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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A MORTE DA SRA. Mc GINTY / Agatha Christie
A MORTE DA SRA. Mc GINTY / Agatha Christie

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A MORTE DA SRA. Mc GINTY

 

— A Sra. McGinty morreu! — E como foi que ela morreu? — Foi atingida por um objeto pontudo e pesado. A Sra. McGinty vivia sozinha numa casa pequena e tinha

apenas um inquilino. Um homem chamado Bentley. James Bentley.

— Ah, sim, Bentley. Bentley estava sem tostão, perdera o emprego e devia dois meses de aluguel.

— E então Bentley foi detido e julgado?

— Sim. Um caso muito simples e evidente.

Veredicto: culpado. Condenado à morte.

Poirot fez que sim com a cabeça.

— E então, depois do julgamento, você pegou um trem para Londres e veio aqui me ver.

Por quê?

— Porque — disse o Superintendente Spence — não foi ele quem cometeu o crime...

 

Hercule poirot saiu do restaurante da Vieille Grand'mère para o Soho. Levantou a gola do sobretudo, mais por prudência que por necessidade, pois a noite não estava fria. "Porém na minha idade, não se deve correr riscos", era o que ele costumava dizer.

Seus olhos refletiam um prazer sonolento. Os escargots da Vieille Grand'mère estavam deliciosos. Um verdadeiro achado esse restaurantezinho obscuro. Contemplativamente, como um cachorro bem nutrido, Hercule Poirot passou a língua sobre os lábios. Puxando o lenço do bolso, ele deu uns tapinhas no opulento bigode.

Sim, jantara muito bem... Mas, e agora?

Um táxi, ao passar por ele, diminuiu a marcha convidativo. Poirot hesitou um momento, mas não lhe fez sinal. Por que pegar um táxi? De qualquer forma ele chegaria em casa cedo demais para ir para a cama.

"Ai de mim!" — murmurou Poirot com seus bigodes — "é uma pena que uma pessoa só possa comer três vezes ao dia...”

Pois o chá da tarde era uma refeição à qual ele nunca se habituara. "Se tomarmos o chá das cinco", explicava ele, "não chegaremos à hora do jantar com a quantidade adequada de sucos gástricos. E o jantar, é preciso que se lembrem, é a refeição suprema do dia!"

Ele também não gostava de um cafezinho antes do almoço. Não, chocolate com croissants de manhã cedo, déjeuner ao meio-dia — se possível — mas certamente nunca depois de uma hora da tarde, e finalmente, o clímax: le diner!

Eram estes os períodos culminantes do dia de Hercule Poirot. Sempre tora um homem que levava o estômago muito a sério, e agora colhia seus frutos na idade madura. Comer não era apenas um prazer físico, mas também uma pesquisa intelectual. Porque entre as refeições ele perdia um bocado de tempo investigando e escolhendo possíveis fontes de novas e deliciosas comidas. O Vieille Grand'mère fora o resultado de uma destas pesquisas, e agora acabara de receber a chancela de aprovação gastronômica de Hercule Poirot.

Mas agora, infelizmente, havia toda a noite pela frente.

Hercule Poirot suspirou.

"Se ao menos", pensou ele, "ce cher Hastings estivesse disponível..."

Prolongou o prazer das lembranças de seu velho amigo.

"Meu primeiro amigo neste país — e ainda o melhor amigo que tenho. Na verdade, diversas vezes, ele me dá raiva. Mas será que eu me lembro agora? Não. Eu me lembro apenas de sua admiração incrédula, de sua apreciação boquiaberta aos meus talentos — a facilidade com que eu o iludia sem dizer uma única palavra falsa, seus esforços baldados, seu espanto estupendo quando finalmente percebia a verdade que sempre estivera muito clara para mim. Ce cher, cher ami É a minha fraqueza, sempre foi a minha fraqueza este desejo de sobressair. Esta fraqueza, Hastings nunca pôde compreender. Mas, na verdade, é muito necessário para um homem de minhas habilidades admirar-se a si próprio — e para isto é preciso um estímulo externo. Eu não posso, não posso mesmo, ficar sentado o dia inteiro numa cadeira, refletindo como sou verdadeiramente admirável! Precisamos sempre de um toque humano. Precisamos — como se diz hoje em dia — de um coadjuvante'."

Hercule Poirot suspirou. Virou na Avenida Shaftesbury.

Atravessaria e iria até a Praça Leicester para passar o resto da noite num cinema? Franzindo ligeiramente a testa, ele balançou a cabeça. O cinema, na maioria das vezes, o chateava. A inconsistência da trama — a falta de continuidade lógica dos argumentos — mesmo a fotografia, que, para delírio de alguns, retratava para Hercule Poirot cenas e objetos de modo a fazê-los totalmente diferentes do que eram na realidade.

Tudo, decidiu Hercule Poirot, era artístico demais hoje em dia. Em nenhum lugar havia mais o amor pela ordem e pelo método que ele prezava acima de tudo. E raramente havia a apreciação pela sutileza. Cenas de violência e de crua brutalidade estavam na moda e, como um antigo oficial de Polícia, Poirot se aborrecia coma brutalidade. Em seus dias passados eleja vira o suficiente de crueza e brutalidade. Sempre tora mais pela regra do que pela exceção. Achava isso cansativo e estúpido.

"A verdade é", refletiu Poirot ao virar seus passos na direção de sua casa, "que eu não estou bem sintonizado com este mundo moderno. E eu sou, de maneira superior, um escravo, como todos os outros homens são escravos. Meu trabalho me escravizou da mesma forma com que o trabalho deles também os escravizou. Quando a hora do repouso chega, eles não têm como matar o tempo. O financista aposentado dedica-se ao golfe; o pequeno comerciante planta bulbos em seu jardim; eu, eu como. Mas aí é que está, eu volto ao ponto de partida. Uma pessoa só pode comer três vezes por dia. E os intervalos são os hiatos."

Passou por uma banca de jornal e deu uma olhada na manchete.

"Resultado do Caso McGinty. Veredicto."

Não lhe despertou nenhum interesse. Lembrou-se vagamente de um pequeno parágrafo nos jornais. Não fora um crime interessante. Uma velhota infeliz aquém quebraram a cabeça por umas poucas libras. Tudo isto fazia parte da cruel e insensata brutalidade dos dias de hoje.

Poirot entrou no pátio interno de seu bloco de apartamentos. Como sempre seu coração envaideceu-se em aprovação. Ele tinha orgulho de sua casa. Um edifício esplendidamente simétrico! O elevador levou-o até o terceiro andar, onde tinha um apartamento grande e luxuoso, com impecáveis objetos cromados, poltronas quadradas e ornamentos severamente retangulares. Podia-se dizer sem susto que não havia uma só curva em todo o local.

Abriu a porta com sua chave, entrou num vestíbulo branco, quadrangular, e seu camareiro George apareceu silenciosamente pelo outro lado para encontrá-lo.

— Boa noite, senhor. Há um ... cavalheiro esperando para vê-lo.

Com perícia, ele ajudou Poirot a tirar o sobretudo.

— É mesmo? — Poirot percebera a leve pausa antes da palavra cavalheiro. Como um esnobe social, George era um perito.

— Como é o nome dele?

— Um Sr. Spence, senhor.

— Spence — O nome dele não dizia nada para Poirot. Entretanto, ele sabia que devia conhecê-lo.

Fazendo uma pausa em frente ao espelho para ajustar os bigodes a um grau de perfeição, Poirot abriu a porta da sala de visitas e entrou. O homem, que estava sentado em uma das poltronas quadradas, levantou-se.

— Alô, Monsieur Poirot, espero que se lembre de mim. Faz muito tempo... Superintendente Spence.

— Mas é lógico — Poirot apertou-lhe a mão efusivamente. Superintendente Spence da Polícia de Kilchester. Tinha sido

um caso muito interessante... Como dissera Spence, há muito tempo atrás...

Poirot assediou seu conviva com bebidas. Grenadine? Creme de Menta? Benedictine? Licor de cacau?...

Neste momento, George entrou com uma bandeja onde havia uma garrafa de uísque e um sifão. — Talvez o senhor prefira cerveja? — murmurou para o visitante.

O rosto grande e avermelhado de Spence abriu-se num sorriso.

— Cerveja para mim — disse ele.

Poirot olhou com admiração para George. Ele próprio não tinha idéia de que houvesse cerveja*em casa e ainda lhe parecia mais incompreensível que alguém* preferisse cerveja a um licor adocicado.

Quando Spence estava de posse de sua caneca de cerveja, Poirot serviu-se de um minúsculo cálice de creme de menta verde-brilhante.

— É muito gentil de sua parte ter vindo me visitar — disse ele. — Gentilíssimo. Está vindo de...

— Kilchester. Eu vou me aposentar dentro de seis meses. Na verdade, já devia ter-me retirado há dezoito meses. Eles me pediram para continuar e eu fiquei.

— Você foi sensato — disse Poirot com veemência. — Foi muito sensato.

— Será que fui? Eu fico imaginando. Não tenho muita certeza.

— Sim, sim, você foi sensato — insistiu Poirot. — As longas horas de tédio, não tem idéia do que sejam...

— Oh, eu tenho muito o que fazer quando me aposentar.

Mudamos para uma casa nova no ano passado. Tem um jardim grande que está vergonhosamente abandonado. Ainda não tive tempo para cuidar dele de verdade.

— Ah, sim, você é um destes que faz jardinagem. Eu, um dia, decidi morar no campo e cultivar abóboras-d'água. Não tive êxito. Acho que não tenho vocação.

— Devia ter visto uma de minhas abóboras do ano passado — disse Spence com entusiasmo. — Colossal! E minhas rosas. Eu sou louco por rosas. Vou plantar...

Ele se interrompeu.

— Não foi isto que eu vim aqui conversar.

— Não, não, você veio ver um velho amigo — foi muito delicado. Eu gostei muito.

— Eu sinto muito, Monsieur Poirot, mas tem outra coisa. Eu vou ser honesto. Eu queria uma coisa.

Poirot murmurou com delicadeza:

— Possivelmente existe alguma hipoteca sobre sua casa? Você gostaria de um empréstimo...?

Spence interrompeu-o com a voz horrorizada:

— Oh, Deus Louvado! Não é dinheiro! Não é nada disto! Poirot abanou as mãos numa desculpa diplomática.

— Peço suas desculpas.

— Eu vou-lhe contar tudo direito — é muita ousadia de minha parte. Não será surpresa se me mandar embora envergonhado.

— Não há motivo para vergonha — disse Poirot. — Mas, continue.

— É o caso McGinty. Talvez já tenha lido algo a respeito.

Poirot balançou a cabeça.

— Não prestei muita atenção. A Sra. McGinty era uma velhota que tinha uma loja ou uma casa. Sim, ela morreu. Como foi que ela morreu?

Spence olhou para ele.

— Deus! — exclamou ele. — Isto me faz lembrar... Extraordinário... E eu ainda não tinha pensado nisso até agora.

— Desculpe?

— Nada. Uma brincadeira. Uma brincadeira de criança. Nós brincávamos disto em criança. Fazíamos uma fila. Eram perguntas e respostas. "A Sra. McGinty morreu!" — "Como foi que ela morreu?'' — "Dobrando um joelho assim como eu!” E aí vinha outra pergunta: "A Sra. McGinty morreu!" — "Como foi que ela morreu?" — "Espichando a mão assim como eu!" E assim nós ficávamos todos ajoelhados e com um braço estendido. E então continuava: "A Sra. McGinty morreu!” - "Como foi que ela morreu...” — "ASSIM!" Bum! E o cabeça da fila caía de lado e to-d^o nós íamos para o chão como um punhado de bonecos de boliche! — Spence deu uma risada alta com a recordação. — Isto me faz lembrar muita coisa, se faz!

Poirot esperou polidamente. Era este um dos momentos em que, apesar de ter vivido quase uma existência nesta terra,achava os ingleses incompreensíveis. Ele também já brincara de esconder e de roda em sua infância, mas não sentia vontade de falar, e muito menos de pensar nisto.

Quando Spence acabou de demonstrar sua alegria, Poirot repetiu a pergunta com um ar ligeiramente enfastiado. — Como foi que ela morreu?

O riso desapareceu do rosto de Spence. Ele voltou á razão.

— Ela foi atingida na cabeça por algum objeto pontudo e pesado. Suas economias, mais ou menos umas trinta libras em dinheiro, foram roubadas e o quarto foi saqueado. Vivia sozinha numa casa pequena e tinha apenas um inquilino. Um homem de nome Bentley. James Bentley.

— Ah, sim, Bentley.

— O local não foi forçado. Não havia sinais de arromba-mento nas janelas e nas fechaduras. Bentley estava sem tostão, perdera o emprego e devia dois meses de aluguel. O dinheiro foi achado debaixo de uma pedra solta nos fundos da casa. A manga do paletó de Bentley tinha sangue e cabelo — sangue do mesmo grupo e cabelo igual ao da morta. De acordo com suas primeiras declarações ele não esteve nunca perto do corpo — assim aquilo não poderia ter ido parar lá acidentalmente.

— Quem foi que a encontrou?

— O padeiro veio trazer o pão. Era o dia de seu pagamento. James Bentley abriu-lhe a porta e disse que batera à porta do quarto da Sra. McGinty, mas ninguém respondera. O padeiro sugeriu que ela poderia estar adoentada. Foram buscar a vizinha ao lado para entrar no quarto. A Sra. McGinty não estava lá, nem dormira em sua cama, mas o quarto estava todo revirado e as tábuas do assoalho tinham sido arrancadas. Então, tiveram a idéia de olhar na sala de visitas. Ela estava estendida no chão e a vizinha botou a boca no mundo. A esta altura eles chamaram a polícia, é claro.

— E então Bentley foi detido e julgado?

— Sim. O caso foi encaminhado para o Supremo Tribunal do Condado. Ontem. Um caso muito simples e evidente. O júri só levou vinte minutos para deliberar hoje de manhã. Veredicto: culpado. Condenado á morte.

Poirot fez que sim com a cabeça.

— E então, depois do julgamento, você pegou um trem para Londres e veio aqui me ver. Por quê?

O Superintendente Spence estava olhando para o copo de cerveja. Correu o dedo lentamente pela borda do copo uma porção de vezes.

— Porque — disse ele — eu não creio que ele tenha cometido o crime...

 

Louve um minuto ou dois de silêncio.

— Você veio até aqui para...

Poirot não terminou a frase.

O Superintendente Spence olhou para cima. O tom de seu rosto estava mais vermelho do que nunca. Era uma cara típica de homem do campo, inexpressiva, comedida, com olhos argutos e honestos. Era o rosto de um homem de princípios bem definidos, que nunca duvidara de si próprio — ou que duvidara do que fosse o bem e o mal.

— Eu estou há muito tempo na Polícia — disse ele - Já tive uma boa quantidade de experiências disto e daquilo. Posso julgar um homem tão bem quanto qualquer pessoa. Já tive casos de assassinatos durante o meu serviço — alguns muito simples, alguns não tão simples assim... Um desses casos o senhor se lembra, Monsieur Poirot...

Poirot acenou afirmativamente.

— Foi um caso muito enrolado. Se não fosse o senhor, nós não teríamos descoberto nada. Mas o senhor descobriu tudo — e não houve mais nenhuma dúvida. O mesmo aconteceu com outros de que não ouviu falar. Houve o de Whistler, ele foi condenado e — mereceu. Houve os dois sujeitos que atiraram no velho Guterman. Houve o caso de Verall e seu arsênico. Tranter foi absolvido — mas ele cometera mesmo o crime. A Sra. Courtland — ela teve sorte — o marido era um canalha que não valia nada, c, por causa disso, o júri absolveu-a. Não houve justiça — houve sentimentalismo. Nós permitimos que isto aconteça algumas vezes. De vez em quando não há evidência suficiente — algumas vezes é o sentimento, um assassino consegue comover o júri — este último caso não acontece muito, mas pode acontecer. Às vezes, é uma defesa bem. .preparada pelo advogado — ou um promotor que segue um caminho errado... Oh, sim, eu já vi um monte de coisas assim. Mas... Mas...

Spence balançou um dedo indicador acusativo.

— Eu nunca vi — nunca passei por esta experiência — um homem inocente ser enforcado por um crime que não cometeu. É uma coisa, Monsieur Poirot, que eu não quero ver.

— Não — acrescentou Spence. — Não nesta terra...

Poirot encarou-o de volta.

— E acha que isto vai acontecer agora. Mas por quê...

Spence interrompeu-o.

— Eu sei o que vai dizer. Vou-lhe responder antes que me pergunte. Este caso me foi entregue. Apresentaram-me todos os indícios encontrados. Aprofundei-me cuidadosamente. Separei os fatos, todos os fatos que consegui. Todos eles apontavam numa só direção — apontavam para uma só pessoa. Depois de tudo compilado, apresentei o relatório ao meu oficial superior. Depois disto, não estava mais em minhas mãos. O caso foi para o Promotor Público e o problema era dele. Ele decidiu pela condenação — não poderia ter feito outra coisa — pelo menos com aquela evidência. E então James Bentley foi detido, submetido a julgamento, devidamente julgado e condenado. Não poderiam ter feito outra coisa, pelo menos com aquelas provas evidenciais. E são as evidências que um júri deve levar em conta. É preciso que eu diga que também não teria nenhum escrúpulo. Não, eu garanto que todos tinham certeza de que ele era culpado.

— Mas você... não tem?

— Não.

— Por quê?

O Superintendente Spence suspirou. Esfregou o queixo com uma mão forte.

— Eu não sei. O que quero dizer é que não tenho uma razão — uma razão concreta. Para o júri, eu ousaria dizer que ele parecia mesmo um assassino — mas para mim, não! — e eu sei muito mais a respeito de assassinos do que eles.

— Sim, sim... você é um especialista.

— Por uma coisa, sabe? Ele não estava convencido. Não estava nem um pouquinho vaidoso. E eu sei com minha experiência que geralmente eles são vaidosos. São sempre terrivelmente orgulhosos de si mesmos. Pensam que vão nos passar a perna. Sempre certos de que foram tão espertos e não esqueceram nem uni detalhe. E mesmo quando já estão no banco dos réus e sabem que vão ser condenados, ainda têm a impressão de que vão conseguir dar o fora. Estão num palco. São as figuras centrais. Representam o papel principal — talvez pela primeira vez em suas vidas. Eles são... bem... você sabe... vaidosos!

Spence pronunciou a palavra final com um ar de finalidade.

— O senhor entendeu o que eu quero dizer, Monsieur Poirot.

— Compreendi muito bem — disse Poirot. — E este James Bentley — ele não estava assim?

— Não. Ele estava... bem, ele estava apenas apavorado. Apavorado desde o início. E para muita gente isto podia enquadrá-lo como sendo culpado. Mas não para mim.

— Não, eu concordo com você. Como é ele, este James Bentley?

— Trinta e três anos, altura média, pálido, usa óculos... Poirot cortou o fio da conversa.

— Não, eu não quis dizer o seu tipo físico. Que tipo de personalidade?

— Oh... isto — o Superintendente Spence considerou por um momento. — Tipo de sujeito pouco atraente. Maneiras nervosas. Não é capaz de lhe olhar direto no rosto. Tem um jeito sonso de olhar meio de lado... A pior atitude para enfrentar um júri. Às vezes, servi 1, c às vezes, truculento. Esbravejava de uma forma muito ineficaz.

Fez uma pausa e acrescentou em tom de conversa:

— Realmente é um sujeito tímido. Eu tive um primo que era assim. Se acontece alguma coisa estranha eles contam uma mentira tola que ninguém pode acreditar.

— Não me parece muito atraente, o seu James Bentley.

— Oh, ele não é mesmo. Ninguém pode gostar dele. Mas eu não quero que seja enforcado só por causa disso.

— E você acha que ele vai ser enforcado?

— Eu não vejo por que não será. Seu advogado talvez possa apresentar uma apelação — mas se for o caso, será em bases muito inconsistentes — algum detalhe técnico e não vejo nenhuma chance de êxito.

— Ele teve um bom advogado?

— O jovem Graybrook foi designado para atendê-lo pela Ação de Defesa das Pessoas Pobres. Eu diria que ele foi muito consciencioso e fez o melhor que pôde.

— Então o homem teve um julgamento imparcial e foi condenado por um júri de seus próprios companheiros.

— Isso mesmo. Um júri médio. Sete homens e cinco mulheres — todos com almas decentes. O juiz foi o velho Stanisdale. Escrupulosamente imparcial — não tinha prevenção contra ele.

— Então, de acordo com a lei do lugar — James Bentley não tem do que se queixar?

— Se ele for enforcado por um crime que não cometeu, ele vai ter algo para se queixar!

— Uma observação muito justa.

— E o caso contra ele era o meu caso — fui eu quem recolheu os fatos e os agrupou lado a lado — e foi por este grupo de fatos e por este caso que ele foi condenado. E eu não gosto disso, Monsieur Poirot, eu não gosto disso.

Hercule Poirot olhou durante algum tempo para o rosto vermelho e agitado do Superintendente Spence.

— Eh bien! — disse ele. — O que você sugere? Spence parecia tremendamente encabulado.

— Eu acho que o senhor já tem uma idéia do que está acontecendo. O caso Bentley está encerrado. Eu já estou num outro caso — um desfalque de dinheiro. Tenho de ir até a Scotland Yard hoje à noite. Não tenho meu tempo livre.

— E eu... tenho?

Spence fez que sim com a cabeça com um jeitão envergonhado.

— O senhor acertou. Pode pensar que é um atrevimento horrível da minha parte. Mas não consegui pensar em mais ninguém — ou em outro jeito. Na época, eu fiz o que pude, examinei todas as possibilidades. E não cheguei a conclusão nenhuma. Nem creio que algum dia eu vá chegar. Mas, quem sabe, com o senhor pode ser diferente. Eu sei que olha as coisas — desculpe-me dizer isto — de uma maneira engraçada... Talvez tenha de ser assim que precisará olhar para este caso. Porque se James Bentley não a matou, então foi outra pessoa que matou. Ela não ia dar uma machadada na própria cabeça. Talvez possa achar algo que eu não tenha visto. Mas não há nenhuma razão para se aborrecer com o caso... É um atrevimento muito grande de minha parte sugerir tal coisa.

Mas eis tudo... Eu vim vê-lo porque foi em tudo que eu pude pensar. Mas se não quiser se aborrecer — e porque deveria...?

Poirot interrompeu-o.

— Oh, mas você tem certas razões. Eu tenho tempo a perder — tenho tempo até demais. E você me deixou intrigado — sim, você me deixou muito intrigado. É um desafio — para as pequeninas células de minha massa cinzenta. E, além disso, eu tenho de levar você em consideração. Eu já o estou vendo, em seu jardim, dentro de uns seis meses, plantando talvez suas roseiras — mas, quem sabe?, ao fazer isto, não terá prazer. Por detrás há uma certa intranqüilidade em sua consciência, uma lembrança que estará tentando esquecer. E eu não gostaria de que se sentisse assim, meu amigo. E finalmente... — Poirot sentou-se muito espigado e balançou a cabeça vigorosamente — são os princípios que contam! Se um homem não cometeu um crime, ele não deve ser enforcado — fez uma pausa e acrescentou: — Mas, suponhamos que, afinal de contas, foi ele mesmo quem a matou?

— Neste caso eu lhe seria eternamente grato pela convicção.

— Duas cabeças pensam mais que uma? Voilà, está tudo certo! Vou entrar no negócio. Está claro que não há tempo a perder. As pistas já estão frias. A Sra. McGinty foi assassinada ... quando?

— No ultimo mês de novembro, dia 22.

— Então vamos logo ao que importa.

— Eu trouxe minhas anotações sobre o caso e vou dá-las ao senhor.

— Ótimo, ao momento, eu quero apenas o apanhado geral. Se James Bentley não matou a Sra. McGinty, quem matou?

Spence deu de ombros e disse com decisão:

— Tanto quanto eu possa ver, ninguém.

— Esta resposta nós não podemos aceitar. Vejamos, como qualquer crime, é preciso haver um motivo. No caso da Sra. McGinty, qual poderia ser o motivo? Inveja, vingança, ciúme, medo, dinheiro? Peguemos o último e o mais simples de todos. Quem se beneficiou com sua morte?

— Ninguém lucrou muito. Ela possuía duzentas libras na Caixa Econômica. Quem herdou foi a sobrinha.

— Duzentas libras não é muito — mas em certas circunstâncias podem ser o bastante. Vamos considerar a sobrinha. Eu lhe peço desculpas, meu amigo, por seguir seus mesmos passos. Você também já deve ter considerado tudo isto. Mas preciso caminhar outra vez pelos terrenos que você já atravessou.

Spence balançou a cabeça.

— Nós pensamos na sobrinha, é lógico. Ela tem trinta e oito anos, é casada. O marido trabalha no ramo de construção e decoração — é pintor. Tem um bom caráter, um emprego fixo, é um sujeito esperto, não é tolo. Ela é uma moça agradável, fala um pouco demais, parecia gostar da tia de forma discreta. Nenhum dos dois tinha necessidade urgente de duzentas libras, se bem que eu possa garantir que ambos ficaram muito contentes com elas.

— E sobre a casa? Eles também a herdaram?

— Era alugada. É lógico que sob a legislação do Ato de Limitação dos Aluguéis a senhoria não podia despejar a velha. Mas agora que ela morreu, eu não creio que a sobrinha tenha nenhum direito sobre o contrato — de qualquer forma, nem ela nem o marido se interessam pela casa. Eles têm uma pequena casa moderna, própria, da qual são extremamente orgulhosos — Spence suspirou. — Eu trabalhei muito nesta sobrinha e seu marido — eles pareciam a melhor solução, o senhor compreende... Mas não consegui descobrir nada.

— Bien. Agora vamos falar da própria Sra. McGinty. Descreva-a para mim — e por favor, eu não quero apenas a sua descrição física.

Spence careteou.

— Não quer uma descrição policial? Bem, ela tinha sessenta e quatro anos. Viúva. O marido foi empregado do departamento de tapeçaria da Loja Hodges, em Kilchester. Morreu há uns sete anos. Pneumonia. Desde então a Sra. McGinty tem trabalhado diariamente pelas redondezas. Trabalhinhos domésticos. Broadhinny é um lugarejo pequeno que ultimamente se tornou residencial. Um ou dois aposentados, um dos sócios de uma companhia de engenharia, um médico,-esse tipo de gente... Há uma linha de ônibus e de trem em Kilchester e em Culienquay, que como o senhor deve saber é um local para veraneio muito freqüentado e fica apenas a doze quilômetros de lá. Broadhinny mesmo é bonitinho e muito rural — fica a uns quatrocentos metros da estrada principal de Drymouth e Kilchester.

Poirot acenou com a cabeça.

— A casa da Sra. McGinty era uma das quatro que formavam o centro do lugar. Há uma agência dos correios e uma casa de comércio, nas outras moram fazendeiros da região.

— E ela tinha inquilino?

— Sim. Antes da morte do marido costumavam ter hóspedes de verão, mas depois ela ficou com um hóspede fixo. James Bentley já estava lá há vários meses.

— Então nós chegamos a... James Bentley?

— O último emprego de Bentley foi numa agência de imóveis em Kilchester. Antes disso, ele morara com a mãe em Culienquay. Ela era inválida e ele tomava conta dela e quase não saía. Ela morreu e extinguiu-se uma pensão que recebia. Ele vendeu a casinha e procurou um emprego. Homem bem educado, mas sem nenhuma aptidão ou qualificação especial, e, como eu já lhe disse, um ar meio antipático. Não lhe foi muito fácil conseguir alguma coisa. Apesar de tudo, arranjaram-lhe um lugar em Breather & Scuttle. E uma firma de segunda classe. Eu não creio que ele tenha tido muito êxito ou que fosse particularmente eficiente. Diminuíram o pessoal e ele foi um dos demitidos. Não conseguiu arranjar outro emprego e seu dinheiro acabou. Geralmente ele pagava seu quarto á Sra. McGinty todos os meses. Ela dava-lhe o café da manhã e o jantar e cobrava três libras por semana — preço muito razoável para os dias de hoje. Ele estava atrasado dois meses e praticamente no fim de seus recursos. Não conseguira outro emprego e ela o apertava para pagar o que devia.

— E ele sabia que ela possuía trinta libras em casa? E por que teria trinta libras em casa quando tinha uma conta na Caixa Econômica?

— Porque ela não confiava no Governo. Dizia que eles já tinham duzentas libras suas e que não poriam a mão em mais nem um tostão. Guardava aquilo sempre á mão para uma necessidade de última hora. Disse isso para uma ou duas pessoas. Estava debaixo de uma tábua solta em seu quarto — um local óbvio. James Bentley admitiu que ele sabia onde estava guardado o dinheiro.

— Muito gentil da parte dele. E a sobrinha e o marido também sabiam disto?

— Sabiam também.

— Então chegamos à minha primeira pergunta. Como foi que a Sra. McGinty morreu?

— Ela morreu na noite de 22 de novembro. O médico da Polícia calculou a hora da morte entre as sete e as dez. Ela jantara — um peixe defumado e pão com margarina, e de acordo com todos, ela geralmente jantava ás seis e meia. Sc fez a mesma coisa na noite de sua morte, pela evidência da digestão, ela foi morta entre as oito e meia e nove horas da noite. James Bentley, cm seu relato, disse que estivera passeando das sete e quinze até cerca das nove horas. Ele saía e passeava quase todas as noites. De acordo com sua própria versão, chegou por volta das nove horas e foi direto para seu quarto (ele tinha uma chave). A Sra. McGinty colocara pias nos quartos para os hóspedes de verão. Ele leu durante uma meia hora e foi para a cama. Não ouviu nem reparou em nada fora do comum. Na manhã seguinte, desceu e foi ate a cozinha, mas não havia ninguém lá, nem nenhum sinal de que se fizera o café da manhã. Disse que hesitou um instante e depois bateu à porta do quarto da Sra. McGinty, mas não obteve resposta. Pensou que talvez ela dormira demais, mas não quis bater outra vez. Foi aí que o padeiro chegou e Jantes Bentley subiu e bateu de novo. Depois disto, como já lhe falei, o padeiro foi até a casa da vizinha e chamou a sra. Elliot, que foi quem achou o corpo e ficou fora de si. A Sra. McGinty estava caída no chão da sala de visitas. Fora atingida na nuca com algo assim como uma machadinha de açougueiro de lâmina muito afiada. Morrera instantaneamente. As cortinas estavam abertas, suas coisas esparramadas. A tábua solta do assoalho fora levantada e o esconderijo estava vazio. Todas as janelas estavam fechadas e trancadas por dentro. Não havia nenhum sinal de nada ter sido forçado ou arrombado pelo lado de fora.

— Assim — disse Poirot — ou foi James Bentley quem a matou ou, então, foi ela própria quem admitiu seu assassino enquanto James Bentley estava fora?

— Exatamente. Não foi assalto, nem foi um ladrão. Vamos ver então que tipo de pessoas ela deixaria entrar? Um dos vizinhos, sua sobrinha ou o marido de sua sobrinha. Fiquemos restritos a estes. Eliminemos vizinhos. Sobrinha e marido estavam no cinema aquela noite. É possível — apenas possível, eu disse — que um ou outro tenha deixado o cinema despercebido, andado de bicicleta os cinco quilômetros, matado a velha, escondido o dinheiro do lado de fora da casa e voltado ao cinema sem ser visto. Olhamos para esta possibilidade, mas não encontramos nenhuma confirmação do fato. E por que esconder o dinheiro do lado de fora da casa da Sra. McGinty? Um lugar difícil para buscá-lo depois. Por que não em algum outro lugar ao longo dos cinco quilômetros de estrada? Não, a única razão para escondê-lo ali onde estava era que...

Poirot terminou a frase para ele:

— ... por viver naquela casa, mas não querer escondê-lo no seu quarto ou. noutro local lá dentro. Na verdade: James Bentley.

— Isto mesmo. Sempre, cada vez, você termina em James Bentley. Finalmente, havia sangue no seu punho.

— O que foi que ele disse disso?

— Disse que se lembrava de ter se encostado num açougue no dia anterior. Bolas! Não era sangue de animal!

— E ele manteve essa história?

— Não muito. No julgamento, ele contou uma história completamente diferente. Como vê, havia também um fio de cabelo no punho — um fio de cabelo manchado de sangue e idêntico ao da Sra. McGinty. Isto precisava ser explicado posteriormente. Ele admitiu que estivera no quarto dela na noite anterior quando voltara de seu passeio. Entrou após bater, encontrou-a depois na sala, estendida no chão, morta. Debruçou-se sobre o corpo e tocou-a para ter certeza. E foi então que perdeu a cabeça. Sempre fora muito sensível à vista do sangue, disse ele. Foi para seu quarto em estado de choque e quase desmaiou. Pela manhã, ele não quis admitir para si próprio que sabia o que acontecera.

— Uma história muito suspeita — comentou Poirot.

— De tato. E no entanto o senhor sabe — disse pensativo Spence - que pode ser a verdade. Não é o que um homem comum — ou um júri — possa acreditar. Mas eu já deparei com homens assim. Não quero dizer a história do desmaio. Digo esse tipo de pessoas que quando se defrontam com um ato de responsabilidade, simplesmente não são capazes de enfrentá-lo. Pessoas tímidas. Digamos que ele tenha mesmo entrado lá e encontrado a velha morta. Ele sabe que precisa fazer alguma coisa — chamar a polícia — chamar um vizinho — fazer o necessário, fosse lá o que fosse. E entra em pânico. Pensa: não é preciso que eu saiba de nada. Não tinha necessidade de vir aqui hoje à noite... Eu vou para a cama, como se não soubesse de nada. Atrás disso tudo, é claro, está o medo — medo de que possam suspeitar que ele esteja implicado. Imagina que pode se manter afastado o maior tempo possível, e assim, simplório e tolo, faz o que fez e... se complica até não poder mais.

Spence fez uma pausa.

— Poderia ter sido assim.

— Poderia — disse Poirot pensativo.

Ou ainda, pode ser também a melhor história que seu advogado inventou. Mas eu não sei. A moça do café em Kilchester onde geralmente ele almoçava disse que ele sempre escolhia a mesa de onde ficasse olhando para a parede ou para um canto sem ver ninguém. Era desse jeito — meio maluco. Mas não era maluco o bastante para ser um assassino. Não tinha complexo de perseguição, nem nada no gênero.

Spence olhou esperançoso para Poirot — mas Poirot não o animou — ele estava com a testa franzida.

Os dois homens ficaram sentados e silenciosos por algum tempo.

 

FINALMENTE POIROT ERGUEU-SE com um suspiro.

— Eh bien — disse ele. — Nós esgotamos o motivo dinheiro. Vamos passar para outras teorias. A Sra. McGinty tinha algum inimigo? Será que ela tinha medo de alguém?

— Não há provas disto.

— O que foi que os vizinhos disseram?

— Pouca coisa. Não diriam nada à Polícia, talvez, mas não creio que tivessem algo a esconder. Ela era muito fechada, disseram. Mas olhavam isto com naturalidade. Nossas aldeias não são muito amigáveis, Monsieur Poirot. Os que foram evacuados durante a guerra sabem disto. A Sra. McGinty passava o dia com os vizinhos, mas não eram amigos íntimos.

— Há quanto tempo ela vivia lá?

— Cerca de uns dezoito ou vinte anos, eu acredito.

— E nos quarenta anos que viveu antes?

— Não há nenhum mistério sobre ela. Filha de fazendeiro de North Devon. Ela e o marido viveram perto de Ilfracombe durante um certo tempo, e depois mudaram-se para Kilchester. Tinham uma casa do outro lado do rio — mas acharam o lugar muito úmido e então vieram para Broadhinny. O marido parecia ser um tipo sossegado, delicado — não ia muito aos bares. Tudo muito respeitável e honesto. Nenhum mistério, nada a esconder.

— E mesmo assim ela foi assassinada?

— E mesmo assim ela foi assassinada.

— A sobrinha não conhecia ninguém que tivesse algum ressentimento contra sua tia?

— Ela diz que não.

Poirot esfregou o nariz com ar exasperado.

— Você compreende, meu caro amigo, que seria muito mais fácil se a Sra. McGinty não fosse a Sra. McGinty, por exemplo. Se ela pudesse ser qualificada uma Mulher Misteriosa — uma mulher que tivesse algo no passado.

— Pois bem, ela não tinha nada — disse Spence fleumático. - Ela era apenas a Sra. McGinty, uma mulher de pouca cultura, que alugava quartos e que trabalhava por dia em biscates. Existem milhares como ela por toda a Inglaterra.

— Mas elas não são assassinadas.

— Não, com isto eu concordo.

— Então, por que a Sra. McGinty foi assassinada? A resposta óbvia nós não podemos aceitar. O que é que sobra? Uma sobrinha, improvável e remota. Fatos? Vamos aos fatos concretos. Quais são eles? Uma mulher idosa que mantém uma pensão é morta. Um rapaz tímido e esquisito é acusado e condenado pelo assassinato. Por que foi que James Bentley foi acusado?

Spence olhou para ele.

— A evidência era contra ele. Eu não lhe disse que...

— Sim, a evidência. Mas diga-me, meu caro Spence, a evidência era verdadeira ou forjada?

— Forjada?

— Sim. Se estamos partindo do princípio de que James Bentley é inocente, restam duas possibilidades. A evidência foi preparada deliberadamente para lançar as suspeitas sobre ele ou, então, ele foi apenas a vítima das circunstâncias.

Spence considerou isto.

— Sim, eu estou percebendo onde o senhor quer chegar.

— Não há nada que nos prove que esta última hipótese é a verdadeira. Mas também não há nada em contrário. O dinheiro foi roubado e escondido num lugar fora de casa e encontrado facilmente. Escondê-lo dentro do próprio quarto teria sido demais para que a polícia engolisse. O assassinato efetuado na hora em que Bentley dava o seu passeio solitário, como fazia sempre. Será que a mancha de sangue veio parar mesmo em seu punho como ele contou durante o julgamento, ou isto também foi forjado? Será que alguém se encostou nele na escuridão e esfregou esta evidência denunciadora em seu punho?

— Eu acho que está indo longe demais, Monsieur Poirot.

— Talvez, talvez. Mas nós temos de ir longe. Eu acho que neste caso, teremos de ir tão longe que nem a imaginação ainda pode prever o caminho com clareza... Pois seja, mon cher Spence, se a Sra. McGinty foi apenas uma dona de pensão comum — o assassino é que deve ser extraordinário. Sim — isto é o óbvio. E no assassino e não na assassinada que está o interesse do caso. Não é assim na maioria dos crimes. Geralmente é na personalidade da pessoa assassinada que repousa o ponto crucial da situação. E no morto silencioso que geralmente eu me interesso. Seus ódios, seus amores, suas ações. E quando você conhece realmente a vítima, quando o morto fala, aqueles lábios silenciosos e mortos pronunciam um nome — o nome que você quer saber. Spence olhou-o meio sem jeito.

— Estes estrangeiros! — era o que ele parecia estar dizendo para si mesmo.

— Mas aqui... — continuou Poirot — é o oposto. Nos fazemos conjeturas sobre uma personalidade velada — uma figura que ainda esta escondida nas trevas. Como foi que a Sra. McGinty morreu? Por que foi que ela morreu? A resposta não será encontrada estudando a vida da Sra.McGinty. A resposta será encontrada na personalidade do assassino. Concorda comigo?

— Eu acho que sim disse o Superintendente Spence com cautela.

— Alguém que queria... o quê? Liquidar a Sra. McGinty? On liquidar James Bentley?

O Superintendente Spence fez um Hum!... duvidoso.

— Sim... sim... este é um dos primeiros pontos a ser decidido. Quem é a verdadeira vítima? Quem devia ser a verdadeira vítima?

Spence disse incrédulo:

O senhor acha realmente que alguém iria matar uma senhora idosa e totalmente inocente apenas para conseguir que alguém fosse enforcado pelo crime?

— Dizem que ninguém pode fazer um omelete sem quebrar os ovos. A Sra. McGinty podia então ser o ovo e James Bentley e o omelete. Vamos ver agora, o que é que você sabe sobre James Bentley'?

— Não é muita coisa. O pai era médico — morreu quando James Bentley tinha nove anos de idade. Ele foi para uma pequena escola pública, não foi considerado apto para o serviço militar, tinha um pulmão fraco, esteve num dos Ministérios durante a guerra c viveu sempre com sua mãe possessiva.

— Bem — disse Poirot —, aí existem algumas possibilidades... Mais do que na história da vida da Sra. McGinty.

— O senhor acredita realmente no que sugeriu?

— Não, eu ainda não acredito em nada. Mas lhe digo que existem duas linhas diferentes de pesquisa, e nós temos de decidir muito em breve qual será a certa a seguirmos.

— O que é que o senhor vai fazer a respeito? Eu posso ajudar?

— Primeiro, gostaria de ter uma entrevista com James Bentley.

— Isto pode ser arranjado. Vou falar com seus advogados.

— Depois, e é claro que de acordo com o resultado, se houver algum... (eu não tenho muita esperança) ...resultado com esta entrevista, eu irei para Broadhinny. Lá, ajudado por suas anotações, trilharei o mais rápido que possa os mesmos caminhos que você já trilhou.

— No caso de eu não ter percebido alguma coisa — disse Spence com um sorriso meio de lado.

— No caso, eu preferiria dizer, de que alguma circunstância me chame a atenção de uma forma diferente do que chamou para você. As reações humanas variam e assim varia também a experiência humana. A semelhança entre um rico financista e um fabricante de sabão que eu conheci um dia em Liège, trouxe-me uma vez um resultado muito satisfatório. Mas não precisamos entrar em detalhes. O que eu gostaria de fazer é eliminar uma ou outra das possibilidades que eu indiquei neste instante. E eliminarmos a pista da Sra. McGinty — Pista nº. 1 — é certamente mais fácil do que atacarmos a Pista nº. 2. Agora, onde eu poderia me hospedar em Broadhinny? Há alguma hospedaria de conforto razoável?

— Tem a dos Três Patos, mas não aceita gente nova. Tem a do Carneiro em Cullavon a uns cinco quilômetros de distância — e tem uma espécie de pensão em Broadhinny mesmo. Não é mesmo uma pensão, é uma espécie de casarão decrépito de um casal de jovens onde eles aceitam hóspedes. Eu não creio — disse Spence meio duvidoso — que seja muito confortável.

Hercule Poirot fechou os olhos em agonia.

— Se eu tiver de sofrer, sofro — disse ele. — Terá de ser assim.

— Eu não sei o que o senhor poderá ser lá... — continuou Spence duvidoso, olhando para Poirot. — Pode ser uma espécie de cantor de ópera. A voz está estragada. Precisa descansar. Isto deve funcionar...

— Eu irei — disse Poirot, falando com ares de sangue real na voz — como EU MESMO!

Spence escutou este pronunciamento com os lábios apertados.

— Acha que é aconselhável?

— Eu acho que é essencial! Mas, é lógico, essencial. Considere, cher ami, que o fator tempo está contra nós. O que é que nós sabemos? Nada. Então, a esperança, a melhor esperança, é pretender que eu sei muita coisa. Eu sou Hercule Poirot, eu sou o grande, o único Hercule Poirot. E eu, Hercule Poirot, tenho uma suspeita muito viva do que aconteceu realmente. Eu, Hercule Poirot, não estou satisfeito sobre o veredicto do caso McGinty. Existe uma circunstância que eu sozinho estimo ser do maior valor. Está vendo?

— E então?

— E então, tendo feito isto, eu observo as reações. Pois haverá reações. Muito decididamente, deverá haver reações...

O Superintendente Spence olhou inconfortável para o homenzinho.

— Olhe aqui, Monsieur Poirot — disse ele. — Não arrisque o seu pescoço. Eu não quero que lhe aconteça nada.

— Mas, se acontecer, você saberá que estava com a razão — sem sombra de dúvida, não acha?

— Eu não quero ter razão da maneira mas difícil — disse o Superintendente Spence.

 

Com uma certa repugnância, Hercule Poirot olhou em torno da sala onde estava. Era uma sala de bom tamanho, mas aí terminavam seus atrativos. Poirot fez uma careta eloqüente ao passar o dedo desconfiado por cima da estante, (/orno ele suspeitara — poeira! Sentou-se desajeitado num sofá e as molas quebradas vergaram-se deprimentes por baixo dele. As duas poltronas desbotadas eram, como ele já sabia, pouco melhores. Um cachorrão enorme de ar feroz, que Poirot suspeitava estar com sarna, deu um rosnado e mudou de posição numa quarta cadeira relativamente confortável.

A sala era grande e tinha um papel de parede desbotado. Gravuras de metal de assuntos aborrecidos estavam dependuradas de mau jeito pelas paredes, junto com um ou dois bons quadros a óleo. O estofado das poltronas era velho e sujo, o tapete tinha buracos por todo lado e o seu desenho era sem graça. Uma boa quantidade de coisinhas misturadas estava espalhada sem ordem, aqui e ali. Mesas balançavam-se perigosamente graças a ausência de calços. Uma das janelas estava aberta, e parecia não haver poder na Terra capaz de fechá-la outra vez. A porta, temporariamente fechada, não parecia que ia ficar assim por muito tempo. O trinco não segurava e a cada lufada de vento, ela se abria e rajadas turbilhonantes de vento frio redemoinhavam pela sala.

— Como eu sofro — disse Hercule Poirot para si mesmo em extrema comiseração. — Sim, como eu sofro.

A porta abriu-se de repente e o vento e a Sra. Summerhayes entraram juntos. Ela olhou em torno pela sala e gritou: — O que é? — para alguém que estava longe e saiu outra vez.

A Sra. Summerhayes era ruiva, tinha sardas muito atraentes pelo rosto e, geralmente, estava distraída deixando coisas fora dos lugares ou. então, procurando outras coisas em outros lugares.

Hercule Poirot ficou de pé num pulo e fechou a porta.

Um ou dois minutos depois ela tornou a se abrir e a Sra. Summerhayes reapareceu. Desta vez ela trazia uma grande bacia esmaltada e uma faca.

Uma voz de homem se fez ouvir a uma certa distância:

— Maureen, o gato está doente de novo. O que é que eu faço? A Sra. Summerhayes respondeu: — Já estou indo, querido.

Espere aí.

— Decididamente, como eu sofro.

Um automóvel chegou, o cachorrão pulou da cadeira e começou a latir num crescendo. Saltou sobre uma mesinha que estava perto da janela e a mesa caiu com um estrondo.

Enfin — disse Hercule Poirot. — Cest insupporíable !

A porta escancarou-se uma vez mais, o vento entrou em rajadas pela sala, o cachorro saiu correndo, sempre latindo, a voz de Maureen soou alta e clara:

— Johnnie, por que diabos você deixou a porta dos fundos aberta! Essas malditas galinhas estão na despensa!

— E é por isso — disse Hercule Poirot com sentimento — que eu estou pagando sete guinéus por semana!

A porta fechou-se com um estrondo. Pela janela veio o barulho alto do cacarejar de galinhas indignadas.

Então a porta abriu-se novamente e Maureen Summerhayes entrou e atirou-se sobre a bacia com um grito de alegria.

— Não podia me lembrar onde a largara. Será que o Sr... hum... se importaria muito... eu quero dizer... será que se incomodaria se eu cortasse as vagens aqui? O cheiro da cozinha é insuportável.

— Madame, eu ficarei encantado.

Não era, talvez, a frase adequada, mas era mais ou menos isso. Pela primeira vez em vinte e quatro horas, Poirot tinha a oportunidade de ter uma conversa de mais de seis segundos de duração com alguém.

A Sra. Summerhayes deixou-se cair numa cadeira e começou a cortar as vagens com uma energia frenética e uma considerável falta de jeito.

— Eu espero — disse ela — que o senhor não esteja horrivelmente sem conforto? Se quiser que eu troque alguma coisa por favor, diga.

Poirot já chegara à conclusão que a única coisa ali em Long Meadows que ele poderia tolerar era mesmo a sua senhoria.

—É muito gentil, Madame — replicou polidamente. — Eu só desejaria que estivesse em meu poder conseguir-lhe uma empregada doméstica.

— Empregada! —a Sra. Summerhayes deu um guincho. -Que esperança! Não consigo nem arranjar uma diarista. A que era boa mesmo foi assassinada. Veja a minha sorte!

— Devia ser a Sra. McGinty — disse rapidamente Poirot.

— Era mesmo a Sra. McGinty. Deus, como eu sinto falta daquela mulher! É claro que na época foi muito emocionante. O primeiro assassinato que nós tínhamos na família, por assim dizer, mas como eu disse a Johnnie foi um golpe de má sorte para nós. Sem a Sra. McGinty eu não sei o que fazer.

— Era muito apegada a ela?

— Meu caro senhor, ela era de confiança. Ela sempre vinha. Segundas á tarde e quintas pela manhã. Como um relógio. Agora eu tenho a mulher do Burp lá de perto da estação. Cinco filhos e um marido. E claro que ela não vem nunca. Ou é o marido que está bêbado, ou é a velha mãe, ou as crianças com alguma doença ruim, ou outra coisa qualquer. Com a velha McGinty pelo menos era só ela própria que adoecia, e é preciso que diga, isto quase nunca acontecia.

