade de manter artigos esssenciais disponíveis, para a eventualidade de tornar a ser levado. A mochila encontrava-se pousada no chão ao lado do banco.

 

O doutor Garrett Wright está inocente asseverava Costello. A presunção da sua inocência é o seu direito constitucional.

 

Então... e os nossos direitos? murmurou Hannah, lançando um olhar incendiário ao aparelho.

 

Ellen North tinha telefonado para comunicar a novidade da redução da fiança. O novo juiz não só alterara a quantia, como concedera a Wright a possibilidade de assegurar uma fiança, o que significava que apenas tinha de contribuir com dez por cento da quantia total. Por dez mil dólares, o detido podia abandonar a prisão. Por outro lado, nenhum quantitativo monetário conseguiria libertar Josh da prisão em que Wright lhe encerrara a mente.

 

A investigação do rapto do Josh Kirkwood estava viciada desde o princípio prosseguia Costello, até à detenção do doutor Wright, que nunca havia sido considerado suspeito, nem interrogado. Na verdade, oferecera a sua ajuda e fora consultado devido aos seus conhecimentos e experiência. Nunca constituiu um suspeito.

 

Nesse caso, como explica a sua captura? bradou um repórter, fora da imagem.

 

O advogado cravou nele o olhar penetrante.

 

O doutor Wright não foi capturado, mas atacado. Na sua própria garagem, na sua propriedade. É essa a verdade da situação. O departamento policial de Deer Lake estava desesperado por efectuar uma prisão. O chefe Holt perdeu o suspeito de vista durante a perseguição, sábado à noite, e prendeu a primeira pessoa que pôde. Não podia deixar uma oportunidade dessas escapar-se por entre os dedos. No entanto, a realidade revela que existe um suspeito mais viável que continua em liberdade. O rapto do Dustin Holloman provou isso.

 

Que diz à teoria de um cúmplice? Assumiu uma expressão de repulsa.

 

O doutor Wright não tem cúmplices. Apenas colegas, alunos e amigos.

 

Partiu novo grito de apoio de entre o grupo de simpatizantes.

 

Hannah sentiu-se dominada por um acesso de fúria e desligou o televisor, cortando a palavra a Costello, enquanto a imagem parecia sugada.

 

Ela sabia que o advogado se limitava a cumprir a sua missão e competia à acusação provar a culpabilidade de Garrett Wright. Não obstante, enfurecia-a ver apresentar este último como mera vítima das circunstâncias. Não, a vítima era Josh. A sua família fora atingida e as suas vidas dilaceradas.

 

Não acreditava, nem por sombras, na teoria de Costello de que o homem se encontrava no lugar errado no momento inoportuno. O advogado era pago para fazer o cliente parecer inocente. Hannah conhecia Mitch Holt desde o dia em que ele e a filha se haviam mudado para Deer Lake, dois anos atrás, e estava totalmente convencida de que ele não podia ser comprado. Assim, se afirmava que o culpado era Garrett Wright, não existia outra hipótese. Na noite da detenção, Mitch aparecera na casa, ferido e exausto, e explicara todos os pormenores da perseguição e captura.

 

Recapitulou a cena no pensamento, enquanto preparava o jantar para as crianças, com as mãos a tremer de tal modo que verteu molho de tomate no balcão. Espalhou-se como sangue, a cor da violência e da fúria. Durante um longo momento, conservou-se imóvel, com os olhos fixos nele. Lembrava-se de Megan O’Malley, espancada, o sangue vital da sua carreira a esvair-se. Evocou a noite em que Mitch aparecera, a mesma em que ela dissera a Paul que tudo terminara entre eles. O último sangue vital do seu casamento fora-lhes sugado. Pensou igualmente em Josh e no sangue que lhe fora extraído do braço.

 

Hannah não sabia se algum deles jamais recuperaria o que perdera. Não obstante, Garrett Wright podia efectuar um pagamento e recobrar a liberdade. Se quisesse, poderia regressar a sua casa, naquele quarteirão. Reataria a vida na sua residência em Lakeside, sem se preocupar com as que aniquilara ao fundo da rua. Tudo indicava que podia limpar a ardósia da sua consciência com a mesma facilidade com que ela fazia desaparecer a mancha de molho de tomate do balcão. Sem consequências. Nem recordações incomodativas.

