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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MISSÃO DE SENAR / Licia Troisi
A MISSÃO DE SENAR / Licia Troisi

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CRÔNICAS DO MUNDO EMERSO

Livro II

A MISSÃO DE SENAR

 

O meu nome é Nihal. Nasci e cresci em Salazar, uma cidade-torre na Terra do Vento. A minha família era Livon, o melhor armeiro das oito Terras do Mundo Emerso. Era o meu pai adotivo. Foi ele quem me ensinou a usar a espada e também explicou-me o sentido da vida. Devo-lhe tudo. Passei a minha infância ao seu lado, entre espadas, escudos, couraças e o desejo de tornar-me um guerreiro.

Passei anos serenos, ignorando o que significassem os meus cabelos azuis e orelhas pontudas.

E mesmo assim, desde o primeiro momento de que possa me lembrar, ouvi vozes, tinha contínuos pesadelos. Rostos retorcidos de dor sussurravam-me palavras incompreensíveis.

O exército do Tirano chegou de repente, numa tarde de outono. Vi-o avançar na planície de Salazar como uma maré negra que tudo atropelava e arrasava.

Nada sobrou da minha vida de antes.

A cidade foi tomada e incendiada, os meus amigos mortos, o meu pai abatido afio de espada diante dos meus olhos. Morreu para proteger-me de dois fâmins, os monstros combatentes criados pelo Tirano. Matei ambos. Estava com dezesseis anos.

Eu era habilidosa com a espada, mas não o suficiente. Fui ferida e quando despertei do torpor da convalescência renasci para a dor e o desespero.

Descobri ser o último sobrevivente do povo dos semi-elfos. Ainda era uma criancinha recém-nascida quando Soana, a irmã de Livon, encontrou-me numa aldeia da Terra do Mar. O corpo sem vida da minha mãe protegera-me da fúria dos fâmins. Eu era o único semi-elfo sobrevivente.

A partir daquele momento comecei a mudar. Já não era uma alegre menina, mas sim uma jovem que crescera depressa demais. Os pesadelos atormentavam-me todas as noites. Jurei que lutaria com todas as minhas forças contra o Tirano até vencê-lo. Foi então que decidi tornar-me um Cavaleiro de Dragão.

Entrar na Academia não foi nada fácil, tive de conquistar o meu lugar com a espada. O próprio Raven, o Supremo General da Ordem dos Cavaleiros de Dragão, escolheu os dez guerreiros contra os quais eu teria de lutar para tornar-me aluna. Derrotei-os um depois do outro.

Na Academia vivi um ano de total solidão: os outros alunos me evitavam porque eu era mulher e, além do mais, diferente. Seus olhares cheios de desconfiança acompanhavam-me para qualquer lugar aonde eu fosse.

No começo sofri muito. Depois tornei-me impermeável ao ódio deles, ao sofrimento, a tudo. A única coisa que interessava era vingar meu pai e o meu povo.

As noites eram habitadas por espíritos que me incitavam à vingança. Os dias eram uma contínua seqüência de duros treinamentos. Queria transformar-me em uma arma, sem sentimentos nem dor.

Queria esvaziar-me, aniquilar-me.

Depois de superar a fase inicial do adestramento, tive de enfrentar a prova da primeira batalha. Naquele dia, frente a frente com o inimigo, a minha mente ficou vazia, a aflição desapareceu. Só havia a minha espada de cristal negro, o derradeiro presente de Livon, e o sangue dos fâmins. Combati, matei, deixei correr solta a minha fúria. Os generais felicitaram-me abertamente e eu acreditei ter conseguido o que queria.

Mas não foi nada disto. Naquele mesmo dia morreu Fen. Era um Cavaleiro de Dragão, o companheiro de Soana. Um verdadeiro herói para mim. Estava apaixonada por ele, o único sentimento que ainda me mantinha ligada à vida. Quando vi o seu cadáver decidi consagrar-me à guerra.

Para completar o meu adestramento, fui confiada a Ido, o único representante do povo dos gnomos na Ordem dos Cavaleiros de Dragão. Ele acabou insinuando uma dúvida na minha mente: aquilo que eu estava fazendo em realmente justo? É correto] lutar apenas por vingança?

Finalmente recebi o meu dragão. Foi muito difícil conquistá-lo: era um veterano, já pertencera a outro cavaleiro. Não deixava que eu me aproximasse, não queria mais voar. O desejo de entrar em combate apagara-se com a morte do seu amo, mas eu sentia que era como eu, desnorteado e sozinho. Era o meu dragão. É o meu dragão. O nome dele é Oarf.

Senar sempre ficou ao meu lado. Quando nos conhecemos ainda éramos quase crianças. Crescemos juntos, partilhamos risadas, sonhos, sofrimentos. Lutamos pela mesma causa.

Penso muito nele.

Senar é o meu melhor amigo. Senar, o mago. Senar, o conselheiro.

Não sei se conseguiu chegar ao Mundo Submerso, também não sei se voltarei a vê-lo.

O nosso último encontro conclui-se com uma despedida que não posso esquecer.

A sua ausência é uma dor que nunca me deixa.

 

 

                                 ENTRE TERRA E MAR

Durante a guerra dos Duzentos Anos, muitos habitantes do Mundo Emerso, cansados de tantos combates, deixaram as suas Terras para ir viver no mar. O último contato com eles remonta a cento e cinqüenta anos atrás, quando os reinos unidos da Terra da Água e do Vento tentaram invadir o Mundo Submerso graças a um mapa conseguido de um habitante daquele reino que voltara a morar em terra firme. A expedição teve um fim trágico: nenhum sobrevivente voltou para contar o que aconteceu. Desde então, nada mais se soube daquele continente e perdeu-se a memória de como alcançá-lo.

 

                                             Anais do Conselho dos Magos, fragmento

 

Outorga-se portanto o direito de o rei da Terra do Vento guardar cópia do mapa náutico com o qual (...) O mapa original será usado (...) campanha militar contra o Mundo Submerso.

 

Pergaminho com o selo da Terra da Água,

da Biblioteca Real da cidade de Makrat, fragmento

 

                                     ANTES DE PARTIR

Um alforje com uns poucos livros e algumas roupas era tudo o que levava consigo. Senar jogou-o em cima dos ombros e saiu.

Embaixo da capa vestia uma túnica preta que lhe chegava aos pés, ornada com complicados desenhos vermelhos que emolduravam um grande olho arregalado na altura do estômago. Ainda não se acostumara com o clima de Makrat. Quando morava na Terra do Mar as primaveras eram brandas e na Terra do Vento fazia sempre calor. Na Terra do Sol, por sua vez, escolhida como sede do Conselho dos Magos naquele ano, a primavera era quase tão gelada quanto o inverno e o calor estafante do verão chegava de repente. Senar estremeceu e cobriu os longos cabelos ruivos com o capuz da capa.

Estava com dezenove anos e era um mago. Um ótimo mago. Mas não um herói. Quem enfrentava a morte sem a menor hesitação era Nihal. Ele elaborava estratégias na retaguarda, longe da primeira linha. E agora que tinha a possibilidade de fazer alguma coisa para o povo daquele pobre mundo aflito, estava com medo. Depois de muitos meses de assembléias com os magos do Conselho e reuniões com os chefes militares, a hora chegara. Iria partir e singrar os mares rumo a um continente que, pelo que se sabia, podia até ter deixado de existir.

Sozinho, como deliberara o Conselho.

Não passo de um covarde.

Já fazia cento e cinqüenta anos que não se tinha notícia do Mundo Submerso. A sua missão era encontrá-lo e convencer o rei a ajudar o Mundo Emerso numa guerra cujo fim ninguém podia prever: a longa luta contra o Tirano. Na luz incerta do alvorecer pareceu-lhe uma missão sem esperança.

O seu cavalo já estava pronto. Senar hesitou antes de montar. Ainda dá tempo. Posso voltar ao Conselho. Dizer que estava errado, que mudei de idéia.

Olhou a sua volta. Não havia vivalma. As pessoas e as coisas ainda estavam adormecidas. Tinha de partir daquele jeito, sem qualquer despedida. Levou instintivamente a mão à cicatriz na face. Então esporeou o cavalo e pôs-se a caminho.

A primeira etapa seria a Terra do Mar, onde iria procurar alguém disposto a enfrentar o oceano com ele.

Era a Terra onde tinha nascido. Saíra de lá com oito anos de idade, para acompanhar Soana, a sua professora, até a Terra do Vento. Só poucas vezes voltara para casa, pois a viagem era longa e perigosa.

Já fazia dois anos que estava ausente.

Agora que se encontrava mais uma vez diante de um desafio na sua vida, sentia a necessidade de rever a mãe.

Chegou ao seu vilarejo, Phelta, no fim da manhã. O céu estava negro e carregado de chuva, um céu de tempestade que dominava ameaçador as poucas casas da sua aldeia natal. As ruas estavam desertas. Deviam estar todos trancados em casa à espera do temporal. Havia umidade no ar e Senar respirou o perfume do mar que chegava penetrante terra adentro.

A aldeia era um conjunto de pequenas casas em alvenaria com telhado de palha, as moradas típicas daquele território, cercadas por uma sólida paliçada de madeira. Era um vilarejo muito pequeno, com não mais de duzentos habitantes ao todo, e a sua aparência era bastante modesta. As casas ficavam amontoadas umas em cima das outras, como um grupo de crianças amedrontadas numa terra estrangeira. Senar não tinha muitas lembranças daquele lugar. Nascera ali, mas ele e sua família tiveram de mudar para os campos de batalha. Voltavam raramente, aproveitando justamente as licenças do pai, e só nestas ocasiões Senar tinha a oportunidade de reatar os contatos interrompidos, de rever os amigos. Mas afinal aquela era a sua casa. A sua pátria, a sua Terra.

Antes de ir ver a mãe decidiu dar uma volta; sentia a necessidade de tomar novamente posse daquele lugar, de pisar nas pedras das calçadas, sentir os cheiros, passar a mão nos muros das casas corroídos pela maresia. Perdeu-se vagueando pelos becos estreitos e tortuosos, demorou-se na minúscula praça central, onde nos dias de festa havia o mercado, perambulou pelo cais, uma esguia língua de madeira suspensa sobre o oceano.

De repente voltou a ver tudo com os olhos de um menino e foi arrebatado por uma multidão de lembranças adormecidas: imagens fugazes de brincadeiras entre as casas, de amigos perdidos, de pequenas alegrias. Coisas esquecidas, talvez depressa demais.

A idéia de voltar a ver a mãe emocionava-o. Quando chegou diante da porta, Senar ouviu lá dentro o barulho de pratos.

Veio abrir uma mulher miúda e sardenta, envelhecida desde a última vez que se encontraram. Usava um simples vestido preto, de gente pobre que remenda ao infinito a única roupa que tem, mas amenizado por um gracioso colarinho de renda. Antigamente ela também tinha os mesmos cabelos rubros como chamas do filho, mas agora sua cabeleira, presa num macio coque, já estava marcada por largas estrias brancas. Os seus olhos, no entanto, continuavam os mesmos de quando era jovem, de um verde alegre e vivaz, e iluminaram-se logo que viram Senar.

— Você voltou. — Abraçou-o com força.

As flores viçosas na mesa, os panos rendados sobre os móveis, a limpeza impecável. Senar reconheceu os cuidados e as pequenas atenções da mãe.

A mulher precipitou-se logo para a cozinha e aprontou o fogão a lenha.

— Por que não avisou que viria? Não tenho nada para lhe dar, só o pouco que tenho na despensa. Esta é uma ocasião especial, precisaríamos festejar. — Nesse meio-tempo ia de um lado para outro sem parar, abria portas e gavetas, pegava panelas.

— Não se preocupe, mamãe — tentou tranqüilizá-la Senar. Dava prazer vê-la toda atarefada em cima do fogão e ele fingiu ser novamente um menino, quando o pai ainda era vivo e a família estava unida.

Enquanto cozinhava, a mulher não parou um só momento de falar, quis saber da vida dele e falou da própria, mas também conversaram sobre coisas fúteis, corriqueiras, justamente daquilo de que Senar mais sentia falta.

Quando o almoço ficou pronto, sentaram-se à mesa. A mãe sempre fora uma ótima cozinheira, até mesmo com os ingredientes mais humildes conseguia inventar régios acepipes. Tinha preparado uma sopa de peixe com verduras na qual boiavam fatias de pão com nozes.

Diante dos pratos fumegantes, no tranqüilo aconchego da casa, a mulher pôde finalmente olhar para o filho com calma.

— Como você cresceu... Senar corou.

— Já é um homem... um conselheiro... — Os olhos da mulher encheram-se de orgulho. — Ainda não consegui me acostumar com a idéia, sabe? Conte-me como é a sua vida, como passa os seus dias.

Senar contentou-a, embora o remorso fosse para ele um verdadeiro nó na garganta. Apesar de já se terem passado muitos anos, apesar de a mãe nunca lhe ter feito pesar a sua escolha, lá no fundo da alma Senar ainda se sentia como se a tivesse abandonado e a sua irmã. Não tinha deixado, afinal, aquela casa para perseguir os seus sonhos, permitindo que Soana o levasse para longe, para uma terra ainda não atingida pela guerra? A saída dele sempre se parecera demais com uma fuga. Quando parou de contar, apertou com força as mãos dela.

— E você, mamãe? Como vai levando?

— Tudo na mesma. Continuo vendendo bem os meus bordados, embora não tão bem quanto antigamente. Dá para sentir a guerra mesmo aqui. Mas não me queixo, ganho o suficiente para sobreviver e passo muito melhor do que muita gente. Tenho uma vida cheia, sabia? A casa está sempre apinhada de amigas que me vêm visitar.

Senar baixou os olhos.

— E Kala?

— Kala está bem. Sinto a sua falta, é claro, mas vez por outra vou até a casa dela. — A mulher segurou o rosto do filho entre as mãos. — Senar, olhe para mim. Seja o que for que sua irmã pensa a respeito, você fez a escolha certa. Fico feliz em ver o homem no qual se transformou.

— Preciso vê-la — disse Senar. A mãe fitou-o séria.

— O que há, meu filho? Está parecendo... sei lá... estranho, preocupado.

— Não é nada, só que... preciso fazer uma viagem, para uma terra muito longe daqui. E por isto que vim. Vou demorar para voltar.

Não queria contar-lhe a verdade. O importante era vê-la mais uma vez. O resto não importava.

A mãe ficou um bom tempo olhando para ele, tentando ler no seu rosto o que o estava atormentando. Aí baixou os olhos.

— Agora ela mora numa casa do outro lado da aldeia, à beira-mar — murmurou.

Senar foi a pé. O céu estava lívido de nuvens e não demorou para começar a chover. O mar surgiu imenso e escuro diante dele.

As ondas quebravam com força contra o embarcadouro, passando por cima de tudo aquilo que encontravam. Era o mar poderoso da sua infância, o mesmo mar do qual ele e o pai tiravam os peixes nos dias de festa. O mesmo mar onde ele mergulhava feliz. Mas agora parecia estar zangado com ele.

Senar continuou andando ao longo do cais. Os vagalhões abatiam-se contra as tábuas de madeira feito montanhas, mas ele não estava com medo. Deixou-se atropelar por uma onda e saiu incólume, envolvido num halo azulado: uma barreira mágica, um mero encantamento defensivo. “Ganhei de você”, disse sorrindo. Então divisou a casa ao longe. Estremeceu de frio, totalmente encharcado, e sentiu a sua coragem falhar.

Parou e olhou a sua volta. Talvez fosse melhor dar antes um pulo na hospedaria. Mais cedo ou mais tarde tinha de passar por lá. Adiou o encontro com a irmã e desviou-se do caminho.

Um homem idoso, de barba branca e rosto queimado de sol, empurrava com esforço um tonel para a entrada da estalagem e praguejava contra a chuva.

Senar reconheceu-o logo: só Faraq conhecia tantas maneiras diferentes de praguejar contra alguma coisa. Quando chegou perto perguntou:

— Está precisando de ajuda?

O homem teve um sobressalto e virou-se de repente.

— Ficou louco? Quer que eu tenha um troço? Quem diabo você é?

Senar conteve um sorriso. O hospedeiro continuava sendo o velho rabugento de sempre.

— Não está se lembrando de mim?

Faraq esquadrinhou-o com olhar crítico, aí deu uma palmada na testa.

— Mas sim, claro! Você é Senar, o mago. Puxa vida, devo mesmo estar ficando velho. A última vez que o vi, você não passava de um garoto, e agora está mais alto do que eu. — Riu e deu-lhe dois fortes tapas nos ombros. — Vamos sair da chuva, estaremos mais confortáveis lá dentro.

A hospedaria era muito diferente de como Senar se lembrava, parecia ter ficado bem menor. O mago sentou-se a uma das mesas de madeira maciça enquanto Faraq desaparecia atrás do balcão.

— Temos que festejar. Com esta chuva fria precisamos de algo bem forte — disse o velho, e então trouxe para a mesa uma garrafa cheia de um líquido roxo e dois copos. — Bem-vindo de volta, garoto.

Faraq levantou o copo e esvaziou-o de um só gole. Senar ficou olhando para ele. A última vez que estivera na estalagem o homem tinha os cabelos só um pouco grisalhos e quando ria a teia de rugas em volta dos olhos mal aparecia. Pelos deuses, quanto tempo já passou? O jovem só deu um gole. Foi suficiente para ele tossir e ficar com a garganta em chamas.

— Como é que é? Um homem como você não agüenta o Tubarão? — perguntou Faraq rindo.

— É a primeira vez que experimento. Onde estou morando agora não há nada parecido.

Era um licor bem forte, o Tubarão. A tradição exigia que quando um rapaz completasse dezesseis anos, para festejar a sua passagem à idade adulta, os homens da aldeia o levassem à estalagem para deixá-lo bêbado.

— Perdeu muita coisa, indo embora — brincou Faraq. — Mas ouvi dizer que subiu na vida. Conselheiro, não é?

Senar anuiu.

— Parabéns para o nosso mago! — Faraq deu-lhe mais uma violenta palmada nas costas.

Senar estava feliz ao reencontrar a franca simplicidade da sua gente, seus modos rudes, a alegria. Amava a Terra que o tinha visto nascer.

Depois de um número de copos que o rapaz não foi capaz de contar, Faraq perguntou-lhe o motivo da volta. Senar, o rosto vermelho de álcool, contou tudo.

Faraq ficou pasmo.

— Mas é uma loucura, Senar. Muitos já tentaram chegar lá, ao Mundo Submerso. E sabe de uma coisa? Nunca mais voltaram.

— Eu sei, eu sei. Mas é a minha missão, não posso não cumpri-la. Só preciso de alguém muito louco para levar-me até lá. Gostaria que você me ajudasse a encontrá-lo.

— Ninguém vai querer fazer uma coisa dessas.

— Então terei de ir sozinho. Faraq observou-o com atenção.

— Não consigo entender se você é um louco ou um herói. Senar riu.

— Um louco. Quanto a heroísmo, não tenho a menor idéia do que seja. Nem tive a coragem de confessar à minha mãe aquilo que tenciono fazer. Eu lhe peço, aliás, não lhe conte nada. Não quero que fique preocupada.

Faraq meneou a cabeça.

— Como quiser. Senar levantou-se.

— Vai ajudar-me?

O velho engoliu o último trago e levou-o até a porta.

— Não vou garantir nada, mas volte amanhã.

A chuva caía sem parar. Senar dirigiu-se à casa de Kala sem hesitar. Bateu. Nenhuma resposta. Bateu de novo. A porta abriu-se de repente.

— Quem diabo está aí?

Kala. Era sem dúvida ela. Senar guardava da irmã a imagem de uma jovem com mais ou menos vinte anos, ainda imatura, mas agora via diante de si uma mulher formosa, quase opulenta, com o rosto emoldurado por uma série de caracóis cor de cobre. Por uma fração de segundo ficaram olhando um para o outro imóveis. Senar viu a ira subir pouco a pouco aos olhos extremamente claros da irmã, azuis como os dele. Então a porta bateu na sua cara.

— Kala, Kala, abra. — Senar começou a martelar com os punhos a porta enquanto sua roupa pingava água. — Preciso falar com você, em nome de todos os deuses! Talvez seja a última vez que nos vemos!

— Queira o céu que não nos vejamos nunca mais! — gritou Kala do interior da casa.

— Está bem. Então ficarei aqui fora até você me atender. A porta voltou a abrir-se com fúria.

— Se você não for embora, juro que vou chamar os guardas.

— Faça isso. Eu não tenho nada a perder.

Kala ia fechar mais uma vez a porta na cara dele, mas Senar a deteve com o braço.

— Tire logo esse braço daqui se não quiser que o corte.

— Só quero falar com você.

Por trás da saia de Kala apareceu a cabeça encaracolada de uma menina.

— Quem é, mamãe?

— Volte logo para dentro — ordenou Kala. — Vá logo embora. Aqui não tem lugar para você — sibilou ao irmão.

Senar tinha ficado de queixo caído.

— Eu tenho uma sobrinha. Tenho uma sobrinha e você não me contou!

— Danação! — bufou Kala exasperada. — Então entre, entre logo. Senar entrou na casa, pingando no soalho de madeira da ampla sala central. Olhou a sua volta. A lareira acesa esquentava o ambiente e na mesa havia um vaso com flores brancas. A menina, parada diante dele, fitava-o de olhos arregalados.

— Man, já lhe disse para sair daqui! Ficou surda? — repreendeu-a a mãe.

A criança desapareceu troteando.

— Qual é a idade dela? — murmurou Senar.

— E para você faz alguma diferença? — respondeu Kala com raiva.

Agora que tinha a irmã bem na sua frente e podia falar com ela, Senar sentia-se exausto, esvaziado.

— Afinal, o que quer, Senar?

— Não sei. — O que podia dizer, depois de tantos anos de silêncio? Suspirou ruidosamente. — Eu ainda era um menino, quando fui embora, Kala. Então papai morreu. E Soana continuava dizendo que se eu queria combater contra o Tirano tinha de seguir o meu caminho, precisava tornar-me mago.

Kala fitou-o com desprezo.

— Igualzinho a papai.

Estas palavras machucaram-no.

— Papai queria dar a sua contribuição na luta pela liberdade. Só merecia admiração.

— A sua contribuição, não é? Forçou a nossa mãe a viver nos campos de batalha e a criar suas crianças no meio da guerra. Sacrificou a felicidade de três pessoas só para continuar a ser o escudeiro do seu amado cavaleiro. Você é como ele, foi embora para bancar o herói, para salvar sabe lá o quê. Mas você não é um herói, Senar. Deveria ter ficado com a gente, precisávamos de você. A mãe teve de trabalhar a vida inteira como uma mula porque o dinheiro nunca dava para o gasto. E eu tive de casar sem nem mesmo ter dote. — Kala baixou a voz. — Eu gostava de você, Senar. Quando foi embora com aquela bruxa ainda era pequeno, não sabia o que estava fazendo. Mas já faz onze anos que partiu para estudar sabe lá o quê em algum lugar. Chegou mesmo a pensar que uma visita de vez em quando poderia realmente compensar a sua ausência?

— Eu também senti muita falta de vocês.

— Não me diga. Toda vez que você vinha, a mãe ficava feliz como uma menina diante de um presente. E aí, quando você partia de novo, ficava chorando. Eu ficava uma fúria. Por que não o forçava a ficar? Por que não dizia bem na sua cara que você era apenas um egoísta. Mas não, nada disso, sempre o admirou, sempre o defendeu. — Os olhos de Kala ficaram cheios de lágrimas. — Eu não sou como ela. E agora saia da minha frente e não volte mais.

Senar tinha um nó apertando sua garganta.

— Amo você do mesmo jeito de quando era menino, Kala. E a sua filha é linda, muito linda.

Aproximou-se da irmã para beijá-la no rosto, mas ela esquivou-se.

— Por que veio? — perguntou.

— Vou viajar. Não sei quando nem se irei voltar. Queria despedir-me de você.

Kala fitou o irmão em silêncio.

— Estou com medo desta viagem — disse Senar, como se falasse consigo mesmo. — Se fosse ouvir o conselho das minhas pernas, sairia correndo. Mas ao mesmo tempo sinto que devo tentar. Engraçado, não é? Parece que a minha vida inteira funciona deste jeito.

Duas lágrimas escorreram pelas faces de Kala.

— Posso despedir-me da minha sobrinha? — perguntou Senar. Kala anuiu e enxugou rapidamente o rosto.

— Man!

A menina chegou correndo e parou meio assustada no meio do aposento.

— Está com quatro anos — sussurrou Kala.

Senar afagou sua cabeça, em seguida abriu a porta e fechou-a atrás de si.

Na tarde do dia seguinte, a taberna estava cheia de gente. Senar passou entre as mesas e foi direto falar com Faraq.

— Encontrou? — perguntou baixinho.

Faraq olhou em volta e puxou-o para mais perto.

— Não é tão simples assim...

— Se não houver ninguém, só preciso de um barco, de um bote, de qualquer coisa que possa boiar: irei sozinho — interrompeu-o Senar.

— Calma, calma! Ainda nem completou vinte anos e já está tão ansioso para morrer? O meu filho tem um contato, mas vai custar muito caro.

— O dinheiro não falta.

— Hoje à noite, no cais ocidental.

— Estarei lá.

Senar saiu furtivo da casa da mãe, todo enroupado num balandrau que o cobria da cabeça aos pés. Era uma noite sem nuvens e o mar estava calmo. Não havia vivalma no cais. Sentou-se com os pés pendurados no vazio. A delgada foice da lua refletia-se trêmula no espelho de água abaixo dele e criava um ambiente espectral.

— É você? — perguntou uma voz feminina. O timbre era baixo, quase rouco.

Senar virou-se. Atrás dele havia uma figura delgada, envolvida numa longa manta. Não percebera a sua chegada.

— Como assim?

— Você é bobo ou o quê? — perguntou ela enfastiada. — É ou não é o sujeito que quer ir ao Mundo Submerso?

— Eu mesmo.

A mulher sentou-se sem tirar o capuz.

— Um milhão de dinares — disse com fleuma. Senar teve um momento de hesitação.

— Quanto?

— Você ouviu muito bem. Tem?

Senar fez um rápido cálculo; pondo alguma coisa também do próprio bolso podia chegar lá.

— Está me parecendo um tanto caro, como preço. A mulher riu.

— Um tanto caro, não é? O último que tentou a façanha desapareceu no mar sem deixar rastro. Do seu barco só voltou o mastro. Dois anos mais tarde.

— Quando podemos partir? — perguntou Senar.

— Depende. Disseram-me que você tem um mapa. Senar chamou a si mesmo de idiota.

— Não está comigo — respondeu constrangido. Como conspirador era um verdadeiro fracasso.

A mulher levantou-se para ir embora.

— Amanhã, aqui, a mesma hora.

— Não poderíamos nos encontrar durante o dia? Gostaria de conhecer o resto da tripulação, de ver o navio.

Ela se encostou até o seu rosto ficar bem perto do rapaz. Na luz do luar, Senar vislumbrou dois olhos negros como piche. Quando a mulher falou, sentiu no rosto a sua respiração.

— Está pretendendo demais. Procure não me fazer mudar de idéia. Até amanhã, benzinho.

Manteve os olhos cravados nele por mais um instante, depois virou-se e desapareceu na noite.

Quando na noite seguinte Senar chegou ao cais, ela já o estava esperando. Vestia mais uma vez a longa capa.

— Venha, não é prudente ficarmos ao ar livre.

Ele a acompanhou um tanto inquieto. Tinha a impressão de estar se metendo numa enrascada. Percorreram toda a praia guardando alguma distância entre si. Ela mandou que ele andasse na água e ele obedeceu apesar do gélido mar invernal. Caminharam por um bom tempo, até chegarem a uma pequena enseada escondida entre os rochedos.

Senar lembrou que na infância o proibiam de ir até lá. Era muito perigoso, diziam. Enfiaram-se a duras penas numa fenda na rocha, que logo se alargou formando uma gruta iluminada com velas.

— Aqui ninguém poderá nos incomodar — disse ela.

Senar olhou em volta. A gruta parecia um lugar habitado. No meio havia uma tosca mesa cheia de copos e garrafas de Tubarão, enquanto nas paredes abriam-se corredores que presumivelmente levavam a outros aposentos.

— Sente-se.

Senar obedeceu sem dar um pio, de olhos fixos nela.

Então, finalmente, a mulher desatou a capa e deixou-a cair para trás com gesto teatral.

Aparentava estar mais perto dos trinta do que dos vinte. Tinha longos cabelos pretos e lisos que lhe chegavam à cintura, quadris sinuosos e um peito macio, apertado numa espécie de corpete de veludo. A não ser pelo generoso decote, estava vestida como um homem: calças de couro, botas e um punhal preso no cinto. Senar ficou de queixo caído.

— O que foi? Nunca viu uma mulher antes? — perguntou ela. Em seguida, sem tirar os olhos dele, desencostou uma cadeira da mesa e sentou-se de pernas cruzadas. Pegou então uma garrafa e encheu dois copos. Botou um na frente de Senar e esvaziou o outro como se fosse água.

— Então? Qual é o seu nome? Senar respondeu com um fio de voz.

— E o seu?

— Direi no fim desta nossa conversa. Se eu quiser, é claro. Vamos ver esse seu mapa.

Senar revistou os bolsos. Aquela mulher deixava-o confuso. Procurou nervosamente entre as suas coisas até que a mão dela roçou no seu flanco.

— Não será por acaso esse pedaço de papel? — disse com voz persuasiva.

Ele baixou os olhos.

— Desculpe, ando um tanto confuso. Sim, aqui está.

A mulher segurou o mapa e deu uma rápida olhada. Então jogou-o de volta na mesa.

— Já vi dúzias de mapas como esses. Não vai ajudar em nada.

— Como assim? — perguntou Senar na defensiva.

— O que estava pensando, meu rapaz? Que era o primeiro a tentar chegar ao Mundo Submerso? — escarneceu ela. — Faz idéia de quantas pessoas já tentaram antes de você? Há muitos mapas circulando por aí: vagas garatujas, rotas traçadas com o machado. E todos juram que o deles é o certo. Porém, o mais engraçado é que, quando chega a hora, ninguém tem realmente coragem de partir. Os poucos que o fizeram, nesta altura já foram digeridos pelos peixes.

 

Senar engoliu o seu Tubarão, pegou de volta o pergaminho e criou coragem.

— Pode ser, mas eu estou lhe dizendo que este é o mapa que indica a verdadeira rota para o Mundo Submerso — disse. Esforçou-se para olhar diretamente para ela. Era bonita de tirar o fôlego.

A mulher respondeu com um olhar cheio de sarcasmo.

— Claro! Deixe-me adivinhar. Você comprou de um mercador que lhe assegurou ter ido lá pelo menos uma vez por ano na última década.

Senar tomou mais um gole de Tubarão.

— Nada de mercadores. Não sei como acabou lá, mas encontrei-o esquecido sob um monte de outros papéis na Biblioteca Real de Makrat. Estava preso a um pergaminho que mostrava o selo da Terra da Água. Um documento, em outras palavras, que certificava se tratar de uma cópia do mapa usado na tentativa de invasão por parte do exército do Mundo Emerso.

— E daí? Pelo que realmente sabemos, aquela tentativa pode até nunca ter acontecido — rebateu ela com ar de desafio.

Senar sacudiu a cabeça.

— Mas aconteceu. Não tenho a menor dúvida quanto a isto. Logo em seguida, um embaixador do Mundo Submerso apresentou-se ao Conselho do Rei e intimou que não ousassem nunca mais se aproximar do reino deles, pois do contrário acabariam sofrendo terríveis catástrofes. Todos os anais históricos que consultei relatam o fato, e sempre da mesma forma. Se os invasores chegaram lá, quer dizer que o mapa original é correto. E uma vez que este aqui é uma cópia fiel, também deve indicar com exatidão a localização do Mundo Submerso. — Falou isto tudo de uma só vez, sem tomar fôlego. Recostou-se então no espaldar da cadeira, com ar satisfeito.

A mulher levantou os olhos para o céu.

— E daí? — bufou. — Mesmo admitindo que seja verdadeiro, o mapa é incompreensível, não dá para entender coisa alguma.

Senar não se deu por vencido.

— Eu o estudei por um bom tempo. Diga-me o que você não entendeu.

Encostou a cadeira na de Senar e aproximou-se o bastante para roçar nos ombros dele. Indicou alguns pontos no mapa.

— Estes confins não se parecem com nenhuma costa que eu conheça. Aqui há uma mancha indefinida. Estas ilhas não existem. E além do mais, o que vem a ser este rabisco?

Senar não conseguia raciocinar direito. A proximidade daquela mulher confundia-o e só o contato com aquele ombro dava-lhe um arrepio ao longo da coluna. Afastou levemente a cadeira.

— A costa é a parte ocidental da Terra do Mar, reconheci-a comparando-a com outros mapas. A mancha é uma ilha desconhecida, enquanto o arquipélago que está vendo é o de Ooren, as Ilhas Invernais. O que você chamou de “rabisco” é a entrada do Mundo Submerso. — Hesitou. — Trata-se de um remoinho, para sermos precisos.

A mulher deu uma gargalhada.

— Você deve estar louco! Acha mesmo que vou jogar o meu navio dentro de um remoinho?

— Nada disso. Só precisa chegar perto e deixar-me num bote. Eu entrarei no remoinho e você poderá voltar para casa com um milhão de dinares no bolso — disse Senar, antes de engolir o último trago de Tubarão.

A mulher fitou-o. Em seus olhos negros brilhava um lampejo de ironia.

— Vai pagar um milhão para cometer suicídio, em resumo. Muito original. Não achou mais fácil enforcar-se numa árvore?

Senar voltou a dobrar o mapa e guardou-o sem mais uma palavra. Está certa. É realmente um suicídio.

Só por curiosidade, por que quer fazer isto? — perguntou ela. Senar achou mais prudente não contar a verdade. Deu explicações vagas.

— Sou um mago. Tenho uma missão a cumprir, lá no fundo. A mulher calou-se por alguns instantes. Então levantou-se da cadeira e apoiou-se na mesa.

— Partiremos amanhã à noite. O navio estará esperando na enseada depois deste promontório.

Senar também levantou-se, incrédulo. Está feito! Ofereceu a mão.

— O meu nome é Senar. Acredito que agora você também pode dizer o seu, você não acha?

Ela sorriu e fitou-o fixamente nos olhos.

— O meu nome custa um milhão de dinares.

 

                                           PIRATAS

Era uma noite sem lua. Uma noite perfeita para zarpar às escondidas. Enquanto seus passos afundavam na areia fofa da praia escura, Senar percebeu que à ansiedade da partida juntava-se outra sensação: o desejo de ver novamente aqueles extraordinários olhos negros.

Passara o dia inteiro sem conseguir tirar a mulher misteriosa da cabeça. Quando a viu ao longe, o seu coração teve um estremecimento. Raios, Senar! Que tal tentar acalmar-se?

Ela estava esperando diante da entrada da caverna. Levantou a lanterna e iluminou em cheio o rosto do mago ofuscando-o.

— Podemos ir.

Encaminharam-se rumo à pequena enseada onde o navio estava ancorado. No escuro, Senar não conseguiu ver quase nada. Devia tratar-se de um barco veloz, pois o casco era longo e delgado, e podia fender facilmente a água com sua proa pontuda e decorada com alguma coisa que não dava para distinguir: uma figura vagamente humana com a boca cheia de dentes salientes.

— Sabe nadar? — perguntou a mulher. Senar fitou-a perplexo.

— Nadar?

Mas ela já mergulhara no mar e avançava com grandes braçadas rumo à embarcação.

Senar ficou na praia, atônito. Tudo bem, se tiver de ser assim... Logo a seguir apareceu no mar uma trilha luminosa que chegava até a amurada do navio.

Senar caminhou em cima dela com ar triunfante, até alcançar a mulher.

— Um tanto fria a água, não acha? Quer acompanhar-me? Ela dirigiu-lhe um olhar desdenhoso.

— Vemo-nos a bordo.

Senar alcançou o navio com alguma dificuldade. Quando só faltavam umas poucas braças para chegar lá, a trilha luminosa começara a dar sinais de instabilidade e ele precisou de uma notável concentração para levar a bom termo o passeio sobre as ondas. Para qualquer leigo poderia parecer coisa fácil, mas na verdade tratava-se de uma magia bastante difícil e trabalhosa.

A mulher estava parada no convés, envolvida em sua manta. Quando viu que Senar estava ofegante, dirigiu-lhe mais um sorriso de escárnio. Será possível que leve sempre a melhor?, o mago pensou com raiva.

Ao lado dela havia um velho imponente, de ar altivo, os cabelos grisalhos presos numa trança e dois olhos flamejantes.

— Quer dizer que você é o louco — apostrofou-o.

No silêncio da noite ecoaram as risadas zombeteiras do resto da tripulação. Senar olhou a sua volta. Estava cercado por um colorido mostruário da escória do mundo. Pensou se não estaria mais seguro sozinho que nas mãos daquele pessoal.

— A minha filha Aires não me disse que você era um rapazola. Senar pigarreou e ofereceu a mão.

— Muito prazer, capitão. O meu nome é Senar e...

— Primeiro o dinheiro — cortou logo o velho com voz ameaçadora — e só depois os cumprimentos.

Senar tirou do alforje um volumoso pacote.

— Está tudo aí, pode contar à vontade.

— Nem precisava dizer — disse o comandante, dando uma ruidosa risada e dirigindo-se à ponte de comando. — Fiquem de olho nele, rapazes.

Senar aproveitou para examinar o Demônio Negro. Parecia bem cuidado e, a julgar pelo cheiro acre, dir-se-ia que havia sido recentemente pintado. O convés era longo e espaçoso e o castelo de popa combinava com as linhas leves do casco. As três velas eram vermelhas, uma cor bastante insólita. Senar não conseguiu ver mais do que isso. Os membros da tripulação não eram muitos e não tinham o aspecto das pessoas da Terra do Mar. Também havia um gnomo e um duende. E um rapaz loiro e incrivelmente bronzeado que, depois de ficar olhando para ele com insistência, aproximou-se. Por um momento, Senar receou que quisesse fazer-lhe algum mal.

— Escute, como foi que você fez aquela brincadeira na água, agora há pouco?

Senar respirou aliviado.

— Foi um encantamento. Sou um mago.

— E o que é que um mago vai fazer no Mundo Submerso? —perguntou o outro, mas não houve tempo para respostas. O capitão estava de volta.

— Ao que parece o dinheiro deste pilantra está todo aqui e é do bom. Bem-vindo a bordo do meu navio, garoto. Eu sou Rool, o capitão, e por enquanto não precisa saber mais do que isso. Irá conhecer os outros durante a travessia.

Senar começou a sentir-se mais descontraído.

— Onde posso guardar as minhas coisas?

— E precisa perguntar? No porão, é óbvio. Vamos lá, rapazes, estamos de partida! — gritou Rool.

Já se esquecera do seu passageiro, que ficou meio abobalhado no meio do convés, enquanto os marujos animavam-se e tomavam seus lugares.

Senar deteve Aires segurando-a pelo braço.

— Um milhão de dinares e me jogam no porão?

Aires agarrou a mão que a apertava, torceu o braço de Senar e pregou-o nas suas costas.

— Esta não é uma viagem de prazer — ciciou-lhe ao ouvido, então soltou-o. — O seu dinheiro paga os nossos riscos, não um lugar a bordo. Estava pensando o quê, que ia dormir na minha cabine?

Senar massageou o pulso dolorido. Aires fitou-o com escárnio.

— De qualquer maneira não temos cabines livres. O único lugar disponível é o porão. Se quiser partir, é bom que se acostume logo com a idéia.

Senar lançou-lhe um olhar furioso. Aquele demônio de mulher tinha razão.

Logo que desceu a escada, Senar percebeu um corre-corre de patinhas sobre as tábuas do soalho. Tudo indicava que a classe econômica já estava ocupada. Num canto havia uma espécie de grande caixa com um colchão. Deitou-se conformado naquela cama improvisada, puxou o lençol até os olhos e procurou dormir.

Finalmente o navio mexeu-se. Senar percebia as ondas que batiam com ritmo constante contra os flancos do veleiro. Esperava que aquele som o ajudasse a adormecer, mas estava errado. O enjôo foi aumentando lentamente, até ele passar de fato muito mal. Fechar os olhos só piorou a situação. Havia horas em que tinha a impressão de cair para trás, outras em que tinha certeza de estar de cabeça para baixo. Entre ratos e enjôo foi uma das noites mais penosas da sua vida.

Não demorou muito para Senar perceber que havia coisas bem mais graves com que se preocupar. Estava claro que aquele era um navio pirata. Agora que tinham o seu dinheiro, o que impediria aquela gentalha de matá-lo e jogá-lo ao mar?

Começou a olhar em volta assustado. Via por toda parte olhares assassinos e parecia-lhe que cada membro da tripulação estava a ponto de agredi-lo.

Acabou ficando trancado no porão a maior parte do tempo, cercado pelos livros que levara consigo e que acreditava pudessem ser úteis depois de chegar ao Mundo Submerso. Entre uma leitura e outra, tinha tempo de pensar no que havia deixado para trás na terra firme. Também pensava em Nihal. Fantasiava voltar da missão, vê-la de novo, encontrá-la mudada. Podia rever seus olhos, seu sorriso. Então meneava a cabeça e apalpava a cicatriz na face. Tinha sido Nihal a marcá-lo no rosto, num momento de raiva, no dia do último encontro. Um presente de adeus.

Certa noite os receios de Senar concretizaram-se, da pior forma possível.

Fora deitar cedo, como sempre. Jantava com a tripulação, mas esgueirava-se logo a seguir e não demorava a ir para cama depois de os últimos raios do sol se apagarem por cima do mar. Não confiava nos companheiros de viagem e limitava-se a cochilar longamente até nenhum barulho chegar mais do convés. Naquela noite, no entanto, o barco avançava tranqüilo no mar calmo e Senar adormecera mais cedo.

Os passos furtivos na escada confundiram-se com o bater da água. Os rangidos da madeira perderam-se entre as Correrias dos ratos.

Não houve qualquer ruído quando o punhal saiu da bainha.

A lâmina faiscou na fraca luz da lamparina.

Foi aí que Senar acordou de repente. Estava acostumado a dormir nos campos de batalha e os seus sentidos haviam se tornado vigilantes. Só viu um lampejo e um sorriso de escárnio bem perto do seu rosto. Virou-se rápido e pulou fora da cama. A lâmina afundou no travesseiro.

O pirata não teve tempo de tentar um novo ataque. De repente o punhal ficou em brasas entre as suas mãos e ele foi forçado a deixá-lo cair com um grito de dor.

Senar estava de pé ao lado da escada. Estava de olhos fechados e recitava uma lenta ladainha.

— Coisa do diabo... — murmurou o homem entre os dentes, mas não conseguiu terminar a frase. Tombou no chão, mudo e rijo como um arenque defumado e começou a rodar os olhos apavorados.

O mago entreabriu as pálpebras, retomou fôlego, procurou controlar o tremor das mãos. Tinha ficado com medo, não havia como negar, mas também estava furioso.

— Todos aqui! — berrou a plenos pulmões. — Todos aqui!

Rostos sonolentos apareceram na escotilha. Aires desceu a escada, descalça, enrolada numa camisola branca que não deixava muita margem à imaginação. Deu uma olhada no pirata deitado no chão e ele respondeu com um olhar súplice.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou ameaçadora. Senar não se deixou intimidar.

— Nada de mais, a não ser o fato de vocês terem me subestimado.

— Seja o que for que você fez com ele, liberte-o logo — sibilou a mulher entre os dentes.

— Calma, Aires. Quero antes esclarecer uma coisa. Ponto número um: se vocês achavam que tinham encontrado um frango para depenar, estavam redondamente errados. Ponto número dois — Senar apontou para o pirata imobilizado —, isto é o que acontece com quem decide fazer-me algum mal. E saibam que desta vez fui clemente.

O silêncio tomou conta do porão. Aires manteve-se no seu lugar, com uma expressão indecifrável. Em seguida os seus lábios torceram-se num sorriso sardônico.

— Quer dizer que o nosso mago é isso, que a sua aparência pacata escondia unhas afiadas! — Aproximou-se de Senar e encostou a boca no seu ouvido. — Vamos fazer um trato. Eu mantenho sob controle as intemperanças dos meus homens, mas se você se atrever a machucar de novo um deles vou fazer com que se arrependa pessoalmente.

— De acordo — murmurou o mago, suando frio.

Aires virou-se para os homens apinhados em cima da escada.

— O espetáculo acabou, minha gente. Vamos voltar para a cama. — Subiu então de novo ao convés com toda a calma e desapareceu.

Mais uma vez sozinho no porão, Senar respirou aliviado. Então lembrou-se do pirata espichado no chão. Bufou, pronunciou uma breve fórmula e desfez o encanto.

O homem saiu correndo escada acima sem nem mesmo virar-se para trás.

No dia seguinte, Senar foi recebido no convés com olhares nos quais se misturavam temor e admiração. O “espetáculo”, como Aires o chamara, tinha surtido efeito. Ninguém se atreveu a invadir novamente o porão e o mago, embora mantendo-se isolado, começou a aproveitar a viagem.

O navio era lindo, de uma madeira escura que Senar não conhecia e que lhe conferia um ar ao mesmo tempo ameaçador e majestoso. A cor ressaltava as velas cor de sangue que se pavoneavam ao vento. O casco afunilado não media mais de umas trinta braças da popa à proa e a amurada não era muito alta. Era uma embarcação feita para voar em cima das ondas e cair sobre as presas sem dar-lhes tempo de fugir. Sem contar o capitão e a formosa Aires, os marujos deviam ser mais ou menos vinte.

A figura da proa que vislumbrara na noite do embarque era um demônio: o busto partia da estrutura de madeira e fundia-se com ela como se fosse uma coisa só com o próprio casco. O torso esculpido tinha um pescoço taurino que sustentava uma cabeça monstruosa; no lugar dos cabelos tinha uma maranha de serpentes retorcidas e a boca escancarada mostrava dentes que mais pareciam punhais. Quando o veleiro corria rápido sobre as ondas, parecia até que aquela carranca se divertia a escarnecer o oceano com aquele sorriso monstruoso. Senar não sabia muita coisa sobre barcos, mas achava magnífico aquele navio.

Todas as manhãs o mago via o capitão de pé na proa, aproveitando a brisa e contemplando a sua criatura, que deslizava na água como uma pluma. Sentia-se fascinado por aquele homem. O resto da tripulação tinha algo que o atraía.

O primeiro com quem fez amizade foi o rapaz loiro. Chamava-se Dodi, o grumete do barco. Tinha quinze anos e havia embarcado quando estava com dez. Era filho ilegítimo de um dos marujos; o pai não quisera saber dele, mas, quando a mãe morreu, decidiu levá-lo consigo para o mar.

Uma vez que Senar não conseguia acostumar-se com o movimento do barco e continuava a ficar enjoado, Dodi elegera a si mesmo como seu curandeiro.

— Acontecia o mesmo comigo, no começo. Mas não se preocupe: um bom arenque curtido no sal e você vai ficar como novo.

O mago, entretanto, revelou-se refratário a qualquer tipo de remédio. Bolachas de marujo, pão dormido, manjubas, carne-de-sol: nada conseguia aplacar o enjôo.

Certa tarde Dodi desistiu.

— Pelos deuses do oceano! Nada funciona com você. E afinal de contas, sendo um mago, por que não se cura sozinho?

Senar só mexeu a cabeça o mínimo indispensável para olhar para o outro enviesado. A dor de cabeça não lhe permitia mais do que aquilo.

— Acha que se pudesse não faria? Dodi esbugalhou os olhos.

— Deixe-me entender direito: quer dizer que um mago não pode resolver um problema tão simples?

Mesmo a contragosto, Senar foi forçado a continuar a conversa.

— Não estou dizendo que eu não sou capaz. E um pouco mais complicado do que isto. Usar a magia custa muita energia. — Senar mal conseguiu reprimir a vontade de vomitar e amaldiçoou as ondas do mar, todas elas. — Se você fizer um encanto quando está bem e descansado, o máximo que pode acontecer é ficar esgotado. Mais ou menos como depois de uma corrida, está entendendo?

— Ou depois de lavar o convés de cabo a rabo — brincou o grumete.

— Isso mesmo. — Senar sorriu e fez outra pausa tentando acalmar as ânsias do estômago. — Mas se estiver doente, a magia só vai fazer com que se sinta pior. Na melhor das hipóteses, pode tentar fechar uma ferida já quase sarada, porém mais do que isto é impossível. Em outras palavras, como mago, neste momento, estou fora de combate.

— Pensei que fossem mais rijos, os magos. Senar sacudiu a cabeça.

— Ora essa, os guerreiros também se cansam depois de uma longa luta, não é verdade? E os magos se cansam depois de muita magia. E além do mais depende dos encantamentos. A levitação é muito cansativa, mas poderia manter aceso um pequeno fogo durante a noite inteira, e na manhã seguinte só estaria um pouco ofegante. Obviamente, quanto mais o mago é bom e poderoso, menos facilmente esgotam-se as suas energias, mas todos temos limites. As magias mais complexas requerem um esforço enorme e até os magos mais... — Senar parou de repente e fechou os olhos. Mais uma palavra e iria vomitar o pouco que conseguira engolir.

— Mago... você ainda está aí? — perguntou Dodi.

— Estou sim. Vai passar.

— Mas quanto ao resto — insistiu o rapazola —, esquecendo o cansaço, podem fazer o que bem entendem, não é?

— Não exatamente. Conhece a diferença entre a magia do Conselho e a do Tirano?

Dodi acenou que não com a cabeça.

— A magia do Conselho, que é a única permitida, baseia-se na capacidade de dobrar a natureza à própria vontade. Por isto os magos são sábios: precisam conhecer as leis do mundo para poder harmonizar-se com elas e dirigi-las com seus encantamentos. Um mago não subverte a natureza, guia-a para os próprios fins. É uma arte bastante complexa.

— O que não se pode fazer, por exemplo? — perguntou Dodi com interesse.

Senar ficou pensando. O enjôo também atrapalhava o seu raciocínio.

— Não posso criar as coisas do nada, nem modificar a essência de uma criatura, como, digamos assim, transformar um porco numa ave. No máximo posso transfigurá-lo, fazer com que assuma a aparência de um pássaro. Não posso forçar os elementos: nada de chuva se for época da seca ou de sol de verão durante o inverno. Mas posso prolongar a chuva por algum tempo, reforçar a intensidade do vento e assim por diante.

— E o cara que você pregou no chão na outra noite? Não me parece uma coisa assim tão natural...

— Estava tentando agredir-me e virei contra ele a sua própria violência. Nada mais do que isto.

Dodi tinha uma expressão compenetrada.

— É meio complicado.

— Claro. É por isto que nem todos são magos — explicou Senar. — E o mais importante: não posso usar a magia para matar. Tirar a vida é a subversão máxima das leis da natureza. Tanto assim que muitas das Fórmulas Obscuras do Tirano baseiam-se justamente nisto. E é por este motivo que são proibidas.

— Explique melhor. Isso me interessa — disse Dodi. Senar lançou-lhe um olhar sério.

— Mas não deveria. A magia do Tirano tem como única finalidade o transtorno das leis naturais. Olhe os fâmins, por exemplo. São criaturas nascidas da união de várias espécies diferentes, forçadas a se juntarem através de um feitiço proibido: seres sanguinários dedicados à matança. As fórmulas proibidas sempre trazem consigo morte e destruição, não se pode violar impunemente a ordem das coisas. E além do mais, o mago que as pronuncia para evocar encantos o tempo todo acaba corrompendo o próprio espírito e traz o mal ao mundo.

Dodi parecia impressionado.

— E como é que você ficou sabendo disso tudo? — perguntou depois de algum tempo. — Quer dizer, o Conselho, o Tirano... o que eles têm a ver com você?

— Nada, absolutamente nada. Acontece que eu estudei, só isto — apressou-se a dizer Senar para cortar a conversa.

O grumete ficou mais alguns momentos calado.

— De qualquer maneira está me devendo cinco dinares, mago.

— Cinco dinares? E por quê?

Dodi abriu-se num rutilante sorriso.

— Porque de tanto falar você acabou esquecendo o enjôo! Senar caiu na gargalhada e deu-lhe um cascudo.

Dodi era um incansável tagarela e Senar gostava de ouvir; não demorou muito para conhecer a história de cada pirata da tripulação. Alguns haviam embarcado para fugir de uma condenação à morte, outros por espírito de aventura, mais outros ainda porque tinham perdido todo o dinheiro no jogo. Aquele navio era um verdadeiro mundo de histórias e anedotas.

O maior interesse de Senar era pelo capitão. Em volta dele e do seu passado havia um halo de mistério. Dodi relatou versões contraditórias, todas cheias de toques lendários: uns afirmavam que tinha nascido no mar e que estava singrando os oceanos desde sempre, outros contavam que embarcara devido a uma decepção amorosa, mais outros juravam que tinha deixado para trás a terra firme enojado com os seus similares.

A única capaz de revelar a verdade era Aires, mas aquela mulher era ainda mais incomunicável do que o pai. De manhã circulava pelo convés só vestindo um leve roupão que a cada passo deixava à mostra as longas pernas. Quando topava com o mago, dirigia-lhe um dos seus costumeiros sorrisos ao mesmo tempo maliciosos e irônicos, e ele não entendia mais coisa alguma. Nunca conhecera uma mulher como ela: era a personificação da sensualidade, e mesmo assim era tão forte quanto um homem. De alguma forma lembrava-lhe Nihal. Mas se Nihal ainda era um fruto verde, Aires já era madura e segura de si.

Velejaram muitos dias bordejando ao longo da costa. Senar não entendia o motivo, mas preferiu não fazer perguntas.

Certa manhã, no entanto, ao sair do porão reparou numa insólita agitação a bordo. Antes mesmo de formular alguma pergunta acerca daquele alvoroço, viu Aires chegar numa espécie de uniforme de gala. Jaqueta de veludo cor de amaranto, longas botas sobre calças justas e cinturão tacheado no qual estava presa uma espada.

Quando chegou perto, deu-lhe um tapinha no rosto.

— Pronto para reabastecer? — perguntou com o costumeiro sorriso.

O mago corou mas procurou manter as aparências.

— Claro, devo dizer, aliás, que já estava com saudade da terra firme.

Aires deu uma gargalhada.

— Terra firme! Essa é boa — disse e se afastou.

O barco a ser assaltado havia sido avistado ao alvorecer, mas era provável que a navegação perto da costa dos últimos dias tivesse sido escolhida justamente no sentido de interceptá-lo. Depois do reconhecimento, o navio pirata virara bruscamente para o mar aberto, de forma a poder cair em cima da presa pelas costas, confiando na velocidade do ataque e na surpresa.

Senar não gostava nem um pouco daquela história. Acabava de deixar para trás os campos de batalha e, de combates, estava farto até demais. Mas havia outro motivo para ele estar preocupado: o que iria acontecer se alguém do outro navio o reconhecesse como membro do Conselho dos Magos? Desceu ao porão e entregou-se à leitura, tentando não pensar naquilo que estava a ponto de acontecer.

A sua tranqüilidade teve curta duração. O navio inverteu a rota de repente e ele foi jogado longe do saco onde sentara para ler. O ataque havia começado. Ouviu os passos dos piratas martelando o convés, aí gritos de excitação e clangor de armas. Tapou os ouvidos. Não tenho nada a ver com isto, repetiu a si mesmo, não posso me meter, mas não conseguiu resistir muito tempo. Não podia deixar que os piratas assaltassem um navio bem na cara dele. Afinal de contas, era um conselheiro.

O barco pirata deslizava sobre as ondas, as velas vermelhas desfraldadas, e devorava uma milha marinha após a outra. Rool dominava a cena na proa.

Quando viu Senar precipitar-se no convés, recebeu-o com uma violenta palmada no ombro.

— Ótimo, chegaram os reforços! — exclamou rindo.

— Preciso falar com o senhor, capitão — disse Senar decidido.

— Que tal em outra hora, está bem? Senar manteve a calma.

— Peço que inverta a direção imediatamente.

— Nem pense nisso — respondeu Rool sem pestanejar. O mago insistiu.

— Não quero derramamentos de sangue enquanto eu estiver a bordo.

— Ouviram? Ele não quer derramamentos de sangue! — gritou Rool à tripulação. Em seguida fitou Senar com olhar gélido. — Se não tiver estômago para isto, volte ao seu porão.

— Capitão, estou pedindo pela última vez...

Não teve tempo de acabar a frase. Aires agarrou-o pela túnica e forçou-o a debruçar-se na amurada. Senar viu o mar correr rápido embaixo da quilha enquanto o barco voava sobre as ondas como uma gaivota.

— Preste atenção, garoto. Estamos precisando de mantimentos. Com a despensa vazia não podemos ir a lugar nenhum. Será que está entendendo a situação agora?

Céu e mar confundiram-se na corrida. De repente o outro navio ficou muito próximo.

— Todos aos seus lugares! — ordenou Rool. — Prontos para a abordagem!

Quando os rostros cravaram-se na presa, Senar caiu para a frente. O contragolpe empurrou-o para trás, fazendo-o cair de costas no convés. Levantou-se bem na hora de ver Aires, que avançava rápida de espada na mão, incitando os demais a segui-la.

O mago acompanhou a corrida dela com o olhar e ficou ofuscado pelas espadas levantadas que brilhavam nos raios do sol. Então pôde ver a tripulação do outro barco: todos homens e todos armados.

Por um instante foi como se o tempo tivesse parado. Carrancas ameaçadoras de um lado e do outro, espadas firmes nas mãos, músculos tensos antes do pulo. E finalmente, de repente, um barulho ensurdecedor; berros, clangor de armas e o faiscar de dúzias de lâminas que se cruzavam.

Senar ficou parado onde estava. Aquela não era uma simples abordagem, era um acerto de contas entre piratas. Tinham atacado outro navio de bucaneiros.

Só levou alguns minutos para o convés tornar-se escorregadio devido ao sangue, muitos corpos tombaram, outros foram jogados além da amurada.

Senar ficou com nojo daquilo e decidiu que já tinha visto demais. Pôs-se novamente a caminho do porão, furioso, e foi sentar-se num canto, longe da batalha. E um acerto de contas entre assassinos, você não tem nada a ver, repetia a si mesmo. Mas lá de cima continuavam a chegar gritos, gemidos e os lúgubres baques dos corpos que tombavam. Senar comprimiu os ouvidos com as mãos.

O embate não durou mais de meia hora.

Quando as passadas no convés se tornaram menos frenéticas e os gritos se calaram por completo, Senar, ainda com raiva, atreveu-se a subir.

Só dois ou três homens da tripulação haviam ficado seriamente feridos e, se não fosse pelas manchas de sangue no soalho, ninguém diria que agora há pouco aquele fora o cenário de um violento combate. Evidentemente, os corpos dos caídos já estavam todos no fundo do oceano.

Diante dos olhos satisfeitos de Aires, alguns piratas vinham carregando nos ombros pesadas arcas, caixas, cântaros e barris, que descarregavam no convés.

Quando todos os despojos foram carregados e chegou a hora de partir, a mulher aproximou-se de Senar.

— Chocado?

O mago não respondeu.

Ela sorriu quase com desprezo.

— Eu já imaginava. Nunca tinha visto matar alguém, não é, gracinha de menino?

Senar sentiu o sangue subir à sua cabeça.

— Já vi matanças até demais, acredite em mim — respondeu com voz dura.

Aires deu de ombros, aí virou-se para os seus homens.

— A peça mais importante já está a bordo? Aproximaram-se dois homens que carregavam mais outro; não se agüentava de pé, e a barba e os cabelos longos cobriam o seu rosto.

Aires chegou-se a ele sorrindo.

— Seja bem-vindo, meu amor.

Quando o beijou, a tripulação inteira soltou um grito de triunfo.

 

                           UM PRODÍGIO

Nihal e Ido estavam na arena, como quase sempre acontecia de manhã cedo. Constituíam um espetáculo pelo menos insólito para a base onde viviam: ela, aprendiz de Cavaleiro de Dragão, era a única mulher do acampamento, aliás, de todo o exército das Terras livres; ele, seu mestre, era o único gnomo que conseguira tornar-se Cavaleiro de Dragão. Por isto mesmo não eram poucos os que iam assistir aos embates matinais entre os dois. E além do mais, olhar para eles era um verdadeiro prazer. Fraseavam com as lâminas, teciam desafios que pareciam danças, alternavam amplos movimentos com ataques repentinos, frenéticos. E Nihal, por sua vez, era um show à parte apesar de ser um guerreiro assustador e de esconder suas formas sob as roupas militares: longas pernas bem torneadas, um abdome esculpido pelos anos de treinamento, um peito generoso e bem desenhado. E isso sem mencionar os exóticos cabelos azuis e os profundos olhos violeta, típicos da sua estirpe. Eram muitos os que se sentiam atraídos por ela, mas era uma presa totalmente fora de alcance: Nihal não era nem um pouco sociável e não demonstrava o menor interesse pelos assuntos sentimentais.

Naquela manhã o público era pequeno, talvez porque o ar estivesse realmente gelado e houvesse ameaça de chuva. Nihal e Ido não se deixavam desencorajar por tão pouco; como de costume, entregavam-se à luta de corpo e alma e enfrentavam-se sem um único momento de pausa. O soldado teve de chamá-los várias vezes antes que os dois baixassem finalmente as espadas.

— Estão sendo esperados por Nelgar, ambos, e agora mesmo.

Nihal voltou para o seu alojamento surpresa. Não acontecia todos os dias estar com o chefe do acampamento em pessoa. Não que fosse um tipo tirânico e ameaçador. Baixote e de compleição robusta, parecia mais um pacífico taberneiro do que o comandante de uma das maiores bases das Terras livres. E tampouco era do tipo maníaco por patentes e disciplina a todo custo, mas sabia sem dúvida alguma comandar e era admirado e respeitado pelos seus homens.

Nihal entrou na barraca de Nelgar um tanto tímida, Ido foi logo sentar-se sem cerimônias na cadeira mais próxima.

— Fique à vontade, minha jovem — disse Nelgar com simplicidade. — Mandei chamá-la porque tenho uma missão para você.

O coração de Nihal disparou. Nunca lhe havia sido confiada uma missão antes. Até aquele dia sempre havia agido ao lado de Ido.

— Terá de levar uma mensagem do outro lado da fronteira, para um acampamento na Terra do Mar. Precisamos de reforços para um ataque. Levará o nosso pedido e voltará com a resposta.

Só isto?, pensou Nihal decepcionada.

Nelgar explicou os detalhes e entregou-lhe um mapa para orientar-se na floresta.

— Partirá amanhã. Pode ir.

Nihal despediu-se com uma mesura, acompanhada por Ido.

— O que é isto? Fui rebaixada? De aprendiz de Cavaleiro para mero ordenança? — perguntou amuada ao seu mestre. — Acho que para um trabalho destes qualquer escudeiro já bastaria.

— Eu mesmo propus o seu nome — respondeu Ido com calma.

— Muito obrigada. Já não via a hora de dar um passeio pelo bosque.

— Não subestime as dificuldades. E de qualquer maneira, chegou a hora de começar a trabalhar sozinha. O adestramento está indo bem, pode ser que até o fim do ano já se torne Cavaleiro.

Nihal virou-se de chofre. Seus olhos brilhavam. Ido não perdeu a fleuma.

— Até agora ficou grudada em mim como um pintinho na mãe, mas agora terá de contar apenas com as suas forças. A missão em si não é complicada, mas terá de se mexer ao longo de fronteiras nem um pouco seguras. Será um ótimo treinamento.

Nihal sempre lutara no campo de batalha, nunca tinha tido nada a ver com guerrilha. Na pior das hipóteses, pensou, seria uma experiência nova.

— E além do mais já faz muito tempo que vive enfurnada na Terra do Sol. Um pouco de ar marinho vai lhe fazer bem — concluiu o gnomo.

— Ar marinho? Mas o acampamento não fica no interior?

— Você vai ver... — disse Ido sorrindo. — Você vai ver.

Nihal deixou a base com os primeiros raios do alvorecer. Nada de Oarf naquela viagem: a missão exigia algum segredo e um dragão não era certamente algo que poderia passar despercebido. De forma que montou o cavalo e partiu sem muito entusiasmo.

Houvera um tempo, antes de Salazar ser destruída, em que ela até gostava de viajar. Lembrava a excitação de quando, menina, acompanhava Livon nas suas rondas de compras. E também se lembrava de como tinha gostado de cavalgar com Soana e Senar rumo à Terra da Água, onde o amigo iria receber a investidura de mago. Era a primeira vez que Nihal saía da Terra do Vento e a viagem pareceu-lhe cheia de maravilhas. Tinha a impressão de já se terem passado séculos, desde então.

Se pelo menos Senar estivesse com ela. Era tão bom conversar com ele perto da fogueira, olhar as estrelas e falar de tudo e nada. Onde ele estará agora?

Talvez fosse agradável viajar com Ido também. Mas assim, sozinha, sentia-se indefesa contra os fantasmas do passado. Afastou-se da base de péssimo humor.