— E sempre a achou honesta e digna de confiança? Confiava nela?

— Oh, ela nunca carregou nada — nem mesmo comida. É claro que bisbilhotava um pouco. Dava uma olhada nas cartas e coisas assim. Mas a gente espera isto mesmo, não é? Eu quero dizer, elas devem levar uma vida tão chata, não devem?

— A Sra. McGinty levava uma vida monótona?

— Medonha, eu imagino — disse a Sra. Summerhayes vagamente. — Sempre de joelhos esfregando o chão. E pilhas de louça de outras pessoas para lavar, esperando por ela na pia todas as manhãs. Eu ficaria aliviada se fosse assassinada. Ficaria mesmo.

O rosto do Major Summerhayes apareceu na janela. A Sra. Summerhayes ficou em pé de um salto, derramando as vagens, e correu para a janela que escancarou até os cantos.

— Aquele cachorro amaldiçoado comeu a comida das galinhas de novo, Maureen.

— Oh, maldição! Agora é ele quem vai ficar doente!

— Olhe — John Summerhayes mostrou-lhe uma cesta cheia de folhagem verde —, basta de espinafre?

— Oh, é claro que não.

— Me pareceu uma quantidade colossal.

— Vai caber numa colher de chá uma vez cozido. Você ainda não sabe o que é espinafre?

— Oh, Deus!

— O peixe chegou?

— Nem sinal.

— Inferno! Temos de abrir uma lata de qualquer coisa. Faça isto, Johnnie. Uma daquelas que estão no armário do canto. Aquela que nós pensamos que estava um pouquinho estofada. Eu espero que esteja mesmo boa!

— E o espinafre?

— Eu vou colher.

Ela pulou pela janela, e marido e mulher se afastaram juntos.

— Nom d'un nom d'un nom! — disse Hercule Poirot. Atravessou a sala e fechou a janela o melhor que pôde. A voz do Major Summerhayes chegou aos seus ouvidos trazida pelo vento:

— E a respeito deste novo sujeito, Maureen? Ele me parece muito esquisito. Como se chama mesmo?

— Eu não consegui me lembrar neste instante mesmo quando estava conversando com ele. Tive de dizer Senhor... er... hum... Poirot! — é isto mesmo. Ele é francês.

— Sabe Maureen, acho que já vi este nome nalgum lugar.

— Ondulação permanente em casa, talvez. Ele tem cara de cabeleireiro.

Poirot estremeceu.

— N-não... Talvez seja num picles. Eu não sei. Eu tenho certeza de que conheço. É melhor você arrancar os sete guinéus dele depressa.

As vozes morreram na distância.

Hercule Poirot apanhou as vagens esparramadas por todo o assoalho. Quando estava terminando de catá-las, a Sra. Summerhayes entrou outra vez pela porta.

Ele lhe entregou as vagens cortes mente.

— Voici, Madame.

— Oh. muito obrigada. Não acha que estas vagens estão meio pretas'? Nós as guardamos em potes de barro, com sal por cima. Mas estas parece que saíram errado. Eu penso que elas não ficarão muito gostosas.

— Eu também penso assim... Dá licença que eu feche a porta'? Tem uma corrente de ar muito forte.

— Oh. sim, por favor. Eu acho que sempre deixo as portas abertas.

— Eu já notei.

— De qualquer jeito, aquela porta nunca fica fechada. Esta casa está praticamente caindo aos pedaços. O pai e a mãe de Johnnie moravam aqui e eles estavam muito mal de vida, coitadinhos. Nunca puderam fazer nada. E então, quando nós voltamos da índia e viemos* morar aqui. também nio tínhamos condições de fazer os reparos. E divertido para as crianças durante as férias, um monte de quartos para brincar e mais o jardim e o quintal. São somente os hóspedes que nos permitem tocar pra frente, mas eu lhe digo — nós ja sofremos alguns golpes duros.

— Eu sou o único hóspede no momento?

— Há uma senhora idosa no andar de cima. Caiu de cama no dia que chegou e ainda está lá até hoje. A meu ver ela não tem nada. Mas continua de cama e eu subo quatro vezes por dia com uma bandeja de comida. Não há nada errado com o apetite dela. De qualquer jeito, ela vai amanhã para a casa de uma sobrinha.

A Sra. Summerhayes fez uma pausa momentânea antes de continuar num tom de voz ligeiramente artificial.

— O peixeiro vai chegar daqui a pouco. Será que o senhor se importaria de pagar o aluguel ... da primeira semana? Vai ficar durante uma semana, não vai?

— Talvez mais.

— Desculpe aborrecê-lo. Mas não tenho nenhum dinheiro trocado em casa e o senhor sabe como esse povo é — sempre insistindo com o pagamento.

— Não precisa se desculpar, Madame.

Poirot tirou sete notas de uma libra da carteira e acrescentou sete shillings. A Sra. Summerhayes pegou o dinheiro com avidez.

— Muito obrigada.

— Eu acho, Madame, que devia lhe falar um pouco mais a meu respeito. Eu sou Hercule Poirot.

A revelação não perturbou a Sra. Summerhayes.

— Que nome encantador! — disse ela com gentileza. — E grego, não é?

— Como a senhora deve saber, eu sou — disse Poirot — um detetive — ele bateu no peito. — Talvez o mais famoso detetive que exista.

A Sra. Summerhayes deu um gritinho alegre.

— Eu estou vendo que o senhor é muito brincalhão, Sr. Poirot. O que é que está procurando? Cinzas de cigarro ou pegadas?

— Estou investigando o assassinato da Sra. McGinty — disse Poirot. — E não estou brincando.

— Ai! — fez a Sra. Summerhayes. — Eu cortei a mão. Ela ergueu um dedo, inspecionando-o.

Depois olhou para Poirot.

— Olhe aqui — disse ela —, o senhor está falando mesmo a sério? Eu quero dizer, não está já tudo terminado? Eles prenderam aquele pobre imbecil que morava lá, ele foi julgado, condenado e tudo o mais. A esta altura já deve até ter sido enforcado.

— Não, Madame — disse Poirot. — Ele não foi enforcado — ainda. E não está tudo terminado — o caso da Sra. McGinty. Eu lhe lembrarei um verso de um de seus poetas: "Um assunto não fica nunca resolvido, enquanto não for resolvido — corretamente."

— Oh! — fez a Sra.Summerhayes — sua atenção voltara-se de Poirot para a bacia que tinha no colo. — Eu estou sangrando por cima das vagens... Não vai ser bom quando formos comê-las no almoço. Ora, não deve ter importância porque eu vou passá-las na água fervendo. Tudo fica bom depois de aferventado, não é? Até enlatados.

— Eu creio — disse Hercule Poirot com muita calma — que eu não ficarei para o almoço.

 

NÃO É que eu saiba apenas, eu tenho certeza disse a Sra. Burch.

Ela já dissera isso três vezes seguidas. Não era fácil superar a sua desconfiança natural contra cavalheiros de ar estrangeiro com bigodes pretos e sobretudos debruados de pele.

— Foi muito desagradável — continuou ela. - A pobrezinha da Titia assassinada e a Polícia e tudo o mais... Andando por todo lado e fazendo perguntas. Os vizinhos iodos alvoroçados. Eu nunca pensei que conseguisse esquecer tudo. E a mãe de meu marido foi horrivelmente irritante. Nunca acontecera nada disto na família dela! E "pobre Joe" pra cá e "pobre Joe” pra lá. E pobre de mim? Ela era minha tia, não era? Mas realmente, eu pensei que estivesse tudo acabado agora.

— E supondo que James Bentley seja inocente, apesar de tudo?

— Tolice — cortou a Sra. Burch. — E claro que ele não é inocente. Foi ele mesmo. Eu nunca fui com a cara dele. Sempre perambulando por aí, falando sozinho. Eu disse para a Titia, eu disse mesmo: "A senhora não devia ter um homem deste em casa. Pode perder a cabeça", foi o que eu disse. Mas ela respondeu que ele era sossegado e prestativo e não lhe dava trabalho. Não bebia, disse ela, nem mesmo fumava. Bem, agora ela deve saber quem ele era, pobre criatura!

Poirot olhou-a pensativamente. Era uma mulherona cheia de corpo, com uma cor saudável e a boca de ar bem-humorado.

A casinha era limpa e bem arrumada e cheirava a lustra-móveis e a Brasso. Um cheiro apetitoso vinha da cozinha.

Uma boa esposa que mantinha a casa asseada e que tinha o trabalho de cozinhar para o marido. Ele aprovou. Ela tinha idéias preconcebidas c era teimosa, mas depois de tudo por que passara, por que não? Decididamente, não era o tipo de mulher que alguém pudesse imaginar usando uma machadinha de açougueiro para cortar a cabeça da tia, ou sendo a cúmplice do marido em tal tarefa. Spence não pensara nela como esta espécie de mulher, e com muita relutância, Hercule Poirot concordou com ele. Spence se aprofundara no panorama financeiro dos Burchs e não encontrara lá nenhum motivo para o assassinato, e Spence era um homem muito meticuloso.

Ele suspirou e perseverou em sua tarefa de abrir a guarda da Sra. Burch a respeito de sua suspeita pelos estrangeiros. Conduziu a conversa para longe do crime e pôs-se a falar sobre a vítima. Fez perguntas sobre a "pobre Titia", sua saúde, seus hábitos,suas preferências cm comida e bebida, sua política, seu falecido marido, sua atitude perante a vida, o sexo, o pecado, a religião, as crianças, os animais.

Ele não tinha idéia de que esses assuntos descabidos seriam ou não de alguma utilidade. Estava procurando uma agulha num palheiro. Mas, incidentalmente, estava aprendendo alguma coisa sobre Bessie Burch.

Bessie na verdade não sabia muita coisa sobre sua tia. Era apenas um laço de família, respeitado por este motivo, mas sem nenhuma intimidade. De vez em quando, mais ou menos uma vez por mês, ela e Joe iam num domingo almoçar com a Titia e, mais raramente, a Titia viera vê-los. Eles se davam presentes no Natal. Sabiam que a Titia tinha um dinheirinho guardado e sabiam que isto seria deles quando ela morresse.

— Mas eu posso lhe dizer que nós não estávamos precisando dele — explicou a Sra. Burch corando. — Nós também temos as nossas economias. E fizemos um enterro lindo. Foi um enterro muito, muito bonito. Flores e tudo o mais. Titia gostava muito de fazer tricô. Ela irão gostava de cachorros, eles desarrumavam a casa toda, mas ela tinha um gato — um gato amarelo. Ele fugiu e durante muito tempo ela não quis outro, mas a mulher dos correios ia lhe dar um gatinho. Mantinha a casa muito asseada e não gostava de lixo. Tudo brilhava e ela lavava o chão da cozinha todos os dias. Fazia um bom dinheiro trabalhando fora. Ganhava um shilling por hora — dois em Holmeleigh, a casa do Sr. Carpenter da Secretaria do Trabalho. Rolavam em dinheiro, esses Carpenters. Tentaram arranjar que Titia viesse mais dias na semana, mas Titia não queria desapontar suas outras patroas, porque ela já trabalhava para elas antes de ir para a casa do Sr. Carpenter e não seria direito.

Poirot falou da Sra. Summerhayes em Long Meadows.

— Oh, sim... Titia também trabalhava para ela — dois dias por semana. Eles voltavam da índia onde tinham um punhado de empregados nativos e a Sra. Summerhayes não sabia de nada sobre os trabalhos de casa. Tentaram vender legumes, mas tampouco sabiam algo sobre isto. Quando as crianças vinham de férias, a casa era um verdadeiro pandemônio. Mas a Sra. Summerhayes era simpática e Titia gostava dela.

O retrato se delineava. A Sra. McGinty fazia tricô, esfregava assoalhos e polia metais, gostava de gatos e não gostava de cachorros. Gostava de crianças, mas não muito. Era muito reservada.

Ia á Igreja aos domingos, mas não tomava parte em nenhuma das atividades da igreja. Algumas vezes, porém raramente, ia ao cinema. Não se acostumara aos hábitos modernos — deixara de trabalhar para um artista e sua esposa quando descobrira que eles não eram casados legalmente. Não lia livros, mas gostava do jornal de domingo e das revistas velhas que suas patroas lhe davam. Se bem que não fosse muito ao cinema, ela se interessava pelas estrelas de cinema e pelo que faziam. Não se interessava por política, mas votava nos conservadores como seu marido sempre fizera. Não gastava muito em roupas, mas recebia muita coisa das patroas e mantinha sempre uma atitude econômica.

A Sra. McGinty era, de fato, a própria Sra. McGinty que Poirot imaginara que ela fosse. E Bessie Burch, sua sobrinha, era a Bessie Burch das anotações do Superintendente Spence.

Antes de Poirot sair, Joe Burch chegou para o almoço. Um homenzinho perspicaz, menos livre de desconfiança que sua esposa. Havia um leve nervosismo em seus modos. Não demonstrou indícios de suspeita e de hostilidade como sua mulher.

De fato, ele parecia ansioso em cooperar. E isto, refletiu Poirot, era meio fora de mão. Por que haveria Joe Burch de se mostrar ansioso em aplacar a curiosidade de um estrangeiro importuno? A razão só poderia estar na carta que o Superintendente Spence da Delegacia local dera a este estrangeiro.

Então Joe Burch estava ansioso em ficar em paz com a Polícia? Seria por não poder se dar ao luxo, como sua esposa, de fazer críticas à Polícia?

Talvez fosse um homem de consciência pesada. Por que sua consciência estaria pesada? Podia haver outras razões — nenhuma delas relacionadas com a morte da Sra. McGinty. Ou isso, ou qualquer outra coisa, mas o álibi do cinema podia ter sido habilmente forjado. Podia ter sido Joe Burch quem batera â porta da casinha, fora admitido pela Titia e abatera a velhinha que de nada suspeitava. Ele teria fechado as cortinas e saqueado o quarto para dar a impressão de roubo, escondido o dinheiro lá fora, astutamente, para incriminar James Bentley, pois era o dinheiro que estava na Caixa Econômica que o interessava. Duzentas libras que caberiam à sua esposa e que, por alguma razão desconhecida, ele necessitava urgentemente. A arma, relembrou Poirot, nunca fora encontrada. Por que ela não teria sido deixada no local do crime? Qualquer imbecil sabia o bastante para usar luvas de borracha ou apagar as impressões digitais. Por que então a arma do crime, que era uma coisa pesada com uma lâmina afiada, desaparecera? Teria sido por ser facilmente identificável como pertencente à casa dos Burchs? Estaria esta mesma arma, agora lavada e polida, aqui nesta própria casa? Algo assim como um cortador de carne. Talvez algo um tanto ou quanto raro... um pouco fora do comum, facilmente identificável... A polícia procurara, mas nada encontrara. Procuraram pelas matas, dragaram as lagoas. Não faltava nada na cozinha da Sra. McGinty, e ninguém pôde afirmar que James Bentley possuísse nada parecido. Não conseguiram localizar nenhuma compra de cortador de carne ou de algum instrumento parecido feita por ele. Um pequeno ponto positivo a seu favor. Que foi ignorado devido ás outras circunstâncias. Mas mesmo assim um ponto...

Poirot deu uma olhada rápida pela salinha de estar entulhada de móveis, onde ele estava sentado.

A arma estaria ali, em algum lugar desta casa? Seria por isto que Joe Burch estava tão desassossegado e conciliatório?

Poirot não sabia. Na verdade, ele não pensava mesmo que tosse assim. Mas não estava absolutamente certo...

 

Nos escritórios dos Srs. Breather & Scuttle, Poirot foi admitido — depois de alguma demora — na sala do próprio Sr. Scuttle.

O Sr. Scuttle era um homem enérgico e dinâmico, de maneiras calorosas.

— Bom dia, bom dia — ele esfregou as mãos. — O que posso fazer pelo senhor?

Seu olho profissional percorreu Poirot tentando localizá-lo, e fazendo, ao que se via, uma série de anotações â parte.

Estrangeiro. Roupas de boa qualidade. Provavelmente rico. Proprietário de restaurante? Gerente de hotel? Filmes?

— Eu espero não tomar o seu tempo inutilmente. Quero falar a respeito de um seu antigo empregado, James Bentley.

As sobrancelhas expressivas do Sr. Scuttle levantaram-se uma polegada e depois se abaixaram.

— James Bentley. James Bentley? — ele fez uma pergunta. — Imprensa?

— Não.

— E o senhor é da Polícia?

— Não. Pelo menos — não deste país.

— Não deste país — o Sr. Scuttle arquivou isto rapidamente pensando em referências futuras. — O que quer saber?

Poirot, que nunca dera importância aos olhares pedantes em relação â verdade, começou a falar.

— Eu estou reabrindo o inquérito adicional do caso de James Bentley — a pedido de certos parentes dele.

— Não sabia que ele tinha parentes. De qualquer forma, ele foi declarado culpado, o senhor deve saber, e foi condenado à morte.

— Mas ainda não foi executado.

— Enquanto há vida, há esperança, hein? — o Sr. Scuttle balançou a cabeça. — Mas duvido muito. Evidência muito forte. Quem são estes parentes dele?

— Eu posso lhe dizer uma coisa, são igualmente ricos e poderosos. Imensamente ricos.

— O senhor me surpreende — o Sr. Scuttle não foi capaz de esconder um ligeiro gaguejar. As palavras imensamente ricos possuíam uma qualidade atraente e hipnótica ao mesmo tempo. — Sim, o senhor me surpreende muito.

— A mãe de Bentley, a falecida Sra. Bentley — explicou Poirot —, desligou-se completamente da família junto filho.

— Uma dessas brigas de família, hein? Bem, bem... E o jovem Bentley sem um tostão no bolso. E uma pena que esses parentes não tenham vindo acudi-lo antes.

— Somente agora eles tomaram conhecimento dos fatos -explicou Poirot. — Eles me incumbiram de vir para este país imediatamente e fazer tudo que tosse possível.

O Sr. Scuttle recostou-se para trás, deixando de lado o seu ar profissional.

— Eu não sei o que o senhor vai poder fazer. Suponho que haja uma insanidade. E meio tarde, mas... se conseguir ajuda de médicos de nome... É claro que eu não posso dizer o que fazer.

Poirot inclinou-se para a frente.

— Monsieur, James Bentley trabalhou aqui. Pode me falar sobre ele?

— Muito pouco a dizer— muito pouco. Ele era um de nossos escriturados mais novos. Não havia nada contra ele. Parecia um rapaz decente, muito consciencioso e tudo o mais. Mas não tinha idéia do que fosse um vendedor. Nunca foi capaz de levar um projeto avante. É isto que conta nesta profissão. Se um cliente vem até aqui com uma casa para vender, nós a vendemos a ele. E se um cliente quer uma casa, nós encontramos uma para ele. Se é uma casa num local retirado e sem conforto, nós acentuamos a sua antigüidade, a chamamos de peça arquitetônica — sem falar nunca nos encanamentos! E se uma casa dá de frente para os gasômetros, falamos a respeito do conforto e das facilidades e nunca mencionamos a vista. Apressamos o cliente no negócio — é isto que é preciso fazer. Todos os tipos de truques que existam. “Nós lhe avisamos, minha Sra., que é melhor que faça uma oferta imediata. Há um membro do Parlamento que está interessado nela — muito interessado mesmo. Virá vê-la novamente hoje á tarde." Eles caem nisso todas as vezes — um membro do Parlamento é sempre uma boa desculpa. Eu nunca soube por quê! Nenhum membro do Parlamento jamais viveu longe de seu distrito eleitoral. É somente a solidez da afirmação — ele riu de repente, mostrando uma dentadura brilhante. — Psicologia — é isto que é! — apenas psicologia.

Poirot apanhou a palavra no ar.

— Psicologia. Como o senhor está certo! Vejo que julga muito bem os homens.

— Não muito mal. Não muito mal — disse o Sr. Scuttle modestamente.

— Então vou perguntar-lhe novamente qual foi a sua impressão a respeito de James Bentley? Entre nós — estritamente entre nós — o senhor acha que ele matou mesmo a velha?

Scuttle encarou-o.

— É claro.

— E o Senhor acha também que era uma coisa lógica que ele fizesse isto — psicologicamente falando?

— Bem... se pusermos as coisas por este lado... Não, não penso isso de verdade. Não imaginaria que ele tivesse esta coragem. Eu lhe diria uma coisa se me perguntasse, ele era meio maluco. Veja por este prisma e compreenderá. Sempre com o miolo meio mole, e mais ainda por estar sem emprego, se preocupando por tudo, ele deve ter ficado nervoso.

— O senhor não teve nenhum motivo especial para demiti-lo?

Scuttle balançou a cabeça negativamente.

— Uma época ruim do ano. A equipe não tinha muito o que fazer. Demitimos o que era menos competente. Foi Bentley. Acho que sempre seria ele, eu penso... Dei-lhe boas referências e tudo o mais. Entretanto ele não conseguiu outro emprego. Não tinha iniciativa. Causava má impressão às pessoas.

Voltamos sempre ao mesmo ponto, pensou Poirot, quando deixou o escritório. James Bentley causava má impressão às pessoas. Ele se confortou com a idéia de que entre os vários assassinos que conhecera, a maior parte era considerada encantadora por muita gente.

 

— Perdão, poderia sentar-me aqui e conversar com o senhor por um instante?

Poirot, escondido numa mesinha do Gato Azul, olhou por cima do cardápio que estava lendo com um certo espanto. Estava muito escuro no Gato Azul, que se especializava num efeito de antigüidade com móveis de carvalho e vitrais sombrios, mas a jovem que acabava de sentar-se do outro lado da mesa, brilhava em contraste com a escuridão.

Tinha cabelos muito dourados e usava um conjunto azul elétrico. Além disto, Hercule Poirot estava convencido de que já a vira em algum lugar e há pouco tempo.

Ela continuou.

— Eu não pude evitar, sabe, ter ouvido alguma coisa do que estava dizendo ao Sr. Scuttle.

Poirot fez que sim com a cabeça. Ele reparara que as repartições dos escritórios de Breather & Scuttle tinham sido feitas mais por conveniência do que por reserva confidencial. Aquilo não o preocupara, uma vez que o que procurava era em primeiro lugar a publicidade.

— Você estava batendo à máquina — disse ele — á direita da janela dos fundos

Ela confirmou com um movimento de cabeça. Seus dentes brilharam muito brancos num sorriso de assentimento. Uma moça sadia, com ar viçoso que Poirot aprovou. Devia ter uns trinta e quatro ou trinta e cinco anos, julgou ele, e seus cabelos deviam ser escuros de natureza, mas ela não parecia ser do tipo que se deixa governar pala natureza.

— E sobre o Sr. Bentley — disse ela.

— O que há sobre o Sr. Bentley?

— Ele vai apelar? Quer dizer que acharam novas evidências? Oh, eu fico tão contente! Eu não pude — eu nunca pude acreditar que ele tivesse feito aquilo.

As sobrancelhas de Poirot se ergueram.

— Então você nunca pensou que ele tivesse feito aquilo? — perguntou ele lentamente.

— Bem, no princípio não. Eu pensei que fosse um engano Mas então vieram as provas... — ela parou.

— Sim, as evidências — disse Poirot.

—Parece que não havia ninguém mais que pudesse ter feito aquilo. Eu pensei que talvez ele tivesse tido um acesso de loucura.

— Alguma vez ele lhe pareceu — como devo dizer? — estranho?

— Oh, não! Estranho assim não. Ele era apenas tímido e sem jeito como qualquer um pode ser. A verdade é, ele não conseguia tirar o máximo de si mesmo. Não tinha confiança em si próprio.

Poirot olhou para ela. Decerto ela tinha confiança em si mesma. Possivelmente tinha bastante confiança até para dois.

—Você gostava dele? — perguntou ele.

Ela corou.

— Sim, eu gostava. Amy — é a outra moça do escritório —costumava rir dele e chamá-lo de tolo, mas eu gostava muito dele. Era gentil e educado — e sabia muita coisa. Essas coisas de livros, eu quero dizer.

— Ah, sim, coisas de livros.

— Ele sentia falta da mãe. Ela fora doente por muitos anos, sabe? Pelo menos, não doente de verdade, mas não era forte e ele fazia tudo para ela.

Poirot balançou a cabeça. Conhecia este tipo de mães.

— E é claro que ela também cuidava dele. Eu quero dizer, tomava cuidado com a saúde dele e com os seus brônquios durante o inverno e com o que ele comia e tudo o mais.

Novamente ele balançou a cabeça. Perguntou:

— Vocês eram amigos?

— Eu não sei... exatamente, eu não sei... Nós conversávamos às vezes. Mas depois que ele saiu daqui, ele... eu... eu quase não o vi mais. Eu escrevi uma vez, de maneira amigável, mas ele não respondeu.

Poirot perguntou com delicadeza:

— Mas você gosta dele?

Ela respondeu como num desafio:

— Gosto sim.

— Isto é excelente — disse Poirot.

Sua mente voltou-se para o dia de sua entrevista com o prisioneiro condenado... Ele viu James Bentley claramente. O cabelo cor de pêlo de rato, o corpo magro e desajeitado, as mãos de articulações e pulsos grandes, o pomo-de-adão num pescoço fino. Viu o olhar embaraçado — quase um olhar dissimulado. Não olhava de frente, não era homem cuja palavra inspirasse confiança — um indivíduo hipócrita e falso, com uma maneira desagradável de gaguejar quando falava... Era esta a impressão que James Bentley dava aos observadores superficiais. Fora a impressão que causara no banco dos réus. O tipo do sujeito que contaria mentiras, roubaria dinheiro e atacaria uma velha com uma paulada na cabeça...

Mas para o Superintendente Spence, que conhecia os homens, ele não provocara esta impressão. Nem em Hercule Poirot... E agora tinha esta moça...

— Qual é o seu nome, Mademoiselle? — perguntou ele.

— Maude Williams. Há algo que eu possa fazer... para ajudar?

— Eu creio que há. Há pessoas que acreditam, Srta.Williams, que James Bentley é inocente. Estão trabalhando para provar este fato. Eu sou a pessoa encarregada da investigação e posso lhe dizer que já fiz progressos consideráveis.

Ele deixou escapar esta mentira sem ao menos enrubescer. Para sua consciência era uma mentira necessária. Alguém, em algum lugar, tinha de ficar inquieto. Maude Williams falaria, e falar era como se jogar uma pedra numa poça d'água, cria-se uma ondulação que vai se espalhando...

Disse: — Diga-me sobre o que era que você e James Bentley conversavam. Ele lhe falou da mãe e da vida de casa. Alguma vez ele mencionou alguém que ele ou sua mãe não estivessem em bons termos?

Maude Williams refletiu.

— Não... nada que o senhor possa chamar de inimizade. Sua mãe não gostava de moças, eu creio.

— Mães devotadas a seus filhos não gostam nunca de moças. Não, eu quis dizer algo pior do que isto. Alguma rixa de família, alguma inimizade mesmo. Alguém que lhes tivesse algum rancor?

Ela balançou a cabeça em negação.

— Ele nunca mencionou nada assim.

— Ele lhe falou alguma vez de sua senhoria, a Sra. McGinty? Ela estremeceu ligeiramente.

— Nunca pelo nome. Disse uma vez que ela servia arenques defumados em demasia — e uma vez disse que sua senhoria estava muito aborrecida porque perdera seu gato.

— Alguma vez — por favor, seja honesta — ele mencionou saber onde ela guardava o dinheiro?

Um pouco da cor fugiu do rosto da moça, mas ela levantou o queixo num desafio.

— Ele sabia realmente. Estávamos falando sobre pessoas que não têm confiança nos bancos — e ele disse: "Eu podia me servir à vontade em qualquer dia que ela estiver fora". Não disse por brincadeira, ele não brincava nunca, disse mais como se estivesse preocupado com essa negligência.

— Ah! — fez Poirot. — Isto é bom! Quero dizer, de meu ponto de vista. Quando James Bentley pensa em roubo, este se apresenta para ele cometido por detrás das costas de alguém. Ele poderia ter dito: "Qualquer dia destes alguém vai lhe dar uma bordoada na cabeça por isto".

— Mas de qualquer forma, ele não estaria querendo dizer isto.

— Oh, não... Mas falar, por mais superficial que seja, mostra inevitavelmente que tipo de pessoa você é. O criminoso esperto nunca abre a boca, mas criminosos raramente são espertos e usualmente são néscios e falam muito — é assim que muitos deles são agarrados.

Maude Williams disse bruscamente:

— Naturalmente.

— Mas alguém deve ter matado a velha.

— Quem foi? O senhor sabe? Tem alguma idéia?

— Sim — disse Hercule Poirot mentiroso. — Eu creio que tenho uma idéia muito provável. Mas ainda estamos no início do caminho.

A moça olhou para o relógio.

— Eu preciso voltar. Nós só temos meia hora. Um lugar horroroso, Kilchester — sempre tive empregos em Londres. O senhor me avisará se eu puder fazer alguma coisa — de verdade mesmo?

Poirot deu-lhe um de seus cartões. Escreveu nele o nome Meadows e o número do telefone.

— É aqui que estou hospedado.

Ele notou com tristeza que seu nome não causou nenhuma impressão particular na moça. Esta geração jovem, ressentiu-se ele, carecia horrivelmente de conhecimento sobre as personalidades célebres.

 

Hercule Poirot pegou o ônibus para Broadhinny sentindo-se um pouco mais animado. Pelo menos havia uma pessoa que compartilhava a sua certeza na inocência de James Bentley. Bentley não era assim tão sem amigos como ele imaginava que tosse.

Sua lembrança voltou outra vez à prisão onde estava Bentley. Fora uma entrevista deprimente. Não houvera a menor sombra de esperança, apenas um leve despertar de interesse.

— Obrigado — dissera Bentley apático —, mas eu não creio que ninguém possa fazer nada.

Não, ele tinha certeza de que não tinha inimigos.

— Quando mal percebem que a gente vive, não parece muito provável que a gente tenha inimigos.

— Sua mãe? Tinha ela algum inimigo?

— Certamente que não. Todos gostavam dela e a respeitavam.

Havia uma leve indignação em seu tom de voz.

— E seus amigos?

E James Bentley dissera, ou melhor, murmurara: — Eu não tenho amigos...

Mas aquilo não fora a verdade. Porque Maude Williams era uma amiga.

"Que coisa maravilhosa é a Natureza", pensou Hercule Poirot, "que faz com que cada homem, por mais insosso que possa parecer superficialmente, seja escolhido por uma mulher."

Pois apesar de toda a aparência sensual da Srta. Williams, ele tinha uma forte suspeita de que ela realmente fosse do tipo maternal.

Ela possuía as qualidades que faltavam a James Bentley, a energia, o impulso, a recusa de se deixar abater, a determinação de ser bem sucedida.

Ele suspirou.

Quantas mentiras monstruosas ele pregara naquele dia! Que importa? Elas tinham sido necessárias.

— Pois em algum lugar — disse Poirot para si mesmo, entregando-se a uma avalancha de metáforas — existe uma agulha num palheiro, e eu vou bulir com quem está quieto e atirando uma flecha para o ar, uma há de cair e acertar num telhado de vidro.

 

A casa onde a Sra. McGinty vivera ficava apenas a alguns passos da parada do ônibus. Duas crianças brincavam na soleira da porta. Uma delas estava comendo uma maça que parecia bichada e a outra gritava e batia na porta com uma bandeja de lata. Elas pareciam muito felizes.

Poirot acrescentou ao barulho as suas próprias balidas enérgicas na porta.

Uma mulher olhou pelo oitão. Ela usava um macacão colorido e estava com os cabelos desarrumados.

— Pare com isto, Ernie — disse ela.

— Não paro — disse Ernie e continuou.

Poirot saiu da frente da porta e encaminhou-se para o oitão da casa.

— Não se pode fazer nada com crianças, não é? — disse a mulher.

Poirot pensava que se podiam fazer muitas coisas, mas absteve-se de dizer o quê.

Foi convidado a entrar pela porta dos fundos.

— Eu deixo a porta da frente sempre trancada. Quer entrar, por favor?

Poirot passou através de uma copa muito suja para uma cozinha ainda mais suja.

— Ela não foi morta aqui — disse a mulher. — Foi na sala de estar.

Poirot piscou espantado.

—É nisto que o senhor está interessado, não é? Não é o cavalheiro estrangeiro que está com os Summerhayes?

— _ Então a senhora já sabe de tudo a meu respeito? — perguntou Poirot. Ele sorriu. — Sim, é isto mesmo, Sra...?

— Kiddle. Meu marido é estucador. Nós mudamos há quatro meses, foi isso. Morávamos antes com a mãe de Bert... Alguns parentes disseram, "Vocês têm coragem de morar numa casa onde houve um assassinato?" Mas o que eu disse foi que uma casa é uma casa e é melhor do que uma salinha nos fundos e de dormir sobre duas cadeiras. É horrível esta escassez de casas, não é? E de qualquer jeito, nós nunca fomos incomodados aqui. Sempre dizem que eles andam quando são assassinados, mas ela não! Quer ver onde foi que aconteceu?

Sentindo-se como um turista sendo guiado numa excursão, Poirot fez que sim.

A Sra. Kiddle conduziu-o a uma salinha sobrecarregada de móveis de um estilo jacobino pesado. Ao contrário do resto da casa, ela não mostrava sinais de ser habitada.

—— Deitada no chão ela estava, com a parte de trás da cabeça toda aberta. Nem imagina a impressão que causou á Sra. Elliot. Foi ela quem achou o corpo — ela e Larkin que vem da Cooperativa com o pão. Mas o dinheiro foi roubado lá em cima. Suba comigo que eu lhe mostro onde.

A Sra. Kiddle guiou-o escada acima até um quarto onde havia uma cômoda grande cheia de gavetas, uma enorme cama de metal, algumas cadeiras e uma quantidade de roupinhas de bebê, secas e molhadas.

— Foi aqui mesmo — disse a Sra. Kiddle orgulhosa. Poirot olhou em torno. Era difícil visualizar que este baluarte exuberante de fortuita fecundidade tenha sido antes o bem encerado domínio de uma senhora idosa que se orgulhava da limpeza de sua casa. Aqui a Sra. McGinty vivera e dormira.

— Eu suponho que estes móveis não eram dela?

— Oh, não. A sobrinha que mora em Cullavon levou tudo embora.

Não havia nada aqui da Sra. McGinty. Os Kiddles haviam chegado e feito a conquista. A vida era mais forte que a morte. Lá de baixo subiu o choro alto e feroz de um bebê.

— Foi o bebê que acordou — disse a Sra. Kiddle desnecessariamente.

Ela correu escada abaixo e Poirot seguiu-a. Não havia nada para ele ali. Foi para a casa ao lado.

 

— Sim, senhor, fui eu quem a encontrou.

A Sra. Elliot era dramática. Uma casa limpa esta, limpa e formal. A única coisa dramática era a Sra. Elliot, uma mulher alta e ossuda de cabelos escuros, relembrando o seu único momento de glória na vida.

— Larkin, o padeiro, ele veio bater á porta. "É a Sra. McGinty", ele disse, "nós não conseguimos acordá-la. Parece que ela está doente." E de fato eu pensei que estivesse. Ela já não era moça, não, de jeito nenhum. E palpitações ela tinha, disso eu sabia. Eu pensei que ela tivesse tido um ataque. Então eu corri, vendo que eram dois homens e que naturalmente não queriam entrar em seu quarto.

Poirot aceitou esta regra de etiqueta com um murmúrio de assentimento.

— Corri escada acima, eu corri. Ele estava no patamar, pálido como a morte ele estava... Não que eu pensasse nada de mal nesta hora... Bem, é claro, que eu ainda não sabia o que acontecera. Bati com força na porta e como não tive nenhuma resposta, virei o trinco e entrei. O quarto inteiro estava desarrumado — e a tábua do assoalho levantada. "Foi um assalto", eu disse. "Mas onde está esta pobre criatura?" E então, nós nos lembramos de olhar na sala de estar. E ela estava lá... Caída no chão com a sua pobre cabeça rebentada. Assassinato! Eu vi logo o que era — assassinato! Não podia ser outra coisa! Roubo e assassinato! Aqui em Broadhinny! Ah, eu gritei e gritei! Tiveram muito trabalho comigo. Depois de tudo eu desmaiei! Tiveram de ir buscar conhaque para mim no Três Patos. E mesmo depois eu ainda fiquei trêmula durante horas e horas. "Não se entregue, mamãe", foi isto que o sargento disse quando chegou. "Não se entregue. Vá para casa e taça uma boa xícara de chá". E foi o que eu fiz. E quando Elliot chegou, "Ora, o que foi que aconteceu?", disse ele olhando para mim. Eu ainda estava toda trêmula. Sempre fui muito sensível, desde criança.

Habilmente Poirot interrompeu esta excitante narrativa pessoal.

— Sim, sim, qualquer um pode ver isto. E quando foi a última vez que a senhora viu a pobre Sra. McGinty?

— Deve ter sido um dia antes, quando ela veio até os fundos do quintal para apanhar um raminho de hortelã. Eu estava dando comida as galinhas.

Ela lhe disse alguma coisa? — Só boa tarde e se as galinhas estavam botando mais.

— E esta foi a última vez em que a viu? Não a viu no dia de sua morte?

— Mas eu o vi — a Sra. Elliot abaixou a voz. — Por volta das onze horas da manhã. Andando pela estrada. Arrastando os pés como sempre fazia.

Poirot esperou, mas parecia que ela não tinha mais nada a acrescentar.

Fez uma pergunta:

— A senhora ficou surpresa quando ele foi detido pela polícia?

— Bem, eu fiquei e não fiquei. Veja o senhor, eu sempre pensei que ele fosse um pouquinho maluco. E não há dúvidas de que as pessoas meio malucas às vezes se tornam agressivas. Meu tio tinha um filho retardado, e de vez em quando, ele ficava muito agressivo — quando cresceu, eu quero dizer. Não conhecia sua força. Sim, o tal Bentley era meio maluco mesmo, e eu não ficaria surpresa, se em vez de enforcá-lo eles o mandarem para um hospício qualquer. Veja só, o lugar onde ele escondeu o dinheiro! Ninguém iria esconder o dinheiro num lugar daqueles, a menos que quisesse que ele fosse encontrado. Um simplório tolo, é o que ele era.

— A menos que ele quisesse que fosse encontrado — murmurou Poirot. — Porventura a senhora não deu falta de uma machadinha ou de um machado?

— Não senhor, não dei falta. A Polícia me perguntou isto. Perguntou em todas as casas das redondezas. Ainda é um mistério o objeto com que ele a matou.

 

Hercule Poirot encaminhou-se para a agência dos correios.

— O assassino quisera que o dinheiro fosse encontrado— murmurou Poirot — mas não que a arma fosse encontrada. Por que o dinheiro apontaria para James Bentley e a arma apontaria para ... quem?

Ele balançou a cabeça. Já visitara as outras duas casas. Tinham sido menos exuberantes que a Sra. Kiddle e menos dramáticos que a Sra. Elliot. De fato, haviam dito que a Sra. McGinty era uma senhora muito respeitável, que só cuidava de sua própria vida, que tinha uma sobrinha em Cullovan, que ninguém a não ser sua sobrinha vinha visitá-la, que ninguém — tanto quanto eles sabiam — antipatizava com ela ou lhe tinha alguma queixa, que era verdade que havia uma petição em favor de James Bentley e se eles seriam solicitados a assiná-la?

— Eu não chego a lugar nenhum... a lugar nenhum... — disse Poirot consigo mesmo. — Não há nada — nem o menor vislumbre. Posso entender bem o desespero do Superintendente Spence. Mas para mim será diferente. O Superintendente Spence, ele é um oficial de Polícia muito bom e consciencioso, mas eu, eu sou Hercule Poirot. Para mim haverá luz!

Um de seus sapatos de verniz encharcou-se numa pocinha de água suja e ele se encolheu recuando.

Ele era o grande, o único Hercule Poirot, mas era também um homem já muito idoso e seus sapatos estavam apertados.

Entrou nos correios.

O lado direito servia ao serviço postal de Sua Majestade. O lado esquerdo mostrava um grande sortimento de mercadorias variadas, doces, artigos de mercearia, brinquedos, ferragens, papel de cartas, cartões-postais, novelos de lã para tricô e roupinhas de crianças.

Poirot pôs-se tranqüilamente a comprar selos. A mulher que se adiantou para atendê-lo era de meia-idade, com olhos vivos e brilhantes.

— Eis aqui — disse Poirot para si mesmo —, sem dúvida alguma o cérebro de toda a aldeia de Broadhinny.

Com muita propriedade, seu nome era Sra. Sweetiman.

— E doze centavos — disse a Sra. Sweetiman, agilmente arrancando os selos de um livrão. — São quatro e dez centavos em tudo. Mais alguma coisa, senhor?

Ela lhe dirigiu um olhar vivo e penetrante. Através da porta dos fundos, uma cabeça de mocinha apareceu querendo escutar avidamente. Seus cabelos estavam despenteados e ela estava resfriada.

— Eu sou um estranho nestas paragens — disse Poirot solenemente.

— Estou vendo, senhor — concordou a Sra. Sweetiman —, veio direto de Londres?

— Eu imagino que a senhora saiba de meus objetivos aqui — disse Poirot com um ligeiro sorriso.

— Oh, não senhor, eu não tenho idéia — disse a Sra. Sweetiman de maneira totalmente casual.

— A Sra. McGinty — disse Poirot. A Sra. Sweetiman abanou a cabeça.

— Foi um caso triste... um caso chocante.

— Eu imagino que a senhora a conhecia bem?

— Oh, sim, eu a conhecia muito. Tão bem quanto qualquer pessoa em Broadhinny, eu diria. Ela sempre passava um tempinho durante o dia comigo quando vinha buscar qualquer coisinha. Sim, foi um tragédia horrível. E que ainda não está resolvida de tudo, pelo menos é o que eu ouvi certas pessoas dizerem.

— Há uma dúvida — em certos setores — sobre a culpabilidade de James Bentley.

— Bem — disse a Sra. Sweetiman —, não seria a primeira vez que a Polícia prende a pessoa errada — se bem que eu não diga que seja este o caso desta vez. Não que eu pensasse que fosse ele mesmo. Um camarada tímido, mas que a gente não pode imaginar que seja perigoso. Mas aí está, a gente nunca sabe, não é?

Poirot arriscou um pedido de papel para anotações.

— É claro, senhor. Venha aqui do outro lado, por favor. A Sra. Sweetiman apressou-se em tomar o seu lugar atrás do balcão do lado esquerdo.

— O que é difícil imaginar é quem teria sido se não foi o Sr. Bentley — observou ela ao se espichar para apanhar blocos e envelopes no alto da prateleira. — Nós temos alguns vagabundos detestáveis por aqui de vez em quando, e é possível que um deles tenha achado alguma janela destrancada e entrado por ela. Mas ele não iria embora deixando o dinheiro para trás, iria? Sobretudo depois de ter matado alguém por este dinheiro — e notas de uma libra, nada com números ou marcas. Aqui estão, senhor, com filigrana azul e envelopes iguais.

Poirot fez a compra.

— A Sra. McGinty nunca falou de ter receio de alguém, de alguma inquietação? — perguntou ele.

— Para mim não, ela nunca falou nada. Ela não era uma mulher medrosa. Ficava até tarde na casa do Sr. Carpenter — Holmeleigh, no alto da colina. Eles sempre tinham hóspedes e pessoas para jantar e a Sra. McGinty ia lá para ajudar a lavar os pratos e descia a colina de volta já no escuro. Já é mais de que eu teria coragem. E muito escuro lá. Descer a colina de noite é muito escuro.

— A senhora conhecia a sobrinha dela — a Sra. Burch?

— Eu só a conhecia de vista. Ela e o marido vinham aqui algumas vezes.

— Eles herdaram um dinheirinho quando a Sra. McGinty morreu.

Os penetrantes olhos escuros o encararam com severidade.

— Bem, isto é muito natural, não acha, senhor? Não se pode levá-lo consigo e é direito que seja a sua própria carne e sangue que o receba.

— Oh, sim! Oh, sim, eu estou completamente ele acordo. A Sra. McGinty gostava de sua sobrinha?

— Gostava muito dela, eu creio, senhor. De uma maneira tranqüila.

— E do marido da sobrinha?

Um olhar evasivo apareceu no rosto da Sra. Sweetiman.

— Que eu saiba também.

— Quando foi que a senhora a viu pela última vez?

A Sra. Sweetiman pensou, tentando voltar atrás em suas lembranças.

— Deixe-me ver, quando foi mesmo, Edna? — Edna, na soleira da porta, fungou sem dizer nada. — Terá sido no dia em que ela morreu? Não, foi no dia anterior... ou foi ainda um dia antes? Sim, foi numa segunda-feira. É isso mesmo. Ela foi morta numa quarta-feira. Sim, foi na segunda. Ela veio aqui para comprar um tinteiro.

— Ela queria um vidro de tinta?

— Parece que ela ia escrever uma carta — disse a Sra. Sweetiman com vivacidade.

— É provável que seja isso. E ela estava como sempre? Não parecia diferente em alguma coisa?

— N-não, não creio que estivesse.

Sempre fungando, Edna entrou pela porta adentro e intrometeu-se de repente na conversa.

— Ela estava diferente — afirmou ela. — Satisfeita com alguma coisa... bem... não era mesmo satisfeita... excitada.

— Talvez você tenha razão — disse a Sra. Sweetiman. -— Se bem que eu não tenha notado no início. Mas agora que você falou... muito ativa, ela estava...

— Lembra-se de algo que ela tenha dito naquele dia?

— Normalmente não. Mas como ela foi assassinada e a polícia e mais os outros... faz com que as coisas voltem à memória. Ela não disse nada sobre James Bentley, disto eu tenho certeza. Falou sobre os Carpenters um pouquinho e sobre a Sra. Upward — lugares onde ela trabalhava, o senhor deve saber.

— Oh, sim, eu ia exatamente lhe perguntar agora onde ela trabalhava.

A Sra. Sweetiman respondeu prontamente:

— Segundas e quintas ela ia para a Sra. Summerhayes em Long Meadows. E lá que o senhor está hospedado, não é?

— Sim — Poirot suspirou. — Eu acho que não há nenhum outro lugar para ficar?

— Em Broadhinny mesmo, mio. Eu calculo que o senhor não tenha muito conforto em Long Meadows? A Sra. Summerhayes é uma mulher agradável mas não tem idéia de como se governa uma casa. Essas mulheres que vêm de países estrangeiros... Havia sempre uma boa quantidade de serviço e de limpeza — pelo menos era o que a Sra. McGinty dizia — sim, segundas à tarde e quintas pela manhã a Sra. Summerhayes; depois terças de manhã era o Dr. Rendell e terças de tarde para a Sra. Upward em Laburnums. Quartas para a Sra. Wetherby, em Hunter’s Close, e sexta para a Sra. Selkirk — a atual Sra. Carpenter. A Sra. Upward é uma senhora idosa que vive com o filho. Eles tem uma empregada, mas ela já é muito velha e a Sra. McGinty estava habituada a ir lá uma vez por semana para dar uma arrumação boa. O Sr. e a Sra. Wetherby nunca tiveram outra ajuda — ela é quase inválida. O Sr. e a Sra. Carpenter têm uma casa linda e recebem sempre muitos amigos. Todos eles são pessoas muito distintas.

Foi com este pronunciamento final sobre a população de Broadhinny que Poirot foi outra vez para a rua.

Lentamente desceu a colina em direção a Long Meadows. Esperava ardentemente que o conteúdo da lata estofada e as vagens ensangüentadas tivessem sido completamente consumidos durante o almoço e que não tivesse sobrado nada para sua ceia. Mas possivelmente existiriam outras latas duvidosas. A vida em Long Meadows tinha certamente o seu lado perigoso.

Em seu todo, tora um dia malogrado.

O que ficara sabendo?

Que James Bentley tinha uma amiga. Que nem ele, nem a Sra. McGinty tinham inimigos. Que a Sra. McGinty parecera excitada dois dias antes de sua morte e que comprara um vidro de tinta...

Poirot parou de repente... Finalmente ali estava um fato, um fato muito tênue, mas mesmo assim um fato...

Ele se perguntara descuidado por que a Sra. McGinty quereria um tinteiro e a Sra. Sweetiman replicara, com muita seriedade, que certamente ela queria escrever uma carta...

Havia uma significação ali — uma significação que quase lhe escapara, pois para ele, como para a maioria das pessoas, escrever uma carta é uma ocorrência do dia-a-dia.

Mas não para a Sra. McGinty. Escrever uma carta, para a Sra. McGinty, era uma coisa tão invulgar que ela tivera de sair para comprar um vidro de tinta se quisesse escrever.

A Sra. McGinty, então, raramente escrevia cartas. A Sra. Sweetiman, que era o agente postal, estava completamente ciente do fato, mas a Sra. McGinty escrevera uma carta dois dias antes de sua morte. Para quem ela escrevera e o quê?