 

Ele não há-de safar-se.

 

Ellen assegurara-lhe que o gabinete do delegado distrital desenvolvia os maiores esforços para levar o caso a juízo e conseguir a condenação de Garrett Wright. Por seu turno, Mitch referira que todos os sectores oficiais envolvidos no caso de Dustin Holloman procuravam descobrir o cúmplice de Wright. Por conseguinte, ela devia confiar no sistema, convencer-se de que, na maioria das vezes, funcionava. Numa palavra, tinha de acreditar na justiça.

 

Ele não há-de safar-se.

 

Introduziu o tabuleiro com a lasanha no forno, limpou as mãos num pano da loiça e encaminhou-se para a sala. O filme continuava, mas ninguém parecia prestar-lhe atenção. Lily cantarolava uma melodia de sua própria autoria e linguagem também inventada por ela e saltitava em torno de uma pequena arca que servia de mesa de café. Extraíra uns óculos escuros da caixa dos brinquedos e pusera-os com uma inclinação grotesca. Hannah pegou num boné de basebol caído a um lado e enfiou-o de lado na cabeça da filha, ao mesmo tempo que conseguia esboçar um sorriso, um luxo pouco frequente nas últimas semanas.

 

Isso é a dança das fraldas, menina Lily? perguntou, agachando-se e beijando-a fugazmente na face.

 

No entanto, desviou os olhos para Josh e assumiu uma expressão grave. Havia longos minutos que se mantinha sentado, imóvel, diante da janela, como que alheio ao que o rodeava. O seu isolamento emocional assumia propriedades físicas mágicas uma força invisível em seu redor que não lhe permitia ver, ouvir ou tocar nas pessoas que o estimavam.

 

A ideia surgiu com uma repentina pontada dolorosa. Uma força invisível era algo que ele teria aproveitado como tema de uma história... anteriormente. A ficção científica fascinava-o e adorava inventar enredos depois de ver um episódio de O Caminho das Estrelas: Segunda Geração. Desde o Outono que um caderno de apontamentos o acompanhava a toda a parte o seu «Caderno de Pensamentos», como lhe chamava, para desenhar naves espaciais e carros de corrida, e enchera as páginas com as suas reflexões e ideias.

 

O caderno de apontamentos encontrava-se agora em poder do laboratório da Polícia. O raptor utilizara-o como um dos seus chamarizes, colocando-o no capô da carrinha de Mitch Holt. Mais um fragmento da infância de Josh que desaparecera.

 

Ao pensar nisso, o olhar de Hannah fixou-se no caderno de desenhos que a assistente dera a Josh. Estava no chão, Posto de parte, sem ter sido utilizado, com as páginas em branco. Ela estremeceu ao imaginar que a mente de Josh podia encontrar-se igualmente em branco. Não havia qualquer possibilidade de o saber, enquanto ele decidisse não partilhar os seus sentimentos. Passara mais cinquenta minutos com a psiquiatra, naquela tarde, o olhar cravado no aquário dela, como se os peixes a nadar de um lado para o outro lhe interessassem sobremaneira. O seu comentário surgira no final da sessão. Voltara-se para a Dra. Freeman e perguntara: «Estão presos, não é verdade? Podem olhar cá para fora, mas estão impedidos de sair.»

 

Agora, ao vê-lo olhar pela janela, Hannah não conseguia impedir-se de ponderar se ele tinha a mesma convicção a seu respeito.

 

Obedecendo a um impulso, voltou-lhe as costas e, atravesssando a cozinha, dirigiu-se ao escritório imaculado de Paul. Ainda não procedera à limpeza da sala, embora supusesse que chegaria o dia em que ele meteria as suas coisas numa caixa e as levaria.

 

Encontrou o que procurava numa prateleira do armário onde ele guardava os seus artigos: um bloco de apontamentos por e