A Terra do Sol e a Terra do Mar partilhavam uma única grande selva, a mais extensa de todo o Mundo Emerso: a Floresta Interna.

Quando, depois de dois dias de viagem, Nihal atravessou a fronteira, a paisagem continuou sendo exatamente a mesma. A mata continuava densa e emaranhada, mas o cheiro da maresia chegava até ali.

Nihal nunca tinha visto o mar. Aquele perfume deu-lhe vontade de ir até a costa. Voltou a lembrar os relatos de Senar acerca da sua Terra. O Mar Pequeno, não muito longe da Terra da Água. O Farol de Dessa, extrema ramificação do Mundo Emerso. A imensidão do oceano. E talvez ainda mais longe o Mundo Submerso. Experimentou uma pontada de saudade.

Durante o percurso, principalmente à noite, não se sentia muito tranqüila. A fronteira com a Grande Terra, reino incontestável do Tirano, não estava longe e os bosques pululavam de espiões. Tratava-se principalmente de homens, pois os fâmins não eram certamente apropriados para trabalhos tão delicados. Eles tinham mais pendor para os massacres: longos membros poderosos, ótimos para esmigalhar, mãos e pés couraçados com garras afiadas para estraçalhar a vítima, carrancas pavorosas com bocas hirtas de dentes para morder e arrancar a carne. Atarracados e totalmente cobertos por uma nojenta penugem avermelhada e crespa, só sabiam inspirar terror.

O Tirano preferia encarregar homens e gnomos de controlar os confins da Grande Terra, para tentar descobrir eventuais estratégias de aproximação por parte do exército das Terras livres e matar qualquer um que invadisse os seus territórios. Nihal não os viu, mas teve várias vezes a sensação de estar sendo observada. Mesmo assim a viagem foi breve e solitária. No quarto dia Nihal já tinha chegado ao seu destino.

Os guardas ficaram surpresos quando viram aparecer uma mulher de cabelos azuis e orelhas pontudas, usando trajes de soldado.

— Sou um aprendiz de Cavaleiro — disse Nihal, ficando vermelha ao se apresentar. — Tenho uma mensagem para o superintendente.

O acampamento parecia-se com a base: uma ampla cidadela fortificada que além dos guerreiros hospedava mulheres e crianças. Dava a impressão, no entanto, de que por lá as coisas estivessem correndo melhor do que na Terra do Sol. A Terra do Mar tinha fronteiras seguras e só estava exposta a possíveis ataques pelo lado sul, onde surgia ameaçadora a Grande Terra. Os contornos escuros do Castelo do Tirano erguiam-se hostis por cima das árvores, maiores e mais terríveis do que qualquer coisa que Nihal já tinha visto antes.

A não ser por aquela ameaça sombria, no acampamento respirava-se uma atmosfera serena e havia fartura de mantimentos. O almoço foi abundante e gostoso. Nihal sentou-se à mesa comunitária, onde as crianças corriam alegres de um lado para outro e os homens brincavam com as suas mulheres. Quase parecia estar em tempo de paz. Nihal sorriu consigo mesma enquanto cortava um pedaço de carne. Quando levantou os olhos do prato, o garfo parou no ar.

Parsel havia sido o seu primeiro mestre de esgrima na Academia e, de certa forma, o seu único amigo durante meses. A ligação entre eles fora muito particular, feita de poucas palavras e longos combates.

Nihal gostou muito de voltar a vê-lo e ele a abraçou como teria feito com um velho companheiro de armas. Era um homem alto e bem plantado, de pele morena e olhos de um peculiar verde-acinzentado. Os cabelos curtos e pretos começavam a ficar brancos nas têmporas.

— O que está fazendo aqui? — perguntou Nihal.

— Estou de licença. Antes de tornar-me instrutor na Academia, quando ainda estava na ativa, vivia aqui. Volto para estas bandas toda vez que me é possível. — Parsel piscou o olho. — Só para não me esquecer do cheiro do campo de batalha. E você? Está parecendo em plena forma.

— Vou levando — eximiu-se ela.

— Precisamos festejar este encontro. O que me diz de um duelo como antigamente?

A jovem não se fez de rogada.

Para Nihal, aquele mergulho no passado foi inesperadamente agradável. Não esquecera a tristeza e a solidão do ano passado na Academia, mas mesmo ali acontecera alguma coisa boa. Parsel fazia com que se lembrasse disso a cada estocada. Foi tudo como antes, a não ser a habilidade do semi-elfo. Não demorou para Nihal conseguir impor-se sem maiores problemas.

— Você ficou realmente muito boa — disse Parsel enquanto enxugava o suor da testa.

— Devo isto a você também.

Passaram o resto do dia juntos. Parsel contou-lhe dos seus novos alunos e Nihal chegou a sentir um tiquinho de saudade. O tempo muda a aparência das coisas, até mesmo das lembranças.

— Adivinha quem encontrei um dia desses? — disse Parsel de repente. — Aquele seu companheiro na Academia, o loirinho... Laio, era assim que se chamava.

Um amontoado de recordações inesperadas atropelou Nihal. Laio, o garoto miúdo com cara de menino, o aluno mais fraco de toda a Academia. Haviam passado muito tempo juntos, e ele, que a idolatrava como se ela fosse uma heroína, havia sido o único verdadeiro amigo naqueles dias de solidão. Laio...

Nihal ficou interessada.

— E mesmo?

— Pois é, mora aqui, na floresta. Contou-me que desistiu da idéia de tornar-se um guerreiro. Não me pareceu estar muito bem.

Nihal tentou saber o máximo possível. Parsel, afinal, não sabia grande coisa. Pôde, de qualquer forma, explicar onde o havia encontrado.

Naquela noite, na barraca que lhe haviam destinado, Nihal não conseguiu pegar no sono. Não tinha mais notícias de Laio desde que os dois enfrentaram a primeira batalha. Desde a morte de Fen. De repente sentiu uma grande vontade de revê-lo.

Na manhã seguinte deram-lhe a resposta pela qual estavam esperando na base. Iriam participar do ataque com um contingente de trezentos homens. Quando Nihal já estava a ponto de partir, o superintendente avisou:

— Fique atenta. Fomos informados de movimentos de tropas ao longo da fronteira. Cuidado.

Nihal não deu muita importância àquelas palavras. Até então a viagem havia sido até tranqüila demais para o seu gosto.

No caminho de volta seguiu as indicações de Parsel e desviou para o norte. A mudança de percurso levou-a a entrar profundamente na Floresta Interna. Nihal sempre gostara dos bosques. A lembrança da sua iniciação à magia ainda estava viva na sua mente, e desde então gostava de manter-se em contato com a natureza.

Ao entardecer, o tempo piorou. Nihal ouviu o rumorejar surdo da trovoada que se aproximava e o céu foi rasgado pela luz imprevista de um relâmpago. Foi então que vislumbrou ao longe os contornos incertos de um casebre. Correspondia perfeitamente à descrição de Parsel: uma casa quase em ruínas, com o telhado de palha e as paredes enegrecidas pela fumaça. Nihal não podia imaginar, no entanto, que o lugar onde Laio vivia estivesse em condições tão lastimáveis. O telhado tinha desmoronado em vários lugares e parte da palha estava espalhada no chão, onde apodrecia; as janelas eram órbitas vazias, às quais uma vaga luminosidade só conseguia conferir um ar ainda mais sinistro. Alguém devia estar lá dentro.

Nihal desmontou do cavalo e aproximou-se da construção com cuidado. Continuava, afinal, muito perto da fronteira e não tinha certeza de aquela ser de fato a casa de Laio.

Chegou furtivamente perto da parede e desembainhou a espada devagar. As pedras estavam desconexas e em alguns pontos dava para espiar para dentro. Nihal pôde ver a luz difusa de uma lareira e alguém sentado de costas. Só conseguia ver direito a cabeça, loira e encaracolada. Sentiu um aperto no coração. Aproximou-se da porta e bateu.

— Quem está aí? — gritou do interior uma voz sobressaltada.

— Sou eu, Nihal — respondeu ela enquanto empurrava a porta.

Encolhido contra a parede havia um rapaz de aparência cansada e doentia, segurando uma espada meio enferrujada entre as mãos trêmulas. Nihal reconheceu os inocentes olhos azuis e os caracóis loiros, mas as faces que lembrava rosadas e gorduchas estavam agora murchas e sujas de fuligem. Vestia uma casaca marrom já toda puída e largas calças desbotadas e manchadas. Laio ficou um momento olhando para ela, incrédulo, aí deixou cair a espada e correu para abraçá-la.

Lá fora a tempestade rugia.

Estavam no único aposento onde o telhado ainda estava inteiro, mas grandes gotas de chuva caíam em vários pontos do pavimento. O fogo crepitava alegre. Nihal tirou da sacola alguns mantimentos que, junto com os de Laio, acabaram proporcionando um farto jantar.

Nihal contou ao rapaz tudo o que lhe acontecera durante os últimos meses. Falou sem qualquer receio do comportamento um tanto leviano que tinha tido desde o momento que ficara com Ido para ser treinada, de como tinha arriscado a vida só por querer agir sem escutar ninguém. Demorou-se com acentos saudosos ao evocar os dias passados com a camponesa Elêusi e o filho dela, Jona, os dias em que chegou a pensar que poderia levar uma existência normal, longe dos campos de batalha.

— Quantas coisas — comentou o rapaz. Nihal sorriu.

— Pois é. A vida não se cansa de nos surpreender. — Deu uma mordida num pedaço de carne assada. — E você? O que está fazendo aqui?

Laio baixou os olhos. Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente. Ouvia-se somente o rumorejar da tempestade e os estalos da lareira.

— O que foi? Perdeu a sua língua? — insistiu Nihal.

O jovem ficou um bom tempo calado, depois respirou fundo e decidiu falar.

Logo após falhar na prova de iniciação para o treinamento como Cavaleiro de Dragão, durante a batalha de Therorn, tinha decidido deixar a Academia e voltar para junto do pai e dizer-lhe que não tinha a menor intenção de voltar a combater. Queria, isto sim, ajudar de alguma forma na luta contra o Tirano, mas em lugar de Cavaleiro seria agora um simples escudeiro. Partira decidido, cheio de coragem, mas no decorrer da viagem toda a sua segurança desaparecera.

— Na minha família os homens sempre foram Cavaleiros. Todos, entende? E todos valentes. O meu pai planejara para mim um futuro de herói antes mesmo de eu nascer. Como podia contar-lhe que fracassara na prova mais simples, a do primeiro combate? Que a espada não combinava comigo, que nem queria ouvir falar de soldados e de morte? Quase me parecia poder vê-lo a gritar e esbravejar furioso. Nunca iria aceitar a minha escolha. — O rapaz olhou para Nihal de soslaio. — Tive medo dele. Receei que, com o poder que tem na Ordem, ele pudesse convencer Raven a aceitar-me de volta na Academia.

Contou que, no meio do caminho, decidira mudar de rota. Não sabia para onde ir, nem o que fazer para viver. Quando o dinheiro acabou, improvisara como menestrel.

— Canto muito bem, sabia? Conheço muitas histórias e canções. E também, não sei, acho que desperto ternura nas pessoas.

De qualquer forma ganhava mais do que o suficiente para levar a vida.

Nihal examinou-o. Não, não era verdade que ganhava o bastante. Estava magro e esfarrapado como um mendigo.

E com efeito Laio acabara escolhendo viver na floresta. Tencionava viver como um vagabundo, em contato com a natureza, longe da guerra e dos homens. Conseguia sobreviver catando frutas das árvores e desenterrando raízes comestíveis. Vez por outra ia pescar, mas sem muito sucesso.

— Algumas vezes, porém, até que consegui pegar. Eram peixes pequenos, mas muito gostosos — disse sorrindo meio sem jeito.

No começo havia dormido ao relento, sob as árvores, mas não demorara a perceber que não podia continuar daquele jeito. Decidira então procurar um abrigo, talvez uma barraca de caçadores, ou então uma caverna ou uma toca abandonada. E acabara encontrando aquele casebre.

— Aqui estou seguro, ninguém virá procurar-me. E de qualquer forma ainda tenho a minha espada — acrescentou. — Quando estiver farto de comer raízes, usarei o que aprendi em dois anos de Academia e começarei a caçar.

— Você não pode caçar com uma espada — observou Nihal. Laio corou.

— Talvez um dia destes encontre um arco. A guerra não fica longe.

Nihal sacudiu a cabeça.

— E o que tenciona fazer agora?

— Ficarei algum tempo por aqui, acho. — Laio não tinha coragem de olhar para ela. — Cresci muito nestes últimos tempos, sabia? Vi muita coisa. Saberei dar um jeito — concluiu não muito convencido.

— E esta seria a sua aspiração máxima? — perguntou Nihal séria. — Ficar escondido no bosque pelo resto da vida?

— Não sei — murmurou ele.

— Já se olhou no espelho? — perguntou Nihal impaciente. —Está esquelético, cansado e sujo. É essa a vida que você queria?

Os olhos de Laio encheram-se de lágrimas.

— Não, nada disto.

— Fugir não adianta, Laio — sussurrou Nihal. — Os seus problemas vão acompanhá-lo até o fim do mundo.

Um silêncio pesado tomou conta do aposento. A tempestade parecia ter amainado. Já não se ouviam os trovões, só a chuva insistente continuava a ecoar nas paredes e no telhado.

Nihal olhou para a lareira.

— Por que não vem comigo? — perguntou. Laio fitou-a incrédulo.

— Com você?

— Isso mesmo. A base é um bom lugar. E, afinal, não disse que queria ser escudeiro? Lá poderia aprender o ofício, tornar-se útil.

Laio meneou a cabeça.

— Não precisa ser para sempre — continuou Nihal. — Só o tempo necessário para você se recuperar, entender o que realmente quer. E além do mais, estaríamos juntos. Não quer ficar novamente comigo, como antigamente?

Laio sorriu.

— Deixe-me pensar no assunto.

Deitada num monte de palha espalhada de qualquer maneira, Nihal acordou de repente. Afastou a capa que a cobria e sua mão correu rápida à espada. Continuava chovendo. Junto com o barulho das gotas nas paredes ouviu o som de passos na lama. Parecia que alguém estava tomando posição em volta da casa. Nihal permaneceu imóvel, aguçando os sentidos para entender quantos deviam ser. Levantou-se em silêncio, aproximou-se do amigo e sacudiu-o no ombro.

— Que horas são? — resmungou Laio com voz cheia de sono. Nihal fez sinal para ele falar mais baixo.

— Pegue a espada e fique atrás de mim — murmurou. O rapaz acordou na mesma hora.

— O que está havendo?

— Estão nos atacando. Estamos cercados — sussurrou Nihal. Encostou-se na porta e ficou à escuta. — Logo que tivermos a oportunidade vamos fugir. Está claro?

Laio anuiu.

Agora os passos estavam mais perto. Dois sujeitos logo fora da casa. Devia haver mais uns quinze, mas Nihal não conseguia localizar a posição deles. Raios, são muitos. Demais.

A porta foi arrombada de repente. Laio começou a gritar, mas Nihal estava preparada. Jogou no chão o primeiro inimigo, um gordão do tamanho de uma montanha armado com uma adaga curta; assim que ele superou o limiar, trespassou-o antes que pudesse dar um pio. Não demorou quase nada para que o outro, um sujeito musculoso e mal-encarado, totalmente careca, a enfrentasse com um grande machado. Os demais estavam por trás do casebre. Podiam-se ouvir seus grunhidos ansiosos. Fâmins.

— Vem para o papai, menina — rosnou o homem com o machado.

Nihal deu um pulo para a frente e empurrou-o com violência.

— Fuja! — gritou para Laio.

O homem caiu mas voltou a levantar-se quase imediatamente, praguejando. Mas Nihal foi mais rápida. Decepou-lhe a mão com um golpe e deixou-o berrando ao lado da porta.

Laio tinha alcançado o cavalo de Nihal e já estava na garupa. Ajudou a amiga a montar e saíram a galope. A corrida não era fácil. A chuva tornara o terreno escorregadio e era quase impossível orientar-se no escuro.

Um assobio agudo cortou a cortina de água.

— Eles têm arcos! — bradou Nihal.

Laio incitou o cavalo, mas o animal tropeçava continuamente. Quando uma seta acertou-o na pata, Laio e Nihal espatifaram-se no terreno lamacento.

Nihal levantou-se de pronto, Laio ficou no chão e começou a gemer. Os passos dos perseguidores tornaram-se mais rápidos e ameaçadores.

— Levante-se! — gritou Nihal.

— Não posso. O pé...

Nihal levantou-o à força e arrastou-o entre as moitas, sem seguir uma direção precisa. Escorregava e a espessa chuva cegava-a. Os assobios atrás deles recomeçaram e eles foram alcançados por um enxame de setas. Nihal sentiu uma fisgada de fogo no ombro esquerdo e foi forçada a parar.

Laio estava ofegante, o rosto torcido de dor.

— Acertaram você.

Uma ferida de raspão rasgara o corpete de couro. O ombro sangrava. Nihal recomeçou a avançar arrastando Laio pelo braço.

— Não foi nada, vamos em frente.

A floresta parecia impenetrável. Os fâmins aproximavam-se cada vez mais.

Nihal seguiu em frente entre os galhos que fustigavam seu corpo, enquanto tentava encontrar uma saída. Que diabo vou fazer agora? O quê? A dor no braço era terrível e Laio não tinha condição de lutar, mas se continuassem a fugir daquele jeito, sem destino e de costas para os inimigos, não haveria salvação. Já podia sentir a respiração arquejante dos perseguidores. O que devo fazer?

— Lá estão eles! — berrou uma voz desumana.

Um grupo de fâmins surgiu correndo do meio da mata e avançou contra eles como uma avalanche.

Nihal caiu para a frente e arrastou Laio consigo. Virou sobre si mesma, segurou com força a empunhadura da espada e firmou um cotovelo no chão. Não quero morrer!'Escorregou, chapinhou, voltou a cair na lama. Não quero morrer! Enquanto a chuva fustigava seu rosto, ainda pôde ver as carrancas disformes dos fâmins curvos em cima deles, os braços artificialmente longos dobrados no ataque, os machados levantados e prontos a matá-los. Os relâmpagos reverberavam em suas longas presas.

Nihal fechou os olhos. Não quero morrer! Ainda não!

— Não! — gritou Laio soluçando.

Por trás das pálpebras fechadas Nihal percebeu um clarão ofuscante. A empunhadura da espada pareceu ficar em brasas. Abriu os olhos. Uma barreira prateada cercava ela e Laio.

As armas dos fâmins chocaram-se repetidamente nela e a barreira começou a vibrar emitindo um surdo clangor.

— Nihal — gemeu Laio.

Os fâmins continuavam a golpear, mas aquele escudo transparente era impenetrável.

A vibração ficou cada vez mais intensa. O chão pareceu rasgar-se num terremoto e o estrondo aumentou de volume até tornar-se insuportável. Nihal e Laio taparam os ouvidos com as mãos. Então a barreira explodiu.

A onda de choque expandiu-se para fora e atingiu os fâmins com a violência de um furacão. Os monstros foram jogados a várias braças de distância. Alguns foram arremessados contra os troncos das árvores e seus corpos caíram como bonecos inanimados, com os membros retorcidos em posições fora do normal, os crânios arrebentados. Mais outros desapareceram na escuridão, levados pelo deslocamento de ar.

A selva voltou a ficar silenciosa. A chuva descia agora mais rala e borrifava com minúsculas pérolas a folhagem das árvores e das moitas. Laio estava pálido e mal conseguia respirar

— O que houve, Nihal?

A jovem passou a mão no rosto.

— Não faço idéia.

 

                                     TEMPESTADE

O navio rumou para o alto-mar. A costa desapareceu no horizonte e a massa de água foi tudo o que sobrou do panorama. Senar percebeu que a sorte estava lançada. Não podia mais voltar atrás.

Nenhum dos livros que trouxera consigo falava a respeito do remoinho. O texto mais confiável era aquele dos conquistadores que, mais ou menos um século antes, haviam tentado chegar ao Mundo Submerso, mas tratava-se de um relato cheio de imprecisões, escrito alguns anos depois da empresa, e não se sabia até que ponto correspondia à verdade e que fosse apenas fruto de fantasia. Senar ignorava a localização certa do remoinho, o seu tamanho e quantas milhas ainda teriam de navegar para encontrá-lo. Sabia que ficava diretamente a ocidente, só isto.

Quanto mais o navio avançava veloz na água, mais Senar sentia o nó da ansiedade apertar sua garganta.

Depois da abordagem, a tripulação deixou de olhar para ele com desconfiança. O capitão parecia ter por ele uma certa consideração e era cada vez mais comum que Aires lhe dirigisse a palavra de forma quase afável. De repente, Senar sentiu-se cercado da simpatia de todos, exceto a do hóspede misterioso.

Nos primeiros dias quase não o viam. Ficava o tempo todo enfurnado na cabine de Aires, que se juntava a ele toda vez que podia. Quando começou a passear no convés, não lembrava nem de longe o prisioneiro em péssimas condições, trôpego e exausto, que havia sido carregado a bordo. Parecia mais um janota, agora, com longos cabelos castanhos que usava presos num vistoso rabo, olhos azuis muito vivos e uma barba bem tratada. Seus traços regulares, mas ao mesmo tempo cheios de virilidade, eram indubitavelmente perfeitos para agradar às mulheres, e além disso o passageiro era muito rebuscado em seus trajes. Usava cândidas camisas de seda com amplas mangas bufantes e preciosos corpetes de brocado cheios de enfeites. Perambulava de um lado para outro do navio e deixava esvoaçar ao vento uma longa capa de brocado preto, sem nunca tirar a mão da empunhadura cinzelada da espada; de vez em quando detinha-se a observar o mar com olhar pensativo, inteiramente entregue ao seu fascínio de bucaneiro. Se encontrasse Senar no convés, dirigia-lhe um olhar enviesado. O mago achava-o um perfeito idiota, mas no navio todos o tratavam com a maior deferência e ninguém se queixava da total e absoluta inoperância dele o dia todo. À noite, Rool convidava-o no castelo de popa para tomar um trago e ficar conversando até de madrugada.

Senar quis saber mais e Dodi não se fez de rogado.

Certa noite de borrasca, enquanto o mago estava entregue aos mais terríveis enjôos, o rapaz contou-lhe detalhadamente a história do novo passageiro.

Benares, o amante de Aires, havia servido por muito tempo nas tropas da Terra do Mar. O monarca, com efeito, cansado das contínuas incursões dos piratas, mandara criar uma unidade especial capaz de enfrentar a ação dos salteadores.

Antes de alistar-se, Benares tinha feito um pouco de tudo: havia sido artista, ladrão, comerciante, contrabandista. A carreira das armas era uma maneira como qualquer outra para meter-se em encrencas, e aquilo era exatamente o que ele queria. Graças a sua habilidade como espadachim, o exército recebera-o de braços abertos e fechara ambos os olhos sobre o seu passado duvidoso. A sua tarefa era escoltar os carregamentos de pedras preciosas dos montes do Promontório Último, ricos de jazidas, para as terras orientais, onde elas eram lapidadas. Gostou imediatamente do oceano. Adorava aquela vida feita de travessias e combates com os piratas. Para não mencionar a fascinação que exercia nas mulheres. Embora não fosse um marujo, tinha uma amante em cada porto. Vagueou pelo mar durante um ano sem nunca perder uma batalha. Então encontrou a sua nêmesis.

Certo dia, o brigue no qual viajava foi atacado por Rool e seus piratas. Benares lutou com vários homens da tripulação e deixou-os em maus lençóis, até ver-se diante de Aires. Fascinado por sua beleza, cometeu um erro fatal: pecou por galantaria.

— Eu não luto com mulheres — disse com voz impostada. — As mulheres, costumo amá-las.

Como digna resposta Aires rasgou-lhe o uniforme a golpes de espada e começou a acuá-lo sem dar-lhe quartel. Benares viu-se forçado a desembainhar a arma, mas quando, depois de um encarniçado duelo, a mulher encostou a lâmina na sua garganta achou que estava morto.

Aires ficou um bom tempo olhando para ele, ofegante, aí guardou a espada.

— Você é bonito demais para ser morto deste jeito — disse com naturalidade, então virou as costas e com um pulo voltou para o seu navio. Benares viu as velas vermelhas que se afastavam e soube na mesma hora que tinha encontrado a mulher certa para ele.

Esqueceu o exército e juntou-se a um grupo de piratas. Audaz e inconsciente como era, ficou logo conhecido no meio. Nas tabernas freqüentadas pelos bucaneiros o seu nome começou a ficar na boca de todos e a sua fama de espadachim espalhou-se rapidamente.

Aires sempre gostara de desafios. Tinha convencido várias vezes o pai a atacar navios que já estavam na mira de outros veleiros, só pelo desejo de medir forças com outros piratas. E foi o que aconteceu com Benares. Depois de meses em que se haviam perseguido em vão, encontraram-se mais uma vez um diante do outro, no convés de um galeão que ambos haviam assaltado.

Foi um duelo muito bizarro. Ele recorreu às táticas de conquista que tinha aprimorado ao longo da sua vida de sedutor e, entre um ataque e uma defesa, dizia-lhe quanto a desejava. Ela esbanjou todo o seu sarcasmo, mais cortante do que a espada, e fez troça de todas aquelas denguices. Quando Aires acabou encostada na parede, no entanto, de nada podiam adiantar-lhe as palavras. Era a primeira vez que um homem conseguia vencê-la.

— Diga-me que me ama e deixá-la-ei viver — murmurou Benares ao seu ouvido.

— Prefiro ser degolada — respondeu ela em tom desafiador.

— Como quiser — disse Benares sorrindo. — Mas só depois disto. Segurou-a pela nuca e beijou-a com paixão. Aires, inesperadamente, retribuiu o beijo com o mesmo entusiasmo.

A partir daí foram um do outro. Se porventura viessem a lutar pela mesma presa não hesitariam em degolar-se mutuamente, mas ainda assim se amavam. Uma paixão feita de encontros fugazes e casuais, no mar ou nos portos onde ancoravam.

Rool não gostava nem um pouco daquela história. O capitão era um pirata feroz e sanguinário, mas para a sua “menina”, como obstinava-se em chamá-la, só queria o melhor, e repetia que só um homem mais forte do que ele podia ser digno da filha. Considerava Benares um bobão e aquela paixão um capricho infantil.

Depois de algum tempo, entretanto, teve de mudar de idéia, e com ele a tripulação inteira.

Desde que o rei da Terra do Mar tinha dado início à sua luta pessoal contra a pirataria, Rool encabeçava a lista negra. A recompensa pela sua cabeça deixava muita gente com ganância.

O capitão nunca se importara com isto, ele era assim mesmo: seguro de si, descuidado com o perigo e esquecido de tudo aquilo que não fosse o mar, Aires e o seu adorado navio.

Capturaram-no fora do seu elemento: em terra, enquanto bebia alegremente numa taberna. O seu companheiro de farra acabou estirado no chão, sem vida, e ele, apesar da feroz resistência, foi acorrentado e jogado numa masmorra. A prisão onde o trancaram ficava longe do mar, para dificultar qualquer ação por parte dos piratas. Depois da poeira assentar, o capitão seria entregue diretamente à milícia do rei. Não era difícil imaginar o destino que o aguardava: ficar pendurado com uma corda no pescoço na praça central da cidade, como advertência para toda a pirataria.

Quando a notícia chegou ao navio, a imperturbável Aires chegou a ficar momentaneamente desnorteada. O autor da captura era um famoso caçador de recompensas, um tal de Mauthar. Tinha começado a carreira como assassino a serviço de qualquer um que pudesse pagar. Havia sido preso durante uma missão e em troca da salvação propuseram-lhe mudar de atividade. Ele aceitou na mesma hora. As mais faladas capturas dos últimos anos tinham todas a sua assinatura. Não se detinha diante de coisa alguma e agia em qualquer lugar, na terra e no mar. Mas era em terra firme que ele tinha a sua toca, e era ali que era preciso encontrá-lo. Foi aí que, como nas melhores histórias de aventuras, o herói entrou em cena. Naquela noite Benares fundeou na pequena enseada onde também lançara âncora o navio de Aires. Antecipando uma noite de prazer, precipitou-se para junto da amada, mas encontrou-a em prantos.

Obviamente ofereceu-se para guiar a turma que iria libertar Rool e escolheu os melhores homens das duas tripulações para formar o grupo de resgate. Partiram algumas horas mais tarde, na calada da noite. Depois de juntarem informações nos becos do porto, assaltaram a masmorra onde estava preso o pirata e degolaram o caçador de recompensas e os seus comparsas. Rool estava de novo livre.

A façanha rendeu a Benares a estima de Rool e da sua tripulação, além da eterna gratidão de Aires.

Dodi era realmente um grande contador de histórias. Senar ouvira tudo sem dar um pio, até esquecera o enjôo.

— E como foi que acabou no navio do qual o tiraram? — perguntou no fim.

— Muito simples — respondeu Dodi, satisfeito com o sucesso da sua história —, o caçador de recompensas que Benares matou tinha muitos amigos espalhados pelo submundo dos vários portos da Terra do Mar. Desde a libertação de Rool nunca mais deixaram Benares em paz. Atacaram-no de noite, enquanto estava fundeado numa pequena enseada escondida, um dos nossos lugares preferidos. Um verdadeiro exército, pelo que andam contando por aí. Quando o pegamos de volta, estavam levando-o para terra a fim de vendê-lo aos militares.

— Vendê-lo?

— É assim que funciona, você não sabia? Alguém faz o trabalho sujo, outro alguém paga e fica com todas as honras da captura.

— Você deveria ser escritor, Dodi — disse Senar no fim da história.

Dodi sorriu.

— Você vai ver, mago. Depois de ganhar muito dinheiro como pirata vou escrever sobre as minhas façanhas: ficarei mais famoso do que o próprio Benares.

A umidade da noite começava a incomodar. Senar deu uma palmada nas costas de Dodi e ficou de pé bocejando.

— Não sei quanto a você, mas eu estou com sono.

— Espere, Senar — deteve-o o grumete. — Posso lhe dar um conselho?

— Claro.

— Se eu fosse você ficaria protegendo as minhas costas. Senar fitou-o pasmo.

— Como assim?

— Benares não vê com bons olhos as suas conversas com a mulher dele — respondeu Dodi, malicioso. — E além disto, para falar a verdade, o fato de você ter convencido Aires a enfrentar uma empresa tão arriscada deixa-o bastante desconfiado.

O mago não pôde evitar uma gargalhada.

— Ele pode dormir tranqüilo. Aires nem olha para mim, mal sabe que eu existo.

Dodi piscou para ele.

— Nunca se sabe, Senar, nunca se sabe.

A navegação prosseguiu tranqüila por mais um mês, sem qualquer atropelo. O vento era constante e o mar só levantava a voz de vez em quando.

Naquela altura Senar já se acostumara com o sacolejo do navio. De manhã, apoiado no parapeito do convés, admirava o espetáculo do oceano que devolvia o sol ao mundo e experimentava uma sensação de contentamento. No fundo gostava daquela viagem. Talvez conseguisse levar a cabo a sua missão e, quem sabe, até saísse dela vivo.

Sentia falta de Nihal. Certa noite escreveu uma carta. Já tinha começado a recitar a fórmula para enviá-la quando parou para reler. Mas que diabo está passando pela minha cabeça? Rasgou-a e jogou-a fora com raiva. Olhou os pequenos pedaços de pergaminho que eram levados pelas ondas, então voltou ao porão, sozinho com os seus pensamentos.

Os problemas foram aparecendo na quinta semana de navegação. O mar ficou cada vez mais impetuoso, as tempestades começaram a se repetir uma depois da outra. Tinham chegado à zona inexplorada. Ninguém chegara até lá antes e a orientação tornou-se difícil.

Certa noite, Rool convocou Senar na sua cabine.

— Pelos meus cálculos já deveríamos estar perto das ilhas desconhecidas. Estas aqui. — Indicou o mapa. — Mas por enquanto não há sinal delas.

— Isto é grave? — perguntou Senar preocupado.

— Bastante. A despensa está quase vazia. Quando a reabastecemos, pensamos que nesta altura já poderíamos contar com novos mantimentos. Se não encontrarmos quanto antes esse maldito arquipélago, estaremos encrencados.

Quanto mais dias se passavam, mais a tripulação olhava para o mar aflita. Mas o horizonte era avaro de novidades e só insistia em mostrar uma extensão azul e cruel.

Senar decidiu desistir de metade da sua ração de comida.

— Você costuma ser sempre tão ajuizado, Senar? — perguntou Aires, quando soube da coisa. Estavam sentados no convés, um ao lado do outro.

— Sinto-me responsável por esta situação — respondeu ele compungido.

— Que rapaz mais bonzinho — comentou ela sorrindo. — Um ótimo partido!

Senar estava surpreso ao vê-la tão calma. Benares e Rool tampouco pareciam estar preocupados. Para eles aquilo tudo era normal: o risco, a fome, as incógnitas do mar.

— Não está com medo do que pode acontecer? — perguntou. Aires esticou as pernas e apoiou os pés num barril de rum.

— Medo? E por quê? Eu gosto do risco, é o sal da vida. Se não nos divertirmos no pouco tempo que nos é concedido, para que continuar a viver? E além do mais é um desafio. — Virou-se para Senar. — Sabe por que decidi meter-me nesta empresa?

— Pelo dinheiro?

— Muito bom, meu pequeno mago. Até que consegue ser perspicaz, quando quer — brincou Aires. — Mas o dinheiro não é nada sem aventura. Chegar aonde ninguém jamais botou os pés... Já pensou que muito poucos, antes de nós, já viram este azul? E que ninguém voltou atrás para contar? Pois é, eu tenciono ir até o fim. E vou voltar. Então saberei que sou a melhor de todos. E agora pare de se preocupar, isto não vai nos aproximar nem uma só milha do nosso destino.

Então chegou a bonança. O mar estava liso como azeite, o horizonte cada vez mais azul. Sem a chuva para encher os barris, as reservas começaram logo a escassear. As rações foram cortadas e, com a fome, o descontentamento começou a aumentar. Nem todos tinham a firmeza de ânimo de Rool ou a inconsciência de Aires.

Senar passava as suas noites dobrado em cima do mapa, tentando entender o caminho que até então haviam percorrido e quanto ainda faltava. Mais de uma vez recorreu à magia esperando descobrir se estavam na rota certa, mas o raio de luz que deveria apontar para as ilhas perdia-se na noite rumo a lugares desconhecidos.

Quando alguém começou a acusá-lo de tê-los envolvido num empreendimento desesperado, quem cuidou de defendê-lo foi Benares.

— Vocês são homens ou o quê? Somos gente do mar, ora essa. Alguém por acaso forçou-os a fazer esta viagem? Quem quiser voltar que pegue um bote e comece a remar. E dito isto, assunto encerrado.

Não demorou para os pássaros também desaparecerem do céu, nada mais de gaivotas, nada de alcatrazes, nada de bandos migrando para terras distantes. E até os peixes começaram a escassear. Cada vez a pesca ficava mais pobre, até o mar tornar-se um deserto. O navio deslizava lentamente na água, cercado por um silêncio estranho. Não fosse pelo leve vascolejar nos flancos do casco, daria para pensar que ainda estavam no porto.

— Terra! Terra!

O grito rasgou a alvorada. O mar estava calmo, o vento voltara a soprar e o navio corria veloz.

Senar precipitou-se no convés. Logo a seguir o capitão também chegou, de luneta na mão. Dava para vislumbrar, no horizonte, uma linha escura e indefinida.

— Será verdade mesmo? — perguntou Senar ofegante.

Rool ficou um bom tempo observando antes de responder:

— Não sei — disse afinal. Voltou a perscrutar com a luneta. —Há alguma coisa que não me convence.

A tripulação ficou o dia inteiro olhando ansiosa para aquela linha preta, enquanto a tensão aumentava.

No meio da tarde o barco sofreu um forte contragolpe lateral, como se alguma coisa tivesse batido nele, e adernou perigosamente de lado. A tripulação perdeu o equilíbrio, mas o navio não demorou a endireitar-se, sacudido por uma repentina rajada de vento.

Senar e o capitão alcançaram a ponte com alguma dificuldade. De repente surgira uma violenta ventania que parecia querer levá-los embora. Mas ainda assim o mar estava calmo e o sol brilhava. Aquele vento vinha realmente do nada.

— Recolham o velame, rápido! — gritou Rool, enquanto se segurava na amurada.

Apesar das rajadas que lhe fustigavam o rosto, Senar também conseguiu se agarrar no parapeito. Levantou os olhos. Emudeceu.

Uma enorme nuvem negra avançava ameaçadora do horizonte. Não dava para ver o seu fim, corria para o navio e mudava continuamente de forma. Senar caiu ao chão sem fôlego. Duas mãos agarraram-no pela túnica.

— O que é aquilo? — perguntou Rool. Fitou-o fixamente com olhos de fogo.

— Não sei.

— É magia? Responda!

— É... é provável — gaguejou Senar.

Rool largou a presa e começou a gritar ordens, mas os tripulantes ainda estavam petrificados de medo.

— Temos algum homem a bordo ou sobraram somente meninas? — rugiu o capitão. — Quero ver imediatamente cada um no seu lugar, se não quiser que o jogue ao mar no ato!

Ninguém jamais vira algo parecido. Senar debruçou-se de novo e só teve tempo de reparar que a nuvem se aproximava com uma velocidade espantosa. O vento cortou-lhe a respiração. Fechou os olhos. Quando voltou a abri-los estava envolto na escuridão.

No céu escuro como um quadro-negro desenhavam-se imensos lampejos. Uma violenta chuva começou a martelar o convés. Então foi o apocalipse.

Ondas gigantescas atropelaram o navio, sacolejando-o de um lado para outro; a cada investida, parecia que iria desaparecer entre as vagas. Senar foi arremessado pelo convés e iria certamente ser levado embora pela água não fosse a mão de Benares, que o agarrou pela gola.

— Aqui você só pode atrapalhar, garoto. Volte ao porão.

Senar não se fez de rogado.

Mais do que voltar ao porão, mergulhou nele aos trambolhões, para então aninhar-se num canto. O madeirame à sua volta rangia de forma pavorosa e o barco todo balançava violentamente. O veleiro estava à mercê de ventos que mudavam continuamente de direção e de ondas altas como muralhas.

Senar ficou algum tempo imóvel, paralisado de medo, ouvindo a tumultuada correria no convés, os baques dos corpos jogados ao chão pela tempestade e os guinchos dos ratos escondidos não se sabe lá onde. Então começou a sentir-se covarde. Não posso ficar aqui deste jeito, preciso subir para ajudar. As suas pernas, no entanto, recusavam-se a obedecer. Forçou-se a pensar. Afinal de contas era um conselheiro, nos últimos tempos já tivera de enfrentar muitas situações desesperadoras, e se conseguira sair-se bem sempre fora graças à sua lucidez. Procurou lembrar todas as magias que conhecia, mas nenhuma correspondia ao apocalipse que estava acontecendo lá fora. Era obra de um mago, não podia haver dúvidas. Talvez alguma fórmula nova, provavelmente um sigilo. Muito bem. Se for um encantamento, só preciso enfrentá-lo, disse para si mesmo, decidido.

Apoiando-se nas tábuas do porão, enquanto o barco balançava sem parar, Senar tentou concentrar-se. O próprio movimento do navio deu-lhe a idéia. Era uma façanha muito complexa, mas a única na situação em que se encontravam. E afinal de contas, naquele caso, tinha de agir com uma magia muito parecida com as proibidas. Tratava-se portanto de botar novamente a natureza nos trilhos. Senar planejou com cuidado o que iria fazer lá fora e então saiu.

Parecia que as velas haviam enlouquecido e Senar juntou-se aos marujos que tentavam domá-las. Vislumbrou na enxurrada a figura de Aires, que segurava a roda do leme na tentativa de manter a rota. Mas já não havia rota a seguir. Céu e mar mesclavam-se indistintos nas trevas que envolviam o navio. Apesar da ajuda de Rool, a roda fugiu das mãos dela e começou a girar como um pião.

Quando a vela grande se rasgou, Senar agarrou-se na amurada e começou a descer pelo convés, enquanto a água o encharcava da cabeça aos pés. Depois de muito esforço conseguiu alcançar Aires, que voltara a segurar a roda do leme.

— Uma corda — berrou Senar, mas suas palavras perderam-se no rugido do mar.

— O quê? — respondeu Aires.

— Uma corda. Preciso de uma corda.

Aires deu-lhe um cabo que Senar atou em volta da cintura, depois dirigiu-se ao mastro da gávea. Levantou os olhos e viu-o balançar perigosamente. Posso conseguir. Preciso conseguir.

Tentou subir, mas as mãos escorregavam na madeira encharcada. Sacou então o punhal de Nihal, aquele que tinha ganho dela num duelo no dia em que se conheceram. Fincou-o profundamente e agarrou-se no mastro com a mão livre, começando a puxar-se para cima.

Tinha a impressão de estar continuamente a ponto de cair e tentava segurar-se ainda mais na madeira. Suas mãos começaram a sangrar.

Lembrou quando, ainda criança, os amigos divertiam-se a trepar nas árvores. Ele nunca gostara, sempre fora um fracasso nas brincadeiras que exigiam agilidade e força. E agora cá estou eu, pendurado como um acrobata no mastro de um navio, bem no meio da pior tempestade que já se viu. Teve quase vontade de rir.

Esforçou-se para não olhar para baixo. Agora falta pouco. Vou conseguir, repetia a si mesmo para criar ânimo, mas a gávea ainda parecia inalcançável. Quando finalmente jogou-se nela, sua garganta soltou um grito de felicidade. Inacreditável: ele tinha conseguido.

Prendeu-se ao mastro e ficou de pé. Lá em cima o balanço era insuportável. Sentiu a mão de ferro apertar o seu estômago e ficou com vontade de vomitar. Agora não! Fechou os olhos e fez o possível para concentrar-se, em seguida levantou ao céu as mãos sangrentas e gritou uma fórmula.

Dos seus dedos partiram dez raios de prata, que cortaram as trevas e se abriram como abóbada, para em seguida envolver o navio numa esfera prateada. Tratava-se de uma fórmula defensiva muito simplória, um mero escudo, mas era do tamanho de um barco inteiro, e era justamente o tamanho a tornar aquele encanto sobre-humano.

De repente a calma voltou ao convés. Os homens levantaram-se incrédulos e, um depois do outro, primeiro olharam para a barreira e depois para a gávea.

Ouviu-se uma explosão de gritos entusiásticos.

— Você é extraordinário, mago! — exclamou Aires.

Incitados por Rool, todos retomaram os seus lugares. Aires voltou à roda do leme e Dodi, ajudado por outros piratas, baixou a vela grande, nesta altura sem uso. O resto da tripulação tirou dos flancos do barco longos remos de emergência e começou a vogar com vontade.

O navio mexeu-se devagar, como um animal que desperta da letargia.

Do lado de fora da barreira os relâmpagos continuavam a rasgar o céu e a iluminar o mar cinzento e coberto de lívida espuma. Os vagalhões investiam raivosos contra a proteção prateada.

Senar percebeu a força do oceano que tentava penetrar em suas defesas. Esvaziou a mente de tudo aquilo que não fosse o encantamento que estava recitando. Não levou muito tempo para seus braços ficarem doloridos e as mãos começarem a formigar. Logo a seguir já não as sentia. Só ficou a sensação da mágica energia que raiava sem parar dos seus dedos.

— Dá para ver alguma saída? — perguntou aflito, embora sabendo que, lá em cima na gávea, ele seria o primeiro a saber.

— Ainda não! — gritou Aires do convés. — Agüente! Quanto mais tempo passava, mais Senar sentia aumentar o próprio desespero. Os contragolpes das ondas seguiam-se sem interrupção e a barreira em volta do navio ia pouco a pouco se estreitando. Não iria conseguir mantê-la por muito mais tempo.

Estavam todos exaustos: Aires e Benares, que lutavam com o leme; Rool, que perscrutava a escuridão em busca de um sinal qualquer que indicasse para onde rumar; a tripulação, que afundava os remos nas desenfreadas correntezas do oceano.

Senar tinha-se ajoelhado e mantinha agora os braços apoiados no parapeito da gávea, de mãos abertas.

A barreira encolheu vistosamente.

Rool logo percebeu.

— Vamos lá, rapaz! Agüente firme! — berrou. Mas o mago parecia inconsciente.

— Que diabo! Já vai desmoronar! É o que dá quando a gente confia num garotinho — praguejou Benares.

Aires dardejou-o com olhar de fogo.

— Cale-se! Se não fosse por ele já estaríamos todos mortos. — Então levantou a voz. — Continue assim, Senar! Continue assim, estamos quase saindo!

Da gávea não se ouviu qualquer resposta. O escudo prateado encolheu mais ainda.

— Vocês, todos lá para baixo! Aumentem o ritmo! — ordenou Rool, mas sabia que estava pedindo demais aos seus homens. —Está tudo acabado — murmurou.

— Olhem! — gritou de repente Benares.

No negrume das nuvens abrira-se um rasgo. Uma lâmina de luz cortava a escuridão. Aires começou a rir, tanto assim que quase perdeu o controle da roda do leme.

— Remem o mais que puderem — intimou Rool.

Uma pincelada de céu azul apareceu entre os clarões, e logo a seguir um pedaço de terra coberto de verde. Vistas daquele inferno, as ilhas pareciam terras paradisíacas. A salvação estava ali, ao alcance da mão, mas a tempestade não dava sinal de esmorecer. Os raios e as ondas continuavam a fustigar a barreira.

— Resista, Senar! Agora falta pouco! — gritava Aires com todo o fôlego que tinha nos pulmões, mas a barreira já roçava na carranca do navio e continuava a encolher.

De repente a carranca fragmentou-se em centenas de estilhaços prateados e a figura esculpida na madeira da proa ficou à mercê da fúria dos elementos. O navio começou a desviar-se da rota, enquanto a tempestade engolia a embarcação, uma tábua após a outra. Naquela altura uma boa parte da proa já estava entregue à borrasca e a barreira tremelicava, fina como um véu. O navio continuou a rodopiar, mudando continuamente de direção. No convés ouviam-se gritos, confusos incitamentos, ordens.

De toda esta balbúrdia só chegavam até Senar sons amortecidos. Só sentia que as forças o abandonavam enquanto um estranho langor se apossava dele. Estou cansado. Estou imensamente cansado. Só queria deixar-se levar, deixar-se ninar pelo nada que o envolvia, mas alguma coisa num canto remoto da consciência forçava-o a não desistir. Um último fluxo de energia correu por todo o seu corpo. Os músculos retesaram-se ao extremo, as mãos levantaram-se vibrando para o céu negro e a barreira voltou a abraçar o casco inteiro. Em seguida fechou os olhos e entregou-se à inconsciência.

Um arquipélago tranqüilo descortinou-se diante do navio. Na popa, a mancha sombria que quase engolira o Demônio Negro afastou-se rapidamente. A tripulação explodiu num estrondo de entusiasmo. Rool apertou a filha entre os braços, Benares passou as mãos trêmulas no rosto. Estavam salvos.

Aires soltou-se do abraço do capitão e correu para o mastro da gávea.

— Senar! Você foi o máximo, Senar! — gritou num desabafo de alívio e incontida alegria.

Nenhuma resposta.

— Senar — chamou de novo.

O silêncio tomou conta do convés.

— Acho que não resistiu — comentou Benares. Aires virou-se na mesma hora.

— Não diga bobagens! — sibilou, em seguida esqueceu o cansaço e começou a subir no mastro.

Quando voltou a aparecer na gávea, os olhos de todos os piratas estavam fixos nela.

— Vocês não vão acreditar — gritou Aires com um sorriso. —Ele está dormindo.

 

                           LAIO TORNA-SE ESCUDEIRO

Laio não conseguia apoiar-se no pé e Nihal sentia arder a ferida no ombro. Quanto a seguir viagem, nem pensar. Decidiram portanto esperar pelos primeiros raios do alvorecer. Afastaram-se o mais possível do lugar do embate e treparam penosamente numa grande árvore. Lá em cima, pelo menos, ficariam em segurança. Laio examinou com cuidado o ferimento da amiga.

— Posso desinfetar, se você quiser — propôs timidamente. Nihal olhou para ele com ar interrogativo.

— E como vai fazer isso?

— Vou lhe mostrar.

Tirou do alforje que usava a tiracolo algumas folhas e começou a mascá-las. Depois tirou a papa da boca e a espalmou no ombro de Nihal.

— É apenas um arranhão, mas assim, pelo menos, não irá infeccionar. Trabalhei algum tempo como lavador de pratos numa taberna e a dona do lugar conhecia as propriedades das ervas. Ensinou-me alguns segredos.

Quando acabou, Laio apoiou-se no tronco da árvore e fechou os olhos, exausto.

Nihal fez o mesmo, mas um pensamento não queria sair da sua cabeça.

Segurou a espada e olhou para ela. O dragão esculpido por Livon enroscava-se sinuoso em volta da empunhadura. Sobre o cristal negro, a cabeça do animal sobressaía como uma estrela na escuridão da noite; estava gravada numa gema branca dentro da qual brilhavam mil reflexos coloridos.

A Lágrima.

Estava tão acostumada com ela que já a considerava apenas um ornamento. Como podia ter esquecido?

Nihal relembrou quando, com treze anos de idade, decidira aprender as artes mágicas e insistira para que Livon lhe apresentasse um mago disposto a aceitá-la como aprendiz. No começo Livon nem queria saber da história, mas diante da insistência dela acabara concordando.

Foi assim que Nihal descobriu que tinha uma tia. A irmã do pai chamava-se Soana e morava às margens da Floresta; afastara-se de Salazar para evitar que os informantes do Tirano soubessem que ela pertencia ao Conselho dos Magos.

Soana recebera-a sem perguntar coisa alguma, só pedindo que superasse uma prova: Nihal deveria passar dois dias e duas noites sozinha na Floresta e demonstrar que havia sido aceita pelos espíritos da natureza.

Foi então que Nihal encontrou pela primeira vez uma comunidade de duendes. E Phos, o chefe deles, presenteou-a com aquela pedra. “E uma espécie de catalisador natural”, explicou. “Reforça e aumenta a duração das mágicas. Achei que seria um bom presente para você, que vai se tornar maga.”

Nihal tirou as lembranças da cabeça e voltou ao presente.

Maga... Nunca me tornei uma maga. Mas então o que foi que aconteceu? De onde surgiram aquele escudo e a explosão?

Prometeu a si mesma que ainda iria averiguar. Mas então o cansaço a venceu e ela acabou deslizando num sono profundo e sem sonhos.

A viagem de volta à base não teve surpresas. Não havia sinal dos soldados do Tirano, mas mesmo assim eles avançaram com atenção. Laio capengava mas nunca se queixou. Chegaram um dia depois da data prevista. Quando viu que Nihal não estava sozinha, a sentinela teve um momento de hesitação.

— Garanto por ele — foi logo dizendo Nihal. — É o meu antigo camarada.

A notícia espalhou-se no acampamento com a velocidade de um raio.

— Voltou acompanhada...

— Um garoto, mais moço do que ela...

— Deve ser o amante...

— Que nada! Você deu uma olhada nele? Um sujeito desses, para Nihal, é brincadeira...

— Ouvi dizer que é o irmão dela...

— Tá bom! Ela de cabelos azuis e orelhas pontudas, e ele loiro e meio balofo! Duas gotas d'água...

Nihal seguiu firme até a cabana de Ido. Laio acompanhava-a muito sem jeito. Para onde ele se virasse havia olhos a fitá-lo curiosos.

— Por que estão olhando desse jeito? — murmurou para a amiga. Ela deu de ombros.

— Ignore.

Ido esperava na porta.

— O que houve? Continua inteira? — perguntou indo ao encontro dela.

— Tudo certo. A ferida é só um arranhão — respondeu Nihal, mas o gnomo já estava de olhos fixos em Laio.

O rapaz baixou a cabeça e corou até a raiz dos cabelos.

Laio foi enviado à enfermaria para que cuidassem do seu pé e Nihal ficou sozinha com Ido.

Com ar irritadiço, o gnomo mandou-a sentar numa cadeira.

— Que história é essa de você voltar com aquele boneco?

— Calma, Ido. Deixe-me explicar. Esteve comigo na Academia. Nihal falou rapidamente da amizade deles. Contou tudo sem parar pois sabia que, se lhe desse tempo, Ido poderia explodir. O seu cachimbo soltava nuvens de fumaça cada vez mais nervosas e freqüentes.

Então ela chegou ao que realmente interessava. Vamos lá, fale logo. Não adianta perder tempo.

Resumindo, quer ser escudeiro e obviamente o pai dele nunca vai permitir. Preciso ajudá-lo, Ido. Foi o único a ficar do meu lado na Academia, é realmente um amigo. Então pensei... que você poderia ficar com ele como escudeiro. E uma boa idéia, você não acha?

Um silêncio tumular que não pressagiava nada de bom tomou conta da cabana.

— Às vezes me pergunto se você é muito esperta ou uma idiota completa — disse Ido com calma.

— Não estou entendendo.

— Ora essa — bufou Ido. — Você faz idéia de quem esse seu amigo Laio é filho?

— Sei lá! Acha que vou conhecer todos os Cavaleiros de Dragão, afinal?

O gnomo aproximou-se dela franzindo as sobrancelhas.

— Então eu explico. O pai de Laio chama-se Pewar e descende da mais antiga família de Cavaleiros do Mundo Emerso. Não se sabe o que apareceu antes: o fundador da sua estirpe ou o primeiro ovo de dragão! São pessoas que cavalgam dragões desde o começo dos tempos. Neste exato momento Pewar dirige as operações na Terra da Água e é amigo íntimo de Raven.

Nihal continuou a fazer-se de desentendida.

— E daí?

Ido pulou de pé.

— Se Pewar descobrir que o filho dele é o meu escudeiro, vai me comer vivo! Raven já me detesta, só faltava essa para eles me expulsarem da Ordem.

A discussão ficou acalorada. As vozes de Ido e de Nihal podiam ser ouvidas a várias braças de distância. Ao voltar da enfermaria Laio sentara-se fora da cabana com ar preocupado. De vez em quando um soldado parava para ouvir a altercação, e não demorou para que um ajuntamento de curiosos se formasse diante da casa de Ido.

— Tudo isto por sua causa? — perguntou um escudeiro a Laio. Ele deu de ombros.

— Acho que sim.

— E quem é você? — quis saber um soldado.

— Um colega de Academia de Nihal — murmurou o rapaz. Quando Nihal apareceu de faces acaloradas, o pequeno ajuntamento se desfez na mesma hora.

— Tudo certo? — perguntou Laio.

— Entre — foi a única resposta.

Ido estava sentado à mesa e fumava nervosamente. Nihal encostara-o na parede. Dissera-lhe que havia sido justamente ele a ensinar-lhe que era preciso lutar por um ideal, que cada um tem de encontrar o próprio caminho para realizar-se. Perguntara-lhe como podia fechar a porta na cara de um rapaz que tentava exatamente isso.

Ido observou Laio. Faces rosadas, olhos cinzentos, postura titubeante: o que poderia fazer com alguém assim?

— O que sabe fazer?

— Estudei dois anos na Academia — sussurrou Laio.

— Fale mais alto, garoto — agrediu-o o gnomo. Nihal dardejou Ido com um olhar flamejante.

Laio empalideceu.

— Sim senhor. Desculpe, senhor. Estudei dois anos na Academia. Também conheço bem as ervas. E sei cuidar de qualquer tipo de arma.

— E os dragões, como se sai com eles?

— Com os dragões, bom... ainda não tive qualquer contato com eles, senhor — respondeu Laio baixinho.

Ido esfregou o rosto com as mãos e suspirou. Em seguida saiu da cabana sem mais uma palavra. Nihal sorriu com ar esperto.

— Um escudeiro?

Nelgar ficou surpreso com o pedido de Ido. Até a chegada de Nihal o gnomo sempre havia sido um sujeito esquivo. E agora, de uma hora para outra, até parecia que estava à cata de companhia.

O gnomo resmungou que muito em breve Nihal tomar-se-ia Cavaleiro e ele não disporia mais de quem lhe polisse a armadura.

— E não pode cuidar disso sozinho, como sempre fez? — perguntou Nelgar.

— Ora, pare com isso! Vai ou não deixar-me ter um escudeiro?

— bufou Ido. — Pelo regulamento, todos os Cavaleiros têm este direito. Então não vejo por que eu também não deveria ter um.

Nelgar nada mais disse. O regulamento era o regulamento.

Laio entregou-se à nova tarefa de corpo e alma; cuidava das armas de Ido com uma dedicação quase maníaca. Certa manhã o gnomo encontrou-o atrás da casa, sentado no chão de pernas cruzadas, com todo o armamento espalhado à sua volta. Estava polindo com fúria um machado que Ido jamais pensara sequer em segurar.

— Faça o que bem quiser, mas não se atreva a mexer na espada — disse-lhe. — Prefiro cuidar pessoalmente dela.

Laio limitara-se a levantar a cabeça por um momento.

— Sim, senhor. Como achar melhor, senhor. — E voltara ao trabalho.

Ido teve de reconhecer que o rapaz era esforçado. A sua armadura nunca estivera tão bonita e reluzente. Mas ainda faltava ver o que Vesa iria achar a respeito.

Enfrentou o assunto com Laio sem meias palavras.

— Esta tarde irá dar de comer ao meu dragão.

As faces do rapaz passaram de rosadas para brancas.

— Esta... tarde?

— Por quê? Você tinha outros planos?

— Não, senhor. Claro que não, senhor. Só que... nunca dei de comer a um dragão.

— Sempre há uma primeira vez. Nihal vai lhe explicar tudo.

Nihal levou a tarde inteira para convencer o amigo a entrar nos estábulos, o imponente edifício que dominava o centro da cidadela. Já lá dentro, a jovem avançou segura para o fundo, onde se encontrava o nicho de Vesa. Laio, por sua vez, ficou paralisado só de ouvir a respiração possante dos dragões.

No dia seguinte as coisas correram um pouco melhor. Laio pendurou-se no braço da amiga e, de olhos fixos no chão, percorreu o longo corredor para o qual davam os abrigos dos animais.

— Aqui estamos. — Nihal parou.

Num enorme nicho cavado na pedra havia um animal que a Laio pareceu imenso. A sua cabeça, sozinha, era quase tão grande quanto todo ele. Vermelho como um tição em brasa, estava enroscado, com as grandes asas membranosas dobradas nos flancos.

A cabeça cristada apoiava-se quase com graça nas duas patas anteriores, menores do que as posteriores.

— Vesa, quero que conheça Laio. Procure tratá-lo direitinho. Como resposta o dragão emitiu um grunhido perplexo.

— E este, meu caro escudeiro, é Vesa — continuou Nihal, enquanto tentava desgrudar o amigo do seu braço. — Você deveria pelo menos abrir os olhos, Laio.

O rapaz entreabriu as pálpebras o suficiente para ver o grande dragão vermelho que olhava para ele com evidente desdém.

A partir de então Nihal levou Laio à estrebaria todas as tardes. O aprendiz de escudeiro tentava tomar coragem e acatava os conselhos de Nihal da melhor forma possível.

Depois de uma semana, esticou a mão para apalpar a pele escamosa de Vesa. Depois de duas conseguiu finalmente levar o carrinho cheio de carne até embaixo do focinho.

A partir daí tudo ficou mais fácil. Agora que vencera o medo, Laio parecia ter nascido para cuidar de dragões. Vesa acabou gostando dele e o rapaz apaixonou-se pelo enorme bicho.

Com Oarf, no começo, as coisas foram um pouco mais difíceis, mas Laio acabou fazendo com que o irritadiço animal também o aceitasse. Quanto ao tamanho, era comparável a Vesa, porém mais velho, um verdadeiro veterano de guerra. Era totalmente verde, embora a sua cor assumisse uma infinidade de matizes diferentes nas várias partes do corpo, a não ser pelas penetrantes pupilas, que eram rubras de fogo.

Se não estivesse vendo com os próprios olhos, Nihal nunca iria acreditar. Oarf, o seu Oarf, o dragão que lhe dera tanto trabalho, deixava-se acariciar por Laio como um bichano.

Mas não eram somente os dragões a mostrar uma predileção por aquele rapaz de rosto angelical. Fosse pela sua inocência, fosse pela paixão com que se entregava a cada tarefa que lhe era confiada, dentro de um mês já era o queridinho de todo o acampamento. Corria atarefado de um lado para outro, com expressão muito séria, como se estivesse levando a cabo sabe lá que terrível missão, e qualquer um que o visse passar não podia deixar de sorrir.

Até Ido teve de voltar atrás no seu julgamento acerca do escudeiro, que morria de vontade de mostrar-se útil e nunca deixava nada por fazer.

 

                     O SEGREDO DA LÁGRIMA

Desde que voltara para a base, Nihal já ficara mais de uma vez a olhar a Lágrima encastoada na espada de cristal negro, perguntando a si mesma de onde saíra aquela força misteriosa que tinha acabado com uma horda inteira de fâmins.

Decidiu indagar a um dos magos da cidadela, um jovem enviado pelo Conselho dos Magos que ajudava na escolha das estratégias militares.

Nihal contou-lhe o que acontecera no bosque.

O mago ouviu com ceticismo, então observou a Lágrima com ar de quem sabe das coisas.

— Sim, é realmente ambrosia, a resina cristalizada do Pai da Floresta, mas nunca ouvi dizer que pudesse ter qualquer uso prático na magia.

— O duende que me deu, no entanto...

— Os duendes são uns grandes mentirosos — interrompeu o mago com ar de superioridade —, mas de magia não entendem nada, acredite.

— E o que houve, então, no seu entender? — insistiu Nihal. Aquele mago começava a deixá-la irritada.

— Provavelmente nada. Talvez você e o seu amigo tenham tido uma alucinação. Ou quem sabe tomaram uns tragos a mais — disse o mago sorrindo.

Nihal saiu do alojamento dele para não correr o risco de dar-lhe uns tabefes. Logo que lhe fosse possível, iria procurar uma resposta na biblioteca de Makrat.

A ocasião apresentou-se no mês seguinte. Em Makrat, com efeito, foi convocado um conselho de guerra do qual iriam participar todos os Cavaleiros de Dragão empenhados na luta contra o Tirano.

Ido detestava este tipo de reuniões, mas não teve outro jeito a não ser sujeitar-se, e levou consigo Nihal e Laio.

Makrat era a capital da Terra do Sol, uma cidade cheia de confusão e caótica até na maneira de as casas se amontoarem umas em cima das outras. Era a sede da Academia assim como do Palácio Real. Hospedava, além disto, a maior biblioteca de todo o Mundo Emerso. O afamado centro de estudos ficava dentro do Palácio Real e para freqüentá-lo bastava a autorização de um Cavaleiro. Como Nihal já esperava, Ido não se fez de rogado. O gnomo considerava a leitura fundamental na formação de um Cavaleiro e ficou encantado com o fato de aquela casca grossa da sua aluna ter finalmente decidido aprender alguma coisa.

A grande biblioteca de Makrat merecia plenamente a sua fama. Era a mais completa coleção de livros de todo o Mundo Emerso, só perdendo da mítica Biblioteca perdida da cidade de Enawar. Ficava em uma das quatro torres do Palácio Real e instalava-se ao longo da imponente escadaria que subia em espiral por dentro da construção. Os degraus eram largos e baixos, tanto assim que quase não se tinha a impressão de estar subindo, mas quando se chegava em cima e se olhava para baixo ficava-se sem fôlego ao reparar na espantosa altura do prédio. Uma grande clarabóia de cristal no telhado fornecia a iluminação necessária ao interior.

Cada piso era dedicado a uma matéria diferente. Havia a seção de astronomia, a de história, a de poesia e, naturalmente, a de botânica e fitoterapia, com herbanário anexo. Mais de cem prateleiras apinhadas de volumes.

Os olhos de Laio, que fora com ela, brilharam de excitação.

— Encontramo-nos mais tarde — disse com voz sonhadora. E dirigiu-se para a coleção de ervas raras.

A biblioteca era muito freqüentada e Nihal sentiu-se logo fora do seu ambiente. De guerreiros, com efeito, não havia nem sombra. Muitos eram os magos, por sua vez. Sentados às mesas, debruçados sobre grandes volumes poeirentos, parados e pensativos ao lado das estantes, trepados nas escadas que levavam às fileiras mais altas de livros. Magos por toda parte, e todos eles virando-se ao ver Nihal passar. O tilintar da espada, normalmente tão familiar, parecia-lhe agora um barulho ensurdecedor. Também havia alguns jovens pimpolhos de nobre estirpe, e eles também olhavam para ela com desdém. Claro, o conhecimento é coisa de gente rica, pensou ela, e não dos pobres coitados que precisam defender-se da guerra. Nihal sentiu-se totalmente fora de lugar. Em horas como aquelas teria gostado de ser um pouco mais feminina, de ter uma aparência mais normal para não despertar toda aquela curiosidade. Impôs a si mesma ignorá-los. Não chegara até lá para desfilar entre aplausos, mas sim para descobrir alguma coisa acerca da Lágrima. Continuou escadaria acima até encontrar o que procurava: os três andares dedicados à magia. Aproximou-se de um bibliotecário e explicou o que procurava. O homem, que vestia um casaco de veludo cinzento sobre o qual havia o brasão dourado da Terra do Sol, deu logo uma ostensiva olhada nos trajes da moça, depois na espada.