Poderia ter sido uma coisa sem importância. Poderia ter escrito para sua sobrinha — para algum amigo ausente. Absurdo dar tanta importância a algo tão simples como um vidro de tinta.

Mas era tudo de que ele dispunha e iria segui-lo até o fim.

Um vidro de tinta...

 

Uma carta? Bessie Burch balançou a cabeça negativamente. — Não, eu não recebi nenhuma carta de Titia. Por que ela haveria de me escrever?

Poirot fez uma sugestão:

— Talvez ela quisesse lhe contar algo.

— Titia não era muito de escritas. Ela estava com quase setenta anos e no seu tempo de moça as meninas não recebiam muita instrução.

— Mas ela sabia ler e escrever?

— Oh, é claro. Não era muito dada a leituras, mas gostava do News of the World e do Sunday Companion. Mas escrever era meio difícil para ela. Se tinha alguma coisa para me dizer, quando queria desmarcar nossa visita ou avisar que não podia vir até aqui, ela geralmente dava um telefonema para o Sr. Benson, o farmacêutico do lado, e ele nos dava o recado. Ele é muito gentil para isso. O senhor sabe, nós estamos na mesma região e cada chamada só custa dois centavos. Há um aparelho para chamadas na agência dos correios de Broadhinny.

Poirot assentiu com a cabeça. Ele percebeu o fato de que dois centavos era melhor do que dois centavos e meio. Já fizera o retrato imaginário da Sra. McGinty em relação a economias e dinheiro. Ela tinha sido, pensou ele, muito e muito apegada ao dinheiro.

Insistiu com gentileza:

— Mas sua tia lhe escrevia, às vezes, eu suponho?

— Bem, ela mandava cartões de Natal.

— E talvez ela tivesse amigos em outras partes da Inglaterra para os quais escrevia?

— Que eu saiba, não. Havia uma cunhada, mas ela morreu há dois anos e havia uma Sra. Birdlip - mas ela também já morreu.

— Então, se ela escreveu, teria sido provavelmente para responder a alguma carta?

Novamente Bessie Burch pareceu em dúvida.

— Eu não sei de quem pudesse escrever para ela, disso eu estou certa... É claro — seu rosto se iluminou —, sempre há o Governo.

Poirot concordou que nos dias de hoje, as comunicações que Bessie vagamente se referia como sendo o Governo eram a regra, e não a exceção.

— E geralmente era uma porção de besteiras — disse a Sra. Burch. — Formulários para preencher e uma quantidade de perguntas indiscretas que não deviam ser respondidas por nenhuma pessoa decente.

— Então talvez a Sra. McGinty tenha recebido alguma comunicação do Governo que precisasse de resposta?

— Se recebeu, ela teria trazido até aqui para Joe, para que ele pudesse ajudá-la. Estas coisas sempre a preocupavam e ela sempre trazia para Joe.

— A senhora se lembra se havia cartas entre os seus objetos pessoais?

— Não sei lhe dizer ao certo. Eu não me lembro de nada. Mas a Polícia revistou-os antes. Só foi muito depois que eles me deixaram entrar e empacotar suas coisas.

— O que foi que aconteceu a estas coisas?

— Aquela arca ali foi dela — é de um bom e sólido mogno, tem também um armário lá em cima e alguns objetos de cozinha de boa qualidade. O resto nós vendemos porque não tínhamos lugar para guardar.

— Eu quis dizer as suas coisas de uso pessoal — ele acrescentou: — Coisas assim como pentes e escovas, fotografias, artigos de toucador, roupas...

— On, isso! Bem, para lhe falar com franqueza, eu pus tudo numa valise e ainda está lá em cima. Não sabia ao certo o que fazer com aquilo. Pensei em levar as roupas para um bazar de caridade no Natal, mas esqueci. Não me pareceu direito vender as roupas nestas lojas ordinárias de roupa usada.

— Eu gostaria de saber... será que posso dar uma olhada nessas coisas?

— E claro que pode. Se bem que eu não ache que o senhor vá encontrar alguma coisa para ajudá-lo. A Polícia examinou tudo, sabe?

— Oh, eu sei. Mas mesmo assim...

A Sra. Burch conduziu-o rapidamente a um quartinho nos fundos, usado, calculou Poirot, principalmente como quarto de costura. Ela tirou uma maleta de baixo da cama e disse:

— Ei-la, está aqui, me desculpe de não ajudá-lo, mas tenho de dar uma espiada no ensopado.

Poirot desculpou-a e escutou seus passos pesados escadas abaixo. Puxou a maleta para si e abriu-a.

Um cheiro de naftalina surgiu no ar.

Com um sentimento de pesar, ele levantou o conteúdo da valise, tão eloqüente era a revelação da personalidade da mulher que morrera. Um casaco comprido já muito gasto. Dois vestidos de lã. Uma saia com um casaco. Meias. Nenhuma roupa de baixo (provavelmente Bessie Burch as pegara para seu uso). Dois pares de sapatos embrulhados em jornal. Uma escova e um pente, usados mas muito limpos. Um velho espelho com o fundo prateado. Um porta-retrato de moldura de couro, com um casal vestido no estilo de uns trinta anos atrás — ele presumiu que fosse a Sra. McGinty e seu marido no dia do casamento. Dois cartões-postais de Margate. Um cachorro de porcelana. Uma receita recortada de um jornal para fazer geléia de abóbora-d’água. Outro recorte sensacionalista sobre Discos Voadores. Um terceiro recorte com as profecias da Mamãe Shipton. Havia ainda uma Bíblia e um livro de Orações.

Nem bolsas, nem luvas. Provavelmente Bessie Burch também as apanhara para seu uso ou dera para alguém. As roupas que estavam ali, julgou Poirot, eram muito pequenas para a viçosa Sra. Burch. A Sra. McGinty fora uma mulher economicamente magrinha.

Desembrulhou um dos pares de sapatos. Eram de boa qualidade e não estavam muito usados. Decididamente o tamanho era pequeno para Bessie Burch.

Ia embrulhá-los novamente quando seu olhar foi desviado para o título do jornal.

Era o Sunday Companion e a data era de 19 de novembro. A Sra. McGinty fora assassinada no dia 22 de novembro.

Fora este, então, o jornal que ela comprara no domingo antes de sua morte. Estava em seu quarto e Bessie Burch o empregara para embrulhar as coisas de sua tia.

Domingo, 19 de novembro. E na segunda-feira a Sra. McGinty fora aos correios para comprar um vidro de tinta...

Teria sido por causa de alguma coisa que ela vira no jornal de domingo?

Ele desembrulhou o outro par de sapatos. Estes estavam enrolados no News of the World da mesma data.

Alisou os dois jornais e foi até uma cadeira onde se sentou para lê-los. Imediatamente fez uma descoberta: algo fora recortado de uma das páginas do Sunday Companion. Faltava um pedaço retangular da página do meio. O espaço era grande demais para ser de qualquer um dos recortes que ele encontrara.

Olhou em todos os dois jornais, mas não conseguiu encontrar nada que o interessasse. Enrolou-os em volta dos sapatos outra vez e arrumou a maleta cuidadosamente.

Então desceu.

A Sra. Burch estava ocupada na cozinha.

— Não creio que tenha achado nada, hein? — disse ela.

— Infelizmente, não — ele acrescentou num tom de voz casual. — A senhora não se lembra se havia um recorte de jornal na bolsa de sua tia ou nalguma sacola?

— Não me lembro de nenhum. Talvez a Polícia tenha levado.

Mas a Polícia não levara nada. Poirot sabia disso pelas anotações de Spence que ele já estudara. O conteúdo da bolsa da morta fora relacionado e não havia recortes de jornal entre as coisas.

— Eh, bien - disse Poirot para si mesmo. — O próximo passo é fácil. Ou vai ser um fracasso completo — ou então, eu darei um passo à frente.

 

Muito quieto, sentado com pilhas de jornais empoeirados à sua frente, Poirot pensou consigo mesmo que o reconhecimento vital da significação do tinteiro não o havia enganado.

O Sunday Companion era dado a romancear dramaticamente os fatos passados.

O jornal que Poirot estava olhando era um Sunday Companion de domingo, 19 de novembro.

No alto da página central estavam as seguintes palavras em tipos graúdos:

MULHERES VÍTIMAS DE TRAGÉDIAS PASSADAS.

ONDE ESTARÃO ESTAS MULHERES HOJE EM DIA?

Embaixo desta manchete estavam quatro fotografias meio apagadas e claramente tiradas há muitos anos atrás.

As pessoas não pareciam trágicas. Na verdade, elas eram quase ridículas, uma vez que estavam vestidas com um estilo antiquado — e não há nada mais ridículo que a moda de ontem— em outros trinta anos, mais ou menos, seus encantos reapareceriam, ou pelo menos se tornariam aparentes.

Sob cada foto havia um nome:

Eva Kane, a "outra" no famoso caso Craig.

Janice Courtland, a "esposa trágica" cujo marido era um demônio em forma humana.

A pequena Lily Gamboll, criança trágica produto de nossa época super povoada.

Vera Blake, a esposa inocente de um assassino.

E novamente a mesma pergunta em tipos graúdos:

ONDE ESTARÃO ESTAS MULHERES HOJE EM DIA?

Poirot piscou os olhos e pôs-se a ler meticulosamente esta prosa um tanto ou quanto romanceada que contava a história da vida destas heroínas obscuras e indistintas.

Ele se lembrava do nome de Eva Kane, pois o Caso Craig fora um caso célebre. Alfred Craig era escrivão de Parminster, um homem consciencioso, um tanto ou quanto indefinível, mas correto e agradável em aparência. Tivera o infortúnio de se casar com uma esposa cansativa e temperamental. A Sra. Craig fez com que contraísse dívidas, tiranizou-o, apoquentava-o e sofria de doenças nervosas que amigos maldosos diziam ser inteiramente imaginárias. Eva Kane era a jovem governanta da casa. Tinha dezenove anos, era linda, inocente e muito simples. Apaixonou-se desesperadamente por Craig e ele por ela. Então um dia os vizinhos souberam que a Sra. Craig tinha sido aconselhada a "viajar para' o exterior" devido à sua saúde. Fora esta a versão de Craig. Ele levou-a de automóvel até Londres, primeira etapa da viagem, a altas horas da noite, e "despachou-a" para o Sul da França. Voltou então para Parminster e, a intervalos regulares, mencionava que a saúde de sua esposa não melhorara, pelo que ela lhe contava em suas cartas. Eva Kane permaneceu para cuidar da casa para ele, e logo as más-línguas começaram a tagarelar. Finalmente, Craig recebeu notícias da morte de sua esposa no exterior. Ele viajou e voltou uma semana depois, com os recibos de um enterro.

De uma certa forma, Craig era um homem simples. Cometeu o erro de dizer onde morrera sua mulher, um local moderadamente conhecido na Riviera Francesa. Bastou isso para que alguém que tivesse um parente ou amigo morando por lá, lhe escrevesse, descobrindo que não houvera nem morte, nem enterro de ninguém com aquele nome. Depois de um período de falatórios exuberantes, comunicou-se à Polícia.

Os eventos subseqüentes podem ser resumidos em poucas linhas.

A Sra. Craig não partira para a Riviera. Ela fora cortada em pedaços regulares e enterrada na adega da casa. E uma autópsia de seus restos revelou envenenamento por um alcalóide vegetal.

Craig foi preso e submetido e julgamento. Eva Kane, no início acusada de cumplicidade, teve a sua acusação retirada, uma vez que se tornou evidente que ela estava completamente na ignorância do que ocorrera. Craig no final fez uma confissão completa e foi sentenciado e executado.

Eva Kane, que estava esperando uma criança, deixou Parminster e, segundo as palavras do Sunday Companion: Parentes bondosos no Novo Mundo ofereceram-lhe um lar. Trocando de nome, a pobre moça seduzida em sua juventude por um assassino de sangue-frio deixou estas costas para sempre, para começar uma nova vida e guardando para sempre dentro de seu coração o nome desconhecido do pai de sua filha.

"Minha filha crescerá feliz e inocente. A vida dela não será manchada por este passado cruel. Isto eu juro. Minhas trágicas lembranças permanecerão apenas minhas."

Pobre, indefesa, confiante Eva Kane. Aprender, tão jovem, a infâmia e a vilania dos homens. Onde estará ela agora? Será, que em alguma cidade do Centro-Oeste, uma mulher idosa, quieta e respeitada pelos seus vizinhos, terá talvez olhos tristes... E uma mulher jovem, alegre e feliz talvez, já com seus próprios filhos, venha ver a "Mamãe" contando-lhe os seus pequenos problemas e queixas da vida diária — sem ter idéia dos sofrimentos que sua mãe padeceu?

— Oh la la! — exclamou Poirot. E passou para a seguinte "Vítima Trágica".

Janice Courtland, a "esposa trágica", tinha sido certamente infeliz com seu marido. Suas maneiras esquisitas, referidas de uma forma tão velada que despertavam imediatamente a curiosidade, foram sofrimentos para ela durante oito anos. Oito anos de martírio, dizia com firmeza o Sunday Companion. Então, Janice encontrou um amigo. Um rapaz idealista e desinteressado que, horrorizado por uma cena que testemunhara por acaso entre marido e mulher, atacou o marido com tal vigor que este último caiu, fraturando o crânio na beirada aguda do mármore da lareira. O júri achou que as provocações tinham sido muito intensas, que o jovem idealista não tinha a intenção de matar, e lhe foi dada uma sentença de cinco anos por homicídio involuntário.

A infeliz Janice, horrorizada por toda a publicidade com que o caso a cercou, viajou para o exterior "para esquecer".

Terá ela esquecido? perguntava o Sunday Companion. Esperamos que sim. Em algum lugar, talvez, uma esposa e mãe feliz, que durante estes anos de pesadelo sofreu em silêncio, pensa neles agora apenas como um sonho...

— Bem, bem — disse Hercule Poirot e passou para Lily Gamboll, a criança trágica, produto de nossa civilização super-povoada.

Ao que parece, Lily Gamboll fora retirada de sua casa superlotada. Uma tia assumira a responsabilidade de criar Lily. Lily quisera ir ao cinema. A tia disse: "Não". Lily Gamboll pegou um machadinho de cortar carne que estava convenientemente pousado sobre a mesa e deu um golpe na tia com ele. A tia, apesar de autocrata, era pequena e frágil. O golpe matou-a. Lily era uma criança musculosa e bem desenvolvida para seus doze anos. Uma escola autorizada abriu-lhe as portas e Lily desapareceu de cena.

Agora, ela é uma mulher, livre novamente para tomar seu lugar em nossa civilização. Sua conduta, durante seus anos de confinamento e provações, foi-nos dito como sendo exemplar. Isto não vem mostrar que não é a criança, e sim o sistema que devemos condenar? Educada em meio a ignorância, em condições miseráveis, a pequena Lily foi uma vítima das circunstâncias.

Agora, tendo expiado o seu erro lamentável, ela vive em algum lugar, feliz esperamos, uma boa cidadã e uma boa esposa e uma boa mãe. Pobre pequenina Lily Gamboll.

Poirot balançou a cabeça. Uma criança de doze anos que dá uma pancada em sua tia com um cortador de carne, e a atinge com força suficiente para matá-la, não era em sua opinião uma criança simpática. Suas simpatias neste caso estavam com a tia.

Passou para Vera Blake.

Vera Blake era distintamente uma destas mulheres com as quais tudo dá errado. Dedicara-se a um namorado que se revelou um bandido procurado pela polícia pela morte de um vigia de banco. Casara-se então com um respeitável comerciante que se revelou receptador de mercadorias roubadas. Seus dois filhos, igualmente, no tempo devido atraíram a atenção da polícia. Iam com Mamãe para as lojas grandes e praticavam uma enormidade de furtos. Finalmente, um "bom homem" apareceu em cena. Ele ofereceu á infeliz Vera um lar num dos Domínios da Comunidade. Ela e as crianças deixariam este desgastado país.

Daí por diante uma Nova Vida os esperava. Afinal, depois de longos anos de golpes repetidos do Destino, os problemas de Vera terminavam.

— Eu imagino! — disse Poirot com ceticismo. — Muito possivelmente ela ia descobrir que se casara com um vigarista trapaceiro que assaltava os navios da carreira!

Ele se debruçou para trás e observou as quatro fotografias. Eva Kane com cabelo crespo e revolto por cima das orelhas e um chapéu enorme, segurava um ramo de rosas perto da orelha como um aparelho telefônico. Janice Courtland tinha um chapeuzinho em forma de sino puxado sobre uma das orelhas e um cinto em volta dos quadris. Lily Gamboll era uma menina simples, com a boca aberta e ar de quem sofre de adenóides, respiração presa e óculos de lentes muito espessas. Vera Blake era tão tragicamente em preto e branco que não aparecia em nada.

Por alguma razão, a Sra. McGinty recortara esta reportagem, com fotografias e tudo. Por quê? Apenas para guardar porque as histórias a interessaram? Ele pensou que não. A Sra. McGinty guardara muito poucas coisas durante os sessenta anos de sua estranha existência. Poirot sabia disto pelos relatos da Polícia sobre os seus pertences.

Ela recortara isto no domingo e na segunda-feira comprara um vidro de tinta e a conclusão era que ela, que nunca escrevia cartas, estava prestes a escrever uma. Se tivesse sido uma carta comercial, ela provavelmente teria pedido a Joe Burch para ajudá-la. Então não era uma carta comercial. Teria sido — o quê?

Os olhos de Poirot percorreram novamente as quatro fotografias.

Aonde, perguntava o Sunday Companion, estariam estas mulheres hoje em dia?

Uma delas, pensou Poirot, poderia estar em Broadhinny no último mês de novembro.

 

Foi somente no dia seguinte que Poirot se encontrou a sós com a Srta. Pamela Horsefall.

A Srta. Horsefall não podia lhe dar muito tempo, pois precisava ir correndo para Sheffield, explicou ela.

A Srta. Horsefall era alta, de aparência masculina, bebia e fumava muito e, ao se olhar para ela, parecia altamente improvável que fosse a sua pena que tivesse derramado um artigo tão meloso quanto o do Sunday Companion. Entretanto, fora ela mesmo.

— Desembuche logo, desembuche logo — disse a Srta. Horsefall impaciente para Poirot. — Eu preciso sair.

— É a respeito de seu artigo no Sunday Companion. Em novembro último. Uma série sobre Mulheres Trágicas.

— Oh, aquela série. Péssima, não achou?

Poirot não expressou a sua opinião sobre esse ponto. Disse:

— Eu me refiro em particular ao artigo sobre as Mulheres Associadas ao Crime, que foi publicada em 19 de novembro. Dizia respeito a Eva Kane, Vera Blake, Janice Courtland e Lily Gamboll.

A Srta. Horsefall fez uma careta.

— Onde estarão estas mulheres hoje em dia? Eu me lembro.

— Eu creio que, às vezes, a senhorita recebe cartas depois da publicação destas reportagens?

— Imagine se recebo! Muita gente parece não ter nada melhor a fazer do que escrever cartas. Alguém "viu uma vez o assassino Craig andando por uma rua". Outra queria contar a "história de sua vida, muito mais trágica do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar".

— A senhorita recebeu uma carta depois da publicação deste artigo de uma Sra. McGinty de Broadhinny?

— Meu'caro senhor, por que cargas d^água eu vou saber? Recebo montanhas de cartas. Como ia me lembrar de um determinado nome?

— Pensei que talvez pudesse se lembrar — disse Poirot — porque alguns dias depois a Sra. McGinty foi assassinada.

— Agora o senhor falou alguma coisa — a Srta. Horsefall esqueceu-se da impaciência de ir para Sheffield e sentou-se numa cadeira com as costas para a frente. — McGinty... McGinty... Eu me lembro do nome. A cabeça quebrada pelo seu inquilino. Não foi um crime muito excitante do ponto de vista do público. Nenhum atrativo sexual. O senhor disse que ela me escreveu?

— Eu penso que ela escreveu para o Sunday Companion.

— Dá no mesmo. Chegaria às minhas mãos. Com o crime... e seu nome nos jornais... com certeza eu me lembraria... — ela parou. — Olhe aqui... não era de Broadhinny. Era de Broadway.

— Então se lembra?

— Bem, eu não tenho certeza... Mas o nome... É um nome cômico, não é? McGinty! Sim, eu me lembro... uma escrita atroz e semi-analfabeta. Se eu ao menos tivesse adivinhado... Mas eu tenho certeza que veio de Broadway.

Poirot disse: — A senhora mesmo disse que a letra era muito ruim. Broadway e Broadhinny — podia ter parecido a mesma coisa.

— Sim... pode ter sido isto. E além disto, a gente não pode mesmo saber de cor todos esses nomezinhos rurais esquisitos. McGinty... sim. Eu me recordo mesmo. Talvez o crime tenha fixado o nome para mim.

— Pode se lembrar do que ela dizia na carta?

— Algo sobre uma fotografia. Ela sabia onde estava uma fotografia igual à do jornal — será que nós lhe pagaríamos alguma coisa pela informação e quanto seria?

— E respondeu-lhe?

Meu caro senhor, nós não queríamos nada do gênero. Mandamos-lhe a resposta habitual. Sinceros agradecimentos e nada mais. Mas como escrevemos para Broadway — eu suponho que ela nunca a recebeu.

— Ela sabia onde estava uma fotografia...

Uma recordação voltou à mente de Poirot. A voz descuidada de Maureen Summerhayes dizendo: — É claro que ela bisbilhotava um bocado.

A Sra. McGinty era bisbilhoteira. Ela era honesta, mas gostava de saber das coisas. E as pessoas guardam coisas... coisas

tolas e inúteis do passado. Guardam-nas por motivos sentimentais ou apenas porque não lhes dão mais importância e não se lembram onde elas estão.

A Sra. McGinty vira uma fotografia velha e mais tarde reconheceu-a ao vê-la reproduzida no Sunday Companion. E ela imaginou se não podia tirar um pouco de dinheiro dela...

Ele ergueu-se vivamente. — Muito obrigado, Srta. Horsefall. A senhorita vai me perdoar, mas as anotações que escreveu sobre aqueles casos eram acuradas? Eu reparei, por exemplo, que o ano do julgamento de Craig estava errado — foi na verdade um ano depois do que foi dito. E o caso Courtland, o nome do marido era Herbert, que me lembre, e não Hubert. A tia de Lily Gamboll vivia em Buckingamshire e não em Berkshire.

A Srta. Horsefall fez um gesto com o cigarro.

— Meu caro senhor. Não havia nenhuma exatidão. A coisa toda era uma bagunça romantizada do princípio ao fim. Eu fantasiei os fatos e larguei-os no ar com uma porção de baboseiras.

— O que eu estava querendo dizer é que o caráter de suas heroínas era, talvez, o mesmo que foi apresentado?

Pamela deixou escapar um som igual ao de um relincho.

— E claro que não. O que o senhor acha? Eu não tenho dúvidas que Eva Kane era uma prostitutazinha ordinária, e não uma inocente injuriada. E sobre a mulher de Courtland, por que foi que ela sofreu em silêncio durante oito anos com um pervertido sádico? Porque ele estava rolando em dinheiro e o namorado romântico não tinha um tostão.

— E a criança trágica, a Lily Gamboll?

— Eu não gostaria de tê-la gambolando perto de mim com um cortador de carne nas mãos...

Poirot estalou os dedos.

— Elas saíram do país — foram para o Novo Mundo — para o exterior — para os "Domínios" — "para começar Vida Nova". E não há nada que mostre que elas, subseqüentemente, não tenham voltado para cá, há?

— Absolutamente nada — concordou a Srta. Horsefall. — E agora... eu preciso mesmo voar...

Tarde naquela noite, Poirot telefonou para Spence.

— Eu estava imaginando onde você andava, Poirot. Conseguiu alguma coisa? Qualquer coisa?

— Eu fiz meus inquéritos — disse Poirot soturno.

— Sim?

— E o resultado deles foi isto — as pessoas que vivem em Broadhinny são todas muito distintas.

— O que quer dizer com isto, Monsieur Poirot?

— Oh, meu amigo, considere isto... "Pessoas muito distintas". Mais de uma vez isto já serviu como motivo para um assassinato.

 

Pessoas muito distintas — murmurou Poirot ao dobrar a esquina no portão de Crossways, perto da estação.

Um letreiro de metal pendurado na porta anunciava que o Dr. Rendell — Médico, morava ali.

O Dr. Rendell era um homem grande e alegre de uns quarenta anos. Acolheu seu visitante com uma cortesia categórica.

— Nossa aldeiazinha sente-se honrada — disse ele — pela presença do grande Hercule Poirot.

— Ah! — disse Poirot. Ele estava deliciado. — Então o senhor já ouviu falar de mim?

— É claro que eu já ouvi falar no senhor. Quem não ouviu? A resposta a esta pergunta poderia ser prejudicial para o amor-próprio de Poirot. Ele apenas retrucou polidamente: — Eu tive sorte de encontrá-lo em casa.

Não fora somente sorte. Fora, pelo contrário, um cálculo astucioso. Mas o Dr. Rendell respondeu calorosamente.

— Sim. Quase não me encontra. Tenho uma operação dentro de quinze minutos. Agora, o que posso fazer pelo senhor? Estou consumido pela curiosidade de saber o que está fazendo aqui. Uma cura de repouso? Ou será que temos um crime entre nós?

— No particípio passado — não no presente.

— Passado? Não me recordo...

— A Sra. McGinty.

— É claro. É claro. Eu estava me esquecendo. Mas não me diga que está interessado naquilo — numa data tão tardia?

— Se eu lhe menciono este fato, é porque estou lhe contando isso em confiança. Fui contratado pela defesa. Novas evidências nas quais podemos basear uma apelação.

O Dr. Rendell falou com rapidez: — Mas quais são estas novas evidencias?

— Infelizmente isto eu não tenho liberdade de expor...

— Oh, é lógico... por favor, me desculpe.

— Mas eu me vi à frente com certas coisas que são... eu diria... muito estranhas... muito... será que eu podia dizer?... Sugestivas? Vim ter ao senhor, Dr. Rendell, porque me disseram que a Sra. McGinty ocasionalmente trabalhava aqui.

— Oh, sim, sim... ela era... Quer beber alguma coisa? Sherry? Uísque? Prefere um sherry? Eu também — ele trouxe dois cálices e sentou-se ao lado de Poirot, continuando. — Ela costumava vir aqui uma vez por semana para fazer uma limpeza extra. Eu tenho uma governanta muito boa — excelente — mas os metais... e esfregar o chão da cozinha... bem, a Sra. Scott não pode se ajoelhar muito bem. A Sra. McGinty era uma excelente empregada.

— O senhor acha que ela era digna de confiança?

— Digna de confiança? Bem, a pergunta é esquisita. Eu não sei se poderei dizer... nunca tive a oportunidade de saber. Tanto quanto eu saiba, ela era digna de confiança.

— Neste caso, se ela afirmasse alguma coisa sobre alguém, esta afirmação seria provavelmente verídica?

O Dr. Rendell pareceu ligeiramente perturbado.

— Oh, eu não iria assim tão longe. Eu sei muito pouco a seu respeito. Posso perguntar à Sra. Scott. Ela deve saber melhor.

— Não, não. E melhor não fazer isto.

— O senhor está despertando a minha curiosidade — disse genialmente o Dr. Rendell. — O que é que ela andava dizendo por aí? Algo injurioso, era isso? Alguma calúnia, eu quis dizer?

Poirot apenas balançou a cabeça, negativamente. Disse:

— Compreenda, isto está extremamente em segredo no momento. Eu estou apenas no princípio de minhas investigações.

O Dr. Rendell falou secamente:

— O senhor vai ter de se apressar um pouco, não vai?

— O senhor tem razão. O tempo de que disponho é curto.

— Eu devo lhe dizer que me surpreendeu... Nós estávamos seguros de que fora mesmo James Bentley o criminoso. Parecia não haver nenhuma dúvida possível.

— Parecia um crime comum e sórdido — nem um pouco interessante. Não era isto que ia dizer?

— Sim... sim, isto resume tudo muito bem.

— Conhecia James Bentley?

— Ele veio me ver profissionalmente uma ou duas vezes. Estava nervoso sobre a sua própria saúde. Mimado pela mãe, eu imagino. Vemos isso com muita freqüência. Na verdade, temos um outro caso igual aqui.

— Deveras?

— Sim. A Sra. Upward. Laura Upward. Caduca por aquele filho. Mantém o rapaz amarrado nas fitas de seu avental. Ele é um sujeito esperto — não tão esperto quanto ele pensa que é, cá entre nós — mas mesmo assim bastante talentoso. Vai-se tornar um escritor teatral, o nosso Robin.

— Eles estão aqui há muito tempo?

— Três ou quatro anos. Ninguém está há muito tempo em Broadhinny. A aldeia original era apenas um punhado de casas, agrupadas em volta de Long Meadows. O senhor está hospedado lá, eu ouvi dizer.

— Estou — fez Poirot sem o devido entusiasmo. O Dr. Rendell pareceu divertir-se.

— É uma pensão mesmo — disse ele. — Só que aquela moça não sabe como dirigir uma pensão. Ela viveu, na índia desde que se casou — com criados por todos os lados da casa. Aposto como não está hospedado com conforto. Ninguém fica lá muito tempo. E o pobre Summerhayes não vai conseguir nunca fazer alguma coisa com aquela horta comercial que está tentando organizar. Sujeito simpático — mas que não tem idéia da vida de comércio — e é a vida de comércio que se precisa viver hoje em dia, se a gente quiser manter a cabeça fora d'água. Não saia daqui com a ilusão de que eu alivio os sofredores. Sou apenas um glorioso enchedor de formulários e um assinador de certificados. Mas eu gosto dos Summerhayes, apesar de tudo. Ele é uma pessoa encantadora, se bem que tenha um temperamento demoníaco e seja inclinado a ficar mal-humorado, mas é um dos da velha guarda... É um tipo de primeira classe. O senhor devia ter conhecido o velho Coronel Summerhayes, uma verdadeira fera, orgulhoso como um demônio.

— Era o pai do Major Summerhayes?

— Sim. Não havia muito dinheiro quando o velhote morreu e é claro que algumas obrigações depois da morte apertaram muito aqueles dois, mas eles resolveram manter a velha casa. A gente não sabe se deva admirá-los ou chamá-los de "pobres tolos". Ele olhou para o relógio.

— Não quero atrasá-lo — disse Poirot.

— Ainda tenho alguns minutos. Além disso, eu gostaria de lhe apresentar minha mulher. Eu não sei onde ela está agora... Estava imensamente interessada ao saber que o senhor estava na cidade. Somos ambos muito inclinados ao crime. Lemos um bocado esses assuntos.

— Criminologia, ficção ou os jornais de domingo? — perguntou Poirot sorrindo.

— O senhor vai até o Sunday Companion!

— Todos três.

Rendell riu.

— O que seria o domingo sem eles?

— Houve uns artigos interessantes há uns cinco meses. Um deles em particular, sobre mulheres que tinham sido envolvidas em crimes de morte e as tragédias de suas vidas.

— Sim, eu me lembro desse de que o senhor fala. Mas tinha um monte de bobagens.

— Ah, o senhor achou?

— Bem, é claro que o caso Craig eu só soube por ler a respeito, mas um dos outros — o caso Courtland, eu posso lhe garantir que aquela mulher não era nenhuma inocente infeliz. Uma ordinária, isto sim. Eu sei porque um tio meu atendeu ao marido. Ele não era nenhuma beleza, mas a mulher também não era muito melhor. Ela dominou aquele rapaz inexperiente e incitou-o ao crime. Então ele foi para a prisão por homicídio involuntário e ela escapa, uma viúva rica, e se casa com um camarada qualquer.

— O Sunday Companion não falou nada sobre isto. Lembra-se com quem ela se casou?

Rendell balançou a cabeça.

— Não creio que tenha ouvido alguma vez o nome dele, mas alguém me falou que ela se arranjou muito bem.

— Fica-se imaginando depois de ler aquele artigo onde andarão aquelas mulheres hoje em dia — refletiu Poirot.

— Eu sei. Podemos ter encontrado uma delas ontem à noite durante uma festa. Eu aposto como elas guardam o seu passado bem escondido. Ninguém certamente as reconhecerá por intermédio de uma daquelas fotos. Por Deus, elas formavam um belo grupo!

O relógio soou e Poirot levantou-se.

— Não devo mais detê-lo. O senhor foi muito gentil.

— Não ajudei muito, eu sinto... Os homens nunca sabem muito bem como é a empregada que trabalha por dia. Mas espere um segundo, precisa conhecer minha mulher. Ela nunca me perdoaria.

Ele guiou Poirot até o vestíbulo, chamando-a em altas vozes.

— Shelagh... Shelagh...

Uma resposta débil veio lá de cima.

— Venha cá embaixo. Eu quero apresentá-la a alguém. Uma mulher loura e magra desceu as escadas com suavidade.

— Eis aqui o Sr. Hercule Poirot, Shelagh. O que me diz disto? - Oh! — a Sra. Rendell pareceu espantada a ponto de perder a fala. Seus olhos de um azul muito pálido encararam Poirot apreensivamente.

— Madame — disse Poirot curvando-se sobre a sua mão na mais estrangeira de suas atitudes.

— Ouvimos falar que o senhor estava aqui — disse Shelagh Rendell. — Mas não sabíamos... — ela se interrompeu. Seus olhos claros fitaram vivamente o rosto de seu marido.

— É por ele que ela se guia para acertar o relógio — disse Poirot consigo mesmo.

Ele pronunciou algumas frases floreadas e saiu.

Ficou nele uma impressão de um Dr. Rendell genial e da língua atada da apreensiva Sra. Rendell.

Já era muito para os Rendells — onde a Sra. McGinty trabalhava nas terças-feiras pela manhã.

 

Hunter's Close era uma casa vitoriana solidamente construída, por onde se entrava através de uma alameda mal cuidada e cheia de ervas daninhas. Não era originariamente considerada uma casa grande, mas agora era já grande demais para ser convenientemente cuidada.

Poirot perguntou a uma moça de aparência estrangeira, que abriu a porta, pela Sra. Wentherby.

Ela o olhou e disse:

— Eu não sei se ela está. Entre, por favor. Talvez possa falar com a Srta. Henderson?

Ela o deixou de pé na entrada. Era, na linguagem de um corretor de imóveis, "completamente mobiliada", com uma boa quantidade de objetos de arte de várias partes do mundo. Nada parecia muito limpo ou bem espanado.

Neste momento a moça estrangeira reapareceu. Disse: — Por favor; venha — e levou-o até uma salinha gelada com uma grande escrivaninha. Sobre o parapeito da lareira estava um bule de café enorme e de aparência maligna, com um bico imenso e encurvado como um grande nariz adunco.

A porta abriu-se por trás de Poirot e uma moça entrou na sala.

— Minha mãe está deitada — disse ela. — Posso lhe ser útil em alguma coisa?

— É a Srta. Wetherby?

— Henderson. O Sr. Wetherby é meu padrasto.

Ela era uma moça simples de uns trinta anos, alta e desajeitada. Tinha olhos inquietos e atentos.

— Eu estou ansioso em ouvir o que me pode dizer a respeito de uma Sra. McGinty que costumava trabalhar aqui.

Ela olhou para ele.

— Sra. McGinty? Mas ela morreu.

— Eu sei disso — disse Poirot com gentileza. — Não tem importância, eu gostaria de ouvir falar sobre ela.

— On! É para alguma companhia de seguros ou qualquer coisa assim?

— Não é para o seguro. É uma questão de novas evidências.

— Novas evidências. O senhor quer dizer... sobre sua morte?

— Eu fui contratado — disse Poirot — pelos advogados de defesa para fazer um inquérito no interesse de James Bentley.

Olhando para ele, ela perguntou: — Mas não foi ele quem a matou?

— O júri pensou que foi. Mas jurados às vezes cometem um engano.

— Então deve ter sido outra pessoa quem a matou?

— Deve ter sido.

Ela perguntou bruscamente: — Quem?

— Isto — disse Poirot suavemente — é a questão!

— Eu não estou entendendo nada.

— Não? Mas pode me dizer algo a respeito da Sra. McGinty, não pode?

Ela disse com certa relutância:

— Eu creio que sim... O que é que o senhor quer saber?

— Bem... para começarmos — o que pensava dela?

— Ora... nada em particular. Ela era apenas como uma outra pessoa qualquer.

— Faladeira ou calada? Curiosa ou reservada? Agradável ou preguiçosa? Uma mulher simpática, du — uma mulher não muito simpática?

A Srta. Henderson refletiu.

— Ela trabalhava bem — mas falava um bocado. Às vezes ela dizia coisas engraçadas... eu não... na verdade... eu não gostava muito dela.

A porta abriu-se e a criada estrangeira disse:

— Srta. Deirdre, a senhora sua mãe disse: traga-o, por favor.

— Minha mãe quer que eu leve este senhor lá em cima?

— Sim, por favor, obrigada.

Deirdre Henderson olhou para Hercule Poirot meio em dúvida.

— O senhor quer subir para ver minha mãe?

— Mas, certamente.

Deirdre levou-o através do vestíbulo em direção à escadaria. Disse inconseqüentemente: — Fica-se tão cansada com esses estrangeiros...

Como sua mente estava claramente voltada para a criada doméstica e não ao seu visitante, Poirot não tomou isto como ofensa. Refletiu que esta Deirdre Henderson parecia uma moça nova e muito simples — tão simples que chegava a ser simplória.

O quarto de cima estava superlotado de bugigangas. Era o quarto de uma mulher que viajara muito e que certamente determinara que, de onde fosse, traria uma lembrança do local. A maior parte dos objetos tinha sido distintamente feita para a delícia e a exploração dos turistas. Havia mesas e sofás demais pelo quarto, pouco ar e muitas tapeçarias — e no meio disto tudo, estava a Sra. Wetherby.

A Sra. Wetherby parecia uma mulher muito pequena — pateticamente minúscula dentro de um quarto tão-grande. O efeito era este. Mas ela não era assim tão pequena quanto decidira parecer. Era do tipo"pobrezinha de mim" que sempre alcança muito bem seus resultados, mesmo quando são de estatura mediana.

Estava reclinada confortável mente num sofá e perto dela havia livros, novelos de tricô, um copo de suco de laranja e uma caixa de bombons. Disse com vivacidade:

— O senhor tem de me desculpar por não me levantar, mas o médico insiste tanto para que eu descanse todos os dias, e todos ralham tanto comigo quando eu não faço o que ele me manda.

Poirot tomou a mão estendida e curvou-se sobre ela, murmurando uma homenagem adequada.

Atrás dele, com obstinação, Deirdre disse: — Ele quer saber a respeito da Sra. McGinty.

A mão delicada que ele tinha passivamente entre as suas tornou-se tensa e lembrou-lhe por um momento a garra de uma ave. Não uma peça delicada de porcelana de Dresden — as garras afiadas de uma ave de rapina...

Sorrindo ligeiramente, a Sra. Wetherby disse:

— Que coisa ridícula, Deirdre querida. Quem é a Sra. McGinty?

— Oh, mamãe... a senhora deve se lembrar. Ela trabalhava para nós. Lembra-se, aquela que foi assassinada!

A Sra. Wetherby fechou os olhos e estremeceu.

— Não fale nisto agora querida. Foi tudo tão horrível. Eu fiquei nervosa durante semanas. Pobre velha, mas é tão estúpido se guardar dinheiro debaixo do assoalho. Ela devia tê-lo posto no banco. É claro que eu me lembro disto tudo — só tinha me esquecido do nome dela.

Deirdre disse com teimosia:

— Ele quer saber a respeito dela.

— Ora, sente-se por favor, Monsieur Poirot. Eu estou ardendo em curiosidade. A Sra. Rendell me telefonou e disse que um criminologista muito famoso estava aqui e ela o descreveu. E então, quando aquela idiota da Frieda descreveu o visitante, eu fiquei certa de que era o senhor, e mandei-lhe o recado para subir. Agora, me conte, o que quer dizer isto tudo?

— Como disse a sua filha, eu quero saber coisas sobre a Sra. McGinty. Ela trabalhava aqui. Vinha para a senhora, eu ouvi dizer, nas quartas-feiras. E foi numa quarta-feira que ela morreu. Ela esteve aqui durante o dia, não esteve?

— Eu creio que sim. Não posso lhe dizer com certeza. Faz tanto tempo.

— Sim. Vários meses. E ela não disse nada neste dia — nada de especial?

— Esta classe de gente sempre fala muito — disse a bra. Wetherby com desagrado. — Nem se escuta na verdade. E de qualquer forma, ela não poderia dizer que ia ser roubada e assassinada naquela noite, não é?

— Há causas e efeitos — disse Poirot. A Sra. Wetherby franziu a testa.

— Eu não entendi o que quis dizer.

— Talvez nem eu próprio saiba — ainda. Trabalha-se no escuro à procura da luz... A senhora lê os jornais de domingo, Sra. Wetherby?

Os seus olhos azuis ficaram muito abertos.

— Oh, sim. É lógico. Recebemos o Observar e o Sunday Times. Por quê?

— Eu estava pensando. A Sra. McGinty lia o Sunday Companion e o News of the World.

Ele fez uma pausa mas ninguém disse nada. A Sra. Wetherby suspirou e entrefechou os olhos. Disse:

— Foi tudo tão desagradável. Aquele inquilino horrível que ela mantinha. Eu não posso imaginar que ele seja muito certo da cabeça. Aparentemente era um homem educado, entretanto. Isto ainda piora as coisas, não é?

— Será que piora?

— Oh, sim... eu creio que sim. Um crime tão brutal. Um cortador de carne. Ugh!

— A polícia nunca achou a arma — disse Poirot.

— Eu acho que ele deve ter jogado dentro de uma lagoa ou outro lugar qualquer.

— Eles dragaram as lagoas — disse Deirdre. — Eu vi.

— Querida — a mãe suspirou —, não seja mórbida. Você sabe como eu detesto pensar em coisas assim. Minha cabeça...

Impetuosamente a moça virou-se para Poirot.

— O senhor não deve continuar — disse ela. — É ruim para ela. Ela é terrivelmente sensível. Não pode nem ler histórias de detetives.

— Minhas desculpas — disse Poirot. Ele se pôs de pé. — Eu só tenho uma desculpa. Um homem vai ser enforcado dentro de três semanas. Se não foi ele quem fez isto...

A Sra. Wetherby ergueu-se sobre um cotovelo. Sua voz era estridente.

— Mas é claro que foi ele quem fez aquilo! — gritou ela. — É claro que foi ele!

Poirot balançou a cabeça.

— Eu não tenho tanta certeza.

Ele deixou o quarto rapidamente. Ao descer as escadas, a moça correu atrás dele. Alcançou-o na entrada.

— O que foi que o senhor quis dizer? — perguntou ela.

— Exatamente o que eu disse, Mademoiselle.

— Sim, mas... — ela parou. Poirot não disse nada.

Deirdre Henderson falou lentamente: — O senhor aborreceu minha mãe. Ela detesta coisas assim — roubos e crimes e... e violência.

— Deve ter sido, então, um grande choque para ela quando uma mulher que trabalhava aqui foi morta.

— Oh, sim... oh, sim, foi mesmo.

— Ela ficou muito prostrada, não?

— Ela não podia nem ouvir falar nisso... Nós... Eu... eu tentei poupá-la dessas coisas. Toda a brutalidade...

— E durante a guerra?

— Felizmente não tivemos nenhuma bomba aqui por perto.

— Qual foi a sua participação na guerra, Mademoiselle?

— Oh, eu trabalhei na administração dos veteranos em Kilchester. E dirigi carros para o Serviço Voluntário Feminino. Eu não podia sair de casa, é claro. Mamãe precisava de mim. Mesmo assim, ela reclamava porque eu ficava muito tempo fora de casa. Foi muito difícil. E os empregados... Naturalmente mamãe nunca fez nenhum serviço de casa — ela não é bastante forte. E é tão difícil conseguir alguém. É por isso que a Sra. McGinty era uma verdadeira bênção. Desde que ela começou a trabalhar para nós. Era uma empregada esplêndida. Mas é claro que nada... Nenhum lugar... é como costumava ser.

— E você se importa muito com isto?

— Eu? Oh, não! — ela pareceu surpresa. — Mas é diferente para mamãe. Ela... ela vive muito no passado.

— Muitas pessoas vivem — disse Poirot. Sua memória visual evocou a sala onde ela estivera há tão pouco tempo. Havia um móvel de escritório com uma gaveta semi-aberta. Uma gaveta cheia de coisas e objetos estranhos — uma alfineteira de seda, um leque quebrado, uma cafeteira de prata — algumas revistas velhas. A gaveta estava cheia demais para fechar. Ele falou suavemente: — Eles guardam coisas — memórias dos dias passados — o programa de dança, o leque, as fotografias de antigos amigos, mesmo os cardápios e os programas de teatro, porque olhando para estas coisas, as velhas memórias revivem.

— Eu suponho que seja assim — disse Deirdre. — Eu mesma não posso entender. Eu nunca guardo nada.

— Você olha sempre para a frente, nunca para trás? Deirdre disse lentamente:

— Eu não sei se olho para algum lugar... Eu quero dizer, hoje em dia isto é comum, não é?

A porta da frente abriu-se e um homem alto e magro, já idoso, entrou no vestíbulo. Ele parou de estalo quando deu com Poirot.

Olhou de relance para Deirdre e suas sobrancelhas se arquearam numa interrogação.

— Este é meu padrasto — disse ela. — Eu... eu não sei o seu nome?

— Eu sou Hercule Poirot — disse Poirot com seu jeito usual e encabulado de quem anuncia um Título Real.

O Sr. Wetherby não pareceu impressionado.

Disse: — Ah! — e virou-se para pendurar seu casaco.

Deirdre disse:

— Ele veio fazer perguntas sobre a Sra. McGinty.

O Sr. Wetherby permaneceu imóvel por um segundo, depois terminou de ajeitar seu casaco no cabide.

— Isto me parece muito estranho — disse ele. — A mulher morreu há muitos meses atrás e, se bem que trabalhasse aqui, nós não temos nenhuma informação a respeito dela ou de sua família. Se tivéssemos alguma, já teríamos fornecido à Polícia.

Havia um caráter definitivo no tom de sua voz. Olhou para o relógio.

— O almoço, eu creio, estará pronto dentro de quinze minutos.

— Eu tenho medo de que hoje esteja um pouco atrasado.

As sobrancelhas do Sr. Wetherby levantaram-se outra vez.

— De fato? Eu posso perguntar por quê?

— Frieda esteve muito ocupada.

— Minha cara Deirdre, eu detesto ter de lhe lembrar, mas a tarefa de cuidar da casa compete a você. Gostaria de um pouco mais de pontualidade.

Poirot abriu a porta da frente e saiu. Olhou por cima do ombro.

Havia uma frieza antipática no olhar que o Sr. Wetherby dirigiu a sua enteada. Havia algo mais que o ódio nos olhos que lhe responderam.

 

Poirot deixou A sua terceira visita para depois do almoço. O almoço foi uma rabada mal cozida, batatas aguadas, e algo que Maureen otimisticamente esperava que tossem panquecas. E que eram muito esquisitas.

Poirot subiu a colina lentamente. Dali, a sua direita, ele chegaria até Laburnums, duas casas de campo transformadas numa só e remodeladas ao gosto moderno. Ali vivia a Sra. Upward e seu jovem e promissor escritor teatral, Robin Upward.

Poirot parou por um momento no portão de entrada para passar a mão sobre os seus bigodes. Enquanto fazia isto, um carro apareceu fazendo devagar a curva da colina e dele saiu um miolo de maçã, batendo com toda a força em sua bochecha.

Espantado, Poirot deixou escapar um grito agudo de protesto. O carro parou de estalo e uma cabeça apareceu pela janela.

— Eu sinto muito. Bateu no senhor?

Poirot fez uma pausa antes de responder. Olhou para o rosto de ar aristocrático, as sobrancelhas espessas, grandes cachos em desalinho de cabelos grisalhos e algo soou em suas memórias." Os caroços de maçã também o ajudaram a lembrar-se.

— Mas, é lógico — exclamou ele —, é a Sra. Oliver! Era mesmo a celebrada autora de romances policiais. Exclamando: — Ora, é Monsieur Poirot — a autora iniciou a tentativa de sair do carro. Era um carro pequeno e a Sra. Oliver era uma mulher enorme. Poirot apressou-se em ajudá-la.

Murmurando uma desculpa elucidativa — Estou entrevada pela longa viagem — a Sra. Oliver saiu de repente para a estrada, assim como uma erupção vulcânica.

Uma grande quantidade de maçãs saiu também e rolaram alegremente colina abaixo.

— A sacola rasgou — explicou a Sra. Oliver.

Ela espanou algumas migalhas perdidas de uma maçã meio comida no anteparo saliente de seu busto e balançou-se como um cachorrão Terra-Nova. Uma última maçã, escondida entre os recessos de sua própria pessoa, juntou-se aos seus irmãos e irmãs.