— Queira acompanhar-me — disse afinal, com superioridade, e levou-a ao último andar indicando uma ampla mesa de mármore.

Voltou em seguida com uma pilha de pesados volumes.

— A biblioteca fecha à sexta hora — disse lacônico enquanto se afastava.

Nihal olhou desconsolada aquele monte de livros. Iria ser um trabalho demorado e enfadonho.

Descobriu notícias sobre qualquer artefato mágico conhecido, leu antigas lendas acerca dos duendes, aprendeu tudo a respeito dos Pais da Floresta, mas nenhum livro mencionava nem uma palavra sequer acerca da Lágrima.

Encontrou apenas umas poucas linhas sobre a resina:

A resina dos Tomren, popularmente conhecidos como Pais da Floresta, é comumente usada como remédio para leves moléstias. Ela também facilita a recuperação das forças após tarefas exaustivas. Depois de seca, a resina assume uma forma cristalizada muito bonita.

Havia em seguida uma página inteira descrevendo-a detalhadamente. No fim, umas poucas palavras lacônicas:

As concreções de resina ressecada, por muitos chamadas de Lágrimas, são às vezes usadas como pedras não preciosas na arte da ourivesaria.

Nihal ficou de nariz grudado nos livros até o fim da tarde, mas nada mais encontrou. Quando, desanimada e com dor de cabeça, levantou os olhos do último volume, percebeu que lá fora já estava escuro. A grande biblioteca era iluminada por pesados braseiros de bronze e por tochas presas às paredes. Levantou-se, espreguiçou-se e olhou em volta à procura do bibliotecário. Nem sombra dele, e portanto leu as últimas linhas do livro que estava manuseando sem a menor esperança de encontrar alguma coisa que pudesse interessar: a corriqueira descrição pormenorizada e toda uma série de referências históricas sobre o uso das Lágrimas no passado. Nihal não pôde segurar um bocejo.

Na última página, no entanto, reparou num símbolo estranho, um carimbo preto. Só então notou que ele também aparecia, idêntico, na capa. Procurou mais uma vez o bibliotecário e finalmente o viu sentado a uma mesa distante. Aproximou-se dele segurando o livro.

— O que quer dizer isto? — perguntou apontando para o símbolo.

O bibliotecário fez uma careta estranha e tirou o livro das mãos dela.

— Que não deveria ter-lhe dado.

— É uma pena — comentou Nihal com sarcasmo —, já o li todo. Então, o que significa?

O bibliotecário levantou os olhos para o céu, mas Nihal nem pestanejou e ficou ali, à espera de uma resposta.

— Quer dizer que o autor do livro foi condenado pelo Conselho. Livros como este só podem ser oferecidos aos leitores tomando-se algum cuidado. — O homem leu o nome na capa. — Megisto. Claro, o historiador. Nada de muito perigoso. Pode ser lido sem maiores problemas.

— E por que, então, acabou sendo condenado pelo Conselho? — insistiu Nihal.

O bibliotecário suspirou conformado.

— Era um mago muito medíocre, dedicava-se principalmente aos estudos históricos. Depois tornou-se um colaborador do Tirano, mas graças aos deuses foi capturado e punido.

Exatamente o tipo de coisa que aguçava a curiosidade de Nihal.

— Poderia dar-me alguns livros sobre a história desse tal Megisto?

— Nada tem a ver com a sua pesquisa, pelo que posso entender. Aquele sabichão começava a abusar da sua paciência. Nihal sorriu para ele com frieza.

— Acabei de mudar o assunto da minha pesquisa agorinha mesmo. Algum problema? — Apoiou descuidadamente a mão na empunhadura da espada.

O homem dardejou-a com um olhar enfastiado e se dirigiu para uma série de estantes pretas.

Nihal não tinha reparado nelas antes e sentiu o coração pular no próprio peito. Eram quatro, chegavam até o teto e eram protegidas por uma sólida grade de ferro batido que trancafiava centenas de livros, também pretos. No dorso de cada capa sobressaía uma runa escarlate. Nihal sabia do que se tratava, Senar já lhe tinha falado a respeito: eram os Livros Proibidos. Continham a magia obscura, a que surgia do mal. Senar havia sido muito vago ao tocar no assunto, e Soana fora igualmente evasiva, mas Nihal sabia muito bem que aquela magia era proibida pelo Conselho. Destinava-se à subversão maléfica da natureza e, para cada feitiço, exigia como penhor a alma do mago. Naqueles livros podiam ser encontrados os piores encantamentos ofensivos, aqueles que o Tirano havia aperfeiçoado e levado às extremas conseqüências.

O bibliotecário, no entanto, não estava indo para aquele setor, mas sim para o seguinte, onde havia livros com encadernação de couro escuro e pesadas tachas de metal, mas de aparência muito mais inofensiva do que os outros. O homem tirou um volume do fundo de uma estante, ao lado da seção protegida pela grade, e jogou-o para Nihal de qualquer jeito.

— Aqui deve haver tudo aquilo de que precisa. Nihal leu o título. Anais da luta contra o Tirano.

Cheia de curiosidade, voltou à mesa e mergulhou na leitura. Era a coleção de todos os fragmentos dos Anais do Conselho dos Magos que falavam da luta contra o Tirano.

A história começava cinco anos depois da dissolução do Conselho dos Reis e dos Magos. Era justamente o tempo que o Conselho dos Magos levara para reorganizar-se.

Nihal ficou lendo minuciosamente até encontrar a palavra “semi-elfo”. O seu coração quase parou. Num tom fleumático e burocrático, muitos fragmentos relatavam a destruição de Seférdi, a capital da Terra dos Dias “arrasada numa única noite”, e da odisséia do seu povo. Nihal leu sobre as aldeias dos fugitivos destruídas pelos fâmins, a defesa desesperada dos seus similares, as contínuas chacinas e matanças. Não conseguia tirar os olhos daquelas palavras. De repente as palavras viraram imagens vivas. Dos sinais negros riscados no pergaminho surgiram figuras humanas, fâmins, semi-elfos. E aí corpos espalhados pelo chão, membros decepados, sangue. Na sua mente ecoaram gritos de desespero e finalmente o canto feroz dos guerreiros.

Não!

Nihal empurrou a cadeira para trás e afastou-se da mesa. Estava ofegante. Tentou afugentar da mente aquelas imagens tão parecidas com seus pesadelos. Fechou os olhos. Pensou na base, em Laio, em Senar, na sua nova vida.

Quando sentiu-se mais calma, voltou ao livro e leu os trechos dedicados aos seus similares. Mais guerras, mais massacres. Depois algumas páginas escritas por uma mão diferente. Nihal continuou a leitura.

Hoje, décimo dia do quarto mês, septuagésimo ano do Tempo de Nâmen, um terrível inimigo caiu nas nossas mãos.

Finalmente encontrou notícias acerca de Megisto.

Já estava ao lado do Tirano havia muitos anos e isso o tornara um mago poderoso. Não desprezava o uso da espada, no qual aliás era muito habilidoso, e fizera da Terra dos Dias o seu reino. Dali organizava terríveis incursões na Terra do Sol e lutava na primeira linha junto com os seus homens. Mostrava-se sedento de sangue. Havia até quem o considerasse imortal.

Nihal achou aquilo parecido com a descrição que Senar fizera de Dola, o terrível guerreiro que havia arrasado e queimado a Terra do Vento.

Depois de espalhar o terror na Terra dos Dias, Megisto desviara-se para a Terra da Água, concentrando a sua crueldade no povo das ninfas.

Acabou sendo traído pela própria ferocidade: sedento de morte, penetrara com um pequeno contingente na parte mais interna e viçosa da Terra da Água, uma região da qual não existiam mapas e onde nenhum ser humano jamais pensava morar. Aqueles bosques eram o domínio incontestável das ninfas e era impossível orientar-se sem a ajuda delas. Megisto ficou então cercado por um destacamento das Terras livres. Já vinha lutando havia muito tempo e tinha matado muitos inimigos. Quem o tornou inofensivo não foram nem os soldados nem os Cavaleiros de Dragão. Foram as ninfas. Lembrando as desgraças que aquele homem havia infligido ao seu povo, todas as ninfas da Terra da Água tinham acorrido ao lugar e lançado um dos seus mais poderosos encantamentos: a floresta fechara-se sobre Megisto como uma imensa mão verde, aprisionando-o numa invencível maranha de galhos, raízes e trepadeiras.

O homem foi então levado a Makrat e submetido a julgamento pelo Conselho dos Magos, mas o fragmento relativo à sua condenação estava incompleto. Só relatava alguns trechos do requisitório de Dagon, o Membro Ancião do Conselho.

Muito sangue foi derramado nestes últimos anos, e acrescentar o desse homem em nada ajudaria a justiça. Proponho então que lhe seja imposto (...) ficará eternamente na Terra que ele tão ferozmente afligiu (...) Que reflita sobre tudo aquilo que fez na solidão do seu cativeiro e que os anos possam trazer-lhe sabedoria e arrependimento.

— Quer dizer que ainda está vivo — murmurou Nihal incrédula.

Então havia um inimigo tão poderoso como aquele aprisionado na Terra da Água.

O toque de uma mão despertou-a dos seus devaneios. Laio e o bibliotecário haviam se materializado de repente ao lado da mesa. Estava na hora de irem embora.

Durante todo o caminho de volta Ido queixou-se dizendo que a reunião havia sido uma grande amolação. Nihal, ainda cheia de dúvidas quanto à Lágrima, ouvia sem prestar muita atenção enquanto Laio, carregado como estava de todos os frascos e ervas que comprara no mercado, já estava empenhado demais em não cair do cavalo.

Quando chegaram, a base mostrava-se tranqüila como de costume. Nada parecia ter mudado durante a ausência deles. Mal tiveram tempo de passar pela entrada, no entanto, e uma sentinela chamou-os.

— Parem! Há uma mensagem para o escudeiro.

Laio, incrédulo, pegou o rolo que o guarda lhe entregava. Quando viu o selo impresso no pergaminho empalideceu e não conseguiu evitar um gemido.

— O que foi? — perguntou Nihal.

— É o meu pai — respondeu o rapaz com um fio de voz.

 

                               AS ILUSIVAS

Senar só conseguia perceber a maciez das colchas. Era como estar envolvido em Chumaços de algodão e aquele calor trouxe-lhe à memória a infância. Entreabriu levemente os olhos. Esperava ver a mãe curvada sobre ele, pronta a acordá-lo com um beijo na testa, como fazia quando era menino. Mas a imagem que se insinuou entre as suas sobrancelhas foi muito diferente: um vistoso decote, o rego de um seio branco como leite e dois grandes olhos escuros. O mago despertou por completo e logo sentou-se com um pulo.

— Era hora — disse Aires com um sorriso.

Enquanto ela ia abrir as cortinas, Senar percebeu estar nada menos do que na cabine do capitão.

— Dois dias dormindo sem parar. — Voltou para perto dele e sentou-se na cama. — Não tem vergonha?

Senar esfregou os olhos.

— Onde estamos? — perguntou com voz rouca. Aires exibiu-se numa mesura.

— Bem-vindo às Ilusivas, poderoso senhor mago.

— As Ilusivas? — repetiu Senar confuso.

— Isto mesmo, as ilhas desconhecidas marcadas no mapa. É assim que os habitantes as chamam. Ao todo há quatro delas; uma maior, habitada, que aliás é justamente onde estamos agora, e mais três ilhotas que não passam de meros rochedos. Você deveria ver como olham para nós. Nunca tinham visto pessoas do Mundo Emerso antes, nós somos os primeiros — disse Aires com orgulho.

Senar deixou-se cair novamente na almofada.

— Em frangalhos, não é? — Ela riu. Senar anuiu.

— É sempre assim, quando um mago leva a bom termo uma magia muito cansativa.

— Ficamos preocupados com você, sabia? Quando subi até a gávea você estava branco feito um cadáver. Então vi que estava dormindo e quase me deu vontade de dar-lhe um tapa.

— Só me faltava... — suspirou Senar.

Aires afastou-lhe uma mecha dos olhos. Agora tinha uma expressão séria.

— Preciso agradecer a você. Todos precisamos. Se não fosse por você estaríamos todos mortos, Senar. Claro, se não fosse por você tampouco teríamos saído de viagem...

O mago percebeu estar corando.

— Agora só pense em descansar — disse Aires ao se levantar. —O navio já conheceu dias melhores, precisaremos de alguns dias para consertá-lo. Em seguida decidiremos o que fazer. — Já estava na porta quando parou e voltou atrás. — Já ia esquecendo — disse com um estranho sorriso estampado no rosto. — É bonita?

Senar ficou desnorteado.

— Quem?

— Não banque o bobo comigo.

— Não estou entendendo. Do que está falando? — gaguejou Senar.

Aires caiu na gargalhada.

— Mago mentiroso! Passou dois dias repetindo o tempo todo o mesmo nome. Então, quem é esta tal de Nihal?

Senar sentiu o coração disparar dentro do peito.

— Vamos lá, não se faça de rogado — insistiu Aires. — Se um homem chama uma mulher enquanto dorme, só pode significar uma coisa: está apaixonado.

Senar ficava cada vez mais sem jeito.

— Eu... isto é, não é bem...

Ela voltou a sentar-se na beira da cama e olhou para ele maliciosamente.

— Olhe aqui, não pense que estou com ciúme.

— É uma amiga — rendeu-se Senar. Aires levantou uma sobrancelha.

— Amiga como?

— Amiga, só isso — respondeu ele num tom que queria ser neutro.

Aires não se deixou enganar.

— Estou errada ou nesse “só isso” há uma ponta de pesar?

— É uma amiga de infância — bufou Senar. — Tivemos a mesma professora de magia. Passamos uns tempos juntos.

— Ela também é maga?

— Não. Está a ponto de tornar-se Cavaleiro de Dragão.

— Uma mulher? Um Cavaleiro mulher?! — exclamou Aires interessada. — Gostei da moça. E é bonita?

Senar baixou os olhos.

— Não sei. Acho que sim. Sim, é bonita. Podemos acabar com este interrogatório, agora?

Aires nem quis ouvir.

— E ama você? Pois é evidente que você a ama. Senar levantou os olhos para o céu.

— Aires, eu lhe peço...

— Então?

— Não, não me ama. Ama outro, um Cavaleiro que morreu em combate. Satisfeita?

— Um morto não é lá grande coisa como rival no amor —comentou Aires irônica.— Sabe qual é o seu problema, Senar? Você se subestima. — Então levantou-se e deu-lhe um tapinha no rosto. — Pense nisto.

Nos dias seguintes a cabine do capitão foi meta de uma verdadeira romaria. Um pirata depois do outro, a tripulação inteira foi visitar Senar para agradecer pessoalmente. O mais generoso quanto a atenções e felicitações foi Dodi, que naquela altura já o considerava o seu herói. Trazia-lhe almoço e jantar na cama, olhava para ele com expressão de adoração, tratava-o como um fidalgo.

O único que não apareceu foi Benares. Dodi disse que tinha tido várias brigas com Aires, mas Senar não ligou. Tinha enfrentado e vencido uma terrível tempestade, não iria certamente recear um namorado ciumento.

Quando achou que já tinha recuperado as forças, o mago decidiu que estava na hora de continuar o que havia interrompido. Levantou-se e foi para o convés. As Ilusivas esperavam por ele.

A ilha na qual haviam lançado âncora estava coberta de verdejantes florestas. Havia um só grande vilarejo, trepado nas encostas do vulcão adormecido que se erguia no centro da ilha. Senar tinha viajado muito, mas nunca vira um lugar parecido. No meio da aldeia havia uma torre que lembrava as da Terra do Vento, enquanto o palácio do governador era pesadão e cheio de enfeites como gostavam na Terra do Sol. Uma parte do vilarejo, além do mais, estendia-se até chegar a um pequeno lago, do qual despontavam as mesmas palafitas que podiam ser vistas na Terra da Água. Perto do topo do vulcão, por sua vez, havia toda uma série de moradas cavadas na encosta rochosa.

Como um todo, o vilarejo podia lembrar um mosaico, mas não era desprovido de uma certa graça. Circular pelas suas ruelas era como fazer uma rápida viagem pelo Mundo Emerso. A população era tão heterogênea quanto as habitações, as raças mais variadas conviviam sem qualquer problema. O equilíbrio conseguido pelas várias etnias parecia perfeito e imperturbável.

Senar estava à cata de informações. Precisava de toda ajuda possível para levar a cabo a sua viagem.

Quem soube endereçá-lo à pessoa certa para dar-lhe as respostas que queria foi Rool. Levou-o a uma taberna e o taberneiro indicou-lhes a casa de Moni, a mulher mais velha das Ilusivas.

Senar já imaginava uma velha encarquilhada e com a cabeça já meio obnubilada, e em vez disso viu-se diante de uma mulher de pele lisa e dourada como a de uma criança, perfeitamente dona de si. Só uma longa estria de cabelos brancos denunciava a sua idade.

A mulher mandou-os sentar-se a uma mesa à sombra de um alpendre, nos fundos da pequena casa de pedra. Senar gostou imediatamente da doce expressão dela.

— Quer dizer que este é o jovem que quer morrer — foi logo dizendo Moni, enquanto segurava as mãos de Senar entre as dela.

Falava uma língua que o mago podia compreender, mas com um sotaque do passado. A maneira com que pronunciava as palavras e a musicalidade das frases lembravam a Senar as antigas baladas que os menestréis entoavam nos dias de festa. Era a língua do Mundo Emerso, mas de dois séculos antes.

— Eu não quero morrer. Só tenho uma missão a cumprir — respondeu Senar um tanto constrangido.

A mulher sorriu.

— Eu sei. Posso ver isto. O seu coração é puro, jovem mago.

— Como sabe que sou um mago? A mulher soltou a sua mão.

— Tenho o dom da vidência. Mas talvez fosse melhor dizer a maldição. Desde o próprio começo das minhas lembranças, ela abre para mim as portas do tempo e do espaço, desvenda a seu bel-prazer farrapos do futuro e do passado. — Moni aproximou-se do rosto de Senar e fitou-o intensamente. — Quando chegamos aqui, trezentos anos atrás, os nossos olhos ainda estavam cheios dos horrores que havíamos sido forçados a presenciar. Mas éramos guiados pela esperança.

— Estavam entre os que abandonaram o Mundo Emerso? — perguntou Senar pasmo.

— Nós somos os que abandonaram o Mundo Emerso. Você é um garoto, não pode saber como era viver naquela época: um inferno no qual a volúpia do poder devorava as Terras. Nós também éramos jovens, então, mas a guerra sugava a nossa vontade de viver, a nossa juventude. O poder nos deixava enojados, não queríamos mais combater, não queríamos mais ver pessoas morrendo. Vínhamos de Terras diferentes, a raça e a guerra nos separavam, mas mesmo assim tínhamos em comum um desejo profundo: queríamos a paz. Estávamos convencidos de que o Mundo Emerso estava fadado a afundar num abismo de dor e morte. Desejávamos outro mundo. — A mulher interrompeu-se e Senar concordou pensativo. — Deixamos para trás as nossas Terras, os entes queridos e atravessamos o Mundo Emerso dilacerado pela guerra. Foi uma viagem terrível, muitos dos nossos morreram no caminho, mas estimulava-nos a certeza de que existia um mundo melhor onde poderíamos ficar. Chegamos então à Terra do Mar e partimos rumo ao desconhecido.

Moni fez uma longa pausa. Em seus olhos cinzentos como a pedra da casa em que morava, brilhavam reflexos dourados. Senar e Rool aguardaram em silêncio que ela continuasse:

— Os barcos eram pequenos, os mantimentos escassos. Não sabíamos se realmente haveria alguma coisa além do oceano, se iríamos encontrar uma terra onde desembarcar, mas mesmo assim partimos. Para chegar aqui vocês arriscaram a vida, mas para nós foi diferente. O mar recebeu-nos paterno e manteve-se calmo durante toda a viagem. Mas também tivemos de passar por maus bocados. Quem sabe, talvez os deuses quisessem nos pôr à prova para ver se o nosso espírito era forte o bastante, se de fato merecíamos construir um mundo novo. Quando finalmente chegamos estávamos totalmente esgotados. As ilhas pareceram-nos maravilhosas, a natureza convidava-nos a ficar. Paramos e começamos uma nova vida. Vivemos tranqüilos por muitos anos, construímos a nossa cidade, criamos os nossos filhos e alimentamos os nossos sonhos. Então começaram a chegar os navios.

— Os navios? — repetiu Senar.

— Pois é. Navios armados, cheios de homens ávidos e violentos que queriam tirar de nós aquilo que tínhamos construído com tanto esforço. Defendemo-nos. Lutamos com unhas e dentes. Sujamos de sangue as nossas mãos. Revivemos o pesadelo do qual havíamos fugido. E então criamos a tempestade.

— Você estava certo, era coisa de magia — ciciou Rool a Senar.

— Isso mesmo, capitão. Um mago poderoso ajudou-nos a nos proteger contra possíveis invasores. Ajudou-nos para que não tivéssemos de recorrer novamente às armas. — Moni fechou os olhos como se a lembrança fosse dolorosa demais. — Mas naquela altura o ódio já se insinuara entre nós. Muitos disseram que estas ilhas já não bastavam, que era preciso criar um império longe dos olhos famélicos do Mundo Emerso. Um império com um exército, capaz de defendê-lo. Foi assim que nasceu o reino que vocês chamam de Mundo Submerso.

Senar sacudiu a cabeça.

— Não estou entendendo. Como conseguiram construí-lo? Como puderam...

Moni interrompeu-o com um gesto da mão.

— Deixe-me continuar, jovem mago — murmurou a mulher. —Os nossos companheiros voltaram ao mar, mas já sem a esperança que nos animara muitos anos antes. Estavam cheios de ódio e rancor. Uma borrasca surpreendeu-os bem no meio da viagem e um dos seus navios foi a pique. Foi assim que conheceram o povo do mar, que havia séculos morava nas profundezas do oceano. Foram salvos da fúria das ondas por eles, que também mostraram aos nossos antigos companheiros novas ilhas onde poderiam morar. Por algum tempo a solução pareceu satisfazer os fugitivos, mas não demorou para eles recearem novos ataques por parte do Mundo Emerso. Nenhum lugar parecia-lhes suficientemente distante para ser considerado seguro. Pensaram então no mar. Se fossem viver abaixo da superfície ninguém mais poderia ameaçá-los. O oceano, isto mesmo, só ele podia ser realmente seguro. O povo do mar ajudou-os novamente, desta vez a construir um novo reino. Como e quando fizeram isso exatamente, eu não sei. Só vagas lendas e notícias confusas chegam até aqui. Já paramos de nos importar com eles. O Mundo Submerso representa o nosso fracasso. Um episódio sombrio do nosso passado que não gostamos de lembrar.

— O que me diz das tentativas de conquista por parte do Mundo Emerso? — perguntou Senar.

A velha sorriu.

— O que posso dizer? Que nem mesmo as profundezas marinhas são de fato seguras? Só sei que naquela ocasião os habitantes do mar desenfrearam a sua ira. Tornaram a tempestade ainda mais fatal e criaram um enorme remoinho para proteger a entrada do seu reino. Então... — Moni interrompeu-se.

— Então? — perguntou Senar.

— Parece haver um guardião, alguma coisa sinistra que vive na rota do remoinho. Mas só posso dizer isto, a minha vista só chega até aí. Não sei de quem ou do que se trata. Só posso dizer que desde então passaram-se mais de cento e cinqüenta anos e nenhum de vocês conseguiu chegar vivo ao Mundo Submerso nem às Ilusivas. Durante muito tempo o mar só nos trouxe de presente os cadáveres dos que acreditavam poder-nos conquistar.

A velha olhou para Senar.

— Vocês jamais encontraram a paz. Nós tivemos de construí-la com o sangue. O nosso sonho nunca se realizou. E isto é tudo, meu jovem mago.

— O Mundo Emerso já não é aquele que vocês conheceram — murmurou Senar. — Quando a guerra dos Duzentos Anos acabou, um grande e magnânimo rei, Nâmen, instaurou um longo período de paz. E por causa do Tirano que...

Moni voltou a interrompê-lo:

— São muitas as coisas que você não sabe, Senar, e não cabe a mim revelá-las. Volte, volte atrás.

Senar sacudiu a cabeça.

— Não posso.

— Ouça. Conheço muito bem o motivo que o trouxe aqui. Mas ninguém jamais violou as portas do Mundo Submerso e você tampouco vai conseguir.

Senar sentiu-se como se o seu coração tivesse parado de bater.

— Você... leu no futuro a minha morte? — perguntou num sopro.

Até Rool segurou a respiração.

— Não — respondeu a mulher —, mas vi claramente o seu barco sendo engolido e despedaçado pelo remoinho.

Quando Senar levantou-se, suas pernas tremiam. Rool apertou seu braço.

— Que você possa atravessar são e salvo as mais impiedosas das águas, jovem mago, e voltar para os seus trazendo as melhores notícias — sussurrou Moni enquanto se afastavam.

Sentado na praia, Senar observava o pôr-do-sol. O astro parecia imenso e abarcava céu e mar, juntando-os num único cenário vermelho. Exatamente como em Salazar, quando ele e Nihal subiam até a cobertura da torre e ficavam olhando para o sol que incendiava a estepe. Quem sabe onde Nihal estaria agora, o que estaria fazendo. Senar gostaria de tê-la por perto, de ouvir a sua voz, de pedir-lhe conselho.

Um leve frufru despertou-o dos seus devaneios. Aires sentou-se ao seu lado.

— Papai contou-me tudo — disse.

Senar permaneceu calado. Não queria estragar com palavras aquele pôr-do-sol, a calma suavidade da natureza.

— Quem é você? — perguntou Aires. O mago virou-se para ela.

— Como assim, quem sou?

— Quem é na verdade? — insistiu Aires. — Por que quer ir ao Mundo Submerso?

Nada mais tenho a perder, nesta altura. Senar tirou debaixo da túnica o medalhão que recebera no dia da investidura como conselheiro.

— Sou um membro do Conselho dos Magos. Sou o conselheiro da Terra do Vento.

Aires pegou o berloque e ficou revirando-o entre as mãos.

— Por que não contou logo?

— Acha que iriam querer-me a bordo?

— O que foi, veio nos espionar? Veio a mando do rei da Terra do Vento?

Senar deu uma gargalhada.

— Isso mesmo. E para espionar melhor subi na gávea do seu navio correndo o risco de morrer lá em cima.

Aires riu.

Senar voltou a ficar sério.

— Estou aqui porque a guerra vai mal. O exército das Terras livres não pára de perder terreno e nunca conseguimos recuperá-lo. Ao Tirano os soldados não faltam, ele mesmo os cria. Os nossos homens, por sua vez, tombam como moscas. Não vejo outra coisa a não ser gente que morre, desde que eu era uma criança. Queria fazer alguma coisa. Algo que não fosse apenas encantamentos para as armas ou intermináveis assembléias. Então encontrei o mapa. — Virou-se para Aires e fez uma pausa. — Foi aí que tive a idéia de pedir ajuda ao Mundo Submerso.

Senar tentou entender qual poderia ser o efeito desta revelação, mas Aires fitava-o com um olhar indecifrável. Logo apareceu a costumeira pincelada de ironia no fundo dos olhos negros.

— E você arrisca a sua vida por um motivo tão bobo? Senar ficou pasmo. De todas as reações possíveis, aquela era certamente a mais inesperada.

— Não... não estou entendendo — gaguejou.

— Acorde, mago! Se você morrer, o pessoal pelo qual está se sacrificando nem vai lhe dizer obrigado.

— Não é por isso que... — tentou dizer Senar.

Mas Aires era como torrente na cheia e não o deixou prosseguir.

— A vida é uma só e é bem curta. Não faz sentido jogá-la fora pelos outros. Eu só faço o que me dá vontade de fazer. Desejo alegrias, dores, paixão, desespero... tudo. Porque quando a morte me levar, tudo o que terei será a vida que levei. — Falava com entusiasmo e suas faces estavam vermelhas. — Posso entender quem dedica a sua vida a um amante, a um filho, a um amigo. Mas quem desperdiça o seu tempo tentando “fazer o bem” é um idiota. A maioria das pessoas só pensa em levar adiante e sobreviver. No que me diz respeito, os habitantes do Mundo Emerso podem todos morrer e ficar mofando embaixo da terra. Ficam ali, à espera que a morte venha buscá-los. Que sucumbam, então, condenaram-se sozinhos. Você, obviamente, pensa diferente — concluiu. — Você gosta de bancar o herói.

Senar ficou algum tempo calado, precisava pensar. Então pigarreou.

— Deixe que lhe conte uma coisa. Quando há dois anos, com a chegada do Tirano, fugi da Terra do Vento, encontrei no caminho uma casa destruída. Uma família de lavradores morava lá, pai, mãe e filha. Estavam todos mortos, inclusive a menina: um soldado trespassara-a com a espada e a deixara apodrecer na porta da casa. Quem sepultou os cadáveres fomos eu e os meus companheiros. Como acha que aquela menina poderia ter-se defendido, Aires? Por que os fracos devem sempre sucumbir? Nem todos são fortes como você. Quem não tem força pode até ter coragem, mas a coragem sozinha de nada adianta. — Senar passou a mão no rosto, depois fitou Aires nos olhos. — Eu tenho medo, não quero morrer, mas sei que preciso seguir em frente. E não tem nada a ver com bancar o herói. Peguei um barco e saí para o mar. Não creio que isto baste para tornar-me um herói. Só fiz isto porque já não tolerava toda aquela matança à minha volta. Fiz por medo. Medo do remorso.

O sol desaparecera sob a linha do horizonte. Aires ficou sentada na praia, de pernas cruzadas, o rosto virado para o mar. Sorriu.

— Até que gosto de você, mago. Pois é, você é um sujeitinho e tanto, poderia realizar muita coisa. Mas já entendi que não há como fazê-lo mudar de idéia.

Senar sentiu que a melancolia se fora. Estava calmo. Pela primeira vez a proximidade de Aires não o deixava constrangido. Já não importava que ele fosse um homem e ela uma esplêndida mulher. Eram quase amigos, agora.

Os seus pensamentos foram interrompidos por um pontapé na nuca. Caiu de lado, atordoado.

Aires levantou-se com um pulo, furiosa.

— Ficou maluco?

Benares estava atrás deles, roxo de raiva.

— Está pensando o quê, que sou cego? Agora até encontros românticos ao pôr-do-sol. Mas que bonito...

Aires deu uma gargalhada debochada.

— Nunca tinha reparado em como você era idiota, Benares.

— E eu em como você era vagabunda — rosnou ele.

— Cuidado, Benares, está brincando com fogo.

Senar continuava deitado no chão. Ouvia as vozes abafadas dos dois amantes. Via a areia branca a um palmo do seu nariz. Quando tentou levantar-se teve uma tontura.

Logo que ficou de pé, Benares acertou-o de novo. Senar desmoronou outra vez ao chão. Enfrentar um namorado ciumento talvez não fosse tão fácil quanto acreditara. Aires e o pirata continuavam a gritar impropérios, com seus narizes quase roçando um no outro. Aquela situação parecia-lhe ridícula. Já chega. Ficou sentado e esticou a mão para Benares.

O homem parou de estalo, incapaz de se mexer. Não conseguia tampouco falar. Agora podemos conversar, disse o mago para si mesmo ao ficar de pé.

Aires desviou o olhar do amante para Senar e de Senar para o amante, perplexa.

— O que...

Senar fez sinal para que se calasse e aproximou-se do pirata petrificado.

— Preciso confessar-lhe uma coisa, Benares. A primeira vez que o vi achei que você era um idiota completo. Então, quando me contaram como libertou Rool, mudei de idéia. Ao que parece, no entanto, a primeira opinião é realmente a que conta.

Os olhos do pirata faiscaram como tições em brasa. Senar estalou os dedos e o pirata teve sua voz de volta.

— Jure que nunca mais vai zanzar em volta dela — esbravejou.

— Nunca zanzei em volta dela.

— Jure ou logo que me libertar irei matá-lo com as minhas próprias mãos. O seu feitiço não pode durar para sempre.

— Quer apostar? — provocou-o Senar. Um feitiço ofensivo como aquele sempre era um tanto cansativo e não podia ser mantido por muito tempo, mas Benares certamente não sabia disso.

E de fato deixou-se embromar direitinho.

— Quero a sua palavra! — rugiu. Senar bufou.

— Já lhe disseram que é muito maçante? Nunca tentei seduzir a sua mulher e não farei isso no futuro. Está feliz, agora?

Benares virou os olhos para Aires, que assistira à cena com uma careta de satisfação.

— Está bem. Desta vez estou disposto a esquecer o assunto, mulher. Mas lembre-se: a minha paciência tem limites — resmungou.

Aires encostou-se nele rebolando. Fitou-o longamente, sorriu, acariciou seu rosto com ternura. Em seguida aproximou os lábios como que para beijá-lo.

A cusparada acertou Benares num olho. Aires deu as costas e afastou-se de cabeça erguida.

O encanto já pedia arrego. Senar dissolveu-o e o pirata saiu atrás dela. Sem antes deixar de sibilar, no entanto:

— Você ainda vai ter de se ver comigo, mago.

 

                                 A BATALHA DE LAIO

A carta era clara e concisa.

Laio,

O seu comportamento até agora foi totalmente inconveniente. Não só maculou a honra da família falhando na prova da primeira batalha, como também fugiu e entregou-se a uma vida vagabunda. Descubro agora que se enfurnou num acampamento, fazendo um trabalho indigno das suas capacidades e da sua posição.

Exijo que você mude imediatamente esta sua absurda conduta. Nasceu para combater e irá combater. Opor-se à minha vontade, além de inútil, seria muito tolo. Ordeno portanto que se junte a mim nos meus alojamentos na Terra da Água onde, sob a minha direta supervisão, continuará o adestramento para tornar-se Cavaleiro. Se dentro de vinte dias não estiver aqui em casa, eu mesmo irei buscá-lo, quer você queira ou não.

Seguia um elaborado selo de lacre que mostrava um dragão de boca aberta e língua de fora. O animal era encimado por uma delgada foice de lua e três estrelas para lembrar que a estirpe de Laio vinha da Terra da Noite. A assinatura, escrita com tinta vermelha-escura, dizia enfática: “General Pewar, da Ordem dos Cavaleiros de Dragão da Terra do Sol.”

Quando Nihal a leu, sentiu o sangue subir-lhe à cabeça.

— O seu pai não pode tratá-lo deste jeito — disse, mal conseguindo conter a ira.

Laio sorriu com amargura.

— Sempre tratou-me deste jeito.

— E você ainda deixa que ele faça isto? Já não é uma criança. Precisa dizer-lhe o que quer fazer da sua vida. Sua, entendeu? E se ele não concordar, que vá para o diabo!

O rapaz não respondeu. Apertava o pergaminho nas mãos e não conseguia segurar as lágrimas.

Nihal não conseguia entender. Por que Laio não acabava de uma vez com aquilo? Por que não se rebelava contra as absurdas exigências do pai?

— O que tenciona fazer, ficar esperando que venha aqui para puxá-lo pelas orelhas como um menino travesso?

— Não sei, está bem? Não sei! — gritou Laio de repente. — Por enquanto quero ficar sozinho, só isto — acrescentou num sussurro.

Nihal saiu em disparada para a cabana de Ido.

— Você precisa fazer alguma coisa! Precisamos ajudá-lo! — exclamou acalorada.

Ido não perdeu a pose.

— Pelo contrário, não farei absolutamente nada.

Nihal ficou gelada. Depois de toda a ajuda que Laio dera a ela e a Ido naqueles meses, o mestre não podia eximir-se.

— Está brincando, não é verdade? O gnomo meneou a cabeça.

— Talvez você não se dê conta da situação — continuou Nihal, ainda mais zangada. — Laio não foi feito para a guerra e aquele louco do pai quer jogá-lo na arena. Se não fosse por mim, já teria morrido no dia do seu primeiro combate.

— Não tenho nada a ver com isso, Nihal.

— Mas tinha quando ele polia as suas armas e executava as suas ordens. O que foi, está com medo daquele monte de empáfia do pai?

Ido cerrou com força a mão em volta do cachimbo e Nihal percebeu a sua irritação.

— Fique sabendo, garota, que não dou a mínima nem para Pewar nem para Raven. Já venho enfrentando tipos como eles desde muito antes de você nascer. Claro?

Nihal baixou os olhos.

— Eu sei — murmurou —, mas então por que não quer ajudar? Ido deu um profundo suspiro.

— Ouça, Nihal. Quantas vezes ainda teremos de salvar Laio de si mesmo ou de qualquer outro que o ameace? Você impediu que morresse em combate, recuperou-o de um casebre perdido no meio da floresta, trouxe-o para cá... Está na hora de ele aprender a sair das encrencas sozinho. Um homem tem de saber fazer isto. E uma mulher também.

— Mas você sempre marcou presença quando eu precisei de um empurrão.

— Mas foi você, e não eu, quem decidiu mudar. Há coisas que a gente precisa fazer sozinho.

Nihal ficou em silêncio por alguns instantes.

— Mas ele não é capaz de virar-se por conta própria. E como soltar um menino no mundo sem qualquer ajuda.

— Não banque a mãe ansiosa, agora. Antes de mais nada porque não combina com você, e depois porque é a coisa da qual Laio menos precisa no momento. Se realmente quer ser escudeiro, terá de contar ao pai e lutar pela própria independência. Assunto encerrado.

— E qual seria a minha obrigação? Ficar olhando?

— Isso mesmo, Nihal. Nos três meses em que decidiu ficar longe dos campos de batalha, eu fiquei esperando. Às vezes é a única coisa que podemos fazer.

Laio ficou sozinho no seu quarto. Imaginou Nihal que ia para Ido gritando e esbravejando como uma alucinada. E ele? O que iria fazer? Olhou para a carta e não vislumbrou nem um fiapo de esperança. Conhecia muito bem o pai: era um homem severo, um soldado até as entranhas, acostumado a ser obedecido. Se viesse buscá-lo, o único caminho possível seria o choque direto. Talvez fosse melhor fugir de novo, voltar à floresta. O Mundo Emerso era bem grande, o pai demoraria anos antes de encontrá-lo, e talvez nem conseguisse. Mas nesse caso qual seria a vida que esperaria por ele? Um eterno fugir de um lugar para outro, sem destino e sempre forçado a olhar para trás para evitar surpresas.

No pouco tempo passado na base tinha compreendido que ser escudeiro era bem mais do que um capricho. Gostava do trabalho. Não tinha a menor queda pelas armas, mas sabia tomar conta das dos outros. Nunca poderia ser útil numa guerra, mas podia dar a sua contribuição na luta contra o Tirano ajudando os guerreiros. Não via nada de desonroso nisto.

Olhou para a espada que o tinha acompanhado durante todos aqueles meses de vadiagem, esquecida num canto. Observou a lâmina. Não estava afiada e começava a enferrujar. Cuidara com amor da espada de Ido, mas nunca gostara de perder tempo com a sua. Agora, no entanto, teria de voltar a segurá-la.

De relance pôde ver toda a sua vida futura. Uma vida bem curta. Iria morrer logo no primeiro combate, durante uma missão qualquer. Um destino sem graça para coroar uma vida inútil. Alguma coisa mexeu-se dentro dele. Não, não vai ser assim! Naqueles meses tinha descoberto que havia uma alternativa. Podia aspirar a algo diferente.

Estava decidido. Não iria desistir, sem lutar, de tudo aquilo que havia conquistado. Desta vez nada no mundo forçá-lo-ia a fugir.

Quando no dia seguinte Nihal entrou no quarto de Laio ficou de queixo caído. O amigo estava aprontando as malas.

— Não tenciono submeter-me às ordens do meu pai — disse. —Ê verdade, pode ser que ainda não seja um homem, mas tampouco sou uma criança, e quero tornar-me escudeiro. Irei até ele e explicarei minhas razões.

Nihal sorriu.

— E como acha que vai fazer isso? — perguntou enquanto o via amontoar suas coisas no catre.

— Muito simples: parto, chego para ele e digo o que penso.

— Estava me referindo à viagem. Laio parou pensativo.

— Trata-se de ir para a Terra da Água. Com um bom cavalo não deveria levar mais de duas semanas.

Nihal meneou a cabeça.

— Você já esqueceu a nossa pequena aventura na Terra do Mar? Vai ter de se movimentar perto da fronteira. Não vai ser uma viagem tranqüila.

— Vou ficar atento — respondeu Laio.

— Precisará de uma escolta. Falarei com Nelgar — concluiu ela, dirigindo-se a largas passadas para a porta.

Ao chegar ao alojamento do responsável pela base, no entanto, Nihal não pediu um guia qualquer para o amigo. Pediu uma licença para podê-lo acompanhar.

— Não cabe a mim decidir — respondeu o comandante. — Por enquanto você continua sendo aprendiz de Ido. Se ele estiver de acordo, eu não farei qualquer objeção.

Nihal não conseguiu evitar um suspiro. Era justamente aquilo que ela queria evitar.

— Achei que tinha sido bastante claro — foi logo dizendo o gnomo.

— Não é o que está pensando.

— Não mesmo? — Ido apertou o cachimbo entre os lábios. —Você não está fazendo um favor ao seu amigo, Nihal. Laio precisa aprender a se virar sozinho ou nunca será um homem. E você não é a mãe, nem a irmã, você não é ninguém.

— É uma viagem perigosa, pelo menos quanto a isso você concorda comigo, não concorda?

Ido anuiu a contragosto.

— Se portanto alguém tiver de acompanhá-lo, não vejo porque este alguém não possa ser eu. Sei cuidar de mim mesma e acho que já demonstrei isso.

Ido levantou os olhos para o céu. Nihal perdeu a paciência.

— Concordo, não sou tão forte quanto você, está bem? Nem todos conseguem deixar partir as pessoas de que gostam sem dizer coisa alguma, só esperando que tomem a decisão certa. E já deixei partir gente demais que eu amava. — Pensou em Senar, perdido não se sabe onde no meio do mar. Sacudiu a cabeça. — Não quero ir para resolver os seus problemas com o pai. Só quero estar perto dele, pois é disso que eu gostaria se estivesse no seu lugar. Ele me ajudou, me assistiu toda vez que precisei, ficou comigo na noite em que Fen morreu. Agora é a minha vez, ficarei ao lado dele na decisão mais importante da sua vida. Só farei isso, e se ele desistir dos seus sonhos, eu juro, não tentarei intervir. O meu é apenas um apoio... moral, é isso.

— Já conhece a minha opinião. Se estiver convencida daquilo que diz, então faça o que achar melhor. Pessoalmente, não acredito que resistirá à tentação de dizer umas boas a Pewar.

Nihal afastou com raiva os cabelos da testa e Ido caiu numa gargalhada inesperada.

— Estou brincando! Será possível que você não consiga esquecer essa sua carranca sisuda nem por um momento? Não tem o menor senso de humor.

Ela corou meio constrangida.

— Então... tudo bem com você se eu me ausentar por uns dias? Ido suspirou.

— Que seja. Pode partir e fazer o que bem quiser. Aliás já sabemos que é o que você sempre acaba fazendo. Não é isso mesmo? Os jovens não querem ouvir os conselhos dos mais velhos, e já faz um bom tempo que deixei de ser um rapazinho.

— Ora, você é um garoto — brincou Nihal. O gnomo deu-lhe um carinhoso cascudo.

— E isso aí, fique me gozando!

Nihal sorriu. Ido era carrancudo e arisco, mas sabia entendê-la como poucos no mundo.

Nelgar decidira destacar mais um homem com Laio e Nihal, um soldado raso chamado Mathon, com o qual Nihal, até então, mal chegara a trocar duas palavras. Laio, por sua vez, conhecia-o muito bem e ficou feliz com a sua companhia.

O pequeno grupo pôs-se a caminho ao alvorecer. Partiram a cavalo, nos primeiros raios de um morno sol primaveril. O verão já estava chegando e o ar era suave.

Tomaram a trilha que levava ao bosque e costearam a Grande Terra rumando para o sul. Laio viu a base desaparecer pouco a pouco, engolida pelas árvores. Quando a mata fechou-se por completo atrás deles, ficou imaginando se iria ver de novo aquele lugar, mas não se concedeu dúvidas ou saudades inúteis. Fixou os olhos no caminho à sua frente e preparou-se para a primeira grande batalha da sua vida.

 

                             NA VORAGEM

Quase todos os habitantes das ilhas foram assistir à partida dos piratas. Estavam apinhados no minúsculo cais que não passava de umas poucas tábuas de madeira debruçadas sobre o mar levemente encapelado.

Moni abriu caminho entre o pessoal e dirigiu-se para Senar.

— Estou aqui para dar a minha bênção à expedição, jovem mago. Espero vê-lo voltar vitorioso — disse. Pousou uma mão no ombro do rapaz.

O dia estava ensolarado e as velas do navio tremulavam vermelhas como sangue. Senar olhou para o capitão na proa e para Aires no leme, de cabelos soltos na brisa. Sorriu.

Não demorou muito para o perfil das Ilusivas desaparecer no horizonte.

O mar voltou a ser o dono absoluto do espaço em volta. Por muitos e longos dias nada mais se viu ao redor do navio, nem nuvens nem mudanças de paisagem. Não havia como fugir daquele triunfo de luz e daquela aflitiva imensidão azul.

O tempo passava lento e havia horas de sobra para pensar. Senar tinha a impressão de estar numa gaiola de água e céu. Já sabia muito bem o que o oceano guardava para eles e o medo tornou-se um companheiro constante de viagem. Surpreendia-se a imaginar amiúde a morte para a qual podia estar indo ao encontro: a água que invadia os pulmões, o sal que queimava a garganta e as narinas, a sensação de sufoco e impotência, a falta de ar, os intermináveis minutos de agonia e afinal a inconsciência, quase um alívio. E aí o corpo comido pelos peixes, arrastado e consumido pelas correntezas, desfigurado pelas ondas. Forçava-se a não pensar no assunto, mas estas imagens voltavam fatalmente a atormentá-lo.

O ambiente não estava pesado somente para Senar. A inquietação que pairava sobre o navio também afetava Rool e Aires.

Vários piratas já haviam tentado convencer o capitão a esquecer o assunto. “O milhão de dinares já está no nosso bolso, já não há motivo para seguirmos em frente. É melhor nos livrarmos do mago de uma vez, e aí voltar para casa sem demora.”

Rool, no entanto, logo botara todos no devido lugar.

“Senar salvou a nossa vida e nós vamos levá-lo até a voragem. Assumi este compromisso e tenciono cumpri-lo.”

Certa manhã, após duas semanas de navegação, a superfície da água tornou-se estranhamente densa e o mar começou a mostrar trêmulos reflexos roxos, no começo um tanto evanescentes, mas depois cada vez mais firmes e definidos. Apesar de o vento soprar com vontade, o navio mal conseguia avançar e chegou a parar quase por completo.

— Recolham as velas, rápido! — gritou Rool. — E chamem o mago.

De repente tudo pareceu entrar em compasso de espera. A tripulação inteira debruçava-se nas amuradas, sem conseguir tirar os olhos daquela pegajosa massa azulada.

— O que é? — perguntou Rool quando Senar chegou.

— Não sei, capitão — admitiu o jovem.

— Procure dar um jeito! Só pode ser algum tipo de bruxaria. Senar sacudiu a cabeça.

— Nenhum feitiço pode criar uma coisa como essa — respondeu com calma.

— O que vamos fazer?

Mesmo que Senar tivesse porventura algo a dizer, não teria mesmo assim tempo de dar uma resposta. De repente o navio começou a mexer-se descontrolado, por conta própria. Um murmúrio irrequieto serpenteou pelo convés. Um violento puxão para a frente, depois outro para trás. Apesar das velas recolhidas, o barco deu um pulo como que empurrado por uma forte ventania. Todo o mar transformou-se numa massa pulsante e pegajosa.

Em volta do casco, aquela espécie de geléia foi se tornando cada vez mais consistente e viscosa, até transformar-se numa superfície que mais parecia alcatrão derretido.

Senar lembrou as palavras de Moni: uma presença obscura a vigiar a rota para a voragem. E compreendeu. Um monstro marinho. Já tinha lido alguma coisa a respeito, mas sempre acreditara tratar-se apenas de lendas: estranhas criaturas que moravam nas profundezas, seres gigantescos que atacavam os navios. E agora tinham de enfrentar um daqueles horrores. Talvez algum mago do Mundo Submerso tivesse vinculado o monstro à defesa do reino com algum feitiço.

A criatura, ou pelo menos uma parte dela, manifestou-se em toda a sua terrível aparência. Era uma massa informe quatro vezes maior do que o navio, diferente de qualquer outro ser vivo que já tinham visto: uma imensa colcha de carne enrolada sobre si mesma, no meio da qual havia uma espécie de grande boca, uma verdadeira caverna purulenta. Estavam navegando sobre aquele corpo pegajoso e, para qualquer lado que se virassem, não podiam distinguir outra coisa.

Em volta da bocarra do monstro o roxo da carne tornava-se negro: uma nojenta caverna cheia de dentes da qual exalava um asqueroso fedor de podridão. Podiam-se ver, dentro dela, peixes ainda em decomposição, galhos de árvores, mastros despedaçados, restos de amuradas. E ainda caveiras e ossadas de homens e animais, levadas até lá pela correnteza. Era o destino que esperava por todos aqueles que ousassem enfrentar a tempestade que defendia as Ilusivas.

Já não havia mar, nem ondas. Não havia qualquer escapatória.

Um surdo rumorejar ressoou no ar em volta e gigantescos tentáculos cheios de ventosas ergueram-se ameaçadores para o céu. Por um momento quase chegaram a ocultar a luz do sol, para então se abater violentamente em cima do navio.

O pânico tomou conta de todos. Um mastro quebrou-se e desmoronou estrondosamente no convés. Os lamentos aflitos dos piratas feridos confundiram-se com as ordens de Rool, os berros apavorados de Aires, os gritos de Benares.

— Faça alguma coisa! Faça alguma coisa! — gritou Dodi para Senar.

O mago estava tão apavorado quanto qualquer outro. Tentava raciocinar com calma, mas perdia continuamente o fio do pensamento. Só conseguia proteger o barco com a sua barreira defensiva, sem contudo encontrar um meio válido para livrá-lo da ameaça.

Naquela altura a embarcação já deslizava descontrolada, a uma velocidade totalmente fora do comum. Sob a pele coriácea do monstro, as contrações dos músculos tornavam-se cada vez mais poderosas e freqüentes.

Quanto mais o navio escorregava para a boca do monstro, mais o esfomeado rugido da criatura tornava-se audível. Era um som pavoroso e arrepiante que se juntava aos gritos da tripulação para formar uma grotesca melodia.

Senar segurava-se no mastro principal. Fazia um esforço imenso para manter-se calmo, mas sem muito sucesso. O seu coração parecia explodir em seu peito. Procurou com os olhos o capitão e a filha, mas em vão.

Benares apareceu diante dele, de repente.

— Mexa-se, mago!

Senar olhou para ele quase sem vê-lo.

— Não sei o que fazer.

O tapa acertou-o bem no meio da cara.

— Então invente alguma coisa! — berrou o pirata. Em seguida agarrou-o pelos cabelos e arrastou-o até a proa. — Foi por isto que viemos até aqui? Para encher a barriga deste monstro? Onde está toda a sua linda conversa? Perdeu no caminho?

— Eu...

Benares estava totalmente descontrolado.

— Cale-se! Só pense em mostrar que está pronto para tudo, se quer mesmo levar a cabo a sua missão.

Senar anuiu. Ele está certo. Isto não pode acabar assim.

— Então? — gritou Benares. — O que tenciona fazer?

Senar deu-se conta da única solução possível. Não pense no que poderia acontecer. Não pense em coisa alguma. Só faça.

— Vou precisar da sua ajuda, Benares.

— Tudo bem, mas que seja rápido — respondeu o pirata.

No começo quase não deu para perceber. O navio levantou-se devagar, como que puxado por cabos invisíveis. Depois a quilha ergueu-se umas poucas braças acima da pele do monstro, indecisa, até que com um puxão separou-se por completo. O mastro apontou para o céu e o barco subiu cada vez mais rápido, de velas estranhamente inchadas para baixo. Ao mesmo tempo o monstro, como que incrédulo, retorcia-se convulsivamente à procura da sua vítima.

— Estamos voando — murmurou Dodi, pasmo, enquanto os piratas penduravam-se nas amuradas para ver aquele prodígio.

Debruçado de olhos fechados no parapeito da proa, concentrado na tarefa, Senar gritava palavras incompreensíveis. Benares, ao seu lado, segurava-o para indicar-lhe a direção certa. Logo abaixo deles, o demônio esculpido na madeira parecia escarnecer a bocarra do monstro que se abria e fechava espasmodicamente.

Senar apertou os punhos e tentou seguir em frente. Nunca se havia empenhado num encantamento tão cansativo como aquele. Tinha o corpo dolorido pelo esforço e cada um dos seus músculos latejava de dor.

A quilha ainda voltou a resvalar algumas vezes na pele da enfurecida criatura.

— Concentre-se! Estamos perdendo altura — rosnou Benares. O navio acelerou de repente fazendo cair ao chão a tripulação.

O barco voltou a subir devagar até afastar-se de uma vez por todas.

— Levantar velas! — berrou Benares. — Levantar velas, rápido!

A embarcação continuou a pairar umas poucas braças acima do monstro, à cata de uma saída entre aquela maranha de tentáculos. O mago estava completamente esgotado, não iria demorar para ter um colapso; era como se as suas energias estivessem sendo sugadas com espantosa rapidez. Quase chegou a cair, mas Benares segurou-o.

— Vamos lá, segure-se em mim! Só procure cuidar de nos manter voando.

Senar mal conseguia dar-se conta dos braços do pirata que lhe apertavam o peito e da voz que gritava:

— Rápido, homens! Peguem os arpões!

Incitada pelas ordens decididas de Rool, a tripulação retomou coragem e começou a golpear ferozmente o monstro. De ambos os lados do navio uns piratas conseguiram enganchar os tentáculos enquanto outros lançavam-se raivosamente ao ataque com espadas e machados.

Um líquido amarelado e malcheiroso esguichou das feridas. Os urros aterradores da horrível criatura ecoaram no ar.

A voz de Benares chegou a Senar distante e abafada.

— Desça! Desça logo, ora essa! Senar estremeceu.

— Baixe logo este barco, eu já disse! Conseguimos! Quando voltou a abrir os olhos o mago viu-se diante do mar aberto. A bola vermelha do sol que se punha feriu seus olhos, a fresca aragem do entardecer acariciou seu rosto.

O navio pousou delicadamente na água enquanto a umas cem braças da popa os últimos tentáculos do monstro desapareciam sob as ondas. Gritos de triunfo ecoaram no convés. O pesadelo tinha acabado.

Senar não conseguiu dominar o violento tremor que o sacudia. Benares nada disse. Afastou-o da proa e entregou-o de forma um tanto brusca aos cuidados de Dodi, em seguida começou a correr pelo convés.

— Aires! — berrou o pirata. — Aires!

— Responda, minha filha! — ecoou a voz de Rool.

Por uns instantes o barco ficou entregue a um silêncio tumular. Então uma voz muito fraca ouviu-se no convés.

— Estou... estou aqui.

Aires jazia milagrosamente ilesa entre os escombros do castelo de popa.

Estavam perdidos no mar, longe das Ilusivas e do Mundo Submerso. Mas estavam vivos e fora do alcance do monstro.

— Precisamos seguir em frente — disse Rool à tripulação reunida no convés.

— E como acha que vamos fazer isso? — desabafou um pirata. — Não são muitos os que sobraram, e só umas poucas velas ainda estão em condição de agüentar o vento. Sem mencionar que um dos mastros foi destruído.

Aires tomou a palavra:

— As velas podem ser consertadas. Quanto ao mastro, ainda temos mais dois. Como é? Têm medo de não conseguir?

Um murmúrio irritadiço serpenteou entre os piratas.

— Aquele moleque virou a cabeça dela — ciciou alguém.

— Calados! — trovejou o capitão. — Fiquem sabendo que quem decide sou eu. Por enquanto acho bom arregaçarmos as mangas e sairmos logo daqui. Há cheiro de morte no ar.

A tripulação fez o possível para consertar as velas costurando o pano de qualquer maneira. Sem qualquer resultado apreciável, no entanto. Só conseguiram pequenas velas cheias de remendos, com uma capacidade de tração muito menor do que antes. Quando o vento aumentava era preciso amainá-las, e quando abrandava o navio quase não se mexia.

O encantamento deixara Senar totalmente exausto. Logo que recuperou as forças saiu do porão e subiu até o camarote de Rool. Encontrou o capitão e a filha debruçados sobre o mapa.

— Precisamos mudar de rota — disse Rool logo que o viu. Senar franziu a testa e aproximou-se da mesa.

— Por quê? Erramos o caminho?

O capitão indicou um pequeno arquipélago.

— Não, mas a nossa única chance de sairmos vivos desta enrascada é chegando aqui. Estas ilhas não ficam muito longe, uma ou duas semanas no máximo. Acredito que já nos afastamos bastante do remoinho para ficarmos tranqüilos.

Senar ficou calado, pensativo, e então concordou:

— Está bem, capitão. Vocês estão certos. Vamos parar por ali mesmo: eu pegarei um bote e cada um poderá seguir o próprio caminho.

Um momento de silêncio seguiu-se a estas palavras.

— Pense bem, Senar... — começou Aires. O mago interrompeu-a.

— Quando aceitei esta missão sabia muito bem que seria uma tarefa difícil.

A mulher levantou-se irritada.

— Difícil coisa nenhuma! Impossível! Estava bem claro desde o começo. Não vai conseguir sair vivo dessa. Para que insistir, então?

Rool deu um vigoroso murro na mesa.

— Pare com essa ladainha, Aires — trovejou o capitão. — Ele já fez a sua escolha. Assunto encerrado.

No começo da segunda semana de navegação desde o encontro com o monstro, o mar tornou-se tão branco que mais parecia leite. A água ficou cheia de detritos que balançavam em volta e a correnteza, muito mais violenta.

Já havia amanhecido e Senar estava no convés. Observou a espuma das ondas que escorriam ao longo dos flancos do navio. Sentiu-se profundamente aliviado. Fim da linha. Tudo indicava que haviam alcançado a margem externa até onde chegava o poder da voragem. A espera tinha acabado.

Pouco a pouco a tripulação juntou-se no convés e aprontou-se a baixar o bote de Senar. Enquanto os marujos abasteciam o pequeno barco com água e mantimentos, Senar sentiu o sangue gelar em suas veias. O rosto e os lábios ficaram sem cor, a boca secou e o mago já não conseguia refrear o tremor das mãos.

Aires ficou ao lado dele, em silêncio, até o bote ficar pronto.

Os piratas ficaram em formação no convés, esperando.

Senar olhou para cada um deles: seus companheiros de viagem. Quando falou, sua voz ecoou alquebrada de emoção:

— Sinto muito por tudo aquilo que tiveram de enfrentar por minha causa. Vocês são... são todos homens extraordinários. Realmente. — Virou-se para Rool. — Gostaria de poder ajudá-lo a voltar em segurança, capitão.

Rool aproximou-se e deu-lhe uma palmada nas costas.

— Não se aflija. Somos lobos-do-mar, afinal! Só pense em salvar a própria pele, meu rapaz.

Foi a vez de Dodi falar:

— Faça uma boa viagem, mago. Não vai demorar para a gente se ver de novo — disse com um sorriso confiante.

Uns despediram-se com pesar, outros com indisfarçável satisfação: o criador de casos ia finalmente deixá-los em paz. O próprio Benares apertou-lhe a mão com um gélido sorriso.

Aires foi a última a chegar e deu-lhe um demorado abraço. Depois afastou-o de si e fitou-o nos olhos.

— Não se vá — disse baixinho. — Fique conosco.

Senar mal conseguiu sorrir.

— Sou um bom rapaz, Aires, você mesma disse. Mas não nasci para essa sua vida no mar.

O barulho das ondas que fustigavam o casco deixava-o arrepiado. Olhou para baixo. O navio balançava violentamente no mar revolto.

— Podem baixar — disse quase num suspiro.

Rool, Aires, Dodi e todos os demais desapareceram atrás da amurada e Senar ficou sozinho no oceano.

Logo que tocou na água o pequeno barco ficou entregue à correnteza. Era o fim daquela longa viagem. Senar tinha as mãos geladas e o seu coração batia tão descontrolado que parecia estar a ponto de explodir dentro do seu peito. Já tinha experimentado aquela sensação, mas só quando estava sonhando: tinha a impressão de estar morrendo, sem contudo poder fazer coisa alguma para salvar-se. Então acordava, reencontrava o aconchego do seu quarto e percebia que nada havia a temer. Desta vez, no entanto, não iria despertar. Só podia ficar ali, no bote, sentado à espera do fim. Estava apavorado. Por que tenho de morrer deste jeito? Apertou as cavilhas vazias dos remos até seus dedos ficarem exangues. Não faz sentido!

O barquinho navegava inexorável, rápido como o vento. Senar teve de segurar-se nas bordas para não cair. Depois levantou a cabeça e viu-se diante dele: o remoinho.

Era inimaginável, majestoso, terrível. Espalhava-se em volta gigantesco, a perder de vista; as correntezas que provocava pareciam alcançar o horizonte e até engoli-lo. Tinha a fascinante beleza que só as coisas aterradoras conseguem ter: um círculo perfeito cercado por uma infinita dança de ondas. A brancura da espuma ficava mais escura ao aproximar-se do centro da voragem, até tornar-se ameaçadoramente negra no local exato em que as águas mergulhavam para o fundo do abismo. O sol criava reverberações ofuscantes na superfície revolta e o remoinho movia-se tão depressa que parecia imóvel. Só o frenético turbilhão dos detritos que ele trazia consigo revelava todo o seu poder.

O bote começou a entrar na roda. Primeiro devagar, depois com ímpeto cada vez maior. Senar gritou o mais alto que pôde, tentando assim aliviar o terror que lhe apertava a garganta, mas o fragor das ondas dominava qualquer outro som. Preciso pensar! Deitou-se no fundo do barco. Terei de manter-me lúcido, se quiser safar-me!

Continuou a rodar por um tempo que lhe pareceu infinito. Então, depois de uma hora, ou de um ano, ou quem sabe de uma vida inteira, a corrida do bote tornou-se irrefreável. Senar viu o barco inclinar-se. Deu uma olhada para fora e viu-se diante da pavorosa bocarra escancarada abaixo dele.

E então levantou a barreira. O fragor das ondas parou, os batimentos do seu coração acalmaram-se. Pois é, a voragem era sem dúvida alguma aterradora, mas pelo menos durante umas duas horas ele podia agüentar o esforço daquela proteção à sua volta.

O barco descia agora com extrema rapidez. Tudo bem. Continuou descendo. Tudo sob controle. Não demorou para a luz do sol tornar-se um brilho longínquo. Tudo assumiu tons azulados. Estava no ventre do mar.

De repente Senar percebeu estar com os pés molhados. Sentiu um aperto no coração. Não podia ser! A abóbada da barreira continuava intacta em volta do bote, mas embaixo dele a água estava invadindo o barco. Olhou melhor. Uma rachadura! O casco tinha uma rachadura! Senar mal teve tempo de lembrar as palavras de Benares, naquela noite, na praia das Ilusivas: “Você ainda vai ter de se ver comigo, mago.” Então o mar abriu ferozmente caminho na madeira, a rachadura alargou-se e a quilha abriu-se como a casca de uma noz.

As ondas investiram contra Senar com violência. O baque deixou o mago atordoado e, quando se recobrou, ele só conseguiu ver os próprios cabelos que esvoaçavam na água.

Experimentou uma irrefreável vontade de respirar.

Escancarou a boca.

Água. Sal.

Estou me afogando.

A água invadiu seus pulmões.

O sal queimou-lhe a garganta e o nariz.

Exatamente como imaginava.

Um momento antes de desmaiar viu Nihal. Mais linda do que nunca. Sorria livre, despreocupada.

Em seguida sentiu-se sufocar e mergulhou nas trevas.

 

                         OS PRISIONEIROS

Décimo ano desde a descida. Durante o reinado de Teoni.

No primeiro mês do ano, diante do seu povo e dos dignitários, Sua Majestade delibera a respeito dos de Cima: “Considerando a maldosa insistência dos seus ataques contra a nossa liberdade, ordeno que qualquer um deles porventura encontrado em Zalênia, seja qual for o seu pretexto ou a sua missão, seja aprisionado e morto.

Que para sempre Zalênia fique separada do Reino Impiedoso.

Que o horror da guerra nunca mais nos alcance.

Que para sempre possamos viver livres e em paz.

Assim decido e ordeno. “

Do Novo Código de Zalênia, artigo XXIV

 

                                   O MUNDO SUBMERSO

A luz era ofuscante, terrível. Senar tentou mover-se, mas teve a impressão de já não ter corpo. Tentou falar, mas era como se alguma coisa o sufocasse. Permaneceu imóvel, de olhos fechados, e ouviu duas vozes infantis. Um menino e uma menina, ao que parecia.

— O que é?

— Não está vendo, sua boba? É um homem, ora essa!

— Mas é diferente, é muito estranho!

O sotaque lembrou a Senar o de Moni, mas agora o sentido de algumas palavras era para ele totalmente desconhecido.

— Talvez venha lá de Cima.

— E você sabe como são os de Cima?

— Claro que não, mas dá para ver logo que esse não se parece conosco.

— Estou com medo, Cob. — A menina mostrava-se cada vez mais assustada. — Vamos embora.

— Espere. Quero ver se está realmente morto.

— Não! Não toque nele. Vamos chamar alguém.

— Ora, pare com isso, Anfitris! Não seja boba. Já pensou se ele ainda está vivo?

— Eu lhe peço, vamos embora.

Ouvia-se agora a voz de um homem.

— Fez muito bem em me chamar, Cob.

— Acha mesmo que é um deles, lá de Cima?

— Não sei. Só posso dizer que não está nada bem. Precisamos cuidar dele.

— Mas se vier lá de Cima...

— Se vier lá de Cima, quando chegar a hora terá de enfrentar a lei. Mas por enquanto não podemos deixá-lo aqui.

Senar percebeu que o levantavam. Abriu os olhos mas só conseguiu vislumbrar duas figuras indistintas.

— Quem é você? — perguntou a voz mais adulta.

Senar esforçou-se para responder, mas nenhum som saiu da sua garganta.

— Não tenha medo — ouviu murmurar, para logo em seguida perder novamente os sentidos.

Passava a maior parte do tempo dormindo. Quando acordava, só conseguia perceber à sua volta uma grande luminosidade. Já não sabia quem era nem de onde vinha.

A consciência voltou pouco a pouco. Lembrou-se do seu nome e o de Nihal também.

Sentia-se muito mal. Os olhos já não estavam acostumados com a luz e só depois de algum tempo conseguiu mantê-los abertos e distinguir alguma coisa. Estava num quarto oval, de teto abaulado. Num canto havia uma cômoda de madeira clara. As paredes eram toscas, com reflexos dourados: pareciam feitas de areia molhada. Ao lado da cama, larga e baixa, abria-se uma janela também oval.

Uma mulher robusta, de pele nívea e cândidos cabelos, dobrou-se em cima dele e fitou-o com o olhar de quem sabe das coisas.

— Está melhor?

Devia ter uns quarenta anos e seu rosto era largo, de traços marcados. Os olhos extremamente claros tinham algo de assustador: quase não dava para distinguir a íris do branco da córnea, e a pupila sobressaía negra e profunda. Vestia um camisolão azul e usava um colar de pedras vermelhas e irregulares parecidas com pequenos galhos.

Senar abriu a boca para falar. Mais uma vez, no entanto, não conseguiu dizer coisa alguma.

A mulher olhou para ele com carinho.

— Não se afobe. Só acene com a cabeça. Está se sentindo melhor?

Senar anuiu.

— Vem lá de Cima? — A mulher apontou com o dedo para o teto. Senar fitou-a sem entender.

— Você vem do mundo fora da água?

Senar não sabia o que dizer. Sabia que por lá os habitantes do Mundo Emerso não eram propriamente hóspedes bem-vindos. A mulher devia ter-se dado conta dos receios dele e sorriu.

— Pode contar para mim. Enquanto estiver na minha casa nada terá a temer.

Senar voltou a anuir e procurou ficar sentado. Ao mexer-se, percebeu que haviam cortado seus cabelos. Apalpou a cabeça e só encontrou uma penugem muito curta.

— Eu mesma cortei. Estavam cheios de nós e de sujeira... — explicou ela. Interrompeu-se quando Senar ficou todo agitado.

A minha túnica! Onde está a minha túnica?

Guardara num dos bolsos da túnica o pergaminho com a assinatura de todos os membros do Conselho dos Magos. Estava protegido por um encantamento e a água não poderia estragá-lo, mas se o perdesse já não teria a menor chance de a sua missão ser bem-sucedida. Quando tentou levantar-se ficou totalmente sem fôlego.

— Calma, meu rapaz. Você ainda precisa recobrar as forças. O mago apontou para o peito e os braços com olhar interrogativo na tentativa de fazer-se entender.

— A sua roupa? Senar anuiu.

— Penduramos para que secasse. Não mexemos em coisa alguma, pode ficar tranqüilo.

O mago deixou-se recostar na cama suspirando aliviado.

Os habitantes do Mundo Submerso eram diferentes de qualquer outra raça que Senar já conhecera. Tinham cabelos e pele de uma brancura fora do comum, translúcida, e olhos quase luminescentes. Senar jamais encontrara alguém com os olhos mais claros do que os seus, e era uma coisa de que sentia muito orgulho: gostava da sensação um tanto perturbadora que as suas íris azuladas despertavam nos outros. Aquele pessoal, no entanto, o superava.

Senar continuou mais alguns dias como hóspede da mulher e do marido. Ao vê-los perambulando pela casa tinha a impressão de estar diante de presenças quase diabólicas.

A primeira palavra que disse foi o próprio nome, a segunda um sincero “obrigado” a quem o salvara.

— Mera obrigação — respondeu o homem, com um sorriso. O mago já podia falar, mas só com muito custo.

— Gozo de algum prestígio no Mundo Emerso. Preciso encontrar-me com o rei desta Terra. Se vocês puderem indicar-me a melhor maneira para conseguir isto...

A mulher arregalou os olhos.

— Está pensando em sair por aí, em circular por Zalênia sem mais nem menos?

— Zalênia?

— É o reino onde você se encontra agora — disse o homem.

— Estou numa missão diplomática. Uma missão de paz — explicou o mago.

O homem meneou a cabeça.

— Você deve estar louco.

Aquilo começava a aborrecê-lo: todos parecem agir como loucos.

— A lei proíbe que os de Cima entrem em Zalênia — foi logo explicando a mulher. — Abrigamos você porque estava quase morto, não tivemos coragem de deixá-lo naquelas condições. Mas agora...

Senar começava a perder a paciência.

— Talvez não tenha me explicado direito. Sou um embaixador...

— Ouça bem: aqui ninguém reconhece o seu cargo — interrompeu o homem. — A sua única chance é partir quanto antes. E o mais depressa possível. Nós lhe explicaremos como fazer isto. Do contrário vai ter um problema e tanto, meu rapaz.

— Como assim? — perguntou Senar.

O homem hesitou e a mulher dirigiu-lhe um olhar súplice.

— Fale. Ele precisa saber.

— Nunca houve um caso como este antes, mas...

— Mas? — quis saber o mago.

— Para qualquer um que chegue do Mundo Emerso está prevista a pena de morte — respondeu o homem de um só fôlego.

Senar quase teve vontade de rir. Consegui livrar-me de uma tempestade, da bocarra daquele monstro nojento, do afogamento e agora, quando falta tão pouco para alcançar a minha meta, tudo indica que serei degolado.

— Ouçam, falarei com os seus juízes...

— Acho que você não entendeu — interrompeu-o o homem. —Os lá de Cima, por aqui, são considerados criminosos. Você poderia até ser um rei, mas para nós continuaria sendo um invasor.

Quando perceberam que nada poderia dissuadir Senar dos seus propósitos, seus anfitriões deram-lhe umas rápidas informações sobre o caminho a seguir e forçaram-no a partir sem demora.

Na manhã seguinte o jovem vestiu a túnica e o medalhão do Conselho dos Magos e juntou os seus poucos pertences. Certificou-se mais uma vez de dispor de tudo aquilo de que precisava, principalmente do pergaminho, e então saiu da casa sem esconder algum receio.

— Você não nos conhece, nunca esteve aqui. Se souberem que o ajudamos estaremos perdidos — disseram-lhe antes de fechar a porta atrás dele.

Senar ficou boquiaberto ao ver o Mundo Submerso, ou Zalênia, como já sabia que os habitantes o chamavam. O vilarejo em que se encontrava estava dentro de uma imensa bolha feita de um material que lembrava o cristal. Tinha-se a impressão de estar numa estranha cidade à beira-mar, só que em terra firme. As casas eram redondas, feitas de pedra e de areia, decoradas com conchas coloridas. O ar cheirava à maresia, como na sua Terra, mas o perfume era mais intenso e penetrante. Tudo era extremamente limpo e arrumado, com ruas retas e espaçosas nas quais reinava a mais perfeita ordem.

Senar aproximou-se incrédulo da parede de vidro e observou os cardumes de peixes multicoloridos que nadavam na água de um azul profundo, a um palmo do seu nariz. Levantou os olhos. A bolha ficava a pelo menos cem braças da superfície e o sol aparecia como um halo indistinto. Senar não conseguia entender a presença de toda aquela luminosidade, embora ela tivesse um incomum matiz azulado que feria os olhos.

Tocou de leve na parede. Estava fria, justamente como o vidro. Quando desencostou a mão reparou com surpresa que a palma continuava a brilhar fracamente. Examinou com mais atenção aquele estranho material. Só então reparou que estava coberto por algum tipo de substância fluorescente. Aguçou os olhos e tentou vislumbrar o fundo do oceano. Viu as algas que balançavam preguiçosamente no lento balanço das correntezas. Havia vários tipos delas, mas daquela altura não dava para distingui-las direito. Muitas, no entanto, brilhavam exatamente como a sua mão. Senar ficou admirado com a engenhosidade dos habitantes: o que criava toda aquela luz era a própria bolha, amplificando os poucos raios que vinham de fora graças à substância oleosa fornecida pelas plantas marinhas.

A base da bolha, uma poderosa e maciça coluna transparente, descia entre o emaranhado de algas enquanto outra coluna oca erguia-se do centro da esfera para a superfície, provavelmente à cata de ar. Senar avistou ao longe outras bolhas suspensas, ligadas entre si por longas galerias transparentes. Sacudiu a cabeça. Era a coisa mais extraordinária que já vira na vida: o povo de Zalênia havia criado nas profundezas toda uma rede de aldeias suspensas entre água e céu, pequenos mundos cercados de vidro. Ainda transtornado diante daquela maravilha fincou os punhos nos bolsos da túnica e pôs-se a caminho.

Embora do lado de fora da bolha a vida pulsasse intensamente, do lado de dentro tudo estava ainda envolvido pelo torpor matinal. Apesar de a aldeia em que passara aqueles primeiros dias ser muito pequena, a bolha que a continha era enorme. Em volta das casas havia uma grande extensão de lavouras irrigadas através de uma densa rede de canais. As plantas cultivadas eram exatamente iguais às do Mundo Emerso, mas as plantações ao ar livre não eram as únicas existentes no Mundo Submerso. Também havia culturas no fundo do mar, mais irregulares e raras, mas a perder de vista: algas.

Senar avançava como que atordoado, cada vez mais tomado de admiração. Lá em cima ainda dava para vislumbrar o reflexo do sol na água. Parecia muito distante, mas mesmo assim não estava fazendo frio: ao contrário, o ar estava agradavelmente morno, e das colunas vinha uma brisa fresca e constante.

Continuou a andar sem uma meta precisa, enquanto as pessoas começavam a sair de casa a caminho do trabalho nos campos. Seduzido pela beleza da paisagem não reparou que estava sendo observado.

Quando ouviu uma voz imperiosa que o intimava:

— Pare, estrangeiro! — Teve a incômoda sensação de acordar bem no meio de um sonho.

O mago parou. Um homem com uma longa lança e protegido por uma leve armadura aproximou-se correndo e ameaçou-o encostando-lhe a arma na garganta.

— Quem é você? — perguntou ríspido. Uma pequena multidão se reuniu no local.

— Sou um embaixador do Mundo Emerso — respondeu Senar com calma.

Um vago murmúrio ouviu-se entre os transeuntes em volta e uma mulher deu um passo adiante. Estava perturbada.

— Eu sabia! Não queria acreditar, mas então era verdade mesmo...

— Do que está falando?

— O meu garoto. Contou que Anfitris, uma amiguinha dele, tinha encontrado um sujeito lá de Cima. Achei que devia ser coisa de crianças.

O murmúrio tornou-se mais audível e o guarda ficou sério.

— Mandem buscar a menina.

Anfitris devia ter mais ou menos seis anos, usava duas longas trancinhas brancas e estava apavorada.

— Já viu esse homem antes? — perguntou o guarda. A garotinha estava nervosa, a ponto de chorar.

— Já, mas quando vi, ele estava morto — choramingou. Duas grandes lágrimas riscaram a sua face.

— E onde foi? — continuou o guarda.

— Sob a voragem. Eu estava brincando com o meu irmão, ouvimos um baque e fomos ver — disse soluçando.

O guarda virou-se para Senar com expressão hostil.

— Quer dizer, então, que você é um daqueles bastardos. Acreditávamos ter cortado relações com vocês de uma vez por todas. —Então começou a cutucá-lo com a ponta da lança para que se mexesse.

— Espere — disse Senar. — Vim até aqui numa missão de paz. Preciso falar quanto antes com...

— Calado! Caberá ao conde decidir o que fazer com você.

Senar tentou de todas as formas convencer o soldado. Explicou, levantou a voz, mostrou o medalhão que certificava o seu cargo no Conselho dos Magos, mas só conseguiu enfurecê-lo mais ainda. Decidiu então acompanhá-lo sem opor resistência.

O guarda levou-o para um prédio baixo e trancou-o numa cela. Não demorou a voltar, desta vez acompanhado por um homem idoso de aparência austera.

— Por aqui, venerável Deliah — repetia o tempo todo, muito respeitoso.

O homem estava curvo pelo peso dos anos e caminhava com o rosto enrugado virado para o chão. A farta cabeleira branca descia ao longo da roupa azul até arrastar-se no corredor como um longo véu de noiva. A mão nodosa apertava uma longa haste de madeira bruta encimada por uma grande esfera turquesa. O velho aproximou-se lentamente, apoiado no bordão, até parar diante do prisioneiro.

Senar ofereceu a mão direita.

— O conde, imagino.

O velho não respondeu. Limitou-se a examinar seu rosto segurando-o pelo queixo e virando-o para todos os lados.

— É um deles — disse com voz cavernosa.

O guarda assumiu uma expressão de empáfia.

— Não conseguiu me enganar, eu logo vi.

— Peço que me ouça, conde — tentou dizer Senar —, vim como embaixador do Mundo Emerso e...

O guarda não o deixou terminar a frase e derrubou-o com um soco no estômago. Senar dobrou sobre si mesmo, sem fôlego, e desmoronou ao chão. O soldado caiu logo em cima dele, enfiou alguma coisa na sua goela e imobilizou-lhe os braços.

O velho aproximou-se de novo, com toda a calma, em seguida apoiou a bola azulada na cabeça de Senar e começou a recitar baixinho uma monótona ladainha.

O mago ainda conseguiu entender o que estava acontecendo, mas não teve a menor possibilidade de reação. Sentiu-se sufocar e não demorou a perder os sentidos.

O guarda arrancou brutalmente a mordaça da boca dele.

— Não sou o conde — disse o velho com um gélido sorriso, antes de dar as costas e sair.

Quando Senar despertou sua cabeça rodava. Tentou levantar-se apoiando-se na parede da cela. Conseguiu lentamente recobrar as forças e, com elas, a consciência do que havia acontecido.

— Droga! — praguejou entre os dentes. Conhecia aquele encanto, conhecia até bem demais.

Arriscou uma magia fácil. Abriu a palma da mão e recitou a fórmula para evocar o fogo. Nada. Tentou inutilmente criar alguns inofensivos lampejos coloridos. Continuou tentando inúmeras vezes, sempre com o mesmo resultado. Só conseguia confirmar a ineficácia das suas fórmulas.

Deixou-se cair no chão com raiva. Aquele velho impusera-lhe um selo mágico e, enquanto não conseguisse quebrá-lo, não poderia dispor dos seus poderes.

Já não era um mago e tampouco um conselheiro. Era apenas um pobre rapaz, trancado numa cela fedorenta a muitas milhas de distância da sua casa.

Quanto a tentar fugir, nem pensar. Na cela só havia uma pequena fresta bem longe, no alto da parede, e as barras na entrada eram sólidas demais. Senar sentia-se um idiota completo pela maneira com que se havia deixado enganar: mostrara-se totalmente inábil ao não levar devidamente a sério a hostilidade do povo do Mundo Submerso.

Ninguém mais apareceu durante o resto do dia e, com a chegada da noite, dormiu pouco e mal. Foi acossado pelos pesadelos: via-se julgado e condenado à morte por um conde pavoroso, entre o escárnio dos conselheiros e as risadas do Tirano que lhe agradecia pelo excelente trabalho. Sonhou com Nihal. Nihal cercada de inimigos na guerra, Nihal ameaçada, Nihal morta.

Quando acordou, uma luz incerta e lúgubre começava a penetrar na cela. O primeiro som que ouviu foi o do seu estômago que exigia comida. Chamou o guarda mas não teve resposta.

Era uma situação absurda. Estava no fundo do mar, sentado no chão de uma cela úmida e cercado por um obstinado silêncio quebrado apenas pelo rumorejar do seu estômago.

Só em pleno dia ouviu finalmente uns passos que se aproximavam da grade.

— Onde foi que se meteu? Como é, queria deixar-me morrer de fome? — rosnou o mago.

Os passos pararam.

— Peço desculpas — disse uma voz feminina. — Só agora disseram-me que havia um prisioneiro.

Através das barras Senar pôde ver uma jovem que vinha trazendo uma bandeja. Era miúda, não muito alta e devia ter no máximo uns dezesseis anos. O rosto era um oval perfeito e a pele rosada. Até então Senar só tinha visto pessoas de cabelos brancos, mas a garota diante dele ostentava numerosas mechas castanhas.

Entre os dois fez-se um silêncio constrangido.

— Desculpe, não era minha intenção gritar com você — explicou Senar meio sem jeito. — Pensei que você era o carcereiro.

A jovem endereçou-lhe um tímido sorriso.

— Não precisa desculpar-se. De qualquer maneira, aqui está afinal a sua refeição. — Deixou passar a bandeja pela fresta embaixo da grade.

Senar pegou-a sem demora e começou a destampar as tigelas. Uma continha uma espécie de caldo no qual boiavam estranhos fiapos pretos, em outra havia alguma coisa parecida com frango e coberta com um molho esverdeado, a terceira estava cheia de uns moluscos que ele nunca vira antes. O mago, de qualquer forma, não se fez de rogado: engoliu a sopa com tanta pressa que mal chegou a distinguir o sabor. A jovem observava em silêncio, com um toque de divertido espanto nos olhos verdes.

Senar largou a tigela.

— Muito bom — disse, enquanto passava à seguinte. — Foi você que preparou?

— Eu mesma. Quase toda a minha família se encarrega de cuidar dos prisioneiros. Sabe como é, devido aos cabelos. — Apontou para uma das mechas escuras.

— Como assim? — perguntou Senar curioso.

— Os meus antepassados foram uns dos últimos a descer. É por isto que os nossos cabelos ainda não são totalmente brancos.

— Quando foi que chegaram?

— Uns cinqüenta anos atrás. Os meus pais nasceram aqui, mas os meus avós eram de Cima... e gente como nós não goza lá de muitos privilégios. Este é um dos poucos trabalhos que nos são permitidos.

— Cuidar dos presos não é exatamente o trabalho mais apropriado para uma moça.

Ela corou.

— Na maioria das vezes quem traz a comida para cá é o meu irmão, eu só cuido da cozinha. Só que... Na verdade estava morrendo de curiosidade. Queria vê-lo. Na cidade não se fala de outra coisa. Estão todos muito agitados. Mas eu não estou com medo, ainda tenho parentes lá em Cima.

Senar atacou os moluscos.

— E onde é que seus parentes moram?

— Na Terra do Mar.

— Eu também venho de lá. Você já viu? A jovem deu uma gargalhada.

— Claro que não! Não nos é permitido subir. Somente os magos podem ir ao Mundo Emerso.

Senar levantou afinal os olhos da bandeja. Não era certamente a primeira vez que se encontrava sozinho diante de uma mulher, mas aquela moça gentil, naquela hora, provocava nele uma estranha sensação. É realmente muito graciosa.

Ela sem dúvida reparou na atenção com que era observada, pois começou a ajeitar as dobras da saia de forma um tanto apressada.

Senar voltou a olhar para a bandeja. Da maçã, agora, sobrava apenas o talo.

— Obrigado, nem pode imaginar como isso tudo me fez bem — disse enquanto devolvia-a à jovem.

— Não precisa agradecer, é o meu ofício. Voltarei à noite. Pontual, eu prometo! Não quero que digam que o deixei morrer de fome — disse rindo.

Já ia se afastando das barras quando Senar chamou-a de volta.

— Espere! A gente nem se apresentou: eu sou Senar.

— O meu nome é Ondine. Até mais tarde, então, Senar — respondeu ela. E foi embora.

Ondine aparecia na prisão de manhã e à noite.

Para Senar era um raio de sol na escuridão. Sempre sorrindo, prestativa e pronta a distraí-lo da solidão em que mergulhara.

Com o passar dos dias tornaram-se amigos. Falaram dos próprios mundos, contaram as histórias das suas vidas. Ela ficou impressionada com a idéia do céu, não conseguia imaginar que no Mundo Emerso todo o azul ficasse do lado de cima. Contou a Senar do amor que sentia pelo mar e de como gostaria de ser uma sirênia.

— Uma sirênia? — perguntou ele perplexo.

— Isso mesmo, uma descendente das sereias.

— Sempre achei que as sereias não existiam. Ondine riu.

— Claro que existem!

Então contou a Senar que Zalênia havia sido construída com a ajuda dos tritões e das sereias e que, algum tempo depois da fundação do reino, haviam começado a nascer crianças muito particulares: pequenos seres meio sereia e meio habitante da terra firme, sem barbatanas mas providos de diminutas guelras, que também podiam viver na água.

— São criaturas extraordinárias. Para elas não existe acima nem abaixo, não há dentro nem fora. Ah, como gostaria de ser tão livre quanto elas!

Pelos relatos da jovem, Senar pôde compreender quão profundo era o ódio em relação aos habitantes do Mundo Emerso. “Os de Cima”, como eram chamados em Zalênia, eram considerados pessoas só interessadas em matanças e guerras, incapazes de viver em paz consigo mesmas e com os demais. Este ódio também atingia aqueles que haviam chegado ao Mundo Submerso mais tarde, como Ondine e a sua família. O sinal característico dos marginalizados, “dos novos”, eram os cabelos marcados por mechas escuras. Eram vistos com desconfiança e só tinham acesso aos trabalhos mais humildes. O pai de Ondine era um dos encarregados da manutenção das colunas que ligavam as bolhas à superfície. Tinha de trabalhar pendurado no vazio para livrá-las do lixo que se acumulava ao longo das paredes e impedia a livre circulação do ar.

— A gente precisa viver, e eu nem mesmo disponho de um dote. Mas afinal quem iria querer casar comigo?

— No meu mundo você teria um monte de pretendentes — respondeu Senar meio sem jeito. Não estava acostumado a fazer lisonjas.

Ondine sacudiu a cabeça com um sorriso cético.

— Com estes cabelos e minhas faces rosadas?

Senar achava aquela situação totalmente absurda. Moni contara-lhe que os fundadores do Mundo Submerso sonhavam com um mundo melhor, onde todos pudessem viver em paz. O que ele estava vendo, no entanto, era um reino baseado no ódio e na discriminação.

Senar procurou saber como funcionava a organização política de Zalênia. Cada conjunto de bolhas era regido por um conde, uma espécie de soberano absoluto que até contava com um exército pessoal. O conde também cobrava os impostos que, em parte, repassava em seguida ao rei. Quanto ao resto, podia dispor do que sobrava do jeito que bem entendesse. Alguns felizardos moravam em bolhas administradas por condes iluminados, que usavam o dinheiro para melhorar as condições de vida dos súditos, mas muitos eram governados por tiranos que os aviltavam. A autoridade máxima era o rei, mas ele pouco se importava com os territórios mais longínquos.

No passado as coisas haviam sido diferentes. Não havia rei algum e o povo cuidava do governo sozinho. Depois de um certo tempo, mas sem prazo fixo, os moradores de cada aldeia reuniam-se e tomavam juntos as decisões mais importantes, enquanto os assuntos mais gerais ficavam aos cuidados dos embaixadores de todas as bolhas. Mas não durou muito. Houve quem tentasse assumir o poder pela força e Zalênia ficou à beira da guerra. Para evitar o conflito, um dos embaixadores, o mais carismático, propôs a eleição de um rei.

— Afinal de contas não podemos nos queixar — dizia Ondine. — O que realmente importa é manter a paz. Quando aparece um conde ruim, sempre podemos esperar que o seguinte seja melhor. Um vendaval não pode durar para sempre, não acha?

O conde também se encarregava da justiça. Quando os seus guardas capturavam um criminoso, trancavam-no na cadeia à espera do julgamento, pois só ele podia proferir a sentença.

— E se o conde... O que acontece se o conde não aparecer? — perguntou Senar preocupado.

Ondine hesitou.

— Não creio que vá gostar da resposta.

— Fale assim mesmo.

A jovem mordiscou o lábio.

— Quando o conde não aparece, os próprios guardas decidem o que fazer com o prisioneiro — disse de um só fôlego. Logo a seguir sorriu para Senar, a fim de reanimá-lo. — Mas não precisa ficar preocupado. Acredito que o conde irá ouvi-lo e permitirá que fale com o rei. Tenho certeza disto.

Senar tentou convencer-se de que a jovem estava certa. Mas os dias continuavam passando e do conde nem sombra.

 

                         UM VELHO NA FLORESTA

Seguiram em frente protegidos pelo bosque, longe da fronteira. Nihal não conseguia reencontrar a excitação e a alegria das primeiras viagens. Tudo parecia ter virado rotina: as horas a cavalo, os trechos a pé por sendas mais íngremes onde era preciso puxar o animal pelas rédeas, as refeições silenciosas e apressadas, quase sem levantar os olhos da tigela. Talvez, se estivesse sozinha com Laio, pudesse até pensar em conversar, mas a presença daquele soldado tornava o ambiente um tanto hostil.

Mathon devia ter uns seis ou sete anos mais do que ela, mas mostrava-se tão carrancudo e taciturno quanto um velho ranzinza. Falava muito pouco e nunca sorria.

— Teve uma vida difícil — explicou Laio certa noite. — Nasceu bastardo, numa família nobre, e foi abandonado perto de um quartel ainda menino. Quem cuidou da sua criação foi o exército, e por isto cresceu selvagem como um lobo. Teve de comer o pão que o diabo amassou, pobre coitado.

Depois desta revelação Nihal passou a sentir mais simpatia por Mathon, mas o soldado continuou a evitar qualquer conversa e ela tampouco esforçou-se para socializar.

O próprio Laio, afinal, não se mostrava lá muito falador. Parecia concentrado em sua missão e mais pensativo do que de costume. Ao olhar seu rosto Nihal tinha a impressão de poder vislumbrar novos traços, um ar de determinação que nunca vira nele antes. Para Laio a batalha já começara e ela sabia que, antes mesmo do que com o pai, ele tinha de vencê-la consigo mesmo.

Não demorou muito antes de Nihal começar a entediar-se. Os dias passavam lentos e a jovem recebia com um suspiro de alívio a chegada da noite, quando pelo menos as horas iriam passar mais rápido no esquecimento do sono.

Levaram cerca de dez dias para chegar à Terra da Água. A missão, se assim quisermos chamá-la, não exigia qualquer pressa especial e Laio, por sua vez, tampouco demonstrava-se ansioso para chegar à meta. Logo que atravessaram a fronteira o rapaz tornou-se ainda mais taciturno. Naquela altura Nihal disse a si mesma que se a sua tarefa era a de auxiliar moralmente o amigo, então já estava na hora de começar o trabalho.

— Não precisa ficar com receios logo agora — disse-lhe certa noite, enquanto o companheiro da escolta dormia e o fogo espocava alegremente.

— O negócio é que já pareço sentir meu pai na minha frente.

— Você chegou até aqui, o que já é uma façanha e tanto. Da última vez não conseguiu ir tão longe, não foi?

Laio sorriu timidamente.

— Você acredita naquilo que está fazendo, Laio, e isso é o que interessa. Tudo vai dar certo, você vai ver.

Naquela mesma noite, no entanto, uma noite sem lua e sem estrelas, Nihal teve de reconhecer que estava equivocada. Nos últimos dez dias não reparara em coisa alguma fora do comum, em qualquer sinal que pudesse revelar algum tipo de perigo. Sentira-se segura, e foi justamente esta segurança que os levou à armadilha.

Eram dez. Os seus passos eram mais circunspectos do que os de soldados normais. Aproximaram-se cuidadosamente do lugar onde os três viajantes haviam acampado, de armas em punho, silenciosos mas preparados para o ataque. Homens acostumados a viver e a agir nas sombras, ágeis e furtivos como gatos. Uma turma de assaltantes. Nem mesmo Nihal, que costumava estar sempre alerta, pareceu perceber no começo qualquer coisa estranha. Foi o barulho de um pequeno galho pisoteado que a fez despertar do sono, acompanhado de um leve frufru, como o de um tecido a se esfregar numa moita. Nihal arregalou os olhos e viu-os: um grupo de homens cercava o bivaque. Estavam armados e aproximavam-se devagar; olhavam em volta encarregando-se das diferentes tarefas com sinais das mãos. Dois deles dirigiram-se com determinação para os alforjes, enquanto outro aproximou-se do adormecido Laio segurando o punhal.

A jovem levantou-se então com um pulo, gritando, de espada na mão, preparada para lutar. Laio e o soldado acordaram sobressaltados e também empunharam suas armas, enquanto Nihal investia com violência contra o homem mais próximo abatendo-o com um golpe.

Laio tentou dar um passo adiante mas um dos bandidos não teve a menor dificuldade em desarmá-lo, golpeando seu pulso com um bordão. Derrubou-o então com um pontapé e imobilizou-o sentando no seu peito.

— Quietinho. Fique quietinho e nada vai lhe acontecer — disse ao encostar a lâmina do punhal na garganta do rapaz. — Por enquanto.

Nihal procurou dar conta de outro salteador. Tentou pegá-lo de surpresa com um ataque violento e repentino, mas o homem não se deixou enganar. Era um brutamonte, com os músculos que pareciam rasgar a toda hora o tecido da camisa; conteve os ataques de Nihal sem maiores dificuldades, revidou com firmeza e forçou-a a recuar bastante entre as moitas.

A semi-elfo lutava com fúria enquanto procurava uma escapatória entre as árvores. A floresta ressoava com mil sussurros, como se houvesse um número infinito de inimigos. Então ouviu um grito.

Ficou então tomada por uma invencível raiva.

— Não! Não, Laio, não! Mathon! — berrou. Decepou de um só golpe o braço do adversário e deixou-o a sangrar entre as moitas.

Tentou voltar para o bivaque, mas tinha perdido o sentido da orientação. Vislumbrou duas sombras que avançavam entre as árvores. Ouviu um tropel de passos que se aproximavam atrás dela. Levantou a espada diante de si, flexionou as pernas no pulo, esticou o braço para dar o golpe.

Então, de repente, sua cabeça pareceu estourar.

Um jorro quente pelas costas.

Uma escuridão espessa e sem volta.

Nihal entreabriu os olhos. Tinha uma terrível dor de cabeça. Até o som mais aveludado ricocheteava de um lado para outro do seu crânio transformando-se num estrondo assustador. A sua vista estava fora de foco e ela não conseguia distinguir claramente nenhum detalhe do local onde se encontrava. Parecia uma caverna, mas os seus sentidos não lhe permitiam discernir nada mais do que isso. Ouvia vagamente o crepitar de uma fogueira. Esticou os braços e apalpou com as mãos o terreno em volta. Estava deitada num estrado de palha, com um pano leve a servir-lhe de colcha.

Ouviu um ruído metálico lancinante e uma figura de contornos indefinidos apareceu diante dela.

— Finalmente! — exclamou uma voz masculina. — Bem-vinda de volta do seu longo sono.

Nihal levou a mão à cabeça.

— Fale mais baixo, eu lhe peço.

— Desculpe — disse o homem murmurando. — Com a paulada que levou...

Os dedos de Nihal roçaram numa larga atadura. Tentou lembrar o que acontecera e não lhe foi difícil reconstituir os fatos. Uma pancada na cabeça. Tinham-na enganado, como a qualquer recruta. Apertou os punhos com raiva. Diabos! Senar estava certo, arrisco a minha vida dia sim e outro também.

— Não consigo enxergar — queixou-se.

— É normal — disse o homem enquanto se atarefava em volta da fogueira. — Não precisa ficar preocupada, vai passar logo. Amanhã já estará recuperada.

— Quem é você?

— Um velho.

A resposta pareceu-lhe um tanto vaga.

— E não tem nome?

— Já tive, muitos anos atrás, mas esqueci-o no passado. Já não preciso dele. Sou um velho, nada mais do que isto.

Velho. A palavra fez com que se lembrasse de Livon, o pai dela. Era assim mesmo que costumava chamá-lo: Velho. Nunca mais conseguiria chamar alguém com o mesmo nome.

— E se eu quisesse dar-lhe um nome?

— Salvei a sua vida. Pode chamar-me de Meu Salvador, se quiser. — O velho deu uma gargalhada, uma gargalhada sábia e antiga. Aproximou-se dela com uma tigela. — Chega de perguntas. Já está na hora de você recobrar as forças.

Nihal hesitou, depois segurou a tigela e começou a comer.

A hora das perguntas chegou mais tarde, ao anoitecer, depois de Nihal descansar. Quando acordou percebeu que a sua visão já estava melhor, embora seus olhos ainda lhe parecessem como que embaçados. A cabeça continuava a latejar, mas conseguiu ficar sentada sem maiores problemas. O travesseiro estava manchado de sangue.

Ficou de pernas cruzadas no estrado de palha e deu uma olhada no seu salvador. Ainda não conseguia discernir claramente seus traços, mas pareceu-lhe realmente muito velho. Só vestia um longo camisolão puído e sujo que lhe chegava até os tornozelos. O homem era quase completamente careca, mas tinha uma farta barba branca que roçava no chão. Estava descalço e quando o observou com mais atenção Nihal entendeu a razão daquele ruído metálico: o velho usava pesadas cadeias que se envolviam em volta dos seus membros como as volutas de uma cobra.

— Por que está acorrentado? — perguntou quase sem querer. O homem virou-se para ela e pareceu sorrir.

— Para pagar os meus muitos pecados.

— Fugiu de alguma prisão?

O velho riu, do seu jeito abafado.

— Não, Nihal, nada disso. Eu mesmo coloquei estas cadeias, para que o peso delas me lembre do fardo que carrego na minha alma.

— Como é que conhece o meu nome? — perguntou ela surpresa.

— A velhice e a solidão presentearam-me com muitas dádivas. Antes de mais nada a paciência e, até certo ponto, a vidência. Foi graças a esta qualidade que pude encontrá-la.

A jovem ficou séria.

— Conte o que houve.

O velho enroscou-se aos pés do catre de Nihal.

— Ontem à noite percebi que algo estava acontecendo nos arredores da minha morada. Saí, fiquei escondido e vi que o seu grupo estava à mercê dos bandidos. Você estava caída, não muito longe de um jovem todo manchado de sangue. Mais além havia um prisioneiro.

Nihal sentiu um aperto no coração.

— Descreva-o.

— Pouco mais do que uma criança. Loiro e apavorado. O velho contou que os salteadores haviam encontrado com Laio uma carta que o identificava como filho de Pewar, decidindo então raptá-lo para em seguida pedir um resgate.

— Levaram-no embora atado e amordaçado, depois de jogar você e o outro numa ribanceira.

— O outro, o nosso companheiro... está... — murmurou Nihal.

— Morto — respondeu o velho com simplicidade. — Sepultei-o perto do barranco onde os encontrei. Os bandidos devem ter pensado que você também estava morta. E aliás qualquer um acharia o mesmo. Estava branca como um trapo e mal conseguia respirar.

Nihal já não estava ouvindo. A vida de Laio estava por um fio. Não havia muita esperança de que os ladrões o libertassem, mesmo depois de receberem o eventual resgate.

— Sabe para onde eles foram? O velho sorriu.

— Claro. Este bosque é o meu reino. Num raio de três léguas aqui em volta não há um só lugar que eu não conheça.

— Então precisa levar-me até eles. — Nihal levantou-se de estalo e agarrou a espada, mas suas pernas não agüentaram.

O velho segurou-a antes que caísse e ajudou-a a deitar-se no estrado.

— Aonde pensa que vai? A sua vida ainda está comprometida, você está fraca. Não pode certamente enfrentar aqueles homens nessas condições.

Nihal levantou-se de novo, desta vez com mais cuidado.

— Mas tampouco posso deixar Laio à mercê daquela gentalha.

— Não precisa se preocupar. O seu amigo, para eles, é como uma bolsa cheia de moedas de ouro. Pelo menos até o pai pagar o resgate. Enquanto isso, trate de recobrar-se.

Nihal voltou a sentar-se desconsolada. O velho estava certo. Naquele estado só conseguiria ser morta.

— Vamos lá, não desanime. Você é jovem e vigorosa, não vai demorar para recuperar-se. E então eu mesmo a levarei até eles.

Nihal anuiu. Sua cabeça latejava com fúria e seu coração parecia estar a ponto de estourar a qualquer momento. Deitou-se no estrado de palha e começou a observar com impaciência as manchas de umidade nas paredes da caverna.

Nihal examinou-se atentamente: uma ferida superficial num braço, as pernas arranhadas pelos espinhos baixos das moitas, uma grande mancha roxa no ombro. Quando apalpou a cabeça, em busca da origem da dor que a deixava tonta, seus dedos encontraram um profundo corte ainda entreaberto na nuca. Só me faltava essa, mais uma cicatriz. Terei de deixar crescer o cabelo de novo.

Permaneceu alguns dias na gruta, deitada no estrado de palha, tentando elaborar os planos para libertar Laio enquanto ficava angustiada com a espera. Pouco a pouco a sua vista voltou ao normal e a dor de cabeça abrandou até desaparecer.

Aquele estranho velho não era lá grande coisa como companhia. Durante o dia desaparecia para só voltar no meio da noite. Saía logo antes do alvorecer, depois de preparar fartas refeições para a sua hóspede, e depois voltava na escuridão perguntando-lhe como passara o tempo.

Toda vez que Nihal tentava averiguar aonde ele fora, o velho dava resposta vagas ou mudava de assunto.

Agora Nihal podia observá-lo melhor. O rosto dele era um emaranhado de rugas, mas não devia ser tão velho quanto parecia. Seus olhos faiscavam cheios de vida e o aperto das suas mãos era firme e forte. Tinha calos vistosos na palma direita, típicos de quem segurou durante muito tempo uma arma; quando jovem devia ter certamente lutado bastante.

— Já enfrentou muitas batalhas?

— Demais. Foram muitos os que eu matei. Lutei em várias frentes. E mesmo assim era sempre a mesma guerra, essa aí que se arrasta há tempos imemoriais.

— E era um bom guerreiro?

— Um entre muitos. Nem melhor nem pior do que os demais. Era o jeito normal de ele responder, com meias palavras, de forma esquiva. Tinha o sorriso eternamente estampado na cara, embora sem dúvida sofresse. Os pulsos e os tornozelos estavam marcados pelas correntes e as chagas costumavam sangrar. Nihal percebeu que o velho tinha vivido intensamente, e as suas experiências não deviam ter sido sempre das melhores. Parecia um náufrago que, depois de tantas tempestades, encontrara afinal a paz.

Na última noite Nihal pediu que lhe explicasse com clareza onde ficava a toca dos ladrões. O velho foi pródigo em preciosas informações. Não só sabia onde eles estavam, como também parecia conhecer muito bem os seus hábitos.

A jovem sentou-se e começou a lubrificar com cuidado a sua espada. O velho agachou-se diante dela para olhar. Costumava fazer isso; parecia ter um interesse todo especial por Nihal.

— Vejo que conhece o povo dos duendes — disse ele de repente.

— O que levou-o a pensar isso? — perguntou Nihal, tentando esconder a surpresa.

O velho apontou para a empunhadura.

— A pedra encastoada na espada. Nunca encontrei humanos com uma delas. E muito menos um semi-elfo.

— Foi um duende que me deu, já faz muito tempo — respondeu a jovem. Mas em seguida a costumeira curiosidade voltou a aparecer. — O que sabe acerca da pedra? Já viu antes? Conhece os seus poderes?

O velho sorriu.

— Seria realmente estranho se alguém como eu, alguém que vive há tanto tempo no bosque, não conhecesse as Lágrimas. São pedras feitas com a resina ressecada dos Pais da Floresta e são o símbolo do povo dos duendes.

— Isso tudo eu já sabia — disse Nihal impaciente. — O que gostaria de entender, no entanto... — Mordeu o lábio indecisa. Não sabia até que ponto podia confiar naquele homem.

Acabou contando a aventura que tivera com Laio na Terra do Mar e de como a Lágrima os salvara do ataque dos fâmins.

O velho ouviu atentamente, mas nem um pouco surpreso. Quando falou a sua voz continuou calma e pacata como de costume:

— As Lágrimas têm o poder de absorver e ampliar a força vital da natureza. Os duendes, no entanto, não se aproveitam desta prerrogativa, preferem usá-las como adornos e as veneram, pois são o fruto do pranto das árvores que os protegem. Talvez você mesma não se dê conta plenamente, mas esse aí foi um presente muito importante. Claro, em mãos humanas a Lágrima é totalmente inerte.

Nihal ficou atônita.

— Como assim?

— Nenhum dos povos que pisam esta terra tem a capacidade de libertar o poder da Lágrima.

— E como foi, então, que nas minhas mãos ela... despertou? O velho sorriu.

— Estamos acostumados a levar em conta somente a história mais recente deste mundo sofrido, mas as raças que agora habitam o Mundo Emerso não são as únicas que já existiram nessas terras. Antes de nós houve os outros.

— Os elfos — sussurrou Nihal.

— Pois é. Os elfos não entendiam a magia da mesma forma que nós. Eram mais parecidos com as ninfas do que com os homens: seres tão próximos da natureza que podiam entender todas as suas nuanças. Para as demais criaturas, a capacidade com que eles podiam guiar os fenômenos naturais só podia parecer magia. Pois é, os elfos eram capazes de aproveitar plenamente os poderes da Lágrima. Era um trâmite entre eles e os segredos mais ocultos do mundo, e graças àquela pedra a sua comunhão com os espíritos tornava-se ainda mais profunda. — O velho interrompeu-se e sacudiu a cabeça. — Então o seu povo enfraqueceu. Os elfos migraram para terras longínquas, abandonaram o Mundo Emerso e o único sinal que sobrou da passagem deles por aqui foi a estirpe de vocês. Vocês semi-elfos, nascidos da união entre elfos e homens, perderam em parte a intimidade com os espíritos primordiais. Os poderes mais profundos da Lágrima tornaram-se então inacessíveis para os seus antepassados, que no entanto aprenderam a usar os mais brandos. Os semi-elfos usavam a pedra como auxílio na magia, de forma que para vocês a resina dos Tomren tornou-se uma espécie de catalisador.

Catalisador. Phos também usara este nome. Nihal ficou por alguns instantes pensativa.

— Mas eu não recitei fórmula alguma. A pedra agiu sozinha, como que por vontade própria.

— Não precisa ficar espantada, Nihal. Sangue élfico corre em suas veias, e isto pode fazer com que a Lágrima acorde em toda a sua potência. Foi justamente o que aconteceu aquela noite no bosque. O seu desejo de viver ativou a pedra e ela a protegeu, reagiu contra as criaturas nascidas da violência contra a natureza: os fâmins.

Nihal olhou atônita para a espada.

— O que preciso fazer para ativá-la?

— É difícil dizer. Talvez você descubra, algum dia, mas é uma coisa que precisa aprender sozinha. O semi-elfo é você, não eu.

Nihal fez uma careta de desgosto. Um poder tão grande mas, pelo menos por enquanto, fora do seu alcance. Qual teria sido, então, a razão do presente de Phos?

— Não pode dizer-me mais nada? — perguntou com uma pitada de esperança.

— Talvez — respondeu o velho. — Já experimentou alguma sensação estranha, como de sentimentos alheios se apropriando da sua alma?

Foi como se uma pequena chama brilhasse de repente na sua mente.

— Sim, claro, já me aconteceu muitas vezes.

— É um dom que só os da sua raça possuíam. Os semi-elfos têm percepções muito mais amplas do que as demais criaturas deste mundo e sentem mais intensamente o espírito da natureza e dos seres vivos. Para você pode não passar de uma sensação vaga, mas a sua estirpe sabia como apurar esta capacidade com o estudo. Os semi-elfos cultivavam esta faculdade desde crianças. É por isto que eram invencíveis na guerra: liam a mente dos adversários e antecipavam seus movimentos.

Nihal estava de olhos arregalados.

— Quer dizer que eu também, se quisesse... O velho meneou a cabeça.

— Não sobrou vestígio algum do treinamento a que se submetiam os seus similares, e portanto não há como você cultivar esse dom. Claro, pode ser que com o tempo você aprenda a usá-lo com proveito, mas nunca conseguirá ler a mente dos outros. Pode no entanto entrar em contato com os espíritos naturais, ter acesso a certas fórmulas...

O velho interrompeu-se de repente, como se de uma hora para outra quisesse mudar de assunto.

— Quais fórmulas? — insistiu ela.

— Deixe para lá. Nada que lhe possa ser útil — respondeu ele com um vago gesto da mão. — Mas voltando à Lágrima, não foi por acaso que ela a ajudou. — Fechou os olhos como que procurando alguma coisa na memória. — Não consigo ver com clareza, mas sinto que você está ligada a essa pedra, que ela é parte do seu destino. É como a sombra de alguma coisa maior. Uma meta que espera por você no futuro. — Então calou-se e voltou a abrir os olhos.

— O que quer dizer com isto?

— Não sei. — O velho deu de ombros. — Os meus olhos podem enxergar, mas nem sempre a minha mente compreende. A compreensão cabe a você. — Sorriu. — E então? Que fim levou toda a sua aflição. Não disse que tinha um amigo para salvar?

Nihal pulou de pé.

— Leve-me a eles — disse decidida.

O velho encaminhou-se para a saída da caverna. Antes de embainhar a espada e segui-lo, Nihal olhou mais uma vez para a nívea luminescência da pedra. Pareceu-lhe que a estava chamando.

 

                       O CONDE

Ondine chegou à cela ofegando.

Senar aproximou-se das grades preocupado.

— O que houve?

— Decidiram justiçá-lo! — Os olhos da jovem encheram-se de lágrimas. — O povo está com medo e os guardas decidiram livrar-se de você.

— Não é possível — murmurou Senar. — Não faz sentido. Ondine começou a soluçar.

— Tencionam anunciar a data da execução amanhã mesmo. Senar esticou a mão fora das barras e tocou-a no ombro.

— Não chore. Ouça. Há alguma maneira para evitar a execução? A jovem enxugou a face e anuiu.

A praça estava apinhada. Quando o conde Varen aparecia em público para ministrar a justiça, a cidade inteira festejava e muitos visitantes chegavam à capital provincial das aldeias vizinhas.

O conde era um homem imponente, na casa dos cinqüenta. Nele, tudo parecia grande e ameaçador: o peito poderoso, mãos enormes e toscas, o pescoço taurino. A parte superior da cabeça era calva e brilhosa, e os poucos cabelos que sobravam estavam presos num fino rabicho, como era moda para aquele povo. Os traços marcados do rosto faziam com que se parecesse com uma estátua sumariamente esboçada na pedra com golpes vigorosos. Sentava num alto trono, sobre uma espécie de pódio, e mostrava-se enfadado. O seu olhar distante vagueava pela multidão aos seus pés: mais uma sessão enfadonha, mais um dia de queixas e pequenas brigas.

Já houvera um tempo, quando ainda era jovem e esperançoso, em que acreditara na sua missão, quando de fato achara poder mudar alguma coisa com a sua conduta. Sonhara em transformar os seus súditos em cidadãos conscientes, preparados para tomar decisões e, quem sabe, até a governar-se sozinhos, como já acontecera no passado. Esforçara-se para tornar aquelas sessões públicas motivos de crescimento, mas as suas tentativas haviam esbarrado na indiferença do povo, que não entendia a razão daquela lengalenga toda e só esperava dele os costumeiros indultos e punições como sempre acontecera antes. Aquele pessoal não queria a liberdade. Queria ser guiado com rigor, exigia alguém diante do qual se ajoelhar. Alguém que lhe poupasse o fardo de pensar com a própria cabeça. No fim entregara-se. Tornara-se aquilo que os seus súditos queriam: um déspota.

Naquela tarde já tivera de resolver umas duas ou três rixas de demarcação de terras e uma briga familiar por causa de uma minguada herança, e ouvir toda uma série de mulheres que defendiam os maridos.

O conde fez um sinal ao arauto, que deu um passo adiante e declamou:

— A sessão acabou! Dispersem-se. A sessão acabou!

— Esperem! Esperem, eu suplico! Ouçam! — gritou uma voz feminina que continuou a berrar até chegar aos ouvidos do conde.

Alguém estava procurando abrir caminho na multidão, avançava devagar, aos trancos e barrancos entre os corpos apinhados.

A duras penas uma jovem miúda apareceu diante do conde. O pessoal olhava para ela com desgosto enquanto avançava: era uma nova.

— Aproxime-se — disse o conde.

Era a primeira vez que alguém tão jovem pedia a sua atenção. Podia ser filha dele. A moça chegou até o pódio de mármore sobre o qual assentava-se o trono, enquanto um pesado silêncio tomava conta da praça.

— O meu nome é Ondine, conde — disse ofegante. — Venho de Eresséia, a aldeia perto do remoinho, e estou aqui para pedir que poupe a vida de uma pessoa.

O conde reparou que ela tremia.

— Alguém da sua família?

— Não, meu senhor. Um prisioneiro.

— E qual é o crime dele?

A jovem hesitou. Aos pés do pedestal parecia ainda mais miúda.

— É... um homem de Cima, senhor — disse baixinho.

A multidão afastou-se dela ainda mais e começou a murmurar. O conde assumiu uma expressão carrancuda.

— Arriscou a vida para chegar aqui — continuou ela. — É um jovem embaixador.

— Explicou o motivo da sua vinda?

— Sim, senhor. Um tirano está tentando conquistar o Mundo Emerso. O rapaz diz que poderia alastrar o seu domínio até aqui.

O conde sorriu.

— Minha cara jovem, você bem sabe como podem ser traiçoeiros os de Cima.

— Não, conde — desabafou a jovem. — Sei o que deve estar pensando: que não passo de uma garota ingênua. Mas o rapaz nada fez de errado. Só gostaria de poder falar com o senhor. Pediu-me para mostrar-lhe isto.

Tirou debaixo do corpete um medalhão, que o arauto logo arrancou das mãos dela para entregá-lo ao conde.

Numa das faces estava gravado um grande olho, na outra o símbolo que o conde logo reconheceu como o da Terra do Vento. Não se esquecera dele, os seus antepassados vinham de lá.

Era a primeira vez que Varen pisava numa prisão. Em geral os prisioneiros eram levados até ele durante as sessões públicas. O cheiro de bolor que reinava entre aquelas paredes apertou-lhe a garganta. Ao vê-lo chegar, o guarda fez uma respeitosa mesura.

— Não era nossa intenção incomodá-lo, conde. Nunca poderíamos imaginar que, condenando à morte o invasor, iríamos contrariar a vontade do senhor...

Varen interrompeu o soldado com um gesto de enfado.

— Então? Conte brevemente o que houve. O guarda fez um sucinto relatório.

— Duas crianças encontraram-no perto do remoinho, senhor. Eu o surpreendi enquanto perambulava por Eresséia e, logo que percebi tratar-se de um de Cima, trancafiei-o numa cela. Acredito que alguém tenha lhe dado abrigo durante algum tempo; ninguém passa pela voragem incólume. Estou averiguando. Acredito que muito em breve poderei confiar os culpados à justiça. O conde anuiu entediado.

— Sei, sei. Leve-me até ele.

Diante da cela, um mago muito velho e de farta cabeleira branca esperava por eles. O conde conhecia-o, chamava-se Deliah.

— O prisioneiro é um mago, meu senhor, mas não tive a oportunidade de testar os seus poderes — disse o velho com sua voz rouca. — Achei por bem impor-lhe a fórmula de inibição antes que pudesse nos prejudicar. Por enquanto a fórmula continua ativa, mas dentro de alguns dias ele voltará a contar com seus poderes. Sugiro que seja justiçado antes disso acontecer.

— Cabe a mim decidir — interrompeu-o o conde, ríspido. —Agora quero conhecê-lo.

O guarda destrancou a grade da cela escura e o conde vislumbrou uma figura que mal se distinguia naquele breu.

— O que pensa estar fazendo, parado desse jeito, seu bastardo? Curve-se! — esbravejou o soldado.

O conde dardejou-o com um olhar.

— Nunca mais ouse tratar um prisioneiro desse jeito, pois do contrário terá de procurar outro emprego — disse com firmeza. —Agora podem ir, quero ficar sozinho com ele.

— Mas conde... — começou o guarda.

— Podem ir — repetiu num tom que encerrava o assunto.

O guarda desapareceu, acompanhado pelo venerável Deliah.

O conde examinou atentamente o prisioneiro, de pé no meio da cela. A garota bem que dissera tratar-se de um jovem, mas quem estava diante dele mal passava de um rapazola. Rechaçou o instintivo asco por aquela pele escura, os cabelos de fogo e a longa túnica esfarrapada.

— Pode falar. Estou ouvindo.

— Agradeço-lhe a possibilidade deste encontro, conde — começou o rapaz com voz firme. — O meu nome é Senar e represento a Terra do Vento dentro do Conselho dos Magos. Preciso contar-lhe uma história longa e pesarosa. Espero não enfastiá-lo demais, mas é indispensável para que o senhor possa avaliar a situação na qual se encontra o meu mundo...

Depois de Senar acabar de falar o conde não conseguiu reprimir uma gargalhada de escárnio.

— Está querendo dizer que deveríamos ajudar militarmente aqueles que já tentaram nos conquistar?

— Ouça, eu lhe peço. Passei um ano lutando ao lado do exército da Terra do Vento. Vi milhares de jovens morrendo em nome de um futuro melhor. Nos acampamentos a situação piora dia a dia. Não se trata apenas de sangue, de perdas, de derrotas. A pior coisa é a sensação de impotência, o desânimo. Estamos ficando esgotados, conde. E percebi que não temos a menor chance de vencer. É por isso que estou aqui. O Tirano é mais forte, tem mais homens e o seu exército não pára diante de coisa alguma. Nós só temos o desejo de não sucumbir e de voltar a viver em paz.

— Em paz! — repetiu o conde, sarcástico. — Vocês não são capazes de viver em paz. Sempre acharam seus interesses pessoais mais importantes do que o bem coletivo. Esta é apenas mais uma entre as suas muitas guerras absurdas. Só tem a ver com vocês.

— As pessoas que vi morrer não pensavam no próprio interesse: lutavam pelo Mundo Emerso, pelos vivos e pelos mortos, por quem estava indefeso e por quem estava armado. Esta não é uma guerra como as demais. É a agressão de um só homem contra todas as Terras. Os nossos povos são irmãos, conde. As nossas Terras são as Terras onde nasceram os seus antepassados, e os desejos que eles tinham então são os que temos agora: paz e liberdade. —Senar tinha o rosto tenso e acalorado. — O Tirano não irá contentar-se em conquistar o Mundo Emerso, pode ter certeza disto. Se eu consegui chegar até aqui, acha então que ele não poderia fazer o mesmo com o seu exército? — Senar fez uma pausa para retomar fôlego. — Só lhe peço que me permita ter um encontro com o rei — murmurou.

O conde ficou alguns instantes pensativo, então aproximou-se da porta da cela.

— Guarda!

— Pense no assunto! — gritou Senar enquanto as grades voltavam a fechar-se na sua cara.

Sentado no catre, Senar não se cansava de pensar acerca da conversa com o conde. Tivera a oportunidade de salvar o seu mundo e a desperdiçara. Do que adiantara tudo aquilo que enfrentara? Os riscos, a esperança, o sofrimento...

A grade abriu-se lentamente e Ondine entrou na cela. A porta bateu violentamente atrás dela e a jovem ficou parada, de bandeja na mão.

— Pedi que o guarda me deixasse entrar. — Corou. — Pensei que talvez... quem sabe hoje você preferisse jantar em companhia.

— Desculpe, Ondine, mas hoje não tenho realmente vontade de comer — disse o rapaz, fazendo uma careta.

— Não desanime, Senar — disse com entusiasmo. — Convenceu a mim, por que acha então que as suas palavras não convenceram o conde?

O mago sorriu. Afinal de contas estava feliz com a presença de Ondine ali, diante dele, e não do outro lado das pesadas grades da cela. Aproximou-se dela.

— Obrigado por tudo aquilo que está fazendo por mim — disse, em seguida acariciou seus cabelos.

Ondine reagiu com um estremecimento, mas não se afastou.

Embora tivesse um peso no estômago, Senar acabou comendo. Sentia-se grato a Ondine porque ela tentara ajudá-lo, porque confiara nele, porque estava ao lado dele na escuridão daquela cela.

Ficaram conversando longamente, como de costume, acocorados no catre. As suas palavras despediram-se dos últimos raios de sol e deram as boas-vindas à noite dos abismos.

Quando ficou escuro Ondine levantou-se.

— Já é tarde. Preciso voltar.

Senar permaneceu sentado. Não queria ficar sozinho, pelo menos não naquela noite.

Ondine curvou-se sobre ele para fitá-lo nos olhos.

— Você fez o possível. Os deuses ouvirão as suas palavras e irão ao encontro dos seus desejos — disse. Deu-lhe um beijo na face.

Senar agarrou a mão dela e segurou-a.

— Por favor, Senar... — murmurou a jovem, mas o mago puxou-a contra si, abraçou-a como se não possuísse mais nada no mundo.

Ondine deixou-se cair no catre e entregou-se ao abraço. Senar respirou o perfume dela, sentiu o calor do seu corpo. Beijou-a com força e ela correspondeu, acompanhou-o como se aquilo fosse tudo que ela queria naquele momento. Senar não conseguiu pensar mais em coisa alguma. Sua boca tornou-se faminta, as mãos deslizaram para o corpete.

O que diabo estou fazendo? Afastou-se com um pulo, o rosto todo vermelho, e Ondine levantou-se do catre olhando em volta para certificar-se de que ninguém tinha visto coisa alguma, enquanto alisava o vestido amarrotado.

— Peço-lhe perdão — disse Senar baixinho.

A jovem pegou apressadamente a bandeja e chamou o guarda. A porta abriu-se e ela desapareceu na escuridão.

Naquela noite Senar não conseguiu dormir muito e as poucas horas de sono foram agitadas pelos sonhos: cenas de guerra, o pai, Nihal ferida. Depois Ondine, que sorria para ele, a sua boca, a maciez do seu corpo.

Quando o soldado acordou-o, sentiu-se quase aliviado.

— Apronte-se, vamos partir — intimou o guarda.

O mago levantou-se de estalo. Já chegara a hora da execução?

— Para onde vamos? — perguntou num tom tenso.

— Ao castelo do conde. Ele quer vê-lo.

Talvez em algum lugar houvesse realmente deuses que tomavam conta das suas criaturas. Senar ficou pronto num piscar de olhos. O guarda prendeu pesados ferrolhos nos seus pulsos e arrastou-o para fora.

A rua estava cheia de gente. A aldeia inteira estava lá para ver o estrangeiro vindo de tão longe.

Depois de tantos dias na cela, Senar já não estava acostumado com a luz. Seus olhos ardiam, os pulsos acorrentados doíam, e mesmo assim sentiu-se renascer.

Mal tinham saído da aldeia quando ouviram uma voz feminina chamá-los.

Senar sentiu um aperto no coração.

— Ondine...

A jovem corria atrás deles como louca.

O guarda, apontando a lança, obrigou-a a parar.

— O que quer?

— Para onde o está levando?

— Isto não é da sua conta, sua leviana.

Ao ouvir aquilo Senar sentiu a raiva ferver dentro de si. Conseguiu refreá-la, contudo; não era hora de procurar briga.

— Estamos indo ao castelo do conde, não se preocupe comigo. O guarda deu um violento puxão e o obrigou a retomar o caminho.

Ondine ficou ao seu lado.

— Como assim, ao castelo do conde? — perguntou ansiosa. Seu peito miúdo subia e descia arfando devido ao cansaço da corrida.

— Já lhe disse, não precisa se preocupar — repetiu Senar.

O soldado parou de repente e apontou a lança contra o ventre dela.

— Já chega! Volte logo para casa se não quiser ser presa! Senar fitou-a com doçura.

— Eu lhe peço, obedeça. Volte para casa.

— Mas eu quero saber...

— Saberá de tudo, eu prometo. — Senar ainda teve tempo de dizer antes que o guarda o levasse embora.

A morada do conde ficava em outra bolha e para chegar lá tiveram de passar por um daqueles longos corredores que o mago já vislumbrara. O mar estava em toda parte: acima das suas cabeças, abaixo dos seus pés, ao lado deles. Senar não conseguia parar de olhar a sua volta. Andava sobre o vidro espesso daquele duto, cercado pelo azul profundo das águas, e parecia-lhe estar voando e nadando ao mesmo tempo. Para forçá-lo a avançar, vez por outra o guarda tinha de recorrer a violentos puxões.

Levaram mais ou menos a metade do dia para chegarem ao seu destino. O palácio era um edifício de aspecto sóbrio, em posição elevada em relação ao nível da estrada. Chegava-se até ele através de uma longa escadaria que lembrou a Senar a Academia da Ordem dos Cavaleiros de Dragão, em Makrat.

O guarda escoltou Senar até um aposento frio e despojado. O conde chegou logo a seguir e foi sentar-se num maciço assento de pedra.

— Tire as correntes dele e saia daqui — disse ao carcereiro.

Quando Senar ficou novamente livre, o conde acenou para ele se aproximar.

Ainda com os pulsos marcados por manchas roxas, Senar obedeceu. O momento de silêncio que se seguiu pareceu-lhe durar uma eternidade. A sua vida e a dos habitantes do Mundo Emerso estavam nas mãos daquele homem.

O conde dirigiu-se a ele com franqueza.

— Graças ao senhor passei uma noite infernal, conselheiro. As suas palavras deixaram-me profundamente impressionado. Ainda mais por ter vindo até nós sozinho e desarmado.

— A minha foi desde o começo uma missão de paz, conde.

— Não duvido, é evidente. Mesmo assim, quem pode assegurar-me que os seus compatriotas não estejam animados por finalidades mais escusas?

— A minha palavra. E isto aqui. — Senar tirou da túnica o pergaminho e entregou-o ao homem. — Aqui o senhor vai encontrar a proposta de aliança do Conselho. Como é fácil perceber, o documento garante explicitamente a ausência de qualquer intenção de conquista. E, de qualquer forma, acredite: as nossas forças já foram desgastadas demais pela guerra para que possam ser usadas num ataque contra o Mundo Submerso.

O conde levantou-se e começou a andar de um lado para outro da sala. Senar acompanhou-o com o olhar, à espera de uma decisão definitiva.

O homem finalmente parou diante dele.

— Que seja. Levá-lo-ei pessoalmente à presença do rei. Caberá a Sua Majestade decidir se vale ou não vale a pena acreditar no senhor.

Senar sentiu vontade de gritar de felicidade. Mal conseguiu manter um mínimo de compostura.

— O senhor nem pode imaginar como a sua decisão encheu-me de alegria.

O conde fitou-o com simpatia, depois voltou a ficar sério.

— Não pense que poderá convencê-lo com facilidade. A primeira preocupação do rei será com os seus súditos.

— Como assim? — perguntou Senar.

— Nos nossos contos infantis os maus são sempre homens do Mundo Emerso, está me entendendo? O povo de Zalênia é criado no ódio por aqueles de Cima. É contra isto que o senhor terá de lutar.

— Só espero que o seu soberano tome uma decisão baseada na justiça.

— A política não se faz com a justiça, conselheiro — replicou o conde. — Às vezes quem governa é forçado a aceitar a vontade de pessoas menos previdentes. Acredite. Sei por experiência própria.

— O senhor acha mesmo? Quanto a mim, acredito que se não levarmos em conta a justiça a política deixa de ter qualquer sentido.

O conde meneou a cabeça.

— Espero que a vida nunca o decepcione ou apague o seu entusiasmo — disse enquanto se despedia. — Será uma longa viagem. Partiremos amanhã de manhã.

Senar percorreu o longo corredor que levava à saída do palácio com o sorriso estampado no rosto. Parecia-lhe estar caminhando nas nuvens. Ainda estava muito longe, é claro, de concluir a sua missão, mas a decisão do conde era sem dúvida um importante passo adiante.

Mal passara pelo portão do palácio quando a viu. Estava sentada num degrau, à espera, com uma cestinha no colo. Senar desceu a escadaria correndo.

— Ondine!