— É uma pena que a sacola tenha rasgado — disse a Sra. Oliver. — Eram de Cox. Mas eu acho que aqui no campo deve_ haver montes de maçãs. Ou será que não? Talvez eles mandem todas embora. Tudo é tão estranho hoje em dia, acho eu... Bem, como está passando, Monsieur Poirot? O senhor não mora aqui, mora? Não, eu tenho certeza que não. Então, eu creio que seja um crime. Não será a minha anfitrioa, eu espero?

— Quem é ela?

— Ali — disse a Sra. Oliver abanando a cabeça. — Isto é, se é ali uma casa que chamam de Laburnums, a meio caminho da colina, à esquerda de quem passa pela igreja. Sim, deve ser ali. Como é ela?

— A senhora não a conhece?

— Não, eu vim aqui profissionalmente, para falarmos assim. Um livro meu está sendo dramatizado — por Robin Upward. Nós deveríamos chegar a uma idéia sobre ele.

— Meus parabéns, Madame.

— Não é nada do que está pensando — disse a Sra. Oliver. — Até agora foi uma mera agonia. Eu não sei por que fui me deixar levar. Meus livros me dão bastante dinheiro — se bem que os sanguessugas fiquem com a maior parte dele, mas se eu fizesse mais dinheiro, eles pegariam ainda mais, então eu vou me esgotar por isto... Mas o senhor não tem idéia da agonia de ter os seus personagens obrigados a dizerem coisas que eles nunca teriam dito e fazerem coisas que eles nunca teriam feito. E, se você protesta, tudo o que eles dizem é que é "bom teatro". É isto que pensa Robin Upward. Todos dizem que ele é muito inteligente. Se ele é tão inteligente, não vejo por que não possa escrever a sua própria peça de teatro e deixar o meu pobre e infortunado finlandês em paz. Ele não é nem mesmo mais finlandês. Tornou-se um membro do movimento da Resistência norueguesa — ela passou as mãos pelos cabelos. — O que foi que eu fiz com o meu chapéu?

Poirot olhou para dentro do carro.

— Eu acho, Madame, que a senhora devia estar sentada em cima dele.

— Está mesmo com cara — concordou a Sra. Oliver, observando as ruínas. — Oh, bem — disse ela jovialmente —, eu não gostava mesmo muito dele. Mas pensei que talvez se eu quisesse ir à igreja no domingo, apesar do Arcebispo dizer que não há mais necessidade, eu ainda acho que os clérigos mais conservadores esperem que a gente use um chapéu. Mas conte-me sobre o seu crime ou o que quer que seja. Lembra-se do nosso assassinato?

— E muito bem.

— Muito engraçado, não foi? Não o crime mesmo em si — eu não gostei nada. Mas depois. Quem é desta vez?

— Não é uma pessoa tão pitoresca quanto o Sr. Shantana. Uma mulher idosa que trabalhava por dia como faxineira e que foi roubada e assassinada há cinco meses. A senhora deve ter lido a respeito. Sra. McGinty. Um rapaz foi considerado culpado e condenado â morte...

— E não foi ele quem matou, mas o senhor sabe quem foi, e vai provar isto — disse a Sra. Oliver rapidamente. — Esplêndido!

— Está andando muito depressa — disse Poirot com um suspiro. — Eu ainda não sei quem foi — e depois disto ainda há um longo caminho pela frente para prová-lo.

— Os homens são lentos — disse a Sra. Oliver desdenhosamente. — Logo eu vou lhe dizer quem foi. Alguém daqui, eu creio? Dê-me um dia ou dois para dar uma espiada em torno e eu acharei o assassino. A intuição feminina — é isto que o senhor precisa. Eu estava bem certa sobre o caso Shantana, não estava?

Galantemente Poirot absteve-se de relembrar à Sra. Oliver a sua rápida troca de suspeita naquela ocasião.

— Vocês, homens — disse a Sra. Oliver com indulgência.

— Imagine se uma mulher estivesse à frente da Scotland Yard...

Ela deixou este velho tema dançando no ar, quando uma voz gritou da porta da casa.

— Olá — disse a voz, num tom agradável de tenor leve.

— É a Sra. Oliver?

— Estou aqui — respondeu a Sra. Oliver. Para Poirot ela murmurou: — Não se preocupe. Eu serei muito discreta.

— Não, não, Madame. Eu não quero que a senhora seja discreta. Pelo contrário.

Robin Upward desceu pela alameda, através do portão. Ele estava sem chapéu e usava calças velhas de flanela cinza e um in-decoroso casaco esporte. Se não fosse por uma tendência para uma barriguinha ele seria um rapaz atraente.

— Ariadne, minha querida! — exclamou ele ao abraçá-la efusivamente.

Ele ficou de pé, as mãos em seus ombros.

— Minha querida, eu tive a idéia mais maravilhosa para o segundo ato!

— Teve? — disse a Sra. Oliver sem entusiasmo. — Este é o Sr. Hercule Poirot.

— Esplêndido — disse Robin. — A senhora tem bagagem?

— Está na mala do carro. Robin pegou um par de valises.

— Que maçada — disse ele. — Nós temos os empregados que precisamos. Somente a velha Janet. E precisamos poupá-la a todo custo. É um tal incômodo, não acha? Como suas malas são pesadas! Será que trouxe bombas nelas?

Ele tropeçou no caminho, falando por cima do ombro.

— Entre e beba alguma coisa.

— Ele quis dizer o senhor — disse a Sra. Oliver, apanhando a sua bolsa de mão, um livro, um par de sapatos velhos do assento dianteiro. — O senhor disse mesmo que quer que eu seja indiscreta?

— Quanto mais indiscreta, melhor.

— Eu não agiria desta forma — disse a Sra. Oliver — mas o crime é seu. Eu farei tudo que puder para ajudar.

Robin reapareceu na porta da frente.

—Entrem, entrem — chamou ele. — Depois nós veremos o que fazer com o carro. Madre está morrendo de vontade de conhecê-la.

A Sra. Oliver moveu-se majestosamente pela alameda e Poirot seguiu-a.

O interior de Laburnums era encantador. Poirot adivinhou que uma boa soma de dinheiro tinha sido gasta para decorá-lo, mas o resultado era de uma simplicidade fascinante e dispendiosa. Cada pequena peça de carvalho colonial era uma peça autêntica.

Numa cadeira de rodas perto da lareira da sala de visitas, Laura Upward sorriu-lhes as boas-vindas. Ela era uma mulher de aspeto vigoroso, de uns sessenta anos com cabelos cinza-prata e um queixo determinado.

— Estou encantada em conhecê-la, Sra. Oliver — disse ela. — Eu imagino que a senhora detesta as pessoas que falam sobre os seus livros, mas eles têm sido um imenso conforto para mim nos últimos anos — e especialmente depois que eu fiquei assim inválida.

— E muito gentil de sua parte — disse a Sra. Oliver, parecendo encabulada e torcendo as mãos com jeito de menina de escola. — Oh, este é Monsieur Poirot, um velho amigo meu. Nós nos encontramos por acaso aqui fora. Na verdade, eu o atingi com um miolo de maçã. Como Guilherme Tell — só que ao contrário.

— Como vai, Monsieur Poirot? Robin?

— Sim, Madre?

— Traga umas bebidas. Onde estão os cigarros?

— Naquela mesa.

A Sra. Upward perguntou: — O senhor também é escritor, Monsieur Poirot?

— Oh, não — disse a Sra. Oliver. — Ele é detetive. A senhora sabe. Do tipo do Sherlock Holmes — pegar os outros de surpresa e violinos e tudo o mais. E ele veio aqui para desvendar um crime.

Houve um leve tilintar de vidro quebrado. A Sra. Upward disse secamente: — Robin, tenha cuidado. — Para Poirot ela falou: — Isto é muito interessante, Monsieur Poirot.

— Então Maureen Summerhayes estava certa — exclamou Robin. — Ela me contou uma novela sobre um detetive pelas redondezas. Parece que ela estava achando engraçado. Mas não é mesmo sério, é?

— É claro que é sério — disse a Sra. Oliver. — Entre vocês existe um assassino.

— Sim, mas olhe aqui, quem é que foi assassinado? Ou foi alguém que foi desenterrado e tudo está ainda muito secreto?

— Não é secreto em absoluto — disse Poirot. — O crime, vocês já o conhecem há muito tempo.

— A Sra. Mc... qualquer coisa... uma faxineira... no outono passado — disse a Sra. Oliver.

— Oh! — Robin pareceu desapontado. — Mas isto já terminou!

— Não terminou não — disse a Sra. Oliver. — Eles prenderam o homem errado, e ele será enforcado se Monsieur Poirot não encontrar o verdadeiro assassino em tempo. É terrivelmente excitante!

Robin distribuiu as bebidas.

— White Lady para a senhora, Madre.

— Obrigada, meu querido.

Poirot franziu ligeiramente as sobrancelhas. Robin deu um copo para a Sra. Oliver e outro para ele.

— Bem — disse Robin —, ao crime! Ele bebeu.

— Ela trabalhava aqui — disse ele.

— A Sra. McGinty? — perguntou a Sra. Oliver.

— Sim. Não trabalhava, Madre?

— Quando você diz trabalhava aqui... ela vinha aqui uma vez por semana.

— E algumas tardes de vez em quando.

— Como era ela?

— Tremendamente respeitável — disse Robin. — E loucamente ordeira! Tinha uma maneira medonha de arrumar tudo e botar as coisas nas gavetas onde a gente simplesmente não podia adivinhar que elas estivessem.

A Sra. Upward disse com uma careta bem-humorada:

— Se alguém não botar as coisas em ordem pelo menos uma vez por semana, brevemente você não poderá mais se mexer nesta casinha.

— Eu sei, Madre, eu sei. Mas a menos que as coisas fiquem onde eu as deixei, eu simplesmente me sinto incapaz de trabalhar. Minhas anotações se misturam.

— É tão desagradável ser assim inútil conto eu sou — disse a Sra. Upward. — Nós temos uma criada antiga muito fiel, mas a única coisa quê ela pode fazer é uma comidinha trivial.

— O que é que a senhora tem? — perguntou a Sra. Oliver. — Artrite?

— Um tipo de artrite. Eu vou precisar de uma enfermeira permanente muito em breve. É tão incômodo. Gosto de me sentir independente.

— Vamos, querida — disse Robin. — Não fique preocupada.

Ela sorriu para ele com uma ternura repentina — Robin para mim é tão bom como se tosse uma filha — disse ela. — Ele faz tudo e pensa em tudo. Ninguém podia me ter mais consideração.

Eles sorriram um para o outro.

Hercule Poirot levantou-se.

— Alas! — disse ele. — Eu preciso ir. Ainda tenho uma visita a fazer e preciso pegar um trem. Madame, eu lhe agradeço pela hospitalidade. Sr. Upward, eu lhe desejo o maior sucesso com a peça.

— E para você o maior sucesso com seu crime — disse a Sra. Oliver.

— Isto é sério mesmo, Monsieur Poirot? — perguntou a Sra. Upward. — Ou é uni embuste genial?

— É claro que não é embuste — disse a Sra. Oliver. — É mortalmente sério. Ele não vai nos dizer quem é o assassino, mas ele já sabe, não sabe?

— Não, não, Madame... — o protesto de Poirot foi suficientemente sem convicção. — Eu já lhe disse antes que não, eu ainda não sei.

— Mas isso é que o senhor está dizendo, mas eu penso que já está sabendo mesmo... Mas é assustadoramente cheio de segredos, não é?

A Sra. Upward disse secamente:

— É verdade mesmo? Não é uma brincadeira?

— Não é uma brincadeira, Madame — disse Poirot. Ele fez um cumprimento de cabeça e saiu.

Ao descer pela alameda, ouviu a voz clara de tenor de Robin:

— Mas Ariadne, querida — dizia ele —, está muito bem, mas com aquele bigode e tudo o mais, ninguém pode levá-lo a sério. Você tem certeza de que ele é bom mesmo?

Poirot sorriu para si mesmo. Muito bom mesmo! Quando ia atravessar a estradinha estreita, ele deu um pulo bem a tempo.

A camioneta dos Summerhayes, cambaleando e pinoteando, passou correndo por ele. Summerhayes estava ao volante.

— Desculpe — gritou ele. — Preciso pegar o trem! — e debilmente, à distância: — Covent Garden...

Poirot também tinha a intenção de pegar um trem — o trem local para Kilchester, onde ele marcara uma conferência com o Superintendente Spence.

Mas ele tinha tempo, antes de apanhá-lo, para apenas uma última visita.

Foi até o alto da colina e passou através de portões e de uma alameda bem tratada até uma casa moderna de concreto fosco com um telhado quadrado e uma quantidade de janelas. Era este o lar do Sr. e da Sra. Carpenter. Guy Carpenter era sócio da grande Companhia de Engenharia Carpenter um homem rico, que ultimamente se dedicara à política. Ele e a mulher estavam casados há muito pouco tempo.

A porta da frente da casa dos Carpenters não foi aberta por uma criada estrangeira ou por alguma doméstica idosa e fiel.

Um imperturbável mordomo abriu-a e relutou em deixar Poirot entrar. De seu ponto de vista, Hercule Poirot devia ser um tipo de visita para ser deixado do lado de fora. Ele evidentemente suspeitou que Hercule Poirot estivesse querendo vender alguma coisa.

— O Sr. e a Sra. Carpenter não estão em casa.

— Talvez eu possa então esperá-los?

— Eu não posso lhe informar quando eles chegarão. Fechou a porta.

Poirot não voltou pelo mesmo caminho. Em vez disto, deu a volta em torno da casa e quase colidiu com uma mulher alta e jovem, usando um casaco de vison.

— Olá — disse ela. — Que diabos quer você? Poirot ergueu o chapéu com galanteria.

— Eu estava esperando — disse ele — poder me encontrar com o Sr. ou a Sra. Carpenter. Terei o prazer de estar vendo a Sra. Carpenter?

— Eu sou a Sra. Carpenter.

Ela falou com um ar indelicado, mas havia uma leve sugestão de conciliação em seu tom de voz.

— Meu nome é Hercule Poirot.

Nenhuma reação. Não apenas este grande, este nome único era desconhecido para ela. como também — pensou ele — nem mesmo identificou-o como o hóspede atual de Maureen Summerhayes. Aqui, os boatos da aldeia não entravam. Um fato mínimo, porém significante, talvez.

— Sim?

— Eu gostaria de ver o Sr. ou a Sra. Carpenter, mas a senhora, Madame, é melhor para meus intentos. Pois o que eu quero lhe perguntar é a respeito de assuntos domésticos.

— Nós temos um Hoover — disse a Sra. Carpenter desconfiada.

Poirot riu.

— Não, não, a senhora não me compreendeu bem. São apenas algumas perguntas sobre um assunto doméstico.

— Oh, o senhor quer dizer que é um destes questionários domésticos. Eu acho isto absolutamente idiota... — ela interrompeu-se. — Talvez seja melhor o senhor entrar.

Poirot sorriu ligeiramente. Ela se calara para não fazer um comentário de desagrado. Com as atividades políticas de seu marido, a cautela em não se criticar as atividades do Governo era aconselhável.

Assim, ela o precedeu no vestíbulo e através de uma sala de tamanho regular que dava para um jardim extremamente bem cuidado. Era uma sala de aparência moderna, com um conjunto de sofá e duas poltronas estofados em brocado, três ou quatro cópias de cadeiras Chippendale, uma escrivaninha e uma mesa de escrever. Nenhuma moderação nas despesas, as melhores firmas tinham sido contratadas e não havia o menor sinal de um gosto individual. A noiva, pensou Poirot, teria feito o quê? Fora indiferente? Cuidadosa?

Ele a olhou, observando-a quando ela se voltou. Uma mulher moça, bonita e grã-fina. Cabelos platinados, maquilagem cuidadosamente aplicada, mas algo mais — olhos muito grandes, azul-ferrete — olhos que tinham um reflexo vago e frio — olhos lindos como os de um afogado.

Ela falou — com delicadeza agora, mas escondendo seu aborrecimento:

— Por favor, sente-se. Ele se sentou e falou:

— E muito amável, Madame. Quanto ás perguntas que eu quero lhe fazer... elas se relacionam à Sra. McGinty, que morreu — foi assassinada eu quis dizer — no último mês de novembro.

— Sra. McGinty? Eu não sei do que está falando.

Ela estava olhando para ele, os olhos duros e desconfiados.

— A senhora se lembra da Sra. McGinty?

— Não, não me lembro. Não sei nada a respeito dela.

— Lembra-se do seu assassinato? Ou os assassinatos são tão comuns por aqui que a senhora nem dá mais atenção?

— Oh, o assassinato? Sim, é lógico. Eu tinha me esquecido do nome da mulher.

— Entretanto, ela trabalhou para a senhora aqui nesta casa?

— Não. Eu não estava morando aqui nesta época. O Sr. Carpenter e eu nos casamos apenas há três meses.

— Mas ela trabalhava para a senhora. Eu creio que às sextas-feiras pela manhã. Não é a antiga Sra. Selkirk que vivia em Rose Cottage?

Ela disse mal-humorada:

— Se já sabe de todas as respostas eu não vejo por que está fazendo as perguntas. E, além disso, qual é o problema?

— Eu estou fazendo uma investigação das circunstâncias do crime.

— Por quê? Por que cargas d'água? E, além disso, por que perguntar a mim?

— A senhora podia saber de alguma coisa — isto me ajudaria.

— Eu não sei de nada. Por que saberia? Ela era apenas uma velha faxineira estúpida. Guardava o dinheiro debaixo do assoalho e alguém a roubou e assassinou. Foi muito repugnante — muito bestial. Como coisas que a gente lê nos jornais de domingo.

Poirot pegou esta deixa no ar com rapidez:

— Sim, como nos jornais de domingo. Como o Sunday Companion. Talvez a senhora leia o Sunday Companion.

Ela deu um pulo e abriu caminho aos tropeções na direção da janela aberta. Com tanta insegurança ela andava, que quase bateu no parapeito da janela. Poirot lembrou-se de uma mariposa grande e linda, esvoaçando cegamente em torno de uma lâmpada.

Ela se pôs a chamar: — Guy... Guy...

Uma voz de homem respondeu a uma certa distância.

— Eve?

— Venha aqui depressa.

Um homem alto, de uns trinta e cinco anos, apareceu à vista. Ele apertou o passo e chegou até o alpendre que dava para a janela. Eve Carpenter disse com veemência:

— Tem um homem aqui — um estrangeiro. Ele está me fazendo uma série de perguntas sobre aquele assassinato horroroso do ano passado. Uma faxineira velha — lembra-se? Eu detesto essas coisas. Você sabe disso.

Guy Carpenter franziu o cenho e veio para a sala de estar passando pela janela. Ele tinha uma cara comprida como um cavalo, era pálido e parecia bastante arrogante. Suas maneiras eram pomposas. Hercule Poirot achou-o antipático.

— Posso lhe perguntar do que se trata? — perguntou ele. — O senhor está importunando minha esposa?

Hercule Poirot fez um gesto de conciliação com as mãos.

— A última coisa que eu faria seria importunar uma senhora tão encantadora. Eu esperava apenas, uma vez que a morta trabalhou aqui e para ela, que talvez pudesse me ajudar em algo nas investigações que estou fazendo.

— Mas... que investigações são estas?

— Sim, pergunte isto a ele — insistiu sua esposa.

— Um novo inquérito está sendo feito sobre as circunstâncias da morte da Sra. McGinty.

— Tolice — o caso está encerrado.

— Não, não — aí é que o senhor se engana. Não está encerrado.

— Um novo inquérito, o Sr. disse? — Guy Carpenter franziu a testa. Disse desconfiado: — Pela Polícia? Tolice — o senhor não tem nada a ver com a Polícia.

— Tem razão. Eu estou trabalhando independentemente da Polícia.

— É da imprensa — interrompeu Eve Carpenter. — Algum desses horríveis jornais de domingo. Ele disse!

Um brilho de cautela apareceu nos olhos de Guy Carpenter. Em sua posição ele não podia se antagonizar com a imprensa. Disse, com mais amabilidade:

— Minha esposa é muito sensível. Crimes e coisas assim a aborrecem muito. Ela mal conheceu essa mulher.

Eve disse com veemência:

— Ela era apenas uma velha faxineira estúpida. Eu já disse a ele.

Acrescentou:

— E era uma mentirosa horrível, também.

— Ah, isto é interessante — Poirot virou um rosto sorridente de um para o outro. — Então ela contava mentiras... Isto talvez possa nos levar a uma boa pista.

— Eu não vejo como -— disse Eve, mal-humorada.

— Para estabelecermos o motivo — disse Poirot. — É nesta linha que eu estou trabalhando.

— Ela foi roubada por suas economias — disse Carpenter secamente. — Foi este o motivo do crime.

— Ah! — fez Poirot, suavemente. — Terá sido mesmo? Ele se ergueu como um ator que acabara de dizer a sua frase.

— Sinto muito ter causado tanta mágoa à Madame — disse polidamente. — Essas coisas são sempre muito desagradáveis.

— Todo o assunto é muito desagradável — disse Carpentér rapidamente. — Naturalmente minha esposa e eu não gostamos que ele seja relembrado. Eu sinto muito não ter podido ajudá-lo com alguma informação.

— Oh, mas o senhor me ajudou.

— Desculpe?

Poirot disse mansamente:

— A Sra. McGinty contava mentiras. Um fato valioso. Que mentiras, exatamente, costumava ela contar, Madame?

Ele esperou com polidez que Eve Carpenter falasse. Finalmente, ela disse:

— Oh, nada em particular. Eu quero dizer... eu não me lembro.

Consciente talvez de que os dois homens estavam olhando para ela, continuou:

— Coisas estúpidas... sobre pessoas. Coisas que não podiam ser verdadeiras.

O silêncio continuou. Então Poirot falou:

— Eu vejo... ela tinha uma língua perigosa. Eve Carpenter fez um movimento rápido.

— Oh, não. Não foi isto que eu quis dizer. Ela era apenas mexeriqueira, nada mais.

— Apenas mexeriqueira — disse Poirot mansamente. Ele fez um gesto de despedida.

— Este jornal do senhor — um jornal de domingo —, qual é mesmo?

— O jornal que eu mencionei à Madame — replicou Poirot com cautela — foi o Sunday Companion.

Ele fez uma pausa. Guy Carpenter repetiu pensativo:

— O Sunday Companion. Eu não o vejo muito, creio.

— Às vezes tem artigos interessantes. E ilustrações igualmente interessantes...

Antes que a pausa se tornasse muito longa, ele fez uma reverência e disse rapidamente:

— Au revoir, Sr. Carpenter. Eu sinto muito tê-lo... aborrecido.

Do lado do portão, ele olhou para trás, para a casa.

— Será... — disse ele. — Será mesmo...?

 

O superintendente spence sentou-se do lado oposto de Hercule Poirot e suspirou.

— Eu não estou dizendo que você não conseguiu nada, Monsieur Poirot — disse ele lentamente. — Pessoalmente, acho que conseguiu. Mas é muito tênue. E tremendamente tênue!

Poirot concordou com a cabeça.

— Somente pelo que é, não vale nada. Mas deve haver mais.

— Meu sargento e eu deveríamos ter notado aquele jornal.

— Não, não, o senhor não precisa se desculpar. O crime era tão evidente. Roubo e violência. O quarto saqueado, o dinheiro faltando. Por que teria alguma significação para você um jornal rasgado entre aquela confusão?

Spence disse obstinadamente:

— Eu devia ter reparado. E o vidro de tinta...

— Eu ouvi falar nele apenas por uma questão de chance.

— Mas mesmo assim ele disse a você — por quê'7

— Somente por causa da frase sobre escrever unia carta. Você e eu, Spence, nós escrevemos tantas cartas — para nós é um hábito normal.

O Superintendente Spence suspirou. Depois espalhou as quatro fotografias sobre a mesa.

— São estas as fotos que você me pediu para arranjar — as fotos originais que o Sunday Companion usou. Apesar de tudo, elas estão um pouquinho mais claras que as reproduções. Mas pela minha palavra — não podemos nos basear nelas. Velhas, apagadas — e com mulheres de penteados diferentes. Em nenhuma delas há uma evidência sequer de uma orelha ou de um perfil. Este chapeuzinho e este cabelo artificial e estas rosas! Não nos dá nenhuma chance!

— Você concorda comigo que nós podemos eliminar Vera Blake?

— Eu creio que sim. Se Vera Blake estivesse em Broadhinny, todos saberiam logo — contar a triste história de sua vida parece ser a sua especialidade.

— O que me diz das outras?

— Eu farei o que puder por você. Eva Kane deixou o país depois que Craig foi condenado. E posso lhe dizer o nome que ela adotou: foi Hope. Simbolismo, talvez?

Poirot murmurou:

— Sim, sim, o toque romântico. "A linda Evelyn Hope morreu''. Um verso de um de seus poetas. Eu ouso dizer que ela deve ter pensado assim. Por falar nisso, o nome dela mesmo era Evelyn, não era?

— Sim, eu penso que sim. Mas era como Eva que ela era conhecida mesmo. E por falar nisto, Monsieur Poirot, agora que tocamos no assunto, a opinião da Polícia não era muito igual à daquele artigo. Muito pelo contrário.

Poirot sorriu.

— O que a Polícia pensa — não são as evidências. Mas são geralmente um guia seguro. O que é que a Polícia pensava de Eva Kane?

— Que de maneira nenhuma ela era a vítima inocente que o público pensava. Eu era muito moço nesta época e me recordo de ter ouvido as discussões do velho Chefe e do Inspetor Traill, que era o encarregado do caso. Traill acreditava (não havia nenhuma evidência, note bem) que a bela idéia de pôr a Sra. Craig fora do caminho fora toda de Eva Kane — e que não somente a idéia, não somente ela pensara nisto, como também o executara. Craig chegou em casa um dia e viu que sua amiguinha tomara um atalho para cortar caminho. Ela pensou que aquilo passaria por morte natural, eu calculo. Mas Craig era mais esperto. Ele se alarmou e escondeu o corpo na adega e elaborou o plano de fazer a Sra. Craig morrer no exterior. Então, quando tudo estourou, ele ficou fora de si em suas declarações e disse que tinha feito tudo sozinho, que Eva Kane não sabia de nada. Bem — o Superintendente Spence deu de ombros —, ninguém podia provar mais nada. O corpo estava na casa. Qualquer um dos dois poderia usá-lo como quisesse. A bela Eva Kane era toda inocência e horror. Ela representou mesmo muito bem: uma atriz muito boa. O Inspetor Traill tinha suas dúvidas — mas não havia nada que provasse. Eu só estou lhe contando isto assim por falar, Monsieur Poirot. Não houve nenhuma prova.

— Mas sugere a possibilidade de, pelo menos uma destas "mulheres trágicas", ter sido mais do que uma mulher marcada pela tragédia — ela era mesmo uma assassina, e se o incentivo fosse bastante forte, ela poderia matar novamente... E a próxima, a Janice Courtland, o que pode me contar sobre ela?

— Eu olhei nos arquivos. Uma boa quantidade de coisas ruins. Se nós enforcamos Edith Thompson, certamente devíamos ter enforcado também Janice Courtland. Um par asqueroso, ela e o marido, não havia escolha entre os dois, e ela trabalhou o rapaz até fazê-lo cair em seus braços. Mas o tempo todo, repare bem, havia um ricaço nos bastidores e era para se casar com ele que ela queria o marido fora do caminho.

— Ela se casou com ele? Spence abanou a cabeça.

— Não tenho idéia.

— Ela foi para o exterior — e depois? Spence abanou a cabeça outra vez.

— Ela era uma mulher livre. Não foi acusada de nada. Se se casou, ou o que aconteceu a ela, nós não sabemos.

— Um de nós pode encontrá-la numa festinha qualquer dia — disse Poirot, pensando no comentário do Dr. Rendell.

— Exatamente.

Poirot dirigiu o olhar sobre a última fotografia.

— E a criança? Lily Gamboll?

— Muito menina para ser acusada de crime de morte. Foi enviada para uma escola autorizada. Tem um fichário bom lá. Aprendeu estenografia e datilografia e conseguiu um emprego sob liberdade condicional. Portou-se bem. A última vez que ouvi falar nela foi na Irlanda. Eu acho que nós podemos riscá-la, Poirot, da mesma forma que Vera Blake. Apesar de tudo, ela se comportou bem, e as pessoas não condenam uma criança de doze anos por ter perdido a cabeça num acesso de raiva. Que tal riscá-la?

— Eu até podia — disse Poirot —, se não fosse pela machadinha. É inegável que Lily Gamboll tenha usado uma machadinha de cortar carne em sua tia e o desconhecido assassino da Sra. McGinty usou algo também como um cortador.

— Talvez tenha razão. Agora, Poirot, vamos ver o seu lado das coisas. Ninguém ainda tentou liquidá-lo, eu me alegro.

— N-não — disse Poirot com uma hesitação momentânea.

— Eu não me importo de lhe dizer que fiquei assustado por sua causa uma ou duas vezes depois daquele nosso encontro em Londres. Agora, vamos ver, quais são as possibilidades entre os habitantes de Broadhinny?

Poirot abriu o seu livrinho de notas.

— Eva Kane, se ainda estiver viva, deve estar se aproximando dos sessenta. A filha, sobre a qual o Sunday Companion pinta uma visão tão tocante, estaria agora lá pelos trinta anos. Lily Gamboll também deve andar por esta idade. Janice Courtland não deve estar agora muito longe dos cinqüenta.

Spence concordou com a cabeça.

— Vamos então aos habitantes de Broadhinny com especial atenção para aqueles onde a Sra. McGinty trabalhava.

— Esta última é uma suposição lícita, não é?

— Sim, complica-se pelo fato de que a Sra. McGinty fazia também serviços ocasionais aqui e ali, mas nós vamos presumir que, fosse o que fosse que ela viu, presumivelmente uma fotografia foi em uma das suas casas regulares.

— De acordo.

— Então, até onde podemos ir, há duas possibilidades — a primeira, os Wetherbys, onde a Sra. McGinty trabalhou no dia de sua morte. A Sra. Wetherby é da mesma idade de Eva Kane e ela tem uma filha da mesma idade da filha de Eva Kane — uma filha que se diz de um primeiro matrimônio anterior

— E a respeito das fotos?

— Mon cher, não há uma identificação positiva possível. Passou muito tempo, e como vocês dizem, correu muita água por debaixo da ponte. Só se pode dizer isto: a Sra. Wetherby foi, decididamente, uma mulher bonita. Ela ainda tem todos os maneirismos de uma... Parece frágil demais e inocente para cometer um crime, mas isto eu sei, foi a convicção popular a respeito de Eva Kane. Qual é na verdade a força física que foi necessária para matar a Sra. McGinty — é difícil se dizer sem saber exatamente qual a arma que foi usada, o seu cabo, a maneira com que foi levantada, o gume da lâmina, etc...

— Sim, sim, nós não fomos capazes de encontrá-la — mas continue.

— Os outros únicos pormenores que eu consegui saber sobre os Wetherbys foi que o Sr. Wetherby sabe se fazer — quando quer — muito desagradável. A filha é fanaticamente devotada à mãe. Ela odeia o seu padrasto. Eu não faço uma advertência sobre estes fatos. Eu os apresento apenas, para os considerarmos. A filha poderia matar para impedir que o passado da mãe chegasse aos ouvidos do padrasto. A mãe poderia matar pela mesma razão. O pai poderia matar para impedir o escândalo de aparecer. Muito mais crimes foram cometidos pela respeitabilidade do que alguém possa acreditar que seja possível! Os Wetherbys são "pessoas distintas".

Spence concordou.

— Se — eu disse se — se há mesmo alguma coisa sobre o Sunday Companion, então os Wetherbys são os favoritos nas apostas — disse ele.

— Exatamente. A outra única pessoa em Broadhinny que poderia coincidir em idade com Eva Kane é a Sra. Upward. Há dois argumentos em favor da Sra. Upward, se como Eva Kane tivesse matado a Sra. McGinty. Primeiro, ela sofre de artrite e passa a maior parte do seu tempo numa cadeira de rodas...

— Num livro — disse Spence com inveja ,—, esse negócio de cadeira de rodas poderia ser falso, mas na vida real é provavelmente a verdade.

— Segundo — continuou Poirot — a Sra. Upward me pareceu dogmática e cheia de disposição, mais inclinada a tiranizar do que a ser induzida a qualquer coisa, o que não está de acordo com as anotações sobre a nossa jovem Eva. Por outro lado, o caráter das pessoas se desenvolve e auto-afirmação é uma qualidade que muitas vezes muda com a idade.

— Isto é uma verdade — concordou Spence. — A Sra. Upward — não é impossível, mas é improvável. Agora, as outras possibilidades. Janice Courtland?

— Eu acho que pode ser riscada. Não há ninguém em Broadhinny com a sua idade.

— A menos que uma das mulheres mais moças seja Janice com uma operação plástica. Não brigue comigo — foi só brincadeira...

— Há três mulheres de trinta anos. Há Deirdre Henderson. Há a mulher do Dr. Rendell e há a Sra. Carpenter. Isto é para dizer que qualquer uma delas poderia ser Lily Gamboll ou alternadamente a filha de Eva Kane no que concerne à idade.

— E até onde vão estas possibilidades? Poirot suspirou.

— A filha de Eva Kane pode ser baixa ou alta, loura ou morena — não temos meios de saber como ela era. Consideremos Deirdre Henderson neste papel. Vejamos agora as outras duas. Antes de tudo eu vou-lhe dizer uma coisa: a Sra. Rendell está com medo de alguma coisa.

— Com medo do senhor?

— Eu penso que sim.

— Isto pode ser significante — disse Spence lentamente.

— Está sugerindo que a Sra. Rendell possa ser a filha de Eva Kane ou Lily Gamboll? Ela é loura ou morena?

— Loura.

— Lily Gamboll era uma criança loura.

— A Sra. Carpenter também tem cabelos louros. Uma mulher jovem, grã-fina e muito bem arrumada. Não sei se ela é uma mulher atraente, mas tem olhos estranhos. Grandes olhos encantadores de um azul muito escuro.

— Vamos, Poirot... — Spence balançou a cabeça na direção de seu amigo.

— Sabe o que ela me pareceu quando correu pela sala para chamar o marido? Eu me lembrei de uma linda e esvoaçante mariposa. Ela esbarrou nos móveis e andou com as mãos para a frente como se fosse cega.

Spence olhou para ele com indulgência.

— Um romântico, é isto que o senhor é — disse ele. — O senhor e suas encantadoras e esvoaçantes mariposas de olhos azuis muito abertos.

— Nada disso — disse Poirot. — Meu amigo Hastings, ele é que era romântico e sentimental, eu nunca! Eu, eu sou severamente prático! O que estou lhe dizendo é que as pretensões de beleza de uma mulher dependem principalmente do encanto de seus olhos, e então, por mais míope que seja, ela tirará os óculos e aprenderá o seu caminho entre os móveis, mesmo se os contornos forem difusos e as distâncias difíceis de serem julgadas.

E, devagar, com o dedo indicador, ele deu pancadinhas no retrato da criança Lily Gamboll com seus óculos espessos que a desfiguravam.

— Então é isto que o senhor pensa? Lily Gamboll?

— Não, eu só falei do que pode ser. Quando a Sra. McGinty morreu, a Sra. Carpenter ainda não era a Sra. Carpenter. Ela era uma viúva de guerra muito moça, em má situação financeira e morando numa casinha para operários. Estava noiva de um homem rico das vizinhanças — um homem com ambições políticas e muito consciente de sua própria importância. Se Guy Carpenter houvesse descoberto que ele estava para se casar, digamos, com uma moça de origem muito baixa que ganhara notoriedade por dar uma machadada na cabeça de sua tia, ou alternadamente a filha de Craig, um dos mais célebres criminosos do século — com lugar preeminente na Câmara dos Horrores — bem, a gente se pergunta se ele levaria o projeto avante? Você vai dizer, se ele gostasse mesmo da moça, sim! Mas ele não é deste tipo de homem. Eu o classificaria como egoísta, ambicioso e como um homem de muito boas maneiras concernentes à sua reputação. Eu penso que se a jovem Sra. Selkirk, que ela era nesta época, estava ansiosa para se casar teria ficado ainda mais ansiosa para que nenhuma insinuação de natureza duvidosa chegasse aos ouvidos de seu noivo.

— Eu vejo então que o senhor pensa que é ela, não pensa?

— Eu lhe direi outra vez, mon cher, que eu não sei. Estou só examinando as possibilidades. A Sra. Carpenter estava em guarda contra mim, cautelosa, alarmada.

— Isto soa mal.

— Sim, sim, mas tudo é muito difícil. Uma vez eu me hospedei com alguns amigos no campo e eles saíram para caçar. Você sabe como é? A pessoa sai andando com cachorros e armas, e os cachorros, eles amarram a presa — que voa para a floresta, alto no ar e você bang-bang! É o que nós estamos fazendo agora. Mas não é somente um passarinho que nós amarramos, há outros passarinhos à espera. Pássaros que talvez não tenham nada com isto. Mas estes pássaros não estão sabendo de nada. Nós precisamos estar certos, cher ami, sobre qual é o nosso pássaro. Durante a viuvez da Sra. Carpenter, pode ter havido indiscrições -— nada mais do que isto, mas mesmo assim inconvenientes. Certamente deve haver alguma razão para que ela me dissesse tão depressa que a Sra. McGinty era uma mentirosa!

O Superintendente Spence esfregou o queixo.

— Vamos falar às claras, Monsieur Poirot. O que é que o senhor pensa mesmo?

— O que eu penso não interessa. Eu preciso saber. E por enquanto, os cachorros chegaram apenas no esconderijo.

Spence murmurou:

— Se nós pudéssemos conseguir algo definitivo. Uma circunstância realmente suspeita. Do jeito que está, tudo é teoria e teoria muito forçada. O todo é tênue, o senhor sabe tão bem quanto eu. Será que alguém mataria mesmo pelas razões que nós consideramos?

— Depende — disse Poirot. — Depende de uma porção de circunstâncias familiares que nós não sabemos. Mas a paixão pela respeitabilidade é muito forte. Eles não são artistas nem boêmios. Gente muito distinta vive em Broadhinny. A mulher dos correios me disse. E gente distinta gosta de permanecer gente distinta. Anos de feliz vida de casados, talvez, sem nenhuma suspeita de que antes disso você tenha sido uma figura notória em um dos mais sensacionais julgamentos de homicídio, nenhuma suspeita de que a sua criança seja a filha de um assassino famoso. Alguém pode dizer, “Eu preferia morrer a que meu marido soubesse!" ou "Eu preferia morrer a que minha filha descobrisse quem ela é!" E então, você chega à conclusão que talvez fosse melhor que a Sra. McGinty morresse...

Spence falou vagarosamente:

— Então o senhor pensa que são os Wetherbys.

— Não. Eles se encaixam melhor no entanto, mas é tudo. Para falar com franqueza, a Sra. Upward é mais uma possível assassina do que a Sra. Wetherby. Ela tem determinação e força de vontade e claramente idolatra o seu filho. Para impedir que ele saiba o que aconteceu antes que casasse com seu pai e se estabilizasse em uma respeitável bem-aventurança. Eu penso que ela iria até lá...

— Isto o aborreceria tanto assim?

— Pessoalmente creio que não. O jovem Robin tem um destes pontos de vista modernos e agnósticos, é absolutamente egoísta e, eu diria, é muito menos devotado à mãe do que esta a ele. Ele não é um outro James Bentley.

— Considerando que a Sra. Upward fosse Eva Kane, o seu filho Robin não mataria a Sra. McGinty para impedir que este fato fosse descoberto?

— Nem por momento, eu diria. Ele provavelmente iria capitalizar isto. Usá-lo como publicidade para suas peças! Não consigo imaginar Robin Upward cometendo um crime por honra ou devoção — mas apenas para um sólido benefício para Robin Upward.

Spence suspirou. Disse: — O campo é muito vasto. Talvez nós possamos conseguir algo no passado dessa gente. Mas vai levar tempo. Talvez possamos... A guerra complicou tudo. Arquivos destruídos — oportunidades intermináveis para as pessoas que querem encobrir seus traços, fazendo isto graças às carteiras de identidade de outras pessoas, etc... especialmente depois de acidentes onde ninguém pode saber de quem é o cadáver! Se pudéssemos nos concentrar somente em um grupo, mas o senhor tem tantas possibilidades, Monsieur Poirot.

— Poderemos eliminar algumas brevemente.

Poirot deixou o escritório do Superintendente Spence com menos alegria e confiança em seu coração do que demonstrava em suas maneiras. Ele estava obcecado, da mesma forma que Spence, pela urgência do tempo. Se ao menos ele tivesse tempo...

E além disto, ainda havia bem no fundo uma dúvida — será que o edifício que ele e Spence estavam construindo era realmente firme? Suponhamos, apesar de tudo, que James Bentley fosse mesmo culpado?

Não se deixou levar por esta dúvida, mas ela o preocupava.

Mais uma vez veio a sua memória a entrevista que tivera com James Bentley. Ele pensava nela agora enquanto esperava na plataforma de Kilchester pelo trem que chegaria. Fora dia de mercado e a plataforma estava superlotada. Mais gente estava chegando pelas borboletas.

Poirot inclinou-se para a frente para ver. Sim, finalmente o trem estava chegando. Mas antes que ele se endireitasse, sentiu um empurrão violento bem na altura dos rins. Foi tão violento e inesperado que ele foi apanhado completamente desprevenido. Mais um segundo e teria caído sobre os trilhos, bem à frente do trem que chegava, mas um homem a seu lado agarrou-o no último instante, puxando-o para trás.

— Epa, o que foi que houve com você? — perguntou ele. Era um sargento do exército, alto e troncudo. — Sentiu-se mal? Homem, você quase ficou debaixo do trem!

— Muito obrigado! Mil vezes, muito obrigado! — a multidão já estava passando em torno deles, subindo para o trem, outros saindo.

— Está bem agora? Eu o ajudo a subir. Trêmulo, Poirot deixou-se cair numa cadeira.

Inútil dizer, "Eu fui empurrado", mas ele fora empurrado. Até aquela tarde, ele tinha andado conscientemente em guarda, alerta aos perigos. Mas depois de ter conversado com Spence, depois das caçoadas de Spence sobre os atentados contra a sua vida que não tinham acontecido, ele insensivelmente passou a olhar para o perigo como algo que não podia mais se materializar.

Mas como estava errado! Entre as entrevistas que fizera em Broadhinny, pelo menos uma dera resultado. Alguém ficara com medo. Alguém tentara pôr fim à perigosa ressurreição de um caso fechado.

De um posto telefônico na estação de Broadhinny, Poirot chamou o Superintendente Spence.

— E você, mon ami! Ouça bem o que lhe vou dizer. Tenho novidades para você. Novidades esplêndidas! Alguém tentou me matar...

Ele ouviu com satisfação a torrente de comentários vinda do outro lado.

— Não, eu não estou ferido. Mas foi por muito pouco... Sim, debaixo de um trem. Não, eu não pude ver quem foi. Mas pode ficar certo, eu vou descobrir. Agora nós sabemos — que estamos na pista certa...

 

O homem que estava testando o relógio de eletricidade passou o dia com o mordomo de Guy Carpenter a observá-lo.

— A eletricidade vai passar a operar em novas bases — explicou. — Tarifa mínima gradual de acordo com os moradores.

O mordomo retrucou com ceticismo:

— O que o senhor quer dizer é que vai custar mais como todo o resto.

— Depende. Tarifas corretas para todos, foi o que eu quis dizer. Foi ao comício em Kilchester ontem à noite?

— Não.

— Seu patrão, o Sr. Carpenter, falou muito bem — dizem. Acha que ele vai ser eleito?

— Ficou por pouco da última vez, eu creio.

— Sim. A maioria é cento e vinte e cinco, acho eu. Você dirige o carro para ele nestas ocasiões? Ou é ele mesmo quem dirige?

— Geralmente é ele mesmo quem dirige. Gosta de dirigir. Ele tem um Rolls Bentley.

— Gosta do que é bom. A Sra. Carpenter também dirige?

— Sim. Mas em minha opinião ela corre demais.

— Mulheres geralmente correm muito. Ela foi ao comício de ontem de noite? Ou ela não se interessa por política?

O mordomo fez uma careta.

— Ela finge que se interessa, isso sim... Entretanto ela não agüentou o comício de ontem todo. Teve uma dor de cabeça ou algo no gênero e saiu no meio dos discursos.

— Ah! — o eletricista olhou para a caixa dos fusíveis. — Está quase pronto agora — observou ele. Fez mais algumas perguntas desconexas enquanto guardava as ferramentas e preparou-se para sair.

Andou com rapidez pela alameda, mas depois de dar a volta do portão, parou e escreveu uma anotação em seu livrinho de bolso.

 

“C. veio dirigindo sozinho ontem a noite. Chegou em casa 10h30min (aprox.). Poderia ter estado na Estação Central de Kilchester no tempo indicado. A Sra. C. saiu do comício cedo. Chegou em casa apenas dez. minutos antes de C. Disse ter vindo para casa de trem."

 

Era a segunda anotação no livro do eletricista. A primeira dizia:

 

"Dr. R. saiu a noite passada para um chamado. Direção de Kilchester. Poderia estar na Estação Central de Kilchester no tempo indicado. A Sra. R. ficou a noite toda sozinha em casa (?). Depois de servir o café, a Sra. Scott — governanta — não a viu mais aquela noite. Tem um carro pequeno de sua propriedade."

 

Em Laburnums processava-se a colaboração. Robin Upward dizia apaixonadamente:

— Você está percebendo, não está? Que coisa genial que vai ser! E se nós conseguirmos realmente um sentido de antagonismo sexual entre o camarada e a moça, a peça vai pegar fogo!

Com tristeza a Sra. Oliver correu as mãos pela cabeleira desgrenhada, fazendo com que ela parecesse agora não apenas varrida pelos ventos, mas por um furacão.

— Você entende o que eu quero dizer, não entende, Ariadne querida?

— Oh, sim, eu vejo aonde você quer chegar — disse a Sra. Oliver melancolicamente.

— Mas o principal é que você fique satisfeita com o resultado.

Ninguém, a não ser um completo idiota, poderia pensar que a Sra. Oliver estivesse satisfeita. Robin continuou jovialmente:

— O que eu imagino é — eis aquele rapaz fabuloso, descendo de pára-quedas...

A Sra. Oliver interrompeu-o:

— Ele tem sessenta anos.

— Oh, não!

— Tem.

— Eu não o vejo assim. Trinta e cinco, nem um dia a mais.

— Mas eu venho escrevendo livros sobre ele há trinta anos e eleja tinha pelo menos trinta e cinco no primeiro.

— Mas, querida, se ele tem sessenta anos como é que nós vamos fabricar a tensão entre ele e a moça — como é mesmo o nome dela? — Ingrid. Eu quero dizer, ele vai ficar parecendo um velho sem-vergonha!

— Vai parecer mesmo.

— Então, você está vendo? Ele precisa ter trinta e cinco — disse Robin triunfante.

— Então ele não pode ser Sven Hjerson. Faça dele apenas um jovem norueguês que faz parte do Movimento da Resistência.

— Mas, querida Ariadne, o ponto principal da peça é Sven Hjerson. Você tem um público enorme que simplesmente adora Sven Hjerson, e que vai vir correndo ver Sven' Hjerson. Ele é bilheteria, querida!

— Mas as pessoas que lêem os meus livros sabem como ele é! Você não pode inventar um rapaz completamente diferente na Resistência norueguesa e apenas chamá-lo Sven Hjerson.

— Ariadne, querida, eu já expliquei isso... Não é um livro, querida, é uma peça] E nos precisamos de atrativo! E se conseguirmos esta tensão, este antagonismo entre Sven Hjerson e esta — como é mesmo o nome dela? — Ingrid — você sabe, um contra o outro e ao mesmo tempo tremendamente atraídos um pelo outro...

— Sven Hjerson nunca ligou para as mulheres — disse com frieza a Sra. Oliver.

— Mas você não pode fazer dele um fresco! Não neste tipo de peça. Não são verdes loureiros ou coisas assim... São emoções e crimes e diversões ao ar livre.

A mensão de ar livre fez efeito.

— Eu acho que vou sair — disse a Sra. Oliver bruscamente. — Eu preciso de ar, preciso muitíssimo de ar.

— Posso ir com você? — perguntou ternamente Robin.

— Não, eu prefiro ir sozinha.

— Como você quiser, querida. Talvez tenha razão. Eu acho melhor ir bater uma gemada para Madre. A pobrezinha está-se sentindo um pouquinho jogada fora... Ela gosta mesmo de atenção, você sabe. E pense um pouco sobre a cena na adega, sim? O conjunto está ficando realmente maravilhoso. Vai ser um tremendo sucesso. Eu sei que vai!

A Sra. Oliver suspirou.

— Mas o principal — continuou Robin — é que você fique satisfeita!

Dando um olhar glacial para ele, a Sra. Oliver atirou uma vistosa capa militar — que um dia ela comprara na Itália — pelos amplos ombros e foi para Broadhinny.