A mocinha virou-se, deixou cair aquela espécie de merendeira e correu para ele. Jogou-se nos braços do jovem mago e Senar experimentou as mesmas emoções da noite anterior.

— Estava tão preocupada — sussurrou Ondine. Em seguida afastou-se. — O que foi que o conde disse?

Senar ficou alguns segundos calado, achando graça na expressão com que Ondine estudava seu rosto. Finalmente levantou-a do chão e apertou-a contra si.

— Consegui. Vai levar-me ao rei.

Rodopiaram abraçados, até perderem o equilíbrio e se esparramarem sorrindo no gramado que ficava em volta do palácio. Acima deles, cardumes de peixes voavam na água. Viver assim, para sempre: é disto que eu gostaria, pensou Senar.

Ondine fitou-o nos olhos.

— Vou com você.

Senar ficou sem saber ao certo o que dizer.

— Comigo? E os seus pais?

— Eu disse que talvez fosse ficar longe algum tempo — respondeu ela dando de ombros.

— Ouça, Ondine, não creio que realmente seja o caso...

A jovem interrompeu-o encostando um dedo nos lábios dele.

— Salvei a sua vida, conselheiro. Tenho alguns direitos sobre você.

Depois de comerem o que Ondine havia trazido na pequena cesta, começaram a procurar um lugar onde dormir. A moça entregou sua capa a Senar e ajudou-o a cobrir do melhor jeito possível o rosto e os cabelos, então dirigiram-se para uma estalagem.

O homem que os recebeu fez mil perguntas e tratou Ondine de forma bastante rude, mas ela pareceu não ligar.

— Só temos um quarto vago — disse afinal o hospedeiro. Ondine nem pestanejou.

— Tudo bem, ficamos com ele.

A idéia de passar a noite com Ondine insinuou em Senar sugestões pouco adequadas aos acontecimentos. Ficou se sentindo culpado. Que raio de conselheiro você é, afinal? Trata-se de uma missão diplomática. Não é hora de se deixar levar pela paixão.

Quando entraram no quarto, no entanto, Senar quase perdeu o fôlego: o aposento tinha uma única grande cama.

— Não se preocupe — gaguejou. — Eu dormirei no chão. A jovem olhou para ele de soslaio.

— Sim, claro, como você quiser.

 

                       SALVAMENTO

Partiram ao anoitecer. Nihal não concordava plenamente com a idéia. Claro, estariam protegidos pela escuridão, mas a noite pode ser uma arma de dois gumes. Não podem ver você, mas você tampouco pode ver com clareza os inimigos. Todos os ataques que Nihal tinha sofrido haviam acontecido de noite.

— Não teria sido melhor esperar pelo alvorecer? — perguntou às costas do velho que, diante dela, deslizava rápido entre árvores e moitas.

— Não, é melhor assim — murmurou ele.

Seus pés nus moviam-se sem qualquer barulho na grama. Só se ouvia, vez por outra, o lento e perturbador tilintar das correntes. Parecia ser dono daquele bosque. Para movimentar-se nele com tamanha segurança devia conhecê-lo como a palma da mão.

Nihal, ao contrário, avançava a duras penas. Seus olhos estavam acostumados com a escuridão, mas a vegetação era cerrada e aquele emaranhado exigia toda a sua agilidade.

Não levaram muito tempo para chegar ao local que procuravam. Saíram da floresta e diante deles, ao longe, apareceu uma chapada de rocha pontilhada pelas rendas da hera. A base do paredão estava mergulhada entre moitas e vegetação rasteira. Parecia totalmente lisa.

No começo Nihal não conseguiu ver coisa alguma.

— Então?

— Ali. — O dedo nodoso do velho apontou para um lugar. Na fraca luz do luar vislumbrava-se uma minúscula abertura atrás de uma das muitas moitas. A toca dos bandidos. Nem mesmo os olhos mais atentos conseguiriam perceber a entrada.

— Não parece, mas é uma caverna bem grande, dois amplos vãos ligados entre si — ciciou o velho. — Escondido na ramagem há um vigia. À noite revezam-se de duas em duas horas. De dia, no entanto, a gruta costuma ficar desguarnecida.

Nihal ficou surpresa com a quantidade de informações de que o velho dispunha. Devia conhecer muito bem os bandidos. Aquele homem era realmente um mistério.

— São em que número? — perguntou ela.

— Eram dez, mas dois morreram; outro foi ferido e nunca sai. Ficaram alguns minutos em silêncio, então o velho olhou para o céu e se levantou. Parecia estar com pressa de ir embora.

— Isto é tudo — disse. — Nada mais posso fazer por você. Nihal também levantou-se.

— Obrigada. Por salvar-me e pelos seus conselhos. Espero poder retribuir, algum dia.

O velho deu de ombros.

— Quem sabe. Talvez quando os nossos caminhos voltarem a se cruzar. Até então, boa sorte.

Logo a seguir já havia desaparecido entre as moitas.

Nihal examinou a estreita entrada do covil, a mão apertando com firmeza a empunhadura da espada. Os dias de espera na caverna deixaram-na esgotada. Estava preocupada com Laio e vivia dizendo a si mesma que precisava agir sem demora, mas a superioridade numérica dos bandidos segurava-a.

A lâmina negra gemeu ao sair lentamente da bainha de couro. O barulho rachou o silêncio da noite e Nihal parou. Nenhum movimento, nem ao redor dela nem diante da caverna. Mas por ali havia alguém à espera, a jovem podia senti-lo: um homem atento e pronto para lutar. Ficou imóvel por alguns instantes, a espada ainda não totalmente desembainhada. Calma, Nihal Este é um daqueles momentos em que é preciso manter-se lúcida e pensar. Não se deixe levar pelo seu costumeiro ardor. Respirou fundo e guardou a arma na bainha com a maior delicadeza possível. Não, não podia atacar o esconderijo dos ladrões daquele jeito. O vigia não era um problema, mas logo que ela pusesse os pés lá dentro ver-se-ia diante de sete homens bem armados e acostumados a lutar. Precisava de um plano.

Esfregou as mãos no rosto. Detestava a espera e mais ainda a tática.

A lua havia desaparecido e a leste o céu começava a mostrar uma vaga claridade. Não demoraria a amanhecer. Nihal recuou entre as ramagens, em busca de um esconderijo seguro onde avaliar com calma a situação.

Ficou andando sem destino até encontrar um regato que escorria num desfiladeiro. Desceu até lá e curvou-se para beber. No começo só molhou os lábios, depois mergulhou a cabeça inteira dentro da água.

Precisava daquele banho frio para esclarecer as idéias. Ficou algum tempo sentada na margem, observando o céu que primeiro empalidecia para então tornar-se intensamente azul. O verão chegava: só com o calor o céu assumia aquela cor tão forte.

Nihal tentou concentrar-se: precisava sossegar a sua agitação, encontrar a calma necessária para definir uma estratégia. Era a primeira vez que se via forçada a fazer isso longe dos campos de batalha. Era algo que normalmente fazia antes de entrar na luta: sentava num canto e ficava em silêncio, tentando ouvir somente as batidas do próprio coração. Mantinha sob controle a fera que existia dentro dela, mandava calar-se as vozes que ressoavam na sua cabeça. Perseguia a calma, a lucidez de que um bom cavaleiro sempre precisa.

Desta vez, no entanto, era diferente. Não estava numa guerra, não iria enfrentar o inimigo em campo aberto. Não havia fileiras de fâmins esperando por ela aos berros, nem guerreiros a serem vencidos. E tampouco havia a sombra ameaçadora do Tirano. Esta nova batalha nada tinha a ver com vingança. Era a primeira vez que Nihal se preparava para lutar por alguém.

Depois que conseguiu esboçar o plano, Nihal começou logo a se mexer. Antes de mais nada era preciso examinar atentamente a área para entender direito as características do território e da toca dos bandidos. O velho falara de gruta com dois ambientes, mas isto não bastava. Tinha de descobrir mais alguns detalhes.

Começou dedicando-se ao estudo da entrada. Teve a impressão de voltar a ser criança. Arrastou-se silenciosamente entre as samambaias e aproximou-se o suficiente para ver com clareza a passagem, mas não tanto assim que pudessem ouvi-la. Enquanto jazia no chão, apoiando as mãos no tapete de folhas secas, lembrou as brincadeiras na estepe em volta de Salazar. Naquele tempo também se arrastava com o coração a mil por hora, excitada e assustada, cuidadosa e furtiva como um gato. Aquelas brincadeiras não haviam demorado a se tornar crua realidade.

Como o velho avisara, havia um homem de vigia. Ficava bem na entrada da caverna, escondido num nicho escuro. Nihal ficou um bom tempo a observá-lo. Sabia muito bem o seu ofício. Oxalá o exército pudesse dispor de sentinelas tão eficientes! Aparentava a maior calma — obviamente o bando não esperava qualquer tipo de ataque —, mas mantinha-se vigilante e ficava alerta ao ouvir qualquer ruído.

Nihal esperou pela troca da guarda. O novo vigia era bem diferente. Ficava apoiado preguiçosamente na espada fincada no chão. Vez por outra balançava a cabeça e dormitava.

A jovem procurou gravar claramente na memória os traços do sujeito. Um homem baixo e atarracado, de longos cabelos encaracolados e sebosos que lhe chegavam aos ombros. Iria atacar quando ele estivesse de plantão. Tudo iria ser bem mais simples.

Dedicou a tarde à exploração do ambiente externo. Examinou atentamente a parede rochosa onde se abria a caverna. Era uma longa falha lisa e Nihal teve de andar um bom pedaço antes de encontrar um lugar por onde subir. Galgou o paredão até chegar ao topo do abismo. A pedra era friável, estratificada, e ao chegar lá em cima ela percebeu que toda a encosta devia ser uma espécie de peneira. O terreno em que ela estava pisando era uma série ininterrupta de valas e crateras mais ou menos profundas.

Examinou-as com cuidado. Um respiradouro que levasse até a caverna dos ladrões bem que poderia ajudá-la. Quase todos os buracos, no entanto, acabavam em becos sem saída, e pelo menos no começo a exploração só lhe proporcionou manchas roxas e arranhões. Um trabalho para gnomos. Gostaria que Ido estivesse aqui, pensou com os seus botões enquanto tentava limpar-se.

Levou algum tempo antes de encontrar o que estava procurando: um buraco maior que acabava numa espécie de galeria. Nihal ajoelhou-se e procurou enxergar o fundo. A longa toca desenvolvia-se paralela ao solo, mas um exame mais atento revelou que descia. Não vai ser um pouco de terra e de sujeira a mais a deter-me. Nihal deu uma última olhada para o céu, respirou fundo e enfiou-se de cabeça no poço.

O acesso não era nada fácil e, apesar de a jovem ter um corpo miúdo, em certos lugares só conseguiu passar com dificuldade. Faltava ar, e o pouco que havia fedia a bolor e podridão. Nihal continuou avançando às escuras, as mãos a escorregar no musgo, entre paredes cheias de insetos e minhocas. Esperava encontrar a qualquer momento uma parede de pedra que a forçasse a subir de novo, mas não a encontrou. A descida prosseguiu, longa e difícil. Nihal continuou a arrastar-se de barriga, ajudando-se com os joelhos e os cotovelos, até enxergar ao longe uma vaga luminosidade. Seguiu em frente redobrando o cuidado. Se o buraco de fato levasse ao covil, precisava de qualquer maneira evitar que a descobrissem.

No fim do poço encontrou uma estreita fenda pela qual filtrava uma lâmina de luz que cortava a escuridão. Aproximou-se. A parede era fina. Um mero empurrão provavelmente seria suficiente para derrubá-la.

Nihal espiou através do buraco e o seu coração bateu mais rápido. A umas poucas braças abaixo dela podia ver Laio, amarrado, sentado num rude catre improvisado. Estava sujo e visivelmente cansado, mas as suas roupas não mostravam manchas de sangue. Apesar da palidez e dos traços tensos, parecia estar bem. Nihal sentiu vontade de acabar com aquela maldita parede e entrar correndo para salvá-lo, jogando às favas a estratégia e os planos. Fechou os olhos e apertou os punhos. Não estrague tudo como de costume! Depois de recuperar a calma, olhou de novo.

A caverna era um ambiente muito amplo, limitado por altas paredes de pedra. Era uma cavidade mais ou menos circular, com o diâmetro de pelo menos vinte braças. Quatro tochas enfiadas em outros tantos nichos soltavam reverberações avermelhadas. Havia catres de campanha alinhados ao longo das paredes e a rocha tinha sido cavada num canto para abrigar uma rudimentar lareira. Também viu o ladrão ferido; estava deitado num saco de palha e tinha uma perna enfaixada. Além dele havia mais cinco homens, os demais deviam estar no ambiente ao lado. A não ser que houvesse outra entrada em que ela não tinha reparado. Nihal praguejou baixinho. Uma vez lá em cima, teria de rastejar como um verme em todos aqueles buracos que ainda não havia examinado.

Avaliou os bandidos. Nada de mais neles: uma turma de brutamontes com cara de poucos amigos. Não são soldados treinados. Posso conseguir.

O retorno precisou de tempo e paciência. Não havia muito espaço para dar meia-volta e Nihal teve de fazer todo o caminho até em cima rastejando para trás. Arranhou os joelhos e os cotovelos e, quando voltou a ver a luz, pareceu-lhe nascer outra vez. Achou o ar quase perfumado.

Até o entardecer não fez outra coisa a não ser subir e descer por buracos mais ou menos estreitos, até ter certeza de que não havia outras entradas para a caverna.

Quando finalmente voltou à base da encosta, já era noite profunda. Estava exausta. Devorou com avidez os mantimentos que o velho deixara com ela e deitou-se para descansar entre a ramagem de um grande carvalho. Tentou pensar de novo na melhor estratégia para salvar Laio, mas o cansaço a venceu, os pensamentos atropelaram-se por caminhos cada vez mais obscuros e o sono envolveu-a.

Acordou com o primeiro sol da manhã ferindo seus olhos.

Desceu rapidamente da árvore e, como no dia anterior, mergulhou a cabeça na água. Estava gelada mas era uma sensação agradável. Não podia haver coisa melhor para acordar.

Passou o dia inteiro preparando armadilhas. Não eram coisas que se ensinassem na Academia: lá só se falava em guerra, e táticas tão vis, só dignas de ladrões, nem eram levadas em consideração. Aprendera esta arte ainda menina. Quem lhe ensinara fora Barod, um garoto da sua turma; tinha capturado muitos pássaros com aquelas armadilhas. Mais tarde Ido explicara-lhe como aplicar as mesmas táticas à guerrilha. Como verdadeiro guerreiro, o gnomo não descartava qualquer recurso para chegar à vitória. “A honra fica em outro lugar, não nas táticas que empregamos”, costumava dizer.

Foi uma tarefa lenta e cansativa, sobretudo porque não dispunha dos instrumentos adequados. Só tinha uma corda e a sua faca: teve de dar um jeito. Transformou a corda numa série de laços que escondeu cuidadosamente sob as folhas secas. Depois dedicou-se a algo mais complicado. Cavou uma vala com cerca de quinze braças de comprimento, logo depois da primeira fileira de árvores do bosque, bem diante da entrada do covil dos ladrões. Foi extenuante, só podia cavar com a espada ou com as mãos, mas ainda bem que só precisou cavar até a profundidade de uns dois palmos. No meio da tarde terminara a obra. Passou então a aguçar a ponta de um grande número de galhos secos para transformá-los em perigosos espetos que plantou com fartura na própria vala. Cobriu o desnível com ramagens e folhas para então prender o último pedaço de corda ao longo do sulco, à altura dos tornozelos. Quem passasse por lá, e alguém não demoraria a fazê-lo, iria ter uma surpresa e tanto.

Quando acabou, o sol já estava quase a ponto de desaparecer no horizonte. Nihal bufou impaciente. Tinha levado mais tempo que o previsto.

Forçou-se a descansar. Voltou para a árvore e cobriu o rosto com a capa. Iria dormir até a chegada das trevas. Então passaria à ação.

Os grilos acabavam de começar seu concerto. Era uma noite límpida e fresca. Depois do dia abafado, o ar noturno arrepiava a pele. Ficara com calor embaixo da capa, e o suor que agora regelava no seu corpo acordou-a por completo.

Deslizou devagar até a entrada da toca, pegou uma pedra e sacou a faca que guardava na bota. Ainda de longe, observou a sentinela. Era o vigia sonolento do dia anterior. Estava tranqüilo, de olhos entreabertos pelo cansaço, e nem reparara na aproximação dela. Não é sempre assim, afinal? A tragédia chega inesperada nos momentos de maior calma. E quando se morre não é nunca como o imaginado. Exatamente como naquele dia em Salazar.

Seus dedos seguraram com firmeza o cabo do punhal, mas não sentiu raiva. Estava a ponto de ter uma experiência para ela nova, algo muito diferente do combate no campo de batalha. Teria de matar um homem com a maior frieza, um homem que não a ameaçava de forma alguma, um homem que não esperava ver a morte chegar detrás de uma moita. Nihal nunca tivera escrúpulos quanto a matar; a primeira vez acontecera tão depressa que nem tivera tempo de dar-se conta, e mais tarde qualquer sentimento havia sido cancelado pela guerra. Matar tornara-se uma coisa normal, um hábito. Mas ali, deitada no chão, sem o estrondo ensurdecedor da luta em campo aberto, degolar um homem voltava a ser um assassinato.

Nihal atirou raivosamente a pedra nas samambaias. É por Laio. É por ele que faço isto. O mato era cerrado e o baque foi barulhento. A sentinela pareceu acordar, aguçou os olhos e perscrutou a escuridão.

Nihal levantou-se e aproximou-se dele lenta e vigilante.

O guarda deu uns tímidos passos adiante, arrastando a espada atrás de si. Nihal caiu logo em cima dele. Com a mão tapou-lhe a boca, com a outra passou a lâmina na sua garganta. O homem não emitiu um gemido sequer. Limitou-se a murchar entre os braços da jovem, que o deixou cair ao chão sem olhar no seu rosto.

Sacudiu a cabeça. Nada de sentimentalismos.

Voltou ao bosque, apanhou os gravetos que cortara durante o dia e juntou-os na entrada da caverna. Ateou fogo com pederneira e fuzil, para logo a seguir fugir correndo. A madeira era muito verde para não queimar depressa demais, mas ainda assim era bom mexer-se sem perda de tempo.

Foi subindo pela encosta, localizou o buraco e mergulhou nele. Os joelhos e os tornozelos ainda doíam devido à descida do dia anterior, mas ela não se importou. Aguçou ao máximo as suas orelhas pontudas na tentativa de perceber os sons provenientes da gruta. Durante um bom tempo só conseguiu ouvir o barulho do próprio corpo que rastejava penosamente dentro da galeria.

Enfim, perto do fim do estreito poço, ouviu uma gritaria confusa mas no fundo comedida e nem um pouco preocupada.

Fique calma. A fumaça vai demorar algum tempo. Você já sabia disto.

Assim como no dia anterior, o feixe de luz feriu-a na compacta escuridão do buraco. Nihal esticou a cabeça para olhar através da fresta na parede. Dentro da caverna o ar continuava límpido, mas já dava para perceber um acre cheiro de fumaça. Os homens estavam de pé, fuçando o ar. Um, dois, três, quatro, cinco. Faltavam dois, provavelmente estavam na outra sala. Alguém levantou-se para averiguar, mas não havia lá muita coisa a descobrir; o ambiente começava a ficar enevoado. Nihal viu-os tomados de crescente agitação: começavam a mexer-se na gruta como feras irrequietas. Então uma voz gritou “Fogo!” e todos entraram em pânico. Seguiu-se uma fuga desordenada, com Laio e o ferido entregues à própria sorte.

Nihal não esperou mais. Deu um violento empurrão no diafragma de pedra que, como já previra, desmoronou sem maiores problemas. Caiu dentro da caverna e, com uma cambalhota, ficou novamente de pé, de espada na mão. Desta vez nem pestanejou, foi o próprio corpo a decidir por ela. Matou o ferido de um só golpe.

Não era entretanto o único bandido ainda por perto. Dois homens vinham de fato saindo do ambiente ao lado. Logo que o primeiro a viu tentou alertar os demais, mas Nihal precipitou-se sobre ele. Estava desarmado e matou-o sem qualquer dificuldade. O outro sacou um facão de caça e tentou pegá-la pelas costas. Nihal mal teve tempo para pular de lado, enquanto a lâmina afiada cortava uma mecha dos seus cabelos. O bandido avançou contra ela gritando, mas a jovem aparou prontamente o golpe e desferiu por sua vez o seu ataque. Continuou atacando até deixar o inimigo encostado na parede, quando então trespassou-o de lado a lado. O homem vomitou um jorro de sangue e dobrou-se até cair sem vida no chão. O silêncio tomou conta da caverna.

Laio estava de olhos arregalados.

— Nihal! Como foi que você... A jovem correu até ele.

— Depois, agora não temos tempo. — Cortou de um só golpe a corda que o prendia e ajudou-o a levantar-se.

O rapaz mal conseguia ficar de pé.

— Já faz algum tempo que não estico as pernas. Mantiveram-me atado o tempo todo — tentou desculpar-se, mas as suas palavras perderam-se num acesso de tosse.

O vão da gruta já estava cheio de fumaça.

— Fique agachado — ordenou Nihal, e em seguida acocorou-se perto dele.

Agora só faltava sair. E confiar na eficácia das armadilhas. Os dois rastejaram para a saída o mais depressa possível. Não encontraram ninguém para impedir a passagem. Pouco a pouco estavam chegando cada vez mais perto da salvação. Nihal na frente, de cabeça vazia e corpo tenso em estado de alerta, Laio a tropeçar inseguro e dolorido atrás dela. Quando já estavam próximos da saída foram atropelados por uma lufada de calor inesperado. Nihal parou atônita. Não tinha previsto que o fogo poderia alastrar-se tão rapidamente. Lá fora só se via o ofuscante clarão das chamas.

— E agora? — perguntou Laio num tom vacilante. Pois é, e agora?

— Para trás! Vamos voltar, rápido! — berrou Nihal. Recuaram rapidamente para dentro da caverna. O fogo estalava ameaçador enquanto a fumaça se espalhava cada vez mais.

Voltaram para o ambiente principal. A cortina de fumaça era ali mais alta e eles se ajoelharam. Nihal olhou para o buraco na parede; ficava a mais de duas braças acima de suas cabeças, um funil estreito e fumacento. Olhou a sua volta. Alguma coisa para chegar até lã em cima. Alguma coisa para poder respirar!

Viu um vaso cheio de água num canto. Correu para lá, cortou com a espada duas longas tiras da sua capa e mergulhou-as até ficarem empapadas. Laio tossia de forma convulsa.

— Bote isto em cima da boca e do nariz — disse ao amigo enquanto entregava-lhe o tecido molhado.

Precisava encontrar alguma coisa que os ajudasse a subir. Procurou por toda parte mas no aposento só havia dois catres e a parede de rocha nua. Seus olhos examinaram todos os cantos, sua mente corria solta à cata de uma saída. Presos, presos como ratos numa armadilha! E sou a única culpada por estarmos nesta situação!

Nihal meneava a cabeça como uma fera enjaulada enquanto o fogo se avivava cada vez mais perto deles. Entrou no segundo local da caverna. Um depósito, claro! Como pôde não pensar nisto? Tesouros, arcas, mas também tonéis e uma grande fartura de mantimentos. O necessário para tornar aquele lugar um refúgio seguro.

— Aqui Laio, rápido!

O rapaz acudiu com toda a rapidez que suas pernas entorpecidas lhe permitiam.

— Precisa ajudar-me a deslocar um desses. — Nihal apontou para um grande tonel.

Começaram a esforçar-se, mas a fumaça tirava-lhes o fôlego.

Nihal recorreu àquilo que ainda sobrava das suas energias.

— Mais um pequeno esforço e vamos conseguir, vamos lá! —gritou enquanto a fumaça enrouquecia a voz na sua garganta.

Conseguiram empurrar o tonel até a entrada do buraco por puro desespero. Ambos tossiam sem parar, engasgando e mal conseguindo respirar. Nihal pegou o vaso com água, esvaziou metade dele em cima do amigo e o resto sobre si mesma. Laio tinha os olhos vermelhos e parecia estar a ponto de desmaiar.

— Aperte o pano contra a boca e não saia daqui, entendeu? Laio anuiu.

Nihal voltou ao depósito e esvaziou uma grande arca. Jogou no chão castiçais, pilhas de pratos de ouro, colares e pulseiras até nada mais sobrar dentro dela. Arrastou-a então para a outra sala. Acenou para que Laio ajudasse a levantá-la por cima do tonel.

Agora só faltava a parte mais complicada.

Virou-se para o amigo.

— Precisamos sair por onde entrei. É apertado e vamos ficar com falta de ar, mas não se assuste, está certo? Vamos conseguir. Você vai na frente, eu empurro. Não pare e não se vire para trás, está claro?

Laio voltou a anuir, o peito subindo e descendo à cata de ar; trepou naquele pedestal improvisado.

Era uma tentativa desesperada. O poço era bastante longo e o ar iria certamente faltar. As chances de chegarem sãos e salvos na outra extremidade eram muito poucas.

— Respire o mais fundo que puder e tente subir o mais rápido possível! — berrou Nihal quando Laio já estava com a cabeça na entrada.

O rapaz obedeceu e num piscar de olhos foi engolido pelas trevas.

Nihal arrastou-se tonel acima e enfiou-se por sua vez no buraco.

Logo que entrou sentiu falta de ar. Ao cheiro de bolor juntara-se agora o fedor acre da fumaça. As paredes estavam quentes e pareciam apertar os fugitivos como uma membrana mole e viva. Seus corpos não deixavam a fumaça subir, mas o ar limpo que entrava de cima não era suficiente.

Laio avançava devagar.

— Reparou no ar fresco? Continue, já não falta tanto — dizia Nihal para incitá-lo, mas na verdade estavam cercados por um fedor mortífero e as trevas escondiam qualquer coisa.

Achatada contra o corpo de Laio, Nihal sentia-se sufocar. A fumaça passava através de qualquer fresta, subia em lufadas envolventes, em busca como eles de uma saída.

— Não agüento mais — disse Laio arfando e parou.

— Claro que agüenta! — gritou Nihal, com uma voz tão rouca que nem parecia dela. Tossiu. Um suor pegajoso e quente cobria-lhe o corpo todo. — Vamos lá! — insistiu. — Estou aqui para ajudar, apóie-se em mim se ficar cansado, mas não pare!

Laio recobrou-se e voltou a rastejar. Nihal podia ouvir a sua respiração ofegante e empurrava-o com a mão. Seus pulmões ardiam, sua cabeça rodava e as palavras do amigo ressoavam aos seus ouvidos como uma ladainha:

— Não agüento mais... não agüento mais... Nihal ficou enfurecida.

— Pare logo com essa choradeira! — desabafou. — Enfrentou esta viagem toda para morrer como um rato? Mexa-se!

Laio procurou reagir e as suas palavras perderam-se no ritmo cada mais ofegante da sua respiração. Nihal, logo atrás, perdeu lentamente a consciência de si mesma e continuou a subir sem nem saber onde estava.

O ar chegou de repente. Fresco, abundante. Demais.

Nihal deixou-se cair. Uns dedos miúdos seguraram-na.

Levaram ambos um bom tempo para se recobrar. Ficaram parados, deitados na pedra, arquejando e tremendo na brisa noturna que, depois do inferno do poço, era tão fria quanto a geada do inverno.

Quem se recuperou primeiro foi Laio. Virou-se devagar para a amiga e esticou o braço até alcançar a sua mão.

— Achei que estava morta — murmurou.

Nihal entreabriu os olhos. Acima dela o céu estava cheio de estrelas. Apertou a mão de Laio com força.

 

                         A GUERRA CHEGA A ZALÊNlA

Os dias passaram como revoada. Depois dos perigos enfrentados no mar, Senar achou a nova viagem um verdadeiro passeio. A paisagem era encantadora, o cavalo dócil e a comida a melhor que qualquer um pudesse desejar. E havia Ondine ao seu lado.

As mulheres com as quais tinha tido algum relacionamento até então eram todas muito diferentes dela. A primeira havia sido Soana, a sua guia na arte da magia, linda e altiva. Em seguida tinha conhecido outras jovens feiticeiras, mas sempre as achara frias e presunçosas; com a sua juba desgrenhada e o ar meio perdido, Senar não podia certamente almejar a amizade delas. E depois houvera Nihal. Mas Nihal era algo completamente diferente. E Senar preferia não pensar no assunto.

Desde que dera a Ondine aquele único beijo, Senar vivia atordoado, confuso. Não conseguira evitar que ela o acompanhasse na viagem, mas bem no fundo sabia que realmente não insistira muito. A companhia dela era tão prazerosa, os seus sorrisos tão despreocupados, que o mago havia desistido de fazer perguntas demais. Após dezenove anos de sisuda seriedade, parecia-lhe ter direito a alguma leveza. Queria ganhar tempo para entender o que realmente sentia por ela. Talvez, no fim daquela aventura, pudesse até descobrir que estava apaixonado por ela.

Tudo estava acontecendo da melhor forma possível, a missão evoluía satisfatoriamente, o Mundo Submerso estava cheio de maravilhas. Para que se preocupar, então?

Formavam uma longa caravana: na cabeça do cortejo, a liteira do conde antecedida por dois guardas a cavalo e acompanhada pelo séquito dos serviçais e carregadores, que puxavam as mulas com os mantimentos e tudo o mais que pudesse ser útil. Senar e Ondine fechavam a coluna, vigiados de perto por dois soldados atrás deles.

Andaram o dia todo e só pararam depois do pôr-do-sol. No território sob sua jurisdição o conde tinha várias moradias; passava nelas as férias ou usava-as como pousadas uma vez por ano, quando tinha a obrigação de visitar todas as aldeias sob o seu controle.

Depois de saírem do condado, no entanto, hospedaram-se em estalagens ao longo da estrada ou nas moradas de outros condes. Em qualquer lugar por onde parassem, recebiam uma acolhida digna de reis. O conde gozava de excelente reputação e era tratado com respeito mesmo por aqueles que não eram seus súditos. Não faltavam, no entanto, olhares maldosos. Não eram poucos, com efeito, os que se perguntavam o que uma nova e um sujeito de Cima estavam fazendo no séquito de um conde de quem todos falavam tão bem.

A sede do palácio real ficava na capital do reino, Ziréia, uma cidade enorme e tentacular que ocupava uma bolha inteira. A capital era diferente de qualquer outra cidade do Mundo Submerso. Tudo era feito de vidro: casas, prédios, lojas, praças, monumentos. Vidro opaco, para esconder dos olhares indiscretos o que acontecia dentro dos edifícios. Vidro colorido que criava efeitos de luz nas ruas. Vidro áspero, para alterar de forma mágica os contornos das coisas.

Em Ziréia, Senar viu pela primeira vez as sirênias. Eram parecidas com os demais habitantes de Zalênia, mas tinham duas vistosas guelras na base do pescoço e, às vezes, dava para vê-las deslizando lá fora, em pleno mar.

A capital pululava de vida, mas nada tinha a ver com o caos que reinava numa grande cidade do Mundo Emerso como Makrat. As atividades cotidianas eram levadas a cabo com uma calma exemplar, nada de berros, de estardalhaço ou confusão. Os moradores, todos de roupas brancas ou cinzentas, perambulavam pelas ruas da metrópole com ar comedido.

Mesmo onde a luz é mais brilhante, entretanto, não faltam zonas de sombra. A cidade era cercada por miseráveis subúrbios que quase pareciam sitiá-la. Eram os bairros reservados aos pobres, em sua maioria novos ou doentes: pessoas que, por lei, não podiam atravessar os portões da cândida Ziréia. Enquanto passavam por eles, Senar perguntou mais uma vez a si mesmo se um mundo onde reinasse a fraternidade pudesse ser realmente possível.

O castelo do rei era uma construção enorme bem no meio da cidade. Desenvolvia-se numa série infinita de pináculos e obeliscos, brancos, transparentes ou opalinos, que se erguiam para o céu. Não havia janelas verdadeiras: o ar entrava diretamente através da coluna de sustentação da bolha e a luz vinha de pequenas frestas em forma de ogiva. Só olhando melhor reparava-se na coisa mais extraordinária: uma parte do edifício estava dentro da água. O castelo estava dividido em duas alas, uma das quais mergulhava nas profundezas marinhas. A ala submersa era a morada dos soberanos dos tritões e das sereias, e havia sido construída nos tempos da fundação de Zalênia para expressar a eterna gratidão dos habitantes por aqueles que os haviam ajudado a realizar o seu sonho.

Os respectivos governos eram totalmente separados. Tritões e sereias haviam-se simplesmente portado como bons anfitriões. Os recém-chegados, por sua vez, nunca haviam demonstrado qualquer hostilidade em relação ao povo submarino e tampouco insistido numa impossível miscigenação. Embora o relacionamento entre os dois povos fosse marcado por ligações estreitas de boa vizinhança, o que de fato existia era uma lógica de absoluta independência.

— Acho melhor eu falar primeiro com Sua Majestade. Esta noite virei relatar o resultado do encontro — disse o conde, e Senar achou que era uma sábia decisão.

O mago e a jovem, acompanhados pela escolta, ficaram o dia inteiro passeando, admiraram os imponentes prédios governamentais e os imensos templos das divindades daquele reino, perambularam pelas feiras e os mercados que animavam as ruas mais escondidas. Ondine nunca estivera numa cidade antes e sentia-se atraída por tudo. Senar, por sua vez, estava estranhamente pouco à vontade; não conseguia entender a razão daquilo, mas tinha a sensação de um perigo iminente. As pessoas em volta passeavam sem pressa, um murmúrio discreto e comedido ecoava nas ruas e nas praças, e mesmo assim o mago não estava tranqüilo.

— Alguma coisa errada? — perguntou Ondine de repente, tirando-o dos seus devaneios.

— Não, tudo certo. — Senar sorriu. — Venha. Vamos ver o que há naquela barraca.

Encontraram toda uma série de desenhos que pareciam representar lugares imaginários: paisagens idílicas, férteis plantações, misteriosas florestas. De repente o mago deu-se conta do que o atraía em particular naquela banca: havia, bem à vista, uma pintura com uma espécie de observatório e grande quantidade de pequenos seres ocupados a escrever e a olhar através de uma enorme luneta. Senar aproximou-se do quadro e examinou-o com mais atenção. Sentiu um aperto no coração: as figuras representadas eram esguias, de cabelos azuis e orelhas pontudas. Semi-elfos.

O vendedor imaginou logo que aquele estranho forasteiro encapuzado podia ser um comprador e vislumbrou a possibilidade de um bom negócio.

— Seja bem-vindo, estrangeiro — disse com voz melosa. — Gostou? São os astrônomos da Terra dos Dias. Posso lhe fazer um bom preço.

Senar não respondeu. Os seus pensamentos estavam muito longe dali, perdidos atrás da imagem de Nihal. Onde estaria ela? Estaria bem? Será que ainda se lembrava dele?

— Senar — murmurou Ondine, roçando no seu braço. O mago voltou à realidade.

— Onde foi que o encontrou? — perguntou ao vendedor. O mercador piscou o olho para Ondine.

— Dá para ver que o nosso amigo vem de longe. Eu mesmo fiz, ora essa! Pelavudd em pessoa, às suas ordens.

— Conhece os semi-elfos? — insistiu Senar.

— E quem não conhece?

— Quer dizer, já viu pessoalmente?

— E como poderia? São pessoas lá de Cima. Pintei este quadro inspirando-me nas baladas do êxodo. É uma bonita pintura, você quer? — voltou à carga o mercador, mas Senar já segurara Ondine pelo braço e se afastara.

— Gostou? — perguntou a jovem.

— Não, só estava curioso.

Nihal. Pois é, Nihal... Como podia pensar que esqueceria?

Naquela noite ficaram à espera do conde na estalagem onde se haviam hospedado.

— Já é tarde, Ondine — disse Senar no fim do jantar. — Acho melhor você ir dormir.

— Para dizer a verdade tencionava esperar com você. O mago olhou para ela com doçura.

— Não precisa, eu juro. E além do mais dá para ver que está cansada. Vamos lá, suba para o quarto.

Ondine obedeceu sem protestar.

Senar queria ficar sozinho. Tudo lhe parecia agora impiedosamente claro. O que acreditou estar fazendo com Ondine? Não era ela que ele queria. Não era ela que povoava os seus sonhos.

Estava debatendo-se entre estes sentimentos de culpa quando voltou a perceber mais uma vez a sensação de ameaça que já experimentara de tarde. Tentou não pensar e fechou os olhos, para então reabri-los e concentrar-se nas pessoas que estavam em volta. Começou a descartá-las uma depois da outra: o homem sentado no fundo, não, a mulher de pé no balcão tampouco, o beberrão naquela outra mesa... A sensação desapareceu de repente. Senar levantou-se com um pulo mas só teve tempo para vislumbrar uma capa preta que se esgueirava pela porta. Correu atrás dela mas, bem no limiar, esbarrou no conde Varen.

— Conseguiu ver a pessoa que saiu logo antes de mim? — perguntou afoito.

— Não reparei — respondeu Varen. — O que houve? Senar sacudiu a cabeça.

— Nada. Vamos entrar, fale-me do rei.

Sentado à mesa mais escondida da taberna, Senar ouvia atentamente o relato do conde.

— Estive com Sua Majestade. Foi uma conversa longa e difícil. Vou falar com toda a franqueza, conselheiro: o rei mostrou a maior desconfiança em relação a este assunto todo e ao senhor em particular.

— Eu já esperava — disse Senar. Naquela altura alguma coisa bem forte vinha a calhar. Pediu uma bebida. — Resumindo, não quer receber-me.

— Não é isso. Consegui marcar um encontro. Amanhã, na praça de armas do palácio real, diante do povo. O senhor deverá estar acorrentado, pois o rei tem seus receios. E então... — o conde hesitou — se as suas palavras não o convencerem, mandará cortar a sua cabeça na mesma hora. E o mesmo fará com a minha.

Senar enrijeceu, de copo ainda no ar.

— Está me dizendo que... arriscou a própria vida por mim? Varen fitou fixamente o mago nos olhos.

— Ouça, Senar. Quando fui nomeado conde tinha muitos sonhos. O senhor, agora, é como eu era então. Perdi as minhas esperanças no caminho, mas se agora as suas puderem realizar-se, para mim será uma espécie de redenção. Do contrário... Bem, já vivi o bastante. E ninguém vai sentir a minha falta.

Senar ficou um bom tempo calado, confuso.

— Fico... fico feliz que acredite em mim. Mas o senhor tem um condado para governar, pessoas que dependem das suas decisões. Não posso deixar que faça este sacrifício.

— Não estou fazendo isso pelo senhor, conselheiro. Faço por mim mesmo — murmurou o conde. Em seguida pegou o copo de Senar e esvaziou-o de um só gole.

Senar entrou no quarto e aproximou-se da janela. A cidade de vidro parecia imóvel, envolvida num azul profundo que o mago achou repentinamente ameaçador. O que está acontecendo? Quem está lá fora?

Sentou-se de pernas cruzadas no chão e ficou pensando. Uma das primeiras coisas que ensinavam a um mago era perceber a presença de outros magos. Não era propriamente o que se poderia chamar de encantamento, era mais uma espécie de identificação. Devido ao feitiço do velho Deliah, ele não deveria poder dispor desta faculdade, mas não havia outra forma de interpretar aquela estranha sensação de perigo: estava sentindo a ameaça de algum mago por perto.

Lembrou-se das palavras de Deliah a Varen, fora da cela: “Dentro de alguns dias terá de volta os seus poderes.”

Senar abriu a mão. Fechou os olhos e recitou uma fórmula a meia-voz. Logo a seguir uma chama azulada brilhava entre seus dedos. Não pôde evitar um sorriso de satisfação. Você voltou a ser como antes. Então mexa-se!

Tirou da túnica uma pequena bolsa de couro e esvaziou-a, ficando com o conteúdo na palma da mão: dez pequenos discos de prata tilintaram no silêncio do quarto. Ondine suspirou e virou-se na cama. O mago colocou-os no chão e começou a murmurar uma ladainha lenta e solene. Os discos mexeram-se um depois do outro, até formarem um círculo. Senar olhava para eles, concentrado. Nada. É possível que eu esteja errado? Continuou a recitar o encantamento até o círculo começar a rodar cada vez mais rápido. Agora. Um dos discos ergueu-se no ar. A sua superfície assumiu pouco a pouco uma tonalidade negra e no meio surgiu uma runa vermelha, flamejante: duas incisões a formar uma cruz, atravessadas por uma longa barra vertical.

Senar parou de chofre. O disco voltou à cor original e caiu no chão. Os outros pararam na mesma hora.

O mago ficou imóvel no escuro, prendendo a respiração. Segurou a cabeça entre as mãos.

O Tirano havia chegado.

Ondine dormia profundamente, encolhida sob os cobertores como uma criança. Senar, pálido e de olhos cavados, debruçou-se em cima dela e cutucou-a de leve no ombro.

A jovem espreguiçou-se, piscou algumas vezes até acostumar-se com a luz da lanterna. Quando o enxergou direito ficou imediatamente desperta, preocupada.

— O que aconteceu?

Senar sentou-se na beira da cama.

— Quero que você preste a maior atenção, Ondine.

— O que disse o conde?

— Ouça. Daqui a pouco virão buscar-me para levar-me até o rei...

— Quer dizer que conseguiu! Senar segurou os ombros dela.

— Quero que hoje você não saia deste quarto. Por motivo algum. Entendeu?

Ondine fitou-o assustada.

— O que está acontecendo, Senar? O mago escandiu as palavras:

— Apenas faça o que eu disse e espere por mim. Vai dar tudo certo.

Depois de acorrentá-lo, os guardas empurraram-no abrindo caminho na multidão: homens, mulheres, crianças, rostos curiosos e às vezes temerosos. Senar olhou a sua volta no meio de todas aquelas pessoas mas não conseguiu descobrir nada.

Passou pelo portão do palácio e entrou num corredor muito longo iluminado por uma luz azulada. Ladeando as paredes, dominadas por arcos de altura desmedida, havia duas fileiras de lanceiros.

Senar estava tenso. Gotas de suor brilhavam na sua testa e escorriam pelas têmporas. Sua boca estava inteiramente ressecada. Um pingo caiu no elegante tapete e deixou uma pequena marca escura. Fique calmo, calmo e concentrado. Por um lado devia convencer o rei, por outro precisava manter a situação sob controle. Não era só a sua vida que ele estava arriscando, mas sim a do mundo inteiro conhecido.

O corredor desembocou numa imensa sala escarlate. As paredes pareciam de sangue e a luz filtrava através de pequenas ogivas transparentes. No fundo do salão havia uma grande porta esmerilhada. Os guardas escancararam-na e Senar viu-se jogado na praça onde o rei administrava publicamente a justiça. Era uma espécie de anfiteatro, enorme e apinhado de pessoas. Uma passarela de vidro atravessava toda a arena e levava a um tablado, que ficava pelo menos seis braças acima do solo. Chegava-se até lá através de uma escadaria, que depois continuava subindo até alcançar um trono de cristal azul.

Os guardas pararam na metade do caminho. Senar ficou trêmulo. Os seus pensamentos tornaram-se cada vez mais confusos. Tentava desesperadamente perceber alguma coisa naquela multidão, mas a balbúrdia, o medo e a imensidão daquele lugar atordoavam-no. Sua cabeça rodava.

Um pouco mais adiante estava o conde.

— Há alguma coisa errada, Varen! — gritou.

— Calado! — intimou um guarda, dando-lhe um puxão.

O conde não ouvira. Vire-se, por favor vire-se!

Senar tentou aproximar-se, mas os soldados detiveram-no.

Toques de corneta ressoaram então do outro lado da esplanada e um cortejo de guardas armados entrou na praça, seguido por um homem corpulento e de torso nu. Tinha o rosto encoberto por uma máscara de cristal negro. Os músculos dos braços pareciam estar a ponto de estourar sob a pele clara. Segurava um machado. O carrasco.

Senar já estava acostumado a arriscar a vida, mas a consciência de que a distância entre a vida e a morte estava apenas na frágil fronteira das suas palavras deixou-o violentamente impressionado.

O mago e o conde foram levados aos pés do tablado.

Foi então que o rei apareceu. Foi antecedido pela sua corte numerosa e espalhafatosa. Havia mulheres lindíssimas e esguias como algas, vestindo apenas simples véus azulados que revelavam suas formas a cada passo, e cortesãos empoados, usando pesados trajes de brocado de um azul muito vivo. Nereu foi o último a entrar.

Senar ficou de queixo caído. O monarca do Mundo Submerso não passava de um garoto que mais parecia um efebo. Segurava um cetro maior do que ele e avançava majestoso, olhando em torno com ar de desafio.

Quando apareceu, um murmúrio serpenteou pela multidão como um arrepio, acompanhado de gritos de júbilo que escandiam o nome do soberano:

— Nereu! Nereu!

O conde prostrou-se numa reverência e Senar fez o mesmo. O soberano fez um vago gesto com a mão e o público calou-se na mesma hora.

— Conde Varen...

Varen deu um passo adiante.

— Sim, Majestade.

— Na minha clemência, desejo mais uma vez perguntar-lhe se quer deveras persistir em seus propósitos — disse sério.

Varen demorou algum tempo a responder e Senar segurou a respiração.

— Quero, meu soberano — disse finalmente o conde, baixinho.

— Que seja. — Nereu deu o sinal ao arauto que esperava ao lado dele e o povo ficou sabendo dos fatos.

— Ouçam, ouçam! Hoje o nosso Esplêndido Soberano irá ouvir um dos habitantes de Cima, o conselheiro Senar. Se este conseguir convencê-lo dos motivos que o trouxeram até aqui, acolherá seus pedidos. Do contrário, o conselheiro será degolado por ter violado a lei que proíbe aqueles como ele de descerem até Zalênia. Junto com ele, também será justiçado o conde Varen, do condado de Sakara, por ter arriscado a vida de Sua Majestade Nereu.

O rei fez um sinal e os guardas soltaram Senar, que se aproximou do trono.

De cima do seu assento, Nereu nem curvou a cabeça para olhar o estrangeiro.

— Pode falar, homem de Cima — disse em tom de desafio. Senar dava-se conta da hostilidade dos presentes, mas respirou fundo e tomou a palavra:

— Majestade, sou um conselheiro...

— Fale mais alto. Não consigo ouvir — interrompeu-o o soberano.

Senar percebeu que tinha de mostrar-se firme diante daquele jovenzinho.

— Sou Senar, membro do Conselho dos Magos. No Mundo Emerso os conselheiros são autoridades políticas e cada um representa uma Terra. Eu nasci na do Vento, mas estou aqui como representante de todo o meu povo, enviado oficialmente para tentar interromper o isolamento que aflige os nossos mundos. Conheço muito bem a história de vocês, sei que fugiram da superfície e desceram até aqui para fundar um novo reino onde a guerra seria banida para sempre. E conseguiram, como pude ver — mentiu. O rei continuava a olhar para ele com superioridade. — Mas houve uma coisa sobre a qual estavam errados: o nosso não era um mundo sem esperança. Com tenacidade e força de vontade, nós também conseguimos conquistar a paz. Durante muito tempo vivemos em harmonia, construímos um futuro no qual ninguém deveria conhecer o sentido da palavra guerra. E este sonho poderia ter sido realizado se alguém não tivesse cortado com a violência o nosso caminho. Cinqüenta anos atrás um homem, um mago, deu início à conquista do nosso mundo. Apossou-se de uma Terra após a outra, e agora domina absoluto cinco das oito Terras. — O silêncio mais total reinava na arena, todos ouviam impassíveis. — Ninguém jamais o viu, não há lembrança do seu nome, mas os seus atos fizeram com que merecesse o nome de Tirano. Os seus escopos tampouco são claros, mas ele continua lutando com as Terras ainda independentes e criou uma raça de monstros, os fâmins, que espalham a morte e o terror. O rei fez uma careta irônica.

— Quer dizer que estão novamente em pé de guerra — disse achando graça. Dos cortesãos ouviu-se um coro de risadinhas irritantes.

Senar meneou a cabeça.

— Não por nossa vontade, Majestade.

— Quem não quer guerra sabe evitá-la — disse Nereu com um sorriso de condescendência.

— A luta a que me refiro é a guerra de um só homem contra a liberdade do Mundo Emerso. E uma invasão, a invasão de um ser que tenciona... — Senar interrompeu-se de repente, acometido por uma sensação de vago mal-estar, que mal dava para perceber. — Atacou-nos à traição, Majestade — continuou. — Chacinou soberanos, enviou suas tropas contra o nosso povo, quis este conflito e o conseguiu. O Tirano exterminou uma raça inteira. Os semi-elfos, lembra-se deles? Trucidou quase a metade deles numa única noite e depois perseguiu-os impiedosamente onde quer que estivessem, matando mulheres, crianças, guerreiros, velhos.

O sorriso morreu nos lábios de Nereu e um estranho silêncio tomou conta da praça. Senar tentava lembrar a maneira com que Nihal descrevera aquela chacina; queria que as imagens de morte que povoavam a mente da amiga revivessem, para que o rei pudesse sentir todo o horror daquilo que estava acontecendo no Mundo Emerso.

— Nada ficou deles, até a lembrança quase se perdeu. Muito poucos sabem que um dia eles andavam pela nossa terra. E afinal também compartilhavam o sonho de vocês, também desejavam a paz, eram seus irmãos — disse o mago.

O silêncio tornou-se pesado. As palavras de Senar haviam acertado no alvo.

— Por que está contando essa história? — perguntou Nereu enfastiado.

De novo aquele presságio indefinido. O mago tentou aliviar um pouco o aperto das correntes.

— Fui enviado pelo Conselho para pedir reforços. As nossas tropas estão esgotadas e muito em breve serão derrotadas. O Mundo Emerso será um único grande deserto habitado pelos escravos do Tirano. Mas o Tirano representa um perigo para Zalênia também: logo que acabar de conquistar a nossa terra, os seus olhos virar-se-ão certamente para cá.

O mal-estar aumentava. A sua origem devia estar sem dúvida ali, na multidão.

Nereu parecia ter mudado de atitude. Estava mais atento, menos escarnecedor. A menção aos semi-elfos parecia ter surtido efeito.

— Estou enojado com os horrores levados a cabo por esse sujeito, embora não os considere uma surpresa, dignos que são da herança do povo da superfície. Mas nós estamos muito longe. E a separação entre os nossos mundos é muito profunda e arraigada no tempo. Por que isso tudo deveria ter alguma coisa a ver conosco?

Uma fresta de dúvida rachara a altivez pomposa do rei. Embora as suas maneiras continuassem irritantes e frias, Senar percebia que o monarca não tinha nada de fútil nem de bobo. E que realmente se importava com a segurança da sua terra. Senar decidiu que era hora da estocada final.

— A guerra já poderia ter chegado até aqui, Majestade — disse, escandindo as palavras —, sem que vocês tenham reparado. Aquele homem já poderia estar tramando contra o senhor, e os seus planos já poderiam estar bem adiantados.

Senar estava suando frio, com os sentidos em alerta máximo. Está aqui, posso sentir. Está se preparando para agir. Começou a olhar em volta, concentrado.

Nereu mexeu-se enfastiado no trono.

— Se houver qualquer possibilidade de aquilo que você diz ser verdade, serei forçado a levá-la em consideração. Marcarei com você um encontro reservado para...

Foi então que uma sensação extremamente viva de perigo invadiu Senar com a violência de uma punhalada. Virou-se e o viu: nas arquibancadas mais baixas, um homem vestido de preto levantara-se e apontava a mão para o soberano. Senar reagiu quase sem pensar: pulou para a frente e começou a recitar a fórmula de defesa. O golpe foi desferido com precisão, mas Senar não errou: um clarão verde foi morrer com estrondo contra uma pálida barreira prateada.

Por um momento o tempo pareceu parar: a multidão, o rei, os guardas, Varen, ele próprio deitado no chão. Tudo parado, congelado. Senar sentiu uma forte dor numa perna. Estava ferido. Tentou levantar-se, enquanto mais um lampejo resvalava na barreira que ele levantara. Antes de cair de novo o mago viu o emissário do Tirano que fugia confundindo-se com a multidão apavorada. Gritos histéricos podiam agora ser ouvidos nas arquibancadas, as pessoas fugiam, empurradas pelos guardas lançados ao encalço.

Senar levantou-se e começou a correr. Cada vez que apoiava o pé no chão, uma fisgada lancinante deixava-o sem fôlego, mas não desistiu. O mago negro chispava como um estilhaço, a capa esvoaçando no vento, e derrubava um depois do outro os guardas que tentavam detê-lo.

Senar continuou a persegui-lo. Já estava mancando e corria o risco de cair a cada passo. Podia ver o maldito diante de si, envolvido numa estranha abóbada arroxeada. Senar nunca tinha enfrentado uma barreira como aquela, mas decidiu tentar de qualquer maneira. Avaliou a distância que o separava do inimigo e achou que já podia funcionar. Esticou as mãos e gritou a fórmula a plenos pulmões.

A abóbada arroxeada explodiu numa chuva de fragmentos e o homem caiu na calçada.

Senar apanhou no chão a espada de um dos guardas mortos e aproximou-se, arrastando a perna ferida. O feitiço da Petrificação era uma fórmula de principiantes e o seu efeito não teria longa duração sobre um verdadeiro mago. Precisava tornar o sujeito inofensivo quanto antes. Mas quando chegou perto do inimigo e descobriu-lhe a cabeça Senar quase teve um troço.

— Quem está vivo sempre aparece, não é conselheiro?

Aos seus pés estava um rapaz de uns vinte anos, com longos cabelos pretos que lhe emolduravam o rosto e zombeteiros olhos verdes, atrevidos.

Senar conhecera-o em Makrat, quando ficara aos cuidados de Flogisto para aperfeiçoar o seu treinamento como aprendiz de conselheiro. Chegaram até a conversar algumas vezes. Rodhan, era assim que se chamava: um jovem e promissor mago da Terra do Sol. Um deles.

— Um serviço de primeira, Senar — disse Rodhan com um sorriso de escárnio. — Quem diria! O Tirano não teria apostado nem meio dinar furado em você, e ao contrário olha só o que foi capaz de arrumar. Meus parabéns pelo lindo discurso, soube realmente escolher muito bem as palavras. Mas fique sabendo que nem você nem mais ninguém poderá jamais deter o Meu Senhor.

Senar ainda estava sem fôlego e a sua perna latejava de dor.

— Você foi treinado por Flogisto, o meu mestre... Por quê?

— Porque o Tirano é grande, porque vocês não passam de formigas, comparados com ele. — O rapaz dirigiu-se à pequena multidão que assistia à cena, assustada: — E isto vale para vocês também! O Tirano já conhece este lugar. Nunca se esqueçam disto!

O feitiço estava a ponto de sumir, muito em breve o emissário do Tirano voltaria a ficar perigoso. Senar deu-se conta da espada que segurava entre as mãos e um pensamento repentino passou pela sua cabeça.

Rodhan percebeu.

— Aconselho que me mate logo, pois do contrário eu o matarei — sussurrou com um sorriso absurdo, totalmente impróprio para a situação.

Senar apertou a empunhadura, hesitante. Nunca matara ninguém. Então ouviu um tropel atrás de si e um assobio a roçar seus ouvidos.

Logo a seguir uma lança fincou Rodhan no chão, com aquele insensato sorriso ainda estampado nos lábios.

Senar virou-se rápido.

Um soldado estava atrás dele.

— Guerra é guerra — disse sombrio.

 

                       O HOMEM NAS SOMBRAS

As armadilhas haviam funcionado. Nenhum bandido à vista, mas Nihal e Laio foram mesmo assim extremamente cuidadosos e, para retomar a viagem interrompida, escolheram agora o caminho mais longo.

Pouco a pouco o susto passou e Laio contou a Nihal do seu cativeiro.

— Não me trataram mal. Mantinham-me amarrado, mas na maior parte do tempo simplesmente ignoravam-me. Comia a mesma comida deles. Não, o pior não era estar lá. Era o fato de achar que você morrera, Nihal — disse, fitando-a nos olhos.

— Eu também fiquei preocupada com você — admitiu ela, sem qualquer falsa vergonha.

Aqueles poucos dias vividos com o receio de alguma coisa ruim acontecer com Laio haviam mostrado claramente até que ponto Nihal precisava dele. Ido era o mestre dela, mas agora que Senar havia partido Laio era o único verdadeiro amigo que tinha.

Nihal e Laio estavam agora na Terra da Água, e os inúmeros regatos ao longo do caminho faziam com que se lembrassem disso a cada instante.

Chegaram aos arredores de Laudaméia, a capital, quatro dias depois do que haviam previsto. A visão daquela maravilhosa cidade despertou em Nihal lembranças dolorosas. Fora ali que treinara esgrima com Fen e que se apaixonara por ele.

— Onde fica a casa do seu pai? — perguntou a Laio, só para afugentar o pensamento.

— Um tanto afastada da cidade — respondeu Laio sombrio, e Nihal suspirou aliviada.

As muralhas desapareceram no horizonte, deixando no lugar os bosques exuberantes que ressoavam com o canto alegre dos pássaros. Não havia outro lugar, em todo o Mundo Emerso, onde o verde fosse tão vivido quanto na Terra da Água. As folhas das árvores eram grandes e lustrosas, a grama compacta e perfumada, a natureza rica e generosa.

Nihal conhecia aquela Terra, mas toda vez que voltava ficava ainda assim admirada. Caminhava sem parar de olhar a sua volta e de vez em quando observava o amigo de soslaio: ele avançava cabisbaixo, concentrado como um guerreiro antes da batalha.

— Quando chegarmos, não quero que você me ajude de forma alguma — disse de repente o rapaz.

— Eu sei — replicou Nihal. — Estou aqui para acompanhá-lo, nada mais do que isto.

— Ele vai tentar irritá-la, é muito bom nisto, mas você precisa prometer que não irá responder às provocações.

— Prometo.

Durante algum tempo só ouviram o barulho abafado dos próprios passos entre as samambaias.

— De qualquer forma — resmungou Laio —, obrigado por estar aqui comigo.

Nihal sorriu.

A floresta tornou-se mais sombria. As copas das árvores entrelaçavam-se e ocultavam a luz do sol, a grama havia desaparecido e seus pés só pisoteavam folhas secas e podres. Ainda era dia, mas já se moviam na penumbra. Até o ar tornara-se mais frio, pensou Nihal enquanto se encolhia dentro da capa.

A casa surgiu de repente no meio do matagal.

Era uma grande mansão, cercada e quase estrangulada pela vegetação. Apesar do tamanho da construção, não havia adornos inúteis nem aparatosos símbolos de riqueza. Era uma morada sóbria e espartana. Este tal de Pewar deve ser um soldado da cabeça aos pés, pensou Nihal.

Taciturno e calado, Laio guiou-a pelos meandros do bosque até a entrada.

Enquanto iam se aproximando, Nihal pôde examinar a casa com mais atenção. Sólidas grades de ferro barravam todas as janelas. Não fosse pelo fato de as paredes e as esquadrias terem sido recém-pintadas, poder-se-ia pensar que estava abandonada.

Laio bateu timidamente e o pesado portão abriu-se devagar.

— Seja bem-vindo de volta, senhor, estávamos à sua espera. Tenha a bondade de me acompanhar — disse o impoluto serviçal.

Laio entrou cabisbaixo e Nihal achou por bem imitá-lo. De repente viram-se cercados pela escuridão. A casa mergulhara nas trevas, iluminada apenas pela fraca luz de algumas tochas penduradas nas paredes.

Laio movia-se sem dificuldade, mas Nihal mal conseguia ver os móveis. Acabou esbarrando numa cômoda num canto.

— Segure a minha mão, eu a guiarei — disse o rapaz. Nihal não se fez de rogada.

— É bastante comum que as casas do meu povo no exílio sejam assim. Quem vem da Terra da Noite não gosta da luz. A minha família sempre teve o hábito de manter as janelas fechadas. A não ser à noite, é claro. O meu pai diz que é uma maneira de lembrarmos as nossas raízes.

Nihal deixou-se guiar como uma cega, até seus olhos se acostumarem às trevas e conseguirem distinguir o contorno das coisas.

Passaram por longos corredores que ligavam ambientes espaçosos, todos decorados com o mínimo indispensável. Uma mesa no meio, uma arca encostada no muro, e praticamente só isto. Em quase todos os aposentos havia lareiras tão grandes que Nihal poderia entrar nelas. As paredes estavam cheias de espadas, lanças e armas de todo tipo.

Um silêncio espectral reinava por toda parte, só quebrado pelo ressoar dos seus passos no pavimento de pedra. Havia cheiro de bolor, de ambiente fechado. Parecia que estavam descendo nas entranhas da terra. Nihal começou a sentir-se um tanto oprimida.

Finalmente chegaram diante de uma pesada porta e o serviçal ficou de lado. Laio suspirou profundamente e então puxou o maciço batente.

O salão no qual entraram era muito maior do que os anteriores e melhor iluminado. No meio havia uma longa mesa em cuja cabeceira estava sentado Pewar.

Parecia-se muito com o filho: cabelos loiros e encaracolados, olhos de um cinza desbotado, mas no seu rosto faltava a vivacidade de Laio. Tinha traços duros e o olhar severo de quem impõe a si mesmo e aos outros uma rígida disciplina. Embora estivesse na própria casa, vestia o uniforme que os generais costumam usar durante os conselhos de guerra. Ao seu lado havia uma espada.

Não se levantou. Quem deu um passo adiante foi Laio, para logo cumprimentá-lo com uma respeitosa mesura. Pewar respondeu apoiando rigidamente a mão no ombro do filho.

— Já faz alguns dias que eu o estava esperando.

— Eu e a minha companheira tivemos alguns problemas durante a viagem. — A voz de Laio tremia.

O homem virou os olhos para Nihal e esquadrinhou-a da cabeça aos pés. A semi-elfo inclinou a cabeça.

— A responsável pela sua permanência naquele acampamento é ela? — perguntou.

— Ela é quem me salvou dos inimigos que tive a infelicidade de encontrar. Eu estava ferido, e portanto levou-me à base. Também devo a ela o fato de agora estar aqui. Livrou-me de um bando de assaltantes — disse Laio de um só fôlego.

Pewar perscrutou Nihal longamente e ela agüentou o seu olhar.

— Terei a oportunidade de falar com você mais tarde. Agora deixe-me a sós com o meu filho. Um criado cuidará de levá-la ao quarto que lhe foi destinado.

O serviçal apareceu silenciosamente atrás de Nihal e ela não teve outra escolha a não ser acompanhá-lo.

Nihal ficou na úmida escuridão do seu quarto por um tempo que não conseguiu calcular. Sentia-se sufocar e forçou-se a fitar fixamente a pequena chama da única vela que iluminava o ambiente.

Finalmente ouviu bater à porta e Laio entrou com expressão tristonha. Tinha os olhos embaçados.

Nihal não precisou se esforçar para entender.

— As coisas não correram lá muito bem, não é? Laio limitou-se a sacudir a cabeça.

— Você já sabia que não ia ser fácil.

— Nem parecia contente de ver que eu estava são e salvo —murmurou o rapaz, enquanto torcia as mãos. — No que lhe diz respeito, eu podia estar morto. Pelo menos não teria jogado lama no bom nome da família.

— Não diga bobagem, Laio. Claro que ficou contente em vê-lo... — tentou animá-lo Nihal.

— Sabe o que ele disse? — interrompeu-a o rapaz. — Que só alguém sem nome, que só um joão-ninguém trabalha como escudeiro. Que é um ofício desprezível, e eu pertenço a uma família de grandes guerreiros e não posso desmerecer os meus antepassados. — Nihal viu lágrimas de raiva encher os olhos do amigo. — De qualquer maneira, nem quero saber. Não passei por tudo aquilo que passei para agora voltar atrás. Desta vez não me deixarei dobrar. Desta vez tomarei as minhas próprias decisões.

Pelo menos naquele dia, Pewar não se dignou a convocar Nihal. Ao que parecia, os chefões da Academia portavam-se todos do mesmo jeito. Raven também achava a maior graça em deixar mofar além de qualquer limite razoável aqueles que esperavam para ser recebidos. Peitos de pombo emproados, desabafou Nihal.

Até a hora do jantar a casa ficou silenciosa como um cemitério, então uma campainha anunciou que a refeição estava para ser servida. Comeram na mesma sala onde Laio e o pai haviam conversado: uma sopa frugal, pão preto e água. Come-se melhor no refeitório da base, pensou Nihal.

Pewar evitou os olhares dos hóspedes quase o tempo todo. O barulho mais alegre era o bater das Colheres nas tigelas.

Só quando o jantar já estava no fim o general achou que era hora de dirigir a palavra a Nihal.

— Laio contou-me da cilada. Fico-lhe grato pelo serviço que me prestou salvando o meu filho — disse sério.

— Laio é um amigo. Não precisa agradecer — respondeu Nihal comedida.

— A gratidão e o reconhecimento da coragem são dois alicerces do exército — rebateu Pewar, rígido. — Como recompensa, desejo que escolha uma arma qualquer entre as da sala grande. Mais tarde eu mesmo a levarei para lá.