Ela iria esquecer seus problemas, decidiu, voltando seu raciocínio para a elucidação do verdadeiro crime. Hercule Poirot precisava de ajuda. Ela daria uma olhadela nos habitantes de Broadhinny, usaria a sua intuição feminina que nunca lhe falhara e diria a Poirot quem era o assassino. Então ele teria apenas de recolher as evidências.

A Sra. Oliver começou sua pesquisa descendo a colina até a agência dos correios e comprando um quilo de maçãs. Durante a compra, ela iniciou uma conversação amigável com a Sra. Sweetiman.

Tendo concordado que o tempo estava muito quente para aquela época do ano, a Sra. Oliver observou que estava hospedada em Laburnums com a Sra. Upward.

— Sim, eu sei. É a senhora de Londres que escreve livros de crimes? Eu tenho três deles aqui nas edições Penguin.

A Sra. Oliver deu uma olhadela para a mostra dos Penguins. Estava ligeiramente sufocada por acolchoados de criança.

— O Caso do Segundo Peixe Dourado — contemplou ela pensativa —, este era muito bom. Foi o Gato que Morreu — foi neste que eu fiz uma zarabatana de trinta centímetros e elas têm na verdade mais de um metro. Ridículo que uma zarabatana seja deste tamanho, mas alguém me escreveu de um Museu dizendo isto. Às vezes eu penso que há pessoas que lêem livros apenas na esperança de achar erros neles. Qual é o outro? Oh! Morte de uma Debutante — é uma bela droga! Eu disse que sulfonal é solúvel na água e não é, e toda a história é inverossímil do princípio ao fim. Pelo menos umas oito pessoas morrem antes que Sven Hjerson tenha uma inspiração súbita.

— Eles são muito populares — disse a Sra. Sweetiman, sem ligar para esta interessante autocrítica. —A senhora nem vai acreditar! Eu nunca li nenhum deles, porque não tenho tempo mesmo para ler.

— E vocês tiveram um crime de verdade aqui mesmo, não foi? — disse a Sra. Oliver.

— Sim, no último mês de novembro. Quase na porta ao lado, como se diz.

— Eu ouvi dizer que há um detetive aqui, investigando.

— Ah, a senhora quer dizer um estrangeiro baixinho que está hospedado em Long Meadows? Ele esteve aqui ontem mesmo e...

A Sra. Sweetiman se interrompeu quando uma outra cliente entrou para comprar selos.

— Bom dia, Srta. Henderson. Está quente para esta época do ano, não?

— Está sim.

A Sra. Oliver olhou com interesse para as costas da moça alta. Ela trazia um cão pela coleira.

— Isto significa que os botões das árvores frutíferas vão gear mais tarde! — disse a Sra. Sweetiman com ar sombrio. — Como está passando a Sra. Wetherby?

— Muito bem, obrigada. Ela não tem saído muito. Tem ventado tanto de leste ultimamente.

— Está passando um filme bom em Kilchester esta semana, Srta. Henderson. Devia ir ver.

— Eu pensei em ir a noite passada, mas fiquei desanimada.

— Na semana que vem é de Betty Grable — estou em falta de selos de 5 — será que dois de 6 servem?

Quando a moça saiu, a Sra. Oliver disse:

— A Sra. Wetherby é uma inválida, não é?

— É o que dizem —replicou a Sra. Sweetiman acidamente. — Algumas de nós não têm tempo de ficar deitadas!

— Eu estou de pleno acordo com a senhora — disse a Sra. Oliver. — Eu disse à Sra. Upward que se ela fizesse um pouquinho mais de esforço com suas pernas seria muito melhor para ela.

A Sra. Sweetiman pareceu divertida.

— Ela anda por aí quando quer — pelo menos foi o que eu ouvi dizer.

— Ela tem andado ultimamente?

A Sra. Oliver considerou a fonte de informação.

— Janet? — arriscou.

— Janet Groom resmunga um bocado — disse a Sra. Sweetiman. — E não é difícil adivinhar, não é? A Srta. Groom não é assim tão moça e tem um reumatismo horrível quando o vento sopra de leste. Mas a tal da architrite, ou como quer que a chamem, quando é grã-fino que tem, usa cadeira de rodas e tudo. Ah, bem, eu é que não me arriscaria a parar de usar as minhas pernas, eu não. Mas hoje em dia, mesmo quando a gente tem uma frieira corre para o médico nem que seja para fazer jus ao dinheiro da Saúde Nacional. Este negócio de Saúde está até demais. Nunca fez bem a ninguém ficar pensando como a gente está doente.

— Eu acho que a senhora tem razão — disse a Sra. Oliver. Ela apanhou as maçãs e saiu em perseguição de Deirdre Henderson. Não foi difícil, uma vez que o cachorro era velho e gordo e estava aproveitando para fazer um exame pachorrento de uns tufos de grama e de uns cheiros agradáveis.

Cachorros, considerou a Sra. Oliver, são sempre um meio de apresentação.

— Que encanto! — exclamou ela.

A moça alta de rosto simples pareceu satisfeita.

— Ele é mesmo um encanto — disse ela. — Não é, Ben? Ben olhou para cima, deu um leve gingado com seu corpo em forma de salsicha, terminou a inspeção de uma moita de cardos, aprovou-a e pôs-se a registrar sua aprovação da maneira usual.

— Ele briga? — perguntou a Sra. Oliver. — Sealyhams brigam muito.

— Sim, ele é um brigão inveterado. É por isto que eu o trago na cole ira.

— Foi o que eu pensei.

As duas mulheres admiraram o Sealyham. Então Deirdre Henderson falou meio às pressas:

— A senhora é... a senhora é Ariadne Oliver, não é?

— Sim. Eu estou na casa da Sra. Upward.

— Eu sei. Robin nos disse que ia chegar. Eu precisava lhe dizer o quanto eu gosto de seus livros.

A Sra. Oliver, como sempre, ficou roxa de vergonha.

— Oh! — disse ela com ar infeliz. — Eu me alegro muito — acrescentou taciturna.

— Eu não li tantos quanto gostaria, porque nós recebemos livros do Clube Times de Livros e mamãe não gosta de histórias de detetives. Ela é horrivelmente sensível e não dorme à noite. Mas eu adoro.

— Vocês tiveram um crime de verdade por aqui, não foi? — perguntou a Sra. Oliver. — Em que casa foi? Uma destas aqui?

— Aquela ali.

Deirdre Henderson falou com a voz meio embargada.

A Sra. Oliver olhou na direção da antiga residência da Sra. McGinty. A porta da frente estava no momento ocupada pelos dois desagradáveis garotos dos Kiddles, que torturavam um gato com o maior contentamento.

Quando a Sra. Oliver avançou para protestar, o gato escapou, depois de uma firme unhada.

O mais velho dos Kiddles, que recebera um arranhão muito forte, abriu a boca num berreiro.

— Bem feito — disse a Sra. Oliver, virando-se para Deirdre Henderson. — Não parece uma casa onde possa ter havido um assassinato, não é?

— Não, não parece.

Nisto ambas pareciam de acordo. A Sra. Oliver continuou:

— Uma velha faxineira, não era, e alguém a roubou?

— Seu inquilino, ela tinha algum dinheiro — debaixo do assoalho.

— Sei.

Deirdre Henderson falou de repente:

— Mas talvez não tenha sido ele apesar de tudo. Tem um homenzinho engraçado por aqui — um estrangeiro. O nome dele é Hercule Poirot...

— Hercule Poirot? Oh, sim, eu sei tudo sobre ele.

— Ele é realmente um detetive?

— Minha querida, ele é tremendamente famoso. E terrivelmente esperto.

— Então talvez ele possa descobrir que não foi ele quem fez aquilo.

— Ele quem?

— O... o inquilino. James Bentley. Oh, eu tenho mesmo uma esperança que ele consiga se livrar.

— Tem mesmo? Por quê?

— Porque eu não queria que fosse ele. Eu nunca quis que fosse ele.

A Sra. Oliver olhou para ela com curiosidade, pela paixão em sua voz.

— Você o conhece?

— Não — disse Deirdre Henderson lentamente —, nunca fui apresentada a ele. Mas uma vez Ben ficou com a pata presa numa armadilha e ele me ajudou a soltá-lo. E nós conversamos um pouquinho...

— Como era ele?

— Ele estava desesperadamente solitário. Sua mãe acabara de morrer. Ele gostava muito da mãe.

— E você também gosta muito da sua? — disse a Sra. Oliver com esperteza.

— Sim. Isto me fez compreendê-lo. Eu entendi como ele se sentia, eu quero dizer. Mamãe e eu — nós só temos uma a outra, a senhora sabe?

— Eu pensei que Robin tivesse me dito que você tinha um padrasto.

Deirdre falou amargamente: —Oh, sim, eu tenho um padrasto. A Sra. Oliver disse vagamente: — Não é a mesma coisa que o próprio pai da gente, não é? Você se lembra de seu pai?

— Não, ele morreu antes que eu nascesse. Mamãe casou-se com o Sr. Wetherby quando eu tinha quatro anos. Eu... eu sempre odiei. E mamãe... — tez uma pausa antes de dizer — Mamãe teve uma vida muito triste. Ela nunca teve a simpatia nem a compreensão de ninguém. Meu padrasto é um homem sem sentimentos, duro e frio.

A Sra. Oliver aquiesceu com a cabeça e murmurou:

— Este James Bentley não me parece ser um criminoso.

— Eu nunca pensei que a Polícia fosse prendê-lo. Eu tenho certeza que deve ter sido algum vagabundo. Há vagabundos horrorosos andando pelas estradas às vezes. Deve ter sido um deles. A Sra. Oliver disse consoladora:

— Talvez Hercule Poirot descubra a verdade.

— Sim, talvez...

Ela se virou de repente em frente ao porão de Hunter’s Close.

A Sra. Oliver seguiu-a com o olhar por um ou dois minutos, tirou então um livrinho de notas de sua bolsa e escreveu: "Não foi Deirdre Henderson” e sublinhou o não com tanta torça que a ponta do lápis quebrou.

 

A meio caminho da colina ela se encontrou com Robin Upward, que vinha descendo junto com uma linda moça de cabelos platinados.

Robin apresentou-as.

— Esta é a maravilhosa Ariadne Oliver, Eve — disse ele. — Minha querida, eu não sei como ela consegue fazer isto. Parece tão boazinha, não parece? Mas não é nada disto quando se afunda no crime. Esta é Eve Carpenter. Seu marido vai ser o nosso próximo Membro do Parlamento. O atual, Sir George Cartwright, está meio gagá, pobre velho. Ele pula sobre mocinhas por detrás das portas.

— Robin, você não pode inventar estas mentiras tenebrosas. Vai desacreditar o Partido.

— Bem, o que é que eu tenho com isto? Não é o meu Partido. Eu sou um liberal. E o único partido de que se pode fazer parte hoje em dia, realmente pequeno e seleto, e sem nenhuma chance de ser eleito. Eu adoro as causas perdidas.

Ele acrescentou para a Sra. Oliver:

— Eve veio nos convidar para irmos à casa dela hoje à noite para uns drinques. Uma espécie de festa para você, Ariadne. Você sabe, todos querem conhecer a celebridade. Estamos todos vibrando com a sua presença entre nós. Será que pode fazer de Broadhinny a cena de seu próximo crime?

— Oh, faça, Sra. Oliver! — disse Eve Carpenter.

— Você pode trazer Sven Hjerson facilmente para cá -disse Robin. — Ele pode ficar como Hercule Poirot, hospedado na pensão dos Summerhayes. Nós estamos indo para lá agora mesmo, porque eu disse a Eve que Hercule Poirot é tao célebre em sua linha quanto você na sua, e ela me disse que foi muito grosseira com ele ontem; então vai convidá-lo também para a festa. Mas, falando sério, querida, escreva o seu próximo crime acontecendo aqui em Broadhinny. Nós todos ficaremos muito emocionados.

— Oh, faça sim, Sra. Oliver. Será tão divertido — disse Eve Carpenter.

— Quem é que nós vamos ter como assassino e quem vai ser a vítima? — perguntou Robin.

— Quem é a sua faxineira atual? — perguntou a Sra. Oliver.

— Oh, minha querida, não aquele tipo de crime. Tão monótono. Não penso que a Eve poderia ser uma vítima muito agradável. Estrangulada, talvez, com as suas próprias meias de seda. Não, isto já foi feito.

— Eu acho melhor que você seja o assassinado — disse Eve. — Um futuro teatrólogo, esfaqueado em sua própria casa.

— Nós ainda não escolhemos o assassino — disse Robin. — Que tal, mamãe? Utilizando-se da cadeira de rodas para não deixar pegadas. Eu acho que seria adorável.

— Ela não gostaria de esfaqueá-lo, Robin. Robin considerou.

— Não, talvez não. Para falar a verdade, eu estava calculando se ela estrangularia você. Acho que ela não hesitaria nem um instante.

— Mas eu queria que a vítima fosse você. E a pessoa que lhe mata pode ser Deirdre Henderson. A garota sem graça e complexada a quem ninguém dá importância.

— Aí está, Ariadne — disse Robin. — Toda a trama de sua próxima novela apresentada a você. Tudo o que tem a fazer é arranjar algumas pistas falsas, e — é claro — escrever. Oh, Deus, que cachorros terríveis tem Maureen.

Acabavam de entrar no portão de Long Meadows e dois mastins irlandeses vieram correndo e latindo.

Maureen Summerhayes saiu do estábulo com um balde na mão.

— Deite, Flyn. Venha cá, Cortine. Alô! Eu estou acabando de limpar o chiqueiro de Piggy.

— Nós já sabemos, querida — disse Robin. — Podemos sentir o seu cheiro daqui. Como está passando Piggy?

— Nós ficamos muito assustados com ele ontem. Estava deitado e não quis tomar a refeição da manhã. Johnnie e eu lemos todas as doenças do Livro dos Porcos e não dormimos pensando nele, mas hoje de manhã ele está otimamente bem e alegre e quase pulou por cima de Johnnie quando ele chegou com a comida. Fez com que ele caísse de costas, para dizer a verdade. Johnnie teve de ir tomar banho.

— Que vidas emocionantes você e Johnnie levam — disse Robin.

Eve disse:

— Será que você e Johnnie podem ir tomar uma bebida conosco hoje à noite, Maureen?

— Adoraremos.

— Para conhecer a Sra. Oliver — disse Robin —, mas para falar com franqueza, você pode conhecê-la agora mesmo. Ei-la.

— E a senhora mesmo? — disse Maureen. — Que emoção! A senhora e Robin estão fazendo uma peça juntos, não estão?

— Está ficando formidável — disse Robin. — Por falar nisto, Ariadne, eu tive uma inspiração depois que você saiu hoje de manhã. Sobre o elenco.

— Oh, o elenco — disse a Sra. Oliver com alívio na voz.

— Eu conheço a pessoa certa para fazer o papel de Eric. Cecil Leech — ele está representando no Teatro do Pequeno Repertório em Cullenquay. Nós iremos até lá para ver a peça qualquer noite dessas.

— Nós queremos convidar o seu figurão — disse Eve para Maureen. — Ele está por aí? Eu quero convidá-lo também para hoje à noite.

— Nós o levaremos conosco — disse Maureen.

— Creio que eu mesma deva convidá-lo. Para falar a verdade, fui um pouco rude com ele ontem.

— Oh, bem, ele deve estar por aí — disse Maureen incerta. — No jardim, eu imagino... Cormic! Flyn!... esses malditos cachorros...

Ela deixou cair o balde com estardalhaço e correu na direção do laguinho dos patos de onde vinha um grasnar furioso.

 

JÁ pelo fim da festa dos Carpenters, a Sra. Oliver, com um copo na mão, aproximou-se de Hercule Poirot. Até aquele momento, cada um tinha sido o centro de um círculo de admiradores. Agora, que uma boa quantidade de gim já tora consumida e que a festa ia muito bem, surgia a tendência para que os velhos amigos se reunissem para falar dos escândalos locais e os dois convidados tiveram a oportunidade de falar um com o outro.

— Venha até o terraço — disse a Sra. Oliver num sussurro de conspiração.

Ao mesmo tempo ela empurrou na mão dele um pedacinho de papel.

Juntos, eles saíram pelas portas francesas que davam para o terraço. Poirot desdobrou o pedaço de papel.

— Dr. Rendell — leu ele.

Olhou interrogativamente para a Sra. Oliver. Ela fez que sim com a cabeça, vigorosamente, uma mecha grande de cabelos prateados caindo sobre o seu rosto enquanto fazia isto.

— Ele é o assassino — disse a Sra. Oliver.

— A senhora acha? Por quê?

— Eu sei — disse a Sra. Oliver. — Ele é do tipo. Caloroso e genial, e tudo o mais.

— Talvez.

Poirot não parecia muito convencido.

— Mas qual seria o motivo alegado?

— Conduta imprópria à profissão — disse a Sra. Oliver. — E a Sra. McGinty sabia de tudo. Mas qualquer que tenha sido a razão, pode ter certeza de que foi ele. Eu já olhei todos, e é ele mesmo.

Em resposta, Poirot observou em tom de conversa:

— Ontem à noite, alguém tentou me empurrar sobre os trilhos na estação de Kilchester.

— Deus louvado! Matá-lo, você quer dizer?

— Eu não tenho dúvidas de que a intenção era esta.

— E o Dr. Rendell tinha saído para uma consulta, eu sei que tinha.

— Eu soube... sim... que o Dr. Rendell tinha saído para uma consulta.

— Isto simplifica tudo — disse a Sra. Oliver com alegria.

— Não tanto — disse Poirot. — Ambos, o Sr. e a Sra. Car-penter estavam em Kilchester a noite passada e vieram para casa separados. A Sra. Rendell pode ter ficado sentada em casa a noite toda ouvindo rádio, mas também pode não ter ficado — ninguém pode saber. A Srta. Henderson vai muitas vezes ao cinema em Kilchester.

— Ela não foi ontem à noite. Estava em casa. Ela me disse.

— Não se pode acreditar no que nos contam — disse Poirot em tom de censura. — Parentes permanecem unidos. Por outro lado, a criada estrangeira, Frieda, foi ao cinema ontem à noite, então não pode nos dizer quem estava ou não em casa lá em Hunter's Close. Como vê, não é fácil eliminar as coisas.

— Eu ponho a mão no fogo por eles — disse a Sra. Oliver. — A que horas você disse que isto aconteceu?

— Às nove e trinta e cinco exatamente.

— Então, de qualquer jeito, o pessoal de Laburnums tem uma ficha limpa. Das oito horas até às dez e meia, Robin, sua mãe e eu estávamos jogando pôquer.

— Teria sido possível que você e ele estivessem juntos durante as discussões do trabalho?

— Deixando Mamãe sozinha para pular numa bicicleta a motor escondida na moita? — a Sra. Oliver riu-se. — Não, Mamãe estava sob os nossos olhos — ela suspirou quando pensamentos tristes surgiram em sua mente. — Discussões de trabalho — disse amargamente. — Isto é um pesadelo! O que é que você acharia se eu pusesse um bigodão preto no Superintendente Battle e dissesse que era você?

Poirot piscou.

— Mas essa sugestão é que é um pesadelo!

— Agora você sabe como eu sofro.

— Eu também, eu sofro — disse Poirot. — A cozinha de Madame Summerhayes é abaixo da crítica. Não é nem cozinha. E as correntes de ar, os ventos gelados, o estômago enjoado, os gatos, os pêlos dos cachorros, as cadeiras de pernas quebradas, aquela terrível cama onde eu durmo... — ele fechou os olhos recordando sua agonia — a água morna do banheiro, os buracos na passadeira da escada e o café — palavras não servem para descrever aquele fluido que eles servem como sendo café. E uma afronta ao estômago!

— Oh, meu caro — disse a Sra. Oliver. — E apesar disto, ela é muito simpática.

— A Sra. Summerhayes? Ela é encantadora. Encantadora mesmo. E isto que faz as coisas ainda mais difíceis.

— Olha ela chegando — disse a Sra. Oliver. Maureen Summerhayes estava-se aproximando deles. Havia um olhar estático em seu rosto cheio de sardas. Ela tinha um copo na mão. Sorriu para ambos com ternura.

— Acho que estou um pouquinho alta — anunciou ela. — Que qualidade de gim deliciosa! Adoro festas! Nós quase nunca temos festas em Broadhinny. É porque vocês dois são tão famosos. Eu só queria saber escrever livros! O meu problema é que não consigo fazer nada direito.

— A senhora é uma boa esposa e uma boa mãe, Madame — disse Poirot cerimonioso.

Os olhos de Maureen ficaram muito abertos. Olhos cor de avelã muito atraentes num rostinho sardento. A Sra. Oliver pôs-se a imaginar que idade ela teria. Não podia ser mais de trinta, arriscou.

— Sou mesmo? — disse Maureen. — Eu fico imaginando. Eu quero muito bem a eles, mas será que basta?

Poirot pigarreou.

— Não quero que me ache presunçoso, Madame. Uma esposa que realmente gosta de seu marido deve tomar muito cuidado com o seu estômago. O estômago é muito importante.

Maureen olhou-o ligeiramente insultada.

— Johnnie tem um estômago maravilhoso — disse ela indignada. — Absolutamente esbelto. Praticamente ele nem tem estômago.

— Eu estava me referindo ao que se põe dentro dele.

— O senhor quer dizer minha cozinha — disse Maureen.

— Eu nunca liguei muito para o que se come.

Poirot deu um gemido.

— Ou para o que a gente veste — disse Maureen sonhadora. Ou o que a gente faz. Eu não acho que as coisas importem — de verdade.

Ela ficou em silêncio por um ou dois minutos, os olhos alcoolicamente enevoados, como se estivessem fixos na distância.

— Uma mulher escreveu para o jornal outro dia — disse ela de repente — uma carta realmente estúpida. Perguntando o que era melhor fazer — deixar o seu filho ser adotado por alguém que lhe poderia dar todas as vantagens... Todas as vantagens, foi o que ela dizia... e ela se referia a uma boa educação, e roupas, e ambiente confortável... ou então guardá-lo consigo quando não se pode dar vantagens de espécie alguma. Eu acho isto estúpido — realmente estúpido. Se você pode dar a uma criança o suficiente para comer — é isto que conta.

Ela olhou para o copo vazio como se ele fosse uma bola de cristal.

— Eu devia saber — disse ela. — Fui uma criança adotada. Minha mãe me abandonou e tive todas as vantagens, como eles chamam. E isto sempre fere... sempre... sempre... saber que não lhe quiseram, que sua mãe lhe deixou ir embora.

— Talvez tenha sido um sacrifício para o seu próprio bem — disse Poirot.

Seus olhos claros fixaram-se nos dele.

— Eu nunca achei que isso fosse verdade. E a maneira que eles apresentam a você. Mas o que quer dizer mesmo é que eles podem muito bem passar sem você... E isto fere. Eu não abandonaria meus filhos — nem por todas as vantagens do mundo!

— Acho que você tem razão — disse a Sra. Oliver.

— Eu também concordo — disse Poirot.

— Então está tudo certo — disse Maureen com alegria. — Por que é que nós estávamos discutindo?

Robin, que viera ao terraço juntar-se a eles, falou então:

— Sim, por que é que vocês estavam discutindo?

— Adoção — disse Maureen. adotada, e você?

— Bem, é melhor do que ser um órfão, não acha, querida? Acho que nós devemos ir, não, Ariadne?

Eu não gosto de ter sido

Os convidados saíram juntos. O Dr. Rendell já tivera de sair às pressas. Eles desceram a colina juntos, conversando alegremente, com aquela hilaridade extra que se segue a uma série de coquetéis.

Quando chegaram ao portão de Laburnums, Robin insistiu para que todos entrassem.

— Só para contar à Madre como foi a festa. É tão aborrecido para ela, pobre querida, não ser capaz de ir por causa da perna que está atrapalhando. Mas ela detesta ser deixada de fora das coisas...

Entraram festivos e a Sra. Upward pareceu alegrar-se em vê-los.

— Quem mais estava lá? — perguntou ela. — Os Wetherbys?

— Não, a Sra. Wetherby não estava se sentindo bem, e aquela moça apagada que é a filha dela não iria sozinha.

— Ela é quase patética, não é? — disse Shelagh Rendell.

— Acho que é quase patológica, não acha? — disse Robin.

— É culpa da mãe dela — disse Maureen. — Certas mães quase comem seus filhotes, não comem?

Ela corou ligeiramente ao encontrar o olhar irônico da Sra. Upward.

— Será que o devoro, Robin? — perguntou a Sra. Upward.

— Madre! É claro que não!

Para esconder sua confusão, Maureen precipitadamente mergulhou numa conversa sobre suas experiências de criação de mastins irlandeses. A palestra tornou-se técnica.

A Sra. Upward disse com decisão:

— Você não pode escapar da hereditariedade — tanto em pessoas como em cachorros.

Shelagh Rendell murmurou:

— Não acha que o ambiente influi? A Sra. Upward cortou:

— Não, minha querida, não acho. O ambiente pode fornecer um polimento — nada mais. É o sangue da pessoa que conta.

Os olhos de Hercule Poirot fixaram-se com curiosidade no rosto de Shelagh Rendell. Ela falou com uma paixão que parecia quase desnecessária:

— Mas isto é cruel — não é justo.

A Sra. Upward disse: — A vida não é justa.

A voz lenta e preguiçosa de Johnnie Summerhayes se fez ouvir.

— Eu concordo com a Sra: Upward. O sangue conta. Sempre foi o meu credo.

A Sra. Oliver disse em tom de pergunta: — Vocês querem dizer que as coisas já nascem feitas? Até a terceira ou quarta geração...

Maureen Summerhayes falou de repente em sua voz doce e alta:

— Mas a citação permanece: "E demonstre a bondade para milhões'1.

Uma vez mais todos pareceram ligeiramente encabulados, talvez pela nota de seriedade que entrara na conversa. Mudaram de assunto atacando Poirot.

— Fale-nos sobre a Sra. McGinty, Monsieur Poirot. Por que é que não foi aquele inquilino lúgubre quem a matou?

— Ele vivia falando sozinho, sabe? — disse Robin. — Andando pelas estradas. Eu o encontrava muitas vezes. E, na realidade, ele sempre me pareceu muito esquisito.

— O senhor deve ter alguma razão para pensar que não foi ele quem matou, Monsieur Poirot. Conte.

Poirot sorriu para eles. Enrolou os bigodes.

— Se não foi ele quem a matou, quem foi?

— Sim, quem foi?

A Sra. Upward disse secamente: — Não atrapalhem o homem. Ele provavelmente suspeita de um de nós.

— Um de nós? On!

No meio deste clamor, os olhos de Poirot se encontraram com os da Sra. Upward. Estes estavam divertidos e — algo mais — desafiadores.

— Ele suspeita de um de nós — disse Robin com deleite. — Agora vejamos, Maureen — ele assumiu a maneira de um arrogante membro do Conselho Real —, onde estava a senhora na noite de ... em que noite foi mesmo?

— Na noite de 22 de novembro — disse Poirot.

— Na noite do dia 22?

— Oh, Deus! Eu não sei! — disse Maureen.

— Ninguém pode saber depois de tanto tempo — disse a Sra. Rendell.

— Bem, eu posso. Porque eu estava fazendo um programa de rádio naquela noite. Fui de automóvel até Coalport para fazer uma palestra sobre Alguns Aspectos do Teatro. Eu me lembro porque discuti com a faxineira de Galsworthy em Silver Box por muito tempo, e no dia seguinte a Sra. McGinty fora morta e fiquei imaginando se a faxineira da peça tinha sido igual a ela.

— Tem razão — disse Shelagh Rendell repentinamente. — E eu me lembro agora por que você disse que sua mãe iria ficar sozinha porque era a noite de folga de Janet e eu vim para cá depois do jantar para lhe fazer companhia. Só que infelizmente não consegui que ela me ouvisse.

— Deixe-me ver — disse a Sra. Upward. — Oh, sim, é claro! Fui para a cama com dor de cabeça e meu quarto dá para o jardim dos fundos.

— E no dia seguinte — continuou Shelagh — quando ouvi dizer que a Sra. McGinty tinha sido assassinada, pensei: "Oh! se eu tivesse me encontrado com o assassino na escuridão!" — porque a princípio nós todos pensamos que devia ter sido algum vagabundo que a tivesse assaltado.

— Bem, ainda não me lembro do que estava fazendo — disse Maureen. — Mas eu me lembro da manhã seguinte. Foi o padeiro que nos contou. "A velha Sra. McGinty foi assassinada", disse ele. E eu que estava imaginando por que era que ela não aparecera de manhã como sempre.

Ela teve um arrepio.

— Foi horrível, não foi? — disse ela.

A Sra. Upward ainda estava observando Poirot.

Ele pensou consigo mesmo: "Ela é uma mulher muito inteligente... e impiedosa. Também é egoísta. Em tudo o que faz, não tem escrúpulos nem remorsos..."

Uma voz fina estava falando — insistente e ranzinza.

— Já tem algumas pistas, Monsieur Poirot? Era Shelagh Rendell.

A cara comprida e morena de Johnnie Summerhayes iluminou-se entusiasticamente.

— Isto mesmo, pistas — disse ele. — Isto é que eu gosto em histórias de detetives. Pistas que dizem tudo aos detetives — e nada para a gente — até que no final você quase tropeça nelas. Pode nos dar uma pistazinha, Monsieur Poirot.

Rostos risonhos, suplicantes, voltaram-se para ele. Era uma brincadeira para todos eles (ou talvez não apenas para um deles?). Mas o crime não era uma brincadeira — o crime era perigoso. A gente nunca sabe...

Com um movimento brusco e repentino, Poirot tirou quatro fotografias de seu bolso.

— Vocês querem uma pista? — disse ele. — Voilà! E com um gesto dramático, ele atirou-as sobre a mesa. Todos se aproximaram, debruçados, soltando exclamações.

— Olhem!

— Mas que mulheres horríveis!

— Olhem só estas rosas. Rosas, rosas por todos os lados!

— Minha querida! Este chapéu!

— Mas quem são elas?

— Estas roupas não são ridículas?

— Esta mulher deve ter sido muito bonita quando moça.

— Mas são estas as pistas?

— Quem são elas?

Poirot olhou lentamente pelo círculo de rostos. Não viu nada do que ele esperava ter visto.

— Não reconhecem nenhuma delas?

— Reconhecer?

— Digamos que vocês, deixem-me ver, se lembrem de ter visto algumas destas fotos antes? Mas, sim... Sra. Upward? A senhora reconheceu alguma coisa? Não foi?

A Sra. Upward hesitou.

— Sim... eu creio...

— Qual delas?

O seu dedo indicador apontou para o rosto de óculos da criança Lily Gamboll.

— A senhora viu esta foto recentemente... onde...?

— Há muito pouco tempo... Agora, vejamos onde... Não, eu não me lembro. Mas tenho certeza de que vi uma fotografia igual a esta.

Ela ficou parada, com a testa franzida, as sobrancelhas apertadas.

Saiu de sua abstração quando a Sra. Rendell dirigiu-se a ela.

— Até logo, Sra. Upward. Espero que a senhora venha tomar chá comigo um dia desses quando se sentir melhor.

— Obrigada, minha querida. Se Robin me empurrar até o alto da colina.

— É claro, Madre. Eu já desenvolvi músculos tremendos empurrando esta cadeira. Lembra-se do dia em que foi até a casa dos Wetherbys e estava enlameado...

— Ah! — fez a Sra. Upward de repente.

— O que foi, Madre?

— Nada. Continue.

— Para subir a colina na volta. Primeiro a cadeira derrapou, depois fui eu que escorreguei. Pensei que nunca chegaríamos em casa.

Todos saíram rindo.

O álcool, pensou Poirot, certamente solta a língua das pessoas...

— Será que ele fora tolo ou esperto em exibir aquelas fotografias?

Teria sido o seu gesto também motivado pelo álcool?

Ele não tinha certeza.

Mas, murmurando uma desculpa, voltou atrás.

Empurrou o portão e entrou de volta na casa. Pela janela aberta à esquerda, ele ouviu o murmúrio de duas vozes. Eram as de Robin e da Sra. Oliver. Muito pouco da Sra. Oliver e bastante de Robin.

Poirot empurrou a porta da entrada que estava aberta e dirigiu-se para o lado direito, indo para a sala de onde saíra há alguns instantes. A Sra. Upward estava sentada ao lado da lareira. Havia um ar feroz em seu rosto. Ela estava tão imersa em seus pensamentos que não o viu chegar.

Ao som de uma tossezinha de desculpa que ele deu, ela olhou vivamente, com leve tremor.

— Oh! — disse ela. — É o senhor. Assustou-me.

— Peço perdão, Madame. Acha que poderia ter sido outra pessoa? Quem pensou que fosse?

Ela não respondeu a isto, apenas disse:

— O senhor esqueceu alguma coisa?

— O que eu temi ter esquecido foi o perigo.

— Perigo?

— Perigo, talvez, para a senhora. Porque a senhora reconheceu agora mesmo uma das fotografias.

— Eu não disse que tinha reconhecido. Todas as velhas fotos parecem ser iguais.

— Escute, Madame. A Sra. McGinty também — pelo menos é o que eu acredito — reconheceu uma das fotografias. E a Sra. McGinty morreu.

Com um brilho inesperado de fantasia em seus olhos, a Sra. Upward disse:

— A Sra. McGinty morreu. Como foi que ela morreu? Esticando o pescoço assim como eu! Foi isto que o senhor quis dizer?

— Sim. Se a senhora sabe de alguma coisa — de qualquer coisa — diga-me agora. Será mais seguro.

— Meu caro senhor, não é tudo assim tão simples. Eu não estou absolutamente certa de que saiba de alguma coisa — certamente nada que possa ser definido como um fato. Memórias indistintas são coisas que nos pregam peças. É preciso ter-se alguma idéia de como, de onde e de quando, se entende o que eu quero dizer.

— Mas pareceu-me que a senhora já tem esta idéia.

— Há algo mais do que isto. Há vários fatores que precisam ser levados em conta. Não adianta querer vir me apressar, Monsieur Poirot. Não sou do tipo de pessoa que se deixa apressar para tomar uma decisão. Tenho a minha própria consciência, e levo tempo para me decidir. Quando tomo uma decisão, eu ajo. Mas não até me sentir preparada.

— A senhora é por todas as maneiras uma mulher muito misteriosa, Madame.

— Talvez, até um certo ponto. O conhecimento é o poder. O poder só pode ser usado para os propósitos verdadeiros. O senhor me perdoe por dizer isto, mas talvez ainda não compreenda o padrão da nossa vida rural inglesa.

— Em outras palavras a senhora está dizendo: "O senhor é apenas um maldito estrangeiro".

A Sra. Upward sorriu levemente:

— Eu não teria sido assim tão grosseira.

— Se não quiser falar comigo pode falar com o Superintendente Spence.

— Meu caro Monsieur Poirot. A Polícia, não...Não no ponto em que estamos.

Ele deu de ombros.

— Eu a avisei — disse ele.

Pois ele tinha certeza que a Sra. Upward já se lembrava exatamente quando e onde vira a fotografia.

 

DECIDIDAMENTE" —— DISSE HERCULE POIROT consigo mesmo na manhã seguinte, "a primavera chegou."

Seus temores da noite anterior pareciam estranhamente sem fundamento.

A Sra. Upward era uma mulher sensata que podia muito bem tomar conta de si mesma.

De qualquer forma, ele não sabia por que estranha maneira ela o intrigava. Não lhe compreendera as reações. Claramente ela não desejara que ele a compreendesse. Reconhecera a fotografia de Lily Gamboll e estava decidida a jogar a partida sozinha.

Poirot, andando por uma das alamedas do jardim, enquanto fazia estas reflexões, assustou-se com uma voz que o chamou por detrás.

— Monsieur Poirot!

A Sra. Rendell chegara tão devagar que ele não a ouvira. Desde ontem ele se sentia extremamente nervoso.

— Pardon, Madame. A senhora me fez dar um pulo.

A Sra. Rendell sorriu mecanicamente. Se ele estava nervoso, pensou Poirot, a Sra. Rendell estava muito mais. Havia um piscar eni uma de suas pálpebras e suas mãos apertavam-se sem parar.

— Eu... eu espero não o estar interrompendo. Talvez o senhor esteja ocupado.

— Mas, não! Não estou ocupado. O dia está tão lindo. Gosto de sentir a primavera. É bom estar-se ao ar livre. Na casa da Sra. Summerhayes há sempre — mas sempre mesmo — uma corrente de ar.

— Corrente?

— O que vocês na Inglaterra chamam de golpe de ar.

— Sim, sim, eu creio que há mesmo.

— As janelas, elas não se fecham e as portas batem abertas o tempo todo.

— A casa é quase uma ruína. E é claro que os Summerhayes estão em tão má situação financeira que não podem consertá-la. Eu a venderia se fosse eles. Sei que ela faz parte da família há centenas de anos, mas hoje em dia a gente não pode mais se agarrar às coisas por motivos sentimentais.

— Não, nós não podemos mais ser sentimentais hoje em dia.

Houve um silencio. Pelo canto do olho, Poirot observou aquelas mãos nervosas e brancas. Esperou que ela tomasse a iniciativa. Quando ela falou, foi muito bruscamente:

— Eu calculo — disse ela — que quando o senhor está investigando alguma coisa sempre tem de arranjar um pretexto?

Poirot considerou a pergunta. Se bem que ele não estivesse olhando para ela, estava perfeitamente consciente do ansioso olhar de esguelha fixo nele.

— Como a senhora disse, Madame — respondeu ele sem se comprometer—, às vezes c conveniente.

— Para explicar a sua estada aqui... e fazer as perguntas.

— Talvez possa ser aconselhável.

— Por que... por que o senhor está realmente aqui em Broadhinny, Monsieur Poirot?

Ele se voltou para ela com um ar meio surpreso.

— Mas minha senhora, eu já lhe disse — para fazer um inquérito sobre a morte da Sra. McGinty.

A Sra. Rendell disse vivamente:

— Eu sei que foi isto que o senhor disse. Mas é ridículo. Poirot ergueu as sobrancelhas.

— É?

— É claro que é. Ninguém está acreditando.

— E no entanto, eu lhe garanto, é este simples fato. Seus pálidos olhos azuis piscaram e ela desviou o olhar.

— O senhor não me quer contar.

— Contar... o quê, Madame?

Ela mudou de assunto com rapidez novamente:

— Eu queria lhe perguntar... sobre cartas anônimas.

— Sim? — fez Poirot encorajando-a por ter parado.

— Elas são sempre mentirosas, não são?

— Elas são mentirosas algumas vezes — disse cautelosamente Poirot.

— Geralmente — insistiu ela.

— Eu não sei aonde a senhora quer chegar com isto. Shelagh Rendell falou com veemência:

— Elas são covardes, traiçoeiras, mesquinhas!

— Com tudo isto eu concordo.

— E o senhor não acreditaria numa delas, não é?

— Esta é uma pergunta difícil — disse Poirot gravemente.

— Eu não acreditaria. Eu não acreditaria em nada assim. Ela acrescentou com veemência:

— Eu sei por que o senhor está aqui. E não é verdade, eu lhe digo, não é verdade!

Ela se voltou rapidamente e foi embora.

Hercule Poirot levantou outra vez as sobrancelhas de maneiras interessada.

“E esta agora?”, ele se perguntou. "Será que tomei o bonde errado? Ou será que este pássaro é de outra cor?”

Ele estava se sentindo meio confuso.

A Sra. Rendell mostrou acreditar que ele estava ali por uma outra razão que não o inquérito sobre a morte da Sra. McGinty. Ela sugeriu que isto era apenas um pretexto.

Será que ela pensava mesmo assim? Ou será, como ele acabara de pensar, que ela estava querendo que ele tomasse o bonde errado?

O que é que as cartas anônimas tinham a ver com isto?

Seria a Sra. Rendell o original da fotografia que a Sra. Upward dissera ter visto recentemente?

Em outras palavras, a Sra. Rendell seria Lily Gamboll? Lily Gamboll, um membro reabilitado da sociedade, que fora vista ultimamente na Irlanda. Será que o Dr. Rendell encontrara a sua esposa lá, ignorando a sua história? Lily Gamboll fora treinada como estenógrafa. Seu caminho e o do médico podiam ter facilmente se entrecruzado.

Poirot balançou a cabeça e suspirou.

Tudo era perfeitamente possível. Mas ele não tinha certeza.

Um vento gelado soprou de repente e o sol desapareceu.

Poirot estremeceu e retomou o caminho de volta a casa.

Sim, ele precisava ter certeza. Se pudesse achar a verdadeira arma do crime...

E, naquele momento, com um estranho sentimento de certeza — ele a viu.

 

Posteriormente, ele imaginou em seu subconsciente, já tinha visto e reparado naquilo há muito tempo. Estava ali, possivelmente, desde a sua chegada a Long Meadows...

Na parte de cima da estante superlotada perto da janela.

Ele pensou: — Por que será que eu não reparei antes?

Pegou-o, calculou o peso com as mãos, examinou-o, mediu seu equilíbrio, levantou-o no ar como para dar um golpe...

Maureen entrou pela porta com sua pressa usual, dois cachorros a acompanhá-la. Sua voz, clara e amigável, disse: — Olá, está brincando com o cortador de açúcar?

— É isto que ele é? Um cortador de açúcar?

— Sim. Um cortador de açúcar — ou um martelo para açúcar — eu não sei exatamente qual é o termo correto. É engraçado, não é? Tão infantil com este passarinho no alto.

Poirot revirou o instrumento cuidadosamente nas mãos. Feito de latão ornamentado, tinha a forma de um enxó, pesado, com uma lâmina cortante. Tinha aqui e ali pedrinhas coloridas incrustadas, azul-claro e vermelhas. No alto havia um pequeno e inútil passarinho com olhos de turquesa.

— Encantador para se matar alguém, não seria? — disse Maureen em tom de conversa.

Ela o apanhou das mãos de Poirot e fingiu dar um golpe assassino num ponto do espaço.

— Facílimo — disse ela. — Como era mesmo aquele pedacinho da Écloga do Rei? "Assim como Mark, disse ele, e abriu-lhe a cabeça!” Eu acho que a gente podia abrir a cabeça de qualquer um com isto aí, não acha?

Poirot olhou para ela. Seu rosto sardento estava sereno e alegre.

Ela disse:

— Eu já disse a Johnnie o que o espera quando eu me cansar dele. Chamo isto de "o melhor amigo da mulher"!

Ela riu, deixou o cortador de açúcar de lado e virou-se na direção da porta.

— Para que será que vim aqui? — aventurou ela. — Não posso me lembrar... Droga! Acho melhor ir ver se aquele pudim precisa de mais água na forma.

A voz de Poirot fez com que ela parasse antes de chegar à porta.

— A senhora trouxe isso da índia, talvez?

— Oh, não! — disse Maureen. — Eu o comprei na T. e C. do Natal.

— T. e C? — Poirot estava intrigado.

— Traga e Compre — explicou Maureen desembaraçada. — Na paróquia. A pessoa leva coisas que não quer e compra alguma coisa. Alguma coisa que não seja muito feia, se puder encontrar. É lógico que nunca tem o que a gente quer. Eu comprei isto e aquele bule. Gosto do bico do bule e gosto do passarinho do martelo.

O bule era um pequeno bule de cobre batido. Tinha um bico curvo e comprido que lembrou algo familiar a Poirot.

— Acho que eles vêm de Bagdá — disse Maureen. — Pelo menos foi o que os Wetherbys disseram. Ou talvez tenha sido da Pérsia.

— Então eles vieram da casa dos Wetherbys?

— Sim. Eles deram o maior lote de porcarias. Eu preciso ir. Aquele pudim!

Ela saiu. A porta bateu. Poirot apanhou o cortador de açúcar novamente e levou-o até a janela.

Na lâmina havia umas manchinhas muito, muito tênues.

Poirot fez um movimento de cabeça.

Hesitou um momento e depois levou o cortador de açúcar para o seu quarto. Ali, guardou-o cuidadosamente numa caixa, embrulhou tudo muito bem com papel e barbante e, descendo outra vez, saiu de casa.

Calculou que ninguém iria notar o desaparecimento do cortador de açúcar. Não era uma casa das mais bem organizadas.

 

Em Laburnums, a colaboração estava seguindo um rumo difícil.

— Mas realmente, não acho direito fazer dele um vegetariano, querida — objetava Robin. — Excêntrico demais. E definitivamente sem encantos.

Eu não posso fazer nada — disse a Sra. Oliver obstinadamente. — Ele sempre foi um vegetariano. Leva sempre um aparelhinho para ralar cenouras cruas e nabos.

— Mas Ariadne, preciosa, por que?

— Como é que vou saber? — disse a Sra. Oliver com teimosia. — Como é que vou saber por que pensei um dia num homem tão repugnante? Eu devia estar louca! Por que um finlandês se eu não sei nada sobre a Finlândia? Por que um vegetariano? Por que todos estes maneirismos idiotas que ele tem? Estas coisas acontecem. A gente tenta algo — parece que o povo gosta — e aí você continua — e antes que saiba onde está, você conseguiu alguém como este alucinante Sven Hjerson amarrado em você o resto de sua vida. E as pessoas escrevem e dizem o quanto nós devemos gostar dele. Gostar dele? Se eu encontrasse esse finlandês magricela, comprido e comedor de verduras na vida real, praticaria um crime muito melhor do que qualquer um que eu já inventei.

Robin Upward olhou para ela com reverência.

— Você sabe, Ariadne, que talvez seja uma idéia maravilhosa. Um Sven Hjerson real — e você o mata. Você pode fazer um poema épico disto — para ser publicado depois de sua morte.

— Não diga! — disse a Sra. Oliver. — E o dinheiro? Qualquer dinheiro que eu possa tirar dos crimes eu o quero agora.

— Sim, sim. Aí já não posso concordar com você.

O inquieto teatrólogo andou de um lado para o outro.

— Esta Ingrid está ficando muito cansativa — disse ele. — E depois da cena da adega que está se saindo maravilhosa, não vejo como é que nós vamos impedir a próxima cena de ser um completo anticlímax.

A Sra. Oliver estava calada. Cenas, percebeu ela, eram a dor de cabeça de Robin Upward.

Robin deu uma olhada descontente para ela.

Nesta manhã, em uma de suas freqüentes mudanças de estado de espírito, a Sra. Oliver desagradou-se de sua cabeleira desgrenhada. Com uma escova molhada, ela fixou seus cachos prateados bem junto à cabeça. Com a sua testa alta, os óculos maciços e o ar severo, ela recordava de mais a mais a Robin uma professora de escola que fora o terror de sua meninice. Estava achando muito difícil chamá-la de "querida" e titubeava mesmo com "Ariadne"1.

Ele disse mal-humorado:

— Sabe, não me estou sentindo nem um pouquinho inspirado hoje. Talvez tenha sido todo o gim de ontem. Vamos deixar o trabalho de lado e pensar um pouco no elenco. Sc conseguirmos Dennis Callory, é lógico que será maravilhoso, mas ele está preso por filmagens neste momento. E Jean Bellews para Ingrid seria perfeita — e ela quer atuar na peça, o que é ótimo. Eric — eu lhe disse que tive uma inspiração para Eric. Vamos hoje à noite ao Pequeno Repertório, quer? E você vai-me dizer o que acha de Cecil para o papel.

A Sra. Oliver concordou esperançosa com o projeto e Robin foi telefonar.

— Pronto — disse ele ao voltar. — Está tudo arranjado.

 

A linda manhã não se manteve como prometida. Nuvens se formaram e o dia foi sufocante com uma ameaça de chuva. Enquanto andava através da densa vegetação em torno de Hunter’s Close, Poirot decidiu que não gostaria de viver naquele vale fundo aos pés da colina. A própria casa era cercada por árvores e suas paredes estavam abafadas pela hera. Precisava muito, pensou ele, do machado de um lenhador.

(O machado. O cortador de açúcar?)

Ele tocou a campainha e como não obteve resposta tocou de novo.

Foi Deirdre Henderson quem abriu a porta para ele. Ela parecia surpresa.

— Oh! — disse ela. — É o senhor.

— Posso entrar para falar com você?

— Eu... bem, sim, creio que sim.

Ela o conduziu até o pequeno vestíbulo escuro onde ele esperara antes. Sobre a lareira ele reconheceu o irmão grande do bulezinho de café da prateleira de Maureen. Seu vasto bico dominava aquela sala ocidental com uma sugestão de ferocidade oriental.

— Sinto muito — disse Deirdre em tom de desculpa —mas nós estamos muito aborrecidos hoje. Nossa ajudante, a moça alemã — ela vai embora. Ficou aqui somente um mês. Pelo que vejo, ela só quis vir para cá porque queria se casar com alguém. E agora que eles já arranjaram tudo, vai-se embora de vez hoje á noite. Poirot estalou a língua.

— Que falta de consideração!

— Foi mesmo, não acha? Meu padrasto disse que é ilegal. Mas mesmo que seja ilegal, se ela vai sair para se casar, não vejo o que possamos fazer. Nós nem saberíamos que ela ia embora se eu não a tivesse visto fazendo as malas. Ia sair de casa sem dizer uma palavra.