Nihal tentou eximir-se da oferta.

— Por favor, senhor, isso me deixaria constrangida — murmurou.

— Insisto para que aceite o meu presente. Uma recusa seria, para mim, uma ofensa.

Um homem acostumado a ser obedecido. Laio estava realmente certo.

— Como o senhor desejar, então. Ficarei feliz em receber a sua dádiva — respondeu Nihal.

Reprimiu a irritação. Estava ali para ajudar Laio e não para brigar com o pai dele. Mas bem que teria gostado de não precisar bajulá-lo também, além daquele convencido do Raven.

Como prometido, depois do jantar Pewar levou pessoalmente Nihal à sala que tinha mencionado. Armas de todos os tipos enchiam as paredes: bestas, espadas, arcos, punhais, maças providas de pontas aguçadas. Nihal não duvidava que aquele homem soubesse usar todas perfeitamente.

A jovem pegou um punhal simples e anônimo, e Pewar demonstrou apreciar a escolha, sinal muito claro de que aquela simples cerimônia não passava de mera formalidade.

— Já é tarde. Devem estar cansados da viagem — disse enfim o general.

Tarde? Nihal fez umas rápidas contas. O sol pusera-se havia menos de duas horas!

— Que cada um se recolha ao próprio quarto — concluiu o homem, em seguida acenou uma seca despedida e foi embora.

Nihal ficou aos cuidados do costumeiro criado taciturno, enquanto Laio dirigiu-se para o seu antigo quarto com a mesma atitude de um carneiro que vai ao encontro de um lobo.

O sol acabava de nascer quando Laio foi acordar Nihal.

A jovem esfregou os olhos.

— Acordam sempre tão cedo, vocês da Terra da Noite?

Laio respondeu com um sorriso forçado.

Pewar já estava esperando por eles na sala de jantar, sentado à cabeceira da longa mesa. Estava impecável, exatamente como no dia anterior, e vestido de forma idêntica. Nem parecia que havia ido para a cama.

Na mesa havia três tigelas cheias de leite de cabra e o inevitável pão preto. Uma bandeja repleta de pequenas maçãs azedas levou Nihal a pensar onde diabo poderiam ter encontrado fruta tão ruim numa terra fértil como a da Água. Este homem realmente trouxe o campo de batalha para casa.

Comeram em silêncio, depois Pewar levantou-se.

— No meio da manhã um duelo o espera, Laio. Procure ficar pronto dentro de exatamente duas horas — disse com voz marcial.

Laio levantou a cabeça da tigela vazia.

— Um duelo? — perguntou meio perdido.

— O primeiro de uma longa série — respondeu seco Pewar. —Pelo que pude entender, já faz muito tempo que não segura uma arma. Está na hora de recomeçar a praticar. O seu treinamento começa hoje mesmo. — O general virou-se então para Nihal. —No que me diz respeito, já pode voltar ao campo de batalha. Considere-se dispensada desta casa a partir de amanhã.

— Eu não tenho a menor intenção de lutar — disse Laio.

— Daqui a duas horas. Em ponto — repetiu Pewar e foi embora.

— Eu não quero lutar! — gritou Laio, mas o pai já ia passar pela porta.

Nihal sentiu o sangue ferver em suas veias e, apesar de todos os convites à calma que repetira a si mesma, levantou-se com um pulo.

— O senhor ouviu ou não o seu filho?

Laio fitou-a perplexo. Nos seus olhos havia uma tácita súplica, mas Nihal a ignorou.

Pewar ficou parado no limiar. Virou-se lentamente.

— Eu sou seu superior e você está na minha casa. Quem lhe deu permissão para levantar-se e dirigir-me a palavra?

O coração de Nihal martelava sob o corpete de couro, as mãos estavam brancas de tanto apertar as bordas da mesa.

— O seu filho não quer lutar.

— Nihal... — murmurou Laio. Pewar soltou um olhar gélido.

— Quero você fora daqui antes do anoitecer — disse lentamente antes de bater a porta atrás de si.

— Prometeu que ficaria calada, ora essa! — agrediu-a Laio.

— Eu sei, mas ele...

— Esta batalha é minha, está entendendo? Minha! Nihal sentiu a raiva esmaecer.

— Só queria...

— Jure que não fará mais coisa alguma, jure!

Nihal concordou, aturdida. Ficou algum tempo em silêncio, amaldiçoando o próprio caráter intratável.

— Vai estar lá? — perguntou afinal.

— Não tenho outra escolha.

A arena interna onde iria acontecer o duelo era o único lugar bem iluminado da casa de Pewar. Era um pátio quadrado, situado exatamente no meio do edifício, simples e primário como tudo o mais. O piso era de terra batida, cercado por um pórtico. Embaixo dos arcos, protegido do sol violento do começo do verão, havia um pesado assento de madeira. Pewar sentava nele cheio de empáfia.

Nihal ficou num canto, na sombra. Esperava que não reparassem nela. Depois da sua rebeldia, Pewar não iria certamente gostar da sua presença, mas não podia faltar. Ali, naquele quadrado poeirento, Laio iria decidir o seu futuro.

O adversário que teria de enfrentar era um rapaz um pouco mais velho do que ele, mas já com pinta de guerreiro calejado e completo; provavelmente algum praça forçado pelo general a assumir aquele papel.

Laio apareceu logo a seguir. Os trajes marciais não combinavam com ele. Vestia uma jaqueta de pelica e botas de couro que lhe chegavam à metade da coxa. Segurava uma longa espada de empunhadura elaborada. Nihal lembrava-se dela: ocupava um lugar de destaque no salão de armas onde escolhera o punhal.

Laio avançava franzindo a testa, com os olhos quase fechados que mais pareciam uma fresta horizontal. O pai podia até achar que estava concentrado, mas Nihal conhecia-o melhor: estava triste porque tinha de segurar uma arma e lutar, porque iria reviver o horror da batalha, porque aquele não era o seu lugar.

O rapaz tomou posição na arena e o adversário saudou-o com a espada. Laio não respondeu e virou-se para o pai.

— Não é assim que conseguirá dobrar-me.

— Cale-se e lute — respondeu Pewar num tom quase enfadado.

— Estou lhe dizendo: não quero lutar.

A voz do general foi um trovão que rasgou a tensão opressora que pairava sobre a arena:

— Fique em guarda e lute como homem! Laio permaneceu no seu lugar.

— Ataque! — ordenou Pewar ao soldado.

— Mas general... não está em guarda...

— Alguém ousa desobedecer às minhas ordens nesta casa? Já disse, ataque!

O rapaz estremeceu, então obedeceu e deu um golpe de cima para baixo.

Laio não se mexeu e o soldado foi forçado a deter o golpe no ar.

— Quem lhe disse para parar? — gritou Pewar, ficando de pé. O soldado estava confuso.

— Senhor, é seu filho. Como poderia golpeá-lo?

— Se ele não tiver a coragem de lutar, então não é meu filho — rebateu o general. — Recomece.

Nihal, no seu canto, apertava os punhos. Não posso intervir. Laio sabe o que está fazendo. É a luta dele, repetia a si mesma, mas sentia no coração uma raiva cega.

O soldado voltou ao ataque e acertou Laio de raspão, desenhando um corte vermelho no seu braço esquerdo.

Laio gritou. Parou imediatamente o golpe seguinte e começou a lutar com fúria.

Não era o Laio que Nihal conhecia. Os seus golpes eram precisos e violentos, parecia um verdadeiro soldado.

As espadas cruzaram-se por um bom tempo, numa dança de ataques e defesas. Nenhum dos dois parecia levar a melhor. Uns poucos golpes do soldado acertaram no alvo, mas só deixando leves arranhões. Laio também conseguiu acertar o adversário algumas vezes, sempre de raspão. A situação era de absoluto equilíbrio.

Do seu assento, Pewar observava satisfeito. Nihal leu no seu olhar a excitação do combate e do sangue, algo que ela conhecia bem demais e que agora via refletido nos olhos daquele homem impiedoso. Pewar não gosta da batalha: gosta de matar.

Laio continuava a duelar. Os seus ataques tornavam-se cada vez mais furiosos, os golpes mais violentos. A medida que a ira ia ofuscando a sua mente, o seu corpo despertava, trazendo à tona todos os ensinamentos recebidos na Academia. Atacou mais de perto, mudando continuamente o ritmo, e forçou facilmente o soldado a recuar. Quando viu que o outro estava de fato em apuros, Laio soltou um decidido golpe lateral e feriu-o numa perna. O rapaz caiu ao chão gritando, enquanto uma larga mancha de sangue empapava a terra batida.

Laio parou de estalo e ficou no meio da arena, de espada inerte entre as mãos. O aplauso do general ressoou na pequena esplanada.

— Bravo! Bravo! — Pewar aproximou-se do filho e apertou seus ombros. — Viu como sabe lutar? Está vendo que é valente e nem mesmo sabia? E agora, mate-o!

O soldado caído não conseguiu se mover, a ferida era profunda. Arregalou os olhos aterrorizado.

— General... — murmurou.

Laio livrou-se do abraço do pai e olhou para ele.

— Do que está falando?

— Estou lhe dizendo que deve acabar com ele — respondeu Pewar tranqüilo.

— Mas está caído! Já foi vencido. Não pode pedir que o... Pewar sacudiu a cabeça.

— Já perguntou a si mesmo por que tem tanto medo do combate? E veja bem que sabe lutar, acaba de demonstrar isto. E então?

Laio não tinha uma resposta para o pai, não conseguia pensar em coisa alguma. Ouvia somente a respiração ofegante do rapaz, o barulho das suas mãos que se arrastavam na arena em busca de salvação.

— Você tem medo de matar, Laio. E é um medo normal. — De repente o tom de Pewar ficara suave, assustador na sua calma frieza. — Mas é um medo contra o qual é preciso lutar. Eu mesmo tive, mas rechacei-o afundando a minha espada no peito do primeiro inimigo que venci. E você deve fazer o mesmo. Mate esse verme. Só então poderá ser de fato um guerreiro. É a única fronteira que ainda o separa do seu verdadeiro destino: a morte do adversário.

Laio olhou para o rapaz, para o seu rosto lívido que suplicava misericórdia, para o sangue que jorrava da sua coxa e se alastrava numa poça. Sentiu-se responsável por aquele sangue. Ele mesmo infligira aquele sofrimento.

— Não! — berrou, em seguida jogou fora a espada, longe. Depois empurrou o pai e ainda gritou: — Não! — em voz alta, trovejante, com tanta força que fez doer a sua garganta.

Pewar fitou-o de olhos arregalados.

— Mate a mim, então — gritou Laio. Correu a apanhar a espada e a segurou pela lâmina ferindo os dedos. Entregou-a ao pai. — Se realmente acha que matar é tão fácil, mate-me. Mas eu não me tornarei um assassino. Não sou como você, está entendendo? Não matarei esse soldado, nem voltarei a lutar. Serei escudeiro, quer você goste ou não da idéia.

Laio calou-se, ofegante. O sangue gotejava lentamente das mãos cerradas em volta da lâmina.

O general ficou parado no seu lugar e Nihal apertou a empunhadura da espada, pronta a intervir.

O tempo pareceu parar, então Laio jogou a arma no chão. Dirigiu-se ao pórtico com grandes passadas e juntou-se a Nihal.

— Vamos embora — disse. — Leve-me de volta à base. Nem parou para pegar suas coisas.

Saiu pela porta de casa em companhia da amiga e nunca mais voltou a ver o pai.

 

                               DESPEDIDA DO MAR

— Podem ir. — Nereu entrara no quarto acompanhado por vários guardas e todo um séquito de ministros de expressão preocupada. Os acompanhantes entreolharam-se perplexos.

— Fora, eu já disse! — berrou.

Ao ficar sozinho com Senar, o rei menino parou diante dele, pálido, de cetro na mão.

Depois do embate com Rodhan, Senar havia sido levado para um mago do lugar, mas o seu ferimento não era daqueles que poderiam ser curados com um mero feitiço.

— É um feitiço superior — explicara Senar, com as últimas forças que ainda lhe sobravam. — Um sacerdote deveria ser capaz de...

Uma fincada emudecera as palavras na sua boca. Era como se um fogo interno devorasse a sua carne. A chaga aumentava alastrando-se pela perna inteira. Tratava-se de um sortilégio terrível, fruto da magia proibida. Havia sido levado ao palácio real, onde o curandeiro da corte passara toda a noite rezando e aplicando panos quentes para livrá-lo da maldição que lhe consumia a perna. A dor só dera um descanso a Senar quando já amanhecia, e o mago pôde finalmente entregar-se ao sono.

Só acordara no dia seguinte, numa cama com dossel, sob um cobertor de brocado. Estava num amplo quarto cujas paredes formavam um grande mosaico: pequenas conchas peroladas, com todos os seus matizes de rosa, irradiavam uma luz tênue e repousante. Por uma janela ogival podiam ver-se os obeliscos mais baixos do palácio.

Senar tinha passado muitas horas num estado de semi- inconsciência. O rosto sorridente de Rodhan atormentava-o, em seguida via a lança que o matava e ouvia as palavras do soldado: “Guerra é guerra.”

Passara-se assim mais um dia, e agora o rei estava diante dele.

— Estou agradecido, conselheiro.

— Não fiz nada de extraordinário — disse Senar com dificuldade, mas Nereu interrompeu-o com um gesto.

— Estou agradecido e devo-lhe as minhas desculpas. O senhor estava certo: um perigo ameaçava este mundo e nós nem tínhamos percebido.

O rei começou a andar pensativo de um lado para outro, enquanto o cetro batia ritmicamente no soalho.

— De quantas forças dispõe o Tirano?

— De muitas, Majestade. Centenas de milhares de guerreiros. Parecem inesgotáveis. — Senar falava com voz cansada.

— E quanto às armas? — perguntou Nereu, com expressão cada vez mais preocupada.

— Tem todas as conhecidas. Os guerreiros costumam usar a espada e a lança, os fâmins saem-se melhor com o machado.

O rei parou diante da janela.

— Acredita que virão? — perguntou afinal.

Senar olhou a figura que sobressaía contra o azul profundo.

— Não sei, Majestade. Bater-se ao mesmo tempo em duas frentes de batalha seria árduo até mesmo para o Tirano, mas isto não quer dizer que ele não decida tentar.

O rei virou-se e dirigiu-se a Senar com voz solene:

— Não precisa dizer mais nada. Voltará à superfície com um dos nossos embaixadores. Ele participará das reuniões do seu Conselho e terá plenos poderes: as decisões dele serão as minhas decisões. Caberá a ele dizer até onde deverá chegar o envolvimento do nosso exército. Já não estão sozinhos, conselheiro.

Lançou a Senar mais um olhar decidido, depois saiu do quarto sem mais uma palavra.

Senar bem que gostaria de estar melhor, naquele momento, para aproveitar plenamente o sucesso. Mas era impossível. Não se tratava da perna, nem mesmo do cansaço que lhe chegava até os ossos. “Guerra é guerra”, havia dito o soldado. A ajuda que lhe estava sendo oferecida não significava a vitória da paz, mas sim o triunfo da guerra. E Senar não podia deixar de pensar que tinha contribuído para levar Zalênia à guerra.

Quando Ondine ingressou no quarto de Senar, tinha o rosto tenso e os olhos vermelhos de quem não havia dormido. Tivera de esperar três dias até receber permissão para visitá-lo. Os guardas estavam agora muito mais desconfiados, e Senar era considerado um alvo fácil.

Sentou-se na cama, agitada.

— O que lhe fizeram?

— Já passou — assegurou Senar.

— As notícias que me chegavam eram tão confusas! Uns diziam que você tinha morrido, outros contavam que iriam cortar a sua perna... Foi terrível, Senar. Achei que ia ficar louca.

Ele deixou-a desabafar.

— Já estou bem, não está vendo? E muito em breve poderei levantar-me — disse.

Pois é, iria subir de novo. Ondine fitou-o nos olhos.

— O que foi que o rei disse?

— Irá ajudar.

Ondine abraçou-o com entusiasmo.

— Quer dizer que conseguiu! — exclamou efusiva. — Viu que eu estava certa?

— Isso mesmo, você estava certa — murmurou o mago.

Ela se afastou e afagou seu rosto, sorrindo. Senar baixou os olhos. Será que algum dia irá perdoar-me, Ondine?

Ficou acamado durante uma semana. Depois desta imobilidade toda, a perna não queria obedecer e às vezes achava graça em ceder sob o peso do seu corpo. Ainda bem que sempre havia Ondine por perto, pronta a ampará-lo e ajudá-lo, assistindo-o com a mais total dedicação. Senar não conseguia afastar a sensação de bem-estar que experimentava ao lado dela, tanto assim que chegou a pensar que estava errado. Talvez a sua felicidade estivesse de fato relacionada àquela jovem, talvez não fosse impossível imaginar uma vida com ela. Mas eram apenas momentos, e Senar sabia disso muito bem. O que realmente almejava estava longe daqueles abismos, a pessoa que amava estava em plena luz do sol e de nada adiantava enganar a si próprio como vinha fazendo naquelas últimas semanas.

Tinha sido tolo. Tolo e superficial. E chegara a hora da prestação de contas.

A data da partida foi marcada e os dias que faltavam foram toda uma série de colóquios com o rei e com seus dignitários. Senar deixou-os a par de todos os detalhes da guerra e das condições do exército das Terras livres, e então passaram a imaginar a hipótese de uma aliança entre Zalênia e o Mundo Emerso.

Também conheceu Pelamas, o embaixador que iria acompanhá-lo. Era um homem de meia-idade, fleumático e de expressão imperturbável, que falava pouco e somente de questões diplomáticas. Olhava para Senar com uma certa admiração e tratava-o com respeito, mas parecia estar lutando o tempo todo contra o nojo pelos cabelos ruivos e a pele escura do jovem conselheiro.

Senar passava todas as horas de lazer com Ondine. Teria gostado de quebrar pouco a pouco o laço que o prendia a ela, mas não conseguia. Tentou ser mais frio, embora isto lhe custasse, mas Ondine aceitava tudo sem fazer perguntas.

Quando chegou a última noite no palácio, Senar quis passá-la num dos jardins que pontilhavam o paço, aquele que se encontrava exatamente sob a coluna, onde se ouvia o assobio do vento que corria pelo duto. Aquele barulho solene e quase lúgubre misturava-se ao quieto gorgolejar de um pequeno chafariz. Era um lugar melancólico e Senar achou-o perfeito para dizer adeus ao Mundo Submerso. Sentado diante da fonte, ficou olhando para o escorrer lento e regular do fino jato de água. Pensou em tudo aquilo que havia acontecido, no medo que o acompanhara durante toda a viagem, no terror cego que experimentara na voragem, nos piratas, em Aires, na doçura de Ondine, que naquela noite iria ver pela última vez.

A jovem apareceu logo a seguir e Senar ficou contente em pôr um termo naquela espera, naquela cadeia de pensamentos. Ondine parou diante dele, imóvel, com o rosto quase invisível nas sombras. A Senar pareceu idêntica ao dia em que a conhecera, quando se aproximara da grade da cela segurando a bandeja. A sua expressão, no entanto, agora era séria.

— Amanhã você vai partir — disse ela.

— Pois é, ao que parece já me recobrei — murmurou Senar. Ondine ficou um bom tempo calada. Depois pigarreou e deu um profundo suspiro.

— Tenho pensado muito nestes dias. — Levantou a cabeça, com determinação no rosto. — Quero ir com você ao Mundo Emerso.

Senar fitou-a nos olhos.

— Ondine, eu...

Ela agüentou aquele olhar.

— Vivo num país em guerra, você sabe disso. Tenho responsabilidades para com o exército da Terra do Vento, é o meu trabalho. Não quero que você veja o que acontece por lá, não quero que...

De repente Ondine levantou a voz:

— Pare com essa bobagem. Não pense que sou idiota, Senar! Ela está certa. Salvou a minha vida, ficou ao meu lado. Merece a verdade, não estas esfarrapadas mentiras. Mas Senar não conseguia. Estava paralisado. Via o rosto suave de Ondine e os seus propósitos morriam-lhe na garganta. A jovem segurou as mãos dele.

— Você me quer, Senar? Preciso saber. Quer que eu vá com você? A água escorria lenta da fonte e o vento continuava com o seu lamento.

Senar fechou os olhos.

— Não, Ondine — disse num sussurro. — Amanhã partirei sozinho.

O aperto de Ondine ficou mais frouxo, suas mãos caíram ao longo do corpo. Continuou de pé, sem dizer uma só palavra.

— Ouça-me, Ondine, eu lhe peço. Eu lhe quero bem, você é uma mulher fantástica. Ajudou-me, foi a minha companheira nesta aventura. Cheguei muitas vezes a pensar que ficar ao seu lado seria maravilhoso. Pois sentia-me à vontade... sinto-me à vontade. Mas lá no fundo de mim mesmo sei que não posso.

— Está lembrando aquela noite na cela? — disse ela com um fio de voz. — Quando um homem beija uma mulher quer dizer que a ama. Por que me beijou, então?

Senar sentiu um nó na garganta.

— Porque você é bonita como poucas outras. É especial. Depois de tantos mortos, de tanto sofrimento, eu precisava... — parou. —Há alguém no Mundo Emerso para quem quero voltar, Ondine.

Ela continuou imóvel, os olhos cravados nos de Senar.

— Não sei como explicar, nem sei dizer se estou apaixonado por ela. Quando estava com você pensava tê-la esquecido. Então, certo dia, percebi de repente que não queria mais pensar nela porque isso me doía. E também percebi que estava me iludindo. Iludindo a mim e a você.

A jovem apertou os punhos. As lágrimas começaram a escorrer devagar pela sua face. Não deixou ouvir um soluço sequer.

Senar esticou os dedos para o rosto dela mas Ondine deu uns passos para trás. Já estava perto da saída do jardim.

— Adeus, Senar — disse baixinho, para então afastar-se sem olhar para trás.

No dia seguinte a luz brilhava novamente límpida. Senar chegou à arena com a cabeça ainda cheia dos pensamentos que o haviam mantido acordado a noite inteira e a imagem de Ondine gravada na memória.

Quando o conde Varen foi ao encontro dele, Senar nem lhe deu tempo para falar:

— Gostaria que o senhor cuidasse de Ondine durante a minha viagem de volta, conde.

Varen concordou e Senar compreendeu que o outro tinha entendido.

— Obrigado por ter acreditado em mim, Varen — disse enquanto lhe apertava a mão.

O conde retribuiu o cumprimento e tentou sorrir.

— Quem deve agradecer sou eu, fez com que me lembrasse de coisas que havia perdido. E além do mais — disse, numa tentativa de mostrar-se alegre — quem lhe disse que este é um adeus? Somos aliados, agora, quem sabe voltemos a nos encontrar mais cedo ou mais tarde.

— Pois é, quem sabe — respondeu Senar, e em seguida juntou-se à caravana com a qual estava a ponto de deixar Zalênia para sempre.

A viagem começou. Senar tinha o coração pesado. Partia das profundezas marinhas e levava consigo muitas lembranças inesquecíveis, mas o que realmente deixava atrás de si? O rosto triste de Ondine. E um rastro de morte.

Quando a viu à beira da estrada, esperando, o coração pulou dentro do seu peito.

— Vamos parar um momento, eu lhe peço — disse ao embaixador Pelamas, que cavalgava ao seu lado. Todo o cortejo se deteve.

O mago desceu do cavalo e chegou perto dela. Ficaram algum tempo olhando-se sem nada dizer. Ela foi a primeira a falar:

— Como se chama a sua mulher?

— Não é a minha mulher...

— Quero saber qual é o nome dela.

— Nihal.

— Precisa jurar-me uma coisa — disse ela muito séria.

— O quê?

— Se é tão importante para você, se desiste de mim por ela... deve jurar que fará o possível para ser feliz com ela. Se eu descobrir que não fez isto, nunca lhe perdoarei. Tenho algum direito sobre você, Senar, está lembrado? Salvei a sua vida. Agora jure.

Senar sorriu.

— Eu juro.

Ondine acenou com a cabeça, aí deu as costas e afastou-se cortando caminho pelos campos que margeavam a estrada.

Senar acompanhou-a com os olhos enquanto ela se tornava cada vez menor, uma figura minúscula que desaparecia no horizonte.

Voltou a montar.

— Podemos ir — disse ao embaixador.

A caravana seguiu em frente. Senar fechou os olhos para não continuar a ver aquela terra.

 

                                                                                      A BUSCA

 

                     O NOVO CAVALEIRO

Nihal aproximou-se da cabana de madeira com algum receio. Não tinha muita certeza daquilo que estava a ponto de fazer, apesar de ter pensado muito a respeito. Tinha medo. Logo ela, que no campo de batalha nunca se deixava tomar pelo pânico, que não temia nem a morte nem os ferimentos. Deixe de bancar a chorona. Já tomou a sua decisão. Entre e pronto.

Iria ser um presente pelo seu aniversário, mas principalmente pela sua nomeação a Cavaleiro, naquela altura já próxima.

Viu-se num aposento escuro e abafado.

— Alguém em casa? — perguntou em voz alta.

Um homem enorme apareceu. Parecia um daqueles açougueiros que costumava ver no mercado: gordo, sujo e suarento. Sentiu um arrepio nas costas. O homem limpou as mãos num trapo.

— Quem é você? — perguntou.

— Uma freguesa, é claro — respondeu Nihal, tentando aparentar segurança.

— As mulheres não precisam de tatuagens — comentou o sujeito sem perder a pose.

— A vida nunca se cansa de nos surpreender: eu sou uma mulher e decidi ter uma tatuagem. Sou um Cavaleiro de Dragão —disse. Mostrou a insígnia que tinha no peito.

O homem não conseguiu esconder uma certa surpresa, mas em seguida recobrou a sua expressão apática.

— Ainda não, é um cadete.

— A cerimônia de consagração será amanhã.

— Está com o dinheiro?

A jovem puxou um saquinho e derramou o conteúdo em cima de uma mesa.

— É suficiente?

O homem examinou as moedas atentamente, anuiu e foi para uma salinha ao lado.

Nihal ficou sozinha na penumbra. Muitos cavaleiros antes dela fizeram uma tatuagem antes da nomeação, era uma espécie de tradição. Obviamente não faltavam os relatos sobre terríveis dores que se deviam suportar, e vários colegas haviam feito o possível para assustá-la. Ido, por sua vez, tinha sido lacônico. “Só faltava isso”, dissera, e com aquelas palavras sancionara toda a sua desaprovação. Mas a sorte estava lançada e era inútil ter medo: mais alguns minutos e tudo estaria terminado.

Quando o homem voltou, segurava nas mãos uma faca fina e afiada e uma série de taças cheias de pigmentos coloridos.

— Onde é que você quer a tatuagem? — perguntou com um sorriso ambíguo.

Eram todos iguais, aqueles com quem se encontrava: ou não a levavam a sério ou então começavam a olhar para ela daquele jeito lascivo. Nihal bufou e sacou lentamente a espada. O reflexo negro da lâmina escorreu no rosto do homem diante dela. O tatuador mudou logo de atitude.

— Só para lembrar-lhe que esta arma não é apenas um objeto de decoração — disse Nihal com toda a calma. — Vamos ao que interessa. Quero a tatuagem nas costas, razão pela qual agora vou despir-me. Você, enquanto isso, vai ficar virado para a parede até eu ficar deitada naquela mesa. Tenho certeza de que é uma boa pessoa, mas prudência nunca é demais. Certo?

O homem engoliu em seco e concordou com a cabeça.

— Muito bem, então. Vire-se.

— Que tipo de tatuagem vai querer? — perguntou o sujeito enquanto olhava para a parede. A sua voz tremia e Nihal quase teve vontade de rir.

— Duas asas de dragão, uma em cada ombro. Fechadas.

— Por que fechadas?

— Porque quando chegar a hora irei soltá-las ao vento e voarei para longe. Já pode se virar.

De bruços na mesa, de costas nuas, Nihal ouviu o homem aproximar-se e passar nela um pano quente nos ombros. Percebeu que o coração batia um tanto descontrolado no seu peito e maldisse aquele estúpido medo. Finalmente viu a faca e a ponta já negra de tinta. Fechou os olhos e sentiu a lâmina cindir a sua pele.

Saiu da cabana feliz. Suas costas doíam e a ferida ardia, mas agora ela tinha as suas asas. Só faltava saber quando iriam se abrir. Quando chegou à base, Ido estava esperando por ela na porta.

— Aonde foi? — perguntou entre uma e outra baforada de cachimbo.

Nihal preferiu manter-se meio vaga.

— Fui dar umas voltas.

— Está escondendo alguma coisa — rebateu ele, após ficar algum tempo olhando para ela.

— Ido, às vezes você se porta como se fosse meu pai! O gnomo sorriu.

— Vamos lá, entre logo. Precisamos conversar. Nihal entrou e ele mandou-a sentar-se.

— Então, sente-se preparada para a cerimônia de amanhã? Nihal ficou séria.

— Acho que sim — disse. “Acho” era a palavra certa.

— Muito bem, então também deve estar pronta para isso —disse Ido, para logo a seguir desaparecer atrás da porta do quarto ao lado.

Reapareceu segurando um grande saco de juta cujo peso fazia com que suas pernas curtas se dobrassem. Jogou-o na mesa enquanto Nihal fitava-o com olhar interrogativo.

— E para você, dê uma olhada — disse com aparente descaso. Nihal apalpou o embrulho, cheia de curiosidade. Percebeu umas formas estranhas e alguma coisa sólida. Então abriu-o, mas o saco era tão grande que teve de enfiar a cabeça dentro dele para entender do que se tratava. Quando emergiu, desgrenhada, no seu rosto havia uma expressão incrédula.

— Agora você é um Cavaleiro e não me parece muito apropriado que vá à luta esfarrapada como um mendigo — resmungou o gnomo, muito sem jeito. Era a primeira vez que dava um presente.

Nihal começou a esvaziar o saco: havia uma armadura reluzente, ombreiras, um elmo e caneleiras. Tudo de cristal, negro como a noite, brilhante com reflexos. Como sua espada. A armadura estava polida como uma obra de arte e da base da cintura surgia um adorno: representava um dragão enrolado sobre si mesmo, que com mil volutas subia pelo torso acima até a altura do peito, onde sobressaía a cabeça; a boca escancarada vomitava dois jorros de chamas que envolviam o contorno dos seios. As ombreiras tinham a forma de duas caveiras de dragão, os dentes aguçados a morderem o perfil dos ombros. Nas caneleiras voltava a aparecer o motivo das chamas e o elmo, finalmente, tinha duas asas pontudas que se abriam para os lados.

Nihal ficou olhando sem palavras. Era a armadura perfeita para ela.

— Mandei fazer o elmo de modo que não atrapalhe as suas orelhas. É bem mais leve do que parece, não creio que vá estorvar os seus movimentos — explicou Ido, mas Nihal continuava calada. — Seu pai sem dúvida teria feito alguma coisa melhor e mais bonita, mas espero que mesmo assim você goste e que se sinta bem lutando com ela e... ora, esqueça! — desabafou afinal.

Nihal jogou-se em cima dele e abraçou-o apertado. Era muito mais do que poderia esperar, era um presente maravilhoso, era a prova do apreço que Ido tinha por ela. Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Obrigada, obrigada... — não parava mais de dizer.

Ido afastou-a. Seus olhos também estavam um tanto embaçados.

— Se pensa que vai me fazer chorar como uma comadre, está totalmente errada, bote isso na cabeça — resmungou, depois caiu na gargalhada e Nihal riu com ele.

— Eu... é tudo maravilhoso. Você salvou-me e criou-me, Ido, fez de mim uma guerreira... eu... — Nihal não encontrava as palavras para agradecer ao gnomo que a trouxera de volta à vida.

Ido respondeu dando-lhe um sonoro tapa nas costas.

— Chega de pieguices, chame aquele imprestável do Laio e vamos ver se a gente consegue fazer alguma coisa — disse. O sorriso que até então iluminara seu rosto apagou-se logo que ouviu Nihal gemer. — O que você aprontou, desta vez? — perguntou. Soltou com o cachimbo toda uma série de baforadas seguidas e compactas, como sempre acontecia quando ficava zangado.

Com os olhos de Ido em cima dela como punhais, Nihal recuou até ficar com as costas na parede. Que droga! E agora? Não tinha jeito, precisava confessar.

— Fiz uma tatuagem... — disse com um fio de voz. Baforada de fumaça.

— E que tipo de tatuagem escolheu? — Baforada de fumaça.

— Duas asas... nas costas... Baforada. Silêncio.

— Não são tão grandes assim... E além do mais fazem sentido... Baforada de fumaça.

— Só não lhe dou um pito porque... — baforada — só porque já estamos atrasados. Do contrário iria ouvir umas boas, pode crer! E agora suma daqui, antes que eu mude de idéia.

Nihal chispou fora da cabana com um meio sorriso nos lábios.

Partiram logo depois do almoço. Ido sobre Vesa, e Laio sentado atrás de Nihal sobre Oarf.

Nihal adorava voar. Quando montava o seu dragão e via tudo lá de cima ficava admirada como se fosse sempre a primeira vez. Cavalgava Oarf sem arreios e, ao que parecia, era a única entre todos os Cavaleiros de Dragão a fazer isto. Laio era forçado a segurar-se nela com todas as forças para não cair. Nihal não queria dominar o seu dragão, ela e Oarf eram uma coisa só. Não havia necessidade de ordens entre eles, pois o pensamento de um era o pensamento do outro.

Chegaram a Makrat ao entardecer. A cidade mostrou-se aos olhos deles na confusão escaldante do verão. Apesar da hora, as ruas e as praças estavam cheias de gente e ressoavam de vozes, murmúrios, risadas, ruídos. Quando passaram pelo enorme portão da Academia, Nihal não pôde deixar de pensar em Senar. Ela havia sido muito boba. No dia do último encontro entre os dois, deveria ter dito como ele era importante para ela, tê-lo abraçado com força segurando-o para que não fosse embora. Longe disso, ferira-o com a espada e com as palavras. E agora ele podia até estar morto. Rechaçou o pensamento. Senar estava vivo e iria voltar.

Jantaram na Academia, junto com os cadetes. Voltar àquele amplo refeitório teve um estranho efeito sobre Nihal.

— Lembra-se de quando nós também jantávamos aqui? — perguntou Laio entre uma garfada e outra. Então começou a contar a Ido como é que conhecera Nihal.

Mas ela não tinha a menor vontade de relembrar o passado. Os meses que passara lá não tinham sido propriamente felizes. E afinal não se havia passado tanto tempo assim desde então. Lembrava-se muito bem das sensações que experimentara dentro daqueles muros: o isolamento, a solidão, o ódio, a certeza de ser diferente. Mesmo agora, todos olhavam para ela, alunos e mestres, e do seu assento Raven não lhe tirava os olhos de cima. A razão era clara: ela era mulher, uma semi-elfo. Parecia de fato que nada tinha mudado.

Sorveu a sopa em silêncio, enquanto Laio enchia-a de conversa e Ido a observava em silêncio.

Quando chegou a hora de cada um se recolher ao próprio quarto, o gnomo deteve-a.

— Posso imaginar como está se sentindo, Nihal. Mas não precisa ter medo. Você merece aquilo que irá receber amanhã.

— Sim, claro — anuiu ela não muito convencida. — Está quente, vou dar uma volta — disse para cortar o assunto, e então afastou-se apressada. Precisava ficar sozinha.

No dia seguinte o salão pareceu-lhe ainda maior de como o lembrava. E cheio, apinhado, com as pessoas se acotovelando. Sentiu falta de ar. Estavam todos ali por causa dela. Já começara a sentir um estranho peso no peito enquanto se aprontava. Laio fizera questão de ajudá-la pessoalmente a se vestir. Havia sido um verdadeiro prazer vê-lo apertar as fivelas, ajeitar a couraça, prender as caneleiras.

— Tornou-se um escudeiro e tanto — comentara Nihal.

— Procure não espalhar — brincara ele. — Algum cavaleiro poderia ouvir e tentar assegurar-se dos meus serviços.

Nihal sorrira.

— Pronto! — concluíra Laio depois de mais um puxão. — Já pode olhar-se no espelho, Cavaleiro.

Nihal virou-se para o grande espelho que enfeitava a sala que lhe havia sido destinada para vestir-se e quase não se reconheceu: na lâmina de prata refletia-se a figura de um guerreiro, de um verdadeiro guerreiro, imponente e ameaçador.

— A partir de agora é assim que você aparecerá aos inimigos: um negro demônio no campo de batalha — comentara Laio com um sorriso. — Mas agora não temos tempo a perder com vaidades, Cavaleiro. Já está na hora.

Enquanto percorria ao lado de Laio os corredores da Academia, a sensação de mal-estar havia aumentado. E ao ver-se diante da imensa variedade de rostos no auditório aquilo se tornara quase insuportável.

Nihal fechou os olhos para se acalmar e imaginou que Senar estava ali, no meio da multidão. Consegui, Senar. Olhe para mim. Consegui.

Ouviu então o toque dos clarins: Raven e Sulana, a rainha-menina que governava inspirada nos ensinamentos e na lembrança do pai, ocuparam os seus lugares.

O Supremo General estava empertigado como de costume. Havia mudado de armadura, desde a última vez que ela tivera o duvidoso prazer de encontrá-lo: a atual rebrilhava de prata e pedras preciosas, e era absurdamente trabalhada. Raven continuava ostentando a aparência emproada e desdenhosa que ela detestara desde a primeira vez que o tinha visto. O seu inseparável cachorrinho acompanhava-o, saltitante e abanando o rabo, a alguns passos de distância.

Sulana avançava de mão apoiada no braço de Raven, linda como uma ninfa, etérea e compenetrada no seu papel. Caminhava solene, sem olhar para os presentes, e tinha uma expressão madura muito insólita para a graça e a juventude dos seus traços.

Continuaram andando até o assento de Sulana. Raven ajudou a rainha a sentar-se para então ficar à direita dela, de pé.

Do outro lado, logo atrás da porta aberta do salão, Nihal esperava nervosa. O cerimonial ainda não previa a entrada dela. Quem avançou foi Ido. Nihal já o tinha visto antes em trajes de gala, mas neste dia tinha um toque marcial que das outras vezes faltava. Vestia uma armadura que raramente usava, sóbria e funcional, e ia em frente com passadas tão decididas que, apesar da pouca altura, parecia levantar-se no meio da sala.

O gnomo parou diante de Sulana e do Supremo General, desembainhou a espada, colocou-a no chão e ajoelhou-se, para levantar-se logo a seguir.

Um murmúrio serpenteou pela sala: a etiqueta exigia que o Cavaleiro ficasse de joelhos em sinal de respeito por Raven. Nihal sorriu quando viu o sublime Raven ter um imperceptível gesto de irritação.

Então a cerimônia começou.

— Ido da Terra do Fogo — trovejou o Supremo General —, por que se apresenta hoje diante de mim?

— Estou aqui para apresentar ao exército e a todo o povo das Terras livres o meu discípulo, Nihal da Terra do Vento, para que possa receber a nomeação de Cavaleiro de Dragão.

— Que então se apresente o candidato — disse Raven. Nihal deu os primeiros passos dentro da sala.

Era uma sensação estranha atravessar aquele amplo vão sozinha, pisar no carpete vermelho que a cobria. Sentiu sobre si os olhares de todos e percebeu a admiração da qual era objeto enquanto avançava altiva para Raven: chegaram aos seus ouvidos os cochichos do público: “Tão jovem”, “Tem uma armadura extraordinária”, “Que nobreza no porte.”

Ao chegar aos pés do trono de Sulana, desembainhou a espada, deitou-a ao seu lado, no chão, baixou a cabeça e ajoelhou-se. Parada naquela posição, ouviu os passos de Raven no carpete.

— Qual é o seu nome?

— Nihal.

— De onde vem?

— Da Terra do Vento.

— Quais são as suas intenções?

— Lutar com todas as minhas forças pelas Terras livres, sacrificar minha vida pela liberdade e por Sua Majestade, a Rainha.

— Tire o elmo.

Nihal obedeceu e do elmo surgiu uma desgrenhada cabeleira azul e um gentil rosto de mulher.

Os presentes levaram algum tempo para assimilar a imagem, mas a reação não se fez esperar. O murmúrio foi tão alto que Raven teve de tomar uma atitude para que o silêncio voltasse a reinar no auditório.

O Supremo General apanhou a espada.

— Levante o seu braço direito, Cavaleiro.

Nihal tirou uma das luvas que protegiam os antebraços e deixou à mostra a pele clara.

Raven passou a espada por cima e o sangue começou a escorrer devagar da ferida.

— Jure pela sua vida e pelo seu sangue.

Nihal levantou o braço para que todos pudessem ver o risco vermelho e então falou em voz alta e firme:

— Juro dedicar a minha vida à causa da paz. Juro colocar a minha espada ao serviço da justiça. Juro proteger até a morte as Terras livres. Que possa o sangue das minhas veias secar e o fio da minha vida romper-se antes que eu quebre este juramento.

Raven baixou a espada sobre a cabeça de Nihal.

— Nihal da Torre de Salazar, hoje pronunciaste o teu juramento diante dos deuses e diante dos homens. A tua carne e o teu sangue pertencerão para sempre à Ordem. Declaro-te Cavaleiro de Dragão e defensor das Terras livres.

Um só grito ouviu-se das fileiras dos Cavaleiros que assistiam à cerimônia, selando a entrada de Nihal na Ordem.

Raven devolveu-lhe a espada e Nihal pôde levantar-se de novo. Depois de cumprimentar a rainha com uma mesura, virou-se para os presentes e levantou a sua arma negra.

O auditório explodiu num aplauso e Nihal se sentiu vitoriosa.

O primeiro a chegar foi Ido, abraçou-a com força e ficou olhando para ela sem dizer uma só palavra. Depois Nihal foi atropelada por uma multidão de desconhecidos que queriam felicitá-la.

A cerimônia continuou no pátio interno, onde se costumava festejar as consagrações. Enquanto a sua aluna estava no centro das atenções, cercada de afetados cortesãos, empoados dignitários e cavaleiros que lhe davam os parabéns, conselhos e palmadas nas costas, Ido ficou afastado num canto. Observava aqueles festejos com indiferença e uma vaga sensação de nojo: conhecia muito bem a falsidade que se escondia atrás daqueles obséquios. Não havia uma só pessoa naquele pátio que não se perguntasse o que aquela mulher estava fazendo no exército ou que não achasse de alguma forma inconveniente a presença dela. Não via a hora de voltar à base e dar finalmente umas boas tragadas no cachimbo em paz. Uma voz interrompeu o fio dos seus pensamentos.

— Espero que não creia ter-me impressionado com o seu gesto, agora há pouco.

Ido virou-se. Raven sorria sarcástico, naquela sua paródia de armadura.

— Supremo General! Você também por aqui? — respondeu o gnomo em tom de chacota, então pegou o primeiro copo ao seu alcance e tomou o conteúdo de um só gole. — Nunca lhe demonstrei submissão quando era jovem e maleável, não vejo porque deveria fazer isto agora que me tornei um velho rabugento.

— Vejo com prazer que não mudou em nada.

— Poderia dizer o mesmo de você — replicou Ido com frieza. Os dois homens se encararam por um bom tempo, em silêncio.

— Não consegue realmente esquecer, não é, Ido? — disse Raven afinal.

O gnomo agarrou mais um copo.

— Pois é. Engraçado, não acha? Raven fez um gesto impaciente.

— Já pensou na minha posição? Se você tivesse estado no meu lugar, ter-se-ia portado exatamente da mesma forma.

Ido sentiu a raiva aumentar dentro dele.

— Vamos encerrar por aqui mesmo a conversa. Vai ser melhor para ambos.

— Sabe muito bem que o considero um grande guerreiro —rebateu Raven. — E... pois é, a sua aluna também... Admito que estava errado quando tentei impedir que entrasse na Academia. Satisfeito? Isto lhe basta como ato de contrição?

A mão de Ido brincava nervosa com a empunhadura da espada.

— Vai continuar me considerando um sujeito perigoso por muito mais tempo?

O Supremo General não respondeu.

— Nihal sabe? — perguntou à traição.

Os dedos de Ido fecharam-se com força sobre a arma e seu rosto ficou roxo.

— Não tem nada a ver.

— Só perguntei por curiosidade. Então? — insistiu Raven, enquanto um leve sorriso se desenhava em seus lábios. — Ainda não contou?

— Não — respondeu Ido.

— Está vendo? — escarneceu Raven. — A verdade é que você mesmo é o primeiro a não esquecer o passado. Nem tem a coragem de tocar no assunto com a sua aluna preferida. Como pode então pensar que eu, o Supremo General que dirige esta Ordem, possa esquecer? Talvez seja melhor eu contar para ela. O que acha?

A espada de Ido deslizou lentamente para fora da bainha.

— Deixe-me em paz, Raven, pois do contrário também irei esquecer as patentes e as boas maneiras — sibilou.

Raven não perdeu a pose.

— Calma, calma. Era só uma brincadeira inocente. Em combate você até se controla, mas fora do campo de batalha perde logo as estribeiras.

O Supremo General afastou-se sorrindo e Ido relaxou o aperto na espada. O pior era que aquele idiota estava certo: depois daqueles anos todos, ainda não conseguira esquecer. Quanto tempo ainda levaria antes de considerar-se finalmente resgatado?

Durante a viagem de volta Nihal virava-se, de vez em quando, para dar uma olhada no mestre, que se mantinha calado e pensativo o tempo todo. Ido insistira em partir quanto antes e, quando finalmente se puseram a caminho, fechara-se em si mesmo. Aquele rosto tenso e amuado não era coisa dele, mas a jovem não deu importância. Quando Ido estava preocupado era melhor deixá-lo em paz.

Além do mais ela estava de ótimo humor e nada nem ninguém iria estragar-lhe o dia.

— Segure-se firme — disse a Laio, enquanto esporeava Oarf. — Vamos apimentar um pouco esta viagem!

Pois é, estava feliz.

Chegaram à base no meio da noite. O acampamento estava dominado pelo silêncio total e dirigiram-se a passo para as cavalariças. Laio dormitava nas costas de Oarf, que o tolerava de boa vontade, e Nihal sentia que a excitação começava a dar lugar ao cansaço.

Não via a hora de deitar-se na cama. Iria passar a sua primeira noite como Cavaleiro de Dragão embaixo dos cobertores, pensando com calma em tudo o que havia acontecido.

Enquanto se aproximavam das estrebarias, no entanto, começaram a ouvir um barulho cada vez mais alto que acabou se tornando uma balbúrdia infernal.

— O que está acontecendo? — perguntou Nihal quando já iam chegando à entrada.

Ido desmontou de Vesa e dirigiu-se ao portão.

— Desconfio que... — disse com um sorriso maroto. Em seguida escancarou a porta.

Lá dentro uma verdadeira multidão apinhava-se na maior confusão. Dezenas de tochas iluminavam alegremente as cavalariças como dia, o ar estava denso de fumaça e uma música alegre animava o ambiente. Todos os habitantes da base estavam lá e não havia um só deles que não segurasse na mão um copo ou um caneco.

— Lá estão eles! — gritou uma voz logo que Ido e Nihal botaram os pés nas estrebarias. Dúzias de cabeças viraram-se para eles ao mesmo tempo.

Nelgar aproximou-se com um caneco de cerveja na mão.

— Louvação aos dois sujeitos mais suspeitos de toda a base: o terrível gnomo e a mulher-guerreiro! Saúde! — berrou alegre, e todos se juntaram ao brinde entre tilintar de copos e risadas.

Laio esfregou os olhos, acordando.

— Você aí, escudeiro, tem alguma coisa a ver com esta balbúrdia? — perguntou Ido.

— Para dizer a verdade, a idéia foi minha — respondeu Laio com um bocejo. — Mas já tinha esquecido!

Nelgar ficou de braço dado com Nihal.

— Vamos entrando, Cavaleiro. Você é o convidado de honra! Depois foi toda uma série de brindes e felicitações.

— Não estou entendendo... — disse Nihal confusa. Ido já estava com o seu caneco cheio na mão.

— Então eu mesmo vou explicar: o seu prestativo escudeiro achou por bem juntar todos os imprestáveis vadios da base para os festejos. — Quando um coro de protestos acolheu estas palavras, Ido levantou o caneco e calou todo o mundo. — Sabe de uma coisa, Nihal? Uma vez que teremos de participar, talvez seja melhor honrar a cerveja e as danças! — Então levantou de novo o caneco, entre aplausos.

A algazarra recomeçou mais caótica do que antes, Laio acordou por completo e Ido entregou-se à festança como de costume. Nihal ficou meio abobalhada, ao receber os apertos de mão dos companheiros. Uma festa só para ela. Não sabia se ficava radiante ou constrangida. Na dúvida, permanecia em pé, no meio daquela multidão de cavaleiros, mulheres, soldados e escudeiros. Um copo de cerveja apareceu bem embaixo do seu nariz.

— Não, obrigada, eu não...

— Chega de conversa! — exclamou um dos soldados. — Um verdadeiro Cavaleiro nunca recusa uma bebida.

Nihal pegou a caneca, encostou timidamente os lábios e tomou um pequeno gole.

Comentários de desaprovação ouviram-se de todos os lados:

— O que é isso? Beber assim é coisa de daminhas! É ou não é um Cavaleiro de Dragão? De uma só vez, vamos lá!

Nihal tomou fôlego e contentou-os. Afastou a caneca tossindo engasgada.

— Agora sim! — gritou uma voz, desencadeando mais uma salva de aplausos e risadas.

Nihal também caiu na gargalhada e experimentou uma estranha sensação que lhe acalentava o coração. Estava gostando de ser o centro das atenções. Nunca iria admitir, mas bem que gostava.

Entre brindes, piadas e música, a festa decolou. Nihal falava com todos, ria, brincava. E bebia. E quanto mais bebia, mais a sua cabeça se esvaziava e pedia mais bebida. O mundo parecia ter-se tornado mais leve e ela estava pairando no ar. Ao relembrar as dúvidas da noite anterior, ficava quase com vontade de rir, pois agora estava ali e só devia pensar em divertir-se. No começo limitou-se a olhar os outros que dançavam: os soldados que rodopiavam com suas mulheres, as petulantes criadas nos braços de algum cavaleiro. Então viu Ido, que vinha ao encontro dela, de bochechas vermelhas e olhos brilhantes. Fez uma mesura e beijou-lhe a mão.

— Se bem me lembro, alguns meses atrás, logo depois que nos conhecemos, concedeu-me uma dança. Acho que agora já mereço outra.

— Será uma honra, Cavaleiro. Só lhe peço, no entanto, que espere um momento — brincou. Ainda vestindo a armadura, esgueirou-se entre os dançarinos e, com a espada a bater-lhe na coxa, saiu correndo.

Entrou na cabana de Ido tropeçando e perguntando a si mesma por que cargas-d'água o mundo tinha começado a rodar tão rápido. Abriu apressadamente a arca e tirou um vestido verde que comprara antes de deixar-se tatuar. Tentou lembrar como devia atar o corpete e como tinha de ajeitar a saia e a anágua. Levou algum tempo, pois teve que brigar com todas as tiras e as fivelas, mas acabou conseguindo. Jogou as botas para longe e ficou pronta.

Saiu chispando da cabana de Ido e correu descalça para as estrebarias. Quando chegou diante da entrada não acertou a posição da porta e chocou-se contra o umbral. Que droga. Quem a deslocou? Recuperou-se da trombada, alisou a saia, respirou fundo e entrou.

O primeiro a percebê-la foi um soldado de infantaria, que deu uma cotovelada no escudeiro que tinha ao lado. Aí, um por um, todos se viraram para a entrada.

Os músicos se calaram, os dançarinos pararam e os copos detiveram-se em pleno ar. O vestido era simples, sem qualquer ostentação, e nem mesmo do tamanho dela, mas Nihal estava de qualquer forma muito linda. O silêncio foi quebrado por um “Veja só!” nem um pouco elegante.

Nihal avançou um tanto desajeitada, procurando não rir.

— Aqui estou eu ao seu dispor, Cavaleiro — disse após cumprimentar com uma mesura o seu mestre.

— Que novidade é essa? — perguntou Ido.

— Um presente de aniversário — respondeu ela, oferecendo a mão ao gnomo.

A música recomeçou mais animada do que antes. Nihal não conhecia um passo sequer de dança, mas Ido era um excelente dançarino e só teve de acompanhá-lo, espiando ora os pés dele, ora os dos pares em volta.

Ido só foi o primeiro a pedir-lhe a honra de uma dança. O segundo foi Laio, agora plenamente acordado e muito animado com a festa, que a conduziu numa dança muito estranha que ninguém vira antes. E então foi a vez de muitos outros.

Nihal sentia-se à vontade, alegre e despreocupada. Naquela noite era uma jovem como qualquer outra: suas orelhas haviam ficado mais curtas, os olhos menores e os cabelos já não eram azuis, mas sim castanhos, loiros ou pretos. O tempo parecia voar à volta dela, as horas corriam rápidas e o mesmo acontecia com a cerveja, que lhe tornava mais leves as pernas e a cabeça.

Quando os festejos estavam no auge uma voz perguntou:

— Estou errado ou você esqueceu alguma coisa, Ido? O gnomo esvaziou mais um caneco.

— Acho que você está certo — disse limpando os bigodes com o dorso da mão.

— Então quer dizer que ainda não é um verdadeiro Cavaleiro.

— Isso mesmo! A prova! Ainda falta a prova! — comentaram outras vozes.

Nihal tinha alguma dificuldade para concentrar-se e focalizar devidamente os pensamentos. Do que diabo estavam falando?

— Para dizer a verdade já é muito tarde... e não creio que serei capaz... — eximiu-se Ido.

Pouco a pouco todos os presentes começaram a escandir:

— Prova! Prova! — Até o gnomo ver-se forçado a aceitar.

— Que seja! — exclamou Ido. — Vamos então dar início à prova. Num piscar de olhos Nihal estava sendo carregada nos ombros por um soldado. Procurou Laio e viu-o rir no meio do cortejo.

— O que é isto? O que está acontecendo?

— Nada, apenas um costume antigo da Ordem. Na condição de novo Cavaleiro, só precisa agora vencer o seu mestre num duelo de dragões...

Nihal precisou de alguns segundos para entender direito.

— Mas bebi demais! Nunca vou conseguir...

Quando o soldado baixou-a diante de Oarf, Nihal começou a rir.

— É só uma brincadeira, não é? Os nossos dragões estão cansados da viagem, tudo está rodando à minha volta, não tenho a minha espada e olhem só como estou vestida! — protestou, mas as suas palavras caíram no vazio.

Um Cavaleiro deu-lhe um tapa nos ombros.

— Quanto à espada, pode deixar que Laio já vai trazer para você. E quanto aos trajes, tenho a impressão de interpretar a vontade de todos dizendo que queremos vê-la lutar com esse vestido mesmo.

Os presentes explodiram numa ovação.

Nihal descalça, com o vestido verde, de espada negra na mão. Ido desgrenhado, sorridente, de olhos reluzentes devido à bebida. Nihal e Ido, Ido e Nihal, um diante do outro. Entre os dois, Nelgar.

— As regras são simples: levantam vôo e se enfrentam. Só podem usar a espada. Vence quem desarmar ou derrubar o outro. Falta o prêmio. O que querem apostar?

— Um beijo — foi logo dizendo Ido. — Se eu vencer, Nihal concederá um beijo a... — olhou em volta — Laio! Isso mesmo, terá de dar um beijo em Laio.

— Tudo bem, eu concordo. Mas se eu vencer, o cachimbo vai ficar guardado por uma semana. Vai parar de empestear-me com esse seu fumo.

— Como quiser, de qualquer forma não tem a menor chance. — Riu o gnomo, e então cada um subiu na garupa do seu dragão.

Nelgar sacou a espada e ergueu-a para o céu.

— Preparem-se para levantar vôo, Cavaleiros!

Nihal sentiu Oarf fremir e de repente ficou lúcida como antes de uma batalha, tensa em cada músculo do seu corpo, pronta a atacar. Olhou para Ido, o seu mestre, e brindou-o com um sorriso desafiador.

Em seguida, iluminada pelo luar, a lâmina de Nelgar desenhou um arco na escuridão.

Vesa e Oarf pularam para cima, cada vez mais para o alto, até roçarem na lua cheia, alcançando o céu límpido da noite de verão.

Foi enquanto ainda subiam que Ido desfechou o seu primeiro ataque, aproximando-se de Nihal, mas Oarf mudou imediatamente de direção. A jovem sentava-se reta, empertigada nas costas do dragão, e só precisava das pernas para manter-se na garupa. Segurou a espada com ambas as mãos, deu uma ampla volta, dobrou-se para a frente e então investiu a toda a velocidade contra o adversário. Só se levantou em cima da hora, para desferir o golpe, que no entanto se perdeu no vazio e quase a fez perder o equilíbrio.

Ido afastou-se, preferindo não se aproveitar da situação.

— Está parecendo-me um tanto alterada — gritou o gnomo. —Precisa de alguma vantagem?

— Não se gabe cedo demais! Só pense em tentar vencer-me —respondeu Nihal enquanto partia para um novo ataque.

Visto do chão, o combate era um espetáculo fascinante. Os dois dragões, nas alturas, aproximavam-se sinuosos para em seguida voltar a afastar-se e pairar livres, numa espécie de dança sem fim. Lá em cima, dos incitamentos gritados pelos espectadores só chegavam ecos confusos.

Ido era firme, comedido, preciso, enquanto Nihal usava principalmente a força e a velocidade. Durante algum tempo enfrentaram- se com ataques repentinos seguidos de fugas e recuos estratégicos, mas então Ido achou que a coisa estava ficando sem graça. Chegou perto de Nihal e manteve-a empenhada num longo corpo-a-corpo. O estrondo das lâminas era acompanhado pela respiração ofegante dos dragões. Nihal media cada movimento, cada gesto, e respondia com calma a todos os ataques.

— Você aprendeu direitinho, semi-elfo — comentou Ido enquanto se afastava.

— Tive um mestre bastante razoável, afinal de contas — respondeu ela, logo antes de voltar ao ataque.

A batalha continuou desse jeito por um bom tempo. Uma situação de impasse: Nihal começava a sentir-se cansada e percebia que Oarf também estava exausto. Tinha de jogar as suas cartas de alguma outra forma.

— Mais um último esforço — ciciou ao dragão, em seguida incitou-o a toda a velocidade contra Vesa.

Ido ficou parado esperando por ela, com um sorriso nos lábios, seguro de si. Oarf continuou acelerando. Vesa começou a recuar, preocupado.

Logo que o objetivo ficou muito próximo, Nihal levantou-se sobre Oarf, fechou os olhos e pulou. Quando voltou a abri-los estava de pé nas costas de Vesa: a mão livre agarrando o cabelo do gnomo, aquela com que brandia a espada em volta da cabeça de Ido.

— Temos um vencedor! — disse triunfante.

— Acha mesmo? — rebateu o mestre, afastando-a com uma cotovelada.

Foi então que Nihal teve uma tontura. Perdeu o equilíbrio. Agarrou-se com força a Ido. Ambos caíram e precipitaram-se.

Lá embaixo ressoou o grito do público, acompanhado logo a seguir de um suspiro de alívio. O vôo dos dois contendores havia sido breve. Interceptados pela garupa de Oarf, planaram suavemente e chegaram ao chão ilesos. Aplausos coroaram a façanha.

Laio acudiu para ajudar Nihal a descer. Ido desmontou do dragão e massageou as costas doloridas.

— Você nunca aprende, não é? — disse, então piscou para Nihal.

— Então, quem venceu? — perguntou a jovem, ofegante.

— Eu diria que acabaram empatados — disse Nelgar. — E uma pena, nada de beijo e nada de proibição de fumar. Ainda bem que há bastante cerveja esperando por nós!

A festança recomeçou e só parou ao alvorecer, entre copos, risadas alegres e danças.

Nihal soltou-se por completo; à suave tontura seguiu-se o atordoamento e finalmente a sensação de esquecimento total.

Quando o pessoal tomou o caminho de casa, o sol já despontava atrás da espessa floresta que cercava a base. Laio teve de botar um braço de Nihal em volta do pescoço e segurá-la pela cintura para levá-la embora. Ido foi atrás, só um pouco trôpego. Precisava bem mais do que aquilo para ficar realmente bêbado.

Entraram na escuridão da cabana. Laio colocou Nihal suavemente na cama, esfregou os olhos e foi dormir bocejando quase a ponto de deslocar a mandíbula.

A semi-elfo entreabriu os olhos. Entreviu o seu quarto, o gnomo que a cobria com um lençol. Tudo possuía contornos irreais. Parecia haver uma tempestade no seu estômago. De repente ficou triste.

— Ido... — gaguejou. — Estou passando mal...

— Não se preocupe, mocinha. Umas boas horas de sono e ficará melhor do que nunca.

Uma lágrima deslizou pela face dela.

— Não, não, sinto-me realmente muito mal... não passo de um ser desprezível...

— Do que diabo está falando?

— Um ideal... um motivo... não tenho um motivo...

— Ah, deuses do céu! — exclamou o gnomo. — Ficou entregue à bebedeira triste! Durma, Nihal. Está tudo bem. Durma.

Ido saiu do quarto na ponta dos pés. Nihal ouviu a porta chiar nas dobradiças. Então fechou os olhos e mergulhou num sono sem sonhos.

 

                             O INIMIGO

Depois da partida de Senar, quem ficara no lugar dele havia sido o conselheiro Dagon. O seu cargo de Membro Ancião, no entanto, não lhe havia permitido ser uma presença constante na zona de combate da Terra do Vento.

A situação estava dramática. A frente de batalha havia recuado muito, tanto assim que já se encontrava quase na altura da fronteira com a Terra da Água. O Tirano parecia disposto a apostar muito naquele território: juntara ali perto um grande número não só de fâmins, como também de homens e gnomos. A presença destes últimos perturbava os guerreiros das Terras livres: ao medo da morte e ao desânimo pela superioridade numérica das tropas inimigas juntava-se a sensação de traição. Em apenas uns poucos meses o exército do Tirano apossara-se de uma boa parte da região.

— Como assim, por quê? — perguntou Nelgar irritado. — Porque precisam de reforços, ora essa! — Não esperava que o gnomo criasse tantas dificuldades.

Ido dava grandes passadas de um lado para outro do aposento do superintendente da base. Parecia nervoso.

— Por mim, preferiria ficar onde estou.

— Nem pense nisso. Você é um excelente guerreiro, Ido, estão precisando de pessoas como você por lá. E de qualquer maneira não há o que discutir. Estão escalados e terão de ir.

Nihal permanecia calada. A possibilidade de ir lutar no front da Terra do Vento até que lhe aprazia. Era a Terra onde morara ainda menina, e combater em defesa daquele povo era para ela um motivo a mais para lutar. Mas tudo indicava que Ido, obviamente, não era da mesma opinião.

O gnomo acendeu o cachimbo e fitou Nelgar nos olhos.

— Existem motivos de... oportunidade, que aconselhariam a não me enviar para aquele território.

Nelgar não se deixou intimidar.

— Não sei do que você está falando — disse friamente.

— Quem deu a ordem?

— Quem mais poderia ser? Raven, é claro — respondeu Nelgar. Ido deu um violento soco na mesa, deixando Nihal literalmente assustada.

Nelgar passou as mãos no rosto e suspirou.

— Não há nada que eu possa fazer, Ido. Você sabe disso.

— Que diabo, sei que a culpa não é sua! — concluiu o gnomo antes de sair batendo a porta.

Nihal foi atrás, tentando entender o que estava perturbando daquela forma o mestre, mas Ido foi vago e, no fim, até um tanto ríspido.

— Não gosto daquele lugar, só isto, está satisfeita? E pare de me atormentar com as suas perguntas! Não é a única a ter a cabeça cheia de lembranças ruins.

Nihal desistiu, achando melhor deixar de pensar no assunto. Ela também guardara para si mesma os seus segredos, no passado. Sabia muito bem que às vezes as perguntas podem realmente tornar-se insuportáveis. Mas nem por isso a sua curiosidade esmoreceu.

Foi assim que, depois de mais de um ano longe, Nihal voltou a pisar nas estepes da Terra do Vento. Tinha receio de voltar para lá, pois fora justamente ali que perdera todos os seus entes queridos, mas ao mesmo tempo percebia que se tratava de um passo importante. Se por um lado temia que o passado voltasse a agredi-la, por outro estava ciente da necessidade de superar mais esta prova, pois do contrário jamais conseguiria dar por encerrado aquele período da sua vida.

Apresentaram-se a um acampamento logo depois da fronteira com a Terra da Água, perto das ruínas de uma torre destruída. Naquele lugar reinava o mais total desânimo. Gana, o mago que desempenhava o papel de conselheiro da base militar, não passava de um garoto. Por si só, isso não teria sido um problema — o próprio Senar, afinal, era muito jovem —, mas acontece que o rapaz mal conhecia os rudimentos da tática e da estratégia e era absurdamente inseguro na hora de tomar decisões. Costumava ficar calado durante as reuniões, só falava quando alguém lhe perguntava alguma coisa, e era incapaz de contribuir com qualquer idéia válida. Uma tragédia.