— Infelizmente, é uma época em que as pessoas não têm consideração.

— Não — disse Deirdre apática. — Creio que não. Ela passou as costas da mão pela testa.

— Eu estou cansada — disse ela. — Estou muito cansada.

— Sim — disse Poirot com gentileza. — Você deve estar muito cansada.

— Que é que o senhor queria, Monsieur Poirot?

— Queria lhe fazer umas perguntas sobre um cortador de açúcar.

— Um cortador de açúcar?

O rosto dela era vago, não compreendera.

— Um instrumento de latão, com um pássaro em cima, incrustado com pedras azuis, vermelhas e verdes — Poirot fez uma descrição cuidadosa.

— Oh, sim, eu sei.

A voz dela não demonstrou interesse nem entusiasmo.

— Eu ouvi dizer que veio desta casa.

— Sim. Minha mãe o comprou num bazar em Bagdá. Foi uma das coisas que nós levamos para as vendas da Paróquia.

— A venda do T. e C, não foi?

— Sim. Nós temos muitas assim por aqui. É difícil fazer com que as pessoas dêem dinheiro, mas geralmente há alguma coisa que se pode achar em casa e mandar.

— Então ele estava nesta casa até o Natal e depois vocês o levaram para a venda do Traga e Compre. Foi assim?

Deirdre franziu a testa.

— Não foi a venda de Natal do Traga e Compre. Foi uma antes. O Festival da Colheita.

— O Festival da Colheita... Isto teria sido... quando? Outubro? Setembro?

— No fim de setembro.

Havia muito silêncio na salinha. Poirot olhou para a moça e esta olhou de volta para ele. O rosto dela era suave, inexpressivo, desinteressado. Por detrás da parede em branco de sua apatia, ele tentou adivinhar o que se estaria passando. Nada, talvez. Talvez ela estivesse como dissera — apenas cansada.

Ele falou mansamente, mas num tom de urgência:

— Você tem certeza de que foi a venda do Festival da Colheita? Não foi a do Natal?

— Absoluta.

Seus olhos eram firmes, nem pestanejavam. Hercule Poirot esperou. Continuou a esperar... Mas o que ele esperava não veio. Disse formalmente:

— Eu não quero tomar o seu tempo, Mademoiselle. Ela o acompanhou até a porta da entrada. Novamente ele estava de volta á estrada.

Duas declarações diferentes — declarações que possivelmente não se podiam conciliar.

Quem estava certa? Maureen Summerhayes ou Deirdre Henderson?

Se o cortador de açúcar fora usado para o que ele pensava, este ponto era vital. O Festival da Colheita fora no final de setembro. Entre ele e o Natal, na noite de 22 de novembro, a Sra. McGinty fora assassinada. A quem pertencia o cortador de açúcar nesta época?

Ele foi até a agência dos correios. A Sra. Sweetiman era sempre prestativa e fez o que pode. Ela estivera em ambas as vendas. Sempre ia. A gente sempre encontra alguma coisinha boa por lá. Ela ajudava também a arranjar as coisas para a venda. Se bem que a maior parte das pessoas trouxesse as coisas e não as mandasse antes.

Um martelo de latão, parecido com um machado, com pedrinhas coloridas e um passarinho? Não, ela não se lembrava direito. Tinha uma quantidade de coisas, e tanta confusão e algumas coisas foram agarradas imediatamente. Bem, talvez ela se lembrasse de algo assim... estava marcado com um preço de cinco shillings e vinha junto com um bule de cobre, mas o bule tinha um buraco no fundo — não podia ser usado, só para enfeite. Mas ela não se lembrava quando fora — há algum tempo atrás. Talvez tenha sido no Natal, talvez tenha sido antes. Ela não reparara...

Recebeu o pacote de Poirot. Registrado? Sim.

Copiou o endereço. Poirot reparou num pequeno piscar de interesse em seus vivos olhos negros quando ela lhe deu o recibo.

Hercule Poirot subiu lentamente a colina, imerso em pensamentos.

Das duas, Maureen Summerhayes, desmiolada, jovial, imprecisa, era a mais provável a errar. Colheita ou Natal, dava no mesmo para ela.

Deirdre Henderson, lenta, desajeitada, tinha muito mais possibilidades de ser precisa em sua identificação de épocas e datas.

Entretanto, permanecia a enfadonha questão.

Por que, depois de todas as perguntas, ela não lhe perguntara por que ele queria saber? Era uma pergunta natural, quase inevitável.

Mas Deirdre Henderson não a fizera.

 

ALGUÉM LHE TELEFONOU — falou Maureen da cozinha quando Poirot entrou em casa.

— Me telefonou? Quem foi? Ele ficou ligeiramente surpreso.

— Não sei. Mas anotei o número no meu livro de compras.

— Obrigado, Madame.

Foi até a sala de jantar e olhou sobre a mesa. Entre o amontoado de papéis encontrou o livro de compras perto do telefone e as palavras — Kilchester 350.

Ergueu o receptor, discou o número.

Imediatamente uma voz de mulher respondeu:

— Breather & Scuttle. Poirot arriscou um palpite.

— Posso falar com a Srta. Maude Williams?

Houve um momento de intervalo e uma voz de contralto falou:

— Srta. Williams falando.

— Aqui é Hercule Poirot. Creio que me telefonou.

— Sim... sim, telefonei. É sobre a propriedade que o senhor me perguntou outro dia.

— Propriedade? — por um momento Poirot ficou intrigado. Então, ele calculou que a conversa de Maude estivesse sendo ouvida. Provavelmente ela telefonara antes quando estava sozinha no escritório.

— Acho que estou compreendendo. É sobre o caso de James Bentley e do assassinato da Sra. McGinty?

— Isto mesmo. Há alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor?

— Você quer ajudar. E não pode falar confidencial mente aí onde está, não é?

— Isto mesmo.

— Compreendi. Escute com atenção. Você quer mesmo ajudar James Bentley?

— Sim.

— Abriria mão de seu emprego atual? Houve uma hesitação.

— Sim.

— Teria coragem de aceitar um emprego doméstico? Provavelmente com pessoas não muito convenientes.

— Sim.

— Pode sair logo daí? Amanhã, por exemplo?

— Oh, sim, Monsieur Poirot. Acho que isto pode ser conseguido.

— Você entendeu o que eu quis dizer? Será uma empregada doméstica — dormindo no emprego. Sabe cozinhar?

Um leve tom de diversão matizou sua voz.

— Muito bem.

— Bon dieu, que raridade! Então, escute, eu vou imediatamente para Kilchester. Vou-me encontrar com você no mesmo café em que a encontrei na hora do almoço.

— Sim, certamente. Poirot desligou.

— Uma moça admirável — refletiu ele. — Perspicaz, sabe o que quer — quem sabe? — talvez saiba até cozinhar...

Com alguma dificuldade ele desencavou o catálogo de telefones local debaixo de um tratado sobre criação de porcos e olhou o número dos Wetherbys.

A voz que atendeu era a da Sra. Wetherby.

— Alô. Alô? Aqui é Monsieur Poirot — lembra-se, Madame...

— Eu não creio que...

— Monsieur Hercule Poirot.

— Oh, sim, é claro... me desculpe. Tivemos um aborrecimento doméstico hoje...

— Foi exatamente por esta razão que telefonei. Fiquei desolado ao saber de suas dificuldades.

— Tao ingratas... essas moças estrangeiras. A passagem paga até aqui e tudo o mais. Detesto a ingratidão.

— Sim, sim, eu lhe dou razão. E monstruoso — é por isto que me apressei em lhe dizer que tenho, talvez, uma solução... Por mera coincidência soube de uma moça querendo um emprego doméstico. Não sei bem se ela tem muita prática.

— Oh, não há mais destas coisas hoje em dia. Será que ela cozinha? A maior parte delas não sabe cozinhar.

— Sim... sim... ela cozinha. Devo enviá-la para a senhora? Pelo menos, em experiência. O nome dela é Maude Williams.

— Oh, sim, por favor, mande, Monsieur Poirot. É muito gentil de sua parte. Qualquer uma é melhor do que nada. Meu marido é tão meticuloso e se aborrece tanto com a minha Deirdre quando surgem problemas domésticos. Não se pode mesmo esperar que os homens compreendam as dificuldades de hoje em dia... eu...

Houve um interrupção. A Sra. Wetherby estava falando com alguém que entrara no quarto e apesar de ter colocado a mão sobre o receptor, Poirot podia ouvir suas palavras meio abafadas.

— É aquele homenzinho detetive — conhece alguém para substituir Frieda... Não, não é estrangeira... inglesa, graças a Deus. Muito gentil da parte dele, me pareceu muito preocupado a meu respeito... Oh, querida, não faça objeções. O que importa! Você sabe a maneira absurda com que Roger se comporta. Bem, acho que foi muita gentileza... e não acho que ela possa ser assim tão ruim.

Terminada a conferência, a Sra. Wetherby falou com a mais extrema cortesia:

— Muitíssimo obrigada, Monsieur Poirot. Nós lhe agradecemos muito.

Poirot recolocou o aparelho no gancho e olhou para o relógio.

Foi para a cozinha.

— Madame, não estarei aqui para o almoço. Preciso ir a Kilchester.

— Ainda bem — disse Maureen. — Não tirei o pudim a tempo. A água ferveu até secar. Acho que ficou bom assim mesmo — talvez um pouquinho sapecado. Se estivesse com o gosto muito ruim, eu pensei em abrir um pote daquelas framboesas que pus em conserva no verão passado. Parece que elas estão com um pouquinho de mofo por cima, mas hoje em dia dizem que isto não importa. Faz muito bem à gente — é praticamente penicilina.

Poirot deixou a casa, satisfeito que o pudim chamuscado e a quase-penicilina não fizessem parte de sua ração de hoje. Melhor, muito melhor — comer macarrão e creme com ameixas no Gato Azul do que as improvisações de Maureen Summerhayes.

 

Em Laburnums surgira uma pequena discussão.

— É claro, Robin, parece que você mio se lembra de nada quando está trabalhando numa peça. Robin estava contrito.

— Madre, sinto muitíssimo. Esqueci completamente que era a noite de folga de Janet.

— Não tem importância — disse a Sra. Upward com frieza.

— É lógico que tem. Telefonarei para o Repertório e direi para marcar para amanhã á noite.

— Você não vai fazer nada disto. Já marcou para hoje á noite e você irá.

— Mas de verdade...

— Está decidido.

— Quer que eu peça a Janet para trocar a folga?

— Certamente que não. Ela detesta ter os seus planos estragados.

— Tenho certeza de que ela não se incomodaria. Se eu for falar com ela...

— Você não vai fazer nada disto, Robin. Por favor, não me ande aborrecendo Janet. E não continue com isto. Faço questão de não ser uma velha cansativa estragando o prazer dos outros.

— Madre... minha querida...

— Basta — vá e divirta-se. Sei quem vou chamar para me fazer companhia.

— Quem?

— Este é o meu segredo — disse a Sra. Upward, voltando ao seu bom-humor. — Agora pare com este espalhafato, Robin.

— Vou telefonar para Shelagh Rendell...

— Eu mesmo dou meus telefonemas, obrigada. Já está decidido. Faça café antes de sair e deixe a cafeteira perto de mim, pronta para ser ligada. Oh, e você pode pôr uma xícara a mais... no caso de eu receber uma visita.

 

Sentado durante o almoço no Gato Azul, Poirot terminou de esboçar suas instruções para Maude Williams.

— Então você entendeu o que é que tem de procurar? Maude Williams fez que sim com a cabeça.

— Arranjou as coisas no seu escritório? Ela riu.

— Titia está passando muito mal! Eu mesma passei um telegrama.

— Ótimo! Tenho ainda uma coisa a lhe dizer. Em algum lugar daquela aldeia há um assassino à solta. Não é uma situação muito segura.

— Está-me avisando?

— Sim.

— Eu sei tomar conta de mim mesma — disse Maude Williams.

— Isto — disse Hercule Poirot — pode ser classificado entre as primeiras linhas das "Famosas Últimas Palavras".

Ela riu outra vez um riso franco e alegre. Uma ou duas cabeças nas mesas próximas viraram-se para olhá-la.

Poirot pôs-se a examiná-la cuidadosamente. Uma moça forte e confiante, cheia de vitalidade, cheia de estímulo e ansiosa em desempenhar uma tarefa perigosa. Por quê? Ele pensou outra vez em James Bentley, sua voz mansa e derrotada, sua apatia sem vida. A Natureza era mesmo curiosa e estranha.

Maude disse:

— O senhor está me pedindo para fazer isto, não está? Então por que está querendo me deixar de lado?

— Porque quando se oferece uma missão a alguém, quem a recebe precisa estar a par do que ela acarreta.

— Não penso que eu corra perigo — disse Maude segura de si.

— Eu também não creio no momento. Você é desconhecida em Broadhinny?

Maude refletiu.

— S-sim. Sim, eu diria que sou.

— Já esteve lá?

— Uma ou duas vezes — para a firma, é lógico — uma só vez há pouco tempo... há uns cinco meses.

— Quem foi que você viu? Aonde foi?

— Eu fui ver uma senhora idosa — Sra. Carstairs — ou Carlisle — não me lembro bem do nome dela. Ela estava comprando uma pequena propriedade perto daqui e fui até lá com uns papéis e umas perguntas do relatório do superintendente que tínhamos preparado para ela. Ela estava hospedada naquela espécie de pensão onde o senhor está.

— Long Meadows?

— Isto mesmo. Uma casa de aparência confortável com um bocado de cachorros.

Poirot fez que sim com a cabeça.

— Viu a Sra. Summerhayes ou o Major Summerhayes?

— Vi a Sra. Summerhayes, e acho que era ela. Levou-me até o quarto lá em cima. A gata velha estava de cama.

— Será que a Sra. Summerhayes se lembraria de você?

— Não creio. Mesmo que ela se lembrasse não faria diferença, faria? A gente muda de emprego tantas vezes nesses dias. Mas acho que ela nem olhou para mim. Não é do tipo que repara em ninguém.

Havia uma leve amargura na voz de Maude Williams.

— Você viu mais alguém em Broadhinny? Maude falou meio sem jeito:

— Bem, eu vi o Sr. Bentley.

— Ah, você viu o Sr. Bentley. Por acaso? Maude mexeu-se na cadeira.

— Não, para falar a verdade, mandei um cartão-postal para ele. Dizendo que ia lá naquele dia. Falando com franqueza, eu perguntei se ele podia se encontrar comigo. Não que houvesse nenhum lugar para irmos. É um buraco parado. Não há café ou cinema, nem nada. Para dizer o que houve, nós apenas conversamos na parada do ônibus. Enquanto eu estava esperando o ônibus para voltar.

— Isto foi antes da morte da Sra. McGinty?

— Oh, sim. Mas não muito antes, entretanto... Porque uns dias depois estava tudo nos jornais.

— O Sr. Bentley falou alguma coisa sobre a sua senhoria?

— Creio que não.

— E você não falou com mais ninguém em Broadhinny?

— Bem — somente com o Sr. Robin Upward. Eu já o ouvira falar no rádio. Vi quando estava saindo de casa e o reconheci pelas fotografias nas revistas e lhe pedi um autógrafo.

— E ele deu?

— Oh, sim, ele foi muito simpático. Eu não estava com o meu livro de autógrafos, mas tinha uma folha limpa de papel de bloco e ele pegou na caneta e escreveu imediatamente.

— Você conhece mais alguém em Broadhinny de vista?

— Bem, eu conheço os Carpenters, é lógico. Eles vêm muito a Kilchester. Têm um carro maravilhoso e ela usa roupas encantadoras. Há um mês atrás ela inaugurou um bazar aqui. Estão dizendo que ele vai ser o nosso próximo Membro do Parlamento.

Poirot concordou. Tirou então do bolso um envelope que sempre trazia consigo. Espalhou as quatro fotografias sobre a mesa.

— Reconheceu alguma... o que foi que houve?

— Era o Sr. Scuttle. Acabou de passar pela porta. Espero que ele não me tenha visto com o senhor. Podia parecer estranho. O povo está falando muito sobre o senhor, sabe? Dizendo que foi enviado de Paris — pela Süreté ou qualquer coisa assim.

— Eu sou belga, não sou francês, mas não tem importância.

— Mas sobre as fotografias — ela se debruçou sobre a mesa, estudando-as detalhadamente. — São bem antiquadas, não são?

— A mais velha tem trinta anos de idade.

— Horrivelmente absurdas, com roupas tão fora da moda. Faz com que as mulheres pareçam umas tolas.

— Já viu alguma delas antes?

— O senhor quer dizer se eu reconheço uma das mulheres, ou se já vi as fotos?

— As duas coisas.

— Eu tenho uma idéia de já ter visto esta aqui — seu dedo apontou para Janice Courtland com seu chapeuzinho em forma de sino. — Num jornal qualquer, mas não me lembro quando. A criança parece um pouquinho familiar também. Mas eu não me lembro quando foi que as vi —já deve fazer muito tempo.

— Todas estas fotos apareceram no Sunday Companion no domingo antes da morte da Sra. McGinty.

Maude olhou depressa para ele.

— E elas têm alguma coisa a ver com ela? É por isso que eu...

Ela não terminou a frase.

— Sim — disse Hercule Poirot. — É por isso.

Ele tirou outra coisa do bolso e mostrou-lhe. Era um recorte do Sunday Companion.

— É melhor lê-lo — disse ele.

Ela leu com cuidado. Sua cabeça dourada e brilhante inclinou-se sobre o frágil pedacinho de jornal. Quando acabou, ela levantou os olhos.

— Então é isso que elas são? E depois de ler isto o senhor teve idéias?

— Você não podia ter-se expressado mais corretamente.

— Mas mesmo assim, eu não vejo... — ela ficou em silêncio um instante, pensando. Poirot não falou nada. Por mais satisfeito que ele ficasse com suas próprias idéias, estava sempre pronto a ouvir as idéias dos outros também.

— O senhor acha que uma ou outra destas pessoas possa estar em Broadhinny?

— Pode ser, não pode?

— E claro... Qualquer um pode estar em qualquer lugar... — ela continuou, colocando o dedo indicador sobre o rosto bonito e afetado de Eva Kane. — Ela deve estar bem velha agora — mais ou menos da idade da Sra. Upward.

— Mais ou menos.

— O que eu estava pensando era... o tipo de mulher que ela foi... deve haver muita gente que gostaria de ver a sua caveira.

— E um ponto de vista — disse Poirot lentamente. — Sim, é um ponto de vista. — Acrescentou: — Você se lembra do caso Craig?

— Quem não se lembra? — disse Maude Williams. — Ora, ele está no Museu de Cera de Madame Tussaud! Eu era apenas uma criança naquela época, mas os jornais estão sempre recordando o fato e comparando o caso com outros. Não creio que ele será esquecido jamais, o senhor não acha?

Poirot ergueu a cabeça vivamente.

Pôs-se a imaginar o que foi que trouxera aquela nota de amargura na voz dela.

 

Sentindo-se completamente confusa, a Sra. Oliver procurava se esconder num canto de um pequeno camarim de teatro. Não sendo uma figura que pudesse se encolher, ela apenas conseguia sobressair. Jovens brilhantes, tirando a pintura com toalhas, rodeavam-na e, a intervalos, lhe empurravam cerveja morna.

A Sra. Upward, seu bom humor restabelecido, tinha apressado a sua partida com votos de bom divertimento. Robin tora muito zeloso arranjando tudo para que ela ficasse confortável antes da saída, tendo voltado umas duas vezes depois que já estavam no carro para ver se estava tudo em ordem.

Na última vez ele voltou com um sorriso zombeteiro.

— Madre está pendurada no telefone, e ainda assim a velhinha não me disse para quem é que está telefonando. Mas aposto que sei.

— Eu sei também — disse a Sra. Oliver.

— Quem é que você acha que seja?

— Hercule Poirot.

— Sim, também é o meu palpite. Ela vai sondá-lo. Madre gosta de ter seus segredinhos, não acha? Agora, querida, sobre a peça desta noite. É muito importante que você me diga com sinceridade o que pensa de Cecil e — se ele é a sua idéia de Eric...

Inútil dizer, Cecil Leech não era absolutamente a idéia que a Sra. Oliver fazia de Eric. Ninguém, francamente, podia ser mais diferente. Da peça mesmo ela gostara, mas aquela provação de “dar uma volta pelos bastidores" tinha mesmo os seus horrores costumeiros.

Robin, é claro, estava em seu elemento. Ele encostara Cecil (pelo menos a Sra. Oliver pensava que fosse Cecil) contra a parede e estava talando pelos cotovelos. A Sra. Oliver ficara horrorizada com Cecil e preferiu mil vezes alguém chamado Michael que estava falando afavelmente com ela no momento. Michael, pelo menos, não esperava reciprocidade — para falar a verdade, Michael parecia preferir o monólogo. Alguém chamado Peter fez incursões ocasionais na conversa, mas no geral, tudo se resumiu num fiapinho de malícia da parte de Michael.

— ...foi um amor do Robin — ele estava dizendo. — Nós estávamos insistindo para ele vir ver o espetáculo. Mas é claro que ele vive debaixo das garras daquela mulher terrível, não é? O próprio "dama de companhia". E Robin é realmente brilhante, a senhora não acha? Muito, muito brilhante mesmo... Ele não devia ser sacrificado neste altar ao Matriarcado. As mulheres sabem ser horrorosas, não acha? Sabe o que ela fez ao pobre Alex Roscoff? Toda encantada com ele durante um ano inteiro e então descobriu que ele não era um imigrante russo coisa nenhuma. E lógico que ele vinha contando umas histórias da Carochinha, mas o engraçado é que nós todos sabíamos que não era verdade, mas, apesar disto, quem é que vai ligar? — E então ela descobriu que ele era apenas filho de um alfaiatezinho de um bairro pobre, ela largou-o de lado, minha cara. Eu quero dizer, eu tenho pavor de gente metida a besta, não acha? Na verdade, Alex ficou aliviado ao se ver livre dela. Ele disse que às vezes ela se tornava assustadora e até meio doida, ele pensava. As raivas dela! Robin, meu caro, nós estamos falando a respeito de sua maravilhosa Madre. Que pena que ela não possa ter vindo hoje à noite. Mas foi maravilhoso ter aqui a Sra. Oliver. E todos estes crimes deliciosos!

Um homem mais velho com uma voz baixa e profunda agarrou a mão da Sra. Oliver entre as suas, quentes e pegajosas.

— Como posso lhe agradecer? — disse ele numa profunda melancolia. — A senhora salvou minha vida — salvou minha vida muitas vezes.

Depois eles saíram todos ao ar livre e foram para o Cabeça de Cavalo, do outro lado da rua, onde beberam ainda mais, e falaram ainda mais de teatro.

Quando a Sra. Oliver e Robin estavam voltando para casa, ela se sentiu muito cansada. Recostou-se no banco e fechou os olhos. Robin, por seu lado, falava sem parar.

— ... e você não acha que isto pode ser uma idéia, hein? — terminou ele finalmente.

— O quê?

A Sra. Oliver arregalou os olhos.

Ela estava perdida num sonho nostálgico de sua casa. Paredes recobertas com pássaros exóticos e folhagens. A mesa de pinho, sua máquina de escrever, café bem preto, maçãs por todos os lados... Que bênção, que bênção gloriosa e solitária! Que erro imenso o de um autor de emergir de seu reduto secreto. Autores são tímidos, são criaturas arredias, reparando a sua falta de atitudes sociais com a invenção de seus próprios companheiros e suas próprias conversas.

— Eu imagino que esteja cansada — disse Robin.

— Não muito. A verdade é que não sou muito boa para ver gente.

— Adoro as pessoas, você não gosta? — disse Robin com alegria.

— Não — disse a Sra. Oliver com firmeza.

— Mas você devia gostar. Com todas as pessoas que põe em seus livros.

— E diferente. Acho as árvores muito mais simpáticas do que as pessoas, muito mais repousantes.

— Eu preciso das pessoas — disse Robin, enunciando um fato óbvio. — Elas me estimulam.

Ele parou em frente ao portão de Laburnums.

— Pode ir entrando — disse ele. — Vou guardar o carro. A Sra. Oliver saiu do carro com a dificuldade costumeira e atravessou a alameda.

— A porta não está trancada — gritou Robin.

Não estava. A Sra. Oliver empurrou-a e entrou.Não havia nenhuma luz acesa, e isto lhe pareceu uma descortesia da parte da dona da casa. Ou seria talvez por economia? As pessoas ricas às vezes são econômicas demais. Havia um perfume estranho no vestíbulo, uma essência exótica e cara. Por um momento a Sra. Oliver imaginou ter entrado na casa errada, quando encontrou o interruptor da luz e o acendeu.

A luz invadiu a entrada quadrada de lambris de carvalho. A porta que dava para a sala de estar estava entreaberta e ela reparou num pé e numa perna. Afinal de "contas a Sra. Upward não tora para a cama. Devia ter pegado no sono na cadeira, e como as luzes estavam apagadas, ela devia estar dormindo há muito tempo.

A Sra. Oliver foi até a porta e acendeu a luz da sala de estar.

— Já estamos de volta... — começou ela e parou.

Sua mão foi até o pescoço. Ela sentiu um nó apertado na garganta, uma vontade de gritar, mas sua voz não saía. O que saiu foi um sussurro:

— Robin... Robin...

Foi só um pouco depois quando ela o ouviu caminhando pela alameda, assobiando, que ela se voltou rapidamente e correu para encontrá-lo na entrada.

— Não vá lá... não vá lá dentro. Sua mãe... ela... ela está morta... eu penso... que ela foi assassinada...

 

UM trabalhinho bem feito — disse o Superintendente Spence.

Seu rosto vermelho de camponês estava raivoso. Olhou para o lado de Hercule Poirot, que estava sentado muito sério à escuta.

— Bem feito e feio — disse ele. — Ela foi estrangulada — continuou ele — com um lenço de seda — um de seus próprios lenços de seda, o que estava usando naquele dia. Foi passado em torno do pescoço com as pontas cruzadas — e foi puxado. Simples, rápido e eficiente. Os tugues faziam assim na índia. A vítima não se debate, nem grita — devido à pressão na artéria carótida.

— É preciso um conhecimento especial?

— Pode ser — mas não é necessário. Se se está pensando em fazer isto, pode-se ler sobre o assunto. Não há nenhuma dificuldade na prática. Especialmente quando a vítima não suspeita de nada.

Poirot fez que sim com a cabeça.

— Alguém que ela conhecia.

— Sim. Tomaram café juntos — há uma xícara ao lado dela e uma xícara do lado oposto — uma visita. As impressões foram limpas da xícara da visita mas batom é mais difícil — ainda há traços leves de batom.

— Uma mulher, então?

— Você esperava que fosse uma mulher, não?

— Oh, sim. Sim, era o indicado. Spence continuou.

— A Sra. Upward reconheceu uma das fotografias — a fotografia de Lily Gamboll. Isto se coaduna com o assassinato da Sra. McGinty.

— Sim — disse Poirot. — Isto se coaduna com o assassinato da Sra. McGinty.

Ele relembrou a expressão ligeiramente divertida da Sra. Upward ao dizer:

"A Sra. McGinty morreu. Como foi que morreu? Esticando o pescoço assim como eu!"

Spence continuou falando:

— Ela conseguiu uma oportunidade que lhe pareceu boa

— seu filho e a Sra. Oliver iam ao teatro. Ela telefonou para a pessoa em questão e lhe pediu que viesse aqui vê-la. Imagina que foi assim? Ela estava querendo brincar de detetive.

— Mais ou menos isso. Curiosidade. Ela guardou o que sabia para si mesma, mas queria saber ainda mais. Nem sequer imaginou que o que estava fazendo era perigoso — Poirot suspirou. — Tantas pessoas pensam que o crime é uma brincadeira. Não é nenhum brinquedo. Eu disse isso a ela. Mas ela não me escutou.

— Não, nós sabemos disto. Bem, isto se enquadra exatamente. Quando o jovem Robin saiu com a Sra. Oliver e deu uma corrida até em casa, a Sra. Upward estava acabando de falar no telefone com alguém. Ela não disse com quem era. Bancou a misteriosa. Robin e a Sra. Oliver pensaram que fosse você.

— Eu só queria que tivesse sido — disse Hercule Poirot.

— Vocês não têm idéia para quem foi que ela telefonou?

— Nenhuma. Os telefones são automáticos nesta região.

— A empregada não podia dar uma ajuda?

— Não. Ela chegou em casa ás dez e meia — tem uma chave da porta dos fundos. Foi direto para o seu quarto, que fica ao lado da cozinha, e foi para a cama. A casa estava ás escuras e ela calculou que a Sra. Upward tinha ido se deitar e que os outros ainda não tinham voltado.

Spence acrescentou:

— Ela é surda e meio extravagante. Não liga muito para o que acontece em torno dela — e eu imagino que faz o mínimo possível de trabalho com o máximo de resmungos.

— Não é uma daquelas velhas fiéis?

— Oh, não — ela está com os Upwards apenas há uns dois anos.

Um guarda passou a cabeça pela porta.

— Tem unia moça querendo vê-lo, senhor — disse ele. — Disse que há algo que o senhor precisa saber. Sobre a noite passada.

— Sobre a noite passada? Mande-a entrar.

Deirdre Henderson entrou. Ela estava pálida e cansada e, como sempre, muito desajeitada.

— Eu achei que talvez eu precisasse vir — disse ela. — Se eu não os estiver interrompendo em alguma coisa — acrescentou se desculpando.

— Absolutamente, Srta. Henderson.

Spence levantou-se e empurrou uma cadeira à frente. Ela se sentou muito reta, parecendo uma menina de escola.

— Algo sobre a noite passada? — disse Spence encorajador. — Sobre a Sra. Upward você quer dizer?

— Sim, é verdade, não é, que ela foi assassinada? O carteiro disse e o padeiro também. Mamãe disse, é lógico que não podia ser verdade... — ela fez uma pausa.

— Eu sinto muito mas nisto sua mãe está enganada. É verdade mesmo. Agora, você quer fazer uma... quer nos contar alguma coisa?

Deirdre fez que sim com a cabeça.

— Sim — disse ela. Sabe, eu estava lá.

Um outro ar perpassou as maneiras de Spence. Era, talvez, ainda mais delicado, mas uma certa rudeza oficial transparecia por baixo.

— Você estava lá — disse ele. — Em Laburnums. A que horas?

— Eu não sei exatamente — disse Deirdre. — Entre as oito e meia e as nove horas, suponho. Provavelmente perto das nove. Depois do jantar, em todo caso. Ela me telefonou.

— A Sra. Upward lhe telefonou?

— Sim. Ela disse que Robin e a Sra. Oliver iam ao teatro em Cullenquay e que ela ficaria sozinha e se eu não podia vir tomar um café com ela.

— E você foi?

— Sim.

— E você... tomou café com ela? Deirdre balançou a cabeça negativamente.

— Eu cheguei lá e bati. Mas ninguém respondeu. Então abri a porta e entrei no vestíbulo. Estava muito escuro e do lado de fora eu já vira que não havia nenhuma luz na sala de estar. Fiquei intrigada. Chamei "Sra. Upward" uma ou duas vezes mas não houve resposta. Então pensei que tinha havido um engano.

— Que engano você pensou que tivesse havido?

— Pensei que no final das contas talvez ela tivesse ido ao teatro com eles.

— Sem tê-la avisado?

— Isto me pareceu estranho.

— Não pensou em nenhuma outra explicação?

— Bem, pensei que talvez Frieda tivesse se enganado com a verdadeira mensagem. Ela se atrapalha de vez em quando. Ela é estrangeira. E estava muito excitada ontem à noite porque ia embora.

— O que foi que fez, Srta. Henderson?

— Fui embora.

— Voltou para casa?

— Sim... isto é... dei um pequeno passeio antes. A noite estava muito agradável.

Spence ficou em silêncio por um ou dois minutos, olhando para ela. Poirot reparou que ele estava olhando para a boca da Srta. Henderson.

Logo depois ele se levantou vivamente:

— Bem, muito obrigado, Srta. Henderson. Tinha toda a razão em vir nos falar. Nós lhe ficamos muito gratos.

Ficou de pé e deu-lhe um aperto de mão.

— Eu achei que devia — disse Deirdre. — Mamãe não queria.

— Ela não queria?

— Mas achei que seria melhor.

— Teve razão.

Ele a levou até a porta e voltou.

Sentou-se, tamborilou com os dedos na mesa e olhou para Poirot.

— Não tem batom — disse ele. — Ou é porque ainda é de manhã?

— Não, não é apenas porque é de manhã. Ela nunca usa.

— É estranho, hoje em dia, não?

— Ela é uma moça esquisita — subdesenvolvida.

— E não usa perfume também, eu procurei sentir algum cheiro. Aquela tal Sra. Oliver disse que havia um cheiro bem definido de perfume — perfume caro, diz ela — ontem á noite na casa. Robin Upward confirmou isto: não era dos perfumes que sua mãe usava.

— Não creio que esta moça use nenhum perfume — disse Poirot.

— Eu também não creio — disse Spence. — Ela me parece mais o capitão do time de alguma velha escola para moças — mas deve estar nos trinta, eu diria.

— Perto disso.

— Parou de se desenvolver, você disse?

Poirot refletiu. Então disse que não era tão fácil assim.

— Não se ajusta — disse Spence franzindo a testa. — Não tem batom, não tem perfume. E ainda tem uma mãe muito distinta, e a mãe de Lily Gamboll era uma desordeira bêbada em Cardiff quando Lily Gamboll tinha nove anos de idade. Mas... a Sra. Upward telefonou para ela ontem à noite — você não pode esconder este fato. — Ele esfregou o nariz. — Não estamos indo em frente.

— E sobre a evidência do médico?

— Não há muita ajuda lá. Tudo o que o cirurgião da Polícia vai dizer é que provavelmente ela já estava morta pelas nove e meia.

— Então ela podia já estar morta quando Deirdre Henderson esteve em Laburnums?

— Provavelmente estaria se a moça estiver falando a verdade. Ou está dizendo a verdade — ou então está muito comprometida. A mãe nío queria que ela viesse falar conosco, ela disse. O que acha disso?

Poirot considerou.

— Não necessariamente. É o que a Mamãe diria. Ela é do tipo, compreende, que procura evitar as chateações.

Spence suspirou.

— Então nós temos Deirdre Henderson ;— no local. Ou alguém que foi lá antes de Deirdre Henderson. Uma mulher. Uma mulher que usa batom e perfumes caros.

— Você vai investigar... Spence interrompeu-o.

— Eu estou investigando! Só que com muito tato no momento. Nós não queremos assustar ninguém. O que Eve Carpenter estava fazendo ontem à noite? O que é que Shelagh Rendell estava fazendo ontem à noite? Aposto dez contra um que elas estavam em casa. Carpenter, eu sei, tinha um comício político.

— Eve — disse Poirot pensativo. — Como muda a moda dos nomes, não? Raramente você ouve falar hoje em dia em uma Eve. Mas Eve é muito popular.

— Ela pode usar perfumes caros — disse Spence seguindo o seu próprio raciocínio.

Ele suspirou.

— Precisamos saber mais alguma coisa sobre o seu passado. E tão conveniente ser uma viúva de guerra. Você pode aparecer em qualquer lugar, tristonha e lamentando a morte de algum jovem e bravo piloto. Ninguém gosta de fazer perguntas.

Ele mudou de assunto.

— Aquele cortador de açúcar ou seja lá o que foi que você mandou — eu acho que acertou em cheio. Foi a arma usada no crime da Sra. McGinty. O médico concorda que é do tipo exato da que deu o golpe. E havia sangue nela. Foi lavado, é lógico — mas eles não sabem que, hoje em dia, mesmo uma quantidade microscópica de sangue reagirá com esses novos reagentes. Sim, é mesmo sangue humano. E isto novamente se coaduna com os Wetherbys e a moça Henderson. Ou não?

— Deirdre Henderson tinha certeza absoluta de que o cortador de açúcar foi doado ao Traga e Compre do Festival da Colheita.

— E a Sra. Summerhayes estava igualmente certa de que fora no Natal?

— A Sra. Summerhayes nunca está certa de coisa nenhuma

— disse Poirot sombrio. — Ela é uma criatura encantadora, mas não tem ordem, nem método em sua formação. Mas eu lhe digo uma coisa — eu, que morei em Long Meadows — qualquer um poderia entrar e apanhar qualquer coisa — as portas e as janelas vivem sempre abertas. Depois era só trazê-lo de volta sem que o Major Summerhayes ou a Sra. Summerhayes reparassem. Se não estivesse lá durante um dia, ela teria pensado que seu marido o levara para esquartejar um coelho ou para cortar madeira — e ele pensaria que ela o pegara para cortar a carne do cachorro. Naquela casa ninguém usa as ferramentas adequadas — eles passam a mão no que está por perto e o largam no lugar errado. E ninguém se lembra de nada. Se eu tosse obrigado a viver

ali, ficaria num estado contínuo de ansiedade — mas, eles -eles parecem nem ligar. Spence suspirou.

— Bem, pelo menos há alguma coisa boa nisto tudo — eles não executarão James Bentley até que este negócio se esclareça. Nós enviamos uma carta ao Gabinete do Secretário de Negócios Interiores. Isto nos dá o que estávamos querendo — tempo.

— Eu penso — disse Poirot — que gostaria de ver James Bentley outra vez — agora que já sei de mais alguma coisa.

 

James Bentley não mudara muito. Ele estava talvez um pouco mais magro, suas mãos estavam mais agitadas — se não fosse por isto ele seria a mesma criatura calma e desesperançada.

Hercule Poirot falou cautelosamente. Havia novos indícios. A Polícia estava reabrindo o caso. De agora em diante, havia esperança...

Mas James Bentley não se deixou atrair pela esperança.

Ele disse:

— Não vai adiantar nada. O que é que eles podem achar mais?

— Seus amigos — disse Hercule Poirot — estão trabalhando com afinco.

— Meus amigos? — ele deu de ombros. — Eu não tenho amigos.

— Você não devia dizer isto. Você tem, pelo menos, dois amigos.

— Dois amigos? Gostaria de saber quem são eles.

O tom de sua voz não demonstrava a curiosidade pela informação, apenas um ceticismo deprimido.

— Primeiro, há o Superintendente Spence...

— Spence? Spence? O Superintendente da Polícia que formulou o caso contra mim? É quase cômico.

— Não é cômico. É uma sorte. Spence é um oficial de polícia muito sagaz e consciencioso. Ele gosta de ter certeza de ter agarrado o homem certo.

— Ele pode ter certeza disto.

— Por mais estranho que pareça, ele não tem certeza. E por isso, como eu lhe disse, que ele é seu amigo.

— Que tipo de amigo!

Hercule Poirot esperou. Mesmo James Bentley, pensou ele, devia ter algumas qualidades humanas. Mesmo James Bentley não podia ser totalmente destituído da comum curiosidade humana.

E, na verdade, logo James Bentley perguntou:

— Bem, e quem é o outro?

— O outro é Maude Williams.

Bentley pareceu não reagir.

— Maude Williams? Quem é ela?

— Ela trabalhava no escritório de Breather & Scuttle.

— OH!... aquela Srta. Williams.

— Précisement, a Srta. Williams.

— Mas o que tem isto a ver com ela?

Havia momentos em que Hercule Poirot achava a personalidade de James Bentley tão desagradável que ele ardentemente desejava acreditar na culpabilidade de Bentley no assassinato da Sra. McGinty. Infelizmente quanto mais Bentley o aborrecia, mais difícil se tornava imaginá-lo assassinando alguém. A atitude de James Bentley com respeito ao crime havia de ser — pensou Poirot — de que não era uma coisa que valesse muito a pena. Se vaidade, como insistia Spence, fosse uma das características dos criminosos, Bentley certamente não seria um deles.

Contendo-se, Poirot disse:

— A Srta. Williams interessou-se neste caso. Ela está convencida de que você é inocente.

— Eu não sei como é que ela pode saber.

— Ela conhece você.

James Bentley pestanejou. Disse com má vontade:

— Conhecer ela conhece, mas muito mal.

— Vocês trabalharam juntos no escritório, não foi? Vocês almoçaram juntos algumas vezes, não?

— Bem... sim... uma ou duas vezes. No café Gato Azul, é muito prático — fica do outro lado da rua.

— Você nunca saiu com ela a passeio?

— Para falar com franqueza, nós passeamos uma vez. Subimos até as dunas.

Hercule Poirot explodiu.

— Ma foi! É um crime que eu estou querendo que você confesse? Sair com uma moça bonita não é normal? Não é agradável? Você não ficou satisfeito consigo mesmo?

— Eu não vejo por quê — disse James Bentley.

— Na sua idade é natural e correto apreciar a companhia das moças.

— Eu não conheço muitas moças.

— Ça se voit! Mas você devia era ter vergonha disto, em vez de ficar cheio de si! Você conhecia a Srta. Williams. Trabalhou com ela e conversou com ela e uma vez foram até as dunas para um passeio. E quando eu a mencionei, você nem se lembra de seu nome!

James Bentley corou..

— Bem, o senhor sabe... Nunca tive muito em comum com moças. E ela não é o que o senhor pode chamar de uma dama, não é? Oh, é muito distinta — e tudo o mais — mas eu não posso deixar de sentir que mamãe a acharia muito vulgar.

— E o que você pensa que interessa. Novamente James Bentley corou.

— O cabelo dela — disse ele. — E o tipo de roupas que usa... Mamãe, é lógico, era muita antiquada...

Ele se interrompeu.

— Mas você achava a Srta. Williams — como eu devo dizer? — simpática?

— Ela sempre foi muito gentil — disse James Bentley lentamente. — Mas ela não... realmente... não compreendia. Sua mãe morreu quando ela era apenas uma criança, sabe?

— E então você perdeu o emprego — disse Poirot. — Não conseguiu arranjar outro. A Srta. Williams encontrou-se com você uma vez em Broadhinny, eu creio?

James Bentley parecia aflito.

— Sim... sim. Ela tinha ido lá a negócios e me mandou um cartão. Pediu que eu a encontrasse. Eu não sabia por quê. Era como se eu a conhecesse muito bem,

— Mas você se encontrou com ela?

— Sim, eu não quis parecer grosseiro.

— E levou-a a um cinema ou para comer qualquer coisa? James Bentley olhou-o escandalizado.

— Oh, não, nada disto... Nós... er... nós só conversamos enquanto ela estava esperando o ônibus.

— Ah, como deve ter sido divertido para a pobre moça!

James Bentley disse vivamente:

— Eu não tinha dinheiro nenhum. Deve se lembrar. Eu não tinha um único tostão.

— É claro. Foi alguns dias antes da morte da Sra. McGinty, não foi?

James Bentley fez que sim. Disse inesperadamente:

— Sim. foi numa segunda-feira. Ela foi morta na quarta-feira.

— Eu vou lhe fazer uma pergunta, Sr. Bentley. A Sra. McGinty recebia o Sunday Companion!

— Recebia.

— Você via algumas vezes o jornal dela?

— Ela costumava mo oferecer mas eu quase nunca aceitava. Mamãe não gostava muito daquele tipo de jornal.

— Então você não viu o Sunday Companion daquela semana?

— Não.

— E a Sra. McGinty não lhe falou sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa?

— Oh, sim, ela falou — disse James Bentley inesperadamente. — Fila falou até demais!

— Ah la la! — fez Poirot. — Então ela falou até demais. E o que foi que ela disse? Cuidado. Isto é importante.

— Eu não me lembro muito bem agora. Era tudo sobre um velho caso de assassinato. Craig, eu acho que era — não, talvez não fosse Craig,' De qualquer jeito, ela disse que alguém ligado a este caso estava vivendo agora em Broadhinny. Falou até demais, se falou! Eu não pude entender o que é que ela tinha a ver com isto.

— Ela disse que era — em Broadhinny? James Bentley disse vagamente:

— Acho que era aquela mulher que tem um filho que escreve peças de teatro.

— Ela o mencionou pelo nome?

— Não... eu... realmente, foi há tanto tempo.

— Eu lhe imploro — tente pensar. Você quer ser livre outra vez, não quer?

— Livre? — Bentley pareceu surpreso.

— Sim, livre.

— Eu... sim... eu creio que sim...

— Então pensei O que foi que a Sra. McGinty disse?

— Bem... foi alguma coisa assim como... "tão satisfeita com ela própria e tão orgulhosa. Não teria tanto orgulho se todos soubessem o que aconteceu”. E que a gente nunca poderia imaginar que era a mesma mulher da fotografia. Mas é claro que a foto tinha sido feita muitos anos atrás.

— Mas o que foi que o fez ter certeza de que era sobre a Sra. Upward que ela estava falando?

— Realmente eu não sei... Apenas tive esta impressão. Ela estava falando sobre a Sra. Upward — e então eu perdi o interesse na conversa e não escutei o resto... bem, agora, pensando nisto, eu fico mesmo sem saber de quem era que ela estava falando. Ela falava um bocado, o senhor sabe.

Poirot suspirou.

Disse: — Eu mesmo não creio que fosse da Sra. Upward que ela estava falando. Penso que deve ter sido de outra pessoa. E um disparate que você seja enforcado porque não presta atenção quando as pessoas falam com você... A Sra. McGinty falava muito das outras casas em que ela trabalhava, ou das patroas dessas casas?

— Sim, de uma certa forma — mas não adianta me perguntar. O senhor parece não compreender, Sr. Poirot, que eu tinha a minha própria vida para cuidar nesta época. Eu estava muito preocupado.

— Não tão preocupado como devia estar agora! A Sra. McGinty falava da Sra. Carpenter — ela era a Sra. Selkirk nesta época — ou da Sra. Rendeu?

— Carpenter tem aquela casa nova no alto da colina e um carro grande, não é? Ele estava noivo da Sra. Selkirk — a Sra. McGinty falava muito mal da Sra. Carpenter. Eu não sei por quê. "Uma cavadora" era como ela costumava chamá-la. Eu não sei o que ela queria dizer com isto.

— E os Rendells?

— Ele é o médico, não é? Não me recordo dela falando qualquer coisa especial sobre eles.

— E os Wetherbys?

— Destes eu me lembro o que ela falava — James Bentley parecia satisfeito consigo mesmo. —"Não tenho paciência com os espalhafatos e as besteiras dela", era o que ela dizia. E sobre ele: "Nunca me disse uma palavra, nem boa, nem ruim". Ele tez uma pausa: — Ela dizia... que era uma casa infeliz.

Hercule Poirot levantou os olhos. Por um segundo a voz de James Bentley demonstrou algo que Poirot ainda não havia percebido antes. Ele não estava repetindo obedientemente o que evocava. Sua mente, por um breve instante, saíra de sua apatia.

James Bentley estava pensando em Hunter's Close, da vida que se desenrolava ali e se era ou não uma casa infeliz. James Bentley pensava objetivamente. Poirot disse suavemente:

— Você os conhecia? O pai? A mãe? A filha?

— Na verdade, não. Foi o cachorro. Um Sealyham. Ele ficou preso numa armadilha. Ela não conseguia soltá-lo. Eu a ajudei.

Havia outra vez algo de novo no tom de Bentley. — Eu a ajudei — ele dissera, e nestas palavras havia um leve eco de orgulho.

Poirot lembrou-se de que a Sra. Oliver lhe contara sobre a conversa com Deirdre Henderson.

Disse com gentileza:

— Vocês conversaram?

— Sim. Ela... a mãe dela sofreu muito, ela me contou. Ela gostava muito da mãe.

— E você lhe falou sobre a sua?

— Sim — disse Bentley com simplicidade. Poirot não disse nada. Esperou.

— A vida é muito cruel — disse James Bentley. — Muito injusta. Algumas pessoas não conseguem nunca um pouquinho de felicidade.

— É possível — disse Hercule Poirot.

— Eu não creio que ela seja feliz, a Srta. Wetherby.

— Henderson.

— Oh, sim. Ela me disse que tinha um padrasto.

— Deirdre Henderson — disse Poirot. — Deirdre de Todas as Mágoas. Um nome lindo — mas a moça não é bonita, não acha?

James Bentley corou. - Eu achei — disse ele — que ela era muito atraente...

 

AGORA escute o que eu vou dizer — disse a Sra. Sweetiman.

Edna fungou. Ela estava escutando a Sra. Sweetiman já há algum tempo. Tinha sido uma conversa inútil, que sempre voltava ao ponto de partida. A Sra. Sweetiman dissera as mesmas coisas várias vezes, variando a fraseologia, um pouquinho, quase nem isso... Edna fungara, e por vezes chorara, reiterando as suas duas únicas contribuições à discussão: primeiro, que ela não faria isto nunca! Segundo, que seu pai a esfolaria viva!

— Pode ser que esfole — disse a Sra. Sweetiman — mas um crime é um crime, e o que você viu, você viu, e não pode deixar de falar.

Edna fungou.

— E o que você devia fazer...

A Sra. Sweetiman se interrompeu e foi cuidar da Sra. Wetherby que entrara á procura de agulhas de tricô e mais um novelo de lã.