Ido e Nihal não foram propriamente recebidos de braços abertos: um gnomo e uma mulher não eram o que os Cavaleiros poderiam considerar um reforço satisfatório. Até o general do acampamento, no começo, olhou para eles com muita desconfiança, para então limitar-se a ignorá-los e a não consultá-los na hora de tomar qualquer decisão. Parecia ser alguém que já tinha visto coisas demais na sua vida. Era magro, nem mesmo muito idoso, a julgar pelo corpo atlético. Ainda assim, no entanto, seu rosto era marcado por profundas rugas, seus ombros estavam sempre caídos, os olhos opacos e apagados. Um homem cansado da guerra e do sangue, um homem cansado da vida. Apresentou-se como Mavern.

A jovem não se importou. Estava acostumada com aquele tipo de acolhida e já aprendera que, na hora de demonstrar o próprio valor, a sua espada valia mais do que mil conversas.

Ido mostrava-se perturbado, mas Nihal tinha quase certeza de que a coisa nada tinha a ver com a atitude dos demais Cavaleiros. Saía raramente da sua tenda e tornara-se taciturno e pensativo.

Quem, por sua vez, não demorou quase nada para angariar a simpatia de todos foi Laio. Tornou-se imediatamente a mascote do acampamento. Os Cavaleiros brincavam com ele e recorriam aos seus serviços, tanto que acabou sendo praticamente o escudeiro de todos. E afinal, como alguém poderia não lhe querer bem? Era um ótimo ordenança, sempre alegre, sempre disposto a ajudar: um raio de luz nas trevas daquela guerra.

Pela primeira vez desde que começara a combater, Nihal fez jus a uma tenda só dela.

Não demorou a adaptar-se ao ritmo do acampamento, mas principalmente acostumou-se a uma vida na qual combater representava a atividade principal. Quando ainda estava na antiga base, podia passar até semanas inteiras sem usar a espada, enquanto ali os guerreiros mal tinham tempo de retomar o fôlego entre um e outro embate.

O território pululava de espiões, os ataques inimigos eram freqüentes e, quando eles não sofriam incursões, deslocavam-se para ajudar algum acampamento próximo.

Nihal mostrou o seu valor desde o primeiro momento, durante o ataque contra uma torre, uma das muitas. Desobedeceu às ordens que a relegavam à segunda linha, juntou-se aos demais Cavaleiros de Dragão e lançou-se ao ataque ao lado de Ido. Os dois estavam acostumados a lutar juntos, eram eficientes e coordenados como um mecanismo de precisão, e foram de grande valia para os demais guerreiros. A torre foi conquistada sem demora e sem muitas baixas.

A jovem não conseguiu mesmo assim livrar-se de uma solene repreensão. No passado teria gritado e esbravejado para defender a sua iniciativa, mas desta vez aceitou tudo com calma resignação.

— O senhor está certo, reconheço o meu erro. Mas acontece que agora a torre é nossa ou também estou errada nisso? — disse afinal, fitando Mavern nos olhos.

Aquela ação temerária fez com que ela e Ido subissem muito no conceito dos demais Cavaleiros do acampamento, que pouco a pouco começaram a considerá-los elementos indispensáveis para o bom êxito das missões.

Passado um mês, a vida no novo acampamento adquiriu os costumeiros ritmos familiares e cansativos. Nihal combatia muito e descansava pouco. Estava inteiramente à vontade.

Era uma noite abafada, só iluminada pela lua cheia.

O calor invadia as barracas e oprimia todo o acampamento. Nihal tinha esquecido até que ponto as noites da sua Terra podiam ser sufocantes. Estava cansada, não tinha vontade de pensar, o sono iria ser o melhor remédio para a sua inquietação. Mas infelizmente não chegava, deixava-a ofegante a ouvir os grilos que estridulavam num verdadeiro concerto fora da sua tenda. Odiava aqueles insetos, deixavam-na irritada. Ficou olhando para a lua, tentando aproveitar ao máximo a leve aragem que de vez em quando conseguia agitar, quase em agonia, a vegetação rasteira da estepe. Sentou-se com a espada fincada no chão, entre as pernas, e fechou os olhos. Não demorou muito para dormitar.

Talvez fosse devido aos seus sentidos sempre alerta, ou quem sabe fosse apenas por acaso, mas de repente acordou e olhou para cima. Uma sombra negra passava rápido sobre o disco prateado da lua. Foi coisa de um momento e ela não entendeu logo do que se tratava. A plena consciência chegou junto com o grito da sentinela:

— Estamos sendo atacados! — O grito morreu num estertor. Nihal arrancou a espada do chão e correu para os estábulos.

O que ela acabara de ver era um dragão! Estavam sendo atacados do céu! Cruzou com os rostos tensos dos guerreiros que saíam dos seus alojamentos, com os escudeiros que já haviam começado a arrear os dragões, com os soldados de infantaria que corriam de um lado para outro. E então chegaram os fâmins. Pareciam ter surgido do nada, investiam contra as tendas chacinando quem demorava a aprontar-se. De repente uma luz rasgou a noite e levantou um vento quente, insuportável. Uma parte do acampamento ardeu em chamas, enquanto lá no alto, acima deles, voavam os pássaros cospe-fogo. Não havia mais tempo, nem para Oarf nem para a armadura.

Nihal assumiu a posição de combate, usando somente a espada e confiando na escuridão para não ser vista. O seu coração acalmou-se, as suas percepções tornaram-se mais agudas e sentiu-se pronta para lutar. Investiu contra os fâmins decidida e segura.

O acampamento não conseguiu reagir ao ataque com a necessária rapidez. Muitos estavam atordoados pelas chamas, pela fumaça e pelo calor. Uma vez mais o exército do Tirano movimentara-se com astúcia e habilidade.

Nihal viu Ido avançar. Estava segurando a espada e plenamente consciente do que fazia. Abriu caminho com a costumeira calma, derrubando qualquer um que ficasse na sua frente, e juntou-se a ela.

— Um deles está cavalgando um dragão. É o que está incendiando as barracas. Vá pegar Oarf! — berrou.

— Não dá tempo, Ido!

— Vou lhe dar cobertura! Só pense em correr — disse o gnomo, e aí caiu como uma fúria em cima dos fâmins que ameaçavam a jovem.

Nihal saiu correndo rumo à estrebaria. Viu novamente a sombra obscurecer a lua e dominar ameaçadoramente o terreno. Foi então que se sentiu tomada por uma estranha sensação. No começo achou que era uma simples tontura, mas logo percebeu que era algo diferente. Acelerou as passadas. Abateu dois inimigos que queriam cortar-lhe o caminho e alcançou o dragão que já esperava por ela nervoso. Botou na cabeça um elmo que encontrou no chão: era aconselhável que encobrisse o rosto. Não precisou dizer nada, pulou na garupa de Oarf e os dois levantaram vôo na mesma hora em que o fogo também chegava aos estábulos.

Lá de cima a situação mostrou-se em toda a sua gravidade: metade do acampamento já estava à mercê das chamas e numerosos corpos pontilhavam o terreno; na outra metade o combate prosseguia furioso, mas os fâmins tinham uma superioridade numérica avassaladora. As suas patas cheias de garras brandiam espadas que soltavam reflexos avermelhados, diferentes das costumeiras. Nihal planou sobre o acampamento, Oarf pegou duas daquelas criaturas em vôo rasante e matou-as. Depois pousou rapidamente para apanhar Laio, que corria em busca de um abrigo.

— Agarre-se em mim e não me solte custe o que custar — ordenou Nihal.

Continuou a ceifar vítimas nas fileiras inimigas com o seu dragão, esforçando-se para não perder a calma, para manter a concentração. Mas era difícil: o espetáculo era horrendo e desanimador. Sentia os braços do amigo que a apertavam; tinha de levá-lo para algum lugar, em segurança. Viu uma clareira livre de inimigos e achou que era o lugar ideal.

— Vou deixá-lo ali — gritou. — Segure a espada bem firme e, se algum inimigo aparecer, cuide de matá-lo, entendeu? — Percebeu o rosto de Laio anuir nas suas costas.

Depois disso, voltou a levantar vôo para então mergulhar de cabeça na rinha.

Via-se forçada a lutar quase à altura do solo e dava-se conta do esforço das imensas asas de Oarf, mas não havia outro jeito. O acampamento todo estava em chamas. Só podia tentar vender sua pele o mais caro possível.

Já não sabia por quanto tempo lutava, quando de repente sentiu-se tomada de uma sensação opressora, com um coro de vozes enchendo sua cabeça. Aquele grito desesperado ecoou no seu cérebro. Esqueceu quem era e o que estava fazendo. A mesma sensação que experimentara no dia da queda de Salazar. Foi então que, cercada pelo crepitar das chamas, com as têmporas que pulsavam e a vista ofuscada, levantou os olhos e o viu.

Estava exatamente em cima dela, iluminado pelos fúnebres raios da lua. Parecia imenso: um dragão ainda mais negro do que o céu noturno no qual pairava. Com as enormes asas membranosas escancaradas, mantinha-se parado no ar e olhava fixamente para ela, com um olhar lúcido e desprovido de ódio que lhe gelou o sangue nas veias. Os olhos eram rubros de sangue, brilhantes como tições em brasa, e soltavam reflexos de uma luz sinistra. Um homem estava sentado no animal. Oarf, o dragão forte e poderoso, que nada receava na terra e no céu, estremeceu.

Fitaram-se por um curto instante, que a Nihal pareceu interminável. Sentia-se paralisada por aquela figura, incapaz de mexer-se. Um rasgo vermelho abriu-se na imensa mancha negra e o dragão escancarou a boca escarlate numa luminosa careta de escárnio. Nihal pôde então ver os olhos do homem: olhos pequenos e reluzentes, olhos de furão, olhos confiantes. Os gritos na sua mente tomaram conta dela, ensurdeceram-na. Não conseguiu entender mais nada, só viu um clarão vermelho que vinha ao encontro dela enquanto caía num abismo sem fundo. Um grito abafou a vozearia, um rugido que parecia uma risada de escárnio e de vitória.

Nihal se encontrava caída, protegida sob a asa de Oarf. Estava atordoada, não entendia nada e sentia uma forte dor em um dos braços.

— Nihal, o que houve? Está ferida?

A jovem olhou para Ido, aturdida, sem conseguir responder.

— Leve-a embora, Oarf, para algum lugar seguro — disse o gnomo, enquanto a deitava nas costas do animal.

Nihal segurou-se com todas as forças que lhe sobravam e tentou retomar posse dos próprios pensamentos; enquanto Oarf levantava vôo, viu o dragão negro baixar sobre o acampamento como a morte, espalhando destruição. Mais uma vez a gritaria em sua mente tornou-se insuportável. Então lembrou e entendeu: Salazar ao pôr-do-sol, a planície incendiada pelo sol e, ao longe, o exército do Tirano. Uma figura tenebrosa voava no alto: o mesmo dragão que agora tinha diante dos olhos.

Precisaram de uma noite inteira de combate acirrado para rechaçar o ataque. Tiveram de matar os fâmins um por um, pois para aquelas feras não existia retirada. O guerreiro na garupa do dragão negro abandonou-os logo antes do alvorecer, quando ficou patente que não conseguiriam conquistar o acampamento.

Os primeiros raios do sol inundaram o campo de batalha de uma luz impiedosa. Não sobrara uma única construção de pé. Haviam mantido a posição, mas nada mais do que isso. A base estava perdida.

Quando Nihal o viu, Ido perambulava pelos escombros fumegantes, exausto. Havia sido a alma da resistência e lutara sem um só momento de descanso, sem ligar para as feridas, o calor, o fogo, a morte. Agora estava esgotado. Mais um passo e iria desmoronar.

A jovem fez baixar Oarf e correu ao encontro do mestre.

— Você está bem, Ido? — perguntou preocupada, enquanto vistoriava uma a uma as feridas no corpo do gnomo.

— Não, não estou nada bem, mas tampouco estou tão mal quanto poderia parecer — respondeu com voz rouca. Olhou para ela e o seu olhar parou na vistosa queimadura do braço. — Você está ferida.

— Não foi nada — respondeu ela. — Agora precisamos ir embora. Ido sacudiu a cabeça.

— Não, alguém ainda pode estar vivo, no meio desta carnificina. Precisamos encontrar — murmurou —, temos que procurar...

Nihal interrompeu-o.

— Vamos, Ido. Vamos embora.

Os sobreviventes, umas cem pessoas, pouco mais do que a metade dos moradores originários do acampamento, foram reunidos numa clareira não muito longe dali. Havia sido uma derrota completa. A perda da base era irreparável e grande era o número dos feridos.

— O que houve afinal com você, Nihal? — perguntou Ido após recobrar-se.

O rosto da jovem assumiu uma expressão séria, enquanto ela lembrava a horrível sensação que experimentara diante do dragão negro.

— Então? — insistiu o gnomo.

— Conheço aquele guerreiro.

Uma sombra passou pelos olhos de Ido.

— Que guerreiro?

— O do dragão negro. Eu já o vi antes, Ido. Quando Salazar foi atacada pelo exército do Tirano, eu estava na cobertura da torre, junto com Senar. Vi as lanças dos fâmins reluzir na luz do pôr-do-sol. Vi o exército que chegava. E quem o comandava era aquele homem.

Ido permaneceu calado.

— Ontem à noite, quando fiquei diante dele, não consegui entender mais coisa alguma. Foi por isso que o dragão dele acertou-me.

— Dola — murmurou Ido. — O homem de ontem à noite chama-se Dola.

Nihal fitou o gnomo nos olhos.

— Senar falou-me a respeito. Dola... Quem destruiu a minha cidade foi ele. É por culpa dele que o meu pai morreu.

Ido agüentou aquele olhar, depois virou a cabeça e fechou os olhos.

Mudaram-se para um acampamento não muito distante dali, sempre ao longo da fronteira, mas um pouco mais para ocidente. Aguçando os ouvidos, dava para ouvir o barulho das impetuosas correntezas do Saar. Lá, Ido e Nihal tiveram o primeiro momento de pausa desde o dia em que começou o ataque. A partir daquela noite cada um dos dois, do seu jeito, ficara empenhado em amenizar da melhor forma possível a situação. Não se haviam deixado abater, tentando ao contrário reanimar os demais e ajudando os generais a recompor as fileiras do exército.

Nihal sabia que Ido apreciara bastante a maneira com que ela se portara. Nos seus gestos seguros, na sua calma determinação, o gnomo reconhecera que ela já era uma pessoa diferente, uma guerreira madura e confiável. Ela mesma, no entanto, não se sentia nem um pouco daquele jeito. O encontro com Dola deixara-a muito abalada, despertando lembranças insuportáveis.

— Não consigo tirar da cabeça a imagem daquele guerreiro no dia do ataque a Salazar — disse certa noite, enquanto olhava com

Ido para as estrelas no céu de verão. — Lembro-me muito bem, agora. Cavalgava o seu dragão negro e, abaixo dele, o exército alastrava-se como piche. — Virou-se para Ido. — Sabe o que ele fez com as pessoas da minha cidade? Trancou-as na torre em chamas e deixou-as queimar vivas. Todas elas: homens, mulheres, crianças. Ido deu uma tragada no cachimbo, com calma, e soltou uma nuvem compacta de fumaça.

— Todos os generais do Tirano portam-se desse jeito. Nihal levantou os olhos ao céu, pensativa.

— Acho que a gente deveria ir desentocá-lo. Vou pedir que o general organize uma expedição contra aquele monstro e vou querer participar dela.

Ido ficou por alguns instantes calado, aí soltou mais uma densa baforada.

— Acho uma péssima idéia.

— Por quê?

— Acha mesmo que este destacamento teria alguma possibilidade contra um inimigo como Dola? Olhe a sua volta, Nihal. Fomos dizimados, já gastamos todas as reservas das nossas energias. Não é uma boa hora para façanhas demonstrativas. Dola é um guerreiro poderoso, domina a Terra do Vento. E é impiedoso.

— Ido, aquele homem matou meu pai, chacinou os meus amigos, arrasou a minha cidade! — Sem dar-se conta Nihal levantara a voz. — É preciso detê-lo, e eu quero ser a pessoa responsável por isso!

Ido tirou o cachimbo da boca e ficou algum tempo de olhos fixos nela.

— Quem é que está falando, Nihal? — perguntou afinal. A jovem fitou-o sem entender.

— Eu... ora essa!

— Que parte de você? — insistiu o gnomo, escandindo as palavras. Nihal sentiu o rubor espalhar-se em seu rosto.

— Sei o que está pensando, mas não é nada disso.

— Não creio, pelo que está me dizendo — respondeu Ido.

— Não se trata de vingança — murmurou a jovem. Ido voltou a colocar o cachimbo na boca.

— E o que é, então?

— Justiça.

— Ouça, Nihal. Se algum dia houver uma expedição contra Dola, e não acredito que isso venha a acontecer, você poderá até partir com os melhores propósitos do mundo, convencida de estar levando a cabo uma mera missão de guerra, mas quando estiver cara a cara com aquele homem... — Ido deixou as palavras pairando no ar, então meneou a cabeça. — Não tente pôr-se à prova, Nihal. Não faça isso.

Depois daquela noite Nihal não voltou a tocar no assunto com o mestre, nem se atreveu a propor missões suicidas ao general, mas não podia apagar a imagem de Dola do seu coração nem da sua mente. A lembrança daquele imenso animal negro e dos seus olhos vermelhos que a fitavam das profundezas do inferno nunca a abandonava. Aqueles mesmos olhos talvez tivessem ficado impassíveis diante do cadáver de Livon, caído na forja numa poça de sangue, talvez tivessem visto os muitos habitantes de Salazar que ela conhecera antes de as chamas acabarem com as suas existências. A raiva formava um nó na sua garganta e forçava-a a dizer que era preciso tomar alguma providência. Sabia que Ido estava certo: sair em busca daquele homem era como brincar com o fogo. Também sabia que o seu desejo de vingança não esmorecera e só esperava por um momento como aquele para arrebatá-la de novo. Não era afinal por vingança que ela ansiava? Não queria então resgatar o sangue de todos os seus concidadãos que Dola levara a um horrendo fim? Não, não é bem assim. Dola é um inimigo e eu sou um Cavaleiro de Dragão. E por isto. E somente por isto.

A decisão de Nihal não demorou muito a amadurecer. Seria ela, cidadã criada em Salazar, a responsável pelo fim do reino de Dola. Faria com que a cidade destruída pelo Tirano tivesse a sua desforra sobre aquele que a reduzira a cinzas. Depois da queda de Dola, a reconquista da Terra do Vento pelo exército das Terras livres iria ser muito mais fácil.

Estava determinada e eletrizada pelo seu plano. Pela primeira vez depois de muito tempo sentia-se empenhada em alguma coisa importante. Talvez seja assim que nos sentimos quando corremos atrás de um ideal, quando sabemos em que direção estamos nos movendo na vida, dizia para si mesma.

Depois de encontrar todas as justificativas de que precisava, parou de pensar no assunto. Nada mais de perguntas, pois no fundo da alma sabia que as respostas que poderia encontrar não lhe agradariam.

Depois da noite funesta em que a base foi arrasada, houve um período de relativa calma. Os feridos voltaram a andar, os soldados sobreviventes foram reintegrados nas tropas do novo acampamento que os acolhera e os generais deram os retoques a novas estratégias.

Nihal teve a oportunidade de enfrentar Dola depois de quase um mês de inatividade. As altas patentes da base decidiram arriscar uma expedição contra um acampamento inimigo a oriente. Se conseguissem tomar aquele fortim, poderiam usá-lo como ponto de partida para tentar reconquistar o terreno perdido.

As reuniões para planejar a manobra começaram uma semana antes da data marcada para o ataque, e todos os Cavaleiros de Dragão participaram delas.

Pela primeira vez Nihal pôde dar a sua contribuição. Nunca se interessara por estratégias antes; na época da Academia as aulas teóricas eram para ela um grande aborrecimento. Mas agora, apesar de só ter passado um ano na frente de batalha, enfrentara muitos combates e certamente não lhe faltava experiência. Quando fez a sua proposta sobre como dispor as tropas para o próximo ataque, foi a primeira a achar que seria recusada.

O general, no entanto, depois de ouvi-la atentamente, disse que lhe parecia uma boa idéia.

— Você e Ido terão ao seu dispor as tropas da formação oriental, cem homens cada. Irão atacar quando nós começarmos a recuar, fechando sobre os lados — concluiu.

Ido tirou da boca o cachimbo, pasmo.

— É verão, mas esta noite vai nevar — ciciou a Nihal, então enfiou novamente o cachimbo na boca, com ar todo satisfeito.

Nihal mal conseguiu segurar um sorriso. Tinha uma dupla oportunidade: comandar uma tropa e, principalmente, botar as mãos em cima de Dola.

Na manhã da batalha o coração de Nihal parecia querer explodir no seu peito. Ela avançava na estepe, no comando dos seus soldados, com Oarf atrás, e procurava inutilmente acalmar-se. Até aquele dia sempre conseguira refrear-se. Era o que Ido lhe havia ensinado: frieza, cuidadosa prudência, autocontrole. Naquela manhã, no entanto, não conseguia manter a concentração por mais de uns poucos minutos. Desde que acordara não tinha parado um só momento de pensar em Senar. Ocorria toda vez que alguma coisa importante estava a ponto de acontecer ou então quando tinha de fazer uma escolha decisiva na vida: perguntava a si mesma o que ele faria no lugar dela. Desde que o mago partira, porém, também ficava imaginando se jamais voltaria a vê-lo.

Quanto a Ido, que avançava ao seu lado, parecia a própria imagem da tranqüilidade. Fumava o seu cachimbo sentado na garupa de Vesa, que enfrentava fleumático aquela andança na estepe.

O gnomo virou os olhos para ela bem na hora em que Nihal enxugava o suor da fronte. Estava pálida.

— Tudo bem?

— Sim, claro. E o calor...

— Já fazia algum tempo que não a via tão agitada. Ela levantou o rosto e tentou sorrir.

— É a primeira vez que fico no comando de uma tropa — respondeu, mas Ido continuava a observá-la. Nihal perguntou a si mesma como é que ele podia sempre perceber o que se passava com ela. Justamente como Senar...

— É uma batalha como qualquer outra — disse o gnomo. Nihal estirou mais uma vez os lábios naquele insuportável sorriso forçado que não conseguia reprimir toda vez que escondia alguma coisa do seu mestre.

Quando já podiam avistar o acampamento que deviam atacar, uma linha de cor ocre no horizonte, a cabeça de Nihal esvaziou-se por completo e seu coração passou a bater com regularidade. Pararam no topo de uma colina, à espera. Podiam ver aos seus pés uma extensão de tendas de um marrom apagado, pelo menos umas cinqüenta, espalhadas em círculos concêntricos num raio de meia légua. O fedor dos animais que lá viviam chegava até eles e trancava a garganta. No meio, uma construção de madeira escura. Dola. Aquela é a cabana de Dola, pensou Nihal, e seu coração voltou a galopar.

A batalha começou. Enquanto a infantaria descia correndo e devorava a planície a largas passadas rumo ao acampamento, Nihal desembainhou a espada. Na luz resplandecente do sol de verão, o reflexo da lâmina chegava a ofuscar. A jovem montou na garupa de Oarf e foi ladeada por Vesa. Ido também sacara a espada e segurava-a agora com mão firme. Nihal já se perguntara muitas vezes onde poderia ele ter encontrado uma arma como aquela: havia estranhos símbolos na empunhadura, alguns toscamente riscados, outros gravados em profundidade. Talvez fossem runas de alguma língua que ela desconhecia.

— Avançaremos ao primeiro sinal de retirada — disse Ido aos soldados.

Nihal apertou o cabo da espada.

A hora do ataque chegou. O contingente guiado pelo gnomo e pela semi-elfo deu um pulo adiante gritando. Aquilo teve o efeito esperado: quem estava empenhado no combate na planície não esperava por uma segunda frente de batalha. As primeiras linhas conseguiram penetrar no acampamento sem maiores dificuldades.

Na garupa de Oarf, Nihal lutava como de costume, derrubando qualquer um que lhe barrasse o caminho, mas ao mesmo tempo olhava a sua volta. Não parecia haver sombra do dragão negro e do seu cavaleiro, e Nihal achou estranho que num momento tão grave Dola não estivesse ali para dar apoio aos seus soldados. Havia, entre eles, um bom número de homens e outros tantos gnomos. Haviam-se vendido ao Tirano, lutavam contra as próprias Terras. Nihal ficou imaginando o que poderiam encontrar de tão fascinante naquele homem.

Esforçava-se para ficar concentrada na batalha e guiar os homens que lhe haviam sido confiados, mas seus olhos não se cansavam de olhar para todos os lados.

De repente, de um grupo de barracas ao longe, levantou-se uma língua de fogo que atropelou todos os que estavam lutando no chão, soldados das Terras livres e fâmins, queimando tudo e todos.

O pesadelo negro pareceu surgir das chamas, como um demônio, e subiu ao céu com umas poucas, poderosas, batidas das asas. Nihal sentiu um nó na garganta. Dola fazia a sua entrada na batalha, armado com uma longa lança e completamente coberto por uma armadura escura que nada deixava vislumbrar do seu corpo. O rugido possante do dragão encheu o ar e, apesar de o sol brilhar, as trevas pareceram tomar conta do campo.

Nihal incitou Oarf enquanto mil vozes retumbavam na sua cabeça.

— Dola! — gritou a plenos pulmões, e então lançou-se contra ele brandindo a espada.

O primeiro golpe errou o alvo, pois o cavaleiro esquivou-se com facilidade. Nihal manteve-se perto. O suor escorria farto pelas suas faces, sentia-se cada vez mais tomada de fúria. Mandou Oarf diminuir a velocidade e deu meia-volta. O inimigo estava agora bem diante dela. Usava uma máscara terrível, escura como a noite, sob a qual brilhavam dois pontos luminosos que a perscrutavam, indecifráveis.

Nihal achou que Dola estava rindo. Pois é, rindo dela, da sua espada, do seu dragão, da sua cidade. Um berro raivoso subiu pela sua garganta. Investiu contra ele, e nesta altura quem começou a rir foi o dragão negro. Escancarou a boca de vulcão e vomitou em cima dela uma labareda vermelha como sangue. Oarf evitou a chama com uma brusca virada e Nihal partiu para um novo ataque. Mais uma vez o guerreiro evitou o golpe. Sob a máscara ecoou uma risada de escárnio.

— Não fique rindo de mim! — gritou Nihal, para então levantar a espada e arremeter contra Dola com fúria. A raiva deixou-a totalmente descontrolada. Calma! Fique calma, ora essa! Os seus golpes erravam repetidamente o alvo, enquanto os do adversário eram vigorosos e faziam com que ela corresse a cada vez o risco de cair. Aquele homem era provido de uma força que Nihal jamais encontrara em qualquer outro inimigo, uma força tamanha que teve de segurar a espada com ambas as mãos para conseguir enfrentá-la. Mas o corpo dele era estranho. Seus braços e suas pernas não eram normais.

Nihal levou algum tempo para entender: Dola tinha a mesma altura, as mesmas proporções de Ido. O guerreiro mais poderoso do exército do Tirano era um gnomo.

Nihal começava a ficar cansada e sentia-se cada vez mais furiosa. Por que não conseguia feri-lo? O gnomo não se irritava, parecia nem ligar, e só respondia aos golpes com desdém, com apenas uma das mãos. As vozes incitavam-na a dar tudo de si mesma, a entregar-se completamente àquela batalha. Fazia de tudo para manter-se lúcida, mas seu coração batia como louco, seus músculos tremiam de tensão. Agora! Acerte nele agora!

Quando a lâmina de cristal negro conseguiu afinal rasgar a armadura daquele ser, Nihal gritou feliz, mas o grito morreu em seus lábios. Dola mostrou-lhe o braço com empáfia. Diante dos olhos incrédulos da jovem, o corte consertou-se sozinho e desapareceu.

As vozes tomaram conta dela, aturdiram-na, e o desespero venceu-a como maré incontrolável. Percebeu o gemido de Oarf, com o sangue dele que lhe molhava a coxa. Foi então que Nihal perdeu a cabeça. Soltou um berro, preparou um fendente de cima para baixo e deu o golpe com toda a força de que dispunha. Dola limitou-se a levantar o braço e parou o ataque com uma só mão. Estavam muito perto. Nihal podia sentir a respiração regular do adversário e por um momento pôde vislumbrar o sorriso dele, maldoso e escarnecedor através do elmo.

Então uma dor insuportável passou pelo seu corpo todo. Nihal piscou uma, duas vezes. Ainda conseguiu ver a lança do gnomo sendo puxada devagar do seu corpo. Nem se deu conta de que estava caindo para trás.

Caiu no acampamento inimigo, desmaiada, no meio de um monte de outros corpos sem vida. Desta vez Oarf não estava lá para amortecer a sua queda. O dragão estava no chão, com uma perna inútil, ferida. Cuspiu fogo e chamas para manter os fâmins longe do corpo da sua companheira. Pegou-a então entre os dentes e começou a arrastá-la penosamente na poeira. Não parou até achar que estavam seguros, longe do campo de batalha.

 

                     A CONVALESCÊNCIA DE NIHAL

Durante o delírio, Nihal foi atormentada pelos olhos ardentes do dragão negro e pelos gélidos e maldosos de Dola. Parecia-lhe vê-los a persegui-la e escarnecê-la no escuro. No sonho, via a si mesma fugindo por uma escuridão sem fim. Ouvia os próprios passos retumbando sobre um chão invisível e, por mais que corresse, o bafo do dragão negro ficava cada vez mais próximo, um sopro de fogo que a perseguia até envolvê-la e dilacerar a sua carne.

E em seguida mais imagens de morte. Salazar, que implodia e desmoronava esfacelada pelo incêndio. Livon, que lhe dizia: “Você ainda não me vingou.” O seu povo que repetia, como numa ladainha: “Onde está o sangue de quem derramou o nosso? Onde está a vida de quem apagou a nossa?”

Foi um pesadelo interminável. Depois, pouco a pouco, o estrondo e os gritos esmoreceram. O terror que tomara conta dela apagou-se. No fim sobraram apenas escuridão, silêncio e calma.

Talvez esta seja a morte. Morri.

Quando entreabriu as pestanas, a luz do dia feriu seus olhos.

Estava numa barraca, alguém segurava sua mão. Virou a cabeça devagar.

— Laio... — sussurrou.

— Está tudo bem — respondeu o rapaz, enquanto lhe acariciava os cabelos. — Tudo bem. De verdade.

O murmúrio dele ajudou-a a adormecer de novo e a entregar-se a um sono finalmente sereno.

Depois de recobrar os sentidos e de a ardência da ferida tornar-se suportável, pôde ouvir de Laio a dinâmica da sua salvação. Oarf levara-a até a retaguarda e a deixara aos cuidados dos escudeiros.

— Como está ele? — perguntou preocupada.

— O ferimento era grave, mas o perigo já passou — disse o rapaz. Em seguida, olhou para ela com ar de repreensão. — O que deu em você, Nihal?

— Como assim? Não estou entendendo — respondeu ela. Laio sacudiu a cabeça.

— Não tente me fazer de bobo, Nihal. Aquele homem é forte demais para você, não devia deixar-se levar daquele jeito.

Nihal ficou calada. Estava furiosa, entregue a uma ira cega e avassaladora.

Não só Dola a vencera como também tinha ferido o dragão dela. Não podia tolerar a idéia de Oarf também ter corrido o risco de morrer pelas mãos daquele homem. Destruí-lo já não era um mero desafio: agora era uma obrigação.

Alguns dias depois Ido também chegou à sua cabeceira. O gnomo tampouco estava em boas condições: tinha um ferimento feio no braço e parecia esgotado.

— Desta vez deixou-me realmente preocupado, ora essa! — foi logo dizendo ao entrar.

Nihal riu, mas o gnomo não respondeu com a mesma jovialidade.

— Como foi a batalha? — perguntou ela então para mudar de assunto.

— Na mesma noite em que você ficou ferida decidimos recuar e montamos este acampamento — disse enquanto sentava-se ao lado do catre. — O nosso ataque fracassou e a batalha tornou-se um cerco. No momento, estamos numa situação de impasse.

— Quem cuidou de mim?

— Gana. Como estrategista é um fracasso, mas como mago até que se sai bem.

Nihal olhou para os cobertores.

— Ido, a lança de Dola furou a minha armadura.

— Eu sei. Todo um lado do seu corpo ficou dilacerado.

— Mas o cristal negro é o material mais resistente do Mundo Emerso. Como foi possível que...

— Nihal, Dola não é um guerreiro qualquer. Mantém um relacionamento constante com o Tirano. Superou muitos limites, muitos mais do que você possa imaginar. Foi por isto que lhe aconselhei evitá-lo. — Ido lançou-lhe uma olhada de desaprovação.

Nihal compreendeu que o seu mestre não queria piorar as coisas, mas que também desaprovava vivamente a bravata que a levara àquela cama.

— Estávamos muito perto quando me acertou. Teve tempo de sobra para mirar com calma, não podia errar o alvo — disse a jovem. — Sabe o que isto significa? — insistiu, mas ele manteve-se obstinadamente calado. — Responda, Ido: ele me poupou? — Silêncio. — Eu lhe fiz uma pergunta. Dola me poupou?

— Não faz diferença.

— Para mim faz. Feriu o meu dragão e fez troça comigo, assim como escarneceu todo o povo da minha cidade! — Nihal levantou a voz. — Foi por isto que me deixou viver. Para deixar bem claro que para ele não represento nada, que nem mesmo chego a ser uma ameaça!

Uma fisgada no flanco forçou-a a calar-se.

— Sim, isso mesmo, ele a poupou! — desabafou Ido. — E daí? Agradeça ao céu por ainda estar viva.

— Dola é um gnomo, você sabia? — perguntou Nihal.

Ido levantou-se sem mais uma palavra e dirigiu-se para a saída.

— Espere! Você o conhece, já lutou com ele? Por que diabo não quer falar a respeito?

Ido virou-se irritado.

— Não o conheço! E estou preocupado com você. Será possível que você não entenda o que está acontecendo?

Nihal lembrou-se dos pesadelos que tinha tido enquanto estava lutando.

— Não quero que você fique aqui — disse Ido para encerrar o assunto. — Pedi que lhe outorgassem uma licença de duas semanas, que você irá passar na Terra da Água. Poderá recobrar-se e só voltará depois de esquecer esta história toda.

Nihal tentou levantar-se na almofada.

— Não! Eu... — A dor deixou-a sem fôlego. Empalideceu. Ido voltou atrás. Já não estava zangado ou decepcionado.

— Só quero que você reflita, Nihal. Dê um tempo e pense em tudo aquilo que conquistou nestes últimos meses. Só isto. Vai partir amanhã — disse sem esperar por uma resposta e saiu.

Laio insistiu para ir com ela, e Nihal, por sua vez, fez um escarcéu para levar Oarf consigo. Acabaram tendo de contentar seja o escudeiro, seja o Cavaleiro, e partiram todos juntos, acompanhados por um guia. Quando Nihal viu Oarf ficou comovida. A jovem não podia mexer-se, mas teria gostado de pendurar-se no grande pescoço do dragão para pedir desculpas. Ficou olhando para ele de olhos embaçados enquanto também a fitava, branca como um lençol e deitada na maca, quase a dizer-lhe que um Cavaleiro e o seu dragão partilham do mesmo destino, e que era normal, portanto, que os dois estivessem feridos.

O mago que cuidara de Oarf havia sido realmente bom, talvez até melhor do que aquele que cuidara de Nihal. Uma longa cicatriz aparecia na sua pata, mas o dragão já podia ser considerado curado.

Foi uma viagem agradável. A maca que havia sido preparada para Nihal era confortável e permitia-lhe admirar a vista: a paisagem da Terra da Água, que já se via ao longe, riscada por suas mil nascentes, era sempre um espetáculo de tirar o fôlego. Depois dos campos de batalha, diante daquele panorama maravilhoso, Nihal lembrou que havia uma vida sem guerra, uma vida da qual, talvez, algum dia, quando já não precisasse procurar a si mesma no suor do combate, ela também participaria. A primeira vez que a jovem havia viajado da Terra do Vento para a Terra da Água, três anos antes, a passagem de uma para a outra era quase imperceptível, mas agora as coisas haviam mudado bastante. Passava-se de repente da esqualidez das estepes queimadas pelo fogo de muitas batalhas para o viço de uma terra ainda virgem e fecunda. Na fronteira, quase a marcar a passagem de um reino para outro, Nihal viu uma espécie de barreira azulada.

— O que é aquilo? — perguntou ao guia.

— O quê?

Nihal puxou um braço fora do cobertor.

— Aquele risco lá embaixo — disse apontando.

— Você é uma maga? — quis saber o homem.

— Não. Digamos apenas que conheço alguma coisa de magia — respondeu Nihal.

— Ah, então é isso. É a barreira que as ninfas da Terra da Água levantaram contra o exército do Tirano. Só quem entende de magia pode vê-la.

— Eu não estou vendo nada — disse Laio, que se debruçara da sela apertando os olhos para o horizonte.

— Um grupo de ninfas encarrega-se de mantê-la erguida sem parar, noite e dia.

Se aguçasse a vista, Nihal podia até vê-las, aquelas evanescentes figuras da água. Estavam de pé a algumas braças de distância da barreira, eretas em toda a sua beleza, as mãos diáfanas viradas para a fronteira. Seus rostos estavam absortos e os longos cabelos ondulavam no sopro do vento. Daqueles rostos concentrados emanava um sentido de melancolia, de coisas perdidas para sempre, de vidas consumidas no sacrifício e na solidão.

Nihal percebeu aquele sentimento avançar para ela como neblina num vale, para então envolvê-la. Teve uma tontura e pareceu-lhe ouvir as vozes daquelas criaturas que haviam escolhido o sacrifício e renunciado à vida, mas que não podiam esquecer a doçura de uma existência normal. Chegou até ela o eco de uma ladainha imensamente triste e ouviu as palavras da fórmula com a qual as ninfas mantinham erguida a barreira. Era um canto pungente, carregado de dignidade e de dor.

Nihal conhecia muito bem a aflição de quem perdeu alguma coisa que nunca mais poderá voltar a ter. Desviou o olhar daquelas criaturas infelizes.

Estabeleceram-se num vilarejo não muito longe da fronteira. Logo atrás das casas havia um bosque entre cujas árvores as ninfas encontravam repouso. Uma espécie de base do exército completava o panorama.

Nihal passou os primeiros dias acamada e aquele repouso forçado não foi afinal nem um pouco desagradável. Estava cansada e enfraquecida demais para pensar em qualquer outra coisa que não fosse um rápido restabelecimento.

Algumas ninfas encarregaram-se de cuidar da sua ferida. Na primeira vez que uma delas chegou ao pequeno alojamento dizendo que estava ali para curá-la, a semi-elfo ficou surpresa. A etérea criatura aproximou-se devagar, avançando como se estivesse pairando no ar. Em seguida, tocou nela. Nihal nunca tivera antes um contato físico com as ninfas. Pareciam feitas de água pura e ela sempre pensara que fossem quase impalpáveis. A mão que pousou delicadamente no seu flanco, no entanto, era fria, mas sem dúvida alguma corpórea e tangível. A sensação de refrigério que transmitia pulsava de vida e brindou-a com um bem-estar que nem mesmo as mais poderosas fórmulas de cura de Senar haviam conseguido proporcionar-lhe.

— É uma mágica? — perguntou Nihal. A ninfa sorriu.

— Se assim quiser chamá-la... Para vocês humanos falar de magia faz sentido: vocês estão separados das forças naturais, não podem perceber a vida que escorre na terra ou nas árvores ou na água que é a nossa mãe. Para nós, entretanto, é diferente: nós mesmas somos natureza, e portanto somos aquilo que vocês chamam de magia.

Graças àqueles cuidados Nihal pôde muito em breve levantar-se da cama, mas logo que o fez o seu espírito irrequieto recomeçou a atormentá-la. Tinha uma licença de duas semanas, e nem a primeira ainda chegara ao fim. Perguntava a si mesma como poderia agüentar. Nos primeiros dias de convalescença não havia pensado muito no assunto, mas agora as lembranças da sua derrota obcecavam-na. Parecia-lhe estar vendo a expressão escarnecedora do dragão e os olhos de Dola, e dizia para si mesma que o jogo ainda não terminara.

Começou a perambular pelas redondezas do vilarejo, acompanhando o curso dos mil regatos que sulcavam aquela terra. O fio dos seus pensamentos desenrolava-se de forma tão tortuosa quanto os meandros daquelas águas e girava constantemente em volta de uma idéia fixa: Dola. Nem mesmo o esplendor da paisagem conseguia tirar da sua cabeça aquele nome. Não podia tolerar o fato de Dola continuar vivo e livre para fazer o que bem entendesse na Terra do Vento, na sua pátria, no seu lar. Não iria ter sossego até derrotá-lo.

Havia uma coisa, no entanto, que a deixava muito preocupada: a armadura do gnomo. Quando conseguira golpeá-la, a amassadura consertara-se sozinha. Devia ser mais um feitiço do Tirano. Com um inimigo daqueles a espada já não bastava: seria preciso recorrer à magia.

Certa noite, enquanto se atormentava tentando imaginar quem poderia porventura ajudá-la a encontrar uma solução, todas as peças de repente se encaixaram.

Quem sabe eu devesse voltar a biblioteca de Makrat. Poderia inventar um jeito para distrair aquele insuportável bibliotecário e consultar os livros negros, aqueles do setor proibido. Ali deve haver sem dúvida fórmulas capazes de...

Nihal teve um sobressalto. Como pôde não pensar aquilo antes? Megisto! Segundo os Anais da luta contra o Tirano, ainda estava vivo, aprisionado não se sabe onde, justamente na Terra da Água. Era Megisto que ela tinha de procurar! Quem melhor do que ele podia conhecer a magia do Tirano? Quem mais, a não ser um mago que havia sido fiel servidor dele?

No dia seguinte, enquanto estava entregue aos costumeiros cuidados da ninfa, Nihal criou coragem e decidiu tentar.

— Estou procurando uma pessoa. Quem sabe você possa ajudar-me a encontrá-la...

A ninfa continuou os seus afazeres, passando suavemente a mão sobre a ferida.

Nihal interpretou aquele silêncio como um incentivo a prosseguir.

— Trata-se de Megisto — disse de uma vez.

As mãos da ninfa tiveram um estremecimento.

— Megisto é um renegado — disse sem levantar os olhos da ferida.

— Eu sei. Preciso falar com ele. A ninfa sacudiu a cabeça.

— Você não deveria procurá-lo por motivo algum. Ninguém deveria.

— Ouça, eu lhe peço — insistiu Nihal. — Quem me deixou neste estado é um terrível inimigo, um dos guerreiros mais cruéis do Tirano. Terei de enfrentá-lo de novo e quero derrotá-lo. Mas para fazer isso preciso dos conselhos de quem conhece as fórmulas proibidas. Preciso realmente saber... Por favor, diga-me onde posso encontrá-lo.

A ninfa ficou um bom tempo calada, tanto que Nihal julgou ter fracassado na sua tentativa. Então, quando acabou, levantou-se e dirigiu-se à saída do aposento, em silêncio, com uma expressão imperscrutável no rosto.

Ao chegar à porta, virou-se para a jovem.

— No lugar mais escuro do bosque, ao norte deste acampamento, há uma pequena clareira — disse com um fio de voz. — Não há como errar, poderá reconhecê-la porque ela tem uma pedra bem no meio. Chegue lá ao surgir da lua e espere. Encontrá-lo-á sem precisar procurar.

Nihal sorriu.

— Fico-lhe realmente grata.

— Não pense que lhe fiz um favor — murmurou a ninfa e saiu.

Nihal já não via a hora. O sol mal começara a se pôr quando, envolvida na capa apesar do calor, esgueirou-se para fora da barraca e alcançou o alpendre no limiar do vilarejo que havia sido destinado a estábulo de Oarf. Logo que a viu, o dragão ergueu-se em toda a sua majestosa altura e recebeu-a com um grunhido de satisfação.

— Estou saindo à caça de pedras, Oarf. Quer ir comigo? O dragão baixou a cabeça para deixá-la montar.

— O que seria de mim sem você? — disse Nihal com um sorriso. Levantaram vôo e tomaram o rumo do norte, sobrevoando a floresta em baixa altitude. Na luz do crepúsculo o bosque assumia tons mais sombrios e no céu em chamas só ressoavam os chamados dos pássaros e a batida regular das asas de Oarf.

Nihal mantinha os olhos cravados no solo. Lá de cima viu uma densa teia de regatos, um pequeno planalto, fileiras ordenadas de árvores e espessas concentrações de vegetação. Reconheceu até a falha rochosa onde Laio ficara aprisionado. Continuou aguçando a vista, até localizar o lugar que estava procurando: uma verde clareira irregular, cercada por árvores altaneiras, no meio da qual havia uma grande pedra.

Mandou Oarf pousar ao lado da rocha e desmontou com alguma dificuldade, pois o ferimento ainda doía.

Olhou em volta. “Encontrar-lo-á sem precisar procurar”, dissera a ninfa. O mago já devia estar por lá, mas na clareira reinava o mais completo silêncio e não havia sombra de qualquer presença humana.

Nihal ficou nervosa. Não sabia o que fazer. Sentou-se diante da grande pedra com Oarf, que olhava para ela com ar interrogativo.

O sol desapareceu do céu, as sombras alongaram-se no chão, a noite chegou devagar, mas Megisto não apareceu.

Nihal poderia até ter adormecido se não fosse pela raiva que fazia ferver o seu sangue. Pelo que sabia, as ninfas não tinham o menor pendor pela mentira, mas já desconfiava que aquela criatura a enganara.

Então de repente, quando o primeiro raio da lua roçou na sua superfície, a pedra diante da qual agachara-se pareceu ter um imperceptível estremecimento. A jovem piscou incrédula, não acreditando nos próprios olhos, mas justamente naquela hora, pouco a pouco e sem qualquer barulho, na pedra apareceu o semblante de um rosto, um tronco, as extremidades e finalmente a figura de um homem.

Quando a luz prateada acabou de iluminá-la por completo, a pedra levou a cabo a sua metamorfose e transformou-se num velho alquebrado, com o rosto marcado pelas rugas, uma barba branca extraordinariamente comprida e pesadas correntes que lhe apertavam os pulsos e os tornozelos. Nihal tratou de recuperar o fôlego. Conhecia aquele homem, pois ele a salvara dos bandidos e a curara. O velho da gruta era Megisto.

 

                         A DESCIDA AO INFERNO

O velho sorriu para Nihal.

— Parabéns pelas armadilhas, não pensei que pudesse bolar uma coisa daquelas. Presumo que conseguiu libertar o seu amigo...

Nihal ficou sem fôlego: só de pensar que permanecera por vários dias nas mãos de um homem do Tirano ficava toda arrepiada.

— Megisto... — murmurou. O velho não parou de sorrir.

— Pois é, Megisto. O renegado, o maldito, o antigo exterminador de ninfas...

A jovem continuava a olhar para ele, emudecida. O velho sentou-se com calma na grama.

— Não sei dizer o porquê, mas sentia que voltaríamos a nos ver. Então? Veio desobrigar-se do fato de eu ter salvado a sua vida? — disse com ironia.

Nihal sacudiu a cabeça para dizer que se tratava de outra coisa.

— Pois é, já imaginava. E ao que devo então a honra da sua visita?

Nihal continuava perturbada, mas tentou assumir uma expressão segura.

— Sei que conhece a magia do Tirano — disse olhando fixamente para ele. — Preciso da sua ajuda para enfrentar um feitiço dele.

Ao ouvir aquilo Megisto mudou de expressão e seus olhos, de bondosos, tornaram-se severos.

— Por quê? Nihal hesitou.

— Porque... porque sou um Cavaleiro de Dragão e luto contra o exército dele.

O velho deu uma rápida olhada em Oarf.

— Se foi por isso que veio aqui, você pode ir logo embora. Não tenho a menor intenção de revelar coisa alguma daquilo que me levou a este triste destino.

Nihal tirou a capa e ficou apenas com seus trajes de guerra, o corpete negro e as calças de couro. A espada que levava à cintura brilhava no escuro.

— Deixe-me pelo menos contar a história toda.

O velho perscrutou-a como se quisesse entrar na sua alma. Ela odiava ser olhada daquele jeito. Depois de alguns intermináveis instantes, viu-o dar de ombros.

— Que seja, vamos ouvir o que tem a dizer — suspirou Megisto enquanto se ajeitava no chão, de pernas cruzadas. Agora estava absorto e atento, à espera.

Nihal falou longamente de Dola, da couraça que se consertava sozinha, da lança que trespassara a sua armadura de cristal negro.

— Quase matou-me, Megisto — concluiu. Esperava que o velho dissesse alguma coisa, mas ele continuou a olhar para ela sem qualquer expressão. — Em resumo, quero saber como posso vencê-lo.

O velho suspirou ruidosamente.

— Sinto muito. Não posso ajudá-la.

— Não pode ou não quer?

— Por que deseja derrotar aquele homem? — perguntou Megisto.

— Porque é um inimigo, ora essa! E o chefe do exército contra o qual estou lutando.

— Por que quer derrotar aquele homem? — voltou a perguntar Megisto, sem importar-se com aquela resposta.

A jovem perdeu as estribeiras.

— Acabo de dizer! Porque sou um Cavaleiro de Dragão!

— O que impele você, Nihal, é um sentimento diferente —disse Megisto meneando a cabeça. — Aquilo que você realmente quer é vingança.

— Para mim ele é um inimigo como qualquer outro! Eu...

— Quer vê-lo implorar, quer que lhe peça misericórdia — interrompeu-a o velho.

— Não é verdade!

— E quando estiver ferido aos seus pés... —Não!

— Vai querer cortar a sua garganta e ver o seu sangue formando uma poça no chão. E quando ele estiver morto, você irá sorrir e achar-se-á finalmente vingada.

— Não é nada disso! — gritou Nihal.

— Não minta para mim! — trovejou o velho. Nihal fitou-o de olhos arregalados, perdidos.

Quando o velho retomou a palavra tinha um tom grave, solene.

— Sei que está de boa-fé, Nihal, sei disso. Mas no seu coração há uma fera apenas adormecida. O sono dela é muito leve, acredite em mim. Quando aquele homem estiver caído, diante de você, a fera despertará e comerá o seu coração.

— Já não sou a mesma de antigamente... — murmurou ela, como se falasse para si mesma.

— Não pense que não sei disso — continuou o velho. — Conheço a sua aflição. A mesma fera cruel que vive dentro de você trouxe-me a este bosque e prendeu os meus pulsos. — Levantou as mãos e as pesadas argolas de metal tilintaram. — Já fui um mago, no passado. Um mago medíocre que se interessava principalmente pela história. Certo dia um homem teve a infelicidade de prejudicar-me. A vingança tornou-se a minha única razão de viver. Não era por mim que eu a queria, mas sim pelas pessoas que aquele homem tirara de mim. Aproximei-me das fórmulas proibidas e juntei-me ao Tirano. Ele me deu grandes poderes e eu estudei, Nihal, estudei com o mesmo empenho com que antes havia estudado a história deste mundo, e o poder obscuro foi-me totalmente revelado. Começou então a espera. Aguardava o dia em que iria vingar-me, já saboreava o momento em que iria ver aquele homem morrer por minha mão. Ah, foi uma longa espera! Afinal aquele dia chegou. Quando o matei ouvi o meu coração cantar, mas foi uma breve melodia. A minha ira não se aplacou e nunca mais iria aplacar-se. O sangue é como ambrosia, Nihal, e você bem sabe disso: depois que experimentou uma vez, fica escravo dele para sempre. Continuei matando e cada vez que usava a magia para destruir uma vida, o poder obscuro parecia aumentar em mim, pois isso faz parte da sua natureza. Matei em nome do Tirano e do meu. Quem finalmente me deteve foram as ninfas. — O velho virou os olhos para o céu e por um momento o reflexo da lua tornou-os brancos. —Foi um mago do Conselho a impor-me este feitiço. Fez com que me transformasse em pedra, só podendo voltar a ser homem durante a noite.

Nihal não estava entendendo.

— E por que não aproveitou a noite para fugir?

— Tentei. Fiquei tentando por anos a fio. Toda vez que conseguia superar os confins da floresta, logo que os primeiros raios de sol apareciam no céu, voltava invariavelmente para esta clareira, petrificado. — O velho teve um sorriso amargo. — Então o tempo passou, a juventude se foi. Hoje em dia agradeço a quem me condenou a este tormento, pois livrou-me da escravidão da morte e devolveu-me a mim mesmo. — Megisto fitou Nihal nos olhos. —Mas aqueles que matei não voltarão, Nihal, e não há pena capaz de devolver-lhes a vida.

Nihal agüentou aquele olhar por alguns instantes, depois baixou a cabeça.

— Sinto que Dola só poderá tombar pelas minhas mãos. Eu sinto isso, está entendendo?

— Continue procurando por si mesma, Cavaleiro. Só percorreu um curto trecho da sua viagem para alcançar a verdade.

— Mas é justamente aquilo que estou fazendo, eu continuo a procurar por mim mesma! Não é por vingança que quero deter Dola! — replicou Nihal alterada. — Houve um tempo em que eu combatia pelos mortos, Megisto. Agora combato por mim mesma. Mas quanto a Dola quero vencê-lo pelos que vivem sob o seu jugo.

O velho olhou para ela.

— Continue.

— Juro que não irei matá-lo, Megisto — disse ela, mais calma. — Não procurarei a vingança no sangue. Levá-lo-ei vivo ao acampamento e a partir de então o destino dele já não dependerá de mim. Por isso eu lhe peço: ajude-me.

Megisto ficou perdido em seus pensamentos por um tempo que Nihal achou uma eternidade.

— Volte amanhã à noite — disse afinal, quando a aurora já começava a pintar o céu de um azul intenso.

A jovem levantou-se e voltou a vestir a capa.

— Obrigada — disse à pedra que até pouco antes havia sido o velho.

Depois da noite insone, Nihal dormiu até a hora do almoço. Quando saiu da cabana Laio esquadrinhou-a da cabeça aos pés.

— O que está havendo? Mudou de repente os seus hábitos, Cavaleiro?

— Estava cansada — respondeu ela mantendo-se vaga. Laio sempre apoiara as suas escolhas, mas Nihal tinha todas as razões do mundo para achar que desta vez não estaria de acordo.

Esperou até a noite com impaciência, e logo que ficou escuro montou em Oarf e foi até a clareira.

— Cheguei a esperar que você não viesse — disse Megisto quando a viu chegar.

— Não tenho o hábito de desistir tão fácil — respondeu Nihal.

— Estou vendo — comentou o velho, deixando transparecer um sorriso. — Agora escute.

Nihal sentou-se diante de Megisto, como já tinha feito na noite anterior.

— A magia que vou lhe ensinar é fruto da escuridão. — O velho dirigiu-se a Nihal com um olhar severo. — Está baseada no ódio e é nele que ela encontra a sua força. Para conseguir evocá-la, terá de recorrer ao ódio e ao desespero que existem em você mesma. Terá de lembrar tudo aquilo de que se esqueceu, deverá desenterrar todas as sombras que guardou no fundo do coração e entregar-se àquela parte de você que está fazendo o possível para roubar-lhe a sua alma. — Megisto fez uma pausa. — Agora que sabe, Nihal, ainda quer conhecer a fórmula proibida?

— Quero — foi a resposta decidida de Nihal. — Vamos começar.

— Ainda não acabei — continuou o velho. — Ontem você fez um juramento. Quero acreditar na sua palavra, mas também sei que seu coração é frágil. Não quero que haja mais mortes pesando na minha alma. Quando você souber tudo o que quer conhecer, irei impor um encanto inibitório: se tentar usar esta fórmula mais de uma vez, irá morrer.

— Concordo — respondeu ela sem hesitar.

— Que seja, então — suspirou Megisto. — Saiba que será como mergulhar num abismo. Espero que seja bastante forte para agüentar.

Um arrepio correu pelas costas de Nihal. A idéia de voltar a ser a mesma de alguns meses antes apavorava-a, mas dos seus olhos não transpareceu qualquer indecisão.

O velho cruzou as pernas e as correntes tilintaram.

— A magia que torna Dola tão forte é uma poderosa fórmula proibida. E conhecida como Chama Negra. Com este feitiço dá-se vida àquilo que não é vivo. Uma vida forte e possante, enrijecida pelo ódio que o criador sabe infundir nela. É por isso que o gnomo parece imortal.

— Não estou entendendo — disse a jovem, perplexa.

— A armadura de Dola, Nihal. É como um ser vivo, invulnerável. Nem mesmo os golpes mais fortes podem prejudicá-la, pois ela consegue consertar-se sozinha. A fórmula que lhe ensinarei chama-se Sombra Inextinguível: permite penetrar em qualquer barreira defensiva e provocar feridas irremediáveis. Se você aplicá-la à sua espada, poderá penetrar na armadura de Dola. Mas lembre-se disto: o feitiço não será suficiente para garantir-lhe a vitória. Se fosse usado contra um fâmin, um homem ou um gnomo, ele morreria na mesma hora. A armadura de Dola, no entanto, não morrerá sob os seus golpes, deixará somente de ser inviolável...

— Quer dizer que a Sombra Inextinguível nos deixará em pé de igualdade — interrompeu Nihal.

— Nunca ficará em pé de igualdade com aquele ser, a força dele é fruto da magia do Tirano. Mas o seu corpo também é feito de carne, e com este feitiço poderá feri-lo.

Nihal anuiu.

— Continue.

— O ódio existe em cada um de nós, lá no fundo da nossa alma. Você está farta de saber, Nihal. Para evocar a Sombra Inextinguível precisará recorrer à sua força. Ao despertá-la para a vida, você ficará à mercê de toda a dor que já experimentou. Se souber controlar o poder dela, então será capaz de usar o encantamento.

Nihal não tinha certeza de ter entendido direito.

— Mas como funciona? O que tenho de fazer?

— Não há mais coisa alguma que eu possa explicar com palavras. Cabe a você, agora, decidir se quer ou não quer experimentar.

— O que vai acontecer se eu falhar? — perguntou Nihal. Na sua voz havia agora uma ponta de medo.

— Morrerá — disse o velho com toda a calma.

Como primeiro passo, Megisto mandou Nihal evocar a Lâmina de Luz, um encanto simples que até ela era capaz de fazer sem muito esforço. Uma pequena chama azulada apareceu na sua mão.

— Muito bem — murmurou o velho. — Agora podemos continuar.

Nihal sentiu o coração disparar dentro do peito. Agora que já estava próxima do momento crucial, estava com medo, um medo frio e verdadeiro.

— Repita comigo: Vrasta Anekhter Tanhiro.

— Vrasta Anekhter Tanhiro — murmurou ela.

— De novo: Vrasta Anekhter Tanhiro — repetiu Megisto. — Vrasta Anekhter Tanhiro. Continue, não pare.

— Vrasta Anekhter Tanhiro — repetiu ela.

— Concentre-se no desespero que já experimentou na vida. Mas cuidado! Não se perca nele, procure dominá-lo.

Nihal reparou no olhar sombrio do velho fixo nela, então fechou os olhos. Repetia aquelas palavras sem sentido e pensava no passado. A memória daquilo que a fizera sofrer era viva demais. Relembrou a morte de Livon, enquanto a ladainha saía dos seus lábios como uma cantiga hipnótica. Primeiro viu a forja do pai, vazia e silenciosa. Depois surgiram os ruídos, os sons terríveis da batalha daquele dia: os gritos, o assobio dos machados que se abatiam sobre os habitantes de Salazar, o baque dos corpos a caírem no chão. Vrasta Anekhter Tanhiro. Vrasta Anekhter Tanhiro. Sentiu-se flutuar. O mundo desapareceu e só ficou a sensação de calor na mão.

A voz de Megisto soou como um eco:

— Imerja, Nihal, imerja.

De repente a forja povoou-se. De um lado havia Livon, atarefado em busca de alguma coisa numa arca. Então apareceu uma mocinha, de orelhas desmedidas e pontudas, olhos grandes e langorosos, uma espada negra na cintura. Vrasta Anekhter Tanhiro, Vrasta Anekhter Tanhiro, Vrasta Anekhter Tanhiro...

Lá vêm eles. Dois fâmins, armados de espada e machado. Irrompem, olham para ela, riem. Clangores de lâminas que se chocam, Livon que grita para ela fugir. Vrasta Anekhter Tanhiro. Livon os enfrenta. Por que não foge? Corra, corra logo embora! Vrasta Anekhter Tanhiro, Vrasta Anekhter Tanhiro.

— Desça mais, Cavaleiro. Domine aquilo que sente e mergulhe ainda mais fundo...

Nihal sabe que aquilo não acaba bem, conhece o que está para acontecer e não quer, não quer! Chega, chega! Mas não consegue se mexer, não há nada que possa fazer e então berra, chama por ele, pede que vá embora. Vrasta Anekhter Tanhiro, Vrasta Anekhter Tanhiro, Vrasta Anekhter Tanhiro.

— Isso mesmo, Nihal, você está quase lá!

O grito rasga as trevas. Um instante de silêncio, vê Livon que se vira para ela: fita-a e tudo pára. Não se vire, Livon! Fuja! Não olhe para mim! E lá vem a espada fatal que o trespassa, e ele que olha, continua a olhar como sempre para ela, cai sem um lamento sequer, e Nihal, que gostaria de gritar mas não pode, pois não tem voz...

De repente a cena transformou-se num abismo.

Nihal viu milhares de rostos berrantes, negros, disformes, correndo ao seu encontro torcidos, e ouviu um barulho ensurdecedor de risadas. Por um momento conseguiu recobrar a consciência. Diante daquele horror que a vencia achou que estava na hora de parar, que era demais, que não podia agüentar. Mas sua língua continuava por conta própria a recitar a ladainha, as palavras que saíam da sua boca atraíam novos demônios, que a envolviam e a levavam consigo, puxando-a pelos braços, pelas pernas, pelos cabelos.

— Domine-os, domine-os! — murmurava uma voz longínqua, monstruosa.

Dominar o quê? Como dominar o reino dos mortos? Mil mãos em cima dela, mil olhos cravados nos seus olhos e o ódio que subia como uma maré. Estava aterrorizada, como nunca estivera antes na vida, a garganta apertada não a deixava gritar, mas sim apenas salmodiar aquela maldita lengalenga: Vrasta Anekhter Tanhiro, Vrasta Anekhter Tanhiro, Vrasta Anekhter Tanhiro...

— Chega! Já chega! Está na hora de voltar! — repetia a voz distorcida.

Como? Seria então possível voltar daquele pesadelo? Talvez sim, mas precisava de ajuda!

— Feche a mão! Detenha a magia! — disse a voz.

Nihal já não sentia qualquer parte do corpo. A mão? Onde estava a mão? Havia uma mão a ser fechada? Tentou rechaçar o pânico que a dominava mas não conseguiu. Arregalou os olhos o mais que pôde, mas aquela escuridão era sem fim. Então roçou em alguma coisa e segurou-se nela: o frescor do ar, o toque de duas mãos no rosto...

As imagens desapareceram, as trevas dissiparam-se.

Lá de cima a lua, de uma gélida brancura, olhava para ela. Megisto estava agachado ao seu lado.

Nihal não conseguia parar de ofegar, parecia-lhe não haver ar suficiente para encher os pulmões.

— Voltou entre os vivos — repetia o velho.

Nihal ficou por um bom tempo prostrada, com o coração que lutava para reencontrar o ritmo.

Quando conseguiu ficar sentada, ainda arquejava.

— Já sabe o que tem de enfrentar — disse Megisto sem emoção. — Amanhã à noite estarei novamente aqui, se quiser voltar a tentar.

Nihal anuiu, levantou-se e foi embora sem dizer uma palavra, com as pernas que tremiam e uma sensação de frio pelo corpo inteiro.

Juntou-se a Oarf no bosque e apoiou o rosto no poderoso peito do dragão.

No dia seguinte, Nihal disse a si mesma que não iria voltar para Megisto. Por que deveria passar de novo por aquela terrível experiência? Esforçava-se para voltar a viver, e isto já era bastante difícil sem precisar de novos problemas. O velho estava certo: ela estava buscando o próprio caminho, era nisso que devia concentrar seus esforços e não em Dola. Mesmo assim...

Era a única a dispor de algum meio para vencê-lo. E além do mais não podia fugir para sempre. Estava na hora da prestação de contas, tinha de enfrentar os seus pesadelos. Coragem, era preciso criar coragem.

Foi assim que decidiu continuar, mas fez isso com um grande peso no coração. A derrota de Dola, entretanto, era o que realmente importava, era o seu desafio em relação ao passado.

Da segunda vez achou que ia morrer. Os espíritos do seu povo também se insinuaram entre as imagens dos fantasmas e os velhos pesadelos misturaram-se com os novos. Resistiu, mas não conseguiu apropriar-se da Sombra Inextinguível porque aquele mundo de horrores arrastava-a cada vez mais para baixo e ela não conseguia puxar-se fora do abismo.

— A determinação é tudo o que você tem, Nihal. A vontade de não se deixar tragar outra vez pela voragem. Esta é a sua única tábua de salvação — dizia-lhe Megisto.

Mesmo com seu corpo que se rebelava, Nihal voltou à clareira noite após noite. Quando o sol baixava até sumir atrás das copas das árvores, sentia um aperto no estômago, era tomada por enjôos e suas têmporas começavam a pulsar com violência. Mas a cada noite que se passava aprendia a impor-se um pouco mais sobre aquelas visões monstruosas. Pouco a pouco conseguiu manter-se consciente, enquanto a chama em sua mão se tornava cada vez mais negra.

— Está chegando perto — repetia Megisto, e Nihal resistia ao cerco do ódio e da dor.

A viagem atroz acabou na véspera do fim da sua licença. Quando, naquela noite, reabriu os olhos e emergiu das trevas com as próprias forças, um globo negro brilhava na sua mão: não era muito maior do que uma maçã e levitava acima da sua palma esquerda soltando sinistros reflexos. Nihal admirou-o, pasma.

— É a Sombra Inextinguível — disse Megisto em voz baixa. —Antes de travar combate com Dola, aplique este feitiço à sua espada, que será então capaz de penetrar na armadura dele. Ao fechar a palma, o globo some e a mágica desaparece.

Nihal dobrou os dedos e a luz dissolveu-se.

— Obrigada, Megisto — murmurou.

— Não me agradeça, pois brindei-a com uma dádiva letal. E não se esqueça: se tentar recitar esta fórmula duas vezes, irá morrer. E agora baixe a cabeça.

Nihal obedeceu e o velho pousou as mãos em cima da sua nuca, em seguida recitou baixinho umas palavras incompreensíveis. Quando acabou, levantou o queixo dela com a mão e fitou-a fixamente nos olhos.

— A sua busca pela verdade está próxima de uma reviravolta, Nihal. Mas lembre-se de que muitas vezes a verdade é terrível.

— Como assim? — perguntou ela perplexa.

— Cada indivíduo deve buscar sozinho o seu ideal. Nunca se esqueça — replicou o velho. Ficou de pé. — Agora vá. O nosso encontro termina aqui.

Enquanto voava na garupa de Oarf, Nihal meditou sobre as palavras de Megisto: que mal podia haver na verdade? Tudo o que ela sempre quisera, desde que sua cidade foi destruída, era saber, era chegar cada vez mais perto da verdade. Profecias de videntes, disse para si mesma. Então incitou o dragão de volta à base.

 

                                       A TENTAÇÃO DA MORTE

Nihal esperara fervorosamente que a conquista da Sombra Inextinguível não deixasse resquícios, mas não foi bem assim. Desde a noite em que enfrentara o abismo, vivia inquieta e as imagens do pesadelo voltavam amiúde para atormentá-la. O que eu fui despertar? Enquanto voava na garupa de Oarf rumo à Terra do Vento e deixava para trás o vilarejo onde passara com Laio as últimas duas semanas, Nihal esperou ser capaz de levar a cabo aquilo para o qual se preparara, sem deixar de ser ela mesma.

— Conseguiu esclarecer as idéias? — Ido esperava por ela na entrada da tenda, de cachimbo na boca.

— Sem dúvida alguma — mentiu ela. O gnomo olhou para ela.

— Está muito pálida.

— Deve ser o cansaço.

Ido bateu o cachimbo contra a sola da bota, deixando cair no chão uma pitada de cinzas.

— Está na hora do almoço. Vamos comer alguma coisa. Sentado a uma rústica mesa do grande pavilhão que servia de refeitório, entre uma colherada e outra de sopa, Ido fez a Nihal o resumo da situação. Durante a sua ausência, haviam levado adiante o sítio, sem entretanto ganhar um só palmo de terreno. Os combates começavam ao raiar do sol e só paravam quando as sombras se alongavam na pradaria. Havia muitos mortos, de ambas as partes, mas não parecia haver qualquer solução para o impasse.

— Ao que parece — concluiu Ido —, a nossa única esperança é forçá-los à rendição pela fome.

— E Dola? — perguntou Nihal com displicência.

O gnomo continuou a sorver ruidosamente a sopa enquanto os olhos de Nihal fitavam-no interrogativos. Deixou a colher na tigela.

— Foi-se embora.

Nihal teve um pequeno estremecimento.

— Como, embora? Quando?

— Ontem à noite.

Durante aquele tempo todo o guerreiro tinha feito o que bem queria no campo de batalha, ceifando vítimas e espalhando morte e terror, pois ninguém parecia capaz de detê-lo. As espadas não conseguiam arranhar a sua armadura, as lanças resultavam inúteis, e, quando os arqueiros atiravam contra ele, parecia capaz de mexer-se entre as setas, por mais numerosas que elas fossem. Então de repente, na noite anterior à volta de Nihal, no acampamento, ecoara um grito agudo, desumano, parecido com o de uma ave de rapina. Assim como muitos outros, Ido saíra para olhar. Acima das barracas via-se uma grande sombra negra, ameaçadora. Gritava, gritava e ria. Uma risada escarnecedora.

— Eu e Ried saímos em perseguição, mas ele foi queimado de raspão por uma labareda...

Nihal arregalou os olhos. Ried era um dos mais valorosos Cavaleiros de Dragão da base.

— Depois Vesa foi ferido. Em outras palavras, tivemos de voltar — resumiu brevemente Ido.

— Vesa está ferido? — perguntou Nihal incrédula. Vesa sempre conseguira sair ileso de qualquer batalha.

— Pois é, e não somente ele — respondeu Ido. Levantou a manga do casaco e mostrou uma atadura. — Nada de grave. Digamos que me assou como um frango — brincou o gnomo, mas o tom era amargo.

— E agora?

— Agora nada. O importante é que foi embora e não teremos mais que enfrentá-lo. Concorda comigo, não é? — concluiu, fitando-a fixamente nos olhos.

Nihal desviou o olhar. Não, ela não concordava. Tinha encarado o inferno para enfrentar aquele maldito. E era isso que ela iria fazer, mesmo que tivesse que persegui-lo até a lua.

Ido provavelmente intuiu alguma coisa, pois soltou um sonoro suspiro e mergulhou com raiva a colher na sopa.

— O que foi? — perguntou Nihal.

— Eu que pergunto — respondeu o gnomo com frieza. — Pensei ter-me explicado de forma bem clara. Mas tenho a impressão de que a sua atitude continua a mesma.

Nihal afastou a tigela que tinha diante de si e esticou o corpo para Ido.

— Por que fica tão irritado só de pensar em eu voltar a lutar com ele? Diga-me por quê!

Ido fitou-a com olhos de gelo.

— Não a treinei para que fosse cortada em pedaços por aquele bastardo, Nihal. — Em seguida levantou-se e dirigiu-se à saída do refeitório sem olhar para trás.

No começo Nihal não participou das batalhas. Preferiu treinar sozinha até recuperar completamente as forças. Ela mesma estava surpresa com sua paciência. Só um ano antes teria montado logo em Oarf para seguir ao encalço de Dola. Agora, no entanto, esperava, acalentando propósitos de resgate. E no fim a sua espera foi premiada.

Certo dia chegou ao acampamento um capitão, enviado como mensageiro das guarnições acampadas no bosque de Herzli, às margens do Saar, o Grande Rio. Ao que parecia, Dola chegara à região da Floresta e lá fixara a sua base. Estava no comando de um imponente exército e já atacara os postos avançados das Terras livres na Terra do Vento.

— Sabe que aquela região está um tanto desprotegida, devido à proximidade com o Saar, e receamos que queira marchar contra a Terra do Vento a partir de lá, para em seguida penetrar na Terra da Água pelo leste — relatou o militar ao general do acampamento e a todos os Cavaleiros de Dragão reunidos para ouvi-lo.

Logo que ouviu mencionar o nome de Dola, Nihal sentiu o coração pular no seu peito. A hora chegara.

— Precisamos reforçar as nossas linhas na região da Floresta, não me parece haver outra possibilidade. Poderíamos deslocar metade das nossas tropas — propôs um Cavaleiro.

— Não me parece uma idéia tão boa — disse Ido. — Não podemos deixar desguarnecido o nosso território. Ninguém nos assegura que Dola espere justamente isto: um enfraquecimento das defesas para nos atacar.

O capitão interrompeu-o:

— Cavaleiro, estamos morrendo como moscas por lá. Não sei por quanto tempo mais poderemos resistir.

— Qual é a sua proposta, Ido? — perguntou o general. O gnomo não perdeu a fleuma.

— A Terra do Vento é a menor entre todas as Terras e tem uma frente de batalha relativamente pequena: na garupa de um dragão pode ser percorrida toda em apenas dois dias. Creio que poderíamos nos limitar a enviar reforços. Um ou dois Cavaleiros, no comando de um destacamento. Poderemos ao mesmo tempo distribuir melhor as nossas tropas ao longo da fronteira para tentar um ataque a ocidente, enquanto Dola ainda estiver empenhado no bosque.

— Não é fácil manter Dola sob controle, e acredito que você saiba disso melhor do que qualquer outro — observou o general.

Foi então que Nihal levantou-se do banco de madeira em que estava sentada.

— Eu cuidarei disso — disse com calma.

Ido lançou-lhe um olhar de fogo mas ela permaneceu impassível.

— Confiem-me uma guarnição e eu irei trazê-lo diante de vocês. Alguém deu uma sonora risada.

— Deixe disso, Nihal! Não banque a valentona. Ninguém conseguiu, até agora, ser páreo para Dola.

— Estou errado ou foi ferida justamente por ele não faz muito tempo? — disse outro cavaleiro.

— Aprendi com o meu erro — respondeu Nihal, séria. — Se seguirmos o plano de Ido, só precisamos de alguém que o mantenha atarefado, não é isso? E de forças descansadas que possam ajudar o sítio perto do Saar. Pois bem, acho que sou mais do que suficiente para esse tipo de missão.

O general parecia perplexo.

— Espero que não queiram concordar com uma loucura dessas! — esbravejou Ido.

— Quem propôs essa loucura foi você mesmo — observou o superior.

— Sim, claro, mas... Nihal é Cavaleiro há muito pouco tempo! Não tem a experiência necessária. Querem mesmo entregar o destino da Terra do Vento nas suas mãos?

Nihal sentiu o sangue ferver e abriu a boca para responder, mas o general fez um sinal para que se calasse.

— O seu plano parece-me mais do que funcional para as nossas necessidades, Ido. E Nihal já demonstrou ser uma valente guerreira. Será portanto ela a partir. É a minha decisão e não quero mais discussões.

Ido sacudiu a cabeça.

O coração de Nihal exultou.

— Fico-lhe grata pela confiança que me demonstra, general.

A reunião dissolveu-se e aos poucos os cavaleiros foram embora. Nihal, por sua vez, ficou na sala do comando para definir os detalhes da missão. Era a primeira vez que lhe confiavam um destacamento, mas não era certamente por isso que estava excitada. Não via a hora de partir.

Voltou à sua tenda quando já era tarde e encontrou Ido sentado, fumando nervosamente o cachimbo diante da entrada. Logo que a viu chegar, o gnomo ficou de pé e apontou o indicador na cara dela.

— Escute aqui, mocinha. Tente só sair deste acampamento com a sua tropa, e lhe garanto que não a deixarei voltar para cá inteira!

— O que diabo está havendo com você? — desabafou Nihal exaltada. — É uma missão como qualquer outra, afinal!

O gnomo jogou o cachimbo no chão, riscando a escuridão com um rastro de brasas.

— Não é não, e você sabe muito bem! — gritou com o rosto todo vermelho.

Nihal ficou espantada. Já tinham discutido muitas vezes, mas nunca o vira tão descontrolado antes. Alguém berrou:

— Silêncio! Está na hora de dormir! — E se pôde ver umas cabeças espiando da entrada das outras tendas.

Ido curvou-se para apanhar o cachimbo, depois fitou Nihal com frieza.

— Faça como quiser, escolha o seu lugar para morrer — concluiu, e então encaminhou-se para a própria barraca.

Na manhã seguinte, Nihal aproximou-se da tenda de Ido e pediu para entrar, mas não teve resposta. Insistiu, mas lá dentro só continuou a reinar um obstinado silêncio.

Ela e Laio só levaram mais umas poucas horas para partir.

Nihal chefiava uma tropa de uns cem soldados, muito mais do que poderia esperar. Por um momento sentiu-se perdida, achando que a missão estava além das suas capacidades. E depois pensou que teria assumido aquela missão para conseguir a sua vingança, então sentia-se pior ainda. Pois é, a vingança. De repente compreendeu plenamente a gravidade do que estava para acontecer. Talvez Ido estivesse certo.

— Posso fazer uma pergunta? — disse Laio a certa altura. A sua voz era bem séria.

A jovem ficou na defensiva.

— Pode.

— Por que quis meter-se nesta situação?

— Não entendo o que quer dizer — respondeu, fazendo-se de desentendida.

— A última vez que entrou na briga com Dola quase não saiu de lá viva. O que está procurando? O que está tentando provar?

— Você concorda com Ido, não é Laio? — disse ela irritada. Laio deu de ombros, tentando se esquivar.

— Não, Nihal. Nada disso.

Quando do acampamento no bosque de Herzli viram chegar uma tropa sob o comando de uma mulher, uns ficaram furiosos e se desesperaram, outros riram, mais alguns simplesmente entregaram-se à vontade dos deuses.

No pequeno acampamento respirava-se ar de morte. Tudo parecia desbotado, como um céu deslavado por chuva demais. Havia umas vinte tendas, todas da mesma idêntica e lamacenta cor indefinida. Os feridos eram muitos, e os que estavam bem pareciam mortalmente cansados. Não havia mulheres nem crianças, somente homens na solidão da guerra.

O general acompanhou Nihal numa volta de reconhecimento. Não se tratava certamente de um campo de batalha ideal. Nihal nunca lutara na selva e a vegetação do bosque era muito espessa.

Lembrava-se daquele lugar: atravessara-o ao fugir de Salazar em chamas. Se aguçasse os ouvidos, podia ouvir o estrondo possante do rio Saar.

Chegaram finalmente ao topo de uma colina, de onde Nihal pôde ter o quadro exato da situação: uma parte da floresta parecia esfolada, com feridas de terra nua a marcá-la como chagas. Partiam de um núcleo negro central: a base do exército inimigo. Era um acampamento ordenado, com uma tosca torre no meio. A maioria dos fâmins estava naquela zona, mas percebia-se que muitos estavam escondidos entre as árvores.

— O acampamento já existia. E até a semana passada era nosso. Quanto à torre, quem mandou construir foi Dola: é onde ele mora, junto com aquele infernal monstro negro. Já faz dois dias que se trancou lá. Não se mexe, não ataca, não faz coisa alguma. Parece estar esperando — disse o general.

Então era isso. O homem que tinha arrasado a sua cidade estava ali.

— Quer dizer que teremos de desentocá-lo — concluiu Nihal.

Não foi nada fácil convencer o general. Os seus homens acabavam de sair de um duro combate, as perdas tinham sido consideráveis e havia feridos demais.

— Somos poucos e esgotados: não temos a menor esperança de vitória.

— Os meus homens estão descansados — rebateu Nihal.

— Mas é uma loucura, Cavaleiro.

— Amanhã teremos uma noite sem lua, atacaremos enquanto estão dormindo. Quanto a Dola, o senhor pode ficar descansado: não irá levantar um dedo sequer contra os seus homens. Só pense em atacar o acampamento deles e acabar com os fâmins. Mas precisam ser bem rápidos, pois a surpresa é a única arma de que dispomos.

O general olhou para ela, cético.

— Garanto-lhe que o acampamento voltará a ser nosso — disse Nihal.

O dia seguinte passou tranqüilo, mas Nihal sabia muito bem que havia alardeado com o general uma segurança que na verdade não tinha. Foi para o bosque sozinha e deixou Laio encarregado de polir a sua espada e aprontar a armadura. Afastou-se o bastante para não ouvir os ruídos do acampamento e aproximou-se do estrondo majestoso do Saar. Obrigou-se a esvaziar a mente, repetiu a si mesma que se tratava apenas de uma missão como qualquer outra, nada mais do que isso.

Mas dentro de si sabia que a luta que esperava por ela não era apenas um combate entre o exército das Terras livres e o do Tirano. Nem dos mortos de Salazar, nem do povo dos semi-elfos. Era a luta dela. E ela, o Cavaleiro de Dragão Nihal, iria levá-la a cabo sem deixar de ser ela mesma. A qualquer custo.

A noite pareceu-lhe demorar uma eternidade para chegar.

Quando a escuridão dominou o céu de verão, Nihal recolheu-se na tenda que lhe havia sido destinada e sentou-se no chão de pernas cruzadas. A espada, polida por Laio com o costumeiro cuidado, brilhava diante dela. Um arrepio correu pelas suas costas. A hora de recitar a fórmula chegara. Enxugou o suor da fronte e percebeu que suas mãos tremiam. Estava com medo.

Lembrou-se da primeira vez em que tentara evocar a Sombra Inextinguível. E se não conseguisse controlar o feitiço? Se acabasse precipitando no abismo e enlouquecendo?

Fechou os olhos e procurou acalmar-se. Esvazie a mente. O coração refreou a sua corrida. Esvazie a mente. A respiração tornou-se regular. Só então evocou a Lâmina de Luz. Ficou olhando para aquela pequena chama como se a visse pela primeira vez: uma esfera perfeita, de um azul pálido, inocente.

Depois, com a voz rouca, começou a ladainha.

As imagens infernais não se fizeram esperar. Rostos desfigurados e membros disformes investiram contra ela, atropelando-a. Vrasta Anekhter Tanhiro. Vrasta Anekhter Tanhiro. Gritos monstruosos e risadas de lamento explodiram em sua mente. Vrasta Anekhter Tanhiro. Vrasta Anekhter Tanhiro. Nihal sentiu-se envolver por uma mortalha de trevas. Piscou várias vezes as pálpebras, mas os olhos abertos ou fechados não faziam qualquer diferença. Estava entregue, possuída. O terror era insuportável, a loucura estava ali, bem diante dela. Caiu para trás batendo os dentes. Percebeu que estava a ponto de perder os sentidos. E então gritou, gritou e gritou mais ainda, e com um esforço desumano arrancou-se daquelas trevas.

Quando voltou a abrir os olhos, molhada de suor, o globo negro rodava lentamente na palma da sua mão.

— O que é isso?

A voz de Laio chegou num sussurro.

No limiar, o rapaz olhava para ela de olhos arregalados. Nihal estava sentada no meio da barraca, pálida e rígida, de pescoço deitado para trás e olhos revirados. A luz artificial esculpia sombras no seu rosto.

— Ouvi-a gritar — murmurou. — Então entrei e...

Estava tão pálido que quase resplandecia sobre o fundo escuro da tenda.

— Está tudo bem, Laio — assegurou Nihal falando baixinho, enquanto a Sombra Inextinguível queimava a sua pele.

Esticou o braço para a espada e a esfera desapareceu na lâmina, para tornar-se uma coisa só com o negro cristal. Então levantou-se, sacudida por um tremor que não conseguia controlar. Estava apavorada, esgotada depois de tudo o que enfrentara naqueles poucos instantes. Cada vez que emergia do abismo, uma parte dela ficava lá embaixo. Aproximou-se de Laio e abraçou-o.

— O que houve? — perguntou ele meio perdido.

— Recitei uma fórmula. Um feitiço difícil de evocar... e um tanto doloroso.

Laio permaneceu em silêncio, acariciando-lhe desajeitadamente as costas.

Quando recobrou a calma, Nihal afastou-se tentando evitar o olhar do rapaz, mas ele segurou-a pelo braço.

— Que fórmula, Nihal?

— Confie em mim, Laio. É a única maneira de vencer Dola. Está tudo bem — respondeu ela, libertando-se da dor.

— Como pode dizer que está tudo bem? Quando entrei você tinha uma expressão... não era você! Parecia um fantasma, Nihal!

Laio continuava a fitá-la de olhos esbugalhados. Nihal deixou-se cair no catre e passou as mãos no rosto. Ainda estavam trêmulas.

— Preciso do seu apoio, Laio. Preciso saber que confia em mim e que acha que posso conseguir.

O rapaz nada mais disse. Sentou-se ao seu lado e apertou seus ombros num abraço.

Quando as tropas alcançaram o morro logo acima do acampamento inimigo, Nihal aproximou-se do general.

— Tudo acontecerá conforme os planos. Só lhe peço que me dê proteção enquanto mantenho Dola ocupado.

Mavern anuiu.

Nihal baixou então a viseira do elmo e tudo se acalmou. Estava na hora de atacar. Estava na hora de concentrar-se e de afastar qualquer pensamento que não fosse o da luta. O general levantou a espada e quando a baixou Nihal e Oarf já haviam levantado vôo.

Nihal dirigiu-se sem demora para a torre central. Se uma parte dela fremia no desejo da luta, outra ainda acalentava a impossível esperança de pegá-lo de surpresa e capturá-lo assim, sem duelo.

Um golpe de cauda de Oarf derrubou parcialmente a fortificação, que se precipitou sobre as barracas dos soldados. Nihal ouviu os berros guturais dos fâmins esmagados pelos escombros e logo a seguir os gritos dos seus homens que avançavam.

Talvez Dola não estivesse na torre. Nihal olhou a sua volta à procura dele, mas o gnomo e o dragão negro pareciam ter desaparecido. Oarf rugiu, enquanto descarregava a sua fúria no que sobrava do torreão. Onde está aquele maldito, onde? Nihal deu dois amplos giros sobre as ruínas sem encontrar o que procurava. Então ouviu alguma coisa se mexer. Um arquejar lento e possante, como um enorme fole, ressoou entre os escombros. Dois tições em brasa iluminaram a escuridão da noite. Uma cabeça negra surgiu das ruínas. O dragão libertou-se dos pedregulhos amontoados em cima dele com uma sacudida e pisoteou o que restava da torre. Dola erguia-se na sua garupa, armado de uma longa lança.

— Estava procurando por você, Dola! — gritou Nihal, enquanto a raiva explodia em seu peito. — Vim em busca da sua cabeça!

O guerreiro ficou parado um instante, com seus olhos de furão apontando para o céu. Debaixo do seu elmo ouviu-se uma voz desdenhosa:

— Você é mais resistente do que imaginara, garoto. E também mais idiota.

— É o que vamos ver, seu bastardo — murmurou Nihal. Desembainhou a espada e aquele simples gesto, que já fizera mil vezes, bastou para afugentar os malévolos sussurros que ofuscavam o seu pensamento, a exaltação do seu coração, o desejo de vingança, tudo. Sobrou-lhe somente a gélida determinação do cavaleiro.

O dragão levantou vôo de repente e Dola investiu, lança em riste, contra Nihal. Oarf esquivou o golpe e ela foi suficientemente rápida para acertar a fera negra que escancarava a boca diante dela.

Dola voltou à carga, mas desta vez Nihal estava preparada. A verdadeira batalha estava a ponto de começar.

Nihal estava ciente de que o gnomo possuía uma força sobre-humana e uma rapidez muito maior do que a dela, mas enfrentá-lo deixou-a sem fôlego. Só conseguia rechaçar os ataques, e mesmo assim com um enorme desgaste de energia. Começou a usar ambas as mãos, procurando manter-se em equilíbrio em cima de Oarf, que era forçado a contínuas mudanças de direção para esquivar-se das mordidas do dragão negro.

Só haviam passado uns poucos minutos desde o começo do duelo quando Nihal não viu a lança chegar. Uma estocada penetrou sem dificuldade na couraça, rachou o cristal e feriu-a de raspão no ombro. Teve de se afastar ofegante.

Dola permaneceu imóvel em sua cavalgadura.

— Da última vez fui bom demais com você — gritou, enquanto agitava no ar a ponta da lança sangrenta. — Por enquanto já me basta sentir o gosto do seu sangue, moleque, mas juro que vou cortar os seus membros um por um — concluiu rindo.

Nihal sentiu o sangue subir à cabeça.

— Sou um Cavaleiro! Não me chame de moleque! — berrou. Em seguida incitou Oarf.

Agora podia vê-lo direito: cada pedaço da sua armadura, cada fenda na qual poderia afundar a lâmina. Segurou novamente a espada com ambas as mãos e redobrou a velocidade dos movimentos, defendendo- se com precisão. Mas ainda não encontrava um jeito de atacar, precisava de paciência, de muita paciência. Não fazia idéia do que estava acontecendo lá embaixo. Não ouvia o barulho da batalha, somente o clangor da sua espada contra a lança. Vez por outra uma espetada riscava sua pele e o sangue escorria sob a sua armadura, mas a dor só durava um instante, não bastava para detê-la. Tinha visto o inferno de perto só para derrotar Dola. Esquivou-se de mais uma estocada e voltou a recuar, mas desta vez o gnomo foi atrás. O dragão negro cuspiu uma labareda de fogo, depois outra e mais outra, enquanto Oarf batia as asas para subir ainda mais. Não demoraram a voar velozes nas alturas. Nihal retomou o fôlego, mas de repente ouviu a lança de Dola sibilar bem perto. Oarf não conseguiu desviar-se muito depressa e um rasgão desenhou-se no seu flanco. O dragão rugiu de dor e deu uma guinada.

— Calma, Oarf, calma — murmurou Nihal, mas sabia que não podia continuar daquele jeito. Preciso enfrentá-lo. Preciso enfrentá-lo agora!

Estavam sozinhos, um diante do outro. Aos seus pés, a floresta, acima deles, o céu estrelado. Nenhum som perturbava a noite, a não ser o canto ritmado dos grilos. Nihal deu-se conta do sangue que escorria na sua pele: Dola estava mantendo a promessa, ia matá-la aos poucos, um pedaço depois do outro.

O gnomo sacou a espada.

— Assim lutaremos de igual para igual, e de igual para igual irei cortá-lo em pedaços.

Sentia-se tão seguro que não se preocupava de dar-lhe esta vantagem. Mas se contra uma lança havia pouco que Nihal pudesse fazer, contra uma espada as coisas eram mais fáceis. A jovem esporeou Oarf e investiu contra o gnomo. Dola continuou imóvel, como se não desse a menor importância ao ataque. Quando já estava muito perto dele, Nihal levantou-se na garupa de Oarf e deu um golpe de cima para baixo, pegando Dola de surpresa. Apesar de apressada, a parada do gnomo foi eficiente, mas Nihal não pestanejou. Deu um pulo e caiu nas costas do dragão negro. Desferiu com toda a força que tinha um golpe cortante no flanco daquele maldito gnomo. Com um clarão de luz branca a lâmina penetrou na primeira camada da couraça e conseguiu finalmente chegar à carne.

Dola reagiu com um golpe lateral, mas Nihal foi muito ágil para evitá-lo. Fincou a espada no ombro do dragão negro, segurou a empunhadura com ambas as mãos e deixou-se deslizar até ficar pendurada no vazio. O animal soltou um lamento e Nihal apontou os pés contra o seu ventre até conseguir puxar a espada da ferida.

Precipitou-se no ar, mas Oarf logo a acudiu para interceptar a sua queda. Estava novamente na garupa. Tinha conseguido. Nihal explodiu numa risada feroz.

— Está com uma armadura um tanto ordinária, Dola! O Tirano não tem nada de melhor para oferecer aos seus guerreiros? — gritou levantando a espada. O sangue do dragão negro correu ao longo da lâmina misturando-se com o dela.

— Ainda é cedo para achar que venceu, seu moleque — respondeu Dola. Na sua voz Nihal percebeu um tremor de raiva.

O gnomo começou a dar um golpe depois do outro, seguidamente, com força, mas Nihal evitou-os pulando. Nesta altura já sabia o que fazer: tinha de recorrer à agilidade e concentrar-se em ferir o dragão. Uma vez no chão, teria mais possibilidade de sucesso. De repente, no entanto, um golpe acertou suas costelas deixando-a sem fôlego. Oarf desceu na mesma hora umas vinte braças para ela ter tempo de recobrar-se. Nihal já estava enfraquecida pelos ferimentos e o longo sangramento, aquele novo corte iria consumir as suas últimas energias. Preciso agir depressa. Tenho de acertar nele outra vez, já! Lançou-se a um novo ataque que levou adiante com fúria cega. Gritava e golpeava, golpeava e gritava, e quando a luz branca a ofuscava sabia que o golpe acertara no alvo. Oarf, por sua vez, apertava com os dentes o ombro do dragão negro já ferido pela espada de Nihal e não soltava a presa, enquanto o sangue jorrava aos borbotões.

Apesar de Dola estar ferido, a violência dos seus golpes não parecia diminuir. O gnomo acertava-a com a parte plana da lâmina, tentando derrubá-la, e Nihal sentia as próprias forças esmorecerem. Já não sabia se o líquido viscoso que a molhava era suor, seu sangue, o sangue do dragão ou o de Dola. Continuava a lutar cegamente, mas estava esgotada, com cada fibra do seu corpo dolorida. Perdeu o ritmo, afrouxou a pressão dos joelhos no dorso do seu dragão. Sentiu-se desmaiar.

Oarf percebeu e recuou com dois poderosos golpes de asa, arrancando com a boca um pedaço de carne do monstro negro.

Nihal recuperou o fôlego e conseguiu focalizar a imagem do adversário. A couraça de Dola estava rasgada em vários lugares e deixava ver o sangue que manchava a carne do gnomo. Ela estava pior. As suas feridas queimavam e tinha os olhos embaçados, mas não iria se render. Iria derrotá-lo, mesmo que lhe custasse a vida. O dragão. Preciso acabar com o dragão.

Não precisou dar qualquer ordem: com um urro Oarf pulou em cima do dragão negro e atacou-o furiosamente com garras e dentes. Os rugidos dos dois animais eram ensurdecedores, e o calor que soltavam com suas chamas aturdiu Nihal e Dola a ponto de torná-los dois guerreiros inermes, à mercê da vontade das suas cavalgaduras. A jovem mantinha-se na garupa de Oarf de qualquer jeito, enquanto o gnomo fazia o possível para incitar o seu dragão a reagir. Então, de repente, justamente quando parecia estar levando a melhor, Oarf desistiu da luta e fugiu.

— Pare! Pare, Oarf! — gritou Nihal. Olhou para trás. O monstro negro mal conseguia persegui-los e perdia sangue a cada batida das asas.

Oarf subiu no céu e só então deu uma súbita meia-volta para atirar-se em cima do inimigo. Nihal foi uma coisa só com o pensamento do seu dragão. Sim, isto mesmo, Oarf! Entendi! Estou pronta! Agora! Firmou-se apertando os joelhos e segurou a espada com ambas as mãos, agarrando a empunhadura como se fosse a de um punhal.

Oarf planou até perto da cabeça negra do dragão e Nihal afundou a lâmina com toda a força que ainda tinha.

Um violento borbotão de sangue jorrou do pescoço do animal. O dragão negro soltou um urro pavoroso, de dor misturada com raiva.

— Maldito! — gritou o gnomo e com um fendente rasgou uma asa de Oarf.

O monstro negro perdeu rapidamente altitude e desabou nas copas das árvores, levando consigo folhagem e galhos.

Oarf não demorou a fazer o mesmo, indo cair a umas poucas braças de distância do outro.

Por alguns instantes Nihal só viu um turbilhão de folhas e farpas de madeira, então caiu das costas do seu dragão e bateu no chão.

O que a trouxe de volta à realidade foi o assobio de uma lâmina.

— O seu atrevimento passou dos limites, garoto! — gritou Dola. A jovem mal teve tempo de rolar de lado: a espada do gnomo fincou-se no solo a um palmo da sua cabeça.

Ficou agachada entre as moitas, ofegante. A espada! Onde está a minha espada? Não conseguia contar ao certo as feridas do gnomo, mas eram muitas e algumas certamente profundas. Como pode ainda dispor dessa energia toda? Nihal começou a recuar, dobrada sobre os joelhos, com as mãos entre as folhas à cata da espada.

Dola mostrava-se confiante na vitória.

— Você está acabado, meu rapaz. Acabado — repetia enquanto avançava lentamente.

Nihal tropeçou em alguma coisa cortante. Um gemido saiu dos seus lábios e ela caiu para trás. Perdia sangue de um tornozelo, mas jamais uma ferida a deixara tão feliz.

Dola deu uma gargalhada.

— Poupe-me, eu lhe peço — murmurou ela.

— O que é isso? Agora está implorando? — sibilou o gnomo. — Isso não basta, Cavaleiro. Tente de novo, precisa inventar algo melhor.

— Deixe-me viver, eu suplico — implorou Nihal. Aproximou-se imperceptivelmente dele.

— E por que deveria? Nihal prostrou-se no chão.

— Ficarei ao seu serviço, para sempre, farei qualquer coisa que o senhor quiser... — choramingou. Esticou o braço no chão até sua mão direita encontrar alguma coisa dura e fria. E então levantou-se com um pulo, segurando mais uma vez a espada.

Investiu contra ele, mas os seus golpes já não eram tão precisos, tinha a vista embaçada e a dor deixava-a sem fôlego. Continuaram duelando por muito tempo, enquanto o som estridente das lâminas que se chocavam violentava o silêncio da noite.

Dola tampouco parecia estar imune ao cansaço. Começou a recuar. Errou uma defesa, depois mais outra. Agora! Acerte-o agora!

O gnomo não teve tempo de ver o golpe que estava chegando. A lâmina de cristal acertou-o no ventre e por um momento o bosque foi iluminado por um clarão branco.

Dola berrou de dor e a sua couraça ruiu ao chão aos pedaços. Apoiou-se numa árvore gemendo. Nihal manteve-se em guarda, mas um sorriso franziu seus lábios. Tinha conseguido.

A sua satisfação, porém, teve curta duração.

Dola olhou para ela com desdém.

— Então? É só isso que sabe fazer? — disse e aí levantou mais uma vez a espada contra ela.

Os olhos de Nihal derramaram lágrimas de raiva. Não havia jeito de derrotá-lo. Ela já não agüentava mais. Não iria resistir a mais um assalto. Estava fadada a morrer pelas mãos do monstro que matara a sua infância.

Então aconteceu alguma coisa que a deixou pasma.

A Lágrima encastoada na empunhadura da sua espada começou a brilhar e a árvore na qual Dola se apoiava iluminou-se de repente, espalhando em volta uma luz prateada e terrível. As raízes saíram do solo, envolveram o corpo atarracado do gnomo e jogaram-no no chão. Os galhos retorceram-se até fechar-se sobre ele num abraço mortal.

Nihal observou a cena aterrorizada. A vista daquela grande árvore que se mexia tinha em si algo de sobre-humano, algo de poderoso e espantoso. Um Pai da Floresta a estava ajudando.

Viu a casca brilhar ameaçadora, as folhas tornarem-se afiadas como lâminas de facas e penetrar na pele de Dola, os galhos agitarem com violência o prisioneiro para então jogá-lo para longe.

Dola espatifou-se contra outra árvore e caiu de forma retorcida no chão. Pouco a pouco a luminosidade desapareceu e a grande árvore voltou a ser imóvel e silenciosa.

Nihal teve a impressão de ter perdido a noção do tempo. Não sabia se havia ficado horas ou apenas instantes parada ali, olhando aquele corpo desmaiado no chão. Quando voltou plenamente à realidade percebeu que tremia da cabeça aos pés e que na sua mente ecoava um único grito: “Mate! Mate! Mate!”

Aproximou-se lentamente de Dola. Estava a umas poucas braças de distância, mas pareceram-lhe milhas. Quando ficou em cima dele observou-o. Arquejava numa poça de sangue, mas ainda a fitava com olhos de fogo.

Nihal levantou a espada e fincou-a no ombro do gnomo, cravando-o no chão. O grito dele pareceu-lhe uma doce canção.

Só então tirou o elmo e jogou-o longe.

Dola acenou um sorriso de escárnio.

— Então era verdade: ainda existe uma da sua raça bastarda...

Nihal ficou cega de raiva.

— Isso mesmo, ainda há uma, Dola — rosnou. — Chama-se Nihal da Torre de Salazar. Olhe bem para ela, pois será a mão dela a arrancar a sua vida. — Enquanto falava, encostou a ponta da lâmina na sua garganta.

— Lembro-me muito bem de Salazar. Queimava que era uma beleza... — murmurou o gnomo. — Pode matar-me, jovem semi-elfo. Fique à vontade. Mas não se iluda: de nada adiantará para deter o Tirano. Não lhe bastariam mil vidas para matar a nós todos.

— Mate! Mate! — repetiam as vozes. Mas Nihal hesitava.

Bastaria tão pouco. Só precisaria pressionar a lâmina na sua garganta para sentir-me feliz. E teria cumprido com o meu dever.

Tinha prometido. Não podia.

Quantos homens abati com uma simples estocada? Quantos fâmins já trucidei? Quantas agonias passaram pela minha lâmina? O que significaria uma morte a mais?

A mão que apertava a espada estava suada, a testa úmida de gotas geladas.

Nihal lembrou as palavras de Megisto: “Você quer vê-lo implorar, quer que lhe peça misericórdia. E quando estiver ferido aos seus pés, vai querer cortar a sua garganta e ver o seu sangue formando uma poça no chão. E quando ele estiver morto, você irá sorrir e achar-se-á finalmente vingada.”

Não! Não! Não!

Deu um passo para trás, mal se segurando nas pernas trôpegas. Guardou a espada.

— Outros decidirão qual será o seu destino, maldito — disse com um fio de voz.

Dola fitou-a de olhos entreabertos.

— Está cometendo um grande erro, semi-elfo, um grande erro... — As suas palavras apagaram-se lentamente, enquanto seus olhos se fechavam.

 

                               O SEGREDO DE IDO

A decisão de manter Dola ocupado enquanto as tropas atacavam revelou-se correta. O combate havia sido árduo, mas concluíra-se com a vitória do exército das Terras livres. Ao alvorecer, o acampamento no bosque de Herzli havia sido reconquistado.

Enquanto a luta continuava furiosa no campo de batalha, Laio assistira ao duelo entre Nihal e Dola do alto da colina. Vira Oarf e o imenso dragão negro agitando-se no céu noturno, ouvira os gritos de Nihal. Fechara os olhos diante de cada ferimento sofrido pela amiga e exultara quando a espada dela fincara-se na impenetrável armadura do gnomo. Também vira Nihal precipitar-se junto com Dola e os dois dragões, e juntara-se o mais depressa possível ao general.

Quando a equipe de reconhecimento voltou trazendo Nihal, toda manchada de sangue e inconsciente, o silêncio mais absoluto tomou conta do acampamento. A alguns passos de distância, quatro soldados arrastavam Dola, acorrentado e ferido.

O mago que acompanhava a operação ficou ao lado de Nihal o dia todo e só na noite seguinte atreveu-se a dizer que talvez o pior já passara.

Nihal não iria guardar qualquer lembrança do tempo passado no catre da enfermaria. Nem mesmo os sonhos apareceram para dar-lhe a impressão de estar viva. Era realmente como a morte: escuridão e vazio, por toda parte.

A notícia de que Nihal estava gravemente ferida, Ido incitou Vesa a voar mais veloz que o vento. Ele e Laio se revezavam na cabeceira de sua cama, vigiando noite e dia, esperando com confiança o momento em que abriria os olhos.

— Continua a chamar o seu nome, Ido. — Eu sei.

— Mas é verdade mesmo? Isso é, é verdade que ele...

— Cale a boca, Laio.

Nihal abriu lentamente os olhos e duas figuras indistintas emergiram confusamente das trevas. Ouviu chamar o seu nome.

— Nihal! Nihal! Está acordada?

Laio... Piscou algumas vezes e os rostos diante dela tornaram-se reconhecíveis. Laio tinha os cabelos desgrenhados e parecia cansado. Ido sorria. Nihal tentou responder àquele sorriso, mas apesar do esforço não achou que a tentativa foi bem-sucedida.

— Estou orgulhoso de você — murmurou Ido. De repente Nihal lembrou-se de tudo.

Pois é, isso mesmo. Ela também sentia orgulho de si mesma.

Durante todo o tempo que ficou na enfermaria, Nihal recebeu uma infinidade de visitas. Um dos primeiros a chegar foi o general, que lhe assegurou o seu empenho em promover um reconhecimento oficial pela façanha. Depois começou a procissão dos soldados e Nihal foi forçada a contar até não agüentar mais como tinha conseguido derrotar o mais temível guerreiro do Tirano. Claro, não podia certamente deixar de sentir-se lisonjeada com todas aquelas atenções, mas o papel de heroína deixava-a um tanto constrangida.

Ido, por sua vez, só aparecia raramente, e quando ia visitá-la nunca se demorava. Até certo ponto ela até preferia que fosse assim. Não podia esquecer com que tipo de arma havia vencido Dola, nem com quais motivações. É verdade, não o tinha matado. Mantivera a palavra dada a Megisto. Alcançara o seu objetivo. Mas e agora?

Depois de dez dias de convalescença, pôde dar os primeiros passos com a ajuda de muletas. Saiu da barraca e deu uma volta pelo acampamento.

O sol estava quente e acariciava sua pele. Nihal sentiu-se quase em casa. Tinha a impressão de reconhecer aquele sol: era o mesmo que a vira crescer cheia de confiança entre as muralhas de Salazar.

Antes de mais nada quis visitar Oarf. Logo que o viu, deitado na grama à margem do acampamento, com a ferida na asa ainda não totalmente curada, sentiu um aperto no coração.

Chegou perto, cambaleando.

— Conseguimos, meu amigo, conseguimos — disse. Afagou-lhe o focinho e o dragão lambeu sua mão.

Mais tarde, enquanto comia no refeitório da base, Nihal teve a oportunidade de ouvir uma estranha conversa entre dois soldados sentados atrás dela.

— E ainda insiste?

— Claro que insiste! E pensar que a gente não fazia a menor idéia!

— Parece impossível. Quer dizer, estamos falando de Dola! Se for verdade, então a coisa é realmente séria...

— Não sei não, mas não podemos esquecer que Ido não fez qualquer comentário a respeito. Agora, se alguém me acusasse de ter estado em conluio com o inimigo, eu faria de tudo para provar a minha inocência...

Nihal virou-se na mesma hora.

— Do que estão falando? — perguntou com voz tensa.

— Nada de importante... — respondeu um dos dois soldados, constrangido.

— Quero saber do que estão falando! — repetiu Nihal

— Estávamos falando de Dola — interveio o outro. — Desde que chegou aqui não faz outra coisa a não ser pedir para falar com Ido.

Nihal sentiu uma onda de calor corar seu rosto.

— Por quê? Ele explicou o motivo disso?

— Diz que se conhecem há muito tempo... que já lutaram lado a lado — continuou o soldado.

— É mentira! — gritou Nihal. Uma fisgada nas costas deixou-a sem fôlego, mas não impediu que agarrasse as muletas e ficasse de pé. — Onde está aquele verme?

— Na zona ocidental da base, onde ficam os prisioneiros. Mas o general ordenou que...

As palavras do soldado perderam-se no vazio. Nihal já fora embora, saltitando em cima das muletas.

Quando voltou para a tenda, Laio estava atarefado polindo a sua espada.

— Então, como está se saindo empoleirada nesses trastes? — perguntou o rapaz brincando, mas o sorriso morreu em seus lábios diante do olhar lúgubre de Nihal. — O que houve?

Nihal não respondeu. Tirou-lhe a arma das mãos e saiu. Laio chegou até a porta.

— Nihal, espere! — Viu-a afastar-se, então sacudiu a cabeça e voltou para dentro, conformado.

— Deixe-me entrar— ordenou Nihal ao guarda. Estava pálida e suada. Na atadura que lhe apertava o tórax aparecia uma mancha vermelha.

— Para dizer a verdade, as minhas ordens...

— Deixe-me entrar — repetiu ela.

— Está bem, mas nem quero saber — resmungou o soldado. Deu de ombros e abriu a porta da jaula de madeira que funcionava como cela.

Quando entrou, Nihal foi investida por uma baforada de ar fechado e bolorento. A cela estava escura e as finas lâminas de luz que filtravam entre as tábuas mal davam para iluminar o ambiente. A jovem deu alguns passos, tropeçou, caiu no chão.

Uma risada ecoou entre as paredes de madeira. Lentamente, do escuro, apareceu a figura de um gnomo tão musculoso que parecia irreal. Tinha mãos e pés presos por pesadas correntes, o corpo estava coberto de ferimentos, mas não parecia sofrer qualquer dor. Seus olhos de furão fitavam Nihal com desdém.

— Não consegue nem ficar de pé, semi-elfo? Nihal levantou a espada diante de si, furiosa.

— Cale-se! Pode ser que não me agüente em pé, mas de nós dois o que está acorrentado é você!

— Que ferocidade! — escarneceu Dola. — Talvez o Tirano não esteja tão errado ao recear você.

— O Tirano nem sabe quem sou — respondeu Nihal.

— Não, não sabe, mas a receia assim mesmo. É por isso que está à sua procura — sussurrou o gnomo. — Por quanto tempo acha que ainda pode ficar escondida, antes que ele a encontre? De nada vai adiantar-lhe o fato de ter-me vencido, pois muito em breve todos vocês irão mergulhar no inferno. E você poderá juntar-se aos seus antepassados. Estão acabados, semi-elfo.

Nihal aproximou-se de Dola até encostar-lhe a lâmina no peito.

— Que mentira é essa que anda dizendo do meu mestre?

— O seu mestre?! — exclamou Dola, incrédulo. — Quer dizer que aprendeu com Ido... Uma surpresa e tanto, ele nunca foi um bom guerreiro.

Nihal ficou possessa de raiva.

— Como se atreve a manchar a honra de Ido, seu verme? Dola riu com escárnio.

— Honra? Que honra? Ido não passa de um traidor! Lutou nas fileiras do Tirano durante anos. Estava com o Tirano quando acabaram com a raça dos semi-elfos.

— Do que diabo está falando? — gritou Nihal.

— O seu amado mestre participou do extermínio do seu povo, semi-elfo. Pergunte a ele, quando encontrá-lo.

— Cale-se! Cale-se! — berrou Nihal.

Acabava de levantar a espada quando a porta se abriu e a cela encheu-se de luz. Nihal sentiu alguém segurar seu pulso.

A arma escorregou das suas mãos e caiu no chão com estrondo.

— Ninguém autorizou sua presença aqui — disse o general. Quatro soldados apareceram atrás dele.

Nihal achou que seu coração iria explodir. As pernas não a sustentaram. Teve uma tontura. Apoiou-se numa parede da cela e deixou-se escorregar até sentar-se no chão.

O general acenou com a cabeça para os soldados.

— Mandem chamar o escudeiro.

Laio chegou correndo e levou-a embora, para longe do cubículo. Mandou-a deitar-se na grama, à sombra de uma árvore. Nihal não teve forças para se opor.

— Não é verdade — continuou dizendo, enquanto seus olhos iam ficando turvos. — É tudo mentira...

Então, fechou as pálpebras. Quando voltou a abri-las, Ido estava de pé ao seu lado, olhando em silêncio para ela.

— Diga-me que não é verdade... diga para eles todos... — murmurou Nihal.

— Precisamos ter uma conversa, Nihal — respondeu o gnomo.

 

                       IDO DA TERRA DO FOGO

Sentada no catre, na tenda de Ido, Nihal olhava para o mestre com expressão aturdida. Parecia-lhe que o mundo despedaçava-se sob os seus pés.

— Por que não o desmentiu, Ido? Por que não disse a todos que só estava contando mentiras? — perguntou com um fio de voz.

Ido sentou-se ao seu lado e passou as mãos no rosto. Ficou um bom tempo de olhos fixos no chão. Parecia procurar no solo a coragem e as palavras. Finalmente levantou os olhos e encarou-a.

— O que Dola disse é a pura verdade.

Nada. Branco. Nihal nada sentiu. E o que poderia sentir, afinal? Não encontrava em si emoções com as quais expressar o pasmo, a raiva, a dor. Nada.

— Nasci na Terra do Fogo, Nihal, mas isso você já sabe. O que você não sabe é que sou o herdeiro do trono daquela Terra.

Ido respirou fundo, aproximou-se e começou a contar:

Quando a guerra dos Duzentos Anos acabou e Nâmen, o rei dos semi-elfos, assumiu o poder sobre todo o Mundo Emerso, na Terra do Fogo reinava Daeb, um rei nem melhor nem pior do que muitos outros.

As vontades do novo soberano subverteram a ordem política conseguida após longos anos de guerras: Nâmen decidiu que as Terras por ele conquistadas fossem devolvidas aos legítimos povos, destituiu todos os soberanos e ordenou que cada Terra elegesse o próprio rei.

Algumas Terras preferiram manter os seus monarcas, outras escolheram novos. Na Terra do Fogo, no entanto, o povo dos gnomos não teve a possibilidade de eleger ninguém. A decisão de Nâmen provocou uma guerra interna entre as famílias nobres, que levou ao assassinato de Daeb e ao desterro forçado do seu primogênito Moli.

Moli era jovem, mas jurou que nunca iria esquecer o que acontecera, e que mais cedo ou mais tarde retomaria o que lhe pertencia.

Foi morar na Terra das Rochas e casou-se com Nar, uma jovem do lugar, ela também gnoma, com a qual teve dois filhos: Ido e Dola.

Moli amava os filhos, mas a única coisa realmente importante para ele era a vingança. Só tinha um pensamento na cabeça: retomar a coroa e vingar o pai.

Ido e Dola aprenderam a usar a espada desde crianças. Quando não estava viajando pelo Mundo Emerso à cata de alianças, Moli treinava-os pessoalmente.

Ido era apenas uma criança, mas tinha jeito com as armas. O pai não se cansava de dizer-lhe que um dia seria rei. Ensinava-lhe a odiar aqueles que lhes tiraram o trono, e ele odiava. Dizia-lhe que teria de matar os inimigos e ele concordava convencido. Enviou-o à Academia dos Cavaleiros de Dragão quando ainda era um menino: foi lá que conheceu Vesa, foi lá que aprendeu tudo.

Dola era diferente: era gracioso, não nascera para lutar, adoecia o tempo todo. E além do mais era o caçula: não iria herdar o trono, só precisava aprender a lutar quando a hora chegasse. Moli atormentava-o, forçava-o a lutar sob a chuva mais violenta, tentava de qualquer forma transformá-lo num guerreiro. Dola empenhava-se como qualquer criança que não quer decepcionar o pai: treinava sozinho, entregava-se de corpo e alma àquilo que considerava um dever, engolia escárnios e gozações.

Foi logo depois que Ido se tornou Cavaleiro que aconteceu a virada.

Moli entrou em contato com um jovem mago muito ambicioso que lhe assegurou o seu apoio na reconquista do trono que fora de Daeb. Começou a passar cada vez mais tempo na Grande Terra e quando voltava mostrava-se muito satisfeito.

Certo dia teve de partir para a Terra da Noite e quis que Ido e Dola o acompanhassem. Chegaram a um lugar remoto, uma espécie de palácio encravado entre as montanhas, impossível de ser encontrado por alguém que não soubesse o caminho.

Foi ali que Ido e Dola conheceram pela primeira vez o homem em quem o pai acreditava cegamente. Ou melhor, conheceram a voz dele, pois o homem ocultava-se atrás de uma pesada cortina preta. Uma voz indecifrável, sem idade, não humana.

— Estes são os meus filhos, senhor — disse Moli, num tom senil que surpreendeu Ido.

— Qual é o mais velho? — perguntou a voz. Moli empurrou Ido.

— Este aqui, meu senhor.

“Meu senhor”, foi assim mesmo que Moli falou. Ido não conseguia entender: o pai era rei e ele príncipe, ninguém podia ser senhor deles. Sentia-se pouco a vontade. Não podia ver aquele homem mas sabia que estava sendo observado.

O homem atrás da cortina perguntou se queria de volta o trono.

Ido respondeu que sim, claro que queria.

O homem nada mais disse.

Então foi a vez de Dola. A conversa com ele foi bem mais longa e Ido teve a impressão de o homem ter gostado do irmão.

Dois meses após aquele encontro, Moli disse aos filhos que precisavam voltar à Terra da Noite para planejar o ataque contra a Terra do Fogo. Um exército estaria lá, esperando por eles.

Ido e Dola voltaram ao palácio do homem sem rosto. O exército estava lá, grande e numeroso, e Ido sentiu o sangue correr veloz em suas veias: o grande dia havia chegado!. Finalmente, depois de anos de ultrajes e de exílio, iriam retomar o que de direito lhes pertencia.

Havia muitas outras pessoas no palácio do homem misterioso, pessoas que Ido não conhecia. Foi naquele dia que o Tirano assumiu o poder, e Ido estava lá. Não lhe importava saber o que aquele homem estava tramando, nem conhecer seus motivos. Só queria a sua coroa de volta e estava disposto a lutar por ela.

Foi a sua primeira guerra. A campanha durou três meses, foi longa e cansativa, foi ferido várias vezes e arriscou a vida, mas nada parecia capaz de detê-lo. Combatia em nome da sua família, pela coroa. Aquele sonho não o deixava ver mais nada. Dola, por sua vez, só participou dos combates no início, depois começou a passar períodos cada vez mais longos no palácio do homem misterioso. O Tirano, como queria ser chamado àquela altura.

Ido chegou aos arredores de Assa, a capital da Terra do Fogo, num dia de julho. Tinha atravessado um país em ruínas e o povo recebera-o como um salvador. Era pouco mais do que um rapazola, e todos aqueles braços levantados, a gratidão das pessoas, a vitória subiram à sua cabeça. Sentiu-se um herói e com essa convicção chegou ao palácio real, que as tropas sob o comando de Moli já haviam conquistado.

O rei usurpador e toda a sua família haviam sido reunidos na sala do trono. O soberano implorou que lhe poupassem a vida.

Moli ouviu em silêncio, sorrindo. Em seguida olhou para Ido e entregou-lhe a espada.

— A honra é sua — disse.

Ido aproximou-se e trespassou-o sem misericórdia. Já tinha matado antes, mas sempre em combate. Gostou de tirar a vida daquele homem que não conhecia. Gostou de ver o desespero da família. Foi naquele dia que se tornou um assassino.

Os meses seguintes foram dedicados à vingança. Moli mandou matar ou prender todos aqueles que haviam apoiado o velho rei e instaurou uma nova era de sangue. Ido, por sua vez, entregou-se aos prazeres da vida. Tornou-se um mandrião. Passava os seus dias banqueteando na corte e as noites entregue às mulheres e à cerveja. Não tinha o menor interesse pelo o que acontecia fora dos confins da sua Terra. O seu único escopo na vida era aproveitar ao máximo aquela coroa que o pai desde sempre lhe prometera. Até que, certo dia, Moli o convocou.

— O Tirano quer que se apresente a ele — disse com gravidade.

— O Tirano? — bufou Ido. — E por quê?

— Quero lembrar-lhe que temos uma dívida para com ele. O seu irmão já juntou-se a ele na Grande Terra. Partirá hoje mesmo —ordenou Moli, e com isso encerrou o assunto.

Ido encontrou enormes mudanças na Grande Terra: onde antigamente surgia o palácio do Conselho estava sendo construída agora uma imensa torre de cristal negro. O Tirano estava edificando o seu Castelo. Por enquanto não passava de uma maciça base octogonal com a altura de apenas quatro andares, mas já era uma coisa majestosa e impressionante. As paredes tinham reflexos fúnebres, as janelas eram altas ogivas abertas como as órbitas vazias de uma caveira. Em volta da torre, centenas de escravos trabalhavam noite e dia em oito edifícios menores: os tentáculos que mais tarde iriam invadir cada uma das Terras livres.

Dola recebeu o irmão e levou-o para a grande sala das audiências. Ido quase não o reconheceu: já não era o garoto gracioso e fraco de antigamente. Parecia crescido, andava com um novo ar de atrevimento e vestia-se como um guerreiro.

O Tirano mantinha-se oculto, como de costume, atrás de uma pesada cortina preta. Sua voz ecoava no salão como se estivesse vindo do além.

— Está na hora de seu pai pagar a sua dívida. A partir deste momento você e o seu irmão lutarão para mim — disse o Tirano.

Ido tentou protestar, mas o Tirano interrompeu-o bruscamente:

— É a minha decisão. E do seu pai também, pois a minha vontade e a dele são uma coisa só. Nunca se esqueça disso, Ido.

Foi assim que Ido entrou no exército do Tirano. Recebeu uma armadura e uma espada sobre cuja empunhadura estava gravado o juramento de fidelidade ao Tirano. No começo não teve muitos homens sob o seu comando, pois o Tirano ainda não dispunha de um verdadeiro exército: quem fornecia os homens e as armas eram os antigos reis destituídos por Nâmen.

Ido foi enviado para a frente de batalha da Terra da Noite e lá aprendeu realmente o oficio das armas. O Tirano transformou-o num guerreiro. Quanto mais tempo passava, mais a guerra entrava no seu sangue. Gostava do combate em si, gostava do cheiro de sangue que a noite podia sentir na carne, gostava do terror que conseguia inspirar nos inimigos.

O Tirano deu uma finalidade à sua vida: matar. Quanto mais matava, mais era temido. E quanto mais era temido, mais sentia-se forte e poderoso. No campo de batalha, a sua espada só parava quando todos estivessem caídos. Não receava a dor, não receava a morte. Só o combate fazia com que se sentisse vivo.

Raramente voltava para Assa. A vida da corte que tanto amara deixava-o agora enojado. O pai já não lhe parecia o mesmo: havia envelhecido e, aos seus olhos, tornara-se um pequeno homem mesquinho, sempre ansioso em relação aos filhos e ao reino sobre os quais exercia cada vez menos poder. Quando ia visitá-lo, Moli não fazia outra coisa a não ser choramingar, queixava-se dos impostos que tinha de pagar ao Tirano, dos homens que o exército dele lhe tirava. Dizia que sentia a respiração do Tirano na nuca, suplicava para que não deixasse o Tirano tomar a Terra deles.

Quem ele via amiúde, ao contrário, era Dola, e cada vez ficava admirado com a aparência dele. Também começava a ficar conhecido como guerreiro e tinha muitas tropas sob o seu comando. Os seus soldados o temiam e o respeitavam, e não demorou para que a sua fama superasse a do irmão.

Ido começou a ficar com ciúme.

Então, certo dia, o Tirano convocou-o, dizendo que tinha um presente para ele: entregou-lhe o comando de uma tropa de fâmins. A partir daí, durante dez anos, Ido não fez outra coisa a não ser combater.

O Tirano presenteara Dola com um dragão negro, um animal terrível que parecia ter saído das entranhas da terra. No dorso daquela fera, a ascensão de Dola como guerreiro parecia ter chegado ao apogeu. Mais de uma vez Ido olhara para o dragão negro com inveja. Vesa nem lhe chegava aos pés.

— Quero pô-lo à prova, Ido — disse o Tirano. — Se levar a cabo satisfatoriamente a próxima missão, também terá um dragão negro e novas tropas sob o seu comando. Satisfaça-me e torná-lo-ei poderoso.

A Terra da Noite já fora conquistada havia mais de um ano, mas ao longo da fronteira ainda existiam vários focos de rebelião. Ido recebeu um contingente de duzentos fâmins e uma só ordem: exterminar.

A cidadela apareceu ao longe, mergulhada na escuridão perene da Terra da Noite. Era pequena, uns trinta casebres de madeira protegidos por uma sólida paliçada, mas sem uma única sentinela a guarnecer a entrada.

Ido não esperava encontrar os rebeldes tão desleixados, mas não fez perguntas. Ficou muito satisfeito, aliás: podia contar com o fator surpresa. Lançou os fâmins ao ataque e levantou vôo com Vesa para incendiar do alto as cabanas.

Levou algum tempo para entender. Os fâmins não encontravam resistência. Os únicos gritos que ouvia eram de mulheres e crianças.

O Tirano enviara-o para destruir uma aldeia de semi-elfos. Haviam encontrado abrigo ali após fugirem da Terra dos Dias. Já eram muito poucos, naquela altura.

Ido havia travado muitos combates, naqueles dez anos. Tinha matado sem pensar duas vezes, afundando a sua espada em quem lhe implorava misericórdia. Perdera qualquer noção de moral, não se importava com o bem nem com o mal, e já não tinha qualquer interesse pelos demais.

Mas daquela vez, quando viu as suas tropas tripudiarem sobre os que fugiam, chacinarem os feridos a mordidas, esquartejarem os cadáveres com as garras, alguma coisa dentro dele rebelou-se. Aqueles inimigos não eram soldados: eram pessoas desarmadas que só pediam para viver em paz.

Planou com Vesa sobre o vilarejo e ordenou a retirada, mas os fâmins não lhe obedeceram. Gritou, cada vez mais alto, sem resultado. Então investiu contra os seus soldados, estraçalhou muitos com a sua espada. Mas foi tudo inútil. Os fâmins viraram-se contra ele e feriram-no gravemente. Só conseguiu salvar-se graças a Vesa. Encontrou abrigo no topo de um penhasco e assistiu a chacina lá de cima.

Quando tudo acabou voltou a descer, desmontou de Vesa e atravessou a aldeia a pé. Parecia-lhe estar à beira da loucura. Aquilo era demais. Demais até para ele. Não queria mais combater para aquele homem, nunca mais.

Decidiu voltar a Assa. Foi forçado a seguir por caminhos secundários. Estava ferido, mas era antes de mais nada um traidor. Ido não sabia ao certo por que estava voltando para o pai, não sabia o que ainda o mantinha de pé, não sabia mais coisa alguma. Foi uma viagem terrível. Então chegou à Terra do Fogo e a realidade mostrou-se aos seus olhos nua e crua. O povo estava escravizado, por toda parte reinava o mais sombrio desespero. As mulheres haviam ficado sozinhas a cuidar dos campos, as crianças eram fantasmas magros e esfarrapados, os homens trabalhavam no inferno das forjas perto dos vulcões, na produção de armas.

Quando Ido chegou ao palácio real encontrou-o guarnecido pelos guardas do Tirano. Detiveram-no e levaram-no acorrentado para a sala do trono.

Sentado no assento já não havia Moli, mas sim Dola, irreconhecível. Usava na cabeça a coroa que havia sido do pai. Aos seus pés, agachado, o imenso dragão negro olhava para Ido com olhos em brasas e parecia escarnecê-lo.

— Meu caro irmão — começou Dola com voz condescendente —, já sabia que o Tirano está muito zangado com você?

— Onde está o nosso pai? — perguntou Ido, exausto. Dola deu de ombros.

— Infelizmente morreu há algumas semanas. Sinto muito, não queria que você soubesse desse jeito...

— Maldito! Você o matou! — gritou Ido, mas os guardas derrubaram-no no chão.

— Morreu devido à própria estupidez — respondeu Dola. — Por que insiste em não querer entender, Ido? Por que não quer que o Nosso Senhor tome conta de você? Olhe para mim: o Tirano tornou-me poderoso, deu-me um corpo e uma força invencíveis.

Mas Ido não entendia, não conseguia entender.

— Você é louco...

Dola deu uma gargalhada.

— O louco é você, se recusar a oferta, Ido. O que é a vida do nosso pai, a vida dos inúteis que nos cercam, comparada com o Poder? Tudo nos será permitido, tudo estará ao nosso alcance, porque o Tirano tudo pode. Contribuiremos à criação de uma nova ordem. Pense nisto, Ido. Volte para ele e prostre-se aos seus pés: irá perdoar-lhe.

A raiva de Ido explodiu.

— Vendeu a sua alma, Dola! Matou o nosso pai e vendeu a sua alma! — gritou enquanto os guardas o arrastavam para fora.

— Tem até amanhã para tomar uma decisão, meu caro irmão: ou volta para servir o Tirano ou será morto — concluiu Dola.

Ido ficou trancado na fortaleza adjacente ao palácio, onde no passado residiam os soldados da guarda pessoal do pai.

Estava desesperado devido a morte de Moli e o peso da vida que até então levara desmoronou em cima dele. Tinha permitido que o Tirano cometesse ações atrozes, ajudara-o a conseguir o poder, deixara-o matar seu pai e destruir a vida dos seus súditos.

Mais uma vez, foi salvo por Vesa. Dez homens tentaram segurá-lo, até um mago participou, mas a força do animal parecia indomável. O dragão carbonizou qualquer um que tentasse detê-lo e fugiu das estrebarias depois de derrubar uma parede. Sobrevoou longamente a fortaleza em que Ido era mantido prisioneiro, soltando bem alto o seu rugido, sem ligar para as setas que lhe espetavam a pele. Então mergulhou de cabeça, espatifou os muros e levou o seu cavaleiro em segurança para além da fronteira.

Ido abrigou-se na Terra do Vento. Já não tinha lugar para onde ir, motivo para viver. Foi então que decidiu entregar-se ao exército daquela Terra. Considerava mais do que justo que a condená-lo à morte fossem aqueles contra os quais havia lutado. Apresentou-se num acampamento, jogou a espada no chão e pediu para ser preso. Quando os soldados o reconheceram, sujo, esfarrapado e ferido, ficaram surpresos: nunca acontecera antes que um inimigo se entregasse espontaneamente. O general do acampamento ordenou que Ido fosse julgado pelo Conselho dos Magos.

Os dias que antecederam o seu comparecimento diante do Conselho foram os piores da sua vida. Era assombrado pela lembrança da aldeia que tinha destruído, da consciência de que aquelas mulheres e aquelas crianças jamais