— Faz tempo que não a vejo, senhora — disse a Sra. Sweetiman animadamente.

— Não, eu não tenho andado muito bem ultimamente -disse a Sra. Wetherby. — É o coração, a senhora sabe — ela suspirou profundamente. — Eu preciso ficar muito tempo em repouso.

Ouvi dizer que finalmente a senhora conseguiu uma empregada — disse a Sra. Sweetiman. A senhora deve preferir agulhas escuras para esta lã clara.

— Sim. Até agora parece muito eficiente e cozinha até bem, mas que modos! E a aparência! Cabelo oxigenado e os vestidos apertadíssimos!

— Ah! — disse a Sra. Sweetiman. — Estas moças não são mais treinadas no serviço hoje em dia. Minha mãe, ela começou a trabalhar com treze anos e acordava todos os dias às quinze para as cinco da madrugada. Governanta da casa, foi como ela terminou, com três empregadas às suas ordens. E as treinava muito bem, também! Mas não há mais disto hoje em dia. As moças não são mais ensinadas em nossos dias — elas apenas são educadas, como a Edna.

Ambas olharam para Edna, que estava encostada na caixa do correio, fungando e chupando uma pastilha de hortelã, parecendo completamente apática. Como um exemplo para a educação, dificilmente ela daria crédito ao sistema educacional moderno.

— Foi terrível sobre a Sra. Upward, não foi? — continuou a Sra. Sweetiman em tom de conversa, enquanto a Sra. Wetherby escolhia entre as diversas cores de agulhas.

— Pavoroso — disse a Sra. Wetherby. — Eles nem ousaram me contar tudo. E quando me contaram afinal, eu tive as piores palpitações. Eu sou tão sensível.

— Foi um choque para todos nós — disse a Sra. Sweetiman. - E para o jovem Sr. Upward, ele ficou muito abalado. Ficou arrasado, foi o que a escritora disse, até que o médico lhe deu um sedativo ou algo assim. Ele foi para Long Meadows, pagando pensão, pois não agüentava mais ficar em casa — e eu não o culpo. Janet Groom foi para a casa de sua sobrinha e a Polícia ficou com a chave. A senhora que escreve livros sobre crimes foi embora para Londres, mas vai voltar para o inquérito judicial.' A Sra. Sweetiman deu todas estas informações com prazer. Ela se orgulhava de ser bem informada. A Sra. Wetherby, cujo desejo de ter agulhas de tricô tora suplantado pelo desejo de saber o que se passava, pagou sua compra.

— Foi tão perturbador — disse ela. — Faz com que toda a cidade se torne perigosa. Deve haver algum maníaco por aqui. Quando eu penso que a minha própria filha querida tinha saído naquela noite, que ela própria talvez tosse atacada ou morta... — a Sra. Wetherby fechou os olhos e titubeou. A Sra. Sweetiman observou-a com interesse mas sem alarme. A Sra. Wetherby abriu outra vez os olhos e disse com dignidade:

— Este lugar precisava ser policiado. As pessoas jovens não deviam sair depois de escurecer. E todas as portas deviam ser trancadas e aferrolhadas. A senhora sabe que lá em Long Meadows, a Sra. Summerhayes nunca tranca nenhuma das portas. Nem mesmo a noite. Ela deixa a porta dos fundos e a janela da sala de estar abertas para que os gatos e os cachorros possam entrar e sair. Eu mesma acho que seja uma loucura completa, mas ela diz que sempre fez assim, e que se os ladrões quiserem entrar, a casa está às ordens.

— Eu calculo que não haja em Long Meadows muita coisa para um ladrão carregar — disse a Sra. Sweetiman.

A Sra. Wetherby balançou a cabeça tristemente e saiu com sua compra.

A Sra. Sweetiman e Edna continuaram sua discussão.

— Não adianta nada você querer achar que sabe tudo — disse a Sra. Sweetiman. — Direito é direito e crime é crime. Diga a verdade e o resto que vá para o diabo. É isto que eu digo sempre.

— Papai vai me esfolar viva, eu sei, eu sei que ele vai — disse Edna.

— Eu falo com seu pai — disse a Sra. Sweetiman.

— Eu não poderei nunca... — disse Edna.

— A Sra. Upward morreu — disse a Sra. Sweetiman —, e você sabe uma coisa que a Polícia não sabe. Você é empregada da agência dos correios, não é? E uma funcionária do Governo. Tem de cumprir o seu dever. Precisa ir falar com Bert Hayling...

Os soluços de Edna recomeçaram.

— Para Bert não, eu não posso. Como é que eu vou falar com Bert? Todo mundo vai ficar sabendo.

A Sra. Sweetiman disse com hesitação:

— Tem o cavalheiro estrangeiro...

— Um estrangeiro não, eu não posso. Um estrangeiro não...

— Não, talvez você tenha razão...

Um automóvel parou na frente dos correios com um guinchar de freios.

O rosto da Sra. Sweetiman se iluminou.

— Olha aí o Major Summerhayes. Você pode contar a ele e ele lhe dirá o que fazer.

— Eu também não posso — disse Edna, porém com menos convicção.

Johnnie Summerhayes entrou no correio vacilando sob o peso de três caixas de papelão.

—Bom dia, Sra. Sweetiman — disse ele alegremente. — Eu espero que estes não estejam com excesso de peso.

A Sra. Sweetiman cuidou dos pacotes com toda a sua capacidade oficial. Enquanto Summerhayes estava lambendo os selos, ela falou:

— Desculpe, senhor. Eu gostaria de lhe pedir um conselho.

— Sim, Sra. Sweetiman?

— Sabendo que o senhor é daqui, e que deve saber melhor do que nós o que fazer.

Summerhayes concordou com a cabeça. Ele era sempre muito sensível em relação ao espírito feudal que ainda permanecia nas aldeias inglesas. O povo dali sabia muito pouco sobre ele pessoalmente, mas como seu pai e seu avô e muitos de seus bisavôs e tataravôs tinham vivido em Long Meadows, eles o olhavam como se ele devesse aconselhá-los e dirigi-los quando fosse solicitado.

— É sobre a Edna — disse a Sra. Sweetiman. Edna fungou.

Johnnie Summerhayes olhou para Edna em dúvida. Nunca, pensou ele, tinha visto uma moça menos sedutora. Exatamente como um coelho esfolado. Parecia meio retardada também. Certamente ela não poderia estar como diziam oficialmente — com um problema. Mas não, a Sra. Sweetiman não iria pedir a sua opinião sobre isto.

— Bem — disse ele gentilmente —, qual é o problema?

— É sobre o crime, senhor. Na noite do crime, Edna viu alguma coisa.

Johnnie Summerhayes olhou de Edna para a Sra. Sweetiman e novamente para Edna.

— Que foi que você viu, Edna?

Edna começou a soluçar. A Sra. Sweetiman tomou a palavra.

— É claro que a gente vem ouvindo o que os outros dizem, não é? Alguns são boatos falsos, mas outros são verdadeiros. Disseram que uma senhora tomou café com a Sra. Upward naquela noite. Não foi assim, senhor?

— Sim, eu creio que sim.

— Eu sei que é verdade, porque quem nos disse foi Bert Hayling.

Albert Hayling era um delegado local, a quem Summerhayes conhecia bem. Um homem de fala mansa e consciente de sua própria importância.

— Pois bem? — disse Summerhayes.

— Mas eles não sabem quem era a senhora, não é? Bem, Edna a viu.

Johnnie Summerhayes olhou para Edna. Ele apertou os lábios como se fosse assobiar.

— Você a viu, Edna? Entrando — ou saindo?

— Entrando — disse Edna. Um leve sentimento de importância soltou-lhe a língua. — Eu estava do outro lado da estrada, embaixo das árvores. Logo naquela curva do caminho, que é mais escura. Eu a vi. Ela entrou pelo portão e foi até a porta e ficou parada ali um pouquinho, e então — então ela entrou.

Johnnie Summerhayes desfez as rugas na testa.

— Foi isto mesmo — disse ele. — Foi a Srta. Henderson. A Polícia sabe de tudo. Ela foi até eles e contou.

Edna balançou a cabeça.

— Não era a Srta. Henderson — disse ela.

— Não era... quem era então?

— Eu não sei. Eu não vi o rosto dela. Estava de costas para mim, enquanto estava andando pela trilha e quando ficou parada. Mas não era a Srta. Henderson.

— Mas como é que você sabe que não era a Srta. Henderson se você não viu seu rosto?

— Porque ela tinha cabelos louros. E a Srta. Henderson é morena.

Johnnie Summerhayes olhou-a incrédulo.

— Era uma noite muito escura. Dificilmente você poderia ver bem a cor dos cabelos de alguém.

— Mas eu vi. A luz estava por cima da pérgula. Estava acesa porque o Sr. Robin e a senhora-detetive tinham ido juntos ao teatro. E ela ficou parada mesmo debaixo da luz. Ela estava com um casaco escuro, não tinha chapéu, e os cabelos brilhavam, muito, muito louros. Eu vi.

Johnnie deu um assobio baixo. Seus olhos agora estavam sérios.

— A que horas foi? — perguntou ele.

Edna fungou.

— Eu não sei muito bem.

— Você devia saber que horas eram — disse a Sra. Sweetiman.

— Ainda não eram nove horas. Eu escutei a igreja. E era depois das oito e meia.

— Entre oito e meia e nove horas. Quanto tempo ela ficou lá?

— Eu não sei não, senhor. Porque eu não esperei. E não ouvi nada. Nenhum gemido ou grito ou nada parecido.

Edna parecia ligeiramente magoada.

Mas não haveria gemidos, nem gritos, Johnnie Summerhayes sabia disto. Ele disse gravemente:

— Bem, só há uma coisa a fazer. A Polícia precisa saber disto.

Edna explodiu numa série de soluços e fungos.

— Papai vai me esfolar viva — choramingou ela. — Ele vai, tenho certeza que vai.

Ela lançou um olhar implorante para a Sra. Sweetiman e sumiu no quarto dos fundos. A Sra. Sweetiman tomou conta da situação com competência.

— É mais ou menos isto, senhor — disse ela em resposta ao olhar interrogatório de Summerhayes. — Edna vem-se comportando como uma criança. O pai dela é muito severo, mas a gente não sabe o que é melhor hoje em dia. Há um rapaz muito distinto em Cullavon, e ele e Edna estão com um namoro firme e até o pai estava satisfeito, mas Reg é meio encabulado, e o senhor sabe como são essas moças... Edna está de namoro com Charlie Masters.

— Masters? Um dos homens do fazendeiro Cole, não é?

— Este mesmo, senhor. Trabalha na fazenda. E é um homem casado com dois filhos. Ele vive atrás das moças, e é um mau-caráter completo. Edna não tem juízo nenhum, e o pai dela resolveu pôr um freio. Muito bem. Então, veja o senhor, Edna ia para Cullavon naquela noite para ir ao cinema com Reg — pelo menos foi o que ela disse ao pai. Mas na verdade, ela ia era se encontrar com este Masters. Esperou por ele, foi o que ela disse, na curva da estrada onde estavam acostumados a se encontrar. Bem, ele não apareceu. Talvez a mulher não o tenha deixado sair de casa, ou talvez ele já esteja atrás de outra moça, mas foi isto o que aconteceu. Edna esperou e depois desistiu. Mas fica meio sem jeito para ela, como vê, explicar o que estava fazendo lá, quando devia ter tomado o ônibus para Cullavon.

Johnnie Summerhayes balançou a cabeça. Reprimindo o pensamento inoportuno de que Edna — assim tão insossa — tivesse o encanto suficiente para atrair sexualmente a atenção de dois homens, ele pôs-se a pensar no aspeto prático da situação.

— Ela não quer ir falar com Bert Hayling sobre isto — disse ele com rápida compreensão.

— Isto mesmo, senhor!

— Sinto muito, mas acho que a Polícia precisa saber — disse gentilmente.

— Foi isto que eu disse a ela — disse a Sra. Sweetiman.

— Mas eles serão muito discretos em relação... ahn... às circunstâncias. Provavelmente ela não precisará apresentar provas. E o que ela disse, eles manterão em segredo. Posso dar um telefonema para Spence e pedir-lhe que venha aqui — não, melhor ainda, levarei a jovem Edna até Kilchester comigo no carro. Se ela for à delegacia de lá, ninguém precisa saber de nada por aqui. Vou apenas telefonar para avisar que estamos indo.

E foi então, depois de uma breve chamada telefônica, que a chorosa Edna, com o casaco todo abotoado e encorajada por um tapinha cordial nas costas dado pela Sra. Sweetiman, entrou na camioneta e foi rapidamente levada em direção a Kilchester.

 

Hercule poirot estava no escritório do Superintendente Spence em Kilchester. Estava recostado numa cadeira, os olhos fechados, as pontas dos dedos encostadas umas nas outras.

O Superintendente recebeu alguns relatórios, deu instruções a um sargento e, por fim, olhou para o outro homem.

— Recebendo uma inspiração, Monsieur Poirot? — perguntou ele.

— Eu reflito — disse Poirot. — Eu revejo.

— Esqueci de perguntar. Conseguiu alguma coisa útil de Bentley quando foi vê-lo?

Poirot balançou a cabeça. Franziu a testa.

Na verdade era sobre James Bentley que ele estava pensando.

Era desagradável, pensou Poirot exasperado, que num caso como este em que ele oferecera seus serviços de graça, apenas pela amizade e o respeito que tinha por um oficial de polícia íntegro, que a vítima das circunstâncias tinha de ser tão desprovida de um apelo romântico. Se fosse ainda uma linda mocinha, desorientada e inocente, ou um belo rapaz, também embaraçado, mesmo que tivesse "uma cabeça quente porém indômita", pensou Poirot que ultimamente andara lendo um bocado de poemas ingleses numa antologia... Ao invés disto, ele tinha James Bentley! Um caso patológico, se fôssemos examinar bem, uma criatura egocêntrica, que nunca pensara em ninguém a não ser nele próprio. Um homem ingrato aos esforços que estavam sendo feitos para salvá-lo — quase, podia-se dizer, desinteressado deles...

Realmente, pensou Poirot, nós podíamos deixá-lo ser enforcado, pois ele parece nem estar ligando...

Não, também ele não iria tão longe assim.

A voz do Superintendente Spence quebrou suas reflexões.

— Nossa entrevista — disse Poirot — foi, por assim dizer, singularmente improdutiva. Qualquer coisa útil que aquele Bentley pudesse lembrar, ele não lembra — do que ele se lembra é tão vago e incerto que a gente não pode se basear. Mas de qualquer forma me parece muito provável que a Sra. McGinty estava muito excitada com o artigo do Sunday Companion e falou com Bentley fazendo referências especiais a alguém relacionado com o caso vivendo em Broadhinny.

— Com qual caso? — perguntou o Superintendente Spence vivamente.

— Nosso amigo não tem certeza — disse Poirot. — Ele diz, meio em dúvida, que era o caso Craig — mas como o caso Craig era o único de que ele já ouvira falar, seria, possivelmente, o único de que ele se lembraria. Mas o alguém era uma mulher. Ele citou mesmo as palavras da Sra. McGinty. Alguém que “não teria tanto orgulho se todos soubessem o que aconteceu".

— Orgulho!

— Mais oui — Poirot abanou a cabeça apreciativo. — Uma palavra sugestiva, não acha?

— Nenhuma pista sobre quem era a senhora orgulhosa?

—Bentley sugeriu a Sra. Upward — mas até onde saiba sem nenhuma razão concreta!

Spence balançou a cabeça.

— Provavelmente porque ela era uma mulher autoritária e orgulhosa — preeminente, eu diria. Mas não pode ter sido a Sra. Upward, porque ela está morta e pela mesma razão que a Sra. McGinty morreu — porque reconheceu uma fotografia. Poirot disse com tristeza:

— Eu a avisei.

Spence murmurou irritado:

— Lily Gamboll! No que diz respeito à idade, só há duas possibilidades, a Sra. Rendell e a Sra. Carpenter. Eu não conto a moça Henderson — ela tem antecedentes.

— E as outras não têm? Spence suspirou.

— O senhor sabe como são as coisas em nossos dias. A guerra mexeu com todos e com tudo. A escola autorizada onde estava Lily Gamboll foi destruída junto com todos os arquivos por um golpe certeiro durante um bombardeio. Veja com as pessoas. A coisa mais difícil do mundo é investigar pessoas. Veja Broadhinny — as únicas pessoas em Broadhinny sobre quem sabemos alguma coisa são os Summerhayes, que estão lá há trezentos anos, e Guy Carpenter, que é um dos engenheiros-chefes da Carpenter. Todos os outros são — como direi? — transitórios? O Dr. Rendell está no Registro dos Médicos e sabemos onde estudou e estagiou, mas não sabemos quais os seus antecedentes familiares. Sua esposa veio de perto de Dublin. Eve Selkirk, antes de se casar com Guy Carpenter, era uma linda viuvinha de guerra. Qualquer uma pode ser uma linda viuvinha de guerra. Veja os Wetherbys — parece que flutuaram em volta do mundo, aqui, ali, em todo canto. Por quê? Há alguma razão? Será que ele deu algum desfalque num banco? Ou será que causaram algum escândalo? Eu não digo que é impossível investigar as pessoas. Poder nós podemos, mas leva tempo. As próprias pessoas não ajudam.

— Porque quase todos têm algo a esconder — mesmo que não seja um crime — disse Poirot.

— Exatamente. Pode ser um problema com a lei, ou uma origem humilde, ou um escândalo comum e vulgar. Mas seja o que for, eles tomam um cuidado dos diabos em esconder — e isto dificulta as descobertas.

— Mas nada é impossível.

— Oh, não. Nada é impossível. Como eu disse, se Lily Gamboll está em Broadhinny, ela é ou Eve Carpenter ou Shelagh Rendell. Eu as interroguei — rotina — foi o que eu disse a elas. Ambas estavam em casa — sozinhas. A Sra. Carpenter era a inocente de olhos arregalados, a Sra. Rendell estava nervosa — mas ela é do tipo nervoso, não se pode negar.

— Sim — disse Poirot pensativo —, ela é do tipo nervoso. Ele estava pensando na Sra. Rendell nos jardins de Long

Meadows. A Sra. Rendell recebera uma carta anônima, ou pelo menos foi o que ela dissera. Ele ficou imaginando como já imaginara antes sobre esta declaração... Spence continuou:

— E nós temos de ser cuidadosos — porque mesmo que uma seja culpada, a outra é inocente.

— E Guy Carpenter é um membro em perspectiva do Parlamento e é uma figura local importante.

— Isto não o ia ajudar se ele fosse culpado de um crime ou mesmo cúmplice — disse Spence inflexível.

— Sei disso. Mas você precisa ter certeza, não precisa?

— É isto mesmo. De qualquer forma, o senhor concorda comigo, que está entre as duas?

Poirot suspirou.

— Não... não... eu não diria isto. Há outras possibilidades.

— Tais como?

— Por que as pessoas guardam fotografias?

— Por quê? Só Deus sabe! Porque as pessoas guardam coisas — bobagens — restos, pedaços, bocados. Guardam — não há que negar.

— Concordo com você até certo ponto. Algumas pessoas guardam coisas. Outras pessoas jogam fora tudo, assim que" acabaram de usá-las. Sim, aliás é uma questão de temperamento. Mas eu estou falando especialmente de fotografias. Por que as pessoas guardam, principalmente, fotografias!

— Como eu disse, apenas porque não jogam as coisas fora. Ou talvez porque lhes lembre...

Poirot pegou a deixa:

— Exatamente. Porque lhes lembra. Agora eu pergunto outra vez — por quê? Por que uma mulher guarda um retrato dela quando era moça? E eu lhe digo que a primeira razão é, essencialmente, a vaidade. Ela foi uma moça bonita e guarda um retrato para lembrar-se de como era bonita. Isto a encoraja quando o seu espelho lhe diz coisas amargas. Ela diz, talvez, para uma amiga: "Era eu quando tinha dezoito anos..." e ela suspira... De acordo?

— Sim... sim, acho que isto é verdade.

— Então eis o motivo n° 1. Vaidade. Agora, o motivo nº 2. Sentimento.

— Não é a mesma coisa?

— Não, não é bem a mesma coisa. Porque isto faz guardar não apenas a sua própria fotografia como a de alguém mais... Um retrato de sua filha casada — quando ela era uma criança sentada num tapete em frente à lareira toda cercada de filo.

— Eu já vi destas — careteou Spence.

— Sim. Muito desconcertantes para a própria pessoa algumas vezes, mas as mães gostam muito. E filhos e filhas guardam retratos de suas mães, especialmente se a mãe morreu muito moça. "Minha mãe era assim quando mocinha”.

— Eu estou começando a perceber aonde o senhor quer chegar, Monsieur Poirot.

— E há ainda, provavelmente, uma terceira categoria. Não é vaidade, não é sentimento, não é amor — talvez ódio — o que diz você?

— Ódio?

— Sim. Guardar para manter viva a vingança. Alguém que o insultou — você guardaria uma fotografia para se lembrar ou não?

— Mas certamente isto não se aplicaria neste caso?

— Por que não?

— Em quem o senhor está pensando? Poirot murmurou:

— Relatos de jornais são muitas vezes falsos. O Sunday Companion afirmava que Eva Kane era empregada dos Craigs como governanta das crianças. Era este mesmo o caso?

— Sim, era. Mas nós estamos trabalhando na suposição de que estamos á procura de Lily Gamboll.

Poirot sentou-se rapidamente muito espigado em sua cadeira. Apontou um dedo imperioso para Spence.

— Olhe. Olhe para a fotografia de Lily Gamboll. Ela não é bonita — não! Francamente, com estes dentes e esses óculos ela é abominavelmente feia. Então ninguém ia guardar esta foto pela primeira das nossas razões. Mulher alguma guardaria esta foto por vaidade. Se Eve Carpenter ou Shelagh Rendell, que são ambas mulheres bonitas, especialmente Eve Carpenter, tivesse esse retrato consigo, o teria rasgado em mil pedaços antes que alguém pudesse vê-lo!

— Bem, até aí o senhor tem razão.

— Então, o motivo nº 1 está de fora. Agora vejamos o sentimento. Alguém gostava de Lily Gamboll nesta idade? O problema todo de Lily Gamboll era que ninguém gostava dela. Ela era uma criança desprezada e indesejada. Quem gostava mais dela era a tia, e esta tia morreu debaixo da machadinha. Então não pode ser por sentimento que se guarda esta fotografia. E vingança? Ninguém a odiava entretanto. A tia assassinada era uma mulher solitária, sem um marido ou um amigo mais chegado. Ninguém tinha ódio pela pobre criança favelada — apenas piedade.

— Olhe aqui, Monsieur Poirot, o que o senhor está querendo dizer é que ninguém teria guardado esta fotografia.

— Exatamente — este foi o resultado de minhas reflexões.

— Mas alguém guardou. Porque a Sra. Upward a viu.

— Será que viu?

— Ora, dane-se! Foi o senhor quem me disse. Ela falou com o senhor.

— Sim, ela me disse isso — disse Poirot. — Mas a finada Sra. Upward era, em muitas formas, uma mulher misteriosa. Ela gostava de resolver as coisas à sua maneira. Mostrei as fotografias e ela reconheceu uma delas. Mas então, por alguma razão, quis guardar a identificação para si mesma. Digamos que ela queria contornar a situação da maneira que a agradasse. E então, tendo muita presença de espírito, ela deliberadamente apontou para a foto errada. Guardando assim o seu próprio segredo.

— Mas por quê?

— Porque, como eu já lhe disse, ela queria jogar esta partida sozinha.

— Não seria chantagem? Ela era uma mulher muito rica, o senhor sabe. Viúva de um industrial do Norte do país.

— Oh, não! Não era chantagem. Talvez mais por beneficência. Digamos que ela gostasse muito da pessoa em questão, e que não quisesse revelar-lhe o segredo. Mas de qualquer jeito ela ficou curiosa. Pretendia ter uma conversa em particular com esta pessoa. E ao fazer isto, certificar-se se a pessoa tinha ou não alguma coisa a ver com a morte da Sra. McGinty. Algo assim.

— Então isto nos deixa apenas com três fotos?

— Precisamente. A Sra. Upward tencionava falar com esta pessoa na primeira oportunidade. Então aconteceu que seu filho e a Sra. Oliver foram ao Teatro do Repertório em Cullenquay.

— E ela telefonou para Deirdre Henderson. Isto deixa Deirdre Henderson completamente em foco. E sua mãe!

O Superintendente Spence balançou a cabeça tristemente para Poirot.

— O senhor gosta de tornar as coisas difíceis, não gosta, Monsieur Poirot? — disse ele.

 

A sra. wetherby voltou para casa ao sair dos correios com um andar surpreendentemente lépido para alguém considerado normalmente inválido.

Apenas quando entrou pela porta da frente, ela se arrastou dèbilmente para a sala de estar e deixou-se cair no sofá.

A campainha estava ao alcance de suas mãos e ela a tocou.

Como não acontecesse nada, ela tocou outra vez, desta vez mantendo o dedo apertado durante algum tempo.

No devido tempo apareceu Maude Williams. Estava usando uni aventai florido e tinha um espanador nas mãos.

A senhora chamou?

— Eu chamei duas vezes. Quando toco a campainha espero que alguém venha imediatamente. Posso estar perigosamente doente.

— Sinto muito, senhora. Eu estava lá em cima.

— Sei que estava. Você estava em meu quarto. Eu a ouvi daqui. E estava abrindo e fechando as gavetas. Não faz parte do seu emprego andar espionando as minhas coisas.

— Eu não estava espionando suas coisas. Estava arrumando as coisas que a senhora deixou espalhadas.

— Tolice! Todas vocês bisbilhotam. E não quero saber disto. Estou me sentindo muito fraca. A Srta. Deirdre está em casa?

— Ela levou o cachorro para passear.

— Que estupidez. Ela devia saber que eu podia precisar dela. Traga-me um ovo batido no leite e ponha um pouquinho de conhaque. O conhaque está no armário da sala de jantar.

— Só tem três ovos para o café de amanha.

— Então alguém vai ficar sem ovo. Depressa, sim? Não fique aí parada me olhando. E você está usando muita pintura. Não é correto.

Houve um latido na entrada e Deirdre e seu Sealyham entraram quando Maude saiu.

— Eu escutei sua voz — disse Deirdre quase sem fôlego. — O que é que a senhora estava dizendo a ela?

— Nada.

— Ela parecia furiosa.

— Eu a botei no seu lugar. Garota impertinente. ^

— Oh, mamãezinha querida, por que tez isto? E tão difícil arranjar alguém. E ela cozinha tão bem.

— Suponho que não tenha importância que ela seja insolente comigo! Oh, bem sei que não ficarei com vocês muito tempo — a Sra. Wetherby levantou os olhos e tomou fôlego com palpitações. — Eu andei demais — murmurou ela.

— Não devia ter saído, querida. Por que não me disse aonde ia?

— Pensei que um pouco de ar me fizesse bem. Está tão abafado. Não tem importância. Ninguém tem vontade de viver — quando sabe que é um trambolho para os outros.

— Você não é nada disto, querida. Eu morreria sem você.

— Você é uma boa menina — mas posso ver o quanto a canso e quanto a aborreço.

— De jeito nenhum... de jeito nenhum... — disse Deirdre apaixonadamente.

A Sra. Wetherby fechou os olhos e suspirou.

— Eu... eu não posso falar muito — murmurou ela. — Preciso ficar deitada em repouso.

— Vou apressar Maude com a gemada.

Deirdre saiu correndo da sala. Na pressa, ela bateu com o cotovelo numa mesa e um deus de bronze caiu no chão.

— Tão sem jeito — murmurou a Sra. Wetherby consigo mesma, se encolhendo.

A porta abriu-se e o Sr. Wetherby entrou. Ele ficou parado por um momento. A Sra. Wetherby abriu os olhos.

— Oh, é você Roger.

— Eu só queria saber por que havia tanto barulho aqui. E impossível se ler tranqüilamente nesta casa.

— Foi Deirdre apenas, querido. Ela chegou com o cachorro. O Sr. Wetherby se abaixou e apanhou a monstruosidade de bronze que estava no chão.

— Parece que Deirdre já tem idade suficiente para não andar derrubando as coisas o tempo todo.

— Ela é apenas um pouco desastrada.

— Bem, é ridículo ser desastrado na idade dela. E será que não pode impedir este cachorro de latir?

— Eu falarei com ela, Roger.

— Se ela quer morar aqui. precisa respeitar nossas vontades e não se comportar como se a casa tosse dela.

— Talvez você preferisse que ela fosse embora — murmurou a Sra. Wetherby. Com os olhos semicerrados ela observou o marido.

— Não, é claro que não. É claro que não. Naturalmente que a casa dela é aqui. Só estou pedindo um pouco mais de bom senso e boas maneiras. — Ele acrescentou: — Você saiu. Edith?

— Sim. Fui até os correios.

— Há novas notícias a respeito da Sra. Upward?

— A Polícia ainda mio sabe quem foi.

— Parece que eles estão desesperançados. Algum motivo'? Quem fica com o dinheiro?

— O filho, eu penso.

— Sim... sim, então parece mesmo que tenha sido um destes andarilhos. Você deve falar com esta moça para tomar muito cuidado em manter a porta da frente trancada. E só abri-la com a corrente depois que começar a escurecer. Esses homens são muito afoitos e brutais hoje em dia.

— Parece que mo roubaram nada da Sra. Upward.

— Estranho.

— Não foi como a Sra. McGinty — disse a Sra. Wetherby.

— A Sra. McGinty? Oh! a faxineira. O que é que a Sra. McGinty tem a ver com a Sra. Upward'?

— Ela trabalhava para ela, Roger.

— Não seja tola. Edith.

A Sra. Wetherby fechou os olhos outra vez. Quando o Sr. Wetherby saiu da sala, ela sorriu consigo mesma.

Abriu os olhos espantada por ver Maude de pé, segurando um copo.

— Sua gemada, senhora — disse Maude.

Sua voz era alta e clara. Ecoava com ressonância pela casa adormecida.

A Sra. Wetherby olhou para ela com um vago sentimento de temor.

Como era grande e altiva aquela moça. Ela estava parada ao lado da Sra. Wetherby como — "como uma figura do juízo final" — pensou a Sra. Wetherby e depois ficou imaginando por que estas palavras estranhas tinham vindo parar em sua cabeça.

Ela se ergueu sobre um cotovelo e pegou o copo.

— Muito obrigada, Maude — disse ela. Maude virou-se e saiu da sala.

A Sra. Wetherby ainda estava se sentindo vagamente transtornada.

 

Hercule poirot alugou um carro para voltar para Broadhinny.

Ele estava cansado de tanto pensar. Pensar sempre fora muito exaustivo. E seus pensamentos não tinham sido muito satisfatórios. Era como se ele tivesse algo nas mãos, algo perfeitamente visível, mas enrolado em outra coisa, e ainda assim, se bem que ele tivesse aquilo entre as mãos, ainda não podia ver de que era feito.

Mas estava tudo ali. Era este o ponto. Tudo estava ali. Apenas era uma dessas coisas de cor única e sutil, que não se percebia facilmente.

Um pouco além de Kilchester, seu carro cruzou com a camioneta dos Summerhayes, que vinha na direção oposta. Johnnie estava dirigindo e tinha um passageiro ao lado. Poirot quase nem percebeu. Ele estava absorto em seus pensamentos.

Quando voltou a Long Meadows, foi para a sala de estar. Tirou uma cesta cheia de espinafre da cadeira mais confortável da sala e sentou-se. Lá de cima vinha o barulho suave de uma máquina de escrever. Era Robin Upward, lutando com uma peça. Ele já rasgara três versões, como dissera a Poirot. Não sabia por que, mas não podia se concentrar.

Robin podia estar sinceramente sentido com a morte de sua mãe, mas ele continuava sendo Robin Upward, principalmente interessado em si mesmo.

— Madre — dissera ele solenemente —, teria querido que eu continuasse o meu trabalho.

Poirot já ouvira muitas pessoas dizerem a mesma coisa. Era uma das pretensões mais convenientes, este falso conhecimento daquilo de que o morto gostaria. O órfão (ou o viúvo) nunca tem dúvida alguma a respeito dos desejos de seus entes queridos e estes desejos geralmente se enquadram dentro de suas próprias tendências.

Neste caso provavelmente era verdade. A Sra. Upward tinha muita fé no trabalho de Robin e era extremamente orgulhosa dele. Poirot recostou-se para trás e fechou os olhos. Pensou na Sra. Upward. Pôs-se a considerar como seria ela na realidade. Lembrou-se de uma frase que uma vez ele ouvira de um oficial de polícia.

— Vamos desmontá-lo para ver o que é que o faz funcionar. O que será que fazia a Sra. Upward funcionar?

Houve um estrondo e Maureen Summerhayes entrou. Seus cabelos esvoaçavam loucamente.

— Eu não sei o que houve com Johnnie — disse ela. — Ele foi até o correio com as encomendas especiais. Já devia ter voltado há horas atrás. Eu queria que ele consertasse a porta do galinheiro.

Um cavalheiro de verdade, calculou Poirot, teria galantemente se oferecido para consertar a porta do galinheiro. Poirot não se ofereceu. Ele queria continuar pensando sobre os dois crimes e sobre o caráter da Sra. Upward.

— E eu não consigo achar o formulário do Ministério da Agricultura — continuou Maureen. — Já olhei por todo lado.

— O espinafre está no sofá — disse Poirot para ajudá-la. Mas Maureen não estava preocupada com o espinafre.

— O formulário veio na semana passada — refletiu ela. — E devo tê-lo posto em algum lugar. Talvez quando eu estava cerzindo aquele pulôver de Johnnie.

Ela foi até a escrivaninha e começou a abrir as gavetas. A maior parte das coisas, ela atirou de qualquer jeito no chão. Para Hercule Poirot era uma agonia observá-la.

De repente ela deu um grito de triunfo:

— Achei!

Encantada, saiu correndo da sala.

Hercule Poirot suspirou e continuou a meditar.

Arrumar tudo, com ordem e precisão...

Ele franziu a testa. O monte desordenado de objetos no chão perto da escrivaninha distraiu a sua atenção. Que maneira de procurar as coisas!

Ordem e método. Era isto. Ordem e método.

Apesar de ter-se virado na cadeira, ele podia ver ainda a confusão no chão. Coisas de costura, uma pilha de meias, cartas, lã para tricô, lacre, fotografias, um pulôver...

Era insuportável!

Poirot levantou-se, foi até a escrivaninha e com movimentos rápidos e hábeis começou a recolocar os objetos nas gavetas.

O pulôver, as meias, a lã. Depois na outra gaveta, o lacre, as fotografias, as cartas...

O telefone tocou.

O som agudo o fez estremecer.

Foi até ele e ergueu o receptor.

— Alô, alô, alô — disse ele.

A voz que respondeu era a do Superintendente Spence.

— Ah, é o senhor, Monsieur Poirot, justamente o homem que eu queria.

A voz de Spence estava irreconhecível. Um homem preocupado dera lugar a um homem seguro.

— E o senhor me enchendo a cabeça com a história da fotografia errada — disse com uma indulgência exprobratória. — Conseguimos novas pistas. A moça da agência dos correios de Broadhinny. O Major Summerhayes acabou de trazê-la até aqui. Ao que parece ela estava praticamente ao lado da casa naquela noite e viu uma mulher entrar. Mais ou menos entre oito e meia e nove horas. E não era Deirdre Henderson. Era uma mulher de cabelos louros. Isto nos deixa exatamente onde estávamos — Eve Carpenter e Shelagh Rendell. A única questão é — qual delas?

Poirot abriu a boca mas não falou nada. Cautelosamente, deliberadamente, ele recolocou o fone no gancho. Ficou ali parado, os olhos olhando sem ver. O telefone tocou outra vez.

— Alô, alô, alô!

— Posso falar com Monsieur Poirot, por favor?

— Hercule Poirot falando.

— Achei que era. Maude Williams. Nos correios daqui a quinze minutos?

— Estarei lá.

Recolocou o aparelho no gancho.

Olhou para os pés. Trocaria os sapatos? Seus pés estavam doendo um pouco. Ah, bem, não tinha importância...

Resolutamente, Poirot pegou seu chapéu e deixou a casa.

Em seu caminho colina abaixo, foi detido por um dos homens do Superintendente Spence, que vinha saindo de Laburnums.

— Bom dia, Sr. Poirot.

Poirot respondeu polidamente. Notou que o sargento Fletcher parecia excitado.

— O Super me mandou para cá para dar uma busca — explicou ele. — A gente nunca sabe, não é? Revistamos as mesas, é claro, mas o Super pensou que podia haver alguma gaveta secreta — ele deve andar lendo histórias de espionagem. Bem, não havia nenhuma gaveta secreta, mas depois eu fui dar uma busca nos livros. Às vezes, as pessoas escondem as cartas que estão lendo dentro dos livros, não é?

Poirot disse que era. — E você achou alguma coisa? — perguntou cortesmente.

— Nem carta, nem nada no gênero, não. Mas achei algo interessante — pelo menos eu acho que é interessante. Olhe aqui.

Ele desembrulhou um livro velho e decrépito de um jornal.

— Estava em uma dás estantes. Um livro velho, publicado há anos atrás. Mas olhe aqui — ele abriu e mostrou a primeira página. Estavam escritas a lápis as seguintes palavras: Evelyn Hope.

— Interessante, não é? É este o nome, se o senhor não se lembra...

— O nome que Eva Kane adotou quando deixou a Inglaterra. Eu me recordo — disse Poirot.

— Parece que quando a Sra. McGinty viu uma das fotos aqui em Broadhinny, foi na casa da Sra. Upward. Isto complica as coisas um bocado, não?

— Bastante — disse Poirot com sentimento. — Eu lhe garanto que quando você voltar para o Superintendente Spence com esta informação, ele vai arrancar os cabelos da cabeça — sim, indubitavelmente ele vai arrancar os cabelos da cabeça...

— Espero que não seja tão ruim assim — disse o sargento Fletcher.

Poirot não respondeu. Ele desceu a colina. Parará de pensar. Nada mais fazia sentido.

Foi até os correios. Maude Williams estava lá olhando alguns modelos de tricô. Poirot não falou com ela. Foi até o balcão de selos. Quando Maude terminou a sua compra, a Sra. Sweetiman atendeu-o e ele comprou alguns selos. Maude saiu da loja.

A Sra. Sweetiman parecia preocupada e não tagarelou. Poirot pôde sair logo atrás de Maude e alcançá-la. Aproximou-se dela rapidamente na estrada e pôs-se a caminhar a seu lado.

A Sra. Sweetiman, olhando pela janela da agência, exclamou sozinha em tom de censura: — Estes estrangeiros! São todos iguais, estes ordinários! Tem idade para ser avô dela, ora se tem!

 

— Eh, bien — disse Poirot —, tem algo a me dizer?

— Eu não sei se é importante. Havia alguém querendo entrar pela janela do quarto da Sra. Wetherby.

— Quando?

— Esta manhã. Ela saíra, e a moça levou o cachorro a passear. O peixe velho enlatado estava trancado em seu estúdio como sempre. Eu fiquei na cozinha normalmente — fica do outro lado do estúdio — mas então me pareceu que seria uma boa oportunidade... entendeu?

Poirot fez que sim.

— Então corri lá para cima e fui ao quarto de dormir de Madame Azedume. Havia uma escada contra a janela e um homem estava mexendo no trinco da janela. Ela mandou trancar tudo depois do crime. Nunca entra um pouquinho de ar fresco. Quando o homem me viu, desceu precipitadamente e fugiu. A escada era do jardineiro — ele estava cortando a hera e fora almoçar.

— Quem era o homem? Você pode descrevê-lo?

— Eu só o vi de relance. Quando cheguei até a janela, eleja descera a escada e correra, e quando o vi primeiro, estava contra o sol e eu não pude ver-lhe o rosto.

— Você tem certeza de que era um homem? Maude considerou a pergunta.

— Estava vestido como um homem — com um velho chapéu de feltro. Poderia ter sido uma mulher, é claro...

— Isto é interessante — disse Poirot. — Muito interessante... Nada mais?

— Ainda não. A porcariada que aquela velha guarda! Deve ser meio maluca! Ela chegou cedo hoje sem que eu percebesse e me acusou de estar bisbilhotando. Vou terminar assassinando aquela mulher! Se alguém já pediu para ser assassinado, aquela mulher é uma! Nunca vi ninguém tao desagradável. Poirot murmurou baixinho:

— Evelyn Hope...

— Que é isto? — ela se virou espantada para ele.

— Então você conhece este nome?

— Ora... sim... É o nome que aquela Eva não-sei-o-quê adotou quando foi para a Austrália. Estava... estava no jornal... no Sunday Companion.

— O Sunday Companion disse muitas coisas, mas não talou sobre isto. A Polícia encontrou o nome escrito num livro na casa da Sra. Upward.

Maude exclamou:

— Então era ela... e ela não morreu lá... Michael tinha razão...

— Michael?

Maude disse bruscamente:

— Não posso demorar mais. Vou me atrasar para servir o jantar. Deixei tudo no forno, mas vai queimar.

Ela saiu correndo. Poirot ficou olhando para ela.

Pela janela dos correios, a Sra. Sweetiman, o nariz colado na vidraça, imaginou que o velho estrangeiro tivesse feito "Certas Propostas Indecorosas"...

 

De volta a Long Meadows, Poirot tirou os sapatos e pôs um par de chinelos caseiros. Estes não eram muito elegantes, não eram em sua opinião — comme il faut — mas seus pés precisavam de alívio.

Sentou-se na poltrona novamente e recomeçou, uma vez mais, a pensar. Ele agora tinha um monte de coisas para pensar.

Havia coisas que ele não estava entendendo... coisinhas pequenas...

Todas as peças do quebra-cabeças estavam ali. Faltava apenas a sua coesão.

Maureen, com voz sonhadora, um copo na mão — fazendo uma pergunta... O relatório da Sra. Oliver sobre a noite no Teatro do Pequeno Repertório. Cecil? Michael? Ele tinha quase certeza que ela mencionara um Michael... Eva Kane, governanta das crianças dos Craigs... Evelyn Hope...

É lógico! Evelyn Hope!

 

Eve carpenter entrou na casa dos Summerhayes da maneira usual que todos faziam: usando a primeira porta ou janela que fosse conveniente.

Ela estava à procura de Hercule Poirot e quando o encontrou foi direto ao assunto.

— Olhe aqui — disse ela. — O senhor é um detetive e pelo que dizem, um bom detetive. Muito bem, eu quero contratá-lo.

— Suponhamos que eu não esteja para alugar? Mon Dieu! Eu não sou um táxi!

— O senhor é um detetive particular e detetives particulares são pagos, não são?

— É este o costume.

— Bem, é isto que eu estou dizendo. Eu lhe pagarei. Eu lhe pagarei muito bem.

— Para quê? Que quer que eu faça? Eve Carpenter disse rapidamente:

— Proteger-me contra a Polícia. Eles estão doidos. Pensam que matei a Sra. Upward. E estão bisbilhotando por todos os lados, me fazendo milhões de perguntas — esquadrinhando tudo. Eu não gosto disso. Estão me deixando louca!

Poirot olhou para ela. Havia algo de verdadeiro no que ela estava dizendo. Ela parecia agora muito mais velha do que quando ele a vira pela primeira vez, há algumas semanas atrás. As olheiras pretas falavam das noites sem dormir. Havia rugas da boca para o queixo e sua mão, quando ela acendeu um cigarro, tremia muito.

— O senhor tem de pôr um fim nisto — disse ela. — O senhor tem de parar com isto.

— Madame, o que é que eu posso fazer?

— Afastá-los de uma maneira ou de outra. Maldito atrevimento! Sc Guy fosse homem ele faria parar com isto! Não deixaria que cles me perseguissem.

— E... ele não faz nada? Ela disse mal-humorada:

— Eu não contei a ele. Ele fala apenas com muita pompa em dar ã Polícia toda a assistência possível. É muito bom para ele. Ele estava num daqueles medonhos comícios políticos naquela noite.

— E a senhora?

— Eu estava apenas em casa. Ouvindo rádio, para falar a verdade.

— Mas se a senhora puder provar isto...

— Como é que posso provar? Eu ofereci uma quantia fabulosa aos Crofts se eles dissessem que tinham me visto — uma ou duas vezes — mas aquele maldito canalha recusou.

— Foi um movimento muito imprudente de sua parte.

— Eu não vejo por quê. Teria arranjado as coisas.

— A senhora provavelmente teria convencido os seus empregados de que cometera efetivamente o crime.

— Bem... de qualquer jeito eu paguei Croft para...

— Para quê?

— Nada.

— Lembre-se — que pediu a minha ajuda.

— Oh, não tem nada a ver com isto. Mas Croft recebeu o recado dela.

— Da Sr a. Upward?

— Sim. Pedindo que eu fosse vê-la naquela noite.

— E a senhora disse que não iria?

— Por que eu haveria de ir? Aquela maldita velha chata. Por que haveria de ir e segurar-lhe a mão? Eu nem sonhei em ir lá.

— Quando chegou o recado?

— Quando eu estava na rua. Não sei exatamente quando... entre as cinco e meia e as seis, creio. Croft tomou nota.

— E a senhora lhe deu dinheiro para esquecer que recebera o recado. Por quê?

— Não seja idiota! Eu não queria me comprometer!

— E então a senhora lhe ofereceu dinheiro para que ele lhe fornecesse um álibi? O que acha que ele e a mulher pensam da senhora?

— Quem se importa com o que eles pensam?

— O júri talvez se importe — disse Poirot gravemente. Ela olhou para ele.

— O senhor está falando sério?

— Eu estou falando sério.

— Eles iriam ouvir os empregados — e não a mim? Poirot olhou para ela.

Que ignorância e que estupidez crassas! Antagonizando-se com as pessoas que lhe podiam ser úteis. Que método mais imbecil e insensato! Que imprevidência...

Com uns olhos azuis tão abertos e encantadores...

Disse muito devagar:

— Por que não usa óculos, Madame? A senhora precisa deles

— O quê? Oh, eu uso ás vezes. Usei quando era criança.

— E a senhora tinha nesta época um aparelho nos dentes. Ela o encarou.

— Usei sim, para falar com franqueza. Mas por que tudo isto?

— O patinho feio transformou-se num cisne?

— Eu era mesmo muito feia.

— A sua mãe também achava? Ela disse secamente:

— Eu não me lembro de minha mãe. Por que diabos o senhor está-me fazendo estas perguntas? Vai aceitar o trabalho?

— Infelizmente não posso.

— Por que não pode?

—Porque neste caso eu estou defendendo James Bentley.

— James Bentley? Oh, o senhor quer dizer aquele pobre-diabo que matou a faxineira? O que é que ele tem a ver com a Sra. Upward?

— Talvez... nada.

— Muito bem, então? É uma questão de dinheiro? Quanto quer?

— Este é o seu grande erro, Madame. Está sempre pensando em termos de dinheiro. A senhora tem dinheiro e pensa que somente o dinheiro é que conta.

— Eu nem sempre tive dinheiro — disse Eve Carpenter.

— Não — disse Poirot. — Eu calculei que não... — ele abanou a cabeça gentilmente — Isto explica muita coisa. E perdoa , algumas...

 

Eve Carpenter saiu da mesma maneira que entrara, esbarrando nas coisas e meio cega com a luz, como Poirot já notara antes. Poirot falou baixinho para si mesmo:

— Evelyn Hope...

Então a Sra. Upward telefonara para Deirdre Henderson e para Eve Carpenter. Talvez ela houvesse telefonado para mais alguém. Talvez...

Com um estrondo, Maureen entrou.

— São minhas tesouras agora. Desculpe se o almoço está atrasado. Eu tenho três pares e não consigo achar nenhum.

Ela foi às pressas até a escrivaninha e o processo que Poirot já conhecia tão bem recomeçou. Desta vez, o objetivo foi alcançado relativamente depressa. Com um grito de alegria, Maureen saiu.

Quase automaticamente, Poirot levantou-se e começou a recolocar as coisas no lugar. Lacre, papel de notas, uma cesta de trabalhos, fotografias...

Fotografias...

Ele ficou parado em pé olhando para a fotografia que tinha entre as mãos.

Passos apressados soaram no corredor.

Poirot podia-se movimentar com muita rapidez a despeito de sua idade. Ele jogou a fotografia no sofá, pôs uma almofada por cima e sentou-se sobre a almofada, quando Maureen entrou outra vez na sala.

— Em que diabos eu deixei uma cesta cheia de espinafre...

— Mas, está aqui, Madame.

Ele mostrou a cesta a seu lado no sofá.

— Então foi aqui que eu a deixei — ela a agarrou. — Parece que hoje tudo está fora de mão... — Seu olhar caiu sobre Hercule Poirot sentado muito espigado no sofá.

— Por que raios o senhor está sentado aí? Mesmo sobre uma almofada, é a cadeira mais inconfortável dessa sala. Todas as molas estão quebradas.

— Eu sei, Madame. Mas eu estou... eu estou admirando aquele quadro na parede.

Maureen desviou o olhar para um quadro a óleo de um oficial de Marinha segurando um telescópio.

— Sim... é muito bom. Acho que é a única coisa boa nesta casa. Nós não temos certeza se é um Gainsborough — ela suspirou. — Johnnie não o venderia nunca. E o seu tatatá e acho que muitos mais tatás, tataravôs dele e ele afundaram ou fizeram algo muito galante. Johnnie é tremendamente orgulhoso dele.

— Sim — disse Poirot com gentileza. — Sim, seu marido tem algo para se orgulhar.

 

Eram três horas da tarde quando Poirot chegou na casa do Dr. Rendell.

Ele comera coelho ensopado com espinafres e batatas duras, e um pudim muito esquisito, que desta vez não pegara. Desta vez; "Entrou água dentro", explicou Maureen. Ele bebera meia xícara de um café pegajoso. Não estava se sentindo bem.

A porta foi aberta por uma governanta idosa, a Sra. Scott, e ele perguntou pela Sra. Rendell.

Ela estava na sala de estar ouvindo rádio e espantou-se quando ele foi anunciado.

Teve dela a mesma impressão de quando a vira pela primeira vez. Desconfiada, em guarda, com medo dele, ou com medo do que ele representava.

Ela ainda parecia mais pálida e sombria do que era. Ele tinha quase certeza de que ela emagrecera.

— Quero lhe fazer uma pergunta, Madame.

— Uma pergunta? Oh? Oh, sim?

— A Sra. Upward telefonou-lhe no dia de sua morte? Ela olhou para ele e fez que sim com a cabeça.

— A que horas?

— A Sra. Scott recebeu o recado. Eram umas seis horas, eu acho.

— Qual era o recado? Ela pedia que fosse lá naquela noite?

— Sim. Ela disse que a Sra. Oliver e Robin iam para Kilchester e que ela ficaria sozinha porque era a noite de folga de Janet. Se eu poderia ir fazer-lhe companhia.

— Foi sugerida uma certa hora?

— Nove horas ou um pouco depois.

— E a senhora foi?

— Eu queria ir. Queria mesmo ir. Mas não sei como foi que peguei no sono depois do jantar naquela noite. Já passava das dez quando acordei. Achei que já era muito tarde.

— A senhora não falou com a Polícia sobre o telefonema da Sra. Upward?

Seus olhos se arregalaram. Parecia um olhar inocente de criança.

— Será que eu precisava falar? Uma vez que eu não fui, pensei que não tivesse importância. Talvez mesmo por estar me sentindo culpada. Se eu tivesse ido, talvez ela estivesse viva agora — ela respirou fundo de repente. — Oh, eu queria que não tivesse sido assim.

— Não foi assim — disse Poirot. Ele fez uma pausa e disse então:

— Do que é que está com medo, Madame! Ela respirou fundo outra vez.

— Medo? Eu não estou com medo.

— Está sim.

— Que tolice! Do que... do que estaria com medo? Poirot fez uma pausa antes de falar.

— Pensei que talvez a senhora estivesse com medo de mim... Ela não respondeu. Mas seus olhos se abriram ainda mais.

Lenta, arrogantemente, ela balançou a cabeça.

 

O caminho certo para o hospício! — disse Spence. - Não está tão ruim assim — disse Poirot apaziguadora-mente.

— Isto é o que o senhor diz. Cada informação que chega torna as coisas mais difíceis. Agora o senhor vem me dizer que a Sra. Upward telefonou para três mulheres. Pedindo às três que viessem vê-la naquela noite. Por que três? Será que ela não sabia qual das três era Lily Gamboll? Ou será que Lily Gamboll não tem nada a ver com a história? Veja o livro com o nome de Evelyn Hope escrito. Sugere ou não que a Sra. Upward e Eva Kane sejam a mesma pessoa?

— O que está inteiramente de acordo com a impressão de James Bentley do que lhe contara a Sra. McGinty.

— Pensei que ele não tivesse certeza.

— Ele não tinha certeza. Seria impossível para James Bentley ter certeza de alguma coisa. Ele não escutou direito o que a Sra. McGinty estava falando a respeito da Sra. Upward. Pode ser a verdade. Impressões geralmente se confirmam.

— Nossa última informação da Austrália (foi para a Austrália que ela foi, por falar nisto, e não para a América) parece chegar à conclusão de que a "Sra. Hope" em questão morreu lá há uns vinte anos...

— Já me disseram isto — disse Poirot.

— O senhor sabe de tudo sempre, não é, Monsieur Poirot?

Poirot não ligou para esta indireta. Disse:

— De um lado nós temos a "Sra. Hope” morta na Austrália — e pelo outro?

— Pelo outro nós temos a Sra. Upward, viúva de um rico industrial do Norte do país. Ela morava perto de Leeds e tinha um filho. Logo depois do nascimento do filho, o marido morreu. O menino era dado à tuberculose e desde a morte do marido ela tem vivido no exterior.

— E quando é que começa a saga?

— A saga começa quatro anos depois de Eva Kane ter deixado a Inglaterra. Upward conheceu sua esposa no exterior e trouxe -a para casa depois do casamento.

— Então na realidade a Sra. Upward poderia ser Eva Kane. Qual era o seu nome de solteira?

— Hargraves, eu creio. Mas o que é um nome?

— Não é nada mesmo. Eva Kane, ou Evelyn Hope, pode ter morrido na Austrália — mas pode ter arranjado um óbito conveniente e ressuscitado como Hargraves e feito um casamento rico.

— Tudo foi há tanto tempo — disse Spence. — Mas suponhamos que seja verdade. Suponhamos que ela guardasse uma fotografia sua e que a Sra. McGinty a viu — só se pode pensar que foi ela quem matou a Sra. McGinty.

— Poderia ser, não poderia? Robin Upward estava fazendo um programa de rádio. A Sra. Rendell disse que foi lá naquela noite, lembre-se, mas não conseguiu que a ouvissem chegar. De acordo com a Sra. Sweetiman, Janet Groom disse que a Sra. Upward não era assim tão aleijada quanto se fazia crer.

— Tudo isto vai muito bem, Monsieur Poirot, mas permanece o fato de que ela também foi morta — depois de reconhecer a fotografia. Agora o senhor quer-me convencer de que as duas mortes não têm nada a ver uma com a outra.

— Não, não. Eu não disse isto. Elas estão relacionadas uma com a outra.

— Eu desisto.

— Evelyn Hope. Eis a chave do problema.

— Evc Carpenter? É o seu palpite? Não Lily Gamboll — mas a filha de Eva Kane! Mas é claro que ela não iria matar a própria mãe!

— Não, não. Isto não foi um matricídio.

— Que sujeito irritante é o senhor, Monsieur Poirot! Vai dizer agora que Eva Kane e Lily Gamboll e Janice Courtland e Vera Blake estão todas morando em Broadhinny. Todas quatro são suspeitas.

— Nós temos mais de quatro. Eva Kane era a governanta das crianças dos Craigs, lembre-se.

— O que tem isto a ver com a história?

— Onde há uma governanta de crianças, deve haver crianças — pelo menos uma criança... O que aconteceu aos filhos dos Craigs?

— Havia uma menina e um menino, eu acho. Alguns parentes levaram-nos.

— Então nós temos mais de duas pessoas a levar em consideração. Duas pessoas que poderiam ter guardado uma fotografia pelo terceiro motivo que eu mencionei — vingança.

— Eu não acredito — disse Spence. Poirot suspirou.

— É preciso levar em conta, do mesmo jeito. Penso que já sei da verdade — se bem que ainda há um fato que me intriga totalmente.

— Alegro-me muito em saber que pelo menos uma coisa o intriga — disse Spence.

— Diga-me uma coisa, mon cher Spence. Eva Kane deixou este país antes da execução de Craig, não foi?

— Exatamente.

— E, nesta época, ela estava esperando uma criança?

— Exatamente.

— Bon Dieu, como fui estúpido! — disse Poirot. — É tudo tão simples, não acha?

Foi depois desta observação que quase houve um terceiro crime — “O Assassinato de Hercule Poirot pelo Superintendente Spence na Delegacia de Polícia de Kilchester".

 

— Eu quero — disse Hercule Poirot — fazer uma chamada pessoal. Para a Sra. Ariadne Oliver.

Uma chamada pessoal para a Sra. Oliver não era coisa para se conseguir sem muitas dificuldades. A Sra. Oliver estava trabalhando e não podia ser interrompida. Poirot, entretanto, deixou de lado todas as recusas. Logo escutou a voz da autora.

Estava contrariada e quase sem fôlego.

— Muito bem, o que deseja? — disse a Sra. Oliver. — Você tinha de me telefonar logo agora? Eu tive a mais maravilhosa das idéias para um crime numa loja de roupas. Você sabe, este tipo antiquado de armarinho que vende combinações e camisolas de mangas compridas,

— Eu não sei — disse Poirot. — E de qualquer jeito, o que tenho de lhe dizer é muito mais importante.

— Não pode ser — disse a Sra. Oliver. — Pelo menos para mim. A não ser que eu faça um esboço ligeiro de minha idéia, ela vai embora!

Hercule Poirot não deu atenção a esta agônica criação. Fez uma série de perguntas rápidas e imperativas â Sra. Oliver, que as respondeu um tanto ou quanto vagamente.

— Sim... sim... é o Teatro do Pequeno Repertório — não sei o nome... Bem, um deles era Cecil qualquer coisa e o outro que estava falando comigo era Michael.

— Admirável. Era isto que eu queria saber.

— Mas por que Cecil e Michael?

— Volte às suas combinações e suas camisolas de mangas compridas, Madame.

— Eu não vejo por que ainda não prenderam o Dr. Rendell — disse a Sra. Oliver. — Eu já teria, se fosse o Chefe da Scotland Yard.

— Muito possivelmente. Eu lhe desejo boa sorte com o crime do armarinho.

— Toda a idéia foi-se embora agora — disse a Sra. Oliver. — Você a arruinou.

Poirot pediu desculpas lindamente. Desligou o aparelho e sorriu para Spence.

— Nós vamos agora — ou pelo menos eu vou — entrevistar um jovem ator cujo nome de batismo é Michael e que está desempenhando um papel de pouca importância no Teatro do Pequeno Repertório em Cullenquay. Peço a Deus que seja o Michael que eu espero que seja.

— Por que diabos...

Poirot habilmente evitou a crescente ira do Superintendente Spence.

— Você sabe, cher ami, o que é um secret de Polichinelle?

Isto agora é lição de francês? — perguntou com raiva o Superintendente.

— Um secret de Polichinelle é um segredo que todo mundo sabe. Por este motivo, as pessoas que não sabem não podem nunca ouvir falar — pois uma coisa que todo mundo sabe ninguém lhe vai contar.

— Eu não sei como é que não o esgano — disse o Superintendente Spence.

 

O inquérito terminara — o veredicto decidira que o crime fora cometido por Pessoa ou Pessoas Desconhecidas.

Depois do inquérito, a convite de Hercule Poirot, todos os que compareceram foram para Long Meadows.

Trabalhando diligentemente, Poirot conseguira dar uma aparência de ordem na comprida sala de estar. As cadeiras tinham sido dispostas em um semicírculo perfeito, os cachorros de Maureen tinham sido excluídos com alguma dificuldade, e Hercule Poirot, o orador escolhido (por ele mesmo), tomou seu lugar no fim da sala e iniciou a sessão com um muito consciencioso pigarrear.

— Messieurs et Maclames...

Ele tez uma pausa. Suas palavras seguintes foram inesperadas e pareceram quase ridículas:

 

     "A Sra. McGinty morreu. Como foi que ela morreu?

     Dobrando um joelho assim como eu!

     A Sra. McGinty morreu. Como foi que ela morreu?

     Espichando a mão assim como eu!

     A Sra. McGinty morreu. Como foi que ela morreu?

     Assim!..."

 

Observando suas expressões, ele continuou:

— Não, eu não estou louco. Apenas por ter repetido esta cantiga infantil de uma brincadeira de roda, não quer dizer que eu esteja em minha segunda infância. Alguns de vocês devem ter brincado disto quando eram crianças. A Sra. Upward brincou. Na verdade, ela a repetiu para mim — com uma diferença. Ela disse: “A Sra. McGinty morreu. Como foi que ela morreu? Esticando o pescoço assim como eu!" Foi isto que ela disse — e foi isto que ela fez. Ela esticou o pescoço — intrometeu-se onde não devia — e, ela também, como a Sra. McGinty, morreu...

— Nossos intentos nos fazem voltar ao início — à Sra. McGinty — sempre de joelhos esfregando o chão da casa dos outros. A Sra. McGinty foi assassinada, e um homem, James Bentley, foi preso, julgado e condenado. Por diversas razões, o Superintendente Spence, que era o oficial encarregado do caso, não ficou convencido da culpabilidade de Bentley, por mais fortes que fossem as evidências. Eu estava de acordo com ele. Vim para cá para responder a uma pergunta. "Como foi que a Sra. McGinty morreu? Por que foi que ela morreu?”

— Eu não vou contar para vocês uma história comprida e complicada. Direi apenas que uma coisa simples como um vidro de tinta forneceu-me a chave do mistério. No Sunday Companion lido pela Sra. McGinty no domingo anterior à sua morte tinham sido publicadas quatro fotografias. Agora, vocês já sabem tudo sobre essas quatro fotografias, por isso lhes direi apenas que a Sra. McGinty reconheceu uma dessas fotografias como sendo igual a uma outra que ela vira em uma das casas onde trabalhava.

— Falou sobre isto com James Bentley, se bem que no momento ele não tivesse dado importância ao fato, aliás nem mesmo mais tarde ele deu. Na realidade, ele nem ouviu direito. Mas ele ficou com a impressão de que a Sra. McGinty vira a fotografia na casa da Sra. Upward e que quando ela se referia à mulher que não "seria tão orgulhosa se todos soubessem, ela estava se referindo à Sra. Upward. Nós não podemos nos basear na declaração dele, mas ela usou mesmo aquela frase sobre orgulho e não há a menor dúvida de que a Sra. Upward era uma mulher orgulhosa e altiva.

— Como vocês todos sabem — alguns estavam presentes e os outros ouviram falar — mostrei essas quatro fotografias na casa da Sra. Upward. Eu percebi um leve ar de surpresa e reconhecimento na expressão da Sra. Upward e forcei-a a falar. Ela foi obrigada a admitir. Disse que "vira uma das fotografias em algum lugar mas que não podia se lembrar onde”. Quando eu lhe perguntei qual fora a fotografia, ela apontou para a da criança Lily Gamboll. Mas isto, deixem-me que eu lhes diga, não era a verdade. Por motivos que só ela sabia, a Sra. Upward quis guardar a identificação consigo mesma. Ela apontou para a foto errada para me despistar.

—— Mas uma pessoa não estava enganada — o assassino. Uma pessoa sabia qual das fotografias a Sra. Upward reconhecera. E aqui eu não vou usar de rodeios com vocês — a foto em questão era a de Eva Kane — uma mulher que foi cúmplice, vítima e provavelmente a instigadora do famoso Caso Craig.

— Na noite seguinte a Sra. Upward foi assassinada. Ela foi morta pela mesma razão que a Sra. McGinty. A Sra. McGinty espichou a mão, a Sra. Upward esticou o pescoço — o resultado foi o mesmo.

— Porém, antes de a Sra. Upward morrer, três mulheres receberam uma chamada telefônica. A Sra. Carpenter, a Sra. Rendell e a Srta. Henderson. Todas as três chamadas eram recados da Sra. Upward pedindo que a pessoa em questão fosse lá vê-la naquela noite. Era a noite de folga de sua empregada e seu filho e a Sra. Oliver iriam a Cullenquay. Por conseguinte, parece que ela queria ter uma conversa em particular com cada uma destas três mulheres.

— Vejamos então por que três mulheres? Será que a Sra. Upward sabia onde ela vira a fotografia de Eva Kane? Ou será que ela não se lembrava onde fora? Será que essas três mulheres tinham alguma coisa em comum? Nada ao que parece, a não ser a idade. Elas estão, mais ou menos, nas vizinhanças dos trinta anos.

— Vocês talvez tenham lido o artigo do Sunday Companion. Há um relato bastante sentimental sobre o futuro da filha de Eva Kane. As três mulheres que tinham sido convidadas para virem ver a Sra. Upward eram da mesma idade da filha de Eva Kane.

— Então ao que parece estava vivendo em Broadhinny uma jovem mulher que era a filha do famoso assassino Craig e de sua amante Eva Kane, e parece também que esta mulher iria. muito longe para impedir que este fato fosse conhecido. Iria mesmo até ao duplo assassinato. Foi quando a Sra. Upward foi encontrada morta, duas xícaras de café sobre a mesa, ambas servidas, e, na xícara da visita, um leve traço de batom.

— Agora vamos voltar às três mulheres que receberam as chamadas telefônicas. A Sra. Carpenter recebeu o recado mas disse que não iria a Laburnums naquela noite. A Sra. Rendell tencionava ir, mas pegou no sono numa cadeira. A Srta. Henderson foi a Laburnums mas a casa estava às escuras e, como não conseguiu que ninguém a ouvisse, voltou para casa outra vez.

— Esta é a história que essas três mulheres contam — mas não há nenhuma prova disto. Havia a segunda xícara de café com batom, e uma testemunha que estava do lado de fora, a moça Edna, afirma positivamente que ela viu uma mulher loura entrar na casa. Havia também a evidência de um perfume — uma essência cara e exótica, a qual apenas a Sra. Carpenter usa.

Houve uma interrupção. Eve Carpenter gritou:

— É mentira! É uma mentira cruel e malvada! Não fui eu! Eu não fui lá! Nunca cheguei nem perto daquela casa! Guy, por que você não faz alguma coisa para parar estas mentiras?

Guy Carpenter estava lívido de ódio.

— Deixe-me informá-lo, Sr. Poirot, que há uma lei contra a calúnia e todas estas pessoas presentes são testemunhas.

— É uma calúnia dizer que a sua esposa usa um certo perfume — e, igualmente, um certo batom?

— É ridículo! — gritou Eve. — Absolutamente ridículo! Qualquer um podia sair por aí espalhando o meu perfume.

Inesperadamente, Poirot sorriu para ela.

— Mais oui, exatamente! Qualquer um podia. Uma coisa óbvia, muito pouco engenhosa, eu diria. Grosseira e inábil! Tão grosseira que, no que me diz respeito, foi contraproducente. Mais ainda. Isto me deu idéias. Sim, isto me deu idéias...

— Perfume — e traços de batom numa xícara. Mas é tão simples tirar o batom de uma xícara... Eu lhes garanto que qualquer marquinha de batom sai com a maior facilidade. Ou as próprias xícaras poderiam ser retiradas ou lavadas. Por que não? Não havia ninguém em casa. Mas isto não foi feito. E eu me perguntei — por quê? E a resposta me pareceu uma deliberada acentuação de feminilidade, uma subordinação ao fato de que fora um crime de mulher. Refleti sobre as chamadas telefônicas para aquelas três mulheres — todas três tinham sido recados. Em nenhum dos casos as pessoas tinham falado com a Sra. Upward. Então, talvez não tenha sido a Sra. Upward quem telefonara. Era alguém ansioso em envolver uma mulher — qualquer mulher — no crime. Novamente eu perguntei — por quê? E só podia haver uma resposta — que não fora uma mulher quem matara a Sra. Upward — e sim um homem.

Ele olhou em torno a sua audiência. Todos estavam imóveis e calados. Apenas duas pessoas se manifestaram.

Eve Carpenter disse com um suspiro: — Agora o senhor está dizendo uma coisa sensata!

A Sra. Oliver, balançando a cabeça vigorosamente, disse: — E lógico!

— Foi assim que eu cheguei neste ponto — um homem matara a Sra. Upward e um homem matara a Sra. McGinty! Que homem? A razão para os crimes ainda era a mesma — tudo estava ligado a uma fotografia. Com quem estaria esta fotografia? É esta a primeira pergunta? E por que ela seria conservada?

— Bom, talvez isto não fosse assim tão difícil. Digamos que no início ela fosse guardada por motivos sentimentais. Uma vez que a Sra. McGinty foi... eliminada, a fotografia não precisava mais ser destruída. Mas, após o segundo crime, é diferente. Desta vez a fotografia será definitivamente associada ao criminoso. Esta fotografia agora é uma coisa perigosa de se guardar. Por conseguinte, creio que todos concordam comigo, ela deverá ser certamente destruída.

Ele olhou em torno, para todas as cabeças que concordaram com um movimento.

— Mas, apesar de tudo isto, a fotografia não foi destruída! Não, ela não foi destruída! Eu sei disto — porque a encontrei. Eu a encontrei há alguns dias. Eu a encontrei nesta casa. Na gaveta daquela escrivaninha que vocês estão vendo encostada à parede. Ei-la.

Ele mostrou uma foto desbotada de uma moça afetada com umas rosas.

— Sim — disse Poirot. — Esta é Eva Kane. E nas costas da fotografia estão escritas a lápis duas palavras. É necessário que eu diga quais são? Minha mãe...

Seus olhos, graves e acusadores, dirigiram-se a Maureen Summerhayes. Ela passou a mão pelos cabelos que estavam em seu rosto e olhou para ele com olhos muito abertos e perplexos.

— Eu não compreendo. Eu nunca...

— Não, Sra. Summerhayes, a senhora não compreende. Só pode haver duas razões para se guardar esta fotografia depois do segundo crime. A primeira seria um sentimentalismo inocente. A senhora não tinha nenhum sentimento de culpa e então guardaria a foto. Lembre-se de que nos disse um dia, em casa da Sra. Carpenter, que era uma criança adotada. Eu duvido que tenha sabido algum dia o verdadeiro nome de sua mãe. Mas outra pessoa sabia. Alguém que traz todo o orgulho da família — um orgulho que o faz apegar-se ao lar de seus ancestrais, um orgulho de seus antepassados e de sua linhagem. Este homem preferiria morrer a que o mundo inteiro — e seus filhos também — soubessem que Maureen Summerhayes é a filha do assassino Craig e de Eva Kane. Este homem, eu disse, preferiria morrer. Mas isto não adiantaria nada, não é? Então, em vez disto, digamos que nós temos um homem preparado para matar.

Johnnie Summerhayes levantou-se de sua cadeira. Sua voz, quando ele falou, era calma, quase amigável.

— Que bela quantidade de asneiras o senhor está dizendo, não acha? Divertindo-se em apresentar uma porção de teorias? Teorias, é o que elas são! O senhor está dizendo coisas sobre minha mulher...

Sua raiva surgiu rapidamente como um maremoto furioso.

— Seu maldito porco imundo...

A presteza de sua arremetida pela sala pegou a todos desprevenidos. Poirot esgueirou-se agilmente e o Superintendente Spence apareceu de repente entre Poirot e Summerhayes.

— Vamos, vamos, Major Summerhayes, tenha calma... tenha calma...

Summerhayes refez-se, deu de ombros, disse:

— Desculpe. Realmente é ridículo! É claro — qualquer um pode pôr uma fotografia numa gaveta.

— Precisamente — disse Poirot. — E o mais interessante a respeito desta fotografia é que ela não tinha impressões digitais.

Ele fez uma pausa e acrescentou, abanando a cabeça suavemente:

— Mas deveria ter — disse ele. — Se Maureen Summerhayes a conservasse, teria sido inocentemente, e então as suas impressões digitais deveriam estar ali.

Maureen exclamou:

— Eu acho que o senhor está louco. Nunca vi esta fotografia em minha vida — a não ser naquele dia em casa da Sra. Upward.

— É uma sorte para a senhora — disse Poirot — que eu saiba que está dizendo a verdade. A fotografia foi Colocada na gaveta apenas alguns minutos antes que eu a encontrasse. Duas vezes naquela manhã o conteúdo daquela gaveta fora jogado no chão, duas vezes eu o recoloquei no lugar; na primeira vez a fotografia não estava na gaveta, na segunda vez estava. Só podia ter sido colocada ali durante o intervalo — e eu sei por quem.

Uma nova entonação surgiu em sua voz. Ele já não era o homenzinho ridículo com um bigode absurdo e o cabelo pintado, ele era um caçador e estava muito perto de sua presa.

— Os crimes foram cometidos por um homem, e eles foram cometidos pela mais simples da razões — por dinheiro. Achamos um livro em casa da Sra. Upward e na primeira página deste livro estava escrito Evelyn Hope. Hope foi o nome que Eva Kane adotou quando deixou a Inglaterra. Se o seu nome verdadeiro era Evelyn, então, provavelmente, ela deu o nome de Evelyn à criança que nasceu. Mas Evelyn é um nome que serve tanto para um homem como para uma mulher. Por que foi que nós presumimos que a criança de Eva Kane era uma menina? Apenas porque o Sunday Companion dissera isto! Mas mesmo o Sunday Companion não afirmara isto categoricamente e sim aceitara tal fato devido à romântica entrevista com Eva Kane. Mas Eva Kane deixou a Inglaterra antes de a criança nascer — então ninguém podia saber qual seria o sexo da criança. Foi nisto que eu me deixei enganar. Por um erro romântico da imprensa.

— Evelyn Hope, o filho de Eva Kane, vem para a Inglaterra. Ele tem talento e atrai a atenção de uma mulher muito rica que desconhece a sua origem — sabe apenas a historinha romântica que ele inventa para ela. (Foi mesmo uma historinha muito bonita — imaginem uma pobre e infeliz bailarina morrendo de tuberculose em Paris!)

— Ela é uma mulher solitária que há muito pouco tempo perdeu seu único filho. O talentoso e jovem teatrólogo recebe o seu nome no tabelião.

— Mas o seu verdadeiro nome é Evelyn Hope, não é, Sr. Upward?

Robin Upward deu um grito estridente:

— É claro que não! Eu não sei do que o senhor está falando!

— O senhor não pode mais negar. Há pessoas que o conhecem sob aquele nome. O nome Evelyn Hope, escrito no livro, está com a sua letra — a mesma letra das palavras "minha mãe" nas costas da fotografia. A Sra. McGinty viu a foto e as palavras quando estava arrumando as suas coisas. Ela lhe falou sobre isto depois de ler o Sunday Companion. Mas a Sra. McGinty pensou que fosse uma fotografia da Sra. Upward quando moça, uma vez que ela não tinha idéia de que a Sra. Upward não era a sua verdadeira mãe. Mas o senhor sabia que uma vez que ela espalhasse o assunto, e que ele chegasse aos ouvidos da Sra. Upward, seria o seu fim. A Sra. Upward tinha pontos de vista um tanto ou quanto fanáticos sobre a hereditariedade. Ela não iria tolerar nem por um minuto que o seu filho adotivo fosse o filho de um criminoso célebre. Nem iria perdoar as suas mentiras a respeito...

— Desta forma, a Sra. McGinty precisava ser silenciada a qualquer preço. O senhor prometeu-lhe, talvez, um presentinho, pela sua discrição. Foi vê-la na noite seguinte, antes de ir para o seu programa de rádio — e matou-a! Assim...

Com um movimento repentino, Poirot apanhou o cortador de açúcar de cima da prateleira e vibrou-o no ar como se fosse dar um golpe sobre a cabeça de Robin.

O gesto foi tão ameaçador que várias das pessoas que estavam no círculo deram um grito.

Robin Upward deu um grito agudo. Um grito alto e aterrorizado.

Ele berrou: — Não... Não... Foi um acidente. Juro que foi um acidente. Eu não queria matá-la. Perdi a cabeça. Juro que perdi.

— Você lavou o sangue e trouxe o cortador de açúcar novamente para esta sala onde o apanhara antes. Mas existem novos métodos científicos para a descoberta de manchas de sangue — e para se descobrirem impressões digitais latentes.

— Estou-lhe dizendo que nunca tencionei matá-la... Foi tudo um engano... E de qualquer jeito, a culpa não é minha... Eu não sou responsável. É o meu sangue. Eu não posso fazer nada. Os senhores não podem me enforcar por uma culpa que não é minha...

Entre os dentes, Spence murmurou: — Não podemos? Veremos.

E alto ele falou numa voz grave e oficial: — Eu devo lhe prevenir, Sr. Upward, que qualquer coisa que disser será...

 

NÓS AINDA NÃO SABEMOS, Monsieur Poirot, como foi que desconfiou de Robin Upward.

Poirot olhou complacentemente para os rostos voltados para ele.

— Eu devia ter desconfiado dele há mais tempo. O que facilitou a solução do mistério, a simples chave do problema, foi a frase dita pela Sra. Summerhayes na festa do outro dia. Ela disse para Robin Upward: "Eu não gosto de ter sido adotada, e você?" Foram estas as duas palavras reveladoras. E você? Elas significavam — só podiam significar isto — que a Sra. Upward não era a mãe de Robin.

— A própria Sra. Upward estava morbidamente interessada em que ninguém soubesse que Robin não era mesmo seu filho. É provável que ela tivesse ouvido muitos comentários irreverentes sobre rapazes jovens e talentosos que vivem com e às custas de mulheres idosas. E muito poucas pessoas sabiam — apenas o pequeno grupinho teatral onde ela vira Robin pela primeira vez. Ela tinha pouquíssimos amigos íntimos neste país, por ter vivido tanto tempo no exterior, mas mesmo assim procurou uma residência bem longe de seu Yorkshire natal. Mesmo que encontrasse amigos dos velhos dias, ela não lhes contaria nada a respeito disto, deixando que pensassem que este Robin era o mesmo Robin que tinham conhecido como o seu menino.

— Porém desde o princípio algo me chamou a atenção em Laburnums. A atitude de Robin para com a Sra. Upward não era de um filho mimado, nem de um filho devotado. Era antes a atitude de um protegido em relação ao seu patrono. A extravagante denominação de Madre tinha um toque teatral. E a Sra. Upward, se bem que gostasse visivelmente de Robin, tratava-o apesar de tudo mais como uma possessão preciosa pela qual ela pagara caro.

— Então, eis-nos com Robin Upward, confortavelmente estabelecido, com os cordões da bolsa de "Madre” abertos para todas as suas aventuras, quando, na segurança de seu mundo, aparece a Sra. McGinty reconhecendo uma fotografia que ele guardava numa gaveta — a fotografia com o "minha mãe" escrito atrás. Sua mãe, como ele já dissera à Sra. Upward, era uma jovem e talentosa bailarina que morrera tuberculosa! É lógico que a Sra. McGinty pensou que a fotografia fosse da Sra. Upward quando moça, uma vez que ela não sabia que a Sra. Upward não era a verdadeira mãe de Robin. Eu não creio que a chantagem tivesse entrado nos planos da Sra. McGinty, mas ela esperava, talvez, "um presentinho" por calar a boca sobre este delicioso mexerico do passado, que não seria muito agradável para uma mulher "orgulhosa" como a Sra. Upward.

— Mas Robin Upward não queria correr riscos. Ele surrupia o cortador de açúcar, alegremente referido pela Sra. Summerhayes como a "perfeita arma para um crime", e na noite seguinte faz uma visita à Sra. McGinty em seu trajeto para a estação de rádio. Ela leva-o até a sala de estar, sem desconfiar de nada, e ele a mata. Ele sabia onde ela guardava as economias — parece que todos em Broadhinny sabiam — e simula um roubo, escondendo o dinheiro do lado de fora da casa. Bentley torna-se o suspeito e é preso. Agora tudo está perfeito para o esperto Robin Upward.

— Mas então, eis que eu mostro as quatro fotografias e a Sra. Upward reconhece uma delas, a de Eva Kane, igual ao retrato da bailarina, mãe de Robin! Ela precisa de um tempinho para pôr as idéias em ordem. Houvera um crime. Seria possível que Robin...? Não, ela se nega a acreditar.

— O que ela pretendia fazer nós não podemos saber. Mas Robin não queria correr nenhum risco. A visita ao Teatro do Repertório na noite de folga de Janet, as chamadas telefônicas, a xícara de café cuidadosamente manchada de batom — batom tirado da bolsa de Eve Carpenter —, ele chegou mesmo a comprar um frasco de perfume igual ao dela. O todo era um cenário de teatro preparado com todo o cuidado. Enquanto a Sra. Oliver esperava no carro, Robin voltou duas vezes à casa. O assassinato foi em questão de segundos. Depois foi apenas a distribuição do cenário. E, com a Sra. Upward morta, ele herdaria uma bela fortuna pelos termos de seu testamento, e nenhuma suspeita seria levantada contra ele, uma vez que o crime fora cometido por uma mulher. Como três mulheres tinham visitado a casa naquela noite, uma delas seria certamente a suspeita. E foi assim mesmo.

— Mas Robin, como todos os criminosos, foi descuidado e excessivamente confiante. Não somente havia em casa um livro com seu nome verdadeiro escrito na primeira página, como ele resolveu guardar — por razões que só ele sabe — a fotografia fatal. Teria sido muito mais seguro se a tivesse destruído, mas ele se apegou à convicção de que poderia usá-la para incriminar alguém no momento certo.

— Provavelmente ele pensou na Sra. Summerhayes. Talvez tenha sido por este motivo que ele se mudou para cá. Apesar de tudo, o cortador de açúcar era dela, e como a Sra. Summerhayes era uma criança adotada, acharia difícil provar que não era a filha de Eva Kane.

— Entretanto, como Deirdre Henderson confessou ou admitiu ter estado na cena do crime, ele concebeu a idéia de esconder o retrato entre os seus pertences. Tentou fazer isto, usando a escada que o jardineiro deixara encostada na janela. Mas a Sra. Wetherby andava muito nervosa e insistira que todas as janelas fossem trancadas, impedindo assim Robin de realizar o seu intento. Ele voltou direto para cá e pôs a fotografia numa gaveta, que, infelizmente para ele, eu arrumara há muito pouco tempo.

— Eu sabia assim que a fotografia fora posta ali numa cilada, e eu sabia por quem — pela única pessoa que estava na casa, a pessoa que diligentemente batia a máquina no andar de cima.

— Uma vez que o nome Evelyn Hope, escrito na página do livro, fora encontrado naquela casa, Evelyn Hope devia ser ou a Sra. Upward ou Robin Upward...

— O nome Evelyn me iludiu — eu o ligara à Sra. Carpenter, pois o nome dela é Eve. Mas Evelyn também pode ser um nome de homem.

— Eu me lembrei da conversa da Sra. Oliver sobre o Pequeno Repertório em Cullenquay. O jovem ator que estivera conversando com ela era a pessoa que eu precisava para confirmar a minha teoria — a teoria de que Robin não era filho da Sra. Upward. Pela maneira com que ele falara, parecia que estava a par de todos os fatos. E a história da inesperada punição ao rapaz que a enganara quanto à sua origem era sugestiva.

— A verdade é que eu devia ter percebido tudo há muito mais tempo. Estava prejudicado por um erro sério. Acreditava que alguém havia me empurrado deliberadamente com a intenção de me atirar nos trilhos do trem — e que a pessoa que fizera isto era o assassino da Sra. McGinty. Ora, Robin Upward era praticamente a única pessoa em Broadhinny que não podia estar na estação de Kilchester naquela hora.

Houve uma risada repentina de Johnnie Summerhayes.

— Provavelmente uma daquelas velhas que vai ao mercado com uma cesta. Elas empurram mesmo...

Poirot disse:

— Na verdade, Robin Upward era muito presunçoso para ter medo de mim. É uma característica dos criminosos. Felizmente, talvez. Porque neste caso quase não havia provas nem evidências.

A Sra. Oliver mexeu-se na cadeira.

— Então o senhor quer dizer — perguntou ela incrédula — que Robin matou a mãe enquanto eu estava lá fora no carro, e que eu não desconfiei de nada? Ele não teria tido tempo!

— Oh, sim, ele teria tempo. As idéias das pessoas em relação ao tempo são absurdamente erradas. Imagine como um palco muda de cenário tão depressa. Neste caso foi apenas uma questão de arrumação.

— Bom teatro — disse a Sra. Oliver mecanicamente.

— Sim, foi eminentemente um crime teatral. Muito bem planejado.

— E eu sentada ali no carro — sem ter a mínima idéia!

— Eu calculo — murmurou Poirot — que a sua intuição feminina estava de folga...

 

Eu não vou voltar para Breather & Scuttle — disse Maude Williams. — É uma firma muito vagabunda.

— E eles já desempenharam a sua missão.

— O que quer dizer com isso, Monsieur Poirot?

— Por que foi que você veio para cá?

— Suponho que o Sr. Sabe-Tudo já tem uma idéia, não?

— Acho que sim.

Poirot estava olhando pensativamente para os cabelos de Maude.

— Eu fui muito discreto — disse ele. — Ficou decidido que a mulher loura que foi até a casa da Sra. Upward e que Edna viu foi a Sra. Carpenter, e que ela negou apenas por temor. Uma vez que foi Robin Upward que matou a Sra. Upward, a sua presença ali não era mais significativa do que a da Srta. Henderson. Mas, apesar disto, não creio que ela tenha ido lá. Penso que a mulher que Edna viu foi você.

— Por que eu?

A voz dela era áspera.

Poirot respondeu com outra pergunta:

— Por que estava tão interessada em Broadhinny? Por que, quando esteve lá, pediu um autógrafo a Robin Upward — você não me parece do tipo que pede autógrafos. O que sabia a respeito dos Upwards? E em primeiro lugar, o que foi que veio fazer nesta parte do mundo? Como é que sabia que Eva Kane morrera na Austrália e qual o nome que ela adotara ao deixar a Inglaterra?

— O senhor é bom para adivinhar as coisas, não é? Bem, na verdade, eu não tenho nada a esconder.

Ela abriu a bolsa. De uma carteira usada tirou um recorte de jornal, todo amassado pelos anos. Mostrava o rosto que Poirot agora conhecia tão bem, o rosto afetado de Eva Kane.

Por cima dele estavam escritas as palavras: Ela matou minha mãe.

Poirot devolveu-lhe o recorte.

— Sim, eu imaginei isto. O seu verdadeiro nome é Craig, não é?

Maude fez que sim com a cabeça.

— Fui criada por uns primos — eles foram muito corretos. Mas eu já tinha idade suficiente quando aquilo aconteceu e não me esqueci. Costumava pensar muito sobre aquilo. Ela era uma mulher ordinária — as crianças percebem as coisas! Meu pai era apenas... um fraco. E dominado por ela. Mas foi ele quem levou a culpa. Oh, sim, eu sei que ele foi cúmplice depois do assassinato — mas não é a mesma coisa, é? Eu sempre quis saber que fim ela levara. Quando cresci, contratei detetives para investigarem. Eles seguiram sua pista até a Austrália e finalmente voltaram com um relatório dizendo que ela morrera. Ela deixara um filho — que se chamava Evelyn Hope.

— Bem, isto aparentemente liquidava o assunto. Mas foi então que comecei a namorar um rapazinho de teatro. Ele me falou de alguém chamado Evelyn Hope, que viera da Austrália, mas que agora se chamava Robin Upward e escrevia peças. Fiquei interessada. Uma noite me apontaram Robin Upward — e ele estava com a mãe. Então, pensei eu, apesar de tudo, Eva Kane não estava morta.

— Arranjei um emprego por aqui. Eu estava curiosa — estava mesmo mais do que curiosa. Muito bem, tenho de admitir que queria me vingar dela de qualquer jeito... Quando o senhor trouxe aquele assunto de James Bentley, eu pulei sobre a conclusão de que fora a Sra. Upward quem matara a Sra. McGinty. Eva Kane e seus truques outra vez. Eu soube por Michael West que Robin Upward e a Sra. Oliver iriam aquela noite ao espetáculo no Repertório em Cullenquay. Resolvi ir até lá e provocar a velha. Eu queria — nem sei o que queria... Estou-lhe dizendo isso tudo... levei uma pequena pistola que tinha comigo desde o tempo da guerra. Para assustá-la? Ou mais ainda? Honestamente, não sei...

— Bem, cheguei lá. Não havia nenhum rumor na casa. A porta estava destrancada. Entrei. O senhor sabe como foi que a achei. Sentada ali, morta, o rosto todo roxo e contorcido. Tudo o que estava pensando tornou-se fútil e melodramático. Vi que, na realidade, não teria nunca a coragem de matar alguém... quando o momento chegasse... Mas percebi que seria muito difícil para mim explicar o que estava fazendo naquela casa. Era uma noite fria e eu estava de luvas, e sabia que não podia ter deixado impressões digitais, e, nem por um instante, imaginei que alguém me tivesse visto. Foi tudo — ela fez uma pausa e acrescentou bruscamente:

—O que é que o senhor vai fazer agora?

— Nada — disse Hercule Poirot. — Eu lhe desejo apenas boa sorte em sua vida.

 

Hercule poirot e o Superintendente Spence estavam comemorando no restaurante da Vieille Grand’Mère.

Quando serviram o café, Spence recostou-se para trás em sua cadeira e deu um suspiro de satisfação.

— Até que a bóia aqui não é ruim — disse ele em aprovação. — Um pouquinho afrancesada, talvez, mas hoje em dia onde é que a gente pode comer um bife decente com batatas fritas?

— Eu tinha jantado aqui no dia em que você veio me ver — disse Poirot relembrando.

— Ah, muita água passou por baixo da ponte. Eu lhe dou a mão à palmatória, Monsieur Poirot. Seu ardil foi genial — um ligeiro sorriso abrandou o seu ar severo. — Foi uma sorte que aquele rapaz não calculasse que nós não tínhamos quase nenhuma prova. Ora, qualquer advogado esperto teria posto nossos planos por água abaixo! Mas ele perdeu completamente a cabeça e deu o serviço. Deu com a língua nos dentes e incriminou-se até o pescoço. Sorte nossa!

— Não foi apenas sorte — disse Poirot em reprovação. -Fiz com ele o que se faz com os peixes grandes, dei corda... Ele pensou que eu levara a sério as evidências contra a Sra. Summerhayes — quando não foi assim. Ele sofreu a reação e desintegrou-se. E além do mais, ele é um covarde. Levantei o cortador de açúcar e ele pensou que eu pretendia atingi-lo. O medo sempre se traduz pela verdade.

— Foi uma sorte o senhor não ter apanhado do Major Summerhayes — disse Spence com uma careta. — Ele tem um gênio... e é rápido. Eu fiquei entre vocês dois bem a tempo. Eleja lhe perdoou?

— Oh, sim, nos somos os maiores amigos. E eu dei à Sra. Summerhayes um livro de cozinha e lhe ensinei pessoalmente a fazer uma omelete. Bon Dieu, o que sofri naquela casa!

Ele fechou os olhos.

— Foi tudo muito complicado — ruminou Spence, sem interesse pelas agoniadas reminiscências de Poirot. — Vem mesmo mostrar que o velho ditado está certo e todos têm algo a esconder. A Sra. Carpenter esteve por um fio para ser acusada de assassinato. Se uma mulher alguma vez pareceu culpada, foi ela, e sabe por quê?

— Eh, bien, por quê? — perguntou Poirot com curiosidade.

— Apenas por um passado condenável. Ela era dançarina de cabaré — e tivera um bando de amiguinhos! Não era uma viúva de guerra quando veio morar em Broadhinny. Era apenas o que eles chamam hoje em dia de "uma mulher amigada". É claro que um emproado como Guy Carpenter não ia engolir esta história e ela lhe contou uma história muito diferente. E estava absolutamente atemorizada que nós começássemos a fuçar na vida alheia.

Ele tomou um gole do café e fez uma careta bem-humorada.

— Veja agora os Wetherbys. O tipo da casa sinistra. Ódio e malícia. Uma moça frustrada. E o que está por trás de tudo? Nada de sinistro. Só o dinheiro! Apenas dinheiro, dinheiro e dinheiro.

— Como assim?

— É a moça que tem dinheiro — um bocado de dinheiro. Herdado de uma tia. Então a mamãe a mantém presa de medo que ela se case. E o padrasto tem ódio dela porque é ela quem tem a gaita e paga as contas. Eu calculo que ele deve ter sido um fracasso em tudo que empreendeu. Um demônio mesquinho — e a Sra. Wetherby, ela é puro veneno dissolvido em açúcar.

— Concordo com você — Poirot balançou a cabeça como se estivesse satisfeito. — E ótimo que a moça tenha dinheiro. Faz com que o seu casamento com James Bentley fique mais fácil de ser arranjado.

O Superintendente Spence pareceu surpreso.

— Ela vai-se casar com James Bentley? Deirdre Henderson? Quem foi que disse?

— Eu disse — falou Poirot. — Eu próprio estou cuidando do assunto. Agora que nosso caso terminou, tenho tempo demais em minhas mãos. Vou-me esforçar em adiantar este casamento. Os dois em questão ainda não têm idéia de nada. Mas eles se sentem atraídos um pelo outro. Se os deixássemos à vontade não ia acontecer nada — mas eles vão ajustar contas com Hercule Poirot. Você vai ver! Tudo dará certo!

Spence riu.

— O senhor não se importa de se meter na vida dos outros, hein?

— Mon cher, acho que você não tem o direito de dizer isto — disse Poirot em tom de repreensão.

— Ah, o senhor me pegou! Mas mesmo assim, James Bentley é um pobre-coitado.

— É lógico que ele é um pobre-coitado! Atualmente ele está positivamente aflito porque não vai mais ser enforcado!

— Ele devia era cair de joelhos para lhe agradecer — disse Spence.

— Para você, isto sim. Mas aparentemente ele nem pensa nisto.

— Sujeito esquisito.

— E como você falou, pelo menos duas mulheres parece que se interessaram por ele. A Natureza é muito estranha.

— Pensei que fosse Maude Williams que o senhor tivesse escolhido para ele.

— É ele quem vai fazer a escolha — disse Poirot. — Ele vai — como é que vocês dizem? — receber o prêmio. Mas acho que é Deirdre Henderson que ele vai escolher. Maude Williams tem energia e vitalidade demais. Com ela, ele ainda vai-se enfiar mais na sua concha.

— Eu não sei o que elas viram nele!

— Os desígnios da Natureza são sempre misteriosos.

— De qualquer jeito, o senhor vai ter um trabalhão. Primeiro, para fazer ele criar coragem — e depois, arrancar a mocinha da mamãe venenosa — ela vai lutar com unhas e dentes!

— A vitória está ao lado das grandes causas.

— Ao lado dos grandes bigodes, acho que o senhor quer dizer.

Spence riu muito alto. Poirot acariciou seus bigodes e sugeriu um conhaque.

— Se o senhor tomar, eu também tomo, Monsieur Poirot. Poirot deu a ordem.

— Ah! — tez Spence. — Sabia que tinha esquecido alguma coisa para lhe contar. Lembra-se dos Rendell?

— Naturalmente.

— Bem, quando estávamos investigando sobre ele, algo muito estranho veio à luz. Parece que sua primeira esposa morreu em Leeds, onde ele clinicava na época e a polícia de lá recebeu várias cartas anônimas acusadoras. Dizendo que, na verdade, ele a havia envenenado. É claro que tem gente que diz essas coisas. Ela fora atendida por outro médico e ao que parece sua morte foi mesmo natural. Não havia nada contra ele, a não ser o fato de que eles haviam feito um seguro de vida um a favor do outro e muita gente faz isso... Não havia nada para nós, mas mesmo assim fiquei pensando... será? O que é que o senhor achai

Poirot lembrou-se do ar atemorizado da Sra. Rendell. Sua menção às cartas anônimas e sua insistência de que ela não acreditava no que elas diziam. Ele se lembrava, igualmente, de sua certeza de que o inquérito sobre a morte da Sra. McGinty era apenas um pretexto.

Ele falou: — Imagino que não foi apenas a Polícia que recebeu as cartas anônimas.

— Será que ela também recebeu?

— Creio que sim. Quando cheguei em Broadhinny, ela pensou que eu estava no rastro de seu marido e que o caso McGinty era um pretexto. Sim — ele também pensou isto... Mas isto explica tudo! Foi o Dr. Rendell que tentou me jogar debaixo do trem naquela noite!

— Será que ele estava pensando em acabar também com esta mulher?

— Acho que seria conveniente que ela não segurasse a sua vida em favor dele — disse Poirot secamente. — Mas se ele acreditar que nós estamos de olho nele, agirá certamente com prudência.

— Bem, verei o que posso fazer. Vamos ficar de olho em nosso doutor genial, e fazer bem claro que estamos fazendo isto.

Poirot ergueu o seu copo de conhaque.

— À Sra. Oliver — disse ele.

— Por que é que o senhor pensou nela assim de repente?

— Intuição feminina — disse Poirot.

Depois de um ligeiro silêncio, Spence falou devagar: — Robin Upward vai a julgamento na próxima semana. Sabe, Monsieur Poirot, ainda tenho as minhas dúvidas...

Poirot interrompeu-o horrorizado.

—Mon Dieu! Não me diga que você ainda tem dúvidas sobre a culpa de Robin Upward? Não me diga que vai querer começar tudo outra vez...

O Superintendente Spence fez uma careta tranqüilizadora.

— Deus seja louvado! Não! Ele é mesmo um assassino! — E acrescentou: — É suficientemente vaidoso para isto!

 

                                                                                Agatha Christie  

 

                      

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